Aquilino Ribeiro Volfrâmio

CIRCULO DE LEITORES Capa e Frontispício: ex-libris de Aquilino Ribeiro, desenho de Abel Manta Capa de: Antunes 1983, Livraria Bertrand, S.A.R.L., Lisboa Número de edição: 1531 Tiragem desta edição: 55 000 exemplares. Depósito legal número: 3100183

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PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO Logrou este livro certo favor do público, para lá do sufrágio a que me habituou o meu contingente de leitores fiéis, e não é difícil determinar porquê. Nele pressentiram uns a aventura empolgante à Jack London e bisbilhotaram outros uma crónica da actualidade, com retratos ao vivo de permeio e os inevitáveis episódios de rapacidade e fereza. Não se iludiram de todo, salvo que as carapuças de Mister Corbet ou Herr Hincker, para não falar dos lusitaníssimos Fráguas ou Calhorra, não acertam de modo algum nas cabeças deste ou daquele que se aureolaram na gambérria do volfrâmio. Não foi propósito nosso fazer dissecação pessoal, nem de resto o processo é compatível com a arte literária, quando exercida com largueza. Pintar almas é diferente de lançar a máscara de tal ou talfabiano à tela mercê da ciência das cores. O romancista vai de indivíduo em indivíduo, como a abelha quando jorrageia o pólen, e a um pede o físico, a outro a índole, a este uma anedota, àquele um pormenor característico, e assim amassa por aglutinação os seus figurantes, Feita a dosagem com inteligência e obtido um bom ajustamento, ninguém dirá que não foram copiados do natural e que não “falam” . E o orgulho do criador estará em dar a ilusão de que são cópias exactas do mundo de carne e osso. Já chamaram à nossa época, pelo muito que o fenómeno vincou o meio, época do volfrâmio. Quero crer que haja exagero de expoente. Entre nós, tal furunculose, com o dramático que comporta, deve antes representar uma das manifestações eruptivas da crise social que o mundo atravessa. Volfrâmio aqui, petróleo além, borracha acolá, há que integrá-los no substrato complexo e temeroso que engendrou a guerra. O volfrâmio foi para as populações do Norte, deserdadas de Deus, o que o mana foi para os Israelitas através do deserto faraónico. Imagine-se o que seriam os impulsos da horda esfaimada ante o alimento providencial, no afogo do de jejum. O irmão engalfinhar-se-ia com o irmão, o mais forte encheria duas vezes o saco, enquanto o mais débil choraria lágrimas de sangue, dado que não ficasse britado pelos pés dos digladiadores. Levaria melhor, se não o mais violento, o mais astucioso e o que tivesse olho rápido e pé leve. Os capitães, esses, acabariam advertidamente por maquiar a Zacarias e deixar correr protérvia e iniquidade. E não é ponto de fé que Moisés não comesse as mais gordas codornizes, que eram o prato do domingo, o arroz com vaca e chouriço do convento, e não atafulhasse a boca sequiosa às mãos fartas de tal mamadeira. Assim se passou mutatis mutandis com o oiro preto que imprevistamente brotou das terrinhas salaras do Norte, mais loja que húmus, mais serra que plaino, infelizes até a data. Não consta, com efeito, que as funções da vida animal tenham sofrido variante depois que o mundo é mundo. Volfrâmio e mana significam um ponto crítico na viragem do destino. Para que banda fica agora a Terra da Promissão? O século XIX e o primeiro quartel do século XX foram de desabalada e incessante sementeira. Semeou-se a torto e a direito, no alqueive e na fraga, no maninho e na própria terra atrolhada. Quem não té o grão germinar em dor e transe? As fibrilhas do centeio nascente com o seu ar de estiletes ensanguentados dizem-nos que é sempre assim. A dúvida mortificadora é que a seara seja

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antes de joio que de frumento Panificável. É temerário fazer prognósticos sobre o futuro. A meteorologia social desafia os olhos de lince dos oráculos, que espreitam por detrás dos mármores de Delfos escavacados à bomba de Liberator. Mas descansem as almas sedentas da amorfa neutralidade: estes temas febris perpassam no entrecho do livro e não constituem de modo algum o seu protoplasma. O protoplasma é a ambição humana, o evadir-se à miséria, à estreiteza natural, aos diabos negros da existência. Como terão azo de ver, o desempenho da fábula está a cargo de gente brava, sólida de rins e de músculos, em matéria de consciência pouco preocupados da vida eterna, difundidos por um friso fora como faria Steinlen ou Leal da Câmara. Todavia, sendo assim na forma, procurei que por debaixo desta armadura elementar pulsassem almas em suas secretas e supremas volições. Esta será a quota de humano, três vezes humano, como requeria o filósofo, com que pagam seu tributo à racionalidade. O público, de resto, interessa-se pouco por este particular. O que o interessa acima de tudo, já que a torrente vertiginosa da vida moderna não permite mais que uma visão instantânea e superficial, é o guinhol, os processos de combate, os leitos, o cinemático em suma. O romancista que se preza dá esse pábulo ao monstro e procura penetrar a fenomenologia das coisas. Convenho em que o ético esteja para lá das fronteiras do seu domínio. Escola de piedade e de ensinamentos morais busque-se na obra de Camilo e outros que rastejam de longe o colosso. Aí, sim, encontra-se mais lição que nas parábolas todas dos Evangelhos. Os princípios científicos em que se esteia a arte literária baniram da banca do escritor, mormente hoje que utiliza pena de aço ou typewriter, o patético, o epopaico, esse colorau doce da eloquência - à qual, já o exigia um poeta dos bons velhos tempos, il fallait tordre le cou - a deformação simpática à Júlio Dinis. A condição sine qua non é modelar em carne viva e na estufa fria. Em obediência a estes preceitos, claro está que as minhas personagens foram gizadas pelo padrão comum e seus orbes não excrescem do espaço das três dimensões. No entanto, ninguém tem mais horror a fórmulas do que eu. A fórmulas, cânones de escola e tiranias da moda. Fórmulas em arte equivalem a muletas e eu não só não uso bengala como entre dois caminhos escolho sempre o menos trilhado e aquele por onde menos andei. Em matéria de iteração, chegou-me o padre-nosso quando menino. Não ignoro que a galeria antropológica portuguesa é diminuta. Desse mal se queixava Camilo. O que vale, e valeu ao grande mestre, é que os homens, mesmo dentro duma família tão pequena como a nossa e em casa igualmente acanhada, parecem-se tanto uns com os outros como um mar com outro mar. Dois requisitos me movem quando escrevo: observância do real e originalidade. Esta, mais que a seiva dum verdadeiro temperamento de escritor, é o logos donde dimana espírito, graça; estilo próprio, simpatia humana, entendimento das coisas. O obséquio ao real não é mais do que um seu apaniguado. De olhos fitos tanto quanto posso nestas duas estrelas, presumo acautelar a modesta personalidade que me coube por dom do Espírito Santo, como queria uma minha tia velha, lida em Frei Heitor Pinto. Porque na nossa santa terrinha não há candeia que nos guie e encaminhe. Viceja para aí, salvo prodigiosas anomalias, uma crítica meio didáctica, meio apologética, geratriz de tocadores de marimba. Com o seu tom untuoso de

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trajadas por aquelas ciências do homem e do belo.pregação. o Manel o do especulo. gostava que me dissessem o que pode ser a minha prosa descarnada do documento humano. excluindo-me por contrapartida da grei dos romancistas. O luminar que procriou tal asserto deixou de soprar ao canudinho. abismado para sempre lamais nos mares nunca dantes navegados. Preciso sem ser precioso. deixa a porta aberta a toda a sorte de malinas. O pior do pior é que sela possível toda esta Proliferação asiática da estupidez. e é caso de perguntar a gente se se deve mandar lapada. Apenas quando as balizas actuais do mundo moral caírem. foi. já houve tempos em que para esta bicheza seráfica eu não passava dum escritor regionalista. amordace os sentidos. o guarda-fato de Madame de Genfis. Raspem com a unha o gentleman sentado à mesa verde de plenipotenciário e encontram a fera. O humano. o recamo que à floresta emprestam as estações e não as árvores da floresta. sucedâneo do: para aí não que é pecado. veio ou bolsada nodual do romance. pelas savanas pobres da intelectualidade nacional. Chiado e Freixo de Espada à Cinta. nada mais truculento e azabumbador que o balar da carneirada de Panúrgio. Mas produzir dentro delas não pode contender com os dotes originais do escritor. e que é preciso. não se preocupe tanto com o formal . nascida sob este signo. porquanto implica uma carência lastimável de higiene mental. secando toda a originalidade. Volfrâmio veste como Andam Faunos pelos Bosques. faculdades que não abundam num povo que considera a Nau Catrineta como os Nibelungen e a saudade como bolhas de ar. De quando em vez. tempus. ouvem-se destes regougos. pode cair no inferno. esvaem-se as escolas. à tona dos séculos. Em literatura. Permita-se-me a imagem. Nascem as escolas. não a água do rio. a literatura despojar-se-á da túnica de Nesso. dum passado glorioso. se esperar que o tempo cure a Pulmoeira. o de prosador. Repararam que os príncipes dos povos de hoje falam e lançam o guante como nos seus arraiais troianos os Aquiles e Agamémnon? Compreende-se: movem ao homem os mesmos egoísmos e instintos ancestrais. desidratada desde que lhe faltou a bua francesa. com a prosa a cheirar a burel e à orelheira dos famigerados cerdos de Lamego. Como não sei fazer outra coisa que não seja novela. Até lá confeccionemos 4 . o arranjo constitui o transitório. e o que demudou é o aparente. então sim. Bem sei que há coordenadas em literatura. como a falta da outra. a sanitária. respirar fundo para se ser português de lei. Outro rabo leva-me a pensaram ultimamente. Que fazer? A esterilização contra tais bactérias é um problema bicudo. figura e mais categoremas do pensamento historiado que é o romance. desde os Vedas. toda a tendência pessoalista. Para as belas-letras. Inofensivo no fundo. fora das quais seria mito puro o locus.vai cortando as remiges aos francelhos que pretendem librar-se acima dos horizontes conhecidos. a face do rio. continua o mesmo desde Homero: mais longe. afrontosos do bom senso e até da alma cristã. como se houvesse região nesta fita de terra e tudo não fosse a mesma parvalheira. numa palavra conformando aquilo que tem por condão ser inconformável: o génio literário. a Rua dos Clérigos no Porto e a Rua das Fangas em Braga. que a constrange e obriga aos costumados Jarricocos. a moda. o que se modificou não foi o mundo da especulação. só quedando imunes ao contágio os mimosos do entendimento e da imaginação criadora. e a bola de água de sabão evolou-se no céu dos pardais.

e tudo o que possa vir na ressaca da maré viva. Meta-se num corbillon. com humildosa exacção. O volframista é uma falena de pouca dura. e terão esta anedota romanceada. Fráguas e Calhorra calçarem coturno a carácter. como não? uma grande e efémera aventura. o papel de elucubração à Karl Marx.romances e novelas o menos estafadores possível. fantasia própria. a cobiça. quanto às classes. culto da individualidade. se não são eternos. Nestes tópicos está configurado o Volfrâmio. Fevereiro de 1944 AQUILINO RIBEIRO 5 . Longe de mim supor que venham a constituir tipos definitivos. como épigrafava o frade. os estímulos sociais. nem se arroga de modo algum. Os padrões humanos. gozam doutra longevidade. do tempo e da fortuna. Dar-me-ei por feliz se os meus Hincker. que agora vê nova estampa e não é tratado de economia. a Beira. no género da conquista das especiarias e da corrida aos diamantes nos igarapés de Minas. Pretendi descrever. à maneira do novo-rico da primeira grande guerra. Monstruosidades. dessas que de séculos a séculos avassalam os povos. a sede de felicidade. como apoucava Anatole France. sem roubar o próximo nem termos a preocupação doentia duma geometria tão abstracta como essa da projecção no universo do produto literário.

Qual. a sombra de Custódia. do secretário de Finanças. deita-se ao pescoço o baraço da escravidão. por cada um dos quais lhe fora recomendando momentos depois de se ver livre deles: Agora veja lá: desta hora em diante não estou em casa para ninguém. Manuel Torres. não apostou?... !? Ouviu bem? . que lhe fosse o antípoda na candura. 6 . que o trinco à força de devassado não consentia senão aberta. Em obediência a esta regra. mulher. com tal manejo traindo a sua agitada hesitação. e berrou-lhe em tom de enxota-cães: . a cabeçorra de medusa avançava. personalidades preponderantes que seria indecoroso não conhecer. Fazendo-o heroicamente até a linha que demarcava o limite da generosidade. do comandante do Regimento.? Saia-me da vista! No patamar soaram cacarejos. E a manhosa bilha de leite que a hospitalidade provincial troca opiparamente contra a bilha do azeite. A boa da mulher aborrecia-o com os desvelos excessivos e as reiteradas intercessões duma simpleza permeável a todas as lástimas. a gozo de férias em Malhadas da Serra .. advogado em Lisboa e professor de Ciências Sociais. lá estava ela já à sua espalda. é um difícil problema de vontade. o que nem sempre conseguia. e têm sempre um requerimento a apresentar. estando na aldeia. esta irresistível tirania dos indivíduos inferiores. Manuel Torres. autêntica avançada dos estafadores. a par das vicieiras da terra. Rejeitar a oblata. Sombra que escorregava indecisa e vaga. contorcendo-se em arremedilhos e partes gagas.aldeia que lhe fora berço. que à porta esperavam ensejo de lhe meter o cacete. Dado que se não saiba resistir. no decorrer da manhã. a partir daí propunha-se resistir às choradeiras com igual coragem. Apre. sobretudo.Apostou que me não havia de deixar sossegado. não havia dúvida que era ela. deposta com tão obsequiosa mão de veludo... ouviu. o que se chama para ninguém. uma dúzia de ovos. Às vezes tratava-se de necessidades elementares. na cal da parede. um laparoto caçado nos ferros “para o jantarinho do senhor doutor”. enxofrados cacarejos e chinfrineira de asas.de novo distinguiu defronte. além de que trescalava ao fartum da carneirada. e Manuel Torres conjecturou que tinha ali das tais visitas que se fazem acompanhar propiciatoriamente de dois galispos. a velha tivera artes de lhe impor nada menos de três postulantes. pois lhe dera essa manhã para desensurrar a lã. acontecia-lhe. meu senhor. tornava a avançar. tão montesinha ou tão pouco que debalde a procuravam no mapa os parasitas de errática cordialidade . Pela talisga da porta.. retraía-se. aperceber-se que uma das suas funções por excelência consistia em esportular-se. desde que seja limpo de consciência. E ele próprio se surpreendeu a dar um urro: . é a quarta vez desde que me sentei que me vem amolar. Assim. pelos reveses do seu próximo. e não se julgava no direito de eximir-se. não ter já previamente ganho à requesta de cada um. daquelas que responsabilizam o cidadão. não havendo outro remédio senão percorrer a via ominosa do peditório.. Mas o que se chama para ninguém. batendo à porta do senhor juiz.Sim. contra tão sinuosa e ao mesmo tempo inconsútil tirania.O Dr. nem por isso se achava mais imunizado que qualquer outro.É outra vez você.. não está em casa para ninguém.

Esta ficava.Mas. se não é que fazia simulacro de retirar-se... meu senhor! Que lhe havemos de fazer. embrenhado a ler.tornou ele peremptório. O dianho não tinha nenhuma espécie de respeito pela sua pessoa. e disse. dignos de amparo. . Credo? Eu mando as criaturas embora. ela de tamancas de Viseu e xailinho pelos ombros.. tinha amigos por uma pá velha. Coitada da criatura. Depois de atravessarem a saleta com acanhamento e o mais aéreos possível. e encalacrados da vida muitos. Maria..Era sempre assim.respondeu consoante o estilo. com duas belgas de cada folha para dez pousadas em ano grado. Podia tornar a casar-se que a cobiçavam muitos por mulher limpa de costumes e provada no governo da casa. Mal pegou do gadanho na Sapucaia. se pobres. Golpe num pé. embrandecida pelo sopro que a animava. As suas teias eram afamadas em vila e termo.. por isso mesmo contemporizando. Por isso mesmo. era como um bombeiro com obrigação a qualquer altura de acudir às misérias dos labregos. a cardenha de telha-vã. adquiriu um tear e fez-se tecedeira. ponderando quanto havia de lógico e até de humano na atitude da velha criada. Que só lhe querem meia palavra.Benza Deus tudo quanto cá há? . falecera de tétano aos dez dias de internado a uivar pela mulherzinha da sua alma. a compor uma minuta. alguns.Credo.e a ele próprio a voz toou noutra gama. anos e trabalhos desgastam como as mós das azenhas. e mãe e filho apresentavam-se endomingados segundo a etiqueta do dia santo.Mande lá entrar. De salto perpassou no seu espírito uma série de ridentes panoramas. que era resoluto e empreendedor.Ainda não tinha tido o gosto de te ver. .A Maria Aires e o rapaz. Partia do princípio que. onde mourejava uma colónia de patrícios. .Quem traz vossemecê aí? Mas já ela se retirava. festa de Nossa Senhora de Agosto. estivesse a dormir a sesta. Era sexta-feira. embarcara para o Rio. não fora feliz. acabava por condoer-se. acabando de se voltar de todo para eles na cadeira giratória. Estás boa? E tu. se era um senhor doutor de leis. vindo para Malhadas. resmungando: . Casada na altura em que ele concluía o Direito em Coimbra. recreados pela figura airosa da mocinha com quem jogara as escondidas. Santa Casa. Como não. e retraiu-se. O homem. ganhava quanto dinheiro apetecia? E Manuel Torres. na flor da vida. peca para mais do sentido de proporções. meu homem? . com um quintalório. o rapaz de alpargatas e com andaina nova. tornou a perguntar. foi-se abaixo. Alguma tinhosa o viu hoje? . 7 . Meteu cara à má sorte.Estou uma velha. mariolas de alto bordo.. meio repeso. pois que tinha direito quando menos a amenidades. desta feita apenas com mau humor: .. deixando-a com um menino nos braços. quem traz vossemecê aí? . mande lá entrar .. de pequeno.E mais a quem vem! .. como se tivessem a peito não acordar o chão. infecção. onde bracejavam meia dúzia de videiras de cordão e um mostajeiro. não poucos. andara com ele ao colo e. eu mando. Ao senhor doutor é que eu acho rijo e fero. ó mulher. uma vez plantados no caixilho da porta saudaram à serrana: . qualquer remoque ser-lhe-ia insuportável..

e não é fácil que possa ser de outra maneira. e nas feições de trigueira. mantiveram-se límpidas e inocentes como em criança quando na alba da Primavera patinhavam corgo abaixo. corgo acima.Pobreza. podia passar a salvo de tal foco de malinas. lá no íntimo a cogitar o que havia de responder.todas as mulheres eram o mesmo no que respeita a este tópico.. Não assim as saias. outras voltam. . e umas lá se arrumam. como a pedir- 8 . quer ouvir porquê? Porque há gente a mais..É certo. Foi praga que nos rogaram. começando por capacitar-se que eram brancos. se a terra estava uma nojeira. imunizado por autovacinação. E foi em acento quase humilde que adiantou os seus reparos: . atrás da morte do homem. de tal jeito que quando se quer fazer uma novena aparece miudagem para uma procissão. é certo. O que se encontra à farta por essas famílias é fome e lêndeas. tão desempenada como a língua. tanto aquelas que são um brinquinho de sala corno as que atoladas na terra mais se aproximam da natureza . a Serra está no osso. pelo Alentejo.Que vos traz por cá? Ela sorriu-se. os seus olhos encontraram-se.Qual. lá ganham o par de sapatos e a meia sainha com que uns anos por outros vêm embasbacar os palonsos. ficava frívola e chocha como as mariposas. ela não se lembrava já de tão importantíssimas bugiarias. cada uma com o seu neno.Embora persuadido que ela estaria a pensar em tudo menos na sua preciosa carcaça. que a mulher . como o meu senhor. depois de empapoilar-se desde as tranças às ligas. baldeadas pelo negro fado. A Maria Aires permanecera silenciosa.. Assim mesmo. zás. Lá vão cirandando por aqui. A Serra. se Deus não acode. meu senhor. E conformou-se. Gostava que visse o inçadoiro que vai por essas aldeias! . largam pelo mundo? O Brasil fechou-se. mas logo ao segundo dia.tivesse por condão esse indefectível renovamento em prejuízo do passado. o nosso povo nasce e morre atascado em sujidade. cama com a macacoa. está a dar o cadilho.Então não largam pelo mundo. ? . como as filhas da Olinda. Em tom cordial.. Quem tem calças mexe-se como Deus é servido.. Qual. pior que pocilga! Quando é que os moradores. por ali. à cata das flores da Páscoa com que ela. Mas as pupilas dela não tinham nada a dizer. Lisboa e Porto estão à cunha. é obra da pobreza. bonita racha de vinte anos. um pouco acanhado à sua ilharga. perguntou-lhes: . haviam de perder o desgraçado costume de curtirem os estrumes nos caminhos e fazer deles vazadoiro universal? Criava-se-lhe ali moscaria para envenenar a Península Ibérica.. olhou reflexivamente para o filho. Pouca diferença fazemos dos animais. medindo-a de alto a fundo em sua estatura de quarentona. este tom em que lateja a mais promissora boa vontade. Tudo isso que para ele era um elemento capital da personalidade jazia para ela sepulto e esvaído no tempo. Não. Só quem ali vivesse de longa data. ?! Ora essa? . caprichou em desmenti-la. Era humaníssimo. Assestadas para as suas. esburgadinha até mais não poder.Sim. só da pobreza. deplorando apenas que assim fosse. pelas casas fidalgas. Como não. harmoniosas ainda que roçadas pela lida. soterrado. Mas perdoe que lhe diga: muito do que causa engulhos a quem tem hábitos de fidalguia. Transcorreu uma pausa durante a qual. Maior dor de alma ainda são aquelas que vão acabar no hospital. pela dura trabuzana da existência. um tanto surpresa pelo tom rabujo do doutor. O povinho cresce à desmedida. nem rijo nem fero? Chegara de facto bem disposto.

mas pode V.. O meu senhor sabe. . haja de perdoar que também é pai. um bicho a que só faltava falar. dando um passo à frente com desengano e atravessando-se diante dela. . quando foi da outra guerra. Este mafarrico não podia escapar ao andaço. pôs-se a arranhar o recado: . mal me apanhou longe daqui? Pior do que isso. Não me roubou quase metade dum giestal com uma porca mascambilha de marcos. meu senhor. Quem tem filhos tem peguilhos. mas tu não tinhas o direito de lhe bulir na terra arrelvada. dirigindo-se ora a um ora a outro. disse Manuel Torres: . mesmo que cá viesse do outro mundo e lhe pedisse de joelhos e mãos postas. mas para lhe falar franco. dia de feira em Orcas. Se lá lhe cheirasse ainda volfrâmio.Derrotou duas ou três caneiras e eu prontifiquei-me a pagar o dano. para o mal. Maria. sim. minha santa! Esse Calhorra é um tipo como não há segundo do Vouga para cima. Porque mude de opinião ou não tenha vontade firme. se não valem. .. não sei se valem.Mas. . Que tiraste de lá? A mãe dispunha-se a responder. incapaz de justificar-se.Então.a que a propriedade é aberta. denotando todavia estar em consciência a revolver o raio da morte das suas razões. Tirei de lá meia dúzia de pedras. ? E deu estrago? . já ele lá tinha andado a esfossar. Eu tenho muito bem a dizer dele.Coisas aqui do meu Augusto. e para que lhe havia de dar o diabo? Ir esgaravatar numa leira que o Silvestre Calhorra tem ao Vale das Donas. Olha com que anjinho! . não atenderia ao pai. mas ele. mas os estragos que causou não deitam ninguém a perder. . A leira era tua. não era ele que dormia uma noite inteira na cama enquanto não alimpasse até a última pitada. . e também motivos de sobejo para o detestar. do Verdegaio.Pois sim.Pode ser que tenhas malucado mal. alguém acredita nas juras dele? Por 9 . porque o foi apanhar de manhãzinha a comer-lhe o coelho que caíra nas armadilhas? Bem sei que se fartou de jurar e trejurar que fizera fogo supondo tratar-se duma raposa. olhos em terra.Não sei. Mas como era preciso fazer desde logo justiça.Anda por aí tudo frenético com o volfro. e torcendo-se para a outra banda.A leira andava de relvão. .Que falasse ao Calhorra.Procedeste mal. rapaz.. Em tempos.. que é sábado.Pois será. . Com ele nunca se sabe ao certo de que banda sopram os ventos. rapaz! Muito mal. Ex.Será apenas a meter medo. cinco réis furados. O Calhorra é que não está pelos ajustes e teima em dar parte. é possível que não.respondeu a mãe. dize lá? . E que esperavam vocês de mim. deu-lhe o Demo arte.lhe desculpa de o trazer para pião das nicas. tão frenético que os cobiçosos até mordem as lajas com os dentes.E então? . tu não sabias que não se pode entrar sem licença na propriedade alheia? Não sabias? Pois tinhas obrigação de saber que já não és criança nenhuma. deu-me uma chumbada num cão.a estar certo que nem o Calhorra ficou pobre. nem eu rico.Ora se sabe . ir fazer queixa. Veja! O rapaz mostrou-se de todo cómico ao lado da mãe. bem sua. Augusto. Àquele. declarou: Saiba V. maluquei para comigo e para com Deus que se ele não atender ao senhor doutor. dize-me cá. lembras-te. . o delito é o mesmo.. Mas o entendimento deste homem gira sobre rubis que são um segredo para toda a gente.. Ex.Valham que não valham. Por modos tem tudo preparado para amanhã. muito menos o Calhorra que impa de farto .

meu senhor? Imagine que o alma de cão do tal sargento um dia chegou-se ao pé dele na tarimba.“Ora. lá teve a birra. botavam-se um ao outro. estás mesmo um pato mudo! A mãe falava como se ele não estivesse presente ou ela é que tivesse sido a protagonista da anedota. pelo que pronunciou também como se ele não fosse presente e com ar de quem dita sentença favorável: 10 .Não cismava noutra coisa. . ora. já que és mestre em engraxar. coitanaxo . que se faz tarde! . continuando embezerrado... Era bom homem. Mas teve uma birra com o primeiro sargento por mor do capitão que gostava muito dele. devia desagradar-lhe ao último ponto e. que este meu filho é espirra-canivetes. “ Mas conta tu. complicado ou parecendo-o. estendeu o pé e disselhe: “ó cabo. um dia viu-me acometido por uma roga de sicários a soldo dos talassas de Tendais. Ele ficara embezerrado.O Augusto compreendeu onde pretendia chegar a malícia do salafrário e lá retrucou: . e Torres olhava para ela em silêncio e com o mesmo prazer com que ano por ano se vê reflorir uma pereira. pois não era.Qual mexe-te. e aborreceu-se da tropa. e se não entra o comandante. não porque ela não pisasse o terreno firme. desejando afirmar a sua personalidade. Augusto: julguei que seguias a militança? . Assim que apanhou baixa. meu senhor. nem meio mexe-te. a Maria Aires fazia-o tão juvenil e possessivamente como se nela se operasse desdobramento.. é verdade . se taciturno estava.Como pode imaginar. Mexe-te” Conta lá agora o resto. não foi nada disso. porventura.Esses sargentos às vezes dá-lhes para brutos! E não foi preciso dizer mais nada para a mulher sair com a versão refervida nos soalheiros. meu senhor. dou-ta a ti e é um pau. rapou dum estadulho e fê-los meter na igreja de rabo entre as pernas. As ordens só eram bem cumpridas quando era este senhor o encarregado de cumpri-las. eu falo ao Calhorra.Brutos acabados. Manuel Torres sentiu-o. conta. É uma criatura assim. Augusto? Mas bem. Homem. Prosseguiu a mãe: . moita carrasco.Sim? Augusto encolheu os ombros.apressou-se a mãe a dizer. O capitão gostava muito dele.decidiu-se ele a contrapor. e. que o amesquinhava. agora dava sinais bem manifestos de contrariado. Chegou mesmo a deitar as divisas de cabo.acudiu ela....” . Agora dize-me cá.Então o Augusto parece que lhe respondeu: “. decerto por não haverem há pouco tomado a sério o seu protesto. se quiser.balbuciou Manuel Torres. estavase mesmo a ver: . boquiaberto.É verdade. Havias de ser tu a contar ao senhor doutor.. Quero dar-te essa honra. para que está a falar? . o mesmo era que dizer à mãe: “Conte vossemecê. . Ele. que castigou a ambos. Mas fica entendido. A mãe não percebe.Ah! ah! . .“0 meu sargento vem errado: essa honra vá dá-Ia a outrem que o filho de meu pai nunca teve nem cobiçou tal oficio!” . Augusto.. engraxa-me aqui as botas. engraxe-as você. Tal papel.” E ela foi contando: . Se não tem quem lhe engraxe as botas. verdadeiro. Sempre que lhe acontecia falar no rapaz. ainda a melhor maneira fosse desmenti-la. Augusto. À falta de escova tem a língua que lhe pode servir de esfregão. ali se despicaram de palavras.Não senhora. mas porque. ala.outra. . Augusto.

e compreende-se. e é um moiro de trabalho. dentro duma cesta. que este ano com a escassez da gasolina voltou-se ao mangual. e deitam. Mas olhe.. e dizia que só dava a moça a quem tivesse disto... Velo da tropa e fez as malhadas de fio a pavio. podia ser moderado. Persistindo na inveterada pecha de ser a língua do moço. duas dúzias de contos de réis.Anda ou não anda? O rapaz franzira os lábios. pois..” Mas sua mãe soltava de novo a taramela e ele limitou-se a afivelar um sorriso despiciente. participava da ilusão de todas as mães: suporem os filhos sempre meninos. estão às ordens uma dúzia. que estava um texugo de opulento.e rolava o polegar sobre o indicador. Naquele esgar transpareceu a Manuel Torres que ele dizia escarnentamente: “Pois. agora que ela não estava. Maria Aires. . O moço matava-se por arranjar dois vinténs. Repugna-te? Manda-lhe recado. se tu fosses chamar o Calhorra. No patamar. O que é. até já estoiro de rico! Se precisa. Nunca me faltou ao respeito. Augusto. já casados.. novas vergônteas e novos ramos. sim. As palavras eram as mesmas de todos os presenteadores. meu senhor. entrou no caminho das confidências.. ainda quando põem navalha na cara. um pouco para desafrontar o moço do seu enleio: . umas vezes por outras com sobejos motivos. satisfeito de se ver longe e desafogar. eu a bem dizer não tenho escândula deste meu filho.Ora essa?? Era uma desfeita que fazia se não aceitasse. porque só ela é que se reputava com autoridade para fazer afirmações de certo peso: . ambos a olhar para ele.Olha. sistematicamente ela é que se arrogava de voz activa quanto a dar ao badalo. São para o almocinho de amanhã. o que foi logo percebido por Maria Aires que desandou. É verdade! Tinham ficado em silêncio. é pedir por boca. A própria ouvira dizer ao ricaço . muito encolerizados de se verem atados pelos pés e em tal inpace. Não era segredo nenhum que namoriscava a filha do José dos Cambais.. . carregando ao mesmo tempo as sobrancelhas num gesto de abandono. Maria vai com as outras. sabido quanto a juventude é petulante e malcriada.O rapaz sacudiu um ultraje. e ninguém o entendia como ela. Torres breve penetrou no segredo do coração extremoso.. Sempre que a pessoa dele estivesse em causa.Hás-de tornar a levá-los. Manuel Torres apontou: . fazia menção de se encaminhar para o pátio.E voltandose para ela com tom entre risonho e cominativo: . Ao passo que sugeria este expediente. não há que ver.. Bem sabia ele que escusava de teimar com gente daquela força. o que se chama sair do lugar que lhe compete em relação a mim que sou sua mãe. à espreita de alguém que levasse rumo pela porta do Calhorra. arrumávamos o assunto.. O Augusto correra à estrada. podia ser mais moderado. tornando-lho recomendável. E que fazes tu agora? Andas então na trafulhice do volfrâmio? . Encolheu os ombros. estrebuchavam os dois ou três frangos da oferenda. Mas antes petulante que sabujo.. senão fico mal contigo.e palavras eram estas pronunciadas de caso pensado para que ela tomasse nota e servisse ainda de correio: “Pobretanas que não sejam capazes de manter a cabritada que haja de 11 . mas o seu toque era outro. e foi Manuel Torres que se viu obrigado a dizer. Naquela ocasião não queria por nada deste mundo deixar de advogar-lhe a causa. e conformidade. como se olha para um bezerro quando dá galardão do trato que recebe.Bah.

a sua imensa bizarma era para lá das seis léguas de espaço. bicicleta. o hausto da extensão. Vinha com o Aires e de Alcobaça em punho esponjava a coroa sua renta. Passavam por golfadas. como as ribas dum bonançoso mar. Era por causa da rapariga e por mais nada que ele andava a esgadanhar no chão alheio. e até um carro de centeio pelas almas do Crasto. cavem primeiro!” O Cambais lá estava nas sete quintas da sua razão. sinal de que o rancho da Lapa entrava as portas. Pela estrada. abade da freguesia. prazenteiro. Vestida de verde-ferrete nas lombas e de roxo na dobra dos vales. de Muradais. em segundo lugar a mim que estive sempre de corpo presente a aguentar o embeleco. e empoleiradas por cima do xaile as soquinhas.nascer no curral. via-se deitada de borco a gigantona da Serra da Estrela. Ao longe. do tempo quase lendário dos capitães-mores. Lá a cachopa não levam nem à mão de Deus Padre. para ele o eclesiástico. Descia a tarde. Que a Teodora tudo merecia não havia duas opiniões. Pelo seu Augusto é que ela tomava ventos. Manuel Torres saiu-lhe ao encontro. O José Francisco saíra um meliante de alto lá com ele. e as suas vozes na tarde serena repercutiam com um timbre tão cristalino que nem reflectindo a própria claridade celeste. poder ir ao Cambais e rolhar-lhe com um bom pacote de mil a boca destravada. que avançava pelo pátio. pés para a Guarda. primeiro à mãe que lhe deu a teta. Mas rebento da Minga e do Fráguas. duma brancura e altitude de água represa. raparigas de xaile dobrado à cabeça. A cachopa custou muito a criar. Respirava-se ao abrigo das velhas faias e loureiros. regalado. razão onde cabia uma boa cestada de desacertos. e por isso ele e o Augusto. e Manuel Torres quedou-se ali de cabeça descoberta. homens de lódão na mão e registo no chapéu. entre a toadilha da Maria Aires e a da fonte. Sim. andavam de candeia às avessas. E. cabeça para os Cântaros. mas nem precisava de o saber. o pigarrinho a advertir: cá vou eu. e para o povo ressoava estrondosamente o bombo e tiniam os ferrinhos. Amor com fome é como sardinha sem pão. risquinho do bigode na cara deslavada. e o Augusto e a Teodora ficavam também nas suas. sapato de fivelas a ranger. avistou o Simão Tadeu. cá VOU! 12 . Era uma flor e então assento!? Também lhe fazia rapapés o ruivaças do José Francisco. imagem do João Ratão na facécia dum humorista. isto é. se elas não tivessem o cuidado de se defender do sol na fresquidão das boscagens. desamparem-me a porta. os ricos e pacatos de escancha-perna no seu asno. A Teodora sabia a rês que ele era. ainda ontem camaradas de regaleira. que o rescaldo da terra baforava lume para assar as cotovias com penas e tudo. por causa dela desunhava-se por ser alguém. como ultraprazenteiro caminhar. borlas a arrufar da bolsa do relógio. misto de pé e de cavalo. tep-tep. sem fímbria de nuvem que a mareasse. brancas e altas. Querem ter onde esfregar os untos. De súbito. tamisado pelo verde da folhagem. seguro disso. Alguém. Podem levar-me uma vitela fiada. dar um pontapé na mofina. e a sua voz parecia regerse pelo gorgolejo da água ao despenhar-se da bica de pedra e embeber-se na massa líquida do tanque com sopitada cadência. sempre de corrente ao peito. deitando olhos para o portão. A Maria Aires falava com fluidez e brandura. passavam romeiros de outras terras. filho da Júlia Minga e do Antoninho Fráguas. nem filho de cão e loba. direito a ele. o rapaz estava-se ninando para o José Francisco e para as sentenças do Cambais. e nunca mais ma pagarem.

Mas. não tardou que o velho resignasse o ministério. pagara sisa de duas ou três boas regadas. A guerra era subterrânea. ultramoderno. queixando-se embora dela como Abraão de Sara. embora não o múrius de sacerdote. O Simão preparava-se. e já erguera casa de sobrado. O velho abade quis reagir. quando proclamada a República. no caminho para Orcas. que representava na igreja militante nacional o levita da transição. lugar armentoso. O Simão Tadeu. quando surgiu o filho e o correu à má cara do quarto do moribundo. ainda que prudente e recatado .a Igreja sempre que fecha olhos aos desmandos dos seus ministros é que não tem diante de si escandalosos . persistia em pagar todos os Outonos dois alqueires à parada do Miguelão.que não metera em linha de conta o ódio vigilante dos inconformistas e pagara caro a submissão. atabafada entre brenhas e penedos. Pelo papel. A quarentena ulcerara-lhe corpo e alma.mas não o deixava transparecer. meio sacerdote. a título de confessor. campeão de ténis. Cheio de mansuctude. cautíssimo. talvez por isso a pior de todas. já no delíquio derradeiro. O que valeu é que a fé do povinho nada tinha de farisaica e não secundou os zelotas. Brás da Nave. o padre retrucava-lhe na mesma moeda. tão certo como dois e dois serem quatro. e sem quartel. andava montado numa égua vermelha pela qual. branca. embora pobre de carnes. como dizia Homero de ítaca. todo desportivo. que era a cabeça de freguesia e englobava Malhadas.o que em regra lhe acontecia com a maior parte da gente que pressupunha de elevada . De facto. e S. piloto-aviador. e não deu corpo às suas aversões. além de a época não ir para cavalarias. moldando-se à sua observância.estava rico. Ali estava ele que não morria de amores pelo padre . Por outro lado. e gregoriano até a medula. que ajuizara de insidioso. meio agricultor. Mas. Por sua vez.Que se julgasse pessoa de muito respeito. Válido nos 55 anos. esse mesmo. Nascera no cisco. sabendo hebraico. desmanchadão mas cheio de humanidade. Apartavam-se dele como de leproso. Caçoando cordialmente de parte a parte e cambiando-se fingidas ternuras e amenidades. Manuel Torres. entre o cura dos bons velhos tempos constitucionais. mas em que força se escudar? O poder civil largava-o ao desamparo como a todos os outros em iguais apuros. engenheiro de minas. e soprava-se que trazia dinheiro a render. e o concordatário. Nunca mais na sua igreja se celebrou cerimónia festiva ou ritual que requeresse a presença de mais de um sacerdote. amigo como irmão do velho abade. era com ele e ninguém tinha nada com isso. 13 . todo desempoeirado.ali estava Severo Bacelar. Nela mereceu o Simão Tadeu esporas de oiro pela arte consumada com que fez quebrar nas mãos do indigno pastor de Mouramorta o cajado de S. calva apenas incipiente na trunfa espessa. e igualmente o padre não oferecia flanco. que lhe herdara nome e casa para maior lustro e acrescimento . as autoridades eclesiásticas em matéria de firmeza eram do mesmo barro que as da República e temeram-se de fulminar à mão-tente seus anátemas e coriscos. se deixaram lograr pela Lei da Separação. Pedro. nariz esponjoso. para se gloriar da sua vitória total nas vozes arrependidas e tremelicantes do colega. Nem todos o prezavam porém em conformidade. pai de filhos . O velho abade fora um dos que ingenuamente. viera substituir o Lourenço Bacelar em Mouramorta. mascaravam ambos eles à maravilha a recíproca antipatia. negra e farta aldeia. pouco tempo continuou a exercê-lo. ficara a detestá-lo figadalmente. O Tadeu. era a pessoa mais cortês deste mundo.

Vicioso. Do padre murmurava as piores enormidades a chamada boca pequena. mais viçoso.O doutor é que está cada vez mais jovem. Sim. que a broa desbota o dente.. comigo não alcançam mais longe. que não têm conto.Não diga isso. assoldadara-se com o Antoninho Fráguas. com a alva. Agora. cheias de préstimo e de virtudes. Como se explica? Tara. Brás. mas imbecil de todo e comida de misérias?! O Tadeu não quis contrariá-lo. devido em primeiro lugar aos cadastros que eram defeituosos. embora as dores nas cruzes mal me consintam erguer a cabeça.Não bebia. Meia dúzia de imersões e fica são e escorreito.Bispo nem quando esta vara florir . e limitou-se a observar. . . como num claustro. de volta.Quem havia de dizer! Também já não vejo trajar de burel. dores nas cruzes. não jogava mais que o dominó e o loto. É uma verdadeira canceração. definitiva e desinteressadamente. da linhagem das Ruças de S. detinha-se em Malhadas a cumprimentar “o digníssimo doutor”. . e assistia-lhe à casa de lavoura que herdara em Malhadas por morte dum tio afim.Ora viva o meu abade? Rijinho e próspero como tem de ser um futuro bispo. suportáveis. quer dizer. a girara para a Lapa a oficiar na festa de Nossa Senhora. e pela medida grande.respondeu Manuel Torres. abade. que ajustara com os de Malhadas a troco de cem medidas. abade. e tinha ao serviço a velha Maria Ruça. reparei já que as berças foram substituídas pelo macarrão e a aletria e a olha pelo café .Vá a banhos.. sim. De resto.e sorridente o Simão brandiu a chibata de sanguinho que trazia para espertar a égua. quanto à miséria ambiente. o padre dissera na capelinha de S. Logo de manhã. Mas as mercês de Deus. sim. que depois de duas ou três cabeçadas acabavam por se enfeudar a um eclesiástico ou a uma família rica e ali.Floriu. . ainda que compreensíveis. aguardavam a morte. hem. As raparigas parecem flamencas: olé! e as padeiras trazem trigo governado com levedura holandesa. tratando-se de eclesiástico. que as fontes de produção eram as mesmas e exploradas com o mesmo vigor. vicioso? Diga-me lá se não é um vício deixar todos os anos o fresco das praias. porque as não mereço. lá teria as suas razões. a Ana. pela graça de Deus.. mas que lá quanto a projectar luz era como um verdadeiro espelho de cristal: Segundo uma postura 14 . Isso não oferecia dúvida. que podem ser senão os ossos do ofício? O Simão Tadeu tornou a sorrir e pretendeu retorquir com bizarria: . A irmã. É ela que me traz de pé.. . então a aguilhada do rei Vamba floriu ou não floriu? . Reparasse Sua Excelência e veria que se tinham modificado. E em apoio citava um caso que não se repetira. sim.. . as contribuições eram pesaditas. boa. coitada.. sem os esbanjamentos das Câmaras e as alcavalas e arbitrariedades fiscais dos organismos que lhes eram anexos. esta labregada. Não se viam há coisa de um ano e apertavam-se efusivamente a mão. Reparei. O mundo é seu. estes penedos. mas que ficasse bem assente.? Ignorância? A depressão provocada por outro gravame? O Simão Tadeu balouçou várias vezes a cabeça.. As condições de vida essas tinham-se modificado. a mulher e os rapazes.salvou o doutor. Miguel a missa seca do binário. abade.? .... e vir atascar-me nesta sujeira de terra com este sol. mas tão pequena que ninguém tinha ocasião de protestar como certas as suas virtudes contrárias.

mas já o padre. senhor... sabendo quanto a espécie eclesiástica foge de se lançar por sendas em que perca tempo ou latim. ..que ficara a tinir.. Em certas alturas do ano eram mais as lágrimas nas casas dos serranos do que a água que agora levava a ribeira.? . ai tio? Decerto que não tinham deixado de lhe vir bater à porta?! E quantos! . consoante. acrescentou de golfada: . entretanto. Andava tudo de chapéu na mão: ai tio. Em geral. dizia: . a Rosa Pedralva. vendidos e mal pagos. Não tem notado que os seus paroquianos pelo facto de serem batidos. . tenho uma incumbência para o meu doutor. foi esbagoando o riso. . Assim se fizera. . não passaram a ser menos mansos. pois não pagaram. abusos de quotiliquê. .Sabe-se lá.. E de repente.exclamou Manuel Torres..permitiu-se dizer a Custódia Sancha que. Em vida de meu pai. abade. é caso que as alçadas que cometem não revertam em benefício próprio. E como visse uma atenção indulgente nos olhos que a observavam. como quem desata: . senhor! É a minha opinião e é a opinião de muita gente boa..?? Manuel Torres rompeu às gargalhadas.Brada aos céus .Não sei. Se não pagassem até ao fim de Março. sorrindo.. relaxe.Com Pedro o Cru. R.. Onde isto irá parar é que eu queria saber?? . três pessoas distintas e um só interesse verdadeiro. o Aurélio Bebauga..” Não chegavam ao fundamento. mas absteve-se de responder. senhora Maria Aires? A Maria Aires sorriu. tosquiados.É verdade. É ou não é. como bicha de rabear.É ou não é. no domingo passado não estava a dizer. . em pleno adro. e se consolava a ouvir pessoas tão bem-falantes. uns sediciosos de Vila da Ponte deitaram o fogo aos paços do concelho de Sernancelhe. pelo menos em Mouramorta. estalinho a estalinho.respondeu Manuel Torres. pedia 15 . dado que mingadita com o sol que tinha feito..Sua Excelência havia de tê-lo visto com bornal de mendigo ... iam os bens à praça. Tadeu.concelhia. pondo-se muito sério. nem menos cristãos. . se não acudissem ao relaxe. e essa é de espantar que tem de seu e é governadinha..“Não queremos cá saber.acabou por declarar. que os seus paroquianos eram maus como as cobras e que em matéria de pouca-vergonha estavam cada vez mais refinados. Pagaram. a fugir à turbação. E como aquele uma infinidade de abusos.Mas V...?? . O principal era que pagassem . . meio afável das pessoas que se reputam superiores. Mas em Fevereiro a Guarda viera vistoriar os rebanhos e encontrara na manada deste e daquele tio mais cabeças que as constantes do manifesto. o gado tinha de ser dado a manifesto até fins de Dezembro.Sim.Não serão os únicos. essas praças dançavam na corda. depois de trazer cadeiras. Manuel Torres ergueu o dedo contra a indiscreta. está visto. .. não sei . do bispo ou do Senhor. Assim sucedera ao Mões .Sou todo ouvidos. sim. meu senhor. Os tempos não correm propícios a jacqueries. mas dispensáveis. têm de pagar a multa.O Lázaro Fandinga levou-lhe 25000 rs. E quando lhe pareceu que estava livre a retirada proferiu: .insistiu ele com aquela pressão meio desdenhosa.“São as crias que nasceram posteriormente” . se acocorara à moirisca ao toro duma árvore sem ninguém dar conta. A Maria Aires. e nem sequer lhes ficou o direito de bufar. ou Setembro.Só há bocado bateram aí quatro.alegaram os criadores.

se com uma mão vai amealhando. a começar pelas pernas.Então quando lá for.O doutor não é proprietário duma das encostas.Não. viraram a cara. aumentaram também os réditos..interrogavam. volveu o reverendo: . Por conseguinte.. os andaços matam menos gente. Aos marteleiros dá-se um salário. Ele próprio reparou no categórico da voz. . tanto mendigava com meninos alugados como bufarinhava. Trazemos agora em vista desenvolver o plantio do arvoredo. matam menos gente. saltaram em terra. De bom proveito lhe serve. Também só cheguei há meia dúzia de dias. O senhor doutor lá concertava com o tio Calhorra.que deviam aumentar os réditos do Santo Antão. veio oferecer-lhe chumbo de contrabando para a caça. que a Mesa.respondeu o Roupinho.? Na estrada. arrasrando o seu rancho. lhe fez dar salto de gamo e mugir: . negócio de “pinchas” outro. sim. E depois? . afinal. tipo “calça arregaçada”... ora comprava cornelho. os mirones que bamboleavam as pernas.Gente não falta? . e põe-se tudo em pratos limpos . ele há-de estar a vir. Tem ido por lá? . quando um automóvel Ford. 16 . seguindo sua rota.. veio gemendo. A romaria está tomando cada vez mais incremento. . As esmolas têm engrossado. puxando da sua nota. estacando de rompante. desperta a atenção pelo velho Ford.Pscht.licença para se ir embora: tinha o vivo a acomodar. O Roupinho. da encosta que olha ao nascer do sol. de Cruita do Alto. há-de verificar que se alargou e murou a platibanda e se dispuseram muitas árvores.Arre que é bruto? . e também já não fora pouco o tempo que lhe fizera perder.Este ano ainda lá não pus os pés.. . espera um poucochinho. É curioso.reatou o Tadeu . ó patrão .A confraria de Santo Antão está no propósito de continuar com as obras no cabeço. a concertina. A como pagam? . ora vendia mecha para fumadores. estou a ver. criar sombras. úteis ao homem. os piteireiros. que o santinho em dias de tisneira é o cimo dum vulcão. Deus castiga sem pau nem pedra e o padroeiro não tem mãos a medir. E consoante. se bem me recorda.faça o obséquio: por aqui não haverá gente que queira ir trabalhar para as minas da Sobriga? .Em boa actividade. sentados em cima da parede. . pscht. ? Manuel Torres e Tadeu tinham-se insensivelmente afastado pátio fora até o portão. Torres despediu-o gracejando que lhe faltava tudo para caçador. e o homem lá se foi de mão sempre no carapuço de Alvite. ar de capataz.. à sombra dos ramalhos que refrescavam a frontaria da taverna.gritou-lhe o sujeito que vinha junto do chauffeur. afluíram curiosos das quintãs. Ia a voltar à esquina para a estrada. que andava com a rifa de terra em terra. que era humilde e tinha a bunda calejada dos pontapés.Dizia o meu doutor . aos entivadores e salbreiros outro. de facto.atalhou Torres de modo tão imperativo que Maria Aires compreendeu que era uma ordem que recebia. sim. com a outra esmera-se por embelezar-lhe a casa. e que com a barulheira do motor não podia ter ouvido o doesto. Encerrado o aparte.. e fazem grande destroço nos irracionais. fazendo mil reverências. Provavelmente em seu inconsciente estaria a desejar que o padre se pusesse ao fresco o mais depressa possível ou pelo menos que o não deixassem sozinho com ele.

