Aquilino Ribeiro Volfrâmio

CIRCULO DE LEITORES Capa e Frontispício: ex-libris de Aquilino Ribeiro, desenho de Abel Manta Capa de: Antunes 1983, Livraria Bertrand, S.A.R.L., Lisboa Número de edição: 1531 Tiragem desta edição: 55 000 exemplares. Depósito legal número: 3100183

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PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO Logrou este livro certo favor do público, para lá do sufrágio a que me habituou o meu contingente de leitores fiéis, e não é difícil determinar porquê. Nele pressentiram uns a aventura empolgante à Jack London e bisbilhotaram outros uma crónica da actualidade, com retratos ao vivo de permeio e os inevitáveis episódios de rapacidade e fereza. Não se iludiram de todo, salvo que as carapuças de Mister Corbet ou Herr Hincker, para não falar dos lusitaníssimos Fráguas ou Calhorra, não acertam de modo algum nas cabeças deste ou daquele que se aureolaram na gambérria do volfrâmio. Não foi propósito nosso fazer dissecação pessoal, nem de resto o processo é compatível com a arte literária, quando exercida com largueza. Pintar almas é diferente de lançar a máscara de tal ou talfabiano à tela mercê da ciência das cores. O romancista vai de indivíduo em indivíduo, como a abelha quando jorrageia o pólen, e a um pede o físico, a outro a índole, a este uma anedota, àquele um pormenor característico, e assim amassa por aglutinação os seus figurantes, Feita a dosagem com inteligência e obtido um bom ajustamento, ninguém dirá que não foram copiados do natural e que não “falam” . E o orgulho do criador estará em dar a ilusão de que são cópias exactas do mundo de carne e osso. Já chamaram à nossa época, pelo muito que o fenómeno vincou o meio, época do volfrâmio. Quero crer que haja exagero de expoente. Entre nós, tal furunculose, com o dramático que comporta, deve antes representar uma das manifestações eruptivas da crise social que o mundo atravessa. Volfrâmio aqui, petróleo além, borracha acolá, há que integrá-los no substrato complexo e temeroso que engendrou a guerra. O volfrâmio foi para as populações do Norte, deserdadas de Deus, o que o mana foi para os Israelitas através do deserto faraónico. Imagine-se o que seriam os impulsos da horda esfaimada ante o alimento providencial, no afogo do de jejum. O irmão engalfinhar-se-ia com o irmão, o mais forte encheria duas vezes o saco, enquanto o mais débil choraria lágrimas de sangue, dado que não ficasse britado pelos pés dos digladiadores. Levaria melhor, se não o mais violento, o mais astucioso e o que tivesse olho rápido e pé leve. Os capitães, esses, acabariam advertidamente por maquiar a Zacarias e deixar correr protérvia e iniquidade. E não é ponto de fé que Moisés não comesse as mais gordas codornizes, que eram o prato do domingo, o arroz com vaca e chouriço do convento, e não atafulhasse a boca sequiosa às mãos fartas de tal mamadeira. Assim se passou mutatis mutandis com o oiro preto que imprevistamente brotou das terrinhas salaras do Norte, mais loja que húmus, mais serra que plaino, infelizes até a data. Não consta, com efeito, que as funções da vida animal tenham sofrido variante depois que o mundo é mundo. Volfrâmio e mana significam um ponto crítico na viragem do destino. Para que banda fica agora a Terra da Promissão? O século XIX e o primeiro quartel do século XX foram de desabalada e incessante sementeira. Semeou-se a torto e a direito, no alqueive e na fraga, no maninho e na própria terra atrolhada. Quem não té o grão germinar em dor e transe? As fibrilhas do centeio nascente com o seu ar de estiletes ensanguentados dizem-nos que é sempre assim. A dúvida mortificadora é que a seara seja

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antes de joio que de frumento Panificável. É temerário fazer prognósticos sobre o futuro. A meteorologia social desafia os olhos de lince dos oráculos, que espreitam por detrás dos mármores de Delfos escavacados à bomba de Liberator. Mas descansem as almas sedentas da amorfa neutralidade: estes temas febris perpassam no entrecho do livro e não constituem de modo algum o seu protoplasma. O protoplasma é a ambição humana, o evadir-se à miséria, à estreiteza natural, aos diabos negros da existência. Como terão azo de ver, o desempenho da fábula está a cargo de gente brava, sólida de rins e de músculos, em matéria de consciência pouco preocupados da vida eterna, difundidos por um friso fora como faria Steinlen ou Leal da Câmara. Todavia, sendo assim na forma, procurei que por debaixo desta armadura elementar pulsassem almas em suas secretas e supremas volições. Esta será a quota de humano, três vezes humano, como requeria o filósofo, com que pagam seu tributo à racionalidade. O público, de resto, interessa-se pouco por este particular. O que o interessa acima de tudo, já que a torrente vertiginosa da vida moderna não permite mais que uma visão instantânea e superficial, é o guinhol, os processos de combate, os leitos, o cinemático em suma. O romancista que se preza dá esse pábulo ao monstro e procura penetrar a fenomenologia das coisas. Convenho em que o ético esteja para lá das fronteiras do seu domínio. Escola de piedade e de ensinamentos morais busque-se na obra de Camilo e outros que rastejam de longe o colosso. Aí, sim, encontra-se mais lição que nas parábolas todas dos Evangelhos. Os princípios científicos em que se esteia a arte literária baniram da banca do escritor, mormente hoje que utiliza pena de aço ou typewriter, o patético, o epopaico, esse colorau doce da eloquência - à qual, já o exigia um poeta dos bons velhos tempos, il fallait tordre le cou - a deformação simpática à Júlio Dinis. A condição sine qua non é modelar em carne viva e na estufa fria. Em obediência a estes preceitos, claro está que as minhas personagens foram gizadas pelo padrão comum e seus orbes não excrescem do espaço das três dimensões. No entanto, ninguém tem mais horror a fórmulas do que eu. A fórmulas, cânones de escola e tiranias da moda. Fórmulas em arte equivalem a muletas e eu não só não uso bengala como entre dois caminhos escolho sempre o menos trilhado e aquele por onde menos andei. Em matéria de iteração, chegou-me o padre-nosso quando menino. Não ignoro que a galeria antropológica portuguesa é diminuta. Desse mal se queixava Camilo. O que vale, e valeu ao grande mestre, é que os homens, mesmo dentro duma família tão pequena como a nossa e em casa igualmente acanhada, parecem-se tanto uns com os outros como um mar com outro mar. Dois requisitos me movem quando escrevo: observância do real e originalidade. Esta, mais que a seiva dum verdadeiro temperamento de escritor, é o logos donde dimana espírito, graça; estilo próprio, simpatia humana, entendimento das coisas. O obséquio ao real não é mais do que um seu apaniguado. De olhos fitos tanto quanto posso nestas duas estrelas, presumo acautelar a modesta personalidade que me coube por dom do Espírito Santo, como queria uma minha tia velha, lida em Frei Heitor Pinto. Porque na nossa santa terrinha não há candeia que nos guie e encaminhe. Viceja para aí, salvo prodigiosas anomalias, uma crítica meio didáctica, meio apologética, geratriz de tocadores de marimba. Com o seu tom untuoso de

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continua o mesmo desde Homero: mais longe. deixa a porta aberta a toda a sorte de malinas. Para as belas-letras. se esperar que o tempo cure a Pulmoeira. Outro rabo leva-me a pensaram ultimamente. gostava que me dissessem o que pode ser a minha prosa descarnada do documento humano. não se preocupe tanto com o formal . Até lá confeccionemos 4 . Raspem com a unha o gentleman sentado à mesa verde de plenipotenciário e encontram a fera. sucedâneo do: para aí não que é pecado. a literatura despojar-se-á da túnica de Nesso. pode cair no inferno. faculdades que não abundam num povo que considera a Nau Catrineta como os Nibelungen e a saudade como bolhas de ar. O pior do pior é que sela possível toda esta Proliferação asiática da estupidez. foi. só quedando imunes ao contágio os mimosos do entendimento e da imaginação criadora. toda a tendência pessoalista. Preciso sem ser precioso. Repararam que os príncipes dos povos de hoje falam e lançam o guante como nos seus arraiais troianos os Aquiles e Agamémnon? Compreende-se: movem ao homem os mesmos egoísmos e instintos ancestrais. à tona dos séculos. e o que demudou é o aparente. secando toda a originalidade. o arranjo constitui o transitório. que a constrange e obriga aos costumados Jarricocos. ouvem-se destes regougos. o de prosador. excluindo-me por contrapartida da grei dos romancistas. amordace os sentidos. a face do rio. Como não sei fazer outra coisa que não seja novela. a moda. abismado para sempre lamais nos mares nunca dantes navegados. fora das quais seria mito puro o locus. dum passado glorioso. como se houvesse região nesta fita de terra e tudo não fosse a mesma parvalheira. o que se modificou não foi o mundo da especulação. a sanitária. Mas produzir dentro delas não pode contender com os dotes originais do escritor. esvaem-se as escolas. o Manel o do especulo.vai cortando as remiges aos francelhos que pretendem librar-se acima dos horizontes conhecidos. Nascem as escolas. numa palavra conformando aquilo que tem por condão ser inconformável: o génio literário. com a prosa a cheirar a burel e à orelheira dos famigerados cerdos de Lamego. figura e mais categoremas do pensamento historiado que é o romance. Em literatura. porquanto implica uma carência lastimável de higiene mental. e é caso de perguntar a gente se se deve mandar lapada. Que fazer? A esterilização contra tais bactérias é um problema bicudo. Chiado e Freixo de Espada à Cinta. O luminar que procriou tal asserto deixou de soprar ao canudinho. o recamo que à floresta emprestam as estações e não as árvores da floresta. como a falta da outra. Bem sei que há coordenadas em literatura. afrontosos do bom senso e até da alma cristã. pelas savanas pobres da intelectualidade nacional. desde os Vedas. tempus. não a água do rio. O humano. já houve tempos em que para esta bicheza seráfica eu não passava dum escritor regionalista. e que é preciso. De quando em vez. e a bola de água de sabão evolou-se no céu dos pardais. Inofensivo no fundo. desidratada desde que lhe faltou a bua francesa. respirar fundo para se ser português de lei. Apenas quando as balizas actuais do mundo moral caírem. Permita-se-me a imagem. nascida sob este signo. trajadas por aquelas ciências do homem e do belo.pregação. o guarda-fato de Madame de Genfis. então sim. veio ou bolsada nodual do romance. nada mais truculento e azabumbador que o balar da carneirada de Panúrgio. Volfrâmio veste como Andam Faunos pelos Bosques. a Rua dos Clérigos no Porto e a Rua das Fangas em Braga.

Meta-se num corbillon. O volframista é uma falena de pouca dura. a Beira. nem se arroga de modo algum. como não? uma grande e efémera aventura. a cobiça. sem roubar o próximo nem termos a preocupação doentia duma geometria tão abstracta como essa da projecção no universo do produto literário. como apoucava Anatole France. Nestes tópicos está configurado o Volfrâmio. com humildosa exacção. Longe de mim supor que venham a constituir tipos definitivos. fantasia própria. quanto às classes. dessas que de séculos a séculos avassalam os povos. a sede de felicidade. culto da individualidade. Pretendi descrever. Monstruosidades. no género da conquista das especiarias e da corrida aos diamantes nos igarapés de Minas. os estímulos sociais. Fráguas e Calhorra calçarem coturno a carácter. à maneira do novo-rico da primeira grande guerra. se não são eternos.romances e novelas o menos estafadores possível. do tempo e da fortuna. e tudo o que possa vir na ressaca da maré viva. o papel de elucubração à Karl Marx. que agora vê nova estampa e não é tratado de economia. como épigrafava o frade. Fevereiro de 1944 AQUILINO RIBEIRO 5 . Dar-me-ei por feliz se os meus Hincker. gozam doutra longevidade. e terão esta anedota romanceada. Os padrões humanos.

uma dúzia de ovos. e Manuel Torres conjecturou que tinha ali das tais visitas que se fazem acompanhar propiciatoriamente de dois galispos.. a cabeçorra de medusa avançava.de novo distinguiu defronte. tornava a avançar. pois lhe dera essa manhã para desensurrar a lã. Sombra que escorregava indecisa e vaga. enxofrados cacarejos e chinfrineira de asas. A boa da mulher aborrecia-o com os desvelos excessivos e as reiteradas intercessões duma simpleza permeável a todas as lástimas.aldeia que lhe fora berço. deita-se ao pescoço o baraço da escravidão. batendo à porta do senhor juiz. do comandante do Regimento. mulher. não havendo outro remédio senão percorrer a via ominosa do peditório. Em obediência a esta regra. Manuel Torres. é um difícil problema de vontade. contorcendo-se em arremedilhos e partes gagas. Apre. a gozo de férias em Malhadas da Serra . 6 . E a manhosa bilha de leite que a hospitalidade provincial troca opiparamente contra a bilha do azeite. a par das vicieiras da terra. que o trinco à força de devassado não consentia senão aberta. do secretário de Finanças. a velha tivera artes de lhe impor nada menos de três postulantes. além de que trescalava ao fartum da carneirada. que lhe fosse o antípoda na candura. na cal da parede.. Pela talisga da porta.É outra vez você. a partir daí propunha-se resistir às choradeiras com igual coragem. e berrou-lhe em tom de enxota-cães: . estando na aldeia. não havia dúvida que era ela. E ele próprio se surpreendeu a dar um urro: . não apostou?. e não se julgava no direito de eximir-se. Dado que se não saiba resistir. acontecia-lhe. deposta com tão obsequiosa mão de veludo. Manuel Torres. no decorrer da manhã. lá estava ela já à sua espalda. daquelas que responsabilizam o cidadão.O Dr.. aperceber-se que uma das suas funções por excelência consistia em esportular-se.. é a quarta vez desde que me sentei que me vem amolar. sobretudo.Sim. pelos reveses do seu próximo. não está em casa para ninguém. desde que seja limpo de consciência. com tal manejo traindo a sua agitada hesitação.? Saia-me da vista! No patamar soaram cacarejos.. autêntica avançada dos estafadores. ouviu.. Às vezes tratava-se de necessidades elementares. Fazendo-o heroicamente até a linha que demarcava o limite da generosidade. !? Ouviu bem? . advogado em Lisboa e professor de Ciências Sociais. Qual. um laparoto caçado nos ferros “para o jantarinho do senhor doutor”. a sombra de Custódia. contra tão sinuosa e ao mesmo tempo inconsútil tirania. personalidades preponderantes que seria indecoroso não conhecer. nem por isso se achava mais imunizado que qualquer outro. que à porta esperavam ensejo de lhe meter o cacete. Rejeitar a oblata.Apostou que me não havia de deixar sossegado. por cada um dos quais lhe fora recomendando momentos depois de se ver livre deles: Agora veja lá: desta hora em diante não estou em casa para ninguém.. e têm sempre um requerimento a apresentar.. Assim. meu senhor. Mas o que se chama para ninguém. o que nem sempre conseguia. retraía-se. tão montesinha ou tão pouco que debalde a procuravam no mapa os parasitas de errática cordialidade . esta irresistível tirania dos indivíduos inferiores. o que se chama para ninguém. não ter já previamente ganho à requesta de cada um.

de pequeno. De salto perpassou no seu espírito uma série de ridentes panoramas. deixando-a com um menino nos braços.. festa de Nossa Senhora de Agosto. infecção. alguns. se era um senhor doutor de leis. anos e trabalhos desgastam como as mós das azenhas. mande lá entrar . Casada na altura em que ele concluía o Direito em Coimbra. peca para mais do sentido de proporções..e a ele próprio a voz toou noutra gama. dignos de amparo. acabava por condoer-se. ó mulher. que era resoluto e empreendedor. falecera de tétano aos dez dias de internado a uivar pela mulherzinha da sua alma. com um quintalório. andara com ele ao colo e. .. era como um bombeiro com obrigação a qualquer altura de acudir às misérias dos labregos. tornou a perguntar. Mal pegou do gadanho na Sapucaia. meu senhor! Que lhe havemos de fazer. tinha amigos por uma pá velha. com duas belgas de cada folha para dez pousadas em ano grado. . onde bracejavam meia dúzia de videiras de cordão e um mostajeiro.respondeu consoante o estilo. O homem. Ao senhor doutor é que eu acho rijo e fero.Benza Deus tudo quanto cá há? . eu mando. Alguma tinhosa o viu hoje? .Mande lá entrar. Golpe num pé. e encalacrados da vida muitos.. Meteu cara à má sorte. Credo? Eu mando as criaturas embora. por isso mesmo contemporizando. Que só lhe querem meia palavra. a cardenha de telha-vã. onde mourejava uma colónia de patrícios. ponderando quanto havia de lógico e até de humano na atitude da velha criada. mariolas de alto bordo.Quem traz vossemecê aí? Mas já ela se retirava. Santa Casa. quem traz vossemecê aí? . Maria. vindo para Malhadas. pois que tinha direito quando menos a amenidades. . e retraiu-se.Ainda não tinha tido o gosto de te ver. e mãe e filho apresentavam-se endomingados segundo a etiqueta do dia santo... e disse.. Podia tornar a casar-se que a cobiçavam muitos por mulher limpa de costumes e provada no governo da casa. uma vez plantados no caixilho da porta saudaram à serrana: . acabando de se voltar de todo para eles na cadeira giratória. o rapaz de alpargatas e com andaina nova. Partia do princípio que. As suas teias eram afamadas em vila e termo.tornou ele peremptório. como se tivessem a peito não acordar o chão. estivesse a dormir a sesta.Estou uma velha. Esta ficava. a compor uma minuta. embrandecida pelo sopro que a animava. qualquer remoque ser-lhe-ia insuportável. Era sexta-feira. recreados pela figura airosa da mocinha com quem jogara as escondidas.. meio repeso. embrenhado a ler.. não fora feliz. O dianho não tinha nenhuma espécie de respeito pela sua pessoa. Coitada da criatura. Como não. adquiriu um tear e fez-se tecedeira. foi-se abaixo. Depois de atravessarem a saleta com acanhamento e o mais aéreos possível.A Maria Aires e o rapaz. 7 .Era sempre assim. não poucos.E mais a quem vem! . meu homem? . se pobres. se não é que fazia simulacro de retirar-se. ganhava quanto dinheiro apetecia? E Manuel Torres. desta feita apenas com mau humor: . Estás boa? E tu. embarcara para o Rio. Por isso mesmo.. resmungando: .Credo. na flor da vida.Mas. ela de tamancas de Viseu e xailinho pelos ombros.

A Maria Aires permanecera silenciosa. à cata das flores da Páscoa com que ela. Assim mesmo. pela dura trabuzana da existência. Gostava que visse o inçadoiro que vai por essas aldeias! . meu senhor. Era humaníssimo. este tom em que lateja a mais promissora boa vontade. caprichou em desmenti-la. se Deus não acode. o nosso povo nasce e morre atascado em sujidade. podia passar a salvo de tal foco de malinas. soterrado. depois de empapoilar-se desde as tranças às ligas. medindo-a de alto a fundo em sua estatura de quarentona. Mas as pupilas dela não tinham nada a dizer.. Quem tem calças mexe-se como Deus é servido. Tudo isso que para ele era um elemento capital da personalidade jazia para ela sepulto e esvaído no tempo. de tal jeito que quando se quer fazer uma novena aparece miudagem para uma procissão. O que se encontra à farta por essas famílias é fome e lêndeas. e umas lá se arrumam. deplorando apenas que assim fosse. cama com a macacoa. como o meu senhor. a Serra está no osso. tão desempenada como a língua. cada uma com o seu neno.Pobreza. Em tom cordial. olhou reflexivamente para o filho. é certo. Só quem ali vivesse de longa data. ficava frívola e chocha como as mariposas. baldeadas pelo negro fado. mantiveram-se límpidas e inocentes como em criança quando na alba da Primavera patinhavam corgo abaixo. A Serra. tanto aquelas que são um brinquinho de sala corno as que atoladas na terra mais se aproximam da natureza . harmoniosas ainda que roçadas pela lida. Assestadas para as suas. atrás da morte do homem. Foi praga que nos rogaram.Então não largam pelo mundo. começando por capacitar-se que eram brancos. bonita racha de vinte anos. . Como não. corgo acima. Maior dor de alma ainda são aquelas que vão acabar no hospital. os seus olhos encontraram-se.Sim.tivesse por condão esse indefectível renovamento em prejuízo do passado. pior que pocilga! Quando é que os moradores. Transcorreu uma pausa durante a qual. Não. Pouca diferença fazemos dos animais. só da pobreza. nem rijo nem fero? Chegara de facto bem disposto..Que vos traz por cá? Ela sorriu-se. e não é fácil que possa ser de outra maneira. O povinho cresce à desmedida. largam pelo mundo? O Brasil fechou-se. pelo Alentejo. quer ouvir porquê? Porque há gente a mais. Lisboa e Porto estão à cunha. como a pedir- 8 . ? . como as filhas da Olinda. zás. Qual. que a mulher .todas as mulheres eram o mesmo no que respeita a este tópico. mas logo ao segundo dia. por ali. ela não se lembrava já de tão importantíssimas bugiarias. lá ganham o par de sapatos e a meia sainha com que uns anos por outros vêm embasbacar os palonsos.É certo. um tanto surpresa pelo tom rabujo do doutor. um pouco acanhado à sua ilharga. Mas perdoe que lhe diga: muito do que causa engulhos a quem tem hábitos de fidalguia. Não assim as saias. E conformou-se. pelas casas fidalgas. haviam de perder o desgraçado costume de curtirem os estrumes nos caminhos e fazer deles vazadoiro universal? Criava-se-lhe ali moscaria para envenenar a Península Ibérica. é obra da pobreza. lá no íntimo a cogitar o que havia de responder. Lá vão cirandando por aqui.Embora persuadido que ela estaria a pensar em tudo menos na sua preciosa carcaça. outras voltam. e nas feições de trigueira.Qual.. imunizado por autovacinação. ?! Ora essa? . perguntou-lhes: . esburgadinha até mais não poder. está a dar o cadilho.. se a terra estava uma nojeira. E foi em acento quase humilde que adiantou os seus reparos: ...

Olha com que anjinho! . para o mal. O meu senhor sabe. deu-lhe o Demo arte. . Ex. Tirei de lá meia dúzia de pedras.a estar certo que nem o Calhorra ficou pobre. Veja! O rapaz mostrou-se de todo cómico ao lado da mãe. lembras-te. um bicho a que só faltava falar. alguém acredita nas juras dele? Por 9 . dirigindo-se ora a um ora a outro. Mas o entendimento deste homem gira sobre rubis que são um segredo para toda a gente. quando foi da outra guerra. Eu tenho muito bem a dizer dele. dize lá? . ir fazer queixa.Derrotou duas ou três caneiras e eu prontifiquei-me a pagar o dano.E então? . Porque mude de opinião ou não tenha vontade firme. Que tiraste de lá? A mãe dispunha-se a responder. tu não sabias que não se pode entrar sem licença na propriedade alheia? Não sabias? Pois tinhas obrigação de saber que já não és criança nenhuma.Que falasse ao Calhorra. dando um passo à frente com desengano e atravessando-se diante dela.. porque o foi apanhar de manhãzinha a comer-lhe o coelho que caíra nas armadilhas? Bem sei que se fartou de jurar e trejurar que fizera fogo supondo tratar-se duma raposa. bem sua. tão frenético que os cobiçosos até mordem as lajas com os dentes. Quem tem filhos tem peguilhos. sim. se não valem. mas tu não tinhas o direito de lhe bulir na terra arrelvada. não sei se valem.respondeu a mãe. Ex. do Verdegaio. dia de feira em Orcas. Se lá lhe cheirasse ainda volfrâmio. mas para lhe falar franco. e para que lhe havia de dar o diabo? Ir esgaravatar numa leira que o Silvestre Calhorra tem ao Vale das Donas.. nem eu rico. maluquei para comigo e para com Deus que se ele não atender ao senhor doutor. é possível que não. Àquele.Mas. muito menos o Calhorra que impa de farto . não era ele que dormia uma noite inteira na cama enquanto não alimpasse até a última pitada. o delito é o mesmo. disse Manuel Torres: . já ele lá tinha andado a esfossar. mal me apanhou longe daqui? Pior do que isso. que é sábado. denotando todavia estar em consciência a revolver o raio da morte das suas razões. declarou: Saiba V.Não sei.Pode ser que tenhas malucado mal. deu-me uma chumbada num cão.A leira andava de relvão.lhe desculpa de o trazer para pião das nicas.. e também motivos de sobejo para o detestar.Ora se sabe . . Por modos tem tudo preparado para amanhã. Este mafarrico não podia escapar ao andaço. Maria. Não me roubou quase metade dum giestal com uma porca mascambilha de marcos. mas os estragos que causou não deitam ninguém a perder.Será apenas a meter medo. haja de perdoar que também é pai. . Com ele nunca se sabe ao certo de que banda sopram os ventos. Augusto. . A leira era tua. .Anda por aí tudo frenético com o volfro.Procedeste mal. rapaz. não atenderia ao pai.. minha santa! Esse Calhorra é um tipo como não há segundo do Vouga para cima. cinco réis furados. .Coisas aqui do meu Augusto. dize-me cá. mas pode V. pôs-se a arranhar o recado: . meu senhor.Então. rapaz! Muito mal. .Pois será. incapaz de justificar-se.. Mas como era preciso fazer desde logo justiça. ? E deu estrago? . .. mesmo que cá viesse do outro mundo e lhe pedisse de joelhos e mãos postas.Pois sim. E que esperavam vocês de mim. mas ele. e torcendo-se para a outra banda. olhos em terra.Valham que não valham. Em tempos. O Calhorra é que não está pelos ajustes e teima em dar parte.a que a propriedade é aberta. .

não porque ela não pisasse o terreno firme.apressou-se a mãe a dizer.. decerto por não haverem há pouco tomado a sério o seu protesto. continuando embezerrado. estendeu o pé e disselhe: “ó cabo.Não cismava noutra coisa. Augusto. Assim que apanhou baixa. estavase mesmo a ver: .Sim? Augusto encolheu os ombros. . botavam-se um ao outro.Não senhora.. . ainda a melhor maneira fosse desmenti-la.“0 meu sargento vem errado: essa honra vá dá-Ia a outrem que o filho de meu pai nunca teve nem cobiçou tal oficio!” . é verdade . Augusto? Mas bem. ala. boquiaberto. ora. para que está a falar? . engraxa-me aqui as botas.. complicado ou parecendo-o. agora dava sinais bem manifestos de contrariado.Brutos acabados. se quiser. Agora dize-me cá. Homem. se taciturno estava. rapou dum estadulho e fê-los meter na igreja de rabo entre as pernas.Esses sargentos às vezes dá-lhes para brutos! E não foi preciso dizer mais nada para a mulher sair com a versão refervida nos soalheiros.Ah! ah! . e aborreceu-se da tropa. Prosseguiu a mãe: . . já que és mestre em engraxar.. O capitão gostava muito dele.É verdade. eu falo ao Calhorra. que castigou a ambos. meu senhor. Ele ficara embezerrado. . devia desagradar-lhe ao último ponto e. Quero dar-te essa honra. À falta de escova tem a língua que lhe pode servir de esfregão. um dia viu-me acometido por uma roga de sicários a soldo dos talassas de Tendais. meu senhor.balbuciou Manuel Torres. desejando afirmar a sua personalidade. e. mas porque. Augusto.” . que o amesquinhava. nem meio mexe-te. coitanaxo . É uma criatura assim. Se não tem quem lhe engraxe as botas. Augusto: julguei que seguias a militança? .Qual mexe-te.” E ela foi contando: .decidiu-se ele a contrapor. moita carrasco. estás mesmo um pato mudo! A mãe falava como se ele não estivesse presente ou ela é que tivesse sido a protagonista da anedota. Mexe-te” Conta lá agora o resto. engraxe-as você. dou-ta a ti e é um pau.Então o Augusto parece que lhe respondeu: “. pelo que pronunciou também como se ele não fosse presente e com ar de quem dita sentença favorável: 10 . Mas teve uma birra com o primeiro sargento por mor do capitão que gostava muito dele. Sempre que lhe acontecia falar no rapaz. Tal papel. Augusto.. conta. e se não entra o comandante.outra. que se faz tarde! . Ele. não foi nada disso.O Augusto compreendeu onde pretendia chegar a malícia do salafrário e lá retrucou: . ali se despicaram de palavras. pois não era. e Torres olhava para ela em silêncio e com o mesmo prazer com que ano por ano se vê reflorir uma pereira. verdadeiro..acudiu ela... “ Mas conta tu. Havias de ser tu a contar ao senhor doutor. o mesmo era que dizer à mãe: “Conte vossemecê. Era bom homem. que este meu filho é espirra-canivetes. porventura. As ordens só eram bem cumpridas quando era este senhor o encarregado de cumpri-las. a Maria Aires fazia-o tão juvenil e possessivamente como se nela se operasse desdobramento. Manuel Torres sentiu-o.“Ora. Mas fica entendido.Como pode imaginar. lá teve a birra. Chegou mesmo a deitar as divisas de cabo. A mãe não percebe. meu senhor? Imagine que o alma de cão do tal sargento um dia chegou-se ao pé dele na tarimba.

sistematicamente ela é que se arrogava de voz activa quanto a dar ao badalo. novas vergônteas e novos ramos.. No patamar. um pouco para desafrontar o moço do seu enleio: . Velo da tropa e fez as malhadas de fio a pavio.Olha. que estava um texugo de opulento.Hás-de tornar a levá-los.. e compreende-se. arrumávamos o assunto. Sempre que a pessoa dele estivesse em causa. entrou no caminho das confidências.e palavras eram estas pronunciadas de caso pensado para que ela tomasse nota e servisse ainda de correio: “Pobretanas que não sejam capazes de manter a cabritada que haja de 11 . Manuel Torres apontou: . Ao passo que sugeria este expediente. não há que ver.O rapaz sacudiu um ultraje. já casados. estrebuchavam os dois ou três frangos da oferenda.E voltandose para ela com tom entre risonho e cominativo: . Nunca me faltou ao respeito.. tornando-lho recomendável. O moço matava-se por arranjar dois vinténs. se tu fosses chamar o Calhorra. Não era segredo nenhum que namoriscava a filha do José dos Cambais. . eu a bem dizer não tenho escândula deste meu filho. São para o almocinho de amanhã.e rolava o polegar sobre o indicador. fazia menção de se encaminhar para o pátio. Naquela ocasião não queria por nada deste mundo deixar de advogar-lhe a causa. e conformidade. Bem sabia ele que escusava de teimar com gente daquela força.Bah. E que fazes tu agora? Andas então na trafulhice do volfrâmio? . mas o seu toque era outro.. o que se chama sair do lugar que lhe compete em relação a mim que sou sua mãe.. ainda quando põem navalha na cara. sim. duas dúzias de contos de réis. Maria vai com as outras.. o que foi logo percebido por Maria Aires que desandou. É verdade! Tinham ficado em silêncio. à espreita de alguém que levasse rumo pela porta do Calhorra.Anda ou não anda? O rapaz franzira os lábios.” Mas sua mãe soltava de novo a taramela e ele limitou-se a afivelar um sorriso despiciente. podia ser moderado.. pois.. estão às ordens uma dúzia. umas vezes por outras com sobejos motivos. As palavras eram as mesmas de todos os presenteadores. agora que ela não estava.. Encolheu os ombros. e deitam. carregando ao mesmo tempo as sobrancelhas num gesto de abandono. Mas olhe. ambos a olhar para ele. e é um moiro de trabalho. e dizia que só dava a moça a quem tivesse disto. e foi Manuel Torres que se viu obrigado a dizer. é pedir por boca. participava da ilusão de todas as mães: suporem os filhos sempre meninos. senão fico mal contigo. sabido quanto a juventude é petulante e malcriada. Augusto. meu senhor. Maria Aires. Repugna-te? Manda-lhe recado.. até já estoiro de rico! Se precisa. O que é. satisfeito de se ver longe e desafogar.Ora essa?? Era uma desfeita que fazia se não aceitasse. dentro duma cesta. O Augusto correra à estrada. Naquele esgar transpareceu a Manuel Torres que ele dizia escarnentamente: “Pois. e ninguém o entendia como ela. . muito encolerizados de se verem atados pelos pés e em tal inpace. Persistindo na inveterada pecha de ser a língua do moço. porque só ela é que se reputava com autoridade para fazer afirmações de certo peso: . como se olha para um bezerro quando dá galardão do trato que recebe. Torres breve penetrou no segredo do coração extremoso. que este ano com a escassez da gasolina voltou-se ao mangual. podia ser mais moderado.. A própria ouvira dizer ao ricaço . Mas antes petulante que sabujo.

desamparem-me a porta. sapato de fivelas a ranger. em segundo lugar a mim que estive sempre de corpo presente a aguentar o embeleco. que o rescaldo da terra baforava lume para assar as cotovias com penas e tudo. Que a Teodora tudo merecia não havia duas opiniões. nem filho de cão e loba. Passavam por golfadas. bicicleta. e Manuel Torres quedou-se ali de cabeça descoberta. ainda ontem camaradas de regaleira. mas nem precisava de o saber. raparigas de xaile dobrado à cabeça. tamisado pelo verde da folhagem. isto é. Podem levar-me uma vitela fiada. A Teodora sabia a rês que ele era. sem fímbria de nuvem que a mareasse. homens de lódão na mão e registo no chapéu. cabeça para os Cântaros. via-se deitada de borco a gigantona da Serra da Estrela. avistou o Simão Tadeu. A Maria Aires falava com fluidez e brandura. do tempo quase lendário dos capitães-mores. e para o povo ressoava estrondosamente o bombo e tiniam os ferrinhos. a sua imensa bizarma era para lá das seis léguas de espaço. Lá a cachopa não levam nem à mão de Deus Padre. os ricos e pacatos de escancha-perna no seu asno. passavam romeiros de outras terras. seguro disso. direito a ele. Pela estrada. risquinho do bigode na cara deslavada. e a sua voz parecia regerse pelo gorgolejo da água ao despenhar-se da bica de pedra e embeber-se na massa líquida do tanque com sopitada cadência. pés para a Guarda. e empoleiradas por cima do xaile as soquinhas. borlas a arrufar da bolsa do relógio. filho da Júlia Minga e do Antoninho Fráguas. Era uma flor e então assento!? Também lhe fazia rapapés o ruivaças do José Francisco. E. Manuel Torres saiu-lhe ao encontro. poder ir ao Cambais e rolhar-lhe com um bom pacote de mil a boca destravada. por causa dela desunhava-se por ser alguém. para ele o eclesiástico. o rapaz estava-se ninando para o José Francisco e para as sentenças do Cambais. razão onde cabia uma boa cestada de desacertos. andavam de candeia às avessas. sinal de que o rancho da Lapa entrava as portas. tep-tep. como as ribas dum bonançoso mar. Descia a tarde. brancas e altas. cá VOU! 12 . que avançava pelo pátio. Vestida de verde-ferrete nas lombas e de roxo na dobra dos vales. deitando olhos para o portão. Alguém. regalado. Vinha com o Aires e de Alcobaça em punho esponjava a coroa sua renta. de Muradais. Querem ter onde esfregar os untos. entre a toadilha da Maria Aires e a da fonte. o hausto da extensão. duma brancura e altitude de água represa. O José Francisco saíra um meliante de alto lá com ele. A cachopa custou muito a criar. dar um pontapé na mofina. e as suas vozes na tarde serena repercutiam com um timbre tão cristalino que nem reflectindo a própria claridade celeste. primeiro à mãe que lhe deu a teta. e até um carro de centeio pelas almas do Crasto. Mas rebento da Minga e do Fráguas. prazenteiro. Pelo seu Augusto é que ela tomava ventos. abade da freguesia. sempre de corrente ao peito. imagem do João Ratão na facécia dum humorista. Sim. e por isso ele e o Augusto. Amor com fome é como sardinha sem pão. Respirava-se ao abrigo das velhas faias e loureiros. misto de pé e de cavalo. se elas não tivessem o cuidado de se defender do sol na fresquidão das boscagens. Era por causa da rapariga e por mais nada que ele andava a esgadanhar no chão alheio. e nunca mais ma pagarem. o pigarrinho a advertir: cá vou eu. cavem primeiro!” O Cambais lá estava nas sete quintas da sua razão. Ao longe. e o Augusto e a Teodora ficavam também nas suas. De súbito. como ultraprazenteiro caminhar.nascer no curral.

que era a cabeça de freguesia e englobava Malhadas. e não deu corpo às suas aversões. todo desportivo.Que se julgasse pessoa de muito respeito. ainda que prudente e recatado . não tardou que o velho resignasse o ministério. Mas. e sem quartel. entre o cura dos bons velhos tempos constitucionais. andava montado numa égua vermelha pela qual. era a pessoa mais cortês deste mundo. sabendo hebraico. embora pobre de carnes. meio sacerdote. e gregoriano até a medula. Nascera no cisco. pouco tempo continuou a exercê-lo. Válido nos 55 anos. viera substituir o Lourenço Bacelar em Mouramorta. Caçoando cordialmente de parte a parte e cambiando-se fingidas ternuras e amenidades. Pelo papel. ultramoderno. Cheio de mansuctude. que representava na igreja militante nacional o levita da transição. O Simão Tadeu. o padre retrucava-lhe na mesma moeda. A guerra era subterrânea. e S. Ali estava ele que não morria de amores pelo padre . tão certo como dois e dois serem quatro. as autoridades eclesiásticas em matéria de firmeza eram do mesmo barro que as da República e temeram-se de fulminar à mão-tente seus anátemas e coriscos. lugar armentoso. piloto-aviador. Nela mereceu o Simão Tadeu esporas de oiro pela arte consumada com que fez quebrar nas mãos do indigno pastor de Mouramorta o cajado de S. se deixaram lograr pela Lei da Separação.o que em regra lhe acontecia com a maior parte da gente que pressupunha de elevada . e igualmente o padre não oferecia flanco. talvez por isso a pior de todas. 13 .a Igreja sempre que fecha olhos aos desmandos dos seus ministros é que não tem diante de si escandalosos .que não metera em linha de conta o ódio vigilante dos inconformistas e pagara caro a submissão. engenheiro de minas.estava rico. calva apenas incipiente na trunfa espessa. Nunca mais na sua igreja se celebrou cerimónia festiva ou ritual que requeresse a presença de mais de um sacerdote. O velho abade quis reagir. no caminho para Orcas. nariz esponjoso. como dizia Homero de ítaca. branca. Por sua vez. e o concordatário. mas em que força se escudar? O poder civil largava-o ao desamparo como a todos os outros em iguais apuros. meio agricultor. que ajuizara de insidioso. De facto. cautíssimo. O Tadeu. Brás da Nave. quando surgiu o filho e o correu à má cara do quarto do moribundo. campeão de ténis. que lhe herdara nome e casa para maior lustro e acrescimento . O velho abade fora um dos que ingenuamente.ali estava Severo Bacelar. A quarentena ulcerara-lhe corpo e alma. persistia em pagar todos os Outonos dois alqueires à parada do Miguelão. além de a época não ir para cavalarias.mas não o deixava transparecer. Por outro lado. desmanchadão mas cheio de humanidade. Apartavam-se dele como de leproso. queixando-se embora dela como Abraão de Sara. Nem todos o prezavam porém em conformidade. O que valeu é que a fé do povinho nada tinha de farisaica e não secundou os zelotas. pai de filhos . embora não o múrius de sacerdote. negra e farta aldeia. todo desempoeirado. já no delíquio derradeiro. pagara sisa de duas ou três boas regadas. e soprava-se que trazia dinheiro a render. e já erguera casa de sobrado. para se gloriar da sua vitória total nas vozes arrependidas e tremelicantes do colega. amigo como irmão do velho abade. a título de confessor. moldando-se à sua observância. ficara a detestá-lo figadalmente. mascaravam ambos eles à maravilha a recíproca antipatia. era com ele e ninguém tinha nada com isso. O Simão preparava-se. esse mesmo. Pedro. Mas. Manuel Torres. atabafada entre brenhas e penedos. quando proclamada a República.

cheias de préstimo e de virtudes. aguardavam a morte. Isso não oferecia dúvida.? Ignorância? A depressão provocada por outro gravame? O Simão Tadeu balouçou várias vezes a cabeça. que as fontes de produção eram as mesmas e exploradas com o mesmo vigor. que a broa desbota o dente. Reparei. coitada. que depois de duas ou três cabeçadas acabavam por se enfeudar a um eclesiástico ou a uma família rica e ali.Não bebia.respondeu Manuel Torres. É uma verdadeira canceração.. porque as não mereço.e sorridente o Simão brandiu a chibata de sanguinho que trazia para espertar a égua. abade. e vir atascar-me nesta sujeira de terra com este sol.. sim. abade.salvou o doutor. Do padre murmurava as piores enormidades a chamada boca pequena. que podem ser senão os ossos do ofício? O Simão Tadeu tornou a sorrir e pretendeu retorquir com bizarria: .. de volta.Não diga isso. suportáveis. o padre dissera na capelinha de S. então a aguilhada do rei Vamba floriu ou não floriu? . Mas as mercês de Deus. abade. tratando-se de eclesiástico. É ela que me traz de pé. As raparigas parecem flamencas: olé! e as padeiras trazem trigo governado com levedura holandesa. devido em primeiro lugar aos cadastros que eram defeituosos. boa. detinha-se em Malhadas a cumprimentar “o digníssimo doutor”. hem. com a alva.. mais viçoso.. Reparasse Sua Excelência e veria que se tinham modificado.Quem havia de dizer! Também já não vejo trajar de burel. . Sim. esta labregada. quer dizer. e assistia-lhe à casa de lavoura que herdara em Malhadas por morte dum tio afim. dores nas cruzes.Ora viva o meu abade? Rijinho e próspero como tem de ser um futuro bispo. A irmã.. estes penedos. e tinha ao serviço a velha Maria Ruça. mas que lá quanto a projectar luz era como um verdadeiro espelho de cristal: Segundo uma postura 14 . . quanto à miséria ambiente.. a mulher e os rapazes. Meia dúzia de imersões e fica são e escorreito. que não têm conto. reparei já que as berças foram substituídas pelo macarrão e a aletria e a olha pelo café . e pela medida grande. ainda que compreensíveis.O doutor é que está cada vez mais jovem. a girara para a Lapa a oficiar na festa de Nossa Senhora. a Ana.Vicioso. mas que ficasse bem assente. . Miguel a missa seca do binário. De resto.. como num claustro. .. . definitiva e desinteressadamente. Agora. vicioso? Diga-me lá se não é um vício deixar todos os anos o fresco das praias. Brás.Vá a banhos. embora as dores nas cruzes mal me consintam erguer a cabeça..? . lá teria as suas razões. sim. . da linhagem das Ruças de S. sem os esbanjamentos das Câmaras e as alcavalas e arbitrariedades fiscais dos organismos que lhes eram anexos. O mundo é seu. Logo de manhã. não jogava mais que o dominó e o loto. assoldadara-se com o Antoninho Fráguas. e limitou-se a observar. mas tão pequena que ninguém tinha ocasião de protestar como certas as suas virtudes contrárias. comigo não alcançam mais longe. as contribuições eram pesaditas. Não se viam há coisa de um ano e apertavam-se efusivamente a mão. mas imbecil de todo e comida de misérias?! O Tadeu não quis contrariá-lo. Como se explica? Tara.Bispo nem quando esta vara florir . pela graça de Deus. sim. E em apoio citava um caso que não se repetira. As condições de vida essas tinham-se modificado. que ajustara com os de Malhadas a troco de cem medidas.Floriu.

nem menos cristãos. ou Setembro. Em vida de meu pai..permitiu-se dizer a Custódia Sancha que. meu senhor. Se não pagassem até ao fim de Março. senhor. relaxe.. meio afável das pessoas que se reputam superiores. .É verdade.. vendidos e mal pagos.Não sei. está visto. depois de trazer cadeiras. não sei .. consoante. pois não pagaram.. não passaram a ser menos mansos. três pessoas distintas e um só interesse verdadeiro. . a Rosa Pedralva. sorrindo. em pleno adro. E como visse uma atenção indulgente nos olhos que a observavam. estalinho a estalinho. A Maria Aires. . pelo menos em Mouramorta. pondo-se muito sério. . tosquiados. . Em certas alturas do ano eram mais as lágrimas nas casas dos serranos do que a água que agora levava a ribeira. abade. uns sediciosos de Vila da Ponte deitaram o fogo aos paços do concelho de Sernancelhe.. como bicha de rabear.?? .“Não queremos cá saber. têm de pagar a multa. e se consolava a ouvir pessoas tão bem-falantes. dizia: . o gado tinha de ser dado a manifesto até fins de Dezembro. a fugir à turbação. Andava tudo de chapéu na mão: ai tio. senhor! É a minha opinião e é a opinião de muita gente boa. Assim se fizera. Não tem notado que os seus paroquianos pelo facto de serem batidos.acabou por declarar.. acrescentou de golfada: . entretanto.Brada aos céus .Sim.que ficara a tinir.Com Pedro o Cru. . Os tempos não correm propícios a jacqueries.O Lázaro Fandinga levou-lhe 25000 rs.Sua Excelência havia de tê-lo visto com bornal de mendigo .?? Manuel Torres rompeu às gargalhadas. Assim sucedera ao Mões .“São as crias que nasceram posteriormente” . tenho uma incumbência para o meu doutor.. senhora Maria Aires? A Maria Aires sorriu. abusos de quotiliquê. se acocorara à moirisca ao toro duma árvore sem ninguém dar conta.. O principal era que pagassem . Em geral.. . no domingo passado não estava a dizer. dado que mingadita com o sol que tinha feito. Manuel Torres ergueu o dedo contra a indiscreta. E de repente. e nem sequer lhes ficou o direito de bufar. iam os bens à praça.insistiu ele com aquela pressão meio desdenhosa... mas já o padre. sim. sabendo quanto a espécie eclesiástica foge de se lançar por sendas em que perca tempo ou latim.. foi esbagoando o riso. mas absteve-se de responder.Só há bocado bateram aí quatro. essas praças dançavam na corda. e essa é de espantar que tem de seu e é governadinha. o Aurélio Bebauga. como quem desata: . do bispo ou do Senhor.Sou todo ouvidos.É ou não é.Não serão os únicos. E como aquele uma infinidade de abusos... Pagaram. se não acudissem ao relaxe..concelhia. mas dispensáveis.” Não chegavam ao fundamento.exclamou Manuel Torres.? .respondeu Manuel Torres. . que os seus paroquianos eram maus como as cobras e que em matéria de pouca-vergonha estavam cada vez mais refinados. R. Onde isto irá parar é que eu queria saber?? .. Tadeu. é caso que as alçadas que cometem não revertam em benefício próprio. . pedia 15 .Sabe-se lá.Mas V. Mas em Fevereiro a Guarda viera vistoriar os rebanhos e encontrara na manada deste e daquele tio mais cabeças que as constantes do manifesto. ai tio? Decerto que não tinham deixado de lhe vir bater à porta?! E quantos! . E quando lhe pareceu que estava livre a retirada proferiu: . É ou não é.alegaram os criadores.

. se com uma mão vai amealhando. há-de verificar que se alargou e murou a platibanda e se dispuseram muitas árvores... De bom proveito lhe serve. da encosta que olha ao nascer do sol. É curioso. ora comprava cornelho. A romaria está tomando cada vez mais incremento. E consoante. se bem me recorda. Por conseguinte. veio oferecer-lhe chumbo de contrabando para a caça.. fazendo mil reverências. sim. Também só cheguei há meia dúzia de dias. ? Manuel Torres e Tadeu tinham-se insensivelmente afastado pátio fora até o portão. que o santinho em dias de tisneira é o cimo dum vulcão. de Cruita do Alto. estou a ver. . 16 . lhe fez dar salto de gamo e mugir: .Arre que é bruto? . criar sombras. e põe-se tudo em pratos limpos .Este ano ainda lá não pus os pés. aos entivadores e salbreiros outro. e também já não fora pouco o tempo que lhe fizera perder. sentados em cima da parede.? Na estrada. O senhor doutor lá concertava com o tio Calhorra. negócio de “pinchas” outro. ar de capataz. e que com a barulheira do motor não podia ter ouvido o doesto. veio gemendo. . a começar pelas pernas. e o homem lá se foi de mão sempre no carapuço de Alvite. arrasrando o seu rancho. sim. e fazem grande destroço nos irracionais.que deviam aumentar os réditos do Santo Antão. espera um poucochinho.. . Torres despediu-o gracejando que lhe faltava tudo para caçador.respondeu o Roupinho. puxando da sua nota.Gente não falta? . estacando de rompante.Dizia o meu doutor . com a outra esmera-se por embelezar-lhe a casa. ele há-de estar a vir. à sombra dos ramalhos que refrescavam a frontaria da taverna..faça o obséquio: por aqui não haverá gente que queira ir trabalhar para as minas da Sobriga? . Encerrado o aparte. quando um automóvel Ford. que era humilde e tinha a bunda calejada dos pontapés. ó patrão . pscht. ora vendia mecha para fumadores.Então quando lá for. Tem ido por lá? .Pscht. úteis ao homem. saltaram em terra. matam menos gente. As esmolas têm engrossado. Trazemos agora em vista desenvolver o plantio do arvoredo. A como pagam? . volveu o reverendo: . os andaços matam menos gente. os piteireiros. que a Mesa. E depois? .O doutor não é proprietário duma das encostas. Ia a voltar à esquina para a estrada.A confraria de Santo Antão está no propósito de continuar com as obras no cabeço.Em boa actividade.interrogavam.. seguindo sua rota.atalhou Torres de modo tão imperativo que Maria Aires compreendeu que era uma ordem que recebia. afluíram curiosos das quintãs. afinal. viraram a cara. de facto.reatou o Tadeu . que andava com a rifa de terra em terra. aumentaram também os réditos.licença para se ir embora: tinha o vivo a acomodar. a concertina. Deus castiga sem pau nem pedra e o padroeiro não tem mãos a medir. tanto mendigava com meninos alugados como bufarinhava. . O Roupinho..Não. Ele próprio reparou no categórico da voz. Provavelmente em seu inconsciente estaria a desejar que o padre se pusesse ao fresco o mais depressa possível ou pelo menos que o não deixassem sozinho com ele.gritou-lhe o sujeito que vinha junto do chauffeur. os mirones que bamboleavam as pernas. tipo “calça arregaçada”. Aos marteleiros dá-se um salário. desperta a atenção pelo velho Ford.

. em princípio não digo que me recuso a dar o chavascal. Agora de sociedades em que entrem o Antoninho. nem mais nem menos um dos testas-de-ferro do Antoninho Fráguas que.. como lhe requeria a índole generosa. boquiaberto.Pode ser que não. A Fazenda é que todos os anos me certifica que sou dono do chavascal. são os próprios mesários que andam apostados para me aborrecer do terreno.. e o Calhorra. Quem são.. perdão. não sabia que contestar.gracejou Manuel Torres para o Tadeu. Então é porque os rebanhos malfeitores são pertença dos mesários. Amanhã o direi.. julgo eu. Quem são os da Mesa? . que sou. . É capaz de me jurar que os da Confraria não trazem pedra no sapato? Não? Com esse Minga. Para os tempos que correm não é má pinóial . Mas.Quem são. libera me Domine. meus senhores. de quem sou irmão.. sim. irmão da Júlia.? Não sei se sabe que mister James Corbet fez ali perto umas pesquisas. Pode o terreno estar dentro das áreas registadas e não quero complicações para ninguém.Pois se assim é. tanto melhor para o caso .. persistindo as causas.. mais do que isso. .. E digo parece-me que sou porque os gados e os mateiros ali não deixam ir por diante uma giesta. ou. ao fazer seja o que for. o Minga. os dentes das cabras não cessarão de destruir quantas árvores ali se plantem?? . Manuel Torres veio ao sentimento daquele empacho e inflectiu sem esperar resposta: . tem sempre a vista no segundo plano.Olhem. persistem os efeitos... de Malhadas.. Parece-me que sim... . que voltava de estendedoiro. São como a da raposa e do jaguar.Orça entre dez e vinte mil reis. o Adolfo e o Manuel Minga..advertiu a tia Sancha. 17 .. e Manuel Torres interrompeu: .emitiu o abade.Melhor só banqueiro? . Daqui. de.. de S.?? A menos que santo tão milagreiro como o beato Antão vá de futuro guardar as cabras? E Manuel Torres deitara a rir diante do abade que.. mas primeiro hei-de-me esclarecer. da fábula tupi. um pouco pela rama. daqui é o Calhorra e o José dos Cambais. o oiteiro é particularmente metalífero. isso não tira...Essa é boa!. irmão “pagão” já se deixa ver. um pinheirinho novo.E para que o quer a Confraria se. . Segundo conclusões. o que não escapou à observação de Manuel Torres que acrescentou: Mas que tenham andado ou não tenham andado com pesquisas. olhem. resigno a posse do barreiral em proveito da Confraria. meu abade. A falta de memória era sinal de que o seu embaraço continuava. a começar por tão simpático Santo. Está dito. isto é.. Perguntava o abade se eu era o proprietário duma das vertentes do Santo Antão. Brás da Nave.O doutor faria grande fineza à Confraria cedendo-lhe o terreno que só lhe dá prejuízo. quase sem transição.Não ponha mais na carta. a menos que me tenham irradiado. *** O abade ficou ainda mais interdito ao ouvir aquelas palavras. seis e oito horas de trabalho. lá vem um dos sócios .Mas já que lhe interessa.

disse: .Nunca fui capaz de dormir de outra maneira . que penso isso mesmo.Não é asnático de todo. e medo receio que lhe levem o cereal e as vaquinhas é outro. Que diabo de história é essa do rapaz que lhe foi cavar à leira do Vale das Donas? .? . . oscilando duma para a outra não obstante a bengala a cuja forquilha de rangífer se encostava. ..Ora. amigo Calhorra. por agora não deve estar no plano. .A Malhadas. menos dia. mas há medo e medo. que ouvi em casa do meu colega da Lapa. Os Alemães. disse para o doutor: O Duarte Ladeira foi-me dizer a casa que Vossa Senhoria me queria uma palavra.O Calhorra. e na cabeça um barrete de pele de coelho que deixava escapar por detrás das orelhas as farripas ruças da grenha. que na sua boca nenhum era postiço nem perdido. como presidente da junta.e apontava para o Augusto.. . sossegue. Arcaboiço rijo. . com certo ar afrontoso para o velhote. .. uns ou outros dão o salto. e redarguiu: .. ria com os dentes todos. já que dá sota e ás em tais artes. a Portugal e Espanha .O senhor abade é mestre em distinções.. cortando na Rássia como faca num queijo. de 18 .Vem a fugir à guerra. Mal logo seus lábios delgados se fecharam apressadamente sobre esse sorriso.Não o diga a brincar..B.. Durma em paz. Mas. no intuito de amortecer o apimentado do despropósito.Para que vivam? Bonzinhos? . sempre gostava que me esclarecesse numa coisa: qual preferia apanhar pelas pousadeiras. Na feira de Tendais era tudo cheio que mais dia. barbela nédia. lá aprendeu.. Medo cagaço é um.. Trazia um paletó de montanhaque. Diga lá. . desdenhoso.Com sobressalto. chave de égua ou pau do ar? Estrugiu grande risota e o salafrário. e não tome a mal que lho pergunte. esses.Para que viva. . ao recolher a patorra larga e calosa..disse o doutor depois duma pausa. Temos de resistir aos agressores. grossas botarras de bezerra por cima dos fenomenais joanetes. olhos em que uma palheta de azul parecia pela mobilidade e ligeireza uma sardanisca. ao Norte.. Os Ingleses deixam correr e armam-se. caramba.e casquinava. enxuto de carnes. lá sabe. A B.Para quê? ..Os Alamões para arranjarem urna cunha no mar contra a Inglaterra. deformadas por cinquenta anos de cavaleiro à chuva e à neve.. .Então o senhor doutor também se botou até a serranada? pronunciou sorrindo. pernas em aduela. Ouvi dizer que está aí quando a gente menos se precata. ao Sul. dava Esmolensco como evacuado. vá mobilizando os cabos de ordens. Calhorra.Era com efeito o velho Calhorra.Quero . como quem por desleixo abriu um escano que se deve conservar fechado. seu Silvestre! . franzindo os lábios.. . e Nicolaievo.Olhe lá.Pois sim. . lá vão. Atravessou a estrada direito a eles. ..retorquiu agridoce.respondeu. os outros para meterem os tampos dentro à Alemanha.C. Mas. Manuel Torres sorriu e Simão que ficara estático.. só por doença. cadenilha de oiro a bimbalhar no colete em sinal de festa. alto.. O Calhorra sorriu novamente mostrando as gengivas muito encarniçadas por debaixo da boa cutelaria da dentuça. de olhos absortos na fita da estrada como o santo do seu nome. Por enquanto não há razões para sustos.

riu-se por lhe parecer maluqueira a tineta do filho e.Aí é que me dói. podia ser sábio. mas hoje falto à missa.Olarila? . Queriam romper adiante.Produziu danos.e a voz de Silvestre Calhorra era gutural. Que direito tinha ele de o insultar? Manuel Torres com um gesto remeteu-o ao seu lugar. Prosseguiu o homem: . Vem tudo de fora à ponta de bilhestres. Maria Aires ia a entremeter-se. O senhor não sabe o que aconteceu aqui perto? Então eu lhe conto: Em Raposeiras do Crasto um rapazote disse para o pai. Calhorra! Se não sabe o que lhe falta. como se ali estivessem por demais. mas por modos o bispo não deu licença que passassem por baixo das campas.. replicava: . havia de subverter quem se lhe atravessasse no caminho.. sonhei que na nossa tapada há das tais pedras negras e hoje vou para lá com as vacas mais o zagal. mas ele...exclamou um capucheiro que se viera critremeter na roda por sua alta recreação e era o velho Cassiano da Urra. sim senhor. se mete a Galiza. Descobriram um filão pelo povo acima. ali pôs-se tudo a trabalhar: homem. posto o Calhorra fosse um velho de cabelos brancos e presidente da junta. saída do mais fundo do seu ressentimento. Sim senhor. . certo domingo. se meu pai me tem ensinado para doutor. é às rasas. senhor pai.!? Mais valia ter-me ido à tulha que já sabia o que me faltava. arroz. massas. O que tem mais graça é que chegaram de valado até o cemitério. Vieram apurar mais tarde que só naquele meio tempo tinha ajeitado em minério para cima de quinze contos. grande e pequeno. Vendo-se assim desfeiteado. se ainda lá não chegaram. que há uns anos apanhou a cornada dum boi e ficou a andar de esguelha . podia ser grande. . . mesmo por debaixo das casas. quando foi à cama chamá-lo para a missa: “. nem arrefenta.Está bem. em Ceiloes ficam todos ricos. nem aquenta.. . Também já lá não há velha que deite galinha. ao passo que de boca torcida ia rouquejando: . já ninguém pode com a vida deles. tendo pulsado com certo respeito o modo feroz como a máquina de cupidez. Não levou. nem dona de casa que amasse pão. Pois à hora do almoço o catraio não tinha voltado e foram procurá-lo. ao passo que a detinha com um sinal. Quer ouvir?. O que os há-de matar é a soberba.Olhe. uma vez em marcha. missa a menos. . levou-lhe alguma coisa? Logo à simples pergunta se viu o Silvestre Calhorra encrespar-se todo. Dia a dia a encher. esburacaram a calçada e atiraram com um ror de casas abaixo. se mete a província de Salamanca. mas o Calhorra não tinha já escorropichado o filão. que era o Calhorra.Você está a caçoar. tanto monta que fossem seixos como diamantes.vossoria deve ter ouvido nomear o Joaquim Fusco. Augusto deu um passo à frente com ar respingão. como missa a mais. Levou-me talvez uma fortuna. há anos? . Lá andava na cavação.Deus me perdoe. Açúcar. Tudo está no se.Escorropichado o quê? Sabe-se lá o que está por baixo da terra?! Às vezes dá-se uma ferroada e salta uma panela de libras. Quer vomecê saber. mulher.Como o filão ia pela calçada acima.? Manuel Torres sorriu.Eu sei lá o que este ladrão me levou da leira. não o tolheu. e trataram de explorá-lo em comunidade.. E o seu olhinho azul chispava. 19 .? Os ladrões confessam-se. Portugal é pequeno. ..banda com a mãe.” Pai .. Este cão podia ter tido a sorte de ter dado essa ferroada no meu Vale das Donas.. Sou tolo...

que já fora marteleiro na Sobriga. cabeça robusta de Sansão. topa-a-tudo e frascário de marca que blasonava trazer três ao ganho e não lhe escapar solteira ou casada.O Tadeu. . Sem o volfrâmio não podiam fazer guerra..Portugal desta feita fica remediado um par de anos.. O Reganha esteve calado a ouvir e subitamente botou alarde: . ao que consta. Agora. o Quim da Urra. do Filho e do Espírito Santo. olhos garços no anegralhado da tez. “à base de separadora”. com certo ar de não presta nos lábios finos. e ficou a ver o capataz da Sobriga que. Está a entrar muita massarocal. Depois..Para ortugal ficar bem. não acabava de despegar.Em nome do Padre. que ouvira uns e outros. filho bastardo do Fráguas. o Zé Francisco. Atraídos pela pessoa do senhor doutor tinham-se aproximado mais paroquianos: o José dos Cambais com as suas suíças do tempo das almotolias de barro e a moeda de jarra ao pendurão do colete desabotoado. do que andam na Tojeira.chalaceou o Urra.perguntou Silvestre Calhorra. vendido ali ao balcão a quem mais desse. não se deu ao incómodo de rectificar o arrazoado do homenzinho.Além de dar uma têmpera especial aos aços. sorriu.. .. ao que parece. Na Sobriga os jornais andam sempre adiantados dez tostões. . que já o automóvel rompia marcha depois de o chauffeur e o capataz se desbarretarem a Manuel Torres em quem tinham farejado pessoa de qualidade. com grande ferro da parentela. Qual. o inglês. e até o Gregório dos Santos. . Pagamo-lo a 350 escudos o quilograma.O volfrâmio é-lhes vantajoso na guerra. o Asdrúbal rico que tinha dinheiro nas lojas de todos os lavradores e emprestava aos famintos pão a quarta.E alguma escorre para a sua gaveta . chamado à cabeceira do Cota Velho que estava com a morte no gasganete e. Agora é a peso de oiro. e benzeu-se: . engajador. neto da extravagância.Tem algum que queira vender?. mas com ar de completa abstracção. . . novote e já dado aos sete oficios como o pai. para fazerem a guerra bastava ter unhas.. Cachorro de mim! A última palavra fora proferida de arranco como uma golfada de sangue e remorso.E vai subir . adiantando-se. para mais que nunca para menos. O Silvestre recuou dois passos. diga lá. arrematador de travessas para os Caminhos de Ferro. .Ingleses e alemães disputam-no como gatos a bofes. cabaneiro onde melhor lhe ventava. como catalisador na produção da gasolina sintética. o que se chama governado. que aplicava a si próprio o tonilho: sou filho da fortuna. Se tem. má rês. flexuoso e sorna. utilizam-no os Alemães. contratador de “ratinhos” para o Alentejo. barbeiro de Pedrões da Nave. sim senhor. e já é uma sorte pagarem o trabalhinho! 20 .acrescentou Tadeu. . amanhã são capazes de se engalfinharem mesmo aqui em nossa casa para saber quem o leva. uma algibeira de pedras é um dinheirão.. ao tempo que punha o carro em andamento.Qual o quê!? . apinhada à volta: Pagamos as horas extraordinárias a dobrar. mas não indispensável emitiu Manuel Torres.contestou o Luís Ougado. o minério havíamos de ser nós a tirá-lo. dizia com arreganho para a rapaziada. põem o burro do português de picareta. . de grande barrigão e maior febre de enriquecer. o Reganha da taverna.. o tanas vêm cá.A como corre o volfro? . o Luís Ougado. o alemão.

entretanto. não dá bêberas. haja tanta riqueza. Não queremos obrigálo a acertar o passo pelo nosso.. muito menos tu que andas no mundo por ver andar os mais. pelo meio. mas já não acredita em coisa nenhuma. disse para os de Mouramorta. Aldemenos havia de haver cá da melgueira com que arrotam os de Ceifces e da Raposeira! Não me venham dizer que Deus é pai de todos.M'amigos. vá de vira. perceberam que dizia: Que diabo de terra é esta onde o oiro anda aos pontapés! Armara-se o danço dos romeiros em plena estrada e. e era agradável ouvir aquele reportório dos tempos. . Sim. e principiado outro. mas algum volfro foi e não tive por mal empregados os aguços que paguei .redarguiu o Calhorra. vai senão quando. ladeado de Silvestre Calhorra. e viram-no baixar a aba do chapéu contra os raios que lhe batiam nos olhos. duas fèveras de centeio e uma ovelha tinhosa a roê-las. Pode crer. Declinava o sol no horizonte. vocês do mundo pescam menos que eu de lagares de azeite. No meio da rua. mas reza e baila.! . para onde quer que se deitem os olhos. mandava ajeitar a uma pedra a égua rabona. Manuel Torres.? O povo reza e baila por força do hábito..Vou-me lá com Deus. lançaram ao vento paixões e cuidados.Donde veio a Pêro falar galego? .. O bombo trovejou a chamar o rancho disperso.observou-lhe o Calhorra.. vá de roda. cospe-se às mãos.exclamou em tom de galhofia o Quim da Urra. Dá-vos para o riso?? Ah. Não vieram mais invernos. rapazes e moças. A certa altura. Volfro há-o onde Deus quer. Mas ia dando à língua de coisas e loisas sempre com o seu sainete. A despeito do esforço que fazia para mover as pernas trôpegas e manter-se com aprumo. precisamente na direcção que o padre tomava. Largou a trote. És um asno? . o velho oscilava como um traquitana de molas derrancadas e a sua marcha era incerta e claudicante. arrastados nos volteios. Agachouse a ver o que era e.Simão Tadeu.A gente sabe lá o que há por baixo do chão? .Tio Calhorra. meu bolas. Os amigos ficam. Para acreditar é preciso ter-se a barriga cheia.. vomecê se se apanhasse com o baguinho que lhe rendiam hoje as pedras tiradas no Vale das Donas. vá andando. na pessoa do Zé Francisco. e ele o que tem é larota. Pois fiquem sabendo que à minha bisavó ouviu minha mãe contar que uma vez passou por aqui um homem e lhe aconteceu tropeçar no caminho. .O senhor abade tem boas pernas. que trazia a concertina debaixo do braço: . estava-se marimbando para o bispo! Hem?. . Deus é pai de quem lhe dá na real gana?.Não trouxe nenhuma carrada... nem fosse próprio dos seus olhos ver os horizontes em negro. antes de colher.. tanta que não fosses capaz de a gastar. Dizem que trouxe uma carrada. Pode muito bem ser que uns metros abaixo das tuas patas. seguiu estrada fora a tomar o fresco dos montes que a ardentia a meio da aldeia era mais sufocante.? . meio borracho. ainda que estragasses mais que Pedro Cem.Quer ouvir. Ninguém o sabe à primeira. o Luís Ougado proclamava: . embora não tivesse a mania de chorar-se.. reza.” . estacou para replicar ao doutor que dissera: “O povo tem fome.. para nós é como se tivesse acabado um mundo. o que se avista é mato e penedal. em tom de desprezo e piedade. que o Aires fora buscar à quinta do José dos Cambais e vinha a mascar a última bocada de palha.Diabos levem a cainheza da nossa terra? Não dá uva. esses 21 . Uma vez feitas as despedidas e bifurcado no aparelho. não dá laranja.

e areia aqui. o melhorio do rebanho. e Manuel Torres volveu: . A vinte por cento e é para quem tem padrinhos? A Anastácia. Quase ao pé encontramos a Pedralva. temos depois a Rita Ougada. o Sanchonas que não se cansava de fanfar contos de réis e carros de centeio? Vindo pela rua abaixo.Mas. Ouvi-lhe a choradeira. muitos lá ajuntaram com que empalear os tributos.Teve sorte! . e um tal Leónidas.Ainda não dei fé dessa pobreza franciscana .. essa. se o Corbet se não enganou quando percorreu o morro. Afora o Asdrúbal rico e. mancolitando pela estrada fora. Para cá vêm vocês de carrinho. o José dos Cambais. não quero que haja! apanhou-lhe um quilo de volfro. o Tadeu falou-me para eu ceder à Confraria de Santo Antão o bocado que tenho na encosta. cresce erva que se lhe pode meter foice. porque exclamou de súbito: O amigo Calhorra.. escava 22 . Que é o que lá há? . Agora repare o senhor doutor. Imagine o senhor. . Coitado. Agora algum haverá. areia acolá. este teve que ir pedir ao abade as duas notas que lhe faltavam. Depois. Vendeu quatro cabras e dois carneiros.. o mesmo é que o mamposteiro do pai. O velho ficou calado um instante. Vendeu o cerrado ao Asdrúbal rico. Logo no cimo do povo temos o João Sancho. Mesmo assim.. . mas o que se chama boa casa.que ensopavam tanto a terra que era um regalo ver os nabos e os calondros a emborrachar-se e a pular. que eu lhe faço o rol dos necessitados. Miguel?! Nessa data é que se tira a prova.. Manuel Torres talvez não escutasse aqueles conceitos tão simplistas como pitorescos. Temos o Lázaro Fandinga. por uma sorte.Há lá volfrâmio a rodos e não é cobertos com a capa do santinho que vocês o hão-de explorar. . o mal todo é que há gente a mais nesta terra. andou com sorte.olhos assim. isso lhes juro eu.Não. Sei muito bem o que lá há. Por isso os anos andam falhos de mantimentos. valeu como bichas a quem apanhou uma sova. Este ano ainda foi uma felícia o miné rio render.. A morcega da filha .Não sei. Volfro a rodos não deve lá haver. sempre lhe digo: os da Fazenda têm a ganchorra dos dedos mais afiada que bico de milhafre. Você sabe ou não sabe o que há no Santo Antão? . Meta na conta aqueles que já lhe vieram bater ao ferrolho e os que estão para bater ah isso tem-no mais certo que as cerejas pelo Espírito Santo e avaliará da precisão que vai por essas casas. Andaram aí a ele pelas portas este José Francisco. Este alma do Diabo levou o bácoro à feira e lá o deixou quando precisava de o cevar para casa que os meninos andam esgorjadinhos.Há Há?.. Aqui está um erro. que não perde nada em sê-lo. Uma malina de tempos a tempos é tão precisa como são precisas as nevadas para matar os musaranhos pelas leiras. palavra. capazes de descobrir um grão de painço nas corgas da lua. onde há aí lavoira que não chegue endividada ao S.objectou Manuel Torres.? Então ouça. e no cemitério. seja franco uma vez por todas. do Porto. Temos a Josefina. distraído o seu espírito para outro quadrante. depois que deram em vacinar a miudagem. .Com mais o dinheirito da resina tapou. mas foram uns esticados da fome a pagar. Pois não viu outro remédio senão ir tirar um conto à Manfurada a vinte por cento.. que possui boa casa.

