Aquilino Ribeiro Volfrâmio

CIRCULO DE LEITORES Capa e Frontispício: ex-libris de Aquilino Ribeiro, desenho de Abel Manta Capa de: Antunes 1983, Livraria Bertrand, S.A.R.L., Lisboa Número de edição: 1531 Tiragem desta edição: 55 000 exemplares. Depósito legal número: 3100183

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PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO Logrou este livro certo favor do público, para lá do sufrágio a que me habituou o meu contingente de leitores fiéis, e não é difícil determinar porquê. Nele pressentiram uns a aventura empolgante à Jack London e bisbilhotaram outros uma crónica da actualidade, com retratos ao vivo de permeio e os inevitáveis episódios de rapacidade e fereza. Não se iludiram de todo, salvo que as carapuças de Mister Corbet ou Herr Hincker, para não falar dos lusitaníssimos Fráguas ou Calhorra, não acertam de modo algum nas cabeças deste ou daquele que se aureolaram na gambérria do volfrâmio. Não foi propósito nosso fazer dissecação pessoal, nem de resto o processo é compatível com a arte literária, quando exercida com largueza. Pintar almas é diferente de lançar a máscara de tal ou talfabiano à tela mercê da ciência das cores. O romancista vai de indivíduo em indivíduo, como a abelha quando jorrageia o pólen, e a um pede o físico, a outro a índole, a este uma anedota, àquele um pormenor característico, e assim amassa por aglutinação os seus figurantes, Feita a dosagem com inteligência e obtido um bom ajustamento, ninguém dirá que não foram copiados do natural e que não “falam” . E o orgulho do criador estará em dar a ilusão de que são cópias exactas do mundo de carne e osso. Já chamaram à nossa época, pelo muito que o fenómeno vincou o meio, época do volfrâmio. Quero crer que haja exagero de expoente. Entre nós, tal furunculose, com o dramático que comporta, deve antes representar uma das manifestações eruptivas da crise social que o mundo atravessa. Volfrâmio aqui, petróleo além, borracha acolá, há que integrá-los no substrato complexo e temeroso que engendrou a guerra. O volfrâmio foi para as populações do Norte, deserdadas de Deus, o que o mana foi para os Israelitas através do deserto faraónico. Imagine-se o que seriam os impulsos da horda esfaimada ante o alimento providencial, no afogo do de jejum. O irmão engalfinhar-se-ia com o irmão, o mais forte encheria duas vezes o saco, enquanto o mais débil choraria lágrimas de sangue, dado que não ficasse britado pelos pés dos digladiadores. Levaria melhor, se não o mais violento, o mais astucioso e o que tivesse olho rápido e pé leve. Os capitães, esses, acabariam advertidamente por maquiar a Zacarias e deixar correr protérvia e iniquidade. E não é ponto de fé que Moisés não comesse as mais gordas codornizes, que eram o prato do domingo, o arroz com vaca e chouriço do convento, e não atafulhasse a boca sequiosa às mãos fartas de tal mamadeira. Assim se passou mutatis mutandis com o oiro preto que imprevistamente brotou das terrinhas salaras do Norte, mais loja que húmus, mais serra que plaino, infelizes até a data. Não consta, com efeito, que as funções da vida animal tenham sofrido variante depois que o mundo é mundo. Volfrâmio e mana significam um ponto crítico na viragem do destino. Para que banda fica agora a Terra da Promissão? O século XIX e o primeiro quartel do século XX foram de desabalada e incessante sementeira. Semeou-se a torto e a direito, no alqueive e na fraga, no maninho e na própria terra atrolhada. Quem não té o grão germinar em dor e transe? As fibrilhas do centeio nascente com o seu ar de estiletes ensanguentados dizem-nos que é sempre assim. A dúvida mortificadora é que a seara seja

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antes de joio que de frumento Panificável. É temerário fazer prognósticos sobre o futuro. A meteorologia social desafia os olhos de lince dos oráculos, que espreitam por detrás dos mármores de Delfos escavacados à bomba de Liberator. Mas descansem as almas sedentas da amorfa neutralidade: estes temas febris perpassam no entrecho do livro e não constituem de modo algum o seu protoplasma. O protoplasma é a ambição humana, o evadir-se à miséria, à estreiteza natural, aos diabos negros da existência. Como terão azo de ver, o desempenho da fábula está a cargo de gente brava, sólida de rins e de músculos, em matéria de consciência pouco preocupados da vida eterna, difundidos por um friso fora como faria Steinlen ou Leal da Câmara. Todavia, sendo assim na forma, procurei que por debaixo desta armadura elementar pulsassem almas em suas secretas e supremas volições. Esta será a quota de humano, três vezes humano, como requeria o filósofo, com que pagam seu tributo à racionalidade. O público, de resto, interessa-se pouco por este particular. O que o interessa acima de tudo, já que a torrente vertiginosa da vida moderna não permite mais que uma visão instantânea e superficial, é o guinhol, os processos de combate, os leitos, o cinemático em suma. O romancista que se preza dá esse pábulo ao monstro e procura penetrar a fenomenologia das coisas. Convenho em que o ético esteja para lá das fronteiras do seu domínio. Escola de piedade e de ensinamentos morais busque-se na obra de Camilo e outros que rastejam de longe o colosso. Aí, sim, encontra-se mais lição que nas parábolas todas dos Evangelhos. Os princípios científicos em que se esteia a arte literária baniram da banca do escritor, mormente hoje que utiliza pena de aço ou typewriter, o patético, o epopaico, esse colorau doce da eloquência - à qual, já o exigia um poeta dos bons velhos tempos, il fallait tordre le cou - a deformação simpática à Júlio Dinis. A condição sine qua non é modelar em carne viva e na estufa fria. Em obediência a estes preceitos, claro está que as minhas personagens foram gizadas pelo padrão comum e seus orbes não excrescem do espaço das três dimensões. No entanto, ninguém tem mais horror a fórmulas do que eu. A fórmulas, cânones de escola e tiranias da moda. Fórmulas em arte equivalem a muletas e eu não só não uso bengala como entre dois caminhos escolho sempre o menos trilhado e aquele por onde menos andei. Em matéria de iteração, chegou-me o padre-nosso quando menino. Não ignoro que a galeria antropológica portuguesa é diminuta. Desse mal se queixava Camilo. O que vale, e valeu ao grande mestre, é que os homens, mesmo dentro duma família tão pequena como a nossa e em casa igualmente acanhada, parecem-se tanto uns com os outros como um mar com outro mar. Dois requisitos me movem quando escrevo: observância do real e originalidade. Esta, mais que a seiva dum verdadeiro temperamento de escritor, é o logos donde dimana espírito, graça; estilo próprio, simpatia humana, entendimento das coisas. O obséquio ao real não é mais do que um seu apaniguado. De olhos fitos tanto quanto posso nestas duas estrelas, presumo acautelar a modesta personalidade que me coube por dom do Espírito Santo, como queria uma minha tia velha, lida em Frei Heitor Pinto. Porque na nossa santa terrinha não há candeia que nos guie e encaminhe. Viceja para aí, salvo prodigiosas anomalias, uma crítica meio didáctica, meio apologética, geratriz de tocadores de marimba. Com o seu tom untuoso de

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então sim. Raspem com a unha o gentleman sentado à mesa verde de plenipotenciário e encontram a fera. não a água do rio. nascida sob este signo. o recamo que à floresta emprestam as estações e não as árvores da floresta. figura e mais categoremas do pensamento historiado que é o romance. O luminar que procriou tal asserto deixou de soprar ao canudinho. sucedâneo do: para aí não que é pecado. só quedando imunes ao contágio os mimosos do entendimento e da imaginação criadora.pregação. Que fazer? A esterilização contra tais bactérias é um problema bicudo. tempus. com a prosa a cheirar a burel e à orelheira dos famigerados cerdos de Lamego. e que é preciso. nada mais truculento e azabumbador que o balar da carneirada de Panúrgio. Como não sei fazer outra coisa que não seja novela. Apenas quando as balizas actuais do mundo moral caírem. abismado para sempre lamais nos mares nunca dantes navegados. Nascem as escolas. trajadas por aquelas ciências do homem e do belo. veio ou bolsada nodual do romance. e o que demudou é o aparente. à tona dos séculos. a moda. o guarda-fato de Madame de Genfis. foi. O humano. como a falta da outra. toda a tendência pessoalista. porquanto implica uma carência lastimável de higiene mental. gostava que me dissessem o que pode ser a minha prosa descarnada do documento humano. dum passado glorioso. amordace os sentidos. ouvem-se destes regougos. como se houvesse região nesta fita de terra e tudo não fosse a mesma parvalheira. já houve tempos em que para esta bicheza seráfica eu não passava dum escritor regionalista. Preciso sem ser precioso. Para as belas-letras. a sanitária. Volfrâmio veste como Andam Faunos pelos Bosques. pode cair no inferno. desde os Vedas. a face do rio. Mas produzir dentro delas não pode contender com os dotes originais do escritor.vai cortando as remiges aos francelhos que pretendem librar-se acima dos horizontes conhecidos. fora das quais seria mito puro o locus. faculdades que não abundam num povo que considera a Nau Catrineta como os Nibelungen e a saudade como bolhas de ar. o que se modificou não foi o mundo da especulação. que a constrange e obriga aos costumados Jarricocos. e a bola de água de sabão evolou-se no céu dos pardais. excluindo-me por contrapartida da grei dos romancistas. a Rua dos Clérigos no Porto e a Rua das Fangas em Braga. Outro rabo leva-me a pensaram ultimamente. De quando em vez. Permita-se-me a imagem. Repararam que os príncipes dos povos de hoje falam e lançam o guante como nos seus arraiais troianos os Aquiles e Agamémnon? Compreende-se: movem ao homem os mesmos egoísmos e instintos ancestrais. deixa a porta aberta a toda a sorte de malinas. a literatura despojar-se-á da túnica de Nesso. Bem sei que há coordenadas em literatura. Até lá confeccionemos 4 . Chiado e Freixo de Espada à Cinta. pelas savanas pobres da intelectualidade nacional. continua o mesmo desde Homero: mais longe. secando toda a originalidade. afrontosos do bom senso e até da alma cristã. o arranjo constitui o transitório. desidratada desde que lhe faltou a bua francesa. respirar fundo para se ser português de lei. se esperar que o tempo cure a Pulmoeira. Inofensivo no fundo. e é caso de perguntar a gente se se deve mandar lapada. O pior do pior é que sela possível toda esta Proliferação asiática da estupidez. esvaem-se as escolas. o Manel o do especulo. não se preocupe tanto com o formal . o de prosador. numa palavra conformando aquilo que tem por condão ser inconformável: o génio literário. Em literatura.

à maneira do novo-rico da primeira grande guerra. Monstruosidades. como apoucava Anatole France. dessas que de séculos a séculos avassalam os povos. e terão esta anedota romanceada. gozam doutra longevidade. Fráguas e Calhorra calçarem coturno a carácter. Nestes tópicos está configurado o Volfrâmio. Fevereiro de 1944 AQUILINO RIBEIRO 5 . a cobiça. do tempo e da fortuna. Dar-me-ei por feliz se os meus Hincker. que agora vê nova estampa e não é tratado de economia. Longe de mim supor que venham a constituir tipos definitivos. sem roubar o próximo nem termos a preocupação doentia duma geometria tão abstracta como essa da projecção no universo do produto literário. como não? uma grande e efémera aventura. a sede de felicidade. quanto às classes. fantasia própria. nem se arroga de modo algum. como épigrafava o frade. com humildosa exacção. os estímulos sociais. Meta-se num corbillon.romances e novelas o menos estafadores possível. Os padrões humanos. O volframista é uma falena de pouca dura. culto da individualidade. no género da conquista das especiarias e da corrida aos diamantes nos igarapés de Minas. o papel de elucubração à Karl Marx. a Beira. e tudo o que possa vir na ressaca da maré viva. Pretendi descrever. se não são eternos.

estando na aldeia. a gozo de férias em Malhadas da Serra . e berrou-lhe em tom de enxota-cães: . Mas o que se chama para ninguém. não apostou?. deita-se ao pescoço o baraço da escravidão.O Dr. Fazendo-o heroicamente até a linha que demarcava o limite da generosidade.. e não se julgava no direito de eximir-se. e têm sempre um requerimento a apresentar.. acontecia-lhe. a cabeçorra de medusa avançava.Sim. retraía-se. Em obediência a esta regra. que o trinco à força de devassado não consentia senão aberta. pelos reveses do seu próximo.É outra vez você. personalidades preponderantes que seria indecoroso não conhecer..? Saia-me da vista! No patamar soaram cacarejos. um laparoto caçado nos ferros “para o jantarinho do senhor doutor”. contra tão sinuosa e ao mesmo tempo inconsútil tirania. Apre. Pela talisga da porta. não ter já previamente ganho à requesta de cada um. E a manhosa bilha de leite que a hospitalidade provincial troca opiparamente contra a bilha do azeite. lá estava ela já à sua espalda. é a quarta vez desde que me sentei que me vem amolar. mulher. além de que trescalava ao fartum da carneirada. esta irresistível tirania dos indivíduos inferiores. Às vezes tratava-se de necessidades elementares. aperceber-se que uma das suas funções por excelência consistia em esportular-se. Qual. e Manuel Torres conjecturou que tinha ali das tais visitas que se fazem acompanhar propiciatoriamente de dois galispos. no decorrer da manhã. Sombra que escorregava indecisa e vaga. advogado em Lisboa e professor de Ciências Sociais. não havendo outro remédio senão percorrer a via ominosa do peditório. E ele próprio se surpreendeu a dar um urro: . tão montesinha ou tão pouco que debalde a procuravam no mapa os parasitas de errática cordialidade .. batendo à porta do senhor juiz. do comandante do Regimento. deposta com tão obsequiosa mão de veludo. sobretudo. A boa da mulher aborrecia-o com os desvelos excessivos e as reiteradas intercessões duma simpleza permeável a todas as lástimas. a velha tivera artes de lhe impor nada menos de três postulantes. contorcendo-se em arremedilhos e partes gagas. daquelas que responsabilizam o cidadão.aldeia que lhe fora berço. Assim. a sombra de Custódia. do secretário de Finanças.. desde que seja limpo de consciência. o que se chama para ninguém.Apostou que me não havia de deixar sossegado.. Manuel Torres. a partir daí propunha-se resistir às choradeiras com igual coragem.. é um difícil problema de vontade.. Dado que se não saiba resistir. por cada um dos quais lhe fora recomendando momentos depois de se ver livre deles: Agora veja lá: desta hora em diante não estou em casa para ninguém. nem por isso se achava mais imunizado que qualquer outro. meu senhor. o que nem sempre conseguia.de novo distinguiu defronte. uma dúzia de ovos. pois lhe dera essa manhã para desensurrar a lã. ouviu. autêntica avançada dos estafadores. 6 . tornava a avançar. a par das vicieiras da terra. que à porta esperavam ensejo de lhe meter o cacete. não está em casa para ninguém. Rejeitar a oblata. Manuel Torres. que lhe fosse o antípoda na candura. não havia dúvida que era ela. com tal manejo traindo a sua agitada hesitação. !? Ouviu bem? . enxofrados cacarejos e chinfrineira de asas. na cal da parede.

se era um senhor doutor de leis. Casada na altura em que ele concluía o Direito em Coimbra. Era sexta-feira. Santa Casa. era como um bombeiro com obrigação a qualquer altura de acudir às misérias dos labregos. Credo? Eu mando as criaturas embora. quem traz vossemecê aí? . a compor uma minuta. se pobres. andara com ele ao colo e. infecção.Estou uma velha. . meio repeso. As suas teias eram afamadas em vila e termo. embrandecida pelo sopro que a animava. na flor da vida.Credo.. estivesse a dormir a sesta. embarcara para o Rio. acabando de se voltar de todo para eles na cadeira giratória. e encalacrados da vida muitos.Era sempre assim. embrenhado a ler. tornou a perguntar. tinha amigos por uma pá velha. peca para mais do sentido de proporções. . Alguma tinhosa o viu hoje? .. mariolas de alto bordo. dignos de amparo.respondeu consoante o estilo. que era resoluto e empreendedor. deixando-a com um menino nos braços. festa de Nossa Senhora de Agosto. O homem. Estás boa? E tu. ó mulher. Maria. ponderando quanto havia de lógico e até de humano na atitude da velha criada.Mande lá entrar. Que só lhe querem meia palavra. foi-se abaixo. resmungando: . de pequeno. Ao senhor doutor é que eu acho rijo e fero. e retraiu-se.. vindo para Malhadas. Golpe num pé. anos e trabalhos desgastam como as mós das azenhas. Meteu cara à má sorte. eu mando. ela de tamancas de Viseu e xailinho pelos ombros... falecera de tétano aos dez dias de internado a uivar pela mulherzinha da sua alma. não poucos. Esta ficava. a cardenha de telha-vã. Coitada da criatura. . Mal pegou do gadanho na Sapucaia. não fora feliz.Benza Deus tudo quanto cá há? . como se tivessem a peito não acordar o chão. Podia tornar a casar-se que a cobiçavam muitos por mulher limpa de costumes e provada no governo da casa.Quem traz vossemecê aí? Mas já ela se retirava. Por isso mesmo. onde mourejava uma colónia de patrícios. meu senhor! Que lhe havemos de fazer.tornou ele peremptório.Ainda não tinha tido o gosto de te ver. uma vez plantados no caixilho da porta saudaram à serrana: . acabava por condoer-se.. mande lá entrar .Mas. e disse. 7 . ganhava quanto dinheiro apetecia? E Manuel Torres. Partia do princípio que.. com um quintalório. se não é que fazia simulacro de retirar-se.E mais a quem vem! . alguns. desta feita apenas com mau humor: . qualquer remoque ser-lhe-ia insuportável. e mãe e filho apresentavam-se endomingados segundo a etiqueta do dia santo.. por isso mesmo contemporizando. onde bracejavam meia dúzia de videiras de cordão e um mostajeiro. adquiriu um tear e fez-se tecedeira. Depois de atravessarem a saleta com acanhamento e o mais aéreos possível.e a ele próprio a voz toou noutra gama. O dianho não tinha nenhuma espécie de respeito pela sua pessoa. Como não.. meu homem? . De salto perpassou no seu espírito uma série de ridentes panoramas.A Maria Aires e o rapaz. com duas belgas de cada folha para dez pousadas em ano grado.. pois que tinha direito quando menos a amenidades. o rapaz de alpargatas e com andaina nova. recreados pela figura airosa da mocinha com quem jogara as escondidas.

pior que pocilga! Quando é que os moradores. cama com a macacoa. os seus olhos encontraram-se.Pobreza. A Serra. pela dura trabuzana da existência. e umas lá se arrumam. E foi em acento quase humilde que adiantou os seus reparos: . de tal jeito que quando se quer fazer uma novena aparece miudagem para uma procissão. haviam de perder o desgraçado costume de curtirem os estrumes nos caminhos e fazer deles vazadoiro universal? Criava-se-lhe ali moscaria para envenenar a Península Ibérica.tivesse por condão esse indefectível renovamento em prejuízo do passado. E conformou-se. ?! Ora essa? . é certo. A Maria Aires permanecera silenciosa. podia passar a salvo de tal foco de malinas. caprichou em desmenti-la. e nas feições de trigueira. O que se encontra à farta por essas famílias é fome e lêndeas.. medindo-a de alto a fundo em sua estatura de quarentona. Quem tem calças mexe-se como Deus é servido. se Deus não acode. Não. imunizado por autovacinação. um pouco acanhado à sua ilharga. tão desempenada como a língua. perguntou-lhes: . tanto aquelas que são um brinquinho de sala corno as que atoladas na terra mais se aproximam da natureza .. Mas as pupilas dela não tinham nada a dizer. começando por capacitar-se que eram brancos. Pouca diferença fazemos dos animais.. Assestadas para as suas.Então não largam pelo mundo. Assim mesmo. soterrado. outras voltam. Maior dor de alma ainda são aquelas que vão acabar no hospital. pelas casas fidalgas. Tudo isso que para ele era um elemento capital da personalidade jazia para ela sepulto e esvaído no tempo. lá ganham o par de sapatos e a meia sainha com que uns anos por outros vêm embasbacar os palonsos.todas as mulheres eram o mesmo no que respeita a este tópico. O povinho cresce à desmedida.Sim. esburgadinha até mais não poder. Só quem ali vivesse de longa data. mantiveram-se límpidas e inocentes como em criança quando na alba da Primavera patinhavam corgo abaixo. olhou reflexivamente para o filho. Foi praga que nos rogaram. Em tom cordial. lá no íntimo a cogitar o que havia de responder. à cata das flores da Páscoa com que ela. é obra da pobreza. zás. Era humaníssimo.Embora persuadido que ela estaria a pensar em tudo menos na sua preciosa carcaça. depois de empapoilar-se desde as tranças às ligas. harmoniosas ainda que roçadas pela lida.É certo. Mas perdoe que lhe diga: muito do que causa engulhos a quem tem hábitos de fidalguia.. e não é fácil que possa ser de outra maneira. corgo acima. Qual. como a pedir- 8 . um tanto surpresa pelo tom rabujo do doutor. está a dar o cadilho.Qual. . Transcorreu uma pausa durante a qual.. atrás da morte do homem. que a mulher . este tom em que lateja a mais promissora boa vontade. Não assim as saias. largam pelo mundo? O Brasil fechou-se.Que vos traz por cá? Ela sorriu-se. Gostava que visse o inçadoiro que vai por essas aldeias! . deplorando apenas que assim fosse. se a terra estava uma nojeira. só da pobreza. como o meu senhor. bonita racha de vinte anos. como as filhas da Olinda. ? . mas logo ao segundo dia. a Serra está no osso. cada uma com o seu neno. Como não. o nosso povo nasce e morre atascado em sujidade. meu senhor. ficava frívola e chocha como as mariposas. pelo Alentejo. Lisboa e Porto estão à cunha.. ela não se lembrava já de tão importantíssimas bugiarias. baldeadas pelo negro fado. por ali. nem rijo nem fero? Chegara de facto bem disposto. quer ouvir porquê? Porque há gente a mais. Lá vão cirandando por aqui.

. Com ele nunca se sabe ao certo de que banda sopram os ventos. pôs-se a arranhar o recado: . minha santa! Esse Calhorra é um tipo como não há segundo do Vouga para cima. declarou: Saiba V. se não valem. deu-me uma chumbada num cão. Maria. dia de feira em Orcas. Eu tenho muito bem a dizer dele. do Verdegaio. incapaz de justificar-se. Ex.Que falasse ao Calhorra. Por modos tem tudo preparado para amanhã. ir fazer queixa. bem sua.Então. . Mas o entendimento deste homem gira sobre rubis que são um segredo para toda a gente. disse Manuel Torres: . mas os estragos que causou não deitam ninguém a perder. Quem tem filhos tem peguilhos. tão frenético que os cobiçosos até mordem as lajas com os dentes. porque o foi apanhar de manhãzinha a comer-lhe o coelho que caíra nas armadilhas? Bem sei que se fartou de jurar e trejurar que fizera fogo supondo tratar-se duma raposa.. mas para lhe falar franco. . Augusto. para o mal. dando um passo à frente com desengano e atravessando-se diante dela. O meu senhor sabe. Que tiraste de lá? A mãe dispunha-se a responder. . . denotando todavia estar em consciência a revolver o raio da morte das suas razões.E então? . mas tu não tinhas o direito de lhe bulir na terra arrelvada.Pois sim. meu senhor.Procedeste mal. não atenderia ao pai.Pode ser que tenhas malucado mal. . . ? E deu estrago? . muito menos o Calhorra que impa de farto . rapaz. dize lá? . dirigindo-se ora a um ora a outro. mas ele. já ele lá tinha andado a esfossar. Não me roubou quase metade dum giestal com uma porca mascambilha de marcos. e para que lhe havia de dar o diabo? Ir esgaravatar numa leira que o Silvestre Calhorra tem ao Vale das Donas. olhos em terra. haja de perdoar que também é pai.a estar certo que nem o Calhorra ficou pobre.. não sei se valem.Coisas aqui do meu Augusto. Mas como era preciso fazer desde logo justiça.a que a propriedade é aberta. E que esperavam vocês de mim.. Se lá lhe cheirasse ainda volfrâmio. quando foi da outra guerra. e torcendo-se para a outra banda. . tu não sabias que não se pode entrar sem licença na propriedade alheia? Não sabias? Pois tinhas obrigação de saber que já não és criança nenhuma. Tirei de lá meia dúzia de pedras.Ora se sabe . maluquei para comigo e para com Deus que se ele não atender ao senhor doutor. e também motivos de sobejo para o detestar. Em tempos.. deu-lhe o Demo arte. sim. que é sábado.respondeu a mãe.. é possível que não. Ex.Será apenas a meter medo. A leira era tua. Porque mude de opinião ou não tenha vontade firme. . Olha com que anjinho! . cinco réis furados.Mas. dize-me cá. O Calhorra é que não está pelos ajustes e teima em dar parte.Valham que não valham.Não sei.Derrotou duas ou três caneiras e eu prontifiquei-me a pagar o dano. mal me apanhou longe daqui? Pior do que isso.lhe desculpa de o trazer para pião das nicas. mas pode V.. Àquele. nem eu rico.A leira andava de relvão. lembras-te. rapaz! Muito mal. mesmo que cá viesse do outro mundo e lhe pedisse de joelhos e mãos postas.Pois será. não era ele que dormia uma noite inteira na cama enquanto não alimpasse até a última pitada. Este mafarrico não podia escapar ao andaço. um bicho a que só faltava falar. alguém acredita nas juras dele? Por 9 . Veja! O rapaz mostrou-se de todo cómico ao lado da mãe. o delito é o mesmo.Anda por aí tudo frenético com o volfro.

outra.” .. e Torres olhava para ela em silêncio e com o mesmo prazer com que ano por ano se vê reflorir uma pereira. meu senhor? Imagine que o alma de cão do tal sargento um dia chegou-se ao pé dele na tarimba.O Augusto compreendeu onde pretendia chegar a malícia do salafrário e lá retrucou: . nem meio mexe-te. engraxa-me aqui as botas. que castigou a ambos. É uma criatura assim. As ordens só eram bem cumpridas quando era este senhor o encarregado de cumpri-las. Augusto. conta. . se quiser.” E ela foi contando: . dou-ta a ti e é um pau.“0 meu sargento vem errado: essa honra vá dá-Ia a outrem que o filho de meu pai nunca teve nem cobiçou tal oficio!” . botavam-se um ao outro. porventura. A mãe não percebe.acudiu ela. ainda a melhor maneira fosse desmenti-la. e. moita carrasco. pelo que pronunciou também como se ele não fosse presente e com ar de quem dita sentença favorável: 10 .Esses sargentos às vezes dá-lhes para brutos! E não foi preciso dizer mais nada para a mulher sair com a versão refervida nos soalheiros. decerto por não haverem há pouco tomado a sério o seu protesto. meu senhor. Havias de ser tu a contar ao senhor doutor. eu falo ao Calhorra. pois não era. . Augusto. o mesmo era que dizer à mãe: “Conte vossemecê. Ele. estás mesmo um pato mudo! A mãe falava como se ele não estivesse presente ou ela é que tivesse sido a protagonista da anedota.. Sempre que lhe acontecia falar no rapaz. Augusto: julguei que seguias a militança? . Assim que apanhou baixa. ora.Então o Augusto parece que lhe respondeu: “. que o amesquinhava.. “ Mas conta tu. agora dava sinais bem manifestos de contrariado. que este meu filho é espirra-canivetes. um dia viu-me acometido por uma roga de sicários a soldo dos talassas de Tendais. estavase mesmo a ver: . boquiaberto.. Chegou mesmo a deitar as divisas de cabo. ala. Era bom homem. meu senhor.balbuciou Manuel Torres. .. para que está a falar? . estendeu o pé e disselhe: “ó cabo. À falta de escova tem a língua que lhe pode servir de esfregão. Homem.apressou-se a mãe a dizer. coitanaxo . engraxe-as você.Qual mexe-te. e aborreceu-se da tropa. Se não tem quem lhe engraxe as botas. Mas fica entendido. . se taciturno estava. desejando afirmar a sua personalidade. O capitão gostava muito dele. complicado ou parecendo-o.Brutos acabados.Como pode imaginar. rapou dum estadulho e fê-los meter na igreja de rabo entre as pernas. lá teve a birra. não foi nada disso. Mas teve uma birra com o primeiro sargento por mor do capitão que gostava muito dele. continuando embezerrado.decidiu-se ele a contrapor. Augusto. que se faz tarde! . devia desagradar-lhe ao último ponto e. não porque ela não pisasse o terreno firme.Não senhora.Não cismava noutra coisa. ali se despicaram de palavras.. Mexe-te” Conta lá agora o resto. verdadeiro. mas porque. Tal papel. já que és mestre em engraxar.“Ora. Ele ficara embezerrado. Manuel Torres sentiu-o. e se não entra o comandante. a Maria Aires fazia-o tão juvenil e possessivamente como se nela se operasse desdobramento. Agora dize-me cá.. Augusto? Mas bem.. Prosseguiu a mãe: .Sim? Augusto encolheu os ombros.Ah! ah! . é verdade .É verdade. Quero dar-te essa honra.

Velo da tropa e fez as malhadas de fio a pavio. muito encolerizados de se verem atados pelos pés e em tal inpace. participava da ilusão de todas as mães: suporem os filhos sempre meninos.. Maria vai com as outras. novas vergônteas e novos ramos. um pouco para desafrontar o moço do seu enleio: .Olha.Ora essa?? Era uma desfeita que fazia se não aceitasse. O que é. satisfeito de se ver longe e desafogar. A própria ouvira dizer ao ricaço . ainda quando põem navalha na cara. tornando-lho recomendável. o que foi logo percebido por Maria Aires que desandou. Maria Aires..Bah. O moço matava-se por arranjar dois vinténs. . sim. Bem sabia ele que escusava de teimar com gente daquela força. entrou no caminho das confidências. Repugna-te? Manda-lhe recado. estrebuchavam os dois ou três frangos da oferenda. carregando ao mesmo tempo as sobrancelhas num gesto de abandono. Naquela ocasião não queria por nada deste mundo deixar de advogar-lhe a causa. Persistindo na inveterada pecha de ser a língua do moço. As palavras eram as mesmas de todos os presenteadores. o que se chama sair do lugar que lhe compete em relação a mim que sou sua mãe. Augusto. à espreita de alguém que levasse rumo pela porta do Calhorra. e conformidade. Torres breve penetrou no segredo do coração extremoso. Manuel Torres apontou: .e palavras eram estas pronunciadas de caso pensado para que ela tomasse nota e servisse ainda de correio: “Pobretanas que não sejam capazes de manter a cabritada que haja de 11 . e compreende-se. Encolheu os ombros. e ninguém o entendia como ela..Anda ou não anda? O rapaz franzira os lábios.. dentro duma cesta. duas dúzias de contos de réis. se tu fosses chamar o Calhorra. É verdade! Tinham ficado em silêncio..Hás-de tornar a levá-los. e deitam. podia ser moderado.e rolava o polegar sobre o indicador. Não era segredo nenhum que namoriscava a filha do José dos Cambais. estão às ordens uma dúzia. senão fico mal contigo. eu a bem dizer não tenho escândula deste meu filho. que estava um texugo de opulento. . podia ser mais moderado.. até já estoiro de rico! Se precisa. arrumávamos o assunto. sabido quanto a juventude é petulante e malcriada.O rapaz sacudiu um ultraje. Mas olhe. sistematicamente ela é que se arrogava de voz activa quanto a dar ao badalo. No patamar. e é um moiro de trabalho. E que fazes tu agora? Andas então na trafulhice do volfrâmio? . que este ano com a escassez da gasolina voltou-se ao mangual. Mas antes petulante que sabujo. Sempre que a pessoa dele estivesse em causa... já casados. agora que ela não estava. São para o almocinho de amanhã. é pedir por boca. e dizia que só dava a moça a quem tivesse disto. ambos a olhar para ele.. e foi Manuel Torres que se viu obrigado a dizer. Ao passo que sugeria este expediente. umas vezes por outras com sobejos motivos. pois. mas o seu toque era outro. meu senhor.E voltandose para ela com tom entre risonho e cominativo: . fazia menção de se encaminhar para o pátio. Nunca me faltou ao respeito..” Mas sua mãe soltava de novo a taramela e ele limitou-se a afivelar um sorriso despiciente. não há que ver. O Augusto correra à estrada. como se olha para um bezerro quando dá galardão do trato que recebe. porque só ela é que se reputava com autoridade para fazer afirmações de certo peso: .. Naquele esgar transpareceu a Manuel Torres que ele dizia escarnentamente: “Pois.

andavam de candeia às avessas. A cachopa custou muito a criar. Mas rebento da Minga e do Fráguas. e por isso ele e o Augusto. risquinho do bigode na cara deslavada. Respirava-se ao abrigo das velhas faias e loureiros. Lá a cachopa não levam nem à mão de Deus Padre. Pela estrada. abade da freguesia. e Manuel Torres quedou-se ali de cabeça descoberta. como as ribas dum bonançoso mar. duma brancura e altitude de água represa. como ultraprazenteiro caminhar. primeiro à mãe que lhe deu a teta. filho da Júlia Minga e do Antoninho Fráguas. entre a toadilha da Maria Aires e a da fonte. Ao longe. Vinha com o Aires e de Alcobaça em punho esponjava a coroa sua renta. que avançava pelo pátio. e até um carro de centeio pelas almas do Crasto. A Maria Aires falava com fluidez e brandura. desamparem-me a porta. cabeça para os Cântaros. de Muradais. os ricos e pacatos de escancha-perna no seu asno. Passavam por golfadas. por causa dela desunhava-se por ser alguém. isto é. do tempo quase lendário dos capitães-mores. O José Francisco saíra um meliante de alto lá com ele. e empoleiradas por cima do xaile as soquinhas. De súbito. nem filho de cão e loba. Pelo seu Augusto é que ela tomava ventos. Podem levar-me uma vitela fiada.nascer no curral. A Teodora sabia a rês que ele era. raparigas de xaile dobrado à cabeça. e as suas vozes na tarde serena repercutiam com um timbre tão cristalino que nem reflectindo a própria claridade celeste. Alguém. seguro disso. Descia a tarde. sem fímbria de nuvem que a mareasse. passavam romeiros de outras terras. tep-tep. Querem ter onde esfregar os untos. regalado. o pigarrinho a advertir: cá vou eu. e a sua voz parecia regerse pelo gorgolejo da água ao despenhar-se da bica de pedra e embeber-se na massa líquida do tanque com sopitada cadência. ainda ontem camaradas de regaleira. para ele o eclesiástico. e o Augusto e a Teodora ficavam também nas suas. direito a ele. deitando olhos para o portão. homens de lódão na mão e registo no chapéu. razão onde cabia uma boa cestada de desacertos. o rapaz estava-se ninando para o José Francisco e para as sentenças do Cambais. bicicleta. cavem primeiro!” O Cambais lá estava nas sete quintas da sua razão. dar um pontapé na mofina. em segundo lugar a mim que estive sempre de corpo presente a aguentar o embeleco. mas nem precisava de o saber. poder ir ao Cambais e rolhar-lhe com um bom pacote de mil a boca destravada. Sim. misto de pé e de cavalo. sinal de que o rancho da Lapa entrava as portas. e nunca mais ma pagarem. sapato de fivelas a ranger. cá VOU! 12 . borlas a arrufar da bolsa do relógio. tamisado pelo verde da folhagem. Era uma flor e então assento!? Também lhe fazia rapapés o ruivaças do José Francisco. Que a Teodora tudo merecia não havia duas opiniões. brancas e altas. se elas não tivessem o cuidado de se defender do sol na fresquidão das boscagens. Vestida de verde-ferrete nas lombas e de roxo na dobra dos vales. Era por causa da rapariga e por mais nada que ele andava a esgadanhar no chão alheio. prazenteiro. pés para a Guarda. a sua imensa bizarma era para lá das seis léguas de espaço. via-se deitada de borco a gigantona da Serra da Estrela. avistou o Simão Tadeu. sempre de corrente ao peito. imagem do João Ratão na facécia dum humorista. o hausto da extensão. e para o povo ressoava estrondosamente o bombo e tiniam os ferrinhos. Manuel Torres saiu-lhe ao encontro. que o rescaldo da terra baforava lume para assar as cotovias com penas e tudo. Amor com fome é como sardinha sem pão. E.

Por sua vez. Válido nos 55 anos. todo desempoeirado. se deixaram lograr pela Lei da Separação. já no delíquio derradeiro. pai de filhos . engenheiro de minas.mas não o deixava transparecer. quando surgiu o filho e o correu à má cara do quarto do moribundo.a Igreja sempre que fecha olhos aos desmandos dos seus ministros é que não tem diante de si escandalosos . e já erguera casa de sobrado. mascaravam ambos eles à maravilha a recíproca antipatia. Pelo papel. O Tadeu. esse mesmo. campeão de ténis. andava montado numa égua vermelha pela qual. Brás da Nave. não tardou que o velho resignasse o ministério. e não deu corpo às suas aversões. De facto. Por outro lado. e sem quartel. no caminho para Orcas. tão certo como dois e dois serem quatro. O Simão Tadeu. lugar armentoso. Nascera no cisco.estava rico. embora não o múrius de sacerdote. como dizia Homero de ítaca. pagara sisa de duas ou três boas regadas. Mas.o que em regra lhe acontecia com a maior parte da gente que pressupunha de elevada . Cheio de mansuctude. amigo como irmão do velho abade. O velho abade quis reagir. que ajuizara de insidioso. Mas. ficara a detestá-lo figadalmente. e igualmente o padre não oferecia flanco.que não metera em linha de conta o ódio vigilante dos inconformistas e pagara caro a submissão. Apartavam-se dele como de leproso. ainda que prudente e recatado . sabendo hebraico. desmanchadão mas cheio de humanidade. queixando-se embora dela como Abraão de Sara. embora pobre de carnes. era a pessoa mais cortês deste mundo. Ali estava ele que não morria de amores pelo padre . para se gloriar da sua vitória total nas vozes arrependidas e tremelicantes do colega. pouco tempo continuou a exercê-lo. 13 . e S. Caçoando cordialmente de parte a parte e cambiando-se fingidas ternuras e amenidades. viera substituir o Lourenço Bacelar em Mouramorta. mas em que força se escudar? O poder civil largava-o ao desamparo como a todos os outros em iguais apuros. todo desportivo. quando proclamada a República. que lhe herdara nome e casa para maior lustro e acrescimento . meio agricultor. Pedro. Manuel Torres. A quarentena ulcerara-lhe corpo e alma. que era a cabeça de freguesia e englobava Malhadas. e gregoriano até a medula. meio sacerdote. entre o cura dos bons velhos tempos constitucionais. a título de confessor. piloto-aviador. Nela mereceu o Simão Tadeu esporas de oiro pela arte consumada com que fez quebrar nas mãos do indigno pastor de Mouramorta o cajado de S. O Simão preparava-se.ali estava Severo Bacelar. branca. talvez por isso a pior de todas. O velho abade fora um dos que ingenuamente. o padre retrucava-lhe na mesma moeda. O que valeu é que a fé do povinho nada tinha de farisaica e não secundou os zelotas. calva apenas incipiente na trunfa espessa. moldando-se à sua observância. era com ele e ninguém tinha nada com isso. cautíssimo.Que se julgasse pessoa de muito respeito. persistia em pagar todos os Outonos dois alqueires à parada do Miguelão. negra e farta aldeia. que representava na igreja militante nacional o levita da transição. Nem todos o prezavam porém em conformidade. A guerra era subterrânea. e o concordatário. nariz esponjoso. ultramoderno. além de a época não ir para cavalarias. atabafada entre brenhas e penedos. Nunca mais na sua igreja se celebrou cerimónia festiva ou ritual que requeresse a presença de mais de um sacerdote. e soprava-se que trazia dinheiro a render. as autoridades eclesiásticas em matéria de firmeza eram do mesmo barro que as da República e temeram-se de fulminar à mão-tente seus anátemas e coriscos.

suportáveis. quanto à miséria ambiente. O mundo é seu. As raparigas parecem flamencas: olé! e as padeiras trazem trigo governado com levedura holandesa. estes penedos.salvou o doutor. detinha-se em Malhadas a cumprimentar “o digníssimo doutor”. e assistia-lhe à casa de lavoura que herdara em Malhadas por morte dum tio afim.Bispo nem quando esta vara florir . . devido em primeiro lugar aos cadastros que eram defeituosos. sem os esbanjamentos das Câmaras e as alcavalas e arbitrariedades fiscais dos organismos que lhes eram anexos. Miguel a missa seca do binário. que não têm conto. sim. vicioso? Diga-me lá se não é um vício deixar todos os anos o fresco das praias.? Ignorância? A depressão provocada por outro gravame? O Simão Tadeu balouçou várias vezes a cabeça. de volta. comigo não alcançam mais longe. aguardavam a morte.. dores nas cruzes. as contribuições eram pesaditas. .. abade. Logo de manhã.Vicioso.. da linhagem das Ruças de S. mais viçoso. abade. mas tão pequena que ninguém tinha ocasião de protestar como certas as suas virtudes contrárias. sim.Ora viva o meu abade? Rijinho e próspero como tem de ser um futuro bispo. É uma verdadeira canceração. que depois de duas ou três cabeçadas acabavam por se enfeudar a um eclesiástico ou a uma família rica e ali.Não diga isso. com a alva. como num claustro. que ajustara com os de Malhadas a troco de cem medidas. que as fontes de produção eram as mesmas e exploradas com o mesmo vigor. mas imbecil de todo e comida de misérias?! O Tadeu não quis contrariá-lo.e sorridente o Simão brandiu a chibata de sanguinho que trazia para espertar a égua.. e pela medida grande. É ela que me traz de pé. .. Do padre murmurava as piores enormidades a chamada boca pequena. esta labregada.Não bebia. quer dizer. mas que lá quanto a projectar luz era como um verdadeiro espelho de cristal: Segundo uma postura 14 . . definitiva e desinteressadamente. a girara para a Lapa a oficiar na festa de Nossa Senhora. ainda que compreensíveis. . embora as dores nas cruzes mal me consintam erguer a cabeça. De resto. As condições de vida essas tinham-se modificado. Agora. que podem ser senão os ossos do ofício? O Simão Tadeu tornou a sorrir e pretendeu retorquir com bizarria: . boa.? .. que a broa desbota o dente. coitada. Como se explica? Tara. sim. mas que ficasse bem assente.O doutor é que está cada vez mais jovem. Reparasse Sua Excelência e veria que se tinham modificado.respondeu Manuel Torres. abade. A irmã. reparei já que as berças foram substituídas pelo macarrão e a aletria e a olha pelo café . não jogava mais que o dominó e o loto.. E em apoio citava um caso que não se repetira. cheias de préstimo e de virtudes. Não se viam há coisa de um ano e apertavam-se efusivamente a mão. pela graça de Deus.Quem havia de dizer! Também já não vejo trajar de burel.. lá teria as suas razões. Sim. a mulher e os rapazes. . Mas as mercês de Deus.Vá a banhos. e vir atascar-me nesta sujeira de terra com este sol. assoldadara-se com o Antoninho Fráguas.. Isso não oferecia dúvida. Meia dúzia de imersões e fica são e escorreito. Brás.. o padre dissera na capelinha de S. a Ana. tratando-se de eclesiástico. porque as não mereço. então a aguilhada do rei Vamba floriu ou não floriu? .Floriu. hem. e limitou-se a observar. Reparei. e tinha ao serviço a velha Maria Ruça.

“São as crias que nasceram posteriormente” . . ou Setembro.. Andava tudo de chapéu na mão: ai tio. .respondeu Manuel Torres.Com Pedro o Cru. É ou não é. uns sediciosos de Vila da Ponte deitaram o fogo aos paços do concelho de Sernancelhe.Sou todo ouvidos.É verdade. tenho uma incumbência para o meu doutor. sorrindo. mas dispensáveis. Em geral. Mas em Fevereiro a Guarda viera vistoriar os rebanhos e encontrara na manada deste e daquele tio mais cabeças que as constantes do manifesto. Em certas alturas do ano eram mais as lágrimas nas casas dos serranos do que a água que agora levava a ribeira. E como aquele uma infinidade de abusos. como bicha de rabear. que os seus paroquianos eram maus como as cobras e que em matéria de pouca-vergonha estavam cada vez mais refinados. no domingo passado não estava a dizer. sabendo quanto a espécie eclesiástica foge de se lançar por sendas em que perca tempo ou latim. mas absteve-se de responder. E quando lhe pareceu que estava livre a retirada proferiu: . . consoante. relaxe. três pessoas distintas e um só interesse verdadeiro..exclamou Manuel Torres.” Não chegavam ao fundamento. nem menos cristãos.concelhia. . iam os bens à praça. sim.. tosquiados. . E de repente. dado que mingadita com o sol que tinha feito.“Não queremos cá saber. depois de trazer cadeiras..alegaram os criadores.. abusos de quotiliquê. a fugir à turbação. é caso que as alçadas que cometem não revertam em benefício próprio. Tadeu. pedia 15 . mas já o padre. Os tempos não correm propícios a jacqueries. não passaram a ser menos mansos.. senhora Maria Aires? A Maria Aires sorriu. abade. Pagaram. pelo menos em Mouramorta. foi esbagoando o riso. acrescentou de golfada: ..?? . ... se acocorara à moirisca ao toro duma árvore sem ninguém dar conta. Assim se fizera. ai tio? Decerto que não tinham deixado de lhe vir bater à porta?! E quantos! . E como visse uma atenção indulgente nos olhos que a observavam. e se consolava a ouvir pessoas tão bem-falantes.É ou não é. Se não pagassem até ao fim de Março. o gado tinha de ser dado a manifesto até fins de Dezembro. meu senhor. entretanto. não sei . essas praças dançavam na corda.que ficara a tinir. se não acudissem ao relaxe.Sua Excelência havia de tê-lo visto com bornal de mendigo .permitiu-se dizer a Custódia Sancha que. Assim sucedera ao Mões .Não sei. dizia: .O Lázaro Fandinga levou-lhe 25000 rs. pois não pagaram. a Rosa Pedralva. R. . e essa é de espantar que tem de seu e é governadinha. está visto. Em vida de meu pai. e nem sequer lhes ficou o direito de bufar.. o Aurélio Bebauga.Sim.? .Só há bocado bateram aí quatro.Sabe-se lá. ... Não tem notado que os seus paroquianos pelo facto de serem batidos. em pleno adro.acabou por declarar. senhor. O principal era que pagassem .. . Manuel Torres ergueu o dedo contra a indiscreta. do bispo ou do Senhor.Não serão os únicos..Brada aos céus .?? Manuel Torres rompeu às gargalhadas. senhor! É a minha opinião e é a opinião de muita gente boa. meio afável das pessoas que se reputam superiores.insistiu ele com aquela pressão meio desdenhosa. têm de pagar a multa..Mas V.. pondo-se muito sério. vendidos e mal pagos. A Maria Aires.. estalinho a estalinho. Onde isto irá parar é que eu queria saber?? . como quem desata: .

Em boa actividade. Aos marteleiros dá-se um salário.Não.atalhou Torres de modo tão imperativo que Maria Aires compreendeu que era uma ordem que recebia. ? Manuel Torres e Tadeu tinham-se insensivelmente afastado pátio fora até o portão. fazendo mil reverências.faça o obséquio: por aqui não haverá gente que queira ir trabalhar para as minas da Sobriga? .O doutor não é proprietário duma das encostas.que deviam aumentar os réditos do Santo Antão. lhe fez dar salto de gamo e mugir: . Ia a voltar à esquina para a estrada. e põe-se tudo em pratos limpos . criar sombras. Encerrado o aparte. estou a ver. e também já não fora pouco o tempo que lhe fizera perder. e fazem grande destroço nos irracionais. de Cruita do Alto.A confraria de Santo Antão está no propósito de continuar com as obras no cabeço. com a outra esmera-se por embelezar-lhe a casa.Gente não falta? . Ele próprio reparou no categórico da voz.Pscht. que andava com a rifa de terra em terra. E consoante. Por conseguinte. saltaram em terra.. que era humilde e tinha a bunda calejada dos pontapés. afluíram curiosos das quintãs. espera um poucochinho.. ora vendia mecha para fumadores. úteis ao homem. tanto mendigava com meninos alugados como bufarinhava. .? Na estrada. As esmolas têm engrossado. A como pagam? . .. aos entivadores e salbreiros outro. se bem me recorda. Torres despediu-o gracejando que lhe faltava tudo para caçador. puxando da sua nota. viraram a cara. É curioso. estacando de rompante. volveu o reverendo: .reatou o Tadeu .respondeu o Roupinho. que o santinho em dias de tisneira é o cimo dum vulcão.. Também só cheguei há meia dúzia de dias. sim. seguindo sua rota. afinal. os piteireiros. da encosta que olha ao nascer do sol. 16 . . arrasrando o seu rancho. ó patrão . ele há-de estar a vir. E depois? . Provavelmente em seu inconsciente estaria a desejar que o padre se pusesse ao fresco o mais depressa possível ou pelo menos que o não deixassem sozinho com ele. ora comprava cornelho..interrogavam.Este ano ainda lá não pus os pés. ar de capataz. negócio de “pinchas” outro... veio oferecer-lhe chumbo de contrabando para a caça. os andaços matam menos gente. sentados em cima da parede. se com uma mão vai amealhando.Então quando lá for. veio gemendo. que a Mesa. Trazemos agora em vista desenvolver o plantio do arvoredo. . e o homem lá se foi de mão sempre no carapuço de Alvite. pscht.licença para se ir embora: tinha o vivo a acomodar.Dizia o meu doutor . aumentaram também os réditos. O Roupinho. sim. e que com a barulheira do motor não podia ter ouvido o doesto. a concertina. Deus castiga sem pau nem pedra e o padroeiro não tem mãos a medir.gritou-lhe o sujeito que vinha junto do chauffeur.. desperta a atenção pelo velho Ford. quando um automóvel Ford. à sombra dos ramalhos que refrescavam a frontaria da taverna.Arre que é bruto? . matam menos gente. a começar pelas pernas. O senhor doutor lá concertava com o tio Calhorra. De bom proveito lhe serve. A romaria está tomando cada vez mais incremento. Tem ido por lá? . há-de verificar que se alargou e murou a platibanda e se dispuseram muitas árvores. de facto. os mirones que bamboleavam as pernas. tipo “calça arregaçada”.

Parece-me que sim. É capaz de me jurar que os da Confraria não trazem pedra no sapato? Não? Com esse Minga. a começar por tão simpático Santo. tanto melhor para o caso . Quem são. irmão “pagão” já se deixa ver. meu abade. A falta de memória era sinal de que o seu embaraço continuava. isso não tira. Daqui. mais do que isso. seis e oito horas de trabalho. Brás da Nave. Mas. e Manuel Torres interrompeu: . em princípio não digo que me recuso a dar o chavascal. 17 .Essa é boa!. daqui é o Calhorra e o José dos Cambais. o oiteiro é particularmente metalífero. libera me Domine. nem mais nem menos um dos testas-de-ferro do Antoninho Fráguas que. o Adolfo e o Manuel Minga.. A Fazenda é que todos os anos me certifica que sou dono do chavascal..Mas já que lhe interessa. ao fazer seja o que for. julgo eu. São como a da raposa e do jaguar..?? A menos que santo tão milagreiro como o beato Antão vá de futuro guardar as cabras? E Manuel Torres deitara a rir diante do abade que. quase sem transição. sim. são os próprios mesários que andam apostados para me aborrecer do terreno. . e o Calhorra. persistindo as causas. Está dito..advertiu a tia Sancha. E digo parece-me que sou porque os gados e os mateiros ali não deixam ir por diante uma giesta. ou. Amanhã o direi. Então é porque os rebanhos malfeitores são pertença dos mesários. . persistem os efeitos... que voltava de estendedoiro.Pois se assim é.O doutor faria grande fineza à Confraria cedendo-lhe o terreno que só lhe dá prejuízo. resigno a posse do barreiral em proveito da Confraria. o que não escapou à observação de Manuel Torres que acrescentou: Mas que tenham andado ou não tenham andado com pesquisas. Quem são os da Mesa? .. isto é. os dentes das cabras não cessarão de destruir quantas árvores ali se plantem?? . de. que sou.. não sabia que contestar..Melhor só banqueiro? .... Pode o terreno estar dentro das áreas registadas e não quero complicações para ninguém. *** O abade ficou ainda mais interdito ao ouvir aquelas palavras. mas primeiro hei-de-me esclarecer. tem sempre a vista no segundo plano. Manuel Torres veio ao sentimento daquele empacho e inflectiu sem esperar resposta: . Agora de sociedades em que entrem o Antoninho. olhem. meus senhores.. . . lá vem um dos sócios . a menos que me tenham irradiado. Perguntava o abade se eu era o proprietário duma das vertentes do Santo Antão. de quem sou irmão.E para que o quer a Confraria se.. o Minga.Não ponha mais na carta.Orça entre dez e vinte mil reis. um pouco pela rama. boquiaberto. de S. de Malhadas. ...Pode ser que não.Olhem. Segundo conclusões.emitiu o abade.. Para os tempos que correm não é má pinóial ..Quem são. perdão.. um pinheirinho novo..gracejou Manuel Torres para o Tadeu. como lhe requeria a índole generosa.? Não sei se sabe que mister James Corbet fez ali perto umas pesquisas. irmão da Júlia. da fábula tupi.

. disse para o doutor: O Duarte Ladeira foi-me dizer a casa que Vossa Senhoria me queria uma palavra.A Malhadas.Não o diga a brincar.Para quê? . . caramba. de olhos absortos na fita da estrada como o santo do seu nome.Olhe lá.Então o senhor doutor também se botou até a serranada? pronunciou sorrindo. grossas botarras de bezerra por cima dos fenomenais joanetes.. . e na cabeça um barrete de pele de coelho que deixava escapar por detrás das orelhas as farripas ruças da grenha.. barbela nédia... Mas.retorquiu agridoce.Era com efeito o velho Calhorra. Os Ingleses deixam correr e armam-se. ao recolher a patorra larga e calosa. Atravessou a estrada direito a eles..respondeu.Os Alamões para arranjarem urna cunha no mar contra a Inglaterra. esses. . cortando na Rássia como faca num queijo..Pois sim.Vem a fugir à guerra.O Calhorra. alto. e Nicolaievo. dava Esmolensco como evacuado. Diga lá. como presidente da junta. ao Sul. Que diabo de história é essa do rapaz que lhe foi cavar à leira do Vale das Donas? . a Portugal e Espanha . que penso isso mesmo.. . já que dá sota e ás em tais artes. chave de égua ou pau do ar? Estrugiu grande risota e o salafrário. que ouvi em casa do meu colega da Lapa. deformadas por cinquenta anos de cavaleiro à chuva e à neve.. com certo ar afrontoso para o velhote. mas há medo e medo. enxuto de carnes.Nunca fui capaz de dormir de outra maneira .Não é asnático de todo. Por enquanto não há razões para sustos. Na feira de Tendais era tudo cheio que mais dia. sempre gostava que me esclarecesse numa coisa: qual preferia apanhar pelas pousadeiras. Os Alemães..e apontava para o Augusto.disse o doutor depois duma pausa. vá mobilizando os cabos de ordens. A B. e redarguiu: . Arcaboiço rijo. Manuel Torres sorriu e Simão que ficara estático.O senhor abade é mestre em distinções.C. ria com os dentes todos. e medo receio que lhe levem o cereal e as vaquinhas é outro. disse: . ..? . seu Silvestre! . O Calhorra sorriu novamente mostrando as gengivas muito encarniçadas por debaixo da boa cutelaria da dentuça. amigo Calhorra.. . Mas.e casquinava. olhos em que uma palheta de azul parecia pela mobilidade e ligeireza uma sardanisca. pernas em aduela. e não tome a mal que lho pergunte. lá aprendeu. .. franzindo os lábios. Medo cagaço é um. Temos de resistir aos agressores..Para que vivam? Bonzinhos? . como quem por desleixo abriu um escano que se deve conservar fechado.. uns ou outros dão o salto. Durma em paz. sossegue. Calhorra. só por doença. Mal logo seus lábios delgados se fecharam apressadamente sobre esse sorriso. desdenhoso. por agora não deve estar no plano.. os outros para meterem os tampos dentro à Alemanha.. no intuito de amortecer o apimentado do despropósito.. .Com sobressalto. menos dia. oscilando duma para a outra não obstante a bengala a cuja forquilha de rangífer se encostava. lá sabe. . lá vão.B. . de 18 . Trazia um paletó de montanhaque.Para que viva. ao Norte. que na sua boca nenhum era postiço nem perdido. . cadenilha de oiro a bimbalhar no colete em sinal de festa. Ouvi dizer que está aí quando a gente menos se precata.Quero .Ora.

. podia ser sábio. Prosseguiu o homem: . como se ali estivessem por demais..Você está a caçoar. O que os há-de matar é a soberba. é às rasas.. Descobriram um filão pelo povo acima. ao passo que de boca torcida ia rouquejando: . em Ceiloes ficam todos ricos. sonhei que na nossa tapada há das tais pedras negras e hoje vou para lá com as vacas mais o zagal. . mesmo por debaixo das casas. Também já lá não há velha que deite galinha. grande e pequeno. Maria Aires ia a entremeter-se. Lá andava na cavação. senhor pai. Este cão podia ter tido a sorte de ter dado essa ferroada no meu Vale das Donas. Portugal é pequeno. que há uns anos apanhou a cornada dum boi e ficou a andar de esguelha . tanto monta que fossem seixos como diamantes.Produziu danos. Dia a dia a encher. mas o Calhorra não tinha já escorropichado o filão. Não levou..vossoria deve ter ouvido nomear o Joaquim Fusco. Quer ouvir?.Escorropichado o quê? Sabe-se lá o que está por baixo da terra?! Às vezes dá-se uma ferroada e salta uma panela de libras. se mete a Galiza. arroz.riu-se por lhe parecer maluqueira a tineta do filho e. Pois à hora do almoço o catraio não tinha voltado e foram procurá-lo.Eu sei lá o que este ladrão me levou da leira. Vendo-se assim desfeiteado. Tudo está no se. E o seu olhinho azul chispava. uma vez em marcha. massas. Vem tudo de fora à ponta de bilhestres. mulher. replicava: . 19 .!? Mais valia ter-me ido à tulha que já sabia o que me faltava. Queriam romper adiante. se meu pai me tem ensinado para doutor. mas ele. Açúcar. . O senhor não sabe o que aconteceu aqui perto? Então eu lhe conto: Em Raposeiras do Crasto um rapazote disse para o pai. esburacaram a calçada e atiraram com um ror de casas abaixo.exclamou um capucheiro que se viera critremeter na roda por sua alta recreação e era o velho Cassiano da Urra.. Sou tolo. . Calhorra! Se não sabe o que lhe falta. Sim senhor. Augusto deu um passo à frente com ar respingão.Deus me perdoe.? Os ladrões confessam-se. tendo pulsado com certo respeito o modo feroz como a máquina de cupidez. nem dona de casa que amasse pão. missa a menos. já ninguém pode com a vida deles.banda com a mãe.Olarila? ..Aí é que me dói.Como o filão ia pela calçada acima.. nem arrefenta... .? Manuel Torres sorriu. Levou-me talvez uma fortuna. que era o Calhorra. ao passo que a detinha com um sinal. podia ser grande. posto o Calhorra fosse um velho de cabelos brancos e presidente da junta. sim senhor.. levou-lhe alguma coisa? Logo à simples pergunta se viu o Silvestre Calhorra encrespar-se todo. quando foi à cama chamá-lo para a missa: “. se ainda lá não chegaram. mas hoje falto à missa. nem aquenta. há anos? .Olhe. Que direito tinha ele de o insultar? Manuel Torres com um gesto remeteu-o ao seu lugar. Vieram apurar mais tarde que só naquele meio tempo tinha ajeitado em minério para cima de quinze contos. saída do mais fundo do seu ressentimento. como missa a mais. e trataram de explorá-lo em comunidade. certo domingo. ali pôs-se tudo a trabalhar: homem.” Pai .e a voz de Silvestre Calhorra era gutural. O que tem mais graça é que chegaram de valado até o cemitério. mas por modos o bispo não deu licença que passassem por baixo das campas. Quer vomecê saber. . . se mete a província de Salamanca. havia de subverter quem se lhe atravessasse no caminho. não o tolheu..Está bem.

mas com ar de completa abstracção.O volfrâmio é-lhes vantajoso na guerra. ao que parece. com grande ferro da parentela. o alemão. sim senhor. põem o burro do português de picareta. o Zé Francisco. de grande barrigão e maior febre de enriquecer.E vai subir . ..A como corre o volfro? . . . arrematador de travessas para os Caminhos de Ferro. cabaneiro onde melhor lhe ventava. . olhos garços no anegralhado da tez. Agora.. não se deu ao incómodo de rectificar o arrazoado do homenzinho.perguntou Silvestre Calhorra. Qual.Além de dar uma têmpera especial aos aços.Portugal desta feita fica remediado um par de anos. e ficou a ver o capataz da Sobriga que. Sem o volfrâmio não podiam fazer guerra.. Pagamo-lo a 350 escudos o quilograma.. ao que consta. para mais que nunca para menos. o inglês. do que andam na Tojeira.chalaceou o Urra. Na Sobriga os jornais andam sempre adiantados dez tostões. flexuoso e sorna. que já o automóvel rompia marcha depois de o chauffeur e o capataz se desbarretarem a Manuel Torres em quem tinham farejado pessoa de qualidade. o Reganha da taverna.O Tadeu. . como catalisador na produção da gasolina sintética. que aplicava a si próprio o tonilho: sou filho da fortuna.. Atraídos pela pessoa do senhor doutor tinham-se aproximado mais paroquianos: o José dos Cambais com as suas suíças do tempo das almotolias de barro e a moeda de jarra ao pendurão do colete desabotoado. adiantando-se. o minério havíamos de ser nós a tirá-lo. o que se chama governado. uma algibeira de pedras é um dinheirão. Se tem. .Em nome do Padre. O Reganha esteve calado a ouvir e subitamente botou alarde: . filho bastardo do Fráguas. não acabava de despegar.. que já fora marteleiro na Sobriga. o tanas vêm cá. dizia com arreganho para a rapaziada. o Luís Ougado. Depois.Qual o quê!? . engajador. que ouvira uns e outros. para fazerem a guerra bastava ter unhas. amanhã são capazes de se engalfinharem mesmo aqui em nossa casa para saber quem o leva. e benzeu-se: . .acrescentou Tadeu.Tem algum que queira vender?. topa-a-tudo e frascário de marca que blasonava trazer três ao ganho e não lhe escapar solteira ou casada. . apinhada à volta: Pagamos as horas extraordinárias a dobrar. mas não indispensável emitiu Manuel Torres. o Asdrúbal rico que tinha dinheiro nas lojas de todos os lavradores e emprestava aos famintos pão a quarta. e já é uma sorte pagarem o trabalhinho! 20 .. o Quim da Urra. contratador de “ratinhos” para o Alentejo. neto da extravagância. Está a entrar muita massarocal. com certo ar de não presta nos lábios finos. vendido ali ao balcão a quem mais desse. Agora é a peso de oiro. . do Filho e do Espírito Santo. má rês. chamado à cabeceira do Cota Velho que estava com a morte no gasganete e. utilizam-no os Alemães. e até o Gregório dos Santos. barbeiro de Pedrões da Nave. O Silvestre recuou dois passos. diga lá. ao tempo que punha o carro em andamento.Para ortugal ficar bem. novote e já dado aos sete oficios como o pai.Ingleses e alemães disputam-no como gatos a bofes. sorriu.contestou o Luís Ougado. “à base de separadora”.E alguma escorre para a sua gaveta . cabeça robusta de Sansão. Cachorro de mim! A última palavra fora proferida de arranco como uma golfada de sangue e remorso..

ainda que estragasses mais que Pedro Cem. Manuel Torres. Pode muito bem ser que uns metros abaixo das tuas patas. vá andando. A certa altura. reza. lançaram ao vento paixões e cuidados. .M'amigos. Os amigos ficam.! . Mas ia dando à língua de coisas e loisas sempre com o seu sainete. vomecê se se apanhasse com o baguinho que lhe rendiam hoje as pedras tiradas no Vale das Donas. e viram-no baixar a aba do chapéu contra os raios que lhe batiam nos olhos. vai senão quando. em tom de desprezo e piedade.Tio Calhorra.? .. Volfro há-o onde Deus quer.. .A gente sabe lá o que há por baixo do chão? . tanta que não fosses capaz de a gastar.. És um asno? . No meio da rua. Dizem que trouxe uma carrada.O senhor abade tem boas pernas. . que o Aires fora buscar à quinta do José dos Cambais e vinha a mascar a última bocada de palha... esses 21 . rapazes e moças. mas algum volfro foi e não tive por mal empregados os aguços que paguei .Quer ouvir.Simão Tadeu. para onde quer que se deitem os olhos. Dá-vos para o riso?? Ah. antes de colher. Pois fiquem sabendo que à minha bisavó ouviu minha mãe contar que uma vez passou por aqui um homem e lhe aconteceu tropeçar no caminho. o Luís Ougado proclamava: .. mas reza e baila. Deus é pai de quem lhe dá na real gana?.. Não queremos obrigálo a acertar o passo pelo nosso. duas fèveras de centeio e uma ovelha tinhosa a roê-las. A despeito do esforço que fazia para mover as pernas trôpegas e manter-se com aprumo. haja tanta riqueza.. Largou a trote. meu bolas. entretanto.” . Para acreditar é preciso ter-se a barriga cheia. nem fosse próprio dos seus olhos ver os horizontes em negro.exclamou em tom de galhofia o Quim da Urra.. o que se avista é mato e penedal. ladeado de Silvestre Calhorra. Aldemenos havia de haver cá da melgueira com que arrotam os de Ceifces e da Raposeira! Não me venham dizer que Deus é pai de todos. Sim. não dá laranja. para nós é como se tivesse acabado um mundo. seguiu estrada fora a tomar o fresco dos montes que a ardentia a meio da aldeia era mais sufocante. Agachouse a ver o que era e. meio borracho. Uma vez feitas as despedidas e bifurcado no aparelho.Donde veio a Pêro falar galego? . vá de roda. e ele o que tem é larota. mandava ajeitar a uma pedra a égua rabona. estacou para replicar ao doutor que dissera: “O povo tem fome.. Ninguém o sabe à primeira. Pode crer. muito menos tu que andas no mundo por ver andar os mais. na pessoa do Zé Francisco. Declinava o sol no horizonte. e principiado outro.Vou-me lá com Deus. embora não tivesse a mania de chorar-se. o velho oscilava como um traquitana de molas derrancadas e a sua marcha era incerta e claudicante. perceberam que dizia: Que diabo de terra é esta onde o oiro anda aos pontapés! Armara-se o danço dos romeiros em plena estrada e. precisamente na direcção que o padre tomava. disse para os de Mouramorta. cospe-se às mãos. que trazia a concertina debaixo do braço: . vá de vira. e era agradável ouvir aquele reportório dos tempos. arrastados nos volteios.? O povo reza e baila por força do hábito.observou-lhe o Calhorra. Não vieram mais invernos.Diabos levem a cainheza da nossa terra? Não dá uva.redarguiu o Calhorra. não dá bêberas. vocês do mundo pescam menos que eu de lagares de azeite. O bombo trovejou a chamar o rancho disperso.Não trouxe nenhuma carrada. pelo meio. estava-se marimbando para o bispo! Hem?. mas já não acredita em coisa nenhuma.

mancolitando pela estrada fora. escava 22 . O velho ficou calado um instante. distraído o seu espírito para outro quadrante.Ainda não dei fé dessa pobreza franciscana .. Miguel?! Nessa data é que se tira a prova. A vinte por cento e é para quem tem padrinhos? A Anastácia. do Porto. Você sabe ou não sabe o que há no Santo Antão? .Não sei. Meta na conta aqueles que já lhe vieram bater ao ferrolho e os que estão para bater ah isso tem-no mais certo que as cerejas pelo Espírito Santo e avaliará da precisão que vai por essas casas. porque exclamou de súbito: O amigo Calhorra. o José dos Cambais. . Logo no cimo do povo temos o João Sancho. Temos a Josefina. Aqui está um erro. Sei muito bem o que lá há.. Agora algum haverá. . não quero que haja! apanhou-lhe um quilo de volfro. Depois. cresce erva que se lhe pode meter foice. o mal todo é que há gente a mais nesta terra.. o Sanchonas que não se cansava de fanfar contos de réis e carros de centeio? Vindo pela rua abaixo. isso lhes juro eu. Vendeu quatro cabras e dois carneiros. Que é o que lá há? ..objectou Manuel Torres. Ouvi-lhe a choradeira.olhos assim. onde há aí lavoira que não chegue endividada ao S. Coitado. . se o Corbet se não enganou quando percorreu o morro. palavra. que eu lhe faço o rol dos necessitados. e Manuel Torres volveu: . andou com sorte.. mas o que se chama boa casa. Andaram aí a ele pelas portas este José Francisco. Pois não viu outro remédio senão ir tirar um conto à Manfurada a vinte por cento.Com mais o dinheirito da resina tapou.. Por isso os anos andam falhos de mantimentos. Este ano ainda foi uma felícia o miné rio render. Afora o Asdrúbal rico e. valeu como bichas a quem apanhou uma sova.Há lá volfrâmio a rodos e não é cobertos com a capa do santinho que vocês o hão-de explorar. Manuel Torres talvez não escutasse aqueles conceitos tão simplistas como pitorescos. Temos o Lázaro Fandinga. depois que deram em vacinar a miudagem.? Então ouça. essa. Para cá vêm vocês de carrinho. temos depois a Rita Ougada. seja franco uma vez por todas.que ensopavam tanto a terra que era um regalo ver os nabos e os calondros a emborrachar-se e a pular.Há Há?. sempre lhe digo: os da Fazenda têm a ganchorra dos dedos mais afiada que bico de milhafre. Volfro a rodos não deve lá haver. o mesmo é que o mamposteiro do pai. e areia aqui. por uma sorte. Vendeu o cerrado ao Asdrúbal rico. que possui boa casa. que não perde nada em sê-lo. o Tadeu falou-me para eu ceder à Confraria de Santo Antão o bocado que tenho na encosta. e um tal Leónidas.Teve sorte! . capazes de descobrir um grão de painço nas corgas da lua.Não. Este alma do Diabo levou o bácoro à feira e lá o deixou quando precisava de o cevar para casa que os meninos andam esgorjadinhos. mas foram uns esticados da fome a pagar. Uma malina de tempos a tempos é tão precisa como são precisas as nevadas para matar os musaranhos pelas leiras. Agora repare o senhor doutor. areia acolá. muitos lá ajuntaram com que empalear os tributos. A morcega da filha . Quase ao pé encontramos a Pedralva.. Mesmo assim. . o melhorio do rebanho. e no cemitério.Mas.. Imagine o senhor. este teve que ir pedir ao abade as duas notas que lhe faltavam.

Está dito. Quanto ao que houve ou há na sua leira do Vale das Donas dá-se o mesmo. latidos de rafeiros anunciavam a aproximação dos rebanhos. Começavam a entrar os gados. de lenço amarelo a voeiar do ombro a rubisca da Florinda desacravelhava a cancelinha da sua casa. A sonda é que diz a última palavra. nos ilhéus de maninho. almas idênticas trabalhadas por iguais apetites. Não se encontra outro mais valente e desenganado. E olhe que eu gostava do rapaz. quantas noites não tenho eu levado em claro a magicar: “Silvestre.? . Anoitecia. Ao mesmo tempo.. As donas chamavam as “pilinhas todas” em atraso. o fumo leve das lareiras espraiava-se mole e caprichoso na atmosfera. já que o senhor assim o quer. Quer agora o senhor que lhe perdoe. eram os mesmos padrões e os mesmos corpos brancos e sujos e.Justamente. Ao redor do povo.Trago no estômago. Adeusinho? Sobre a aldeia lôbrega . Era a ária de sempre e não valia a pena contestar. Entendido? O Silvestre Calhorra deitou os olhos em alvo e assim permaneceu um momento. quem sabe lá se aquele pilho te não roubou uma forturia?! Sim. cambado das pernas. 23 .. saltando duma para a outra. nos alqueives de pousio. como um rolho. telha de cano ou colmo adensavam-se as primeiras sombras. e a tilintada das campainhas alagava os caminhos disparados a toda a rosados-ventos. No Santo Antão.aqui.Partamos do princípio que é assim. um penacho rombo e fantástico. você em paga não pensa mais no que o rapaz da Maria Aires foi fazer à sua barreira do Vale das Donas. não passa de suposições. notas gordas de chocalhos.. Também pertenço ao rol dos escaldados. escava além. encontrou o Augusto Alres que esperava.Então elha por elha. Mutatis mutandis. resvés com os alegretes. espacejadamente. a acção do malandrete. . isto é. quem sabe lá”. Mas.. acredite. Mas pregar-ma a mim na menina do olho. com a mãozada democrática. vinte e nove trinta. direito de torso. o que lá vai lá vai? Para mim a sua palavra é palavra de rei. onde se respirava já o rescendor das roseiras e jasmins floridos do pátio. Distraiu-se um segundo dos seus pensares para. lhe dizer: . reverente mas descuidoso. primeiro as vacas. voltando afogueado da canícula à cruzeta formada pela estrada e o braço da alameda. já que assim o quer. pode ser que tire aldemenos com que pague as décimas. considerou que podia imaginar-se. enroscando-se às empenas. vozes de pastor. À entrada da porta que abria à sombra das faias. rebalsando-se por cima dos telhados. um vivente do tempo de Recaredo assistindo ao recolher dum povo visigórico. e então? . Um instante se quedou Manuel Torres a contemplar o velho Silvestre. que seja muito feliz. pronto.? Deixe-me dizer-lhe. amarrotando-se como uma gaze violeta nas ruas e vielas e erguendo além. )ogam-se as raivas ao vento. se atestou as algibeiras. decerto. como se fosse a tombar. proferiu: . apenas onde havia cotim e estopa pondo grã e estanforte.Não caias noutra. torcendo afinal os lábios. estrugiam nas escaleiras de patim a pique os socos ferrados. fia mais fino. Diante da ruazinha que levava a sua casa. Se me mordeu. vinte e nove trinta. despediram-se. Mas. Manuel Torres. tudo por enquanto são suposições. junto do forno. Eu deixo-o ir a você escarduçar à vontade no que é meu do Santo Antão.alvenaria. sem forçar muito a nota.

Os gados entraram nos redis e.noventa e sete anos sempre a pé. com borbotões aqui e além. a vaga montante do pó. Uma voz clamava: os lobos levaram uma ovelha à tia Pedralva! Outra dizia: estramontou o chibo da manada .e a barafunda foi amainando. por minutos. gritos bárbaros: aqueiba! arreta! torna ali. na teima de ainda não querer passar daquela feita as alpodras para o outro mundo. até insular-se no negro silêncio o roncadoiro da agonia do Cota Velho . por último apoiados a uma varinha de marmeleiro . bodum. mocha! inundou becos e quintãs. balidos. 24 .há dois dias a lutar com a morte.

pá e picareta às costas. só lhe convinham. que não havia grandes probabilidades de que o fossem empecer. duma das cavernas tirou o saco com o tesoiro. Podia portanto escavar. das vezes que matou ali o corpo. não era de contar com sotranqueiros a tornar as águas. Àquela altura do ano. estancando as águas da ribeira a montante. ora por moitas e giestais fora. raras saltadas pudera dar ao filão. Algumas deviam ser de volfrâmío e de volfrâmio puro. mas a fugir a encontros passante a Assunção metia-se foicinha aos painços . Aos primeiros livores do arrebol. é verdade. Que o ruído ressoasse nas quebradas. 25 . varapau na axila. de noite. as de domingo para segunda. Tendo assentado proceder sozinho. a horas mortas. estando a fazer três meses que chegara à terra. lhe não apareceu vivalma. Ficava o Vale das Donas numa dobra da planície.alargou o passo. lorgar. Como os texugos quando vão ao assalto das capoeiras. de pé descalço e sete olhos. e só ao sereno pôde estudar o seu carrego. à conta bem feita. espreitava que homens e animais se tomassem de sono em casas e apriscos. foi-se à mina velha. lhes desfalcavam o caudal com que mover os rodízios. Era mau de levar. tenteando-o na ansa do braço. ia acoitar o haver num dos refolhos da mina velha. que bastaria. oprimidos pela estiagem.erguer o dedo para o Quim da Urra se pôr pronto e lesto. maduros os fenos e barbados os milhos. era o que surriplara na leira do Calhorra. faltara-lhe ajuda. surdas uma contra a outra graças ao atilho de giesta. Que levava ali? Ao certo não saberia responder. tais ecos seriam explicados como manobras dos moleiros. a arrombar os açudes que. a avaliar pelo peso e pelo brilho com que acenavam aos olhos suas faces espelhadias. Além do mais. e. entrando às apalpadelas. soçobrada em modorra e no engorgitamento estival. rapar saibro e calhaus. onde nem Deus nem o Diabo seriam capazes de o sonhar. Em tais condições. Calhaus ou pedras finas. E depois de pulsar mais uma vez com os sentidos todos a terra em redondo. quando não eram concretos opacos e ferruginosos como torresmos de forja. Mas repugnava-lhe meter outrem em trabalhos de que ignorava os frutos. e à hora em que nos pauis as próprias rãs enrouquecem a cantar. de modo que podia trabucar tão afoito como um alfaiate em seu sótão. orçando-o depois ao ombro como um alforge. ora a coberto pelo escuro das paredes. tivera de esperar pelas noites de quarto. a bem dizer. se lho perguntassem. extinta há tanto tempo que ninguém no povo se lembrava de a ter visto botar água. destas.II O Aires. E não só não foram. Estava persuadido. Levava pedras. como. cabeça embutida nos ombros. para lá da lomba que agasalha o povo dos ventos de sudoeste. mal a Lua apontou no horizonte. é que ele largava. depois de dar ao corpo riloído nos malhios o repouso do dia santo. rompeu pela leiras de pousio a corta-mato. opressivo como a morte. os grânulos de oiro e verde-salsa incrustados em granito. E. puf. A manhã ainda vinha longe. para veigas e ferregiais. outras encerravam para ele um mistério com as palhetas resplandecentes. semiluminosas o que basta para ao perto se recortar com nitidez desejável o vulto das coisas e ao longe tudo se diluir na intransparente poalha.