. . e Manuel Torres interrompeu: . como lhe requeria a índole generosa. Amanhã o direi. meu abade. um pouco pela rama. o Adolfo e o Manuel Minga. São como a da raposa e do jaguar.?? A menos que santo tão milagreiro como o beato Antão vá de futuro guardar as cabras? E Manuel Torres deitara a rir diante do abade que. nem mais nem menos um dos testas-de-ferro do Antoninho Fráguas que.advertiu a tia Sancha. *** O abade ficou ainda mais interdito ao ouvir aquelas palavras. em princípio não digo que me recuso a dar o chavascal. libera me Domine. persistindo as causas. seis e oito horas de trabalho. Pode o terreno estar dentro das áreas registadas e não quero complicações para ninguém. tem sempre a vista no segundo plano... lá vem um dos sócios . o que não escapou à observação de Manuel Torres que acrescentou: Mas que tenham andado ou não tenham andado com pesquisas. os dentes das cabras não cessarão de destruir quantas árvores ali se plantem?? . de quem sou irmão.Mas já que lhe interessa. de. tanto melhor para o caso . e o Calhorra.. Segundo conclusões. julgo eu.. mais do que isso. a menos que me tenham irradiado.Não ponha mais na carta. .. . o Minga. Para os tempos que correm não é má pinóial . . de Malhadas. persistem os efeitos. irmão da Júlia.Pode ser que não. são os próprios mesários que andam apostados para me aborrecer do terreno. isso não tira. Então é porque os rebanhos malfeitores são pertença dos mesários. de S. A falta de memória era sinal de que o seu embaraço continuava. É capaz de me jurar que os da Confraria não trazem pedra no sapato? Não? Com esse Minga.O doutor faria grande fineza à Confraria cedendo-lhe o terreno que só lhe dá prejuízo. Agora de sociedades em que entrem o Antoninho.. Quem são os da Mesa? . a começar por tão simpático Santo. boquiaberto... .. isto é.Quem são.Essa é boa!.. olhem. meus senhores.. A Fazenda é que todos os anos me certifica que sou dono do chavascal. Está dito.Melhor só banqueiro? . Mas.Orça entre dez e vinte mil reis.Olhem... Brás da Nave. Daqui. ou. não sabia que contestar. irmão “pagão” já se deixa ver. 17 ..emitiu o abade.? Não sei se sabe que mister James Corbet fez ali perto umas pesquisas. mas primeiro hei-de-me esclarecer. Perguntava o abade se eu era o proprietário duma das vertentes do Santo Antão.. Parece-me que sim.. perdão. que sou. quase sem transição.. que voltava de estendedoiro. E digo parece-me que sou porque os gados e os mateiros ali não deixam ir por diante uma giesta.gracejou Manuel Torres para o Tadeu.E para que o quer a Confraria se. resigno a posse do barreiral em proveito da Confraria. ao fazer seja o que for. um pinheirinho novo.Pois se assim é.. o oiteiro é particularmente metalífero. da fábula tupi. Quem são. Manuel Torres veio ao sentimento daquele empacho e inflectiu sem esperar resposta: . sim.. daqui é o Calhorra e o José dos Cambais.

e apontava para o Augusto. O Calhorra sorriu novamente mostrando as gengivas muito encarniçadas por debaixo da boa cutelaria da dentuça. ao Norte.. Mas..Não o diga a brincar.. sossegue. e não tome a mal que lho pergunte.. uns ou outros dão o salto. e medo receio que lhe levem o cereal e as vaquinhas é outro. Por enquanto não há razões para sustos. no intuito de amortecer o apimentado do despropósito. Trazia um paletó de montanhaque. e na cabeça um barrete de pele de coelho que deixava escapar por detrás das orelhas as farripas ruças da grenha.retorquiu agridoce. que penso isso mesmo. . Na feira de Tendais era tudo cheio que mais dia. por agora não deve estar no plano. . Os Ingleses deixam correr e armam-se. A B. Durma em paz. disse para o doutor: O Duarte Ladeira foi-me dizer a casa que Vossa Senhoria me queria uma palavra.Era com efeito o velho Calhorra. Atravessou a estrada direito a eles... de 18 . .. deformadas por cinquenta anos de cavaleiro à chuva e à neve. barbela nédia.. Manuel Torres sorriu e Simão que ficara estático. seu Silvestre! . só por doença. Ouvi dizer que está aí quando a gente menos se precata.Não é asnático de todo. já que dá sota e ás em tais artes.Então o senhor doutor também se botou até a serranada? pronunciou sorrindo. esses. pernas em aduela. mas há medo e medo. Temos de resistir aos agressores.. cortando na Rássia como faca num queijo. alto.. . olhos em que uma palheta de azul parecia pela mobilidade e ligeireza uma sardanisca.. Calhorra. e Nicolaievo. sempre gostava que me esclarecesse numa coisa: qual preferia apanhar pelas pousadeiras. chave de égua ou pau do ar? Estrugiu grande risota e o salafrário. como presidente da junta.Olhe lá. Os Alemães.. de olhos absortos na fita da estrada como o santo do seu nome.. . ria com os dentes todos.Ora. dava Esmolensco como evacuado. Diga lá. .Vem a fugir à guerra. . caramba.? . ao Sul. . ao recolher a patorra larga e calosa. amigo Calhorra.B. desdenhoso.A Malhadas.disse o doutor depois duma pausa.. como quem por desleixo abriu um escano que se deve conservar fechado. franzindo os lábios. Medo cagaço é um.Pois sim. oscilando duma para a outra não obstante a bengala a cuja forquilha de rangífer se encostava..O senhor abade é mestre em distinções. disse: . os outros para meterem os tampos dentro à Alemanha. com certo ar afrontoso para o velhote.Quero . enxuto de carnes. .Os Alamões para arranjarem urna cunha no mar contra a Inglaterra.Para quê? . a Portugal e Espanha . vá mobilizando os cabos de ordens. menos dia.Nunca fui capaz de dormir de outra maneira . lá vão.. Arcaboiço rijo. . Mas..Para que viva. Que diabo de história é essa do rapaz que lhe foi cavar à leira do Vale das Donas? . grossas botarras de bezerra por cima dos fenomenais joanetes. lá aprendeu. que ouvi em casa do meu colega da Lapa. .C. cadenilha de oiro a bimbalhar no colete em sinal de festa.O Calhorra. que na sua boca nenhum era postiço nem perdido. . Mal logo seus lábios delgados se fecharam apressadamente sobre esse sorriso.Com sobressalto. e redarguiu: .Para que vivam? Bonzinhos? .e casquinava.respondeu. lá sabe.

Também já lá não há velha que deite galinha. não o tolheu. replicava: . E o seu olhinho azul chispava.!? Mais valia ter-me ido à tulha que já sabia o que me faltava.. Sim senhor. podia ser sábio.Deus me perdoe. .Você está a caçoar. esburacaram a calçada e atiraram com um ror de casas abaixo.. mulher. se meu pai me tem ensinado para doutor.riu-se por lhe parecer maluqueira a tineta do filho e. sonhei que na nossa tapada há das tais pedras negras e hoje vou para lá com as vacas mais o zagal.vossoria deve ter ouvido nomear o Joaquim Fusco. Açúcar. como missa a mais.Aí é que me dói. levou-lhe alguma coisa? Logo à simples pergunta se viu o Silvestre Calhorra encrespar-se todo. Tudo está no se. que há uns anos apanhou a cornada dum boi e ficou a andar de esguelha . Calhorra! Se não sabe o que lhe falta. Que direito tinha ele de o insultar? Manuel Torres com um gesto remeteu-o ao seu lugar. 19 . . Augusto deu um passo à frente com ar respingão.Produziu danos. Pois à hora do almoço o catraio não tinha voltado e foram procurá-lo. Vem tudo de fora à ponta de bilhestres. Dia a dia a encher.? Manuel Torres sorriu. Lá andava na cavação. Este cão podia ter tido a sorte de ter dado essa ferroada no meu Vale das Donas.exclamou um capucheiro que se viera critremeter na roda por sua alta recreação e era o velho Cassiano da Urra. Maria Aires ia a entremeter-se.Está bem. mas por modos o bispo não deu licença que passassem por baixo das campas.e a voz de Silvestre Calhorra era gutural.? Os ladrões confessam-se.. ao passo que de boca torcida ia rouquejando: . . nem dona de casa que amasse pão. ali pôs-se tudo a trabalhar: homem. Vieram apurar mais tarde que só naquele meio tempo tinha ajeitado em minério para cima de quinze contos. arroz.Como o filão ia pela calçada acima. mesmo por debaixo das casas. O senhor não sabe o que aconteceu aqui perto? Então eu lhe conto: Em Raposeiras do Crasto um rapazote disse para o pai. Queriam romper adiante. se mete a província de Salamanca. nem aquenta. se ainda lá não chegaram. sim senhor. O que os há-de matar é a soberba. podia ser grande. já ninguém pode com a vida deles. tendo pulsado com certo respeito o modo feroz como a máquina de cupidez.Olhe. posto o Calhorra fosse um velho de cabelos brancos e presidente da junta..Olarila? . Prosseguiu o homem: . quando foi à cama chamá-lo para a missa: “. como se ali estivessem por demais. mas ele. . Sou tolo. Levou-me talvez uma fortuna. há anos? . senhor pai. O que tem mais graça é que chegaram de valado até o cemitério.. nem arrefenta. .Escorropichado o quê? Sabe-se lá o que está por baixo da terra?! Às vezes dá-se uma ferroada e salta uma panela de libras... ao passo que a detinha com um sinal. massas.” Pai . Quer vomecê saber. mas o Calhorra não tinha já escorropichado o filão. grande e pequeno. havia de subverter quem se lhe atravessasse no caminho. uma vez em marcha.banda com a mãe. Descobriram um filão pelo povo acima. mas hoje falto à missa.Eu sei lá o que este ladrão me levou da leira. missa a menos. Não levou.. . Vendo-se assim desfeiteado.. Quer ouvir?. em Ceiloes ficam todos ricos. e trataram de explorá-lo em comunidade. é às rasas. que era o Calhorra. se mete a Galiza... tanto monta que fossem seixos como diamantes. saída do mais fundo do seu ressentimento. certo domingo. Portugal é pequeno.

. põem o burro do português de picareta. neto da extravagância.Para ortugal ficar bem.E alguma escorre para a sua gaveta . chamado à cabeceira do Cota Velho que estava com a morte no gasganete e. adiantando-se. o Luís Ougado. diga lá. uma algibeira de pedras é um dinheirão.Além de dar uma têmpera especial aos aços.E vai subir . utilizam-no os Alemães.A como corre o volfro? ..contestou o Luís Ougado. . arrematador de travessas para os Caminhos de Ferro.. e benzeu-se: . que aplicava a si próprio o tonilho: sou filho da fortuna. amanhã são capazes de se engalfinharem mesmo aqui em nossa casa para saber quem o leva.O Tadeu. e ficou a ver o capataz da Sobriga que. engajador. mas com ar de completa abstracção. . o alemão. Atraídos pela pessoa do senhor doutor tinham-se aproximado mais paroquianos: o José dos Cambais com as suas suíças do tempo das almotolias de barro e a moeda de jarra ao pendurão do colete desabotoado. com grande ferro da parentela. Agora. Está a entrar muita massarocal. que já fora marteleiro na Sobriga. cabeça robusta de Sansão. ao tempo que punha o carro em andamento. o inglês. apinhada à volta: Pagamos as horas extraordinárias a dobrar. para fazerem a guerra bastava ter unhas. o Zé Francisco. o Reganha da taverna.perguntou Silvestre Calhorra. Agora é a peso de oiro. olhos garços no anegralhado da tez. Cachorro de mim! A última palavra fora proferida de arranco como uma golfada de sangue e remorso. filho bastardo do Fráguas.Ingleses e alemães disputam-no como gatos a bofes. cabaneiro onde melhor lhe ventava. vendido ali ao balcão a quem mais desse. sim senhor. mas não indispensável emitiu Manuel Torres.. . . . . má rês. do Filho e do Espírito Santo. flexuoso e sorna. Se tem. O Reganha esteve calado a ouvir e subitamente botou alarde: . e já é uma sorte pagarem o trabalhinho! 20 . do que andam na Tojeira. novote e já dado aos sete oficios como o pai. o Asdrúbal rico que tinha dinheiro nas lojas de todos os lavradores e emprestava aos famintos pão a quarta.Qual o quê!? . “à base de separadora”. de grande barrigão e maior febre de enriquecer. o tanas vêm cá. Sem o volfrâmio não podiam fazer guerra. O Silvestre recuou dois passos.Em nome do Padre. não acabava de despegar. . Pagamo-lo a 350 escudos o quilograma. o Quim da Urra. .Portugal desta feita fica remediado um par de anos. com certo ar de não presta nos lábios finos. contratador de “ratinhos” para o Alentejo. como catalisador na produção da gasolina sintética. para mais que nunca para menos.Tem algum que queira vender?. topa-a-tudo e frascário de marca que blasonava trazer três ao ganho e não lhe escapar solteira ou casada. ao que consta.chalaceou o Urra. o minério havíamos de ser nós a tirá-lo...O volfrâmio é-lhes vantajoso na guerra. o que se chama governado. não se deu ao incómodo de rectificar o arrazoado do homenzinho. sorriu. que já o automóvel rompia marcha depois de o chauffeur e o capataz se desbarretarem a Manuel Torres em quem tinham farejado pessoa de qualidade. Na Sobriga os jornais andam sempre adiantados dez tostões. Qual. barbeiro de Pedrões da Nave. que ouvira uns e outros. ao que parece. Depois. dizia com arreganho para a rapaziada. e até o Gregório dos Santos..acrescentou Tadeu...

vocês do mundo pescam menos que eu de lagares de azeite. nem fosse próprio dos seus olhos ver os horizontes em negro. que trazia a concertina debaixo do braço: . e ele o que tem é larota. A despeito do esforço que fazia para mover as pernas trôpegas e manter-se com aprumo. meu bolas.? . lançaram ao vento paixões e cuidados. muito menos tu que andas no mundo por ver andar os mais. tanta que não fosses capaz de a gastar. estava-se marimbando para o bispo! Hem?. Uma vez feitas as despedidas e bifurcado no aparelho. Dá-vos para o riso?? Ah. Manuel Torres. o Luís Ougado proclamava: . ladeado de Silvestre Calhorra... esses 21 .A gente sabe lá o que há por baixo do chão? . mas reza e baila.. rapazes e moças. embora não tivesse a mania de chorar-se. Pode muito bem ser que uns metros abaixo das tuas patas. Pois fiquem sabendo que à minha bisavó ouviu minha mãe contar que uma vez passou por aqui um homem e lhe aconteceu tropeçar no caminho.. A certa altura. pelo meio. .. perceberam que dizia: Que diabo de terra é esta onde o oiro anda aos pontapés! Armara-se o danço dos romeiros em plena estrada e. Sim.Não trouxe nenhuma carrada. não dá bêberas. O bombo trovejou a chamar o rancho disperso. vá de vira. Pode crer. e viram-no baixar a aba do chapéu contra os raios que lhe batiam nos olhos...? O povo reza e baila por força do hábito. disse para os de Mouramorta. não dá laranja. ainda que estragasses mais que Pedro Cem. És um asno? . Deus é pai de quem lhe dá na real gana?. Para acreditar é preciso ter-se a barriga cheia.” .! . mas já não acredita em coisa nenhuma. mandava ajeitar a uma pedra a égua rabona. Não queremos obrigálo a acertar o passo pelo nosso. antes de colher. o que se avista é mato e penedal. Os amigos ficam. vá de roda.. haja tanta riqueza. para nós é como se tivesse acabado um mundo.Diabos levem a cainheza da nossa terra? Não dá uva. entretanto. em tom de desprezo e piedade.M'amigos.Tio Calhorra. estacou para replicar ao doutor que dissera: “O povo tem fome. seguiu estrada fora a tomar o fresco dos montes que a ardentia a meio da aldeia era mais sufocante. vai senão quando. vá andando. o velho oscilava como um traquitana de molas derrancadas e a sua marcha era incerta e claudicante.O senhor abade tem boas pernas. e principiado outro. Mas ia dando à língua de coisas e loisas sempre com o seu sainete.exclamou em tom de galhofia o Quim da Urra. arrastados nos volteios. . cospe-se às mãos.Quer ouvir. vomecê se se apanhasse com o baguinho que lhe rendiam hoje as pedras tiradas no Vale das Donas. .. na pessoa do Zé Francisco.redarguiu o Calhorra.observou-lhe o Calhorra. Aldemenos havia de haver cá da melgueira com que arrotam os de Ceifces e da Raposeira! Não me venham dizer que Deus é pai de todos. precisamente na direcção que o padre tomava. mas algum volfro foi e não tive por mal empregados os aguços que paguei .Simão Tadeu.. que o Aires fora buscar à quinta do José dos Cambais e vinha a mascar a última bocada de palha. meio borracho. Volfro há-o onde Deus quer. Agachouse a ver o que era e. e era agradável ouvir aquele reportório dos tempos. Declinava o sol no horizonte. Largou a trote. Ninguém o sabe à primeira. Não vieram mais invernos. Dizem que trouxe uma carrada. para onde quer que se deitem os olhos. reza.Donde veio a Pêro falar galego? .Vou-me lá com Deus. duas fèveras de centeio e uma ovelha tinhosa a roê-las. No meio da rua.

mancolitando pela estrada fora. Mesmo assim.Há Há?. Meta na conta aqueles que já lhe vieram bater ao ferrolho e os que estão para bater ah isso tem-no mais certo que as cerejas pelo Espírito Santo e avaliará da precisão que vai por essas casas.Ainda não dei fé dessa pobreza franciscana . Temos a Josefina. valeu como bichas a quem apanhou uma sova. areia acolá.Mas. o mal todo é que há gente a mais nesta terra. A morcega da filha . por uma sorte.Com mais o dinheirito da resina tapou. Agora algum haverá.? Então ouça.Há lá volfrâmio a rodos e não é cobertos com a capa do santinho que vocês o hão-de explorar. porque exclamou de súbito: O amigo Calhorra. não quero que haja! apanhou-lhe um quilo de volfro. Sei muito bem o que lá há.que ensopavam tanto a terra que era um regalo ver os nabos e os calondros a emborrachar-se e a pular. temos depois a Rita Ougada. Vendeu quatro cabras e dois carneiros..objectou Manuel Torres.Teve sorte! .. palavra. Este alma do Diabo levou o bácoro à feira e lá o deixou quando precisava de o cevar para casa que os meninos andam esgorjadinhos. o Sanchonas que não se cansava de fanfar contos de réis e carros de centeio? Vindo pela rua abaixo. que não perde nada em sê-lo. este teve que ir pedir ao abade as duas notas que lhe faltavam. Volfro a rodos não deve lá haver. depois que deram em vacinar a miudagem. Para cá vêm vocês de carrinho.olhos assim. que eu lhe faço o rol dos necessitados. o Tadeu falou-me para eu ceder à Confraria de Santo Antão o bocado que tenho na encosta.. sempre lhe digo: os da Fazenda têm a ganchorra dos dedos mais afiada que bico de milhafre. Por isso os anos andam falhos de mantimentos. Logo no cimo do povo temos o João Sancho. Vendeu o cerrado ao Asdrúbal rico. isso lhes juro eu. o José dos Cambais. Você sabe ou não sabe o que há no Santo Antão? . Andaram aí a ele pelas portas este José Francisco. Este ano ainda foi uma felícia o miné rio render. Coitado. escava 22 . que possui boa casa.. Que é o que lá há? . A vinte por cento e é para quem tem padrinhos? A Anastácia. Agora repare o senhor doutor. cresce erva que se lhe pode meter foice. onde há aí lavoira que não chegue endividada ao S. do Porto. se o Corbet se não enganou quando percorreu o morro. seja franco uma vez por todas. o mesmo é que o mamposteiro do pai. . capazes de descobrir um grão de painço nas corgas da lua.Não sei. e um tal Leónidas.Não. andou com sorte. Pois não viu outro remédio senão ir tirar um conto à Manfurada a vinte por cento. Miguel?! Nessa data é que se tira a prova. o melhorio do rebanho. O velho ficou calado um instante. muitos lá ajuntaram com que empalear os tributos. Aqui está um erro. . Manuel Torres talvez não escutasse aqueles conceitos tão simplistas como pitorescos.. Uma malina de tempos a tempos é tão precisa como são precisas as nevadas para matar os musaranhos pelas leiras. Afora o Asdrúbal rico e. Temos o Lázaro Fandinga.. Quase ao pé encontramos a Pedralva. Ouvi-lhe a choradeira. Depois. e no cemitério... distraído o seu espírito para outro quadrante. mas foram uns esticados da fome a pagar. . e areia aqui. . e Manuel Torres volveu: . Imagine o senhor. essa. mas o que se chama boa casa.

proferiu: . Eu deixo-o ir a você escarduçar à vontade no que é meu do Santo Antão. cambado das pernas. acredite. Não se encontra outro mais valente e desenganado. resvés com os alegretes. E olhe que eu gostava do rapaz. sem forçar muito a nota. um vivente do tempo de Recaredo assistindo ao recolher dum povo visigórico. Ao redor do povo. vinte e nove trinta. amarrotando-se como uma gaze violeta nas ruas e vielas e erguendo além. Quanto ao que houve ou há na sua leira do Vale das Donas dá-se o mesmo. despediram-se. Diante da ruazinha que levava a sua casa. o que lá vai lá vai? Para mim a sua palavra é palavra de rei. de lenço amarelo a voeiar do ombro a rubisca da Florinda desacravelhava a cancelinha da sua casa.Partamos do princípio que é assim.Não caias noutra.Então elha por elha. Mas. não passa de suposições. Também pertenço ao rol dos escaldados. já que assim o quer. rebalsando-se por cima dos telhados. Está dito. As donas chamavam as “pilinhas todas” em atraso. Começavam a entrar os gados. torcendo afinal os lábios. vinte e nove trinta. eram os mesmos padrões e os mesmos corpos brancos e sujos e.. A sonda é que diz a última palavra. lhe dizer: .aqui.alvenaria.. onde se respirava já o rescendor das roseiras e jasmins floridos do pátio. Distraiu-se um segundo dos seus pensares para. Ao mesmo tempo. e então? . À entrada da porta que abria à sombra das faias. enroscando-se às empenas. voltando afogueado da canícula à cruzeta formada pela estrada e o braço da alameda. Adeusinho? Sobre a aldeia lôbrega . 23 . Mas pregar-ma a mim na menina do olho. Um instante se quedou Manuel Torres a contemplar o velho Silvestre. Era a ária de sempre e não valia a pena contestar. direito de torso. que seja muito feliz. o fumo leve das lareiras espraiava-se mole e caprichoso na atmosfera. Mas. um penacho rombo e fantástico. considerou que podia imaginar-se.. encontrou o Augusto Alres que esperava. apenas onde havia cotim e estopa pondo grã e estanforte. Mutatis mutandis. nos ilhéus de maninho. pode ser que tire aldemenos com que pague as décimas. Entendido? O Silvestre Calhorra deitou os olhos em alvo e assim permaneceu um momento.. tudo por enquanto são suposições. estrugiam nas escaleiras de patim a pique os socos ferrados. vozes de pastor. quantas noites não tenho eu levado em claro a magicar: “Silvestre.? Deixe-me dizer-lhe. e a tilintada das campainhas alagava os caminhos disparados a toda a rosados-ventos. No Santo Antão. reverente mas descuidoso. com a mãozada democrática. como se fosse a tombar. Se me mordeu. como um rolho. espacejadamente. fia mais fino. telha de cano ou colmo adensavam-se as primeiras sombras. primeiro as vacas. pronto. nos alqueives de pousio.Justamente. Anoitecia.Trago no estômago. escava além. quem sabe lá”. já que o senhor assim o quer. )ogam-se as raivas ao vento. almas idênticas trabalhadas por iguais apetites. se atestou as algibeiras. quem sabe lá se aquele pilho te não roubou uma forturia?! Sim. a acção do malandrete. latidos de rafeiros anunciavam a aproximação dos rebanhos. notas gordas de chocalhos. saltando duma para a outra. decerto. você em paga não pensa mais no que o rapaz da Maria Aires foi fazer à sua barreira do Vale das Donas. Manuel Torres. isto é. junto do forno. .? . Quer agora o senhor que lhe perdoe.

balidos. bodum.e a barafunda foi amainando.Os gados entraram nos redis e. 24 . gritos bárbaros: aqueiba! arreta! torna ali. Uma voz clamava: os lobos levaram uma ovelha à tia Pedralva! Outra dizia: estramontou o chibo da manada .noventa e sete anos sempre a pé. mocha! inundou becos e quintãs. com borbotões aqui e além. por último apoiados a uma varinha de marmeleiro . por minutos. até insular-se no negro silêncio o roncadoiro da agonia do Cota Velho .há dois dias a lutar com a morte. a vaga montante do pó. na teima de ainda não querer passar daquela feita as alpodras para o outro mundo.

a avaliar pelo peso e pelo brilho com que acenavam aos olhos suas faces espelhadias. tivera de esperar pelas noites de quarto. tais ecos seriam explicados como manobras dos moleiros. pá e picareta às costas. Ficava o Vale das Donas numa dobra da planície. extinta há tanto tempo que ninguém no povo se lembrava de a ter visto botar água. mal a Lua apontou no horizonte.erguer o dedo para o Quim da Urra se pôr pronto e lesto. não era de contar com sotranqueiros a tornar as águas. de modo que podia trabucar tão afoito como um alfaiate em seu sótão. Àquela altura do ano. espreitava que homens e animais se tomassem de sono em casas e apriscos. que não havia grandes probabilidades de que o fossem empecer. as de domingo para segunda. tenteando-o na ansa do braço. à conta bem feita. quando não eram concretos opacos e ferruginosos como torresmos de forja. 25 . outras encerravam para ele um mistério com as palhetas resplandecentes. ora a coberto pelo escuro das paredes. que bastaria. é que ele largava. Era mau de levar. Aos primeiros livores do arrebol. rompeu pela leiras de pousio a corta-mato. faltara-lhe ajuda. só lhe convinham. varapau na axila. duma das cavernas tirou o saco com o tesoiro. e à hora em que nos pauis as próprias rãs enrouquecem a cantar. Estava persuadido. se lho perguntassem. opressivo como a morte. depois de dar ao corpo riloído nos malhios o repouso do dia santo. como. onde nem Deus nem o Diabo seriam capazes de o sonhar. Além do mais. e. surdas uma contra a outra graças ao atilho de giesta. lhes desfalcavam o caudal com que mover os rodízios. maduros os fenos e barbados os milhos. é verdade. Tendo assentado proceder sozinho. Como os texugos quando vão ao assalto das capoeiras. rapar saibro e calhaus. soçobrada em modorra e no engorgitamento estival. e só ao sereno pôde estudar o seu carrego. Algumas deviam ser de volfrâmío e de volfrâmio puro. estancando as águas da ribeira a montante. E. ia acoitar o haver num dos refolhos da mina velha. Em tais condições. destas. os grânulos de oiro e verde-salsa incrustados em granito. de pé descalço e sete olhos. a arrombar os açudes que. lhe não apareceu vivalma. das vezes que matou ali o corpo. Que levava ali? Ao certo não saberia responder. era o que surriplara na leira do Calhorra. entrando às apalpadelas. E depois de pulsar mais uma vez com os sentidos todos a terra em redondo. Que o ruído ressoasse nas quebradas. mas a fugir a encontros passante a Assunção metia-se foicinha aos painços . cabeça embutida nos ombros. a bem dizer. lorgar. Levava pedras. ora por moitas e giestais fora. para veigas e ferregiais.alargou o passo. a horas mortas. Calhaus ou pedras finas. Mas repugnava-lhe meter outrem em trabalhos de que ignorava os frutos. A manhã ainda vinha longe. de noite. foi-se à mina velha. E não só não foram. orçando-o depois ao ombro como um alforge. para lá da lomba que agasalha o povo dos ventos de sudoeste.II O Aires. raras saltadas pudera dar ao filão. estando a fazer três meses que chegara à terra. Podia portanto escavar. oprimidos pela estiagem. puf. semiluminosas o que basta para ao perto se recortar com nitidez desejável o vulto das coisas e ao longe tudo se diluir na intransparente poalha.

eu ainda sou asno maior que vos não botei o cabresto. que eu lhe farei a cama! Por injunção sua o regedor interrogou Pedro e Paulo. muito menos. . salamurdos e mais silenciosos que penedos no meio do rio. De prova material. Uma tarde dirigiu-se com dois fabianos a casa do Aires e.Prove o que adianta. chamando-o a terreiro. Deixa. e lavradores mais insofridos a madrugar. Assim o pensava também o Alres e iludia-se.O Calhorra. e não se deixou embair. atingir a pobre da mãe que era mulher séria. depositário da caixa. Novamente convidado a vir às boas. pois reza. não. pastorinhos e criados de moleiro. Este.Qual boas nem más! O Calhorra julga que isto é terra de pretos e arma em Gungunhana . Deu matéria à falação. transitando subitamente para a indignação. De inculca em inculca. O Calhorra conhecia a arte de negar a pés juntos contra Deus e Santa Maria. dando a prova como conclusa. a cara do Calhorra estava mesmo a dizer que eram capazes de ir jurar aos Santos Evangelhos pela inocência do acusado. Não aparece? Pois não aparece. alguns ventos veio finalmente a ter o Silvestre do autor da gambérria. Obtido o primeiro efeito. intimou-o a prantar para ali o que zarpara se não queria alombar com uma polícia. coligindo breves sinais. desta assentada julgaram todos que ficava a fazer cruzes na boca.O ladrão é mais fino do que eu supunha . se é capaz! Alguém me viu na propriedade do senhor Silvestre? Se há alguém que me visse. verdade. Quem seria. Com a encavacação. pela simples razão que ninguém me podia ver em sítio onde nunca pus os pés. o raio do velho fez duas viagens à vila para inglês ver. que eu já estou amolado! O Calhorra remordeu. quem não seria.Vocês não passam duns asnos chapados. cozido em fel e vinagre. ? Vá lá amolar outro. sinal honrado de que o não tinham visto na fazenda do Calhorra. o moço respingou alto e feio: . nem a brocha dum sapato.. de quem se dizia que estava para nascer quem houvesse de lhe fazer o ninho atrás da orelha. apareça. Os compadres é que não eram da sua força. embora tivesse pacta com o Demónio. Agora. e. Com ar de surpreso. Riu ao desfastio e. na gajice de remar contra a maré. ficou de sobreaviso sem se dar por achado. Sentindo que perdera a partida naquele tribunal de primeira instância. endereçou um volumoso ofício ao administrador que bateu no goro do Reganha taverneiro. desandou amparado ao sacho do cebolinho. convidou os presentes a entrarem em sua casa e a passarem uma busca. Que fazer? Não era homem para esperar a resposta do Santo Breve da Marca. sem um só momento lhe secar à flor dos lábios o sorriso que contraluz do ditado: medo há Paio. ouviu o moço a requisitória do senhor presidente da junta. ficou de boca cispada para quem aludia ao 26 . e salta à vista que comeis quanta palha vos caia na manjedoira. fez constar por portas travessas que reunira testemunhos mais que suficientes para meter o Augusto na cadeia. formulou a acusação. Desta feita o Aires rompeu a rir. e respondeu: . Fiel à sua táctica: porfiar. .. associando pequenos nadas.fora a dizer para os pacóvios. As senhoras testemunhas encabaram as mãos nos bolsos e baixaram a tromba para terra. a título de que não queria fazer sangue e. O Aires é que se não tolheu de voltar. dando ao topete e prometendo notícias suas para breve prazo. Mandou vir um guarda republicano que procedeu a devassas. verdade. notou que tinham ido esgadanhar à sua leira. um pedinte que tinha o costume de dormir pelos montes.

a lei parece que atribuía certos direitos ao Calhorra apenas pelo facto de o filão passar no subsolo da sua fazenda. mas a onda sonora ultrapassava Malhadas. nem um ceitil espremera à Fazenda.caso.e a simplória de sua mãe caiu na ariosca. chiada de eixo. Deus lhe perdoasse! Lá que o doutor atafulhasse a boca do mamposteiro com o trancanaz do Santo Antão. dois quilómetros andados de pendor. sinal de que ia estalar o látego . é do engenheiro Severo Bacelar. com o qual o dono da terra nunca contara. 27 . quando já tinha disposto as últimas couves. ano após ano que viera a férias. Para tanto. à relha como ao alvião. amargos de boca. por outra. era preciso que “ aquela” estivesse acabada e começava. não entrava por coisíssima nenhuma no seu valor imobiliário. era-lhe totalmente indiferente que o Calhorra rangesse os dentes. Sentindo o motor. aprontando-se em menos de nada. Além do mais que houvesse costeado precipício. Ali estava como o cão do Calhorra conseguira levar a água ao seu moinho. com o vento que soprava de feição. cantil e bornal a tiracolo ou coelhos e o seu lebrão à dependura do pau. Farta de o ralar e de ralar-se. malucou no problema. Pois porque é que o minério. Sobre a tarde. lembrava as partes gagas a que a mãe o obrigara no dia de Nossa Senhora da Lapa. E com enfado. a estrada desenvolvia-se em perfeita chapada num galão inquebrantável. Inflectia ao mergulhar em Rabaçais para.” O carro não passou e. disse para consigo e para com Deus: “Se não passar dentro de dez minutos. que rumo tomar? Todo o dia de sábado. desprovido de senhorio como o sol. pelo abrupto e articulação às serranias que esteiam o rio. Agora o “não caias noutra” era outra ária. menos que uma unha negra. o rumor dum automóvel que descia a costeira de Tendais. e nem o cairel entrevira. é que fica em Mouramorta. Manuel Torres em Malhadas. tanto mais que o estrago que dera pagava-o um chavo galego e ainda recebia troco. tão bem defesc. quando à falta de gasolina a maior parte dos automóveis jaziam de baterias descarregadas suspensos sobre matacões. não destituído de azedume. deu com os burrinhos na água. ou do Antoninho Fráguas. que estava soterrado debaixo do solo arável talvez a muitos metros de fundura. O senhor Severo Bacelar devia por certo lembrar-se do catraio que muitas vezes o apajeara na caça. arremeter após breve torcicolo pela encosta sobre que assenta Tendais do Palva. era um cantar. com a imaginação alvoroçada pelas histórias maravilhosas do volfrâmio. como a chuva. que Deus manda por igual a todos? Sim. desvendando a tramóia. se não remorsos. Tratava-se de coisa comum: como tal pertenceria ao primeiro que lhe pusesse a mão. Arrumada a pendença da banda do Calhorra. foguetório em dia de festa. mal apeou o Dr. Era a uns seis quilómetros de lonjura. chegara-lhe aos ouvidos. rosnasse. Se fica em Mouramorta. Dali até Mouramorta. Repeso do que fizera. e muito longe de propósito. Por consequencia. A lei era a lei. Pelo menos não se justificava a recomendação sem que da sua parte existissem. ressoando muito mais ao largo. Era ela. ao passo que replantava a horta do Casal. meteu a caminho de Mouramorta. Tal não era o caso. não havia de ser de toda a gente. a grande caixa sonora que alagava a planície com seus barulhos e motins: petardear de motor. mas nem sempre os seus preceitos se ajustavam ao critério da gente honrada. batesse o pé. Privilégios como aqueles estavam riscados da sua cartilha. E ninguém melhor do que ele o encaminharia na barganha do volfrâmio. como o ar.

A dúvida está em meu pai. para não acordar a mãe que escusava de conhecer as suas aventuras. o zorro. à pata. que encontra lá o senhor engenheiro. dissera: . Ora repassando aquele brequefesta de sexta-feira da Assunção. Estava inteirado.dissera o Padre Eterno se o Mestre da Vida não mentia. nada mais que da brasa semimorta que o folezinho da aragem aviventou no deserto de cinzas das queimadas. De facto os calhaus pesavam mais que o esquife quando agravado com um defunto. entrepostas como rendas de courela para courela. maviosa sem deixar de ter uma pontinha de travessa. escorrega ali. como se ali fosse em pessoa. ficou a saber que tinham ido em prospecção à leira do Calhorra no Vale das Donas e que. fora o Antoninho Fráguas. que é relho e terrabinto. No arraial que armara dentro do seu selo. que viera em pessoa atendê-lo. cortou uma borda ao pão. Vinha a cavalo e ao lado. escalava-as e toca em frente. Augusto. norteando-se pelos oiteiros que lhe eram familiares e estavam inscritos na sua retina como melhor não estariam nos mapas. tão indiferente a tudo o que não fosse o seu carrocel como refractário aos medos e fantasmas que a imaginação a cada passo condensa no escuro duma giesta mais esquipática. depois de ceia. quando não eram daquelas que. ermos ou bosques. O suor que lhe merujava as fontes e as espáduas era portanto de lei. que o tempo podia conjurar-se contra ele. Mais de uma vez se acaçapou até se esvair na terra fofa das almargens o tamanco do guardão de meloais. e altas horas. muito raramente pelas pontes. e nem se deu ao incómodo de enxotá-los. Se não queria ficar empulhado tinha que se despachar. Deixou-os desaparecer na ladeira e meteu para Malhadas. Tropeça aqui.Mas andava com azar. ora entreticio com Teodora. pé ante pé. Brás. se propunham chamar um dos práticos do senhor Corbet. acabou-se. do pio do mocho. A certa altura do caminho. Neste intuito. duas febras ao presunto. mas ânimo? Regarás a terra com o suor do teu rosto . o Zé Francisco. Marchava pela estimativa. a voz de Teodora. Deu-lhe baque o coração e escondeu-se. sobrepunha-se a todas as outras: . direito à Sobriga com aquele horror de carga às costas. fugiam-lhe da boca pragas que faziam tremer os santos nos altares. Afinal. voltou para Malhadas. a enormidade do fardo lhe era leve. Os corgos lá os ia atravessando como lhe era possível. incertos quanto à Importância do jazigo. lobrigou o Fráguas que subia uma das canadas que por entre pinhais vão dar à ribeira. ora a pés enxutos. Pelo que ouviu e ainda mais pelo que lhe foi lícito adivinhar. A tia de Severo. tupa que tupa. Nas abas duma almuinha saltaram-lhe os sabujos à frente. Ia entretido com a feira interior. As paredes. se deitam abaixo com uma patada. Anda muito atarefado com a montagem da segunda lavaria e já o domingo passado não veio a casa. Irene. saiu de casa. Mato ou restolhal. tal como lhe toava ao ouvido. nada lhe fazia torcer caminho. que por sinal estacionava diante da taverna. ora molhado. Na noite de domingo. boa estrela o guiara. afocinha além. Ouviu sem arrepios os lobos uivarem para os cerros fronteiros a darem senha da sua passagem.Vá à Sobriga. e ali ia.Bem sabes que em nós não é que está a dúvida. lamentando apenas não haver tomado mais cedo semelhante resolução. Quem chegara de carro. a senhora D. Noutro dia tornou-se-me a sair com a ladainha: “Quando o mariposo lavrar quarenta pousadas e colher um carro 28 . Iria às minas. provavelmente para dali seguir para S.

uma almotolia. espécie muito afastada dos capucheiros da serra. Antes. da banda de lá da qual ficavam as Minas. Que haviam eles de comer naquele pedregulhal espesso. com a bolsinha pendurada do pau ou do pulso. e entrevia-se nelas estas criaturas plurais que forjicam o bazulaque às maltas. Por ele fora marchavam isolados e em bandos. haviam os escrivaes de borrar muita folha de papel selado. por baixo da sua inquietude uma voz inquiria: era aquilo preciso? Parece que sim. a mole alterosa. como ele. puxou do farnel. quase seres doutro planeta. O Fráguas. mas fraga solta. Era uma felicidade que em negócio de teres o Zé Francisco chamasse seus. senão babau. se assim não fosse. antes de mais nada para os homens se chacinarem civilizadamente. nem num andor. lanchuda. tinha os pés macerados como se acabasse de fazer jornada de muitas léguas. mesmo de trabuco na quadrilha do Olho Vivo. que te venha buscar. Não se descortinava caminho nem atalho. Mas o filho. que a sua sensibilidade vibrava. podia tratar doutra vida que o Cambais sonhava apenas com dinheiro -dinheirinho. baixando da serra. A todo o fundo. tisnado pela canícula. corri estranheza percorriam seus olhos o panorama truculento. normalmente uns felizardos. pintada a breu. já nem contava as notas. maciça como torre feudal. que.ganho não importa de que maneira. Foi-lhe amanhecer no termo de Covelo. e o destino dessas nações prósperas e de seus naturais. nem sinal de pascerem por ali os gados. e der à tosquia dez ovelhas. Ao fim do primeiro estirão. pouco mais adiantado estava. encomendas das lojas. Que levava ali em derradeira análise? A taluda ou artigo de entremez? Foi neste estado de espírito. remedando-o . entre a ramalheira negra dos pinhais. se não ajustar-se. Do picoto daqueles autênticos paranhos do Diabo distinguiu afinal a Sobríga com barracas e instalações semeadas. porque.” Conhecia-lhe a doutrina. uma vez que nascera fora do curral. nem rocha viva. menino! escarneciam dele. era-lhe indiferente como a água dos rios que caminhava para o mar. Na qualidade de camponês do tempo das Sesmarias. à dinheirama que lhe entrava pela janela. Enquanto dava ao denre. afinal. De caminhos afluentes desembocavam mulheres com cestos à cabeça ou o seu molho de tangos. que lhe dêem lã para uma capucha e dois pares de coturnos. entrou no braço de estrada que conduzia à exploração. que é o comum para a mantença duma pessoa que tem os dentes todos. na vastidão cinérea do mato galego. é verdade. a sua simpatia humana não alcançava tão longe. que deixou à mão esquerda cortando decididamente a poente pela serrania escalvada. nem penedia. tão outro dos agros mansíssimos que alimentam desde o princípio do mundo a aldeia e a cidade. a tropos-galhopos uma sobre a outra. pesava-as na balança. o mar cor de creme era a terra vazada dos desmontes. 29 . dum negro impressionante. Poisando o saco. E ante o ar de ferocidade que se evolava da tenebrosa fábrica. à noite e dia e às sombras dos caminhos. a lavaria. O que o sobressaltava à vista daquela metrópole de escava-terras era ainda e sempre o motivo pessoal. homens mais andrajosos que ele no fito de retomar o trabalho. Ainda bem. não era por causa da saúde de tal gente. quase cobardia.de milho e três rasas de feijão. Para que um dia chegasse à escudela. sem um lezim com húmus para que pudesse vingar raiz de sarça ou de codesco?? Com semelhante piso a marcha era escabrosa e titubeante. Mas tratando-se de ingleses e de alemães.

falas desencontradas. para o morro. muitos extraíam o resulho dos poços ou enxugavam-lhes a água para o trabalho prosseguir eficazmente. de parte duma pessoa de Mouramorta. por outros ia e vinha o pessoal particular dos engenheiros e agentes técnicos. À superfície era como um arraial. Girava tudo. petiscos e o resto. Enquanto esperava. se via gente. Foi direito à Direcção e pediu para falar ao senhor engenheiro Severo Bacelar. chegou a um dédalo de caminhos. do retinir das ferramentas e estreloiçar das vagonas e raposas. uma rapariga manejava a bateia e ia cantando: ó meu amor não embarques. As vagonas descarregavam o recheio da ribanceira para baixo. saia colhida entre os joelhos para a água não esperrinchar pelas pernas acima. com as vivendas muito senhoris e claras à retaguarda de pequenas platibandas enfeitadas de pelargónios e eloendros. Agora não é maré. mulheres que lavavam a terra mineralizada ao ar livre e debaixo de telheiros. das bandas do mar. E. com uma caradura brutesca em suas paredes a pique. escombreiros. ou afigurou-se-lhe. Rapazotes.pessoal complexo. não como assalariado. por um dos quais rolavam vagonetas. ao salvar a corcova do terreno. da indústria moderna. andando. ao passar à beira da lavaria. Perto dali. sem cor à força de usadas. não deixou de estremecer de assombramento à ideia da obra de magia que ali se consumava: o calhau intonso convertido em farinha mineral. por vezes a dezenas de metros de profundidade. pernas vermelhas de perdiz. e logo esse montão de cascalho passava através da passadeira rolante para as mandíbulas de aço dos trituradores. passos adiante.as lavam e remendam. cigarros. e ainda a tasqueira que abriu à margem da mina a baiuca de vinho. com revólveres de ar comprimido a demolir o quartzo. que se exercia a actividade capital da mina. O Aires conhecia a Sobriga. e os olhos do Aires ficaram enlevados nela. homem e máquina conjugados. Aqui e além trabalhadores brocavam a rocha. e outra. levava um banco de pedra e saibro à ponta-de ferro e picareta. mas bem torneadas. Era subterrânea. 30 . Espera lá um poucachinho Que me hei-de sentar à ré. doce ao tacto e maravilhosa de propriedades. a ritmo acelerado: homens e máquinas. bombas eléctricas e manuais a sorver a água dos regueirões. provavelmente empreitada. se calhasse. o dínamo pulsava e a sua pancada mate. piquetes de entivadores especializados a escorar as galerias. Até bem longe. Crispados às varas dos sarilhos. a carne tenra a espreitar das camisas cheias de surro e em frangalhos. quinhentos a mil metros. vinham baldear no monte o carrinho atestado de calhaus em que coruscavam com o sol as pirites e palhetas de volframina. testo e sabido na manobra. descobriu-se o formigueiro humano a seus olhos admirados. Não obstante. e ensurdecedora criava este tónus especial. foi-se mais e mais possuindo da fereza e prodígio do espectáculo. com boinas de homem. braços arremangados. comandos. enquanto a outros incumbia carregar os tiros de pólvora bombardeira. grande caterva de homens abria uma trincheira. sernibárbaro e feroz. Por cima dos gritos. à boca dum poço. Andando. repartido em turmas consoante a natureza das tarefas. desprendendo uma barulheira a que era como abóbada o zunzum infernal dos volantes que se não viam. mineiros de guilho e marreta. pés descalços. altas e cegas. Era uma ruivita. em que estava integrado o transportador. mas das rapiocas e visitas que ali fizera com outros curiosos. homens e mais homens à carga e à descarga . Mais ao largo.