Trago no estômago. Ao redor do povo. a acção do malandrete. Ao mesmo tempo. Quer agora o senhor que lhe perdoe. saltando duma para a outra. pronto. Anoitecia. No Santo Antão. direito de torso. primeiro as vacas. Entendido? O Silvestre Calhorra deitou os olhos em alvo e assim permaneceu um momento.. e então? . não passa de suposições. Eu deixo-o ir a você escarduçar à vontade no que é meu do Santo Antão. e a tilintada das campainhas alagava os caminhos disparados a toda a rosados-ventos. já que assim o quer. latidos de rafeiros anunciavam a aproximação dos rebanhos. cambado das pernas. se atestou as algibeiras. escava além. com a mãozada democrática. vinte e nove trinta. nos ilhéus de maninho. amarrotando-se como uma gaze violeta nas ruas e vielas e erguendo além. como um rolho. Mutatis mutandis. E olhe que eu gostava do rapaz. As donas chamavam as “pilinhas todas” em atraso. reverente mas descuidoso. Não se encontra outro mais valente e desenganado. fia mais fino. )ogam-se as raivas ao vento.Então elha por elha. À entrada da porta que abria à sombra das faias.. torcendo afinal os lábios. telha de cano ou colmo adensavam-se as primeiras sombras. Se me mordeu. despediram-se. o fumo leve das lareiras espraiava-se mole e caprichoso na atmosfera. considerou que podia imaginar-se. nos alqueives de pousio.. proferiu: . pode ser que tire aldemenos com que pague as décimas. tudo por enquanto são suposições. notas gordas de chocalhos. Distraiu-se um segundo dos seus pensares para. voltando afogueado da canícula à cruzeta formada pela estrada e o braço da alameda. decerto. A sonda é que diz a última palavra. Um instante se quedou Manuel Torres a contemplar o velho Silvestre. eram os mesmos padrões e os mesmos corpos brancos e sujos e. já que o senhor assim o quer.aqui. Diante da ruazinha que levava a sua casa. Mas pregar-ma a mim na menina do olho. como se fosse a tombar. espacejadamente. Mas. lhe dizer: . quem sabe lá se aquele pilho te não roubou uma forturia?! Sim. Está dito. Era a ária de sempre e não valia a pena contestar. vozes de pastor. o que lá vai lá vai? Para mim a sua palavra é palavra de rei. onde se respirava já o rescendor das roseiras e jasmins floridos do pátio. um vivente do tempo de Recaredo assistindo ao recolher dum povo visigórico. quantas noites não tenho eu levado em claro a magicar: “Silvestre. um penacho rombo e fantástico. almas idênticas trabalhadas por iguais apetites. Manuel Torres.? .? Deixe-me dizer-lhe. você em paga não pensa mais no que o rapaz da Maria Aires foi fazer à sua barreira do Vale das Donas. acredite. Adeusinho? Sobre a aldeia lôbrega . de lenço amarelo a voeiar do ombro a rubisca da Florinda desacravelhava a cancelinha da sua casa. Mas.Não caias noutra. Também pertenço ao rol dos escaldados. 23 . junto do forno. . vinte e nove trinta. isto é.Partamos do princípio que é assim. sem forçar muito a nota. resvés com os alegretes. encontrou o Augusto Alres que esperava. que seja muito feliz. estrugiam nas escaleiras de patim a pique os socos ferrados.alvenaria. enroscando-se às empenas. rebalsando-se por cima dos telhados. apenas onde havia cotim e estopa pondo grã e estanforte.Justamente. Começavam a entrar os gados. Quanto ao que houve ou há na sua leira do Vale das Donas dá-se o mesmo. quem sabe lá”..

a vaga montante do pó.e a barafunda foi amainando. com borbotões aqui e além. mocha! inundou becos e quintãs. gritos bárbaros: aqueiba! arreta! torna ali. até insular-se no negro silêncio o roncadoiro da agonia do Cota Velho .há dois dias a lutar com a morte.Os gados entraram nos redis e.noventa e sete anos sempre a pé. por minutos. 24 . por último apoiados a uma varinha de marmeleiro . Uma voz clamava: os lobos levaram uma ovelha à tia Pedralva! Outra dizia: estramontou o chibo da manada . balidos. bodum. na teima de ainda não querer passar daquela feita as alpodras para o outro mundo.

erguer o dedo para o Quim da Urra se pôr pronto e lesto. é que ele largava. tivera de esperar pelas noites de quarto. Que levava ali? Ao certo não saberia responder. outras encerravam para ele um mistério com as palhetas resplandecentes. Calhaus ou pedras finas. estando a fazer três meses que chegara à terra. depois de dar ao corpo riloído nos malhios o repouso do dia santo. foi-se à mina velha. surdas uma contra a outra graças ao atilho de giesta. ora a coberto pelo escuro das paredes. espreitava que homens e animais se tomassem de sono em casas e apriscos. oprimidos pela estiagem. entrando às apalpadelas. ora por moitas e giestais fora. não era de contar com sotranqueiros a tornar as águas. ia acoitar o haver num dos refolhos da mina velha. puf. para veigas e ferregiais. varapau na axila. que não havia grandes probabilidades de que o fossem empecer. estancando as águas da ribeira a montante. lhes desfalcavam o caudal com que mover os rodízios. de modo que podia trabucar tão afoito como um alfaiate em seu sótão. mal a Lua apontou no horizonte. Levava pedras. Estava persuadido. como. a arrombar os açudes que. e à hora em que nos pauis as próprias rãs enrouquecem a cantar. lorgar. mas a fugir a encontros passante a Assunção metia-se foicinha aos painços . a avaliar pelo peso e pelo brilho com que acenavam aos olhos suas faces espelhadias. as de domingo para segunda. Em tais condições. e. raras saltadas pudera dar ao filão. só lhe convinham. E depois de pulsar mais uma vez com os sentidos todos a terra em redondo. Que o ruído ressoasse nas quebradas. quando não eram concretos opacos e ferruginosos como torresmos de forja. E não só não foram. era o que surriplara na leira do Calhorra. a horas mortas. Algumas deviam ser de volfrâmío e de volfrâmio puro. A manhã ainda vinha longe. tais ecos seriam explicados como manobras dos moleiros. de pé descalço e sete olhos. faltara-lhe ajuda. onde nem Deus nem o Diabo seriam capazes de o sonhar. destas. semiluminosas o que basta para ao perto se recortar com nitidez desejável o vulto das coisas e ao longe tudo se diluir na intransparente poalha.II O Aires. duma das cavernas tirou o saco com o tesoiro. de noite. das vezes que matou ali o corpo. 25 . Aos primeiros livores do arrebol. a bem dizer. lhe não apareceu vivalma. Tendo assentado proceder sozinho. tenteando-o na ansa do braço. soçobrada em modorra e no engorgitamento estival. cabeça embutida nos ombros. rapar saibro e calhaus. Ficava o Vale das Donas numa dobra da planície. E. para lá da lomba que agasalha o povo dos ventos de sudoeste. extinta há tanto tempo que ninguém no povo se lembrava de a ter visto botar água. à conta bem feita. os grânulos de oiro e verde-salsa incrustados em granito. se lho perguntassem. Era mau de levar. Mas repugnava-lhe meter outrem em trabalhos de que ignorava os frutos.alargou o passo. orçando-o depois ao ombro como um alforge. Além do mais. que bastaria. e só ao sereno pôde estudar o seu carrego. é verdade. pá e picareta às costas. maduros os fenos e barbados os milhos. Como os texugos quando vão ao assalto das capoeiras. Àquela altura do ano. rompeu pela leiras de pousio a corta-mato. opressivo como a morte. Podia portanto escavar.

fez constar por portas travessas que reunira testemunhos mais que suficientes para meter o Augusto na cadeia. pois reza. Não aparece? Pois não aparece. e salta à vista que comeis quanta palha vos caia na manjedoira. de quem se dizia que estava para nascer quem houvesse de lhe fazer o ninho atrás da orelha. que eu já estou amolado! O Calhorra remordeu. Riu ao desfastio e. não. Desta feita o Aires rompeu a rir. Que fazer? Não era homem para esperar a resposta do Santo Breve da Marca. o moço respingou alto e feio: . Este. verdade. cozido em fel e vinagre. apareça. Mandou vir um guarda republicano que procedeu a devassas. Quem seria.fora a dizer para os pacóvios. endereçou um volumoso ofício ao administrador que bateu no goro do Reganha taverneiro. Uma tarde dirigiu-se com dois fabianos a casa do Aires e. na gajice de remar contra a maré. embora tivesse pacta com o Demónio. salamurdos e mais silenciosos que penedos no meio do rio. formulou a acusação. Sentindo que perdera a partida naquele tribunal de primeira instância. Deixa. pastorinhos e criados de moleiro. O Aires é que se não tolheu de voltar. Agora. eu ainda sou asno maior que vos não botei o cabresto.Prove o que adianta. intimou-o a prantar para ali o que zarpara se não queria alombar com uma polícia. se é capaz! Alguém me viu na propriedade do senhor Silvestre? Se há alguém que me visse. As senhoras testemunhas encabaram as mãos nos bolsos e baixaram a tromba para terra. ficou de boca cispada para quem aludia ao 26 . chamando-o a terreiro. Com ar de surpreso. . verdade. De prova material. desta assentada julgaram todos que ficava a fazer cruzes na boca. nem a brocha dum sapato. O Calhorra conhecia a arte de negar a pés juntos contra Deus e Santa Maria. pela simples razão que ninguém me podia ver em sítio onde nunca pus os pés. a título de que não queria fazer sangue e. o raio do velho fez duas viagens à vila para inglês ver. ficou de sobreaviso sem se dar por achado. que eu lhe farei a cama! Por injunção sua o regedor interrogou Pedro e Paulo. um pedinte que tinha o costume de dormir pelos montes.Vocês não passam duns asnos chapados.. coligindo breves sinais. depositário da caixa. e. notou que tinham ido esgadanhar à sua leira. sem um só momento lhe secar à flor dos lábios o sorriso que contraluz do ditado: medo há Paio. Obtido o primeiro efeito. desandou amparado ao sacho do cebolinho. Fiel à sua táctica: porfiar. e lavradores mais insofridos a madrugar. e não se deixou embair. dando a prova como conclusa. sinal honrado de que o não tinham visto na fazenda do Calhorra.. De inculca em inculca. Com a encavacação. Deu matéria à falação.Qual boas nem más! O Calhorra julga que isto é terra de pretos e arma em Gungunhana . convidou os presentes a entrarem em sua casa e a passarem uma busca. transitando subitamente para a indignação. ouviu o moço a requisitória do senhor presidente da junta. ? Vá lá amolar outro. e respondeu: . dando ao topete e prometendo notícias suas para breve prazo.O ladrão é mais fino do que eu supunha . atingir a pobre da mãe que era mulher séria. a cara do Calhorra estava mesmo a dizer que eram capazes de ir jurar aos Santos Evangelhos pela inocência do acusado. quem não seria.O Calhorra. Novamente convidado a vir às boas. Os compadres é que não eram da sua força. associando pequenos nadas. Assim o pensava também o Alres e iludia-se. . muito menos. alguns ventos veio finalmente a ter o Silvestre do autor da gambérria.

cantil e bornal a tiracolo ou coelhos e o seu lebrão à dependura do pau. tão bem defesc. Arrumada a pendença da banda do Calhorra. que estava soterrado debaixo do solo arável talvez a muitos metros de fundura. quando à falta de gasolina a maior parte dos automóveis jaziam de baterias descarregadas suspensos sobre matacões. Pelo menos não se justificava a recomendação sem que da sua parte existissem. Inflectia ao mergulhar em Rabaçais para. a estrada desenvolvia-se em perfeita chapada num galão inquebrantável. malucou no problema. Pois porque é que o minério. o rumor dum automóvel que descia a costeira de Tendais. Por consequencia. nem um ceitil espremera à Fazenda. como a chuva. A lei era a lei. Manuel Torres em Malhadas. Tal não era o caso. com o vento que soprava de feição. chegara-lhe aos ouvidos. desvendando a tramóia.caso. Agora o “não caias noutra” era outra ária. pelo abrupto e articulação às serranias que esteiam o rio. Além do mais que houvesse costeado precipício. lembrava as partes gagas a que a mãe o obrigara no dia de Nossa Senhora da Lapa. ressoando muito mais ao largo. amargos de boca. deu com os burrinhos na água. sinal de que ia estalar o látego .e a simplória de sua mãe caiu na ariosca. aprontando-se em menos de nada. com o qual o dono da terra nunca contara. mas nem sempre os seus preceitos se ajustavam ao critério da gente honrada. ao passo que replantava a horta do Casal. quando já tinha disposto as últimas couves. como o ar. e nem o cairel entrevira. ano após ano que viera a férias. mas a onda sonora ultrapassava Malhadas. Tratava-se de coisa comum: como tal pertenceria ao primeiro que lhe pusesse a mão. e muito longe de propósito. era preciso que “ aquela” estivesse acabada e começava. 27 . O senhor Severo Bacelar devia por certo lembrar-se do catraio que muitas vezes o apajeara na caça.” O carro não passou e. é que fica em Mouramorta. Se fica em Mouramorta. Era ela. disse para consigo e para com Deus: “Se não passar dentro de dez minutos. era-lhe totalmente indiferente que o Calhorra rangesse os dentes. Farta de o ralar e de ralar-se. à relha como ao alvião. Sentindo o motor. rosnasse. ou do Antoninho Fráguas. E ninguém melhor do que ele o encaminharia na barganha do volfrâmio. Repeso do que fizera. a grande caixa sonora que alagava a planície com seus barulhos e motins: petardear de motor. que Deus manda por igual a todos? Sim. tanto mais que o estrago que dera pagava-o um chavo galego e ainda recebia troco. não destituído de azedume. Ali estava como o cão do Calhorra conseguira levar a água ao seu moinho. Dali até Mouramorta. não havia de ser de toda a gente. Deus lhe perdoasse! Lá que o doutor atafulhasse a boca do mamposteiro com o trancanaz do Santo Antão. batesse o pé. menos que uma unha negra. se não remorsos. que rumo tomar? Todo o dia de sábado. é do engenheiro Severo Bacelar. com a imaginação alvoroçada pelas histórias maravilhosas do volfrâmio. Privilégios como aqueles estavam riscados da sua cartilha. Para tanto. por outra. a lei parece que atribuía certos direitos ao Calhorra apenas pelo facto de o filão passar no subsolo da sua fazenda. mal apeou o Dr. chiada de eixo. era um cantar. dois quilómetros andados de pendor. arremeter após breve torcicolo pela encosta sobre que assenta Tendais do Palva. Sobre a tarde. Era a uns seis quilómetros de lonjura. desprovido de senhorio como o sol. E com enfado. meteu a caminho de Mouramorta. não entrava por coisíssima nenhuma no seu valor imobiliário. foguetório em dia de festa.

pé ante pé. quando não eram daquelas que. saiu de casa. como se ali fosse em pessoa. ora entreticio com Teodora. e nem se deu ao incómodo de enxotá-los. O suor que lhe merujava as fontes e as espáduas era portanto de lei. Deu-lhe baque o coração e escondeu-se. ora a pés enxutos. e altas horas. Na noite de domingo. Se não queria ficar empulhado tinha que se despachar. tupa que tupa. nada lhe fazia torcer caminho. maviosa sem deixar de ter uma pontinha de travessa. Augusto. a voz de Teodora. A dúvida está em meu pai. ficou a saber que tinham ido em prospecção à leira do Calhorra no Vale das Donas e que. ermos ou bosques. Mais de uma vez se acaçapou até se esvair na terra fofa das almargens o tamanco do guardão de meloais. muito raramente pelas pontes.Bem sabes que em nós não é que está a dúvida. A certa altura do caminho. sobrepunha-se a todas as outras: . que encontra lá o senhor engenheiro. Quem chegara de carro. dissera: . se propunham chamar um dos práticos do senhor Corbet. à pata. acabou-se. tal como lhe toava ao ouvido. lobrigou o Fráguas que subia uma das canadas que por entre pinhais vão dar à ribeira. do pio do mocho. a senhora D. Deixou-os desaparecer na ladeira e meteu para Malhadas. que o tempo podia conjurar-se contra ele. nada mais que da brasa semimorta que o folezinho da aragem aviventou no deserto de cinzas das queimadas. As paredes. a enormidade do fardo lhe era leve. escorrega ali. Ouviu sem arrepios os lobos uivarem para os cerros fronteiros a darem senha da sua passagem. Afinal. Os corgos lá os ia atravessando como lhe era possível. ora molhado. lamentando apenas não haver tomado mais cedo semelhante resolução. Brás.dissera o Padre Eterno se o Mestre da Vida não mentia. Iria às minas. cortou uma borda ao pão. De facto os calhaus pesavam mais que o esquife quando agravado com um defunto. e ali ia. fora o Antoninho Fráguas. Anda muito atarefado com a montagem da segunda lavaria e já o domingo passado não veio a casa.Mas andava com azar. direito à Sobriga com aquele horror de carga às costas. Vinha a cavalo e ao lado. entrepostas como rendas de courela para courela.Vá à Sobriga. Noutro dia tornou-se-me a sair com a ladainha: “Quando o mariposo lavrar quarenta pousadas e colher um carro 28 . duas febras ao presunto. incertos quanto à Importância do jazigo. Mato ou restolhal. se deitam abaixo com uma patada. voltou para Malhadas. escalava-as e toca em frente. fugiam-lhe da boca pragas que faziam tremer os santos nos altares. boa estrela o guiara. o Zé Francisco. Nas abas duma almuinha saltaram-lhe os sabujos à frente. para não acordar a mãe que escusava de conhecer as suas aventuras. norteando-se pelos oiteiros que lhe eram familiares e estavam inscritos na sua retina como melhor não estariam nos mapas. Ia entretido com a feira interior. que é relho e terrabinto. Estava inteirado. Pelo que ouviu e ainda mais pelo que lhe foi lícito adivinhar. depois de ceia. Neste intuito. que por sinal estacionava diante da taverna. Tropeça aqui. Irene. o zorro. mas ânimo? Regarás a terra com o suor do teu rosto . afocinha além. provavelmente para dali seguir para S. Marchava pela estimativa. Ora repassando aquele brequefesta de sexta-feira da Assunção. tão indiferente a tudo o que não fosse o seu carrocel como refractário aos medos e fantasmas que a imaginação a cada passo condensa no escuro duma giesta mais esquipática. No arraial que armara dentro do seu selo. que viera em pessoa atendê-lo. A tia de Severo.

nem rocha viva. Mas o filho. já nem contava as notas. dum negro impressionante. tinha os pés macerados como se acabasse de fazer jornada de muitas léguas. maciça como torre feudal. Mas tratando-se de ingleses e de alemães. normalmente uns felizardos. a mole alterosa. lanchuda. Que haviam eles de comer naquele pedregulhal espesso.ganho não importa de que maneira. afinal. nem num andor. haviam os escrivaes de borrar muita folha de papel selado. senão babau. De caminhos afluentes desembocavam mulheres com cestos à cabeça ou o seu molho de tangos. a lavaria. tisnado pela canícula. quase cobardia. Do picoto daqueles autênticos paranhos do Diabo distinguiu afinal a Sobríga com barracas e instalações semeadas. porque. Ainda bem. corri estranheza percorriam seus olhos o panorama truculento. Ao fim do primeiro estirão. Era uma felicidade que em negócio de teres o Zé Francisco chamasse seus. e der à tosquia dez ovelhas. pouco mais adiantado estava. e entrevia-se nelas estas criaturas plurais que forjicam o bazulaque às maltas. mas fraga solta. baixando da serra. 29 . puxou do farnel. menino! escarneciam dele. uma almotolia. como ele. Enquanto dava ao denre. a sua simpatia humana não alcançava tão longe. se assim não fosse. que lhe dêem lã para uma capucha e dois pares de coturnos. que é o comum para a mantença duma pessoa que tem os dentes todos. Na qualidade de camponês do tempo das Sesmarias. a tropos-galhopos uma sobre a outra. e o destino dessas nações prósperas e de seus naturais. espécie muito afastada dos capucheiros da serra. encomendas das lojas. antes de mais nada para os homens se chacinarem civilizadamente. nem penedia.” Conhecia-lhe a doutrina. que. à dinheirama que lhe entrava pela janela. sem um lezim com húmus para que pudesse vingar raiz de sarça ou de codesco?? Com semelhante piso a marcha era escabrosa e titubeante. pesava-as na balança. Antes. entre a ramalheira negra dos pinhais. O que o sobressaltava à vista daquela metrópole de escava-terras era ainda e sempre o motivo pessoal. A todo o fundo. tão outro dos agros mansíssimos que alimentam desde o princípio do mundo a aldeia e a cidade. Foi-lhe amanhecer no termo de Covelo. entrou no braço de estrada que conduzia à exploração. da banda de lá da qual ficavam as Minas. era-lhe indiferente como a água dos rios que caminhava para o mar. Não se descortinava caminho nem atalho. Por ele fora marchavam isolados e em bandos. nem sinal de pascerem por ali os gados. homens mais andrajosos que ele no fito de retomar o trabalho. com a bolsinha pendurada do pau ou do pulso. que te venha buscar. é verdade. mesmo de trabuco na quadrilha do Olho Vivo. E ante o ar de ferocidade que se evolava da tenebrosa fábrica. quase seres doutro planeta.de milho e três rasas de feijão. remedando-o . não era por causa da saúde de tal gente. O Fráguas. que deixou à mão esquerda cortando decididamente a poente pela serrania escalvada. o mar cor de creme era a terra vazada dos desmontes. que a sua sensibilidade vibrava. na vastidão cinérea do mato galego. Que levava ali em derradeira análise? A taluda ou artigo de entremez? Foi neste estado de espírito. pintada a breu. à noite e dia e às sombras dos caminhos. Poisando o saco. podia tratar doutra vida que o Cambais sonhava apenas com dinheiro -dinheirinho. Para que um dia chegasse à escudela. uma vez que nascera fora do curral. por baixo da sua inquietude uma voz inquiria: era aquilo preciso? Parece que sim. se não ajustar-se.

o dínamo pulsava e a sua pancada mate. Andando. sem cor à força de usadas. e logo esse montão de cascalho passava através da passadeira rolante para as mandíbulas de aço dos trituradores. e ensurdecedora criava este tónus especial. e os olhos do Aires ficaram enlevados nela. para o morro. e outra. desprendendo uma barulheira a que era como abóbada o zunzum infernal dos volantes que se não viam. ao salvar a corcova do terreno. com boinas de homem. em que estava integrado o transportador. levava um banco de pedra e saibro à ponta-de ferro e picareta. não como assalariado. ao passar à beira da lavaria. de parte duma pessoa de Mouramorta. mulheres que lavavam a terra mineralizada ao ar livre e debaixo de telheiros. Aqui e além trabalhadores brocavam a rocha. provavelmente empreitada. chegou a um dédalo de caminhos. mineiros de guilho e marreta. cigarros. As vagonas descarregavam o recheio da ribanceira para baixo. por um dos quais rolavam vagonetas. Mais ao largo. andando.as lavam e remendam. a ritmo acelerado: homens e máquinas. com revólveres de ar comprimido a demolir o quartzo. grande caterva de homens abria uma trincheira. Perto dali. falas desencontradas. repartido em turmas consoante a natureza das tarefas. pernas vermelhas de perdiz. O Aires conhecia a Sobriga. por vezes a dezenas de metros de profundidade. da indústria moderna. à boca dum poço. muitos extraíam o resulho dos poços ou enxugavam-lhes a água para o trabalho prosseguir eficazmente. descobriu-se o formigueiro humano a seus olhos admirados. enquanto a outros incumbia carregar os tiros de pólvora bombardeira. escombreiros. Girava tudo.pessoal complexo. Crispados às varas dos sarilhos. a carne tenra a espreitar das camisas cheias de surro e em frangalhos. doce ao tacto e maravilhosa de propriedades. mas das rapiocas e visitas que ali fizera com outros curiosos. se calhasse. mas bem torneadas. bombas eléctricas e manuais a sorver a água dos regueirões. das bandas do mar. uma rapariga manejava a bateia e ia cantando: ó meu amor não embarques. do retinir das ferramentas e estreloiçar das vagonas e raposas. sernibárbaro e feroz. por outros ia e vinha o pessoal particular dos engenheiros e agentes técnicos. E. testo e sabido na manobra. Espera lá um poucachinho Que me hei-de sentar à ré. braços arremangados. e ainda a tasqueira que abriu à margem da mina a baiuca de vinho. Não obstante. que se exercia a actividade capital da mina. Rapazotes. Enquanto esperava. pés descalços. Era subterrânea. piquetes de entivadores especializados a escorar as galerias. com as vivendas muito senhoris e claras à retaguarda de pequenas platibandas enfeitadas de pelargónios e eloendros. não deixou de estremecer de assombramento à ideia da obra de magia que ali se consumava: o calhau intonso convertido em farinha mineral. comandos. vinham baldear no monte o carrinho atestado de calhaus em que coruscavam com o sol as pirites e palhetas de volframina. À superfície era como um arraial. Agora não é maré. homem e máquina conjugados. foi-se mais e mais possuindo da fereza e prodígio do espectáculo. quinhentos a mil metros. altas e cegas. petiscos e o resto. saia colhida entre os joelhos para a água não esperrinchar pelas pernas acima. se via gente. Era uma ruivita. Até bem longe. Foi direito à Direcção e pediu para falar ao senhor engenheiro Severo Bacelar. 30 . Por cima dos gritos. homens e mais homens à carga e à descarga . com uma caradura brutesca em suas paredes a pique. ou afigurou-se-lhe. passos adiante.

Foi. . Erribora lhe houvessem dito que ali não era balcão de vendas. .. Pareceu-lhe que o engenheiro ficara contente com vê-lo porque pronunciou de ar amável e tratando-o com familiaridade: Havemos de ir às lebres. jogou-a para o lado: .balbuciou apontando o saco. Eu mando ensinar-te onde é. Agora já levas escopeta. pregado na parede.No Vale das Donas.É volfrâmio. que também lançou fora: . Andam por lá muitas brochas dos meus sapatos. uma espampanante star erguia a perna e derretia-se num beijo que mandava com as pontas dos dedos a quem punha os olhos nela. não é para vender. Então que te traz por cá? Se é para venderes minério... mas breve mudou de parecer ao afirmar-se nele: . eu te direi.. em vez de levá-lo às costas. desejava que o senhor engenheiro as visse . misto de estação do caminho-de-ferro e repartição pública de vilória sertaneja. ? Em que sítio? .. Ao vê-lo com o saco franziu o sobrolho. senhor. nó cego. . para atenuar a rebeldia. Acabaram por remetê-lo para o primeiro andar.Sim. tirou uma pedra e. por cima da mesa atravancada por diversos utensílios da escrituração e frascos com amostras de minério. Ex. A uma escrevaninha estava sentado o engenheiro Severo Bacelar. Virei aí algumas lebres.disse com menos grata disposição. .. ..No mesmo. arrancou. mirou doutro. o que lhe exigiu um esforço descomunal. Do vestíbulo. não é comigo. finalmente. . sopesou-a na palma da mão: . ao passo que ouvia o tep-tep duma máquina de escrever sem lobrigar quem a manejava.Tu não és o Aires.Foi arrancada no lugar das outras? . No calendário. meteu-o debaixo do braço. e o cordel ainda que grosso deu estoiro.Não senhor. .A Direcção era uma casa de madeira. dois andares. pela larga porta entreaberta.Não presta? Não presta? Não presta! Uma houve. É no baldio? 31 .. O engenheiro riu-se: boa vai ela! Quis desfazer o nó. cabelo em ouriço.. puxou a contrária e. O que é. mesmo filão? . zás. desata lá. O filão é em Malhadas. a marca o dia e.Sou. . Tornou a aproximar dos olhos a pedra espelhadia e irradiante. teimou em levar o saco.Bem. quando acabar o defeso.. depois de examiná-la mais instantaneamente que o farpar da víbora. segunda porta à esquerda.Não presta? Tirou segunda. Bacelar introduziu a mão.? Estás homem. Com a febre de ser rápido. V. rotulados a capricho. Trago aqui umas pedras.. em vez de puxar a adequada ponta do nagalho.Este ano há caça a dar com um pau.Estou a ver o lugar. camisola à requeté. enxergou mais de quantos escriturários dobrados sobre as papeletas. meteu o dedo.. vinte e oito a trinta anos. sim.Não presta? Fazia esta manobra com incrível velocidade.. . que aproximou mais da vista. e fitando o Alres proferiu: . mas como não cedesse à primeira. repetindo-se o lance: . mirou dum lado. nem à segunda.Mas hás-de te despachar que não tenho um minuto a perder.Está bem. Mal apanhou o saco aberto..

a rir-se e a faiscar em suas manchas de oiro. se lhe seguia os movimentos. manifestou Bacelar a persuasão de que não devia haver registo. engenheiro chefe. administradorgeral. debaixo dos olhos de Hincker e em linha regimental. acabou por se lembrar das palavras que surpreendera entre o Fráguas e o filho e pareceu-lhe 32 . dir-se-ia. Coitado. quase nenhum cabelo na cabeça reboliça e cor-de-rosa. Depois de esvaziar o saco com agilidade. gordo.retríbuímos a descoberta. só deixando um rebotalho no fundo. Hincker mal lhes dardejou um olhar e. camaradescamente. levantando-se e aproximando-se do Aires. pô-lo em terra e. e possessiva e gostosamente pôs-se a malucar na situação. grandes óculos com aros de tartaruga campudos como rodas de carro. tanto o associamos como. por último voltou à sua taleiga.? Vi-o em Tendais há poucos dias. espingarda a tiracolo... Era o mesmo simpaticíssimo homem..Quer-nos ir mostrar o sítio donde extraiu estas partículas de tungsténio? Se quer e nos agradar. . a atenção. Era homem dos diabos! O Augusto Aires.Para o nosso caso isso tem pouca importância . naturalmente para que pudesse vê-Ias e observá-las.. foi ele próprio tirando as pedras com a rapidez de há pouco.. Estavam na mesa uma meia dú zia de calhauzinhos brilhantes. enunciando o termo estereotipado para esta classe de negócios. negros retintos.Dado que nos interessasse.Traz também o saco . sobre o balcão das tavernas. chamada pelo que se passava na ribanceira. olhar de nebri. . que mesmo assim virou e remexeu em duas voltas de mão.. Aires. em linguagem levemente matraqueada.retribuímos .Do Calhora velho. supondo aventurosamente o seu chefe empanne de vocabulário..dizia-lhe Bacelar. . de cabelo em sedeiro. Aires teve palpite que estava diante do senhor Hincker. pagaríamos o estrago. Tirava-as e ia deitando umas ao chão. Severo aprumou-se e aguardou. é numa leira do Calhorra.. Que iria ele fazer lá para dentro com a pedra na mão? E foi um pouco atarantado com as perspectivas que se lhe entremostravam que correspondeu ao aceno que lhe faziam da sala contígua. aquele doutor das engenharias. por nada deste mundo denotava preocupar-se com os seixos que cresciam em monte à sua banda. proferiu com certo peremptório. suas sardas ferruginosas. Alres ficou sozinho. as pernas dele fazem um arco de ponte cada vez maior.exclamou Bacelar ao passo que caminhava para a sala ao lado. ou lá o que era. . uma a uma.interpôs Bacelar.. mas agora em silêncio. . abstracto para tudo.Não. falou da tineta que tivera de lhe ir cavar na fazenda arrostando com as suas reservas e má vontade. . Não há registo? Torcendo os lábios e meneando a cabeça negativamente. nédio. pondo outras em cima da mesa. . Sentado à secretária estava um importante figurão. pescoço de várias e rubras regueifas. mas irrepreensível: . e o nosso Calhorra. e estava em crer o seu negócio bem parado. Severo safou o saco das mãos do Aires. suas bostelas de verde fúlgido. não tinha mais que meter a viola no saco. devidamente indemnizado.. depois olhou pela janela e distraiu-se com o que via. que ficara perplexo. O bazarugo porém. depois de se referir com admiração à bela ruína de valentia e destreza que era o Calhorra. de copo bebido de dois tragos. concessionário das Minas da Sobriga.

33 . Aires quedou à porta da Direcção.. A menos de cem passos. Perante tal revelação engenheiro e concessionário trocaram um breve diálogo em língua de que não penetrou patavina.Tentemos. giestas negrais. 71.prudente não se calar com elas... encontraram a fazendinha do Calhorra.e sempre os hectómetros pula que pula com a imprevista brusquidão de bonecos do pimpampum. vinte minutos. Depende.. Uma sachola limpou o corte. Um carro reluzente de cristais e cromados trepidava na meia rotunda. face às vivendas. depois casais meio dormentes. espraiando olhos por tudo. Ele.Não garanto. alto. apontando Bacelar: O que o senhor engenheiro fizer está bem feito. . um poviléu e a sua coroa de palheiros ao alto. insulações monásticas os bosques num fundo de ascese e desespero. ao quilómetro 74 pára-se. .. picada aqui e ali dos toros verdes das canas. não mais largo que uma fita de máquina de escrever. Quando se acomodou entre as pás e alavancas. precipitou-se de dentro em mangas de camisa. suspenderam-se à entrada da curva sobranceira ao vale. e baldearam-no para ele sem grande cerimônia. Chauffeur. A saída do delta de caminhos. cor-de-rosa além.perguntou Severo. Terra da meseta plana e taciturna: espinhaços de cão os oiteiros. 66. percutiram as picaretas e os grandes ferros pontiagudos e... seres danados sabujos da serra que arremetem investidos de quanto rancor aflige os que andam à pata. amigo Jerónimo? . com o senhor Hincker repimpado e fumando o seu charuto. com a eminência sarjada tão de fresco que dava ideia de escorrer sangue.. uma ermida. 67. Ficam à tua ordem.. as pedras ninguém tas rouba.Cumprimentos. . muito que bem. pelo fresco. e pulou. 68.Descansa. se não merecer. Em plena massa plutónica o veio de quartzo. Um arrancão e.. enquanto os homens despiam as véstias e aprestavam as ferramentas. um nicho de alrrias .. Se merecer a pena. Franz Hincker e Severo.. Quilómetro 70. Bacelar disse: . Fui lá medir umas rendas. mais poviléus com galinhas espavoridas e cães. já Hincker e Bacelar desapareciam na curva. passava direito como o sulco que deixa na água a quereria dum batel vítreo aqui pelo lavar das chuvas. estudaram o filão.a.. Em Mouramorta estacaram à porta do Jerónimo. você não pode guardar para depois do almoço o que tem a fazer e damos lá um salto agora de manhã? Em duas. Reparando no ar embaraçado de Augusto.. Iam a sair. Pois se assim é e o agente de mister Corbet anda a rondar.Que resolve o senhor Augusto hesitou um nada à procura de palavras que traduzissem o seu pensamento e disse. Mal subiram. como você diz? . Hincker volveu para Aires: . três horas. Ali esteve um quarto de hora. De manhã. o máximo. Ex. desvanecida à maneira de placa fotográfica já focada.Como estão em minha casa. vamos lá em acelerado. que já conhecia o carro. varre-se dali o sentido. Bem. o chão parecia chamuscado. restolho e matiço. é um passeio. E despediu atrás de Hincker. já hoje estive com a tiazinha de V. outro automóvel aguardava com operários e ferramentas. com pinheiros oprimidos pelo temporal. ó Bacelar. Saltaram a cumeada da Sobriga. largaram. mas sem retina para fixar coisa alguma. escurentado ao sumir-se debaixo da terra. e mais de espaço os quilómetros 65. Depois do quê. não corremos a lebre. Rebanhos de carneiros pequeninos mondavam pelas leiras e rabugem que germinara com as águas de trovoada. quando deu conta que do largo fronteiro à casa das máquinas Severo lhe fazia sinal. pastores e ovelhinhas pelas rampas. Eu já te chamo.

Dois homens encarregaram-se da fita métrica enquanto um terceiro de caderno em punho ia tomando nota. Mais de uma vez os pesquisadores tinham enxugado o suor da testa às costas das mãos. nem uma feira franca. mas via-se que fora pôr a samarra de montanhaque por contrastar com a camisa enxovalhada e as calças de cote e. corre.O que lhe havíamos de dar era lume a beber? . de apartar o minério.que batera a hora do almoço quando lhes saiu pela frente o Silvestre Calhorra. pessoal das resinas e gadanheiros. oscilava de perna para perna. Em menos de nada ajuntava-se no chão a bicheza toda da aldeola: descalços e em mangas de camisa aqueles que a novidade surpreendera a virar a tigela do caldo. Depois avançaram os zagais. O homem ficara parado. . ramelosa e esguedelhada. afluía o gentio.bravejou uma velhota. idas e vindas. com as pilecas a bater a ferradura e a esgrimir a cauda. Um deles pediu que. com a sua roga de serradores. a poupa tocava-lhe cornetim. sucessivamente.disse o Aires. deitando outras fora. que se postou desconfiado e quieto como um raposo por detrás duma giesta. uns de enxada. As cigarras nos urgueirais erguiam uma cantara destemperada. estremando umas pedras.roto o banco de granito em seus folheados e lezins. que não podiam deixar. Tendo-se por inteirado. Vá. Secou . mordidos por saber. outros de roçadoira. 34 . de chapelão e calças de estopa os que andavam pelas eiras na debulha dos painços. como sempre. conglutinadas de cassiterite e mispíquel. E a tanto alvoroço. que era homem de curiosidade imediata. até se alapardarem à boca da escavação. vai tu buscar uma cantarinha de água. cavada à lufa-lufa debaixo da vista da gentiaga que engrossara e apertava cada vez mais a roda. Entretanto que a pesquisa tomava amplitude. deixavam ir o carro à mercê dos bois. forneceu a mesma mistura de arsenopirite e sulfureto de ferro com a proporção equivalente de volfrâmio.. lhe dessem um gole de água. descalça. Canícula. de todo anacrónicos e sem dignidade para o tempo dos camiões. a ganga estoirou e foise fragmentando em estilhas multicores. pondo tais e tais de remissa. à sua beira: .ó Mabília. mulher? Uma sede de água dá-se até ao diabo do inferno. estendendo o braço a apontar. há uma nascente . entretanto. Trazia o seu velho barrete de caçador de lontras. boquiaberto. arrimado ao sachinho.advertiu a velha. embora com suspicaz sonsice. Era o comum dos jazigos metalíferos da região e Hincker e o engenheiro foram percorrer os campos à roda. que acrescentou de seguida para uma pequena. e Pedro. Apareceu primeiro o velho Cassiano da Urra. Caía um sol de rachar. O capataz e Aires trataram. com uma capuchinha de menino não maior que o capelo dos gabinardos. satisfeita com a ardentia. E lá iam levados a passo de carga pela resteva . Mas já Severo chamava o piquete a abrir passos adiante nova sanja. com a sua percentagem de tungstato de ferro e manganésio. Hincker veio acocorar-se ao lado deles. ao pé dos penedos. trazidos ao acaso. aguilhada em punho os lavradores que. meio nus. e até almocreves. vozes. depois de breve troca de impressões com Hincker.Lá em baixo. a molhar com a língua os lábios abrasidos. por especial favor.A Mabília chega à fonte. aos saltos que nem saguis. frigidas pelas moscas. de ir observar e meter o bedelho.. mais Paulo. . Não longe. o Zé dos Cambais. A segunda trincheira. . Severo mandou medir.

Para que são as meças.. E quem lhes deu licença? A pergunta dirigia-se a eles por inclusão de partes e os homens ficaram um segundo interditos diante do rompante do jarreta. como os militares em diligência.Vem errado? Bata além àquela porta...? Entramos no que é seu. .Salvou como rezava a sua cartilha de homem bem-educado e importante: . É então o dono? Pois tenho multa honra em cumprimentar o senhor proprietário .É verdade .. se eu consentir. Hoje estou aqui por obrigação.regougou o Calhorra. achando jeito.Olá.e apontava o Aires com um desdém. Toca para a frente.Viva lá? . estimo ouvi-lo.Vossemecês saíram duma terra que é minha e estão agora a pisar outra que também o é. mas haja ele cá oiro. hem. mas aduela de grande bojo. Estava longe de o supor aqui? Homens. Se não fosse assim. mas há volfro. O prático.repetiu o Calhorra em voz repicada de furor e espremendo as palavras.Senhor avô. Mas entre nós não há azar. . Tiraram muito volfro?? . Antes deste pendente . meu amigo. como se haviam de reconhecer os jazigos filonianos? O Calhorra pareceu um tanto desconcertado perante razões que apreendia apenas pela rama. .. o engenheiro dirigiu-se ao Calhorra: . se fosse de escopeta atrás das ruças.. Uma mocita feia e suja veio a correr para ele: .. que não era fingido. está a ouvir? . sem embargo do tropeção. Pernas em acluela.Ora para que vivarn! . amigo e senhor Silvestre. estimo.? proferiu silvando. repousando numa para se estribar na outra. diamantes. com uma topetada de cabeça remeteu-o para Hincker. Mas o apontador gritou para o que pegava à ponta da fita: . não lhe perdeu a posse.. olá! Então riiinho. Hornens! ...É da lei.Descanse que é indemnizado do prejuízo que se lhe der.. de se atravessar na linha que seguiam os dois mensuradores. encolhendo os ombros. mas agora num aparato destes.. Ninguém lha rouba. Severo e Aires.. prata. sim.. mas os senhores e que não contaram com ela.Não senhor.Pois sim. ou perdi-lhe a posse.? Os três homens continuaram na sua.. 35 . derretendo-se em amenidade. andaram a cavar na nossa leira e tiraram muito volfro. mas vão levando as túberas. . O chão cá lhe fica. Palpitando de salto o que ocorria. À voz mais áspera do Calhorra convergiu para ali todo o peso do gentio...Sou o dono deste chão. . . . que eu saiba.Tanta gente.respondeu Hincker. e alertados por tal movimento apressaram-se a voltar do oiteiro próximo. pariu aqui a galega? .tornou ao cabo dum momento de circunspecção. lá foi onde lhe indicavam.Não me consta que cá no meu terrunho haja oiro ou prata. sem dar cavaco.Toca para a frente?!. a sua parte é sagrada. meu caro. Não lhe perdi a posse.? . ao passo que rosnava: ... e já o seu interlocutor recargava vitorioso: . onde tinham ido em prospecção..Toca para a frente! .E a saúde do senhor engenheiro boa? Estimo...

Os homens da fita vieram para Severo: como se chamavam os homens das sortes? .. a uma distância de 270 metros. Algum minério apurei.. surgiu de rainha Santa Isabel: 36 . dificil de dizer se artificial. tal filho? O Severinho não lhe herdou só os bens. . e tu chamas a isto roubar?? Se eu te rebentasse a alma. como se faz em toda a parte. já eu tinha dado no vinte. Sim.? . e ainda queres que te peguem na candela?! O que tu precisavas sei eu. .. Teu avô fazia parte da quadrilha que assaltou a quinta do Ferro.e espremia uma lágrima.supremo remolhado de ódio .De quem é. . o amigo não há-de ter razões de queixa. Estou a vê-lo na eleição danada que sustentámos contra os de S. uma mulheraça ruiva que era caseira do Fráguas: . cobrando o natural: . O Augusto Aires ficou um instante entupido...Esta e aquela são do senhor Silvestre Calhorra. Em virtude do silêncio que se congelava num tal concurso de pessoas.. não obs tante se futurar pela hesitação que o dedo dunguinha lhe advertia ser melindroso fazê-lo: .Ninguém sabe o nome do proprietário? . É provável que experimentemos o filão. toca a virar a terra de baixo para riba. Confronta pelo sul.Sei lá.Raios te pelem! .. Tua mãe foi apanhada uma noite com um amigo a assaltar a tulha da Javarda Velha. Minha não é.Tal pai. Vêm estes ladrões lá dos quintos e toca a devassar. contra o atalho de pé posto. sita ao Vale das Donas.Mas estacou?? .Tu vens roubar com os de fora. Depois. Onde um patear. Luís Ougado? . cadelo? O Aires. não sei ainda o que vamos fazer.Temos: ponto de partida é a trincheira que se vê muma terra lavradia de Silvestre Calhorra. de quem é a terra? . Tens a quem sair..aqui andar a ciscar.Olhe.. perdi ali o meu grande amigo? .Vejam o desaforo? já uma pessoa não é senhora do que é seu. faz costas comigo. num crescente de cólera.respondeu o nomeado. Venho aqui à luz do dia. de trabucos aperrados à boca da urna: Silvestre.. ouviu-se murmurar no meio do monte de gente a voz da Ana Ruça. Não ouviram? O apontador tomou nota. meu homem.tornou o apontador. O proprietário daquele chão. . Dou-lhe a minha palavra. mataram-no os desgostos! Perdi. toda lépida e espevitada. que os bebeste de leite. como se chama? Premaneceram todos calados.Hábitos de ladrão tens tu. Fez aquela promessa com tanta franqueza e sinceridade que o velho enterneceu-se e disse: . Levantando os olhos do papel volveu: . Mas uma rapariga. Dado que assim seja.observou Severo com afabilidade. aqui presente. se compungida. Quem risca é o senhor Hincker. Brás. é provável. pateou o outro! Deus lhe fale na alma.Tia Polónia Fandinga. o Aires julgou-se obrigado a intervir. com. Não haver uma tranca bem mandada que desanque um para exemplo? Onde está a lei que autoriza. herdou-lhe as maneiras e a “ária”. lá em baixo. mas depressa reagiu. avançava para o Luís Ougado que recuava trémulo e de caradura torva diante das suas mãos crispadas.

conversava muito camarada com Silvestre Calhorra.respondeu o homem desejoso de mostrar graça.perguntou-lhe o homem do lápis.a.proferiu com um sorriso de galanteio o apontador. Sempre seu amigo Severo Bacelar. lhe obedecem como ao Deus do Trovão. grandes e redondos como eixos de carro. a distância do poviléu.Mas eu digo: é a tia Rosa Pedralva. Estão assanhados à ideia de que viemos para lhes roubar os tesoiros de que reza o Livro de S. Diga lá o nome dela.respondeu a criatura em tom de poucos amigos. O homem do caderno. que quero ir convidá-la para minha sogra. gostava? . se bem que reputasse perigosamente susceptível o ânimo da populaça. Se a filha é flor como é que a mãe não havia de ser Rosa??. alta e héctica. Manuel Torres o faceto S. A Ana Ruça. O homem do caderno debalde esperava que lhe dessem os nomes dos proprietários confinantes. o Calhorra..Chamo-me com a boca . A quem pertence? Ninguém respondeu. já sabem? Pois se já sabem.Se lhe dissesse que se chamava com o apito. S.Pois. pronto! . entretanto.tornou ela. além de compreensivo. um destes havanos preciosos. deixava-se ficar às espaldas da multidão para se não ver na contingência de dá-los ele ou alegar que os não sabia. durante a qual o burburinho popular ruflou como enxame poisado nos ramos duma árvore. Cipriano. não deixariam de sonhar. Hincker.” O Augusto Aires partiu a toda a pressa levar ao Dr. que tinha mau génio . considero que lhe será menos penoso arrancar-se hoje ao remanso da sua tebaida que ter amanhã.. O tumulto não amainava e ela repetiu: .proferiu ao passo que assentava. O. . Hincker tão-pouco tomava as coisas ao trágico. .Não me admiraria nada .É de sua mãe!? .Podia-me ter botado a adivinhar . voltava às confrontações e dizia: . compendioso. mais lombriga que gente.se é assim que se chamam uns aos outros na sua terra! Crepitaram as gargalhadas. o que por inverosímil trairia a sua má vontade. . manhosamente. . Perdoe o incómodo mas. muito surrona. mas a Pedralvita. em cuja disposição borbulhava já o espírito de partido. Carregava-me de calhaus e haviam de ver! Decorreu uma longa pausa.O que o senhor quer é saber quem é a dona da leira retorquiu ela toda dengue.A 250 metros. tendo penetrado a conjura. . e com os quais. sobre quem o homem trazia os olhos. elha por elha. . segundo é notório.. indicou-lhe com um leve sinal de cabeça uma velhota. decerto. puxou da carteira e escreveu: “Excelente amigo: Se lhe não custa. resmungou: .A leira é de minha mãe. a quem queria obrigar a fumar um charuto. E. que a Hincker opunha Corbet e C. chama-se com a boca . Severo Bacelar. temos uma corga de tojo. ao seu lado. de nos acompanhar ao cemitério. venha aplacar estes selvagens que. para este. vexado pela estupidez humana. . procurava esclarecer a turba: 37 .Como se chama vossemecê. ó tiazinha? . ao passo que distribuía cigarros a torto e a direito.A leira é de minha mãe. ante a perspect 'va nada risonha. uma noite de rouxinóis e de borracheira.Que tal está a pouca-vergonha? A gente é esfolada e ainda por cima lhes há-de dar os améns? No que é meu não prantavam eles a pata.

Dentro em breve estavam todos imóveis diante dele. as carradas e que nós já amanhã começamos a abrir poços e a tirá-lo?. a julgar pelo jogo fisionómico que ia observando nuns e noutros. ou coisa que o valha. Prante lá o nome: João Sancho. ou cobrar a percentagem que a lei lhes reserva? Ponham lá que para nós é o mesmo. E aqui está quem lhes compra ao preço mais alto o minério que extraírem.. que é um homem que sabe onde tem a cabeça... é minha. salta o dinheirinho. Se não há mais do que isto.Ora digam-me cá: que é que vossemecês imaginam? Que por baixo do restolho há dinheiro. Apareceram umas pintas de minério. e com desafogo delegaram nele a causa dos seus interesses. devem-nos ficar reconhecidos por tal motivo. . . senhor Calhorra. se alguns houver. Manuel Torres. não lhes levanto dificuldades... não sabemos o que há aqui por baixo. pronto. a proceder à exploração.Haja de desculpar: cá a patroa é atrigada do gênio e mal-educada. Se forem positivas.. em atitude reflexiva.afoitou-se a emitir o Calhorra.Qual preferem.. O senhor. há-de notar que não podia ser doutro modo. Pronunciam-se pela percenta. as suas palavras não deixavam de causar impressão. uma razão ocasiona duas. ali estiveram a apeguilhar e. vamos. justo e tira-teimas. querem o dinheirinho logo ali na palma da mão. caso lhes sejam favoráveis. acenando para a mulher: . Não senhores. não basta. Para que serve a lei mineira e a fiscalização do Estado? Palavra puxa palavra. olhos de grande mobilidade a denotar inquietude interior e obsessiva desconfiança. e o vê-los assim pobres e tacanhos não deixou de inspirar simpatia e comiseração àqueles senhores. e nós vamo-nos embora depois de atupir os buracos que fizermos e pagar os estragos. que vigiam a produção. . onde há granito assim por atacado. Não aprendeu como a irmã mais velha. 38 . Primeiro. os fiscais do Governo.gem. então vossemecês são chamados e pergunta-se-lhes: . e recebem a percentagem. já vêem que estamos por tudo! À volta.? Era a rendição da pobre gente. vender a terra. sim. Nós só teremos que nos felicitar por lhes haver ensinado o caminho. Compreendem vossemecês?! Antes de mais nada temos de fazer sondagens. lá em baixo. apareceu o Dr. Dou a palavra de honra que. O dono assistia de soslaio. excitada por uma má inteligência dos seus direitos e lograda por loucas miragens. Faltava dar o nome dum pinhal com a sua terra de sementio a poente para a delimitação estar completa. Um homenzinho atarracado e barbudo como bode chegou-se ao sujeito do caderno e disse: . mas essas pintas aparecem frequentes vezes nas regiões da serra. a Custódia. Tratava-se dum homem de meia-idade. é assim mesmo. e os senhores. dizem-lhes a quanto monta a percentagem. Resta-lhes ainda um recurso: meterem-se por conta própria a fazer as pesquisas e.Agora tudo são promessas. quando os recalcitrantes se encontravam já na iminência de transigir. As amostras não são muito tentadoras. Os senhores pensarão o que mais lhes convém.Não. cabeça guedelhuda. Façam. que está a servir aqui na casa do senhor Doutor. O encarregado escreveu o nome e ouviu que o bicho acrescentava. sem se dar por achado.A corga do tojo. lá isso diga-se. por minha parte. Tinham-no como uma espécie de manitu. Esta só tem lidado com brutos como eu. Mas. mal vestido.. Não foi dificil ao homem provado no foro e afeito a jogar com as paixões mais entranhadas demonstrar aos donos das leiras o absurdo da sua obstrução e ao Luís Ougado e quejandos o que havia de indigno naquele ar de cão de quinta perante quem vinha em paz e por bem.

Que descanse. Modo de lhe valer no enleio. Isto não é a vinha de Nabote. O pequeno é o espelho do grande. Admiram-se? Tem isso tudo e até água. Alvoroçou-se o gentio. mas pode vir o morraceiro mais fino que a mim não me engrola ele com a mistela mais 39 . não é . e palavras foram as suas que operaram como água num braseiro: . encerra em maior ou menor dose tudo o que há de tudo no mundo.5% pelo menos. Bárbara Ladeira.É um pobre que levou a vida toda a esfossar na terra e tem medo que lhe arrasem o que agenciou à força de suor e calos. O problema sob o ponto de vista utilitário está na proporcional idade. a cascalhada mineral. Duarte Ladeira. Manuel Torres disse-lhe. vencendo a sua relutância. tem razão a Bárbara confirmou o Zé dos Cambais. O energúmeno espumava e fazia forte escarcéu com os braços. prata.. Assente lá na sua o senhor Calhorra que qualquer parcela.. sorrindo: Guarde.Herdeiros de Joaquim Ladeira . Anda em nome dele. a irmã. mas a nós só nos interessará se contiver volfrâmio na proporção de O. E olhem: também tem oiro. atirando o chapéu de palha ao chão e descarregando-lhe uma sacholada que o amolgou.E mentecapto? .Tem juízo. tem volfrâmio.O senhor Incas lá estudou. sim senhor.. Bárbara. guarde? Rompeu grande galhofa. prata.Não. mas em quantidade tal que não pagaria o trabalho de tratá-la. O Calhorra ficou envergonhado e semelhante dito acabou por convencer a todos da lealdade dos vedores. do mesmo modo que uma areiazinha é a sí ntese do planeta que habitamos. Faça de conta que uma gota de água é a síntese do mar. Bacelar acudiu em continente. enxofre. Sim. isto é. os elementos de que se compõe a água: oxigénio e hidrogénio. e tudo o mais que em matéria de corpos simples lhes venha à cabeça. Ouvindo nomear-se. acrescentou: . mulher que devia ter sido bonita nos seus tempos. depois de a mirar bem dum lado. Depois. anda. Os operários. O Calhorra meteu a mão e tirou um pedregulho: Não querem pitada do que é dos outros. . Mas levaria muitíssimo tempo a explicar-lhes como é que isso pode ser. Percebeu o amigo? O Calhorra acenou que sim. dentro de dois sacos. amigo Calhorra. ainda airosa de fisionomia e esbelta de linhas. Hincker perguntava: . E. mas sempre vão arrecadando? Este tem da malagueta.. Eu não estudei. Este filã o encerra oiro. ferro. chamouo à razão com brandura e boas palavras. zinco. deu um passo em frente a corrigir: O senhor Reganha enganou-se. Anda em nome de meu irmão. seja do que for. homem? Não esqueças que a terreola a talhaste no baldio. carregavam para o carro a ferramenta e. o Duarte deu um passo à frente. . ainda que fosse uma criança que o fizesse ao desfastio. posto que duma palidez de rosa branca estiolada. de volta do almoço. bem do outro.proferiu alguém. que acabara de chegar.disse o Calhorra. disse: De facto. estanho. Hincker pegou da pedra e.Estivemos há tempos a ler a matriz. entretanto. rugiu: Aqui está o que hei-de fazer ao primeiro safado que entre no que é meu. lá sabe.

Manuel Torres dizia-lhe familiarmente em tom de chalaça: .Sei que há aí uma empresa.Pense no almoço ou apostou que me havia de arruinar a saúde. Braço no de Severo.Reservando-nos para amanhã . e digo logo se é cristo. não? Pelo menos o nome soa a esse ramo de negócios. diz bem: conflitos entre nações. Manuel Torres inclinou-se. lá continuaremos o debate.É em Berlim..? Ou para amanhã.Manda a Hermann Góring Werke. Diz-lho um homem que ficou com as pernas tolhidas à força de o passear de cá para lá e vice-versa. invalidez. Manuel Torres ia a despedir-se. Vão bem melhor amanhã de manhã. sem fazer caso aparentemente do que dissera o Calhorra . entremeteu-se: . E o ósculo de paz do vencedor aos vencidos para que se conformem. . se chegarmos a montar aqui os serviços. Não lhe quadra ser agente? Manuel Torres desatou a rir. Poucos irão na fita! . chega-se lá assado com o sol. o alemão julgou-se obrigado a dizer para o velho troglodita de barrete de coelho: Senhor Calhorra. um feitor já nós sabemos quem há-de ser. Depois.? Ficaram calados Severo e Aires.. tirania. Mas no próprio minuto em que o chauffeur puxava o motor de arranque. alijado o ar jucundo. mas suspendeu-se para deixar Hincker acabar o recado: ... escusavas de chamar estes piratas para o povoado! Mas. O Calhorra.disse Severo. mais ou menos em vias de organização.Alma de cântaro.. Companhia de seguros.respondeu o engenheiro em tom igualmente facecioso. Silvestre Calhorra agradeceu de rosto prazenteiro e com urbanidade. é pouco de apetecer..O caminho para Orcas. Bacelar.. O automóvel dos operários largou a toda.. .O nome não me é de todo estranho. topam homem? 40 .estão convidados para uma almoçarada em minha casa de Mouramorta. a caminho da estrada.. fome e miséria nos povos. se é judas. deixa. Severo ouviu que o capenga. em cujo quadro não me importava de entrar: Nova Europa. Ombro com ombro. de tarde.Que diabo. dizia entre dentes para o Augusto Aires na pressa furiosa de dar a ferroada: . deixe lá as discussões para melhor ocasião? gritava-lhe Hincker à beira do carro. pela fresca. Dr. . em tom de meia seriedade proferiu: . com ar de ponderar prós e contras. Apólices para todos os riscos e flagelos. se me quer dar esse prazer. Manuel Torres. ... . por agora. Ora espere: a sede não é em Berlim?.Só se guardarmos o manifesto para esta tarde..bem cozinhada deste mundo. Sempre debaixo de pinhais...Manda o Führer? . Basta-me olhar-lhe para a cara e vê-Ia reluzir. muito cordialmente.? Dirigiram-se para a estrada a passo dobrado. Führer? Não conheço . que estendera o gargalo como o grou para hipotético cibato.Conheço a receita. ignorância.

. pular com desespero para as trancas de ferro. . o esforço do homem cerebral que aprendeu primeiro a teoria do idioma e. porque ainda não tenha prática suficiente. disparando pátio fora. Mando cortar o pescoço a dois frangos. Como vinha aí um sol desabalado. Paulinha. Parece um claustro! 41 . pois.O que a tia destinar. em nada o bigode hitleriano tão em voga. . no rosto e sorriso de visitante reconhecida verdadeiramente uma estrangeira . de calças arregaçadas do regadio e peitaça lanuda ao léu.. admirados da boscagem.III Só ao quarto ou quinto toque de buzina é que a velha casa de Mouramorta acordou.exclamou ela. esbelta e sadia. estão com sorte.causasse o mais dramático sobressalto na casa desprevenida. discreto em seu recorte. sombras que o movimento cadente da água tornava ainda mais voláteis: . bigode tostado pelo charuto sobre a boca pequena incisa com firmeza. nos quiser oferecer o almocinho.. e as sombras frescas à volta da bica de pedra. pelo pátio saibrado com areia do rio. está a ver cada frase.. descreveu um círculo que abrangia os álamos. na alpendrada. lá vêm eles. mostrava-se a cara surpresa e um tanto perplexa da boa tia Irene. cabeça quadrada imponente. com a própria mão que segurava o chapéu. nunca o fazia sem delatar certo esforço. e não faça cerimónia? Se a tia. O senhor Hincker cumprimentou a boa senhora com excessos de urbanidade e repicando as palavras. que acumulava as funções de abegão com as de porteiro. Quando se propunha falar o português literário. em seu desdobre lógico e sintáxico. E.Essa menina tem alguma necessidade de ir apanhar a réssega? Que venha. olhos muito azuis e móveis.oito horas solares . D.. não se preocupando de deixar a descoberto o minguante lunar dos cabelos sobre o occipital. anunciou-se milharal fora pela esteira que levantava o marulhar dos pendões. mercê do que a boa senhora perdeu o ar tímido e só por isso rebarbativo. .. correu a sossegar a dona de casa alarmada. .Dá vontade de pegar aqui de estaca à semelhança destas árvores. Não havia dúvida que falava muito correctamente o português.e não menos ante aquele senhor alentado. Irene e o sobrinho desceram a escada a esperar Paula e o pai que avançavam.. com óculos de escafandro. à volta. ficava com a tia Irene enquanto eles chegavam a Orcas fazer o registo. mas o português correntio aprendido na vida das relações. Ao mesmo tempo. entorpecida no seu recosto de faias e álamos sob os langores da madrugada. Manuel Torres. Irene ficou um pouco esmagada ante aquela rapariga de carnadura rósea. Conte também com o Dr. a menina do senhor Hincker.Com quem tu entenderes. o que dava nas vistas e lhe sucedia sempre que procurava falar com elegância e precisão. O Meirinho. Foi por isso que. e. sem importância. o guarda-rios trouxeme um prato de trutas. Havia uma pequena alteração no programa. . os loireiros-rosas.Está bem de ver. Severo não se tinha anunciado..Reconsideraram muito bem . Tenho ervilhas frescas. viu-se afinal. e era de presumir que visita tão matinal . Mas o senhor Hincker tratou de se pôr à vontade. nem se fala nisso. Olha. D. quando fala.

em seu cérebro devia estar ainda a discorrer. quando viajante. . deu uma torção ao pescoço como se quisesse subir um ponto numa cremalheira. convidativos como braços que fazem sinal para subir. depois ante o panorama da Serra da Estrela.oh. E cruzando a perna e puxando da charuteira.Esta casa foi adquirida e adaptada. ao passo que acendia o fósforo. a despeito do esquemático.e a volver ao salão. se o encarregassem de compor imediatamente um relatório sobre a povoação e aquela casa assolarengada. tal um filme de grande metragem. possessivo. a avivar o cinábrio da boca .. não se descobriria no senhor que ali estava espraiando um olhar ocioso pelos quadrinhos da parede. . exprimindo além do dom de circunspecção ou de oportunidade. que passou a Severo. galantuomo.proferiu. um à-vontade que o tornava eminentemente social. outro olhar meio atento pelos campos. gordo. Tão-pouco se diria o estrangeiro pisando terra de roça.depois do que foi observar da janela a paisagem agrícola com este olhinho refiro do homem de negócios que não admira a bucólica sem deixar de pulsar a puberdade e o rendimento do solo.Pisaram os primeiros degraus da escada de dois lanços. quando homem de sala. e dada a familiar curiosidade que lhe permitiam as relações com Severo pôs-se a vistoriar a casa. fixado tudo na retina. antes se mantêm prontas ao apelo. visto ter-se reduzido a sala a 42 . reclinada no extremo horizonte sob purpúrea e roxa gaza: . a dar uma dedada aos cabelos. com a outra agitava o abanico. Era o caso de Hincker. Tudo isto fez em menos tempo do que a filha levou a tirar o chapéu no quarto da tia Irene. e ia puxando as fumaças do havano. Do modo mais natural deste mundo.Nesta casa respira-se bem o século XVIII . exclamando a cada flor mais especiosa. Era um sorriso amplo. percorreu com reverente e mesurada pausa os quadros pochades de modernistas e tabuazinhas de primitivos portugueses . ou com a brusquidão própria da gente afeita a ir depressa e incontemplativamente. destas ventarolas de papel que distribuem os teatros e restaurantes caros. esponjou-se com o lenço. É em castanho novo.Está aí na corrente. era capaz de se sair com honra. Os indivíduos que assim têm o poder de repartir-se . e são espirituais segundo a mão que as maneja. como a seres animados.Oh. O engenheiro advertiu: . revestidos de glicínias e rosas de toucar a todo o ascenso. desobsequioso e brutal. Foi copiado à risca do antigo. o senhor Hincker atirou o chapéu para cima dum tamborete. a história imaginária da propriedade.estão por sua natureza proteica destinados a dominadores. em sua disciplina. Observado tudo. Mal puseram pé na sala de estar. poeta romântico ou impressionista . Estava há menos de dez minutos em Mouramorta e. sentou-se. Naquele sorriso palpitava-se o tipo de acção e com a superioridade mental precisa para poder responder em qualquer emergência pela sua pessoa. homem de negócios. Por muito que se procurasse. sehr hübsch! Sehr hübsch! Com a mão direita fazia uma carícia às rosas.. As suas personalidades não se atropelam como no ser vulgar. não se descobriria o potentado que movia caudais de oiro e trazia às ordens um exército de homens. uma sombra quase subjectiva .Vem de pais? . Paula exagerava a sua boa impressão. Repare para o tecto. veja lá se lhe faz mal?? O senhor Hincker sorriu com o ar suficiente com que na sua terra era costume dizer-se: um homem honrado tem medo de Deus e de mais coisa nenhuma.quando homem de negócios.

está meia vencida. mata uns. outro aprisionado em África. o censo da sua gente apresentava-se assim: o filho mais velho. Depois do que. um irmão. Notícias. primos. Os ulanos do marechal Von Rundstedt já há dias que chegaram os cavalos a beber às nascentes do Dnieper. aviador. cavacas de Freixinho . Delicada e lentamente. vadios e fantasmas. no Hartz a curar-se da arranhadura duma granada que o atingira por cima de Coventry. Quando éramos pequenos fazíamos aqui corridas de bicicleta a toda a volta. saboreou o vinho fino até a última gota.e como um homem do Norte empina sempre que pode e um português nunca se julga desobrigado de fazer uma perna. . Irene. desataram a beberricar. Ele abriu os braços num largo e teatral gesto de incógnita e fatalidade.guloseimas da região . consoante a fé germânica. levantando-se. o paladar e o olfacto. já se deixa ver. coronel.Também temos assim muito no SchIeswig. a segunda cidade santa dos Vermelhos. boas. repercutia além fora. já não tinham conta os feridos e os mortos. Novamente abriu os braços num gesto cheio de vago e indefinido. O estilo que se adoptava aqui adoptava-se acolá. Pena foi que não déssemos conta mais cedo! D. Uma criada trouxe uma bandeja com fálgaros da Tabosa. As notícias chegadas recentemente são animadoras. proferiu: . sentenciando: . achou de primeira civilidade inquirir dos entes queridos que o senhor Hincker trazia na guerra. Irene.Por enquanto as clareiras não são grandes. minha senhora. . A Europa é um solar. E então vitória em pleno. Está então decidido: a menina fica? 43 .e Hincker torceu-se na cadeira a encher novamente o seu cálice de Porto. o espaço. Mas sentiu-se. A estepe.dimensões muito menores. via-se bem. senhor Hincker? . isto é. umas três vezes do seu tamanho. Era inconfortável de todo ao que era de grande.É conforme. os nossos exércitos avistam Leninegrado. do ramo dinamarquês. mas ignorou de todo a comodidade. mas com um só alçado. Se a Alemanha abater a Rússia. no dever de mostrar-se optimista e manifestou: . um sobrinho. que viera fazer as honras da casa. Mais ao norte.Teremos ainda guerra por muito tempo. escangalha a maior parte. do ramo nacionalizado alemão. nem boas nem más. .Mas nós não viemos aqui para resolver a crise do Douro.Formidável? . O século XVIII entre nós conheceu o fausto. numa divisão Panzer destacada nas Marcas de Leste. estropia outros. Decorreu um grande silêncio durante o qual todos viram desfilar uma procissão de aleijados. Ao terceiro cálice.O diabo é que a Hidra tem duzentos e cinquenta milhões de cabeças emitiu Bacelar. devia ter tomado parte na ofensiva contra a Rússia. Na entrada do estio. por outro lado as divisões couraçadas de Von Bock avançam para lá de Kiev. o senhor Hincker media de novo com o olhar a amplidão da sala. E concluiu com um tom de voz que pretendia ser desopresso e vinha carregado de mortulha: .tornou D. o outro. associados. Sempre assim se mostrou. estropiado em Crera. mas a guerra é uma devoradora insaciável de homens. grande. a seguir a este. acabouse a guerra. o mais novo nos submarinos. Meu pai mandou reduzir esse verdadeiro Ringbahnhalle e andou bem. morto em França.

A coruta.Ida e volta: uma hora. . para não dar nas vistas. muito esbaforido. Nesse momento entrava o portão.disse Severo tomando o volante. Será possível ultrapassá-los? . mister Corbet.Há-de ser dificil . mais migalho.Daqui lá temos menos de vinte quilómetros..Como sabes? . e em face da aparição imprevista Severo augurou novidade. se lhes deparou um carro parado.Talvez seja o do Fráguas. Esse carro era o do Antoninho Fráguas. e neste jogo iam a recuperar a velocidade quando ao alto. decerto à procura de gente que lhe ajudasse a remover o obstáculo. De quem era o carro. . meio divertido: 44 .Mas conta o azar . um dedo espetado para o chão. jungido ainda ao cepo por um feixe de fibras vigorosas. Que acontecera. Pé no acelerador.. sobre a ponte de viés.elucidou Severo. . Se não for o do Corbet. Há meia hora. nem resfolgava. que passaram. Uma hora e quarto...redarguiu Hincker.Que há? . Augusto? Do Corbet? .. soberbo em seu alor e robustez. Foi a Ruça que. em cima do tronco. . É verdade que em tão pouca distância a velocidade não conta.. panne não inculcava que fosse.respondeu Severo. Temos esse direito . O carro tinha estacado diante dum enorme pinheiro. diante do guicbet. de si alagadiça. . Sucedia-se uma baixa. ao desabar.São dez e meia. em todo o tope. enterrara na margem. . Talvez.M. em despeito do carro de feno que ia fora de mão e lhes surgiu pelas chedas numa curva apertada.. o Augusto Aires. Devia esperar por eles em Malhadas..perguntou. de pé em frente dela. Desceram a escada..Pararam em Malhadas. De pé. .V. Pelos informes estou em crer que fosse o calhambeque do Fráguas. como nastro que abambou. dois quilómetros adiante.murmurou Paula. Temos tempo de sobra. correu a contar o que se tinha andado a fazer no Vale das Donas. que não acontecera. Severo rejubilou em seu íntimo. menos migalho.Em última análise. as grossas e revelhas franças tão profundamente que dir-se-iam outras tantas raízes que por sua vez firmavam ao solo a árvore secular.Vamos lá. Hincker tirou o relógio e disse com a maior fleuma: .Se não se demoram. bem vai. saindo-lhe ao encontro. . O excelente B. dizia para dois pastores embasbacados diante dele. ao fundo da aldeia iam a 90. outro fazendo dançar a bolsa de oiro na ponta da corrente. Leve afrouxamento à passagem do rio. . Fora duma dessas bouças que abatera o pinheiro.Não vi. mal os senhores ontem viraram costas. Registo: um quarto de hora. Passaram em Malhadas a 110. e lançaram-se ladeira acima a 80. O Antoninho desceu-se e foi à taverna saber o nome por extenso dos donos das terras. atravessado na via a todo o largo. com ar meio atónito. A questão é chegar primeiro. se tanto . Mantiveram o andamento ao atravessar Pedrões. disputa-se a primazia a sopapo. O Fráguas corria pelas leiras. Não havia possibilidade de obliquar pelos lados. . conformada. visto à esquerda as terras serem em socalco ou muradas e à direita bouças com mato alto e pinhal.O Corbet e o Antoninho Fráguas já lá vão adiante fazer o registo. logo breve subida. A repartição só abre às onze.

qualquer vida. e as de usurário. voltava a aparecer. duma acerba e incontemplativa heroicidade. alcançaram um ponto da raia seca onde a troco de boa espórtula um hombre de Dios se prestou a passá-los para Espanha. magro. lembrava uma ave pernalta de jardim zoológico. mas. e clientes de alto bordo às penitenciárias. As suas tranquibérnias deram brado. sem disposição decidida para coisa alguma.Eu pagar bem? O Antoninho Fráguas. Bravio por semental. além de bem 45 . sozinho. caminhava noutro rumo. mas apto mercê da audácia congénita a tentar tudo. direito visivelmente ao lugarejo da Franja. se metera com ele a monte através de bosques e penhascais. se vocês tiram árvore. já toda a aplicação de criança se lhe exercera na arte de assaltar os quintais. Juan sertanejo junto das mulheres dos embarcadiços. unhas rijas e braço teso. servida por hábeis calígrafos. largara-o à lei da natureza. relapso à escola. barbeiro.. duas farripas loiras a voeiar no toutiço. qualquer coisa de leviatânico. Gloriava-se de roubar à mochila mancebos na idade militar. não houve passaporte que a sua falta de escrúpulos. Tomou-lhe o gosto e deste jeito se lançou no ofício de engajador. Em Muradais havia uma menina. havia que tentar a vida. chocalhando as libras: . que coara parte da meninice internada num convento de religiosas. nunca chegando a compreender os homens nados dentro das três dimensões da vida moral como é que as autoridades não punham a mão na lapela do chatim. Havia na sua postura. No gênero do escalracho humano que ataca o alqueive rural e se torna o flagelo do camponês. eu pagar bem. tanto Severo como Hincker conheciam-no de ginjeira. Ao Antoninho. Sucedera um dia que para salvar das malhas da justiça certo bardino que por arruaça chacinara um pobre gaiteiro em entroviscadas de arraial. Ficara assim com letras gordas e princípios morais muito precários. para lá de todo o ridículo. Ridículo? Not in the least. Sim. Agente de várias Companhias de Navegação. jogar a pedrada. insulado. se eram bonitas. em baixo. não falsificasse ao sabor do freguês. meia desplumada e azarenta. Solange. Vocês chamam homens. extorquindo-lhes os mais desmarcados juros e alcavalas. o casamento. levado por igual motivo. burlar os da sua igualha. O diminutivo com que ficou a ser conhecido pela vida fora caracteriza bem a metamorfose. que passou a ser o eixo da sua actividade. o pescoço desenrolando-se como um sem-fim do alto colarinho de goma. Mas este ramo de negócios.. tendeiro. O exercício dum mester tão à parte permitiu-lhe ainda praticar as artes de D. tinha muito de aleatório e periclitante para quem se sentia tanazado por uma fome milenária. cacique nas horas vagas. Oscilante entre rústico e fidalgo. o José Francisco. Tanto bastou para tomar-lhe o gosto. aquele era um famoso exemplar. preocupado apenas com a solução do problema. esguio. sólidos como cavalos. se alguma coisa contavam de seu. Era enfezadinha. filha de brasileiro. com um pé na trampolinice e outro no parasitismo. nariz adunco. No seu poleiro.. Tentou o que ele chamava o principal negócio da vida. que se eclipsara por trás da lomba dum cabeço. por sua vez. embora cultivado assim à grande e com toda a sorte de agilidade. Aos vinte anos um bambúrrio pô-lo na pista duma indústria.Eu pagar bem. ainda sua prima. E prosseguia no aranzel. O pai. Armado de dentuça afiada. o uso da gravata e as mãos brancas no meio primitivo acabaram por imprimir-lhe o diferencial necessário. De déu em déu.

Não era o que se chama bonito homem. ombros largos de mais para a cintura muito fina. seria duns tios que a menina tinha em Malhadas da Serra. Se por este conduto alguma coisa ainda viria a pingar. Em despeito de tanto afinco. A pobre. a murar. retirada da canastra da sardinha e do comércio dos ovos. O seu leme era: antes ladrão do que pobre e estavam explicados todos os claros-escuros e bocas de precipício do seu caminho. deixou-se enviscar. por cujo selo ia dobando uma estéril primavera sem pássaros nem flores. Marcanciou em cavalos. metiam-lhe os gados aos renovos e quimavam-lhe as cardenhas. de trabuco aperrado. ia ele nos quarenta anos. à testa da qual pôs a amásia. mal virava costas. grandes maltas de gente que pagou tarde e às más horas. em S. Solange só deu conta que fora lograda no dia em que. solipas e materiais de construção. dos dixe-me-dixes quanto às baldas do pretendente e ao mulherio com que podia encher um serralho. Era do mais fértil que havia no baldio e trouxe ali a arrotear. olhos de pegar o fogo em palha molhada. Que fazes. que o via a arrotar grandezas. Porfiou. Mister Corbet. não a deteve no pendor. conseguiu que lhe entregassem a título de aforamento. computada para cima de trinta hectares. conseguiu insinuar-se no ânimo de mister James Corbet. de quem eram celebradas a indulgência para com os pecadilhos duns e a magnanimidade para os leais serviços doutros. Mas tinha uma voz de veludo. melenas que lhe desciam para a fronte. a porca da vida não endireitava. Ainda e sempre construía na areia. Surgiu a guerra. Com efeito. Entregava-se esta empresa à compra e produção de matérias-primas para a guerra e fazia-o com uma abundâ ncia de capitais e uma largueza de processos dignos do maior império a que tem alumiado a rosa do sol desde que o mundo é mundo. Mas foilhe preciso ir guardá-la. picado das bexigas e quase desproporcionado de estatura. palpitou-lhe o comércio dos metais. mas em verdade de mão beijada. Explorando com astúcia e fingido fervor as reviravoltas da política. mãe do rapaz que agora ali corria pelas terras. A família. era cheio de ralé e. lãs e cereais. antes carão sobre o comprido. era bem 46 . que não se conformavam com o esbulho. tão parecido com ele como o ovo dum cágado com outro ovo do mesmo cágado. Em despeito das advertências. das depredações de mateiros e pastores. Mas era de raça para grimpar. atrevido como os que o são e brutal. fez-se empreiteiro de estradas. arrancavam-lhe as plantações. que representava em Portugal a Chester and Brothers London W. que hás-de fazer. volveu da alçada a jorrar sangue pelo nariz e com um olho a repolhar na órbita violácea. veio ele a apurar em fonte limpa que o sogro com jogatinas de Bolsa mal sucedidas espatifara a fortuna e dera com o comércio de secos e molhados em vaza-barris. Cortejou-a. De dissabores e arrelias compensavam-no as mulheres que neste e naquele poviléu se arrepelavam pelo galo doido. supremo dom de sedutor. uma tira de serra. Foi a quadra negra da sua vida.educada. Concomitantemente. passava por vir a receber uma legítima como nã o avultava segunda na comarca. Brás montou uma taverna. a Júlia Minga. À força de colear e de brando jeito. faltos de herdeiros directos. a saibrar. lobrigou no valdevinos o seu príncipe encantado. Chegou-se a gabar de sete amigas a um tempo. e deitou olhos aos horizontes. protestando contra o comércio que o traste do marido cometia em sua casa com criadas e jornaleiras. e agarrou-se com unhas e dentes.

Pedir reforço. a voz que define o Britain's rule em todos os tempos e lugares escapou-lhe novamente dos gorgomilos chupados: . com Fráguas. além de que lhe estaria porventura a carácter.Eu pagar bem! Hincker e Severo retiraram a sacudir as mãos embodegadas na resina e nos cogumelos da carrasca. com ele saíam sempre tosquiados. Vinte homens não chegam para a remover da estrada. irem chamar muito gent& Depois que se inteiraram do entremez. e por isso mesmo se temia deles. . Acontecia-lhes assim levar por alto preço toneladas de titânio e ilmenite. em bruto e trocavam-lho nataverna a metros de chita e a rabos de bacalhau. nem dentre as pessoas que estavam em baixo se julgaram umas com direito de o apear. os pastores afoitaram-se a alijar as capuchas e.o reflexo da política tão realistamente maleável da hora difícil. Alres deitou a mão a um galho da árvore a experimentar. Praça Filipa de Lencastre. Cumprimentou-os com desembaraço natural. Foi o princípio da sua carreira triunfal. Tendo acabado por decifrar a linguagem de mister Corbet. Sôfregos desta laia. Por cima deles. novinhos em folha. sessenta e cinco unidades pelo menos. 10. alcunhado a Fera de Macinhata.na sua fraseologia pitoresca equivalia tal modo de dizer a passar o conto do vigário .No. Aires e chauffeur. pelo que revelavam de insciência na mascambilha. e prosseguiu nas diligências de remover o estorvo. o rei da “mangola” no entanto não se deu por achado. Severo. Até onde iria ele com tão robusta saúde e insaciável fome de lobo? Hincker e Severo conheciam-no por fora e por dentro. com escritório no Porto. encostaram ombros ao lenho. a quem chamava caloiros. Hincker e os seus saltaram em terra e cortejaram.Não se matem . Mexera.disse Severo. Diante deles o morraceiro não dizia palavra. outros assomavam no cerro. com Hincker. o senhor esquipático flauteava. para que nem sempre conseguiam comprar guias falsas com que fazer a exportação para Inglaterra.esteve à beira da ruína e. pode dizer~se com a boca na botija. de pistola na mão para queimar os miolos. gesticulando: . a quem meteu a faca . Entretanto apareciam os primeiros homens de socorro. Os picardos do Porto. A mesma mixórdia dizia-se que impingia a mister Corbet. do Banco de Portugal. Um tal Leónidas Seixas. O volfrâmio genuíno. viu-os esbracejar por baixo dos pés e. Dominava agora o Alto Paiva. compravam a olho na febre de enriquecer. imperturbável. em seu desespero. mas quanto 47 . sem lhes ficar o recurso de recorrer à autoridade. seu patrão. ou simplesmente resolvidos a cometer lance tão aventureiro. despediram o alento todo: há! há! O tronco nem buliu. que faziam 9. Os pacóvios vinham das serras com o volfrâmic. Esses e os pastores. protegido por grandes e misteriosos poderes. involuntariamente. sem compreenderem todavia como se encontrava a impedir de todo o trânsito aquela bisarma de madeiro. “percam-se os anéis e fiquem os dedos”. vendo a separadora a funcionar. parte do vale do Vouga. Ele erecto. e davam-no já como a abarrotar de rico. ele não o ignorava. entregava-o na Sobriga contra os pacotes. 14. no tempo em que era visto com olhos confiados. Mister Corbet não se deu ao incómodo de descer. no. como se tal missão lhe coubesse a ele que chegara primeiro e pretendia passar primeiro. Surpreendido em plena estrada. apoiando o peitaço contra o lenho e fincando as tamancas no chão. Financiou-lhe o inglês a montagem duma separadora em Tendais. à qual de princípio esteve associado um outro escopeteiro do mesmo calibre. símbolo da sua nação. outras que valesse a pena fazê-lo. Eu pagar bem.

a arredar nem polegada. pois que no segredo de suas almas se mordiam como cães. E com entono de coragem. circunstância donde emana o seu optimismo (inico e inexaurível. no meio dos pinhais negrejou um bando de gente. Mas um inglês joga até resto. pulso rijo. menos um do que há pouco. M. prático em derrubadas. marrados um no outro como em match. V. rodar depois o lanço para a berma. chamar mais gente. lançado a fundo. Mais gente ou então ir buscar machados e serras para cortar madeiro. Com uma leve mesura e gesto mal esboçado da mão.Antes de nós não passam. mal se anunciando pelo estridor. Hincker convidou o inimigo a passar. Em resposta. esfalfada. levemente molhado de desdém. Aproximavam-se da vila. o rabo-leva gris do arrabalde entre hortejos e devesas. V. voou. além da experiência requerida. no deserto. Mas esse auxílio não chegava e a sua ânsia devia superar a da boa irmã Ana. M. se entreolhavam com silenciosa e correcta frieza. um 48 .. Serrar o tronco. arquejante. Atacaram depois ao centro. Eclipsou-se tudo. a buscar um serrão a Malhadas. formulou mais uma vez: . depois. tornaram a relampejar. de desenvolver a fortaleza. Eram as duas nações face a face. depois de contar as pessoas que vinham a caminho. compreendeu mister Corbet que a partida estava seriamente comprometida. os contornos versicolores.Não há-de ser necessário. tocado pelo José Francisco. ao fundo. Claro. o inglês tirou o chapéu agradecendo galhardamente. este de sentinela a meio da estrada. E. Ainda um galão. Metralho-lhe os pneumáticos. já os automóveis trepidavam. foi obra dum sopro. Relampeíou à direita em espanejamentos losangulares de cal e vermelhão uma nesga de casas presunçosas. entretanto que Corbet e Hincker. Olhava em volta à espera do auxílio providencial que um inglês acaba sempre por encontrar em terra. O automóvel de Hincker. Por fim. aquele do seu posto como de gávea.No. mais a que aí está note que já se foram embora dois – somam treze. o senhor primeiro? Arrancaram a um tempo. no. Primeiro que tudo o Aires e chauffeur despediam no B. ficando nós de braços cruzados. tranquilizou: . foi precisamente no seu prolongamento longitudinal que se puseram a serrotar o pinheiro. mais nítidos. Quando viu crescer daquele modo o arraial. largaram a correr em sentidos diferentes. Mister Corbet mostrava o mais azarento e enjoadíssimo esgar que se pode supor em rostos glabros. Tanto o Aires como o Urra tinham. estacando par a par com o do Fráguas. As apertadas e sucessivas curvas tolhiam o B. Mas assim que se lhe deparou uma recta. a chocolateira depressa se esvaiu à retaguarda no pó e frondes do caminho. Quando viu aqueles treze peitos debalde apostos a virar o tronco. chegou de rompante com machados. Hincker. no mar. serras e o Quim da Urra. E em poucos segundos de conciliábulo conceberam um plano. Os zagais. aliciados ao esterlino. quase mudo. Em poucos minutos estava dado o corte do lado da coruta. com a quadrela do campanário a escornar no tope. ao passo que exclamava: . Severo disse a meia voz para Hincker: . mais estrepitosa que um ciclone.Thank you! O senhor. A gente que lá vem.. e na projecção visual do pára-brisas desenharam-se um padre à secular. tal qual suas índoles e temperamentos. ali como no resto do mundo.

