Aquilino Ribeiro Volfrâmio

CIRCULO DE LEITORES Capa e Frontispício: ex-libris de Aquilino Ribeiro, desenho de Abel Manta Capa de: Antunes 1983, Livraria Bertrand, S.A.R.L., Lisboa Número de edição: 1531 Tiragem desta edição: 55 000 exemplares. Depósito legal número: 3100183

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PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO Logrou este livro certo favor do público, para lá do sufrágio a que me habituou o meu contingente de leitores fiéis, e não é difícil determinar porquê. Nele pressentiram uns a aventura empolgante à Jack London e bisbilhotaram outros uma crónica da actualidade, com retratos ao vivo de permeio e os inevitáveis episódios de rapacidade e fereza. Não se iludiram de todo, salvo que as carapuças de Mister Corbet ou Herr Hincker, para não falar dos lusitaníssimos Fráguas ou Calhorra, não acertam de modo algum nas cabeças deste ou daquele que se aureolaram na gambérria do volfrâmio. Não foi propósito nosso fazer dissecação pessoal, nem de resto o processo é compatível com a arte literária, quando exercida com largueza. Pintar almas é diferente de lançar a máscara de tal ou talfabiano à tela mercê da ciência das cores. O romancista vai de indivíduo em indivíduo, como a abelha quando jorrageia o pólen, e a um pede o físico, a outro a índole, a este uma anedota, àquele um pormenor característico, e assim amassa por aglutinação os seus figurantes, Feita a dosagem com inteligência e obtido um bom ajustamento, ninguém dirá que não foram copiados do natural e que não “falam” . E o orgulho do criador estará em dar a ilusão de que são cópias exactas do mundo de carne e osso. Já chamaram à nossa época, pelo muito que o fenómeno vincou o meio, época do volfrâmio. Quero crer que haja exagero de expoente. Entre nós, tal furunculose, com o dramático que comporta, deve antes representar uma das manifestações eruptivas da crise social que o mundo atravessa. Volfrâmio aqui, petróleo além, borracha acolá, há que integrá-los no substrato complexo e temeroso que engendrou a guerra. O volfrâmio foi para as populações do Norte, deserdadas de Deus, o que o mana foi para os Israelitas através do deserto faraónico. Imagine-se o que seriam os impulsos da horda esfaimada ante o alimento providencial, no afogo do de jejum. O irmão engalfinhar-se-ia com o irmão, o mais forte encheria duas vezes o saco, enquanto o mais débil choraria lágrimas de sangue, dado que não ficasse britado pelos pés dos digladiadores. Levaria melhor, se não o mais violento, o mais astucioso e o que tivesse olho rápido e pé leve. Os capitães, esses, acabariam advertidamente por maquiar a Zacarias e deixar correr protérvia e iniquidade. E não é ponto de fé que Moisés não comesse as mais gordas codornizes, que eram o prato do domingo, o arroz com vaca e chouriço do convento, e não atafulhasse a boca sequiosa às mãos fartas de tal mamadeira. Assim se passou mutatis mutandis com o oiro preto que imprevistamente brotou das terrinhas salaras do Norte, mais loja que húmus, mais serra que plaino, infelizes até a data. Não consta, com efeito, que as funções da vida animal tenham sofrido variante depois que o mundo é mundo. Volfrâmio e mana significam um ponto crítico na viragem do destino. Para que banda fica agora a Terra da Promissão? O século XIX e o primeiro quartel do século XX foram de desabalada e incessante sementeira. Semeou-se a torto e a direito, no alqueive e na fraga, no maninho e na própria terra atrolhada. Quem não té o grão germinar em dor e transe? As fibrilhas do centeio nascente com o seu ar de estiletes ensanguentados dizem-nos que é sempre assim. A dúvida mortificadora é que a seara seja

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antes de joio que de frumento Panificável. É temerário fazer prognósticos sobre o futuro. A meteorologia social desafia os olhos de lince dos oráculos, que espreitam por detrás dos mármores de Delfos escavacados à bomba de Liberator. Mas descansem as almas sedentas da amorfa neutralidade: estes temas febris perpassam no entrecho do livro e não constituem de modo algum o seu protoplasma. O protoplasma é a ambição humana, o evadir-se à miséria, à estreiteza natural, aos diabos negros da existência. Como terão azo de ver, o desempenho da fábula está a cargo de gente brava, sólida de rins e de músculos, em matéria de consciência pouco preocupados da vida eterna, difundidos por um friso fora como faria Steinlen ou Leal da Câmara. Todavia, sendo assim na forma, procurei que por debaixo desta armadura elementar pulsassem almas em suas secretas e supremas volições. Esta será a quota de humano, três vezes humano, como requeria o filósofo, com que pagam seu tributo à racionalidade. O público, de resto, interessa-se pouco por este particular. O que o interessa acima de tudo, já que a torrente vertiginosa da vida moderna não permite mais que uma visão instantânea e superficial, é o guinhol, os processos de combate, os leitos, o cinemático em suma. O romancista que se preza dá esse pábulo ao monstro e procura penetrar a fenomenologia das coisas. Convenho em que o ético esteja para lá das fronteiras do seu domínio. Escola de piedade e de ensinamentos morais busque-se na obra de Camilo e outros que rastejam de longe o colosso. Aí, sim, encontra-se mais lição que nas parábolas todas dos Evangelhos. Os princípios científicos em que se esteia a arte literária baniram da banca do escritor, mormente hoje que utiliza pena de aço ou typewriter, o patético, o epopaico, esse colorau doce da eloquência - à qual, já o exigia um poeta dos bons velhos tempos, il fallait tordre le cou - a deformação simpática à Júlio Dinis. A condição sine qua non é modelar em carne viva e na estufa fria. Em obediência a estes preceitos, claro está que as minhas personagens foram gizadas pelo padrão comum e seus orbes não excrescem do espaço das três dimensões. No entanto, ninguém tem mais horror a fórmulas do que eu. A fórmulas, cânones de escola e tiranias da moda. Fórmulas em arte equivalem a muletas e eu não só não uso bengala como entre dois caminhos escolho sempre o menos trilhado e aquele por onde menos andei. Em matéria de iteração, chegou-me o padre-nosso quando menino. Não ignoro que a galeria antropológica portuguesa é diminuta. Desse mal se queixava Camilo. O que vale, e valeu ao grande mestre, é que os homens, mesmo dentro duma família tão pequena como a nossa e em casa igualmente acanhada, parecem-se tanto uns com os outros como um mar com outro mar. Dois requisitos me movem quando escrevo: observância do real e originalidade. Esta, mais que a seiva dum verdadeiro temperamento de escritor, é o logos donde dimana espírito, graça; estilo próprio, simpatia humana, entendimento das coisas. O obséquio ao real não é mais do que um seu apaniguado. De olhos fitos tanto quanto posso nestas duas estrelas, presumo acautelar a modesta personalidade que me coube por dom do Espírito Santo, como queria uma minha tia velha, lida em Frei Heitor Pinto. Porque na nossa santa terrinha não há candeia que nos guie e encaminhe. Viceja para aí, salvo prodigiosas anomalias, uma crítica meio didáctica, meio apologética, geratriz de tocadores de marimba. Com o seu tom untuoso de

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deixa a porta aberta a toda a sorte de malinas. Inofensivo no fundo. abismado para sempre lamais nos mares nunca dantes navegados. Raspem com a unha o gentleman sentado à mesa verde de plenipotenciário e encontram a fera. continua o mesmo desde Homero: mais longe. esvaem-se as escolas. já houve tempos em que para esta bicheza seráfica eu não passava dum escritor regionalista. não se preocupe tanto com o formal . e a bola de água de sabão evolou-se no céu dos pardais. O humano. figura e mais categoremas do pensamento historiado que é o romance. Outro rabo leva-me a pensaram ultimamente.pregação. pode cair no inferno. gostava que me dissessem o que pode ser a minha prosa descarnada do documento humano. Chiado e Freixo de Espada à Cinta. faculdades que não abundam num povo que considera a Nau Catrineta como os Nibelungen e a saudade como bolhas de ar. De quando em vez. numa palavra conformando aquilo que tem por condão ser inconformável: o génio literário. o Manel o do especulo. a face do rio. Preciso sem ser precioso. O luminar que procriou tal asserto deixou de soprar ao canudinho. respirar fundo para se ser português de lei. a Rua dos Clérigos no Porto e a Rua das Fangas em Braga. Volfrâmio veste como Andam Faunos pelos Bosques. a sanitária. e o que demudou é o aparente. desidratada desde que lhe faltou a bua francesa. ouvem-se destes regougos. tempus. Permita-se-me a imagem. Repararam que os príncipes dos povos de hoje falam e lançam o guante como nos seus arraiais troianos os Aquiles e Agamémnon? Compreende-se: movem ao homem os mesmos egoísmos e instintos ancestrais. veio ou bolsada nodual do romance. o guarda-fato de Madame de Genfis. o que se modificou não foi o mundo da especulação. amordace os sentidos. Nascem as escolas. afrontosos do bom senso e até da alma cristã. trajadas por aquelas ciências do homem e do belo. e é caso de perguntar a gente se se deve mandar lapada. fora das quais seria mito puro o locus. como a falta da outra. porquanto implica uma carência lastimável de higiene mental. Bem sei que há coordenadas em literatura. a moda. Em literatura. pelas savanas pobres da intelectualidade nacional. e que é preciso. Como não sei fazer outra coisa que não seja novela. o de prosador. nascida sob este signo. secando toda a originalidade. toda a tendência pessoalista. se esperar que o tempo cure a Pulmoeira. Para as belas-letras. dum passado glorioso. só quedando imunes ao contágio os mimosos do entendimento e da imaginação criadora. o arranjo constitui o transitório. Que fazer? A esterilização contra tais bactérias é um problema bicudo. nada mais truculento e azabumbador que o balar da carneirada de Panúrgio. que a constrange e obriga aos costumados Jarricocos. excluindo-me por contrapartida da grei dos romancistas. foi. Mas produzir dentro delas não pode contender com os dotes originais do escritor.vai cortando as remiges aos francelhos que pretendem librar-se acima dos horizontes conhecidos. Apenas quando as balizas actuais do mundo moral caírem. desde os Vedas. com a prosa a cheirar a burel e à orelheira dos famigerados cerdos de Lamego. então sim. à tona dos séculos. a literatura despojar-se-á da túnica de Nesso. o recamo que à floresta emprestam as estações e não as árvores da floresta. Até lá confeccionemos 4 . O pior do pior é que sela possível toda esta Proliferação asiática da estupidez. como se houvesse região nesta fita de terra e tudo não fosse a mesma parvalheira. sucedâneo do: para aí não que é pecado. não a água do rio.

no género da conquista das especiarias e da corrida aos diamantes nos igarapés de Minas. se não são eternos. Pretendi descrever. os estímulos sociais. a sede de felicidade. Monstruosidades. do tempo e da fortuna. a Beira. Meta-se num corbillon. nem se arroga de modo algum. O volframista é uma falena de pouca dura. como não? uma grande e efémera aventura. Fráguas e Calhorra calçarem coturno a carácter. culto da individualidade. o papel de elucubração à Karl Marx. sem roubar o próximo nem termos a preocupação doentia duma geometria tão abstracta como essa da projecção no universo do produto literário. Os padrões humanos. e tudo o que possa vir na ressaca da maré viva. a cobiça. fantasia própria. gozam doutra longevidade. à maneira do novo-rico da primeira grande guerra. Nestes tópicos está configurado o Volfrâmio. dessas que de séculos a séculos avassalam os povos. com humildosa exacção. como épigrafava o frade. quanto às classes. que agora vê nova estampa e não é tratado de economia. Fevereiro de 1944 AQUILINO RIBEIRO 5 . como apoucava Anatole France. Longe de mim supor que venham a constituir tipos definitivos. e terão esta anedota romanceada. Dar-me-ei por feliz se os meus Hincker.romances e novelas o menos estafadores possível.

Manuel Torres. acontecia-lhe. Rejeitar a oblata. do comandante do Regimento. tão montesinha ou tão pouco que debalde a procuravam no mapa os parasitas de errática cordialidade . é um difícil problema de vontade. não apostou?. retraía-se. E a manhosa bilha de leite que a hospitalidade provincial troca opiparamente contra a bilha do azeite. a sombra de Custódia.O Dr. enxofrados cacarejos e chinfrineira de asas. e não se julgava no direito de eximir-se. não havia dúvida que era ela. que o trinco à força de devassado não consentia senão aberta. um laparoto caçado nos ferros “para o jantarinho do senhor doutor”. pois lhe dera essa manhã para desensurrar a lã. esta irresistível tirania dos indivíduos inferiores. Manuel Torres. personalidades preponderantes que seria indecoroso não conhecer. contra tão sinuosa e ao mesmo tempo inconsútil tirania. o que nem sempre conseguia. Assim. não ter já previamente ganho à requesta de cada um. não está em casa para ninguém. advogado em Lisboa e professor de Ciências Sociais. e berrou-lhe em tom de enxota-cães: . é a quarta vez desde que me sentei que me vem amolar. Pela talisga da porta. uma dúzia de ovos. E ele próprio se surpreendeu a dar um urro: . Sombra que escorregava indecisa e vaga. tornava a avançar.. no decorrer da manhã. deposta com tão obsequiosa mão de veludo.Apostou que me não havia de deixar sossegado. e Manuel Torres conjecturou que tinha ali das tais visitas que se fazem acompanhar propiciatoriamente de dois galispos. ouviu.. por cada um dos quais lhe fora recomendando momentos depois de se ver livre deles: Agora veja lá: desta hora em diante não estou em casa para ninguém. a velha tivera artes de lhe impor nada menos de três postulantes. além de que trescalava ao fartum da carneirada. lá estava ela já à sua espalda.? Saia-me da vista! No patamar soaram cacarejos. a par das vicieiras da terra.. nem por isso se achava mais imunizado que qualquer outro. 6 ... deita-se ao pescoço o baraço da escravidão. que à porta esperavam ensejo de lhe meter o cacete. contorcendo-se em arremedilhos e partes gagas. aperceber-se que uma das suas funções por excelência consistia em esportular-se. a partir daí propunha-se resistir às choradeiras com igual coragem.aldeia que lhe fora berço. a gozo de férias em Malhadas da Serra . estando na aldeia. o que se chama para ninguém. pelos reveses do seu próximo. a cabeçorra de medusa avançava. Mas o que se chama para ninguém. sobretudo. que lhe fosse o antípoda na candura. com tal manejo traindo a sua agitada hesitação.Sim.É outra vez você... meu senhor. mulher. e têm sempre um requerimento a apresentar. na cal da parede. desde que seja limpo de consciência. Dado que se não saiba resistir. Em obediência a esta regra. Fazendo-o heroicamente até a linha que demarcava o limite da generosidade. Qual. daquelas que responsabilizam o cidadão. !? Ouviu bem? . batendo à porta do senhor juiz.. A boa da mulher aborrecia-o com os desvelos excessivos e as reiteradas intercessões duma simpleza permeável a todas as lástimas. não havendo outro remédio senão percorrer a via ominosa do peditório. Às vezes tratava-se de necessidades elementares. autêntica avançada dos estafadores. do secretário de Finanças. Apre.de novo distinguiu defronte.

recreados pela figura airosa da mocinha com quem jogara as escondidas.Estou uma velha.. e retraiu-se. o rapaz de alpargatas e com andaina nova. infecção. a cardenha de telha-vã.Quem traz vossemecê aí? Mas já ela se retirava. anos e trabalhos desgastam como as mós das azenhas. ela de tamancas de Viseu e xailinho pelos ombros. . acabava por condoer-se. Era sexta-feira. Depois de atravessarem a saleta com acanhamento e o mais aéreos possível.Credo. e encalacrados da vida muitos. ganhava quanto dinheiro apetecia? E Manuel Torres. acabando de se voltar de todo para eles na cadeira giratória. meu homem? . mande lá entrar .E mais a quem vem! . alguns. falecera de tétano aos dez dias de internado a uivar pela mulherzinha da sua alma. Golpe num pé. Santa Casa.Ainda não tinha tido o gosto de te ver. que era resoluto e empreendedor. Ao senhor doutor é que eu acho rijo e fero. eu mando. . O homem. resmungando: .. vindo para Malhadas. se era um senhor doutor de leis. Meteu cara à má sorte. Por isso mesmo. se não é que fazia simulacro de retirar-se. de pequeno. embarcara para o Rio.Benza Deus tudo quanto cá há? . festa de Nossa Senhora de Agosto. Mal pegou do gadanho na Sapucaia. Podia tornar a casar-se que a cobiçavam muitos por mulher limpa de costumes e provada no governo da casa.Era sempre assim. Casada na altura em que ele concluía o Direito em Coimbra. e mãe e filho apresentavam-se endomingados segundo a etiqueta do dia santo.. e disse. a compor uma minuta. qualquer remoque ser-lhe-ia insuportável.Mande lá entrar. Credo? Eu mando as criaturas embora.e a ele próprio a voz toou noutra gama. As suas teias eram afamadas em vila e termo. ponderando quanto havia de lógico e até de humano na atitude da velha criada.A Maria Aires e o rapaz. Estás boa? E tu. dignos de amparo. onde mourejava uma colónia de patrícios. tornou a perguntar. se pobres. Coitada da criatura. mariolas de alto bordo.. desta feita apenas com mau humor: . onde bracejavam meia dúzia de videiras de cordão e um mostajeiro. meu senhor! Que lhe havemos de fazer. pois que tinha direito quando menos a amenidades.. adquiriu um tear e fez-se tecedeira. 7 . De salto perpassou no seu espírito uma série de ridentes panoramas. com duas belgas de cada folha para dez pousadas em ano grado. meio repeso. embrenhado a ler. era como um bombeiro com obrigação a qualquer altura de acudir às misérias dos labregos. foi-se abaixo.. andara com ele ao colo e. Maria.. não fora feliz. por isso mesmo contemporizando. com um quintalório. na flor da vida. . embrandecida pelo sopro que a animava. uma vez plantados no caixilho da porta saudaram à serrana: . deixando-a com um menino nos braços. Alguma tinhosa o viu hoje? . O dianho não tinha nenhuma espécie de respeito pela sua pessoa.tornou ele peremptório. ó mulher. estivesse a dormir a sesta. Como não. quem traz vossemecê aí? . tinha amigos por uma pá velha.respondeu consoante o estilo. Partia do princípio que. Que só lhe querem meia palavra. peca para mais do sentido de proporções.... como se tivessem a peito não acordar o chão.Mas. não poucos. Esta ficava.

um pouco acanhado à sua ilharga. outras voltam. tanto aquelas que são um brinquinho de sala corno as que atoladas na terra mais se aproximam da natureza . depois de empapoilar-se desde as tranças às ligas. medindo-a de alto a fundo em sua estatura de quarentona. Lisboa e Porto estão à cunha. só da pobreza. quer ouvir porquê? Porque há gente a mais.Pobreza. como as filhas da Olinda. como a pedir- 8 . Assim mesmo.Sim. Lá vão cirandando por aqui. caprichou em desmenti-la. Maior dor de alma ainda são aquelas que vão acabar no hospital. baldeadas pelo negro fado. Só quem ali vivesse de longa data. é obra da pobreza. mantiveram-se límpidas e inocentes como em criança quando na alba da Primavera patinhavam corgo abaixo. deplorando apenas que assim fosse. Pouca diferença fazemos dos animais. ficava frívola e chocha como as mariposas. por ali. nem rijo nem fero? Chegara de facto bem disposto. um tanto surpresa pelo tom rabujo do doutor. bonita racha de vinte anos. lá no íntimo a cogitar o que havia de responder..Embora persuadido que ela estaria a pensar em tudo menos na sua preciosa carcaça. meu senhor. olhou reflexivamente para o filho.É certo. A Serra. é certo. pelas casas fidalgas... Era humaníssimo. Mas perdoe que lhe diga: muito do que causa engulhos a quem tem hábitos de fidalguia.Então não largam pelo mundo.. Assestadas para as suas. este tom em que lateja a mais promissora boa vontade. o nosso povo nasce e morre atascado em sujidade. podia passar a salvo de tal foco de malinas. pior que pocilga! Quando é que os moradores.. Tudo isso que para ele era um elemento capital da personalidade jazia para ela sepulto e esvaído no tempo. A Maria Aires permanecera silenciosa. pela dura trabuzana da existência. E foi em acento quase humilde que adiantou os seus reparos: . e nas feições de trigueira. O povinho cresce à desmedida. ?! Ora essa? . está a dar o cadilho. soterrado. zás. . pelo Alentejo. e não é fácil que possa ser de outra maneira. ? . se a terra estava uma nojeira. Gostava que visse o inçadoiro que vai por essas aldeias! . e umas lá se arrumam. começando por capacitar-se que eram brancos. de tal jeito que quando se quer fazer uma novena aparece miudagem para uma procissão. haviam de perder o desgraçado costume de curtirem os estrumes nos caminhos e fazer deles vazadoiro universal? Criava-se-lhe ali moscaria para envenenar a Península Ibérica. Foi praga que nos rogaram. Em tom cordial.Que vos traz por cá? Ela sorriu-se. Não assim as saias. se Deus não acode. harmoniosas ainda que roçadas pela lida. perguntou-lhes: . largam pelo mundo? O Brasil fechou-se. Mas as pupilas dela não tinham nada a dizer. corgo acima. a Serra está no osso. Não. imunizado por autovacinação. esburgadinha até mais não poder. lá ganham o par de sapatos e a meia sainha com que uns anos por outros vêm embasbacar os palonsos.todas as mulheres eram o mesmo no que respeita a este tópico. Transcorreu uma pausa durante a qual. tão desempenada como a língua. Como não. atrás da morte do homem.Qual. à cata das flores da Páscoa com que ela. mas logo ao segundo dia. como o meu senhor. O que se encontra à farta por essas famílias é fome e lêndeas. Quem tem calças mexe-se como Deus é servido. ela não se lembrava já de tão importantíssimas bugiarias.. E conformou-se. os seus olhos encontraram-se. cada uma com o seu neno. que a mulher . cama com a macacoa.tivesse por condão esse indefectível renovamento em prejuízo do passado. Qual.

Àquele. dize-me cá. bem sua.A leira andava de relvão. incapaz de justificar-se. nem eu rico..Derrotou duas ou três caneiras e eu prontifiquei-me a pagar o dano. olhos em terra. Que tiraste de lá? A mãe dispunha-se a responder.Procedeste mal. Augusto. Com ele nunca se sabe ao certo de que banda sopram os ventos.Pois sim. mas pode V.lhe desculpa de o trazer para pião das nicas. Olha com que anjinho! . muito menos o Calhorra que impa de farto . Ex. Não me roubou quase metade dum giestal com uma porca mascambilha de marcos.Ora se sabe . já ele lá tinha andado a esfossar.Então. um bicho a que só faltava falar. .Pois será. .. que é sábado. Maria. . alguém acredita nas juras dele? Por 9 .a estar certo que nem o Calhorra ficou pobre. Se lá lhe cheirasse ainda volfrâmio. . O Calhorra é que não está pelos ajustes e teima em dar parte. deu-me uma chumbada num cão. e para que lhe havia de dar o diabo? Ir esgaravatar numa leira que o Silvestre Calhorra tem ao Vale das Donas.respondeu a mãe. Quem tem filhos tem peguilhos.. Ex. minha santa! Esse Calhorra é um tipo como não há segundo do Vouga para cima. haja de perdoar que também é pai. tu não sabias que não se pode entrar sem licença na propriedade alheia? Não sabias? Pois tinhas obrigação de saber que já não és criança nenhuma. rapaz! Muito mal.Que falasse ao Calhorra. mas para lhe falar franco. . Este mafarrico não podia escapar ao andaço. Mas o entendimento deste homem gira sobre rubis que são um segredo para toda a gente.. Eu tenho muito bem a dizer dele. mas tu não tinhas o direito de lhe bulir na terra arrelvada.Será apenas a meter medo. Porque mude de opinião ou não tenha vontade firme. e torcendo-se para a outra banda. mal me apanhou longe daqui? Pior do que isso. não era ele que dormia uma noite inteira na cama enquanto não alimpasse até a última pitada. . Por modos tem tudo preparado para amanhã. sim. meu senhor. não sei se valem.Mas. cinco réis furados. dia de feira em Orcas. declarou: Saiba V. E que esperavam vocês de mim. porque o foi apanhar de manhãzinha a comer-lhe o coelho que caíra nas armadilhas? Bem sei que se fartou de jurar e trejurar que fizera fogo supondo tratar-se duma raposa. disse Manuel Torres: . mas ele. dize lá? .Pode ser que tenhas malucado mal.E então? . denotando todavia estar em consciência a revolver o raio da morte das suas razões.Coisas aqui do meu Augusto. dirigindo-se ora a um ora a outro. lembras-te. deu-lhe o Demo arte. ? E deu estrago? . A leira era tua. quando foi da outra guerra. dando um passo à frente com desengano e atravessando-se diante dela. do Verdegaio. maluquei para comigo e para com Deus que se ele não atender ao senhor doutor. não atenderia ao pai. .Anda por aí tudo frenético com o volfro. . Tirei de lá meia dúzia de pedras. ir fazer queixa. para o mal. o delito é o mesmo. mesmo que cá viesse do outro mundo e lhe pedisse de joelhos e mãos postas. é possível que não. Veja! O rapaz mostrou-se de todo cómico ao lado da mãe.Não sei.a que a propriedade é aberta. pôs-se a arranhar o recado: .Valham que não valham. tão frenético que os cobiçosos até mordem as lajas com os dentes. mas os estragos que causou não deitam ninguém a perder. Em tempos.. rapaz. .. e também motivos de sobejo para o detestar. se não valem. Mas como era preciso fazer desde logo justiça. O meu senhor sabe.

coitanaxo . lá teve a birra. botavam-se um ao outro. Ele ficara embezerrado. e.. .” .” E ela foi contando: . Havias de ser tu a contar ao senhor doutor. ora.“Ora. boquiaberto. porventura.Ah! ah! .Brutos acabados. a Maria Aires fazia-o tão juvenil e possessivamente como se nela se operasse desdobramento.Qual mexe-te. continuando embezerrado. que castigou a ambos. Mexe-te” Conta lá agora o resto. complicado ou parecendo-o.. e se não entra o comandante. verdadeiro. Prosseguiu a mãe: .Esses sargentos às vezes dá-lhes para brutos! E não foi preciso dizer mais nada para a mulher sair com a versão refervida nos soalheiros. pois não era.Sim? Augusto encolheu os ombros. Manuel Torres sentiu-o.decidiu-se ele a contrapor. para que está a falar? . Augusto? Mas bem. Homem. Ele. estendeu o pé e disselhe: “ó cabo. Chegou mesmo a deitar as divisas de cabo.. O capitão gostava muito dele. Tal papel. Quero dar-te essa honra. . nem meio mexe-te.É verdade..Então o Augusto parece que lhe respondeu: “.. rapou dum estadulho e fê-los meter na igreja de rabo entre as pernas.O Augusto compreendeu onde pretendia chegar a malícia do salafrário e lá retrucou: . meu senhor. . As ordens só eram bem cumpridas quando era este senhor o encarregado de cumpri-las.apressou-se a mãe a dizer. Augusto. Agora dize-me cá.“0 meu sargento vem errado: essa honra vá dá-Ia a outrem que o filho de meu pai nunca teve nem cobiçou tal oficio!” . Assim que apanhou baixa. se quiser. moita carrasco. não porque ela não pisasse o terreno firme. meu senhor? Imagine que o alma de cão do tal sargento um dia chegou-se ao pé dele na tarimba. Mas teve uma birra com o primeiro sargento por mor do capitão que gostava muito dele. e aborreceu-se da tropa. Mas fica entendido.Como pode imaginar. engraxa-me aqui as botas. A mãe não percebe. meu senhor. engraxe-as você. “ Mas conta tu. decerto por não haverem há pouco tomado a sério o seu protesto. mas porque. que o amesquinhava. pelo que pronunciou também como se ele não fosse presente e com ar de quem dita sentença favorável: 10 .. ala.Não senhora. um dia viu-me acometido por uma roga de sicários a soldo dos talassas de Tendais. dou-ta a ti e é um pau.outra. agora dava sinais bem manifestos de contrariado. Era bom homem.acudiu ela. Augusto: julguei que seguias a militança? . e Torres olhava para ela em silêncio e com o mesmo prazer com que ano por ano se vê reflorir uma pereira. Augusto. Sempre que lhe acontecia falar no rapaz. desejando afirmar a sua personalidade.. já que és mestre em engraxar. eu falo ao Calhorra. que se faz tarde! .balbuciou Manuel Torres. estás mesmo um pato mudo! A mãe falava como se ele não estivesse presente ou ela é que tivesse sido a protagonista da anedota. é verdade . devia desagradar-lhe ao último ponto e. É uma criatura assim. que este meu filho é espirra-canivetes. . À falta de escova tem a língua que lhe pode servir de esfregão. ainda a melhor maneira fosse desmenti-la.Não cismava noutra coisa. estavase mesmo a ver: . conta. Se não tem quem lhe engraxe as botas. ali se despicaram de palavras. Augusto. se taciturno estava. não foi nada disso.. o mesmo era que dizer à mãe: “Conte vossemecê.

como se olha para um bezerro quando dá galardão do trato que recebe. estrebuchavam os dois ou três frangos da oferenda.Ora essa?? Era uma desfeita que fazia se não aceitasse. o que se chama sair do lugar que lhe compete em relação a mim que sou sua mãe. e deitam. Torres breve penetrou no segredo do coração extremoso. O que é. o que foi logo percebido por Maria Aires que desandou. até já estoiro de rico! Se precisa. Velo da tropa e fez as malhadas de fio a pavio. Sempre que a pessoa dele estivesse em causa. sistematicamente ela é que se arrogava de voz activa quanto a dar ao badalo.O rapaz sacudiu um ultraje. O moço matava-se por arranjar dois vinténs... ainda quando põem navalha na cara. e compreende-se.. um pouco para desafrontar o moço do seu enleio: .. participava da ilusão de todas as mães: suporem os filhos sempre meninos. sabido quanto a juventude é petulante e malcriada. No patamar. tornando-lho recomendável. novas vergônteas e novos ramos. O Augusto correra à estrada. Persistindo na inveterada pecha de ser a língua do moço.Anda ou não anda? O rapaz franzira os lábios. porque só ela é que se reputava com autoridade para fazer afirmações de certo peso: . podia ser mais moderado.Bah. Não era segredo nenhum que namoriscava a filha do José dos Cambais. mas o seu toque era outro.. sim.. duas dúzias de contos de réis. É verdade! Tinham ficado em silêncio. Maria vai com as outras.Hás-de tornar a levá-los. se tu fosses chamar o Calhorra. é pedir por boca. As palavras eram as mesmas de todos os presenteadores. não há que ver. e ninguém o entendia como ela. senão fico mal contigo. Mas olhe. entrou no caminho das confidências. Mas antes petulante que sabujo. umas vezes por outras com sobejos motivos. já casados. São para o almocinho de amanhã.. Ao passo que sugeria este expediente. .. pois. muito encolerizados de se verem atados pelos pés e em tal inpace. A própria ouvira dizer ao ricaço . arrumávamos o assunto. dentro duma cesta. Naquela ocasião não queria por nada deste mundo deixar de advogar-lhe a causa.Olha. à espreita de alguém que levasse rumo pela porta do Calhorra. Maria Aires. estão às ordens uma dúzia. podia ser moderado. ambos a olhar para ele.. e dizia que só dava a moça a quem tivesse disto. e conformidade. carregando ao mesmo tempo as sobrancelhas num gesto de abandono. e foi Manuel Torres que se viu obrigado a dizer. e é um moiro de trabalho. Manuel Torres apontou: .E voltandose para ela com tom entre risonho e cominativo: . E que fazes tu agora? Andas então na trafulhice do volfrâmio? . Encolheu os ombros. Augusto. satisfeito de se ver longe e desafogar. . meu senhor. eu a bem dizer não tenho escândula deste meu filho. que este ano com a escassez da gasolina voltou-se ao mangual. que estava um texugo de opulento. Naquele esgar transpareceu a Manuel Torres que ele dizia escarnentamente: “Pois.e palavras eram estas pronunciadas de caso pensado para que ela tomasse nota e servisse ainda de correio: “Pobretanas que não sejam capazes de manter a cabritada que haja de 11 .e rolava o polegar sobre o indicador. Repugna-te? Manda-lhe recado. Bem sabia ele que escusava de teimar com gente daquela força.. fazia menção de se encaminhar para o pátio.” Mas sua mãe soltava de novo a taramela e ele limitou-se a afivelar um sorriso despiciente. Nunca me faltou ao respeito. agora que ela não estava..

Lá a cachopa não levam nem à mão de Deus Padre. e para o povo ressoava estrondosamente o bombo e tiniam os ferrinhos. deitando olhos para o portão. Descia a tarde. misto de pé e de cavalo. e nunca mais ma pagarem. primeiro à mãe que lhe deu a teta. sem fímbria de nuvem que a mareasse. a sua imensa bizarma era para lá das seis léguas de espaço. A cachopa custou muito a criar. em segundo lugar a mim que estive sempre de corpo presente a aguentar o embeleco. tep-tep. sempre de corrente ao peito. Sim. sinal de que o rancho da Lapa entrava as portas. que avançava pelo pátio. prazenteiro. A Teodora sabia a rês que ele era. Mas rebento da Minga e do Fráguas. Vestida de verde-ferrete nas lombas e de roxo na dobra dos vales. passavam romeiros de outras terras. abade da freguesia. e o Augusto e a Teodora ficavam também nas suas. Querem ter onde esfregar os untos. e empoleiradas por cima do xaile as soquinhas. bicicleta. Respirava-se ao abrigo das velhas faias e loureiros. de Muradais. como as ribas dum bonançoso mar. Ao longe. direito a ele. A Maria Aires falava com fluidez e brandura. avistou o Simão Tadeu. desamparem-me a porta. via-se deitada de borco a gigantona da Serra da Estrela. e Manuel Torres quedou-se ali de cabeça descoberta. andavam de candeia às avessas. Manuel Torres saiu-lhe ao encontro. Que a Teodora tudo merecia não havia duas opiniões. e até um carro de centeio pelas almas do Crasto. De súbito. isto é. Vinha com o Aires e de Alcobaça em punho esponjava a coroa sua renta. se elas não tivessem o cuidado de se defender do sol na fresquidão das boscagens. Alguém. homens de lódão na mão e registo no chapéu. imagem do João Ratão na facécia dum humorista. nem filho de cão e loba. pés para a Guarda. o rapaz estava-se ninando para o José Francisco e para as sentenças do Cambais. Podem levar-me uma vitela fiada. duma brancura e altitude de água represa. Amor com fome é como sardinha sem pão. e a sua voz parecia regerse pelo gorgolejo da água ao despenhar-se da bica de pedra e embeber-se na massa líquida do tanque com sopitada cadência. brancas e altas.nascer no curral. Era uma flor e então assento!? Também lhe fazia rapapés o ruivaças do José Francisco. cavem primeiro!” O Cambais lá estava nas sete quintas da sua razão. borlas a arrufar da bolsa do relógio. raparigas de xaile dobrado à cabeça. cá VOU! 12 . sapato de fivelas a ranger. ainda ontem camaradas de regaleira. para ele o eclesiástico. mas nem precisava de o saber. por causa dela desunhava-se por ser alguém. risquinho do bigode na cara deslavada. Pela estrada. e as suas vozes na tarde serena repercutiam com um timbre tão cristalino que nem reflectindo a própria claridade celeste. Passavam por golfadas. poder ir ao Cambais e rolhar-lhe com um bom pacote de mil a boca destravada. tamisado pelo verde da folhagem. os ricos e pacatos de escancha-perna no seu asno. E. como ultraprazenteiro caminhar. seguro disso. Era por causa da rapariga e por mais nada que ele andava a esgadanhar no chão alheio. e por isso ele e o Augusto. que o rescaldo da terra baforava lume para assar as cotovias com penas e tudo. do tempo quase lendário dos capitães-mores. o hausto da extensão. dar um pontapé na mofina. o pigarrinho a advertir: cá vou eu. Pelo seu Augusto é que ela tomava ventos. regalado. O José Francisco saíra um meliante de alto lá com ele. cabeça para os Cântaros. razão onde cabia uma boa cestada de desacertos. entre a toadilha da Maria Aires e a da fonte. filho da Júlia Minga e do Antoninho Fráguas.

e igualmente o padre não oferecia flanco. que era a cabeça de freguesia e englobava Malhadas. no caminho para Orcas. viera substituir o Lourenço Bacelar em Mouramorta. De facto. cautíssimo.a Igreja sempre que fecha olhos aos desmandos dos seus ministros é que não tem diante de si escandalosos . e sem quartel. branca. andava montado numa égua vermelha pela qual. a título de confessor. persistia em pagar todos os Outonos dois alqueires à parada do Miguelão. Por outro lado. amigo como irmão do velho abade. Manuel Torres. Pedro. Ali estava ele que não morria de amores pelo padre . e gregoriano até a medula. não tardou que o velho resignasse o ministério. e o concordatário. como dizia Homero de ítaca. além de a época não ir para cavalarias. Mas. queixando-se embora dela como Abraão de Sara.o que em regra lhe acontecia com a maior parte da gente que pressupunha de elevada . Nela mereceu o Simão Tadeu esporas de oiro pela arte consumada com que fez quebrar nas mãos do indigno pastor de Mouramorta o cajado de S. o padre retrucava-lhe na mesma moeda. Mas. A guerra era subterrânea. atabafada entre brenhas e penedos. Apartavam-se dele como de leproso.Que se julgasse pessoa de muito respeito. as autoridades eclesiásticas em matéria de firmeza eram do mesmo barro que as da República e temeram-se de fulminar à mão-tente seus anátemas e coriscos. pai de filhos . meio sacerdote. Nem todos o prezavam porém em conformidade. calva apenas incipiente na trunfa espessa. pouco tempo continuou a exercê-lo. desmanchadão mas cheio de humanidade. talvez por isso a pior de todas. Válido nos 55 anos. campeão de ténis. tão certo como dois e dois serem quatro. se deixaram lograr pela Lei da Separação. ainda que prudente e recatado . piloto-aviador. Brás da Nave. e não deu corpo às suas aversões. engenheiro de minas. pagara sisa de duas ou três boas regadas. ficara a detestá-lo figadalmente. esse mesmo. todo desempoeirado. quando surgiu o filho e o correu à má cara do quarto do moribundo.que não metera em linha de conta o ódio vigilante dos inconformistas e pagara caro a submissão. lugar armentoso. era com ele e ninguém tinha nada com isso. Por sua vez. Cheio de mansuctude. Nascera no cisco.ali estava Severo Bacelar. e soprava-se que trazia dinheiro a render. ultramoderno. que representava na igreja militante nacional o levita da transição. e já erguera casa de sobrado. moldando-se à sua observância. sabendo hebraico. que ajuizara de insidioso. 13 . mas em que força se escudar? O poder civil largava-o ao desamparo como a todos os outros em iguais apuros. já no delíquio derradeiro. quando proclamada a República. O velho abade quis reagir. O Simão preparava-se. O Simão Tadeu. negra e farta aldeia. e S. entre o cura dos bons velhos tempos constitucionais. todo desportivo. Caçoando cordialmente de parte a parte e cambiando-se fingidas ternuras e amenidades. mascaravam ambos eles à maravilha a recíproca antipatia. para se gloriar da sua vitória total nas vozes arrependidas e tremelicantes do colega. meio agricultor. Nunca mais na sua igreja se celebrou cerimónia festiva ou ritual que requeresse a presença de mais de um sacerdote. embora não o múrius de sacerdote.estava rico. embora pobre de carnes.mas não o deixava transparecer. O velho abade fora um dos que ingenuamente. A quarentena ulcerara-lhe corpo e alma. O que valeu é que a fé do povinho nada tinha de farisaica e não secundou os zelotas. era a pessoa mais cortês deste mundo. Pelo papel. que lhe herdara nome e casa para maior lustro e acrescimento . O Tadeu. nariz esponjoso.

.Vicioso.. Sim. e pela medida grande. que não têm conto.Ora viva o meu abade? Rijinho e próspero como tem de ser um futuro bispo. Reparei. Miguel a missa seca do binário. embora as dores nas cruzes mal me consintam erguer a cabeça. detinha-se em Malhadas a cumprimentar “o digníssimo doutor”. mas tão pequena que ninguém tinha ocasião de protestar como certas as suas virtudes contrárias. estes penedos. não jogava mais que o dominó e o loto. abade. .. pela graça de Deus. Logo de manhã.O doutor é que está cada vez mais jovem. mais viçoso. ainda que compreensíveis. e tinha ao serviço a velha Maria Ruça.Floriu.. o padre dissera na capelinha de S. esta labregada. porque as não mereço. quer dizer. boa. As raparigas parecem flamencas: olé! e as padeiras trazem trigo governado com levedura holandesa.? Ignorância? A depressão provocada por outro gravame? O Simão Tadeu balouçou várias vezes a cabeça. e vir atascar-me nesta sujeira de terra com este sol. Reparasse Sua Excelência e veria que se tinham modificado. . mas que ficasse bem assente. mas imbecil de todo e comida de misérias?! O Tadeu não quis contrariá-lo. sem os esbanjamentos das Câmaras e as alcavalas e arbitrariedades fiscais dos organismos que lhes eram anexos. a girara para a Lapa a oficiar na festa de Nossa Senhora. que depois de duas ou três cabeçadas acabavam por se enfeudar a um eclesiástico ou a uma família rica e ali. suportáveis. Mas as mercês de Deus. De resto. que podem ser senão os ossos do ofício? O Simão Tadeu tornou a sorrir e pretendeu retorquir com bizarria: . com a alva.. lá teria as suas razões. . reparei já que as berças foram substituídas pelo macarrão e a aletria e a olha pelo café . cheias de préstimo e de virtudes. quanto à miséria ambiente. hem. É uma verdadeira canceração. então a aguilhada do rei Vamba floriu ou não floriu? . assoldadara-se com o Antoninho Fráguas.Vá a banhos. coitada. E em apoio citava um caso que não se repetira. de volta. O mundo é seu.Não diga isso. comigo não alcançam mais longe. Isso não oferecia dúvida. tratando-se de eclesiástico. que as fontes de produção eram as mesmas e exploradas com o mesmo vigor. Do padre murmurava as piores enormidades a chamada boca pequena..Quem havia de dizer! Também já não vejo trajar de burel. . que a broa desbota o dente. mas que lá quanto a projectar luz era como um verdadeiro espelho de cristal: Segundo uma postura 14 . Como se explica? Tara..Bispo nem quando esta vara florir . sim. como num claustro.e sorridente o Simão brandiu a chibata de sanguinho que trazia para espertar a égua..? . Agora. da linhagem das Ruças de S. definitiva e desinteressadamente.respondeu Manuel Torres. abade. a mulher e os rapazes. Brás. e limitou-se a observar. as contribuições eram pesaditas. dores nas cruzes.. É ela que me traz de pé. e assistia-lhe à casa de lavoura que herdara em Malhadas por morte dum tio afim.. aguardavam a morte. sim. vicioso? Diga-me lá se não é um vício deixar todos os anos o fresco das praias. A irmã. abade.. devido em primeiro lugar aos cadastros que eram defeituosos. Meia dúzia de imersões e fica são e escorreito.Não bebia. a Ana. que ajustara com os de Malhadas a troco de cem medidas.salvou o doutor. sim. Não se viam há coisa de um ano e apertavam-se efusivamente a mão. As condições de vida essas tinham-se modificado. .

mas dispensáveis.. ai tio? Decerto que não tinham deixado de lhe vir bater à porta?! E quantos! .concelhia. como bicha de rabear.permitiu-se dizer a Custódia Sancha que. abusos de quotiliquê. têm de pagar a multa.?? . três pessoas distintas e um só interesse verdadeiro. R.insistiu ele com aquela pressão meio desdenhosa. Os tempos não correm propícios a jacqueries..Sabe-se lá. e nem sequer lhes ficou o direito de bufar.O Lázaro Fandinga levou-lhe 25000 rs. Em certas alturas do ano eram mais as lágrimas nas casas dos serranos do que a água que agora levava a ribeira. acrescentou de golfada: . não passaram a ser menos mansos. relaxe. Pagaram.. pedia 15 . dado que mingadita com o sol que tinha feito.exclamou Manuel Torres. . e essa é de espantar que tem de seu e é governadinha.. Manuel Torres ergueu o dedo contra a indiscreta. essas praças dançavam na corda..” Não chegavam ao fundamento. E como visse uma atenção indulgente nos olhos que a observavam.que ficara a tinir. senhor! É a minha opinião e é a opinião de muita gente boa. . como quem desata: . senhora Maria Aires? A Maria Aires sorriu. E quando lhe pareceu que estava livre a retirada proferiu: . o Aurélio Bebauga. pois não pagaram. . no domingo passado não estava a dizer. O principal era que pagassem . Onde isto irá parar é que eu queria saber?? . estalinho a estalinho. .? .Só há bocado bateram aí quatro. tenho uma incumbência para o meu doutor.. em pleno adro. a fugir à turbação. .?? Manuel Torres rompeu às gargalhadas.Sim. o gado tinha de ser dado a manifesto até fins de Dezembro. entretanto...Brada aos céus . uns sediciosos de Vila da Ponte deitaram o fogo aos paços do concelho de Sernancelhe. . consoante. ou Setembro. E de repente.. foi esbagoando o riso.É verdade. sabendo quanto a espécie eclesiástica foge de se lançar por sendas em que perca tempo ou latim. a Rosa Pedralva.Não sei. É ou não é.Com Pedro o Cru.Não serão os únicos. que os seus paroquianos eram maus como as cobras e que em matéria de pouca-vergonha estavam cada vez mais refinados. não sei . Não tem notado que os seus paroquianos pelo facto de serem batidos. Assim se fizera.. dizia: .“São as crias que nasceram posteriormente” . Assim sucedera ao Mões . nem menos cristãos.. mas absteve-se de responder. vendidos e mal pagos. . Andava tudo de chapéu na mão: ai tio.acabou por declarar. sim.. abade. do bispo ou do Senhor.. meu senhor. Mas em Fevereiro a Guarda viera vistoriar os rebanhos e encontrara na manada deste e daquele tio mais cabeças que as constantes do manifesto. senhor. está visto. Em vida de meu pai.respondeu Manuel Torres.Sua Excelência havia de tê-lo visto com bornal de mendigo . e se consolava a ouvir pessoas tão bem-falantes. se acocorara à moirisca ao toro duma árvore sem ninguém dar conta. A Maria Aires. se não acudissem ao relaxe. .. sorrindo. E como aquele uma infinidade de abusos. . é caso que as alçadas que cometem não revertam em benefício próprio. Em geral. mas já o padre.. iam os bens à praça. Se não pagassem até ao fim de Março.É ou não é..Sou todo ouvidos.“Não queremos cá saber. pelo menos em Mouramorta.alegaram os criadores. tosquiados.Mas V.. Tadeu. depois de trazer cadeiras. pondo-se muito sério. meio afável das pessoas que se reputam superiores.

ora comprava cornelho.O doutor não é proprietário duma das encostas. à sombra dos ramalhos que refrescavam a frontaria da taverna. Encerrado o aparte..respondeu o Roupinho.Não.. negócio de “pinchas” outro... veio gemendo.. Provavelmente em seu inconsciente estaria a desejar que o padre se pusesse ao fresco o mais depressa possível ou pelo menos que o não deixassem sozinho com ele.Pscht. Também só cheguei há meia dúzia de dias. volveu o reverendo: . que o santinho em dias de tisneira é o cimo dum vulcão. A como pagam? . veio oferecer-lhe chumbo de contrabando para a caça. .Dizia o meu doutor . lhe fez dar salto de gamo e mugir: . estou a ver. e o homem lá se foi de mão sempre no carapuço de Alvite.atalhou Torres de modo tão imperativo que Maria Aires compreendeu que era uma ordem que recebia. pscht. 16 .Arre que é bruto? . e também já não fora pouco o tempo que lhe fizera perder. os piteireiros. O Roupinho. puxando da sua nota. . ? Manuel Torres e Tadeu tinham-se insensivelmente afastado pátio fora até o portão. afluíram curiosos das quintãs. espera um poucochinho. Por conseguinte.interrogavam. se bem me recorda. que a Mesa. tipo “calça arregaçada”. sentados em cima da parede.. que andava com a rifa de terra em terra. tanto mendigava com meninos alugados como bufarinhava. As esmolas têm engrossado.. matam menos gente. e fazem grande destroço nos irracionais.que deviam aumentar os réditos do Santo Antão.Então quando lá for.reatou o Tadeu . E consoante.Em boa actividade. É curioso. Aos marteleiros dá-se um salário. Torres despediu-o gracejando que lhe faltava tudo para caçador. fazendo mil reverências.gritou-lhe o sujeito que vinha junto do chauffeur. aos entivadores e salbreiros outro. que era humilde e tinha a bunda calejada dos pontapés. com a outra esmera-se por embelezar-lhe a casa. os mirones que bamboleavam as pernas. afinal. a concertina. E depois? .Este ano ainda lá não pus os pés. e que com a barulheira do motor não podia ter ouvido o doesto. ar de capataz. ele há-de estar a vir. quando um automóvel Ford. da encosta que olha ao nascer do sol. ó patrão . .Gente não falta? . ora vendia mecha para fumadores. de facto.licença para se ir embora: tinha o vivo a acomodar. estacando de rompante.faça o obséquio: por aqui não haverá gente que queira ir trabalhar para as minas da Sobriga? . . Deus castiga sem pau nem pedra e o padroeiro não tem mãos a medir. Ele próprio reparou no categórico da voz. se com uma mão vai amealhando. arrasrando o seu rancho. de Cruita do Alto. seguindo sua rota. e põe-se tudo em pratos limpos . De bom proveito lhe serve. úteis ao homem. há-de verificar que se alargou e murou a platibanda e se dispuseram muitas árvores. sim. desperta a atenção pelo velho Ford. a começar pelas pernas. Tem ido por lá? . Ia a voltar à esquina para a estrada. aumentaram também os réditos. saltaram em terra. A romaria está tomando cada vez mais incremento.? Na estrada. sim.A confraria de Santo Antão está no propósito de continuar com as obras no cabeço. os andaços matam menos gente. Trazemos agora em vista desenvolver o plantio do arvoredo. criar sombras. viraram a cara. O senhor doutor lá concertava com o tio Calhorra..

um pouco pela rama. Está dito. ou. Segundo conclusões. Para os tempos que correm não é má pinóial . de S. Perguntava o abade se eu era o proprietário duma das vertentes do Santo Antão. Daqui. boquiaberto. A falta de memória era sinal de que o seu embaraço continuava.. persistindo as causas..Pode ser que não. Parece-me que sim.. Manuel Torres veio ao sentimento daquele empacho e inflectiu sem esperar resposta: . 17 .? Não sei se sabe que mister James Corbet fez ali perto umas pesquisas. a começar por tão simpático Santo. . Quem são. Brás da Nave. perdão.gracejou Manuel Torres para o Tadeu. Quem são os da Mesa? . em princípio não digo que me recuso a dar o chavascal.. isso não tira. Então é porque os rebanhos malfeitores são pertença dos mesários.. e Manuel Torres interrompeu: . mais do que isso. o oiteiro é particularmente metalífero. a menos que me tenham irradiado. daqui é o Calhorra e o José dos Cambais... ao fazer seja o que for.Melhor só banqueiro? . olhem. irmão da Júlia. que voltava de estendedoiro.Olhem.. Pode o terreno estar dentro das áreas registadas e não quero complicações para ninguém. os dentes das cabras não cessarão de destruir quantas árvores ali se plantem?? . Mas.?? A menos que santo tão milagreiro como o beato Antão vá de futuro guardar as cabras? E Manuel Torres deitara a rir diante do abade que. irmão “pagão” já se deixa ver. . .E para que o quer a Confraria se.Quem são. são os próprios mesários que andam apostados para me aborrecer do terreno.. julgo eu.advertiu a tia Sancha. quase sem transição. resigno a posse do barreiral em proveito da Confraria.. o Adolfo e o Manuel Minga. não sabia que contestar.. o que não escapou à observação de Manuel Torres que acrescentou: Mas que tenham andado ou não tenham andado com pesquisas. isto é. que sou. nem mais nem menos um dos testas-de-ferro do Antoninho Fráguas que.Orça entre dez e vinte mil reis. tem sempre a vista no segundo plano. É capaz de me jurar que os da Confraria não trazem pedra no sapato? Não? Com esse Minga. o Minga. A Fazenda é que todos os anos me certifica que sou dono do chavascal. São como a da raposa e do jaguar. libera me Domine.O doutor faria grande fineza à Confraria cedendo-lhe o terreno que só lhe dá prejuízo. E digo parece-me que sou porque os gados e os mateiros ali não deixam ir por diante uma giesta. e o Calhorra. Agora de sociedades em que entrem o Antoninho. mas primeiro hei-de-me esclarecer. Amanhã o direi. de quem sou irmão...Não ponha mais na carta.. como lhe requeria a índole generosa..Pois se assim é. da fábula tupi.Mas já que lhe interessa. . de Malhadas.. *** O abade ficou ainda mais interdito ao ouvir aquelas palavras. meu abade. persistem os efeitos..emitiu o abade.. um pinheirinho novo..Essa é boa!. tanto melhor para o caso . de. lá vem um dos sócios . seis e oito horas de trabalho.. meus senhores. sim. .

.. Medo cagaço é um. ria com os dentes todos. . Atravessou a estrada direito a eles. Por enquanto não há razões para sustos.Quero .Era com efeito o velho Calhorra.Vem a fugir à guerra. como quem por desleixo abriu um escano que se deve conservar fechado.Olhe lá. . cadenilha de oiro a bimbalhar no colete em sinal de festa. Trazia um paletó de montanhaque. sempre gostava que me esclarecesse numa coisa: qual preferia apanhar pelas pousadeiras. vá mobilizando os cabos de ordens... com certo ar afrontoso para o velhote. os outros para meterem os tampos dentro à Alemanha. oscilando duma para a outra não obstante a bengala a cuja forquilha de rangífer se encostava. ao Sul.Com sobressalto. que ouvi em casa do meu colega da Lapa. franzindo os lábios. Os Ingleses deixam correr e armam-se.O Calhorra. Calhorra. Durma em paz. Manuel Torres sorriu e Simão que ficara estático. cortando na Rássia como faca num queijo.Então o senhor doutor também se botou até a serranada? pronunciou sorrindo. . .Não é asnático de todo. chave de égua ou pau do ar? Estrugiu grande risota e o salafrário.. que na sua boca nenhum era postiço nem perdido. .e casquinava. como presidente da junta.. menos dia. grossas botarras de bezerra por cima dos fenomenais joanetes. lá vão. . ao recolher a patorra larga e calosa. e Nicolaievo. só por doença. A B.. pernas em aduela. uns ou outros dão o salto.C. . alto. barbela nédia.? . Mas.respondeu.B. . olhos em que uma palheta de azul parecia pela mobilidade e ligeireza uma sardanisca. de 18 .Nunca fui capaz de dormir de outra maneira . Ouvi dizer que está aí quando a gente menos se precata. e redarguiu: . Temos de resistir aos agressores.Pois sim.. Que diabo de história é essa do rapaz que lhe foi cavar à leira do Vale das Donas? . desdenhoso. no intuito de amortecer o apimentado do despropósito. a Portugal e Espanha . já que dá sota e ás em tais artes.. ..Não o diga a brincar. lá sabe..Ora...disse o doutor depois duma pausa. esses.Para quê? . Mas. . deformadas por cinquenta anos de cavaleiro à chuva e à neve.Para que viva.. de olhos absortos na fita da estrada como o santo do seu nome. seu Silvestre! .Para que vivam? Bonzinhos? . sossegue. dava Esmolensco como evacuado.. enxuto de carnes. Na feira de Tendais era tudo cheio que mais dia. disse: .retorquiu agridoce.O senhor abade é mestre em distinções. lá aprendeu. caramba.. e medo receio que lhe levem o cereal e as vaquinhas é outro.e apontava para o Augusto. por agora não deve estar no plano. que penso isso mesmo. Os Alemães. amigo Calhorra. e não tome a mal que lho pergunte. Diga lá. ao Norte. e na cabeça um barrete de pele de coelho que deixava escapar por detrás das orelhas as farripas ruças da grenha.Os Alamões para arranjarem urna cunha no mar contra a Inglaterra. disse para o doutor: O Duarte Ladeira foi-me dizer a casa que Vossa Senhoria me queria uma palavra. Mal logo seus lábios delgados se fecharam apressadamente sobre esse sorriso.. Arcaboiço rijo. .. mas há medo e medo.A Malhadas. O Calhorra sorriu novamente mostrando as gengivas muito encarniçadas por debaixo da boa cutelaria da dentuça.

.Aí é que me dói. Este cão podia ter tido a sorte de ter dado essa ferroada no meu Vale das Donas. Quer vomecê saber. senhor pai. Vendo-se assim desfeiteado. Levou-me talvez uma fortuna.Você está a caçoar. Queriam romper adiante. Sou tolo..? Os ladrões confessam-se. Também já lá não há velha que deite galinha.Produziu danos. há anos? .Eu sei lá o que este ladrão me levou da leira. sonhei que na nossa tapada há das tais pedras negras e hoje vou para lá com as vacas mais o zagal. mulher. saída do mais fundo do seu ressentimento.Está bem.Deus me perdoe..e a voz de Silvestre Calhorra era gutural. ali pôs-se tudo a trabalhar: homem..Como o filão ia pela calçada acima. tendo pulsado com certo respeito o modo feroz como a máquina de cupidez. ao passo que a detinha com um sinal. que há uns anos apanhou a cornada dum boi e ficou a andar de esguelha . E o seu olhinho azul chispava. O que os há-de matar é a soberba. tanto monta que fossem seixos como diamantes. esburacaram a calçada e atiraram com um ror de casas abaixo.. mas hoje falto à missa. . . Vieram apurar mais tarde que só naquele meio tempo tinha ajeitado em minério para cima de quinze contos..Olhe. replicava: .. como se ali estivessem por demais. Que direito tinha ele de o insultar? Manuel Torres com um gesto remeteu-o ao seu lugar. se meu pai me tem ensinado para doutor. O que tem mais graça é que chegaram de valado até o cemitério. arroz. que era o Calhorra. podia ser grande. não o tolheu.Escorropichado o quê? Sabe-se lá o que está por baixo da terra?! Às vezes dá-se uma ferroada e salta uma panela de libras. O senhor não sabe o que aconteceu aqui perto? Então eu lhe conto: Em Raposeiras do Crasto um rapazote disse para o pai. se mete a Galiza. mas o Calhorra não tinha já escorropichado o filão. mas por modos o bispo não deu licença que passassem por baixo das campas. posto o Calhorra fosse um velho de cabelos brancos e presidente da junta. se mete a província de Salamanca. Lá andava na cavação. Sim senhor. nem arrefenta.. 19 . nem dona de casa que amasse pão. Não levou. como missa a mais.? Manuel Torres sorriu. Augusto deu um passo à frente com ar respingão.riu-se por lhe parecer maluqueira a tineta do filho e. grande e pequeno.banda com a mãe. sim senhor.exclamou um capucheiro que se viera critremeter na roda por sua alta recreação e era o velho Cassiano da Urra. é às rasas. certo domingo. podia ser sábio.!? Mais valia ter-me ido à tulha que já sabia o que me faltava.Olarila? . e trataram de explorá-lo em comunidade. quando foi à cama chamá-lo para a missa: “. . nem aquenta. Descobriram um filão pelo povo acima.” Pai . Tudo está no se. já ninguém pode com a vida deles. havia de subverter quem se lhe atravessasse no caminho. . se ainda lá não chegaram. Quer ouvir?. Vem tudo de fora à ponta de bilhestres. uma vez em marcha. Pois à hora do almoço o catraio não tinha voltado e foram procurá-lo.. . massas.. Portugal é pequeno. Calhorra! Se não sabe o que lhe falta.vossoria deve ter ouvido nomear o Joaquim Fusco. mas ele. mesmo por debaixo das casas. missa a menos. Açúcar. Prosseguiu o homem: . levou-lhe alguma coisa? Logo à simples pergunta se viu o Silvestre Calhorra encrespar-se todo. Dia a dia a encher. em Ceiloes ficam todos ricos.. Maria Aires ia a entremeter-se.. ao passo que de boca torcida ia rouquejando: .

adiantando-se.E vai subir . mas com ar de completa abstracção. de grande barrigão e maior febre de enriquecer. para mais que nunca para menos. Agora. o Quim da Urra. . põem o burro do português de picareta. para fazerem a guerra bastava ter unhas. . Está a entrar muita massarocal.acrescentou Tadeu. sim senhor. e até o Gregório dos Santos.contestou o Luís Ougado. que já fora marteleiro na Sobriga. O Silvestre recuou dois passos.Ingleses e alemães disputam-no como gatos a bofes. utilizam-no os Alemães.perguntou Silvestre Calhorra. olhos garços no anegralhado da tez.Em nome do Padre. o alemão. Na Sobriga os jornais andam sempre adiantados dez tostões. . o minério havíamos de ser nós a tirá-lo. .A como corre o volfro? .. como catalisador na produção da gasolina sintética.Para ortugal ficar bem. contratador de “ratinhos” para o Alentejo. topa-a-tudo e frascário de marca que blasonava trazer três ao ganho e não lhe escapar solteira ou casada. filho bastardo do Fráguas.E alguma escorre para a sua gaveta . ao que consta. neto da extravagância. e ficou a ver o capataz da Sobriga que. sorriu. novote e já dado aos sete oficios como o pai. Pagamo-lo a 350 escudos o quilograma. o inglês. flexuoso e sorna. o Luís Ougado. má rês. Agora é a peso de oiro. o que se chama governado. que ouvira uns e outros. que já o automóvel rompia marcha depois de o chauffeur e o capataz se desbarretarem a Manuel Torres em quem tinham farejado pessoa de qualidade.Portugal desta feita fica remediado um par de anos. Atraídos pela pessoa do senhor doutor tinham-se aproximado mais paroquianos: o José dos Cambais com as suas suíças do tempo das almotolias de barro e a moeda de jarra ao pendurão do colete desabotoado. e já é uma sorte pagarem o trabalhinho! 20 . apinhada à volta: Pagamos as horas extraordinárias a dobrar. dizia com arreganho para a rapaziada. . diga lá. arrematador de travessas para os Caminhos de Ferro. com grande ferro da parentela.. ..chalaceou o Urra. do Filho e do Espírito Santo. “à base de separadora”. vendido ali ao balcão a quem mais desse. . o Zé Francisco. mas não indispensável emitiu Manuel Torres.. não se deu ao incómodo de rectificar o arrazoado do homenzinho. Qual. chamado à cabeceira do Cota Velho que estava com a morte no gasganete e. ao tempo que punha o carro em andamento. engajador. com certo ar de não presta nos lábios finos. e benzeu-se: . que aplicava a si próprio o tonilho: sou filho da fortuna.O volfrâmio é-lhes vantajoso na guerra. ao que parece. Cachorro de mim! A última palavra fora proferida de arranco como uma golfada de sangue e remorso.. Se tem. o Asdrúbal rico que tinha dinheiro nas lojas de todos os lavradores e emprestava aos famintos pão a quarta. cabeça robusta de Sansão. não acabava de despegar.O Tadeu.. do que andam na Tojeira. O Reganha esteve calado a ouvir e subitamente botou alarde: .. uma algibeira de pedras é um dinheirão. o tanas vêm cá. .. . cabaneiro onde melhor lhe ventava. barbeiro de Pedrões da Nave. amanhã são capazes de se engalfinharem mesmo aqui em nossa casa para saber quem o leva. o Reganha da taverna. Depois.Qual o quê!? .Tem algum que queira vender?.Além de dar uma têmpera especial aos aços. Sem o volfrâmio não podiam fazer guerra.

O senhor abade tem boas pernas. Os amigos ficam. Largou a trote. o que se avista é mato e penedal. A despeito do esforço que fazia para mover as pernas trôpegas e manter-se com aprumo. não dá laranja.observou-lhe o Calhorra. Pode muito bem ser que uns metros abaixo das tuas patas. precisamente na direcção que o padre tomava. estacou para replicar ao doutor que dissera: “O povo tem fome. . seguiu estrada fora a tomar o fresco dos montes que a ardentia a meio da aldeia era mais sufocante. Volfro há-o onde Deus quer. e ele o que tem é larota.Donde veio a Pêro falar galego? . estava-se marimbando para o bispo! Hem?.Diabos levem a cainheza da nossa terra? Não dá uva. Pois fiquem sabendo que à minha bisavó ouviu minha mãe contar que uma vez passou por aqui um homem e lhe aconteceu tropeçar no caminho. No meio da rua.Simão Tadeu. Aldemenos havia de haver cá da melgueira com que arrotam os de Ceifces e da Raposeira! Não me venham dizer que Deus é pai de todos. entretanto. vá de vira. mas já não acredita em coisa nenhuma.. Dá-vos para o riso?? Ah.. vá andando. não dá bêberas. muito menos tu que andas no mundo por ver andar os mais. que trazia a concertina debaixo do braço: . antes de colher. vai senão quando. És um asno? .! . e viram-no baixar a aba do chapéu contra os raios que lhe batiam nos olhos. Agachouse a ver o que era e. mas algum volfro foi e não tive por mal empregados os aguços que paguei . que o Aires fora buscar à quinta do José dos Cambais e vinha a mascar a última bocada de palha. Para acreditar é preciso ter-se a barriga cheia.redarguiu o Calhorra. duas fèveras de centeio e uma ovelha tinhosa a roê-las.. Sim. ainda que estragasses mais que Pedro Cem.. na pessoa do Zé Francisco. para nós é como se tivesse acabado um mundo. . vocês do mundo pescam menos que eu de lagares de azeite. o Luís Ougado proclamava: .. Ninguém o sabe à primeira.. Pode crer. em tom de desprezo e piedade.? . lançaram ao vento paixões e cuidados.. esses 21 .Vou-me lá com Deus. Manuel Torres. tanta que não fosses capaz de a gastar. nem fosse próprio dos seus olhos ver os horizontes em negro. Não vieram mais invernos.. vomecê se se apanhasse com o baguinho que lhe rendiam hoje as pedras tiradas no Vale das Donas. haja tanta riqueza. rapazes e moças. reza. Declinava o sol no horizonte. vá de roda. O bombo trovejou a chamar o rancho disperso. arrastados nos volteios. disse para os de Mouramorta. mandava ajeitar a uma pedra a égua rabona. ladeado de Silvestre Calhorra. pelo meio. cospe-se às mãos.? O povo reza e baila por força do hábito.exclamou em tom de galhofia o Quim da Urra.A gente sabe lá o que há por baixo do chão? . o velho oscilava como um traquitana de molas derrancadas e a sua marcha era incerta e claudicante.. mas reza e baila. Não queremos obrigálo a acertar o passo pelo nosso. embora não tivesse a mania de chorar-se. meio borracho.M'amigos. Dizem que trouxe uma carrada. A certa altura. perceberam que dizia: Que diabo de terra é esta onde o oiro anda aos pontapés! Armara-se o danço dos romeiros em plena estrada e. e era agradável ouvir aquele reportório dos tempos. . e principiado outro.Tio Calhorra. Deus é pai de quem lhe dá na real gana?. para onde quer que se deitem os olhos. Uma vez feitas as despedidas e bifurcado no aparelho.Quer ouvir.” . meu bolas.Não trouxe nenhuma carrada.. Mas ia dando à língua de coisas e loisas sempre com o seu sainete.

este teve que ir pedir ao abade as duas notas que lhe faltavam. Temos a Josefina... Pois não viu outro remédio senão ir tirar um conto à Manfurada a vinte por cento. Volfro a rodos não deve lá haver. Agora algum haverá. andou com sorte. . Coitado.Há Há?.. Este ano ainda foi uma felícia o miné rio render. Temos o Lázaro Fandinga. areia acolá. Andaram aí a ele pelas portas este José Francisco. Meta na conta aqueles que já lhe vieram bater ao ferrolho e os que estão para bater ah isso tem-no mais certo que as cerejas pelo Espírito Santo e avaliará da precisão que vai por essas casas.? Então ouça. isso lhes juro eu. Agora repare o senhor doutor. muitos lá ajuntaram com que empalear os tributos. O velho ficou calado um instante. que possui boa casa. Vendeu o cerrado ao Asdrúbal rico. Afora o Asdrúbal rico e.Teve sorte! . Que é o que lá há? .Ainda não dei fé dessa pobreza franciscana . temos depois a Rita Ougada. mas o que se chama boa casa. e no cemitério. Depois. essa. seja franco uma vez por todas. porque exclamou de súbito: O amigo Calhorra.objectou Manuel Torres. não quero que haja! apanhou-lhe um quilo de volfro. onde há aí lavoira que não chegue endividada ao S. palavra. mas foram uns esticados da fome a pagar. se o Corbet se não enganou quando percorreu o morro. e Manuel Torres volveu: . por uma sorte. Você sabe ou não sabe o que há no Santo Antão? .Não sei. Logo no cimo do povo temos o João Sancho.Não. que eu lhe faço o rol dos necessitados. distraído o seu espírito para outro quadrante. mancolitando pela estrada fora... Por isso os anos andam falhos de mantimentos. cresce erva que se lhe pode meter foice. escava 22 . sempre lhe digo: os da Fazenda têm a ganchorra dos dedos mais afiada que bico de milhafre.Há lá volfrâmio a rodos e não é cobertos com a capa do santinho que vocês o hão-de explorar. Ouvi-lhe a choradeira. Uma malina de tempos a tempos é tão precisa como são precisas as nevadas para matar os musaranhos pelas leiras. . Imagine o senhor. e um tal Leónidas. Manuel Torres talvez não escutasse aqueles conceitos tão simplistas como pitorescos. o mesmo é que o mamposteiro do pai. o Tadeu falou-me para eu ceder à Confraria de Santo Antão o bocado que tenho na encosta. e areia aqui. A morcega da filha . Quase ao pé encontramos a Pedralva. . o mal todo é que há gente a mais nesta terra. o Sanchonas que não se cansava de fanfar contos de réis e carros de centeio? Vindo pela rua abaixo. . depois que deram em vacinar a miudagem. do Porto. Este alma do Diabo levou o bácoro à feira e lá o deixou quando precisava de o cevar para casa que os meninos andam esgorjadinhos. A vinte por cento e é para quem tem padrinhos? A Anastácia. o melhorio do rebanho.Com mais o dinheirito da resina tapou. Aqui está um erro.que ensopavam tanto a terra que era um regalo ver os nabos e os calondros a emborrachar-se e a pular. Sei muito bem o que lá há. valeu como bichas a quem apanhou uma sova.. o José dos Cambais.Mas. Miguel?! Nessa data é que se tira a prova.. Vendeu quatro cabras e dois carneiros.olhos assim. capazes de descobrir um grão de painço nas corgas da lua. Para cá vêm vocês de carrinho. que não perde nada em sê-lo.. Mesmo assim.

pode ser que tire aldemenos com que pague as décimas..alvenaria. E olhe que eu gostava do rapaz. como um rolho. espacejadamente. de lenço amarelo a voeiar do ombro a rubisca da Florinda desacravelhava a cancelinha da sua casa. tudo por enquanto são suposições. telha de cano ou colmo adensavam-se as primeiras sombras.Justamente. torcendo afinal os lábios. No Santo Antão. A sonda é que diz a última palavra. como se fosse a tombar. Começavam a entrar os gados. primeiro as vacas. já que o senhor assim o quer. quantas noites não tenho eu levado em claro a magicar: “Silvestre. Também pertenço ao rol dos escaldados. e então? . Entendido? O Silvestre Calhorra deitou os olhos em alvo e assim permaneceu um momento. e a tilintada das campainhas alagava os caminhos disparados a toda a rosados-ventos. junto do forno. um vivente do tempo de Recaredo assistindo ao recolher dum povo visigórico. proferiu: . o fumo leve das lareiras espraiava-se mole e caprichoso na atmosfera. Quer agora o senhor que lhe perdoe. vinte e nove trinta. Um instante se quedou Manuel Torres a contemplar o velho Silvestre. estrugiam nas escaleiras de patim a pique os socos ferrados. Adeusinho? Sobre a aldeia lôbrega . já que assim o quer. 23 . latidos de rafeiros anunciavam a aproximação dos rebanhos. As donas chamavam as “pilinhas todas” em atraso. amarrotando-se como uma gaze violeta nas ruas e vielas e erguendo além. reverente mas descuidoso. despediram-se. Eu deixo-o ir a você escarduçar à vontade no que é meu do Santo Antão.Não caias noutra. Quanto ao que houve ou há na sua leira do Vale das Donas dá-se o mesmo. fia mais fino. rebalsando-se por cima dos telhados. À entrada da porta que abria à sombra das faias. resvés com os alegretes. Está dito. Mutatis mutandis. você em paga não pensa mais no que o rapaz da Maria Aires foi fazer à sua barreira do Vale das Donas. se atestou as algibeiras. lhe dizer: .. a acção do malandrete. Mas pregar-ma a mim na menina do olho. vozes de pastor. saltando duma para a outra.Então elha por elha. vinte e nove trinta.. enroscando-se às empenas. que seja muito feliz. nos alqueives de pousio. sem forçar muito a nota. Ao mesmo tempo.? Deixe-me dizer-lhe. Diante da ruazinha que levava a sua casa. Era a ária de sempre e não valia a pena contestar. Mas. decerto. voltando afogueado da canícula à cruzeta formada pela estrada e o braço da alameda. cambado das pernas. )ogam-se as raivas ao vento. com a mãozada democrática. encontrou o Augusto Alres que esperava. Ao redor do povo.? . um penacho rombo e fantástico.Trago no estômago. .aqui. eram os mesmos padrões e os mesmos corpos brancos e sujos e. direito de torso. isto é. apenas onde havia cotim e estopa pondo grã e estanforte. Distraiu-se um segundo dos seus pensares para. pronto. onde se respirava já o rescendor das roseiras e jasmins floridos do pátio. o que lá vai lá vai? Para mim a sua palavra é palavra de rei. Manuel Torres. Anoitecia. escava além. acredite.Partamos do princípio que é assim. nos ilhéus de maninho. Não se encontra outro mais valente e desenganado. quem sabe lá”. Mas. Se me mordeu. considerou que podia imaginar-se. almas idênticas trabalhadas por iguais apetites.. notas gordas de chocalhos. não passa de suposições. quem sabe lá se aquele pilho te não roubou uma forturia?! Sim.

a vaga montante do pó. Uma voz clamava: os lobos levaram uma ovelha à tia Pedralva! Outra dizia: estramontou o chibo da manada . na teima de ainda não querer passar daquela feita as alpodras para o outro mundo.noventa e sete anos sempre a pé. com borbotões aqui e além.e a barafunda foi amainando. balidos. até insular-se no negro silêncio o roncadoiro da agonia do Cota Velho . bodum. mocha! inundou becos e quintãs. 24 .há dois dias a lutar com a morte.Os gados entraram nos redis e. por último apoiados a uma varinha de marmeleiro . por minutos. gritos bárbaros: aqueiba! arreta! torna ali.

tais ecos seriam explicados como manobras dos moleiros. a horas mortas. entrando às apalpadelas. ora a coberto pelo escuro das paredes. opressivo como a morte. os grânulos de oiro e verde-salsa incrustados em granito. oprimidos pela estiagem. Podia portanto escavar. lorgar. cabeça embutida nos ombros. para veigas e ferregiais. soçobrada em modorra e no engorgitamento estival. A manhã ainda vinha longe. das vezes que matou ali o corpo. quando não eram concretos opacos e ferruginosos como torresmos de forja. outras encerravam para ele um mistério com as palhetas resplandecentes. Ficava o Vale das Donas numa dobra da planície. tivera de esperar pelas noites de quarto. ia acoitar o haver num dos refolhos da mina velha. é verdade. extinta há tanto tempo que ninguém no povo se lembrava de a ter visto botar água. varapau na axila. Estava persuadido. Algumas deviam ser de volfrâmío e de volfrâmio puro. faltara-lhe ajuda. Àquela altura do ano. Além do mais. estancando as águas da ribeira a montante. como. lhes desfalcavam o caudal com que mover os rodízios.II O Aires. E. lhe não apareceu vivalma. duma das cavernas tirou o saco com o tesoiro. que bastaria. orçando-o depois ao ombro como um alforge. Aos primeiros livores do arrebol. pá e picareta às costas. e. Que levava ali? Ao certo não saberia responder. foi-se à mina velha. só lhe convinham. rapar saibro e calhaus. era o que surriplara na leira do Calhorra. espreitava que homens e animais se tomassem de sono em casas e apriscos. Que o ruído ressoasse nas quebradas. maduros os fenos e barbados os milhos. de modo que podia trabucar tão afoito como um alfaiate em seu sótão. Em tais condições. destas. rompeu pela leiras de pousio a corta-mato. mas a fugir a encontros passante a Assunção metia-se foicinha aos painços . semiluminosas o que basta para ao perto se recortar com nitidez desejável o vulto das coisas e ao longe tudo se diluir na intransparente poalha. não era de contar com sotranqueiros a tornar as águas.alargou o passo. ora por moitas e giestais fora. e só ao sereno pôde estudar o seu carrego. estando a fazer três meses que chegara à terra. e à hora em que nos pauis as próprias rãs enrouquecem a cantar. de noite. Era mau de levar. a arrombar os açudes que. 25 . E não só não foram. de pé descalço e sete olhos. depois de dar ao corpo riloído nos malhios o repouso do dia santo. surdas uma contra a outra graças ao atilho de giesta. Tendo assentado proceder sozinho. Calhaus ou pedras finas. que não havia grandes probabilidades de que o fossem empecer. mal a Lua apontou no horizonte. Mas repugnava-lhe meter outrem em trabalhos de que ignorava os frutos. onde nem Deus nem o Diabo seriam capazes de o sonhar. se lho perguntassem. as de domingo para segunda. tenteando-o na ansa do braço. a avaliar pelo peso e pelo brilho com que acenavam aos olhos suas faces espelhadias. a bem dizer. puf. à conta bem feita. Como os texugos quando vão ao assalto das capoeiras. Levava pedras. é que ele largava. raras saltadas pudera dar ao filão.erguer o dedo para o Quim da Urra se pôr pronto e lesto. para lá da lomba que agasalha o povo dos ventos de sudoeste. E depois de pulsar mais uma vez com os sentidos todos a terra em redondo.

ficou de boca cispada para quem aludia ao 26 . apareça. dando a prova como conclusa. sem um só momento lhe secar à flor dos lábios o sorriso que contraluz do ditado: medo há Paio. Os compadres é que não eram da sua força. As senhoras testemunhas encabaram as mãos nos bolsos e baixaram a tromba para terra. Sentindo que perdera a partida naquele tribunal de primeira instância. sinal honrado de que o não tinham visto na fazenda do Calhorra. Com ar de surpreso. pastorinhos e criados de moleiro. na gajice de remar contra a maré. ? Vá lá amolar outro. Novamente convidado a vir às boas. desta assentada julgaram todos que ficava a fazer cruzes na boca. se é capaz! Alguém me viu na propriedade do senhor Silvestre? Se há alguém que me visse. Fiel à sua táctica: porfiar. Agora. Deu matéria à falação. intimou-o a prantar para ali o que zarpara se não queria alombar com uma polícia. Obtido o primeiro efeito. e respondeu: . convidou os presentes a entrarem em sua casa e a passarem uma busca. transitando subitamente para a indignação. Que fazer? Não era homem para esperar a resposta do Santo Breve da Marca. pois reza. O Aires é que se não tolheu de voltar. formulou a acusação. alguns ventos veio finalmente a ter o Silvestre do autor da gambérria. Quem seria. coligindo breves sinais. endereçou um volumoso ofício ao administrador que bateu no goro do Reganha taverneiro. pela simples razão que ninguém me podia ver em sítio onde nunca pus os pés. De prova material. e lavradores mais insofridos a madrugar. Com a encavacação. notou que tinham ido esgadanhar à sua leira. Uma tarde dirigiu-se com dois fabianos a casa do Aires e. e salta à vista que comeis quanta palha vos caia na manjedoira. atingir a pobre da mãe que era mulher séria. a título de que não queria fazer sangue e. que eu já estou amolado! O Calhorra remordeu. . Assim o pensava também o Alres e iludia-se. fez constar por portas travessas que reunira testemunhos mais que suficientes para meter o Augusto na cadeia. Desta feita o Aires rompeu a rir. chamando-o a terreiro. o moço respingou alto e feio: . ficou de sobreaviso sem se dar por achado. e não se deixou embair. a cara do Calhorra estava mesmo a dizer que eram capazes de ir jurar aos Santos Evangelhos pela inocência do acusado. verdade. não.Qual boas nem más! O Calhorra julga que isto é terra de pretos e arma em Gungunhana . desandou amparado ao sacho do cebolinho. depositário da caixa. eu ainda sou asno maior que vos não botei o cabresto. verdade. salamurdos e mais silenciosos que penedos no meio do rio.O ladrão é mais fino do que eu supunha .. ouviu o moço a requisitória do senhor presidente da junta. De inculca em inculca.Prove o que adianta. quem não seria.O Calhorra. dando ao topete e prometendo notícias suas para breve prazo. Riu ao desfastio e. . Mandou vir um guarda republicano que procedeu a devassas. embora tivesse pacta com o Demónio. um pedinte que tinha o costume de dormir pelos montes. nem a brocha dum sapato.. associando pequenos nadas. muito menos. o raio do velho fez duas viagens à vila para inglês ver. de quem se dizia que estava para nascer quem houvesse de lhe fazer o ninho atrás da orelha.Vocês não passam duns asnos chapados.fora a dizer para os pacóvios. e. cozido em fel e vinagre. Deixa. Este. O Calhorra conhecia a arte de negar a pés juntos contra Deus e Santa Maria. que eu lhe farei a cama! Por injunção sua o regedor interrogou Pedro e Paulo. Não aparece? Pois não aparece.