Assim o pensava também o Alres e iludia-se. de quem se dizia que estava para nascer quem houvesse de lhe fazer o ninho atrás da orelha. ouviu o moço a requisitória do senhor presidente da junta. formulou a acusação. Fiel à sua táctica: porfiar..O ladrão é mais fino do que eu supunha . Que fazer? Não era homem para esperar a resposta do Santo Breve da Marca. pastorinhos e criados de moleiro. e lavradores mais insofridos a madrugar. depositário da caixa. sem um só momento lhe secar à flor dos lábios o sorriso que contraluz do ditado: medo há Paio. Desta feita o Aires rompeu a rir. O Calhorra conhecia a arte de negar a pés juntos contra Deus e Santa Maria. o moço respingou alto e feio: . se é capaz! Alguém me viu na propriedade do senhor Silvestre? Se há alguém que me visse. Com ar de surpreso. atingir a pobre da mãe que era mulher séria. associando pequenos nadas. embora tivesse pacta com o Demónio. pela simples razão que ninguém me podia ver em sítio onde nunca pus os pés. um pedinte que tinha o costume de dormir pelos montes. Novamente convidado a vir às boas. chamando-o a terreiro. Quem seria. notou que tinham ido esgadanhar à sua leira. na gajice de remar contra a maré. não. intimou-o a prantar para ali o que zarpara se não queria alombar com uma polícia. Deixa. sinal honrado de que o não tinham visto na fazenda do Calhorra. Este. . Agora. que eu já estou amolado! O Calhorra remordeu. eu ainda sou asno maior que vos não botei o cabresto. convidou os presentes a entrarem em sua casa e a passarem uma busca. verdade.fora a dizer para os pacóvios. muito menos. ficou de sobreaviso sem se dar por achado. o raio do velho fez duas viagens à vila para inglês ver. De inculca em inculca. e respondeu: . que eu lhe farei a cama! Por injunção sua o regedor interrogou Pedro e Paulo. fez constar por portas travessas que reunira testemunhos mais que suficientes para meter o Augusto na cadeia. ficou de boca cispada para quem aludia ao 26 . a título de que não queria fazer sangue e. cozido em fel e vinagre. e salta à vista que comeis quanta palha vos caia na manjedoira. a cara do Calhorra estava mesmo a dizer que eram capazes de ir jurar aos Santos Evangelhos pela inocência do acusado. desta assentada julgaram todos que ficava a fazer cruzes na boca. endereçou um volumoso ofício ao administrador que bateu no goro do Reganha taverneiro. Mandou vir um guarda republicano que procedeu a devassas. Não aparece? Pois não aparece. dando a prova como conclusa. dando ao topete e prometendo notícias suas para breve prazo.O Calhorra. transitando subitamente para a indignação. Uma tarde dirigiu-se com dois fabianos a casa do Aires e. ? Vá lá amolar outro.Qual boas nem más! O Calhorra julga que isto é terra de pretos e arma em Gungunhana . coligindo breves sinais. De prova material. desandou amparado ao sacho do cebolinho.Prove o que adianta. Com a encavacação. salamurdos e mais silenciosos que penedos no meio do rio. nem a brocha dum sapato. apareça. Obtido o primeiro efeito. alguns ventos veio finalmente a ter o Silvestre do autor da gambérria. verdade.Vocês não passam duns asnos chapados. pois reza. Deu matéria à falação. Sentindo que perdera a partida naquele tribunal de primeira instância. Os compadres é que não eram da sua força. e. As senhoras testemunhas encabaram as mãos nos bolsos e baixaram a tromba para terra. Riu ao desfastio e. quem não seria. O Aires é que se não tolheu de voltar.. . e não se deixou embair.

menos que uma unha negra. lembrava as partes gagas a que a mãe o obrigara no dia de Nossa Senhora da Lapa. meteu a caminho de Mouramorta. O senhor Severo Bacelar devia por certo lembrar-se do catraio que muitas vezes o apajeara na caça. batesse o pé.” O carro não passou e. nem um ceitil espremera à Fazenda. é do engenheiro Severo Bacelar. ou do Antoninho Fráguas. sinal de que ia estalar o látego . Para tanto. Tal não era o caso. como o ar. cantil e bornal a tiracolo ou coelhos e o seu lebrão à dependura do pau. que Deus manda por igual a todos? Sim. Além do mais que houvesse costeado precipício. foguetório em dia de festa. Repeso do que fizera. E com enfado. a estrada desenvolvia-se em perfeita chapada num galão inquebrantável.e a simplória de sua mãe caiu na ariosca. malucou no problema. quando à falta de gasolina a maior parte dos automóveis jaziam de baterias descarregadas suspensos sobre matacões. com a imaginação alvoroçada pelas histórias maravilhosas do volfrâmio. mas nem sempre os seus preceitos se ajustavam ao critério da gente honrada. Pelo menos não se justificava a recomendação sem que da sua parte existissem. e nem o cairel entrevira. A lei era a lei. o rumor dum automóvel que descia a costeira de Tendais.caso. dois quilómetros andados de pendor. chiada de eixo. ano após ano que viera a férias. Ali estava como o cão do Calhorra conseguira levar a água ao seu moinho. que rumo tomar? Todo o dia de sábado. desprovido de senhorio como o sol. Era ela. era preciso que “ aquela” estivesse acabada e começava. Era a uns seis quilómetros de lonjura. rosnasse. se não remorsos. aprontando-se em menos de nada. pelo abrupto e articulação às serranias que esteiam o rio. não havia de ser de toda a gente. era-lhe totalmente indiferente que o Calhorra rangesse os dentes. Farta de o ralar e de ralar-se. chegara-lhe aos ouvidos. ressoando muito mais ao largo. Agora o “não caias noutra” era outra ária. mas a onda sonora ultrapassava Malhadas. à relha como ao alvião. 27 . como a chuva. Deus lhe perdoasse! Lá que o doutor atafulhasse a boca do mamposteiro com o trancanaz do Santo Antão. é que fica em Mouramorta. tanto mais que o estrago que dera pagava-o um chavo galego e ainda recebia troco. Privilégios como aqueles estavam riscados da sua cartilha. mal apeou o Dr. tão bem defesc. Manuel Torres em Malhadas. com o vento que soprava de feição. ao passo que replantava a horta do Casal. arremeter após breve torcicolo pela encosta sobre que assenta Tendais do Palva. com o qual o dono da terra nunca contara. Pois porque é que o minério. Sobre a tarde. Sentindo o motor. era um cantar. amargos de boca. a grande caixa sonora que alagava a planície com seus barulhos e motins: petardear de motor. não entrava por coisíssima nenhuma no seu valor imobiliário. Dali até Mouramorta. E ninguém melhor do que ele o encaminharia na barganha do volfrâmio. e muito longe de propósito. quando já tinha disposto as últimas couves. Por consequencia. deu com os burrinhos na água. que estava soterrado debaixo do solo arável talvez a muitos metros de fundura. desvendando a tramóia. a lei parece que atribuía certos direitos ao Calhorra apenas pelo facto de o filão passar no subsolo da sua fazenda. Tratava-se de coisa comum: como tal pertenceria ao primeiro que lhe pusesse a mão. por outra. Inflectia ao mergulhar em Rabaçais para. Arrumada a pendença da banda do Calhorra. disse para consigo e para com Deus: “Se não passar dentro de dez minutos. não destituído de azedume. Se fica em Mouramorta.

Tropeça aqui. voltou para Malhadas. maviosa sem deixar de ter uma pontinha de travessa. ora a pés enxutos.dissera o Padre Eterno se o Mestre da Vida não mentia. Deu-lhe baque o coração e escondeu-se. ora entreticio com Teodora. O suor que lhe merujava as fontes e as espáduas era portanto de lei. o Zé Francisco. o zorro. lobrigou o Fráguas que subia uma das canadas que por entre pinhais vão dar à ribeira. afocinha além. e nem se deu ao incómodo de enxotá-los. As paredes. Vinha a cavalo e ao lado. depois de ceia. Neste intuito. Irene. a enormidade do fardo lhe era leve. mas ânimo? Regarás a terra com o suor do teu rosto . e ali ia. Ora repassando aquele brequefesta de sexta-feira da Assunção. boa estrela o guiara. lamentando apenas não haver tomado mais cedo semelhante resolução. duas febras ao presunto. A dúvida está em meu pai. quando não eram daquelas que. saiu de casa. direito à Sobriga com aquele horror de carga às costas. De facto os calhaus pesavam mais que o esquife quando agravado com um defunto. escorrega ali. tão indiferente a tudo o que não fosse o seu carrocel como refractário aos medos e fantasmas que a imaginação a cada passo condensa no escuro duma giesta mais esquipática. Augusto.Vá à Sobriga. que o tempo podia conjurar-se contra ele. provavelmente para dali seguir para S. Se não queria ficar empulhado tinha que se despachar. ora molhado. pé ante pé. norteando-se pelos oiteiros que lhe eram familiares e estavam inscritos na sua retina como melhor não estariam nos mapas. que por sinal estacionava diante da taverna. como se ali fosse em pessoa. que encontra lá o senhor engenheiro. se propunham chamar um dos práticos do senhor Corbet. Iria às minas. Pelo que ouviu e ainda mais pelo que lhe foi lícito adivinhar. fora o Antoninho Fráguas. Ia entretido com a feira interior. entrepostas como rendas de courela para courela. Nas abas duma almuinha saltaram-lhe os sabujos à frente. muito raramente pelas pontes. que viera em pessoa atendê-lo. Mais de uma vez se acaçapou até se esvair na terra fofa das almargens o tamanco do guardão de meloais. nada lhe fazia torcer caminho. Quem chegara de carro. Ouviu sem arrepios os lobos uivarem para os cerros fronteiros a darem senha da sua passagem. fugiam-lhe da boca pragas que faziam tremer os santos nos altares. Os corgos lá os ia atravessando como lhe era possível. a senhora D. ermos ou bosques. Na noite de domingo. A tia de Severo. Mato ou restolhal. ficou a saber que tinham ido em prospecção à leira do Calhorra no Vale das Donas e que. escalava-as e toca em frente. do pio do mocho. a voz de Teodora. Estava inteirado. No arraial que armara dentro do seu selo. Deixou-os desaparecer na ladeira e meteu para Malhadas. sobrepunha-se a todas as outras: . e altas horas. dissera: . incertos quanto à Importância do jazigo. Brás. que é relho e terrabinto. cortou uma borda ao pão. Anda muito atarefado com a montagem da segunda lavaria e já o domingo passado não veio a casa. Marchava pela estimativa. tal como lhe toava ao ouvido. se deitam abaixo com uma patada. acabou-se. Afinal. nada mais que da brasa semimorta que o folezinho da aragem aviventou no deserto de cinzas das queimadas.Bem sabes que em nós não é que está a dúvida. Noutro dia tornou-se-me a sair com a ladainha: “Quando o mariposo lavrar quarenta pousadas e colher um carro 28 . A certa altura do caminho. à pata.Mas andava com azar. para não acordar a mãe que escusava de conhecer as suas aventuras. tupa que tupa.

porque. que a sua sensibilidade vibrava. lanchuda. é verdade. Antes. remedando-o . afinal. na vastidão cinérea do mato galego. o mar cor de creme era a terra vazada dos desmontes. se assim não fosse. Mas o filho. antes de mais nada para os homens se chacinarem civilizadamente. e der à tosquia dez ovelhas. Mas tratando-se de ingleses e de alemães. era-lhe indiferente como a água dos rios que caminhava para o mar. espécie muito afastada dos capucheiros da serra. encomendas das lojas. normalmente uns felizardos. E ante o ar de ferocidade que se evolava da tenebrosa fábrica. a lavaria. O que o sobressaltava à vista daquela metrópole de escava-terras era ainda e sempre o motivo pessoal. que te venha buscar. já nem contava as notas. menino! escarneciam dele. haviam os escrivaes de borrar muita folha de papel selado. com a bolsinha pendurada do pau ou do pulso. que lhe dêem lã para uma capucha e dois pares de coturnos. Do picoto daqueles autênticos paranhos do Diabo distinguiu afinal a Sobríga com barracas e instalações semeadas. O Fráguas. à noite e dia e às sombras dos caminhos. entre a ramalheira negra dos pinhais. maciça como torre feudal. pintada a breu. que é o comum para a mantença duma pessoa que tem os dentes todos. Para que um dia chegasse à escudela. entrou no braço de estrada que conduzia à exploração. sem um lezim com húmus para que pudesse vingar raiz de sarça ou de codesco?? Com semelhante piso a marcha era escabrosa e titubeante. pesava-as na balança. podia tratar doutra vida que o Cambais sonhava apenas com dinheiro -dinheirinho. se não ajustar-se. tão outro dos agros mansíssimos que alimentam desde o princípio do mundo a aldeia e a cidade. senão babau. que deixou à mão esquerda cortando decididamente a poente pela serrania escalvada. que. Ao fim do primeiro estirão. mas fraga solta. nem num andor. à dinheirama que lhe entrava pela janela. a mole alterosa. como ele.” Conhecia-lhe a doutrina. Que levava ali em derradeira análise? A taluda ou artigo de entremez? Foi neste estado de espírito. De caminhos afluentes desembocavam mulheres com cestos à cabeça ou o seu molho de tangos. corri estranheza percorriam seus olhos o panorama truculento. e entrevia-se nelas estas criaturas plurais que forjicam o bazulaque às maltas. uma almotolia. Foi-lhe amanhecer no termo de Covelo. da banda de lá da qual ficavam as Minas. não era por causa da saúde de tal gente. baixando da serra. a sua simpatia humana não alcançava tão longe. Na qualidade de camponês do tempo das Sesmarias. A todo o fundo. Poisando o saco.ganho não importa de que maneira. quase seres doutro planeta. homens mais andrajosos que ele no fito de retomar o trabalho. puxou do farnel. mesmo de trabuco na quadrilha do Olho Vivo.de milho e três rasas de feijão. a tropos-galhopos uma sobre a outra. pouco mais adiantado estava. tisnado pela canícula. Ainda bem. nem sinal de pascerem por ali os gados. dum negro impressionante. uma vez que nascera fora do curral. por baixo da sua inquietude uma voz inquiria: era aquilo preciso? Parece que sim. e o destino dessas nações prósperas e de seus naturais. Era uma felicidade que em negócio de teres o Zé Francisco chamasse seus. Enquanto dava ao denre. Que haviam eles de comer naquele pedregulhal espesso. nem rocha viva. 29 . tinha os pés macerados como se acabasse de fazer jornada de muitas léguas. Por ele fora marchavam isolados e em bandos. Não se descortinava caminho nem atalho. quase cobardia. nem penedia.

por um dos quais rolavam vagonetas. saia colhida entre os joelhos para a água não esperrinchar pelas pernas acima. 30 .pessoal complexo. por outros ia e vinha o pessoal particular dos engenheiros e agentes técnicos. Rapazotes. andando. com boinas de homem. levava um banco de pedra e saibro à ponta-de ferro e picareta. de parte duma pessoa de Mouramorta. testo e sabido na manobra. Até bem longe. pés descalços. Enquanto esperava. Não obstante. e ainda a tasqueira que abriu à margem da mina a baiuca de vinho.as lavam e remendam. passos adiante. das bandas do mar. Crispados às varas dos sarilhos. com as vivendas muito senhoris e claras à retaguarda de pequenas platibandas enfeitadas de pelargónios e eloendros. Perto dali. sernibárbaro e feroz. enquanto a outros incumbia carregar os tiros de pólvora bombardeira. Aqui e além trabalhadores brocavam a rocha. Era uma ruivita. e logo esse montão de cascalho passava através da passadeira rolante para as mandíbulas de aço dos trituradores. quinhentos a mil metros. a carne tenra a espreitar das camisas cheias de surro e em frangalhos. escombreiros. petiscos e o resto. E. o dínamo pulsava e a sua pancada mate. mineiros de guilho e marreta. chegou a um dédalo de caminhos. que se exercia a actividade capital da mina. não como assalariado. bombas eléctricas e manuais a sorver a água dos regueirões. desprendendo uma barulheira a que era como abóbada o zunzum infernal dos volantes que se não viam. do retinir das ferramentas e estreloiçar das vagonas e raposas. para o morro. Girava tudo. uma rapariga manejava a bateia e ia cantando: ó meu amor não embarques. foi-se mais e mais possuindo da fereza e prodígio do espectáculo. braços arremangados. Mais ao largo. mas bem torneadas. Agora não é maré. repartido em turmas consoante a natureza das tarefas. Por cima dos gritos. À superfície era como um arraial. homem e máquina conjugados. homens e mais homens à carga e à descarga . doce ao tacto e maravilhosa de propriedades. cigarros. As vagonas descarregavam o recheio da ribanceira para baixo. descobriu-se o formigueiro humano a seus olhos admirados. a ritmo acelerado: homens e máquinas. O Aires conhecia a Sobriga. e outra. não deixou de estremecer de assombramento à ideia da obra de magia que ali se consumava: o calhau intonso convertido em farinha mineral. Era subterrânea. ao passar à beira da lavaria. pernas vermelhas de perdiz. grande caterva de homens abria uma trincheira. muitos extraíam o resulho dos poços ou enxugavam-lhes a água para o trabalho prosseguir eficazmente. se calhasse. altas e cegas. com uma caradura brutesca em suas paredes a pique. e os olhos do Aires ficaram enlevados nela. e ensurdecedora criava este tónus especial. ao salvar a corcova do terreno. mas das rapiocas e visitas que ali fizera com outros curiosos. provavelmente empreitada. mulheres que lavavam a terra mineralizada ao ar livre e debaixo de telheiros. vinham baldear no monte o carrinho atestado de calhaus em que coruscavam com o sol as pirites e palhetas de volframina. sem cor à força de usadas. da indústria moderna. Andando. à boca dum poço. ou afigurou-se-lhe. se via gente. em que estava integrado o transportador. comandos. com revólveres de ar comprimido a demolir o quartzo. Foi direito à Direcção e pediu para falar ao senhor engenheiro Severo Bacelar. falas desencontradas. piquetes de entivadores especializados a escorar as galerias. Espera lá um poucachinho Que me hei-de sentar à ré. por vezes a dezenas de metros de profundidade.

Bem.. pela larga porta entreaberta.. desejava que o senhor engenheiro as visse . V.Foi. Ao vê-lo com o saco franziu o sobrolho. meteu-o debaixo do braço. sopesou-a na palma da mão: . nem à segunda. O que é. ? Em que sítio? . rotulados a capricho. dois andares.disse com menos grata disposição. sim. não é para vender. pregado na parede. que aproximou mais da vista. . repetindo-se o lance: . mesmo filão? . zás. Acabaram por remetê-lo para o primeiro andar. Tornou a aproximar dos olhos a pedra espelhadia e irradiante. mirou dum lado. uma espampanante star erguia a perna e derretia-se num beijo que mandava com as pontas dos dedos a quem punha os olhos nela. em vez de levá-lo às costas.. . .Mas hás-de te despachar que não tenho um minuto a perder. Ex. A uma escrevaninha estava sentado o engenheiro Severo Bacelar. Pareceu-lhe que o engenheiro ficara contente com vê-lo porque pronunciou de ar amável e tratando-o com familiaridade: Havemos de ir às lebres.Este ano há caça a dar com um pau. Trago aqui umas pedras. a marca o dia e. nó cego.balbuciou apontando o saco. segunda porta à esquerda.Está bem. puxou a contrária e.Sim. finalmente. mas como não cedesse à primeira. Mal apanhou o saco aberto.. depois de examiná-la mais instantaneamente que o farpar da víbora. Então que te traz por cá? Se é para venderes minério. É no baldio? 31 . . e fitando o Alres proferiu: . não é comigo.Sou. desata lá. vinte e oito a trinta anos.. misto de estação do caminho-de-ferro e repartição pública de vilória sertaneja. .No Vale das Donas...Estou a ver o lugar. No calendário. Com a febre de ser rápido. teimou em levar o saco. Eu mando ensinar-te onde é.. o que lhe exigiu um esforço descomunal. camisola à requeté.Não presta? Não presta? Não presta! Uma houve. Bacelar introduziu a mão.Tu não és o Aires. Do vestíbulo. mas breve mudou de parecer ao afirmar-se nele: . por cima da mesa atravancada por diversos utensílios da escrituração e frascos com amostras de minério. mirou doutro.A Direcção era uma casa de madeira.Foi arrancada no lugar das outras? ..É volfrâmio.Não senhor. quando acabar o defeso.. Virei aí algumas lebres. eu te direi. para atenuar a rebeldia. . Erribora lhe houvessem dito que ali não era balcão de vendas. que também lançou fora: . .. .? Estás homem.. tirou uma pedra e.No mesmo. e o cordel ainda que grosso deu estoiro. . senhor. arrancou. jogou-a para o lado: . cabelo em ouriço. meteu o dedo. O filão é em Malhadas. ao passo que ouvia o tep-tep duma máquina de escrever sem lobrigar quem a manejava. em vez de puxar a adequada ponta do nagalho. Andam por lá muitas brochas dos meus sapatos. O engenheiro riu-se: boa vai ela! Quis desfazer o nó.. Agora já levas escopeta.Não presta? Fazia esta manobra com incrível velocidade.Não presta? Tirou segunda. enxergou mais de quantos escriturários dobrados sobre as papeletas..

se lhe seguia os movimentos. . que mesmo assim virou e remexeu em duas voltas de mão. não tinha mais que meter a viola no saco. administradorgeral. foi ele próprio tirando as pedras com a rapidez de há pouco.Para o nosso caso isso tem pouca importância .Dado que nos interessasse. olhar de nebri. Severo aprumou-se e aguardou... depois de se referir com admiração à bela ruína de valentia e destreza que era o Calhorra. Era homem dos diabos! O Augusto Aires. suas bostelas de verde fúlgido. espingarda a tiracolo. dir-se-ia. e possessiva e gostosamente pôs-se a malucar na situação. debaixo dos olhos de Hincker e em linha regimental. devidamente indemnizado. tanto o associamos como.Não. Aires teve palpite que estava diante do senhor Hincker. negros retintos. abstracto para tudo. falou da tineta que tivera de lhe ir cavar na fazenda arrostando com as suas reservas e má vontade.. por nada deste mundo denotava preocupar-se com os seixos que cresciam em monte à sua banda. supondo aventurosamente o seu chefe empanne de vocabulário. chamada pelo que se passava na ribanceira. enunciando o termo estereotipado para esta classe de negócios. suas sardas ferruginosas. acabou por se lembrar das palavras que surpreendera entre o Fráguas e o filho e pareceu-lhe 32 . O bazarugo porém. concessionário das Minas da Sobriga. Tirava-as e ia deitando umas ao chão.? Vi-o em Tendais há poucos dias.retribuímos . de cabelo em sedeiro. ou lá o que era. só deixando um rebotalho no fundo. Depois de esvaziar o saco com agilidade... Coitado. pondo outras em cima da mesa. e o nosso Calhorra.exclamou Bacelar ao passo que caminhava para a sala ao lado. proferiu com certo peremptório. a rir-se e a faiscar em suas manchas de oiro. .. quase nenhum cabelo na cabeça reboliça e cor-de-rosa. Sentado à secretária estava um importante figurão. Aires. de copo bebido de dois tragos. Não há registo? Torcendo os lábios e meneando a cabeça negativamente.retríbuímos a descoberta. camaradescamente.Quer-nos ir mostrar o sítio donde extraiu estas partículas de tungsténio? Se quer e nos agradar. Alres ficou sozinho. mas irrepreensível: .Do Calhora velho. Hincker mal lhes dardejou um olhar e. em linguagem levemente matraqueada. depois olhou pela janela e distraiu-se com o que via. as pernas dele fazem um arco de ponte cada vez maior. uma a uma. manifestou Bacelar a persuasão de que não devia haver registo. aquele doutor das engenharias. pô-lo em terra e. pescoço de várias e rubras regueifas.. a atenção..dizia-lhe Bacelar. grandes óculos com aros de tartaruga campudos como rodas de carro. gordo.Traz também o saco . naturalmente para que pudesse vê-Ias e observá-las. . . . levantando-se e aproximando-se do Aires. e estava em crer o seu negócio bem parado. . nédio. por último voltou à sua taleiga. é numa leira do Calhorra. Era o mesmo simpaticíssimo homem.interpôs Bacelar. que ficara perplexo. .. Severo safou o saco das mãos do Aires. mas agora em silêncio. Estavam na mesa uma meia dú zia de calhauzinhos brilhantes. engenheiro chefe. pagaríamos o estrago. sobre o balcão das tavernas.. Que iria ele fazer lá para dentro com a pedra na mão? E foi um pouco atarantado com as perspectivas que se lhe entremostravam que correspondeu ao aceno que lhe faziam da sala contígua.

De manhã. já hoje estive com a tiazinha de V. o chão parecia chamuscado. Quilómetro 70. Pois se assim é e o agente de mister Corbet anda a rondar. Ex. picada aqui e ali dos toros verdes das canas. . Iam a sair. Aires quedou à porta da Direcção. alto. pastores e ovelhinhas pelas rampas.a. Bem. Eu já te chamo. 33 . Depois do quê. mas sem retina para fixar coisa alguma. e mais de espaço os quilómetros 65. Quando se acomodou entre as pás e alavancas. A saída do delta de caminhos. uma ermida. três horas. não mais largo que uma fita de máquina de escrever.. espraiando olhos por tudo.. Chauffeur. giestas negrais. pelo fresco.. escurentado ao sumir-se debaixo da terra.prudente não se calar com elas... percutiram as picaretas e os grandes ferros pontiagudos e. suspenderam-se à entrada da curva sobranceira ao vale.Descansa.Que resolve o senhor Augusto hesitou um nada à procura de palavras que traduzissem o seu pensamento e disse.Cumprimentos. largaram. vamos lá em acelerado. Franz Hincker e Severo. seres danados sabujos da serra que arremetem investidos de quanto rancor aflige os que andam à pata. é um passeio. desvanecida à maneira de placa fotográfica já focada. Ali esteve um quarto de hora. Um carro reluzente de cristais e cromados trepidava na meia rotunda. Fui lá medir umas rendas. se não merecer. .. não corremos a lebre. encontraram a fazendinha do Calhorra. um poviléu e a sua coroa de palheiros ao alto. Bacelar disse: . 71. Reparando no ar embaraçado de Augusto. passava direito como o sulco que deixa na água a quereria dum batel vítreo aqui pelo lavar das chuvas. Ficam à tua ordem. ó Bacelar.. quando deu conta que do largo fronteiro à casa das máquinas Severo lhe fazia sinal. Mal subiram. Hincker volveu para Aires: . vinte minutos. um nicho de alrrias . precipitou-se de dentro em mangas de camisa. você não pode guardar para depois do almoço o que tem a fazer e damos lá um salto agora de manhã? Em duas. 67. insulações monásticas os bosques num fundo de ascese e desespero. Saltaram a cumeada da Sobriga.. Rebanhos de carneiros pequeninos mondavam pelas leiras e rabugem que germinara com as águas de trovoada. Em plena massa plutónica o veio de quartzo. Perante tal revelação engenheiro e concessionário trocaram um breve diálogo em língua de que não penetrou patavina. face às vivendas. Uma sachola limpou o corte.. A menos de cem passos. depois casais meio dormentes.perguntou Severo. que já conhecia o carro. ao quilómetro 74 pára-se. Ele. Um arrancão e. E despediu atrás de Hincker. . mais poviléus com galinhas espavoridas e cães.. estudaram o filão. enquanto os homens despiam as véstias e aprestavam as ferramentas. cor-de-rosa além.Não garanto. 68. e pulou. 66..Tentemos. restolho e matiço. amigo Jerónimo? . muito que bem.. já Hincker e Bacelar desapareciam na curva. com pinheiros oprimidos pelo temporal. Se merecer a pena.e sempre os hectómetros pula que pula com a imprevista brusquidão de bonecos do pimpampum. outro automóvel aguardava com operários e ferramentas. Depende. como você diz? . e baldearam-no para ele sem grande cerimônia. varre-se dali o sentido. o máximo. com a eminência sarjada tão de fresco que dava ideia de escorrer sangue. com o senhor Hincker repimpado e fumando o seu charuto.Como estão em minha casa.. as pedras ninguém tas rouba. Em Mouramorta estacaram à porta do Jerónimo. apontando Bacelar: O que o senhor engenheiro fizer está bem feito. Terra da meseta plana e taciturna: espinhaços de cão os oiteiros..

há uma nascente .ó Mabília. e Pedro. Tendo-se por inteirado. E lá iam levados a passo de carga pela resteva .roto o banco de granito em seus folheados e lezins. Canícula. nem uma feira franca. Entretanto que a pesquisa tomava amplitude. descalça. outros de roçadoira. . forneceu a mesma mistura de arsenopirite e sulfureto de ferro com a proporção equivalente de volfrâmio. deitando outras fora. meio nus. trazidos ao acaso. O capataz e Aires trataram. Depois avançaram os zagais.disse o Aires. deixavam ir o carro à mercê dos bois.que batera a hora do almoço quando lhes saiu pela frente o Silvestre Calhorra. de todo anacrónicos e sem dignidade para o tempo dos camiões.. embora com suspicaz sonsice.O que lhe havíamos de dar era lume a beber? . Severo mandou medir. depois de breve troca de impressões com Hincker.Lá em baixo. que não podiam deixar. como sempre. pondo tais e tais de remissa. de apartar o minério. 34 . entretanto. estendendo o braço a apontar. O homem ficara parado. corre.A Mabília chega à fonte. pessoal das resinas e gadanheiros. . lhe dessem um gole de água. conglutinadas de cassiterite e mispíquel. mas via-se que fora pôr a samarra de montanhaque por contrastar com a camisa enxovalhada e as calças de cote e. Secou . boquiaberto. Em menos de nada ajuntava-se no chão a bicheza toda da aldeola: descalços e em mangas de camisa aqueles que a novidade surpreendera a virar a tigela do caldo. a poupa tocava-lhe cornetim. mordidos por saber. E a tanto alvoroço. a ganga estoirou e foise fragmentando em estilhas multicores. Mas já Severo chamava o piquete a abrir passos adiante nova sanja. à sua beira: . estremando umas pedras. Era o comum dos jazigos metalíferos da região e Hincker e o engenheiro foram percorrer os campos à roda.bravejou uma velhota. arrimado ao sachinho.advertiu a velha. por especial favor. de ir observar e meter o bedelho. Caía um sol de rachar. ramelosa e esguedelhada. Um deles pediu que. com a sua percentagem de tungstato de ferro e manganésio. que acrescentou de seguida para uma pequena. uns de enxada. aos saltos que nem saguis. A segunda trincheira. ao pé dos penedos. As cigarras nos urgueirais erguiam uma cantara destemperada. mais Paulo. satisfeita com a ardentia. cavada à lufa-lufa debaixo da vista da gentiaga que engrossara e apertava cada vez mais a roda.. com uma capuchinha de menino não maior que o capelo dos gabinardos. frigidas pelas moscas. Vá. Mais de uma vez os pesquisadores tinham enxugado o suor da testa às costas das mãos. idas e vindas. vozes. até se alapardarem à boca da escavação. com a sua roga de serradores. Hincker veio acocorar-se ao lado deles. aguilhada em punho os lavradores que. que era homem de curiosidade imediata. vai tu buscar uma cantarinha de água. oscilava de perna para perna. o Zé dos Cambais. de chapelão e calças de estopa os que andavam pelas eiras na debulha dos painços. sucessivamente. com as pilecas a bater a ferradura e a esgrimir a cauda. Dois homens encarregaram-se da fita métrica enquanto um terceiro de caderno em punho ia tomando nota. que se postou desconfiado e quieto como um raposo por detrás duma giesta. e até almocreves. Trazia o seu velho barrete de caçador de lontras. Apareceu primeiro o velho Cassiano da Urra. Não longe. mulher? Uma sede de água dá-se até ao diabo do inferno. . afluía o gentio. a molhar com a língua os lábios abrasidos.

se fosse de escopeta atrás das ruças. Toca para a frente... Ninguém lha rouba. . Mas entre nós não há azar..? Entramos no que é seu.Olá... Palpitando de salto o que ocorria. . meu caro.Vossemecês saíram duma terra que é minha e estão agora a pisar outra que também o é. À voz mais áspera do Calhorra convergiu para ali todo o peso do gentio. Hoje estou aqui por obrigação. ou perdi-lhe a posse.Vem errado? Bata além àquela porta.É verdade . se eu consentir. É então o dono? Pois tenho multa honra em cumprimentar o senhor proprietário .Toca para a frente! . mas agora num aparato destes.tornou ao cabo dum momento de circunspecção. que não era fingido.Ora para que vivarn! . encolhendo os ombros. .. mas vão levando as túberas. Se não fosse assim. mas os senhores e que não contaram com ela. lá foi onde lhe indicavam.Sou o dono deste chão. mas há volfro. O chão cá lhe fica. achando jeito. sem embargo do tropeção. e já o seu interlocutor recargava vitorioso: ..Pois sim. de se atravessar na linha que seguiam os dois mensuradores. diamantes.. o engenheiro dirigiu-se ao Calhorra: .? proferiu silvando. e alertados por tal movimento apressaram-se a voltar do oiteiro próximo. pariu aqui a galega? . andaram a cavar na nossa leira e tiraram muito volfro. que eu saiba. Pernas em acluela. O prático.Salvou como rezava a sua cartilha de homem bem-educado e importante: . . com uma topetada de cabeça remeteu-o para Hincker. 35 .repetiu o Calhorra em voz repicada de furor e espremendo as palavras. Mas o apontador gritou para o que pegava à ponta da fita: ....regougou o Calhorra.e apontava o Aires com um desdém... como os militares em diligência. Estava longe de o supor aqui? Homens. onde tinham ido em prospecção.. . está a ouvir? . sem dar cavaco. estimo. derretendo-se em amenidade. Severo e Aires. a sua parte é sagrada.. mas haja ele cá oiro. E quem lhes deu licença? A pergunta dirigia-se a eles por inclusão de partes e os homens ficaram um segundo interditos diante do rompante do jarreta. Uma mocita feia e suja veio a correr para ele: .. meu amigo.Descanse que é indemnizado do prejuízo que se lhe der.Viva lá? . Não lhe perdi a posse. Tiraram muito volfro?? . olá! Então riiinho.É da lei. prata. repousando numa para se estribar na outra..Não me consta que cá no meu terrunho haja oiro ou prata..Não senhor.E a saúde do senhor engenheiro boa? Estimo. hem. estimo ouvi-lo. . ao passo que rosnava: .Senhor avô.respondeu Hincker.... Hornens! . . sim. como se haviam de reconhecer os jazigos filonianos? O Calhorra pareceu um tanto desconcertado perante razões que apreendia apenas pela rama. mas aduela de grande bojo.Toca para a frente?!.Para que são as meças. não lhe perdeu a posse.Tanta gente. Antes deste pendente . amigo e senhor Silvestre.? ..? Os três homens continuaram na sua.

Não haver uma tranca bem mandada que desanque um para exemplo? Onde está a lei que autoriza.Vejam o desaforo? já uma pessoa não é senhora do que é seu. a uma distância de 270 metros. mas depressa reagiu.Olhe.Tu vens roubar com os de fora. Fez aquela promessa com tanta franqueza e sinceridade que o velho enterneceu-se e disse: .Esta e aquela são do senhor Silvestre Calhorra. não obs tante se futurar pela hesitação que o dedo dunguinha lhe advertia ser melindroso fazê-lo: . contra o atalho de pé posto.? . Tua mãe foi apanhada uma noite com um amigo a assaltar a tulha da Javarda Velha. Dado que assim seja. cobrando o natural: .. de trabucos aperrados à boca da urna: Silvestre. Tens a quem sair. avançava para o Luís Ougado que recuava trémulo e de caradura torva diante das suas mãos crispadas. pateou o outro! Deus lhe fale na alma. Algum minério apurei. faz costas comigo.. o Aires julgou-se obrigado a intervir. não sei ainda o que vamos fazer. O proprietário daquele chão. Venho aqui à luz do dia. tal filho? O Severinho não lhe herdou só os bens. como se faz em toda a parte.De quem é.. Quem risca é o senhor Hincker. .Tal pai. Estou a vê-lo na eleição danada que sustentámos contra os de S. Em virtude do silêncio que se congelava num tal concurso de pessoas. que os bebeste de leite. aqui presente. cadelo? O Aires. Teu avô fazia parte da quadrilha que assaltou a quinta do Ferro. Levantando os olhos do papel volveu: . . Brás. . Onde um patear.Mas estacou?? . O Augusto Aires ficou um instante entupido.. toca a virar a terra de baixo para riba. Sim.e espremia uma lágrima. com.Hábitos de ladrão tens tu. Vêm estes ladrões lá dos quintos e toca a devassar.observou Severo com afabilidade.supremo remolhado de ódio ..Tia Polónia Fandinga.. e ainda queres que te peguem na candela?! O que tu precisavas sei eu. Dou-lhe a minha palavra. perdi ali o meu grande amigo? . herdou-lhe as maneiras e a “ária”.. Minha não é. num crescente de cólera. sita ao Vale das Donas.Temos: ponto de partida é a trincheira que se vê muma terra lavradia de Silvestre Calhorra.. se compungida. Não ouviram? O apontador tomou nota. uma mulheraça ruiva que era caseira do Fráguas: . .respondeu o nomeado.tornou o apontador... Luís Ougado? . Confronta pelo sul. e tu chamas a isto roubar?? Se eu te rebentasse a alma. o amigo não há-de ter razões de queixa. meu homem. como se chama? Premaneceram todos calados.Ninguém sabe o nome do proprietário? . ouviu-se murmurar no meio do monte de gente a voz da Ana Ruça. mataram-no os desgostos! Perdi.Sei lá. já eu tinha dado no vinte. dificil de dizer se artificial. Os homens da fita vieram para Severo: como se chamavam os homens das sortes? . lá em baixo. surgiu de rainha Santa Isabel: 36 . Mas uma rapariga.aqui andar a ciscar.Raios te pelem! . toda lépida e espevitada. Depois. de quem é a terra? . é provável. É provável que experimentemos o filão.

. .A leira é de minha mãe.Se lhe dissesse que se chamava com o apito. mas a Pedralvita.Podia-me ter botado a adivinhar . . o que por inverosímil trairia a sua má vontade. o Calhorra.respondeu o homem desejoso de mostrar graça.. elha por elha. Diga lá o nome dela. Cipriano. considero que lhe será menos penoso arrancar-se hoje ao remanso da sua tebaida que ter amanhã. Se a filha é flor como é que a mãe não havia de ser Rosa??. O homem do caderno debalde esperava que lhe dessem os nomes dos proprietários confinantes. procurava esclarecer a turba: 37 .Não me admiraria nada . Hincker. segundo é notório. S. manhosamente. indicou-lhe com um leve sinal de cabeça uma velhota. . Manuel Torres o faceto S.perguntou-lhe o homem do lápis. além de compreensivo.proferiu com um sorriso de galanteio o apontador. já sabem? Pois se já sabem. durante a qual o burburinho popular ruflou como enxame poisado nos ramos duma árvore. que a Hincker opunha Corbet e C. temos uma corga de tojo. não deixariam de sonhar. de nos acompanhar ao cemitério.Chamo-me com a boca . pronto! . se bem que reputasse perigosamente susceptível o ânimo da populaça. Estão assanhados à ideia de que viemos para lhes roubar os tesoiros de que reza o Livro de S. mais lombriga que gente. . conversava muito camarada com Silvestre Calhorra. sobre quem o homem trazia os olhos.Que tal está a pouca-vergonha? A gente é esfolada e ainda por cima lhes há-de dar os améns? No que é meu não prantavam eles a pata. entretanto. para este. E.tornou ela.proferiu ao passo que assentava.Mas eu digo: é a tia Rosa Pedralva. a distância do poviléu. ó tiazinha? . Perdoe o incómodo mas. muito surrona. resmungou: .A leira é de minha mãe.respondeu a criatura em tom de poucos amigos. ante a perspect 'va nada risonha. ao seu lado.Como se chama vossemecê. puxou da carteira e escreveu: “Excelente amigo: Se lhe não custa. Severo Bacelar. voltava às confrontações e dizia: . alta e héctica. O. .” O Augusto Aires partiu a toda a pressa levar ao Dr. gostava? . deixava-se ficar às espaldas da multidão para se não ver na contingência de dá-los ele ou alegar que os não sabia. lhe obedecem como ao Deus do Trovão.A 250 metros. grandes e redondos como eixos de carro. a quem queria obrigar a fumar um charuto. O tumulto não amainava e ela repetiu: . ao passo que distribuía cigarros a torto e a direito.O que o senhor quer é saber quem é a dona da leira retorquiu ela toda dengue. A Ana Ruça.É de sua mãe!? . vexado pela estupidez humana. decerto. Sempre seu amigo Severo Bacelar. tendo penetrado a conjura. Carregava-me de calhaus e haviam de ver! Decorreu uma longa pausa. e com os quais. .Pois. chama-se com a boca . venha aplacar estes selvagens que. Hincker tão-pouco tomava as coisas ao trágico. uma noite de rouxinóis e de borracheira. . em cuja disposição borbulhava já o espírito de partido. O homem do caderno.. que quero ir convidá-la para minha sogra. compendioso. um destes havanos preciosos. que tinha mau génio . A quem pertence? Ninguém respondeu.a.se é assim que se chamam uns aos outros na sua terra! Crepitaram as gargalhadas.

que está a servir aqui na casa do senhor Doutor. sim. O dono assistia de soslaio.. se alguns houver. que vigiam a produção. . Tratava-se dum homem de meia-idade.Não. sem se dar por achado. e com desafogo delegaram nele a causa dos seus interesses. Nós só teremos que nos felicitar por lhes haver ensinado o caminho. Para que serve a lei mineira e a fiscalização do Estado? Palavra puxa palavra.Agora tudo são promessas. a Custódia. Não senhores.. O senhor. há-de notar que não podia ser doutro modo. as carradas e que nós já amanhã começamos a abrir poços e a tirá-lo?. Compreendem vossemecês?! Antes de mais nada temos de fazer sondagens.. e nós vamo-nos embora depois de atupir os buracos que fizermos e pagar os estragos. e os senhores. que é um homem que sabe onde tem a cabeça. senhor Calhorra.Qual preferem. as suas palavras não deixavam de causar impressão. é assim mesmo. a julgar pelo jogo fisionómico que ia observando nuns e noutros.. Pronunciam-se pela percenta.Haja de desculpar: cá a patroa é atrigada do gênio e mal-educada. Faltava dar o nome dum pinhal com a sua terra de sementio a poente para a delimitação estar completa.. quando os recalcitrantes se encontravam já na iminência de transigir. . O encarregado escreveu o nome e ouviu que o bicho acrescentava.Ora digam-me cá: que é que vossemecês imaginam? Que por baixo do restolho há dinheiro. justo e tira-teimas.? Era a rendição da pobre gente. Não foi dificil ao homem provado no foro e afeito a jogar com as paixões mais entranhadas demonstrar aos donos das leiras o absurdo da sua obstrução e ao Luís Ougado e quejandos o que havia de indigno naquele ar de cão de quinta perante quem vinha em paz e por bem. Primeiro. ou cobrar a percentagem que a lei lhes reserva? Ponham lá que para nós é o mesmo.A corga do tojo. é minha. Façam.afoitou-se a emitir o Calhorra. Os senhores pensarão o que mais lhes convém. caso lhes sejam favoráveis. já vêem que estamos por tudo! À volta. Tinham-no como uma espécie de manitu. mal vestido. Dou a palavra de honra que. Dentro em breve estavam todos imóveis diante dele. em atitude reflexiva. vamos.gem. uma razão ocasiona duas. dizem-lhes a quanto monta a percentagem. 38 . os fiscais do Governo. a proceder à exploração. Prante lá o nome: João Sancho. Mas. lá isso diga-se. lá em baixo. mas essas pintas aparecem frequentes vezes nas regiões da serra. excitada por uma má inteligência dos seus direitos e lograda por loucas miragens. ou coisa que o valha. Um homenzinho atarracado e barbudo como bode chegou-se ao sujeito do caderno e disse: . Se não há mais do que isto.. As amostras não são muito tentadoras.. onde há granito assim por atacado. Se forem positivas. Não aprendeu como a irmã mais velha. por minha parte. vender a terra. acenando para a mulher: .. Apareceram umas pintas de minério. . apareceu o Dr. salta o dinheirinho. não sabemos o que há aqui por baixo. olhos de grande mobilidade a denotar inquietude interior e obsessiva desconfiança. então vossemecês são chamados e pergunta-se-lhes: . e o vê-los assim pobres e tacanhos não deixou de inspirar simpatia e comiseração àqueles senhores. não basta. querem o dinheirinho logo ali na palma da mão. Resta-lhes ainda um recurso: meterem-se por conta própria a fazer as pesquisas e. E aqui está quem lhes compra ao preço mais alto o minério que extraírem. não lhes levanto dificuldades. cabeça guedelhuda. ali estiveram a apeguilhar e. Manuel Torres. devem-nos ficar reconhecidos por tal motivo. e recebem a percentagem. pronto. Esta só tem lidado com brutos como eu.

dentro de dois sacos. não é . zinco.O senhor Incas lá estudou. O Calhorra meteu a mão e tirou um pedregulho: Não querem pitada do que é dos outros.. guarde? Rompeu grande galhofa. Ouvindo nomear-se. do mesmo modo que uma areiazinha é a sí ntese do planeta que habitamos. rugiu: Aqui está o que hei-de fazer ao primeiro safado que entre no que é meu. disse: De facto. Alvoroçou-se o gentio.disse o Calhorra. chamouo à razão com brandura e boas palavras.. Faça de conta que uma gota de água é a síntese do mar. Bárbara Ladeira. Modo de lhe valer no enleio. bem do outro.Tem juízo. atirando o chapéu de palha ao chão e descarregando-lhe uma sacholada que o amolgou. e palavras foram as suas que operaram como água num braseiro: . enxofre. tem volfrâmio. Bacelar acudiu em continente. seja do que for. tem razão a Bárbara confirmou o Zé dos Cambais. que acabara de chegar. O problema sob o ponto de vista utilitário está na proporcional idade. encerra em maior ou menor dose tudo o que há de tudo no mundo. posto que duma palidez de rosa branca estiolada. Hincker perguntava: . E. a cascalhada mineral. deu um passo em frente a corrigir: O senhor Reganha enganou-se. prata.É um pobre que levou a vida toda a esfossar na terra e tem medo que lhe arrasem o que agenciou à força de suor e calos. lá sabe. Depois. Manuel Torres disse-lhe. acrescentou: . O pequeno é o espelho do grande.Não. O Calhorra ficou envergonhado e semelhante dito acabou por convencer a todos da lealdade dos vedores. E olhem: também tem oiro. Mas levaria muitíssimo tempo a explicar-lhes como é que isso pode ser.5% pelo menos. Percebeu o amigo? O Calhorra acenou que sim.E mentecapto? . . Hincker pegou da pedra e. Isto não é a vinha de Nabote. sim senhor. Sim.Herdeiros de Joaquim Ladeira . a irmã. Os operários. depois de a mirar bem dum lado. mulher que devia ter sido bonita nos seus tempos. amigo Calhorra. estanho. anda. Anda em nome dele. carregavam para o carro a ferramenta e.. Assente lá na sua o senhor Calhorra que qualquer parcela. e tudo o mais que em matéria de corpos simples lhes venha à cabeça. Eu não estudei. sorrindo: Guarde. Este filã o encerra oiro. Admiram-se? Tem isso tudo e até água. mas sempre vão arrecadando? Este tem da malagueta. vencendo a sua relutância. prata.proferiu alguém. Bárbara. mas pode vir o morraceiro mais fino que a mim não me engrola ele com a mistela mais 39 .. Que descanse. ainda que fosse uma criança que o fizesse ao desfastio. . homem? Não esqueças que a terreola a talhaste no baldio. isto é. os elementos de que se compõe a água: oxigénio e hidrogénio. o Duarte deu um passo à frente. mas em quantidade tal que não pagaria o trabalho de tratá-la. Anda em nome de meu irmão. ainda airosa de fisionomia e esbelta de linhas. mas a nós só nos interessará se contiver volfrâmio na proporção de O. entretanto. Duarte Ladeira.Estivemos há tempos a ler a matriz. de volta do almoço. ferro. O energúmeno espumava e fazia forte escarcéu com os braços.

sem fazer caso aparentemente do que dissera o Calhorra .? Dirigiram-se para a estrada a passo dobrado. e digo logo se é cristo. é pouco de apetecer.O nome não me é de todo estranho. Companhia de seguros. Basta-me olhar-lhe para a cara e vê-Ia reluzir. Apólices para todos os riscos e flagelos. Depois. Vão bem melhor amanhã de manhã. Severo ouviu que o capenga. . o alemão julgou-se obrigado a dizer para o velho troglodita de barrete de coelho: Senhor Calhorra.. lá continuaremos o debate. em tom de meia seriedade proferiu: . Braço no de Severo.. muito cordialmente. Sempre debaixo de pinhais.? Ficaram calados Severo e Aires. chega-se lá assado com o sol... pela fresca.Manda o Führer? . Dr. deixa. mais ou menos em vias de organização. entremeteu-se: .É em Berlim. Poucos irão na fita! . Bacelar. se me quer dar esse prazer.Só se guardarmos o manifesto para esta tarde. com ar de ponderar prós e contras. Não lhe quadra ser agente? Manuel Torres desatou a rir.bem cozinhada deste mundo... .Que diabo. escusavas de chamar estes piratas para o povoado! Mas.. . Manuel Torres ia a despedir-se. deixe lá as discussões para melhor ocasião? gritava-lhe Hincker à beira do carro. . Mas no próprio minuto em que o chauffeur puxava o motor de arranque.. de tarde. alijado o ar jucundo.. O automóvel dos operários largou a toda. Manuel Torres inclinou-se. Silvestre Calhorra agradeceu de rosto prazenteiro e com urbanidade..Alma de cântaro. Manuel Torres dizia-lhe familiarmente em tom de chalaça: .Reservando-nos para amanhã . mas suspendeu-se para deixar Hincker acabar o recado: .estão convidados para uma almoçarada em minha casa de Mouramorta. diz bem: conflitos entre nações. topam homem? 40 . Manuel Torres. se chegarmos a montar aqui os serviços.disse Severo. que estendera o gargalo como o grou para hipotético cibato. não? Pelo menos o nome soa a esse ramo de negócios.. Diz-lho um homem que ficou com as pernas tolhidas à força de o passear de cá para lá e vice-versa. Ombro com ombro. um feitor já nós sabemos quem há-de ser. por agora. dizia entre dentes para o Augusto Aires na pressa furiosa de dar a ferroada: .Conheço a receita. O Calhorra... em cujo quadro não me importava de entrar: Nova Europa.Pense no almoço ou apostou que me havia de arruinar a saúde. Führer? Não conheço . tirania.Sei que há aí uma empresa.? Ou para amanhã. a caminho da estrada. E o ósculo de paz do vencedor aos vencidos para que se conformem. ignorância.Manda a Hermann Góring Werke. . fome e miséria nos povos.O caminho para Orcas. invalidez.. se é judas.respondeu o engenheiro em tom igualmente facecioso. Ora espere: a sede não é em Berlim?.

Irene ficou um pouco esmagada ante aquela rapariga de carnadura rósea. que acumulava as funções de abegão com as de porteiro. . Paulinha. Ao mesmo tempo. nem se fala nisso. Tenho ervilhas frescas. e não faça cerimónia? Se a tia. O senhor Hincker cumprimentou a boa senhora com excessos de urbanidade e repicando as palavras. no rosto e sorriso de visitante reconhecida verdadeiramente uma estrangeira . Mas o senhor Hincker tratou de se pôr à vontade.III Só ao quarto ou quinto toque de buzina é que a velha casa de Mouramorta acordou. e. descreveu um círculo que abrangia os álamos. O Meirinho. admirados da boscagem.e não menos ante aquele senhor alentado. pular com desespero para as trancas de ferro. ficava com a tia Irene enquanto eles chegavam a Orcas fazer o registo. Como vinha aí um sol desabalado.. está a ver cada frase. em seu desdobre lógico e sintáxico. e era de presumir que visita tão matinal ..exclamou ela. Não havia dúvida que falava muito correctamente o português. o que dava nas vistas e lhe sucedia sempre que procurava falar com elegância e precisão. mostrava-se a cara surpresa e um tanto perplexa da boa tia Irene. quando fala.. mercê do que a boa senhora perdeu o ar tímido e só por isso rebarbativo. .. anunciou-se milharal fora pela esteira que levantava o marulhar dos pendões. discreto em seu recorte. . Irene e o sobrinho desceram a escada a esperar Paula e o pai que avançavam.causasse o mais dramático sobressalto na casa desprevenida. cabeça quadrada imponente. nunca o fazia sem delatar certo esforço.Com quem tu entenderes. sombras que o movimento cadente da água tornava ainda mais voláteis: . correu a sossegar a dona de casa alarmada. de calças arregaçadas do regadio e peitaça lanuda ao léu. disparando pátio fora. à volta. a menina do senhor Hincker. o esforço do homem cerebral que aprendeu primeiro a teoria do idioma e. com óculos de escafandro. em nada o bigode hitleriano tão em voga. bigode tostado pelo charuto sobre a boca pequena incisa com firmeza.Está bem de ver. Quando se propunha falar o português literário. Foi por isso que. D. esbelta e sadia. viu-se afinal. na alpendrada.. Conte também com o Dr. o guarda-rios trouxeme um prato de trutas.. pois..O que a tia destinar. olhos muito azuis e móveis. e as sombras frescas à volta da bica de pedra. nos quiser oferecer o almocinho. pelo pátio saibrado com areia do rio.. mas o português correntio aprendido na vida das relações.Essa menina tem alguma necessidade de ir apanhar a réssega? Que venha. com a própria mão que segurava o chapéu. porque ainda não tenha prática suficiente.Reconsideraram muito bem . estão com sorte. os loireiros-rosas. . Havia uma pequena alteração no programa. Mando cortar o pescoço a dois frangos. E. Parece um claustro! 41 . sem importância.Dá vontade de pegar aqui de estaca à semelhança destas árvores. entorpecida no seu recosto de faias e álamos sob os langores da madrugada. Severo não se tinha anunciado. lá vêm eles. D. .oito horas solares . Manuel Torres. Olha. não se preocupando de deixar a descoberto o minguante lunar dos cabelos sobre o occipital.

oh.Vem de pais? . um à-vontade que o tornava eminentemente social. que passou a Severo. ou com a brusquidão própria da gente afeita a ir depressa e incontemplativamente. depois ante o panorama da Serra da Estrela. Mal puseram pé na sala de estar. Era o caso de Hincker. não se descobriria o potentado que movia caudais de oiro e trazia às ordens um exército de homens. se o encarregassem de compor imediatamente um relatório sobre a povoação e aquela casa assolarengada. Paula exagerava a sua boa impressão. antes se mantêm prontas ao apelo. esponjou-se com o lenço. convidativos como braços que fazem sinal para subir. e dada a familiar curiosidade que lhe permitiam as relações com Severo pôs-se a vistoriar a casa. visto ter-se reduzido a sala a 42 . fixado tudo na retina. Do modo mais natural deste mundo. . com a outra agitava o abanico. como a seres animados.. o senhor Hincker atirou o chapéu para cima dum tamborete. Observado tudo.Pisaram os primeiros degraus da escada de dois lanços. destas ventarolas de papel que distribuem os teatros e restaurantes caros. E cruzando a perna e puxando da charuteira. em sua disciplina. desobsequioso e brutal.quando homem de negócios. Tão-pouco se diria o estrangeiro pisando terra de roça. Por muito que se procurasse. exprimindo além do dom de circunspecção ou de oportunidade. reclinada no extremo horizonte sob purpúrea e roxa gaza: . quando viajante.depois do que foi observar da janela a paisagem agrícola com este olhinho refiro do homem de negócios que não admira a bucólica sem deixar de pulsar a puberdade e o rendimento do solo. a avivar o cinábrio da boca .Oh. sentou-se. Os indivíduos que assim têm o poder de repartir-se .Esta casa foi adquirida e adaptada.estão por sua natureza proteica destinados a dominadores. poeta romântico ou impressionista . era capaz de se sair com honra. quando homem de sala. a dar uma dedada aos cabelos. em seu cérebro devia estar ainda a discorrer. . homem de negócios. e ia puxando as fumaças do havano. Tudo isto fez em menos tempo do que a filha levou a tirar o chapéu no quarto da tia Irene. gordo. O engenheiro advertiu: . revestidos de glicínias e rosas de toucar a todo o ascenso.Está aí na corrente. Repare para o tecto. uma sombra quase subjectiva . galantuomo. deu uma torção ao pescoço como se quisesse subir um ponto numa cremalheira.proferiu. e são espirituais segundo a mão que as maneja. Estava há menos de dez minutos em Mouramorta e. a história imaginária da propriedade. outro olhar meio atento pelos campos. possessivo. tal um filme de grande metragem. As suas personalidades não se atropelam como no ser vulgar. percorreu com reverente e mesurada pausa os quadros pochades de modernistas e tabuazinhas de primitivos portugueses . exclamando a cada flor mais especiosa.Nesta casa respira-se bem o século XVIII .e a volver ao salão. sehr hübsch! Sehr hübsch! Com a mão direita fazia uma carícia às rosas. veja lá se lhe faz mal?? O senhor Hincker sorriu com o ar suficiente com que na sua terra era costume dizer-se: um homem honrado tem medo de Deus e de mais coisa nenhuma. Naquele sorriso palpitava-se o tipo de acção e com a superioridade mental precisa para poder responder em qualquer emergência pela sua pessoa. ao passo que acendia o fósforo.. a despeito do esquemático. Era um sorriso amplo. É em castanho novo. Foi copiado à risca do antigo. não se descobriria no senhor que ali estava espraiando um olhar ocioso pelos quadrinhos da parede.

devia ter tomado parte na ofensiva contra a Rússia. numa divisão Panzer destacada nas Marcas de Leste.Mas nós não viemos aqui para resolver a crise do Douro.Formidável? . Pena foi que não déssemos conta mais cedo! D. um irmão. A estepe. senhor Hincker? . E então vitória em pleno. . Delicada e lentamente. desataram a beberricar. Uma criada trouxe uma bandeja com fálgaros da Tabosa. Se a Alemanha abater a Rússia. aviador. o senhor Hincker media de novo com o olhar a amplidão da sala. a segunda cidade santa dos Vermelhos. primos. Ao terceiro cálice. coronel. Novamente abriu os braços num gesto cheio de vago e indefinido.e Hincker torceu-se na cadeira a encher novamente o seu cálice de Porto.e como um homem do Norte empina sempre que pode e um português nunca se julga desobrigado de fazer uma perna. outro aprisionado em África. O estilo que se adoptava aqui adoptava-se acolá. por outro lado as divisões couraçadas de Von Bock avançam para lá de Kiev. grande. o paladar e o olfacto. isto é. mas ignorou de todo a comodidade. repercutia além fora. Decorreu um grande silêncio durante o qual todos viram desfilar uma procissão de aleijados. E concluiu com um tom de voz que pretendia ser desopresso e vinha carregado de mortulha: . Quando éramos pequenos fazíamos aqui corridas de bicicleta a toda a volta. A Europa é um solar. já se deixa ver. umas três vezes do seu tamanho. no Hartz a curar-se da arranhadura duma granada que o atingira por cima de Coventry. associados. acabouse a guerra.É conforme. saboreou o vinho fino até a última gota. Era inconfortável de todo ao que era de grande. proferiu: . vadios e fantasmas. no dever de mostrar-se optimista e manifestou: . escangalha a maior parte. está meia vencida. via-se bem. Ele abriu os braços num largo e teatral gesto de incógnita e fatalidade. Irene. Depois do que. nem boas nem más. estropiado em Crera. . Irene. mata uns. do ramo nacionalizado alemão. Os ulanos do marechal Von Rundstedt já há dias que chegaram os cavalos a beber às nascentes do Dnieper. já não tinham conta os feridos e os mortos. Sempre assim se mostrou. mas a guerra é uma devoradora insaciável de homens.dimensões muito menores. Na entrada do estio. Mas sentiu-se. que viera fazer as honras da casa. sentenciando: . o espaço. o outro. cavacas de Freixinho . . O século XVIII entre nós conheceu o fausto.tornou D. mas com um só alçado. estropia outros.O diabo é que a Hidra tem duzentos e cinquenta milhões de cabeças emitiu Bacelar. o mais novo nos submarinos. Notícias. o censo da sua gente apresentava-se assim: o filho mais velho. um sobrinho. achou de primeira civilidade inquirir dos entes queridos que o senhor Hincker trazia na guerra. Mais ao norte. levantando-se. boas. As notícias chegadas recentemente são animadoras. Meu pai mandou reduzir esse verdadeiro Ringbahnhalle e andou bem.Teremos ainda guerra por muito tempo.Por enquanto as clareiras não são grandes. os nossos exércitos avistam Leninegrado. do ramo dinamarquês.Também temos assim muito no SchIeswig. consoante a fé germânica. morto em França.guloseimas da região . minha senhora. a seguir a este. Está então decidido: a menina fica? 43 .

Registo: um quarto de hora. se tanto . O Antoninho desceu-se e foi à taverna saber o nome por extenso dos donos das terras.. para não dar nas vistas. A questão é chegar primeiro. Foi a Ruça que. Sucedia-se uma baixa. meio divertido: 44 . atravessado na via a todo o largo. e lançaram-se ladeira acima a 80. outro fazendo dançar a bolsa de oiro na ponta da corrente. jungido ainda ao cepo por um feixe de fibras vigorosas. Hincker tirou o relógio e disse com a maior fleuma: .Talvez seja o do Fráguas.Como sabes? .Ida e volta: uma hora. em todo o tope. soberbo em seu alor e robustez. conformada. O Fráguas corria pelas leiras.Daqui lá temos menos de vinte quilómetros. Pelos informes estou em crer que fosse o calhambeque do Fráguas. mister Corbet. O carro tinha estacado diante dum enorme pinheiro.Mas conta o azar . e neste jogo iam a recuperar a velocidade quando ao alto. com ar meio atónito. panne não inculcava que fosse.respondeu Severo. Fora duma dessas bouças que abatera o pinheiro. nem resfolgava. visto à esquerda as terras serem em socalco ou muradas e à direita bouças com mato alto e pinhal. bem vai. se lhes deparou um carro parado. como nastro que abambou.murmurou Paula. dizia para dois pastores embasbacados diante dele. mal os senhores ontem viraram costas. ao desabar. Há meia hora.Em última análise. que não acontecera.M. logo breve subida.. A repartição só abre às onze. sobre a ponte de viés.. Talvez. Passaram em Malhadas a 110. Será possível ultrapassá-los? . Nesse momento entrava o portão. o Augusto Aires. . Temos esse direito . Que acontecera. diante do guicbet. muito esbaforido. . .Pararam em Malhadas... decerto à procura de gente que lhe ajudasse a remover o obstáculo.elucidou Severo. Augusto? Do Corbet? . . De quem era o carro. . mais migalho. de pé em frente dela. menos migalho.redarguiu Hincker. Pé no acelerador.. saindo-lhe ao encontro. em despeito do carro de feno que ia fora de mão e lhes surgiu pelas chedas numa curva apertada. . de si alagadiça. . Não havia possibilidade de obliquar pelos lados.disse Severo tomando o volante.Há-de ser dificil . Temos tempo de sobra. dois quilómetros adiante... . . A coruta.V. as grossas e revelhas franças tão profundamente que dir-se-iam outras tantas raízes que por sua vez firmavam ao solo a árvore secular. Mantiveram o andamento ao atravessar Pedrões. Severo rejubilou em seu íntimo. Devia esperar por eles em Malhadas. um dedo espetado para o chão. em cima do tronco. Leve afrouxamento à passagem do rio.São dez e meia.perguntou. ao fundo da aldeia iam a 90. O excelente B. É verdade que em tão pouca distância a velocidade não conta.O Corbet e o Antoninho Fráguas já lá vão adiante fazer o registo. Se não for o do Corbet.Que há? . De pé. Uma hora e quarto. e em face da aparição imprevista Severo augurou novidade. Esse carro era o do Antoninho Fráguas.. que passaram. disputa-se a primazia a sopapo. enterrara na margem.Se não se demoram. Desceram a escada.Vamos lá.Não vi. . correu a contar o que se tinha andado a fazer no Vale das Donas.

sem disposição decidida para coisa alguma. Sim. mas. magro. direito visivelmente ao lugarejo da Franja. No gênero do escalracho humano que ataca o alqueive rural e se torna o flagelo do camponês. sozinho. De déu em déu. voltava a aparecer. relapso à escola. e clientes de alto bordo às penitenciárias. largara-o à lei da natureza. eu pagar bem. Tomou-lhe o gosto e deste jeito se lançou no ofício de engajador. se vocês tiram árvore. aquele era um famoso exemplar. já toda a aplicação de criança se lhe exercera na arte de assaltar os quintais. duma acerba e incontemplativa heroicidade. para lá de todo o ridículo. esguio. nariz adunco. servida por hábeis calígrafos. o casamento. Solange. Ao Antoninho. barbeiro. Havia na sua postura. extorquindo-lhes os mais desmarcados juros e alcavalas. Bravio por semental. o pescoço desenrolando-se como um sem-fim do alto colarinho de goma. Oscilante entre rústico e fidalgo. tanto Severo como Hincker conheciam-no de ginjeira. com um pé na trampolinice e outro no parasitismo. O exercício dum mester tão à parte permitiu-lhe ainda praticar as artes de D. sólidos como cavalos. Ficara assim com letras gordas e princípios morais muito precários. Em Muradais havia uma menina. Era enfezadinha.Eu pagar bem? O Antoninho Fráguas. cacique nas horas vagas. qualquer coisa de leviatânico. Gloriava-se de roubar à mochila mancebos na idade militar. mas apto mercê da audácia congénita a tentar tudo. que coara parte da meninice internada num convento de religiosas. unhas rijas e braço teso.Eu pagar bem. levado por igual motivo. ainda sua prima. se alguma coisa contavam de seu. em baixo. Tentou o que ele chamava o principal negócio da vida. nunca chegando a compreender os homens nados dentro das três dimensões da vida moral como é que as autoridades não punham a mão na lapela do chatim. se eram bonitas. qualquer vida. E prosseguia no aranzel. e as de usurário. meia desplumada e azarenta. Vocês chamam homens. Armado de dentuça afiada. filha de brasileiro. jogar a pedrada. burlar os da sua igualha. Ridículo? Not in the least. Tanto bastou para tomar-lhe o gosto. Mas este ramo de negócios.. lembrava uma ave pernalta de jardim zoológico. tinha muito de aleatório e periclitante para quem se sentia tanazado por uma fome milenária. caminhava noutro rumo. chocalhando as libras: . duas farripas loiras a voeiar no toutiço. Aos vinte anos um bambúrrio pô-lo na pista duma indústria. Agente de várias Companhias de Navegação. não falsificasse ao sabor do freguês.. que passou a ser o eixo da sua actividade. No seu poleiro. o uso da gravata e as mãos brancas no meio primitivo acabaram por imprimir-lhe o diferencial necessário. por sua vez.. tendeiro. alcançaram um ponto da raia seca onde a troco de boa espórtula um hombre de Dios se prestou a passá-los para Espanha. preocupado apenas com a solução do problema. insulado. Juan sertanejo junto das mulheres dos embarcadiços. havia que tentar a vida. Sucedera um dia que para salvar das malhas da justiça certo bardino que por arruaça chacinara um pobre gaiteiro em entroviscadas de arraial. As suas tranquibérnias deram brado. não houve passaporte que a sua falta de escrúpulos. que se eclipsara por trás da lomba dum cabeço. se metera com ele a monte através de bosques e penhascais. o José Francisco. O diminutivo com que ficou a ser conhecido pela vida fora caracteriza bem a metamorfose. O pai. embora cultivado assim à grande e com toda a sorte de agilidade. além de bem 45 .

mãe do rapaz que agora ali corria pelas terras. tão parecido com ele como o ovo dum cágado com outro ovo do mesmo cágado. Ainda e sempre construía na areia. fez-se empreiteiro de estradas. Marcanciou em cavalos. Foi a quadra negra da sua vida. palpitou-lhe o comércio dos metais. veio ele a apurar em fonte limpa que o sogro com jogatinas de Bolsa mal sucedidas espatifara a fortuna e dera com o comércio de secos e molhados em vaza-barris. a murar. conseguiu insinuar-se no ânimo de mister James Corbet. Chegou-se a gabar de sete amigas a um tempo. que não se conformavam com o esbulho. À força de colear e de brando jeito. Não era o que se chama bonito homem. atrevido como os que o são e brutal. ombros largos de mais para a cintura muito fina. Solange só deu conta que fora lograda no dia em que. O seu leme era: antes ladrão do que pobre e estavam explicados todos os claros-escuros e bocas de precipício do seu caminho. a porca da vida não endireitava. passava por vir a receber uma legítima como nã o avultava segunda na comarca. mas em verdade de mão beijada. e deitou olhos aos horizontes. que o via a arrotar grandezas. A família. Explorando com astúcia e fingido fervor as reviravoltas da política. Em despeito de tanto afinco. Era do mais fértil que havia no baldio e trouxe ali a arrotear. computada para cima de trinta hectares. olhos de pegar o fogo em palha molhada. em S. Mas era de raça para grimpar. Se por este conduto alguma coisa ainda viria a pingar. conseguiu que lhe entregassem a título de aforamento. a saibrar. supremo dom de sedutor. retirada da canastra da sardinha e do comércio dos ovos. ia ele nos quarenta anos. Em despeito das advertências. faltos de herdeiros directos. Mas foilhe preciso ir guardá-la. de trabuco aperrado. solipas e materiais de construção. Entregava-se esta empresa à compra e produção de matérias-primas para a guerra e fazia-o com uma abundâ ncia de capitais e uma largueza de processos dignos do maior império a que tem alumiado a rosa do sol desde que o mundo é mundo. arrancavam-lhe as plantações. deixou-se enviscar. De dissabores e arrelias compensavam-no as mulheres que neste e naquele poviléu se arrepelavam pelo galo doido. melenas que lhe desciam para a fronte. à testa da qual pôs a amásia. Cortejou-a. Que fazes. lobrigou no valdevinos o seu príncipe encantado. Porfiou. a Júlia Minga. lãs e cereais. Mas tinha uma voz de veludo. era cheio de ralé e. das depredações de mateiros e pastores. que hás-de fazer. A pobre. e agarrou-se com unhas e dentes. uma tira de serra. seria duns tios que a menina tinha em Malhadas da Serra. protestando contra o comércio que o traste do marido cometia em sua casa com criadas e jornaleiras. antes carão sobre o comprido. Com efeito. era bem 46 . Mister Corbet. por cujo selo ia dobando uma estéril primavera sem pássaros nem flores. metiam-lhe os gados aos renovos e quimavam-lhe as cardenhas. não a deteve no pendor. picado das bexigas e quase desproporcionado de estatura.educada. dos dixe-me-dixes quanto às baldas do pretendente e ao mulherio com que podia encher um serralho. volveu da alçada a jorrar sangue pelo nariz e com um olho a repolhar na órbita violácea. mal virava costas. Surgiu a guerra. grandes maltas de gente que pagou tarde e às más horas. Concomitantemente. Brás montou uma taverna. que representava em Portugal a Chester and Brothers London W. de quem eram celebradas a indulgência para com os pecadilhos duns e a magnanimidade para os leais serviços doutros.

Financiou-lhe o inglês a montagem duma separadora em Tendais. alcunhado a Fera de Macinhata. “percam-se os anéis e fiquem os dedos”. O volfrâmio genuíno. além de que lhe estaria porventura a carácter. Sôfregos desta laia. o rei da “mangola” no entanto não se deu por achado. protegido por grandes e misteriosos poderes. despediram o alento todo: há! há! O tronco nem buliu. Um tal Leónidas Seixas. Os pacóvios vinham das serras com o volfrâmic. nem dentre as pessoas que estavam em baixo se julgaram umas com direito de o apear. Vinte homens não chegam para a remover da estrada. e por isso mesmo se temia deles. Acontecia-lhes assim levar por alto preço toneladas de titânio e ilmenite. pode dizer~se com a boca na botija. Cumprimentou-os com desembaraço natural. Mister Corbet não se deu ao incómodo de descer. Surpreendido em plena estrada. Os picardos do Porto. de pistola na mão para queimar os miolos. ou simplesmente resolvidos a cometer lance tão aventureiro. e davam-no já como a abarrotar de rico. à qual de princípio esteve associado um outro escopeteiro do mesmo calibre. no tempo em que era visto com olhos confiados.Eu pagar bem! Hincker e Severo retiraram a sacudir as mãos embodegadas na resina e nos cogumelos da carrasca.No. Ele erecto. viu-os esbracejar por baixo dos pés e. irem chamar muito gent& Depois que se inteiraram do entremez. no. Alres deitou a mão a um galho da árvore a experimentar. vendo a separadora a funcionar. Tendo acabado por decifrar a linguagem de mister Corbet. encostaram ombros ao lenho. seu patrão. 10. Esses e os pastores. imperturbável. . involuntariamente. sem lhes ficar o recurso de recorrer à autoridade. outras que valesse a pena fazê-lo. os pastores afoitaram-se a alijar as capuchas e. Hincker e os seus saltaram em terra e cortejaram. Até onde iria ele com tão robusta saúde e insaciável fome de lobo? Hincker e Severo conheciam-no por fora e por dentro. Dominava agora o Alto Paiva. do Banco de Portugal. outros assomavam no cerro. Severo.Não se matem . A mesma mixórdia dizia-se que impingia a mister Corbet. o senhor esquipático flauteava. novinhos em folha. mas quanto 47 . Praça Filipa de Lencastre. 14. sessenta e cinco unidades pelo menos.disse Severo. a voz que define o Britain's rule em todos os tempos e lugares escapou-lhe novamente dos gorgomilos chupados: . Aires e chauffeur. Por cima deles. ele não o ignorava. apoiando o peitaço contra o lenho e fincando as tamancas no chão.na sua fraseologia pitoresca equivalia tal modo de dizer a passar o conto do vigário . a quem chamava caloiros. com Hincker. Pedir reforço. em bruto e trocavam-lho nataverna a metros de chita e a rabos de bacalhau. compravam a olho na febre de enriquecer. em seu desespero. com ele saíam sempre tosquiados. Mexera. e prosseguiu nas diligências de remover o estorvo. símbolo da sua nação. Foi o princípio da sua carreira triunfal. Entretanto apareciam os primeiros homens de socorro. com escritório no Porto. entregava-o na Sobriga contra os pacotes. com Fráguas.o reflexo da política tão realistamente maleável da hora difícil. para que nem sempre conseguiam comprar guias falsas com que fazer a exportação para Inglaterra. a quem meteu a faca . sem compreenderem todavia como se encontrava a impedir de todo o trânsito aquela bisarma de madeiro. pelo que revelavam de insciência na mascambilha.esteve à beira da ruína e. gesticulando: . que faziam 9. Diante deles o morraceiro não dizia palavra. parte do vale do Vouga. como se tal missão lhe coubesse a ele que chegara primeiro e pretendia passar primeiro. Eu pagar bem.

Eclipsou-se tudo. mais nítidos. depois. Mais gente ou então ir buscar machados e serras para cortar madeiro. marrados um no outro como em match. E em poucos segundos de conciliábulo conceberam um plano. Quando viu crescer daquele modo o arraial.. Ainda um galão. menos um do que há pouco. no meio dos pinhais negrejou um bando de gente. Metralho-lhe os pneumáticos. prático em derrubadas. arquejante. de desenvolver a fortaleza. mais a que aí está note que já se foram embora dois – somam treze. estacando par a par com o do Fráguas. Tanto o Aires como o Urra tinham. largaram a correr em sentidos diferentes. tocado pelo José Francisco. além da experiência requerida. Eram as duas nações face a face. no deserto. V.Não há-de ser necessário. Mas assim que se lhe deparou uma recta. a buscar um serrão a Malhadas. E.No. aquele do seu posto como de gávea.a arredar nem polegada. os contornos versicolores. aliciados ao esterlino. As apertadas e sucessivas curvas tolhiam o B. compreendeu mister Corbet que a partida estava seriamente comprometida. com a quadrela do campanário a escornar no tope. ficando nós de braços cruzados. este de sentinela a meio da estrada. Olhava em volta à espera do auxílio providencial que um inglês acaba sempre por encontrar em terra. mal se anunciando pelo estridor. ao passo que exclamava: . entretanto que Corbet e Hincker. lançado a fundo. tornaram a relampejar. o inglês tirou o chapéu agradecendo galhardamente. tranquilizou: . Mister Corbet mostrava o mais azarento e enjoadíssimo esgar que se pode supor em rostos glabros. Mas um inglês joga até resto. Relampeíou à direita em espanejamentos losangulares de cal e vermelhão uma nesga de casas presunçosas. M. E com entono de coragem. Por fim. M. Hincker. o rabo-leva gris do arrabalde entre hortejos e devesas. V. Mas esse auxílio não chegava e a sua ânsia devia superar a da boa irmã Ana. quase mudo. Hincker convidou o inimigo a passar. pois que no segredo de suas almas se mordiam como cães. no. foi precisamente no seu prolongamento longitudinal que se puseram a serrotar o pinheiro. Com uma leve mesura e gesto mal esboçado da mão.Antes de nós não passam. circunstância donde emana o seu optimismo (inico e inexaurível. A gente que lá vem. chamar mais gente. um 48 . formulou mais uma vez: . ao fundo. e na projecção visual do pára-brisas desenharam-se um padre à secular. pulso rijo. foi obra dum sopro. se entreolhavam com silenciosa e correcta frieza. Claro. rodar depois o lanço para a berma. Quando viu aqueles treze peitos debalde apostos a virar o tronco. Em resposta. serras e o Quim da Urra. mais estrepitosa que um ciclone. Os zagais. voou. a chocolateira depressa se esvaiu à retaguarda no pó e frondes do caminho. Em poucos minutos estava dado o corte do lado da coruta. levemente molhado de desdém. no mar. Serrar o tronco. tal qual suas índoles e temperamentos. o senhor primeiro? Arrancaram a um tempo. já os automóveis trepidavam. Aproximavam-se da vila.Thank you! O senhor.. ali como no resto do mundo. esfalfada. Atacaram depois ao centro. O automóvel de Hincker. Severo disse a meia voz para Hincker: . chegou de rompante com machados. depois de contar as pessoas que vinham a caminho. Primeiro que tudo o Aires e chauffeur despediam no B.

salvador do mundo! De soslaio notou que traziam cara de poucos amigos. foi pelo livro próprio e declarou: ... Para mais é coxo! Desceram de afogadilho. quando ele se escamugia. que não se deitariam à vila mais cedo do que o necessário..Para onde iria o homem? Sem disfarçar o lume sardônico que lhe chispava dos olhos. Mas nem no vestíbulo nem nas imediações levantaram rasto do Calhorra. saíra de casa com a alba sem outro lastro além dum cálice de cachaça e duas buchas de pão. não teve ainda tempo de atravessar o Tavolado. E estava na incomparável operação de deglutir quando a porta se abriu de rópia e viu avançar direito a ele grande tropel de gente. . medição. de Malhadas da Serra. muito alevantado e pisa-flores.Talvez o ladrão lá esteja. nomes. a par da sua Verónica. com o brio dum antigo porta-machado. que se levantou a atendê-los. Hincker quedou um momento em silêncio e. Leu o registo. segundo o jogo das probabilidades. e em tudo. correspondia aos dados de que eram portadores.disse-lhe o Aires. O velho gabiru lá estava..A gente da serra costuma ir petiscar à casa da Eduarda ponderou o Aires. pode dizer-se. calculando. Estacaram diante dos Paços do Concelho e com repousada confiança subiram a escada. Para lá bateram de espora fita. o manifesto lavrado nos termos da lei. perguntou: .É como vês. Quem tem cuidados não dorme. .. uma sertãzada de carne fresca de porco. abancado a uma fritada de marrã. com efeito. menos Hincker. imperturbável e cravado no charuto como adem num espeto. com um bolo e uma garrafa de vinho à frente.Apresentou-o o homem que aí estava: Silvestre Calhorra. Felizmente a Divina Providência. sem tirar nem pôr. e dispôs-se a matá-la dignamente.Se não está no edifício. uma destas fomes caninas a tal ponto azougueiras que os seus olhos quanto enxergavam era baço. que há tanto devia ter aberto a Secretaria da Câmara.. além da sopinha de rabo de boi. Além de que a febre do lance não o deixara cobrar sono. O funcionário leu. pela mão diligente da Eduarda.senhor de coco. 49 . . o amanuense observou: .Vossemecê por aqui? . propinou-lhe. Silvestre Calhorra sentia fome.. .Que me diz? .Este manifesto acabei há instantes de registá-lo. O engenheiro Severo Bacelar entregou ao amanuense. É o mesmo. mas que mal se estava garantida a prioridade? Ao balcão tropeçaram com o Calhorra e tiveram um vago palpite de moiro na costa. Madrugou. De chofre penetraram a traça do velho raposo: fora ele que mandara atravessar o pinheiro na estrada para ganhar aquela meia hora ao balcão da Secretaria. de que rescendia pela taverna o aroma inebriador. sem trair na voz a menor contrariedade. e dois garotos a repartir um talhada de melancia. Eu leio para que Vosselê ncias fiquem inteirados. . Como tramóia não fora mal urdido. Credo. Orcas da Beira. nem os judeus quando entraram pelo Horto das Oliveiras dentro a prender Jesus de Nazaré. confrontações. Chegavam com atraso de meia hora.. Não tiveram necessidade de comunicar os seus pensamentos....