.Para onde iria o homem? Sem disfarçar o lume sardônico que lhe chispava dos olhos. de Malhadas da Serra. saíra de casa com a alba sem outro lastro além dum cálice de cachaça e duas buchas de pão. a par da sua Verónica. . Para mais é coxo! Desceram de afogadilho. menos Hincker.Este manifesto acabei há instantes de registá-lo. correspondia aos dados de que eram portadores. Chegavam com atraso de meia hora. com o brio dum antigo porta-machado. muito alevantado e pisa-flores. pela mão diligente da Eduarda. uma destas fomes caninas a tal ponto azougueiras que os seus olhos quanto enxergavam era baço. sem tirar nem pôr. abancado a uma fritada de marrã. Madrugou. com um bolo e uma garrafa de vinho à frente. e dois garotos a repartir um talhada de melancia. salvador do mundo! De soslaio notou que traziam cara de poucos amigos. Não tiveram necessidade de comunicar os seus pensamentos. nomes. quando ele se escamugia.Se não está no edifício. nem os judeus quando entraram pelo Horto das Oliveiras dentro a prender Jesus de Nazaré. além da sopinha de rabo de boi..Que me diz? ... não teve ainda tempo de atravessar o Tavolado. imperturbável e cravado no charuto como adem num espeto. Além de que a febre do lance não o deixara cobrar sono.disse-lhe o Aires. foi pelo livro próprio e declarou: .. . . mas que mal se estava garantida a prioridade? Ao balcão tropeçaram com o Calhorra e tiveram um vago palpite de moiro na costa. que se levantou a atendê-los.Vossemecê por aqui? . confrontações. É o mesmo.senhor de coco. Quem tem cuidados não dorme. E estava na incomparável operação de deglutir quando a porta se abriu de rópia e viu avançar direito a ele grande tropel de gente.. Mas nem no vestíbulo nem nas imediações levantaram rasto do Calhorra. de que rescendia pela taverna o aroma inebriador. que não se deitariam à vila mais cedo do que o necessário.A gente da serra costuma ir petiscar à casa da Eduarda ponderou o Aires.. O velho gabiru lá estava. Orcas da Beira. propinou-lhe.. calculando. Estacaram diante dos Paços do Concelho e com repousada confiança subiram a escada. pode dizer-se. com efeito. Para lá bateram de espora fita. Eu leio para que Vosselê ncias fiquem inteirados..Apresentou-o o homem que aí estava: Silvestre Calhorra. uma sertãzada de carne fresca de porco. o amanuense observou: . Leu o registo. Hincker quedou um momento em silêncio e. .. perguntou: . O funcionário leu. Silvestre Calhorra sentia fome. que há tanto devia ter aberto a Secretaria da Câmara. e dispôs-se a matá-la dignamente. 49 . segundo o jogo das probabilidades. medição.Talvez o ladrão lá esteja. . e em tudo. Felizmente a Divina Providência. sem trair na voz a menor contrariedade. Como tramóia não fora mal urdido. o manifesto lavrado nos termos da lei.. Credo. De chofre penetraram a traça do velho raposo: fora ele que mandara atravessar o pinheiro na estrada para ganhar aquela meia hora ao balcão da Secretaria. O engenheiro Severo Bacelar entregou ao amanuense.É como vês.

plantou olhos em Hincker. quem ma fazia eram os senhores se durmo a manhã toda na cama. está bem? . associar-me não quero. senhores! Não se atreviam a interrompê-lo ao que estava de excitado. Viemos para fazer negócio. hoje tinha pregos de oiro pelas paredes. Depôs o garfo contra a borda do prato.Esses nem aprendidos numa escola de gangsters! . 50 . sem prestar orelha à invectiva. para se descobrir? Estou a ensinar o padre-nosso ao vigário.Digo e torno a dizer: escapei por uma unha negra à vigarice. lá porque lhe parecesse que tanto o Incas como o Severo se acobardavam de romper fogo. bem sabe. que não fosse a do Cadelas. O senhor Incas aprendeu nos livros.volveu dirigindo-se assinaladamente a Hincker e a Severo.São servidos? .Assim com'assim. . .articulou Hincker.. proferiu erguendo os olhos. Os filhos saíram uns pilordas que para pouco mais prestam do que para virar a malga do caldo e a caneca do vinho.Que espécie de negócio querem então os senhores fazer comigo? . Raios o partam para excomungado! . Estou pobre.Nós não viemos para ouvir as suas lástimas. aqui o menino Severo tem prática. os senhores nunca tinham aventado a malhoada. tirei lá setecentos quilos e mais tiraria se não estivesse velho e cansado. para maior desgraça com umas pernas que nem cilindros de estrada. meus senhores das barbas honradas? Quem é que primeiro lá quebrou as unhas a esgadanhar? Fiquem sabendo: aqui onde me vêem apanhei lá e no rebusco em redondo. torcendo os lábios num esgar dubitativo. Depois. Larguei-o à razão de doze vinténs o quilo. Mas o que está por debaixo da terra não é como isto de perdizes que se tiram pelo faro e saltam ao nariz dos podengos. que as más-línguas classificavam de felinos: . Outro ardil não lhes deu o Diabo. como ia dizendo.O amigo Calhorra podia usar processos mais leais exclamou Severo com ar agastadiço.Estamos aqui para fazer negócio . conhece o chão que pisa. .barregou o garnisé do Aires. Lá quanto a vigarice. depois na parede e. mas é para que não suponham que me comem por asno. respondeu: .Você sempre nos pregou uma vigarice!.. ... vendo o registo. senhor Silvestre. pedra a pedra como nozes. estão com o seu homem. . . Dóilhes? Quem descobriu o filão. por muito que sejam dignas de dó. vejam os senhores o perdimento. a moer.proferiu Hincker em tom conciliador. . pois então! .Associar-se connosco... pique que pique. retrauteou: . Se serve. Sim.mas não só não tremeu como o garfo se lhe não desviou da trajectória mais curta do prato para a boca..Nunca andei noutra escola. serve-lhe?. Vendo. vamos lá a ver o que a coisa dá. Vendo-os circunspectos. nem para questionar consigo. rape que rape..? É de vontade? . não há dúvida. Ponho a mão numa Escritura que não aventavam. como estacassem à volta dele.Que diz o senhor Calhorra? . Pois.. Uma fortuna pela água abaixo! .Então não são servidos.Não sei o que o menino quer significar lá na sua retorquiu-lhe com voz paciente. nada menos de setecentos quilos. se tenho por uma casualidade guardado o volfro. como acoimou para aí uma boca mal lavada.Está bem.. . setecentos quilos! Agora eu lhes juro: se este pilhancras lá não vai esfossar.Para fazer negócio? Pois vivam lá. mas encrespando bem visivelmente as sobrancelhas..Olé. É preciso andar a fusgar.

previsto pelo Código. Esteve um avo de segundo interdito com um penedo sobre o peito. daqui a migalho rompe aí o inglês que lhe pega a olhos fechados. Não faz. Por isso mesmo é que é um grande crime. Não tem pés nem cabeça..O meu caro senhor Calhorra faz o endosso por dez contos.. e amigos como dantes. . leve. Mas era homem de prontos reflexos e reagiu: . Levem o pouco ou levem o muito. Deste jeito desaparecem as desavenças do dia de amanhã ao repartir da talhada. Incas e o engenheiro puseram-se lá na ladração que ninguém entendia e foi este que rompeu fogo: . ao contrário do que Severo pressupusera. 51 . Os homens apanhados com os machados às costas já estão na gaiola. Opresso e de semblante muito sério.. e o senhor Hincker vê-se na obrigação de apresentar queixa contra o malfeitor que foi atravessar o pinheiro na estrada.. e a Guarda procede ao levantamento dos autos. vale-lhe mais a pena associar-se connosco. Um só. Severo sorriu . ?? Que malvadez? Caçaramnos. com fogo ao rabo. a jogar contra eles jogava com cartas marcadas. pretendidamente apanhados de ferramenta ao ombro. Foi um tornadoiro de águas.Quanto há-de querer pelo endosso? ..Mas o senhor Calhorra exorbita. mas neste capítulo está em branco.! . portanto.lançou~lhe Hincker de chofre. muito levemente. . . pede fora de razão.Deitaram um pinheiro para a estrada. nesta altura do discurso sorriu. um só homem.O amigo Calhorra sabe muito bem quantas polegadas bota um palmo.. . mas já era tarde para desandar caminho.respondeu ele com igual peremptório.Macacos me mordam se entendo o que está para aí a alanzoar. O Antoninho deixou-me recado que chegavam ali adiante. Como eram pessoas de olhos finos.Também pode ser. lá para as congonhas do Catrino. riscam por onde lhes apetece.. Firmado neste palpite. mas o mais certo é levarem o muito. . era de quem desdenha quer comprar . e vá de facilitar. estava farto de o conhecer. descuidado. a deitar o pinheiro abaixo a golpes furiosos. Cautela por cautela. Não sabiam aqueles amigos que estava senhor da maranha toda e que. um imperceptível e quase abafado badalinho mofador: . deviam sentir-lhe passar à flor de pele.o seu sorriso.. puseram tudo em pratos limpos. . O pinheiro podia causar uma catástrofe. na sua pupila. Bastava vir-se de noite. oh. o arrepio nervoso do sobressalto. como num espelho.Não se faça de novas. ao Sarzedo.Está para viver! . Para os senhores é melhor. Supunham que o Corbet tinha abalado para longe. Associado nesta altura da vida só com os quatro galfarros que me hão-de levar ao cemitério. . E como está em branco. Sim.e disse: . teriam visto fuzilar a imagem de um homem..Quinze contos . ainda bem? O que agora mereciam era que lhes cortassem o pescoço. Pressentindo provavelmente o perigo.Qual exorbito? Se o senhor Incas não quer. E tal erro de reconstituição foi quanto bastou para adverti-lo de que o anúncio mofino devia ser tomado como escova e mais nada. não mais. Nada feito.tornou Hincker.Já disse.Quinze contos e nem é dado nem vendido. saíramlhe sem querer estas vozes em que chocalhava um badalinho. Severo teria compreendido porquê.

trapaças em que lhe não andasse escarmentada a menina do olho. . ele de escancha-perna. mesmo assim oprimida. explicava ele. o braço dele à volta da sua cinta. invocou a mulher. lenço de seda a doidejar para os ombros. porque desatou: . e não nome de gente. o rico baguinho bem ganhado.viradinha ao norte como nos bons tempos. Hincker estaria inteirado. para que se visse. todo teso. pesada dos anos e dos untos. Celebraram o trespasse e reinou a harmonia. Ajeitando a cavalgadura a um paredinha. ao fundo da escada. Tavolado fora. Por aqui vamos menos expostos a tais ventos. fazia horas. deu-lhe duas palmadas carinhosas na anca e primeiro que lhe pusesse o albardão.O senhor Incas já agora tenha paciência. não anuiu a regressar com eles de automóvel. E antes de sair dos Paços do Concelho. cuja exultação lhe pareceu que devia de ser comunicativa. quando viu o paliteiro em frente dele. deitou-lhe o meio celamim de milho.ferreira pela cabeçorra maciça. e a Verónica. Invocou a égua. quando rapariga. insinuou o baguinho. um aparelho vetusto e vasto como palanquim de elefante em que se içava ele. deixe-me acabar o petisquinho e mais aqui a patroa.Vai contente por voltar para a loja . Coçou-lhe a estrela na testa. A primeira efusão de sua alma satisfeita foi para a égua.Fartou-se de rezar à manjedoira do Dias. Ora. levava os olhos todos duma feira presos ao seu donaire. de bigorna. mal se apanhou de posse dos quinze pacotes. oral Podiam arrepender-se. ferrador. e a Ferreira é que ustia. contou andanças dos seus bons tempos. Mesmo assim o Calhorra. palitou até a dentuça. . . que oferecia a vantagem de ser mais curto. Tiveram que transigir. e não se gozar da massinha? Podiam até caçar-lha por artes de berliques e de berloques.murmurou o Calhorra. contados nota a nota da mão branca e papuda do senhor Incas para a sua mão negra e calejada.Até a bestinha vai contente . a bufar de impaciência. Comeu.corrigiu Verónica. dirigiu-se para a loja do Dias. de naveta com o engenheiro no Tavolado.Venha fazer o endosso e tem os quinze contos.Vamos pela estrada . . Por fim. que não era falho ao peso. ela assentada .disse ele para Verónica. entre o coiro e a camisa. . a sua valente Ferreira . com um ripanço tão abacial que por duas vezes o Aires veio espreitar. Agora estava um basculho. que cantava e parecia oiro ao virar. quando ninguém podia toscar. bom cordão de oiro ao pescoço. É do primeiro berrelho que mataram em Orcas e seria pena não lhe fazer o funeral. onde tinha a cavalgadura e a mulher ficara de esperar. que já tinha comido muita rasa de sal quando eles ainda não tinham a envide. ao desandar da vila. 52 . rompeu a picar o trote. .Não havia meio de se medirem com o egas. quando uma e outra eram como pombos-correios a ir dar a Malhadas. senhora duma culatra mais larga que um palheiro. sabe-se lá? Podia tombar o carro. tornando costas ao caminho velho. Tinha bom dente o animal e depressa triturou o penso sem perder um grão. Coitada. bebeu. lá foi barquejando nas pernas zambras ao encontro do senhor Incas que. a ensaiar o sarambeque. menos escarrapanchado o arco das suas gâmbias. desconfiado com a demora. lá conseguiram encarrapitarse ambos na albarda.Levo comigo uma queijada que pode muito bem cheirar aos amigos do alheio.

fica-me assinalada com um calhauzinho branco. integrado no seu papel de pessoa importante. gente que vinha a pé e a cavalo.bom apito toca agora o Incas. O Torres é boa pessoa. ah. mas passa-se cá bem sem ele. por causa do qual. ah. e a regada. o que ficava no bucho. as tílias que dão flor para todas asboticas de Portugal. um mendigo. Caía um sol de canícula tão abrasador que nem as cigarras podiam com as asas para cantar.Gostava. ah. ia calado. mal tratada como anda. Quanto largarem de vez. pode ser que se faça um rente ao casal do Torres. Eram a prata. ao preço por que está hoje. aquelas dezenas de escudos foram oiro sobre azul. os cantoneiros. Tenho-me por contente. A gente. Muito tenho eu sonhado com aquela casa. não passava por nicho. Feito o quê.tornou depois duma longa pausa. ah. até sentia o coração dar estalidos como uma trave arrebentada. pois não gostava? . chamado pelo cadino do Aires. e o homem.to Agapito. hem. sempre que me lembrava. que tocava apito . e os filhos gostam da terra como da sarna. Lembras-te? Ao tempo. vês tu. por modos. que não tirasse o chapéu. alminhas do Purgatório. voltava ao colóquio interior ou com a sua Verónica. e tinha a peito que comungassem no seu jubiloso enternecimento. Nos intervalos da loquenda. Ela. por cima de suas cacholas esquentadas. Mas quem adivinha? Setecentos quilos. ah! O Calhorra falava para a mulher e falava para si. O homem ora diz que vende.O Calhorra não soube que retorquir à voz prosaica e apenas no alto. Foi uma fortuna aparecer este Incas. que tem dinheiro como terra. contente como um chicharo. vá lá a gente dar crédito a um telhudo assim? A mulher. bota o pensamento e o pensamento é como uma fateixa que vai tirar o que está no fundo fundo dos impossíveis. Quando falava para si.Pode muito bem acontecer. que lhe adivinhava os pensamentos à légua. Esses humilhadeiros dos sentidos eram-lhe de resto familiares à força de passar por eles. como antigamente o trabuco dos quadrilheiros. cruzeiro. não há que dizer.! . ah. gente que lidava nos campos. O melhor. .Estás a ver-te a bater a chinela nas salas do convento ou a deitar milho no pátio às galinhas. onde não botavam. é o miminho da terra! Calou-se que vinha lá gente e estas coisas só se confessam para o travesseiro. Quinze quilos é quanto canta na algibeira. santo Deus? Mas do mal o menos. era o oiro.Fartei-me de suar no Vale das Donas. pela volta que as coisas levaram. o seu sombreiro de barba de baleia. Este é que deitou a lebre a correr. ia jogando com a mulher de caravelas. ora diz que a casa da Serra é a pasmaceira feliz de que nunca se desfará pelo oiro todo'do mundo. o que equivale a dizer para a mulher. saudava este e aquele por quem passava. disse: .Deus escreve direito por linhas tortas . dize lá? . . afeita a 53 . Abriu-c. Igualmente tão santanário como cortesão. segundo a folhinha dia de S. Tanto melhor. tal dia faz um ano. Com os dez que estão ao canto da arca e algum que se amealhe com o febrão do volfro. oh a regada que. As suas vozes eram como á gua que trasborda dum açude cheio. Só então se lembrou que trazia encabado no alforge. minha badalhoca! Dize lá! Esta terça-feira. durante a qual abarcou o panorama dos seus cuidados e canseiras através de um quarto de século. donde Orcas se afigurava ajoelhada. e foi logo outra vida. ao meter a mão no bolso para lhe dar meio tostão. desabafou: _ Então dize lá quem é gente. Agora. À Verónica sorria ver-se dona daqueles casarios tão grandes.

Deu-me uma soneira que sonhei que me estava a virar na enxerga. .Olha a novidade? Em chegando a casa. . Quando se apanharam entre os pinhais. assim se começa e assim se acaba na beberroma. O brequefesta armava-se por dá cá aquela palha. És muito franca? Dou-lhe metade da melgueira. acordando-o num desses momentos de compenetração. ..Tens de convidá-lo. A como anda o cotim? Verónica. não me dás novidade. Ela foi-o segurando como pôde. depois dum alancão que ia baldeando os dois em terra. mas podia magoar-se e ficou a chorincar. não.Hem. bem embora convindo que duas machadadas depressa se dão. mas levado de todos os moscardos? O ladrão vira-se em cima duma moeda de vintém. outro pouco porque caíra com todo o peso sobre o tornozelo.. um pouco por impostura. depois de grande reflexão. teve pena e ralou-se. . o Luís Ougado é que meteu uma lança em África? . O que te juro é que se em vez do Luís Ougado meto na dança um tanganhão dos nossos estava a fazer cruzes na boca. Caiu de pé.Metade. . que dali a pouco a Verónica montava de novo na Ferreira. dize? .Em chegando a casa já te fartas. ao passo que com a outra mão retinha a rédea. 54 .. que é má rês? .não ser mais que voz de acompanhamento na ária de que ele por nada deste mundo deixaria de ser parte cantante..Que é má rês. tantas melúrias disse. achava que devia presenteá-lo ao menos com umas calças de picotilho.. E tanto apertou com ela.. Mas de repente. Saem. Mas alguma. que foi preciso dares-lhe o lençol com que foi a enterrar. E ali se ateou uma contumélia tão azeda e assanhada que a certa altura o Calhorra deitou-a da égua abaixo. os nossos são uns burgessos nem lá vou nem faço míngua. Comparados com ele. mas pecou por pouca. . A mim não. Olha o disparate? Foi de não dormir a noite.Estamos a chegar.disse ela. àquele teu tio do Forno.Não digas isso. Assim teve ele o fim. que na idade deles era capaz de dar um pontapé numa estrela. . O avô pertencia à quadrilha do Olho Vivo. garranito. Não sei. já passámos Manfurada? . andas-me com uma fritada de chouriça ou salpicão com ovos.Ia com sono. O Calhorra quando a viu a manquitar. e era destes que não movem um pé sem perguntar ao outro se dá licença. Atravessaram o povo amodorrado debaixo de calmaria e com ondas de moscas alvoroçadas nos chiqueiros. acordou para dizer meio estrenoitado: . Gasta quanto ganha em vinho e cigarros. A marrã estava de se lhe tirar o chapéu. E tens de convidá-lo bem. que passava a vida a fazer gaitas de sabugueiro e de urgueira para os pastores. . concordava sempre. se calhar.exclamou ela. Mas agora iam silenciosos e não tardou que ele começasse a cabecear e o pé do guarda-sol a amolecer-lhe nos dedos.Apanha umas calças e está com sorte. Não sei a quem os almas do diabo saem.. De raro em raro permitia-se uma pergunta inocente ou uma observação que por via de regra lhe iam acender o mau gênio. agora vou com fome. Dizes tu convidá-lo bem. Serviu para espevitar o apetite.. o Calhorra disse: . Deus perdoe ao pele-de-as no.É verdade. Silvestre! Os nossos lá levam a vidinha direita e não é com o copo que bebem aos domingos que hão-de deitar a casa a perder.

. A última meia dúzia levou-os a Inês... Sabes a como? A três tostões cada um. coitada. vieram-lhes ao encontro filhos. habituada a todos os caprichos do seu senhor. lagar. Mas ovos? Não tenho um só de portas adentro. Ia muito lépida. Vê se ainda lá estão. Adiante de Manfurada. os ovos é que são nossos. ainda quando não há compras a fazer.. Mas receei que na vila te vissem os ovos e.Raios te confundam! Quantos ovos. como por um argueiro se tira um cavaleiro. encarou em Silvestre. apontando contra a parede um tufo de ervas.Quantos quê? . saltou em terra. O macadame. elas sem pôr! O Calhorra não respondeu. Além de que o caminho é mau e a égua pode escorregar e partir uma perna.Enchem a sertã? Abana-os a ver se chocalham. encontra-se o caminho velho numa extensão de trezentos metros. avistei ali umas pedras de volfro. proferiu: _ Esta manhã. eira. Era volfro branco. mas agora tens de ir à pata.Estamos com sorte. como dum balcão.Não o levas já aí.. avista-se todo o troço da antiga via.. não disse bus.Ovos talvez eu os arranje. Ia com a minha fisgada. forno. Não? Foi uma fortuna. A certa altura. . debaixo do sombreiro como um mandarim.Também a pita? . Verónica dobrou-se a procurar com a mão. onde há um casal com suas de endências. quando lhe respondeu um cacarejo mal-humorado de galinha.. costeou pela direita numa curva lenta e escarpada. a fugir ao pendor que era grande. Silvestre deu-lhe um beliscão e logo de seguida levou a mão aos lábios no gesto do cadeado que 55 . Ajeitou a besta a um poiso e Verónica. não há-de haver novidade. cesta com eles. havemos de ir ali adiante aliviar uma parida. Era um regimento. em linha recta. a perguntar: .. que chegassem ao fundamento da operação e não a achassem segundo o bom direito. o Calhorra disse para a mulher: Santa paciência. e água a despenhar-se da cale de Pedra para o tanque.Não. Silvestre soltou-lhe uma gargalhada: . A mulher insinuou a mão por debaixo da parturiente a contar. Vê lá quantos são? . Encontrou dezasseis. o Calhorra refreou a égua e.. Ao chegar à embocadura do caminho. a contar a aventura do volfro branco. Só lhes chegam os abades e os fidalgos. perturbada no seu ripanço de poedeira.Lá pelo fumeiro. que demos com o ninho. com a cestinha. a infalível cestinha das compras. .. Quem vai a pé ou mesmo a cavalo toma por ali fora se quer ir mais depressa.? Tens-me tirado os ovos das pitas? Lá me queria parecer. Dela. Ao entrarem na terra..E o tal volfro branco? . Verónica tornou a subir para a albarda em frente do seu homem. Vá. Quando se endireitou com a mandioca no cabaz. Porque esperas? . noras e netos. enfiada no braço. Daqui a pouco estava a chocá-los. . quando passámos. cabeça de burra? Esta manhã estive vai e não vai para te mandar descer da égua e passares-lhe os cinco mandamentos. a pita é do dono. ao passo que passava a cestinha a uma das mulheres.Arranja-los tu.

fecha uma porta. 56 . pois que se o segredo é a alma dos negócios. não é menos o viático daqueles que se premeditam ao longe e não passam por enquanto de sonhos mal sonhados. dos negócios que se fizeram ou se têm sob palavra.

? o Ougado. aquela sua voz cauta de roncão. fora. ..Dizes tu: três arráteis. ih? ih? ih? Com que então. Escuro fazia.. .. e como não lobrigasse vivalma lá veio pela mata abaixo todo farófia. ufa? mas ela iria lá direita com os olhos fechados. um pouco desconfiado com a ucharia. na menina do olho? proferiu depois em tom prazenteiro e admirativo ao mesmo tempo.. O que me admira é que acertasses com a cafua por um escuro destes? Caramba.. ? Sim.A endrómina está à vista .. foi pelo volfro para lhe mostrar. um sacolejão que fez estreloiçar as pedras: . três arráteis para mais que não para merios'?. pulou a direito para o caminho. Depois tornou a encher a cova de terra. Foi como se desatasse um saquitel para a arca. mas que lhe fazia doer o peito... depois de escamoteá-lo com tanta finura. expondo-o à claridade do lume. Estava ainda na giga da meia como o trouxera e. acabado o trabalho. um frouxo de riso nervoso e regalado. Toda a sua pena era que não fosse urna arroba.O homem.IV Reavivou a fogueira com um punhado de gravetos e enquanto ele. passeando ora um pé ora outro por cima da labareda.Vês tu. À moita da Cismas metia-se a gente pela demarcação arriba e era logo no tope. Hum. olhou à esquerda. . ajoelhando ao toro da giesta.. Uma assim! Breve percebera que o que ele estava a fazer era a desentupir uma cova. Acachapara-se. esvaziou para lá a algibeira. que não? . o guarde com tã o pouco ardil? Ai. compôs o chão. tirava os tamancos e se aquecia. como se acertasse destorcer uma grande meada. para ele ver bem. deve passar de três arráteis. O Duarte tomou-lhe o peso. e ali. Assim que a apanhou em conformidade. não esteve com panos quentes. zás. ... tu por -aqui às Jurtadelas! ? Temos endrómina. Na mesma da hora em que acabara de sachar a leira do Gradil e já traçava o sacho no braço para se vir embora. a partir com a tapada do Urra. Olha quem ele era. pronunciou: . ih? lh? ih! – e soltava-se-lhe outra vez o riso. O macanio fizera a cova. ! Ora toma-lhe o peso. imprimiu-lhe.. 57 . mal se enxergavam os talhadoiros. se pôs a rapar terra.. deitou um olhar à volta e. que voltava de deitar as águas.emitiu o Duarte muito concho. pois a gente da terra tinha a pecha de andar sempre a escutar por detrás das paredes que eram rotas. não se pusesse por lá o irmão a deitar imaginações erradas. e frio.E outra vez se viu Bárbara obrigada a explicar como aquilo fora. e não são roubados.O volfro estava bem guardado. Também tinha pouco que errar: carreira dos gados fora. lá deitou o ponto até que. rente a um penedinho. ao tojal do Zé dos Cambais carregava-se à esquerda para a moita da Cismas. o machucho olhou à direita... .Para estranhar é que. Também o Duarte se não soube manter naquele seu sisudo macareno e largou uma risota baixa e esbagoada como de galo a ensinar o bom cibato a uma franga. que caíra debaixo dos seus cinco mandamentos.. e em voz pastosa.O Luís Ougado há-de-lha sempre pregar.. uma casualidade como não há muitas na vida.. oh se estava! Fora por uma casualidade. mesmo ao toro duma giesta. parecera-lhe ver relampejar um vulto ao cimo do pinhal do Urra. tendo-se capacitado que não pisava por ali gente.

? Ao volfro? O volfro vai para o pé do outro. fingindo-se tomado de aperto: andai lá que já vos apanho! E corria a enterrar o roubo. trazer dinheiro ao ganho. dize-me lá. medidos à desnatadeira. pelo prazer de possuir. pelos vistos. Com pães grados. tão estreme que quita esborraçado. Tu que preferes? Eu cá pertenço à seita dos desconfiados: toca a botar o laço. Ela então reatou: . Era a matação do Duarte aquele linhar do primo sapateiro que. deixa-lhe pôr a dozena antes de lhe armar. Pagavam-no hoje pelas portas a trezentos e cinquenta mil reis. O diabo é que no entrementes pode vir outro e lá se vai quanto Marta fiou. Matavam porco pelo Santo André e. nunca secariam menos de carro e terça. que lhes fazes? . um mês. Acabavam-se os onzeneiros e estoiravam os necessitados antes do tempo. Louvado fosse Nosso Senhor. dizia para os camaradinhas. .. E agora. era uma terra gorda. uma mata. um chaparral.Deixei-o virar costas e fui ver. um ano inteiro a acarretar para o celeiro como na própria noite ir à toca e pôr tudo com novo dono. lhes cortava as águas de lima para duas propriedades. Era este rico maná. Chegados ali.. --em feiras e romarias podiam chocalhar a sua coroa. O Duarte pareceu não concordar de todo. Embora os surripiadores da Fazenda lhes levassem muito do que granjeavam. o que ele próprio pelo encolher de ombros deu a entender que reconhecia. mas podia ser assado. Este está tão purinho. Viu ao clarão dum chamiço o Duarte estender a beiceira. partindo com eles da banda da Fonte e dando-lhes rego. uma terra de unto onde tudo vingava que só de vê-Ia caíam os olhos aos invejosos. mais que arriscado. Uns anos por outros os Ladeiras adquiriam uma belga. Tinham crescido às esmolas. que a conta dos leites.A quê. cada vez punham mais febre na labuta. acontecendo calhar de milho. Em casa. Se é desconfiado. para terem o regalo de atestar as arcas. Sobretudo queimava-os a fome de terra. Se é jogador. sempre havia umas sobras para o riscado do avental e as brochas dos tamancos. farturinha no açafate também avezavam. Aquele linhar do Fandinga era como uma espinha que trouxessem trancada na garganta. cabeça para os joelhos. podia ser que valesse. lhes andava sempre forra. trup-trup. Um bicho destes tanto pode passar uma semana. Deixa-me cá: quem arranja dinheiro para comprar o linhar do Fandinga sou eu. Por isso em primeiro lugar e também porque. louvado seja o Senhor! Agora pergunto-me eu: não valeria mais a pena esperar uns dias e deixar que o melcatrefe enchesse a buraca. com a malta toda. porque tendo-se sentado. pelo muito.? Sim. é que o não quis e é bom de calcular porquê. de facto.. Mas espera lá que se a diligência que ela fizera à boquinha da 58 .Por esse andar.. Pois embora. Dqui a nada vale mais que o oiro. Não é? Ela acenou que.. mas se eu fora adivinho não era mesquinho. embora não medisse mais que duas canchas. e já passavam de trinta os números que traziam na matriz. malhavam as suas setenta pousadas e. também ele indeciso quanto ao que em tal emergência mais convinha fazer. arma o laço e não espera por mais. um vintém Catarina o tem.Suponhamos: um rapaz acha um ninho de perdiz e ela na postura. dali a cigalho quebrou o silêncio para dizer: . além de que as perdizes enjeitam às duas por três. não se perca por lá o que tem jeitos de certo. o melhorio da casa.largava das Minas.. ninguém dava mais dinheiro a juros. devia ser assim.

e. lá se foi meter entre mantas. depois das colheitas. A casa era um pardieiro onde uma alma cristã se não achava mais abrigada que no meio da rua. desse o fruto devido. como de resto 59 . tromba ferrada para o lume. e foi-lhe dizendo em tom de mofa: . assim a horas. um momento apenas aliviado da ralação quando ela lhe fez dançar diante dos olhos a feliz bolada do volfro. o mesmo era que continuar a pouca-vergonha. O homem viera a Malhadas receber as rendas e destinar a lavoira da casa que lhe deixara o tio.Não te aflijas. onde não tremeluz folha viva. obcecado por aquela sua vontade desesperada de arranjar dinheiro. de continuarem a encontrar-se de vez em quando a favor da primeira ocasião. a nadar em ódio. Lá fora com certeza estava a cair moinha. Compunha-se de uma só peça. assim a esfogueirar. no género do irmão. No fundo. vou ao molho pelas tapadas! Coitado. que em matéria de tais orgias são dos que têm escutado apenas às portas. o fulgor das brasas a deslumbrar os olhos. Morto andava ele por arranjar a bagalhoça precisa para a operação. Suspeitava-a de ter pacta com ele. com a carne quentinha e regalada.noite. e tal ideia fora e continuava a ser o seu inferno. O Duarte acabou por desencravar a cabeça dentre os joelhos e ergueu-se resmungando: ia um grande inverno e era preciso ter governo na lenha. o que o atormentava era o pensamento. O Duarte ficara macambüzio. apuradas bem as contas. Pela telha moira tanto entrava a chuva como a neve e o vento. como tiborna de verdete e água choca. afora curtas e ásperas guinadas do vento. junto do senhor Antoninho Fráguas. não existem veredas conhecidas ou apenas sonhadas que o pensamento não bata e vá tenteando. Que grande alcoviteira que é a chama e como as suas línguas a lamber. e pôs mais achas depois de espertar o lume com ramos secos. E fazendo com aquela lengalenga e os socos ferrados nas lajes mais barulho que um carro por uma ladeira abaixo. cada vez mais raras. além da obsessão do que se teria dado. do que se teria passado entre ela e o Fráguas. venenoso e fétido ao mesmo tempo. Aquele pobre burro das panelas imaginava-a a ver-se ou a sentir-se com o Antoninho no meio das moitas. destas moinhas finas como paraganas e glaciais. Quando faltar a lenha. o sangue a espirrar em seus espíritos todos. Por isso. dali a pouco não havia com que cozer as castanholas. ficara sobre brasas. estavam como queriam. a alma despe-se como o corpo quando se dá a um amigo. via-a entregue à sua ideia. não havia como o fogo para o Demónio entrar com as criaturas. esquecidos do resto do mundo. que tinha ele com isso? A noite. interrompida de quando em quando em sua modorra pela refega do vento nos pinhais. Era como zorra que vai pelos campos. porque sentia a humidade nos ossos. aconselham esses enlaces brutais que saltam por cima de todos os recatos e castidades? Não havia para sentir-lhe o chamariz como as pessoas. Diante duma boa fogueira a arder. Estava a verlhe trabalhar o maquinismo interior como a um relógio quando se lhe levanta a tampa. não tendo ânimo para a tolher de lhe ir falar. quando podia meter-se na cama como ele. Mas o Antoninho era o fantasma negro que enoitecia os horizontes do Duarte. De facto. viesse ela donde viesse. E. Mas tinha de fazer de conta que o pobre boizana estava a calcular os punhados de carqueja que gastava sem proveito. a abraçar-se em fúria lasciva. e ela bem via correrem-lhe no bestunto as minhocas negras e viscosas da sua cisma. de olhos no lume. Estava uma noite de geada. antes de ir crestar o cortiço do Ougado. nem de encomenda. não se sentia passar. Decerto que diante dum lume rijo.

Bárbara? .Bota-te a falar com ele. E de novo depondo olhos no crisol e fechando-os maquinalmente. Um figuro de Lisboa. com excepção das casas do senhor Antoninho e do Dr. Dar um recado custa-lhe mais que levar uma saca de dez arrobas às costas. aquele olhar diabólico que despia as mulheres antes de elas se porem em camisa.Com que sim. A princípio. Dois pontaletes grosseiros. Mas espera: .. ao chegar do Gradil. senhor Antoninho para toda a gente. escoravam ao Centro. que uma vez ali entrara por curiosidade. Com a tenaz mexeu as brasas. a aparecer por grande acaso na terra e o Duarte a pular. Para que acabasse com a devassa. que não envergonhavam uma cidade. Não estivesse ele possuído pela febre do linhar? E ela decidira-se. a que penduravam as peneiras e o candil. por dentro. O tempo. Que dizes? O Duarte despedira. Torres.?? Pois se entendes que é essa uma razão para lá ir eu.. Não ia assim tão fregona como de ordinário e bem deu conta que os olhos dele se foram acendendo pouco a pouco como auricus. restos contra a tesoira. o que é. foi-lhe dizendo em tom sacudido: 60 . Mas o que tinha de pior era ser fria..Nem que me matassem? julgas que sou desenvergonhado como tu?? Estivera para mandá-lo bugiar. Ouvindo-o sonhar alto. que o não descobriam. não me nego a Isso. Também ainda pudera dar duas cardadas ao cabelo. . não se esquecendo de lhes fazer uma covinha ao centro para activar a combustão. agoniado como andava na ideia de que lhe iam expropriar a regadita do Vale das Donas por dez reis de mel coado. afoitara-se a dizer-lhe: . . O Fráguas.no povo. Primeiro imprecisas. Também ele já não era rapazola nenhum. a bater o dente de taró. quando dobrava o portão. Fizera como em certos actos da vida que se fecham os olhos antes de dar o passo fatal. ajuntou-as em seguida. mas o meu Duarte é um encolhido. mandados ainda meter por seu avô. haviam-na tingido como uma essa.proferiu ela a medo.O meu Duarte é que havia de lhe vir falar. salvo a fechadura e um ou outro prego pelas paredes.. Se não fora o chamicinho morria-se inteiriçado. Procurassem nele o estoira-vergas que apertava um cavalo entre os joelhos e lhe fazia dar ronco. depois pouco a pouco com relevo e relação. a armação que ameaçava desabar. no horizonte do seu espírito se ergueram as suas preocupações como montes ao longe. uma vez que o Duarte largara com uma moenda para o moleiro e não via.És tu. não perdera uma centelha daquele seu olhar magano. mais fria que uma corga da serra à meia-noite. pois então? Era ao entardecer e foi quase ao escapulir-se para a cerca. que conseguiu falar-lhe. saíra a dizer que tal habitação era semelhante às que se tinham feito no princípio do mundo. O Fráguas observava-a dos pés à cabeça com certo enlevo. o fumo. ainda nada pesadão.. Quem na dividia eram as arcas. do que logo se apercebeu com desvanecimento e vaidade. Tivera o cuidado de cobrir o xaile e de calçar as tamanquinhas..O senhor Antoninho haja de perdoar . Mas assim que atinou quem era. e eram de ferro. sou desenvergonhada. por fora. Mais assente. contra a luz. o Antoninho não a reconheceu. e para ela com sobrada razão. Achá-la-ia mais velha. sem contornos. a sua voz foi como quando se acende unia candeia no escuro: .

Eu sopro uma palavra aos louvados . mas não cavem a sepultura dos vivos.. atalhando a jaculatória.O senhor Antoninho não conhece os louvados.. mas paguem. ali viessem deitar âncora. assim que soubesse terem sido frustradas as suas esperanças. até umas vezes por outras. tisicado do gênio como todos sabiam.. Em realidade o que há pouco a atormentava era o que ia fazer o irmão por ricochete.... como a visse calada tempo mais que suficiente para tomar fôlego. Ele deu-lhe uma fungadela. Que não valia a pena. Bem entendido. lá medravam dois pinheiros revelhos escapos por milagre ao dente das cabras. Ora se sabia! Na parte pedregosa haviam deitado penisco e um aqui.. outro ali. tarde e às más horas. a três escudos. sim senhor.E queres a minha intervenção para que. o certo é que eram uns infelizes da sorte. que os gaios e a raposa não deixavam amadurar ali maçaroca e que lá de água.. Torres e do senhor Antoninho ali conservassem bens e. três semanas. logo a seguir. Pronunciara a lição de cor como tantas vezes fazia com Pêro e Sancho e estava admirada tão bem ter representado que um finório daqueles se deixara engrolar. afora aquele ano que haviam trazido de lá a sebe cheia. números redondos .a última sangra. mas andavam à resina . das vezes que ali passava à caça. . Deram-lhe ordem para não deitar nada na regadita.? Porque saiba. se foram quem eu imagino. e ela seria a primeira a experimentar-lhe a pancada. acabou-se. pois que fique. e não só lhes faltava pão no açafate. rompeu a concordar com ele. Há dois dias voltou a ter com eles tal bate-língua que chegou a casa num estado que ninguém podia com a vida dele. Eu desato o saco. e. de facto. e espantava que figuros da classe do senhor Dr. A regadinha hoje vale dinheiro. o Duarte não quis chegar-se às boas e vêm os louvados. Paguem e não façam como fizeram corri a Cismas que recebeu uma tuta-emeia. Ora cada um manda no que é seu. mas tinham que tirar dinheiro a 20% para pagar a décima. depois de ter consentido no sacrificio abominável de a 61 .. Estaria farto de saber. Não é assim. a comer. . por muito que o Duarte houvesse minado no oiteiro. Desejam que a terra fique a monte..disse subitamente o Fráguas. Vou-lhes dizer que tenham em atenção que vocês são pobres e levam vida dura.e que de facto o bocadinho fora agenciado pelo Duarte no baldio. foi pouco mais ou menos o que disse. tinha-a quando arreganhava a cabra e mijava a rã..? Lá que retalhem o chão. e queríamos semear lá erva. . que. deitava-se a perder se o não indemnizavam segundo os cálculos que orçara. como todas as propriedades daquelas parvalheiras. Talvez os engenheiros do Incas tivessem carradas de razão e o seu Duarte não passasse dum enxovedo que nascera com má sina. por sinal uma boa carrada. não valia o amanho. Ela. a fazendória era um pedriçal que dava quatro espigas chochas.. A regadita. Ela então não se conteve que não desatasse a rir.perguntou. que os pinheiros tão jambotos eram que não mereciam serragem.. Era isto o que ela lhe presentia no catarro.Não o quero demorar que está muito frio aqui no meio da rua.? . Era o nervoso. O pior de tudo era que o Duarte. Tirámos o milho. como tantas outras terras. O meu Duarte anda muito escandalizado com os homens do volfro. rendera uns duzentos e vinte mil réis.. e que só a murá-lo arrancara passante de trezentas carradas de pedra e trouxera dois pedreiros. ainda que de mau humor.. todo o ano a labutar como negros. por um reverso da decepção e por manha. com brusquidão pouco delicada.

negava crédito às línguas depravadas. Que era legítimo concluir de tais palavras? Sabia.. e três vezes volveu a cabeça. . Anoitecia. Dentro dela não se apagara a fogueira.Estás a mesma rapariga. como o visse calado e sério.Não diga isso? Estou acabada. brincando.tinha-o observado em muitas ocasiões . Mas exalava o mesmo odor poderoso e envolvente e ao seu lado experimentava a mesma fateixa forte a arrancá-la para fora de si. Casou lá para Muradais. O senhor Antoninho é que nunca mais quis saber.longe de pensarem nos engulhos que virão depois a sentir. para vinte e cinco anos. arranjou melhores entretimentos . as capelas cerzidas de garatujas.. já não se sentia há muito. não sabia o que murmuravam as bocas do mundo? O importante é que lhe não descobrira nos olhos reflexo suspeito nem vinco na face pelo que devesse ficar de pé atrás..? . ela a rir. Era a medirem o galão que dera o tempo. embora logo se arrependesse: . Eu?? Diga dessas. pois mal se calara o tamanco.. Assim animosa. E que estaria ele a pensar dela? Que estava boa para calço de panela? Talvez coisa nenhuma. Largaram cada um para seu lado. o seu tanto distante ainda.... o ar bendito das manhãs de Primavera. que é o mesmo que dizer bóia.vinte. E. O tempo não te viu.. E ali estava: dia em cheio? 62 . Mas ele metera cara ao portão e caminhava para casa sem olhar à retaguarda. Os homens quando estão diante duma mulher deixam-se seduzir pela ideia do gozo que ela lhes pode oferecer .Um dia será.. É um alegrão que lhe levo... talvez coisa nenhuma. Fitando-o de perto.. mas mesmo assim as palavras dele entravam-lhe no peito como uma golfada de ar fresco. julgava-se uma meronga. Durava o entremez: quero-te bem! amanhã será o dia? ..Pode acontecer. já ele dizia com voz que fingia de arrufada: Fartaste-te de mangar comigo.. Àquela efusão sucedeu-se uma pequena mas enleante pausa.. Ao passo que despedia. excitado porventura... bichas.Aqui me tens. O senhor Antoninho. Bárbara. não podendo desconfiar do que lhe ia no entendimento. e de expectativa ante o tamanco-seria ja o bruto do Duarte? . Rascoeiro até a morte? Afinal tudo isto de homens eram a mesma choldraboldra. e que bálsamo não era esse para a sua alma sentida? Tanto assim que teve coragem de lho dizer. cem vezes não.Agora.. proferiu reatando a ordem de pensamentos solapados: .. além disso.Nunca é tarde.Então não acredita? ... tretas? houvesse ele saúde? Saúde e. à volta dos olhos apardaçados.... Um dia. apoquentados pela soma de relices que saltaram a pés juntos para matar seus desejos. Como ele a visse rir. tornou rapidamente: . Sim.. Depois. mas ouviu-se desta feita a chanca da Ana Ruça caminhar para eles e ela furtou-se. Sentia crepitar a chama e difundir calor. e não. Quanto ao mais.que estreloiçava na rua. atirou o xaile e as tamanquinhas para um canto. e fora então que dera o salto à lura do Gradil. chegou-se para ela e passando-lhe a mão em volta da cinta. pois que lhe interessava ainda. disse com melado entono: . Ah. Meia bêbeda. viu-lhe reluzir nas têmporas os primeiros cabelos brancos e..Acredito o quê? Plantou os olhos nos dele.deixar ir falar com o homem detestado. Então lá dou o recado ao Duarte e bem haja. . Ia a abraçá-la outra vez. .

o pensamento lançado à rédea solta por incertos lugares e incertas gentes. terra de que não fazia bem ideia. salvo de que via uma senhora à janela de juba para as costas. até dez.. até que desenganada acabou por 63 . e logo a voz do Duarte encheu a casa toda: .. O vento volvia ao bufadoiro.Não disseste que havíamos de o dar ao senhor Tadeu?. Canudinho. nos lábios um grito açucarado: . humedecendo as coisas e trespassando as roupas.. infundida da molinha viscosa que. pregasses com ele na feira? . vencendo a hesitação.Olha. papudinha e desdenhosa. O que é o coração das pessoas. com náusea .. Solange Fráguas. foi para as lameiras da serra com as vacas e lá lhe apareceu o senhor Antoninho a querer saciar apetites. À ideia do forno com a borralheira à porta e os mendigos em redor a disputarem um lugarzinho mais bafejado pelas brasas.. tanto a realidade lhe parecia de carne e osso. Tropicavam socos na rua.... para a direita. Cerrou as pálpebras nesta beatitude. pois ainda não seria meio serão. o chambre. vem por lá o meu Duarte? Dianhos. não? Ora o fidalgo? . Bárbara . ping.. Ouvia-se para os cerros o seu bruto fôlego vergar as corutas dos pinheiros. tê-las sujeitas um instante a gemer e a guinchar. mais os meninos. mas levava as mesmas voltas.. a gota de água batucava em dois tempos ao desafio com o caleiro mais próximo e menos tomado da chuva: ping. girou a deitar-se.era a senhora D. Tornou ao volfro.. o galo cantou três vezes. e nova rabecada. deixe-me.. acabava por escorrer dos beirais. para as despedir depois com impetuosa e ríspida estridência: vuu! Sucedia-se uma pausa. três. um. Calaram-se e a noite continuou a dobar-se em mistério e escuridão.. das voltas que o mundo dá mais retorcidas que o nagalho dos sacos para.. Há duas noites que o ladrão anda a chamar desgraças .. O céu enchia-se outra vez de silêncio.. por lá a Rosa Pedralva que andava a cozer. mas há que tempos isso foi? O padre que coma as galinhas dos baptizados. Ouves. Em menos de um amém despiu a sala. continuou em meia modorra a vadiar por trancos e barrancos conhecidos. Foi num rufo a Muradais. para a esquerda.Corto-lhe o pescoço e toca a imolá-lo. este verdadeiro sono que leva a criatura para fora do mundo. dois. No poleiro. num rufo.. Cantava a desoras o maldito.À lareira gélida e silenciosa revivia a cena toda e pasmava do seu rasgo. sentiu-se transir e aconchegou-se contra o lumaréu... santo Deus? Não fora a realidade.. Deu voltas sobre voltas. que frialdade? Fechou os olhos e pôs-se a bichanar o padre-nosso.. e andou a estudar a maneira de se introduzir na mina do Vale das Donas e bifar uma abada de minério sem a caçarem na ariosca. pang.. durante a qual apenas sussurravam as frondes convulsas. que o Duarte fizera mesmo à entrada da porta por causa da fuinha.És muito franca? Disse. pang.Ai.. a qual apercebeu-se. . . e na lata que Bárbara deixara debaixo do algeroz. E ficou a malucar de olhos muito abertos em coisas e loisas. À força de ouvir aquela música começaram a fechar-se-lhe os olhos e. uma escuridão que abafava a casa como um corvo abafa os ovos que está a chocar. empapaçando a atmosfera.. entrara já nos gonzos e perguntava-se ainda onde é que ele estava. Acordou com o Fráguas a puxar-lhe pelo braço. tudo voltar ao que fora dantes. e enfiou-se entre as mantas. mas por mais que acalentasse o sono.Diabos levem o galarozI Amanhã corta-lhe o pescoço.

como a noite era arrastadiça. um Verão a porca pariu-lhes oito leitões e todos botaram à feira. andava tudo a lazarar. calava-se um instante. 64 . alé m do mais. tão longe que nem na margem povoada de estrelas. Por essa altura. que lhe andava aos ficitos novos num pinhal.. Mas não procurara fêmea. podendo ter boa enxerga. Custaria a aturar um côdeas e foleiro daquela ordem. minha santa. e com o que arrebanhava a mão canhota. Mil raios os confundissem quando olharam para esta terra? . que cobras e lagartos uma pessoa traz no seio: a morte de D. tornava a grunhir. Era como um porco a bulhar com outro pela bolota. com uma carapuça de Judas na cabeça. olhos presos à babugem da luz. Para esquecer e se vingar da mofina. o senhor Antoninho a dar-lhe a mão de esposo. No mais certo dos palpites.Deixa lá. Cresceu com o que Deus dava. lesma de todo! O Duarte ressonava. luz rarefacta do quarto crescente. sem um só dia raiar o sol. que era a delimitação do seu cubículo. criaram borregos e cabritos. graças. a rilhar a broa pelos caminhos. afundida no oceano de negrume que era o interior do casebre. da banda de lá da noite. o Duarte tinha ido à benta das Dornas com ideia de que a Ana Ruça lhe deitara mau olhado...ficar de costas. Grunhia. homem. Compraram uma vaca. Da mesma maneira que nascera nas palhas.. Não o fazia naquela altura porque as noites eram grandes e temia que durante o sono ela lhe fugisse ou o senhor Antoninho viesse ter com ela à cama. A casa cresceu.. tão longe. O regalo dele era encafoar-se pelo feno dentro. espreitou para a lareira: lá estava uma brasa a rutilar como o olho dum gato. Agora grunhia. era do palhal. dar trela aos rapazes e o respectivo retrós a torcer. ? Não. Duarte? Há! Estás a sonhar. que nem uma míssinha mandariam rezar pelo descanso de suas almas!? Todo o ror de anos da mocidade lhe foram de endoença. fartara-se de carretar para o celeiro como a formiga rabiga.Menos na minha algibeira. à meia dúzia de abadas de volfro que ia buscar à exploração do Incas! Mas que horas seriam? Erguendo a cabeça por cima da arca.. tem entrado muita nota? . Talvez encontrasse quem o quisesse. muitas vezes pensava: que valiam tantos sacrifícios. Solange. vencendo a natureza.? Espera. foi no ano em que a Cismas gritou aqui-d'el-rei contra o Silvestre Calhorra que para se vingar dela. Porque se não casava o grande jagodes? Nunca ele pensara nisso. e algum era. Em que data isso foi. engastada na cinza. a quis “levar ao castigo”. uns primos e velhacos na quinta casa. o Duarte instalado de procurador na casa onde estava agora a tia Ana Ruça. a alegria. manhãs perdidas. Os ladrões do volfro dão comigo doido. Estaria por lá com algum pesadelo: ó Duarte? . mas o Duarte suspirava.. o prazer de se assear aos domingos à semelhança das mais raparigas. todas bem longe de ter um palminho de rosto fino como o seu. do que mais gostava. Oh. Tudo ela sacrificara à cobiça daquele seu morcego. cada vez mais somítico e apertado de contas. Passava para o gemedoiro. estou bem esperto. Agora. noites mal dormidas. Anjo bento. ainda não teriam saído dos serões se fosse o tempo. mesa de lázaros. Ah. que se coava das telhas de vidro. de bailar no terreiro. da Rua Nova. e seria o mais. a mocidade. mas havia mulheres para todos os feitios como há formas para todos os pés. se tudo haviam de deixar a outros. como aqueles Fandingas e Urras..

Lá fora o ping-pang da chuva tornara-se repetida e molesta toada.. uns que ela conhecera. por sua tia. Achas pouco? Com dois contos dessa banda e com o que temos no volfro.. é que me tiraste da devoção. tinham por obrigação chorar os mortos. estamos governados. . E proferiu em tom de magoada inveja: . Agora não é ponto assente que o Dr.Diz-se que cinquenta contos. mas valeu mais assim. Durava aquilo há vinte. decerto a deitar contas à importância em que vinha a converter-se a queijada. Ouviu-se o vento zunir na cumeeira e nos intervalos a cantoria macaca do pote debaixo do beirado. Quanto lhe deu o Incas? . Por causa disso passaram grandes vergonhas.. até tomarem as cautelas 65 . dize. .. É verdade. Em volta do povo. não sabia ao certo. Os pinheiros iam com as raízes por baixo das campas chupar os mortos. além da resina e da caruma que davam para as estrumeiras.O Fráguas veio para comprar o volfro à capucha. Quanto calculas que podem escarrar? . Calaram-se..Olha. O pior de tudo é que se esbagachava como o canganho da uva.. Contava o que fizera pela vida fora.Aquela Malhadas é uma madrigueira? Vejam como tratam os defuntos? Mandavam-nos para aquele migalho de terra onde ainda eram úteis. A cabeça já lhe não governava..E tu a dares-lhe! Quis e tornei a querer.Dois contos de réis. Sua tia acabara zaranza de todo a falazar sozinha pelos quelhos. vinte e cinco anos. O Duarte calou-se um momento. Torres lhe deixe o charravascal do Santo Antão de mão beijada. muitos de quem já não restava sequer à flor da terra o eco dum sonido.Não sei. O carrasco do vento esmerava-se agora em arrancar aos pinhais maior e mais aguda gemedeira.? . Era um grande perigo se te apanhavam a furtar.. .Quem fica rico é o excomungado do Calhorra. já me dou por feliz se me pagarem a regadinha pelo seu valor. Têm vendido para aí minério que é uma abusão.. Assim.. com as tuas desconfianças. Reinou de novo silêncio dentro de casa. Importância tinha-a o que passava no papinho da gente.. Tu. Para que é que o diabo do homem havia de vir ainda tentá-la naquela altura. Os pinheiros.. Por isso.? .Apanhavam nada? . Também haviam de cantar em cima da sua campa.Eu não te estorvei. só havia matas. O Duarte tornou: .Não faço ideia nenhuma. outros de que ouvira falar.Não quiseste ir trabalhar para a mina. como sucedia na familagem.. pela tropa toda dos finados. enquanto se era vivo. acusara-se dos latrocínios que praticara e das maldades que fizera ou deixara de fazer.. e era um grande perigo para ela própria e para todos. O cemitério ficava mesmo soterrado entre pinhais. .Modera-te que não tens razão de queixa. era costume dizer a gente das outras terras: . Todo o santo inverno fartavam-se de lhes cantar o miseré. já que os vivos os não choravam. . Temos ali à beira dos seus quatro arráteis.. Faziam-no por sua mãe. Está tudo a nadar em dinheiro. Nãu_ tinha mais importância que o latim dos responsos.Talvez.

Tanto vale confessar-se a um padre como a um buraco.tornava a mãe.. Acabou sequinha como as palhas a pedir confissão. a sua rica saia de merino. mas quando desatava a acusar-se e a acusar os seus. Essa não falava alto pelos caminhos. senão era motivo para a levarem à justiça. Padre-Nosso e Ave-Maria: fora o que se chama lagóia espertenida.respondia o Duarte. Chamai um padre. senão ia dar parte. Aí é que está mais fora de riscos. Calhou ela culpar-se de coisas e de pecados que estava averiguado terem sido cometidos por outros. em caso de se vir a ser surpreendido. Agarrava o que podia. leinbram-se quando lhe faltou do coradoiro? Outra corria com a novidade: já se sabe quem bifou o cordão de oiro à Rosa Pedralva. como havia de suceder a ela e a todos.Vossemecê não vê que está zorata? . Queria que chamassem o padre e a mãe fazia coro com ela: . até a fazê-los.Se a alminha dela se perder vós sois os responsaveis.mas não pegou. Nos seus tempos nada lhe metia medo. Valeu à Bárbara ter coragem e contratestemunhá-la pela aleivosia que lançava sobre gente honrada. que é atirando o ovo a terra e gritando ao cão que vem a passar ou.. . E o ardil surtiu efeito. não havia ninguém que pusesse em dúvida que estava louca. servindo-se das palavras irresponsáveis duma tolinha. Nunca mais puderam deixá-la sair sozinha? Fechavam-na na quintã. à falta desse cão providencial. a Cismas foi a que fez maior escarcéu: “Queria para ali a sua sala. mesmo em casa. Vem o meninojesus ter com ela à cama . depois de erguer uma laja. 66 .. Fora assim em tudo.” Sua tia tinha dito em público e raso como a roubara e onde a roubara. a mão dela era uma gadanha afiada. é que se mete a farripa de lã para a algibeira. Rape. Só tem direito de lá tocar quem sobe ao poleiro. Rezava alto e era uma pagodeira. e sepultar lá o raio da saia da mulher. Mas o Duarte teve que abrir uma cova bem funda. Dava um salto na noite que nem gineta. Que surras não fez dar ao cão do Calhorra. Olha. o modo de uma pessoa atilada se safar da enrascada. para a algibeira. mas não tinha grande arte. Comia como uma tulha e nada a fartava.. abandonando-se a um homem casado. quando se está na carmeada e um patola se tranca diante da candeia ou se arrima a nós a fazer-nos gatimanhos.Chamai o padre. reduzida a esterco. já sua mãe era mais comedida. Diziam: . uma paz de alma. e ela passava o tempo de joelhos virada para duas paredes a rezar e a acusar-se. ao cão que mora mais perto do ninheiro. Ensinou-lhe também o processo de não deixar chocar os ovos nas quintas do próximo e. o Mondego! E tudo por esta cartilha.. que chegou ao estado de inocente. que nunca ninguém mais viu nem veria. Deus lhe fale n'alma. Fora ela que lhe ensinara a regra do bom viver: Olha.Vá ladrar a uma horta. para debaixo do avental ou então pela saia acima. . As comadres faziam-lhe roda e até lhe puxavam pela língua. Entre elas. todos se punhan à coca para ouvir e ir contar. rezava. quando se lhes enchesse a boca de terra. cães? . . Umas zoinas chegaram a testemunhá-la. De verdade.. menina.. já ela estava com os dentes enfechelados. acusou-se de ter roubado uma saia à Cismai.foi a tia Soledade. Descoseu-se hoje ao soalheiro. . que é um grande encarrego.necessárias.É Deus que fala pela boca dela. Você quer ir acabar à cadeia? Não foi pouco que o senhor Bacelar viesse ministrar-lhe a Extrema-Unção. Ela ainda ensaiara a estrangeirinha: Minha mãe é santa.

Nem homem e mulher. Coitada. A candeia era a única coisa que naquela casa não parava.? . e era delas. animada dum movimento de dança. De raro em raro trocavam uma palavra e era tudo: . o leite hoje é mais grosso. ele tosquenejava. Sua mãe.Está a gear. teria. e iam para as mantas. pouparam mais de trinta alqueires por ano e o caldo medrou tanto na horta que se desorelhavam as couves.. cada mocho a seu souto. acocorada sobre os calcanhares. Maria. E estava sempre a gemer: Tenho muita fominha. A tia Soledade vinha leve e rápida como das vezes que se metia nas frescatas do mosco. com aquela voz canina: tenho fominha! causava-lhe.Senhora mãe. Ela espiava a roca. dir-se-ia.Devorava um pão inteiro e uma abada de batatas em três tempos. Passavam o inverno com uma candeia de petrolina à dependura dum ourelo de serguilha por cima da fogueira. Comiam à lareira.Senhora mãe. Eram como unha com carne. tão próximos que ouviam bater o coração um ao outro. que custa a ganhar. Outras vezes o irmão clamava: . 67 . traçava a cruz no ar e evaporavam-se. Ia atiçando a borralheira porque sabia que o Duarte chegava entanguido. expirou naquela chieira: tenho fominha! e com a mão na boca a fazer o gesto de engamelar. Às vezes ele acabava primeiro o caldo. e sentava-se à beira da cama. Como se atormentassem com estas idas e vindas. lado a lado. não esfarele o pão. A cada passo visitavam os lugares. Às vezes acordava e ouvia-o dizer com santa paciência: .ia jurar que vinham reavivar o fedor que se sentia na casa. Rezava então pelo eterno descanso da tia e da mãe. Não voltaram a ter com ela. Seu irmão não as sabia esconjurar. pé ante pé. Bastava que a bafejasse a aragem. Pode deitar mais um quartilho de água na panela. mas passaram a afligir o Duarte. De noite. Outras vezes o Duarte largava a deitar as águas. desde que estiveram depositadas no celário. as vacas fartaram-se de canas. Soava um ronquido e esse ronquido não podia deixar de ser a velha a protestar. umas vezes a fiar na roca. Parava a chuva. e por todos os fiéis defuntos que lhe vinham à memória. ela continuava a andar de roda. abrenúncio. nas sachas.É depois que a gata da Pedralva desamurou daqui. Quando lhe faltavam com a malga do caldo ou se atrasava a trincadeira com os empecilhos da lida ia-se à pia da porca e atufava-se na vianda. ela no esteirão. Depois que deu a alma a Deus. então que já não lhes faltava côdea no açafate.. o próprio tempo. a bater as matráculas dos queixos. muito compostas dentro da mortalha. outras vezes a rilhar a côdea. e era dessas vezes que a alma dela se amedrontava e fazia pequenina. mais nojo que pena. Jesus. as paredes alegravam-se. Outras vezes era ele que o fazia a ela. Tudo lhe servia para encher o odre. às vezes pingando.Arrefeceu. De dia. nas regas. . Mas deixavam um cheiro acre . Se punha uma rocada de carqueja ou de sargaço. Ele sentava-se no banco. Miguel se não voltassem mais. Ela virava o fundo da sua malga para a dele: Pega que não tenho fome. ou na pedra lar um graveto erguesse mais alto a chama. de ventre empinado e a bater os queixais. Faleceram as duas com diferença de um ano e por muito tempo a casa ficou cheia delas. ela acabou por prometer uma novena a S. na lavoira. Apareciam de noite. Assim se desvaneceram ondas e ondas de anos. molhado até os ossos. Disse o barbeiro que tinha a solitária.Ouves os ratos? .

Passou o murmurinho pelos lábios do Duarte. Ela de princípio também se iludira. plantado como um buzilhão de pássaro numa das patorras. se ocupasse das vidas alheias. .Estás a rezar? . . a casa recaía na sua morna tristura e lôbrego silêncio. 68 . Sempre assim. não que precisasse das suas falas. Agora uma passarola qualquer esganíçava-se por cima da casa. ficou a conhecê-lo. Desde a hora em que se engrifou com ele. Ora o serão é para tudo isso e para o que é menos é para fiar.Se te derem os dois contos não fazem grande favor. Um espiche de ar atravessou a casa. esgrimia com os braços. por lá gente que voltava do forno. Falava pouco e quem fala pouco mete mais respeito que os fanfarrões... e ao cabo da oração tornou-lhe a ouvir: . À porta eram capazes de dizer que os roubei. E a noite lá ia mancando.Darão os dois contos pela regadinha? O cão do Calhorra saiu-se a dizer que a não queria por quinhentos mil réis.. Credo. buliu com o quer que fosse que tinha jeito de papel ou asa de noitibó. O que acontecia era andar oito dias mais macambúzio que um cerdo com arganei e não lhe falar. . padre-nosso . No fundo. tó ruça. Também lhe era preciso “pedir a vez” que não lhe restava mais que pão e meio no tabuleiro. Por dentro era um borrego. porco!? Dorme. . passeava a outra sobre as brasas. perdida no meio de penedais. Rosnava. Pelo repouso de sua alma. caía neve que se desfazia o céu em farfalha branca.. que não era nada de nada o que a outra gente supunha! Sua mãe falecera por aquela altura. Ameaças.. Acompanhava o rosnado dum encrespar de sobrancelhas que fazia gelar o sangue aos que se dispunham a defrontá-lo. escamugiu-se pela gateira da porta depois de percorrer os cantos todos como uma doninha e deixar um frio mortal. Barafustava. Ficaram calados.. mas bater como quando era moça.ouviu dizer o irmão. único na terra.. e até os fantasmas das duas defuntas. grito ó da guarda? . vá. Safado? Se me derem menos. Que doze anos aqueles! Primeiro a aturar as almas penadas. Mais de uma vez se tomara de rixa com um ou outro atrevido. bufou ao borralho. Temiam-no supondo-o capaz de maus repentes. Ouviu-se a chuva tamborilar no telhado e nas lajas do caminho. tenho para ali duas dúzias. O Duarte não tolerava que ela dançasse. folgasse com os rapazes. tudo aquilo era postiço. Tamancos apressados chocalhavam na calçada. Era como os cachorros de porta que mostram os dentes. Daquele modo a vencia.. Mas desde que vinha o Duarte e. a cozer há oito dias sem interrupção.Pois se me apanho com os dois pacotes!. A gente que fora ao acompanhamento voltara tão caiada que nem parecia deste mundo.. mas nunca mais se atreveu a tocar-lhe com um dedo molhado. Tinham cortado com o serão.Com que sonhas. mas só os vendo na feira. Passaram por ela carros e carroças de pensamentos.Reza também. Por alma de nossa mãe. depois as manias dum solteirão. com a perna encanada. Os palitos não custam a dois tostões a caixa? E os ovos? É verdade.A labareda era uma aleluia: espantava medos e negrores. vagarosa como uma ovelha velha.. Extinguira-se na lata a trasbordar o batuque da gota de água. pontuado de sibilos como do vento nos buracos do telhado.. mas porque lhe causava dó aquela eternidade inconsolável. que estais no céu.. Ferrara-se a chover deveras... mancando.

. porém.. um bigodinho muito nédio. Fora há doze anos.Barboreta? Àquele engodo celestial respondia ela com um aulido estridente e gozoso.. Mas. filada pelo braço.. a coruja piou em quantos telhados havia no cimo do povo. transido de cólera..?! 69 . onde uma vez esperara com a tia Soledade o recado arriavioso do dianho dum fidalgo. Bárbara estrenoitava em pleno transporte do seu ser. Mas o facataz vinha de mais longe. deixe-me! Qual deixar? Para que andara com negaças? Ia-lhas pagar todas. no arrabalde de Orcas. As camélias estavam suspensas a vê-Ia e parece que também elas diziam com o Fráguas no chilreio dos passarinhos: . E..Ó desenvergonhada.Minha desenvergonhada. Sua mãe. porfiava. Essa pessoa vinha não sabia donde. e a voz lançada na noite silenciosa não era mais que a expressã o do mistério inefável.Quando morrera sua mãe. Lá vinha ele todo dengoso. pesava como chumbo. parecia a duma fonte a alegrar com seu murmurinho os codessos do montado. talvez do mundo todo.? Se me não deixa. O corpo dele nu e truculento enchumaçava-se na meia penumbra que descia do olheiro de vidro. A sua voz.. Estás a sonhar com o varrão.. Não a deixava e conduzia-a para o meio das giestas. que era como que a voz. mau grado da bicha-solitária. como quem não quer a coisa.. a súbitas. ouvira dizer a um figurilha. ao passo que bruta mão a sacudia... mas tinham ar de ser bisnaus. Estava no seu princípio e era fresca como abrótega. a agarrá-la. Que zarelho! Mas era casmurro.durna segunda pessoa a desdobrar-se da sua carne. que estás tu a sonhar?.. vinte a vinte e cinco anos àquela parte.. via o Duarte.Olhe que eu grito. berravamlhe: . aguçavam o bico na casca das franças e espreguiçavam-se desembainhando molengamente a asa sarapintada.. Ela recrudescia em sua zanga: . acorda.. desabavam aves e flores daquele céu de presépio e. Recurvo por cima da enxerga.. a brenha transfigurava-se no bosque de japoneiras em flor. Passarinhos que nunca vira. Ao tempo usava bigode.. Eram seis homens a levá-la. cada vez a abanava mais: .. ela via-se na obrigação de sacudilo: _ Deixe-me? já lhe disse. preto que nem azeviche. Também ia no acompanhamento o senhor Antoninho. grito. Subitamente.

à sombra dum penedo se fizesse bom tempo.V À hora do meio-dia os caminhos para o Vale das Donas animavam-se.Deixem lá ver o que sobrou do almoço. é nojento. a sua faca. Ao longo das escavações. interjeições joviais. no cotovelo do caminho.Veja. E. Ceifões. com o seu garfo. que já se estendiam pelas leiras e excresciam em montes de desaterro. Chegados aí. uma ou outra vez varrido o prato para o rafeiro fiel. um homem comandava: alto! Eram os vigilantes da mina. porque come muito com os olhos. ala. Calçam sapatinho de pelica e andam que nem comboios. sim. a terra baça cobria-se de losangos brancos como se por ali se houvesse esflocado neve. por uma qualquer coisa se engulha. só de jornada e pelas tabernas. nas barracas em dia de chuva. acendia-se toda aquela branquidão dos almoços. À mão. As de Mouramorta porventura tangiam esquila. Dos quatro pontos. mas há-de ter a ilusão que está em casa. não menos desdenhosa: O rancho de S. E novamente a campina se alagava com a voz de córrego das mulheres. traziam pela mão a garota descalça. um tamanco que tropeçava. tigela em punho. Com a cesta à cabeça ou enfiada no braço. um aqui. de par com o trrá-trrá das tairocas ferradas mordendo o códão e o lajedo. os cordões de oiro e as tamanquinhas de verniz com que ficavam umas fidalgas. em grupo acolá. que passavam da centena os assalariados. Malhadas da Serra. Que havia de ser senão a busca prevista?? já se não revoltavam. À volta da mina e encosta fora. Gastam em cheiros quanto ganham. S. 70 . ou rompendo de trás dos barrancos.Lá vêm as de Mouramorta. O jornaleiro agrícola tem outras exigências de mesa que não tem o operário das cidades. Sentase por terra. semeada de aldeias lôbregas. De certas culminâncias descobria-se o desdobre dos vales e por eles fora os velhos caminhos vadios. Mouramorta. Alçavam a mão para os cabazes no jeito de soerguer a toalha: . e não era romaria a nenhum dos santos milagreiros que dos altos picotos espargem sua brancura celeste pelo mar de urze e penedal que é a Nave. presumidas disse. traçados com tantas curvas e reviravoltas que bem se notava não saberem o que era tempo os homens do passado. vinham mães e irmãs com o comer para os homens que trabalhavam no volfro e os passos daqueles andurriais repercutiam das vozes ásperas e cristalinas. Brás hoje está adiantado. mas de olhos floridos da maravilha que era a mina donde brotavam as saias de chita deslumbrante. Brás da Nave. quer dizer. veja bem. Nos dias estivais. Pedrões. os ranchos avistavam-se reciprocamente. rotinha e ranhosa. arrumada a louça.. Arriando as cestinhas.. outro ali. costas dobradas. contra o desmonte. a sua baixela ainda que humilde. um apelo mais alto lançado ao longe. prestavam-se de boa mente ao exame: . neolíticas... a trouxe-mouxe. o que dava ensejo a trocarem as raparigas as suas impressões: . Transcorrida a hora regulamentar. estendiam a toalha do comer. Não raro.

em vez de trazerem o minério assim em bruto. Os processos variavam. A Administração acabou por fechar os olhos a um género de fraude assim miudinho. a título de pôr cobro a desvios que computava de nonada. Mas os guardas porfiaram na caça. que consagrava a manha como uma virtude e admitia roubo desde que praticado com boa e original sagacidade. bem à vista. reduzidos a fazer mão baixa apenas em 71 . Não levavam por isso as buscas até onde o Antoninho Fráguas queria que se fizesse em Muradais: despir as mulheres antes de largarem com o gigo do comer e dar a sua purga aos homens. Depois. areias estremes que pesavam às vezes onça. Fora precisa uma apalpadeira. embora não impossível. mostravam-se elas mestras no engenho de passá-lo. ou jogando chufas. passavam-na ao estreito. que não havia como o miolo para esconder umas pitadas de volfrâmio.Podem seguir! Riam com desafogo. a montagem dum cordão fiscal mais próprio para vexar do que para trazer prestígio ou emenda. Hincker folgava imenso quando lhe faziam a história de tais ardis em que se aprazia ver ressurgir aquele génio celto-turdetano. as que transigiam levando o vexame à conta de patuscada. por isso mesmo refractário à filtragem. Tais e tais abarrotavam de contrabando. que era homem de rasgo e vistas largas. Tornouse difícil a roubalheira. Foram apanhadas algumas mulheres com pedregulhos tão recheados de volfro que excedia o arrátel. oferecendo uma pinga na terra. Mas também acontecia. e deixava correr. era o mais cândido e comum dos recursos. ditara para os engenheiros: _ Não aparem as unhas muito rentes. traziam-no em estilhas. De princípio a escandaleira passara as marcas. dando ao topete: . e em última análise insignificante no volume da massa mineralizada. e ia até apalpá-las. Fazia-lhes ainda plantar tudo no chão e. mesmo com os capatazes à perna. na exultação de terem iludido a devassa ou por natural singeleza. tão falho de escrúpulos como pitoresco. com o que multas recalcitravam. à semelhança dos guardasfiscais nas barreiras.Deixem lá. uma vez limpo. dado que andasse de pedra no sapato ou recebesse ordens. varrer as migalhas e restos para terra ou duma vasilha para outra. E perdurava na opinião de que não valia a pena. desde que tinham tranças grossas. e botavam à grandura dum ovo de codorniz. desafiando a imaginação mais fecunda e atilada. metia o nariz até ao fundo das caçoilas e mandava-lhes esfarelar a grossa broa centeeira. Enfronharem-no no cabelo. sem arestas que lhes magoassem a tripa. e desanichara a mulher jeitosa para tais artes numa das frandunas que tinha por conta na almuinha do Rapa-Tachos. como nas minas do Rand. reprimiriam a fraude de maneira a que os rapinantes. arrebitar apenas a ponta da toalha e proferir de bom grado. sem que ao focinho do argos chegassem ventos da candonga. Hincker. O que se evade por esta forma não conta. . O volfrâmio. Assim como os homens conseguiam sempre um meio de escamotear o seu migalho.O homem. Equivalia à exsudação inevitável que se dá nos canos de gás e nos depósitos de benzina. posto não conseguissem estancar de todo em todo a fuga sub-reptícia do minério. Por enquanto vai chegando para se furar a pele aos godemes! Com providências elementares. alcançava altos preços e corria que certos párias quando apanhavam uma pedrinha a talho de mão. É o quinhão dos ratos na despensa e dos pardais na seara.

adquirir e consertar ferramentas. produção. Hungria e Croácia. Graças ao metal precioso.notificara Hincker aos agentes. o petróleo romeno. O Aires trouxe consigo o Quim da Urra. Como o volfrâmio atingira a escala do oiro. mais produção era a sua divisa. o volfrâmic. a febre de minar tornara-se endémica. arvorou em capataz. amarelos. Uma turma manejava já com acerto e eficácia os revólveres de ar comprimido. montado o dínamo. e o carvão do Ruhr>. escudado por Berlim. integrados em conceito tão dinâmico. não causassem dano de monta. foi investido do cargo de fiel. o mais invejável possível em face da importância que assumiam os minérios de tungsténio no fabrico do material de guerra.. recebido a preciosa fazenda e abalado de noite em direcção às forjas ciclópicas de Leste.Vamos até onde a concorrência nos force . francês e espanhol. pretos. Produção. não sendo em tempo normal duma produtividade de primeira. A libra saí do suor de toda a gente que cobre a terra. depois de frisar a significação ecurnénica do facto. Representavam estes por sua constância e ainda gratidão o partido dos legítimos interesses. 400 a 450. e outros que lhe eram afectos. tendo por função especial contratar e despedir gente. tinham parado ali. homem para quebrar uma laia com os dentes. fechados a ferrolho e lacrados. como em regra as outras da província. bem lembrado do seu grande desembaraço na estrada para Orcas. reverberada porventura do lema que norteava o Reich hitleriano. e tratavam de instalar separadora e lavaria. saltando por cima das teorias estabelecidas pela economia política em matéria de capital industrial e seu rendimento. havendo a intromissão dolosa do Calhorra desobrigado Hincker dos compromissos tomados na primeira plana. a Hermann Gõring Werke requerera o alvará de exploração. . de Portugal. embora não haja guerra mais desigual do que esta que sustenta o marco contra a libra. a bauxite de Itália. A dois meses da primeira enxadada tinham erguido no Vale das Donas armazéns e telheiros de abrigo. O pessoal superior repartiu-se da Sobriga para a nova empreitada. 750 nos entrepostos. . o níquel da Finlândia. E mãos à obra.Vamos. Chegou aos ouvidos de mister Corbet o dito detraente e observou: 72 . ruivos. Ou pelo menos partiam desse pressuposto. Depois de pesquisas mais ou menos prometedoras no Vale das Donas. só não cantava as estrofes heróicas do DeutschIand über alles na música da Internaclonal porque a desconhecia. e os engenheiros e os próprios capatazes. desencadeadas com a concorrência e a cotaçáo espasmódica do produto.000 rs. Na expressão enfática dos Nazis. Já por duas vezes os grandes camiões de seis rodas. afundidas em criptas à prova de bomba. que o engenheiro Severo.quantidades mínimas. o quilograma às portas. o ferro noruego. surdos e cinéreos. superintender nas arrecadações. e donde menos sai é do rico corpinho de john BuIl. Hincker visava acima de tudo aos resultados. não há que ver. “a velha Europa estava a defender-se com armas fabricadas com o que havia de especial em cada terra. procediam à vara larga. Augusto Aires. exclusivamente do suor de Michel. E o senhor Hincker. O marco sai do suor. sobre a conduta dos quais podiam repousar confiadamente. E por natureza estavam destinados a contrabalançar a corrente da desordem e da cupidez. era. presumia a Wehrmacht possuir o primeiro armamento do mundo. A exploração.

E sucedendo que os trabalhadores. O capital anónimo era dele e. E acontecia da manhã para a noite ficarem uns podres de ricos. Pode haver equiparência entre os dois? Lavradores patudos. esvurmadoiros de saibro e rimas de pedra. correndo debaixo do rótulo do Calhorra. viravam a courela desde os penetrais ao húmus. se lhes sobreviesse uma tifóide. levantados os salários. veio a averiguar que. Mas no meio da vesânia geral não havia maneira de um insucesso pôr entraves aos despaurérios da cobiça. à falta dum indicador no gênero do Livro de S. além do seu tempo de feitor e respectivas sentenças. . E. Com efeito a pesquisa oferecera logo de princí pio promessas tão pouco satisfatórias que nada justificava trazerem ali a gente em barda que se sabia. Assoclavam-se às três pancadas e um pouco à toa revolviam o solo onde aflorasse veio de quartzo.Pode ser que lá se encontre mamara. Uma martelada imprudente cortou a corda e três homens vieram britar-se nos abismos rochosos da torrente. se tinham a vaca doente. e para as bandas do Ladário o fosso foi de tal ordem que se assapou sobre os pesquisadores a capela dum santo. . o trabalho dos dois filhos. O resultado as mais das vezes era calamitoso. cerca da ponte da Mizarela. e em muitos casos sem outra razão que a de serem donos de duas aguilhadas de saibro ou de fraga. Em verdade. pois que este 73 . fizera banca com o Simão Tadeu e um capitalista inominado para explorarern o filão descoberto nas terras do Dr. Por montes e vales a terra aparecia picada desta furunculose. na região. ou ir à consulta do subdelegado de saúde. arriscava. Nas arribas a pique do Cairria. Cipriano. A mamara era o volfro. devorarem outros o seu e o alheio. à mão-de-obra. O Calhorra. porque às qualidades nutritivas do leite maternal reunia a vantagem de ser grato Deo. alegando não ter vintém e sorvida a massinha ganha com o endosso do Vale das Donas na voragem de velhas dívidas.Vamos experimentar na belga . suspensos por amarras do alto cairel. que era homem turbulento e de sorte. lapuzes que antes de descerem à cova se benziam três vezes para o volfro lhes saltar ao bico da picareta. animado de espírito comunal. tal como as trutas na ribeira e os coelhos no monte. o Calhorra. Esgaivavam na seara e no maninho. de modo a poderem alforjar para os bolsos e terem arame para a vinhaça. refluíssem em número da Sobriga e do Vale das Donas para ali. O padre não passava da union-jack daquela empresa escura. associavam-se uns com os outros.avisava-se de dizer um belo dia o visionário à tribo congregada.. por baixo das casas e das ruas.O Reichsmark é um farroupilha e a libra uma grande aristocrata. dito e feito. e manta do Diabo sempre a ponto de encobrir-lhe as mascambilhas. a engenhara a alma danada do Fráguas para servir de ventosa. além um poviléu inteiro que. Hincker fez reparo. ou qualquer filão encasquetado em granito. Manuel Torres. gato escondido rabo ao léu. Que mina era aquela do Santo Antão com uma exploração tão paradoxal? Examinando bem. onde punham nada mais que o palpite. manobrava a toque de sino a picareta e a enxada. tão fonas como suspicazes. Aqui era uma família que fazia a lavra por sua conta e risco. ao Santo Antão. que noutros tempos seriam insusceptíveis de arriscar uma coroa com o veterinário. desmentindo o princípio de que o português era um primário na fase da inaglutinação. Manuel Torres. Cavavam onde lhes sugeria o sonho. implicava a responsabilidade do Dr. trabalhavam firmados em andaimes sucessivos. rasgando valados e fojos absurdos. estilhaçada a pólvora bombardeira e a gatilho.

Marchanteava aqui. pelas quintãs. ou simplesmente soprada por uma aragem imprevista como os gafanhotos. com os dedos dos pé s a espreitar da biqueira arreganhada dos sapatos amarelos e a crina da trunfa a espichar do velho mazzantini derrubado. O exame dos peritos foi-lhe desfavorável. Como vinte gramas do minério rendiam mais que a melhor jorna. Severo Bacelar foi despachado a Lisboa representar contra a comandita. e ainda por bandos em certos sítios da chá e do cerro. e alguma colheita fazia quem tinha pachorra e olhos de lince. Torres concordou e prometeu rever o assunto. Em verdade. todo o jarreta. desde o Antoninho Fráguas e quejandos. comparável pelo número e carreira que faziam uns atrás dos outros à das lagartas no enfolhar dos bosques. daí o suceder pagarem o volfrâmio um pouco mais caro que a cravagem do centeio. À noite. De par com actividade tão tumultuária. Entregavam-se a esta tarefa em geral os velhos e as crianças e uma ou outra pobre mulher. candongueiro. salteador nas suas horas. Na veniaga desaguava toda a casta de indivíduos. ou movendo-se aos pares com a lentidão compenetrada. ouviam-se os martelos até altas horas a britar o quartzo. do bronco assombro dos penedos destroçados pelas leiras. e nunca se sabia o seu montante. trazido à tona pela relha do arado e a enxada dos cadabulhos. que por vezes cortam fundo. com a carteira atafulhada de notas. tanto fino como em bruto. Protestou. desabou sobre a várzea de Malhadas a mendigagem de Cruita do Alto. 74 . ao cigano tropiqueiro. Nas terras de sementeira ou de pousio enxergavam-se vultos pervagando isoladamente. que implicava atropelo e agravo para eles. Fazia-lhe frente o Calhorra. de mistura com o: dê lá uma esmolinha! . vendilhão. empresário de pedintes. A certa altura. ao chamariz do Roupinho. que em tempo normal enxameavam pelas portas a comprar o cornelho e a moinha e a belfurinhar a petinga corchada carretada à cabeça da Régua e de Caverriães. e pouco era. o Calhorra arvorou-se em negociante miliciano de minério. se Manuel Torres cedera o terreno a Silvestre para o explorar a título de compensaçao pelo dano que lhe causara o Augusto Aires. o apanhado ao rebusco pelos campos. com o solo de alqueive. o arranjado ao pilha e outras malas-artes. vendia acolá.. Mister Corbet surgiu a reclamar o direito de prosseguir nas pesquisas a título de que o terreno em questão estava adentro da área registada em seu nome. o compromisso caducara automaticamente em face da atitude posterior do trapaceiro. ociosa e lazeirenta. prontos a tomar o minério de contado. homem da rifa. Comprava o produzido nesta e naquela lavra singular à margem da lei e da razão. Eram os rebuscadores do metal desligado da madre por erosão. dir-se-ia. gente de gravata e cachucho no anular. Entretanto o Calhorra era avisado que tinha de suspender a exploração até nova ordem. O Reganha ia.. não podia deixar de crescer dum dia para o outro a cambada pitoresca dos traficantes. O Dr. Conhecidos os dados do problema. E eram uma praga borbulhante. toda a velha foleira. aldeia duma densidade asiática: todo o garoto. A cada passo batiam à aldraba. além calcava o pãozinho na medrança. Interrompida a actividade no Santo. os agros andavam coalhados duma vérmina que se aqui não causava detrimento. nas escaleiras toscas de granito. e arrebanhava tudo.ainda tivera a lembrança de registar o filão em seu nome. na esquerda cobres. e um abuso de confiança em relação ao proprietário. na mão direita um saco.