Bem. segunda porta à esquerda. nem à segunda. para atenuar a rebeldia. Bacelar introduziu a mão. Agora já levas escopeta. misto de estação do caminho-de-ferro e repartição pública de vilória sertaneja.Sim.Foi arrancada no lugar das outras? . Com a febre de ser rápido. No calendário.Este ano há caça a dar com um pau. . o que lhe exigiu um esforço descomunal. pregado na parede. tirou uma pedra e.. eu te direi. depois de examiná-la mais instantaneamente que o farpar da víbora.. mirou dum lado. zás. uma espampanante star erguia a perna e derretia-se num beijo que mandava com as pontas dos dedos a quem punha os olhos nela. sim..Não presta? Fazia esta manobra com incrível velocidade.Tu não és o Aires. desata lá... Tornou a aproximar dos olhos a pedra espelhadia e irradiante.É volfrâmio.Não presta? Tirou segunda. . V.No Vale das Donas. .. enxergou mais de quantos escriturários dobrados sobre as papeletas. jogou-a para o lado: . sopesou-a na palma da mão: . arrancou. e fitando o Alres proferiu: . O engenheiro riu-se: boa vai ela! Quis desfazer o nó.. vinte e oito a trinta anos. É no baldio? 31 . dois andares. que aproximou mais da vista.. mirou doutro. .balbuciou apontando o saco. não é comigo. ao passo que ouvia o tep-tep duma máquina de escrever sem lobrigar quem a manejava. finalmente.Mas hás-de te despachar que não tenho um minuto a perder. Ex.Está bem. meteu-o debaixo do braço. Eu mando ensinar-te onde é. por cima da mesa atravancada por diversos utensílios da escrituração e frascos com amostras de minério. . puxou a contrária e.Não presta? Não presta? Não presta! Uma houve. Então que te traz por cá? Se é para venderes minério.Estou a ver o lugar. O que é. Erribora lhe houvessem dito que ali não era balcão de vendas..Foi. mesmo filão? . teimou em levar o saco.Não senhor. mas como não cedesse à primeira.. . rotulados a capricho. em vez de puxar a adequada ponta do nagalho. mas breve mudou de parecer ao afirmar-se nele: . A uma escrevaninha estava sentado o engenheiro Severo Bacelar. cabelo em ouriço. . quando acabar o defeso. em vez de levá-lo às costas.No mesmo. repetindo-se o lance: . desejava que o senhor engenheiro as visse . Acabaram por remetê-lo para o primeiro andar. . O filão é em Malhadas. a marca o dia e. e o cordel ainda que grosso deu estoiro. não é para vender.? Estás homem. nó cego. . meteu o dedo.. Ao vê-lo com o saco franziu o sobrolho.A Direcção era uma casa de madeira. pela larga porta entreaberta. Andam por lá muitas brochas dos meus sapatos. senhor. ? Em que sítio? . Virei aí algumas lebres. Do vestíbulo. Pareceu-lhe que o engenheiro ficara contente com vê-lo porque pronunciou de ar amável e tratando-o com familiaridade: Havemos de ir às lebres.. Mal apanhou o saco aberto.. Trago aqui umas pedras.Sou.. camisola à requeté. que também lançou fora: .disse com menos grata disposição.

retribuímos . levantando-se e aproximando-se do Aires. por nada deste mundo denotava preocupar-se com os seixos que cresciam em monte à sua banda. que ficara perplexo. pescoço de várias e rubras regueifas. mas agora em silêncio. dir-se-ia. engenheiro chefe.retríbuímos a descoberta.dizia-lhe Bacelar. olhar de nebri. depois de se referir com admiração à bela ruína de valentia e destreza que era o Calhorra. Era o mesmo simpaticíssimo homem. foi ele próprio tirando as pedras com a rapidez de há pouco. é numa leira do Calhorra.. Coitado. pô-lo em terra e. e possessiva e gostosamente pôs-se a malucar na situação. de copo bebido de dois tragos. pagaríamos o estrago. camaradescamente.exclamou Bacelar ao passo que caminhava para a sala ao lado. mas irrepreensível: . negros retintos. se lhe seguia os movimentos. . debaixo dos olhos de Hincker e em linha regimental.. ou lá o que era. Que iria ele fazer lá para dentro com a pedra na mão? E foi um pouco atarantado com as perspectivas que se lhe entremostravam que correspondeu ao aceno que lhe faziam da sala contígua. Sentado à secretária estava um importante figurão. abstracto para tudo.. . em linguagem levemente matraqueada. Aires. .Quer-nos ir mostrar o sítio donde extraiu estas partículas de tungsténio? Se quer e nos agradar. tanto o associamos como. quase nenhum cabelo na cabeça reboliça e cor-de-rosa. naturalmente para que pudesse vê-Ias e observá-las.Não. e estava em crer o seu negócio bem parado.. gordo. as pernas dele fazem um arco de ponte cada vez maior. enunciando o termo estereotipado para esta classe de negócios. e o nosso Calhorra. Não há registo? Torcendo os lábios e meneando a cabeça negativamente. sobre o balcão das tavernas. supondo aventurosamente o seu chefe empanne de vocabulário. suas bostelas de verde fúlgido. espingarda a tiracolo. chamada pelo que se passava na ribanceira. grandes óculos com aros de tartaruga campudos como rodas de carro.? Vi-o em Tendais há poucos dias. Estavam na mesa uma meia dú zia de calhauzinhos brilhantes. .Para o nosso caso isso tem pouca importância . Aires teve palpite que estava diante do senhor Hincker. só deixando um rebotalho no fundo.Dado que nos interessasse.. manifestou Bacelar a persuasão de que não devia haver registo. pondo outras em cima da mesa.. uma a uma. Depois de esvaziar o saco com agilidade. Era homem dos diabos! O Augusto Aires. Severo aprumou-se e aguardou..Traz também o saco . suas sardas ferruginosas. Alres ficou sozinho. Tirava-as e ia deitando umas ao chão. Hincker mal lhes dardejou um olhar e. aquele doutor das engenharias. O bazarugo porém. de cabelo em sedeiro. devidamente indemnizado. nédio. proferiu com certo peremptório. a atenção.interpôs Bacelar. administradorgeral.Do Calhora velho.. depois olhou pela janela e distraiu-se com o que via. acabou por se lembrar das palavras que surpreendera entre o Fráguas e o filho e pareceu-lhe 32 . a rir-se e a faiscar em suas manchas de oiro. concessionário das Minas da Sobriga. Severo safou o saco das mãos do Aires. .. não tinha mais que meter a viola no saco. falou da tineta que tivera de lhe ir cavar na fazenda arrostando com as suas reservas e má vontade. .. por último voltou à sua taleiga. que mesmo assim virou e remexeu em duas voltas de mão. .

mais poviléus com galinhas espavoridas e cães. Um carro reluzente de cristais e cromados trepidava na meia rotunda. quando deu conta que do largo fronteiro à casa das máquinas Severo lhe fazia sinal. seres danados sabujos da serra que arremetem investidos de quanto rancor aflige os que andam à pata. já hoje estive com a tiazinha de V. desvanecida à maneira de placa fotográfica já focada. com o senhor Hincker repimpado e fumando o seu charuto.. Iam a sair. largaram.Cumprimentos. 66. Reparando no ar embaraçado de Augusto.Como estão em minha casa.. cor-de-rosa além. se não merecer. Um arrancão e. Bem. 67. Quando se acomodou entre as pás e alavancas.. mas sem retina para fixar coisa alguma. Bacelar disse: . passava direito como o sulco que deixa na água a quereria dum batel vítreo aqui pelo lavar das chuvas. 33 . vinte minutos. percutiram as picaretas e os grandes ferros pontiagudos e. que já conhecia o carro. você não pode guardar para depois do almoço o que tem a fazer e damos lá um salto agora de manhã? Em duas. Ficam à tua ordem.. três horas. Eu já te chamo. não mais largo que uma fita de máquina de escrever. pastores e ovelhinhas pelas rampas.. 71. ao quilómetro 74 pára-se. Em plena massa plutónica o veio de quartzo.Não garanto. outro automóvel aguardava com operários e ferramentas. depois casais meio dormentes. face às vivendas. A menos de cem passos.a. A saída do delta de caminhos. e baldearam-no para ele sem grande cerimônia. não corremos a lebre. Depois do quê. com a eminência sarjada tão de fresco que dava ideia de escorrer sangue.. o máximo. Hincker volveu para Aires: .. picada aqui e ali dos toros verdes das canas. Em Mouramorta estacaram à porta do Jerónimo. Mal subiram. alto. com pinheiros oprimidos pelo temporal.. o chão parecia chamuscado. enquanto os homens despiam as véstias e aprestavam as ferramentas. ó Bacelar. .. insulações monásticas os bosques num fundo de ascese e desespero. Franz Hincker e Severo. Se merecer a pena.. Quilómetro 70. 68. pelo fresco. varre-se dali o sentido. estudaram o filão.perguntou Severo. um nicho de alrrias . De manhã. restolho e matiço. Uma sachola limpou o corte. giestas negrais. amigo Jerónimo? . precipitou-se de dentro em mangas de camisa.. Pois se assim é e o agente de mister Corbet anda a rondar. Chauffeur. Fui lá medir umas rendas. encontraram a fazendinha do Calhorra.Tentemos. suspenderam-se à entrada da curva sobranceira ao vale. já Hincker e Bacelar desapareciam na curva.Que resolve o senhor Augusto hesitou um nada à procura de palavras que traduzissem o seu pensamento e disse. espraiando olhos por tudo.prudente não se calar com elas.. Saltaram a cumeada da Sobriga. Ex. uma ermida. Ali esteve um quarto de hora. as pedras ninguém tas rouba. como você diz? . é um passeio.. Depende. e mais de espaço os quilómetros 65.Descansa. e pulou. . Rebanhos de carneiros pequeninos mondavam pelas leiras e rabugem que germinara com as águas de trovoada.. escurentado ao sumir-se debaixo da terra. apontando Bacelar: O que o senhor engenheiro fizer está bem feito. Perante tal revelação engenheiro e concessionário trocaram um breve diálogo em língua de que não penetrou patavina. vamos lá em acelerado. Aires quedou à porta da Direcção. Ele.e sempre os hectómetros pula que pula com a imprevista brusquidão de bonecos do pimpampum. muito que bem. E despediu atrás de Hincker. Terra da meseta plana e taciturna: espinhaços de cão os oiteiros. . um poviléu e a sua coroa de palheiros ao alto.

pessoal das resinas e gadanheiros. de chapelão e calças de estopa os que andavam pelas eiras na debulha dos painços. pondo tais e tais de remissa. Severo mandou medir. aguilhada em punho os lavradores que. mulher? Uma sede de água dá-se até ao diabo do inferno. de apartar o minério. sucessivamente. corre. oscilava de perna para perna. estendendo o braço a apontar. Depois avançaram os zagais. há uma nascente . Em menos de nada ajuntava-se no chão a bicheza toda da aldeola: descalços e em mangas de camisa aqueles que a novidade surpreendera a virar a tigela do caldo. arrimado ao sachinho. e Pedro. Apareceu primeiro o velho Cassiano da Urra.ó Mabília. entretanto. com a sua percentagem de tungstato de ferro e manganésio. E lá iam levados a passo de carga pela resteva . com uma capuchinha de menino não maior que o capelo dos gabinardos. Caía um sol de rachar. outros de roçadoira. deitando outras fora. idas e vindas.. e até almocreves. .advertiu a velha. por especial favor. O homem ficara parado.A Mabília chega à fonte. A segunda trincheira. Mas já Severo chamava o piquete a abrir passos adiante nova sanja. lhe dessem um gole de água. a molhar com a língua os lábios abrasidos. Mais de uma vez os pesquisadores tinham enxugado o suor da testa às costas das mãos. frigidas pelas moscas. Canícula. descalça. à sua beira: . o Zé dos Cambais.. uns de enxada.que batera a hora do almoço quando lhes saiu pela frente o Silvestre Calhorra. E a tanto alvoroço. Um deles pediu que.roto o banco de granito em seus folheados e lezins. . 34 .O que lhe havíamos de dar era lume a beber? . com as pilecas a bater a ferradura e a esgrimir a cauda. Era o comum dos jazigos metalíferos da região e Hincker e o engenheiro foram percorrer os campos à roda. que se postou desconfiado e quieto como um raposo por detrás duma giesta. Não longe. Dois homens encarregaram-se da fita métrica enquanto um terceiro de caderno em punho ia tomando nota. vozes. depois de breve troca de impressões com Hincker. Vá. deixavam ir o carro à mercê dos bois. que era homem de curiosidade imediata. meio nus. de ir observar e meter o bedelho. cavada à lufa-lufa debaixo da vista da gentiaga que engrossara e apertava cada vez mais a roda. Entretanto que a pesquisa tomava amplitude. Hincker veio acocorar-se ao lado deles. que acrescentou de seguida para uma pequena.disse o Aires. . trazidos ao acaso. satisfeita com a ardentia. boquiaberto. aos saltos que nem saguis.bravejou uma velhota. ramelosa e esguedelhada. até se alapardarem à boca da escavação. de todo anacrónicos e sem dignidade para o tempo dos camiões. Secou . mas via-se que fora pôr a samarra de montanhaque por contrastar com a camisa enxovalhada e as calças de cote e. estremando umas pedras. O capataz e Aires trataram. conglutinadas de cassiterite e mispíquel. que não podiam deixar. forneceu a mesma mistura de arsenopirite e sulfureto de ferro com a proporção equivalente de volfrâmio. embora com suspicaz sonsice. As cigarras nos urgueirais erguiam uma cantara destemperada. Trazia o seu velho barrete de caçador de lontras. a poupa tocava-lhe cornetim. vai tu buscar uma cantarinha de água. ao pé dos penedos. nem uma feira franca. mordidos por saber. com a sua roga de serradores. como sempre. afluía o gentio. a ganga estoirou e foise fragmentando em estilhas multicores.Lá em baixo. Tendo-se por inteirado. mais Paulo.

. Mas entre nós não há azar. À voz mais áspera do Calhorra convergiu para ali todo o peso do gentio. lá foi onde lhe indicavam.Pois sim. onde tinham ido em prospecção. sem embargo do tropeção. Hoje estou aqui por obrigação. pariu aqui a galega? . E quem lhes deu licença? A pergunta dirigia-se a eles por inclusão de partes e os homens ficaram um segundo interditos diante do rompante do jarreta.respondeu Hincker. . mas agora num aparato destes. Mas o apontador gritou para o que pegava à ponta da fita: . amigo e senhor Silvestre.. sem dar cavaco. Uma mocita feia e suja veio a correr para ele: . 35 .E a saúde do senhor engenheiro boa? Estimo. o engenheiro dirigiu-se ao Calhorra: .. e alertados por tal movimento apressaram-se a voltar do oiteiro próximo. se fosse de escopeta atrás das ruças. O chão cá lhe fica. não lhe perdeu a posse.Senhor avô. . Ninguém lha rouba. estimo.regougou o Calhorra. hem..Vossemecês saíram duma terra que é minha e estão agora a pisar outra que também o é.tornou ao cabo dum momento de circunspecção. estimo ouvi-lo. como se haviam de reconhecer os jazigos filonianos? O Calhorra pareceu um tanto desconcertado perante razões que apreendia apenas pela rama. Não lhe perdi a posse. se eu consentir. andaram a cavar na nossa leira e tiraram muito volfro.. com uma topetada de cabeça remeteu-o para Hincker. encolhendo os ombros..Ora para que vivarn! .Salvou como rezava a sua cartilha de homem bem-educado e importante: . como os militares em diligência. .. Severo e Aires. está a ouvir? .e apontava o Aires com um desdém.. Antes deste pendente .Olá. achando jeito.. O prático. Pernas em acluela. Se não fosse assim. .Não senhor. mas há volfro.. meu amigo.. .. Palpitando de salto o que ocorria. mas haja ele cá oiro.. de se atravessar na linha que seguiam os dois mensuradores..Toca para a frente! . sim.Tanta gente. ou perdi-lhe a posse.? Os três homens continuaram na sua.Viva lá? .É verdade .Não me consta que cá no meu terrunho haja oiro ou prata.? proferiu silvando.repetiu o Calhorra em voz repicada de furor e espremendo as palavras. Hornens! . que eu saiba. diamantes. repousando numa para se estribar na outra. meu caro.. . derretendo-se em amenidade.. e já o seu interlocutor recargava vitorioso: . prata..Para que são as meças... a sua parte é sagrada. Toca para a frente.É da lei. olá! Então riiinho.? . que não era fingido... mas aduela de grande bojo.Descanse que é indemnizado do prejuízo que se lhe der. É então o dono? Pois tenho multa honra em cumprimentar o senhor proprietário . mas os senhores e que não contaram com ela.Sou o dono deste chão. mas vão levando as túberas.Toca para a frente?!. Estava longe de o supor aqui? Homens.. Tiraram muito volfro?? .Vem errado? Bata além àquela porta. ao passo que rosnava: .? Entramos no que é seu..

cadelo? O Aires. de trabucos aperrados à boca da urna: Silvestre. É provável que experimentemos o filão. Luís Ougado? . Quem risca é o senhor Hincker. Minha não é.Ninguém sabe o nome do proprietário? ..observou Severo com afabilidade. tal filho? O Severinho não lhe herdou só os bens. que os bebeste de leite. Tens a quem sair. ouviu-se murmurar no meio do monte de gente a voz da Ana Ruça.Sei lá. como se chama? Premaneceram todos calados. Não ouviram? O apontador tomou nota.Tal pai. lá em baixo. O proprietário daquele chão.respondeu o nomeado. Algum minério apurei.Esta e aquela são do senhor Silvestre Calhorra.? .. sita ao Vale das Donas.. O Augusto Aires ficou um instante entupido.Raios te pelem! . meu homem. se compungida. Em virtude do silêncio que se congelava num tal concurso de pessoas. com. o Aires julgou-se obrigado a intervir. herdou-lhe as maneiras e a “ária”.. toca a virar a terra de baixo para riba.Tia Polónia Fandinga. dificil de dizer se artificial. Vêm estes ladrões lá dos quintos e toca a devassar.. o amigo não há-de ter razões de queixa. Não haver uma tranca bem mandada que desanque um para exemplo? Onde está a lei que autoriza. pateou o outro! Deus lhe fale na alma. Depois. a uma distância de 270 metros. aqui presente. perdi ali o meu grande amigo? .Mas estacou?? .e espremia uma lágrima. . Dado que assim seja. .. mas depressa reagiu. não obs tante se futurar pela hesitação que o dedo dunguinha lhe advertia ser melindroso fazê-lo: . Confronta pelo sul.Hábitos de ladrão tens tu. mataram-no os desgostos! Perdi.. como se faz em toda a parte. Venho aqui à luz do dia. Fez aquela promessa com tanta franqueza e sinceridade que o velho enterneceu-se e disse: . é provável.aqui andar a ciscar. Teu avô fazia parte da quadrilha que assaltou a quinta do Ferro. de quem é a terra? .. e tu chamas a isto roubar?? Se eu te rebentasse a alma.. surgiu de rainha Santa Isabel: 36 .Olhe. . toda lépida e espevitada. Sim. contra o atalho de pé posto. Mas uma rapariga.Temos: ponto de partida é a trincheira que se vê muma terra lavradia de Silvestre Calhorra.supremo remolhado de ódio . faz costas comigo. num crescente de cólera. Dou-lhe a minha palavra. cobrando o natural: . Os homens da fita vieram para Severo: como se chamavam os homens das sortes? . Brás. uma mulheraça ruiva que era caseira do Fráguas: . Tua mãe foi apanhada uma noite com um amigo a assaltar a tulha da Javarda Velha.Tu vens roubar com os de fora.. avançava para o Luís Ougado que recuava trémulo e de caradura torva diante das suas mãos crispadas.tornou o apontador. e ainda queres que te peguem na candela?! O que tu precisavas sei eu.Vejam o desaforo? já uma pessoa não é senhora do que é seu. já eu tinha dado no vinte. Onde um patear.De quem é. . Levantando os olhos do papel volveu: . não sei ainda o que vamos fazer. Estou a vê-lo na eleição danada que sustentámos contra os de S.

a quem queria obrigar a fumar um charuto. elha por elha. temos uma corga de tojo. mas a Pedralvita. tendo penetrado a conjura.Não me admiraria nada . alta e héctica. durante a qual o burburinho popular ruflou como enxame poisado nos ramos duma árvore. se bem que reputasse perigosamente susceptível o ânimo da populaça. .proferiu com um sorriso de galanteio o apontador.O que o senhor quer é saber quem é a dona da leira retorquiu ela toda dengue. para este.se é assim que se chamam uns aos outros na sua terra! Crepitaram as gargalhadas.” O Augusto Aires partiu a toda a pressa levar ao Dr. Hincker tão-pouco tomava as coisas ao trágico. vexado pela estupidez humana. . voltava às confrontações e dizia: . um destes havanos preciosos. A Ana Ruça.Como se chama vossemecê. Sempre seu amigo Severo Bacelar. pronto! . mais lombriga que gente. O.perguntou-lhe o homem do lápis.respondeu a criatura em tom de poucos amigos. segundo é notório. puxou da carteira e escreveu: “Excelente amigo: Se lhe não custa. decerto. Hincker. de nos acompanhar ao cemitério. em cuja disposição borbulhava já o espírito de partido. sobre quem o homem trazia os olhos. Diga lá o nome dela. não deixariam de sonhar. E.Que tal está a pouca-vergonha? A gente é esfolada e ainda por cima lhes há-de dar os améns? No que é meu não prantavam eles a pata.Pois.É de sua mãe!? . manhosamente. Cipriano.A 250 metros. entretanto. deixava-se ficar às espaldas da multidão para se não ver na contingência de dá-los ele ou alegar que os não sabia. que quero ir convidá-la para minha sogra. que a Hincker opunha Corbet e C. conversava muito camarada com Silvestre Calhorra.A leira é de minha mãe. Severo Bacelar. gostava? . S. muito surrona. além de compreensivo. chama-se com a boca . compendioso. O homem do caderno. ao seu lado.A leira é de minha mãe. a distância do poviléu. resmungou: . Carregava-me de calhaus e haviam de ver! Decorreu uma longa pausa...proferiu ao passo que assentava..Podia-me ter botado a adivinhar .tornou ela.Se lhe dissesse que se chamava com o apito. o Calhorra. Se a filha é flor como é que a mãe não havia de ser Rosa??. indicou-lhe com um leve sinal de cabeça uma velhota. A quem pertence? Ninguém respondeu. .a. lhe obedecem como ao Deus do Trovão. . ó tiazinha? . já sabem? Pois se já sabem. ante a perspect 'va nada risonha. venha aplacar estes selvagens que.Chamo-me com a boca . ao passo que distribuía cigarros a torto e a direito. O homem do caderno debalde esperava que lhe dessem os nomes dos proprietários confinantes. que tinha mau génio . o que por inverosímil trairia a sua má vontade. . Perdoe o incómodo mas. Estão assanhados à ideia de que viemos para lhes roubar os tesoiros de que reza o Livro de S. uma noite de rouxinóis e de borracheira. considero que lhe será menos penoso arrancar-se hoje ao remanso da sua tebaida que ter amanhã. Manuel Torres o faceto S.respondeu o homem desejoso de mostrar graça. O tumulto não amainava e ela repetiu: . .Mas eu digo: é a tia Rosa Pedralva. e com os quais. grandes e redondos como eixos de carro. procurava esclarecer a turba: 37 . .

Resta-lhes ainda um recurso: meterem-se por conta própria a fazer as pesquisas e. onde há granito assim por atacado. vamos. Tinham-no como uma espécie de manitu. e o vê-los assim pobres e tacanhos não deixou de inspirar simpatia e comiseração àqueles senhores.Ora digam-me cá: que é que vossemecês imaginam? Que por baixo do restolho há dinheiro. senhor Calhorra. lá em baixo. Pronunciam-se pela percenta. querem o dinheirinho logo ali na palma da mão. por minha parte. sim. a julgar pelo jogo fisionómico que ia observando nuns e noutros. quando os recalcitrantes se encontravam já na iminência de transigir. Os senhores pensarão o que mais lhes convém. Não foi dificil ao homem provado no foro e afeito a jogar com as paixões mais entranhadas demonstrar aos donos das leiras o absurdo da sua obstrução e ao Luís Ougado e quejandos o que havia de indigno naquele ar de cão de quinta perante quem vinha em paz e por bem. ou cobrar a percentagem que a lei lhes reserva? Ponham lá que para nós é o mesmo. acenando para a mulher: . as carradas e que nós já amanhã começamos a abrir poços e a tirá-lo?.gem. Não senhores. a Custódia. O senhor. se alguns houver. . Apareceram umas pintas de minério. ou coisa que o valha. Compreendem vossemecês?! Antes de mais nada temos de fazer sondagens. Façam. ali estiveram a apeguilhar e.. e nós vamo-nos embora depois de atupir os buracos que fizermos e pagar os estragos. O encarregado escreveu o nome e ouviu que o bicho acrescentava. Nós só teremos que nos felicitar por lhes haver ensinado o caminho. mas essas pintas aparecem frequentes vezes nas regiões da serra. que é um homem que sabe onde tem a cabeça. em atitude reflexiva. 38 . Manuel Torres. cabeça guedelhuda. já vêem que estamos por tudo! À volta. Para que serve a lei mineira e a fiscalização do Estado? Palavra puxa palavra. O dono assistia de soslaio. sem se dar por achado. Primeiro..A corga do tojo. . devem-nos ficar reconhecidos por tal motivo. Se não há mais do que isto.Qual preferem.afoitou-se a emitir o Calhorra. Faltava dar o nome dum pinhal com a sua terra de sementio a poente para a delimitação estar completa. e recebem a percentagem. então vossemecês são chamados e pergunta-se-lhes: . vender a terra. caso lhes sejam favoráveis. pronto.Não.Agora tudo são promessas.Haja de desculpar: cá a patroa é atrigada do gênio e mal-educada. apareceu o Dr. lá isso diga-se. que vigiam a produção. as suas palavras não deixavam de causar impressão. não sabemos o que há aqui por baixo. é minha. Dentro em breve estavam todos imóveis diante dele.. Se forem positivas... dizem-lhes a quanto monta a percentagem. E aqui está quem lhes compra ao preço mais alto o minério que extraírem. Não aprendeu como a irmã mais velha. mal vestido. As amostras não são muito tentadoras. excitada por uma má inteligência dos seus direitos e lograda por loucas miragens. Um homenzinho atarracado e barbudo como bode chegou-se ao sujeito do caderno e disse: . e os senhores. não lhes levanto dificuldades. não basta. salta o dinheirinho. e com desafogo delegaram nele a causa dos seus interesses. que está a servir aqui na casa do senhor Doutor.. Tratava-se dum homem de meia-idade. olhos de grande mobilidade a denotar inquietude interior e obsessiva desconfiança. há-de notar que não podia ser doutro modo.. uma razão ocasiona duas. justo e tira-teimas. Dou a palavra de honra que.? Era a rendição da pobre gente. Esta só tem lidado com brutos como eu. Mas. . é assim mesmo.. a proceder à exploração. os fiscais do Governo. Prante lá o nome: João Sancho.

entretanto.. e palavras foram as suas que operaram como água num braseiro: . tem razão a Bárbara confirmou o Zé dos Cambais. Modo de lhe valer no enleio. e tudo o mais que em matéria de corpos simples lhes venha à cabeça. Os operários. o Duarte deu um passo à frente. mas em quantidade tal que não pagaria o trabalho de tratá-la. rugiu: Aqui está o que hei-de fazer ao primeiro safado que entre no que é meu. disse: De facto. sim senhor. prata.Estivemos há tempos a ler a matriz. deu um passo em frente a corrigir: O senhor Reganha enganou-se. guarde? Rompeu grande galhofa. Duarte Ladeira. Sim. Eu não estudei. bem do outro. Alvoroçou-se o gentio. mas a nós só nos interessará se contiver volfrâmio na proporção de O.. Percebeu o amigo? O Calhorra acenou que sim. Bárbara. Isto não é a vinha de Nabote. mulher que devia ter sido bonita nos seus tempos. tem volfrâmio.disse o Calhorra. zinco. Mas levaria muitíssimo tempo a explicar-lhes como é que isso pode ser. a cascalhada mineral. Ouvindo nomear-se. O pequeno é o espelho do grande. Bárbara Ladeira. ainda que fosse uma criança que o fizesse ao desfastio. carregavam para o carro a ferramenta e. atirando o chapéu de palha ao chão e descarregando-lhe uma sacholada que o amolgou.Herdeiros de Joaquim Ladeira . Hincker perguntava: . Admiram-se? Tem isso tudo e até água. do mesmo modo que uma areiazinha é a sí ntese do planeta que habitamos. de volta do almoço. a irmã. mas sempre vão arrecadando? Este tem da malagueta. chamouo à razão com brandura e boas palavras. Anda em nome dele. Bacelar acudiu em continente. O Calhorra meteu a mão e tirou um pedregulho: Não querem pitada do que é dos outros. que acabara de chegar. Este filã o encerra oiro. isto é. não é .5% pelo menos. posto que duma palidez de rosa branca estiolada.. seja do que for. E. lá sabe. Hincker pegou da pedra e. mas pode vir o morraceiro mais fino que a mim não me engrola ele com a mistela mais 39 . Que descanse. encerra em maior ou menor dose tudo o que há de tudo no mundo. ferro.É um pobre que levou a vida toda a esfossar na terra e tem medo que lhe arrasem o que agenciou à força de suor e calos. dentro de dois sacos. acrescentou: . homem? Não esqueças que a terreola a talhaste no baldio. Manuel Torres disse-lhe. anda.. Faça de conta que uma gota de água é a síntese do mar. estanho.Não. O Calhorra ficou envergonhado e semelhante dito acabou por convencer a todos da lealdade dos vedores. O problema sob o ponto de vista utilitário está na proporcional idade.proferiu alguém. vencendo a sua relutância. amigo Calhorra. .Tem juízo. prata. Depois. ainda airosa de fisionomia e esbelta de linhas. Assente lá na sua o senhor Calhorra que qualquer parcela. enxofre.O senhor Incas lá estudou.E mentecapto? . E olhem: também tem oiro. O energúmeno espumava e fazia forte escarcéu com os braços. os elementos de que se compõe a água: oxigénio e hidrogénio. . Anda em nome de meu irmão. depois de a mirar bem dum lado. sorrindo: Guarde.

Companhia de seguros..Reservando-nos para amanhã . sem fazer caso aparentemente do que dissera o Calhorra . . pela fresca. mais ou menos em vias de organização. Bacelar. Basta-me olhar-lhe para a cara e vê-Ia reluzir.É em Berlim. fome e miséria nos povos. Silvestre Calhorra agradeceu de rosto prazenteiro e com urbanidade.. Depois..Que diabo. é pouco de apetecer.Manda a Hermann Góring Werke.. muito cordialmente. por agora. a caminho da estrada. e digo logo se é cristo. um feitor já nós sabemos quem há-de ser. lá continuaremos o debate. Apólices para todos os riscos e flagelos.Só se guardarmos o manifesto para esta tarde. escusavas de chamar estes piratas para o povoado! Mas.Sei que há aí uma empresa. alijado o ar jucundo. deixe lá as discussões para melhor ocasião? gritava-lhe Hincker à beira do carro... de tarde. Diz-lho um homem que ficou com as pernas tolhidas à força de o passear de cá para lá e vice-versa.Manda o Führer? . o alemão julgou-se obrigado a dizer para o velho troglodita de barrete de coelho: Senhor Calhorra. O Calhorra.respondeu o engenheiro em tom igualmente facecioso. E o ósculo de paz do vencedor aos vencidos para que se conformem. invalidez.Conheço a receita. com ar de ponderar prós e contras. em tom de meia seriedade proferiu: .O caminho para Orcas. tirania. Manuel Torres dizia-lhe familiarmente em tom de chalaça: . Não lhe quadra ser agente? Manuel Torres desatou a rir. se é judas.? Dirigiram-se para a estrada a passo dobrado. se me quer dar esse prazer. diz bem: conflitos entre nações....disse Severo. se chegarmos a montar aqui os serviços. dizia entre dentes para o Augusto Aires na pressa furiosa de dar a ferroada: . Severo ouviu que o capenga.? Ficaram calados Severo e Aires.. Sempre debaixo de pinhais. O automóvel dos operários largou a toda. Manuel Torres inclinou-se. Führer? Não conheço .. topam homem? 40 .O nome não me é de todo estranho. . Manuel Torres. Mas no próprio minuto em que o chauffeur puxava o motor de arranque. Manuel Torres ia a despedir-se.Alma de cântaro. mas suspendeu-se para deixar Hincker acabar o recado: . Ora espere: a sede não é em Berlim?. Braço no de Severo. não? Pelo menos o nome soa a esse ramo de negócios. .? Ou para amanhã. . chega-se lá assado com o sol. Ombro com ombro. entremeteu-se: . Dr. deixa. que estendera o gargalo como o grou para hipotético cibato..bem cozinhada deste mundo.. ignorância.. em cujo quadro não me importava de entrar: Nova Europa.Pense no almoço ou apostou que me havia de arruinar a saúde. Poucos irão na fita! .estão convidados para uma almoçarada em minha casa de Mouramorta. Vão bem melhor amanhã de manhã. .

o esforço do homem cerebral que aprendeu primeiro a teoria do idioma e. correu a sossegar a dona de casa alarmada. com a própria mão que segurava o chapéu. Irene e o sobrinho desceram a escada a esperar Paula e o pai que avançavam. de calças arregaçadas do regadio e peitaça lanuda ao léu. Não havia dúvida que falava muito correctamente o português. Severo não se tinha anunciado. nunca o fazia sem delatar certo esforço. pelo pátio saibrado com areia do rio. Havia uma pequena alteração no programa. D. pular com desespero para as trancas de ferro. Tenho ervilhas frescas.Reconsideraram muito bem . no rosto e sorriso de visitante reconhecida verdadeiramente uma estrangeira . Como vinha aí um sol desabalado. . O Meirinho. e não faça cerimónia? Se a tia. quando fala. Quando se propunha falar o português literário. e era de presumir que visita tão matinal . Foi por isso que. e.. disparando pátio fora.III Só ao quarto ou quinto toque de buzina é que a velha casa de Mouramorta acordou. O senhor Hincker cumprimentou a boa senhora com excessos de urbanidade e repicando as palavras. lá vêm eles. D.. com óculos de escafandro.Com quem tu entenderes. Parece um claustro! 41 . mas o português correntio aprendido na vida das relações.. Paulinha.. entorpecida no seu recosto de faias e álamos sob os langores da madrugada.. anunciou-se milharal fora pela esteira que levantava o marulhar dos pendões.Está bem de ver. Manuel Torres. porque ainda não tenha prática suficiente.Essa menina tem alguma necessidade de ir apanhar a réssega? Que venha. esbelta e sadia. viu-se afinal. .. cabeça quadrada imponente. nem se fala nisso. a menina do senhor Hincker. ficava com a tia Irene enquanto eles chegavam a Orcas fazer o registo. sombras que o movimento cadente da água tornava ainda mais voláteis: . que acumulava as funções de abegão com as de porteiro. Mando cortar o pescoço a dois frangos. está a ver cada frase. Irene ficou um pouco esmagada ante aquela rapariga de carnadura rósea. Ao mesmo tempo. sem importância. à volta. . o guarda-rios trouxeme um prato de trutas. nos quiser oferecer o almocinho. . descreveu um círculo que abrangia os álamos. em seu desdobre lógico e sintáxico.oito horas solares . Olha. discreto em seu recorte. na alpendrada. admirados da boscagem. Mas o senhor Hincker tratou de se pôr à vontade.Dá vontade de pegar aqui de estaca à semelhança destas árvores. E. em nada o bigode hitleriano tão em voga.O que a tia destinar. não se preocupando de deixar a descoberto o minguante lunar dos cabelos sobre o occipital. mercê do que a boa senhora perdeu o ar tímido e só por isso rebarbativo. olhos muito azuis e móveis. Conte também com o Dr. e as sombras frescas à volta da bica de pedra. o que dava nas vistas e lhe sucedia sempre que procurava falar com elegância e precisão... bigode tostado pelo charuto sobre a boca pequena incisa com firmeza.e não menos ante aquele senhor alentado. estão com sorte. os loireiros-rosas. pois.causasse o mais dramático sobressalto na casa desprevenida. . mostrava-se a cara surpresa e um tanto perplexa da boa tia Irene.exclamou ela.

com a outra agitava o abanico. Estava há menos de dez minutos em Mouramorta e. quando viajante. que passou a Severo. e dada a familiar curiosidade que lhe permitiam as relações com Severo pôs-se a vistoriar a casa. a história imaginária da propriedade. a dar uma dedada aos cabelos. Do modo mais natural deste mundo. convidativos como braços que fazem sinal para subir. Tão-pouco se diria o estrangeiro pisando terra de roça. poeta romântico ou impressionista . Tudo isto fez em menos tempo do que a filha levou a tirar o chapéu no quarto da tia Irene. e são espirituais segundo a mão que as maneja. Os indivíduos que assim têm o poder de repartir-se . antes se mantêm prontas ao apelo.quando homem de negócios. Repare para o tecto. em sua disciplina. ou com a brusquidão própria da gente afeita a ir depressa e incontemplativamente. a despeito do esquemático. desobsequioso e brutal. sentou-se. depois ante o panorama da Serra da Estrela. fixado tudo na retina. outro olhar meio atento pelos campos. possessivo.e a volver ao salão. Observado tudo. revestidos de glicínias e rosas de toucar a todo o ascenso. Mal puseram pé na sala de estar. Paula exagerava a sua boa impressão.Vem de pais? . percorreu com reverente e mesurada pausa os quadros pochades de modernistas e tabuazinhas de primitivos portugueses . E cruzando a perna e puxando da charuteira. exprimindo além do dom de circunspecção ou de oportunidade. gordo. .proferiu. destas ventarolas de papel que distribuem os teatros e restaurantes caros. O engenheiro advertiu: . Por muito que se procurasse. visto ter-se reduzido a sala a 42 . não se descobriria o potentado que movia caudais de oiro e trazia às ordens um exército de homens. galantuomo. ao passo que acendia o fósforo.Está aí na corrente. como a seres animados.Oh.estão por sua natureza proteica destinados a dominadores. Foi copiado à risca do antigo. um à-vontade que o tornava eminentemente social. esponjou-se com o lenço. Era um sorriso amplo. reclinada no extremo horizonte sob purpúrea e roxa gaza: . deu uma torção ao pescoço como se quisesse subir um ponto numa cremalheira.oh. As suas personalidades não se atropelam como no ser vulgar. sehr hübsch! Sehr hübsch! Com a mão direita fazia uma carícia às rosas. homem de negócios. não se descobriria no senhor que ali estava espraiando um olhar ocioso pelos quadrinhos da parede. exclamando a cada flor mais especiosa. É em castanho novo. Era o caso de Hincker. .. tal um filme de grande metragem.. quando homem de sala. e ia puxando as fumaças do havano.depois do que foi observar da janela a paisagem agrícola com este olhinho refiro do homem de negócios que não admira a bucólica sem deixar de pulsar a puberdade e o rendimento do solo.Esta casa foi adquirida e adaptada. em seu cérebro devia estar ainda a discorrer. veja lá se lhe faz mal?? O senhor Hincker sorriu com o ar suficiente com que na sua terra era costume dizer-se: um homem honrado tem medo de Deus e de mais coisa nenhuma. o senhor Hincker atirou o chapéu para cima dum tamborete. a avivar o cinábrio da boca . Naquele sorriso palpitava-se o tipo de acção e com a superioridade mental precisa para poder responder em qualquer emergência pela sua pessoa. se o encarregassem de compor imediatamente um relatório sobre a povoação e aquela casa assolarengada. era capaz de se sair com honra. uma sombra quase subjectiva .Nesta casa respira-se bem o século XVIII .Pisaram os primeiros degraus da escada de dois lanços.

Na entrada do estio. E concluiu com um tom de voz que pretendia ser desopresso e vinha carregado de mortulha: . do ramo dinamarquês. minha senhora. Irene. Notícias. A estepe. proferiu: . boas. coronel.e como um homem do Norte empina sempre que pode e um português nunca se julga desobrigado de fazer uma perna.Também temos assim muito no SchIeswig. cavacas de Freixinho . o paladar e o olfacto. Está então decidido: a menina fica? 43 . primos. um sobrinho. numa divisão Panzer destacada nas Marcas de Leste. Mais ao norte. o outro. acabouse a guerra. O século XVIII entre nós conheceu o fausto. Se a Alemanha abater a Rússia. desataram a beberricar. Uma criada trouxe uma bandeja com fálgaros da Tabosa.É conforme. associados. sentenciando: . via-se bem. . Novamente abriu os braços num gesto cheio de vago e indefinido. Sempre assim se mostrou.e Hincker torceu-se na cadeira a encher novamente o seu cálice de Porto. já se deixa ver. do ramo nacionalizado alemão. o censo da sua gente apresentava-se assim: o filho mais velho. no Hartz a curar-se da arranhadura duma granada que o atingira por cima de Coventry.guloseimas da região . umas três vezes do seu tamanho.Por enquanto as clareiras não são grandes.Teremos ainda guerra por muito tempo. mata uns. Meu pai mandou reduzir esse verdadeiro Ringbahnhalle e andou bem. estropia outros. a segunda cidade santa dos Vermelhos. Irene.tornou D.dimensões muito menores. senhor Hincker? . A Europa é um solar. estropiado em Crera. grande. mas com um só alçado. no dever de mostrar-se optimista e manifestou: . achou de primeira civilidade inquirir dos entes queridos que o senhor Hincker trazia na guerra. Delicada e lentamente. mas a guerra é uma devoradora insaciável de homens.Formidável? . mas ignorou de todo a comodidade. os nossos exércitos avistam Leninegrado. O estilo que se adoptava aqui adoptava-se acolá. está meia vencida. Mas sentiu-se. a seguir a este. Ao terceiro cálice. Os ulanos do marechal Von Rundstedt já há dias que chegaram os cavalos a beber às nascentes do Dnieper. . outro aprisionado em África. Quando éramos pequenos fazíamos aqui corridas de bicicleta a toda a volta. E então vitória em pleno. o mais novo nos submarinos. Pena foi que não déssemos conta mais cedo! D. um irmão. isto é. levantando-se. saboreou o vinho fino até a última gota. As notícias chegadas recentemente são animadoras. o senhor Hincker media de novo com o olhar a amplidão da sala.Mas nós não viemos aqui para resolver a crise do Douro. Decorreu um grande silêncio durante o qual todos viram desfilar uma procissão de aleijados. Ele abriu os braços num largo e teatral gesto de incógnita e fatalidade. vadios e fantasmas. consoante a fé germânica. por outro lado as divisões couraçadas de Von Bock avançam para lá de Kiev. . nem boas nem más. já não tinham conta os feridos e os mortos. morto em França. que viera fazer as honras da casa. repercutia além fora. Era inconfortável de todo ao que era de grande. Depois do que. o espaço. aviador. devia ter tomado parte na ofensiva contra a Rússia.O diabo é que a Hidra tem duzentos e cinquenta milhões de cabeças emitiu Bacelar. escangalha a maior parte.

bem vai. outro fazendo dançar a bolsa de oiro na ponta da corrente. Talvez. panne não inculcava que fosse.. A coruta. Fora duma dessas bouças que abatera o pinheiro.. diante do guicbet. Será possível ultrapassá-los? . conformada. Pé no acelerador. Há meia hora.elucidou Severo. mister Corbet. Augusto? Do Corbet? . de pé em frente dela.disse Severo tomando o volante.murmurou Paula. ao fundo da aldeia iam a 90. correu a contar o que se tinha andado a fazer no Vale das Donas. o Augusto Aires. de si alagadiça.. atravessado na via a todo o largo. logo breve subida. De quem era o carro.Daqui lá temos menos de vinte quilómetros.Não vi.Em última análise.Que há? .. dois quilómetros adiante.Talvez seja o do Fráguas.M. . Passaram em Malhadas a 110. saindo-lhe ao encontro.Há-de ser dificil .. . Esse carro era o do Antoninho Fráguas. e em face da aparição imprevista Severo augurou novidade. O excelente B. Temos tempo de sobra. . A questão é chegar primeiro. Se não for o do Corbet. dizia para dois pastores embasbacados diante dele. Sucedia-se uma baixa. Registo: um quarto de hora. como nastro que abambou. em cima do tronco. e lançaram-se ladeira acima a 80. De pé. O carro tinha estacado diante dum enorme pinheiro. que passaram. Mantiveram o andamento ao atravessar Pedrões. Devia esperar por eles em Malhadas.Ida e volta: uma hora. visto à esquerda as terras serem em socalco ou muradas e à direita bouças com mato alto e pinhal. um dedo espetado para o chão.Mas conta o azar . ao desabar. muito esbaforido. Severo rejubilou em seu íntimo. É verdade que em tão pouca distância a velocidade não conta.. .respondeu Severo. em despeito do carro de feno que ia fora de mão e lhes surgiu pelas chedas numa curva apertada.São dez e meia. se lhes deparou um carro parado. e neste jogo iam a recuperar a velocidade quando ao alto. . mais migalho.Como sabes? . meio divertido: 44 . enterrara na margem. Foi a Ruça que.V.redarguiu Hincker. sobre a ponte de viés. jungido ainda ao cepo por um feixe de fibras vigorosas.. que não acontecera. A repartição só abre às onze. Hincker tirou o relógio e disse com a maior fleuma: .Se não se demoram.O Corbet e o Antoninho Fráguas já lá vão adiante fazer o registo. O Antoninho desceu-se e foi à taverna saber o nome por extenso dos donos das terras. . menos migalho. mal os senhores ontem viraram costas. soberbo em seu alor e robustez. Pelos informes estou em crer que fosse o calhambeque do Fráguas.Pararam em Malhadas. Que acontecera.perguntou.. as grossas e revelhas franças tão profundamente que dir-se-iam outras tantas raízes que por sua vez firmavam ao solo a árvore secular. disputa-se a primazia a sopapo. . . Não havia possibilidade de obliquar pelos lados. se tanto . Leve afrouxamento à passagem do rio. . O Fráguas corria pelas leiras. decerto à procura de gente que lhe ajudasse a remover o obstáculo. nem resfolgava.Vamos lá. para não dar nas vistas. Temos esse direito .. Desceram a escada. Nesse momento entrava o portão. em todo o tope. . com ar meio atónito. Uma hora e quarto.