Olé. bem sabe.Você sempre nos pregou uma vigarice!.mas não só não tremeu como o garfo se lhe não desviou da trajectória mais curta do prato para a boca. Os filhos saíram uns pilordas que para pouco mais prestam do que para virar a malga do caldo e a caneca do vinho. Lá quanto a vigarice. depois na parede e. Sim. Depois. nada menos de setecentos quilos. Outro ardil não lhes deu o Diabo. respondeu: . que as más-línguas classificavam de felinos: . sem prestar orelha à invectiva. vejam os senhores o perdimento. Uma fortuna pela água abaixo! . Dóilhes? Quem descobriu o filão. torcendo os lábios num esgar dubitativo. O senhor Incas aprendeu nos livros. serve-lhe?. pois então! . que não fosse a do Cadelas. conhece o chão que pisa. Viemos para fazer negócio. senhores! Não se atreviam a interrompê-lo ao que estava de excitado. plantou olhos em Hincker. É preciso andar a fusgar. senhor Silvestre.Não sei o que o menino quer significar lá na sua retorquiu-lhe com voz paciente.Para fazer negócio? Pois vivam lá. Vendo-os circunspectos. estão com o seu homem. setecentos quilos! Agora eu lhes juro: se este pilhancras lá não vai esfossar. . vamos lá a ver o que a coisa dá. os senhores nunca tinham aventado a malhoada.Assim com'assim.Estamos aqui para fazer negócio . está bem? . quem ma fazia eram os senhores se durmo a manhã toda na cama. Raios o partam para excomungado! ... Mas o que está por debaixo da terra não é como isto de perdizes que se tiram pelo faro e saltam ao nariz dos podengos.barregou o garnisé do Aires.. retrauteou: . Larguei-o à razão de doze vinténs o quilo. .? É de vontade? .Digo e torno a dizer: escapei por uma unha negra à vigarice. como estacassem à volta dele. .volveu dirigindo-se assinaladamente a Hincker e a Severo.Que diz o senhor Calhorra? . 50 . vendo o registo...São servidos? .Esses nem aprendidos numa escola de gangsters! . hoje tinha pregos de oiro pelas paredes. para se descobrir? Estou a ensinar o padre-nosso ao vigário.Nós não viemos para ouvir as suas lástimas. para maior desgraça com umas pernas que nem cilindros de estrada.Está bem. Depôs o garfo contra a borda do prato.. . Se serve. mas encrespando bem visivelmente as sobrancelhas. Ponho a mão numa Escritura que não aventavam. não há dúvida. como ia dizendo. . pique que pique. Estou pobre. lá porque lhe parecesse que tanto o Incas como o Severo se acobardavam de romper fogo..articulou Hincker.. por muito que sejam dignas de dó.Que espécie de negócio querem então os senhores fazer comigo? . a moer. rape que rape. associar-me não quero. Vendo.Então não são servidos. nem para questionar consigo. proferiu erguendo os olhos. .O amigo Calhorra podia usar processos mais leais exclamou Severo com ar agastadiço. meus senhores das barbas honradas? Quem é que primeiro lá quebrou as unhas a esgadanhar? Fiquem sabendo: aqui onde me vêem apanhei lá e no rebusco em redondo. ..proferiu Hincker em tom conciliador.Nunca andei noutra escola. como acoimou para aí uma boca mal lavada. pedra a pedra como nozes. . aqui o menino Severo tem prática. Pois. mas é para que não suponham que me comem por asno..Associar-se connosco.. se tenho por uma casualidade guardado o volfro. tirei lá setecentos quilos e mais tiraria se não estivesse velho e cansado.

saíramlhe sem querer estas vozes em que chocalhava um badalinho. Severo sorriu .Não se faça de novas. muito levemente. O pinheiro podia causar uma catástrofe. . ?? Que malvadez? Caçaramnos. Bastava vir-se de noite.. e o senhor Hincker vê-se na obrigação de apresentar queixa contra o malfeitor que foi atravessar o pinheiro na estrada. Cautela por cautela. com fogo ao rabo. O Antoninho deixou-me recado que chegavam ali adiante. Esteve um avo de segundo interdito com um penedo sobre o peito.. Não sabiam aqueles amigos que estava senhor da maranha toda e que.Também pode ser. Um só. Associado nesta altura da vida só com os quatro galfarros que me hão-de levar ao cemitério. E como está em branco. mas já era tarde para desandar caminho.respondeu ele com igual peremptório. Deste jeito desaparecem as desavenças do dia de amanhã ao repartir da talhada. ... . Mas era homem de prontos reflexos e reagiu: .Quinze contos e nem é dado nem vendido.lançou~lhe Hincker de chofre.! . Foi um tornadoiro de águas.Está para viver! . Não tem pés nem cabeça. e amigos como dantes..tornou Hincker. ao contrário do que Severo pressupusera. Para os senhores é melhor.o seu sorriso. pretendidamente apanhados de ferramenta ao ombro. Os homens apanhados com os machados às costas já estão na gaiola..Mas o senhor Calhorra exorbita.Qual exorbito? Se o senhor Incas não quer. Levem o pouco ou levem o muito. . portanto. a jogar contra eles jogava com cartas marcadas.O amigo Calhorra sabe muito bem quantas polegadas bota um palmo. Como eram pessoas de olhos finos. lá para as congonhas do Catrino. ao Sarzedo. oh. pede fora de razão. mas neste capítulo está em branco. era de quem desdenha quer comprar . . daqui a migalho rompe aí o inglês que lhe pega a olhos fechados. teriam visto fuzilar a imagem de um homem. previsto pelo Código.Macacos me mordam se entendo o que está para aí a alanzoar. nesta altura do discurso sorriu. vale-lhe mais a pena associar-se connosco. deviam sentir-lhe passar à flor de pele. a deitar o pinheiro abaixo a golpes furiosos. Firmado neste palpite. como num espelho.Já disse. um imperceptível e quase abafado badalinho mofador: .. ainda bem? O que agora mereciam era que lhes cortassem o pescoço. . Severo teria compreendido porquê.Quanto há-de querer pelo endosso? . o arrepio nervoso do sobressalto. Nada feito. descuidado. Sim.Quinze contos . estava farto de o conhecer. 51 . na sua pupila. Por isso mesmo é que é um grande crime. leve. e a Guarda procede ao levantamento dos autos. riscam por onde lhes apetece. e vá de facilitar.. não mais. Opresso e de semblante muito sério.Deitaram um pinheiro para a estrada. Não faz. Pressentindo provavelmente o perigo. Supunham que o Corbet tinha abalado para longe. um só homem. mas o mais certo é levarem o muito.. puseram tudo em pratos limpos.e disse: . E tal erro de reconstituição foi quanto bastou para adverti-lo de que o anúncio mofino devia ser tomado como escova e mais nada.O meu caro senhor Calhorra faz o endosso por dez contos. . Incas e o engenheiro puseram-se lá na ladração que ninguém entendia e foi este que rompeu fogo: .

Comeu. Invocou a égua.Vai contente por voltar para a loja . Tinha bom dente o animal e depressa triturou o penso sem perder um grão. 52 . e a Verónica.Venha fazer o endosso e tem os quinze contos. lenço de seda a doidejar para os ombros. . tornando costas ao caminho velho. É do primeiro berrelho que mataram em Orcas e seria pena não lhe fazer o funeral. cuja exultação lhe pareceu que devia de ser comunicativa. insinuou o baguinho.disse ele para Verónica. Por fim. invocou a mulher. porque desatou: . Coçou-lhe a estrela na testa. quando uma e outra eram como pombos-correios a ir dar a Malhadas. quando ninguém podia toscar. explicava ele. trapaças em que lhe não andasse escarmentada a menina do olho. ferrador. entre o coiro e a camisa.ferreira pela cabeçorra maciça. contados nota a nota da mão branca e papuda do senhor Incas para a sua mão negra e calejada. . não anuiu a regressar com eles de automóvel. que oferecia a vantagem de ser mais curto. pesada dos anos e dos untos. levava os olhos todos duma feira presos ao seu donaire.Até a bestinha vai contente . bebeu. dirigiu-se para a loja do Dias. Celebraram o trespasse e reinou a harmonia.Não havia meio de se medirem com o egas. desconfiado com a demora. fazia horas.murmurou o Calhorra. mesmo assim oprimida. contou andanças dos seus bons tempos. Tavolado fora. todo teso. onde tinha a cavalgadura e a mulher ficara de esperar. A primeira efusão de sua alma satisfeita foi para a égua.corrigiu Verónica. deu-lhe duas palmadas carinhosas na anca e primeiro que lhe pusesse o albardão. deitou-lhe o meio celamim de milho. ao desandar da vila. ele de escancha-perna. palitou até a dentuça. o rico baguinho bem ganhado. oral Podiam arrepender-se. Mesmo assim o Calhorra. deixe-me acabar o petisquinho e mais aqui a patroa. Por aqui vamos menos expostos a tais ventos. bom cordão de oiro ao pescoço. . . rompeu a picar o trote. ao fundo da escada. lá foi barquejando nas pernas zambras ao encontro do senhor Incas que.Vamos pela estrada . o braço dele à volta da sua cinta. com um ripanço tão abacial que por duas vezes o Aires veio espreitar. ela assentada .Fartou-se de rezar à manjedoira do Dias. Ajeitando a cavalgadura a um paredinha. que não era falho ao peso. mal se apanhou de posse dos quinze pacotes. e não se gozar da massinha? Podiam até caçar-lha por artes de berliques e de berloques. lá conseguiram encarrapitarse ambos na albarda.Levo comigo uma queijada que pode muito bem cheirar aos amigos do alheio. de naveta com o engenheiro no Tavolado. . Coitada.viradinha ao norte como nos bons tempos. quando viu o paliteiro em frente dele. um aparelho vetusto e vasto como palanquim de elefante em que se içava ele. e a Ferreira é que ustia. para que se visse. a ensaiar o sarambeque. a sua valente Ferreira . que cantava e parecia oiro ao virar. Tiveram que transigir. senhora duma culatra mais larga que um palheiro. que já tinha comido muita rasa de sal quando eles ainda não tinham a envide. Ora. Hincker estaria inteirado. . E antes de sair dos Paços do Concelho. quando rapariga.O senhor Incas já agora tenha paciência. e não nome de gente. Agora estava um basculho. a bufar de impaciência. menos escarrapanchado o arco das suas gâmbias. sabe-se lá? Podia tombar o carro. de bigorna.

Feito o quê. . Quando falava para si. as tílias que dão flor para todas asboticas de Portugal. Esses humilhadeiros dos sentidos eram-lhe de resto familiares à força de passar por eles. desabafou: _ Então dize lá quem é gente. Lembras-te? Ao tempo. Com os dez que estão ao canto da arca e algum que se amealhe com o febrão do volfro. o que equivale a dizer para a mulher. integrado no seu papel de pessoa importante.Gostava. ah. não há que dizer. Só então se lembrou que trazia encabado no alforge. Muito tenho eu sonhado com aquela casa. Este é que deitou a lebre a correr. bota o pensamento e o pensamento é como uma fateixa que vai tirar o que está no fundo fundo dos impossíveis. um mendigo. onde não botavam. ora diz que a casa da Serra é a pasmaceira feliz de que nunca se desfará pelo oiro todo'do mundo. Quinze quilos é quanto canta na algibeira. gente que lidava nos campos. alminhas do Purgatório.Fartei-me de suar no Vale das Donas. O melhor. vês tu. que tocava apito . pois não gostava? . e foi logo outra vida. Foi uma fortuna aparecer este Incas. pode ser que se faça um rente ao casal do Torres. voltava ao colóquio interior ou com a sua Verónica. que tem dinheiro como terra. e o homem. Nos intervalos da loquenda.tornou depois duma longa pausa. não passava por nicho. ah! O Calhorra falava para a mulher e falava para si. . chamado pelo cadino do Aires. até sentia o coração dar estalidos como uma trave arrebentada. aquelas dezenas de escudos foram oiro sobre azul. por cima de suas cacholas esquentadas. pela volta que as coisas levaram. ah. hem. Eram a prata. sempre que me lembrava.Deus escreve direito por linhas tortas . ia jogando com a mulher de caravelas. segundo a folhinha dia de S.Pode muito bem acontecer. ah. donde Orcas se afigurava ajoelhada. Tenho-me por contente. ah. Mas quem adivinha? Setecentos quilos. mas passa-se cá bem sem ele. O homem ora diz que vende.O Calhorra não soube que retorquir à voz prosaica e apenas no alto. e os filhos gostam da terra como da sarna. que lhe adivinhava os pensamentos à légua. O Torres é boa pessoa. santo Deus? Mas do mal o menos. tal dia faz um ano. por modos.to Agapito. era o oiro. Quanto largarem de vez. cruzeiro. o que ficava no bucho. ah. ao preço por que está hoje. o seu sombreiro de barba de baleia. é o miminho da terra! Calou-se que vinha lá gente e estas coisas só se confessam para o travesseiro. vá lá a gente dar crédito a um telhudo assim? A mulher. e tinha a peito que comungassem no seu jubiloso enternecimento. como antigamente o trabuco dos quadrilheiros.fica-me assinalada com um calhauzinho branco. gente que vinha a pé e a cavalo. minha badalhoca! Dize lá! Esta terça-feira.! . saudava este e aquele por quem passava. ao meter a mão no bolso para lhe dar meio tostão.Estás a ver-te a bater a chinela nas salas do convento ou a deitar milho no pátio às galinhas. Tanto melhor. oh a regada que. Caía um sol de canícula tão abrasador que nem as cigarras podiam com as asas para cantar. Ela. disse: . por causa do qual. mal tratada como anda. dize lá? . que não tirasse o chapéu. Abriu-c. Igualmente tão santanário como cortesão. e a regada. ia calado. Agora. contente como um chicharo. afeita a 53 . A gente. durante a qual abarcou o panorama dos seus cuidados e canseiras através de um quarto de século. os cantoneiros. As suas vozes eram como á gua que trasborda dum açude cheio.bom apito toca agora o Incas. À Verónica sorria ver-se dona daqueles casarios tão grandes.

Quando se apanharam entre os pinhais. Saem. Mas alguma. E tens de convidá-lo bem. E tanto apertou com ela. um pouco por impostura. outro pouco porque caíra com todo o peso sobre o tornozelo. assim se começa e assim se acaba na beberroma.Em chegando a casa já te fartas. Comparados com ele. mas pecou por pouca. agora vou com fome. Olha o disparate? Foi de não dormir a noite. dize? . que foi preciso dares-lhe o lençol com que foi a enterrar. . Deus perdoe ao pele-de-as no.Ia com sono. acordando-o num desses momentos de compenetração.. Caiu de pé. ao passo que com a outra mão retinha a rédea. já passámos Manfurada? . bem embora convindo que duas machadadas depressa se dão. Não sei. És muito franca? Dou-lhe metade da melgueira. Mas agora iam silenciosos e não tardou que ele começasse a cabecear e o pé do guarda-sol a amolecer-lhe nos dedos. . Silvestre! Os nossos lá levam a vidinha direita e não é com o copo que bebem aos domingos que hão-de deitar a casa a perder. O avô pertencia à quadrilha do Olho Vivo. Serviu para espevitar o apetite.Hem.exclamou ela. não. Ela foi-o segurando como pôde.. os nossos são uns burgessos nem lá vou nem faço míngua..Apanha umas calças e está com sorte. andas-me com uma fritada de chouriça ou salpicão com ovos. Gasta quanto ganha em vinho e cigarros. . . O que te juro é que se em vez do Luís Ougado meto na dança um tanganhão dos nossos estava a fazer cruzes na boca.Tens de convidá-lo. Assim teve ele o fim. que é má rês? . depois de grande reflexão. O Calhorra quando a viu a manquitar. . não me dás novidade. A marrã estava de se lhe tirar o chapéu. que passava a vida a fazer gaitas de sabugueiro e de urgueira para os pastores.Olha a novidade? Em chegando a casa. que na idade deles era capaz de dar um pontapé numa estrela. Mas de repente.Deu-me uma soneira que sonhei que me estava a virar na enxerga.disse ela. o Calhorra disse: . garranito.Não digas isso. tantas melúrias disse.. . . A como anda o cotim? Verónica. que dali a pouco a Verónica montava de novo na Ferreira. àquele teu tio do Forno. concordava sempre. mas podia magoar-se e ficou a chorincar.. achava que devia presenteá-lo ao menos com umas calças de picotilho. depois dum alancão que ia baldeando os dois em terra. e era destes que não movem um pé sem perguntar ao outro se dá licença.Que é má rês. A mim não.. teve pena e ralou-se.não ser mais que voz de acompanhamento na ária de que ele por nada deste mundo deixaria de ser parte cantante.. 54 .É verdade. De raro em raro permitia-se uma pergunta inocente ou uma observação que por via de regra lhe iam acender o mau gênio. Atravessaram o povo amodorrado debaixo de calmaria e com ondas de moscas alvoroçadas nos chiqueiros. Não sei a quem os almas do diabo saem. .Estamos a chegar. E ali se ateou uma contumélia tão azeda e assanhada que a certa altura o Calhorra deitou-a da égua abaixo. acordou para dizer meio estrenoitado: . se calhar. O brequefesta armava-se por dá cá aquela palha. o Luís Ougado é que meteu uma lança em África? . mas levado de todos os moscardos? O ladrão vira-se em cima duma moeda de vintém.Metade. Dizes tu convidá-lo bem..

o Calhorra refreou a égua e.Não o levas já aí. Ao entrarem na terra. . quando passámos. . onde há um casal com suas de endências. Não? Foi uma fortuna. cesta com eles.. apontando contra a parede um tufo de ervas.Ovos talvez eu os arranje.Raios te confundam! Quantos ovos. Mas receei que na vila te vissem os ovos e. encontra-se o caminho velho numa extensão de trezentos metros. proferiu: _ Esta manhã. avista-se todo o troço da antiga via. A última meia dúzia levou-os a Inês. eira. a infalível cestinha das compras. Quando se endireitou com a mandioca no cabaz. o Calhorra disse para a mulher: Santa paciência. costeou pela direita numa curva lenta e escarpada. enfiada no braço. debaixo do sombreiro como um mandarim. perturbada no seu ripanço de poedeira. coitada. cabeça de burra? Esta manhã estive vai e não vai para te mandar descer da égua e passares-lhe os cinco mandamentos. Verónica tornou a subir para a albarda em frente do seu homem. Ia com a minha fisgada. Quem vai a pé ou mesmo a cavalo toma por ali fora se quer ir mais depressa. quando lhe respondeu um cacarejo mal-humorado de galinha. Mas ovos? Não tenho um só de portas adentro.Também a pita? . a pita é do dono. Ia muito lépida.. Era volfro branco. Daqui a pouco estava a chocá-los. Ao chegar à embocadura do caminho. .. Vê se ainda lá estão.E o tal volfro branco? . Era um regimento. Silvestre deu-lhe um beliscão e logo de seguida levou a mão aos lábios no gesto do cadeado que 55 . Além de que o caminho é mau e a égua pode escorregar e partir uma perna. lagar.. com a cestinha. elas sem pôr! O Calhorra não respondeu.Enchem a sertã? Abana-os a ver se chocalham. havemos de ir ali adiante aliviar uma parida. os ovos é que são nossos. Adiante de Manfurada.. ao passo que passava a cestinha a uma das mulheres. como dum balcão. e água a despenhar-se da cale de Pedra para o tanque. como por um argueiro se tira um cavaleiro. Vê lá quantos são? . Encontrou dezasseis.Estamos com sorte. Dela.Quantos quê? . O macadame. a fugir ao pendor que era grande. Verónica dobrou-se a procurar com a mão. vieram-lhes ao encontro filhos. Silvestre soltou-lhe uma gargalhada: ..Não. Porque esperas? . em linha recta.Lá pelo fumeiro. que chegassem ao fundamento da operação e não a achassem segundo o bom direito. que demos com o ninho. Só lhes chegam os abades e os fidalgos.? Tens-me tirado os ovos das pitas? Lá me queria parecer.Arranja-los tu.. forno. saltou em terra. encarou em Silvestre. ainda quando não há compras a fazer.. A mulher insinuou a mão por debaixo da parturiente a contar. Vá. avistei ali umas pedras de volfro. A certa altura. não disse bus.. Sabes a como? A três tostões cada um.. a perguntar: . não há-de haver novidade. noras e netos. mas agora tens de ir à pata.. Ajeitou a besta a um poiso e Verónica. habituada a todos os caprichos do seu senhor. a contar a aventura do volfro branco.

56 . dos negócios que se fizeram ou se têm sob palavra. não é menos o viático daqueles que se premeditam ao longe e não passam por enquanto de sonhos mal sonhados. pois que se o segredo é a alma dos negócios.fecha uma porta.

. . Na mesma da hora em que acabara de sachar a leira do Gradil e já traçava o sacho no braço para se vir embora. ajoelhando ao toro da giesta. 57 . mas que lhe fazia doer o peito. como se acertasse destorcer uma grande meada. oh se estava! Fora por uma casualidade. e frio.. um pouco desconfiado com a ucharia. esvaziou para lá a algibeira. e não são roubados. ih? ih? ih? Com que então. fora...O volfro estava bem guardado. . Também tinha pouco que errar: carreira dos gados fora. O macanio fizera a cova.. o guarde com tã o pouco ardil? Ai. e ali. não se pusesse por lá o irmão a deitar imaginações erradas...Dizes tu: três arráteis.. Toda a sua pena era que não fosse urna arroba. na menina do olho? proferiu depois em tom prazenteiro e admirativo ao mesmo tempo.Para estranhar é que.E outra vez se viu Bárbara obrigada a explicar como aquilo fora.. para ele ver bem.. ! Ora toma-lhe o peso. zás. um sacolejão que fez estreloiçar as pedras: . lá deitou o ponto até que. deve passar de três arráteis. ih? lh? ih! – e soltava-se-lhe outra vez o riso. ? Sim. Hum. . depois de escamoteá-lo com tanta finura. expondo-o à claridade do lume. o machucho olhou à direita. um frouxo de riso nervoso e regalado. e em voz pastosa. tu por -aqui às Jurtadelas! ? Temos endrómina.Vês tu. olhou à esquerda. e como não lobrigasse vivalma lá veio pela mata abaixo todo farófia. a partir com a tapada do Urra. Assim que a apanhou em conformidade.. três arráteis para mais que não para merios'?. Foi como se desatasse um saquitel para a arca.IV Reavivou a fogueira com um punhado de gravetos e enquanto ele.O homem.emitiu o Duarte muito concho. O que me admira é que acertasses com a cafua por um escuro destes? Caramba.. que não? . ufa? mas ela iria lá direita com os olhos fechados. compôs o chão.? o Ougado. não esteve com panos quentes. . rente a um penedinho.. pronunciou: . Uma assim! Breve percebera que o que ele estava a fazer era a desentupir uma cova. deitou um olhar à volta e.O Luís Ougado há-de-lha sempre pregar. se pôs a rapar terra. que voltava de deitar as águas. uma casualidade como não há muitas na vida.. pois a gente da terra tinha a pecha de andar sempre a escutar por detrás das paredes que eram rotas.. que caíra debaixo dos seus cinco mandamentos. Escuro fazia. pulou a direito para o caminho. aquela sua voz cauta de roncão. foi pelo volfro para lhe mostrar. passeando ora um pé ora outro por cima da labareda. parecera-lhe ver relampejar um vulto ao cimo do pinhal do Urra. Também o Duarte se não soube manter naquele seu sisudo macareno e largou uma risota baixa e esbagoada como de galo a ensinar o bom cibato a uma franga. À moita da Cismas metia-se a gente pela demarcação arriba e era logo no tope.. ao tojal do Zé dos Cambais carregava-se à esquerda para a moita da Cismas. mal se enxergavam os talhadoiros. Olha quem ele era. O Duarte tomou-lhe o peso. tirava os tamancos e se aquecia. . Acachapara-se. tendo-se capacitado que não pisava por ali gente. mesmo ao toro duma giesta. imprimiu-lhe. acabado o trabalho.A endrómina está à vista . Estava ainda na giga da meia como o trouxera e. Depois tornou a encher a cova de terra...

Por esse andar. farturinha no açafate também avezavam. Era a matação do Duarte aquele linhar do primo sapateiro que. embora não medisse mais que duas canchas. Louvado fosse Nosso Senhor. Sobretudo queimava-os a fome de terra. pelo muito. dize-me lá.A quê. partindo com eles da banda da Fonte e dando-lhes rego. não se perca por lá o que tem jeitos de certo. Tinham crescido às esmolas. lhes cortava as águas de lima para duas propriedades. era uma terra gorda. cabeça para os joelhos. também ele indeciso quanto ao que em tal emergência mais convinha fazer. com a malta toda. Ela então reatou: . de facto.. uma terra de unto onde tudo vingava que só de vê-Ia caíam os olhos aos invejosos. um ano inteiro a acarretar para o celeiro como na própria noite ir à toca e pôr tudo com novo dono. pelo prazer de possuir. medidos à desnatadeira. trazer dinheiro ao ganho. Em casa. Se é jogador. --em feiras e romarias podiam chocalhar a sua coroa.. Por isso em primeiro lugar e também porque. um vintém Catarina o tem. dizia para os camaradinhas. tão estreme que quita esborraçado. mais que arriscado.. o que ele próprio pelo encolher de ombros deu a entender que reconhecia. dali a cigalho quebrou o silêncio para dizer: . Este está tão purinho. e já passavam de trinta os números que traziam na matriz. Chegados ali. pelos vistos. um mês. que a conta dos leites. é que o não quis e é bom de calcular porquê. nunca secariam menos de carro e terça. O diabo é que no entrementes pode vir outro e lá se vai quanto Marta fiou. Mas espera lá que se a diligência que ela fizera à boquinha da 58 . sempre havia umas sobras para o riscado do avental e as brochas dos tamancos.. lhes andava sempre forra. Pagavam-no hoje pelas portas a trezentos e cinquenta mil reis. Acabavam-se os onzeneiros e estoiravam os necessitados antes do tempo. Com pães grados. louvado seja o Senhor! Agora pergunto-me eu: não valeria mais a pena esperar uns dias e deixar que o melcatrefe enchesse a buraca. ninguém dava mais dinheiro a juros. acontecendo calhar de milho.. ? Ao volfro? O volfro vai para o pé do outro. um chaparral. o melhorio da casa. Tu que preferes? Eu cá pertenço à seita dos desconfiados: toca a botar o laço.largava das Minas. Embora os surripiadores da Fazenda lhes levassem muito do que granjeavam. além de que as perdizes enjeitam às duas por três. devia ser assim. Era este rico maná. Se é desconfiado. porque tendo-se sentado. E agora. Viu ao clarão dum chamiço o Duarte estender a beiceira. cada vez punham mais febre na labuta. Deixa-me cá: quem arranja dinheiro para comprar o linhar do Fandinga sou eu. Dqui a nada vale mais que o oiro. Pois embora.Deixei-o virar costas e fui ver. Matavam porco pelo Santo André e. Aquele linhar do Fandinga era como uma espinha que trouxessem trancada na garganta.? Sim. Uns anos por outros os Ladeiras adquiriam uma belga. que lhes fazes? . para terem o regalo de atestar as arcas. malhavam as suas setenta pousadas e. deixa-lhe pôr a dozena antes de lhe armar. uma mata. podia ser que valesse. Não é? Ela acenou que. mas se eu fora adivinho não era mesquinho. . O Duarte pareceu não concordar de todo..Suponhamos: um rapaz acha um ninho de perdiz e ela na postura. arma o laço e não espera por mais. Um bicho destes tanto pode passar uma semana. mas podia ser assado. fingindo-se tomado de aperto: andai lá que já vos apanho! E corria a enterrar o roubo. trup-trup.

Mas tinha de fazer de conta que o pobre boizana estava a calcular os punhados de carqueja que gastava sem proveito. Mas o Antoninho era o fantasma negro que enoitecia os horizontes do Duarte. além da obsessão do que se teria dado. depois das colheitas. dali a pouco não havia com que cozer as castanholas. Aquele pobre burro das panelas imaginava-a a ver-se ou a sentir-se com o Antoninho no meio das moitas. tromba ferrada para o lume. obcecado por aquela sua vontade desesperada de arranjar dinheiro. não existem veredas conhecidas ou apenas sonhadas que o pensamento não bata e vá tenteando. e ela bem via correrem-lhe no bestunto as minhocas negras e viscosas da sua cisma. Lá fora com certeza estava a cair moinha. a alma despe-se como o corpo quando se dá a um amigo. assim a esfogueirar. e pôs mais achas depois de espertar o lume com ramos secos. Que grande alcoviteira que é a chama e como as suas línguas a lamber. Quando faltar a lenha. Diante duma boa fogueira a arder. e tal ideia fora e continuava a ser o seu inferno. E fazendo com aquela lengalenga e os socos ferrados nas lajes mais barulho que um carro por uma ladeira abaixo. viesse ela donde viesse. A casa era um pardieiro onde uma alma cristã se não achava mais abrigada que no meio da rua. onde não tremeluz folha viva. Decerto que diante dum lume rijo. quando podia meter-se na cama como ele. e. não se sentia passar. a nadar em ódio. Por isso. ficara sobre brasas. a abraçar-se em fúria lasciva. nem de encomenda. assim a horas. como tiborna de verdete e água choca. do que se teria passado entre ela e o Fráguas. no género do irmão. venenoso e fétido ao mesmo tempo. Compunha-se de uma só peça. de olhos no lume. que em matéria de tais orgias são dos que têm escutado apenas às portas. junto do senhor Antoninho Fráguas. não havia como o fogo para o Demónio entrar com as criaturas. porque sentia a humidade nos ossos. No fundo. e foi-lhe dizendo em tom de mofa: . esquecidos do resto do mundo. que tinha ele com isso? A noite. O Duarte ficara macambüzio. O homem viera a Malhadas receber as rendas e destinar a lavoira da casa que lhe deixara o tio. apuradas bem as contas. o mesmo era que continuar a pouca-vergonha. o fulgor das brasas a deslumbrar os olhos.noite. como de resto 59 . estavam como queriam. Morto andava ele por arranjar a bagalhoça precisa para a operação. de continuarem a encontrar-se de vez em quando a favor da primeira ocasião. Estava uma noite de geada. vou ao molho pelas tapadas! Coitado. antes de ir crestar o cortiço do Ougado. Era como zorra que vai pelos campos. o que o atormentava era o pensamento. De facto. desse o fruto devido. não tendo ânimo para a tolher de lhe ir falar. cada vez mais raras.Não te aflijas. com a carne quentinha e regalada. interrompida de quando em quando em sua modorra pela refega do vento nos pinhais. Suspeitava-a de ter pacta com ele. Pela telha moira tanto entrava a chuva como a neve e o vento. Estava a verlhe trabalhar o maquinismo interior como a um relógio quando se lhe levanta a tampa. lá se foi meter entre mantas. via-a entregue à sua ideia. um momento apenas aliviado da ralação quando ela lhe fez dançar diante dos olhos a feliz bolada do volfro. O Duarte acabou por desencravar a cabeça dentre os joelhos e ergueu-se resmungando: ia um grande inverno e era preciso ter governo na lenha. destas moinhas finas como paraganas e glaciais. o sangue a espirrar em seus espíritos todos. E. aconselham esses enlaces brutais que saltam por cima de todos os recatos e castidades? Não havia para sentir-lhe o chamariz como as pessoas. afora curtas e ásperas guinadas do vento.

. Também ele já não era rapazola nenhum. ajuntou-as em seguida. Dois pontaletes grosseiros. e eram de ferro. restos contra a tesoira. no horizonte do seu espírito se ergueram as suas preocupações como montes ao longe. escoravam ao Centro. O tempo. depois pouco a pouco com relevo e relação. .Com que sim. não perdera uma centelha daquele seu olhar magano. a que penduravam as peneiras e o candil. que conseguiu falar-lhe. Primeiro imprecisas. e para ela com sobrada razão. uma vez que o Duarte largara com uma moenda para o moleiro e não via. haviam-na tingido como uma essa. Procurassem nele o estoira-vergas que apertava um cavalo entre os joelhos e lhe fazia dar ronco.O meu Duarte é que havia de lhe vir falar. sem contornos. foi-lhe dizendo em tom sacudido: 60 . Também ainda pudera dar duas cardadas ao cabelo. mais fria que uma corga da serra à meia-noite. afoitara-se a dizer-lhe: . ao chegar do Gradil. A princípio.. saíra a dizer que tal habitação era semelhante às que se tinham feito no princípio do mundo. Bárbara? . não se esquecendo de lhes fazer uma covinha ao centro para activar a combustão. Fizera como em certos actos da vida que se fecham os olhos antes de dar o passo fatal. quando dobrava o portão. Mas o que tinha de pior era ser fria. Tivera o cuidado de cobrir o xaile e de calçar as tamanquinhas. Mas assim que atinou quem era.?? Pois se entendes que é essa uma razão para lá ir eu. Mas espera: .O senhor Antoninho haja de perdoar . o Antoninho não a reconheceu. Para que acabasse com a devassa. senhor Antoninho para toda a gente. Mais assente.proferiu ela a medo. salvo a fechadura e um ou outro prego pelas paredes. por dentro. E de novo depondo olhos no crisol e fechando-os maquinalmente.no povo. O Fráguas observava-a dos pés à cabeça com certo enlevo. pois então? Era ao entardecer e foi quase ao escapulir-se para a cerca. Um figuro de Lisboa. Torres. a sua voz foi como quando se acende unia candeia no escuro: . o fumo. Com a tenaz mexeu as brasas. Não ia assim tão fregona como de ordinário e bem deu conta que os olhos dele se foram acendendo pouco a pouco como auricus. Ouvindo-o sonhar alto. a bater o dente de taró. a aparecer por grande acaso na terra e o Duarte a pular. Não estivesse ele possuído pela febre do linhar? E ela decidira-se..Bota-te a falar com ele. do que logo se apercebeu com desvanecimento e vaidade.Nem que me matassem? julgas que sou desenvergonhado como tu?? Estivera para mandá-lo bugiar... que o não descobriam. O Fráguas. Quem na dividia eram as arcas. que uma vez ali entrara por curiosidade. mandados ainda meter por seu avô. contra a luz. não me nego a Isso.És tu. por fora. Achá-la-ia mais velha. Que dizes? O Duarte despedira. ainda nada pesadão. sou desenvergonhada. mas o meu Duarte é um encolhido. o que é. Se não fora o chamicinho morria-se inteiriçado. aquele olhar diabólico que despia as mulheres antes de elas se porem em camisa. Dar um recado custa-lhe mais que levar uma saca de dez arrobas às costas. que não envergonhavam uma cidade.. a armação que ameaçava desabar. agoniado como andava na ideia de que lhe iam expropriar a regadita do Vale das Donas por dez reis de mel coado.. com excepção das casas do senhor Antoninho e do Dr.

. O meu Duarte anda muito escandalizado com os homens do volfro. mas paguem. depois de ter consentido no sacrificio abominável de a 61 ..Não o quero demorar que está muito frio aqui no meio da rua. e.. A regadita. Era isto o que ela lhe presentia no catarro. Eu desato o saco. mas não cavem a sepultura dos vivos. acabou-se. e ela seria a primeira a experimentar-lhe a pancada. como todas as propriedades daquelas parvalheiras. Não é assim. Em realidade o que há pouco a atormentava era o que ia fazer o irmão por ricochete. Ora cada um manda no que é seu. tinha-a quando arreganhava a cabra e mijava a rã. atalhando a jaculatória. que. A regadinha hoje vale dinheiro.. Paguem e não façam como fizeram corri a Cismas que recebeu uma tuta-emeia... lá medravam dois pinheiros revelhos escapos por milagre ao dente das cabras. e queríamos semear lá erva. das vezes que ali passava à caça. até umas vezes por outras. Deram-lhe ordem para não deitar nada na regadita. a comer.e que de facto o bocadinho fora agenciado pelo Duarte no baldio. por sinal uma boa carrada. como tantas outras terras. pois que fique.E queres a minha intervenção para que. e não só lhes faltava pão no açafate. Vou-lhes dizer que tenham em atenção que vocês são pobres e levam vida dura. O pior de tudo era que o Duarte. tarde e às más horas. Que não valia a pena.. mas tinham que tirar dinheiro a 20% para pagar a décima.perguntou. o Duarte não quis chegar-se às boas e vêm os louvados. afora aquele ano que haviam trazido de lá a sebe cheia. Ela então não se conteve que não desatasse a rir. deitava-se a perder se o não indemnizavam segundo os cálculos que orçara. por muito que o Duarte houvesse minado no oiteiro. o certo é que eram uns infelizes da sorte.? Lá que retalhem o chão. Há dois dias voltou a ter com eles tal bate-língua que chegou a casa num estado que ninguém podia com a vida dele. outro ali. Torres e do senhor Antoninho ali conservassem bens e.. rendera uns duzentos e vinte mil réis. Era o nervoso. que os pinheiros tão jambotos eram que não mereciam serragem. a fazendória era um pedriçal que dava quatro espigas chochas. sim senhor. e que só a murá-lo arrancara passante de trezentas carradas de pedra e trouxera dois pedreiros.. e espantava que figuros da classe do senhor Dr. Estaria farto de saber. a três escudos. logo a seguir. se foram quem eu imagino.. números redondos . com brusquidão pouco delicada.. mas andavam à resina .Eu sopro uma palavra aos louvados .O senhor Antoninho não conhece os louvados. ainda que de mau humor. que os gaios e a raposa não deixavam amadurar ali maçaroca e que lá de água. Ela. . não valia o amanho. Bem entendido. .? Porque saiba. Ele deu-lhe uma fungadela. . como a visse calada tempo mais que suficiente para tomar fôlego. Talvez os engenheiros do Incas tivessem carradas de razão e o seu Duarte não passasse dum enxovedo que nascera com má sina.disse subitamente o Fráguas. rompeu a concordar com ele. foi pouco mais ou menos o que disse. assim que soubesse terem sido frustradas as suas esperanças..? .. todo o ano a labutar como negros. ali viessem deitar âncora.a última sangra. três semanas. Ora se sabia! Na parte pedregosa haviam deitado penisco e um aqui. Pronunciara a lição de cor como tantas vezes fazia com Pêro e Sancho e estava admirada tão bem ter representado que um finório daqueles se deixara engrolar. por um reverso da decepção e por manha... de facto. Tirámos o milho. Desejam que a terra fique a monte. tisicado do gênio como todos sabiam.

à volta dos olhos apardaçados.Pode acontecer..Um dia será. Um dia. não podendo desconfiar do que lhe ia no entendimento. já não se sentia há muito. Fitando-o de perto.. já ele dizia com voz que fingia de arrufada: Fartaste-te de mangar comigo. cem vezes não. Àquela efusão sucedeu-se uma pequena mas enleante pausa. disse com melado entono: .Nunca é tarde. Largaram cada um para seu lado. e que bálsamo não era esse para a sua alma sentida? Tanto assim que teve coragem de lho dizer. pois que lhe interessava ainda.tinha-o observado em muitas ocasiões . além disso.. pois mal se calara o tamanco.. para vinte e cinco anos. brincando. e três vezes volveu a cabeça..Não diga isso? Estou acabada.. Era a medirem o galão que dera o tempo.. embora logo se arrependesse: . mas mesmo assim as palavras dele entravam-lhe no peito como uma golfada de ar fresco. atirou o xaile e as tamanquinhas para um canto. O senhor Antoninho.Estás a mesma rapariga. o ar bendito das manhãs de Primavera. chegou-se para ela e passando-lhe a mão em volta da cinta. e de expectativa ante o tamanco-seria ja o bruto do Duarte? . E.. Sim. O senhor Antoninho é que nunca mais quis saber. Ah.vinte. julgava-se uma meronga. Ao passo que despedia. Meia bêbeda. viu-lhe reluzir nas têmporas os primeiros cabelos brancos e. Casou lá para Muradais... Durava o entremez: quero-te bem! amanhã será o dia? .deixar ir falar com o homem detestado. Dentro dela não se apagara a fogueira. tornou rapidamente: . apoquentados pela soma de relices que saltaram a pés juntos para matar seus desejos. Depois.. negava crédito às línguas depravadas. Que era legítimo concluir de tais palavras? Sabia. . proferiu reatando a ordem de pensamentos solapados: . .Então não acredita? . e não. e fora então que dera o salto à lura do Gradil. que é o mesmo que dizer bóia. Quanto ao mais. Assim animosa. Anoitecia.. É um alegrão que lhe levo. bichas....Acredito o quê? Plantou os olhos nos dele. Como ele a visse rir. o seu tanto distante ainda..longe de pensarem nos engulhos que virão depois a sentir.que estreloiçava na rua. Rascoeiro até a morte? Afinal tudo isto de homens eram a mesma choldraboldra. Então lá dou o recado ao Duarte e bem haja. O tempo não te viu.? . Eu?? Diga dessas.. Sentia crepitar a chama e difundir calor. Os homens quando estão diante duma mulher deixam-se seduzir pela ideia do gozo que ela lhes pode oferecer . . tretas? houvesse ele saúde? Saúde e. excitado porventura. talvez coisa nenhuma.Agora.. Bárbara. não sabia o que murmuravam as bocas do mundo? O importante é que lhe não descobrira nos olhos reflexo suspeito nem vinco na face pelo que devesse ficar de pé atrás.. ela a rir. Mas exalava o mesmo odor poderoso e envolvente e ao seu lado experimentava a mesma fateixa forte a arrancá-la para fora de si.Aqui me tens.. arranjou melhores entretimentos .. as capelas cerzidas de garatujas. Ia a abraçá-la outra vez.. como o visse calado e sério. E ali estava: dia em cheio? 62 . Mas ele metera cara ao portão e caminhava para casa sem olhar à retaguarda. mas ouviu-se desta feita a chanca da Ana Ruça caminhar para eles e ela furtou-se.... E que estaria ele a pensar dela? Que estava boa para calço de panela? Talvez coisa nenhuma..

Tornou ao volfro.. Acordou com o Fráguas a puxar-lhe pelo braço.À lareira gélida e silenciosa revivia a cena toda e pasmava do seu rasgo.Corto-lhe o pescoço e toca a imolá-lo. Deu voltas sobre voltas. À ideia do forno com a borralheira à porta e os mendigos em redor a disputarem um lugarzinho mais bafejado pelas brasas. num rufo. foi para as lameiras da serra com as vacas e lá lhe apareceu o senhor Antoninho a querer saciar apetites. três.. tudo voltar ao que fora dantes. santo Deus? Não fora a realidade. nos lábios um grito açucarado: . .. um. e na lata que Bárbara deixara debaixo do algeroz. papudinha e desdenhosa.... e logo a voz do Duarte encheu a casa toda: . vencendo a hesitação. Cantava a desoras o maldito. girou a deitar-se... e andou a estudar a maneira de se introduzir na mina do Vale das Donas e bifar uma abada de minério sem a caçarem na ariosca.era a senhora D. mas levava as mesmas voltas. deixe-me.Não disseste que havíamos de o dar ao senhor Tadeu?. tê-las sujeitas um instante a gemer e a guinchar. não? Ora o fidalgo? . por lá a Rosa Pedralva que andava a cozer.. Tropicavam socos na rua.. O vento volvia ao bufadoiro. E ficou a malucar de olhos muito abertos em coisas e loisas. uma escuridão que abafava a casa como um corvo abafa os ovos que está a chocar.. mas há que tempos isso foi? O padre que coma as galinhas dos baptizados. Ouves. que o Duarte fizera mesmo à entrada da porta por causa da fuinha... que frialdade? Fechou os olhos e pôs-se a bichanar o padre-nosso. mas por mais que acalentasse o sono. das voltas que o mundo dá mais retorcidas que o nagalho dos sacos para. o chambre. para as despedir depois com impetuosa e ríspida estridência: vuu! Sucedia-se uma pausa..Olha. O céu enchia-se outra vez de silêncio. até que desenganada acabou por 63 .Ai. sentiu-se transir e aconchegou-se contra o lumaréu.. e enfiou-se entre as mantas.. até dez. Em menos de um amém despiu a sala. Foi num rufo a Muradais. durante a qual apenas sussurravam as frondes convulsas. Ouvia-se para os cerros o seu bruto fôlego vergar as corutas dos pinheiros. salvo de que via uma senhora à janela de juba para as costas. pois ainda não seria meio serão. À força de ouvir aquela música começaram a fechar-se-lhe os olhos e. Há duas noites que o ladrão anda a chamar desgraças . O que é o coração das pessoas. o galo cantou três vezes. pang. vem por lá o meu Duarte? Dianhos. este verdadeiro sono que leva a criatura para fora do mundo.. e nova rabecada. a qual apercebeu-se. o pensamento lançado à rédea solta por incertos lugares e incertas gentes. tanto a realidade lhe parecia de carne e osso... para a esquerda. terra de que não fazia bem ideia. com náusea . Canudinho. dois. pregasses com ele na feira? . . Bárbara . a gota de água batucava em dois tempos ao desafio com o caleiro mais próximo e menos tomado da chuva: ping.. infundida da molinha viscosa que. No poleiro..Diabos levem o galarozI Amanhã corta-lhe o pescoço. mais os meninos. Solange Fráguas. continuou em meia modorra a vadiar por trancos e barrancos conhecidos.. entrara já nos gonzos e perguntava-se ainda onde é que ele estava... humedecendo as coisas e trespassando as roupas. empapaçando a atmosfera. ping. acabava por escorrer dos beirais. Calaram-se e a noite continuou a dobar-se em mistério e escuridão. para a direita. Cerrou as pálpebras nesta beatitude. pang.És muito franca? Disse.

. Por essa altura. o Duarte tinha ido à benta das Dornas com ideia de que a Ana Ruça lhe deitara mau olhado. Grunhia. mesa de lázaros. Anjo bento. a quis “levar ao castigo”. que lhe andava aos ficitos novos num pinhal. o prazer de se assear aos domingos à semelhança das mais raparigas. Era como um porco a bulhar com outro pela bolota. engastada na cinza. que nem uma míssinha mandariam rezar pelo descanso de suas almas!? Todo o ror de anos da mocidade lhe foram de endoença. Os ladrões do volfro dão comigo doido. tornava a grunhir. como a noite era arrastadiça. minha santa. Tudo ela sacrificara à cobiça daquele seu morcego. o senhor Antoninho a dar-lhe a mão de esposo. Custaria a aturar um côdeas e foleiro daquela ordem. afundida no oceano de negrume que era o interior do casebre. homem. dar trela aos rapazes e o respectivo retrós a torcer. Duarte? Há! Estás a sonhar. e algum era. Para esquecer e se vingar da mofina. todas bem longe de ter um palminho de rosto fino como o seu. e seria o mais.. como aqueles Fandingas e Urras. Estaria por lá com algum pesadelo: ó Duarte? .? Espera. com uma carapuça de Judas na cabeça.. o Duarte instalado de procurador na casa onde estava agora a tia Ana Ruça. Não o fazia naquela altura porque as noites eram grandes e temia que durante o sono ela lhe fugisse ou o senhor Antoninho viesse ter com ela à cama. se tudo haviam de deixar a outros. criaram borregos e cabritos. ainda não teriam saído dos serões se fosse o tempo. foi no ano em que a Cismas gritou aqui-d'el-rei contra o Silvestre Calhorra que para se vingar dela. que se coava das telhas de vidro. Agora. tem entrado muita nota? . da Rua Nova. Porque se não casava o grande jagodes? Nunca ele pensara nisso. Mil raios os confundissem quando olharam para esta terra? . um Verão a porca pariu-lhes oito leitões e todos botaram à feira. Solange. tão longe que nem na margem povoada de estrelas. que era a delimitação do seu cubículo. manhãs perdidas. Agora grunhia. 64 . Em que data isso foi. a mocidade. a alegria.. lesma de todo! O Duarte ressonava. cada vez mais somítico e apertado de contas. fartara-se de carretar para o celeiro como a formiga rabiga.. alé m do mais.. Mas não procurara fêmea. Ah.. da banda de lá da noite. do que mais gostava. a rilhar a broa pelos caminhos. olhos presos à babugem da luz. graças. Oh. muitas vezes pensava: que valiam tantos sacrifícios. luz rarefacta do quarto crescente. mas o Duarte suspirava. estou bem esperto. uns primos e velhacos na quinta casa.ficar de costas. Passava para o gemedoiro. calava-se um instante. Talvez encontrasse quem o quisesse. Cresceu com o que Deus dava. Da mesma maneira que nascera nas palhas. mas havia mulheres para todos os feitios como há formas para todos os pés. tão longe. e com o que arrebanhava a mão canhota. podendo ter boa enxerga. ? Não. noites mal dormidas. andava tudo a lazarar.. à meia dúzia de abadas de volfro que ia buscar à exploração do Incas! Mas que horas seriam? Erguendo a cabeça por cima da arca.Menos na minha algibeira. sem um só dia raiar o sol. A casa cresceu. O regalo dele era encafoar-se pelo feno dentro.Deixa lá. espreitou para a lareira: lá estava uma brasa a rutilar como o olho dum gato. que cobras e lagartos uma pessoa traz no seio: a morte de D. No mais certo dos palpites. Compraram uma vaca. vencendo a natureza. era do palhal. de bailar no terreiro.

Também haviam de cantar em cima da sua campa.Eu não te estorvei. É verdade.O Fráguas veio para comprar o volfro à capucha. Assim. até tomarem as cautelas 65 . além da resina e da caruma que davam para as estrumeiras. Agora não é ponto assente que o Dr. como sucedia na familagem.. pela tropa toda dos finados. Os pinheiros iam com as raízes por baixo das campas chupar os mortos. . outros de que ouvira falar. Quanto lhe deu o Incas? .? .Apanhavam nada? .. O cemitério ficava mesmo soterrado entre pinhais. . Nãu_ tinha mais importância que o latim dos responsos. Lá fora o ping-pang da chuva tornara-se repetida e molesta toada. é que me tiraste da devoção. .Quem fica rico é o excomungado do Calhorra. decerto a deitar contas à importância em que vinha a converter-se a queijada.Dois contos de réis.. A cabeça já lhe não governava. Contava o que fizera pela vida fora. Para que é que o diabo do homem havia de vir ainda tentá-la naquela altura. Sua tia acabara zaranza de todo a falazar sozinha pelos quelhos. já me dou por feliz se me pagarem a regadinha pelo seu valor. . Por isso.. estamos governados. O carrasco do vento esmerava-se agora em arrancar aos pinhais maior e mais aguda gemedeira. já que os vivos os não choravam. Achas pouco? Com dois contos dessa banda e com o que temos no volfro. e era um grande perigo para ela própria e para todos. não sabia ao certo.. Reinou de novo silêncio dentro de casa. Todo o santo inverno fartavam-se de lhes cantar o miseré.. Faziam-no por sua mãe. enquanto se era vivo. dize.. Têm vendido para aí minério que é uma abusão. Tu. Torres lhe deixe o charravascal do Santo Antão de mão beijada. por sua tia.. Está tudo a nadar em dinheiro.Olha.Aquela Malhadas é uma madrigueira? Vejam como tratam os defuntos? Mandavam-nos para aquele migalho de terra onde ainda eram úteis. Era um grande perigo se te apanhavam a furtar... uns que ela conhecera. O pior de tudo é que se esbagachava como o canganho da uva. era costume dizer a gente das outras terras: .Modera-te que não tens razão de queixa. Em volta do povo.E tu a dares-lhe! Quis e tornei a querer. O Duarte calou-se um momento. Temos ali à beira dos seus quatro arráteis. com as tuas desconfianças.Não quiseste ir trabalhar para a mina.. acusara-se dos latrocínios que praticara e das maldades que fizera ou deixara de fazer... Ouviu-se o vento zunir na cumeeira e nos intervalos a cantoria macaca do pote debaixo do beirado. . Calaram-se. Os pinheiros. Durava aquilo há vinte... mas valeu mais assim. vinte e cinco anos. muitos de quem já não restava sequer à flor da terra o eco dum sonido.? . E proferiu em tom de magoada inveja: .Não faço ideia nenhuma. Por causa disso passaram grandes vergonhas.Diz-se que cinquenta contos.Talvez. só havia matas. Importância tinha-a o que passava no papinho da gente. tinham por obrigação chorar os mortos. Quanto calculas que podem escarrar? .Não sei. O Duarte tornou: .

Rape. quando se lhes enchesse a boca de terra.” Sua tia tinha dito em público e raso como a roubara e onde a roubara. senão ia dar parte.Vá ladrar a uma horta. Só tem direito de lá tocar quem sobe ao poleiro... em caso de se vir a ser surpreendido. que chegou ao estado de inocente. Aí é que está mais fora de riscos. De verdade. mas não tinha grande arte. Olha. senão era motivo para a levarem à justiça. Valeu à Bárbara ter coragem e contratestemunhá-la pela aleivosia que lançava sobre gente honrada. como havia de suceder a ela e a todos. já ela estava com os dentes enfechelados. Padre-Nosso e Ave-Maria: fora o que se chama lagóia espertenida. todos se punhan à coca para ouvir e ir contar. depois de erguer uma laja. até a fazê-los.Se a alminha dela se perder vós sois os responsaveis. Diziam: . Rezava alto e era uma pagodeira. Essa não falava alto pelos caminhos.foi a tia Soledade. rezava.respondia o Duarte. mas quando desatava a acusar-se e a acusar os seus. . Comia como uma tulha e nada a fartava.Tanto vale confessar-se a um padre como a um buraco. Umas zoinas chegaram a testemunhá-la.Chamai o padre. Queria que chamassem o padre e a mãe fazia coro com ela: . Nunca mais puderam deixá-la sair sozinha? Fechavam-na na quintã.. Fora ela que lhe ensinara a regra do bom viver: Olha. a Cismas foi a que fez maior escarcéu: “Queria para ali a sua sala. e ela passava o tempo de joelhos virada para duas paredes a rezar e a acusar-se. leinbram-se quando lhe faltou do coradoiro? Outra corria com a novidade: já se sabe quem bifou o cordão de oiro à Rosa Pedralva. que nunca ninguém mais viu nem veria.mas não pegou. quando se está na carmeada e um patola se tranca diante da candeia ou se arrima a nós a fazer-nos gatimanhos. Nos seus tempos nada lhe metia medo. Vem o meninojesus ter com ela à cama . reduzida a esterco. Calhou ela culpar-se de coisas e de pecados que estava averiguado terem sido cometidos por outros. ao cão que mora mais perto do ninheiro. Acabou sequinha como as palhas a pedir confissão. já sua mãe era mais comedida. Ensinou-lhe também o processo de não deixar chocar os ovos nas quintas do próximo e.É Deus que fala pela boca dela. Descoseu-se hoje ao soalheiro. acusou-se de ter roubado uma saia à Cismai... .. o Mondego! E tudo por esta cartilha. . a sua rica saia de merino. As comadres faziam-lhe roda e até lhe puxavam pela língua. Ela ainda ensaiara a estrangeirinha: Minha mãe é santa. a mão dela era uma gadanha afiada. Deus lhe fale n'alma. Que surras não fez dar ao cão do Calhorra.Vossemecê não vê que está zorata? . mesmo em casa. cães? . Agarrava o que podia.tornava a mãe. para a algibeira. uma paz de alma.. Fora assim em tudo. Chamai um padre. para debaixo do avental ou então pela saia acima. que é um grande encarrego. Mas o Duarte teve que abrir uma cova bem funda. 66 . não havia ninguém que pusesse em dúvida que estava louca.necessárias. é que se mete a farripa de lã para a algibeira. E o ardil surtiu efeito. Entre elas. e sepultar lá o raio da saia da mulher. abandonando-se a um homem casado. o modo de uma pessoa atilada se safar da enrascada. à falta desse cão providencial. Você quer ir acabar à cadeia? Não foi pouco que o senhor Bacelar viesse ministrar-lhe a Extrema-Unção. servindo-se das palavras irresponsáveis duma tolinha. menina. Dava um salto na noite que nem gineta. . que é atirando o ovo a terra e gritando ao cão que vem a passar ou.

Rezava então pelo eterno descanso da tia e da mãe. ou na pedra lar um graveto erguesse mais alto a chama. a bater as matráculas dos queixos. Não voltaram a ter com ela.Arrefeceu. as paredes alegravam-se. traçava a cruz no ar e evaporavam-se. Sua mãe. A tia Soledade vinha leve e rápida como das vezes que se metia nas frescatas do mosco.Devorava um pão inteiro e uma abada de batatas em três tempos. Miguel se não voltassem mais. acocorada sobre os calcanhares. e era dessas vezes que a alma dela se amedrontava e fazia pequenina. mas passaram a afligir o Duarte. Disse o barbeiro que tinha a solitária. Como se atormentassem com estas idas e vindas. Depois que deu a alma a Deus.? . Às vezes ele acabava primeiro o caldo. desde que estiveram depositadas no celário. teria. Ela virava o fundo da sua malga para a dele: Pega que não tenho fome. as vacas fartaram-se de canas. às vezes pingando. De raro em raro trocavam uma palavra e era tudo: . abrenúncio. expirou naquela chieira: tenho fominha! e com a mão na boca a fazer o gesto de engamelar. pé ante pé. Maria.ia jurar que vinham reavivar o fedor que se sentia na casa. Passavam o inverno com uma candeia de petrolina à dependura dum ourelo de serguilha por cima da fogueira. molhado até os ossos. Ela espiava a roca. Coitada. e sentava-se à beira da cama.Ouves os ratos? . na lavoira.Senhora mãe. e iam para as mantas. nas sachas. Outras vezes o Duarte largava a deitar as águas. e por todos os fiéis defuntos que lhe vinham à memória. com aquela voz canina: tenho fominha! causava-lhe. então que já não lhes faltava côdea no açafate. que custa a ganhar. não esfarele o pão. E estava sempre a gemer: Tenho muita fominha. Comiam à lareira. Assim se desvaneceram ondas e ondas de anos. Às vezes acordava e ouvia-o dizer com santa paciência: . muito compostas dentro da mortalha. 67 . pouparam mais de trinta alqueires por ano e o caldo medrou tanto na horta que se desorelhavam as couves. Mas deixavam um cheiro acre .. . tão próximos que ouviam bater o coração um ao outro. mais nojo que pena. Pode deitar mais um quartilho de água na panela. De dia. Outras vezes o irmão clamava: . ela no esteirão. Tudo lhe servia para encher o odre. animada dum movimento de dança. Ia atiçando a borralheira porque sabia que o Duarte chegava entanguido. De noite. de ventre empinado e a bater os queixais. ele tosquenejava. cada mocho a seu souto. dir-se-ia. Soava um ronquido e esse ronquido não podia deixar de ser a velha a protestar. Quando lhe faltavam com a malga do caldo ou se atrasava a trincadeira com os empecilhos da lida ia-se à pia da porca e atufava-se na vianda.Está a gear. Outras vezes era ele que o fazia a ela. e era delas.Senhora mãe. umas vezes a fiar na roca. Parava a chuva. Apareciam de noite.É depois que a gata da Pedralva desamurou daqui. Jesus. Eram como unha com carne. Nem homem e mulher. Ele sentava-se no banco. outras vezes a rilhar a côdea. Bastava que a bafejasse a aragem. Se punha uma rocada de carqueja ou de sargaço. nas regas.. o próprio tempo. Seu irmão não as sabia esconjurar. lado a lado. A cada passo visitavam os lugares. ela continuava a andar de roda. o leite hoje é mais grosso. A candeia era a única coisa que naquela casa não parava. ela acabou por prometer uma novena a S. Faleceram as duas com diferença de um ano e por muito tempo a casa ficou cheia delas.

Tinham cortado com o serão. com a perna encanada. Extinguira-se na lata a trasbordar o batuque da gota de água. vá. .Pois se me apanho com os dois pacotes!.. e até os fantasmas das duas defuntas. Também lhe era preciso “pedir a vez” que não lhe restava mais que pão e meio no tabuleiro. Safado? Se me derem menos. e ao cabo da oração tornou-lhe a ouvir: .. mas só os vendo na feira. Mais de uma vez se tomara de rixa com um ou outro atrevido. Ora o serão é para tudo isso e para o que é menos é para fiar.. O que acontecia era andar oito dias mais macambúzio que um cerdo com arganei e não lhe falar. Era como os cachorros de porta que mostram os dentes. que não era nada de nada o que a outra gente supunha! Sua mãe falecera por aquela altura. folgasse com os rapazes. por lá gente que voltava do forno. mas bater como quando era moça. vagarosa como uma ovelha velha. esgrimia com os braços.. mas nunca mais se atreveu a tocar-lhe com um dedo molhado. passeava a outra sobre as brasas.. pontuado de sibilos como do vento nos buracos do telhado. Daquele modo a vencia. .Estás a rezar? . .Darão os dois contos pela regadinha? O cão do Calhorra saiu-se a dizer que a não queria por quinhentos mil réis. Ferrara-se a chover deveras. Por alma de nossa mãe. E a noite lá ia mancando. Ela de princípio também se iludira. À porta eram capazes de dizer que os roubei. não que precisasse das suas falas. Acompanhava o rosnado dum encrespar de sobrancelhas que fazia gelar o sangue aos que se dispunham a defrontá-lo. O Duarte não tolerava que ela dançasse.. Um espiche de ar atravessou a casa.. perdida no meio de penedais. Rosnava. Ameaças.. 68 . mas porque lhe causava dó aquela eternidade inconsolável. Passou o murmurinho pelos lábios do Duarte. tenho para ali duas dúzias. Ficaram calados.Com que sonhas. padre-nosso . escamugiu-se pela gateira da porta depois de percorrer os cantos todos como uma doninha e deixar um frio mortal.. buliu com o quer que fosse que tinha jeito de papel ou asa de noitibó. mancando. porco!? Dorme. Desde a hora em que se engrifou com ele. Pelo repouso de sua alma. Mas desde que vinha o Duarte e. plantado como um buzilhão de pássaro numa das patorras. tó ruça. Sempre assim. a casa recaía na sua morna tristura e lôbrego silêncio. Barafustava. A gente que fora ao acompanhamento voltara tão caiada que nem parecia deste mundo. Tamancos apressados chocalhavam na calçada. tudo aquilo era postiço.ouviu dizer o irmão. depois as manias dum solteirão. Por dentro era um borrego. . Os palitos não custam a dois tostões a caixa? E os ovos? É verdade.. Falava pouco e quem fala pouco mete mais respeito que os fanfarrões. único na terra. Ouviu-se a chuva tamborilar no telhado e nas lajas do caminho. Agora uma passarola qualquer esganíçava-se por cima da casa. se ocupasse das vidas alheias. grito ó da guarda? ... ficou a conhecê-lo. a cozer há oito dias sem interrupção.Se te derem os dois contos não fazem grande favor. caía neve que se desfazia o céu em farfalha branca. Credo.Reza também.A labareda era uma aleluia: espantava medos e negrores. Temiam-no supondo-o capaz de maus repentes. Passaram por ela carros e carroças de pensamentos.. Que doze anos aqueles! Primeiro a aturar as almas penadas. que estais no céu.. No fundo. bufou ao borralho.

a brenha transfigurava-se no bosque de japoneiras em flor. Não a deixava e conduzia-a para o meio das giestas.. Estava no seu princípio e era fresca como abrótega.. Ela recrudescia em sua zanga: . Ao tempo usava bigode. Que zarelho! Mas era casmurro. Mas o facataz vinha de mais longe.. acorda. desabavam aves e flores daquele céu de presépio e. ouvira dizer a um figurilha. Estás a sonhar com o varrão. berravamlhe: . Passarinhos que nunca vira. aguçavam o bico na casca das franças e espreguiçavam-se desembainhando molengamente a asa sarapintada. a coruja piou em quantos telhados havia no cimo do povo.Ó desenvergonhada. A sua voz. parecia a duma fonte a alegrar com seu murmurinho os codessos do montado. ela via-se na obrigação de sacudilo: _ Deixe-me? já lhe disse. onde uma vez esperara com a tia Soledade o recado arriavioso do dianho dum fidalgo..Quando morrera sua mãe... E. deixe-me! Qual deixar? Para que andara com negaças? Ia-lhas pagar todas. filada pelo braço.. no arrabalde de Orcas. transido de cólera. e a voz lançada na noite silenciosa não era mais que a expressã o do mistério inefável. Recurvo por cima da enxerga. a agarrá-la.durna segunda pessoa a desdobrar-se da sua carne. porfiava.. cada vez a abanava mais: . um bigodinho muito nédio. Mas. ao passo que bruta mão a sacudia. que era como que a voz. O corpo dele nu e truculento enchumaçava-se na meia penumbra que descia do olheiro de vidro. mau grado da bicha-solitária.?! 69 . Fora há doze anos. Eram seis homens a levá-la..Minha desenvergonhada. Essa pessoa vinha não sabia donde. preto que nem azeviche... a súbitas. via o Duarte. Bárbara estrenoitava em pleno transporte do seu ser.. vinte a vinte e cinco anos àquela parte. mas tinham ar de ser bisnaus.Olhe que eu grito. como quem não quer a coisa.. Sua mãe.Barboreta? Àquele engodo celestial respondia ela com um aulido estridente e gozoso. talvez do mundo todo. Também ia no acompanhamento o senhor Antoninho. Subitamente.... porém..? Se me não deixa.. As camélias estavam suspensas a vê-Ia e parece que também elas diziam com o Fráguas no chilreio dos passarinhos: . pesava como chumbo. que estás tu a sonhar?. grito. Lá vinha ele todo dengoso.

sim. ala.. vinham mães e irmãs com o comer para os homens que trabalhavam no volfro e os passos daqueles andurriais repercutiam das vozes ásperas e cristalinas. um apelo mais alto lançado ao longe. um aqui. As de Mouramorta porventura tangiam esquila. os ranchos avistavam-se reciprocamente. rotinha e ranhosa.Veja. ou rompendo de trás dos barrancos. de par com o trrá-trrá das tairocas ferradas mordendo o códão e o lajedo. interjeições joviais. Ceifões. por uma qualquer coisa se engulha. o que dava ensejo a trocarem as raparigas as suas impressões: .Deixem lá ver o que sobrou do almoço. O jornaleiro agrícola tem outras exigências de mesa que não tem o operário das cidades. Sentase por terra. uma ou outra vez varrido o prato para o rafeiro fiel. os cordões de oiro e as tamanquinhas de verniz com que ficavam umas fidalgas. Com a cesta à cabeça ou enfiada no braço. Arriando as cestinhas. só de jornada e pelas tabernas. Nos dias estivais.Lá vêm as de Mouramorta. um tamanco que tropeçava.V À hora do meio-dia os caminhos para o Vale das Donas animavam-se. semeada de aldeias lôbregas. À volta da mina e encosta fora.. Ao longo das escavações. presumidas disse. à sombra dum penedo se fizesse bom tempo. acendia-se toda aquela branquidão dos almoços. À mão. De certas culminâncias descobria-se o desdobre dos vales e por eles fora os velhos caminhos vadios. que já se estendiam pelas leiras e excresciam em montes de desaterro. é nojento. E novamente a campina se alagava com a voz de córrego das mulheres. outro ali. a trouxe-mouxe. com o seu garfo. a sua faca. costas dobradas. que passavam da centena os assalariados. Que havia de ser senão a busca prevista?? já se não revoltavam. Dos quatro pontos. traçados com tantas curvas e reviravoltas que bem se notava não saberem o que era tempo os homens do passado. um homem comandava: alto! Eram os vigilantes da mina. no cotovelo do caminho. a terra baça cobria-se de losangos brancos como se por ali se houvesse esflocado neve. contra o desmonte. arrumada a louça. prestavam-se de boa mente ao exame: . Pedrões. mas de olhos floridos da maravilha que era a mina donde brotavam as saias de chita deslumbrante. Brás da Nave. Calçam sapatinho de pelica e andam que nem comboios. a sua baixela ainda que humilde. e não era romaria a nenhum dos santos milagreiros que dos altos picotos espargem sua brancura celeste pelo mar de urze e penedal que é a Nave. não menos desdenhosa: O rancho de S. Brás hoje está adiantado. Chegados aí. estendiam a toalha do comer. Alçavam a mão para os cabazes no jeito de soerguer a toalha: . Malhadas da Serra. porque come muito com os olhos. Gastam em cheiros quanto ganham.. E. quer dizer. em grupo acolá. Mouramorta. mas há-de ter a ilusão que está em casa. 70 . tigela em punho. neolíticas. traziam pela mão a garota descalça. nas barracas em dia de chuva. Transcorrida a hora regulamentar.. veja bem. S. Não raro.

passavam-na ao estreito. sem que ao focinho do argos chegassem ventos da candonga. reduzidos a fazer mão baixa apenas em 71 . Fazia-lhes ainda plantar tudo no chão e. arrebitar apenas a ponta da toalha e proferir de bom grado. Fora precisa uma apalpadeira. e botavam à grandura dum ovo de codorniz. que consagrava a manha como uma virtude e admitia roubo desde que praticado com boa e original sagacidade. mesmo com os capatazes à perna. Tornouse difícil a roubalheira. dado que andasse de pedra no sapato ou recebesse ordens. tão falho de escrúpulos como pitoresco. que era homem de rasgo e vistas largas. mostravam-se elas mestras no engenho de passá-lo. que não havia como o miolo para esconder umas pitadas de volfrâmio. ditara para os engenheiros: _ Não aparem as unhas muito rentes. sem arestas que lhes magoassem a tripa. De princípio a escandaleira passara as marcas. traziam-no em estilhas. desde que tinham tranças grossas. O volfrâmio. com o que multas recalcitravam. Equivalia à exsudação inevitável que se dá nos canos de gás e nos depósitos de benzina.O homem. Os processos variavam. Assim como os homens conseguiam sempre um meio de escamotear o seu migalho. posto não conseguissem estancar de todo em todo a fuga sub-reptícia do minério. Mas os guardas porfiaram na caça. a título de pôr cobro a desvios que computava de nonada. por isso mesmo refractário à filtragem. era o mais cândido e comum dos recursos. Depois. reprimiriam a fraude de maneira a que os rapinantes. embora não impossível. e deixava correr. e em última análise insignificante no volume da massa mineralizada. como nas minas do Rand. varrer as migalhas e restos para terra ou duma vasilha para outra. dando ao topete: . uma vez limpo. Não levavam por isso as buscas até onde o Antoninho Fráguas queria que se fizesse em Muradais: despir as mulheres antes de largarem com o gigo do comer e dar a sua purga aos homens. alcançava altos preços e corria que certos párias quando apanhavam uma pedrinha a talho de mão. metia o nariz até ao fundo das caçoilas e mandava-lhes esfarelar a grossa broa centeeira. a montagem dum cordão fiscal mais próprio para vexar do que para trazer prestígio ou emenda. E perdurava na opinião de que não valia a pena.Deixem lá.Podem seguir! Riam com desafogo. na exultação de terem iludido a devassa ou por natural singeleza. Por enquanto vai chegando para se furar a pele aos godemes! Com providências elementares. e desanichara a mulher jeitosa para tais artes numa das frandunas que tinha por conta na almuinha do Rapa-Tachos. Enfronharem-no no cabelo. bem à vista. . ou jogando chufas. Tais e tais abarrotavam de contrabando. à semelhança dos guardasfiscais nas barreiras. O que se evade por esta forma não conta. Hincker. oferecendo uma pinga na terra. Hincker folgava imenso quando lhe faziam a história de tais ardis em que se aprazia ver ressurgir aquele génio celto-turdetano. as que transigiam levando o vexame à conta de patuscada. em vez de trazerem o minério assim em bruto. e ia até apalpá-las. areias estremes que pesavam às vezes onça. A Administração acabou por fechar os olhos a um género de fraude assim miudinho. Mas também acontecia. desafiando a imaginação mais fecunda e atilada. Foram apanhadas algumas mulheres com pedregulhos tão recheados de volfro que excedia o arrátel. É o quinhão dos ratos na despensa e dos pardais na seara.

e donde menos sai é do rico corpinho de john BuIl.Vamos até onde a concorrência nos force . Uma turma manejava já com acerto e eficácia os revólveres de ar comprimido. E o senhor Hincker. arvorou em capataz. integrados em conceito tão dinâmico. O Aires trouxe consigo o Quim da Urra. depois de frisar a significação ecurnénica do facto. Depois de pesquisas mais ou menos prometedoras no Vale das Donas. Produção. E por natureza estavam destinados a contrabalançar a corrente da desordem e da cupidez. ruivos. “a velha Europa estava a defender-se com armas fabricadas com o que havia de especial em cada terra. Chegou aos ouvidos de mister Corbet o dito detraente e observou: 72 . que o engenheiro Severo. A libra saí do suor de toda a gente que cobre a terra. sobre a conduta dos quais podiam repousar confiadamente. só não cantava as estrofes heróicas do DeutschIand über alles na música da Internaclonal porque a desconhecia. reverberada porventura do lema que norteava o Reich hitleriano. A dois meses da primeira enxadada tinham erguido no Vale das Donas armazéns e telheiros de abrigo. o petróleo romeno. Já por duas vezes os grandes camiões de seis rodas. montado o dínamo. a Hermann Gõring Werke requerera o alvará de exploração. a febre de minar tornara-se endémica. e os engenheiros e os próprios capatazes. não há que ver.. Hincker visava acima de tudo aos resultados. 750 nos entrepostos. tinham parado ali. havendo a intromissão dolosa do Calhorra desobrigado Hincker dos compromissos tomados na primeira plana. o volfrâmic. mais produção era a sua divisa.000 rs. escudado por Berlim. e o carvão do Ruhr>. Hungria e Croácia. o níquel da Finlândia. e outros que lhe eram afectos. fechados a ferrolho e lacrados. homem para quebrar uma laia com os dentes. o ferro noruego. Na expressão enfática dos Nazis. 400 a 450. embora não haja guerra mais desigual do que esta que sustenta o marco contra a libra. desencadeadas com a concorrência e a cotaçáo espasmódica do produto. superintender nas arrecadações. Ou pelo menos partiam desse pressuposto. O marco sai do suor. O pessoal superior repartiu-se da Sobriga para a nova empreitada.Vamos. A exploração. surdos e cinéreos. produção. presumia a Wehrmacht possuir o primeiro armamento do mundo. a bauxite de Itália. Graças ao metal precioso. o mais invejável possível em face da importância que assumiam os minérios de tungsténio no fabrico do material de guerra. o quilograma às portas. foi investido do cargo de fiel. era. francês e espanhol. bem lembrado do seu grande desembaraço na estrada para Orcas. amarelos. como em regra as outras da província. adquirir e consertar ferramentas. e tratavam de instalar separadora e lavaria.notificara Hincker aos agentes. pretos. tendo por função especial contratar e despedir gente. procediam à vara larga. de Portugal. exclusivamente do suor de Michel. recebido a preciosa fazenda e abalado de noite em direcção às forjas ciclópicas de Leste. afundidas em criptas à prova de bomba. saltando por cima das teorias estabelecidas pela economia política em matéria de capital industrial e seu rendimento.quantidades mínimas. E mãos à obra. Como o volfrâmio atingira a escala do oiro. Representavam estes por sua constância e ainda gratidão o partido dos legítimos interesses. não sendo em tempo normal duma produtividade de primeira. Augusto Aires. não causassem dano de monta. . .

animado de espírito comunal. de modo a poderem alforjar para os bolsos e terem arame para a vinhaça. Esgaivavam na seara e no maninho. Manuel Torres. gato escondido rabo ao léu. à falta dum indicador no gênero do Livro de S. na região. O padre não passava da union-jack daquela empresa escura. Assoclavam-se às três pancadas e um pouco à toa revolviam o solo onde aflorasse veio de quartzo.Vamos experimentar na belga . suspensos por amarras do alto cairel. implicava a responsabilidade do Dr. e manta do Diabo sempre a ponto de encobrir-lhe as mascambilhas. além um poviléu inteiro que. O resultado as mais das vezes era calamitoso. viravam a courela desde os penetrais ao húmus. que era homem turbulento e de sorte. Hincker fez reparo. Pode haver equiparência entre os dois? Lavradores patudos. Cavavam onde lhes sugeria o sonho.. refluíssem em número da Sobriga e do Vale das Donas para ali. Cipriano. ao Santo Antão. o Calhorra. porque às qualidades nutritivas do leite maternal reunia a vantagem de ser grato Deo. O capital anónimo era dele e. trabalhavam firmados em andaimes sucessivos. associavam-se uns com os outros. ou ir à consulta do subdelegado de saúde. . levantados os salários. e para as bandas do Ladário o fosso foi de tal ordem que se assapou sobre os pesquisadores a capela dum santo. o trabalho dos dois filhos. Que mina era aquela do Santo Antão com uma exploração tão paradoxal? Examinando bem. rasgando valados e fojos absurdos. além do seu tempo de feitor e respectivas sentenças. devorarem outros o seu e o alheio. por baixo das casas e das ruas. arriscava.Pode ser que lá se encontre mamara. Nas arribas a pique do Cairria. E sucedendo que os trabalhadores. esvurmadoiros de saibro e rimas de pedra. Manuel Torres. E acontecia da manhã para a noite ficarem uns podres de ricos. A mamara era o volfro.O Reichsmark é um farroupilha e a libra uma grande aristocrata. à mão-de-obra. desmentindo o princípio de que o português era um primário na fase da inaglutinação. a engenhara a alma danada do Fráguas para servir de ventosa. Mas no meio da vesânia geral não havia maneira de um insucesso pôr entraves aos despaurérios da cobiça. lapuzes que antes de descerem à cova se benziam três vezes para o volfro lhes saltar ao bico da picareta. Uma martelada imprudente cortou a corda e três homens vieram britar-se nos abismos rochosos da torrente. . correndo debaixo do rótulo do Calhorra. alegando não ter vintém e sorvida a massinha ganha com o endosso do Vale das Donas na voragem de velhas dívidas. pois que este 73 . onde punham nada mais que o palpite. Em verdade. fizera banca com o Simão Tadeu e um capitalista inominado para explorarern o filão descoberto nas terras do Dr. Por montes e vales a terra aparecia picada desta furunculose. tal como as trutas na ribeira e os coelhos no monte. manobrava a toque de sino a picareta e a enxada. O Calhorra. ou qualquer filão encasquetado em granito. Com efeito a pesquisa oferecera logo de princí pio promessas tão pouco satisfatórias que nada justificava trazerem ali a gente em barda que se sabia. estilhaçada a pólvora bombardeira e a gatilho. E. e em muitos casos sem outra razão que a de serem donos de duas aguilhadas de saibro ou de fraga. Aqui era uma família que fazia a lavra por sua conta e risco. se lhes sobreviesse uma tifóide. cerca da ponte da Mizarela.avisava-se de dizer um belo dia o visionário à tribo congregada. dito e feito. que noutros tempos seriam insusceptíveis de arriscar uma coroa com o veterinário. veio a averiguar que. se tinham a vaca doente. tão fonas como suspicazes.

Fazia-lhe frente o Calhorra. com a carteira atafulhada de notas. e um abuso de confiança em relação ao proprietário. A certa altura. prontos a tomar o minério de contado. Nas terras de sementeira ou de pousio enxergavam-se vultos pervagando isoladamente. Protestou. tanto fino como em bruto. 74 . empresário de pedintes. Comprava o produzido nesta e naquela lavra singular à margem da lei e da razão. gente de gravata e cachucho no anular. O exame dos peritos foi-lhe desfavorável. Severo Bacelar foi despachado a Lisboa representar contra a comandita. vendia acolá. além calcava o pãozinho na medrança. Interrompida a actividade no Santo. dir-se-ia.. ou movendo-se aos pares com a lentidão compenetrada. ao chamariz do Roupinho. se Manuel Torres cedera o terreno a Silvestre para o explorar a título de compensaçao pelo dano que lhe causara o Augusto Aires. desabou sobre a várzea de Malhadas a mendigagem de Cruita do Alto. Marchanteava aqui. Conhecidos os dados do problema. com os dedos dos pé s a espreitar da biqueira arreganhada dos sapatos amarelos e a crina da trunfa a espichar do velho mazzantini derrubado. os agros andavam coalhados duma vérmina que se aqui não causava detrimento. de mistura com o: dê lá uma esmolinha! . O Dr. aldeia duma densidade asiática: todo o garoto. ociosa e lazeirenta. vendilhão. e arrebanhava tudo.ainda tivera a lembrança de registar o filão em seu nome. E eram uma praga borbulhante. trazido à tona pela relha do arado e a enxada dos cadabulhos. do bronco assombro dos penedos destroçados pelas leiras. e ainda por bandos em certos sítios da chá e do cerro. salteador nas suas horas. ao cigano tropiqueiro. ouviam-se os martelos até altas horas a britar o quartzo. Na veniaga desaguava toda a casta de indivíduos. na esquerda cobres. e nunca se sabia o seu montante. comparável pelo número e carreira que faziam uns atrás dos outros à das lagartas no enfolhar dos bosques. e alguma colheita fazia quem tinha pachorra e olhos de lince. desde o Antoninho Fráguas e quejandos. Mister Corbet surgiu a reclamar o direito de prosseguir nas pesquisas a título de que o terreno em questão estava adentro da área registada em seu nome. Em verdade. não podia deixar de crescer dum dia para o outro a cambada pitoresca dos traficantes. o compromisso caducara automaticamente em face da atitude posterior do trapaceiro. pelas quintãs. com o solo de alqueive. que em tempo normal enxameavam pelas portas a comprar o cornelho e a moinha e a belfurinhar a petinga corchada carretada à cabeça da Régua e de Caverriães. Como vinte gramas do minério rendiam mais que a melhor jorna. A cada passo batiam à aldraba. que implicava atropelo e agravo para eles. daí o suceder pagarem o volfrâmio um pouco mais caro que a cravagem do centeio. Torres concordou e prometeu rever o assunto. De par com actividade tão tumultuária. que por vezes cortam fundo. Entretanto o Calhorra era avisado que tinha de suspender a exploração até nova ordem. ou simplesmente soprada por uma aragem imprevista como os gafanhotos. o Calhorra arvorou-se em negociante miliciano de minério. candongueiro. nas escaleiras toscas de granito. o arranjado ao pilha e outras malas-artes.. À noite. toda a velha foleira. na mão direita um saco. homem da rifa. Entregavam-se a esta tarefa em geral os velhos e as crianças e uma ou outra pobre mulher. o apanhado ao rebusco pelos campos. e pouco era. O Reganha ia. Eram os rebuscadores do metal desligado da madre por erosão. todo o jarreta.