Tanto Corbet como Hincker traziam assoldadados, não falando nos compradores oficiais, agentes secretos que compravam o volfrâmio a este e àquele pela porta travessa, na intenção simultaneamente de, seguindo a marcha do negócio em seus conchavos e vias ocultas, estarem habilitados qualquer hora a refrear a roubalheira e a prender os larápios. Foi por este canal que na mina do Vale das Donas se veio a saber que o Calhorra vendia todas as semanas uma dose maior do que era lícito supurar, tendo em vista o minério arrebanhado duma banda e doutra. E, motivo superior para ficarem de pé atrás, o velho negava-se a transaccionar com quem quer que fosse que não ostentasse bem clara a marca britânica. Ao Augusto Aires foi dada carta branca para deslindar o cambalacho. Era preciso o maior recato na devassa para não pôr a conrobia de sobreaviso, mormente o Calhorra, conhecido de tutilimúndi pelo autêntico pai da manha. Por isso o Aires andou a escolher a dedo os seus moscas, não se contentando que fossem cautos, mas sim que dessem prova de sagazes, com arte tanto para armar como desarmar um estrangeirinha, surpreender a ariosca no ar, seguir o fio da meada sem o enredador dar por isso. E ele com o Quim da Urra tomou a cargo espiar as passadas nocturnas do raposão, esperando-o a pé firme nas seitas costumadas e nos locais em que era useiro. Só ao cabo de semanas puderam ter os cordelinhos na mão. Secundavam ao Calhorra dois meliantes de alto bordo, o José Francisco e o Luís Ougado, aquele para a alicantina comercial, este para a alicantina, digamos, mineralógica. Ambos de estrela, beta e pé calçado, mas o seu braço direito era o Ougado. Era ele que no Vale das Donas metia os camaradas à ratonice e lhes dava instruções úteis quanto a uma indústria de si tão perigosa como arteira. Demais, era ele que recolhia o saque na quase totalidade e pagava proporcionalmente aos contribuidores. Mas na operação subsistiam quindins de todo impenetráveis. Como é que o volfrâmio continuava a fugar-se do Vale das Donas? Os guardas redobravam de vigilância e astúcia sempre que submetiam à revista as paquetas do comer. Mas nada descortinavam. E ou elas tinham de facto acabado com a candonga, ou haviam inventado sortes com que ludibriar o mais ladino. Hincker gracejava: - Pois que temos aí a Intelligence Service, não há remédio senão mandar vir a Gestapo. Além deste papel todo mercuriano, o Ougado exercia junto do Calhorra as funções não menos eficientes e herméticas de alquimista. Era o seu preparador. Fora do povo, na tapada das Margaças, onde em tempos erguera uma cardenha que servia para recolher o milho do secadoiro, se desatava a chover, e vinha dormir de guarda ao meloal, instalara agora o laboratório de morraceiro com ventoinha, crisóis, e os pertences necessários à mangola. Ali, alumiado pela candeia fumarenta de creosende, procedia à transmutação: os óxidos de ferro e o mispíquel, de que todas as explorações era abundantes, aquecidos ao rubro num tabuleiro de zinco e “engraxados” de maneira a adquirir brilho, tornarem-se “volfrâmio de lei>@. Esse brilho conseguia-o, entre outros processos, fritando a mistela em resina de pinheiro, óleos queimados de motor, ou negro da palha. Também, em vez da pirite, acontecia-lhe lançar mão da cassiterite e da blenda, que reduzia previamente a pó impalpável, e ainda do titânio, que na região e mais raro, mas tem a propriedade de ser dotado de peso específico aproximado do tungsténio. O minério verdadeiro servia-lhes para criar a

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superilusão caldeado com morraça, sobretudo para formar à superfície dos sacos a película venal: a amostra. Os belfurinheiros, mais ávidos que experimentados, vinham, examinavam a fazenda, friccionavam-na entre os dedos e na cova da mão, e punham-se, tantas vezes, a cheirá-la, que certos produtos não perdiam o odor próprio mesmo depois de “sublimados” por meio de ustulação. - Homem, quita de fungar - nitria o velho, deitando lume verde pela pupila de gato. - Aqui não se fazem tibornas. Pega ou larga! Acanhavam-se de levar longe a suspicácia. Além de império que baforava de tanta arrogancia, acrescia ser o presidente de senhora junta. E lá levavam a carga da mistela, paga às vezes por alto preço. O curioso é que, à parte estas transacções realizadas de portas adentro, a mercadoria dirigia-se em linha recta aos armazéns de mister Corbet pela mão do Antoninho Fráguas, que a recebia da mão do José Francisco, seu agente e digno filho. No Vale das Donas achavam-lhe pilhéria infinita. E pois que a tramóia revertia mais em prejuízo desse concorrente do que de outrem, os engenheiros da Hermann Gõring W,erke deram ordens aos capatazes para fazer vista grossa até o momento em que a fraude, no que lhes dizia respeito, assumisse maior vulto. O negócio do volfrâmio batia o auge. Sarabandeavam pelas portas os chatins comprando a olho, pesando, quando pesavam, em velhas balanças de gancho com arráteis à romana. Nem todos acalentavam ilusões: eram enganados aqui, iam enganar além. De modo geral as aldeias mudavam de pele. Cobriam-se as casas de telhados novos. O quintalinho era murado a capricho e a escarpa escalonada por bons e luzidios calços de alvenaria. Mas simultaneamente surgia o negócio do marchanteador de terras, compra hoje, vende amanhã, impinge logo que possas,- o pior dos venenos. Embora? A Beira, a velha província dos nobres solares em ruína, com vidraças sem vidros e grandes portões de castanho emplastrados com rodapés de lata, paredes à escoda e bojuda comija taciturnas, porque se não há nada tão loução como o granito novo, também não há nada mais melancólico que o granito das casas mortas, abandonado à corrosão dos anos e pasto de musgos e líquenes, a velha província rejuvenescia. Na serra, as raparigas atiravam fora a capticha de lã e punham blusa de gorgoriria por cima da sainha curta. Os rapazes compravam botas, a sua bicicleta, e armavam-se de revólver. O revólver, que era o símbolo da época, equivalia a uma emancipação. Só armados eram maiores, como sucedia antigamente com os pajens. Por seu turno os velhos campónios, dobrados à lida e aos impostos, viam pela primeira vez maneira de saldar velhas dívidas cancerosas e de se porem em dia com o fisco. Os harpagões das aldeias davam ao demo a cardada que lhes subtraía o carneiro à tosquia e aviltava o mérito do préstamo. Em regra entrava ar fresco, vigorizador, na pobre e mais ú til célula da nação, a localidade rural. Economizando daqui, puxando dalém, o Augusto Aires pôde adquirir o casal do defunto Pata-Larga, falecido sem herdeiros directos lá para Lisboa, e circunstância foi essa que levou o José dos Cambais a permitir-lhe o acesso à sua porta. Sempre que lhe era azado, vinha dar o seu dedo de colóquio à Teodora, que já não escondia os sentimentos. Não andavam os pregões a correr, mas ela ia aprontando as peças do enxoval. O José Francisco, posto que preterido, recusava-se a desarvorar. Aos domingos, de cambulhada com os de S. Brás e Mouramorta, subia a rua plangendo a concertina e botando cantigas ao seu amor dum dia. Apenas

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por estes rapapés se mantinha fiel ao tipo clássico do enamorado. No mais era em tudo o manel do século vinte: gravata de malha, lenço a espreitar do bolso de encontro à carapeta da pena de tinta permanente, sapatos de cor, na lapela uma divisa de clube em vez do raminho de serpol. Entretanto foi informada a Administração de Vale das Donas de que dos aviamentos do Calhorra em minério iam crescendo, o que supunha maior consumo do metal verdadeiro para colorir a potreia. Era de supor que, por contrapartida, dalgum modo os lesasse aquele progresso. E de novo os podengos da mina se puseram a rastejar a marosca. E tanto beberam as auras, farejaram, colheram zunzuns daqui e dalém, que acabaram, nos termos da linguagem batoteira, por dar no vinte. Um sábado, dia de paga, o pessoal em vez de cobrar a féria ao postigo, como era costume, recebeu ordem para ir recebê-la ao escritório por piquetes de cinco. Uma vez o primeiro turno em frente do pagador, o vigilante que tinha vindo da Sobriga, e era homem forçudo, mandou alinhar. Depois ordenou: - Arregaçai as calças! Os cinco homens tergiversaram, procurando eximir-se: - Ora essa? Para que havemos nós de arregaçar as calças? - Para quê? já ides ver. Arregaçai? Hesitaram. O vigilante buliu com o vergueiro. Ao lado, os dois auxiliares, cada um com sua ripa, aprumaram-se de cenho descido e silenciosos. Desarmados como estavam diante dos três pimpões, não tiveram remédio os homens senão obedecer. - Desatai agora os nastros das ceroulas... Compreenderam: estavam queimados. Mesmo assim, tentaram reagir. O capataz ergueu o cipó. Deslaçaram os nastros. Deste, daquele, de todos enfim, caíram pedras de volfrâmio, se miúdas no geral, algumas grossas como avelãs, e tudo minério estreme e cristalino. Um dos rapinantes mostrava os fundilhos esfiapados à força de servirem de alforge. Os cinco homens, a seguir à revista, foram encaminhados para o barracão contíguo pela passagem interior, e sucedeu-lhes segundo turno. A cena repetiu-se três, quatro vezes com idêntico cerimonial e vozes equivalentes. Derivou enfim, tendo os homens rumor do varejo ou, na mais simples das hipóteses, acabando por desconfiar. E antes de penetrar na barraca aliviaram-se da carga que traziam. Num desses grupos estava o Luís Ougado. A voz de: arregaçai as calças! Todos se prontificaram a fazê-lo - tão pressurosamente que semelhante despacho se tornou suspeito menos ele, o que, em contraste, se tornava pela sobrançaria objecto de igual prevenção. O vigilante, que tinha fumaças de teso, sentindo farsola pela proa, cresceu para ele, depois de atirar fora a cachamorra: - Ai sim, homem para homem! Em resposta o Ougado sacou do revólver e meteu-lho à cara. Mas o Aires dum salto prendeu-lhe o pulso, iludindo a pontaria. A bala foi cravar-se no chão ao passo que os dois pendiam sobre a mesa, parecendo que se tenteavam, corpo contra corpo, quando era o Aires que, filado ao braço do Ougado, lho torcia até obrigá-lo a largar a arma. A luta foi tão breve que o vigilante da Sobriga nem tempo teve para intervir. Quando viu o Ougado sem o mata-moscas, jogado de escantilhão para a casa ao lado, limitou-se a dizer para o Aires: - Deixe o homem! Não é esse que traz minério com ele. Outros'... O Ougado arruaçava: - Ceguinho eu seja se mas não pagares! Eu cá tas guardo.

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- Quando quiseres - respondeu-lhe o Aires. - Aqui ou no cabo do mundo, com aviso ou sem aviso, tens homem. Não só não prosseguiram no despique como puseram remate à rusga. Para escarmento bastava. Estancada a fuga do minério em Vale das Donas, voltou-se o Calhorra para a pesquisa de Santo Antão, recuperado o beneplácito do registante. Pusera este como condição expressa ser o Calhorra, sozinho ou associado exclusivamente a pessoas da freguesia, a fazer a exploração, não recorrer a capitais estranhos, nem ajustar pessoal que à data do acordo andasse ao serviço de qualquer empresa, salvo ter sido despedido ou autorizado. Deste modo julgou defender a neutralidade, acautelando-se contra as reclamações e injunções duns e doutros. O Calhorra, depois de deitar contas à vidinha, chamou novamente a fazer parte da sociedade o Simão Tadeu que, se desta feita se não decidiu ainda a arriscar a importância duma missa seca, induziu o José dos Cambais a entrar com a valia de duas juntas de bois. E manobrou muito pela sonsa para que ao Fráguas fosse reconhecido o direito de sacrificar ao lado dos amigos o seu pacotinho de notas debaixo do nome do José Francisco. E assim sob palavra, como era de costume fazer os negócios na província portuguesa, que para os antigos a palavra valia oiro e escritura em tabelião, se formou aquela bisca lambida com o fim de sarjar as entranhas do cerro à cata do tungstato de ferro e manganésio, que ali se tivesse coalhado desde o magma original para os Calhorras esfomeados e fura-bolos. Mas se atrás do José Francisco estava manifestamente o pai Fráguas; atrás do Calhorra, Mercúrio; atrás do cura, Deus e o Diabo; atrás de todos quem riscava era John Bull com precisão de ganhar a guerra. Salvo Sebastopol, os Alemães ocupavam a Quersoneso deliciosa dos Gregos, com seu mar sempre azul e cidades cheias de lenda e regaladas de perpétua primavera. Com o torpedeamento sucessivo dos seus portaaviões, a Home Fleet desertava do mar do Norte, o seu bulevar. Em contraste, poderosas formações da RAF sobrevoavam a terra germânica, plantando aqui e além cenários do inferno. Após o raide de 26 de Outubro a Hamburgo, que escavacara os bairros aristocráticos alinhados à beira do AIster, volvendo de novo na segunda semana de Novembro, despejaram sobre Berlim toneladas de bombas ainda mais explosivas e incendiárias. Os Alemães atupíram as crateras das ruas, e esconderam com taipais os prédios esbandulhados em atenção à estética e ao moral do público. E pela primeira vez rosnaram: “Pois é possível que a título de inutilizar uma fábrica de carrinhos de retrós, adstrita como aliás a mais rudimentar actividade à economia de guerra, ou mesmo uma oficina que manipula lentes para periscópios, se devastem quarteirões inteiros, para cúmulo, em países ocupados, reduzindo multidões indefesas a lama sangrental?” A ferocidade da guerra total tinha os seus reflexos até a mais remota ondulação da natureza humana. Também no Luís Ougado vibrava a sanha que lançava metade do mundo contra outra metade quando apareceu no Santo Antão a exibir a carta de desquite, e o Calhorra, acolhendo-o de braços abertos, disse alto para que constasse: - Deixa lá? Doze escudos também aqui os ganhas sem mais suor. Hincker achava o Calhorra sumamente pitoresco, dum pitoresco que o absolvia da nocividade, e deixava-lhe os caminhos livres, inclusive aqueles que conduziam à traficância. Consultado por Torres, antes da transacção, não vira inconveniente em que a lavra fosse retomada nos termos rescrítos.

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E o Calhorra e os seus pegaram-lhe com a gana toda, se bem que o filão parecesse de reduzidíssima possança e mergulhar. Por todo aquele fim de Outubro, no Vale das Donas, na Sobriga, na Tojeira, em Muradais, o trabalho prosseguiu tão afincado como surdo, e esse silêncio criador correspondia à pausa com que nos países em guerra se incubavam as ofensivas trernebundas. Do Vale das Donas, por um acaso feliz, saía minério a rodos, tendo dado numa bolsada que era o assombro dos engenheiros. Saltavam à picareta pedras com dois e tres quilos de metal puríssimo, e de extracção relativamente fácil devido à circunstância de o gaveto de granito descoser sem necessidade de fogo. Isso perturbou, quando correu o rumor, mister Corbet e fez cismar o Calhorra seu aliado, como aliado do próprio Porco-Sujo na colusão de interesses, além do mais, invejoso, o que não é para estranhar num bicho de presa e rapina, com o apetite nada enfariado. E o Calhorra decidiu nem mais nem menos levar uma daquelas noites de luar, com o céu estanhado pela algidez do codo, a velha guarda - os dois filhos, brutos e espessos como búfalos, o Luís Ougado, olho vivo e pé leve, o José Francisco, ágil e arteiro, a Florinda, a mais fina das lambisgóias - ao assalto do jazigo maravilhoso. Meia dúzia de arráteis que arrepanhassem contariam no orçamento dum cristão. Ora havia noites que o guarda da mina ficava morto com a tachada, podendo passar por cima dele carros e carretas que não vinha a si. Precisamente nessa tarde o Calhorra tivera jeitos de atraí-lo à pipinha, e graças à prateira de azeitonas e à lasca do presunto, despendurado da trave, a animar a funçanata como puxavante, o homem despediu dali que nem um terno de abades depois de um jantar de quaresma. Para mantê-lo no estado celestial, levou a largueza a aviar-lhe uma cabacinha, sabendo quanto o piteireiro era sanguessuga com o briol a talho de mão, e o seu palhete das Margaças chamava-se dum quodore de respeito no género de trepador. Às dez da noite, hora dada para o trancafio, o guarda ressonava à porta da barraca, enrolado no capindó, e o seu resfôlego era estrondoso como de cetáceo sentido do arpão. Não farejando vivalma que pudesse tolhê-los, a quadrilha muniu-se de picaretas e enxadas no próprio ferramental da empresa e guiada pelo Luís Ougado desceu à mina. A Florinda tinha a seu cargo alumiá-los, para o que o José Francisco a munira duma lanterna de furta-fogo. O Calhorra postara-se de atalaia, um olho no guarda, não fosse por lá o ladrão cozer antes do tempo a camoeca e fazer das suas, que era homem de maus fígados, outro olho nos caminhos, não se lembrasse o Diabo de trazer àquela hora os vigilantes ou algum engenheiro. Um assobio seu e os francelhos punham-se de sobreaviso; dois, e acaçapavam-se; três, e salve-se quem puder. O trabalhinho começou bem e prosseguiu pela noite fora com regularidade e aproveitamento. Não mexia uma paragana na terra, entanguida pelo codo e a crassa imobilidade do céu. Para o povo, de quando em quando, um rafeiro lançava dois latidos, aguentava-se vinte, trinta segundos naquela charachina, calava-se, volvia a ladrar, e ao cabo de duas notas soltas em bemol tudo tornava a soçobrar na paz nocturna. Um automóvel anunciou-se de longe, veio arcabuzando o silêncio, rorejando com a luz dos faróis a coruta das árvores, vestindo-as de brocados e pedrarias... rompeu adiante. Ainda não era meia-noite, já tinham extraído dois sacos de ganga, mais pesados que defuntos. A obra ia em seu curso, com denodo e sem quebranto, apenas pelo desembaraço um pouco caótico

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denotando não ser regular. já o Manuel Calhorra subia o terceiro saco, gemendo, que botava lá para os noventa quilos, ouviu-se não um silvo, nem dois, mas logo três, sinal de cataclismo. Cada um tratou de se escamugir para seu lado; a rapariga acocorou-se sobre a lanterna; o Manuel deixou cair a carga ao chão, que foi rebolando, fazendo pela escada de madeira abaixo o barulho dum casario a desaba. Acompanhados da Guarda Republicana, vigilantes e capatazes puseram cerco à exploração e catrafilaram os larápios. Não tardou que estivessem todos sob custódia, salvo o Calhorra que se esgueirara não se sabia por onde. Mal se ouviu soar um galope para a estrada, disse o Quim da Urra: - Lá vai o Calhorra... Mas em vez de tomar o rumo de Malhadas, o eco toava do lado de Mouramorta, e o Aires, que lhe conhecia as manhas, ponderou: - Vai avisar o Antoninho. Toca a prevenir. De facto, o Calhorra tupa que tupa, como mais tarde se veio a saber, fustigando a Ferreira, em pêlo, com os nós da corda, foi alvoroçar o Fráguas que dormia em Muradais o sono profundo dos justos, que em beatitude apenas diverge do dos patifes na cor que têm as asas do anjo de vela à cabeceira. Quando soube que levavam o filho preso - o que para o Calhorra era perfeitamente indiferente se não tivessem sido gazofilados os seus lapuzes - acordou os criados, mandou chamar o Manuel Minga, por alcunha o Espadagana, mais dois ou três companheiros da vigairada e, depois de se encharcarem de cachaça contra o frio da alba e para ganhar rompante, terçando de quantas espingardas e revólveres puderam haver à mão, lançaram-se na chocolateira, a toda, para Malhadas. Em Malhadas informaram-nos que os presos já iam a caminho de Orcas da Beira. O Fráguas desembraiou, meteu o acelerador a fundo e antes de chegar a Pedrões da Nave, ao cabo da recta, lobrigou a escolta com os presos. Afrouxando a marcha, conferenciaram: - Atiramos-lhes sem dar tempo a prevenirem-se? propôs um que entrara heroicamente pela bagaceira. - Não; é perigoso - proferiu o Minga, mais aliviado do cérebro. - Não vale a pena irmos já às do cabo. De resto, podíamos ferir os nossos. Prevaleceu a opinião moderada e foi o salvatério, bêbedos como estavam. Ao acercarem-se, evidentemente porque sabiam a rês que o Fráguas era, a guarda fez meia volta e aperrou as armas: - Alto ou vai fogo?? Detiveram-se; fingiram em seguida a maior surpresa ao defrontar com os detidos. Com modos irónicos o cabo aconselhou-os a arrepiar caminho: - Façam de conta que vão errados. Nós é que vamos bem: ordinário marche! O Antoninho convidou-os ainda a molhar a goela na tavertia, que era costume o Catrino ter sempre um vinhinho de três assobios e, como se estava na quadra das matanças, a assadura mais que certa para amigos e unhacas. O cabo não ignorava nenhum dos estratagemas a que recorriam picardos e contrabandistas em tais colisões, e muito menos a boa peseta que lhes saía pela frente, todo falas de mel depois que vira as Mauser engatilhadas. - Não se mate. Havemos de entregar entes anjinhos, em jejum, na cadeia do concelho. Foi promessa que fizemos a Nossa Senhora da Agrela. O Fráguas retrocedeu com os seus, enquanto a escolta prosseguia para Orcas da Beira. Os presos foram entregues ao administrador. Rogos,

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puseram-nos em liberdade. Dizia-se que Hincker se empenhara por semelhante solução. que já envolvia corrigenda e era a menos susceptível de lhe causar engulhos e contratempos.súplicas. 81 . decorrida a semana sem culpa formada.

o que a levou a dizer com regozijo. Bárbara meteu de espora fita para o Vale das Donas. os pesos que eram ladros. Tem à roda de quatro arráteis. . entre eles o Zé das Almarges.Vamos a ver com a chave. Mas o Leónidas. O Luís Ougado quita de sabê-lo. que o pagavam à justa. o braço inclinou-se impetuosamente da banda da veniaga. Tinhao num taleigo e pendurou-o dum lado pelo nagalho. O Duarte assistia à operação muito interessado e sem abrir boca. Mas esse. introduzindo o dedo na argola. Parece que era um sacrifício que fazia em pegar-lhe. tudo lhe servia de pretexto para peguilhar: a fazenda que não era estreme. mal chegaria para empeçonhar um rato. Andava um cardume de gente no negócio. arrenego! Além de ser um marralheiro de alto lá com ele. Com o quilo a 350$00 não havia duvida que estava ali uma rica melgueira. do outro pôs. conhecido por homem abonado e sério de contas.Vende-c. tendo-lhe constado que possuíam o seu migalho. suspendeu ao alto. A terra dum dia para o outro mudara de face. outros de fora. Mas vinham aí os Carapitanos que em tempos tinham sido adueiros. e por onde quer que se derramasse a vista. Desta feita o braço deslocou-se no sentido contrário. a cálculo. Mal o ergueu no ar. Há muitas Marias na terra. que por ser murado lhe permitia. mais cigano Pedro do que Paulo. segundo os termos da parçaria.Bem me queria parecer. mas o que falta. Foi buscar a chave. três arráteis. ao rebusco. mais onça. adicionando um peso: .Quita. vende-o lá a quem adregar. a chave pesa meio arrátel certinho. contanto que mo ponhas depressinha de casa para fora decretou o Duarte. assim que engrolou o caldo de unto com as duas batatas rachadas. . Deitaram contas ao seu haver. entretanto que elas pastavam. menos arroba. .. impelidas por baforadas leves do vento galego. sinal de que se entrava em estiagem. vende-o ao Leónidas.verificou ela.. só o aceitava à condição: crivado pela separadora. pode ser que arredonde o peso. Logo vou-me dar uma volta.VI Bárbara foi pedir os ganchos à Pedralva para pesar o seu volfro. depois de seguir com olhos refitos o vaivém do fiel. devido talvez a que estava acocorada por terra. O Leónidas Seixas falara ao Duarte. despediu para o lameiro da serra.. O Calhorra também o queria. Toca a pô-la em sítio onde não chegassem gatos. Era sábado. mas se o souber. Mas como a irmão desse a impressão de perder o fôlego ao levantar os ganchos. certinho.. eram do Duarte nesse sábado e. depois que apanhara o grande carambolim. 82 . tirou-lhos da mão e. posto que em mole e mal pronunciado pendor.. arranjado ao rebusco. uns da terra. roçar mato. que estava a ver e a ouvir do próprio buraco da fechadura. Para sul. pela tarde não faltariam compradores à porta. em seneca. Chovera a potes durante semanas e semanas.E cadeado na boca. . não me rala. as chuvas descarnaram as pedras pelas aradas.Pesa mais de três arráteis e meio . faiscavam os charcos. nuvens brancas iam vogando com ripanço. Lá dizia o outro: ao bom calar chamam santo. . a mão que sustinha a romana pouco honrada. As vacas. ao Zé das Almarges.. .Não são bem os quatro arráteis.

viera tarde. de olho na mina do Vale das Donas. passava por ali o senhor Antoninho de escopeta às costas a botar dois bagos de chumbo às perdizes. E em cima dos penedos as caldeirinhas naturais reflectiam como límpidos e ágeis espelhos a luz celeste e as nuvens que passavam. e dizia-lhe o coração que desta vez era o fim da intriga. geada. movediços o que bonda para se dar conta que tinham corda à procura do minério. Precisava de espairecer. onde havia sempre espectáculos proveitosos para a sua curiosidade. murmurava num falatório animado consigo e com Deus. Em muitos sítios. tão luzente tudo que a alma duma pessoa. projectando a sua brancura a céus e terra. pouco mais ronceiras que anáguas de velha ao . e espreitando o horizonte. Desejava alguma coisa dele? Ela não desejava nada. para quem não há esterilidade. azar que ate as mãos e esgote a paciência. o chão cedia. dir-lhe-ia adeus e que não voltasse mais a mangar com quem não lhe fazia febre. quando não era um rego cheio que vinha de longe. Uma vezes por outras. era preciso ir às apalpadelas. E o seu coração batia e tornava a bater como dantes. era muito menos do que o que os mendigos. soube dizer que a seitoira estava no sítio. E na fímbria do caminho lá ia procurando. Era um regalo gozar ao ar livre aquele sol abençoado. por muito que lhe caísse em cima a fuligem das contrariedades. acabava também por clarificar. à velocidade com que corria o tempo e ia tocando tudo para a morte. dar dois dedos de trela a este e à quele.. esperam de quem passa. Chegara essa manhã a Malhadas.Fontainhas gorgulhavam donde menos se esperava e a cada passo dos côrnoros e taludes um fiozinho de água. embora fosse bicho para passá-las a fio todas as manhãs pela sua espora de cavaleiro. Pelas centeciras. sempre porfiosos. Como todos os serranos. e fosse segá-la ao lenteiro. Ou se desejava. quando se postam à beira do caminho de mão estendida. antes do sol-pôr. mostrava trechos amplos por entre amieiros. mas não ia jurar que tivesse vindo apenas com sentido no volfro. procurando o cascalho que valia oiro. atirou um pontapé ao gato da Pedralva que saía pela gateira com uma grande rara nos dentes. quando o Duarte. pegasse nela. nos regos recurvos. Não havia vulto que saísse do povo de que ela não desse fé e não começasse a estudá-lo de longe até atinar quem fosse. Deixá-lo. tão móbil e traiçoeiro se tornara o lamaçal. embora mais friorento do que se acabasse de nascer. a água represada contra a filaça verde dos trolhos era do mais lindo e caprichoso cristal que se pode imaginar. 83 . Mas se Bárbara tivera aquela boa ideia.. A várzea enxameava de vultos. e os próprios franguitos vissem uma fona com ele. À tardinha. E o rio. lhe perguntou pelo molho de erva com que havia de acomodar a Cereja. onde se punha o pé. para lá dos caracolões do aterro do Vale das Donas. começando de novo sempre esperançados. injuriou a porca que estava sempre naquela música pegada e era capaz de comê-la viva se lhe faltasse com a vianda. pequenino e vulgar. por ali divagou até se ouvirem os chocalhos dos rebanhos descendo as escarpas para os currais. com o galo que era peco na galadura. se não mais maluco. Em seu peito turvado cachoava um mundo de impressões desabridas e inclementes à volta duma realidade irremediável: acabou-se! acabou-se! Entrou em casa rabugenta e a odiar. Se porventura acontecesse vê-lo. ao entrar em casa. Rabujou com as galinhas que não punham todos os dias.r para a missa. sim. A cada passo. outros a haviam tido igualmente.

. andam os marchantes à lufa-lufa por todos os cambais. . mas saiba pedir. Agora.? É para não ir de mãos a abanar. Quer? Se quer. não se ganha para a sola dos sapatos.. pegue-me na palavra. . . adeus.Por esse preço. .. sentada na soleira da porta. fazendo de conta que é puro. homem de uma só abotoadura.. Precisamente tropeçavam os socos do Duarte na calçada..Onde irá tal mercador que eu forneço-lhe uma carga? Também o vendo à minha santa por esse preço.A como é que o senhor o paga? . . resvés com a cabeça do macho.Aqueles maus repentes aliviaram-na das mortificações. Como não atava nem desatava. compadre do Zé das Almarges. .Foi para Muradais. Mas ele ou o filho de meu pai é a mesma coisa: andamos de sociedade.. dando volta com o macho. ... Todos dizem o mesmo. muito bem.Vá buscar a fazenda. O homem fez menção de abalar.. Isto de volfro já foi negócio. está bom de ver.. de Carapito: João Vitorino. sem um argalho. se não se fizer. bateram à aldraba da quintã. sem o quê tenha-me por boca mentirosa. O Duarte arrumou a erva e ela acabou por inquirir. que nunca chocou pintos nem vendeu bulas.Lá me queria parecer.Disse.. . ainda com ar de dia.Indicaram-me esta casa como tendo volfro para vender.. O melhor é vê-lo. abrindo a porta ao homem para que entrasse com a cavalgadura: . .. . serve. . . de parte a parte só perdemos o nosso tempo. O homem caminhou para ela com ar decidido: . Peça duma vez. Estava a aparar os nabos para o caldo da cela. nem que o senhor se mate. Se se fizer negócio. Dos alforges safou as balanças o permaneceu com elas em punho em atitude de 84 . Ainda esta manhã o andavam a comprar a quatrocentos mil réis. Eu dê ainda hoje estoiro no inferno se não é verdade. .. diga lá a como o paga. indeciso com o molho da erva às costas enfiado no cabo do sacho.Vossemecê quem procura? . São tantos os que andam nesta vida que se comem uns aos outros.Então para que o compra?? . . disse: quatrocentos.. sempre a quero ver. o que se chama puro.A trezentos.Bem.Sim. . Ao chegar à porta virouse com brusquidão: . Mesmo a duzentos e cinquenta mil reis é já para perder dinheiro. ela pôs a gamela de lado e veio para o sujeito que mostrava a cabeça pela talisga. posso pagá-lo a duzentos e cinquenta mil réis.Compromissos. Ficaram hesitantes. Prendeu o macho a uma ralada da parede pelo nó do rabeiro o atirou os alforges para o chão. O Duarte empurrou a porteira e ficou-se no traço.ouviu que dizia o irmão.Só à vista.Mas resolva lá que se me está a fazer tarde e eu quero-dormir nos lençóis que fiou a patroa..Pois por isso mesmo. Porque é que não veio seu compadre? . a ponta da corda lançada para a espádua em sinal de marcha.O senhor não é de Carapito? .Homem. senhora. e na fazenda não há nada que deitar fora.Se assim tem a certeza do que diz.Valha-o Deus? A trezentos pagavam-no a semana de além. mesmo nada.E embicando para Bárbara: .É do puro.

é que se lembrou das pedras que o homem refugara. eu levo-lho a trezentos e cinquenta escudos.proferiu o negociante em tom de quem pondera com filosófica melancolia a imensidade do que dá contra a bisbórria do que leva. tara-se pela sua e vai ver. Conferiram com os ganchos da Pedralva. Mas. Não chegava a pesar três arráteis.. só depois de entrar em casa e arrecadar o dinheiro. brilharam concentrando em suas faces polidas os últimos raios do poente. fica uma pitadinha de rapé. Servia para pesar almas..Tenho aqui balança. que é delas? Tinha-se afigurado aos dois que o homem atirara fora as que não eram boas e. atirando-as ao chão.perguntou ela. aqui estava o trancafio. já esta pedra maior é de qualidade inferior. A 350 escudos. mal vá à separadora.Pelas contas que esta manhã estivemos a deitar e as de agora. mas ele interpôs-se: . em vez de atirá-las para o chão.. não engana. Aquela prova decidiu o negócio. Começava a minguar a luz.. mais uma. Foi a toda a pressa procurá-las. Passa no meio das outras.exclamou Bárbara.. deitado outra vez para o saco. pesava três arrá teis e umas areiazinhas a mais.espera. metade de 50 25: vinha a somar 500. sossegue. para ver que espécie de droga era aquela. isto também. . em que o despejou. a conta estava boa de fazer. disse: .Refinadíssimo ladrão? . louvando aqui. e cego eu seja se ganho dinheiro.Vá.. Aceitaram. ao tempo que fechava a quintã. Depois que o homem acabou de revolver o minério e pôr de parte um. mais outra. Bárbara viu-o escolher. Pedras.. que o sol dobara por detrás de Mouramorta. Os pesos estão aferidos.. quanto mais pederneiras? Mas sossegue. Duarte? . Por essas e outras. talvez outro lhes pegasse.Foi-te bem feita! Quem se lembra de fazer negócios destes ao escurecer!? 85 . As pedras de minério puro crepitaram na faiança. Veja. deitar fora esta pedra. Não as topou. que a cara iludia um doutor. aquela. Mais exacto nem Cristo. É a quanto bota: cinco notas e mais vinte e cinco mil réis. Ao erguer o alforge. Bárbara veio com a saquinha do volfrâmio e urna almofia. Os ganchos ainda eram mais escassos. mas não teve coragem de articular o mínimo reparo.Isto é minério queimado.Uma mancheia de dinheiro . levounos passante de cem escudos. . atirava-as para cima do alforge.. e correu ao lume por um tição aceso. . com ar desenganado e um natural tão verdadeiro que o seu coração se amargurou. Não presta. atirava-as fora. ia sobre ele! . . O belfurinheiro meteu a mão..Um moço que conheço há um par de anos. Estas areiazinhas representavam o peso do pano.Quem lhe ensinou a minha porta? . 525 000 réis. vasculhou. É bem a quanto bota. perguntou ainda: . O volfro. enfiaram todas para as bolsas. Contado o dinheiro na palma da mão: adeusinho.Precisava as tripas ao sol. Isto. até mais ver? Bárbara. Bárbara foi buscar os ganchos da Pedralva. desdenhando além. Se não fosse cá por coisas. Luís Ougado. trouxe à de cima duas ou três pedras que se pôs a olhar de alto: .. Ergueu-a no ar em sinal de lisura e era convincente. Isto é bom.. rejeitar outro. era o preço corrente. decidam-se: querem vender ou não querem vender? Para não gastarmos aqui o dia inteiro a regatear. deveras. Caiu-lhe a alma aos pés. Metade de 300 eram 150.

e encontrou-as: .. nalfo de duas bandas. do brasido só 86 . murmurou com voz chorada: . por baixo da moinha.ardera tudo.? Bárbara foi buscar de cima da pilheira. o que andava não menos fora de uso. mas este gatuno oxalá tenha tanto descanso como o volfro que nos roubou! Calaram-se. Depois de contadas novamente às avessas. Guarda.Para mais. vende. O dinheiro aí não está bem. flusão ou realidade. sem uma asa. orelha colada contra algum buraco mal rolhado pelos tomentos. à qual cobria um testo de ferro.? O Duarte ficou indeciso. dissipadas as reservas dum para o outro.Com este faz oitocentos e cinquenta mil réis. Só te digo uma coisa: antes um cão de fila que semelhante traste? . vai ver se o pilhas.. entre cacaria rebentada. tanto que até gosto lhes faltou para arrecadar a bagalhoça. que o petróleo fora-se e já não aparecia nas tendas. embora.. também já fora do amanho. O Duarte contou-as: . não davam conta de coisíssima alguma? A cara não é a mesma? Nenhum deles queria responsabilidade e acabaram por injuriar-se. viera-lhe à cabeça que podia ser falso e pôs-se a mirar as notas uma por uma. mas a culpa é tua que me matavas o bicho do ouvido: Vende. e ela arranhou-o todo.Espera que eu já me raio? Quem garante que era dele? Consolaramse do seu pouco ardil desopilando quanto àquele pormenor.Nunca desejei mal a ninguém.. Das palavras passaram a actos: o Duarte deu-lhe um bofetão.. o espinho continuasse a picar em sua consciência de logrados. contou-as pela derradeira vez ao resplendor do braseiro. que podem vir passar uma busca a casa e dão conta! Davam conta de quê? Que foi arrancado? Ora.Traze cá a caçoila. que lhes pareceu ouvir taramelar um tamanco detrás da casa. o que já não acontecia há que mundos. ? Enquanto rezava. Só depois de dar graças a Deus é que o Duarte disse com arremesso: . . Ela objectou que podia deitar-se fogo ao palhal.Pois não vás. o que fora desvaneceu-se e o Duarte rosnou acariciando as notas gordurosas: . Oito notas e meia. E quedaram de malga na mão. Pode trazer à sacada o Luís Ougado.. Em seguida àquele desafogo entraram para dentro de casa a comer o caldo e o Duarte proferiu em tom de remordimento: .. com um remendo de lata no bojo. E erguendo-lhe diante dos olhos o grande espelho que se dera em Mouramorta em casa da Joana Enjeitada . arriscas-te a ter o Ougado à perna. Houve tempo em que na opinião do Duarte o lugar garantido era o palhal.. tirou o pacotinho das notas..É perigoso. ora.Grande cão.. . Era impressão deles que vinham para ali escutar de noite.Anda.Guarda tu! Era uma turra que se renovava todos os dias quanto ao sítio em que o dinheiro estaria seguro...Onde puseste o dinheiro. a velha caçoila das papas. Apodrece com a humidade. e lá ia feno e dinheiro. A avaliar pela fisionomia estava a procurar razões para não se mexer. . Onde ele está bem é debaixo duma das pedras do lajedo. bem adentro duma facha de palha.? Quem to disse. Assim que se certificou que eram iguaizinhas e sem mácula. De dentro. tinha que prantar para mais de seiscentos mil réis! Seiscentos diabos o carreguem ainda hoje para as profundas do inferno? exclamou Bárbara. Não podiam proferir palavra mais alta que se não soubesse no povo.. sem o darem a entender. Pesava o lance...

nisto estavam ambos de acordo. acudiram os Russianos. Esta dúvida martelava no espírito do Duarte que.Tanto vale então guardar o dinheiro como derretê-lo. agora são osjapões lá no calcanhar do mundo que se atiraram a Ingleses e seus parceiros. erguendo-se da lareira. Onde se esconde. de terem para as décimas. por modos. graças ao leite. além de que não estava mais livre que no palhal dos riscos de incêndio. tratando-se de papel. É desta vez? . Primeiro foram os Franceses e Ingleses que se pegaram com os Alamões.Dá-se a juros. Mas dinheiro a juros numa terra em que se não dava um traque que todos.ele teve de assentir à possibilidade de semelhante desgraça. resguardada das fonas pelo testo e do primeiro apalpão dos larápios pelo empacho da moinha. Mal-pecado se Portugal vai nas águas envoltas? Ficará casa de pé. em nada diferente dos mais trastes velhos. Estava uma noite serena e fria de luar. acabaram por amochilar o baguinho na -caçoila velha... junta à grossa maquia que entrava e com a guerra que. Mas. segundo muitos. Dizia nosso avô ter ouvido ler ao padre de Tendais que a terra havia de acabar abrasada em fogo. declarou ao passo que se dirigia para a porta: . os ratos podiam dar com ele e esfandegá-lo para fazer o ninho. que não dessem uma demão grátis a outrem. ainda que Deus em seu bem-querer a varresse para longe. De facto. estava aí botada. . Não falta quem o queira. Alguns dias estiveram de acordo que a melhor guarida era a algibeira. modo. o não cheirassem!?. os Alamões levaram tudo raso. rente à carne. Mudaram-no para um buraco na parede. estava a bom recato.puderam tirar os ossos da dona e duma burrinha . representava um sacrifício heróico.A guerra . em virtude do quê todos compreendiam que andassem mal vestidos. mas breve o tiraram de lá raciocinando o Duarte que. a algibeira interior do colete.Os doutores também erram. caminho franco quando estes ladrões tiverem disparado a última bala? Sabe-o Deus. do fundo ao cimo do povo. Ali estava há semanas.. De raciocínio em raciocínio. Mas pô-lo a render não era quebrar aquela redoma de pobreza dentro da qual se tinham metido. Começa por uma ponta e acaba por outra. 87 . A questão toda é a humidade? . onde se há-de esconder. .disse o Duarte . tal esconderijo merecia ainda os mesmos votos de confiança?! .Se alevantasses uma laja e o metesse debaixo. não há que contestar. ou quem fora lesado não desse parte em juízo.. enfim. capacitados de que eram pobrezinhos e não tinham por onde pagar!? Já a vaca dera engulhos a muitos invejosos e atirara a primeira pedra ao cristal desta redoma. mas agora. Toca a arrecadá-lo e a arrecadá-lo bem. meneando a cabeça. que lá de quando em vez praticassem o seu cardanho e quem os via os não denunciasse. Mas o Duarte ficou enfadado e girou à deita. não faltava quem o quisesse.opinou Bárbara. optaram pela caçoila. com bulcões negros que de quando em quando passavam em vaga no céu e obscureciam as quatro telhas de vidro que alumiavam a casa.é como um incêndio no restolho. alma do Senhor. e a opinião pública condescendera em aceitar tal posse como não infringindo o seu caixilho de necessitados. Mas com o acidente que tombou o Clero sem sentidos à beira do rego de água concluíram que também esse lugar era precário. uns eliminando outros. folha verde.

. ela a segurar-lhe a mão a Cingir que podia cair. emornecia a lareira e irradiava mortiça mas difusa claridade. arrepanhando a capticha para as costas e espetando a haste da roca no cós da sala. Estava idosa. mas sempre novo e imprevisto. soprara nas suas costas: Esta velha. caía se não o amparasse. ele a deixarlha e a fingir que. que para isso enxergava cabonde. e ia cismando. Deixá-lo chegar.. uma rapariga. para encontrar.. que sempre armara. A voz ociosa tornou: .Não te parece que a porca está a desmedrar? . ergueu a voz: . E agora? Era preciso procurar no peito. os caminhos não esrão desempedidos? já sabes que tens de a coimar. que queria passar adiante dela. Remontava portanto aquele enleio para lá do Senhor das Cinco Chagas. fora objecto. que é como quem diz. à fidalga.Que tal? A Cereja trazia grande amojo. outro pouco não fosse por lá escorregar ao saltar de pedra em pedra e tornarem-na responsável. ajoelhados os noivos aos pés do padre. A vida compunha-se de cuidados. do Senhor das Cinco Chagas. dançava o fuso.. Seria palermice de todo supor que os destinos dos dois se encontravam doutra maneira que não fosse por simples acaso e. Decorreu uma pausa vazia como cisterna sem água.Fosses lá tu. como na igreja quando. hoje outro. Ele não lhe dizia: Nunca é tarde?... Aquilo durava bem há um assopro.Não fazia vento. o Antoninho chegara aquela manhã. há pouco o que a apoquentava era o roubo descarado de que. tinham ficado esposados. sim. Mas não. embora remontasse à romaria. ele de bota e calção. pois tinham cozido de tarde. E Bárbara fiava. Ao princípio do mundo. e o Duarte rosnou dentre as mantas. Noutro dia.? Pois não era. quando de facto era supérfluo com tão grande braseiro. 88 .. Houve outra pausa e o Duarte proferiu: .dissera ela um pouco por lha querer sentir entre as suas. Mas. .Não foste ver se a pastora da vizinha meteu as ovelhas no cerrado. uns que vinham atrás dos outros. Puxava a estriga. que fora morrer ao Brasil. em Pedrões. . ao princípio do mundo. o padre lhes deita a estola. e viera a casa do tio. Raios te confundam! . longe. sobrepostos como no novelo as camadas de linho. cada um para sua banda. era o casamento. eram pequenos e iam pelo carreiro alagado das Fontes. Rosnou e.? Sim.Coitada. Não remontava mais atrás. não rumorejava folha. irmão do pai da D. patinha de si. adiante. servir-lhe-ia de emenda. . Ele dera-lhe a mão e. Solanginha. àquele dia. Cada um seguia o seu destino.. ala. Há quanto tempo durava o derriço?! Durava já há mais tempo de que tempo ela tinha dali em diante até à tumba. Automaticamente levou a mão a um tanganho para queimar. Ah. .Deu mais um gorchinho. não se julgava ainda velha. Fiava e onde menos punha o pensamento era no que o irmão dizia. como se tivesse esquecido de fazer as perguntas sacramentais de todas as noites. ela descalça. amanhã sabe Deus qual seria. Bárbara crirodilhou-se junto das brasas e. chega-lhe pouco aos farelos. Ontem era um axe..Dê cá a sua mão. Que lhe doía ontem? já nem se lembrava. e o borralho que trouxera do forno. sim. em plena feira. no fundo do peito. Sim... pos-se a fiar. Há pouco. como quem procura um alfinete enterrado numa almofada.

A sua casa era feita disto: de trabalhar à bruta e aferrolhar. os dentes a rir. Lançou uma. supersticioso como era. Estava a gear. Coloriu-se tudo como numa aleluia. Dali a Muradais iam duas léguas das fartas. todos lá iam parar. Fez-se desentendida. Esteve um instante calado e volveu: . é porque estava a dormir? Nessa persuasão pôs um sargaço no lume. O seu regalo era fazer chama.Amanhã é preciso madrugar.. onde mergulhava senão na sepultura? Entretanto aquele chamiço que ardera há pouco e os olhos que algum dia a envolveram na sua luz eram ainda os instantes do mundo em que se suspendera a caminhada para a morte. a casa ficou ainda mais gelada.São horas de ferrar o galho. e o irmão que não dizia nada. Tinha-se por poupada. lá estava ela. sim.. A chama extinguiu-se. depois da volta completa. envolveu-se na capucha e acercou-se mais do lume. Trabucava como um moiro e aferrolhava. Credo. dizia-se que a gozar-se da arreganhadita?? O certo é que desde esse dia passou a andar à volta dele como sombra. Como devia ser fria a cova no cemitério! Deixá-lo. quis tomar posse daquilo que lhe daria de boa mente. Mas não. Também o que é de mais deita por fora. onde tivesse esperanças de que ele fosse. menos o Duarte que se botara a adivinhar. santo Deus? Dobrada sobre os joelhos. Tudo lhe parecia pouco para o dia de amanhã. irra. Debandaram por um segundo os maus pensamentos. entrando pela sua casa dentro.. O dia de hoje para ele não entrava em linha de conta no tocante a dar à vida o que requer da maior parte dos homens na satisfação dos apetites ou gozo dos bens granjeados. Viviam os dois debaixo da mesma telha. ao tempo o perfeito galo doido. e era uma consumição. Da romaria tornava-se em rancho.Essa romaria há que ror de anos fora. darse claridade. Chamavam-no Gadunhas.. Uma vez. mas ele excedia as marcas. Mas a aversão do pobre é limitada pelo interesse. ainda o Duarte não fora às sortes. distanciados tanto uns dos outros que podiam falar à vontade sem serem ouvidos. toca a virá-Ia em cima da primeira arca. Só esses interessavam. Onde soubesse que ele poderia aparecer. Deviam estar a sair dos serões se os houvesse. recebia o hausto do borralho que se amortecia. .. o cabelo de risca ao meio a alvorecer por debaixo do chapéu atirado para a nuca.. fazia-se aparecida. duas vezes o seu queixume macareno. seria dele se soubesse levar a água ao moinho. O mundo. o Duarte rabujou: .Qual. no fundo da sua carne. Por vício que não por necessidade. hem? já sabes que não se carrega uma carrada de tojos como se enche uma maçaroca. Quanto a ela ninguém sabia do que ia em realidade no seu peito. onde lhe ia a cabeça! Por cima dos telhados piava a coruja. a catrapiscar esta. à luz do sol. involuntariamente pôs lenha do canto... Nunca o sol o encontrava na cama. mas com o Duarte acordado queimar lenha trazia recadeira pela certa. Que lhe dissera o descarado. porque tudo no crispamento da sua mão se resumia em “venha a nós” e em deitar para o saco. para cima da arca como os 89 . Por onde lhe andava a cabeça. a apalpar aquela.? Ainda era viva e reviva sua tia Soledade. Cáspite. às vezes aos pares. a fuligem das paredes tornou-se em folhado de oiro. e o mundo murmurava. Adrega assim não havia. Daí as suas aversões. é à boquinha da noite. ali recalcados desde a juventude.

Ai. Começaram o paleio em tom agridoce e terminaram acusando-se de andar a jogar o té-té. doido por ela. Andava farta de se repetir: Olha que entre vós nunca houve nada . Mas o tolo acreditou.. desapareceu.. Mas ao menos estivesse na crença de que podia vir dum momento para o outro. e ela então julgou no seu sentimento que tudo acabara. Encontraram-se. O Joaquim da Mariana retirara para o Rio. Para que serves? Indignou-se toda. Por despeito. Um dia acharam-se de cara ao virar duma esquina.. Pretendentes não lhe faltavam.... Deixou de caminhar para as bandas de Muradais. Se teima. mais forte . está bem . Era ao escurecer e mal viam a expressão dos olhos um do outro. .. nem o bom-dia se deram. era só chegar. Eram inimigos? Qual. o seu destino por esse lado ia dar a um beco sem saída.que acabara de crer que dum para o outro não havia nenhuma espécie de compromisso quer de pensamento quer de obras. Veio o passado à baila e ela explicou-se: “Não era homem casado? Então julgava que podia fazer o que lhe requeresse o capricho. Quando já andava cansada de lhe querer mal. Ficou zangada com ele e consigo.. de continuar com o ridículo arrufo ou enganarem-se. Foi durante o tempo em que o Diabo o levou para a cidade.. de o arrenegar. É verdade.defuntos? Seu irmão tinha ido ao lado.. que já lhe ouço o tarnanco! Não se ouvia tamanco algum e ela estava a espreitar-lhe os olhos e a dizer que não acreditasse. Começou a contar os anos de ausência pelas romarias do Senhor das Cinco Chagas: uma. que é na gente a coisa que não fala mentira. estava na laja a erguer o milho painço. a requestavam.replicara ele. cinco. Certo dia que apareceu com a senhora e uma menina. de lhe torcer as voltas. Passou o Inverno. ai. Se se quisesse casar já o podia ter feito há muito tempo.. Assim de surpresa era como se fosse um estranho que se apresentasse.?” . a cuspir fora: . Fartou-se de o evitar. No dia seguinte. duas. Pareceu enternecido com aquele pensamento de fidelidade porque murmurou com voz que era uma flauta a gemer: 90 ..Não vale a pena.. atravessou ele por ali. Outros..Está bem. eu te ensinaria! . Rosnava-se que se ia casar com a prima. Era de contar que se demorasse. que nem ele adivinhava quem poderiam ser. tombar uma mulher de costas. para o não ver sequer.. que lhe valeria gritar!? Mas ele lá se foi.. andavam a fingir que o eram.Ensinaria o quê?. Ele a aparecer num caminho e ela a tornar para trás.. desapareceu.Mas casa-te e acabou-se. Não o esperava. Tão zangada que durante muito tempo não o podia ver nem tragado. Na festa da Senhora dos Remédios. tão pequeno o faz o céu que o cobre. três.. Regressou ao sexto ano.. e se dizia que a culpada fora ela. Ficas para aí mirrada. . tratou de persuadir-se que nunca se passara nada entre eles e de traçar em conformidade a sua regra de conduta. Cometeu-a.. encontrou-a sozinha no lameiro a guardar as vacas. não vale? Se valesse.. hora em que o homem deixa de ver a sua sombra na terra. nem uma passa. grito! Não andava por ali ninguém. que vem o meu Duarte e mata-nos? Ai. voltou as costas ao malcriado. mais bonito homem.. Não seria este também o seu pensar? Uma tarde de Outono que saíra à caça. Experimente e verá. se soubesse! Mas não. que desandava a assobiar aos cães. Não e não. Como foi aquilo? O mais certo foi o terem pejo à hora das Trindades. ainda mais desastrado e grosseiro que envergonhado.

trocara-os. O senhor Antoninho. não tivesse pegado faúlha nas varas secas. Erguera de rompante. com mais pingo.. se o pensamento parasse.a tivesse enxotado do telhado da Pedralva. A noite ia dobando mais surda que a meada na dobadoira. Mas o pensamento não era cavalo que se prendesse à argola. sem coragem de se dizer que agora tudo era tarde. era melhor deitar-se. Tornou a cerrá-las e teve a impressão novamente de que ia deslizando pelo ar fora dentro do esquife. Lá iriam todos para o meio dos pinheiros. ele. que ela apreciava. má e venenosa. era vida safada. acabasse de murchar. dardejou um olhar para o caniço. como tudo. uma destas 91 . ao mundo dos vivos e àquela madrigueira de gente. O mais importante era parar o pensamento. nem no outro. Aquilo era já mania de velha. deu as duas e três voltas dos cães e dos mendicantes. nem depois e depois.? Mas o Duarte acordou e grunhiu. sentindo-se como que levar pelo ar. diabo! retomava lá longe a feia macarena. Dentro do esquife. e respondeu: Se eu tivesse asas. Qualquer homem manda no seu criado. e pareceu que se virava para a outra banda e reatava o sono interrompido. um destes sorrisos de agrado que apenas se não mostram para não serem tidos por deslavamento. se não era a cavalo no rabo duma vassoura. refarto de carniça. do saiote. que a tinha na conta da última das depravadas. como as bruxas. Grunhiu palavras ininteligíveis. É uma fatalidade. sentiu-se presa. fora perdendo o viço da juventude. Ainda de cócoras. aos apalpões. deixando que a primavera dela. enrodilhado nas saias de outras. Achava-se bem ao lume.Não me fujas. deixando as chancas na lareira para não fazer barulho. decerto espavorida. Qual. já no tarde da idade. A coruja agora esganiçava-se para a casa do Calhorra como se alguém . mas na progressiva maturescência. Agora ali estavam outra vez. e cruz. estancá-lo. pelos passos de sua mãe e da tia Soledade. Enfiou-se vestida entre as mantas e só debaixo da roupa se despojou da saia. nem nesse dia. mas no dia seguinte. Não eram os mesmos. Ela. não pensou mais nela. não. Adormecia. havia que levantar cedo. se encararam com olhos de se verem sem ilusões. ela caduca. Sim. do chambre. já recessa. talvez mentindo com medo de reconhecer a feia realidade. se ofereceu oportunidade ou ele a não buscou. menos pingo de água benta. Arregalou os olhos. onde não haveria mais que um fogaréu sob cinzas. desasada. Que viera cheirar naquela altura do ario?! Ouvindo tropel na rua. Mesmo assim apertaram-se peito contra peito. O tempo trocara-os. se meteu na cama. a tanto que os desfigurara por fora.é curioso . e fechou os olhos. Porque não dormia? Ora. Mas ainda desta feita.. E. dormir não era o mais importante. provavelmente no mais íntimo. como advertia o seu olharapo. o senhor Antoninho não voltou a Malhadas. mas não manda no seu pensamento. sim. Quando um belo dia. Bárbara! Ela esquivara para dentro do bioco do lenço o sorriso. por um encarniçado azar. e ela quase lhe fez quantas promessas quis. Pois que era ela senão uma velha. sofreram um baque. e é natural que por dentro. só por isso. Aquelas duas léguas de espaço entre os dois fizeram o resto. varreu as brasas para o paranheiro. nula e sonsa entre as panelas.. O raio do homem fora a Orcas e voltara a dormir ali a noite. Seria assim morrer? Abriu as pálpebras. por mais alto. -outro para a caçoila. deixou-se ir sem relutância. então ter-se-ia verdadeiramente descanso. que era poiso. Não era dormir nem morrer. Ela enrodilhou-se nas mantas.

depois de pegar no rosário tacteando. rezou. homem. se tem tantas e todos os dias as malbarata ceifando-as antes da hora? Mas. ao menos quem pudera subjugar o lobocerval. .. para o fundo do povo. a ladrona da coruja veio crocitar mesmo. ensopou-se de padre-nossos. perna nua até por cima do joelho. Para que é que ele a quer? Que lhe vale mais uma. em pouco tempo feita esterco e pó? Que se ganhava em a defender da bocada deste e daquele? Que havia ela ganho com tanto luxo e esquisitice? Não. mesmo. Nada lhe faltava.. Eram diferentes. Na lareira.? . O galo cantou e recantou.. nem rendas.Até foste tu que a tampaste. Num meio quebranto ouviu por cima dela a voz agreste do Duarte: 92 .. Para o homem domar o pensamento só havia um processo: escangalhar a corda da vida como se escangalha a corda dum relógio. incríveis.. sua mãe liru. Fechou outra vez os olhos.Tampei. mais branda que a espuma do rio. Não o são os dedos da mão? Aquilo durava desde longe. a asa do milhafre contra o próprio milhafre. Era um nimbo e tinha parecenças com o manto nevado de Nossa Senhora da Boa Morte.. nem o vapor diáfano da cambraia. que mora lá dentro. que escorrega. . Mas dizem que a vida a Deus pertence. reflectindo no roubo que sofrera e votando o gatuno a todas as pragas deste mundo e do outro. aquela tosse que parece vinha de trás das costas e às vezes a lanceava. “Dê cá a mão. Rezou. Acordaste relampado com algum pesadelo. se ainda aquela noite lhe servisse de mortalha.. de modo a não causar dano à comodidade da criatura? Não houvesse dúvida que o bicho roía a bom roer na raiz da sua gente. tu tampaste a caçoila? . Mas não. O luar.. Ouviu a coruja lá bem longe. em suma. Pôs-se a rezar o terço pelo eterno descanso da alma de sua mãe e tia.Podia saltar para lá uma centelha e pegar o fogo. manso.. para cima da casa. entrando pelo olheiro.. tecia ali uma bruma leitosa. às ordens. para romper logo a ressonar. Que valia afinal a porca da carne da gente.. não era mortalha. A tia Soledade morrera doida.. menos uma. A sua mulher sou eu. Possuiu-a um acesso de tosse. que sucedem ao bicho homem: a linfa rebelar-se contra a torrente. Tornou a esbagoar o rosário. mas o malvado do pensamento prosseguiu na vadiagem.Ó Bárbara. e ficou mais esperta. Felizardo. Se vinha por causa dela. Por enquanto não lhe tocava pela porta.. Sentiu-o dar volta na enxerga com o escarcéu dum porco no palhuço. ele trazia botinhas. e era um regalo tocar com a carne na carne dele ao que a pele era fina e veludosa. Ao menos aquele não tinha argueiros a remorder-lhe na consciência. O Duarte ressonava e era outro aviso de presença. a brasa viva entre tições apagados lembrava-lhe onde estava. A noite continuava a passar sorrateira como uma loba por uma estrada. não estava persuadida que Deus Nosso Senhor tivesse algum interesse em que ficasse para ali uma donzela relha e revelha só para pasto dos vermes.mugiu a voz choca do Duarte. nem coisa que se aproximasse. apancada também ela era. não tinha os seus desesperos. aquelas grandes pedras com que murara a regada. Andaria a fairar a casa em que estava para entrar Nosso Pai. Resumia o boi acabado. a luz contra o sol. como se andasse a ajudar o Duarte a tombar pedras.. se a vida é como a parede na tapada dum rei que não há o direito de deitar abaixo. rezou..” Estava a pegar no sono. Bendita ela fosse. . Rezou. ruminador e incansável à lida. tampei..coisas absurdas.

- Toca a levantar que são horas. Tens de ir fazer o caldo depressinha que já lá vai meio mundo. - Ainda se não enxerga... - Qual, é meia manhã. Está baço o céu. Deixei-me adormecer depois do cantar da toutinegra. Levantou-se sem dizer mais palavraa, contente por ter acabado a noite, o seu jardim das oliveiras, mas tão má consigo e com Deus que nem sequer se persignou. Acendeu o lume, preparou o caldo para eles e a vianda para a reca. Na aldeia ia mais alvoroço do que num cortiço em dias de verão. Estavam no fundo da tigela, bateram à porta. Bárbara foi abrir. - Trago-vos um recado - dizia a tia Ana Ruça introduzindo pela greta a estriga vassoiruda que era a sua cabeça enfarinhada por dois carros de anos. - Havia de cá ter vindo ontem, mas lembrei-me que já vos tivésseis deitado... Esta pertencia ao número das que tinham malícia até as unhas dos pés e Bárbara respondeu-lhe com ar simplório: - Não senhora, nós deitamo-nos sempre tarde. Umas vezes ele reza e eu respondo; outras vezes toca gaita e eu danço. É como nos carrega a pancada. A Ana Ruça ficou de cara à banda e lá arrancou do bucho: - Foi o senhor Antoninho que chegou já noite de Orcas e me mandou cá. O Duarte pode ir buscar o dinheiro quando quiser. Ficou tudo arrumado. És um cão de sorte! - Arrumado o quê? - Pagarem-te. Cobrem-te o arneiro a notas. Hem, quatro contos nunca tu sonhavas abispar? Bárbara ergueu as mãos ao céu: - Louvado seja Nosso Senhor! O Duarte por pouco não ia deixando cair a malga ao chão. Não acreditou de princípio. Depois acabou por concordar que a fazenda assim não lhe era roubada. O senhor Antoninho fazia o que queria com uma perna à s costas e ainda lhe crescia tempo. Quis, pronto, pagaram. O seu cálculo orçava por ali, mais moeda, menos moeda. Vá, que é homem dum querer. A tia Ana Ruça retirou-se a mascar: - Arranjaste bom padrinho! Sorte de cão. Olé! - Dá-se-lhe o galo? - propôs Bárbara quando a tamanca da velha deixou de se ouvir. - Dá-se-lhe o galo, dizes tu... ? Pois dá-lhe, dá-lhe lá o galo. Isto a ele pouco custa. Sai do pêlo dos Alamões. Uma palavra que deitou pela boca fora e feito. Mas dá-lhe lá o galo. Leva-o à tia Ruça... - Então logo lho levo. E eu, sabes que mais - exclamou ao cabo dum momento de circunspecção - boto-me a Orcas a buscar o dinheiro, se é que lá está. Para estas coisas quanto mais depressa melhor. - Ah, lá isso? Acabou o caldo soprando à colher de lata. Vestiu camisa lavada; tirou os sapatos do frontal e o brejoeiro de trás da porta. - Eu antes da tarde não estarei de volta - declarou. E mais estarei. Aquilo para ser bem era pagar e girar. Levo um bocado de pão e metade dum chouriço, se tens. Acomoda a vaca. Para os tojos, sozinha, não anda a roda?

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- Não, vou para a fonte lavar a roupa que está a encardir. À saída da porta pareceu-lhe o tempo pouco firme. Voltou atrás a trocar o pau pelo guarda-chuva de paninho azul. A irmã ouviu os passos que estrepitavam na rua fora e, quando o último eco se desvaneceu, enclavinhou as mãos uma na outra: podia lá ser! Arrancou da caldeira e deitou para lá a água quente que tinha ao lume. Temperou com água fria, despiu-se, e meteu-se dentro. Ensaboou o corpo todo, tronco, pernas, pés, o peito do pecado e as axilas em que babuja o suor. Despejou aquela água, deitou outra e chapinhou, lavou-se de alto a baixo, sobretudo o pescoço, mordido do sol e da poeira, e as orelhas, ninho de toda a imundície. Limpou-se a um farrapo à falta de toalha e, nua como a mãe a pariu, pôs lenha e enxugou-se a um grandioso lume de sargaços. E, depois que se viu quente e limpa, vestiu roupa de baixo, lavadinha, a cheirar a mentrastos. Pôs meias novas, as chanquinhas de verniz, a saia de castorina de ver a Deus e o lenço de lã que reservava para quando fosse amortalhada. Lembrou-se então do galo e correu à quintã com um punhado de milho: - Pilinhas? Pilinhas todas! ... Acudiu a criação entretida a rapar na montureira e no meio o seu rico e faceiríssimo galaroz. Passou-lhe os cinco dedos e trouxe-o a regougar para dentro de casa. Atou-lhe as patas, abaixo dos esporões, as asas na nascente, uma contra a outra, e encafuou-o na giga, fazendo festas às badalhocas dos barbilhões: - Era com estas que endoidavas as frangainhas, meu parvajão! Pegou do pente para se pentear, mas não teve paciência de desatar as tranças, que eram longas e espessas. Anediou o topete, puxou o cabelinho nas têmporas. Viu-se a um motreco de espelho e, minutos depois, mais depressa do que se fosse pelo ar, batia à porta do senhor Antoninho. - Ó tia Ana? Tia Ana... Foi ele próprio que veio à porta: - És tu, Bárbara? Entra. A Ana foi agora neste instantinho ao leite. Entrou. Disse-lhe com um sorriso que ela mesmo sentia branco, desnevado de todo, embora deixasse ver lindos dentes: - Trago-lhe um galo para o jantar... - Obrigado. Põe aí... Estava em mangas de camisa e via-se que acabara de se levantar. Trazia ainda agarrado ao corpo o calor envolvente e sápido da cama. - Entra para aqui... - tornou. Conduziu-a para o quarto. Desviava-a da saleta que se lhe afigurou atravancada de sacos, pequenos sacos de lona, em fila contra a parede, que deviam conter volfro ou o diabo por ele. Mas que lhe importava a mixórdia mineral ou a riqueza? Foi-se deixando levar, ao passo que murmurava: - Ai, e se a tia Ana Ruça vem...? Nem lhe respondeu. A casa desdobrava-se em duas partes, unidas por uma galeria envidraçada. Naquela metade reinava ele. Tirou-lhe o xaile e ela deixou-se despojar. Depois, ao desatar-lhe as tranças - um capricho - e ao abrir-lhe o chambre, apenas disse: - Mas que feio! Mas que feio? Empossou-se dela: - Tardaste, Barboreta...?? Por culpa de quem...? - Benza-me Deus - exclamou Bárbara, olhando para a colcha, consternada. - Não te inquietes - pronunciou ele, com ar meio enjoado, meio grato às primícias da virgem serôdia. – Por esta porta...

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Quase a empurrou. Havia no sol um lume novo. O céu, a terra, a bandeira da Noite Boa, batida pela aragem à porta do S. Miguel, a mãe Calhorra com os netos atrás ranhosos e a roer o seu trancanaz de pão, as pedras tisnadas pelo tempo, a leitoa com os berrelhos, diziam-lhe por compenetração de sua alma no fadário universal: - És das nossas?

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pouco adiantava. que não podia sentir o açafate do próximo farto de pão. Podia ainda duvidar . julgara a cafua à prova de todas as devassas ao que estava de dissimulada? Afinal. Aqueles Ladeiras. outrem mais maligno e esperto do que ele. o fino alambre do seu volfro.abrenúncio? . Para consigo e para com Deus . O mundo estava assim estupidamente repartido: cães da felícia e enjeitados de tal porca. E o Ougado. à espera que se lhe proporcionasse o ensejo de passá-lo a patacos. A culpa era de sua mãe que. nem o ar dos altos ermos lhe refrescava os bofes. Ele pertencia ao número dos enjeitados.VII O Luís Ougado. tisnada pelo sol nos meses de sequeiro. Pacóvio de si. Mas ante o ar interrogativo do marchante não se deu por achado. Amochilavam ou iam à Fazenda pôr mais um charrabeco no cadastro. em tais mãos era como pérolas a bácoros. Cáspite. ou as mãos lhe caíssem ao chão sequinhas como as palhas por bolónias e estuporadas. tão ladina da vista como ágil de perna e de braço. deu salto. como se viu. o Ougado sofreu novo abalo. Nascera nas ervas e fora medrando à lei da natureza. Apre. ao que se dizia. se metera debaixo dum côdeas. Estava corrido o véu? Assim às lascas. com arestas a fugir para a mina. em vez de ir forjicá-lo com um fidalgo rico e esmoler. tinha de ser fatalmente o seu volfro.que é de lei chamá-lo a testemunha nos juramentos de vingança . feitas para girar. Se é certo que o dinheiro só vale pelo partido que se tira dele. lampando como os outros da sua igualha a fruta na sorte do rico e o canivete deculdado no patim do vizinho. eram uns mimosos da sorte. amealhado dia a dia durante mais de duas semanas para a cova ao toro da giesta. pouco mais que pedriçal e saibro. o que era sempre travar com unhas de fome coisas vivas. chupado da fome e dos piolhos. ainda que pilões. escavada pelos enxurros nos meses de invernia. para mais. não punham um trapinho novo. todo se roía de inveja. Que tivesse ou não andado à espreita. mas sim a arrelampada da irmã. fora dar com ela. Bem certo que não fora o Duarte com o seu olhar baixo de porco. areia a areia. não davam mostras de acrescentos de nenhuma ordem. desafogava! Ao que andava intrigado nem o comer lhe servia de préstimo. que fizera a socresta. escamoteado no Vale das Donas. no canal dos gados. Limitou-se a torcer os lábios no jeito tão peculiar de pessoa que deixa em suspenso por escrúpulo de consciência uma dúvida séria.que Cristo estivesse em sangue e divindade na hóstia consagrada. No dia em que se divulgou que o Duarte recebera quatro contos pela expropriação do arneiro. já se deixa ver. verdadeiro olho de noitibó. O importante é que ficara a fazer cruzes na boca diante dela vazia. De quem era a culpa? Não sua. à custa de muito ardil e paciência e com risco.protestou pagar-se do dano e respectivo desaforo. o seu rico volfro. para ele tornava-se matéria de fé que aquele era o seu volfro. Não tinham alma para sair do triste passadio do caldo de unto e da batata rachada. a fazendória não valia quatro patacos falsos. quando João Vitorino lhe pôs diante dos olhos o minério comprado aos Ladeiras. Servira muito amo e apanhara muita soma de arrocho! Deitar a mão a foice mal guardada. Para que queriam semelhantes brutos a bagalhoça? Para eles tanto representavam quatro contos como quatro pintos que já não correm. atendendo às mãos donde viera. quadrilheiro. do precioso cadáver. esconder e trocar a vinténs 96 .

Ningué m dava conta. inerentes a tais cavalarias. malandragem! Os outros nao roubavam mais porque lhes faltava engenho e arte. tinham topete para tais áfricas. nem os filhos. Um momento esteve inclinado a que o ladrão podia muito bem ser o José Francisco. enjangado do reumático. e até do Calhorra chegou a desconfiar. que era isso? Pecadilhos. Ao aparecer-lhe o negociante com o minério: é este? . gente metida consigo e salamurda. tão longe do volfro como da China. Era a norma: toca a roubar. consoante o ano. Fora então o Vargas da Violeira? Passava-lhe lá pela cabeça que os Gadunhas. pois que era da regra e não lhe parecia bem ser aqui mais papista do que acolá. Quando chegou à conclusão de que havia que ilibar também este pincha-no-crivo. maquiava-a numa ou mesmo duas cestas-brezas de batatas. costumava incumbi-lo de lhe tirar as batatas na horta que trazia arrendada ao Asdrúbal rico. Por isso dera mil voltas ao juízo. Levara a devassa a ponto de espiar os vizinhos. suspeitou daquele. compreendia-os e aceitava-os. Às vezes pagava-se por suas mãos. pesados da rabadilha. arrepelou-se todo. uns para os outros. que nem valia a pena acusar na confissão.a machadinha do lavrador caída do carro com os solavancos. Depois. Mas. que tem carradas e carradas e traz o gorgulho a lavrar nas ceveiras. de ladrão passando a roubado. sacada de gorra com o filho estroina da tulha do ricaço. uma rasa de pão. e ficarem com a mesma cara. nem a própria senhora professora. segar a campainha na coleira da vaca ou do carneiro. consumindo horas sem conto à caça do larápio. que lá tinha o pai para receptador. enquanto o Diabo esfrega o olho. o corte do surrobeco bifado ao fardo do mercador que anda de macho pelas portas e se farta de roubar os tolos. mas também não era menos limpo que os outros. pondo no chamariz todo o natural de modo a que o lambaraz desse na esparrela?! Debalde. se lembrou de encaminhar para casa deles o João Vitorino. já que a criatura tinha predilecção especial pelo seu serviço. De noite. estes pilhanços via-os praticar aos homens honrados. alertado por um vago rumor. não dava nada pela alçada. Mas nem o Calhorra. e noves fora nada. fossem os autores da frajoca? Quando. Baldões como aquele. Com o que se não conformava era que se trocassem os papéis. picada a isca pelos rebusqueiros de sanchas e pelos caçadores da trama que vão à hora do lusco-fusco armar aos coelhos nos estercais dos brejos. Mais de uma vez que por um triz o santo se não voltou contra a esmola. Agora que estava descoberta a marosca. suspeitou deste. mormente os que lhe pareceram capazes de cometer o cardanho.lá no fundo da sua alma ficou banzado. por exemplo. procurava roubar com destreza e aviamento. Em que leito de santidades se deitava o Mafarrico! 97 . abria uma cova e enterrava o seu quinhão. Não fora até o simulacro de esconder volfro na toca saqueada e em esconderijos idênticos. pudera? A senhora mestra. tão-pouco lhe pesavam na consciência. assim que os paroquianos ferravam o galho. Não seria mais. que mal vinha ao mundo? No Vale das Donas. Caçado de boca na botija. fora exercer o oficio a outra porta. Dentre a rapaziada que trabalhava no volfro. fazia a trasfega para casa. sim. Mas ele gostava de fazer-lhe as vontadinhas. troçava dos laços que chegara a armar. Serva de Deusfurta laranjas. Sempre a terra ali andava pesada e era uma matação cavá-la. À altura em que a paqueta desandava para a escola a levar o carrego. e arrotava postas de pescada.

Aos filhos cada vez lhes pesava mais a bunda e os amieiros dos tamancos. como tal. onde nem ao padre confessor deixaria meter o rabo do olho. na sua opinião. Sim. espetava duas vezes a picareta no salão e punha-se de costa direita a contas com o seu problema. como penetrasse muito para o centro da terra. apreciava-o como a poucos pelas suas prendas singulares. O filão não era escasso de todo mas. ninguém avaliando a não ser os práticos que força são capazes de desenvolver. antepunha-se a tudo. que tinha a cargo o pistolo. pequeninas e oxidadas para que a intempérie lhes não faça mossa. Luís Ougado. em realidade. Com uma côdea no bolso e um dedal de vinho emborcado. Igualmente a mandar a marra não pensava bem no que estava a fazer. não põem vulto nem erguem assuada. deixava correr. além da falta que lhe fazia. estava sempre pronto para tudo. não havia além dos Ladeiras. no Santo Antão. pois que acertara no alvo. ao balcão das tavernas. de aço fino e pouco consumo. E semelhante propósito. O Calhorra. representava um milagre de equilíbrio que só não metia susto àquela gente pela ignorância dos riscos que corria. nada mais legítimo que exigir capital e juros aos mal-andantes. Apenas na Sobriga se perfuravam poços fundos como aquele. ter medo que desse com a língua nos dentes. ficando com as suas tapadas até a morte. virote na leveza e rapidez. nã o sonham alto e só falam o preciso na terra chocalheira. não precisam de dormir. alma de cântaro velho? Olha que não roubamos os doze escudos que levantas ao pôr do sol! Dizia-lho a rir para lhe sacar a mostarda. Manuel Torres. haviam de pagar a tranquibérnia com língua de palmo. auferindo boa renda da desvergonha. trabalhavam dez homens. o Calhorra têlo-ia mandado pentear macacos se não fosse o seu cabo de ordens para toda a casta de manigâncias e. a ponto duma vez pouco faltar para expedir desta para melhor ao filho mais velho do Calhorra. Ali. não só pelo detrimento como pelas horas perdidas e amargos de boca que lhe haviam feito provar. doía-lhe ter sido tão sendeiro. O Calhorra. medrando naquela zona mais recôndita da consciência. botava de 98 . magros e hécticos como os lobos. apenas um sendeiro chapado não dava conta que a flostria só podia ter partido desta sorte de indivíduos que.Agora. Ora podia dar-se volta ao povo com uma candeia que outrem susceptível de tais aventuras. O desmonte. sempre a magicar em portas falsas.Em que estás a cismar. Sua mãe tinha-o inteirado de quem era a Soledade nos tempos em que alcovitava por conta dos fidalgos da vila. que era perito na arte de conhecer os homens. pelo contrário. volta e meia. Quem dirigia os trabalhos. não te rales que eu também não. . enxergam tão bem de noite como de dia e. de pé. à boca da exploração. prático em tudo que dizia respeito a esfossar o solo e estoirar um penedo. têm o hábito de caminhar subtis à semelhança dos bichos do monte. que era o mais. Requeria grande esforço remover os entulhos. e muita pólvora e braço teso descoser o balcão de seixo. era o Silvestre. incluindo os três que o José dos Cambais trouxera à sua parte. ia dar com ele de corpo ao alto. O Luís. a lavra tornava-se tão árdua como dispendiosa. a ver para onde corriam as nuvens. Aquele mariola. mas sempre lho ia dizendo. Mas deixa. Em sua imaginação comparava-o a certas máquinas que conhecia por alto. surpreendem a cada canto as maiandrices alheias. depois de entendimento havido com o Dr. consoante este tomo. Além do mais. mas leigo quanto ao resto. Sentindo-lhe minhocas no seio.

à maneira do galeguito: “Vendédem’os bois. Quando se curvava para a enxada. mas non me vendades o meu tabaqueiro. O Ougado para prova de lealdade revirava as algibeiras. A rir. Vendédem-o pote.Vê lá bem. Palpitava o itinerário. o Calhorra roubava-se a si próprio. Metade para cada bico. que exige a jorna. torciam os dois muito manos pela tapada das Margaças. que nunca ele corre mais vagaroso do que de ferro em punho.Não ficou coisíssíma nenhuma. Fumava uma onça de Java por dia.Assim não é de valha. o Calhorra tê-lo-ia há muito tempo recambiado para a mae que o pariu. vendéden’as vacas e non me vendades o pote d'as papas. e lhe queria como amigo da “vigalrada”. Não era preciso dizer-lhe: À saída das Antas tomas pela esquerda mal avistares as Alminhas. depois que o trabalho cessava com o bater das Trindades. o paivante colado ao canto do lábio apanhava o seu resquício de saliva e apagava-se. e o Luís por nada deste mundo deixaria de meter a unha. Depois.. com o resfolegar. Extinto. Às vezes turravam de parte a parte e armavam grande brequefesta.Vai lá trambicar outro. também um nauta de primeira pelos velhos caminhos onde Cristo nunca gastou as sandálias. a tirar com o devido ripanço as primeiras fumaças. Segundo a letra de pacto tão serniscarúnfio. . o Calhorra observava-lhe: . Tinha de ser. a espicaçar o vício do fumador. mas perdera a paciência para o esforço..?! . mas não me trambiques a mim que sou teu amigo.” Entremeada de ócios e partes gagas. perdia um ror de tempo. com o odor da nicotina. Toca a reacendê-lo. o que era o seu primeiro ganho. José dos Cambais e ele.. as ventas fumegavam-lhe como uma chaminé. O Calhorra não tinha outras obrigações senão fechar os olhos.jornada até onde mesmo um macho requeria sólida pitança. Talvez por isso abendiçoava o cigarro. uma “beata” mal cheirosa. ainda ficou malaguera.dizia dele o Calhorra. Tanto andava de noite como de dia. enrodilhada no cotão. meu cara de lascarinho? O Calhorra acabava sempre por lhe encontrar uma pedra de onça ao canto do bolso. Deste modo. Mas como eram quatro os sócios. Procediam então ao apuramento da colheita à ponta de balança. ficava sempre de melhor. Chegado às bifurcações. depois a acendê-lo. .Deixa lá ver. Como trabalhador era péssimo e o Calhorra renegava dele. Mas estavam acorrentados um ao outro por um ajuste secreto: usar o Ougado de pulso livre para laraplar quanto pudesse com a condição de repartir com o Calhorra. Simão Tadeu.dizia o Calhorra com ar formalizado. sabia escolher como um bruxo o rumo conveniente. Possuía o sentido da direcção e lá ia por caminhos ínvios e ignorados certo como uma seta. ficava para ali uma coisa sem sentido e reles. Luís . Esta parte repetia-se cinco e mais vezes por cada cigarro. defraudava os patrões e empulhava o tempo. Antoninho Fráguas. ou mesmo no forro da japona. Tem pacta com o Inimigo . tenaz e aturado. Por todas estas razões e mais uma. activado pela babugem. Irra 99 . À noite. ainda que nunca por lá tivesse rompido solas. Faziam menção de ir encaminhar a água para os lenteiros. A preparar o cigarro. Deixa lá ver. boa parte do dia escoava-se deste jeito. vendede o cunqueiro. até pôr a petisca de remissa detrás da orelha. Não que lhe faltasse ralé. Assim as mãos me meleml .. visto o tabaco ser admitido no serviço como a água quando se tem sede.