O pai. além de bem 45 . voltava a aparecer. relapso à escola. Vocês chamam homens. não houve passaporte que a sua falta de escrúpulos. havia que tentar a vida. direito visivelmente ao lugarejo da Franja. barbeiro. Bravio por semental. sozinho. duma acerba e incontemplativa heroicidade. O exercício dum mester tão à parte permitiu-lhe ainda praticar as artes de D. burlar os da sua igualha. nariz adunco. o casamento. extorquindo-lhes os mais desmarcados juros e alcavalas. Em Muradais havia uma menina. cacique nas horas vagas. duas farripas loiras a voeiar no toutiço. largara-o à lei da natureza. o uso da gravata e as mãos brancas no meio primitivo acabaram por imprimir-lhe o diferencial necessário. não falsificasse ao sabor do freguês. Tentou o que ele chamava o principal negócio da vida. tanto Severo como Hincker conheciam-no de ginjeira. nunca chegando a compreender os homens nados dentro das três dimensões da vida moral como é que as autoridades não punham a mão na lapela do chatim. O diminutivo com que ficou a ser conhecido pela vida fora caracteriza bem a metamorfose. Sim. se eram bonitas. Ao Antoninho. As suas tranquibérnias deram brado. se alguma coisa contavam de seu. por sua vez. magro. se metera com ele a monte através de bosques e penhascais. alcançaram um ponto da raia seca onde a troco de boa espórtula um hombre de Dios se prestou a passá-los para Espanha. ainda sua prima. o pescoço desenrolando-se como um sem-fim do alto colarinho de goma.Eu pagar bem. Juan sertanejo junto das mulheres dos embarcadiços. o José Francisco. De déu em déu. Havia na sua postura. Mas este ramo de negócios. Agente de várias Companhias de Navegação. preocupado apenas com a solução do problema. se vocês tiram árvore. já toda a aplicação de criança se lhe exercera na arte de assaltar os quintais.. Armado de dentuça afiada. filha de brasileiro. aquele era um famoso exemplar. Solange. com um pé na trampolinice e outro no parasitismo. unhas rijas e braço teso. eu pagar bem. lembrava uma ave pernalta de jardim zoológico. servida por hábeis calígrafos. e clientes de alto bordo às penitenciárias. Tomou-lhe o gosto e deste jeito se lançou no ofício de engajador. No seu poleiro. embora cultivado assim à grande e com toda a sorte de agilidade. caminhava noutro rumo. tinha muito de aleatório e periclitante para quem se sentia tanazado por uma fome milenária. Aos vinte anos um bambúrrio pô-lo na pista duma indústria. mas. que se eclipsara por trás da lomba dum cabeço. mas apto mercê da audácia congénita a tentar tudo.Eu pagar bem? O Antoninho Fráguas. qualquer coisa de leviatânico. levado por igual motivo. qualquer vida. esguio... Ridículo? Not in the least. Era enfezadinha. Ficara assim com letras gordas e princípios morais muito precários. No gênero do escalracho humano que ataca o alqueive rural e se torna o flagelo do camponês. que coara parte da meninice internada num convento de religiosas. E prosseguia no aranzel. sólidos como cavalos. meia desplumada e azarenta. tendeiro. Sucedera um dia que para salvar das malhas da justiça certo bardino que por arruaça chacinara um pobre gaiteiro em entroviscadas de arraial. insulado. sem disposição decidida para coisa alguma. que passou a ser o eixo da sua actividade. jogar a pedrada. Gloriava-se de roubar à mochila mancebos na idade militar. chocalhando as libras: . Tanto bastou para tomar-lhe o gosto. para lá de todo o ridículo. e as de usurário. em baixo. Oscilante entre rústico e fidalgo.

e agarrou-se com unhas e dentes. dos dixe-me-dixes quanto às baldas do pretendente e ao mulherio com que podia encher um serralho. veio ele a apurar em fonte limpa que o sogro com jogatinas de Bolsa mal sucedidas espatifara a fortuna e dera com o comércio de secos e molhados em vaza-barris. Marcanciou em cavalos. Concomitantemente. mãe do rapaz que agora ali corria pelas terras. que hás-de fazer. Brás montou uma taverna. por cujo selo ia dobando uma estéril primavera sem pássaros nem flores. a saibrar. Em despeito de tanto afinco. À força de colear e de brando jeito. volveu da alçada a jorrar sangue pelo nariz e com um olho a repolhar na órbita violácea. a murar. Entregava-se esta empresa à compra e produção de matérias-primas para a guerra e fazia-o com uma abundâ ncia de capitais e uma largueza de processos dignos do maior império a que tem alumiado a rosa do sol desde que o mundo é mundo. supremo dom de sedutor.educada. Surgiu a guerra. Solange só deu conta que fora lograda no dia em que. passava por vir a receber uma legítima como nã o avultava segunda na comarca. protestando contra o comércio que o traste do marido cometia em sua casa com criadas e jornaleiras. Com efeito. à testa da qual pôs a amásia. das depredações de mateiros e pastores. melenas que lhe desciam para a fronte. em S. Mas foilhe preciso ir guardá-la. solipas e materiais de construção. Foi a quadra negra da sua vida. picado das bexigas e quase desproporcionado de estatura. que o via a arrotar grandezas. antes carão sobre o comprido. Chegou-se a gabar de sete amigas a um tempo. Não era o que se chama bonito homem. não a deteve no pendor. que representava em Portugal a Chester and Brothers London W. computada para cima de trinta hectares. mas em verdade de mão beijada. uma tira de serra. Porfiou. Mister Corbet. lobrigou no valdevinos o seu príncipe encantado. retirada da canastra da sardinha e do comércio dos ovos. A família. Cortejou-a. arrancavam-lhe as plantações. A pobre. Em despeito das advertências. conseguiu que lhe entregassem a título de aforamento. que não se conformavam com o esbulho. Mas era de raça para grimpar. ombros largos de mais para a cintura muito fina. deixou-se enviscar. Explorando com astúcia e fingido fervor as reviravoltas da política. Que fazes. De dissabores e arrelias compensavam-no as mulheres que neste e naquele poviléu se arrepelavam pelo galo doido. ia ele nos quarenta anos. a porca da vida não endireitava. olhos de pegar o fogo em palha molhada. seria duns tios que a menina tinha em Malhadas da Serra. Ainda e sempre construía na areia. era cheio de ralé e. palpitou-lhe o comércio dos metais. Era do mais fértil que havia no baldio e trouxe ali a arrotear. Mas tinha uma voz de veludo. faltos de herdeiros directos. e deitou olhos aos horizontes. conseguiu insinuar-se no ânimo de mister James Corbet. tão parecido com ele como o ovo dum cágado com outro ovo do mesmo cágado. a Júlia Minga. grandes maltas de gente que pagou tarde e às más horas. de quem eram celebradas a indulgência para com os pecadilhos duns e a magnanimidade para os leais serviços doutros. era bem 46 . de trabuco aperrado. O seu leme era: antes ladrão do que pobre e estavam explicados todos os claros-escuros e bocas de precipício do seu caminho. metiam-lhe os gados aos renovos e quimavam-lhe as cardenhas. atrevido como os que o são e brutal. Se por este conduto alguma coisa ainda viria a pingar. mal virava costas. fez-se empreiteiro de estradas. lãs e cereais.

ele não o ignorava. outras que valesse a pena fazê-lo. a quem meteu a faca . Entretanto apareciam os primeiros homens de socorro. Mexera. com ele saíam sempre tosquiados. Aires e chauffeur. Até onde iria ele com tão robusta saúde e insaciável fome de lobo? Hincker e Severo conheciam-no por fora e por dentro. do Banco de Portugal. como se tal missão lhe coubesse a ele que chegara primeiro e pretendia passar primeiro. Esses e os pastores. símbolo da sua nação. Severo. Pedir reforço. . Diante deles o morraceiro não dizia palavra. mas quanto 47 . Os pacóvios vinham das serras com o volfrâmic. gesticulando: . vendo a separadora a funcionar. o senhor esquipático flauteava. de pistola na mão para queimar os miolos. o rei da “mangola” no entanto não se deu por achado. compravam a olho na febre de enriquecer. e por isso mesmo se temia deles. e prosseguiu nas diligências de remover o estorvo. 10. entregava-o na Sobriga contra os pacotes. 14. encostaram ombros ao lenho. Vinte homens não chegam para a remover da estrada.esteve à beira da ruína e. A mesma mixórdia dizia-se que impingia a mister Corbet. para que nem sempre conseguiam comprar guias falsas com que fazer a exportação para Inglaterra. Foi o princípio da sua carreira triunfal.No. protegido por grandes e misteriosos poderes. nem dentre as pessoas que estavam em baixo se julgaram umas com direito de o apear. com Hincker. com Fráguas. Os picardos do Porto. Praça Filipa de Lencastre. pode dizer~se com a boca na botija. Acontecia-lhes assim levar por alto preço toneladas de titânio e ilmenite. “percam-se os anéis e fiquem os dedos”. Dominava agora o Alto Paiva. no. além de que lhe estaria porventura a carácter. outros assomavam no cerro. irem chamar muito gent& Depois que se inteiraram do entremez. à qual de princípio esteve associado um outro escopeteiro do mesmo calibre. sem compreenderem todavia como se encontrava a impedir de todo o trânsito aquela bisarma de madeiro.Não se matem . ou simplesmente resolvidos a cometer lance tão aventureiro. os pastores afoitaram-se a alijar as capuchas e. pelo que revelavam de insciência na mascambilha. apoiando o peitaço contra o lenho e fincando as tamancas no chão. no tempo em que era visto com olhos confiados. alcunhado a Fera de Macinhata. sessenta e cinco unidades pelo menos. novinhos em folha. a voz que define o Britain's rule em todos os tempos e lugares escapou-lhe novamente dos gorgomilos chupados: .o reflexo da política tão realistamente maleável da hora difícil. Um tal Leónidas Seixas.disse Severo. Surpreendido em plena estrada. com escritório no Porto.na sua fraseologia pitoresca equivalia tal modo de dizer a passar o conto do vigário . viu-os esbracejar por baixo dos pés e. Eu pagar bem. sem lhes ficar o recurso de recorrer à autoridade. a quem chamava caloiros.Eu pagar bem! Hincker e Severo retiraram a sacudir as mãos embodegadas na resina e nos cogumelos da carrasca. em seu desespero. Sôfregos desta laia. Ele erecto. em bruto e trocavam-lho nataverna a metros de chita e a rabos de bacalhau. imperturbável. parte do vale do Vouga. involuntariamente. que faziam 9. Por cima deles. seu patrão. O volfrâmio genuíno. Cumprimentou-os com desembaraço natural. Mister Corbet não se deu ao incómodo de descer. e davam-no já como a abarrotar de rico. Financiou-lhe o inglês a montagem duma separadora em Tendais. Alres deitou a mão a um galho da árvore a experimentar. Hincker e os seus saltaram em terra e cortejaram. Tendo acabado por decifrar a linguagem de mister Corbet. despediram o alento todo: há! há! O tronco nem buliu.

mal se anunciando pelo estridor. compreendeu mister Corbet que a partida estava seriamente comprometida. menos um do que há pouco. entretanto que Corbet e Hincker. pois que no segredo de suas almas se mordiam como cães. pulso rijo. Quando viu crescer daquele modo o arraial. Olhava em volta à espera do auxílio providencial que um inglês acaba sempre por encontrar em terra. Em poucos minutos estava dado o corte do lado da coruta. ao passo que exclamava: . ao fundo. foi precisamente no seu prolongamento longitudinal que se puseram a serrotar o pinheiro. se entreolhavam com silenciosa e correcta frieza. e na projecção visual do pára-brisas desenharam-se um padre à secular. E. voou. marrados um no outro como em match. Claro. estacando par a par com o do Fráguas. M. o inglês tirou o chapéu agradecendo galhardamente. E em poucos segundos de conciliábulo conceberam um plano. M. tranquilizou: . este de sentinela a meio da estrada. Quando viu aqueles treze peitos debalde apostos a virar o tronco. V. largaram a correr em sentidos diferentes. no. formulou mais uma vez: . levemente molhado de desdém. já os automóveis trepidavam. circunstância donde emana o seu optimismo (inico e inexaurível. mais nítidos. a buscar um serrão a Malhadas. tocado pelo José Francisco. Mas esse auxílio não chegava e a sua ânsia devia superar a da boa irmã Ana. os contornos versicolores. E com entono de coragem. além da experiência requerida. a chocolateira depressa se esvaiu à retaguarda no pó e frondes do caminho. de desenvolver a fortaleza. Eclipsou-se tudo. As apertadas e sucessivas curvas tolhiam o B. Hincker. depois de contar as pessoas que vinham a caminho. prático em derrubadas. Mais gente ou então ir buscar machados e serras para cortar madeiro. esfalfada. O automóvel de Hincker.Thank you! O senhor. Severo disse a meia voz para Hincker: . tornaram a relampejar. no mar. Atacaram depois ao centro.Não há-de ser necessário. Por fim. aliciados ao esterlino. Em resposta. arquejante. um 48 . Mas assim que se lhe deparou uma recta. Os zagais. Mas um inglês joga até resto. mais a que aí está note que já se foram embora dois – somam treze. no meio dos pinhais negrejou um bando de gente. Aproximavam-se da vila. depois. tal qual suas índoles e temperamentos. Com uma leve mesura e gesto mal esboçado da mão. lançado a fundo.Antes de nós não passam.. aquele do seu posto como de gávea. Serrar o tronco. Primeiro que tudo o Aires e chauffeur despediam no B. A gente que lá vem. chamar mais gente. o rabo-leva gris do arrabalde entre hortejos e devesas. ficando nós de braços cruzados. Hincker convidou o inimigo a passar. quase mudo.No. o senhor primeiro? Arrancaram a um tempo.. Metralho-lhe os pneumáticos. com a quadrela do campanário a escornar no tope. Eram as duas nações face a face. Ainda um galão. rodar depois o lanço para a berma. V. no deserto. Relampeíou à direita em espanejamentos losangulares de cal e vermelhão uma nesga de casas presunçosas. ali como no resto do mundo. mais estrepitosa que um ciclone.a arredar nem polegada. Tanto o Aires como o Urra tinham. foi obra dum sopro. serras e o Quim da Urra. chegou de rompante com machados. Mister Corbet mostrava o mais azarento e enjoadíssimo esgar que se pode supor em rostos glabros.

sem tirar nem pôr. Eu leio para que Vosselê ncias fiquem inteirados. não teve ainda tempo de atravessar o Tavolado. com o brio dum antigo porta-machado. uma sertãzada de carne fresca de porco. Para mais é coxo! Desceram de afogadilho. de Malhadas da Serra. Madrugou. Estacaram diante dos Paços do Concelho e com repousada confiança subiram a escada. o amanuense observou: . Orcas da Beira. saíra de casa com a alba sem outro lastro além dum cálice de cachaça e duas buchas de pão. abancado a uma fritada de marrã. que não se deitariam à vila mais cedo do que o necessário. pela mão diligente da Eduarda. nem os judeus quando entraram pelo Horto das Oliveiras dentro a prender Jesus de Nazaré. medição. uma destas fomes caninas a tal ponto azougueiras que os seus olhos quanto enxergavam era baço. de que rescendia pela taverna o aroma inebriador. calculando. .. com efeito.senhor de coco. . Como tramóia não fora mal urdido. Mas nem no vestíbulo nem nas imediações levantaram rasto do Calhorra.. imperturbável e cravado no charuto como adem num espeto. O engenheiro Severo Bacelar entregou ao amanuense. foi pelo livro próprio e declarou: . confrontações. mas que mal se estava garantida a prioridade? Ao balcão tropeçaram com o Calhorra e tiveram um vago palpite de moiro na costa.. sem trair na voz a menor contrariedade.... Felizmente a Divina Providência. Hincker quedou um momento em silêncio e. E estava na incomparável operação de deglutir quando a porta se abriu de rópia e viu avançar direito a ele grande tropel de gente. Credo.Vossemecê por aqui? .Se não está no edifício. O velho gabiru lá estava.É como vês.Para onde iria o homem? Sem disfarçar o lume sardônico que lhe chispava dos olhos. muito alevantado e pisa-flores.disse-lhe o Aires. salvador do mundo! De soslaio notou que traziam cara de poucos amigos. a par da sua Verónica. Leu o registo.Apresentou-o o homem que aí estava: Silvestre Calhorra. Além de que a febre do lance não o deixara cobrar sono. 49 . . com um bolo e uma garrafa de vinho à frente. Não tiveram necessidade de comunicar os seus pensamentos.A gente da serra costuma ir petiscar à casa da Eduarda ponderou o Aires. segundo o jogo das probabilidades. que há tanto devia ter aberto a Secretaria da Câmara.Que me diz? . É o mesmo.. Para lá bateram de espora fita. Silvestre Calhorra sentia fome. De chofre penetraram a traça do velho raposo: fora ele que mandara atravessar o pinheiro na estrada para ganhar aquela meia hora ao balcão da Secretaria. . o manifesto lavrado nos termos da lei. propinou-lhe.. . que se levantou a atendê-los... pode dizer-se. perguntou: . além da sopinha de rabo de boi.Talvez o ladrão lá esteja. nomes.. Chegavam com atraso de meia hora. correspondia aos dados de que eram portadores. e dois garotos a repartir um talhada de melancia. e dispôs-se a matá-la dignamente. O funcionário leu. quando ele se escamugia. menos Hincker.Este manifesto acabei há instantes de registá-lo. e em tudo. Quem tem cuidados não dorme.

. Depois. Sim. retrauteou: . . vamos lá a ver o que a coisa dá. Os filhos saíram uns pilordas que para pouco mais prestam do que para virar a malga do caldo e a caneca do vinho. associar-me não quero. conhece o chão que pisa..Nós não viemos para ouvir as suas lástimas.São servidos? . . Mas o que está por debaixo da terra não é como isto de perdizes que se tiram pelo faro e saltam ao nariz dos podengos. está bem? . plantou olhos em Hincker.Estamos aqui para fazer negócio . Viemos para fazer negócio. como ia dizendo. os senhores nunca tinham aventado a malhoada.... depois na parede e. .Para fazer negócio? Pois vivam lá.volveu dirigindo-se assinaladamente a Hincker e a Severo. se tenho por uma casualidade guardado o volfro. Pois..articulou Hincker. nada menos de setecentos quilos.Não sei o que o menino quer significar lá na sua retorquiu-lhe com voz paciente.O amigo Calhorra podia usar processos mais leais exclamou Severo com ar agastadiço. estão com o seu homem.. pois então! . não há dúvida. O senhor Incas aprendeu nos livros. pedra a pedra como nozes.Olé. Depôs o garfo contra a borda do prato.Está bem. hoje tinha pregos de oiro pelas paredes. pique que pique. Vendo. . vendo o registo. para maior desgraça com umas pernas que nem cilindros de estrada. Dóilhes? Quem descobriu o filão. meus senhores das barbas honradas? Quem é que primeiro lá quebrou as unhas a esgadanhar? Fiquem sabendo: aqui onde me vêem apanhei lá e no rebusco em redondo.Esses nem aprendidos numa escola de gangsters! . Ponho a mão numa Escritura que não aventavam. É preciso andar a fusgar. Se serve. rape que rape. Uma fortuna pela água abaixo! . Outro ardil não lhes deu o Diabo. mas é para que não suponham que me comem por asno. aqui o menino Severo tem prática. para se descobrir? Estou a ensinar o padre-nosso ao vigário. respondeu: . bem sabe.Você sempre nos pregou uma vigarice!.Assim com'assim.. serve-lhe?. Estou pobre.. Vendo-os circunspectos. mas encrespando bem visivelmente as sobrancelhas. proferiu erguendo os olhos.Associar-se connosco. . que não fosse a do Cadelas. a moer. sem prestar orelha à invectiva. senhor Silvestre.Nunca andei noutra escola. quem ma fazia eram os senhores se durmo a manhã toda na cama. .Que espécie de negócio querem então os senhores fazer comigo? . por muito que sejam dignas de dó. lá porque lhe parecesse que tanto o Incas como o Severo se acobardavam de romper fogo. Larguei-o à razão de doze vinténs o quilo. tirei lá setecentos quilos e mais tiraria se não estivesse velho e cansado.mas não só não tremeu como o garfo se lhe não desviou da trajectória mais curta do prato para a boca. como estacassem à volta dele.Então não são servidos.Que diz o senhor Calhorra? . como acoimou para aí uma boca mal lavada.? É de vontade? . senhores! Não se atreviam a interrompê-lo ao que estava de excitado. que as más-línguas classificavam de felinos: . nem para questionar consigo.proferiu Hincker em tom conciliador. Raios o partam para excomungado! . vejam os senhores o perdimento. . setecentos quilos! Agora eu lhes juro: se este pilhancras lá não vai esfossar. 50 . Lá quanto a vigarice. .Digo e torno a dizer: escapei por uma unha negra à vigarice.barregou o garnisé do Aires. torcendo os lábios num esgar dubitativo...

. como num espelho. Deste jeito desaparecem as desavenças do dia de amanhã ao repartir da talhada. puseram tudo em pratos limpos. ao Sarzedo.O amigo Calhorra sabe muito bem quantas polegadas bota um palmo. e a Guarda procede ao levantamento dos autos. . Mas era homem de prontos reflexos e reagiu: . portanto. Severo sorriu . Sim. Levem o pouco ou levem o muito. Para os senhores é melhor. ?? Que malvadez? Caçaramnos. Firmado neste palpite. Não faz.lançou~lhe Hincker de chofre.Quanto há-de querer pelo endosso? . daqui a migalho rompe aí o inglês que lhe pega a olhos fechados. deviam sentir-lhe passar à flor de pele.Não se faça de novas. mas neste capítulo está em branco.O meu caro senhor Calhorra faz o endosso por dez contos. muito levemente. a deitar o pinheiro abaixo a golpes furiosos. estava farto de o conhecer. mas o mais certo é levarem o muito. Nada feito.. e amigos como dantes.. . lá para as congonhas do Catrino. previsto pelo Código. não mais. E como está em branco.o seu sorriso. mas já era tarde para desandar caminho. Pressentindo provavelmente o perigo.respondeu ele com igual peremptório... Por isso mesmo é que é um grande crime.Qual exorbito? Se o senhor Incas não quer. saíramlhe sem querer estas vozes em que chocalhava um badalinho. descuidado. um imperceptível e quase abafado badalinho mofador: . na sua pupila. Não tem pés nem cabeça. Não sabiam aqueles amigos que estava senhor da maranha toda e que.! . Esteve um avo de segundo interdito com um penedo sobre o peito. Bastava vir-se de noite. O Antoninho deixou-me recado que chegavam ali adiante. Supunham que o Corbet tinha abalado para longe. pretendidamente apanhados de ferramenta ao ombro. .Macacos me mordam se entendo o que está para aí a alanzoar.Está para viver! .e disse: . um só homem. ainda bem? O que agora mereciam era que lhes cortassem o pescoço. O pinheiro podia causar uma catástrofe. Foi um tornadoiro de águas.Quinze contos e nem é dado nem vendido. Associado nesta altura da vida só com os quatro galfarros que me hão-de levar ao cemitério.tornou Hincker.. Como eram pessoas de olhos finos. era de quem desdenha quer comprar . . Incas e o engenheiro puseram-se lá na ladração que ninguém entendia e foi este que rompeu fogo: . Os homens apanhados com os machados às costas já estão na gaiola.. Um só. com fogo ao rabo. Cautela por cautela. . E tal erro de reconstituição foi quanto bastou para adverti-lo de que o anúncio mofino devia ser tomado como escova e mais nada.Quinze contos .Também pode ser.. Opresso e de semblante muito sério. riscam por onde lhes apetece.. e o senhor Hincker vê-se na obrigação de apresentar queixa contra o malfeitor que foi atravessar o pinheiro na estrada. teriam visto fuzilar a imagem de um homem. 51 . oh. a jogar contra eles jogava com cartas marcadas. e vá de facilitar. . o arrepio nervoso do sobressalto. ao contrário do que Severo pressupusera. nesta altura do discurso sorriu.Deitaram um pinheiro para a estrada. . pede fora de razão. Severo teria compreendido porquê. leve.Já disse. vale-lhe mais a pena associar-se connosco.Mas o senhor Calhorra exorbita.

Hincker estaria inteirado. que cantava e parecia oiro ao virar. a sua valente Ferreira . . . Tavolado fora. ele de escancha-perna. E antes de sair dos Paços do Concelho. rompeu a picar o trote. Por aqui vamos menos expostos a tais ventos. senhora duma culatra mais larga que um palheiro. Ajeitando a cavalgadura a um paredinha. mal se apanhou de posse dos quinze pacotes. Celebraram o trespasse e reinou a harmonia. deixe-me acabar o petisquinho e mais aqui a patroa. o rico baguinho bem ganhado. todo teso. lá foi barquejando nas pernas zambras ao encontro do senhor Incas que. contou andanças dos seus bons tempos. ferrador. oral Podiam arrepender-se. para que se visse. ao desandar da vila. levava os olhos todos duma feira presos ao seu donaire.Não havia meio de se medirem com o egas. Por fim. explicava ele. e a Verónica. o braço dele à volta da sua cinta. quando rapariga. lá conseguiram encarrapitarse ambos na albarda.ferreira pela cabeçorra maciça. a bufar de impaciência. porque desatou: . Coçou-lhe a estrela na testa. de bigorna. que não era falho ao peso. É do primeiro berrelho que mataram em Orcas e seria pena não lhe fazer o funeral.Vai contente por voltar para a loja . quando viu o paliteiro em frente dele. A primeira efusão de sua alma satisfeita foi para a égua. Tiveram que transigir.Venha fazer o endosso e tem os quinze contos. quando ninguém podia toscar. trapaças em que lhe não andasse escarmentada a menina do olho.Levo comigo uma queijada que pode muito bem cheirar aos amigos do alheio. e não nome de gente. Agora estava um basculho. bom cordão de oiro ao pescoço. entre o coiro e a camisa. deu-lhe duas palmadas carinhosas na anca e primeiro que lhe pusesse o albardão. Comeu. cuja exultação lhe pareceu que devia de ser comunicativa. . que já tinha comido muita rasa de sal quando eles ainda não tinham a envide. onde tinha a cavalgadura e a mulher ficara de esperar. Coitada. ela assentada . um aparelho vetusto e vasto como palanquim de elefante em que se içava ele. de naveta com o engenheiro no Tavolado. mesmo assim oprimida. Tinha bom dente o animal e depressa triturou o penso sem perder um grão. e a Ferreira é que ustia.Vamos pela estrada . bebeu. deitou-lhe o meio celamim de milho. menos escarrapanchado o arco das suas gâmbias. . Ora. desconfiado com a demora. contados nota a nota da mão branca e papuda do senhor Incas para a sua mão negra e calejada.murmurou o Calhorra.viradinha ao norte como nos bons tempos. insinuou o baguinho. pesada dos anos e dos untos. que oferecia a vantagem de ser mais curto. Mesmo assim o Calhorra. sabe-se lá? Podia tombar o carro. tornando costas ao caminho velho. lenço de seda a doidejar para os ombros. fazia horas. 52 . .Até a bestinha vai contente .Fartou-se de rezar à manjedoira do Dias. e não se gozar da massinha? Podiam até caçar-lha por artes de berliques e de berloques. quando uma e outra eram como pombos-correios a ir dar a Malhadas.O senhor Incas já agora tenha paciência. invocou a mulher. palitou até a dentuça.corrigiu Verónica.disse ele para Verónica. não anuiu a regressar com eles de automóvel. ao fundo da escada. Invocou a égua. . com um ripanço tão abacial que por duas vezes o Aires veio espreitar. a ensaiar o sarambeque. dirigiu-se para a loja do Dias.

que não tirasse o chapéu. O homem ora diz que vende. por modos.Fartei-me de suar no Vale das Donas. cruzeiro. pela volta que as coisas levaram. afeita a 53 . . e foi logo outra vida. ao meter a mão no bolso para lhe dar meio tostão. as tílias que dão flor para todas asboticas de Portugal. e a regada. Feito o quê. onde não botavam. ah. Abriu-c. aquelas dezenas de escudos foram oiro sobre azul. Quinze quilos é quanto canta na algibeira. ah. ia calado. que tem dinheiro como terra. . até sentia o coração dar estalidos como uma trave arrebentada. contente como um chicharo. ah. Caía um sol de canícula tão abrasador que nem as cigarras podiam com as asas para cantar. Ela.! .Pode muito bem acontecer. não há que dizer. ora diz que a casa da Serra é a pasmaceira feliz de que nunca se desfará pelo oiro todo'do mundo. e os filhos gostam da terra como da sarna. ao preço por que está hoje. o que equivale a dizer para a mulher. gente que lidava nos campos. A gente.O Calhorra não soube que retorquir à voz prosaica e apenas no alto. Muito tenho eu sonhado com aquela casa. Quando falava para si. o seu sombreiro de barba de baleia. que tocava apito . hem. mas passa-se cá bem sem ele. oh a regada que. era o oiro. tal dia faz um ano.Deus escreve direito por linhas tortas . santo Deus? Mas do mal o menos. é o miminho da terra! Calou-se que vinha lá gente e estas coisas só se confessam para o travesseiro. Lembras-te? Ao tempo. As suas vozes eram como á gua que trasborda dum açude cheio. segundo a folhinha dia de S. Agora.tornou depois duma longa pausa. sempre que me lembrava. vá lá a gente dar crédito a um telhudo assim? A mulher. minha badalhoca! Dize lá! Esta terça-feira. vês tu. Esses humilhadeiros dos sentidos eram-lhe de resto familiares à força de passar por eles. saudava este e aquele por quem passava. ia jogando com a mulher de caravelas. Tanto melhor. Só então se lembrou que trazia encabado no alforge. integrado no seu papel de pessoa importante. Mas quem adivinha? Setecentos quilos. Quanto largarem de vez. o que ficava no bucho. donde Orcas se afigurava ajoelhada. chamado pelo cadino do Aires. mal tratada como anda. ah. e tinha a peito que comungassem no seu jubiloso enternecimento. desabafou: _ Então dize lá quem é gente. um mendigo. pois não gostava? . que lhe adivinhava os pensamentos à légua. ah! O Calhorra falava para a mulher e falava para si. À Verónica sorria ver-se dona daqueles casarios tão grandes.Gostava. Eram a prata. gente que vinha a pé e a cavalo. disse: . os cantoneiros. bota o pensamento e o pensamento é como uma fateixa que vai tirar o que está no fundo fundo dos impossíveis. Este é que deitou a lebre a correr.fica-me assinalada com um calhauzinho branco. como antigamente o trabuco dos quadrilheiros. O melhor. voltava ao colóquio interior ou com a sua Verónica. Nos intervalos da loquenda. por cima de suas cacholas esquentadas. O Torres é boa pessoa. Com os dez que estão ao canto da arca e algum que se amealhe com o febrão do volfro. por causa do qual. e o homem. pode ser que se faça um rente ao casal do Torres. Tenho-me por contente. ah. Foi uma fortuna aparecer este Incas.bom apito toca agora o Incas.to Agapito. Igualmente tão santanário como cortesão.Estás a ver-te a bater a chinela nas salas do convento ou a deitar milho no pátio às galinhas. não passava por nicho. alminhas do Purgatório. durante a qual abarcou o panorama dos seus cuidados e canseiras através de um quarto de século. dize lá? .

disse ela. O Calhorra quando a viu a manquitar. achava que devia presenteá-lo ao menos com umas calças de picotilho. já passámos Manfurada? .Em chegando a casa já te fartas. garranito.. Mas agora iam silenciosos e não tardou que ele começasse a cabecear e o pé do guarda-sol a amolecer-lhe nos dedos. os nossos são uns burgessos nem lá vou nem faço míngua. 54 . Mas de repente. tantas melúrias disse. teve pena e ralou-se. dize? . Quando se apanharam entre os pinhais. àquele teu tio do Forno. se calhar.. . De raro em raro permitia-se uma pergunta inocente ou uma observação que por via de regra lhe iam acender o mau gênio. Gasta quanto ganha em vinho e cigarros.. acordou para dizer meio estrenoitado: . . Serviu para espevitar o apetite. Comparados com ele. que dali a pouco a Verónica montava de novo na Ferreira. .. Dizes tu convidá-lo bem.Deu-me uma soneira que sonhei que me estava a virar na enxerga. Ela foi-o segurando como pôde. Silvestre! Os nossos lá levam a vidinha direita e não é com o copo que bebem aos domingos que hão-de deitar a casa a perder. bem embora convindo que duas machadadas depressa se dão. acordando-o num desses momentos de compenetração..Apanha umas calças e está com sorte. que passava a vida a fazer gaitas de sabugueiro e de urgueira para os pastores.Metade. não me dás novidade. Saem..Estamos a chegar.Tens de convidá-lo. .. . Mas alguma. assim se começa e assim se acaba na beberroma. O que te juro é que se em vez do Luís Ougado meto na dança um tanganhão dos nossos estava a fazer cruzes na boca.É verdade. o Luís Ougado é que meteu uma lança em África? .Não digas isso. Olha o disparate? Foi de não dormir a noite. A mim não. depois dum alancão que ia baldeando os dois em terra. mas podia magoar-se e ficou a chorincar. Não sei. Não sei a quem os almas do diabo saem.Ia com sono. um pouco por impostura. Deus perdoe ao pele-de-as no. concordava sempre. Caiu de pé. E tanto apertou com ela. . que na idade deles era capaz de dar um pontapé numa estrela. . andas-me com uma fritada de chouriça ou salpicão com ovos. Atravessaram o povo amodorrado debaixo de calmaria e com ondas de moscas alvoroçadas nos chiqueiros. mas levado de todos os moscardos? O ladrão vira-se em cima duma moeda de vintém. o Calhorra disse: .não ser mais que voz de acompanhamento na ária de que ele por nada deste mundo deixaria de ser parte cantante. E tens de convidá-lo bem.Olha a novidade? Em chegando a casa.exclamou ela. agora vou com fome. A marrã estava de se lhe tirar o chapéu. que é má rês? .. e era destes que não movem um pé sem perguntar ao outro se dá licença.Que é má rês. És muito franca? Dou-lhe metade da melgueira. depois de grande reflexão. outro pouco porque caíra com todo o peso sobre o tornozelo. não. O brequefesta armava-se por dá cá aquela palha. Assim teve ele o fim. mas pecou por pouca.Hem. que foi preciso dares-lhe o lençol com que foi a enterrar. A como anda o cotim? Verónica. ao passo que com a outra mão retinha a rédea. . E ali se ateou uma contumélia tão azeda e assanhada que a certa altura o Calhorra deitou-a da égua abaixo. O avô pertencia à quadrilha do Olho Vivo.

ao passo que passava a cestinha a uma das mulheres.Arranja-los tu. saltou em terra. coitada. . Quando se endireitou com a mandioca no cabaz. Dela. e água a despenhar-se da cale de Pedra para o tanque. cesta com eles. não disse bus. Ao entrarem na terra. lagar. a contar a aventura do volfro branco.Não o levas já aí. a fugir ao pendor que era grande. o Calhorra refreou a égua e. quando passámos. Verónica tornou a subir para a albarda em frente do seu homem. que chegassem ao fundamento da operação e não a achassem segundo o bom direito. Só lhes chegam os abades e os fidalgos. .. Verónica dobrou-se a procurar com a mão.Também a pita? . avistei ali umas pedras de volfro. que demos com o ninho. Silvestre deu-lhe um beliscão e logo de seguida levou a mão aos lábios no gesto do cadeado que 55 . Ia muito lépida. Encontrou dezasseis. Ajeitou a besta a um poiso e Verónica. habituada a todos os caprichos do seu senhor. mas agora tens de ir à pata. a pita é do dono. Ia com a minha fisgada.Enchem a sertã? Abana-os a ver se chocalham.. elas sem pôr! O Calhorra não respondeu.Não. Era um regimento. Ao chegar à embocadura do caminho. o Calhorra disse para a mulher: Santa paciência. Adiante de Manfurada. Não? Foi uma fortuna... Vê se ainda lá estão.Lá pelo fumeiro. A última meia dúzia levou-os a Inês. Vá. encontra-se o caminho velho numa extensão de trezentos metros. apontando contra a parede um tufo de ervas. enfiada no braço. onde há um casal com suas de endências. forno. eira. O macadame. costeou pela direita numa curva lenta e escarpada.Raios te confundam! Quantos ovos. como por um argueiro se tira um cavaleiro. Porque esperas? .. .Quantos quê? . com a cestinha. Mas receei que na vila te vissem os ovos e. cabeça de burra? Esta manhã estive vai e não vai para te mandar descer da égua e passares-lhe os cinco mandamentos. noras e netos. Daqui a pouco estava a chocá-los. avista-se todo o troço da antiga via. em linha recta. os ovos é que são nossos.Estamos com sorte. a infalível cestinha das compras. A certa altura.. ainda quando não há compras a fazer. Quem vai a pé ou mesmo a cavalo toma por ali fora se quer ir mais depressa.Ovos talvez eu os arranje. Vê lá quantos são? . encarou em Silvestre. A mulher insinuou a mão por debaixo da parturiente a contar. não há-de haver novidade. como dum balcão. quando lhe respondeu um cacarejo mal-humorado de galinha. proferiu: _ Esta manhã.. Silvestre soltou-lhe uma gargalhada: . Sabes a como? A três tostões cada um.? Tens-me tirado os ovos das pitas? Lá me queria parecer.. vieram-lhes ao encontro filhos.. Além de que o caminho é mau e a égua pode escorregar e partir uma perna. debaixo do sombreiro como um mandarim.. a perguntar: . perturbada no seu ripanço de poedeira.E o tal volfro branco? .. Era volfro branco. Mas ovos? Não tenho um só de portas adentro. havemos de ir ali adiante aliviar uma parida.

56 . não é menos o viático daqueles que se premeditam ao longe e não passam por enquanto de sonhos mal sonhados. dos negócios que se fizeram ou se têm sob palavra.fecha uma porta. pois que se o segredo é a alma dos negócios.

ih? ih? ih? Com que então. um frouxo de riso nervoso e regalado. na menina do olho? proferiu depois em tom prazenteiro e admirativo ao mesmo tempo.Vês tu. rente a um penedinho. pronunciou: . pulou a direito para o caminho... . ? Sim. Estava ainda na giga da meia como o trouxera e. Depois tornou a encher a cova de terra. O que me admira é que acertasses com a cafua por um escuro destes? Caramba. mas que lhe fazia doer o peito...O volfro estava bem guardado. tu por -aqui às Jurtadelas! ? Temos endrómina. 57 . passeando ora um pé ora outro por cima da labareda. O macanio fizera a cova. O Duarte tomou-lhe o peso.emitiu o Duarte muito concho. . deve passar de três arráteis. como se acertasse destorcer uma grande meada. compôs o chão. ao tojal do Zé dos Cambais carregava-se à esquerda para a moita da Cismas... e frio. um sacolejão que fez estreloiçar as pedras: . oh se estava! Fora por uma casualidade. esvaziou para lá a algibeira. Também o Duarte se não soube manter naquele seu sisudo macareno e largou uma risota baixa e esbagoada como de galo a ensinar o bom cibato a uma franga. não esteve com panos quentes. e ali. o guarde com tã o pouco ardil? Ai. fora. Também tinha pouco que errar: carreira dos gados fora. ih? lh? ih! – e soltava-se-lhe outra vez o riso.. ! Ora toma-lhe o peso. um pouco desconfiado com a ucharia. lá deitou o ponto até que.E outra vez se viu Bárbara obrigada a explicar como aquilo fora.O homem.. e como não lobrigasse vivalma lá veio pela mata abaixo todo farófia.. Hum. não se pusesse por lá o irmão a deitar imaginações erradas. tendo-se capacitado que não pisava por ali gente. ajoelhando ao toro da giesta. pois a gente da terra tinha a pecha de andar sempre a escutar por detrás das paredes que eram rotas. foi pelo volfro para lhe mostrar. para ele ver bem..A endrómina está à vista . três arráteis para mais que não para merios'?. que não? . Olha quem ele era. e não são roubados. tirava os tamancos e se aquecia.? o Ougado. Escuro fazia. ufa? mas ela iria lá direita com os olhos fechados. depois de escamoteá-lo com tanta finura. Foi como se desatasse um saquitel para a arca. a partir com a tapada do Urra.. . À moita da Cismas metia-se a gente pela demarcação arriba e era logo no tope.. mal se enxergavam os talhadoiros... deitou um olhar à volta e. ..Dizes tu: três arráteis... que voltava de deitar as águas. uma casualidade como não há muitas na vida. o machucho olhou à direita. olhou à esquerda.O Luís Ougado há-de-lha sempre pregar.Para estranhar é que. se pôs a rapar terra.. Toda a sua pena era que não fosse urna arroba. Assim que a apanhou em conformidade.IV Reavivou a fogueira com um punhado de gravetos e enquanto ele. expondo-o à claridade do lume. Na mesma da hora em que acabara de sachar a leira do Gradil e já traçava o sacho no braço para se vir embora. aquela sua voz cauta de roncão. acabado o trabalho. e em voz pastosa. parecera-lhe ver relampejar um vulto ao cimo do pinhal do Urra. que caíra debaixo dos seus cinco mandamentos. zás. Acachapara-se. imprimiu-lhe. mesmo ao toro duma giesta. . Uma assim! Breve percebera que o que ele estava a fazer era a desentupir uma cova.

.largava das Minas. Com pães grados. é que o não quis e é bom de calcular porquê. Embora os surripiadores da Fazenda lhes levassem muito do que granjeavam. Em casa. ninguém dava mais dinheiro a juros. Por isso em primeiro lugar e também porque. malhavam as suas setenta pousadas e. Era este rico maná. Pagavam-no hoje pelas portas a trezentos e cinquenta mil reis. ? Ao volfro? O volfro vai para o pé do outro.? Sim. medidos à desnatadeira. lhes cortava as águas de lima para duas propriedades. tão estreme que quita esborraçado. dizia para os camaradinhas. um vintém Catarina o tem. Acabavam-se os onzeneiros e estoiravam os necessitados antes do tempo. podia ser que valesse. O diabo é que no entrementes pode vir outro e lá se vai quanto Marta fiou. farturinha no açafate também avezavam. acontecendo calhar de milho. um mês. partindo com eles da banda da Fonte e dando-lhes rego. cada vez punham mais febre na labuta. mas podia ser assado. Tinham crescido às esmolas. Tu que preferes? Eu cá pertenço à seita dos desconfiados: toca a botar o laço. Ela então reatou: . O Duarte pareceu não concordar de todo. porque tendo-se sentado. um ano inteiro a acarretar para o celeiro como na própria noite ir à toca e pôr tudo com novo dono. pelo muito. Deixa-me cá: quem arranja dinheiro para comprar o linhar do Fandinga sou eu. arma o laço e não espera por mais. mais que arriscado. trazer dinheiro ao ganho. que a conta dos leites. Chegados ali. deixa-lhe pôr a dozena antes de lhe armar. Viu ao clarão dum chamiço o Duarte estender a beiceira. dize-me lá. fingindo-se tomado de aperto: andai lá que já vos apanho! E corria a enterrar o roubo. de facto.. louvado seja o Senhor! Agora pergunto-me eu: não valeria mais a pena esperar uns dias e deixar que o melcatrefe enchesse a buraca. não se perca por lá o que tem jeitos de certo. Se é jogador. uma mata. além de que as perdizes enjeitam às duas por três. que lhes fazes? . dali a cigalho quebrou o silêncio para dizer: . Não é? Ela acenou que. também ele indeciso quanto ao que em tal emergência mais convinha fazer. devia ser assim. embora não medisse mais que duas canchas. pelos vistos. e já passavam de trinta os números que traziam na matriz. lhes andava sempre forra. Um bicho destes tanto pode passar uma semana.Deixei-o virar costas e fui ver.. Uns anos por outros os Ladeiras adquiriam uma belga. Pois embora. Sobretudo queimava-os a fome de terra. E agora.Suponhamos: um rapaz acha um ninho de perdiz e ela na postura. Dqui a nada vale mais que o oiro.Por esse andar.. Mas espera lá que se a diligência que ela fizera à boquinha da 58 . com a malta toda. Louvado fosse Nosso Senhor. uma terra de unto onde tudo vingava que só de vê-Ia caíam os olhos aos invejosos. --em feiras e romarias podiam chocalhar a sua coroa.. . Se é desconfiado. Era a matação do Duarte aquele linhar do primo sapateiro que. Este está tão purinho. Matavam porco pelo Santo André e. nunca secariam menos de carro e terça. um chaparral. trup-trup. mas se eu fora adivinho não era mesquinho. pelo prazer de possuir. era uma terra gorda..A quê. cabeça para os joelhos. Aquele linhar do Fandinga era como uma espinha que trouxessem trancada na garganta. o que ele próprio pelo encolher de ombros deu a entender que reconhecia. o melhorio da casa. sempre havia umas sobras para o riscado do avental e as brochas dos tamancos. para terem o regalo de atestar as arcas.

depois das colheitas. Pela telha moira tanto entrava a chuva como a neve e o vento. a nadar em ódio. Estava uma noite de geada. E fazendo com aquela lengalenga e os socos ferrados nas lajes mais barulho que um carro por uma ladeira abaixo. porque sentia a humidade nos ossos. a alma despe-se como o corpo quando se dá a um amigo. o mesmo era que continuar a pouca-vergonha. Mas tinha de fazer de conta que o pobre boizana estava a calcular os punhados de carqueja que gastava sem proveito. esquecidos do resto do mundo. obcecado por aquela sua vontade desesperada de arranjar dinheiro. a abraçar-se em fúria lasciva. não tendo ânimo para a tolher de lhe ir falar. Por isso. Aquele pobre burro das panelas imaginava-a a ver-se ou a sentir-se com o Antoninho no meio das moitas. e. destas moinhas finas como paraganas e glaciais. o fulgor das brasas a deslumbrar os olhos. quando podia meter-se na cama como ele. Quando faltar a lenha. No fundo. apuradas bem as contas. o que o atormentava era o pensamento. não havia como o fogo para o Demónio entrar com as criaturas. como de resto 59 . de continuarem a encontrar-se de vez em quando a favor da primeira ocasião. com a carne quentinha e regalada.Não te aflijas. ficara sobre brasas. via-a entregue à sua ideia. e ela bem via correrem-lhe no bestunto as minhocas negras e viscosas da sua cisma. Mas o Antoninho era o fantasma negro que enoitecia os horizontes do Duarte. onde não tremeluz folha viva. O Duarte ficara macambüzio. junto do senhor Antoninho Fráguas. Suspeitava-a de ter pacta com ele. como tiborna de verdete e água choca. no género do irmão. O homem viera a Malhadas receber as rendas e destinar a lavoira da casa que lhe deixara o tio. aconselham esses enlaces brutais que saltam por cima de todos os recatos e castidades? Não havia para sentir-lhe o chamariz como as pessoas. que tinha ele com isso? A noite. Estava a verlhe trabalhar o maquinismo interior como a um relógio quando se lhe levanta a tampa. não existem veredas conhecidas ou apenas sonhadas que o pensamento não bata e vá tenteando. O Duarte acabou por desencravar a cabeça dentre os joelhos e ergueu-se resmungando: ia um grande inverno e era preciso ter governo na lenha. além da obsessão do que se teria dado. assim a horas. viesse ela donde viesse. A casa era um pardieiro onde uma alma cristã se não achava mais abrigada que no meio da rua. De facto. vou ao molho pelas tapadas! Coitado. um momento apenas aliviado da ralação quando ela lhe fez dançar diante dos olhos a feliz bolada do volfro. do que se teria passado entre ela e o Fráguas. e tal ideia fora e continuava a ser o seu inferno. Compunha-se de uma só peça. que em matéria de tais orgias são dos que têm escutado apenas às portas. Lá fora com certeza estava a cair moinha. assim a esfogueirar. Diante duma boa fogueira a arder. interrompida de quando em quando em sua modorra pela refega do vento nos pinhais. cada vez mais raras. Decerto que diante dum lume rijo. Era como zorra que vai pelos campos. o sangue a espirrar em seus espíritos todos. lá se foi meter entre mantas. afora curtas e ásperas guinadas do vento. não se sentia passar. desse o fruto devido. e pôs mais achas depois de espertar o lume com ramos secos. e foi-lhe dizendo em tom de mofa: . Que grande alcoviteira que é a chama e como as suas línguas a lamber. tromba ferrada para o lume. antes de ir crestar o cortiço do Ougado. E.noite. venenoso e fétido ao mesmo tempo. nem de encomenda. estavam como queriam. Morto andava ele por arranjar a bagalhoça precisa para a operação. dali a pouco não havia com que cozer as castanholas. de olhos no lume.

o que é. depois pouco a pouco com relevo e relação. Torres. Bárbara? . a bater o dente de taró. Também ainda pudera dar duas cardadas ao cabelo. Dois pontaletes grosseiros. Primeiro imprecisas. Não estivesse ele possuído pela febre do linhar? E ela decidira-se. O tempo. Mas o que tinha de pior era ser fria. não se esquecendo de lhes fazer uma covinha ao centro para activar a combustão. Com a tenaz mexeu as brasas. sem contornos. mandados ainda meter por seu avô.Bota-te a falar com ele. não me nego a Isso. haviam-na tingido como uma essa. que o não descobriam. . mas o meu Duarte é um encolhido. contra a luz. O Fráguas observava-a dos pés à cabeça com certo enlevo.. Dar um recado custa-lhe mais que levar uma saca de dez arrobas às costas. agoniado como andava na ideia de que lhe iam expropriar a regadita do Vale das Donas por dez reis de mel coado. a que penduravam as peneiras e o candil. Tivera o cuidado de cobrir o xaile e de calçar as tamanquinhas. Mais assente. E de novo depondo olhos no crisol e fechando-os maquinalmente.O meu Duarte é que havia de lhe vir falar. senhor Antoninho para toda a gente. por dentro. Quem na dividia eram as arcas. a armação que ameaçava desabar. a sua voz foi como quando se acende unia candeia no escuro: . mais fria que uma corga da serra à meia-noite. uma vez que o Duarte largara com uma moenda para o moleiro e não via. e eram de ferro. A princípio.És tu. com excepção das casas do senhor Antoninho e do Dr. Mas espera: . quando dobrava o portão. Ouvindo-o sonhar alto. Procurassem nele o estoira-vergas que apertava um cavalo entre os joelhos e lhe fazia dar ronco. Não ia assim tão fregona como de ordinário e bem deu conta que os olhos dele se foram acendendo pouco a pouco como auricus. saíra a dizer que tal habitação era semelhante às que se tinham feito no princípio do mundo. restos contra a tesoira.?? Pois se entendes que é essa uma razão para lá ir eu.O senhor Antoninho haja de perdoar . aquele olhar diabólico que despia as mulheres antes de elas se porem em camisa. pois então? Era ao entardecer e foi quase ao escapulir-se para a cerca. Também ele já não era rapazola nenhum..proferiu ela a medo.. salvo a fechadura e um ou outro prego pelas paredes. afoitara-se a dizer-lhe: . que conseguiu falar-lhe.. que não envergonhavam uma cidade.no povo. que uma vez ali entrara por curiosidade. Fizera como em certos actos da vida que se fecham os olhos antes de dar o passo fatal. do que logo se apercebeu com desvanecimento e vaidade. não perdera uma centelha daquele seu olhar magano. a aparecer por grande acaso na terra e o Duarte a pular. Se não fora o chamicinho morria-se inteiriçado. O Fráguas.. sou desenvergonhada.Nem que me matassem? julgas que sou desenvergonhado como tu?? Estivera para mandá-lo bugiar. e para ela com sobrada razão. ajuntou-as em seguida. Achá-la-ia mais velha. ainda nada pesadão.Com que sim. Mas assim que atinou quem era.. por fora. o fumo. Para que acabasse com a devassa. Que dizes? O Duarte despedira. no horizonte do seu espírito se ergueram as suas preocupações como montes ao longe. o Antoninho não a reconheceu. Um figuro de Lisboa. escoravam ao Centro. . ao chegar do Gradil. foi-lhe dizendo em tom sacudido: 60 .