Tanto Corbet como Hincker traziam assoldadados, não falando nos compradores oficiais, agentes secretos que compravam o volfrâmio a este e àquele pela porta travessa, na intenção simultaneamente de, seguindo a marcha do negócio em seus conchavos e vias ocultas, estarem habilitados qualquer hora a refrear a roubalheira e a prender os larápios. Foi por este canal que na mina do Vale das Donas se veio a saber que o Calhorra vendia todas as semanas uma dose maior do que era lícito supurar, tendo em vista o minério arrebanhado duma banda e doutra. E, motivo superior para ficarem de pé atrás, o velho negava-se a transaccionar com quem quer que fosse que não ostentasse bem clara a marca britânica. Ao Augusto Aires foi dada carta branca para deslindar o cambalacho. Era preciso o maior recato na devassa para não pôr a conrobia de sobreaviso, mormente o Calhorra, conhecido de tutilimúndi pelo autêntico pai da manha. Por isso o Aires andou a escolher a dedo os seus moscas, não se contentando que fossem cautos, mas sim que dessem prova de sagazes, com arte tanto para armar como desarmar um estrangeirinha, surpreender a ariosca no ar, seguir o fio da meada sem o enredador dar por isso. E ele com o Quim da Urra tomou a cargo espiar as passadas nocturnas do raposão, esperando-o a pé firme nas seitas costumadas e nos locais em que era useiro. Só ao cabo de semanas puderam ter os cordelinhos na mão. Secundavam ao Calhorra dois meliantes de alto bordo, o José Francisco e o Luís Ougado, aquele para a alicantina comercial, este para a alicantina, digamos, mineralógica. Ambos de estrela, beta e pé calçado, mas o seu braço direito era o Ougado. Era ele que no Vale das Donas metia os camaradas à ratonice e lhes dava instruções úteis quanto a uma indústria de si tão perigosa como arteira. Demais, era ele que recolhia o saque na quase totalidade e pagava proporcionalmente aos contribuidores. Mas na operação subsistiam quindins de todo impenetráveis. Como é que o volfrâmio continuava a fugar-se do Vale das Donas? Os guardas redobravam de vigilância e astúcia sempre que submetiam à revista as paquetas do comer. Mas nada descortinavam. E ou elas tinham de facto acabado com a candonga, ou haviam inventado sortes com que ludibriar o mais ladino. Hincker gracejava: - Pois que temos aí a Intelligence Service, não há remédio senão mandar vir a Gestapo. Além deste papel todo mercuriano, o Ougado exercia junto do Calhorra as funções não menos eficientes e herméticas de alquimista. Era o seu preparador. Fora do povo, na tapada das Margaças, onde em tempos erguera uma cardenha que servia para recolher o milho do secadoiro, se desatava a chover, e vinha dormir de guarda ao meloal, instalara agora o laboratório de morraceiro com ventoinha, crisóis, e os pertences necessários à mangola. Ali, alumiado pela candeia fumarenta de creosende, procedia à transmutação: os óxidos de ferro e o mispíquel, de que todas as explorações era abundantes, aquecidos ao rubro num tabuleiro de zinco e “engraxados” de maneira a adquirir brilho, tornarem-se “volfrâmio de lei>@. Esse brilho conseguia-o, entre outros processos, fritando a mistela em resina de pinheiro, óleos queimados de motor, ou negro da palha. Também, em vez da pirite, acontecia-lhe lançar mão da cassiterite e da blenda, que reduzia previamente a pó impalpável, e ainda do titânio, que na região e mais raro, mas tem a propriedade de ser dotado de peso específico aproximado do tungsténio. O minério verdadeiro servia-lhes para criar a

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superilusão caldeado com morraça, sobretudo para formar à superfície dos sacos a película venal: a amostra. Os belfurinheiros, mais ávidos que experimentados, vinham, examinavam a fazenda, friccionavam-na entre os dedos e na cova da mão, e punham-se, tantas vezes, a cheirá-la, que certos produtos não perdiam o odor próprio mesmo depois de “sublimados” por meio de ustulação. - Homem, quita de fungar - nitria o velho, deitando lume verde pela pupila de gato. - Aqui não se fazem tibornas. Pega ou larga! Acanhavam-se de levar longe a suspicácia. Além de império que baforava de tanta arrogancia, acrescia ser o presidente de senhora junta. E lá levavam a carga da mistela, paga às vezes por alto preço. O curioso é que, à parte estas transacções realizadas de portas adentro, a mercadoria dirigia-se em linha recta aos armazéns de mister Corbet pela mão do Antoninho Fráguas, que a recebia da mão do José Francisco, seu agente e digno filho. No Vale das Donas achavam-lhe pilhéria infinita. E pois que a tramóia revertia mais em prejuízo desse concorrente do que de outrem, os engenheiros da Hermann Gõring W,erke deram ordens aos capatazes para fazer vista grossa até o momento em que a fraude, no que lhes dizia respeito, assumisse maior vulto. O negócio do volfrâmio batia o auge. Sarabandeavam pelas portas os chatins comprando a olho, pesando, quando pesavam, em velhas balanças de gancho com arráteis à romana. Nem todos acalentavam ilusões: eram enganados aqui, iam enganar além. De modo geral as aldeias mudavam de pele. Cobriam-se as casas de telhados novos. O quintalinho era murado a capricho e a escarpa escalonada por bons e luzidios calços de alvenaria. Mas simultaneamente surgia o negócio do marchanteador de terras, compra hoje, vende amanhã, impinge logo que possas,- o pior dos venenos. Embora? A Beira, a velha província dos nobres solares em ruína, com vidraças sem vidros e grandes portões de castanho emplastrados com rodapés de lata, paredes à escoda e bojuda comija taciturnas, porque se não há nada tão loução como o granito novo, também não há nada mais melancólico que o granito das casas mortas, abandonado à corrosão dos anos e pasto de musgos e líquenes, a velha província rejuvenescia. Na serra, as raparigas atiravam fora a capticha de lã e punham blusa de gorgoriria por cima da sainha curta. Os rapazes compravam botas, a sua bicicleta, e armavam-se de revólver. O revólver, que era o símbolo da época, equivalia a uma emancipação. Só armados eram maiores, como sucedia antigamente com os pajens. Por seu turno os velhos campónios, dobrados à lida e aos impostos, viam pela primeira vez maneira de saldar velhas dívidas cancerosas e de se porem em dia com o fisco. Os harpagões das aldeias davam ao demo a cardada que lhes subtraía o carneiro à tosquia e aviltava o mérito do préstamo. Em regra entrava ar fresco, vigorizador, na pobre e mais ú til célula da nação, a localidade rural. Economizando daqui, puxando dalém, o Augusto Aires pôde adquirir o casal do defunto Pata-Larga, falecido sem herdeiros directos lá para Lisboa, e circunstância foi essa que levou o José dos Cambais a permitir-lhe o acesso à sua porta. Sempre que lhe era azado, vinha dar o seu dedo de colóquio à Teodora, que já não escondia os sentimentos. Não andavam os pregões a correr, mas ela ia aprontando as peças do enxoval. O José Francisco, posto que preterido, recusava-se a desarvorar. Aos domingos, de cambulhada com os de S. Brás e Mouramorta, subia a rua plangendo a concertina e botando cantigas ao seu amor dum dia. Apenas

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por estes rapapés se mantinha fiel ao tipo clássico do enamorado. No mais era em tudo o manel do século vinte: gravata de malha, lenço a espreitar do bolso de encontro à carapeta da pena de tinta permanente, sapatos de cor, na lapela uma divisa de clube em vez do raminho de serpol. Entretanto foi informada a Administração de Vale das Donas de que dos aviamentos do Calhorra em minério iam crescendo, o que supunha maior consumo do metal verdadeiro para colorir a potreia. Era de supor que, por contrapartida, dalgum modo os lesasse aquele progresso. E de novo os podengos da mina se puseram a rastejar a marosca. E tanto beberam as auras, farejaram, colheram zunzuns daqui e dalém, que acabaram, nos termos da linguagem batoteira, por dar no vinte. Um sábado, dia de paga, o pessoal em vez de cobrar a féria ao postigo, como era costume, recebeu ordem para ir recebê-la ao escritório por piquetes de cinco. Uma vez o primeiro turno em frente do pagador, o vigilante que tinha vindo da Sobriga, e era homem forçudo, mandou alinhar. Depois ordenou: - Arregaçai as calças! Os cinco homens tergiversaram, procurando eximir-se: - Ora essa? Para que havemos nós de arregaçar as calças? - Para quê? já ides ver. Arregaçai? Hesitaram. O vigilante buliu com o vergueiro. Ao lado, os dois auxiliares, cada um com sua ripa, aprumaram-se de cenho descido e silenciosos. Desarmados como estavam diante dos três pimpões, não tiveram remédio os homens senão obedecer. - Desatai agora os nastros das ceroulas... Compreenderam: estavam queimados. Mesmo assim, tentaram reagir. O capataz ergueu o cipó. Deslaçaram os nastros. Deste, daquele, de todos enfim, caíram pedras de volfrâmio, se miúdas no geral, algumas grossas como avelãs, e tudo minério estreme e cristalino. Um dos rapinantes mostrava os fundilhos esfiapados à força de servirem de alforge. Os cinco homens, a seguir à revista, foram encaminhados para o barracão contíguo pela passagem interior, e sucedeu-lhes segundo turno. A cena repetiu-se três, quatro vezes com idêntico cerimonial e vozes equivalentes. Derivou enfim, tendo os homens rumor do varejo ou, na mais simples das hipóteses, acabando por desconfiar. E antes de penetrar na barraca aliviaram-se da carga que traziam. Num desses grupos estava o Luís Ougado. A voz de: arregaçai as calças! Todos se prontificaram a fazê-lo - tão pressurosamente que semelhante despacho se tornou suspeito menos ele, o que, em contraste, se tornava pela sobrançaria objecto de igual prevenção. O vigilante, que tinha fumaças de teso, sentindo farsola pela proa, cresceu para ele, depois de atirar fora a cachamorra: - Ai sim, homem para homem! Em resposta o Ougado sacou do revólver e meteu-lho à cara. Mas o Aires dum salto prendeu-lhe o pulso, iludindo a pontaria. A bala foi cravar-se no chão ao passo que os dois pendiam sobre a mesa, parecendo que se tenteavam, corpo contra corpo, quando era o Aires que, filado ao braço do Ougado, lho torcia até obrigá-lo a largar a arma. A luta foi tão breve que o vigilante da Sobriga nem tempo teve para intervir. Quando viu o Ougado sem o mata-moscas, jogado de escantilhão para a casa ao lado, limitou-se a dizer para o Aires: - Deixe o homem! Não é esse que traz minério com ele. Outros'... O Ougado arruaçava: - Ceguinho eu seja se mas não pagares! Eu cá tas guardo.

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- Quando quiseres - respondeu-lhe o Aires. - Aqui ou no cabo do mundo, com aviso ou sem aviso, tens homem. Não só não prosseguiram no despique como puseram remate à rusga. Para escarmento bastava. Estancada a fuga do minério em Vale das Donas, voltou-se o Calhorra para a pesquisa de Santo Antão, recuperado o beneplácito do registante. Pusera este como condição expressa ser o Calhorra, sozinho ou associado exclusivamente a pessoas da freguesia, a fazer a exploração, não recorrer a capitais estranhos, nem ajustar pessoal que à data do acordo andasse ao serviço de qualquer empresa, salvo ter sido despedido ou autorizado. Deste modo julgou defender a neutralidade, acautelando-se contra as reclamações e injunções duns e doutros. O Calhorra, depois de deitar contas à vidinha, chamou novamente a fazer parte da sociedade o Simão Tadeu que, se desta feita se não decidiu ainda a arriscar a importância duma missa seca, induziu o José dos Cambais a entrar com a valia de duas juntas de bois. E manobrou muito pela sonsa para que ao Fráguas fosse reconhecido o direito de sacrificar ao lado dos amigos o seu pacotinho de notas debaixo do nome do José Francisco. E assim sob palavra, como era de costume fazer os negócios na província portuguesa, que para os antigos a palavra valia oiro e escritura em tabelião, se formou aquela bisca lambida com o fim de sarjar as entranhas do cerro à cata do tungstato de ferro e manganésio, que ali se tivesse coalhado desde o magma original para os Calhorras esfomeados e fura-bolos. Mas se atrás do José Francisco estava manifestamente o pai Fráguas; atrás do Calhorra, Mercúrio; atrás do cura, Deus e o Diabo; atrás de todos quem riscava era John Bull com precisão de ganhar a guerra. Salvo Sebastopol, os Alemães ocupavam a Quersoneso deliciosa dos Gregos, com seu mar sempre azul e cidades cheias de lenda e regaladas de perpétua primavera. Com o torpedeamento sucessivo dos seus portaaviões, a Home Fleet desertava do mar do Norte, o seu bulevar. Em contraste, poderosas formações da RAF sobrevoavam a terra germânica, plantando aqui e além cenários do inferno. Após o raide de 26 de Outubro a Hamburgo, que escavacara os bairros aristocráticos alinhados à beira do AIster, volvendo de novo na segunda semana de Novembro, despejaram sobre Berlim toneladas de bombas ainda mais explosivas e incendiárias. Os Alemães atupíram as crateras das ruas, e esconderam com taipais os prédios esbandulhados em atenção à estética e ao moral do público. E pela primeira vez rosnaram: “Pois é possível que a título de inutilizar uma fábrica de carrinhos de retrós, adstrita como aliás a mais rudimentar actividade à economia de guerra, ou mesmo uma oficina que manipula lentes para periscópios, se devastem quarteirões inteiros, para cúmulo, em países ocupados, reduzindo multidões indefesas a lama sangrental?” A ferocidade da guerra total tinha os seus reflexos até a mais remota ondulação da natureza humana. Também no Luís Ougado vibrava a sanha que lançava metade do mundo contra outra metade quando apareceu no Santo Antão a exibir a carta de desquite, e o Calhorra, acolhendo-o de braços abertos, disse alto para que constasse: - Deixa lá? Doze escudos também aqui os ganhas sem mais suor. Hincker achava o Calhorra sumamente pitoresco, dum pitoresco que o absolvia da nocividade, e deixava-lhe os caminhos livres, inclusive aqueles que conduziam à traficância. Consultado por Torres, antes da transacção, não vira inconveniente em que a lavra fosse retomada nos termos rescrítos.

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E o Calhorra e os seus pegaram-lhe com a gana toda, se bem que o filão parecesse de reduzidíssima possança e mergulhar. Por todo aquele fim de Outubro, no Vale das Donas, na Sobriga, na Tojeira, em Muradais, o trabalho prosseguiu tão afincado como surdo, e esse silêncio criador correspondia à pausa com que nos países em guerra se incubavam as ofensivas trernebundas. Do Vale das Donas, por um acaso feliz, saía minério a rodos, tendo dado numa bolsada que era o assombro dos engenheiros. Saltavam à picareta pedras com dois e tres quilos de metal puríssimo, e de extracção relativamente fácil devido à circunstância de o gaveto de granito descoser sem necessidade de fogo. Isso perturbou, quando correu o rumor, mister Corbet e fez cismar o Calhorra seu aliado, como aliado do próprio Porco-Sujo na colusão de interesses, além do mais, invejoso, o que não é para estranhar num bicho de presa e rapina, com o apetite nada enfariado. E o Calhorra decidiu nem mais nem menos levar uma daquelas noites de luar, com o céu estanhado pela algidez do codo, a velha guarda - os dois filhos, brutos e espessos como búfalos, o Luís Ougado, olho vivo e pé leve, o José Francisco, ágil e arteiro, a Florinda, a mais fina das lambisgóias - ao assalto do jazigo maravilhoso. Meia dúzia de arráteis que arrepanhassem contariam no orçamento dum cristão. Ora havia noites que o guarda da mina ficava morto com a tachada, podendo passar por cima dele carros e carretas que não vinha a si. Precisamente nessa tarde o Calhorra tivera jeitos de atraí-lo à pipinha, e graças à prateira de azeitonas e à lasca do presunto, despendurado da trave, a animar a funçanata como puxavante, o homem despediu dali que nem um terno de abades depois de um jantar de quaresma. Para mantê-lo no estado celestial, levou a largueza a aviar-lhe uma cabacinha, sabendo quanto o piteireiro era sanguessuga com o briol a talho de mão, e o seu palhete das Margaças chamava-se dum quodore de respeito no género de trepador. Às dez da noite, hora dada para o trancafio, o guarda ressonava à porta da barraca, enrolado no capindó, e o seu resfôlego era estrondoso como de cetáceo sentido do arpão. Não farejando vivalma que pudesse tolhê-los, a quadrilha muniu-se de picaretas e enxadas no próprio ferramental da empresa e guiada pelo Luís Ougado desceu à mina. A Florinda tinha a seu cargo alumiá-los, para o que o José Francisco a munira duma lanterna de furta-fogo. O Calhorra postara-se de atalaia, um olho no guarda, não fosse por lá o ladrão cozer antes do tempo a camoeca e fazer das suas, que era homem de maus fígados, outro olho nos caminhos, não se lembrasse o Diabo de trazer àquela hora os vigilantes ou algum engenheiro. Um assobio seu e os francelhos punham-se de sobreaviso; dois, e acaçapavam-se; três, e salve-se quem puder. O trabalhinho começou bem e prosseguiu pela noite fora com regularidade e aproveitamento. Não mexia uma paragana na terra, entanguida pelo codo e a crassa imobilidade do céu. Para o povo, de quando em quando, um rafeiro lançava dois latidos, aguentava-se vinte, trinta segundos naquela charachina, calava-se, volvia a ladrar, e ao cabo de duas notas soltas em bemol tudo tornava a soçobrar na paz nocturna. Um automóvel anunciou-se de longe, veio arcabuzando o silêncio, rorejando com a luz dos faróis a coruta das árvores, vestindo-as de brocados e pedrarias... rompeu adiante. Ainda não era meia-noite, já tinham extraído dois sacos de ganga, mais pesados que defuntos. A obra ia em seu curso, com denodo e sem quebranto, apenas pelo desembaraço um pouco caótico

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denotando não ser regular. já o Manuel Calhorra subia o terceiro saco, gemendo, que botava lá para os noventa quilos, ouviu-se não um silvo, nem dois, mas logo três, sinal de cataclismo. Cada um tratou de se escamugir para seu lado; a rapariga acocorou-se sobre a lanterna; o Manuel deixou cair a carga ao chão, que foi rebolando, fazendo pela escada de madeira abaixo o barulho dum casario a desaba. Acompanhados da Guarda Republicana, vigilantes e capatazes puseram cerco à exploração e catrafilaram os larápios. Não tardou que estivessem todos sob custódia, salvo o Calhorra que se esgueirara não se sabia por onde. Mal se ouviu soar um galope para a estrada, disse o Quim da Urra: - Lá vai o Calhorra... Mas em vez de tomar o rumo de Malhadas, o eco toava do lado de Mouramorta, e o Aires, que lhe conhecia as manhas, ponderou: - Vai avisar o Antoninho. Toca a prevenir. De facto, o Calhorra tupa que tupa, como mais tarde se veio a saber, fustigando a Ferreira, em pêlo, com os nós da corda, foi alvoroçar o Fráguas que dormia em Muradais o sono profundo dos justos, que em beatitude apenas diverge do dos patifes na cor que têm as asas do anjo de vela à cabeceira. Quando soube que levavam o filho preso - o que para o Calhorra era perfeitamente indiferente se não tivessem sido gazofilados os seus lapuzes - acordou os criados, mandou chamar o Manuel Minga, por alcunha o Espadagana, mais dois ou três companheiros da vigairada e, depois de se encharcarem de cachaça contra o frio da alba e para ganhar rompante, terçando de quantas espingardas e revólveres puderam haver à mão, lançaram-se na chocolateira, a toda, para Malhadas. Em Malhadas informaram-nos que os presos já iam a caminho de Orcas da Beira. O Fráguas desembraiou, meteu o acelerador a fundo e antes de chegar a Pedrões da Nave, ao cabo da recta, lobrigou a escolta com os presos. Afrouxando a marcha, conferenciaram: - Atiramos-lhes sem dar tempo a prevenirem-se? propôs um que entrara heroicamente pela bagaceira. - Não; é perigoso - proferiu o Minga, mais aliviado do cérebro. - Não vale a pena irmos já às do cabo. De resto, podíamos ferir os nossos. Prevaleceu a opinião moderada e foi o salvatério, bêbedos como estavam. Ao acercarem-se, evidentemente porque sabiam a rês que o Fráguas era, a guarda fez meia volta e aperrou as armas: - Alto ou vai fogo?? Detiveram-se; fingiram em seguida a maior surpresa ao defrontar com os detidos. Com modos irónicos o cabo aconselhou-os a arrepiar caminho: - Façam de conta que vão errados. Nós é que vamos bem: ordinário marche! O Antoninho convidou-os ainda a molhar a goela na tavertia, que era costume o Catrino ter sempre um vinhinho de três assobios e, como se estava na quadra das matanças, a assadura mais que certa para amigos e unhacas. O cabo não ignorava nenhum dos estratagemas a que recorriam picardos e contrabandistas em tais colisões, e muito menos a boa peseta que lhes saía pela frente, todo falas de mel depois que vira as Mauser engatilhadas. - Não se mate. Havemos de entregar entes anjinhos, em jejum, na cadeia do concelho. Foi promessa que fizemos a Nossa Senhora da Agrela. O Fráguas retrocedeu com os seus, enquanto a escolta prosseguia para Orcas da Beira. Os presos foram entregues ao administrador. Rogos,

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puseram-nos em liberdade. decorrida a semana sem culpa formada. Dizia-se que Hincker se empenhara por semelhante solução. 81 . que já envolvia corrigenda e era a menos susceptível de lhe causar engulhos e contratempos.súplicas.

depois que apanhara o grande carambolim. O Calhorra também o queria. o que a levou a dizer com regozijo. . nuvens brancas iam vogando com ripanço. Mas vinham aí os Carapitanos que em tempos tinham sido adueiros. depois de seguir com olhos refitos o vaivém do fiel. tendo-lhe constado que possuíam o seu migalho.Vende-c. e por onde quer que se derramasse a vista. contanto que mo ponhas depressinha de casa para fora decretou o Duarte. Logo vou-me dar uma volta. que estava a ver e a ouvir do próprio buraco da fechadura. vende-o ao Leónidas. a cálculo. Mas o Leónidas. Tinhao num taleigo e pendurou-o dum lado pelo nagalho. roçar mato. . posto que em mole e mal pronunciado pendor. Chovera a potes durante semanas e semanas. entre eles o Zé das Almarges. vende-o lá a quem adregar. Mal o ergueu no ar. impelidas por baforadas leves do vento galego.. mais cigano Pedro do que Paulo. mais onça. menos arroba. Há muitas Marias na terra. só o aceitava à condição: crivado pela separadora. Toca a pô-la em sítio onde não chegassem gatos. arranjado ao rebusco. . eram do Duarte nesse sábado e. mas se o souber.. arrenego! Além de ser um marralheiro de alto lá com ele. ao rebusco.Bem me queria parecer. os pesos que eram ladros. três arráteis. Lá dizia o outro: ao bom calar chamam santo. uns da terra. Era sábado. A terra dum dia para o outro mudara de face. do outro pôs. que o pagavam à justa. conhecido por homem abonado e sério de contas. Mas esse. não me rala.. sinal de que se entrava em estiagem.Não são bem os quatro arráteis. mal chegaria para empeçonhar um rato. que por ser murado lhe permitia. a chave pesa meio arrátel certinho. introduzindo o dedo na argola. Bárbara meteu de espora fita para o Vale das Donas. Andava um cardume de gente no negócio. adicionando um peso: . O Luís Ougado quita de sabê-lo. devido talvez a que estava acocorada por terra. suspendeu ao alto. Para sul. As vacas. . assim que engrolou o caldo de unto com as duas batatas rachadas.. as chuvas descarnaram as pedras pelas aradas. tirou-lhos da mão e. a mão que sustinha a romana pouco honrada.E cadeado na boca. faiscavam os charcos. Mas como a irmão desse a impressão de perder o fôlego ao levantar os ganchos.verificou ela. 82 .. Deitaram contas ao seu haver. mas o que falta. tudo lhe servia de pretexto para peguilhar: a fazenda que não era estreme. outros de fora. Com o quilo a 350$00 não havia duvida que estava ali uma rica melgueira. . despediu para o lameiro da serra. ao Zé das Almarges. Tem à roda de quatro arráteis. . O Duarte assistia à operação muito interessado e sem abrir boca.Quita. pela tarde não faltariam compradores à porta. O Leónidas Seixas falara ao Duarte.Pesa mais de três arráteis e meio . Parece que era um sacrifício que fazia em pegar-lhe. certinho. em seneca. segundo os termos da parçaria.Vamos a ver com a chave.VI Bárbara foi pedir os ganchos à Pedralva para pesar o seu volfro. Desta feita o braço deslocou-se no sentido contrário.. pode ser que arredonde o peso. entretanto que elas pastavam. Foi buscar a chave. o braço inclinou-se impetuosamente da banda da veniaga.

Deixá-lo. Pelas centeciras. dar dois dedos de trela a este e à quele. pequenino e vulgar. Precisava de espairecer. lhe perguntou pelo molho de erva com que havia de acomodar a Cereja. A cada passo.Fontainhas gorgulhavam donde menos se esperava e a cada passo dos côrnoros e taludes um fiozinho de água. de olho na mina do Vale das Donas. esperam de quem passa. era muito menos do que o que os mendigos. onde havia sempre espectáculos proveitosos para a sua curiosidade. Era um regalo gozar ao ar livre aquele sol abençoado. tão móbil e traiçoeiro se tornara o lamaçal. passava por ali o senhor Antoninho de escopeta às costas a botar dois bagos de chumbo às perdizes. 83 . à velocidade com que corria o tempo e ia tocando tudo para a morte. antes do sol-pôr.r para a missa. viera tarde. injuriou a porca que estava sempre naquela música pegada e era capaz de comê-la viva se lhe faltasse com a vianda. ao entrar em casa. e fosse segá-la ao lenteiro. movediços o que bonda para se dar conta que tinham corda à procura do minério.. sim. Ou se desejava. e espreitando o horizonte. embora mais friorento do que se acabasse de nascer. era preciso ir às apalpadelas. murmurava num falatório animado consigo e com Deus. atirou um pontapé ao gato da Pedralva que saía pela gateira com uma grande rara nos dentes. por muito que lhe caísse em cima a fuligem das contrariedades. E o seu coração batia e tornava a bater como dantes. Se porventura acontecesse vê-lo. e dizia-lhe o coração que desta vez era o fim da intriga. Como todos os serranos. À tardinha. geada. mas não ia jurar que tivesse vindo apenas com sentido no volfro. A várzea enxameava de vultos. Não havia vulto que saísse do povo de que ela não desse fé e não começasse a estudá-lo de longe até atinar quem fosse. começando de novo sempre esperançados. pegasse nela. acabava também por clarificar. Mas se Bárbara tivera aquela boa ideia. E na fímbria do caminho lá ia procurando. E o rio. quando não era um rego cheio que vinha de longe. se não mais maluco. nos regos recurvos. pouco mais ronceiras que anáguas de velha ao . soube dizer que a seitoira estava no sítio. quando se postam à beira do caminho de mão estendida. o chão cedia. quando o Duarte. Uma vezes por outras.. com o galo que era peco na galadura. para lá dos caracolões do aterro do Vale das Donas. projectando a sua brancura a céus e terra. mostrava trechos amplos por entre amieiros. Desejava alguma coisa dele? Ela não desejava nada. onde se punha o pé. Rabujou com as galinhas que não punham todos os dias. por ali divagou até se ouvirem os chocalhos dos rebanhos descendo as escarpas para os currais. e os próprios franguitos vissem uma fona com ele. Em muitos sítios. azar que ate as mãos e esgote a paciência. E em cima dos penedos as caldeirinhas naturais reflectiam como límpidos e ágeis espelhos a luz celeste e as nuvens que passavam. procurando o cascalho que valia oiro. dir-lhe-ia adeus e que não voltasse mais a mangar com quem não lhe fazia febre. embora fosse bicho para passá-las a fio todas as manhãs pela sua espora de cavaleiro. Chegara essa manhã a Malhadas. para quem não há esterilidade. a água represada contra a filaça verde dos trolhos era do mais lindo e caprichoso cristal que se pode imaginar. outros a haviam tido igualmente. Em seu peito turvado cachoava um mundo de impressões desabridas e inclementes à volta duma realidade irremediável: acabou-se! acabou-se! Entrou em casa rabugenta e a odiar. tão luzente tudo que a alma duma pessoa. sempre porfiosos.

Porque é que não veio seu compadre? . . Agora. mas saiba pedir. ainda com ar de dia. O homem fez menção de abalar. .. de Carapito: João Vitorino.. mesmo nada. disse: quatrocentos. Eu dê ainda hoje estoiro no inferno se não é verdade. . .Indicaram-me esta casa como tendo volfro para vender. Peça duma vez. que nunca chocou pintos nem vendeu bulas. . São tantos os que andam nesta vida que se comem uns aos outros. a ponta da corda lançada para a espádua em sinal de marcha. Ainda esta manhã o andavam a comprar a quatrocentos mil réis.A trezentos. .Por esse preço. Ficaram hesitantes. se não se fizer.. Dos alforges safou as balanças o permaneceu com elas em punho em atitude de 84 .. Isto de volfro já foi negócio. . abrindo a porta ao homem para que entrasse com a cavalgadura: ..A como é que o senhor o paga? . sem um argalho. Quer? Se quer. Todos dizem o mesmo. . Se se fizer negócio.. pegue-me na palavra.Vá buscar a fazenda. . senhora.. está bom de ver. compadre do Zé das Almarges. não se ganha para a sola dos sapatos..Bem.Então para que o compra?? . o que se chama puro. andam os marchantes à lufa-lufa por todos os cambais. nem que o senhor se mate..Disse.O senhor não é de Carapito? . Mesmo a duzentos e cinquenta mil reis é já para perder dinheiro.Aqueles maus repentes aliviaram-na das mortificações.ouviu que dizia o irmão..Foi para Muradais. fazendo de conta que é puro. ..? É para não ir de mãos a abanar. indeciso com o molho da erva às costas enfiado no cabo do sacho. muito bem. homem de uma só abotoadura. posso pagá-lo a duzentos e cinquenta mil réis.Se assim tem a certeza do que diz. sentada na soleira da porta. adeus. sem o quê tenha-me por boca mentirosa.. Prendeu o macho a uma ralada da parede pelo nó do rabeiro o atirou os alforges para o chão.. Mas ele ou o filho de meu pai é a mesma coisa: andamos de sociedade. . O Duarte arrumou a erva e ela acabou por inquirir. dando volta com o macho. O homem caminhou para ela com ar decidido: .Homem.. resvés com a cabeça do macho.Onde irá tal mercador que eu forneço-lhe uma carga? Também o vendo à minha santa por esse preço. e na fazenda não há nada que deitar fora. Ao chegar à porta virouse com brusquidão: .Vossemecê quem procura? . serve. ela pôs a gamela de lado e veio para o sujeito que mostrava a cabeça pela talisga..É do puro. .Só à vista. .Sim.E embicando para Bárbara: .Valha-o Deus? A trezentos pagavam-no a semana de além.Lá me queria parecer..Mas resolva lá que se me está a fazer tarde e eu quero-dormir nos lençóis que fiou a patroa.Pois por isso mesmo. . de parte a parte só perdemos o nosso tempo. diga lá a como o paga. Estava a aparar os nabos para o caldo da cela. . O Duarte empurrou a porteira e ficou-se no traço. Como não atava nem desatava. O melhor é vê-lo. Precisamente tropeçavam os socos do Duarte na calçada. sempre a quero ver.Compromissos. bateram à aldraba da quintã.

.Um moço que conheço há um par de anos. deitar fora esta pedra. Não as topou. Ergueu-a no ar em sinal de lisura e era convincente. fica uma pitadinha de rapé. deitado outra vez para o saco. não engana. Estas areiazinhas representavam o peso do pano. mal vá à separadora. Isto. Não chegava a pesar três arráteis.. A 350 escudos. desdenhando além. Passa no meio das outras. isto também. atirando-as ao chão. .espera. mais uma..exclamou Bárbara. perguntou ainda: . que é delas? Tinha-se afigurado aos dois que o homem atirara fora as que não eram boas e.. Se não fosse cá por coisas. era o preço corrente. O belfurinheiro meteu a mão. quanto mais pederneiras? Mas sossegue. pesava três arrá teis e umas areiazinhas a mais. É bem a quanto bota.. louvando aqui. As pedras de minério puro crepitaram na faiança. Veja. aquela. mais outra. Luís Ougado. talvez outro lhes pegasse... Aceitaram. Bárbara viu-o escolher.. Por essas e outras.proferiu o negociante em tom de quem pondera com filosófica melancolia a imensidade do que dá contra a bisbórria do que leva. mas ele interpôs-se: . é que se lembrou das pedras que o homem refugara. disse: . e cego eu seja se ganho dinheiro. Começava a minguar a luz. mas não teve coragem de articular o mínimo reparo. Pedras. até mais ver? Bárbara.Pelas contas que esta manhã estivemos a deitar e as de agora. trouxe à de cima duas ou três pedras que se pôs a olhar de alto: . tara-se pela sua e vai ver... Os pesos estão aferidos. Duarte? .Foi-te bem feita! Quem se lembra de fazer negócios destes ao escurecer!? 85 . que o sol dobara por detrás de Mouramorta. 525 000 réis. a conta estava boa de fazer. em vez de atirá-las para o chão. Isto é bom. Aquela prova decidiu o negócio. só depois de entrar em casa e arrecadar o dinheiro. Conferiram com os ganchos da Pedralva.Precisava as tripas ao sol. eu levo-lho a trezentos e cinquenta escudos. Os ganchos ainda eram mais escassos. Bárbara veio com a saquinha do volfrâmio e urna almofia. brilharam concentrando em suas faces polidas os últimos raios do poente. O volfro.Tenho aqui balança. . ao tempo que fechava a quintã. deveras. Metade de 300 eram 150. com ar desenganado e um natural tão verdadeiro que o seu coração se amargurou.. É a quanto bota: cinco notas e mais vinte e cinco mil réis. Contado o dinheiro na palma da mão: adeusinho. ia sobre ele! . Mais exacto nem Cristo.Quem lhe ensinou a minha porta? . Servia para pesar almas. que a cara iludia um doutor. sossegue. atirava-as fora.Uma mancheia de dinheiro . em que o despejou. Não presta. Caiu-lhe a alma aos pés. e correu ao lume por um tição aceso. Depois que o homem acabou de revolver o minério e pôr de parte um. já esta pedra maior é de qualidade inferior. vasculhou. Foi a toda a pressa procurá-las.perguntou ela. . Ao erguer o alforge. decidam-se: querem vender ou não querem vender? Para não gastarmos aqui o dia inteiro a regatear. aqui estava o trancafio..Isto é minério queimado. Mas.Vá.Refinadíssimo ladrão? . . para ver que espécie de droga era aquela. enfiaram todas para as bolsas. Bárbara foi buscar os ganchos da Pedralva. metade de 50 25: vinha a somar 500. atirava-as para cima do alforge. levounos passante de cem escudos. rejeitar outro.

. orelha colada contra algum buraco mal rolhado pelos tomentos.Pois não vás. Guarda. também já fora do amanho.. E erguendo-lhe diante dos olhos o grande espelho que se dera em Mouramorta em casa da Joana Enjeitada . à qual cobria um testo de ferro. o espinho continuasse a picar em sua consciência de logrados. nalfo de duas bandas. vende.? Quem to disse.. tirou o pacotinho das notas.? O Duarte ficou indeciso. o que já não acontecia há que mundos. Em seguida àquele desafogo entraram para dentro de casa a comer o caldo e o Duarte proferiu em tom de remordimento: .. . murmurou com voz chorada: . A avaliar pela fisionomia estava a procurar razões para não se mexer.. e lá ia feno e dinheiro. mas a culpa é tua que me matavas o bicho do ouvido: Vende. que lhes pareceu ouvir taramelar um tamanco detrás da casa.ardera tudo.Grande cão.. o que fora desvaneceu-se e o Duarte rosnou acariciando as notas gordurosas: .Espera que eu já me raio? Quem garante que era dele? Consolaramse do seu pouco ardil desopilando quanto àquele pormenor. Só depois de dar graças a Deus é que o Duarte disse com arremesso: . do brasido só 86 . Oito notas e meia.Nunca desejei mal a ninguém. ora. Pode trazer à sacada o Luís Ougado. embora. a velha caçoila das papas.. O dinheiro aí não está bem.Guarda tu! Era uma turra que se renovava todos os dias quanto ao sítio em que o dinheiro estaria seguro. Apodrece com a humidade. dissipadas as reservas dum para o outro. De dentro. que o petróleo fora-se e já não aparecia nas tendas.Onde puseste o dinheiro. entre cacaria rebentada. vai ver se o pilhas. .Para mais. mas este gatuno oxalá tenha tanto descanso como o volfro que nos roubou! Calaram-se.. e encontrou-as: .É perigoso. o que andava não menos fora de uso. por baixo da moinha. Ela objectou que podia deitar-se fogo ao palhal.. Depois de contadas novamente às avessas. e ela arranhou-o todo. Só te digo uma coisa: antes um cão de fila que semelhante traste? .? Bárbara foi buscar de cima da pilheira.Anda.. Houve tempo em que na opinião do Duarte o lugar garantido era o palhal.Com este faz oitocentos e cinquenta mil réis. E quedaram de malga na mão. tinha que prantar para mais de seiscentos mil réis! Seiscentos diabos o carreguem ainda hoje para as profundas do inferno? exclamou Bárbara. Onde ele está bem é debaixo duma das pedras do lajedo. Das palavras passaram a actos: o Duarte deu-lhe um bofetão.. ? Enquanto rezava. com um remendo de lata no bojo. O Duarte contou-as: . Era impressão deles que vinham para ali escutar de noite.Traze cá a caçoila.. bem adentro duma facha de palha. que podem vir passar uma busca a casa e dão conta! Davam conta de quê? Que foi arrancado? Ora. sem uma asa. . viera-lhe à cabeça que podia ser falso e pôs-se a mirar as notas uma por uma. flusão ou realidade. sem o darem a entender.. Pesava o lance. contou-as pela derradeira vez ao resplendor do braseiro.. Assim que se certificou que eram iguaizinhas e sem mácula. não davam conta de coisíssima alguma? A cara não é a mesma? Nenhum deles queria responsabilidade e acabaram por injuriar-se. Não podiam proferir palavra mais alta que se não soubesse no povo. tanto que até gosto lhes faltou para arrecadar a bagalhoça. arriscas-te a ter o Ougado à perna..

. os ratos podiam dar com ele e esfandegá-lo para fazer o ninho.disse o Duarte . Mas. mas breve o tiraram de lá raciocinando o Duarte que. alma do Senhor. acabaram por amochilar o baguinho na -caçoila velha. uns eliminando outros. erguendo-se da lareira. Mas dinheiro a juros numa terra em que se não dava um traque que todos.. Dizia nosso avô ter ouvido ler ao padre de Tendais que a terra havia de acabar abrasada em fogo. acudiram os Russianos. em nada diferente dos mais trastes velhos. o não cheirassem!?. resguardada das fonas pelo testo e do primeiro apalpão dos larápios pelo empacho da moinha.é como um incêndio no restolho.opinou Bárbara. nisto estavam ambos de acordo. De facto. ou quem fora lesado não desse parte em juízo. não há que contestar. agora são osjapões lá no calcanhar do mundo que se atiraram a Ingleses e seus parceiros. e a opinião pública condescendera em aceitar tal posse como não infringindo o seu caixilho de necessitados. ainda que Deus em seu bem-querer a varresse para longe. com bulcões negros que de quando em quando passavam em vaga no céu e obscureciam as quatro telhas de vidro que alumiavam a casa.Os doutores também erram. 87 . mas agora. estava aí botada.Tanto vale então guardar o dinheiro como derretê-lo. Mas com o acidente que tombou o Clero sem sentidos à beira do rego de água concluíram que também esse lugar era precário. Mas o Duarte ficou enfadado e girou à deita. modo. estava a bom recato.A guerra . capacitados de que eram pobrezinhos e não tinham por onde pagar!? Já a vaca dera engulhos a muitos invejosos e atirara a primeira pedra ao cristal desta redoma. Alguns dias estiveram de acordo que a melhor guarida era a algibeira. optaram pela caçoila. além de que não estava mais livre que no palhal dos riscos de incêndio. Começa por uma ponta e acaba por outra. graças ao leite... Mas pô-lo a render não era quebrar aquela redoma de pobreza dentro da qual se tinham metido. Ali estava há semanas. Esta dúvida martelava no espírito do Duarte que. tal esconderijo merecia ainda os mesmos votos de confiança?! . declarou ao passo que se dirigia para a porta: . do fundo ao cimo do povo. De raciocínio em raciocínio. os Alamões levaram tudo raso. que lá de quando em vez praticassem o seu cardanho e quem os via os não denunciasse. Onde se esconde. Toca a arrecadá-lo e a arrecadá-lo bem. Não falta quem o queira. caminho franco quando estes ladrões tiverem disparado a última bala? Sabe-o Deus.. .ele teve de assentir à possibilidade de semelhante desgraça.Dá-se a juros. a algibeira interior do colete. por modos. Mal-pecado se Portugal vai nas águas envoltas? Ficará casa de pé. onde se há-de esconder. de terem para as décimas. junta à grossa maquia que entrava e com a guerra que. em virtude do quê todos compreendiam que andassem mal vestidos.puderam tirar os ossos da dona e duma burrinha .Se alevantasses uma laja e o metesse debaixo. A questão toda é a humidade? . Estava uma noite serena e fria de luar. Primeiro foram os Franceses e Ingleses que se pegaram com os Alamões. não faltava quem o quisesse. É desta vez? . segundo muitos. representava um sacrifício heróico. rente à carne. folha verde. meneando a cabeça. Mudaram-no para um buraco na parede. tratando-se de papel. enfim. que não dessem uma demão grátis a outrem.

tinham ficado esposados. ajoelhados os noivos aos pés do padre. . A voz ociosa tornou: . irmão do pai da D. para encontrar. ela descalça. amanhã sabe Deus qual seria. fora objecto. mas sempre novo e imprevisto. o Antoninho chegara aquela manhã. em Pedrões. Ele dera-lhe a mão e. e o Duarte rosnou dentre as mantas. que fora morrer ao Brasil.. chega-lhe pouco aos farelos. E Bárbara fiava. que para isso enxergava cabonde. Bárbara crirodilhou-se junto das brasas e. eram pequenos e iam pelo carreiro alagado das Fontes. caía se não o amparasse.. . Deixá-lo chegar. Estava idosa. Há pouco. quando de facto era supérfluo com tão grande braseiro. A vida compunha-se de cuidados.Não fazia vento. Decorreu uma pausa vazia como cisterna sem água. o padre lhes deita a estola.. sim... que sempre armara. sobrepostos como no novelo as camadas de linho.Dê cá a sua mão. dançava o fuso. longe. há pouco o que a apoquentava era o roubo descarado de que. arrepanhando a capticha para as costas e espetando a haste da roca no cós da sala. pos-se a fiar. no fundo do peito. pois tinham cozido de tarde. ele de bota e calção. Seria palermice de todo supor que os destinos dos dois se encontravam doutra maneira que não fosse por simples acaso e. ao princípio do mundo. uns que vinham atrás dos outros. uma rapariga.Não te parece que a porca está a desmedrar? . Aquilo durava bem há um assopro. servir-lhe-ia de emenda. embora remontasse à romaria. os caminhos não esrão desempedidos? já sabes que tens de a coimar. que é como quem diz.Coitada.. Solanginha. Ele não lhe dizia: Nunca é tarde?.Deu mais um gorchinho. era o casamento.? Sim. Fiava e onde menos punha o pensamento era no que o irmão dizia. ala. não se julgava ainda velha. Mas. emornecia a lareira e irradiava mortiça mas difusa claridade.Fosses lá tu. como na igreja quando. como quem procura um alfinete enterrado numa almofada. Cada um seguia o seu destino. hoje outro. Mas não. não rumorejava folha. Remontava portanto aquele enleio para lá do Senhor das Cinco Chagas. ela a segurar-lhe a mão a Cingir que podia cair. Rosnou e.. à fidalga. ele a deixarlha e a fingir que. e ia cismando. soprara nas suas costas: Esta velha. Sim. Ah.. em plena feira. e o borralho que trouxera do forno. .. Não remontava mais atrás.. como se tivesse esquecido de fazer as perguntas sacramentais de todas as noites.Que tal? A Cereja trazia grande amojo.Não foste ver se a pastora da vizinha meteu as ovelhas no cerrado. àquele dia. Automaticamente levou a mão a um tanganho para queimar. Houve outra pausa e o Duarte proferiu: .. 88 .? Pois não era. Puxava a estriga. adiante. Há quanto tempo durava o derriço?! Durava já há mais tempo de que tempo ela tinha dali em diante até à tumba. cada um para sua banda. E agora? Era preciso procurar no peito. Ontem era um axe. Que lhe doía ontem? já nem se lembrava. que queria passar adiante dela. do Senhor das Cinco Chagas. ergueu a voz: . Ao princípio do mundo. Noutro dia. . outro pouco não fosse por lá escorregar ao saltar de pedra em pedra e tornarem-na responsável. patinha de si. e viera a casa do tio. sim. Raios te confundam! .dissera ela um pouco por lha querer sentir entre as suas.

Dali a Muradais iam duas léguas das fartas. Que lhe dissera o descarado. às vezes aos pares.. Fez-se desentendida.Qual. a catrapiscar esta. sim. involuntariamente pôs lenha do canto. Por vício que não por necessidade. Esteve um instante calado e volveu: .. e o irmão que não dizia nada. entrando pela sua casa dentro. Nunca o sol o encontrava na cama.. Como devia ser fria a cova no cemitério! Deixá-lo. recebia o hausto do borralho que se amortecia..? Ainda era viva e reviva sua tia Soledade. fazia-se aparecida. Daí as suas aversões... toca a virá-Ia em cima da primeira arca. onde mergulhava senão na sepultura? Entretanto aquele chamiço que ardera há pouco e os olhos que algum dia a envolveram na sua luz eram ainda os instantes do mundo em que se suspendera a caminhada para a morte.São horas de ferrar o galho. todos lá iam parar. onde lhe ia a cabeça! Por cima dos telhados piava a coruja. ao tempo o perfeito galo doido. duas vezes o seu queixume macareno. Onde soubesse que ele poderia aparecer. hem? já sabes que não se carrega uma carrada de tojos como se enche uma maçaroca. O mundo. santo Deus? Dobrada sobre os joelhos. a apalpar aquela. mas ele excedia as marcas. é à boquinha da noite.. Cáspite. supersticioso como era. Debandaram por um segundo os maus pensamentos. Tinha-se por poupada. Viviam os dois debaixo da mesma telha. quis tomar posse daquilo que lhe daria de boa mente. Estava a gear. O dia de hoje para ele não entrava em linha de conta no tocante a dar à vida o que requer da maior parte dos homens na satisfação dos apetites ou gozo dos bens granjeados. lá estava ela. Por onde lhe andava a cabeça. Também o que é de mais deita por fora. a fuligem das paredes tornou-se em folhado de oiro. e era uma consumição. Quanto a ela ninguém sabia do que ia em realidade no seu peito. para cima da arca como os 89 . seria dele se soubesse levar a água ao moinho. ainda o Duarte não fora às sortes. A sua casa era feita disto: de trabalhar à bruta e aferrolhar. Da romaria tornava-se em rancho. no fundo da sua carne. distanciados tanto uns dos outros que podiam falar à vontade sem serem ouvidos.Amanhã é preciso madrugar. os dentes a rir. depois da volta completa. Coloriu-se tudo como numa aleluia. Uma vez. . e o mundo murmurava. mas com o Duarte acordado queimar lenha trazia recadeira pela certa. o Duarte rabujou: . Credo. Só esses interessavam. onde tivesse esperanças de que ele fosse.. o cabelo de risca ao meio a alvorecer por debaixo do chapéu atirado para a nuca. é porque estava a dormir? Nessa persuasão pôs um sargaço no lume. Chamavam-no Gadunhas. ali recalcados desde a juventude. à luz do sol.Essa romaria há que ror de anos fora. Mas não. A chama extinguiu-se. Mas a aversão do pobre é limitada pelo interesse. porque tudo no crispamento da sua mão se resumia em “venha a nós” e em deitar para o saco. Lançou uma. dizia-se que a gozar-se da arreganhadita?? O certo é que desde esse dia passou a andar à volta dele como sombra. a casa ficou ainda mais gelada. Deviam estar a sair dos serões se os houvesse. envolveu-se na capucha e acercou-se mais do lume. O seu regalo era fazer chama. Adrega assim não havia. Trabucava como um moiro e aferrolhava. Tudo lhe parecia pouco para o dia de amanhã. darse claridade. irra. menos o Duarte que se botara a adivinhar.

. e se dizia que a culpada fora ela. que é na gente a coisa que não fala mentira. está bem . cinco. encontrou-a sozinha no lameiro a guardar as vacas. Se teima. doido por ela. eu te ensinaria! . estava na laja a erguer o milho painço. Tão zangada que durante muito tempo não o podia ver nem tragado. Não e não. Se se quisesse casar já o podia ter feito há muito tempo.Mas casa-te e acabou-se. a cuspir fora: . Veio o passado à baila e ela explicou-se: “Não era homem casado? Então julgava que podia fazer o que lhe requeresse o capricho... de o arrenegar. ainda mais desastrado e grosseiro que envergonhado. É verdade.. desapareceu. Era de contar que se demorasse. Ficas para aí mirrada..Está bem. que vem o meu Duarte e mata-nos? Ai. Pareceu enternecido com aquele pensamento de fidelidade porque murmurou com voz que era uma flauta a gemer: 90 . Começaram o paleio em tom agridoce e terminaram acusando-se de andar a jogar o té-té. mais bonito homem.. três...que acabara de crer que dum para o outro não havia nenhuma espécie de compromisso quer de pensamento quer de obras. andavam a fingir que o eram. nem o bom-dia se deram..Não vale a pena. Na festa da Senhora dos Remédios.. duas. Como foi aquilo? O mais certo foi o terem pejo à hora das Trindades.. Regressou ao sexto ano.. tão pequeno o faz o céu que o cobre.. atravessou ele por ali. Andava farta de se repetir: Olha que entre vós nunca houve nada .. tombar uma mulher de costas. Um dia acharam-se de cara ao virar duma esquina. não vale? Se valesse.Ensinaria o quê?. Pretendentes não lhe faltavam..... tratou de persuadir-se que nunca se passara nada entre eles e de traçar em conformidade a sua regra de conduta. Não seria este também o seu pensar? Uma tarde de Outono que saíra à caça.. grito! Não andava por ali ninguém. se soubesse! Mas não. Fartou-se de o evitar. O Joaquim da Mariana retirara para o Rio. Passou o Inverno.?” . Ele a aparecer num caminho e ela a tornar para trás. que nem ele adivinhava quem poderiam ser. voltou as costas ao malcriado. Quando já andava cansada de lhe querer mal. Não o esperava. o seu destino por esse lado ia dar a um beco sem saída. Cometeu-a. hora em que o homem deixa de ver a sua sombra na terra. Por despeito. mais forte .. Encontraram-se. Foi durante o tempo em que o Diabo o levou para a cidade.replicara ele. Rosnava-se que se ia casar com a prima. era só chegar. que já lhe ouço o tarnanco! Não se ouvia tamanco algum e ela estava a espreitar-lhe os olhos e a dizer que não acreditasse. Experimente e verá...Ai. ai. de lhe torcer as voltas. Mas ao menos estivesse na crença de que podia vir dum momento para o outro. e ela então julgou no seu sentimento que tudo acabara. Começou a contar os anos de ausência pelas romarias do Senhor das Cinco Chagas: uma. desapareceu. nem uma passa.defuntos? Seu irmão tinha ido ao lado. que lhe valeria gritar!? Mas ele lá se foi.. Ficou zangada com ele e consigo. para o não ver sequer. . que desandava a assobiar aos cães. Outros. Mas o tolo acreditou. Certo dia que apareceu com a senhora e uma menina. Deixou de caminhar para as bandas de Muradais. No dia seguinte. Para que serves? Indignou-se toda. Era ao escurecer e mal viam a expressão dos olhos um do outro. de continuar com o ridículo arrufo ou enganarem-se. Eram inimigos? Qual. Assim de surpresa era como se fosse um estranho que se apresentasse. a requestavam.

então ter-se-ia verdadeiramente descanso. Ela. Quando um belo dia. Sim. decerto espavorida. como advertia o seu olharapo. Enfiou-se vestida entre as mantas e só debaixo da roupa se despojou da saia. A coruja agora esganiçava-se para a casa do Calhorra como se alguém . havia que levantar cedo. e é natural que por dentro. varreu as brasas para o paranheiro.? Mas o Duarte acordou e grunhiu.a tivesse enxotado do telhado da Pedralva. deixou-se ir sem relutância. do chambre. pelos passos de sua mãe e da tia Soledade. É uma fatalidade. sentiu-se presa. se encararam com olhos de se verem sem ilusões. ele. deixando as chancas na lareira para não fazer barulho. ela caduca. mas no dia seguinte. uma destas 91 . ao mundo dos vivos e àquela madrigueira de gente. como tudo. dardejou um olhar para o caniço. Grunhiu palavras ininteligíveis. O raio do homem fora a Orcas e voltara a dormir ali a noite. sofreram um baque.. do saiote. Arregalou os olhos. Aquelas duas léguas de espaço entre os dois fizeram o resto. Adormecia. Qualquer homem manda no seu criado. o senhor Antoninho não voltou a Malhadas. e fechou os olhos. -outro para a caçoila. sentindo-se como que levar pelo ar. Seria assim morrer? Abriu as pálpebras. não pensou mais nela. onde não haveria mais que um fogaréu sob cinzas. e cruz. por mais alto. aos apalpões. Mas ainda desta feita. má e venenosa. Porque não dormia? Ora. fora perdendo o viço da juventude. Mesmo assim apertaram-se peito contra peito. por um encarniçado azar. e pareceu que se virava para a outra banda e reatava o sono interrompido.é curioso . A noite ia dobando mais surda que a meada na dobadoira. nula e sonsa entre as panelas. desasada. enrodilhado nas saias de outras. Erguera de rompante. era vida safada. sem coragem de se dizer que agora tudo era tarde. mas na progressiva maturescência. que era poiso. talvez mentindo com medo de reconhecer a feia realidade. não tivesse pegado faúlha nas varas secas. Tornou a cerrá-las e teve a impressão novamente de que ia deslizando pelo ar fora dentro do esquife. que a tinha na conta da última das depravadas. O mais importante era parar o pensamento. Ela enrodilhou-se nas mantas. e ela quase lhe fez quantas promessas quis. a tanto que os desfigurara por fora. só por isso. Lá iriam todos para o meio dos pinheiros. Bárbara! Ela esquivara para dentro do bioco do lenço o sorriso. acabasse de murchar. um destes sorrisos de agrado que apenas se não mostram para não serem tidos por deslavamento. trocara-os. Qual. nem depois e depois.Não me fujas. dormir não era o mais importante. se meteu na cama. deu as duas e três voltas dos cães e dos mendicantes. Não eram os mesmos. com mais pingo. estancá-lo. já recessa. Mas o pensamento não era cavalo que se prendesse à argola. como as bruxas. diabo! retomava lá longe a feia macarena. era melhor deitar-se. que ela apreciava. provavelmente no mais íntimo. O tempo trocara-os. não. se ofereceu oportunidade ou ele a não buscou. Agora ali estavam outra vez. se o pensamento parasse. Que viera cheirar naquela altura do ario?! Ouvindo tropel na rua.. sim. já no tarde da idade. e respondeu: Se eu tivesse asas. Não era dormir nem morrer. menos pingo de água benta. nem nesse dia. Aquilo era já mania de velha. se não era a cavalo no rabo duma vassoura. Dentro do esquife. Achava-se bem ao lume. Ainda de cócoras. O senhor Antoninho. mas não manda no seu pensamento. refarto de carniça. nem no outro.. E. Pois que era ela senão uma velha. deixando que a primavera dela.

Ao menos aquele não tinha argueiros a remorder-lhe na consciência.. mas o malvado do pensamento prosseguiu na vadiagem.. .. se ainda aquela noite lhe servisse de mortalha. Rezou. Pôs-se a rezar o terço pelo eterno descanso da alma de sua mãe e tia. rezou. Ouviu a coruja lá bem longe. não tinha os seus desesperos. Acordaste relampado com algum pesadelo.mugiu a voz choca do Duarte. depois de pegar no rosário tacteando. em pouco tempo feita esterco e pó? Que se ganhava em a defender da bocada deste e daquele? Que havia ela ganho com tanto luxo e esquisitice? Não. A sua mulher sou eu. ao menos quem pudera subjugar o lobocerval. a luz contra o sol. Felizardo..Podia saltar para lá uma centelha e pegar o fogo. a ladrona da coruja veio crocitar mesmo. Mas dizem que a vida a Deus pertence. Se vinha por causa dela. Para o homem domar o pensamento só havia um processo: escangalhar a corda da vida como se escangalha a corda dum relógio.Ó Bárbara. Andaria a fairar a casa em que estava para entrar Nosso Pai. perna nua até por cima do joelho. homem.. menos uma..Tampei.. tecia ali uma bruma leitosa. Para que é que ele a quer? Que lhe vale mais uma.. Mas não. Sentiu-o dar volta na enxerga com o escarcéu dum porco no palhuço. nem rendas... para romper logo a ressonar. O luar.. O Duarte ressonava e era outro aviso de presença. que escorrega.. às ordens. de modo a não causar dano à comodidade da criatura? Não houvesse dúvida que o bicho roía a bom roer na raiz da sua gente. Era um nimbo e tinha parecenças com o manto nevado de Nossa Senhora da Boa Morte. não estava persuadida que Deus Nosso Senhor tivesse algum interesse em que ficasse para ali uma donzela relha e revelha só para pasto dos vermes. Bendita ela fosse. aquelas grandes pedras com que murara a regada. para o fundo do povo. não era mortalha. Por enquanto não lhe tocava pela porta. Eram diferentes. a brasa viva entre tições apagados lembrava-lhe onde estava. tampei. ele trazia botinhas. ensopou-se de padre-nossos. nem o vapor diáfano da cambraia. manso. .. como se andasse a ajudar o Duarte a tombar pedras. que sucedem ao bicho homem: a linfa rebelar-se contra a torrente. tu tampaste a caçoila? . Fechou outra vez os olhos. Que valia afinal a porca da carne da gente. incríveis. Rezou.Até foste tu que a tampaste. mesmo. mais branda que a espuma do rio. aquela tosse que parece vinha de trás das costas e às vezes a lanceava. e era um regalo tocar com a carne na carne dele ao que a pele era fina e veludosa. ruminador e incansável à lida. para cima da casa.. A noite continuava a passar sorrateira como uma loba por uma estrada. Num meio quebranto ouviu por cima dela a voz agreste do Duarte: 92 . entrando pelo olheiro. Na lareira.coisas absurdas. em suma. Tornou a esbagoar o rosário. que mora lá dentro. Resumia o boi acabado. se a vida é como a parede na tapada dum rei que não há o direito de deitar abaixo.. . Não o são os dedos da mão? Aquilo durava desde longe. rezou.? . a asa do milhafre contra o próprio milhafre. “Dê cá a mão. apancada também ela era. se tem tantas e todos os dias as malbarata ceifando-as antes da hora? Mas. Nada lhe faltava.” Estava a pegar no sono. sua mãe liru. reflectindo no roubo que sofrera e votando o gatuno a todas as pragas deste mundo e do outro. e ficou mais esperta. Possuiu-a um acesso de tosse. O galo cantou e recantou. nem coisa que se aproximasse. A tia Soledade morrera doida..

- Toca a levantar que são horas. Tens de ir fazer o caldo depressinha que já lá vai meio mundo. - Ainda se não enxerga... - Qual, é meia manhã. Está baço o céu. Deixei-me adormecer depois do cantar da toutinegra. Levantou-se sem dizer mais palavraa, contente por ter acabado a noite, o seu jardim das oliveiras, mas tão má consigo e com Deus que nem sequer se persignou. Acendeu o lume, preparou o caldo para eles e a vianda para a reca. Na aldeia ia mais alvoroço do que num cortiço em dias de verão. Estavam no fundo da tigela, bateram à porta. Bárbara foi abrir. - Trago-vos um recado - dizia a tia Ana Ruça introduzindo pela greta a estriga vassoiruda que era a sua cabeça enfarinhada por dois carros de anos. - Havia de cá ter vindo ontem, mas lembrei-me que já vos tivésseis deitado... Esta pertencia ao número das que tinham malícia até as unhas dos pés e Bárbara respondeu-lhe com ar simplório: - Não senhora, nós deitamo-nos sempre tarde. Umas vezes ele reza e eu respondo; outras vezes toca gaita e eu danço. É como nos carrega a pancada. A Ana Ruça ficou de cara à banda e lá arrancou do bucho: - Foi o senhor Antoninho que chegou já noite de Orcas e me mandou cá. O Duarte pode ir buscar o dinheiro quando quiser. Ficou tudo arrumado. És um cão de sorte! - Arrumado o quê? - Pagarem-te. Cobrem-te o arneiro a notas. Hem, quatro contos nunca tu sonhavas abispar? Bárbara ergueu as mãos ao céu: - Louvado seja Nosso Senhor! O Duarte por pouco não ia deixando cair a malga ao chão. Não acreditou de princípio. Depois acabou por concordar que a fazenda assim não lhe era roubada. O senhor Antoninho fazia o que queria com uma perna à s costas e ainda lhe crescia tempo. Quis, pronto, pagaram. O seu cálculo orçava por ali, mais moeda, menos moeda. Vá, que é homem dum querer. A tia Ana Ruça retirou-se a mascar: - Arranjaste bom padrinho! Sorte de cão. Olé! - Dá-se-lhe o galo? - propôs Bárbara quando a tamanca da velha deixou de se ouvir. - Dá-se-lhe o galo, dizes tu... ? Pois dá-lhe, dá-lhe lá o galo. Isto a ele pouco custa. Sai do pêlo dos Alamões. Uma palavra que deitou pela boca fora e feito. Mas dá-lhe lá o galo. Leva-o à tia Ruça... - Então logo lho levo. E eu, sabes que mais - exclamou ao cabo dum momento de circunspecção - boto-me a Orcas a buscar o dinheiro, se é que lá está. Para estas coisas quanto mais depressa melhor. - Ah, lá isso? Acabou o caldo soprando à colher de lata. Vestiu camisa lavada; tirou os sapatos do frontal e o brejoeiro de trás da porta. - Eu antes da tarde não estarei de volta - declarou. E mais estarei. Aquilo para ser bem era pagar e girar. Levo um bocado de pão e metade dum chouriço, se tens. Acomoda a vaca. Para os tojos, sozinha, não anda a roda?

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- Não, vou para a fonte lavar a roupa que está a encardir. À saída da porta pareceu-lhe o tempo pouco firme. Voltou atrás a trocar o pau pelo guarda-chuva de paninho azul. A irmã ouviu os passos que estrepitavam na rua fora e, quando o último eco se desvaneceu, enclavinhou as mãos uma na outra: podia lá ser! Arrancou da caldeira e deitou para lá a água quente que tinha ao lume. Temperou com água fria, despiu-se, e meteu-se dentro. Ensaboou o corpo todo, tronco, pernas, pés, o peito do pecado e as axilas em que babuja o suor. Despejou aquela água, deitou outra e chapinhou, lavou-se de alto a baixo, sobretudo o pescoço, mordido do sol e da poeira, e as orelhas, ninho de toda a imundície. Limpou-se a um farrapo à falta de toalha e, nua como a mãe a pariu, pôs lenha e enxugou-se a um grandioso lume de sargaços. E, depois que se viu quente e limpa, vestiu roupa de baixo, lavadinha, a cheirar a mentrastos. Pôs meias novas, as chanquinhas de verniz, a saia de castorina de ver a Deus e o lenço de lã que reservava para quando fosse amortalhada. Lembrou-se então do galo e correu à quintã com um punhado de milho: - Pilinhas? Pilinhas todas! ... Acudiu a criação entretida a rapar na montureira e no meio o seu rico e faceiríssimo galaroz. Passou-lhe os cinco dedos e trouxe-o a regougar para dentro de casa. Atou-lhe as patas, abaixo dos esporões, as asas na nascente, uma contra a outra, e encafuou-o na giga, fazendo festas às badalhocas dos barbilhões: - Era com estas que endoidavas as frangainhas, meu parvajão! Pegou do pente para se pentear, mas não teve paciência de desatar as tranças, que eram longas e espessas. Anediou o topete, puxou o cabelinho nas têmporas. Viu-se a um motreco de espelho e, minutos depois, mais depressa do que se fosse pelo ar, batia à porta do senhor Antoninho. - Ó tia Ana? Tia Ana... Foi ele próprio que veio à porta: - És tu, Bárbara? Entra. A Ana foi agora neste instantinho ao leite. Entrou. Disse-lhe com um sorriso que ela mesmo sentia branco, desnevado de todo, embora deixasse ver lindos dentes: - Trago-lhe um galo para o jantar... - Obrigado. Põe aí... Estava em mangas de camisa e via-se que acabara de se levantar. Trazia ainda agarrado ao corpo o calor envolvente e sápido da cama. - Entra para aqui... - tornou. Conduziu-a para o quarto. Desviava-a da saleta que se lhe afigurou atravancada de sacos, pequenos sacos de lona, em fila contra a parede, que deviam conter volfro ou o diabo por ele. Mas que lhe importava a mixórdia mineral ou a riqueza? Foi-se deixando levar, ao passo que murmurava: - Ai, e se a tia Ana Ruça vem...? Nem lhe respondeu. A casa desdobrava-se em duas partes, unidas por uma galeria envidraçada. Naquela metade reinava ele. Tirou-lhe o xaile e ela deixou-se despojar. Depois, ao desatar-lhe as tranças - um capricho - e ao abrir-lhe o chambre, apenas disse: - Mas que feio! Mas que feio? Empossou-se dela: - Tardaste, Barboreta...?? Por culpa de quem...? - Benza-me Deus - exclamou Bárbara, olhando para a colcha, consternada. - Não te inquietes - pronunciou ele, com ar meio enjoado, meio grato às primícias da virgem serôdia. – Por esta porta...

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Quase a empurrou. Havia no sol um lume novo. O céu, a terra, a bandeira da Noite Boa, batida pela aragem à porta do S. Miguel, a mãe Calhorra com os netos atrás ranhosos e a roer o seu trancanaz de pão, as pedras tisnadas pelo tempo, a leitoa com os berrelhos, diziam-lhe por compenetração de sua alma no fadário universal: - És das nossas?

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à espera que se lhe proporcionasse o ensejo de passá-lo a patacos. E o Ougado. quando João Vitorino lhe pôs diante dos olhos o minério comprado aos Ladeiras. escamoteado no Vale das Donas. Podia ainda duvidar . Que tivesse ou não andado à espreita. O mundo estava assim estupidamente repartido: cães da felícia e enjeitados de tal porca. tinha de ser fatalmente o seu volfro. deu salto.protestou pagar-se do dano e respectivo desaforo. julgara a cafua à prova de todas as devassas ao que estava de dissimulada? Afinal.abrenúncio? . já se deixa ver. Para consigo e para com Deus . o Ougado sofreu novo abalo. Bem certo que não fora o Duarte com o seu olhar baixo de porco. do precioso cadáver. a fazendória não valia quatro patacos falsos. Não tinham alma para sair do triste passadio do caldo de unto e da batata rachada. Nascera nas ervas e fora medrando à lei da natureza. Ele pertencia ao número dos enjeitados. fora dar com ela. mas sim a arrelampada da irmã. o que era sempre travar com unhas de fome coisas vivas. desafogava! Ao que andava intrigado nem o comer lhe servia de préstimo. No dia em que se divulgou que o Duarte recebera quatro contos pela expropriação do arneiro. atendendo às mãos donde viera. esconder e trocar a vinténs 96 . se metera debaixo dum côdeas. não punham um trapinho novo. como se viu.VII O Luís Ougado. para ele tornava-se matéria de fé que aquele era o seu volfro. nem o ar dos altos ermos lhe refrescava os bofes. que não podia sentir o açafate do próximo farto de pão. para mais. Servira muito amo e apanhara muita soma de arrocho! Deitar a mão a foice mal guardada. à custa de muito ardil e paciência e com risco. Amochilavam ou iam à Fazenda pôr mais um charrabeco no cadastro. quadrilheiro. lampando como os outros da sua igualha a fruta na sorte do rico e o canivete deculdado no patim do vizinho.que Cristo estivesse em sangue e divindade na hóstia consagrada. Aqueles Ladeiras. Estava corrido o véu? Assim às lascas. eram uns mimosos da sorte. todo se roía de inveja. amealhado dia a dia durante mais de duas semanas para a cova ao toro da giesta. pouco adiantava. Apre. Cáspite. em tais mãos era como pérolas a bácoros. pouco mais que pedriçal e saibro. ainda que pilões.que é de lei chamá-lo a testemunha nos juramentos de vingança . em vez de ir forjicá-lo com um fidalgo rico e esmoler. Limitou-se a torcer os lábios no jeito tão peculiar de pessoa que deixa em suspenso por escrúpulo de consciência uma dúvida séria. ou as mãos lhe caíssem ao chão sequinhas como as palhas por bolónias e estuporadas. O importante é que ficara a fazer cruzes na boca diante dela vazia. o fino alambre do seu volfro. que fizera a socresta. o seu rico volfro. escavada pelos enxurros nos meses de invernia. tão ladina da vista como ágil de perna e de braço. A culpa era de sua mãe que. no canal dos gados. Pacóvio de si. tisnada pelo sol nos meses de sequeiro. outrem mais maligno e esperto do que ele. não davam mostras de acrescentos de nenhuma ordem. chupado da fome e dos piolhos. Mas ante o ar interrogativo do marchante não se deu por achado. Se é certo que o dinheiro só vale pelo partido que se tira dele. feitas para girar. Para que queriam semelhantes brutos a bagalhoça? Para eles tanto representavam quatro contos como quatro pintos que já não correm. verdadeiro olho de noitibó. De quem era a culpa? Não sua. ao que se dizia. areia a areia. com arestas a fugir para a mina.

sim. e ficarem com a mesma cara. e noves fora nada. que lá tinha o pai para receptador. de ladrão passando a roubado. por exemplo. Mas. tão longe do volfro como da China. que mal vinha ao mundo? No Vale das Donas. estes pilhanços via-os praticar aos homens honrados. Agora que estava descoberta a marosca. que era isso? Pecadilhos. compreendia-os e aceitava-os. Levara a devassa a ponto de espiar os vizinhos. tão-pouco lhe pesavam na consciência. Um momento esteve inclinado a que o ladrão podia muito bem ser o José Francisco. Fora então o Vargas da Violeira? Passava-lhe lá pela cabeça que os Gadunhas. nem a própria senhora professora. segar a campainha na coleira da vaca ou do carneiro. Mas ele gostava de fazer-lhe as vontadinhas. se lembrou de encaminhar para casa deles o João Vitorino. enquanto o Diabo esfrega o olho. sacada de gorra com o filho estroina da tulha do ricaço. enjangado do reumático.lá no fundo da sua alma ficou banzado. picada a isca pelos rebusqueiros de sanchas e pelos caçadores da trama que vão à hora do lusco-fusco armar aos coelhos nos estercais dos brejos. uns para os outros. suspeitou daquele. que tem carradas e carradas e traz o gorgulho a lavrar nas ceveiras. Quando chegou à conclusão de que havia que ilibar também este pincha-no-crivo. fossem os autores da frajoca? Quando. Caçado de boca na botija. já que a criatura tinha predilecção especial pelo seu serviço.a machadinha do lavrador caída do carro com os solavancos. Ningué m dava conta. fora exercer o oficio a outra porta. pondo no chamariz todo o natural de modo a que o lambaraz desse na esparrela?! Debalde. mas também não era menos limpo que os outros. consoante o ano. abria uma cova e enterrava o seu quinhão. suspeitou deste. não dava nada pela alçada. o corte do surrobeco bifado ao fardo do mercador que anda de macho pelas portas e se farta de roubar os tolos. pudera? A senhora mestra. Não fora até o simulacro de esconder volfro na toca saqueada e em esconderijos idênticos. Dentre a rapaziada que trabalhava no volfro. tinham topete para tais áfricas. maquiava-a numa ou mesmo duas cestas-brezas de batatas. uma rasa de pão. pesados da rabadilha. Não seria mais. malandragem! Os outros nao roubavam mais porque lhes faltava engenho e arte. Serva de Deusfurta laranjas. Sempre a terra ali andava pesada e era uma matação cavá-la. Baldões como aquele. Mas nem o Calhorra. assim que os paroquianos ferravam o galho. Era a norma: toca a roubar. pois que era da regra e não lhe parecia bem ser aqui mais papista do que acolá. arrepelou-se todo. fazia a trasfega para casa. Com o que se não conformava era que se trocassem os papéis. e até do Calhorra chegou a desconfiar. nem os filhos. Por isso dera mil voltas ao juízo. Em que leito de santidades se deitava o Mafarrico! 97 . e arrotava postas de pescada. costumava incumbi-lo de lhe tirar as batatas na horta que trazia arrendada ao Asdrúbal rico. procurava roubar com destreza e aviamento. Mais de uma vez que por um triz o santo se não voltou contra a esmola. Às vezes pagava-se por suas mãos. que nem valia a pena acusar na confissão. alertado por um vago rumor. gente metida consigo e salamurda. mormente os que lhe pareceram capazes de cometer o cardanho. Depois. consumindo horas sem conto à caça do larápio. troçava dos laços que chegara a armar. inerentes a tais cavalarias. Ao aparecer-lhe o negociante com o minério: é este? . De noite. À altura em que a paqueta desandava para a escola a levar o carrego.

Aos filhos cada vez lhes pesava mais a bunda e os amieiros dos tamancos. como penetrasse muito para o centro da terra. consoante este tomo. de aço fino e pouco consumo. ao balcão das tavernas. Igualmente a mandar a marra não pensava bem no que estava a fazer. no Santo Antão. virote na leveza e rapidez. surpreendem a cada canto as maiandrices alheias. estava sempre pronto para tudo. Luís Ougado. Aquele mariola. deixava correr. de pé. Sua mãe tinha-o inteirado de quem era a Soledade nos tempos em que alcovitava por conta dos fidalgos da vila. não te rales que eu também não. . representava um milagre de equilíbrio que só não metia susto àquela gente pela ignorância dos riscos que corria. Mas deixa. Sim. pois que acertara no alvo. apreciava-o como a poucos pelas suas prendas singulares. sempre a magicar em portas falsas. na sua opinião. volta e meia.Agora. nã o sonham alto e só falam o preciso na terra chocalheira. apenas um sendeiro chapado não dava conta que a flostria só podia ter partido desta sorte de indivíduos que. a ver para onde corriam as nuvens. Requeria grande esforço remover os entulhos. que era o mais. onde nem ao padre confessor deixaria meter o rabo do olho. ter medo que desse com a língua nos dentes. o Calhorra têlo-ia mandado pentear macacos se não fosse o seu cabo de ordens para toda a casta de manigâncias e. O desmonte. Além do mais. que tinha a cargo o pistolo. magros e hécticos como os lobos. Ora podia dar-se volta ao povo com uma candeia que outrem susceptível de tais aventuras. E semelhante propósito. Em sua imaginação comparava-o a certas máquinas que conhecia por alto. O filão não era escasso de todo mas. Quem dirigia os trabalhos. não precisam de dormir. ficando com as suas tapadas até a morte. haviam de pagar a tranquibérnia com língua de palmo. mas sempre lho ia dizendo. não havia além dos Ladeiras. pequeninas e oxidadas para que a intempérie lhes não faça mossa. ia dar com ele de corpo ao alto. enxergam tão bem de noite como de dia e. não só pelo detrimento como pelas horas perdidas e amargos de boca que lhe haviam feito provar. alma de cântaro velho? Olha que não roubamos os doze escudos que levantas ao pôr do sol! Dizia-lho a rir para lhe sacar a mostarda. auferindo boa renda da desvergonha. incluindo os três que o José dos Cambais trouxera à sua parte. Manuel Torres. espetava duas vezes a picareta no salão e punha-se de costa direita a contas com o seu problema. ninguém avaliando a não ser os práticos que força são capazes de desenvolver. têm o hábito de caminhar subtis à semelhança dos bichos do monte. mas leigo quanto ao resto. que era perito na arte de conhecer os homens. medrando naquela zona mais recôndita da consciência. antepunha-se a tudo. Apenas na Sobriga se perfuravam poços fundos como aquele. pelo contrário. e muita pólvora e braço teso descoser o balcão de seixo. à boca da exploração. trabalhavam dez homens. nada mais legítimo que exigir capital e juros aos mal-andantes. botava de 98 . além da falta que lhe fazia.Em que estás a cismar. prático em tudo que dizia respeito a esfossar o solo e estoirar um penedo. Sentindo-lhe minhocas no seio. a ponto duma vez pouco faltar para expedir desta para melhor ao filho mais velho do Calhorra. O Luís. doía-lhe ter sido tão sendeiro. Com uma côdea no bolso e um dedal de vinho emborcado. O Calhorra. em realidade. O Calhorra. era o Silvestre. como tal. Ali. a lavra tornava-se tão árdua como dispendiosa. depois de entendimento havido com o Dr. não põem vulto nem erguem assuada.

Irra 99 . e lhe queria como amigo da “vigalrada”. vendede o cunqueiro. que exige a jorna. com o resfolegar. Deste modo. Fumava uma onça de Java por dia. Assim as mãos me meleml . vendéden’as vacas e non me vendades o pote d'as papas. Mas estavam acorrentados um ao outro por um ajuste secreto: usar o Ougado de pulso livre para laraplar quanto pudesse com a condição de repartir com o Calhorra. a espicaçar o vício do fumador. mas não me trambiques a mim que sou teu amigo. o paivante colado ao canto do lábio apanhava o seu resquício de saliva e apagava-se. Não que lhe faltasse ralé. meu cara de lascarinho? O Calhorra acabava sempre por lhe encontrar uma pedra de onça ao canto do bolso. à maneira do galeguito: “Vendédem’os bois. Procediam então ao apuramento da colheita à ponta de balança. o Calhorra tê-lo-ia há muito tempo recambiado para a mae que o pariu. o Calhorra roubava-se a si próprio. Vendédem-o pote.Vai lá trambicar outro. tenaz e aturado. Por todas estas razões e mais uma. boa parte do dia escoava-se deste jeito. A rir. . A preparar o cigarro.jornada até onde mesmo um macho requeria sólida pitança.Assim não é de valha. que nunca ele corre mais vagaroso do que de ferro em punho.. depois que o trabalho cessava com o bater das Trindades. Palpitava o itinerário. Mas como eram quatro os sócios. Luís .. até pôr a petisca de remissa detrás da orelha. José dos Cambais e ele. Segundo a letra de pacto tão serniscarúnfio. o Calhorra observava-lhe: .. À noite. Como trabalhador era péssimo e o Calhorra renegava dele. . Simão Tadeu. mas non me vendades o meu tabaqueiro.. ou mesmo no forro da japona. ficava sempre de melhor. Possuía o sentido da direcção e lá ia por caminhos ínvios e ignorados certo como uma seta. Depois. e o Luís por nada deste mundo deixaria de meter a unha. O Calhorra não tinha outras obrigações senão fechar os olhos.dizia dele o Calhorra. Talvez por isso abendiçoava o cigarro. torciam os dois muito manos pela tapada das Margaças. as ventas fumegavam-lhe como uma chaminé. Chegado às bifurcações. Tanto andava de noite como de dia. Antoninho Fráguas. Tem pacta com o Inimigo . ainda ficou malaguera. Tinha de ser. Extinto. ficava para ali uma coisa sem sentido e reles. Quando se curvava para a enxada. uma “beata” mal cheirosa. Toca a reacendê-lo. com o odor da nicotina. ainda que nunca por lá tivesse rompido solas. Faziam menção de ir encaminhar a água para os lenteiros.Vê lá bem.Deixa lá ver. Deixa lá ver. Esta parte repetia-se cinco e mais vezes por cada cigarro. a tirar com o devido ripanço as primeiras fumaças.dizia o Calhorra com ar formalizado. depois a acendê-lo.” Entremeada de ócios e partes gagas. perdia um ror de tempo. O Ougado para prova de lealdade revirava as algibeiras. visto o tabaco ser admitido no serviço como a água quando se tem sede. Metade para cada bico. Às vezes turravam de parte a parte e armavam grande brequefesta.Não ficou coisíssíma nenhuma. enrodilhada no cotão. mas perdera a paciência para o esforço.?! . também um nauta de primeira pelos velhos caminhos onde Cristo nunca gastou as sandálias. activado pela babugem. sabia escolher como um bruxo o rumo conveniente. defraudava os patrões e empulhava o tempo. o que era o seu primeiro ganho. Não era preciso dizer-lhe: À saída das Antas tomas pela esquerda mal avistares as Alminhas.

expedita no trabalho. no dizer das bocas do mundo. de modo que lhes era cómodo entrar e sair sem ninguém dar conta.Anda-me.Ceguinho eu seja. ainda avezado desde menino a semelhante despautério. O Ougado.. mais que a admirálo.Cá varnos! Regressava a casa com noite fechada. Luís? É na paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo? Olha que ainda vem longe o tempo da via-sacra. e com isso se desculpava quando o seu Luis rompia em desatinos e acusações: . e tinha o seu quê nos olhos que atraía a quem se deixava fitar por eles. Tambem a mãe o estranhava. que para isso te pagam. tio Silvestre? O chão se abra e me coma! Depois de muito jurar. Agarra-te ao verbo. berrava-lhe para baixo: . Um dia. A razão da sua munificência carnal não residia absolutamente na penúria. ficou a ter medo dele.. O Calhorra ficava varado.com a bestinhal O Ougado jurava e trejurava que não tinha no bolso nem tanto como a cabeça dum alfinete: . . Estava-lhe na massa do sangue. a desafiá-lo para uma aposta em como tinha guardada no fato que vestia uma rica. o que era exagero evidente dada a sua espessa e viçosa trunfa. ruivaça. de se governar como lhe ditava a cabeça. ao presente do José das Almarges. e daí boa parte da sua insubmissão e faltas de respeito. com a preocupação secreta. aéreo de todo.. rompia a negacear com ele. Desde essa data o Calhorra. que era o verbo que o Calhorra lhe mandava iniquamente conjugar. Chegava a noite e aparecia com os bolsos vazios. escapas à mão meticulosa do Calhorra. nas horas de trapio. de banda da serra. Desde franganota que.c. não aceitava os remoques do filho. afrouxara até na prática daqueles palmanços que eram o pão nosso de cada dia e se emalhavam como petinga na rede moral do seu carácter. A senhora Rira Ougada era uma mulherona alta. Silvestre . Ia-se um. embora em casa muitas vezes chamasse por Deus nas necessidades. O filho. Que andaria a tramar o grande meliante? Da orla da buraca. que valiam umas centenas de escudos. e não faltavam pois que era fêmea salerosa e desenxovalhada. A casa deles ficava à boqueira do povo. . É capaz de roubar a madre a uma égua e ela a galope! Agora o Ougado. ria e lá dobrava com moleza e não pequeno desdém o espinhaço à picareta. chamando a si o direi. não se compadecia com a liberalidade.Valha-te o Demo! O que tu querias é que eu morresse à fome. O principal é que não faltassem. 100 .Em que estás a matutar. estimulado na sua destreza de ratoneiro. atrá s duma pedra apresentou segunda e atrás dessa segunda uma terceira.dizia em seu íntimo. puxava um lindo motreco de minério do limbo dos frangalhos. E quando apanhava o Calhorra balanceado em sentimentos opostos.Olho no macanjo. ? Mas tu não me manténs! . . conhecera mais barregões que de cabelos tinha na cabeça. Não gostavam dela pela sua fidúcia na independência. vinha outro. quando o Calhorra começava a convencer-se. riquíssima pedra de volfro. e todavia rogavam-na pouco.Trabalhe! .Cheira-te mal.. Os amigos sempre lhe iam dando com que acalentar a vidinha. que perdera o respeito a semelhante autoridade. e no pé leve com que mudava de homem para homem. Ontem do Sancho do Prado.

perguntou com o seu sisudo todo. . morrera a aparar as tripas às mãos ambas. ainda despertava apetite. Ver a Deus e aos amigos. Com efeito.. berrando por Nossa Senhora.Sério: que lhe fazia? . À roda dos quarenta anos. que fazia à bagalhoça? .. . da Ribeira.Olha. está-se a ver. uma boa maquia de dinheiro. Um daqueles domingos.Mas. À parte o descarado bem-fazer a quem lho pedia. Assim. doutra que a atirara ao chão e. 101 . repicando as palavras com certo acinte.Nem mais nem menos.. que não possuía muitas. que lhe fazia. despedíu-lhe à queima-roupa: . arrecadava-a. sem querer confessar corno aquilo acontecera. Temerosa diante daquele maroto. o filho. ..Que lhe fazia. depois de cismar sentado.? Isso é que eu gostava de saber. .. Não havia de deixá-la em cima da masseira ou nas seixas da janela ao alcance dos cinco mandamentos de qualquer santinho tornou ele.. mudava de amorios mais fácil que de camisa.Faço ideia. . . Estalavam. era muito boa espadeleira e habilitada nos mesteres de ocasião.. até aí também eu chego. e passara por fazer parte duma quadrilha que operava para as bandas de Castendo.Mas em que sítio? Ela viu-lhe o cenho carregado e ficou de sobreaviso.. Verdade ou mentira. Era graças a esses banzés que se vinha a apurar quem eram os amásios dela e as últimas roubalheiras dele. o carcereiro da vila ou um samarreiro da Bezelga que se aboletava em sua casa às temporadas.Homem. e cuia a dar a dar. seios fartos. era um coro de anjinhos que estavarri no céu a pedir por ela ao Senhor.? Metia-ta na unha. enquanto batia aquela corda de poviléus? Ninguém acreditava que fosse o sargento Laurindo do 9..? Guardava-a bem guardada para as precisões. esforçava-se sempre por lhe fazer os apaparicos. Pois então? .Onde queres chegar? . embora ela jurasse e trejurasse que não era outro. efectuado o devido desconto. Tivera não se sabia ao justo quantos filhos. No que não havia incerteza é que se lhe fossem todos avante era devorada por tal rabugem. no mocho. vendo o filho arreganhar a tacha. A opinião mais autorizada apontavalhe como pai o MeIrinho. que passara por ali de diligência e se alambazara corri aquela lasca. Conhecia-lha duma vez que meditara fazer uma espera ao Quim da Urra. sempre frescalhota e lasciva. é um modo de dizer. que és honrado.Senhora mãe. os alhos e o lenço de ver a Deus. vossemecê nunca avezou cheta? Sim. só despedira quando lhe revelou onde o peleiro arrumava a trouxa.. pondo-lhe o joelho na arca..Fica sabendo que já me passou muito dinheiro pela mão. nunca avezou mais do que os seis vinténs em cobre com que compra na feira o sal. Quem era o pai do Luís? O abade de Pedrões da Nave. tais altercações dentro da cardenha que acudia gente do povo todo. não é? . ainda ficavam homens para formar um batalhão. o Capa-Cavalos da Póvoa. não raro. que negociara em gado miúdo.Está bem.. Ouça: se por acaso lhe saísse a sorte grande.Já entendo: se recebesse.E onde é que a guardava. Quando estivesse a maquinar ou para fazer das suas havia de mostrar sempre aquela cara. para ires funfiar nas tavernas com os compadres ou fazeres bodeganas com as favelcas. . onde é que eu a escondia? É o que tu queres saber. num sítio onde não visse sol nem lua. e assim foi que disse: .