Cá varnos! Regressava a casa com noite fechada. puxava um lindo motreco de minério do limbo dos frangalhos. e no pé leve com que mudava de homem para homem. O Calhorra ficava varado. de modo que lhes era cómodo entrar e sair sem ninguém dar conta. Tambem a mãe o estranhava. 100 .. O filho. ria e lá dobrava com moleza e não pequeno desdém o espinhaço à picareta. berrava-lhe para baixo: . riquíssima pedra de volfro. atrá s duma pedra apresentou segunda e atrás dessa segunda uma terceira.Olho no macanjo. que era o verbo que o Calhorra lhe mandava iniquamente conjugar. vinha outro. que para isso te pagam. O principal é que não faltassem.Em que estás a matutar.Anda-me. escapas à mão meticulosa do Calhorra. no dizer das bocas do mundo. não se compadecia com a liberalidade. . e com isso se desculpava quando o seu Luis rompia em desatinos e acusações: . Chegava a noite e aparecia com os bolsos vazios. Ontem do Sancho do Prado. O Ougado. o que era exagero evidente dada a sua espessa e viçosa trunfa. embora em casa muitas vezes chamasse por Deus nas necessidades.. ficou a ter medo dele. não aceitava os remoques do filho. Um dia.. É capaz de roubar a madre a uma égua e ela a galope! Agora o Ougado. nas horas de trapio. Estava-lhe na massa do sangue.Valha-te o Demo! O que tu querias é que eu morresse à fome. A casa deles ficava à boqueira do povo. Não gostavam dela pela sua fidúcia na independência.dizia em seu íntimo. Que andaria a tramar o grande meliante? Da orla da buraca.. . expedita no trabalho. de banda da serra. Os amigos sempre lhe iam dando com que acalentar a vidinha. estimulado na sua destreza de ratoneiro.com a bestinhal O Ougado jurava e trejurava que não tinha no bolso nem tanto como a cabeça dum alfinete: . A razão da sua munificência carnal não residia absolutamente na penúria. e daí boa parte da sua insubmissão e faltas de respeito. que valiam umas centenas de escudos. tio Silvestre? O chão se abra e me coma! Depois de muito jurar. quando o Calhorra começava a convencer-se. e não faltavam pois que era fêmea salerosa e desenxovalhada. Desde franganota que. Luís? É na paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo? Olha que ainda vem longe o tempo da via-sacra. Silvestre . ainda avezado desde menino a semelhante despautério.Ceguinho eu seja. A senhora Rira Ougada era uma mulherona alta. chamando a si o direi. E quando apanhava o Calhorra balanceado em sentimentos opostos. e todavia rogavam-na pouco.c. afrouxara até na prática daqueles palmanços que eram o pão nosso de cada dia e se emalhavam como petinga na rede moral do seu carácter. aéreo de todo. Ia-se um.Cheira-te mal. e tinha o seu quê nos olhos que atraía a quem se deixava fitar por eles. com a preocupação secreta. ao presente do José das Almarges. . a desafiá-lo para uma aposta em como tinha guardada no fato que vestia uma rica. Desde essa data o Calhorra. rompia a negacear com ele.Trabalhe! . mais que a admirálo. que perdera o respeito a semelhante autoridade. Agarra-te ao verbo. conhecera mais barregões que de cabelos tinha na cabeça. ruivaça. ? Mas tu não me manténs! . de se governar como lhe ditava a cabeça.

uma boa maquia de dinheiro. . berrando por Nossa Senhora.. esforçava-se sempre por lhe fazer os apaparicos.Já entendo: se recebesse. tais altercações dentro da cardenha que acudia gente do povo todo. não é? . depois de cismar sentado. . e passara por fazer parte duma quadrilha que operava para as bandas de Castendo.Olha. Tivera não se sabia ao justo quantos filhos.Nem mais nem menos..Homem.Mas. era um coro de anjinhos que estavarri no céu a pedir por ela ao Senhor.Que lhe fazia.Sério: que lhe fazia? . No que não havia incerteza é que se lhe fossem todos avante era devorada por tal rabugem. e assim foi que disse: . 101 . Era graças a esses banzés que se vinha a apurar quem eram os amásios dela e as últimas roubalheiras dele. . o filho.Está bem. Ver a Deus e aos amigos. arrecadava-a. .Onde queres chegar? . Assim. repicando as palavras com certo acinte.. Ouça: se por acaso lhe saísse a sorte grande. sem querer confessar corno aquilo acontecera. À roda dos quarenta anos. era muito boa espadeleira e habilitada nos mesteres de ocasião. que negociara em gado miúdo.. que passara por ali de diligência e se alambazara corri aquela lasca.. que lhe fazia. morrera a aparar as tripas às mãos ambas.. despedíu-lhe à queima-roupa: .? Guardava-a bem guardada para as precisões. . efectuado o devido desconto.Fica sabendo que já me passou muito dinheiro pela mão.? Metia-ta na unha. está-se a ver. para ires funfiar nas tavernas com os compadres ou fazeres bodeganas com as favelcas. pondo-lhe o joelho na arca. não raro. A opinião mais autorizada apontavalhe como pai o MeIrinho. Quando estivesse a maquinar ou para fazer das suas havia de mostrar sempre aquela cara. o carcereiro da vila ou um samarreiro da Bezelga que se aboletava em sua casa às temporadas. nunca avezou mais do que os seis vinténs em cobre com que compra na feira o sal. Com efeito..perguntou com o seu sisudo todo. num sítio onde não visse sol nem lua. é um modo de dizer. onde é que eu a escondia? É o que tu queres saber. Conhecia-lha duma vez que meditara fazer uma espera ao Quim da Urra. ainda ficavam homens para formar um batalhão.? Isso é que eu gostava de saber.. no mocho. sempre frescalhota e lasciva. Um daqueles domingos. os alhos e o lenço de ver a Deus.. ainda despertava apetite. Estalavam. da Ribeira.Senhora mãe..E onde é que a guardava. Não havia de deixá-la em cima da masseira ou nas seixas da janela ao alcance dos cinco mandamentos de qualquer santinho tornou ele. . À parte o descarado bem-fazer a quem lho pedia. Temerosa diante daquele maroto.. o Capa-Cavalos da Póvoa. mudava de amorios mais fácil que de camisa. Pois então? . . vossemecê nunca avezou cheta? Sim. Verdade ou mentira. doutra que a atirara ao chão e. só despedira quando lhe revelou onde o peleiro arrumava a trouxa. que és honrado. embora ela jurasse e trejurasse que não era outro. enquanto batia aquela corda de poviléus? Ninguém acreditava que fosse o sargento Laurindo do 9. que fazia à bagalhoça? . até aí também eu chego. vendo o filho arreganhar a tacha.Faço ideia. seios fartos..Mas em que sítio? Ela viu-lhe o cenho carregado e ficou de sobreaviso. Quem era o pai do Luís? O abade de Pedrões da Nave. que não possuía muitas. e cuia a dar a dar.

? .Seja franca uma vez na vida: não foi nessa quadrilha que meu pai apanhou a choupada que o mandou para o “lindos”.? . .. Teu pai..Não. proferiu: . E lá ia 102 . metia-o na pilheira.Vossemecê é zorata. Olha. que acabou por perder a paciência.. Brás da Nave... metia-as no cós. Não vê que se apanhassem molha. pai destes Afonsos. Andava a concertina do José Francisco no largo da capela e tinham-lhe mandado recado para ir cantar. Trazia sempre a carteira atafulhada de notas. uma vez que não fico mais rico. mas já que temos as mãos na massa. ficava a saber mais do que eu. Esse de quem falas andava a comprar cabras para Coimbra e não precisava de roubar. No cós não era fácil apanharem chuva. Mas isso.Deixa rosnar.. . que lhe deu a chuçada no ventre com um fueiro. Os ladrões já lá iam.? Despregava a barra da saia e metia-o na costura. Tanto se me dá que meu pai tenha sido Pedro como Paulo. com o que sabe e com o que sei. . debaixo da cinza. já te disse que teu pai é o Laurindo.. O Luís dobrou a cabeça para terra e por muito tempo esteve a conversar com os seus botões. A ferida engangrenou-se e foi morrer ao hospital de Viseu.. Trata-se de guardá-los. sabes onde o escondia. suponha vossemecê como qualquer juiz da fome. Ela. a quem ele foi exigir o dinheiro que lhe emprestara. atirou com ele ao balde do porco. ouviu. .Foi o Diabo que te leve. de repente um lembrou-se e voltaram atrás.. . Há-de concordar que. por um cabelo que não salvaram o dinheiro...Sabes. . Mas se as não metia na barra.proferiu em tom faceto fitando-a muito: . Se não fosse pai de tais rebentos. afinal de contas.Tens razão. uma noite que a quadrilha do Olho Vivo assaltou a casa do Plácido Velho. que era muito apreciada a sua voz de falsete. Estava meio de vianda. Conheço-os bem. hás-de me dizer: com que fim é que tu me fazes estas perguntas? .. embora tenha dado em droga. alarves maiores não passeiam nestas cinco léguas. ..... guardálos por muito tempo. não me interessa. tem paciência.. Pôs o chapéu na cabeça e sem mais processos rodou.. é o Laurindo das Salzedas e era sargento no 9 quando me cometeu. as notas faziam-se em açorda. há-de-me dizer uma coisa .Não falta ele onde meter o dinheiro! Se fosse papel... era asneira fazer-lhe a vontade... Mas não se trata de furtar os cobres aos quadrilheiros.Ela pôs-se a reflectir e murmurou: .Não é o que para aí corre.Agora.. Meteram a mão e lá o acharam. Diga agora lá como é que o Plácido quis salvar o dinheiro da quadrilha.Os filhos desse Plácido saíram uns estúpidos de primeira.Aí vem a viola sem cordas! Se lho dissesse. O filho quedou-se a reflectir um instante e replicou: .Se fosse dinheiro em prata..Foi meu pai o da lembrança. diria que a saída do velho não era tola de todo. Hem! Pelo menos é o que rosnam. sendo nós duas pessoas assistentes de portas adentro.volveu com o sorriso alvarinho que lhe arrepiava os lábios e deixava ver as gengivas muito encarniçadas. onde menos se espera é que está melhor guardado. . da última facha que lhes deitei. é falso. Nunca ouviste contar como é que em S. estou farta de to dizer. Foi um malvado das Rãs.

Mas o primo sabe o chão que pisa e com certeza não deixava de retrucar: “Olha. Mas bem. eu tenho lá um riquíssimo minério para qualquer hora. tu és o dono do linhar e eu da regadinha e. E digo-te: trocamos? Que resposta me dás.. A proporção não conta. O Luís Ougado ergueu voz por ele: . perdeu sempre no serôdio e só uma vez no temporão. o menos que te acontecia era eu mandar-te à fava. as coisas vistas por cima da albarda são assim.Pega? Pega! Resposta assim só um doutor! O Duarte lambia-se todo de regozijo ao passo que o Fandinga quedava amachucado com a argumentação. já dizia meu pai: Salomão cem anos semeou pão. O que importa no caso é o meu primo Fandinga julgar que lhe hão-de dar dez contos. O Fandinga dizia e dizia com segura lábia: . em virtude de termos recebido quatro pela regada. pelo linhar. Bárbara que assistia ao paleio com a sua cara bonita. tem uma nogueira que ano por ano.. Só servem para o lume. O arneiro dá quanto muito dez alqueires de milho.Homem. . a valer. ainda se compreendia tal resposta.. Quem lhe pega? . aproveitadas as terras como nós as aproveitamos. bebe quanta água apetece. o que é um arrisco. As gargalhadas esfuziaram à direita e à esquerda e as interjeições admirativas: . “ Assim é que o primo Fandinga respondia e estava certo. como toda a gente sabe. Tu terás lá ricas batatas. 103 . para cá vinha de carrinho. ou lá quanto é.direito quando. ponho-lhe em riba as próprias virtudes teologais. postas as coisas neste pé.Não senhor. reparou que o irmão quedara confuso e acudiu: . O linhar dá-te uma carrada de batatas.Não. E aposto que a minha terra dá mais rendimento se a formos a avaliar. ou se não é antes fogo de vistas. Além disso.. a terra está escaldada e a semente não topa sezão. apoiavam o Fandinga embora o escambo de senhorios a todos se afigurasse uma rabulice de caracacá. tiras tarde.Bem vês que se lhe deitas painço ou milho. não o mandava bugiar. Bárbara redarguiu: . Tinha ou não tinha esse direito? . enjoada. louvo e torno a louvar. Tu és o dono do linhar. bota os seus trinta a trinta e cinco alqueires. primo Fandinga. se anda de milho. Sim. duas a três pousadas de trigo e no serôdio. é assim ou não é assim? Todos. primo Gadunha.Se tu aqui há semanas me oferecesses a regadita do Vale das Donas pelo linhar. não tinha? . entre risos. Ora essa! Dizia-lhe que. carrega um mulo. ao passar pela venda.Resta apurar se lá há volfro. O teu linhar tem tudo isso. é semear no temporão. admitindo que não foi porque o Fráguas se meteu nisso que lho pagaram por bom.? Ora. e ouro é o que ouro vale.Ora essa? Põe-te no meu lugar. Há também lá meia dúzia de pinheiros. notou grosso chinfrim: o Duarte que se propunha comprar o linhar ao Fandinga sapateiro e. nos alforges são assado. eu da regada. mais cambados uns que os outros. tão pouco esperta como desnecessária. que resposta me dás. embora primos. não nego.Isso não importa. Duarte. marralhavam como judeu e cristão acerca da Santíssima Trindade. pela Senhora dos Remédios. faço como os ciganos. ? Mandas-me bugiar! Tira-me as cocas dos olhos. mas não está recheado de volfro como está a minha regada.

Meu alma de chicharro.O meu primo passou-te procuração? . e argumentava como quem joga à cabra-cega. por modos o que há de mais rico e soberbo. Pode estar dez. . . Mas.Não passou.volveu o Ougado.Homem. cheio de sombras e de larvas. muito menos. ou. descendo e emperrou em 800$000 réis. Decorreu entre eles um silêncio molesto. os Alamões não vencem . Tanto lhes custa dar quatro contos como quarenta. estão virados de pernas ao ar. O Duarte não fazia nenhuma ideia de nada. e reis. . A diferença foi descendo. .tornou o Fandinga entre risinhos mas foram os Alemães que te deram os quatro Contos. ele necessariamente tinha que tomar o partido adverso. como nós compramos carneiros. Tem libras que é um nunca acabar.retrucava ele ao primo.Puseram a América contra eles. que admirava a força. O Inglês tem muitas cidades. mas bem grande é o Marão e dá-se-lhe volta. e ao fim quem ganha é ele. .Pois será. generais. Olha. o Duarte mandou deitar um copo de vinho. tomava o partido dos Alamões. Muitas cidades e muitos navios. Mas em que ficamos. O Duarte ficou um momento atarantado e respondeu: .Não. .Pois compra . da guerra.500$000 réis. Nações são nações.Deixa ir. primo? Aproximando-se do balcão. e pelo que escutava na cidade e na camioneta para a cidade. a ceva dos porcos. O braço do Inglês vai a toda a parte. as meninas dos olhos a fuzilar. . Os Alemães têm os japoneses a favor. agora lá se foi à gaita uma grande cidade dos Ingleses ao pé de Macau. vinte anos a perder. que era um assunto infernal. nem a guerra é briga de sopapos. .Pois por isso mesmo. se o não é. onde se ia sortir de fazenda uma vez por mês. A América é uma sarna de gente.Estás a dizer baboseiras1 . hoje vale trinta. passante o qual veio à baila o corte e carreta dos tolos em bom andamento. e com elas compra homens. não são nenhum Santa Camarão. .Mas se o linhar ontem valia cinco. . o Fandinga pediu 104 . sinal manifesto de que não desejava outra coisa senão chegar-se à razão com o Fandinga. Lázaro Fandinga falava da guerra pelo que lia na Voz da Província. Mas não posso ver com sangue-frio que se embarrile alguém.exclamou o Fandinga entre risadas. O Duarte ofereceu 4. porque o sapateiro.Suponhamos . Ouvi dizer que os Alamões têm máquinas muito perfeitas de fazer notas.É verdade. As amarelinhas sempre levam mais tempo a forjar. Tanto desce ao fundo do mar como vai a casa do Alamão e arruma dois socos que vai tudo raso. o Inglês está em toda a parte e leva o mundo consigo. Mais de metade estão no charco. que é nossa.. tornam-nos a pescar. para pouco depois romperem os dois a peguilhar da guerra.proferiu ela com voz sibilada. que não sou formado em leis como vossemecê é. para lá do seu entendimento. Ao menos a ti não te compraram os bifes! O Duarte ficou um instante embatucado e proferiu coçando a nuca: . a ajuntada dos estrumes. pareceu-me perceber há pouco que não tinham dúvidas de a doutorar. de que era assinante.Os submarinos metem-lhe quantos navios tem no fundo. . Não pagou já vossemecê o bolo-trigo a pataco e não o paga agora a dez tostões? Tudo vai na alta que sofreram os preços. se é possível.

vai mas é rachar cavacos para a tua casa? remordeu o Ougado por entre os dentes.Esperava. . façam lá negócio? Um anda pilhando por cheta. Não seria acaso portador de quantia alta. Apostamos uma notinha de cem paus para ser aqui espatifada em vinho e trigo. cheguem-se ao W. .É uma aposta. Erguera-se grande rebuliço porque todos aguardavam o alvaroque. e pronunciou com filáucia batendo na zona do jaquetão que se sobrepunha ao bolso da carteira: .Ora. grato como estava à sua intervenção. mas andavam tantas pelegas semeadas ao presente pelas algibeiras de todo e qualquer bicho-careta que hesitou. Dê-me dois dias. era dos que mais atiçavam: . Se marralham.murmurou ele com voz trágica o dialho é que estou com a corda por aqui.Aguente-se por muito que lhe custe.300$000 réis.5. Talvez eu lhe valha. Claro.. Umas calças de surrobeco que ontem se tiravam por quinze mil réis custam agora setenta e cinco. É uma aposta em como vocês os dois – e indicava-o a ele e ao Duarte . com soberano desprezo. O Fandinga triunfava e como tal. À hora de jantar disse para a mãe: . mesmo sobre o pomo-de-adão. . os camaradirffias não arredam do adjunto para fora. o seu tanto desprimoroso. picado por aquele conceito. em tom que excluía teimas. Dos amigos ou do Diabo. esperava . com a mão no jarro. Cochicharam. Reganha. A meio da estrada segredou-lhe: . . aqui há muito dinheirinho. outro morre por vê-Ia do bolso para fora. Espere mais uns tempos e o linhar bota-lhe aos dez contos. o Fandinga torceu e destorceu o bigode.propôs o Urra.pronunciou o Fandinga. Num dado momento o Ougado pôde fazer um aceno ao Fandinga para que lhe viesse falar de parte.. tenho-o comigo. Dinheiro no cós da saia só uma tola como vossemecê é que lá o metia.Rache-se a diferença! . perdem o tempo. O vendeiro olhou ainda para o Duarte que lhe fez sinal de que não trazia um chavo com ele. largou pela porta fora cuspinhando: . À noite. O taverneiro tinha o Fandinga por um pobre de Cristo. nã o se despe? Além disso.Está tudo a subir.Homens.Pois agora é que eu vos digo: à nisgal O Ougado foi com ele. voltando para o adjunto. O taverneiro. encarregue de fazer pagamentos ou compras por conta de alguém de posses? O sapateiro repicava: . Duvidas? É uma aposta. . Ficou a aposta em suspenso.Não vendo por menos um real . estragado e faminto.. Lázaro Fandinga aprumou-se todo. vossemecê não tem amigos e eles não costumam apalpá-la? 105 .Vá. quando se deita. é meu. que era beberem para ali à tripa forra à custa dos contratantes..Fiquei a matutar no que lhe ouvi esta manhã.não são capazes de prantar aí na palma da mão tanta massaroca como eu. tudo com tal descanso que um dos presentes gritou em tom de “casar ou meter freira”: . o Ougado cruzou e descruzou a perna.Enganas-te. E levava a mão em prancha à garganta. ao que ele correspondeu logo em seguida...

com o cé u pousado como chapa de zinco sobre os telhados. . debaixo duma tábua.Tenho aqui uma pontada muito grande. A Rira Ougada trocou a capucha pelo xaile.? Sim. E em que outros sítios? .. já sabe.No chão.Numa panela velha. pode rezar-me por alma. Aqui e aqui.Sabe o que eu lhe agradecia. mas nada mais agradável que o lume de torgos. Apenas quando a mãe largou ao caldo..Ande cá... Era uma grandiosíssima asneira metê-lo no cós. . de cesta enfiada no braço. no meio do pão. Retrocedeu sabendo de que jaez era aquele cabo dos trabalhos. Onde é que o metia? .. com ar de enfadado consigo e com Deus. e disse: .Estás com alguma dor?? .. A concertina subia a rua fungando... .. muito tinha onde a meter e estava com a língua perra! proferiu atirando-se para cima da cama. Hesitou um instante de nada e logo se decidiu: .. Acalentou a fogueira com mais duas achas.Ao menos vem para o lume.. . Ai. Nossa Senhora. com uma quartilhaça a emornecer à quentura da brasa num pucarinho de Molelos. sem tirar os sapatos. que a terra de lenhas era farta. Quando me vir encafuar a cabeça debaixo das mantas. senhora mãe.Não acha justo o que lhe digo?.? Talvez. sentado um cristão à fogueira.Debaixo duma pedra. Ande cá e responda. além de que não gostava de aparecer mal trajada em terra alheia. A mãe veio encontrá-lo de colete desabotoado. é que atirou o chapéu para um canto e se sentou na cama. 106 . .Está bem. sim. se fosse lajeada.Ela virou-lhe as costas. pôs o chapéu em cima dos olhos por causa da luz.Num buraco da parede.. Mas hás-de meter-te na cama. tornou o filho: ..Se lhe não custasse muito ia chamar o barbeiro a Pedrões para me ver. chego lá num rufo... um bom fogo estralejava no lar.. .e apalpava a região abdominal e parte do tórax. que eu morro? .. Pense bem. Precisamente. Sim. E mais nada? . podia ser.Se a casa tivesse soalho. pensativo. deixá-la fungar? Estava uma tarde suja de inverno. num buraco da parece. mas se quieto estava quieto permaneceu. . E que mais? . Toma-lo? Não respondeu.. mão no seio. como se quisesse dormir.Na cama não me meto. . . a gemer.Num buraco...É como se uma broca andasse cá por dentro a bater e a abrir furo. despojando os cavacos da corcódea.. . de sorte.. Com o mormaço não fazia frio.Se não estiver.Faço-te um chá de cidreira.? ...E estará ele em casa? Hoje é domingo.... o solo embebido de água e o vento ronceirinho à porta.. Por muito tempo a mãe ficou estática e calada a olhar para ele.Sim. . Bem. Bota-se a esteira no chão e deitas-te nela. deixa-lhe recado. os tamancos pelas chanquinhas para ir mais lesta. destas tardes de luz minguada. faça agora de contas que se via obrigada a guardar a massa dentro de casa. .Na arca.Uma panela velha . como um ladrão que escuta para entrar.. . Estendeu-se bem ao comprido.interrogou ela.. .Caramba.proferiu em voz lamuriosa.Querias que te dissesse. e não deu mais sinal de si. Acarinhando a voz. . . .

para cumprir o dever. passas. Enterneceu-se sobre o destino. Foi como um malho. Desapertou-lhe o alto da 107 . atirou-se a terra. e por certo que poria todo o empenho em ter azo a fazer novo e circunstanciado relato. decerto a referir em lição correcta e aumentada os motivos que a levavam por aquela estrada fora. Mal teve tempo de jogar o cigarro ao fogo e escorregar para a esteira. como um inválido. até que ouviu traulitar à porta a tairoca da mãe.Tenho o meu Luís a morrer.. Está às ânsias. Isto de mulheres eram todas pucarinhas do mesmo barro. ele a saltar num pé. cheia de mossas o ferrugenta. Mas deviam ser as mesmas. Ergueu a tampa do açafate e cortou uma fatia de pão. E. O Gregório dos Santos. A porta abriu-se de rópia.O barbeiro dirá. dois quilómetros dali?? O Ougado abandonou o posto de atalaia. Quantas vezes se não suspenderia ainda a dar à taramela. mas foi mais breve que o pestanejar dum finório. Deglutia e magicava. cruzou-se sua mãe com a Rosa Pedralva. Ouvi dizer que anda muito arcada em Mouramorta.outra vez se deteve. A mae. atemorizada. e com a ponta da navalha. A criatura ainda não tinha dado dez passos. corpo morto. mais ítem menos ítem. de fornecer informações a quem lhas pedia e não pedia. ao desaparecer na curva . lá vinha o barbeiro. alguém verteria lágrimas por ele?. aipo.. a alma banhada pela mais salutar das alegrias. O meu Serafim também assim esteve. não se distinguiam as vozes. piscando o olho para o brasido. Voltou ainda a parar à porta da taverna. Se fosse verdade. procurou içá-lo para o banco. Vou a toda a pressa chamar o Gregório dos Santos. mas ele que não queria escândalo proferiu em voz que se esforçava por não ser trémula. Quando lá se viu. em sua alma quase abençoou a safadeza de ser gente. mas.o Ougado vía-lhe só a anca . Foi o juízo que se me varreu. e não se segura nas pernas. salsaparrilha. em guisa de garfo. Correu à porta e colou a bugalha do olho contra a talisga. barbeiro muito bem afreguesado e escanhoador de fama. excedia a capacidade da sua fortaleza e desistiu. não podia mais.. aos fernicoques. Além da mãe.. Mas.. Ali esteve meditando.Não é nada. puxado por todos os foles. levava à boca. . Composto do estômago. Vá com o seráfico e para atalhar a quaisquer ideias aziagas que se pusesse o próximo a vomitar sobre ele? Na própria palma da mão ia cortando aos nacos. A mãe soltou um grito quando o viu estatelado. Mandriou por lá uns dias. Numa garrafa desencantou um chorro de vinho e remeteu-o ao paiol. Mal ela virou costas. tia Rira.Vagarosamente. nem a Florinda e mais tinham feito juras das que só desata às pessoas o outro mundo. de carapuça na tola e a Arte debaixo do braço numa taleiga que já andara a boldrié dum pedinte nos tempos afonsinos.. pronto. disparou para Pedrões. já passou. e vai ver como arriba em menos dum amém. calculando. no intuito de a tranquilizar: . até chegar à porta do barbeiro. Não sei o que aquilo é nem que não. Mais adiante. Corri ele apertado nos beiços. aquela cara de machadinha velha. A distância era grande. toca a embrulhar o cigarrinho. embrulhou-se na capucha e foi-se arrastando para a lareira. Não tardaria que todo o povo soubesse que estava de pés para a cova. Ouviu que dizia: . tantas voltas deu na arca que acabou por descobrir um cíbo de queijo. estacava no colóquio com a Júlia Calhorra. repimpado no tamborete. Hum.Deve ser andaço. O meu medo é que seja por lá a tifóia. Dê-lhe um cozimento de arruda. Apartaram-se. um novelo de fumo a desfiar-se para o caniço. e obrigadas aos mesmos oxalás. .

quando se voltam a abrir. não sou nenhum valente... está tão suja que parece que andou a varrer o forno. muito ancho e senhor do seu nariz. O sangue é a lima. pela frente. O Ougado obedeceu e o tio Gregório debruçou-se a examinar aquele bacalhau de primeira.. desenganou-os: . quando Rira Ougado lhe veio perguntar quanto 108 . antes morrer. Mas eu perca o nome que tenho se amanhã por estas horas se não sentir noutro fole. às colheres.Caramba.Vi-te na festa de S. Quando ela compreendeu e ia a largar em busca do vesicatório. À saída.Tens medo?? Ah? W e eu que te julgava um valente! chalaceou o barbeiro. o barbeiro estendeu o papel: . Se depois de amanhã não estiver bom. bolsinha à dependura das costas pelo nagalho. sem reagir. fecham-se os olhos. mas só depois de emornecer.Antes morrer ..prostestou o enfermo. O barbeiro ria e fazia para a mãe do paciente uma mímica variada e imperativa. pelo dorso.. Tan-tan-tan. Torceu o nariz. Mas como era homem de imaginação propôs: . O Luís submeteu-se como um cordeiro e o fisico pôde batucar-lhe à vontade no costelado. O Gregório dos Santos ficou perplexo.. Tinha que tirar a farpela e deitar-se de costas. A purga toma-se em jejum. O remédio vaise tomando pelo dia fora. Sou como sou. amaruja-se o agro. Fez menção de retirar-se. Na terra haverá cáusticos. concluíram que anuía.? A isso não dizes que não.Quita de dar um passo que no meu corpo não poisa sinapismo quanto mais cáustico? já disse. o Ougado. É preciso trazer o corpo temperado. está já para baixo dos gorgomilos. Numa palavra: há que trazer de olho os humores! Deitaram-lhe a cataplasma na peitaça. . Sorriu na sua consciente sabedoria. mandem-me chamar. Feito o quê. aprumando-se. como faria ao tampo dum tonel para supurar a altura do vinho. meu rapaz? Palpou-lhe a barriga e desejou ouvir-lhe o coração.É um pleuris.. cada pancada que nem um pandeiro. seca. já sei o que tens. Entreranto o barbeiro notava a receita num sarrafo de papel para aviar na botica. . A mãe tinha linhaça em casa e tratou de preparar o emplastro.. Pois então?? Tenho carne de galinha. filho de boa mãe? Enganei-me.O nosso corpo é tal qual a terra de regadio. .? . . Ao cabo de meticuloso exame. Ah! ah! -Não senhor.. a outro. que à primeira deu berro que se ouviu em Pedrões e desmentia eloquentemente a aproximação da morte.Deita cá a língua de fora. Brás de naifa aberta a desafiar meio mundo. declarou: . no intervalo dos comeres. aplicar o ouvido a um lado.E uma cataplasma de linhaça. com a água sempre justa nos talhadoiros e os regos sempre limpos. E como o vissem de ar parado.. e disse para comigo: aí. lima a menos.Mande aviar cedo. Lima a mais. assaz formalizado com enfermo tão pouco submisso. Leva-se a xí cara à boca. que estava a bispar tudo por debaixo da mão em pala. deitando as suas filosofias: . Desmancham-se os poses em caldo ou em leite.? O Luís ficou calado a imaginar a possível mordedura da linhaça em seu respeitável canastro.braguilha e o colarinho para “o sangue circular à vontade” e pediu-lhe o pulso.

devia, respondeu, e nenhuma palavra escapou ao ouvido precatado e fino do Luís: - Não há-de ser uma só vez nem duas que cá tenha de vir. O rapaz está muito mal e, se me não chamam, não me admirava nada que batesse a bota. Tenho esperança que o remédio que lhe dou, e é o rei dos remédios, o salve. A ver vamos. O Luís fechou os olhos e deixou-se vogar no silêncio da casa, quebrado de quando em quando pelo tamanco cavidoso da mãe. Ouviam-se as campainhas das vacas de regresso dos pastos e ainda a matinada roufenha da concertina lá para a porta do José dos Cambais. Depois, pouco a pouco, a luz do dia foi-se amortecendo e invadindo a casa o resplendor da chama a devorar na lareira a pilha de cavacos. Acocorada ao pé do lume, a mãe espiava a roca e velava, dardejando de quando em vez um olhar inquieto para o filho. De repente desceu da serra a enxurrada de chocalhos, vozes e estrépitos de tamancos, e, pouco a pouco, o silêncio foi-se restabelecendo até encher o mundo como um odre em que se soprou ar. Enoiteceu. A mãe rezava e o chilido das ave-marias fazia por vezes coro com o cicio do fogo retraçando a lenha. Bateram à porta. Eram as comadres a perguntar como estava o doente. A mãe acudiu muito solícita a dar a todas a mesma resposta: “Bem haja, ele, para que digamos, piorzinho não está. O que o mata é aquele pesadume no peito...” e não quis ouvir mais, desviado o espírito para outra matéria. Veio ainda o Calhorra e a Florinda, ambos com voz de caso. Mas, fez-se Lucas, e não quiseram que o acordasse, uma vez que passava pelo sono. No dia seguinte que não pegasse do trabalho, muito menos na mina. Aquilo não havia de ser nada; mesmo assim, matasse-lhe a tia Rira uma galinha bem gorda, ainda mais que ia purgar-se pela mão do Gregório, que receitava para um cristão como para um cavalo. Não havia como as enxúndias para ajudar a desimpedir o corpo!... A noite alapardou-se em cima da terra, rotundamente, como avejão sobre o ovo que anda a chocar. Um após outro apagaram-se os rumores da aldeia, balidos de gado, choros de menino. Tudo adormeceu, a própria mãe, que a meio serão ressonava como um órgão, o sobressalto tendo-lhe batido na massa do sangue como uma semanada com os amigos. Ele é que não podia dormir. Há muito que atirara o emplastro para casa do Deus verdadeiro. E, sentado na cama, novamente ensaiou o seu papel. Quando luziu a telha, afundiu-se nas mantas e rompeu a gemer. Gemeu, tornou a gemer, mas a mãe dormia como pedra num poço. Um carro de lavrador atravessou a estrada e meteu aos solavancos pelo caminho da serra: o primeiro que girava ao mato. Gemeu mais forte. A mãe estramontou: - Sentes-te pior, filho? - Sinto-me bem mal... bem mal. Vá pelo remédio. A mãe ergueu-se da enxerga, atirou dois bochechos de água para os olhos, falou em ir chamar alguém que ficasse ao pé dele e, ante a sua recusa categórica, pegando do xaile e duma côdea de pão duro, despediu. Mal lhe lobrigou a rabadilha a dar a dar, pôs-se ao alto. Pela frincha da porta passou revista a quantos lavradores saíam para a serra. Viu passar os operários das minas, uns direito ao Santo Antão, outros ao Vale das Donas. Levantaram em rancho os matejadores, de roçadoira pendente da espádua, e logo depois os zagais, de bornal aviado para o dia todo, com os rabanhos ronceiros. Pouco a pouco a aldeia foi-se despejando... Quando lhe pareceu que o açude tinha acabado de escoar-se, abriu a porta a medo, sete olhos à direita e à esquerda. Estava o céu escuro e fazia frio. Não era nevoeiro,

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todavia para lá dos duzentos passos divisavam-se os vultos das coisas, mas não as linhas. Tão-pouco lhe pareceu ar de neve. Era um cariz sonolento de inverno, sujo e triste, com grossas nuvens baças a prepararem-se para alagar os cambais da terra a poder de cargas de água. Muito embiocado na capucha, descalço, depois de observar que não bulia vivalma, largou numa carreira. À capela torceu para casa do Duarte; desacravelhou a porta do forno e, empurrando-a, espreitou... Não estava lá carro nenhum, que fora o seu susto. Não estava também gente, e entrou afoito para a quintã. Ao rumor que fez, a porca, lograda em seus hábitos, grunhiu: “Trouxessem-lhe que tasquinhar. “Bem. Fez pressão contra a porta da casa propriamente dita: estava fechada à chave. Procurou a chave na gateira; depois na torça; lembrou-se que também era costume metê-la no cisco, contra o limiar, e vasculhou com mão cuidadosa e ligeira. Lá estava efectivamente. Continuava a ir bem? Descerrou a porta com todo o ripanço e aos estalidos que soltaram os gonzos ficou interdito: abro-te?... fechote?... Abriu-a por fim de rópia e a sanfona mal deu sinal. O silêncio lôbrego do interior é que foi como um cão que estava a dormir e, estrovinhado, se atirou a ele. Levou um bom migalho e recobrar-se. Pouco a pouco, os olhos foram-se habituando ao bicho hirsuto, que voltava a aninhar-se nos cantos com as arcas velhas, ferramentas, trastes sem nome, entre taipais encardidos de fuligem. Contra a parede as duas peneiras eram duas monstruosas pupilas da aventesma, estupidamente atentas ao que ia fazer. Mas ah! detrás das caixas, como separadas por sebes, mostravam-se duas camas... duas. O mais, paredes, bafio, cainheza, era alcatrão. A laja recebeu os seus passos mais surda que a própria terra, que tem a sua sensibilidade e se queixa até da lebre que passa. Mas era álgida como o caramelo dos charcos. Levantou a tampa da primeira arca, que estava meia de centeio. Enterrou o braço aos cantos, no centro, aos lados. Nada. Passou à segunda arca atravancada com toda a ordem de tarecos, a escudela do fermento, a queijeira, bexigas de coalho, uma almofia de feijãofradinho, e roupa, manaixos, mondongos, coisas quase todas de trapiche. Resolutamente desatou a esvaziar a arca e a espíolhar peça por peça? Nada de nada. Com um varrer de olhos percorreu a casa toda. O tanheiro observava-o semelhante a um bonzo acocorado ao canto, zombador e imperturbável. Lá estavam em cima da pilheira, como as comadres à boca da fonte, panelas, caçoilas, potes de ferro, toda a útil e inútil olaria de cem anos. Antes de passar-lhe revista, velo à porta observar. A quintã era o mesmo poço de silêncio e de rescendores fétidos. Nem uma galinha. Na pocilga refunfava a leitoa. Volveu dentro da casa, admirado do seu sangue-frio. Nem sequer lhe palpitava o coração. Trouxera-o ou deixara-o lá fora?? A verdade é que se achava ali na propriedade alheia tão naturalmente como na taverna a beber meio quartilho. De todo à vontade, investigou à direita, investigou à esquerda, e novamente lhe incidiram os olhos para a cacaria e o pucareiro. “Vamos lá ver? “ proferiu em voz alta. Acercou-se da pilheira. Revistou uma panela, revistou outra, destampou aqui, emborcou além. E a caçoila...? Moinha...?? Apalpou papel e não teve mais dúvidas. Com ele bem apertado, sem ver sequer de que se tratava, nem pensar em coisa alguma, com o coração agora aos saltos, os trastes todos; tanheiro, cântaros, arcas escancaradas, o negror da casa e a alimária do silêncio, acocorada nos ângulos da cardenha e na quintã, a gritar: ao ladrão! deitou a fugir, a fugir às sete partidas sem reparar onde punha o pé. O sentido levou-o, sem

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desvio nem quebranto, por onde viera, para mais, leve e subtil como uma pena. A mãe veio encontrá-lo de olhos esbugalhados, a arder em febre, mãos a segurar a cabeça. Pôs-lhe os remédios na banca. - Vá-me por água fresca à fonte. Vá que eu cá tomo as drogas... Estou a morrer de sede. Despejou purga e eclegma para a cinza e, quando a mãe rompeu casa dentro com a cantarinha a trasbordar, levou-a ao meio. Depois caiu em quebranto. A horas de jantar visitou-o o Calhorra, que também era meio médico e lhe achou ares de bem disposto. Estavam na santa cavaqueira, ouviram grande rebuliço no povo. Sussurram assim as colmeias quando levantam voo e vão pousar de largo, nos ramalhais. O Calhorra moveu com a maior presteza possível os membros trôpegos; o Luís, pois que a mãe lho exigiu, agasalhou-se na capucha e foi atrás do cambado. No largo da capela, ao entrar para o forno dos Ladeiras, pela quintã e moradia espraiava-se um mar de gente. Singraram a custo até chegar à porta da casa. Da trave fuliginosa, ao pendurão, um corpo de enforcado bailava. Bailava sem ninguém lhe tocar, ao simples bafo, parecia, das pessoas que ali vinham, para que vissem bem e contemplassem. Quando a face, em sua rotação, colheu a luz diurna que se coava pela porta, o Ougado reconheceu o Duarte de olhos muito abertos, fitos nos seus, com a boca escancarada, boca de través, que uivava: ao ladrão! Ficou transido coisa de segundos e, fincando os queixais um no outro, não se pusessem por lá a matraquear a semana santa, desandou pela porta fora, de esguelha, de modo a que Bárbara o não visse.

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estava vestido. sempre encostado ao Pauzinho de marmelo da cor do carrascão. Deus para um germano. riscada por um pedreiro de talento para morgado farto e desembaraçado. compunha-se de quartos amplos e vistosos. salões grandes como gares. o que viera tranquilizá-lo no mais latente da sua alma sobressaltada. senhor Incas? .dá umas calcinhas. encetava a lide quotidiana. Mas o sol retoucava na rama alta das carvalhas que ensombram o largo da feira. ainda quando oriundo do SchIeswig.rondavam já à porta da taverna. Passavam as primeiras mulheres para a fonte. tomou aquele velho prédio de Tendais. todos os rumores preambulares do formigueiro rural que desperta. E por sorte deparara-se-lhe a construção tipo da mediania provincial. corruja de abadia. Hincker entretinhase com a paisagem humana da vila. o que se chama um lar. Sem embargo. sem os estigmas do nobre solar: escada garbosa. ora e logo balouçado em sonhos pelos solavancos fortes dos armões de campanha. Pela vila ouviam-se vozes siricopadas. salvo o albornós. não é o deus eclesiástico do resto do mundo. eixos gementes. o que lhe permitia partilhar-se mais a seu cómodo pelas duas explorações. tal um rico marabu. como o velho Badanas. isto é. pois estático só na tumba. Felicitava-se cada vez mais de ter alugado ali casa. não dormira o que se chama uma boa e pétrea noite. com as paredes sensibilizadas pela infinita profusão de rostos. Tanto o Pelicas. com insônias de permeio. uma varanda a sueste. Mas o seu principal intuito fora oferecer à filha um lar. Aquela moradia.VIII Franz Hincker levantou-se cedo naquela manhã fria mas luminosa de inverno. coveiro. vasta e quadrada. bater de portas. sim. mais divertido que diante dum guinhol. mas quartos para bonecas e uma noção do conforto herdada do eneolítico. quase contente consigo e com Deus. perfumado.as minas não poderiam oferecer-lhe senão domicílio abarracado – e morar no povoado. matinalmente exacta segundo a nova disciplina. Entre ir morar para as minas . seus fregueses: . Nas horas despreocupadas. Mas com o amanhecer a consciência ficou sossegada. desses que passaram à imortalidade 112 . Paulinha dava também sinais de ter passado ao gabinete de toucar. No piso inferior a criadagem. Um Alvitano surgiu às upas no potro. a tal consciência panteísta que Goethe numa carta a Eckermann punha acima das contingencias universais. por detrás dos estores. durante as quais queimara havano sobre havano. a meio caminho para a Sobriga e o Vale das Donas. cântaro à cabeça como vira na Arábia Feliz. de dores e de venturas dos seres que por ali passaram. que trazia jaleco de alamares e faixa. que se conquista com actos de adoração. o universo real e o imaginado. mas o que existe tão de concreto como de vago à volta dos sentidos e do intelecto do homem. E como não havia de estar naquela disposição psíquica? A Reichs-Rundfunk da emissão da meia-noite dera um copioso relato do que se passava nos campos de batalha. que daria salão de baile. Não estadeava brasão no lintel nem galeria com antepassados de prosápia. de colóquios. e isto equivalia a um sono reparador. e com a ginástica respiratória em regra. sem falar na peça central. uma boa cozinha.

pelas estradas intermináveis. estimou. da cor do chumbo. e Hincker. Metiam pelas estradas a poente. tanto se importando de atirar com meia dúzia de mancheias de libras pela janela como com o resto do copo de água que não acabara de beber. Para os gostos simples da menina possuía a vivenda um quintalinho com seu tanque. E selados a sete selos abalavam e lá iam em recova. Em seguida às mil e uma peripécias duma rivalidade que chegara a saltar todas as barreiras do fair play. Veio dos aposentos o pai. perfeitamente bem-ditosos sem a existência nas redondezas de bois bichanos que vinham às vezes murar para aquele paredal. Sábados à noite. há caçadores especializados. arrecadações. confortá-la e dispor-lhe o ânimo a transigir por uma vez com a habitação infestada de parasitas. ao passo que além o rompimento exigia constantemente perfuradora mecânica e dinamite. cerca de 75% da área metalífera conhecida estava registada por firmas contrárias. não menos molestado. outras em quartzo atravessado de lezins que descosia a ponta de picareta. Mas para chegar a esse ponto tivera Hincker de sustentar uma guerra bruta com os concorrentes. onde cismavam artemísias. e no mainel da varanda sardinheiras entornavam até meia povoação um vermelho que Hincker pela rutilante candura e a carência de aroma classificava de amoral. e iam baldear 113 . famílias de ratos bemditosos. depois de munidos das respectivas guias fiscais. carregavam debaixo do olho vigilante dos fiéis a sacaria pesada e lacrada. quer nos soalhos quer nos apainelados do tecto. Kammerjãger. com freima nunca vista. de molde a armazenar a bom recato todo o minério produzido. vinham camiões de seis rodas velozes e surdos. encaixado o veio umas vezes em salão roto. As explorações da Sobriga e do Vale das Donas eram conduzidas com tão denodado como meticuloso impulso.empanturrados de padre-nossos e de glória. por via de regra. desatou em convulso e clamoroso choro. raros em Alemanha como as baleias no mar. sempre direitos a leste. No dia seguinte um piquete de trolhas. Ao cabo duma semana de refrega e quebração de cabeça a casa deixou de ser o valhacoito dos cínicos e abjectos hemípteros. garagem. em todo o Portugal senhores do campo. A Sobriga produzia dez vezes mais que o Vale das Donas. De Muradais partiam igualmente com perfeita cronicidade outros camiões repletos de minério. o resultado era compensador. O pior de tudo foi que as frinchas. se fosse necessário. superando de muito o contingente de produção que lhes fora atribuído. cuja estirpe devia remontar. Mister Corbet era temível no ataque. que detestava tudo o que é lemural. ao berço da nacionalidade. A primeira noite que Paulinha acordou em seus edredões de pluma com a alvura dos lençóis sarapintada da ignóbil bicheza. como os ocos da alvenaria solta o eram dos ratos. as duas empresas sob a regência de Hincker alcançavam plena estabilidade. tapados como arcas. Com efeito. também plurisseculares. a avaliar pelo repululamento. teria dado em terra. em suas madrigueiras. para ele. Outro piquete emparedou com argamassa. em que a extracção no entanto era mais fácil. rendendo o máximo que era de esperar de jazigos de segunda ordem. regou a petróleo e soda cáustica os interstícios da madeira povoados pela fauna até então feliz e sem história. De modo geral. Mas Hincker. dado que não fosse dotado de tão sólidos rins. contra os quais. reunia os cómodos indispensáveis à sua lavra. eram um inçadoiro prodigioso de precevejos. para o país negro dos altos fornos.

Esses navios recebiam uma ordem telegráfica.que já me ganhaste para um Rolls. Comprara já uma quinta para o Dão. Acrescentavam que o segundo consistia em subornar à força de pecúrila o engenheiro que na barra referendava a entrega. A questão era que de dez transportes chegassem dois ao porto. Mas tal contingencia não alterava em nada o ritmo da tenacidade insular. dois a seguir. vinte libras? Numa ocasião destas não se tratava de saber quanto custava. Oito sobre dez daqueles navios soturnos iam para o fundo em três tempos. resplandecentes de civilização e arte. dois mil. de dois. dissimulados debaixo de catafalcos de serguilha. corações triturados. para que os submarinos a esperassem. dois pelo menos. tinham por missão escoltá-los a porto seguro. almas em revolta. amassado com o suor de meio mundo desde o Spitzberg à terra de Francisco José. mais precioso que a platina. Assim desapareciam tais navios de carga no fundo do mar e com eles a candonga dos infiéis representantes. numa cadência melhorada dia a dia. com uma película de volfrâmio à superfície para o conspecto inicial. quatro mil quilos arrasar as cidades orgulhosas do inimigo. a carga valiosa. Projécteis dum supermetal. todas as vinte e quatro horas.proferira. acima. dois. por fim.Fica-te com o Demo . era vedado inquirir. O problema era que nas matrizes cíclópicas das suas fundições não escasseasse o minério fantástico com que revigorizar o aço que iria em bombas de mil. levantando âncora. levantando-se dentre a ferralhada com uma costela partida e as ventas a gorgolejar sangue . toda as semanas. custava o quê? Dez. No mar traiçoeiro da Biscaia rondavam porém os submarinos de Roeder. Simultaneamente . os volframistas davam nas vistas. Fábula ou não.um factoto avisava o chefe da Gestapo do embarque da mercadoria. Acima. dizia-se que mais que um barco que conseguira alcançar o destino denunciara o 114 . Matavam o bicho com vinho velho da Ferreirinha e estadeavam equipagem de grão-duque.terceiro lance . com os grostescos e imprevistos que se podem imaginar em lapuzes elevados. Na terra das meias solas. em cada molécula do qual se sentia palpitar toda a imaginável espécie de ânsias e gemidos. cifrada em duas letras ou algarismos. e a custosa mistela lá seguia caminho. e seria este o primeiro passe do manigante. chegasse o metal. Blindavam os dedos com anéis e não sabiam dar dois passos que não fosse de automóvel. que.nos molhes de Leixões para cargueiros negros. como não? Um destes. com um visconde papalino. todas as semanas. Dizia-se que a Ilha disparava contra o inimigo projécteis de oiro puro. correndo à direita e à esquerda como galgos marinhos. todos os meses. E mandou vir o melhor estojo que se exibia nos stands de Lisboa. com um canhão à proa e outro à ré. . feitas as contas. casara a filha. e prosseguia de vento em popa. À boca cheia se contava que impingia a mister Corbet gato por lebre. Aconteceu-lhe escaqueirar a chocolateira numa das curvas do Vouga. Os agentes que o Reino Unido assoldadara no país neutral enriqueciam a olhos vistos. de dois. Cada onça. que acabava de fazer treze anos e a instrução primária. Ostentavam duas parker no bolso do jaquetão e traziam as notas de Banco em pastas porque lhes não cabiam nas algibeiras. era o Antoninho Fráguas. Os sacos que ele rareava e pesava iriam atestados de titânio e da mais ignóbil morraça. ao começo. e. a cavalarias altas. encontravam-se milhas dali com torpedeiros velozes. deixando a tapada da serra a tojo. e não se falava no resto. classificado e novo em folha. de Muradais.

como curso médio com oscilações verticais. Com margem tão larga para o fortuito e o contratempo. A certa altura.. arribavam apenas dois. aversão congénita quanto a conceber certas formas da indelicadeza? Parece que não.comércio facinoroso. A nação em guerra é que por nada do mundo desautorizava os seus corretores. a 400 contos.. Por daltonismo. Era um pouco a psicologia do cocu magnífico: contanto que. Neste particular era como a Hélade. pagando a fazenda por um preço incomportável em relação às suas bolsas e fora do senso comum. todos os três meses. De resto. com seu sentido prático. podiam vir outros requintadamente péssimos.. quando se recusava a encarar o crime de parricídio. às portas. mal nascia o dia. em busca de maná. desde que constituíssem processos de promover 115 . Aconteceu numa aldeia serrana dois regatões encontrarem-se a disputar. trouxesse na cova da mão duas areias do oiro negro. Estava inerente à sua fácies moral não admitir semelhantes quebras de carácter. por montes e vales em busca de volfro. o grande insular professava que atrás de semelhantes agentes. em nome dessa filosofia do real. caíam imprevistamente do céu e vinham matar a fome a multidões igualmente famintas. Num plano superior. Aqui. à conta destes seus amos. queria dizer: daqui para cima. o objectivamente certo.. segundo sucede em Bolsa. Todas as canseiras dum dia eram dadas por muito bem empregadas se à noite a sombra vágula. Firmaram a transacção a tiro. O conflito mundial reflectia-se nos dois comissários. o outro em esquife para o cemitério. o que Dantec chamava sem acrimónia hipocrisia. de Avienus. Dolo. pois não vira separadora. para lá do conceito clássico de justiça e bondade. Da carga destes dois apenas um dízimo era aproveitável. E deixava-os entregues às suas tibornadas. Atrás de Corbet postavam-se Insulae laxe jacentes. Contentava-se com isso. repugnava revolver misérias desta ordem. Muito frequentemente dobrava de preço. mentira. ou considerado como tal.. a 750 escudos. filtrado fosse lá por que mandis fosse da desonestidade e do dolo. entre 400 e 500 escudos. em bruto. como é de supor que andassem os hebreus no deserto. Mas aos seus hábitos de decoro. instintivo. O que prezava era o certo. tratava-se de bater o adversário. 65 unidades. que eram manifestamente maus. o ilhéu nunca chegava a ser fraudado em sua expectativa. levados pela velocidade do amorpróprio. Vinte gramas importavam em mais que a jorna dum obreiro. o Almirantado devia receber dez navios. com urna percentagem média de 75% de metal e 25% de quebra. Que remédio senão render-se à evidência duma lei transcendental ou a processos que não seria cómodo reformar? O ideal em semelhante emergência fora reduzido a proporções tais que estava fora de toda a hipótese deixar de tornar-se realidade.. Quando o Porto fixava a tong long da volfrarnite. Eram substâncias análogas no transcendente e no destino. resvés do irracional. falsidade. Formava-se uma moral nova com a nova indústria. De ordinário a cotação do volfrâmio era dada pelo Porto. como daí em escala degressiva em todos aqueles que estavam ao serviço de cada uma das entidades. As aldeias esvaziavam-se. dobrada para terra. mas nunca tida. Na melhor das hipóteses. um conduzido em maca para o hospital. todas as poucas-vergonhas eram desculpadas dado que conduzissem ao enriquecimento. Vendía-se o quilograma estreme. metallo divites. roubo. saltaram fora dos limites que lhes haviam fixado para a compra. uns punhados de minério. como atrás de Hincker o Reich. carregados de volfrâmio.

Embora. Os chauffeurs da praça de Viseu.já o germano confundia os processos de informação com a espionagem. fritando-o. era um recurso industrial como outro qualquer. Não lho consentia de resto a situação que ocupava. de contestar.o negócio do volfrâmio. Nas costeiras do Alva descobrira-se um cabeço cuja areia preta e lustrosa orçava em seu peso pelo do volfrâmio. como tantas vezes. bem embora o sorriso muitas vezes lhe fugisse para esgar. desencantando-lhe substitutos falaciosos. Para atalhar 116 . Não tardou que o monte aparecesse lorgado como as saibreiras que se entremostram à margem das fábricas de cerâmica. Franz Hincker explicava o fenômeno dizendo: . procuraram desde o início montar as suas separadoras. Aquele dia em Mouramorta. a sua receptiva para o roubo estava a toda a prova. discutível ainda. A sua predisposição para a mascambilha era proporcional à longanimidade com que encarava os seus desbaratos na guerra: sempre gentil-homem. não lhe ficava o direito de ser desconfiado. não poucas eram logrados pelo campónio mazombo. esse. era o lorde. sempre de sorriso nos lábios. em última análise.O dinheirinho com que temos de nos esportular sai-nos do lombo. tudo levava a crer que a operação seria feita com o seu beneplácito. se umas vezes logravam o próximo. senhor deste mundo e do outro. este simpático e glorioso Portugal. O singular é que o ludíbrio se exercesse em regra com a facção insular. Manifestou. Entre eles a descompostura era quase quotidiana. Teimaram em mostrar-lhe a fazenda e fechar o negócio de afogadilho. como Sobriga. O José dos Cambais e o Silvestre Calhorra. Mas os milicianos. Tojeira e Muradais. todos os passos lhe parecendo bons para estar a par que no Santo Antão os sócios se roubavam uns aos outros o mais honradamente que podiam. A grandeza da Ilha está nisto: possuir árvores das patacas em todo o mundo. abana a árvore das patacas e é só abrir a boca ao saco. que jogavam ao ganha-tudo. Resultava de tal consenso que procuravam todos empulhar-se uns aos outros o mais conspicuamente possível. à porta fechada. De sobra sabia pelos seus secretas . Por sua condição tradicional de ricaço. outro tanto não fazia ele. Se os seus agentes fechavam os olhos e compravam o que se lhes oferecia. Como o vendedor era parente do Calhorra. comprando na boca do lobo. E pregavam-lha na menina do olho. e recusou terminantemente. inclusive em Portugal. de pôr em dúvida. cometido é muito provável na exploração de Santo Antão. cobrir a oferta. como tinha por norma. e que falsificar o minério. A tout seigneur tout honneur. Explorações categorizadas. tornavam-se ordinários. mas dando a impressão de tornar sempre ao seu ser como de borracha. mas primeiro havia de a mercadoria passar pela separadora. tinham chegado no calor do despique a testemunhar-se em público e raso de gatunos e difamadores. mas admitida. Quem pagava as favas. por conseguinte de prática corrente. propuseram-lhe a venda. quando um destes fura-paredes lhes mandava bater para Arganil. Por essas e outras razões farejou grosso latrocínio. gênero Leónidas Seixas. mas velhaco. O senhor Hincker conhecia todos os artifícios do comércio e industriava os seus agentes na arte de descobrir as esparreIas e chincá-las ou deixá-las armadas para os parolos da outra coriróbia. do concorrente. sem atender à origem. mais contuso que o canganho. Mister Corbet. de antemão sabiam que iam buscar uma taleigada da miraculosa terra. duma grossa porção de minério. caçados cada um por sua vez a surrípiar do monte em desproveito dos restantes.

ao passo que o automóvel corria a toda para o Vale das Donas. destes dias que no campo. altas horas. para mais. Sim. e os colegas escudaram-se em iguais considerandos. Lá em casa há um variadíssimo guarda-roupa. sair de noite.obviou o Calhorra. Os engenheiros despiram as camurcinas. Da sequência deste jogo de enganos não soube informar a Hincker o seu espia nictalope. só desbocados poderiam taxar o acto de escandaloso. falou na sacristia. se tem chave. mas há de tudo neste mundo. não era mau expediente.. de modo que se não soubesse.. depois de pesado? Vendê-lo à boca do poço? Quanto a depositá-lo. Não era nada prático. tira-lha? . Severo Bacelar quis desculpar-se com o seu trajo de cote. depois duma rápida visita à exploração. São sobre o largo. Mas Hincker persistiu: . atestado de morraça. que lhes permitisse dormir a sono solto sobre o seu bem? Nem no Paraíso à mão direita de Deus Padre. acumulado desde o princípio do mundo. . Estava um saboroso dia de sol. De facto. Seria preciso ter muito cuidado com a língua. Depositar o minério extraído cada dia em lugar competente.. inviolável. muito apertadas quanto ao policiamento da mina que a gatunagem andava mais sobeja do que nunca. O sacristão. muito embora a sacristia fosse do pároco. Iriam os sacos da mexerufada logrando um e outro. os penedos que parece terem perdido daquela manhã em diante um pouco o ar baturro. qual o lugar seguro.à desconfiança que lhes roía por dentro. veio o Antoninho Fráguas por sua vez.. Riram e não houve remédio senão render-se ao amável dictat. Torceu o nariz.. e depois duma escovadela aos fatos e 117 . engrolando-os a todos muito bem engrolados até aos cadinhos de Birmingliam e Newcastle? Franz Hincker. Tadeu hesitou. E bem disposto. no gênero da cadeia da felicidade inventada pelo maduro anglo-saxão..Os senhores vêm. achou tudo em ordem e o trabalho em bom andamento.? Arranjam-se smokings e casacas para os mais exigentes. a coisa foi realizada com tanta presteza e rasgo por parte do canejo. Deram ordens. No dia seguinte. com arcanjos a guardá-lo de espada desembainhada. e de novo o saco foi trocado por um terceiro. largos.. claro com os devidos resguardos. desfiava todos estes ardis de peles-vermelhas. tão pouco curial. entrar de noite com o minério. boa para retém.. numa cadela inenodável e sem fim. e ora se transvertia naqueles abomináveis bate-línguas.Ora. . os pardais que saltitam à volta do fachoco de palha que cresceu da matança do porco. no fundo contentes por irem espairecer num dia de sol e verem o seu landegrave satisfeito. quem acompanha a fazenda? Eu? Não obstante o tropeção de que padecia. por causa dos pedreiros-livres. tinha também uma chave. matutaram em muitos e vários remédios. lembrou-se de convidar os engenheiros para o almoço..? Ora. servem a todos os corpos. depois que recusara o volfrâmio de Mourarnorta. mas onde? Sim.E nos carretos de noite. sempre mais outro.. pães. Entendem que se devem vestir a preceito. após invernada. O Calhorra em voz baixa. árvores. Quando chegou à mina. Vou telefonar a minha filha que reforce apopote. optimista consigo e com Deus. a voz aprendida com os senhores padres nas Orações Secretas da santa missinha. se revestem de leveza e luz tão branca e boreal que irradia certo ar de melindre e friabilidade da amplidão: terra. que nem sequer a cachorra do Reganha deu o alamiré.

Quero-os para vistas. deram de cara com o boticário.E que. Gosto a valer destes bichos. a derribar-lhe as construções lógicas com o mesmo regalo com que o batia ao xadrez. .. contra os seus hábitos inveterados.. porque em poucas espécies está mais desenvolvido o instinto sexual do que nos galináceos. pelo que envolvia de obsesso quanto ao carácter do seu povo: . Hincker sorriu da frase inconsiderada do bacharel.Ou que lhes foram raptadas . laureado com as Folhas de Carvalho. Pois que vinha o boticário.É muito meu amigo ..gracejou Calabaz. uma caixa de charutos que estendeu aberta para os convidados: . tão destro a manusear a espátula na farmácia como a espingarda no monte e toda a sorte de redes no rio. Na sala. venha almoçar connosco. por conseguinte. Arpou-o de passagem. Quando viu o amo saltar do automóvel.Todos os galos são mais ou menos combativos . familiarmente: . Em Mouramorta deparou-se-lhes o advogado topa-a-tudo Dr. à sua direita: 118 . germanó fobo na ordem do lugar-comum. . Guilherme Cabalaz. no dizer do Café Bijou o Lobão dos volframistas. .Nem fum nem fum e meio. Pegando dum postal a cores que representava um aviador de uniforme. Mas eu não os quero para combate.Não. Pararam à porta do homem afável e obrigaram-no. Era perto da uma hora. Quando entraram em Tendais. adiantou-se para ele. a almoçar fora de casa. . . .chapéus abalaram com Hincker.Amigo Jácome. . estes são bichos de paz. torcendo por Malhadas a embarcar o Dr. .. em rasgar cintas e sobrescritos.Um charutinho. Hincker não lhe deixou abrir a boca: .. e Hincker convidou-o a subir para a sua arca de Noé. e por isto.declarou para os convidados. Estão no outro lado do quintal.. mando-o pôr na lista negra da Gestapo. foi buscar o correio e. No pátio da residência.Subam. depois de pedir vénia. a boa vila de Tendais com o seu bosquedo de carvalhas ao norte.acrescentou Hincker sorrindo... Logo hei-delhes mostrar a colecção. as galinhas dos outros poleiros deviam ser odaliscas suas . e entretinha-se muitas vezes. proferiu para o Dr. Manuel Torres que pousava ao tempo na casa da serra. impávido e garboso. afagando-lhe os barbilhões. As notícias eram anódirias. de raça indostânica. Lobão no foro e lobão na gana com que lhes metia o dente. ocupou-se. perfeita paz octaviana. Lábios a espremer o havano.. O farmacêutico ia a escusar-se. Hincker tinha pronunciada simpatia por aquele espírito de pedreiro-livre.emitiu Manuel Torres. o excelente Nestor jácome. em dialéctica com ele. liberalão.perguntou o Dr. juntamente com o correio. Diante do semelhante recusam-se a ver outra coisa que não seja um rival. a cuja sombra se fazia todos os quinze dias uma ruidosa e amoiriscada feira. Manuel Torres.São para combate? . julgo eu. É verdade que tenho ali dois de combate. largando um gó-gó-gó que pareceu o mais jovial dos cumprimentos. mal parecia que não viesse o médico.. façam favor. Largaram.É verdade.. apurada pelos Ingleses.Tenho para aí mais. Se recusa. um belo galo andaluz dandinava-se a meio duma rebanhada de galinhas de toda a casta. Calabaz..

A mesa dum teutão é dum teutão e de mais ninguém. A série de pratos. são privativos desta gente gastadora. E querem saber? Apenas uma bala me feriu no calcanhar. que tudo pede ao esforço. veja.tornou ele.Tudo vai na sorte.Precisou. .Até a data todos sem novidade.. é o cadete .Sim. ao gosto tudesco. entrando. Mas. Entrei pela Sibéria. Hincker saiu-lhe ao encontro agradecido e hospitaleiro. ao mesmo tempo que vinha curriprimentar os convidados. Parecia mais mulher e mais graciosa depois de desterrada na serra. por um trigueiro mais ao estilo da cromática portuguesa e com o seu sabor entre ibérico e loiro do Norte. que um enredo de amor se atara entre eles. Hoje a precisão é relativa. Bati-me na defesa de Quiao-Tcheou.Todos sem novidade? . Paula semeara violetas. entre os quais contava o caviar. em frente de cada talher. . que nem vale a pena mencionar o arranhão que uma bala fez no peito de Karl e a cabeça do dedo que voou ao marujo em combate com torpedeiros. Entretanto Paulinha. Os ares bravios tinham-lhe roubado à tez o rubor melindroso de peónia. Encaminharam-se todos em rumoroso à-vontade para a sala de jantar. o antigo e vasto refeitório da casa morgadia. mas o que se chama um capote.Decerto. ao bacará.proferiu Jácome. diferentes de cor como de tamanho. indolentemente.. Telo. que debaixo dos olhos punha um matiz de leite e carmesim.. o paladar sobre o substancial. advertia que o almoço estava servido. e. 119 . de facto. Resplandeciam na grande mesa o linho de brocado e.Capotes. mas como os que mandam para a Rússia têm de ser de pele. No Chemin de table.Este pertence à Luftwaffe. Anunciou-se no patamar o simpático Dr. com Lenine no Krerrilim. esbatendo a rede vascular finíssima. . . que Hincker. . embora não passasse pelo desaire de ontem receber um capote. condimentados sui generis. precisa bem deles a Alemanha na frente russa. O farmacêutico sorriu e disse galhofeiramente: . A guerra mata muita gente. a abundância.. senão faltaria ao meu amigo o melhor cliente dos rebuçados de avenca.. pareciam dirigir aos hóspedes um sorriso derradeiro. O mais novo anda nos submarinos. Sentia-se no seu ar feliz e desembaraçado e na postura de Bacelar. Os engenheiros vieram considerar circunspectos aquele ás da guerra.Aqui está o comandante da esquadrilha Condor. de que faz parte o meu Karl. .O mais velho é tenente de artilheiros e lá está para leste. mas felizmente ainda é maior o número dos que escapam.. adornara nos espaços compreendidos entre os contadores rotundos e luzentes. à retaguarda.Que não foi o de Aquiles . e fui incorporado no regimento que mais sofreu na ofensiva de Amiens. . com prateleiras povoadas de cristais de Boémia e estanhos flamengos e alemães do mais esquisito talho. . arrancam-na a quem lhes cai nas mãos. meio vivas.Tudo vai na sorte. compartes duma culinária planturosa. .. as flautas de Pá dos copos.. Era sobre a tarde e entraram ardidamente pelos hors-d'oeuvre. mas nada sabe negar aos regalos da vida. Eu fiz a Grande Guerra.. nós os Alemães somos tão generosos que começamos por dá-los aos nossos amigos. para os vinhos variados. meio prostradas.

neste meio tempo. das que pingam no pão. Eu é que preciso de deitar uns anos fora. Das nossas pouco se vai em resíduo. senhor doutor Torres. veio à baila a Rússia sem fim. é uma terapêutica.. diga lá se não tem o picãozinho do palhete.. a Europa. a Inglaterra sonhou com revoluções. levantando também o seu copo e mergulhando olhos regalados na limpidez do vinho. para matarmos saudades da Alemanha. da latitude. sem receio de errar que jamais houve. O boticário. Também assim é escarpado e em escaleiras. do sol. com isso.. de tal ordem que pode dizer-se. Torres. De acordo. O Dr. filho da terra. com o fervor do discurso. os senhores fazem revoluções..Uma gota do nosso vinho. o vinho do Reno.O vinho do Reno é a bondade pura.O meu caro engenheiro não precisa. pegando na garrafa do Reno de colo alto. e mais qualquer coisa.. sabem os senhores. Países revolucionários os vossos?? Ah. proferiu depois de dar um estalido na boca: . A Alemanha é o primeiro e talvez o único país verdadeiramente revolucionário do mundo. . começou por oferecer ao advogado de Lisboa: . senhor. traduziu Bacelar.. é chinfrim. obra de titãs. Conhece? Foi meu irmão Hans que de França nos mandou para cá uma caixa de garrafas. chamado a derrotar o rascãozinho da terra. cultivado nas encostas da Beira.O Rheingau. se quero ver o mundo novo . Paula. volvera mais animado ao tema patético: Diz o amigo Jácome que este mundo precisa virado.surpresa inédita para a maior parte dos comensais. aproximando o copo dos lábios. .Ah! ah? Aí tem uma sentença inglesa que pela primeira vez está certa? Sim. derradeiras sarandalhas do espólio da paz. ... depois dos estalos da lei. . Napoleão.interrogou Hincker como o visse levar com toda a vénia o copo à boca e demorar o gole. com a reverência dum oficiante. O senhor Hincker. Hincker secundou. Mas de tudo isso que fica senão ódio e poeira? Das nossas. ah.. original. Com semelhante iguaria.Delicioso para sardinhas assadas. dizia ele. sim.Good Hoch keeps off the doctor. O doutor tornou a levantar o copo ao alto.. O grosso fica.. Rüdesheim. esquecera-se dos seus hóspedes. lembra o Douro. além dum regalo.. o inverno. Der Wlein von Rhein ist immer gut. absolut a dentro daquele seu flavor característico. inocência perfeita o do Mosela. Se os Alemães se batessem em nome do existente. Não fazem mesmo ideia nenhuma.? .murmurou Jácome. à sua direita: . Não passa de abrir ao verde dos concidadãos e 120 . libando com respeito. . Hincker. .. nem haverá no mundo um Doutor Fausto capaz de fabricá-lo a martelo? Vergissmeinnicht em sublirriação. proferiu baixinho para Calabaz.Que tal.Bebe-se e a gente fica mais moça. Beberam todos com a devida mesura o vinho raro. . eu seria o primeiro a dizer aos meus filhos que desertassem. um aroma original.. deixa-me rir? O que os senhores fazem não é revolução. gracejando. der Moselwein nicht schaden thut.emitiu. . meu doutor? .. próprio dos xistos argilosos e margas terciárias do Rheingau. Nestor Jácome. a guerra de morte entre os dois colossos. A França fez revoluções. Mas não. Os senhores não conhecem a Alemanha que está de armas em punho a defender o direito à existência e.Branco e seco. não.

solitários como os monges. com um pouco de fantasia. Também lhes.Houve e até é possível. O mundo asfixiava-o. tão pitoresco. Foi ela. quando furam do solo. mas um pouco ácida e maciça. Berengela. boa. proferiu: .A princesa viveu sempre muito recatada. e outras e outras de que não reza a história.Da mais genuína.Mas é preciso demonstrá-lo.. dão o nome de gasalhos. nem às aias deixava ver a ponta do pé.disse Torres. .. Paula. ..Demonstre lá. Branca.Esses mesmos. mais amplo. de resto.emitiu Jácome com intimativa. A esses fungos chamam frades.. que se passa na Eslávia? Nada. demonstre! . amigo Hincker. por exemplo. . aquela tinha muitas irmãs: Mafalda. A Alemanha. Haverá sempre melhoramentos a introduzir na máquina e na fábrica. desde que a Europa era uma realidade política. Também lhes chamam sanchas.. O senhor Hincker a meio já do aparte naturalista retomara o fio do discurso. mais prático.Uns que têm coleira e abertos parecem uma guarda-chuva. Além de homo faber. O Eslavo. Nunca estamos quietos. como imóvel tinha estado.? . Sancha. Fizemos uma boa provisão deles. mesmo nada. e talvez porque apenas se encontram isolados. decantam no fervedoiro que é a guerra os povos vários. Estas sanchas. Não houve uma D. . E é-o porque nunca se contenta com o que está e com o que tem. um nome lindo. semelhantemente. Folgaram todos com o paralogismo. . Tal qual estas.Deram conta que é feita com míscaros? Pois é. podia dizer-se. Ao hors-d'oeuvre seguiu-se a sopa de cogumelos colhidos na região. determinar o passadiço entre estas criptogâmicas e a princesa afonsina . o Eslavo. e ainda porque lembram. os marcos que estão à entrada das portas. não. mais do que isso: nunca estamos satisfeitos. Pelo aspecto. uma corrida a fazer para mais perfeito. lhe chamam frades.Com esses nomes todos. No dia em que conseguisse instalar a sua ordem ficaria imóvel até o fim dos tempos. 121 . porque se renova dia a dia. o Alemão deverá chamar-se homo faber perfecturus. . vivia em estado de ânsia..?! A partir da Idade Média que vemos nós? Vemos as cidades e as nações do Ocidente agruparem-se em hansas e confederações. sempre passos. o que é.Frade? . sim. Os engenheiros pediram licença para repetir.. Têm medo da morte. Para os lados de Malhadas há muitos. Toletum. lisonjeada como boa dona de casa. vegetam debaixo da terra. temperados à meclemburguesa. é revolucionária. e não se compreende bem que sejam assim exclusivos sendo tão párias. denotando o dedo químico de gastrónomos de moela de avestruz.. rainha santa de Portugal? .tornou Paulinha. Não duvidassem. o Alemão era insatisfeito. mais conforme. uma simplificação a realizar na orgânica de tal indústria ou norma administrativa. que fundouo recolhimento das emparedadas de Alenquer. de lamber os beiços. são de culinária fidalga! .deitar pólvora a pardais. fechados uma moquinha. no bem-estar do habitante e na assistência pública. apurada em Roma. porque é dinâmica por excelência. jácome interveio com a sua experiência de homem do monte: É a única espécie que os camponeses da Beira aproveitam além duma outra que nasce nos terrenos alagadiços. e Brácara Augusta. Todo esse imenso território jaz petrificado.

. o quê? como aqui a vinagreira. oh. Está escrito por Hegel. estacado na sua estepe. convenho. ou se ouviu fez de conta que não percebeu. . ponderem os senhores. e uma planificação da vida também sobre o ingente. por agora indeterminada ululante lhe chamaria Keyserling . iniquidades que o cérebro dum homem perverso e inteligente.Tem história? Qual! Tem menos história que a mais insignificante tribo mesopotâmica. banditismo. Isso quebra ela! Ora no compleicional do Eslavo entra. foram apanhadas aqui no quintal vai em cinco meses.murmurou Jácome entre dentes que os povos acordam de quando em quando atascados em sarrabulho? Hincker não ouviu o remoque. hem? . religiões eternas. ninguém escapa à sina com que foi gerado. . não? tornou Jácome com faceta seriedade. . porque acrescentou no tom do pregador que perora: . Estou persuadido que esse mundo.Nesse dia.Lutar é mais que um meio. o Eslavo regenerou o mundo. estão frescas como se tivessem sido colhidas na mesma da hora. Lutar para ele não pode ser mais que encontrar o equilíbrio entre a sua ânsia de justiça e o estigma da sua condição. estigma com o qual se julga afrontado e é legítimo que não se conforme. sim. Neste instante a atenção dos comensais foi chamada para a travessa de pombos guisados com ervilhas. Não lhes parece? Ora. . apenas se explica com um nateiro destes. e já tem um século. em que o Eslavo firmar a sua ordem. digo eu.lançou o farmacêutico com arreganho. que de resto são coisas muito distintas.ficará imóvel. a ver passar os tempos. . pelo contrário. O Moscovita. umas ervilhas tão viçosas. para nós é que não serve. no dia.E daí? .É verdade e.É com teorias assim puxavantes . tem vivido debaixo do signo zodiacal da servitude. excessiva em tudo. falha de todo o proporcionado entre a natureza e o espírito. isto é. A sina do Europeu é a luta.repetiu o médico intrigado. . Por consequência. Mas também nunca poderá ser o paraíso terreal com que o senhor sonha e os seus amigos eslavos sonham. sim. podia conceber? . com neves eternas. arrancado de premissas apenas negativistas.Petrificado. ou Weckglãser com sua bateria de 122 . um modo de ser congénito ao nosso eu em todas as demonstrações possíveis e imagináveis da plana universal. amigo Hincker. quer dizer: arrumado por Pedro? Pedro o Grande.. concebido para a imobilidade.Em cinco meses? . Hincker não se dignou responder e prosseguiu: . como não podia deixar de ser. Sabe como se obtém tal resultado? Empregando um pequeno aparelho que na Alemanha é trivial como aqui.Os senhores foram à índia e lá ficaram. inteligente. O mundo de hoje é a organização mais assombrosa de prepotência. O budismo. numa gargalhada. Estas ervilhas julgam que as recebi do Algarve ou da Califórnia? Não senhor. que maravilharam o boticário.E acaba-se com ele.respondeu Hincker.. o infinito da estepe e o desmesurado. O dono da casa riu-se e permitiu-se dizer: .Uma raça não quebra dum dia para o outro as matrizes em que foi moldada. a fugir para a horta. dê forma à sua psique. o desmesurado que trasvasa às suas espaldas da velha Ásia. vejam. por todos os nossos filósofos. .O mundo não é nenhuma delícia. para europeus viver é lutar. o Weck. Lá nisso estamos de acordo.

ou por filosofia.já deviam lá estar. Não tardou que voltasse. não acabava de estrebuchar nos abismos da algibeira. mas nós é que somos bárbaros. Há dois homens soterrados e outros feridos. que chegara de bicicleta e pedia urgentemente para lhe falar. seguido do olhar apreensivo de Hincker e dos engenheiros.. Com o fim de ir buscar charutos “como só fumava o sultão AbdulHarnid” Hincker pediu vénia para sair por um momento. uma revoada de pombas. O farmacêutico. para os toasts. na linha da frente.. serviu Tckay.Deu-se um desmoronamento em Santo Antão. Se alguém lhe chama país bárbaro. são inúmeras e valem o melhor prato de resistência de qualquer outra cozinha. vem dar ao mesmo. Estavam no capítulo das saladas que. mostrando-se a rua deserta.frascos. no largo. uma vez mais. a qualquer altura do ano. Hincker distribuiu os charutos raros e levantavam a primeira saúde. vieram advertir Bacelar que estava no pátio um contramestre da mina do Vale das Donas. que durante os discursos de Hincker não deixara um só momento de abanar a cabeça em sinal de discordância. vendo Hincker de ar cominatório. Ao passar diante da janela. O próprio. que se saracoteavam pela feira bica que bica a migalhinha que o pobre deixou cair do bornal ou o menino. de certa importância. Para mim a Alemanha não é um país bárbaro em virtude da posição que ocupa entre os povos sob o ponto de vista de progresso. Como agora. em nome do que julgam ser o direito da nação mais digna da hegemonia universal. Para Jácome o direito do silogismo era o direito de pensar livre e desassombradamente. dizia-lhe de baixo corri certo ar risonho. . nem se pergunta? . O senhor Hincker dá licença que do pessoal de Vale das Donas saia uma turma. ao menos.exclamou Hincker levantando-se. silogismos à parte. amigo Jácome@?. dizendo: . para não perder o benfeitor. palpitando caso de monta. que nunca falta na garrafeira dum sibarita de além-Reno. Essa é de relevo. chamou-lhe a atençã o para a rua. Quando elas chegavam. industriada já à maneira tudesca. Com ele tem-se horta e pomar em casa. Severo ergueu-se. acabava de praticar uma das suas habituais piratarias. levava horas e horas à espreita que as pombas.Entendamo-nos. A criada. O bandoleiro do Badanas. Ah. se aproximassem. aí vinte homens.Para adubar o caldinho. descuidadas. deve-o a tais ou tais representantes da autoridade pelas violências que cometem ou deixam cometer. Que o façam porque lhes está na massa do sengue. o vinho sonolento das catacumbas hungáricas. ia a levar o copo à boca e estacou com ar de solenidade: . de cenho carregado. ao estilo nórdico. sempre frescos e tenrinhos. Tinha amainado a disputa. meio de raposo. Um deles é o Calhorra. E. senhor Incas? A história deste caçador furtivo era a história do mundo e das nações. meio de filósofo cínico: . ao alcance do pau. semeava pelo chão o seu dedal de milho. da boca. o seu puro sangue ariano. Andou à roda o vinho clarete do Dão. Vara rúbida de marmelo especada no sovaco. e ali ninguém lho negava.? Ora essa. 123 . açoitando o ar com estridor. em socorro dos sinistrados. Mal dele se uma. amigos amigos. à capucha. despedia-lhes a cacetada.

... não é assim. Telo e jácome podem fazer o obséquio de nos acompanhar? Profissionalmente. vai de automóvel e vamos todos. acompanho o capataz.. que vão cinquenta. aventureiro a quem.Pois que vão. que vão vinte.neto daqueles montanheses que não deixavam coalhar um só instante. a paz pretoriana de Roma – umas vezes sem escrúpulo nenhum..Não.. . que vá tudo! . no pendor dos anos. Peço aí uma bicicleta. ..? Minutos depois corriam a toda para Mouramorta com o pensamento no velho Calhorra. ainda nada metia medo . O Dr. outras preso à sua palavra como o mais lídimo Bayard. 124 . nas ricas regiões da Bética.O caso era novo.Se não levam a mal. hesitaram.

Em particular. recomendando que reforçassem os tapumes de suporte com astiais mais sólidos e melhor ligados uns aos outros. seu sogro apalavrado. impelido pelo calcadoiro que as pessoas fizeram à volta na precipitação de acudirem. rocha em punho. além disso. Miguel. e escapou. mais dobrados para o chão. e com a ajuda dos facultativos operou o milagre. com mister Corbet à testa . Ficou coberto pelos entulhos até meio corpo. figurar de amortalhado. O desastre fora previsto. . Ninguém o julgava! Aos dois homens. deixando mulher e filhos que no dia seguinte se viam pelas leiras. balanceara a cabeça desaprovativamente. tirados debaixo dos escombros depois e porfiosa labuta. afinal de contas. e.em menos de meia hora esteve ali botado o pessoal todo de Vale das Donas e um numeroso piquete de Muradais. instado pelo José dos Cambais. pois que gemia e queixava-se de dores agudas nas costelas. e que a derrocada se deu. Miguel. O Calhorra. em despeito dos setenta anos. era a dum cavalo. se tinha amor ao pêlo. o Calhorra propunha-se obter o máximo resultado com o mínimo de dispêndio. rolou para a escavação de mistura com o material acumulado na borda. que vigiava à boca do poço. Nos últimos dias haviam batido num braço de filão que prometia. a emitir opinião como prático. mas que se engolfava lá muito pela terra dentro num gaveto de rocha viva. o médico franzira os lábios num jeito de dúvida e recusara pronunciar-se quanto a semelhante golpe e ainda quanto às lesões internas que pudesse ter no peito. é que não houve santo nem santa que valesse.vieram a lucrar. A entivagem era a mais precária que se pode imaginar. sobre ele jurou que se escapasse daquela havia de pesar-se a trigo em prol do bento S. Lá foram para a terra da verdade. Tinha amor à vida o velho gerifalte. O Aires. quando o doutor retirou. armar-lhe um andor na festa de S.Este dinheiro é pedra de ara. os donos da exploração. Sobre a noite. mas de todo ignorante. Ora foi no encalço de semelhante veio que se descuidaram imprudentemente das disposições de segurança que convinha adoptar. Homem de entendimento claro. ao rebusco de volfro com que pagar o enterrio. além de lhe oferecer um círio da sua altura. o Calhorra chamou os filhos e a mulher. teria empenho em ver o grande salafrário amortalhado de penitente. não se metesse no chafurdo. na sua procissão. pediu à mulher que lhe passasse a caixinha de lata que ela sabia. que era a primeira a celebrar-se na freguesia.IX A constituição de Silvestre Calhorra. mais restos dos sentidos. S. pés descalços e sem fala na procissão. foi dizendo ao lavrador que. pegando do crucifixo. e toca “a dar-lhe para a frente”. Safaram-no dali com largas escoriações nas tíbias. e uma ferida bastante profunda na nuca causada por um penedo que se despenhara da ribanceira. Para maior solenidade na promessa. Tendo 125 . Escape eu. envolvido este em surraipa ruim de desmontar. não se lhe toca. que são os seus procuradores na terra. Verónica obedeceu e ele mandou-lhe tirar dez notas do macinho embrulhado na bula da Cruzada. Ao introduzir a sonda. E. Brás. e os santinhos ou os padres. Com a freima exaustinada dos salvadores . podem chamá-lo ao cofre.