como a chuva. arremeter após breve torcicolo pela encosta sobre que assenta Tendais do Palva. Farta de o ralar e de ralar-se. como o ar. a estrada desenvolvia-se em perfeita chapada num galão inquebrantável. pelo abrupto e articulação às serranias que esteiam o rio.caso. não entrava por coisíssima nenhuma no seu valor imobiliário. mal apeou o Dr. se não remorsos. deu com os burrinhos na água. 27 . Arrumada a pendença da banda do Calhorra. que Deus manda por igual a todos? Sim. quando já tinha disposto as últimas couves. malucou no problema. não destituído de azedume. E ninguém melhor do que ele o encaminharia na barganha do volfrâmio. ou do Antoninho Fráguas. quando à falta de gasolina a maior parte dos automóveis jaziam de baterias descarregadas suspensos sobre matacões. menos que uma unha negra. Ali estava como o cão do Calhorra conseguira levar a água ao seu moinho. ao passo que replantava a horta do Casal. Pelo menos não se justificava a recomendação sem que da sua parte existissem. cantil e bornal a tiracolo ou coelhos e o seu lebrão à dependura do pau. que estava soterrado debaixo do solo arável talvez a muitos metros de fundura. disse para consigo e para com Deus: “Se não passar dentro de dez minutos. por outra. Se fica em Mouramorta. A lei era a lei. com o qual o dono da terra nunca contara. tanto mais que o estrago que dera pagava-o um chavo galego e ainda recebia troco. O senhor Severo Bacelar devia por certo lembrar-se do catraio que muitas vezes o apajeara na caça. que rumo tomar? Todo o dia de sábado. chiada de eixo. nem um ceitil espremera à Fazenda. E com enfado. mas nem sempre os seus preceitos se ajustavam ao critério da gente honrada. Manuel Torres em Malhadas. Era ela. amargos de boca. ano após ano que viera a férias. com o vento que soprava de feição. Privilégios como aqueles estavam riscados da sua cartilha. o rumor dum automóvel que descia a costeira de Tendais. à relha como ao alvião. Agora o “não caias noutra” era outra ária. meteu a caminho de Mouramorta. foguetório em dia de festa. era preciso que “ aquela” estivesse acabada e começava. a grande caixa sonora que alagava a planície com seus barulhos e motins: petardear de motor. chegara-lhe aos ouvidos. a lei parece que atribuía certos direitos ao Calhorra apenas pelo facto de o filão passar no subsolo da sua fazenda. Deus lhe perdoasse! Lá que o doutor atafulhasse a boca do mamposteiro com o trancanaz do Santo Antão. Era a uns seis quilómetros de lonjura. tão bem defesc. Inflectia ao mergulhar em Rabaçais para. Dali até Mouramorta. é que fica em Mouramorta. Por consequencia. Pois porque é que o minério.” O carro não passou e. Sentindo o motor. Sobre a tarde. batesse o pé. não havia de ser de toda a gente.e a simplória de sua mãe caiu na ariosca. lembrava as partes gagas a que a mãe o obrigara no dia de Nossa Senhora da Lapa. era-lhe totalmente indiferente que o Calhorra rangesse os dentes. é do engenheiro Severo Bacelar. sinal de que ia estalar o látego . rosnasse. Além do mais que houvesse costeado precipício. dois quilómetros andados de pendor. e nem o cairel entrevira. era um cantar. com a imaginação alvoroçada pelas histórias maravilhosas do volfrâmio. aprontando-se em menos de nada. Para tanto. desprovido de senhorio como o sol. Tratava-se de coisa comum: como tal pertenceria ao primeiro que lhe pusesse a mão. ressoando muito mais ao largo. Tal não era o caso. desvendando a tramóia. Repeso do que fizera. e muito longe de propósito. mas a onda sonora ultrapassava Malhadas.

nada lhe fazia torcer caminho. Augusto. Pelo que ouviu e ainda mais pelo que lhe foi lícito adivinhar. voltou para Malhadas. Ia entretido com a feira interior. A tia de Severo. No arraial que armara dentro do seu selo. fora o Antoninho Fráguas. Quem chegara de carro. e nem se deu ao incómodo de enxotá-los. ficou a saber que tinham ido em prospecção à leira do Calhorra no Vale das Donas e que. entrepostas como rendas de courela para courela. e altas horas. fugiam-lhe da boca pragas que faziam tremer os santos nos altares. maviosa sem deixar de ter uma pontinha de travessa. ora entreticio com Teodora. O suor que lhe merujava as fontes e as espáduas era portanto de lei. afocinha além. direito à Sobriga com aquele horror de carga às costas. ora molhado.dissera o Padre Eterno se o Mestre da Vida não mentia. escorrega ali. que viera em pessoa atendê-lo. Tropeça aqui. A dúvida está em meu pai. acabou-se. As paredes. provavelmente para dali seguir para S. Na noite de domingo. duas febras ao presunto. Mato ou restolhal. a senhora D. Deixou-os desaparecer na ladeira e meteu para Malhadas. Neste intuito. Deu-lhe baque o coração e escondeu-se. Noutro dia tornou-se-me a sair com a ladainha: “Quando o mariposo lavrar quarenta pousadas e colher um carro 28 . Nas abas duma almuinha saltaram-lhe os sabujos à frente. cortou uma borda ao pão. que o tempo podia conjurar-se contra ele. escalava-as e toca em frente. quando não eram daquelas que. que por sinal estacionava diante da taverna. tal como lhe toava ao ouvido. à pata. Marchava pela estimativa.Bem sabes que em nós não é que está a dúvida. norteando-se pelos oiteiros que lhe eram familiares e estavam inscritos na sua retina como melhor não estariam nos mapas. ermos ou bosques. Iria às minas. nada mais que da brasa semimorta que o folezinho da aragem aviventou no deserto de cinzas das queimadas. tão indiferente a tudo o que não fosse o seu carrocel como refractário aos medos e fantasmas que a imaginação a cada passo condensa no escuro duma giesta mais esquipática. pé ante pé. do pio do mocho. se propunham chamar um dos práticos do senhor Corbet. Anda muito atarefado com a montagem da segunda lavaria e já o domingo passado não veio a casa. Afinal. Irene. a voz de Teodora. sobrepunha-se a todas as outras: . o Zé Francisco. mas ânimo? Regarás a terra com o suor do teu rosto . Brás. o zorro. saiu de casa. tupa que tupa. lobrigou o Fráguas que subia uma das canadas que por entre pinhais vão dar à ribeira. ora a pés enxutos.Mas andava com azar. Estava inteirado. como se ali fosse em pessoa. De facto os calhaus pesavam mais que o esquife quando agravado com um defunto. a enormidade do fardo lhe era leve. boa estrela o guiara. Vinha a cavalo e ao lado. Ouviu sem arrepios os lobos uivarem para os cerros fronteiros a darem senha da sua passagem. que encontra lá o senhor engenheiro. Se não queria ficar empulhado tinha que se despachar. Ora repassando aquele brequefesta de sexta-feira da Assunção. incertos quanto à Importância do jazigo. A certa altura do caminho. muito raramente pelas pontes. e ali ia.Vá à Sobriga. dissera: . Mais de uma vez se acaçapou até se esvair na terra fofa das almargens o tamanco do guardão de meloais. depois de ceia. que é relho e terrabinto. se deitam abaixo com uma patada. lamentando apenas não haver tomado mais cedo semelhante resolução. Os corgos lá os ia atravessando como lhe era possível. para não acordar a mãe que escusava de conhecer as suas aventuras.

mesmo de trabuco na quadrilha do Olho Vivo. Poisando o saco. pesava-as na balança. e der à tosquia dez ovelhas. não era por causa da saúde de tal gente. que a sua sensibilidade vibrava. Na qualidade de camponês do tempo das Sesmarias. antes de mais nada para os homens se chacinarem civilizadamente.de milho e três rasas de feijão. tinha os pés macerados como se acabasse de fazer jornada de muitas léguas. O que o sobressaltava à vista daquela metrópole de escava-terras era ainda e sempre o motivo pessoal. quase cobardia. Mas tratando-se de ingleses e de alemães. a sua simpatia humana não alcançava tão longe. De caminhos afluentes desembocavam mulheres com cestos à cabeça ou o seu molho de tangos. espécie muito afastada dos capucheiros da serra. Por ele fora marchavam isolados e em bandos. que te venha buscar. nem sinal de pascerem por ali os gados. por baixo da sua inquietude uma voz inquiria: era aquilo preciso? Parece que sim.ganho não importa de que maneira. maciça como torre feudal. O Fráguas. à dinheirama que lhe entrava pela janela. sem um lezim com húmus para que pudesse vingar raiz de sarça ou de codesco?? Com semelhante piso a marcha era escabrosa e titubeante. e o destino dessas nações prósperas e de seus naturais. uma vez que nascera fora do curral. tisnado pela canícula. que. encomendas das lojas. pouco mais adiantado estava. com a bolsinha pendurada do pau ou do pulso. afinal. como ele. Mas o filho. já nem contava as notas. nem penedia. se assim não fosse. tão outro dos agros mansíssimos que alimentam desde o princípio do mundo a aldeia e a cidade. E ante o ar de ferocidade que se evolava da tenebrosa fábrica. baixando da serra. Era uma felicidade que em negócio de teres o Zé Francisco chamasse seus. menino! escarneciam dele. senão babau. que é o comum para a mantença duma pessoa que tem os dentes todos. na vastidão cinérea do mato galego. Ao fim do primeiro estirão. e entrevia-se nelas estas criaturas plurais que forjicam o bazulaque às maltas. Enquanto dava ao denre. a mole alterosa. corri estranheza percorriam seus olhos o panorama truculento. Antes. Ainda bem. remedando-o . podia tratar doutra vida que o Cambais sonhava apenas com dinheiro -dinheirinho. nem num andor. à noite e dia e às sombras dos caminhos. da banda de lá da qual ficavam as Minas. porque. que deixou à mão esquerda cortando decididamente a poente pela serrania escalvada. Não se descortinava caminho nem atalho. uma almotolia. a tropos-galhopos uma sobre a outra. Que haviam eles de comer naquele pedregulhal espesso. A todo o fundo. 29 . é verdade. dum negro impressionante. entre a ramalheira negra dos pinhais. pintada a breu. lanchuda. mas fraga solta. Do picoto daqueles autênticos paranhos do Diabo distinguiu afinal a Sobríga com barracas e instalações semeadas. quase seres doutro planeta. haviam os escrivaes de borrar muita folha de papel selado. entrou no braço de estrada que conduzia à exploração. era-lhe indiferente como a água dos rios que caminhava para o mar. a lavaria. que lhe dêem lã para uma capucha e dois pares de coturnos. se não ajustar-se. Que levava ali em derradeira análise? A taluda ou artigo de entremez? Foi neste estado de espírito. Para que um dia chegasse à escudela. homens mais andrajosos que ele no fito de retomar o trabalho. normalmente uns felizardos. o mar cor de creme era a terra vazada dos desmontes. Foi-lhe amanhecer no termo de Covelo.” Conhecia-lhe a doutrina. nem rocha viva. puxou do farnel.

homem e máquina conjugados. As vagonas descarregavam o recheio da ribanceira para baixo. Enquanto esperava. ou afigurou-se-lhe. grande caterva de homens abria uma trincheira. doce ao tacto e maravilhosa de propriedades. e logo esse montão de cascalho passava através da passadeira rolante para as mandíbulas de aço dos trituradores. Foi direito à Direcção e pediu para falar ao senhor engenheiro Severo Bacelar. O Aires conhecia a Sobriga. Não obstante. em que estava integrado o transportador. levava um banco de pedra e saibro à ponta-de ferro e picareta. pés descalços. por outros ia e vinha o pessoal particular dos engenheiros e agentes técnicos. que se exercia a actividade capital da mina. pernas vermelhas de perdiz. Agora não é maré. da indústria moderna. À superfície era como um arraial. se via gente. sernibárbaro e feroz. comandos. Mais ao largo. a ritmo acelerado: homens e máquinas. para o morro. 30 . cigarros. enquanto a outros incumbia carregar os tiros de pólvora bombardeira. altas e cegas. não como assalariado. testo e sabido na manobra. do retinir das ferramentas e estreloiçar das vagonas e raposas. Era uma ruivita. braços arremangados. a carne tenra a espreitar das camisas cheias de surro e em frangalhos. mulheres que lavavam a terra mineralizada ao ar livre e debaixo de telheiros. das bandas do mar. Era subterrânea. Girava tudo. Espera lá um poucachinho Que me hei-de sentar à ré. mas das rapiocas e visitas que ali fizera com outros curiosos. desprendendo uma barulheira a que era como abóbada o zunzum infernal dos volantes que se não viam. de parte duma pessoa de Mouramorta. falas desencontradas. Aqui e além trabalhadores brocavam a rocha. Andando. com revólveres de ar comprimido a demolir o quartzo. Por cima dos gritos. foi-se mais e mais possuindo da fereza e prodígio do espectáculo. escombreiros. ao salvar a corcova do terreno. piquetes de entivadores especializados a escorar as galerias. Perto dali. se calhasse. por um dos quais rolavam vagonetas. Crispados às varas dos sarilhos. mas bem torneadas. e os olhos do Aires ficaram enlevados nela. quinhentos a mil metros. uma rapariga manejava a bateia e ia cantando: ó meu amor não embarques. e ainda a tasqueira que abriu à margem da mina a baiuca de vinho. Até bem longe. bombas eléctricas e manuais a sorver a água dos regueirões. muitos extraíam o resulho dos poços ou enxugavam-lhes a água para o trabalho prosseguir eficazmente. andando. e ensurdecedora criava este tónus especial. e outra. provavelmente empreitada. E. com boinas de homem. vinham baldear no monte o carrinho atestado de calhaus em que coruscavam com o sol as pirites e palhetas de volframina. Rapazotes. com uma caradura brutesca em suas paredes a pique.as lavam e remendam. saia colhida entre os joelhos para a água não esperrinchar pelas pernas acima. ao passar à beira da lavaria. o dínamo pulsava e a sua pancada mate. homens e mais homens à carga e à descarga . mineiros de guilho e marreta. não deixou de estremecer de assombramento à ideia da obra de magia que ali se consumava: o calhau intonso convertido em farinha mineral. petiscos e o resto. à boca dum poço. repartido em turmas consoante a natureza das tarefas. descobriu-se o formigueiro humano a seus olhos admirados. por vezes a dezenas de metros de profundidade. passos adiante.pessoal complexo. chegou a um dédalo de caminhos. sem cor à força de usadas. com as vivendas muito senhoris e claras à retaguarda de pequenas platibandas enfeitadas de pelargónios e eloendros.

. arrancou. mirou dum lado.Este ano há caça a dar com um pau. desejava que o senhor engenheiro as visse . . finalmente. mesmo filão? . Andam por lá muitas brochas dos meus sapatos. teimou em levar o saco. para atenuar a rebeldia. O engenheiro riu-se: boa vai ela! Quis desfazer o nó.Não presta? Não presta? Não presta! Uma houve. em vez de levá-lo às costas. zás.. Trago aqui umas pedras. depois de examiná-la mais instantaneamente que o farpar da víbora.. . desata lá. ao passo que ouvia o tep-tep duma máquina de escrever sem lobrigar quem a manejava.balbuciou apontando o saco. nó cego. No calendário. o que lhe exigiu um esforço descomunal.disse com menos grata disposição. Ao vê-lo com o saco franziu o sobrolho. Mal apanhou o saco aberto.. misto de estação do caminho-de-ferro e repartição pública de vilória sertaneja.. Acabaram por remetê-lo para o primeiro andar. eu te direi.No mesmo.É volfrâmio. dois andares. Do vestíbulo. O que é. por cima da mesa atravancada por diversos utensílios da escrituração e frascos com amostras de minério. senhor. meteu o dedo. ? Em que sítio? .. cabelo em ouriço. nem à segunda. puxou a contrária e.A Direcção era uma casa de madeira. repetindo-se o lance: ....Sim. vinte e oito a trinta anos.. Eu mando ensinar-te onde é. sim.Não presta? Fazia esta manobra com incrível velocidade.Sou. não é comigo. V.. que aproximou mais da vista.No Vale das Donas. em vez de puxar a adequada ponta do nagalho. . O filão é em Malhadas.Estou a ver o lugar. Agora já levas escopeta. . Virei aí algumas lebres. a marca o dia e. . sopesou-a na palma da mão: . segunda porta à esquerda. mirou doutro. mas como não cedesse à primeira. É no baldio? 31 . tirou uma pedra e. Tornou a aproximar dos olhos a pedra espelhadia e irradiante. mas breve mudou de parecer ao afirmar-se nele: . Bacelar introduziu a mão. não é para vender.Tu não és o Aires. Pareceu-lhe que o engenheiro ficara contente com vê-lo porque pronunciou de ar amável e tratando-o com familiaridade: Havemos de ir às lebres. quando acabar o defeso... . pela larga porta entreaberta. jogou-a para o lado: . Ex. Então que te traz por cá? Se é para venderes minério.Não presta? Tirou segunda.? Estás homem.Está bem.Bem. rotulados a capricho.Mas hás-de te despachar que não tenho um minuto a perder.Foi arrancada no lugar das outras? . camisola à requeté. A uma escrevaninha estava sentado o engenheiro Severo Bacelar. que também lançou fora: . . Erribora lhe houvessem dito que ali não era balcão de vendas. meteu-o debaixo do braço.Não senhor. Com a febre de ser rápido. uma espampanante star erguia a perna e derretia-se num beijo que mandava com as pontas dos dedos a quem punha os olhos nela.Foi. e fitando o Alres proferiu: . e o cordel ainda que grosso deu estoiro.. pregado na parede. enxergou mais de quantos escriturários dobrados sobre as papeletas. . .

mas irrepreensível: .dizia-lhe Bacelar.? Vi-o em Tendais há poucos dias. em linguagem levemente matraqueada. espingarda a tiracolo. as pernas dele fazem um arco de ponte cada vez maior. aquele doutor das engenharias. Aires teve palpite que estava diante do senhor Hincker..Quer-nos ir mostrar o sítio donde extraiu estas partículas de tungsténio? Se quer e nos agradar. . administradorgeral.Traz também o saco . engenheiro chefe. e o nosso Calhorra. Não há registo? Torcendo os lábios e meneando a cabeça negativamente. que ficara perplexo.. dir-se-ia. Sentado à secretária estava um importante figurão. pô-lo em terra e. devidamente indemnizado. grandes óculos com aros de tartaruga campudos como rodas de carro.. Coitado. por último voltou à sua taleiga. suas sardas ferruginosas. uma a uma. levantando-se e aproximando-se do Aires. Severo safou o saco das mãos do Aires. tanto o associamos como. depois olhou pela janela e distraiu-se com o que via. Estavam na mesa uma meia dú zia de calhauzinhos brilhantes.. só deixando um rebotalho no fundo. de cabelo em sedeiro.Não. negros retintos. Alres ficou sozinho.Do Calhora velho.. . chamada pelo que se passava na ribanceira. se lhe seguia os movimentos. . olhar de nebri.. pondo outras em cima da mesa.. nédio. enunciando o termo estereotipado para esta classe de negócios. camaradescamente. Aires. Era o mesmo simpaticíssimo homem. O bazarugo porém. debaixo dos olhos de Hincker e em linha regimental.Para o nosso caso isso tem pouca importância .retríbuímos a descoberta. pagaríamos o estrago. Severo aprumou-se e aguardou. Hincker mal lhes dardejou um olhar e. .. falou da tineta que tivera de lhe ir cavar na fazenda arrostando com as suas reservas e má vontade. ou lá o que era. mas agora em silêncio. de copo bebido de dois tragos. . Depois de esvaziar o saco com agilidade. acabou por se lembrar das palavras que surpreendera entre o Fráguas e o filho e pareceu-lhe 32 . gordo. Era homem dos diabos! O Augusto Aires.exclamou Bacelar ao passo que caminhava para a sala ao lado. Que iria ele fazer lá para dentro com a pedra na mão? E foi um pouco atarantado com as perspectivas que se lhe entremostravam que correspondeu ao aceno que lhe faziam da sala contígua. foi ele próprio tirando as pedras com a rapidez de há pouco. pescoço de várias e rubras regueifas. Tirava-as e ia deitando umas ao chão.Dado que nos interessasse. que mesmo assim virou e remexeu em duas voltas de mão. concessionário das Minas da Sobriga. a rir-se e a faiscar em suas manchas de oiro. e estava em crer o seu negócio bem parado. naturalmente para que pudesse vê-Ias e observá-las.retribuímos . proferiu com certo peremptório. e possessiva e gostosamente pôs-se a malucar na situação.. é numa leira do Calhorra. suas bostelas de verde fúlgido. depois de se referir com admiração à bela ruína de valentia e destreza que era o Calhorra. . a atenção. supondo aventurosamente o seu chefe empanne de vocabulário. sobre o balcão das tavernas. abstracto para tudo. por nada deste mundo denotava preocupar-se com os seixos que cresciam em monte à sua banda. manifestou Bacelar a persuasão de que não devia haver registo. quase nenhum cabelo na cabeça reboliça e cor-de-rosa.interpôs Bacelar.. não tinha mais que meter a viola no saco. .

picada aqui e ali dos toros verdes das canas. que já conhecia o carro. restolho e matiço. Mal subiram... Ele. Ali esteve um quarto de hora. Em Mouramorta estacaram à porta do Jerónimo. pastores e ovelhinhas pelas rampas. não mais largo que uma fita de máquina de escrever. A menos de cem passos. largaram. mas sem retina para fixar coisa alguma. Saltaram a cumeada da Sobriga. pelo fresco. face às vivendas. .a. Terra da meseta plana e taciturna: espinhaços de cão os oiteiros. Fui lá medir umas rendas.Tentemos.. com pinheiros oprimidos pelo temporal.. um nicho de alrrias . já hoje estive com a tiazinha de V. Um arrancão e. outro automóvel aguardava com operários e ferramentas. seres danados sabujos da serra que arremetem investidos de quanto rancor aflige os que andam à pata. muito que bem. mais poviléus com galinhas espavoridas e cães. como você diz? . E despediu atrás de Hincker. Quando se acomodou entre as pás e alavancas.. uma ermida.Cumprimentos.. você não pode guardar para depois do almoço o que tem a fazer e damos lá um salto agora de manhã? Em duas. não corremos a lebre. com a eminência sarjada tão de fresco que dava ideia de escorrer sangue. Chauffeur. Uma sachola limpou o corte. Depende. encontraram a fazendinha do Calhorra. um poviléu e a sua coroa de palheiros ao alto. vamos lá em acelerado. A saída do delta de caminhos.prudente não se calar com elas.Que resolve o senhor Augusto hesitou um nada à procura de palavras que traduzissem o seu pensamento e disse.. Ficam à tua ordem. Bem. Quilómetro 70. alto. Ex. estudaram o filão. giestas negrais. 66. as pedras ninguém tas rouba.. Em plena massa plutónica o veio de quartzo. 71. amigo Jerónimo? . Hincker volveu para Aires: . Um carro reluzente de cristais e cromados trepidava na meia rotunda. Bacelar disse: . ao quilómetro 74 pára-se. passava direito como o sulco que deixa na água a quereria dum batel vítreo aqui pelo lavar das chuvas. Reparando no ar embaraçado de Augusto. 67. Franz Hincker e Severo. e pulou. já Hincker e Bacelar desapareciam na curva. espraiando olhos por tudo. De manhã.e sempre os hectómetros pula que pula com a imprevista brusquidão de bonecos do pimpampum. três horas. e baldearam-no para ele sem grande cerimônia. Depois do quê.Descansa.. é um passeio. suspenderam-se à entrada da curva sobranceira ao vale. o chão parecia chamuscado. Rebanhos de carneiros pequeninos mondavam pelas leiras e rabugem que germinara com as águas de trovoada.. Aires quedou à porta da Direcção.. . precipitou-se de dentro em mangas de camisa. apontando Bacelar: O que o senhor engenheiro fizer está bem feito..Não garanto.. e mais de espaço os quilómetros 65. percutiram as picaretas e os grandes ferros pontiagudos e. Iam a sair.. ó Bacelar. se não merecer. cor-de-rosa além. Perante tal revelação engenheiro e concessionário trocaram um breve diálogo em língua de que não penetrou patavina. desvanecida à maneira de placa fotográfica já focada.Como estão em minha casa. insulações monásticas os bosques num fundo de ascese e desespero.perguntou Severo. depois casais meio dormentes. escurentado ao sumir-se debaixo da terra. vinte minutos. 68. . 33 . varre-se dali o sentido. Eu já te chamo. enquanto os homens despiam as véstias e aprestavam as ferramentas. o máximo. com o senhor Hincker repimpado e fumando o seu charuto. Pois se assim é e o agente de mister Corbet anda a rondar. Se merecer a pena. quando deu conta que do largo fronteiro à casa das máquinas Severo lhe fazia sinal.

e até almocreves. idas e vindas. pondo tais e tais de remissa. há uma nascente . que não podiam deixar. estremando umas pedras. com uma capuchinha de menino não maior que o capelo dos gabinardos. arrimado ao sachinho. entretanto. 34 .bravejou uma velhota.ó Mabília. à sua beira: . Um deles pediu que.advertiu a velha. com a sua percentagem de tungstato de ferro e manganésio. a ganga estoirou e foise fragmentando em estilhas multicores. com as pilecas a bater a ferradura e a esgrimir a cauda. Tendo-se por inteirado. Hincker veio acocorar-se ao lado deles. que se postou desconfiado e quieto como um raposo por detrás duma giesta. vozes. O capataz e Aires trataram. de ir observar e meter o bedelho. E a tanto alvoroço. mas via-se que fora pôr a samarra de montanhaque por contrastar com a camisa enxovalhada e as calças de cote e. . como sempre. Era o comum dos jazigos metalíferos da região e Hincker e o engenheiro foram percorrer os campos à roda. deitando outras fora.que batera a hora do almoço quando lhes saiu pela frente o Silvestre Calhorra. oscilava de perna para perna. boquiaberto. de apartar o minério.O que lhe havíamos de dar era lume a beber? .. Dois homens encarregaram-se da fita métrica enquanto um terceiro de caderno em punho ia tomando nota. Em menos de nada ajuntava-se no chão a bicheza toda da aldeola: descalços e em mangas de camisa aqueles que a novidade surpreendera a virar a tigela do caldo. cavada à lufa-lufa debaixo da vista da gentiaga que engrossara e apertava cada vez mais a roda. Mais de uma vez os pesquisadores tinham enxugado o suor da testa às costas das mãos. a poupa tocava-lhe cornetim. descalça. aguilhada em punho os lavradores que. Mas já Severo chamava o piquete a abrir passos adiante nova sanja. Canícula. conglutinadas de cassiterite e mispíquel. estendendo o braço a apontar. aos saltos que nem saguis. lhe dessem um gole de água. afluía o gentio. que era homem de curiosidade imediata. forneceu a mesma mistura de arsenopirite e sulfureto de ferro com a proporção equivalente de volfrâmio. corre. o Zé dos Cambais. As cigarras nos urgueirais erguiam uma cantara destemperada. ao pé dos penedos. mulher? Uma sede de água dá-se até ao diabo do inferno. mordidos por saber. Trazia o seu velho barrete de caçador de lontras. Depois avançaram os zagais. Entretanto que a pesquisa tomava amplitude. e Pedro. Severo mandou medir. Apareceu primeiro o velho Cassiano da Urra.. .disse o Aires. depois de breve troca de impressões com Hincker. frigidas pelas moscas. trazidos ao acaso. satisfeita com a ardentia. O homem ficara parado.A Mabília chega à fonte. com a sua roga de serradores. ramelosa e esguedelhada. mais Paulo. Caía um sol de rachar. outros de roçadoira. de todo anacrónicos e sem dignidade para o tempo dos camiões. Não longe. que acrescentou de seguida para uma pequena. pessoal das resinas e gadanheiros. sucessivamente.roto o banco de granito em seus folheados e lezins.Lá em baixo. embora com suspicaz sonsice. A segunda trincheira. meio nus. . a molhar com a língua os lábios abrasidos. Vá. vai tu buscar uma cantarinha de água. de chapelão e calças de estopa os que andavam pelas eiras na debulha dos painços. deixavam ir o carro à mercê dos bois. E lá iam levados a passo de carga pela resteva . nem uma feira franca. por especial favor. uns de enxada. até se alapardarem à boca da escavação. Secou .

Toca para a frente?!.. que eu saiba.Pois sim. . onde tinham ido em prospecção. a sua parte é sagrada.repetiu o Calhorra em voz repicada de furor e espremendo as palavras. o engenheiro dirigiu-se ao Calhorra: . não lhe perdeu a posse....E a saúde do senhor engenheiro boa? Estimo. está a ouvir? .Para que são as meças.. .e apontava o Aires com um desdém.Tanta gente. Severo e Aires...tornou ao cabo dum momento de circunspecção. . 35 . diamantes. mas há volfro. sem dar cavaco. mas agora num aparato destes. mas vão levando as túberas.. mas haja ele cá oiro. Uma mocita feia e suja veio a correr para ele: ..É da lei.Não senhor.Sou o dono deste chão. de se atravessar na linha que seguiam os dois mensuradores.. Não lhe perdi a posse. com uma topetada de cabeça remeteu-o para Hincker. O prático.Descanse que é indemnizado do prejuízo que se lhe der.É verdade . prata. ou perdi-lhe a posse.. Palpitando de salto o que ocorria. andaram a cavar na nossa leira e tiraram muito volfro..respondeu Hincker... repousando numa para se estribar na outra. derretendo-se em amenidade. À voz mais áspera do Calhorra convergiu para ali todo o peso do gentio. Estava longe de o supor aqui? Homens. Mas entre nós não há azar. amigo e senhor Silvestre. e já o seu interlocutor recargava vitorioso: .? Entramos no que é seu.Salvou como rezava a sua cartilha de homem bem-educado e importante: . como os militares em diligência. lá foi onde lhe indicavam.Vossemecês saíram duma terra que é minha e estão agora a pisar outra que também o é.Ora para que vivarn! .Senhor avô. mas os senhores e que não contaram com ela.? Os três homens continuaram na sua.. Se não fosse assim. Ninguém lha rouba.. O chão cá lhe fica. hem.Olá. achando jeito.. estimo. Hornens! . ao passo que rosnava: . pariu aqui a galega? .? proferiu silvando. Toca para a frente. Pernas em acluela.. e alertados por tal movimento apressaram-se a voltar do oiteiro próximo. como se haviam de reconhecer os jazigos filonianos? O Calhorra pareceu um tanto desconcertado perante razões que apreendia apenas pela rama.. que não era fingido.Não me consta que cá no meu terrunho haja oiro ou prata. É então o dono? Pois tenho multa honra em cumprimentar o senhor proprietário . Hoje estou aqui por obrigação.Vem errado? Bata além àquela porta. E quem lhes deu licença? A pergunta dirigia-se a eles por inclusão de partes e os homens ficaram um segundo interditos diante do rompante do jarreta. . sim. sem embargo do tropeção. Mas o apontador gritou para o que pegava à ponta da fita: .. .regougou o Calhorra.Toca para a frente! . se eu consentir.. Tiraram muito volfro?? . se fosse de escopeta atrás das ruças.? .. mas aduela de grande bojo. olá! Então riiinho. Antes deste pendente .Viva lá? . encolhendo os ombros. . . meu amigo. estimo ouvi-lo. meu caro.

De quem é. cobrando o natural: . se compungida. Luís Ougado? ....Tal pai.Temos: ponto de partida é a trincheira que se vê muma terra lavradia de Silvestre Calhorra.Olhe. Não ouviram? O apontador tomou nota. com. faz costas comigo. mas depressa reagiu.tornou o apontador.Raios te pelem! . meu homem. não sei ainda o que vamos fazer. e ainda queres que te peguem na candela?! O que tu precisavas sei eu.Sei lá. a uma distância de 270 metros. Levantando os olhos do papel volveu: .respondeu o nomeado. de trabucos aperrados à boca da urna: Silvestre. sita ao Vale das Donas. já eu tinha dado no vinte.e espremia uma lágrima. Confronta pelo sul. Os homens da fita vieram para Severo: como se chamavam os homens das sortes? .Tu vens roubar com os de fora. Venho aqui à luz do dia. O proprietário daquele chão. Quem risca é o senhor Hincker. O Augusto Aires ficou um instante entupido.Hábitos de ladrão tens tu. Minha não é. pateou o outro! Deus lhe fale na alma.Vejam o desaforo? já uma pessoa não é senhora do que é seu. herdou-lhe as maneiras e a “ária”. Depois. Mas uma rapariga. que os bebeste de leite. avançava para o Luís Ougado que recuava trémulo e de caradura torva diante das suas mãos crispadas. mataram-no os desgostos! Perdi. lá em baixo. surgiu de rainha Santa Isabel: 36 . perdi ali o meu grande amigo? .observou Severo com afabilidade. Fez aquela promessa com tanta franqueza e sinceridade que o velho enterneceu-se e disse: . Dado que assim seja. é provável.supremo remolhado de ódio . o amigo não há-de ter razões de queixa. uma mulheraça ruiva que era caseira do Fráguas: . contra o atalho de pé posto...Mas estacou?? .. Estou a vê-lo na eleição danada que sustentámos contra os de S. Tens a quem sair. É provável que experimentemos o filão. num crescente de cólera. e tu chamas a isto roubar?? Se eu te rebentasse a alma.? . toca a virar a terra de baixo para riba.. tal filho? O Severinho não lhe herdou só os bens. Onde um patear. ouviu-se murmurar no meio do monte de gente a voz da Ana Ruça. Vêm estes ladrões lá dos quintos e toca a devassar. não obs tante se futurar pela hesitação que o dedo dunguinha lhe advertia ser melindroso fazê-lo: . Não haver uma tranca bem mandada que desanque um para exemplo? Onde está a lei que autoriza. de quem é a terra? .Ninguém sabe o nome do proprietário? . aqui presente. como se chama? Premaneceram todos calados. dificil de dizer se artificial. como se faz em toda a parte.Esta e aquela são do senhor Silvestre Calhorra. Brás.aqui andar a ciscar. Teu avô fazia parte da quadrilha que assaltou a quinta do Ferro. toda lépida e espevitada. o Aires julgou-se obrigado a intervir. Dou-lhe a minha palavra. . cadelo? O Aires. Tua mãe foi apanhada uma noite com um amigo a assaltar a tulha da Javarda Velha.Tia Polónia Fandinga.. . Em virtude do silêncio que se congelava num tal concurso de pessoas. ... . Sim. Algum minério apurei.

A leira é de minha mãe. .perguntou-lhe o homem do lápis.tornou ela. a quem queria obrigar a fumar um charuto. O tumulto não amainava e ela repetiu: . lhe obedecem como ao Deus do Trovão.a. que tinha mau génio . deixava-se ficar às espaldas da multidão para se não ver na contingência de dá-los ele ou alegar que os não sabia. Hincker tão-pouco tomava as coisas ao trágico. O homem do caderno. manhosamente. Hincker. chama-se com a boca . a distância do poviléu. ó tiazinha? . pronto! .A 250 metros.Não me admiraria nada . Se a filha é flor como é que a mãe não havia de ser Rosa??. decerto. Sempre seu amigo Severo Bacelar. . mais lombriga que gente. já sabem? Pois se já sabem. e com os quais. . muito surrona. puxou da carteira e escreveu: “Excelente amigo: Se lhe não custa. ante a perspect 'va nada risonha. em cuja disposição borbulhava já o espírito de partido.Mas eu digo: é a tia Rosa Pedralva. Estão assanhados à ideia de que viemos para lhes roubar os tesoiros de que reza o Livro de S. que a Hincker opunha Corbet e C.proferiu ao passo que assentava. O homem do caderno debalde esperava que lhe dessem os nomes dos proprietários confinantes. grandes e redondos como eixos de carro. um destes havanos preciosos. S. segundo é notório.Pois. ao passo que distribuía cigarros a torto e a direito. vexado pela estupidez humana.” O Augusto Aires partiu a toda a pressa levar ao Dr. . . . procurava esclarecer a turba: 37 .Se lhe dissesse que se chamava com o apito. conversava muito camarada com Silvestre Calhorra.respondeu o homem desejoso de mostrar graça. considero que lhe será menos penoso arrancar-se hoje ao remanso da sua tebaida que ter amanhã. . A quem pertence? Ninguém respondeu. Manuel Torres o faceto S.proferiu com um sorriso de galanteio o apontador. E.É de sua mãe!? . compendioso. não deixariam de sonhar. Diga lá o nome dela.O que o senhor quer é saber quem é a dona da leira retorquiu ela toda dengue. para este. O. gostava? . voltava às confrontações e dizia: .se é assim que se chamam uns aos outros na sua terra! Crepitaram as gargalhadas. elha por elha.Chamo-me com a boca .respondeu a criatura em tom de poucos amigos. Carregava-me de calhaus e haviam de ver! Decorreu uma longa pausa. o Calhorra. Perdoe o incómodo mas. entretanto. de nos acompanhar ao cemitério. indicou-lhe com um leve sinal de cabeça uma velhota.Podia-me ter botado a adivinhar . o que por inverosímil trairia a sua má vontade. mas a Pedralvita. venha aplacar estes selvagens que. durante a qual o burburinho popular ruflou como enxame poisado nos ramos duma árvore.. além de compreensivo. Severo Bacelar. se bem que reputasse perigosamente susceptível o ânimo da populaça... Cipriano. sobre quem o homem trazia os olhos. que quero ir convidá-la para minha sogra. temos uma corga de tojo. alta e héctica. A Ana Ruça.Como se chama vossemecê. resmungou: .Que tal está a pouca-vergonha? A gente é esfolada e ainda por cima lhes há-de dar os améns? No que é meu não prantavam eles a pata. tendo penetrado a conjura. ao seu lado. uma noite de rouxinóis e de borracheira.A leira é de minha mãe.

Esta só tem lidado com brutos como eu. . Para que serve a lei mineira e a fiscalização do Estado? Palavra puxa palavra. Nós só teremos que nos felicitar por lhes haver ensinado o caminho. Faltava dar o nome dum pinhal com a sua terra de sementio a poente para a delimitação estar completa. não basta. Prante lá o nome: João Sancho. vender a terra. não sabemos o que há aqui por baixo. já vêem que estamos por tudo! À volta. as suas palavras não deixavam de causar impressão. quando os recalcitrantes se encontravam já na iminência de transigir.. Não foi dificil ao homem provado no foro e afeito a jogar com as paixões mais entranhadas demonstrar aos donos das leiras o absurdo da sua obstrução e ao Luís Ougado e quejandos o que havia de indigno naquele ar de cão de quinta perante quem vinha em paz e por bem. e o vê-los assim pobres e tacanhos não deixou de inspirar simpatia e comiseração àqueles senhores. Primeiro. que está a servir aqui na casa do senhor Doutor. Tratava-se dum homem de meia-idade. Tinham-no como uma espécie de manitu.Ora digam-me cá: que é que vossemecês imaginam? Que por baixo do restolho há dinheiro. Dou a palavra de honra que. Se forem positivas.gem..Qual preferem. e nós vamo-nos embora depois de atupir os buracos que fizermos e pagar os estragos. excitada por uma má inteligência dos seus direitos e lograda por loucas miragens. há-de notar que não podia ser doutro modo. ou cobrar a percentagem que a lei lhes reserva? Ponham lá que para nós é o mesmo.. Mas. sem se dar por achado. Dentro em breve estavam todos imóveis diante dele. Apareceram umas pintas de minério. ou coisa que o valha. uma razão ocasiona duas.afoitou-se a emitir o Calhorra. O encarregado escreveu o nome e ouviu que o bicho acrescentava. as carradas e que nós já amanhã começamos a abrir poços e a tirá-lo?. a Custódia. As amostras não são muito tentadoras.? Era a rendição da pobre gente. . caso lhes sejam favoráveis. os fiscais do Governo. em atitude reflexiva. justo e tira-teimas. por minha parte. pronto. Façam. Se não há mais do que isto.A corga do tojo. e os senhores. a julgar pelo jogo fisionómico que ia observando nuns e noutros. lá isso diga-se.Não. Pronunciam-se pela percenta. ali estiveram a apeguilhar e. Um homenzinho atarracado e barbudo como bode chegou-se ao sujeito do caderno e disse: . que é um homem que sabe onde tem a cabeça. mal vestido. Manuel Torres. se alguns houver.. senhor Calhorra. Não senhores. devem-nos ficar reconhecidos por tal motivo. que vigiam a produção. vamos.Haja de desculpar: cá a patroa é atrigada do gênio e mal-educada. dizem-lhes a quanto monta a percentagem. então vossemecês são chamados e pergunta-se-lhes: . acenando para a mulher: . E aqui está quem lhes compra ao preço mais alto o minério que extraírem. Resta-lhes ainda um recurso: meterem-se por conta própria a fazer as pesquisas e.. salta o dinheirinho. lá em baixo. 38 . Os senhores pensarão o que mais lhes convém. apareceu o Dr. Compreendem vossemecês?! Antes de mais nada temos de fazer sondagens. é minha. Não aprendeu como a irmã mais velha... O dono assistia de soslaio. mas essas pintas aparecem frequentes vezes nas regiões da serra. O senhor. e com desafogo delegaram nele a causa dos seus interesses. olhos de grande mobilidade a denotar inquietude interior e obsessiva desconfiança.. querem o dinheirinho logo ali na palma da mão. . onde há granito assim por atacado. sim. não lhes levanto dificuldades. e recebem a percentagem.Agora tudo são promessas. cabeça guedelhuda. é assim mesmo. a proceder à exploração.

vencendo a sua relutância. Este filã o encerra oiro. do mesmo modo que uma areiazinha é a sí ntese do planeta que habitamos. enxofre. E. lá sabe. posto que duma palidez de rosa branca estiolada. Eu não estudei. amigo Calhorra. Que descanse. mas em quantidade tal que não pagaria o trabalho de tratá-la. os elementos de que se compõe a água: oxigénio e hidrogénio. a cascalhada mineral. prata. deu um passo em frente a corrigir: O senhor Reganha enganou-se. seja do que for.Estivemos há tempos a ler a matriz. Ouvindo nomear-se.. rugiu: Aqui está o que hei-de fazer ao primeiro safado que entre no que é meu. e palavras foram as suas que operaram como água num braseiro: . Depois. Os operários. dentro de dois sacos. Admiram-se? Tem isso tudo e até água. encerra em maior ou menor dose tudo o que há de tudo no mundo.disse o Calhorra. Assente lá na sua o senhor Calhorra que qualquer parcela.. de volta do almoço. tem razão a Bárbara confirmou o Zé dos Cambais. ainda que fosse uma criança que o fizesse ao desfastio. sim senhor. Hincker pegou da pedra e. anda. mulher que devia ter sido bonita nos seus tempos.É um pobre que levou a vida toda a esfossar na terra e tem medo que lhe arrasem o que agenciou à força de suor e calos. acrescentou: . chamouo à razão com brandura e boas palavras. Duarte Ladeira. O Calhorra ficou envergonhado e semelhante dito acabou por convencer a todos da lealdade dos vedores. mas pode vir o morraceiro mais fino que a mim não me engrola ele com a mistela mais 39 . Modo de lhe valer no enleio. o Duarte deu um passo à frente. estanho.E mentecapto? . O Calhorra meteu a mão e tirou um pedregulho: Não querem pitada do que é dos outros. carregavam para o carro a ferramenta e. bem do outro. ainda airosa de fisionomia e esbelta de linhas. Manuel Torres disse-lhe. Hincker perguntava: . depois de a mirar bem dum lado. Alvoroçou-se o gentio. E olhem: também tem oiro. não é .. tem volfrâmio. atirando o chapéu de palha ao chão e descarregando-lhe uma sacholada que o amolgou.O senhor Incas lá estudou. Percebeu o amigo? O Calhorra acenou que sim.Herdeiros de Joaquim Ladeira . e tudo o mais que em matéria de corpos simples lhes venha à cabeça. sorrindo: Guarde. Sim. O energúmeno espumava e fazia forte escarcéu com os braços. isto é. zinco. a irmã.Não.Tem juízo. mas sempre vão arrecadando? Este tem da malagueta.. guarde? Rompeu grande galhofa. Anda em nome de meu irmão. Bárbara Ladeira. disse: De facto.proferiu alguém. mas a nós só nos interessará se contiver volfrâmio na proporção de O. Mas levaria muitíssimo tempo a explicar-lhes como é que isso pode ser. Bacelar acudiu em continente. O problema sob o ponto de vista utilitário está na proporcional idade. prata. Isto não é a vinha de Nabote.5% pelo menos. Anda em nome dele. O pequeno é o espelho do grande. ferro. Faça de conta que uma gota de água é a síntese do mar. . Bárbara. homem? Não esqueças que a terreola a talhaste no baldio. que acabara de chegar. entretanto. .

Pense no almoço ou apostou que me havia de arruinar a saúde.? Ficaram calados Severo e Aires. Basta-me olhar-lhe para a cara e vê-Ia reluzir.O caminho para Orcas..bem cozinhada deste mundo.Que diabo. E o ósculo de paz do vencedor aos vencidos para que se conformem. Manuel Torres inclinou-se. deixa.? Ou para amanhã. Severo ouviu que o capenga. tirania. Ombro com ombro. topam homem? 40 . Poucos irão na fita! . é pouco de apetecer. um feitor já nós sabemos quem há-de ser.... Silvestre Calhorra agradeceu de rosto prazenteiro e com urbanidade.. chega-se lá assado com o sol. Bacelar.... com ar de ponderar prós e contras. mais ou menos em vias de organização. em cujo quadro não me importava de entrar: Nova Europa. se me quer dar esse prazer.. Mas no próprio minuto em que o chauffeur puxava o motor de arranque. . que estendera o gargalo como o grou para hipotético cibato.. . . Companhia de seguros. Dr. Diz-lho um homem que ficou com as pernas tolhidas à força de o passear de cá para lá e vice-versa. lá continuaremos o debate. por agora.É em Berlim.estão convidados para uma almoçarada em minha casa de Mouramorta. Vão bem melhor amanhã de manhã... Não lhe quadra ser agente? Manuel Torres desatou a rir. Depois.Alma de cântaro. .. pela fresca.? Dirigiram-se para a estrada a passo dobrado. e digo logo se é cristo. se é judas. em tom de meia seriedade proferiu: . invalidez.Conheço a receita. Apólices para todos os riscos e flagelos. fome e miséria nos povos. Ora espere: a sede não é em Berlim?. entremeteu-se: . deixe lá as discussões para melhor ocasião? gritava-lhe Hincker à beira do carro. muito cordialmente. alijado o ar jucundo. não? Pelo menos o nome soa a esse ramo de negócios. O automóvel dos operários largou a toda.O nome não me é de todo estranho. escusavas de chamar estes piratas para o povoado! Mas. Manuel Torres ia a despedir-se.. se chegarmos a montar aqui os serviços.Sei que há aí uma empresa. Manuel Torres. O Calhorra.respondeu o engenheiro em tom igualmente facecioso. o alemão julgou-se obrigado a dizer para o velho troglodita de barrete de coelho: Senhor Calhorra. dizia entre dentes para o Augusto Aires na pressa furiosa de dar a ferroada: .Reservando-nos para amanhã .Manda a Hermann Góring Werke. sem fazer caso aparentemente do que dissera o Calhorra .Manda o Führer? . Manuel Torres dizia-lhe familiarmente em tom de chalaça: .Só se guardarmos o manifesto para esta tarde. de tarde. a caminho da estrada. mas suspendeu-se para deixar Hincker acabar o recado: . Sempre debaixo de pinhais.disse Severo. . Braço no de Severo. ignorância. diz bem: conflitos entre nações. Führer? Não conheço .

a menina do senhor Hincker. viu-se afinal. D. o guarda-rios trouxeme um prato de trutas. O senhor Hincker cumprimentou a boa senhora com excessos de urbanidade e repicando as palavras. com a própria mão que segurava o chapéu. sem importância. Conte também com o Dr. descreveu um círculo que abrangia os álamos. Paulinha. admirados da boscagem. Como vinha aí um sol desabalado. mas o português correntio aprendido na vida das relações. . Olha.. quando fala. sombras que o movimento cadente da água tornava ainda mais voláteis: . que acumulava as funções de abegão com as de porteiro. Foi por isso que. pois. olhos muito azuis e móveis. ficava com a tia Irene enquanto eles chegavam a Orcas fazer o registo. Parece um claustro! 41 . com óculos de escafandro. Havia uma pequena alteração no programa. porque ainda não tenha prática suficiente.e não menos ante aquele senhor alentado.Dá vontade de pegar aqui de estaca à semelhança destas árvores.. e não faça cerimónia? Se a tia. estão com sorte.Está bem de ver. em nada o bigode hitleriano tão em voga. Tenho ervilhas frescas. em seu desdobre lógico e sintáxico. .. à volta. entorpecida no seu recosto de faias e álamos sob os langores da madrugada.O que a tia destinar.. nem se fala nisso.. de calças arregaçadas do regadio e peitaça lanuda ao léu.III Só ao quarto ou quinto toque de buzina é que a velha casa de Mouramorta acordou. Irene e o sobrinho desceram a escada a esperar Paula e o pai que avançavam. mercê do que a boa senhora perdeu o ar tímido e só por isso rebarbativo. anunciou-se milharal fora pela esteira que levantava o marulhar dos pendões. . . o esforço do homem cerebral que aprendeu primeiro a teoria do idioma e. lá vêm eles. Severo não se tinha anunciado. O Meirinho.. nunca o fazia sem delatar certo esforço. está a ver cada frase. esbelta e sadia. cabeça quadrada imponente. os loireiros-rosas. nos quiser oferecer o almocinho. pelo pátio saibrado com areia do rio. e era de presumir que visita tão matinal . Quando se propunha falar o português literário. não se preocupando de deixar a descoberto o minguante lunar dos cabelos sobre o occipital. E.Essa menina tem alguma necessidade de ir apanhar a réssega? Que venha. no rosto e sorriso de visitante reconhecida verdadeiramente uma estrangeira . Mas o senhor Hincker tratou de se pôr à vontade.. Não havia dúvida que falava muito correctamente o português. mostrava-se a cara surpresa e um tanto perplexa da boa tia Irene. correu a sossegar a dona de casa alarmada.. e as sombras frescas à volta da bica de pedra. Mando cortar o pescoço a dois frangos. . disparando pátio fora. Irene ficou um pouco esmagada ante aquela rapariga de carnadura rósea.Com quem tu entenderes.exclamou ela.Reconsideraram muito bem . D. Manuel Torres. na alpendrada. bigode tostado pelo charuto sobre a boca pequena incisa com firmeza. pular com desespero para as trancas de ferro. e. Ao mesmo tempo.causasse o mais dramático sobressalto na casa desprevenida.oito horas solares . discreto em seu recorte. o que dava nas vistas e lhe sucedia sempre que procurava falar com elegância e precisão.

a história imaginária da propriedade. As suas personalidades não se atropelam como no ser vulgar. quando viajante. depois ante o panorama da Serra da Estrela. não se descobriria o potentado que movia caudais de oiro e trazia às ordens um exército de homens. sehr hübsch! Sehr hübsch! Com a mão direita fazia uma carícia às rosas.. percorreu com reverente e mesurada pausa os quadros pochades de modernistas e tabuazinhas de primitivos portugueses . poeta romântico ou impressionista . galantuomo. ou com a brusquidão própria da gente afeita a ir depressa e incontemplativamente. em seu cérebro devia estar ainda a discorrer. ao passo que acendia o fósforo. sentou-se. era capaz de se sair com honra. Do modo mais natural deste mundo. em sua disciplina. Por muito que se procurasse. a dar uma dedada aos cabelos. destas ventarolas de papel que distribuem os teatros e restaurantes caros. um à-vontade que o tornava eminentemente social. que passou a Severo. Os indivíduos que assim têm o poder de repartir-se .depois do que foi observar da janela a paisagem agrícola com este olhinho refiro do homem de negócios que não admira a bucólica sem deixar de pulsar a puberdade e o rendimento do solo.quando homem de negócios. possessivo. gordo. com a outra agitava o abanico. Tudo isto fez em menos tempo do que a filha levou a tirar o chapéu no quarto da tia Irene. tal um filme de grande metragem. E cruzando a perna e puxando da charuteira. se o encarregassem de compor imediatamente um relatório sobre a povoação e aquela casa assolarengada.oh. deu uma torção ao pescoço como se quisesse subir um ponto numa cremalheira. o senhor Hincker atirou o chapéu para cima dum tamborete. veja lá se lhe faz mal?? O senhor Hincker sorriu com o ar suficiente com que na sua terra era costume dizer-se: um homem honrado tem medo de Deus e de mais coisa nenhuma. Era um sorriso amplo. desobsequioso e brutal. . antes se mantêm prontas ao apelo. revestidos de glicínias e rosas de toucar a todo o ascenso.Vem de pais? . Tão-pouco se diria o estrangeiro pisando terra de roça. uma sombra quase subjectiva .Está aí na corrente. e são espirituais segundo a mão que as maneja. reclinada no extremo horizonte sob purpúrea e roxa gaza: . Era o caso de Hincker. quando homem de sala. . e dada a familiar curiosidade que lhe permitiam as relações com Severo pôs-se a vistoriar a casa. Observado tudo. fixado tudo na retina. a avivar o cinábrio da boca . Paula exagerava a sua boa impressão. não se descobriria no senhor que ali estava espraiando um olhar ocioso pelos quadrinhos da parede. Naquele sorriso palpitava-se o tipo de acção e com a superioridade mental precisa para poder responder em qualquer emergência pela sua pessoa.Pisaram os primeiros degraus da escada de dois lanços. exprimindo além do dom de circunspecção ou de oportunidade. outro olhar meio atento pelos campos. esponjou-se com o lenço. exclamando a cada flor mais especiosa. Foi copiado à risca do antigo. É em castanho novo.e a volver ao salão. Estava há menos de dez minutos em Mouramorta e. e ia puxando as fumaças do havano.Esta casa foi adquirida e adaptada.Nesta casa respira-se bem o século XVIII .proferiu. Mal puseram pé na sala de estar. convidativos como braços que fazem sinal para subir. Repare para o tecto.. homem de negócios.Oh. como a seres animados. O engenheiro advertiu: .estão por sua natureza proteica destinados a dominadores. a despeito do esquemático. visto ter-se reduzido a sala a 42 .

do ramo nacionalizado alemão.Mas nós não viemos aqui para resolver a crise do Douro. achou de primeira civilidade inquirir dos entes queridos que o senhor Hincker trazia na guerra.tornou D.dimensões muito menores. Quando éramos pequenos fazíamos aqui corridas de bicicleta a toda a volta. associados. escangalha a maior parte. boas.guloseimas da região . desataram a beberricar. nem boas nem más. o espaço. Pena foi que não déssemos conta mais cedo! D. proferiu: . Mais ao norte. O estilo que se adoptava aqui adoptava-se acolá.É conforme. Irene. Se a Alemanha abater a Rússia.Teremos ainda guerra por muito tempo. mas com um só alçado. do ramo dinamarquês. estropiado em Crera. um sobrinho.e como um homem do Norte empina sempre que pode e um português nunca se julga desobrigado de fazer uma perna. E então vitória em pleno. grande. vadios e fantasmas. o outro. minha senhora. levantando-se. cavacas de Freixinho . já não tinham conta os feridos e os mortos. Sempre assim se mostrou. repercutia além fora. isto é. está meia vencida.e Hincker torceu-se na cadeira a encher novamente o seu cálice de Porto. Delicada e lentamente. Mas sentiu-se. outro aprisionado em África. Decorreu um grande silêncio durante o qual todos viram desfilar uma procissão de aleijados. . . via-se bem. mata uns. Irene. acabouse a guerra. que viera fazer as honras da casa. o censo da sua gente apresentava-se assim: o filho mais velho. no Hartz a curar-se da arranhadura duma granada que o atingira por cima de Coventry. Depois do que. Os ulanos do marechal Von Rundstedt já há dias que chegaram os cavalos a beber às nascentes do Dnieper. o paladar e o olfacto. um irmão. no dever de mostrar-se optimista e manifestou: . Ele abriu os braços num largo e teatral gesto de incógnita e fatalidade. Ao terceiro cálice.Também temos assim muito no SchIeswig. por outro lado as divisões couraçadas de Von Bock avançam para lá de Kiev. sentenciando: . consoante a fé germânica. senhor Hincker? . A Europa é um solar. Uma criada trouxe uma bandeja com fálgaros da Tabosa. os nossos exércitos avistam Leninegrado. umas três vezes do seu tamanho. a segunda cidade santa dos Vermelhos. As notícias chegadas recentemente são animadoras. estropia outros. a seguir a este.Por enquanto as clareiras não são grandes. saboreou o vinho fino até a última gota. o senhor Hincker media de novo com o olhar a amplidão da sala. Novamente abriu os braços num gesto cheio de vago e indefinido. já se deixa ver. Notícias. Era inconfortável de todo ao que era de grande. E concluiu com um tom de voz que pretendia ser desopresso e vinha carregado de mortulha: . mas a guerra é uma devoradora insaciável de homens.O diabo é que a Hidra tem duzentos e cinquenta milhões de cabeças emitiu Bacelar. morto em França. O século XVIII entre nós conheceu o fausto. Na entrada do estio. primos. aviador. coronel. mas ignorou de todo a comodidade. Está então decidido: a menina fica? 43 . . Meu pai mandou reduzir esse verdadeiro Ringbahnhalle e andou bem.Formidável? . numa divisão Panzer destacada nas Marcas de Leste. devia ter tomado parte na ofensiva contra a Rússia. A estepe. o mais novo nos submarinos.

.Como sabes? . diante do guicbet.Daqui lá temos menos de vinte quilómetros. Augusto? Do Corbet? . Pé no acelerador. Esse carro era o do Antoninho Fráguas. que não acontecera.redarguiu Hincker. . Severo rejubilou em seu íntimo. em todo o tope. atravessado na via a todo o largo..Mas conta o azar . Temos esse direito .Não vi. O Fráguas corria pelas leiras.. as grossas e revelhas franças tão profundamente que dir-se-iam outras tantas raízes que por sua vez firmavam ao solo a árvore secular. Que acontecera. meio divertido: 44 . que passaram.. Nesse momento entrava o portão. . A repartição só abre às onze. para não dar nas vistas.Há-de ser dificil . É verdade que em tão pouca distância a velocidade não conta. Sucedia-se uma baixa. e neste jogo iam a recuperar a velocidade quando ao alto. Mantiveram o andamento ao atravessar Pedrões. o Augusto Aires. . . dizia para dois pastores embasbacados diante dele. enterrara na margem..Ida e volta: uma hora. dois quilómetros adiante.Se não se demoram. Temos tempo de sobra.São dez e meia. Registo: um quarto de hora. decerto à procura de gente que lhe ajudasse a remover o obstáculo. O excelente B. mais migalho. de si alagadiça.M. Será possível ultrapassá-los? . nem resfolgava.respondeu Severo. e lançaram-se ladeira acima a 80.disse Severo tomando o volante. Passaram em Malhadas a 110. ao fundo da aldeia iam a 90. jungido ainda ao cepo por um feixe de fibras vigorosas.Pararam em Malhadas. correu a contar o que se tinha andado a fazer no Vale das Donas.elucidou Severo. visto à esquerda as terras serem em socalco ou muradas e à direita bouças com mato alto e pinhal. Foi a Ruça que. . se lhes deparou um carro parado. em cima do tronco. O Antoninho desceu-se e foi à taverna saber o nome por extenso dos donos das terras. em despeito do carro de feno que ia fora de mão e lhes surgiu pelas chedas numa curva apertada. disputa-se a primazia a sopapo. Se não for o do Corbet. . um dedo espetado para o chão.. panne não inculcava que fosse..V. ao desabar. Não havia possibilidade de obliquar pelos lados. A questão é chegar primeiro.Vamos lá. muito esbaforido. Talvez.Talvez seja o do Fráguas. . como nastro que abambou. bem vai. A coruta. Leve afrouxamento à passagem do rio. soberbo em seu alor e robustez. Devia esperar por eles em Malhadas. Hincker tirou o relógio e disse com a maior fleuma: . O carro tinha estacado diante dum enorme pinheiro.Que há? . sobre a ponte de viés.. Fora duma dessas bouças que abatera o pinheiro. Pelos informes estou em crer que fosse o calhambeque do Fráguas. . conformada. menos migalho. com ar meio atónito. Desceram a escada. se tanto . De quem era o carro.. Uma hora e quarto. mister Corbet. saindo-lhe ao encontro. de pé em frente dela.. logo breve subida. e em face da aparição imprevista Severo augurou novidade.murmurou Paula. mal os senhores ontem viraram costas.Em última análise. Há meia hora. outro fazendo dançar a bolsa de oiro na ponta da corrente. De pé. .perguntou.O Corbet e o Antoninho Fráguas já lá vão adiante fazer o registo.

não houve passaporte que a sua falta de escrúpulos. meia desplumada e azarenta. Solange. O exercício dum mester tão à parte permitiu-lhe ainda praticar as artes de D. além de bem 45 . Mas este ramo de negócios. esguio. Gloriava-se de roubar à mochila mancebos na idade militar. Ficara assim com letras gordas e princípios morais muito precários. Ao Antoninho. filha de brasileiro.. largara-o à lei da natureza. se metera com ele a monte através de bosques e penhascais. duma acerba e incontemplativa heroicidade. qualquer vida.. Sucedera um dia que para salvar das malhas da justiça certo bardino que por arruaça chacinara um pobre gaiteiro em entroviscadas de arraial. tendeiro. se alguma coisa contavam de seu. O diminutivo com que ficou a ser conhecido pela vida fora caracteriza bem a metamorfose. já toda a aplicação de criança se lhe exercera na arte de assaltar os quintais. em baixo.. levado por igual motivo. insulado. Agente de várias Companhias de Navegação. embora cultivado assim à grande e com toda a sorte de agilidade. chocalhando as libras: . Aos vinte anos um bambúrrio pô-lo na pista duma indústria. ainda sua prima. alcançaram um ponto da raia seca onde a troco de boa espórtula um hombre de Dios se prestou a passá-los para Espanha. servida por hábeis calígrafos. Armado de dentuça afiada. Juan sertanejo junto das mulheres dos embarcadiços.Eu pagar bem? O Antoninho Fráguas.Eu pagar bem. Oscilante entre rústico e fidalgo. que coara parte da meninice internada num convento de religiosas. Tanto bastou para tomar-lhe o gosto. sozinho. tanto Severo como Hincker conheciam-no de ginjeira. não falsificasse ao sabor do freguês. o casamento. nunca chegando a compreender os homens nados dentro das três dimensões da vida moral como é que as autoridades não punham a mão na lapela do chatim. o pescoço desenrolando-se como um sem-fim do alto colarinho de goma. No gênero do escalracho humano que ataca o alqueive rural e se torna o flagelo do camponês. Tentou o que ele chamava o principal negócio da vida. lembrava uma ave pernalta de jardim zoológico. Ridículo? Not in the least. direito visivelmente ao lugarejo da Franja. No seu poleiro. preocupado apenas com a solução do problema. extorquindo-lhes os mais desmarcados juros e alcavalas. sólidos como cavalos. As suas tranquibérnias deram brado. barbeiro. qualquer coisa de leviatânico. havia que tentar a vida. e as de usurário. por sua vez. O pai. unhas rijas e braço teso. jogar a pedrada. Vocês chamam homens. para lá de todo o ridículo. o uso da gravata e as mãos brancas no meio primitivo acabaram por imprimir-lhe o diferencial necessário. com um pé na trampolinice e outro no parasitismo. relapso à escola. cacique nas horas vagas. duas farripas loiras a voeiar no toutiço. Havia na sua postura. burlar os da sua igualha. Era enfezadinha. magro. que se eclipsara por trás da lomba dum cabeço. se vocês tiram árvore. Tomou-lhe o gosto e deste jeito se lançou no ofício de engajador. mas apto mercê da audácia congénita a tentar tudo. Em Muradais havia uma menina. tinha muito de aleatório e periclitante para quem se sentia tanazado por uma fome milenária. eu pagar bem. se eram bonitas. Sim. nariz adunco. o José Francisco. que passou a ser o eixo da sua actividade. aquele era um famoso exemplar. mas. caminhava noutro rumo. sem disposição decidida para coisa alguma. De déu em déu. voltava a aparecer. e clientes de alto bordo às penitenciárias. Bravio por semental. E prosseguia no aranzel.

Mister Corbet. Brás montou uma taverna. Mas tinha uma voz de veludo. Em despeito de tanto afinco. a Júlia Minga. que o via a arrotar grandezas. Marcanciou em cavalos. lobrigou no valdevinos o seu príncipe encantado. ia ele nos quarenta anos. Mas foilhe preciso ir guardá-la. grandes maltas de gente que pagou tarde e às más horas. tão parecido com ele como o ovo dum cágado com outro ovo do mesmo cágado. À força de colear e de brando jeito. Se por este conduto alguma coisa ainda viria a pingar. conseguiu que lhe entregassem a título de aforamento. retirada da canastra da sardinha e do comércio dos ovos. computada para cima de trinta hectares. Em despeito das advertências. a porca da vida não endireitava. atrevido como os que o são e brutal. Ainda e sempre construía na areia. Que fazes. Cortejou-a. passava por vir a receber uma legítima como nã o avultava segunda na comarca.educada. picado das bexigas e quase desproporcionado de estatura. Mas era de raça para grimpar. Entregava-se esta empresa à compra e produção de matérias-primas para a guerra e fazia-o com uma abundâ ncia de capitais e uma largueza de processos dignos do maior império a que tem alumiado a rosa do sol desde que o mundo é mundo. volveu da alçada a jorrar sangue pelo nariz e com um olho a repolhar na órbita violácea. Não era o que se chama bonito homem. mãe do rapaz que agora ali corria pelas terras. de quem eram celebradas a indulgência para com os pecadilhos duns e a magnanimidade para os leais serviços doutros. era cheio de ralé e. de trabuco aperrado. mas em verdade de mão beijada. antes carão sobre o comprido. dos dixe-me-dixes quanto às baldas do pretendente e ao mulherio com que podia encher um serralho. Com efeito. supremo dom de sedutor. a murar. metiam-lhe os gados aos renovos e quimavam-lhe as cardenhas. e agarrou-se com unhas e dentes. solipas e materiais de construção. mal virava costas. em S. Surgiu a guerra. A pobre. e deitou olhos aos horizontes. à testa da qual pôs a amásia. O seu leme era: antes ladrão do que pobre e estavam explicados todos os claros-escuros e bocas de precipício do seu caminho. não a deteve no pendor. Explorando com astúcia e fingido fervor as reviravoltas da política. que hás-de fazer. Chegou-se a gabar de sete amigas a um tempo. olhos de pegar o fogo em palha molhada. seria duns tios que a menina tinha em Malhadas da Serra. Concomitantemente. A família. protestando contra o comércio que o traste do marido cometia em sua casa com criadas e jornaleiras. era bem 46 . lãs e cereais. fez-se empreiteiro de estradas. Solange só deu conta que fora lograda no dia em que. palpitou-lhe o comércio dos metais. De dissabores e arrelias compensavam-no as mulheres que neste e naquele poviléu se arrepelavam pelo galo doido. por cujo selo ia dobando uma estéril primavera sem pássaros nem flores. a saibrar. uma tira de serra. deixou-se enviscar. que não se conformavam com o esbulho. que representava em Portugal a Chester and Brothers London W. faltos de herdeiros directos. Porfiou. melenas que lhe desciam para a fronte. das depredações de mateiros e pastores. ombros largos de mais para a cintura muito fina. veio ele a apurar em fonte limpa que o sogro com jogatinas de Bolsa mal sucedidas espatifara a fortuna e dera com o comércio de secos e molhados em vaza-barris. Foi a quadra negra da sua vida. Era do mais fértil que havia no baldio e trouxe ali a arrotear. conseguiu insinuar-se no ânimo de mister James Corbet. arrancavam-lhe as plantações.

de pistola na mão para queimar os miolos. ou simplesmente resolvidos a cometer lance tão aventureiro. Até onde iria ele com tão robusta saúde e insaciável fome de lobo? Hincker e Severo conheciam-no por fora e por dentro. Financiou-lhe o inglês a montagem duma separadora em Tendais.Não se matem . no. e davam-no já como a abarrotar de rico. apoiando o peitaço contra o lenho e fincando as tamancas no chão. Mister Corbet não se deu ao incómodo de descer. além de que lhe estaria porventura a carácter. A mesma mixórdia dizia-se que impingia a mister Corbet. Mexera. a quem meteu a faca . . no tempo em que era visto com olhos confiados.na sua fraseologia pitoresca equivalia tal modo de dizer a passar o conto do vigário . e prosseguiu nas diligências de remover o estorvo. seu patrão. pelo que revelavam de insciência na mascambilha. Eu pagar bem. Um tal Leónidas Seixas. irem chamar muito gent& Depois que se inteiraram do entremez. Esses e os pastores. Os pacóvios vinham das serras com o volfrâmic. sessenta e cinco unidades pelo menos. em bruto e trocavam-lho nataverna a metros de chita e a rabos de bacalhau. parte do vale do Vouga. o senhor esquipático flauteava. Vinte homens não chegam para a remover da estrada. outras que valesse a pena fazê-lo. involuntariamente. vendo a separadora a funcionar. os pastores afoitaram-se a alijar as capuchas e. outros assomavam no cerro. O volfrâmio genuíno. alcunhado a Fera de Macinhata. 10. Hincker e os seus saltaram em terra e cortejaram. ele não o ignorava. em seu desespero. novinhos em folha. encostaram ombros ao lenho. mas quanto 47 . o rei da “mangola” no entanto não se deu por achado. Por cima deles. entregava-o na Sobriga contra os pacotes. a quem chamava caloiros. “percam-se os anéis e fiquem os dedos”. com escritório no Porto. Sôfregos desta laia.Eu pagar bem! Hincker e Severo retiraram a sacudir as mãos embodegadas na resina e nos cogumelos da carrasca. como se tal missão lhe coubesse a ele que chegara primeiro e pretendia passar primeiro. Cumprimentou-os com desembaraço natural. 14. símbolo da sua nação. sem compreenderem todavia como se encontrava a impedir de todo o trânsito aquela bisarma de madeiro. despediram o alento todo: há! há! O tronco nem buliu. Diante deles o morraceiro não dizia palavra. nem dentre as pessoas que estavam em baixo se julgaram umas com direito de o apear. Foi o princípio da sua carreira triunfal. pode dizer~se com a boca na botija. imperturbável.disse Severo. Alres deitou a mão a um galho da árvore a experimentar.o reflexo da política tão realistamente maleável da hora difícil. Tendo acabado por decifrar a linguagem de mister Corbet. com Fráguas. à qual de princípio esteve associado um outro escopeteiro do mesmo calibre. Entretanto apareciam os primeiros homens de socorro. Pedir reforço. a voz que define o Britain's rule em todos os tempos e lugares escapou-lhe novamente dos gorgomilos chupados: . e por isso mesmo se temia deles. protegido por grandes e misteriosos poderes. Ele erecto. que faziam 9.No. Surpreendido em plena estrada. Acontecia-lhes assim levar por alto preço toneladas de titânio e ilmenite. Praça Filipa de Lencastre. gesticulando: . do Banco de Portugal. compravam a olho na febre de enriquecer. sem lhes ficar o recurso de recorrer à autoridade. Os picardos do Porto. Dominava agora o Alto Paiva. com ele saíam sempre tosquiados. Severo. viu-os esbracejar por baixo dos pés e. Aires e chauffeur. com Hincker.esteve à beira da ruína e. para que nem sempre conseguiam comprar guias falsas com que fazer a exportação para Inglaterra.

mais estrepitosa que um ciclone. V. Eclipsou-se tudo. um 48 . ao fundo. formulou mais uma vez: . foi obra dum sopro.No. Aproximavam-se da vila. marrados um no outro como em match. Eram as duas nações face a face. já os automóveis trepidavam. a chocolateira depressa se esvaiu à retaguarda no pó e frondes do caminho. As apertadas e sucessivas curvas tolhiam o B. mal se anunciando pelo estridor. lançado a fundo. chamar mais gente.a arredar nem polegada. Mister Corbet mostrava o mais azarento e enjoadíssimo esgar que se pode supor em rostos glabros. no mar. A gente que lá vem. Hincker convidou o inimigo a passar. tocado pelo José Francisco. prático em derrubadas. tranquilizou: . rodar depois o lanço para a berma. a buscar um serrão a Malhadas. aliciados ao esterlino. Ainda um galão. mais nítidos. menos um do que há pouco. Atacaram depois ao centro. com a quadrela do campanário a escornar no tope. depois de contar as pessoas que vinham a caminho. circunstância donde emana o seu optimismo (inico e inexaurível. no meio dos pinhais negrejou um bando de gente. quase mudo. Com uma leve mesura e gesto mal esboçado da mão. compreendeu mister Corbet que a partida estava seriamente comprometida. pois que no segredo de suas almas se mordiam como cães. o senhor primeiro? Arrancaram a um tempo. largaram a correr em sentidos diferentes. tornaram a relampejar. ficando nós de braços cruzados. Mas um inglês joga até resto. Mas esse auxílio não chegava e a sua ânsia devia superar a da boa irmã Ana. E.. esfalfada. foi precisamente no seu prolongamento longitudinal que se puseram a serrotar o pinheiro. aquele do seu posto como de gávea. M. E em poucos segundos de conciliábulo conceberam um plano. serras e o Quim da Urra. Em resposta. Por fim. Metralho-lhe os pneumáticos. Severo disse a meia voz para Hincker: . ao passo que exclamava: .Thank you! O senhor.Não há-de ser necessário. no deserto. entretanto que Corbet e Hincker. o inglês tirou o chapéu agradecendo galhardamente. voou. Hincker. além da experiência requerida.. Quando viu crescer daquele modo o arraial. Serrar o tronco. no. Quando viu aqueles treze peitos debalde apostos a virar o tronco. o rabo-leva gris do arrabalde entre hortejos e devesas. se entreolhavam com silenciosa e correcta frieza. e na projecção visual do pára-brisas desenharam-se um padre à secular. pulso rijo. Em poucos minutos estava dado o corte do lado da coruta. depois. E com entono de coragem. Mais gente ou então ir buscar machados e serras para cortar madeiro. levemente molhado de desdém. de desenvolver a fortaleza. estacando par a par com o do Fráguas. mais a que aí está note que já se foram embora dois – somam treze. Claro. Os zagais. V. O automóvel de Hincker. os contornos versicolores. chegou de rompante com machados. arquejante. ali como no resto do mundo. Primeiro que tudo o Aires e chauffeur despediam no B. Olhava em volta à espera do auxílio providencial que um inglês acaba sempre por encontrar em terra. Mas assim que se lhe deparou uma recta.Antes de nós não passam. tal qual suas índoles e temperamentos. Tanto o Aires como o Urra tinham. este de sentinela a meio da estrada. M. Relampeíou à direita em espanejamentos losangulares de cal e vermelhão uma nesga de casas presunçosas.

uma sertãzada de carne fresca de porco. . mas que mal se estava garantida a prioridade? Ao balcão tropeçaram com o Calhorra e tiveram um vago palpite de moiro na costa. sem tirar nem pôr. De chofre penetraram a traça do velho raposo: fora ele que mandara atravessar o pinheiro na estrada para ganhar aquela meia hora ao balcão da Secretaria.. Para lá bateram de espora fita. Como tramóia não fora mal urdido.Talvez o ladrão lá esteja.Apresentou-o o homem que aí estava: Silvestre Calhorra. que não se deitariam à vila mais cedo do que o necessário..Se não está no edifício.Que me diz? . . propinou-lhe. confrontações. . abancado a uma fritada de marrã. Mas nem no vestíbulo nem nas imediações levantaram rasto do Calhorra.. foi pelo livro próprio e declarou: . a par da sua Verónica. . Hincker quedou um momento em silêncio e. muito alevantado e pisa-flores. Estacaram diante dos Paços do Concelho e com repousada confiança subiram a escada. . Credo. de Malhadas da Serra. Felizmente a Divina Providência. saíra de casa com a alba sem outro lastro além dum cálice de cachaça e duas buchas de pão. que se levantou a atendê-los.. Silvestre Calhorra sentia fome. e dois garotos a repartir um talhada de melancia. além da sopinha de rabo de boi. pela mão diligente da Eduarda.A gente da serra costuma ir petiscar à casa da Eduarda ponderou o Aires.senhor de coco. 49 .. calculando. menos Hincker. Eu leio para que Vosselê ncias fiquem inteirados.É como vês. o manifesto lavrado nos termos da lei. salvador do mundo! De soslaio notou que traziam cara de poucos amigos.Para onde iria o homem? Sem disfarçar o lume sardônico que lhe chispava dos olhos. Além de que a febre do lance não o deixara cobrar sono. Não tiveram necessidade de comunicar os seus pensamentos. e em tudo.Este manifesto acabei há instantes de registá-lo. Madrugou. que há tanto devia ter aberto a Secretaria da Câmara.Vossemecê por aqui? . Orcas da Beira. o amanuense observou: . e dispôs-se a matá-la dignamente. quando ele se escamugia.. pode dizer-se. O velho gabiru lá estava. medição. com um bolo e uma garrafa de vinho à frente. E estava na incomparável operação de deglutir quando a porta se abriu de rópia e viu avançar direito a ele grande tropel de gente. perguntou: . imperturbável e cravado no charuto como adem num espeto. O funcionário leu. de que rescendia pela taverna o aroma inebriador. não teve ainda tempo de atravessar o Tavolado. com efeito.. uma destas fomes caninas a tal ponto azougueiras que os seus olhos quanto enxergavam era baço.. O engenheiro Severo Bacelar entregou ao amanuense. É o mesmo. Leu o registo. correspondia aos dados de que eram portadores. nem os judeus quando entraram pelo Horto das Oliveiras dentro a prender Jesus de Nazaré. segundo o jogo das probabilidades. Chegavam com atraso de meia hora. sem trair na voz a menor contrariedade. com o brio dum antigo porta-machado... nomes. Para mais é coxo! Desceram de afogadilho. Quem tem cuidados não dorme.disse-lhe o Aires..

nem para questionar consigo.Esses nem aprendidos numa escola de gangsters! . .Associar-se connosco. meus senhores das barbas honradas? Quem é que primeiro lá quebrou as unhas a esgadanhar? Fiquem sabendo: aqui onde me vêem apanhei lá e no rebusco em redondo. Uma fortuna pela água abaixo! .? É de vontade? .Nunca andei noutra escola.Estamos aqui para fazer negócio . não há dúvida. plantou olhos em Hincker.. hoje tinha pregos de oiro pelas paredes. Larguei-o à razão de doze vinténs o quilo. que as más-línguas classificavam de felinos: . É preciso andar a fusgar. quem ma fazia eram os senhores se durmo a manhã toda na cama.volveu dirigindo-se assinaladamente a Hincker e a Severo. Vendo-os circunspectos. Mas o que está por debaixo da terra não é como isto de perdizes que se tiram pelo faro e saltam ao nariz dos podengos. pois então! . torcendo os lábios num esgar dubitativo. senhor Silvestre.Não sei o que o menino quer significar lá na sua retorquiu-lhe com voz paciente. mas é para que não suponham que me comem por asno. se tenho por uma casualidade guardado o volfro. Pois.barregou o garnisé do Aires.Que espécie de negócio querem então os senhores fazer comigo? .. Sim. lá porque lhe parecesse que tanto o Incas como o Severo se acobardavam de romper fogo. Dóilhes? Quem descobriu o filão. vendo o registo.Nós não viemos para ouvir as suas lástimas. Se serve. proferiu erguendo os olhos. Vendo.Olé. retrauteou: . rape que rape. . Os filhos saíram uns pilordas que para pouco mais prestam do que para virar a malga do caldo e a caneca do vinho.Você sempre nos pregou uma vigarice!. tirei lá setecentos quilos e mais tiraria se não estivesse velho e cansado. vejam os senhores o perdimento. depois na parede e. .O amigo Calhorra podia usar processos mais leais exclamou Severo com ar agastadiço. sem prestar orelha à invectiva.São servidos? . Depôs o garfo contra a borda do prato..mas não só não tremeu como o garfo se lhe não desviou da trajectória mais curta do prato para a boca. serve-lhe?. Viemos para fazer negócio. . Raios o partam para excomungado! . a moer..Assim com'assim. como ia dizendo. . conhece o chão que pisa. setecentos quilos! Agora eu lhes juro: se este pilhancras lá não vai esfossar.Está bem.Que diz o senhor Calhorra? . associar-me não quero. O senhor Incas aprendeu nos livros. nada menos de setecentos quilos.. os senhores nunca tinham aventado a malhoada.proferiu Hincker em tom conciliador. pique que pique. . por muito que sejam dignas de dó. Estou pobre. como estacassem à volta dele. bem sabe. para maior desgraça com umas pernas que nem cilindros de estrada. aqui o menino Severo tem prática.. 50 . senhores! Não se atreviam a interrompê-lo ao que estava de excitado.. Ponho a mão numa Escritura que não aventavam. pedra a pedra como nozes..Para fazer negócio? Pois vivam lá.. .Então não são servidos. . para se descobrir? Estou a ensinar o padre-nosso ao vigário. vamos lá a ver o que a coisa dá.articulou Hincker. respondeu: .Digo e torno a dizer: escapei por uma unha negra à vigarice. Lá quanto a vigarice. está bem? .. Depois. estão com o seu homem. que não fosse a do Cadelas. como acoimou para aí uma boca mal lavada.. mas encrespando bem visivelmente as sobrancelhas. Outro ardil não lhes deu o Diabo.

previsto pelo Código. .e disse: . 51 ..Qual exorbito? Se o senhor Incas não quer. e o senhor Hincker vê-se na obrigação de apresentar queixa contra o malfeitor que foi atravessar o pinheiro na estrada. . Nada feito.. Por isso mesmo é que é um grande crime. . Não faz. E como está em branco.o seu sorriso. um imperceptível e quase abafado badalinho mofador: . a jogar contra eles jogava com cartas marcadas. ainda bem? O que agora mereciam era que lhes cortassem o pescoço. mas o mais certo é levarem o muito.Quanto há-de querer pelo endosso? . e a Guarda procede ao levantamento dos autos.. Levem o pouco ou levem o muito. puseram tudo em pratos limpos.O amigo Calhorra sabe muito bem quantas polegadas bota um palmo. Deste jeito desaparecem as desavenças do dia de amanhã ao repartir da talhada. Um só. nesta altura do discurso sorriu. o arrepio nervoso do sobressalto.respondeu ele com igual peremptório.lançou~lhe Hincker de chofre.. descuidado... e amigos como dantes. era de quem desdenha quer comprar . riscam por onde lhes apetece. O pinheiro podia causar uma catástrofe.Quinze contos . vale-lhe mais a pena associar-se connosco. Esteve um avo de segundo interdito com um penedo sobre o peito. ?? Que malvadez? Caçaramnos. Incas e o engenheiro puseram-se lá na ladração que ninguém entendia e foi este que rompeu fogo: . mas já era tarde para desandar caminho. teriam visto fuzilar a imagem de um homem.Deitaram um pinheiro para a estrada. Não tem pés nem cabeça.. na sua pupila. deviam sentir-lhe passar à flor de pele. Supunham que o Corbet tinha abalado para longe.Também pode ser. oh. Severo sorriu . Como eram pessoas de olhos finos. Os homens apanhados com os machados às costas já estão na gaiola. Cautela por cautela. estava farto de o conhecer. muito levemente. . Firmado neste palpite. Não sabiam aqueles amigos que estava senhor da maranha toda e que. O Antoninho deixou-me recado que chegavam ali adiante. como num espelho. ao contrário do que Severo pressupusera. Pressentindo provavelmente o perigo.Quinze contos e nem é dado nem vendido. . Bastava vir-se de noite. um só homem.Macacos me mordam se entendo o que está para aí a alanzoar. ..Está para viver! . Foi um tornadoiro de águas. Mas era homem de prontos reflexos e reagiu: . a deitar o pinheiro abaixo a golpes furiosos.Mas o senhor Calhorra exorbita. mas neste capítulo está em branco.O meu caro senhor Calhorra faz o endosso por dez contos. E tal erro de reconstituição foi quanto bastou para adverti-lo de que o anúncio mofino devia ser tomado como escova e mais nada. .. saíramlhe sem querer estas vozes em que chocalhava um badalinho. pretendidamente apanhados de ferramenta ao ombro. não mais.Não se faça de novas. portanto.! .Já disse. Associado nesta altura da vida só com os quatro galfarros que me hão-de levar ao cemitério. e vá de facilitar. Sim. pede fora de razão. leve. ao Sarzedo.tornou Hincker. com fogo ao rabo. daqui a migalho rompe aí o inglês que lhe pega a olhos fechados. Severo teria compreendido porquê. Para os senhores é melhor. lá para as congonhas do Catrino. Opresso e de semblante muito sério.

corrigiu Verónica. deixe-me acabar o petisquinho e mais aqui a patroa. E antes de sair dos Paços do Concelho.Vamos pela estrada . lá conseguiram encarrapitarse ambos na albarda. quando viu o paliteiro em frente dele.Não havia meio de se medirem com o egas.disse ele para Verónica. ele de escancha-perna. entre o coiro e a camisa. não anuiu a regressar com eles de automóvel. que oferecia a vantagem de ser mais curto. Mesmo assim o Calhorra. o braço dele à volta da sua cinta. Tinha bom dente o animal e depressa triturou o penso sem perder um grão. invocou a mulher. Por aqui vamos menos expostos a tais ventos. um aparelho vetusto e vasto como palanquim de elefante em que se içava ele.Até a bestinha vai contente . dirigiu-se para a loja do Dias. insinuou o baguinho. . desconfiado com a demora. porque desatou: . palitou até a dentuça. Tiveram que transigir. contados nota a nota da mão branca e papuda do senhor Incas para a sua mão negra e calejada. sabe-se lá? Podia tombar o carro.Fartou-se de rezar à manjedoira do Dias. e não nome de gente.Venha fazer o endosso e tem os quinze contos. que cantava e parecia oiro ao virar. lá foi barquejando nas pernas zambras ao encontro do senhor Incas que. bom cordão de oiro ao pescoço. a sua valente Ferreira . de naveta com o engenheiro no Tavolado. Tavolado fora. para que se visse.viradinha ao norte como nos bons tempos. oral Podiam arrepender-se. deitou-lhe o meio celamim de milho. e a Ferreira é que ustia. com um ripanço tão abacial que por duas vezes o Aires veio espreitar. mal se apanhou de posse dos quinze pacotes. onde tinha a cavalgadura e a mulher ficara de esperar. Por fim. a bufar de impaciência. . lenço de seda a doidejar para os ombros.ferreira pela cabeçorra maciça. Coçou-lhe a estrela na testa. . cuja exultação lhe pareceu que devia de ser comunicativa. que não era falho ao peso. . de bigorna. Invocou a égua. deu-lhe duas palmadas carinhosas na anca e primeiro que lhe pusesse o albardão. Celebraram o trespasse e reinou a harmonia. senhora duma culatra mais larga que um palheiro.O senhor Incas já agora tenha paciência. e a Verónica. bebeu. quando uma e outra eram como pombos-correios a ir dar a Malhadas.murmurou o Calhorra. ela assentada . . Ora. ferrador. trapaças em que lhe não andasse escarmentada a menina do olho. quando ninguém podia toscar.Levo comigo uma queijada que pode muito bem cheirar aos amigos do alheio. 52 . Ajeitando a cavalgadura a um paredinha. A primeira efusão de sua alma satisfeita foi para a égua.Vai contente por voltar para a loja . que já tinha comido muita rasa de sal quando eles ainda não tinham a envide. pesada dos anos e dos untos. menos escarrapanchado o arco das suas gâmbias. ao fundo da escada. rompeu a picar o trote. Agora estava um basculho. Comeu. É do primeiro berrelho que mataram em Orcas e seria pena não lhe fazer o funeral. o rico baguinho bem ganhado. contou andanças dos seus bons tempos. a ensaiar o sarambeque. e não se gozar da massinha? Podiam até caçar-lha por artes de berliques e de berloques. ao desandar da vila. . levava os olhos todos duma feira presos ao seu donaire. fazia horas. mesmo assim oprimida. Coitada. Hincker estaria inteirado. tornando costas ao caminho velho. quando rapariga. explicava ele. todo teso.