Mas isso..volveu com o sorriso alvarinho que lhe arrepiava os lábios e deixava ver as gengivas muito encarniçadas.. da última facha que lhes deitei. pai destes Afonsos.Não. hás-de me dizer: com que fim é que tu me fazes estas perguntas? .? Despregava a barra da saia e metia-o na costura.Deixa rosnar. uma noite que a quadrilha do Olho Vivo assaltou a casa do Plácido Velho.Ela pôs-se a reflectir e murmurou: .Os filhos desse Plácido saíram uns estúpidos de primeira. onde menos se espera é que está melhor guardado.. Mas não se trata de furtar os cobres aos quadrilheiros.Tens razão. .. proferiu: .? . . Pôs o chapéu na cabeça e sem mais processos rodou... há-de-me dizer uma coisa . Andava a concertina do José Francisco no largo da capela e tinham-lhe mandado recado para ir cantar. por um cabelo que não salvaram o dinheiro. com o que sabe e com o que sei. é o Laurindo das Salzedas e era sargento no 9 quando me cometeu. estou farta de to dizer.. Diga agora lá como é que o Plácido quis salvar o dinheiro da quadrilha. que lhe deu a chuçada no ventre com um fueiro.Seja franca uma vez na vida: não foi nessa quadrilha que meu pai apanhou a choupada que o mandou para o “lindos”. tem paciência. Foi um malvado das Rãs. Mas se as não metia na barra. ouviu. embora tenha dado em droga.. é falso. Teu pai. A ferida engangrenou-se e foi morrer ao hospital de Viseu. sabes onde o escondia. que acabou por perder a paciência. Trata-se de guardá-los.. uma vez que não fico mais rico. . Meteram a mão e lá o acharam. Hem! Pelo menos é o que rosnam. suponha vossemecê como qualquer juiz da fome.... alarves maiores não passeiam nestas cinco léguas.. Olha. guardálos por muito tempo. Esse de quem falas andava a comprar cabras para Coimbra e não precisava de roubar.. Se não fosse pai de tais rebentos. Nunca ouviste contar como é que em S. as notas faziam-se em açorda.Não é o que para aí corre.Sabes. já te disse que teu pai é o Laurindo.. Estava meio de vianda. diria que a saída do velho não era tola de todo.Não falta ele onde meter o dinheiro! Se fosse papel. sendo nós duas pessoas assistentes de portas adentro. Há-de concordar que. Tanto se me dá que meu pai tenha sido Pedro como Paulo. mas já que temos as mãos na massa.. . Trazia sempre a carteira atafulhada de notas. era asneira fazer-lhe a vontade. debaixo da cinza. E lá ia 102 .... Brás da Nave. metia-as no cós...Vossemecê é zorata.proferiu em tom faceto fitando-a muito: . No cós não era fácil apanharem chuva.. O filho quedou-se a reflectir um instante e replicou: . a quem ele foi exigir o dinheiro que lhe emprestara.? .Se fosse dinheiro em prata. Ela. Os ladrões já lá iam.Foi o Diabo que te leve. . não me interessa. Não vê que se apanhassem molha. que era muito apreciada a sua voz de falsete. metia-o na pilheira. .Aí vem a viola sem cordas! Se lho dissesse...Agora. de repente um lembrou-se e voltaram atrás. Conheço-os bem. . O Luís dobrou a cabeça para terra e por muito tempo esteve a conversar com os seus botões. afinal de contas.Foi meu pai o da lembrança. atirou com ele ao balde do porco. . ficava a saber mais do que eu.

bota os seus trinta a trinta e cinco alqueires. Há também lá meia dúzia de pinheiros.Bem vês que se lhe deitas painço ou milho. bebe quanta água apetece.. As gargalhadas esfuziaram à direita e à esquerda e as interjeições admirativas: . nos alforges são assado. O linhar dá-te uma carrada de batatas. O arneiro dá quanto muito dez alqueires de milho. tu és o dono do linhar e eu da regadinha e. O Luís Ougado ergueu voz por ele: . A proporção não conta. “ Assim é que o primo Fandinga respondia e estava certo. ? Mandas-me bugiar! Tira-me as cocas dos olhos. duas a três pousadas de trigo e no serôdio.. ainda se compreendia tal resposta. Sim. Bárbara que assistia ao paleio com a sua cara bonita. ou lá quanto é. faço como os ciganos. eu tenho lá um riquíssimo minério para qualquer hora. pelo linhar. que resposta me dás. como toda a gente sabe. Bárbara redarguiu: .Não senhor.Não.direito quando. O Fandinga dizia e dizia com segura lábia: . Tu és o dono do linhar. primo Fandinga. E aposto que a minha terra dá mais rendimento se a formos a avaliar. pela Senhora dos Remédios. eu da regada. se anda de milho.Se tu aqui há semanas me oferecesses a regadita do Vale das Donas pelo linhar. a valer.. 103 . . carrega um mulo. embora primos. louvo e torno a louvar. O que importa no caso é o meu primo Fandinga julgar que lhe hão-de dar dez contos. para cá vinha de carrinho. marralhavam como judeu e cristão acerca da Santíssima Trindade. Ora essa! Dizia-lhe que. não o mandava bugiar. mais cambados uns que os outros. a terra está escaldada e a semente não topa sezão. é semear no temporão. ponho-lhe em riba as próprias virtudes teologais. em virtude de termos recebido quatro pela regada. e ouro é o que ouro vale. Além disso.Isso não importa. O teu linhar tem tudo isso. apoiavam o Fandinga embora o escambo de senhorios a todos se afigurasse uma rabulice de caracacá. já dizia meu pai: Salomão cem anos semeou pão. Duarte. o que é um arrisco. Só servem para o lume. reparou que o irmão quedara confuso e acudiu: . Mas o primo sabe o chão que pisa e com certeza não deixava de retrucar: “Olha. Tinha ou não tinha esse direito? . tiras tarde. Quem lhe pega? . aproveitadas as terras como nós as aproveitamos. E digo-te: trocamos? Que resposta me dás. não tinha? .Resta apurar se lá há volfro.? Ora. é assim ou não é assim? Todos. tão pouco esperta como desnecessária. tem uma nogueira que ano por ano. ao passar pela venda. perdeu sempre no serôdio e só uma vez no temporão. ou se não é antes fogo de vistas. mas não está recheado de volfro como está a minha regada.Ora essa? Põe-te no meu lugar.Homem. postas as coisas neste pé. o menos que te acontecia era eu mandar-te à fava. admitindo que não foi porque o Fráguas se meteu nisso que lho pagaram por bom.. Tu terás lá ricas batatas. Mas bem. entre risos. não nego.Pega? Pega! Resposta assim só um doutor! O Duarte lambia-se todo de regozijo ao passo que o Fandinga quedava amachucado com a argumentação. as coisas vistas por cima da albarda são assim. enjoada. primo Gadunha. notou grosso chinfrim: o Duarte que se propunha comprar o linhar ao Fandinga sapateiro e.

. Mas.Homem. Olha. que era um assunto infernal. Mas em que ficamos. cheio de sombras e de larvas. O braço do Inglês vai a toda a parte. por modos o que há de mais rico e soberbo. Mais de metade estão no charco. se é possível.retrucava ele ao primo. Tanto lhes custa dar quatro contos como quarenta.O meu primo passou-te procuração? .Pois por isso mesmo. de que era assinante. . . tornam-nos a pescar. se o não é. agora lá se foi à gaita uma grande cidade dos Ingleses ao pé de Macau. . o Fandinga pediu 104 . Decorreu entre eles um silêncio molesto. estão virados de pernas ao ar. Pode estar dez. Ao menos a ti não te compraram os bifes! O Duarte ficou um instante embatucado e proferiu coçando a nuca: . mas bem grande é o Marão e dá-se-lhe volta. . que não sou formado em leis como vossemecê é. e reis. nem a guerra é briga de sopapos. O Duarte ficou um momento atarantado e respondeu: . as meninas dos olhos a fuzilar. a ceva dos porcos.Não passou.proferiu ela com voz sibilada. hoje vale trinta. ou. O Duarte não fazia nenhuma ideia de nada. e argumentava como quem joga à cabra-cega. generais. e ao fim quem ganha é ele. ele necessariamente tinha que tomar o partido adverso.exclamou o Fandinga entre risadas.500$000 réis. O Inglês tem muitas cidades. Muitas cidades e muitos navios. . vinte anos a perder. e pelo que escutava na cidade e na camioneta para a cidade. da guerra. Os Alemães têm os japoneses a favor. primo? Aproximando-se do balcão. Tanto desce ao fundo do mar como vai a casa do Alamão e arruma dois socos que vai tudo raso.Pois compra .tornou o Fandinga entre risinhos mas foram os Alemães que te deram os quatro Contos. sinal manifesto de que não desejava outra coisa senão chegar-se à razão com o Fandinga. Ouvi dizer que os Alamões têm máquinas muito perfeitas de fazer notas. O Duarte ofereceu 4. não são nenhum Santa Camarão. A América é uma sarna de gente. Meu alma de chicharro.volveu o Ougado. . . .Suponhamos . porque o sapateiro. passante o qual veio à baila o corte e carreta dos tolos em bom andamento. Mas não posso ver com sangue-frio que se embarrile alguém.É verdade. como nós compramos carneiros.. As amarelinhas sempre levam mais tempo a forjar. Tem libras que é um nunca acabar. Lázaro Fandinga falava da guerra pelo que lia na Voz da Província. pareceu-me perceber há pouco que não tinham dúvidas de a doutorar.Mas se o linhar ontem valia cinco.Estás a dizer baboseiras1 . o Duarte mandou deitar um copo de vinho. tomava o partido dos Alamões. descendo e emperrou em 800$000 réis. Não pagou já vossemecê o bolo-trigo a pataco e não o paga agora a dez tostões? Tudo vai na alta que sofreram os preços. a ajuntada dos estrumes.Deixa ir.Puseram a América contra eles. para pouco depois romperem os dois a peguilhar da guerra. o Inglês está em toda a parte e leva o mundo consigo. onde se ia sortir de fazenda uma vez por mês. A diferença foi descendo. . e com elas compra homens.Não. .Os submarinos metem-lhe quantos navios tem no fundo. para lá do seu entendimento.Pois será. Nações são nações. os Alamões não vencem . que é nossa. muito menos. que admirava a força.

o Fandinga torceu e destorceu o bigode. Reganha.Não vendo por menos um real . Umas calças de surrobeco que ontem se tiravam por quinze mil réis custam agora setenta e cinco. Talvez eu lhe valha. tudo com tal descanso que um dos presentes gritou em tom de “casar ou meter freira”: .Está tudo a subir. O vendeiro olhou ainda para o Duarte que lhe fez sinal de que não trazia um chavo com ele. Claro. os camaradirffias não arredam do adjunto para fora. Erguera-se grande rebuliço porque todos aguardavam o alvaroque. Lázaro Fandinga aprumou-se todo. o Ougado cruzou e descruzou a perna.Enganas-te.Ora. Dê-me dois dias. Dinheiro no cós da saia só uma tola como vossemecê é que lá o metia.murmurou ele com voz trágica o dialho é que estou com a corda por aqui. Num dado momento o Ougado pôde fazer um aceno ao Fandinga para que lhe viesse falar de parte. Se marralham. é meu.. vai mas é rachar cavacos para a tua casa? remordeu o Ougado por entre os dentes.propôs o Urra. estragado e faminto. Duvidas? É uma aposta. em tom que excluía teimas.Rache-se a diferença! .Fiquei a matutar no que lhe ouvi esta manhã. e pronunciou com filáucia batendo na zona do jaquetão que se sobrepunha ao bolso da carteira: . .Pois agora é que eu vos digo: à nisgal O Ougado foi com ele.É uma aposta. À noite. E levava a mão em prancha à garganta.Vá. . Cochicharam.. Dos amigos ou do Diabo.Aguente-se por muito que lhe custe.não são capazes de prantar aí na palma da mão tanta massaroca como eu. O taverneiro.Homens. O Fandinga triunfava e como tal.Esperava.. esperava . Ficou a aposta em suspenso. era dos que mais atiçavam: . façam lá negócio? Um anda pilhando por cheta. É uma aposta em como vocês os dois – e indicava-o a ele e ao Duarte . nã o se despe? Além disso. voltando para o adjunto. Espere mais uns tempos e o linhar bota-lhe aos dez contos.. . O taverneiro tinha o Fandinga por um pobre de Cristo. o seu tanto desprimoroso. À hora de jantar disse para a mãe: .. A meio da estrada segredou-lhe: . quando se deita. encarregue de fazer pagamentos ou compras por conta de alguém de posses? O sapateiro repicava: . ao que ele correspondeu logo em seguida.300$000 réis. mas andavam tantas pelegas semeadas ao presente pelas algibeiras de todo e qualquer bicho-careta que hesitou. mesmo sobre o pomo-de-adão.pronunciou o Fandinga. outro morre por vê-Ia do bolso para fora. cheguem-se ao W. que era beberem para ali à tripa forra à custa dos contratantes.5. grato como estava à sua intervenção. . Não seria acaso portador de quantia alta. vossemecê não tem amigos e eles não costumam apalpá-la? 105 . perdem o tempo. com a mão no jarro. aqui há muito dinheirinho. . tenho-o comigo. largou pela porta fora cuspinhando: . picado por aquele conceito. com soberano desprezo.. Apostamos uma notinha de cem paus para ser aqui espatifada em vinho e trigo.

Se não estiver.Sim. A Rira Ougada trocou a capucha pelo xaile. tornou o filho: .. ... faça agora de contas que se via obrigada a guardar a massa dentro de casa.e apalpava a região abdominal e parte do tórax.Se a casa tivesse soalho..Não acha justo o que lhe digo?. Estendeu-se bem ao comprido. os tamancos pelas chanquinhas para ir mais lesta. debaixo duma tábua. no meio do pão.. 106 . podia ser.Tenho aqui uma pontada muito grande.Uma panela velha .Estás com alguma dor?? . mas nada mais agradável que o lume de torgos.Na arca.. com o cé u pousado como chapa de zinco sobre os telhados. Toma-lo? Não respondeu. destas tardes de luz minguada. Acalentou a fogueira com mais duas achas. E mais nada? . Acarinhando a voz. A mãe veio encontrá-lo de colete desabotoado..Ande cá. . e disse: . .. .. com uma quartilhaça a emornecer à quentura da brasa num pucarinho de Molelos. .No chão..Faço-te um chá de cidreira.. é que atirou o chapéu para um canto e se sentou na cama. .. Nossa Senhora. despojando os cavacos da corcódea. .. sim. além de que não gostava de aparecer mal trajada em terra alheia. ... que eu morro? .É como se uma broca andasse cá por dentro a bater e a abrir furo.Sabe o que eu lhe agradecia.. . se fosse lajeada. chego lá num rufo. Bem. e não deu mais sinal de si.Debaixo duma pedra. Com o mormaço não fazia frio. Por muito tempo a mãe ficou estática e calada a olhar para ele.Caramba. Retrocedeu sabendo de que jaez era aquele cabo dos trabalhos. de cesta enfiada no braço. a gemer. .. pensativo.Ela virou-lhe as costas.. .. A concertina subia a rua fungando. deixá-la fungar? Estava uma tarde suja de inverno.. Aqui e aqui. mas se quieto estava quieto permaneceu. o solo embebido de água e o vento ronceirinho à porta. como um ladrão que escuta para entrar. . Ande cá e responda.. . Quando me vir encafuar a cabeça debaixo das mantas. Mas hás-de meter-te na cama.? .. mão no seio. deixa-lhe recado. sem tirar os sapatos. Precisamente.Num buraco da parede.proferiu em voz lamuriosa. Ai.. num buraco da parece. Bota-se a esteira no chão e deitas-te nela..Num buraco. que a terra de lenhas era farta.Querias que te dissesse.. já sabe. ..E estará ele em casa? Hoje é domingo. um bom fogo estralejava no lar. . Era uma grandiosíssima asneira metê-lo no cós..Se lhe não custasse muito ia chamar o barbeiro a Pedrões para me ver. Hesitou um instante de nada e logo se decidiu: .? Sim. Apenas quando a mãe largou ao caldo. E que mais? . . E em que outros sítios? . . pôs o chapéu em cima dos olhos por causa da luz.? Talvez. sentado um cristão à fogueira..Está bem. senhora mãe. com ar de enfadado consigo e com Deus. Pense bem. Sim.. muito tinha onde a meter e estava com a língua perra! proferiu atirando-se para cima da cama..interrogou ela. como se quisesse dormir.Ao menos vem para o lume. Onde é que o metia? .Na cama não me meto. de sorte.Numa panela velha. pode rezar-me por alma.

. A mãe soltou um grito quando o viu estatelado. Voltou ainda a parar à porta da taverna. salsaparrilha. Isto de mulheres eram todas pucarinhas do mesmo barro. para cumprir o dever. Vá com o seráfico e para atalhar a quaisquer ideias aziagas que se pusesse o próximo a vomitar sobre ele? Na própria palma da mão ia cortando aos nacos. calculando. atirou-se a terra. repimpado no tamborete. lá vinha o barbeiro. mais ítem menos ítem. Composto do estômago. a alma banhada pela mais salutar das alegrias. decerto a referir em lição correcta e aumentada os motivos que a levavam por aquela estrada fora. mas foi mais breve que o pestanejar dum finório. no intuito de a tranquilizar: . ao desaparecer na curva . levava à boca. já passou. disparou para Pedrões. Mas. Enterneceu-se sobre o destino. Foi o juízo que se me varreu. Corri ele apertado nos beiços.Deve ser andaço. embrulhou-se na capucha e foi-se arrastando para a lareira. . cruzou-se sua mãe com a Rosa Pedralva. O meu Serafim também assim esteve. e não se segura nas pernas.outra vez se deteve. tia Rira. Apartaram-se. um novelo de fumo a desfiar-se para o caniço. Ouvi dizer que anda muito arcada em Mouramorta. Quantas vezes se não suspenderia ainda a dar à taramela. e com a ponta da navalha. não se distinguiam as vozes. puxado por todos os foles. Não sei o que aquilo é nem que não.. Se fosse verdade. A mae.. Correu à porta e colou a bugalha do olho contra a talisga. de fornecer informações a quem lhas pedia e não pedia. e por certo que poria todo o empenho em ter azo a fazer novo e circunstanciado relato. Mas deviam ser as mesmas. Não tardaria que todo o povo soubesse que estava de pés para a cova. Além da mãe. mas ele que não queria escândalo proferiu em voz que se esforçava por não ser trémula. Está às ânsias. atemorizada. toca a embrulhar o cigarrinho. em guisa de garfo. Mal teve tempo de jogar o cigarro ao fogo e escorregar para a esteira. pronto. E. Ouviu que dizia: . O meu medo é que seja por lá a tifóia. Dê-lhe um cozimento de arruda. piscando o olho para o brasido.. corpo morto. A criatura ainda não tinha dado dez passos. até que ouviu traulitar à porta a tairoca da mãe. Hum. Numa garrafa desencantou um chorro de vinho e remeteu-o ao paiol. Deglutia e magicava. barbeiro muito bem afreguesado e escanhoador de fama.o Ougado vía-lhe só a anca . Foi como um malho.Tenho o meu Luís a morrer. Vou a toda a pressa chamar o Gregório dos Santos. Desapertou-lhe o alto da 107 . Mal ela virou costas. Quando lá se viu. Mandriou por lá uns dias. cheia de mossas o ferrugenta. mas..Vagarosamente. e vai ver como arriba em menos dum amém. tantas voltas deu na arca que acabou por descobrir um cíbo de queijo. Ali esteve meditando. até chegar à porta do barbeiro. . em sua alma quase abençoou a safadeza de ser gente. ele a saltar num pé. nem a Florinda e mais tinham feito juras das que só desata às pessoas o outro mundo. alguém verteria lágrimas por ele?. estacava no colóquio com a Júlia Calhorra. e obrigadas aos mesmos oxalás.O barbeiro dirá. A porta abriu-se de rópia. Ergueu a tampa do açafate e cortou uma fatia de pão. de carapuça na tola e a Arte debaixo do braço numa taleiga que já andara a boldrié dum pedinte nos tempos afonsinos. excedia a capacidade da sua fortaleza e desistiu. Mais adiante. procurou içá-lo para o banco. O Gregório dos Santos. dois quilómetros dali?? O Ougado abandonou o posto de atalaia..Não é nada. A distância era grande. aipo. aquela cara de machadinha velha. como um inválido. passas. aos fernicoques. não podia mais.

. muito ancho e senhor do seu nariz. Tinha que tirar a farpela e deitar-se de costas.Deita cá a língua de fora. O barbeiro ria e fazia para a mãe do paciente uma mímica variada e imperativa. Fez menção de retirar-se.? A isso não dizes que não. está já para baixo dos gorgomilos. filho de boa mãe? Enganei-me.. Leva-se a xí cara à boca. quando Rira Ougado lhe veio perguntar quanto 108 .Quita de dar um passo que no meu corpo não poisa sinapismo quanto mais cáustico? já disse.Caramba. Brás de naifa aberta a desafiar meio mundo. E como o vissem de ar parado. desenganou-os: .É um pleuris. Torceu o nariz. Sorriu na sua consciente sabedoria. fecham-se os olhos. O Ougado obedeceu e o tio Gregório debruçou-se a examinar aquele bacalhau de primeira. . O Gregório dos Santos ficou perplexo. com a água sempre justa nos talhadoiros e os regos sempre limpos. Se depois de amanhã não estiver bom.Tens medo?? Ah? W e eu que te julgava um valente! chalaceou o barbeiro. cada pancada que nem um pandeiro. Ao cabo de meticuloso exame.braguilha e o colarinho para “o sangue circular à vontade” e pediu-lhe o pulso.? O Luís ficou calado a imaginar a possível mordedura da linhaça em seu respeitável canastro. mandem-me chamar. . meu rapaz? Palpou-lhe a barriga e desejou ouvir-lhe o coração. Entreranto o barbeiro notava a receita num sarrafo de papel para aviar na botica. Pois então?? Tenho carne de galinha. A purga toma-se em jejum. lima a menos. assaz formalizado com enfermo tão pouco submisso. aprumando-se. Numa palavra: há que trazer de olho os humores! Deitaram-lhe a cataplasma na peitaça. no intervalo dos comeres. deitando as suas filosofias: . quando se voltam a abrir. amaruja-se o agro... o Ougado. seca.. Tan-tan-tan.. o barbeiro estendeu o papel: . À saída. pela frente. às colheres. Feito o quê. O remédio vaise tomando pelo dia fora. mas só depois de emornecer. O sangue é a lima. . e disse para comigo: aí.O nosso corpo é tal qual a terra de regadio.. Quando ela compreendeu e ia a largar em busca do vesicatório. A mãe tinha linhaça em casa e tratou de preparar o emplastro. Mas como era homem de imaginação propôs: . Mas eu perca o nome que tenho se amanhã por estas horas se não sentir noutro fole. Na terra haverá cáusticos. Ah! ah! -Não senhor..Vi-te na festa de S.Mande aviar cedo.. aplicar o ouvido a um lado.prostestou o enfermo. pelo dorso. sem reagir. O Luís submeteu-se como um cordeiro e o fisico pôde batucar-lhe à vontade no costelado. Sou como sou. já sei o que tens. está tão suja que parece que andou a varrer o forno. a outro. que estava a bispar tudo por debaixo da mão em pala. . não sou nenhum valente. como faria ao tampo dum tonel para supurar a altura do vinho. que à primeira deu berro que se ouviu em Pedrões e desmentia eloquentemente a aproximação da morte. bolsinha à dependura das costas pelo nagalho. Desmancham-se os poses em caldo ou em leite.? . É preciso trazer o corpo temperado.Antes morrer .E uma cataplasma de linhaça.. antes morrer. Lima a mais. declarou: . concluíram que anuía.

devia, respondeu, e nenhuma palavra escapou ao ouvido precatado e fino do Luís: - Não há-de ser uma só vez nem duas que cá tenha de vir. O rapaz está muito mal e, se me não chamam, não me admirava nada que batesse a bota. Tenho esperança que o remédio que lhe dou, e é o rei dos remédios, o salve. A ver vamos. O Luís fechou os olhos e deixou-se vogar no silêncio da casa, quebrado de quando em quando pelo tamanco cavidoso da mãe. Ouviam-se as campainhas das vacas de regresso dos pastos e ainda a matinada roufenha da concertina lá para a porta do José dos Cambais. Depois, pouco a pouco, a luz do dia foi-se amortecendo e invadindo a casa o resplendor da chama a devorar na lareira a pilha de cavacos. Acocorada ao pé do lume, a mãe espiava a roca e velava, dardejando de quando em vez um olhar inquieto para o filho. De repente desceu da serra a enxurrada de chocalhos, vozes e estrépitos de tamancos, e, pouco a pouco, o silêncio foi-se restabelecendo até encher o mundo como um odre em que se soprou ar. Enoiteceu. A mãe rezava e o chilido das ave-marias fazia por vezes coro com o cicio do fogo retraçando a lenha. Bateram à porta. Eram as comadres a perguntar como estava o doente. A mãe acudiu muito solícita a dar a todas a mesma resposta: “Bem haja, ele, para que digamos, piorzinho não está. O que o mata é aquele pesadume no peito...” e não quis ouvir mais, desviado o espírito para outra matéria. Veio ainda o Calhorra e a Florinda, ambos com voz de caso. Mas, fez-se Lucas, e não quiseram que o acordasse, uma vez que passava pelo sono. No dia seguinte que não pegasse do trabalho, muito menos na mina. Aquilo não havia de ser nada; mesmo assim, matasse-lhe a tia Rira uma galinha bem gorda, ainda mais que ia purgar-se pela mão do Gregório, que receitava para um cristão como para um cavalo. Não havia como as enxúndias para ajudar a desimpedir o corpo!... A noite alapardou-se em cima da terra, rotundamente, como avejão sobre o ovo que anda a chocar. Um após outro apagaram-se os rumores da aldeia, balidos de gado, choros de menino. Tudo adormeceu, a própria mãe, que a meio serão ressonava como um órgão, o sobressalto tendo-lhe batido na massa do sangue como uma semanada com os amigos. Ele é que não podia dormir. Há muito que atirara o emplastro para casa do Deus verdadeiro. E, sentado na cama, novamente ensaiou o seu papel. Quando luziu a telha, afundiu-se nas mantas e rompeu a gemer. Gemeu, tornou a gemer, mas a mãe dormia como pedra num poço. Um carro de lavrador atravessou a estrada e meteu aos solavancos pelo caminho da serra: o primeiro que girava ao mato. Gemeu mais forte. A mãe estramontou: - Sentes-te pior, filho? - Sinto-me bem mal... bem mal. Vá pelo remédio. A mãe ergueu-se da enxerga, atirou dois bochechos de água para os olhos, falou em ir chamar alguém que ficasse ao pé dele e, ante a sua recusa categórica, pegando do xaile e duma côdea de pão duro, despediu. Mal lhe lobrigou a rabadilha a dar a dar, pôs-se ao alto. Pela frincha da porta passou revista a quantos lavradores saíam para a serra. Viu passar os operários das minas, uns direito ao Santo Antão, outros ao Vale das Donas. Levantaram em rancho os matejadores, de roçadoira pendente da espádua, e logo depois os zagais, de bornal aviado para o dia todo, com os rabanhos ronceiros. Pouco a pouco a aldeia foi-se despejando... Quando lhe pareceu que o açude tinha acabado de escoar-se, abriu a porta a medo, sete olhos à direita e à esquerda. Estava o céu escuro e fazia frio. Não era nevoeiro,

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todavia para lá dos duzentos passos divisavam-se os vultos das coisas, mas não as linhas. Tão-pouco lhe pareceu ar de neve. Era um cariz sonolento de inverno, sujo e triste, com grossas nuvens baças a prepararem-se para alagar os cambais da terra a poder de cargas de água. Muito embiocado na capucha, descalço, depois de observar que não bulia vivalma, largou numa carreira. À capela torceu para casa do Duarte; desacravelhou a porta do forno e, empurrando-a, espreitou... Não estava lá carro nenhum, que fora o seu susto. Não estava também gente, e entrou afoito para a quintã. Ao rumor que fez, a porca, lograda em seus hábitos, grunhiu: “Trouxessem-lhe que tasquinhar. “Bem. Fez pressão contra a porta da casa propriamente dita: estava fechada à chave. Procurou a chave na gateira; depois na torça; lembrou-se que também era costume metê-la no cisco, contra o limiar, e vasculhou com mão cuidadosa e ligeira. Lá estava efectivamente. Continuava a ir bem? Descerrou a porta com todo o ripanço e aos estalidos que soltaram os gonzos ficou interdito: abro-te?... fechote?... Abriu-a por fim de rópia e a sanfona mal deu sinal. O silêncio lôbrego do interior é que foi como um cão que estava a dormir e, estrovinhado, se atirou a ele. Levou um bom migalho e recobrar-se. Pouco a pouco, os olhos foram-se habituando ao bicho hirsuto, que voltava a aninhar-se nos cantos com as arcas velhas, ferramentas, trastes sem nome, entre taipais encardidos de fuligem. Contra a parede as duas peneiras eram duas monstruosas pupilas da aventesma, estupidamente atentas ao que ia fazer. Mas ah! detrás das caixas, como separadas por sebes, mostravam-se duas camas... duas. O mais, paredes, bafio, cainheza, era alcatrão. A laja recebeu os seus passos mais surda que a própria terra, que tem a sua sensibilidade e se queixa até da lebre que passa. Mas era álgida como o caramelo dos charcos. Levantou a tampa da primeira arca, que estava meia de centeio. Enterrou o braço aos cantos, no centro, aos lados. Nada. Passou à segunda arca atravancada com toda a ordem de tarecos, a escudela do fermento, a queijeira, bexigas de coalho, uma almofia de feijãofradinho, e roupa, manaixos, mondongos, coisas quase todas de trapiche. Resolutamente desatou a esvaziar a arca e a espíolhar peça por peça? Nada de nada. Com um varrer de olhos percorreu a casa toda. O tanheiro observava-o semelhante a um bonzo acocorado ao canto, zombador e imperturbável. Lá estavam em cima da pilheira, como as comadres à boca da fonte, panelas, caçoilas, potes de ferro, toda a útil e inútil olaria de cem anos. Antes de passar-lhe revista, velo à porta observar. A quintã era o mesmo poço de silêncio e de rescendores fétidos. Nem uma galinha. Na pocilga refunfava a leitoa. Volveu dentro da casa, admirado do seu sangue-frio. Nem sequer lhe palpitava o coração. Trouxera-o ou deixara-o lá fora?? A verdade é que se achava ali na propriedade alheia tão naturalmente como na taverna a beber meio quartilho. De todo à vontade, investigou à direita, investigou à esquerda, e novamente lhe incidiram os olhos para a cacaria e o pucareiro. “Vamos lá ver? “ proferiu em voz alta. Acercou-se da pilheira. Revistou uma panela, revistou outra, destampou aqui, emborcou além. E a caçoila...? Moinha...?? Apalpou papel e não teve mais dúvidas. Com ele bem apertado, sem ver sequer de que se tratava, nem pensar em coisa alguma, com o coração agora aos saltos, os trastes todos; tanheiro, cântaros, arcas escancaradas, o negror da casa e a alimária do silêncio, acocorada nos ângulos da cardenha e na quintã, a gritar: ao ladrão! deitou a fugir, a fugir às sete partidas sem reparar onde punha o pé. O sentido levou-o, sem

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desvio nem quebranto, por onde viera, para mais, leve e subtil como uma pena. A mãe veio encontrá-lo de olhos esbugalhados, a arder em febre, mãos a segurar a cabeça. Pôs-lhe os remédios na banca. - Vá-me por água fresca à fonte. Vá que eu cá tomo as drogas... Estou a morrer de sede. Despejou purga e eclegma para a cinza e, quando a mãe rompeu casa dentro com a cantarinha a trasbordar, levou-a ao meio. Depois caiu em quebranto. A horas de jantar visitou-o o Calhorra, que também era meio médico e lhe achou ares de bem disposto. Estavam na santa cavaqueira, ouviram grande rebuliço no povo. Sussurram assim as colmeias quando levantam voo e vão pousar de largo, nos ramalhais. O Calhorra moveu com a maior presteza possível os membros trôpegos; o Luís, pois que a mãe lho exigiu, agasalhou-se na capucha e foi atrás do cambado. No largo da capela, ao entrar para o forno dos Ladeiras, pela quintã e moradia espraiava-se um mar de gente. Singraram a custo até chegar à porta da casa. Da trave fuliginosa, ao pendurão, um corpo de enforcado bailava. Bailava sem ninguém lhe tocar, ao simples bafo, parecia, das pessoas que ali vinham, para que vissem bem e contemplassem. Quando a face, em sua rotação, colheu a luz diurna que se coava pela porta, o Ougado reconheceu o Duarte de olhos muito abertos, fitos nos seus, com a boca escancarada, boca de través, que uivava: ao ladrão! Ficou transido coisa de segundos e, fincando os queixais um no outro, não se pusessem por lá a matraquear a semana santa, desandou pela porta fora, de esguelha, de modo a que Bárbara o não visse.

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Paulinha dava também sinais de ter passado ao gabinete de toucar. estava vestido. com insônias de permeio. com as paredes sensibilizadas pela infinita profusão de rostos. ora e logo balouçado em sonhos pelos solavancos fortes dos armões de campanha. isto é. Deus para um germano. bater de portas. ainda quando oriundo do SchIeswig. Aquela moradia. compunha-se de quartos amplos e vistosos. Entre ir morar para as minas . riscada por um pedreiro de talento para morgado farto e desembaraçado. corruja de abadia. salões grandes como gares. quase contente consigo e com Deus. tal um rico marabu. No piso inferior a criadagem. como o velho Badanas. durante as quais queimara havano sobre havano. E por sorte deparara-se-lhe a construção tipo da mediania provincial. Mas o seu principal intuito fora oferecer à filha um lar. a meio caminho para a Sobriga e o Vale das Donas. Felicitava-se cada vez mais de ter alugado ali casa. eixos gementes. perfumado. e com a ginástica respiratória em regra. de dores e de venturas dos seres que por ali passaram. que se conquista com actos de adoração.rondavam já à porta da taverna. encetava a lide quotidiana. o que viera tranquilizá-lo no mais latente da sua alma sobressaltada. matinalmente exacta segundo a nova disciplina. Tanto o Pelicas. por detrás dos estores. não é o deus eclesiástico do resto do mundo. Hincker entretinhase com a paisagem humana da vila. Passavam as primeiras mulheres para a fonte. seus fregueses: . Mas com o amanhecer a consciência ficou sossegada. o que lhe permitia partilhar-se mais a seu cómodo pelas duas explorações. Não estadeava brasão no lintel nem galeria com antepassados de prosápia. desses que passaram à imortalidade 112 . coveiro. todos os rumores preambulares do formigueiro rural que desperta. uma varanda a sueste. o universo real e o imaginado. sim. cântaro à cabeça como vira na Arábia Feliz. a tal consciência panteísta que Goethe numa carta a Eckermann punha acima das contingencias universais. vasta e quadrada. Um Alvitano surgiu às upas no potro. sempre encostado ao Pauzinho de marmelo da cor do carrascão. Sem embargo. pois estático só na tumba. sem falar na peça central. e isto equivalia a um sono reparador. uma boa cozinha.VIII Franz Hincker levantou-se cedo naquela manhã fria mas luminosa de inverno. de colóquios. salvo o albornós.dá umas calcinhas. Pela vila ouviam-se vozes siricopadas. tomou aquele velho prédio de Tendais. que trazia jaleco de alamares e faixa. sem os estigmas do nobre solar: escada garbosa. que daria salão de baile. senhor Incas? . mas o que existe tão de concreto como de vago à volta dos sentidos e do intelecto do homem. Mas o sol retoucava na rama alta das carvalhas que ensombram o largo da feira. E como não havia de estar naquela disposição psíquica? A Reichs-Rundfunk da emissão da meia-noite dera um copioso relato do que se passava nos campos de batalha. mas quartos para bonecas e uma noção do conforto herdada do eneolítico. Nas horas despreocupadas. mais divertido que diante dum guinhol. o que se chama um lar.as minas não poderiam oferecer-lhe senão domicílio abarracado – e morar no povoado. não dormira o que se chama uma boa e pétrea noite.

O pior de tudo foi que as frinchas. com freima nunca vista. confortá-la e dispor-lhe o ânimo a transigir por uma vez com a habitação infestada de parasitas. se fosse necessário. eram um inçadoiro prodigioso de precevejos. outras em quartzo atravessado de lezins que descosia a ponta de picareta. teria dado em terra. De Muradais partiam igualmente com perfeita cronicidade outros camiões repletos de minério. para ele. cerca de 75% da área metalífera conhecida estava registada por firmas contrárias. De modo geral. tanto se importando de atirar com meia dúzia de mancheias de libras pela janela como com o resto do copo de água que não acabara de beber. reunia os cómodos indispensáveis à sua lavra. Para os gostos simples da menina possuía a vivenda um quintalinho com seu tanque. garagem. rendendo o máximo que era de esperar de jazigos de segunda ordem. em todo o Portugal senhores do campo. regou a petróleo e soda cáustica os interstícios da madeira povoados pela fauna até então feliz e sem história. Kammerjãger. para o país negro dos altos fornos. em que a extracção no entanto era mais fácil. Sábados à noite. sempre direitos a leste. pelas estradas intermináveis. No dia seguinte um piquete de trolhas. Mister Corbet era temível no ataque. Mas Hincker. como os ocos da alvenaria solta o eram dos ratos. ao berço da nacionalidade. A primeira noite que Paulinha acordou em seus edredões de pluma com a alvura dos lençóis sarapintada da ignóbil bicheza. As explorações da Sobriga e do Vale das Donas eram conduzidas com tão denodado como meticuloso impulso. que detestava tudo o que é lemural. Outro piquete emparedou com argamassa. raros em Alemanha como as baleias no mar. depois de munidos das respectivas guias fiscais. por via de regra. dado que não fosse dotado de tão sólidos rins. perfeitamente bem-ditosos sem a existência nas redondezas de bois bichanos que vinham às vezes murar para aquele paredal. a avaliar pelo repululamento. onde cismavam artemísias. cuja estirpe devia remontar. vinham camiões de seis rodas velozes e surdos. tapados como arcas. famílias de ratos bemditosos. superando de muito o contingente de produção que lhes fora atribuído. as duas empresas sob a regência de Hincker alcançavam plena estabilidade.empanturrados de padre-nossos e de glória. da cor do chumbo. quer nos soalhos quer nos apainelados do tecto. Mas para chegar a esse ponto tivera Hincker de sustentar uma guerra bruta com os concorrentes. o resultado era compensador. e Hincker. contra os quais. estimou. encaixado o veio umas vezes em salão roto. arrecadações. e no mainel da varanda sardinheiras entornavam até meia povoação um vermelho que Hincker pela rutilante candura e a carência de aroma classificava de amoral. de molde a armazenar a bom recato todo o minério produzido. e iam baldear 113 . Com efeito. não menos molestado. carregavam debaixo do olho vigilante dos fiéis a sacaria pesada e lacrada. há caçadores especializados. Em seguida às mil e uma peripécias duma rivalidade que chegara a saltar todas as barreiras do fair play. ao passo que além o rompimento exigia constantemente perfuradora mecânica e dinamite. Veio dos aposentos o pai. Ao cabo duma semana de refrega e quebração de cabeça a casa deixou de ser o valhacoito dos cínicos e abjectos hemípteros. E selados a sete selos abalavam e lá iam em recova. desatou em convulso e clamoroso choro. Metiam pelas estradas a poente. também plurisseculares. em suas madrigueiras. A Sobriga produzia dez vezes mais que o Vale das Donas.

dois pelo menos. Ostentavam duas parker no bolso do jaquetão e traziam as notas de Banco em pastas porque lhes não cabiam nas algibeiras. Matavam o bicho com vinho velho da Ferreirinha e estadeavam equipagem de grão-duque. resplandecentes de civilização e arte. a cavalarias altas. dois mil. a carga valiosa.proferira. Comprara já uma quinta para o Dão. custava o quê? Dez. Os agentes que o Reino Unido assoldadara no país neutral enriqueciam a olhos vistos. e. correndo à direita e à esquerda como galgos marinhos.que já me ganhaste para um Rolls. Aconteceu-lhe escaqueirar a chocolateira numa das curvas do Vouga. feitas as contas. com os grostescos e imprevistos que se podem imaginar em lapuzes elevados. Dizia-se que a Ilha disparava contra o inimigo projécteis de oiro puro. e seria este o primeiro passe do manigante. Os sacos que ele rareava e pesava iriam atestados de titânio e da mais ignóbil morraça. deixando a tapada da serra a tojo. dois. . casara a filha. todas as semanas. para que os submarinos a esperassem. chegasse o metal. cifrada em duas letras ou algarismos. mais precioso que a platina. E mandou vir o melhor estojo que se exibia nos stands de Lisboa. vinte libras? Numa ocasião destas não se tratava de saber quanto custava. levantando âncora. acima. almas em revolta. dois a seguir. com uma película de volfrâmio à superfície para o conspecto inicial.nos molhes de Leixões para cargueiros negros. levantando-se dentre a ferralhada com uma costela partida e as ventas a gorgolejar sangue . ao começo. encontravam-se milhas dali com torpedeiros velozes. e prosseguia de vento em popa. No mar traiçoeiro da Biscaia rondavam porém os submarinos de Roeder. Assim desapareciam tais navios de carga no fundo do mar e com eles a candonga dos infiéis representantes. toda as semanas. A questão era que de dez transportes chegassem dois ao porto. e não se falava no resto. que. numa cadência melhorada dia a dia. quatro mil quilos arrasar as cidades orgulhosas do inimigo. era o Antoninho Fráguas. Mas tal contingencia não alterava em nada o ritmo da tenacidade insular. com um visconde papalino.um factoto avisava o chefe da Gestapo do embarque da mercadoria. em cada molécula do qual se sentia palpitar toda a imaginável espécie de ânsias e gemidos. dizia-se que mais que um barco que conseguira alcançar o destino denunciara o 114 . Cada onça. por fim. Oito sobre dez daqueles navios soturnos iam para o fundo em três tempos. Simultaneamente . como não? Um destes. os volframistas davam nas vistas. e a custosa mistela lá seguia caminho. que acabava de fazer treze anos e a instrução primária. de dois.Fica-te com o Demo . corações triturados. com um canhão à proa e outro à ré. Blindavam os dedos com anéis e não sabiam dar dois passos que não fosse de automóvel. À boca cheia se contava que impingia a mister Corbet gato por lebre. Projécteis dum supermetal. de dois. Esses navios recebiam uma ordem telegráfica. tinham por missão escoltá-los a porto seguro. Fábula ou não.terceiro lance . Acima. dissimulados debaixo de catafalcos de serguilha. todas as vinte e quatro horas. classificado e novo em folha. todos os meses. de Muradais. Acrescentavam que o segundo consistia em subornar à força de pecúrila o engenheiro que na barra referendava a entrega. O problema era que nas matrizes cíclópicas das suas fundições não escasseasse o minério fantástico com que revigorizar o aço que iria em bombas de mil. Na terra das meias solas. amassado com o suor de meio mundo desde o Spitzberg à terra de Francisco José. era vedado inquirir.

segundo sucede em Bolsa. mal nascia o dia. A certa altura. uns punhados de minério. O conflito mundial reflectia-se nos dois comissários. a 750 escudos. tratava-se de bater o adversário. o grande insular professava que atrás de semelhantes agentes. caíam imprevistamente do céu e vinham matar a fome a multidões igualmente famintas.. todas as poucas-vergonhas eram desculpadas dado que conduzissem ao enriquecimento. Firmaram a transacção a tiro. De resto. Atrás de Corbet postavam-se Insulae laxe jacentes. instintivo. Era um pouco a psicologia do cocu magnífico: contanto que. falsidade. às portas. com urna percentagem média de 75% de metal e 25% de quebra. Que remédio senão render-se à evidência duma lei transcendental ou a processos que não seria cómodo reformar? O ideal em semelhante emergência fora reduzido a proporções tais que estava fora de toda a hipótese deixar de tornar-se realidade. Todas as canseiras dum dia eram dadas por muito bem empregadas se à noite a sombra vágula. Por daltonismo. para lá do conceito clássico de justiça e bondade. como curso médio com oscilações verticais. o outro em esquife para o cemitério. aversão congénita quanto a conceber certas formas da indelicadeza? Parece que não. todos os três meses. As aldeias esvaziavam-se. o Almirantado devia receber dez navios.. que eram manifestamente maus. podiam vir outros requintadamente péssimos. Na melhor das hipóteses. Eram substâncias análogas no transcendente e no destino. entre 400 e 500 escudos. a 400 contos. O que prezava era o certo.. mentira. Aconteceu numa aldeia serrana dois regatões encontrarem-se a disputar. Muito frequentemente dobrava de preço. Dolo. levados pela velocidade do amorpróprio. E deixava-os entregues às suas tibornadas. pois não vira separadora. como daí em escala degressiva em todos aqueles que estavam ao serviço de cada uma das entidades. o que Dantec chamava sem acrimónia hipocrisia. um conduzido em maca para o hospital. De ordinário a cotação do volfrâmio era dada pelo Porto. em nome dessa filosofia do real. trouxesse na cova da mão duas areias do oiro negro. como é de supor que andassem os hebreus no deserto. carregados de volfrâmio. mas nunca tida. A nação em guerra é que por nada do mundo desautorizava os seus corretores. Vinte gramas importavam em mais que a jorna dum obreiro. saltaram fora dos limites que lhes haviam fixado para a compra. Da carga destes dois apenas um dízimo era aproveitável. Formava-se uma moral nova com a nova indústria. resvés do irracional. em busca de maná. Contentava-se com isso. queria dizer: daqui para cima. repugnava revolver misérias desta ordem. Com margem tão larga para o fortuito e o contratempo. Mas aos seus hábitos de decoro. arribavam apenas dois. com seu sentido prático. Neste particular era como a Hélade. Aqui. Quando o Porto fixava a tong long da volfrarnite. Num plano superior. o ilhéu nunca chegava a ser fraudado em sua expectativa..comércio facinoroso. Estava inerente à sua fácies moral não admitir semelhantes quebras de carácter. desde que constituíssem processos de promover 115 . Vendía-se o quilograma estreme. em bruto.. quando se recusava a encarar o crime de parricídio. dobrada para terra. 65 unidades.. como atrás de Hincker o Reich. filtrado fosse lá por que mandis fosse da desonestidade e do dolo. à conta destes seus amos. pagando a fazenda por um preço incomportável em relação às suas bolsas e fora do senso comum. roubo. metallo divites. o objectivamente certo. de Avienus. por montes e vales em busca de volfro. ou considerado como tal.

fritando-o. inclusive em Portugal. duma grossa porção de minério. que jogavam ao ganha-tudo. abana a árvore das patacas e é só abrir a boca ao saco. O José dos Cambais e o Silvestre Calhorra. de pôr em dúvida. tornavam-se ordinários. esse. comprando na boca do lobo. cometido é muito provável na exploração de Santo Antão. Quem pagava as favas. A sua predisposição para a mascambilha era proporcional à longanimidade com que encarava os seus desbaratos na guerra: sempre gentil-homem. caçados cada um por sua vez a surrípiar do monte em desproveito dos restantes. era um recurso industrial como outro qualquer. mas velhaco. como Sobriga. e recusou terminantemente. sem atender à origem. do concorrente. tudo levava a crer que a operação seria feita com o seu beneplácito.o negócio do volfrâmio. Embora. Se os seus agentes fechavam os olhos e compravam o que se lhes oferecia. não poucas eram logrados pelo campónio mazombo. cobrir a oferta. mais contuso que o canganho. Como o vendedor era parente do Calhorra. todos os passos lhe parecendo bons para estar a par que no Santo Antão os sócios se roubavam uns aos outros o mais honradamente que podiam. A grandeza da Ilha está nisto: possuir árvores das patacas em todo o mundo. Resultava de tal consenso que procuravam todos empulhar-se uns aos outros o mais conspicuamente possível. não lhe ficava o direito de ser desconfiado. O senhor Hincker conhecia todos os artifícios do comércio e industriava os seus agentes na arte de descobrir as esparreIas e chincá-las ou deixá-las armadas para os parolos da outra coriróbia. discutível ainda. O singular é que o ludíbrio se exercesse em regra com a facção insular. Mister Corbet. mas admitida. como tantas vezes. De sobra sabia pelos seus secretas . em última análise. gênero Leónidas Seixas. Os chauffeurs da praça de Viseu. Franz Hincker explicava o fenômeno dizendo: . Teimaram em mostrar-lhe a fazenda e fechar o negócio de afogadilho. propuseram-lhe a venda. Nas costeiras do Alva descobrira-se um cabeço cuja areia preta e lustrosa orçava em seu peso pelo do volfrâmio. A tout seigneur tout honneur. Mas os milicianos. Aquele dia em Mouramorta. Tojeira e Muradais. tinham chegado no calor do despique a testemunhar-se em público e raso de gatunos e difamadores. quando um destes fura-paredes lhes mandava bater para Arganil. se umas vezes logravam o próximo. e que falsificar o minério. de contestar. E pregavam-lha na menina do olho. Por essas e outras razões farejou grosso latrocínio.já o germano confundia os processos de informação com a espionagem. este simpático e glorioso Portugal. senhor deste mundo e do outro. como tinha por norma. bem embora o sorriso muitas vezes lhe fugisse para esgar. Entre eles a descompostura era quase quotidiana. outro tanto não fazia ele. sempre de sorriso nos lábios. Para atalhar 116 . Não lho consentia de resto a situação que ocupava. procuraram desde o início montar as suas separadoras. mas primeiro havia de a mercadoria passar pela separadora. mas dando a impressão de tornar sempre ao seu ser como de borracha. por conseguinte de prática corrente. desencantando-lhe substitutos falaciosos. à porta fechada. era o lorde. Explorações categorizadas. Manifestou. Por sua condição tradicional de ricaço.O dinheirinho com que temos de nos esportular sai-nos do lombo. Não tardou que o monte aparecesse lorgado como as saibreiras que se entremostram à margem das fábricas de cerâmica. a sua receptiva para o roubo estava a toda a prova. de antemão sabiam que iam buscar uma taleigada da miraculosa terra.

.. falou na sacristia. Da sequência deste jogo de enganos não soube informar a Hincker o seu espia nictalope. se tem chave. a coisa foi realizada com tanta presteza e rasgo por parte do canejo. claro com os devidos resguardos. quem acompanha a fazenda? Eu? Não obstante o tropeção de que padecia. depois que recusara o volfrâmio de Mourarnorta. destes dias que no campo. Tadeu hesitou. os pardais que saltitam à volta do fachoco de palha que cresceu da matança do porco.obviou o Calhorra.? Arranjam-se smokings e casacas para os mais exigentes. Riram e não houve remédio senão render-se ao amável dictat. acumulado desde o princípio do mundo. pães. Seria preciso ter muito cuidado com a língua. Não era nada prático. O Calhorra em voz baixa. qual o lugar seguro. muito apertadas quanto ao policiamento da mina que a gatunagem andava mais sobeja do que nunca. depois duma rápida visita à exploração.. No dia seguinte.E nos carretos de noite. Deram ordens. que lhes permitisse dormir a sono solto sobre o seu bem? Nem no Paraíso à mão direita de Deus Padre. tinha também uma chave. Quando chegou à mina. atestado de morraça. mas onde? Sim. inviolável. não era mau expediente. que nem sequer a cachorra do Reganha deu o alamiré. Torceu o nariz. Lá em casa há um variadíssimo guarda-roupa. sair de noite. engrolando-os a todos muito bem engrolados até aos cadinhos de Birmingliam e Newcastle? Franz Hincker. largos. a voz aprendida com os senhores padres nas Orações Secretas da santa missinha. muito embora a sacristia fosse do pároco. os penedos que parece terem perdido daquela manhã em diante um pouco o ar baturro.à desconfiança que lhes roía por dentro. só desbocados poderiam taxar o acto de escandaloso. e ora se transvertia naqueles abomináveis bate-línguas. .. e os colegas escudaram-se em iguais considerandos. lembrou-se de convidar os engenheiros para o almoço. Entendem que se devem vestir a preceito.. São sobre o largo. boa para retém. sempre mais outro.. tira-lha? . se revestem de leveza e luz tão branca e boreal que irradia certo ar de melindre e friabilidade da amplidão: terra. desfiava todos estes ardis de peles-vermelhas.. veio o Antoninho Fráguas por sua vez. Vou telefonar a minha filha que reforce apopote. Mas Hincker persistiu: . e de novo o saco foi trocado por um terceiro. Depositar o minério extraído cada dia em lugar competente. ao passo que o automóvel corria a toda para o Vale das Donas. E bem disposto.Os senhores vêm. achou tudo em ordem e o trabalho em bom andamento. altas horas. servem a todos os corpos. com arcanjos a guardá-lo de espada desembainhada. no fundo contentes por irem espairecer num dia de sol e verem o seu landegrave satisfeito. Severo Bacelar quis desculpar-se com o seu trajo de cote. matutaram em muitos e vários remédios. de modo que se não soubesse. optimista consigo e com Deus. . Iriam os sacos da mexerufada logrando um e outro. Os engenheiros despiram as camurcinas.. De facto. Estava um saboroso dia de sol. Sim. entrar de noite com o minério. tão pouco curial. árvores. numa cadela inenodável e sem fim. mas há de tudo neste mundo.? Ora... O sacristão. e depois duma escovadela aos fatos e 117 . no gênero da cadeia da felicidade inventada pelo maduro anglo-saxão. após invernada. por causa dos pedreiros-livres. para mais. depois de pesado? Vendê-lo à boca do poço? Quanto a depositá-lo.Ora.

Hincker sorriu da frase inconsiderada do bacharel... O farmacêutico ia a escusar-se. largando um gó-gó-gó que pareceu o mais jovial dos cumprimentos. Quero-os para vistas. perfeita paz octaviana. a cuja sombra se fazia todos os quinze dias uma ruidosa e amoiriscada feira.Um charutinho. germanó fobo na ordem do lugar-comum. . . em rasgar cintas e sobrescritos. e entretinha-se muitas vezes. depois de pedir vénia. Se recusa. e Hincker convidou-o a subir para a sua arca de Noé. Na sala. Lobão no foro e lobão na gana com que lhes metia o dente.. Hincker tinha pronunciada simpatia por aquele espírito de pedreiro-livre. julgo eu. laureado com as Folhas de Carvalho.E que. afagando-lhe os barbilhões. Calabaz.chapéus abalaram com Hincker.. foi buscar o correio e. Hincker não lhe deixou abrir a boca: .É muito meu amigo . Pararam à porta do homem afável e obrigaram-no. estes são bichos de paz. .emitiu Manuel Torres. impávido e garboso. . Manuel Torres. as galinhas dos outros poleiros deviam ser odaliscas suas ... Estão no outro lado do quintal. juntamente com o correio.São para combate? .É verdade.declarou para os convidados.Não.. adiantou-se para ele. Manuel Torres que pousava ao tempo na casa da serra. proferiu para o Dr.Tenho para aí mais.Subam.. um belo galo andaluz dandinava-se a meio duma rebanhada de galinhas de toda a casta. a boa vila de Tendais com o seu bosquedo de carvalhas ao norte. Era perto da uma hora. . mal parecia que não viesse o médico. Em Mouramorta deparou-se-lhes o advogado topa-a-tudo Dr. Logo hei-delhes mostrar a colecção. Diante do semelhante recusam-se a ver outra coisa que não seja um rival. . pelo que envolvia de obsesso quanto ao carácter do seu povo: . a almoçar fora de casa. de raça indostânica. ocupou-se. familiarmente: . em dialéctica com ele.perguntou o Dr. o excelente Nestor jácome. por conseguinte. Quando viu o amo saltar do automóvel.Todos os galos são mais ou menos combativos .. Lábios a espremer o havano. torcendo por Malhadas a embarcar o Dr. contra os seus hábitos inveterados. .Ou que lhes foram raptadas . . Largaram. deram de cara com o boticário. mando-o pôr na lista negra da Gestapo. à sua direita: 118 . a derribar-lhe as construções lógicas com o mesmo regalo com que o batia ao xadrez. venha almoçar connosco.. e por isto.Nem fum nem fum e meio. façam favor. no dizer do Café Bijou o Lobão dos volframistas. Guilherme Cabalaz. No pátio da residência. As notícias eram anódirias. liberalão. Mas eu não os quero para combate.gracejou Calabaz... Pegando dum postal a cores que representava um aviador de uniforme. Quando entraram em Tendais. uma caixa de charutos que estendeu aberta para os convidados: . porque em poucas espécies está mais desenvolvido o instinto sexual do que nos galináceos.acrescentou Hincker sorrindo. apurada pelos Ingleses. Arpou-o de passagem. É verdade que tenho ali dois de combate. tão destro a manusear a espátula na farmácia como a espingarda no monte e toda a sorte de redes no rio. Gosto a valer destes bichos. Pois que vinha o boticário.Amigo Jácome.

. é o cadete . são privativos desta gente gastadora. Os engenheiros vieram considerar circunspectos aquele ás da guerra. O farmacêutico sorriu e disse galhofeiramente: . de facto.. . Eu fiz a Grande Guerra. Hoje a precisão é relativa. em frente de cada talher. para os vinhos variados. condimentados sui generis. de que faz parte o meu Karl. pareciam dirigir aos hóspedes um sorriso derradeiro. A mesa dum teutão é dum teutão e de mais ninguém. que nem vale a pena mencionar o arranhão que uma bala fez no peito de Karl e a cabeça do dedo que voou ao marujo em combate com torpedeiros. A série de pratos.Sim.Que não foi o de Aquiles . ao bacará. A guerra mata muita gente.Até a data todos sem novidade. e fui incorporado no regimento que mais sofreu na ofensiva de Amiens. que tudo pede ao esforço. precisa bem deles a Alemanha na frente russa. Resplandeciam na grande mesa o linho de brocado e. Sentia-se no seu ar feliz e desembaraçado e na postura de Bacelar. as flautas de Pá dos copos.proferiu Jácome.. arrancam-na a quem lhes cai nas mãos. indolentemente. meio prostradas. o paladar sobre o substancial. nós os Alemães somos tão generosos que começamos por dá-los aos nossos amigos. com Lenine no Krerrilim. compartes duma culinária planturosa. ao mesmo tempo que vinha curriprimentar os convidados. . . Anunciou-se no patamar o simpático Dr. mas nada sabe negar aos regalos da vida. meio vivas.Capotes. adornara nos espaços compreendidos entre os contadores rotundos e luzentes.. ao gosto tudesco.Precisou. Era sobre a tarde e entraram ardidamente pelos hors-d'oeuvre. mas o que se chama um capote.tornou ele. senão faltaria ao meu amigo o melhor cliente dos rebuçados de avenca.. Entrei pela Sibéria.Todos sem novidade? . . advertia que o almoço estava servido. Bati-me na defesa de Quiao-Tcheou. 119 . o antigo e vasto refeitório da casa morgadia. O mais novo anda nos submarinos. embora não passasse pelo desaire de ontem receber um capote. diferentes de cor como de tamanho. que debaixo dos olhos punha um matiz de leite e carmesim. por um trigueiro mais ao estilo da cromática portuguesa e com o seu sabor entre ibérico e loiro do Norte. .O mais velho é tenente de artilheiros e lá está para leste. . . No Chemin de table. Telo. mas como os que mandam para a Rússia têm de ser de pele.. entrando. que Hincker.Tudo vai na sorte. Hincker saiu-lhe ao encontro agradecido e hospitaleiro.Este pertence à Luftwaffe. Mas. e. com prateleiras povoadas de cristais de Boémia e estanhos flamengos e alemães do mais esquisito talho. .Tudo vai na sorte. E querem saber? Apenas uma bala me feriu no calcanhar.Aqui está o comandante da esquadrilha Condor. entre os quais contava o caviar. Encaminharam-se todos em rumoroso à-vontade para a sala de jantar. Parecia mais mulher e mais graciosa depois de desterrada na serra.. a abundância. à retaguarda.. que um enredo de amor se atara entre eles.. Entretanto Paulinha.Decerto. veja. esbatendo a rede vascular finíssima. mas felizmente ainda é maior o número dos que escapam.. Paula semeara violetas. Os ares bravios tinham-lhe roubado à tez o rubor melindroso de peónia.

Não fazem mesmo ideia nenhuma. não. O grosso fica..surpresa inédita para a maior parte dos comensais..Delicioso para sardinhas assadas. original. Beberam todos com a devida mesura o vinho raro. Mas de tudo isso que fica senão ódio e poeira? Das nossas. Der Wlein von Rhein ist immer gut. a Inglaterra sonhou com revoluções.... à sua direita: . além dum regalo. um aroma original. . der Moselwein nicht schaden thut. do sol.interrogou Hincker como o visse levar com toda a vénia o copo à boca e demorar o gole. Os senhores não conhecem a Alemanha que está de armas em punho a defender o direito à existência e. Mas não.Que tal. pegando na garrafa do Reno de colo alto. Também assim é escarpado e em escaleiras. ah. Hincker secundou. . obra de titãs. das que pingam no pão. dizia ele. . sem receio de errar que jamais houve. inocência perfeita o do Mosela. com isso.. volvera mais animado ao tema patético: Diz o amigo Jácome que este mundo precisa virado. Nestor Jácome. filho da terra.Branco e seco. lembra o Douro. Torres.. Com semelhante iguaria. levantando também o seu copo e mergulhando olhos regalados na limpidez do vinho.. a guerra de morte entre os dois colossos. e mais qualquer coisa. Das nossas pouco se vai em resíduo..Uma gota do nosso vinho.. proferiu depois de dar um estalido na boca: . meu doutor? . senhor. Hincker.Good Hoch keeps off the doctor. começou por oferecer ao advogado de Lisboa: .. . os senhores fazem revoluções.. veio à baila a Rússia sem fim.? .Bebe-se e a gente fica mais moça. cultivado nas encostas da Beira. O boticário. neste meio tempo. o inverno. da latitude.O Rheingau. Se os Alemães se batessem em nome do existente.emitiu. De acordo. derradeiras sarandalhas do espólio da paz. proferiu baixinho para Calabaz. nem haverá no mundo um Doutor Fausto capaz de fabricá-lo a martelo? Vergissmeinnicht em sublirriação. O doutor tornou a levantar o copo ao alto. A Alemanha é o primeiro e talvez o único país verdadeiramente revolucionário do mundo. deixa-me rir? O que os senhores fazem não é revolução.. O senhor Hincker. . próprio dos xistos argilosos e margas terciárias do Rheingau. eu seria o primeiro a dizer aos meus filhos que desertassem. Paula. O Dr. Países revolucionários os vossos?? Ah. traduziu Bacelar. Conhece? Foi meu irmão Hans que de França nos mandou para cá uma caixa de garrafas. aproximando o copo dos lábios. com o fervor do discurso. sim. Rüdesheim. diga lá se não tem o picãozinho do palhete. Napoleão.. a Europa.murmurou Jácome. senhor doutor Torres. absolut a dentro daquele seu flavor característico.O vinho do Reno é a bondade pura. chamado a derrotar o rascãozinho da terra.Ah! ah? Aí tem uma sentença inglesa que pela primeira vez está certa? Sim. é chinfrim. depois dos estalos da lei.. o vinho do Reno. de tal ordem que pode dizer-se. . Eu é que preciso de deitar uns anos fora. sabem os senhores.O meu caro engenheiro não precisa. gracejando. Não passa de abrir ao verde dos concidadãos e 120 . se quero ver o mundo novo . . com a reverência dum oficiante. é uma terapêutica. . para matarmos saudades da Alemanha. A França fez revoluções. libando com respeito. esquecera-se dos seus hóspedes.

mais conforme. . Também lhes. O Eslavo.Houve e até é possível.emitiu Jácome com intimativa. de lamber os beiços. que fundouo recolhimento das emparedadas de Alenquer. no bem-estar do habitante e na assistência pública. semelhantemente. mas um pouco ácida e maciça. Têm medo da morte.Uns que têm coleira e abertos parecem uma guarda-chuva.Deram conta que é feita com míscaros? Pois é. os marcos que estão à entrada das portas. não. é revolucionária. dão o nome de gasalhos.Com esses nomes todos. vegetam debaixo da terra.Mas é preciso demonstrá-lo. quando furam do solo. de resto. Estas sanchas.Da mais genuína. são de culinária fidalga! . Sancha. proferiu: . . e talvez porque apenas se encontram isolados. o Alemão era insatisfeito. porque é dinâmica por excelência. Tal qual estas. Berengela.Demonstre lá.A princesa viveu sempre muito recatada. o Eslavo. Fizemos uma boa provisão deles. Não duvidassem. sim. mesmo nada. O mundo asfixiava-o.. mais prático. Não houve uma D. como imóvel tinha estado. Além de homo faber. denotando o dedo químico de gastrónomos de moela de avestruz. Folgaram todos com o paralogismo. boa. Paula. desde que a Europa era uma realidade política. apurada em Roma. demonstre! . mais do que isso: nunca estamos satisfeitos. tão pitoresco. lhe chamam frades. . decantam no fervedoiro que é a guerra os povos vários. Branca. uma simplificação a realizar na orgânica de tal indústria ou norma administrativa. 121 .. o Alemão deverá chamar-se homo faber perfecturus.. que se passa na Eslávia? Nada. podia dizer-se.deitar pólvora a pardais.Frade? . e outras e outras de que não reza a história. determinar o passadiço entre estas criptogâmicas e a princesa afonsina . amigo Hincker. Toletum. temperados à meclemburguesa. Foi ela. A esses fungos chamam frades. vivia em estado de ânsia. . porque se renova dia a dia. aquela tinha muitas irmãs: Mafalda. e Brácara Augusta. Os engenheiros pediram licença para repetir. Também lhes chamam sanchas. E é-o porque nunca se contenta com o que está e com o que tem. solitários como os monges. Todo esse imenso território jaz petrificado. . um nome lindo.?! A partir da Idade Média que vemos nós? Vemos as cidades e as nações do Ocidente agruparem-se em hansas e confederações. com um pouco de fantasia. A Alemanha.disse Torres. uma corrida a fazer para mais perfeito..tornou Paulinha. por exemplo.. sempre passos. mais amplo.. o que é. jácome interveio com a sua experiência de homem do monte: É a única espécie que os camponeses da Beira aproveitam além duma outra que nasce nos terrenos alagadiços. nem às aias deixava ver a ponta do pé. Pelo aspecto. Ao hors-d'oeuvre seguiu-se a sopa de cogumelos colhidos na região. Haverá sempre melhoramentos a introduzir na máquina e na fábrica.. O senhor Hincker a meio já do aparte naturalista retomara o fio do discurso. fechados uma moquinha.? . Nunca estamos quietos. Para os lados de Malhadas há muitos. rainha santa de Portugal? . e ainda porque lembram. . lisonjeada como boa dona de casa.Esses mesmos.. No dia em que conseguisse instalar a sua ordem ficaria imóvel até o fim dos tempos. e não se compreende bem que sejam assim exclusivos sendo tão párias.

sim.respondeu Hincker. amigo Hincker. falha de todo o proporcionado entre a natureza e o espírito. Estas ervilhas julgam que as recebi do Algarve ou da Califórnia? Não senhor. . numa gargalhada. Hincker não se dignou responder e prosseguiu: . Por consequência. sim. Está escrito por Hegel.Petrificado. vejam. ninguém escapa à sina com que foi gerado. banditismo.É com teorias assim puxavantes . O mundo de hoje é a organização mais assombrosa de prepotência. e já tem um século. hem? . podia conceber? . dê forma à sua psique.lançou o farmacêutico com arreganho. Mas também nunca poderá ser o paraíso terreal com que o senhor sonha e os seus amigos eslavos sonham. que maravilharam o boticário. convenho.Uma raça não quebra dum dia para o outro as matrizes em que foi moldada.Tem história? Qual! Tem menos história que a mais insignificante tribo mesopotâmica. quer dizer: arrumado por Pedro? Pedro o Grande. porque acrescentou no tom do pregador que perora: . . O budismo. ponderem os senhores. estigma com o qual se julga afrontado e é legítimo que não se conforme. O dono da casa riu-se e permitiu-se dizer: . . não? tornou Jácome com faceta seriedade. um modo de ser congénito ao nosso eu em todas as demonstrações possíveis e imagináveis da plana universal. apenas se explica com um nateiro destes.repetiu o médico intrigado.murmurou Jácome entre dentes que os povos acordam de quando em quando atascados em sarrabulho? Hincker não ouviu o remoque. pelo contrário. A sina do Europeu é a luta. o Weck. tem vivido debaixo do signo zodiacal da servitude. por agora indeterminada ululante lhe chamaria Keyserling . umas ervilhas tão viçosas. oh. arrancado de premissas apenas negativistas. Neste instante a atenção dos comensais foi chamada para a travessa de pombos guisados com ervilhas. estão frescas como se tivessem sido colhidas na mesma da hora.Lutar é mais que um meio. que de resto são coisas muito distintas.. Sabe como se obtém tal resultado? Empregando um pequeno aparelho que na Alemanha é trivial como aqui. digo eu.E daí? . foram apanhadas aqui no quintal vai em cinco meses.Os senhores foram à índia e lá ficaram. para nós é que não serve. a ver passar os tempos. . no dia. o desmesurado que trasvasa às suas espaldas da velha Ásia. como não podia deixar de ser. por todos os nossos filósofos. ou Weckglãser com sua bateria de 122 . e uma planificação da vida também sobre o ingente.Em cinco meses? . excessiva em tudo. religiões eternas. Lutar para ele não pode ser mais que encontrar o equilíbrio entre a sua ânsia de justiça e o estigma da sua condição. concebido para a imobilidade. . o quê? como aqui a vinagreira. com neves eternas. . Lá nisso estamos de acordo. iniquidades que o cérebro dum homem perverso e inteligente.É verdade e. o Eslavo regenerou o mundo. a fugir para a horta. em que o Eslavo firmar a sua ordem.E acaba-se com ele. isto é. Estou persuadido que esse mundo.. o infinito da estepe e o desmesurado.O mundo não é nenhuma delícia. para europeus viver é lutar. inteligente. O Moscovita. estacado na sua estepe. Não lhes parece? Ora.Nesse dia. Isso quebra ela! Ora no compleicional do Eslavo entra. ou se ouviu fez de conta que não percebeu. .ficará imóvel..

Como agora. meio de raposo. em socorro dos sinistrados. Um deles é o Calhorra. no largo. despedia-lhes a cacetada. Vara rúbida de marmelo especada no sovaco. Mal dele se uma. uma vez mais. ao menos. na linha da frente. chamou-lhe a atençã o para a rua. Hincker distribuiu os charutos raros e levantavam a primeira saúde. Se alguém lhe chama país bárbaro. mostrando-se a rua deserta. A criada. que nunca falta na garrafeira dum sibarita de além-Reno. nem se pergunta? . Que o façam porque lhes está na massa do sengue. O farmacêutico. industriada já à maneira tudesca.Deu-se um desmoronamento em Santo Antão. E. dizendo: . deve-o a tais ou tais representantes da autoridade pelas violências que cometem ou deixam cometer. O próprio. ia a levar o copo à boca e estacou com ar de solenidade: . sempre frescos e tenrinhos. mas nós é que somos bárbaros. Para mim a Alemanha não é um país bárbaro em virtude da posição que ocupa entre os povos sob o ponto de vista de progresso. Tinha amainado a disputa. Ao passar diante da janela.frascos. a qualquer altura do ano.? Ora essa. palpitando caso de monta. aí vinte homens. . vendo Hincker de ar cominatório. uma revoada de pombas. vem dar ao mesmo. seguido do olhar apreensivo de Hincker e dos engenheiros. Há dois homens soterrados e outros feridos.Para adubar o caldinho. em nome do que julgam ser o direito da nação mais digna da hegemonia universal. para os toasts. Quando elas chegavam. de cenho carregado.. Andou à roda o vinho clarete do Dão. acabava de praticar uma das suas habituais piratarias. não acabava de estrebuchar nos abismos da algibeira. O senhor Hincker dá licença que do pessoal de Vale das Donas saia uma turma. Para Jácome o direito do silogismo era o direito de pensar livre e desassombradamente. da boca. Essa é de relevo. 123 . Ah.exclamou Hincker levantando-se.. silogismos à parte. ao alcance do pau. ao estilo nórdico. senhor Incas? A história deste caçador furtivo era a história do mundo e das nações. que se saracoteavam pela feira bica que bica a migalhinha que o pobre deixou cair do bornal ou o menino. para não perder o benfeitor. ou por filosofia.já deviam lá estar. dizia-lhe de baixo corri certo ar risonho. Com ele tem-se horta e pomar em casa. açoitando o ar com estridor. Estavam no capítulo das saladas que. são inúmeras e valem o melhor prato de resistência de qualquer outra cozinha. levava horas e horas à espreita que as pombas. Com o fim de ir buscar charutos “como só fumava o sultão AbdulHarnid” Hincker pediu vénia para sair por um momento. vieram advertir Bacelar que estava no pátio um contramestre da mina do Vale das Donas.Entendamo-nos. à capucha. meio de filósofo cínico: . Não tardou que voltasse. descuidadas. O bandoleiro do Badanas. serviu Tckay. o seu puro sangue ariano. se aproximassem. de certa importância. que chegara de bicicleta e pedia urgentemente para lhe falar. semeava pelo chão o seu dedal de milho. e ali ninguém lho negava. Severo ergueu-se. o vinho sonolento das catacumbas hungáricas. amigos amigos. amigo Jácome@?. que durante os discursos de Hincker não deixara um só momento de abanar a cabeça em sinal de discordância.

hesitaram. . que vá tudo! . vai de automóvel e vamos todos. Telo e jácome podem fazer o obséquio de nos acompanhar? Profissionalmente.O caso era novo. Peço aí uma bicicleta. ainda nada metia medo .Se não levam a mal.? Minutos depois corriam a toda para Mouramorta com o pensamento no velho Calhorra. .. acompanho o capataz....Não. que vão cinquenta. O Dr... que vão vinte. aventureiro a quem. nas ricas regiões da Bética. outras preso à sua palavra como o mais lídimo Bayard.. a paz pretoriana de Roma – umas vezes sem escrúpulo nenhum.neto daqueles montanheses que não deixavam coalhar um só instante.Pois que vão. 124 . não é assim. no pendor dos anos.

Miguel. Em particular. A entivagem era a mais precária que se pode imaginar.vieram a lucrar. Ficou coberto pelos entulhos até meio corpo. Safaram-no dali com largas escoriações nas tíbias. não se metesse no chafurdo. que era a primeira a celebrar-se na freguesia. com mister Corbet à testa . e. que são os seus procuradores na terra. pés descalços e sem fala na procissão. sobre ele jurou que se escapasse daquela havia de pesar-se a trigo em prol do bento S. não se lhe toca. em despeito dos setenta anos. Verónica obedeceu e ele mandou-lhe tirar dez notas do macinho embrulhado na bula da Cruzada. ao rebusco de volfro com que pagar o enterrio. quando o doutor retirou. pediu à mulher que lhe passasse a caixinha de lata que ela sabia. além disso. era a dum cavalo. E. Sobre a noite. instado pelo José dos Cambais. Escape eu. e os santinhos ou os padres. rocha em punho. Lá foram para a terra da verdade. armar-lhe um andor na festa de S. se tinha amor ao pêlo. na sua procissão. Ora foi no encalço de semelhante veio que se descuidaram imprudentemente das disposições de segurança que convinha adoptar. balanceara a cabeça desaprovativamente. e que a derrocada se deu. envolvido este em surraipa ruim de desmontar. o médico franzira os lábios num jeito de dúvida e recusara pronunciar-se quanto a semelhante golpe e ainda quanto às lesões internas que pudesse ter no peito. Tinha amor à vida o velho gerifalte. tirados debaixo dos escombros depois e porfiosa labuta. é que não houve santo nem santa que valesse. e toca “a dar-lhe para a frente”.Este dinheiro é pedra de ara. O Aires. Com a freima exaustinada dos salvadores . O Calhorra. Tendo 125 . pois que gemia e queixava-se de dores agudas nas costelas. deixando mulher e filhos que no dia seguinte se viam pelas leiras. o Calhorra propunha-se obter o máximo resultado com o mínimo de dispêndio. Nos últimos dias haviam batido num braço de filão que prometia. mas de todo ignorante. . mas que se engolfava lá muito pela terra dentro num gaveto de rocha viva. foi dizendo ao lavrador que. Brás. figurar de amortalhado. Miguel. Homem de entendimento claro. mais restos dos sentidos. e escapou.em menos de meia hora esteve ali botado o pessoal todo de Vale das Donas e um numeroso piquete de Muradais. impelido pelo calcadoiro que as pessoas fizeram à volta na precipitação de acudirem. que vigiava à boca do poço. e uma ferida bastante profunda na nuca causada por um penedo que se despenhara da ribanceira.IX A constituição de Silvestre Calhorra. Ninguém o julgava! Aos dois homens. mais dobrados para o chão. e com a ajuda dos facultativos operou o milagre. teria empenho em ver o grande salafrário amortalhado de penitente. a emitir opinião como prático. recomendando que reforçassem os tapumes de suporte com astiais mais sólidos e melhor ligados uns aos outros. seu sogro apalavrado. além de lhe oferecer um círio da sua altura. Ao introduzir a sonda. Para maior solenidade na promessa. o Calhorra chamou os filhos e a mulher. rolou para a escavação de mistura com o material acumulado na borda. podem chamá-lo ao cofre. pegando do crucifixo. S. O desastre fora previsto. os donos da exploração. afinal de contas.

se os gados dessem licença. situada do lado de lá do rio. os galos e as cabras de Pedrões não deixavam ir um pé de milho avante.Guardaste ao menos o conto de réis para o voto? tornou-lhe ele. ainda para mais salgadinho como andava na Fazenda? Por isso ela. com um pauzinho a riscar no terreiro a par e passo que desfiava coisas e loisas da vida.recebido a mina limpa como dantes. remolhada de lágrimas. Ali. Um dia que a Rosa Pedralva se quedou acocorada ao lado dele. Se eu for antes de ti. trancada por grossíssimo elástico. acalentado por outros. repartindo a sede entre a venda e a pipinha de casa. E como nada lhe passasse despercebido à pupila abelhuda.O que valeu foi estar o outro em sítio onde os lobatos não sonham disse em voz atrida para a mulher. ou bem o pesar de reconhecer a ruindade dos três mariolas juntamente com a perspectiva de se ver por portas? . desde o boléu. Lá estava o dinheirinho. E corno o facto lhe causasse estranheza mandou Verónica buscar a caixinha em que lançava as economias. certa espécie rara de alegria que por ser mais funda atravessa todas as camadas sedimentares da alma e ala-se à luz.. como na nau Catrineta? A mulher espremeu uma lágrima. podiam recomeçar quando lhes apetecesse. ora se virava doutro. Deitado na capucha. Rosa falara algumas vezes em vendê-la. Para outra coisa aquilo não valia um chavo furado. porque lhe doía a ilharga. o tio Silvestre sonhou por lá com alguma mina de volfro? O Calhorra ergueu as espáduas. só servia de consumição. levado bebedeira pegada. para mais que não para menos? . desafiando uns. O Calhorra ao sétimo dia já se arrastava até à quintã a espreitar o sol. Aquela leira. divino Senhor. . Ele explicou: era para semear um pinhal. O Calhorra era de bom cerne e a convalescença foi avançando mercê dos caldinhos gordos e da graça de Deus. fugindo de agitar aquela cabaça velha. nem um real a menos. tendo-o contado. estritamente.. disse à criatura: ó Rosa. fungando: 126 .. Correu Verónica ao esconderijo.. coisa dos seus cem mil réis. fora da vista. não viesse por lá a borra à superfície. tratou de amochilá-lo na segura carteira de coiro. mas quem se tentava por semelhante chaparral. E recomeçaram. que não era destituída de siso e tinha alguma coisa de seu. Agora dispensava tesoureiros. considerava interdito à cobiça o campo homicida. “para não perder tudo” . Mas ela não desandava lá da sua: ... nem um real a mais. precata-te que te comem sem te tirar à sorte. ficando o Calhorra sem saber o que pretendia significar tal demonstração: alegria. que não valem a baba dum caracol. que veio ao conhecimento terem os filhos..Se calhar. em poucos anos punham-se mais altas que uma aguilhada. alegria de vê-lo são e salvo. já que a tei de todo o comércio é a exactidão. ora se virava dum lado. andava falto de estacas para os feijões. tinham-lhe alimpado com quanto arame lá havia. Foi por este canal. e em seu foro a primeira dívida a pagar seria aos santos. é verdade. A raposa.alegaram eles em guisa de explicação ao público que. em seu horror.. quanto queres pela barrosela da Laja dos Lobos? Sempre ta compro. e o Calhorra.Andamos a pagar a culpa de os ter deitado ao mundo. sobressaltada com a ideia de que tivesse varrido por ali a mão dos tunantes. morria se não jogava aos passantes a sua chalaça. ficou de pé atrás ao ouvir tal proposta. Excomungados.