Guardaste ao menos o conto de réis para o voto? tornou-lhe ele. . em seu horror. para mais que não para menos? . O Calhorra ao sétimo dia já se arrastava até à quintã a espreitar o sol. com um pauzinho a riscar no terreiro a par e passo que desfiava coisas e loisas da vida. Ali.Andamos a pagar a culpa de os ter deitado ao mundo.. mas quem se tentava por semelhante chaparral.. em poucos anos punham-se mais altas que uma aguilhada. Um dia que a Rosa Pedralva se quedou acocorada ao lado dele. como na nau Catrineta? A mulher espremeu uma lágrima. Deitado na capucha.Se calhar. fungando: 126 . não viesse por lá a borra à superfície. Correu Verónica ao esconderijo. precata-te que te comem sem te tirar à sorte. certa espécie rara de alegria que por ser mais funda atravessa todas as camadas sedimentares da alma e ala-se à luz. “para não perder tudo” . O Calhorra era de bom cerne e a convalescença foi avançando mercê dos caldinhos gordos e da graça de Deus. A raposa. tratou de amochilá-lo na segura carteira de coiro. fora da vista. estritamente. trancada por grossíssimo elástico. que não era destituída de siso e tinha alguma coisa de seu. Lá estava o dinheirinho. que veio ao conhecimento terem os filhos. Agora dispensava tesoureiros. os galos e as cabras de Pedrões não deixavam ir um pé de milho avante..recebido a mina limpa como dantes. sobressaltada com a ideia de que tivesse varrido por ali a mão dos tunantes.. divino Senhor. coisa dos seus cem mil réis. e o Calhorra.. quanto queres pela barrosela da Laja dos Lobos? Sempre ta compro. situada do lado de lá do rio. Rosa falara algumas vezes em vendê-la. nem um real a mais.O que valeu foi estar o outro em sítio onde os lobatos não sonham disse em voz atrida para a mulher.. Se eu for antes de ti. ficando o Calhorra sem saber o que pretendia significar tal demonstração: alegria. tendo-o contado. repartindo a sede entre a venda e a pipinha de casa. morria se não jogava aos passantes a sua chalaça. acalentado por outros. E corno o facto lhe causasse estranheza mandou Verónica buscar a caixinha em que lançava as economias. desafiando uns. Mas ela não desandava lá da sua: . E recomeçaram.. ainda para mais salgadinho como andava na Fazenda? Por isso ela. tinham-lhe alimpado com quanto arame lá havia. considerava interdito à cobiça o campo homicida. e em seu foro a primeira dívida a pagar seria aos santos. ora se virava dum lado. é verdade. Foi por este canal. Aquela leira. fugindo de agitar aquela cabaça velha. disse à criatura: ó Rosa. levado bebedeira pegada. podiam recomeçar quando lhes apetecesse. desde o boléu. Ele explicou: era para semear um pinhal. nem um real a menos.alegaram eles em guisa de explicação ao público que. o tio Silvestre sonhou por lá com alguma mina de volfro? O Calhorra ergueu as espáduas. alegria de vê-lo são e salvo. andava falto de estacas para os feijões. ora se virava doutro. ou bem o pesar de reconhecer a ruindade dos três mariolas juntamente com a perspectiva de se ver por portas? . E como nada lhe passasse despercebido à pupila abelhuda. já que a tei de todo o comércio é a exactidão. remolhada de lágrimas. Para outra coisa aquilo não valia um chavo furado. que não valem a baba dum caracol. porque lhe doía a ilharga. só servia de consumição.. Excomungados. ficou de pé atrás ao ouvir tal proposta. se os gados dessem licença.

a osga com. partindo de Malhadas com espavento relativo.O que vossemecê quis foram as pedras que estão coalhadas de volfro. o carro do Calhorra começou acarretar a parede. do joguinho pessoal. Era uma das grandes festas da freguesia. chamou a Pedralva e disse-lhe: . O número por excelência era a procissão que. Rosa! Coalhadas de volfro. do avô. Lá se ia o pé-de-meia e a junta de vacas sobressalentes. não achou nada de melhor que botar-se fora da sociedade. mas semelhantes artificios oneravam a obra de 3/4 dos lucros obtidos. as despesas que tivera com médico e boticário. Estou um cepo. raciocinando talvez que “bocado que eu não hei-de comer. deu por paus e por pedras. que o filão estava a render. . com seu eixo em S. e embora “com pedra no sapato”. dia tão abençoado que caiu chuva no nabal e fez sol no terreiro. lhe contou o sinal. restituo-te a leira. Têm aqui uma pinta.. Quanto aos impropérios. Rosa. a advertir léguas em redondo da rija funçanata. No dia seguinte.. pediu pelo migalho o dobro do valor em que andava orçado: dezassete notas. em cuja capela acabava por engrossar com os elementos mais numerosos e capitais. Bem era. da Laja dos Lobos. quando o soube. fazia romaria por Mouramorta. mais não disse. anjinbos e 127 . e a depositá-la no quinteiro que possuía à Boa Vista. anjinhos e amortalhados. coma-o o Diabo”. que se permitiram abocanhá-lo em sua honra. Dois dias depois. confeccionados à compita pelo Chedas de Caria e a Rosa de Lamego. Toda a noite os ecos repercutiram aos morteiros e foguetes de três respostas. inibido. Chegou o dia de S. olha! E pela alma do pai..Minha rica. Diabos o levem. que vou largar do precipício do Santo Antão. nem o azeite para a lâmpada do Santí ssimo! Se lá houvesse volfro. também em andores. bonitas contas deitou à consciência enquanto esteve a bater a bota!? . caiulhe o peso em cima. mas dito dito.Olha. e marchava para S. a quem em Portugal nada escapa. tinham voltado à mina.Enganas-te. de modo a que o trabalho pudesse correr com segurança e o indispensável despacho. já lá andavam a esfossar. Brás da Nave. encostado à bengala de rangífer. Quando esta acabou. Fazendo um balanço do negócio e pesando bem os prós e contras.. não. guardava-lhes o troco.. a instigação do Antoninho Fráguas. A Pedralva devia-lhe obrigações. fossem lá agarrar-lhe? Avisou deste desígnio os parceiros. Não vale a pena mexermos na matriz. para mais. para que se soubesse. Sendo o Cambais o mais abonado. onde incorporava a quota que cabia à sede da paróquia em andores. invocando a sua enfermidade. Olha... Um engenheiro de Muradais veio de vistoria à exploração e ensinou-lhes o pe-a-pá Santa justa. Brás. pois lá assistia o patrono. o Calhorra foi ver em que altura ia a trafega. E não houve razões que o levassem a mudar de parecer. dando nome à terra e obrigando ao forrobodó. fica-me lá muito longe para a guardar. jurou que não tinha outro intuito que não fosse semear penisco. principalmente a escorar os cortes. das almas do Crasto. É para me entreter. que ficara a semelhante cemitério. O Silvestre Calhorra. Não havia escritura. Castigou-a e logo ali. Brás. Quebrou com o José Francisco e o pai.. Com efeito. pedra por pedra. ali outra. com tanta surpresa dos compadres que a bocarra lhes ia de orelha a orelha e os olhos pareciam de olharapos. passou por ali o alamão. .

produto do seu rico dinheiro. O Calhorra abanou repetidamente a cabeça sem soltar bus. O mundo.Não sou.. Entre armador e Calhorra foi uma matação até chegarem a acordo. tão alto que fosse preciso esgalhar as árvores pelos caminhos para romper. O Calhorra concebera um andor ao Arcanjo S. . lhe mostrou quanto media. mas quando encostou a grande tocha ao bento lado de S. Miguel. Pagar as dívidas aos santos. Sebastião. orago da freguesia. desembolsando à justa. pois embatucou e foi com respeito que. Mas é a última vez! . e todos os seus artifícios redundavam em farelório como foguetes de lágrimas. Queria que botassem olhos pasmados ao portento e se dissesse: . fazê-lo segundo as regras.Nem a torre dos Clérigos? . nunca vista. não houve dúvida. Um metro e setenta e oito. já daqui não queria ser aviado. já que negócios são negócios. Pagou quanto o cirieiro quis. se nã~o fosse a esquadra do Governo Civilficar aqui ao pé. ainda mais comerciantes de pé fresco. nunca se julgara tão alt& Do que ele rebaixava para o que era em seu ser iam nada menos de dez centímetros. o andor do tio Silvestre põe o ramo? Só se acomodou quando viu o andor. a fazê-lo. Eram uns tantos mil réis que do samarro lhe saíam. medir mais dois palmos de alto que o de S. que foi preciso o homem meter-lhe um bote à barriga para o entesar: . sorrindo com afabilidade. mas se fosse que tinha isso? . mas. Miguel teve a consolação de notar que o arcanjo ficava ao pé dela como marujo ao pé dum mastro. Quando aquilo viu. nem sonhada. dobrando-se ao mesmo tempo.Qual anos nem qual carapuço! Olhe lá. O mesmo unhas-de-fome se mostrou o Calhorra com o cirieiro.rosnou de maus fígados.dizia o Urra que servira em artilheiros da Serra do Pilar. punha no lance. vossemecê não será retroseiro? . E ali marralharam os dois como se se tratasse de comprar os atafais para a besta num albardeiro da feira. . andava com os olhos abertos.Farto de me deixar roubar ando eu. embora debalde.Levante a grimpa.amortalhados. E que lá na sua queria dizer: a brincadeira dava-ta eu. mas nada de alargar os cordões à bolsa. que podiam tomá-lo de ponta. .. patrãozinho. 128 .Não se abespinhe por tão pouco! Estou a brincar proferiu o comerciante. de fita na unha. Além de regatearem quanto ao preço. encolheu-se de tal modo. mas não havia outro remédio senão arrotar. isto é. quanta ronha podia. galhardo e alto.Não vê que são os anos. o Calhorra exigia os tafetás mais garridos que trazia nos fardos e uma arquitectura espampanante em estilo só dele. e o lojista pegou do metro para lhe tirar a medida. que remédio. Pois que as celestes potestades não perdiam nada se comesse armador e cirieiro como fazia com os volframistas. Prometera um círio da sua altura. . . tendo resultado uma bisarma tão sumptuosa que era preciso pegarem-lhe oito homens.Caramba.Tinha que é nessas profissões que se aprendem certas manhas que nós cá sabemos. com efeito. cáspite. quanto mais descer a ladrão com quem nos dá tud& Se não fosse por ser taxado de soberba. e que o cirieiro compreendeu. seu homem. quando neste passo prometi até ir descalço e sem fala.

A veste. e a cruz de latão com o Cristo de saiote a Manfurada. destes em lugar de honra os oferecidos pelos devotos de S. Mande rezar uma missa ao S. Como era cedo. Que me diz V. Depois do sermão. também à conta do pároco. guião vermelho de 129 . e a mortalha no alforge. alguns pedidos às igrejas vizinhas. advogada nos achaques da vista.a S. que aprendia para padre e já andava de saias. se fosse como o dos mais anos. Miguel e está quite. nunca vistes as patas de vosso pai? Quando a procissão acedeu à capela. apartaram-se anjinhos e penitentes para uma banda. um sermão que há vinte anos era único e invariável e tinha o mérito de arrancar um chuveiro de lágrimas às mesmas caras e a outras que se dispunham a suceder-lhes em tal papel. na égua rabona com a Verónica à frente. esperou na venda do Adolfo que batesse a hora. os mordomos deram voz para o saimento da procissão. O desfraldar dos estandartes teve que se lhe diga. mas as pernas não me deixam fazer a romaria por Mouramorta. O Calhorra não quis nada com o fedelho e foi procurar o pároco verdadeiro: . corrente de jarra ao peito. e foi de cara dura e voz que gelou o sorriso nos lábios dos circunstantes que disparou: . Mais dois. Brás. Era gente expedita. ficavam à conta das esmolas angariadas pelos mordomos de porta em porta na roda do ano. o de S. acolitado pelos abades de Pedrões e de Rabaçais. Rompiam primeiro os guiões. Brás e o de N. Brás. Oficiava o reverendo Tadeu. música e canto. Também era costume pedir a cruz de guizeiras a Rabaçais. advogado nas quebraduras. e comprimiu-se o populacho contra as quatro paredes. À força de pontos e de alfinetes conseguiram enfiar-lha. e os rapazes outro a Santo Apolinário. ainda a procissão estava a sair de Mouramorta. teve de os repreender: .a das Sete Espadas. sempre o tio Silvestre no rebanho dos vultos brancos a dar nas vistas como o rei David. O Calhorra assentiu. com joanetes altos e rugosos. Imensos e deformados pelo reumatismo. queda o voto por cumprir? . Era o instante solene. o que era um bico-de-obra. sôfrego de ouvir a missa a instrumental e o sermão que. estava-lhe curta. Foi assim que se apresentou em S.O Simão Tadeu passara a sobrepeliz ao Custodinho da Micas. Mas por mais de uma vez o penitente se queixou que o picavam. gravata. os anjinhos não tiravam os olhos deles. faria chorar as pedras. Além de curta ficava-lhe apertada. O José Francisco era farfante e encarregou-se de levar o guião de Pedrões. quanto a acompanhar a procissão a seu destino.Não senhor. bem embora lhe soubesse a vinte escudos que era quanto escorria do seu bolso para o bolso do celebrante. e muitas mãos se estenderam solicitamente a ajudar a vestir o senhor presidente da junta de Freguesia. R. andores para outra. Perante tal abusão. Quando o foguetão estralejou à entrada do povo a comandar: a postos! dirigiu-se à sacristia da capela para em calma e à vontade envergar a mortalha. e foi preciso deitar abaixo a bainha.? Se não vou. que era em panocru. fato de saragoça preta. que lembravam as incrustações de certos moluscos na rocha.Ó meninos. depois os andores. para não parecer mal. Havia ali outros penitentes com suas aderecistas. e por ali fora. As raparigas mandavam fazer um a Santa Luzia. e a bateria de calos monstros verdadeiras nozelhas de carvalho. foi um rufo.Prometi figurar na procissão de amortalhado e sem fala.Ide lá pôr alfinetes a casa do Catano! Isto é mortalha ou samarra dalgum oiriço-cacheiro?? O pior do pior foi quando teve de tirar os butes e ficar com os pés a descoberto.

Deixa.Ainda há rapazes. flutuou a todo o pano com placidez e galhardia. sem dizer palavra. deixa. bem embora lhe exigisse mais esforço do que andar agarrado à marra. que estava à entrada da galilé com o rancho.. não se conteve que não bufasse: . ainda há rapazes? exclamou o Augusto Alres adiantando-se. A grande asa rubra pareceu sentir o pulso forte. imprimindo-lhe um alancão como se desprendesse uma ave. que ele via-se em sérios apuros para não o deixar abater sobre o gentio que recuava assustado a toda a roda. refartos de 130 . um dos mordomos proferiu: .vara alta que nem um choupo. depois de o soerguer arqueou levemente o tronco para melhor lhe dar balanço e. e.Está uma grande ventaneira. Logo após avançava a chusma dos anjos. a enrolar o pano contra a vara para o recolher à igreja. largou-lhe o estandarte com gesto desdenhoso. O Aires deu o chapéu a guardar. lá ia direito. O terceiro era o tal pendão de Pedrões. Os bicos triangulares. Rolavam-lhe pelo rosto grossas bagas de suor.Ah. confiar-se. atrás do Urra.. de ranho caído. remeteu-o às alturas. ao passo que a raiva e a amargura que lhe iam na alma lho enegreciam como fuligem. Dás licença?. com ele tombado.. Logo por fatalidade soprava ventinho rijo e repontão que desdobrava o pano melhor que asas de gaivota. Ora o José Francisco. e deixavam-se conduzir pela mão das matronas que os tinham caracterizado. Depois. tomado de furor. não obstante o grande peso das franjas de oiro. O José Francisco. Seguia-se-lhe o Manuel Calhorra que tinha corpanzil de boi e que também se avinha menos mal com o branco de Mouramorta. como se tal impotencia constituísse uma afronta para o seu brio de penitente. Com dó dele. raios. Sem pressas nem vagares. mal passou a galilé. . voto de um brasileiro à Virgem Santa Quitéria na iminência de se ver papado por um tubarão. às costas asas desplumadas de galinhas brancas e de patos. O José Francisco ia a arriar mas o Calhorra..Quem leva o guião sou eu. desatou aos bordos. e deitou as mãos ao estandarte. Levava-o Lázaro Fandinga e não era maravilha que arcasse com ele. cuja carne banqueteara fidalgos e senhores eclesiásticos que já não eram deste mundo. sacudido pelo bater impetuoso da grande asa vermelha. Vendo a sua atrapalhação. despregando-se. moço. ergueu o mordomo o braço: . fosse ele no meu tempo e vocês haviam de ver quantos apareciam para levar o guião? Acabou-se a rapaziada. Um boizana assim avanta com os telhados para os quintos quanto mais com um pendão'. opressos sob o peso dos grilhões e escravas. Seguiu-se-lhe o guião verde.. um momento se encrespou. com ele trepidante e majestoso. O primeiro a romper fora o Quim da Urra e.. senhor Silvestre. que requeria pulso rijo e quem tivesse comido já umas certas rasas de sal. O melhor é recolher os guiões. vestiu a opa. puído do tempo e fanado de suas lhamas e borlas. que se tinha pelo mais valente. Obstinava-se José Francisco. com envergadura tal que cobria meio adro. caminhou a ocupar o seu posto na procissão. voltavam-se enfunando o pano. O Aires ergueu ainda mais alto e. no momento mesmo em que começavam. . em duas alas. não há braço que aguente. mas embora firmasse na cinta o conto da haste e com o desespero os dedos se lhe tornassem garra. com o seu encabado na faixa. o pano desfraldado revestia-se de alento superior ao seu. Tinha centenas de olhos em cima dele. ou davam tal açoite contra a vara.

de que se compõe o balho. armou-se o danço. aquele fora-se insinuando na vida do lavrador. inflamou-se o despique entre os cantadores. que era dança para todos. procurassem-no ali.Falais ao toledo. os andores. chegavam do cimo ao fundo do terreiro. aquelas terras que lhe ficavam aquém. para maior cautela. o mais alto dos amortalhados. Brás. Raios o pelem. Quando ao entardecer a gentiaga dispersou. Em virtude de presunções tão opostas. se o quisessem achar. Deus que é pai lhe perdoaria. nem por isso a festa teve remate. E lá ia. aflautada. O mordomo que estivera na pendência dos estandartes chegou-se neste entrementes ao Calhorra. resplandecentes como tronos. é o pingo da rocha que cai para o chão enquanto o padre reza o responso. Com tal esparrame. bamboleando-se nos ombros dos mocetões. já que não fora por querer. e o Calhorra. Assim. avançavam com segura cadência. Com harmónica ou sem ela. na compra e venda de gado. mas. tio Silvestre. Brás. que não se importa de quebrar o voto para atirar assim o homem ao desespero! Só então o Calhorra se lembrou que infringira a promessa. Contra ele versejavam o José 131 . Bem se derrete ele. e em matéria de sainete poucos lhe levavam a melhor. Mas também não era só uma pessoa nem duas a protestar: . e disse-lhe: . esbagulhava-se em lágrimas. tornando cada poviléu para seus cabeços. porque aí a solenidade prolongava-se em balhos. muito sensibilizado com tanta grandeza e tal preito divino. Nos terreiros de Malhadas. sem falar já de S. Caprichou o José Francisco em desertar da sua terra e vir alegrar Malhadas com a concertina. Miguel. as cruzes de prata e de latão refulgiam porum sol que teve a bondade de se associar à festividade. De volteio em volteio acabaram os festeiros por estacar no largo da capela e armar a chula. bem como de Mouramorta.Quem há-de acabar por levar a borrega é o filho do Antoninho. mandara a mulher ir à sua ilharga. assentes desde longe. Boquejava-se: . Aos domingos não tinha outro poiso. que o descante. Desta feita a concertina cedeu a vez ao bombo. quando o saricoté feria lume nas calçadas de Mouramorta e de S. A Teodora não pode ver o filho do Antoninho nem pintado. frequentando-lhe a casa e acompanhando-o por felrãs e alcriquetes. de romaria aos quatro grandes cruzeiros que flanqueavam o lugar de S. comeretes e beberetes por três dias e três noites.O José Francisco deita a alma com vergonha. Batiam ali calcanhar. a ninguém causou espanto ver o José Francisco em Malhadas. punha maior fanfúrria e era mais próprio dum dia de grande borga. senão ensinava-te o respeito? Silvestre Calhorra apoiava-se à bengala de castão de rangifer e. com o correntio de relações que se estabeleceu entre José Francisco e José dos Cambais. A música à sua espalda fungava um pase-calle estrondoso.O que te vale é eu ir aqui a pagar o grande favor que devo ao S. Brás. O Joaquim da Urra tinha voz sã. Em verdade. Limitou-se a acenar com a bengala.lindezas. sócios da mesma empresa. O facto prestou-se a que engrossassem os zunzuns que há muito andavam no ar. as duas alas. o mesmo era que dissesse: . através das ruas varridas e com a gente ajoelhada pelos penedinhos. ferrinhos e viola. daquele jeito. Brás. além de Malhadas. Tão certo o zorro ficar a fazer cruzes na boca como eu chamar-me Lourenço e ser de Braga. no caminho para S. a passo de boi.

fez-se mais branco que a camisa gomada que trazia. dando-lhe com o cotovelo: . distraído. Azango. apareceu à boca do adro o Augusto Aires. A rapariga cruzou o xaile do ombro para a cinta e foi. mas depois de o ouvirem pingueiro a contar as cacetadas que tinha à sua conta. a bailar ficou. dizendo todo chorão: . dava-lhe para o melodrama. diz o outro. Andava a bailar. Mas andas muito enganado. E novamente o Quim lançou à zanguizarra: O que tu querias sei eu. mas faltava-lhes veia e ralé para competir com o cantador de fama. Pra quem pêro está guardado. o home é cego. entrança e destrança. que mal tem!? O Zé dos Cambais percebeu e muito trôpego. não arredou da negativa. a fugir ao desafio em que era de toda a evidência ficar desbaratado ou para desmentir o subentendido que pudesse transparecer da quadra do Urra. Punha-se então uma madalena arrependida e todo se desfazia em lamúrias pelo tempo que perdera. os pares davam a volta e subiam tornejando com os demais pares. Quem não deve não teme Nem se põe a cortar prego. mão na mão.Não faças essa desfeita ao homem. Era uma das sortes da chula enquanto o par do alto e o par do fundo revoluteavam enlaçados. Requintava o balho em evoluções. rompeu o 132 . além de dar licença aos sarrafaçais dos filhos para se emborracharem a última vez. as topetadas que dera. as mangas intermináveis do balho. cavalheiros com damas. meteu-se para o meio das outras e. Que por andar ameaçado. E ao refrão vira. um honrado pifão. é que vinham ao fundamento da boa peseta que ele era. que ninguém lhe viu demudar cor nem jeito. Menina. menina. Os pares agora subiam e desciam.. de companhia com o José dos Cambais. O José Francisco entretanto garganteou: Se à sua porta corre água. embora o seu par a requeresse com insistência. pela vida fora. acudiu.. até então por algum cuidado da última hora. os cachações que se vira obrigado a aplicar a este e àquele. se encordoou. mas não disse palavra. já toda a gente sabia que o tio Silvestre não era para cócegas. julgou-se também no direito de tomar. Queria valsar com o antigo sócio. O vinho. mais amalandrados do que é legítimo sofrer o cristão. Consigo vou ter sem medo. Quanto a ela. Entretanto andava a caneca à roda e o Calhorra. assim que chegou a primeira suspensão. damas com cavalheiros. das raras vezes que lhe subia ao capitel. em arco por cima de cada ala.Vai. foi no seu íntimo. Vai o pêro. à má cara umas. surdas outras quando adjudicadas de noite à porta dos serões. rodopiavam numa perna só e ele chorava. Vendo Teodora a dançar com o filho do Antoninho. vira-vi. Não ta merece. Continuava o danço no largo muito alvoriçado. sobe e desce. o rego. tem-te não caias. até endireitar carreira. foi convidar Teodora para sua dama. mas o reumatismo falseava-lhe os movimentos. rebolando a anca e castanholando com os dedos livres.Francisco e o Luís Ougado. empurravam-na. e o José Francisco. vira-vi. Mas as outras raparigas. E logo o Quim da Urra despedia com requebro malicioso: Não corre água nem vinho. A moça escusou-se. Mas. Da atitude dos três ficaram todas as comadres murmurando. Mesmo assim.

Onde ele cair caio eu . Rosna-se para aí que te viraste para o filho do Antoninho Fráguas.... ouviram-lhe que dizia: Este moço vem connosco. . O pai acomodava as vacas. que assoberbava durante minutos a povoação.As bocas do mundo. quase titubeante. um tanto exalçado pela laracha do homem.proferiu ela um pouco no seu modo arisco. Agradado. Falava com dificuldade. ainda na praça tiniam os ferrinhos e zurrava o zabumba. mais zambro do que nunca.. Entre elas Teodora. O Augusto Aires deu o braço ao Calhorra. As danças prosseguiram até a noite remontar dos vales para as aldeias e os picotos dos montes. . O filho despegou da zanguizarra. Afidalgado. com o fim de afogar duma vez para sempre a sua paixão. Como a pausa se dilatasse. 133 .repetia o Luís Ougado na cegarrega obtusa de borracho.temos de falar com o coração nas mãos. Tivemos ambos um peguilho. Fica-te com esta e podes dizê-lo à lambisgóia do Zé dos Cambais. meu homem. começaram a despedir umas após outras. A nuvem de poeira e de balidos. Ao fundo do patim chamou pela senhora Verónica que viesse tomar conta do cativo. Ao entrarem os rebanhos nos currais.Devo acreditar que têm razão. O moço trazia Teodora dentro do peito e foi procurá-la. Brás.Não há-de ser preciso. aclui não se corta prego? .e batia no peito.Onde ele cair caio eu . Augusto. Como ao lado deles marchasse o Luís Ougado. Mas as mocinhas ramboieiras.Razão. não se fala de pecados velhos. porquê? É um amigo às direitas. veio para ele. desde S. nem sequer atrapalhou o bailado.Está bem. . embora de pé menos lépido do que tinham vindo. sabes? É que não tenha uma filha que ta dava com os dois vinténs que guardo num buraco. o Calhorra. Ou. para esconder o pesadume. puderam ficar à vontade... a escolher caminho.Ao pé de mim não há azar. Mas deixem lá berregar o paspalhão do Urra.. O Luís Ougado apartou-se cabisbaixo. a abanar a cabeça a um vago inimigo.? . depois de jogar ao ar o barrete de pele de coelho: . de quem joga tudo na vaza . Uma pessoa disse-me: vou-o jurar. quem? . Pronunciadas tais palavras com certa sequidão despediu rua abaixo mais o rapaz.disse ele no tom sentido.perguntou o Antoninho fitando o filho. ela picou: . .Antoninho de automóvel.Sabes a minha pena.entoou o Ougado. de caneca em punho. mas agradecia como se tivesse bebido.Sentes-te ameaçado? -. esquecendo-se que estavam de relações quebradas.Sinto e não sinto. ao só cio da vigairada. de xaile descaído para a cinta. que parecia peado. desculpou-se Fráguas com não beber fora das refeições. deu em bem. dize lá. que parecia meio pingueiro.significou-lhe o Fráguas. se não com pesar de interromper o plantão que fizera todo o santo dia. . o velho disse-lhe..Teodora . para o acompanhar a casa. de ar torvo e sem erguer os olhos. ou pô-la a salvo de temporais. obrigadinho! . a velha entretinha-se com a ceia. em sua importância sentindo-se talvez afrontado pela presença do bebedola. . ou. . .E depois? . Aparece.

As raparigas em volta: vai. aquela espécie de ar fresco que não vem apenas da atmosfera e embebeda como o melhor vinho. Entrava-lhe nos pulmões ar fresco. a sua tortura era atroz. Teodora. conhecendo-lhe o génio: Não julgo nada. Moldava-se..Ouves bater o coração. Perdido e achado é em vossa casa. Teodora. Era uma razão para te negares. hesitante em ler-lhe nos olhos aquilo que tanto buscava... mas para ti não deve ser novidade o que corre a esse respeito. Mesmo assim porfiou: . viver e sofrer. pô-la em cima dos seios sem aquele pudor com que as raparigas fogem ao toque atrevido dos rapazes.disse ela em voz áspera. Depois.? O Aires quedou um instante em suspensão. . nem disse: deixa-me? Quando voltaram à terra.Mauzão! 134 .. enlevo que não espanto. ela murmurou. não o bispei agarrado a ti a dançar. Mais do que isso.Pois andava e andava mesmo? Não acreditas? Podes acreditar.Dá cá a tua mão. suponhamos. Olhava para ela e como a visse calada.. O que não se compreende é a aceitação que tu lhe dás.Não lhe dou aceitação nenhuma ... Torna-ma a dizer. .replicou ela com sequidão.. ouves? Eu te digo o que já não devia ser novo para ti: tua ou de mais ninguém. imóvel. Tenho com a minha palavra e o meu querer e basta.Dize-ma. paciência. que ta não corto.proferiu ela num trejeito que transitava repentinamente do sério para o jocoso e regressava logo ao tom primeiro.... Foi-me cometer para o baile. Aí tens porque me viste a dançar com semelhante meijengro. Para onde for um. Que homem és tu para guardar memória de coisas que bolem com a vida toda duma pessoa. que tanto podia exprimir: sim. Eu não o chamei.Torna-me a dizer essa palavra.Já te disse e torno-te a repetir que não tenho nada com o que os outros pensam. Meteram-mo à cara. moldava-se branda como a cera.E que palavra é essa... . Se é o que eu suponho. E volveu: . vai outro. o sujeitinho agora não sal da tua beira. grande pausa. em que comungava tudo à volta. quase tão pétrea como a massa da masseira a ponto de levedar.. rija. que a cabeça não me governa bem. Vês..Pois sim. . tudo tem fim. Ele e teu pai são como cabeçalho e chavelhão.. estreitou-a contra a apojadura das pomas. . Augusto apertou-a contra si e ela deixou-se apertar. .. . .E tu que julgas? Soltava as palavras no seu jeito despachado e tom escarnento. como: não tem pés nem cabeça.Assim és esquecido?? . que não estou bem lembrado.. de olhos em terra. disselhe que não. e numa voz em que latejava não sabia se amor se ira pronunciou: . Mais uma razão para definirem suas vidas. porque não hás-de ir? Meu pai teve ventos da minha má vontade e veio-me ralhar.Ora essa. meta sisuda. abençoada seja a luz que nos alumia. como se ditasse uma ordem a quem fosse mau cumpridor. moldava-se no seu peito..? Não me vais dizer que trago cataratas nos olhos ou que andavas forçada.. se não. Pegou-lhe da mão. . meia sorrindo: . Teimou. E tartamudo balbuciou: . Suponhamos que semelhante compadrio é devido ao negócio. O céu e a terra revestiam novo aspecto para o Aires.Ele tornou. Intercorreu uma pausa. é verdade.Dá cá.

?! Mesmo. irradiante. entrava já na sua rua. Um ventinho assobiador vinha da serra e tão-pouco dava conta dele. Uma névoa leitosa de amanhecer recobria tudo nos horizontes da sua imaginação. Era noite e não se apercebera ainda bem da escuridão. total: sublimação do humano. uma chamazinha trémula. E pôs-se a arrepiar caminho. mil penedos de cima do peito. Agora. Não se ouvia nada de nada. se esquecera à última da hora de pôr trancas às portas.. Para gente tão meticulosa o facto era singular. Eram duas almas numa só alma.. como no concurso harmonioso das leis da vida uma vez pode acontecer. O mocho piou e as notas agoirentas pareceram-lhe alegres parabéns. não havia de andar sobre brasas?? Mas perdoa. Foi andando a passo cada vez mais largo... E com os seus botões considerou que o Cambais. com as ondulações caprichosas da casaria lembrava um barrocal. mas sem fazer ruído. trazido pela pancada. a mãe. em boa paz e segurança. saber que ela lá estava a dormir. Teodora. Dois minutos concedem-se ao homem que vai a enforcar quanto mais ao coração alvoroçado? E abandonou-se à vontade pueril de rever. duas notas do chocalhinho tangido pelo carneiro ao coçar o piolho. se dormia. tinha a noção de que marchava. Passou à beira da mina do Vale das Donas com os aterros encavalitados a trouxe-mouxe e os tejadilhos de fibrocimento mal sobrenadando no imóvel e imenso mar da escuridão. seguro do mundo. as pedras o juravam com o seu sossego. quando se sentiu levado por uma irreprimível veneta a torcer caminho pelo domicílio do José dos Cambais. nunca és recompensada da prova de confiança que me deste. as paredes que alojavam a sua Teodora. Eras a minha vida. o senhor Hincker e a menina erguiam-se-lhe diante tal os arnieiros nas margens do rio. deixou-se ir ao acaso pelos caminhos fora. Cada vez mais apressado.. era a noite inviolada e profunda. por mais trabalhos que passe. Foi-se dali. e as giestas acocoradas nas rampas. e bendita sejas! Por mais tombos que dê. Haviam-se calado há muito as vozes que quase adormecem a rezar sobre o açafate e. acabaram por se entornar na terra. o vagido do menino que logo esmorece sufocado contra o bico do peito. À entrada do povo que. No patamar afitou a orelha. os olhos dela e os seus numa só luz.Tiraste-me.. notou com estranheza que no portal carreiro um dos batentes estava escancarado. ruminando a grande felicidade. Uma vez diante da moradia do Cambais. Onde ele estava. Os pés o guiavam certo e direito como se levasse rumo. Na casa do guarda. fustigado pelas rabanadas glaciais e farto de tropeçar nos calhaus. Respiro. Teodora. ainda sob os fumos da pagodeira. 135 . sem noção do itinerário. sim. soçobrado em silê ncio. antes de se ir deitar. nã o. deteve-se um ápice. perscrutanto à direita e à esquerda. entrou na quintã. com os cães enrodilhados nos ninhos. E afoito. mesmo na ribeira. que não se via a linha dos troncos. com a breca. leve. Que ressaibo o da sua boca? Que fluidez no seu sangue? Leve. Tanto dentro como fora nada entreviu de suspeito.. anunciava: vigia. como se por cima da terra o sustentassem asas. inebriado de amor. o Calhorra. O sol. pé ante pé e reprimindo o fôlego subiu o patim que conduzia à casa propriamente dita. rolando no céu baixo. as comas dos pinheiros novos em levitação. necessária a sua quietação. Teodora confundia-se consigo. O escuro adensara-se acrescido dos bulcões que o vento tocava do norte e que. tendo-lhe acudido ao espírito que a mãe podia estar em cuidados com a sua ausência. Para tirar a prova real.

Mas já o vulto. mas não lhe fazem segunda. que te fizeram. Talvez voltasse. Varrasco?” E a infame dúvida de há pouco voltou a bater-lhe na cabeça e ele a recalcá-la. afigurou-se-lhe reconhecer o José Francisco. virava a esquina e. Sorrindo contrafeito. sossegue. Agora. quase fulgurante. machadinha em punho. não é nada comigo.. fosse reflexo dalgum dos seus movimentos.?. para os fundos da quintã. contra o mainel. disse-lhe a tremer toda: . Breve. Lá estava. A mãe veio abrir e vendoo transtornado. escoava-se na noite sem ruído nem rasto. Tinham-me avisado que certos ratoneiros que para aí há andavam com tenções de dar um assalto ao filão e quis ver se o guarda dormia ou estava no seu posto. Mas.. Olhe. atravessou os umbrais. não parece. Voltar para quê? E de ímpeto.. Não lhe dissera Teodora: “Tua ou de mais ninguém”? Mais do que isso: não lho demonstrara? De súbito. não destituído porém de certo recato. Depois. disse para a mãe: .. pois se ouvia o sonido da ferramenta e de paus ou tábuas entrechocando-se. afirmando-se melhor. ainda mais intrigado do que inquieto: “Vem para roubar?” Uma segunda interrogação brotara no seu espírito. foi-lhe empós.salvo o vento nos pinhais do Oiteiro Alto e a toada dum fio de água a despenhar-se do talude.” Mas o vulto tornou a crescer na penumbra. “Ladrão. homem sem dúvida. fui até o Vale das Donas. parado como se estivesse novamente irresoluto ou à espera. e foi quanto bastou para o petrificar de novo na imobilidade. descalço ou de alpargatas. quem era devia fazer a sua socresta.Ai. Vendo-a embrenhar-se na escuridão para o lado das pocilgas. Foi instantâneo. descosendo-se da porteira. fosse ilusão dos seus olhos. pareceulhe mais o Ougado. portanto. mas essa repelia-a como iníqua e absurda. a prevista forma humana entremostrou-se projectada contra a palha branca que lastrava a quintã. Uma inalterável e peganhosa modorra de inverno recobria a aldeia e a terra toda. e afigurou-se ao Aires que manejava um estadulho. assestados com fixidez hipnótica sobre o noitibó. Bateu à porta com mão nervosa e insistente. pela estatura meã e certo franzino do tronco. que o Cambais tinha de reserva como todos os lavradores.Não é nada. mal teve tempo de se dizer. uma sombra enovelada delatou-se pelo seu chumaço de negror no vão da porta e aí fez alto. Aquilo é como um 136 .. O rumor pouco a pouco foi-se acentuando. mas semelhante a bicho que anda à caça. a ofegar. Quem era não estava ali por bom. Quer dizer. e até pelo pigarro que a custo sofreava. E ao desenvolver-se em altura a arredondar-se de linhas. coitado do homem! Embarrilaram-no uma vez. como se viesse furtado a perseguição. meu filho. E outra vez se perfilou contra a ombreira. e o Aires deitou a mã o à machadinha que entrevira a um canto. definindo. até se traduzir num chapejar seguido. destes estadulhos da carreta descascados e mais altos que um homem. O Aires quedou um momento interdito. Soprou ao desafogo. Na breve pausa que se seguiu ao acto de decisão: vou-me embora? figurou-se-lhe ouvir na rua um rumor imperceptível. Foi como se lhe tivessem cravado um punhal no peito. a desenhar-se.. “Alguém que precisa duma enxada e vem por ela onde sabe que não faltam.?? Que te fizeram que não vens em ti. um instante perplexa ou cavidosa.

? Então não ouve?. exclamou: . Do sussurro. Quando chegue. E também sem náusea alguma inclinou-se a observar. olhou para a mãe. Brás. ao pé dele e lhe falei. Era a tela da pessoa discreta. Augusto volveu de novo olhos para a mãe e.Agora ao entrar.Quem foi trazia-lhe gana? . luziam ainda ilhéus de brancor. desvendar-lhe o facto estupendo que fizera essa felicidade. Ouvia-se um burburinho de enxame alvoroçado. se lha dissesse. Não acreditara nem uma só palavra de quanto acabava de lhe dizer com boa lábia. Na camisa de goma. E de facto ele alguma coisa escondia.disse ele. pois lhe havia de parecer também a mais acabada das patranhas.. procurando ler-lhe nos olhos. deu-me para ter medo? Que tem de ceia? A mãe pôs-lhe na mesa o ensopado que há muito tempo acalentava ao lume para não arrefecer. ainda mostrava os colmilhos a rosnar. muito demorado explicar-se e melindroso desvendar-lhe o que tinha de ficar oculto. cujas sombras oscilavam até desmaiar por cima dos telhados. não sabia como nem quem. nal prestando atenção ao que lhe diziam. Escondia-lhe que. assarapantado!. não acha..cão da Serra. Abriu a porta. Tinha já os olhos vidrados. viu sem manifestar espanto o José Francisco estatelado no chão. com a cabeça feita numa bola de sangue e lama.. . que não tem medo de nada.clamava não traduz bem aquele gorgulhar de sons guturais e incompreensíveis ..É o povo. . subitamente. ensopada em sangue. Que assuada será aquela? Uma voz clamava .. Essa voz foi engrossando pouco a pouco e agora parece enchia as ruas. tornou com o vero acento da franqueza: .Ouve.. .ladrava à volta do resplendor dum lampião.? . vendo-a de pupilas assestadas nele. Comeu em sobressalto. ao tempo que torcia a cara para a banda. repcso de 137 . . e depois de falar reparou que a sua voz soara na açudada de imprecações. e esse brancor falava da festa de S.. era demorado. O golpe que o prostrara devia ter sido dado à mão~tente com olho de sachola ou grosso varapau para assim quedar a caveira escaqueirada. o cabelo em pasta sobre a testa e o toutiço tão feito em estilhas que se lhe tocassem tremia como uma abóbora melada. percebeu que estava a dobar a sua teia. ouvi na rua uma barulheira que me assustou. Deve ter sido para o pé da casa da Pedralva. postado um pouco de esconso entre a ombreira da casa da Pedralva e o rancho das mulheres. assim. como o piar da coruja. da noite assombrada exalava-se urna impressão única: Homem morto! Homem morto! Foi atrás da mãe.Então que quer. Para que ela compreendesse. de alevante. abertos desmesuradamente. Era o relâmpago que na noite negra ilumina subitamente a imensidade com sinistro fulgor..Jesus. do clarão das lumiciras trémulo e fúgidiço.exclamou a mãe.. Em dada altura estacou de garfo no ar.Homessa! Um valentão como tu. Muito menos acreditaria na verdade pura.... Ao proferir tais palavras. .Mãe.. .. Não obstante. Reparou ainda que muitos olhos se cravavam nele interrogativos.. e.. . lamentos e rezas. fazendo-se muito branco. vá ver o que é. varava através dos pinhais e leiras de centeio o próprio coração da terra. se conjuravam contra a sua felicidade.observou-lhe ela. À luz duma lanterna pousada à beira. desconfiada que lhe escondem coisa grave.

proferiu impensadamente. tia Rosa. emitindo as suas opiniões e bichanando os seus palpites. ninguém se dispensando de aventar a sua hipótese quanto à forma como o crime poderia ter sido praticado.A travesseira suja-se com o sangue que ainda está a escorrer da brecha . vá que é uma obra de misericórdia! A Pedralva não foi por ela. tacteou a ferida. Meio arrelampado. . por seu belo querer. Afastou a mãe. não podia ver sangue! O regedor designou por escala os cabos de ordens que haviam de velar o assassinado e o povinho dispersou aos quatro pontos. Contou depois que a Florinda estava na cama. pois saltara da cama estremunhado dum destes sonos que só têm igual ao das bolas das pirâmides nos pináculos das igrejas. ao largar do estábulo onde estivera a acalentar a vaquinha parida.. demais a mais domingo. como que interrogando-se sobre o drama que o vitimara. veio com uma manta e deitou-a sobre o cadáver. mas obedecendo ao instinto de varrer de si qualquer suspeição. Fora o João Sancho que. sem reparar bem no que dizia... já noite velha. deu conta que faltava uma travesseira para lhe meter debaixo da cabeça. O José Francisco fora visto à boca da noite desandar sozinho pela estrada fora. e como ninguém lhe respondesse.exclamou um dos presentes. como se explicava que aparecesse morto numa rua de Malhadas? Explicava-se admitindo que voltara atrás. mas dos degraus do patim por onde se subia para sua casa chamou pela filha que lha trouxesse.ter aberto a boca. . Mais de quatro testemunhavam em conformidade. .A travesseira lava-se . Revendo-se na sua boa acção. a coitanaxa da Júlia Minga. Mas não podia dar razão de vulto. resolveu-se então a ir buscá-la. sendo assim. O adjunto engrossava cada vez mais e a tia Pedralva.advertiram-lhe. . Repetiu o apelo. . a destrancar ainda os olhos da ramela.Vá por ela. Aquela tinha mesmo alma de cebola. Chocalhou rua fora a tamancada a par de grosso vozeiro: Regedor! Regedor! Entretanto crescia o babaréu em volta do cadáver. a escapulir-se. . em hora a que ninguém o vira. O corpo ainda estava quente. tropeçara no morto e soltara brado. A avaliar pela tepidez do corpo. foi pessoa sabida? Neste meio tempo chegava o regedor. já não sentiu bater o coração.sentenciou outrem. a bater o dente tão alto ou tão rijo que nem que curtisse maleitas. que voltara a examinar o cadáver. na direcção de Mouramorta. abraçada ao filho. que tinha a casa mesmo em frente. com a cabeça debaixo das mantas. Mas. Outra vez o Augusto Aires. com um froixo de riso forçado. Mas voltara para quê? E voltara sozinho ou acompanhado? Não eram ainda onze horas. mas a Polónia Fandinga. ajoelhando e colando-lhe o ouvido ao peito. Manhã alta. para a aldeia.Vão chamá-lo? Pois então não hão-de ir chamá-lo?. Depis. sombra sequer. de que ele próprio se arrepiou: . a morte devia ter-se dado depois das dez. começou em voz grunhida a clamar pelos cabos de ordens.. 138 . e ficou de pé a fitá-lo. .Não há dúvida.iterou o Aires como de peito feito. fizera-a bem feita e esgueirara-se como um trasgo.Então o regedor dorme-lhe?? . debruçando-se sobre o corpo.já devia aí estar? Vão chamá-lo. pau argolado. chegou o Antoninho Fráguas de automóvel. Quem a fizera. ou melhor levado no sistema de sacudir a água do capote. que desde a alva se esbagoava em alto pranto. Sobre tal particular não havia discrepância.

tão certo como o sol que nos alumia?. regedor. Achais-me com cara de matar um homem? Para mais. . . .perguntou...Vamos a prender o Aires.. além de rico que é prenda de respeito. entre perplexo e atemorizado. é verdade que deste sorriso amarelo que tanto indica desdém por tudo como confiança. mas toda a gente pronuncia um nome! lançou de rópia e circurivagando os olhos pela gentiaga a tomar apoio do que adiantava.Andai lá. mais ditérios e segredinhos e no silêncio a voz de Teodora ergueu-se irada e resoluta: . cicios de vozes. já que o sabes. cheia de acusações e fantasmas. O Antoninho Fráguas. eu lhe darei o arrocho. prende-se o Aires.. tanto para proteger.Homem. foi-os acompanhando a distância. ah? . murmurando sempre: .exclamou com a veemência de que é capaz um regedor. Vede lá bem.proferiu o Luís Ougado em voz alterada. .Já prenderam o assassino? Estava ali a autoridade que o encarou com olhos de espanto..Se o deixa fugir.soergueu-lhe a cabeça a medir a extensão do golpe e. 139 . interjeições de pessoas que ansiavam por desabafar e não tinham ânimo.. mas estava de pé e de pé ficou sem se mexer. Ides errados. ..e desatou outra vez numa risada... e acabou por dizer: . rua abaixo.Ainda não ouvi. . meio tartaranha. A mãe ao lado escondia as lágrimas. sem resposta se o Antoninho não secundasse: . esse lhes afianço eu que não foi! Não foi? É falso? Como a autoridade parecesse hesitante.Ah. No caminho encontraram-se com Silvestre Calhorra que vinha para o lugar do alevante. .. À retaguarda havia murmúrios.. ombro a ombro com o Manuel Minga. mesmo assim. agravado em sua regedoria. o Fráguas observou para o regedor: . aprumou-se para dizer: . Levais um inocente. O filho deixou-se conduzir. dize lá quem foi? . . Dizem que foi ele que matou o José Francisco... O Fráguas continuava estático. Ficaria. tio do morto e factoto do Fráguas. andai lá! Levais um inocente. Após uma pausa.Pois se estão certos que foi o Aires que matou.Então ainda não ouviu um nome. tinha fama de braço comprido. olhos no chão. com que sim. . risonho e pálido. pupilas mortas. Por isso.. na sua voz lenta e emperrada: . ? Tem de levar os ouvidos ao ferreiro.Grandes alarves? Esse rapaz é incapaz de dar uma pan~ cada à falsa fé. Nomeou dois cabos de ordens e.Não sabe quem é? Caramba.Vindes-me prender.Onde vão vocês? . Seguiram. o nome anda em todas as bocas.. quanto mais matar um homem. como para castigar. Eu já desconfiava. absorto no seu panorama... Figurou-se-lhes que o Augusto já os esperava porque o viram a sorrir..Pois quem havia de ser?? Mais cicios.? Ah. ah. .Ora essa? .É que é mouco. depondo-lhe na testa um beijo. à traição. o Ougado tornou para o José Carrasco.Eu não vi. o Carrasco coçou a cabeça.

a não ser tementes a Deus. lá ia silenciosa ou botando o seu solilóquio. Esta sua criada entroncava na meritíssima linhagem das Ruças. Ouvindo as colcheias mortuárias. À retaguarda da sua grossa beiçorra de alguidar exibia velhas e temerosas arnelas com vazios largos como canhoneiras. roxas de frio. que de saia entalada à frente por via das partidas do vento. anunciados aos quatro pontos pelo estertor das vítimas e as vozes cruas e chinfrim judaico dos matadores. cada vez mais atarefada. O céu. como nascera nas palhas. Como todas as carreiras. e ameaçava mais neve. sopeiras e mais nada. A neve derretera de todo. que mais não fosse pelo dedo com que sabiam temperar um pratinho para abades e filhos de boa mãe. e uma quarta cobrava boas gorjetas pelas redondezas em bodas e entrudadas. ao serviço de Antônio Fráguas. A cada passo. encomendada pela mãe lastimosa. além de perfeita pascácia. a carreira eclesiástica tinha os seus ossos. O inverno estava a virar. depois da crise do pé leve. De todas. Nunca a nobre víscera podia contar com horas certas de comer. mas nenhum tão duro como aquele de trazer o estômago de quarentena. que era severo em artigo de contubérnios. depois de dizer por alma do José Francisco a missa do sétimo dia. e o corgo e arroios derivantes animando as paisagens ingratas de inverno duma vida que só a água é capaz de dar com a sua ágil e autónoma mobilidade. voltara a encarvoar-se não tendo descarregado suficientemente. dera o seu tombo até derivar da livre frescata na placidez enxuridiosa de alfaia eclesiástica. pelas rampas dos caminhos se descobriam ovelhas zorreiras. até por cima dos penedos. se entregava aos prazeres da mesa. onde o velho fidalgo. O prelado. celibatário e sibarita. com que os rapazes andaram a reinar pelos caminhos. Aquela sua Ruça. mas dando ainda mostras de muito ferrado à terra. Pusessem ali os olhos os adversários contumazes da ordem social! Gozavam estas Ruças de bom crédito e mereciam-no. proferiu: Onde desencantou esta avis rara. como para as peruas a muda da pena. mal lhe viu a tromba e provou os pitéus. alastrava nutrice e verdinha or toda a parte. a casta soror. Simão? Coitada. pelo contrário. oferecendo às crias um amojo refarto. posto que travado por um estreito regime de dispéptico. o exemplar mais completo era a Ana. tratou de se ir chegando a casa que estava frio de cortar coiro e cabelo. ainda que o sol pela manhãzinha tivesse espreitado por detrás dos montes. por lhe serem defesos os outros. afogando as pernas das raparigas. E a erva crescia. e tinha os pés como dois calhaus. embora o seu poiso habitual fose a Quinta das Meruges. antes. Uma terceira estava para o Porto. sempre em frente. Ela. mal alvejando à beira das paredes. mandavam a seitoira nos ferregiais. segundo o 140 . no resguardo do cisco e das sombras. e Tadeu. era a mais canónica e imalsinável das amas. e nas quintãs representavam -se os últimos dramas paritagruélicos da matança. Mas era um regalo ver os regos por entre os trolhos das leiras a luzir como cutelarias. rendia as honras merecidas à sua governanta.X O senhor Tadeu. o senhor Tadeu involuntariamente pressaboreou a sertãzinha de marrã que a Maria Ruça não deixaria de lhe apresentar ao almoço. puxado da serra pelo vento galego. o borraçal em que tinham vindo encalhar as bolas.

abade do Ramalhal. para o caso em que. Em casa também se cevava porco e se fazia salgadeira. a vida não lhe pareceu tãe feia como a pintam. e ao ouvir pelas quintas aqueles sustenidos de agonia. se por um lado lhe crescia água na boca. Na trempe. a serva a debulhar à unha as batatas de neve. com elas mais várias que o relógio de Santo Antão. quanto não daria pelo maravilhoso estômago. Se hoje se comia em tempo oportuno. gente esta que se mede toda pela mesma rasa em matéria de pontualidade. mais intemporal que o programa das obrigações paroquiais. capazes de arrancar um prego melhor que uma turquês. o fígado do suíno beirão que é melhor que de vitela e se dissolve formando um molho sobre o grosso que é o regalo dos regalos. fígado. a ponto de rescender como a ânfora siracusana do pai Esopo. mal depôs o cálice das consagrações com a sua bolsinha de chita ramalhuda. entrou em actividade deglutiva na mais ameníssimacias monções. depois do almoço de marrã. dos próprios colegas que chegam quando chegam a arrotar em suas éguas passeiras. e ao bafo confortador e ao estalido sinfónico que produzia o fogo devorando o lenho. quando estava só. tanto mais que adverte Avicena: est caro porcina sine vino pel or caprina. Depois 141 . Ah. era mais de apreciar que a carne de vinha-de-alhos ou o presunto já curado. A Maria Ruça pôs a mesa na velha banca. Gelavam-lhe os pés. mas que tinha o defeito de ser apenas no outro mundo. sim. que levara para o seminário e eram o terror das pelangas de cabra e do fiel amigo? Ai Deus. A Ruça. Era certo que a venerável Congregação dos Ritos. que lhe mandavam as almas amigas. do mestre da música. forrado de zinco. dos fogueteiros. frigia uma boa febra de porco com fígado do mesmo. perdida para sempre jamais. à medida que iam metendo a faca ao requinho. Por isso. O labrego lê as horas pelo setestrelo para tudo o que seja a lida dos campos. a não ser. absorta para o brasido. porca ou porco.. Chegado o Santo André. que se rinha acocorado no esteirão.. e pelos dentes de lobo. o gozo da bemaventurança à mão direita de Deus Padre. Na lareira ardia um bom lume de carvalho. amanhã apenas quando Deus era servido. moleja. por outro chorava a sua riqueza de rei de Tule. movida por ponderosas razões. as vezes que o eclesiástico vai celebrar em festividade fora da sua igreja. E com os pés alongados para a brasa. em última análise. Porém nada recompensava a irregularidade do horário. dois decilitros a emornecer no púcaro de Molelos. quando se persuadiu que já havia batatas suficientes na frigideira. e desta vez perguntava-se com justificado sobressalto se ainda lhe restariam na caixinha daqueles com-primidos de bicarbonato de sódio. que andava sempre como o da Joana. o seu moiro de sangue. a contemplar qualquer panorama interior. Entrou em casa e. filosofar com os botões da garnacha. Mas a chicha fresca. é pau-mandado dos mordomos. autorizara que o sacerdote tomasse logo de manhã uma pitançazinha moderada. entrasse a lutar com ele. os paroquianos mais dignos não passavam sem lhe mandar o prato com as primícias. a dita. Nada. que lhe aviava o Jácome. correu a aquecer-se. dos armadores. como muito bem calculara. negro duas vezes por fora. em prima tonsura. a ponto de não os sentir e causarem-lhe torturas insuportáveis. avinhado por dentro. fora disso é de absoluta inconformidade com o cronómetro. em cima duma tabuinha. tudo passa. tão junto do lume que a chama fazia esvurmar a resina dos nós da madeira e ondular a franja da toalha. cilhou as mãos sobre os joelhos. Costumava o Tadeu. naco de lombo ou cobro.

mas o Cambais é que havia de aguentar. complacente. Deixava crescer as barbas. além disso. As malinas vem e varrem as famílias de ponta a ponta.Ouvi. O senhor Tadeu preferia que. Tinha que regularizar a sua situação com o José dos Cambais. e alugara um garoto de dez anos à tia Maria de Alvite. como estava em maré de condescendência. Para quem padece como o senhor de arrotos chocos. pôs os olhos na banca. Podias ter comprado . “Aquele ladrão do Roupinho . a tia Maria de Alvite que lançava mão de tudo o que podia. na marrã. essa que anda pelos povos a comprar cornelho e ovos e vende lumes-prontos e pólvora de caçador.Mas para mim. Restavam os dois. agravava com terebintina uma chaga que tinha no braço. o senhor abade doeu-se como se o malvado dum espinho lhe picasse as meninges. o outro. “Pois Roupinho. deitara-se fora da empresa.S. e vá de rondear pelas terras de Marialva e pelo Zonho. no movimento dos seus maxilares. em vez de lhe matarem o bicho do ouvido com misérias do mundo. lembraram-se de trocá-la a patacos à Pomba Nova.” O senhor Tadeu declarou que estava muito bem a par da referida criatura. A Ruça não dera conta do sal amargo que acabava de deitar na marrã. bem sei que salmoira nem cheirá-la. . em vez de bater para Cruita do Alto com a esmola. voara a dar contas a Deus das maroteiras em que era useiro e vezeiro a despeito dos verdes anos. metera a mulher ao peditório e um menino. mas agora de 142 . tão pegados que só se foram um migalho antes de escurecer com os taleigos outra vez cheios. não se acaba o mundo enquanto houver chocadeiras como a Cruita do Alto.Deus me livre de lha prantar.suspirou. sabia. largou-lhe a corda toda. R. sabia quem era? e meteram para o Vale das Donas ao rebusco do volfro pelas leiras. a criançada em Cruita do Alto era como os peixinhos no chafurdo do pontigo quando se lhes deitam migalhinhas de pão. no garfo. que alugava a quem tinha abundância deles. Não é isso. e era a mãe dum tal Trinta chacinado depois de muita pouca-vergonha pelo povo de Manfurada. Seja pelo amor de Deus. ao comer. As mulheres casam aos doze anos e aos vinte estão carregadas como as vides. . Nem coelhas! Pois o alma de cão trazia a mulher na moina. estava farto de o saber quando não armava a rifa ou a vermelhinha nas feiras e romarias. já com quatro marmotinhos de um a seis anos que ficavam entregues à avó. não. e proferiu em voz gemida: .O meu senhor não ouviu pregoar a sardinha? . hem? O meu estômago agora já não funciona com esse combustível. R. dali a pouco. enquanto aviava um quarteirão ali à Madalena. pedia esmola pelas portas. uma música afinada executasse árias amenas. onde dizem que os ricos têm a mão larga. Mas a Ruça não era cabra para virar com duas lapadas e ele. O homem que a andava a vender. O Roupinho. sobretudo quando o petisco era como aquele de trás da orelha. o Calhorra. mulher e menino tinham chegado das bandas de Trancoso. o José Francisco. e continuou: “Lá passaram o dia ao rebusco. inçou outra vez tudo. de resto era o Cambais que manobrava os bilhestres e recolhia o minério. S.” Àquelas palavras. taleigos à cunha e. num aceniscar de olhos. Um dos sócios. elevou-os até o fitar bem nas pupilas. Corta o coração. uma desinfeliz negra e mirrada. e o negócio afigurava-se-lhe muito mal parado. Ele era sócio honorário.respondeu ele. ao estilo dos príncipes. contou como morreram sepultadas na neve a mulher do Roupinho e a criança. e estava dito tudo.

Pois não houve rogos que o tolhessem. nem quando seguiam à mão esquerda. também. nem quando carregavam de rópia por uma vereda que lhes parecia a certa. mesmo. Avisaram-nos: “Não se metam a caminho que vem lá a neve. rompeu a nevar. “Vocês assim carregados não botam a casa com de dia. Jesus.pedras. uma lauda de papel antes de escrita. ao que dobavam do céu e eram grandes. sinal de moscas brancas. batia o dente e chorava baixinho. Segundo consta estiveram vai e não vai a voltar para trás. lisos como a palma da mão. trespassava-lhes as roupas. até o entendimento lhes dizer: ides errados! Tomavam à direita e. transitara alguma vez por ali. que era uma magrizela. alvadio mas cerrado. Prometi à mãe deste menino apresentar-lho até o bater da última badalada do dia de hoje e não quero borrar a minha palavra. e tocaram adiante. nem penedo. atascados no nevão. Mas sempre havia um resquício de luar. O senhor abade estava lembrado dos farrapos que caíam? Pareciam asas de passarinho. isso estavam eles? Avançavam ao palpite. já ouvi ladrar os cães!” “Não estavam nada na Cruita. fazia muito frio e para as bandas de Montemuro o céu estava a entabuar. aí podem achar? Assim acontecia aos desinfelizes no alto da Nave. S. por mais que se mate. mal se distinguindo as farripas das urgueiras meio tombadas para o chão ao peso da mortalha branca. Andaram para diante. Mas o alma do diabo. Que é que os olhos dum letrado. que a mulher trazia apenas vestido um chambrito de riscado e um saiote e o menino os farrapos dumas calças de cotim e a camisa. A neve cobria a terra. “Muito tempo andaram enrodilhados. e o céu não se cansava de peneirar neve. fora. fora.. era a ambição. mas duas léguas das velhas. Fiquem cá e vão de manhã pelo seguro.? Era então escusado dizer-lhe que naqueles cumes não se ergue árvore. estamos aqui estamos na Cruita. Quando chegaram aos Cuvos. andaram para trás. atiraram ao chão as sacas cheias de pedras. lá iam até uma voz de dentro outra vez os avisar: não é para aí! Não era para ali. luar de quarto. Lisos. De Malhadas à Cruita são bem duas léguas. não se enxergava já caminho. e estava com medo que lhas roubassem. “Aquilo o frio. que é onde acaba a serra de Malhadas e começa a de Pedrões. cada vez mais basto e danado o remoinho no ar e mais fofa a camada branca debaixo dos pés. quanto mais casa. Quando alcançaram os altos. que o homem tinha o costume de desancá-la sem dó nem piedade. Ele animava a sua gente dizendo: “Vá. R. a mulher. Corno não pudessem mais.” “Era a desgraça a chamá-lo? Qual.parece que se prantou a gemer o Roupinho. arrasta que arrasta. e não admira que lhes atasse os movimentos. O menino batia o dente e clamava que já não podia dar passo.” De facto. já tão atarantado como a mulher e o menino.ia com a ideia fisgada de que levava ali uma riqueza nas pedras sarapintadas que arrebanhara pela folha do Vale das Donas.Seja o que Deus quiser.” “O Roupinho coçou a cabeça e parece que respondeu: .. sempre pela serra e desamparadas. nem quando seguiam à mão direita. disse para a mulher: 143 . asas estroncadas. que vai ser de nós! .” _ Jesus. lá porque lhe custasse deixar para ali ao abandono o seu rico pedregulhal. Teimou que não era nada: o ano já estava muito adiantado para nevadas. a deitar os bofes com a maldita riqueza às costas. com a neve ficavam mesmo. O alma de cântaro velho .velo depois a apurar-se .

Deram conta dum moroucinho.. “A mulher. afigurou-se-lhe ver certas sombras encavaladas ao longe e meteu para lá cheio de esperança.. que o volfro só deu pão a meia dúzia de trafulhas. Sua Senhoria não chegara a andar metido com o Calhorra e o Zé dos Cambais na mina do Santo Antão. se voltares. encontras-nos mortos. a correr em frente. com o arranco da agonia.exclamou ela.. julgando que em poucos minutos chegava à povoação.. caía se Deus a dava? Depois de muito tropeçar. Não me consumas! . Caminhou.? “Puseram-se a escutar. . de joelhos à boca. foram dar a descampado muito para fora do caminho de Malhadas.Andei. rijos.gritou ele com o mau génio que tem.?” . . As sombras fugiam diante dele. chegou a um povo atolado em branquidão. cavaram a neve. muito melindroso. de pedir a Deus a morte. Eu dou lá um salto. Outras se levantavam a seus olhos e novamente corria para elas o triste. Era manhã e com o livor do céu a neve pela encosta como que chegava às estrelas que ainda pestanejavam na casa do Senhor. mas na terra. não apenas uma poça na neve. melhor. a Cruita não pode estar longe. indo pelo rasto. qualquer coisa que ora parecia. caminhou. Você s não ouvem. é boa! Estás na tua terra. A Cruita deve ser para ali. meteu-se com ele entre os sacos. mas julgam alguns que feita pelo bater dos calcanhares e o rascanhar das unhas. tanto andou.. andei mas acabou-se. a mulher estendida ao comprido e com uma poça aos pés.. o pequeno dobrado.. onde é que eu estou? O fantasma olhava para ele muito fito e acabou por dizer: . deram pela falta da mulher e do menino e largaram à busca deles tendo pensado e muito bem que tivessem tombado na jornada. Aí tinha no que dava o volfro.pronunciou ele.Quando voltares. Mas indo.já te disse que a Cruita não pode estar longe. pondo ponto final às considerações da Ruça. como quem apanha o fio dum novelo. ora não parecia. . julgaram ouvir ao longe. . Mais de seis vezes estivera a entrar na terra e sempre a sua má estrela o tornara a arredar para longe.E afinal que levava o Roupínho nos taleigos? 144 .. de torcer e destorcer caminho. Como havia de dar pão uma coisa que é para matar..Patrãozinho. que tocavam de resto em determinado sector.. do seu foro íntimo.?! . tanto andou. onde ficara a mulher e o menino... Está a gente farta de andar. E torceu caminho.Onde estás.” “Quando tal ouviu caiu ao chão sem sentidos. que disse consigo: -Não vou bem. houve. tornou a botá-los. os dois estavam por baixo. mal ia a agarrálas. a zoeira do vento nos pinhais do povo ou a água a cair dum açude. E a neve caía. olhe. que me perdi outra vez! Botou os seus cálculos.. homem de Deus! . . que o Diabo levasse para bem longe daquelas terrinhas. conta ele.Tu atinas lá com a Cruita.” . sim. Chico Roupinho. de facto. O Roupinho deitou a correr. acudiu o povo todo.Nossa Senhora me valha. Que houve gente que aproveitou. não se compreende bem. puxou o menino para debaixo do braço como fazem as galinhas aos pintainhos. O homem botou alarme. e novamente disse arrepelando os cabelos: . só lhes serviu para ganhar vícios e maus costumes. e lá ficaram a bater o dente e a rezar. Onde é que estaria? Perguntou ao primeiro fantasma que avistou: . rijos que nem carapaus.Vocês fiquem aí que eu chego ao povo buscar uma burra. Foram no rasto do Roupinho e notaram que o desgraçado andara em volta do povo como um cavalo no picadeiro.Está bem . Ora.Não há que duvidar? É a Cruita.Pois se acabou.

caiu um grande codo esta noite.. Era a Rosa Pedralva que pedia para lhe falar. e a darem-se ouvidos às bocas do mundo é a alma penada do José Francisco. Temos encomendas . A mulher. teria dito se a Ruça não fosse a Ruça: Mudemos de conversa..Cuidei que sabia. Deu dois passos de cá para lá.deu conta duma mulher que vinha direita à sua porta. não lhe trago novidade nenhuma.? . O senhor Simão não soube retorquir. . espolinha-se toda e pranta-se a gritar: Estou no Inferno! Estou no Inferno a arder! Quero para cá o ladrão que me matou! Porque não o deitais para cá? Lá sai ele da esquina..? À-d'el-rei! E ora grita. Se calhar. um tanto fremente e de finca-pé. que é a minha... que lhe fala no corpo. prosseguiu: 145 . Corre o ano bom para os pães proferiu: . de sacho feito. desprevenido para aquele ponto da casuística. e apressou-se a mandá-la subir..observou o eclesiástico..Então que há. na capucha. . é por isso que eu aqui venho. Por último. ora se arrepela. A Rosa Pedralva nunca deixava de lhe trazer o folar: um galo paívante. A capucha em que se embiocava. ora chora. está necessitada de medicina. Ela então afoitou-se.pego do Breviário..Se lhe dão acidentes. impediu-lhe de a reconhecer.rosnou com os seus botões. levada em sua freima.Se é a alma penada do José Francisco não é o Demónio. realmente. e ficou à espera que a Ruça chegasse com a parte.Que havia de levar o tolo? Levava calhaus que não prestavam para nada e só podiam enganar. espreitou o céu fosco pela vidraça embaciada e começou a sentir o peso da marrã. Faz então os seus desconchavos.. Para qualquer parte que vá são todos à uma a perguntar: Então a sua rapariga anda endemoninhada? Aqui tem. mas reparou que era despachada e pisava com segurança. Agora mesmo era tarde para tal expediente. . duas vezes para a banda.A minha Florinda que dá que falar.. Mas como têm o desinfeliz do homem como trespassado sem confissão lá julgam que diabo ou alma do diabo são uma e a mesma coisa. que estava à mesa quando lhe levaram a notícia da morte do grão-duque de Weimar. sim. Estava indeciso . Depois dos intróitos da lei . livraria e casa de receber. escondeu a face. com seus amarelos e verdes a luzir. como não havia de estarfrio! Ainda temos mais neve. Agarrem-no! Não o vêem. o seu cento de ovos. o cabrito na devida altura. vou-me até Malhadas desenredar a meada com o José dos Cambais . Rosa? . meu senhor? Vergonhas do mundo? . Que ande ou não ande. Dão-lhe acidentes ruins e deita a dizer asneiras e um palavreado que ninguém entende. e deitando a sua casquinada párvoa de riso.. Se a fortuna andasse assim aos pontapés à superfície da terra quem quer deitava gravata! O senhor Tadeu ficou com o coração apertado depois de ouvir a história macabra do homem da rifa.Que há. . deixando apenas luzir uma réstia do rosto. Tadeu acenou que não sabia de nada.. que purpureara.Também fiz esse reparo. . além de que são precisos três homens para a segurar. E levantou-se para a saleta que lhe servia de cartório. susceptível de peguilhos. que Deus tenha. um lorpa que deu na vida de mendigo e mariola. torcendose uma. Como Goethe.e a criatura.Só queria que visse! Umas vezes atira-se ao chão. mas não da teológica.. desatou: .

Porq. delle fazemos e a infallivel obediencia q. ao diabo não fallem de amores. referentes a exorcismos. R..Mas não é tudo. béu!. me deixes... pareça se lhe pede por fineza aquilo q. parou diante da copeira. D. antes de ir à benta. eu. agarraram-na e levaram-na à força à Maria Choca. pela estante em que se perfilavam em seus pergaminhos amarelentos e carneiras arregoadas os Fernandes de Moure. V.. Larragas. mudo e cismático em operação remissiva.a isto principie sempre usando da palavra: mandote q. O Simão Tadeu não lhe tornou resposta. A bem dizer começaram-lhe a dar na tarde em que o corpo do José Francisco baixou à terra.? lugar advirtam exorcistas e exorcizado q. elle faz porq. em que se repete o João Gomes que morreu a enxotar as pitas da horta. roncada. O demonio he a espada com q.5 e q.? Mas porque são todos à uma: é o Porco-Sujo. para dizer alguma coisa. E uma voz de dentro. lhe mostre o desprezo q. Luís. digno duma folha membranácea e de capitulares a azul e mínio: “Em pr. cachorrinha.a estes medos he meterse de gorra com D. Não descortinou o tratadista especial. dizem que também a alma penada dele se lhe meteu no corpo. inquiriu: ..e por estas vozes.Chamou-se o Gregório dos Santos. tirei-me dos cuidados para vir ter com V. actualmente blasfema e desja vingar em nós o odio q. outras vezes. hade dar.Foram ao doutor? .Estava com a cardina. faças. e do poder do santissimo nome de JESUS falle com elle como com hu cachorro rebelde a D. mestres de cerimônias e rituais.Há já uns dias. porem revestido de hua authoridade s. não podes escapar e desobedecer ao poder da Igreja e do s. demorando os olhos um segundo a compenetrar-se do antídoto receitável em semelhante operação contra a timidez: “0 remedio p. R. O senhor Tadeu ficou suspenso a considerar o caso bicudo e. queira ou não queira. riam use pois de palavras: deixame ou quero q. António de S. mais não pode. montando a luneta na bitácula mole e esponjosa. Umas vezes dá-lhe para aquilo. despede pela estrada a baixo a berrar: Agarra. mergulhou naquele bastardinho do século XVIII. finalmente. o barbeiro de Pedrões. Lentamente passeou um olhar. De mão afoita. O grande machucho viu-a e cuspiu para a banda: É com os padres. béu. em nome do Filho. A Maria Choca pôs-lhe o pé na barriga e conjurou: Em nome do Padre.” O senhor Tadeu desceu de afogadilho pelo texto compacto... desandando. e isto com hu tal modo e metal de voz q. Lá estava. Ao seo e nosso criador tem: p. Eram umas Advertências manuscritas. Por isso mesmo há quem afiance que é o espírito do assassinado que se meteu nela. em que não houve uma só pessoa que não reconhecesse a gosma do tio Gomes. levemente flectido mas distinto. quando ia com este destampatório. em nome do Espírito Santo. que herdara do antecessor na igreja.. Noutro diaço. mo nome úeJESUS. agarra! Agarra! Béu.? .Se ele nunca a largou.. correu o fecho e pôs-se a remexer a papelada. e. .ta. benzedeira. são os espíritos.s.. E. mais mental que perspectivo.. . ditas com hua brandura tibia na fée. isto he com taes palavras e tom de voz q. intimo-te a sair desta irmã. respondeu: Não saio e não saio! Mas o mais frequente é rebolar-se no chão e romper a gritar contra assassino. . vai ouvir.s castiga as 146 .Há que tempos tem os acidentes? .

tanto mais que a carniça começava a pesar no estômago.os. entrou nos domínios da Ruça a avisar dos seus propósitos. Ontem vieram-lhe à roda do meio-dia.. aqui no meio da rua? Homessa. meio nus. que morava no Casal. Estaria previsto na administração de tal sacramento o caso de Florinda Pedralva? O senhor Tadeu tinha as suas dúvidas e.Só vendo. mandou recado ao José dos Cambais. Na esteira da mulherzinha. O assunto é muito melindroso para o pároco se poder paronunciar de outiva quanto à oportunidade da sua intervenção. Para não arrefecer de todo.não se lembrou mais dele. de monco caído e zimbório da barriga ovante.. mas o lavrador nem lhe deu tempo a respirar: . que pesava sobre a natureza. R. “ Por ali fora de página em página.Vistes a minha Florindá? . mas de modo algum a sua pragmática. não há outro remédio senão V. O senhor Tadeu foi à janela considerar o cariz do céu. Mas para ver. minha santa. que tem lá uma boa fogueira para matar o frio. À medida que foram avanç ando pela estrada deserta . À entrada do povo de Malhadas encontrou o Fandinga sapateiro. Continuava escuro para os lados da Serra da Estrela. Foi ao quarto vestir a garnacha e armar-se do guardachuva. He loucura temer a espada e não fazer caso da mão q.. mas pela imobilidade. a move. batendo a bota. embora não quisesse descontentar a boa paroquiana. sem abarcar bem as razões do padre. divisando ali a dois passos a 147 . para que lhe viesse falar. Ele quis resistir. Mas a lengalenga da mulher acabou por tornar-se-lhe insuportável e puxando do ripanço. dir-se-ia pétrea. Mas o Cambais. Aqui é pior que nos altos da Nave. Mas a Florinda não estava em casa e as vizinhas não sabiam dar razão dela.A que horas costumam vir-lhe os acessos? . tanto mais que tinham ido chamá-lo para exercer o seu múrius e para pantominas não estava. A Pedralva. e enterrando o chapéu na cabeça limitou-se a proferir para Rosa com voz bem timbrada de conformação: . V. já lá vai a mãe e a parentela em cata da cabroila.. O senhor Tadeu mostrou-se interessado em apanhar o fio da maranha. e os meninos. leva que leva pelo tacto. R. sempre liberal e mesureiro: . Ali o veio encontrar o José dos Cambais. As manchas arredondadas das reses distraíam os olhos do verde jacente universal e do marasmo que varava a terra.Vamos lá.. ponderou: . Foi-lhe grato desemperrar as pernas. .Também digo: só vendo. farejou relutância e redarguiu: . Venha para minha casa. Viram-na a caminhar para Manfurada. que se espenujavam no ciscalho.Se espera pela Florinda. espavorindo as galinhas. e de porta em porta a indagar: .É variável. a patinhar no charco. não era naquelas duas horas que virava o tempo.Homessa. ia com a mosca.. ensinava-se o modus faciendi psicológico do exorcismo. Era mais de meia manhã e já os gados andavam pelos montes. dar-se ao incómodo de chegar a Malhadas. E logo a mãe ficou sobre brasas. desceu as ruelas mortas da aldeia neolítica. começou a calcorrear a rua para trás e para diante. está bem arranjado.os rafeiros dos rebanhos arremetiam das escarpas.inquietações de seos amados f.faltava a gasolina aos automóveis . estranhados dos rari nanti. E. vencendo a repugnância que sentia pelo assunto. abismou-se na leitura das horas canónicas.

não se falando. se a lavra de Santo Antão fora dada ao manifesto pelo Dr. muitos deles corriam os soalheiros. que uns anos por outros lavrava meia dúzia de alqueires de milho e comia as batatas com azeite. está bem de ver. Então quem? Ora. Irra. restringiu-se a piscar o olho e a sorrir malicioso. com foros já de clássicos. além de lhe apreender o volfrâmio que lá tinha e multá-lo em cinco contos e quatrocentos a pretexto de que executava trabalhos de mineração fora de todo o regulamento. não era mais larápio que os outros. os técnicos não tinham sido ouvidos nem chamados. manda-chuva daquelas parvónias. praticaram. Em compensação rompeu logo a contar pela centésima vez a história da “grande pouca-vergonha” de que era vítima.mulher do Lázaro Fandinga de orelhas fitas para o que se dizia. De sobejo estava ao corrente das manhas e malas-artes usadas por uns e por outros. Em Orcas. Quem havia de pagar as favas? O senhor Tadeu. A guarda de Orcas da Beira.por todos os motivos e mais um.000 escudos e bem sabia ele que o seu nome fora uma espécie de pavilhão para cobrir a mascambilha. não estava. lançados os latrocínios numa balança de ourives. colectiva. Mas haviam de pôr todos o ombro. avisara-o que tinha a satisfazer uma renda vitalícia à gentinha dos desgraçados que haviam pateado no Santo Antão. Torres. Os três sócios requintavam em roubar-se reciprocamente com tão seguro jeito e malignidade que. Mas do seu bolso não recebia ele nem tanto como um feijão-frade. para trabalhos que se seguiram. e também do Antoninho Frâguas. em contra do que dispunha a lei. Estava persuadido que. a responsabilidade era. a exigência dava em águas de bacalhau. se desquitara do negócio. não . Mas assim que ficaram cientes de que o filho do Fráguas estava debaixo da terra a fazer tijolo e o Calhorra. mas ele não podia. Soga fora ela que pesava em mais de trinta e sete contos. Era ele que havia de ustir com a diferença. encerrado na sentença que ouvira a um tolo: dizem e dirão que a pega não é gavião. e nã o ser só ele a mandar para a vila juncos de trutas e cabritos. madeiras. da pretendida indemnidade. irrorio. no fundo. Arrotava quem podia. Mas em muitas outras partes não sucedia a mesma coisa e as autoridades não faziam vista grossa? Quanto ao rescaldo do desastre que atirara para o maneta com os dois homens. o José Francisco 148 . vieralhe fazer um varejo a casa e. casados e pais de filhos. não lhe chegassem ele aos ouvidos mil e um rumores através de condutos especiais e infalíveis! De resto. senhor Ligório. deitava-se-lhe a soga. não havia dúvida que.e ele estava plenissimamente de acordo . a política do olho morto. Tinha muita pena que a soga aperreasse de tal modo o amigo José dos Cambais que. não era bastante quanto amanhava ainda que passasse a comer o caldo sem unto! Pelo que respeita à multa. à ordem do senhor administrador.000 a 7. assim Deus lhe desse a salvação! O senhor Tadeu ouviu a longa deprecada do homem sem proferir palavra. o grande patife. ou fossem vinte e três contos e pico? Não estava certo. em atenção ao Calhorra. Apurados em sua mão havia por junto treze contos e setecentos. como para o mais. ferramentas e agora a multa e papel selado. somadas todas as despesas com jornas. toca a andar com a devassa. chegar-se-la a concluir que cada um deles tinha exactissimamente sacado o seu quinhão. estava ali aquele sendeiro do Zé dos Cambais. o Cambais surriplara ao Calhorra e ao José Francisco. achava muito bem. enquanto lhes pareceu. presidente da junta da Parola e todo deles. dono do terreno e endossante. tapando-se a boca das viúvas com umas centenas de escudos. O Calhorra surripiara ao José Francisco e ao Cambais. Na totalidade embolsara 6.

estava a ganhar a morte no meio da rua. mas não lhe era indiferente que se rissem do seu físico. Ao tempo em que os três sócios se não chamavam ainda gatunos com todas as letras. Segundo os murmurinhos. Sem falar no que estragara e passara às unhas aduncas do paizão e da mãezona. o certo é que o rapaz estreou sapatos amarelos e quem quer podia ver-lhe aos domingos pendurada no bolso da jaqueta uma rica pena de tinta permanente. sabia-a toda. cobriu com ela um escabelo à laia de almofadinha. uns calos olho-de-perdiz. quando cinturado o saco pelo cordel. se bem que de fisionomia enjoada e um recato funérco no vestir. marcados os nagalhos do sinal de cada um. bem sentia que pusera os olhos nele e o espreitava. sucessivamente associavam-se dois para roubar o terceiro. Pouco lhe importava que pelas costas o chamassem fona e dissessem que dinheiro que lhe vinha à unha era alma que caía ao inferno. Tinha passado o equador da vida. ia comprimindo para os lados. por fim. não haja dúvida. Ao bafo caricioso sentiu-se outro homem.surriplara ao Cambais e ao Calhorra. Depois veio o Cambais muito solícito para lhe tirar os butes. O malandrico tinha a mão fina. não valia a pena ficar tempo indefinido à espera dela. Era por estas e outras que o grande caloio para ele vinha de carrinho! Chegado à porta do José dos Cambais. Mas nisso se enganava ele muito enganado. Estava ali a Teodora e. Pois que a presumível possessa abalara para longe. Mas ouvindo aquele José dos Cambais. como Pilatos no credo. Mas o homem soube ser bizarro. o José dos Cambais tinha direito a ser indemnizado pelos dois sócios da vigairada. Uma vez lá dentro. e convidou-o a sentar-se. A somiticaria de notas que recebera ficavam à conta das muitas passadas que dera. o senhor Tadeu mostrou certa relutância em subir. não passava pelo entendimento de ninguém que o volfrâmio pudesse sem escândalo ser maquiado. que era o modo de se aquecer à vontade. o Tonico. estava sabido. como as bulas do Papa. Ao menos o Cambais estava advertido. Bem atados com nó cego. protestou. verdadinha. sem largar o seu ar bom-serás de burro das panelas. associavam-se os três para roubar o quarto. Eram uns gramas de cada vez. Verdade. cascudos e enfisemáticos. vinha bem ao fundamento das palavras que o Calhorra dizia: Hem. Conduziram-no para a lareira onde ardia um lume magnífico de raízes de carvalho. Contas feitas. fina como uma tenta. hediondos como as ventosas dos polvos depois de secos. que era ele. quem levava os sacos para a casamata que haviam arrendado a Pedro Reganha era o catraio do Cambais. e insinuava-a pela sorte de meato que fica na folheatura da serapilheira. à ideia de que tinha uma meia rota e se lhe viam os dedos dos pés cheios de calos. Pois maquiava-o o rapazito. Enchia-a e despejava-a para o chapéu. alargando. da cobertura moral e até crédito bancário que emprestara à empresa na sua qualidade de eclesiástico. A senhora Emília dobrou uma capucha nova muito bem dobrada. nanja pelo filho de seu pai que figurava na empresa. bem embora no âmago da sua cortesia se entremostrasse o empenho que tinha de captá-lo. todo melúrias. furando até poder retirar a concha carregada. Mas grão a grão enche a galinha o sarrão. e podia comparar-se a descoberta ao chupar vinho com uma palha pelo batoque da pipa. ensinado pelo pai. Mas ele. meu compadre Cambai-ç é um inocente!? É tão inocente que vos come o caldo na cabeça e ainda lhe migais a tigela! Sim. a rapariga conservava-se fiel ao compromisso que tomara com o 149 .