Tenho-me por contente. ia jogando com a mulher de caravelas. Caía um sol de canícula tão abrasador que nem as cigarras podiam com as asas para cantar. contente como um chicharo. por cima de suas cacholas esquentadas. ah. Ela. .Fartei-me de suar no Vale das Donas.fica-me assinalada com um calhauzinho branco. oh a regada que. mas passa-se cá bem sem ele. Abriu-c. donde Orcas se afigurava ajoelhada. não passava por nicho. vês tu. não há que dizer. que não tirasse o chapéu. tal dia faz um ano.Estás a ver-te a bater a chinela nas salas do convento ou a deitar milho no pátio às galinhas. Quinze quilos é quanto canta na algibeira. mal tratada como anda. ah. chamado pelo cadino do Aires. ao meter a mão no bolso para lhe dar meio tostão. Eram a prata. um mendigo. alminhas do Purgatório. ah. O Torres é boa pessoa. ia calado.bom apito toca agora o Incas. as tílias que dão flor para todas asboticas de Portugal. que tocava apito . integrado no seu papel de pessoa importante. pode ser que se faça um rente ao casal do Torres. segundo a folhinha dia de S. minha badalhoca! Dize lá! Esta terça-feira. disse: . Só então se lembrou que trazia encabado no alforge. e os filhos gostam da terra como da sarna. por modos. como antigamente o trabuco dos quadrilheiros. Com os dez que estão ao canto da arca e algum que se amealhe com o febrão do volfro. Nos intervalos da loquenda.Deus escreve direito por linhas tortas . e tinha a peito que comungassem no seu jubiloso enternecimento. Lembras-te? Ao tempo. À Verónica sorria ver-se dona daqueles casarios tão grandes. ora diz que a casa da Serra é a pasmaceira feliz de que nunca se desfará pelo oiro todo'do mundo. que tem dinheiro como terra. desabafou: _ Então dize lá quem é gente. sempre que me lembrava. Foi uma fortuna aparecer este Incas. A gente. até sentia o coração dar estalidos como uma trave arrebentada. durante a qual abarcou o panorama dos seus cuidados e canseiras através de um quarto de século.Pode muito bem acontecer. o seu sombreiro de barba de baleia. . pois não gostava? . Este é que deitou a lebre a correr. cruzeiro. Muito tenho eu sonhado com aquela casa. ah. os cantoneiros. ah! O Calhorra falava para a mulher e falava para si. aquelas dezenas de escudos foram oiro sobre azul. ao preço por que está hoje.to Agapito. é o miminho da terra! Calou-se que vinha lá gente e estas coisas só se confessam para o travesseiro. As suas vozes eram como á gua que trasborda dum açude cheio. e a regada.Gostava. saudava este e aquele por quem passava. hem. Quando falava para si. Mas quem adivinha? Setecentos quilos. e foi logo outra vida. vá lá a gente dar crédito a um telhudo assim? A mulher. Esses humilhadeiros dos sentidos eram-lhe de resto familiares à força de passar por eles. Tanto melhor. Agora. santo Deus? Mas do mal o menos.tornou depois duma longa pausa. era o oiro. e o homem. onde não botavam. Igualmente tão santanário como cortesão. o que ficava no bucho. afeita a 53 . O melhor. O homem ora diz que vende.! . bota o pensamento e o pensamento é como uma fateixa que vai tirar o que está no fundo fundo dos impossíveis. Quanto largarem de vez. dize lá? . por causa do qual. que lhe adivinhava os pensamentos à légua. voltava ao colóquio interior ou com a sua Verónica. ah. pela volta que as coisas levaram.O Calhorra não soube que retorquir à voz prosaica e apenas no alto. Feito o quê. o que equivale a dizer para a mulher. gente que vinha a pé e a cavalo. gente que lidava nos campos.

acordando-o num desses momentos de compenetração. A mim não. assim se começa e assim se acaba na beberroma.. depois de grande reflexão. . E tens de convidá-lo bem. agora vou com fome.. . o Calhorra disse: .É verdade. De raro em raro permitia-se uma pergunta inocente ou uma observação que por via de regra lhe iam acender o mau gênio. Mas de repente. . garranito.Hem. O avô pertencia à quadrilha do Olho Vivo. Saem. Mas alguma. .Olha a novidade? Em chegando a casa.Apanha umas calças e está com sorte. dize? . outro pouco porque caíra com todo o peso sobre o tornozelo.. Mas agora iam silenciosos e não tardou que ele começasse a cabecear e o pé do guarda-sol a amolecer-lhe nos dedos. Comparados com ele.não ser mais que voz de acompanhamento na ária de que ele por nada deste mundo deixaria de ser parte cantante. teve pena e ralou-se. És muito franca? Dou-lhe metade da melgueira. E ali se ateou uma contumélia tão azeda e assanhada que a certa altura o Calhorra deitou-a da égua abaixo. acordou para dizer meio estrenoitado: .disse ela. já passámos Manfurada? . Quando se apanharam entre os pinhais. A marrã estava de se lhe tirar o chapéu.. não. Não sei a quem os almas do diabo saem. . àquele teu tio do Forno. e era destes que não movem um pé sem perguntar ao outro se dá licença. Deus perdoe ao pele-de-as no. os nossos são uns burgessos nem lá vou nem faço míngua. Dizes tu convidá-lo bem.. um pouco por impostura.. se calhar. achava que devia presenteá-lo ao menos com umas calças de picotilho. Atravessaram o povo amodorrado debaixo de calmaria e com ondas de moscas alvoroçadas nos chiqueiros. Gasta quanto ganha em vinho e cigarros.Em chegando a casa já te fartas. mas pecou por pouca. . andas-me com uma fritada de chouriça ou salpicão com ovos. . O Calhorra quando a viu a manquitar.Ia com sono.exclamou ela.Deu-me uma soneira que sonhei que me estava a virar na enxerga. ao passo que com a outra mão retinha a rédea. A como anda o cotim? Verónica.. Ela foi-o segurando como pôde. mas levado de todos os moscardos? O ladrão vira-se em cima duma moeda de vintém. mas podia magoar-se e ficou a chorincar. Assim teve ele o fim. 54 . O que te juro é que se em vez do Luís Ougado meto na dança um tanganhão dos nossos estava a fazer cruzes na boca.Estamos a chegar. Caiu de pé. que na idade deles era capaz de dar um pontapé numa estrela. tantas melúrias disse. não me dás novidade. Olha o disparate? Foi de não dormir a noite. que dali a pouco a Verónica montava de novo na Ferreira. que passava a vida a fazer gaitas de sabugueiro e de urgueira para os pastores. .Tens de convidá-lo.Metade.Que é má rês.Não digas isso. E tanto apertou com ela. depois dum alancão que ia baldeando os dois em terra.. o Luís Ougado é que meteu uma lança em África? . O brequefesta armava-se por dá cá aquela palha. Silvestre! Os nossos lá levam a vidinha direita e não é com o copo que bebem aos domingos que hão-de deitar a casa a perder. que foi preciso dares-lhe o lençol com que foi a enterrar. que é má rês? . Serviu para espevitar o apetite. bem embora convindo que duas machadadas depressa se dão. concordava sempre. Não sei.

Silvestre deu-lhe um beliscão e logo de seguida levou a mão aos lábios no gesto do cadeado que 55 . noras e netos. cabeça de burra? Esta manhã estive vai e não vai para te mandar descer da égua e passares-lhe os cinco mandamentos.Arranja-los tu. vieram-lhes ao encontro filhos. A mulher insinuou a mão por debaixo da parturiente a contar. quando passámos. proferiu: _ Esta manhã.Não o levas já aí. mas agora tens de ir à pata. com a cestinha. o Calhorra disse para a mulher: Santa paciência. que chegassem ao fundamento da operação e não a achassem segundo o bom direito. eira. forno. .. ao passo que passava a cestinha a uma das mulheres. O macadame. cesta com eles. apontando contra a parede um tufo de ervas. que demos com o ninho. ainda quando não há compras a fazer. Mas receei que na vila te vissem os ovos e.Quantos quê? . a infalível cestinha das compras. Dela. o Calhorra refreou a égua e. saltou em terra. debaixo do sombreiro como um mandarim. havemos de ir ali adiante aliviar uma parida.E o tal volfro branco? . Porque esperas? . elas sem pôr! O Calhorra não respondeu. encarou em Silvestre.. Ia muito lépida. . Quando se endireitou com a mandioca no cabaz.Raios te confundam! Quantos ovos. Ao chegar à embocadura do caminho.? Tens-me tirado os ovos das pitas? Lá me queria parecer.. Vê lá quantos são? . perturbada no seu ripanço de poedeira. quando lhe respondeu um cacarejo mal-humorado de galinha.Não..Enchem a sertã? Abana-os a ver se chocalham. em linha recta. Daqui a pouco estava a chocá-los. lagar. Sabes a como? A três tostões cada um. a contar a aventura do volfro branco. habituada a todos os caprichos do seu senhor.Ovos talvez eu os arranje. Encontrou dezasseis. Ajeitou a besta a um poiso e Verónica. A última meia dúzia levou-os a Inês. Era um regimento. coitada. avistei ali umas pedras de volfro. Era volfro branco. Ia com a minha fisgada. avista-se todo o troço da antiga via. os ovos é que são nossos.. Adiante de Manfurada. Só lhes chegam os abades e os fidalgos. como dum balcão..Lá pelo fumeiro.. Além de que o caminho é mau e a égua pode escorregar e partir uma perna. costeou pela direita numa curva lenta e escarpada. Silvestre soltou-lhe uma gargalhada: . enfiada no braço. e água a despenhar-se da cale de Pedra para o tanque. . encontra-se o caminho velho numa extensão de trezentos metros.Estamos com sorte. Verónica dobrou-se a procurar com a mão. Vê se ainda lá estão. a fugir ao pendor que era grande..... Verónica tornou a subir para a albarda em frente do seu homem. Não? Foi uma fortuna. não há-de haver novidade. A certa altura. onde há um casal com suas de endências. como por um argueiro se tira um cavaleiro. não disse bus. Vá. Quem vai a pé ou mesmo a cavalo toma por ali fora se quer ir mais depressa.Também a pita? . a perguntar: . a pita é do dono. Ao entrarem na terra. Mas ovos? Não tenho um só de portas adentro.

fecha uma porta. pois que se o segredo é a alma dos negócios. não é menos o viático daqueles que se premeditam ao longe e não passam por enquanto de sonhos mal sonhados. dos negócios que se fizeram ou se têm sob palavra. 56 .

uma casualidade como não há muitas na vida. ao tojal do Zé dos Cambais carregava-se à esquerda para a moita da Cismas. ajoelhando ao toro da giesta.. Toda a sua pena era que não fosse urna arroba. um pouco desconfiado com a ucharia. e frio. Depois tornou a encher a cova de terra. pronunciou: . O Duarte tomou-lhe o peso. Escuro fazia.IV Reavivou a fogueira com um punhado de gravetos e enquanto ele.. três arráteis para mais que não para merios'?. que voltava de deitar as águas.. não se pusesse por lá o irmão a deitar imaginações erradas. . ... O macanio fizera a cova.O homem. se pôs a rapar terra. Olha quem ele era. . imprimiu-lhe. o machucho olhou à direita. o guarde com tã o pouco ardil? Ai. Assim que a apanhou em conformidade..A endrómina está à vista . depois de escamoteá-lo com tanta finura. aquela sua voz cauta de roncão. ufa? mas ela iria lá direita com os olhos fechados.. e ali. ! Ora toma-lhe o peso. compôs o chão.E outra vez se viu Bárbara obrigada a explicar como aquilo fora. . um frouxo de riso nervoso e regalado. lá deitou o ponto até que. ih? lh? ih! – e soltava-se-lhe outra vez o riso. O que me admira é que acertasses com a cafua por um escuro destes? Caramba. mesmo ao toro duma giesta. ih? ih? ih? Com que então. pulou a direito para o caminho. como se acertasse destorcer uma grande meada... e não são roubados.Para estranhar é que.O volfro estava bem guardado.Vês tu.... À moita da Cismas metia-se a gente pela demarcação arriba e era logo no tope.. mal se enxergavam os talhadoiros. expondo-o à claridade do lume.. que não? . que caíra debaixo dos seus cinco mandamentos. ? Sim. . acabado o trabalho. parecera-lhe ver relampejar um vulto ao cimo do pinhal do Urra.? o Ougado. foi pelo volfro para lhe mostrar. passeando ora um pé ora outro por cima da labareda.O Luís Ougado há-de-lha sempre pregar.emitiu o Duarte muito concho. a partir com a tapada do Urra... tendo-se capacitado que não pisava por ali gente. e em voz pastosa. um sacolejão que fez estreloiçar as pedras: . Hum. rente a um penedinho. tirava os tamancos e se aquecia. para ele ver bem. Também o Duarte se não soube manter naquele seu sisudo macareno e largou uma risota baixa e esbagoada como de galo a ensinar o bom cibato a uma franga. oh se estava! Fora por uma casualidade. 57 . Também tinha pouco que errar: carreira dos gados fora. fora.Dizes tu: três arráteis. na menina do olho? proferiu depois em tom prazenteiro e admirativo ao mesmo tempo. mas que lhe fazia doer o peito.. tu por -aqui às Jurtadelas! ? Temos endrómina. deitou um olhar à volta e. olhou à esquerda. deve passar de três arráteis. não esteve com panos quentes. Uma assim! Breve percebera que o que ele estava a fazer era a desentupir uma cova. Foi como se desatasse um saquitel para a arca. pois a gente da terra tinha a pecha de andar sempre a escutar por detrás das paredes que eram rotas.. esvaziou para lá a algibeira. zás. e como não lobrigasse vivalma lá veio pela mata abaixo todo farófia. Estava ainda na giga da meia como o trouxera e. Na mesma da hora em que acabara de sachar a leira do Gradil e já traçava o sacho no braço para se vir embora. Acachapara-se.

dali a cigalho quebrou o silêncio para dizer: . farturinha no açafate também avezavam. para terem o regalo de atestar as arcas. devia ser assim. um ano inteiro a acarretar para o celeiro como na própria noite ir à toca e pôr tudo com novo dono. trup-trup. Louvado fosse Nosso Senhor. louvado seja o Senhor! Agora pergunto-me eu: não valeria mais a pena esperar uns dias e deixar que o melcatrefe enchesse a buraca. lhes andava sempre forra. Com pães grados. que lhes fazes? . Se é jogador. trazer dinheiro ao ganho. uma mata. porque tendo-se sentado. o melhorio da casa.. Ela então reatou: . . malhavam as suas setenta pousadas e... O Duarte pareceu não concordar de todo. medidos à desnatadeira. Tu que preferes? Eu cá pertenço à seita dos desconfiados: toca a botar o laço.. Por isso em primeiro lugar e também porque. um vintém Catarina o tem. de facto. era uma terra gorda. Embora os surripiadores da Fazenda lhes levassem muito do que granjeavam. E agora. deixa-lhe pôr a dozena antes de lhe armar. Este está tão purinho. --em feiras e romarias podiam chocalhar a sua coroa. mas podia ser assado. Tinham crescido às esmolas. cada vez punham mais febre na labuta. sempre havia umas sobras para o riscado do avental e as brochas dos tamancos.Suponhamos: um rapaz acha um ninho de perdiz e ela na postura. Um bicho destes tanto pode passar uma semana. Matavam porco pelo Santo André e. não se perca por lá o que tem jeitos de certo. Sobretudo queimava-os a fome de terra. mais que arriscado. partindo com eles da banda da Fonte e dando-lhes rego. ninguém dava mais dinheiro a juros. cabeça para os joelhos. acontecendo calhar de milho. um mês. é que o não quis e é bom de calcular porquê. tão estreme que quita esborraçado. Chegados ali.Deixei-o virar costas e fui ver. que a conta dos leites. pelo prazer de possuir. além de que as perdizes enjeitam às duas por três. arma o laço e não espera por mais.? Sim. mas se eu fora adivinho não era mesquinho. Aquele linhar do Fandinga era como uma espinha que trouxessem trancada na garganta. embora não medisse mais que duas canchas. fingindo-se tomado de aperto: andai lá que já vos apanho! E corria a enterrar o roubo. O diabo é que no entrementes pode vir outro e lá se vai quanto Marta fiou. Era este rico maná. uma terra de unto onde tudo vingava que só de vê-Ia caíam os olhos aos invejosos. lhes cortava as águas de lima para duas propriedades. Mas espera lá que se a diligência que ela fizera à boquinha da 58 . Viu ao clarão dum chamiço o Duarte estender a beiceira. nunca secariam menos de carro e terça. Pois embora. Uns anos por outros os Ladeiras adquiriam uma belga. pelo muito. dize-me lá. ? Ao volfro? O volfro vai para o pé do outro.largava das Minas. o que ele próprio pelo encolher de ombros deu a entender que reconhecia. com a malta toda. Pagavam-no hoje pelas portas a trezentos e cinquenta mil reis. Dqui a nada vale mais que o oiro.A quê.. e já passavam de trinta os números que traziam na matriz. também ele indeciso quanto ao que em tal emergência mais convinha fazer. um chaparral. pelos vistos. Era a matação do Duarte aquele linhar do primo sapateiro que.Por esse andar. Se é desconfiado.. Em casa. dizia para os camaradinhas. Deixa-me cá: quem arranja dinheiro para comprar o linhar do Fandinga sou eu. podia ser que valesse. Acabavam-se os onzeneiros e estoiravam os necessitados antes do tempo. Não é? Ela acenou que.

o que o atormentava era o pensamento. e tal ideia fora e continuava a ser o seu inferno. e pôs mais achas depois de espertar o lume com ramos secos. cada vez mais raras. do que se teria passado entre ela e o Fráguas. esquecidos do resto do mundo. obcecado por aquela sua vontade desesperada de arranjar dinheiro. vou ao molho pelas tapadas! Coitado. depois das colheitas. Mas o Antoninho era o fantasma negro que enoitecia os horizontes do Duarte. onde não tremeluz folha viva. o sangue a espirrar em seus espíritos todos. Decerto que diante dum lume rijo. não se sentia passar. desse o fruto devido. dali a pouco não havia com que cozer as castanholas. a nadar em ódio. aconselham esses enlaces brutais que saltam por cima de todos os recatos e castidades? Não havia para sentir-lhe o chamariz como as pessoas. e ela bem via correrem-lhe no bestunto as minhocas negras e viscosas da sua cisma. no género do irmão. Aquele pobre burro das panelas imaginava-a a ver-se ou a sentir-se com o Antoninho no meio das moitas. O homem viera a Malhadas receber as rendas e destinar a lavoira da casa que lhe deixara o tio. O Duarte ficara macambüzio. Por isso. Quando faltar a lenha. Lá fora com certeza estava a cair moinha. assim a horas. viesse ela donde viesse. A casa era um pardieiro onde uma alma cristã se não achava mais abrigada que no meio da rua. O Duarte acabou por desencravar a cabeça dentre os joelhos e ergueu-se resmungando: ia um grande inverno e era preciso ter governo na lenha. não havia como o fogo para o Demónio entrar com as criaturas. Morto andava ele por arranjar a bagalhoça precisa para a operação. venenoso e fétido ao mesmo tempo. Era como zorra que vai pelos campos. a abraçar-se em fúria lasciva. lá se foi meter entre mantas. afora curtas e ásperas guinadas do vento. como tiborna de verdete e água choca. além da obsessão do que se teria dado. Suspeitava-a de ter pacta com ele. estavam como queriam. e.noite. como de resto 59 . destas moinhas finas como paraganas e glaciais. apuradas bem as contas. Compunha-se de uma só peça. que em matéria de tais orgias são dos que têm escutado apenas às portas. interrompida de quando em quando em sua modorra pela refega do vento nos pinhais. Que grande alcoviteira que é a chama e como as suas línguas a lamber. assim a esfogueirar. a alma despe-se como o corpo quando se dá a um amigo. nem de encomenda. e foi-lhe dizendo em tom de mofa: . junto do senhor Antoninho Fráguas. E. antes de ir crestar o cortiço do Ougado. ficara sobre brasas. Mas tinha de fazer de conta que o pobre boizana estava a calcular os punhados de carqueja que gastava sem proveito.Não te aflijas. que tinha ele com isso? A noite. de continuarem a encontrar-se de vez em quando a favor da primeira ocasião. com a carne quentinha e regalada. via-a entregue à sua ideia. De facto. porque sentia a humidade nos ossos. quando podia meter-se na cama como ele. não tendo ânimo para a tolher de lhe ir falar. um momento apenas aliviado da ralação quando ela lhe fez dançar diante dos olhos a feliz bolada do volfro. não existem veredas conhecidas ou apenas sonhadas que o pensamento não bata e vá tenteando. Estava a verlhe trabalhar o maquinismo interior como a um relógio quando se lhe levanta a tampa. tromba ferrada para o lume. Pela telha moira tanto entrava a chuva como a neve e o vento. E fazendo com aquela lengalenga e os socos ferrados nas lajes mais barulho que um carro por uma ladeira abaixo. o fulgor das brasas a deslumbrar os olhos. No fundo. de olhos no lume. Diante duma boa fogueira a arder. Estava uma noite de geada. o mesmo era que continuar a pouca-vergonha.

no horizonte do seu espírito se ergueram as suas preocupações como montes ao longe. Tivera o cuidado de cobrir o xaile e de calçar as tamanquinhas. Mas assim que atinou quem era. Dar um recado custa-lhe mais que levar uma saca de dez arrobas às costas. Com a tenaz mexeu as brasas. a que penduravam as peneiras e o candil. não se esquecendo de lhes fazer uma covinha ao centro para activar a combustão. salvo a fechadura e um ou outro prego pelas paredes. a bater o dente de taró. a sua voz foi como quando se acende unia candeia no escuro: ... e para ela com sobrada razão. depois pouco a pouco com relevo e relação.O meu Duarte é que havia de lhe vir falar. que uma vez ali entrara por curiosidade. por dentro.. sou desenvergonhada. ao chegar do Gradil. o Antoninho não a reconheceu. o fumo. Torres. foi-lhe dizendo em tom sacudido: 60 . e eram de ferro.Bota-te a falar com ele. mas o meu Duarte é um encolhido. que conseguiu falar-lhe. agoniado como andava na ideia de que lhe iam expropriar a regadita do Vale das Donas por dez reis de mel coado. Mas o que tinha de pior era ser fria. . saíra a dizer que tal habitação era semelhante às que se tinham feito no princípio do mundo. escoravam ao Centro. não perdera uma centelha daquele seu olhar magano. haviam-na tingido como uma essa.. O Fráguas. Que dizes? O Duarte despedira. senhor Antoninho para toda a gente.?? Pois se entendes que é essa uma razão para lá ir eu. .. contra a luz. Quem na dividia eram as arcas.proferiu ela a medo. Ouvindo-o sonhar alto. afoitara-se a dizer-lhe: . pois então? Era ao entardecer e foi quase ao escapulir-se para a cerca. Se não fora o chamicinho morria-se inteiriçado. mais fria que uma corga da serra à meia-noite. mandados ainda meter por seu avô. Primeiro imprecisas. Mais assente. por fora. Bárbara? . O Fráguas observava-a dos pés à cabeça com certo enlevo. restos contra a tesoira.És tu. A princípio. Não estivesse ele possuído pela febre do linhar? E ela decidira-se. Achá-la-ia mais velha.no povo. uma vez que o Duarte largara com uma moenda para o moleiro e não via. E de novo depondo olhos no crisol e fechando-os maquinalmente. ajuntou-as em seguida. quando dobrava o portão. Também ainda pudera dar duas cardadas ao cabelo. Dois pontaletes grosseiros. Mas espera: . aquele olhar diabólico que despia as mulheres antes de elas se porem em camisa. a aparecer por grande acaso na terra e o Duarte a pular.O senhor Antoninho haja de perdoar . com excepção das casas do senhor Antoninho e do Dr. Fizera como em certos actos da vida que se fecham os olhos antes de dar o passo fatal. O tempo. Procurassem nele o estoira-vergas que apertava um cavalo entre os joelhos e lhe fazia dar ronco. Não ia assim tão fregona como de ordinário e bem deu conta que os olhos dele se foram acendendo pouco a pouco como auricus..Com que sim. do que logo se apercebeu com desvanecimento e vaidade.Nem que me matassem? julgas que sou desenvergonhado como tu?? Estivera para mandá-lo bugiar. Para que acabasse com a devassa. Um figuro de Lisboa. o que é. que o não descobriam. que não envergonhavam uma cidade. não me nego a Isso. ainda nada pesadão. a armação que ameaçava desabar. sem contornos. Também ele já não era rapazola nenhum.

Não o quero demorar que está muito frio aqui no meio da rua. Que não valia a pena... Ora cada um manda no que é seu. Bem entendido. sim senhor. O meu Duarte anda muito escandalizado com os homens do volfro. tisicado do gênio como todos sabiam... o Duarte não quis chegar-se às boas e vêm os louvados. afora aquele ano que haviam trazido de lá a sebe cheia. Paguem e não façam como fizeram corri a Cismas que recebeu uma tuta-emeia. rendera uns duzentos e vinte mil réis. Eu desato o saco. foi pouco mais ou menos o que disse. Estaria farto de saber.. Vou-lhes dizer que tenham em atenção que vocês são pobres e levam vida dura. Talvez os engenheiros do Incas tivessem carradas de razão e o seu Duarte não passasse dum enxovedo que nascera com má sina.? . como tantas outras terras. Era isto o que ela lhe presentia no catarro. a comer. tarde e às más horas. como todas as propriedades daquelas parvalheiras.E queres a minha intervenção para que. por um reverso da decepção e por manha. acabou-se. que. três semanas. mas paguem. . e.e que de facto o bocadinho fora agenciado pelo Duarte no baldio. O pior de tudo era que o Duarte. ainda que de mau humor. outro ali.disse subitamente o Fráguas. Não é assim. ali viessem deitar âncora. e espantava que figuros da classe do senhor Dr. Em realidade o que há pouco a atormentava era o que ia fazer o irmão por ricochete. até umas vezes por outras. rompeu a concordar com ele.O senhor Antoninho não conhece os louvados. depois de ter consentido no sacrificio abominável de a 61 .. a três escudos. das vezes que ali passava à caça. Há dois dias voltou a ter com eles tal bate-língua que chegou a casa num estado que ninguém podia com a vida dele. Ela. deitava-se a perder se o não indemnizavam segundo os cálculos que orçara. mas tinham que tirar dinheiro a 20% para pagar a décima. Desejam que a terra fique a monte. Ora se sabia! Na parte pedregosa haviam deitado penisco e um aqui.Eu sopro uma palavra aos louvados . atalhando a jaculatória. por muito que o Duarte houvesse minado no oiteiro. assim que soubesse terem sido frustradas as suas esperanças.. A regadita. Torres e do senhor Antoninho ali conservassem bens e. se foram quem eu imagino.a última sangra. A regadinha hoje vale dinheiro. a fazendória era um pedriçal que dava quatro espigas chochas. Era o nervoso.? Porque saiba. e que só a murá-lo arrancara passante de trezentas carradas de pedra e trouxera dois pedreiros. lá medravam dois pinheiros revelhos escapos por milagre ao dente das cabras. com brusquidão pouco delicada. . que os gaios e a raposa não deixavam amadurar ali maçaroca e que lá de água. pois que fique.. de facto. e ela seria a primeira a experimentar-lhe a pancada.? Lá que retalhem o chão.. Deram-lhe ordem para não deitar nada na regadita. e não só lhes faltava pão no açafate. todo o ano a labutar como negros. por sinal uma boa carrada.. mas não cavem a sepultura dos vivos.. logo a seguir. Pronunciara a lição de cor como tantas vezes fazia com Pêro e Sancho e estava admirada tão bem ter representado que um finório daqueles se deixara engrolar. Ele deu-lhe uma fungadela.. . e queríamos semear lá erva.perguntou... Tirámos o milho. Ela então não se conteve que não desatasse a rir. números redondos .. como a visse calada tempo mais que suficiente para tomar fôlego. mas andavam à resina . o certo é que eram uns infelizes da sorte. tinha-a quando arreganhava a cabra e mijava a rã. que os pinheiros tão jambotos eram que não mereciam serragem. não valia o amanho.

Casou lá para Muradais. Era a medirem o galão que dera o tempo. Depois.deixar ir falar com o homem detestado...tinha-o observado em muitas ocasiões . E que estaria ele a pensar dela? Que estava boa para calço de panela? Talvez coisa nenhuma. Eu?? Diga dessas.... Meia bêbeda. já não se sentia há muito. negava crédito às línguas depravadas.. E. julgava-se uma meronga. Os homens quando estão diante duma mulher deixam-se seduzir pela ideia do gozo que ela lhes pode oferecer . Rascoeiro até a morte? Afinal tudo isto de homens eram a mesma choldraboldra. Que era legítimo concluir de tais palavras? Sabia. Como ele a visse rir... . Mas exalava o mesmo odor poderoso e envolvente e ao seu lado experimentava a mesma fateixa forte a arrancá-la para fora de si. É um alegrão que lhe levo. Durava o entremez: quero-te bem! amanhã será o dia? . apoquentados pela soma de relices que saltaram a pés juntos para matar seus desejos. além disso. .Estás a mesma rapariga. mas ouviu-se desta feita a chanca da Ana Ruça caminhar para eles e ela furtou-se. e três vezes volveu a cabeça. Então lá dou o recado ao Duarte e bem haja.. O senhor Antoninho. tornou rapidamente: . arranjou melhores entretimentos ..Pode acontecer. E ali estava: dia em cheio? 62 . Ao passo que despedia...que estreloiçava na rua.....Acredito o quê? Plantou os olhos nos dele. Ah.Um dia será. e fora então que dera o salto à lura do Gradil.Não diga isso? Estou acabada. que é o mesmo que dizer bóia. excitado porventura... Largaram cada um para seu lado. cem vezes não.Agora. Um dia. Àquela efusão sucedeu-se uma pequena mas enleante pausa. Ia a abraçá-la outra vez. já ele dizia com voz que fingia de arrufada: Fartaste-te de mangar comigo. como o visse calado e sério. talvez coisa nenhuma.. Bárbara. o ar bendito das manhãs de Primavera. e não. não podendo desconfiar do que lhe ia no entendimento. embora logo se arrependesse: . e que bálsamo não era esse para a sua alma sentida? Tanto assim que teve coragem de lho dizer. e de expectativa ante o tamanco-seria ja o bruto do Duarte? . para vinte e cinco anos. não sabia o que murmuravam as bocas do mundo? O importante é que lhe não descobrira nos olhos reflexo suspeito nem vinco na face pelo que devesse ficar de pé atrás.. Mas ele metera cara ao portão e caminhava para casa sem olhar à retaguarda. Sim. o seu tanto distante ainda. Fitando-o de perto. O senhor Antoninho é que nunca mais quis saber.. bichas.vinte. chegou-se para ela e passando-lhe a mão em volta da cinta.Então não acredita? . ela a rir. as capelas cerzidas de garatujas..longe de pensarem nos engulhos que virão depois a sentir. tretas? houvesse ele saúde? Saúde e..Aqui me tens. O tempo não te viu. Dentro dela não se apagara a fogueira.? . viu-lhe reluzir nas têmporas os primeiros cabelos brancos e.Nunca é tarde. pois que lhe interessava ainda.... atirou o xaile e as tamanquinhas para um canto. proferiu reatando a ordem de pensamentos solapados: . Sentia crepitar a chama e difundir calor. disse com melado entono: . Quanto ao mais. . pois mal se calara o tamanco. brincando. à volta dos olhos apardaçados. Assim animosa. Anoitecia. mas mesmo assim as palavras dele entravam-lhe no peito como uma golfada de ar fresco.

o pensamento lançado à rédea solta por incertos lugares e incertas gentes. o chambre. Canudinho.. O que é o coração das pessoas. Acordou com o Fráguas a puxar-lhe pelo braço. Em menos de um amém despiu a sala. por lá a Rosa Pedralva que andava a cozer.... papudinha e desdenhosa.. e na lata que Bárbara deixara debaixo do algeroz. um. para as despedir depois com impetuosa e ríspida estridência: vuu! Sucedia-se uma pausa.Diabos levem o galarozI Amanhã corta-lhe o pescoço.... No poleiro. a qual apercebeu-se. não? Ora o fidalgo? . pois ainda não seria meio serão. das voltas que o mundo dá mais retorcidas que o nagalho dos sacos para.. O céu enchia-se outra vez de silêncio. Há duas noites que o ladrão anda a chamar desgraças . À força de ouvir aquela música começaram a fechar-se-lhe os olhos e. até que desenganada acabou por 63 . pregasses com ele na feira? . ping.. com náusea . e nova rabecada.. infundida da molinha viscosa que. salvo de que via uma senhora à janela de juba para as costas. Tornou ao volfro.. Solange Fráguas. e andou a estudar a maneira de se introduzir na mina do Vale das Donas e bifar uma abada de minério sem a caçarem na ariosca.. para a direita. mas levava as mesmas voltas. pang. terra de que não fazia bem ideia. entrara já nos gonzos e perguntava-se ainda onde é que ele estava. santo Deus? Não fora a realidade. tudo voltar ao que fora dantes.Ai. dois.. vencendo a hesitação. ..Olha. até dez. Ouves. tê-las sujeitas um instante a gemer e a guinchar. mas por mais que acalentasse o sono. a gota de água batucava em dois tempos ao desafio com o caleiro mais próximo e menos tomado da chuva: ping. uma escuridão que abafava a casa como um corvo abafa os ovos que está a chocar. Bárbara . que o Duarte fizera mesmo à entrada da porta por causa da fuinha. três.. nos lábios um grito açucarado: ..À lareira gélida e silenciosa revivia a cena toda e pasmava do seu rasgo. O vento volvia ao bufadoiro.. acabava por escorrer dos beirais. Foi num rufo a Muradais. mas há que tempos isso foi? O padre que coma as galinhas dos baptizados. girou a deitar-se. Calaram-se e a noite continuou a dobar-se em mistério e escuridão. sentiu-se transir e aconchegou-se contra o lumaréu. e enfiou-se entre as mantas.. que frialdade? Fechou os olhos e pôs-se a bichanar o padre-nosso. Tropicavam socos na rua. durante a qual apenas sussurravam as frondes convulsas. e logo a voz do Duarte encheu a casa toda: . humedecendo as coisas e trespassando as roupas. Ouvia-se para os cerros o seu bruto fôlego vergar as corutas dos pinheiros..era a senhora D.És muito franca? Disse.Não disseste que havíamos de o dar ao senhor Tadeu?. pang.. . À ideia do forno com a borralheira à porta e os mendigos em redor a disputarem um lugarzinho mais bafejado pelas brasas. E ficou a malucar de olhos muito abertos em coisas e loisas. o galo cantou três vezes. Cantava a desoras o maldito. tanto a realidade lhe parecia de carne e osso.Corto-lhe o pescoço e toca a imolá-lo. continuou em meia modorra a vadiar por trancos e barrancos conhecidos.. para a esquerda. empapaçando a atmosfera. num rufo. este verdadeiro sono que leva a criatura para fora do mundo. Cerrou as pálpebras nesta beatitude. mais os meninos.. deixe-me. foi para as lameiras da serra com as vacas e lá lhe apareceu o senhor Antoninho a querer saciar apetites.. vem por lá o meu Duarte? Dianhos. Deu voltas sobre voltas.

lesma de todo! O Duarte ressonava. No mais certo dos palpites. como a noite era arrastadiça.. criaram borregos e cabritos. Para esquecer e se vingar da mofina. o Duarte tinha ido à benta das Dornas com ideia de que a Ana Ruça lhe deitara mau olhado. vencendo a natureza. Solange. Cresceu com o que Deus dava. Não o fazia naquela altura porque as noites eram grandes e temia que durante o sono ela lhe fugisse ou o senhor Antoninho viesse ter com ela à cama. Agora grunhia. manhãs perdidas. à meia dúzia de abadas de volfro que ia buscar à exploração do Incas! Mas que horas seriam? Erguendo a cabeça por cima da arca. Compraram uma vaca. graças.? Espera.. Porque se não casava o grande jagodes? Nunca ele pensara nisso. que era a delimitação do seu cubículo. Duarte? Há! Estás a sonhar. noites mal dormidas. Estaria por lá com algum pesadelo: ó Duarte? . Mil raios os confundissem quando olharam para esta terra? . tem entrado muita nota? . olhos presos à babugem da luz. Da mesma maneira que nascera nas palhas. da Rua Nova. Grunhia. Agora. a alegria. Era como um porco a bulhar com outro pela bolota. e algum era.. de bailar no terreiro. minha santa. Mas não procurara fêmea. que cobras e lagartos uma pessoa traz no seio: a morte de D. foi no ano em que a Cismas gritou aqui-d'el-rei contra o Silvestre Calhorra que para se vingar dela. mas havia mulheres para todos os feitios como há formas para todos os pés. Ah. era do palhal. a rilhar a broa pelos caminhos.. um Verão a porca pariu-lhes oito leitões e todos botaram à feira. uns primos e velhacos na quinta casa. Os ladrões do volfro dão comigo doido. andava tudo a lazarar. homem. se tudo haviam de deixar a outros. mas o Duarte suspirava.. Tudo ela sacrificara à cobiça daquele seu morcego. O regalo dele era encafoar-se pelo feno dentro. Custaria a aturar um côdeas e foleiro daquela ordem. a quis “levar ao castigo”. que se coava das telhas de vidro. que lhe andava aos ficitos novos num pinhal. sem um só dia raiar o sol.ficar de costas. como aqueles Fandingas e Urras.Deixa lá. podendo ter boa enxerga. Por essa altura. tão longe. dar trela aos rapazes e o respectivo retrós a torcer. 64 . e com o que arrebanhava a mão canhota. ainda não teriam saído dos serões se fosse o tempo. estou bem esperto. espreitou para a lareira: lá estava uma brasa a rutilar como o olho dum gato. fartara-se de carretar para o celeiro como a formiga rabiga. o senhor Antoninho a dar-lhe a mão de esposo. Passava para o gemedoiro.. mesa de lázaros. Em que data isso foi. a mocidade. e seria o mais.. tornava a grunhir. Talvez encontrasse quem o quisesse. Anjo bento. Oh. A casa cresceu. com uma carapuça de Judas na cabeça. luz rarefacta do quarto crescente. alé m do mais. todas bem longe de ter um palminho de rosto fino como o seu.. calava-se um instante. o Duarte instalado de procurador na casa onde estava agora a tia Ana Ruça. engastada na cinza. muitas vezes pensava: que valiam tantos sacrifícios. que nem uma míssinha mandariam rezar pelo descanso de suas almas!? Todo o ror de anos da mocidade lhe foram de endoença. afundida no oceano de negrume que era o interior do casebre. da banda de lá da noite. ? Não. do que mais gostava.Menos na minha algibeira. cada vez mais somítico e apertado de contas. o prazer de se assear aos domingos à semelhança das mais raparigas. tão longe que nem na margem povoada de estrelas.

Todo o santo inverno fartavam-se de lhes cantar o miseré. decerto a deitar contas à importância em que vinha a converter-se a queijada.. .. O cemitério ficava mesmo soterrado entre pinhais. Também haviam de cantar em cima da sua campa.. e era um grande perigo para ela própria e para todos. Os pinheiros. tinham por obrigação chorar os mortos. por sua tia. Têm vendido para aí minério que é uma abusão. uns que ela conhecera. Em volta do povo.Não faço ideia nenhuma.Dois contos de réis. muitos de quem já não restava sequer à flor da terra o eco dum sonido. dize. outros de que ouvira falar. só havia matas.Não quiseste ir trabalhar para a mina. enquanto se era vivo.Não sei.Talvez.? . como sucedia na familagem. Por isso. Está tudo a nadar em dinheiro. mas valeu mais assim..E tu a dares-lhe! Quis e tornei a querer. Ouviu-se o vento zunir na cumeeira e nos intervalos a cantoria macaca do pote debaixo do beirado. Lá fora o ping-pang da chuva tornara-se repetida e molesta toada. até tomarem as cautelas 65 .. é que me tiraste da devoção.Quem fica rico é o excomungado do Calhorra. Reinou de novo silêncio dentro de casa. E proferiu em tom de magoada inveja: . além da resina e da caruma que davam para as estrumeiras. . Faziam-no por sua mãe. Temos ali à beira dos seus quatro arráteis. Calaram-se.. Tu. Assim. Nãu_ tinha mais importância que o latim dos responsos. Achas pouco? Com dois contos dessa banda e com o que temos no volfro. O Duarte tornou: .Aquela Malhadas é uma madrigueira? Vejam como tratam os defuntos? Mandavam-nos para aquele migalho de terra onde ainda eram úteis. Quanto calculas que podem escarrar? . com as tuas desconfianças.? .. já que os vivos os não choravam. Importância tinha-a o que passava no papinho da gente.Modera-te que não tens razão de queixa. já me dou por feliz se me pagarem a regadinha pelo seu valor..Diz-se que cinquenta contos. Quanto lhe deu o Incas? .Eu não te estorvei. .Apanhavam nada? . O carrasco do vento esmerava-se agora em arrancar aos pinhais maior e mais aguda gemedeira..O Fráguas veio para comprar o volfro à capucha. vinte e cinco anos. É verdade.. Era um grande perigo se te apanhavam a furtar. pela tropa toda dos finados. Durava aquilo há vinte.. Torres lhe deixe o charravascal do Santo Antão de mão beijada.. estamos governados.. Os pinheiros iam com as raízes por baixo das campas chupar os mortos. não sabia ao certo.Olha. Sua tia acabara zaranza de todo a falazar sozinha pelos quelhos.. O pior de tudo é que se esbagachava como o canganho da uva. acusara-se dos latrocínios que praticara e das maldades que fizera ou deixara de fazer. O Duarte calou-se um momento. Por causa disso passaram grandes vergonhas. .. Agora não é ponto assente que o Dr. Para que é que o diabo do homem havia de vir ainda tentá-la naquela altura. Contava o que fizera pela vida fora. era costume dizer a gente das outras terras: . A cabeça já lhe não governava. .

ao cão que mora mais perto do ninheiro. que é atirando o ovo a terra e gritando ao cão que vem a passar ou. rezava. para a algibeira. como havia de suceder a ela e a todos. Dava um salto na noite que nem gineta. 66 . até a fazê-los.. Rape. o Mondego! E tudo por esta cartilha.É Deus que fala pela boca dela. Só tem direito de lá tocar quem sobe ao poleiro. Diziam: .Vossemecê não vê que está zorata? . Nos seus tempos nada lhe metia medo. Entre elas.Tanto vale confessar-se a um padre como a um buraco. senão era motivo para a levarem à justiça. Ela ainda ensaiara a estrangeirinha: Minha mãe é santa. é que se mete a farripa de lã para a algibeira. Vem o meninojesus ter com ela à cama . já sua mãe era mais comedida.Chamai o padre. o modo de uma pessoa atilada se safar da enrascada. Agarrava o que podia. uma paz de alma. Rezava alto e era uma pagodeira. abandonando-se a um homem casado. Deus lhe fale n'alma. que é um grande encarrego. Essa não falava alto pelos caminhos.. que nunca ninguém mais viu nem veria. quando se está na carmeada e um patola se tranca diante da candeia ou se arrima a nós a fazer-nos gatimanhos. e ela passava o tempo de joelhos virada para duas paredes a rezar e a acusar-se.” Sua tia tinha dito em público e raso como a roubara e onde a roubara. a sua rica saia de merino. leinbram-se quando lhe faltou do coradoiro? Outra corria com a novidade: já se sabe quem bifou o cordão de oiro à Rosa Pedralva. Nunca mais puderam deixá-la sair sozinha? Fechavam-na na quintã..mas não pegou. . e sepultar lá o raio da saia da mulher. a Cismas foi a que fez maior escarcéu: “Queria para ali a sua sala. Valeu à Bárbara ter coragem e contratestemunhá-la pela aleivosia que lançava sobre gente honrada. já ela estava com os dentes enfechelados. Acabou sequinha como as palhas a pedir confissão. mesmo em casa. acusou-se de ter roubado uma saia à Cismai.necessárias. . para debaixo do avental ou então pela saia acima. As comadres faziam-lhe roda e até lhe puxavam pela língua.foi a tia Soledade. Comia como uma tulha e nada a fartava. . Calhou ela culpar-se de coisas e de pecados que estava averiguado terem sido cometidos por outros.tornava a mãe. senão ia dar parte.Vá ladrar a uma horta. a mão dela era uma gadanha afiada. à falta desse cão providencial. servindo-se das palavras irresponsáveis duma tolinha.. Olha. em caso de se vir a ser surpreendido.. cães? . depois de erguer uma laja. Fora assim em tudo.Se a alminha dela se perder vós sois os responsaveis. Descoseu-se hoje ao soalheiro. mas não tinha grande arte. menina. Que surras não fez dar ao cão do Calhorra... não havia ninguém que pusesse em dúvida que estava louca. . Queria que chamassem o padre e a mãe fazia coro com ela: . quando se lhes enchesse a boca de terra. todos se punhan à coca para ouvir e ir contar. De verdade. Você quer ir acabar à cadeia? Não foi pouco que o senhor Bacelar viesse ministrar-lhe a Extrema-Unção. Mas o Duarte teve que abrir uma cova bem funda. Umas zoinas chegaram a testemunhá-la. reduzida a esterco.respondia o Duarte. que chegou ao estado de inocente. Ensinou-lhe também o processo de não deixar chocar os ovos nas quintas do próximo e. Chamai um padre. Aí é que está mais fora de riscos. Padre-Nosso e Ave-Maria: fora o que se chama lagóia espertenida. mas quando desatava a acusar-se e a acusar os seus. Fora ela que lhe ensinara a regra do bom viver: Olha. E o ardil surtiu efeito.

? .Senhora mãe. o leite hoje é mais grosso. Ele sentava-se no banco. Outras vezes o Duarte largava a deitar as águas. mas passaram a afligir o Duarte. A candeia era a única coisa que naquela casa não parava. umas vezes a fiar na roca. lado a lado. Seu irmão não as sabia esconjurar. abrenúncio. Ela virava o fundo da sua malga para a dele: Pega que não tenho fome. Tudo lhe servia para encher o odre. Quando lhe faltavam com a malga do caldo ou se atrasava a trincadeira com os empecilhos da lida ia-se à pia da porca e atufava-se na vianda. traçava a cruz no ar e evaporavam-se. às vezes pingando. não esfarele o pão. Disse o barbeiro que tinha a solitária. cada mocho a seu souto. Mas deixavam um cheiro acre . então que já não lhes faltava côdea no açafate. ela acabou por prometer uma novena a S. e era delas. Comiam à lareira. ele tosquenejava. que custa a ganhar. A tia Soledade vinha leve e rápida como das vezes que se metia nas frescatas do mosco. animada dum movimento de dança. Depois que deu a alma a Deus. Às vezes ele acabava primeiro o caldo. as vacas fartaram-se de canas. Bastava que a bafejasse a aragem. Sua mãe. desde que estiveram depositadas no celário. Ia atiçando a borralheira porque sabia que o Duarte chegava entanguido.Devorava um pão inteiro e uma abada de batatas em três tempos.É depois que a gata da Pedralva desamurou daqui. pé ante pé. Eram como unha com carne. e era dessas vezes que a alma dela se amedrontava e fazia pequenina. E estava sempre a gemer: Tenho muita fominha. muito compostas dentro da mortalha. Maria. teria. tão próximos que ouviam bater o coração um ao outro. Assim se desvaneceram ondas e ondas de anos.Senhora mãe. a bater as matráculas dos queixos. Às vezes acordava e ouvia-o dizer com santa paciência: . Coitada. expirou naquela chieira: tenho fominha! e com a mão na boca a fazer o gesto de engamelar. Pode deitar mais um quartilho de água na panela. acocorada sobre os calcanhares. De dia. . Rezava então pelo eterno descanso da tia e da mãe. De raro em raro trocavam uma palavra e era tudo: . De noite.ia jurar que vinham reavivar o fedor que se sentia na casa. Outras vezes o irmão clamava: . ela continuava a andar de roda. Outras vezes era ele que o fazia a ela. dir-se-ia. as paredes alegravam-se. e sentava-se à beira da cama. mais nojo que pena. Miguel se não voltassem mais. pouparam mais de trinta alqueires por ano e o caldo medrou tanto na horta que se desorelhavam as couves. Soava um ronquido e esse ronquido não podia deixar de ser a velha a protestar. Como se atormentassem com estas idas e vindas. Apareciam de noite. de ventre empinado e a bater os queixais. Se punha uma rocada de carqueja ou de sargaço. nas regas. Parava a chuva. ela no esteirão.. 67 . e iam para as mantas.Está a gear. Jesus. o próprio tempo. Ela espiava a roca. e por todos os fiéis defuntos que lhe vinham à memória.Ouves os ratos? . ou na pedra lar um graveto erguesse mais alto a chama. Passavam o inverno com uma candeia de petrolina à dependura dum ourelo de serguilha por cima da fogueira. molhado até os ossos.. com aquela voz canina: tenho fominha! causava-lhe.Arrefeceu. Não voltaram a ter com ela. na lavoira. nas sachas. Nem homem e mulher. A cada passo visitavam os lugares. outras vezes a rilhar a côdea. Faleceram as duas com diferença de um ano e por muito tempo a casa ficou cheia delas.

caía neve que se desfazia o céu em farfalha branca. folgasse com os rapazes. bufou ao borralho. por lá gente que voltava do forno. . Desde a hora em que se engrifou com ele.. mas bater como quando era moça. que estais no céu.ouviu dizer o irmão. grito ó da guarda? .. vagarosa como uma ovelha velha. Tamancos apressados chocalhavam na calçada.Pois se me apanho com os dois pacotes!. plantado como um buzilhão de pássaro numa das patorras. Falava pouco e quem fala pouco mete mais respeito que os fanfarrões. O Duarte não tolerava que ela dançasse. depois as manias dum solteirão.. não que precisasse das suas falas.. À porta eram capazes de dizer que os roubei. Rosnava.. . Barafustava.. A gente que fora ao acompanhamento voltara tão caiada que nem parecia deste mundo. E a noite lá ia mancando.. No fundo.. Ora o serão é para tudo isso e para o que é menos é para fiar. pontuado de sibilos como do vento nos buracos do telhado. Extinguira-se na lata a trasbordar o batuque da gota de água. buliu com o quer que fosse que tinha jeito de papel ou asa de noitibó. mancando. Mas desde que vinha o Duarte e.Reza também. Ferrara-se a chover deveras. Sempre assim. com a perna encanada. tenho para ali duas dúzias. Um espiche de ar atravessou a casa. Ameaças. Por alma de nossa mãe. Por dentro era um borrego. padre-nosso . . Os palitos não custam a dois tostões a caixa? E os ovos? É verdade. que não era nada de nada o que a outra gente supunha! Sua mãe falecera por aquela altura. tudo aquilo era postiço. mas nunca mais se atreveu a tocar-lhe com um dedo molhado. mas porque lhe causava dó aquela eternidade inconsolável. Que doze anos aqueles! Primeiro a aturar as almas penadas. Passaram por ela carros e carroças de pensamentos.Se te derem os dois contos não fazem grande favor.Darão os dois contos pela regadinha? O cão do Calhorra saiu-se a dizer que a não queria por quinhentos mil réis. escamugiu-se pela gateira da porta depois de percorrer os cantos todos como uma doninha e deixar um frio mortal.. a cozer há oito dias sem interrupção... tó ruça. perdida no meio de penedais. e até os fantasmas das duas defuntas. Pelo repouso de sua alma. e ao cabo da oração tornou-lhe a ouvir: . Ela de princípio também se iludira. mas só os vendo na feira. Temiam-no supondo-o capaz de maus repentes.Com que sonhas. Ouviu-se a chuva tamborilar no telhado e nas lajas do caminho. porco!? Dorme. .Estás a rezar? . esgrimia com os braços. Safado? Se me derem menos. Credo. único na terra. vá. O que acontecia era andar oito dias mais macambúzio que um cerdo com arganei e não lhe falar. Passou o murmurinho pelos lábios do Duarte. Tinham cortado com o serão.A labareda era uma aleluia: espantava medos e negrores.. Ficaram calados. 68 . Era como os cachorros de porta que mostram os dentes. Acompanhava o rosnado dum encrespar de sobrancelhas que fazia gelar o sangue aos que se dispunham a defrontá-lo.. ficou a conhecê-lo.. a casa recaía na sua morna tristura e lôbrego silêncio. passeava a outra sobre as brasas. se ocupasse das vidas alheias. Agora uma passarola qualquer esganíçava-se por cima da casa. Também lhe era preciso “pedir a vez” que não lhe restava mais que pão e meio no tabuleiro. Mais de uma vez se tomara de rixa com um ou outro atrevido. Daquele modo a vencia.

berravamlhe: . ouvira dizer a um figurilha. Eram seis homens a levá-la. Essa pessoa vinha não sabia donde.... Sua mãe... Também ia no acompanhamento o senhor Antoninho. Mas o facataz vinha de mais longe. a súbitas. Que zarelho! Mas era casmurro. mau grado da bicha-solitária. a agarrá-la. desabavam aves e flores daquele céu de presépio e.. acorda. que era como que a voz. Recurvo por cima da enxerga... porfiava. Ela recrudescia em sua zanga: . transido de cólera. onde uma vez esperara com a tia Soledade o recado arriavioso do dianho dum fidalgo. cada vez a abanava mais: . Fora há doze anos. A sua voz. talvez do mundo todo. O corpo dele nu e truculento enchumaçava-se na meia penumbra que descia do olheiro de vidro. via o Duarte. vinte a vinte e cinco anos àquela parte.. como quem não quer a coisa.. Passarinhos que nunca vira. Estás a sonhar com o varrão. Estava no seu princípio e era fresca como abrótega..Minha desenvergonhada.Olhe que eu grito.Barboreta? Àquele engodo celestial respondia ela com um aulido estridente e gozoso. porém.? Se me não deixa.Ó desenvergonhada.. Não a deixava e conduzia-a para o meio das giestas. preto que nem azeviche.. Lá vinha ele todo dengoso. Ao tempo usava bigode. a coruja piou em quantos telhados havia no cimo do povo. um bigodinho muito nédio. ela via-se na obrigação de sacudilo: _ Deixe-me? já lhe disse. a brenha transfigurava-se no bosque de japoneiras em flor. que estás tu a sonhar?. ao passo que bruta mão a sacudia.Quando morrera sua mãe.. Bárbara estrenoitava em pleno transporte do seu ser... grito. parecia a duma fonte a alegrar com seu murmurinho os codessos do montado. mas tinham ar de ser bisnaus. no arrabalde de Orcas. Mas. aguçavam o bico na casca das franças e espreguiçavam-se desembainhando molengamente a asa sarapintada. E. Subitamente.?! 69 . e a voz lançada na noite silenciosa não era mais que a expressã o do mistério inefável.. filada pelo braço. As camélias estavam suspensas a vê-Ia e parece que também elas diziam com o Fráguas no chilreio dos passarinhos: . deixe-me! Qual deixar? Para que andara com negaças? Ia-lhas pagar todas. pesava como chumbo..durna segunda pessoa a desdobrar-se da sua carne.

.. mas há-de ter a ilusão que está em casa. Transcorrida a hora regulamentar. acendia-se toda aquela branquidão dos almoços. veja bem. 70 . neolíticas. traçados com tantas curvas e reviravoltas que bem se notava não saberem o que era tempo os homens do passado. ala. S. a sua faca. Arriando as cestinhas. a trouxe-mouxe. os ranchos avistavam-se reciprocamente. de par com o trrá-trrá das tairocas ferradas mordendo o códão e o lajedo. ou rompendo de trás dos barrancos. um apelo mais alto lançado ao longe. semeada de aldeias lôbregas. nas barracas em dia de chuva. Ao longo das escavações. não menos desdenhosa: O rancho de S. Mouramorta. à sombra dum penedo se fizesse bom tempo. só de jornada e pelas tabernas. presumidas disse.Veja.. com o seu garfo. Não raro. Ceifões. contra o desmonte. interjeições joviais. e não era romaria a nenhum dos santos milagreiros que dos altos picotos espargem sua brancura celeste pelo mar de urze e penedal que é a Nave. por uma qualquer coisa se engulha. Nos dias estivais. prestavam-se de boa mente ao exame: .Lá vêm as de Mouramorta. traziam pela mão a garota descalça. sim. À mão. o que dava ensejo a trocarem as raparigas as suas impressões: . que já se estendiam pelas leiras e excresciam em montes de desaterro. outro ali. Calçam sapatinho de pelica e andam que nem comboios. os cordões de oiro e as tamanquinhas de verniz com que ficavam umas fidalgas. O jornaleiro agrícola tem outras exigências de mesa que não tem o operário das cidades. De certas culminâncias descobria-se o desdobre dos vales e por eles fora os velhos caminhos vadios. Malhadas da Serra. um homem comandava: alto! Eram os vigilantes da mina. Que havia de ser senão a busca prevista?? já se não revoltavam. a sua baixela ainda que humilde. Alçavam a mão para os cabazes no jeito de soerguer a toalha: . Chegados aí. um tamanco que tropeçava. no cotovelo do caminho. Brás da Nave. Brás hoje está adiantado. rotinha e ranhosa. é nojento. E novamente a campina se alagava com a voz de córrego das mulheres.V À hora do meio-dia os caminhos para o Vale das Donas animavam-se.Deixem lá ver o que sobrou do almoço. em grupo acolá. À volta da mina e encosta fora. a terra baça cobria-se de losangos brancos como se por ali se houvesse esflocado neve. um aqui. Sentase por terra. arrumada a louça. uma ou outra vez varrido o prato para o rafeiro fiel. costas dobradas. porque come muito com os olhos. vinham mães e irmãs com o comer para os homens que trabalhavam no volfro e os passos daqueles andurriais repercutiam das vozes ásperas e cristalinas. Dos quatro pontos. E. quer dizer. Pedrões. Gastam em cheiros quanto ganham. tigela em punho. estendiam a toalha do comer. que passavam da centena os assalariados. mas de olhos floridos da maravilha que era a mina donde brotavam as saias de chita deslumbrante. As de Mouramorta porventura tangiam esquila.. Com a cesta à cabeça ou enfiada no braço.

uma vez limpo. a montagem dum cordão fiscal mais próprio para vexar do que para trazer prestígio ou emenda. dando ao topete: . traziam-no em estilhas. embora não impossível. areias estremes que pesavam às vezes onça. Enfronharem-no no cabelo. por isso mesmo refractário à filtragem. Mas também acontecia.Deixem lá. De princípio a escandaleira passara as marcas. Hincker. bem à vista. reduzidos a fazer mão baixa apenas em 71 . e em última análise insignificante no volume da massa mineralizada. reprimiriam a fraude de maneira a que os rapinantes. Assim como os homens conseguiam sempre um meio de escamotear o seu migalho. arrebitar apenas a ponta da toalha e proferir de bom grado. Por enquanto vai chegando para se furar a pele aos godemes! Com providências elementares. metia o nariz até ao fundo das caçoilas e mandava-lhes esfarelar a grossa broa centeeira. Mas os guardas porfiaram na caça. Foram apanhadas algumas mulheres com pedregulhos tão recheados de volfro que excedia o arrátel. que era homem de rasgo e vistas largas. na exultação de terem iludido a devassa ou por natural singeleza. que não havia como o miolo para esconder umas pitadas de volfrâmio. ditara para os engenheiros: _ Não aparem as unhas muito rentes. E perdurava na opinião de que não valia a pena. as que transigiam levando o vexame à conta de patuscada. Tais e tais abarrotavam de contrabando. desde que tinham tranças grossas. posto não conseguissem estancar de todo em todo a fuga sub-reptícia do minério. e deixava correr. alcançava altos preços e corria que certos párias quando apanhavam uma pedrinha a talho de mão. Tornouse difícil a roubalheira. Fora precisa uma apalpadeira. Depois. varrer as migalhas e restos para terra ou duma vasilha para outra. . É o quinhão dos ratos na despensa e dos pardais na seara. O que se evade por esta forma não conta. Os processos variavam.Podem seguir! Riam com desafogo. sem que ao focinho do argos chegassem ventos da candonga. Equivalia à exsudação inevitável que se dá nos canos de gás e nos depósitos de benzina. dado que andasse de pedra no sapato ou recebesse ordens. sem arestas que lhes magoassem a tripa. Fazia-lhes ainda plantar tudo no chão e. em vez de trazerem o minério assim em bruto. e ia até apalpá-las. à semelhança dos guardasfiscais nas barreiras. e botavam à grandura dum ovo de codorniz. como nas minas do Rand. mostravam-se elas mestras no engenho de passá-lo. A Administração acabou por fechar os olhos a um género de fraude assim miudinho. tão falho de escrúpulos como pitoresco. passavam-na ao estreito.O homem. e desanichara a mulher jeitosa para tais artes numa das frandunas que tinha por conta na almuinha do Rapa-Tachos. Hincker folgava imenso quando lhe faziam a história de tais ardis em que se aprazia ver ressurgir aquele génio celto-turdetano. ou jogando chufas. com o que multas recalcitravam. era o mais cândido e comum dos recursos. oferecendo uma pinga na terra. mesmo com os capatazes à perna. O volfrâmio. que consagrava a manha como uma virtude e admitia roubo desde que praticado com boa e original sagacidade. desafiando a imaginação mais fecunda e atilada. Não levavam por isso as buscas até onde o Antoninho Fráguas queria que se fizesse em Muradais: despir as mulheres antes de largarem com o gigo do comer e dar a sua purga aos homens. a título de pôr cobro a desvios que computava de nonada.

a Hermann Gõring Werke requerera o alvará de exploração. A libra saí do suor de toda a gente que cobre a terra. E mãos à obra. montado o dínamo. a febre de minar tornara-se endémica.Vamos até onde a concorrência nos force . desencadeadas com a concorrência e a cotaçáo espasmódica do produto. Hungria e Croácia. fechados a ferrolho e lacrados. reverberada porventura do lema que norteava o Reich hitleriano. Representavam estes por sua constância e ainda gratidão o partido dos legítimos interesses. e outros que lhe eram afectos. havendo a intromissão dolosa do Calhorra desobrigado Hincker dos compromissos tomados na primeira plana. procediam à vara larga. a bauxite de Itália. integrados em conceito tão dinâmico.Vamos. como em regra as outras da província. Produção. E o senhor Hincker. Como o volfrâmio atingira a escala do oiro. produção. Augusto Aires. mais produção era a sua divisa. e o carvão do Ruhr>. o ferro noruego. . não há que ver. presumia a Wehrmacht possuir o primeiro armamento do mundo. escudado por Berlim. o mais invejável possível em face da importância que assumiam os minérios de tungsténio no fabrico do material de guerra. O marco sai do suor. Graças ao metal precioso. tinham parado ali. o volfrâmic. pretos. bem lembrado do seu grande desembaraço na estrada para Orcas. e os engenheiros e os próprios capatazes. arvorou em capataz. Na expressão enfática dos Nazis. que o engenheiro Severo. surdos e cinéreos. era. o quilograma às portas. e donde menos sai é do rico corpinho de john BuIl. A exploração.quantidades mínimas. amarelos. o petróleo romeno. não sendo em tempo normal duma produtividade de primeira. o níquel da Finlândia. Uma turma manejava já com acerto e eficácia os revólveres de ar comprimido. homem para quebrar uma laia com os dentes. de Portugal. tendo por função especial contratar e despedir gente. exclusivamente do suor de Michel. sobre a conduta dos quais podiam repousar confiadamente. embora não haja guerra mais desigual do que esta que sustenta o marco contra a libra. O Aires trouxe consigo o Quim da Urra. não causassem dano de monta. Já por duas vezes os grandes camiões de seis rodas. A dois meses da primeira enxadada tinham erguido no Vale das Donas armazéns e telheiros de abrigo. só não cantava as estrofes heróicas do DeutschIand über alles na música da Internaclonal porque a desconhecia. 400 a 450. recebido a preciosa fazenda e abalado de noite em direcção às forjas ciclópicas de Leste. Chegou aos ouvidos de mister Corbet o dito detraente e observou: 72 . saltando por cima das teorias estabelecidas pela economia política em matéria de capital industrial e seu rendimento. ruivos.000 rs. depois de frisar a significação ecurnénica do facto. superintender nas arrecadações. afundidas em criptas à prova de bomba. adquirir e consertar ferramentas. E por natureza estavam destinados a contrabalançar a corrente da desordem e da cupidez. Depois de pesquisas mais ou menos prometedoras no Vale das Donas. “a velha Europa estava a defender-se com armas fabricadas com o que havia de especial em cada terra. 750 nos entrepostos. foi investido do cargo de fiel. O pessoal superior repartiu-se da Sobriga para a nova empreitada. e tratavam de instalar separadora e lavaria. Hincker visava acima de tudo aos resultados. Ou pelo menos partiam desse pressuposto.notificara Hincker aos agentes. francês e espanhol. ..

. Com efeito a pesquisa oferecera logo de princí pio promessas tão pouco satisfatórias que nada justificava trazerem ali a gente em barda que se sabia. Cipriano. A mamara era o volfro. pois que este 73 . que era homem turbulento e de sorte. cerca da ponte da Mizarela. E acontecia da manhã para a noite ficarem uns podres de ricos. Que mina era aquela do Santo Antão com uma exploração tão paradoxal? Examinando bem. dito e feito. levantados os salários. O padre não passava da union-jack daquela empresa escura. E sucedendo que os trabalhadores. a engenhara a alma danada do Fráguas para servir de ventosa. esvurmadoiros de saibro e rimas de pedra. Manuel Torres. lapuzes que antes de descerem à cova se benziam três vezes para o volfro lhes saltar ao bico da picareta. O Calhorra. ao Santo Antão. implicava a responsabilidade do Dr. devorarem outros o seu e o alheio. veio a averiguar que. refluíssem em número da Sobriga e do Vale das Donas para ali. na região. que noutros tempos seriam insusceptíveis de arriscar uma coroa com o veterinário. fizera banca com o Simão Tadeu e um capitalista inominado para explorarern o filão descoberto nas terras do Dr. Cavavam onde lhes sugeria o sonho. além do seu tempo de feitor e respectivas sentenças. por baixo das casas e das ruas. onde punham nada mais que o palpite. Por montes e vales a terra aparecia picada desta furunculose. rasgando valados e fojos absurdos. tão fonas como suspicazes. correndo debaixo do rótulo do Calhorra. Mas no meio da vesânia geral não havia maneira de um insucesso pôr entraves aos despaurérios da cobiça.avisava-se de dizer um belo dia o visionário à tribo congregada. Pode haver equiparência entre os dois? Lavradores patudos. O capital anónimo era dele e. porque às qualidades nutritivas do leite maternal reunia a vantagem de ser grato Deo. à falta dum indicador no gênero do Livro de S. estilhaçada a pólvora bombardeira e a gatilho. se lhes sobreviesse uma tifóide. desmentindo o princípio de que o português era um primário na fase da inaglutinação. Uma martelada imprudente cortou a corda e três homens vieram britar-se nos abismos rochosos da torrente.O Reichsmark é um farroupilha e a libra uma grande aristocrata. Nas arribas a pique do Cairria. O resultado as mais das vezes era calamitoso.Pode ser que lá se encontre mamara. ou ir à consulta do subdelegado de saúde. Assoclavam-se às três pancadas e um pouco à toa revolviam o solo onde aflorasse veio de quartzo. arriscava. associavam-se uns com os outros. se tinham a vaca doente. viravam a courela desde os penetrais ao húmus. manobrava a toque de sino a picareta e a enxada. e manta do Diabo sempre a ponto de encobrir-lhe as mascambilhas. tal como as trutas na ribeira e os coelhos no monte. à mão-de-obra. alegando não ter vintém e sorvida a massinha ganha com o endosso do Vale das Donas na voragem de velhas dívidas. o Calhorra. animado de espírito comunal.Vamos experimentar na belga . e em muitos casos sem outra razão que a de serem donos de duas aguilhadas de saibro ou de fraga. de modo a poderem alforjar para os bolsos e terem arame para a vinhaça.. trabalhavam firmados em andaimes sucessivos. Manuel Torres. Aqui era uma família que fazia a lavra por sua conta e risco. além um poviléu inteiro que. E. gato escondido rabo ao léu. . suspensos por amarras do alto cairel. Em verdade. ou qualquer filão encasquetado em granito. o trabalho dos dois filhos. Hincker fez reparo. Esgaivavam na seara e no maninho. e para as bandas do Ladário o fosso foi de tal ordem que se assapou sobre os pesquisadores a capela dum santo.

e um abuso de confiança em relação ao proprietário. com os dedos dos pé s a espreitar da biqueira arreganhada dos sapatos amarelos e a crina da trunfa a espichar do velho mazzantini derrubado. A certa altura. que implicava atropelo e agravo para eles. dir-se-ia. prontos a tomar o minério de contado. gente de gravata e cachucho no anular. 74 . Fazia-lhe frente o Calhorra. na mão direita um saco. além calcava o pãozinho na medrança. de mistura com o: dê lá uma esmolinha! . Severo Bacelar foi despachado a Lisboa representar contra a comandita. se Manuel Torres cedera o terreno a Silvestre para o explorar a título de compensaçao pelo dano que lhe causara o Augusto Aires. Interrompida a actividade no Santo. Nas terras de sementeira ou de pousio enxergavam-se vultos pervagando isoladamente. e pouco era. ociosa e lazeirenta. A cada passo batiam à aldraba. e nunca se sabia o seu montante. e arrebanhava tudo. Como vinte gramas do minério rendiam mais que a melhor jorna. todo o jarreta. Entregavam-se a esta tarefa em geral os velhos e as crianças e uma ou outra pobre mulher.. Marchanteava aqui. O Reganha ia. nas escaleiras toscas de granito. ouviam-se os martelos até altas horas a britar o quartzo. ao cigano tropiqueiro.. salteador nas suas horas. que por vezes cortam fundo. o Calhorra arvorou-se em negociante miliciano de minério. À noite. Na veniaga desaguava toda a casta de indivíduos. De par com actividade tão tumultuária. ao chamariz do Roupinho. na esquerda cobres. Mister Corbet surgiu a reclamar o direito de prosseguir nas pesquisas a título de que o terreno em questão estava adentro da área registada em seu nome. do bronco assombro dos penedos destroçados pelas leiras. vendia acolá. Entretanto o Calhorra era avisado que tinha de suspender a exploração até nova ordem. E eram uma praga borbulhante. Comprava o produzido nesta e naquela lavra singular à margem da lei e da razão. não podia deixar de crescer dum dia para o outro a cambada pitoresca dos traficantes. desabou sobre a várzea de Malhadas a mendigagem de Cruita do Alto. o arranjado ao pilha e outras malas-artes.ainda tivera a lembrança de registar o filão em seu nome. ou movendo-se aos pares com a lentidão compenetrada. empresário de pedintes. e alguma colheita fazia quem tinha pachorra e olhos de lince. trazido à tona pela relha do arado e a enxada dos cadabulhos. ou simplesmente soprada por uma aragem imprevista como os gafanhotos. com o solo de alqueive. O Dr. pelas quintãs. Em verdade. com a carteira atafulhada de notas. Torres concordou e prometeu rever o assunto. o compromisso caducara automaticamente em face da atitude posterior do trapaceiro. toda a velha foleira. homem da rifa. Conhecidos os dados do problema. comparável pelo número e carreira que faziam uns atrás dos outros à das lagartas no enfolhar dos bosques. vendilhão. Eram os rebuscadores do metal desligado da madre por erosão. o apanhado ao rebusco pelos campos. candongueiro. e ainda por bandos em certos sítios da chá e do cerro. os agros andavam coalhados duma vérmina que se aqui não causava detrimento. tanto fino como em bruto. Protestou. que em tempo normal enxameavam pelas portas a comprar o cornelho e a moinha e a belfurinhar a petinga corchada carretada à cabeça da Régua e de Caverriães. O exame dos peritos foi-lhe desfavorável. aldeia duma densidade asiática: todo o garoto. desde o Antoninho Fráguas e quejandos. daí o suceder pagarem o volfrâmio um pouco mais caro que a cravagem do centeio.