. depois de ter consentido no sacrificio abominável de a 61 . ali viessem deitar âncora. das vezes que ali passava à caça. que os pinheiros tão jambotos eram que não mereciam serragem. Ora cada um manda no que é seu. mas paguem.? Porque saiba.? Lá que retalhem o chão. lá medravam dois pinheiros revelhos escapos por milagre ao dente das cabras. como tantas outras terras. Deram-lhe ordem para não deitar nada na regadita.O senhor Antoninho não conhece os louvados. Paguem e não façam como fizeram corri a Cismas que recebeu uma tuta-emeia.. três semanas. afora aquele ano que haviam trazido de lá a sebe cheia. e..a última sangra. foi pouco mais ou menos o que disse. que. Torres e do senhor Antoninho ali conservassem bens e. outro ali.. mas andavam à resina . deitava-se a perder se o não indemnizavam segundo os cálculos que orçara. tarde e às más horas. Desejam que a terra fique a monte.E queres a minha intervenção para que. tisicado do gênio como todos sabiam. Ora se sabia! Na parte pedregosa haviam deitado penisco e um aqui. atalhando a jaculatória. e não só lhes faltava pão no açafate. Tirámos o milho. assim que soubesse terem sido frustradas as suas esperanças.. Em realidade o que há pouco a atormentava era o que ia fazer o irmão por ricochete. O meu Duarte anda muito escandalizado com os homens do volfro. se foram quem eu imagino. A regadita. com brusquidão pouco delicada. Era isto o que ela lhe presentia no catarro. de facto. o Duarte não quis chegar-se às boas e vêm os louvados. números redondos .. . Que não valia a pena. rendera uns duzentos e vinte mil réis. tinha-a quando arreganhava a cabra e mijava a rã. até umas vezes por outras. Ele deu-lhe uma fungadela.. O pior de tudo era que o Duarte. Talvez os engenheiros do Incas tivessem carradas de razão e o seu Duarte não passasse dum enxovedo que nascera com má sina. Pronunciara a lição de cor como tantas vezes fazia com Pêro e Sancho e estava admirada tão bem ter representado que um finório daqueles se deixara engrolar.. . e que só a murá-lo arrancara passante de trezentas carradas de pedra e trouxera dois pedreiros.Eu sopro uma palavra aos louvados . por sinal uma boa carrada. como a visse calada tempo mais que suficiente para tomar fôlego..... Não é assim. a comer. e ela seria a primeira a experimentar-lhe a pancada. Estaria farto de saber. Vou-lhes dizer que tenham em atenção que vocês são pobres e levam vida dura. Ela então não se conteve que não desatasse a rir. rompeu a concordar com ele. não valia o amanho.disse subitamente o Fráguas. por um reverso da decepção e por manha. mas tinham que tirar dinheiro a 20% para pagar a décima. a três escudos. sim senhor.. Eu desato o saco..perguntou. ainda que de mau humor. acabou-se. pois que fique. Há dois dias voltou a ter com eles tal bate-língua que chegou a casa num estado que ninguém podia com a vida dele. que os gaios e a raposa não deixavam amadurar ali maçaroca e que lá de água. mas não cavem a sepultura dos vivos. como todas as propriedades daquelas parvalheiras. a fazendória era um pedriçal que dava quatro espigas chochas.? . Era o nervoso. Ela..e que de facto o bocadinho fora agenciado pelo Duarte no baldio. . e espantava que figuros da classe do senhor Dr. e queríamos semear lá erva. todo o ano a labutar como negros. logo a seguir. o certo é que eram uns infelizes da sorte.Não o quero demorar que está muito frio aqui no meio da rua. por muito que o Duarte houvesse minado no oiteiro. Bem entendido. A regadinha hoje vale dinheiro.

tornou rapidamente: .. bichas.. mas mesmo assim as palavras dele entravam-lhe no peito como uma golfada de ar fresco. já não se sentia há muito... e três vezes volveu a cabeça. E que estaria ele a pensar dela? Que estava boa para calço de panela? Talvez coisa nenhuma. excitado porventura.Nunca é tarde. Fitando-o de perto. Meia bêbeda. E ali estava: dia em cheio? 62 .. Depois. pois mal se calara o tamanco. e não... O senhor Antoninho. talvez coisa nenhuma... apoquentados pela soma de relices que saltaram a pés juntos para matar seus desejos. . as capelas cerzidas de garatujas. Ia a abraçá-la outra vez.. Mas ele metera cara ao portão e caminhava para casa sem olhar à retaguarda. que é o mesmo que dizer bóia. já ele dizia com voz que fingia de arrufada: Fartaste-te de mangar comigo.Então não acredita? . viu-lhe reluzir nas têmporas os primeiros cabelos brancos e. disse com melado entono: . o ar bendito das manhãs de Primavera. Rascoeiro até a morte? Afinal tudo isto de homens eram a mesma choldraboldra..? . Dentro dela não se apagara a fogueira. para vinte e cinco anos. Então lá dou o recado ao Duarte e bem haja. Os homens quando estão diante duma mulher deixam-se seduzir pela ideia do gozo que ela lhes pode oferecer .deixar ir falar com o homem detestado. Que era legítimo concluir de tais palavras? Sabia. Um dia. não podendo desconfiar do que lhe ia no entendimento.. e que bálsamo não era esse para a sua alma sentida? Tanto assim que teve coragem de lho dizer. atirou o xaile e as tamanquinhas para um canto. além disso.vinte. tretas? houvesse ele saúde? Saúde e. negava crédito às línguas depravadas. Assim animosa.Pode acontecer.. chegou-se para ela e passando-lhe a mão em volta da cinta.. julgava-se uma meronga.tinha-o observado em muitas ocasiões . Anoitecia. mas ouviu-se desta feita a chanca da Ana Ruça caminhar para eles e ela furtou-se.longe de pensarem nos engulhos que virão depois a sentir. brincando... e fora então que dera o salto à lura do Gradil.. Sentia crepitar a chama e difundir calor. Como ele a visse rir.Agora. . O senhor Antoninho é que nunca mais quis saber. embora logo se arrependesse: ...que estreloiçava na rua..Um dia será.. Largaram cada um para seu lado.Acredito o quê? Plantou os olhos nos dele. Era a medirem o galão que dera o tempo. E. Ah.. cem vezes não.. arranjou melhores entretimentos ... Bárbara. proferiu reatando a ordem de pensamentos solapados: . . ela a rir. Durava o entremez: quero-te bem! amanhã será o dia? . Àquela efusão sucedeu-se uma pequena mas enleante pausa.Não diga isso? Estou acabada. Mas exalava o mesmo odor poderoso e envolvente e ao seu lado experimentava a mesma fateixa forte a arrancá-la para fora de si. O tempo não te viu. como o visse calado e sério. Ao passo que despedia. o seu tanto distante ainda.. Casou lá para Muradais. pois que lhe interessava ainda.Aqui me tens. É um alegrão que lhe levo. à volta dos olhos apardaçados. Quanto ao mais. e de expectativa ante o tamanco-seria ja o bruto do Duarte? . não sabia o que murmuravam as bocas do mundo? O importante é que lhe não descobrira nos olhos reflexo suspeito nem vinco na face pelo que devesse ficar de pé atrás. Eu?? Diga dessas.Estás a mesma rapariga. Sim.

Foi num rufo a Muradais. girou a deitar-se. infundida da molinha viscosa que..À lareira gélida e silenciosa revivia a cena toda e pasmava do seu rasgo. humedecendo as coisas e trespassando as roupas. num rufo. para a esquerda.És muito franca? Disse. acabava por escorrer dos beirais. Calaram-se e a noite continuou a dobar-se em mistério e escuridão.Não disseste que havíamos de o dar ao senhor Tadeu?. Ouvia-se para os cerros o seu bruto fôlego vergar as corutas dos pinheiros. e logo a voz do Duarte encheu a casa toda: . das voltas que o mundo dá mais retorcidas que o nagalho dos sacos para. sentiu-se transir e aconchegou-se contra o lumaréu... até que desenganada acabou por 63 . O céu enchia-se outra vez de silêncio. papudinha e desdenhosa.. Tropicavam socos na rua. Tornou ao volfro.era a senhora D.. Acordou com o Fráguas a puxar-lhe pelo braço.. vencendo a hesitação. Bárbara . Solange Fráguas. até dez.. e enfiou-se entre as mantas. santo Deus? Não fora a realidade.. tanto a realidade lhe parecia de carne e osso. mas levava as mesmas voltas. Deu voltas sobre voltas. No poleiro.. tê-las sujeitas um instante a gemer e a guinchar. nos lábios um grito açucarado: .. o galo cantou três vezes. salvo de que via uma senhora à janela de juba para as costas.. por lá a Rosa Pedralva que andava a cozer. e andou a estudar a maneira de se introduzir na mina do Vale das Donas e bifar uma abada de minério sem a caçarem na ariosca. e na lata que Bárbara deixara debaixo do algeroz.. que frialdade? Fechou os olhos e pôs-se a bichanar o padre-nosso. ping. mais os meninos.. ..Corto-lhe o pescoço e toca a imolá-lo. uma escuridão que abafava a casa como um corvo abafa os ovos que está a chocar.. E ficou a malucar de olhos muito abertos em coisas e loisas. foi para as lameiras da serra com as vacas e lá lhe apareceu o senhor Antoninho a querer saciar apetites. e nova rabecada. À força de ouvir aquela música começaram a fechar-se-lhe os olhos e..Diabos levem o galarozI Amanhã corta-lhe o pescoço. pang. pois ainda não seria meio serão. pang. dois. Ouves. entrara já nos gonzos e perguntava-se ainda onde é que ele estava. Cerrou as pálpebras nesta beatitude. Em menos de um amém despiu a sala.. este verdadeiro sono que leva a criatura para fora do mundo. Cantava a desoras o maldito. o chambre... mas por mais que acalentasse o sono. O que é o coração das pessoas. Canudinho. três. continuou em meia modorra a vadiar por trancos e barrancos conhecidos. vem por lá o meu Duarte? Dianhos. Há duas noites que o ladrão anda a chamar desgraças . que o Duarte fizera mesmo à entrada da porta por causa da fuinha.Ai. tudo voltar ao que fora dantes. com náusea .Olha. À ideia do forno com a borralheira à porta e os mendigos em redor a disputarem um lugarzinho mais bafejado pelas brasas... não? Ora o fidalgo? . a gota de água batucava em dois tempos ao desafio com o caleiro mais próximo e menos tomado da chuva: ping. para as despedir depois com impetuosa e ríspida estridência: vuu! Sucedia-se uma pausa. . para a direita. O vento volvia ao bufadoiro. terra de que não fazia bem ideia. empapaçando a atmosfera. mas há que tempos isso foi? O padre que coma as galinhas dos baptizados. deixe-me.. durante a qual apenas sussurravam as frondes convulsas. um. a qual apercebeu-se... o pensamento lançado à rédea solta por incertos lugares e incertas gentes. pregasses com ele na feira? .

mas o Duarte suspirava. Solange. andava tudo a lazarar. como aqueles Fandingas e Urras. e com o que arrebanhava a mão canhota. calava-se um instante. da Rua Nova. se tudo haviam de deixar a outros. Cresceu com o que Deus dava. a quis “levar ao castigo”. estou bem esperto. que era a delimitação do seu cubículo. luz rarefacta do quarto crescente. foi no ano em que a Cismas gritou aqui-d'el-rei contra o Silvestre Calhorra que para se vingar dela. do que mais gostava.. Mas não procurara fêmea. Agora grunhia. Ah. graças. tornava a grunhir.. Anjo bento. era do palhal. Oh. tão longe que nem na margem povoada de estrelas. ? Não. Talvez encontrasse quem o quisesse. o Duarte instalado de procurador na casa onde estava agora a tia Ana Ruça. todas bem longe de ter um palminho de rosto fino como o seu. Por essa altura. Estaria por lá com algum pesadelo: ó Duarte? .Deixa lá.Menos na minha algibeira. a mocidade. que lhe andava aos ficitos novos num pinhal. muitas vezes pensava: que valiam tantos sacrifícios. Agora. ainda não teriam saído dos serões se fosse o tempo. vencendo a natureza. com uma carapuça de Judas na cabeça. Mil raios os confundissem quando olharam para esta terra? . A casa cresceu. Porque se não casava o grande jagodes? Nunca ele pensara nisso.. Duarte? Há! Estás a sonhar. que se coava das telhas de vidro. que cobras e lagartos uma pessoa traz no seio: a morte de D.ficar de costas. espreitou para a lareira: lá estava uma brasa a rutilar como o olho dum gato. O regalo dele era encafoar-se pelo feno dentro. Da mesma maneira que nascera nas palhas.. afundida no oceano de negrume que era o interior do casebre. Grunhia. homem. olhos presos à babugem da luz. dar trela aos rapazes e o respectivo retrós a torcer. e algum era. mas havia mulheres para todos os feitios como há formas para todos os pés. No mais certo dos palpites. Era como um porco a bulhar com outro pela bolota. o Duarte tinha ido à benta das Dornas com ideia de que a Ana Ruça lhe deitara mau olhado. sem um só dia raiar o sol. que nem uma míssinha mandariam rezar pelo descanso de suas almas!? Todo o ror de anos da mocidade lhe foram de endoença. Compraram uma vaca. engastada na cinza. da banda de lá da noite. Os ladrões do volfro dão comigo doido. noites mal dormidas.. uns primos e velhacos na quinta casa. Não o fazia naquela altura porque as noites eram grandes e temia que durante o sono ela lhe fugisse ou o senhor Antoninho viesse ter com ela à cama. mesa de lázaros. Tudo ela sacrificara à cobiça daquele seu morcego.. a rilhar a broa pelos caminhos.. Passava para o gemedoiro. à meia dúzia de abadas de volfro que ia buscar à exploração do Incas! Mas que horas seriam? Erguendo a cabeça por cima da arca. a alegria. e seria o mais. tem entrado muita nota? . um Verão a porca pariu-lhes oito leitões e todos botaram à feira. Para esquecer e se vingar da mofina. o senhor Antoninho a dar-lhe a mão de esposo. de bailar no terreiro. podendo ter boa enxerga. Custaria a aturar um côdeas e foleiro daquela ordem.? Espera. 64 . lesma de todo! O Duarte ressonava. cada vez mais somítico e apertado de contas. o prazer de se assear aos domingos à semelhança das mais raparigas. minha santa. criaram borregos e cabritos. tão longe. alé m do mais. manhãs perdidas. fartara-se de carretar para o celeiro como a formiga rabiga.. como a noite era arrastadiça. Em que data isso foi.

Diz-se que cinquenta contos. uns que ela conhecera. Têm vendido para aí minério que é uma abusão.Apanhavam nada? .. acusara-se dos latrocínios que praticara e das maldades que fizera ou deixara de fazer. outros de que ouvira falar. Agora não é ponto assente que o Dr. Todo o santo inverno fartavam-se de lhes cantar o miseré. muitos de quem já não restava sequer à flor da terra o eco dum sonido.? . Lá fora o ping-pang da chuva tornara-se repetida e molesta toada. enquanto se era vivo. dize. Quanto lhe deu o Incas? . Torres lhe deixe o charravascal do Santo Antão de mão beijada. Importância tinha-a o que passava no papinho da gente.Não sei. .. Contava o que fizera pela vida fora. Faziam-no por sua mãe. Assim. Sua tia acabara zaranza de todo a falazar sozinha pelos quelhos.. e era um grande perigo para ela própria e para todos.O Fráguas veio para comprar o volfro à capucha.Quem fica rico é o excomungado do Calhorra.Olha. por sua tia. A cabeça já lhe não governava. O cemitério ficava mesmo soterrado entre pinhais..? . Achas pouco? Com dois contos dessa banda e com o que temos no volfro. mas valeu mais assim. Ouviu-se o vento zunir na cumeeira e nos intervalos a cantoria macaca do pote debaixo do beirado. . Para que é que o diabo do homem havia de vir ainda tentá-la naquela altura. Reinou de novo silêncio dentro de casa.Não faço ideia nenhuma.Eu não te estorvei. O pior de tudo é que se esbagachava como o canganho da uva.. até tomarem as cautelas 65 . É verdade. Por causa disso passaram grandes vergonhas. Também haviam de cantar em cima da sua campa. Calaram-se.... E proferiu em tom de magoada inveja: ... tinham por obrigação chorar os mortos. Nãu_ tinha mais importância que o latim dos responsos. decerto a deitar contas à importância em que vinha a converter-se a queijada. Está tudo a nadar em dinheiro.E tu a dares-lhe! Quis e tornei a querer.Talvez. com as tuas desconfianças.Aquela Malhadas é uma madrigueira? Vejam como tratam os defuntos? Mandavam-nos para aquele migalho de terra onde ainda eram úteis. é que me tiraste da devoção. não sabia ao certo. Os pinheiros iam com as raízes por baixo das campas chupar os mortos. Os pinheiros. já me dou por feliz se me pagarem a regadinha pelo seu valor.. Era um grande perigo se te apanhavam a furtar..Não quiseste ir trabalhar para a mina. Por isso.. pela tropa toda dos finados. vinte e cinco anos.Dois contos de réis. já que os vivos os não choravam. só havia matas. Em volta do povo. O carrasco do vento esmerava-se agora em arrancar aos pinhais maior e mais aguda gemedeira. era costume dizer a gente das outras terras: . . Tu.Modera-te que não tens razão de queixa. Temos ali à beira dos seus quatro arráteis.. O Duarte calou-se um momento. . O Duarte tornou: . Quanto calculas que podem escarrar? .. Durava aquilo há vinte. como sucedia na familagem. estamos governados. além da resina e da caruma que davam para as estrumeiras. .

Rezava alto e era uma pagodeira. é que se mete a farripa de lã para a algibeira.. As comadres faziam-lhe roda e até lhe puxavam pela língua. o modo de uma pessoa atilada se safar da enrascada. já ela estava com os dentes enfechelados. ao cão que mora mais perto do ninheiro...Se a alminha dela se perder vós sois os responsaveis.respondia o Duarte. Olha. Queria que chamassem o padre e a mãe fazia coro com ela: . Essa não falava alto pelos caminhos. cães? .tornava a mãe. Chamai um padre. Descoseu-se hoje ao soalheiro. que é um grande encarrego. senão ia dar parte. Deus lhe fale n'alma.Vá ladrar a uma horta. até a fazê-los.mas não pegou. e ela passava o tempo de joelhos virada para duas paredes a rezar e a acusar-se. Vem o meninojesus ter com ela à cama . já sua mãe era mais comedida. quando se está na carmeada e um patola se tranca diante da candeia ou se arrima a nós a fazer-nos gatimanhos. todos se punhan à coca para ouvir e ir contar. Ensinou-lhe também o processo de não deixar chocar os ovos nas quintas do próximo e. De verdade. 66 . servindo-se das palavras irresponsáveis duma tolinha. Rape. Agarrava o que podia.” Sua tia tinha dito em público e raso como a roubara e onde a roubara. não havia ninguém que pusesse em dúvida que estava louca. Valeu à Bárbara ter coragem e contratestemunhá-la pela aleivosia que lançava sobre gente honrada. abandonando-se a um homem casado. Acabou sequinha como as palhas a pedir confissão. . como havia de suceder a ela e a todos. . e sepultar lá o raio da saia da mulher.É Deus que fala pela boca dela. reduzida a esterco. Ela ainda ensaiara a estrangeirinha: Minha mãe é santa. Comia como uma tulha e nada a fartava. Que surras não fez dar ao cão do Calhorra.necessárias. E o ardil surtiu efeito. acusou-se de ter roubado uma saia à Cismai. para debaixo do avental ou então pela saia acima.. depois de erguer uma laja. Entre elas.. Padre-Nosso e Ave-Maria: fora o que se chama lagóia espertenida. Só tem direito de lá tocar quem sobe ao poleiro. Você quer ir acabar à cadeia? Não foi pouco que o senhor Bacelar viesse ministrar-lhe a Extrema-Unção. Diziam: . uma paz de alma. a Cismas foi a que fez maior escarcéu: “Queria para ali a sua sala. o Mondego! E tudo por esta cartilha. senão era motivo para a levarem à justiça. Nunca mais puderam deixá-la sair sozinha? Fechavam-na na quintã.. mesmo em casa. que chegou ao estado de inocente.Chamai o padre. para a algibeira. Nos seus tempos nada lhe metia medo. Umas zoinas chegaram a testemunhá-la. Fora ela que lhe ensinara a regra do bom viver: Olha. que é atirando o ovo a terra e gritando ao cão que vem a passar ou. à falta desse cão providencial..Tanto vale confessar-se a um padre como a um buraco. Dava um salto na noite que nem gineta. em caso de se vir a ser surpreendido. a sua rica saia de merino. menina. quando se lhes enchesse a boca de terra. rezava. . Aí é que está mais fora de riscos. que nunca ninguém mais viu nem veria.Vossemecê não vê que está zorata? . a mão dela era uma gadanha afiada. Calhou ela culpar-se de coisas e de pecados que estava averiguado terem sido cometidos por outros. mas quando desatava a acusar-se e a acusar os seus. Fora assim em tudo.foi a tia Soledade. Mas o Duarte teve que abrir uma cova bem funda. leinbram-se quando lhe faltou do coradoiro? Outra corria com a novidade: já se sabe quem bifou o cordão de oiro à Rosa Pedralva. mas não tinha grande arte. .

Às vezes acordava e ouvia-o dizer com santa paciência: . teria. . dir-se-ia. umas vezes a fiar na roca.Senhora mãe. tão próximos que ouviam bater o coração um ao outro. Parava a chuva. Assim se desvaneceram ondas e ondas de anos.ia jurar que vinham reavivar o fedor que se sentia na casa. De dia. mais nojo que pena. as paredes alegravam-se. o próprio tempo. Ia atiçando a borralheira porque sabia que o Duarte chegava entanguido. com aquela voz canina: tenho fominha! causava-lhe. Ela virava o fundo da sua malga para a dele: Pega que não tenho fome. De noite. A tia Soledade vinha leve e rápida como das vezes que se metia nas frescatas do mosco.. na lavoira. Eram como unha com carne. não esfarele o pão. Como se atormentassem com estas idas e vindas. mas passaram a afligir o Duarte.Está a gear.Arrefeceu. pé ante pé. Ela espiava a roca.? . muito compostas dentro da mortalha. Às vezes ele acabava primeiro o caldo. expirou naquela chieira: tenho fominha! e com a mão na boca a fazer o gesto de engamelar. ou na pedra lar um graveto erguesse mais alto a chama. pouparam mais de trinta alqueires por ano e o caldo medrou tanto na horta que se desorelhavam as couves. e sentava-se à beira da cama. Soava um ronquido e esse ronquido não podia deixar de ser a velha a protestar. e era dessas vezes que a alma dela se amedrontava e fazia pequenina. Pode deitar mais um quartilho de água na panela. Ele sentava-se no banco. Comiam à lareira. traçava a cruz no ar e evaporavam-se. Mas deixavam um cheiro acre . Quando lhe faltavam com a malga do caldo ou se atrasava a trincadeira com os empecilhos da lida ia-se à pia da porca e atufava-se na vianda. de ventre empinado e a bater os queixais.Devorava um pão inteiro e uma abada de batatas em três tempos. Depois que deu a alma a Deus. Tudo lhe servia para encher o odre. às vezes pingando. Faleceram as duas com diferença de um ano e por muito tempo a casa ficou cheia delas. o leite hoje é mais grosso. e por todos os fiéis defuntos que lhe vinham à memória. outras vezes a rilhar a côdea. cada mocho a seu souto. Não voltaram a ter com ela. então que já não lhes faltava côdea no açafate. Outras vezes o irmão clamava: . A cada passo visitavam os lugares. Nem homem e mulher. Se punha uma rocada de carqueja ou de sargaço. as vacas fartaram-se de canas.Ouves os ratos? . Apareciam de noite. Seu irmão não as sabia esconjurar. Jesus. De raro em raro trocavam uma palavra e era tudo: . ela continuava a andar de roda. Rezava então pelo eterno descanso da tia e da mãe. animada dum movimento de dança. Outras vezes o Duarte largava a deitar as águas. ela acabou por prometer uma novena a S. ela no esteirão. Miguel se não voltassem mais. a bater as matráculas dos queixos. lado a lado. nas regas.. A candeia era a única coisa que naquela casa não parava. 67 . molhado até os ossos. E estava sempre a gemer: Tenho muita fominha. Maria.Senhora mãe. Disse o barbeiro que tinha a solitária. Bastava que a bafejasse a aragem. desde que estiveram depositadas no celário. Outras vezes era ele que o fazia a ela.É depois que a gata da Pedralva desamurou daqui. que custa a ganhar. e era delas. nas sachas. e iam para as mantas. abrenúncio. ele tosquenejava. Sua mãe. Coitada. acocorada sobre os calcanhares. Passavam o inverno com uma candeia de petrolina à dependura dum ourelo de serguilha por cima da fogueira.

Acompanhava o rosnado dum encrespar de sobrancelhas que fazia gelar o sangue aos que se dispunham a defrontá-lo. No fundo. não que precisasse das suas falas. Os palitos não custam a dois tostões a caixa? E os ovos? É verdade.Com que sonhas.Darão os dois contos pela regadinha? O cão do Calhorra saiu-se a dizer que a não queria por quinhentos mil réis. mancando. Pelo repouso de sua alma. Credo. porco!? Dorme. ficou a conhecê-lo. Rosnava.A labareda era uma aleluia: espantava medos e negrores... . a cozer há oito dias sem interrupção. Por alma de nossa mãe. bufou ao borralho. Ora o serão é para tudo isso e para o que é menos é para fiar. e ao cabo da oração tornou-lhe a ouvir: . a casa recaía na sua morna tristura e lôbrego silêncio. Sempre assim.ouviu dizer o irmão. depois as manias dum solteirão. por lá gente que voltava do forno. Tamancos apressados chocalhavam na calçada.. folgasse com os rapazes. escamugiu-se pela gateira da porta depois de percorrer os cantos todos como uma doninha e deixar um frio mortal. vagarosa como uma ovelha velha. Que doze anos aqueles! Primeiro a aturar as almas penadas. O que acontecia era andar oito dias mais macambúzio que um cerdo com arganei e não lhe falar.. À porta eram capazes de dizer que os roubei. mas só os vendo na feira. e até os fantasmas das duas defuntas. A gente que fora ao acompanhamento voltara tão caiada que nem parecia deste mundo. Desde a hora em que se engrifou com ele. . Agora uma passarola qualquer esganíçava-se por cima da casa.Se te derem os dois contos não fazem grande favor. Um espiche de ar atravessou a casa. Mas desde que vinha o Duarte e. Ferrara-se a chover deveras.. grito ó da guarda? . Mais de uma vez se tomara de rixa com um ou outro atrevido. se ocupasse das vidas alheias.. Barafustava. passeava a outra sobre as brasas. Era como os cachorros de porta que mostram os dentes. vá. com a perna encanada. Ouviu-se a chuva tamborilar no telhado e nas lajas do caminho. perdida no meio de penedais.. mas bater como quando era moça. Tinham cortado com o serão. 68 . Ficaram calados. esgrimia com os braços..Estás a rezar? . tó ruça. .Reza também. Passou o murmurinho pelos lábios do Duarte.Pois se me apanho com os dois pacotes!.. plantado como um buzilhão de pássaro numa das patorras. Também lhe era preciso “pedir a vez” que não lhe restava mais que pão e meio no tabuleiro. mas nunca mais se atreveu a tocar-lhe com um dedo molhado. mas porque lhe causava dó aquela eternidade inconsolável. E a noite lá ia mancando. Extinguira-se na lata a trasbordar o batuque da gota de água. Daquele modo a vencia.. pontuado de sibilos como do vento nos buracos do telhado. Por dentro era um borrego.. que estais no céu.. buliu com o quer que fosse que tinha jeito de papel ou asa de noitibó. Safado? Se me derem menos. Falava pouco e quem fala pouco mete mais respeito que os fanfarrões. tenho para ali duas dúzias. tudo aquilo era postiço. Passaram por ela carros e carroças de pensamentos. Ameaças. Ela de princípio também se iludira. que não era nada de nada o que a outra gente supunha! Sua mãe falecera por aquela altura. . Temiam-no supondo-o capaz de maus repentes... O Duarte não tolerava que ela dançasse. padre-nosso . único na terra. caía neve que se desfazia o céu em farfalha branca.

Também ia no acompanhamento o senhor Antoninho. que estás tu a sonhar?. Ao tempo usava bigode. Fora há doze anos. E. A sua voz. Não a deixava e conduzia-a para o meio das giestas.durna segunda pessoa a desdobrar-se da sua carne. porém.. a brenha transfigurava-se no bosque de japoneiras em flor. Mas. a agarrá-la.. Estás a sonhar com o varrão. preto que nem azeviche. aguçavam o bico na casca das franças e espreguiçavam-se desembainhando molengamente a asa sarapintada... Ela recrudescia em sua zanga: . Estava no seu princípio e era fresca como abrótega. como quem não quer a coisa... transido de cólera. Lá vinha ele todo dengoso.Barboreta? Àquele engodo celestial respondia ela com um aulido estridente e gozoso..Minha desenvergonhada. parecia a duma fonte a alegrar com seu murmurinho os codessos do montado. acorda. ela via-se na obrigação de sacudilo: _ Deixe-me? já lhe disse... filada pelo braço.. onde uma vez esperara com a tia Soledade o recado arriavioso do dianho dum fidalgo. mas tinham ar de ser bisnaus. Que zarelho! Mas era casmurro. O corpo dele nu e truculento enchumaçava-se na meia penumbra que descia do olheiro de vidro. um bigodinho muito nédio. talvez do mundo todo. Recurvo por cima da enxerga. Sua mãe....Quando morrera sua mãe. Passarinhos que nunca vira.Olhe que eu grito. no arrabalde de Orcas. deixe-me! Qual deixar? Para que andara com negaças? Ia-lhas pagar todas.Ó desenvergonhada. ouvira dizer a um figurilha. vinte a vinte e cinco anos àquela parte.. As camélias estavam suspensas a vê-Ia e parece que também elas diziam com o Fráguas no chilreio dos passarinhos: . a súbitas.. Mas o facataz vinha de mais longe. Eram seis homens a levá-la... que era como que a voz. pesava como chumbo. Bárbara estrenoitava em pleno transporte do seu ser. desabavam aves e flores daquele céu de presépio e. via o Duarte.. berravamlhe: . Essa pessoa vinha não sabia donde. a coruja piou em quantos telhados havia no cimo do povo. Subitamente. mau grado da bicha-solitária. porfiava.?! 69 . ao passo que bruta mão a sacudia.? Se me não deixa. e a voz lançada na noite silenciosa não era mais que a expressã o do mistério inefável. grito. cada vez a abanava mais: .

Brás hoje está adiantado. S.V À hora do meio-dia os caminhos para o Vale das Donas animavam-se.Lá vêm as de Mouramorta. os ranchos avistavam-se reciprocamente. por uma qualquer coisa se engulha. Chegados aí. estendiam a toalha do comer. a sua baixela ainda que humilde. Não raro. 70 . outro ali. um tamanco que tropeçava. Ceifões. vinham mães e irmãs com o comer para os homens que trabalhavam no volfro e os passos daqueles andurriais repercutiam das vozes ásperas e cristalinas.. à sombra dum penedo se fizesse bom tempo. no cotovelo do caminho. ou rompendo de trás dos barrancos. Transcorrida a hora regulamentar. de par com o trrá-trrá das tairocas ferradas mordendo o códão e o lajedo. neolíticas.. Que havia de ser senão a busca prevista?? já se não revoltavam. Mouramorta. De certas culminâncias descobria-se o desdobre dos vales e por eles fora os velhos caminhos vadios. semeada de aldeias lôbregas. À mão. um homem comandava: alto! Eram os vigilantes da mina.. Calçam sapatinho de pelica e andam que nem comboios. traziam pela mão a garota descalça. só de jornada e pelas tabernas. Ao longo das escavações. sim. quer dizer. um apelo mais alto lançado ao longe. Nos dias estivais. a terra baça cobria-se de losangos brancos como se por ali se houvesse esflocado neve.. Arriando as cestinhas. E novamente a campina se alagava com a voz de córrego das mulheres. interjeições joviais. o que dava ensejo a trocarem as raparigas as suas impressões: . Alçavam a mão para os cabazes no jeito de soerguer a toalha: . não menos desdenhosa: O rancho de S. um aqui. O jornaleiro agrícola tem outras exigências de mesa que não tem o operário das cidades. com o seu garfo. em grupo acolá. Sentase por terra.Veja. À volta da mina e encosta fora. que já se estendiam pelas leiras e excresciam em montes de desaterro.Deixem lá ver o que sobrou do almoço. veja bem. arrumada a louça. contra o desmonte. costas dobradas. presumidas disse. Pedrões. As de Mouramorta porventura tangiam esquila. a sua faca. Dos quatro pontos. Gastam em cheiros quanto ganham. Malhadas da Serra. Com a cesta à cabeça ou enfiada no braço. mas de olhos floridos da maravilha que era a mina donde brotavam as saias de chita deslumbrante. e não era romaria a nenhum dos santos milagreiros que dos altos picotos espargem sua brancura celeste pelo mar de urze e penedal que é a Nave. nas barracas em dia de chuva. Brás da Nave. mas há-de ter a ilusão que está em casa. os cordões de oiro e as tamanquinhas de verniz com que ficavam umas fidalgas. prestavam-se de boa mente ao exame: . traçados com tantas curvas e reviravoltas que bem se notava não saberem o que era tempo os homens do passado. rotinha e ranhosa. porque come muito com os olhos. E. uma ou outra vez varrido o prato para o rafeiro fiel. ala. tigela em punho. é nojento. que passavam da centena os assalariados. a trouxe-mouxe. acendia-se toda aquela branquidão dos almoços.

e ia até apalpá-las. tão falho de escrúpulos como pitoresco. à semelhança dos guardasfiscais nas barreiras. Tornouse difícil a roubalheira. posto não conseguissem estancar de todo em todo a fuga sub-reptícia do minério. alcançava altos preços e corria que certos párias quando apanhavam uma pedrinha a talho de mão. que não havia como o miolo para esconder umas pitadas de volfrâmio.O homem. Os processos variavam. Hincker. que era homem de rasgo e vistas largas. O que se evade por esta forma não conta. traziam-no em estilhas. Não levavam por isso as buscas até onde o Antoninho Fráguas queria que se fizesse em Muradais: despir as mulheres antes de largarem com o gigo do comer e dar a sua purga aos homens. na exultação de terem iludido a devassa ou por natural singeleza. Fazia-lhes ainda plantar tudo no chão e. reduzidos a fazer mão baixa apenas em 71 . dado que andasse de pedra no sapato ou recebesse ordens. Hincker folgava imenso quando lhe faziam a história de tais ardis em que se aprazia ver ressurgir aquele génio celto-turdetano. Por enquanto vai chegando para se furar a pele aos godemes! Com providências elementares. sem arestas que lhes magoassem a tripa. Mas os guardas porfiaram na caça. Foram apanhadas algumas mulheres com pedregulhos tão recheados de volfro que excedia o arrátel. bem à vista.Podem seguir! Riam com desafogo. e deixava correr. embora não impossível. por isso mesmo refractário à filtragem. . em vez de trazerem o minério assim em bruto. dando ao topete: .Deixem lá. O volfrâmio. era o mais cândido e comum dos recursos. areias estremes que pesavam às vezes onça. e em última análise insignificante no volume da massa mineralizada. sem que ao focinho do argos chegassem ventos da candonga. metia o nariz até ao fundo das caçoilas e mandava-lhes esfarelar a grossa broa centeeira. como nas minas do Rand. com o que multas recalcitravam. a título de pôr cobro a desvios que computava de nonada. Equivalia à exsudação inevitável que se dá nos canos de gás e nos depósitos de benzina. É o quinhão dos ratos na despensa e dos pardais na seara. e desanichara a mulher jeitosa para tais artes numa das frandunas que tinha por conta na almuinha do Rapa-Tachos. E perdurava na opinião de que não valia a pena. A Administração acabou por fechar os olhos a um género de fraude assim miudinho. uma vez limpo. mesmo com os capatazes à perna. que consagrava a manha como uma virtude e admitia roubo desde que praticado com boa e original sagacidade. varrer as migalhas e restos para terra ou duma vasilha para outra. Assim como os homens conseguiam sempre um meio de escamotear o seu migalho. ditara para os engenheiros: _ Não aparem as unhas muito rentes. De princípio a escandaleira passara as marcas. Depois. Fora precisa uma apalpadeira. desafiando a imaginação mais fecunda e atilada. e botavam à grandura dum ovo de codorniz. as que transigiam levando o vexame à conta de patuscada. desde que tinham tranças grossas. Tais e tais abarrotavam de contrabando. Enfronharem-no no cabelo. a montagem dum cordão fiscal mais próprio para vexar do que para trazer prestígio ou emenda. passavam-na ao estreito. oferecendo uma pinga na terra. Mas também acontecia. reprimiriam a fraude de maneira a que os rapinantes. ou jogando chufas. mostravam-se elas mestras no engenho de passá-lo. arrebitar apenas a ponta da toalha e proferir de bom grado.

produção. o petróleo romeno. presumia a Wehrmacht possuir o primeiro armamento do mundo. O marco sai do suor. pretos. depois de frisar a significação ecurnénica do facto. foi investido do cargo de fiel. procediam à vara larga. A dois meses da primeira enxadada tinham erguido no Vale das Donas armazéns e telheiros de abrigo.Vamos. Hincker visava acima de tudo aos resultados. reverberada porventura do lema que norteava o Reich hitleriano. não sendo em tempo normal duma produtividade de primeira. Na expressão enfática dos Nazis. superintender nas arrecadações.000 rs. adquirir e consertar ferramentas. o níquel da Finlândia. ruivos..notificara Hincker aos agentes. homem para quebrar uma laia com os dentes. o ferro noruego. montado o dínamo. não causassem dano de monta. só não cantava as estrofes heróicas do DeutschIand über alles na música da Internaclonal porque a desconhecia. Hungria e Croácia. não há que ver. escudado por Berlim. e tratavam de instalar separadora e lavaria. A libra saí do suor de toda a gente que cobre a terra. tinham parado ali. Como o volfrâmio atingira a escala do oiro. amarelos. tendo por função especial contratar e despedir gente. de Portugal. havendo a intromissão dolosa do Calhorra desobrigado Hincker dos compromissos tomados na primeira plana. Já por duas vezes os grandes camiões de seis rodas. e o carvão do Ruhr>. francês e espanhol. e outros que lhe eram afectos. surdos e cinéreos. E por natureza estavam destinados a contrabalançar a corrente da desordem e da cupidez. E mãos à obra. saltando por cima das teorias estabelecidas pela economia política em matéria de capital industrial e seu rendimento. bem lembrado do seu grande desembaraço na estrada para Orcas. o mais invejável possível em face da importância que assumiam os minérios de tungsténio no fabrico do material de guerra. A exploração. Augusto Aires. afundidas em criptas à prova de bomba. Graças ao metal precioso. Chegou aos ouvidos de mister Corbet o dito detraente e observou: 72 . sobre a conduta dos quais podiam repousar confiadamente. mais produção era a sua divisa. 400 a 450. a bauxite de Itália. Uma turma manejava já com acerto e eficácia os revólveres de ar comprimido. o volfrâmic. desencadeadas com a concorrência e a cotaçáo espasmódica do produto. Ou pelo menos partiam desse pressuposto. exclusivamente do suor de Michel.quantidades mínimas. O Aires trouxe consigo o Quim da Urra. era. como em regra as outras da província. e os engenheiros e os próprios capatazes. e donde menos sai é do rico corpinho de john BuIl. 750 nos entrepostos. embora não haja guerra mais desigual do que esta que sustenta o marco contra a libra. Depois de pesquisas mais ou menos prometedoras no Vale das Donas. arvorou em capataz. o quilograma às portas. fechados a ferrolho e lacrados. E o senhor Hincker. . recebido a preciosa fazenda e abalado de noite em direcção às forjas ciclópicas de Leste. a Hermann Gõring Werke requerera o alvará de exploração. a febre de minar tornara-se endémica.Vamos até onde a concorrência nos force . “a velha Europa estava a defender-se com armas fabricadas com o que havia de especial em cada terra. O pessoal superior repartiu-se da Sobriga para a nova empreitada. integrados em conceito tão dinâmico. que o engenheiro Severo. Representavam estes por sua constância e ainda gratidão o partido dos legítimos interesses. Produção. .

E acontecia da manhã para a noite ficarem uns podres de ricos. onde punham nada mais que o palpite. Por montes e vales a terra aparecia picada desta furunculose. a engenhara a alma danada do Fráguas para servir de ventosa. levantados os salários. por baixo das casas e das ruas. o trabalho dos dois filhos. Cipriano. gato escondido rabo ao léu. veio a averiguar que. Pode haver equiparência entre os dois? Lavradores patudos. Manuel Torres. alegando não ter vintém e sorvida a massinha ganha com o endosso do Vale das Donas na voragem de velhas dívidas. desmentindo o princípio de que o português era um primário na fase da inaglutinação. ou ir à consulta do subdelegado de saúde. Mas no meio da vesânia geral não havia maneira de um insucesso pôr entraves aos despaurérios da cobiça. Cavavam onde lhes sugeria o sonho. Que mina era aquela do Santo Antão com uma exploração tão paradoxal? Examinando bem. à falta dum indicador no gênero do Livro de S. A mamara era o volfro. estilhaçada a pólvora bombardeira e a gatilho. devorarem outros o seu e o alheio. arriscava.. animado de espírito comunal. . se lhes sobreviesse uma tifóide. Em verdade. de modo a poderem alforjar para os bolsos e terem arame para a vinhaça. que era homem turbulento e de sorte. correndo debaixo do rótulo do Calhorra. lapuzes que antes de descerem à cova se benziam três vezes para o volfro lhes saltar ao bico da picareta. Assoclavam-se às três pancadas e um pouco à toa revolviam o solo onde aflorasse veio de quartzo. Esgaivavam na seara e no maninho. tal como as trutas na ribeira e os coelhos no monte. o Calhorra. O Calhorra. e manta do Diabo sempre a ponto de encobrir-lhe as mascambilhas. O capital anónimo era dele e. porque às qualidades nutritivas do leite maternal reunia a vantagem de ser grato Deo. E sucedendo que os trabalhadores. E. fizera banca com o Simão Tadeu e um capitalista inominado para explorarern o filão descoberto nas terras do Dr. à mão-de-obra. ou qualquer filão encasquetado em granito. Uma martelada imprudente cortou a corda e três homens vieram britar-se nos abismos rochosos da torrente. .Vamos experimentar na belga . suspensos por amarras do alto cairel. além do seu tempo de feitor e respectivas sentenças. Manuel Torres. refluíssem em número da Sobriga e do Vale das Donas para ali. Hincker fez reparo. além um poviléu inteiro que. rasgando valados e fojos absurdos. na região. O padre não passava da union-jack daquela empresa escura. tão fonas como suspicazes. se tinham a vaca doente.Pode ser que lá se encontre mamara.avisava-se de dizer um belo dia o visionário à tribo congregada.O Reichsmark é um farroupilha e a libra uma grande aristocrata. cerca da ponte da Mizarela. Aqui era uma família que fazia a lavra por sua conta e risco. e para as bandas do Ladário o fosso foi de tal ordem que se assapou sobre os pesquisadores a capela dum santo. que noutros tempos seriam insusceptíveis de arriscar uma coroa com o veterinário. manobrava a toque de sino a picareta e a enxada. ao Santo Antão. Com efeito a pesquisa oferecera logo de princí pio promessas tão pouco satisfatórias que nada justificava trazerem ali a gente em barda que se sabia. pois que este 73 . O resultado as mais das vezes era calamitoso. esvurmadoiros de saibro e rimas de pedra. viravam a courela desde os penetrais ao húmus. trabalhavam firmados em andaimes sucessivos. e em muitos casos sem outra razão que a de serem donos de duas aguilhadas de saibro ou de fraga. Nas arribas a pique do Cairria. dito e feito. implicava a responsabilidade do Dr. associavam-se uns com os outros.

gente de gravata e cachucho no anular. do bronco assombro dos penedos destroçados pelas leiras. Como vinte gramas do minério rendiam mais que a melhor jorna. 74 . De par com actividade tão tumultuária. além calcava o pãozinho na medrança. e pouco era. o apanhado ao rebusco pelos campos. Interrompida a actividade no Santo. com o solo de alqueive. não podia deixar de crescer dum dia para o outro a cambada pitoresca dos traficantes. pelas quintãs. Protestou. salteador nas suas horas. Fazia-lhe frente o Calhorra. Torres concordou e prometeu rever o assunto. homem da rifa. nas escaleiras toscas de granito. que em tempo normal enxameavam pelas portas a comprar o cornelho e a moinha e a belfurinhar a petinga corchada carretada à cabeça da Régua e de Caverriães. e arrebanhava tudo. Entregavam-se a esta tarefa em geral os velhos e as crianças e uma ou outra pobre mulher. dir-se-ia. A cada passo batiam à aldraba. os agros andavam coalhados duma vérmina que se aqui não causava detrimento. A certa altura. e ainda por bandos em certos sítios da chá e do cerro. ao cigano tropiqueiro. desabou sobre a várzea de Malhadas a mendigagem de Cruita do Alto. candongueiro. O Dr. o arranjado ao pilha e outras malas-artes.ainda tivera a lembrança de registar o filão em seu nome. Comprava o produzido nesta e naquela lavra singular à margem da lei e da razão. O Reganha ia. Nas terras de sementeira ou de pousio enxergavam-se vultos pervagando isoladamente. daí o suceder pagarem o volfrâmio um pouco mais caro que a cravagem do centeio. comparável pelo número e carreira que faziam uns atrás dos outros à das lagartas no enfolhar dos bosques. o Calhorra arvorou-se em negociante miliciano de minério. e nunca se sabia o seu montante.. o compromisso caducara automaticamente em face da atitude posterior do trapaceiro. com a carteira atafulhada de notas. vendilhão.. se Manuel Torres cedera o terreno a Silvestre para o explorar a título de compensaçao pelo dano que lhe causara o Augusto Aires. Entretanto o Calhorra era avisado que tinha de suspender a exploração até nova ordem. trazido à tona pela relha do arado e a enxada dos cadabulhos. empresário de pedintes. na esquerda cobres. ociosa e lazeirenta. e um abuso de confiança em relação ao proprietário. E eram uma praga borbulhante. ao chamariz do Roupinho. Conhecidos os dados do problema. ou movendo-se aos pares com a lentidão compenetrada. todo o jarreta. vendia acolá. de mistura com o: dê lá uma esmolinha! . Eram os rebuscadores do metal desligado da madre por erosão. tanto fino como em bruto. desde o Antoninho Fráguas e quejandos. O exame dos peritos foi-lhe desfavorável. aldeia duma densidade asiática: todo o garoto. que implicava atropelo e agravo para eles. Mister Corbet surgiu a reclamar o direito de prosseguir nas pesquisas a título de que o terreno em questão estava adentro da área registada em seu nome. e alguma colheita fazia quem tinha pachorra e olhos de lince. Marchanteava aqui. toda a velha foleira. prontos a tomar o minério de contado. com os dedos dos pé s a espreitar da biqueira arreganhada dos sapatos amarelos e a crina da trunfa a espichar do velho mazzantini derrubado. Em verdade. ou simplesmente soprada por uma aragem imprevista como os gafanhotos. na mão direita um saco. Na veniaga desaguava toda a casta de indivíduos. que por vezes cortam fundo. ouviam-se os martelos até altas horas a britar o quartzo. Severo Bacelar foi despachado a Lisboa representar contra a comandita. À noite.