Que dizer ali naquele caso anfractuoso? Concordar com o Cambaís era ele próprio oferecer a cerviz ao jugo fiscal. Perdoassem. não lhe parece que os dois sócios devem pagar a parte que lhes venha a competir na contravenção? O senhor Tadeu. O Cambais fez-lhe o prato e pôs-lho nos joelhos. anotando: . entrava na casa deles e. porque era de pobres. abrindo urna cova nas cinzas que beiravam da fogueira.. R. R. Por sua parte não votava nenhuma espécie de azar ao homem. burundanga maior ainda. eu não quero que seja aqui chamado. Tão-pouco o Cambais tocou em semelhante matéria. Se precisasse de testemunhas para ir jurar que os dois eram tão autores como ele na frajoca do Santo Antão. com muito gosto. nem sequer molhava a boca? Não e não. E. mais hora. dentro da casa que à sua maneira se esmerava em obsequiá-lo. atirada para o seu estômago. tinha imolado ao almoço uma rica pratalhada de marrã e estava repleto. Comer ou beber fora de horas era roubar-lhe anos de vida. A senhora Emília encheu o copo de vinho e ofereceu-lho. quem foi? O senhor Tadeu. Bem bastam os incómodos que já tem tido. embora V. mas repetia com o seu amigo Fráguas e ninguém de sã consciência saíra a responder à sentença: Se não foi o Augusto Aires que assassinou.. assombrado perante a manobra do Cambais. Com ar profundamente infeliz. trutas de escabeche. logo mais. Enquanto a mulher improvisava um beberete . dizer que não. ciente por experiência que chouriça nas brasas. negra como um tição. tenha assumido sob palavra a sua quota de responsabilidade no negócio.torresmos. não passava dum frontispício. como se se tratasse de águas passadas. a soprar. menos hora. além de que era faltar à justiça. Mandou à mulher que trouxesse uma chouriça.. dava verdadeiramente a todos os diabos.” Talvez assim viesse a suceder. meteu-a por baixo.. não apenas a um. Pelo menos entendo que não temos que o citar para o ajuste de contas. Pediu que o não obrigassem a comer. e novamente implorou que o deixassem. “Que não e não.Aires e não podia ouvir dizer que fora ele o matador.. quer. fugiu de aludir ao acontecimento que enlutara a freguesia. a quem Deus falasse na alma. perguntou: . e a jarra de vinho espirrador . pousando os olhos nos olhos do padre. pois que não é discreto falar de corda em casa de enforcado e ignorava o pensar de José dos Cambais. negra.Deixe-me dizer-lhe. a inocência do seu namorado. Era uma desfeita que fazia. quando a digestão chegasse ao seu termo. R.A V. O Cambais e a Emília. havia de resplandecer como o sol ao meio-dia. Veio a chouriça que ele embrulhou na Semana Católica. Então S. acesos cada um mais que o outro em bizarria. O Cambais penetrou a sua indecisão porque acudiu prontamente: . o senhor Tadeu olhou para os torresmos que se lhe afiguraram a descair para o ranço e os peixes. Não estava resolvido a deixar-se arruinar pelos bonitos olhos do Calhorra ou do Antoninho. protestaram.? 150 . de reserva na cantareira até que a Teodora com uma tesoura caprichosa a talhasse em bicos e renda para forrar o armário. e rúbido da chama. a Florinda e a hora em que caíra na arara de deitar até Malhadas. de Lamego. chamava-se desprimor. R. Mas o Cambais foi implacável. pois era notório que o filho. No fundo de sua alma. levava a freguesia toda atrás de si.. Que me diz V. aconchegou o borralho. e dizia do Antoninho..Já sei o que V. quase perdera a fala. R.ele voltava à vaca-fria. era melinite.

. quem a urdiu e pôs os primeiros aviamentos. para V. depois a limpá-la do invólucro engordurado e comburente da gazeta. emborcou um segundo copo e afoitou-se a investir pela terceira vez com o especione.Mais uma gotinha. Vá.. Agora não se acabou para V. ali à Emília que forjicou o fumeiro. Pois lá se arranjem. Pegou do chouriço.. atirou-se de cabeça. cobrou-se dos direitos de pé-de-altar e ninguém lhe pode levar a mal. Partiu à unha para um prato: . quem andou com o arame e quem levantou os lucros. para empregar a expressão herética de Jácome. voltou ases moutons.. A tia Emília tinha dedo. no que diz respeito aos mais. mesmo salgado com rosalgar. ganhou ânimo e respondeu com desembaraço: . foram. espargindo à roda um odor voluptuoso. ocupado a extrair a chouricinha do lume. O senhor Tadeu não pôde deixar de sorrir à frase por demais especiosa do homem. R. É uma auguinha rosada consoante saiu das videiras. como é que nasceu esta comandita. como um nadador ainda pouco experiente que perdeu o medo. V. ainda que fosse a tibornada que os judeus deram a Cristo pregado na cruz. E fitando-o bem nas meninas dos olhos. Pois é ou não é verdade que eu só entrei para ela depois de o Calhorra e o Fráguas terem moído e tornado a moer ferro no oiteiro? É ou não é verdade que ao fim de cada semana eu pagava quatro )ornas. nem parece que todas as manhãs bota abaixo! O senhor Tadeu já não resistia. o grande mariola. Acabou-se.Vá? V. onde se lhe requeira. mas o quodore estava divino...Mas onde quer você chegar. O Cambais não respondeu.. que dizia eu? Vá mais.. dum naco da broa centeeira e encomendou a alma a Deus. R. sim senhor. R. Cheirava que era um consolo. R. Vox clamantis in deserto.Eu pus-lhe a bênção.. Ah. R... Numa última e desesperada tentativa invocou os arrotos chocos a que era atreito e a sua pobre máquina combalida. a mim que comprei o leitãozinho de mamoto. Este pode beber-se que não trepa. .. o farmacêutico. Absorveu a talhada toda e liturgicamente lançou-lhe em cima o digno aspersório dum copázio. Se não gostar.Olhe.. que e um supor. O senhor Tadeu. será o primeiro a declarar. O Cambais que tal viu rejubilava: . . disse-lhe: .A chouriça chiava no brasido.Não é tanto assim! . prova. meu senhor. Foram os emolumentos de péde-altar. no que diz respeito a V. Por esse lado acabou-se.Hem. tinha dedo. aos três sócios. Engoliu em duas bocadas o segundo naco. Porventura porque as pepsinas se estimulassem no seu aparelho gastrintestinal. enquanto Calhorra e 151 . pagaram-me.. Eu lhe digo.Mas está bem. Bebia tudo. sim senhor. Meteu-lhe na mão tassalho ainda maior. Foi então que o Cambais.Sabe onde eu quero chegar. depois de virar o canecão. Contra a prepotência amável daqueles anfitriões não havia escudo possível.. está bem de ver. Quero chegar a que V. fale claro. Zé dos Cambais? Homem. comia igualmente aquilo que lhe viesse ao prato. quem foram os pais da cria? Não foram vocês três? Foram. R. pronunciou como se não houvesse mediado na conferência pausa tão considerável: . José dos Cambais. Despejou a sua taça e só depois disso é que o Cambais. pode atirá-la fora que não levamos a mal e mandar-nos prender.

Fráguas. certo de que as suas palavras operariam como um bálsamo naquela alma ulcerada de proPrietário: . quem se queima alhos come. concordo.Não fica. Como renhir contra o Fráguas. mas bebericar de piteireiros. levo o Antoninho e arrumamos tudo.casa. muito colaços e roçando-se um pelo outro. corno homem que salta de pára-quedas da estratosfera. toque? O Cambais ao tempo que encalhava a manápula calosa e grossa na sua mão papuda deixava verter uma lágrima. atravessara já as várias fases da beberronia e estava na saturação. levo o Calhorra.Esse dinheiro que me levaram é para salvar o desinfeliz. O sentimento de que. o segundo. Mas ele não podia prometer-lhe semelhante testemunho que brigava com a mais rudimentar prudência e o compadrio solidário que nutria com os parceiros. Reflexamente ergueu os olhos para Teodora e viu-lhe nos lábios um esgar de desafio.. que eram a pacatez e o siso comum. raposão de rabo pelado que não adiantava passo sem averiguar que era para ali? E o Tadeu antegostou a resposta cordata que em consciência devia ao Cambais. pouco mais adiantado está que seja assim ou assado. e na partilha dos dinheiros não recebi um real a mais que os meus dois sócios? Aqui está. Não é também verdade que a madeira gasta nos escoramentos do bolso me saiu. se é verdade. que o mete a você sozinho.. homem estreado em toda a sorte de cambalachos e omnipotente tanto quanto se é numa terra venal. Mas era 152 . O senhor Tadeu sentiu que o Cambais mentia pelos cotovelos quanto à colocação do seu capital. ou desminta a pés juntos. . uma lágrima marota de crocodilo: . E acabou-se. Abafa-se o processo da indemnização. que era ao mesmo tempo como o selo da sua vontade assente e contrária ao que o pai dizia. que metia os sócios tal tal e tal. O Tadeu olhou para o Cambais e viu-o transfigurado. Faz-me dó.. gesto que só uma vez tivera para um colega. se ficavam nas duas? E diga-me ainda V. Quer um conselho. meu senhor.! . Eu comprometo-me ir a Orcas. Embora cá na rapariguinha escuse mais de botar o sentido.Toque. ouça. e contra o Calhorra. dava-lhe um lume mental que lhe desconhecia. além de atirá-lo para fora dos alicerces naturais. o aguço dos picos está ainda por pagar. vai ver. se é mentira. Devolvem-lhe o dinheiro da multa e o volfrâmio que lhe apreenderam. mas o que se chama o conselho desinteressado dum amigo: faça de contas que há dois casos. metendo ainda em conta o trabalho dos filhos que têm rabo e mais nada. consumar-se-ía a ruína da. o primeiro. Se bem penetrava no íntimo do Cambais ele caçava por longe para alguma coisa alcançar ao perto. não há que fugir. Agora já não era beber.. Ele estendeu-lhe a mão.O Cambais pôs a questão no seu lugar. Quase fora eloquente.. está para liquidar. R. Tornaram a encher os copos.. o que eu desejo que confirme com o peso da sua palavra acreditada. Não é só até o momento em que a sociedade se dissolve que o caso é uni: daí em diante o caso continua a ser o mesmo. homem.. Mas. na presença do antístite: .Mas fico de pernas ao ar. Está pelos ajustes? O Cambais parecia hesitante. Depois de se ter atirado contra todas as leis divinas e humanas da conservação a comer e a beber à tripa forra. está liquidado. se não atalhava com mão de ferro.

no verdasco. na chouriça.. mas ao calor que recolhera à fogueira e à chama do briol que lhe alambrava nas entranhas. .aduziu o Cambais.. cada um a ruminar pensamentos de abnegação e grandiosos no tocante a suas pessoas.A esta hora. meu senhor.Está mal. O José dos Cambais porfiou em acompanhá-lo até Mouramorta. está zorata como a tia . 153 .A Bárbara queria confessar-se.? Não pode ser. Levantou-se e com dois cumprimentos à boa dona e à sua menina despediu. àquela hora sem coleira de vaca a casquinar os tintinábulos.. Fazia frio. não o sentia. Tinha pressa de ver-se sozinho pela estrada silenciosa a lutar contra os mil diabinhos da gula. que haviam tomado de assalto a pobre ruína do seu estômago.Ora. nem um cocoricó de galo pelas quintãs... O senhor Tadeu seguiu adiante estugando o passo.. Fora persistia o silêncio hibernal. na bóla centecira. Ao atravessarem diante da casa da Bárbara Ladeira. Então até a saída do povo. tomou-lhes o passo a Polónia Fandinga. Foram palmilhando as ruas tristonhas e desertas. Proibiu-lho.tempo de regressar a penares. um frio seco de aço em barra.. . encarnados na marrã.. . com a pressa que vinham as bandas da capucha em asas de aeroplano: . piores que diabos do inferno.

sobretudo andrajos de homem. O belfurinheiro anuiu e. admira como a segurava no corpo? Era o seu homem? . voltou atrás.Então. mais ou menos pouco conta. era este: quando compres.. o Duarte.Não senhor. Trazia um saco às costas. Supunham que. Bárbara. mas tenho andado ao negócio para as bandas de Vale de Ia Mula. tire-me daqui esta trouxa. e soerguia a tampa duma arca.. que agora para ela só causava estorvo. ih. . Bárbara tinha já o trapo apartado para uma manta velha. passando em frente da casa. quanto quer por isto. mas já ouvi dizer que são boas terras.. já com alguma joça. atada em cruz pelas quatro pontas e chamou-o: ... marralharam.confortou o bufarinheiro. Logo que o irmão foi dado à terra. da sua pele aciganada. à força de servir da cor suja.. mãos sobre o dintel. perfilava-se no vão da porta. combinado em sua toadilha quente ao sol claro de Abril e ao cantar dos galos. desatou o fardel. para um lado o que era burel. . . E. inclassificável. . O senhor donde é? . alguns mondongos de mulher. olhe. vazio. quase tacteante. O seu preceito. tão usada e delida. Dentro havia de tudo. ambos de serapilheira. O homem. era meu irmão! E tanto bastou para romper num choro alto e convulso.. que podia entrar para o cabedal da sabedoria das nações. Tivera bom mestre. e fez dois montes. para outro o que o não era.Irmãozinho da minha alma.Todos havemos de passar por essa portela. um diabalma que se não prendia com as louçainhas do mundo. e sobraçava outro. que eu não posso. sem se fazer rogado. que ainda era mais seguro no vender do que no comprar. limpou a lágrima e ergueu-se. Sabe onde fica? Nunca para aí gastei a amieira dos socos. ou pouco menos. . quem se cobiçou do que era dela pagou-o com língua de palmo. ihf . lã. venha cá.Pst..Tenho para ali uma trapada que não me importa de lhe vender se ma pagar em conta. têm muito gravanço. Está aqui a roupa dum trabalhador danado. caminhou para a porta. santinha . percebeu logo o farrapeiro que o convidavam a entrar e foi avançando. estopa. quando vendas.e ao passo que isto dizia entrava em casa. 154 . toma tento que o mais é sempre menos.Faça favor. que era baixo.Não se consuma. entretanto. para ver à sua vontade. a embarrilavam! Quê. Quando pôde estancar o pranto. levea para a quintã. chapéu para a nuca. que se acocorara na quintã a chorar.Compfrrapos! desfraldava de novo a voz. . O homem. Compôs a sala e a passo vagaroso. Como ela se postasse da parte de dentro da porta. pst.. por ser mulher. Nesse mesmo momento desandou ela o cravelho da porteira: . tratou de desfazer-se da Cereja. como lhe costumava dar multas vezes ao dia: . ó patrãozinho. tão rápido quanto as forças lho permitiam..Vamos lá a ver. dois pêlos no queixo e andava de blusa espanhola e chapéu desabado. Numa volta de mão virou a trapagem toda. então. e com a vaquinha tudo o que respeitava a apeiros e achamboaria. que tinha cara de rato. Bárbara era uma bemvende.Sou da Cruita do Alto. ih.XI Compro farrapos! Ao ouvir o pregão que alagava a rua. Caramba.

A tiazinha torna-me o dinheiro que eu torno-lhe os farrapos. mais sotranqueira ainda que a própria inveja. se é certo o que diz o tio Gregório dos Santos.Não vale a pena arrufarem-se.Derreter derrete-se o volfro. o que era caso raro. puxou-lhe aquele pigarro seco e teimoso que a deixava ofegante e vermelha como uma papoila..Que leva aí? . .Culdais que é só fazer filhos a rabo destapado? Agora aguentai! . Não que lhe fizesse mossa anunciarem-lhe o fim para breve. . perguntou-lhe: . quita de andar com panos quentes. e outras tantas se desfeitearam de palavras. 155 .lançou-lhe Bárbara em voz sacudida. por três vezes o homem despediu. nem uma voz.Para que é o trapo? . Valha-a uma figa torta.. valesse dez réis de mel coado. Não tenha dó. acudiu chofrada: . apossando-se dela. E necessitados não lhe faltam na família. aos poucos dias que tem de vida? Ela ainda descerrou os lábios. O farrapeiro que se detivera à porta a ouvir o despique exclamou: . Hei-de gastá-lo em missas e responsos. uns frangalhos coçados e meio podres.respondeu Bárbara em tom áspero e de olhos duros. Mas ele não despegava. não se conteve que não bramasse: Vornecê.e voltava à sua fisionomia de carta que se deita à caixa. mas não vás ter-me por beata fingida. saía com o fardo às costas. apareceu a Polónia Fandinga que.Sempre te digo. E ainda que a roupa dele não. e Polónia. aninhada no palhuço da quintã. . Para que quer o dinheiro.perguntou alçando a mão para o saco.Para derreter. Em face das arcas abertas. . O que a aborrecia era aquele zumbido de vareja ao cheiro de carne morta.? Queres? acabou por responder. Não era isso. Polónia percebeu que a prima se desfizera do bragal do Duarte. .Vá com Nossa Senhora? . ao que andava nas últimas e ter mais côdeas do que fios. minha santa.? A outra que era uma pobre de Cristo. Quando já haviam fechado o negócio e o farrapeiro. . a quem Deus perdoasse o desvairo.Queres saber para que quero o dinheiro.. para logo recair naquela caradura que lhe era comum.. quero-o para o meu bem-de-alma. O meu Lázaro não tem um jaqueta com que se possa apresentar na feira a comprar a sola. para responder... que a andaina melhor levou-a para a cova. nem um aceno. que era curiosa. .. às duas por três estava ali deitada. Pois então. por três vezes volveu atrás à voz dela. entretido com o brequefesta.E que tens tu com isso? .Pois a vender o espólio do enforcado. Os meninos andam tão rotinhos que se olha para eles e vê-se mais coiro que pano. Tomara ela que viesse já. traindo a desarrumação dos manaxos. lábios cerrados como o sobrescrito duma carta que se deita ao correio e não deixa ver o que diz por dentro.O bem-de-alma faz-se em vida socorrendo os necessitados. Mas a cólera. Pois para que queria vossemecê que fosse? Isto assim já não dá vestir.. sendo prima pela banda da mãe e sentindo-a no fim dos dias.

já lho viram.? E que lhe fez à capucha? Bárbara esteve um momento a olhar em alvo. Abandonara-se ao comer. Houve tempos que precisava do próximo. agora quase não mexia palha. a baratinha. Está aqui está na Alemanha.exclamou a sapateira. tirante as que tinham renovos. Andava um estrume. vai amanhã.dizia-se. que fora uma abelha a moirejar. não deita o Outono fora. O Gregório barbeiro dava-a como héctica no último grau. destas pedras enterradas nas leiras até mais de meio. . e fazem cordas para prender os prisioneiros e roupa para os soldados. Ela. chisca. Bárbara. mas já lhe não pesava que andassem comidas com grama. . depois que faltara o irmão.contramarcava a Joana da Urra. se estivesse na mão de Cicrano ou Beitrano coisa que lhe fosse indispensável ou preciosa. Pouco lhe há-de durar? Não a vêem a secar dia a dia? Aquilo há-de ser como a caruma que está mirrada quando chega a adubar a terra. Ela dava bem conta de tais etiquetas. Ainda cá chegam. Chegado o S.compro farrapos! . contanto que não se pusessem com lamentações..Traz o dinheiro com ela na patrona. Pela vida fora. Escarolada para quem? Trazia há quatro meses a mesma roupa. .Credo. a fugir ao agouro. As terras por fora tratou de arrendá-las e dá-Ias de meias. assim imprevisto e intermitente como as sezões: . se fosse viva. Também nã o devia um alho a ninguém. .. se não longe. Dormia com ela vestida. e quando se sentavam à sua volta tinham mesmo cara de velar um cadáver. esse que estava longe dela. Um cartaxo poisa em cima delas. aprendera a ser indiferente ao que diziam e pensavam dela. vozeirando: . muda.E isto volfro é. Os Alemães pegam nisto. credo.É com medo que a roubem como da outra vez . Foi para vomecê lhe deitar as roupinhas pela água abaixo que o primo se enforcou. e. Isto de lãs por modos anda caro como a morte. .Quem sabe lá? . O mundo. de verdade. Não era ponto de fé que. quedara desconcertada de todo. a folha da couve galega. atiram-no às caldeiras. Guardava essas até à colheita. mas não era só por isso.Mas não lhe fazia mal nenhum que fosse mais amorável com quem é do seu sangue. vão vender por cem. Deu-lhe uma risada e desandou pela rua acima. Lá vai para a guerra.. O seu regalo era mudar-se em pedra. .já se tem visto muitas pessoas. Miguel. e outros cartaxos podem vir se quiserem. Agora desprezava este mundo e o outro. como nunca mais pegara do pente para se pentear ou de sabão para lavar uma fralda. não se ralava nada de nada.A vida está para estes pendentes . Trazia sem dúvida o dinheiro com ela.Irmãozinho da minha alma. não tão curta que não visse três padres colarem-se na freguesia.. . que vêem passar o dia e a noite pelos séculos dos séculos e não se ralam com coisa nenhuma. lhi Durava-lhe dois minutos e regressava à imobilidade e mutismo. e recaiu no acesso. que viva cem anos que eu não desejo a morte a ninguém . Ainda ia às hortas ripar dois espigos para o caldo.remordia Polónia. que também era prima direita.Compram por dez. dar-lhes-ia igual arrumação. Tinha o essencial para o resto dos dias. e quem precisa humilha-se. como por exemplo a saúde ou a salvação. vai hoje. Trocava o pão na padeira. lh. a talhada do unto.murmurou Polónia. Não se despia porque tudo lhe fazia febre. lhes tocasse à aldraba. ih.Fica que nem uma baronesa . a distância 156 .. fazerem conchavo com a morte e enterrar a geração toda que estava de gargalo no ar à espera de lhe cantar o miseré. .

E não admira.Irmãozinho da minha alma. roer cá por dentro. ainda a distraía.. que também costuma dar de comer aos feirantes. rompia na zangurriana: . .. Aquilo descobriram por lá algum explosivo com gema de ovo. não digo que não. Voltaram a tocar berimbau. que lhe conhecia os gostos e procurava fazer-lhe a boca doce com vista em caçar alguma leira. “O estalajadeiro riuse: “Bacalhau. nem saí daqui. Acabou-se o azeite. quanto mais botar a estas falperras!” “Uma sertãzada de ovos?” “Ovos? Andam a arrebanhá-los por todo o preço para os mandarem para Espanha.Então já sabe o que se passou em Orcas da Beira com o tio Calhorra e a gente da vila? Bárbara dardejou-lhe como única resposta um olhar breve e iracundo. Outras vezes não era certo que ouvisse o seu correio de notícias. esteve para se deitar ao gasnete do homem. “ “ Meus santos. Para Espanha ou para a Alemanha. “ O Antoninho. julguei que tivesse ouvido. A Polónia.Se mo chegarem ao bico. Agora que via ir os mondongos . Foram ao Requeijo.. vinha com os mexericos mais salgados. sabe Deus. arranj e-nos uma bacalhoada com batatas.” Polónia devia sentir esta resposta porque acudiu de pronto: . Nesse olhar significava: “ Bem te entendo. mas resolver o negócio. o hotel estava debulhado.quanto mais não fosse serviam para remendar a sua cáfila .” “Homem. como todos sabem: . O tio Calhorra e o senhor Antoninho tinham na antevéspera ido a Orcas levados pelo senhor Tadeu a ver se de algum modo acudiam à multa e não sei que alcavalas que haviam deitado ao tio Zé dos Cambais. e onde não há el-rei o perde. que é assomadiço. um deles é o senhor doutor delegado. Calhorra? . Ela não saía da sua hirteza para botar dito ou risada desdenhosa. deixem passar o Verão.. considerando que de pouco préstimo podiam ser.. Mas parece que.Vamos almoçar. entretida com a feira interior. Não havia para que erguer 157 .que podia observar sem gastar o coração. amigos e senhores.. Sabes de certa certeza que não falei com ninguém. Estavam até os rapazes a dizê-lo numa roda atrás da casa. como as sardinheiras com a sardinha. a Polónia limitou-se a chorar.. mas já não aceitamos comensais avulso. e Polónia contou. na qual o irmão tinha papel mais importante que a tenda das colheres e canivetes. lá mexem. não fazias tais perguntas.indignou-se. ih? Quando vendera a vaca. dera-o Deus. ao menos? As hortas agora estão espigadas.. O tio Zé dos Cambais também fora. já que o Duarte tinha o vezo de tirá-los do corpo para vestir os espantalhos dos milharais. Se não fosses mais tola do que te julgas.Anda para aí tudo cheio. Aqui o Tadeu deve estar com a sua larota.. ih. e fica areia e água choca. Sou aqui como o Cambais que tem a mó sempre pronta para a moenda. encarregos de tal ordem que se fossem por diante ficava o homem aleijado para toda a vida. Depois. pudera. sim. se tivéssemos tempero. que é homem insofrido. nem para os alfacinhas chega. pois quando menos se esperava. Ela não se deu ao trabalho de a desmentir.. em que ânsias. lá apertam com uns. Temos três hóspedes. Ali vão os quatro e chegam ao Barradas: almoço? “Almoço.. arrependeu-se de ter ido tã o longe e torceu por outra vereda: . Muita água leva o Mondego. ih. Falta tudo. nicles1 Era dia de feira e estava muita gente na vila. lá se agarram a outros.E você. A certa altura diz o Fráguas. . Chegam à vila.Sinto um morganho a. “ “Um caldo.. com muito gosto.

era à mesa entre duas boas garfadas e dois goles dum vinho velho . . Queria por ela quatro notas. Esperem um pouco.O mais. pois mal começavam a apontar-lhe os cornichos por debaixo da pele. chegou o senhor administrador. que lá é que se forjica. e toca com ela para o galho duma árvore a esfolar.Eu vou arranjar papança. razão.Vai lá ser careiro para a Terra Querite! -Nem que me virassem do avesso.” O senhor Tadeu. você e o cabo estão convidados a vir tasquinhar uma lasca em casa do Rufino. Um deles soltou um berro: comem todos ou rebenta aqui uma revolução? O Calhorra mandara assar uma perna no forno. palavra de rei. a menos que fossem do bispo. o senhor Tadeu. de Pedrões.O que eu queria era mandar na Casa da Moeda.dizia o seu Lázaro. mais católicas que as estações da Via-Sacra. coitado. era capaz de chegar a ministro! . Havia de fazer notas e distribuí-Ias de avião cá pelas falperras para toda a gente comer vitela e migar trigo no caldo. .Pois já que está bem.Ministro não queria ser . . direito ao Antunes.olhos. os fiscais e senhores da justiça e das Finanças.A licença? . por fantasia. Trombavam bem e bebiam melhor. o caso é que ali se combinou riscar as penalidades ao tio Cambais. já desesperava. Atrás dos guardas. Estavam ali deitados os guardas assim que se puderam pisgar. . “Diferenças hoje em dia. uma vitela que se derretia em gordura e novinha. . se fosse homem instruído. não pegavam. Estavam na santa trincadeira. já a bezerra estava esfolada e esquartejada. são três e meia. Mas vá de saúde. cheirava que era um regalo. Chamam o veterinário. povo noutra. Caiu bem no paladar o regabofe de vitela que deram os volframistas de Mouramorta. Apareceu um outro doutor mais descarado. empenhos. Figuros e volframistas numa sala.Por ser para você. forrou uma vacada. Dali a pouco o que havia de melhor em Orcas trombava. . Pois então?? Veio este e viria o Governador Civil se ali houvesse tal bicho. não vale a pena afligir nem apertar muito com o pagante. Ao cheiro foi vindo povo.Ah! ah! Está bem. fazer uma segunda em bifes. para se resolverem com honra. anda tudo ao mesmo: comer. Ao que era de rosada e bonita crescia a água na boca à gente que a via.Você. Foi-se à feira. que ia vender uma vitela. Lá o volfro não lho restituíram que já não haveria meio de se lhe descobrir o rasto. Em menos de uma hora à porta do Rufino. já que hotéis e estalagens não davam de comer. mal se tinha nas pernas. à volta. vem o cortador. tinham abatido uma vitela e o mesmo foi começar-se a juntar o pagode da vila. que o tio Calhorra não é trouxa. homem bem comido e bebido. O Antoninho Fráguas. veio a guarda: . mas quanto lhe não valeu? Gastou uma novilha. Sim senhora. vá de amizades. seu Calhorra. ao menos uma vez na vida. o tio Cambais pagou a vitela. Lá lhe compraram a vitela. pela rua e quelhas confinantes. Dali a pouco voava pela feira que os de Mouramorta. justiça. 158 . por modos que dissera para o Calhorra: . . São três e meia.Hás-de deixá-la por três e ainda lhe comes um bife.Pronto? Isto é para consumo particular.tornou-lhe o Calhorra. as outras e os lombos fora dependurá-Ias a tais e tais portas. esta vida são dois dias. Com a fraqueza. A certa altura o Calhorra esteve a cochichar com o Cambais e disse: . Pudera. E assim foi. metem-lhe a faca.

o volfro. ou de que cuida antes de morrer. Matava. Rai's partissem. e era como se o visse em sua faina secreta de destruidor. ter revólver. Não viu o frango que viera substituir o lascarinho que levara de peita ao senhor Fráguas e ficou muito aflita. que de sénica lhe sirva! Continuou a pôr tanganhos no lume. que vale mais . por muito que Polónia a puxasse a terreiro. um galinho tão bonito. ih! _ Deixe lá quem morreu e reze. tão pimpão. ele é que botara à trave a corda com que o seu Duarte se havia enforcado. Ainda naquela roubalheira quem andava era o volfro. uns já em brasa. botar relógio. armado dum martelão. Em S. tiveram de desarvorar para os lajeais da serra.E todo este cagaçal é obra do volfro? Terçã coma tais pedras mailo primeiro ladrão que deu conta que andavam a atirá-las às cabras? arrenegou Bárbara. têm dado muito dinheirinho aos pobres! Depois daquele dito foi como se lhe partissem a corda. pôr gravata. Deixa. os rapazes entravam pela vida de tunos. roubava. e aborreciam uns o trabalho. As raparigas. espetavam por devota garridice um raminho com a sua pena de canário ou de marantéu. Ele é que era o pai de todas as pachouchadas e poucas-vergonhas de que há tempo se falava pela serra. Era ele o autor de todo o esparrame que ia pelas parvalheiras. Ali tinham! O volfro. as desgraças eram à rasa por essas terras fora. e traziam veneras de latão na lapela onde antigamente. outro com a mão lesa ao brincar com a pistola que se disparou. deixava de ser um mineral para se tornar o substituto do tranglomango ou do Pedro de Malas-Artes. prima. ser gente.aquilo tinham-lho por lá abafado . sem o galaripo . vestir à fidalga. Polónia. Não deu mais palavra. Todos queriam ser homens. quando vinham das romarias. que dantes eram felizes com a flanela e o riscadinho. no dia seguinte. de lágrima no olho. Todos queriam comer do bom.dizia-lhe Polónia. A Polónia ofereceu-se para ir procurá-lo pelas casas das vizinhas e pela primeira vez lhe acudiu aos lábios exangues um arzinho de agrado. muito grande e forçudo.. A “sepultura da vida” ficaria também sepultura da morte se a lei cristã não mandasse retirar o cadáver do ambicioso e dá-lo à terra santa.Deixe lá.Vê lá tu. e vivia-se. Na vila de Orcas comera uma vitela inteira para saciar a fome. rebentavam outros com os excessos que faziam. porque galinhas são a última coisa de que se desfaz uma dona de casa. que já galava! Quem mo comeu. e introduzia a mão espatulada onde houvesse que subtrair.já ela se encontrava ajoelhada à lareira a acender dois chamiços. Pôs-se a chorar: . com a perna direita esmagada debaixo duma pedra em Muradais. 159 . seduzia as donzelas. ih. os asnos. Brás da Nave certa noite desmontara a eira que era de brita. que ficou soterrado debaixo dos escombros. cachenés. que dantes não sucediam estas abusões. Quando voltou. que tanto pulverizava o casario das cidades como a cabeça da gente. quando iam para malhar o milho dos canastros. À tardinha levantou-se a deitar dois rabos de centeio às galinhas. não deitavam agora seda e zefir? E os rapazes só compravam sapatos de calfe e bonés de pala. à força de virar o mundo de pernas para o ar. um. Bárbara julgava vê-lo sob a fGrma dum homem negro. fazia as pessoas ruins. Umas raparigas davam em droga. reze-lhe por alma. É o que lhe digo. imberbe. Punha-se a olhar para o lume a devorar tangos e cavacos. No Ramalhal minara a casinha dum pobre homem. Irmãozinho da sua alma. outros lambidos pela chama. ih. Só dali da terra tinham ficado aleijados dois. . Sim.

ao canto roufenho do reverendíssimo Tadeu com o nariz como uma batata quando lhe grelam os olhos: à porta infra! E ela e o Duarte ficavam sozinhos. Eram todos eles dotados de carne e osso e vinham tal qual: sua tia Soledade a pedir um padre.dizia ela com um sorriso. que perde a alminha! seu irmão. com a diferença de que esta tinha de passá-la de espertina. e no seu entendimento perverso o mesmo era que mandá-los para a torre da Madorna onde havia um gigante que comia meninos.Manda-os ao volfro . Mas o tanganhão cedo voltava. Involuntariamente se punha a dizer isso mesmo entre si. para os borrachos e as crianças. aos gritos: façam-lhe a vontade e ainda esta noite vão dormir ao estarim! Eu não as vou soltar! Depois lá iam as duas velhas. que vinham do inferno. o resto do corpanzil.Chorava e deixava de ver por instantes.Que é o que a prima procura? Veja lá se cai para o lume? Voltava a si. Procurassem bem e não culpassem outro. quando a felicidade do morto é dormir. não sabia dizer já que malandros de pensamentos lhe tinham vindo à cabeça. que fazia estas avarias pelos povos. não sabia se das suas pupilas. noite sempre enorme. e até para os viandantes descuidados. para o cemitério. Oh. se dentre os carvões. A Polónia via-lhe aquele movimento absurdo e interrogava: . encher-lhe a cântara de água. ininterruptos e nojentos 160 . o negro da família. trocando o saibro. e a prima via-a mexer com os lábios e cuidava que estava a rezar. quase tão grande como a outra de que nunca mais se acorda. se dos buracos negros da casa. e negra. a gemer: deixai-a confessar.. pior do que bexigas na gente. tanto na terra como no mar. O homenzarrão que era o volfro sumia-se para dar lugar a outros macavencos. tinha a impressão nítida que o volfro estava ali: a pilheira era cabeça. Mal fitava os olhos nas brasas. e a escuridão. embora arrenegasse de beatices. atrás dela pela casa.. sua mãe. que temos fome. deixando a terra com uma espécie de furúnculos e de impigens. tornando-as deste modo improdutivas para sempre. que lorgava as encostas e chapadas dos montes. o pretalhaz desalmado. Fora o volfro. lhe marinhavam para o selo. os bofes. maldito ele fosse? Matara-lhe o Duarte e não havia dúvida que fora ele quem assassinara o José Francisco à traição. Não raro lhe sucedia estender o pescoço como se se dispusesse a ouvi-lo falar. ela se fartava de repelir. que acalcava as sementeiras como mil cavalões arreitados. o lume. senão o volfro?? Às vezes. daí a pouco rompia. sepultado nas entranhas da terra.Já lá está o pai. e ficavam para ali de fojo para os bichos do monte. iroso. . fazendo finca-pé na certeza que tudo aquilo era desvairo do seu entendimento. baixava a noite para Bárbara. sozinhos. por outro lado. Ainda se lhe ouvia a chanca. pôr-lhe um panelo com batatas a cozer e dobrar-lhe a capucha atrás das costas para se encostar. estirado desde o claro-escuro até à fogueira. as duas tarascas. que por onde passasse fazia aqueles poços tão fundos que já se lhes não via pé. Era aquele mesmo que revolvia as chás em que se cria o. Pensamentos que vinham do negrume. o barzabu negro e malvado? E por esse mundo além. como tantas vezes acontece a quem vai seu destino. o arraial dos fantasmas. A Polónia só abalava depois de lhe ajeitar o lume. Acontecia os pequenos da Polónia virem lamuriar para a porta: . Essa primeira noite. senhora mãe? Venha. eles se fartavam de voltar. como a gadanha do ceifeiro ceifa feno. mais medonho do que nunca. de olhos nas nuvens. quem ceifava gente por filas.pãozinho de Nosso Senhor. pela leiva da superflcie adubada com rios de suor.

gordíssimas como fidalgas. E tudo ia em acréscimo. espantava. E. conforme o lume devorava os tanganhos. sem pinga de sangue. O Duarte dava voltas sobre voltas com o sono muito agitado. Iam aos mercados. cacarejava uma voz escarninha: Irmãozinho da minha alma. E. É que não gostaria dela. a chegar-se a ela e a querer rendê-la. mais uma para o rol. ih. na dor que o acometera ao entrar em casa e dar com as arcas abertas e a caçoila sem o precioso recheio. A primeira noite que uma vaca tilintou à sua nianjedoira dormiram na corte com ela. O seu Duarte era um ganhão de mão cheia. Também botavam renovos que encandeavam a vista. Fartaram-se de cavar a vida. Rompia a soluçar. não era nada. os olhos a olharem para esta vida. Lá fora. Atrá s da lida veio a poupança. associados com os do Urra. Estava a vê-lo muito negro. ao fim. que mal a tiravam da sua cisma. As suas terras atolavam em estrume. Era um cassamente. como a comédia em Orcas a que a tia uma vez a levara. mas desconfiava que deviam de ser os filhos mais velhos do Fandinga. Disfarçavam a voz para que os não conhecesse. Via-se mesquinha de todo e perguntava-se se o senhor Antônio Fráguas não andara a vida inteira a mangar com ela. ih. fora ao desfatio. como meninas por detrás das grades dum recolhimento. muito recatadas ao abrigo das três voltas. ele adormecera como um canzarrão que andou a lutar com os lobos. Estavam lavradores. e justaram uma parçaria com o Sancho. sem embargo dos olhos ruins que tanto gostariam de lhe deitar empeço. Mas pronto. até ao enforcamento do Duarte quando. todos os anos pelo Santo André matavam porco. O volfro era o pai de suas turpitudes e desgraças. e as lojas. E entrava de 161 . e o Duarte. rápido como abrir e fechar a mão. e toda ela ficou hirta. Soluçava.1 Era a garotada a arremedá-la. Semelhante acesso era uma rabanada de vento que lufava sobre o seu arraial de fantasmas. Ajuntaram pecúlio. que a torcida da candeia já nem sequer cheirava a petróleo. não afrouxaram.como as lagartas dos pinheiros. ia-se-lhe representando de espingarda a tiracolo. com negror espessíssimo à volta. Às vezes a cabeça caía-lhe para o ombro. ou de botas amarelas e chapéu faia. O mesmo pauzinho a arder lhe dizia que fora um sopro de tempo esse durante o qual se lhe haviam fechado os olhos. anos e anos a fio. que eram fracos trastes. gordas. mormente as cardenhas da eira. Estava a sonhar. acabou mesmo por deixar de ouvi-Ias. a tentá-la e a meter-lhe o veneno que nunca mais perdoa. Poupavam-no ao corpo. língua de fora. Compraram vaca e carro. Agora. Um alma do diabo que tinha filhos por toda a parte e assim lhe catara respeito. se calhava ter de puxar pela carteira. Ele é que fornecera a matéria-prima do mal. e dali em diante os derrancados dos pensamentos não tornaram. caminho da romagem fora. só aquele palco em foco. A casa estava sepultada em silêncio e trevas. Não descansava enquanto não via a quintã e o combarro a abarrotar de mato. Desenvergonhados? Aquelas vozes. mostrava o seu pacote de notas. já da margem de lá. por uma noite de geada. zás. atestadas até cima de lenha para o Inverno. nas traseiras da casa. Mas. e um momento a mão dele veio agarrar-se-lhe ao corpo. Não queriam crer. desde a maquia extorquida ao Luís Ougado. passara um nó da corda de encarrar ao pescoço. louvado seja Nosso Senhor. esvaíam-se todos. e andavam reflectindo os pais na exaustinação de ver quando é que ela esticava o pernil. Tudo isso entrecorria na lareira à resplandecência do crisol. aparece o volfro. ih. Como luzes que se apagam a um tempo se lhes sopra a nortada. só porque erguera mais a voz. soluçava até se encher.

pouco a pouco. mesmo de pés atados. Depois. tão juntinho que bastava os defuntos darem uma cambalhota. a vogar à tona do mar tenebroso como uma cortiça. mas pela telha de vidro a luz banhava-a como se caísse em cima dela um vestido branco de noivado. e estavam logo lá. Esse vestido. E era o mesmo que estar com os olhos abertos. Deitava-se de costas que de lado nã o aguentava com as dores do peito. armava-se outra vez o teatro. à raiz das covas. E de olhos abertos lia no escuro como lia nas brasas. Passava boa parte da noite. abria-os. agora que elas já eram menores. Assim mesmo. bem embora não tivesse saudades do mundo. E depois. A noite negra poisava-lhe em cima o seu joelho de giganta. Aqui adoeciam. Também ali farejava desgraças. Parecia que se ensaiava para lhe cantar o bendito. tal como tinham sido em vida. Tratavam-nos. estava mesmo a dizer: levantar? levantar? Um cão latia e era quanto bastava para se achar menos só no mundo. a catadupa de rumores indistintos. Borbulhava o formigueiro dos defuntos. com o adiantar da manhã.. de vozes humanas. Pois que assim era. a grande zarga? Ao levantar. A coruja vinha também com o bater da meianoite e armava grande alarido e guincheira. vinham logo de rabo alçado: . que é sala de cães. Depois. As chamiças charriscavam até lhes arder o manto. Se algum esbarrava a ver para onde corriam as nuvens. era o bastante para lhes apontarem o largo: . mais de vinte no Vale das Donas. ia deitar-se. lá ia por cima dos telhados visitando a clientela. de chocalhadas. porque era vezo. Por fim. Quando começavam os tamancos a matraquear na rua. Se não estavam. acabava de repô-la na terra. Oprimida de todo. de anjo. dava graças ao Senhor que a não tinha chamado aquela noite ao seu terrível tribunal. A casa era lôbrega. à lareira. custava-lhe respirar e a pieira saía-lhe mais assobiada. abria-se. Os capatazes sabiam que eles metiam a unha e andavam-lhes na garupa como carraças. Sobre a alva calava a grasnada sinistra e rompiam a gorjear os passarinhos que não metem medo e trouxeram a voz do céu. Via a fogueira a apagar-se e punha mais lenha. afogado na noite.novo com o seu arraial de fantasmas no casarão amplo e soturno que descobrira por debaixo da terra do cemitério. a toque de buzina. acendiam-se as luzes dentro das meninas dos seus olhos. Para o Casal cantava um rouxinol e para o cimo do povo uma toutinegra que amanhecia com as estrelas a chamar pelos pastores. com o completo despertar do cortiço. Dali andavam mais de uma dúzia em Muradais. reapareciam os figurantes a bater o tacão. um bocado ficava o seu entendimento. pousava com não menos chinfrim na casa da Pedralva.. além agonizavam: ela andava a tomar nota como empregado de cangalheiro. estendendose em cima da cama. e via-o tão perfeitamente como se se acogulasse à sua volta. Mas aquela convivência acabava por lhe ser molesta e. Às oito em ponto tinham de estar a pegar da picareta. A sua vozinha alegre. Os encarregados tinham-lhes raiva porque a vasilha continuava a verter e não acertavam com a fonte por onde melava. que a aldeola era feudo seu. Entretanto os rapazes que trabalhavam nas minas subiam e desciam os patins com grande estreloiçada e ouviam-se cliamar uns pelos outros. Mais acalcanhados nem os bois do cilindro. como os galuchos nos quartéis.Põe-te a mexer! Num rufo. como se se tratasse duma romaria.Olha lá. Lá se punham outra vez todos a falar e a fazer tagatés. rua. contrataram-te para fistor? Se levantavam a grimpa. fechando os olhos. Depois o lume ficava a triturar os gravetos e era como um cão a roer um osso. De 162 .

de modo que lhes não faltavam braços. também. Regalava-se toda em lhe torcer as voltas. como podem ser iguais gotas da mesma água choca. Muito pela sonsa. a quererem roubar o rolo umas às outras à força de melúrias e denguices.Comi e soube-me bem .Teve bons sonhos? . que até para lhe ser mais antipática que a outra se prantava ao pé dela em vez de andar por cima dos telhados. pschi. Bárbara arrastava-se para a lareira. igual à de véspera.Hoje acho-a mais animada. À porta uma acácia cobria-se de cachos brancos. e as rolas na cruta dos pinheiros ao desafio. tinha dormido como uma pedra. Era para semelhante primavera que ela corria e tomara que fosse já. Nada a prendia à safadeza da vida. que andava a rondar. ganhava arreliar aquela coruja. levava-lhe a enxerga para a quintã.e não lhe tinha passado bocada nos gorgomilos.facto. Os homens de Malhadas. de verter os seus lamentos. a que chamavam navarros.Comeu? . girava à vida como os pastores das vacas. largavam com o lusco-fusco. Não chegava o sebo para a mecha. Dormiu? Ela dizia que sim. o tio Calhorra continuava no negócio. A corcolher punhase a cantar e logo a seguir o pedreiro que todos os anos fazia o ninho ali perto na casa da Cismas. soprava às duas brasas que luziam ainda no meio da cinza. Em cima tinham uma copazinha que lembrava uma gota de sangue. A baixa que sofrera o quilograma com as leis danadas do Governo não dava para a grandefreirria dos meses anteriores. sempre igual às transactas. Viam-se só em campo as grandes empresas. Ora? No cemitério também nasciam aquelas flores que se erguem numa haste alta e fina e parecem os antigos alfinetes com que as senhoras seguravam o chapéu. De manhã trazia perra a garganta e falava pouco: . Estava varejada a árvore das patacas. respondendo ao avesso do que ela esperava. 163 . . vendendo acolá. Uma vez deu-se a provar: tinham um sabor esquisito. que nem o Demo seria capaz de adivinhar. punha duas farmalhas. Até que a fêmea saísse da toquinha. davam os galos a alvorada.Estou aqui estou fina. continuavam a ajuntar volfro. Ou: . A Polónia. A Primavera era bem bonita por aqueles campos abaixo. fartava-se de gazear. Depois.Sonhei que Nossa Senhora me acenava com um lencinho de rendas e depois me dava a mão para passar uma ribeira muito grande. Mas o febrão estava a passar. não desse ela o cadilho inesperadamente e a roubassem os outros. pschi. Vinham homens de Espanha. e a vida recomeçava para ela. Também lá floria o alecrim que o Jamboto coveiro punha aqui e acolá para que se não dissesse que aquilo era pior que um curral de gado. . Às vezes badalava o sino para a missa. Que mais não fosse. sabor de mortulho. o cuco onde calha. que trabalhavam em Muradais. com o marantéu nas moitas. buscá-lo em mulas. uns e outros. por ser de cascalho e muito esburacada. Eles fora. Os poleiros eram coretos de charanga. muito à capucha.Então sente-se melhorzinha? . Tudo andava já de alevante. que já saíam duas vezes ao dia. Ia correndo a levada do tempo e a leiteira tocava a buzina no terreiro da fonte. Lá tinham maneiras de surripiá-lo. vinha cedo com a mancheia de caruma. Acendia a fogueira. comprando aqui.

A prima observou-a de soslaio e franziu o focinho. que todos os mortos hão-de passar quer queiram quer não...É a ribeira do Jordão. Mas. mas no cibeiro. ao pé do Trinta que morreu chacinado. Quando a prima voltou. Um dia mete-se contigo na cama e esgana-te!” Coitadinho. Quanto a rezas.. Nada lhes dera com o Duarte.Hei-de empregá-la no bem-de-alma.? Sente chegada a hora.. que ela bem viu. . mesmo que quisesse falar. Bárbara indignou-se toda. se não fora as consumições com que o Demo derranca as almas. com a tromba arreganhada à semelhança do jacaré que está na Lapa.Sabe. veio para esconjurar a Florinda Pedralva . o que sucedia as poucas vezes que o senhor Tadeu ali vinha dizer missa encomendada ou no desempenho das suas obrigações paroquiais. olhe. e nada metia mais nojo no cemitério. todo o dinheiro que tenho e pouco para o bem-de-alma. pelo não. . não temia dar contas a Deus. parece que não podia.Sabes que mais. ofereceu-se para ir arranjar meio quartilho de leite. Às porteiras pôs-se a cochichar. Pois que não lhe consentiram enterrá-lo na terra santa. “Olha que não pára na sepultura e vai andar pelos caminhos a fazer espalhafato. provavelmente para o Lázaro..esclareceu Polónia. sempre me quero confessar. Abria a boca e ficava a papear. . Aquela manhã. justinha na anca. Para que quer a riqueza. Enquanto Mónia girava a abrir às pitas. Os padres que fossem comer a outra manjedoira. “Fica-lhe a alma penada no mundo!” diziam-lhe.Vista-me os marmotinhos que andam rotos.Lá irá para onde o pague? Ela não respondia.Olha. “Não tinha posses para se tratar a leite. Para mortalha reservava a saia de castorina. como em geral era modo seu. Tinha proferido aquelas palavras com certo esforço e Polónia considerou: . nojo e medo. tocou o sino.Então já quer. muito raro que por trancafio lhe ficasse a talho de mão assistir grato Deo às suas ovelhas distantes. que estão arrenegadas por ir ganhar a vida.? Era uma sondagem e respondia invariavelmente: . disse-lhe de caso pensado: .serrazinava Polónia com voz pedinchona. Miguel. .. que levara havia mais de vinte anos à romagem das Cinco Chagas e de que ele dissera: “Que bem que te vai essa sala. durma-lhe e coma-lhe bem. vai-me chamar o padre. Que imaginava ela?” Polónia sorriu com desdém. Tenho-me desobrigado todos os anos e. . A sola levava tanto tempo a consumir-se como a caveira.. Polónia.Já disse. e percebeu que dizia: “Não ouve o cuco?” Voltando para dentro.. Pelo sim. Não queria lá chinelas. do que os sapatos. o lenço de seda ramalhudo que fora da tia e era um jardim.. O certo é que tinha em mente gastar o menos possível com o enterro. Está a perceber? 164 .? Acenou que sim. como se também eles se associassem com a terra a comer a gente. um real seu não viram para missas ou responsos. vai-me destapar o buraco às galinhas... lá ficou tão abafado debaixo dos cardos e das ortigas que nunca mais deu sinal. . sombra que se esvai quita candeia. quando ao fim de sete anos o Jamboto abria as campas. Deita-lhe o milhinho que está na teiga. ainda pode demorar.. e uns meiotes novos. o chambre de flanela que estreara há dez anos na festa de S. a roda toda para trás como os turnus!” Reservava então essa saia. que vinham na enxada.

O seu primeiro movimento foi gritar. estava urna surrona. esses olhos negros luzidios. horrorizada. Mesmo assim sufocada. talvez afinadas as arestas e retingidos de escarlate os lábios. seguiu-o com os olhos e afigurou-se-lhe que trazia carapuça de Alvite na cabeça e estava em mangas de camisa. Iii.. Mas ora.. Bárbara chasqueou baixinho: .. estão muito enganados com a delambida! Polónia desandou. a pobre mãe tanto gemera. foi pelo espelho e ao esforço que teve de fazer capacitou-se que chegara ao fim dos dias. com olhos que fugiam para dentro do crânio. Onde ia porém o azougue e frescor da moça que um dia o senhor Antoninho cometera à volta da rornaria?! Estava agachada detrás da arca.. Quem quer que era foi direito à cantareira. no padre que era muito capaz de não vir confessá-la. Polónia falava de afogadilho. já se não via há que mundos. se lhe oferecia encarquilhada. Mas os dentes reluziam e eram eles que davam ao rosto o tom derramado que tinha a Senhora da Boa Morte no santuário da Lapa. a meditar nas voltas que o mundo dá. e levou-o à boca. Assim que respirou. como se a mão da morte andasse a enfolar o saco para lhe atar o nagalho. Lembrou-se que tinha um espelho no açafate da costura. bebeu. ih. que de modo algum queria perder um espelho de tanta edificação como aquele de ver enxotar o Diabo do corpo do seu semelhante.. e reconheceu-se naquele sorriso. ergueu o espelhinho e mirou-se. e ela ficou a malucar na Florinda. de rópia pela casa dentro. de lhe atacar tibornadas pela boca abaixo. Era bem a Bárbara Barboreta.Ah. depôs o 165 . Estavam fartos de a defumar.Tinham ido à benta de Quintela. entrou umhomem. Vinha descalço e tão escoteiro que só reparou nele quando passou por diante. sem dúvida a testa mais branca. tanto suplicara que o senhor Tadeu. mas se fosse assim para o caixão não meteria medo a ninguém. encostando-se à parede. que a fisionomia pouco mudara. ah. No pescoço é que a pele. onde fora a cama do Duarte. puída ao meio corno laja depois que se malhou. causaram-lhe tal impressão que os fechou. com o espelho caído no regaço. condoído. Quem olhava para ela. O que era o barro de que Deus ou o Diabo amassavam a gente? Tornou a mirar-se e notou com reconforro. um espelhinho redondo que ganhara havia mais de dez anos na rifa do Roupinho. tão retraídos como bichos bravos no fundo dum fojo? Ah. permaneceu de cócoras que lhe doíam as costas e se esfalfara a chegar até ali. de a benzer. como fazem as águas vivas quando começam a subir nos açudes e encontram um buraco dos ratos. mostrando os dentes. Ela ouviu-lhe o glugIu. o seu tanto escaveirada. que era só dela corno o vermelho das rosas de Alexandria. irmãozinho da sua alma! Viria. vítima do volfro. e sempre se decidiu a lavar a cara e a tirar a ramela dos olhos. Corcovada. um pé em casa. mas faleceu-lhe a voz nas goelas. À dita confira. ergueu o cântaro pela asa. por detrás da arca. e despegavam-se da cabeça como vagens debulhadas. outro pé na rua. não viria. e veiolhe o desejo de se ver. se calhar nem se conhecia. depois do abalo que sentiu ao pousar os olhos nos olhos. Quando atingiu o açafate que estava no sítio. permeáveis à luz. aríscos e vagarosos ao mesmo tempo. como que sorriu. Aquilo não ia com benta nem benzilhão. Bebeu. ih. Também as orelhas se haviam tornado diáfanas. pois não lhe dera nada a rilhar pela morte do Duarte. vinha aquele dia rezar-lhe o exorcismo. além de amarela.

” senão como a desculpa antecipada de repetir a má acção.. que era do conhecimento de toda a gente estar em seu poder? E dois contendores. martelavam-lhe na cabeça como dois ferreiros malham o ferro em cima da bigorna. maldito fosse o dinheiro e mais quem o fabricava? Todas as manhãs que Deus deitava ao mundo. se não era moço de moleiro. meio divertida: . Quem sabe se o ladrão nem era o tal ladrão fino. ainda na caçoila de má morte. afinal. A prima está a morrer. E. A sua pena era que chegasse quando estivesse já debaixo da terra. trouxessem-lho à sua presença. soergueu a tampa da arca e abismou-se a olhar para o que havia dentro. já aí vem o senhor padre.Ficais aqui.. depois num pote. Faltava-lhe aquele tormento: duvidar. o seu tanto intrigada. que começava por matar a sede no cântaro alheio? Vinha gente que se ouviam passos no palhuço batido da quintã. Sem esperar que respondesse. Foi ao transpor o limiar que Bárbara reparou ainda trazer o homem a fralda da camisa de fora. deixe lá os moleiros e encomende-se a Nossa Senhora! 166 . mas haveis de estar muito quietos. E ela. Lázaro. que no segredo do seu peito e foro de Deus acoimara outro. a primeira coisa que inquiria era se o gatuno se não tinha dado a matar. Era a Polónia com o homem e a ranchada dos meninos.Não encontraram um moleiro? . ainda que pilho notório e confesso. limpou os beiços às costas da mão e. circurivagando o olhar e não topando ninguém.. o Diabo cobre os patifes até à altura em que lhe ajudam a fazer o joguinho. logo de seguida. Ela então pediu-lhes para saírem ao povo e. se andara a roçar pelos sacos da farinha.. proferiu em voz alta: . Desceu a tampa. se nao vomitara as notas. Seria aquele o ladrão do seu rico dinheirinho e causador de o Duarte se enforcar? Arriscava-se a sê-lo. esse dia havia de chegar. e lhe palpitou que. se descobrissem um moleiro com carapuça de Alvite na cabeça e a fralda da camisa de fora. Polónia abanou a cabeça negativamente. ontem o roubo do dinheiro suado e tressuado por ela e o Duarte. Pois como explicar o ímpeto com que aquele pilhanqueiro entrara pela casa dentro e as vozes: “a mulherzinha está aqui está a alçar as pernas. Mas. e a súbitas. com a cara de fuinha que herdara duma geração de famintos. Observou-lhe Polónia.. Mas tão-pouco naquele momento encontrou voz para berrar sobre ele. outro contra. Ai. hoje o dinheiro da vaca. Quando já não precisa deles. porque ouvisse chapejar na rua ou assim se lhe afigurasse.perguntou Bárbara erguendo olhos para eles. quedou confundida.. agora compreendo. Polónia recomendou para os filhos: . Oh.A mulherzinha está aqui está a alçar as pernas. . Oh. foi à pilheira e meteu a mão numa panela. só Deus é bom juiz.cântaro. põe-lhes a calva à mostra. deitou a correr e esgueirou-se pela porta como uma engula. se a casa nao caira por cima dele e não o esborrachara.Quer aviar o pão. perguntou em tom de melaço se não se sentia mais aliviada. Porque lá que havia de chegar havia. coitadinha.? Foi para isso que se veio meter detrás da arca? Ah. E. um pró. o assento enfarinhado. nem aquele ladrão porco. à boa mente ou à fina força. olhe. O pai do Céu não lhe perdoava que acusasse um inocente embora a acusação não subisse ao tribunal dos homens.

Os meninos tinham-se postado em volta dela a vê-Ia esticar. sempre muito recatados. deixa. com a agonia na garganta. meu senhor .Então como passa esta doente? Ah. matar-lhe de tempos a tempos uma galinha. E ao contemplar aqueles carinhas de anjo. Apalpando o piso desigual de laia.Bárbara baixou os olhos..Não tires nada para fora. com os que as pitas das vizinhas vinham pôr nos seus ninheiros. tem meios . desses que actuam na livração das almas do Purgatório como os remédios caros na cura das doenças. . Lindezas são para ti..Vá-lhe chegando umas gemadínhas. Bom. meu senhor.tornou Polónia.. advertido que a confessanda não tinha herdeiros directos. o que botava ao fim da semana a dúzia e meia de ovos. Bárbara sorriu de novo. quando deu com ela encolhida atrás da arca saudou em voz que se esmerava por ser prazenteira: . está uma galinha a cantar'“ Lá ia a 167 . . com o sorriso querendo significar: “Matou-se uma pita. que a mãe assoara e lavara com o rabo do gato. que se podia traduzir assim: Entrou no delírio! Magicou que não valia a pena estar com explicações e calou-se. Tinha três pitas que punham três dias a fio e descansavam um. . ia morrendo de consurnição.. Pois'“ . o que era caso. de ordinário fechado. teve vontade de corrê-los à bofetada. E sentiu-se beliscada ante aquela alta recreação: . Bárbara julgou ver luzir em seu rosto. um ar amável. Bebi uma água chilra.Nosso Pai tanto entra na cabana como no palácio..Pois se se sente fraca. como quando lhe iam ao mostajeiro.e o senhor Tadeu acrescentou. voltando-se para Polónia: .. coma-lhe! .apressou-se Polónia a responder. o mal não é de morte. Pois não enxergava a sombra dum ovo? Às duas por três. A olha escumaste-la muito bem escumada e imolou-a com sopas de trigo o esgorjado do teu homem.. dando como razão pôr-se-me na fraqueza por ter muita enxúndia. quando era ela a tirálos. era de supor. delgada como a da fonte. o sagrado viático. Bárbara olhou para a prima e sorriu. fungou e dobrou-se para o chão a estudar o caminho. à frente o grosso nariz de batata grelada. Ao pôr pé no limiar. Mas não pode ouvir falar que se corte o pescoço a uma ave. por sinal satisfeito. ela está a pé.. Deixa.. dava o alamiré: “Polónia. Mas a Polónia começara a revolver a roupa da arca com mira. acalentasse a esperança de que lhe encomendasse algum trintário bem pago. matou. e consigo e com Deus ficou a cogitar que ele.Parece mal? .. Dali a migalho aparecia o senhor Tadeu.É preciso alimentá-la.As galinhas não põem.Tem sim. Fartava-se a cada hora de ouvir cacarejar na quintã. O senhor padre bem sabe que a casa é de pobre. Entre dois frouxos de tosse ciciou Bárbara que apenas se sentia muito fraca e não podia com o corpo. Ela não tem meios? . entretida no deserto da sua alma com sucesso tão estranho. quase duas dúzias. cantés a missa vulgar de cinco paus nem um bochecho de água representa quanto a refrigério das respectivas labaredas. de encontrar os lençóis com que se recebe na Páscoa a visita do Senhor ressurrecto e. e durante o breve movimento que imprimiu às pestanas surpreendeu o Fandinga a fazer para a mulher um gesto. ao gosto delas. Faltou-lhe um galipanso. como se entrasse numa furna. dar-lhe leite. Mas a carne corneste-la tu e os teus miúdos.

. Foi recalcando o asco que interrogou: . meio de mofo.? Trouxeram-lhe um mocho. que mais gatunos não se encontravam na Falperra? O senhor padre esteve um momento a aferir da situação da doente.. Ouvi dizer que é anclaço. alimentar-se a leite! Tinha há dias mandado comprar um quartilho: mais de três quartas partes eram água. Era a fugir àqueles dois pesadumes que ela retraía o olhar para a quintã e avistava os Fandingas. . Não o fazer. Que não e não. acessos de tosse. o comer de leite está acima das suas posses. Sentou-se então.. a Polónia tirou metade para uma xícara que deu à menina mais novinha que acabava de desmamar. Mas não permitiu. Quando lhe chegou às mãos. . que parecia esquisitória. E o sacramento começou e foi decorrendo sibilado. como ela se limitasse a baixar a cabeça.E leire. Polónia acudiu a pôr em cima a capucha dobrada. feiticeira?? Antes de morrer.? Dê-lhe leite. depois de passear a casa com a vista. embora repleto de zelo sacerdotal.Está no uso da fala5 . bota cá a saia que roubaste a minha mãe! 168 . referveu o seu sopitado ódio. a cabeleira do padre.. Mas eles espreitavam-na receosos de que levasse por diante a ameaça de encomendar um dispendioso bemde-alma. mais abaixo. Bárbara via acima dela. e a sua voz adormecia como água em chão liso. Interessava-lhe pouco a máquina. e aspirava o seu hálito enjoativo. tão outro do do Antoninho Fráguas. com pequenas pausas.” O senhor Tadeu levou a tenta para outro quartel: . Que andasse até onde pudesse. A terra produ-lo com abundância. negra como o volfro.Fala pelos cotovelos. o tomarão mal maduro da penca.Não haverá um banquinho para eu me sentar. da banda de fora.Dá por paus e por pedras. durante as quais se esquecia de si e do padre. era um rebotalho. Nunca pela vida fora lhe tinham chegado uma sede de água.. Que esperavam agora dela? Do lado de fora. de boné na mão: . acabando compenetrado duma imundície que vinha do tempo das cavernas.zouvineira. lá vinha: “Pôs vento. caía para a banda e acabou-se. decidida em seu peito a fazer o contrário. As suas galinhas só põem vento. Olha.. E daí provinham as pausas. mais filtrado que o soro. murmúrios que imprevistamente subiam de tom como água num regozinho de leito irregular. transportado já à super-human idade do seu papel. que ela se pusesse de joelhos ou alterasse sequer a posição que tinha por mais cómoda. Depois.. Fosse pelas benditas Cinco Chagas.Vamos à confissão. senhora Bárbara? Ela acenou que sim. E reparando nos olhos da alcatéia acesos para ela. é pecado. podendo. quando não pudesse mais.. tem. volveu para Lázaro Fandinga que se aproximara muito ronceiro. .Ainda não morreste. Pegou da bilha e baptizou-o segunda vez até encher a medida. Mas é assim por todo o povo. punham a boca a um buraco da parede e buzinavam para o interior: . Ouviu. no largo. meio de coisa podrida. não é assim? E. os Urras e outros parentes comprimidos e silenciosos contra o vão da porta.Pois tem que tratar-se. Um primeiro baptismo devia ficar à conta do produtor. resplendente.

. Era o remate.Está bem.... mo mandasse cá. e ele foi-lhe emprestando a muleta da sua memória.Diga.Estou com vontade de ditar o meu bem-de-alma a um tabelião. O senhor Tadeu. compreendendo que terminara o mistério... invadia a casa: . dizendo com ela.. lá está uma pita a cacarejar..Queria pedir um favor a V. levantando-se por certo com alívio. dispunha-se a largar quando se sentiu preso pela garnacha. . Ela torceu-se para ele e levando o dedo aos lábios ciciou de olhos na choldra que. particularmente à sua alma. e respondeu com pressurosa discrição: . R.articulou em voz e num bulício tão rápido de lábios que só por si inculcava puridade. Se V. . O que tinha sofrido por causa daquela saia apanhada no estendedoiro? E quem podia jurar que fora ela? Não havia muitas ladras no povo? Agora era o Tonico. que se punha a falsetear ao mesmo buraco: . . 169 . Também do fundo do horizonte um raio de sol vinha direito à sua alma.objectou. eu mando-lhe o notário. R. mas não o sabia. que saíra um melro de bico amarelo. Ao cabo. Tenho por onde pague. do Zé dos Cambais. cansado de vagares e de suspensões. . Ele então percebeu a comédia toda.Porque o não diz aos seus parentes? . Deus lhe agradeceria melhor do que eu. mandou-lhe rezar o acto de contrição. ainda que sem pago não haja de ficar..Deus me livre? Eram capazes de me esfolar.Vomecê não quer um ovinho para a pleira? Olhe.Era o filho da Casimira.

arroteador de baldios. que era senão carregar? E com o mesmo vocábulo significava a pressão que exercia junto do tribunal contra o Aires.os trilhos constitucionais. do sangue.XII . e estas palavras traduziam bem toda a sua premente e danada obra à margem da causa. passador de moeda falsa.Se não pões para aí o anel. se operara à lufa-lufa. como o espírito bem lastrado de sadios conceitos quanto à moral e dever de cada um. no entanto. com loja de armarinho no Piau -. sinhazinha. nenhuma tarefa lhe causava nojo. Mistérios da vaidade. o reconhecera como hastilha do seu tronco. a comprar e vender travessas aos Caminhos de Ferro. tanto que apanhou o colega volframista Leónidas Seixas em maus assados. Quem o conhecera e quem o via? Levara o melhor dos anos a passar criminosos foraíÍdos pela Portela do Homem. Influente e endinheirado.Não me move contra o Aires nenhum outro sentimento que não seja o de vingar o meu filho. ao dar de si o gabiru. onde tinha um testa-deferro. quem podia ter sido? Enquanto se não prove que foi outro. não foi dificil ao Fráguas encontrar na terra pobre e explicavelmente venal matéria com que erguer o cobiçado cadafalso. metia. O negócio dos metais tinha-o enriquecido fabulosamente. para empregar a linguagem duma das testemunhas. Muita gente admirava-se que assim pusesse ralé em querer sacrificar uma vítima aos manes do morto. Como a metamorfose. pequena ou grande. Vinha-lhe dos tempos em que se prestava a fazer todos os fretes. os dedos cheios de anéis. hoje agente falido de passaportes. Que esta rivalidade era como uma trovoada armada. Era notório que ambos cortejavam e pretendiam a mesma mulher. Ficara estabelecida de modo terminante a rivalidade que lavrara entre réu e morto. Dizia-se à boca pequena . de quando em quando escorregava-lhe o pé para. ai. ainda havíamos de ver-ele. forjadas outras a martelo.faceteava para Solange o seu comendador José Plácido. . que é um supor. Ouviram-lhe as ameaças: . metia. Não sendo ele. se tivesse apoquentação.e não o trombeteavam a boca grande e ele próprio para não dar âncoras ao fisco que a sua fortuna botava aos seis mil contos. Assim foi muito notado. conduzir para casa pela calada os sacos de volfrâmio. para mais que não para menos. como esfaquear um cristão ou assaltar as prisões e libertar um preso.declarou o senhor Antoninho Fráguas. Apontam-no como matador. carrego-te a part& Era um termo muito seu: carregar. prestes a desatar em raios e 170 . que tivesse artes de lhe abarbatar o anel que lhe reluzia no dedo com um brilhante de dez quilates. ou encher os navios mercantes com mistela parecida. capitão de cangaceiros? À data era pessoa importante. do amorpróprio. amanhã empreiteiro de estradas.Compadre Antoninho metia cabeça ao mato. As testemunhas foram industriadas umas. Em bandas di lá . Não era debalde que inculcavam o volframista como homem capaz de mover a vila e a capital do distrito com uma perna às costas. pode estar certo que hei-de carregar o mais que possa . pilhados à paróquia por mascambilha. Depois. negociante de cavalos. Desde que houvesse vaza a levantar. quando só recentemente. sabe-se lá! Os depoimentos prestados comprometiam acerbamente o Augusto Aires.

Deste modo ficava neutralizado o efeito que. Afigurava-se supérfluo procurar algures ou melhor.elucidou o Luís Ougado. confirmada pelo réu. viu-se na competição de forças a que se entregaram os dois na manhã do crime quando se tratou de arvorar os estandartes na festa de S. que se alimenta das próprias entranhas. O próprio Augusto Aires. Brás. . devia ter sido o móbil imediato do assassínio. a bem do réu. não restando melhor recurso do que “sangrar-se em vida”. traindo não se sabe bem que ideia fixa. o ciúme. que outrem apresentava melhores títulos que o Augusto? Sumariamente. passou ele à minha porta . Em conclusão: ninguém vira matar. e esta versão ia pouco a pouco prevalecendo de todas as mais. e na contraluz que ressaltava da viciação da verdade por Maria Aires . Tal era o estribilho do representante do Ministério Público. . dar uma versão concordante.Tem a certeza? . como homem esperto. para mais não sair até ser preso. não fez mais que referendá-las. excluído o roubo como causa.Seriam dez horas. mormente daquelas que motivam a alçada judicial. na frase de Shakespeare.Sim. isto é. . Mas semelhantes qualidades não se podiam chamar inibitórias quanto a determinar uma destas crises agudas de ciúme que desfecham no crime. àquele. Sim. . Segundo ela. admitia a hipótese. entrei em casa um migalho antes de bradarem na rua a homem morto e concordo que o Luís Ougado podia ter ouvido os meus passos. Era intuitivo que a Maria Aires tinha em mente forjar um alibi. Confirmou-se horas depois com o ostensivo despeito do Aires ao encontrar a namorada a bailar no terreiro com o José Francisco. Procure o senhor juiz o matador noutra porta. de que fora ele o autor do crime. podia resultar do encontro do seu testemunho com o do Ougado e doutros.. estavam em contradição flagrante com os depoimentos que prestaram não só as demais testemunhas como o filho. a indiciação criminal assentava na palavra das várias testemunhas. que por aqui vem errado. As declarações de Maria Aires. mas pois que houvera um matador e de natureza sentimental.Meça bem a gravidade da sua afirmação. Mas tudo isso não vai além de coincidências. o seu Augusto entrara em casa pouco depois do anoitecer.e o juiz lavrara despacho de pronúncia. pouco antes de gritarem na rua a homem morto. angustiosa. Acossada a adoptar tal expediente.coriscos. convocada pelo juiz por escrúpulo de consciência.Ouvi o Aires subir precipitadamente a escada. . 171 . constituíram devido à sua impróvida e ludibriante singeleza o acto de criminação mais grave que foi produzido à barra contra o réu.instou o juiz. .Eu também juro o mesmo . dir-se-la. cuja casa e a da Maria Aires ficava costas com costas.Estou tão certo do que digo como da luz que nos alumia. se bem que reservado. dado que não tivesse a certeza. Em tal asserto todos os testemunhos eram concordes. esse monstro verde. No decorrer das inquirições ficou ainda estabelecido que o Alres era homem tranquilo por temperamento. chamado a confirmar ou desmentir semelhantes provas. . “zaro Fandinga declarou: . uma vez que na carteira do morto fora encontrada intacta a quantia avultada que horas antes lhe confiara o pai para o negócio. Ninguém tãopouco o acusava de desonestidades.Conheço-lhe o chapejar do sapato.. Alé m de reticentes.corroborou o Reganha.

por conseguinte. que era já seu hóspede assíduo. e nada mais fácil que sacrificar aquele pobre diabo em holocausto ao filho assassinado. causas. chamavam os codilhados do volfrâmio Cocó. não poderia cobrar para baixo de duzentos contos. com o novo processo passou a residir em Muradais às temporadas. facha de palha do Antoninho. para assumir a defesa logo que estivesse livre. nem era mais nem menos honesto. mestre em tricas e sem igual no silogismo . proeminente nos tempos utilitários.não tivesse ele antes de se formar cursado teologia. o Espadagana. Calabaz. persuadidos ambos da sua inocência. do que empregar toda a ralé em consolidar a culpabilidade do Augusto Aires. se visava a espórtula alta. Os volframistas ganhavam mundos e fundos. pelo contrário. representada por Manuel Minga. cuja pele não lhe merecia mais respeito que a dos cabritos com que o presenteavam os constituintes agradecidos ou mesuradamente cardados. À data própria compareceu a mocinha com natural modéstia e trajar quase 172 . O negócio de resto estava bem parado. coroadas do mais feliz êxito. Teodora Luísa. com designar acusador o Dr. para serem inquiridas como testemunhas. Tinham-no por escarmentado em toda a espécie de foro. Defesa que exigisse audiência e a sua mão de papel selado ou em que tivesse de interferir a influência pessoal. Retido entretanto na capital por um importante processo em curso. A defesa indicara entre outras pessoas. Guilherme Calabaz. Para mover o causídico bastaria uma palavra da pobre mã e. que manda ao causídico seja faca-de-mato. substabeleceu no filho dum amigo. Guilherme Calabaz. Este Dr.. Fráguas havia-o constituído procurador em duas causas de certo tomo. mas tinha como nenhum colega urna fome devoradora e concomitante gana de ser rico. E tratou de cumprir o que julgava uma obrigação. mas os jurisconsultos encarregavam-se a propósito de tudo e de nada de os aligeirar dum capital que lhes caíra do céu em revoo de lotaria e até certo ponto os desconcertava. Manuel Torres a tomar o patronato do empregado fiel. com o Minga. convidou o Dr. Começou o advogado por requerer a instrução contraditória. Foi um período de vacas gordas esse dos volframistas na fase do comércio livre e na que lhe sucedeu com o apuramento do imposto de guerra. O advogado da defesa era dos tais que julgam a prática da justiça incompatível com a chicana e a malignidade. nome consagrado no cível mercê do seu saber e experiência em digesto mineiro. ambas elas. Queria Fráguas um criminoso. Muitas quintas mudaram várias vezes de mão em poucos dias. Surgira no entanto um depoimento desconcertador. Tal circunstância cimentara entre os dois uma estima robusta e solidária. Nada mais natural. e daí para cima. filha de José dos Cambais. Mas não se confinava neste ramo da advocacia a sua celebridade. Respondeu a família do morto. representava uma escola de advocacia. que o Fráguas assoldadara para remeter o Aires para a Penitenciária. nem mais nem menos rábula que os outros. Contavam-se a este respeito histórias do mais pícaro descoco. cego e cínico a bem de tudo o que reporte pecúnia. uma minuta a bagatela de cinquenta. Um simples requerimento era cotado entre dez a vinte contos em matéria de honorários. novel e talentoso advogado. Ranheta e Facada. Calabaz . feito com nobre altivez e um espírito de sacrifício tão abnegado que todo o edifício da acusação ameaçou ruir. com plena aprovação de Franz Hincker.Severo Bacelar. A eles.

articulou: . Instada quanto aos motivos de ciúme que pudera ter ocasionado ao Augusto. Calabaz recuou instintivamente e de pé.. está bem. ouviu uma longa.Não quis.? faz o obséquio de mandar sujeitar esta mulher a um exame médico? . Não lhe ficaram dúvidas. Mas uma grossa e sincera lágrima sulcou-lhe a face e não foi preciso acrescentar mais palavras.Ciúmes.Tenha a bondade. 173 . mas certa reticência em abrir-se..a há-de dar licença que me explique. mas eu... e fazia-o com bizarria. lábio contra lábio. confundido. no que se refere ao juiz. Exijo uma retractação imediata do que acaba de dizer. . o juiz que era homem novo. não respondeu. mas tal declaração não é bastante para a natureza da injúria. podia tirar gala da natural independência de carácter. bem relacionado. o arranco com que desatou. Deseja mais alguma coisa da testemunha? . Retirou. .. ainda na zona do aturdimento.. e sob este aspecto tem jus ao nosso respeito. Ex.E quem me garante que o facto se tenha dado? E. Fica apenas homem para homem. Sentou-se o juiz. não achou melhor que agarrar-se a uma obscenidade pouco generosa. crescendo para ele. Ex.Compreendo muito bem: V. pronunciou: ..? toma o partido da desvergonha! O juiz ergueu-se com brusquidão e.? A fisionomia do juiz era tal que o Dr. Ex. Imóvel. em voz estridente de cólera. foi avolumado por uns no sentido da dignidade desafrontada com brio.Estou satisfeito. repare.V. . desvirtuado por outros quanto a trair parcialidade em favor duma das partes. foi na altura em questão.A senhora pode retirar-se.Sim senhor. não é?.Esta senhora é testemunha e não parte.Que diz a menina? . lábios vincados por um sorriso manifestamente desdenhoso.lutuoso. . enrodilhada e nem sempre hábil palinódia. Há a sua diferença. acrescentando para o juiz: . não deixou de se mostrar impressionado.remascou o magistrado. Imediata. Era rico. a dar-se. a sua deposição faz fé. o baixar vergonhoso dos olhos projectaram luz plena quanto ao seu significado. . vamos ao que nos tem aqui. De olhos em terra. agora pode explicar-se. susceptível a certos impulsos... associados às pernas de vitela remetidas sob capucha pelo Zé dos Cambais. mas V. Como tal. Digo contradita e não prova expressa. tomo nota. essa mesma tarde deixou de tê-los! Tinha-os por duvidar de mim.. um instante surpreso. Ex..Está bem.?. se os tinha. Retira .Retirei. Tais palavras encerravam muito de sibilino.. até o momento em que seja infirmada em boa e leal contradita. A certa altura interrompeu: . ? Não retira.. por detrás da cadeira.Retiro.O magistrado aqui desapareceu. O advogado da acusação percebeu e.. .? . . Chegou a dizer-se que se deixara seduzir pelos bonitos olhos de Teodora.. Quando o patético se desvaneceu.Seria caso novo no direito que o depoimento duma testemunha fosse submetido a tal espécie de verificação respondeu o juiz.. não retirou as palavras que proferiu? .. Não sei se me fiz compreender.. eu não quis ofender V. desenganadamente exclamara: . O incidente...

meteu os pés pelas mãos no esforço manifesto de conciliar o que dissera antes com o que sentia agora que era seu mister dizer. Vossemecê sabe.Depois do crime. ficou a ajuizar mal. Se eu estivesse culpado. Estou inocente. depois. como eu não me abri com ela.Oh. A imputação . Assim. se Teodora lhe dera iniludíveis provas de ser o preferido? O réu. é arbitrário. toda a verdade. O juiz interveio. tem a causa muito comprometida. . mais tarde ou mais cedo a luz faz-se.Entrou em casa debaixo da impressão de que tinha havido morte de homem. A infeliz é que se não capacitou das razões do filho. e seria para admirar que a justiça cometesse um erro tão grave como condenarme.O senhor. como costuma dizer-se agora. O acusador. Que necessidade. Tanto assim que minha mãe deu conta e. Esteja certa que me não compromete.. Que factos ou que circunstâncias determinaram essa impressão? Quer explicar-nos. registemos. Embaraçou-se ainda mais.? . agradecia-lhe que desfigurasse o que se passou. . não sabia disfarçar o seu sorriso sardónico. Ex. Devia estar mesmo alterado de parecer.Aqui há uma situação que não está bem definida. Está convencida que eu é que matei o José Francisco?! Se não está.respondeu Aires com lisura desconcertadora ao que envolvia de comprometimento. O juiz. chamado a comprovar tais assertos. foi tão discreto que nada adiantou que pudesse ferir o pundonor da namorada. afogou-se-lhe a voz e acabou a soluçar.? É drástico. exultante. todas as presunções recaem sobre o Augusto. peço-lhe para se nã o confranger e contar tudo tal qual.Os rumores pejorativos lançou-os com uma topetada soberana da cabeça à voragem surda do desprezo. mas pode dar bom resultado. mal se percebendo que pedia perdão ao filho de lhe cavar a desgraça por sua má cabeça. se não consegue anular de qualquer modo o depoimento que prestou a palerma da Maria Aires.Quando entrou em casa sabia pois que tinha havido morte de homem à sua porta.obra do ciúme . 174 .Entrei em casa um pouco debaixo dessa impressão. Maria Aires começou por manter a primeira versão. . Supondo ainda que se tenha de pôr de remissa que foi o ciúme o móbil do crime. advertindo para o Dr. Requereu o atrapalhado causídico a acareação..a defere.. se eu a pedir. apreciando no justo valor o papel da defesa. . tinha Augusto de matar.. O Augusto conjurou a pobrezinha: . O meu papel é clarificar o acto criminal. observou ao substituto do Dr.a que se vinculara o crime fora entranhadamente aluída. Por alma de meu pai lhe juro que nada tenho que ver com a morte do José Francisco. Calabaz e o defensor: . suponho eu . tão enrodilhadas saem as declarações da sua boca. atire o coração para trás das costas e não tenha medo de dizer a verdade. minha mãe. em proveito ou desproveito deste ou daquele. com efeito. Manuel Torres em hora de puridade: . Vejamos: o réu regressou a casa no momento do crime. mas para que se faça cedo é preciso ser franco. limitando-se a responder a todas as instâncias que tinha fé absoluta na palavra dela e na firmeza dos seus sentimentos.E uma acareação entre a mãe e o filho? V. podem julgálo.