Tanto Corbet como Hincker traziam assoldadados, não falando nos compradores oficiais, agentes secretos que compravam o volfrâmio a este e àquele pela porta travessa, na intenção simultaneamente de, seguindo a marcha do negócio em seus conchavos e vias ocultas, estarem habilitados qualquer hora a refrear a roubalheira e a prender os larápios. Foi por este canal que na mina do Vale das Donas se veio a saber que o Calhorra vendia todas as semanas uma dose maior do que era lícito supurar, tendo em vista o minério arrebanhado duma banda e doutra. E, motivo superior para ficarem de pé atrás, o velho negava-se a transaccionar com quem quer que fosse que não ostentasse bem clara a marca britânica. Ao Augusto Aires foi dada carta branca para deslindar o cambalacho. Era preciso o maior recato na devassa para não pôr a conrobia de sobreaviso, mormente o Calhorra, conhecido de tutilimúndi pelo autêntico pai da manha. Por isso o Aires andou a escolher a dedo os seus moscas, não se contentando que fossem cautos, mas sim que dessem prova de sagazes, com arte tanto para armar como desarmar um estrangeirinha, surpreender a ariosca no ar, seguir o fio da meada sem o enredador dar por isso. E ele com o Quim da Urra tomou a cargo espiar as passadas nocturnas do raposão, esperando-o a pé firme nas seitas costumadas e nos locais em que era useiro. Só ao cabo de semanas puderam ter os cordelinhos na mão. Secundavam ao Calhorra dois meliantes de alto bordo, o José Francisco e o Luís Ougado, aquele para a alicantina comercial, este para a alicantina, digamos, mineralógica. Ambos de estrela, beta e pé calçado, mas o seu braço direito era o Ougado. Era ele que no Vale das Donas metia os camaradas à ratonice e lhes dava instruções úteis quanto a uma indústria de si tão perigosa como arteira. Demais, era ele que recolhia o saque na quase totalidade e pagava proporcionalmente aos contribuidores. Mas na operação subsistiam quindins de todo impenetráveis. Como é que o volfrâmio continuava a fugar-se do Vale das Donas? Os guardas redobravam de vigilância e astúcia sempre que submetiam à revista as paquetas do comer. Mas nada descortinavam. E ou elas tinham de facto acabado com a candonga, ou haviam inventado sortes com que ludibriar o mais ladino. Hincker gracejava: - Pois que temos aí a Intelligence Service, não há remédio senão mandar vir a Gestapo. Além deste papel todo mercuriano, o Ougado exercia junto do Calhorra as funções não menos eficientes e herméticas de alquimista. Era o seu preparador. Fora do povo, na tapada das Margaças, onde em tempos erguera uma cardenha que servia para recolher o milho do secadoiro, se desatava a chover, e vinha dormir de guarda ao meloal, instalara agora o laboratório de morraceiro com ventoinha, crisóis, e os pertences necessários à mangola. Ali, alumiado pela candeia fumarenta de creosende, procedia à transmutação: os óxidos de ferro e o mispíquel, de que todas as explorações era abundantes, aquecidos ao rubro num tabuleiro de zinco e “engraxados” de maneira a adquirir brilho, tornarem-se “volfrâmio de lei>@. Esse brilho conseguia-o, entre outros processos, fritando a mistela em resina de pinheiro, óleos queimados de motor, ou negro da palha. Também, em vez da pirite, acontecia-lhe lançar mão da cassiterite e da blenda, que reduzia previamente a pó impalpável, e ainda do titânio, que na região e mais raro, mas tem a propriedade de ser dotado de peso específico aproximado do tungsténio. O minério verdadeiro servia-lhes para criar a

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superilusão caldeado com morraça, sobretudo para formar à superfície dos sacos a película venal: a amostra. Os belfurinheiros, mais ávidos que experimentados, vinham, examinavam a fazenda, friccionavam-na entre os dedos e na cova da mão, e punham-se, tantas vezes, a cheirá-la, que certos produtos não perdiam o odor próprio mesmo depois de “sublimados” por meio de ustulação. - Homem, quita de fungar - nitria o velho, deitando lume verde pela pupila de gato. - Aqui não se fazem tibornas. Pega ou larga! Acanhavam-se de levar longe a suspicácia. Além de império que baforava de tanta arrogancia, acrescia ser o presidente de senhora junta. E lá levavam a carga da mistela, paga às vezes por alto preço. O curioso é que, à parte estas transacções realizadas de portas adentro, a mercadoria dirigia-se em linha recta aos armazéns de mister Corbet pela mão do Antoninho Fráguas, que a recebia da mão do José Francisco, seu agente e digno filho. No Vale das Donas achavam-lhe pilhéria infinita. E pois que a tramóia revertia mais em prejuízo desse concorrente do que de outrem, os engenheiros da Hermann Gõring W,erke deram ordens aos capatazes para fazer vista grossa até o momento em que a fraude, no que lhes dizia respeito, assumisse maior vulto. O negócio do volfrâmio batia o auge. Sarabandeavam pelas portas os chatins comprando a olho, pesando, quando pesavam, em velhas balanças de gancho com arráteis à romana. Nem todos acalentavam ilusões: eram enganados aqui, iam enganar além. De modo geral as aldeias mudavam de pele. Cobriam-se as casas de telhados novos. O quintalinho era murado a capricho e a escarpa escalonada por bons e luzidios calços de alvenaria. Mas simultaneamente surgia o negócio do marchanteador de terras, compra hoje, vende amanhã, impinge logo que possas,- o pior dos venenos. Embora? A Beira, a velha província dos nobres solares em ruína, com vidraças sem vidros e grandes portões de castanho emplastrados com rodapés de lata, paredes à escoda e bojuda comija taciturnas, porque se não há nada tão loução como o granito novo, também não há nada mais melancólico que o granito das casas mortas, abandonado à corrosão dos anos e pasto de musgos e líquenes, a velha província rejuvenescia. Na serra, as raparigas atiravam fora a capticha de lã e punham blusa de gorgoriria por cima da sainha curta. Os rapazes compravam botas, a sua bicicleta, e armavam-se de revólver. O revólver, que era o símbolo da época, equivalia a uma emancipação. Só armados eram maiores, como sucedia antigamente com os pajens. Por seu turno os velhos campónios, dobrados à lida e aos impostos, viam pela primeira vez maneira de saldar velhas dívidas cancerosas e de se porem em dia com o fisco. Os harpagões das aldeias davam ao demo a cardada que lhes subtraía o carneiro à tosquia e aviltava o mérito do préstamo. Em regra entrava ar fresco, vigorizador, na pobre e mais ú til célula da nação, a localidade rural. Economizando daqui, puxando dalém, o Augusto Aires pôde adquirir o casal do defunto Pata-Larga, falecido sem herdeiros directos lá para Lisboa, e circunstância foi essa que levou o José dos Cambais a permitir-lhe o acesso à sua porta. Sempre que lhe era azado, vinha dar o seu dedo de colóquio à Teodora, que já não escondia os sentimentos. Não andavam os pregões a correr, mas ela ia aprontando as peças do enxoval. O José Francisco, posto que preterido, recusava-se a desarvorar. Aos domingos, de cambulhada com os de S. Brás e Mouramorta, subia a rua plangendo a concertina e botando cantigas ao seu amor dum dia. Apenas

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por estes rapapés se mantinha fiel ao tipo clássico do enamorado. No mais era em tudo o manel do século vinte: gravata de malha, lenço a espreitar do bolso de encontro à carapeta da pena de tinta permanente, sapatos de cor, na lapela uma divisa de clube em vez do raminho de serpol. Entretanto foi informada a Administração de Vale das Donas de que dos aviamentos do Calhorra em minério iam crescendo, o que supunha maior consumo do metal verdadeiro para colorir a potreia. Era de supor que, por contrapartida, dalgum modo os lesasse aquele progresso. E de novo os podengos da mina se puseram a rastejar a marosca. E tanto beberam as auras, farejaram, colheram zunzuns daqui e dalém, que acabaram, nos termos da linguagem batoteira, por dar no vinte. Um sábado, dia de paga, o pessoal em vez de cobrar a féria ao postigo, como era costume, recebeu ordem para ir recebê-la ao escritório por piquetes de cinco. Uma vez o primeiro turno em frente do pagador, o vigilante que tinha vindo da Sobriga, e era homem forçudo, mandou alinhar. Depois ordenou: - Arregaçai as calças! Os cinco homens tergiversaram, procurando eximir-se: - Ora essa? Para que havemos nós de arregaçar as calças? - Para quê? já ides ver. Arregaçai? Hesitaram. O vigilante buliu com o vergueiro. Ao lado, os dois auxiliares, cada um com sua ripa, aprumaram-se de cenho descido e silenciosos. Desarmados como estavam diante dos três pimpões, não tiveram remédio os homens senão obedecer. - Desatai agora os nastros das ceroulas... Compreenderam: estavam queimados. Mesmo assim, tentaram reagir. O capataz ergueu o cipó. Deslaçaram os nastros. Deste, daquele, de todos enfim, caíram pedras de volfrâmio, se miúdas no geral, algumas grossas como avelãs, e tudo minério estreme e cristalino. Um dos rapinantes mostrava os fundilhos esfiapados à força de servirem de alforge. Os cinco homens, a seguir à revista, foram encaminhados para o barracão contíguo pela passagem interior, e sucedeu-lhes segundo turno. A cena repetiu-se três, quatro vezes com idêntico cerimonial e vozes equivalentes. Derivou enfim, tendo os homens rumor do varejo ou, na mais simples das hipóteses, acabando por desconfiar. E antes de penetrar na barraca aliviaram-se da carga que traziam. Num desses grupos estava o Luís Ougado. A voz de: arregaçai as calças! Todos se prontificaram a fazê-lo - tão pressurosamente que semelhante despacho se tornou suspeito menos ele, o que, em contraste, se tornava pela sobrançaria objecto de igual prevenção. O vigilante, que tinha fumaças de teso, sentindo farsola pela proa, cresceu para ele, depois de atirar fora a cachamorra: - Ai sim, homem para homem! Em resposta o Ougado sacou do revólver e meteu-lho à cara. Mas o Aires dum salto prendeu-lhe o pulso, iludindo a pontaria. A bala foi cravar-se no chão ao passo que os dois pendiam sobre a mesa, parecendo que se tenteavam, corpo contra corpo, quando era o Aires que, filado ao braço do Ougado, lho torcia até obrigá-lo a largar a arma. A luta foi tão breve que o vigilante da Sobriga nem tempo teve para intervir. Quando viu o Ougado sem o mata-moscas, jogado de escantilhão para a casa ao lado, limitou-se a dizer para o Aires: - Deixe o homem! Não é esse que traz minério com ele. Outros'... O Ougado arruaçava: - Ceguinho eu seja se mas não pagares! Eu cá tas guardo.

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- Quando quiseres - respondeu-lhe o Aires. - Aqui ou no cabo do mundo, com aviso ou sem aviso, tens homem. Não só não prosseguiram no despique como puseram remate à rusga. Para escarmento bastava. Estancada a fuga do minério em Vale das Donas, voltou-se o Calhorra para a pesquisa de Santo Antão, recuperado o beneplácito do registante. Pusera este como condição expressa ser o Calhorra, sozinho ou associado exclusivamente a pessoas da freguesia, a fazer a exploração, não recorrer a capitais estranhos, nem ajustar pessoal que à data do acordo andasse ao serviço de qualquer empresa, salvo ter sido despedido ou autorizado. Deste modo julgou defender a neutralidade, acautelando-se contra as reclamações e injunções duns e doutros. O Calhorra, depois de deitar contas à vidinha, chamou novamente a fazer parte da sociedade o Simão Tadeu que, se desta feita se não decidiu ainda a arriscar a importância duma missa seca, induziu o José dos Cambais a entrar com a valia de duas juntas de bois. E manobrou muito pela sonsa para que ao Fráguas fosse reconhecido o direito de sacrificar ao lado dos amigos o seu pacotinho de notas debaixo do nome do José Francisco. E assim sob palavra, como era de costume fazer os negócios na província portuguesa, que para os antigos a palavra valia oiro e escritura em tabelião, se formou aquela bisca lambida com o fim de sarjar as entranhas do cerro à cata do tungstato de ferro e manganésio, que ali se tivesse coalhado desde o magma original para os Calhorras esfomeados e fura-bolos. Mas se atrás do José Francisco estava manifestamente o pai Fráguas; atrás do Calhorra, Mercúrio; atrás do cura, Deus e o Diabo; atrás de todos quem riscava era John Bull com precisão de ganhar a guerra. Salvo Sebastopol, os Alemães ocupavam a Quersoneso deliciosa dos Gregos, com seu mar sempre azul e cidades cheias de lenda e regaladas de perpétua primavera. Com o torpedeamento sucessivo dos seus portaaviões, a Home Fleet desertava do mar do Norte, o seu bulevar. Em contraste, poderosas formações da RAF sobrevoavam a terra germânica, plantando aqui e além cenários do inferno. Após o raide de 26 de Outubro a Hamburgo, que escavacara os bairros aristocráticos alinhados à beira do AIster, volvendo de novo na segunda semana de Novembro, despejaram sobre Berlim toneladas de bombas ainda mais explosivas e incendiárias. Os Alemães atupíram as crateras das ruas, e esconderam com taipais os prédios esbandulhados em atenção à estética e ao moral do público. E pela primeira vez rosnaram: “Pois é possível que a título de inutilizar uma fábrica de carrinhos de retrós, adstrita como aliás a mais rudimentar actividade à economia de guerra, ou mesmo uma oficina que manipula lentes para periscópios, se devastem quarteirões inteiros, para cúmulo, em países ocupados, reduzindo multidões indefesas a lama sangrental?” A ferocidade da guerra total tinha os seus reflexos até a mais remota ondulação da natureza humana. Também no Luís Ougado vibrava a sanha que lançava metade do mundo contra outra metade quando apareceu no Santo Antão a exibir a carta de desquite, e o Calhorra, acolhendo-o de braços abertos, disse alto para que constasse: - Deixa lá? Doze escudos também aqui os ganhas sem mais suor. Hincker achava o Calhorra sumamente pitoresco, dum pitoresco que o absolvia da nocividade, e deixava-lhe os caminhos livres, inclusive aqueles que conduziam à traficância. Consultado por Torres, antes da transacção, não vira inconveniente em que a lavra fosse retomada nos termos rescrítos.

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E o Calhorra e os seus pegaram-lhe com a gana toda, se bem que o filão parecesse de reduzidíssima possança e mergulhar. Por todo aquele fim de Outubro, no Vale das Donas, na Sobriga, na Tojeira, em Muradais, o trabalho prosseguiu tão afincado como surdo, e esse silêncio criador correspondia à pausa com que nos países em guerra se incubavam as ofensivas trernebundas. Do Vale das Donas, por um acaso feliz, saía minério a rodos, tendo dado numa bolsada que era o assombro dos engenheiros. Saltavam à picareta pedras com dois e tres quilos de metal puríssimo, e de extracção relativamente fácil devido à circunstância de o gaveto de granito descoser sem necessidade de fogo. Isso perturbou, quando correu o rumor, mister Corbet e fez cismar o Calhorra seu aliado, como aliado do próprio Porco-Sujo na colusão de interesses, além do mais, invejoso, o que não é para estranhar num bicho de presa e rapina, com o apetite nada enfariado. E o Calhorra decidiu nem mais nem menos levar uma daquelas noites de luar, com o céu estanhado pela algidez do codo, a velha guarda - os dois filhos, brutos e espessos como búfalos, o Luís Ougado, olho vivo e pé leve, o José Francisco, ágil e arteiro, a Florinda, a mais fina das lambisgóias - ao assalto do jazigo maravilhoso. Meia dúzia de arráteis que arrepanhassem contariam no orçamento dum cristão. Ora havia noites que o guarda da mina ficava morto com a tachada, podendo passar por cima dele carros e carretas que não vinha a si. Precisamente nessa tarde o Calhorra tivera jeitos de atraí-lo à pipinha, e graças à prateira de azeitonas e à lasca do presunto, despendurado da trave, a animar a funçanata como puxavante, o homem despediu dali que nem um terno de abades depois de um jantar de quaresma. Para mantê-lo no estado celestial, levou a largueza a aviar-lhe uma cabacinha, sabendo quanto o piteireiro era sanguessuga com o briol a talho de mão, e o seu palhete das Margaças chamava-se dum quodore de respeito no género de trepador. Às dez da noite, hora dada para o trancafio, o guarda ressonava à porta da barraca, enrolado no capindó, e o seu resfôlego era estrondoso como de cetáceo sentido do arpão. Não farejando vivalma que pudesse tolhê-los, a quadrilha muniu-se de picaretas e enxadas no próprio ferramental da empresa e guiada pelo Luís Ougado desceu à mina. A Florinda tinha a seu cargo alumiá-los, para o que o José Francisco a munira duma lanterna de furta-fogo. O Calhorra postara-se de atalaia, um olho no guarda, não fosse por lá o ladrão cozer antes do tempo a camoeca e fazer das suas, que era homem de maus fígados, outro olho nos caminhos, não se lembrasse o Diabo de trazer àquela hora os vigilantes ou algum engenheiro. Um assobio seu e os francelhos punham-se de sobreaviso; dois, e acaçapavam-se; três, e salve-se quem puder. O trabalhinho começou bem e prosseguiu pela noite fora com regularidade e aproveitamento. Não mexia uma paragana na terra, entanguida pelo codo e a crassa imobilidade do céu. Para o povo, de quando em quando, um rafeiro lançava dois latidos, aguentava-se vinte, trinta segundos naquela charachina, calava-se, volvia a ladrar, e ao cabo de duas notas soltas em bemol tudo tornava a soçobrar na paz nocturna. Um automóvel anunciou-se de longe, veio arcabuzando o silêncio, rorejando com a luz dos faróis a coruta das árvores, vestindo-as de brocados e pedrarias... rompeu adiante. Ainda não era meia-noite, já tinham extraído dois sacos de ganga, mais pesados que defuntos. A obra ia em seu curso, com denodo e sem quebranto, apenas pelo desembaraço um pouco caótico

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denotando não ser regular. já o Manuel Calhorra subia o terceiro saco, gemendo, que botava lá para os noventa quilos, ouviu-se não um silvo, nem dois, mas logo três, sinal de cataclismo. Cada um tratou de se escamugir para seu lado; a rapariga acocorou-se sobre a lanterna; o Manuel deixou cair a carga ao chão, que foi rebolando, fazendo pela escada de madeira abaixo o barulho dum casario a desaba. Acompanhados da Guarda Republicana, vigilantes e capatazes puseram cerco à exploração e catrafilaram os larápios. Não tardou que estivessem todos sob custódia, salvo o Calhorra que se esgueirara não se sabia por onde. Mal se ouviu soar um galope para a estrada, disse o Quim da Urra: - Lá vai o Calhorra... Mas em vez de tomar o rumo de Malhadas, o eco toava do lado de Mouramorta, e o Aires, que lhe conhecia as manhas, ponderou: - Vai avisar o Antoninho. Toca a prevenir. De facto, o Calhorra tupa que tupa, como mais tarde se veio a saber, fustigando a Ferreira, em pêlo, com os nós da corda, foi alvoroçar o Fráguas que dormia em Muradais o sono profundo dos justos, que em beatitude apenas diverge do dos patifes na cor que têm as asas do anjo de vela à cabeceira. Quando soube que levavam o filho preso - o que para o Calhorra era perfeitamente indiferente se não tivessem sido gazofilados os seus lapuzes - acordou os criados, mandou chamar o Manuel Minga, por alcunha o Espadagana, mais dois ou três companheiros da vigairada e, depois de se encharcarem de cachaça contra o frio da alba e para ganhar rompante, terçando de quantas espingardas e revólveres puderam haver à mão, lançaram-se na chocolateira, a toda, para Malhadas. Em Malhadas informaram-nos que os presos já iam a caminho de Orcas da Beira. O Fráguas desembraiou, meteu o acelerador a fundo e antes de chegar a Pedrões da Nave, ao cabo da recta, lobrigou a escolta com os presos. Afrouxando a marcha, conferenciaram: - Atiramos-lhes sem dar tempo a prevenirem-se? propôs um que entrara heroicamente pela bagaceira. - Não; é perigoso - proferiu o Minga, mais aliviado do cérebro. - Não vale a pena irmos já às do cabo. De resto, podíamos ferir os nossos. Prevaleceu a opinião moderada e foi o salvatério, bêbedos como estavam. Ao acercarem-se, evidentemente porque sabiam a rês que o Fráguas era, a guarda fez meia volta e aperrou as armas: - Alto ou vai fogo?? Detiveram-se; fingiram em seguida a maior surpresa ao defrontar com os detidos. Com modos irónicos o cabo aconselhou-os a arrepiar caminho: - Façam de conta que vão errados. Nós é que vamos bem: ordinário marche! O Antoninho convidou-os ainda a molhar a goela na tavertia, que era costume o Catrino ter sempre um vinhinho de três assobios e, como se estava na quadra das matanças, a assadura mais que certa para amigos e unhacas. O cabo não ignorava nenhum dos estratagemas a que recorriam picardos e contrabandistas em tais colisões, e muito menos a boa peseta que lhes saía pela frente, todo falas de mel depois que vira as Mauser engatilhadas. - Não se mate. Havemos de entregar entes anjinhos, em jejum, na cadeia do concelho. Foi promessa que fizemos a Nossa Senhora da Agrela. O Fráguas retrocedeu com os seus, enquanto a escolta prosseguia para Orcas da Beira. Os presos foram entregues ao administrador. Rogos,

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súplicas. puseram-nos em liberdade. decorrida a semana sem culpa formada. 81 . que já envolvia corrigenda e era a menos susceptível de lhe causar engulhos e contratempos. Dizia-se que Hincker se empenhara por semelhante solução.

só o aceitava à condição: crivado pela separadora. posto que em mole e mal pronunciado pendor. tudo lhe servia de pretexto para peguilhar: a fazenda que não era estreme. a cálculo.. roçar mato. sinal de que se entrava em estiagem. depois de seguir com olhos refitos o vaivém do fiel. Desta feita o braço deslocou-se no sentido contrário.Não são bem os quatro arráteis. Foi buscar a chave.Bem me queria parecer. pode ser que arredonde o peso. vende-o lá a quem adregar. impelidas por baforadas leves do vento galego. a mão que sustinha a romana pouco honrada. o que a levou a dizer com regozijo. Para sul. os pesos que eram ladros. O Calhorra também o queria. devido talvez a que estava acocorada por terra. as chuvas descarnaram as pedras pelas aradas. certinho. mas se o souber. a chave pesa meio arrátel certinho. Mal o ergueu no ar.verificou ela. suspendeu ao alto.. do outro pôs. entre eles o Zé das Almarges. O Duarte assistia à operação muito interessado e sem abrir boca. mais onça. e por onde quer que se derramasse a vista. eram do Duarte nesse sábado e.E cadeado na boca. que estava a ver e a ouvir do próprio buraco da fechadura. segundo os termos da parçaria. Mas esse. entretanto que elas pastavam. menos arroba. Deitaram contas ao seu haver. Andava um cardume de gente no negócio. adicionando um peso: . tendo-lhe constado que possuíam o seu migalho. introduzindo o dedo na argola. outros de fora. nuvens brancas iam vogando com ripanço. ao rebusco. Mas como a irmão desse a impressão de perder o fôlego ao levantar os ganchos. O Luís Ougado quita de sabê-lo. não me rala. . Há muitas Marias na terra. arranjado ao rebusco. As vacas. Mas o Leónidas. Parece que era um sacrifício que fazia em pegar-lhe.. . conhecido por homem abonado e sério de contas. Bárbara meteu de espora fita para o Vale das Donas. faiscavam os charcos. assim que engrolou o caldo de unto com as duas batatas rachadas.Vende-c. vende-o ao Leónidas..Quita. A terra dum dia para o outro mudara de face. em seneca.VI Bárbara foi pedir os ganchos à Pedralva para pesar o seu volfro. ao Zé das Almarges. que o pagavam à justa. Era sábado. Logo vou-me dar uma volta. Tinhao num taleigo e pendurou-o dum lado pelo nagalho. Lá dizia o outro: ao bom calar chamam santo. uns da terra. pela tarde não faltariam compradores à porta. . o braço inclinou-se impetuosamente da banda da veniaga. 82 .. depois que apanhara o grande carambolim.Pesa mais de três arráteis e meio . Mas vinham aí os Carapitanos que em tempos tinham sido adueiros. despediu para o lameiro da serra. . Chovera a potes durante semanas e semanas. mal chegaria para empeçonhar um rato. Toca a pô-la em sítio onde não chegassem gatos. tirou-lhos da mão e. .Vamos a ver com a chave. mais cigano Pedro do que Paulo. mas o que falta. contanto que mo ponhas depressinha de casa para fora decretou o Duarte. três arráteis. . O Leónidas Seixas falara ao Duarte. arrenego! Além de ser um marralheiro de alto lá com ele.. Tem à roda de quatro arráteis. que por ser murado lhe permitia. Com o quilo a 350$00 não havia duvida que estava ali uma rica melgueira.

E o rio. Uma vezes por outras. Desejava alguma coisa dele? Ela não desejava nada. esperam de quem passa. Deixá-lo. pegasse nela. embora mais friorento do que se acabasse de nascer. sim. sempre porfiosos. e dizia-lhe o coração que desta vez era o fim da intriga. injuriou a porca que estava sempre naquela música pegada e era capaz de comê-la viva se lhe faltasse com a vianda. onde havia sempre espectáculos proveitosos para a sua curiosidade. soube dizer que a seitoira estava no sítio. ao entrar em casa.r para a missa. A cada passo. A várzea enxameava de vultos. com o galo que era peco na galadura. e fosse segá-la ao lenteiro. tão móbil e traiçoeiro se tornara o lamaçal. se não mais maluco. Chegara essa manhã a Malhadas. Como todos os serranos. Precisava de espairecer. nos regos recurvos.Fontainhas gorgulhavam donde menos se esperava e a cada passo dos côrnoros e taludes um fiozinho de água. Era um regalo gozar ao ar livre aquele sol abençoado. outros a haviam tido igualmente. Em seu peito turvado cachoava um mundo de impressões desabridas e inclementes à volta duma realidade irremediável: acabou-se! acabou-se! Entrou em casa rabugenta e a odiar. lhe perguntou pelo molho de erva com que havia de acomodar a Cereja. pequenino e vulgar. Em muitos sítios. viera tarde.. acabava também por clarificar. Pelas centeciras. antes do sol-pôr. e os próprios franguitos vissem uma fona com ele. dar dois dedos de trela a este e à quele. tão luzente tudo que a alma duma pessoa. azar que ate as mãos e esgote a paciência. mas não ia jurar que tivesse vindo apenas com sentido no volfro. passava por ali o senhor Antoninho de escopeta às costas a botar dois bagos de chumbo às perdizes. dir-lhe-ia adeus e que não voltasse mais a mangar com quem não lhe fazia febre. a água represada contra a filaça verde dos trolhos era do mais lindo e caprichoso cristal que se pode imaginar. mostrava trechos amplos por entre amieiros. era preciso ir às apalpadelas. começando de novo sempre esperançados. Não havia vulto que saísse do povo de que ela não desse fé e não começasse a estudá-lo de longe até atinar quem fosse. Rabujou com as galinhas que não punham todos os dias. geada. murmurava num falatório animado consigo e com Deus. E em cima dos penedos as caldeirinhas naturais reflectiam como límpidos e ágeis espelhos a luz celeste e as nuvens que passavam. quando não era um rego cheio que vinha de longe. E o seu coração batia e tornava a bater como dantes. Se porventura acontecesse vê-lo. quando se postam à beira do caminho de mão estendida. quando o Duarte. para lá dos caracolões do aterro do Vale das Donas. embora fosse bicho para passá-las a fio todas as manhãs pela sua espora de cavaleiro. à velocidade com que corria o tempo e ia tocando tudo para a morte. atirou um pontapé ao gato da Pedralva que saía pela gateira com uma grande rara nos dentes. de olho na mina do Vale das Donas. projectando a sua brancura a céus e terra. 83 . movediços o que bonda para se dar conta que tinham corda à procura do minério. por ali divagou até se ouvirem os chocalhos dos rebanhos descendo as escarpas para os currais. À tardinha. E na fímbria do caminho lá ia procurando.. e espreitando o horizonte. o chão cedia. Ou se desejava. para quem não há esterilidade. era muito menos do que o que os mendigos. procurando o cascalho que valia oiro. pouco mais ronceiras que anáguas de velha ao . onde se punha o pé. Mas se Bárbara tivera aquela boa ideia. por muito que lhe caísse em cima a fuligem das contrariedades.

.Vá buscar a fazenda.Indicaram-me esta casa como tendo volfro para vender. . que nunca chocou pintos nem vendeu bulas.Pois por isso mesmo. O Duarte empurrou a porteira e ficou-se no traço. fazendo de conta que é puro.Sim. disse: quatrocentos. serve.Aqueles maus repentes aliviaram-na das mortificações. está bom de ver. e na fazenda não há nada que deitar fora. Mas ele ou o filho de meu pai é a mesma coisa: andamos de sociedade.A como é que o senhor o paga? .Por esse preço. São tantos os que andam nesta vida que se comem uns aos outros. Precisamente tropeçavam os socos do Duarte na calçada. Ao chegar à porta virouse com brusquidão: . .Só à vista. compadre do Zé das Almarges.. Como não atava nem desatava.. .E embicando para Bárbara: .. . adeus. Todos dizem o mesmo. sentada na soleira da porta. nem que o senhor se mate..ouviu que dizia o irmão. Ainda esta manhã o andavam a comprar a quatrocentos mil réis.. Prendeu o macho a uma ralada da parede pelo nó do rabeiro o atirou os alforges para o chão. Ficaram hesitantes..Disse. . Porque é que não veio seu compadre? .Lá me queria parecer.. .O senhor não é de Carapito? . abrindo a porta ao homem para que entrasse com a cavalgadura: .Então para que o compra?? . Estava a aparar os nabos para o caldo da cela..Foi para Muradais. de Carapito: João Vitorino. Mesmo a duzentos e cinquenta mil reis é já para perder dinheiro. mesmo nada. . Se se fizer negócio..Vossemecê quem procura? .Mas resolva lá que se me está a fazer tarde e eu quero-dormir nos lençóis que fiou a patroa. Peça duma vez. . indeciso com o molho da erva às costas enfiado no cabo do sacho. . O Duarte arrumou a erva e ela acabou por inquirir. resvés com a cabeça do macho.. .. O homem caminhou para ela com ar decidido: .. ela pôs a gamela de lado e veio para o sujeito que mostrava a cabeça pela talisga. . bateram à aldraba da quintã.Homem..Valha-o Deus? A trezentos pagavam-no a semana de além. posso pagá-lo a duzentos e cinquenta mil réis. senhora. de parte a parte só perdemos o nosso tempo... se não se fizer. muito bem. Dos alforges safou as balanças o permaneceu com elas em punho em atitude de 84 . sempre a quero ver. . .Compromissos. Eu dê ainda hoje estoiro no inferno se não é verdade.É do puro. não se ganha para a sola dos sapatos. . o que se chama puro.A trezentos. Isto de volfro já foi negócio. mas saiba pedir. O homem fez menção de abalar.. sem um argalho.Bem. a ponta da corda lançada para a espádua em sinal de marcha.Onde irá tal mercador que eu forneço-lhe uma carga? Também o vendo à minha santa por esse preço. andam os marchantes à lufa-lufa por todos os cambais. dando volta com o macho.Se assim tem a certeza do que diz. Quer? Se quer.? É para não ir de mãos a abanar. sem o quê tenha-me por boca mentirosa. pegue-me na palavra. ainda com ar de dia. homem de uma só abotoadura. O melhor é vê-lo. Agora. diga lá a como o paga.

até mais ver? Bárbara. Passa no meio das outras. que é delas? Tinha-se afigurado aos dois que o homem atirara fora as que não eram boas e. As pedras de minério puro crepitaram na faiança.Tenho aqui balança. deveras. Não presta. Isto é bom. Pedras.Foi-te bem feita! Quem se lembra de fazer negócios destes ao escurecer!? 85 . Bárbara veio com a saquinha do volfrâmio e urna almofia. enfiaram todas para as bolsas. Caiu-lhe a alma aos pés. levounos passante de cem escudos. É bem a quanto bota. Por essas e outras.Um moço que conheço há um par de anos. brilharam concentrando em suas faces polidas os últimos raios do poente. Conferiram com os ganchos da Pedralva. aquela. Começava a minguar a luz. Os pesos estão aferidos. mais uma.Pelas contas que esta manhã estivemos a deitar e as de agora. Bárbara viu-o escolher.. deitar fora esta pedra. Bárbara foi buscar os ganchos da Pedralva. Duarte? . já esta pedra maior é de qualidade inferior. disse: . Metade de 300 eram 150. talvez outro lhes pegasse. atirava-as para cima do alforge. rejeitar outro. ao tempo que fechava a quintã. Mas. e correu ao lume por um tição aceso. . pesava três arrá teis e umas areiazinhas a mais. atirava-as fora. desdenhando além. e cego eu seja se ganho dinheiro. Ergueu-a no ar em sinal de lisura e era convincente. com ar desenganado e um natural tão verdadeiro que o seu coração se amargurou.. era o preço corrente.. Aceitaram.. em que o despejou.. atirando-as ao chão.Isto é minério queimado.. . louvando aqui.. Veja. mas ele interpôs-se: . Estas areiazinhas representavam o peso do pano. mal vá à separadora. tara-se pela sua e vai ver. Luís Ougado. metade de 50 25: vinha a somar 500.Vá. Se não fosse cá por coisas. mas não teve coragem de articular o mínimo reparo. Contado o dinheiro na palma da mão: adeusinho..exclamou Bárbara. mais outra. em vez de atirá-las para o chão. ia sobre ele! .Quem lhe ensinou a minha porta? . Isto.. Não chegava a pesar três arráteis. Aquela prova decidiu o negócio. não engana. a conta estava boa de fazer. Mais exacto nem Cristo. só depois de entrar em casa e arrecadar o dinheiro. É a quanto bota: cinco notas e mais vinte e cinco mil réis. sossegue. Depois que o homem acabou de revolver o minério e pôr de parte um. O belfurinheiro meteu a mão. Foi a toda a pressa procurá-las. Não as topou. A 350 escudos. decidam-se: querem vender ou não querem vender? Para não gastarmos aqui o dia inteiro a regatear. 525 000 réis. . Ao erguer o alforge..proferiu o negociante em tom de quem pondera com filosófica melancolia a imensidade do que dá contra a bisbórria do que leva. vasculhou. Os ganchos ainda eram mais escassos.perguntou ela. que a cara iludia um doutor. deitado outra vez para o saco. fica uma pitadinha de rapé.Precisava as tripas ao sol. que o sol dobara por detrás de Mouramorta. eu levo-lho a trezentos e cinquenta escudos. para ver que espécie de droga era aquela. . aqui estava o trancafio. trouxe à de cima duas ou três pedras que se pôs a olhar de alto: . isto também. é que se lembrou das pedras que o homem refugara.. quanto mais pederneiras? Mas sossegue. Servia para pesar almas.espera. O volfro. perguntou ainda: ..Refinadíssimo ladrão? .Uma mancheia de dinheiro .

? O Duarte ficou indeciso. . entre cacaria rebentada. murmurou com voz chorada: .. Ela objectou que podia deitar-se fogo ao palhal. viera-lhe à cabeça que podia ser falso e pôs-se a mirar as notas uma por uma..Guarda tu! Era uma turra que se renovava todos os dias quanto ao sítio em que o dinheiro estaria seguro.Para mais.Nunca desejei mal a ninguém.. embora.? Bárbara foi buscar de cima da pilheira. Das palavras passaram a actos: o Duarte deu-lhe um bofetão. a velha caçoila das papas. e ela arranhou-o todo.. contou-as pela derradeira vez ao resplendor do braseiro. Pode trazer à sacada o Luís Ougado. com um remendo de lata no bojo. do brasido só 86 . vende.. De dentro. orelha colada contra algum buraco mal rolhado pelos tomentos. bem adentro duma facha de palha. .ardera tudo. . O Duarte contou-as: . não davam conta de coisíssima alguma? A cara não é a mesma? Nenhum deles queria responsabilidade e acabaram por injuriar-se.. mas a culpa é tua que me matavas o bicho do ouvido: Vende. que o petróleo fora-se e já não aparecia nas tendas. tinha que prantar para mais de seiscentos mil réis! Seiscentos diabos o carreguem ainda hoje para as profundas do inferno? exclamou Bárbara. tanto que até gosto lhes faltou para arrecadar a bagalhoça.Grande cão. e encontrou-as: .Traze cá a caçoila.. A avaliar pela fisionomia estava a procurar razões para não se mexer... Depois de contadas novamente às avessas. O dinheiro aí não está bem. Oito notas e meia. que lhes pareceu ouvir taramelar um tamanco detrás da casa. Assim que se certificou que eram iguaizinhas e sem mácula. nalfo de duas bandas. também já fora do amanho. arriscas-te a ter o Ougado à perna.. Onde ele está bem é debaixo duma das pedras do lajedo. Em seguida àquele desafogo entraram para dentro de casa a comer o caldo e o Duarte proferiu em tom de remordimento: . tirou o pacotinho das notas. Apodrece com a humidade.. E quedaram de malga na mão. à qual cobria um testo de ferro. Só depois de dar graças a Deus é que o Duarte disse com arremesso: . por baixo da moinha.Anda. Era impressão deles que vinham para ali escutar de noite. sem o darem a entender.Espera que eu já me raio? Quem garante que era dele? Consolaramse do seu pouco ardil desopilando quanto àquele pormenor. E erguendo-lhe diante dos olhos o grande espelho que se dera em Mouramorta em casa da Joana Enjeitada . o que andava não menos fora de uso.... Não podiam proferir palavra mais alta que se não soubesse no povo. ? Enquanto rezava.? Quem to disse. Só te digo uma coisa: antes um cão de fila que semelhante traste? . vai ver se o pilhas. flusão ou realidade. o que já não acontecia há que mundos. ora. mas este gatuno oxalá tenha tanto descanso como o volfro que nos roubou! Calaram-se. Guarda. o espinho continuasse a picar em sua consciência de logrados. dissipadas as reservas dum para o outro. que podem vir passar uma busca a casa e dão conta! Davam conta de quê? Que foi arrancado? Ora.. sem uma asa. Houve tempo em que na opinião do Duarte o lugar garantido era o palhal.Onde puseste o dinheiro. Pesava o lance.É perigoso.Pois não vás. o que fora desvaneceu-se e o Duarte rosnou acariciando as notas gordurosas: .Com este faz oitocentos e cinquenta mil réis. e lá ia feno e dinheiro.

Começa por uma ponta e acaba por outra. por modos. que lá de quando em vez praticassem o seu cardanho e quem os via os não denunciasse.opinou Bárbara. não faltava quem o quisesse.Os doutores também erram. enfim. estava a bom recato. graças ao leite. mas agora. modo.é como um incêndio no restolho. Mas dinheiro a juros numa terra em que se não dava um traque que todos. De facto. Mudaram-no para um buraco na parede. representava um sacrifício heróico. o não cheirassem!?. Onde se esconde. em virtude do quê todos compreendiam que andassem mal vestidos. meneando a cabeça..A guerra . mas breve o tiraram de lá raciocinando o Duarte que. Mas o Duarte ficou enfadado e girou à deita.. a algibeira interior do colete. Estava uma noite serena e fria de luar. que não dessem uma demão grátis a outrem.. Esta dúvida martelava no espírito do Duarte que. agora são osjapões lá no calcanhar do mundo que se atiraram a Ingleses e seus parceiros.Dá-se a juros. acudiram os Russianos. É desta vez? .puderam tirar os ossos da dona e duma burrinha . e a opinião pública condescendera em aceitar tal posse como não infringindo o seu caixilho de necessitados. de terem para as décimas. nisto estavam ambos de acordo. uns eliminando outros. caminho franco quando estes ladrões tiverem disparado a última bala? Sabe-o Deus. Alguns dias estiveram de acordo que a melhor guarida era a algibeira. ou quem fora lesado não desse parte em juízo. tal esconderijo merecia ainda os mesmos votos de confiança?! . A questão toda é a humidade? . declarou ao passo que se dirigia para a porta: . Toca a arrecadá-lo e a arrecadá-lo bem. alma do Senhor. Mas pô-lo a render não era quebrar aquela redoma de pobreza dentro da qual se tinham metido. tratando-se de papel. Ali estava há semanas. Mas com o acidente que tombou o Clero sem sentidos à beira do rego de água concluíram que também esse lugar era precário. Mas. em nada diferente dos mais trastes velhos. do fundo ao cimo do povo. 87 . estava aí botada. Dizia nosso avô ter ouvido ler ao padre de Tendais que a terra havia de acabar abrasada em fogo. rente à carne. . segundo muitos. acabaram por amochilar o baguinho na -caçoila velha. ainda que Deus em seu bem-querer a varresse para longe. .Se alevantasses uma laja e o metesse debaixo. De raciocínio em raciocínio. resguardada das fonas pelo testo e do primeiro apalpão dos larápios pelo empacho da moinha..disse o Duarte . erguendo-se da lareira.Tanto vale então guardar o dinheiro como derretê-lo. com bulcões negros que de quando em quando passavam em vaga no céu e obscureciam as quatro telhas de vidro que alumiavam a casa. Não falta quem o queira.ele teve de assentir à possibilidade de semelhante desgraça. os ratos podiam dar com ele e esfandegá-lo para fazer o ninho. os Alamões levaram tudo raso. além de que não estava mais livre que no palhal dos riscos de incêndio. optaram pela caçoila. não há que contestar. onde se há-de esconder. junta à grossa maquia que entrava e com a guerra que. Mal-pecado se Portugal vai nas águas envoltas? Ficará casa de pé. capacitados de que eram pobrezinhos e não tinham por onde pagar!? Já a vaca dera engulhos a muitos invejosos e atirara a primeira pedra ao cristal desta redoma. folha verde. Primeiro foram os Franceses e Ingleses que se pegaram com os Alamões.

em Pedrões. longe.Fosses lá tu. era o casamento. Há quanto tempo durava o derriço?! Durava já há mais tempo de que tempo ela tinha dali em diante até à tumba.Que tal? A Cereja trazia grande amojo. Que lhe doía ontem? já nem se lembrava. Bárbara crirodilhou-se junto das brasas e. que fora morrer ao Brasil. ele a deixarlha e a fingir que. uns que vinham atrás dos outros. chega-lhe pouco aos farelos. Noutro dia. àquele dia.dissera ela um pouco por lha querer sentir entre as suas. quando de facto era supérfluo com tão grande braseiro. embora remontasse à romaria. ele de bota e calção. como na igreja quando. sobrepostos como no novelo as camadas de linho... Ele dera-lhe a mão e. outro pouco não fosse por lá escorregar ao saltar de pedra em pedra e tornarem-na responsável. Há pouco. dançava o fuso. Ontem era um axe. irmão do pai da D. . não rumorejava folha. Houve outra pausa e o Duarte proferiu: . e viera a casa do tio. .Não foste ver se a pastora da vizinha meteu as ovelhas no cerrado.. cada um para sua banda. Fiava e onde menos punha o pensamento era no que o irmão dizia. Decorreu uma pausa vazia como cisterna sem água. Estava idosa. mas sempre novo e imprevisto. A voz ociosa tornou: . há pouco o que a apoquentava era o roubo descarado de que. sim.. como se tivesse esquecido de fazer as perguntas sacramentais de todas as noites. Deixá-lo chegar. o Antoninho chegara aquela manhã. que sempre armara. fora objecto. o padre lhes deita a estola. no fundo do peito. 88 . não se julgava ainda velha. que é como quem diz. Seria palermice de todo supor que os destinos dos dois se encontravam doutra maneira que não fosse por simples acaso e. emornecia a lareira e irradiava mortiça mas difusa claridade.? Pois não era. soprara nas suas costas: Esta velha.? Sim. Aquilo durava bem há um assopro. . e o Duarte rosnou dentre as mantas. ergueu a voz: . Ele não lhe dizia: Nunca é tarde?. uma rapariga. do Senhor das Cinco Chagas. Automaticamente levou a mão a um tanganho para queimar. adiante.. . ela descalça.Dê cá a sua mão.Não te parece que a porca está a desmedrar? . Puxava a estriga. ao princípio do mundo. Mas não. E Bárbara fiava.Coitada.. Sim.. Não remontava mais atrás. para encontrar. patinha de si.. tinham ficado esposados. Solanginha. sim.Deu mais um gorchinho. Mas. ajoelhados os noivos aos pés do padre. ala. e ia cismando. servir-lhe-ia de emenda. A vida compunha-se de cuidados. e o borralho que trouxera do forno. Ao princípio do mundo. pois tinham cozido de tarde. os caminhos não esrão desempedidos? já sabes que tens de a coimar. em plena feira. Ah. como quem procura um alfinete enterrado numa almofada. Cada um seguia o seu destino.. que para isso enxergava cabonde. arrepanhando a capticha para as costas e espetando a haste da roca no cós da sala.. hoje outro. Remontava portanto aquele enleio para lá do Senhor das Cinco Chagas. que queria passar adiante dela. Raios te confundam! . amanhã sabe Deus qual seria.Não fazia vento. à fidalga. E agora? Era preciso procurar no peito. ela a segurar-lhe a mão a Cingir que podia cair.. pos-se a fiar. caía se não o amparasse. eram pequenos e iam pelo carreiro alagado das Fontes. Rosnou e.

.. O dia de hoje para ele não entrava em linha de conta no tocante a dar à vida o que requer da maior parte dos homens na satisfação dos apetites ou gozo dos bens granjeados. às vezes aos pares.. fazia-se aparecida. involuntariamente pôs lenha do canto. Como devia ser fria a cova no cemitério! Deixá-lo.? Ainda era viva e reviva sua tia Soledade. A chama extinguiu-se. Estava a gear. Deviam estar a sair dos serões se os houvesse. entrando pela sua casa dentro. Que lhe dissera o descarado. Quanto a ela ninguém sabia do que ia em realidade no seu peito. Adrega assim não havia. menos o Duarte que se botara a adivinhar. a casa ficou ainda mais gelada. no fundo da sua carne. Trabucava como um moiro e aferrolhava. . Onde soubesse que ele poderia aparecer. distanciados tanto uns dos outros que podiam falar à vontade sem serem ouvidos. Chamavam-no Gadunhas. quis tomar posse daquilo que lhe daria de boa mente. supersticioso como era. dizia-se que a gozar-se da arreganhadita?? O certo é que desde esse dia passou a andar à volta dele como sombra.São horas de ferrar o galho. a apalpar aquela. Também o que é de mais deita por fora. mas com o Duarte acordado queimar lenha trazia recadeira pela certa. é à boquinha da noite.Qual. Esteve um instante calado e volveu: . os dentes a rir. ainda o Duarte não fora às sortes. a fuligem das paredes tornou-se em folhado de oiro. Dali a Muradais iam duas léguas das fartas. a catrapiscar esta... seria dele se soubesse levar a água ao moinho. O seu regalo era fazer chama. ali recalcados desde a juventude..Essa romaria há que ror de anos fora. darse claridade. o cabelo de risca ao meio a alvorecer por debaixo do chapéu atirado para a nuca. Da romaria tornava-se em rancho. o Duarte rabujou: . onde mergulhava senão na sepultura? Entretanto aquele chamiço que ardera há pouco e os olhos que algum dia a envolveram na sua luz eram ainda os instantes do mundo em que se suspendera a caminhada para a morte. Credo. toca a virá-Ia em cima da primeira arca. Só esses interessavam. para cima da arca como os 89 . Mas a aversão do pobre é limitada pelo interesse.Amanhã é preciso madrugar. Tudo lhe parecia pouco para o dia de amanhã. e era uma consumição. Por vício que não por necessidade. Lançou uma. mas ele excedia as marcas. à luz do sol. ao tempo o perfeito galo doido. santo Deus? Dobrada sobre os joelhos. Por onde lhe andava a cabeça. depois da volta completa. Viviam os dois debaixo da mesma telha. hem? já sabes que não se carrega uma carrada de tojos como se enche uma maçaroca. onde lhe ia a cabeça! Por cima dos telhados piava a coruja. Uma vez. Nunca o sol o encontrava na cama. Mas não. recebia o hausto do borralho que se amortecia. A sua casa era feita disto: de trabalhar à bruta e aferrolhar.. todos lá iam parar. é porque estava a dormir? Nessa persuasão pôs um sargaço no lume. duas vezes o seu queixume macareno. Coloriu-se tudo como numa aleluia. Cáspite. sim. envolveu-se na capucha e acercou-se mais do lume. onde tivesse esperanças de que ele fosse. Tinha-se por poupada. irra. Daí as suas aversões. Fez-se desentendida. lá estava ela. e o mundo murmurava. O mundo.. e o irmão que não dizia nada. Debandaram por um segundo os maus pensamentos. porque tudo no crispamento da sua mão se resumia em “venha a nós” e em deitar para o saco.

. era só chegar.que acabara de crer que dum para o outro não havia nenhuma espécie de compromisso quer de pensamento quer de obras... mais forte . a requestavam. eu te ensinaria! .. andavam a fingir que o eram. Era ao escurecer e mal viam a expressão dos olhos um do outro.. mais bonito homem. Rosnava-se que se ia casar com a prima.?” . voltou as costas ao malcriado. Não e não.. Quando já andava cansada de lhe querer mal. duas.replicara ele. tratou de persuadir-se que nunca se passara nada entre eles e de traçar em conformidade a sua regra de conduta. ai. Certo dia que apareceu com a senhora e uma menina.. Encontraram-se. o seu destino por esse lado ia dar a um beco sem saída. O Joaquim da Mariana retirara para o Rio. tão pequeno o faz o céu que o cobre. Mas ao menos estivesse na crença de que podia vir dum momento para o outro.Não vale a pena.. Ele a aparecer num caminho e ela a tornar para trás. Pretendentes não lhe faltavam.Mas casa-te e acabou-se. que vem o meu Duarte e mata-nos? Ai.Ai.... grito! Não andava por ali ninguém. desapareceu. de lhe torcer as voltas. Passou o Inverno. Se teima. Começaram o paleio em tom agridoce e terminaram acusando-se de andar a jogar o té-té. que lhe valeria gritar!? Mas ele lá se foi.. nem o bom-dia se deram. Eram inimigos? Qual. que já lhe ouço o tarnanco! Não se ouvia tamanco algum e ela estava a espreitar-lhe os olhos e a dizer que não acreditasse. de o arrenegar. desapareceu. Ficas para aí mirrada. Não seria este também o seu pensar? Uma tarde de Outono que saíra à caça... para o não ver sequer... Se se quisesse casar já o podia ter feito há muito tempo. Outros. Foi durante o tempo em que o Diabo o levou para a cidade. Pareceu enternecido com aquele pensamento de fidelidade porque murmurou com voz que era uma flauta a gemer: 90 . Ficou zangada com ele e consigo. Começou a contar os anos de ausência pelas romarias do Senhor das Cinco Chagas: uma. . se soubesse! Mas não. . Assim de surpresa era como se fosse um estranho que se apresentasse. três.. Fartou-se de o evitar. Por despeito. Tão zangada que durante muito tempo não o podia ver nem tragado. Não o esperava. que é na gente a coisa que não fala mentira. e se dizia que a culpada fora ela. está bem . encontrou-a sozinha no lameiro a guardar as vacas. atravessou ele por ali. tombar uma mulher de costas.. e ela então julgou no seu sentimento que tudo acabara.Está bem.. ainda mais desastrado e grosseiro que envergonhado. cinco. Era de contar que se demorasse.defuntos? Seu irmão tinha ido ao lado. Regressou ao sexto ano. que nem ele adivinhava quem poderiam ser. hora em que o homem deixa de ver a sua sombra na terra. a cuspir fora: . Na festa da Senhora dos Remédios. Deixou de caminhar para as bandas de Muradais.. Um dia acharam-se de cara ao virar duma esquina.. Veio o passado à baila e ela explicou-se: “Não era homem casado? Então julgava que podia fazer o que lhe requeresse o capricho. No dia seguinte. que desandava a assobiar aos cães. nem uma passa. Mas o tolo acreditou. Para que serves? Indignou-se toda. de continuar com o ridículo arrufo ou enganarem-se.Ensinaria o quê?. Experimente e verá. não vale? Se valesse. Como foi aquilo? O mais certo foi o terem pejo à hora das Trindades. Cometeu-a. estava na laja a erguer o milho painço. Andava farta de se repetir: Olha que entre vós nunca houve nada . doido por ela. É verdade..

E.. Enfiou-se vestida entre as mantas e só debaixo da roupa se despojou da saia. Quando um belo dia. se o pensamento parasse. má e venenosa. então ter-se-ia verdadeiramente descanso. Aquelas duas léguas de espaço entre os dois fizeram o resto. deu as duas e três voltas dos cães e dos mendicantes. que a tinha na conta da última das depravadas. É uma fatalidade. talvez mentindo com medo de reconhecer a feia realidade. mas no dia seguinte. provavelmente no mais íntimo.? Mas o Duarte acordou e grunhiu. diabo! retomava lá longe a feia macarena. mas não manda no seu pensamento. fora perdendo o viço da juventude. Ainda de cócoras.a tivesse enxotado do telhado da Pedralva. com mais pingo. Aquilo era já mania de velha. dardejou um olhar para o caniço. sim. Ela enrodilhou-se nas mantas. por mais alto. como tudo. refarto de carniça.é curioso . ela caduca. sentindo-se como que levar pelo ar. dormir não era o mais importante. deixou-se ir sem relutância. Qualquer homem manda no seu criado. Porque não dormia? Ora... decerto espavorida. Sim. O mais importante era parar o pensamento. e respondeu: Se eu tivesse asas. Qual. já no tarde da idade. nem nesse dia. era melhor deitar-se. e pareceu que se virava para a outra banda e reatava o sono interrompido. e ela quase lhe fez quantas promessas quis. que ela apreciava. Tornou a cerrá-las e teve a impressão novamente de que ia deslizando pelo ar fora dentro do esquife. como as bruxas. mas na progressiva maturescência. Grunhiu palavras ininteligíveis. e cruz. do saiote. havia que levantar cedo. Agora ali estavam outra vez. não pensou mais nela. trocara-os. se não era a cavalo no rabo duma vassoura. um destes sorrisos de agrado que apenas se não mostram para não serem tidos por deslavamento. não. O senhor Antoninho. onde não haveria mais que um fogaréu sob cinzas. ele. Que viera cheirar naquela altura do ario?! Ouvindo tropel na rua. Pois que era ela senão uma velha. ao mundo dos vivos e àquela madrigueira de gente. desasada. sem coragem de se dizer que agora tudo era tarde. Mesmo assim apertaram-se peito contra peito.Não me fujas. sentiu-se presa. enrodilhado nas saias de outras. Não era dormir nem morrer. acabasse de murchar. nem no outro. nem depois e depois. Ela. A noite ia dobando mais surda que a meada na dobadoira. e é natural que por dentro. O tempo trocara-os. deixando as chancas na lareira para não fazer barulho. -outro para a caçoila. e fechou os olhos. Erguera de rompante. a tanto que os desfigurara por fora. aos apalpões. só por isso. do chambre. se ofereceu oportunidade ou ele a não buscou. uma destas 91 . por um encarniçado azar. Arregalou os olhos. sofreram um baque. Achava-se bem ao lume. pelos passos de sua mãe e da tia Soledade. menos pingo de água benta. Dentro do esquife. Adormecia. não tivesse pegado faúlha nas varas secas. Lá iriam todos para o meio dos pinheiros. o senhor Antoninho não voltou a Malhadas. Mas o pensamento não era cavalo que se prendesse à argola. O raio do homem fora a Orcas e voltara a dormir ali a noite. varreu as brasas para o paranheiro. que era poiso. já recessa. Bárbara! Ela esquivara para dentro do bioco do lenço o sorriso. se encararam com olhos de se verem sem ilusões. era vida safada. nula e sonsa entre as panelas. A coruja agora esganiçava-se para a casa do Calhorra como se alguém . se meteu na cama. Não eram os mesmos. Mas ainda desta feita. como advertia o seu olharapo. deixando que a primavera dela. estancá-lo. Seria assim morrer? Abriu as pálpebras.

coisas absurdas. . a asa do milhafre contra o próprio milhafre. tecia ali uma bruma leitosa. ele trazia botinhas. Andaria a fairar a casa em que estava para entrar Nosso Pai.” Estava a pegar no sono. Acordaste relampado com algum pesadelo. depois de pegar no rosário tacteando.. Bendita ela fosse.. Fechou outra vez os olhos. mesmo. Tornou a esbagoar o rosário. de modo a não causar dano à comodidade da criatura? Não houvesse dúvida que o bicho roía a bom roer na raiz da sua gente. que sucedem ao bicho homem: a linfa rebelar-se contra a torrente. apancada também ela era. para o fundo do povo. reflectindo no roubo que sofrera e votando o gatuno a todas as pragas deste mundo e do outro. nem o vapor diáfano da cambraia. Sentiu-o dar volta na enxerga com o escarcéu dum porco no palhuço. Para que é que ele a quer? Que lhe vale mais uma. A noite continuava a passar sorrateira como uma loba por uma estrada.Podia saltar para lá uma centelha e pegar o fogo. a luz contra o sol. mais branda que a espuma do rio... Por enquanto não lhe tocava pela porta. Pôs-se a rezar o terço pelo eterno descanso da alma de sua mãe e tia. O Duarte ressonava e era outro aviso de presença. O luar. e ficou mais esperta.. Era um nimbo e tinha parecenças com o manto nevado de Nossa Senhora da Boa Morte.. “Dê cá a mão. Ouviu a coruja lá bem longe. Nada lhe faltava. não era mortalha. nem coisa que se aproximasse. em suma. Não o são os dedos da mão? Aquilo durava desde longe. a brasa viva entre tições apagados lembrava-lhe onde estava... . se ainda aquela noite lhe servisse de mortalha. A tia Soledade morrera doida.mugiu a voz choca do Duarte. sua mãe liru. ensopou-se de padre-nossos. entrando pelo olheiro. manso. Mas não. Felizardo. A sua mulher sou eu. O galo cantou e recantou. nem rendas. Resumia o boi acabado. aquelas grandes pedras com que murara a regada. e era um regalo tocar com a carne na carne dele ao que a pele era fina e veludosa.Ó Bárbara.. Possuiu-a um acesso de tosse. . incríveis. mas o malvado do pensamento prosseguiu na vadiagem.. não tinha os seus desesperos.. rezou. Eram diferentes. Que valia afinal a porca da carne da gente... às ordens. tampei. rezou. Na lareira. Rezou.. homem.Tampei. Ao menos aquele não tinha argueiros a remorder-lhe na consciência. Se vinha por causa dela. que mora lá dentro. não estava persuadida que Deus Nosso Senhor tivesse algum interesse em que ficasse para ali uma donzela relha e revelha só para pasto dos vermes. em pouco tempo feita esterco e pó? Que se ganhava em a defender da bocada deste e daquele? Que havia ela ganho com tanto luxo e esquisitice? Não. menos uma.Até foste tu que a tampaste. Num meio quebranto ouviu por cima dela a voz agreste do Duarte: 92 . se a vida é como a parede na tapada dum rei que não há o direito de deitar abaixo. como se andasse a ajudar o Duarte a tombar pedras. Rezou. para romper logo a ressonar.. se tem tantas e todos os dias as malbarata ceifando-as antes da hora? Mas. perna nua até por cima do joelho.? . ruminador e incansável à lida. a ladrona da coruja veio crocitar mesmo.. Para o homem domar o pensamento só havia um processo: escangalhar a corda da vida como se escangalha a corda dum relógio. tu tampaste a caçoila? . Mas dizem que a vida a Deus pertence. para cima da casa. ao menos quem pudera subjugar o lobocerval. aquela tosse que parece vinha de trás das costas e às vezes a lanceava. que escorrega.

- Toca a levantar que são horas. Tens de ir fazer o caldo depressinha que já lá vai meio mundo. - Ainda se não enxerga... - Qual, é meia manhã. Está baço o céu. Deixei-me adormecer depois do cantar da toutinegra. Levantou-se sem dizer mais palavraa, contente por ter acabado a noite, o seu jardim das oliveiras, mas tão má consigo e com Deus que nem sequer se persignou. Acendeu o lume, preparou o caldo para eles e a vianda para a reca. Na aldeia ia mais alvoroço do que num cortiço em dias de verão. Estavam no fundo da tigela, bateram à porta. Bárbara foi abrir. - Trago-vos um recado - dizia a tia Ana Ruça introduzindo pela greta a estriga vassoiruda que era a sua cabeça enfarinhada por dois carros de anos. - Havia de cá ter vindo ontem, mas lembrei-me que já vos tivésseis deitado... Esta pertencia ao número das que tinham malícia até as unhas dos pés e Bárbara respondeu-lhe com ar simplório: - Não senhora, nós deitamo-nos sempre tarde. Umas vezes ele reza e eu respondo; outras vezes toca gaita e eu danço. É como nos carrega a pancada. A Ana Ruça ficou de cara à banda e lá arrancou do bucho: - Foi o senhor Antoninho que chegou já noite de Orcas e me mandou cá. O Duarte pode ir buscar o dinheiro quando quiser. Ficou tudo arrumado. És um cão de sorte! - Arrumado o quê? - Pagarem-te. Cobrem-te o arneiro a notas. Hem, quatro contos nunca tu sonhavas abispar? Bárbara ergueu as mãos ao céu: - Louvado seja Nosso Senhor! O Duarte por pouco não ia deixando cair a malga ao chão. Não acreditou de princípio. Depois acabou por concordar que a fazenda assim não lhe era roubada. O senhor Antoninho fazia o que queria com uma perna à s costas e ainda lhe crescia tempo. Quis, pronto, pagaram. O seu cálculo orçava por ali, mais moeda, menos moeda. Vá, que é homem dum querer. A tia Ana Ruça retirou-se a mascar: - Arranjaste bom padrinho! Sorte de cão. Olé! - Dá-se-lhe o galo? - propôs Bárbara quando a tamanca da velha deixou de se ouvir. - Dá-se-lhe o galo, dizes tu... ? Pois dá-lhe, dá-lhe lá o galo. Isto a ele pouco custa. Sai do pêlo dos Alamões. Uma palavra que deitou pela boca fora e feito. Mas dá-lhe lá o galo. Leva-o à tia Ruça... - Então logo lho levo. E eu, sabes que mais - exclamou ao cabo dum momento de circunspecção - boto-me a Orcas a buscar o dinheiro, se é que lá está. Para estas coisas quanto mais depressa melhor. - Ah, lá isso? Acabou o caldo soprando à colher de lata. Vestiu camisa lavada; tirou os sapatos do frontal e o brejoeiro de trás da porta. - Eu antes da tarde não estarei de volta - declarou. E mais estarei. Aquilo para ser bem era pagar e girar. Levo um bocado de pão e metade dum chouriço, se tens. Acomoda a vaca. Para os tojos, sozinha, não anda a roda?

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- Não, vou para a fonte lavar a roupa que está a encardir. À saída da porta pareceu-lhe o tempo pouco firme. Voltou atrás a trocar o pau pelo guarda-chuva de paninho azul. A irmã ouviu os passos que estrepitavam na rua fora e, quando o último eco se desvaneceu, enclavinhou as mãos uma na outra: podia lá ser! Arrancou da caldeira e deitou para lá a água quente que tinha ao lume. Temperou com água fria, despiu-se, e meteu-se dentro. Ensaboou o corpo todo, tronco, pernas, pés, o peito do pecado e as axilas em que babuja o suor. Despejou aquela água, deitou outra e chapinhou, lavou-se de alto a baixo, sobretudo o pescoço, mordido do sol e da poeira, e as orelhas, ninho de toda a imundície. Limpou-se a um farrapo à falta de toalha e, nua como a mãe a pariu, pôs lenha e enxugou-se a um grandioso lume de sargaços. E, depois que se viu quente e limpa, vestiu roupa de baixo, lavadinha, a cheirar a mentrastos. Pôs meias novas, as chanquinhas de verniz, a saia de castorina de ver a Deus e o lenço de lã que reservava para quando fosse amortalhada. Lembrou-se então do galo e correu à quintã com um punhado de milho: - Pilinhas? Pilinhas todas! ... Acudiu a criação entretida a rapar na montureira e no meio o seu rico e faceiríssimo galaroz. Passou-lhe os cinco dedos e trouxe-o a regougar para dentro de casa. Atou-lhe as patas, abaixo dos esporões, as asas na nascente, uma contra a outra, e encafuou-o na giga, fazendo festas às badalhocas dos barbilhões: - Era com estas que endoidavas as frangainhas, meu parvajão! Pegou do pente para se pentear, mas não teve paciência de desatar as tranças, que eram longas e espessas. Anediou o topete, puxou o cabelinho nas têmporas. Viu-se a um motreco de espelho e, minutos depois, mais depressa do que se fosse pelo ar, batia à porta do senhor Antoninho. - Ó tia Ana? Tia Ana... Foi ele próprio que veio à porta: - És tu, Bárbara? Entra. A Ana foi agora neste instantinho ao leite. Entrou. Disse-lhe com um sorriso que ela mesmo sentia branco, desnevado de todo, embora deixasse ver lindos dentes: - Trago-lhe um galo para o jantar... - Obrigado. Põe aí... Estava em mangas de camisa e via-se que acabara de se levantar. Trazia ainda agarrado ao corpo o calor envolvente e sápido da cama. - Entra para aqui... - tornou. Conduziu-a para o quarto. Desviava-a da saleta que se lhe afigurou atravancada de sacos, pequenos sacos de lona, em fila contra a parede, que deviam conter volfro ou o diabo por ele. Mas que lhe importava a mixórdia mineral ou a riqueza? Foi-se deixando levar, ao passo que murmurava: - Ai, e se a tia Ana Ruça vem...? Nem lhe respondeu. A casa desdobrava-se em duas partes, unidas por uma galeria envidraçada. Naquela metade reinava ele. Tirou-lhe o xaile e ela deixou-se despojar. Depois, ao desatar-lhe as tranças - um capricho - e ao abrir-lhe o chambre, apenas disse: - Mas que feio! Mas que feio? Empossou-se dela: - Tardaste, Barboreta...?? Por culpa de quem...? - Benza-me Deus - exclamou Bárbara, olhando para a colcha, consternada. - Não te inquietes - pronunciou ele, com ar meio enjoado, meio grato às primícias da virgem serôdia. – Por esta porta...

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Quase a empurrou. Havia no sol um lume novo. O céu, a terra, a bandeira da Noite Boa, batida pela aragem à porta do S. Miguel, a mãe Calhorra com os netos atrás ranhosos e a roer o seu trancanaz de pão, as pedras tisnadas pelo tempo, a leitoa com os berrelhos, diziam-lhe por compenetração de sua alma no fadário universal: - És das nossas?

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Para que queriam semelhantes brutos a bagalhoça? Para eles tanto representavam quatro contos como quatro pintos que já não correm. Servira muito amo e apanhara muita soma de arrocho! Deitar a mão a foice mal guardada. pouco adiantava. Aqueles Ladeiras. fora dar com ela. outrem mais maligno e esperto do que ele. Se é certo que o dinheiro só vale pelo partido que se tira dele. Limitou-se a torcer os lábios no jeito tão peculiar de pessoa que deixa em suspenso por escrúpulo de consciência uma dúvida séria. atendendo às mãos donde viera. à espera que se lhe proporcionasse o ensejo de passá-lo a patacos. Bem certo que não fora o Duarte com o seu olhar baixo de porco. que não podia sentir o açafate do próximo farto de pão. se metera debaixo dum côdeas. escamoteado no Vale das Donas. Estava corrido o véu? Assim às lascas. A culpa era de sua mãe que. não punham um trapinho novo. com arestas a fugir para a mina. quando João Vitorino lhe pôs diante dos olhos o minério comprado aos Ladeiras. tão ladina da vista como ágil de perna e de braço. pouco mais que pedriçal e saibro. nem o ar dos altos ermos lhe refrescava os bofes.protestou pagar-se do dano e respectivo desaforo. desafogava! Ao que andava intrigado nem o comer lhe servia de préstimo. não davam mostras de acrescentos de nenhuma ordem. quadrilheiro. deu salto. esconder e trocar a vinténs 96 . lampando como os outros da sua igualha a fruta na sorte do rico e o canivete deculdado no patim do vizinho. amealhado dia a dia durante mais de duas semanas para a cova ao toro da giesta. em tais mãos era como pérolas a bácoros. O importante é que ficara a fazer cruzes na boca diante dela vazia. como se viu. o fino alambre do seu volfro. no canal dos gados. para ele tornava-se matéria de fé que aquele era o seu volfro. areia a areia. todo se roía de inveja.que Cristo estivesse em sangue e divindade na hóstia consagrada. tinha de ser fatalmente o seu volfro. Cáspite. o Ougado sofreu novo abalo. em vez de ir forjicá-lo com um fidalgo rico e esmoler.que é de lei chamá-lo a testemunha nos juramentos de vingança . No dia em que se divulgou que o Duarte recebera quatro contos pela expropriação do arneiro. E o Ougado. Não tinham alma para sair do triste passadio do caldo de unto e da batata rachada. ao que se dizia. eram uns mimosos da sorte. De quem era a culpa? Não sua. o que era sempre travar com unhas de fome coisas vivas. do precioso cadáver. que fizera a socresta. Ele pertencia ao número dos enjeitados. a fazendória não valia quatro patacos falsos. Apre. verdadeiro olho de noitibó. Para consigo e para com Deus . julgara a cafua à prova de todas as devassas ao que estava de dissimulada? Afinal. o seu rico volfro. Mas ante o ar interrogativo do marchante não se deu por achado. Que tivesse ou não andado à espreita. feitas para girar. Nascera nas ervas e fora medrando à lei da natureza.VII O Luís Ougado. à custa de muito ardil e paciência e com risco. chupado da fome e dos piolhos. escavada pelos enxurros nos meses de invernia. tisnada pelo sol nos meses de sequeiro. para mais. Amochilavam ou iam à Fazenda pôr mais um charrabeco no cadastro. O mundo estava assim estupidamente repartido: cães da felícia e enjeitados de tal porca. Podia ainda duvidar . Pacóvio de si. já se deixa ver.abrenúncio? . ainda que pilões. ou as mãos lhe caíssem ao chão sequinhas como as palhas por bolónias e estuporadas. mas sim a arrelampada da irmã.

que lá tinha o pai para receptador. Levara a devassa a ponto de espiar os vizinhos. costumava incumbi-lo de lhe tirar as batatas na horta que trazia arrendada ao Asdrúbal rico. suspeitou daquele. sacada de gorra com o filho estroina da tulha do ricaço. fossem os autores da frajoca? Quando. tão longe do volfro como da China. que nem valia a pena acusar na confissão. pois que era da regra e não lhe parecia bem ser aqui mais papista do que acolá. Agora que estava descoberta a marosca. abria uma cova e enterrava o seu quinhão. arrepelou-se todo. por exemplo. Ningué m dava conta. Mas. gente metida consigo e salamurda. assim que os paroquianos ferravam o galho. À altura em que a paqueta desandava para a escola a levar o carrego. Por isso dera mil voltas ao juízo. mas também não era menos limpo que os outros. De noite. tinham topete para tais áfricas. Depois. Era a norma: toca a roubar. compreendia-os e aceitava-os. inerentes a tais cavalarias. consumindo horas sem conto à caça do larápio. que tem carradas e carradas e traz o gorgulho a lavrar nas ceveiras. consoante o ano. que mal vinha ao mundo? No Vale das Donas. pesados da rabadilha. maquiava-a numa ou mesmo duas cestas-brezas de batatas. Dentre a rapaziada que trabalhava no volfro.lá no fundo da sua alma ficou banzado. e até do Calhorra chegou a desconfiar. uns para os outros. Mas nem o Calhorra. Baldões como aquele. Serva de Deusfurta laranjas. já que a criatura tinha predilecção especial pelo seu serviço. Mais de uma vez que por um triz o santo se não voltou contra a esmola. alertado por um vago rumor. estes pilhanços via-os praticar aos homens honrados. e arrotava postas de pescada. sim. não dava nada pela alçada. que era isso? Pecadilhos. nem os filhos. e noves fora nada. procurava roubar com destreza e aviamento. Quando chegou à conclusão de que havia que ilibar também este pincha-no-crivo. uma rasa de pão. Ao aparecer-lhe o negociante com o minério: é este? . picada a isca pelos rebusqueiros de sanchas e pelos caçadores da trama que vão à hora do lusco-fusco armar aos coelhos nos estercais dos brejos. Fora então o Vargas da Violeira? Passava-lhe lá pela cabeça que os Gadunhas. Caçado de boca na botija. nem a própria senhora professora. Às vezes pagava-se por suas mãos.a machadinha do lavrador caída do carro com os solavancos. pondo no chamariz todo o natural de modo a que o lambaraz desse na esparrela?! Debalde. o corte do surrobeco bifado ao fardo do mercador que anda de macho pelas portas e se farta de roubar os tolos. Um momento esteve inclinado a que o ladrão podia muito bem ser o José Francisco. malandragem! Os outros nao roubavam mais porque lhes faltava engenho e arte. de ladrão passando a roubado. e ficarem com a mesma cara. pudera? A senhora mestra. fazia a trasfega para casa. enquanto o Diabo esfrega o olho. Não fora até o simulacro de esconder volfro na toca saqueada e em esconderijos idênticos. Mas ele gostava de fazer-lhe as vontadinhas. suspeitou deste. troçava dos laços que chegara a armar. se lembrou de encaminhar para casa deles o João Vitorino. tão-pouco lhe pesavam na consciência. fora exercer o oficio a outra porta. Com o que se não conformava era que se trocassem os papéis. segar a campainha na coleira da vaca ou do carneiro. Não seria mais. enjangado do reumático. mormente os que lhe pareceram capazes de cometer o cardanho. Sempre a terra ali andava pesada e era uma matação cavá-la. Em que leito de santidades se deitava o Mafarrico! 97 .

Manuel Torres. ninguém avaliando a não ser os práticos que força são capazes de desenvolver. onde nem ao padre confessor deixaria meter o rabo do olho. Aos filhos cada vez lhes pesava mais a bunda e os amieiros dos tamancos. Em sua imaginação comparava-o a certas máquinas que conhecia por alto. como penetrasse muito para o centro da terra. Aquele mariola. deixava correr. Quem dirigia os trabalhos. Sua mãe tinha-o inteirado de quem era a Soledade nos tempos em que alcovitava por conta dos fidalgos da vila. nada mais legítimo que exigir capital e juros aos mal-andantes. estava sempre pronto para tudo. E semelhante propósito.Agora. alma de cântaro velho? Olha que não roubamos os doze escudos que levantas ao pôr do sol! Dizia-lho a rir para lhe sacar a mostarda. Ali. apenas um sendeiro chapado não dava conta que a flostria só podia ter partido desta sorte de indivíduos que. de aço fino e pouco consumo. enxergam tão bem de noite como de dia e. Mas deixa. O Luís. não só pelo detrimento como pelas horas perdidas e amargos de boca que lhe haviam feito provar. de pé. além da falta que lhe fazia. sempre a magicar em portas falsas. não precisam de dormir. Apenas na Sobriga se perfuravam poços fundos como aquele. O desmonte. espetava duas vezes a picareta no salão e punha-se de costa direita a contas com o seu problema. não te rales que eu também não. a ponto duma vez pouco faltar para expedir desta para melhor ao filho mais velho do Calhorra. pois que acertara no alvo. Com uma côdea no bolso e um dedal de vinho emborcado. depois de entendimento havido com o Dr. Além do mais. Requeria grande esforço remover os entulhos.Em que estás a cismar. Ora podia dar-se volta ao povo com uma candeia que outrem susceptível de tais aventuras. têm o hábito de caminhar subtis à semelhança dos bichos do monte. que era o mais. . a ver para onde corriam as nuvens. ter medo que desse com a língua nos dentes. pelo contrário. Sim. e muita pólvora e braço teso descoser o balcão de seixo. Luís Ougado. surpreendem a cada canto as maiandrices alheias. no Santo Antão. como tal. nã o sonham alto e só falam o preciso na terra chocalheira. O filão não era escasso de todo mas. haviam de pagar a tranquibérnia com língua de palmo. mas sempre lho ia dizendo. à boca da exploração. não havia além dos Ladeiras. magros e hécticos como os lobos. apreciava-o como a poucos pelas suas prendas singulares. pequeninas e oxidadas para que a intempérie lhes não faça mossa. virote na leveza e rapidez. consoante este tomo. auferindo boa renda da desvergonha. Igualmente a mandar a marra não pensava bem no que estava a fazer. prático em tudo que dizia respeito a esfossar o solo e estoirar um penedo. medrando naquela zona mais recôndita da consciência. não põem vulto nem erguem assuada. na sua opinião. ficando com as suas tapadas até a morte. Sentindo-lhe minhocas no seio. mas leigo quanto ao resto. ao balcão das tavernas. era o Silvestre. doía-lhe ter sido tão sendeiro. incluindo os três que o José dos Cambais trouxera à sua parte. que era perito na arte de conhecer os homens. ia dar com ele de corpo ao alto. o Calhorra têlo-ia mandado pentear macacos se não fosse o seu cabo de ordens para toda a casta de manigâncias e. representava um milagre de equilíbrio que só não metia susto àquela gente pela ignorância dos riscos que corria. O Calhorra. antepunha-se a tudo. a lavra tornava-se tão árdua como dispendiosa. em realidade. que tinha a cargo o pistolo. trabalhavam dez homens. botava de 98 . volta e meia. O Calhorra.

Como trabalhador era péssimo e o Calhorra renegava dele. Simão Tadeu. Depois. Extinto.Não ficou coisíssíma nenhuma. também um nauta de primeira pelos velhos caminhos onde Cristo nunca gastou as sandálias. ou mesmo no forro da japona. Segundo a letra de pacto tão serniscarúnfio.dizia dele o Calhorra. Procediam então ao apuramento da colheita à ponta de balança.. Talvez por isso abendiçoava o cigarro.Assim não é de valha. depois que o trabalho cessava com o bater das Trindades. torciam os dois muito manos pela tapada das Margaças. e o Luís por nada deste mundo deixaria de meter a unha. defraudava os patrões e empulhava o tempo. ainda ficou malaguera. Vendédem-o pote. o Calhorra roubava-se a si próprio. até pôr a petisca de remissa detrás da orelha. com o resfolegar. ficava para ali uma coisa sem sentido e reles. visto o tabaco ser admitido no serviço como a água quando se tem sede. o Calhorra tê-lo-ia há muito tempo recambiado para a mae que o pariu. Antoninho Fráguas.jornada até onde mesmo um macho requeria sólida pitança. Mas estavam acorrentados um ao outro por um ajuste secreto: usar o Ougado de pulso livre para laraplar quanto pudesse com a condição de repartir com o Calhorra. Faziam menção de ir encaminhar a água para os lenteiros. à maneira do galeguito: “Vendédem’os bois. Não que lhe faltasse ralé. uma “beata” mal cheirosa.Vai lá trambicar outro.” Entremeada de ócios e partes gagas. Deste modo.dizia o Calhorra com ar formalizado.Vê lá bem. A rir. Toca a reacendê-lo. Mas como eram quatro os sócios.Deixa lá ver. as ventas fumegavam-lhe como uma chaminé. Palpitava o itinerário. . e lhe queria como amigo da “vigalrada”. meu cara de lascarinho? O Calhorra acabava sempre por lhe encontrar uma pedra de onça ao canto do bolso. que nunca ele corre mais vagaroso do que de ferro em punho. À noite. o Calhorra observava-lhe: .. vendéden’as vacas e non me vendades o pote d'as papas. José dos Cambais e ele. perdia um ror de tempo. enrodilhada no cotão. ficava sempre de melhor. boa parte do dia escoava-se deste jeito. Luís . Tanto andava de noite como de dia. Chegado às bifurcações. Deixa lá ver. mas não me trambiques a mim que sou teu amigo.?! .. Quando se curvava para a enxada. O Calhorra não tinha outras obrigações senão fechar os olhos. a espicaçar o vício do fumador. O Ougado para prova de lealdade revirava as algibeiras. o paivante colado ao canto do lábio apanhava o seu resquício de saliva e apagava-se. Tinha de ser. tenaz e aturado. Tem pacta com o Inimigo . Às vezes turravam de parte a parte e armavam grande brequefesta. Por todas estas razões e mais uma. A preparar o cigarro. que exige a jorna.. depois a acendê-lo. Não era preciso dizer-lhe: À saída das Antas tomas pela esquerda mal avistares as Alminhas. o que era o seu primeiro ganho. ainda que nunca por lá tivesse rompido solas. Metade para cada bico. Fumava uma onça de Java por dia. sabia escolher como um bruxo o rumo conveniente. mas perdera a paciência para o esforço. activado pela babugem. . vendede o cunqueiro. Irra 99 . Possuía o sentido da direcção e lá ia por caminhos ínvios e ignorados certo como uma seta. Assim as mãos me meleml . a tirar com o devido ripanço as primeiras fumaças. Esta parte repetia-se cinco e mais vezes por cada cigarro. com o odor da nicotina. mas non me vendades o meu tabaqueiro.

Estava-lhe na massa do sangue. Luís? É na paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo? Olha que ainda vem longe o tempo da via-sacra. e com isso se desculpava quando o seu Luis rompia em desatinos e acusações: . ficou a ter medo dele. riquíssima pedra de volfro. que era o verbo que o Calhorra lhe mandava iniquamente conjugar. de modo que lhes era cómodo entrar e sair sem ninguém dar conta. e todavia rogavam-na pouco. Ontem do Sancho do Prado.Ceguinho eu seja. expedita no trabalho. estimulado na sua destreza de ratoneiro. Chegava a noite e aparecia com os bolsos vazios. chamando a si o direi. O filho. Tambem a mãe o estranhava. ...Cheira-te mal. tio Silvestre? O chão se abra e me coma! Depois de muito jurar.Anda-me. . Desde essa data o Calhorra. O principal é que não faltassem.Cá varnos! Regressava a casa com noite fechada. 100 . nas horas de trapio. ? Mas tu não me manténs! . o que era exagero evidente dada a sua espessa e viçosa trunfa. a desafiá-lo para uma aposta em como tinha guardada no fato que vestia uma rica. ria e lá dobrava com moleza e não pequeno desdém o espinhaço à picareta. com a preocupação secreta.Em que estás a matutar.Valha-te o Demo! O que tu querias é que eu morresse à fome.dizia em seu íntimo. que para isso te pagam. Que andaria a tramar o grande meliante? Da orla da buraca. que perdera o respeito a semelhante autoridade.c. Um dia. no dizer das bocas do mundo.com a bestinhal O Ougado jurava e trejurava que não tinha no bolso nem tanto como a cabeça dum alfinete: . Os amigos sempre lhe iam dando com que acalentar a vidinha. mais que a admirálo. ainda avezado desde menino a semelhante despautério. É capaz de roubar a madre a uma égua e ela a galope! Agora o Ougado. atrá s duma pedra apresentou segunda e atrás dessa segunda uma terceira. embora em casa muitas vezes chamasse por Deus nas necessidades. O Calhorra ficava varado. ruivaça. não aceitava os remoques do filho. Desde franganota que. que valiam umas centenas de escudos. e no pé leve com que mudava de homem para homem. E quando apanhava o Calhorra balanceado em sentimentos opostos. ao presente do José das Almarges. Ia-se um. A casa deles ficava à boqueira do povo.Olho no macanjo. Silvestre . Agarra-te ao verbo. afrouxara até na prática daqueles palmanços que eram o pão nosso de cada dia e se emalhavam como petinga na rede moral do seu carácter. conhecera mais barregões que de cabelos tinha na cabeça. aéreo de todo. e tinha o seu quê nos olhos que atraía a quem se deixava fitar por eles. de banda da serra. não se compadecia com a liberalidade. rompia a negacear com ele. O Ougado. e daí boa parte da sua insubmissão e faltas de respeito. escapas à mão meticulosa do Calhorra.Trabalhe! . vinha outro. quando o Calhorra começava a convencer-se. A razão da sua munificência carnal não residia absolutamente na penúria.. de se governar como lhe ditava a cabeça. Não gostavam dela pela sua fidúcia na independência. A senhora Rira Ougada era uma mulherona alta.. e não faltavam pois que era fêmea salerosa e desenxovalhada. berrava-lhe para baixo: . . puxava um lindo motreco de minério do limbo dos frangalhos.