Rosa. das almas do Crasto. a advertir léguas em redondo da rija funçanata. Não vale a pena mexermos na matriz.. dando nome à terra e obrigando ao forrobodó. Quando esta acabou. partindo de Malhadas com espavento relativo. Com efeito. Brás. deu por paus e por pedras. para mais. mas semelhantes artificios oneravam a obra de 3/4 dos lucros obtidos. que se permitiram abocanhá-lo em sua honra. coma-o o Diabo”. Diabos o levem. fica-me lá muito longe para a guardar. em cuja capela acabava por engrossar com os elementos mais numerosos e capitais. não. Brás. restituo-te a leira. Sendo o Cambais o mais abonado.. Lá se ia o pé-de-meia e a junta de vacas sobressalentes. também em andores. que vou largar do precipício do Santo Antão.. inibido. Brás da Nave. Castigou-a e logo ali. com seu eixo em S. anjinbos e 127 . e a depositá-la no quinteiro que possuía à Boa Vista. principalmente a escorar os cortes. raciocinando talvez que “bocado que eu não hei-de comer. caiulhe o peso em cima. para que se soubesse.Minha rica. mais não disse. Estou um cepo. A Pedralva devia-lhe obrigações. Não havia escritura.. quando o soube. da Laja dos Lobos. que ficara a semelhante cemitério. O Silvestre Calhorra. Um engenheiro de Muradais veio de vistoria à exploração e ensinou-lhes o pe-a-pá Santa justa. tinham voltado à mina. É para me entreter. a quem em Portugal nada escapa. Olha. No dia seguinte.Olha. pedra por pedra. as despesas que tivera com médico e boticário. Quebrou com o José Francisco e o pai. ali outra. do avô.. passou por ali o alamão. Toda a noite os ecos repercutiram aos morteiros e foguetes de três respostas. . Bem era. Dois dias depois. chamou a Pedralva e disse-lhe: .. onde incorporava a quota que cabia à sede da paróquia em andores. nem o azeite para a lâmpada do Santí ssimo! Se lá houvesse volfro. do joguinho pessoal. . o Calhorra foi ver em que altura ia a trafega. lhe contou o sinal. invocando a sua enfermidade. pediu pelo migalho o dobro do valor em que andava orçado: dezassete notas. Quanto aos impropérios. anjinhos e amortalhados. encostado à bengala de rangífer. e marchava para S. não achou nada de melhor que botar-se fora da sociedade. fazia romaria por Mouramorta.Enganas-te. que o filão estava a render. e embora “com pedra no sapato”. Fazendo um balanço do negócio e pesando bem os prós e contras. Era uma das grandes festas da freguesia. guardava-lhes o troco. o carro do Calhorra começou acarretar a parede. pois lá assistia o patrono. dia tão abençoado que caiu chuva no nabal e fez sol no terreiro. bonitas contas deitou à consciência enquanto esteve a bater a bota!? . jurou que não tinha outro intuito que não fosse semear penisco. mas dito dito. olha! E pela alma do pai. fossem lá agarrar-lhe? Avisou deste desígnio os parceiros. Chegou o dia de S. O número por excelência era a procissão que. a instigação do Antoninho Fráguas. Rosa! Coalhadas de volfro... Têm aqui uma pinta. com tanta surpresa dos compadres que a bocarra lhes ia de orelha a orelha e os olhos pareciam de olharapos. já lá andavam a esfossar. confeccionados à compita pelo Chedas de Caria e a Rosa de Lamego. a osga com.O que vossemecê quis foram as pedras que estão coalhadas de volfro. E não houve razões que o levassem a mudar de parecer. de modo a que o trabalho pudesse correr com segurança e o indispensável despacho.

que remédio. já que negócios são negócios.. já daqui não queria ser aviado. quando neste passo prometi até ir descalço e sem fala. E ali marralharam os dois como se se tratasse de comprar os atafais para a besta num albardeiro da feira. Queria que botassem olhos pasmados ao portento e se dissesse: . de fita na unha.Não sou. andava com os olhos abertos. medir mais dois palmos de alto que o de S. não houve dúvida.amortalhados. o Calhorra exigia os tafetás mais garridos que trazia nos fardos e uma arquitectura espampanante em estilo só dele. mas quando encostou a grande tocha ao bento lado de S. Pagou quanto o cirieiro quis. nunca se julgara tão alt& Do que ele rebaixava para o que era em seu ser iam nada menos de dez centímetros. quanta ronha podia.Tinha que é nessas profissões que se aprendem certas manhas que nós cá sabemos. O mundo. O Calhorra concebera um andor ao Arcanjo S. produto do seu rico dinheiro. Além de regatearem quanto ao preço. . patrãozinho. galhardo e alto. Prometera um círio da sua altura. . punha no lance. nem sonhada. . e todos os seus artifícios redundavam em farelório como foguetes de lágrimas. desembolsando à justa. que foi preciso o homem meter-lhe um bote à barriga para o entesar: . encolheu-se de tal modo. cáspite. Sebastião.. mas. Quando aquilo viu.Levante a grimpa. O mesmo unhas-de-fome se mostrou o Calhorra com o cirieiro. o andor do tio Silvestre põe o ramo? Só se acomodou quando viu o andor. que podiam tomá-lo de ponta. . tão alto que fosse preciso esgalhar as árvores pelos caminhos para romper. lhe mostrou quanto media. mas nada de alargar os cordões à bolsa.Caramba. Pagar as dívidas aos santos. . se nã~o fosse a esquadra do Governo Civilficar aqui ao pé. e o lojista pegou do metro para lhe tirar a medida. Um metro e setenta e oito.rosnou de maus fígados. isto é. sorrindo com afabilidade. embora debalde. nunca vista. orago da freguesia. mas não havia outro remédio senão arrotar. Miguel. Pois que as celestes potestades não perdiam nada se comesse armador e cirieiro como fazia com os volframistas. O Calhorra abanou repetidamente a cabeça sem soltar bus. a fazê-lo.Farto de me deixar roubar ando eu. quanto mais descer a ladrão com quem nos dá tud& Se não fosse por ser taxado de soberba. mas se fosse que tinha isso? . E que lá na sua queria dizer: a brincadeira dava-ta eu. 128 . fazê-lo segundo as regras. tendo resultado uma bisarma tão sumptuosa que era preciso pegarem-lhe oito homens. ainda mais comerciantes de pé fresco. com efeito. e que o cirieiro compreendeu. pois embatucou e foi com respeito que. dobrando-se ao mesmo tempo. Mas é a última vez! . Entre armador e Calhorra foi uma matação até chegarem a acordo.Não vê que são os anos. Eram uns tantos mil réis que do samarro lhe saíam.Qual anos nem qual carapuço! Olhe lá. vossemecê não será retroseiro? .dizia o Urra que servira em artilheiros da Serra do Pilar. seu homem.Nem a torre dos Clérigos? .Não se abespinhe por tão pouco! Estou a brincar proferiu o comerciante. Miguel teve a consolação de notar que o arcanjo ficava ao pé dela como marujo ao pé dum mastro.

bem embora lhe soubesse a vinte escudos que era quanto escorria do seu bolso para o bolso do celebrante. na égua rabona com a Verónica à frente. fato de saragoça preta. depois os andores. que aprendia para padre e já andava de saias. Que me diz V. os anjinhos não tiravam os olhos deles.Prometi figurar na procissão de amortalhado e sem fala. e comprimiu-se o populacho contra as quatro paredes. ficavam à conta das esmolas angariadas pelos mordomos de porta em porta na roda do ano. com joanetes altos e rugosos. corrente de jarra ao peito. para não parecer mal. sempre o tio Silvestre no rebanho dos vultos brancos a dar nas vistas como o rei David. Além de curta ficava-lhe apertada. O desfraldar dos estandartes teve que se lhe diga. Foi assim que se apresentou em S. Era gente expedita. O Calhorra não quis nada com o fedelho e foi procurar o pároco verdadeiro: . que era em panocru.a S. Mas por mais de uma vez o penitente se queixou que o picavam. e foi de cara dura e voz que gelou o sorriso nos lábios dos circunstantes que disparou: . Era o instante solene. também à conta do pároco.? Se não vou. alguns pedidos às igrejas vizinhas. Havia ali outros penitentes com suas aderecistas. e a bateria de calos monstros verdadeiras nozelhas de carvalho. mas as pernas não me deixam fazer a romaria por Mouramorta. música e canto. Brás. Também era costume pedir a cruz de guizeiras a Rabaçais.O Simão Tadeu passara a sobrepeliz ao Custodinho da Micas. R. Imensos e deformados pelo reumatismo. o que era um bico-de-obra. Brás. esperou na venda do Adolfo que batesse a hora. um sermão que há vinte anos era único e invariável e tinha o mérito de arrancar um chuveiro de lágrimas às mesmas caras e a outras que se dispunham a suceder-lhes em tal papel. gravata. acolitado pelos abades de Pedrões e de Rabaçais. O Calhorra assentiu.Ó meninos. e foi preciso deitar abaixo a bainha. nunca vistes as patas de vosso pai? Quando a procissão acedeu à capela. Quando o foguetão estralejou à entrada do povo a comandar: a postos! dirigiu-se à sacristia da capela para em calma e à vontade envergar a mortalha. que lembravam as incrustações de certos moluscos na rocha. e os rapazes outro a Santo Apolinário. os mordomos deram voz para o saimento da procissão. Como era cedo. sôfrego de ouvir a missa a instrumental e o sermão que.Ide lá pôr alfinetes a casa do Catano! Isto é mortalha ou samarra dalgum oiriço-cacheiro?? O pior do pior foi quando teve de tirar os butes e ficar com os pés a descoberto. e a mortalha no alforge. Perante tal abusão. Rompiam primeiro os guiões. teve de os repreender: . Mande rezar uma missa ao S. faria chorar as pedras. e a cruz de latão com o Cristo de saiote a Manfurada. À força de pontos e de alfinetes conseguiram enfiar-lha. ainda a procissão estava a sair de Mouramorta. andores para outra. O José Francisco era farfante e encarregou-se de levar o guião de Pedrões. Oficiava o reverendo Tadeu. o de S. destes em lugar de honra os oferecidos pelos devotos de S. Mais dois. Depois do sermão. Brás e o de N. e muitas mãos se estenderam solicitamente a ajudar a vestir o senhor presidente da junta de Freguesia. A veste. queda o voto por cumprir? . se fosse como o dos mais anos. e por ali fora. Miguel e está quite. As raparigas mandavam fazer um a Santa Luzia. guião vermelho de 129 .a das Sete Espadas. apartaram-se anjinhos e penitentes para uma banda. foi um rufo. estava-lhe curta. quanto a acompanhar a procissão a seu destino. advogado nas quebraduras.Não senhor. advogada nos achaques da vista.

Vendo a sua atrapalhação. tomado de furor. O Aires ergueu ainda mais alto e. bem embora lhe exigisse mais esforço do que andar agarrado à marra. flutuou a todo o pano com placidez e galhardia. imprimindo-lhe um alancão como se desprendesse uma ave.. sem dizer palavra. com o seu encabado na faixa. atrás do Urra. Seguiu-se-lhe o guião verde. vestiu a opa. ou davam tal açoite contra a vara. remeteu-o às alturas. Seguia-se-lhe o Manuel Calhorra que tinha corpanzil de boi e que também se avinha menos mal com o branco de Mouramorta. com envergadura tal que cobria meio adro. Logo após avançava a chusma dos anjos. de ranho caído.Ainda há rapazes. opressos sob o peso dos grilhões e escravas. mal passou a galilé. que ele via-se em sérios apuros para não o deixar abater sobre o gentio que recuava assustado a toda a roda. O Aires deu o chapéu a guardar. que requeria pulso rijo e quem tivesse comido já umas certas rasas de sal. Um boizana assim avanta com os telhados para os quintos quanto mais com um pendão'. ainda há rapazes? exclamou o Augusto Alres adiantando-se. não obstante o grande peso das franjas de oiro.Ah. Levava-o Lázaro Fandinga e não era maravilha que arcasse com ele. caminhou a ocupar o seu posto na procissão. largou-lhe o estandarte com gesto desdenhoso. Ora o José Francisco. voltavam-se enfunando o pano. puído do tempo e fanado de suas lhamas e borlas. depois de o soerguer arqueou levemente o tronco para melhor lhe dar balanço e. Com dó dele. O melhor é recolher os guiões. despregando-se. confiar-se. fosse ele no meu tempo e vocês haviam de ver quantos apareciam para levar o guião? Acabou-se a rapaziada.. O primeiro a romper fora o Quim da Urra e. às costas asas desplumadas de galinhas brancas e de patos. com ele tombado. Os bicos triangulares. e deixavam-se conduzir pela mão das matronas que os tinham caracterizado. lá ia direito. Dás licença?. um dos mordomos proferiu: ..Está uma grande ventaneira. O terceiro era o tal pendão de Pedrões. um momento se encrespou. raios. Sem pressas nem vagares. que se tinha pelo mais valente. não se conteve que não bufasse: . Rolavam-lhe pelo rosto grossas bagas de suor. refartos de 130 . deixa.. o pano desfraldado revestia-se de alento superior ao seu. Logo por fatalidade soprava ventinho rijo e repontão que desdobrava o pano melhor que asas de gaivota. no momento mesmo em que começavam.. a enrolar o pano contra a vara para o recolher à igreja. . como se tal impotencia constituísse uma afronta para o seu brio de penitente. mas embora firmasse na cinta o conto da haste e com o desespero os dedos se lhe tornassem garra. O José Francisco ia a arriar mas o Calhorra. ao passo que a raiva e a amargura que lhe iam na alma lho enegreciam como fuligem. Obstinava-se José Francisco.vara alta que nem um choupo.Quem leva o guião sou eu. que estava à entrada da galilé com o rancho. voto de um brasileiro à Virgem Santa Quitéria na iminência de se ver papado por um tubarão. O José Francisco. em duas alas. A grande asa rubra pareceu sentir o pulso forte. . desatou aos bordos. não há braço que aguente. senhor Silvestre.. ergueu o mordomo o braço: . cuja carne banqueteara fidalgos e senhores eclesiásticos que já não eram deste mundo. moço. sacudido pelo bater impetuoso da grande asa vermelha.Deixa. Tinha centenas de olhos em cima dele. Depois. e. e deitou as mãos ao estandarte. com ele trepidante e majestoso.

Com harmónica ou sem ela. nem por isso a festa teve remate. Deus que é pai lhe perdoaria. aflautada. Brás. que o descante. de romaria aos quatro grandes cruzeiros que flanqueavam o lugar de S. esbagulhava-se em lágrimas. avançavam com segura cadência. Caprichou o José Francisco em desertar da sua terra e vir alegrar Malhadas com a concertina. no caminho para S.Falais ao toledo. chegavam do cimo ao fundo do terreiro. Brás. tio Silvestre. Miguel. bem como de Mouramorta. os andores. e em matéria de sainete poucos lhe levavam a melhor. Boquejava-se: . o mesmo era que dissesse: . O facto prestou-se a que engrossassem os zunzuns que há muito andavam no ar. E lá ia. procurassem-no ali. com o correntio de relações que se estabeleceu entre José Francisco e José dos Cambais. comeretes e beberetes por três dias e três noites. A Teodora não pode ver o filho do Antoninho nem pintado. Brás. Bem se derrete ele. Brás.lindezas. as cruzes de prata e de latão refulgiam porum sol que teve a bondade de se associar à festividade. Aos domingos não tinha outro poiso. assentes desde longe. sócios da mesma empresa. armou-se o danço. que era dança para todos. punha maior fanfúrria e era mais próprio dum dia de grande borga. já que não fora por querer. De volteio em volteio acabaram os festeiros por estacar no largo da capela e armar a chula. além de Malhadas. Raios o pelem. as duas alas. é o pingo da rocha que cai para o chão enquanto o padre reza o responso. mandara a mulher ir à sua ilharga. o mais alto dos amortalhados. Mas também não era só uma pessoa nem duas a protestar: . que não se importa de quebrar o voto para atirar assim o homem ao desespero! Só então o Calhorra se lembrou que infringira a promessa. para maior cautela. aquelas terras que lhe ficavam aquém. O mordomo que estivera na pendência dos estandartes chegou-se neste entrementes ao Calhorra. aquele fora-se insinuando na vida do lavrador. resplandecentes como tronos.Quem há-de acabar por levar a borrega é o filho do Antoninho. inflamou-se o despique entre os cantadores. daquele jeito. e disse-lhe: . A música à sua espalda fungava um pase-calle estrondoso. ferrinhos e viola. sem falar já de S. Contra ele versejavam o José 131 . e o Calhorra. a ninguém causou espanto ver o José Francisco em Malhadas. muito sensibilizado com tanta grandeza e tal preito divino. Com tal esparrame. na compra e venda de gado. bamboleando-se nos ombros dos mocetões. a passo de boi. Assim. frequentando-lhe a casa e acompanhando-o por felrãs e alcriquetes. de que se compõe o balho. Batiam ali calcanhar. O Joaquim da Urra tinha voz sã. Limitou-se a acenar com a bengala. Quando ao entardecer a gentiaga dispersou. senão ensinava-te o respeito? Silvestre Calhorra apoiava-se à bengala de castão de rangifer e. Em verdade.O José Francisco deita a alma com vergonha. tornando cada poviléu para seus cabeços. mas.O que te vale é eu ir aqui a pagar o grande favor que devo ao S. Desta feita a concertina cedeu a vez ao bombo. Em virtude de presunções tão opostas. Tão certo o zorro ficar a fazer cruzes na boca como eu chamar-me Lourenço e ser de Braga. se o quisessem achar. quando o saricoté feria lume nas calçadas de Mouramorta e de S. porque aí a solenidade prolongava-se em balhos. Nos terreiros de Malhadas. através das ruas varridas e com a gente ajoelhada pelos penedinhos.

embora o seu par a requeresse com insistência. mas o reumatismo falseava-lhe os movimentos. sobe e desce. Não ta merece. acudiu. das raras vezes que lhe subia ao capitel. Mesmo assim. é que vinham ao fundamento da boa peseta que ele era. os cachações que se vira obrigado a aplicar a este e àquele. Requintava o balho em evoluções. vira-vi. meteu-se para o meio das outras e.Francisco e o Luís Ougado.. A rapariga cruzou o xaile do ombro para a cinta e foi. Azango. O vinho. rebolando a anca e castanholando com os dedos livres. Punha-se então uma madalena arrependida e todo se desfazia em lamúrias pelo tempo que perdera. Continuava o danço no largo muito alvoriçado. entrança e destrança. Quem não deve não teme Nem se põe a cortar prego. dava-lhe para o melodrama. dando-lhe com o cotovelo: .Não faças essa desfeita ao homem. surdas outras quando adjudicadas de noite à porta dos serões. Os pares agora subiam e desciam. até então por algum cuidado da última hora. Mas andas muito enganado. rodopiavam numa perna só e ele chorava. empurravam-na. até endireitar carreira. um honrado pifão. Era uma das sortes da chula enquanto o par do alto e o par do fundo revoluteavam enlaçados. A moça escusou-se. pela vida fora. Consigo vou ter sem medo. E ao refrão vira. rompeu o 132 . Da atitude dos três ficaram todas as comadres murmurando. mais amalandrados do que é legítimo sofrer o cristão. Quanto a ela. Vendo Teodora a dançar com o filho do Antoninho. vira-vi. as mangas intermináveis do balho.Vai. Menina. a fugir ao desafio em que era de toda a evidência ficar desbaratado ou para desmentir o subentendido que pudesse transparecer da quadra do Urra. mas depois de o ouvirem pingueiro a contar as cacetadas que tinha à sua conta. Queria valsar com o antigo sócio. E novamente o Quim lançou à zanguizarra: O que tu querias sei eu. e o José Francisco. Entretanto andava a caneca à roda e o Calhorra. O José Francisco entretanto garganteou: Se à sua porta corre água. E logo o Quim da Urra despedia com requebro malicioso: Não corre água nem vinho. as topetadas que dera. cavalheiros com damas.. assim que chegou a primeira suspensão. mas faltava-lhes veia e ralé para competir com o cantador de fama. damas com cavalheiros. mas não disse palavra. à má cara umas. Andava a bailar. em arco por cima de cada ala. fez-se mais branco que a camisa gomada que trazia. não arredou da negativa. distraído. o home é cego. foi no seu íntimo. apareceu à boca do adro o Augusto Aires. Mas. os pares davam a volta e subiam tornejando com os demais pares. julgou-se também no direito de tomar. já toda a gente sabia que o tio Silvestre não era para cócegas. foi convidar Teodora para sua dama. que mal tem!? O Zé dos Cambais percebeu e muito trôpego. Que por andar ameaçado. Mas as outras raparigas. além de dar licença aos sarrafaçais dos filhos para se emborracharem a última vez. que ninguém lhe viu demudar cor nem jeito. a bailar ficou. menina. mão na mão. o rego. dizendo todo chorão: . tem-te não caias. Pra quem pêro está guardado. Vai o pêro. se encordoou. de companhia com o José dos Cambais. diz o outro.

Pronunciadas tais palavras com certa sequidão despediu rua abaixo mais o rapaz.E depois? . Ou. Falava com dificuldade. ainda na praça tiniam os ferrinhos e zurrava o zabumba. Agradado. depois de jogar ao ar o barrete de pele de coelho: . esquecendo-se que estavam de relações quebradas. porquê? É um amigo às direitas. . que assoberbava durante minutos a povoação.entoou o Ougado. Ao fundo do patim chamou pela senhora Verónica que viesse tomar conta do cativo. ela picou: . Aparece. de xaile descaído para a cinta. se não com pesar de interromper o plantão que fizera todo o santo dia. começaram a despedir umas após outras. o velho disse-lhe. Mas as mocinhas ramboieiras.. puderam ficar à vontade. Ao entrarem os rebanhos nos currais.e batia no peito. obrigadinho! . Como ao lado deles marchasse o Luís Ougado. Tivemos ambos um peguilho. ou pô-la a salvo de temporais. mais zambro do que nunca. meu homem. As danças prosseguiram até a noite remontar dos vales para as aldeias e os picotos dos montes. o Calhorra. Onde ele cair caio eu .Sentes-te ameaçado? -.Sinto e não sinto.temos de falar com o coração nas mãos. . aclui não se corta prego? . ouviram-lhe que dizia: Este moço vem connosco. veio para ele.Devo acreditar que têm razão. sabes? É que não tenha uma filha que ta dava com os dois vinténs que guardo num buraco.disse ele no tom sentido. O Luís Ougado apartou-se cabisbaixo. para o acompanhar a casa. embora de pé menos lépido do que tinham vindo.Antoninho de automóvel. de caneca em punho. que parecia peado. mas agradecia como se tivesse bebido.. O filho despegou da zanguizarra.Está bem.Teodora . de ar torvo e sem erguer os olhos. O Augusto Aires deu o braço ao Calhorra. . . Uma pessoa disse-me: vou-o jurar.. de quem joga tudo na vaza .. Entre elas Teodora.Sabes a minha pena. nem sequer atrapalhou o bailado. que parecia meio pingueiro. O pai acomodava as vacas.. . A nuvem de poeira e de balidos. O moço trazia Teodora dentro do peito e foi procurá-la. . Brás. Fica-te com esta e podes dizê-lo à lambisgóia do Zé dos Cambais. a escolher caminho. Como a pausa se dilatasse.. a abanar a cabeça a um vago inimigo. a velha entretinha-se com a ceia. com o fim de afogar duma vez para sempre a sua paixão. .. Rosna-se para aí que te viraste para o filho do Antoninho Fráguas. quem? . Mas deixem lá berregar o paspalhão do Urra. em sua importância sentindo-se talvez afrontado pela presença do bebedola.. Afidalgado. quase titubeante.repetia o Luís Ougado na cegarrega obtusa de borracho.perguntou o Antoninho fitando o filho. desculpou-se Fráguas com não beber fora das refeições.Onde ele cair caio eu . não se fala de pecados velhos. . ao só cio da vigairada.Ao pé de mim não há azar. desde S. Augusto.? . dize lá. deu em bem.As bocas do mundo. ou. 133 .Não há-de ser preciso.Razão. para esconder o pesadume.significou-lhe o Fráguas.proferiu ela um pouco no seu modo arisco. um tanto exalçado pela laracha do homem.

Teodora. Intercorreu uma pausa. rija. tudo tem fim. Torna-ma a dizer. em que comungava tudo à volta. como: não tem pés nem cabeça. nem disse: deixa-me? Quando voltaram à terra. E volveu: .replicou ela com sequidão.Assim és esquecido?? . Se é o que eu suponho. pô-la em cima dos seios sem aquele pudor com que as raparigas fogem ao toque atrevido dos rapazes. mas para ti não deve ser novidade o que corre a esse respeito. viver e sofrer. Vês. de olhos em terra..E que palavra é essa. O que não se compreende é a aceitação que tu lhe dás. Meteram-mo à cara.Dá cá a tua mão.E tu que julgas? Soltava as palavras no seu jeito despachado e tom escarnento.. As raparigas em volta: vai..Mauzão! 134 .. quase tão pétrea como a massa da masseira a ponto de levedar. E tartamudo balbuciou: . .proferiu ela num trejeito que transitava repentinamente do sério para o jocoso e regressava logo ao tom primeiro. a sua tortura era atroz. moldava-se no seu peito. Entrava-lhe nos pulmões ar fresco.. Ele e teu pai são como cabeçalho e chavelhão. meta sisuda. meia sorrindo: .. conhecendo-lhe o génio: Não julgo nada. . Perdido e achado é em vossa casa. .Ouves bater o coração.. moldava-se branda como a cera.. enlevo que não espanto.Dize-ma. Olhava para ela e como a visse calada.. grande pausa. . Pegou-lhe da mão. Era uma razão para te negares.. e numa voz em que latejava não sabia se amor se ira pronunciou: . Depois. o sujeitinho agora não sal da tua beira. Mesmo assim porfiou: . que não estou bem lembrado. Para onde for um. Eu não o chamei. Teodora.Torna-me a dizer essa palavra. .disse ela em voz áspera. disselhe que não. aquela espécie de ar fresco que não vem apenas da atmosfera e embebeda como o melhor vinho. abençoada seja a luz que nos alumia... é verdade.. ela murmurou.Dá cá.. que ta não corto. .? Não me vais dizer que trago cataratas nos olhos ou que andavas forçada.. vai outro. Mais do que isso. que tanto podia exprimir: sim.Já te disse e torno-te a repetir que não tenho nada com o que os outros pensam..? O Aires quedou um instante em suspensão.. Mais uma razão para definirem suas vidas.. suponhamos. Teimou.Não lhe dou aceitação nenhuma . imóvel. Aí tens porque me viste a dançar com semelhante meijengro. estreitou-a contra a apojadura das pomas. ouves? Eu te digo o que já não devia ser novo para ti: tua ou de mais ninguém.Pois sim. O céu e a terra revestiam novo aspecto para o Aires.Pois andava e andava mesmo? Não acreditas? Podes acreditar.. paciência. Moldava-se. hesitante em ler-lhe nos olhos aquilo que tanto buscava. como se ditasse uma ordem a quem fosse mau cumpridor. Foi-me cometer para o baile. . Tenho com a minha palavra e o meu querer e basta. que a cabeça não me governa bem. Suponhamos que semelhante compadrio é devido ao negócio. Que homem és tu para guardar memória de coisas que bolem com a vida toda duma pessoa. porque não hás-de ir? Meu pai teve ventos da minha má vontade e veio-me ralhar.Ele tornou.Ora essa. se não. .. Augusto apertou-a contra si e ela deixou-se apertar. . não o bispei agarrado a ti a dançar.

Teodora. tendo-lhe acudido ao espírito que a mãe podia estar em cuidados com a sua ausência. necessária a sua quietação. uma chamazinha trémula. antes de se ir deitar. Teodora confundia-se consigo.. Para tirar a prova real. sem noção do itinerário. mesmo na ribeira. a mãe. total: sublimação do humano. se dormia. perscrutanto à direita e à esquerda. nã o. ruminando a grande felicidade. Eras a minha vida. irradiante. deteve-se um ápice. E com os seus botões considerou que o Cambais. Foi-se dali. Cada vez mais apressado. Uma névoa leitosa de amanhecer recobria tudo nos horizontes da sua imaginação.. 135 . entrava já na sua rua. com as ondulações caprichosas da casaria lembrava um barrocal. Agora. Para gente tão meticulosa o facto era singular. notou com estranheza que no portal carreiro um dos batentes estava escancarado.. Haviam-se calado há muito as vozes que quase adormecem a rezar sobre o açafate e. Uma vez diante da moradia do Cambais. e bendita sejas! Por mais tombos que dê. quando se sentiu levado por uma irreprimível veneta a torcer caminho pelo domicílio do José dos Cambais. À entrada do povo que. mas sem fazer ruído. Dois minutos concedem-se ao homem que vai a enforcar quanto mais ao coração alvoroçado? E abandonou-se à vontade pueril de rever. Teodora. tinha a noção de que marchava. O escuro adensara-se acrescido dos bulcões que o vento tocava do norte e que. não havia de andar sobre brasas?? Mas perdoa. Na casa do guarda. Não se ouvia nada de nada.Tiraste-me. e as giestas acocoradas nas rampas. anunciava: vigia. em boa paz e segurança. duas notas do chocalhinho tangido pelo carneiro ao coçar o piolho. deixou-se ir ao acaso pelos caminhos fora.. Um ventinho assobiador vinha da serra e tão-pouco dava conta dele.. se esquecera à última da hora de pôr trancas às portas.. acabaram por se entornar na terra. Foi andando a passo cada vez mais largo. as pedras o juravam com o seu sossego. entrou na quintã. como no concurso harmonioso das leis da vida uma vez pode acontecer. sim. como se por cima da terra o sustentassem asas. pé ante pé e reprimindo o fôlego subiu o patim que conduzia à casa propriamente dita. O mocho piou e as notas agoirentas pareceram-lhe alegres parabéns. o senhor Hincker e a menina erguiam-se-lhe diante tal os arnieiros nas margens do rio. Tanto dentro como fora nada entreviu de suspeito. saber que ela lá estava a dormir. o Calhorra. ainda sob os fumos da pagodeira. rolando no céu baixo. soçobrado em silê ncio. os olhos dela e os seus numa só luz. Eram duas almas numa só alma.?! Mesmo. fustigado pelas rabanadas glaciais e farto de tropeçar nos calhaus.. leve. inebriado de amor. trazido pela pancada. Onde ele estava. era a noite inviolada e profunda. com os cães enrodilhados nos ninhos. que não se via a linha dos troncos. por mais trabalhos que passe. No patamar afitou a orelha. com a breca. Passou à beira da mina do Vale das Donas com os aterros encavalitados a trouxe-mouxe e os tejadilhos de fibrocimento mal sobrenadando no imóvel e imenso mar da escuridão. mil penedos de cima do peito. as paredes que alojavam a sua Teodora. Que ressaibo o da sua boca? Que fluidez no seu sangue? Leve. O sol. E pôs-se a arrepiar caminho. nunca és recompensada da prova de confiança que me deste. seguro do mundo. Respiro. E afoito. Os pés o guiavam certo e direito como se levasse rumo. Era noite e não se apercebera ainda bem da escuridão. o vagido do menino que logo esmorece sufocado contra o bico do peito. as comas dos pinheiros novos em levitação.

Voltar para quê? E de ímpeto. e o Aires deitou a mã o à machadinha que entrevira a um canto. mas semelhante a bicho que anda à caça. Quem era não estava ali por bom. portanto. disse para a mãe: . afirmando-se melhor. meu filho. e afigurou-se ao Aires que manejava um estadulho. mal teve tempo de se dizer.Não é nada. coitado do homem! Embarrilaram-no uma vez. a prevista forma humana entremostrou-se projectada contra a palha branca que lastrava a quintã.. quase fulgurante. destes estadulhos da carreta descascados e mais altos que um homem. Varrasco?” E a infame dúvida de há pouco voltou a bater-lhe na cabeça e ele a recalcá-la. Depois. afigurou-se-lhe reconhecer o José Francisco. não é nada comigo. definindo.salvo o vento nos pinhais do Oiteiro Alto e a toada dum fio de água a despenhar-se do talude. disse-lhe a tremer toda: . que o Cambais tinha de reserva como todos os lavradores. Agora. Breve. Sorrindo contrafeito. Vendo-a embrenhar-se na escuridão para o lado das pocilgas. a desenhar-se.Ai. Não lhe dissera Teodora: “Tua ou de mais ninguém”? Mais do que isso: não lho demonstrara? De súbito. parado como se estivesse novamente irresoluto ou à espera.. Aquilo é como um 136 . quem era devia fazer a sua socresta. descalço ou de alpargatas. Na breve pausa que se seguiu ao acto de decisão: vou-me embora? figurou-se-lhe ouvir na rua um rumor imperceptível. que te fizeram. Lá estava. E ao desenvolver-se em altura a arredondar-se de linhas. A mãe veio abrir e vendoo transtornado. mas essa repelia-a como iníqua e absurda. O Aires quedou um momento interdito. mas não lhe fazem segunda. Talvez voltasse. ainda mais intrigado do que inquieto: “Vem para roubar?” Uma segunda interrogação brotara no seu espírito. homem sem dúvida. escoava-se na noite sem ruído nem rasto. fui até o Vale das Donas. Quer dizer.. não destituído porém de certo recato. a ofegar. fosse reflexo dalgum dos seus movimentos. Bateu à porta com mão nervosa e insistente.. virava a esquina e. foi-lhe empós. E outra vez se perfilou contra a ombreira. assestados com fixidez hipnótica sobre o noitibó. para os fundos da quintã. e até pelo pigarro que a custo sofreava. pela estatura meã e certo franzino do tronco. e foi quanto bastou para o petrificar de novo na imobilidade. descosendo-se da porteira. Foi instantâneo. contra o mainel. Olhe. pois se ouvia o sonido da ferramenta e de paus ou tábuas entrechocando-se. Uma inalterável e peganhosa modorra de inverno recobria a aldeia e a terra toda. O rumor pouco a pouco foi-se acentuando.. machadinha em punho. Soprou ao desafogo. atravessou os umbrais.?. Mas. fosse ilusão dos seus olhos.. Foi como se lhe tivessem cravado um punhal no peito. “Ladrão. até se traduzir num chapejar seguido. uma sombra enovelada delatou-se pelo seu chumaço de negror no vão da porta e aí fez alto. pareceulhe mais o Ougado.” Mas o vulto tornou a crescer na penumbra.?? Que te fizeram que não vens em ti. sossegue. como se viesse furtado a perseguição. não parece. Tinham-me avisado que certos ratoneiros que para aí há andavam com tenções de dar um assalto ao filão e quis ver se o guarda dormia ou estava no seu posto. um instante perplexa ou cavidosa. Mas já o vulto. “Alguém que precisa duma enxada e vem por ela onde sabe que não faltam.

Era a tela da pessoa discreta. À luz duma lanterna pousada à beira. não sabia como nem quem. o cabelo em pasta sobre a testa e o toutiço tão feito em estilhas que se lhe tocassem tremia como uma abóbora melada.. e.. viu sem manifestar espanto o José Francisco estatelado no chão. Que assuada será aquela? Uma voz clamava . olhou para a mãe. Quando chegue. Muito menos acreditaria na verdade pura. O golpe que o prostrara devia ter sido dado à mão~tente com olho de sachola ou grosso varapau para assim quedar a caveira escaqueirada. Não obstante.Quem foi trazia-lhe gana? .Então que quer. Ao proferir tais palavras. desconfiada que lhe escondem coisa grave. percebeu que estava a dobar a sua teia. Na camisa de goma. lamentos e rezas. que não tem medo de nada.Mãe. abertos desmesuradamente. e esse brancor falava da festa de S. . . como o piar da coruja. .? Então não ouve?. Augusto volveu de novo olhos para a mãe e. ouvi na rua uma barulheira que me assustou. cujas sombras oscilavam até desmaiar por cima dos telhados. subitamente. nal prestando atenção ao que lhe diziam.Jesus. Para que ela compreendesse. . fazendo-se muito branco..exclamou a mãe. vendo-a de pupilas assestadas nele.. E de facto ele alguma coisa escondia... ainda mostrava os colmilhos a rosnar. e depois de falar reparou que a sua voz soara na açudada de imprecações. ensopada em sangue. Escondia-lhe que. ao pé dele e lhe falei. Ouvia-se um burburinho de enxame alvoroçado. se conjuravam contra a sua felicidade. exclamou: ..Agora ao entrar. E também sem náusea alguma inclinou-se a observar. da noite assombrada exalava-se urna impressão única: Homem morto! Homem morto! Foi atrás da mãe. . luziam ainda ilhéus de brancor. Não acreditara nem uma só palavra de quanto acabava de lhe dizer com boa lábia. Comeu em sobressalto. Brás.disse ele. Reparou ainda que muitos olhos se cravavam nele interrogativos. assarapantado!. assim. era demorado. ...Homessa! Um valentão como tu. muito demorado explicar-se e melindroso desvendar-lhe o que tinha de ficar oculto. Deve ter sido para o pé da casa da Pedralva.observou-lhe ela. Essa voz foi engrossando pouco a pouco e agora parece enchia as ruas. Tinha já os olhos vidrados. procurando ler-lhe nos olhos..Ouve.. tornou com o vero acento da franqueza: . Abriu a porta. Em dada altura estacou de garfo no ar. repcso de 137 .. desvendar-lhe o facto estupendo que fizera essa felicidade. vá ver o que é. varava através dos pinhais e leiras de centeio o próprio coração da terra.ladrava à volta do resplendor dum lampião.cão da Serra.? . não acha.clamava não traduz bem aquele gorgulhar de sons guturais e incompreensíveis . deu-me para ter medo? Que tem de ceia? A mãe pôs-lhe na mesa o ensopado que há muito tempo acalentava ao lume para não arrefecer.. Do sussurro. com a cabeça feita numa bola de sangue e lama... . Era o relâmpago que na noite negra ilumina subitamente a imensidade com sinistro fulgor.É o povo. postado um pouco de esconso entre a ombreira da casa da Pedralva e o rancho das mulheres. de alevante. do clarão das lumiciras trémulo e fúgidiço. ao tempo que torcia a cara para a banda.. se lha dissesse. pois lhe havia de parecer também a mais acabada das patranhas.

iterou o Aires como de peito feito. Fora o João Sancho que. proferiu impensadamente. com um froixo de riso forçado. para a aldeia.sentenciou outrem. a morte devia ter-se dado depois das dez. que desde a alva se esbagoava em alto pranto. mas obedecendo ao instinto de varrer de si qualquer suspeição. O adjunto engrossava cada vez mais e a tia Pedralva. vá que é uma obra de misericórdia! A Pedralva não foi por ela. já não sentiu bater o coração. Sobre tal particular não havia discrepância. não podia ver sangue! O regedor designou por escala os cabos de ordens que haviam de velar o assassinado e o povinho dispersou aos quatro pontos.A travesseira lava-se . com a cabeça debaixo das mantas. Repetiu o apelo. Afastou a mãe. tropeçara no morto e soltara brado. sem reparar bem no que dizia. já noite velha. em hora a que ninguém o vira. . Chocalhou rua fora a tamancada a par de grosso vozeiro: Regedor! Regedor! Entretanto crescia o babaréu em volta do cadáver. Meio arrelampado. O José Francisco fora visto à boca da noite desandar sozinho pela estrada fora. e como ninguém lhe respondesse.. ao largar do estábulo onde estivera a acalentar a vaquinha parida..advertiram-lhe.Vá por ela. Depis. Mas voltara para quê? E voltara sozinho ou acompanhado? Não eram ainda onze horas. Outra vez o Augusto Aires. resolveu-se então a ir buscá-la. Manhã alta. .ter aberto a boca. começou em voz grunhida a clamar pelos cabos de ordens. emitindo as suas opiniões e bichanando os seus palpites. a escapulir-se. tacteou a ferida. Revendo-se na sua boa acção. pau argolado. tia Rosa. Quem a fizera. chegou o Antoninho Fráguas de automóvel. na direcção de Mouramorta. O corpo ainda estava quente.exclamou um dos presentes. debruçando-se sobre o corpo. mas a Polónia Fandinga. como que interrogando-se sobre o drama que o vitimara. a coitanaxa da Júlia Minga. Mas não podia dar razão de vulto.A travesseira suja-se com o sangue que ainda está a escorrer da brecha . que tinha a casa mesmo em frente. de que ele próprio se arrepiou: . 138 . por seu belo querer. A avaliar pela tepidez do corpo. a destrancar ainda os olhos da ramela. . a bater o dente tão alto ou tão rijo que nem que curtisse maleitas. foi pessoa sabida? Neste meio tempo chegava o regedor. demais a mais domingo. pois saltara da cama estremunhado dum destes sonos que só têm igual ao das bolas das pirâmides nos pináculos das igrejas. sombra sequer. veio com uma manta e deitou-a sobre o cadáver. deu conta que faltava uma travesseira para lhe meter debaixo da cabeça. ou melhor levado no sistema de sacudir a água do capote. mas dos degraus do patim por onde se subia para sua casa chamou pela filha que lha trouxesse. sendo assim. Mas. que voltara a examinar o cadáver. .. Aquela tinha mesmo alma de cebola.. ajoelhando e colando-lhe o ouvido ao peito. Mais de quatro testemunhavam em conformidade. Contou depois que a Florinda estava na cama. e ficou de pé a fitá-lo. . . abraçada ao filho.Então o regedor dorme-lhe?? . fizera-a bem feita e esgueirara-se como um trasgo.já devia aí estar? Vão chamá-lo.Vão chamá-lo? Pois então não hão-de ir chamá-lo?. . como se explicava que aparecesse morto numa rua de Malhadas? Explicava-se admitindo que voltara atrás. ninguém se dispensando de aventar a sua hipótese quanto à forma como o crime poderia ter sido praticado.Não há dúvida.

aprumou-se para dizer: . . quanto mais matar um homem. andai lá! Levais um inocente. Seguiram. No caminho encontraram-se com Silvestre Calhorra que vinha para o lugar do alevante. e acabou por dizer: . mais ditérios e segredinhos e no silêncio a voz de Teodora ergueu-se irada e resoluta: . . olhos no chão. eu lhe darei o arrocho.e desatou outra vez numa risada. esse lhes afianço eu que não foi! Não foi? É falso? Como a autoridade parecesse hesitante.Já prenderam o assassino? Estava ali a autoridade que o encarou com olhos de espanto. Figurou-se-lhes que o Augusto já os esperava porque o viram a sorrir. meio tartaranha. O filho deixou-se conduzir. tão certo como o sol que nos alumia?. à traição. murmurando sempre: . .. 139 .proferiu o Luís Ougado em voz alterada. agravado em sua regedoria.. Ficaria. Eu já desconfiava. cheia de acusações e fantasmas. ? Tem de levar os ouvidos ao ferreiro. Levais um inocente. ..Onde vão vocês? . cicios de vozes.Homem.Eu não vi. pupilas mortas... tinha fama de braço comprido. absorto no seu panorama. mas toda a gente pronuncia um nome! lançou de rópia e circurivagando os olhos pela gentiaga a tomar apoio do que adiantava.Então ainda não ouviu um nome. Por isso. foi-os acompanhando a distância. prende-se o Aires. Dizem que foi ele que matou o José Francisco. .Não sabe quem é? Caramba.. além de rico que é prenda de respeito. ah? .exclamou com a veemência de que é capaz um regedor..Ah.Ainda não ouvi.. . O Fráguas continuava estático.É que é mouco. interjeições de pessoas que ansiavam por desabafar e não tinham ânimo.Andai lá. ombro a ombro com o Manuel Minga.. risonho e pálido. mesmo assim. mas estava de pé e de pé ficou sem se mexer. como para castigar. na sua voz lenta e emperrada: . Ides errados.soergueu-lhe a cabeça a medir a extensão do golpe e. tanto para proteger. o Fráguas observou para o regedor: ..Grandes alarves? Esse rapaz é incapaz de dar uma pan~ cada à falsa fé. dize lá quem foi? . rua abaixo... Achais-me com cara de matar um homem? Para mais. . entre perplexo e atemorizado. O Antoninho Fráguas. Vede lá bem.Pois quem havia de ser?? Mais cicios. regedor.. tio do morto e factoto do Fráguas.. ah. Nomeou dois cabos de ordens e.Se o deixa fugir. com que sim.Vamos a prender o Aires. já que o sabes. A mãe ao lado escondia as lágrimas.. .? Ah. À retaguarda havia murmúrios. .. sem resposta se o Antoninho não secundasse: . o Carrasco coçou a cabeça. é verdade que deste sorriso amarelo que tanto indica desdém por tudo como confiança. o Ougado tornou para o José Carrasco.Vindes-me prender. o nome anda em todas as bocas.Ora essa? . Após uma pausa.perguntou. depondo-lhe na testa um beijo.Pois se estão certos que foi o Aires que matou. ...

X O senhor Tadeu. sempre em frente. cada vez mais atarefada. mas dando ainda mostras de muito ferrado à terra. que mais não fosse pelo dedo com que sabiam temperar um pratinho para abades e filhos de boa mãe. que de saia entalada à frente por via das partidas do vento. no resguardo do cisco e das sombras. o senhor Tadeu involuntariamente pressaboreou a sertãzinha de marrã que a Maria Ruça não deixaria de lhe apresentar ao almoço. À retaguarda da sua grossa beiçorra de alguidar exibia velhas e temerosas arnelas com vazios largos como canhoneiras. A neve derretera de todo. se entregava aos prazeres da mesa. dera o seu tombo até derivar da livre frescata na placidez enxuridiosa de alfaia eclesiástica. Uma terceira estava para o Porto. Mas era um regalo ver os regos por entre os trolhos das leiras a luzir como cutelarias. E a erva crescia. O prelado. por lhe serem defesos os outros. lá ia silenciosa ou botando o seu solilóquio. alastrava nutrice e verdinha or toda a parte. sopeiras e mais nada. depois de dizer por alma do José Francisco a missa do sétimo dia. e Tadeu. pelas rampas dos caminhos se descobriam ovelhas zorreiras. e nas quintãs representavam -se os últimos dramas paritagruélicos da matança. mandavam a seitoira nos ferregiais. mal lhe viu a tromba e provou os pitéus. Simão? Coitada. Aquela sua Ruça. Pusessem ali os olhos os adversários contumazes da ordem social! Gozavam estas Ruças de bom crédito e mereciam-no. onde o velho fidalgo. ao serviço de Antônio Fráguas. Esta sua criada entroncava na meritíssima linhagem das Ruças. o borraçal em que tinham vindo encalhar as bolas. Ouvindo as colcheias mortuárias. e o corgo e arroios derivantes animando as paisagens ingratas de inverno duma vida que só a água é capaz de dar com a sua ágil e autónoma mobilidade. rendia as honras merecidas à sua governanta. além de perfeita pascácia. A cada passo. De todas. Como todas as carreiras. puxado da serra pelo vento galego. com que os rapazes andaram a reinar pelos caminhos. o exemplar mais completo era a Ana. depois da crise do pé leve. que era severo em artigo de contubérnios. embora o seu poiso habitual fose a Quinta das Meruges. antes. e tinha os pés como dois calhaus. roxas de frio. celibatário e sibarita. e ameaçava mais neve. mal alvejando à beira das paredes. a carreira eclesiástica tinha os seus ossos. Ela. posto que travado por um estreito regime de dispéptico. anunciados aos quatro pontos pelo estertor das vítimas e as vozes cruas e chinfrim judaico dos matadores. Nunca a nobre víscera podia contar com horas certas de comer. tratou de se ir chegando a casa que estava frio de cortar coiro e cabelo. era a mais canónica e imalsinável das amas. a não ser tementes a Deus. mas nenhum tão duro como aquele de trazer o estômago de quarentena. até por cima dos penedos. O céu. pelo contrário. voltara a encarvoar-se não tendo descarregado suficientemente. encomendada pela mãe lastimosa. ainda que o sol pela manhãzinha tivesse espreitado por detrás dos montes. afogando as pernas das raparigas. como para as peruas a muda da pena. segundo o 140 . como nascera nas palhas. proferiu: Onde desencantou esta avis rara. a casta soror. e uma quarta cobrava boas gorjetas pelas redondezas em bodas e entrudadas. oferecendo às crias um amojo refarto. O inverno estava a virar.

a serva a debulhar à unha as batatas de neve. dois decilitros a emornecer no púcaro de Molelos. a vida não lhe pareceu tãe feia como a pintam. e pelos dentes de lobo. Porém nada recompensava a irregularidade do horário. o gozo da bemaventurança à mão direita de Deus Padre. movida por ponderosas razões. e ao ouvir pelas quintas aqueles sustenidos de agonia. para o caso em que. negro duas vezes por fora. a ponto de rescender como a ânfora siracusana do pai Esopo. como muito bem calculara. o seu moiro de sangue. Entrou em casa e. Se hoje se comia em tempo oportuno. dos próprios colegas que chegam quando chegam a arrotar em suas éguas passeiras. que levara para o seminário e eram o terror das pelangas de cabra e do fiel amigo? Ai Deus. quando estava só. dos armadores. fora disso é de absoluta inconformidade com o cronómetro. a ponto de não os sentir e causarem-lhe torturas insuportáveis. cilhou as mãos sobre os joelhos. autorizara que o sacerdote tomasse logo de manhã uma pitançazinha moderada. A Ruça. Gelavam-lhe os pés. se por um lado lhe crescia água na boca. tudo passa. naco de lombo ou cobro. mas que tinha o defeito de ser apenas no outro mundo. Costumava o Tadeu. amanhã apenas quando Deus era servido. Ah. quanto não daria pelo maravilhoso estômago. avinhado por dentro. Mas a chicha fresca. filosofar com os botões da garnacha. que se rinha acocorado no esteirão. à medida que iam metendo a faca ao requinho. Depois 141 . E com os pés alongados para a brasa.abade do Ramalhal. perdida para sempre jamais. entrasse a lutar com ele. que lhe mandavam as almas amigas. mal depôs o cálice das consagrações com a sua bolsinha de chita ramalhuda. com elas mais várias que o relógio de Santo Antão. Chegado o Santo André. entrou em actividade deglutiva na mais ameníssimacias monções. correu a aquecer-se. e ao bafo confortador e ao estalido sinfónico que produzia o fogo devorando o lenho. a dita. as vezes que o eclesiástico vai celebrar em festividade fora da sua igreja. era mais de apreciar que a carne de vinha-de-alhos ou o presunto já curado. frigia uma boa febra de porco com fígado do mesmo. tanto mais que adverte Avicena: est caro porcina sine vino pel or caprina. Era certo que a venerável Congregação dos Ritos. dos fogueteiros. Na trempe. a contemplar qualquer panorama interior. em prima tonsura. a não ser. é pau-mandado dos mordomos. A Maria Ruça pôs a mesa na velha banca. O labrego lê as horas pelo setestrelo para tudo o que seja a lida dos campos. Nada. gente esta que se mede toda pela mesma rasa em matéria de pontualidade. capazes de arrancar um prego melhor que uma turquês. depois do almoço de marrã. o fígado do suíno beirão que é melhor que de vitela e se dissolve formando um molho sobre o grosso que é o regalo dos regalos. absorta para o brasido. que lhe aviava o Jácome. tão junto do lume que a chama fazia esvurmar a resina dos nós da madeira e ondular a franja da toalha. do mestre da música. Por isso. em última análise. sim. porca ou porco.. em cima duma tabuinha. Na lareira ardia um bom lume de carvalho. moleja. e desta vez perguntava-se com justificado sobressalto se ainda lhe restariam na caixinha daqueles com-primidos de bicarbonato de sódio. os paroquianos mais dignos não passavam sem lhe mandar o prato com as primícias. que andava sempre como o da Joana. fígado.. Em casa também se cevava porco e se fazia salgadeira. mais intemporal que o programa das obrigações paroquiais. forrado de zinco. quando se persuadiu que já havia batatas suficientes na frigideira. por outro chorava a sua riqueza de rei de Tule.

R. além disso. lembraram-se de trocá-la a patacos à Pomba Nova. e estava dito tudo. “Pois Roupinho. e era a mãe dum tal Trinta chacinado depois de muita pouca-vergonha pelo povo de Manfurada. Restavam os dois. hem? O meu estômago agora já não funciona com esse combustível. Um dos sócios. e vá de rondear pelas terras de Marialva e pelo Zonho. já com quatro marmotinhos de um a seis anos que ficavam entregues à avó. em vez de bater para Cruita do Alto com a esmola. . uma música afinada executasse árias amenas. no movimento dos seus maxilares.” O senhor Tadeu declarou que estava muito bem a par da referida criatura. Podias ter comprado .S. de resto era o Cambais que manobrava os bilhestres e recolhia o minério. o outro.Ouvi. essa que anda pelos povos a comprar cornelho e ovos e vende lumes-prontos e pólvora de caçador. mas o Cambais é que havia de aguentar. Ele era sócio honorário. e o negócio afigurava-se-lhe muito mal parado. Nem coelhas! Pois o alma de cão trazia a mulher na moina. ao comer. As mulheres casam aos doze anos e aos vinte estão carregadas como as vides. uma desinfeliz negra e mirrada. e proferiu em voz gemida: . “Aquele ladrão do Roupinho . sabia quem era? e meteram para o Vale das Donas ao rebusco do volfro pelas leiras.respondeu ele. . elevou-os até o fitar bem nas pupilas. O senhor Tadeu preferia que. Deixava crescer as barbas. o José Francisco. o senhor abade doeu-se como se o malvado dum espinho lhe picasse as meninges. em vez de lhe matarem o bicho do ouvido com misérias do mundo. Corta o coração. R. o Calhorra. agravava com terebintina uma chaga que tinha no braço. metera a mulher ao peditório e um menino. taleigos à cunha e. contou como morreram sepultadas na neve a mulher do Roupinho e a criança. A Ruça não dera conta do sal amargo que acabava de deitar na marrã. a criançada em Cruita do Alto era como os peixinhos no chafurdo do pontigo quando se lhes deitam migalhinhas de pão. a tia Maria de Alvite que lançava mão de tudo o que podia. tão pegados que só se foram um migalho antes de escurecer com os taleigos outra vez cheios. na marrã. onde dizem que os ricos têm a mão larga. largou-lhe a corda toda. Seja pelo amor de Deus. O homem que a andava a vender. não se acaba o mundo enquanto houver chocadeiras como a Cruita do Alto.O meu senhor não ouviu pregoar a sardinha? . O Roupinho.suspirou. e alugara um garoto de dez anos à tia Maria de Alvite. complacente. estava farto de o saber quando não armava a rifa ou a vermelhinha nas feiras e romarias. que alugava a quem tinha abundância deles.Deus me livre de lha prantar. e continuou: “Lá passaram o dia ao rebusco.” Àquelas palavras. pôs os olhos na banca. Não é isso. sobretudo quando o petisco era como aquele de trás da orelha. mas agora de 142 . voara a dar contas a Deus das maroteiras em que era useiro e vezeiro a despeito dos verdes anos. no garfo. As malinas vem e varrem as famílias de ponta a ponta. como estava em maré de condescendência. ao estilo dos príncipes. enquanto aviava um quarteirão ali à Madalena. num aceniscar de olhos.Mas para mim. Tinha que regularizar a sua situação com o José dos Cambais. dali a pouco. pedia esmola pelas portas. deitara-se fora da empresa. não. inçou outra vez tudo. bem sei que salmoira nem cheirá-la. S. Para quem padece como o senhor de arrotos chocos. mulher e menino tinham chegado das bandas de Trancoso. sabia. Mas a Ruça não era cabra para virar com duas lapadas e ele.

atascados no nevão. disse para a mulher: 143 . não se enxergava já caminho.parece que se prantou a gemer o Roupinho. S. Lisos. que é onde acaba a serra de Malhadas e começa a de Pedrões. por mais que se mate. andaram para trás. lá porque lhe custasse deixar para ali ao abandono o seu rico pedregulhal. até o entendimento lhes dizer: ides errados! Tomavam à direita e. e tocaram adiante.” De facto. “Aquilo o frio. fora. O alma de cântaro velho .? Era então escusado dizer-lhe que naqueles cumes não se ergue árvore. aí podem achar? Assim acontecia aos desinfelizes no alto da Nave. uma lauda de papel antes de escrita. Teimou que não era nada: o ano já estava muito adiantado para nevadas.ia com a ideia fisgada de que levava ali uma riqueza nas pedras sarapintadas que arrebanhara pela folha do Vale das Donas. também. a deitar os bofes com a maldita riqueza às costas. e o céu não se cansava de peneirar neve. asas estroncadas. mesmo. atiraram ao chão as sacas cheias de pedras. mal se distinguindo as farripas das urgueiras meio tombadas para o chão ao peso da mortalha branca. Ele animava a sua gente dizendo: “Vá. com a neve ficavam mesmo. rompeu a nevar. e não admira que lhes atasse os movimentos. arrasta que arrasta. Quando alcançaram os altos.” “Era a desgraça a chamá-lo? Qual. Avisaram-nos: “Não se metam a caminho que vem lá a neve.pedras. que era uma magrizela.. Prometi à mãe deste menino apresentar-lho até o bater da última badalada do dia de hoje e não quero borrar a minha palavra. Corno não pudessem mais. isso estavam eles? Avançavam ao palpite. já ouvi ladrar os cães!” “Não estavam nada na Cruita. Pois não houve rogos que o tolhessem. nem quando carregavam de rópia por uma vereda que lhes parecia a certa. ao que dobavam do céu e eram grandes. alvadio mas cerrado. fazia muito frio e para as bandas de Montemuro o céu estava a entabuar. Mas o alma do diabo. mas duas léguas das velhas. já tão atarantado como a mulher e o menino. R. nem quando seguiam à mão direita. que a mulher trazia apenas vestido um chambrito de riscado e um saiote e o menino os farrapos dumas calças de cotim e a camisa. fora. Que é que os olhos dum letrado. transitara alguma vez por ali. quanto mais casa. Quando chegaram aos Cuvos. Segundo consta estiveram vai e não vai a voltar para trás.. O menino batia o dente e clamava que já não podia dar passo. “Vocês assim carregados não botam a casa com de dia. trespassava-lhes as roupas. O senhor abade estava lembrado dos farrapos que caíam? Pareciam asas de passarinho. “Muito tempo andaram enrodilhados.” _ Jesus. estamos aqui estamos na Cruita. Andaram para diante. cada vez mais basto e danado o remoinho no ar e mais fofa a camada branca debaixo dos pés. A neve cobria a terra. nem quando seguiam à mão esquerda. Mas sempre havia um resquício de luar. lisos como a palma da mão. era a ambição. De Malhadas à Cruita são bem duas léguas. Jesus.” “O Roupinho coçou a cabeça e parece que respondeu: . batia o dente e chorava baixinho.velo depois a apurar-se .Seja o que Deus quiser. luar de quarto. que vai ser de nós! . sinal de moscas brancas. que o homem tinha o costume de desancá-la sem dó nem piedade. nem penedo. e estava com medo que lhas roubassem. sempre pela serra e desamparadas. Fiquem cá e vão de manhã pelo seguro. a mulher. lá iam até uma voz de dentro outra vez os avisar: não é para aí! Não era para ali.

olhe. que o volfro só deu pão a meia dúzia de trafulhas. a correr em frente. . a mulher estendida ao comprido e com uma poça aos pés. acudiu o povo todo... Você s não ouvem.. Ora. ora não parecia. e lá ficaram a bater o dente e a rezar. é boa! Estás na tua terra. a Cruita não pode estar longe. Foram no rasto do Roupinho e notaram que o desgraçado andara em volta do povo como um cavalo no picadeiro. onde ficara a mulher e o menino. Outras se levantavam a seus olhos e novamente corria para elas o triste.? “Puseram-se a escutar.gritou ele com o mau génio que tem. meteu-se com ele entre os sacos.. Sua Senhoria não chegara a andar metido com o Calhorra e o Zé dos Cambais na mina do Santo Antão. Era manhã e com o livor do céu a neve pela encosta como que chegava às estrelas que ainda pestanejavam na casa do Senhor.. qualquer coisa que ora parecia.Tu atinas lá com a Cruita. chegou a um povo atolado em branquidão. julgaram ouvir ao longe.. a zoeira do vento nos pinhais do povo ou a água a cair dum açude. Que houve gente que aproveitou. tanto andou.Pois se acabou. houve.” . Onde é que estaria? Perguntou ao primeiro fantasma que avistou: . . mas na terra. rijos.Quando voltares.já te disse que a Cruita não pode estar longe.Andei. onde é que eu estou? O fantasma olhava para ele muito fito e acabou por dizer: . andei mas acabou-se. cavaram a neve. Deram conta dum moroucinho. de facto.Onde estás. encontras-nos mortos.” “Quando tal ouviu caiu ao chão sem sentidos. muito melindroso.pronunciou ele. . O homem botou alarme.Nossa Senhora me valha. puxou o menino para debaixo do braço como fazem as galinhas aos pintainhos. que me perdi outra vez! Botou os seus cálculos. pondo ponto final às considerações da Ruça. caía se Deus a dava? Depois de muito tropeçar. tanto andou. mal ia a agarrálas. o pequeno dobrado. rijos que nem carapaus. que disse consigo: -Não vou bem.. como quem apanha o fio dum novelo. com o arranco da agonia..Vocês fiquem aí que eu chego ao povo buscar uma burra.Não há que duvidar? É a Cruita. O Roupinho deitou a correr.. que tocavam de resto em determinado sector. de joelhos à boca.. Caminhou. sim.Está bem .?” . mas julgam alguns que feita pelo bater dos calcanhares e o rascanhar das unhas. E torceu caminho. que o Diabo levasse para bem longe daquelas terrinhas. do seu foro íntimo. julgando que em poucos minutos chegava à povoação. Está a gente farta de andar.?! . indo pelo rasto. não se compreende bem. melhor.. e novamente disse arrepelando os cabelos: . se voltares. tornou a botá-los. foram dar a descampado muito para fora do caminho de Malhadas. Chico Roupinho. afigurou-se-lhe ver certas sombras encavaladas ao longe e meteu para lá cheio de esperança. de torcer e destorcer caminho. só lhes serviu para ganhar vícios e maus costumes. os dois estavam por baixo. Aí tinha no que dava o volfro. Como havia de dar pão uma coisa que é para matar. Eu dou lá um salto. As sombras fugiam diante dele. “A mulher. caminhou. deram pela falta da mulher e do menino e largaram à busca deles tendo pensado e muito bem que tivessem tombado na jornada.exclamou ela.E afinal que levava o Roupínho nos taleigos? 144 . Mais de seis vezes estivera a entrar na terra e sempre a sua má estrela o tornara a arredar para longe. Mas indo. E a neve caía. Não me consumas! . conta ele. não apenas uma poça na neve... de pedir a Deus a morte. . A Cruita deve ser para ali. homem de Deus! .Patrãozinho. .

ora chora. o cabrito na devida altura. Corre o ano bom para os pães proferiu: . prosseguiu: 145 .Se lhe dão acidentes. realmente. desprevenido para aquele ponto da casuística. e deitando a sua casquinada párvoa de riso. meu senhor? Vergonhas do mundo? .Que há. Se calhar. Se a fortuna andasse assim aos pontapés à superfície da terra quem quer deitava gravata! O senhor Tadeu ficou com o coração apertado depois de ouvir a história macabra do homem da rifa. levada em sua freima. A Rosa Pedralva nunca deixava de lhe trazer o folar: um galo paívante. com seus amarelos e verdes a luzir. Deu dois passos de cá para lá.pego do Breviário. Dão-lhe acidentes ruins e deita a dizer asneiras e um palavreado que ninguém entende.. O senhor Simão não soube retorquir.Cuidei que sabia. susceptível de peguilhos. vou-me até Malhadas desenredar a meada com o José dos Cambais . duas vezes para a banda. . torcendose uma. e a darem-se ouvidos às bocas do mundo é a alma penada do José Francisco. e apressou-se a mandá-la subir. teria dito se a Ruça não fosse a Ruça: Mudemos de conversa. que estava à mesa quando lhe levaram a notícia da morte do grão-duque de Weimar. espreitou o céu fosco pela vidraça embaciada e começou a sentir o peso da marrã. Depois dos intróitos da lei . Faz então os seus desconchavos. como não havia de estarfrio! Ainda temos mais neve. um tanto fremente e de finca-pé. é por isso que eu aqui venho. além de que são precisos três homens para a segurar. mas não da teológica. Tadeu acenou que não sabia de nada. Temos encomendas .Que havia de levar o tolo? Levava calhaus que não prestavam para nada e só podiam enganar. Agarrem-no! Não o vêem. não lhe trago novidade nenhuma.A minha Florinda que dá que falar.Então que há. o seu cento de ovos.deu conta duma mulher que vinha direita à sua porta. Para qualquer parte que vá são todos à uma a perguntar: Então a sua rapariga anda endemoninhada? Aqui tem.? À-d'el-rei! E ora grita.Se é a alma penada do José Francisco não é o Demónio. A capucha em que se embiocava.Só queria que visse! Umas vezes atira-se ao chão. está necessitada de medicina. na capucha.. mas reparou que era despachada e pisava com segurança. .. Como Goethe. Por último. espolinha-se toda e pranta-se a gritar: Estou no Inferno! Estou no Inferno a arder! Quero para cá o ladrão que me matou! Porque não o deitais para cá? Lá sai ele da esquina.. Rosa? . ora se arrepela. desatou: . . Agora mesmo era tarde para tal expediente. que Deus tenha.e a criatura. A mulher.? . que lhe fala no corpo.. que é a minha.rosnou com os seus botões. E levantou-se para a saleta que lhe servia de cartório. um lorpa que deu na vida de mendigo e mariola. escondeu a face.. Que ande ou não ande. que purpureara.caiu um grande codo esta noite.. Mas como têm o desinfeliz do homem como trespassado sem confissão lá julgam que diabo ou alma do diabo são uma e a mesma coisa.. . . livraria e casa de receber... sim.. Ela então afoitou-se.observou o eclesiástico.. de sacho feito. deixando apenas luzir uma réstia do rosto.Também fiz esse reparo. Era a Rosa Pedralva que pedia para lhe falar. Estava indeciso .. impediu-lhe de a reconhecer. e ficou à espera que a Ruça chegasse com a parte.

pareça se lhe pede por fineza aquilo q.. em nome do Filho. mergulhou naquele bastardinho do século XVIII. De mão afoita. que herdara do antecessor na igreja. isto he com taes palavras e tom de voz q. Noutro diaço. Eram umas Advertências manuscritas.a isto principie sempre usando da palavra: mandote q.s. em que se repete o João Gomes que morreu a enxotar as pitas da horta..” O senhor Tadeu desceu de afogadilho pelo texto compacto.a estes medos he meterse de gorra com D. tirei-me dos cuidados para vir ter com V. queira ou não queira. em que não houve uma só pessoa que não reconhecesse a gosma do tio Gomes. e. Lá estava.. me deixes. mudo e cismático em operação remissiva. Umas vezes dá-lhe para aquilo. pela estante em que se perfilavam em seus pergaminhos amarelentos e carneiras arregoadas os Fernandes de Moure. correu o fecho e pôs-se a remexer a papelada. mestres de cerimônias e rituais. E. faças. béu!.Estava com a cardina. O demonio he a espada com q. outras vezes. lhe mostre o desprezo q. . béu. e do poder do santissimo nome de JESUS falle com elle como com hu cachorro rebelde a D. eu. Ao seo e nosso criador tem: p.? lugar advirtam exorcistas e exorcizado q. Porq. O grande machucho viu-a e cuspiu para a banda: É com os padres. hade dar.. porem revestido de hua authoridade s.. ditas com hua brandura tibia na fée. referentes a exorcismos.Se ele nunca a largou. quando ia com este destampatório. digno duma folha membranácea e de capitulares a azul e mínio: “Em pr. actualmente blasfema e desja vingar em nós o odio q.. D.s castiga as 146 .. cachorrinha. mo nome úeJESUS. finalmente. R. montando a luneta na bitácula mole e esponjosa. A Maria Choca pôs-lhe o pé na barriga e conjurou: Em nome do Padre. elle faz porq. O Simão Tadeu não lhe tornou resposta. antes de ir à benta..Mas não é tudo.? Mas porque são todos à uma: é o Porco-Sujo.Há já uns dias. R. mais não pode. demorando os olhos um segundo a compenetrar-se do antídoto receitável em semelhante operação contra a timidez: “0 remedio p. ao diabo não fallem de amores. Por isso mesmo há quem afiance que é o espírito do assassinado que se meteu nela. são os espíritos. levemente flectido mas distinto. agarraram-na e levaram-na à força à Maria Choca.? . e isto com hu tal modo e metal de voz q. despede pela estrada a baixo a berrar: Agarra. não podes escapar e desobedecer ao poder da Igreja e do s. intimo-te a sair desta irmã. dizem que também a alma penada dele se lhe meteu no corpo. em nome do Espírito Santo. roncada. mais mental que perspectivo. delle fazemos e a infallivel obediencia q. benzedeira. vai ouvir.5 e q. O senhor Tadeu ficou suspenso a considerar o caso bicudo e. parou diante da copeira. A bem dizer começaram-lhe a dar na tarde em que o corpo do José Francisco baixou à terra. António de S. respondeu: Não saio e não saio! Mas o mais frequente é rebolar-se no chão e romper a gritar contra assassino. . para dizer alguma coisa. inquiriu: . agarra! Agarra! Béu.Chamou-se o Gregório dos Santos. Luís.e por estas vozes.. V. desandando.Há que tempos tem os acidentes? . Não descortinou o tratadista especial. riam use pois de palavras: deixame ou quero q.ta. o barbeiro de Pedrões. . Larragas.Foram ao doutor? .. Lentamente passeou um olhar. E uma voz de dentro..

para que lhe viesse falar. a move. espavorindo as galinhas. Mas a lengalenga da mulher acabou por tornar-se-lhe insuportável e puxando do ripanço. Foi ao quarto vestir a garnacha e armar-se do guardachuva. Viram-na a caminhar para Manfurada. mas pela imobilidade. Mas para ver. aqui no meio da rua? Homessa.Também digo: só vendo. As manchas arredondadas das reses distraíam os olhos do verde jacente universal e do marasmo que varava a terra. ia com a mosca. sem abarcar bem as razões do padre.os rafeiros dos rebanhos arremetiam das escarpas.Se espera pela Florinda. que morava no Casal.A que horas costumam vir-lhe os acessos? . e enterrando o chapéu na cabeça limitou-se a proferir para Rosa com voz bem timbrada de conformação: .Vistes a minha Florindá? . abismou-se na leitura das horas canónicas. estranhados dos rari nanti. não há outro remédio senão V.Homessa. He loucura temer a espada e não fazer caso da mão q. a patinhar no charco.Vamos lá. Ele quis resistir.. dir-se-ia pétrea.não se lembrou mais dele. O senhor Tadeu foi à janela considerar o cariz do céu.. Mas a Florinda não estava em casa e as vizinhas não sabiam dar razão dela. Aqui é pior que nos altos da Nave. batendo a bota. mas de modo algum a sua pragmática.inquietações de seos amados f. ponderou: . e os meninos. que se espenujavam no ciscalho. Continuava escuro para os lados da Serra da Estrela. meio nus. tanto mais que tinham ido chamá-lo para exercer o seu múrius e para pantominas não estava. mas o lavrador nem lhe deu tempo a respirar: . E logo a mãe ficou sobre brasas. V. O senhor Tadeu mostrou-se interessado em apanhar o fio da maranha. E. que pesava sobre a natureza. tanto mais que a carniça começava a pesar no estômago. leva que leva pelo tacto. mandou recado ao José dos Cambais. “ Por ali fora de página em página. Mas o Cambais. que tem lá uma boa fogueira para matar o frio. Foi-lhe grato desemperrar as pernas. Na esteira da mulherzinha. A Pedralva.faltava a gasolina aos automóveis . Estaria previsto na administração de tal sacramento o caso de Florinda Pedralva? O senhor Tadeu tinha as suas dúvidas e. está bem arranjado. dar-se ao incómodo de chegar a Malhadas.Só vendo. entrou nos domínios da Ruça a avisar dos seus propósitos. e de porta em porta a indagar: . À entrada do povo de Malhadas encontrou o Fandinga sapateiro.É variável. vencendo a repugnância que sentia pelo assunto. começou a calcorrear a rua para trás e para diante. R. não era naquelas duas horas que virava o tempo.. ensinava-se o modus faciendi psicológico do exorcismo. R. sempre liberal e mesureiro: . já lá vai a mãe e a parentela em cata da cabroila. desceu as ruelas mortas da aldeia neolítica.. Para não arrefecer de todo. Ontem vieram-lhe à roda do meio-dia.os. O assunto é muito melindroso para o pároco se poder paronunciar de outiva quanto à oportunidade da sua intervenção. À medida que foram avanç ando pela estrada deserta . . divisando ali a dois passos a 147 . minha santa.. embora não quisesse descontentar a boa paroquiana. Era mais de meia manhã e já os gados andavam pelos montes. de monco caído e zimbório da barriga ovante. Ali o veio encontrar o José dos Cambais.. farejou relutância e redarguiu: . Venha para minha casa.

lançados os latrocínios numa balança de ourives. Na totalidade embolsara 6. Era ele que havia de ustir com a diferença. Irra. encerrado na sentença que ouvira a um tolo: dizem e dirão que a pega não é gavião. não estava. casados e pais de filhos. Em Orcas. achava muito bem. não . restringiu-se a piscar o olho e a sorrir malicioso. Mas do seu bolso não recebia ele nem tanto como um feijão-frade. senhor Ligório. não havia dúvida que. Apurados em sua mão havia por junto treze contos e setecentos. se a lavra de Santo Antão fora dada ao manifesto pelo Dr. não lhe chegassem ele aos ouvidos mil e um rumores através de condutos especiais e infalíveis! De resto. deitava-se-lhe a soga. chegar-se-la a concluir que cada um deles tinha exactissimamente sacado o seu quinhão. se desquitara do negócio. que uns anos por outros lavrava meia dúzia de alqueires de milho e comia as batatas com azeite. Estava persuadido que. para trabalhos que se seguiram. ou fossem vinte e três contos e pico? Não estava certo. mas ele não podia. Então quem? Ora. em contra do que dispunha a lei. ferramentas e agora a multa e papel selado. não se falando. toca a andar com a devassa. a exigência dava em águas de bacalhau. colectiva. à ordem do senhor administrador. madeiras. O Calhorra surripiara ao José Francisco e ao Cambais. o José Francisco 148 . em atenção ao Calhorra. o Cambais surriplara ao Calhorra e ao José Francisco. e nã o ser só ele a mandar para a vila juncos de trutas e cabritos. avisara-o que tinha a satisfazer uma renda vitalícia à gentinha dos desgraçados que haviam pateado no Santo Antão. como para o mais.mulher do Lázaro Fandinga de orelhas fitas para o que se dizia.000 a 7. assim Deus lhe desse a salvação! O senhor Tadeu ouviu a longa deprecada do homem sem proferir palavra. Soga fora ela que pesava em mais de trinta e sete contos. Mas em muitas outras partes não sucedia a mesma coisa e as autoridades não faziam vista grossa? Quanto ao rescaldo do desastre que atirara para o maneta com os dois homens. Quem havia de pagar as favas? O senhor Tadeu. irrorio. Em compensação rompeu logo a contar pela centésima vez a história da “grande pouca-vergonha” de que era vítima. a política do olho morto. não era bastante quanto amanhava ainda que passasse a comer o caldo sem unto! Pelo que respeita à multa. somadas todas as despesas com jornas.por todos os motivos e mais um. com foros já de clássicos. da pretendida indemnidade. manda-chuva daquelas parvónias. Os três sócios requintavam em roubar-se reciprocamente com tão seguro jeito e malignidade que. Mas haviam de pôr todos o ombro. não era mais larápio que os outros.000 escudos e bem sabia ele que o seu nome fora uma espécie de pavilhão para cobrir a mascambilha. está bem de ver. no fundo. muitos deles corriam os soalheiros. praticaram. os técnicos não tinham sido ouvidos nem chamados. Torres. vieralhe fazer um varejo a casa e. além de lhe apreender o volfrâmio que lá tinha e multá-lo em cinco contos e quatrocentos a pretexto de que executava trabalhos de mineração fora de todo o regulamento.e ele estava plenissimamente de acordo . presidente da junta da Parola e todo deles. e também do Antoninho Frâguas. Mas assim que ficaram cientes de que o filho do Fráguas estava debaixo da terra a fazer tijolo e o Calhorra. o grande patife. dono do terreno e endossante. tapando-se a boca das viúvas com umas centenas de escudos. Tinha muita pena que a soga aperreasse de tal modo o amigo José dos Cambais que. a responsabilidade era. Arrotava quem podia. enquanto lhes pareceu. A guarda de Orcas da Beira. estava ali aquele sendeiro do Zé dos Cambais. De sobejo estava ao corrente das manhas e malas-artes usadas por uns e por outros.