Assim que o encapuchado despegou da quintã do Cambais. Ex. Que circunstâncias influíram no seu ânimo para entrar em casa debaixo da impressão de que acabavam de matar um homem? Percebeu onde quero chegar. se era verdade ter o Cambais acravelhado as portas. já ia. . um estadulho do carro do Cambais com marcas de sangue e até com uma manchoquinha de cabelos. cometera um acto de cobardia e por isso estava a pagar. que precisa classificado? O Aires não respondeu e o juiz tornou a repetir: . e queres-te ir meter onde não és chamado?! Supõe que houve sarrabulho e.A cisma foi esta: “andas fora de horas pelos caminhos. se te perguntassem o que andas a sisar. voltei por outra. Fora armar-se. A alhada não se explicava doutra maneira. passos primeiro. Brás fizera-o com o fim de deitar poeira nos olhos da gente e.. fechei as portas e fiquei de plantão à esquina. Agora. porque não restava dúvida que ele e assassino eram uma e a mesma pessoa. sem saber explicar como. passam-nos cocas pelos olhos. que a sua 175 . a bem ou a mal. gemidos.Aires descreveu então a cena que presenciara na noite do crime quando arrastado até à quintã do Cambais por tineta caprichosa. que se apurou serem do morto. uma vez que tinham encontrado na rua. é uma hipótese a encarar.? ..Compreende V. e depois? .. a quintã em primeiro lugar tinha-lhe servido de esculca. se não acontece meter-seme uma cisma na cabeça. cometeu uma cobardia imperdoável. Quando ..a. e à distância de dez passos um vulto mal se via negrejar. de facto.. Supondo que era assim. Uma vez à espreita .ele a mostrar-se e a ir-lhe na cola. à falta de outrem.Adiante. É uma hipótese. . O que o noctívago fora fazer avaliava-se.Fiquei hesitante: vou. diga lá? . de repente. e mais passos. Foi na peugada do homem. . um homem menos se precata. Meti por uma quelha... arrepiou caminho.. Estava escuro como breu.Que cocas. Tornei à casa do Cambais pôr a machadinha no seu lugar. ..E que fez? . te catrafilam a ti. o provável é que tivesse voltado à quintã pelo estadulho. . agarrada às farpas. se não era a manha que lhe ditava todas as partes. achando-se desarmado por qualquer motivo. não vou acudir. Posso mesmo dizer que estava resolvido a apurar quem fosse.Àquela altura é singular? Que bicho foi esse que lhe mordeu. depois como que o baque dum corpo. lá viu para onde se meteu.... lá tenteou o lance. e nada. não saberias responder. Lá o rastejou. diga... debaixo daquele tecto dormia Teodora.” Aqui tem V. Os passos ao resto eram de criatura largada. noite fechada.É fantástico.. caminhava já para me ir embora quando ouvi certo restolho.Que cisma foi essa. . Sim. Bem lhe advertira o instinto. mas por agora o que nos interessa saber é diferente..Fui na peugada dele. se tanto. Teriam passado vinte minutos.. mas perdi-o. A que vinha ali o tipo?. sim. Duma coisa estava certo: o José Francisco ao largar de rópia para S. Ex. como dizia.Porque soubesse de antemão que o homem havia de passar por ali .. Ia de peito feito. O Aires dobrou a cabeça para o peito e entre soluços reconheceu que. detrás duns toros de pinheiro. largueilhe na peugada.

o advogado de acusação não se demorou em arquitectar outra. Mas diga-me: o crime deu-se entre as dez e as dez e meia. Era. tão feliz da vida. . a maioria. . escuro fora.. Nem reparou em nada de especial. que fui. e agora me digo que não fui mais adiante porque a água me tolheu o passo e vim a acordo do lugar onde estava. aquela que levava ali como uma pessoa aconchegada ao peito. realmente. ouviram-se-lhe estas palavras atribuladas: .. Ex. olhe V.?. juiz.. . encarando no Dr. Sim. por mais fabuloso que se afigure. e acabado por vir às mãos..É admissível que tivesse esse relâmpago de premoniçao . que já é uma hora adiantada para terteolas como Malhadas. senhor juiz. não tinha dúvida em aceitá-lo. não ter eu hábitos de tresnoitado. Não sei como. senhor juiz. senhor Dr. . à toa. o que andei a fazer foi a vadiar pelos caminhos.. não tendo o costume de vaguear sozinho. Que andava a fazer por fora? . estava à beira do rio. O juiz deu por findo o interrogatório depois de instar Maria Aíres: . era com ele. no número das quais estava a Rosa Pedralva. a fugir como se transportasse alguma coisa que lhe quisessem roubar. E deitara a fugir desatinado. . Mas. e fiquei tão contente e fora dos eixos. quando dei conta. Contra argumento tão óbvio redarguiu o acusador. fui-me deixando levar. corria perigo. fui como se fosse pelo ar. Que não gostei de a ver dançar com o José Francisco. a partir daquele minuto. e mais isto e mais aquilo. se não derrubada a teoria de que o Aires assassinara por ciúme. quer de passos.Não. à primeira vista não menos lógica: de que ele e José Francisco se houvessem encontrado.Olhe. estando como estava uma noite escura. o mais forte abatendo ferozmente o mais fraco. Mas se umas.Sim. Uma nova inquirição de testemunhas gravitou àvolta deste ponto de vista. não nego. em choro desfeito. que possa invocar?. cujo sorriso lembrava uma rosa-chá desbotada. em aparte. . Terminou aos arquejos. sem direcção. misturadas com soluços.felicidade. dóceis à lição. embora não soubesse dizer porquê.Sim. levar pela marcha. Mas ela contou-me como aceitara o convite do homem.. todas as dúvidas que concebera a seu respeito. Subira tão ofegante a escada de sua casa que os vizinhos deram conta.Meta a mão na consciência e diga a verdade como lhe pede o seu filho. Depo1s voltei para trás. é também certo. a voz de dentro dava-lhe rebate que um tal escarcéu deixara de ser com outros para ser com ele. garantiram solenemente que não deram fé de rumor algum. depuseram em conformidade. que nada provava que o encontro se não 176 . é exacto. passei à banda das minas do Vale das Donas. até o rio. despi~ cado com o ácido rancor de que são capazes dois rivais. . quer de vozes. estreitada contra a carne. Teodora desfez todos os melindres. Mande-me para a cadeia que eu é que menti.proferiu o juiz ao cabo de curta pausa. Tremulante.. eu tinha-me encontrado com Teodora pouco depois de anoitecer. largasse assim pelo escuro. parece esquisito.Não é caso inédito.Não encontrou ninguém.Como se explica que.Não.. Lá que cheguei a ter certos zelos. antes do grito de socorro soltado pelo homem do lampião. Isto que ele contou parece-lhe exacto? Das profundas da sua dor. e sua mãe por mais que se reprimisse tremia como um vime. Calabaz. meu senhor.

despercebido dos vizinhos. tendo em vista a sua profundidade e ser situado sobre o occipital. ou oprimido mesmo pela amizade. O seu antagonista e o juiz sorriram despicientemente.A minha esperança é que mais dia menos dia.tivesse dado algures. Com tão desabalado acusador acabou por condensar-se à volta de Augusto Aires o que se chama má atmosfera. o assunto versado em Malhadas era a morte do José Francisco. mas onde está o tribunal que se atreva a condená-lo sem uma verdadeira e insofismável prova? . pressupunha golpe à traição.É estranho. era lógica num segundo plano e não valia a pena levar o debate para tão longe. por qualquer circunstância. que redundava num destampatório a que nenhuma espécie de juízo seria capaz de quedar impermeável. e ela por sua vez deixou-se possuir desse palpite.. como observara com judiciosa oportunidade o advogado da defesa. se quiser.Muito estranho. 177 . Minha mãe viu-me entrar em casa dominado pelo palpite diabólico de que tinha havido mortede homem e eram muito bem capazes de me apontar como matador. A tal raciocínio faltava lisura. o que se não compadecia com a ideia de conflito ou luta corpo a corpo. . Oxalá. . e o cadáver transportado para ali com o propósito de desnortear a justiça. forcejava em expedir de toda a maneira o Aires para a Penitenciária. amiga do que é recto como sempre foi. Fosse como fosse. provavelmente por considerar de somenos semelhante tó pico.Nisso não vou eu muito fiado . e todavia não se impediu de dizer para o constituinte: . Assim. embrenhou-se numa explicação fantástica. não sei. Reparou V. O que não lhe posso levar a mal é que não soubesse dissimular a sua convicção. sem ser preciso. por um acaso. o alvorecer da verdade. Lógicas. na mira porventura de justificar a grossa espórtula que contava pedir ao volframista. o acusador ardorosa e porfiadamente buscava tapar as brechas por onde ameaçava ruir a arquitectura do corpo de delito. O advogadozito notou-o.. ao agente investido de tal excruciação chamam na linguagem rural o aterrador. Estava no seu papel. em que depunham Lombroso e Conan Doyle. Daí o relativo silêncio em que decorrera o drama. Por isso. a anatomia e o jogo do pau.A sua culpabilidade assenta apenas sobre presunções. .respondeu o preso. . Ex.O que a habilita agora a acreditar na sua inocência pode muito bem ser um fenómeno precursor. Com as idas reiteradas à sede da comarca. a verdade é que se a defesa se contentava com a espécie de clarão de inocencia que resplandecia no rosto do Aires e o halo psicológico que se exalava da causa. Calabaz. se rasgue a cerração. talvez mesmo fora da localidade. o exame médico-forense. que era sagaz e requintava na qualidade pela hora crítica em que se via. Posso garantir que nós não contribuímos nada para a reviravolta. que esta causa tira-me o sono e estou morto por que chegue o Dr. relegado o volfrâmio para segunda plana ante a tabelização inferior. Torres para lhe entregar a pasta. De resto. reforçando as suas premissas com novos e ousados argumentos. digamos. a que minha mãe agora já está convencida da minha inocência? Que se passou no seu entendimento.

Apertada pela Ana Ruça. que se chamasse o médico. porquanto não podia considerar-se a prenhez como enfermidade. E. isto é. a Florinda. quem era o autor? Porque lhe escondia ela o nome? Teodora. ora empregado no Vale das Donas. Umas vezes era um homem novo. lançava âncora pelo Aires. antes de a praga do volfrâmio desabar sobre o mundo. de bigode à Carloto. que te mato? Dizes quem é o varrão ou é aqui o teu último dia. E. que há muitos anos exercia as funções de parteira e se julgava no direito de coscuvilhar em todo o sector de tal actividade. se as tinha. coitada. como certas trovoadas. em água celestial. levantando-se. jurando por todos os santos e santas da Corte Celestial que sua filha continuava pura como quando a deitara ao mundo. excomungada.tartamudeou a mãe.Oh. Como a Florinda Pedralva não desse sinal de melhorar. era o beijinho do rapariguedo. meio condoído do desaire: . A mãe arremeteu para ela de tamanco no ar: . confidente de todos os 178 . . em lágrimas. Pediram-lhe sinais. juras e trejuras. Só um tolo não quedaria capacitado que a Florinda estivera a urdir uma fábula com os capítulos principais alinhavados atabalhoadamente. Veio o doutor e. depois de lhe exigir o preço da visita. Caiu ali o Carmo e a Trindade. A própria tia Rosa dobrou a cabeça. estimulada pelo romance apaixonado de Teodora. uma vez que fora aos fieitos para deitar na cama da porca. adormentando-se com o tóxico de ambas se verem desinfelizes da sorte.É fácil de perceber. e foi como se caíssem as escamas dos olhos de toda a gente. ora em Muradais. Sua filha está grávida e duma gravidez muito adiantada.?? Já sabia que as ameaças e ralhos da mãe se resolviam. referências quanto ao violentador e tanto disse como desdisse. . bons cem mil reis com que ela teve de explicar-se.Entre dois e três meses vá-me ver. que noutros tempos. Entretanto dava-se no povo um acontecimento do mais castiço e avantajado melodrama. A tia Rosa. desmentiu o doutor. montou a cavalo. O Fráguas sentiu-o e procurou activar o andamento do processo. o que ela fez com enjoada e retardativa obediência. e agarrou-se a ela a ganir e a soluçar.. que soltava lágrimas gordas como repolhos.O sucesso transvasara já para as gazetas do distrito e daí para os diários da capital.Não percebo o que Vossa Senhoria quer dizer . perdendo a cor.. Tomara ele assim as filhas. Olharam com olhos precavidos para a barriga da moça. e a soluçar para ali ficaram. palpou e tornou a palpar-lhe a bacia. mandou-lhe que se desapertasse e estendesse ao comprido. restituo-lhe a importância da chamada. Pulsou-lhe de ouvido colado sobre a camisa o fervor de todos os respiráculos. Se até então a sua filha não tiver tido o nené. acabou por confessar no meio de choro convulso que um homem das minas abusara dela na serra. para a auscultar. rufou-lhe no tórax aqui e além com o dedo em martelete. na cama. disse para a Rosa Pedralva que a moça não tinha mal nenhum. dizendo-lhe com ar meio zombeteiro. decidiram os parentes. que nunca os noivos ficariam roubados quando lhes fossem a tocar? E tais doestos lhe dirigiu que ele mandou-a calar. apoiados pelos velhos Salorriões da aldeia. ameaçando-a com uma polícia se continuasse a faltar-lhe ao respeito. outras de meia-idade e com calças de bombazina. A opinião. Mas uma vez que havia um críanço. depois de muitas negas.

. não se sabia bem porquê. Se qualquer delas erguia a voz. Teodora fez-se encontrada com Florinda. estranhou aquela comédia e mistério e notou a singularidade de certos factos que tanto podiam ser naturais como não ser. E tanto fez. E seus olhos de mãe viram ao longe. carmeadas e romarias. que não iam lá muito à bola um com o outro.Quem foi que te enganou. deu salto. entreluzir aquela pequenina e providencial estrela que nunca falta aos sequiosos de justiça e sonhadores com seu clarão piedoso. a Florinda começou a pender para o Luís Ougado. para mais desafortunadas ambas. fitando-a muito no fundo dos olhos. a Teodora para o Augusto Aires. olha tu. E abriu-se com Maria Aires. toda a sua amizade e mútuo paparicalho voltavam ao que tinham sido.Soubesse-o eu. De repente. respondeu como se a tivesse mordido uma víbora: . onde se via uma. Cerra-se outra vez a escuridão sobre nós. logo a outra acertava o tom. tempos àquela parte. Agora. sou capaz de jurar numas Horas que nos achávamos no bom caminho? 179 . quase arisca sempre que a conversa descaía na desgraça que lhes batera à porta. Nossa Senhora. e foram pouco a pouco apartando-se sem deixar. E traçaram um plano. Florinda? Hás-de-mo dizer que eu guardo segreào. Soubesse-o eu e era capaz de ir matar o carrasco.derriços.Jesus. não deixou de verificar Teodora quanto a amiga se mostrava reservada. com reatarem. todavia. Como era do domínio público. na noite do entendimento. de se quererem bem e derramarem em ternuras quando se encontravam. Teodora contou o passo à Maria Aires que disse: . Uma ocasião ousou avançar a sonda: . estava a outra. Que vai ser do meu filho! E. por festas. E logo ela. Mas recalcou o desânimo e porfiou. tais carinhos prodigalizou à casquivana que ela pouco a pouco foi-se despojando de sua frieza e prevenção.. ouvi dizer que a audiência está marcada para breve. se não quisesse reconhecer o meu filho. na esperança de acharem o fio que lhes ajudasse a desenvencilhar a meada em que estrebuchava o Augusto. No entanto. A pobre mulher quando a rapariga lhe foi com as suas dúvidas. com os seus palpites e sobretudo com as suas esperanças.

E erguendo-se muito guicha. A espaços as testemunhas pigarreavam. Foi preciso que o Silvestre Calhorra os admoestasse. suspenso do guiador.proferiu o Calhorra abanando a cabeça. podeis fazer cruzes na boca . . em tamancos e mangas de camisa. Bárbara puxou do pacote de notas.Então de que se trata? . mal os viu. com uma agilidade que não lhe supunham.Deixou tudo ao Antoninho Fráguas que é o fiel testamenteiro. formava cortejo atrás deles. mas quando chegaram ao destino já a parentela. faziam estardalhaço com os tamancos. e lenta. A Polónia foi a primeira a romper o quebranto: . fechou o livro. como era lagóia fina. sinal de engulhos. que trazia na patrona. a quem.XIII Um sujeito desconhecido apareceu à porta de Silvestre Calhorra. Polónia. chamando-os à razão.Uma tal Bárbara Ladeira que deseja assegurar o bem-de-alma..A dois passos. nem um padre-nosso lhe manda rezar por alma.Mora perto a mulherzinha? . De caminho.É o senhor Calhorra. Saiu ao patamar o senhor presidente da junta. Permaneceram assombrados e mudos como se lhes tivesse caído uma faísca aos pés. Estavam com reverencia como quando se ministra um sacramento. o que maravilhou o Fandinga que a um canto se benzeu com a canhota. rolhou o tinteiro. lá assinaram todos. para missas não dispôs nem um real! O padre também ficou a chuchar no dedo. Tem para aí uma familagem mais cainha e derrancada que. de bicicleta..e Tadeu que me disse para bater à sua porta. . na saquinha. encafuou-c. claudicantemente foi recebendo a vontade da mulher. Consolai-vos. adivinhou logo o móbil que os trazia. deu o recado: . amaldiçoava aquela colondrina e votava a todas as pragas do Egipto o 180 . com um livro a espreitar pela abertura do saquitel de lona. Tenha paciência. não é? Foi o reverendíssimo senhor p.E anda com juízo. depois de cumprimentar. Foram encontrar a criatura à porta da quintã a carmear. É só pôr a véstia. e pagou. . Depois. há-de vir servir de testemunha e arranjar mais duas que sejam competentes. Vamos lá.Esperem lá fora.Então? .perguntou o Lázaro Fandinga. . Sou o notário novo de Tendais. avisada pelos alvissareiros e apreensiva como se pode imaginar. assinou também o notário. . mal aqueles tios saíram de cambulhada com o tabelião..! . se não deixa o preto no branco. Ela.. quando Deus for servido de chamá-la a contas. chamou o tabelião e as testemunhas para dentro de casa. ditada em voz baixa. aqui não há bêberas! O notário improvisou a escrevaninha em cima duma arca. a esganada. em voz de ladário.Essa agora. o Calhorra chamou o João Sancho e o Reganha que não eram nada à testadora. ao passo que dizia para a turbamulta: .Raios a partam que está aqui está no inferno! Não querem lá ver que a alma do diabo foi amiga dele?? Queriam desancar a mulher.M’amigos. .

.Em quanto avaliam a sorte da mulher? . contando que recebera uma roupa nova para jurar falso. . alguns a cavalo. de Mouramorta e localidades convizinhas.Leve o quê.A guerra. Soube-se depois que. corriam para a audiência. outra escondida nas minas. Muitos a pé. que metia duas camionetas.Mais de duas dúzias. e dois paparretas sem vergonha e sem camisa. de que Deus o havia de livrar. O do Aires. O mais patusco é que o Fandinga lhe denunciava alto e bom som a obra de sapa que empreendera para fazer condenar o assassino do filho. compadre. o jamboto coveiro.respondeu o Calhorra com a segurança de presidente da junta de Paróquia que mandara afixar os editaís nas portas da igreja. Por ora não há outros ventos . A parentela de Bárbara era numerosa e aí perdia a patuleia do Fráguas o contingente mais garabulha e arrifador. a sua Polónia dinheiro para uma fornada de pão. . ainda há quem se lembre de mim. Vieram-lhe dizer que em Malhadas e povos limítrofes não se falava doutra coisa e o apodavam de azeiteiro. . Podiam contar-se pelos dedos da mão os que perduravam fiéis: Luís Ougado. e assim por diante. o Zé dos Cambais. Para abreviar a caminhada. embora menos luzido que o do Fráguas. Naquele alinhavam em suas éguas rabonas o Calhorra. informavam o senhor Antoninho Fráguas da caprichosa tineta da Ladeira. Dois dias andados. Hoje semelhante quantia não é dinheiro.O que te digo é que vai uma sangueira pelo mundo que as malvas quitam que lhes chova para crescer. hem! . . com urna gente a fugir pelas serras.disse Lázaro para o Calhorra. Coitada.Deus a leve lá por longe . e em ranchos consoante o partido e afinidades. Pois que havia de ser? Tinham da guerra a ideia atávica que se lhes infiltrara no sangue através de gerações e gerações martirizadas. acrescido com os trânsfugas do arraial contrário.Trancas corridas. era o mais numeroso. É favor que lhes faço aceitando o legado. o Sancho. a Maria Choca e a Cismas cada uma em sua jerica.Quantos eram os parentes a herdar? . transmissão e alcavalas de vária ordem não cabia a cada bico um conto e quinhentos. A Ana Ruça que se ocupe da criatura.Então o Governo chamou as praças de há dois e três anos . uma hora não era decorrida.lamuriou a Casimira Urra.Com o imposto sucessório. estrada e caminhos que levam à vila de Orcas iam coalhados de pessoas que. Andava com uma turma de homens a plantar uma bacelada e ao cabo de breve instante de surpresa proferiu sorrindo: . o Celestino da Maria Choca um relógio de plaqué. .inquiriu o Zé dos Cambais. Encolheu os ombros. . E com a voz tomada do vago e do maravilhoso que há na aventura o Fandinga exclamava: 181 .Nuns sessenta contos. os povos incendiados e a soldadesca inimiga de sabre em punho a picar a gente na barriga e na sola dos pés até se lhes prantar para ali o bagu@nh. o José Reganha um chafariz à porta.ladrão que se ia gozar dos bens que haviam de competir aos seus perdigotinhos pelo direito estabelecido. que nada lhe falte em casa.) e boa paparoca. davam à taramela. . o Carrasco. comadre? .Sabe-o Deus. de pau argolado o Fandinga e os Urras dum e doutro ramo.

. Estavam ali enterrados uns centenares de contos. ninguém ia esfossar na terra. dizia consoladamente: . Uma noite chega e cresce para ocupar uma nação.Pois não é ele o mais interessado em que a gente leve vida direita? . a pedra nova de arranque entre montes de saibro a descorar. barracas jaziam à mercê de quem vinha arrancar-lhes um braçado de cavacos para fazer fogueira. . Olhem- 182 . Uma cancela pintada de fresco cheirava ainda a zarcão. tinir de marras nos guilhos. Às duas por três. Mas à labuta infrene dos meses anteriores.Se é para matar.Também sou dessa opinião .Mesmo com alvará de franquia. ingleses e alamões haviam de levar quanta mistela cá há . como se unha rascanhasse uma ardósia. . Em alguns desaterros. Também já o rosmaninho erguia ao alto as suas pequemnas piaçabas roxas e aqui e além a umbela da esteva chamava a abelha ainda recolhida. . . e mais nada.acrescentou num lamento. ainda que elementar. alvas. Sarilhos.Não faz cá falta.apoiou Manuel Urra. as balas caldeadas com volfro matam melhor e chegam mais longe. .a . Pelas pequeninas ladeiras. acima de tudo lavrador.Assim seja. cor de marfim. à beira das trincheiras.gemeu a Rira Cismas. espraiando olhos às duas bandas da estrada e sentindo os baratais livres do codo e próxima a hora de deitar os feijões à terra.Se alguns perderam as orelhas. Não chegava para os aguços da ferramenta. . abandonadas. vozes ásperas e todo o borbulhar do formigueiro humano. Estava uma manhã clara de sol e pelos caminhos as giestas desfaziam-se em cataratas de flores amarelas.disse o Zé dos Cambais.O ano não vai mau. botam-se abaixo dos aerop)anos e toca a pôr mão forte em tudo. Na Cabeça de Alva a obra de engenharia. assim a guerra arrame lá por longe. assustadiças. estrondo de tiros. sucedera a imobilidade sepulcral. A aldeia dava ares de ter rejuvenescido.Anjo bento? . a maioria lucrou. . começavam a aparecer pelas encostas as pequenas explorações de volfrâmic. apodrentava às intempéries.trazia o bolso quente doutras empreitadas. Ouvi estar a ler que a guerra agora não se anuncia de véspera. Não se viam nuvens no céu e o Calhorra. Passou um arrepio entre eles à voz crocitada. cales da lavagem. .lhe a cada passo vestígios da recente mineração. com a água a cintilar como cutelos dos côrnoros para baixo..Ele para que é o volfro. Paredes acabadas de erguer seguravam socalcos agenciados nas vertentes. Sobressaía do mato galego. mas quem os perdera . Arrulhavam as rolas no pináculo dos pinheiros e as calhandras erguiam voo aqui e além. Por modos. À medida que desciam a lomba alpestre que mergulha para o rio. deparavam -se. .perguntou a Cismas para o Calhorra. telhados de telha novinha ensanguentavam a onda de verde. a cento e cinquenta escudos o quilograma.Fráguas & C. não vai mau. e relampejava entre as pedras a casaca furta-cores dum sardão apavorado. Sobre os desmontes esvoaçava o cartaxo.Nunca vim bem ao fundamento porque é que o Governo deitou um barbilho assim apertado a quem andava neste badanal do volÊro . A partir de Pedrões. a rabugem vegetal estendia já uma coirama verde e fugidia.Para que é? Para matar.Todo o bicho-careta se pôs a esburacar na terra comentou o Calhorra ante o panorama. encoiradas da erva primaveril. senhor compadre? .

Mudou tudo de pele! . Luís Ougado. Entre as da defesa. o que surpreendeu muita gente. Entretanto o debate com dizer. verdades como punhos. aves estranhas. Um dos Urras dizia: . com pequeno intervalo. o Fandinga encontrou-se com as tes rem unhas fixes do Antoninho Fráguas. A noite é dos amigos.. de abrir a boca e lançarem olhos assarapantados às criadinhas que vão ao talho. e a manhã está por conta própria. testemunhas. tudo no seu posto.E muita morte! . novamente indicadas. manténs que foi o Augusto que matou. O Ougado fitou-o com um olhar de través. na paz dos lençóis. de moinar pelos quiosques. Manuel Torres. no rosto uma expressão esverdinhada. magistrados. refractário à venalidade. Dispensada a leitura dos autos. não direi mais nem menos. que não disseram nada de novo.E para os distritos da Guarda e de Vila Real também há que contar. . se é que não estendia até ali seus ramos a maior e mais decidida instituição de defesa imperial que se for)ara a Inglaterra depois da Home Fleet. uma vez que o carro lhe estava empanne. Levado pelo sentimento de justiça. mais admirados ficavam.esses calços.Vou dizer que o Antoninho andou pelas portas a ensinar-vos a lição e a prometer-vos peitas. advogados. inquiriram-se as testemunhas. E tu.exclamou o Fandinga que gostava da contradição. Uma delas interpelou-o: . Que sabia ele da vida e costumes do rapaz? Sabia tudo. rijo e direito como os negrilhos da serra. à tenda. prestar-lhe de tão boa mente e com o maior desinteresse os serviços de mecânico e que no seu ânimo o facto ficou a pesar como estrondoso obséquio.E até o fez a vossernecê rico . ainda que sobrepondo-se ao empenho notório do seu corretor Antônio Fráguas. com sala tão cheia que se abafava. articulando um português infernal em despeito de habitar o país havia mais de vinte anos.Que vais tu agora dizer.já chegou à razão com o Dr. Quase às portas de Orcas passaram pela caravana. foram aligeirando a jornada. Na sua voz tartaranha. Mais ocioso que um burocrata da província apenas um fidalgo também provinciano. Torres para a compra do casal? O Calhorra punha sempre um certo pudor em assoalhar não só grandezas corno acrescentamentos e não se dignou responder. dois repórteres. meu casaca virada? .. magro como 183 . . Orcas levantava-se tqrde. Cansado de bater o Tavolado. Falto à verdade? Quanto a mim. nada mais que solicitado pela pobre mãe acabrunhada. e não lhe deu resposta. do concessionário Hincker e engenheiros.chalaceou o Fandinga. arremedilhos de verdades. A audiência abrira à hora precisa. até destrancarem portas as repartições. causou sensação o inglês mister James Corbet. de bom grado anuíra a depor em abono do Aires. e de mister Corbet.. Os serranos fartavam-se de roçar as ombreiras dos Paços do Concelho. essas encostas salbradas.. que também fora dado como testernunha de descarga.me para essas casas novas . outras vezes. O volfro deu muita vida! . Sabem quem foi que fez tudo isso? O volfro. ao padeiro. É certo o Aires. Também ele dispunha duma pequena Intelligence Service. ouvido o réu. Sabia quanto o Aires era dotado de um carácter íntegro a toda a prova. umas vezes.Se fossem para baixo de Viseu. Nele a libra esterlina não achara furo e não tinha pejo de confessá-lo. os automóveis do Dr.

quando é que um homem apaixonado . desencadeadas pelo mais divino e infernal dos sentimentos? Alguém. toda a casta de bicho-homem. afirmo e garanto que Aires não matou. o que mais lhe importaria. o seu ricto de odioso e odiando impregnado do palpite de que fora desastrado e. Franz Hincker limitou-se a abonar o bom proceder do réu. Por conseguinte destituída de valor probatório. imprevistos cuidados quanto ao objecto da sua paixão.de seguro efeito como prelúdio. a limpar o suor. Mas ainda nesse caso. Torres. começou por puxar o velho cavalo de batalha do foro criminal: a quem aproveitara a morte do José Francisco? . Eu ter andado as sete partidas.gostava que me dissesse deixa de nutrir zelos.Eu ver Aires poucas vezes. cuío nome não me ocorre. mas apreensões. não haja dúvida. amarguras. amor ao trabalho e culto do dever. . 184 .Dá-me licença que lhe dirija uma pergunta? Serei breve. indiferente a agradar ou a desagradar. Aires não podia matar. E porque me ufano de conhecer nosso semelhante. quando é que deixa de nutrir zelos e sofrer todo esse assalto de feras. senhor! A acusação não ousara instá-lo. E o efeito que esperava duma opinião prejudicial para com o réu escapou-lhe de todo. discutível. o encanto dum troveíro à arte de dizer dum contador de histórias. dir-se-ia. após uma vénia mal esboçada abandonou a audiência. quente. notou-se que caí ra a fundo um pouco desatinadamente. sem grande inédito. Dê-nos de barato que assim era. chamou a estes zelos fumo de amor. Sim.espinafre. Torres. Sentou-se. Sem embargo de ser homem provado no foro e matreiro. Ainda na sala. inteligente e discretíssimo capataz. depois de fazer a síntese das excelentes qualidades do seu constituinte. . certo da vontade de Teodora. não esqueça. já o volantim do meirinho introduzira nova testemunha. tratado com muita gente. . A sua voz era colorida. Depois o advogado acusador encetou o seu libelo. e sempre gentleman. demonstrando que não ao Aires. Aires não matou. sentia-os. Calabaz interrompendo-o a certa altura. que no dizer do Calhorra não aquentou nem arrefentou a justiça. ao verificar a reviravolta que se produzira no público. se não extinguira o sussurro. As outras testemunhas não trouxeram luz nova à causa. mas o bastante para formar juízo seguro a seu respeito. embora sem patético teatral. como é constitucional na sua raça. como bosque batido pela rajada.Faz obséquio . calcorreando com pequena diferenç a o caminho andado na instrução. a afirmação de que o réu não acalentava a menor suspeita quanto à retribuição do seu afecto foi produzida post hoc. aliando. Se Aires amava.. à parte a ressentida deposição do Fandinga e afins com uma vaga história de suborno. porque seu natural não consentir.Afirma o colega que o réu estava seguro quanto à vontade da moça. não apenas ciúmes.. senhor. em face da atitude confiada de Aires e das palavras impressivas do inglês.anuiu o Dr.proferiu o Dr. isto é. e era de presumir que por simetria psicológica no ânimo dos juízes. . a sua rectidão. receios. e o engenheiro Severo Bacelar a desenhar em pequenos e nervosos traços quem era o seu primeiro. o pescoço a sair dum colarinho de goma de inverosímil altura? declarou voltado para o juiz presidente: . conhecer homem. de que perdera a vaza. Ora não são eles que cegam as almas mais diamantinas e armam tantas vezes o braço do mais pacífico? De resto.

se for rapariga.Nada mais certo..? E desatou a soluçar em tão forte e atribulado choro que Florinda se comoveu.Sei muito bem quem matou o Zé Francisco.. como espadas que a trespassassem.. . que não era.. e também há outras pessoas que o sabem.Assim tem empenho em o saber. também te digo. do que pagarem os filhos pelos pais e os justos pelos pecadores. e não se lhe tira coisa com coisa. mas aí. ai Jesus. Mas.Dize lá.Então quem foi? . Teodora. . tenho vergonha de o dizer. pionunciou: 185 . o Augusto está inocente. Mas eu hei-de ser madrinha do teu filho e tu por um lado e eu por outro o acautelaremos das horas más...Teodora . . que ele há-de ser um amor como tu. e Florinda tornou. eu sou infeliz... Sempre te quero dizer uma coisa.Então.. se mo levarem. Um dia caiu-lhe o raio em casa. .. mas.Pois bem hajas tu .Pelo meu filho darei o sangue dos braços. hirta e de caradura feroz. puxando-a com brandura pelo braço e afagando-a: ...Nã o lho digo. Se mo levarem. ninguém como nós duas para se entender. Em Riodades empeceu assim uma família inteira.respondeu-lhe a outra enternecida. agora que se desquitou do seu querer. só um monstro. Certas palavras esvoaçavam mais altas: . cruzar os braços e deixar que a justiça julgue às cegas quando podia ser guiada..Jesus.Quero fazer-lhe um enxoval muito bonito.Neste momento rompeu da teia um burburinho anormal. até o coração me estala? Teodora continuava a arquejar cada vez mais violentamente e a desfazer-se em lágrimas. . Que era. sir-n. o homem ficou debaixo duma casticeira ao cortarem-na para fazer traves. .Deixem passar. No bom pano urna nódoa cai e nem por isso o pano fica inutilizado.Se foi o homem que pagou por se ter calado. E cravando olhos duros nos olhos de Florínda. A ti. Que dizes.. parece tolinha. Eu sei como foi. ondeava o auditório. . é para o castigo ser maior! Nós não andamos a pagar por conta dos nossos primeiros pais? . se for rapaz há-de chamar-se Augusto. comete um pecado que não tem perdão aos olhos de Deus. bem está! Mas que culpa tinham as outras pessoas da família? . ouve.Para mim o mundo acabou. . . jurar falso é grande crime. gentes? Deixem passar! Naquela mesma manhã do julgamento. o meu homem.Teodora..observou Florinda.. fica-te o sorriso do menino para te consolar. voltavam-se todas as cabeças..? Olhe.murmurou ela. Mais bem desventurada sou eu. podem condenar um inocente e é uma quebração de alma. Eu sei quem matou.. se há gente que sabe e se cala. .Ouve. Teodora entrou em casa de Florinda com olhos roxos a tanto chorar e falou-lhe assim: .. menina. eu nunca mais serei mulher se me levarem o Augusto. pergunte-o ao Volfro! Ela. o ramalhar das vozes foi crescendo como sacudido por desarvorada comoção. não lhe ia nada por diante. Tu és infeliz. se o meu filho havia de padecer por minha culpa. nem os meninos nem o vivo. Vieram-me dizer que a Bárbara esteve há pouco com este aranzel para a tia Ana Ruça: . outro dia. . morro de que se saiba! Teodora ergueu-se com brusquidão..

zás. Chorava. A priori podemos ajuizar que a anunciada revelação não passa dum drop. tanto quanto se pode considerar feita com almas rudes que se entrincheiram na negativa e daí não saem nem à mão de Cristo.Franca. depois que a viu resoluta quanto a alijar o horror daquele segredo.Se os patronos das partes não vêem inconveniente. . ah. Fazia-se-lhe uma pergunta. tão grande que nem tem perdão. Vou-me arranjar.Ó mulher.Estão ali duas mulheres que dizem ter uma revelação importante a fazer.. Consta dos autos.perguntou o juiz descendo o sobrolho. um drop fondant de suspiros românticos e lágrimas à 186 . O senhor juiz mostrou-se perplexo. desgraçada. com ela albardada sem manta nem xairel.. muito depressa. para que não resplandecesse a sua vergonha confessa. chegou a casa cobrir o xaile.. cego. a aduzir um pressuposto facto à sensation. como é condenar um inocente. Conhecemos o truque. pupilas em alvo. em dispensá-la. Com um olhar consultou os colegas e logo inferiu pela expressão de suas físionomias que não viam inconveniente em que se ouvissem as criaturas... soluços. quando podes atalhar!? Deus castiga sem pau nem pedra! Castiga-te no teu filho.Quem são as mulheres? ..Uma delas já foi inquirida e dispensada pelos senhores advogados: é a Teodora. as lágrimas embargavam-lhe a voz. já. O colega não deixaria de notar essa circunstância. E arquejando.. que era a Verdade encarnada.? Acenou afirmativamente e. Voltando do estonteamento Teodora disse-lhe: .a querer falar.Apareceu agora esta Madalena desdobrada . declinou ao ouvido de Teodora as temíveis palavras reveladoras. calçar os sapatos. senão está tudo perdido. Com outro olhar sondou os advogados. pois tu sabes a verdade e não a dizes. Angelino como eu. ah. Essa Teodora produziu à altura devida o testemunho que muito bem lhe pareceu.Os guardas não sabem manter a ordem.. para que a amiga a não visse. Tu vais-te arranjar depressa. qual. Manuel Torres acenou afirmativamente. É singular que apenas neste instante que a prova está feita. apenas neste instante nos venha com o archote aceso. A outra não figura no processo.. não veio inconveniente. que sai aleijadinho.logo me dirão se a mulher que a acompanha não envolve um desdobramento . ? O aterrador levantou o cartel: . .. e o colega decerto está ao corrente. mas acudiu-lhe que valia mais formular o quesito segundo a norma: . no mais opressivo desgarre. pediu a burra à Casimira e. ou o pior dos malvados! Não vês os tristes espelhos pelo mundo. Concordámos..? Que há? bracejava da tribuna o senhor juiz presidente. mas também não vejo vantagem. Esteve um instante imóvel. francamente. abalaram as duas para a vila. A partir de certo momento deixou de dizer coisa com coisa. .. Tu és capaz de deixar cometer um crime tão grande. não vês.. Mas já. E tapou logo o rosto às mãos ambas. gesto esquivo. Veio o oficial de diligências direito à mesa e proferiu em tom que se fingia reservado mas soava com nitidez suficiente para ser ouvido nas primeiras filas: . O Dr.. Havia uma dúvida a esclarecer. com medo de que o próprio vento ouvisse...?! Florinda arregalou os olhos espavorida.Tens de ir dizê-lo ao tribunal. ah.. tanto o Dr. .

187 . talentoso quanto novel advogado. Aqui o sal amargo.Mande entrar as mulheres. repito. inspirava imediata simpatia. pelas arrrecadas pomposas e cordão de muitas voltas. Também não o julgo picadeiro. ocupado em deliberar à puridade com os colegas.a. pertence-lhe a palavra? O senhor Dr.Sabemos quem foi o assassino.Mariana Cruz com manhas gentis de Frineia.Que têm a declarar? Depois duns segundos de turbação Teodora respondeu com voz corajosa e bem timbrada: . melhor.emitiu a defesa. vá ganhá-las algures. Por tudo isto. em face dos processos pouco generosos do seu opositor. de barriga à boca. . Atrás dela. cabelo almofadado em tranças para a nuca à antiga moda campesina. Calabaz aludiu a truques que todos nós conhecemos e que. Abriram-se alas e Teodora apareceu no seu traje meio senhoril.Realmente a cena parece de Hollywood . não vejo vantagem. de acordo com S. O juiz mirou-as com aparente frieza e no silêncio leve e súbito que enchera a sala. Dá-me licença. Quem aspira a tilintar esporas de oiro. como são os senhores magistrados. protesto indignadamente contra a insídia com que veio o senhor advogado da acusação. com pessoas de gostos sãos e objectivas. que se dignou anteceder-me. portanto. senhor juiz? . Penso assim e porque penso assim e estou pronto aqui e em toda a parte a responder pelas minhas opiniões. Requeiro por conseguinte que sejam ouvidas as mulheres. Em nenhuma parte tenho menos medo de tais produtos do que à barra. Torres. Para mim o pretório não é um teatro.Temos filme americano .retorquiu-lhe com sorriso sarcástico o Dr. Nunca venho para aqui representar. matou um leão nos matagais da Nave. chambre de seda cor de azeitona. de ser instada. a vida faz-se aqui. nem desvantagem para o processo em que se ouçam as proponentes. Eu. e as palanganas da garganta. Angelino. olhos baixos. para que não subsistam mais dúvidas de que o meu constituinte matou o José Francisco tanto como S. se continuasse a ocupar este lugar. não tem aplicação. Traz a cabeça do criminoso na bandeja? Pois se traz. Teodora pede para voltar à barra e eu não sei para quê. sem embargo do agreste e obsessivo. no seu lugar. o juiz ordenou para o oficial de diligências: . passo irresoluto e todavia certos ademanes de cascaroleta. dispensou Teodora. Repilo a insinuação e o contubérnio. lá cozinha-se às vezes ou quase sempre com mau tempero. Mas adiante: é exacto que o Dr. Ex. na guerra ou no sport. denotando pelo vestir. . proferiu: .a. Ex.a os pratica. puxando os punhos de goma. ar contrafeito mas animoso . Ora essa. Acusar ou ainda defender para levantar o pleno pareceme contrário à mais elementar moral judiciária e sem dúvida alguma ao tópico a que obedece o foro: justiçar. Se S. a lavradeira de posses. Mas bem.E.uma flor das serras que. como não. xaile de seda e saia de merino. que me dizem batedor de montes. Muito menos roleta. amochava~se Florinda. eu não os pratico. comummente praticaríamos. Talvez que.chasqueou o advogado de acusação. Ex. ter-me-ia arrependido. e o meu parecer é contrário. Estava mesmo a adivinhar! . Após brevíssimo aparte. não tivesse rebuço de confessar-se arrependido de haver cedido a um movimento precipitado de compaixão.

Pretendera ainda? desenhar um gesto de protestação.. Sempre disse que este estupor do Ougado havia de acabar mal.e Teodora apontava para o Luís Ougado.Excomungada sejas? Tu.Não fui eu. só tu. a lançar-se sobre ele de varapau. pelo olhar vago. Todos os olhos incidiram sobre o arguido e nada mais que àquele simples conspecto não houve porventura ninguém que não ficasse convicto da sua culpabilidade. Mas já que dizem que fui eu.Não tem nada a opor? Só então o Ougado se ergueu do assento. ergueu-se a increpá-la: . Na noite de S. decorria a lastimável peripécia. mas fora tão rápido que levara menos tempo do que se gasta a dizer. O desgraçado fizera-se branco como a morte. não fosse a cachopa. é que causaste a minha desgraça! Mas o oficial de diligências agarrou a rapariga por um braço e levou~a à presença dos juízes. de ar sonso e cabisbaixa ao pé de si. o que procuraram realizar durante a suspensão. Na teia. a dizer num pobre esgar: . Trouxeram-lhe um copo de água. . O verdadeiro matador entregou-se. entrecortada de pausas e suspiros. tratei de cumprir o meu dever. como se o desgostasse o rumo que tomava a audiência. Houve que fazer evacuar a sala. Célere e fugaz corno enguia foi o advogado aterrador cumprimentar o Aires: . mas logo no começo da trajectória o braço lhe caiu flácido. Era preciso vingar o assassinado. de imprecações. Aires? 188 . Notaram também os juizes como o homem se tornara farrapo e em seu foro íntimo confluíram ao parecer geral.. de que havia lembrança naquele tribunal afeito às audiências plácidas e sonolentas.tornou o )Uiz em rom rosnado. O presidente interpelou-o: . O Luís Ougado caía de borco a soluçar. perdido na fila das testemunhas. Estão com a lágrima no olho.Pois sim. sentindo-se que o seu regalo seria meter-se pelo chão abaixo.Felícito-o sincerarnente. cambaleante. de juras.?! Também tu. o gajo mandava-te ver a Costa de África. compadre Zé dos Cambais? Também tu.É aquele homem? . senhor juiz. Demais. entretanto. não fui. pelo esmorecimento fisico geral. contou o seu pobre romance. O José Francisco a sair a porta e o Ougado. Postada à janela vira tudo. Aquilo. Brás tê-lo-ia andado a espiar.. Os advogados observavam-na com silenciosa curiosidade. era já o náufrago que não tenta sequer resistir contra a onda. Augusto. Por isso não o quis mais comigo.. O público desatara na mais estrepitosa cachoeira de vozes. pois sim. Os juizes reconheceram que o incidente só podia ficar encerrado imprimindo-se ao processo o seu verdadeiro rumo. lívido. melhor eu não podia desejar. O senhor juiz incitou-a a dizer a verdade e ela em voz tartamuda. Viva o amigo! À sua retaguarda Silvestre Calhorra abanava a cabeça: . Reparando em Florinda. descosendo-se da sombra. O José Francisco era o seu amigo e o Luís Ougado. hão-de prová-lo. Eu nada tinha de animosidade pessoal contra si. atinara a descobri-lo.Se sabem quem foi o assassino. O mais era a história da sua vergonha. Tanto valeu tanger a campainha da ordem como chamar pelo miraculoso padre Santo António. digam-no? . o Ougado sabia que o outro costumava vir ter com ela a casa quando tudo estava sossegado. que tivera o casamento emprazado corri ela.

eu digo. pedir asilo a segundos. lhe pregara a partida de ir de lágrima no olho. Mas dessas vezes. senhor Antoninho. outro pé na rua. Tinha-a já agarrada pelo pulso e. Foi pelos quintais e. E de braço alçado ante secundar o golpe. o carro a estacar à porta. a criada de dentro. seladas portas e janelas com os sete chumbos do lazareto.Pois sim. Era como se estivesse diante da casa dum pestífero. amortecendo com sete vozes a um tempo o desagulsado da surpresa. junho tórrido e pães lampos. Quem se cria capaz de empunhar a seitoira. o íntimo inundado de febril regozijo... presidente da junta de Freguesia. 1 gemeu com voz entrecortada.. queixosa do seu desamor e vesânias.Pscht.Só Teodora estava ao lado grave e serena. cravava-lhe as unhas na massa da carne. ao largar pela porta das traseiras. tronco projectado ainda na flexão da fuga. não se avistava vivalma. A moça.Que me quer? . o Antoninho Fráguas encontrou a casa fechada. As donas que poderiam ter ficado de portas adentro não seria cómodo desviá-las da caçoila em que grugulejavam as papas para os segadores.. uma lágrima envergonhada.. Um vivo sobressalto. rompera com desabalada sanha a faina das ceifas. desse lado. Aquelas palavras era eloquentes o que basta para certificarem-no de que alguma coisa muito séria se tinha passado. ao passo que a fazia retroceder para dentro da cardanha. No fervedoiro da ira. Silvestre Caffiorra. a Maria Alonsa fitou-o com ar espavorido. mas solte-me o braço. Espraiando olhos pelos caminhos e as quintãs. largara para a folha.Onde está a senhora?. E por 189 . . Promessa assim reticente valeu-lhe logo um cachação despedido à laia de amostra. eu digo. o que buscava era eximir-se a ser o desopilatório. mal entreviu um lenço vermelho a esvoaçar....Ouves ou não ouves. cabeça à retaguarda. Por muito que batesse com mão rija e frenética. juro-lho pelas cinco chagas de Cristo. e a criadagem a precipitar-se ao seu encontro humildosa e alvissareira. sabendo que lhe era precisa uma cabeça-de-turco nas suas raivas de fera para não morrer sufocado. tendo baque de que devia ser ela.. Conhecedora do seu gênio impetuoso e feroz. ó coisinha.. acudiu-lhe que a Maria Alonsa.. eu digo tudo.Eu digo. exclamou: . acompanhado destas cóleras que lhe faziam retrincar os dentes e toldavam o lume da razão. obrigada a tendas de campanha e vedetas da Rádio e do Cinema. Subiu a escada tão de afogadilho que à moça minguou o tempo para calçar as tairocas. gemendo: . Dize. tinha a casa da mãj ali perto. não olhes para mim apalermada. já por duas vezes Solange.... a porta conservou-se como a janua c(eli para o mau ladrão. O Antoninho. rosnava: .? Onde está a senhora? . e botou-se lá dum salto. desamparando o lar. Para onde se tinha metido agora toda essa estúpida cambada? Era obra de meia manhã e. correu-lhe no encalço: . se empossou dele. o prédio ofereceu-lhe a mesma impenetrável e insólita clausura. De volta durna pescaria às trutas no alto Paiva. velho de sete fôlegos virou-se para a banda a limpar às costas da manápula também a lágrima. mas largue-me! Há-de-me largar primeiro. A rapariga arquejava e não respondia. e. espera que já vais! Ante o seu rompante a criada suspendeu-se com um pé no limiar.Dize depressa! Dize lá e largo-te.

não dizes. o que equivalia à rendição e a uma censura. disse bamboleando a cabeça: .Levou quinze anos a querer persuadir-me que era uma pobre e santa rapariga e que eu não passava ao pé dela dum gabiru de marca maior. quando se )ulgou a coberto da investida do tigre assanhado... Ferrando-a pela garganta.. mas deixei correr.. vai! Apareceu o Minga que lha safou das mãos. é que alargou a golilha e lhe repetiu com a voz pausada e segura de quem sabe ter a vítima à mercê: . Como uma cadela batida. Mais longe. seguido dum terceiro que a repôs na vertical.. Não havia que ver. teimosa e convulsionando-se. Solange rinha fugido com o Dr. testade-ferro e alcaiote... mas eu seja cega se me fizer abrir a boca? regougou ela.Despacha-te! Dize lá. reconstituiu o rúrbido romance. Sabia. com desfrute de permeio. E escumava: . Ao Espadagana.antecipação logo ele lhe aplicou um segundo trompaço. só depois de mantê-la sufocada por um tempo. certos gestos que pareciam insignificativos e vozes absurdas que lembravam bexigas de porco à dependura... Pudera: Faze-te niorto.. agora assobie-lhe às botas! O Fráguas ergueu os olhos e na retina baça e parada do Minga. Um instante apenas quedou interdito. Então ela rompeu em altos gritos: . o Minga segurou-o. também lhe chegou a vez! Foi-lhe bem feita! Ia a arremeter.. mas que estivesse aberta.Vai dizê-lo. que enristava para ele um focinho de condolência e curiosidade. A distância.e as manápulas do Fráguas erguiam-se e baixavam-se no dorso da rapariga com um ritmo cada vez mais acelerado e violento. E silvava: . Mais. Deu-lhe um murro mais forte. o vago e cínico luaceiro. já. associando mil coisas. anda? Vai dizer que fui eu o primeiro que subi à laranjeira. Guilherme Calabaz. . dúlcar-te-á o tourf). meu estuporinho.? Mate-me. de lhe ver os olhos extravasarem das órbitas e ela a debater-se debalde. como não fosse perseguida. mas meu pai e meus irmãos hão-de saber ainda hoje quem foi que me desonrou e é meu amigo! Que tal disseste! Os dois braços do Fráguas desataram a malhar alternativamente como um jogo de dois manguais. a rnoceta retrauteou: . seu procurador. Pronto.Bateu-me. a aldeia tinha-se esvaziado para as searas. que a vergou para a direita. a Maria Alonsa largou pela quelha fora. Ela fitou-o em silêncio e abanando a cabeça. as comissuras dos lábios arrepanhadas num esgar de dor e decisão.Não digo e não digo! . a ver se alguém te acredita? Vai. proferiu em voz atrida.repetia ela..Ai. confidente e amigo íntimo. sem poder mascarar suficienremente a fúria homicida que lhe estuava no sangue. Pega!.? Queres festa? Então pega!. Uma das mãos dele não fez mais que deslocar-se.Quem me acode? Quem me acode! Quem lhe havia de acudir? O Fráguas atirara a porta contra a fecheleira. Passo a passo das repetidas e bruscas lucilações do entendimento. mate-me. que sempre lhe brincava nos lábios grossos. leu a insofismável e porca verdade. atirou a pedra: .Seu malandro? julga que é só armar os outros coronéis! Foi-lhe bem feita. fora ludibriado da maneira mais imprevista e desbragada.? . . A 190 . sob o engulho das lágrimas: . a chorar. pequenas e grandes ninharias.Há muito que sabia que a senhora era amiga do Calabaz.Não.

Toda a indumentária rica e preciosa de Solange tinha desaparecido. como se a palavra do Mi nga lhe chegasse só então aos ouvidos. que era costume estarem fechadas a sete chaves. Apenas junto das suas pantalonas de smoking.. Lá estava a sua secretária de corrediça. de olhos no chão e silencioso. . matizada de 191 . e a cada passo o surpreendiam agradavelmente as irisações 'fátuas dos vernizes arpejados pela luz.E agora. brilhava pela ausência a inala de coiro da Riássia. não dava fé que faltasse algum dos bons objectos de sumptuária. com aquela carinha de Senhora da Piedade.. aquela bata de organdi amarelo. e as duas grandes jarras chinesas inade in Gerniany. que valia um par de contos. onde madame estudava horas e horas o sinalinho do rosto e os cabelos encanudados em mola de sofá. Ao subir a escada. última moda: grandes superfícies planas. espelhos Sr. tanto mais de apetecer que com o refervor da canícula a attnosfera se tornava irrespirável e a pele da gente ficava negra corno se a chamuscasse um incêndio. Por enquanto. mal constou que o senhor Antoninho chegara de fora e a sua bílis negra revulsada.esta altura não tem mérito algum di . Lá estava o aparelho da Rádio com o seu supedâneo de Mogno. Aubin a granel. Também ela tresti-ialliara a fugir-lhe aos destemperos do primeiro febrão. trazidos na sua jubilação de ricaço. ó Minga. que nos hotéis incutia um sagrado respeito aos groo?iis e embaçava os pelintras. Tinha alfaiado a casa com mobília em contraplacado. as gavetas dos toucadores. E não acreditei por várias razões e mais uma: no fundo são todas as mesmas. Na alcova conjugal. linhas rectas.zê-lo. e transformarem-se em catadupa sonora ou arroiozinho melódico. os naples de carneira verde a pedir charutos e negociatas.. grandes como talhas das azeitonas e vistosas como coristas de uma revista de ano. Era uma vez a raposa argentée. Não avistou também o “necessário” em pele de crocodilo.. no quarto das arrumações. Ah.Pois eu . é que pronunciou: . envolveu-os o ar fresco e hospitaleiro da casa em trevas. em que uma vez por outra lhe era grato ver o ft)rmiguQiro das notas marinhar processionalmente como lagartas da couve até o esófago musical da máquina. o cofre à prova de fogo. sim. A questão toda é caçá-los! O Minga introduziu na fechadura a cliave que a criada de cozinha viera entregar. o bolero de arminho. Aberta a porta. Os escrínios com as jóias. custoso e Majestático que nem o armário norte-americano dum dentista. o vestido de lhama a “estilo” para bailes e teatradas. Lá estava a pianola. Tenho que me desagravar. O Antoninho foi de sila em sala. lentamente. penduradas de cós para baixo e pernas para cima. cederam ao leve empuxão. com as diferentes peças todas de cristal e prata.Tu no meu lugar que fazias-? Sê franco. quem havia de futurar que tinha perna para tal coice? . o Fráguas. que é deles? Mais de cem contos que se iam à viola? Com mão já enfadada escancarou as grandes portas duplas do guarda-fato. revestidas de vidraça Nseautà. quase um palco.volveu o Fráguas detendo-se no patamar antes de mais nada o que faço é rebentar o canastro aos dois. Antonio? Seguiam rua fora. ou falando com os seus botões. mala de viagem tão catita de pregueados e fivelas corno o peito dum general em dia de parada. Mas dize-me lá. par a par. nariz ao alto a coscuvilhar. O outro limitou-se a torcer a belceira num gesto de perplexidade. rraste rico e solene. mas a verdade é que nunca acreditei.

era uma concreta pouca-vergonha. o que sobremaneira lhe doia era que Solange. era clara como a luz do sol. a grande zoina. 23-41. oh! um tudo-nada de melancolia. pior que uma impigem. pelos vistos. em linho subtil ou sedas duma brandura de teia de aranha. pindérica e lamentosa. já chocalhavam para os lados da copa as risadas de matraca do Espadagana. pelém por dentro e por fora. Entretanto a casa animava-se. pôde Fráguas levantar o corpo de delito. apertando a fronte às mãos ambas. verificando rodas e a ignição. disse mal da sua sorte. comparável à que se evola na espiral de fumo dum cigarro. Vasculhando na consciência. ela atrás. o moço da garagem. escorria mole. Quando tal ouviram. Só não veio a Maria Alonsa. Um momento se esqueceu e esperou ouvir a chinelinha arrastada de Solange. debandaram cada um para seu lado. Mas não tinham culpa: aqueles amorios haviam-lhes passado tão alheios como se fosse na China. ninguém estranhou que se fechasse com a senhora durante mais de duas horas. Tão-pouco a quebra de hábitos que vinham de longe. fora arvorada em confidente. outra boca. ele adiante. Só passante um grande migalho é que a Maria Alonsa. tinha dado grandes esteiradas para se ir abaixo com mais uma. outros beijos e abraços. Entretanto que ficava sozinho. Do mesmo modo não deitaram grande malícia quando viram os dois sair a porta. quanto a ele. já tranquilizada de ânimo. Como eram de grande intimidade as suas relações na casa. a criadagem voltava ao redil. lhe preferisse um outro. à 192 . dos tempos difíceis. o abegão. Nem ainda aquele descambar subitâneo da imperial com o desfalque que o sucesso podia trazer ao seu pecúlio. para lá da crise hidrófoba. Sendo mais novo. queimado na soledade do sol-pôr. encobrideira e correio de notícias. Viragem da fortuna? Puf. Qual. e abalarem no H. e os dixe-medixes que andavam no ar como o zumbido das moscas. completando o óleo. sentiu certa melancolia. Calabaz chegara na véspera pouco depois do meio-dia. a paqueta. aquele pelém.azul. lhe era subalterno. A Maria Alonsa é que. de turbante pela cabeça e saquinho. Ouvindo a uns e outros os informes voluntários ou arrancados a saca-trapo. restavam-lhe dúvidas de que aquilo poderia ser sonho. figurava de mais idoso. E. que deixava filtrar a tíbia de cabra de Solange. despojadas do recheio voluptuoso das roupas de baixo. como revoada de pardais que sentem o gavião. Estava explicado o susto com que a moça o vira aproximar e as suas ânsias. estava longe de competir com a sua lábia. havia uma coisa que ele tinha a favor. Não eram as excrescências da minotaurização o que mais o incomodava. Veio a cozinheira. pois que desmpenhara tal papel. só se tinham perdido as que caíram no chão! Fráguas despediu o pessoal e encarregou o Minga de aprontar o carro. deixou-se abismar no maple e um instante prostrado. Para se tentar duma mulher em tais condiçõ es. Sendo bacharel.J. Em face das cómodas. um sonho mau?? Não. Ah. Conclusão: eram todas as mesmas! A cozinheira chamou para o almoço. sopesando a mala de viagem com a direita e o “necessário” de pele de crocodilo com a esquerda. estava explicada. Tudo ia nisto: ser trocado por outro. na qualidade de esposo. rotundamente a favor: a variedade. Aqui estava o artigo em que. Que tinha a mais o Calabaz? Havia de virar-se três vezes de dentro para fora e de fora para dentro até poder concorrer com ele em ralé. Quanto a ela. embora essa sobrepujasse as outras de muito. Outra forma. veio anunciar que a senhora partira de vez com o Calabaz e já trazia o processo do divórcio a correr.

Marzoelos a tratar-se duma doença vergonhosa . uns olhos invulgares em que. um cabrito assado. pois que não era discreto falar de corda em casa de enforcado.São menos medidas que saem da patarrega. Margarida que o obrigou a largar o que ela chama “uma parvalheira donde se não tira honra nem proveito. mas sim jogo de monte. coisas e loisas que contendiam com tudo menos com mulherio. picado pelo Tadeu que à última hora lhe dera para o cobiçar. murcha... praticadas à margem do inevitável processo de divórcio? Sabia quanto era fecundo em tricas e audacioso nos meios. é que o salto à dama não fora jogo de amor. sem peito. um ombro para cima. Mas saíra salgado ao cambaio. consoante a luz. refinadíssimo calabrês!! A cozinheira caprichou em servir-lhe um almocinho delicado. como acautelá-los das manobras do rãbula. . mas só enfados”. Quanto aos grossos capitais depositados em Banco e investidos em empresas várias. Se não matam o Zé Francisco. . ah! ah? Até o Fráguas desatou a rir. Juan viera ao faro da bagalhoça. uma mancheia de notas por dois chaparrais e uma regada que não rendia quatro carros de centeio. este Dr. mas que para o labrego do Calhorra era como pérolas a porcos! Um homem de peso que deixa a serra! .mal debicou num ou noutro prato. já ninguém lhe tirava do papo o dinheirão das jóias. D.desprovida de todo o sex-appeal. interessante com o pátio e as árvores antigas. Ouvi dizer que o Torres se foi embora com a lágrima no olho. . para ao cabo da gargalhada pronunciar sorumbático: 193 . e ainda tinha modo de entremear a santa trincadeira com histórias da vida. só bonitos olhos. o rendimento das terras e as raparigas da terra são para as gozarem os que cá estão.Se ele não dá os améris ao Aires.meio lombo de porco.. O Silvestre Calhorra sempre ficara com o casal de Malhadas do Dr. e o Antoninho arregaçando os lábios num jeito pessimista pronunciou como em remate do solilóquio interior: . Pois então?! A raciocinar assim. O Minga comia por si e por dois iguais a ele. De resto.disse o Fráguas com um sorriso de desdém. o Aires não se pegava de rixa com o Zé Francisco. e paguem. Cem. cento e noventa e cinco contos. mas só os ares.Por modos foi a D. tens de culpar D. com uma filha casada e um filho homem tanganhão de tal calibre que estava àquela data hospitalizado na casa de saúde do Dr.beira dos quarenta anos. As terras.concluiu o Minga em voz de réquiem. cotados pelo estalão normal. a quem acontece às vezes os amargos de boca fazerem perder o apetite. não falando na casa. venham. cento e vinte. outro para baixo. Torres tem muita culpa no que me aconteceu.Calabaz?? Calabrês.Essa agora! . Sim. Afonso Henriques que conquistou estas terras aos moiros e permitiu que pegassem aqui as estacas donde saíste tu e tua mulher. esvoaçavam asas de colibris ou se viam peixinhos chineses bater com as barbatanas de oiro a água morta dum lago. duas molejas de vitela não requer? am para ele outra companhia além de seis “meninas” do Dão . Manuel Torres. @ Havia de se ter ido embora há mais tempo? . Querem vir tomar ares. Tinham lavrado a escritura no dia de trás em Tendais.. Contra os seus créditos de primeiro garfo do concelho . pernil caprídeo. o Calabaz não era aqui visto nem achado. destes que se fazem com temperos genuínos e o sinal-da-cruz para os amachucados da mofina.

194 . com o bando das titis. 23-41 tinha sido visto à porta duma garagem e um chauffeur de praça. até quantos botões tenho em cada colete. Pensou ainda em telegrafar ao genro. incapaz de dar um passo sem se aconselhar com o senhor Bispo. carregado de escapulários. Não tinha segredos para ele. sim.onde é que os vais desentocar? . .Dás licença que te diga? A mulher e o vidro sempre estão em perigo. Sebastioa. homem. irmã zeladora do S. Aí tens.Ora essa. ? Deixá-lo? Vou-me à cata deles até os desentocar. Era ao entardecer. mas era um encharcado de perfumes.. .Qual sossega uns dias!? É para já.Mas esta foi bestial.Portugal não é grande. seja em que idade for. mais outros dois de conferência para acolá a propósito de negócios pendentes ou em curso. Solange e do Dr. informou-o que se cruzara com ele para lá de Sabugosa.. descobriu o retrato da esposa na cantoneira e. Vens tu comigo? Lastrou os bolsos e. aquela criatura está avelhada. no justo receio de que a paixão lhe fizesse perder o sentido da direcçã o e atirasse com o carro por uma ribanceira. Peripaterizando de cá para lá. que sob os pontos de vista da dignidade não pedia conselhos a sua honra. tem de experimentar os esporões do galo? E lá fora. Depois. Em Tendais já era tudo cheio com a fuga de D. é o que calha@” O Antoninho riu por entre dentes. Estou roubado? Agora só a tiro! E o pior dos remédios? O Antoninho levantou-se. na vizinhança. Mas consulta que não consulta dum advogado. dizes tu. Rompeu estrada fora.J. depois de o contemplar com um interesse que não conhecia há muitos anos. A notícia ainda não alastrara. beatas de óculos e albuminúricas. Manuel. quantas vezes te ouvi: “Galinha que entre cá no poleiro. Guilherme Calabaz e informaram-no que haviam tomado a direcção de Viseu.. . será como me der na gana: britá-los ou limitar-me a verificar o adultério.porque fora ele. e Fráguas achou-se à vontade para pulsar a lei quanto às perspectivas principais que decorriam daquela emergência. grande amador de fotografia. mais dois dedos de palestra para aqui. à beira dos quarenta anos uma mulher não é nenhuma flor do rrevo. Deixava-Ia para aí ao abandono como uma canastra velha.. vê tu.J. à socapa virou-o de costas. o visconde papalino. E o pior dos remédios. uma mártir S. Ele aproveitou.A estas horas.C. para onde quer que se virasse. à última hora dar em droga! ah? ah? . e desistiu. Mas que fosse. e à atitude que mais convinha adoptar sob o ponto de vista dos interesses.. que regressava de Tondela.Homem. com o Minga ao volante. para a sancadilha. Na cidade o H. E volveu ao responsório: . Mas no corpo da mulher. estou roubado! O ladrão sabe tudo. . encontrava as tuas fúfias.e restituiu-o à posição primitiva. Queixa-te da tua má cabeça. olha com que menino. À velocidade que parecia levar meteria a Santa Comba antes do lusco-fusco.. em casa. Têm-no de índole. Mas logo por desgraça lhe caíram os olhos na assinatura de Calabaz .. mas desta feita o seu sorriso era amarelo. não é tanto assim.. em poucos minutos.Mas. metia a toda a mecha para Tendais. para não dar o espectáculo da dor do cotovelo. que o tirara . hei-de dar com eles? .. há sempre seiva para as borbulhas da leviandade. nas famílias das relações. o tempo foi passando e acharam-se a horas & jantar abancados a um bife de vitela no botequim. que se tenham ido acolher às profundas do inferno.Sossega uns dias. Manuel? Senhora tão compostinha.

segundo o voto do Antoninho. Ainda me caso outra vez. É noiva do engenheiro Bacelar. não há duas opiniões. deambulava 195 . entre os vinte e os vinte e cinco anos.Vão ficar reduzidos. vou eu. que não fosse bronca de todo e de boa família.Isso é papa fina. Para que servem os milhafres de milhafres que tens na gaveta?? .a descia então. toda. 23-41. Foram matar o tempo. Corno não era -a primeira vez que o patife do Calabaz e ela viajavam sozinhos e com o meu consentimento. Caramba. nas horas de grande ternura.V. Teriam ali estanciado os pombinhos? O Fráguas desceu e entrou no hall do Grande Hotel. . por traumarismo..Mal empregada? Para quem estava boa era para o ego. e a que produziam os líquidos capítosos que ia engorgitando aqui e além. podendo eu “constatar” o adultério..Há muito disso.E então.. pegava11-ic.Saber se não pernoitou a noite passada neste hotel e.Dísse-me o advogado que. fica-te muito moni. . .E tu mais cem escudos suplementares pela diligência. O busílis é a prova.Disso és tu capaz. tanto mais que eu teria abandonado o lar culposamente. o Mínga ao volante.Que meta.J. lançaram-se pela estrada de Lisboa a urna velocidade de bólide. Naquele dia.. . recorreu à gazua infalível: . Espadagana dum raio!? Sempre que o tratava por Espadagana ou cunhado. . sigo em frente até dar com eles. o Antoninho estava sob a acção das duas ebriedades: a que vinha.Bem. Mas vamos lá. que patriotismo? Que pele de maracotão no pescoço e no lábio superior? E que encontros. Dentro de meia hora tem a resposta.. Ex.. . Antes das dez estavam no Luso. do pontapé que pouco faltou para lhe romper o espinhaço. a pontos que ainda rendia graças ao Criador e ao rna)andro do Calabaz ter-me levado Solange! Quem ma dava toda era a Paula Hincker. mas folia da fina.Esteja V. se as coisas correrem a favor. limitome a mandar verificar o adultério e acabou-se. Vê lá tu os alçapões da vida? O que eu precisava era caçá-los com a boca na botija. de pândega corri as actrizecas de Lisboa. . .e meteu-lhe à cara uma nota de cem escudos. .? . Perante a desatenção dum dos chasseurs. ou quando o Demo lhe soprava ralé. . a sossegado. .O corpo está-me a pedir folia. Estás a compreender que tens de ser discreto. o facto não constitui prova cabal.. .. O ladrão do Calabaz não deixa de meter a unha. Saía gente das inúmeras pensões e hotéis ou entrava. trazia grao na asa. Meteram gasolina e. Cunhado.Não tenhas dúvida. Acompanhas-me? .Para te compensar do tempo que perdes e para as despesas do telefone aqui está. Agora para o meu paladar só frarigas. o divórcio seria pronunciado a meu favor. meu velho.Já sabes: para onde fores tu.Então. Ex. no Buçaco um casal que chegou das bandas de Santa Comba no carro H.Se apanhasse uma rapariga séria e apetitosa. Espadagana.. Em crise. É tu quereres. . Que o meu quinhão lhe sirva de rosalgar. .? . em caso de negativa.Sabes tu quem ma dava toda. num ponto já eu assentei-. . divagando pelos logradoiros públicos das termas. Esta vida são dois sopros.

Mas. Entre duas fumaças. tudo integralmente soberbo. uma boa-serás. E o estribilho subia-lhe aos lábios como num realejo: Vê lá tu. Ouviste? O Fráguas tinha medo de ficar sozinho corri os seus cuidados e. Era a sazão das festas da cidade e custou-lhes. Não havia lugares vagos no restaurante. talvez tivesse cortado para a Curia. ainda e sempre fora de si. Chegaram a Coimbra um pouco antes do meio-dia. .pelos caminhos a tomar o fresco. trocando impressóes sobre as trabuzanas que o Diabo tece. hem?? O Fráguas só acordou na meia manhã. na outra a pistola. Fráguas.. a voz confidente da barriga cheia. surgiu uma garrafa de Moêt et Chandon e Hincker ficou penhorado com a bizarria. Espadagana. como em dado momento palpasse numa das algibeiras as dezenas de contos com que se munira. comprimindo-se ele e o Minga para unia ponta. podia. os devotos de Wagner. 196 .Pois telefona para a Curia. mas já ele se precipitava a oferecer os serviços. E. olha. aerodinâmico do último estilo. um automóvel rico.a estar absolutamente certo e garantido. tendo recebido resposta negativa da Curia. Desceram Hincker e Paulinha. em rimeira fila o elemento alemão. Ia para os cinemas.J. um corpo sinfónico de sumidades. não obstante a companhia do Manuel Minga. corno é tarde. Carlos. estavam no admirável jubiléu da papança. encontravam-se os dois compadres de cigarro aceso. Agora. Ex. marchava aos cotovelões deste e daquele. Animais com aqueles dentes renunciam a tudo menos a comer. E.. balouçava-se nos terraços em cadeiras de verga. teleforia para toda a parte. e Fráguas ofereceu a sua mesa. Bom almoço e cavaco ameno. À sobremesa. Nunca se sentira tão isolado no mundo. digno da nação organizadora por excelência. satisfeita consigo e com a vida ou assim o dava a entender.J. de Norte a Sul. apanhar uma mesa devoluta.. fosse este intencional obra de Deus ou do Diabo. sem exigências mentais. reluzente de cromados. 2341. Que temia? Em nenhuma garagern do Luso nem do Buçaco fora recolhido o H. O Minga piscou o olho ao amigo. reconfortou-se. com enviar ao país neutro uma embaixada de arte de primeira: cantores de renome universal. Tal representação fora trombeteada aos quatro ventos como um acontecimento excepcional. embora em guerra. a meia voz. A Alemanha caprichava em realçar o seu carácter de mantenedora da cultura. dar assim um chuto na vergonha. telefonava-se para a Curia. Rua fora. parou em frente. recusando-se no fundo a aceitar o labéu que acabava de esparrinhar sobre a sua pessoa. depois da meia-noite. uma não quebra-utn-prato. Aceitaram. Ele próprio percorreu as garagens todas da Baixa que conhecia de cor e salteado. para quem nada de nada neste mundo deixava de ter a sua ponrinha de intencional. Dois quartos ou preferivelmente um quarto com duas camas. namoriscava.. Afinal. cenários e indumentária do maior requinte. manda-nos preparar dois quartos. S. o que lhes fez atrasar a viagem. Hincker com a filha iam a Lisboa assistir à representação de Tristão e Isolda que essa mesma noite a Staatsoper Berfin e a Berfiner Philldrmonches Orchester davam em S. cabeça na travesseira. Se o desejasse. cais como os peregrinos de Bayreuth. e o Fráguas experimentou a mais alterosa das invejas. caminhavam para a capital. 23-41. Depois do julgamento em Orcas ficara de candeías às avessas com James Corbet e realizara com Hincker transacções de certo tomo. Ninguém lhe soube dar razão do automóvel H.

Falaram de conhecidos e de pessoas sabidas. contou o “sarilho” corri a mulher. Tudo o mais é Idade Média. Havia lugar para os dois sem sacrifício de nenhuma espécie. a todo o longo. o que não espantou nada o estrangeiro.. O senhor é novo. o automóvel de Hincker teve uma derrapagem monstra. amassado 197 . O rio. ofereceu o seu carro. semieixo partido.imaginando que ia relatar um grande drama. do Calhorra. por cima. Em baixo. que por vezes crepitam contra as paredes da barquinha como o granizo nas vidraças. Fráguas apenas fixou períodos salteados e sem verdadeira conexão: “. a City é como a Alfama em noite de S. onde os transatlânticos não são maiores que brinquedos de menino.Hoje esses métodos já se não usam. declarou: . choque da roda contra a guarda de pedra da berma. Ouvi lá para a sua aldeia um provérbio que diz: Mordedura de cao cura-se com o pêlo do mesmo cão. verde aqui. deliberadamente. Depois. está picado de estrelas. . São as balas da defesa antiaérea. negra ali. ganhando ousio. Depois a fumareda ou a velocidade varrem do horizonte a zona dos cais. As ruas parecem delgados cordéis. em que o aviador descrevia o bombardeamento da capital do Reino Unido. que o Antoninho tinha pelo símbolo duma Grã-Bretanha desmesurada. e nós temos a impressão que estendendo um pouco o braço lhes poderíamos tocar. Hincker sorriu: . O espaço é vergastado. São dois fantásticos ramalhetes de fogo. ensanguentada além. Graal. Quando falou em desagravar-se.Não é para a capital que se dirige. depois. E Franz Hincker puxou duma carta. senhor Fráguas? Hesitou o volframista na resposta. e nelas os vãos rectangulares dos portais sobressaem desenhados a negro. Por toda a parte se erguem incendios e lumaréus. Victoria e East India sobrenadam no gigantesco mar de chamas. é para a capital. requeria vagar. de princípio muito hirto e solene no seu posto de senhor que ofereceu hospitalidade. Não houve danos pessoais. dado que em Coimbra se pudesse encontrar a peça sobresselente. Hincker à frente. É o conselho que lhe dou sem mo ter pedido. Romperam. Trate de aplicar a rece Ira. O Minga continuou ao volante. como uma valquíria. & Severo Bacelar. O céu. mas o conserto.Sim. deixando apenas o espaço que basta para não aspirar os gases do escape. de dia e de noite. Era como o descrigelhar dum odre quando lhe deitam vinho. praças e ruas. do inglês Corbet. Carlos. do Tadeu. as praças gânglios absurdos. iriam de caravana por ali abaixo. Não puderam recusar. o Fráguas logo após. lembra uma estrada. torcendo-se à retaguarda. a engasgar-se nas talas de goma dos colarinhos altos. catrapus. O Antoninho Fráguas coçou a barba regalado ao golpe de ar fresco que varria sua alma conturbada. As docas Royal Albert. à minha direita vão pelos ares dois gasómetros. De nada servem as nossas granadas iluminantes.. Tinham sido prazenteira companhia ao almoço. ao lado dele o Fráguas. nas acrobacias mais consentâneas com a posição. para quem estas coisas se passavam no mais trivial e benigno dos mundos. de centenas de metros de altura. senhor Fráguas. que teimara em ir alistar-se na Luftwaffe e lá andava num Heinkel III. invocando o contratempo que seria perderem a récita em S. está a tempo de refazer a vida. Fráguas. Para lá de Condeixa. pelos lados. João. novo paladino do S. De olhos em Paulinha. a estudar-lhe o jogo fisionómico. e tudo se ilumina à volta.

o dilúvio.Terrível e épico! . Ficava só paraíso.proferiu Hincker dobrando a carta com solenidade e metendo-a na carteira. como dizia o compadre. e vogamos num oceano irreal. estava ele nos cinquenta. Paulinha não dera sinal de emoção alguma. Por causa daquele. Na marcha rápida do carro. fazia estas considerações amenas e outras decorrentes. no meio-dia. daquela vitelinha loira. moscada. depoís o opróbrio. Meio tombado sobre a ilharga de modo a ouvir Hincker e a divisar Paula. não era diferença que lhe metesse medo.Beethoven . E de facto. São os fachos dos holofotes. mas. e sempre hoje. ho)e. Que música era aquela? . . pretensiosa e sem consequências. . Àquela hora a ReichsRundfunk. cinco. na melhor da probabilidades. embalado pelos acordes divinos.por verdadeiros batedores de luz de todas as cores. Gozar o festim da carne tenra. sem favor. Tinha quarenta e três anos. Deus escrevia direito por linhas tortas. O demónio de tal longitude que viesse! Paulinha ia nos dezoito anos: quando chegasse aos vinte e cinco. e o mundo continuava a rolar como dantes. inundava o mundo de melodia. de olhos sempre em Paulinha.Sonata a Kreutzer. Quando botasse aos trinta. o mundo perecível e detestando desapareceu. Quem o governava. dois anos. A Fráguas a mensagem do herói pareceu tola. Milhares de milhares de gajos análogos a atirar bombas ou ideias. Cruz Quebrada. Abriu o comutador da Rádio sobre Berlim. Bah.disse Paulinha.. Ainda era homem. 198 . teria cinquenta e cinco.murmurou Fráguas. a morte macaca..Terrível? . que importância tinha à face da eternidade?. corpos e almas. do Piauí. Estava.. um ano que fosse. era o dinheiro. como dizia um augusto sibarita. cabelos grisalhos.. nunca mais se levantariam os padeiros à meianoite.. A sua absoluta vontade era ainda a realidade apreciável. com ossatura de ferro e músculos de jaguar. Hurra pelo ladrão que o inventou. Que importava de resto e dia de amanhã?? A vida era hoje. 1943. mesmo debaixo das bombas das Fortalezas Voadoras.” .