Tanto Corbet como Hincker traziam assoldadados, não falando nos compradores oficiais, agentes secretos que compravam o volfrâmio a este e àquele pela porta travessa, na intenção simultaneamente de, seguindo a marcha do negócio em seus conchavos e vias ocultas, estarem habilitados qualquer hora a refrear a roubalheira e a prender os larápios. Foi por este canal que na mina do Vale das Donas se veio a saber que o Calhorra vendia todas as semanas uma dose maior do que era lícito supurar, tendo em vista o minério arrebanhado duma banda e doutra. E, motivo superior para ficarem de pé atrás, o velho negava-se a transaccionar com quem quer que fosse que não ostentasse bem clara a marca britânica. Ao Augusto Aires foi dada carta branca para deslindar o cambalacho. Era preciso o maior recato na devassa para não pôr a conrobia de sobreaviso, mormente o Calhorra, conhecido de tutilimúndi pelo autêntico pai da manha. Por isso o Aires andou a escolher a dedo os seus moscas, não se contentando que fossem cautos, mas sim que dessem prova de sagazes, com arte tanto para armar como desarmar um estrangeirinha, surpreender a ariosca no ar, seguir o fio da meada sem o enredador dar por isso. E ele com o Quim da Urra tomou a cargo espiar as passadas nocturnas do raposão, esperando-o a pé firme nas seitas costumadas e nos locais em que era useiro. Só ao cabo de semanas puderam ter os cordelinhos na mão. Secundavam ao Calhorra dois meliantes de alto bordo, o José Francisco e o Luís Ougado, aquele para a alicantina comercial, este para a alicantina, digamos, mineralógica. Ambos de estrela, beta e pé calçado, mas o seu braço direito era o Ougado. Era ele que no Vale das Donas metia os camaradas à ratonice e lhes dava instruções úteis quanto a uma indústria de si tão perigosa como arteira. Demais, era ele que recolhia o saque na quase totalidade e pagava proporcionalmente aos contribuidores. Mas na operação subsistiam quindins de todo impenetráveis. Como é que o volfrâmio continuava a fugar-se do Vale das Donas? Os guardas redobravam de vigilância e astúcia sempre que submetiam à revista as paquetas do comer. Mas nada descortinavam. E ou elas tinham de facto acabado com a candonga, ou haviam inventado sortes com que ludibriar o mais ladino. Hincker gracejava: - Pois que temos aí a Intelligence Service, não há remédio senão mandar vir a Gestapo. Além deste papel todo mercuriano, o Ougado exercia junto do Calhorra as funções não menos eficientes e herméticas de alquimista. Era o seu preparador. Fora do povo, na tapada das Margaças, onde em tempos erguera uma cardenha que servia para recolher o milho do secadoiro, se desatava a chover, e vinha dormir de guarda ao meloal, instalara agora o laboratório de morraceiro com ventoinha, crisóis, e os pertences necessários à mangola. Ali, alumiado pela candeia fumarenta de creosende, procedia à transmutação: os óxidos de ferro e o mispíquel, de que todas as explorações era abundantes, aquecidos ao rubro num tabuleiro de zinco e “engraxados” de maneira a adquirir brilho, tornarem-se “volfrâmio de lei>@. Esse brilho conseguia-o, entre outros processos, fritando a mistela em resina de pinheiro, óleos queimados de motor, ou negro da palha. Também, em vez da pirite, acontecia-lhe lançar mão da cassiterite e da blenda, que reduzia previamente a pó impalpável, e ainda do titânio, que na região e mais raro, mas tem a propriedade de ser dotado de peso específico aproximado do tungsténio. O minério verdadeiro servia-lhes para criar a

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superilusão caldeado com morraça, sobretudo para formar à superfície dos sacos a película venal: a amostra. Os belfurinheiros, mais ávidos que experimentados, vinham, examinavam a fazenda, friccionavam-na entre os dedos e na cova da mão, e punham-se, tantas vezes, a cheirá-la, que certos produtos não perdiam o odor próprio mesmo depois de “sublimados” por meio de ustulação. - Homem, quita de fungar - nitria o velho, deitando lume verde pela pupila de gato. - Aqui não se fazem tibornas. Pega ou larga! Acanhavam-se de levar longe a suspicácia. Além de império que baforava de tanta arrogancia, acrescia ser o presidente de senhora junta. E lá levavam a carga da mistela, paga às vezes por alto preço. O curioso é que, à parte estas transacções realizadas de portas adentro, a mercadoria dirigia-se em linha recta aos armazéns de mister Corbet pela mão do Antoninho Fráguas, que a recebia da mão do José Francisco, seu agente e digno filho. No Vale das Donas achavam-lhe pilhéria infinita. E pois que a tramóia revertia mais em prejuízo desse concorrente do que de outrem, os engenheiros da Hermann Gõring W,erke deram ordens aos capatazes para fazer vista grossa até o momento em que a fraude, no que lhes dizia respeito, assumisse maior vulto. O negócio do volfrâmio batia o auge. Sarabandeavam pelas portas os chatins comprando a olho, pesando, quando pesavam, em velhas balanças de gancho com arráteis à romana. Nem todos acalentavam ilusões: eram enganados aqui, iam enganar além. De modo geral as aldeias mudavam de pele. Cobriam-se as casas de telhados novos. O quintalinho era murado a capricho e a escarpa escalonada por bons e luzidios calços de alvenaria. Mas simultaneamente surgia o negócio do marchanteador de terras, compra hoje, vende amanhã, impinge logo que possas,- o pior dos venenos. Embora? A Beira, a velha província dos nobres solares em ruína, com vidraças sem vidros e grandes portões de castanho emplastrados com rodapés de lata, paredes à escoda e bojuda comija taciturnas, porque se não há nada tão loução como o granito novo, também não há nada mais melancólico que o granito das casas mortas, abandonado à corrosão dos anos e pasto de musgos e líquenes, a velha província rejuvenescia. Na serra, as raparigas atiravam fora a capticha de lã e punham blusa de gorgoriria por cima da sainha curta. Os rapazes compravam botas, a sua bicicleta, e armavam-se de revólver. O revólver, que era o símbolo da época, equivalia a uma emancipação. Só armados eram maiores, como sucedia antigamente com os pajens. Por seu turno os velhos campónios, dobrados à lida e aos impostos, viam pela primeira vez maneira de saldar velhas dívidas cancerosas e de se porem em dia com o fisco. Os harpagões das aldeias davam ao demo a cardada que lhes subtraía o carneiro à tosquia e aviltava o mérito do préstamo. Em regra entrava ar fresco, vigorizador, na pobre e mais ú til célula da nação, a localidade rural. Economizando daqui, puxando dalém, o Augusto Aires pôde adquirir o casal do defunto Pata-Larga, falecido sem herdeiros directos lá para Lisboa, e circunstância foi essa que levou o José dos Cambais a permitir-lhe o acesso à sua porta. Sempre que lhe era azado, vinha dar o seu dedo de colóquio à Teodora, que já não escondia os sentimentos. Não andavam os pregões a correr, mas ela ia aprontando as peças do enxoval. O José Francisco, posto que preterido, recusava-se a desarvorar. Aos domingos, de cambulhada com os de S. Brás e Mouramorta, subia a rua plangendo a concertina e botando cantigas ao seu amor dum dia. Apenas

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por estes rapapés se mantinha fiel ao tipo clássico do enamorado. No mais era em tudo o manel do século vinte: gravata de malha, lenço a espreitar do bolso de encontro à carapeta da pena de tinta permanente, sapatos de cor, na lapela uma divisa de clube em vez do raminho de serpol. Entretanto foi informada a Administração de Vale das Donas de que dos aviamentos do Calhorra em minério iam crescendo, o que supunha maior consumo do metal verdadeiro para colorir a potreia. Era de supor que, por contrapartida, dalgum modo os lesasse aquele progresso. E de novo os podengos da mina se puseram a rastejar a marosca. E tanto beberam as auras, farejaram, colheram zunzuns daqui e dalém, que acabaram, nos termos da linguagem batoteira, por dar no vinte. Um sábado, dia de paga, o pessoal em vez de cobrar a féria ao postigo, como era costume, recebeu ordem para ir recebê-la ao escritório por piquetes de cinco. Uma vez o primeiro turno em frente do pagador, o vigilante que tinha vindo da Sobriga, e era homem forçudo, mandou alinhar. Depois ordenou: - Arregaçai as calças! Os cinco homens tergiversaram, procurando eximir-se: - Ora essa? Para que havemos nós de arregaçar as calças? - Para quê? já ides ver. Arregaçai? Hesitaram. O vigilante buliu com o vergueiro. Ao lado, os dois auxiliares, cada um com sua ripa, aprumaram-se de cenho descido e silenciosos. Desarmados como estavam diante dos três pimpões, não tiveram remédio os homens senão obedecer. - Desatai agora os nastros das ceroulas... Compreenderam: estavam queimados. Mesmo assim, tentaram reagir. O capataz ergueu o cipó. Deslaçaram os nastros. Deste, daquele, de todos enfim, caíram pedras de volfrâmio, se miúdas no geral, algumas grossas como avelãs, e tudo minério estreme e cristalino. Um dos rapinantes mostrava os fundilhos esfiapados à força de servirem de alforge. Os cinco homens, a seguir à revista, foram encaminhados para o barracão contíguo pela passagem interior, e sucedeu-lhes segundo turno. A cena repetiu-se três, quatro vezes com idêntico cerimonial e vozes equivalentes. Derivou enfim, tendo os homens rumor do varejo ou, na mais simples das hipóteses, acabando por desconfiar. E antes de penetrar na barraca aliviaram-se da carga que traziam. Num desses grupos estava o Luís Ougado. A voz de: arregaçai as calças! Todos se prontificaram a fazê-lo - tão pressurosamente que semelhante despacho se tornou suspeito menos ele, o que, em contraste, se tornava pela sobrançaria objecto de igual prevenção. O vigilante, que tinha fumaças de teso, sentindo farsola pela proa, cresceu para ele, depois de atirar fora a cachamorra: - Ai sim, homem para homem! Em resposta o Ougado sacou do revólver e meteu-lho à cara. Mas o Aires dum salto prendeu-lhe o pulso, iludindo a pontaria. A bala foi cravar-se no chão ao passo que os dois pendiam sobre a mesa, parecendo que se tenteavam, corpo contra corpo, quando era o Aires que, filado ao braço do Ougado, lho torcia até obrigá-lo a largar a arma. A luta foi tão breve que o vigilante da Sobriga nem tempo teve para intervir. Quando viu o Ougado sem o mata-moscas, jogado de escantilhão para a casa ao lado, limitou-se a dizer para o Aires: - Deixe o homem! Não é esse que traz minério com ele. Outros'... O Ougado arruaçava: - Ceguinho eu seja se mas não pagares! Eu cá tas guardo.

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- Quando quiseres - respondeu-lhe o Aires. - Aqui ou no cabo do mundo, com aviso ou sem aviso, tens homem. Não só não prosseguiram no despique como puseram remate à rusga. Para escarmento bastava. Estancada a fuga do minério em Vale das Donas, voltou-se o Calhorra para a pesquisa de Santo Antão, recuperado o beneplácito do registante. Pusera este como condição expressa ser o Calhorra, sozinho ou associado exclusivamente a pessoas da freguesia, a fazer a exploração, não recorrer a capitais estranhos, nem ajustar pessoal que à data do acordo andasse ao serviço de qualquer empresa, salvo ter sido despedido ou autorizado. Deste modo julgou defender a neutralidade, acautelando-se contra as reclamações e injunções duns e doutros. O Calhorra, depois de deitar contas à vidinha, chamou novamente a fazer parte da sociedade o Simão Tadeu que, se desta feita se não decidiu ainda a arriscar a importância duma missa seca, induziu o José dos Cambais a entrar com a valia de duas juntas de bois. E manobrou muito pela sonsa para que ao Fráguas fosse reconhecido o direito de sacrificar ao lado dos amigos o seu pacotinho de notas debaixo do nome do José Francisco. E assim sob palavra, como era de costume fazer os negócios na província portuguesa, que para os antigos a palavra valia oiro e escritura em tabelião, se formou aquela bisca lambida com o fim de sarjar as entranhas do cerro à cata do tungstato de ferro e manganésio, que ali se tivesse coalhado desde o magma original para os Calhorras esfomeados e fura-bolos. Mas se atrás do José Francisco estava manifestamente o pai Fráguas; atrás do Calhorra, Mercúrio; atrás do cura, Deus e o Diabo; atrás de todos quem riscava era John Bull com precisão de ganhar a guerra. Salvo Sebastopol, os Alemães ocupavam a Quersoneso deliciosa dos Gregos, com seu mar sempre azul e cidades cheias de lenda e regaladas de perpétua primavera. Com o torpedeamento sucessivo dos seus portaaviões, a Home Fleet desertava do mar do Norte, o seu bulevar. Em contraste, poderosas formações da RAF sobrevoavam a terra germânica, plantando aqui e além cenários do inferno. Após o raide de 26 de Outubro a Hamburgo, que escavacara os bairros aristocráticos alinhados à beira do AIster, volvendo de novo na segunda semana de Novembro, despejaram sobre Berlim toneladas de bombas ainda mais explosivas e incendiárias. Os Alemães atupíram as crateras das ruas, e esconderam com taipais os prédios esbandulhados em atenção à estética e ao moral do público. E pela primeira vez rosnaram: “Pois é possível que a título de inutilizar uma fábrica de carrinhos de retrós, adstrita como aliás a mais rudimentar actividade à economia de guerra, ou mesmo uma oficina que manipula lentes para periscópios, se devastem quarteirões inteiros, para cúmulo, em países ocupados, reduzindo multidões indefesas a lama sangrental?” A ferocidade da guerra total tinha os seus reflexos até a mais remota ondulação da natureza humana. Também no Luís Ougado vibrava a sanha que lançava metade do mundo contra outra metade quando apareceu no Santo Antão a exibir a carta de desquite, e o Calhorra, acolhendo-o de braços abertos, disse alto para que constasse: - Deixa lá? Doze escudos também aqui os ganhas sem mais suor. Hincker achava o Calhorra sumamente pitoresco, dum pitoresco que o absolvia da nocividade, e deixava-lhe os caminhos livres, inclusive aqueles que conduziam à traficância. Consultado por Torres, antes da transacção, não vira inconveniente em que a lavra fosse retomada nos termos rescrítos.

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E o Calhorra e os seus pegaram-lhe com a gana toda, se bem que o filão parecesse de reduzidíssima possança e mergulhar. Por todo aquele fim de Outubro, no Vale das Donas, na Sobriga, na Tojeira, em Muradais, o trabalho prosseguiu tão afincado como surdo, e esse silêncio criador correspondia à pausa com que nos países em guerra se incubavam as ofensivas trernebundas. Do Vale das Donas, por um acaso feliz, saía minério a rodos, tendo dado numa bolsada que era o assombro dos engenheiros. Saltavam à picareta pedras com dois e tres quilos de metal puríssimo, e de extracção relativamente fácil devido à circunstância de o gaveto de granito descoser sem necessidade de fogo. Isso perturbou, quando correu o rumor, mister Corbet e fez cismar o Calhorra seu aliado, como aliado do próprio Porco-Sujo na colusão de interesses, além do mais, invejoso, o que não é para estranhar num bicho de presa e rapina, com o apetite nada enfariado. E o Calhorra decidiu nem mais nem menos levar uma daquelas noites de luar, com o céu estanhado pela algidez do codo, a velha guarda - os dois filhos, brutos e espessos como búfalos, o Luís Ougado, olho vivo e pé leve, o José Francisco, ágil e arteiro, a Florinda, a mais fina das lambisgóias - ao assalto do jazigo maravilhoso. Meia dúzia de arráteis que arrepanhassem contariam no orçamento dum cristão. Ora havia noites que o guarda da mina ficava morto com a tachada, podendo passar por cima dele carros e carretas que não vinha a si. Precisamente nessa tarde o Calhorra tivera jeitos de atraí-lo à pipinha, e graças à prateira de azeitonas e à lasca do presunto, despendurado da trave, a animar a funçanata como puxavante, o homem despediu dali que nem um terno de abades depois de um jantar de quaresma. Para mantê-lo no estado celestial, levou a largueza a aviar-lhe uma cabacinha, sabendo quanto o piteireiro era sanguessuga com o briol a talho de mão, e o seu palhete das Margaças chamava-se dum quodore de respeito no género de trepador. Às dez da noite, hora dada para o trancafio, o guarda ressonava à porta da barraca, enrolado no capindó, e o seu resfôlego era estrondoso como de cetáceo sentido do arpão. Não farejando vivalma que pudesse tolhê-los, a quadrilha muniu-se de picaretas e enxadas no próprio ferramental da empresa e guiada pelo Luís Ougado desceu à mina. A Florinda tinha a seu cargo alumiá-los, para o que o José Francisco a munira duma lanterna de furta-fogo. O Calhorra postara-se de atalaia, um olho no guarda, não fosse por lá o ladrão cozer antes do tempo a camoeca e fazer das suas, que era homem de maus fígados, outro olho nos caminhos, não se lembrasse o Diabo de trazer àquela hora os vigilantes ou algum engenheiro. Um assobio seu e os francelhos punham-se de sobreaviso; dois, e acaçapavam-se; três, e salve-se quem puder. O trabalhinho começou bem e prosseguiu pela noite fora com regularidade e aproveitamento. Não mexia uma paragana na terra, entanguida pelo codo e a crassa imobilidade do céu. Para o povo, de quando em quando, um rafeiro lançava dois latidos, aguentava-se vinte, trinta segundos naquela charachina, calava-se, volvia a ladrar, e ao cabo de duas notas soltas em bemol tudo tornava a soçobrar na paz nocturna. Um automóvel anunciou-se de longe, veio arcabuzando o silêncio, rorejando com a luz dos faróis a coruta das árvores, vestindo-as de brocados e pedrarias... rompeu adiante. Ainda não era meia-noite, já tinham extraído dois sacos de ganga, mais pesados que defuntos. A obra ia em seu curso, com denodo e sem quebranto, apenas pelo desembaraço um pouco caótico

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denotando não ser regular. já o Manuel Calhorra subia o terceiro saco, gemendo, que botava lá para os noventa quilos, ouviu-se não um silvo, nem dois, mas logo três, sinal de cataclismo. Cada um tratou de se escamugir para seu lado; a rapariga acocorou-se sobre a lanterna; o Manuel deixou cair a carga ao chão, que foi rebolando, fazendo pela escada de madeira abaixo o barulho dum casario a desaba. Acompanhados da Guarda Republicana, vigilantes e capatazes puseram cerco à exploração e catrafilaram os larápios. Não tardou que estivessem todos sob custódia, salvo o Calhorra que se esgueirara não se sabia por onde. Mal se ouviu soar um galope para a estrada, disse o Quim da Urra: - Lá vai o Calhorra... Mas em vez de tomar o rumo de Malhadas, o eco toava do lado de Mouramorta, e o Aires, que lhe conhecia as manhas, ponderou: - Vai avisar o Antoninho. Toca a prevenir. De facto, o Calhorra tupa que tupa, como mais tarde se veio a saber, fustigando a Ferreira, em pêlo, com os nós da corda, foi alvoroçar o Fráguas que dormia em Muradais o sono profundo dos justos, que em beatitude apenas diverge do dos patifes na cor que têm as asas do anjo de vela à cabeceira. Quando soube que levavam o filho preso - o que para o Calhorra era perfeitamente indiferente se não tivessem sido gazofilados os seus lapuzes - acordou os criados, mandou chamar o Manuel Minga, por alcunha o Espadagana, mais dois ou três companheiros da vigairada e, depois de se encharcarem de cachaça contra o frio da alba e para ganhar rompante, terçando de quantas espingardas e revólveres puderam haver à mão, lançaram-se na chocolateira, a toda, para Malhadas. Em Malhadas informaram-nos que os presos já iam a caminho de Orcas da Beira. O Fráguas desembraiou, meteu o acelerador a fundo e antes de chegar a Pedrões da Nave, ao cabo da recta, lobrigou a escolta com os presos. Afrouxando a marcha, conferenciaram: - Atiramos-lhes sem dar tempo a prevenirem-se? propôs um que entrara heroicamente pela bagaceira. - Não; é perigoso - proferiu o Minga, mais aliviado do cérebro. - Não vale a pena irmos já às do cabo. De resto, podíamos ferir os nossos. Prevaleceu a opinião moderada e foi o salvatério, bêbedos como estavam. Ao acercarem-se, evidentemente porque sabiam a rês que o Fráguas era, a guarda fez meia volta e aperrou as armas: - Alto ou vai fogo?? Detiveram-se; fingiram em seguida a maior surpresa ao defrontar com os detidos. Com modos irónicos o cabo aconselhou-os a arrepiar caminho: - Façam de conta que vão errados. Nós é que vamos bem: ordinário marche! O Antoninho convidou-os ainda a molhar a goela na tavertia, que era costume o Catrino ter sempre um vinhinho de três assobios e, como se estava na quadra das matanças, a assadura mais que certa para amigos e unhacas. O cabo não ignorava nenhum dos estratagemas a que recorriam picardos e contrabandistas em tais colisões, e muito menos a boa peseta que lhes saía pela frente, todo falas de mel depois que vira as Mauser engatilhadas. - Não se mate. Havemos de entregar entes anjinhos, em jejum, na cadeia do concelho. Foi promessa que fizemos a Nossa Senhora da Agrela. O Fráguas retrocedeu com os seus, enquanto a escolta prosseguia para Orcas da Beira. Os presos foram entregues ao administrador. Rogos,

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81 . decorrida a semana sem culpa formada. Dizia-se que Hincker se empenhara por semelhante solução. que já envolvia corrigenda e era a menos susceptível de lhe causar engulhos e contratempos. puseram-nos em liberdade.súplicas.

impelidas por baforadas leves do vento galego. e por onde quer que se derramasse a vista.. Tinhao num taleigo e pendurou-o dum lado pelo nagalho. Chovera a potes durante semanas e semanas. O Luís Ougado quita de sabê-lo. Lá dizia o outro: ao bom calar chamam santo. devido talvez a que estava acocorada por terra. sinal de que se entrava em estiagem. certinho. o que a levou a dizer com regozijo. depois de seguir com olhos refitos o vaivém do fiel. assim que engrolou o caldo de unto com as duas batatas rachadas.Pesa mais de três arráteis e meio . Mas o Leónidas. três arráteis. Há muitas Marias na terra. adicionando um peso: . nuvens brancas iam vogando com ripanço. segundo os termos da parçaria. menos arroba. Era sábado. vende-o ao Leónidas.Bem me queria parecer. Mas como a irmão desse a impressão de perder o fôlego ao levantar os ganchos. Andava um cardume de gente no negócio. . as chuvas descarnaram as pedras pelas aradas. . posto que em mole e mal pronunciado pendor. conhecido por homem abonado e sério de contas. pode ser que arredonde o peso. ao rebusco. O Duarte assistia à operação muito interessado e sem abrir boca. do outro pôs. Desta feita o braço deslocou-se no sentido contrário. O Leónidas Seixas falara ao Duarte. pela tarde não faltariam compradores à porta.verificou ela. A terra dum dia para o outro mudara de face.. Mal o ergueu no ar. despediu para o lameiro da serra. Mas vinham aí os Carapitanos que em tempos tinham sido adueiros. vende-o lá a quem adregar. suspendeu ao alto.E cadeado na boca.Quita. Toca a pô-la em sítio onde não chegassem gatos. Com o quilo a 350$00 não havia duvida que estava ali uma rica melgueira. eram do Duarte nesse sábado e.Vamos a ver com a chave. o braço inclinou-se impetuosamente da banda da veniaga. arranjado ao rebusco. só o aceitava à condição: crivado pela separadora. tendo-lhe constado que possuíam o seu migalho.. tirou-lhos da mão e. Bárbara meteu de espora fita para o Vale das Donas. Tem à roda de quatro arráteis. arrenego! Além de ser um marralheiro de alto lá com ele. faiscavam os charcos. . mais onça. .Vende-c. As vacas. Para sul. não me rala. mas se o souber. mas o que falta. os pesos que eram ladros. . introduzindo o dedo na argola. . mal chegaria para empeçonhar um rato. O Calhorra também o queria. a chave pesa meio arrátel certinho. tudo lhe servia de pretexto para peguilhar: a fazenda que não era estreme. entretanto que elas pastavam. contanto que mo ponhas depressinha de casa para fora decretou o Duarte. entre eles o Zé das Almarges. 82 . outros de fora. a cálculo. Mas esse. depois que apanhara o grande carambolim. que estava a ver e a ouvir do próprio buraco da fechadura. uns da terra.. roçar mato. Parece que era um sacrifício que fazia em pegar-lhe. Foi buscar a chave. ao Zé das Almarges.. que por ser murado lhe permitia. Deitaram contas ao seu haver. a mão que sustinha a romana pouco honrada. Logo vou-me dar uma volta. em seneca.Não são bem os quatro arráteis.VI Bárbara foi pedir os ganchos à Pedralva para pesar o seu volfro. mais cigano Pedro do que Paulo. que o pagavam à justa..

sim. passava por ali o senhor Antoninho de escopeta às costas a botar dois bagos de chumbo às perdizes. movediços o que bonda para se dar conta que tinham corda à procura do minério. atirou um pontapé ao gato da Pedralva que saía pela gateira com uma grande rara nos dentes. pouco mais ronceiras que anáguas de velha ao . se não mais maluco. injuriou a porca que estava sempre naquela música pegada e era capaz de comê-la viva se lhe faltasse com a vianda. A várzea enxameava de vultos. de olho na mina do Vale das Donas. tão móbil e traiçoeiro se tornara o lamaçal. onde havia sempre espectáculos proveitosos para a sua curiosidade. Em muitos sítios. Chegara essa manhã a Malhadas. A cada passo. quando não era um rego cheio que vinha de longe. para lá dos caracolões do aterro do Vale das Donas.. e os próprios franguitos vissem uma fona com ele.Fontainhas gorgulhavam donde menos se esperava e a cada passo dos côrnoros e taludes um fiozinho de água. geada. Precisava de espairecer. onde se punha o pé. Deixá-lo. Rabujou com as galinhas que não punham todos os dias. dar dois dedos de trela a este e à quele. Pelas centeciras. para quem não há esterilidade. mostrava trechos amplos por entre amieiros. sempre porfiosos. pequenino e vulgar. ao entrar em casa. Uma vezes por outras. E o seu coração batia e tornava a bater como dantes. À tardinha. o chão cedia.. embora mais friorento do que se acabasse de nascer. com o galo que era peco na galadura. viera tarde. E o rio. era preciso ir às apalpadelas. Ou se desejava. tão luzente tudo que a alma duma pessoa. antes do sol-pôr. projectando a sua brancura a céus e terra. começando de novo sempre esperançados. azar que ate as mãos e esgote a paciência. Não havia vulto que saísse do povo de que ela não desse fé e não começasse a estudá-lo de longe até atinar quem fosse. quando se postam à beira do caminho de mão estendida. por muito que lhe caísse em cima a fuligem das contrariedades. outros a haviam tido igualmente. dir-lhe-ia adeus e que não voltasse mais a mangar com quem não lhe fazia febre. soube dizer que a seitoira estava no sítio. e fosse segá-la ao lenteiro. procurando o cascalho que valia oiro. Era um regalo gozar ao ar livre aquele sol abençoado. nos regos recurvos. e dizia-lhe o coração que desta vez era o fim da intriga. quando o Duarte. Como todos os serranos. esperam de quem passa. Mas se Bárbara tivera aquela boa ideia. e espreitando o horizonte. por ali divagou até se ouvirem os chocalhos dos rebanhos descendo as escarpas para os currais. 83 . Se porventura acontecesse vê-lo. a água represada contra a filaça verde dos trolhos era do mais lindo e caprichoso cristal que se pode imaginar. Em seu peito turvado cachoava um mundo de impressões desabridas e inclementes à volta duma realidade irremediável: acabou-se! acabou-se! Entrou em casa rabugenta e a odiar.r para a missa. E em cima dos penedos as caldeirinhas naturais reflectiam como límpidos e ágeis espelhos a luz celeste e as nuvens que passavam. à velocidade com que corria o tempo e ia tocando tudo para a morte. era muito menos do que o que os mendigos. E na fímbria do caminho lá ia procurando. Desejava alguma coisa dele? Ela não desejava nada. acabava também por clarificar. mas não ia jurar que tivesse vindo apenas com sentido no volfro. embora fosse bicho para passá-las a fio todas as manhãs pela sua espora de cavaleiro. pegasse nela. lhe perguntou pelo molho de erva com que havia de acomodar a Cereja. murmurava num falatório animado consigo e com Deus.

adeus. ainda com ar de dia. Se se fizer negócio. Peça duma vez. O melhor é vê-lo.. Mesmo a duzentos e cinquenta mil reis é já para perder dinheiro. O homem caminhou para ela com ar decidido: .. muito bem.. Porque é que não veio seu compadre? .Pois por isso mesmo. Ficaram hesitantes.Mas resolva lá que se me está a fazer tarde e eu quero-dormir nos lençóis que fiou a patroa.Valha-o Deus? A trezentos pagavam-no a semana de além. São tantos os que andam nesta vida que se comem uns aos outros. ela pôs a gamela de lado e veio para o sujeito que mostrava a cabeça pela talisga. serve.Só à vista. O Duarte arrumou a erva e ela acabou por inquirir.Vossemecê quem procura? ... indeciso com o molho da erva às costas enfiado no cabo do sacho. Agora. se não se fizer.E embicando para Bárbara: . mesmo nada. Ao chegar à porta virouse com brusquidão: . abrindo a porta ao homem para que entrasse com a cavalgadura: . . sem o quê tenha-me por boca mentirosa.Onde irá tal mercador que eu forneço-lhe uma carga? Também o vendo à minha santa por esse preço..Indicaram-me esta casa como tendo volfro para vender. .Então para que o compra?? ...Foi para Muradais.Aqueles maus repentes aliviaram-na das mortificações.. Prendeu o macho a uma ralada da parede pelo nó do rabeiro o atirou os alforges para o chão. bateram à aldraba da quintã.Lá me queria parecer. .Bem.. a ponta da corda lançada para a espádua em sinal de marcha. sem um argalho.É do puro. nem que o senhor se mate. dando volta com o macho. senhora. Dos alforges safou as balanças o permaneceu com elas em punho em atitude de 84 . . compadre do Zé das Almarges.Se assim tem a certeza do que diz..? É para não ir de mãos a abanar.. . Eu dê ainda hoje estoiro no inferno se não é verdade. Isto de volfro já foi negócio. O homem fez menção de abalar.ouviu que dizia o irmão. está bom de ver. de parte a parte só perdemos o nosso tempo. . . que nunca chocou pintos nem vendeu bulas. . não se ganha para a sola dos sapatos.A como é que o senhor o paga? . . Estava a aparar os nabos para o caldo da cela..Sim. fazendo de conta que é puro. mas saiba pedir. . sentada na soleira da porta.. resvés com a cabeça do macho. andam os marchantes à lufa-lufa por todos os cambais. Quer? Se quer. pegue-me na palavra. . o que se chama puro.Compromissos. Mas ele ou o filho de meu pai é a mesma coisa: andamos de sociedade. de Carapito: João Vitorino.. O Duarte empurrou a porteira e ficou-se no traço. Todos dizem o mesmo.Homem.Vá buscar a fazenda. Ainda esta manhã o andavam a comprar a quatrocentos mil réis. sempre a quero ver. . disse: quatrocentos.O senhor não é de Carapito? . Precisamente tropeçavam os socos do Duarte na calçada. homem de uma só abotoadura. Como não atava nem desatava.Disse.A trezentos. .Por esse preço. . e na fazenda não há nada que deitar fora. posso pagá-lo a duzentos e cinquenta mil réis. diga lá a como o paga. ..

. As pedras de minério puro crepitaram na faiança.perguntou ela. Bárbara viu-o escolher.. É bem a quanto bota. é que se lembrou das pedras que o homem refugara.. Começava a minguar a luz. O volfro. Duarte? .. em que o despejou. trouxe à de cima duas ou três pedras que se pôs a olhar de alto: . era o preço corrente. Bárbara foi buscar os ganchos da Pedralva. eu levo-lho a trezentos e cinquenta escudos. Por essas e outras. Os pesos estão aferidos. Passa no meio das outras. disse: . Não presta. que a cara iludia um doutor. O belfurinheiro meteu a mão. 525 000 réis. Mas. Aquela prova decidiu o negócio. louvando aqui. mal vá à separadora. Contado o dinheiro na palma da mão: adeusinho. e cego eu seja se ganho dinheiro.Precisava as tripas ao sol. Mais exacto nem Cristo. enfiaram todas para as bolsas. para ver que espécie de droga era aquela. Estas areiazinhas representavam o peso do pano. Bárbara veio com a saquinha do volfrâmio e urna almofia.Refinadíssimo ladrão? . decidam-se: querem vender ou não querem vender? Para não gastarmos aqui o dia inteiro a regatear.. quanto mais pederneiras? Mas sossegue.Pelas contas que esta manhã estivemos a deitar e as de agora.. Não chegava a pesar três arráteis. Ao erguer o alforge..Quem lhe ensinou a minha porta? . levounos passante de cem escudos. Foi a toda a pressa procurá-las. e correu ao lume por um tição aceso. não engana. brilharam concentrando em suas faces polidas os últimos raios do poente. Caiu-lhe a alma aos pés. mas não teve coragem de articular o mínimo reparo. Metade de 300 eram 150. perguntou ainda: . Se não fosse cá por coisas. Não as topou.Foi-te bem feita! Quem se lembra de fazer negócios destes ao escurecer!? 85 . rejeitar outro. talvez outro lhes pegasse. ao tempo que fechava a quintã. deitar fora esta pedra.. Pedras. mais uma... que é delas? Tinha-se afigurado aos dois que o homem atirara fora as que não eram boas e. Isto é bom. aquela. já esta pedra maior é de qualidade inferior. atirando-as ao chão. mas ele interpôs-se: .. . que o sol dobara por detrás de Mouramorta. É a quanto bota: cinco notas e mais vinte e cinco mil réis. desdenhando além. isto também. Ergueu-a no ar em sinal de lisura e era convincente.exclamou Bárbara. .Isto é minério queimado. Aceitaram. Os ganchos ainda eram mais escassos.Vá. até mais ver? Bárbara. atirava-as fora. Luís Ougado. deitado outra vez para o saco. A 350 escudos.Uma mancheia de dinheiro . Conferiram com os ganchos da Pedralva. só depois de entrar em casa e arrecadar o dinheiro. com ar desenganado e um natural tão verdadeiro que o seu coração se amargurou. aqui estava o trancafio. metade de 50 25: vinha a somar 500. vasculhou. Servia para pesar almas. . . Depois que o homem acabou de revolver o minério e pôr de parte um. a conta estava boa de fazer. mais outra. fica uma pitadinha de rapé. Veja. Isto. atirava-as para cima do alforge.Tenho aqui balança.proferiu o negociante em tom de quem pondera com filosófica melancolia a imensidade do que dá contra a bisbórria do que leva. ia sobre ele! .espera. tara-se pela sua e vai ver. em vez de atirá-las para o chão.Um moço que conheço há um par de anos.. sossegue. pesava três arrá teis e umas areiazinhas a mais. deveras.

. Oito notas e meia. nalfo de duas bandas. orelha colada contra algum buraco mal rolhado pelos tomentos. tanto que até gosto lhes faltou para arrecadar a bagalhoça. mas este gatuno oxalá tenha tanto descanso como o volfro que nos roubou! Calaram-se. Houve tempo em que na opinião do Duarte o lugar garantido era o palhal. vai ver se o pilhas.Pois não vás. entre cacaria rebentada.. bem adentro duma facha de palha. que o petróleo fora-se e já não aparecia nas tendas. Não podiam proferir palavra mais alta que se não soubesse no povo.. a velha caçoila das papas. ? Enquanto rezava. Pesava o lance. Onde ele está bem é debaixo duma das pedras do lajedo. e encontrou-as: . o espinho continuasse a picar em sua consciência de logrados. não davam conta de coisíssima alguma? A cara não é a mesma? Nenhum deles queria responsabilidade e acabaram por injuriar-se.. . embora. vende. sem uma asa. . Das palavras passaram a actos: o Duarte deu-lhe um bofetão. o que já não acontecia há que mundos.. que lhes pareceu ouvir taramelar um tamanco detrás da casa.? Quem to disse. murmurou com voz chorada: .Onde puseste o dinheiro. Pode trazer à sacada o Luís Ougado. tinha que prantar para mais de seiscentos mil réis! Seiscentos diabos o carreguem ainda hoje para as profundas do inferno? exclamou Bárbara. flusão ou realidade.. Depois de contadas novamente às avessas. ora. o que fora desvaneceu-se e o Duarte rosnou acariciando as notas gordurosas: .ardera tudo.Guarda tu! Era uma turra que se renovava todos os dias quanto ao sítio em que o dinheiro estaria seguro..É perigoso. sem o darem a entender. Ela objectou que podia deitar-se fogo ao palhal.. Assim que se certificou que eram iguaizinhas e sem mácula. o que andava não menos fora de uso.Para mais. Guarda.? O Duarte ficou indeciso. também já fora do amanho. arriscas-te a ter o Ougado à perna. que podem vir passar uma busca a casa e dão conta! Davam conta de quê? Que foi arrancado? Ora.Com este faz oitocentos e cinquenta mil réis. O dinheiro aí não está bem. Em seguida àquele desafogo entraram para dentro de casa a comer o caldo e o Duarte proferiu em tom de remordimento: . Era impressão deles que vinham para ali escutar de noite. . Só depois de dar graças a Deus é que o Duarte disse com arremesso: .Grande cão. A avaliar pela fisionomia estava a procurar razões para não se mexer. com um remendo de lata no bojo.. O Duarte contou-as: .Traze cá a caçoila. dissipadas as reservas dum para o outro. por baixo da moinha.. Apodrece com a humidade. e lá ia feno e dinheiro.. De dentro.. e ela arranhou-o todo. E erguendo-lhe diante dos olhos o grande espelho que se dera em Mouramorta em casa da Joana Enjeitada . do brasido só 86 . tirou o pacotinho das notas.Espera que eu já me raio? Quem garante que era dele? Consolaramse do seu pouco ardil desopilando quanto àquele pormenor. à qual cobria um testo de ferro.? Bárbara foi buscar de cima da pilheira.Nunca desejei mal a ninguém.. mas a culpa é tua que me matavas o bicho do ouvido: Vende. contou-as pela derradeira vez ao resplendor do braseiro. E quedaram de malga na mão. Só te digo uma coisa: antes um cão de fila que semelhante traste? ..Anda. viera-lhe à cabeça que podia ser falso e pôs-se a mirar as notas uma por uma..

declarou ao passo que se dirigia para a porta: . Não falta quem o queira. Mal-pecado se Portugal vai nas águas envoltas? Ficará casa de pé. ainda que Deus em seu bem-querer a varresse para longe. onde se há-de esconder.opinou Bárbara. mas agora. . . acudiram os Russianos.. De raciocínio em raciocínio. Mas. Primeiro foram os Franceses e Ingleses que se pegaram com os Alamões. Esta dúvida martelava no espírito do Duarte que. tal esconderijo merecia ainda os mesmos votos de confiança?! . capacitados de que eram pobrezinhos e não tinham por onde pagar!? Já a vaca dera engulhos a muitos invejosos e atirara a primeira pedra ao cristal desta redoma. resguardada das fonas pelo testo e do primeiro apalpão dos larápios pelo empacho da moinha.. com bulcões negros que de quando em quando passavam em vaga no céu e obscureciam as quatro telhas de vidro que alumiavam a casa.Tanto vale então guardar o dinheiro como derretê-lo. tratando-se de papel. segundo muitos. estava aí botada. Mas dinheiro a juros numa terra em que se não dava um traque que todos. que não dessem uma demão grátis a outrem. enfim. os ratos podiam dar com ele e esfandegá-lo para fazer o ninho. Estava uma noite serena e fria de luar.disse o Duarte . do fundo ao cimo do povo. nisto estavam ambos de acordo. não faltava quem o quisesse. os Alamões levaram tudo raso.puderam tirar os ossos da dona e duma burrinha . caminho franco quando estes ladrões tiverem disparado a última bala? Sabe-o Deus. uns eliminando outros. Mas o Duarte ficou enfadado e girou à deita. estava a bom recato. em virtude do quê todos compreendiam que andassem mal vestidos. optaram pela caçoila. representava um sacrifício heróico. É desta vez? . Começa por uma ponta e acaba por outra. o não cheirassem!?. erguendo-se da lareira. Alguns dias estiveram de acordo que a melhor guarida era a algibeira.Dá-se a juros. mas breve o tiraram de lá raciocinando o Duarte que.. Ali estava há semanas. graças ao leite. rente à carne.A guerra ..Os doutores também erram. folha verde. não há que contestar. Dizia nosso avô ter ouvido ler ao padre de Tendais que a terra havia de acabar abrasada em fogo. Mudaram-no para um buraco na parede. junta à grossa maquia que entrava e com a guerra que.é como um incêndio no restolho. acabaram por amochilar o baguinho na -caçoila velha. modo. Mas com o acidente que tombou o Clero sem sentidos à beira do rego de água concluíram que também esse lugar era precário. por modos. A questão toda é a humidade? . alma do Senhor. agora são osjapões lá no calcanhar do mundo que se atiraram a Ingleses e seus parceiros. ou quem fora lesado não desse parte em juízo. e a opinião pública condescendera em aceitar tal posse como não infringindo o seu caixilho de necessitados. a algibeira interior do colete. Toca a arrecadá-lo e a arrecadá-lo bem. Onde se esconde.Se alevantasses uma laja e o metesse debaixo. De facto. em nada diferente dos mais trastes velhos.ele teve de assentir à possibilidade de semelhante desgraça. que lá de quando em vez praticassem o seu cardanho e quem os via os não denunciasse. além de que não estava mais livre que no palhal dos riscos de incêndio. 87 . meneando a cabeça. de terem para as décimas. Mas pô-lo a render não era quebrar aquela redoma de pobreza dentro da qual se tinham metido.

como se tivesse esquecido de fazer as perguntas sacramentais de todas as noites. sobrepostos como no novelo as camadas de linho. que é como quem diz. A vida compunha-se de cuidados. como quem procura um alfinete enterrado numa almofada. Seria palermice de todo supor que os destinos dos dois se encontravam doutra maneira que não fosse por simples acaso e.. em plena feira. ala. Ele não lhe dizia: Nunca é tarde?. .Dê cá a sua mão. Ao princípio do mundo. ela a segurar-lhe a mão a Cingir que podia cair. Rosnou e. fora objecto. Deixá-lo chegar. não se julgava ainda velha. Cada um seguia o seu destino. Estava idosa. há pouco o que a apoquentava era o roubo descarado de que. ergueu a voz: . Raios te confundam! ... arrepanhando a capticha para as costas e espetando a haste da roca no cós da sala. ajoelhados os noivos aos pés do padre. . Ah. . amanhã sabe Deus qual seria. sim. Fiava e onde menos punha o pensamento era no que o irmão dizia. que para isso enxergava cabonde. do Senhor das Cinco Chagas.? Sim. tinham ficado esposados. à fidalga. Remontava portanto aquele enleio para lá do Senhor das Cinco Chagas.. Puxava a estriga. eram pequenos e iam pelo carreiro alagado das Fontes. adiante.Fosses lá tu. que sempre armara.. E agora? Era preciso procurar no peito. Ele dera-lhe a mão e. Há quanto tempo durava o derriço?! Durava já há mais tempo de que tempo ela tinha dali em diante até à tumba. que fora morrer ao Brasil. e viera a casa do tio. Bárbara crirodilhou-se junto das brasas e. Mas. ao princípio do mundo. ele de bota e calção.dissera ela um pouco por lha querer sentir entre as suas. e o borralho que trouxera do forno.Coitada.Não foste ver se a pastora da vizinha meteu as ovelhas no cerrado. emornecia a lareira e irradiava mortiça mas difusa claridade. A voz ociosa tornou: . Sim. soprara nas suas costas: Esta velha. outro pouco não fosse por lá escorregar ao saltar de pedra em pedra e tornarem-na responsável. Não remontava mais atrás. Noutro dia. àquele dia. o padre lhes deita a estola. chega-lhe pouco aos farelos.? Pois não era.. para encontrar.. mas sempre novo e imprevisto.. Houve outra pausa e o Duarte proferiu: .Não te parece que a porca está a desmedrar? . Ontem era um axe. pois tinham cozido de tarde. Que lhe doía ontem? já nem se lembrava. que queria passar adiante dela. e ia cismando. Decorreu uma pausa vazia como cisterna sem água. não rumorejava folha. em Pedrões. cada um para sua banda. Solanginha.Não fazia vento. uma rapariga. e o Duarte rosnou dentre as mantas. no fundo do peito. Aquilo durava bem há um assopro. caía se não o amparasse.Deu mais um gorchinho. ela descalça. embora remontasse à romaria.. dançava o fuso. quando de facto era supérfluo com tão grande braseiro. longe.. Mas não. hoje outro. era o casamento. os caminhos não esrão desempedidos? já sabes que tens de a coimar. . E Bárbara fiava. patinha de si. sim. pos-se a fiar. Há pouco. ele a deixarlha e a fingir que.Que tal? A Cereja trazia grande amojo. o Antoninho chegara aquela manhã. 88 .. servir-lhe-ia de emenda. como na igreja quando. irmão do pai da D. Automaticamente levou a mão a um tanganho para queimar. uns que vinham atrás dos outros.

Tudo lhe parecia pouco para o dia de amanhã.. Estava a gear. é porque estava a dormir? Nessa persuasão pôs um sargaço no lume. Dali a Muradais iam duas léguas das fartas. supersticioso como era. Credo. menos o Duarte que se botara a adivinhar. mas ele excedia as marcas.São horas de ferrar o galho. e o mundo murmurava. ali recalcados desde a juventude. Tinha-se por poupada. ainda o Duarte não fora às sortes. Só esses interessavam. Adrega assim não havia. Também o que é de mais deita por fora. ao tempo o perfeito galo doido. Coloriu-se tudo como numa aleluia. Uma vez.. a catrapiscar esta. Deviam estar a sair dos serões se os houvesse. Cáspite. Nunca o sol o encontrava na cama. no fundo da sua carne. santo Deus? Dobrada sobre os joelhos. irra. O dia de hoje para ele não entrava em linha de conta no tocante a dar à vida o que requer da maior parte dos homens na satisfação dos apetites ou gozo dos bens granjeados. Daí as suas aversões. sim. fazia-se aparecida. envolveu-se na capucha e acercou-se mais do lume. Fez-se desentendida. recebia o hausto do borralho que se amortecia. onde mergulhava senão na sepultura? Entretanto aquele chamiço que ardera há pouco e os olhos que algum dia a envolveram na sua luz eram ainda os instantes do mundo em que se suspendera a caminhada para a morte.? Ainda era viva e reviva sua tia Soledade. depois da volta completa. darse claridade. quis tomar posse daquilo que lhe daria de boa mente. hem? já sabes que não se carrega uma carrada de tojos como se enche uma maçaroca. os dentes a rir. porque tudo no crispamento da sua mão se resumia em “venha a nós” e em deitar para o saco. O seu regalo era fazer chama.Amanhã é preciso madrugar. entrando pela sua casa dentro. onde tivesse esperanças de que ele fosse.Qual.. distanciados tanto uns dos outros que podiam falar à vontade sem serem ouvidos. Da romaria tornava-se em rancho. a apalpar aquela. Trabucava como um moiro e aferrolhava. para cima da arca como os 89 . dizia-se que a gozar-se da arreganhadita?? O certo é que desde esse dia passou a andar à volta dele como sombra. onde lhe ia a cabeça! Por cima dos telhados piava a coruja.. Onde soubesse que ele poderia aparecer. toca a virá-Ia em cima da primeira arca. A chama extinguiu-se. Como devia ser fria a cova no cemitério! Deixá-lo. Esteve um instante calado e volveu: . Mas não. Por vício que não por necessidade. é à boquinha da noite. A sua casa era feita disto: de trabalhar à bruta e aferrolhar. Quanto a ela ninguém sabia do que ia em realidade no seu peito. a fuligem das paredes tornou-se em folhado de oiro. involuntariamente pôs lenha do canto.. Lançou uma. todos lá iam parar. o Duarte rabujou: . Viviam os dois debaixo da mesma telha. duas vezes o seu queixume macareno. seria dele se soubesse levar a água ao moinho. . Que lhe dissera o descarado. a casa ficou ainda mais gelada. lá estava ela. Debandaram por um segundo os maus pensamentos.. à luz do sol.Essa romaria há que ror de anos fora. e era uma consumição.. O mundo. Mas a aversão do pobre é limitada pelo interesse. Chamavam-no Gadunhas. mas com o Duarte acordado queimar lenha trazia recadeira pela certa. às vezes aos pares. e o irmão que não dizia nada. Por onde lhe andava a cabeça.. o cabelo de risca ao meio a alvorecer por debaixo do chapéu atirado para a nuca.

Quando já andava cansada de lhe querer mal. eu te ensinaria! . não vale? Se valesse. Certo dia que apareceu com a senhora e uma menina. cinco.. Na festa da Senhora dos Remédios. encontrou-a sozinha no lameiro a guardar as vacas. de continuar com o ridículo arrufo ou enganarem-se. Ele a aparecer num caminho e ela a tornar para trás. Ficou zangada com ele e consigo. três.?” .. que desandava a assobiar aos cães. Regressou ao sexto ano. tombar uma mulher de costas. doido por ela. . No dia seguinte. mais forte . Tão zangada que durante muito tempo não o podia ver nem tragado. Passou o Inverno. se soubesse! Mas não. Por despeito. nem uma passa.Mas casa-te e acabou-se. Deixou de caminhar para as bandas de Muradais. hora em que o homem deixa de ver a sua sombra na terra.. Assim de surpresa era como se fosse um estranho que se apresentasse. Para que serves? Indignou-se toda. Veio o passado à baila e ela explicou-se: “Não era homem casado? Então julgava que podia fazer o que lhe requeresse o capricho. Não seria este também o seu pensar? Uma tarde de Outono que saíra à caça. desapareceu. de o arrenegar.. O Joaquim da Mariana retirara para o Rio. Um dia acharam-se de cara ao virar duma esquina. Cometeu-a. Pretendentes não lhe faltavam... Não o esperava. que é na gente a coisa que não fala mentira. mais bonito homem.. que lhe valeria gritar!? Mas ele lá se foi. a requestavam.. Eram inimigos? Qual. É verdade. Como foi aquilo? O mais certo foi o terem pejo à hora das Trindades. Era de contar que se demorasse. Era ao escurecer e mal viam a expressão dos olhos um do outro. e ela então julgou no seu sentimento que tudo acabara.. Experimente e verá. que vem o meu Duarte e mata-nos? Ai.. Se teima. estava na laja a erguer o milho painço. Se se quisesse casar já o podia ter feito há muito tempo. Andava farta de se repetir: Olha que entre vós nunca houve nada . ai. voltou as costas ao malcriado. duas.replicara ele. Começaram o paleio em tom agridoce e terminaram acusando-se de andar a jogar o té-té. o seu destino por esse lado ia dar a um beco sem saída. Fartou-se de o evitar. Ficas para aí mirrada.que acabara de crer que dum para o outro não havia nenhuma espécie de compromisso quer de pensamento quer de obras..Não vale a pena. andavam a fingir que o eram..Ai.. Rosnava-se que se ia casar com a prima. de lhe torcer as voltas. a cuspir fora: . tratou de persuadir-se que nunca se passara nada entre eles e de traçar em conformidade a sua regra de conduta. que nem ele adivinhava quem poderiam ser. tão pequeno o faz o céu que o cobre. que já lhe ouço o tarnanco! Não se ouvia tamanco algum e ela estava a espreitar-lhe os olhos e a dizer que não acreditasse. nem o bom-dia se deram. e se dizia que a culpada fora ela. Começou a contar os anos de ausência pelas romarias do Senhor das Cinco Chagas: uma. era só chegar. desapareceu. para o não ver sequer. grito! Não andava por ali ninguém. Não e não.. Mas ao menos estivesse na crença de que podia vir dum momento para o outro... Foi durante o tempo em que o Diabo o levou para a cidade... Mas o tolo acreditou.defuntos? Seu irmão tinha ido ao lado.Está bem. Outros.. ..Ensinaria o quê?. ainda mais desastrado e grosseiro que envergonhado. Pareceu enternecido com aquele pensamento de fidelidade porque murmurou com voz que era uma flauta a gemer: 90 . está bem . Encontraram-se. atravessou ele por ali...