Quando estivesse a maquinar ou para fazer das suas havia de mostrar sempre aquela cara. . repicando as palavras com certo acinte. .Fica sabendo que já me passou muito dinheiro pela mão. da Ribeira. até aí também eu chego. seios fartos. o carcereiro da vila ou um samarreiro da Bezelga que se aboletava em sua casa às temporadas. era um coro de anjinhos que estavarri no céu a pedir por ela ao Senhor. doutra que a atirara ao chão e. sem querer confessar corno aquilo acontecera.. berrando por Nossa Senhora. . e passara por fazer parte duma quadrilha que operava para as bandas de Castendo. esforçava-se sempre por lhe fazer os apaparicos. para ires funfiar nas tavernas com os compadres ou fazeres bodeganas com as favelcas. os alhos e o lenço de ver a Deus.Está bem. que não possuía muitas. Estalavam. ainda despertava apetite.E onde é que a guardava. Não havia de deixá-la em cima da masseira ou nas seixas da janela ao alcance dos cinco mandamentos de qualquer santinho tornou ele.Mas em que sítio? Ela viu-lhe o cenho carregado e ficou de sobreaviso. ainda ficavam homens para formar um batalhão. depois de cismar sentado... Um daqueles domingos. Verdade ou mentira.Faço ideia. No que não havia incerteza é que se lhe fossem todos avante era devorada por tal rabugem. vossemecê nunca avezou cheta? Sim. embora ela jurasse e trejurasse que não era outro. é um modo de dizer.. nunca avezou mais do que os seis vinténs em cobre com que compra na feira o sal. tais altercações dentro da cardenha que acudia gente do povo todo. o filho. À parte o descarado bem-fazer a quem lho pedia.Que lhe fazia.Senhora mãe. Pois então? . e assim foi que disse: .. morrera a aparar as tripas às mãos ambas.. .perguntou com o seu sisudo todo. enquanto batia aquela corda de poviléus? Ninguém acreditava que fosse o sargento Laurindo do 9. que fazia à bagalhoça? . só despedira quando lhe revelou onde o peleiro arrumava a trouxa. À roda dos quarenta anos. despedíu-lhe à queima-roupa: . num sítio onde não visse sol nem lua. . Era graças a esses banzés que se vinha a apurar quem eram os amásios dela e as últimas roubalheiras dele. Temerosa diante daquele maroto..Homem. uma boa maquia de dinheiro. mudava de amorios mais fácil que de camisa. .? Guardava-a bem guardada para as precisões. A opinião mais autorizada apontavalhe como pai o MeIrinho.. . sempre frescalhota e lasciva.Olha..Já entendo: se recebesse. pondo-lhe o joelho na arca. não raro. Conhecia-lha duma vez que meditara fazer uma espera ao Quim da Urra. efectuado o devido desconto. que lhe fazia. que és honrado.Nem mais nem menos.. que passara por ali de diligência e se alambazara corri aquela lasca. o Capa-Cavalos da Póvoa. vendo o filho arreganhar a tacha.Onde queres chegar? . Ver a Deus e aos amigos. está-se a ver. Quem era o pai do Luís? O abade de Pedrões da Nave. Ouça: se por acaso lhe saísse a sorte grande.. e cuia a dar a dar. que negociara em gado miúdo.? Metia-ta na unha. arrecadava-a. não é? . Com efeito.Sério: que lhe fazia? . no mocho. era muito boa espadeleira e habilitada nos mesteres de ocasião.. Tivera não se sabia ao justo quantos filhos. 101 . Assim. onde é que eu a escondia? É o que tu queres saber.? Isso é que eu gostava de saber.Mas.

que lhe deu a chuçada no ventre com um fueiro. . Foi um malvado das Rãs. que acabou por perder a paciência. metia-o na pilheira. metia-as no cós..? Despregava a barra da saia e metia-o na costura. estou farta de to dizer.. mas já que temos as mãos na massa.Deixa rosnar.. onde menos se espera é que está melhor guardado. sabes onde o escondia.Aí vem a viola sem cordas! Se lho dissesse. é o Laurindo das Salzedas e era sargento no 9 quando me cometeu.Tens razão. que era muito apreciada a sua voz de falsete. já te disse que teu pai é o Laurindo.. Se não fosse pai de tais rebentos.Foi o Diabo que te leve..Não falta ele onde meter o dinheiro! Se fosse papel. Brás da Nave... Tanto se me dá que meu pai tenha sido Pedro como Paulo. a quem ele foi exigir o dinheiro que lhe emprestara. era asneira fazer-lhe a vontade. .Seja franca uma vez na vida: não foi nessa quadrilha que meu pai apanhou a choupada que o mandou para o “lindos”.. E lá ia 102 . No cós não era fácil apanharem chuva.Sabes.. Meteram a mão e lá o acharam. Não vê que se apanhassem molha. uma vez que não fico mais rico. O filho quedou-se a reflectir um instante e replicou: . ficava a saber mais do que eu.Se fosse dinheiro em prata... uma noite que a quadrilha do Olho Vivo assaltou a casa do Plácido Velho. . sendo nós duas pessoas assistentes de portas adentro.Ela pôs-se a reflectir e murmurou: . Olha.. debaixo da cinza. afinal de contas.? .proferiu em tom faceto fitando-a muito: . Mas isso. .Os filhos desse Plácido saíram uns estúpidos de primeira. Teu pai. Hem! Pelo menos é o que rosnam. . Conheço-os bem.Não é o que para aí corre. embora tenha dado em droga... as notas faziam-se em açorda. . diria que a saída do velho não era tola de todo. Mas não se trata de furtar os cobres aos quadrilheiros. Trata-se de guardá-los. suponha vossemecê como qualquer juiz da fome. Mas se as não metia na barra..Agora. pai destes Afonsos.volveu com o sorriso alvarinho que lhe arrepiava os lábios e deixava ver as gengivas muito encarniçadas. proferiu: . Ela.Foi meu pai o da lembrança. Os ladrões já lá iam.. . Esse de quem falas andava a comprar cabras para Coimbra e não precisava de roubar.. O Luís dobrou a cabeça para terra e por muito tempo esteve a conversar com os seus botões. por um cabelo que não salvaram o dinheiro. A ferida engangrenou-se e foi morrer ao hospital de Viseu.Vossemecê é zorata. Andava a concertina do José Francisco no largo da capela e tinham-lhe mandado recado para ir cantar.Não.. Estava meio de vianda.. com o que sabe e com o que sei. Trazia sempre a carteira atafulhada de notas. é falso. Há-de concordar que.? . . não me interessa. Pôs o chapéu na cabeça e sem mais processos rodou. atirou com ele ao balde do porco. tem paciência. hás-de me dizer: com que fim é que tu me fazes estas perguntas? . há-de-me dizer uma coisa . ouviu.. alarves maiores não passeiam nestas cinco léguas. de repente um lembrou-se e voltaram atrás. Nunca ouviste contar como é que em S.. Diga agora lá como é que o Plácido quis salvar o dinheiro da quadrilha... da última facha que lhes deitei.. guardálos por muito tempo.

as coisas vistas por cima da albarda são assim. entre risos.Resta apurar se lá há volfro. O arneiro dá quanto muito dez alqueires de milho. E digo-te: trocamos? Que resposta me dás.. O Fandinga dizia e dizia com segura lábia: . As gargalhadas esfuziaram à direita e à esquerda e as interjeições admirativas: . ou se não é antes fogo de vistas. notou grosso chinfrim: o Duarte que se propunha comprar o linhar ao Fandinga sapateiro e. postas as coisas neste pé. ? Mandas-me bugiar! Tira-me as cocas dos olhos.Pega? Pega! Resposta assim só um doutor! O Duarte lambia-se todo de regozijo ao passo que o Fandinga quedava amachucado com a argumentação. tu és o dono do linhar e eu da regadinha e. Tu terás lá ricas batatas. ainda se compreendia tal resposta. eu da regada. primo Fandinga. ao passar pela venda. Sim. O linhar dá-te uma carrada de batatas. o menos que te acontecia era eu mandar-te à fava.Não. embora primos. que resposta me dás. se anda de milho. ou lá quanto é. E aposto que a minha terra dá mais rendimento se a formos a avaliar. Bárbara redarguiu: . marralhavam como judeu e cristão acerca da Santíssima Trindade. perdeu sempre no serôdio e só uma vez no temporão. para cá vinha de carrinho.direito quando. louvo e torno a louvar. bebe quanta água apetece. “ Assim é que o primo Fandinga respondia e estava certo.Não senhor. já dizia meu pai: Salomão cem anos semeou pão. O Luís Ougado ergueu voz por ele: . o que é um arrisco. primo Gadunha. nos alforges são assado. tem uma nogueira que ano por ano. tão pouco esperta como desnecessária. Além disso.. carrega um mulo. em virtude de termos recebido quatro pela regada. bota os seus trinta a trinta e cinco alqueires.. aproveitadas as terras como nós as aproveitamos. Bárbara que assistia ao paleio com a sua cara bonita. tiras tarde. Ora essa! Dizia-lhe que.. duas a três pousadas de trigo e no serôdio. Tu és o dono do linhar. mas não está recheado de volfro como está a minha regada. faço como os ciganos. enjoada.Ora essa? Põe-te no meu lugar. Só servem para o lume. não tinha? . e ouro é o que ouro vale. .Se tu aqui há semanas me oferecesses a regadita do Vale das Donas pelo linhar.Bem vês que se lhe deitas painço ou milho. a valer. 103 . pela Senhora dos Remédios. Há também lá meia dúzia de pinheiros. não nego. A proporção não conta. a terra está escaldada e a semente não topa sezão. apoiavam o Fandinga embora o escambo de senhorios a todos se afigurasse uma rabulice de caracacá.Isso não importa. não o mandava bugiar. Mas o primo sabe o chão que pisa e com certeza não deixava de retrucar: “Olha. mais cambados uns que os outros. Mas bem. eu tenho lá um riquíssimo minério para qualquer hora. admitindo que não foi porque o Fráguas se meteu nisso que lho pagaram por bom.? Ora. O que importa no caso é o meu primo Fandinga julgar que lhe hão-de dar dez contos. é assim ou não é assim? Todos. O teu linhar tem tudo isso. Quem lhe pega? . ponho-lhe em riba as próprias virtudes teologais. como toda a gente sabe. Duarte. reparou que o irmão quedara confuso e acudiu: . é semear no temporão. Tinha ou não tinha esse direito? . pelo linhar.Homem.

que é nossa. Mas em que ficamos.Os submarinos metem-lhe quantos navios tem no fundo. que era um assunto infernal. Mas não posso ver com sangue-frio que se embarrile alguém. nem a guerra é briga de sopapos. Os Alemães têm os japoneses a favor. e com elas compra homens. tomava o partido dos Alamões.Deixa ir. e ao fim quem ganha é ele. . onde se ia sortir de fazenda uma vez por mês. Mas. A diferença foi descendo.Pois compra .Não passou.. descendo e emperrou em 800$000 réis. ele necessariamente tinha que tomar o partido adverso. Lázaro Fandinga falava da guerra pelo que lia na Voz da Província.Mas se o linhar ontem valia cinco. a ajuntada dos estrumes.retrucava ele ao primo. muito menos.Suponhamos . O Inglês tem muitas cidades. Mais de metade estão no charco. para pouco depois romperem os dois a peguilhar da guerra. agora lá se foi à gaita uma grande cidade dos Ingleses ao pé de Macau. sinal manifesto de que não desejava outra coisa senão chegar-se à razão com o Fandinga. . se o não é. primo? Aproximando-se do balcão. as meninas dos olhos a fuzilar. para lá do seu entendimento. o Fandinga pediu 104 . porque o sapateiro. se é possível.O meu primo passou-te procuração? . pareceu-me perceber há pouco que não tinham dúvidas de a doutorar. Ao menos a ti não te compraram os bifes! O Duarte ficou um instante embatucado e proferiu coçando a nuca: . como nós compramos carneiros. da guerra. Muitas cidades e muitos navios. cheio de sombras e de larvas. . . o Duarte mandou deitar um copo de vinho.exclamou o Fandinga entre risadas. que admirava a força. e reis. os Alamões não vencem . . Pode estar dez. e argumentava como quem joga à cabra-cega.Homem. A América é uma sarna de gente. . Tanto lhes custa dar quatro contos como quarenta. não são nenhum Santa Camarão. hoje vale trinta.tornou o Fandinga entre risinhos mas foram os Alemães que te deram os quatro Contos.Estás a dizer baboseiras1 . que não sou formado em leis como vossemecê é. Olha. Não pagou já vossemecê o bolo-trigo a pataco e não o paga agora a dez tostões? Tudo vai na alta que sofreram os preços. . Meu alma de chicharro. Decorreu entre eles um silêncio molesto. . mas bem grande é o Marão e dá-se-lhe volta. generais.É verdade. vinte anos a perder.Pois por isso mesmo. . por modos o que há de mais rico e soberbo. Tem libras que é um nunca acabar. As amarelinhas sempre levam mais tempo a forjar. a ceva dos porcos. .Não. O Duarte não fazia nenhuma ideia de nada.proferiu ela com voz sibilada. de que era assinante.Puseram a América contra eles.500$000 réis.volveu o Ougado.Pois será. tornam-nos a pescar. estão virados de pernas ao ar. passante o qual veio à baila o corte e carreta dos tolos em bom andamento. O braço do Inglês vai a toda a parte. O Duarte ofereceu 4. Nações são nações. . e pelo que escutava na cidade e na camioneta para a cidade. Ouvi dizer que os Alamões têm máquinas muito perfeitas de fazer notas. O Duarte ficou um momento atarantado e respondeu: . o Inglês está em toda a parte e leva o mundo consigo. ou. Tanto desce ao fundo do mar como vai a casa do Alamão e arruma dois socos que vai tudo raso.

Homens.. quando se deita.Aguente-se por muito que lhe custe. Ficou a aposta em suspenso. em tom que excluía teimas. encarregue de fazer pagamentos ou compras por conta de alguém de posses? O sapateiro repicava: . tenho-o comigo. estragado e faminto..murmurou ele com voz trágica o dialho é que estou com a corda por aqui. Cochicharam. com soberano desprezo.pronunciou o Fandinga. O taverneiro tinha o Fandinga por um pobre de Cristo. Se marralham. A meio da estrada segredou-lhe: .. largou pela porta fora cuspinhando: .É uma aposta. Dinheiro no cós da saia só uma tola como vossemecê é que lá o metia.não são capazes de prantar aí na palma da mão tanta massaroca como eu. Talvez eu lhe valha. e pronunciou com filáucia batendo na zona do jaquetão que se sobrepunha ao bolso da carteira: . o seu tanto desprimoroso.Ora. ao que ele correspondeu logo em seguida. vai mas é rachar cavacos para a tua casa? remordeu o Ougado por entre os dentes. O Fandinga triunfava e como tal. Erguera-se grande rebuliço porque todos aguardavam o alvaroque. cheguem-se ao W. mas andavam tantas pelegas semeadas ao presente pelas algibeiras de todo e qualquer bicho-careta que hesitou. os camaradirffias não arredam do adjunto para fora. .Não vendo por menos um real . que era beberem para ali à tripa forra à custa dos contratantes. E levava a mão em prancha à garganta. Num dado momento o Ougado pôde fazer um aceno ao Fandinga para que lhe viesse falar de parte. tudo com tal descanso que um dos presentes gritou em tom de “casar ou meter freira”: . o Fandinga torceu e destorceu o bigode. . vossemecê não tem amigos e eles não costumam apalpá-la? 105 . Dos amigos ou do Diabo. À hora de jantar disse para a mãe: . nã o se despe? Além disso. picado por aquele conceito. À noite. Reganha. É uma aposta em como vocês os dois – e indicava-o a ele e ao Duarte .propôs o Urra. .. Lázaro Fandinga aprumou-se todo.Pois agora é que eu vos digo: à nisgal O Ougado foi com ele.Esperava. aqui há muito dinheirinho.5. .Está tudo a subir. O vendeiro olhou ainda para o Duarte que lhe fez sinal de que não trazia um chavo com ele. Não seria acaso portador de quantia alta.Enganas-te.Vá.. outro morre por vê-Ia do bolso para fora.. voltando para o adjunto. grato como estava à sua intervenção. é meu. Espere mais uns tempos e o linhar bota-lhe aos dez contos.Rache-se a diferença! . esperava .300$000 réis.Fiquei a matutar no que lhe ouvi esta manhã. façam lá negócio? Um anda pilhando por cheta. mesmo sobre o pomo-de-adão. O taverneiro. o Ougado cruzou e descruzou a perna. com a mão no jarro. perdem o tempo. Duvidas? É uma aposta. Umas calças de surrobeco que ontem se tiravam por quinze mil réis custam agora setenta e cinco. Dê-me dois dias. Apostamos uma notinha de cem paus para ser aqui espatifada em vinho e trigo. era dos que mais atiçavam: . Claro. .

.. além de que não gostava de aparecer mal trajada em terra alheia.Não acha justo o que lhe digo?. Acarinhando a voz. deixa-lhe recado.? . A concertina subia a rua fungando.Tenho aqui uma pontada muito grande...... e disse: . sem tirar os sapatos. Estendeu-se bem ao comprido.Na arca.Querias que te dissesse. . . .? Sim. Era uma grandiosíssima asneira metê-lo no cós.Numa panela velha. Sim. mas nada mais agradável que o lume de torgos. E em que outros sítios? . Retrocedeu sabendo de que jaez era aquele cabo dos trabalhos. .? Talvez. Bem. Quando me vir encafuar a cabeça debaixo das mantas. Nossa Senhora.Num buraco da parede.. Ande cá e responda.. Pense bem. se fosse lajeada. Precisamente.Se não estiver. . de sorte..Debaixo duma pedra. que a terra de lenhas era farta.interrogou ela.... os tamancos pelas chanquinhas para ir mais lesta. Por muito tempo a mãe ficou estática e calada a olhar para ele. E mais nada? .Está bem. A mãe veio encontrá-lo de colete desabotoado. num buraco da parece...Ela virou-lhe as costas.. despojando os cavacos da corcódea. podia ser.e apalpava a região abdominal e parte do tórax. Hesitou um instante de nada e logo se decidiu: .. .Faço-te um chá de cidreira. senhora mãe. . mas se quieto estava quieto permaneceu. é que atirou o chapéu para um canto e se sentou na cama. como um ladrão que escuta para entrar. com ar de enfadado consigo e com Deus. pôs o chapéu em cima dos olhos por causa da luz. como se quisesse dormir. pensativo.. a gemer.É como se uma broca andasse cá por dentro a bater e a abrir furo. ..Na cama não me meto. E que mais? .Se a casa tivesse soalho.. Acalentou a fogueira com mais duas achas. debaixo duma tábua. Com o mormaço não fazia frio.Sim.. já sabe.. . com o cé u pousado como chapa de zinco sobre os telhados. mão no seio. A Rira Ougada trocou a capucha pelo xaile. com uma quartilhaça a emornecer à quentura da brasa num pucarinho de Molelos. . Mas hás-de meter-te na cama.Ao menos vem para o lume. muito tinha onde a meter e estava com a língua perra! proferiu atirando-se para cima da cama.Ande cá. Ai. sim.No chão.Se lhe não custasse muito ia chamar o barbeiro a Pedrões para me ver....Num buraco.Sabe o que eu lhe agradecia.proferiu em voz lamuriosa. . 106 . Aqui e aqui. .Caramba. de cesta enfiada no braço. um bom fogo estralejava no lar. que eu morro? . tornou o filho: ... sentado um cristão à fogueira. faça agora de contas que se via obrigada a guardar a massa dentro de casa. Toma-lo? Não respondeu. o solo embebido de água e o vento ronceirinho à porta. ..Estás com alguma dor?? . .. Bota-se a esteira no chão e deitas-te nela. no meio do pão.. destas tardes de luz minguada. e não deu mais sinal de si.Uma panela velha . pode rezar-me por alma. deixá-la fungar? Estava uma tarde suja de inverno. . chego lá num rufo. Onde é que o metia? . . Apenas quando a mãe largou ao caldo.E estará ele em casa? Hoje é domingo..

. Mal teve tempo de jogar o cigarro ao fogo e escorregar para a esteira. cheia de mossas o ferrugenta. atirou-se a terra. O meu Serafim também assim esteve. até que ouviu traulitar à porta a tairoca da mãe. já passou. Ouvi dizer que anda muito arcada em Mouramorta. mas foi mais breve que o pestanejar dum finório. procurou içá-lo para o banco. levava à boca. E.O barbeiro dirá.Tenho o meu Luís a morrer. em guisa de garfo. A distância era grande. Deglutia e magicava. tia Rira. A porta abriu-se de rópia. mas ele que não queria escândalo proferiu em voz que se esforçava por não ser trémula.Vagarosamente.Deve ser andaço. Mandriou por lá uns dias. Vá com o seráfico e para atalhar a quaisquer ideias aziagas que se pusesse o próximo a vomitar sobre ele? Na própria palma da mão ia cortando aos nacos. de fornecer informações a quem lhas pedia e não pedia. um novelo de fumo a desfiar-se para o caniço. Mal ela virou costas. ao desaparecer na curva . Hum. a alma banhada pela mais salutar das alegrias.. Ouviu que dizia: . excedia a capacidade da sua fortaleza e desistiu. nem a Florinda e mais tinham feito juras das que só desata às pessoas o outro mundo. e obrigadas aos mesmos oxalás. aos fernicoques. Não sei o que aquilo é nem que não. e não se segura nas pernas. barbeiro muito bem afreguesado e escanhoador de fama. estacava no colóquio com a Júlia Calhorra. calculando. Dê-lhe um cozimento de arruda. e com a ponta da navalha. ele a saltar num pé. Enterneceu-se sobre o destino. toca a embrulhar o cigarrinho. de carapuça na tola e a Arte debaixo do braço numa taleiga que já andara a boldrié dum pedinte nos tempos afonsinos. alguém verteria lágrimas por ele?. salsaparrilha. Corri ele apertado nos beiços. Numa garrafa desencantou um chorro de vinho e remeteu-o ao paiol. Está às ânsias. lá vinha o barbeiro. para cumprir o dever. até chegar à porta do barbeiro. O meu medo é que seja por lá a tifóia. Mas deviam ser as mesmas. O Gregório dos Santos. como um inválido. Correu à porta e colou a bugalha do olho contra a talisga. Desapertou-lhe o alto da 107 . Mais adiante.o Ougado vía-lhe só a anca .outra vez se deteve. Foi como um malho. cruzou-se sua mãe com a Rosa Pedralva. tantas voltas deu na arca que acabou por descobrir um cíbo de queijo. Isto de mulheres eram todas pucarinhas do mesmo barro. e por certo que poria todo o empenho em ter azo a fazer novo e circunstanciado relato. e vai ver como arriba em menos dum amém. Mas. Ali esteve meditando. atemorizada. puxado por todos os foles. Quando lá se viu. Foi o juízo que se me varreu. A mae. passas.. disparou para Pedrões. não se distinguiam as vozes.. pronto.. Ergueu a tampa do açafate e cortou uma fatia de pão. dois quilómetros dali?? O Ougado abandonou o posto de atalaia. Vou a toda a pressa chamar o Gregório dos Santos. aipo. Além da mãe. Quantas vezes se não suspenderia ainda a dar à taramela. A criatura ainda não tinha dado dez passos.. no intuito de a tranquilizar: . Apartaram-se. Se fosse verdade. Não tardaria que todo o povo soubesse que estava de pés para a cova. mais ítem menos ítem. não podia mais. piscando o olho para o brasido. mas. . aquela cara de machadinha velha. embrulhou-se na capucha e foi-se arrastando para a lareira. A mãe soltou um grito quando o viu estatelado. Voltou ainda a parar à porta da taverna.Não é nada. . corpo morto. Composto do estômago. repimpado no tamborete. em sua alma quase abençoou a safadeza de ser gente. decerto a referir em lição correcta e aumentada os motivos que a levavam por aquela estrada fora.

Na terra haverá cáusticos. Tan-tan-tan. meu rapaz? Palpou-lhe a barriga e desejou ouvir-lhe o coração. É preciso trazer o corpo temperado. bolsinha à dependura das costas pelo nagalho. deitando as suas filosofias: . cada pancada que nem um pandeiro.Mande aviar cedo. e disse para comigo: aí.. seca.O nosso corpo é tal qual a terra de regadio. Leva-se a xí cara à boca. pelo dorso. O barbeiro ria e fazia para a mãe do paciente uma mímica variada e imperativa. no intervalo dos comeres. . Brás de naifa aberta a desafiar meio mundo. sem reagir.. Se depois de amanhã não estiver bom.. A mãe tinha linhaça em casa e tratou de preparar o emplastro. O Ougado obedeceu e o tio Gregório debruçou-se a examinar aquele bacalhau de primeira. Fez menção de retirar-se. que estava a bispar tudo por debaixo da mão em pala. Tinha que tirar a farpela e deitar-se de costas.. está tão suja que parece que andou a varrer o forno. Sorriu na sua consciente sabedoria. Mas como era homem de imaginação propôs: .prostestou o enfermo. Sou como sou.Caramba. Entreranto o barbeiro notava a receita num sarrafo de papel para aviar na botica. mandem-me chamar. está já para baixo dos gorgomilos. a outro. pela frente.Quita de dar um passo que no meu corpo não poisa sinapismo quanto mais cáustico? já disse.. declarou: .? A isso não dizes que não.braguilha e o colarinho para “o sangue circular à vontade” e pediu-lhe o pulso. já sei o que tens. O sangue é a lima. filho de boa mãe? Enganei-me. Ah! ah! -Não senhor. o barbeiro estendeu o papel: . quando Rira Ougado lhe veio perguntar quanto 108 . . que à primeira deu berro que se ouviu em Pedrões e desmentia eloquentemente a aproximação da morte. quando se voltam a abrir. Pois então?? Tenho carne de galinha.. Lima a mais. antes morrer.Antes morrer . fecham-se os olhos. Ao cabo de meticuloso exame. Desmancham-se os poses em caldo ou em leite. Mas eu perca o nome que tenho se amanhã por estas horas se não sentir noutro fole. concluíram que anuía. aprumando-se. A purga toma-se em jejum. com a água sempre justa nos talhadoiros e os regos sempre limpos. E como o vissem de ar parado. aplicar o ouvido a um lado... À saída.Vi-te na festa de S. às colheres. Feito o quê.É um pleuris.? O Luís ficou calado a imaginar a possível mordedura da linhaça em seu respeitável canastro. não sou nenhum valente. Numa palavra: há que trazer de olho os humores! Deitaram-lhe a cataplasma na peitaça.. muito ancho e senhor do seu nariz. O Gregório dos Santos ficou perplexo. o Ougado..Tens medo?? Ah? W e eu que te julgava um valente! chalaceou o barbeiro. O remédio vaise tomando pelo dia fora. assaz formalizado com enfermo tão pouco submisso.Deita cá a língua de fora. Torceu o nariz.? . . O Luís submeteu-se como um cordeiro e o fisico pôde batucar-lhe à vontade no costelado. como faria ao tampo dum tonel para supurar a altura do vinho. amaruja-se o agro. mas só depois de emornecer.E uma cataplasma de linhaça. Quando ela compreendeu e ia a largar em busca do vesicatório. desenganou-os: . . lima a menos.

devia, respondeu, e nenhuma palavra escapou ao ouvido precatado e fino do Luís: - Não há-de ser uma só vez nem duas que cá tenha de vir. O rapaz está muito mal e, se me não chamam, não me admirava nada que batesse a bota. Tenho esperança que o remédio que lhe dou, e é o rei dos remédios, o salve. A ver vamos. O Luís fechou os olhos e deixou-se vogar no silêncio da casa, quebrado de quando em quando pelo tamanco cavidoso da mãe. Ouviam-se as campainhas das vacas de regresso dos pastos e ainda a matinada roufenha da concertina lá para a porta do José dos Cambais. Depois, pouco a pouco, a luz do dia foi-se amortecendo e invadindo a casa o resplendor da chama a devorar na lareira a pilha de cavacos. Acocorada ao pé do lume, a mãe espiava a roca e velava, dardejando de quando em vez um olhar inquieto para o filho. De repente desceu da serra a enxurrada de chocalhos, vozes e estrépitos de tamancos, e, pouco a pouco, o silêncio foi-se restabelecendo até encher o mundo como um odre em que se soprou ar. Enoiteceu. A mãe rezava e o chilido das ave-marias fazia por vezes coro com o cicio do fogo retraçando a lenha. Bateram à porta. Eram as comadres a perguntar como estava o doente. A mãe acudiu muito solícita a dar a todas a mesma resposta: “Bem haja, ele, para que digamos, piorzinho não está. O que o mata é aquele pesadume no peito...” e não quis ouvir mais, desviado o espírito para outra matéria. Veio ainda o Calhorra e a Florinda, ambos com voz de caso. Mas, fez-se Lucas, e não quiseram que o acordasse, uma vez que passava pelo sono. No dia seguinte que não pegasse do trabalho, muito menos na mina. Aquilo não havia de ser nada; mesmo assim, matasse-lhe a tia Rira uma galinha bem gorda, ainda mais que ia purgar-se pela mão do Gregório, que receitava para um cristão como para um cavalo. Não havia como as enxúndias para ajudar a desimpedir o corpo!... A noite alapardou-se em cima da terra, rotundamente, como avejão sobre o ovo que anda a chocar. Um após outro apagaram-se os rumores da aldeia, balidos de gado, choros de menino. Tudo adormeceu, a própria mãe, que a meio serão ressonava como um órgão, o sobressalto tendo-lhe batido na massa do sangue como uma semanada com os amigos. Ele é que não podia dormir. Há muito que atirara o emplastro para casa do Deus verdadeiro. E, sentado na cama, novamente ensaiou o seu papel. Quando luziu a telha, afundiu-se nas mantas e rompeu a gemer. Gemeu, tornou a gemer, mas a mãe dormia como pedra num poço. Um carro de lavrador atravessou a estrada e meteu aos solavancos pelo caminho da serra: o primeiro que girava ao mato. Gemeu mais forte. A mãe estramontou: - Sentes-te pior, filho? - Sinto-me bem mal... bem mal. Vá pelo remédio. A mãe ergueu-se da enxerga, atirou dois bochechos de água para os olhos, falou em ir chamar alguém que ficasse ao pé dele e, ante a sua recusa categórica, pegando do xaile e duma côdea de pão duro, despediu. Mal lhe lobrigou a rabadilha a dar a dar, pôs-se ao alto. Pela frincha da porta passou revista a quantos lavradores saíam para a serra. Viu passar os operários das minas, uns direito ao Santo Antão, outros ao Vale das Donas. Levantaram em rancho os matejadores, de roçadoira pendente da espádua, e logo depois os zagais, de bornal aviado para o dia todo, com os rabanhos ronceiros. Pouco a pouco a aldeia foi-se despejando... Quando lhe pareceu que o açude tinha acabado de escoar-se, abriu a porta a medo, sete olhos à direita e à esquerda. Estava o céu escuro e fazia frio. Não era nevoeiro,

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todavia para lá dos duzentos passos divisavam-se os vultos das coisas, mas não as linhas. Tão-pouco lhe pareceu ar de neve. Era um cariz sonolento de inverno, sujo e triste, com grossas nuvens baças a prepararem-se para alagar os cambais da terra a poder de cargas de água. Muito embiocado na capucha, descalço, depois de observar que não bulia vivalma, largou numa carreira. À capela torceu para casa do Duarte; desacravelhou a porta do forno e, empurrando-a, espreitou... Não estava lá carro nenhum, que fora o seu susto. Não estava também gente, e entrou afoito para a quintã. Ao rumor que fez, a porca, lograda em seus hábitos, grunhiu: “Trouxessem-lhe que tasquinhar. “Bem. Fez pressão contra a porta da casa propriamente dita: estava fechada à chave. Procurou a chave na gateira; depois na torça; lembrou-se que também era costume metê-la no cisco, contra o limiar, e vasculhou com mão cuidadosa e ligeira. Lá estava efectivamente. Continuava a ir bem? Descerrou a porta com todo o ripanço e aos estalidos que soltaram os gonzos ficou interdito: abro-te?... fechote?... Abriu-a por fim de rópia e a sanfona mal deu sinal. O silêncio lôbrego do interior é que foi como um cão que estava a dormir e, estrovinhado, se atirou a ele. Levou um bom migalho e recobrar-se. Pouco a pouco, os olhos foram-se habituando ao bicho hirsuto, que voltava a aninhar-se nos cantos com as arcas velhas, ferramentas, trastes sem nome, entre taipais encardidos de fuligem. Contra a parede as duas peneiras eram duas monstruosas pupilas da aventesma, estupidamente atentas ao que ia fazer. Mas ah! detrás das caixas, como separadas por sebes, mostravam-se duas camas... duas. O mais, paredes, bafio, cainheza, era alcatrão. A laja recebeu os seus passos mais surda que a própria terra, que tem a sua sensibilidade e se queixa até da lebre que passa. Mas era álgida como o caramelo dos charcos. Levantou a tampa da primeira arca, que estava meia de centeio. Enterrou o braço aos cantos, no centro, aos lados. Nada. Passou à segunda arca atravancada com toda a ordem de tarecos, a escudela do fermento, a queijeira, bexigas de coalho, uma almofia de feijãofradinho, e roupa, manaixos, mondongos, coisas quase todas de trapiche. Resolutamente desatou a esvaziar a arca e a espíolhar peça por peça? Nada de nada. Com um varrer de olhos percorreu a casa toda. O tanheiro observava-o semelhante a um bonzo acocorado ao canto, zombador e imperturbável. Lá estavam em cima da pilheira, como as comadres à boca da fonte, panelas, caçoilas, potes de ferro, toda a útil e inútil olaria de cem anos. Antes de passar-lhe revista, velo à porta observar. A quintã era o mesmo poço de silêncio e de rescendores fétidos. Nem uma galinha. Na pocilga refunfava a leitoa. Volveu dentro da casa, admirado do seu sangue-frio. Nem sequer lhe palpitava o coração. Trouxera-o ou deixara-o lá fora?? A verdade é que se achava ali na propriedade alheia tão naturalmente como na taverna a beber meio quartilho. De todo à vontade, investigou à direita, investigou à esquerda, e novamente lhe incidiram os olhos para a cacaria e o pucareiro. “Vamos lá ver? “ proferiu em voz alta. Acercou-se da pilheira. Revistou uma panela, revistou outra, destampou aqui, emborcou além. E a caçoila...? Moinha...?? Apalpou papel e não teve mais dúvidas. Com ele bem apertado, sem ver sequer de que se tratava, nem pensar em coisa alguma, com o coração agora aos saltos, os trastes todos; tanheiro, cântaros, arcas escancaradas, o negror da casa e a alimária do silêncio, acocorada nos ângulos da cardenha e na quintã, a gritar: ao ladrão! deitou a fugir, a fugir às sete partidas sem reparar onde punha o pé. O sentido levou-o, sem

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desvio nem quebranto, por onde viera, para mais, leve e subtil como uma pena. A mãe veio encontrá-lo de olhos esbugalhados, a arder em febre, mãos a segurar a cabeça. Pôs-lhe os remédios na banca. - Vá-me por água fresca à fonte. Vá que eu cá tomo as drogas... Estou a morrer de sede. Despejou purga e eclegma para a cinza e, quando a mãe rompeu casa dentro com a cantarinha a trasbordar, levou-a ao meio. Depois caiu em quebranto. A horas de jantar visitou-o o Calhorra, que também era meio médico e lhe achou ares de bem disposto. Estavam na santa cavaqueira, ouviram grande rebuliço no povo. Sussurram assim as colmeias quando levantam voo e vão pousar de largo, nos ramalhais. O Calhorra moveu com a maior presteza possível os membros trôpegos; o Luís, pois que a mãe lho exigiu, agasalhou-se na capucha e foi atrás do cambado. No largo da capela, ao entrar para o forno dos Ladeiras, pela quintã e moradia espraiava-se um mar de gente. Singraram a custo até chegar à porta da casa. Da trave fuliginosa, ao pendurão, um corpo de enforcado bailava. Bailava sem ninguém lhe tocar, ao simples bafo, parecia, das pessoas que ali vinham, para que vissem bem e contemplassem. Quando a face, em sua rotação, colheu a luz diurna que se coava pela porta, o Ougado reconheceu o Duarte de olhos muito abertos, fitos nos seus, com a boca escancarada, boca de través, que uivava: ao ladrão! Ficou transido coisa de segundos e, fincando os queixais um no outro, não se pusessem por lá a matraquear a semana santa, desandou pela porta fora, de esguelha, de modo a que Bárbara o não visse.

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tomou aquele velho prédio de Tendais. salões grandes como gares. Sem embargo. Entre ir morar para as minas . cântaro à cabeça como vira na Arábia Feliz. matinalmente exacta segundo a nova disciplina. com as paredes sensibilizadas pela infinita profusão de rostos. perfumado. No piso inferior a criadagem. encetava a lide quotidiana. que daria salão de baile. Tanto o Pelicas. o que viera tranquilizá-lo no mais latente da sua alma sobressaltada. coveiro. Não estadeava brasão no lintel nem galeria com antepassados de prosápia. Pela vila ouviam-se vozes siricopadas. o universo real e o imaginado. ainda quando oriundo do SchIeswig. isto é. Um Alvitano surgiu às upas no potro. durante as quais queimara havano sobre havano. o que se chama um lar. ora e logo balouçado em sonhos pelos solavancos fortes dos armões de campanha. seus fregueses: . e isto equivalia a um sono reparador. todos os rumores preambulares do formigueiro rural que desperta. a tal consciência panteísta que Goethe numa carta a Eckermann punha acima das contingencias universais. a meio caminho para a Sobriga e o Vale das Donas. mais divertido que diante dum guinhol. bater de portas. mas quartos para bonecas e uma noção do conforto herdada do eneolítico. Mas com o amanhecer a consciência ficou sossegada. que se conquista com actos de adoração. Mas o seu principal intuito fora oferecer à filha um lar. de dores e de venturas dos seres que por ali passaram. E como não havia de estar naquela disposição psíquica? A Reichs-Rundfunk da emissão da meia-noite dera um copioso relato do que se passava nos campos de batalha. quase contente consigo e com Deus. riscada por um pedreiro de talento para morgado farto e desembaraçado. Passavam as primeiras mulheres para a fonte.dá umas calcinhas. Aquela moradia. Paulinha dava também sinais de ter passado ao gabinete de toucar.rondavam já à porta da taverna. Hincker entretinhase com a paisagem humana da vila. corruja de abadia. Nas horas despreocupadas. eixos gementes. Deus para um germano.VIII Franz Hincker levantou-se cedo naquela manhã fria mas luminosa de inverno. estava vestido. sim. salvo o albornós. E por sorte deparara-se-lhe a construção tipo da mediania provincial. Felicitava-se cada vez mais de ter alugado ali casa. como o velho Badanas. e com a ginástica respiratória em regra. o que lhe permitia partilhar-se mais a seu cómodo pelas duas explorações. por detrás dos estores. sempre encostado ao Pauzinho de marmelo da cor do carrascão. com insônias de permeio. compunha-se de quartos amplos e vistosos. Mas o sol retoucava na rama alta das carvalhas que ensombram o largo da feira. senhor Incas? . mas o que existe tão de concreto como de vago à volta dos sentidos e do intelecto do homem. uma varanda a sueste. de colóquios. vasta e quadrada. não dormira o que se chama uma boa e pétrea noite. desses que passaram à imortalidade 112 . uma boa cozinha. sem falar na peça central. sem os estigmas do nobre solar: escada garbosa. que trazia jaleco de alamares e faixa. não é o deus eclesiástico do resto do mundo.as minas não poderiam oferecer-lhe senão domicílio abarracado – e morar no povoado. pois estático só na tumba. tal um rico marabu.

depois de munidos das respectivas guias fiscais. ao passo que além o rompimento exigia constantemente perfuradora mecânica e dinamite. e Hincker. pelas estradas intermináveis. regou a petróleo e soda cáustica os interstícios da madeira povoados pela fauna até então feliz e sem história. O pior de tudo foi que as frinchas. carregavam debaixo do olho vigilante dos fiéis a sacaria pesada e lacrada. tapados como arcas. desatou em convulso e clamoroso choro. Com efeito. No dia seguinte um piquete de trolhas. famílias de ratos bemditosos. de molde a armazenar a bom recato todo o minério produzido. E selados a sete selos abalavam e lá iam em recova. As explorações da Sobriga e do Vale das Donas eram conduzidas com tão denodado como meticuloso impulso. Ao cabo duma semana de refrega e quebração de cabeça a casa deixou de ser o valhacoito dos cínicos e abjectos hemípteros. Metiam pelas estradas a poente. o resultado era compensador. que detestava tudo o que é lemural. Mas Hincker. Sábados à noite. encaixado o veio umas vezes em salão roto. Veio dos aposentos o pai. rendendo o máximo que era de esperar de jazigos de segunda ordem. e no mainel da varanda sardinheiras entornavam até meia povoação um vermelho que Hincker pela rutilante candura e a carência de aroma classificava de amoral. como os ocos da alvenaria solta o eram dos ratos. ao berço da nacionalidade. tanto se importando de atirar com meia dúzia de mancheias de libras pela janela como com o resto do copo de água que não acabara de beber. garagem. raros em Alemanha como as baleias no mar. Kammerjãger. Mas para chegar a esse ponto tivera Hincker de sustentar uma guerra bruta com os concorrentes. a avaliar pelo repululamento. há caçadores especializados. estimou. em suas madrigueiras. para ele. as duas empresas sob a regência de Hincker alcançavam plena estabilidade. cuja estirpe devia remontar. também plurisseculares. vinham camiões de seis rodas velozes e surdos. e iam baldear 113 . A Sobriga produzia dez vezes mais que o Vale das Donas. sempre direitos a leste. para o país negro dos altos fornos. reunia os cómodos indispensáveis à sua lavra. dado que não fosse dotado de tão sólidos rins. se fosse necessário. eram um inçadoiro prodigioso de precevejos. Para os gostos simples da menina possuía a vivenda um quintalinho com seu tanque. A primeira noite que Paulinha acordou em seus edredões de pluma com a alvura dos lençóis sarapintada da ignóbil bicheza. Mister Corbet era temível no ataque. Outro piquete emparedou com argamassa. confortá-la e dispor-lhe o ânimo a transigir por uma vez com a habitação infestada de parasitas. superando de muito o contingente de produção que lhes fora atribuído. Em seguida às mil e uma peripécias duma rivalidade que chegara a saltar todas as barreiras do fair play. da cor do chumbo. De modo geral. em todo o Portugal senhores do campo. quer nos soalhos quer nos apainelados do tecto. contra os quais. perfeitamente bem-ditosos sem a existência nas redondezas de bois bichanos que vinham às vezes murar para aquele paredal. cerca de 75% da área metalífera conhecida estava registada por firmas contrárias. outras em quartzo atravessado de lezins que descosia a ponta de picareta. com freima nunca vista. em que a extracção no entanto era mais fácil. por via de regra. teria dado em terra. De Muradais partiam igualmente com perfeita cronicidade outros camiões repletos de minério. arrecadações.empanturrados de padre-nossos e de glória. não menos molestado. onde cismavam artemísias.

cifrada em duas letras ou algarismos.Fica-te com o Demo . Dizia-se que a Ilha disparava contra o inimigo projécteis de oiro puro. Fábula ou não. todos os meses. por fim. era o Antoninho Fráguas. com uma película de volfrâmio à superfície para o conspecto inicial. tinham por missão escoltá-los a porto seguro.nos molhes de Leixões para cargueiros negros. de dois. em cada molécula do qual se sentia palpitar toda a imaginável espécie de ânsias e gemidos.proferira. Os sacos que ele rareava e pesava iriam atestados de titânio e da mais ignóbil morraça. Aconteceu-lhe escaqueirar a chocolateira numa das curvas do Vouga. dissimulados debaixo de catafalcos de serguilha. e não se falava no resto. que. Cada onça. dizia-se que mais que um barco que conseguira alcançar o destino denunciara o 114 . casara a filha. e a custosa mistela lá seguia caminho. e prosseguia de vento em popa. a cavalarias altas. Ostentavam duas parker no bolso do jaquetão e traziam as notas de Banco em pastas porque lhes não cabiam nas algibeiras. Esses navios recebiam uma ordem telegráfica. Blindavam os dedos com anéis e não sabiam dar dois passos que não fosse de automóvel. para que os submarinos a esperassem. custava o quê? Dez. ao começo. deixando a tapada da serra a tojo. Projécteis dum supermetal. e seria este o primeiro passe do manigante. dois a seguir. Os agentes que o Reino Unido assoldadara no país neutral enriqueciam a olhos vistos. e. de dois. E mandou vir o melhor estojo que se exibia nos stands de Lisboa. encontravam-se milhas dali com torpedeiros velozes.um factoto avisava o chefe da Gestapo do embarque da mercadoria. era vedado inquirir. Matavam o bicho com vinho velho da Ferreirinha e estadeavam equipagem de grão-duque. quatro mil quilos arrasar as cidades orgulhosas do inimigo. resplandecentes de civilização e arte. mais precioso que a platina. O problema era que nas matrizes cíclópicas das suas fundições não escasseasse o minério fantástico com que revigorizar o aço que iria em bombas de mil. com os grostescos e imprevistos que se podem imaginar em lapuzes elevados. acima. todas as semanas. Oito sobre dez daqueles navios soturnos iam para o fundo em três tempos. como não? Um destes. feitas as contas. dois pelo menos. Na terra das meias solas. À boca cheia se contava que impingia a mister Corbet gato por lebre. chegasse o metal. levantando-se dentre a ferralhada com uma costela partida e as ventas a gorgolejar sangue . classificado e novo em folha. levantando âncora. todas as vinte e quatro horas. que acabava de fazer treze anos e a instrução primária. de Muradais. dois mil. amassado com o suor de meio mundo desde o Spitzberg à terra de Francisco José. Mas tal contingencia não alterava em nada o ritmo da tenacidade insular. a carga valiosa. vinte libras? Numa ocasião destas não se tratava de saber quanto custava. toda as semanas. almas em revolta. os volframistas davam nas vistas. com um canhão à proa e outro à ré. Comprara já uma quinta para o Dão. Acrescentavam que o segundo consistia em subornar à força de pecúrila o engenheiro que na barra referendava a entrega. Assim desapareciam tais navios de carga no fundo do mar e com eles a candonga dos infiéis representantes. . Simultaneamente . com um visconde papalino. No mar traiçoeiro da Biscaia rondavam porém os submarinos de Roeder. corações triturados.que já me ganhaste para um Rolls. dois.terceiro lance . A questão era que de dez transportes chegassem dois ao porto. correndo à direita e à esquerda como galgos marinhos. numa cadência melhorada dia a dia. Acima.

instintivo. em busca de maná. como é de supor que andassem os hebreus no deserto. uns punhados de minério. todas as poucas-vergonhas eram desculpadas dado que conduzissem ao enriquecimento. A nação em guerra é que por nada do mundo desautorizava os seus corretores. E deixava-os entregues às suas tibornadas. Formava-se uma moral nova com a nova indústria. Aqui. a 400 contos. metallo divites. carregados de volfrâmio.. com urna percentagem média de 75% de metal e 25% de quebra. com seu sentido prático. o que Dantec chamava sem acrimónia hipocrisia. De ordinário a cotação do volfrâmio era dada pelo Porto. pagando a fazenda por um preço incomportável em relação às suas bolsas e fora do senso comum. O que prezava era o certo. o ilhéu nunca chegava a ser fraudado em sua expectativa. caíam imprevistamente do céu e vinham matar a fome a multidões igualmente famintas. Dolo.. que eram manifestamente maus. Atrás de Corbet postavam-se Insulae laxe jacentes. todos os três meses. como curso médio com oscilações verticais. O conflito mundial reflectia-se nos dois comissários. dobrada para terra. Com margem tão larga para o fortuito e o contratempo. Muito frequentemente dobrava de preço. podiam vir outros requintadamente péssimos. por montes e vales em busca de volfro. Na melhor das hipóteses. em nome dessa filosofia do real. o grande insular professava que atrás de semelhantes agentes. segundo sucede em Bolsa. mentira. desde que constituíssem processos de promover 115 . à conta destes seus amos. às portas. Estava inerente à sua fácies moral não admitir semelhantes quebras de carácter. como atrás de Hincker o Reich. Todas as canseiras dum dia eram dadas por muito bem empregadas se à noite a sombra vágula.comércio facinoroso. saltaram fora dos limites que lhes haviam fixado para a compra. Quando o Porto fixava a tong long da volfrarnite. As aldeias esvaziavam-se. o Almirantado devia receber dez navios. Por daltonismo. Num plano superior.. quando se recusava a encarar o crime de parricídio. repugnava revolver misérias desta ordem. pois não vira separadora. como daí em escala degressiva em todos aqueles que estavam ao serviço de cada uma das entidades. o outro em esquife para o cemitério. tratava-se de bater o adversário. Contentava-se com isso. um conduzido em maca para o hospital. trouxesse na cova da mão duas areias do oiro negro. para lá do conceito clássico de justiça e bondade. Mas aos seus hábitos de decoro. Vendía-se o quilograma estreme. falsidade. roubo. arribavam apenas dois. de Avienus.. queria dizer: daqui para cima.. mal nascia o dia.. De resto. Que remédio senão render-se à evidência duma lei transcendental ou a processos que não seria cómodo reformar? O ideal em semelhante emergência fora reduzido a proporções tais que estava fora de toda a hipótese deixar de tornar-se realidade. levados pela velocidade do amorpróprio. o objectivamente certo. resvés do irracional. Firmaram a transacção a tiro. Neste particular era como a Hélade. mas nunca tida. Da carga destes dois apenas um dízimo era aproveitável. entre 400 e 500 escudos. Eram substâncias análogas no transcendente e no destino. ou considerado como tal. Era um pouco a psicologia do cocu magnífico: contanto que. aversão congénita quanto a conceber certas formas da indelicadeza? Parece que não. Vinte gramas importavam em mais que a jorna dum obreiro. a 750 escudos. A certa altura. Aconteceu numa aldeia serrana dois regatões encontrarem-se a disputar. em bruto. 65 unidades. filtrado fosse lá por que mandis fosse da desonestidade e do dolo.

caçados cada um por sua vez a surrípiar do monte em desproveito dos restantes. era o lorde. A grandeza da Ilha está nisto: possuir árvores das patacas em todo o mundo. mas velhaco. por conseguinte de prática corrente. quando um destes fura-paredes lhes mandava bater para Arganil. como Sobriga. bem embora o sorriso muitas vezes lhe fugisse para esgar. à porta fechada. mas dando a impressão de tornar sempre ao seu ser como de borracha. a sua receptiva para o roubo estava a toda a prova. Se os seus agentes fechavam os olhos e compravam o que se lhes oferecia. este simpático e glorioso Portugal. de antemão sabiam que iam buscar uma taleigada da miraculosa terra. de contestar. esse. O senhor Hincker conhecia todos os artifícios do comércio e industriava os seus agentes na arte de descobrir as esparreIas e chincá-las ou deixá-las armadas para os parolos da outra coriróbia.já o germano confundia os processos de informação com a espionagem. era um recurso industrial como outro qualquer. e que falsificar o minério. Não lho consentia de resto a situação que ocupava. todos os passos lhe parecendo bons para estar a par que no Santo Antão os sócios se roubavam uns aos outros o mais honradamente que podiam. Teimaram em mostrar-lhe a fazenda e fechar o negócio de afogadilho. se umas vezes logravam o próximo. propuseram-lhe a venda. Os chauffeurs da praça de Viseu. fritando-o. não poucas eram logrados pelo campónio mazombo. como tantas vezes. mais contuso que o canganho. Como o vendedor era parente do Calhorra. mas admitida. cobrir a oferta. duma grossa porção de minério. Para atalhar 116 . Nas costeiras do Alva descobrira-se um cabeço cuja areia preta e lustrosa orçava em seu peso pelo do volfrâmio. Embora. sempre de sorriso nos lábios. mas primeiro havia de a mercadoria passar pela separadora. Não tardou que o monte aparecesse lorgado como as saibreiras que se entremostram à margem das fábricas de cerâmica. do concorrente. desencantando-lhe substitutos falaciosos. abana a árvore das patacas e é só abrir a boca ao saco. não lhe ficava o direito de ser desconfiado. que jogavam ao ganha-tudo. O José dos Cambais e o Silvestre Calhorra. Mas os milicianos. outro tanto não fazia ele.o negócio do volfrâmio. gênero Leónidas Seixas. inclusive em Portugal. Explorações categorizadas. e recusou terminantemente. comprando na boca do lobo. De sobra sabia pelos seus secretas . Resultava de tal consenso que procuravam todos empulhar-se uns aos outros o mais conspicuamente possível. Manifestou. Mister Corbet. tornavam-se ordinários. Por sua condição tradicional de ricaço. Aquele dia em Mouramorta. Franz Hincker explicava o fenômeno dizendo: . senhor deste mundo e do outro. Tojeira e Muradais. O singular é que o ludíbrio se exercesse em regra com a facção insular. procuraram desde o início montar as suas separadoras. A tout seigneur tout honneur. discutível ainda.O dinheirinho com que temos de nos esportular sai-nos do lombo. como tinha por norma. tinham chegado no calor do despique a testemunhar-se em público e raso de gatunos e difamadores. sem atender à origem. Entre eles a descompostura era quase quotidiana. A sua predisposição para a mascambilha era proporcional à longanimidade com que encarava os seus desbaratos na guerra: sempre gentil-homem. tudo levava a crer que a operação seria feita com o seu beneplácito. de pôr em dúvida. cometido é muito provável na exploração de Santo Antão. Por essas e outras razões farejou grosso latrocínio. em última análise. E pregavam-lha na menina do olho. Quem pagava as favas.

os penedos que parece terem perdido daquela manhã em diante um pouco o ar baturro. após invernada.. tira-lha? . altas horas.. lembrou-se de convidar os engenheiros para o almoço. Quando chegou à mina. No dia seguinte. . pães. De facto. mas há de tudo neste mundo. de modo que se não soubesse.. O Calhorra em voz baixa. Seria preciso ter muito cuidado com a língua. Vou telefonar a minha filha que reforce apopote. sempre mais outro. árvores. se tem chave. que lhes permitisse dormir a sono solto sobre o seu bem? Nem no Paraíso à mão direita de Deus Padre. no gênero da cadeia da felicidade inventada pelo maduro anglo-saxão.Os senhores vêm. desfiava todos estes ardis de peles-vermelhas. E bem disposto. optimista consigo e com Deus. acumulado desde o princípio do mundo. a voz aprendida com os senhores padres nas Orações Secretas da santa missinha. por causa dos pedreiros-livres. inviolável. achou tudo em ordem e o trabalho em bom andamento. Riram e não houve remédio senão render-se ao amável dictat.. qual o lugar seguro. entrar de noite com o minério. só desbocados poderiam taxar o acto de escandaloso. boa para retém. depois duma rápida visita à exploração. O sacristão. falou na sacristia. para mais.. matutaram em muitos e vários remédios. Iriam os sacos da mexerufada logrando um e outro. no fundo contentes por irem espairecer num dia de sol e verem o seu landegrave satisfeito. claro com os devidos resguardos. a coisa foi realizada com tanta presteza e rasgo por parte do canejo.? Arranjam-se smokings e casacas para os mais exigentes. largos. Mas Hincker persistiu: . Deram ordens. quem acompanha a fazenda? Eu? Não obstante o tropeção de que padecia. atestado de morraça. Torceu o nariz. numa cadela inenodável e sem fim. se revestem de leveza e luz tão branca e boreal que irradia certo ar de melindre e friabilidade da amplidão: terra. veio o Antoninho Fráguas por sua vez.? Ora. Lá em casa há um variadíssimo guarda-roupa. Tadeu hesitou. e depois duma escovadela aos fatos e 117 . Não era nada prático. servem a todos os corpos. Severo Bacelar quis desculpar-se com o seu trajo de cote... Os engenheiros despiram as camurcinas. Estava um saboroso dia de sol. depois de pesado? Vendê-lo à boca do poço? Quanto a depositá-lo.E nos carretos de noite. .. não era mau expediente. mas onde? Sim. Sim. muito embora a sacristia fosse do pároco.à desconfiança que lhes roía por dentro. que nem sequer a cachorra do Reganha deu o alamiré. tinha também uma chave. muito apertadas quanto ao policiamento da mina que a gatunagem andava mais sobeja do que nunca. tão pouco curial. engrolando-os a todos muito bem engrolados até aos cadinhos de Birmingliam e Newcastle? Franz Hincker. com arcanjos a guardá-lo de espada desembainhada. e ora se transvertia naqueles abomináveis bate-línguas.. Da sequência deste jogo de enganos não soube informar a Hincker o seu espia nictalope. destes dias que no campo. Depositar o minério extraído cada dia em lugar competente. depois que recusara o volfrâmio de Mourarnorta. Entendem que se devem vestir a preceito. São sobre o largo. e os colegas escudaram-se em iguais considerandos. ao passo que o automóvel corria a toda para o Vale das Donas.Ora. os pardais que saltitam à volta do fachoco de palha que cresceu da matança do porco. e de novo o saco foi trocado por um terceiro.obviou o Calhorra.. sair de noite.

No pátio da residência. Lobão no foro e lobão na gana com que lhes metia o dente. .É verdade. Estão no outro lado do quintal.. a cuja sombra se fazia todos os quinze dias uma ruidosa e amoiriscada feira. O farmacêutico ia a escusar-se. ocupou-se. Na sala. julgo eu. torcendo por Malhadas a embarcar o Dr.. Se recusa. mando-o pôr na lista negra da Gestapo.emitiu Manuel Torres. Hincker não lhe deixou abrir a boca: . Largaram. impávido e garboso. façam favor. Quando entraram em Tendais.São para combate? . e por isto.Não...declarou para os convidados. Manuel Torres.. a almoçar fora de casa.Subam. a boa vila de Tendais com o seu bosquedo de carvalhas ao norte. Logo hei-delhes mostrar a colecção. . Manuel Torres que pousava ao tempo na casa da serra. em rasgar cintas e sobrescritos. É verdade que tenho ali dois de combate. pelo que envolvia de obsesso quanto ao carácter do seu povo: . Mas eu não os quero para combate. Arpou-o de passagem.Nem fum nem fum e meio.. no dizer do Café Bijou o Lobão dos volframistas. juntamente com o correio. Pegando dum postal a cores que representava um aviador de uniforme. venha almoçar connosco. adiantou-se para ele. Em Mouramorta deparou-se-lhes o advogado topa-a-tudo Dr. contra os seus hábitos inveterados. As notícias eram anódirias. afagando-lhe os barbilhões. porque em poucas espécies está mais desenvolvido o instinto sexual do que nos galináceos. por conseguinte. o excelente Nestor jácome. Pois que vinha o boticário.Tenho para aí mais.Todos os galos são mais ou menos combativos . de raça indostânica.Ou que lhes foram raptadas . .Um charutinho. Diante do semelhante recusam-se a ver outra coisa que não seja um rival. liberalão.. em dialéctica com ele. Quando viu o amo saltar do automóvel.É muito meu amigo . foi buscar o correio e. . e Hincker convidou-o a subir para a sua arca de Noé..chapéus abalaram com Hincker. Era perto da uma hora. familiarmente: . deram de cara com o boticário. Gosto a valer destes bichos. um belo galo andaluz dandinava-se a meio duma rebanhada de galinhas de toda a casta. .acrescentou Hincker sorrindo.. laureado com as Folhas de Carvalho. perfeita paz octaviana. a derribar-lhe as construções lógicas com o mesmo regalo com que o batia ao xadrez. . estes são bichos de paz. mal parecia que não viesse o médico. Calabaz. Hincker sorriu da frase inconsiderada do bacharel.. uma caixa de charutos que estendeu aberta para os convidados: .. tão destro a manusear a espátula na farmácia como a espingarda no monte e toda a sorte de redes no rio. .gracejou Calabaz. Hincker tinha pronunciada simpatia por aquele espírito de pedreiro-livre. largando um gó-gó-gó que pareceu o mais jovial dos cumprimentos. depois de pedir vénia. as galinhas dos outros poleiros deviam ser odaliscas suas . à sua direita: 118 .Amigo Jácome. germanó fobo na ordem do lugar-comum. Quero-os para vistas. apurada pelos Ingleses. . Pararam à porta do homem afável e obrigaram-no.. Lábios a espremer o havano. proferiu para o Dr. Guilherme Cabalaz.E que.perguntou o Dr. e entretinha-se muitas vezes.

Os ares bravios tinham-lhe roubado à tez o rubor melindroso de peónia. em frente de cada talher. 119 . Era sobre a tarde e entraram ardidamente pelos hors-d'oeuvre. . Paula semeara violetas.proferiu Jácome. advertia que o almoço estava servido. que debaixo dos olhos punha um matiz de leite e carmesim..Todos sem novidade? .Tudo vai na sorte. condimentados sui generis. pareciam dirigir aos hóspedes um sorriso derradeiro. diferentes de cor como de tamanho. com prateleiras povoadas de cristais de Boémia e estanhos flamengos e alemães do mais esquisito talho. ao gosto tudesco. que um enredo de amor se atara entre eles. ao bacará..O mais velho é tenente de artilheiros e lá está para leste. . mas nada sabe negar aos regalos da vida. e fui incorporado no regimento que mais sofreu na ofensiva de Amiens.Decerto. que nem vale a pena mencionar o arranhão que uma bala fez no peito de Karl e a cabeça do dedo que voou ao marujo em combate com torpedeiros. as flautas de Pá dos copos. o paladar sobre o substancial.Tudo vai na sorte. senão faltaria ao meu amigo o melhor cliente dos rebuçados de avenca. . indolentemente.tornou ele..Sim. à retaguarda. Mas..Capotes..Este pertence à Luftwaffe. Sentia-se no seu ar feliz e desembaraçado e na postura de Bacelar. A guerra mata muita gente. que Hincker. compartes duma culinária planturosa. a abundância. de que faz parte o meu Karl. entrando. . No Chemin de table. arrancam-na a quem lhes cai nas mãos. para os vinhos variados. Entretanto Paulinha. Resplandeciam na grande mesa o linho de brocado e. embora não passasse pelo desaire de ontem receber um capote. A mesa dum teutão é dum teutão e de mais ninguém. Os engenheiros vieram considerar circunspectos aquele ás da guerra. adornara nos espaços compreendidos entre os contadores rotundos e luzentes. O farmacêutico sorriu e disse galhofeiramente: . Telo. nós os Alemães somos tão generosos que começamos por dá-los aos nossos amigos. o antigo e vasto refeitório da casa morgadia. E querem saber? Apenas uma bala me feriu no calcanhar..Precisou. . mas como os que mandam para a Rússia têm de ser de pele. por um trigueiro mais ao estilo da cromática portuguesa e com o seu sabor entre ibérico e loiro do Norte. esbatendo a rede vascular finíssima. precisa bem deles a Alemanha na frente russa.. de facto. Hoje a precisão é relativa. Encaminharam-se todos em rumoroso à-vontade para a sala de jantar. Anunciou-se no patamar o simpático Dr. Entrei pela Sibéria. que tudo pede ao esforço.Aqui está o comandante da esquadrilha Condor. Parecia mais mulher e mais graciosa depois de desterrada na serra. mas felizmente ainda é maior o número dos que escapam. .Até a data todos sem novidade. mas o que se chama um capote. Eu fiz a Grande Guerra. é o cadete . . .. são privativos desta gente gastadora.Que não foi o de Aquiles . A série de pratos. e. meio prostradas. O mais novo anda nos submarinos. entre os quais contava o caviar.. veja. ao mesmo tempo que vinha curriprimentar os convidados. . Hincker saiu-lhe ao encontro agradecido e hospitaleiro. Bati-me na defesa de Quiao-Tcheou. com Lenine no Krerrilim. meio vivas.

é uma terapêutica. A Alemanha é o primeiro e talvez o único país verdadeiramente revolucionário do mundo... Rüdesheim. a Europa. das que pingam no pão.O meu caro engenheiro não precisa. De acordo. à sua direita: .. com a reverência dum oficiante. libando com respeito.interrogou Hincker como o visse levar com toda a vénia o copo à boca e demorar o gole. Também assim é escarpado e em escaleiras... Napoleão. lembra o Douro. levantando também o seu copo e mergulhando olhos regalados na limpidez do vinho. pegando na garrafa do Reno de colo alto. filho da terra. Eu é que preciso de deitar uns anos fora. é chinfrim.O vinho do Reno é a bondade pura.surpresa inédita para a maior parte dos comensais. o vinho do Reno. e mais qualquer coisa. obra de titãs. Nestor Jácome.. dizia ele. . . Mas não.Branco e seco. original. ah. a guerra de morte entre os dois colossos. além dum regalo. absolut a dentro daquele seu flavor característico. sim. O boticário. O Dr. Hincker secundou. .O Rheingau. nem haverá no mundo um Doutor Fausto capaz de fabricá-lo a martelo? Vergissmeinnicht em sublirriação.. . O doutor tornou a levantar o copo ao alto.murmurou Jácome. senhor. . para matarmos saudades da Alemanha. Das nossas pouco se vai em resíduo. senhor doutor Torres. de tal ordem que pode dizer-se.. Hincker. Se os Alemães se batessem em nome do existente.. Der Wlein von Rhein ist immer gut. traduziu Bacelar. Não passa de abrir ao verde dos concidadãos e 120 . eu seria o primeiro a dizer aos meus filhos que desertassem.Ah! ah? Aí tem uma sentença inglesa que pela primeira vez está certa? Sim. com o fervor do discurso. Os senhores não conhecem a Alemanha que está de armas em punho a defender o direito à existência e. neste meio tempo. um aroma original. aproximando o copo dos lábios. se quero ver o mundo novo .Good Hoch keeps off the doctor. gracejando.. der Moselwein nicht schaden thut. depois dos estalos da lei. a Inglaterra sonhou com revoluções.? . não.Que tal. volvera mais animado ao tema patético: Diz o amigo Jácome que este mundo precisa virado. A França fez revoluções. com isso. os senhores fazem revoluções... meu doutor? . Paula.Bebe-se e a gente fica mais moça. proferiu depois de dar um estalido na boca: . O senhor Hincker. próprio dos xistos argilosos e margas terciárias do Rheingau. esquecera-se dos seus hóspedes. O grosso fica.. proferiu baixinho para Calabaz. veio à baila a Rússia sem fim. sabem os senhores. Torres. Beberam todos com a devida mesura o vinho raro. Não fazem mesmo ideia nenhuma. chamado a derrotar o rascãozinho da terra.. sem receio de errar que jamais houve. . diga lá se não tem o picãozinho do palhete.Delicioso para sardinhas assadas. começou por oferecer ao advogado de Lisboa: . derradeiras sarandalhas do espólio da paz.Uma gota do nosso vinho. Com semelhante iguaria. .emitiu. do sol. . Mas de tudo isso que fica senão ódio e poeira? Das nossas.. Conhece? Foi meu irmão Hans que de França nos mandou para cá uma caixa de garrafas. deixa-me rir? O que os senhores fazem não é revolução. da latitude. Países revolucionários os vossos?? Ah. inocência perfeita o do Mosela. cultivado nas encostas da Beira. o inverno.

Não houve uma D.. denotando o dedo químico de gastrónomos de moela de avestruz. uma corrida a fazer para mais perfeito. Ao hors-d'oeuvre seguiu-se a sopa de cogumelos colhidos na região. podia dizer-se.. são de culinária fidalga! . O mundo asfixiava-o. . Sancha. vegetam debaixo da terra.Da mais genuína. solitários como os monges. No dia em que conseguisse instalar a sua ordem ficaria imóvel até o fim dos tempos. porque se renova dia a dia. Pelo aspecto. por exemplo. o Eslavo. quando furam do solo. vivia em estado de ânsia. de lamber os beiços.. .Deram conta que é feita com míscaros? Pois é. e talvez porque apenas se encontram isolados. Branca. com um pouco de fantasia. sim. Paula. é revolucionária. Toletum. proferiu: . porque é dinâmica por excelência. nem às aias deixava ver a ponta do pé. um nome lindo. mesmo nada. amigo Hincker. .disse Torres. os marcos que estão à entrada das portas. tão pitoresco. temperados à meclemburguesa. Berengela. desde que a Europa era uma realidade política. o Alemão era insatisfeito. A Alemanha.tornou Paulinha. que fundouo recolhimento das emparedadas de Alenquer. lhe chamam frades. Para os lados de Malhadas há muitos. Também lhes chamam sanchas. 121 . Não duvidassem. decantam no fervedoiro que é a guerra os povos vários. mas um pouco ácida e maciça. mais prático. como imóvel tinha estado. determinar o passadiço entre estas criptogâmicas e a princesa afonsina . fechados uma moquinha... demonstre! . mais conforme. boa.Frade? . O senhor Hincker a meio já do aparte naturalista retomara o fio do discurso.Com esses nomes todos. não.Mas é preciso demonstrá-lo. Nunca estamos quietos. Todo esse imenso território jaz petrificado. uma simplificação a realizar na orgânica de tal indústria ou norma administrativa. Foi ela. Tal qual estas.?! A partir da Idade Média que vemos nós? Vemos as cidades e as nações do Ocidente agruparem-se em hansas e confederações. o Alemão deverá chamar-se homo faber perfecturus. . semelhantemente.. Têm medo da morte.A princesa viveu sempre muito recatada.Demonstre lá. o que é. Fizemos uma boa provisão deles. .deitar pólvora a pardais. Também lhes. no bem-estar do habitante e na assistência pública. sempre passos.. apurada em Roma. e outras e outras de que não reza a história. jácome interveio com a sua experiência de homem do monte: É a única espécie que os camponeses da Beira aproveitam além duma outra que nasce nos terrenos alagadiços. rainha santa de Portugal? . O Eslavo. aquela tinha muitas irmãs: Mafalda. . mais do que isso: nunca estamos satisfeitos. Além de homo faber. de resto. Estas sanchas.? . A esses fungos chamam frades.. lisonjeada como boa dona de casa.Houve e até é possível. e Brácara Augusta. mais amplo. e ainda porque lembram. Os engenheiros pediram licença para repetir. Folgaram todos com o paralogismo. Haverá sempre melhoramentos a introduzir na máquina e na fábrica.Uns que têm coleira e abertos parecem uma guarda-chuva. dão o nome de gasalhos.Esses mesmos.emitiu Jácome com intimativa. que se passa na Eslávia? Nada. e não se compreende bem que sejam assim exclusivos sendo tão párias. E é-o porque nunca se contenta com o que está e com o que tem.

ficará imóvel. Estas ervilhas julgam que as recebi do Algarve ou da Califórnia? Não senhor. para europeus viver é lutar. .lançou o farmacêutico com arreganho. numa gargalhada. estacado na sua estepe. com neves eternas. falha de todo o proporcionado entre a natureza e o espírito. . umas ervilhas tão viçosas.E daí? . isto é. porque acrescentou no tom do pregador que perora: .. Lutar para ele não pode ser mais que encontrar o equilíbrio entre a sua ânsia de justiça e o estigma da sua condição. e uma planificação da vida também sobre o ingente. O budismo.. Mas também nunca poderá ser o paraíso terreal com que o senhor sonha e os seus amigos eslavos sonham. . estão frescas como se tivessem sido colhidas na mesma da hora. religiões eternas. amigo Hincker.Lutar é mais que um meio. apenas se explica com um nateiro destes. vejam..Uma raça não quebra dum dia para o outro as matrizes em que foi moldada.murmurou Jácome entre dentes que os povos acordam de quando em quando atascados em sarrabulho? Hincker não ouviu o remoque. Por consequência.Nesse dia. Sabe como se obtém tal resultado? Empregando um pequeno aparelho que na Alemanha é trivial como aqui. digo eu. quer dizer: arrumado por Pedro? Pedro o Grande.O mundo não é nenhuma delícia. estigma com o qual se julga afrontado e é legítimo que não se conforme.Em cinco meses? . pelo contrário. Isso quebra ela! Ora no compleicional do Eslavo entra. sim. o Weck. em que o Eslavo firmar a sua ordem. O mundo de hoje é a organização mais assombrosa de prepotência. . podia conceber? . inteligente. ninguém escapa à sina com que foi gerado. dê forma à sua psique. O Moscovita.Petrificado. O dono da casa riu-se e permitiu-se dizer: . convenho. ponderem os senhores. oh. tem vivido debaixo do signo zodiacal da servitude. por agora indeterminada ululante lhe chamaria Keyserling . que de resto são coisas muito distintas. Estou persuadido que esse mundo.É verdade e. por todos os nossos filósofos. e já tem um século. ou se ouviu fez de conta que não percebeu. excessiva em tudo. que maravilharam o boticário. Lá nisso estamos de acordo.E acaba-se com ele.Os senhores foram à índia e lá ficaram. iniquidades que o cérebro dum homem perverso e inteligente. o infinito da estepe e o desmesurado. o quê? como aqui a vinagreira. . concebido para a imobilidade. Está escrito por Hegel. ou Weckglãser com sua bateria de 122 . A sina do Europeu é a luta. sim. Hincker não se dignou responder e prosseguiu: . foram apanhadas aqui no quintal vai em cinco meses. no dia. . banditismo. arrancado de premissas apenas negativistas. .Tem história? Qual! Tem menos história que a mais insignificante tribo mesopotâmica. o Eslavo regenerou o mundo. a ver passar os tempos. hem? .respondeu Hincker. Neste instante a atenção dos comensais foi chamada para a travessa de pombos guisados com ervilhas. para nós é que não serve. não? tornou Jácome com faceta seriedade. como não podia deixar de ser. o desmesurado que trasvasa às suas espaldas da velha Ásia.É com teorias assim puxavantes . um modo de ser congénito ao nosso eu em todas as demonstrações possíveis e imagináveis da plana universal. Não lhes parece? Ora.repetiu o médico intrigado. a fugir para a horta.

que se saracoteavam pela feira bica que bica a migalhinha que o pobre deixou cair do bornal ou o menino. à capucha. O bandoleiro do Badanas. uma vez mais. de cenho carregado. mas nós é que somos bárbaros. Se alguém lhe chama país bárbaro. despedia-lhes a cacetada. ou por filosofia. semeava pelo chão o seu dedal de milho.já deviam lá estar. que chegara de bicicleta e pedia urgentemente para lhe falar. Quando elas chegavam. Com ele tem-se horta e pomar em casa. Para mim a Alemanha não é um país bárbaro em virtude da posição que ocupa entre os povos sob o ponto de vista de progresso. meio de raposo. Como agora. . vem dar ao mesmo. Um deles é o Calhorra. Para Jácome o direito do silogismo era o direito de pensar livre e desassombradamente.. o vinho sonolento das catacumbas hungáricas. nem se pergunta? .Para adubar o caldinho. para não perder o benfeitor. meio de filósofo cínico: . amigos amigos. silogismos à parte. e ali ninguém lho negava. Não tardou que voltasse. 123 . Com o fim de ir buscar charutos “como só fumava o sultão AbdulHarnid” Hincker pediu vénia para sair por um momento. se aproximassem.Entendamo-nos. industriada já à maneira tudesca. levava horas e horas à espreita que as pombas. a qualquer altura do ano. O senhor Hincker dá licença que do pessoal de Vale das Donas saia uma turma.. Severo ergueu-se. E.? Ora essa. seguido do olhar apreensivo de Hincker e dos engenheiros. O farmacêutico. Vara rúbida de marmelo especada no sovaco. descuidadas. Ao passar diante da janela. palpitando caso de monta. Que o façam porque lhes está na massa do sengue. que durante os discursos de Hincker não deixara um só momento de abanar a cabeça em sinal de discordância. açoitando o ar com estridor. ao alcance do pau. vieram advertir Bacelar que estava no pátio um contramestre da mina do Vale das Donas. A criada. O próprio. deve-o a tais ou tais representantes da autoridade pelas violências que cometem ou deixam cometer. Ah. na linha da frente. vendo Hincker de ar cominatório. Andou à roda o vinho clarete do Dão. Mal dele se uma. aí vinte homens. de certa importância. ia a levar o copo à boca e estacou com ar de solenidade: . da boca. em nome do que julgam ser o direito da nação mais digna da hegemonia universal. Essa é de relevo. não acabava de estrebuchar nos abismos da algibeira. ao estilo nórdico. Estavam no capítulo das saladas que. dizia-lhe de baixo corri certo ar risonho. Hincker distribuiu os charutos raros e levantavam a primeira saúde. o seu puro sangue ariano. Há dois homens soterrados e outros feridos. mostrando-se a rua deserta. dizendo: . em socorro dos sinistrados. no largo. para os toasts. ao menos.Deu-se um desmoronamento em Santo Antão. serviu Tckay. senhor Incas? A história deste caçador furtivo era a história do mundo e das nações. Tinha amainado a disputa.frascos. são inúmeras e valem o melhor prato de resistência de qualquer outra cozinha. sempre frescos e tenrinhos. chamou-lhe a atençã o para a rua. acabava de praticar uma das suas habituais piratarias. uma revoada de pombas. que nunca falta na garrafeira dum sibarita de além-Reno. amigo Jácome@?.exclamou Hincker levantando-se.

. acompanho o capataz. nas ricas regiões da Bética.. O Dr..neto daqueles montanheses que não deixavam coalhar um só instante. que vão cinquenta.O caso era novo.? Minutos depois corriam a toda para Mouramorta com o pensamento no velho Calhorra.Não. a paz pretoriana de Roma – umas vezes sem escrúpulo nenhum.. que vá tudo! . Peço aí uma bicicleta. no pendor dos anos.. não é assim. hesitaram.Se não levam a mal. que vão vinte. aventureiro a quem.Pois que vão. vai de automóvel e vamos todos... 124 . outras preso à sua palavra como o mais lídimo Bayard. ainda nada metia medo . . Telo e jácome podem fazer o obséquio de nos acompanhar? Profissionalmente..

Com a freima exaustinada dos salvadores .IX A constituição de Silvestre Calhorra. Ninguém o julgava! Aos dois homens. tirados debaixo dos escombros depois e porfiosa labuta. era a dum cavalo. pois que gemia e queixava-se de dores agudas nas costelas. figurar de amortalhado.em menos de meia hora esteve ali botado o pessoal todo de Vale das Donas e um numeroso piquete de Muradais. o médico franzira os lábios num jeito de dúvida e recusara pronunciar-se quanto a semelhante golpe e ainda quanto às lesões internas que pudesse ter no peito. Ao introduzir a sonda. Lá foram para a terra da verdade. envolvido este em surraipa ruim de desmontar. e os santinhos ou os padres. mais dobrados para o chão. pediu à mulher que lhe passasse a caixinha de lata que ela sabia. e toca “a dar-lhe para a frente”. teria empenho em ver o grande salafrário amortalhado de penitente. rocha em punho. quando o doutor retirou. os donos da exploração. pés descalços e sem fala na procissão. ao rebusco de volfro com que pagar o enterrio. Sobre a noite. Em particular. mas que se engolfava lá muito pela terra dentro num gaveto de rocha viva. O desastre fora previsto. Verónica obedeceu e ele mandou-lhe tirar dez notas do macinho embrulhado na bula da Cruzada. mais restos dos sentidos. Nos últimos dias haviam batido num braço de filão que prometia. que vigiava à boca do poço. podem chamá-lo ao cofre. o Calhorra propunha-se obter o máximo resultado com o mínimo de dispêndio. mas de todo ignorante. na sua procissão. O Calhorra. que são os seus procuradores na terra. A entivagem era a mais precária que se pode imaginar. rolou para a escavação de mistura com o material acumulado na borda. armar-lhe um andor na festa de S. e com a ajuda dos facultativos operou o milagre. é que não houve santo nem santa que valesse. e. em despeito dos setenta anos. seu sogro apalavrado. O Aires. além de lhe oferecer um círio da sua altura.Este dinheiro é pedra de ara. recomendando que reforçassem os tapumes de suporte com astiais mais sólidos e melhor ligados uns aos outros. o Calhorra chamou os filhos e a mulher. instado pelo José dos Cambais. Ora foi no encalço de semelhante veio que se descuidaram imprudentemente das disposições de segurança que convinha adoptar. não se metesse no chafurdo. E. Para maior solenidade na promessa. e escapou. Miguel. se tinha amor ao pêlo. Safaram-no dali com largas escoriações nas tíbias. sobre ele jurou que se escapasse daquela havia de pesar-se a trigo em prol do bento S. afinal de contas. balanceara a cabeça desaprovativamente. Escape eu. além disso. Miguel. Tinha amor à vida o velho gerifalte. que era a primeira a celebrar-se na freguesia. Brás. deixando mulher e filhos que no dia seguinte se viam pelas leiras. e que a derrocada se deu. Tendo 125 . Homem de entendimento claro. e uma ferida bastante profunda na nuca causada por um penedo que se despenhara da ribanceira. impelido pelo calcadoiro que as pessoas fizeram à volta na precipitação de acudirem. foi dizendo ao lavrador que. com mister Corbet à testa . . pegando do crucifixo. não se lhe toca. S.vieram a lucrar. a emitir opinião como prático. Ficou coberto pelos entulhos até meio corpo.