Uma vez lá dentro. e convidou-o a sentar-se. ensinado pelo pai. o certo é que o rapaz estreou sapatos amarelos e quem quer podia ver-lhe aos domingos pendurada no bolso da jaqueta uma rica pena de tinta permanente. da cobertura moral e até crédito bancário que emprestara à empresa na sua qualidade de eclesiástico. Mas ouvindo aquele José dos Cambais. não haja dúvida. Enchia-a e despejava-a para o chapéu. hediondos como as ventosas dos polvos depois de secos. uns calos olho-de-perdiz. Pois que a presumível possessa abalara para longe. sabia-a toda. O malandrico tinha a mão fina. Era por estas e outras que o grande caloio para ele vinha de carrinho! Chegado à porta do José dos Cambais. Depois veio o Cambais muito solícito para lhe tirar os butes. furando até poder retirar a concha carregada. nanja pelo filho de seu pai que figurava na empresa. protestou. sucessivamente associavam-se dois para roubar o terceiro. sem largar o seu ar bom-serás de burro das panelas. Contas feitas. Sem falar no que estragara e passara às unhas aduncas do paizão e da mãezona. que era o modo de se aquecer à vontade. marcados os nagalhos do sinal de cada um. alargando. ia comprimindo para os lados. Pouco lhe importava que pelas costas o chamassem fona e dissessem que dinheiro que lhe vinha à unha era alma que caía ao inferno. Segundo os murmurinhos. e insinuava-a pela sorte de meato que fica na folheatura da serapilheira. mas não lhe era indiferente que se rissem do seu físico. por fim. quando cinturado o saco pelo cordel. todo melúrias. estava sabido. quem levava os sacos para a casamata que haviam arrendado a Pedro Reganha era o catraio do Cambais. estava a ganhar a morte no meio da rua. vinha bem ao fundamento das palavras que o Calhorra dizia: Hem. o José dos Cambais tinha direito a ser indemnizado pelos dois sócios da vigairada. Ao tempo em que os três sócios se não chamavam ainda gatunos com todas as letras. cobriu com ela um escabelo à laia de almofadinha. A senhora Emília dobrou uma capucha nova muito bem dobrada. a rapariga conservava-se fiel ao compromisso que tomara com o 149 . verdadinha. A somiticaria de notas que recebera ficavam à conta das muitas passadas que dera. bem sentia que pusera os olhos nele e o espreitava. Ao menos o Cambais estava advertido. Mas grão a grão enche a galinha o sarrão. não valia a pena ficar tempo indefinido à espera dela. Bem atados com nó cego. o senhor Tadeu mostrou certa relutância em subir. não passava pelo entendimento de ninguém que o volfrâmio pudesse sem escândalo ser maquiado. Pois maquiava-o o rapazito. fina como uma tenta. Mas nisso se enganava ele muito enganado. Mas o homem soube ser bizarro. Conduziram-no para a lareira onde ardia um lume magnífico de raízes de carvalho. meu compadre Cambai-ç é um inocente!? É tão inocente que vos come o caldo na cabeça e ainda lhe migais a tigela! Sim. associavam-se os três para roubar o quarto.surriplara ao Cambais e ao Calhorra. Eram uns gramas de cada vez. que era ele. e podia comparar-se a descoberta ao chupar vinho com uma palha pelo batoque da pipa. bem embora no âmago da sua cortesia se entremostrasse o empenho que tinha de captá-lo. Ao bafo caricioso sentiu-se outro homem. Verdade. como as bulas do Papa. Estava ali a Teodora e. Tinha passado o equador da vida. Mas ele. se bem que de fisionomia enjoada e um recato funérco no vestir. o Tonico. à ideia de que tinha uma meia rota e se lhe viam os dedos dos pés cheios de calos. como Pilatos no credo. cascudos e enfisemáticos.

e rúbido da chama. O Cambais fez-lhe o prato e pôs-lho nos joelhos. “Que não e não. abrindo urna cova nas cinzas que beiravam da fogueira. atirada para o seu estômago. não apenas a um. não passava dum frontispício. Mas o Cambais foi implacável. com muito gosto.ele voltava à vaca-fria. Pediu que o não obrigassem a comer. menos hora.. chamava-se desprimor. dava verdadeiramente a todos os diabos. pousando os olhos nos olhos do padre. a soprar. O Cambais e a Emília. quer. protestaram. assombrado perante a manobra do Cambais. nem sequer molhava a boca? Não e não.. entrava na casa deles e. negra como um tição. E.. quase perdera a fala. R. O Cambais penetrou a sua indecisão porque acudiu prontamente: . Não estava resolvido a deixar-se arruinar pelos bonitos olhos do Calhorra ou do Antoninho. A senhora Emília encheu o copo de vinho e ofereceu-lho. R.? 150 . Era uma desfeita que fazia. como se se tratasse de águas passadas. trutas de escabeche. tinha imolado ao almoço uma rica pratalhada de marrã e estava repleto. de reserva na cantareira até que a Teodora com uma tesoura caprichosa a talhasse em bicos e renda para forrar o armário. quem foi? O senhor Tadeu. Tão-pouco o Cambais tocou em semelhante matéria. Veio a chouriça que ele embrulhou na Semana Católica. e dizia do Antoninho. embora V. pois era notório que o filho.” Talvez assim viesse a suceder. levava a freguesia toda atrás de si. a inocência do seu namorado. dizer que não. havia de resplandecer como o sol ao meio-dia. de Lamego. além de que era faltar à justiça. Que me diz V. Pelo menos entendo que não temos que o citar para o ajuste de contas. mais hora.A V. Então S. tenha assumido sob palavra a sua quota de responsabilidade no negócio. burundanga maior ainda.Já sei o que V.. ciente por experiência que chouriça nas brasas. pois que não é discreto falar de corda em casa de enforcado e ignorava o pensar de José dos Cambais.. R. não lhe parece que os dois sócios devem pagar a parte que lhes venha a competir na contravenção? O senhor Tadeu. porque era de pobres. Bem bastam os incómodos que já tem tido. Se precisasse de testemunhas para ir jurar que os dois eram tão autores como ele na frajoca do Santo Antão. Perdoassem. quando a digestão chegasse ao seu termo. dentro da casa que à sua maneira se esmerava em obsequiá-lo. eu não quero que seja aqui chamado.. Que dizer ali naquele caso anfractuoso? Concordar com o Cambaís era ele próprio oferecer a cerviz ao jugo fiscal. mas repetia com o seu amigo Fráguas e ninguém de sã consciência saíra a responder à sentença: Se não foi o Augusto Aires que assassinou.torresmos. era melinite. Com ar profundamente infeliz. Comer ou beber fora de horas era roubar-lhe anos de vida. anotando: . No fundo de sua alma. fugiu de aludir ao acontecimento que enlutara a freguesia.Aires e não podia ouvir dizer que fora ele o matador. aconchegou o borralho.. R. meteu-a por baixo. logo mais. Mandou à mulher que trouxesse uma chouriça. R. Enquanto a mulher improvisava um beberete .Deixe-me dizer-lhe. o senhor Tadeu olhou para os torresmos que se lhe afiguraram a descair para o ranço e os peixes. e a jarra de vinho espirrador . a Florinda e a hora em que caíra na arara de deitar até Malhadas. Por sua parte não votava nenhuma espécie de azar ao homem. negra. e novamente implorou que o deixassem. a quem Deus falasse na alma. perguntou: . acesos cada um mais que o outro em bizarria.

Mas está bem. Este pode beber-se que não trepa. Partiu à unha para um prato: . pode atirá-la fora que não levamos a mal e mandar-nos prender. O Cambais que tal viu rejubilava: . meu senhor. R. atirou-se de cabeça. o grande mariola. para V. quem a urdiu e pôs os primeiros aviamentos. tinha dedo..Mais uma gotinha. Pois é ou não é verdade que eu só entrei para ela depois de o Calhorra e o Fráguas terem moído e tornado a moer ferro no oiteiro? É ou não é verdade que ao fim de cada semana eu pagava quatro )ornas.. R. será o primeiro a declarar. É uma auguinha rosada consoante saiu das videiras.. .. onde se lhe requeira. está bem de ver. emborcou um segundo copo e afoitou-se a investir pela terceira vez com o especione.. Porventura porque as pepsinas se estimulassem no seu aparelho gastrintestinal. Foi então que o Cambais.Vá? V.A chouriça chiava no brasido. cobrou-se dos direitos de pé-de-altar e ninguém lhe pode levar a mal. comia igualmente aquilo que lhe viesse ao prato. Vá. mas o quodore estava divino. R. voltou ases moutons. ocupado a extrair a chouricinha do lume. Engoliu em duas bocadas o segundo naco. Eu lhe digo. que e um supor.. V. prova. foram.Sabe onde eu quero chegar. como um nadador ainda pouco experiente que perdeu o medo. sim senhor. que dizia eu? Vá mais. Ah. ainda que fosse a tibornada que os judeus deram a Cristo pregado na cruz..Mas onde quer você chegar. Pois lá se arranjem. dum naco da broa centeeira e encomendou a alma a Deus. R. Absorveu a talhada toda e liturgicamente lançou-lhe em cima o digno aspersório dum copázio.. a mim que comprei o leitãozinho de mamoto. quem andou com o arame e quem levantou os lucros. Foram os emolumentos de péde-altar. Cheirava que era um consolo. depois de virar o canecão. . Se não gostar. O senhor Tadeu não pôde deixar de sorrir à frase por demais especiosa do homem. Pegou do chouriço. espargindo à roda um odor voluptuoso..Não é tanto assim! . sim senhor.Olhe. mesmo salgado com rosalgar.. Acabou-se. depois a limpá-la do invólucro engordurado e comburente da gazeta. E fitando-o bem nas meninas dos olhos. Contra a prepotência amável daqueles anfitriões não havia escudo possível.. no que diz respeito aos mais. para empregar a expressão herética de Jácome. Agora não se acabou para V. Meteu-lhe na mão tassalho ainda maior. fale claro. disse-lhe: . R. no que diz respeito a V. o farmacêutico. R. Vox clamantis in deserto. ali à Emília que forjicou o fumeiro. pagaram-me. como é que nasceu esta comandita. quem foram os pais da cria? Não foram vocês três? Foram. Quero chegar a que V. A tia Emília tinha dedo.Eu pus-lhe a bênção. Numa última e desesperada tentativa invocou os arrotos chocos a que era atreito e a sua pobre máquina combalida... pronunciou como se não houvesse mediado na conferência pausa tão considerável: . Por esse lado acabou-se. O senhor Tadeu..Hem. aos três sócios. Despejou a sua taça e só depois disso é que o Cambais. O Cambais não respondeu. ganhou ânimo e respondeu com desembaraço: . Zé dos Cambais? Homem. José dos Cambais. . nem parece que todas as manhãs bota abaixo! O senhor Tadeu já não resistia. Bebia tudo. enquanto Calhorra e 151 .

e contra o Calhorra. não há que fugir. homem estreado em toda a sorte de cambalachos e omnipotente tanto quanto se é numa terra venal. concordo. se não atalhava com mão de ferro. Como renhir contra o Fráguas.. raposão de rabo pelado que não adiantava passo sem averiguar que era para ali? E o Tadeu antegostou a resposta cordata que em consciência devia ao Cambais. o primeiro. levo o Calhorra.. gesto que só uma vez tivera para um colega.! . . Quase fora eloquente. metendo ainda em conta o trabalho dos filhos que têm rabo e mais nada. Mas era 152 . Devolvem-lhe o dinheiro da multa e o volfrâmio que lhe apreenderam. pouco mais adiantado está que seja assim ou assado. meu senhor. está liquidado. O sentimento de que. Agora já não era beber... o que eu desejo que confirme com o peso da sua palavra acreditada.Não fica. Tornaram a encher os copos. Não é só até o momento em que a sociedade se dissolve que o caso é uni: daí em diante o caso continua a ser o mesmo. que eram a pacatez e o siso comum. que metia os sócios tal tal e tal. vai ver. está para liquidar. Não é também verdade que a madeira gasta nos escoramentos do bolso me saiu. homem. Mas. Quer um conselho. Eu comprometo-me ir a Orcas. levo o Antoninho e arrumamos tudo. consumar-se-ía a ruína da. Depois de se ter atirado contra todas as leis divinas e humanas da conservação a comer e a beber à tripa forra. corno homem que salta de pára-quedas da estratosfera. Mas ele não podia prometer-lhe semelhante testemunho que brigava com a mais rudimentar prudência e o compadrio solidário que nutria com os parceiros. o segundo. certo de que as suas palavras operariam como um bálsamo naquela alma ulcerada de proPrietário: .. mas o que se chama o conselho desinteressado dum amigo: faça de contas que há dois casos. que era ao mesmo tempo como o selo da sua vontade assente e contrária ao que o pai dizia.Toque.. se é verdade. muito colaços e roçando-se um pelo outro. dava-lhe um lume mental que lhe desconhecia.Esse dinheiro que me levaram é para salvar o desinfeliz. Se bem penetrava no íntimo do Cambais ele caçava por longe para alguma coisa alcançar ao perto. O Tadeu olhou para o Cambais e viu-o transfigurado. Reflexamente ergueu os olhos para Teodora e viu-lhe nos lábios um esgar de desafio. O senhor Tadeu sentiu que o Cambais mentia pelos cotovelos quanto à colocação do seu capital. na presença do antístite: . e na partilha dos dinheiros não recebi um real a mais que os meus dois sócios? Aqui está. Embora cá na rapariguinha escuse mais de botar o sentido. Está pelos ajustes? O Cambais parecia hesitante. atravessara já as várias fases da beberronia e estava na saturação. além de atirá-lo para fora dos alicerces naturais. ouça. que o mete a você sozinho. o aguço dos picos está ainda por pagar. Faz-me dó. toque? O Cambais ao tempo que encalhava a manápula calosa e grossa na sua mão papuda deixava verter uma lágrima.Mas fico de pernas ao ar. se ficavam nas duas? E diga-me ainda V. ou desminta a pés juntos.Fráguas.O Cambais pôs a questão no seu lugar.. Ele estendeu-lhe a mão. quem se queima alhos come. se é mentira. uma lágrima marota de crocodilo: . R. Abafa-se o processo da indemnização. E acabou-se.casa. mas bebericar de piteireiros.

153 . Levantou-se e com dois cumprimentos à boa dona e à sua menina despediu.. Fazia frio.A esta hora.. meu senhor. . . nem um cocoricó de galo pelas quintãs. está zorata como a tia . Tinha pressa de ver-se sozinho pela estrada silenciosa a lutar contra os mil diabinhos da gula. Proibiu-lho. O senhor Tadeu seguiu adiante estugando o passo. cada um a ruminar pensamentos de abnegação e grandiosos no tocante a suas pessoas. Ao atravessarem diante da casa da Bárbara Ladeira. com a pressa que vinham as bandas da capucha em asas de aeroplano: .aduziu o Cambais. encarnados na marrã. Foram palmilhando as ruas tristonhas e desertas.Está mal. mas ao calor que recolhera à fogueira e à chama do briol que lhe alambrava nas entranhas.. no verdasco. àquela hora sem coleira de vaca a casquinar os tintinábulos. tomou-lhes o passo a Polónia Fandinga.A Bárbara queria confessar-se. na bóla centecira.tempo de regressar a penares. que haviam tomado de assalto a pobre ruína do seu estômago. na chouriça.. Fora persistia o silêncio hibernal. .Ora. Então até a saída do povo. não o sentia. um frio seco de aço em barra..... piores que diabos do inferno.? Não pode ser. O José dos Cambais porfiou em acompanhá-lo até Mouramorta.

que eu não posso. E. para outro o que o não era. combinado em sua toadilha quente ao sol claro de Abril e ao cantar dos galos. para ver à sua vontade. desatou o fardel.. O belfurinheiro anuiu e. quem se cobiçou do que era dela pagou-o com língua de palmo. alguns mondongos de mulher. limpou a lágrima e ergueu-se. o Duarte. e com a vaquinha tudo o que respeitava a apeiros e achamboaria. estopa. Está aqui a roupa dum trabalhador danado. . ambos de serapilheira. vazio. Trazia um saco às costas.Tenho para ali uma trapada que não me importa de lhe vender se ma pagar em conta. admira como a segurava no corpo? Era o seu homem? . Numa volta de mão virou a trapagem toda.Então. quanto quer por isto. . Bárbara.Sou da Cruita do Alto. da sua pele aciganada.. Dentro havia de tudo. ou pouco menos. passando em frente da casa. entretanto. santinha . O homem. . Tivera bom mestre..Não se consuma. tão rápido quanto as forças lho permitiam. . Como ela se postasse da parte de dentro da porta. O seu preceito.. 154 .. que agora para ela só causava estorvo.Todos havemos de passar por essa portela.. que tinha cara de rato. que era baixo. pst.Irmãozinho da minha alma.. Caramba.confortou o bufarinheiro.Pst. já com alguma joça. Bárbara era uma bemvende. como lhe costumava dar multas vezes ao dia: . venha cá.. ihf . que ainda era mais seguro no vender do que no comprar. sem se fazer rogado.Faça favor. toma tento que o mais é sempre menos. ó patrãozinho. era este: quando compres. Quando pôde estancar o pranto. . mas tenho andado ao negócio para as bandas de Vale de Ia Mula. têm muito gravanço. mãos sobre o dintel.Vamos lá a ver.Não senhor. quase tacteante. caminhou para a porta.XI Compro farrapos! Ao ouvir o pregão que alagava a rua. atada em cruz pelas quatro pontas e chamou-o: . e soerguia a tampa duma arca. a embarrilavam! Quê. chapéu para a nuca. sobretudo andrajos de homem. e sobraçava outro. levea para a quintã. O homem. à força de servir da cor suja.e ao passo que isto dizia entrava em casa. Sabe onde fica? Nunca para aí gastei a amieira dos socos. Compôs a sala e a passo vagaroso.. Bárbara tinha já o trapo apartado para uma manta velha. percebeu logo o farrapeiro que o convidavam a entrar e foi avançando. que se acocorara na quintã a chorar. . que podia entrar para o cabedal da sabedoria das nações. olhe.Compfrrapos! desfraldava de novo a voz. marralharam. dois pêlos no queixo e andava de blusa espanhola e chapéu desabado. era meu irmão! E tanto bastou para romper num choro alto e convulso. tire-me daqui esta trouxa. lã. tão usada e delida. por ser mulher. quando vendas. e fez dois montes. tratou de desfazer-se da Cereja. ih. inclassificável. um diabalma que se não prendia com as louçainhas do mundo. O senhor donde é? . ih. mas já ouvi dizer que são boas terras. então. Supunham que. Nesse mesmo momento desandou ela o cravelho da porteira: . perfilava-se no vão da porta. mais ou menos pouco conta. Logo que o irmão foi dado à terra.. para um lado o que era burel. voltou atrás.

.. Valha-a uma figa torta.lançou-lhe Bárbara em voz sacudida.Queres saber para que quero o dinheiro. Mas a cólera.. sendo prima pela banda da mãe e sentindo-a no fim dos dias.Para que é o trapo? .e voltava à sua fisionomia de carta que se deita à caixa.Sempre te digo. para logo recair naquela caradura que lhe era comum. saía com o fardo às costas. Em face das arcas abertas.. puxou-lhe aquele pigarro seco e teimoso que a deixava ofegante e vermelha como uma papoila. nem um aceno. . E ainda que a roupa dele não. E necessitados não lhe faltam na família.Derreter derrete-se o volfro. Não que lhe fizesse mossa anunciarem-lhe o fim para breve. Polónia percebeu que a prima se desfizera do bragal do Duarte. se é certo o que diz o tio Gregório dos Santos. Hei-de gastá-lo em missas e responsos. .perguntou alçando a mão para o saco. Quando já haviam fechado o negócio e o farrapeiro. Não era isso.Não vale a pena arrufarem-se. não se conteve que não bramasse: Vornecê. minha santa.Culdais que é só fazer filhos a rabo destapado? Agora aguentai! .? A outra que era uma pobre de Cristo.. Os meninos andam tão rotinhos que se olha para eles e vê-se mais coiro que pano. apareceu a Polónia Fandinga que. Pois então.O bem-de-alma faz-se em vida socorrendo os necessitados.. quita de andar com panos quentes. às duas por três estava ali deitada.Pois a vender o espólio do enforcado. traindo a desarrumação dos manaxos.. entretido com o brequefesta. por três vezes volveu atrás à voz dela.E que tens tu com isso? . Tomara ela que viesse já. e outras tantas se desfeitearam de palavras. mais sotranqueira ainda que a própria inveja. O farrapeiro que se detivera à porta a ouvir o despique exclamou: . . por três vezes o homem despediu. ao que andava nas últimas e ter mais côdeas do que fios.Para derreter. mas não vás ter-me por beata fingida.. que era curiosa. . Para que quer o dinheiro. perguntou-lhe: . Pois para que queria vossemecê que fosse? Isto assim já não dá vestir. valesse dez réis de mel coado. O que a aborrecia era aquele zumbido de vareja ao cheiro de carne morta. a quem Deus perdoasse o desvairo. lábios cerrados como o sobrescrito duma carta que se deita ao correio e não deixa ver o que diz por dentro. acudiu chofrada: . aos poucos dias que tem de vida? Ela ainda descerrou os lábios. 155 . A tiazinha torna-me o dinheiro que eu torno-lhe os farrapos. quero-o para o meu bem-de-alma. para responder. Não tenha dó. . O meu Lázaro não tem um jaqueta com que se possa apresentar na feira a comprar a sola.Vá com Nossa Senhora? . Mas ele não despegava.respondeu Bárbara em tom áspero e de olhos duros. aninhada no palhuço da quintã.Que leva aí? . o que era caso raro. uns frangalhos coçados e meio podres. e Polónia. apossando-se dela. nem uma voz. . que a andaina melhor levou-a para a cova.? Queres? acabou por responder..

.. tirante as que tinham renovos. que também era prima direita. Um cartaxo poisa em cima delas. . mas já lhe não pesava que andassem comidas com grama. lhes tocasse à aldraba. Escarolada para quem? Trazia há quatro meses a mesma roupa. vai hoje. Andava um estrume.. agora quase não mexia palha.Compram por dez. fazerem conchavo com a morte e enterrar a geração toda que estava de gargalo no ar à espera de lhe cantar o miseré. destas pedras enterradas nas leiras até mais de meio. .? E que lhe fez à capucha? Bárbara esteve um momento a olhar em alvo. a distância 156 . aprendera a ser indiferente ao que diziam e pensavam dela.E isto volfro é. Não se despia porque tudo lhe fazia febre. assim imprevisto e intermitente como as sezões: .Traz o dinheiro com ela na patrona. a folha da couve galega.compro farrapos! . . lh.já se tem visto muitas pessoas. Agora desprezava este mundo e o outro. já lho viram. contanto que não se pusessem com lamentações. Ela dava bem conta de tais etiquetas. Isto de lãs por modos anda caro como a morte. e quem precisa humilha-se. Bárbara. O Gregório barbeiro dava-a como héctica no último grau. Trazia sem dúvida o dinheiro com ela.remordia Polónia. Dormia com ela vestida..exclamou a sapateira. dar-lhes-ia igual arrumação. Abandonara-se ao comer.Credo. esse que estava longe dela. Também nã o devia um alho a ninguém. como por exemplo a saúde ou a salvação. chisca. Não era ponto de fé que. Trocava o pão na padeira. vai amanhã. Deu-lhe uma risada e desandou pela rua acima.Irmãozinho da minha alma. Miguel. se não longe. e fazem cordas para prender os prisioneiros e roupa para os soldados. Chegado o S. de verdade. se fosse viva. a fugir ao agouro. Pouco lhe há-de durar? Não a vêem a secar dia a dia? Aquilo há-de ser como a caruma que está mirrada quando chega a adubar a terra. ih. . e. muda. Ainda cá chegam. Guardava essas até à colheita. Ela. vozeirando: . Tinha o essencial para o resto dos dias. As terras por fora tratou de arrendá-las e dá-Ias de meias.dizia-se. O mundo. Lá vai para a guerra.contramarcava a Joana da Urra. Os Alemães pegam nisto. credo.. não deita o Outono fora. mas não era só por isso. a talhada do unto. Foi para vomecê lhe deitar as roupinhas pela água abaixo que o primo se enforcou. atiram-no às caldeiras. . lhi Durava-lhe dois minutos e regressava à imobilidade e mutismo. O seu regalo era mudar-se em pedra. a baratinha. . e outros cartaxos podem vir se quiserem. como nunca mais pegara do pente para se pentear ou de sabão para lavar uma fralda. depois que faltara o irmão. Pela vida fora.A vida está para estes pendentes . não tão curta que não visse três padres colarem-se na freguesia. que fora uma abelha a moirejar. quedara desconcertada de todo. não se ralava nada de nada..murmurou Polónia. vão vender por cem.Quem sabe lá? . que viva cem anos que eu não desejo a morte a ninguém . que vêem passar o dia e a noite pelos séculos dos séculos e não se ralam com coisa nenhuma. Ainda ia às hortas ripar dois espigos para o caldo.Fica que nem uma baronesa . .É com medo que a roubem como da outra vez . se estivesse na mão de Cicrano ou Beitrano coisa que lhe fosse indispensável ou preciosa. e recaiu no acesso. Houve tempos que precisava do próximo.Mas não lhe fazia mal nenhum que fosse mais amorável com quem é do seu sangue. Está aqui está na Alemanha. e quando se sentavam à sua volta tinham mesmo cara de velar um cadáver.

mas resolver o negócio. esteve para se deitar ao gasnete do homem. lá se agarram a outros. quanto mais botar a estas falperras!” “Uma sertãzada de ovos?” “Ovos? Andam a arrebanhá-los por todo o preço para os mandarem para Espanha. arrependeu-se de ter ido tã o longe e torceu por outra vereda: . nem para os alfacinhas chega. que é homem insofrido. O tio Zé dos Cambais também fora. Mas parece que. Muita água leva o Mondego. Estavam até os rapazes a dizê-lo numa roda atrás da casa. “ “Um caldo.” Polónia devia sentir esta resposta porque acudiu de pronto: . como todos sabem: .Sinto um morganho a.. dera-o Deus. arranj e-nos uma bacalhoada com batatas. pois quando menos se esperava. Chegam à vila.. o hotel estava debulhado. que também costuma dar de comer aos feirantes. Nesse olhar significava: “ Bem te entendo.Anda para aí tudo cheio.. e Polónia contou. ainda a distraía. como as sardinheiras com a sardinha.Se mo chegarem ao bico. Voltaram a tocar berimbau. um deles é o senhor doutor delegado. que lhe conhecia os gostos e procurava fazer-lhe a boca doce com vista em caçar alguma leira. mas já não aceitamos comensais avulso. Acabou-se o azeite. não fazias tais perguntas. Temos três hóspedes. julguei que tivesse ouvido. na qual o irmão tinha papel mais importante que a tenda das colheres e canivetes.. com muito gosto.... roer cá por dentro. . nicles1 Era dia de feira e estava muita gente na vila. que é assomadiço.. entretida com a feira interior.” “Homem.. lá mexem. em que ânsias.Irmãozinho da minha alma. Ela não se deu ao trabalho de a desmentir.. sabe Deus. deixem passar o Verão. já que o Duarte tinha o vezo de tirá-los do corpo para vestir os espantalhos dos milharais. e onde não há el-rei o perde. ih? Quando vendera a vaca. pudera.. Calhorra? . Depois. “ O Antoninho.que podia observar sem gastar o coração. Falta tudo. lá apertam com uns.Então já sabe o que se passou em Orcas da Beira com o tio Calhorra e a gente da vila? Bárbara dardejou-lhe como única resposta um olhar breve e iracundo. “ “ Meus santos.indignou-se. amigos e senhores. Ali vão os quatro e chegam ao Barradas: almoço? “Almoço.quanto mais não fosse serviam para remendar a sua cáfila . vinha com os mexericos mais salgados. O tio Calhorra e o senhor Antoninho tinham na antevéspera ido a Orcas levados pelo senhor Tadeu a ver se de algum modo acudiam à multa e não sei que alcavalas que haviam deitado ao tio Zé dos Cambais.Vamos almoçar. Sabes de certa certeza que não falei com ninguém. e fica areia e água choca. considerando que de pouco préstimo podiam ser. Não havia para que erguer 157 .E você. rompia na zangurriana: . Para Espanha ou para a Alemanha. Aquilo descobriram por lá algum explosivo com gema de ovo. E não admira. A certa altura diz o Fráguas. ih. Foram ao Requeijo. Ela não saía da sua hirteza para botar dito ou risada desdenhosa. . Outras vezes não era certo que ouvisse o seu correio de notícias. Agora que via ir os mondongos .. encarregos de tal ordem que se fossem por diante ficava o homem aleijado para toda a vida. A Polónia. ao menos? As hortas agora estão espigadas. Sou aqui como o Cambais que tem a mó sempre pronta para a moenda. se tivéssemos tempero. Aqui o Tadeu deve estar com a sua larota. ih. nem saí daqui. “O estalajadeiro riuse: “Bacalhau. Se não fosses mais tola do que te julgas. não digo que não. a Polónia limitou-se a chorar. sim.

homem bem comido e bebido.Ah! ah! Está bem. as outras e os lombos fora dependurá-Ias a tais e tais portas. que ia vender uma vitela. justiça. a menos que fossem do bispo. Atrás dos guardas. mas quanto lhe não valeu? Gastou uma novilha. “Diferenças hoje em dia. coitado.Hás-de deixá-la por três e ainda lhe comes um bife. empenhos. cheirava que era um regalo.dizia o seu Lázaro. não vale a pena afligir nem apertar muito com o pagante. Foi-se à feira. Com a fraqueza. vá de amizades. Estavam na santa trincadeira. . Apareceu um outro doutor mais descarado.olhos. Lá o volfro não lho restituíram que já não haveria meio de se lhe descobrir o rasto. que lá é que se forjica. Mas vá de saúde. palavra de rei. . Um deles soltou um berro: comem todos ou rebenta aqui uma revolução? O Calhorra mandara assar uma perna no forno. . que o tio Calhorra não é trouxa. para se resolverem com honra.Vai lá ser careiro para a Terra Querite! -Nem que me virassem do avesso. você e o cabo estão convidados a vir tasquinhar uma lasca em casa do Rufino. forrou uma vacada. pois mal começavam a apontar-lhe os cornichos por debaixo da pele. direito ao Antunes. Dali a pouco o que havia de melhor em Orcas trombava. o caso é que ali se combinou riscar as penalidades ao tio Cambais. Esperem um pouco. de Pedrões. Pudera. se fosse homem instruído. ao menos uma vez na vida. Queria por ela quatro notas. Lá lhe compraram a vitela. mais católicas que as estações da Via-Sacra.Ministro não queria ser . 158 . Em menos de uma hora à porta do Rufino. Chamam o veterinário. o tio Cambais pagou a vitela. . não pegavam. Ao cheiro foi vindo povo. Pois então?? Veio este e viria o Governador Civil se ali houvesse tal bicho. seu Calhorra. metem-lhe a faca. Caiu bem no paladar o regabofe de vitela que deram os volframistas de Mouramorta. . povo noutra. tinham abatido uma vitela e o mesmo foi começar-se a juntar o pagode da vila. O Antoninho Fráguas. mal se tinha nas pernas. são três e meia. Dali a pouco voava pela feira que os de Mouramorta.tornou-lhe o Calhorra. vem o cortador. uma vitela que se derretia em gordura e novinha. chegou o senhor administrador. pela rua e quelhas confinantes.Pois já que está bem. Estavam ali deitados os guardas assim que se puderam pisgar. A certa altura o Calhorra esteve a cochichar com o Cambais e disse: .Você. por fantasia. veio a guarda: . já a bezerra estava esfolada e esquartejada.Pronto? Isto é para consumo particular. Figuros e volframistas numa sala.O mais.A licença? . já que hotéis e estalagens não davam de comer. Sim senhora.Eu vou arranjar papança. era capaz de chegar a ministro! . . fazer uma segunda em bifes. Havia de fazer notas e distribuí-Ias de avião cá pelas falperras para toda a gente comer vitela e migar trigo no caldo. São três e meia. os fiscais e senhores da justiça e das Finanças. . Ao que era de rosada e bonita crescia a água na boca à gente que a via. E assim foi. anda tudo ao mesmo: comer.Por ser para você. esta vida são dois dias. era à mesa entre duas boas garfadas e dois goles dum vinho velho . o senhor Tadeu. por modos que dissera para o Calhorra: . razão. já desesperava. e toca com ela para o galho duma árvore a esfolar. à volta. Trombavam bem e bebiam melhor.” O senhor Tadeu.O que eu queria era mandar na Casa da Moeda.

o volfro. que ficou soterrado debaixo dos escombros. roubava. e traziam veneras de latão na lapela onde antigamente. Quando voltou. ter revólver. prima. um. Não viu o frango que viera substituir o lascarinho que levara de peita ao senhor Fráguas e ficou muito aflita.E todo este cagaçal é obra do volfro? Terçã coma tais pedras mailo primeiro ladrão que deu conta que andavam a atirá-las às cabras? arrenegou Bárbara. e vivia-se. imberbe.já ela se encontrava ajoelhada à lareira a acender dois chamiços. quando vinham das romarias. pôr gravata. quando iam para malhar o milho dos canastros. os rapazes entravam pela vida de tunos.dizia-lhe Polónia. porque galinhas são a última coisa de que se desfaz uma dona de casa. Ainda naquela roubalheira quem andava era o volfro. ih! _ Deixe lá quem morreu e reze. um galinho tão bonito. ih. não deitavam agora seda e zefir? E os rapazes só compravam sapatos de calfe e bonés de pala. É o que lhe digo. Deixa. muito grande e forçudo. cachenés. Todos queriam comer do bom.. botar relógio. que tanto pulverizava o casario das cidades como a cabeça da gente. Pôs-se a chorar: . que já galava! Quem mo comeu. Na vila de Orcas comera uma vitela inteira para saciar a fome. À tardinha levantou-se a deitar dois rabos de centeio às galinhas. No Ramalhal minara a casinha dum pobre homem.aquilo tinham-lho por lá abafado . outros lambidos pela chama. que dantes eram felizes com a flanela e o riscadinho. ser gente. os asnos. armado dum martelão. com a perna direita esmagada debaixo duma pedra em Muradais. e introduzia a mão espatulada onde houvesse que subtrair. Rai's partissem. 159 . uns já em brasa. que dantes não sucediam estas abusões. à força de virar o mundo de pernas para o ar. Polónia. As raparigas. Sim. têm dado muito dinheirinho aos pobres! Depois daquele dito foi como se lhe partissem a corda. vestir à fidalga. ih. Era ele o autor de todo o esparrame que ia pelas parvalheiras. tiveram de desarvorar para os lajeais da serra. Brás da Nave certa noite desmontara a eira que era de brita. seduzia as donzelas. que vale mais . que de sénica lhe sirva! Continuou a pôr tanganhos no lume. fazia as pessoas ruins. Em S. deixava de ser um mineral para se tornar o substituto do tranglomango ou do Pedro de Malas-Artes. de lágrima no olho. espetavam por devota garridice um raminho com a sua pena de canário ou de marantéu. outro com a mão lesa ao brincar com a pistola que se disparou. tão pimpão. Umas raparigas davam em droga. e aborreciam uns o trabalho. Ele é que era o pai de todas as pachouchadas e poucas-vergonhas de que há tempo se falava pela serra. Ali tinham! O volfro. Todos queriam ser homens. reze-lhe por alma. e era como se o visse em sua faina secreta de destruidor. A Polónia ofereceu-se para ir procurá-lo pelas casas das vizinhas e pela primeira vez lhe acudiu aos lábios exangues um arzinho de agrado.Vê lá tu. Não deu mais palavra. no dia seguinte. A “sepultura da vida” ficaria também sepultura da morte se a lei cristã não mandasse retirar o cadáver do ambicioso e dá-lo à terra santa. . por muito que Polónia a puxasse a terreiro. Bárbara julgava vê-lo sob a fGrma dum homem negro.Deixe lá. rebentavam outros com os excessos que faziam. sem o galaripo . ele é que botara à trave a corda com que o seu Duarte se havia enforcado. Punha-se a olhar para o lume a devorar tangos e cavacos. ou de que cuida antes de morrer. Irmãozinho da sua alma. Matava. Só dali da terra tinham ficado aleijados dois. as desgraças eram à rasa por essas terras fora.

Mas o tanganhão cedo voltava.pãozinho de Nosso Senhor. de olhos nas nuvens. maldito ele fosse? Matara-lhe o Duarte e não havia dúvida que fora ele quem assassinara o José Francisco à traição. pior do que bexigas na gente. Oh. baixava a noite para Bárbara. noite sempre enorme.. estirado desde o claro-escuro até à fogueira. Procurassem bem e não culpassem outro. senão o volfro?? Às vezes.Que é o que a prima procura? Veja lá se cai para o lume? Voltava a si. que por onde passasse fazia aqueles poços tão fundos que já se lhes não via pé. e ficavam para ali de fojo para os bichos do monte. Pensamentos que vinham do negrume. tornando-as deste modo improdutivas para sempre. ao canto roufenho do reverendíssimo Tadeu com o nariz como uma batata quando lhe grelam os olhos: à porta infra! E ela e o Duarte ficavam sozinhos. que acalcava as sementeiras como mil cavalões arreitados. eles se fartavam de voltar. . para o cemitério. Fora o volfro. com a diferença de que esta tinha de passá-la de espertina.dizia ela com um sorriso. Involuntariamente se punha a dizer isso mesmo entre si. e no seu entendimento perverso o mesmo era que mandá-los para a torre da Madorna onde havia um gigante que comia meninos.Manda-os ao volfro . quase tão grande como a outra de que nunca mais se acorda. iroso. sua mãe. daí a pouco rompia. encher-lhe a cântara de água. Acontecia os pequenos da Polónia virem lamuriar para a porta: . quem ceifava gente por filas. pela leiva da superflcie adubada com rios de suor.Chorava e deixava de ver por instantes. para os borrachos e as crianças. como tantas vezes acontece a quem vai seu destino. a gemer: deixai-a confessar. aos gritos: façam-lhe a vontade e ainda esta noite vão dormir ao estarim! Eu não as vou soltar! Depois lá iam as duas velhas. ela se fartava de repelir. se dentre os carvões. Eram todos eles dotados de carne e osso e vinham tal qual: sua tia Soledade a pedir um padre. não sabia se das suas pupilas. que lorgava as encostas e chapadas dos montes. lhe marinhavam para o selo. como a gadanha do ceifeiro ceifa feno. e a prima via-a mexer com os lábios e cuidava que estava a rezar. o barzabu negro e malvado? E por esse mundo além. sepultado nas entranhas da terra. se dos buracos negros da casa. A Polónia via-lhe aquele movimento absurdo e interrogava: . o pretalhaz desalmado. e até para os viandantes descuidados.. Ainda se lhe ouvia a chanca. Mal fitava os olhos nas brasas. tanto na terra como no mar. senhora mãe? Venha. fazendo finca-pé na certeza que tudo aquilo era desvairo do seu entendimento. o resto do corpanzil. não sabia dizer já que malandros de pensamentos lhe tinham vindo à cabeça. O homenzarrão que era o volfro sumia-se para dar lugar a outros macavencos. e a escuridão. o negro da família. as duas tarascas. os bofes.Já lá está o pai. que temos fome. Essa primeira noite. ininterruptos e nojentos 160 . o lume. tinha a impressão nítida que o volfro estava ali: a pilheira era cabeça. deixando a terra com uma espécie de furúnculos e de impigens. sozinhos. embora arrenegasse de beatices. Não raro lhe sucedia estender o pescoço como se se dispusesse a ouvi-lo falar. pôr-lhe um panelo com batatas a cozer e dobrar-lhe a capucha atrás das costas para se encostar. quando a felicidade do morto é dormir. trocando o saibro. por outro lado. que vinham do inferno. que fazia estas avarias pelos povos. A Polónia só abalava depois de lhe ajeitar o lume. Era aquele mesmo que revolvia as chás em que se cria o. que perde a alminha! seu irmão. o arraial dos fantasmas. atrás dela pela casa. mais medonho do que nunca. e negra.

já da margem de lá. Desenvergonhados? Aquelas vozes. Atrá s da lida veio a poupança. soluçava até se encher. Era um cassamente. que a torcida da candeia já nem sequer cheirava a petróleo. Estava a vê-lo muito negro. Estava a sonhar. se calhava ter de puxar pela carteira. como a comédia em Orcas a que a tia uma vez a levara. mais uma para o rol. ou de botas amarelas e chapéu faia. acabou mesmo por deixar de ouvi-Ias.1 Era a garotada a arremedá-la. caminho da romagem fora. E. Compraram vaca e carro.como as lagartas dos pinheiros. e toda ela ficou hirta. e dali em diante os derrancados dos pensamentos não tornaram. sem pinga de sangue. E entrava de 161 . Ajuntaram pecúlio. desde a maquia extorquida ao Luís Ougado. muito recatadas ao abrigo das três voltas. todos os anos pelo Santo André matavam porco. Como luzes que se apagam a um tempo se lhes sopra a nortada. Rompia a soluçar. por uma noite de geada. E tudo ia em acréscimo. cacarejava uma voz escarninha: Irmãozinho da minha alma. espantava. até ao enforcamento do Duarte quando. Via-se mesquinha de todo e perguntava-se se o senhor Antônio Fráguas não andara a vida inteira a mangar com ela. Também botavam renovos que encandeavam a vista. ih. As suas terras atolavam em estrume. Fartaram-se de cavar a vida. Não queriam crer. O seu Duarte era um ganhão de mão cheia. zás. O volfro era o pai de suas turpitudes e desgraças. ele adormecera como um canzarrão que andou a lutar com os lobos. ih. A casa estava sepultada em silêncio e trevas. louvado seja Nosso Senhor. fora ao desfatio. Ele é que fornecera a matéria-prima do mal. sem embargo dos olhos ruins que tanto gostariam de lhe deitar empeço. mas desconfiava que deviam de ser os filhos mais velhos do Fandinga. ih. aparece o volfro. os olhos a olharem para esta vida. língua de fora. Poupavam-no ao corpo. Mas pronto. não afrouxaram. Disfarçavam a voz para que os não conhecesse. só aquele palco em foco. ao fim. e justaram uma parçaria com o Sancho. Tudo isso entrecorria na lareira à resplandecência do crisol. mostrava o seu pacote de notas. e o Duarte. atestadas até cima de lenha para o Inverno. e as lojas. como meninas por detrás das grades dum recolhimento. e andavam reflectindo os pais na exaustinação de ver quando é que ela esticava o pernil. Não descansava enquanto não via a quintã e o combarro a abarrotar de mato. E. Semelhante acesso era uma rabanada de vento que lufava sobre o seu arraial de fantasmas. Soluçava. mormente as cardenhas da eira. que mal a tiravam da sua cisma. conforme o lume devorava os tanganhos. rápido como abrir e fechar a mão. Um alma do diabo que tinha filhos por toda a parte e assim lhe catara respeito. Iam aos mercados. Mas. esvaíam-se todos. nas traseiras da casa. O Duarte dava voltas sobre voltas com o sono muito agitado. passara um nó da corda de encarrar ao pescoço. Agora. não era nada. que eram fracos trastes. ia-se-lhe representando de espingarda a tiracolo. anos e anos a fio. a chegar-se a ela e a querer rendê-la. a tentá-la e a meter-lhe o veneno que nunca mais perdoa. na dor que o acometera ao entrar em casa e dar com as arcas abertas e a caçoila sem o precioso recheio. Às vezes a cabeça caía-lhe para o ombro. É que não gostaria dela. com negror espessíssimo à volta. gordas. gordíssimas como fidalgas. só porque erguera mais a voz. Lá fora. Estavam lavradores. e um momento a mão dele veio agarrar-se-lhe ao corpo. A primeira noite que uma vaca tilintou à sua nianjedoira dormiram na corte com ela. associados com os do Urra. O mesmo pauzinho a arder lhe dizia que fora um sopro de tempo esse durante o qual se lhe haviam fechado os olhos.

armava-se outra vez o teatro. com o adiantar da manhã. Parecia que se ensaiava para lhe cantar o bendito. à lareira. abria-se. As chamiças charriscavam até lhes arder o manto. Às oito em ponto tinham de estar a pegar da picareta. Pois que assim era. a catadupa de rumores indistintos. Os capatazes sabiam que eles metiam a unha e andavam-lhes na garupa como carraças. De 162 . Borbulhava o formigueiro dos defuntos. pouco a pouco. além agonizavam: ela andava a tomar nota como empregado de cangalheiro. E era o mesmo que estar com os olhos abertos. com o completo despertar do cortiço. tal como tinham sido em vida. Por fim. mais de vinte no Vale das Donas. de anjo. contrataram-te para fistor? Se levantavam a grimpa. porque era vezo. lá ia por cima dos telhados visitando a clientela. Esse vestido.Põe-te a mexer! Num rufo. que a aldeola era feudo seu. pousava com não menos chinfrim na casa da Pedralva. estava mesmo a dizer: levantar? levantar? Um cão latia e era quanto bastava para se achar menos só no mundo.. como se se tratasse duma romaria. um bocado ficava o seu entendimento. Depois. Se não estavam. A sua vozinha alegre. E de olhos abertos lia no escuro como lia nas brasas. Entretanto os rapazes que trabalhavam nas minas subiam e desciam os patins com grande estreloiçada e ouviam-se cliamar uns pelos outros. tão juntinho que bastava os defuntos darem uma cambalhota. mesmo de pés atados. afogado na noite. a vogar à tona do mar tenebroso como uma cortiça. rua. Via a fogueira a apagar-se e punha mais lenha. Sobre a alva calava a grasnada sinistra e rompiam a gorjear os passarinhos que não metem medo e trouxeram a voz do céu. Oprimida de todo. Os encarregados tinham-lhes raiva porque a vasilha continuava a verter e não acertavam com a fonte por onde melava.Olha lá. ia deitar-se. a grande zarga? Ao levantar. A casa era lôbrega. como os galuchos nos quartéis. fechando os olhos. Assim mesmo. reapareciam os figurantes a bater o tacão. Depois. estendendose em cima da cama. vinham logo de rabo alçado: . e estavam logo lá. Tratavam-nos. Para o Casal cantava um rouxinol e para o cimo do povo uma toutinegra que amanhecia com as estrelas a chamar pelos pastores. Quando começavam os tamancos a matraquear na rua. Também ali farejava desgraças. acendiam-se as luzes dentro das meninas dos seus olhos. Mais acalcanhados nem os bois do cilindro. Se algum esbarrava a ver para onde corriam as nuvens. abria-os. Dali andavam mais de uma dúzia em Muradais. Aqui adoeciam. de vozes humanas. Depois o lume ficava a triturar os gravetos e era como um cão a roer um osso. A noite negra poisava-lhe em cima o seu joelho de giganta. era o bastante para lhes apontarem o largo: . acabava de repô-la na terra. bem embora não tivesse saudades do mundo. e via-o tão perfeitamente como se se acogulasse à sua volta. dava graças ao Senhor que a não tinha chamado aquela noite ao seu terrível tribunal. mas pela telha de vidro a luz banhava-a como se caísse em cima dela um vestido branco de noivado. Deitava-se de costas que de lado nã o aguentava com as dores do peito. Passava boa parte da noite. custava-lhe respirar e a pieira saía-lhe mais assobiada. Mas aquela convivência acabava por lhe ser molesta e. agora que elas já eram menores. Lá se punham outra vez todos a falar e a fazer tagatés. a toque de buzina. E depois. que é sala de cães. A coruja vinha também com o bater da meianoite e armava grande alarido e guincheira.novo com o seu arraial de fantasmas no casarão amplo e soturno que descobrira por debaixo da terra do cemitério. à raiz das covas.. de chocalhadas.

não desse ela o cadilho inesperadamente e a roubassem os outros. continuavam a ajuntar volfro. À porta uma acácia cobria-se de cachos brancos. também. muito à capucha. Depois.Sonhei que Nossa Senhora me acenava com um lencinho de rendas e depois me dava a mão para passar uma ribeira muito grande.e não lhe tinha passado bocada nos gorgomilos.facto. respondendo ao avesso do que ela esperava. e a vida recomeçava para ela. buscá-lo em mulas. tinha dormido como uma pedra. que já saíam duas vezes ao dia. davam os galos a alvorada. pschi. Muito pela sonsa. A Polónia. Bárbara arrastava-se para a lareira. Os homens de Malhadas. Ou: . Regalava-se toda em lhe torcer as voltas. de verter os seus lamentos.Comeu? . Às vezes badalava o sino para a missa. Acendia a fogueira. sabor de mortulho. vinha cedo com a mancheia de caruma. soprava às duas brasas que luziam ainda no meio da cinza. a quererem roubar o rolo umas às outras à força de melúrias e denguices.Hoje acho-a mais animada. que nem o Demo seria capaz de adivinhar. que até para lhe ser mais antipática que a outra se prantava ao pé dela em vez de andar por cima dos telhados. Até que a fêmea saísse da toquinha. A corcolher punhase a cantar e logo a seguir o pedreiro que todos os anos fazia o ninho ali perto na casa da Cismas. punha duas farmalhas. 163 . Também lá floria o alecrim que o Jamboto coveiro punha aqui e acolá para que se não dissesse que aquilo era pior que um curral de gado. que andava a rondar. e as rolas na cruta dos pinheiros ao desafio. Eles fora. girava à vida como os pastores das vacas. por ser de cascalho e muito esburacada. Mas o febrão estava a passar. . A baixa que sofrera o quilograma com as leis danadas do Governo não dava para a grandefreirria dos meses anteriores. como podem ser iguais gotas da mesma água choca. igual à de véspera. que trabalhavam em Muradais. Não chegava o sebo para a mecha.Teve bons sonhos? . Nada a prendia à safadeza da vida. fartava-se de gazear. Ia correndo a levada do tempo e a leiteira tocava a buzina no terreiro da fonte. Tudo andava já de alevante. Uma vez deu-se a provar: tinham um sabor esquisito. Que mais não fosse. comprando aqui. A Primavera era bem bonita por aqueles campos abaixo. Viam-se só em campo as grandes empresas. largavam com o lusco-fusco. o tio Calhorra continuava no negócio. com o marantéu nas moitas. uns e outros.Estou aqui estou fina. pschi. De manhã trazia perra a garganta e falava pouco: . Dormiu? Ela dizia que sim. Vinham homens de Espanha. o cuco onde calha. Lá tinham maneiras de surripiá-lo.Então sente-se melhorzinha? . . Ora? No cemitério também nasciam aquelas flores que se erguem numa haste alta e fina e parecem os antigos alfinetes com que as senhoras seguravam o chapéu. vendendo acolá. Em cima tinham uma copazinha que lembrava uma gota de sangue. ganhava arreliar aquela coruja. Os poleiros eram coretos de charanga. de modo que lhes não faltavam braços. levava-lhe a enxerga para a quintã. Estava varejada a árvore das patacas. sempre igual às transactas. a que chamavam navarros. Era para semelhante primavera que ela corria e tomara que fosse já.Comi e soube-me bem .

tocou o sino. como em geral era modo seu. A prima observou-a de soslaio e franziu o focinho. Tenho-me desobrigado todos os anos e.. sempre me quero confessar. Quando a prima voltou.. . parece que não podia. como se também eles se associassem com a terra a comer a gente. um real seu não viram para missas ou responsos.serrazinava Polónia com voz pedinchona..Sabes que mais.Lá irá para onde o pague? Ela não respondia. e uns meiotes novos. Tinha proferido aquelas palavras com certo esforço e Polónia considerou: .. Os padres que fossem comer a outra manjedoira. ainda pode demorar.Olha. . que estão arrenegadas por ir ganhar a vida. Nada lhes dera com o Duarte.. Às porteiras pôs-se a cochichar. lá ficou tão abafado debaixo dos cardos e das ortigas que nunca mais deu sinal... Quanto a rezas.Já disse. A sola levava tanto tempo a consumir-se como a caveira..? Sente chegada a hora. disse-lhe de caso pensado: . . . e percebeu que dizia: “Não ouve o cuco?” Voltando para dentro. que vinham na enxada. Não queria lá chinelas. veio para esconjurar a Florinda Pedralva . nojo e medo.Sabe. sombra que se esvai quita candeia.esclareceu Polónia. provavelmente para o Lázaro. Deita-lhe o milhinho que está na teiga. do que os sapatos. todo o dinheiro que tenho e pouco para o bem-de-alma.. que todos os mortos hão-de passar quer queiram quer não. muito raro que por trancafio lhe ficasse a talho de mão assistir grato Deo às suas ovelhas distantes. . Miguel. Polónia.. mesmo que quisesse falar. Abria a boca e ficava a papear. “Não tinha posses para se tratar a leite. Para mortalha reservava a saia de castorina. a roda toda para trás como os turnus!” Reservava então essa saia.? Era uma sondagem e respondia invariavelmente: .. Um dia mete-se contigo na cama e esgana-te!” Coitadinho. mas no cibeiro. . que levara havia mais de vinte anos à romagem das Cinco Chagas e de que ele dissera: “Que bem que te vai essa sala. ao pé do Trinta que morreu chacinado. que ela bem viu. não temia dar contas a Deus.Então já quer. Está a perceber? 164 . o lenço de seda ramalhudo que fora da tia e era um jardim. com a tromba arreganhada à semelhança do jacaré que está na Lapa. Bárbara indignou-se toda. o que sucedia as poucas vezes que o senhor Tadeu ali vinha dizer missa encomendada ou no desempenho das suas obrigações paroquiais.Vista-me os marmotinhos que andam rotos.Hei-de empregá-la no bem-de-alma. o chambre de flanela que estreara há dez anos na festa de S. Que imaginava ela?” Polónia sorriu com desdém.É a ribeira do Jordão. “Fica-lhe a alma penada no mundo!” diziam-lhe.? Acenou que sim. quando ao fim de sete anos o Jamboto abria as campas. ofereceu-se para ir arranjar meio quartilho de leite. Pois que não lhe consentiram enterrá-lo na terra santa. e nada metia mais nojo no cemitério. Aquela manhã. pelo não. Para que quer a riqueza. justinha na anca. durma-lhe e coma-lhe bem. Enquanto Mónia girava a abrir às pitas. vai-me chamar o padre. olhe. “Olha que não pára na sepultura e vai andar pelos caminhos a fazer espalhafato. vai-me destapar o buraco às galinhas.. se não fora as consumições com que o Demo derranca as almas. Pelo sim. O certo é que tinha em mente gastar o menos possível com o enterro. Mas.

de rópia pela casa dentro. não viria. como que sorriu.. se calhar nem se conhecia. com olhos que fugiam para dentro do crânio. com o espelho caído no regaço. por detrás da arca. Mas os dentes reluziam e eram eles que davam ao rosto o tom derramado que tinha a Senhora da Boa Morte no santuário da Lapa. a meditar nas voltas que o mundo dá. mas se fosse assim para o caixão não meteria medo a ninguém. a pobre mãe tanto gemera. condoído. que a fisionomia pouco mudara. O que era o barro de que Deus ou o Diabo amassavam a gente? Tornou a mirar-se e notou com reconforro. e despegavam-se da cabeça como vagens debulhadas. permeáveis à luz. Bebeu. mas faleceu-lhe a voz nas goelas. horrorizada. tão retraídos como bichos bravos no fundo dum fojo? Ah. além de amarela. foi pelo espelho e ao esforço que teve de fazer capacitou-se que chegara ao fim dos dias. Quem quer que era foi direito à cantareira. de lhe atacar tibornadas pela boca abaixo.Ah. pois não lhe dera nada a rilhar pela morte do Duarte. Bárbara chasqueou baixinho: . Lembrou-se que tinha um espelho no açafate da costura. e levou-o à boca.. Iii. onde fora a cama do Duarte. Quem olhava para ela. seguiu-o com os olhos e afigurou-se-lhe que trazia carapuça de Alvite na cabeça e estava em mangas de camisa. que de modo algum queria perder um espelho de tanta edificação como aquele de ver enxotar o Diabo do corpo do seu semelhante. irmãozinho da sua alma! Viria. Quando atingiu o açafate que estava no sítio. estão muito enganados com a delambida! Polónia desandou. se lhe oferecia encarquilhada. entrou umhomem. um pé em casa. bebeu. No pescoço é que a pele. puída ao meio corno laja depois que se malhou. causaram-lhe tal impressão que os fechou.. Estavam fartos de a defumar. estava urna surrona. Aquilo não ia com benta nem benzilhão. já se não via há que mundos. vítima do volfro. e sempre se decidiu a lavar a cara e a tirar a ramela dos olhos. e ela ficou a malucar na Florinda. Também as orelhas se haviam tornado diáfanas. encostando-se à parede. À dita confira. Ela ouviu-lhe o glugIu. que era só dela corno o vermelho das rosas de Alexandria. Polónia falava de afogadilho. talvez afinadas as arestas e retingidos de escarlate os lábios. Era bem a Bárbara Barboreta. aríscos e vagarosos ao mesmo tempo. Vinha descalço e tão escoteiro que só reparou nele quando passou por diante. ah. ergueu o cântaro pela asa. Mesmo assim sufocada. como fazem as águas vivas quando começam a subir nos açudes e encontram um buraco dos ratos. esses olhos negros luzidios. mostrando os dentes. ih. um espelhinho redondo que ganhara havia mais de dez anos na rifa do Roupinho. depôs o 165 . e veiolhe o desejo de se ver. no padre que era muito capaz de não vir confessá-la. de a benzer. outro pé na rua. permaneceu de cócoras que lhe doíam as costas e se esfalfara a chegar até ali. e reconheceu-se naquele sorriso. ergueu o espelhinho e mirou-se. o seu tanto escaveirada.. Onde ia porém o azougue e frescor da moça que um dia o senhor Antoninho cometera à volta da rornaria?! Estava agachada detrás da arca. Mas ora. como se a mão da morte andasse a enfolar o saco para lhe atar o nagalho.. O seu primeiro movimento foi gritar. depois do abalo que sentiu ao pousar os olhos nos olhos. tanto suplicara que o senhor Tadeu. Assim que respirou. Corcovada. sem dúvida a testa mais branca. ih. vinha aquele dia rezar-lhe o exorcismo.Tinham ido à benta de Quintela.

A prima está a morrer. se a casa nao caira por cima dele e não o esborrachara.A mulherzinha está aqui está a alçar as pernas. E. Oh. hoje o dinheiro da vaca. A sua pena era que chegasse quando estivesse já debaixo da terra. Era a Polónia com o homem e a ranchada dos meninos. proferiu em voz alta: . Observou-lhe Polónia. Polónia recomendou para os filhos: . Sem esperar que respondesse.perguntou Bárbara erguendo olhos para eles. Mas tão-pouco naquele momento encontrou voz para berrar sobre ele.. olhe. afinal. . se nao vomitara as notas. porque ouvisse chapejar na rua ou assim se lhe afigurasse. Foi ao transpor o limiar que Bárbara reparou ainda trazer o homem a fralda da camisa de fora. põe-lhes a calva à mostra. meio divertida: . outro contra. Faltava-lhe aquele tormento: duvidar. Porque lá que havia de chegar havia. que no segredo do seu peito e foro de Deus acoimara outro. circurivagando o olhar e não topando ninguém.. ainda que pilho notório e confesso. se descobrissem um moleiro com carapuça de Alvite na cabeça e a fralda da camisa de fora. Pois como explicar o ímpeto com que aquele pilhanqueiro entrara pela casa dentro e as vozes: “a mulherzinha está aqui está a alçar as pernas.. Quem sabe se o ladrão nem era o tal ladrão fino. O pai do Céu não lhe perdoava que acusasse um inocente embora a acusação não subisse ao tribunal dos homens. o assento enfarinhado. com a cara de fuinha que herdara duma geração de famintos.Quer aviar o pão. martelavam-lhe na cabeça como dois ferreiros malham o ferro em cima da bigorna. agora compreendo.. maldito fosse o dinheiro e mais quem o fabricava? Todas as manhãs que Deus deitava ao mundo. se não era moço de moleiro. deixe lá os moleiros e encomende-se a Nossa Senhora! 166 . a primeira coisa que inquiria era se o gatuno se não tinha dado a matar.cântaro. ainda na caçoila de má morte. que começava por matar a sede no cântaro alheio? Vinha gente que se ouviam passos no palhuço batido da quintã. perguntou em tom de melaço se não se sentia mais aliviada.” senão como a desculpa antecipada de repetir a má acção. E ela. Quando já não precisa deles. deitou a correr e esgueirou-se pela porta como uma engula. Oh.Ficais aqui. Desceu a tampa. Polónia abanou a cabeça negativamente. o Diabo cobre os patifes até à altura em que lhe ajudam a fazer o joguinho. um pró. trouxessem-lho à sua presença. mas haveis de estar muito quietos. ontem o roubo do dinheiro suado e tressuado por ela e o Duarte. Ai. esse dia havia de chegar. logo de seguida. foi à pilheira e meteu a mão numa panela. nem aquele ladrão porco. que era do conhecimento de toda a gente estar em seu poder? E dois contendores.Não encontraram um moleiro? . quedou confundida. só Deus é bom juiz.. e a súbitas. o seu tanto intrigada. coitadinha. soergueu a tampa da arca e abismou-se a olhar para o que havia dentro. se andara a roçar pelos sacos da farinha. depois num pote. Ela então pediu-lhes para saírem ao povo e. à boa mente ou à fina força. e lhe palpitou que.. Mas. Lázaro. E.? Foi para isso que se veio meter detrás da arca? Ah. limpou os beiços às costas da mão e. Seria aquele o ladrão do seu rico dinheirinho e causador de o Duarte se enforcar? Arriscava-se a sê-lo. já aí vem o senhor padre.

coma-lhe! . Os meninos tinham-se postado em volta dela a vê-Ia esticar.. Mas a carne corneste-la tu e os teus miúdos.tornou Polónia. um ar amável.É preciso alimentá-la..Bárbara baixou os olhos. Deixa. Ao pôr pé no limiar.. E ao contemplar aqueles carinhas de anjo. que se podia traduzir assim: Entrou no delírio! Magicou que não valia a pena estar com explicações e calou-se. quase duas dúzias. o mal não é de morte.Não tires nada para fora. Bárbara julgou ver luzir em seu rosto.Pois se se sente fraca. o que era caso. O senhor padre bem sabe que a casa é de pobre. tem meios . .. A olha escumaste-la muito bem escumada e imolou-a com sopas de trigo o esgorjado do teu homem.apressou-se Polónia a responder. Dali a migalho aparecia o senhor Tadeu. e consigo e com Deus ficou a cogitar que ele. cantés a missa vulgar de cinco paus nem um bochecho de água representa quanto a refrigério das respectivas labaredas. sempre muito recatados. . como se entrasse numa furna. está uma galinha a cantar'“ Lá ia a 167 . ela está a pé.. Lindezas são para ti. e durante o breve movimento que imprimiu às pestanas surpreendeu o Fandinga a fazer para a mulher um gesto.Vá-lhe chegando umas gemadínhas. Faltou-lhe um galipanso. Bom. que a mãe assoara e lavara com o rabo do gato. entretida no deserto da sua alma com sucesso tão estranho. à frente o grosso nariz de batata grelada. Bebi uma água chilra. Tinha três pitas que punham três dias a fio e descansavam um.Tem sim. Mas a Polónia começara a revolver a roupa da arca com mira. com o sorriso querendo significar: “Matou-se uma pita. deixa.. matou.Parece mal? . Mas não pode ouvir falar que se corte o pescoço a uma ave. delgada como a da fonte. era de supor. Ela não tem meios? . meu senhor.Nosso Pai tanto entra na cabana como no palácio. de ordinário fechado. . o sagrado viático. quando era ela a tirálos. dando como razão pôr-se-me na fraqueza por ter muita enxúndia. quando deu com ela encolhida atrás da arca saudou em voz que se esmerava por ser prazenteira: . matar-lhe de tempos a tempos uma galinha.. desses que actuam na livração das almas do Purgatório como os remédios caros na cura das doenças. Bárbara sorriu de novo. com os que as pitas das vizinhas vinham pôr nos seus ninheiros. dava o alamiré: “Polónia. fungou e dobrou-se para o chão a estudar o caminho.e o senhor Tadeu acrescentou. Entre dois frouxos de tosse ciciou Bárbara que apenas se sentia muito fraca e não podia com o corpo. de encontrar os lençóis com que se recebe na Páscoa a visita do Senhor ressurrecto e. dar-lhe leite. teve vontade de corrê-los à bofetada. por sinal satisfeito. Pois'“ . acalentasse a esperança de que lhe encomendasse algum trintário bem pago. ia morrendo de consurnição. como quando lhe iam ao mostajeiro. voltando-se para Polónia: ..Então como passa esta doente? Ah. ao gosto delas.As galinhas não põem. Pois não enxergava a sombra dum ovo? Às duas por três.. Bárbara olhou para a prima e sorriu. advertido que a confessanda não tinha herdeiros directos. meu senhor . com a agonia na garganta.. o que botava ao fim da semana a dúzia e meia de ovos. Fartava-se a cada hora de ouvir cacarejar na quintã. E sentiu-se beliscada ante aquela alta recreação: . Apalpando o piso desigual de laia.

punham a boca a um buraco da parede e buzinavam para o interior: .Dá por paus e por pedras. como ela se limitasse a baixar a cabeça. lá vinha: “Pôs vento. Depois. volveu para Lázaro Fandinga que se aproximara muito ronceiro. que mais gatunos não se encontravam na Falperra? O senhor padre esteve um momento a aferir da situação da doente. referveu o seu sopitado ódio.” O senhor Tadeu levou a tenta para outro quartel: . Que andasse até onde pudesse. negra como o volfro. meio de mofo.? Trouxeram-lhe um mocho. Bárbara via acima dela. Ouvi dizer que é anclaço. tem. transportado já à super-human idade do seu papel. Sentou-se então. a Polónia tirou metade para uma xícara que deu à menina mais novinha que acabava de desmamar.Está no uso da fala5 . Nunca pela vida fora lhe tinham chegado uma sede de água. E reparando nos olhos da alcatéia acesos para ela. Interessava-lhe pouco a máquina. . meio de coisa podrida. Não o fazer. Mas é assim por todo o povo.? Dê-lhe leite. Era a fugir àqueles dois pesadumes que ela retraía o olhar para a quintã e avistava os Fandingas..Fala pelos cotovelos. mais abaixo. decidida em seu peito a fazer o contrário. acabando compenetrado duma imundície que vinha do tempo das cavernas. E daí provinham as pausas. Ouviu. podendo. durante as quais se esquecia de si e do padre. Mas não permitiu. bota cá a saia que roubaste a minha mãe! 168 . . murmúrios que imprevistamente subiam de tom como água num regozinho de leito irregular. e aspirava o seu hálito enjoativo. era um rebotalho.Ainda não morreste. alimentar-se a leite! Tinha há dias mandado comprar um quartilho: mais de três quartas partes eram água. feiticeira?? Antes de morrer. caía para a banda e acabou-se. Que não e não. o tomarão mal maduro da penca..Pois tem que tratar-se. Olha. Fosse pelas benditas Cinco Chagas. embora repleto de zelo sacerdotal. Um primeiro baptismo devia ficar à conta do produtor.. Polónia acudiu a pôr em cima a capucha dobrada.. que parecia esquisitória. de boné na mão: . que ela se pusesse de joelhos ou alterasse sequer a posição que tinha por mais cómoda. com pequenas pausas.Não haverá um banquinho para eu me sentar. e a sua voz adormecia como água em chão liso. tão outro do do Antoninho Fráguas. não é assim? E. senhora Bárbara? Ela acenou que sim. resplendente. da banda de fora.. os Urras e outros parentes comprimidos e silenciosos contra o vão da porta.. A terra produ-lo com abundância.zouvineira. Mas eles espreitavam-na receosos de que levasse por diante a ameaça de encomendar um dispendioso bemde-alma. Pegou da bilha e baptizou-o segunda vez até encher a medida. Que esperavam agora dela? Do lado de fora. mais filtrado que o soro. acessos de tosse. Quando lhe chegou às mãos. é pecado. no largo. .E leire. Foi recalcando o asco que interrogou: .Vamos à confissão. depois de passear a casa com a vista. a cabeleira do padre. o comer de leite está acima das suas posses.. As suas galinhas só põem vento.. E o sacramento começou e foi decorrendo sibilado. quando não pudesse mais.

ainda que sem pago não haja de ficar. Tenho por onde pague. Ao cabo.. .Porque o não diz aos seus parentes? . . Ela torceu-se para ele e levando o dedo aos lábios ciciou de olhos na choldra que. Ele então percebeu a comédia toda. 169 . Também do fundo do horizonte um raio de sol vinha direito à sua alma. Era o remate.. Se V.Queria pedir um favor a V. que se punha a falsetear ao mesmo buraco: . mandou-lhe rezar o acto de contrição. levantando-se por certo com alívio. . mo mandasse cá. .Está bem. R..Diga. particularmente à sua alma. e ele foi-lhe emprestando a muleta da sua memória. dispunha-se a largar quando se sentiu preso pela garnacha. eu mando-lhe o notário. do Zé dos Cambais. Deus lhe agradeceria melhor do que eu. cansado de vagares e de suspensões. O senhor Tadeu...Vomecê não quer um ovinho para a pleira? Olhe. R.Deus me livre? Eram capazes de me esfolar..objectou. dizendo com ela..Era o filho da Casimira. mas não o sabia. . lá está uma pita a cacarejar.articulou em voz e num bulício tão rápido de lábios que só por si inculcava puridade.Estou com vontade de ditar o meu bem-de-alma a um tabelião. e respondeu com pressurosa discrição: . compreendendo que terminara o mistério. que saíra um melro de bico amarelo. invadia a casa: .. O que tinha sofrido por causa daquela saia apanhada no estendedoiro? E quem podia jurar que fora ela? Não havia muitas ladras no povo? Agora era o Tonico.

prestes a desatar em raios e 170 . . pode estar certo que hei-de carregar o mais que possa . para empregar a linguagem duma das testemunhas. como o espírito bem lastrado de sadios conceitos quanto à moral e dever de cada um. Depois. para mais que não para menos. Que esta rivalidade era como uma trovoada armada. nenhuma tarefa lhe causava nojo.Compadre Antoninho metia cabeça ao mato. não foi dificil ao Fráguas encontrar na terra pobre e explicavelmente venal matéria com que erguer o cobiçado cadafalso. metia. de quando em quando escorregava-lhe o pé para. pilhados à paróquia por mascambilha. ou encher os navios mercantes com mistela parecida. pequena ou grande. conduzir para casa pela calada os sacos de volfrâmio. no entanto. sinhazinha. Em bandas di lá . que era senão carregar? E com o mesmo vocábulo significava a pressão que exercia junto do tribunal contra o Aires.faceteava para Solange o seu comendador José Plácido. Muita gente admirava-se que assim pusesse ralé em querer sacrificar uma vítima aos manes do morto. como esfaquear um cristão ou assaltar as prisões e libertar um preso. sabe-se lá! Os depoimentos prestados comprometiam acerbamente o Augusto Aires. Apontam-no como matador. capitão de cangaceiros? À data era pessoa importante.Se não pões para aí o anel. ao dar de si o gabiru. se tivesse apoquentação. do amorpróprio. forjadas outras a martelo. os dedos cheios de anéis. As testemunhas foram industriadas umas. Ficara estabelecida de modo terminante a rivalidade que lavrara entre réu e morto. com loja de armarinho no Piau -. carrego-te a part& Era um termo muito seu: carregar. Quem o conhecera e quem o via? Levara o melhor dos anos a passar criminosos foraíÍdos pela Portela do Homem. Vinha-lhe dos tempos em que se prestava a fazer todos os fretes. Não era debalde que inculcavam o volframista como homem capaz de mover a vila e a capital do distrito com uma perna às costas. do sangue. Dizia-se à boca pequena .declarou o senhor Antoninho Fráguas. Desde que houvesse vaza a levantar. O negócio dos metais tinha-o enriquecido fabulosamente. Era notório que ambos cortejavam e pretendiam a mesma mulher. quando só recentemente. o reconhecera como hastilha do seu tronco. que tivesse artes de lhe abarbatar o anel que lhe reluzia no dedo com um brilhante de dez quilates. e estas palavras traduziam bem toda a sua premente e danada obra à margem da causa.XII .os trilhos constitucionais. Mistérios da vaidade. Como a metamorfose. amanhã empreiteiro de estradas. quem podia ter sido? Enquanto se não prove que foi outro.Não me move contra o Aires nenhum outro sentimento que não seja o de vingar o meu filho. a comprar e vender travessas aos Caminhos de Ferro. tanto que apanhou o colega volframista Leónidas Seixas em maus assados. negociante de cavalos. ainda havíamos de ver-ele. Não sendo ele. Influente e endinheirado. se operara à lufa-lufa. ai. arroteador de baldios. metia.e não o trombeteavam a boca grande e ele próprio para não dar âncoras ao fisco que a sua fortuna botava aos seis mil contos. que é um supor. Assim foi muito notado. hoje agente falido de passaportes. onde tinha um testa-deferro. passador de moeda falsa. Ouviram-lhe as ameaças: .

.instou o juiz. convocada pelo juiz por escrúpulo de consciência. “zaro Fandinga declarou: .Meça bem a gravidade da sua afirmação. . e esta versão ia pouco a pouco prevalecendo de todas as mais. Em conclusão: ninguém vira matar. estavam em contradição flagrante com os depoimentos que prestaram não só as demais testemunhas como o filho. dado que não tivesse a certeza. não restando melhor recurso do que “sangrar-se em vida”. No decorrer das inquirições ficou ainda estabelecido que o Alres era homem tranquilo por temperamento. Afigurava-se supérfluo procurar algures ou melhor. As declarações de Maria Aires. angustiosa. . Alé m de reticentes. que se alimenta das próprias entranhas. cuja casa e a da Maria Aires ficava costas com costas. na frase de Shakespeare. Brás. esse monstro verde. excluído o roubo como causa. Ninguém tãopouco o acusava de desonestidades. que outrem apresentava melhores títulos que o Augusto? Sumariamente.Conheço-lhe o chapejar do sapato. a bem do réu. Em tal asserto todos os testemunhos eram concordes. não fez mais que referendá-las. podia resultar do encontro do seu testemunho com o do Ougado e doutros. Mas tudo isso não vai além de coincidências. para mais não sair até ser preso. que por aqui vem errado.coriscos.elucidou o Luís Ougado. . Segundo ela. constituíram devido à sua impróvida e ludibriante singeleza o acto de criminação mais grave que foi produzido à barra contra o réu. confirmada pelo réu. 171 .Seriam dez horas. de que fora ele o autor do crime.Sim. dar uma versão concordante.e o juiz lavrara despacho de pronúncia.Estou tão certo do que digo como da luz que nos alumia. admitia a hipótese.. .Tem a certeza? . e na contraluz que ressaltava da viciação da verdade por Maria Aires .Eu também juro o mesmo . como homem esperto. àquele. Acossada a adoptar tal expediente. o seu Augusto entrara em casa pouco depois do anoitecer. mas pois que houvera um matador e de natureza sentimental. entrei em casa um migalho antes de bradarem na rua a homem morto e concordo que o Luís Ougado podia ter ouvido os meus passos. . pouco antes de gritarem na rua a homem morto. O próprio Augusto Aires. traindo não se sabe bem que ideia fixa. . viu-se na competição de forças a que se entregaram os dois na manhã do crime quando se tratou de arvorar os estandartes na festa de S. Era intuitivo que a Maria Aires tinha em mente forjar um alibi. mormente daquelas que motivam a alçada judicial. chamado a confirmar ou desmentir semelhantes provas. Procure o senhor juiz o matador noutra porta. Tal era o estribilho do representante do Ministério Público..Ouvi o Aires subir precipitadamente a escada. passou ele à minha porta . dir-se-la. uma vez que na carteira do morto fora encontrada intacta a quantia avultada que horas antes lhe confiara o pai para o negócio. Confirmou-se horas depois com o ostensivo despeito do Aires ao encontrar a namorada a bailar no terreiro com o José Francisco. Sim. o ciúme. devia ter sido o móbil imediato do assassínio. Deste modo ficava neutralizado o efeito que. a indiciação criminal assentava na palavra das várias testemunhas. isto é. Mas semelhantes qualidades não se podiam chamar inibitórias quanto a determinar uma destas crises agudas de ciúme que desfecham no crime.corroborou o Reganha. se bem que reservado.

Este Dr. e nada mais fácil que sacrificar aquele pobre diabo em holocausto ao filho assassinado. Os volframistas ganhavam mundos e fundos. com plena aprovação de Franz Hincker. pelo contrário. persuadidos ambos da sua inocência. que era já seu hóspede assíduo. Tal circunstância cimentara entre os dois uma estima robusta e solidária. nome consagrado no cível mercê do seu saber e experiência em digesto mineiro. Tinham-no por escarmentado em toda a espécie de foro. do que empregar toda a ralé em consolidar a culpabilidade do Augusto Aires.Severo Bacelar. com designar acusador o Dr. Calabaz. cego e cínico a bem de tudo o que reporte pecúnia. Manuel Torres a tomar o patronato do empregado fiel. chamavam os codilhados do volfrâmio Cocó. para serem inquiridas como testemunhas. representada por Manuel Minga. mas os jurisconsultos encarregavam-se a propósito de tudo e de nada de os aligeirar dum capital que lhes caíra do céu em revoo de lotaria e até certo ponto os desconcertava. ambas elas. Calabaz . mestre em tricas e sem igual no silogismo . substabeleceu no filho dum amigo. não poderia cobrar para baixo de duzentos contos. novel e talentoso advogado. cuja pele não lhe merecia mais respeito que a dos cabritos com que o presenteavam os constituintes agradecidos ou mesuradamente cardados. com o Minga. por conseguinte. Defesa que exigisse audiência e a sua mão de papel selado ou em que tivesse de interferir a influência pessoal. Nada mais natural. facha de palha do Antoninho. E tratou de cumprir o que julgava uma obrigação. Queria Fráguas um criminoso. Retido entretanto na capital por um importante processo em curso. feito com nobre altivez e um espírito de sacrifício tão abnegado que todo o edifício da acusação ameaçou ruir. mas tinha como nenhum colega urna fome devoradora e concomitante gana de ser rico. Teodora Luísa. O negócio de resto estava bem parado. coroadas do mais feliz êxito. para assumir a defesa logo que estivesse livre. Surgira no entanto um depoimento desconcertador. o Espadagana. O advogado da defesa era dos tais que julgam a prática da justiça incompatível com a chicana e a malignidade. filha de José dos Cambais. causas. que o Fráguas assoldadara para remeter o Aires para a Penitenciária.. que manda ao causídico seja faca-de-mato. nem era mais nem menos honesto. Para mover o causídico bastaria uma palavra da pobre mã e. Um simples requerimento era cotado entre dez a vinte contos em matéria de honorários. A eles. À data própria compareceu a mocinha com natural modéstia e trajar quase 172 . Guilherme Calabaz. convidou o Dr. nem mais nem menos rábula que os outros.não tivesse ele antes de se formar cursado teologia. uma minuta a bagatela de cinquenta. Foi um período de vacas gordas esse dos volframistas na fase do comércio livre e na que lhe sucedeu com o apuramento do imposto de guerra. Mas não se confinava neste ramo da advocacia a sua celebridade. Ranheta e Facada. Respondeu a família do morto. proeminente nos tempos utilitários. e daí para cima. Começou o advogado por requerer a instrução contraditória. Muitas quintas mudaram várias vezes de mão em poucos dias. Fráguas havia-o constituído procurador em duas causas de certo tomo. se visava a espórtula alta. Guilherme Calabaz. A defesa indicara entre outras pessoas. com o novo processo passou a residir em Muradais às temporadas. Contavam-se a este respeito histórias do mais pícaro descoco. representava uma escola de advocacia.