É uma fatalidade. menos pingo de água benta. Mas o pensamento não era cavalo que se prendesse à argola. Quando um belo dia. não tivesse pegado faúlha nas varas secas. aos apalpões. era vida safada.a tivesse enxotado do telhado da Pedralva. Aquelas duas léguas de espaço entre os dois fizeram o resto. Aquilo era já mania de velha.. refarto de carniça. ao mundo dos vivos e àquela madrigueira de gente. deixando as chancas na lareira para não fazer barulho. O senhor Antoninho. Não eram os mesmos. mas na progressiva maturescência. não. que era poiso.? Mas o Duarte acordou e grunhiu. sem coragem de se dizer que agora tudo era tarde. ele. Ela. Arregalou os olhos.. Ainda de cócoras. varreu as brasas para o paranheiro. Lá iriam todos para o meio dos pinheiros. fora perdendo o viço da juventude. onde não haveria mais que um fogaréu sob cinzas. mas no dia seguinte. deu as duas e três voltas dos cães e dos mendicantes. Seria assim morrer? Abriu as pálpebras. com mais pingo. -outro para a caçoila. A noite ia dobando mais surda que a meada na dobadoira. O raio do homem fora a Orcas e voltara a dormir ali a noite. diabo! retomava lá longe a feia macarena. do chambre. que ela apreciava. desasada. e cruz. e pareceu que se virava para a outra banda e reatava o sono interrompido. decerto espavorida. trocara-os. se meteu na cama. por mais alto. nem depois e depois. Ela enrodilhou-se nas mantas. não pensou mais nela. Qualquer homem manda no seu criado. Adormecia. Que viera cheirar naquela altura do ario?! Ouvindo tropel na rua. só por isso. dormir não era o mais importante. Erguera de rompante. e fechou os olhos. acabasse de murchar. e ela quase lhe fez quantas promessas quis. sentindo-se como que levar pelo ar. então ter-se-ia verdadeiramente descanso. Qual. Porque não dormia? Ora. como tudo. do saiote. havia que levantar cedo. já no tarde da idade. A coruja agora esganiçava-se para a casa do Calhorra como se alguém . nem no outro. já recessa. sentiu-se presa. pelos passos de sua mãe e da tia Soledade. E. como as bruxas. se ofereceu oportunidade ou ele a não buscou. se encararam com olhos de se verem sem ilusões. estancá-lo. O mais importante era parar o pensamento. que a tinha na conta da última das depravadas. e é natural que por dentro. O tempo trocara-os.. era melhor deitar-se. talvez mentindo com medo de reconhecer a feia realidade. provavelmente no mais íntimo. sofreram um baque. nula e sonsa entre as panelas. Mesmo assim apertaram-se peito contra peito. Achava-se bem ao lume. por um encarniçado azar. Bárbara! Ela esquivara para dentro do bioco do lenço o sorriso. se não era a cavalo no rabo duma vassoura. Não era dormir nem morrer. deixando que a primavera dela. o senhor Antoninho não voltou a Malhadas. e respondeu: Se eu tivesse asas.Não me fujas. enrodilhado nas saias de outras. Mas ainda desta feita. Dentro do esquife. Sim. Tornou a cerrá-las e teve a impressão novamente de que ia deslizando pelo ar fora dentro do esquife. Pois que era ela senão uma velha. uma destas 91 . nem nesse dia. ela caduca. Enfiou-se vestida entre as mantas e só debaixo da roupa se despojou da saia. a tanto que os desfigurara por fora. se o pensamento parasse. má e venenosa. dardejou um olhar para o caniço.é curioso . Agora ali estavam outra vez. um destes sorrisos de agrado que apenas se não mostram para não serem tidos por deslavamento. sim. deixou-se ir sem relutância. Grunhiu palavras ininteligíveis. como advertia o seu olharapo. mas não manda no seu pensamento.

A noite continuava a passar sorrateira como uma loba por uma estrada.. aquelas grandes pedras com que murara a regada. mesmo. e era um regalo tocar com a carne na carne dele ao que a pele era fina e veludosa.. para cima da casa.. tecia ali uma bruma leitosa. Num meio quebranto ouviu por cima dela a voz agreste do Duarte: 92 .. Mas dizem que a vida a Deus pertence. nem rendas. Possuiu-a um acesso de tosse. a asa do milhafre contra o próprio milhafre. que escorrega. Pôs-se a rezar o terço pelo eterno descanso da alma de sua mãe e tia. Se vinha por causa dela. ele trazia botinhas. reflectindo no roubo que sofrera e votando o gatuno a todas as pragas deste mundo e do outro. . que mora lá dentro. para romper logo a ressonar.. . . a luz contra o sol. Não o são os dedos da mão? Aquilo durava desde longe. perna nua até por cima do joelho. a brasa viva entre tições apagados lembrava-lhe onde estava. às ordens.. Que valia afinal a porca da carne da gente. em pouco tempo feita esterco e pó? Que se ganhava em a defender da bocada deste e daquele? Que havia ela ganho com tanto luxo e esquisitice? Não. Eram diferentes.. Tornou a esbagoar o rosário. Rezou.. Mas não. como se andasse a ajudar o Duarte a tombar pedras. se ainda aquela noite lhe servisse de mortalha. A sua mulher sou eu. Na lareira. Fechou outra vez os olhos. mas o malvado do pensamento prosseguiu na vadiagem. entrando pelo olheiro.. A tia Soledade morrera doida.coisas absurdas. que sucedem ao bicho homem: a linfa rebelar-se contra a torrente. Sentiu-o dar volta na enxerga com o escarcéu dum porco no palhuço. não tinha os seus desesperos. manso. incríveis. não era mortalha. homem. e ficou mais esperta. apancada também ela era.Ó Bárbara. a ladrona da coruja veio crocitar mesmo. para o fundo do povo. tampei..Podia saltar para lá uma centelha e pegar o fogo. Andaria a fairar a casa em que estava para entrar Nosso Pai. O Duarte ressonava e era outro aviso de presença. O galo cantou e recantou. O luar. ensopou-se de padre-nossos. Ao menos aquele não tinha argueiros a remorder-lhe na consciência. rezou. Felizardo. se tem tantas e todos os dias as malbarata ceifando-as antes da hora? Mas. nem coisa que se aproximasse.. em suma. não estava persuadida que Deus Nosso Senhor tivesse algum interesse em que ficasse para ali uma donzela relha e revelha só para pasto dos vermes.. de modo a não causar dano à comodidade da criatura? Não houvesse dúvida que o bicho roía a bom roer na raiz da sua gente.mugiu a voz choca do Duarte. ruminador e incansável à lida.? . Para que é que ele a quer? Que lhe vale mais uma.. aquela tosse que parece vinha de trás das costas e às vezes a lanceava. menos uma. Era um nimbo e tinha parecenças com o manto nevado de Nossa Senhora da Boa Morte. sua mãe liru. Nada lhe faltava. mais branda que a espuma do rio. Ouviu a coruja lá bem longe.. ao menos quem pudera subjugar o lobocerval. Para o homem domar o pensamento só havia um processo: escangalhar a corda da vida como se escangalha a corda dum relógio.. Por enquanto não lhe tocava pela porta. tu tampaste a caçoila? . se a vida é como a parede na tapada dum rei que não há o direito de deitar abaixo. Bendita ela fosse. Rezou.Até foste tu que a tampaste. Resumia o boi acabado. “Dê cá a mão. Acordaste relampado com algum pesadelo. nem o vapor diáfano da cambraia.” Estava a pegar no sono. depois de pegar no rosário tacteando.. rezou.Tampei.

- Toca a levantar que são horas. Tens de ir fazer o caldo depressinha que já lá vai meio mundo. - Ainda se não enxerga... - Qual, é meia manhã. Está baço o céu. Deixei-me adormecer depois do cantar da toutinegra. Levantou-se sem dizer mais palavraa, contente por ter acabado a noite, o seu jardim das oliveiras, mas tão má consigo e com Deus que nem sequer se persignou. Acendeu o lume, preparou o caldo para eles e a vianda para a reca. Na aldeia ia mais alvoroço do que num cortiço em dias de verão. Estavam no fundo da tigela, bateram à porta. Bárbara foi abrir. - Trago-vos um recado - dizia a tia Ana Ruça introduzindo pela greta a estriga vassoiruda que era a sua cabeça enfarinhada por dois carros de anos. - Havia de cá ter vindo ontem, mas lembrei-me que já vos tivésseis deitado... Esta pertencia ao número das que tinham malícia até as unhas dos pés e Bárbara respondeu-lhe com ar simplório: - Não senhora, nós deitamo-nos sempre tarde. Umas vezes ele reza e eu respondo; outras vezes toca gaita e eu danço. É como nos carrega a pancada. A Ana Ruça ficou de cara à banda e lá arrancou do bucho: - Foi o senhor Antoninho que chegou já noite de Orcas e me mandou cá. O Duarte pode ir buscar o dinheiro quando quiser. Ficou tudo arrumado. És um cão de sorte! - Arrumado o quê? - Pagarem-te. Cobrem-te o arneiro a notas. Hem, quatro contos nunca tu sonhavas abispar? Bárbara ergueu as mãos ao céu: - Louvado seja Nosso Senhor! O Duarte por pouco não ia deixando cair a malga ao chão. Não acreditou de princípio. Depois acabou por concordar que a fazenda assim não lhe era roubada. O senhor Antoninho fazia o que queria com uma perna à s costas e ainda lhe crescia tempo. Quis, pronto, pagaram. O seu cálculo orçava por ali, mais moeda, menos moeda. Vá, que é homem dum querer. A tia Ana Ruça retirou-se a mascar: - Arranjaste bom padrinho! Sorte de cão. Olé! - Dá-se-lhe o galo? - propôs Bárbara quando a tamanca da velha deixou de se ouvir. - Dá-se-lhe o galo, dizes tu... ? Pois dá-lhe, dá-lhe lá o galo. Isto a ele pouco custa. Sai do pêlo dos Alamões. Uma palavra que deitou pela boca fora e feito. Mas dá-lhe lá o galo. Leva-o à tia Ruça... - Então logo lho levo. E eu, sabes que mais - exclamou ao cabo dum momento de circunspecção - boto-me a Orcas a buscar o dinheiro, se é que lá está. Para estas coisas quanto mais depressa melhor. - Ah, lá isso? Acabou o caldo soprando à colher de lata. Vestiu camisa lavada; tirou os sapatos do frontal e o brejoeiro de trás da porta. - Eu antes da tarde não estarei de volta - declarou. E mais estarei. Aquilo para ser bem era pagar e girar. Levo um bocado de pão e metade dum chouriço, se tens. Acomoda a vaca. Para os tojos, sozinha, não anda a roda?

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- Não, vou para a fonte lavar a roupa que está a encardir. À saída da porta pareceu-lhe o tempo pouco firme. Voltou atrás a trocar o pau pelo guarda-chuva de paninho azul. A irmã ouviu os passos que estrepitavam na rua fora e, quando o último eco se desvaneceu, enclavinhou as mãos uma na outra: podia lá ser! Arrancou da caldeira e deitou para lá a água quente que tinha ao lume. Temperou com água fria, despiu-se, e meteu-se dentro. Ensaboou o corpo todo, tronco, pernas, pés, o peito do pecado e as axilas em que babuja o suor. Despejou aquela água, deitou outra e chapinhou, lavou-se de alto a baixo, sobretudo o pescoço, mordido do sol e da poeira, e as orelhas, ninho de toda a imundície. Limpou-se a um farrapo à falta de toalha e, nua como a mãe a pariu, pôs lenha e enxugou-se a um grandioso lume de sargaços. E, depois que se viu quente e limpa, vestiu roupa de baixo, lavadinha, a cheirar a mentrastos. Pôs meias novas, as chanquinhas de verniz, a saia de castorina de ver a Deus e o lenço de lã que reservava para quando fosse amortalhada. Lembrou-se então do galo e correu à quintã com um punhado de milho: - Pilinhas? Pilinhas todas! ... Acudiu a criação entretida a rapar na montureira e no meio o seu rico e faceiríssimo galaroz. Passou-lhe os cinco dedos e trouxe-o a regougar para dentro de casa. Atou-lhe as patas, abaixo dos esporões, as asas na nascente, uma contra a outra, e encafuou-o na giga, fazendo festas às badalhocas dos barbilhões: - Era com estas que endoidavas as frangainhas, meu parvajão! Pegou do pente para se pentear, mas não teve paciência de desatar as tranças, que eram longas e espessas. Anediou o topete, puxou o cabelinho nas têmporas. Viu-se a um motreco de espelho e, minutos depois, mais depressa do que se fosse pelo ar, batia à porta do senhor Antoninho. - Ó tia Ana? Tia Ana... Foi ele próprio que veio à porta: - És tu, Bárbara? Entra. A Ana foi agora neste instantinho ao leite. Entrou. Disse-lhe com um sorriso que ela mesmo sentia branco, desnevado de todo, embora deixasse ver lindos dentes: - Trago-lhe um galo para o jantar... - Obrigado. Põe aí... Estava em mangas de camisa e via-se que acabara de se levantar. Trazia ainda agarrado ao corpo o calor envolvente e sápido da cama. - Entra para aqui... - tornou. Conduziu-a para o quarto. Desviava-a da saleta que se lhe afigurou atravancada de sacos, pequenos sacos de lona, em fila contra a parede, que deviam conter volfro ou o diabo por ele. Mas que lhe importava a mixórdia mineral ou a riqueza? Foi-se deixando levar, ao passo que murmurava: - Ai, e se a tia Ana Ruça vem...? Nem lhe respondeu. A casa desdobrava-se em duas partes, unidas por uma galeria envidraçada. Naquela metade reinava ele. Tirou-lhe o xaile e ela deixou-se despojar. Depois, ao desatar-lhe as tranças - um capricho - e ao abrir-lhe o chambre, apenas disse: - Mas que feio! Mas que feio? Empossou-se dela: - Tardaste, Barboreta...?? Por culpa de quem...? - Benza-me Deus - exclamou Bárbara, olhando para a colcha, consternada. - Não te inquietes - pronunciou ele, com ar meio enjoado, meio grato às primícias da virgem serôdia. – Por esta porta...

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Quase a empurrou. Havia no sol um lume novo. O céu, a terra, a bandeira da Noite Boa, batida pela aragem à porta do S. Miguel, a mãe Calhorra com os netos atrás ranhosos e a roer o seu trancanaz de pão, as pedras tisnadas pelo tempo, a leitoa com os berrelhos, diziam-lhe por compenetração de sua alma no fadário universal: - És das nossas?

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VII O Luís Ougado. Mas ante o ar interrogativo do marchante não se deu por achado. Para consigo e para com Deus . deu salto. que não podia sentir o açafate do próximo farto de pão. em tais mãos era como pérolas a bácoros. quando João Vitorino lhe pôs diante dos olhos o minério comprado aos Ladeiras.que é de lei chamá-lo a testemunha nos juramentos de vingança . pouco adiantava. lampando como os outros da sua igualha a fruta na sorte do rico e o canivete deculdado no patim do vizinho. esconder e trocar a vinténs 96 . pouco mais que pedriçal e saibro. Se é certo que o dinheiro só vale pelo partido que se tira dele. quadrilheiro. Bem certo que não fora o Duarte com o seu olhar baixo de porco. chupado da fome e dos piolhos. Podia ainda duvidar . eram uns mimosos da sorte. ao que se dizia. do precioso cadáver. o que era sempre travar com unhas de fome coisas vivas. para mais. O mundo estava assim estupidamente repartido: cães da felícia e enjeitados de tal porca. verdadeiro olho de noitibó. ainda que pilões. Apre. Para que queriam semelhantes brutos a bagalhoça? Para eles tanto representavam quatro contos como quatro pintos que já não correm.protestou pagar-se do dano e respectivo desaforo. tão ladina da vista como ágil de perna e de braço. Estava corrido o véu? Assim às lascas. já se deixa ver. como se viu. ou as mãos lhe caíssem ao chão sequinhas como as palhas por bolónias e estuporadas. Amochilavam ou iam à Fazenda pôr mais um charrabeco no cadastro. amealhado dia a dia durante mais de duas semanas para a cova ao toro da giesta. Servira muito amo e apanhara muita soma de arrocho! Deitar a mão a foice mal guardada. no canal dos gados. escamoteado no Vale das Donas. Que tivesse ou não andado à espreita. julgara a cafua à prova de todas as devassas ao que estava de dissimulada? Afinal.abrenúncio? . a fazendória não valia quatro patacos falsos. Pacóvio de si. em vez de ir forjicá-lo com um fidalgo rico e esmoler. Não tinham alma para sair do triste passadio do caldo de unto e da batata rachada. feitas para girar. E o Ougado. não davam mostras de acrescentos de nenhuma ordem. Cáspite. tisnada pelo sol nos meses de sequeiro. o Ougado sofreu novo abalo. Ele pertencia ao número dos enjeitados. De quem era a culpa? Não sua. Aqueles Ladeiras. A culpa era de sua mãe que. nem o ar dos altos ermos lhe refrescava os bofes. atendendo às mãos donde viera. No dia em que se divulgou que o Duarte recebera quatro contos pela expropriação do arneiro. que fizera a socresta. Nascera nas ervas e fora medrando à lei da natureza. mas sim a arrelampada da irmã. à custa de muito ardil e paciência e com risco. outrem mais maligno e esperto do que ele. todo se roía de inveja. à espera que se lhe proporcionasse o ensejo de passá-lo a patacos. areia a areia. tinha de ser fatalmente o seu volfro. com arestas a fugir para a mina. para ele tornava-se matéria de fé que aquele era o seu volfro. se metera debaixo dum côdeas. O importante é que ficara a fazer cruzes na boca diante dela vazia. o fino alambre do seu volfro. não punham um trapinho novo. o seu rico volfro. Limitou-se a torcer os lábios no jeito tão peculiar de pessoa que deixa em suspenso por escrúpulo de consciência uma dúvida séria. escavada pelos enxurros nos meses de invernia.que Cristo estivesse em sangue e divindade na hóstia consagrada. fora dar com ela. desafogava! Ao que andava intrigado nem o comer lhe servia de préstimo.

alertado por um vago rumor. não dava nada pela alçada. que mal vinha ao mundo? No Vale das Donas.a machadinha do lavrador caída do carro com os solavancos. Mas ele gostava de fazer-lhe as vontadinhas. pesados da rabadilha. Agora que estava descoberta a marosca. e arrotava postas de pescada. pois que era da regra e não lhe parecia bem ser aqui mais papista do que acolá. picada a isca pelos rebusqueiros de sanchas e pelos caçadores da trama que vão à hora do lusco-fusco armar aos coelhos nos estercais dos brejos. o corte do surrobeco bifado ao fardo do mercador que anda de macho pelas portas e se farta de roubar os tolos.lá no fundo da sua alma ficou banzado. sim. que tem carradas e carradas e traz o gorgulho a lavrar nas ceveiras. uma rasa de pão. tinham topete para tais áfricas. pudera? A senhora mestra. Era a norma: toca a roubar. que nem valia a pena acusar na confissão. tão-pouco lhe pesavam na consciência. e até do Calhorra chegou a desconfiar. e noves fora nada. fossem os autores da frajoca? Quando. Quando chegou à conclusão de que havia que ilibar também este pincha-no-crivo. consoante o ano. costumava incumbi-lo de lhe tirar as batatas na horta que trazia arrendada ao Asdrúbal rico. que era isso? Pecadilhos. fora exercer o oficio a outra porta. Mais de uma vez que por um triz o santo se não voltou contra a esmola. nem os filhos. suspeitou daquele. Levara a devassa a ponto de espiar os vizinhos. Sempre a terra ali andava pesada e era uma matação cavá-la. pondo no chamariz todo o natural de modo a que o lambaraz desse na esparrela?! Debalde. Por isso dera mil voltas ao juízo. abria uma cova e enterrava o seu quinhão. estes pilhanços via-os praticar aos homens honrados. se lembrou de encaminhar para casa deles o João Vitorino. Às vezes pagava-se por suas mãos. tão longe do volfro como da China. Serva de Deusfurta laranjas. Em que leito de santidades se deitava o Mafarrico! 97 . malandragem! Os outros nao roubavam mais porque lhes faltava engenho e arte. fazia a trasfega para casa. segar a campainha na coleira da vaca ou do carneiro. Um momento esteve inclinado a que o ladrão podia muito bem ser o José Francisco. troçava dos laços que chegara a armar. Não fora até o simulacro de esconder volfro na toca saqueada e em esconderijos idênticos. e ficarem com a mesma cara. mormente os que lhe pareceram capazes de cometer o cardanho. de ladrão passando a roubado. De noite. Ao aparecer-lhe o negociante com o minério: é este? . sacada de gorra com o filho estroina da tulha do ricaço. inerentes a tais cavalarias. suspeitou deste. Não seria mais. Dentre a rapaziada que trabalhava no volfro. arrepelou-se todo. já que a criatura tinha predilecção especial pelo seu serviço. Baldões como aquele. Ningué m dava conta. Depois. compreendia-os e aceitava-os. procurava roubar com destreza e aviamento. gente metida consigo e salamurda. À altura em que a paqueta desandava para a escola a levar o carrego. Com o que se não conformava era que se trocassem os papéis. consumindo horas sem conto à caça do larápio. Mas. enjangado do reumático. Caçado de boca na botija. mas também não era menos limpo que os outros. que lá tinha o pai para receptador. por exemplo. Mas nem o Calhorra. assim que os paroquianos ferravam o galho. Fora então o Vargas da Violeira? Passava-lhe lá pela cabeça que os Gadunhas. uns para os outros. nem a própria senhora professora. maquiava-a numa ou mesmo duas cestas-brezas de batatas. enquanto o Diabo esfrega o olho.

onde nem ao padre confessor deixaria meter o rabo do olho. representava um milagre de equilíbrio que só não metia susto àquela gente pela ignorância dos riscos que corria. a ponto duma vez pouco faltar para expedir desta para melhor ao filho mais velho do Calhorra. ter medo que desse com a língua nos dentes. enxergam tão bem de noite como de dia e. medrando naquela zona mais recôndita da consciência. não havia além dos Ladeiras.Agora. haviam de pagar a tranquibérnia com língua de palmo. Sentindo-lhe minhocas no seio. como tal. Luís Ougado. O Calhorra. a ver para onde corriam as nuvens. além da falta que lhe fazia. ficando com as suas tapadas até a morte. O Calhorra. prático em tudo que dizia respeito a esfossar o solo e estoirar um penedo. consoante este tomo. Ora podia dar-se volta ao povo com uma candeia que outrem susceptível de tais aventuras. era o Silvestre. sempre a magicar em portas falsas. não precisam de dormir. não só pelo detrimento como pelas horas perdidas e amargos de boca que lhe haviam feito provar. deixava correr. o Calhorra têlo-ia mandado pentear macacos se não fosse o seu cabo de ordens para toda a casta de manigâncias e. à boca da exploração. têm o hábito de caminhar subtis à semelhança dos bichos do monte. depois de entendimento havido com o Dr. alma de cântaro velho? Olha que não roubamos os doze escudos que levantas ao pôr do sol! Dizia-lho a rir para lhe sacar a mostarda. Apenas na Sobriga se perfuravam poços fundos como aquele. espetava duas vezes a picareta no salão e punha-se de costa direita a contas com o seu problema. incluindo os três que o José dos Cambais trouxera à sua parte. estava sempre pronto para tudo. auferindo boa renda da desvergonha. pequeninas e oxidadas para que a intempérie lhes não faça mossa. Com uma côdea no bolso e um dedal de vinho emborcado. de aço fino e pouco consumo. mas leigo quanto ao resto. que era o mais. O filão não era escasso de todo mas. doía-lhe ter sido tão sendeiro. O desmonte. não te rales que eu também não. trabalhavam dez homens. pelo contrário. pois que acertara no alvo. surpreendem a cada canto as maiandrices alheias. Sua mãe tinha-o inteirado de quem era a Soledade nos tempos em que alcovitava por conta dos fidalgos da vila. não põem vulto nem erguem assuada. nã o sonham alto e só falam o preciso na terra chocalheira.Em que estás a cismar. Mas deixa. em realidade. no Santo Antão. Aquele mariola. Além do mais. de pé. a lavra tornava-se tão árdua como dispendiosa. como penetrasse muito para o centro da terra. virote na leveza e rapidez. Requeria grande esforço remover os entulhos. O Luís. e muita pólvora e braço teso descoser o balcão de seixo. Quem dirigia os trabalhos. Em sua imaginação comparava-o a certas máquinas que conhecia por alto. Sim. apenas um sendeiro chapado não dava conta que a flostria só podia ter partido desta sorte de indivíduos que. apreciava-o como a poucos pelas suas prendas singulares. Aos filhos cada vez lhes pesava mais a bunda e os amieiros dos tamancos. Ali. Manuel Torres. botava de 98 . ninguém avaliando a não ser os práticos que força são capazes de desenvolver. . magros e hécticos como os lobos. ia dar com ele de corpo ao alto. antepunha-se a tudo. mas sempre lho ia dizendo. E semelhante propósito. nada mais legítimo que exigir capital e juros aos mal-andantes. na sua opinião. ao balcão das tavernas. volta e meia. Igualmente a mandar a marra não pensava bem no que estava a fazer. que tinha a cargo o pistolo. que era perito na arte de conhecer os homens.

ainda ficou malaguera. mas não me trambiques a mim que sou teu amigo. Tanto andava de noite como de dia. as ventas fumegavam-lhe como uma chaminé.?! .jornada até onde mesmo um macho requeria sólida pitança. Às vezes turravam de parte a parte e armavam grande brequefesta. A preparar o cigarro. a espicaçar o vício do fumador. Extinto.. Possuía o sentido da direcção e lá ia por caminhos ínvios e ignorados certo como uma seta.Vai lá trambicar outro. Tinha de ser. e o Luís por nada deste mundo deixaria de meter a unha. enrodilhada no cotão. Simão Tadeu. Deixa lá ver. Talvez por isso abendiçoava o cigarro. uma “beata” mal cheirosa.. o Calhorra observava-lhe: .. vendede o cunqueiro. Toca a reacendê-lo.” Entremeada de ócios e partes gagas. que exige a jorna. e lhe queria como amigo da “vigalrada”. activado pela babugem. À noite. Palpitava o itinerário. Deste modo.. o Calhorra tê-lo-ia há muito tempo recambiado para a mae que o pariu. Vendédem-o pote. O Ougado para prova de lealdade revirava as algibeiras. Procediam então ao apuramento da colheita à ponta de balança. a tirar com o devido ripanço as primeiras fumaças. . Mas como eram quatro os sócios. visto o tabaco ser admitido no serviço como a água quando se tem sede. sabia escolher como um bruxo o rumo conveniente. Esta parte repetia-se cinco e mais vezes por cada cigarro. Antoninho Fráguas. Como trabalhador era péssimo e o Calhorra renegava dele. mas non me vendades o meu tabaqueiro. Faziam menção de ir encaminhar a água para os lenteiros. mas perdera a paciência para o esforço. com o odor da nicotina.Deixa lá ver. defraudava os patrões e empulhava o tempo. Fumava uma onça de Java por dia. também um nauta de primeira pelos velhos caminhos onde Cristo nunca gastou as sandálias.Assim não é de valha. ou mesmo no forro da japona. o que era o seu primeiro ganho.Não ficou coisíssíma nenhuma. com o resfolegar. Luís . Segundo a letra de pacto tão serniscarúnfio. ficava para ali uma coisa sem sentido e reles. O Calhorra não tinha outras obrigações senão fechar os olhos. Mas estavam acorrentados um ao outro por um ajuste secreto: usar o Ougado de pulso livre para laraplar quanto pudesse com a condição de repartir com o Calhorra. Metade para cada bico. ainda que nunca por lá tivesse rompido solas. meu cara de lascarinho? O Calhorra acabava sempre por lhe encontrar uma pedra de onça ao canto do bolso. A rir. Depois. Não era preciso dizer-lhe: À saída das Antas tomas pela esquerda mal avistares as Alminhas. boa parte do dia escoava-se deste jeito.dizia o Calhorra com ar formalizado. depois a acendê-lo. Tem pacta com o Inimigo . o Calhorra roubava-se a si próprio. José dos Cambais e ele. ficava sempre de melhor. Chegado às bifurcações. que nunca ele corre mais vagaroso do que de ferro em punho. Não que lhe faltasse ralé. Por todas estas razões e mais uma. . até pôr a petisca de remissa detrás da orelha. Irra 99 . Assim as mãos me meleml . vendéden’as vacas e non me vendades o pote d'as papas. perdia um ror de tempo. à maneira do galeguito: “Vendédem’os bois.Vê lá bem. Quando se curvava para a enxada. o paivante colado ao canto do lábio apanhava o seu resquício de saliva e apagava-se. tenaz e aturado.dizia dele o Calhorra. depois que o trabalho cessava com o bater das Trindades. torciam os dois muito manos pela tapada das Margaças.

a desafiá-lo para uma aposta em como tinha guardada no fato que vestia uma rica. Que andaria a tramar o grande meliante? Da orla da buraca. escapas à mão meticulosa do Calhorra.Cá varnos! Regressava a casa com noite fechada. com a preocupação secreta. e todavia rogavam-na pouco. de se governar como lhe ditava a cabeça. e com isso se desculpava quando o seu Luis rompia em desatinos e acusações: . A casa deles ficava à boqueira do povo. conhecera mais barregões que de cabelos tinha na cabeça. ? Mas tu não me manténs! . rompia a negacear com ele. não aceitava os remoques do filho. e no pé leve com que mudava de homem para homem. Chegava a noite e aparecia com os bolsos vazios. quando o Calhorra começava a convencer-se. Os amigos sempre lhe iam dando com que acalentar a vidinha. . nas horas de trapio. chamando a si o direi.com a bestinhal O Ougado jurava e trejurava que não tinha no bolso nem tanto como a cabeça dum alfinete: . que era o verbo que o Calhorra lhe mandava iniquamente conjugar. puxava um lindo motreco de minério do limbo dos frangalhos. 100 . A razão da sua munificência carnal não residia absolutamente na penúria. Tambem a mãe o estranhava.Ceguinho eu seja. Estava-lhe na massa do sangue. O Calhorra ficava varado. que perdera o respeito a semelhante autoridade.. vinha outro. de banda da serra. É capaz de roubar a madre a uma égua e ela a galope! Agora o Ougado.. afrouxara até na prática daqueles palmanços que eram o pão nosso de cada dia e se emalhavam como petinga na rede moral do seu carácter. no dizer das bocas do mundo. Luís? É na paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo? Olha que ainda vem longe o tempo da via-sacra.Olho no macanjo. ria e lá dobrava com moleza e não pequeno desdém o espinhaço à picareta. Ontem do Sancho do Prado. mais que a admirálo.Trabalhe! . atrá s duma pedra apresentou segunda e atrás dessa segunda uma terceira. e tinha o seu quê nos olhos que atraía a quem se deixava fitar por eles. . Não gostavam dela pela sua fidúcia na independência. de modo que lhes era cómodo entrar e sair sem ninguém dar conta. . o que era exagero evidente dada a sua espessa e viçosa trunfa. tio Silvestre? O chão se abra e me coma! Depois de muito jurar. Ia-se um. Um dia. ficou a ter medo dele.Valha-te o Demo! O que tu querias é que eu morresse à fome. que para isso te pagam. estimulado na sua destreza de ratoneiro. berrava-lhe para baixo: . ruivaça.. e daí boa parte da sua insubmissão e faltas de respeito. Desde franganota que.c.. que valiam umas centenas de escudos. ainda avezado desde menino a semelhante despautério. Desde essa data o Calhorra. embora em casa muitas vezes chamasse por Deus nas necessidades.dizia em seu íntimo. ao presente do José das Almarges. A senhora Rira Ougada era uma mulherona alta. e não faltavam pois que era fêmea salerosa e desenxovalhada. aéreo de todo.Anda-me. Silvestre . O Ougado.Em que estás a matutar. O filho. riquíssima pedra de volfro.Cheira-te mal. O principal é que não faltassem. Agarra-te ao verbo. E quando apanhava o Calhorra balanceado em sentimentos opostos. não se compadecia com a liberalidade. expedita no trabalho.

Mas.Homem. ainda ficavam homens para formar um batalhão. repicando as palavras com certo acinte.. só despedira quando lhe revelou onde o peleiro arrumava a trouxa. até aí também eu chego. Conhecia-lha duma vez que meditara fazer uma espera ao Quim da Urra.Nem mais nem menos. que fazia à bagalhoça? .? Guardava-a bem guardada para as precisões... depois de cismar sentado. da Ribeira. Pois então? . Assim. Com efeito. No que não havia incerteza é que se lhe fossem todos avante era devorada por tal rabugem. que lhe fazia.Senhora mãe. Tivera não se sabia ao justo quantos filhos. morrera a aparar as tripas às mãos ambas. tais altercações dentro da cardenha que acudia gente do povo todo. que não possuía muitas. À roda dos quarenta anos. que passara por ali de diligência e se alambazara corri aquela lasca. no mocho. esforçava-se sempre por lhe fazer os apaparicos.. para ires funfiar nas tavernas com os compadres ou fazeres bodeganas com as favelcas.Que lhe fazia. vossemecê nunca avezou cheta? Sim. Não havia de deixá-la em cima da masseira ou nas seixas da janela ao alcance dos cinco mandamentos de qualquer santinho tornou ele. vendo o filho arreganhar a tacha. Quem era o pai do Luís? O abade de Pedrões da Nave. Temerosa diante daquele maroto. . os alhos e o lenço de ver a Deus.? Isso é que eu gostava de saber.? Metia-ta na unha. pondo-lhe o joelho na arca. num sítio onde não visse sol nem lua. arrecadava-a. 101 .Está bem.. é um modo de dizer. enquanto batia aquela corda de poviléus? Ninguém acreditava que fosse o sargento Laurindo do 9.. não raro.. o Capa-Cavalos da Póvoa. A opinião mais autorizada apontavalhe como pai o MeIrinho. doutra que a atirara ao chão e. nunca avezou mais do que os seis vinténs em cobre com que compra na feira o sal. que és honrado. o carcereiro da vila ou um samarreiro da Bezelga que se aboletava em sua casa às temporadas. não é? . Ver a Deus e aos amigos.Já entendo: se recebesse. Um daqueles domingos. Ouça: se por acaso lhe saísse a sorte grande. que negociara em gado miúdo. berrando por Nossa Senhora. e cuia a dar a dar. . despedíu-lhe à queima-roupa: .Fica sabendo que já me passou muito dinheiro pela mão. . e passara por fazer parte duma quadrilha que operava para as bandas de Castendo. . Estalavam. embora ela jurasse e trejurasse que não era outro.. uma boa maquia de dinheiro.. Verdade ou mentira. .perguntou com o seu sisudo todo. o filho. À parte o descarado bem-fazer a quem lho pedia. ... e assim foi que disse: . Quando estivesse a maquinar ou para fazer das suas havia de mostrar sempre aquela cara.Onde queres chegar? . . está-se a ver. onde é que eu a escondia? É o que tu queres saber. efectuado o devido desconto. era muito boa espadeleira e habilitada nos mesteres de ocasião.Sério: que lhe fazia? .Olha.Mas em que sítio? Ela viu-lhe o cenho carregado e ficou de sobreaviso. Era graças a esses banzés que se vinha a apurar quem eram os amásios dela e as últimas roubalheiras dele.Faço ideia.E onde é que a guardava. seios fartos. mudava de amorios mais fácil que de camisa. ainda despertava apetite.. sempre frescalhota e lasciva. sem querer confessar corno aquilo acontecera. era um coro de anjinhos que estavarri no céu a pedir por ela ao Senhor.

uma noite que a quadrilha do Olho Vivo assaltou a casa do Plácido Velho.Sabes.Ela pôs-se a reflectir e murmurou: . as notas faziam-se em açorda... O Luís dobrou a cabeça para terra e por muito tempo esteve a conversar com os seus botões. da última facha que lhes deitei..? . sabes onde o escondia. Teu pai. Mas não se trata de furtar os cobres aos quadrilheiros. Se não fosse pai de tais rebentos. Brás da Nave. que acabou por perder a paciência.Agora. Ela. .. . Mas isso. a quem ele foi exigir o dinheiro que lhe emprestara. . Não vê que se apanhassem molha. por um cabelo que não salvaram o dinheiro. Estava meio de vianda. é o Laurindo das Salzedas e era sargento no 9 quando me cometeu. atirou com ele ao balde do porco..? Despregava a barra da saia e metia-o na costura. que lhe deu a chuçada no ventre com um fueiro. . Trata-se de guardá-los. uma vez que não fico mais rico. era asneira fazer-lhe a vontade.. Há-de concordar que. Diga agora lá como é que o Plácido quis salvar o dinheiro da quadrilha..Seja franca uma vez na vida: não foi nessa quadrilha que meu pai apanhou a choupada que o mandou para o “lindos”.Vossemecê é zorata.Aí vem a viola sem cordas! Se lho dissesse. Trazia sempre a carteira atafulhada de notas.proferiu em tom faceto fitando-a muito: .. de repente um lembrou-se e voltaram atrás. Meteram a mão e lá o acharam. Mas se as não metia na barra.. . A ferida engangrenou-se e foi morrer ao hospital de Viseu. sendo nós duas pessoas assistentes de portas adentro. guardálos por muito tempo. O filho quedou-se a reflectir um instante e replicou: . Esse de quem falas andava a comprar cabras para Coimbra e não precisava de roubar.. Olha. debaixo da cinza. Nunca ouviste contar como é que em S. já te disse que teu pai é o Laurindo. Tanto se me dá que meu pai tenha sido Pedro como Paulo. . No cós não era fácil apanharem chuva.Foi meu pai o da lembrança.. ouviu.? . onde menos se espera é que está melhor guardado. Os ladrões já lá iam..Foi o Diabo que te leve. metia-as no cós. metia-o na pilheira. não me interessa. . estou farta de to dizer. Foi um malvado das Rãs.Tens razão.. diria que a saída do velho não era tola de todo.volveu com o sorriso alvarinho que lhe arrepiava os lábios e deixava ver as gengivas muito encarniçadas. Hem! Pelo menos é o que rosnam. E lá ia 102 . . com o que sabe e com o que sei.. Conheço-os bem.. é falso. hás-de me dizer: com que fim é que tu me fazes estas perguntas? .Deixa rosnar.Não é o que para aí corre... pai destes Afonsos.Não falta ele onde meter o dinheiro! Se fosse papel. afinal de contas. mas já que temos as mãos na massa. tem paciência.... proferiu: . há-de-me dizer uma coisa . alarves maiores não passeiam nestas cinco léguas.Os filhos desse Plácido saíram uns estúpidos de primeira..Se fosse dinheiro em prata.. suponha vossemecê como qualquer juiz da fome.. Pôs o chapéu na cabeça e sem mais processos rodou. embora tenha dado em droga. que era muito apreciada a sua voz de falsete. ficava a saber mais do que eu. Andava a concertina do José Francisco no largo da capela e tinham-lhe mandado recado para ir cantar.Não..

as coisas vistas por cima da albarda são assim. enjoada. Mas bem. e ouro é o que ouro vale. Há também lá meia dúzia de pinheiros.Não. eu tenho lá um riquíssimo minério para qualquer hora. não tinha? . não o mandava bugiar. . Sim. marralhavam como judeu e cristão acerca da Santíssima Trindade. 103 . O Luís Ougado ergueu voz por ele: ..direito quando. como toda a gente sabe. a valer. O que importa no caso é o meu primo Fandinga julgar que lhe hão-de dar dez contos. o que é um arrisco. Além disso. louvo e torno a louvar. postas as coisas neste pé. “ Assim é que o primo Fandinga respondia e estava certo. O linhar dá-te uma carrada de batatas. carrega um mulo. aproveitadas as terras como nós as aproveitamos. tão pouco esperta como desnecessária. As gargalhadas esfuziaram à direita e à esquerda e as interjeições admirativas: . já dizia meu pai: Salomão cem anos semeou pão. bebe quanta água apetece. que resposta me dás.? Ora. reparou que o irmão quedara confuso e acudiu: ..Ora essa? Põe-te no meu lugar. Duarte. mas não está recheado de volfro como está a minha regada. em virtude de termos recebido quatro pela regada. notou grosso chinfrim: o Duarte que se propunha comprar o linhar ao Fandinga sapateiro e. A proporção não conta. a terra está escaldada e a semente não topa sezão. pelo linhar. para cá vinha de carrinho. Só servem para o lume. E digo-te: trocamos? Que resposta me dás. Mas o primo sabe o chão que pisa e com certeza não deixava de retrucar: “Olha. o menos que te acontecia era eu mandar-te à fava. Quem lhe pega? . se anda de milho. ou se não é antes fogo de vistas.Não senhor. admitindo que não foi porque o Fráguas se meteu nisso que lho pagaram por bom.. tu és o dono do linhar e eu da regadinha e. Tinha ou não tinha esse direito? . ao passar pela venda. primo Gadunha. O teu linhar tem tudo isso. Tu és o dono do linhar. ponho-lhe em riba as próprias virtudes teologais. é assim ou não é assim? Todos. bota os seus trinta a trinta e cinco alqueires. apoiavam o Fandinga embora o escambo de senhorios a todos se afigurasse uma rabulice de caracacá. eu da regada. Tu terás lá ricas batatas. O arneiro dá quanto muito dez alqueires de milho.Resta apurar se lá há volfro. O Fandinga dizia e dizia com segura lábia: . duas a três pousadas de trigo e no serôdio. E aposto que a minha terra dá mais rendimento se a formos a avaliar.Bem vês que se lhe deitas painço ou milho. Ora essa! Dizia-lhe que. ? Mandas-me bugiar! Tira-me as cocas dos olhos.Pega? Pega! Resposta assim só um doutor! O Duarte lambia-se todo de regozijo ao passo que o Fandinga quedava amachucado com a argumentação. ou lá quanto é. primo Fandinga. nos alforges são assado. embora primos. é semear no temporão. perdeu sempre no serôdio e só uma vez no temporão. Bárbara redarguiu: .Homem..Se tu aqui há semanas me oferecesses a regadita do Vale das Donas pelo linhar.Isso não importa. entre risos. Bárbara que assistia ao paleio com a sua cara bonita. mais cambados uns que os outros. pela Senhora dos Remédios. não nego. ainda se compreendia tal resposta. tem uma nogueira que ano por ano. faço como os ciganos. tiras tarde.

A diferença foi descendo.Puseram a América contra eles. .Pois por isso mesmo. tornam-nos a pescar.tornou o Fandinga entre risinhos mas foram os Alemães que te deram os quatro Contos. Mas em que ficamos. As amarelinhas sempre levam mais tempo a forjar. que era um assunto infernal. hoje vale trinta. Mas não posso ver com sangue-frio que se embarrile alguém. A América é uma sarna de gente. . muito menos. Meu alma de chicharro. que não sou formado em leis como vossemecê é. Tanto lhes custa dar quatro contos como quarenta. .Não.proferiu ela com voz sibilada. sinal manifesto de que não desejava outra coisa senão chegar-se à razão com o Fandinga. Não pagou já vossemecê o bolo-trigo a pataco e não o paga agora a dez tostões? Tudo vai na alta que sofreram os preços. . porque o sapateiro. Decorreu entre eles um silêncio molesto. Pode estar dez.Pois será. que é nossa. a ajuntada dos estrumes. O Duarte ficou um momento atarantado e respondeu: .Os submarinos metem-lhe quantos navios tem no fundo. .. se é possível. pareceu-me perceber há pouco que não tinham dúvidas de a doutorar. Lázaro Fandinga falava da guerra pelo que lia na Voz da Província.Mas se o linhar ontem valia cinco. .Estás a dizer baboseiras1 . as meninas dos olhos a fuzilar. passante o qual veio à baila o corte e carreta dos tolos em bom andamento. o Duarte mandou deitar um copo de vinho.Pois compra . ou. da guerra. Os Alemães têm os japoneses a favor. O Duarte não fazia nenhuma ideia de nada. Olha. que admirava a força. primo? Aproximando-se do balcão. de que era assinante. nem a guerra é briga de sopapos. e argumentava como quem joga à cabra-cega.exclamou o Fandinga entre risadas. a ceva dos porcos. o Fandinga pediu 104 . Ao menos a ti não te compraram os bifes! O Duarte ficou um instante embatucado e proferiu coçando a nuca: . e reis. Tem libras que é um nunca acabar. para pouco depois romperem os dois a peguilhar da guerra. como nós compramos carneiros. os Alamões não vencem . Ouvi dizer que os Alamões têm máquinas muito perfeitas de fazer notas.volveu o Ougado. o Inglês está em toda a parte e leva o mundo consigo. .retrucava ele ao primo. e ao fim quem ganha é ele. cheio de sombras e de larvas. ele necessariamente tinha que tomar o partido adverso.O meu primo passou-te procuração? . O Inglês tem muitas cidades. . Mas. por modos o que há de mais rico e soberbo. O braço do Inglês vai a toda a parte. Mais de metade estão no charco. Muitas cidades e muitos navios.Não passou. . mas bem grande é o Marão e dá-se-lhe volta. estão virados de pernas ao ar.Suponhamos . para lá do seu entendimento. tomava o partido dos Alamões. O Duarte ofereceu 4. . não são nenhum Santa Camarão. onde se ia sortir de fazenda uma vez por mês. agora lá se foi à gaita uma grande cidade dos Ingleses ao pé de Macau.Deixa ir. vinte anos a perder. e com elas compra homens. Nações são nações.É verdade.Homem. se o não é. generais. . e pelo que escutava na cidade e na camioneta para a cidade. Tanto desce ao fundo do mar como vai a casa do Alamão e arruma dois socos que vai tudo raso.500$000 réis. descendo e emperrou em 800$000 réis.

cheguem-se ao W. perdem o tempo. é meu. . Num dado momento o Ougado pôde fazer um aceno ao Fandinga para que lhe viesse falar de parte.Está tudo a subir. o seu tanto desprimoroso.murmurou ele com voz trágica o dialho é que estou com a corda por aqui. quando se deita. outro morre por vê-Ia do bolso para fora. com soberano desprezo.Ora. que era beberem para ali à tripa forra à custa dos contratantes. Lázaro Fandinga aprumou-se todo. À hora de jantar disse para a mãe: . E levava a mão em prancha à garganta. . era dos que mais atiçavam: . encarregue de fazer pagamentos ou compras por conta de alguém de posses? O sapateiro repicava: ... largou pela porta fora cuspinhando: . .. em tom que excluía teimas. À noite. estragado e faminto. Dinheiro no cós da saia só uma tola como vossemecê é que lá o metia. grato como estava à sua intervenção. Erguera-se grande rebuliço porque todos aguardavam o alvaroque.Pois agora é que eu vos digo: à nisgal O Ougado foi com ele.pronunciou o Fandinga. A meio da estrada segredou-lhe: . É uma aposta em como vocês os dois – e indicava-o a ele e ao Duarte . picado por aquele conceito. ao que ele correspondeu logo em seguida.Enganas-te. tudo com tal descanso que um dos presentes gritou em tom de “casar ou meter freira”: . Dê-me dois dias. façam lá negócio? Um anda pilhando por cheta. e pronunciou com filáucia batendo na zona do jaquetão que se sobrepunha ao bolso da carteira: .propôs o Urra. nã o se despe? Além disso. Duvidas? É uma aposta.não são capazes de prantar aí na palma da mão tanta massaroca como eu.É uma aposta.Fiquei a matutar no que lhe ouvi esta manhã.Esperava.5. mesmo sobre o pomo-de-adão.Vá. Se marralham. Reganha. Não seria acaso portador de quantia alta. Apostamos uma notinha de cem paus para ser aqui espatifada em vinho e trigo. O taverneiro. aqui há muito dinheirinho. O taverneiro tinha o Fandinga por um pobre de Cristo. Espere mais uns tempos e o linhar bota-lhe aos dez contos. Umas calças de surrobeco que ontem se tiravam por quinze mil réis custam agora setenta e cinco. vossemecê não tem amigos e eles não costumam apalpá-la? 105 . tenho-o comigo. O Fandinga triunfava e como tal. esperava .. os camaradirffias não arredam do adjunto para fora. voltando para o adjunto. . Claro. Dos amigos ou do Diabo. com a mão no jarro. o Fandinga torceu e destorceu o bigode.. . Cochicharam.. o Ougado cruzou e descruzou a perna.Não vendo por menos um real .Rache-se a diferença! .Aguente-se por muito que lhe custe. mas andavam tantas pelegas semeadas ao presente pelas algibeiras de todo e qualquer bicho-careta que hesitou.300$000 réis. O vendeiro olhou ainda para o Duarte que lhe fez sinal de que não trazia um chavo com ele.Homens. Talvez eu lhe valha. vai mas é rachar cavacos para a tua casa? remordeu o Ougado por entre os dentes. Ficou a aposta em suspenso.