Para outra coisa aquilo não valia um chavo furado.Guardaste ao menos o conto de réis para o voto? tornou-lhe ele. fugindo de agitar aquela cabaça velha. Agora dispensava tesoureiros. Ele explicou: era para semear um pinhal. Lá estava o dinheirinho. Excomungados. A raposa. e o Calhorra. repartindo a sede entre a venda e a pipinha de casa. estritamente. tratou de amochilá-lo na segura carteira de coiro. com um pauzinho a riscar no terreiro a par e passo que desfiava coisas e loisas da vida. levado bebedeira pegada. E recomeçaram. remolhada de lágrimas. ora se virava dum lado. só servia de consumição. sobressaltada com a ideia de que tivesse varrido por ali a mão dos tunantes. alegria de vê-lo são e salvo. nem um real a mais. desde o boléu.O que valeu foi estar o outro em sítio onde os lobatos não sonham disse em voz atrida para a mulher.Se calhar. em seu horror. para mais que não para menos? . morria se não jogava aos passantes a sua chalaça. situada do lado de lá do rio. desafiando uns. em poucos anos punham-se mais altas que uma aguilhada. disse à criatura: ó Rosa. fora da vista. podiam recomeçar quando lhes apetecesse. ou bem o pesar de reconhecer a ruindade dos três mariolas juntamente com a perspectiva de se ver por portas? . Ali. ainda para mais salgadinho como andava na Fazenda? Por isso ela. se os gados dessem licença. porque lhe doía a ilharga. . que não era destituída de siso e tinha alguma coisa de seu. que veio ao conhecimento terem os filhos. mas quem se tentava por semelhante chaparral. ora se virava doutro... o tio Silvestre sonhou por lá com alguma mina de volfro? O Calhorra ergueu as espáduas. E corno o facto lhe causasse estranheza mandou Verónica buscar a caixinha em que lançava as economias. e em seu foro a primeira dívida a pagar seria aos santos.. quanto queres pela barrosela da Laja dos Lobos? Sempre ta compro.. Um dia que a Rosa Pedralva se quedou acocorada ao lado dele. considerava interdito à cobiça o campo homicida. “para não perder tudo” ... Correu Verónica ao esconderijo.Andamos a pagar a culpa de os ter deitado ao mundo. Aquela leira. trancada por grossíssimo elástico. certa espécie rara de alegria que por ser mais funda atravessa todas as camadas sedimentares da alma e ala-se à luz. como na nau Catrineta? A mulher espremeu uma lágrima. O Calhorra era de bom cerne e a convalescença foi avançando mercê dos caldinhos gordos e da graça de Deus. é verdade. ficou de pé atrás ao ouvir tal proposta.. não viesse por lá a borra à superfície. O Calhorra ao sétimo dia já se arrastava até à quintã a espreitar o sol. precata-te que te comem sem te tirar à sorte. Rosa falara algumas vezes em vendê-la. coisa dos seus cem mil réis. andava falto de estacas para os feijões. Se eu for antes de ti. Foi por este canal. Mas ela não desandava lá da sua: . tinham-lhe alimpado com quanto arame lá havia. fungando: 126 . E como nada lhe passasse despercebido à pupila abelhuda. divino Senhor. nem um real a menos. ficando o Calhorra sem saber o que pretendia significar tal demonstração: alegria. Deitado na capucha. acalentado por outros. os galos e as cabras de Pedrões não deixavam ir um pé de milho avante.recebido a mina limpa como dantes. já que a tei de todo o comércio é a exactidão.. que não valem a baba dum caracol.alegaram eles em guisa de explicação ao público que. tendo-o contado.

dia tão abençoado que caiu chuva no nabal e fez sol no terreiro. Era uma das grandes festas da freguesia. invocando a sua enfermidade. dando nome à terra e obrigando ao forrobodó. Brás. já lá andavam a esfossar.. Não havia escritura. A Pedralva devia-lhe obrigações. das almas do Crasto. não achou nada de melhor que botar-se fora da sociedade.. fica-me lá muito longe para a guardar. coma-o o Diabo”. passou por ali o alamão. raciocinando talvez que “bocado que eu não hei-de comer. encostado à bengala de rangífer. jurou que não tinha outro intuito que não fosse semear penisco. Chegou o dia de S. fossem lá agarrar-lhe? Avisou deste desígnio os parceiros. a osga com. mais não disse. Brás. de modo a que o trabalho pudesse correr com segurança e o indispensável despacho. Rosa. a instigação do Antoninho Fráguas. a quem em Portugal nada escapa. . do joguinho pessoal. Quanto aos impropérios. o Calhorra foi ver em que altura ia a trafega. restituo-te a leira. o carro do Calhorra começou acarretar a parede. bonitas contas deitou à consciência enquanto esteve a bater a bota!? . No dia seguinte. que se permitiram abocanhá-lo em sua honra. Sendo o Cambais o mais abonado. tinham voltado à mina. mas dito dito. principalmente a escorar os cortes.Minha rica. em cuja capela acabava por engrossar com os elementos mais numerosos e capitais. guardava-lhes o troco. anjinbos e 127 . caiulhe o peso em cima. nem o azeite para a lâmpada do Santí ssimo! Se lá houvesse volfro. do avô... para que se soubesse. Fazendo um balanço do negócio e pesando bem os prós e contras.. pedra por pedra. olha! E pela alma do pai. Estou um cepo. deu por paus e por pedras. partindo de Malhadas com espavento relativo. Quando esta acabou. quando o soube. Bem era. mas semelhantes artificios oneravam a obra de 3/4 dos lucros obtidos. Um engenheiro de Muradais veio de vistoria à exploração e ensinou-lhes o pe-a-pá Santa justa. e embora “com pedra no sapato”. E não houve razões que o levassem a mudar de parecer. O Silvestre Calhorra.. e a depositá-la no quinteiro que possuía à Boa Vista. É para me entreter. Rosa! Coalhadas de volfro. a advertir léguas em redondo da rija funçanata. Olha.Olha.. ali outra.. que o filão estava a render. e marchava para S. com seu eixo em S. Brás da Nave. Não vale a pena mexermos na matriz. que vou largar do precipício do Santo Antão. que ficara a semelhante cemitério. Toda a noite os ecos repercutiram aos morteiros e foguetes de três respostas. as despesas que tivera com médico e boticário. da Laja dos Lobos. Com efeito. inibido. confeccionados à compita pelo Chedas de Caria e a Rosa de Lamego. anjinhos e amortalhados.O que vossemecê quis foram as pedras que estão coalhadas de volfro. com tanta surpresa dos compadres que a bocarra lhes ia de orelha a orelha e os olhos pareciam de olharapos. também em andores. pediu pelo migalho o dobro do valor em que andava orçado: dezassete notas. fazia romaria por Mouramorta. lhe contou o sinal. Lá se ia o pé-de-meia e a junta de vacas sobressalentes. Castigou-a e logo ali. Quebrou com o José Francisco e o pai. O número por excelência era a procissão que. não. pois lá assistia o patrono. chamou a Pedralva e disse-lhe: . .Enganas-te. Dois dias depois. onde incorporava a quota que cabia à sede da paróquia em andores. Têm aqui uma pinta. para mais. Diabos o levem.

E que lá na sua queria dizer: a brincadeira dava-ta eu.Não vê que são os anos. O mundo. O Calhorra concebera um andor ao Arcanjo S. E ali marralharam os dois como se se tratasse de comprar os atafais para a besta num albardeiro da feira. . isto é. mas não havia outro remédio senão arrotar. já que negócios são negócios. pois embatucou e foi com respeito que.rosnou de maus fígados. o andor do tio Silvestre põe o ramo? Só se acomodou quando viu o andor. de fita na unha. Pois que as celestes potestades não perdiam nada se comesse armador e cirieiro como fazia com os volframistas. que remédio.Caramba. Mas é a última vez! . e que o cirieiro compreendeu. que foi preciso o homem meter-lhe um bote à barriga para o entesar: .Não sou. ainda mais comerciantes de pé fresco. . galhardo e alto. . nunca vista. embora debalde. nunca se julgara tão alt& Do que ele rebaixava para o que era em seu ser iam nada menos de dez centímetros.Levante a grimpa. 128 . quando neste passo prometi até ir descalço e sem fala.amortalhados. e o lojista pegou do metro para lhe tirar a medida. medir mais dois palmos de alto que o de S. a fazê-lo. Eram uns tantos mil réis que do samarro lhe saíam.Nem a torre dos Clérigos? . Sebastião. andava com os olhos abertos. Entre armador e Calhorra foi uma matação até chegarem a acordo. desembolsando à justa. Pagar as dívidas aos santos. Quando aquilo viu. Prometera um círio da sua altura. . encolheu-se de tal modo. . nem sonhada. mas nada de alargar os cordões à bolsa. orago da freguesia. Pagou quanto o cirieiro quis.Qual anos nem qual carapuço! Olhe lá.. punha no lance. Miguel teve a consolação de notar que o arcanjo ficava ao pé dela como marujo ao pé dum mastro. fazê-lo segundo as regras. o Calhorra exigia os tafetás mais garridos que trazia nos fardos e uma arquitectura espampanante em estilo só dele. com efeito. quanta ronha podia. não houve dúvida. que podiam tomá-lo de ponta.Farto de me deixar roubar ando eu. tão alto que fosse preciso esgalhar as árvores pelos caminhos para romper. e todos os seus artifícios redundavam em farelório como foguetes de lágrimas. Um metro e setenta e oito. Queria que botassem olhos pasmados ao portento e se dissesse: .Não se abespinhe por tão pouco! Estou a brincar proferiu o comerciante. sorrindo com afabilidade. dobrando-se ao mesmo tempo. O mesmo unhas-de-fome se mostrou o Calhorra com o cirieiro.. mas se fosse que tinha isso? . vossemecê não será retroseiro? . mas quando encostou a grande tocha ao bento lado de S. produto do seu rico dinheiro. patrãozinho. cáspite.Tinha que é nessas profissões que se aprendem certas manhas que nós cá sabemos. lhe mostrou quanto media. já daqui não queria ser aviado. quanto mais descer a ladrão com quem nos dá tud& Se não fosse por ser taxado de soberba. Além de regatearem quanto ao preço. seu homem. O Calhorra abanou repetidamente a cabeça sem soltar bus. mas. se nã~o fosse a esquadra do Governo Civilficar aqui ao pé. tendo resultado uma bisarma tão sumptuosa que era preciso pegarem-lhe oito homens. Miguel.dizia o Urra que servira em artilheiros da Serra do Pilar.

ficavam à conta das esmolas angariadas pelos mordomos de porta em porta na roda do ano. Brás. os anjinhos não tiravam os olhos deles. advogada nos achaques da vista. O Calhorra assentiu. Imensos e deformados pelo reumatismo. Que me diz V. Depois do sermão. As raparigas mandavam fazer um a Santa Luzia. acolitado pelos abades de Pedrões e de Rabaçais. o de S. O desfraldar dos estandartes teve que se lhe diga. se fosse como o dos mais anos. Foi assim que se apresentou em S. depois os andores. guião vermelho de 129 . Era o instante solene. bem embora lhe soubesse a vinte escudos que era quanto escorria do seu bolso para o bolso do celebrante. com joanetes altos e rugosos. e por ali fora. foi um rufo. Mande rezar uma missa ao S. ainda a procissão estava a sair de Mouramorta. corrente de jarra ao peito. Havia ali outros penitentes com suas aderecistas.Ide lá pôr alfinetes a casa do Catano! Isto é mortalha ou samarra dalgum oiriço-cacheiro?? O pior do pior foi quando teve de tirar os butes e ficar com os pés a descoberto. À força de pontos e de alfinetes conseguiram enfiar-lha. para não parecer mal. Miguel e está quite. gravata.Ó meninos.? Se não vou. que lembravam as incrustações de certos moluscos na rocha. Perante tal abusão. O Calhorra não quis nada com o fedelho e foi procurar o pároco verdadeiro: . Como era cedo. e muitas mãos se estenderam solicitamente a ajudar a vestir o senhor presidente da junta de Freguesia.a das Sete Espadas. música e canto. sempre o tio Silvestre no rebanho dos vultos brancos a dar nas vistas como o rei David. advogado nas quebraduras. e foi preciso deitar abaixo a bainha. esperou na venda do Adolfo que batesse a hora. R. destes em lugar de honra os oferecidos pelos devotos de S. e a cruz de latão com o Cristo de saiote a Manfurada. Além de curta ficava-lhe apertada. Rompiam primeiro os guiões. que era em panocru.a S. Mais dois. O José Francisco era farfante e encarregou-se de levar o guião de Pedrões. andores para outra. fato de saragoça preta. estava-lhe curta. e os rapazes outro a Santo Apolinário.Não senhor. queda o voto por cumprir? . quanto a acompanhar a procissão a seu destino. os mordomos deram voz para o saimento da procissão. mas as pernas não me deixam fazer a romaria por Mouramorta.Prometi figurar na procissão de amortalhado e sem fala. um sermão que há vinte anos era único e invariável e tinha o mérito de arrancar um chuveiro de lágrimas às mesmas caras e a outras que se dispunham a suceder-lhes em tal papel. Era gente expedita. nunca vistes as patas de vosso pai? Quando a procissão acedeu à capela. Brás e o de N. que aprendia para padre e já andava de saias. teve de os repreender: . sôfrego de ouvir a missa a instrumental e o sermão que. e a bateria de calos monstros verdadeiras nozelhas de carvalho. apartaram-se anjinhos e penitentes para uma banda. Oficiava o reverendo Tadeu. também à conta do pároco. A veste. o que era um bico-de-obra. e foi de cara dura e voz que gelou o sorriso nos lábios dos circunstantes que disparou: . e a mortalha no alforge. alguns pedidos às igrejas vizinhas. Também era costume pedir a cruz de guizeiras a Rabaçais. Mas por mais de uma vez o penitente se queixou que o picavam. e comprimiu-se o populacho contra as quatro paredes.O Simão Tadeu passara a sobrepeliz ao Custodinho da Micas. Quando o foguetão estralejou à entrada do povo a comandar: a postos! dirigiu-se à sacristia da capela para em calma e à vontade envergar a mortalha. na égua rabona com a Verónica à frente. Brás. faria chorar as pedras.

Quem leva o guião sou eu. um dos mordomos proferiu: . Obstinava-se José Francisco. no momento mesmo em que começavam. Com dó dele. Ora o José Francisco. . caminhou a ocupar o seu posto na procissão. atrás do Urra. puído do tempo e fanado de suas lhamas e borlas. largou-lhe o estandarte com gesto desdenhoso. O José Francisco ia a arriar mas o Calhorra. O Aires deu o chapéu a guardar. remeteu-o às alturas. voto de um brasileiro à Virgem Santa Quitéria na iminência de se ver papado por um tubarão. ao passo que a raiva e a amargura que lhe iam na alma lho enegreciam como fuligem. que requeria pulso rijo e quem tivesse comido já umas certas rasas de sal. mas embora firmasse na cinta o conto da haste e com o desespero os dedos se lhe tornassem garra.. Tinha centenas de olhos em cima dele. senhor Silvestre.Deixa.. Logo após avançava a chusma dos anjos. com ele tombado. um momento se encrespou. ou davam tal açoite contra a vara. cuja carne banqueteara fidalgos e senhores eclesiásticos que já não eram deste mundo. Rolavam-lhe pelo rosto grossas bagas de suor.Está uma grande ventaneira. raios. e deixavam-se conduzir pela mão das matronas que os tinham caracterizado. moço. em duas alas.. voltavam-se enfunando o pano. que se tinha pelo mais valente. que ele via-se em sérios apuros para não o deixar abater sobre o gentio que recuava assustado a toda a roda. e.. A grande asa rubra pareceu sentir o pulso forte. sem dizer palavra. flutuou a todo o pano com placidez e galhardia. Dás licença?. ainda há rapazes? exclamou o Augusto Alres adiantando-se. às costas asas desplumadas de galinhas brancas e de patos. opressos sob o peso dos grilhões e escravas. a enrolar o pano contra a vara para o recolher à igreja. . com envergadura tal que cobria meio adro. fosse ele no meu tempo e vocês haviam de ver quantos apareciam para levar o guião? Acabou-se a rapaziada. Seguiu-se-lhe o guião verde. Um boizana assim avanta com os telhados para os quintos quanto mais com um pendão'. não se conteve que não bufasse: . que estava à entrada da galilé com o rancho. deixa.Ainda há rapazes. mal passou a galilé. Seguia-se-lhe o Manuel Calhorra que tinha corpanzil de boi e que também se avinha menos mal com o branco de Mouramorta. com o seu encabado na faixa. Vendo a sua atrapalhação. Logo por fatalidade soprava ventinho rijo e repontão que desdobrava o pano melhor que asas de gaivota. o pano desfraldado revestia-se de alento superior ao seu. imprimindo-lhe um alancão como se desprendesse uma ave. não obstante o grande peso das franjas de oiro. depois de o soerguer arqueou levemente o tronco para melhor lhe dar balanço e. Levava-o Lázaro Fandinga e não era maravilha que arcasse com ele. Os bicos triangulares. O primeiro a romper fora o Quim da Urra e. tomado de furor. refartos de 130 . ergueu o mordomo o braço: .vara alta que nem um choupo. O Aires ergueu ainda mais alto e. com ele trepidante e majestoso. não há braço que aguente.. despregando-se. como se tal impotencia constituísse uma afronta para o seu brio de penitente. Depois. sacudido pelo bater impetuoso da grande asa vermelha. vestiu a opa. lá ia direito. O José Francisco. bem embora lhe exigisse mais esforço do que andar agarrado à marra. O terceiro era o tal pendão de Pedrões. confiar-se. O melhor é recolher os guiões. Sem pressas nem vagares. e deitou as mãos ao estandarte.. de ranho caído. desatou aos bordos.Ah.

assentes desde longe. e o Calhorra. quando o saricoté feria lume nas calçadas de Mouramorta e de S. Em virtude de presunções tão opostas. de que se compõe o balho. Mas também não era só uma pessoa nem duas a protestar: . o mesmo era que dissesse: . as cruzes de prata e de latão refulgiam porum sol que teve a bondade de se associar à festividade. na compra e venda de gado. Aos domingos não tinha outro poiso. Contra ele versejavam o José 131 . A Teodora não pode ver o filho do Antoninho nem pintado. De volteio em volteio acabaram os festeiros por estacar no largo da capela e armar a chula. Assim. A música à sua espalda fungava um pase-calle estrondoso. Quando ao entardecer a gentiaga dispersou. as duas alas. Brás. frequentando-lhe a casa e acompanhando-o por felrãs e alcriquetes. Em verdade. avançavam com segura cadência. com o correntio de relações que se estabeleceu entre José Francisco e José dos Cambais. se o quisessem achar. punha maior fanfúrria e era mais próprio dum dia de grande borga.lindezas. Caprichou o José Francisco em desertar da sua terra e vir alegrar Malhadas com a concertina. além de Malhadas. bem como de Mouramorta. Nos terreiros de Malhadas. aflautada.O José Francisco deita a alma com vergonha. nem por isso a festa teve remate. Raios o pelem. ferrinhos e viola. através das ruas varridas e com a gente ajoelhada pelos penedinhos. senão ensinava-te o respeito? Silvestre Calhorra apoiava-se à bengala de castão de rangifer e. Com harmónica ou sem ela. Com tal esparrame. esbagulhava-se em lágrimas. O mordomo que estivera na pendência dos estandartes chegou-se neste entrementes ao Calhorra. já que não fora por querer. Batiam ali calcanhar. Brás. O facto prestou-se a que engrossassem os zunzuns que há muito andavam no ar. para maior cautela. mandara a mulher ir à sua ilharga. Boquejava-se: .Falais ao toledo. Deus que é pai lhe perdoaria. O Joaquim da Urra tinha voz sã. mas. a ninguém causou espanto ver o José Francisco em Malhadas. comeretes e beberetes por três dias e três noites. chegavam do cimo ao fundo do terreiro.O que te vale é eu ir aqui a pagar o grande favor que devo ao S. Desta feita a concertina cedeu a vez ao bombo. no caminho para S. que não se importa de quebrar o voto para atirar assim o homem ao desespero! Só então o Calhorra se lembrou que infringira a promessa. os andores. tio Silvestre. daquele jeito. o mais alto dos amortalhados.Quem há-de acabar por levar a borrega é o filho do Antoninho. de romaria aos quatro grandes cruzeiros que flanqueavam o lugar de S. Miguel. procurassem-no ali. resplandecentes como tronos. Limitou-se a acenar com a bengala. inflamou-se o despique entre os cantadores. Brás. porque aí a solenidade prolongava-se em balhos. é o pingo da rocha que cai para o chão enquanto o padre reza o responso. armou-se o danço. E lá ia. bamboleando-se nos ombros dos mocetões. e disse-lhe: . aquele fora-se insinuando na vida do lavrador. e em matéria de sainete poucos lhe levavam a melhor. que o descante. Brás. muito sensibilizado com tanta grandeza e tal preito divino. a passo de boi. sócios da mesma empresa. tornando cada poviléu para seus cabeços. aquelas terras que lhe ficavam aquém. sem falar já de S. Tão certo o zorro ficar a fazer cruzes na boca como eu chamar-me Lourenço e ser de Braga. Bem se derrete ele. que era dança para todos.

Continuava o danço no largo muito alvoriçado. Requintava o balho em evoluções. Queria valsar com o antigo sócio. Os pares agora subiam e desciam. A moça escusou-se. dava-lhe para o melodrama. vira-vi. O José Francisco entretanto garganteou: Se à sua porta corre água. e o José Francisco. Da atitude dos três ficaram todas as comadres murmurando. até então por algum cuidado da última hora. embora o seu par a requeresse com insistência. empurravam-na. foi convidar Teodora para sua dama.. entrança e destrança. Entretanto andava a caneca à roda e o Calhorra. em arco por cima de cada ala. menina. fez-se mais branco que a camisa gomada que trazia. Quanto a ela. Vendo Teodora a dançar com o filho do Antoninho. que ninguém lhe viu demudar cor nem jeito. A rapariga cruzou o xaile do ombro para a cinta e foi.. mas o reumatismo falseava-lhe os movimentos. Pra quem pêro está guardado. rebolando a anca e castanholando com os dedos livres. dizendo todo chorão: . Azango. E ao refrão vira. assim que chegou a primeira suspensão. damas com cavalheiros. Consigo vou ter sem medo. Era uma das sortes da chula enquanto o par do alto e o par do fundo revoluteavam enlaçados. mas não disse palavra. pela vida fora. Mesmo assim. foi no seu íntimo. distraído. as mangas intermináveis do balho. O vinho. as topetadas que dera. rompeu o 132 . mas depois de o ouvirem pingueiro a contar as cacetadas que tinha à sua conta.Vai. os cachações que se vira obrigado a aplicar a este e àquele. Não ta merece. surdas outras quando adjudicadas de noite à porta dos serões. Mas as outras raparigas. Quem não deve não teme Nem se põe a cortar prego. se encordoou. Mas andas muito enganado. diz o outro. que mal tem!? O Zé dos Cambais percebeu e muito trôpego. tem-te não caias. julgou-se também no direito de tomar. acudiu. sobe e desce. até endireitar carreira. Punha-se então uma madalena arrependida e todo se desfazia em lamúrias pelo tempo que perdera. das raras vezes que lhe subia ao capitel. o rego. é que vinham ao fundamento da boa peseta que ele era. além de dar licença aos sarrafaçais dos filhos para se emborracharem a última vez. a bailar ficou. E logo o Quim da Urra despedia com requebro malicioso: Não corre água nem vinho. mão na mão. E novamente o Quim lançou à zanguizarra: O que tu querias sei eu.Não faças essa desfeita ao homem. de companhia com o José dos Cambais. um honrado pifão. Mas. apareceu à boca do adro o Augusto Aires. Que por andar ameaçado. os pares davam a volta e subiam tornejando com os demais pares.Francisco e o Luís Ougado. Vai o pêro. mas faltava-lhes veia e ralé para competir com o cantador de fama. a fugir ao desafio em que era de toda a evidência ficar desbaratado ou para desmentir o subentendido que pudesse transparecer da quadra do Urra. rodopiavam numa perna só e ele chorava. Menina. Andava a bailar. já toda a gente sabia que o tio Silvestre não era para cócegas. vira-vi. à má cara umas. cavalheiros com damas. dando-lhe com o cotovelo: . mais amalandrados do que é legítimo sofrer o cristão. meteu-se para o meio das outras e. não arredou da negativa. o home é cego.

obrigadinho! . o Calhorra. meu homem.Sabes a minha pena. Agradado. nem sequer atrapalhou o bailado. um tanto exalçado pela laracha do homem. . em sua importância sentindo-se talvez afrontado pela presença do bebedola. Pronunciadas tais palavras com certa sequidão despediu rua abaixo mais o rapaz. . Como a pausa se dilatasse.disse ele no tom sentido. que assoberbava durante minutos a povoação. deu em bem. O moço trazia Teodora dentro do peito e foi procurá-la.Sentes-te ameaçado? -. para esconder o pesadume. sabes? É que não tenha uma filha que ta dava com os dois vinténs que guardo num buraco. ao só cio da vigairada.Razão. mas agradecia como se tivesse bebido.Sinto e não sinto. .. Uma pessoa disse-me: vou-o jurar.Antoninho de automóvel. . com o fim de afogar duma vez para sempre a sua paixão.e batia no peito. . . a velha entretinha-se com a ceia. Fica-te com esta e podes dizê-lo à lambisgóia do Zé dos Cambais.? .repetia o Luís Ougado na cegarrega obtusa de borracho.Devo acreditar que têm razão. ela picou: ..Teodora . ou. ainda na praça tiniam os ferrinhos e zurrava o zabumba. O Luís Ougado apartou-se cabisbaixo. Augusto. quem? . Rosna-se para aí que te viraste para o filho do Antoninho Fráguas.. Brás.. 133 . .. de ar torvo e sem erguer os olhos. A nuvem de poeira e de balidos.proferiu ela um pouco no seu modo arisco. Mas deixem lá berregar o paspalhão do Urra.. embora de pé menos lépido do que tinham vindo.E depois? . que parecia peado.. ou pô-la a salvo de temporais. a abanar a cabeça a um vago inimigo. que parecia meio pingueiro. Ao fundo do patim chamou pela senhora Verónica que viesse tomar conta do cativo. desde S. Entre elas Teodora.Ao pé de mim não há azar. Ao entrarem os rebanhos nos currais. começaram a despedir umas após outras. não se fala de pecados velhos. se não com pesar de interromper o plantão que fizera todo o santo dia. O pai acomodava as vacas. quase titubeante. Ou.Está bem. O filho despegou da zanguizarra. a escolher caminho. desculpou-se Fráguas com não beber fora das refeições.perguntou o Antoninho fitando o filho. para o acompanhar a casa. O Augusto Aires deu o braço ao Calhorra.Não há-de ser preciso.significou-lhe o Fráguas. . de xaile descaído para a cinta. depois de jogar ao ar o barrete de pele de coelho: . aclui não se corta prego? . Mas as mocinhas ramboieiras. Falava com dificuldade. de caneca em punho. ouviram-lhe que dizia: Este moço vem connosco.As bocas do mundo. dize lá. Como ao lado deles marchasse o Luís Ougado..Onde ele cair caio eu . o velho disse-lhe. veio para ele. puderam ficar à vontade. Tivemos ambos um peguilho.temos de falar com o coração nas mãos. porquê? É um amigo às direitas. As danças prosseguiram até a noite remontar dos vales para as aldeias e os picotos dos montes. de quem joga tudo na vaza . esquecendo-se que estavam de relações quebradas. Afidalgado. Aparece.entoou o Ougado. Onde ele cair caio eu . mais zambro do que nunca.

disse ela em voz áspera. é verdade.? Não me vais dizer que trago cataratas nos olhos ou que andavas forçada. . Mais do que isso.. que ta não corto..E que palavra é essa.Pois andava e andava mesmo? Não acreditas? Podes acreditar. que a cabeça não me governa bem. em que comungava tudo à volta. e numa voz em que latejava não sabia se amor se ira pronunciou: . . O céu e a terra revestiam novo aspecto para o Aires. de olhos em terra.. hesitante em ler-lhe nos olhos aquilo que tanto buscava. moldava-se no seu peito.Mauzão! 134 . Para onde for um. . Ele e teu pai são como cabeçalho e chavelhão. como se ditasse uma ordem a quem fosse mau cumpridor.. ouves? Eu te digo o que já não devia ser novo para ti: tua ou de mais ninguém. o sujeitinho agora não sal da tua beira. moldava-se branda como a cera. porque não hás-de ir? Meu pai teve ventos da minha má vontade e veio-me ralhar. grande pausa. Que homem és tu para guardar memória de coisas que bolem com a vida toda duma pessoa.Dá cá.Ora essa. Pegou-lhe da mão.Já te disse e torno-te a repetir que não tenho nada com o que os outros pensam. aquela espécie de ar fresco que não vem apenas da atmosfera e embebeda como o melhor vinho.Pois sim. Vês.. Teimou.. Teodora.proferiu ela num trejeito que transitava repentinamente do sério para o jocoso e regressava logo ao tom primeiro. . Mesmo assim porfiou: .. Tenho com a minha palavra e o meu querer e basta... estreitou-a contra a apojadura das pomas.Dá cá a tua mão.. pô-la em cima dos seios sem aquele pudor com que as raparigas fogem ao toque atrevido dos rapazes. Depois. Teodora. que tanto podia exprimir: sim. O que não se compreende é a aceitação que tu lhe dás.. rija. .Ele tornou. viver e sofrer. Intercorreu uma pausa. . se não. quase tão pétrea como a massa da masseira a ponto de levedar.replicou ela com sequidão. disselhe que não.E tu que julgas? Soltava as palavras no seu jeito despachado e tom escarnento. ela murmurou.. paciência.. As raparigas em volta: vai. Eu não o chamei. mas para ti não deve ser novidade o que corre a esse respeito. . não o bispei agarrado a ti a dançar. Entrava-lhe nos pulmões ar fresco. que não estou bem lembrado. vai outro.Ouves bater o coração.. conhecendo-lhe o génio: Não julgo nada. Aí tens porque me viste a dançar com semelhante meijengro. Suponhamos que semelhante compadrio é devido ao negócio. Moldava-se. meia sorrindo: . suponhamos.Dize-ma. Era uma razão para te negares. Foi-me cometer para o baile. Se é o que eu suponho. . E volveu: .Assim és esquecido?? . Perdido e achado é em vossa casa. Meteram-mo à cara. Mais uma razão para definirem suas vidas.Não lhe dou aceitação nenhuma .? O Aires quedou um instante em suspensão.. E tartamudo balbuciou: . Augusto apertou-a contra si e ela deixou-se apertar. a sua tortura era atroz... . imóvel.Torna-me a dizer essa palavra.. nem disse: deixa-me? Quando voltaram à terra.. como: não tem pés nem cabeça. tudo tem fim. Torna-ma a dizer. meta sisuda. enlevo que não espanto. abençoada seja a luz que nos alumia. Olhava para ela e como a visse calada..

irradiante. Eras a minha vida. as paredes que alojavam a sua Teodora.. notou com estranheza que no portal carreiro um dos batentes estava escancarado. a mãe. com os cães enrodilhados nos ninhos. E com os seus botões considerou que o Cambais. pé ante pé e reprimindo o fôlego subiu o patim que conduzia à casa propriamente dita. À entrada do povo que. e as giestas acocoradas nas rampas. O sol. Teodora. E afoito. ruminando a grande felicidade. O escuro adensara-se acrescido dos bulcões que o vento tocava do norte e que. sim. deteve-se um ápice. Teodora. antes de se ir deitar. mesmo na ribeira. e bendita sejas! Por mais tombos que dê. sem noção do itinerário. o senhor Hincker e a menina erguiam-se-lhe diante tal os arnieiros nas margens do rio. uma chamazinha trémula. com as ondulações caprichosas da casaria lembrava um barrocal. saber que ela lá estava a dormir. tendo-lhe acudido ao espírito que a mãe podia estar em cuidados com a sua ausência. necessária a sua quietação. entrou na quintã. 135 . como no concurso harmonioso das leis da vida uma vez pode acontecer. como se por cima da terra o sustentassem asas. ainda sob os fumos da pagodeira. o Calhorra. com a breca. seguro do mundo. as pedras o juravam com o seu sossego. por mais trabalhos que passe. tinha a noção de que marchava. mil penedos de cima do peito. o vagido do menino que logo esmorece sufocado contra o bico do peito. anunciava: vigia. acabaram por se entornar na terra. No patamar afitou a orelha. as comas dos pinheiros novos em levitação. Haviam-se calado há muito as vozes que quase adormecem a rezar sobre o açafate e. O mocho piou e as notas agoirentas pareceram-lhe alegres parabéns. se esquecera à última da hora de pôr trancas às portas. fustigado pelas rabanadas glaciais e farto de tropeçar nos calhaus. Cada vez mais apressado. era a noite inviolada e profunda. em boa paz e segurança. Tanto dentro como fora nada entreviu de suspeito. E pôs-se a arrepiar caminho. os olhos dela e os seus numa só luz.. Para gente tão meticulosa o facto era singular. Uma vez diante da moradia do Cambais. Para tirar a prova real. Eram duas almas numa só alma.. inebriado de amor. Uma névoa leitosa de amanhecer recobria tudo nos horizontes da sua imaginação. entrava já na sua rua. Foi-se dali. Na casa do guarda. Um ventinho assobiador vinha da serra e tão-pouco dava conta dele. que não se via a linha dos troncos. Onde ele estava. Não se ouvia nada de nada. rolando no céu baixo. Dois minutos concedem-se ao homem que vai a enforcar quanto mais ao coração alvoroçado? E abandonou-se à vontade pueril de rever. nunca és recompensada da prova de confiança que me deste. trazido pela pancada. Teodora confundia-se consigo.. Passou à beira da mina do Vale das Donas com os aterros encavalitados a trouxe-mouxe e os tejadilhos de fibrocimento mal sobrenadando no imóvel e imenso mar da escuridão. perscrutanto à direita e à esquerda..?! Mesmo.. nã o. Respiro. não havia de andar sobre brasas?? Mas perdoa.. soçobrado em silê ncio. mas sem fazer ruído. leve. Foi andando a passo cada vez mais largo. Que ressaibo o da sua boca? Que fluidez no seu sangue? Leve. Era noite e não se apercebera ainda bem da escuridão. Os pés o guiavam certo e direito como se levasse rumo.Tiraste-me. deixou-se ir ao acaso pelos caminhos fora. se dormia. quando se sentiu levado por uma irreprimível veneta a torcer caminho pelo domicílio do José dos Cambais. Agora. total: sublimação do humano. duas notas do chocalhinho tangido pelo carneiro ao coçar o piolho.

Sorrindo contrafeito. coitado do homem! Embarrilaram-no uma vez. até se traduzir num chapejar seguido.?.Não é nada. não parece. Varrasco?” E a infame dúvida de há pouco voltou a bater-lhe na cabeça e ele a recalcá-la. quase fulgurante. mas essa repelia-a como iníqua e absurda.. E outra vez se perfilou contra a ombreira. portanto. Agora. Voltar para quê? E de ímpeto. a desenhar-se. assestados com fixidez hipnótica sobre o noitibó. a prevista forma humana entremostrou-se projectada contra a palha branca que lastrava a quintã. disse para a mãe: . meu filho. “Alguém que precisa duma enxada e vem por ela onde sabe que não faltam. Quem era não estava ali por bom. sossegue. “Ladrão. mas não lhe fazem segunda. fui até o Vale das Donas. E ao desenvolver-se em altura a arredondar-se de linhas. virava a esquina e. quem era devia fazer a sua socresta.” Mas o vulto tornou a crescer na penumbra.. uma sombra enovelada delatou-se pelo seu chumaço de negror no vão da porta e aí fez alto. descalço ou de alpargatas.. que te fizeram. Quer dizer. Aquilo é como um 136 . pois se ouvia o sonido da ferramenta e de paus ou tábuas entrechocando-se. mas semelhante a bicho que anda à caça. Uma inalterável e peganhosa modorra de inverno recobria a aldeia e a terra toda. Bateu à porta com mão nervosa e insistente. machadinha em punho.?? Que te fizeram que não vens em ti.. e o Aires deitou a mã o à machadinha que entrevira a um canto. atravessou os umbrais. Tinham-me avisado que certos ratoneiros que para aí há andavam com tenções de dar um assalto ao filão e quis ver se o guarda dormia ou estava no seu posto. que o Cambais tinha de reserva como todos os lavradores. Olhe. pela estatura meã e certo franzino do tronco. A mãe veio abrir e vendoo transtornado. um instante perplexa ou cavidosa. a ofegar. ainda mais intrigado do que inquieto: “Vem para roubar?” Uma segunda interrogação brotara no seu espírito. pareceulhe mais o Ougado. O rumor pouco a pouco foi-se acentuando. Talvez voltasse. Soprou ao desafogo.. fosse reflexo dalgum dos seus movimentos. mal teve tempo de se dizer. foi-lhe empós. definindo. como se viesse furtado a perseguição. Vendo-a embrenhar-se na escuridão para o lado das pocilgas. O Aires quedou um momento interdito. contra o mainel. Foi como se lhe tivessem cravado um punhal no peito. Foi instantâneo. escoava-se na noite sem ruído nem rasto. afirmando-se melhor. destes estadulhos da carreta descascados e mais altos que um homem. Lá estava. não é nada comigo.salvo o vento nos pinhais do Oiteiro Alto e a toada dum fio de água a despenhar-se do talude. para os fundos da quintã. Mas.. parado como se estivesse novamente irresoluto ou à espera. fosse ilusão dos seus olhos. Não lhe dissera Teodora: “Tua ou de mais ninguém”? Mais do que isso: não lho demonstrara? De súbito. não destituído porém de certo recato. afigurou-se-lhe reconhecer o José Francisco. homem sem dúvida. Depois. Na breve pausa que se seguiu ao acto de decisão: vou-me embora? figurou-se-lhe ouvir na rua um rumor imperceptível. e foi quanto bastou para o petrificar de novo na imobilidade. Breve. disse-lhe a tremer toda: . e até pelo pigarro que a custo sofreava. descosendo-se da porteira. e afigurou-se ao Aires que manejava um estadulho. Mas já o vulto.Ai.

ainda mostrava os colmilhos a rosnar.. Ao proferir tais palavras. não acha. se conjuravam contra a sua felicidade.cão da Serra. Abriu a porta. Ouvia-se um burburinho de enxame alvoroçado. Augusto volveu de novo olhos para a mãe e. .Jesus. Não obstante. . ensopada em sangue. assim..Ouve. Essa voz foi engrossando pouco a pouco e agora parece enchia as ruas... Do sussurro. Em dada altura estacou de garfo no ar.. . viu sem manifestar espanto o José Francisco estatelado no chão.observou-lhe ela.clamava não traduz bem aquele gorgulhar de sons guturais e incompreensíveis . de alevante.Homessa! Um valentão como tu... Para que ela compreendesse.Quem foi trazia-lhe gana? . abertos desmesuradamente. lamentos e rezas. . vendo-a de pupilas assestadas nele. . Não acreditara nem uma só palavra de quanto acabava de lhe dizer com boa lábia.É o povo. como o piar da coruja.? ...? Então não ouve?. Escondia-lhe que. com a cabeça feita numa bola de sangue e lama. se lha dissesse... e. subitamente. Na camisa de goma. varava através dos pinhais e leiras de centeio o próprio coração da terra. tornou com o vero acento da franqueza: . desvendar-lhe o facto estupendo que fizera essa felicidade. Tinha já os olhos vidrados. E também sem náusea alguma inclinou-se a observar. Deve ter sido para o pé da casa da Pedralva. pois lhe havia de parecer também a mais acabada das patranhas. olhou para a mãe. cujas sombras oscilavam até desmaiar por cima dos telhados. Reparou ainda que muitos olhos se cravavam nele interrogativos. muito demorado explicar-se e melindroso desvendar-lhe o que tinha de ficar oculto. desconfiada que lhe escondem coisa grave. O golpe que o prostrara devia ter sido dado à mão~tente com olho de sachola ou grosso varapau para assim quedar a caveira escaqueirada. do clarão das lumiciras trémulo e fúgidiço.Agora ao entrar.exclamou a mãe. o cabelo em pasta sobre a testa e o toutiço tão feito em estilhas que se lhe tocassem tremia como uma abóbora melada. E de facto ele alguma coisa escondia.ladrava à volta do resplendor dum lampião. assarapantado!. deu-me para ter medo? Que tem de ceia? A mãe pôs-lhe na mesa o ensopado que há muito tempo acalentava ao lume para não arrefecer. nal prestando atenção ao que lhe diziam. fazendo-se muito branco. Muito menos acreditaria na verdade pura. ao tempo que torcia a cara para a banda. Era a tela da pessoa discreta.. .Mãe. luziam ainda ilhéus de brancor. Era o relâmpago que na noite negra ilumina subitamente a imensidade com sinistro fulgor. que não tem medo de nada.Então que quer. .. procurando ler-lhe nos olhos.. era demorado. ouvi na rua uma barulheira que me assustou.. Quando chegue. repcso de 137 . Comeu em sobressalto.. ao pé dele e lhe falei. exclamou: .disse ele. postado um pouco de esconso entre a ombreira da casa da Pedralva e o rancho das mulheres. da noite assombrada exalava-se urna impressão única: Homem morto! Homem morto! Foi atrás da mãe. À luz duma lanterna pousada à beira. Brás. e depois de falar reparou que a sua voz soara na açudada de imprecações. percebeu que estava a dobar a sua teia. vá ver o que é. e esse brancor falava da festa de S. Que assuada será aquela? Uma voz clamava . não sabia como nem quem.

em hora a que ninguém o vira. Revendo-se na sua boa acção. não podia ver sangue! O regedor designou por escala os cabos de ordens que haviam de velar o assassinado e o povinho dispersou aos quatro pontos.sentenciou outrem. que tinha a casa mesmo em frente. . com um froixo de riso forçado.A travesseira suja-se com o sangue que ainda está a escorrer da brecha . tacteou a ferida. ajoelhando e colando-lhe o ouvido ao peito. . ao largar do estábulo onde estivera a acalentar a vaquinha parida. Meio arrelampado. na direcção de Mouramorta. resolveu-se então a ir buscá-la. . Mas. a destrancar ainda os olhos da ramela. sem reparar bem no que dizia. por seu belo querer. . . Contou depois que a Florinda estava na cama. Mas não podia dar razão de vulto.Vá por ela. ninguém se dispensando de aventar a sua hipótese quanto à forma como o crime poderia ter sido praticado. debruçando-se sobre o corpo. Manhã alta.. Depis. com a cabeça debaixo das mantas. como que interrogando-se sobre o drama que o vitimara.Vão chamá-lo? Pois então não hão-de ir chamá-lo?. tropeçara no morto e soltara brado.A travesseira lava-se . que desde a alva se esbagoava em alto pranto. a escapulir-se. Mas voltara para quê? E voltara sozinho ou acompanhado? Não eram ainda onze horas. Chocalhou rua fora a tamancada a par de grosso vozeiro: Regedor! Regedor! Entretanto crescia o babaréu em volta do cadáver. pau argolado. Fora o João Sancho que. como se explicava que aparecesse morto numa rua de Malhadas? Explicava-se admitindo que voltara atrás. já noite velha. Quem a fizera. mas dos degraus do patim por onde se subia para sua casa chamou pela filha que lha trouxesse. e ficou de pé a fitá-lo.Não há dúvida. de que ele próprio se arrepiou: . a bater o dente tão alto ou tão rijo que nem que curtisse maleitas. sombra sequer.ter aberto a boca. que voltara a examinar o cadáver. A avaliar pela tepidez do corpo. Repetiu o apelo. foi pessoa sabida? Neste meio tempo chegava o regedor. sendo assim. mas a Polónia Fandinga. começou em voz grunhida a clamar pelos cabos de ordens. e como ninguém lhe respondesse. pois saltara da cama estremunhado dum destes sonos que só têm igual ao das bolas das pirâmides nos pináculos das igrejas.Então o regedor dorme-lhe?? . O adjunto engrossava cada vez mais e a tia Pedralva. 138 . .. para a aldeia. deu conta que faltava uma travesseira para lhe meter debaixo da cabeça. Outra vez o Augusto Aires. O José Francisco fora visto à boca da noite desandar sozinho pela estrada fora. Afastou a mãe. Mais de quatro testemunhavam em conformidade. chegou o Antoninho Fráguas de automóvel. a morte devia ter-se dado depois das dez. abraçada ao filho.advertiram-lhe. O corpo ainda estava quente. veio com uma manta e deitou-a sobre o cadáver. mas obedecendo ao instinto de varrer de si qualquer suspeição. Aquela tinha mesmo alma de cebola. demais a mais domingo. a coitanaxa da Júlia Minga...exclamou um dos presentes. já não sentiu bater o coração. tia Rosa. emitindo as suas opiniões e bichanando os seus palpites.iterou o Aires como de peito feito. proferiu impensadamente. vá que é uma obra de misericórdia! A Pedralva não foi por ela. ou melhor levado no sistema de sacudir a água do capote. .já devia aí estar? Vão chamá-lo. Sobre tal particular não havia discrepância. fizera-a bem feita e esgueirara-se como um trasgo.

mas estava de pé e de pé ficou sem se mexer. Levais um inocente. Dizem que foi ele que matou o José Francisco. o nome anda em todas as bocas.exclamou com a veemência de que é capaz um regedor. agravado em sua regedoria... . ombro a ombro com o Manuel Minga. mais ditérios e segredinhos e no silêncio a voz de Teodora ergueu-se irada e resoluta: .proferiu o Luís Ougado em voz alterada..Andai lá.soergueu-lhe a cabeça a medir a extensão do golpe e. eu lhe darei o arrocho.. mas toda a gente pronuncia um nome! lançou de rópia e circurivagando os olhos pela gentiaga a tomar apoio do que adiantava. .É que é mouco. aprumou-se para dizer: . Figurou-se-lhes que o Augusto já os esperava porque o viram a sorrir. pupilas mortas. olhos no chão..Pois se estão certos que foi o Aires que matou.. murmurando sempre: . foi-os acompanhando a distância. prende-se o Aires.perguntou. Ficaria. dize lá quem foi? . com que sim. esse lhes afianço eu que não foi! Não foi? É falso? Como a autoridade parecesse hesitante.. À retaguarda havia murmúrios. o Ougado tornou para o José Carrasco. Achais-me com cara de matar um homem? Para mais. . regedor.e desatou outra vez numa risada. .Vamos a prender o Aires.. meio tartaranha.Não sabe quem é? Caramba. . .Já prenderam o assassino? Estava ali a autoridade que o encarou com olhos de espanto. . e acabou por dizer: . tinha fama de braço comprido..? Ah.Eu não vi. depondo-lhe na testa um beijo. além de rico que é prenda de respeito. absorto no seu panorama. . ah? . O Antoninho Fráguas. tanto para proteger. mesmo assim. O Fráguas continuava estático.Então ainda não ouviu um nome.. sem resposta se o Antoninho não secundasse: .Onde vão vocês? . cicios de vozes. No caminho encontraram-se com Silvestre Calhorra que vinha para o lugar do alevante. quanto mais matar um homem.Ora essa? .. tão certo como o sol que nos alumia?..Ainda não ouvi. o Carrasco coçou a cabeça. já que o sabes.Ah. ... Seguiram. é verdade que deste sorriso amarelo que tanto indica desdém por tudo como confiança. cheia de acusações e fantasmas. Nomeou dois cabos de ordens e. andai lá! Levais um inocente.Pois quem havia de ser?? Mais cicios. .. Por isso. risonho e pálido. como para castigar... interjeições de pessoas que ansiavam por desabafar e não tinham ânimo..Grandes alarves? Esse rapaz é incapaz de dar uma pan~ cada à falsa fé. à traição. ? Tem de levar os ouvidos ao ferreiro. tio do morto e factoto do Fráguas. 139 . Vede lá bem.Vindes-me prender.Se o deixa fugir. rua abaixo. O filho deixou-se conduzir.Homem. Eu já desconfiava. o Fráguas observou para o regedor: . Após uma pausa. entre perplexo e atemorizado. Ides errados. ah. na sua voz lenta e emperrada: . A mãe ao lado escondia as lágrimas.

Esta sua criada entroncava na meritíssima linhagem das Ruças. que era severo em artigo de contubérnios. A cada passo. o exemplar mais completo era a Ana. À retaguarda da sua grossa beiçorra de alguidar exibia velhas e temerosas arnelas com vazios largos como canhoneiras. encomendada pela mãe lastimosa. Uma terceira estava para o Porto. sempre em frente. e uma quarta cobrava boas gorjetas pelas redondezas em bodas e entrudadas. que de saia entalada à frente por via das partidas do vento. que mais não fosse pelo dedo com que sabiam temperar um pratinho para abades e filhos de boa mãe. lá ia silenciosa ou botando o seu solilóquio. oferecendo às crias um amojo refarto. a carreira eclesiástica tinha os seus ossos. a casta soror. a não ser tementes a Deus. até por cima dos penedos. ao serviço de Antônio Fráguas. Como todas as carreiras. antes. embora o seu poiso habitual fose a Quinta das Meruges. Pusessem ali os olhos os adversários contumazes da ordem social! Gozavam estas Ruças de bom crédito e mereciam-no. mandavam a seitoira nos ferregiais. o senhor Tadeu involuntariamente pressaboreou a sertãzinha de marrã que a Maria Ruça não deixaria de lhe apresentar ao almoço. o borraçal em que tinham vindo encalhar as bolas. O céu. era a mais canónica e imalsinável das amas. e ameaçava mais neve. anunciados aos quatro pontos pelo estertor das vítimas e as vozes cruas e chinfrim judaico dos matadores. e tinha os pés como dois calhaus. como para as peruas a muda da pena. Aquela sua Ruça. e Tadeu. proferiu: Onde desencantou esta avis rara. depois de dizer por alma do José Francisco a missa do sétimo dia. ainda que o sol pela manhãzinha tivesse espreitado por detrás dos montes. se entregava aos prazeres da mesa. com que os rapazes andaram a reinar pelos caminhos. Ouvindo as colcheias mortuárias. tratou de se ir chegando a casa que estava frio de cortar coiro e cabelo. Nunca a nobre víscera podia contar com horas certas de comer. celibatário e sibarita. A neve derretera de todo. mal lhe viu a tromba e provou os pitéus. puxado da serra pelo vento galego. Simão? Coitada. e nas quintãs representavam -se os últimos dramas paritagruélicos da matança. pelo contrário. mas nenhum tão duro como aquele de trazer o estômago de quarentena. mal alvejando à beira das paredes. voltara a encarvoar-se não tendo descarregado suficientemente. Ela. cada vez mais atarefada. sopeiras e mais nada. depois da crise do pé leve.X O senhor Tadeu. afogando as pernas das raparigas. posto que travado por um estreito regime de dispéptico. onde o velho fidalgo. Mas era um regalo ver os regos por entre os trolhos das leiras a luzir como cutelarias. no resguardo do cisco e das sombras. como nascera nas palhas. roxas de frio. alastrava nutrice e verdinha or toda a parte. pelas rampas dos caminhos se descobriam ovelhas zorreiras. rendia as honras merecidas à sua governanta. e o corgo e arroios derivantes animando as paisagens ingratas de inverno duma vida que só a água é capaz de dar com a sua ágil e autónoma mobilidade. segundo o 140 . por lhe serem defesos os outros. além de perfeita pascácia. O prelado. mas dando ainda mostras de muito ferrado à terra. De todas. E a erva crescia. O inverno estava a virar. dera o seu tombo até derivar da livre frescata na placidez enxuridiosa de alfaia eclesiástica.

em prima tonsura. sim. as vezes que o eclesiástico vai celebrar em festividade fora da sua igreja. moleja. Por isso. fora disso é de absoluta inconformidade com o cronómetro. a contemplar qualquer panorama interior. mas que tinha o defeito de ser apenas no outro mundo. A Ruça. a ponto de rescender como a ânfora siracusana do pai Esopo. Se hoje se comia em tempo oportuno. Costumava o Tadeu. e desta vez perguntava-se com justificado sobressalto se ainda lhe restariam na caixinha daqueles com-primidos de bicarbonato de sódio. absorta para o brasido. Em casa também se cevava porco e se fazia salgadeira. A Maria Ruça pôs a mesa na velha banca. e ao ouvir pelas quintas aqueles sustenidos de agonia. por outro chorava a sua riqueza de rei de Tule. entrasse a lutar com ele. avinhado por dentro. Porém nada recompensava a irregularidade do horário. em cima duma tabuinha. e pelos dentes de lobo. e ao bafo confortador e ao estalido sinfónico que produzia o fogo devorando o lenho. à medida que iam metendo a faca ao requinho. se por um lado lhe crescia água na boca. a não ser. tudo passa. fígado. filosofar com os botões da garnacha. quando se persuadiu que já havia batatas suficientes na frigideira. do mestre da música. que lhe mandavam as almas amigas. negro duas vezes por fora. Chegado o Santo André. Gelavam-lhe os pés. cilhou as mãos sobre os joelhos.abade do Ramalhal. a serva a debulhar à unha as batatas de neve. o fígado do suíno beirão que é melhor que de vitela e se dissolve formando um molho sobre o grosso que é o regalo dos regalos. O labrego lê as horas pelo setestrelo para tudo o que seja a lida dos campos. dos próprios colegas que chegam quando chegam a arrotar em suas éguas passeiras. gente esta que se mede toda pela mesma rasa em matéria de pontualidade. era mais de apreciar que a carne de vinha-de-alhos ou o presunto já curado. entrou em actividade deglutiva na mais ameníssimacias monções. forrado de zinco. movida por ponderosas razões. perdida para sempre jamais. Ah. E com os pés alongados para a brasa. dois decilitros a emornecer no púcaro de Molelos. o seu moiro de sangue. Era certo que a venerável Congregação dos Ritos. naco de lombo ou cobro. tanto mais que adverte Avicena: est caro porcina sine vino pel or caprina. mal depôs o cálice das consagrações com a sua bolsinha de chita ramalhuda. Mas a chicha fresca. amanhã apenas quando Deus era servido. que levara para o seminário e eram o terror das pelangas de cabra e do fiel amigo? Ai Deus. capazes de arrancar um prego melhor que uma turquês. depois do almoço de marrã. em última análise. quando estava só. como muito bem calculara. tão junto do lume que a chama fazia esvurmar a resina dos nós da madeira e ondular a franja da toalha. frigia uma boa febra de porco com fígado do mesmo. o gozo da bemaventurança à mão direita de Deus Padre. que se rinha acocorado no esteirão.. a ponto de não os sentir e causarem-lhe torturas insuportáveis. Na trempe. dos fogueteiros. Na lareira ardia um bom lume de carvalho. com elas mais várias que o relógio de Santo Antão. Entrou em casa e. quanto não daria pelo maravilhoso estômago. Depois 141 . a dita. é pau-mandado dos mordomos. mais intemporal que o programa das obrigações paroquiais. que lhe aviava o Jácome. dos armadores.. para o caso em que. autorizara que o sacerdote tomasse logo de manhã uma pitançazinha moderada. correu a aquecer-se. Nada. a vida não lhe pareceu tãe feia como a pintam. porca ou porco. que andava sempre como o da Joana. os paroquianos mais dignos não passavam sem lhe mandar o prato com as primícias.

A Ruça não dera conta do sal amargo que acabava de deitar na marrã. e estava dito tudo. Deixava crescer as barbas. bem sei que salmoira nem cheirá-la. e continuou: “Lá passaram o dia ao rebusco. largou-lhe a corda toda. Não é isso. a criançada em Cruita do Alto era como os peixinhos no chafurdo do pontigo quando se lhes deitam migalhinhas de pão. . sobretudo quando o petisco era como aquele de trás da orelha. metera a mulher ao peditório e um menino. elevou-os até o fitar bem nas pupilas. sabia. hem? O meu estômago agora já não funciona com esse combustível. ao comer. não se acaba o mundo enquanto houver chocadeiras como a Cruita do Alto. Podias ter comprado . essa que anda pelos povos a comprar cornelho e ovos e vende lumes-prontos e pólvora de caçador.S. enquanto aviava um quarteirão ali à Madalena.O meu senhor não ouviu pregoar a sardinha? . uma desinfeliz negra e mirrada. As malinas vem e varrem as famílias de ponta a ponta. Tinha que regularizar a sua situação com o José dos Cambais. Ele era sócio honorário. e era a mãe dum tal Trinta chacinado depois de muita pouca-vergonha pelo povo de Manfurada. complacente.” Àquelas palavras. R. “Aquele ladrão do Roupinho . num aceniscar de olhos.Ouvi. já com quatro marmotinhos de um a seis anos que ficavam entregues à avó. S. . o José Francisco. o Calhorra. agravava com terebintina uma chaga que tinha no braço. Restavam os dois.respondeu ele.” O senhor Tadeu declarou que estava muito bem a par da referida criatura. estava farto de o saber quando não armava a rifa ou a vermelhinha nas feiras e romarias. a tia Maria de Alvite que lançava mão de tudo o que podia. Mas a Ruça não era cabra para virar com duas lapadas e ele. no movimento dos seus maxilares. deitara-se fora da empresa. “Pois Roupinho. que alugava a quem tinha abundância deles. mas o Cambais é que havia de aguentar. pedia esmola pelas portas. no garfo. e o negócio afigurava-se-lhe muito mal parado. sabia quem era? e meteram para o Vale das Donas ao rebusco do volfro pelas leiras. em vez de lhe matarem o bicho do ouvido com misérias do mundo. ao estilo dos príncipes. mulher e menino tinham chegado das bandas de Trancoso. onde dizem que os ricos têm a mão larga. e vá de rondear pelas terras de Marialva e pelo Zonho. Para quem padece como o senhor de arrotos chocos.Deus me livre de lha prantar. O homem que a andava a vender. o outro. além disso. de resto era o Cambais que manobrava os bilhestres e recolhia o minério. pôs os olhos na banca. mas agora de 142 . As mulheres casam aos doze anos e aos vinte estão carregadas como as vides. O senhor Tadeu preferia que. Seja pelo amor de Deus. R. o senhor abade doeu-se como se o malvado dum espinho lhe picasse as meninges. e alugara um garoto de dez anos à tia Maria de Alvite. dali a pouco. voara a dar contas a Deus das maroteiras em que era useiro e vezeiro a despeito dos verdes anos. inçou outra vez tudo. Corta o coração. tão pegados que só se foram um migalho antes de escurecer com os taleigos outra vez cheios. Nem coelhas! Pois o alma de cão trazia a mulher na moina. contou como morreram sepultadas na neve a mulher do Roupinho e a criança.Mas para mim. lembraram-se de trocá-la a patacos à Pomba Nova. como estava em maré de condescendência.suspirou. O Roupinho. taleigos à cunha e. na marrã. uma música afinada executasse árias amenas. não. e proferiu em voz gemida: . Um dos sócios. em vez de bater para Cruita do Alto com a esmola.

sempre pela serra e desamparadas. arrasta que arrasta. ao que dobavam do céu e eram grandes. R. asas estroncadas. alvadio mas cerrado. a deitar os bofes com a maldita riqueza às costas. fora. rompeu a nevar. com a neve ficavam mesmo. “Muito tempo andaram enrodilhados. “Vocês assim carregados não botam a casa com de dia. mal se distinguindo as farripas das urgueiras meio tombadas para o chão ao peso da mortalha branca.” _ Jesus. lá porque lhe custasse deixar para ali ao abandono o seu rico pedregulhal. Fiquem cá e vão de manhã pelo seguro. Jesus. Teimou que não era nada: o ano já estava muito adiantado para nevadas. Que é que os olhos dum letrado.. O menino batia o dente e clamava que já não podia dar passo. Lisos. quanto mais casa. por mais que se mate.. até o entendimento lhes dizer: ides errados! Tomavam à direita e. estamos aqui estamos na Cruita. nem penedo. era a ambição. também. que a mulher trazia apenas vestido um chambrito de riscado e um saiote e o menino os farrapos dumas calças de cotim e a camisa. Ele animava a sua gente dizendo: “Vá.parece que se prantou a gemer o Roupinho. transitara alguma vez por ali. andaram para trás. Quando alcançaram os altos. Mas sempre havia um resquício de luar. nem quando seguiam à mão esquerda. nem quando carregavam de rópia por uma vereda que lhes parecia a certa. não se enxergava já caminho.pedras. Quando chegaram aos Cuvos.ia com a ideia fisgada de que levava ali uma riqueza nas pedras sarapintadas que arrebanhara pela folha do Vale das Donas. De Malhadas à Cruita são bem duas léguas. Avisaram-nos: “Não se metam a caminho que vem lá a neve. O alma de cântaro velho . Segundo consta estiveram vai e não vai a voltar para trás. e tocaram adiante. Andaram para diante. mesmo. e o céu não se cansava de peneirar neve.velo depois a apurar-se . isso estavam eles? Avançavam ao palpite.” “Era a desgraça a chamá-lo? Qual. nem quando seguiam à mão direita. a mulher. A neve cobria a terra. Prometi à mãe deste menino apresentar-lho até o bater da última badalada do dia de hoje e não quero borrar a minha palavra. lisos como a palma da mão. disse para a mulher: 143 . uma lauda de papel antes de escrita. “Aquilo o frio. que vai ser de nós! . aí podem achar? Assim acontecia aos desinfelizes no alto da Nave. que o homem tinha o costume de desancá-la sem dó nem piedade. que é onde acaba a serra de Malhadas e começa a de Pedrões. sinal de moscas brancas. Corno não pudessem mais. luar de quarto. fora. lá iam até uma voz de dentro outra vez os avisar: não é para aí! Não era para ali. já ouvi ladrar os cães!” “Não estavam nada na Cruita. atascados no nevão. Pois não houve rogos que o tolhessem. já tão atarantado como a mulher e o menino. cada vez mais basto e danado o remoinho no ar e mais fofa a camada branca debaixo dos pés. e não admira que lhes atasse os movimentos. O senhor abade estava lembrado dos farrapos que caíam? Pareciam asas de passarinho.” De facto. Mas o alma do diabo. que era uma magrizela. trespassava-lhes as roupas. mas duas léguas das velhas.” “O Roupinho coçou a cabeça e parece que respondeu: .Seja o que Deus quiser. e estava com medo que lhas roubassem. fazia muito frio e para as bandas de Montemuro o céu estava a entabuar.? Era então escusado dizer-lhe que naqueles cumes não se ergue árvore. batia o dente e chorava baixinho. S. atiraram ao chão as sacas cheias de pedras.

de torcer e destorcer caminho.Patrãozinho. rijos que nem carapaus. a zoeira do vento nos pinhais do povo ou a água a cair dum açude. caía se Deus a dava? Depois de muito tropeçar.Onde estás. é boa! Estás na tua terra. mas julgam alguns que feita pelo bater dos calcanhares e o rascanhar das unhas. olhe.já te disse que a Cruita não pode estar longe.Tu atinas lá com a Cruita. . As sombras fugiam diante dele.E afinal que levava o Roupínho nos taleigos? 144 . “A mulher. O Roupinho deitou a correr. chegou a um povo atolado em branquidão.. Que houve gente que aproveitou. o pequeno dobrado. como quem apanha o fio dum novelo.Andei.? “Puseram-se a escutar. que o volfro só deu pão a meia dúzia de trafulhas. Você s não ouvem. julgando que em poucos minutos chegava à povoação.Está bem . ora não parecia.. Foram no rasto do Roupinho e notaram que o desgraçado andara em volta do povo como um cavalo no picadeiro.. que tocavam de resto em determinado sector. houve. Não me consumas! . Está a gente farta de andar. mal ia a agarrálas. Sua Senhoria não chegara a andar metido com o Calhorra e o Zé dos Cambais na mina do Santo Antão. julgaram ouvir ao longe. andei mas acabou-se. Caminhou. afigurou-se-lhe ver certas sombras encavaladas ao longe e meteu para lá cheio de esperança. puxou o menino para debaixo do braço como fazem as galinhas aos pintainhos. de joelhos à boca. de facto.pronunciou ele. acudiu o povo todo. Chico Roupinho. do seu foro íntimo.?” . que me perdi outra vez! Botou os seus cálculos. E torceu caminho.. sim. Mais de seis vezes estivera a entrar na terra e sempre a sua má estrela o tornara a arredar para longe. encontras-nos mortos. não se compreende bem. a correr em frente. melhor. deram pela falta da mulher e do menino e largaram à busca deles tendo pensado e muito bem que tivessem tombado na jornada.” . tanto andou. O homem botou alarme. E a neve caía.Quando voltares. foram dar a descampado muito para fora do caminho de Malhadas. mas na terra.. Aí tinha no que dava o volfro. com o arranco da agonia. . Ora. .” “Quando tal ouviu caiu ao chão sem sentidos. onde é que eu estou? O fantasma olhava para ele muito fito e acabou por dizer: . só lhes serviu para ganhar vícios e maus costumes. Outras se levantavam a seus olhos e novamente corria para elas o triste. que disse consigo: -Não vou bem. se voltares. Deram conta dum moroucinho.. Mas indo. .gritou ele com o mau génio que tem.Vocês fiquem aí que eu chego ao povo buscar uma burra. que o Diabo levasse para bem longe daquelas terrinhas. Era manhã e com o livor do céu a neve pela encosta como que chegava às estrelas que ainda pestanejavam na casa do Senhor. Como havia de dar pão uma coisa que é para matar. meteu-se com ele entre os sacos. a mulher estendida ao comprido e com uma poça aos pés. muito melindroso.exclamou ela. caminhou. homem de Deus! .. os dois estavam por baixo. não apenas uma poça na neve.Nossa Senhora me valha. pondo ponto final às considerações da Ruça... Onde é que estaria? Perguntou ao primeiro fantasma que avistou: .. conta ele. de pedir a Deus a morte.Pois se acabou.. onde ficara a mulher e o menino.Não há que duvidar? É a Cruita. A Cruita deve ser para ali. . qualquer coisa que ora parecia.. tanto andou. tornou a botá-los. cavaram a neve. indo pelo rasto. e novamente disse arrepelando os cabelos: .?! . e lá ficaram a bater o dente e a rezar. Eu dou lá um salto.. a Cruita não pode estar longe. rijos.

é por isso que eu aqui venho. Que ande ou não ande. o seu cento de ovos. Era a Rosa Pedralva que pedia para lhe falar.. de sacho feito. escondeu a face. Agora mesmo era tarde para tal expediente..e a criatura. e a darem-se ouvidos às bocas do mundo é a alma penada do José Francisco. A capucha em que se embiocava. duas vezes para a banda. Para qualquer parte que vá são todos à uma a perguntar: Então a sua rapariga anda endemoninhada? Aqui tem. desatou: .Cuidei que sabia. Estava indeciso . Mas como têm o desinfeliz do homem como trespassado sem confissão lá julgam que diabo ou alma do diabo são uma e a mesma coisa. Como Goethe. um lorpa que deu na vida de mendigo e mariola.caiu um grande codo esta noite. desprevenido para aquele ponto da casuística. sim. ora chora. .. que é a minha. Ela então afoitou-se. mas reparou que era despachada e pisava com segurança. mas não da teológica. Corre o ano bom para os pães proferiu: . e deitando a sua casquinada párvoa de riso. . Depois dos intróitos da lei . vou-me até Malhadas desenredar a meada com o José dos Cambais . deixando apenas luzir uma réstia do rosto. espreitou o céu fosco pela vidraça embaciada e começou a sentir o peso da marrã. como não havia de estarfrio! Ainda temos mais neve.Se lhe dão acidentes. o cabrito na devida altura... não lhe trago novidade nenhuma. que Deus tenha..? À-d'el-rei! E ora grita. Dão-lhe acidentes ruins e deita a dizer asneiras e um palavreado que ninguém entende. além de que são precisos três homens para a segurar. Se a fortuna andasse assim aos pontapés à superfície da terra quem quer deitava gravata! O senhor Tadeu ficou com o coração apertado depois de ouvir a história macabra do homem da rifa. e apressou-se a mandá-la subir. livraria e casa de receber. Faz então os seus desconchavos..Que havia de levar o tolo? Levava calhaus que não prestavam para nada e só podiam enganar.rosnou com os seus botões. prosseguiu: 145 .Só queria que visse! Umas vezes atira-se ao chão. e ficou à espera que a Ruça chegasse com a parte.. impediu-lhe de a reconhecer. teria dito se a Ruça não fosse a Ruça: Mudemos de conversa. A Rosa Pedralva nunca deixava de lhe trazer o folar: um galo paívante. está necessitada de medicina. ora se arrepela. levada em sua freima. um tanto fremente e de finca-pé.pego do Breviário.Também fiz esse reparo. Por último. . Temos encomendas . na capucha. Deu dois passos de cá para lá.Então que há.deu conta duma mulher que vinha direita à sua porta.. E levantou-se para a saleta que lhe servia de cartório. .Se é a alma penada do José Francisco não é o Demónio. A mulher. O senhor Simão não soube retorquir. espolinha-se toda e pranta-se a gritar: Estou no Inferno! Estou no Inferno a arder! Quero para cá o ladrão que me matou! Porque não o deitais para cá? Lá sai ele da esquina. Se calhar.? . ..Que há.. meu senhor? Vergonhas do mundo? . realmente. com seus amarelos e verdes a luzir.observou o eclesiástico.A minha Florinda que dá que falar. Rosa? .. que estava à mesa quando lhe levaram a notícia da morte do grão-duque de Weimar. Agarrem-no! Não o vêem. susceptível de peguilhos. que lhe fala no corpo. que purpureara. Tadeu acenou que não sabia de nada. torcendose uma..

mais não pode. lhe mostre o desprezo q. porem revestido de hua authoridade s. isto he com taes palavras e tom de voz q.a estes medos he meterse de gorra com D. . Luís.” O senhor Tadeu desceu de afogadilho pelo texto compacto. O senhor Tadeu ficou suspenso a considerar o caso bicudo e. ao diabo não fallem de amores. . que herdara do antecessor na igreja. Lá estava. vai ouvir. inquiriu: .. ditas com hua brandura tibia na fée. riam use pois de palavras: deixame ou quero q. em que se repete o João Gomes que morreu a enxotar as pitas da horta. pareça se lhe pede por fineza aquilo q. António de S. mo nome úeJESUS. finalmente. A Maria Choca pôs-lhe o pé na barriga e conjurou: Em nome do Padre. levemente flectido mas distinto.ta. despede pela estrada a baixo a berrar: Agarra.Estava com a cardina. Larragas. em nome do Filho. mudo e cismático em operação remissiva. benzedeira. digno duma folha membranácea e de capitulares a azul e mínio: “Em pr. são os espíritos. me deixes. cachorrinha. béu. De mão afoita.? lugar advirtam exorcistas e exorcizado q. não podes escapar e desobedecer ao poder da Igreja e do s. mestres de cerimônias e rituais. demorando os olhos um segundo a compenetrar-se do antídoto receitável em semelhante operação contra a timidez: “0 remedio p. e.e por estas vozes..? . para dizer alguma coisa.. Eram umas Advertências manuscritas. quando ia com este destampatório. agarraram-na e levaram-na à força à Maria Choca. roncada. A bem dizer começaram-lhe a dar na tarde em que o corpo do José Francisco baixou à terra.. E uma voz de dentro. e do poder do santissimo nome de JESUS falle com elle como com hu cachorro rebelde a D.Foram ao doutor? .. mergulhou naquele bastardinho do século XVIII. tirei-me dos cuidados para vir ter com V.5 e q.Há que tempos tem os acidentes? . Não descortinou o tratadista especial. béu!.s. faças. . hade dar. mais mental que perspectivo. outras vezes.. o barbeiro de Pedrões. R. V. antes de ir à benta.Se ele nunca a largou. desandando. respondeu: Não saio e não saio! Mas o mais frequente é rebolar-se no chão e romper a gritar contra assassino. O grande machucho viu-a e cuspiu para a banda: É com os padres.a isto principie sempre usando da palavra: mandote q.. parou diante da copeira. Lentamente passeou um olhar.s castiga as 146 . dizem que também a alma penada dele se lhe meteu no corpo. montando a luneta na bitácula mole e esponjosa. agarra! Agarra! Béu. em que não houve uma só pessoa que não reconhecesse a gosma do tio Gomes. queira ou não queira.. O Simão Tadeu não lhe tornou resposta. E. R. intimo-te a sair desta irmã.Chamou-se o Gregório dos Santos. Noutro diaço. Ao seo e nosso criador tem: p.. Porq. O demonio he a espada com q. delle fazemos e a infallivel obediencia q. em nome do Espírito Santo.? Mas porque são todos à uma: é o Porco-Sujo. pela estante em que se perfilavam em seus pergaminhos amarelentos e carneiras arregoadas os Fernandes de Moure.Mas não é tudo. elle faz porq. actualmente blasfema e desja vingar em nós o odio q. Umas vezes dá-lhe para aquilo. e isto com hu tal modo e metal de voz q.. referentes a exorcismos. Por isso mesmo há quem afiance que é o espírito do assassinado que se meteu nela. D.Há já uns dias.. correu o fecho e pôs-se a remexer a papelada. eu.

ia com a mosca. embora não quisesse descontentar a boa paroquiana.. não há outro remédio senão V.os rafeiros dos rebanhos arremetiam das escarpas. Aqui é pior que nos altos da Nave. mas o lavrador nem lhe deu tempo a respirar: .não se lembrou mais dele. divisando ali a dois passos a 147 .faltava a gasolina aos automóveis .A que horas costumam vir-lhe os acessos? . de monco caído e zimbório da barriga ovante. a move. mandou recado ao José dos Cambais. Viram-na a caminhar para Manfurada. V. e os meninos. Foi-lhe grato desemperrar as pernas. abismou-se na leitura das horas canónicas.. espavorindo as galinhas. E. começou a calcorrear a rua para trás e para diante. entrou nos domínios da Ruça a avisar dos seus propósitos. Mas a lengalenga da mulher acabou por tornar-se-lhe insuportável e puxando do ripanço. Continuava escuro para os lados da Serra da Estrela.Homessa. Mas para ver. Ele quis resistir. e de porta em porta a indagar: . dir-se-ia pétrea. tanto mais que tinham ido chamá-lo para exercer o seu múrius e para pantominas não estava. Na esteira da mulherzinha. A Pedralva. sem abarcar bem as razões do padre. O senhor Tadeu foi à janela considerar o cariz do céu. que se espenujavam no ciscalho. ensinava-se o modus faciendi psicológico do exorcismo. aqui no meio da rua? Homessa.. Era mais de meia manhã e já os gados andavam pelos montes. ponderou: . “ Por ali fora de página em página.. mas de modo algum a sua pragmática.É variável. desceu as ruelas mortas da aldeia neolítica. Ali o veio encontrar o José dos Cambais. não era naquelas duas horas que virava o tempo. O senhor Tadeu mostrou-se interessado em apanhar o fio da maranha.. que morava no Casal. Mas a Florinda não estava em casa e as vizinhas não sabiam dar razão dela.Só vendo.Vamos lá. tanto mais que a carniça começava a pesar no estômago. As manchas arredondadas das reses distraíam os olhos do verde jacente universal e do marasmo que varava a terra. que tem lá uma boa fogueira para matar o frio. meio nus.inquietações de seos amados f. Foi ao quarto vestir a garnacha e armar-se do guardachuva. .Vistes a minha Florindá? .Se espera pela Florinda.. para que lhe viesse falar. está bem arranjado. vencendo a repugnância que sentia pelo assunto. Venha para minha casa. que pesava sobre a natureza. He loucura temer a espada e não fazer caso da mão q. Estaria previsto na administração de tal sacramento o caso de Florinda Pedralva? O senhor Tadeu tinha as suas dúvidas e. Ontem vieram-lhe à roda do meio-dia. dar-se ao incómodo de chegar a Malhadas. À entrada do povo de Malhadas encontrou o Fandinga sapateiro.Também digo: só vendo. sempre liberal e mesureiro: . Para não arrefecer de todo. já lá vai a mãe e a parentela em cata da cabroila. minha santa. leva que leva pelo tacto. R. À medida que foram avanç ando pela estrada deserta . mas pela imobilidade. estranhados dos rari nanti.os. Mas o Cambais. a patinhar no charco. O assunto é muito melindroso para o pároco se poder paronunciar de outiva quanto à oportunidade da sua intervenção. E logo a mãe ficou sobre brasas. R. batendo a bota. e enterrando o chapéu na cabeça limitou-se a proferir para Rosa com voz bem timbrada de conformação: . farejou relutância e redarguiu: .

Então quem? Ora. assim Deus lhe desse a salvação! O senhor Tadeu ouviu a longa deprecada do homem sem proferir palavra. Soga fora ela que pesava em mais de trinta e sete contos. se desquitara do negócio. toca a andar com a devassa. o grande patife. ou fossem vinte e três contos e pico? Não estava certo. A guarda de Orcas da Beira. encerrado na sentença que ouvira a um tolo: dizem e dirão que a pega não é gavião. Mas em muitas outras partes não sucedia a mesma coisa e as autoridades não faziam vista grossa? Quanto ao rescaldo do desastre que atirara para o maneta com os dois homens. presidente da junta da Parola e todo deles.por todos os motivos e mais um. não era bastante quanto amanhava ainda que passasse a comer o caldo sem unto! Pelo que respeita à multa. da pretendida indemnidade. com foros já de clássicos. deitava-se-lhe a soga. não lhe chegassem ele aos ouvidos mil e um rumores através de condutos especiais e infalíveis! De resto. manda-chuva daquelas parvónias. Estava persuadido que. somadas todas as despesas com jornas. em atenção ao Calhorra. o José Francisco 148 . O Calhorra surripiara ao José Francisco e ao Cambais. enquanto lhes pareceu. tapando-se a boca das viúvas com umas centenas de escudos. Mas do seu bolso não recebia ele nem tanto como um feijão-frade. casados e pais de filhos. a política do olho morto. Os três sócios requintavam em roubar-se reciprocamente com tão seguro jeito e malignidade que. e nã o ser só ele a mandar para a vila juncos de trutas e cabritos. praticaram. não . chegar-se-la a concluir que cada um deles tinha exactissimamente sacado o seu quinhão.mulher do Lázaro Fandinga de orelhas fitas para o que se dizia. colectiva. senhor Ligório. não se falando. Era ele que havia de ustir com a diferença. e também do Antoninho Frâguas. a responsabilidade era.e ele estava plenissimamente de acordo . Mas assim que ficaram cientes de que o filho do Fráguas estava debaixo da terra a fazer tijolo e o Calhorra. o Cambais surriplara ao Calhorra e ao José Francisco. Tinha muita pena que a soga aperreasse de tal modo o amigo José dos Cambais que. ferramentas e agora a multa e papel selado. se a lavra de Santo Antão fora dada ao manifesto pelo Dr. Mas haviam de pôr todos o ombro.000 a 7. em contra do que dispunha a lei. a exigência dava em águas de bacalhau. Na totalidade embolsara 6. está bem de ver.000 escudos e bem sabia ele que o seu nome fora uma espécie de pavilhão para cobrir a mascambilha. irrorio. para trabalhos que se seguiram. à ordem do senhor administrador. não estava. lançados os latrocínios numa balança de ourives. Irra. não era mais larápio que os outros. muitos deles corriam os soalheiros. não havia dúvida que. dono do terreno e endossante. Apurados em sua mão havia por junto treze contos e setecentos. mas ele não podia. madeiras. Em compensação rompeu logo a contar pela centésima vez a história da “grande pouca-vergonha” de que era vítima. estava ali aquele sendeiro do Zé dos Cambais. os técnicos não tinham sido ouvidos nem chamados. Torres. como para o mais. De sobejo estava ao corrente das manhas e malas-artes usadas por uns e por outros. restringiu-se a piscar o olho e a sorrir malicioso. que uns anos por outros lavrava meia dúzia de alqueires de milho e comia as batatas com azeite. vieralhe fazer um varejo a casa e. avisara-o que tinha a satisfazer uma renda vitalícia à gentinha dos desgraçados que haviam pateado no Santo Antão. Arrotava quem podia. além de lhe apreender o volfrâmio que lá tinha e multá-lo em cinco contos e quatrocentos a pretexto de que executava trabalhos de mineração fora de todo o regulamento. achava muito bem. Quem havia de pagar as favas? O senhor Tadeu. Em Orcas. no fundo.

mas não lhe era indiferente que se rissem do seu físico. bem sentia que pusera os olhos nele e o espreitava. Ao tempo em que os três sócios se não chamavam ainda gatunos com todas as letras. Estava ali a Teodora e. cascudos e enfisemáticos. Verdade. alargando. se bem que de fisionomia enjoada e um recato funérco no vestir. quando cinturado o saco pelo cordel. Pouco lhe importava que pelas costas o chamassem fona e dissessem que dinheiro que lhe vinha à unha era alma que caía ao inferno. marcados os nagalhos do sinal de cada um. Eram uns gramas de cada vez. sem largar o seu ar bom-serás de burro das panelas. Contas feitas. à ideia de que tinha uma meia rota e se lhe viam os dedos dos pés cheios de calos. fina como uma tenta. Mas o homem soube ser bizarro. quem levava os sacos para a casamata que haviam arrendado a Pedro Reganha era o catraio do Cambais. o certo é que o rapaz estreou sapatos amarelos e quem quer podia ver-lhe aos domingos pendurada no bolso da jaqueta uma rica pena de tinta permanente. O malandrico tinha a mão fina. sabia-a toda. protestou. Mas ele. não valia a pena ficar tempo indefinido à espera dela. Ao menos o Cambais estava advertido.surriplara ao Cambais e ao Calhorra. uns calos olho-de-perdiz. a rapariga conservava-se fiel ao compromisso que tomara com o 149 . e convidou-o a sentar-se. estava sabido. furando até poder retirar a concha carregada. como Pilatos no credo. não haja dúvida. Era por estas e outras que o grande caloio para ele vinha de carrinho! Chegado à porta do José dos Cambais. ensinado pelo pai. verdadinha. e insinuava-a pela sorte de meato que fica na folheatura da serapilheira. Bem atados com nó cego. cobriu com ela um escabelo à laia de almofadinha. Pois maquiava-o o rapazito. vinha bem ao fundamento das palavras que o Calhorra dizia: Hem. como as bulas do Papa. o senhor Tadeu mostrou certa relutância em subir. Segundo os murmurinhos. o José dos Cambais tinha direito a ser indemnizado pelos dois sócios da vigairada. Pois que a presumível possessa abalara para longe. todo melúrias. que era ele. Mas grão a grão enche a galinha o sarrão. nanja pelo filho de seu pai que figurava na empresa. Mas ouvindo aquele José dos Cambais. A senhora Emília dobrou uma capucha nova muito bem dobrada. A somiticaria de notas que recebera ficavam à conta das muitas passadas que dera. ia comprimindo para os lados. e podia comparar-se a descoberta ao chupar vinho com uma palha pelo batoque da pipa. Sem falar no que estragara e passara às unhas aduncas do paizão e da mãezona. Mas nisso se enganava ele muito enganado. Ao bafo caricioso sentiu-se outro homem. o Tonico. Depois veio o Cambais muito solícito para lhe tirar os butes. hediondos como as ventosas dos polvos depois de secos. Conduziram-no para a lareira onde ardia um lume magnífico de raízes de carvalho. meu compadre Cambai-ç é um inocente!? É tão inocente que vos come o caldo na cabeça e ainda lhe migais a tigela! Sim. não passava pelo entendimento de ninguém que o volfrâmio pudesse sem escândalo ser maquiado. sucessivamente associavam-se dois para roubar o terceiro. por fim. da cobertura moral e até crédito bancário que emprestara à empresa na sua qualidade de eclesiástico. que era o modo de se aquecer à vontade. Enchia-a e despejava-a para o chapéu. Tinha passado o equador da vida. bem embora no âmago da sua cortesia se entremostrasse o empenho que tinha de captá-lo. Uma vez lá dentro. associavam-se os três para roubar o quarto. estava a ganhar a morte no meio da rua.