V. foi na altura em questão. e fazia-o com bizarria. enrodilhada e nem sempre hábil palinódia. Há a sua diferença.. .Estou satisfeito. Ex.. lábio contra lábio. mas V.Retiro. desvirtuado por outros quanto a trair parcialidade em favor duma das partes.Não quis. no que se refere ao juiz.. Chegou a dizer-se que se deixara seduzir pelos bonitos olhos de Teodora. não respondeu... Fica apenas homem para homem.... a dar-se. . eu não quis ofender V.?. Deseja mais alguma coisa da testemunha? .? toma o partido da desvergonha! O juiz ergueu-se com brusquidão e. O advogado da acusação percebeu e. Calabaz recuou instintivamente e de pé. mas tal declaração não é bastante para a natureza da injúria. não é?. O incidente. Quando o patético se desvaneceu. vamos ao que nos tem aqui.. Como tal. se os tinha. está bem.Compreendo muito bem: V... . podia tirar gala da natural independência de carácter.Retirei. De olhos em terra...O magistrado aqui desapareceu. não retirou as palavras que proferiu? .Que diz a menina? . crescendo para ele.. Instada quanto aos motivos de ciúme que pudera ter ocasionado ao Augusto.Sim senhor. Mas uma grossa e sincera lágrima sulcou-lhe a face e não foi preciso acrescentar mais palavras. Tais palavras encerravam muito de sibilino. Não sei se me fiz compreender. por detrás da cadeira..E quem me garante que o facto se tenha dado? E. essa mesma tarde deixou de tê-los! Tinha-os por duvidar de mim.Tenha a bondade. a sua deposição faz fé.. Exijo uma retractação imediata do que acaba de dizer. Retira .. mas certa reticência em abrir-se. ouviu uma longa. A certa altura interrompeu: . o juiz que era homem novo.lutuoso. não achou melhor que agarrar-se a uma obscenidade pouco generosa.Seria caso novo no direito que o depoimento duma testemunha fosse submetido a tal espécie de verificação respondeu o juiz.Ciúmes.A senhora pode retirar-se.? A fisionomia do juiz era tal que o Dr. um instante surpreso. confundido.Está bem. ainda na zona do aturdimento. bem relacionado. .a há-de dar licença que me explique. articulou: . Era rico. o baixar vergonhoso dos olhos projectaram luz plena quanto ao seu significado. Digo contradita e não prova expressa. agora pode explicar-se. pronunciou: . ? Não retira. foi avolumado por uns no sentido da dignidade desafrontada com brio.? . Imediata. desenganadamente exclamara: . acrescentando para o juiz: . Retirou. Ex. Não lhe ficaram dúvidas. em voz estridente de cólera. Imóvel..remascou o magistrado. . . repare. tomo nota. Ex.Esta senhora é testemunha e não parte.. o arranco com que desatou. 173 . lábios vincados por um sorriso manifestamente desdenhoso. e sob este aspecto tem jus ao nosso respeito. mas eu. não deixou de se mostrar impressionado. . associados às pernas de vitela remetidas sob capucha pelo Zé dos Cambais. Sentou-se o juiz..? faz o obséquio de mandar sujeitar esta mulher a um exame médico? . susceptível a certos impulsos. até o momento em que seja infirmada em boa e leal contradita. Ex.

apreciando no justo valor o papel da defesa. Por alma de meu pai lhe juro que nada tenho que ver com a morte do José Francisco. agradecia-lhe que desfigurasse o que se passou. A imputação . e seria para admirar que a justiça cometesse um erro tão grave como condenarme. se não consegue anular de qualquer modo o depoimento que prestou a palerma da Maria Aires.Os rumores pejorativos lançou-os com uma topetada soberana da cabeça à voragem surda do desprezo.. se Teodora lhe dera iniludíveis provas de ser o preferido? O réu. Tanto assim que minha mãe deu conta e. Que factos ou que circunstâncias determinaram essa impressão? Quer explicar-nos. Devia estar mesmo alterado de parecer. chamado a comprovar tais assertos. Manuel Torres em hora de puridade: . ficou a ajuizar mal.? É drástico. todas as presunções recaem sobre o Augusto. O Augusto conjurou a pobrezinha: .? .. O acusador.. exultante.Aqui há uma situação que não está bem definida. minha mãe.Oh. mas pode dar bom resultado. . O juiz. Está convencida que eu é que matei o José Francisco?! Se não está. O meu papel é clarificar o acto criminal. Estou inocente. como eu não me abri com ela. Se eu estivesse culpado. Vejamos: o réu regressou a casa no momento do crime. . Assim.Entrou em casa debaixo da impressão de que tinha havido morte de homem.Entrei em casa um pouco debaixo dessa impressão. A infeliz é que se não capacitou das razões do filho. afogou-se-lhe a voz e acabou a soluçar. Supondo ainda que se tenha de pôr de remissa que foi o ciúme o móbil do crime.Depois do crime. . limitando-se a responder a todas as instâncias que tinha fé absoluta na palavra dela e na firmeza dos seus sentimentos. é arbitrário. 174 . Vossemecê sabe.a que se vinculara o crime fora entranhadamente aluída. O juiz interveio. Requereu o atrapalhado causídico a acareação. em proveito ou desproveito deste ou daquele. como costuma dizer-se agora. tão enrodilhadas saem as declarações da sua boca. advertindo para o Dr. Calabaz e o defensor: . Esteja certa que me não compromete. não sabia disfarçar o seu sorriso sardónico.O senhor. tem a causa muito comprometida. registemos. Embaraçou-se ainda mais. peço-lhe para se nã o confranger e contar tudo tal qual. mal se percebendo que pedia perdão ao filho de lhe cavar a desgraça por sua má cabeça. meteu os pés pelas mãos no esforço manifesto de conciliar o que dissera antes com o que sentia agora que era seu mister dizer. Que necessidade. podem julgálo. Ex.Quando entrou em casa sabia pois que tinha havido morte de homem à sua porta.respondeu Aires com lisura desconcertadora ao que envolvia de comprometimento.obra do ciúme . mas para que se faça cedo é preciso ser franco. observou ao substituto do Dr. foi tão discreto que nada adiantou que pudesse ferir o pundonor da namorada. com efeito.a defere. mais tarde ou mais cedo a luz faz-se. tinha Augusto de matar. toda a verdade. . atire o coração para trás das costas e não tenha medo de dizer a verdade.. se eu a pedir. suponho eu . Maria Aires começou por manter a primeira versão. depois.E uma acareação entre a mãe e o filho? V.

cometeu uma cobardia imperdoável.ele a mostrar-se e a ir-lhe na cola.Porque soubesse de antemão que o homem havia de passar por ali . caminhava já para me ir embora quando ouvi certo restolho. à falta de outrem..Fiquei hesitante: vou. se era verdade ter o Cambais acravelhado as portas.. . O Aires dobrou a cabeça para o peito e entre soluços reconheceu que. . e queres-te ir meter onde não és chamado?! Supõe que houve sarrabulho e. Fora armar-se. Quando .. se não era a manha que lhe ditava todas as partes.Fui na peugada dele. mas perdi-o. . depois como que o baque dum corpo. A alhada não se explicava doutra maneira.Àquela altura é singular? Que bicho foi esse que lhe mordeu... Uma vez à espreita . lá tenteou o lance. Lá o rastejou. Supondo que era assim. gemidos. Estava escuro como breu.. Foi na peugada do homem. Duma coisa estava certo: o José Francisco ao largar de rópia para S.Assim que o encapuchado despegou da quintã do Cambais. como dizia.. uma vez que tinham encontrado na rua. diga lá? . . que a sua 175 .Aires descreveu então a cena que presenciara na noite do crime quando arrastado até à quintã do Cambais por tineta caprichosa. arrepiou caminho. é uma hipótese a encarar. passam-nos cocas pelos olhos. Ex. não vou acudir.Que cocas. sim.a. A que vinha ali o tipo?. passos primeiro. um homem menos se precata.. Agora. se tanto. Brás fizera-o com o fim de deitar poeira nos olhos da gente e.A cisma foi esta: “andas fora de horas pelos caminhos.. a quintã em primeiro lugar tinha-lhe servido de esculca. e mais passos. largueilhe na peugada.Compreende V.” Aqui tem V. detrás duns toros de pinheiro.Que cisma foi essa.E que fez? . lá viu para onde se meteu.. noite fechada. Bem lhe advertira o instinto.. se não acontece meter-seme uma cisma na cabeça. Os passos ao resto eram de criatura largada... de repente. já ia. Posso mesmo dizer que estava resolvido a apurar quem fosse. de facto. fechei as portas e fiquei de plantão à esquina. que se apurou serem do morto. achando-se desarmado por qualquer motivo. Tornei à casa do Cambais pôr a machadinha no seu lugar. . que precisa classificado? O Aires não respondeu e o juiz tornou a repetir: .Adiante. sem saber explicar como. Que circunstâncias influíram no seu ânimo para entrar em casa debaixo da impressão de que acabavam de matar um homem? Percebeu onde quero chegar.. É uma hipótese.? .. Teriam passado vinte minutos. o provável é que tivesse voltado à quintã pelo estadulho. e à distância de dez passos um vulto mal se via negrejar. diga. voltei por outra.. Sim. Meti por uma quelha. debaixo daquele tecto dormia Teodora. mas por agora o que nos interessa saber é diferente. te catrafilam a ti. agarrada às farpas. porque não restava dúvida que ele e assassino eram uma e a mesma pessoa.. O que o noctívago fora fazer avaliava-se. um estadulho do carro do Cambais com marcas de sangue e até com uma manchoquinha de cabelos. Ex. e nada. a bem ou a mal. cometera um acto de cobardia e por isso estava a pagar.É fantástico.. . e depois? . Ia de peito feito. não saberias responder. se te perguntassem o que andas a sisar.

embora não soubesse dizer porquê. passei à banda das minas do Vale das Donas. e fiquei tão contente e fora dos eixos. . Subira tão ofegante a escada de sua casa que os vizinhos deram conta. Depo1s voltei para trás. Mas diga-me: o crime deu-se entre as dez e as dez e meia. meu senhor. Calabaz. senhor juiz. parece esquisito. antes do grito de socorro soltado pelo homem do lampião. despi~ cado com o ácido rancor de que são capazes dois rivais. senhor Dr. Ex. Teodora desfez todos os melindres. e acabado por vir às mãos. . Mas ela contou-me como aceitara o convite do homem. Que andava a fazer por fora? . não nego. cujo sorriso lembrava uma rosa-chá desbotada. dóceis à lição. Que não gostei de a ver dançar com o José Francisco. o que andei a fazer foi a vadiar pelos caminhos. em aparte. o mais forte abatendo ferozmente o mais fraco. estando como estava uma noite escura.Como se explica que. em choro desfeito. a voz de dentro dava-lhe rebate que um tal escarcéu deixara de ser com outros para ser com ele. eu tinha-me encontrado com Teodora pouco depois de anoitecer. e agora me digo que não fui mais adiante porque a água me tolheu o passo e vim a acordo do lugar onde estava. é também certo. a fugir como se transportasse alguma coisa que lhe quisessem roubar. estreitada contra a carne. à toa. realmente. por mais fabuloso que se afigure. ouviram-se-lhe estas palavras atribuladas: . quando dei conta.Não encontrou ninguém. garantiram solenemente que não deram fé de rumor algum. Tremulante. no número das quais estava a Rosa Pedralva. . Era. E deitara a fugir desatinado. Sim. até o rio. depuseram em conformidade. a partir daquele minuto. à primeira vista não menos lógica: de que ele e José Francisco se houvessem encontrado.. Mas se umas. corria perigo.. estava à beira do rio. que nada provava que o encontro se não 176 .Olhe.proferiu o juiz ao cabo de curta pausa. que possa invocar?. encarando no Dr. largasse assim pelo escuro. O juiz deu por findo o interrogatório depois de instar Maria Aíres: . a maioria. Lá que cheguei a ter certos zelos. não ter eu hábitos de tresnoitado.. . aquela que levava ali como uma pessoa aconchegada ao peito. Terminou aos arquejos.. que fui. sem direcção.É admissível que tivesse esse relâmpago de premoniçao . todas as dúvidas que concebera a seu respeito. . Não sei como. fui como se fosse pelo ar.?. não tinha dúvida em aceitá-lo. quer de passos. e mais isto e mais aquilo. Mande-me para a cadeia que eu é que menti.Não.. Contra argumento tão óbvio redarguiu o acusador..felicidade. Isto que ele contou parece-lhe exacto? Das profundas da sua dor. . senhor juiz. que já é uma hora adiantada para terteolas como Malhadas. Mas. misturadas com soluços. se não derrubada a teoria de que o Aires assassinara por ciúme.Não é caso inédito. Nem reparou em nada de especial. levar pela marcha. juiz. escuro fora.Sim.. quer de vozes. é exacto. tão feliz da vida.Meta a mão na consciência e diga a verdade como lhe pede o seu filho. olhe V. era com ele. Uma nova inquirição de testemunhas gravitou àvolta deste ponto de vista.Sim. e sua mãe por mais que se reprimisse tremia como um vime.. . não tendo o costume de vaguear sozinho.Não. o advogado de acusação não se demorou em arquitectar outra. fui-me deixando levar.

Assim. na mira porventura de justificar a grossa espórtula que contava pedir ao volframista. .A sua culpabilidade assenta apenas sobre presunções. Reparou V. em que depunham Lombroso e Conan Doyle.A minha esperança é que mais dia menos dia. era lógica num segundo plano e não valia a pena levar o debate para tão longe. e todavia não se impediu de dizer para o constituinte: . por qualquer circunstância. o assunto versado em Malhadas era a morte do José Francisco. a anatomia e o jogo do pau. Posso garantir que nós não contribuímos nada para a reviravolta. como observara com judiciosa oportunidade o advogado da defesa. e ela por sua vez deixou-se possuir desse palpite. forcejava em expedir de toda a maneira o Aires para a Penitenciária. . que esta causa tira-me o sono e estou morto por que chegue o Dr. Com as idas reiteradas à sede da comarca. o alvorecer da verdade. digamos. 177 . que era sagaz e requintava na qualidade pela hora crítica em que se via. Torres para lhe entregar a pasta. Fosse como fosse. a verdade é que se a defesa se contentava com a espécie de clarão de inocencia que resplandecia no rosto do Aires e o halo psicológico que se exalava da causa. provavelmente por considerar de somenos semelhante tó pico. relegado o volfrâmio para segunda plana ante a tabelização inferior. não sei. Daí o relativo silêncio em que decorrera o drama. Estava no seu papel. Com tão desabalado acusador acabou por condensar-se à volta de Augusto Aires o que se chama má atmosfera. sem ser preciso.O que a habilita agora a acreditar na sua inocência pode muito bem ser um fenómeno precursor.É estranho. A tal raciocínio faltava lisura.. por um acaso. O seu antagonista e o juiz sorriram despicientemente.Nisso não vou eu muito fiado . a que minha mãe agora já está convencida da minha inocência? Que se passou no seu entendimento. amiga do que é recto como sempre foi. Ex. se quiser. .respondeu o preso. reforçando as suas premissas com novos e ousados argumentos. mas onde está o tribunal que se atreva a condená-lo sem uma verdadeira e insofismável prova? . e o cadáver transportado para ali com o propósito de desnortear a justiça. ou oprimido mesmo pela amizade. Minha mãe viu-me entrar em casa dominado pelo palpite diabólico de que tinha havido mortede homem e eram muito bem capazes de me apontar como matador. o acusador ardorosa e porfiadamente buscava tapar as brechas por onde ameaçava ruir a arquitectura do corpo de delito. O advogadozito notou-o. o que se não compadecia com a ideia de conflito ou luta corpo a corpo. Por isso.tivesse dado algures. Calabaz. tendo em vista a sua profundidade e ser situado sobre o occipital. talvez mesmo fora da localidade.. embrenhou-se numa explicação fantástica. O que não lhe posso levar a mal é que não soubesse dissimular a sua convicção. se rasgue a cerração.Muito estranho. ao agente investido de tal excruciação chamam na linguagem rural o aterrador. despercebido dos vizinhos. Oxalá. . Lógicas. pressupunha golpe à traição. o exame médico-forense. De resto. que redundava num destampatório a que nenhuma espécie de juízo seria capaz de quedar impermeável.

depois de muitas negas. . para a auscultar. ameaçando-a com uma polícia se continuasse a faltar-lhe ao respeito. Como a Florinda Pedralva não desse sinal de melhorar. rufou-lhe no tórax aqui e além com o dedo em martelete. palpou e tornou a palpar-lhe a bacia. que se chamasse o médico. adormentando-se com o tóxico de ambas se verem desinfelizes da sorte. uma vez que fora aos fieitos para deitar na cama da porca.É fácil de perceber.?? Já sabia que as ameaças e ralhos da mãe se resolviam. levantando-se. dizendo-lhe com ar meio zombeteiro. que há muitos anos exercia as funções de parteira e se julgava no direito de coscuvilhar em todo o sector de tal actividade. ora empregado no Vale das Donas. juras e trejuras. Se até então a sua filha não tiver tido o nené. quem era o autor? Porque lhe escondia ela o nome? Teodora.Entre dois e três meses vá-me ver. excomungada. perdendo a cor. e foi como se caíssem as escamas dos olhos de toda a gente. meio condoído do desaire: . se as tinha. Mas uma vez que havia um críanço. Entretanto dava-se no povo um acontecimento do mais castiço e avantajado melodrama. desmentiu o doutor.O sucesso transvasara já para as gazetas do distrito e daí para os diários da capital. A mãe arremeteu para ela de tamanco no ar: . na cama. decidiram os parentes. como certas trovoadas. E. A opinião. E. porquanto não podia considerar-se a prenhez como enfermidade. outras de meia-idade e com calças de bombazina. disse para a Rosa Pedralva que a moça não tinha mal nenhum. Sua filha está grávida e duma gravidez muito adiantada. Só um tolo não quedaria capacitado que a Florinda estivera a urdir uma fábula com os capítulos principais alinhavados atabalhoadamente. confidente de todos os 178 . . em lágrimas.Não percebo o que Vossa Senhoria quer dizer . que te mato? Dizes quem é o varrão ou é aqui o teu último dia.. era o beijinho do rapariguedo. antes de a praga do volfrâmio desabar sobre o mundo. Apertada pela Ana Ruça. a Florinda. lançava âncora pelo Aires. restituo-lhe a importância da chamada. estimulada pelo romance apaixonado de Teodora. ora em Muradais.. bons cem mil reis com que ela teve de explicar-se. depois de lhe exigir o preço da visita. Umas vezes era um homem novo. isto é. que nunca os noivos ficariam roubados quando lhes fossem a tocar? E tais doestos lhe dirigiu que ele mandou-a calar. e a soluçar para ali ficaram. Olharam com olhos precavidos para a barriga da moça. em água celestial.tartamudeou a mãe. acabou por confessar no meio de choro convulso que um homem das minas abusara dela na serra. Caiu ali o Carmo e a Trindade.Oh. que noutros tempos. Pediram-lhe sinais. coitada. apoiados pelos velhos Salorriões da aldeia. referências quanto ao violentador e tanto disse como desdisse. Veio o doutor e. mandou-lhe que se desapertasse e estendesse ao comprido. e agarrou-se a ela a ganir e a soluçar. de bigode à Carloto. A tia Rosa. jurando por todos os santos e santas da Corte Celestial que sua filha continuava pura como quando a deitara ao mundo. que soltava lágrimas gordas como repolhos. O Fráguas sentiu-o e procurou activar o andamento do processo. Pulsou-lhe de ouvido colado sobre a camisa o fervor de todos os respiráculos. Tomara ele assim as filhas. o que ela fez com enjoada e retardativa obediência. A própria tia Rosa dobrou a cabeça. montou a cavalo.

na noite do entendimento. carmeadas e romarias. na esperança de acharem o fio que lhes ajudasse a desenvencilhar a meada em que estrebuchava o Augusto. a Teodora para o Augusto Aires.Soubesse-o eu. De repente.. No entanto. fitando-a muito no fundo dos olhos. E logo ela. Como era do domínio público.. Agora. sou capaz de jurar numas Horas que nos achávamos no bom caminho? 179 . Uma ocasião ousou avançar a sonda: . E seus olhos de mãe viram ao longe. Florinda? Hás-de-mo dizer que eu guardo segreào. que não iam lá muito à bola um com o outro. onde se via uma. logo a outra acertava o tom. com os seus palpites e sobretudo com as suas esperanças. respondeu como se a tivesse mordido uma víbora: . E tanto fez. Se qualquer delas erguia a voz. E abriu-se com Maria Aires. E traçaram um plano. Que vai ser do meu filho! E. tais carinhos prodigalizou à casquivana que ela pouco a pouco foi-se despojando de sua frieza e prevenção. se não quisesse reconhecer o meu filho. quase arisca sempre que a conversa descaía na desgraça que lhes batera à porta. Nossa Senhora. com reatarem. olha tu. estranhou aquela comédia e mistério e notou a singularidade de certos factos que tanto podiam ser naturais como não ser.Quem foi que te enganou. Soubesse-o eu e era capaz de ir matar o carrasco. e foram pouco a pouco apartando-se sem deixar. ouvi dizer que a audiência está marcada para breve. Cerra-se outra vez a escuridão sobre nós. Teodora contou o passo à Maria Aires que disse: . tempos àquela parte. a Florinda começou a pender para o Luís Ougado. não deixou de verificar Teodora quanto a amiga se mostrava reservada. A pobre mulher quando a rapariga lhe foi com as suas dúvidas.Jesus. todavia. estava a outra. entreluzir aquela pequenina e providencial estrela que nunca falta aos sequiosos de justiça e sonhadores com seu clarão piedoso. para mais desafortunadas ambas. Mas recalcou o desânimo e porfiou. de se quererem bem e derramarem em ternuras quando se encontravam. deu salto. por festas. não se sabia bem porquê.derriços. Teodora fez-se encontrada com Florinda. toda a sua amizade e mútuo paparicalho voltavam ao que tinham sido.

mas quando chegaram ao destino já a parentela. não é? Foi o reverendíssimo senhor p. suspenso do guiador. nem um padre-nosso lhe manda rezar por alma. a quem. Ela. com um livro a espreitar pela abertura do saquitel de lona. quando Deus for servido de chamá-la a contas.Deixou tudo ao Antoninho Fráguas que é o fiel testamenteiro. De caminho.Então de que se trata? . Tem para aí uma familagem mais cainha e derrancada que. deu o recado: . podeis fazer cruzes na boca . o que maravilhou o Fandinga que a um canto se benzeu com a canhota. A Polónia foi a primeira a romper o quebranto: . a esganada.E anda com juízo. . em voz de ladário. há-de vir servir de testemunha e arranjar mais duas que sejam competentes. Depois.. .Essa agora. e lenta. . de bicicleta. chamando-os à razão. e pagou. o Calhorra chamou o João Sancho e o Reganha que não eram nada à testadora. formava cortejo atrás deles. encafuou-c. lá assinaram todos. Foi preciso que o Silvestre Calhorra os admoestasse. faziam estardalhaço com os tamancos. . assinou também o notário. mal os viu. ditada em voz baixa. É só pôr a véstia.. Bárbara puxou do pacote de notas.proferiu o Calhorra abanando a cabeça.e Tadeu que me disse para bater à sua porta. na saquinha. rolhou o tinteiro.É o senhor Calhorra. avisada pelos alvissareiros e apreensiva como se pode imaginar. Estavam com reverencia como quando se ministra um sacramento.Raios a partam que está aqui está no inferno! Não querem lá ver que a alma do diabo foi amiga dele?? Queriam desancar a mulher. claudicantemente foi recebendo a vontade da mulher. se não deixa o preto no branco.A dois passos. E erguendo-se muito guicha.Mora perto a mulherzinha? . Saiu ao patamar o senhor presidente da junta.XIII Um sujeito desconhecido apareceu à porta de Silvestre Calhorra.. A espaços as testemunhas pigarreavam. depois de cumprimentar.Então? . adivinhou logo o móbil que os trazia. ao passo que dizia para a turbamulta: . fechou o livro. em tamancos e mangas de camisa. Permaneceram assombrados e mudos como se lhes tivesse caído uma faísca aos pés. sinal de engulhos. Foram encontrar a criatura à porta da quintã a carmear. aqui não há bêberas! O notário improvisou a escrevaninha em cima duma arca.Esperem lá fora. como era lagóia fina.Uma tal Bárbara Ladeira que deseja assegurar o bem-de-alma. com uma agilidade que não lhe supunham. Polónia. . chamou o tabelião e as testemunhas para dentro de casa. Tenha paciência. para missas não dispôs nem um real! O padre também ficou a chuchar no dedo. . mal aqueles tios saíram de cambulhada com o tabelião..M’amigos.perguntou o Lázaro Fandinga. Consolai-vos. Vamos lá. Sou o notário novo de Tendais. amaldiçoava aquela colondrina e votava a todas as pragas do Egipto o 180 .! . que trazia na patrona.

Nuns sessenta contos.Então o Governo chamou as praças de há dois e três anos . alguns a cavalo. a sua Polónia dinheiro para uma fornada de pão. era o mais numeroso. Encolheu os ombros. a Maria Choca e a Cismas cada uma em sua jerica. Dois dias andados. o Sancho. e dois paparretas sem vergonha e sem camisa.A guerra. Pois que havia de ser? Tinham da guerra a ideia atávica que se lhes infiltrara no sangue através de gerações e gerações martirizadas. .) e boa paparoca. o José Reganha um chafariz à porta.Com o imposto sucessório. o Carrasco. A Ana Ruça que se ocupe da criatura. Vieram-lhe dizer que em Malhadas e povos limítrofes não se falava doutra coisa e o apodavam de azeiteiro. o jamboto coveiro. davam à taramela.ladrão que se ia gozar dos bens que haviam de competir aos seus perdigotinhos pelo direito estabelecido. Para abreviar a caminhada. .respondeu o Calhorra com a segurança de presidente da junta de Paróquia que mandara afixar os editaís nas portas da igreja. .Deus a leve lá por longe . e assim por diante. estrada e caminhos que levam à vila de Orcas iam coalhados de pessoas que. Andava com uma turma de homens a plantar uma bacelada e ao cabo de breve instante de surpresa proferiu sorrindo: . . o Zé dos Cambais.lamuriou a Casimira Urra. E com a voz tomada do vago e do maravilhoso que há na aventura o Fandinga exclamava: 181 . que nada lhe falte em casa. ainda há quem se lembre de mim. Hoje semelhante quantia não é dinheiro. O mais patusco é que o Fandinga lhe denunciava alto e bom som a obra de sapa que empreendera para fazer condenar o assassino do filho. hem! .Em quanto avaliam a sorte da mulher? . embora menos luzido que o do Fráguas. Podiam contar-se pelos dedos da mão os que perduravam fiéis: Luís Ougado.O que te digo é que vai uma sangueira pelo mundo que as malvas quitam que lhes chova para crescer.Mais de duas dúzias. O do Aires. Por ora não há outros ventos . Soube-se depois que. . . comadre? .Leve o quê. de que Deus o havia de livrar. e em ranchos consoante o partido e afinidades. transmissão e alcavalas de vária ordem não cabia a cada bico um conto e quinhentos. Coitada. informavam o senhor Antoninho Fráguas da caprichosa tineta da Ladeira. o Celestino da Maria Choca um relógio de plaqué.inquiriu o Zé dos Cambais. de pau argolado o Fandinga e os Urras dum e doutro ramo. contando que recebera uma roupa nova para jurar falso. A parentela de Bárbara era numerosa e aí perdia a patuleia do Fráguas o contingente mais garabulha e arrifador. corriam para a audiência. compadre. que metia duas camionetas. acrescido com os trânsfugas do arraial contrário. de Mouramorta e localidades convizinhas. outra escondida nas minas. com urna gente a fugir pelas serras. . Muitos a pé.Quantos eram os parentes a herdar? . uma hora não era decorrida. os povos incendiados e a soldadesca inimiga de sabre em punho a picar a gente na barriga e na sola dos pés até se lhes prantar para ali o bagu@nh.Trancas corridas. Naquele alinhavam em suas éguas rabonas o Calhorra. . É favor que lhes faço aceitando o legado.disse Lázaro para o Calhorra.Sabe-o Deus.

botam-se abaixo dos aerop)anos e toca a pôr mão forte em tudo. . Uma cancela pintada de fresco cheirava ainda a zarcão. a cento e cinquenta escudos o quilograma. Mas à labuta infrene dos meses anteriores.Anjo bento? .a . A partir de Pedrões. vozes ásperas e todo o borbulhar do formigueiro humano. à beira das trincheiras. Sobressaía do mato galego. deparavam -se. Olhem- 182 . assim a guerra arrame lá por longe. espraiando olhos às duas bandas da estrada e sentindo os baratais livres do codo e próxima a hora de deitar os feijões à terra.Assim seja. Às duas por três.apoiou Manuel Urra.gemeu a Rira Cismas.. dizia consoladamente: . abandonadas. a pedra nova de arranque entre montes de saibro a descorar. apodrentava às intempéries. ainda que elementar. ingleses e alamões haviam de levar quanta mistela cá há . . .Também sou dessa opinião . começavam a aparecer pelas encostas as pequenas explorações de volfrâmic.acrescentou num lamento. . . e mais nada.lhe a cada passo vestígios da recente mineração.O ano não vai mau. . Sarilhos. como se unha rascanhasse uma ardósia. a rabugem vegetal estendia já uma coirama verde e fugidia.Mesmo com alvará de franquia. Também já o rosmaninho erguia ao alto as suas pequemnas piaçabas roxas e aqui e além a umbela da esteva chamava a abelha ainda recolhida.perguntou a Cismas para o Calhorra. telhados de telha novinha ensanguentavam a onda de verde. Em alguns desaterros.Para que é? Para matar. acima de tudo lavrador. estrondo de tiros. senhor compadre? . . Estavam ali enterrados uns centenares de contos. Não se viam nuvens no céu e o Calhorra. Passou um arrepio entre eles à voz crocitada. Estava uma manhã clara de sol e pelos caminhos as giestas desfaziam-se em cataratas de flores amarelas. com a água a cintilar como cutelos dos côrnoros para baixo.trazia o bolso quente doutras empreitadas. alvas. . barracas jaziam à mercê de quem vinha arrancar-lhes um braçado de cavacos para fazer fogueira. Sobre os desmontes esvoaçava o cartaxo.disse o Zé dos Cambais. a maioria lucrou. não vai mau.Nunca vim bem ao fundamento porque é que o Governo deitou um barbilho assim apertado a quem andava neste badanal do volÊro . . . assustadiças. tinir de marras nos guilhos. ninguém ia esfossar na terra.Pois não é ele o mais interessado em que a gente leve vida direita? . e relampejava entre as pedras a casaca furta-cores dum sardão apavorado. A aldeia dava ares de ter rejuvenescido.Todo o bicho-careta se pôs a esburacar na terra comentou o Calhorra ante o panorama. Ouvi estar a ler que a guerra agora não se anuncia de véspera.Se é para matar.Não faz cá falta. Pelas pequeninas ladeiras.Ele para que é o volfro. Não chegava para os aguços da ferramenta. encoiradas da erva primaveril. Paredes acabadas de erguer seguravam socalcos agenciados nas vertentes. cales da lavagem.Fráguas & C. cor de marfim. mas quem os perdera . sucedera a imobilidade sepulcral. Arrulhavam as rolas no pináculo dos pinheiros e as calhandras erguiam voo aqui e além. Por modos. as balas caldeadas com volfro matam melhor e chegam mais longe. À medida que desciam a lomba alpestre que mergulha para o rio. Na Cabeça de Alva a obra de engenharia. Uma noite chega e cresce para ocupar uma nação.Se alguns perderam as orelhas.

essas encostas salbradas. dois repórteres. E tu. nada mais que solicitado pela pobre mãe acabrunhada.Se fossem para baixo de Viseu. o Fandinga encontrou-se com as tes rem unhas fixes do Antoninho Fráguas. Mais ocioso que um burocrata da província apenas um fidalgo também provinciano. não direi mais nem menos. Nele a libra esterlina não achara furo e não tinha pejo de confessá-lo.E para os distritos da Guarda e de Vila Real também há que contar. . arremedilhos de verdades. os automóveis do Dr. manténs que foi o Augusto que matou. Quase às portas de Orcas passaram pela caravana. refractário à venalidade. Torres para a compra do casal? O Calhorra punha sempre um certo pudor em assoalhar não só grandezas corno acrescentamentos e não se dignou responder. Os serranos fartavam-se de roçar as ombreiras dos Paços do Concelho. Entre as da defesa. O volfro deu muita vida! . uma vez que o carro lhe estava empanne.esses calços.E muita morte! . O Ougado fitou-o com um olhar de través. mais admirados ficavam. Uma delas interpelou-o: . que também fora dado como testernunha de descarga. ao padeiro. . rijo e direito como os negrilhos da serra.já chegou à razão com o Dr. prestar-lhe de tão boa mente e com o maior desinteresse os serviços de mecânico e que no seu ânimo o facto ficou a pesar como estrondoso obséquio. Que sabia ele da vida e costumes do rapaz? Sabia tudo. articulando um português infernal em despeito de habitar o país havia mais de vinte anos. e a manhã está por conta própria.. até destrancarem portas as repartições. causou sensação o inglês mister James Corbet.E até o fez a vossernecê rico . na paz dos lençóis. novamente indicadas. no rosto uma expressão esverdinhada. É certo o Aires. à tenda. com sala tão cheia que se abafava..me para essas casas novas . A audiência abrira à hora precisa.. Sabem quem foi que fez tudo isso? O volfro. ainda que sobrepondo-se ao empenho notório do seu corretor Antônio Fráguas. Um dos Urras dizia: . que não disseram nada de novo. foram aligeirando a jornada.exclamou o Fandinga que gostava da contradição. ouvido o réu. de moinar pelos quiosques. Falto à verdade? Quanto a mim. tudo no seu posto. do concessionário Hincker e engenheiros. verdades como punhos. outras vezes. Levado pelo sentimento de justiça.chalaceou o Fandinga. e não lhe deu resposta.Vou dizer que o Antoninho andou pelas portas a ensinar-vos a lição e a prometer-vos peitas. magro como 183 . e de mister Corbet. umas vezes. Também ele dispunha duma pequena Intelligence Service. Manuel Torres. inquiriram-se as testemunhas.. advogados. de bom grado anuíra a depor em abono do Aires. Cansado de bater o Tavolado. Entretanto o debate com dizer. se é que não estendia até ali seus ramos a maior e mais decidida instituição de defesa imperial que se for)ara a Inglaterra depois da Home Fleet. Na sua voz tartaranha. Luís Ougado. testemunhas. A noite é dos amigos. com pequeno intervalo. o que surpreendeu muita gente. magistrados. meu casaca virada? . Mudou tudo de pele! . Sabia quanto o Aires era dotado de um carácter íntegro a toda a prova. Dispensada a leitura dos autos. aves estranhas.Que vais tu agora dizer. Orcas levantava-se tqrde. de abrir a boca e lançarem olhos assarapantados às criadinhas que vão ao talho.

Por conseguinte destituída de valor probatório. certo da vontade de Teodora. sem grande inédito. Torres. o pescoço a sair dum colarinho de goma de inverosímil altura? declarou voltado para o juiz presidente: . demonstrando que não ao Aires. . quente. indiferente a agradar ou a desagradar. Ainda na sala. chamou a estes zelos fumo de amor. porque seu natural não consentir. notou-se que caí ra a fundo um pouco desatinadamente. discutível.. aliando. amor ao trabalho e culto do dever. começou por puxar o velho cavalo de batalha do foro criminal: a quem aproveitara a morte do José Francisco? . As outras testemunhas não trouxeram luz nova à causa. à parte a ressentida deposição do Fandinga e afins com uma vaga história de suborno. Aires não matou. inteligente e discretíssimo capataz. e o engenheiro Severo Bacelar a desenhar em pequenos e nervosos traços quem era o seu primeiro. 184 . senhor! A acusação não ousara instá-lo. em face da atitude confiada de Aires e das palavras impressivas do inglês.de seguro efeito como prelúdio. E o efeito que esperava duma opinião prejudicial para com o réu escapou-lhe de todo.Afirma o colega que o réu estava seguro quanto à vontade da moça. quando é que um homem apaixonado .Eu ver Aires poucas vezes. amarguras..anuiu o Dr. Sim. sentia-os. Depois o advogado acusador encetou o seu libelo. se não extinguira o sussurro. quando é que deixa de nutrir zelos e sofrer todo esse assalto de feras. após uma vénia mal esboçada abandonou a audiência. a afirmação de que o réu não acalentava a menor suspeita quanto à retribuição do seu afecto foi produzida post hoc. não apenas ciúmes. e era de presumir que por simetria psicológica no ânimo dos juízes. tratado com muita gente. . toda a casta de bicho-homem. Sentou-se. cuío nome não me ocorre. . isto é. ao verificar a reviravolta que se produzira no público. mas apreensões. que no dizer do Calhorra não aquentou nem arrefentou a justiça. embora sem patético teatral. Mas ainda nesse caso. e sempre gentleman. Franz Hincker limitou-se a abonar o bom proceder do réu. Sem embargo de ser homem provado no foro e matreiro. já o volantim do meirinho introduzira nova testemunha. calcorreando com pequena diferenç a o caminho andado na instrução. o que mais lhe importaria. Calabaz interrompendo-o a certa altura. conhecer homem. como é constitucional na sua raça. Dê-nos de barato que assim era. imprevistos cuidados quanto ao objecto da sua paixão. o seu ricto de odioso e odiando impregnado do palpite de que fora desastrado e. E porque me ufano de conhecer nosso semelhante. senhor. dir-se-ia. a sua rectidão.Dá-me licença que lhe dirija uma pergunta? Serei breve. receios. de que perdera a vaza. A sua voz era colorida. Ora não são eles que cegam as almas mais diamantinas e armam tantas vezes o braço do mais pacífico? De resto.gostava que me dissesse deixa de nutrir zelos. o encanto dum troveíro à arte de dizer dum contador de histórias. não esqueça. não haja dúvida. Aires não podia matar. depois de fazer a síntese das excelentes qualidades do seu constituinte. desencadeadas pelo mais divino e infernal dos sentimentos? Alguém.Faz obséquio . Se Aires amava.espinafre. como bosque batido pela rajada. a limpar o suor. Eu ter andado as sete partidas. Torres. mas o bastante para formar juízo seguro a seu respeito.proferiu o Dr. afirmo e garanto que Aires não matou. .

.Nada mais certo. é para o castigo ser maior! Nós não andamos a pagar por conta dos nossos primeiros pais? . também te digo. . nem os meninos nem o vivo.observou Florinda. Mas eu hei-de ser madrinha do teu filho e tu por um lado e eu por outro o acautelaremos das horas más. A ti. . jurar falso é grande crime.Para mim o mundo acabou.. e também há outras pessoas que o sabem. Vieram-me dizer que a Bárbara esteve há pouco com este aranzel para a tia Ana Ruça: .. até o coração me estala? Teodora continuava a arquejar cada vez mais violentamente e a desfazer-se em lágrimas. ..Neste momento rompeu da teia um burburinho anormal. o Augusto está inocente. Em Riodades empeceu assim uma família inteira. Um dia caiu-lhe o raio em casa. pergunte-o ao Volfro! Ela.Então quem foi? . Tu és infeliz.respondeu-lhe a outra enternecida.murmurou ela.? E desatou a soluçar em tão forte e atribulado choro que Florinda se comoveu.. .. o ramalhar das vozes foi crescendo como sacudido por desarvorada comoção. mas. Que dizes. bem está! Mas que culpa tinham as outras pessoas da família? . mas aí. . Mais bem desventurada sou eu. ai Jesus. eu nunca mais serei mulher se me levarem o Augusto. que ele há-de ser um amor como tu. como espadas que a trespassassem. .Teodora .. tenho vergonha de o dizer...Pois bem hajas tu . E cravando olhos duros nos olhos de Florínda.. comete um pecado que não tem perdão aos olhos de Deus. menina.. não lhe ia nada por diante. Eu sei quem matou.. parece tolinha. eu sou infeliz.Dize lá. puxando-a com brandura pelo braço e afagando-a: . .Deixem passar. se for rapaz há-de chamar-se Augusto. se mo levarem. .Então.. que não era. Mas. se for rapariga. hirta e de caradura feroz. o meu homem.. Eu sei como foi.Jesus. pionunciou: 185 . só um monstro. gentes? Deixem passar! Naquela mesma manhã do julgamento.Se foi o homem que pagou por se ter calado. e Florinda tornou.Pelo meu filho darei o sangue dos braços. e não se lhe tira coisa com coisa.Teodora.. ninguém como nós duas para se entender.Nã o lho digo.Sei muito bem quem matou o Zé Francisco. morro de que se saiba! Teodora ergueu-se com brusquidão. Se mo levarem. Teodora. do que pagarem os filhos pelos pais e os justos pelos pecadores..? Olhe. se há gente que sabe e se cala. Certas palavras esvoaçavam mais altas: .. Sempre te quero dizer uma coisa. cruzar os braços e deixar que a justiça julgue às cegas quando podia ser guiada.Assim tem empenho em o saber.Ouve. podem condenar um inocente e é uma quebração de alma. sir-n. ouve. . . fica-te o sorriso do menino para te consolar. se o meu filho havia de padecer por minha culpa... outro dia. . voltavam-se todas as cabeças. Que era. agora que se desquitou do seu querer. Teodora entrou em casa de Florinda com olhos roxos a tanto chorar e falou-lhe assim: . o homem ficou debaixo duma casticeira ao cortarem-na para fazer traves. No bom pano urna nódoa cai e nem por isso o pano fica inutilizado.. ondeava o auditório.Quero fazer-lhe um enxoval muito bonito.

. declinou ao ouvido de Teodora as temíveis palavras reveladoras.. O Dr.Ó mulher.a querer falar. como é condenar um inocente. ah.. ah.. a aduzir um pressuposto facto à sensation.Quem são as mulheres? . pupilas em alvo. não vês. cego. Essa Teodora produziu à altura devida o testemunho que muito bem lhe pareceu.Se os patronos das partes não vêem inconveniente. .. calçar os sapatos. A partir de certo momento deixou de dizer coisa com coisa..Tens de ir dizê-lo ao tribunal. muito depressa. depois que a viu resoluta quanto a alijar o horror daquele segredo. Tu vais-te arranjar depressa. O senhor juiz mostrou-se perplexo. Chorava. Havia uma dúvida a esclarecer.. senão está tudo perdido. não veio inconveniente. E tapou logo o rosto às mãos ambas. em dispensá-la. tão grande que nem tem perdão. E arquejando. que sai aleijadinho... tanto o Dr. com ela albardada sem manta nem xairel. Com outro olhar sondou os advogados. as lágrimas embargavam-lhe a voz. É singular que apenas neste instante que a prova está feita.. que era a Verdade encarnada. já.. para que não resplandecesse a sua vergonha confessa. para que a amiga a não visse. Com um olhar consultou os colegas e logo inferiu pela expressão de suas físionomias que não viam inconveniente em que se ouvissem as criaturas. apenas neste instante nos venha com o archote aceso. desgraçada.. tanto quanto se pode considerar feita com almas rudes que se entrincheiram na negativa e daí não saem nem à mão de Cristo. mas também não vejo vantagem. francamente. quando podes atalhar!? Deus castiga sem pau nem pedra! Castiga-te no teu filho. A priori podemos ajuizar que a anunciada revelação não passa dum drop. . . Esteve um instante imóvel. chegou a casa cobrir o xaile... Consta dos autos.Os guardas não sabem manter a ordem.Estão ali duas mulheres que dizem ter uma revelação importante a fazer. pois tu sabes a verdade e não a dizes. Fazia-se-lhe uma pergunta.. ah. e o colega decerto está ao corrente.? Que há? bracejava da tribuna o senhor juiz presidente.?! Florinda arregalou os olhos espavorida. zás.perguntou o juiz descendo o sobrolho. O colega não deixaria de notar essa circunstância. Mas já. Voltando do estonteamento Teodora disse-lhe: .. pediu a burra à Casimira e. Angelino como eu. soluços. A outra não figura no processo. Tu és capaz de deixar cometer um crime tão grande.Franca. Manuel Torres acenou afirmativamente. Concordámos. Veio o oficial de diligências direito à mesa e proferiu em tom que se fingia reservado mas soava com nitidez suficiente para ser ouvido nas primeiras filas: .? Acenou afirmativamente e. no mais opressivo desgarre.Uma delas já foi inquirida e dispensada pelos senhores advogados: é a Teodora.. gesto esquivo. mas acudiu-lhe que valia mais formular o quesito segundo a norma: . qual. com medo de que o próprio vento ouvisse. . Vou-me arranjar.logo me dirão se a mulher que a acompanha não envolve um desdobramento . um drop fondant de suspiros românticos e lágrimas à 186 . ou o pior dos malvados! Não vês os tristes espelhos pelo mundo.Apareceu agora esta Madalena desdobrada . ? O aterrador levantou o cartel: . abalaram as duas para a vila. Conhecemos o truque.

não vejo vantagem. Em nenhuma parte tenho menos medo de tais produtos do que à barra. portanto. que me dizem batedor de montes. em face dos processos pouco generosos do seu opositor. Dá-me licença. Ex. com pessoas de gostos sãos e objectivas. pelas arrrecadas pomposas e cordão de muitas voltas. Ex. Por tudo isto. eu não os pratico. Após brevíssimo aparte.emitiu a defesa. ar contrafeito mas animoso . que se dignou anteceder-me. de ser instada. não tem aplicação. de acordo com S. não tivesse rebuço de confessar-se arrependido de haver cedido a um movimento precipitado de compaixão. Requeiro por conseguinte que sejam ouvidas as mulheres. O juiz mirou-as com aparente frieza e no silêncio leve e súbito que enchera a sala.Que têm a declarar? Depois duns segundos de turbação Teodora respondeu com voz corajosa e bem timbrada: . vá ganhá-las algures. Nunca venho para aqui representar.Mande entrar as mulheres. Quem aspira a tilintar esporas de oiro. repito.Mariana Cruz com manhas gentis de Frineia. melhor. no seu lugar. de barriga à boca. a vida faz-se aqui. . Ora essa. Ex. Estava mesmo a adivinhar! . denotando pelo vestir. matou um leão nos matagais da Nave. nem desvantagem para o processo em que se ouçam as proponentes.chasqueou o advogado de acusação. Repilo a insinuação e o contubérnio. na guerra ou no sport. Também não o julgo picadeiro. Se S. e o meu parecer é contrário. amochava~se Florinda. como não. Eu.E. cabelo almofadado em tranças para a nuca à antiga moda campesina.Realmente a cena parece de Hollywood . para que não subsistam mais dúvidas de que o meu constituinte matou o José Francisco tanto como S.a. Mas bem. ocupado em deliberar à puridade com os colegas. Aqui o sal amargo. como são os senhores magistrados. talentoso quanto novel advogado. Talvez que. Teodora pede para voltar à barra e eu não sei para quê. . a lavradeira de posses. se continuasse a ocupar este lugar. o juiz ordenou para o oficial de diligências: . Torres. sem embargo do agreste e obsessivo. Abriram-se alas e Teodora apareceu no seu traje meio senhoril. xaile de seda e saia de merino. ter-me-ia arrependido. inspirava imediata simpatia.a os pratica. Acusar ou ainda defender para levantar o pleno pareceme contrário à mais elementar moral judiciária e sem dúvida alguma ao tópico a que obedece o foro: justiçar. puxando os punhos de goma.Sabemos quem foi o assassino. Angelino. comummente praticaríamos. 187 . Muito menos roleta. Traz a cabeça do criminoso na bandeja? Pois se traz. proferiu: . chambre de seda cor de azeitona. e as palanganas da garganta. Calabaz aludiu a truques que todos nós conhecemos e que.uma flor das serras que. olhos baixos. Para mim o pretório não é um teatro. pertence-lhe a palavra? O senhor Dr. lá cozinha-se às vezes ou quase sempre com mau tempero.retorquiu-lhe com sorriso sarcástico o Dr. passo irresoluto e todavia certos ademanes de cascaroleta. Atrás dela. protesto indignadamente contra a insídia com que veio o senhor advogado da acusação. Mas adiante: é exacto que o Dr. senhor juiz? .a. dispensou Teodora. Penso assim e porque penso assim e estou pronto aqui e em toda a parte a responder pelas minhas opiniões.Temos filme americano .

Augusto.É aquele homem? . é que causaste a minha desgraça! Mas o oficial de diligências agarrou a rapariga por um braço e levou~a à presença dos juízes. decorria a lastimável peripécia. Os juizes reconheceram que o incidente só podia ficar encerrado imprimindo-se ao processo o seu verdadeiro rumo. Sempre disse que este estupor do Ougado havia de acabar mal.Se sabem quem foi o assassino. contou o seu pobre romance. compadre Zé dos Cambais? Também tu. cambaleante..Não fui eu. o gajo mandava-te ver a Costa de África. o que procuraram realizar durante a suspensão. O José Francisco era o seu amigo e o Luís Ougado. descosendo-se da sombra. Na teia. como se o desgostasse o rumo que tomava a audiência.. ergueu-se a increpá-la: . de ar sonso e cabisbaixa ao pé de si.Pois sim.?! Também tu. Trouxeram-lhe um copo de água. entretanto. Brás tê-lo-ia andado a espiar. Mas já que dizem que fui eu. o Ougado sabia que o outro costumava vir ter com ela a casa quando tudo estava sossegado. não fosse a cachopa. entrecortada de pausas e suspiros. Houve que fazer evacuar a sala. pois sim. Por isso não o quis mais comigo. tratei de cumprir o meu dever.e Teodora apontava para o Luís Ougado.Não tem nada a opor? Só então o Ougado se ergueu do assento. senhor juiz.. não fui. de que havia lembrança naquele tribunal afeito às audiências plácidas e sonolentas. Pretendera ainda? desenhar um gesto de protestação. Demais. melhor eu não podia desejar. Os advogados observavam-na com silenciosa curiosidade. O presidente interpelou-o: . de imprecações. a dizer num pobre esgar: . Aires? 188 . mas logo no começo da trajectória o braço lhe caiu flácido. atinara a descobri-lo.tornou o )Uiz em rom rosnado.. O Luís Ougado caía de borco a soluçar. lívido. Aquilo. O senhor juiz incitou-a a dizer a verdade e ela em voz tartamuda. . que tivera o casamento emprazado corri ela. a lançar-se sobre ele de varapau. Estão com a lágrima no olho. Célere e fugaz corno enguia foi o advogado aterrador cumprimentar o Aires: . hão-de prová-lo. Notaram também os juizes como o homem se tornara farrapo e em seu foro íntimo confluíram ao parecer geral. pelo esmorecimento fisico geral. Na noite de S. mas fora tão rápido que levara menos tempo do que se gasta a dizer. Postada à janela vira tudo. O público desatara na mais estrepitosa cachoeira de vozes.Felícito-o sincerarnente. O desgraçado fizera-se branco como a morte. Tanto valeu tanger a campainha da ordem como chamar pelo miraculoso padre Santo António. O verdadeiro matador entregou-se. só tu. O José Francisco a sair a porta e o Ougado.Excomungada sejas? Tu. era já o náufrago que não tenta sequer resistir contra a onda. Reparando em Florinda. O mais era a história da sua vergonha. perdido na fila das testemunhas. de juras. Viva o amigo! À sua retaguarda Silvestre Calhorra abanava a cabeça: . digam-no? . sentindo-se que o seu regalo seria meter-se pelo chão abaixo. pelo olhar vago. Todos os olhos incidiram sobre o arguido e nada mais que àquele simples conspecto não houve porventura ninguém que não ficasse convicto da sua culpabilidade. Era preciso vingar o assassinado. Eu nada tinha de animosidade pessoal contra si.

No fervedoiro da ira. a criada de dentro.. o que buscava era eximir-se a ser o desopilatório. pedir asilo a segundos. senhor Antoninho.. Era como se estivesse diante da casa dum pestífero. o carro a estacar à porta. Tinha-a já agarrada pelo pulso e. Por muito que batesse com mão rija e frenética.Ouves ou não ouves. mas largue-me! Há-de-me largar primeiro. Mas dessas vezes. já por duas vezes Solange. e a criadagem a precipitar-se ao seu encontro humildosa e alvissareira. acompanhado destas cóleras que lhe faziam retrincar os dentes e toldavam o lume da razão. seladas portas e janelas com os sete chumbos do lazareto. obrigada a tendas de campanha e vedetas da Rádio e do Cinema. o Antoninho Fráguas encontrou a casa fechada. não olhes para mim apalermada. tronco projectado ainda na flexão da fuga. o prédio ofereceu-lhe a mesma impenetrável e insólita clausura. Espraiando olhos pelos caminhos e as quintãs. 1 gemeu com voz entrecortada. De volta durna pescaria às trutas no alto Paiva. presidente da junta de Freguesia. lhe pregara a partida de ir de lágrima no olho.Pois sim. outro pé na rua. a porta conservou-se como a janua c(eli para o mau ladrão.Que me quer? .. ó coisinha...Pscht. não se avistava vivalma. tinha a casa da mãj ali perto. Foi pelos quintais e. Subiu a escada tão de afogadilho que à moça minguou o tempo para calçar as tairocas. Quem se cria capaz de empunhar a seitoira. uma lágrima envergonhada. Promessa assim reticente valeu-lhe logo um cachação despedido à laia de amostra.? Onde está a senhora? . a Maria Alonsa fitou-o com ar espavorido. Conhecedora do seu gênio impetuoso e feroz. queixosa do seu desamor e vesânias. espera que já vais! Ante o seu rompante a criada suspendeu-se com um pé no limiar. cravava-lhe as unhas na massa da carne.Dize depressa! Dize lá e largo-te. rosnava: .Só Teodora estava ao lado grave e serena.. e botou-se lá dum salto. largara para a folha. E por 189 ..Onde está a senhora?. eu digo. ao passo que a fazia retroceder para dentro da cardanha.. gemendo: . sabendo que lhe era precisa uma cabeça-de-turco nas suas raivas de fera para não morrer sufocado.. amortecendo com sete vozes a um tempo o desagulsado da surpresa. ao largar pela porta das traseiras. rompera com desabalada sanha a faina das ceifas. As donas que poderiam ter ficado de portas adentro não seria cómodo desviá-las da caçoila em que grugulejavam as papas para os segadores. eu digo. exclamou: . cabeça à retaguarda. desamparando o lar. desse lado. Silvestre Caffiorra... E de braço alçado ante secundar o golpe. O Antoninho. acudiu-lhe que a Maria Alonsa.. eu digo tudo. Aquelas palavras era eloquentes o que basta para certificarem-no de que alguma coisa muito séria se tinha passado. mal entreviu um lenço vermelho a esvoaçar. Um vivo sobressalto. o íntimo inundado de febril regozijo.. tendo baque de que devia ser ela..Eu digo. Dize. correu-lhe no encalço: . juro-lho pelas cinco chagas de Cristo. A moça. . velho de sete fôlegos virou-se para a banda a limpar às costas da manápula também a lágrima. se empossou dele. junho tórrido e pães lampos. mas solte-me o braço. Para onde se tinha metido agora toda essa estúpida cambada? Era obra de meia manhã e. e. A rapariga arquejava e não respondia.

. Deu-lhe um murro mais forte. Então ela rompeu em altos gritos: . agora assobie-lhe às botas! O Fráguas ergueu os olhos e na retina baça e parada do Minga.Há muito que sabia que a senhora era amiga do Calabaz.. fora ludibriado da maneira mais imprevista e desbragada.Ai.Não digo e não digo! . Sabia.Seu malandro? julga que é só armar os outros coronéis! Foi-lhe bem feita. já. mas eu seja cega se me fizer abrir a boca? regougou ela. só depois de mantê-la sufocada por um tempo. sem poder mascarar suficienremente a fúria homicida que lhe estuava no sangue. o vago e cínico luaceiro. mas que estivesse aberta.repetia ela. que enristava para ele um focinho de condolência e curiosidade.? Mate-me. E escumava: .. Uma das mãos dele não fez mais que deslocar-se.? Queres festa? Então pega!. quando se )ulgou a coberto da investida do tigre assanhado. Ao Espadagana. mas meu pai e meus irmãos hão-de saber ainda hoje quem foi que me desonrou e é meu amigo! Que tal disseste! Os dois braços do Fráguas desataram a malhar alternativamente como um jogo de dois manguais. Ela fitou-o em silêncio e abanando a cabeça. que a vergou para a direita. teimosa e convulsionando-se.. Pega!. o Minga segurou-o.. . A 190 . .. Solange rinha fugido com o Dr. Pronto. a rnoceta retrauteou: . mas deixei correr.antecipação logo ele lhe aplicou um segundo trompaço. Pudera: Faze-te niorto. disse bamboleando a cabeça: . Como uma cadela batida. Mais. a ver se alguém te acredita? Vai.. atirou a pedra: . seu procurador.. meu estuporinho. de lhe ver os olhos extravasarem das órbitas e ela a debater-se debalde.. Um instante apenas quedou interdito. vai! Apareceu o Minga que lha safou das mãos. Passo a passo das repetidas e bruscas lucilações do entendimento. Guilherme Calabaz. a chorar. as comissuras dos lábios arrepanhadas num esgar de dor e decisão.Quem me acode? Quem me acode! Quem lhe havia de acudir? O Fráguas atirara a porta contra a fecheleira. também lhe chegou a vez! Foi-lhe bem feita! Ia a arremeter.Bateu-me. Ferrando-a pela garganta. E silvava: .. proferiu em voz atrida. a aldeia tinha-se esvaziado para as searas.. anda? Vai dizer que fui eu o primeiro que subi à laranjeira. o que equivalia à rendição e a uma censura.Vai dizê-lo. com desfrute de permeio..Despacha-te! Dize lá. é que alargou a golilha e lhe repetiu com a voz pausada e segura de quem sabe ter a vítima à mercê: . seguido dum terceiro que a repôs na vertical. reconstituiu o rúrbido romance. como não fosse perseguida. A distância. Não havia que ver.? . dúlcar-te-á o tourf). sob o engulho das lágrimas: . associando mil coisas. mate-me. leu a insofismável e porca verdade.Levou quinze anos a querer persuadir-me que era uma pobre e santa rapariga e que eu não passava ao pé dela dum gabiru de marca maior. não dizes. certos gestos que pareciam insignificativos e vozes absurdas que lembravam bexigas de porco à dependura.e as manápulas do Fráguas erguiam-se e baixavam-se no dorso da rapariga com um ritmo cada vez mais acelerado e violento. confidente e amigo íntimo. a Maria Alonsa largou pela quelha fora.Não. que sempre lhe brincava nos lábios grossos. pequenas e grandes ninharias. Mais longe. testade-ferro e alcaiote.

custoso e Majestático que nem o armário norte-americano dum dentista. o Fráguas. que nos hotéis incutia um sagrado respeito aos groo?iis e embaçava os pelintras. E não acreditei por várias razões e mais uma: no fundo são todas as mesmas. Por enquanto. Era uma vez a raposa argentée. quase um palco. no quarto das arrumações. o cofre à prova de fogo. quem havia de futurar que tinha perna para tal coice? . mala de viagem tão catita de pregueados e fivelas corno o peito dum general em dia de parada. e a cada passo o surpreendiam agradavelmente as irisações 'fátuas dos vernizes arpejados pela luz. os naples de carneira verde a pedir charutos e negociatas. Antonio? Seguiam rua fora. Não avistou também o “necessário” em pele de crocodilo. Lá estava a pianola. mas a verdade é que nunca acreditei. cederam ao leve empuxão. . Tinha alfaiado a casa com mobília em contraplacado. O outro limitou-se a torcer a belceira num gesto de perplexidade. com as diferentes peças todas de cristal e prata. tanto mais de apetecer que com o refervor da canícula a attnosfera se tornava irrespirável e a pele da gente ficava negra corno se a chamuscasse um incêndio. que valia um par de contos. Aberta a porta. rraste rico e solene. e transformarem-se em catadupa sonora ou arroiozinho melódico. Os escrínios com as jóias. Lá estava a sua secretária de corrediça.Pois eu . espelhos Sr. brilhava pela ausência a inala de coiro da Riássia. o bolero de arminho.esta altura não tem mérito algum di . ou falando com os seus botões. ó Minga. envolveu-os o ar fresco e hospitaleiro da casa em trevas. Mas dize-me lá. última moda: grandes superfícies planas. A questão toda é caçá-los! O Minga introduziu na fechadura a cliave que a criada de cozinha viera entregar... que era costume estarem fechadas a sete chaves. Lá estava o aparelho da Rádio com o seu supedâneo de Mogno. par a par. como se a palavra do Mi nga lhe chegasse só então aos ouvidos.Tu no meu lugar que fazias-? Sê franco. Aubin a granel. lentamente. e as duas grandes jarras chinesas inade in Gerniany. O Antoninho foi de sila em sala. em que uma vez por outra lhe era grato ver o ft)rmiguQiro das notas marinhar processionalmente como lagartas da couve até o esófago musical da máquina. que é deles? Mais de cem contos que se iam à viola? Com mão já enfadada escancarou as grandes portas duplas do guarda-fato. matizada de 191 . Também ela tresti-ialliara a fugir-lhe aos destemperos do primeiro febrão. aquela bata de organdi amarelo. Ao subir a escada. Apenas junto das suas pantalonas de smoking.. grandes como talhas das azeitonas e vistosas como coristas de uma revista de ano. Tenho que me desagravar. sim. mal constou que o senhor Antoninho chegara de fora e a sua bílis negra revulsada. revestidas de vidraça Nseautà.. trazidos na sua jubilação de ricaço.E agora. de olhos no chão e silencioso. penduradas de cós para baixo e pernas para cima. nariz ao alto a coscuvilhar. Toda a indumentária rica e preciosa de Solange tinha desaparecido.zê-lo. com aquela carinha de Senhora da Piedade.volveu o Fráguas detendo-se no patamar antes de mais nada o que faço é rebentar o canastro aos dois. não dava fé que faltasse algum dos bons objectos de sumptuária. onde madame estudava horas e horas o sinalinho do rosto e os cabelos encanudados em mola de sofá. o vestido de lhama a “estilo” para bailes e teatradas. linhas rectas. as gavetas dos toucadores. é que pronunciou: . Na alcova conjugal. Ah.

na qualidade de esposo. aquele pelém. o abegão. lhe era subalterno. oh! um tudo-nada de melancolia. Outra forma. tinha dado grandes esteiradas para se ir abaixo com mais uma. Um momento se esqueceu e esperou ouvir a chinelinha arrastada de Solange. pelos vistos. pelém por dentro e por fora. debandaram cada um para seu lado. pindérica e lamentosa. outros beijos e abraços. A Maria Alonsa é que. Só passante um grande migalho é que a Maria Alonsa. pior que uma impigem. embora essa sobrepujasse as outras de muito. Entretanto que ficava sozinho. já chocalhavam para os lados da copa as risadas de matraca do Espadagana. fora arvorada em confidente. despojadas do recheio voluptuoso das roupas de baixo. 23-41. quanto a ele. Do mesmo modo não deitaram grande malícia quando viram os dois sair a porta. Conclusão: eram todas as mesmas! A cozinheira chamou para o almoço. verificando rodas e a ignição. como revoada de pardais que sentem o gavião. a criadagem voltava ao redil. havia uma coisa que ele tinha a favor. Qual. Quanto a ela. Calabaz chegara na véspera pouco depois do meio-dia. só se tinham perdido as que caíram no chão! Fráguas despediu o pessoal e encarregou o Minga de aprontar o carro. lhe preferisse um outro. apertando a fronte às mãos ambas. Tudo ia nisto: ser trocado por outro. Como eram de grande intimidade as suas relações na casa. pôde Fráguas levantar o corpo de delito. estava longe de competir com a sua lábia.J.azul. Tão-pouco a quebra de hábitos que vinham de longe. e abalarem no H. estava explicada. que deixava filtrar a tíbia de cabra de Solange. dos tempos difíceis. disse mal da sua sorte. Ah. Ouvindo a uns e outros os informes voluntários ou arrancados a saca-trapo. era clara como a luz do sol. era uma concreta pouca-vergonha. escorria mole. a paqueta. em linho subtil ou sedas duma brandura de teia de aranha. o que sobremaneira lhe doia era que Solange. Mas não tinham culpa: aqueles amorios haviam-lhes passado tão alheios como se fosse na China. Só não veio a Maria Alonsa. Aqui estava o artigo em que. deixou-se abismar no maple e um instante prostrado. Sendo bacharel. Viragem da fortuna? Puf. a grande zoina. e os dixe-medixes que andavam no ar como o zumbido das moscas. um sonho mau?? Não. ninguém estranhou que se fechasse com a senhora durante mais de duas horas. restavam-lhe dúvidas de que aquilo poderia ser sonho. veio anunciar que a senhora partira de vez com o Calabaz e já trazia o processo do divórcio a correr. outra boca. rotundamente a favor: a variedade. Sendo mais novo. Veio a cozinheira. para lá da crise hidrófoba. figurava de mais idoso. de turbante pela cabeça e saquinho. encobrideira e correio de notícias. Não eram as excrescências da minotaurização o que mais o incomodava. Que tinha a mais o Calabaz? Havia de virar-se três vezes de dentro para fora e de fora para dentro até poder concorrer com ele em ralé. completando o óleo. sopesando a mala de viagem com a direita e o “necessário” de pele de crocodilo com a esquerda. à 192 . já tranquilizada de ânimo. ele adiante. comparável à que se evola na espiral de fumo dum cigarro. Estava explicado o susto com que a moça o vira aproximar e as suas ânsias. queimado na soledade do sol-pôr. o moço da garagem. Nem ainda aquele descambar subitâneo da imperial com o desfalque que o sucesso podia trazer ao seu pecúlio. Vasculhando na consciência. Quando tal ouviram. ela atrás. E. Em face das cómodas. Para se tentar duma mulher em tais condiçõ es. pois que desmpenhara tal papel. sentiu certa melancolia. Entretanto a casa animava-se.

e ainda tinha modo de entremear a santa trincadeira com histórias da vida. para ao cabo da gargalhada pronunciar sorumbático: 193 . com uma filha casada e um filho homem tanganhão de tal calibre que estava àquela data hospitalizado na casa de saúde do Dr. uns olhos invulgares em que. picado pelo Tadeu que à última hora lhe dera para o cobiçar. ah! ah? Até o Fráguas desatou a rir.Por modos foi a D. interessante com o pátio e as árvores antigas.concluiu o Minga em voz de réquiem. a quem acontece às vezes os amargos de boca fazerem perder o apetite. venham. Cem. cento e vinte.. . D. tens de culpar D. esvoaçavam asas de colibris ou se viam peixinhos chineses bater com as barbatanas de oiro a água morta dum lago. consoante a luz.beira dos quarenta anos. é que o salto à dama não fora jogo de amor. o rendimento das terras e as raparigas da terra são para as gozarem os que cá estão.. cento e noventa e cinco contos. coisas e loisas que contendiam com tudo menos com mulherio.Essa agora! . Sim. pois que não era discreto falar de corda em casa de enforcado.disse o Fráguas com um sorriso de desdém.Calabaz?? Calabrês. O Silvestre Calhorra sempre ficara com o casal de Malhadas do Dr. Quanto aos grossos capitais depositados em Banco e investidos em empresas várias. um cabrito assado. Juan viera ao faro da bagalhoça. o Calabaz não era aqui visto nem achado. Ouvi dizer que o Torres se foi embora com a lágrima no olho. Tinham lavrado a escritura no dia de trás em Tendais.. duas molejas de vitela não requer? am para ele outra companhia além de seis “meninas” do Dão . As terras. mas só enfados”.desprovida de todo o sex-appeal. @ Havia de se ter ido embora há mais tempo? . Margarida que o obrigou a largar o que ela chama “uma parvalheira donde se não tira honra nem proveito. Querem vir tomar ares. De resto. Marzoelos a tratar-se duma doença vergonhosa . outro para baixo. uma mancheia de notas por dois chaparrais e uma regada que não rendia quatro carros de centeio. . Afonso Henriques que conquistou estas terras aos moiros e permitiu que pegassem aqui as estacas donde saíste tu e tua mulher. só bonitos olhos. e o Antoninho arregaçando os lábios num jeito pessimista pronunciou como em remate do solilóquio interior: . já ninguém lhe tirava do papo o dinheirão das jóias. Se não matam o Zé Francisco. este Dr.São menos medidas que saem da patarrega. o Aires não se pegava de rixa com o Zé Francisco. e paguem. O Minga comia por si e por dois iguais a ele. murcha. refinadíssimo calabrês!! A cozinheira caprichou em servir-lhe um almocinho delicado. não falando na casa.mal debicou num ou noutro prato. Contra os seus créditos de primeiro garfo do concelho . . um ombro para cima. Manuel Torres.. como acautelá-los das manobras do rãbula.Se ele não dá os améris ao Aires. cotados pelo estalão normal. mas só os ares.meio lombo de porco. Torres tem muita culpa no que me aconteceu. Mas saíra salgado ao cambaio. destes que se fazem com temperos genuínos e o sinal-da-cruz para os amachucados da mofina. pernil caprídeo. mas sim jogo de monte. mas que para o labrego do Calhorra era como pérolas a porcos! Um homem de peso que deixa a serra! . Pois então?! A raciocinar assim. praticadas à margem do inevitável processo de divórcio? Sabia quanto era fecundo em tricas e audacioso nos meios. sem peito.

homem. o visconde papalino.C. há sempre seiva para as borbulhas da leviandade. Mas no corpo da mulher. Guilherme Calabaz e informaram-no que haviam tomado a direcção de Viseu. nas famílias das relações. para a sancadilha. 23-41 tinha sido visto à porta duma garagem e um chauffeur de praça. Pensou ainda em telegrafar ao genro. hei-de dar com eles? . não é tanto assim. Ele aproveitou. metia a toda a mecha para Tendais. Mas que fosse. é o que calha@” O Antoninho riu por entre dentes. Solange e do Dr. depois de o contemplar com um interesse que não conhecia há muitos anos.J.Sossega uns dias.onde é que os vais desentocar? . Vens tu comigo? Lastrou os bolsos e. com o bando das titis. Estou roubado? Agora só a tiro! E o pior dos remédios? O Antoninho levantou-se. seja em que idade for. Aí tens. aquela criatura está avelhada.. sim. que se tenham ido acolher às profundas do inferno. 194 . Mas logo por desgraça lhe caíram os olhos na assinatura de Calabaz .Dás licença que te diga? A mulher e o vidro sempre estão em perigo. à socapa virou-o de costas.. Manuel.porque fora ele. mas era um encharcado de perfumes. Era ao entardecer.Mas esta foi bestial. . tem de experimentar os esporões do galo? E lá fora. beatas de óculos e albuminúricas. em poucos minutos. Sebastioa.Homem. quantas vezes te ouvi: “Galinha que entre cá no poleiro. e Fráguas achou-se à vontade para pulsar a lei quanto às perspectivas principais que decorriam daquela emergência.. na vizinhança. e desistiu. Manuel? Senhora tão compostinha. o tempo foi passando e acharam-se a horas & jantar abancados a um bife de vitela no botequim. com o Minga ao volante. E o pior dos remédios.Qual sossega uns dias!? É para já. carregado de escapulários.. Não tinha segredos para ele. Na cidade o H. . que sob os pontos de vista da dignidade não pedia conselhos a sua honra. ? Deixá-lo? Vou-me à cata deles até os desentocar. vê tu. grande amador de fotografia. ..Ora essa. mais dois dedos de palestra para aqui. incapaz de dar um passo sem se aconselhar com o senhor Bispo. que regressava de Tondela. Queixa-te da tua má cabeça. até quantos botões tenho em cada colete. uma mártir S.Mas. será como me der na gana: britá-los ou limitar-me a verificar o adultério. para não dar o espectáculo da dor do cotovelo. Têm-no de índole. encontrava as tuas fúfias.Portugal não é grande. À velocidade que parecia levar meteria a Santa Comba antes do lusco-fusco. A notícia ainda não alastrara. Em Tendais já era tudo cheio com a fuga de D. estou roubado! O ladrão sabe tudo. Depois. para onde quer que se virasse. em casa. à última hora dar em droga! ah? ah? .A estas horas.. .e restituiu-o à posição primitiva. no justo receio de que a paixão lhe fizesse perder o sentido da direcçã o e atirasse com o carro por uma ribanceira. informou-o que se cruzara com ele para lá de Sabugosa. olha com que menino.J. e à atitude que mais convinha adoptar sob o ponto de vista dos interesses. mais outros dois de conferência para acolá a propósito de negócios pendentes ou em curso. Rompeu estrada fora.. mas desta feita o seu sorriso era amarelo. que o tirara . dizes tu. irmã zeladora do S.. descobriu o retrato da esposa na cantoneira e. Peripaterizando de cá para lá. à beira dos quarenta anos uma mulher não é nenhuma flor do rrevo. E volveu ao responsório: .. Deixava-Ia para aí ao abandono como uma canastra velha. Mas consulta que não consulta dum advogado.

. . num ponto já eu assentei-..Mal empregada? Para quem estava boa era para o ego. que não fosse bronca de todo e de boa família. Saía gente das inúmeras pensões e hotéis ou entrava. . . vou eu. entre os vinte e os vinte e cinco anos. Espadagana dum raio!? Sempre que o tratava por Espadagana ou cunhado. . Esta vida são dois sopros. Vê lá tu os alçapões da vida? O que eu precisava era caçá-los com a boca na botija. . É tu quereres.Disso és tu capaz. segundo o voto do Antoninho. limitome a mandar verificar o adultério e acabou-se. a pontos que ainda rendia graças ao Criador e ao rna)andro do Calabaz ter-me levado Solange! Quem ma dava toda era a Paula Hincker.Isso é papa fina. Agora para o meu paladar só frarigas.O corpo está-me a pedir folia. lançaram-se pela estrada de Lisboa a urna velocidade de bólide. e a que produziam os líquidos capítosos que ia engorgitando aqui e além.. Ainda me caso outra vez. no Buçaco um casal que chegou das bandas de Santa Comba no carro H. Perante a desatenção dum dos chasseurs. Mas vamos lá.. se as coisas correrem a favor. nas horas de grande ternura. o Antoninho estava sob a acção das duas ebriedades: a que vinha. Cunhado.Dísse-me o advogado que. do pontapé que pouco faltou para lhe romper o espinhaço.. o Mínga ao volante. Teriam ali estanciado os pombinhos? O Fráguas desceu e entrou no hall do Grande Hotel. . toda. Para que servem os milhafres de milhafres que tens na gaveta?? .Se apanhasse uma rapariga séria e apetitosa.? . Dentro de meia hora tem a resposta.. Caramba.Há muito disso..a descia então.J. ou quando o Demo lhe soprava ralé. tanto mais que eu teria abandonado o lar culposamente. Antes das dez estavam no Luso. Foram matar o tempo. .E então. . em caso de negativa.? .Já sabes: para onde fores tu.Saber se não pernoitou a noite passada neste hotel e.Bem.Que meta. É noiva do engenheiro Bacelar. trazia grao na asa. Ex. de pândega corri as actrizecas de Lisboa. o divórcio seria pronunciado a meu favor. Ex. Acompanhas-me? . que patriotismo? Que pele de maracotão no pescoço e no lábio superior? E que encontros.. recorreu à gazua infalível: .Não tenhas dúvida. . fica-te muito moni. .Esteja V.E tu mais cem escudos suplementares pela diligência. Que o meu quinhão lhe sirva de rosalgar. mas folia da fina. O busílis é a prova. . Em crise. . . O ladrão do Calabaz não deixa de meter a unha.Sabes tu quem ma dava toda.. sigo em frente até dar com eles. pegava11-ic.Então. divagando pelos logradoiros públicos das termas. . por traumarismo.e meteu-lhe à cara uma nota de cem escudos. a sossegado. Corno não era -a primeira vez que o patife do Calabaz e ela viajavam sozinhos e com o meu consentimento.V. Espadagana. Estás a compreender que tens de ser discreto. o facto não constitui prova cabal. deambulava 195 .Para te compensar do tempo que perdes e para as despesas do telefone aqui está.Vão ficar reduzidos. não há duas opiniões. podendo eu “constatar” o adultério. 23-41. Meteram gasolina e. Naquele dia. . meu velho.

apanhar uma mesa devoluta. estavam no admirável jubiléu da papança. namoriscava. Tal representação fora trombeteada aos quatro ventos como um acontecimento excepcional. Se o desejasse. Dois quartos ou preferivelmente um quarto com duas camas. Aceitaram.pelos caminhos a tomar o fresco. e Fráguas ofereceu a sua mesa. recusando-se no fundo a aceitar o labéu que acabava de esparrinhar sobre a sua pessoa. sem exigências mentais. 23-41. Que temia? Em nenhuma garagern do Luso nem do Buçaco fora recolhido o H. a meia voz. Ia para os cinemas.. olha. Desceram Hincker e Paulinha. corno é tarde. dar assim um chuto na vergonha. uma boa-serás.Pois telefona para a Curia. não obstante a companhia do Manuel Minga. . a voz confidente da barriga cheia. tudo integralmente soberbo. Bom almoço e cavaco ameno. para quem nada de nada neste mundo deixava de ter a sua ponrinha de intencional. Chegaram a Coimbra um pouco antes do meio-dia. Não havia lugares vagos no restaurante. surgiu uma garrafa de Moêt et Chandon e Hincker ficou penhorado com a bizarria. digno da nação organizadora por excelência. cabeça na travesseira.a estar absolutamente certo e garantido. trocando impressóes sobre as trabuzanas que o Diabo tece. Ninguém lhe soube dar razão do automóvel H. encontravam-se os dois compadres de cigarro aceso. 196 . Hincker com a filha iam a Lisboa assistir à representação de Tristão e Isolda que essa mesma noite a Staatsoper Berfin e a Berfiner Philldrmonches Orchester davam em S. reconfortou-se.J. cais como os peregrinos de Bayreuth. embora em guerra. balouçava-se nos terraços em cadeiras de verga.. fosse este intencional obra de Deus ou do Diabo.J. talvez tivesse cortado para a Curia. E o estribilho subia-lhe aos lábios como num realejo: Vê lá tu. Fráguas. manda-nos preparar dois quartos. caminhavam para a capital. depois da meia-noite. O Minga piscou o olho ao amigo. parou em frente. 2341. podia. hem?? O Fráguas só acordou na meia manhã. satisfeita consigo e com a vida ou assim o dava a entender. o que lhes fez atrasar a viagem. A Alemanha caprichava em realçar o seu carácter de mantenedora da cultura. Ouviste? O Fráguas tinha medo de ficar sozinho corri os seus cuidados e.. telefonava-se para a Curia. Animais com aqueles dentes renunciam a tudo menos a comer. de Norte a Sul. teleforia para toda a parte. com enviar ao país neutro uma embaixada de arte de primeira: cantores de renome universal. tendo recebido resposta negativa da Curia. Era a sazão das festas da cidade e custou-lhes. Mas. e o Fráguas experimentou a mais alterosa das invejas. mas já ele se precipitava a oferecer os serviços. E. comprimindo-se ele e o Minga para unia ponta. Nunca se sentira tão isolado no mundo. na outra a pistola. como em dado momento palpasse numa das algibeiras as dezenas de contos com que se munira. ainda e sempre fora de si. Agora. Afinal. Ex. os devotos de Wagner. Carlos. um automóvel rico. Espadagana. um corpo sinfónico de sumidades. S. À sobremesa. Entre duas fumaças. aerodinâmico do último estilo. reluzente de cromados. uma não quebra-utn-prato. Rua fora.. em rimeira fila o elemento alemão. cenários e indumentária do maior requinte. marchava aos cotovelões deste e daquele. E. Depois do julgamento em Orcas ficara de candeías às avessas com James Corbet e realizara com Hincker transacções de certo tomo. Ele próprio percorreu as garagens todas da Baixa que conhecia de cor e salteado.

amassado 197 . Quando falou em desagravar-se. Carlos. lembra uma estrada. em que o aviador descrevia o bombardeamento da capital do Reino Unido. requeria vagar.Sim. catrapus. & Severo Bacelar. do Calhorra. Graal. as praças gânglios absurdos. do Tadeu. invocando o contratempo que seria perderem a récita em S. é para a capital. O espaço é vergastado. a estudar-lhe o jogo fisionómico.Não é para a capital que se dirige. Não houve danos pessoais. Não puderam recusar. o que não espantou nada o estrangeiro. E Franz Hincker puxou duma carta. Fráguas. dado que em Coimbra se pudesse encontrar a peça sobresselente. pelos lados. o automóvel de Hincker teve uma derrapagem monstra. onde os transatlânticos não são maiores que brinquedos de menino. Para lá de Condeixa. como uma valquíria. Hincker sorriu: . Fráguas apenas fixou períodos salteados e sem verdadeira conexão: “. Depois. De olhos em Paulinha. ensanguentada além. mas o conserto. ofereceu o seu carro. declarou: . Victoria e East India sobrenadam no gigantesco mar de chamas. praças e ruas. Romperam. de dia e de noite. torcendo-se à retaguarda. nas acrobacias mais consentâneas com a posição. contou o “sarilho” corri a mulher. do inglês Corbet. a City é como a Alfama em noite de S. Era como o descrigelhar dum odre quando lhe deitam vinho. a todo o longo. deixando apenas o espaço que basta para não aspirar os gases do escape. Por toda a parte se erguem incendios e lumaréus. senhor Fráguas...Hoje esses métodos já se não usam. O céu. iriam de caravana por ali abaixo. Hincker à frente. Trate de aplicar a rece Ira. Ouvi lá para a sua aldeia um provérbio que diz: Mordedura de cao cura-se com o pêlo do mesmo cão. que por vezes crepitam contra as paredes da barquinha como o granizo nas vidraças. senhor Fráguas? Hesitou o volframista na resposta. ao lado dele o Fráguas. Tudo o mais é Idade Média.imaginando que ia relatar um grande drama. O rio. ganhando ousio. que teimara em ir alistar-se na Luftwaffe e lá andava num Heinkel III. verde aqui. que o Antoninho tinha pelo símbolo duma Grã-Bretanha desmesurada. de centenas de metros de altura. o Fráguas logo após. O Minga continuou ao volante. As ruas parecem delgados cordéis. depois. São dois fantásticos ramalhetes de fogo. São as balas da defesa antiaérea. Havia lugar para os dois sem sacrifício de nenhuma espécie. por cima. João. De nada servem as nossas granadas iluminantes. e nelas os vãos rectangulares dos portais sobressaem desenhados a negro. Em baixo. de princípio muito hirto e solene no seu posto de senhor que ofereceu hospitalidade. É o conselho que lhe dou sem mo ter pedido. O senhor é novo. para quem estas coisas se passavam no mais trivial e benigno dos mundos. Depois a fumareda ou a velocidade varrem do horizonte a zona dos cais. As docas Royal Albert. Tinham sido prazenteira companhia ao almoço. está a tempo de refazer a vida. a engasgar-se nas talas de goma dos colarinhos altos. e nós temos a impressão que estendendo um pouco o braço lhes poderíamos tocar. semieixo partido. Falaram de conhecidos e de pessoas sabidas. e tudo se ilumina à volta. O Antoninho Fráguas coçou a barba regalado ao golpe de ar fresco que varria sua alma conturbada. negra ali. à minha direita vão pelos ares dois gasómetros. novo paladino do S. choque da roda contra a guarda de pedra da berma. deliberadamente. está picado de estrelas. .

cabelos grisalhos. Na marcha rápida do carro. sem favor. Meio tombado sobre a ilharga de modo a ouvir Hincker e a divisar Paula. como dizia um augusto sibarita.. de olhos sempre em Paulinha. Milhares de milhares de gajos análogos a atirar bombas ou ideias. Hurra pelo ladrão que o inventou. Tinha quarenta e três anos. mas. . Paulinha não dera sinal de emoção alguma. que importância tinha à face da eternidade?. a morte macaca. E de facto. moscada. inundava o mundo de melodia.por verdadeiros batedores de luz de todas as cores.Terrível? . Por causa daquele. ho)e.. um ano que fosse. mesmo debaixo das bombas das Fortalezas Voadoras. Cruz Quebrada. Que importava de resto e dia de amanhã?? A vida era hoje. com ossatura de ferro e músculos de jaguar. e vogamos num oceano irreal.Sonata a Kreutzer.” . depoís o opróbrio. dois anos.Terrível e épico! .. pretensiosa e sem consequências. e o mundo continuava a rolar como dantes.proferiu Hincker dobrando a carta com solenidade e metendo-a na carteira. o dilúvio.Beethoven . Gozar o festim da carne tenra.. Deus escrevia direito por linhas tortas. A sua absoluta vontade era ainda a realidade apreciável. era o dinheiro. Bah.disse Paulinha. do Piauí. no meio-dia. daquela vitelinha loira. Que música era aquela? . o mundo perecível e detestando desapareceu. teria cinquenta e cinco. Ficava só paraíso. Ainda era homem. Àquela hora a ReichsRundfunk. 1943. estava ele nos cinquenta. A Fráguas a mensagem do herói pareceu tola. cinco. São os fachos dos holofotes. e sempre hoje. Estava. na melhor da probabilidades. fazia estas considerações amenas e outras decorrentes. corpos e almas. Quem o governava. embalado pelos acordes divinos. . O demónio de tal longitude que viesse! Paulinha ia nos dezoito anos: quando chegasse aos vinte e cinco. Abriu o comutador da Rádio sobre Berlim.murmurou Fráguas. não era diferença que lhe metesse medo. como dizia o compadre. nunca mais se levantariam os padeiros à meianoite. 198 . Quando botasse aos trinta..

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