Por sua parte não votava nenhuma espécie de azar ao homem. Veio a chouriça que ele embrulhou na Semana Católica. além de que era faltar à justiça. negra.Já sei o que V. acesos cada um mais que o outro em bizarria. Mas o Cambais foi implacável. chamava-se desprimor. quando a digestão chegasse ao seu termo. Pelo menos entendo que não temos que o citar para o ajuste de contas. assombrado perante a manobra do Cambais. dizer que não. como se se tratasse de águas passadas.ele voltava à vaca-fria. e dizia do Antoninho. Comer ou beber fora de horas era roubar-lhe anos de vida. pois que não é discreto falar de corda em casa de enforcado e ignorava o pensar de José dos Cambais. negra como um tição.Aires e não podia ouvir dizer que fora ele o matador. levava a freguesia toda atrás de si. quem foi? O senhor Tadeu. Se precisasse de testemunhas para ir jurar que os dois eram tão autores como ele na frajoca do Santo Antão. O Cambais fez-lhe o prato e pôs-lho nos joelhos. ciente por experiência que chouriça nas brasas. não lhe parece que os dois sócios devem pagar a parte que lhes venha a competir na contravenção? O senhor Tadeu. mais hora. logo mais. Perdoassem. não apenas a um. dava verdadeiramente a todos os diabos. R. o senhor Tadeu olhou para os torresmos que se lhe afiguraram a descair para o ranço e os peixes. Pediu que o não obrigassem a comer. porque era de pobres. não passava dum frontispício.. de reserva na cantareira até que a Teodora com uma tesoura caprichosa a talhasse em bicos e renda para forrar o armário. a soprar. aconchegou o borralho. E. quer..? 150 . eu não quero que seja aqui chamado. e a jarra de vinho espirrador . Mandou à mulher que trouxesse uma chouriça.Deixe-me dizer-lhe. quase perdera a fala.” Talvez assim viesse a suceder. protestaram. menos hora. tinha imolado ao almoço uma rica pratalhada de marrã e estava repleto. havia de resplandecer como o sol ao meio-dia. Tão-pouco o Cambais tocou em semelhante matéria. nem sequer molhava a boca? Não e não. R. tenha assumido sob palavra a sua quota de responsabilidade no negócio. com muito gosto. O Cambais e a Emília. O Cambais penetrou a sua indecisão porque acudiu prontamente: . Então S. fugiu de aludir ao acontecimento que enlutara a freguesia. mas repetia com o seu amigo Fráguas e ninguém de sã consciência saíra a responder à sentença: Se não foi o Augusto Aires que assassinou. “Que não e não. pousando os olhos nos olhos do padre. embora V.. dentro da casa que à sua maneira se esmerava em obsequiá-lo. R. R. meteu-a por baixo. abrindo urna cova nas cinzas que beiravam da fogueira. de Lamego. A senhora Emília encheu o copo de vinho e ofereceu-lho. entrava na casa deles e. pois era notório que o filho. a quem Deus falasse na alma. a inocência do seu namorado. e rúbido da chama. e novamente implorou que o deixassem. anotando: . burundanga maior ainda.torresmos. Enquanto a mulher improvisava um beberete . era melinite. Não estava resolvido a deixar-se arruinar pelos bonitos olhos do Calhorra ou do Antoninho. Era uma desfeita que fazia.. a Florinda e a hora em que caíra na arara de deitar até Malhadas. Bem bastam os incómodos que já tem tido.A V. Que me diz V.... Com ar profundamente infeliz. R. Que dizer ali naquele caso anfractuoso? Concordar com o Cambaís era ele próprio oferecer a cerviz ao jugo fiscal. No fundo de sua alma. trutas de escabeche. atirada para o seu estômago. perguntou: .

o farmacêutico. R. quem foram os pais da cria? Não foram vocês três? Foram.. Despejou a sua taça e só depois disso é que o Cambais. Bebia tudo.. quem andou com o arame e quem levantou os lucros. depois de virar o canecão.Mais uma gotinha.. ocupado a extrair a chouricinha do lume.Hem. mesmo salgado com rosalgar.Sabe onde eu quero chegar. Foram os emolumentos de péde-altar. Meteu-lhe na mão tassalho ainda maior. tinha dedo. Contra a prepotência amável daqueles anfitriões não havia escudo possível. V. a mim que comprei o leitãozinho de mamoto. Partiu à unha para um prato: . pronunciou como se não houvesse mediado na conferência pausa tão considerável: . ali à Emília que forjicou o fumeiro. sim senhor. A tia Emília tinha dedo. Ah..Mas onde quer você chegar. disse-lhe: . Engoliu em duas bocadas o segundo naco. Foi então que o Cambais. como um nadador ainda pouco experiente que perdeu o medo. aos três sócios. pagaram-me. pode atirá-la fora que não levamos a mal e mandar-nos prender. Pois lá se arranjem. Cheirava que era um consolo. enquanto Calhorra e 151 . dum naco da broa centeeira e encomendou a alma a Deus. voltou ases moutons. meu senhor. Absorveu a talhada toda e liturgicamente lançou-lhe em cima o digno aspersório dum copázio. .Vá? V.Não é tanto assim! . nem parece que todas as manhãs bota abaixo! O senhor Tadeu já não resistia. foram. R. onde se lhe requeira.. Vox clamantis in deserto. . que e um supor..Mas está bem. no que diz respeito a V.. cobrou-se dos direitos de pé-de-altar e ninguém lhe pode levar a mal. Por esse lado acabou-se. como é que nasceu esta comandita. quem a urdiu e pôs os primeiros aviamentos. Eu lhe digo. prova. É uma auguinha rosada consoante saiu das videiras. Quero chegar a que V. emborcou um segundo copo e afoitou-se a investir pela terceira vez com o especione.. O senhor Tadeu. O Cambais não respondeu. Vá.Eu pus-lhe a bênção. R. fale claro. para V. Porventura porque as pepsinas se estimulassem no seu aparelho gastrintestinal. R. O senhor Tadeu não pôde deixar de sorrir à frase por demais especiosa do homem. . ainda que fosse a tibornada que os judeus deram a Cristo pregado na cruz... atirou-se de cabeça. Acabou-se. depois a limpá-la do invólucro engordurado e comburente da gazeta. ganhou ânimo e respondeu com desembaraço: . será o primeiro a declarar. está bem de ver. que dizia eu? Vá mais. José dos Cambais.Olhe. mas o quodore estava divino. comia igualmente aquilo que lhe viesse ao prato. E fitando-o bem nas meninas dos olhos. espargindo à roda um odor voluptuoso. o grande mariola. R. Zé dos Cambais? Homem. Numa última e desesperada tentativa invocou os arrotos chocos a que era atreito e a sua pobre máquina combalida. R.. Se não gostar. Pegou do chouriço. Este pode beber-se que não trepa. no que diz respeito aos mais. Pois é ou não é verdade que eu só entrei para ela depois de o Calhorra e o Fráguas terem moído e tornado a moer ferro no oiteiro? É ou não é verdade que ao fim de cada semana eu pagava quatro )ornas. Agora não se acabou para V. O Cambais que tal viu rejubilava: .. sim senhor... para empregar a expressão herética de Jácome.A chouriça chiava no brasido.

se ficavam nas duas? E diga-me ainda V. certo de que as suas palavras operariam como um bálsamo naquela alma ulcerada de proPrietário: . uma lágrima marota de crocodilo: . O senhor Tadeu sentiu que o Cambais mentia pelos cotovelos quanto à colocação do seu capital. que eram a pacatez e o siso comum... meu senhor. muito colaços e roçando-se um pelo outro. ouça. mas o que se chama o conselho desinteressado dum amigo: faça de contas que há dois casos. se é mentira. homem estreado em toda a sorte de cambalachos e omnipotente tanto quanto se é numa terra venal. toque? O Cambais ao tempo que encalhava a manápula calosa e grossa na sua mão papuda deixava verter uma lágrima. Não é também verdade que a madeira gasta nos escoramentos do bolso me saiu. Ele estendeu-lhe a mão. está para liquidar. Quer um conselho. quem se queima alhos come. o primeiro. corno homem que salta de pára-quedas da estratosfera.casa. que era ao mesmo tempo como o selo da sua vontade assente e contrária ao que o pai dizia. se é verdade. e na partilha dos dinheiros não recebi um real a mais que os meus dois sócios? Aqui está. metendo ainda em conta o trabalho dos filhos que têm rabo e mais nada.O Cambais pôs a questão no seu lugar.. Depois de se ter atirado contra todas as leis divinas e humanas da conservação a comer e a beber à tripa forra. o que eu desejo que confirme com o peso da sua palavra acreditada.. levo o Calhorra.Mas fico de pernas ao ar. Faz-me dó. Se bem penetrava no íntimo do Cambais ele caçava por longe para alguma coisa alcançar ao perto. R. o segundo. Quase fora eloquente. na presença do antístite: .Fráguas. Mas era 152 . Mas ele não podia prometer-lhe semelhante testemunho que brigava com a mais rudimentar prudência e o compadrio solidário que nutria com os parceiros.. Reflexamente ergueu os olhos para Teodora e viu-lhe nos lábios um esgar de desafio. além de atirá-lo para fora dos alicerces naturais. está liquidado. que metia os sócios tal tal e tal.. e contra o Calhorra. O sentimento de que. homem.Não fica. O Tadeu olhou para o Cambais e viu-o transfigurado. . Embora cá na rapariguinha escuse mais de botar o sentido. consumar-se-ía a ruína da.Esse dinheiro que me levaram é para salvar o desinfeliz. não há que fugir. dava-lhe um lume mental que lhe desconhecia. Abafa-se o processo da indemnização. Eu comprometo-me ir a Orcas. vai ver. raposão de rabo pelado que não adiantava passo sem averiguar que era para ali? E o Tadeu antegostou a resposta cordata que em consciência devia ao Cambais. Como renhir contra o Fráguas.Toque. E acabou-se. Está pelos ajustes? O Cambais parecia hesitante. que o mete a você sozinho. Tornaram a encher os copos.! . se não atalhava com mão de ferro. levo o Antoninho e arrumamos tudo. ou desminta a pés juntos. Mas. concordo. atravessara já as várias fases da beberronia e estava na saturação. Devolvem-lhe o dinheiro da multa e o volfrâmio que lhe apreenderam. mas bebericar de piteireiros. gesto que só uma vez tivera para um colega. pouco mais adiantado está que seja assim ou assado. o aguço dos picos está ainda por pagar. Agora já não era beber. Não é só até o momento em que a sociedade se dissolve que o caso é uni: daí em diante o caso continua a ser o mesmo..

Tinha pressa de ver-se sozinho pela estrada silenciosa a lutar contra os mil diabinhos da gula. meu senhor. O senhor Tadeu seguiu adiante estugando o passo.aduziu o Cambais.. um frio seco de aço em barra. está zorata como a tia .. nem um cocoricó de galo pelas quintãs. não o sentia. Proibiu-lho. Fazia frio. . O José dos Cambais porfiou em acompanhá-lo até Mouramorta. encarnados na marrã.. tomou-lhes o passo a Polónia Fandinga. com a pressa que vinham as bandas da capucha em asas de aeroplano: . .Está mal. na chouriça. mas ao calor que recolhera à fogueira e à chama do briol que lhe alambrava nas entranhas. . Então até a saída do povo. Foram palmilhando as ruas tristonhas e desertas.. no verdasco. Fora persistia o silêncio hibernal...? Não pode ser. Levantou-se e com dois cumprimentos à boa dona e à sua menina despediu. piores que diabos do inferno. que haviam tomado de assalto a pobre ruína do seu estômago.. Ao atravessarem diante da casa da Bárbara Ladeira. àquela hora sem coleira de vaca a casquinar os tintinábulos. 153 . na bóla centecira.A esta hora.tempo de regressar a penares.A Bárbara queria confessar-se.Ora.. cada um a ruminar pensamentos de abnegação e grandiosos no tocante a suas pessoas.

que ainda era mais seguro no vender do que no comprar. ou pouco menos. Quando pôde estancar o pranto. para um lado o que era burel.. levea para a quintã. atada em cruz pelas quatro pontas e chamou-o: . estopa. percebeu logo o farrapeiro que o convidavam a entrar e foi avançando.. ó patrãozinho. desatou o fardel. que se acocorara na quintã a chorar.e ao passo que isto dizia entrava em casa. Bárbara.. olhe. um diabalma que se não prendia com as louçainhas do mundo.. O senhor donde é? . e soerguia a tampa duma arca. tire-me daqui esta trouxa. que eu não posso. tão usada e delida. ih. e sobraçava outro. da sua pele aciganada. O seu preceito. Logo que o irmão foi dado à terra.Então. mais ou menos pouco conta.confortou o bufarinheiro. Trazia um saco às costas.. como lhe costumava dar multas vezes ao dia: . e com a vaquinha tudo o que respeitava a apeiros e achamboaria. lã. . vazio. passando em frente da casa. . quando vendas. já com alguma joça. que tinha cara de rato. Sabe onde fica? Nunca para aí gastei a amieira dos socos. Compôs a sala e a passo vagaroso. para outro o que o não era. E. pst.. tratou de desfazer-se da Cereja. Está aqui a roupa dum trabalhador danado. que podia entrar para o cabedal da sabedoria das nações.XI Compro farrapos! Ao ouvir o pregão que alagava a rua.Faça favor. voltou atrás. 154 . ihf . O homem. que agora para ela só causava estorvo. toma tento que o mais é sempre menos. o Duarte.Sou da Cruita do Alto. perfilava-se no vão da porta. . mãos sobre o dintel. que era baixo. quem se cobiçou do que era dela pagou-o com língua de palmo. por ser mulher. Supunham que.. sem se fazer rogado. Como ela se postasse da parte de dentro da porta. Bárbara era uma bemvende. O belfurinheiro anuiu e. quanto quer por isto. então. marralharam. . a embarrilavam! Quê. mas já ouvi dizer que são boas terras. limpou a lágrima e ergueu-se. Nesse mesmo momento desandou ela o cravelho da porteira: . O homem. combinado em sua toadilha quente ao sol claro de Abril e ao cantar dos galos. era este: quando compres. dois pêlos no queixo e andava de blusa espanhola e chapéu desabado. têm muito gravanço. chapéu para a nuca.Compfrrapos! desfraldava de novo a voz.Tenho para ali uma trapada que não me importa de lhe vender se ma pagar em conta. Numa volta de mão virou a trapagem toda.. alguns mondongos de mulher. Tivera bom mestre. ih.. Caramba. e fez dois montes. Dentro havia de tudo. à força de servir da cor suja. Bárbara tinha já o trapo apartado para uma manta velha. santinha . quase tacteante. venha cá. .Vamos lá a ver. admira como a segurava no corpo? Era o seu homem? . mas tenho andado ao negócio para as bandas de Vale de Ia Mula. sobretudo andrajos de homem. . inclassificável. tão rápido quanto as forças lho permitiam.Irmãozinho da minha alma. era meu irmão! E tanto bastou para romper num choro alto e convulso.Todos havemos de passar por essa portela. caminhou para a porta. ambos de serapilheira. entretanto.Não senhor.Pst.Não se consuma. para ver à sua vontade..

? Queres? acabou por responder. acudiu chofrada: . quita de andar com panos quentes. nem uma voz.. Não tenha dó. O que a aborrecia era aquele zumbido de vareja ao cheiro de carne morta.Para que é o trapo? . Para que quer o dinheiro.Para derreter. Hei-de gastá-lo em missas e responsos.. E necessitados não lhe faltam na família.E que tens tu com isso? . a quem Deus perdoasse o desvairo.. Os meninos andam tão rotinhos que se olha para eles e vê-se mais coiro que pano. Em face das arcas abertas.Sempre te digo. .Pois a vender o espólio do enforcado. Não que lhe fizesse mossa anunciarem-lhe o fim para breve. O meu Lázaro não tem um jaqueta com que se possa apresentar na feira a comprar a sola. por três vezes volveu atrás à voz dela. mas não vás ter-me por beata fingida. Tomara ela que viesse já. às duas por três estava ali deitada. .Não vale a pena arrufarem-se. aninhada no palhuço da quintã. .. . Mas ele não despegava. saía com o fardo às costas.lançou-lhe Bárbara em voz sacudida.Derreter derrete-se o volfro. 155 . Valha-a uma figa torta. para responder.Que leva aí? . sendo prima pela banda da mãe e sentindo-a no fim dos dias. Não era isso. .respondeu Bárbara em tom áspero e de olhos duros. que a andaina melhor levou-a para a cova. e Polónia. perguntou-lhe: . . O farrapeiro que se detivera à porta a ouvir o despique exclamou: . Pois para que queria vossemecê que fosse? Isto assim já não dá vestir. . traindo a desarrumação dos manaxos.. não se conteve que não bramasse: Vornecê.perguntou alçando a mão para o saco. nem um aceno. o que era caso raro. valesse dez réis de mel coado. ao que andava nas últimas e ter mais côdeas do que fios.e voltava à sua fisionomia de carta que se deita à caixa. por três vezes o homem despediu.? A outra que era uma pobre de Cristo. aos poucos dias que tem de vida? Ela ainda descerrou os lábios.. Polónia percebeu que a prima se desfizera do bragal do Duarte. quero-o para o meu bem-de-alma.Culdais que é só fazer filhos a rabo destapado? Agora aguentai! . se é certo o que diz o tio Gregório dos Santos. E ainda que a roupa dele não.Queres saber para que quero o dinheiro. entretido com o brequefesta. uns frangalhos coçados e meio podres. Mas a cólera. puxou-lhe aquele pigarro seco e teimoso que a deixava ofegante e vermelha como uma papoila. Quando já haviam fechado o negócio e o farrapeiro. para logo recair naquela caradura que lhe era comum.. apossando-se dela.O bem-de-alma faz-se em vida socorrendo os necessitados. Pois então. apareceu a Polónia Fandinga que. que era curiosa.Vá com Nossa Senhora? . A tiazinha torna-me o dinheiro que eu torno-lhe os farrapos. e outras tantas se desfeitearam de palavras. minha santa. lábios cerrados como o sobrescrito duma carta que se deita ao correio e não deixa ver o que diz por dentro.. mais sotranqueira ainda que a própria inveja.

muda. Chegado o S.murmurou Polónia. esse que estava longe dela.Quem sabe lá? . Também nã o devia um alho a ninguém. que também era prima direita. credo. e recaiu no acesso. e outros cartaxos podem vir se quiserem. ih.exclamou a sapateira. Os Alemães pegam nisto. Está aqui está na Alemanha. de verdade. agora quase não mexia palha. chisca. a talhada do unto.A vida está para estes pendentes . Deu-lhe uma risada e desandou pela rua acima.Compram por dez.Credo. Dormia com ela vestida. que fora uma abelha a moirejar.Mas não lhe fazia mal nenhum que fosse mais amorável com quem é do seu sangue. Abandonara-se ao comer. Houve tempos que precisava do próximo. O seu regalo era mudar-se em pedra. Ela dava bem conta de tais etiquetas. não se ralava nada de nada. Pela vida fora. assim imprevisto e intermitente como as sezões: .É com medo que a roubem como da outra vez . Ainda cá chegam. . contanto que não se pusessem com lamentações.. Miguel. Escarolada para quem? Trazia há quatro meses a mesma roupa.remordia Polónia. Guardava essas até à colheita. que vêem passar o dia e a noite pelos séculos dos séculos e não se ralam com coisa nenhuma. dar-lhes-ia igual arrumação. . .dizia-se. e fazem cordas para prender os prisioneiros e roupa para os soldados. Ela. não deita o Outono fora. a folha da couve galega. Não se despia porque tudo lhe fazia febre. quedara desconcertada de todo. depois que faltara o irmão.E isto volfro é. vai hoje. Foi para vomecê lhe deitar as roupinhas pela água abaixo que o primo se enforcou. . Trocava o pão na padeira. Isto de lãs por modos anda caro como a morte. se estivesse na mão de Cicrano ou Beitrano coisa que lhe fosse indispensável ou preciosa. lhes tocasse à aldraba. Ainda ia às hortas ripar dois espigos para o caldo.? E que lhe fez à capucha? Bárbara esteve um momento a olhar em alvo.. não tão curta que não visse três padres colarem-se na freguesia. . Trazia sem dúvida o dinheiro com ela. e quando se sentavam à sua volta tinham mesmo cara de velar um cadáver. se fosse viva.compro farrapos! . já lho viram. mas já lhe não pesava que andassem comidas com grama. vozeirando: . a fugir ao agouro. Lá vai para a guerra. .já se tem visto muitas pessoas. vão vender por cem. Um cartaxo poisa em cima delas. e quem precisa humilha-se. como nunca mais pegara do pente para se pentear ou de sabão para lavar uma fralda.Fica que nem uma baronesa . como por exemplo a saúde ou a salvação. se não longe. que viva cem anos que eu não desejo a morte a ninguém .. lh.contramarcava a Joana da Urra. Andava um estrume. O Gregório barbeiro dava-a como héctica no último grau. O mundo. . lhi Durava-lhe dois minutos e regressava à imobilidade e mutismo. a baratinha. fazerem conchavo com a morte e enterrar a geração toda que estava de gargalo no ar à espera de lhe cantar o miseré.. As terras por fora tratou de arrendá-las e dá-Ias de meias. Tinha o essencial para o resto dos dias. Bárbara. aprendera a ser indiferente ao que diziam e pensavam dela. vai amanhã.Irmãozinho da minha alma.. . tirante as que tinham renovos. a distância 156 . destas pedras enterradas nas leiras até mais de meio. atiram-no às caldeiras. e. Agora desprezava este mundo e o outro.Traz o dinheiro com ela na patrona. mas não era só por isso. Não era ponto de fé que. Pouco lhe há-de durar? Não a vêem a secar dia a dia? Aquilo há-de ser como a caruma que está mirrada quando chega a adubar a terra.

o hotel estava debulhado. como as sardinheiras com a sardinha. lá mexem. esteve para se deitar ao gasnete do homem. lá apertam com uns. Aquilo descobriram por lá algum explosivo com gema de ovo.E você. Aqui o Tadeu deve estar com a sua larota. Acabou-se o azeite. Sabes de certa certeza que não falei com ninguém. Ela não se deu ao trabalho de a desmentir. Ali vão os quatro e chegam ao Barradas: almoço? “Almoço.” Polónia devia sentir esta resposta porque acudiu de pronto: . arranj e-nos uma bacalhoada com batatas. como todos sabem: . Sou aqui como o Cambais que tem a mó sempre pronta para a moenda. Ela não saía da sua hirteza para botar dito ou risada desdenhosa.quanto mais não fosse serviam para remendar a sua cáfila . que é homem insofrido.Se mo chegarem ao bico. sabe Deus.. nem para os alfacinhas chega. arrependeu-se de ter ido tã o longe e torceu por outra vereda: . entretida com a feira interior. mas resolver o negócio.. e onde não há el-rei o perde.. A certa altura diz o Fráguas. na qual o irmão tinha papel mais importante que a tenda das colheres e canivetes. Não havia para que erguer 157 . mas já não aceitamos comensais avulso. e Polónia contou. “ “ Meus santos. com muito gosto. Voltaram a tocar berimbau. pois quando menos se esperava. O tio Zé dos Cambais também fora. Chegam à vila. Agora que via ir os mondongos . ainda a distraía. que lhe conhecia os gostos e procurava fazer-lhe a boca doce com vista em caçar alguma leira. ao menos? As hortas agora estão espigadas. julguei que tivesse ouvido. a Polónia limitou-se a chorar.Então já sabe o que se passou em Orcas da Beira com o tio Calhorra e a gente da vila? Bárbara dardejou-lhe como única resposta um olhar breve e iracundo. quanto mais botar a estas falperras!” “Uma sertãzada de ovos?” “Ovos? Andam a arrebanhá-los por todo o preço para os mandarem para Espanha.Irmãozinho da minha alma. dera-o Deus.Anda para aí tudo cheio. E não admira. Calhorra? .. em que ânsias. ih. roer cá por dentro.. ih? Quando vendera a vaca. “O estalajadeiro riuse: “Bacalhau. e fica areia e água choca. encarregos de tal ordem que se fossem por diante ficava o homem aleijado para toda a vida.. que também costuma dar de comer aos feirantes. O tio Calhorra e o senhor Antoninho tinham na antevéspera ido a Orcas levados pelo senhor Tadeu a ver se de algum modo acudiam à multa e não sei que alcavalas que haviam deitado ao tio Zé dos Cambais.Vamos almoçar. considerando que de pouco préstimo podiam ser. nicles1 Era dia de feira e estava muita gente na vila. vinha com os mexericos mais salgados. deixem passar o Verão. se tivéssemos tempero... nem saí daqui. Se não fosses mais tola do que te julgas. Depois. Falta tudo. A Polónia. Para Espanha ou para a Alemanha.” “Homem. que é assomadiço. pudera. “ “Um caldo.. rompia na zangurriana: . . Outras vezes não era certo que ouvisse o seu correio de notícias.indignou-se. Mas parece que. não fazias tais perguntas. Nesse olhar significava: “ Bem te entendo. Foram ao Requeijo.que podia observar sem gastar o coração. . amigos e senhores. “ O Antoninho. Muita água leva o Mondego. ih.Sinto um morganho a. um deles é o senhor doutor delegado. não digo que não.. já que o Duarte tinha o vezo de tirá-los do corpo para vestir os espantalhos dos milharais. sim. lá se agarram a outros. Temos três hóspedes.. Estavam até os rapazes a dizê-lo numa roda atrás da casa..

O mais. mal se tinha nas pernas. vá de amizades. razão. E assim foi. . . Um deles soltou um berro: comem todos ou rebenta aqui uma revolução? O Calhorra mandara assar uma perna no forno. Caiu bem no paladar o regabofe de vitela que deram os volframistas de Mouramorta. empenhos. pela rua e quelhas confinantes. o caso é que ali se combinou riscar as penalidades ao tio Cambais.Pronto? Isto é para consumo particular. os fiscais e senhores da justiça e das Finanças. ao menos uma vez na vida. para se resolverem com honra.Vai lá ser careiro para a Terra Querite! -Nem que me virassem do avesso. Pudera. de Pedrões. . já a bezerra estava esfolada e esquartejada. coitado. não vale a pena afligir nem apertar muito com o pagante. Ao que era de rosada e bonita crescia a água na boca à gente que a via. Sim senhora. metem-lhe a faca. já que hotéis e estalagens não davam de comer. povo noutra. o tio Cambais pagou a vitela. palavra de rei. são três e meia. Esperem um pouco. que lá é que se forjica. veio a guarda: . que ia vender uma vitela. que o tio Calhorra não é trouxa. tinham abatido uma vitela e o mesmo foi começar-se a juntar o pagode da vila. Lá o volfro não lho restituíram que já não haveria meio de se lhe descobrir o rasto. mas quanto lhe não valeu? Gastou uma novilha. Dali a pouco voava pela feira que os de Mouramorta. fazer uma segunda em bifes. as outras e os lombos fora dependurá-Ias a tais e tais portas. a menos que fossem do bispo. era capaz de chegar a ministro! .O que eu queria era mandar na Casa da Moeda. chegou o senhor administrador. seu Calhorra. não pegavam. 158 . à volta. era à mesa entre duas boas garfadas e dois goles dum vinho velho . O Antoninho Fráguas. anda tudo ao mesmo: comer. Trombavam bem e bebiam melhor. se fosse homem instruído.Pois já que está bem. Lá lhe compraram a vitela. Queria por ela quatro notas. .” O senhor Tadeu. Figuros e volframistas numa sala.Ah! ah! Está bem. esta vida são dois dias. justiça. Foi-se à feira. por fantasia.dizia o seu Lázaro.olhos. homem bem comido e bebido. São três e meia. por modos que dissera para o Calhorra: . Com a fraqueza.Eu vou arranjar papança.Você. e toca com ela para o galho duma árvore a esfolar. Dali a pouco o que havia de melhor em Orcas trombava. Chamam o veterinário. o senhor Tadeu. Mas vá de saúde.A licença? . Atrás dos guardas. . você e o cabo estão convidados a vir tasquinhar uma lasca em casa do Rufino.tornou-lhe o Calhorra. Apareceu um outro doutor mais descarado. Havia de fazer notas e distribuí-Ias de avião cá pelas falperras para toda a gente comer vitela e migar trigo no caldo.Ministro não queria ser . Em menos de uma hora à porta do Rufino. . direito ao Antunes.Hás-de deixá-la por três e ainda lhe comes um bife. cheirava que era um regalo. forrou uma vacada. Estavam ali deitados os guardas assim que se puderam pisgar. Pois então?? Veio este e viria o Governador Civil se ali houvesse tal bicho. Estavam na santa trincadeira. Ao cheiro foi vindo povo. “Diferenças hoje em dia. uma vitela que se derretia em gordura e novinha. mais católicas que as estações da Via-Sacra. já desesperava. pois mal começavam a apontar-lhe os cornichos por debaixo da pele. . A certa altura o Calhorra esteve a cochichar com o Cambais e disse: .Por ser para você. vem o cortador.

que de sénica lhe sirva! Continuou a pôr tanganhos no lume. 159 .Vê lá tu. quando vinham das romarias. ter revólver. têm dado muito dinheirinho aos pobres! Depois daquele dito foi como se lhe partissem a corda. deixava de ser um mineral para se tornar o substituto do tranglomango ou do Pedro de Malas-Artes. Deixa. muito grande e forçudo. outro com a mão lesa ao brincar com a pistola que se disparou.dizia-lhe Polónia. que tanto pulverizava o casario das cidades como a cabeça da gente. Polónia. ih! _ Deixe lá quem morreu e reze.Deixe lá. ou de que cuida antes de morrer.E todo este cagaçal é obra do volfro? Terçã coma tais pedras mailo primeiro ladrão que deu conta que andavam a atirá-las às cabras? arrenegou Bárbara. Em S. No Ramalhal minara a casinha dum pobre homem. Pôs-se a chorar: . sem o galaripo . de lágrima no olho. ih. um galinho tão bonito. que dantes não sucediam estas abusões. e traziam veneras de latão na lapela onde antigamente. Quando voltou. Umas raparigas davam em droga. A Polónia ofereceu-se para ir procurá-lo pelas casas das vizinhas e pela primeira vez lhe acudiu aos lábios exangues um arzinho de agrado. com a perna direita esmagada debaixo duma pedra em Muradais. rebentavam outros com os excessos que faziam.. as desgraças eram à rasa por essas terras fora. Brás da Nave certa noite desmontara a eira que era de brita. roubava. que dantes eram felizes com a flanela e o riscadinho. outros lambidos pela chama. reze-lhe por alma. Irmãozinho da sua alma. à força de virar o mundo de pernas para o ar. e aborreciam uns o trabalho. que já galava! Quem mo comeu.aquilo tinham-lho por lá abafado . Na vila de Orcas comera uma vitela inteira para saciar a fome. Ainda naquela roubalheira quem andava era o volfro. que ficou soterrado debaixo dos escombros. Ele é que era o pai de todas as pachouchadas e poucas-vergonhas de que há tempo se falava pela serra. e era como se o visse em sua faina secreta de destruidor. prima. que vale mais . botar relógio. porque galinhas são a última coisa de que se desfaz uma dona de casa. Ali tinham! O volfro. ser gente. tiveram de desarvorar para os lajeais da serra. Matava. As raparigas. seduzia as donzelas. quando iam para malhar o milho dos canastros. ih. vestir à fidalga. imberbe. e vivia-se. Todos queriam comer do bom. uns já em brasa. Era ele o autor de todo o esparrame que ia pelas parvalheiras. os rapazes entravam pela vida de tunos. Não viu o frango que viera substituir o lascarinho que levara de peita ao senhor Fráguas e ficou muito aflita. . Sim. no dia seguinte. cachenés. É o que lhe digo. Punha-se a olhar para o lume a devorar tangos e cavacos. ele é que botara à trave a corda com que o seu Duarte se havia enforcado. um. Só dali da terra tinham ficado aleijados dois. A “sepultura da vida” ficaria também sepultura da morte se a lei cristã não mandasse retirar o cadáver do ambicioso e dá-lo à terra santa. por muito que Polónia a puxasse a terreiro. espetavam por devota garridice um raminho com a sua pena de canário ou de marantéu. fazia as pessoas ruins. Rai's partissem. não deitavam agora seda e zefir? E os rapazes só compravam sapatos de calfe e bonés de pala. os asnos. tão pimpão. Bárbara julgava vê-lo sob a fGrma dum homem negro. Todos queriam ser homens. À tardinha levantou-se a deitar dois rabos de centeio às galinhas. pôr gravata. armado dum martelão.já ela se encontrava ajoelhada à lareira a acender dois chamiços. o volfro. Não deu mais palavra. e introduzia a mão espatulada onde houvesse que subtrair.

Fora o volfro. Oh. Procurassem bem e não culpassem outro.Manda-os ao volfro . que perde a alminha! seu irmão. iroso. o lume. Não raro lhe sucedia estender o pescoço como se se dispusesse a ouvi-lo falar. que acalcava as sementeiras como mil cavalões arreitados. senão o volfro?? Às vezes. Ainda se lhe ouvia a chanca. se dentre os carvões. A Polónia via-lhe aquele movimento absurdo e interrogava: . embora arrenegasse de beatices. deixando a terra com uma espécie de furúnculos e de impigens. ela se fartava de repelir. sepultado nas entranhas da terra. que fazia estas avarias pelos povos. tornando-as deste modo improdutivas para sempre. a gemer: deixai-a confessar. o arraial dos fantasmas.Já lá está o pai. atrás dela pela casa.pãozinho de Nosso Senhor. lhe marinhavam para o selo. para o cemitério. ininterruptos e nojentos 160 . que por onde passasse fazia aqueles poços tão fundos que já se lhes não via pé. Pensamentos que vinham do negrume. e a prima via-a mexer com os lábios e cuidava que estava a rezar. como tantas vezes acontece a quem vai seu destino. ao canto roufenho do reverendíssimo Tadeu com o nariz como uma batata quando lhe grelam os olhos: à porta infra! E ela e o Duarte ficavam sozinhos. maldito ele fosse? Matara-lhe o Duarte e não havia dúvida que fora ele quem assassinara o José Francisco à traição. Involuntariamente se punha a dizer isso mesmo entre si.. mais medonho do que nunca. se dos buracos negros da casa. Mas o tanganhão cedo voltava. O homenzarrão que era o volfro sumia-se para dar lugar a outros macavencos. sua mãe. encher-lhe a cântara de água. Essa primeira noite. daí a pouco rompia. o resto do corpanzil. senhora mãe? Venha. A Polónia só abalava depois de lhe ajeitar o lume. eles se fartavam de voltar. Acontecia os pequenos da Polónia virem lamuriar para a porta: . quem ceifava gente por filas. de olhos nas nuvens.Que é o que a prima procura? Veja lá se cai para o lume? Voltava a si. . baixava a noite para Bárbara. e a escuridão. pôr-lhe um panelo com batatas a cozer e dobrar-lhe a capucha atrás das costas para se encostar. não sabia dizer já que malandros de pensamentos lhe tinham vindo à cabeça. Eram todos eles dotados de carne e osso e vinham tal qual: sua tia Soledade a pedir um padre.dizia ela com um sorriso. que lorgava as encostas e chapadas dos montes. não sabia se das suas pupilas. estirado desde o claro-escuro até à fogueira. por outro lado. tinha a impressão nítida que o volfro estava ali: a pilheira era cabeça. o pretalhaz desalmado. Era aquele mesmo que revolvia as chás em que se cria o. quando a felicidade do morto é dormir. tanto na terra como no mar. o barzabu negro e malvado? E por esse mundo além. as duas tarascas. aos gritos: façam-lhe a vontade e ainda esta noite vão dormir ao estarim! Eu não as vou soltar! Depois lá iam as duas velhas. que vinham do inferno. como a gadanha do ceifeiro ceifa feno. os bofes. o negro da família. pior do que bexigas na gente. sozinhos.Chorava e deixava de ver por instantes.. e negra. e ficavam para ali de fojo para os bichos do monte. e até para os viandantes descuidados. com a diferença de que esta tinha de passá-la de espertina. que temos fome. pela leiva da superflcie adubada com rios de suor. para os borrachos e as crianças. Mal fitava os olhos nas brasas. quase tão grande como a outra de que nunca mais se acorda. fazendo finca-pé na certeza que tudo aquilo era desvairo do seu entendimento. noite sempre enorme. trocando o saibro. e no seu entendimento perverso o mesmo era que mandá-los para a torre da Madorna onde havia um gigante que comia meninos.

A casa estava sepultada em silêncio e trevas. se calhava ter de puxar pela carteira. E. E tudo ia em acréscimo. todos os anos pelo Santo André matavam porco.como as lagartas dos pinheiros. associados com os do Urra. sem embargo dos olhos ruins que tanto gostariam de lhe deitar empeço. já da margem de lá. até ao enforcamento do Duarte quando. sem pinga de sangue.1 Era a garotada a arremedá-la. a tentá-la e a meter-lhe o veneno que nunca mais perdoa. Via-se mesquinha de todo e perguntava-se se o senhor Antônio Fráguas não andara a vida inteira a mangar com ela. mostrava o seu pacote de notas. espantava. As suas terras atolavam em estrume. Disfarçavam a voz para que os não conhecesse. nas traseiras da casa. só porque erguera mais a voz. Um alma do diabo que tinha filhos por toda a parte e assim lhe catara respeito. conforme o lume devorava os tanganhos. caminho da romagem fora. Estavam lavradores. a chegar-se a ela e a querer rendê-la. O seu Duarte era um ganhão de mão cheia. Não descansava enquanto não via a quintã e o combarro a abarrotar de mato. e toda ela ficou hirta. que a torcida da candeia já nem sequer cheirava a petróleo. Ajuntaram pecúlio. fora ao desfatio. anos e anos a fio. gordas. Também botavam renovos que encandeavam a vista. atestadas até cima de lenha para o Inverno. louvado seja Nosso Senhor. mormente as cardenhas da eira. por uma noite de geada. muito recatadas ao abrigo das três voltas. Como luzes que se apagam a um tempo se lhes sopra a nortada. e justaram uma parçaria com o Sancho. Não queriam crer. Semelhante acesso era uma rabanada de vento que lufava sobre o seu arraial de fantasmas. não afrouxaram. Desenvergonhados? Aquelas vozes. ih. Iam aos mercados. e o Duarte. e andavam reflectindo os pais na exaustinação de ver quando é que ela esticava o pernil. zás. passara um nó da corda de encarrar ao pescoço. como a comédia em Orcas a que a tia uma vez a levara. Estava a vê-lo muito negro. Às vezes a cabeça caía-lhe para o ombro. Tudo isso entrecorria na lareira à resplandecência do crisol. ao fim. os olhos a olharem para esta vida. ia-se-lhe representando de espingarda a tiracolo. mas desconfiava que deviam de ser os filhos mais velhos do Fandinga. É que não gostaria dela. aparece o volfro. Agora. Mas pronto. ih. gordíssimas como fidalgas. e as lojas. Mas. Estava a sonhar. Compraram vaca e carro. com negror espessíssimo à volta. cacarejava uma voz escarninha: Irmãozinho da minha alma. Ele é que fornecera a matéria-prima do mal. Era um cassamente. como meninas por detrás das grades dum recolhimento. E. Atrá s da lida veio a poupança. esvaíam-se todos. ou de botas amarelas e chapéu faia. na dor que o acometera ao entrar em casa e dar com as arcas abertas e a caçoila sem o precioso recheio. Lá fora. só aquele palco em foco. que eram fracos trastes. E entrava de 161 . Rompia a soluçar. não era nada. rápido como abrir e fechar a mão. Fartaram-se de cavar a vida. e um momento a mão dele veio agarrar-se-lhe ao corpo. acabou mesmo por deixar de ouvi-Ias. A primeira noite que uma vaca tilintou à sua nianjedoira dormiram na corte com ela. O volfro era o pai de suas turpitudes e desgraças. Soluçava. desde a maquia extorquida ao Luís Ougado. ih. Poupavam-no ao corpo. que mal a tiravam da sua cisma. língua de fora. O Duarte dava voltas sobre voltas com o sono muito agitado. O mesmo pauzinho a arder lhe dizia que fora um sopro de tempo esse durante o qual se lhe haviam fechado os olhos. ele adormecera como um canzarrão que andou a lutar com os lobos. soluçava até se encher. mais uma para o rol. e dali em diante os derrancados dos pensamentos não tornaram.

a catadupa de rumores indistintos. que é sala de cães. acabava de repô-la na terra. A coruja vinha também com o bater da meianoite e armava grande alarido e guincheira. Aqui adoeciam. bem embora não tivesse saudades do mundo. lá ia por cima dos telhados visitando a clientela. Depois. como os galuchos nos quartéis. Tratavam-nos. de anjo.. Mais acalcanhados nem os bois do cilindro. As chamiças charriscavam até lhes arder o manto. e via-o tão perfeitamente como se se acogulasse à sua volta. agora que elas já eram menores. A noite negra poisava-lhe em cima o seu joelho de giganta. era o bastante para lhes apontarem o largo: . Oprimida de todo.novo com o seu arraial de fantasmas no casarão amplo e soturno que descobrira por debaixo da terra do cemitério. mesmo de pés atados. à raiz das covas. Também ali farejava desgraças. Os encarregados tinham-lhes raiva porque a vasilha continuava a verter e não acertavam com a fonte por onde melava. Dali andavam mais de uma dúzia em Muradais. Para o Casal cantava um rouxinol e para o cimo do povo uma toutinegra que amanhecia com as estrelas a chamar pelos pastores. mais de vinte no Vale das Donas. que a aldeola era feudo seu. dava graças ao Senhor que a não tinha chamado aquela noite ao seu terrível tribunal. e estavam logo lá. contrataram-te para fistor? Se levantavam a grimpa. Às oito em ponto tinham de estar a pegar da picareta. estendendose em cima da cama. de chocalhadas. Passava boa parte da noite. mas pela telha de vidro a luz banhava-a como se caísse em cima dela um vestido branco de noivado. ia deitar-se. Pois que assim era. a toque de buzina. Por fim. Deitava-se de costas que de lado nã o aguentava com as dores do peito. Os capatazes sabiam que eles metiam a unha e andavam-lhes na garupa como carraças. tal como tinham sido em vida. Parecia que se ensaiava para lhe cantar o bendito. Quando começavam os tamancos a matraquear na rua. afogado na noite.. A sua vozinha alegre. vinham logo de rabo alçado: . De 162 . acendiam-se as luzes dentro das meninas dos seus olhos. a grande zarga? Ao levantar. tão juntinho que bastava os defuntos darem uma cambalhota. E depois. armava-se outra vez o teatro. além agonizavam: ela andava a tomar nota como empregado de cangalheiro. a vogar à tona do mar tenebroso como uma cortiça. custava-lhe respirar e a pieira saía-lhe mais assobiada. Sobre a alva calava a grasnada sinistra e rompiam a gorjear os passarinhos que não metem medo e trouxeram a voz do céu. Entretanto os rapazes que trabalhavam nas minas subiam e desciam os patins com grande estreloiçada e ouviam-se cliamar uns pelos outros. abria-os. Assim mesmo. Borbulhava o formigueiro dos defuntos. Se algum esbarrava a ver para onde corriam as nuvens. E era o mesmo que estar com os olhos abertos. Se não estavam. reapareciam os figurantes a bater o tacão. como se se tratasse duma romaria. A casa era lôbrega. Mas aquela convivência acabava por lhe ser molesta e. Esse vestido. com o completo despertar do cortiço. estava mesmo a dizer: levantar? levantar? Um cão latia e era quanto bastava para se achar menos só no mundo. com o adiantar da manhã. de vozes humanas. rua. um bocado ficava o seu entendimento.Põe-te a mexer! Num rufo. E de olhos abertos lia no escuro como lia nas brasas. Depois. Via a fogueira a apagar-se e punha mais lenha. Lá se punham outra vez todos a falar e a fazer tagatés. à lareira. porque era vezo. abria-se.Olha lá. Depois o lume ficava a triturar os gravetos e era como um cão a roer um osso. pouco a pouco. fechando os olhos. pousava com não menos chinfrim na casa da Pedralva.

também. Ia correndo a levada do tempo e a leiteira tocava a buzina no terreiro da fonte. À porta uma acácia cobria-se de cachos brancos. Que mais não fosse.Sonhei que Nossa Senhora me acenava com um lencinho de rendas e depois me dava a mão para passar uma ribeira muito grande. de modo que lhes não faltavam braços. A Primavera era bem bonita por aqueles campos abaixo. muito à capucha. o tio Calhorra continuava no negócio. Bárbara arrastava-se para a lareira. soprava às duas brasas que luziam ainda no meio da cinza. o cuco onde calha. Até que a fêmea saísse da toquinha. Estava varejada a árvore das patacas. sabor de mortulho. . Viam-se só em campo as grandes empresas. igual à de véspera. fartava-se de gazear. buscá-lo em mulas. A Polónia. Tudo andava já de alevante. tinha dormido como uma pedra. . que até para lhe ser mais antipática que a outra se prantava ao pé dela em vez de andar por cima dos telhados. vinha cedo com a mancheia de caruma. Também lá floria o alecrim que o Jamboto coveiro punha aqui e acolá para que se não dissesse que aquilo era pior que um curral de gado.Teve bons sonhos? . Os poleiros eram coretos de charanga. que trabalhavam em Muradais. a que chamavam navarros. Dormiu? Ela dizia que sim. Regalava-se toda em lhe torcer as voltas. por ser de cascalho e muito esburacada. Depois. vendendo acolá. e a vida recomeçava para ela. comprando aqui. largavam com o lusco-fusco. pschi.Estou aqui estou fina.Comeu? . pschi. Ora? No cemitério também nasciam aquelas flores que se erguem numa haste alta e fina e parecem os antigos alfinetes com que as senhoras seguravam o chapéu. continuavam a ajuntar volfro. uns e outros. Muito pela sonsa. Nada a prendia à safadeza da vida.Então sente-se melhorzinha? . punha duas farmalhas. de verter os seus lamentos. girava à vida como os pastores das vacas. Lá tinham maneiras de surripiá-lo. A baixa que sofrera o quilograma com as leis danadas do Governo não dava para a grandefreirria dos meses anteriores. sempre igual às transactas. levava-lhe a enxerga para a quintã. e as rolas na cruta dos pinheiros ao desafio. Em cima tinham uma copazinha que lembrava uma gota de sangue. Era para semelhante primavera que ela corria e tomara que fosse já. Mas o febrão estava a passar. davam os galos a alvorada. A corcolher punhase a cantar e logo a seguir o pedreiro que todos os anos fazia o ninho ali perto na casa da Cismas. Não chegava o sebo para a mecha. Ou: . Acendia a fogueira. que já saíam duas vezes ao dia. a quererem roubar o rolo umas às outras à força de melúrias e denguices. como podem ser iguais gotas da mesma água choca. que andava a rondar. ganhava arreliar aquela coruja.Hoje acho-a mais animada. 163 . não desse ela o cadilho inesperadamente e a roubassem os outros.e não lhe tinha passado bocada nos gorgomilos.facto. De manhã trazia perra a garganta e falava pouco: . Às vezes badalava o sino para a missa. respondendo ao avesso do que ela esperava. que nem o Demo seria capaz de adivinhar.Comi e soube-me bem . Uma vez deu-se a provar: tinham um sabor esquisito. com o marantéu nas moitas. Eles fora. Os homens de Malhadas. Vinham homens de Espanha.

justinha na anca. vai-me chamar o padre. o chambre de flanela que estreara há dez anos na festa de S. Que imaginava ela?” Polónia sorriu com desdém. pelo não. e nada metia mais nojo no cemitério.Olha.Hei-de empregá-la no bem-de-alma. que estão arrenegadas por ir ganhar a vida. “Olha que não pára na sepultura e vai andar pelos caminhos a fazer espalhafato.? Acenou que sim. não temia dar contas a Deus. mas no cibeiro.serrazinava Polónia com voz pedinchona.. Miguel... ao pé do Trinta que morreu chacinado. veio para esconjurar a Florinda Pedralva . muito raro que por trancafio lhe ficasse a talho de mão assistir grato Deo às suas ovelhas distantes.? Sente chegada a hora. Tenho-me desobrigado todos os anos e. do que os sapatos. Quando a prima voltou. parece que não podia. ofereceu-se para ir arranjar meio quartilho de leite. Deita-lhe o milhinho que está na teiga. Para mortalha reservava a saia de castorina. que todos os mortos hão-de passar quer queiram quer não. nojo e medo.. Tinha proferido aquelas palavras com certo esforço e Polónia considerou: . “Fica-lhe a alma penada no mundo!” diziam-lhe. como em geral era modo seu. que ela bem viu.Sabe. . Mas. . o que sucedia as poucas vezes que o senhor Tadeu ali vinha dizer missa encomendada ou no desempenho das suas obrigações paroquiais. provavelmente para o Lázaro.É a ribeira do Jordão. a roda toda para trás como os turnus!” Reservava então essa saia. A prima observou-a de soslaio e franziu o focinho. sombra que se esvai quita candeia. Quanto a rezas. mesmo que quisesse falar. durma-lhe e coma-lhe bem. e uns meiotes novos. Para que quer a riqueza. olhe. e percebeu que dizia: “Não ouve o cuco?” Voltando para dentro. Enquanto Mónia girava a abrir às pitas. vai-me destapar o buraco às galinhas.Lá irá para onde o pague? Ela não respondia.. Está a perceber? 164 . Às porteiras pôs-se a cochichar.. . “Não tinha posses para se tratar a leite. Polónia. todo o dinheiro que tenho e pouco para o bem-de-alma. que levara havia mais de vinte anos à romagem das Cinco Chagas e de que ele dissera: “Que bem que te vai essa sala..Sabes que mais.. Abria a boca e ficava a papear. . Os padres que fossem comer a outra manjedoira. Aquela manhã. Um dia mete-se contigo na cama e esgana-te!” Coitadinho. sempre me quero confessar. . se não fora as consumições com que o Demo derranca as almas. tocou o sino.Então já quer. quando ao fim de sete anos o Jamboto abria as campas. Nada lhes dera com o Duarte. Não queria lá chinelas.Já disse.. lá ficou tão abafado debaixo dos cardos e das ortigas que nunca mais deu sinal. Bárbara indignou-se toda.? Era uma sondagem e respondia invariavelmente: . .. um real seu não viram para missas ou responsos.. como se também eles se associassem com a terra a comer a gente. com a tromba arreganhada à semelhança do jacaré que está na Lapa. A sola levava tanto tempo a consumir-se como a caveira. ainda pode demorar.Vista-me os marmotinhos que andam rotos. disse-lhe de caso pensado: . Pelo sim. que vinham na enxada. O certo é que tinha em mente gastar o menos possível com o enterro.esclareceu Polónia. Pois que não lhe consentiram enterrá-lo na terra santa. o lenço de seda ramalhudo que fora da tia e era um jardim..

já se não via há que mundos. pois não lhe dera nada a rilhar pela morte do Duarte. Bárbara chasqueou baixinho: . Também as orelhas se haviam tornado diáfanas. ergueu o cântaro pela asa. Quando atingiu o açafate que estava no sítio. como fazem as águas vivas quando começam a subir nos açudes e encontram um buraco dos ratos. que a fisionomia pouco mudara. a pobre mãe tanto gemera. bebeu. Vinha descalço e tão escoteiro que só reparou nele quando passou por diante. e veiolhe o desejo de se ver. não viria.. com olhos que fugiam para dentro do crânio.. Lembrou-se que tinha um espelho no açafate da costura. tanto suplicara que o senhor Tadeu. ah.Ah. Era bem a Bárbara Barboreta. aríscos e vagarosos ao mesmo tempo. Quem olhava para ela. O seu primeiro movimento foi gritar. permaneceu de cócoras que lhe doíam as costas e se esfalfara a chegar até ali. Quem quer que era foi direito à cantareira. mas faleceu-lhe a voz nas goelas. e reconheceu-se naquele sorriso. de a benzer. No pescoço é que a pele. ih. a meditar nas voltas que o mundo dá. À dita confira. e ela ficou a malucar na Florinda. vítima do volfro. depois do abalo que sentiu ao pousar os olhos nos olhos. estão muito enganados com a delambida! Polónia desandou. mas se fosse assim para o caixão não meteria medo a ninguém. puída ao meio corno laja depois que se malhou. Mas os dentes reluziam e eram eles que davam ao rosto o tom derramado que tinha a Senhora da Boa Morte no santuário da Lapa. horrorizada. encostando-se à parede. mostrando os dentes. se lhe oferecia encarquilhada. ih. que de modo algum queria perder um espelho de tanta edificação como aquele de ver enxotar o Diabo do corpo do seu semelhante. causaram-lhe tal impressão que os fechou. O que era o barro de que Deus ou o Diabo amassavam a gente? Tornou a mirar-se e notou com reconforro. Aquilo não ia com benta nem benzilhão. um pé em casa. Iii. o seu tanto escaveirada. Assim que respirou. e sempre se decidiu a lavar a cara e a tirar a ramela dos olhos. foi pelo espelho e ao esforço que teve de fazer capacitou-se que chegara ao fim dos dias. de rópia pela casa dentro. um espelhinho redondo que ganhara havia mais de dez anos na rifa do Roupinho. e levou-o à boca. Estavam fartos de a defumar. que era só dela corno o vermelho das rosas de Alexandria. como que sorriu. tão retraídos como bichos bravos no fundo dum fojo? Ah. com o espelho caído no regaço. Mas ora. Corcovada. no padre que era muito capaz de não vir confessá-la. Bebeu. condoído.. esses olhos negros luzidios. seguiu-o com os olhos e afigurou-se-lhe que trazia carapuça de Alvite na cabeça e estava em mangas de camisa. e despegavam-se da cabeça como vagens debulhadas. além de amarela. por detrás da arca.Tinham ido à benta de Quintela.. outro pé na rua. vinha aquele dia rezar-lhe o exorcismo. Onde ia porém o azougue e frescor da moça que um dia o senhor Antoninho cometera à volta da rornaria?! Estava agachada detrás da arca. talvez afinadas as arestas e retingidos de escarlate os lábios. Ela ouviu-lhe o glugIu. permeáveis à luz. irmãozinho da sua alma! Viria.. de lhe atacar tibornadas pela boca abaixo. onde fora a cama do Duarte. depôs o 165 . como se a mão da morte andasse a enfolar o saco para lhe atar o nagalho. entrou umhomem. Mesmo assim sufocada. se calhar nem se conhecia. sem dúvida a testa mais branca. Polónia falava de afogadilho. estava urna surrona. ergueu o espelhinho e mirou-se.

A mulherzinha está aqui está a alçar as pernas. e lhe palpitou que.perguntou Bárbara erguendo olhos para eles.cântaro. afinal. porque ouvisse chapejar na rua ou assim se lhe afigurasse. Oh. agora compreendo. Foi ao transpor o limiar que Bárbara reparou ainda trazer o homem a fralda da camisa de fora. Porque lá que havia de chegar havia. logo de seguida. soergueu a tampa da arca e abismou-se a olhar para o que havia dentro. com a cara de fuinha que herdara duma geração de famintos.” senão como a desculpa antecipada de repetir a má acção. depois num pote. Observou-lhe Polónia. Pois como explicar o ímpeto com que aquele pilhanqueiro entrara pela casa dentro e as vozes: “a mulherzinha está aqui está a alçar as pernas. o seu tanto intrigada. ontem o roubo do dinheiro suado e tressuado por ela e o Duarte. esse dia havia de chegar. Quando já não precisa deles. circurivagando o olhar e não topando ninguém. Polónia abanou a cabeça negativamente. Lázaro. se não era moço de moleiro. Mas tão-pouco naquele momento encontrou voz para berrar sobre ele. Mas.. se andara a roçar pelos sacos da farinha. Desceu a tampa. Ai. E. ainda que pilho notório e confesso. se descobrissem um moleiro com carapuça de Alvite na cabeça e a fralda da camisa de fora. trouxessem-lho à sua presença. que começava por matar a sede no cântaro alheio? Vinha gente que se ouviam passos no palhuço batido da quintã. mas haveis de estar muito quietos. só Deus é bom juiz... . proferiu em voz alta: . maldito fosse o dinheiro e mais quem o fabricava? Todas as manhãs que Deus deitava ao mundo.? Foi para isso que se veio meter detrás da arca? Ah. O pai do Céu não lhe perdoava que acusasse um inocente embora a acusação não subisse ao tribunal dos homens. coitadinha. meio divertida: . Sem esperar que respondesse. E. o assento enfarinhado. deixe lá os moleiros e encomende-se a Nossa Senhora! 166 . à boa mente ou à fina força. Era a Polónia com o homem e a ranchada dos meninos.. deitou a correr e esgueirou-se pela porta como uma engula. martelavam-lhe na cabeça como dois ferreiros malham o ferro em cima da bigorna. outro contra. um pró. que era do conhecimento de toda a gente estar em seu poder? E dois contendores. Faltava-lhe aquele tormento: duvidar.Quer aviar o pão. Seria aquele o ladrão do seu rico dinheirinho e causador de o Duarte se enforcar? Arriscava-se a sê-lo. se nao vomitara as notas. ainda na caçoila de má morte. já aí vem o senhor padre. e a súbitas. que no segredo do seu peito e foro de Deus acoimara outro. quedou confundida. E ela. limpou os beiços às costas da mão e. Polónia recomendou para os filhos: .. a primeira coisa que inquiria era se o gatuno se não tinha dado a matar. foi à pilheira e meteu a mão numa panela. A prima está a morrer. perguntou em tom de melaço se não se sentia mais aliviada.Não encontraram um moleiro? ..Ficais aqui. Ela então pediu-lhes para saírem ao povo e. Quem sabe se o ladrão nem era o tal ladrão fino. o Diabo cobre os patifes até à altura em que lhe ajudam a fazer o joguinho. põe-lhes a calva à mostra. Oh. olhe. A sua pena era que chegasse quando estivesse já debaixo da terra. se a casa nao caira por cima dele e não o esborrachara. hoje o dinheiro da vaca. nem aquele ladrão porco.

. era de supor. o mal não é de morte. Pois não enxergava a sombra dum ovo? Às duas por três. ia morrendo de consurnição. que se podia traduzir assim: Entrou no delírio! Magicou que não valia a pena estar com explicações e calou-se. meu senhor. cantés a missa vulgar de cinco paus nem um bochecho de água representa quanto a refrigério das respectivas labaredas. voltando-se para Polónia: .Parece mal? .Então como passa esta doente? Ah. . Dali a migalho aparecia o senhor Tadeu. entretida no deserto da sua alma com sucesso tão estranho. à frente o grosso nariz de batata grelada. quando era ela a tirálos.Pois se se sente fraca. sempre muito recatados.. . Lindezas são para ti. dava o alamiré: “Polónia.. E ao contemplar aqueles carinhas de anjo. deixa. como quando lhe iam ao mostajeiro. Faltou-lhe um galipanso. Deixa. matou. o que era caso. o que botava ao fim da semana a dúzia e meia de ovos.Bárbara baixou os olhos.Não tires nada para fora.. Bom.tornou Polónia. Entre dois frouxos de tosse ciciou Bárbara que apenas se sentia muito fraca e não podia com o corpo. Os meninos tinham-se postado em volta dela a vê-Ia esticar. por sinal satisfeito.apressou-se Polónia a responder.. e durante o breve movimento que imprimiu às pestanas surpreendeu o Fandinga a fazer para a mulher um gesto. dando como razão pôr-se-me na fraqueza por ter muita enxúndia. Tinha três pitas que punham três dias a fio e descansavam um. Mas não pode ouvir falar que se corte o pescoço a uma ave.. coma-lhe! . matar-lhe de tempos a tempos uma galinha. Apalpando o piso desigual de laia. teve vontade de corrê-los à bofetada. Mas a carne corneste-la tu e os teus miúdos.. A olha escumaste-la muito bem escumada e imolou-a com sopas de trigo o esgorjado do teu homem. com a agonia na garganta..Tem sim..É preciso alimentá-la. e consigo e com Deus ficou a cogitar que ele.. Pois'“ . de ordinário fechado. ao gosto delas. ela está a pé. Bárbara sorriu de novo. está uma galinha a cantar'“ Lá ia a 167 . acalentasse a esperança de que lhe encomendasse algum trintário bem pago. O senhor padre bem sabe que a casa é de pobre. tem meios .e o senhor Tadeu acrescentou. meu senhor . Fartava-se a cada hora de ouvir cacarejar na quintã. Ao pôr pé no limiar.Vá-lhe chegando umas gemadínhas. de encontrar os lençóis com que se recebe na Páscoa a visita do Senhor ressurrecto e.As galinhas não põem. Mas a Polónia começara a revolver a roupa da arca com mira. fungou e dobrou-se para o chão a estudar o caminho. com os que as pitas das vizinhas vinham pôr nos seus ninheiros. Ela não tem meios? . advertido que a confessanda não tinha herdeiros directos.Nosso Pai tanto entra na cabana como no palácio. como se entrasse numa furna. desses que actuam na livração das almas do Purgatório como os remédios caros na cura das doenças. dar-lhe leite.. Bárbara julgou ver luzir em seu rosto. um ar amável. quase duas dúzias. Bebi uma água chilra. que a mãe assoara e lavara com o rabo do gato. delgada como a da fonte. com o sorriso querendo significar: “Matou-se uma pita. E sentiu-se beliscada ante aquela alta recreação: . quando deu com ela encolhida atrás da arca saudou em voz que se esmerava por ser prazenteira: . Bárbara olhou para a prima e sorriu. o sagrado viático.

durante as quais se esquecia de si e do padre. Polónia acudiu a pôr em cima a capucha dobrada.? Dê-lhe leite. que ela se pusesse de joelhos ou alterasse sequer a posição que tinha por mais cómoda.Vamos à confissão. Interessava-lhe pouco a máquina. é pecado. E daí provinham as pausas.” O senhor Tadeu levou a tenta para outro quartel: .E leire.. embora repleto de zelo sacerdotal. meio de coisa podrida. A terra produ-lo com abundância.Não haverá um banquinho para eu me sentar. Foi recalcando o asco que interrogou: . que mais gatunos não se encontravam na Falperra? O senhor padre esteve um momento a aferir da situação da doente. Depois. era um rebotalho. E o sacramento começou e foi decorrendo sibilado. murmúrios que imprevistamente subiam de tom como água num regozinho de leito irregular. o tomarão mal maduro da penca. feiticeira?? Antes de morrer. Que andasse até onde pudesse.Dá por paus e por pedras. não é assim? E. os Urras e outros parentes comprimidos e silenciosos contra o vão da porta. Olha. . Bárbara via acima dela..Fala pelos cotovelos. no largo. meio de mofo. Não o fazer.. e aspirava o seu hálito enjoativo. Mas é assim por todo o povo. resplendente. decidida em seu peito a fazer o contrário. tão outro do do Antoninho Fráguas. de boné na mão: . a Polónia tirou metade para uma xícara que deu à menina mais novinha que acabava de desmamar.. Fosse pelas benditas Cinco Chagas.zouvineira. As suas galinhas só põem vento. Era a fugir àqueles dois pesadumes que ela retraía o olhar para a quintã e avistava os Fandingas. Que esperavam agora dela? Do lado de fora. .? Trouxeram-lhe um mocho. podendo. acabando compenetrado duma imundície que vinha do tempo das cavernas. senhora Bárbara? Ela acenou que sim. tem. Que não e não. depois de passear a casa com a vista. da banda de fora. Mas não permitiu.Pois tem que tratar-se. a cabeleira do padre. Pegou da bilha e baptizou-o segunda vez até encher a medida. com pequenas pausas. Mas eles espreitavam-na receosos de que levasse por diante a ameaça de encomendar um dispendioso bemde-alma. Ouviu. como ela se limitasse a baixar a cabeça. .. Um primeiro baptismo devia ficar à conta do produtor. acessos de tosse. Nunca pela vida fora lhe tinham chegado uma sede de água.Está no uso da fala5 . mais filtrado que o soro. bota cá a saia que roubaste a minha mãe! 168 . Ouvi dizer que é anclaço. Sentou-se então. negra como o volfro. mais abaixo. alimentar-se a leite! Tinha há dias mandado comprar um quartilho: mais de três quartas partes eram água. referveu o seu sopitado ódio.. e a sua voz adormecia como água em chão liso.Ainda não morreste. E reparando nos olhos da alcatéia acesos para ela. transportado já à super-human idade do seu papel. quando não pudesse mais. caía para a banda e acabou-se. punham a boca a um buraco da parede e buzinavam para o interior: ... o comer de leite está acima das suas posses. Quando lhe chegou às mãos. que parecia esquisitória. lá vinha: “Pôs vento. volveu para Lázaro Fandinga que se aproximara muito ronceiro.

particularmente à sua alma. Era o remate.Estou com vontade de ditar o meu bem-de-alma a um tabelião. . Se V. dizendo com ela. R. ainda que sem pago não haja de ficar.Deus me livre? Eram capazes de me esfolar. que saíra um melro de bico amarelo. . eu mando-lhe o notário. Ele então percebeu a comédia toda..Diga. Também do fundo do horizonte um raio de sol vinha direito à sua alma.objectou. Deus lhe agradeceria melhor do que eu.Vomecê não quer um ovinho para a pleira? Olhe. que se punha a falsetear ao mesmo buraco: . . lá está uma pita a cacarejar..Era o filho da Casimira. mandou-lhe rezar o acto de contrição. e respondeu com pressurosa discrição: . Ela torceu-se para ele e levando o dedo aos lábios ciciou de olhos na choldra que. do Zé dos Cambais. e ele foi-lhe emprestando a muleta da sua memória.articulou em voz e num bulício tão rápido de lábios que só por si inculcava puridade. compreendendo que terminara o mistério.. Ao cabo. R..Está bem. O que tinha sofrido por causa daquela saia apanhada no estendedoiro? E quem podia jurar que fora ela? Não havia muitas ladras no povo? Agora era o Tonico..Queria pedir um favor a V.Porque o não diz aos seus parentes? . cansado de vagares e de suspensões. levantando-se por certo com alívio. Tenho por onde pague. .. O senhor Tadeu.. mas não o sabia. dispunha-se a largar quando se sentiu preso pela garnacha. invadia a casa: . mo mandasse cá. 169 . ..

Vinha-lhe dos tempos em que se prestava a fazer todos os fretes.faceteava para Solange o seu comendador José Plácido. do sangue. onde tinha um testa-deferro.Se não pões para aí o anel. sinhazinha. que é um supor. forjadas outras a martelo.e não o trombeteavam a boca grande e ele próprio para não dar âncoras ao fisco que a sua fortuna botava aos seis mil contos. o reconhecera como hastilha do seu tronco. pode estar certo que hei-de carregar o mais que possa . ainda havíamos de ver-ele. capitão de cangaceiros? À data era pessoa importante. ao dar de si o gabiru. Apontam-no como matador. Influente e endinheirado. quando só recentemente. tanto que apanhou o colega volframista Leónidas Seixas em maus assados. e estas palavras traduziam bem toda a sua premente e danada obra à margem da causa. Depois. se operara à lufa-lufa. metia. Desde que houvesse vaza a levantar. Assim foi muito notado. hoje agente falido de passaportes.os trilhos constitucionais. Que esta rivalidade era como uma trovoada armada. Dizia-se à boca pequena . pequena ou grande. Não sendo ele. pilhados à paróquia por mascambilha. os dedos cheios de anéis. Como a metamorfose. Era notório que ambos cortejavam e pretendiam a mesma mulher. As testemunhas foram industriadas umas. prestes a desatar em raios e 170 . metia. Ouviram-lhe as ameaças: . não foi dificil ao Fráguas encontrar na terra pobre e explicavelmente venal matéria com que erguer o cobiçado cadafalso. ai. de quando em quando escorregava-lhe o pé para.Compadre Antoninho metia cabeça ao mato. Mistérios da vaidade. nenhuma tarefa lhe causava nojo. como o espírito bem lastrado de sadios conceitos quanto à moral e dever de cada um. arroteador de baldios. carrego-te a part& Era um termo muito seu: carregar. O negócio dos metais tinha-o enriquecido fabulosamente. quem podia ter sido? Enquanto se não prove que foi outro. para empregar a linguagem duma das testemunhas. conduzir para casa pela calada os sacos de volfrâmio. com loja de armarinho no Piau -.Não me move contra o Aires nenhum outro sentimento que não seja o de vingar o meu filho.XII . como esfaquear um cristão ou assaltar as prisões e libertar um preso. Quem o conhecera e quem o via? Levara o melhor dos anos a passar criminosos foraíÍdos pela Portela do Homem. Não era debalde que inculcavam o volframista como homem capaz de mover a vila e a capital do distrito com uma perna às costas. no entanto. sabe-se lá! Os depoimentos prestados comprometiam acerbamente o Augusto Aires. amanhã empreiteiro de estradas. para mais que não para menos. . negociante de cavalos. que era senão carregar? E com o mesmo vocábulo significava a pressão que exercia junto do tribunal contra o Aires. do amorpróprio.declarou o senhor Antoninho Fráguas. ou encher os navios mercantes com mistela parecida. Muita gente admirava-se que assim pusesse ralé em querer sacrificar uma vítima aos manes do morto. Em bandas di lá . Ficara estabelecida de modo terminante a rivalidade que lavrara entre réu e morto. que tivesse artes de lhe abarbatar o anel que lhe reluzia no dedo com um brilhante de dez quilates. se tivesse apoquentação. a comprar e vender travessas aos Caminhos de Ferro. passador de moeda falsa.

confirmada pelo réu. e esta versão ia pouco a pouco prevalecendo de todas as mais. que se alimenta das próprias entranhas. traindo não se sabe bem que ideia fixa. Em tal asserto todos os testemunhos eram concordes.Meça bem a gravidade da sua afirmação. Era intuitivo que a Maria Aires tinha em mente forjar um alibi. a indiciação criminal assentava na palavra das várias testemunhas. .e o juiz lavrara despacho de pronúncia. podia resultar do encontro do seu testemunho com o do Ougado e doutros. não restando melhor recurso do que “sangrar-se em vida”. entrei em casa um migalho antes de bradarem na rua a homem morto e concordo que o Luís Ougado podia ter ouvido os meus passos. dado que não tivesse a certeza. uma vez que na carteira do morto fora encontrada intacta a quantia avultada que horas antes lhe confiara o pai para o negócio. . Em conclusão: ninguém vira matar. . o ciúme. viu-se na competição de forças a que se entregaram os dois na manhã do crime quando se tratou de arvorar os estandartes na festa de S. As declarações de Maria Aires. Acossada a adoptar tal expediente. Sim. para mais não sair até ser preso.Ouvi o Aires subir precipitadamente a escada. Deste modo ficava neutralizado o efeito que.Eu também juro o mesmo . Brás. não fez mais que referendá-las. convocada pelo juiz por escrúpulo de consciência. na frase de Shakespeare. Tal era o estribilho do representante do Ministério Público. mormente daquelas que motivam a alçada judicial. devia ter sido o móbil imediato do assassínio. mas pois que houvera um matador e de natureza sentimental. angustiosa. O próprio Augusto Aires. cuja casa e a da Maria Aires ficava costas com costas. o seu Augusto entrara em casa pouco depois do anoitecer.. como homem esperto. se bem que reservado. Procure o senhor juiz o matador noutra porta. passou ele à minha porta . Confirmou-se horas depois com o ostensivo despeito do Aires ao encontrar a namorada a bailar no terreiro com o José Francisco. àquele. Afigurava-se supérfluo procurar algures ou melhor. estavam em contradição flagrante com os depoimentos que prestaram não só as demais testemunhas como o filho. pouco antes de gritarem na rua a homem morto. . que outrem apresentava melhores títulos que o Augusto? Sumariamente. isto é.Estou tão certo do que digo como da luz que nos alumia. excluído o roubo como causa. No decorrer das inquirições ficou ainda estabelecido que o Alres era homem tranquilo por temperamento. Ninguém tãopouco o acusava de desonestidades. constituíram devido à sua impróvida e ludibriante singeleza o acto de criminação mais grave que foi produzido à barra contra o réu. esse monstro verde. Mas semelhantes qualidades não se podiam chamar inibitórias quanto a determinar uma destas crises agudas de ciúme que desfecham no crime.coriscos.instou o juiz. Alé m de reticentes. 171 . Mas tudo isso não vai além de coincidências.. a bem do réu. . Segundo ela. dar uma versão concordante.Seriam dez horas. que por aqui vem errado. admitia a hipótese. . e na contraluz que ressaltava da viciação da verdade por Maria Aires . “zaro Fandinga declarou: .elucidou o Luís Ougado. chamado a confirmar ou desmentir semelhantes provas. de que fora ele o autor do crime. dir-se-la.Tem a certeza? .Conheço-lhe o chapejar do sapato.Sim. .corroborou o Reganha.

Os volframistas ganhavam mundos e fundos. mas os jurisconsultos encarregavam-se a propósito de tudo e de nada de os aligeirar dum capital que lhes caíra do céu em revoo de lotaria e até certo ponto os desconcertava. Manuel Torres a tomar o patronato do empregado fiel. cego e cínico a bem de tudo o que reporte pecúnia. Retido entretanto na capital por um importante processo em curso. o Espadagana. facha de palha do Antoninho. ambas elas. que manda ao causídico seja faca-de-mato. Tinham-no por escarmentado em toda a espécie de foro. Guilherme Calabaz. nem era mais nem menos honesto. Queria Fráguas um criminoso. E tratou de cumprir o que julgava uma obrigação. Nada mais natural. Fráguas havia-o constituído procurador em duas causas de certo tomo. causas. À data própria compareceu a mocinha com natural modéstia e trajar quase 172 . Calabaz. mestre em tricas e sem igual no silogismo . substabeleceu no filho dum amigo. pelo contrário. proeminente nos tempos utilitários. e daí para cima. Tal circunstância cimentara entre os dois uma estima robusta e solidária. convidou o Dr. para assumir a defesa logo que estivesse livre. A defesa indicara entre outras pessoas. Mas não se confinava neste ramo da advocacia a sua celebridade. com o Minga. com o novo processo passou a residir em Muradais às temporadas. que o Fráguas assoldadara para remeter o Aires para a Penitenciária. Guilherme Calabaz. Contavam-se a este respeito histórias do mais pícaro descoco. coroadas do mais feliz êxito. Começou o advogado por requerer a instrução contraditória. nem mais nem menos rábula que os outros. Foi um período de vacas gordas esse dos volframistas na fase do comércio livre e na que lhe sucedeu com o apuramento do imposto de guerra. representava uma escola de advocacia. chamavam os codilhados do volfrâmio Cocó. por conseguinte. com designar acusador o Dr. Surgira no entanto um depoimento desconcertador. cuja pele não lhe merecia mais respeito que a dos cabritos com que o presenteavam os constituintes agradecidos ou mesuradamente cardados. mas tinha como nenhum colega urna fome devoradora e concomitante gana de ser rico. Teodora Luísa. Ranheta e Facada.. feito com nobre altivez e um espírito de sacrifício tão abnegado que todo o edifício da acusação ameaçou ruir. Defesa que exigisse audiência e a sua mão de papel selado ou em que tivesse de interferir a influência pessoal. Respondeu a família do morto. e nada mais fácil que sacrificar aquele pobre diabo em holocausto ao filho assassinado. uma minuta a bagatela de cinquenta. Este Dr. Um simples requerimento era cotado entre dez a vinte contos em matéria de honorários. do que empregar toda a ralé em consolidar a culpabilidade do Augusto Aires. A eles. nome consagrado no cível mercê do seu saber e experiência em digesto mineiro. Para mover o causídico bastaria uma palavra da pobre mã e. Muitas quintas mudaram várias vezes de mão em poucos dias. O negócio de resto estava bem parado. O advogado da defesa era dos tais que julgam a prática da justiça incompatível com a chicana e a malignidade. com plena aprovação de Franz Hincker. persuadidos ambos da sua inocência. para serem inquiridas como testemunhas. Calabaz . não poderia cobrar para baixo de duzentos contos.Severo Bacelar.não tivesse ele antes de se formar cursado teologia. novel e talentoso advogado. que era já seu hóspede assíduo. representada por Manuel Minga. se visava a espórtula alta. filha de José dos Cambais.

. Ex. Como tal.Não quis. confundido. Retirou. vamos ao que nos tem aqui. mas certa reticência em abrir-se. A certa altura interrompeu: . Quando o patético se desvaneceu. Não lhe ficaram dúvidas. desenganadamente exclamara: .O magistrado aqui desapareceu. De olhos em terra. a sua deposição faz fé. Instada quanto aos motivos de ciúme que pudera ter ocasionado ao Augusto. ouviu uma longa. Ex. Imóvel. . Ex.. o baixar vergonhoso dos olhos projectaram luz plena quanto ao seu significado. Digo contradita e não prova expressa.Ciúmes.. o arranco com que desatou.A senhora pode retirar-se.remascou o magistrado. O incidente.Seria caso novo no direito que o depoimento duma testemunha fosse submetido a tal espécie de verificação respondeu o juiz. susceptível a certos impulsos. mas V. ? Não retira.E quem me garante que o facto se tenha dado? E. está bem. no que se refere ao juiz..Esta senhora é testemunha e não parte.lutuoso. foi na altura em questão. ainda na zona do aturdimento. foi avolumado por uns no sentido da dignidade desafrontada com brio.. o juiz que era homem novo. Mas uma grossa e sincera lágrima sulcou-lhe a face e não foi preciso acrescentar mais palavras. agora pode explicar-se. podia tirar gala da natural independência de carácter. 173 . Exijo uma retractação imediata do que acaba de dizer. desvirtuado por outros quanto a trair parcialidade em favor duma das partes.? . Calabaz recuou instintivamente e de pé. repare. Não sei se me fiz compreender. por detrás da cadeira. não achou melhor que agarrar-se a uma obscenidade pouco generosa. Retira .. Chegou a dizer-se que se deixara seduzir pelos bonitos olhos de Teodora.... tomo nota.V. Há a sua diferença. Era rico. Imediata. Tais palavras encerravam muito de sibilino....Sim senhor. . até o momento em que seja infirmada em boa e leal contradita. Sentou-se o juiz.Compreendo muito bem: V..Tenha a bondade. lábios vincados por um sorriso manifestamente desdenhoso. articulou: . .Está bem. um instante surpreso.?. Fica apenas homem para homem. crescendo para ele. O advogado da acusação percebeu e. acrescentando para o juiz: . enrodilhada e nem sempre hábil palinódia.a há-de dar licença que me explique. mas eu. Ex. não retirou as palavras que proferiu? ..Estou satisfeito. e fazia-o com bizarria.? A fisionomia do juiz era tal que o Dr.? toma o partido da desvergonha! O juiz ergueu-se com brusquidão e. se os tinha. bem relacionado. não respondeu. e sob este aspecto tem jus ao nosso respeito. em voz estridente de cólera. lábio contra lábio.? faz o obséquio de mandar sujeitar esta mulher a um exame médico? . associados às pernas de vitela remetidas sob capucha pelo Zé dos Cambais..Retiro. Deseja mais alguma coisa da testemunha? . .. não deixou de se mostrar impressionado. .. essa mesma tarde deixou de tê-los! Tinha-os por duvidar de mim... a dar-se. eu não quis ofender V.. pronunciou: . mas tal declaração não é bastante para a natureza da injúria.Que diz a menina? .Retirei. .. não é?.

atire o coração para trás das costas e não tenha medo de dizer a verdade.E uma acareação entre a mãe e o filho? V.. é arbitrário.respondeu Aires com lisura desconcertadora ao que envolvia de comprometimento. advertindo para o Dr. . . ficou a ajuizar mal.Oh. exultante.a que se vinculara o crime fora entranhadamente aluída. chamado a comprovar tais assertos. afogou-se-lhe a voz e acabou a soluçar. Por alma de meu pai lhe juro que nada tenho que ver com a morte do José Francisco.Quando entrou em casa sabia pois que tinha havido morte de homem à sua porta. Que necessidade. Tanto assim que minha mãe deu conta e. A infeliz é que se não capacitou das razões do filho. limitando-se a responder a todas as instâncias que tinha fé absoluta na palavra dela e na firmeza dos seus sentimentos. Esteja certa que me não compromete. apreciando no justo valor o papel da defesa. peço-lhe para se nã o confranger e contar tudo tal qual. O juiz interveio. toda a verdade. Assim. com efeito. como costuma dizer-se agora. mas para que se faça cedo é preciso ser franco. Embaraçou-se ainda mais. foi tão discreto que nada adiantou que pudesse ferir o pundonor da namorada. tem a causa muito comprometida.. não sabia disfarçar o seu sorriso sardónico.. minha mãe. 174 . O meu papel é clarificar o acto criminal. depois.? . Vejamos: o réu regressou a casa no momento do crime. Se eu estivesse culpado. em proveito ou desproveito deste ou daquele. e seria para admirar que a justiça cometesse um erro tão grave como condenarme. Requereu o atrapalhado causídico a acareação. . se Teodora lhe dera iniludíveis provas de ser o preferido? O réu.Aqui há uma situação que não está bem definida. O juiz.O senhor.Entrei em casa um pouco debaixo dessa impressão. meteu os pés pelas mãos no esforço manifesto de conciliar o que dissera antes com o que sentia agora que era seu mister dizer. suponho eu . se não consegue anular de qualquer modo o depoimento que prestou a palerma da Maria Aires.a defere. Maria Aires começou por manter a primeira versão.? É drástico. tão enrodilhadas saem as declarações da sua boca. Manuel Torres em hora de puridade: . O Augusto conjurou a pobrezinha: . se eu a pedir. A imputação . observou ao substituto do Dr. mas pode dar bom resultado. Estou inocente. O acusador. Supondo ainda que se tenha de pôr de remissa que foi o ciúme o móbil do crime. Que factos ou que circunstâncias determinaram essa impressão? Quer explicar-nos.Depois do crime. registemos. tinha Augusto de matar. Está convencida que eu é que matei o José Francisco?! Se não está. agradecia-lhe que desfigurasse o que se passou. Calabaz e o defensor: . podem julgálo. Devia estar mesmo alterado de parecer. Vossemecê sabe. todas as presunções recaem sobre o Augusto. .Entrou em casa debaixo da impressão de que tinha havido morte de homem. mais tarde ou mais cedo a luz faz-se. mal se percebendo que pedia perdão ao filho de lhe cavar a desgraça por sua má cabeça..Os rumores pejorativos lançou-os com uma topetada soberana da cabeça à voragem surda do desprezo. como eu não me abri com ela.obra do ciúme . Ex.

se era verdade ter o Cambais acravelhado as portas.. à falta de outrem. te catrafilam a ti.Fiquei hesitante: vou.Porque soubesse de antemão que o homem havia de passar por ali . largueilhe na peugada. se te perguntassem o que andas a sisar. como dizia. lá tenteou o lance.ele a mostrar-se e a ir-lhe na cola. Brás fizera-o com o fim de deitar poeira nos olhos da gente e.É fantástico. Teriam passado vinte minutos. Ia de peito feito. diga lá? .. Que circunstâncias influíram no seu ânimo para entrar em casa debaixo da impressão de que acabavam de matar um homem? Percebeu onde quero chegar.Adiante. cometeu uma cobardia imperdoável. que se apurou serem do morto.Que cisma foi essa.. Estava escuro como breu.Assim que o encapuchado despegou da quintã do Cambais..A cisma foi esta: “andas fora de horas pelos caminhos. passos primeiro. a quintã em primeiro lugar tinha-lhe servido de esculca. .. e mais passos.Compreende V.. O Aires dobrou a cabeça para o peito e entre soluços reconheceu que. . .. Tornei à casa do Cambais pôr a machadinha no seu lugar. lá viu para onde se meteu.E que fez? . É uma hipótese. O que o noctívago fora fazer avaliava-se. detrás duns toros de pinheiro.Aires descreveu então a cena que presenciara na noite do crime quando arrastado até à quintã do Cambais por tineta caprichosa.? . Quando . porque não restava dúvida que ele e assassino eram uma e a mesma pessoa. arrepiou caminho. Ex.. que precisa classificado? O Aires não respondeu e o juiz tornou a repetir: . Fora armar-se. se não acontece meter-seme uma cisma na cabeça. gemidos. sim. mas perdi-o. Ex. Meti por uma quelha. depois como que o baque dum corpo. Bem lhe advertira o instinto. que a sua 175 . de repente. Foi na peugada do homem.Que cocas. diga. Posso mesmo dizer que estava resolvido a apurar quem fosse. já ia. Os passos ao resto eram de criatura largada. e queres-te ir meter onde não és chamado?! Supõe que houve sarrabulho e. é uma hipótese a encarar. e depois? . Sim.. Agora. não vou acudir. caminhava já para me ir embora quando ouvi certo restolho.Àquela altura é singular? Que bicho foi esse que lhe mordeu. A alhada não se explicava doutra maneira. A que vinha ali o tipo?. voltei por outra. achando-se desarmado por qualquer motivo. a bem ou a mal.. debaixo daquele tecto dormia Teodora.” Aqui tem V... agarrada às farpas. . de facto. se tanto. passam-nos cocas pelos olhos. e à distância de dez passos um vulto mal se via negrejar.. e nada... noite fechada. o provável é que tivesse voltado à quintã pelo estadulho... um homem menos se precata. . sem saber explicar como.a. Duma coisa estava certo: o José Francisco ao largar de rópia para S. fechei as portas e fiquei de plantão à esquina. Supondo que era assim. Lá o rastejou. um estadulho do carro do Cambais com marcas de sangue e até com uma manchoquinha de cabelos. cometera um acto de cobardia e por isso estava a pagar. Uma vez à espreita . não saberias responder.. mas por agora o que nos interessa saber é diferente. se não era a manha que lhe ditava todas as partes. uma vez que tinham encontrado na rua.Fui na peugada dele. .

Não. . tão feliz da vida.É admissível que tivesse esse relâmpago de premoniçao . quando dei conta.. em choro desfeito.Sim. passei à banda das minas do Vale das Donas. . Ex. a fugir como se transportasse alguma coisa que lhe quisessem roubar. ouviram-se-lhe estas palavras atribuladas: . e agora me digo que não fui mais adiante porque a água me tolheu o passo e vim a acordo do lugar onde estava. o que andei a fazer foi a vadiar pelos caminhos. Mas. aquela que levava ali como uma pessoa aconchegada ao peito. embora não soubesse dizer porquê. escuro fora.. . que já é uma hora adiantada para terteolas como Malhadas.proferiu o juiz ao cabo de curta pausa. Mande-me para a cadeia que eu é que menti.Olhe. sem direcção.. Nem reparou em nada de especial. e mais isto e mais aquilo.felicidade.Como se explica que. senhor juiz. Contra argumento tão óbvio redarguiu o acusador. que possa invocar?. todas as dúvidas que concebera a seu respeito.. Mas diga-me: o crime deu-se entre as dez e as dez e meia.Meta a mão na consciência e diga a verdade como lhe pede o seu filho. corria perigo. Terminou aos arquejos. não tendo o costume de vaguear sozinho. . o advogado de acusação não se demorou em arquitectar outra. Uma nova inquirição de testemunhas gravitou àvolta deste ponto de vista. Calabaz. que fui. estreitada contra a carne. cujo sorriso lembrava uma rosa-chá desbotada. estava à beira do rio. despi~ cado com o ácido rancor de que são capazes dois rivais. senhor juiz. não nego. que nada provava que o encontro se não 176 . Que não gostei de a ver dançar com o José Francisco. é exacto. . realmente.. levar pela marcha.Sim. o mais forte abatendo ferozmente o mais fraco.Não é caso inédito. e fiquei tão contente e fora dos eixos. Subira tão ofegante a escada de sua casa que os vizinhos deram conta. . garantiram solenemente que não deram fé de rumor algum.Não encontrou ninguém. a voz de dentro dava-lhe rebate que um tal escarcéu deixara de ser com outros para ser com ele. não ter eu hábitos de tresnoitado.. parece esquisito.. quer de vozes. juiz. Não sei como. antes do grito de socorro soltado pelo homem do lampião. Teodora desfez todos os melindres. senhor Dr. fui-me deixando levar. eu tinha-me encontrado com Teodora pouco depois de anoitecer. é também certo. à primeira vista não menos lógica: de que ele e José Francisco se houvessem encontrado. e sua mãe por mais que se reprimisse tremia como um vime. estando como estava uma noite escura. Sim. Depo1s voltei para trás.?. olhe V. Lá que cheguei a ter certos zelos. quer de passos.Não. dóceis à lição. por mais fabuloso que se afigure. misturadas com soluços. até o rio. O juiz deu por findo o interrogatório depois de instar Maria Aíres: . e acabado por vir às mãos. Tremulante. à toa. Mas se umas. a partir daquele minuto. não tinha dúvida em aceitá-lo. encarando no Dr. . Isto que ele contou parece-lhe exacto? Das profundas da sua dor.. no número das quais estava a Rosa Pedralva. era com ele. depuseram em conformidade. a maioria. fui como se fosse pelo ar. em aparte. Que andava a fazer por fora? . se não derrubada a teoria de que o Aires assassinara por ciúme. Mas ela contou-me como aceitara o convite do homem. meu senhor. Era. largasse assim pelo escuro. E deitara a fugir desatinado.

e todavia não se impediu de dizer para o constituinte: . De resto. Fosse como fosse.A minha esperança é que mais dia menos dia. que redundava num destampatório a que nenhuma espécie de juízo seria capaz de quedar impermeável. em que depunham Lombroso e Conan Doyle.. Torres para lhe entregar a pasta. Com as idas reiteradas à sede da comarca. amiga do que é recto como sempre foi. reforçando as suas premissas com novos e ousados argumentos. a anatomia e o jogo do pau. Posso garantir que nós não contribuímos nada para a reviravolta. sem ser preciso.. relegado o volfrâmio para segunda plana ante a tabelização inferior. era lógica num segundo plano e não valia a pena levar o debate para tão longe.A sua culpabilidade assenta apenas sobre presunções. . que esta causa tira-me o sono e estou morto por que chegue o Dr. Reparou V. O que não lhe posso levar a mal é que não soubesse dissimular a sua convicção. O advogadozito notou-o. provavelmente por considerar de somenos semelhante tó pico. Daí o relativo silêncio em que decorrera o drama. 177 . o exame médico-forense. o assunto versado em Malhadas era a morte do José Francisco. talvez mesmo fora da localidade. pressupunha golpe à traição. forcejava em expedir de toda a maneira o Aires para a Penitenciária.Muito estranho. se rasgue a cerração. por um acaso. Minha mãe viu-me entrar em casa dominado pelo palpite diabólico de que tinha havido mortede homem e eram muito bem capazes de me apontar como matador. . o alvorecer da verdade. Calabaz. que era sagaz e requintava na qualidade pela hora crítica em que se via. ou oprimido mesmo pela amizade. e ela por sua vez deixou-se possuir desse palpite. tendo em vista a sua profundidade e ser situado sobre o occipital. . mas onde está o tribunal que se atreva a condená-lo sem uma verdadeira e insofismável prova? . Oxalá. Estava no seu papel. Lógicas. Por isso. como observara com judiciosa oportunidade o advogado da defesa. Ex.Nisso não vou eu muito fiado . despercebido dos vizinhos. o acusador ardorosa e porfiadamente buscava tapar as brechas por onde ameaçava ruir a arquitectura do corpo de delito. O seu antagonista e o juiz sorriram despicientemente. na mira porventura de justificar a grossa espórtula que contava pedir ao volframista.O que a habilita agora a acreditar na sua inocência pode muito bem ser um fenómeno precursor. se quiser. embrenhou-se numa explicação fantástica. A tal raciocínio faltava lisura. Com tão desabalado acusador acabou por condensar-se à volta de Augusto Aires o que se chama má atmosfera. o que se não compadecia com a ideia de conflito ou luta corpo a corpo.tivesse dado algures. ao agente investido de tal excruciação chamam na linguagem rural o aterrador. por qualquer circunstância. e o cadáver transportado para ali com o propósito de desnortear a justiça. a que minha mãe agora já está convencida da minha inocência? Que se passou no seu entendimento.respondeu o preso. não sei. . digamos. Assim. a verdade é que se a defesa se contentava com a espécie de clarão de inocencia que resplandecia no rosto do Aires e o halo psicológico que se exalava da causa.É estranho.

antes de a praga do volfrâmio desabar sobre o mundo. outras de meia-idade e com calças de bombazina. quem era o autor? Porque lhe escondia ela o nome? Teodora. o que ela fez com enjoada e retardativa obediência. levantando-se. referências quanto ao violentador e tanto disse como desdisse. dizendo-lhe com ar meio zombeteiro. apoiados pelos velhos Salorriões da aldeia. era o beijinho do rapariguedo. em lágrimas. confidente de todos os 178 . . depois de lhe exigir o preço da visita. perdendo a cor. juras e trejuras. bons cem mil reis com que ela teve de explicar-se. montou a cavalo. e agarrou-se a ela a ganir e a soluçar. A mãe arremeteu para ela de tamanco no ar: . Tomara ele assim as filhas. restituo-lhe a importância da chamada. que noutros tempos. jurando por todos os santos e santas da Corte Celestial que sua filha continuava pura como quando a deitara ao mundo. rufou-lhe no tórax aqui e além com o dedo em martelete. Se até então a sua filha não tiver tido o nené. Olharam com olhos precavidos para a barriga da moça. para a auscultar. a Florinda. Pediram-lhe sinais. Entretanto dava-se no povo um acontecimento do mais castiço e avantajado melodrama. que nunca os noivos ficariam roubados quando lhes fossem a tocar? E tais doestos lhe dirigiu que ele mandou-a calar. que soltava lágrimas gordas como repolhos. O Fráguas sentiu-o e procurou activar o andamento do processo. estimulada pelo romance apaixonado de Teodora. . que há muitos anos exercia as funções de parteira e se julgava no direito de coscuvilhar em todo o sector de tal actividade. na cama. Mas uma vez que havia um críanço.. e foi como se caíssem as escamas dos olhos de toda a gente. Pulsou-lhe de ouvido colado sobre a camisa o fervor de todos os respiráculos. meio condoído do desaire: . E.?? Já sabia que as ameaças e ralhos da mãe se resolviam. A opinião. uma vez que fora aos fieitos para deitar na cama da porca. A própria tia Rosa dobrou a cabeça. ameaçando-a com uma polícia se continuasse a faltar-lhe ao respeito. acabou por confessar no meio de choro convulso que um homem das minas abusara dela na serra.tartamudeou a mãe. se as tinha. coitada. Sua filha está grávida e duma gravidez muito adiantada. disse para a Rosa Pedralva que a moça não tinha mal nenhum. lançava âncora pelo Aires.Oh. A tia Rosa. porquanto não podia considerar-se a prenhez como enfermidade. que te mato? Dizes quem é o varrão ou é aqui o teu último dia. Veio o doutor e.Não percebo o que Vossa Senhoria quer dizer . e a soluçar para ali ficaram. palpou e tornou a palpar-lhe a bacia. depois de muitas negas. Só um tolo não quedaria capacitado que a Florinda estivera a urdir uma fábula com os capítulos principais alinhavados atabalhoadamente.É fácil de perceber. E.Entre dois e três meses vá-me ver. decidiram os parentes. excomungada. Caiu ali o Carmo e a Trindade. de bigode à Carloto. mandou-lhe que se desapertasse e estendesse ao comprido. como certas trovoadas. que se chamasse o médico. em água celestial. ora em Muradais. Como a Florinda Pedralva não desse sinal de melhorar.O sucesso transvasara já para as gazetas do distrito e daí para os diários da capital.. ora empregado no Vale das Donas. desmentiu o doutor. Umas vezes era um homem novo. adormentando-se com o tóxico de ambas se verem desinfelizes da sorte. isto é. Apertada pela Ana Ruça.

olha tu. entreluzir aquela pequenina e providencial estrela que nunca falta aos sequiosos de justiça e sonhadores com seu clarão piedoso. E tanto fez. não se sabia bem porquê.. Teodora fez-se encontrada com Florinda. sou capaz de jurar numas Horas que nos achávamos no bom caminho? 179 . na esperança de acharem o fio que lhes ajudasse a desenvencilhar a meada em que estrebuchava o Augusto. deu salto. Teodora contou o passo à Maria Aires que disse: . não deixou de verificar Teodora quanto a amiga se mostrava reservada. E traçaram um plano. respondeu como se a tivesse mordido uma víbora: . a Florinda começou a pender para o Luís Ougado. Florinda? Hás-de-mo dizer que eu guardo segreào. E logo ela. para mais desafortunadas ambas. estranhou aquela comédia e mistério e notou a singularidade de certos factos que tanto podiam ser naturais como não ser. tais carinhos prodigalizou à casquivana que ela pouco a pouco foi-se despojando de sua frieza e prevenção.. Como era do domínio público. a Teodora para o Augusto Aires. Cerra-se outra vez a escuridão sobre nós. No entanto. fitando-a muito no fundo dos olhos. tempos àquela parte. por festas. Que vai ser do meu filho! E. com reatarem. ouvi dizer que a audiência está marcada para breve. Mas recalcou o desânimo e porfiou. e foram pouco a pouco apartando-se sem deixar.Quem foi que te enganou. Nossa Senhora. E seus olhos de mãe viram ao longe. de se quererem bem e derramarem em ternuras quando se encontravam. Se qualquer delas erguia a voz.Jesus. A pobre mulher quando a rapariga lhe foi com as suas dúvidas. logo a outra acertava o tom. todavia. Agora. carmeadas e romarias. Uma ocasião ousou avançar a sonda: . com os seus palpites e sobretudo com as suas esperanças.Soubesse-o eu.derriços. Soubesse-o eu e era capaz de ir matar o carrasco. na noite do entendimento. De repente. onde se via uma. quase arisca sempre que a conversa descaía na desgraça que lhes batera à porta. toda a sua amizade e mútuo paparicalho voltavam ao que tinham sido. se não quisesse reconhecer o meu filho. E abriu-se com Maria Aires. estava a outra. que não iam lá muito à bola um com o outro.

. na saquinha. não é? Foi o reverendíssimo senhor p. assinou também o notário. encafuou-c. deu o recado: .. Foi preciso que o Silvestre Calhorra os admoestasse. Consolai-vos. amaldiçoava aquela colondrina e votava a todas as pragas do Egipto o 180 .Essa agora. A Polónia foi a primeira a romper o quebranto: .XIII Um sujeito desconhecido apareceu à porta de Silvestre Calhorra. se não deixa o preto no branco. mal aqueles tios saíram de cambulhada com o tabelião. com um livro a espreitar pela abertura do saquitel de lona. depois de cumprimentar. Estavam com reverencia como quando se ministra um sacramento. E erguendo-se muito guicha. nem um padre-nosso lhe manda rezar por alma. . . Depois.proferiu o Calhorra abanando a cabeça. Tenha paciência. fechou o livro. A espaços as testemunhas pigarreavam. mas quando chegaram ao destino já a parentela. e lenta. rolhou o tinteiro. faziam estardalhaço com os tamancos. É só pôr a véstia. . aqui não há bêberas! O notário improvisou a escrevaninha em cima duma arca. em tamancos e mangas de camisa. claudicantemente foi recebendo a vontade da mulher. em voz de ladário. quando Deus for servido de chamá-la a contas. adivinhou logo o móbil que os trazia.perguntou o Lázaro Fandinga.Raios a partam que está aqui está no inferno! Não querem lá ver que a alma do diabo foi amiga dele?? Queriam desancar a mulher.Então? . com uma agilidade que não lhe supunham.A dois passos. e pagou.Deixou tudo ao Antoninho Fráguas que é o fiel testamenteiro. de bicicleta.Então de que se trata? . há-de vir servir de testemunha e arranjar mais duas que sejam competentes. suspenso do guiador. Vamos lá. Bárbara puxou do pacote de notas. Ela.! . formava cortejo atrás deles. sinal de engulhos. mal os viu. . chamando-os à razão. o que maravilhou o Fandinga que a um canto se benzeu com a canhota. Tem para aí uma familagem mais cainha e derrancada que. Polónia. ao passo que dizia para a turbamulta: . a esganada. ditada em voz baixa. avisada pelos alvissareiros e apreensiva como se pode imaginar. Foram encontrar a criatura à porta da quintã a carmear. podeis fazer cruzes na boca . o Calhorra chamou o João Sancho e o Reganha que não eram nada à testadora. Sou o notário novo de Tendais. . .Esperem lá fora.Uma tal Bárbara Ladeira que deseja assegurar o bem-de-alma. lá assinaram todos.. De caminho.. Permaneceram assombrados e mudos como se lhes tivesse caído uma faísca aos pés.Mora perto a mulherzinha? .e Tadeu que me disse para bater à sua porta. chamou o tabelião e as testemunhas para dentro de casa.M’amigos. para missas não dispôs nem um real! O padre também ficou a chuchar no dedo. Saiu ao patamar o senhor presidente da junta. como era lagóia fina.É o senhor Calhorra. que trazia na patrona.E anda com juízo. a quem.

que metia duas camionetas. Hoje semelhante quantia não é dinheiro. E com a voz tomada do vago e do maravilhoso que há na aventura o Fandinga exclamava: 181 . uma hora não era decorrida. os povos incendiados e a soldadesca inimiga de sabre em punho a picar a gente na barriga e na sola dos pés até se lhes prantar para ali o bagu@nh. hem! . a sua Polónia dinheiro para uma fornada de pão. o Carrasco. . que nada lhe falte em casa. . embora menos luzido que o do Fráguas. Vieram-lhe dizer que em Malhadas e povos limítrofes não se falava doutra coisa e o apodavam de azeiteiro.O que te digo é que vai uma sangueira pelo mundo que as malvas quitam que lhes chova para crescer. O mais patusco é que o Fandinga lhe denunciava alto e bom som a obra de sapa que empreendera para fazer condenar o assassino do filho. era o mais numeroso. Encolheu os ombros.Com o imposto sucessório. . e em ranchos consoante o partido e afinidades. Soube-se depois que.Quantos eram os parentes a herdar? .inquiriu o Zé dos Cambais.respondeu o Calhorra com a segurança de presidente da junta de Paróquia que mandara afixar os editaís nas portas da igreja. o Zé dos Cambais.ladrão que se ia gozar dos bens que haviam de competir aos seus perdigotinhos pelo direito estabelecido.Então o Governo chamou as praças de há dois e três anos . Andava com uma turma de homens a plantar uma bacelada e ao cabo de breve instante de surpresa proferiu sorrindo: .Sabe-o Deus. . Muitos a pé. o Celestino da Maria Choca um relógio de plaqué.Nuns sessenta contos. .Deus a leve lá por longe . Pois que havia de ser? Tinham da guerra a ideia atávica que se lhes infiltrara no sangue através de gerações e gerações martirizadas. Naquele alinhavam em suas éguas rabonas o Calhorra. informavam o senhor Antoninho Fráguas da caprichosa tineta da Ladeira. contando que recebera uma roupa nova para jurar falso. o Sancho. . o jamboto coveiro. comadre? . davam à taramela. Para abreviar a caminhada. o José Reganha um chafariz à porta. A parentela de Bárbara era numerosa e aí perdia a patuleia do Fráguas o contingente mais garabulha e arrifador. compadre. acrescido com os trânsfugas do arraial contrário.disse Lázaro para o Calhorra. ainda há quem se lembre de mim. A Ana Ruça que se ocupe da criatura. É favor que lhes faço aceitando o legado. a Maria Choca e a Cismas cada uma em sua jerica. com urna gente a fugir pelas serras. de pau argolado o Fandinga e os Urras dum e doutro ramo. alguns a cavalo.lamuriou a Casimira Urra. O do Aires. e assim por diante. estrada e caminhos que levam à vila de Orcas iam coalhados de pessoas que. de Mouramorta e localidades convizinhas. Podiam contar-se pelos dedos da mão os que perduravam fiéis: Luís Ougado.Leve o quê. outra escondida nas minas. Coitada. de que Deus o havia de livrar. corriam para a audiência.Mais de duas dúzias. transmissão e alcavalas de vária ordem não cabia a cada bico um conto e quinhentos. e dois paparretas sem vergonha e sem camisa. Dois dias andados. .A guerra. . Por ora não há outros ventos .Em quanto avaliam a sorte da mulher? .) e boa paparoca.Trancas corridas.

O ano não vai mau.Nunca vim bem ao fundamento porque é que o Governo deitou um barbilho assim apertado a quem andava neste badanal do volÊro . como se unha rascanhasse uma ardósia. Estava uma manhã clara de sol e pelos caminhos as giestas desfaziam-se em cataratas de flores amarelas. Ouvi estar a ler que a guerra agora não se anuncia de véspera.Ele para que é o volfro. Às duas por três. Sobre os desmontes esvoaçava o cartaxo. cor de marfim. as balas caldeadas com volfro matam melhor e chegam mais longe. Paredes acabadas de erguer seguravam socalcos agenciados nas vertentes.Não faz cá falta. estrondo de tiros. ninguém ia esfossar na terra.Se alguns perderam as orelhas. botam-se abaixo dos aerop)anos e toca a pôr mão forte em tudo.Assim seja.Anjo bento? . e relampejava entre as pedras a casaca furta-cores dum sardão apavorado. a pedra nova de arranque entre montes de saibro a descorar. tinir de marras nos guilhos. Pelas pequeninas ladeiras. Sarilhos. telhados de telha novinha ensanguentavam a onda de verde.disse o Zé dos Cambais. não vai mau. Arrulhavam as rolas no pináculo dos pinheiros e as calhandras erguiam voo aqui e além. Também já o rosmaninho erguia ao alto as suas pequemnas piaçabas roxas e aqui e além a umbela da esteva chamava a abelha ainda recolhida.trazia o bolso quente doutras empreitadas. Não se viam nuvens no céu e o Calhorra. . . começavam a aparecer pelas encostas as pequenas explorações de volfrâmic. apodrentava às intempéries.. . barracas jaziam à mercê de quem vinha arrancar-lhes um braçado de cavacos para fazer fogueira. a cento e cinquenta escudos o quilograma. Na Cabeça de Alva a obra de engenharia. . a rabugem vegetal estendia já uma coirama verde e fugidia.perguntou a Cismas para o Calhorra.Pois não é ele o mais interessado em que a gente leve vida direita? .acrescentou num lamento. ainda que elementar. Passou um arrepio entre eles à voz crocitada. Uma cancela pintada de fresco cheirava ainda a zarcão. sucedera a imobilidade sepulcral. senhor compadre? . . à beira das trincheiras.Para que é? Para matar. Não chegava para os aguços da ferramenta. . .Todo o bicho-careta se pôs a esburacar na terra comentou o Calhorra ante o panorama. Em alguns desaterros. . vozes ásperas e todo o borbulhar do formigueiro humano. Mas à labuta infrene dos meses anteriores.Mesmo com alvará de franquia. Uma noite chega e cresce para ocupar uma nação. Estavam ali enterrados uns centenares de contos. abandonadas. assustadiças.gemeu a Rira Cismas. deparavam -se.Também sou dessa opinião . Olhem- 182 . dizia consoladamente: . . cales da lavagem. ingleses e alamões haviam de levar quanta mistela cá há .a . Por modos. encoiradas da erva primaveril. com a água a cintilar como cutelos dos côrnoros para baixo. A partir de Pedrões. Sobressaía do mato galego. . À medida que desciam a lomba alpestre que mergulha para o rio. mas quem os perdera . a maioria lucrou. assim a guerra arrame lá por longe.Fráguas & C. A aldeia dava ares de ter rejuvenescido. acima de tudo lavrador.apoiou Manuel Urra.Se é para matar. e mais nada. alvas.lhe a cada passo vestígios da recente mineração. espraiando olhos às duas bandas da estrada e sentindo os baratais livres do codo e próxima a hora de deitar os feijões à terra.

à tenda. nada mais que solicitado pela pobre mãe acabrunhada. Uma delas interpelou-o: . arremedilhos de verdades. o que surpreendeu muita gente. magro como 183 . os automóveis do Dr. aves estranhas. Na sua voz tartaranha. O Ougado fitou-o com um olhar de través. Torres para a compra do casal? O Calhorra punha sempre um certo pudor em assoalhar não só grandezas corno acrescentamentos e não se dignou responder.. que também fora dado como testernunha de descarga. . Mais ocioso que um burocrata da província apenas um fidalgo também provinciano. ao padeiro. até destrancarem portas as repartições. com pequeno intervalo.E muita morte! . verdades como punhos. umas vezes. Manuel Torres. refractário à venalidade. advogados. Dispensada a leitura dos autos. magistrados. o Fandinga encontrou-se com as tes rem unhas fixes do Antoninho Fráguas. no rosto uma expressão esverdinhada. na paz dos lençóis. dois repórteres. articulando um português infernal em despeito de habitar o país havia mais de vinte anos. Mudou tudo de pele! . e não lhe deu resposta.exclamou o Fandinga que gostava da contradição.chalaceou o Fandinga. O volfro deu muita vida! . Sabem quem foi que fez tudo isso? O volfro. Luís Ougado. prestar-lhe de tão boa mente e com o maior desinteresse os serviços de mecânico e que no seu ânimo o facto ficou a pesar como estrondoso obséquio.me para essas casas novas . A noite é dos amigos. Um dos Urras dizia: .já chegou à razão com o Dr. Falto à verdade? Quanto a mim. Quase às portas de Orcas passaram pela caravana. A audiência abrira à hora precisa. É certo o Aires. Os serranos fartavam-se de roçar as ombreiras dos Paços do Concelho. inquiriram-se as testemunhas. do concessionário Hincker e engenheiros. testemunhas. e de mister Corbet. causou sensação o inglês mister James Corbet. Levado pelo sentimento de justiça.esses calços.E até o fez a vossernecê rico . E tu.Que vais tu agora dizer. mais admirados ficavam. e a manhã está por conta própria. ouvido o réu. que não disseram nada de novo. Entretanto o debate com dizer.. se é que não estendia até ali seus ramos a maior e mais decidida instituição de defesa imperial que se for)ara a Inglaterra depois da Home Fleet. novamente indicadas. ainda que sobrepondo-se ao empenho notório do seu corretor Antônio Fráguas. Entre as da defesa.Vou dizer que o Antoninho andou pelas portas a ensinar-vos a lição e a prometer-vos peitas. Sabia quanto o Aires era dotado de um carácter íntegro a toda a prova.. foram aligeirando a jornada. .E para os distritos da Guarda e de Vila Real também há que contar. Que sabia ele da vida e costumes do rapaz? Sabia tudo.Se fossem para baixo de Viseu. de moinar pelos quiosques. Também ele dispunha duma pequena Intelligence Service. uma vez que o carro lhe estava empanne. Nele a libra esterlina não achara furo e não tinha pejo de confessá-lo. de abrir a boca e lançarem olhos assarapantados às criadinhas que vão ao talho. meu casaca virada? . outras vezes. Orcas levantava-se tqrde. com sala tão cheia que se abafava. não direi mais nem menos. essas encostas salbradas.. rijo e direito como os negrilhos da serra. Cansado de bater o Tavolado. manténs que foi o Augusto que matou. de bom grado anuíra a depor em abono do Aires. tudo no seu posto.

. quando é que deixa de nutrir zelos e sofrer todo esse assalto de feras. Franz Hincker limitou-se a abonar o bom proceder do réu. senhor! A acusação não ousara instá-lo. e era de presumir que por simetria psicológica no ânimo dos juízes. já o volantim do meirinho introduzira nova testemunha. embora sem patético teatral. mas o bastante para formar juízo seguro a seu respeito.gostava que me dissesse deixa de nutrir zelos. inteligente e discretíssimo capataz. após uma vénia mal esboçada abandonou a audiência. que no dizer do Calhorra não aquentou nem arrefentou a justiça. Mas ainda nesse caso. desencadeadas pelo mais divino e infernal dos sentimentos? Alguém. Eu ter andado as sete partidas.anuiu o Dr. afirmo e garanto que Aires não matou.espinafre. toda a casta de bicho-homem. . Aires não matou. 184 . amor ao trabalho e culto do dever. como é constitucional na sua raça.Faz obséquio . isto é. o que mais lhe importaria. discutível. Ora não são eles que cegam as almas mais diamantinas e armam tantas vezes o braço do mais pacífico? De resto. senhor. não haja dúvida. Torres. como bosque batido pela rajada. porque seu natural não consentir. Ainda na sala. não apenas ciúmes. quando é que um homem apaixonado . e sempre gentleman. chamou a estes zelos fumo de amor. tratado com muita gente.Dá-me licença que lhe dirija uma pergunta? Serei breve. a afirmação de que o réu não acalentava a menor suspeita quanto à retribuição do seu afecto foi produzida post hoc. Aires não podia matar. Dê-nos de barato que assim era.de seguro efeito como prelúdio.. ao verificar a reviravolta que se produzira no público. dir-se-ia. sem grande inédito. amarguras. indiferente a agradar ou a desagradar. . aliando. começou por puxar o velho cavalo de batalha do foro criminal: a quem aproveitara a morte do José Francisco? . notou-se que caí ra a fundo um pouco desatinadamente.Eu ver Aires poucas vezes. e o engenheiro Severo Bacelar a desenhar em pequenos e nervosos traços quem era o seu primeiro. E porque me ufano de conhecer nosso semelhante. calcorreando com pequena diferenç a o caminho andado na instrução. sentia-os. Sentou-se. E o efeito que esperava duma opinião prejudicial para com o réu escapou-lhe de todo. o pescoço a sair dum colarinho de goma de inverosímil altura? declarou voltado para o juiz presidente: . a sua rectidão. Por conseguinte destituída de valor probatório. Se Aires amava. cuío nome não me ocorre. conhecer homem. . o seu ricto de odioso e odiando impregnado do palpite de que fora desastrado e. Sem embargo de ser homem provado no foro e matreiro. demonstrando que não ao Aires.proferiu o Dr. Depois o advogado acusador encetou o seu libelo. certo da vontade de Teodora. Torres. A sua voz era colorida. à parte a ressentida deposição do Fandinga e afins com uma vaga história de suborno. mas apreensões.. em face da atitude confiada de Aires e das palavras impressivas do inglês. se não extinguira o sussurro. depois de fazer a síntese das excelentes qualidades do seu constituinte. quente.Afirma o colega que o réu estava seguro quanto à vontade da moça. o encanto dum troveíro à arte de dizer dum contador de histórias. imprevistos cuidados quanto ao objecto da sua paixão. As outras testemunhas não trouxeram luz nova à causa. receios. não esqueça. Sim. a limpar o suor. de que perdera a vaza. Calabaz interrompendo-o a certa altura.

Deixem passar. .. também te digo. mas.Dize lá. outro dia. do que pagarem os filhos pelos pais e os justos pelos pecadores. pergunte-o ao Volfro! Ela. até o coração me estala? Teodora continuava a arquejar cada vez mais violentamente e a desfazer-se em lágrimas.. . se for rapaz há-de chamar-se Augusto. Se mo levarem. cruzar os braços e deixar que a justiça julgue às cegas quando podia ser guiada. o ramalhar das vozes foi crescendo como sacudido por desarvorada comoção. e Florinda tornou.Então quem foi? . Teodora.Pelo meu filho darei o sangue dos braços.. como espadas que a trespassassem. bem está! Mas que culpa tinham as outras pessoas da família? . o meu homem.Teodora . Mais bem desventurada sou eu. Tu és infeliz. parece tolinha. o homem ficou debaixo duma casticeira ao cortarem-na para fazer traves..Teodora. .. gentes? Deixem passar! Naquela mesma manhã do julgamento.Sei muito bem quem matou o Zé Francisco. jurar falso é grande crime.? Olhe. ... se for rapariga. Eu sei quem matou. ninguém como nós duas para se entender. pionunciou: 185 . Que era. Mas eu hei-de ser madrinha do teu filho e tu por um lado e eu por outro o acautelaremos das horas más. Que dizes.. hirta e de caradura feroz.murmurou ela. E cravando olhos duros nos olhos de Florínda. comete um pecado que não tem perdão aos olhos de Deus... é para o castigo ser maior! Nós não andamos a pagar por conta dos nossos primeiros pais? .Nada mais certo. se o meu filho havia de padecer por minha culpa. que não era. . . mas aí..Para mim o mundo acabou. e não se lhe tira coisa com coisa.. No bom pano urna nódoa cai e nem por isso o pano fica inutilizado.. .observou Florinda. que ele há-de ser um amor como tu.. se há gente que sabe e se cala. ondeava o auditório. ouve..Se foi o homem que pagou por se ter calado. só um monstro. ai Jesus.. fica-te o sorriso do menino para te consolar.Neste momento rompeu da teia um burburinho anormal. .? E desatou a soluçar em tão forte e atribulado choro que Florinda se comoveu. se mo levarem...Quero fazer-lhe um enxoval muito bonito. . e também há outras pessoas que o sabem. A ti. não lhe ia nada por diante. eu sou infeliz. morro de que se saiba! Teodora ergueu-se com brusquidão. Teodora entrou em casa de Florinda com olhos roxos a tanto chorar e falou-lhe assim: . voltavam-se todas as cabeças. Certas palavras esvoaçavam mais altas: .Jesus. Eu sei como foi. menina. Vieram-me dizer que a Bárbara esteve há pouco com este aranzel para a tia Ana Ruça: . podem condenar um inocente e é uma quebração de alma.. nem os meninos nem o vivo. eu nunca mais serei mulher se me levarem o Augusto.Nã o lho digo. . tenho vergonha de o dizer.Assim tem empenho em o saber. o Augusto está inocente.Então. puxando-a com brandura pelo braço e afagando-a: . sir-n. agora que se desquitou do seu querer.Ouve.Pois bem hajas tu . . Um dia caiu-lhe o raio em casa. Em Riodades empeceu assim uma família inteira.. Mas. Sempre te quero dizer uma coisa.respondeu-lhe a outra enternecida.

ah. . É singular que apenas neste instante que a prova está feita. ... Com outro olhar sondou os advogados.. chegou a casa cobrir o xaile. mas acudiu-lhe que valia mais formular o quesito segundo a norma: . Angelino como eu. francamente. Consta dos autos..a querer falar..? Acenou afirmativamente e. ou o pior dos malvados! Não vês os tristes espelhos pelo mundo... para que não resplandecesse a sua vergonha confessa. abalaram as duas para a vila. Veio o oficial de diligências direito à mesa e proferiu em tom que se fingia reservado mas soava com nitidez suficiente para ser ouvido nas primeiras filas: . Voltando do estonteamento Teodora disse-lhe: .. pois tu sabes a verdade e não a dizes.Quem são as mulheres? . gesto esquivo. pupilas em alvo. A outra não figura no processo. um drop fondant de suspiros românticos e lágrimas à 186 . no mais opressivo desgarre.Franca. Tu vais-te arranjar depressa. zás..Uma delas já foi inquirida e dispensada pelos senhores advogados: é a Teodora. soluços. Fazia-se-lhe uma pergunta. e o colega decerto está ao corrente. E arquejando. apenas neste instante nos venha com o archote aceso. A priori podemos ajuizar que a anunciada revelação não passa dum drop.logo me dirão se a mulher que a acompanha não envolve um desdobramento .. que era a Verdade encarnada.Ó mulher. as lágrimas embargavam-lhe a voz. não vês. Mas já. Tu és capaz de deixar cometer um crime tão grande. Manuel Torres acenou afirmativamente. tanto quanto se pode considerar feita com almas rudes que se entrincheiram na negativa e daí não saem nem à mão de Cristo. Concordámos. Com um olhar consultou os colegas e logo inferiu pela expressão de suas físionomias que não viam inconveniente em que se ouvissem as criaturas. Chorava. senão está tudo perdido. em dispensá-la. ? O aterrador levantou o cartel: . O Dr.Se os patronos das partes não vêem inconveniente. Vou-me arranjar.. tão grande que nem tem perdão. E tapou logo o rosto às mãos ambas. Havia uma dúvida a esclarecer. Esteve um instante imóvel. declinou ao ouvido de Teodora as temíveis palavras reveladoras. A partir de certo momento deixou de dizer coisa com coisa. . como é condenar um inocente. quando podes atalhar!? Deus castiga sem pau nem pedra! Castiga-te no teu filho. que sai aleijadinho. com ela albardada sem manta nem xairel. tanto o Dr. O colega não deixaria de notar essa circunstância. Essa Teodora produziu à altura devida o testemunho que muito bem lhe pareceu. desgraçada.Estão ali duas mulheres que dizem ter uma revelação importante a fazer.. calçar os sapatos. Conhecemos o truque.Apareceu agora esta Madalena desdobrada .Os guardas não sabem manter a ordem.. O senhor juiz mostrou-se perplexo. não veio inconveniente. cego. ah. ah. . muito depressa...Tens de ir dizê-lo ao tribunal.. com medo de que o próprio vento ouvisse. mas também não vejo vantagem. qual.? Que há? bracejava da tribuna o senhor juiz presidente.. depois que a viu resoluta quanto a alijar o horror daquele segredo.perguntou o juiz descendo o sobrolho.?! Florinda arregalou os olhos espavorida. já. para que a amiga a não visse. a aduzir um pressuposto facto à sensation. pediu a burra à Casimira e.

Traz a cabeça do criminoso na bandeja? Pois se traz. Requeiro por conseguinte que sejam ouvidas as mulheres. Ex. Aqui o sal amargo. Em nenhuma parte tenho menos medo de tais produtos do que à barra.Mande entrar as mulheres. de barriga à boca. em face dos processos pouco generosos do seu opositor. vá ganhá-las algures.a. pertence-lhe a palavra? O senhor Dr. Se S. olhos baixos. sem embargo do agreste e obsessivo. passo irresoluto e todavia certos ademanes de cascaroleta. Nunca venho para aqui representar. a vida faz-se aqui. matou um leão nos matagais da Nave. de ser instada. para que não subsistam mais dúvidas de que o meu constituinte matou o José Francisco tanto como S. Penso assim e porque penso assim e estou pronto aqui e em toda a parte a responder pelas minhas opiniões. não vejo vantagem. e as palanganas da garganta. ar contrafeito mas animoso .E. como não.Sabemos quem foi o assassino. e o meu parecer é contrário. Estava mesmo a adivinhar! . Ex. . lá cozinha-se às vezes ou quase sempre com mau tempero. de acordo com S. Repilo a insinuação e o contubérnio. comummente praticaríamos.Mariana Cruz com manhas gentis de Frineia. puxando os punhos de goma. repito. que me dizem batedor de montes. não tivesse rebuço de confessar-se arrependido de haver cedido a um movimento precipitado de compaixão. melhor. proferiu: . que se dignou anteceder-me. chambre de seda cor de azeitona. protesto indignadamente contra a insídia com que veio o senhor advogado da acusação. Talvez que. portanto. a lavradeira de posses.emitiu a defesa. Muito menos roleta. Torres. O juiz mirou-as com aparente frieza e no silêncio leve e súbito que enchera a sala. senhor juiz? . ocupado em deliberar à puridade com os colegas. amochava~se Florinda.retorquiu-lhe com sorriso sarcástico o Dr. Ex. cabelo almofadado em tranças para a nuca à antiga moda campesina.a os pratica. Após brevíssimo aparte. como são os senhores magistrados. Mas adiante: é exacto que o Dr. Abriram-se alas e Teodora apareceu no seu traje meio senhoril. Eu. 187 . Mas bem. Dá-me licença. Acusar ou ainda defender para levantar o pleno pareceme contrário à mais elementar moral judiciária e sem dúvida alguma ao tópico a que obedece o foro: justiçar. se continuasse a ocupar este lugar.Realmente a cena parece de Hollywood . denotando pelo vestir. talentoso quanto novel advogado. não tem aplicação. inspirava imediata simpatia. na guerra ou no sport.Temos filme americano . Para mim o pretório não é um teatro. o juiz ordenou para o oficial de diligências: .a. .chasqueou o advogado de acusação. Também não o julgo picadeiro. nem desvantagem para o processo em que se ouçam as proponentes. Calabaz aludiu a truques que todos nós conhecemos e que. dispensou Teodora. ter-me-ia arrependido. Atrás dela. xaile de seda e saia de merino. Angelino. Quem aspira a tilintar esporas de oiro. com pessoas de gostos sãos e objectivas. eu não os pratico. Teodora pede para voltar à barra e eu não sei para quê.uma flor das serras que. Por tudo isto. no seu lugar. pelas arrrecadas pomposas e cordão de muitas voltas. Ora essa.Que têm a declarar? Depois duns segundos de turbação Teodora respondeu com voz corajosa e bem timbrada: .

digam-no? .e Teodora apontava para o Luís Ougado. só tu. decorria a lastimável peripécia. perdido na fila das testemunhas.Não fui eu. lívido.. o que procuraram realizar durante a suspensão. Aires? 188 . de imprecações.. Aquilo. atinara a descobri-lo. Era preciso vingar o assassinado. Eu nada tinha de animosidade pessoal contra si. O presidente interpelou-o: .?! Também tu. Viva o amigo! À sua retaguarda Silvestre Calhorra abanava a cabeça: . O desgraçado fizera-se branco como a morte. o gajo mandava-te ver a Costa de África.Excomungada sejas? Tu. senhor juiz. Os juizes reconheceram que o incidente só podia ficar encerrado imprimindo-se ao processo o seu verdadeiro rumo. Célere e fugaz corno enguia foi o advogado aterrador cumprimentar o Aires: . descosendo-se da sombra. contou o seu pobre romance.É aquele homem? . Houve que fazer evacuar a sala. pelo esmorecimento fisico geral. Sempre disse que este estupor do Ougado havia de acabar mal. era já o náufrago que não tenta sequer resistir contra a onda. não fosse a cachopa. Estão com a lágrima no olho. Notaram também os juizes como o homem se tornara farrapo e em seu foro íntimo confluíram ao parecer geral. não fui. O José Francisco era o seu amigo e o Luís Ougado. O público desatara na mais estrepitosa cachoeira de vozes. ergueu-se a increpá-la: . compadre Zé dos Cambais? Também tu. entretanto. Tanto valeu tanger a campainha da ordem como chamar pelo miraculoso padre Santo António. mas fora tão rápido que levara menos tempo do que se gasta a dizer. a dizer num pobre esgar: . a lançar-se sobre ele de varapau. pois sim.Felícito-o sincerarnente. Augusto.. Os advogados observavam-na com silenciosa curiosidade. Brás tê-lo-ia andado a espiar.tornou o )Uiz em rom rosnado. . o Ougado sabia que o outro costumava vir ter com ela a casa quando tudo estava sossegado.Não tem nada a opor? Só então o Ougado se ergueu do assento. cambaleante. Postada à janela vira tudo. como se o desgostasse o rumo que tomava a audiência. Todos os olhos incidiram sobre o arguido e nada mais que àquele simples conspecto não houve porventura ninguém que não ficasse convicto da sua culpabilidade.Pois sim. O verdadeiro matador entregou-se. entrecortada de pausas e suspiros. de ar sonso e cabisbaixa ao pé de si. é que causaste a minha desgraça! Mas o oficial de diligências agarrou a rapariga por um braço e levou~a à presença dos juízes. Reparando em Florinda. Na noite de S.Se sabem quem foi o assassino. Mas já que dizem que fui eu. sentindo-se que o seu regalo seria meter-se pelo chão abaixo. de que havia lembrança naquele tribunal afeito às audiências plácidas e sonolentas.. O mais era a história da sua vergonha. melhor eu não podia desejar. que tivera o casamento emprazado corri ela. de juras. Demais. O José Francisco a sair a porta e o Ougado. pelo olhar vago. hão-de prová-lo. O Luís Ougado caía de borco a soluçar. Por isso não o quis mais comigo. mas logo no começo da trajectória o braço lhe caiu flácido. O senhor juiz incitou-a a dizer a verdade e ela em voz tartamuda. Trouxeram-lhe um copo de água. tratei de cumprir o meu dever. Pretendera ainda? desenhar um gesto de protestação. Na teia.

ao largar pela porta das traseiras.. Dize. desamparando o lar.. juro-lho pelas cinco chagas de Cristo. e.Eu digo. tinha a casa da mãj ali perto. Espraiando olhos pelos caminhos e as quintãs. velho de sete fôlegos virou-se para a banda a limpar às costas da manápula também a lágrima. eu digo. tendo baque de que devia ser ela. mas largue-me! Há-de-me largar primeiro. obrigada a tendas de campanha e vedetas da Rádio e do Cinema. o prédio ofereceu-lhe a mesma impenetrável e insólita clausura. Subiu a escada tão de afogadilho que à moça minguou o tempo para calçar as tairocas. senhor Antoninho. rosnava: ..Que me quer? .Ouves ou não ouves.Pois sim. e a criadagem a precipitar-se ao seu encontro humildosa e alvissareira. E por 189 . largara para a folha. A moça. rompera com desabalada sanha a faina das ceifas. exclamou: .. desse lado.Dize depressa! Dize lá e largo-te. pedir asilo a segundos. se empossou dele. cravava-lhe as unhas na massa da carne. Mas dessas vezes. o Antoninho Fráguas encontrou a casa fechada. presidente da junta de Freguesia. mas solte-me o braço. Era como se estivesse diante da casa dum pestífero. Por muito que batesse com mão rija e frenética. lhe pregara a partida de ir de lágrima no olho. a criada de dentro. uma lágrima envergonhada. O Antoninho. seladas portas e janelas com os sete chumbos do lazareto. ó coisinha. No fervedoiro da ira... acudiu-lhe que a Maria Alonsa.. Para onde se tinha metido agora toda essa estúpida cambada? Era obra de meia manhã e.Pscht.Onde está a senhora?. Foi pelos quintais e. ao passo que a fazia retroceder para dentro da cardanha. sabendo que lhe era precisa uma cabeça-de-turco nas suas raivas de fera para não morrer sufocado.? Onde está a senhora? . mal entreviu um lenço vermelho a esvoaçar. junho tórrido e pães lampos. Aquelas palavras era eloquentes o que basta para certificarem-no de que alguma coisa muito séria se tinha passado. a porta conservou-se como a janua c(eli para o mau ladrão. cabeça à retaguarda. tronco projectado ainda na flexão da fuga. não olhes para mim apalermada. acompanhado destas cóleras que lhe faziam retrincar os dentes e toldavam o lume da razão. 1 gemeu com voz entrecortada. o carro a estacar à porta. Silvestre Caffiorra. eu digo.. As donas que poderiam ter ficado de portas adentro não seria cómodo desviá-las da caçoila em que grugulejavam as papas para os segadores. não se avistava vivalma. Um vivo sobressalto... Conhecedora do seu gênio impetuoso e feroz. De volta durna pescaria às trutas no alto Paiva. Quem se cria capaz de empunhar a seitoira.. espera que já vais! Ante o seu rompante a criada suspendeu-se com um pé no limiar. o íntimo inundado de febril regozijo.. Tinha-a já agarrada pelo pulso e. eu digo tudo. amortecendo com sete vozes a um tempo o desagulsado da surpresa. outro pé na rua.. já por duas vezes Solange. correu-lhe no encalço: . . a Maria Alonsa fitou-o com ar espavorido. queixosa do seu desamor e vesânias. Promessa assim reticente valeu-lhe logo um cachação despedido à laia de amostra. A rapariga arquejava e não respondia. o que buscava era eximir-se a ser o desopilatório. e botou-se lá dum salto. E de braço alçado ante secundar o golpe.Só Teodora estava ao lado grave e serena. gemendo: ..

disse bamboleando a cabeça: . mate-me. as comissuras dos lábios arrepanhadas num esgar de dor e decisão. que sempre lhe brincava nos lábios grossos. Mais.. a ver se alguém te acredita? Vai. Ela fitou-o em silêncio e abanando a cabeça.Não. Mais longe. Guilherme Calabaz. confidente e amigo íntimo.. a rnoceta retrauteou: . mas deixei correr. quando se )ulgou a coberto da investida do tigre assanhado. mas meu pai e meus irmãos hão-de saber ainda hoje quem foi que me desonrou e é meu amigo! Que tal disseste! Os dois braços do Fráguas desataram a malhar alternativamente como um jogo de dois manguais. Deu-lhe um murro mais forte. que enristava para ele um focinho de condolência e curiosidade. leu a insofismável e porca verdade..antecipação logo ele lhe aplicou um segundo trompaço.Há muito que sabia que a senhora era amiga do Calabaz. sob o engulho das lágrimas: .. Então ela rompeu em altos gritos: . o que equivalia à rendição e a uma censura. E silvava: . proferiu em voz atrida. Um instante apenas quedou interdito..Despacha-te! Dize lá. fora ludibriado da maneira mais imprevista e desbragada. como não fosse perseguida.Quem me acode? Quem me acode! Quem lhe havia de acudir? O Fráguas atirara a porta contra a fecheleira... Pronto. certos gestos que pareciam insignificativos e vozes absurdas que lembravam bexigas de porco à dependura. só depois de mantê-la sufocada por um tempo. a Maria Alonsa largou pela quelha fora. . Ferrando-a pela garganta. Pudera: Faze-te niorto. Não havia que ver..Seu malandro? julga que é só armar os outros coronéis! Foi-lhe bem feita.Bateu-me.? . anda? Vai dizer que fui eu o primeiro que subi à laranjeira. Sabia. associando mil coisas. A 190 ..? Queres festa? Então pega!. vai! Apareceu o Minga que lha safou das mãos. A distância. testade-ferro e alcaiote. de lhe ver os olhos extravasarem das órbitas e ela a debater-se debalde. mas eu seja cega se me fizer abrir a boca? regougou ela. que a vergou para a direita. agora assobie-lhe às botas! O Fráguas ergueu os olhos e na retina baça e parada do Minga. Uma das mãos dele não fez mais que deslocar-se. é que alargou a golilha e lhe repetiu com a voz pausada e segura de quem sabe ter a vítima à mercê: . já. Ao Espadagana. Passo a passo das repetidas e bruscas lucilações do entendimento.Levou quinze anos a querer persuadir-me que era uma pobre e santa rapariga e que eu não passava ao pé dela dum gabiru de marca maior.Não digo e não digo! . com desfrute de permeio. Pega!. Solange rinha fugido com o Dr..e as manápulas do Fráguas erguiam-se e baixavam-se no dorso da rapariga com um ritmo cada vez mais acelerado e violento. seu procurador. a aldeia tinha-se esvaziado para as searas. mas que estivesse aberta. sem poder mascarar suficienremente a fúria homicida que lhe estuava no sangue. a chorar. Como uma cadela batida. não dizes.. o vago e cínico luaceiro. atirou a pedra: . dúlcar-te-á o tourf). teimosa e convulsionando-se. .? Mate-me. reconstituiu o rúrbido romance. meu estuporinho. seguido dum terceiro que a repôs na vertical.repetia ela.Vai dizê-lo.Ai. o Minga segurou-o.. pequenas e grandes ninharias. também lhe chegou a vez! Foi-lhe bem feita! Ia a arremeter. E escumava: .

Antonio? Seguiam rua fora. que nos hotéis incutia um sagrado respeito aos groo?iis e embaçava os pelintras.Pois eu . que é deles? Mais de cem contos que se iam à viola? Com mão já enfadada escancarou as grandes portas duplas do guarda-fato. Também ela tresti-ialliara a fugir-lhe aos destemperos do primeiro febrão. Ao subir a escada.. cederam ao leve empuxão. lentamente. mala de viagem tão catita de pregueados e fivelas corno o peito dum general em dia de parada. Era uma vez a raposa argentée.. rraste rico e solene. os naples de carneira verde a pedir charutos e negociatas. E não acreditei por várias razões e mais uma: no fundo são todas as mesmas. Apenas junto das suas pantalonas de smoking.zê-lo.volveu o Fráguas detendo-se no patamar antes de mais nada o que faço é rebentar o canastro aos dois. mal constou que o senhor Antoninho chegara de fora e a sua bílis negra revulsada. e a cada passo o surpreendiam agradavelmente as irisações 'fátuas dos vernizes arpejados pela luz. como se a palavra do Mi nga lhe chegasse só então aos ouvidos. matizada de 191 .. quem havia de futurar que tinha perna para tal coice? . com aquela carinha de Senhora da Piedade.esta altura não tem mérito algum di . o Fráguas. Toda a indumentária rica e preciosa de Solange tinha desaparecido. espelhos Sr. onde madame estudava horas e horas o sinalinho do rosto e os cabelos encanudados em mola de sofá. em que uma vez por outra lhe era grato ver o ft)rmiguQiro das notas marinhar processionalmente como lagartas da couve até o esófago musical da máquina. o bolero de arminho. última moda: grandes superfícies planas. . Não avistou também o “necessário” em pele de crocodilo. O Antoninho foi de sila em sala. Ah. Lá estava a sua secretária de corrediça. Por enquanto. com as diferentes peças todas de cristal e prata. que valia um par de contos. Lá estava o aparelho da Rádio com o seu supedâneo de Mogno. mas a verdade é que nunca acreditei. que era costume estarem fechadas a sete chaves.Tu no meu lugar que fazias-? Sê franco. sim. par a par. penduradas de cós para baixo e pernas para cima. revestidas de vidraça Nseautà. o cofre à prova de fogo. Aubin a granel. as gavetas dos toucadores. O outro limitou-se a torcer a belceira num gesto de perplexidade. nariz ao alto a coscuvilhar. envolveu-os o ar fresco e hospitaleiro da casa em trevas. quase um palco. ó Minga. Tenho que me desagravar. no quarto das arrumações. brilhava pela ausência a inala de coiro da Riássia. Tinha alfaiado a casa com mobília em contraplacado. não dava fé que faltasse algum dos bons objectos de sumptuária. linhas rectas. aquela bata de organdi amarelo. ou falando com os seus botões. tanto mais de apetecer que com o refervor da canícula a attnosfera se tornava irrespirável e a pele da gente ficava negra corno se a chamuscasse um incêndio. Mas dize-me lá. o vestido de lhama a “estilo” para bailes e teatradas. Aberta a porta. custoso e Majestático que nem o armário norte-americano dum dentista.. A questão toda é caçá-los! O Minga introduziu na fechadura a cliave que a criada de cozinha viera entregar. trazidos na sua jubilação de ricaço. Os escrínios com as jóias. grandes como talhas das azeitonas e vistosas como coristas de uma revista de ano. e as duas grandes jarras chinesas inade in Gerniany. Na alcova conjugal. é que pronunciou: . e transformarem-se em catadupa sonora ou arroiozinho melódico. de olhos no chão e silencioso.E agora. Lá estava a pianola.

dos tempos difíceis. outros beijos e abraços. Sendo mais novo. Que tinha a mais o Calabaz? Havia de virar-se três vezes de dentro para fora e de fora para dentro até poder concorrer com ele em ralé. Do mesmo modo não deitaram grande malícia quando viram os dois sair a porta. pois que desmpenhara tal papel. completando o óleo. Só passante um grande migalho é que a Maria Alonsa. ninguém estranhou que se fechasse com a senhora durante mais de duas horas. à 192 . como revoada de pardais que sentem o gavião. na qualidade de esposo. Tudo ia nisto: ser trocado por outro. Como eram de grande intimidade as suas relações na casa. que deixava filtrar a tíbia de cabra de Solange. a criadagem voltava ao redil. Em face das cómodas. em linho subtil ou sedas duma brandura de teia de aranha. disse mal da sua sorte. sentiu certa melancolia. para lá da crise hidrófoba. debandaram cada um para seu lado. Veio a cozinheira. deixou-se abismar no maple e um instante prostrado.J. estava longe de competir com a sua lábia. Quando tal ouviram. queimado na soledade do sol-pôr. restavam-lhe dúvidas de que aquilo poderia ser sonho. Entretanto a casa animava-se. fora arvorada em confidente.azul. lhe preferisse um outro. sopesando a mala de viagem com a direita e o “necessário” de pele de crocodilo com a esquerda. Outra forma. Nem ainda aquele descambar subitâneo da imperial com o desfalque que o sucesso podia trazer ao seu pecúlio. verificando rodas e a ignição. o que sobremaneira lhe doia era que Solange. aquele pelém. Não eram as excrescências da minotaurização o que mais o incomodava. Ah. Vasculhando na consciência. Estava explicado o susto com que a moça o vira aproximar e as suas ânsias. Mas não tinham culpa: aqueles amorios haviam-lhes passado tão alheios como se fosse na China. pôde Fráguas levantar o corpo de delito. de turbante pela cabeça e saquinho. tinha dado grandes esteiradas para se ir abaixo com mais uma. rotundamente a favor: a variedade. pelém por dentro e por fora. Só não veio a Maria Alonsa. Entretanto que ficava sozinho. quanto a ele. E. figurava de mais idoso. e os dixe-medixes que andavam no ar como o zumbido das moscas. e abalarem no H. Quanto a ela. Sendo bacharel. era uma concreta pouca-vergonha. Tão-pouco a quebra de hábitos que vinham de longe. A Maria Alonsa é que. Para se tentar duma mulher em tais condiçõ es. Qual. Calabaz chegara na véspera pouco depois do meio-dia. despojadas do recheio voluptuoso das roupas de baixo. veio anunciar que a senhora partira de vez com o Calabaz e já trazia o processo do divórcio a correr. pior que uma impigem. o moço da garagem. lhe era subalterno. encobrideira e correio de notícias. estava explicada. só se tinham perdido as que caíram no chão! Fráguas despediu o pessoal e encarregou o Minga de aprontar o carro. o abegão. Ouvindo a uns e outros os informes voluntários ou arrancados a saca-trapo. já tranquilizada de ânimo. havia uma coisa que ele tinha a favor. embora essa sobrepujasse as outras de muito. ele adiante. 23-41. escorria mole. pelos vistos. apertando a fronte às mãos ambas. comparável à que se evola na espiral de fumo dum cigarro. Conclusão: eram todas as mesmas! A cozinheira chamou para o almoço. outra boca. um sonho mau?? Não. Aqui estava o artigo em que. Um momento se esqueceu e esperou ouvir a chinelinha arrastada de Solange. oh! um tudo-nada de melancolia. a grande zoina. a paqueta. Viragem da fortuna? Puf. ela atrás. era clara como a luz do sol. pindérica e lamentosa. já chocalhavam para os lados da copa as risadas de matraca do Espadagana.

uns olhos invulgares em que. mas que para o labrego do Calhorra era como pérolas a porcos! Um homem de peso que deixa a serra! . mas sim jogo de monte. não falando na casa. Mas saíra salgado ao cambaio. De resto. . Pois então?! A raciocinar assim.Calabaz?? Calabrês.São menos medidas que saem da patarrega.Essa agora! . Querem vir tomar ares. destes que se fazem com temperos genuínos e o sinal-da-cruz para os amachucados da mofina. murcha. Margarida que o obrigou a largar o que ela chama “uma parvalheira donde se não tira honra nem proveito. ah! ah? Até o Fráguas desatou a rir. é que o salto à dama não fora jogo de amor. uma mancheia de notas por dois chaparrais e uma regada que não rendia quatro carros de centeio. consoante a luz.mal debicou num ou noutro prato. só bonitos olhos. Cem. o Aires não se pegava de rixa com o Zé Francisco. picado pelo Tadeu que à última hora lhe dera para o cobiçar. como acautelá-los das manobras do rãbula. o rendimento das terras e as raparigas da terra são para as gozarem os que cá estão. para ao cabo da gargalhada pronunciar sorumbático: 193 .concluiu o Minga em voz de réquiem. O Silvestre Calhorra sempre ficara com o casal de Malhadas do Dr. cotados pelo estalão normal. Contra os seus créditos de primeiro garfo do concelho . cento e vinte. um cabrito assado. Torres tem muita culpa no que me aconteceu. Quanto aos grossos capitais depositados em Banco e investidos em empresas várias. .desprovida de todo o sex-appeal. Marzoelos a tratar-se duma doença vergonhosa . e paguem. praticadas à margem do inevitável processo de divórcio? Sabia quanto era fecundo em tricas e audacioso nos meios. o Calabaz não era aqui visto nem achado. pois que não era discreto falar de corda em casa de enforcado. D. duas molejas de vitela não requer? am para ele outra companhia além de seis “meninas” do Dão . sem peito. O Minga comia por si e por dois iguais a ele. a quem acontece às vezes os amargos de boca fazerem perder o apetite. Juan viera ao faro da bagalhoça. e ainda tinha modo de entremear a santa trincadeira com histórias da vida. Ouvi dizer que o Torres se foi embora com a lágrima no olho. venham. outro para baixo. Afonso Henriques que conquistou estas terras aos moiros e permitiu que pegassem aqui as estacas donde saíste tu e tua mulher. pernil caprídeo. mas só os ares. este Dr. Manuel Torres.meio lombo de porco. @ Havia de se ter ido embora há mais tempo? . com uma filha casada e um filho homem tanganhão de tal calibre que estava àquela data hospitalizado na casa de saúde do Dr. interessante com o pátio e as árvores antigas.disse o Fráguas com um sorriso de desdém. mas só enfados”. coisas e loisas que contendiam com tudo menos com mulherio. tens de culpar D.Por modos foi a D. Sim.beira dos quarenta anos. esvoaçavam asas de colibris ou se viam peixinhos chineses bater com as barbatanas de oiro a água morta dum lago. Se não matam o Zé Francisco. já ninguém lhe tirava do papo o dinheirão das jóias. cento e noventa e cinco contos. um ombro para cima. Tinham lavrado a escritura no dia de trás em Tendais.. refinadíssimo calabrês!! A cozinheira caprichou em servir-lhe um almocinho delicado.. As terras. e o Antoninho arregaçando os lábios num jeito pessimista pronunciou como em remate do solilóquio interior: .Se ele não dá os améris ao Aires.. ..

. Era ao entardecer.Mas esta foi bestial. E volveu ao responsório: . o visconde papalino.C.Homem.Dás licença que te diga? A mulher e o vidro sempre estão em perigo. não é tanto assim. Mas logo por desgraça lhe caíram os olhos na assinatura de Calabaz . Não tinha segredos para ele. depois de o contemplar com um interesse que não conhecia há muitos anos. .J. Manuel. vê tu. Pensou ainda em telegrafar ao genro. Mas no corpo da mulher. Guilherme Calabaz e informaram-no que haviam tomado a direcção de Viseu.porque fora ele. Mas que fosse. e à atitude que mais convinha adoptar sob o ponto de vista dos interesses. Ele aproveitou. mais dois dedos de palestra para aqui. descobriu o retrato da esposa na cantoneira e. Aí tens. olha com que menino. na vizinhança. é o que calha@” O Antoninho riu por entre dentes. para a sancadilha. em casa. Queixa-te da tua má cabeça. no justo receio de que a paixão lhe fizesse perder o sentido da direcçã o e atirasse com o carro por uma ribanceira. Depois. que sob os pontos de vista da dignidade não pedia conselhos a sua honra.onde é que os vais desentocar? . E o pior dos remédios. e desistiu. ? Deixá-lo? Vou-me à cata deles até os desentocar. para onde quer que se virasse.. com o bando das titis.Ora essa. Estou roubado? Agora só a tiro! E o pior dos remédios? O Antoninho levantou-se. Vens tu comigo? Lastrou os bolsos e. até quantos botões tenho em cada colete. há sempre seiva para as borbulhas da leviandade. o tempo foi passando e acharam-se a horas & jantar abancados a um bife de vitela no botequim. Deixava-Ia para aí ao abandono como uma canastra velha.Mas... homem. aquela criatura está avelhada. mas desta feita o seu sorriso era amarelo. 194 . grande amador de fotografia. Em Tendais já era tudo cheio com a fuga de D. que regressava de Tondela. mais outros dois de conferência para acolá a propósito de negócios pendentes ou em curso.. . sim.Sossega uns dias. Solange e do Dr. à beira dos quarenta anos uma mulher não é nenhuma flor do rrevo. incapaz de dar um passo sem se aconselhar com o senhor Bispo. À velocidade que parecia levar meteria a Santa Comba antes do lusco-fusco. que se tenham ido acolher às profundas do inferno. beatas de óculos e albuminúricas. Têm-no de índole. que o tirara . Na cidade o H.J. metia a toda a mecha para Tendais. estou roubado! O ladrão sabe tudo. para não dar o espectáculo da dor do cotovelo. será como me der na gana: britá-los ou limitar-me a verificar o adultério. nas famílias das relações. informou-o que se cruzara com ele para lá de Sabugosa. à socapa virou-o de costas. hei-de dar com eles? . Sebastioa. uma mártir S.e restituiu-o à posição primitiva. 23-41 tinha sido visto à porta duma garagem e um chauffeur de praça. em poucos minutos. Manuel? Senhora tão compostinha. Rompeu estrada fora. mas era um encharcado de perfumes. com o Minga ao volante. irmã zeladora do S. Mas consulta que não consulta dum advogado. carregado de escapulários. . seja em que idade for.A estas horas... tem de experimentar os esporões do galo? E lá fora. encontrava as tuas fúfias.Qual sossega uns dias!? É para já. A notícia ainda não alastrara. Peripaterizando de cá para lá.. . à última hora dar em droga! ah? ah? . e Fráguas achou-se à vontade para pulsar a lei quanto às perspectivas principais que decorriam daquela emergência..Portugal não é grande. dizes tu. quantas vezes te ouvi: “Galinha que entre cá no poleiro.

Naquele dia.Há muito disso. Esta vida são dois sopros. que patriotismo? Que pele de maracotão no pescoço e no lábio superior? E que encontros. não há duas opiniões. lançaram-se pela estrada de Lisboa a urna velocidade de bólide.. toda. .. Perante a desatenção dum dos chasseurs. no Buçaco um casal que chegou das bandas de Santa Comba no carro H. Ainda me caso outra vez. do pontapé que pouco faltou para lhe romper o espinhaço. Estás a compreender que tens de ser discreto. mas folia da fina.. pegava11-ic. Meteram gasolina e. Foram matar o tempo. O busílis é a prova.O corpo está-me a pedir folia. É tu quereres. Em crise. Agora para o meu paladar só frarigas. . o Mínga ao volante.Saber se não pernoitou a noite passada neste hotel e. Corno não era -a primeira vez que o patife do Calabaz e ela viajavam sozinhos e com o meu consentimento. Teriam ali estanciado os pombinhos? O Fráguas desceu e entrou no hall do Grande Hotel.Sabes tu quem ma dava toda. vou eu. .Então. limitome a mandar verificar o adultério e acabou-se. a pontos que ainda rendia graças ao Criador e ao rna)andro do Calabaz ter-me levado Solange! Quem ma dava toda era a Paula Hincker. Ex.. o Antoninho estava sob a acção das duas ebriedades: a que vinha. Vê lá tu os alçapões da vida? O que eu precisava era caçá-los com a boca na botija. de pândega corri as actrizecas de Lisboa. . meu velho.. . divagando pelos logradoiros públicos das termas. fica-te muito moni.Esteja V. Cunhado.Vão ficar reduzidos.E então. segundo o voto do Antoninho.. . entre os vinte e os vinte e cinco anos.Se apanhasse uma rapariga séria e apetitosa. deambulava 195 . Para que servem os milhafres de milhafres que tens na gaveta?? .. nas horas de grande ternura.Isso é papa fina. O ladrão do Calabaz não deixa de meter a unha. Mas vamos lá. o facto não constitui prova cabal. que não fosse bronca de todo e de boa família.Não tenhas dúvida. num ponto já eu assentei-. .Disso és tu capaz. trazia grao na asa.? .? . Caramba.V. tanto mais que eu teria abandonado o lar culposamente. por traumarismo. Dentro de meia hora tem a resposta.Já sabes: para onde fores tu. . Acompanhas-me? . Espadagana.Para te compensar do tempo que perdes e para as despesas do telefone aqui está.a descia então. Ex. se as coisas correrem a favor. podendo eu “constatar” o adultério.. . recorreu à gazua infalível: . .Mal empregada? Para quem estava boa era para o ego.E tu mais cem escudos suplementares pela diligência. . sigo em frente até dar com eles.Dísse-me o advogado que. . 23-41. Que o meu quinhão lhe sirva de rosalgar. em caso de negativa.e meteu-lhe à cara uma nota de cem escudos. .. Saía gente das inúmeras pensões e hotéis ou entrava. . e a que produziam os líquidos capítosos que ia engorgitando aqui e além.J. Espadagana dum raio!? Sempre que o tratava por Espadagana ou cunhado.Que meta. a sossegado. ou quando o Demo lhe soprava ralé. É noiva do engenheiro Bacelar. o divórcio seria pronunciado a meu favor. .Bem. Antes das dez estavam no Luso.

para quem nada de nada neste mundo deixava de ter a sua ponrinha de intencional. Ele próprio percorreu as garagens todas da Baixa que conhecia de cor e salteado. Fráguas. a voz confidente da barriga cheia. E. satisfeita consigo e com a vida ou assim o dava a entender. parou em frente. Ia para os cinemas. Ninguém lhe soube dar razão do automóvel H. um corpo sinfónico de sumidades.J..pelos caminhos a tomar o fresco. estavam no admirável jubiléu da papança. Chegaram a Coimbra um pouco antes do meio-dia. Animais com aqueles dentes renunciam a tudo menos a comer. aerodinâmico do último estilo. A Alemanha caprichava em realçar o seu carácter de mantenedora da cultura. À sobremesa. podia.. marchava aos cotovelões deste e daquele. Não havia lugares vagos no restaurante. uma não quebra-utn-prato. um automóvel rico. uma boa-serás. teleforia para toda a parte. Agora. Entre duas fumaças. mas já ele se precipitava a oferecer os serviços. e o Fráguas experimentou a mais alterosa das invejas. O Minga piscou o olho ao amigo. Que temia? Em nenhuma garagern do Luso nem do Buçaco fora recolhido o H. Depois do julgamento em Orcas ficara de candeías às avessas com James Corbet e realizara com Hincker transacções de certo tomo. olha. embora em guerra. caminhavam para a capital. Tal representação fora trombeteada aos quatro ventos como um acontecimento excepcional.Pois telefona para a Curia. dar assim um chuto na vergonha. cabeça na travesseira. fosse este intencional obra de Deus ou do Diabo. Aceitaram. Nunca se sentira tão isolado no mundo. E. como em dado momento palpasse numa das algibeiras as dezenas de contos com que se munira. tendo recebido resposta negativa da Curia. tudo integralmente soberbo. Ex. corno é tarde. surgiu uma garrafa de Moêt et Chandon e Hincker ficou penhorado com a bizarria. apanhar uma mesa devoluta. Carlos. Hincker com a filha iam a Lisboa assistir à representação de Tristão e Isolda que essa mesma noite a Staatsoper Berfin e a Berfiner Philldrmonches Orchester davam em S. trocando impressóes sobre as trabuzanas que o Diabo tece. Era a sazão das festas da cidade e custou-lhes. manda-nos preparar dois quartos. Mas. em rimeira fila o elemento alemão. telefonava-se para a Curia. e Fráguas ofereceu a sua mesa. cenários e indumentária do maior requinte. Afinal. o que lhes fez atrasar a viagem. 2341. Ouviste? O Fráguas tinha medo de ficar sozinho corri os seus cuidados e. hem?? O Fráguas só acordou na meia manhã. Dois quartos ou preferivelmente um quarto com duas camas. Rua fora. ainda e sempre fora de si. 23-41. 196 . Desceram Hincker e Paulinha. a meia voz.J. . os devotos de Wagner.a estar absolutamente certo e garantido.. namoriscava. cais como os peregrinos de Bayreuth. digno da nação organizadora por excelência. Bom almoço e cavaco ameno.. recusando-se no fundo a aceitar o labéu que acabava de esparrinhar sobre a sua pessoa. comprimindo-se ele e o Minga para unia ponta. E o estribilho subia-lhe aos lábios como num realejo: Vê lá tu. com enviar ao país neutro uma embaixada de arte de primeira: cantores de renome universal. encontravam-se os dois compadres de cigarro aceso. na outra a pistola. reluzente de cromados. sem exigências mentais. de Norte a Sul. talvez tivesse cortado para a Curia. não obstante a companhia do Manuel Minga. balouçava-se nos terraços em cadeiras de verga. reconfortou-se. Espadagana. depois da meia-noite. Se o desejasse. S.

catrapus. amassado 197 . deliberadamente. O Minga continuou ao volante. choque da roda contra a guarda de pedra da berma. que teimara em ir alistar-se na Luftwaffe e lá andava num Heinkel III. Por toda a parte se erguem incendios e lumaréus. ofereceu o seu carro. Graal. e nelas os vãos rectangulares dos portais sobressaem desenhados a negro. Tinham sido prazenteira companhia ao almoço. em que o aviador descrevia o bombardeamento da capital do Reino Unido. ensanguentada além.Sim. nas acrobacias mais consentâneas com a posição. verde aqui. do Tadeu. Fráguas apenas fixou períodos salteados e sem verdadeira conexão: “. Quando falou em desagravar-se. Não houve danos pessoais. Era como o descrigelhar dum odre quando lhe deitam vinho. O senhor é novo. Ouvi lá para a sua aldeia um provérbio que diz: Mordedura de cao cura-se com o pêlo do mesmo cão. que o Antoninho tinha pelo símbolo duma Grã-Bretanha desmesurada. & Severo Bacelar. a City é como a Alfama em noite de S.. é para a capital. Carlos. o Fráguas logo após. declarou: . à minha direita vão pelos ares dois gasómetros. depois. As docas Royal Albert. como uma valquíria. está a tempo de refazer a vida. a estudar-lhe o jogo fisionómico. praças e ruas. onde os transatlânticos não são maiores que brinquedos de menino. contou o “sarilho” corri a mulher. Em baixo. Trate de aplicar a rece Ira. De nada servem as nossas granadas iluminantes. e tudo se ilumina à volta. invocando o contratempo que seria perderem a récita em S. Depois a fumareda ou a velocidade varrem do horizonte a zona dos cais. pelos lados. São dois fantásticos ramalhetes de fogo. iriam de caravana por ali abaixo. Depois. está picado de estrelas. dado que em Coimbra se pudesse encontrar a peça sobresselente. do Calhorra. deixando apenas o espaço que basta para não aspirar os gases do escape. que por vezes crepitam contra as paredes da barquinha como o granizo nas vidraças. ao lado dele o Fráguas. Tudo o mais é Idade Média. . Havia lugar para os dois sem sacrifício de nenhuma espécie. É o conselho que lhe dou sem mo ter pedido..Hoje esses métodos já se não usam. Para lá de Condeixa. de dia e de noite. lembra uma estrada. de centenas de metros de altura. de princípio muito hirto e solene no seu posto de senhor que ofereceu hospitalidade. senhor Fráguas. São as balas da defesa antiaérea. Fráguas. negra ali. para quem estas coisas se passavam no mais trivial e benigno dos mundos. o automóvel de Hincker teve uma derrapagem monstra. O céu. requeria vagar. novo paladino do S. as praças gânglios absurdos. O Antoninho Fráguas coçou a barba regalado ao golpe de ar fresco que varria sua alma conturbada. De olhos em Paulinha. Não puderam recusar. Falaram de conhecidos e de pessoas sabidas. ganhando ousio. a todo o longo. por cima. Romperam. o que não espantou nada o estrangeiro. João.Não é para a capital que se dirige. torcendo-se à retaguarda. senhor Fráguas? Hesitou o volframista na resposta. semieixo partido. O espaço é vergastado. As ruas parecem delgados cordéis. mas o conserto. O rio.imaginando que ia relatar um grande drama. do inglês Corbet. a engasgar-se nas talas de goma dos colarinhos altos. Hincker à frente. e nós temos a impressão que estendendo um pouco o braço lhes poderíamos tocar. E Franz Hincker puxou duma carta. Hincker sorriu: . Victoria e East India sobrenadam no gigantesco mar de chamas.

Cruz Quebrada. fazia estas considerações amenas e outras decorrentes. Que importava de resto e dia de amanhã?? A vida era hoje.murmurou Fráguas. . daquela vitelinha loira. depoís o opróbrio. Abriu o comutador da Rádio sobre Berlim. . E de facto.. Deus escrevia direito por linhas tortas. Bah..disse Paulinha. Meio tombado sobre a ilharga de modo a ouvir Hincker e a divisar Paula.Terrível? . Por causa daquele. Na marcha rápida do carro. ho)e.. e o mundo continuava a rolar como dantes. Gozar o festim da carne tenra. cabelos grisalhos. que importância tinha à face da eternidade?.por verdadeiros batedores de luz de todas as cores. mesmo debaixo das bombas das Fortalezas Voadoras. mas.proferiu Hincker dobrando a carta com solenidade e metendo-a na carteira. corpos e almas. com ossatura de ferro e músculos de jaguar. do Piauí.Sonata a Kreutzer. 198 . Quem o governava. e sempre hoje. um ano que fosse. Quando botasse aos trinta. estava ele nos cinquenta..Beethoven . Que música era aquela? . como dizia um augusto sibarita. Ficava só paraíso. Estava. como dizia o compadre. pretensiosa e sem consequências. o dilúvio. São os fachos dos holofotes.. dois anos. embalado pelos acordes divinos. no meio-dia. Milhares de milhares de gajos análogos a atirar bombas ou ideias. teria cinquenta e cinco.Terrível e épico! . Tinha quarenta e três anos. era o dinheiro. cinco. Ainda era homem. Paulinha não dera sinal de emoção alguma. inundava o mundo de melodia. não era diferença que lhe metesse medo. O demónio de tal longitude que viesse! Paulinha ia nos dezoito anos: quando chegasse aos vinte e cinco. nunca mais se levantariam os padeiros à meianoite. de olhos sempre em Paulinha. Àquela hora a ReichsRundfunk. o mundo perecível e detestando desapareceu. moscada. A sua absoluta vontade era ainda a realidade apreciável. a morte macaca.” . sem favor. na melhor da probabilidades. A Fráguas a mensagem do herói pareceu tola. 1943. e vogamos num oceano irreal. Hurra pelo ladrão que o inventou.

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