.. Apenas quando a mãe largou ao caldo.Se não estiver. E mais nada? . um bom fogo estralejava no lar.Numa panela velha. sim.Num buraco da parede.Na arca. e disse: . . com uma quartilhaça a emornecer à quentura da brasa num pucarinho de Molelos. com o cé u pousado como chapa de zinco sobre os telhados.É como se uma broca andasse cá por dentro a bater e a abrir furo. . se fosse lajeada. tornou o filho: . Acarinhando a voz. Toma-lo? Não respondeu. deixá-la fungar? Estava uma tarde suja de inverno. no meio do pão..? Sim. Com o mormaço não fazia frio. num buraco da parece. . . Quando me vir encafuar a cabeça debaixo das mantas. Acalentou a fogueira com mais duas achas. sem tirar os sapatos. mas nada mais agradável que o lume de torgos. despojando os cavacos da corcódea.Ao menos vem para o lume. de sorte. debaixo duma tábua.. . que eu morro? ..e apalpava a região abdominal e parte do tórax. sentado um cristão à fogueira. faça agora de contas que se via obrigada a guardar a massa dentro de casa. .Uma panela velha . Bota-se a esteira no chão e deitas-te nela.E estará ele em casa? Hoje é domingo.. pode rezar-me por alma.interrogou ela. Ande cá e responda. chego lá num rufo... Estendeu-se bem ao comprido.Ande cá. com ar de enfadado consigo e com Deus.Estás com alguma dor?? ..Caramba. muito tinha onde a meter e estava com a língua perra! proferiu atirando-se para cima da cama. 106 . Por muito tempo a mãe ficou estática e calada a olhar para ele..Está bem. é que atirou o chapéu para um canto e se sentou na cama.Sabe o que eu lhe agradecia.Ela virou-lhe as costas. senhora mãe.? Talvez.Debaixo duma pedra.. como um ladrão que escuta para entrar. Retrocedeu sabendo de que jaez era aquele cabo dos trabalhos. . . A mãe veio encontrá-lo de colete desabotoado. A concertina subia a rua fungando.. Bem. já sabe. pôs o chapéu em cima dos olhos por causa da luz.proferiu em voz lamuriosa. . . Aqui e aqui.. . ..Sim. Nossa Senhora. Pense bem.Querias que te dissesse. como se quisesse dormir.. Hesitou um instante de nada e logo se decidiu: . os tamancos pelas chanquinhas para ir mais lesta. mão no seio.. Mas hás-de meter-te na cama.. a gemer.Se lhe não custasse muito ia chamar o barbeiro a Pedrões para me ver. e não deu mais sinal de si.. pensativo.. Precisamente. que a terra de lenhas era farta. Era uma grandiosíssima asneira metê-lo no cós.Na cama não me meto. de cesta enfiada no braço. ..... além de que não gostava de aparecer mal trajada em terra alheia. .. E em que outros sítios? . deixa-lhe recado. . Onde é que o metia? . A Rira Ougada trocou a capucha pelo xaile.Tenho aqui uma pontada muito grande. podia ser. Ai.? ... o solo embebido de água e o vento ronceirinho à porta.Se a casa tivesse soalho.No chão.Num buraco... E que mais? . .Não acha justo o que lhe digo?... mas se quieto estava quieto permaneceu. Sim.Faço-te um chá de cidreira. destas tardes de luz minguada..

Quantas vezes se não suspenderia ainda a dar à taramela. até que ouviu traulitar à porta a tairoca da mãe. e obrigadas aos mesmos oxalás. piscando o olho para o brasido. Mal teve tempo de jogar o cigarro ao fogo e escorregar para a esteira. Foi como um malho. A distância era grande. barbeiro muito bem afreguesado e escanhoador de fama. em sua alma quase abençoou a safadeza de ser gente. puxado por todos os foles. Mas deviam ser as mesmas. decerto a referir em lição correcta e aumentada os motivos que a levavam por aquela estrada fora. corpo morto. e com a ponta da navalha. para cumprir o dever.outra vez se deteve. atirou-se a terra. Mandriou por lá uns dias.. levava à boca.Deve ser andaço. de fornecer informações a quem lhas pedia e não pedia. pronto. E.o Ougado vía-lhe só a anca . já passou. de carapuça na tola e a Arte debaixo do braço numa taleiga que já andara a boldrié dum pedinte nos tempos afonsinos. O meu Serafim também assim esteve. A porta abriu-se de rópia.Não é nada... Ergueu a tampa do açafate e cortou uma fatia de pão. A criatura ainda não tinha dado dez passos. Mal ela virou costas. O meu medo é que seja por lá a tifóia. tia Rira. cheia de mossas o ferrugenta. Dê-lhe um cozimento de arruda. ao desaparecer na curva . Composto do estômago. Ali esteve meditando. Mas. aipo. não podia mais. Mais adiante. Vou a toda a pressa chamar o Gregório dos Santos. e vai ver como arriba em menos dum amém. dois quilómetros dali?? O Ougado abandonou o posto de atalaia. em guisa de garfo. ele a saltar num pé. mas. Isto de mulheres eram todas pucarinhas do mesmo barro. excedia a capacidade da sua fortaleza e desistiu. Se fosse verdade.Tenho o meu Luís a morrer. Quando lá se viu. Desapertou-lhe o alto da 107 . procurou içá-lo para o banco. Corri ele apertado nos beiços. nem a Florinda e mais tinham feito juras das que só desata às pessoas o outro mundo. embrulhou-se na capucha e foi-se arrastando para a lareira.Vagarosamente. Numa garrafa desencantou um chorro de vinho e remeteu-o ao paiol.. toca a embrulhar o cigarrinho. até chegar à porta do barbeiro. Não tardaria que todo o povo soubesse que estava de pés para a cova. no intuito de a tranquilizar: . tantas voltas deu na arca que acabou por descobrir um cíbo de queijo. disparou para Pedrões. repimpado no tamborete. lá vinha o barbeiro. . mas foi mais breve que o pestanejar dum finório. estacava no colóquio com a Júlia Calhorra.. Vá com o seráfico e para atalhar a quaisquer ideias aziagas que se pusesse o próximo a vomitar sobre ele? Na própria palma da mão ia cortando aos nacos. . Correu à porta e colou a bugalha do olho contra a talisga. Deglutia e magicava. Apartaram-se. e por certo que poria todo o empenho em ter azo a fazer novo e circunstanciado relato. A mae. como um inválido. A mãe soltou um grito quando o viu estatelado. um novelo de fumo a desfiar-se para o caniço. Está às ânsias.. Enterneceu-se sobre o destino. calculando. Hum.O barbeiro dirá. Voltou ainda a parar à porta da taverna. Além da mãe. mais ítem menos ítem. aquela cara de machadinha velha. alguém verteria lágrimas por ele?. Foi o juízo que se me varreu. passas. a alma banhada pela mais salutar das alegrias. cruzou-se sua mãe com a Rosa Pedralva. e não se segura nas pernas. O Gregório dos Santos. mas ele que não queria escândalo proferiu em voz que se esforçava por não ser trémula. Ouvi dizer que anda muito arcada em Mouramorta. Ouviu que dizia: . atemorizada. não se distinguiam as vozes. Não sei o que aquilo é nem que não. aos fernicoques. salsaparrilha.

O Ougado obedeceu e o tio Gregório debruçou-se a examinar aquele bacalhau de primeira. fecham-se os olhos.Mande aviar cedo. amaruja-se o agro.. a outro. Feito o quê. Se depois de amanhã não estiver bom. está já para baixo dos gorgomilos. e disse para comigo: aí. O Luís submeteu-se como um cordeiro e o fisico pôde batucar-lhe à vontade no costelado. O sangue é a lima.? . muito ancho e senhor do seu nariz. A purga toma-se em jejum. Tinha que tirar a farpela e deitar-se de costas. sem reagir. que à primeira deu berro que se ouviu em Pedrões e desmentia eloquentemente a aproximação da morte.. . deitando as suas filosofias: .O nosso corpo é tal qual a terra de regadio. Sorriu na sua consciente sabedoria. Sou como sou.. Mas eu perca o nome que tenho se amanhã por estas horas se não sentir noutro fole. assaz formalizado com enfermo tão pouco submisso. já sei o que tens. mandem-me chamar.Caramba. pelo dorso. E como o vissem de ar parado. O Gregório dos Santos ficou perplexo.? O Luís ficou calado a imaginar a possível mordedura da linhaça em seu respeitável canastro. pela frente. Mas como era homem de imaginação propôs: . Pois então?? Tenho carne de galinha. .braguilha e o colarinho para “o sangue circular à vontade” e pediu-lhe o pulso.? A isso não dizes que não.. O barbeiro ria e fazia para a mãe do paciente uma mímica variada e imperativa. A mãe tinha linhaça em casa e tratou de preparar o emplastro. É preciso trazer o corpo temperado.. Numa palavra: há que trazer de olho os humores! Deitaram-lhe a cataplasma na peitaça. aplicar o ouvido a um lado. mas só depois de emornecer. Brás de naifa aberta a desafiar meio mundo. cada pancada que nem um pandeiro.prostestou o enfermo. Quando ela compreendeu e ia a largar em busca do vesicatório. aprumando-se. quando se voltam a abrir. Lima a mais. o barbeiro estendeu o papel: .. Leva-se a xí cara à boca. que estava a bispar tudo por debaixo da mão em pala. com a água sempre justa nos talhadoiros e os regos sempre limpos. concluíram que anuía. À saída. declarou: . O remédio vaise tomando pelo dia fora. quando Rira Ougado lhe veio perguntar quanto 108 . Fez menção de retirar-se. o Ougado. Ah! ah! -Não senhor.E uma cataplasma de linhaça. . não sou nenhum valente. está tão suja que parece que andou a varrer o forno. bolsinha à dependura das costas pelo nagalho. lima a menos. desenganou-os: . filho de boa mãe? Enganei-me.Tens medo?? Ah? W e eu que te julgava um valente! chalaceou o barbeiro. Na terra haverá cáusticos. como faria ao tampo dum tonel para supurar a altura do vinho. antes morrer..Quita de dar um passo que no meu corpo não poisa sinapismo quanto mais cáustico? já disse. Desmancham-se os poses em caldo ou em leite. Torceu o nariz. Ao cabo de meticuloso exame. Tan-tan-tan..É um pleuris. meu rapaz? Palpou-lhe a barriga e desejou ouvir-lhe o coração.Vi-te na festa de S. no intervalo dos comeres..Antes morrer .Deita cá a língua de fora.. seca. Entreranto o barbeiro notava a receita num sarrafo de papel para aviar na botica. . às colheres.

devia, respondeu, e nenhuma palavra escapou ao ouvido precatado e fino do Luís: - Não há-de ser uma só vez nem duas que cá tenha de vir. O rapaz está muito mal e, se me não chamam, não me admirava nada que batesse a bota. Tenho esperança que o remédio que lhe dou, e é o rei dos remédios, o salve. A ver vamos. O Luís fechou os olhos e deixou-se vogar no silêncio da casa, quebrado de quando em quando pelo tamanco cavidoso da mãe. Ouviam-se as campainhas das vacas de regresso dos pastos e ainda a matinada roufenha da concertina lá para a porta do José dos Cambais. Depois, pouco a pouco, a luz do dia foi-se amortecendo e invadindo a casa o resplendor da chama a devorar na lareira a pilha de cavacos. Acocorada ao pé do lume, a mãe espiava a roca e velava, dardejando de quando em vez um olhar inquieto para o filho. De repente desceu da serra a enxurrada de chocalhos, vozes e estrépitos de tamancos, e, pouco a pouco, o silêncio foi-se restabelecendo até encher o mundo como um odre em que se soprou ar. Enoiteceu. A mãe rezava e o chilido das ave-marias fazia por vezes coro com o cicio do fogo retraçando a lenha. Bateram à porta. Eram as comadres a perguntar como estava o doente. A mãe acudiu muito solícita a dar a todas a mesma resposta: “Bem haja, ele, para que digamos, piorzinho não está. O que o mata é aquele pesadume no peito...” e não quis ouvir mais, desviado o espírito para outra matéria. Veio ainda o Calhorra e a Florinda, ambos com voz de caso. Mas, fez-se Lucas, e não quiseram que o acordasse, uma vez que passava pelo sono. No dia seguinte que não pegasse do trabalho, muito menos na mina. Aquilo não havia de ser nada; mesmo assim, matasse-lhe a tia Rira uma galinha bem gorda, ainda mais que ia purgar-se pela mão do Gregório, que receitava para um cristão como para um cavalo. Não havia como as enxúndias para ajudar a desimpedir o corpo!... A noite alapardou-se em cima da terra, rotundamente, como avejão sobre o ovo que anda a chocar. Um após outro apagaram-se os rumores da aldeia, balidos de gado, choros de menino. Tudo adormeceu, a própria mãe, que a meio serão ressonava como um órgão, o sobressalto tendo-lhe batido na massa do sangue como uma semanada com os amigos. Ele é que não podia dormir. Há muito que atirara o emplastro para casa do Deus verdadeiro. E, sentado na cama, novamente ensaiou o seu papel. Quando luziu a telha, afundiu-se nas mantas e rompeu a gemer. Gemeu, tornou a gemer, mas a mãe dormia como pedra num poço. Um carro de lavrador atravessou a estrada e meteu aos solavancos pelo caminho da serra: o primeiro que girava ao mato. Gemeu mais forte. A mãe estramontou: - Sentes-te pior, filho? - Sinto-me bem mal... bem mal. Vá pelo remédio. A mãe ergueu-se da enxerga, atirou dois bochechos de água para os olhos, falou em ir chamar alguém que ficasse ao pé dele e, ante a sua recusa categórica, pegando do xaile e duma côdea de pão duro, despediu. Mal lhe lobrigou a rabadilha a dar a dar, pôs-se ao alto. Pela frincha da porta passou revista a quantos lavradores saíam para a serra. Viu passar os operários das minas, uns direito ao Santo Antão, outros ao Vale das Donas. Levantaram em rancho os matejadores, de roçadoira pendente da espádua, e logo depois os zagais, de bornal aviado para o dia todo, com os rabanhos ronceiros. Pouco a pouco a aldeia foi-se despejando... Quando lhe pareceu que o açude tinha acabado de escoar-se, abriu a porta a medo, sete olhos à direita e à esquerda. Estava o céu escuro e fazia frio. Não era nevoeiro,

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todavia para lá dos duzentos passos divisavam-se os vultos das coisas, mas não as linhas. Tão-pouco lhe pareceu ar de neve. Era um cariz sonolento de inverno, sujo e triste, com grossas nuvens baças a prepararem-se para alagar os cambais da terra a poder de cargas de água. Muito embiocado na capucha, descalço, depois de observar que não bulia vivalma, largou numa carreira. À capela torceu para casa do Duarte; desacravelhou a porta do forno e, empurrando-a, espreitou... Não estava lá carro nenhum, que fora o seu susto. Não estava também gente, e entrou afoito para a quintã. Ao rumor que fez, a porca, lograda em seus hábitos, grunhiu: “Trouxessem-lhe que tasquinhar. “Bem. Fez pressão contra a porta da casa propriamente dita: estava fechada à chave. Procurou a chave na gateira; depois na torça; lembrou-se que também era costume metê-la no cisco, contra o limiar, e vasculhou com mão cuidadosa e ligeira. Lá estava efectivamente. Continuava a ir bem? Descerrou a porta com todo o ripanço e aos estalidos que soltaram os gonzos ficou interdito: abro-te?... fechote?... Abriu-a por fim de rópia e a sanfona mal deu sinal. O silêncio lôbrego do interior é que foi como um cão que estava a dormir e, estrovinhado, se atirou a ele. Levou um bom migalho e recobrar-se. Pouco a pouco, os olhos foram-se habituando ao bicho hirsuto, que voltava a aninhar-se nos cantos com as arcas velhas, ferramentas, trastes sem nome, entre taipais encardidos de fuligem. Contra a parede as duas peneiras eram duas monstruosas pupilas da aventesma, estupidamente atentas ao que ia fazer. Mas ah! detrás das caixas, como separadas por sebes, mostravam-se duas camas... duas. O mais, paredes, bafio, cainheza, era alcatrão. A laja recebeu os seus passos mais surda que a própria terra, que tem a sua sensibilidade e se queixa até da lebre que passa. Mas era álgida como o caramelo dos charcos. Levantou a tampa da primeira arca, que estava meia de centeio. Enterrou o braço aos cantos, no centro, aos lados. Nada. Passou à segunda arca atravancada com toda a ordem de tarecos, a escudela do fermento, a queijeira, bexigas de coalho, uma almofia de feijãofradinho, e roupa, manaixos, mondongos, coisas quase todas de trapiche. Resolutamente desatou a esvaziar a arca e a espíolhar peça por peça? Nada de nada. Com um varrer de olhos percorreu a casa toda. O tanheiro observava-o semelhante a um bonzo acocorado ao canto, zombador e imperturbável. Lá estavam em cima da pilheira, como as comadres à boca da fonte, panelas, caçoilas, potes de ferro, toda a útil e inútil olaria de cem anos. Antes de passar-lhe revista, velo à porta observar. A quintã era o mesmo poço de silêncio e de rescendores fétidos. Nem uma galinha. Na pocilga refunfava a leitoa. Volveu dentro da casa, admirado do seu sangue-frio. Nem sequer lhe palpitava o coração. Trouxera-o ou deixara-o lá fora?? A verdade é que se achava ali na propriedade alheia tão naturalmente como na taverna a beber meio quartilho. De todo à vontade, investigou à direita, investigou à esquerda, e novamente lhe incidiram os olhos para a cacaria e o pucareiro. “Vamos lá ver? “ proferiu em voz alta. Acercou-se da pilheira. Revistou uma panela, revistou outra, destampou aqui, emborcou além. E a caçoila...? Moinha...?? Apalpou papel e não teve mais dúvidas. Com ele bem apertado, sem ver sequer de que se tratava, nem pensar em coisa alguma, com o coração agora aos saltos, os trastes todos; tanheiro, cântaros, arcas escancaradas, o negror da casa e a alimária do silêncio, acocorada nos ângulos da cardenha e na quintã, a gritar: ao ladrão! deitou a fugir, a fugir às sete partidas sem reparar onde punha o pé. O sentido levou-o, sem

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desvio nem quebranto, por onde viera, para mais, leve e subtil como uma pena. A mãe veio encontrá-lo de olhos esbugalhados, a arder em febre, mãos a segurar a cabeça. Pôs-lhe os remédios na banca. - Vá-me por água fresca à fonte. Vá que eu cá tomo as drogas... Estou a morrer de sede. Despejou purga e eclegma para a cinza e, quando a mãe rompeu casa dentro com a cantarinha a trasbordar, levou-a ao meio. Depois caiu em quebranto. A horas de jantar visitou-o o Calhorra, que também era meio médico e lhe achou ares de bem disposto. Estavam na santa cavaqueira, ouviram grande rebuliço no povo. Sussurram assim as colmeias quando levantam voo e vão pousar de largo, nos ramalhais. O Calhorra moveu com a maior presteza possível os membros trôpegos; o Luís, pois que a mãe lho exigiu, agasalhou-se na capucha e foi atrás do cambado. No largo da capela, ao entrar para o forno dos Ladeiras, pela quintã e moradia espraiava-se um mar de gente. Singraram a custo até chegar à porta da casa. Da trave fuliginosa, ao pendurão, um corpo de enforcado bailava. Bailava sem ninguém lhe tocar, ao simples bafo, parecia, das pessoas que ali vinham, para que vissem bem e contemplassem. Quando a face, em sua rotação, colheu a luz diurna que se coava pela porta, o Ougado reconheceu o Duarte de olhos muito abertos, fitos nos seus, com a boca escancarada, boca de través, que uivava: ao ladrão! Ficou transido coisa de segundos e, fincando os queixais um no outro, não se pusessem por lá a matraquear a semana santa, desandou pela porta fora, de esguelha, de modo a que Bárbara o não visse.

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de dores e de venturas dos seres que por ali passaram. coveiro.as minas não poderiam oferecer-lhe senão domicílio abarracado – e morar no povoado. salvo o albornós. vasta e quadrada. corruja de abadia. não é o deus eclesiástico do resto do mundo. uma boa cozinha. Passavam as primeiras mulheres para a fonte. perfumado. o que se chama um lar. a tal consciência panteísta que Goethe numa carta a Eckermann punha acima das contingencias universais. todos os rumores preambulares do formigueiro rural que desperta. o que viera tranquilizá-lo no mais latente da sua alma sobressaltada. quase contente consigo e com Deus. No piso inferior a criadagem.dá umas calcinhas. uma varanda a sueste. como o velho Badanas. ora e logo balouçado em sonhos pelos solavancos fortes dos armões de campanha. Mas o seu principal intuito fora oferecer à filha um lar. E por sorte deparara-se-lhe a construção tipo da mediania provincial. Pela vila ouviam-se vozes siricopadas. sem os estigmas do nobre solar: escada garbosa. Paulinha dava também sinais de ter passado ao gabinete de toucar. Hincker entretinhase com a paisagem humana da vila. a meio caminho para a Sobriga e o Vale das Donas. sem falar na peça central. que se conquista com actos de adoração. Deus para um germano. Entre ir morar para as minas . tal um rico marabu. Não estadeava brasão no lintel nem galeria com antepassados de prosápia.rondavam já à porta da taverna. ainda quando oriundo do SchIeswig. que daria salão de baile. o universo real e o imaginado. Tanto o Pelicas. mas o que existe tão de concreto como de vago à volta dos sentidos e do intelecto do homem. cântaro à cabeça como vira na Arábia Feliz. Nas horas despreocupadas. sempre encostado ao Pauzinho de marmelo da cor do carrascão. e isto equivalia a um sono reparador. salões grandes como gares. tomou aquele velho prédio de Tendais. pois estático só na tumba. mas quartos para bonecas e uma noção do conforto herdada do eneolítico. o que lhe permitia partilhar-se mais a seu cómodo pelas duas explorações. com as paredes sensibilizadas pela infinita profusão de rostos. seus fregueses: . senhor Incas? . encetava a lide quotidiana. estava vestido. sim. bater de portas. compunha-se de quartos amplos e vistosos. durante as quais queimara havano sobre havano. de colóquios. Aquela moradia. riscada por um pedreiro de talento para morgado farto e desembaraçado. e com a ginástica respiratória em regra. Um Alvitano surgiu às upas no potro. Felicitava-se cada vez mais de ter alugado ali casa. Mas com o amanhecer a consciência ficou sossegada. não dormira o que se chama uma boa e pétrea noite. E como não havia de estar naquela disposição psíquica? A Reichs-Rundfunk da emissão da meia-noite dera um copioso relato do que se passava nos campos de batalha. com insônias de permeio. Mas o sol retoucava na rama alta das carvalhas que ensombram o largo da feira. desses que passaram à imortalidade 112 .VIII Franz Hincker levantou-se cedo naquela manhã fria mas luminosa de inverno. Sem embargo. isto é. matinalmente exacta segundo a nova disciplina. que trazia jaleco de alamares e faixa. mais divertido que diante dum guinhol. por detrás dos estores. eixos gementes.

Kammerjãger. encaixado o veio umas vezes em salão roto. teria dado em terra. regou a petróleo e soda cáustica os interstícios da madeira povoados pela fauna até então feliz e sem história. vinham camiões de seis rodas velozes e surdos. perfeitamente bem-ditosos sem a existência nas redondezas de bois bichanos que vinham às vezes murar para aquele paredal. Mister Corbet era temível no ataque. eram um inçadoiro prodigioso de precevejos. Sábados à noite. e no mainel da varanda sardinheiras entornavam até meia povoação um vermelho que Hincker pela rutilante candura e a carência de aroma classificava de amoral. se fosse necessário. A Sobriga produzia dez vezes mais que o Vale das Donas. De modo geral. tapados como arcas. e Hincker. pelas estradas intermináveis. superando de muito o contingente de produção que lhes fora atribuído. famílias de ratos bemditosos. ao passo que além o rompimento exigia constantemente perfuradora mecânica e dinamite. A primeira noite que Paulinha acordou em seus edredões de pluma com a alvura dos lençóis sarapintada da ignóbil bicheza. não menos molestado. como os ocos da alvenaria solta o eram dos ratos. estimou. E selados a sete selos abalavam e lá iam em recova. De Muradais partiam igualmente com perfeita cronicidade outros camiões repletos de minério. as duas empresas sob a regência de Hincker alcançavam plena estabilidade. depois de munidos das respectivas guias fiscais. para ele. para o país negro dos altos fornos. arrecadações. Outro piquete emparedou com argamassa. quer nos soalhos quer nos apainelados do tecto.empanturrados de padre-nossos e de glória. reunia os cómodos indispensáveis à sua lavra. carregavam debaixo do olho vigilante dos fiéis a sacaria pesada e lacrada. No dia seguinte um piquete de trolhas. Mas para chegar a esse ponto tivera Hincker de sustentar uma guerra bruta com os concorrentes. Ao cabo duma semana de refrega e quebração de cabeça a casa deixou de ser o valhacoito dos cínicos e abjectos hemípteros. contra os quais. por via de regra. garagem. Em seguida às mil e uma peripécias duma rivalidade que chegara a saltar todas as barreiras do fair play. também plurisseculares. em suas madrigueiras. ao berço da nacionalidade. em que a extracção no entanto era mais fácil. Para os gostos simples da menina possuía a vivenda um quintalinho com seu tanque. Com efeito. cuja estirpe devia remontar. confortá-la e dispor-lhe o ânimo a transigir por uma vez com a habitação infestada de parasitas. raros em Alemanha como as baleias no mar. com freima nunca vista. Mas Hincker. tanto se importando de atirar com meia dúzia de mancheias de libras pela janela como com o resto do copo de água que não acabara de beber. cerca de 75% da área metalífera conhecida estava registada por firmas contrárias. que detestava tudo o que é lemural. O pior de tudo foi que as frinchas. da cor do chumbo. e iam baldear 113 . há caçadores especializados. dado que não fosse dotado de tão sólidos rins. As explorações da Sobriga e do Vale das Donas eram conduzidas com tão denodado como meticuloso impulso. desatou em convulso e clamoroso choro. sempre direitos a leste. onde cismavam artemísias. Metiam pelas estradas a poente. o resultado era compensador. rendendo o máximo que era de esperar de jazigos de segunda ordem. a avaliar pelo repululamento. em todo o Portugal senhores do campo. Veio dos aposentos o pai. de molde a armazenar a bom recato todo o minério produzido. outras em quartzo atravessado de lezins que descosia a ponta de picareta.

feitas as contas. Comprara já uma quinta para o Dão. que. Acima. À boca cheia se contava que impingia a mister Corbet gato por lebre.um factoto avisava o chefe da Gestapo do embarque da mercadoria. levantando-se dentre a ferralhada com uma costela partida e as ventas a gorgolejar sangue . de dois. deixando a tapada da serra a tojo. amassado com o suor de meio mundo desde o Spitzberg à terra de Francisco José. quatro mil quilos arrasar as cidades orgulhosas do inimigo. chegasse o metal.Fica-te com o Demo . ao começo. dizia-se que mais que um barco que conseguira alcançar o destino denunciara o 114 . e seria este o primeiro passe do manigante. com um visconde papalino. correndo à direita e à esquerda como galgos marinhos. como não? Um destes. Projécteis dum supermetal. Dizia-se que a Ilha disparava contra o inimigo projécteis de oiro puro. Os agentes que o Reino Unido assoldadara no país neutral enriqueciam a olhos vistos. E mandou vir o melhor estojo que se exibia nos stands de Lisboa. mais precioso que a platina. resplandecentes de civilização e arte. Esses navios recebiam uma ordem telegráfica. Fábula ou não. Cada onça. que acabava de fazer treze anos e a instrução primária. dois a seguir. Simultaneamente . Ostentavam duas parker no bolso do jaquetão e traziam as notas de Banco em pastas porque lhes não cabiam nas algibeiras. e não se falava no resto. cifrada em duas letras ou algarismos. Oito sobre dez daqueles navios soturnos iam para o fundo em três tempos.terceiro lance . custava o quê? Dez. com uma película de volfrâmio à superfície para o conspecto inicial. e. todas as semanas. todas as vinte e quatro horas. dois mil. dissimulados debaixo de catafalcos de serguilha. classificado e novo em folha. todos os meses. tinham por missão escoltá-los a porto seguro. Mas tal contingencia não alterava em nada o ritmo da tenacidade insular. de Muradais. acima. A questão era que de dez transportes chegassem dois ao porto. Assim desapareciam tais navios de carga no fundo do mar e com eles a candonga dos infiéis representantes. casara a filha. Matavam o bicho com vinho velho da Ferreirinha e estadeavam equipagem de grão-duque. de dois. vinte libras? Numa ocasião destas não se tratava de saber quanto custava. Blindavam os dedos com anéis e não sabiam dar dois passos que não fosse de automóvel.proferira. O problema era que nas matrizes cíclópicas das suas fundições não escasseasse o minério fantástico com que revigorizar o aço que iria em bombas de mil. era o Antoninho Fráguas. e prosseguia de vento em popa. levantando âncora. almas em revolta. dois. era vedado inquirir. com os grostescos e imprevistos que se podem imaginar em lapuzes elevados. dois pelo menos. com um canhão à proa e outro à ré. Os sacos que ele rareava e pesava iriam atestados de titânio e da mais ignóbil morraça. encontravam-se milhas dali com torpedeiros velozes.que já me ganhaste para um Rolls. e a custosa mistela lá seguia caminho. em cada molécula do qual se sentia palpitar toda a imaginável espécie de ânsias e gemidos. numa cadência melhorada dia a dia. corações triturados. . os volframistas davam nas vistas. a cavalarias altas. Aconteceu-lhe escaqueirar a chocolateira numa das curvas do Vouga. para que os submarinos a esperassem. Acrescentavam que o segundo consistia em subornar à força de pecúrila o engenheiro que na barra referendava a entrega. Na terra das meias solas. a carga valiosa. por fim. No mar traiçoeiro da Biscaia rondavam porém os submarinos de Roeder. toda as semanas.nos molhes de Leixões para cargueiros negros.

roubo. O conflito mundial reflectia-se nos dois comissários. arribavam apenas dois. Firmaram a transacção a tiro. Que remédio senão render-se à evidência duma lei transcendental ou a processos que não seria cómodo reformar? O ideal em semelhante emergência fora reduzido a proporções tais que estava fora de toda a hipótese deixar de tornar-se realidade. Num plano superior. ou considerado como tal. Contentava-se com isso. a 400 contos. como curso médio com oscilações verticais. A certa altura. podiam vir outros requintadamente péssimos. como atrás de Hincker o Reich.. Mas aos seus hábitos de decoro. em busca de maná. Quando o Porto fixava a tong long da volfrarnite. segundo sucede em Bolsa. Vendía-se o quilograma estreme. aversão congénita quanto a conceber certas formas da indelicadeza? Parece que não. falsidade. como é de supor que andassem os hebreus no deserto. levados pela velocidade do amorpróprio. De ordinário a cotação do volfrâmio era dada pelo Porto. De resto. o outro em esquife para o cemitério. mas nunca tida.. Com margem tão larga para o fortuito e o contratempo. um conduzido em maca para o hospital. resvés do irracional. 65 unidades. Na melhor das hipóteses. A nação em guerra é que por nada do mundo desautorizava os seus corretores. mal nascia o dia. Dolo. pois não vira separadora. desde que constituíssem processos de promover 115 . saltaram fora dos limites que lhes haviam fixado para a compra. para lá do conceito clássico de justiça e bondade. Da carga destes dois apenas um dízimo era aproveitável. por montes e vales em busca de volfro. o ilhéu nunca chegava a ser fraudado em sua expectativa.comércio facinoroso.. Eram substâncias análogas no transcendente e no destino. Estava inerente à sua fácies moral não admitir semelhantes quebras de carácter. filtrado fosse lá por que mandis fosse da desonestidade e do dolo. pagando a fazenda por um preço incomportável em relação às suas bolsas e fora do senso comum. todos os três meses.. em nome dessa filosofia do real. o que Dantec chamava sem acrimónia hipocrisia. repugnava revolver misérias desta ordem. às portas. com urna percentagem média de 75% de metal e 25% de quebra. queria dizer: daqui para cima. o objectivamente certo. Formava-se uma moral nova com a nova indústria. Era um pouco a psicologia do cocu magnífico: contanto que. o Almirantado devia receber dez navios. como daí em escala degressiva em todos aqueles que estavam ao serviço de cada uma das entidades. com seu sentido prático.. Atrás de Corbet postavam-se Insulae laxe jacentes. o grande insular professava que atrás de semelhantes agentes. todas as poucas-vergonhas eram desculpadas dado que conduzissem ao enriquecimento.. uns punhados de minério. carregados de volfrâmio. quando se recusava a encarar o crime de parricídio. As aldeias esvaziavam-se. trouxesse na cova da mão duas areias do oiro negro. à conta destes seus amos. Neste particular era como a Hélade. metallo divites. mentira. instintivo. Aqui. entre 400 e 500 escudos. em bruto. caíam imprevistamente do céu e vinham matar a fome a multidões igualmente famintas. tratava-se de bater o adversário. Por daltonismo. a 750 escudos. Vinte gramas importavam em mais que a jorna dum obreiro. Muito frequentemente dobrava de preço. Todas as canseiras dum dia eram dadas por muito bem empregadas se à noite a sombra vágula. E deixava-os entregues às suas tibornadas. dobrada para terra. O que prezava era o certo. que eram manifestamente maus. Aconteceu numa aldeia serrana dois regatões encontrarem-se a disputar. de Avienus.

Tojeira e Muradais. Manifestou. Como o vendedor era parente do Calhorra. desencantando-lhe substitutos falaciosos. abana a árvore das patacas e é só abrir a boca ao saco. Não lho consentia de resto a situação que ocupava. discutível ainda. senhor deste mundo e do outro. A grandeza da Ilha está nisto: possuir árvores das patacas em todo o mundo. todos os passos lhe parecendo bons para estar a par que no Santo Antão os sócios se roubavam uns aos outros o mais honradamente que podiam. tornavam-se ordinários. mas velhaco. esse. tudo levava a crer que a operação seria feita com o seu beneplácito. sempre de sorriso nos lábios. A sua predisposição para a mascambilha era proporcional à longanimidade com que encarava os seus desbaratos na guerra: sempre gentil-homem. Teimaram em mostrar-lhe a fazenda e fechar o negócio de afogadilho. fritando-o. Mas os milicianos. A tout seigneur tout honneur. Nas costeiras do Alva descobrira-se um cabeço cuja areia preta e lustrosa orçava em seu peso pelo do volfrâmio. mas admitida. mas dando a impressão de tornar sempre ao seu ser como de borracha. Resultava de tal consenso que procuravam todos empulhar-se uns aos outros o mais conspicuamente possível.o negócio do volfrâmio. de contestar. de antemão sabiam que iam buscar uma taleigada da miraculosa terra. tinham chegado no calor do despique a testemunhar-se em público e raso de gatunos e difamadores. Por essas e outras razões farejou grosso latrocínio. duma grossa porção de minério. por conseguinte de prática corrente. outro tanto não fazia ele. quando um destes fura-paredes lhes mandava bater para Arganil. O senhor Hincker conhecia todos os artifícios do comércio e industriava os seus agentes na arte de descobrir as esparreIas e chincá-las ou deixá-las armadas para os parolos da outra coriróbia. como tantas vezes. a sua receptiva para o roubo estava a toda a prova. mas primeiro havia de a mercadoria passar pela separadora. Aquele dia em Mouramorta.já o germano confundia os processos de informação com a espionagem. em última análise. cometido é muito provável na exploração de Santo Antão. O José dos Cambais e o Silvestre Calhorra. Embora. Não tardou que o monte aparecesse lorgado como as saibreiras que se entremostram à margem das fábricas de cerâmica. O singular é que o ludíbrio se exercesse em regra com a facção insular. se umas vezes logravam o próximo. como tinha por norma. E pregavam-lha na menina do olho. como Sobriga. Franz Hincker explicava o fenômeno dizendo: . inclusive em Portugal.O dinheirinho com que temos de nos esportular sai-nos do lombo. Entre eles a descompostura era quase quotidiana. este simpático e glorioso Portugal. gênero Leónidas Seixas. comprando na boca do lobo. Quem pagava as favas. Por sua condição tradicional de ricaço. Se os seus agentes fechavam os olhos e compravam o que se lhes oferecia. sem atender à origem. que jogavam ao ganha-tudo. à porta fechada. não poucas eram logrados pelo campónio mazombo. e que falsificar o minério. Mister Corbet. Para atalhar 116 . Os chauffeurs da praça de Viseu. de pôr em dúvida. e recusou terminantemente. cobrir a oferta. era um recurso industrial como outro qualquer. mais contuso que o canganho. bem embora o sorriso muitas vezes lhe fugisse para esgar. Explorações categorizadas. não lhe ficava o direito de ser desconfiado. De sobra sabia pelos seus secretas . propuseram-lhe a venda. caçados cada um por sua vez a surrípiar do monte em desproveito dos restantes. era o lorde. procuraram desde o início montar as suas separadoras. do concorrente.

mas há de tudo neste mundo.. os penedos que parece terem perdido daquela manhã em diante um pouco o ar baturro. No dia seguinte.. Estava um saboroso dia de sol. pães. no fundo contentes por irem espairecer num dia de sol e verem o seu landegrave satisfeito. . que lhes permitisse dormir a sono solto sobre o seu bem? Nem no Paraíso à mão direita de Deus Padre. sempre mais outro. qual o lugar seguro. Mas Hincker persistiu: . . quem acompanha a fazenda? Eu? Não obstante o tropeção de que padecia. não era mau expediente. atestado de morraça. tão pouco curial.. O sacristão.? Ora.. e de novo o saco foi trocado por um terceiro. só desbocados poderiam taxar o acto de escandaloso. Entendem que se devem vestir a preceito.. lembrou-se de convidar os engenheiros para o almoço. depois duma rápida visita à exploração. para mais. optimista consigo e com Deus. após invernada. servem a todos os corpos. se tem chave.à desconfiança que lhes roía por dentro. no gênero da cadeia da felicidade inventada pelo maduro anglo-saxão.. Torceu o nariz. São sobre o largo. Depositar o minério extraído cada dia em lugar competente. Severo Bacelar quis desculpar-se com o seu trajo de cote. engrolando-os a todos muito bem engrolados até aos cadinhos de Birmingliam e Newcastle? Franz Hincker. Sim. ao passo que o automóvel corria a toda para o Vale das Donas. Os engenheiros despiram as camurcinas. tira-lha? . que nem sequer a cachorra do Reganha deu o alamiré. Vou telefonar a minha filha que reforce apopote. largos.. árvores. desfiava todos estes ardis de peles-vermelhas.obviou o Calhorra. matutaram em muitos e vários remédios. de modo que se não soubesse. Iriam os sacos da mexerufada logrando um e outro. falou na sacristia. muito apertadas quanto ao policiamento da mina que a gatunagem andava mais sobeja do que nunca. depois que recusara o volfrâmio de Mourarnorta. muito embora a sacristia fosse do pároco. a coisa foi realizada com tanta presteza e rasgo por parte do canejo. acumulado desde o princípio do mundo. entrar de noite com o minério. com arcanjos a guardá-lo de espada desembainhada. numa cadela inenodável e sem fim. Lá em casa há um variadíssimo guarda-roupa. claro com os devidos resguardos. O Calhorra em voz baixa. Tadeu hesitou. Deram ordens. inviolável. De facto. boa para retém.Os senhores vêm. achou tudo em ordem e o trabalho em bom andamento. a voz aprendida com os senhores padres nas Orações Secretas da santa missinha.. por causa dos pedreiros-livres.. Seria preciso ter muito cuidado com a língua. se revestem de leveza e luz tão branca e boreal que irradia certo ar de melindre e friabilidade da amplidão: terra. Quando chegou à mina. E bem disposto. mas onde? Sim. altas horas. depois de pesado? Vendê-lo à boca do poço? Quanto a depositá-lo. e os colegas escudaram-se em iguais considerandos.? Arranjam-se smokings e casacas para os mais exigentes. Não era nada prático.Ora. os pardais que saltitam à volta do fachoco de palha que cresceu da matança do porco. Da sequência deste jogo de enganos não soube informar a Hincker o seu espia nictalope. tinha também uma chave. Riram e não houve remédio senão render-se ao amável dictat.. destes dias que no campo. e ora se transvertia naqueles abomináveis bate-línguas. veio o Antoninho Fráguas por sua vez. sair de noite.E nos carretos de noite. e depois duma escovadela aos fatos e 117 .

E que. .. liberalão. . deram de cara com o boticário. porque em poucas espécies está mais desenvolvido o instinto sexual do que nos galináceos. Lábios a espremer o havano.. venha almoçar connosco. julgo eu.acrescentou Hincker sorrindo.É muito meu amigo . .. . afagando-lhe os barbilhões. É verdade que tenho ali dois de combate.emitiu Manuel Torres. No pátio da residência...declarou para os convidados. mando-o pôr na lista negra da Gestapo. o excelente Nestor jácome. foi buscar o correio e. . a almoçar fora de casa. Logo hei-delhes mostrar a colecção. Pois que vinha o boticário. Pararam à porta do homem afável e obrigaram-no. em dialéctica com ele.gracejou Calabaz.Amigo Jácome. familiarmente: . estes são bichos de paz. . as galinhas dos outros poleiros deviam ser odaliscas suas . Lobão no foro e lobão na gana com que lhes metia o dente.. apurada pelos Ingleses. a derribar-lhe as construções lógicas com o mesmo regalo com que o batia ao xadrez. largando um gó-gó-gó que pareceu o mais jovial dos cumprimentos.. tão destro a manusear a espátula na farmácia como a espingarda no monte e toda a sorte de redes no rio. um belo galo andaluz dandinava-se a meio duma rebanhada de galinhas de toda a casta. depois de pedir vénia. proferiu para o Dr.. laureado com as Folhas de Carvalho. ocupou-se. Manuel Torres. por conseguinte. e Hincker convidou-o a subir para a sua arca de Noé. Quero-os para vistas. impávido e garboso. uma caixa de charutos que estendeu aberta para os convidados: . Se recusa. e entretinha-se muitas vezes. germanó fobo na ordem do lugar-comum. Quando viu o amo saltar do automóvel.Ou que lhes foram raptadas . Hincker sorriu da frase inconsiderada do bacharel. torcendo por Malhadas a embarcar o Dr.É verdade. . e por isto.. Diante do semelhante recusam-se a ver outra coisa que não seja um rival.. Arpou-o de passagem.. em rasgar cintas e sobrescritos. à sua direita: 118 . Largaram. Mas eu não os quero para combate. Estão no outro lado do quintal. Pegando dum postal a cores que representava um aviador de uniforme. façam favor. Manuel Torres que pousava ao tempo na casa da serra.chapéus abalaram com Hincker. Na sala. Guilherme Cabalaz. a boa vila de Tendais com o seu bosquedo de carvalhas ao norte. As notícias eram anódirias.Todos os galos são mais ou menos combativos . O farmacêutico ia a escusar-se.Não. Era perto da uma hora. mal parecia que não viesse o médico.perguntou o Dr.. perfeita paz octaviana. adiantou-se para ele. Calabaz. juntamente com o correio. Hincker não lhe deixou abrir a boca: .Um charutinho. Quando entraram em Tendais. Em Mouramorta deparou-se-lhes o advogado topa-a-tudo Dr.São para combate? .Subam. pelo que envolvia de obsesso quanto ao carácter do seu povo: .Nem fum nem fum e meio. de raça indostânica. . a cuja sombra se fazia todos os quinze dias uma ruidosa e amoiriscada feira. contra os seus hábitos inveterados. no dizer do Café Bijou o Lobão dos volframistas. Gosto a valer destes bichos.Tenho para aí mais. Hincker tinha pronunciada simpatia por aquele espírito de pedreiro-livre.

por um trigueiro mais ao estilo da cromática portuguesa e com o seu sabor entre ibérico e loiro do Norte. Resplandeciam na grande mesa o linho de brocado e. que tudo pede ao esforço. indolentemente. mas nada sabe negar aos regalos da vida.. que Hincker. Encaminharam-se todos em rumoroso à-vontade para a sala de jantar. e fui incorporado no regimento que mais sofreu na ofensiva de Amiens. que debaixo dos olhos punha um matiz de leite e carmesim. Entretanto Paulinha.tornou ele. de facto. .Todos sem novidade? . 119 . com Lenine no Krerrilim. . que um enredo de amor se atara entre eles. entre os quais contava o caviar. é o cadete . . .O mais velho é tenente de artilheiros e lá está para leste. ao gosto tudesco. meio vivas. Os ares bravios tinham-lhe roubado à tez o rubor melindroso de peónia. Paula semeara violetas. adornara nos espaços compreendidos entre os contadores rotundos e luzentes. advertia que o almoço estava servido. para os vinhos variados. Bati-me na defesa de Quiao-Tcheou. ao mesmo tempo que vinha curriprimentar os convidados. Hincker saiu-lhe ao encontro agradecido e hospitaleiro.Precisou. mas o que se chama um capote. de que faz parte o meu Karl.Sim. precisa bem deles a Alemanha na frente russa. nós os Alemães somos tão generosos que começamos por dá-los aos nossos amigos. O farmacêutico sorriu e disse galhofeiramente: . Parecia mais mulher e mais graciosa depois de desterrada na serra..Decerto. A série de pratos. Era sobre a tarde e entraram ardidamente pelos hors-d'oeuvre. compartes duma culinária planturosa. E querem saber? Apenas uma bala me feriu no calcanhar. à retaguarda. O mais novo anda nos submarinos.... o paladar sobre o substancial. A guerra mata muita gente. Eu fiz a Grande Guerra. arrancam-na a quem lhes cai nas mãos. Hoje a precisão é relativa. Sentia-se no seu ar feliz e desembaraçado e na postura de Bacelar. embora não passasse pelo desaire de ontem receber um capote. . condimentados sui generis. o antigo e vasto refeitório da casa morgadia. Mas. Entrei pela Sibéria. esbatendo a rede vascular finíssima. A mesa dum teutão é dum teutão e de mais ninguém.Este pertence à Luftwaffe. ao bacará. pareciam dirigir aos hóspedes um sorriso derradeiro. em frente de cada talher.Tudo vai na sorte. No Chemin de table.Tudo vai na sorte. com prateleiras povoadas de cristais de Boémia e estanhos flamengos e alemães do mais esquisito talho. mas como os que mandam para a Rússia têm de ser de pele. . são privativos desta gente gastadora. veja. diferentes de cor como de tamanho. as flautas de Pá dos copos.Até a data todos sem novidade. Anunciou-se no patamar o simpático Dr. . meio prostradas..Que não foi o de Aquiles . . . entrando.Capotes. que nem vale a pena mencionar o arranhão que uma bala fez no peito de Karl e a cabeça do dedo que voou ao marujo em combate com torpedeiros.. Telo.. mas felizmente ainda é maior o número dos que escapam. e.proferiu Jácome. senão faltaria ao meu amigo o melhor cliente dos rebuçados de avenca.Aqui está o comandante da esquadrilha Condor. a abundância.. Os engenheiros vieram considerar circunspectos aquele ás da guerra.

além dum regalo. Der Wlein von Rhein ist immer gut.Good Hoch keeps off the doctor. Os senhores não conhecem a Alemanha que está de armas em punho a defender o direito à existência e. não. Hincker. De acordo. proferiu depois de dar um estalido na boca: . sim.Branco e seco. chamado a derrotar o rascãozinho da terra. eu seria o primeiro a dizer aos meus filhos que desertassem. diga lá se não tem o picãozinho do palhete. deixa-me rir? O que os senhores fazem não é revolução.Uma gota do nosso vinho. dizia ele. levantando também o seu copo e mergulhando olhos regalados na limpidez do vinho. sem receio de errar que jamais houve. das que pingam no pão. .O vinho do Reno é a bondade pura. Rüdesheim.. sabem os senhores.? .. Nestor Jácome.. o inverno. para matarmos saudades da Alemanha.surpresa inédita para a maior parte dos comensais. proferiu baixinho para Calabaz. a Europa. é chinfrim. Conhece? Foi meu irmão Hans que de França nos mandou para cá uma caixa de garrafas. com isso. . com a reverência dum oficiante. filho da terra. se quero ver o mundo novo . derradeiras sarandalhas do espólio da paz.murmurou Jácome. Das nossas pouco se vai em resíduo. .. original. traduziu Bacelar. . Beberam todos com a devida mesura o vinho raro. ah. depois dos estalos da lei. senhor doutor Torres. inocência perfeita o do Mosela. Paula. Mas de tudo isso que fica senão ódio e poeira? Das nossas. lembra o Douro. pegando na garrafa do Reno de colo alto. de tal ordem que pode dizer-se.Ah! ah? Aí tem uma sentença inglesa que pela primeira vez está certa? Sim.. Eu é que preciso de deitar uns anos fora.O Rheingau. começou por oferecer ao advogado de Lisboa: . absolut a dentro daquele seu flavor característico.. um aroma original.. a Inglaterra sonhou com revoluções. . O doutor tornou a levantar o copo ao alto. Países revolucionários os vossos?? Ah. gracejando. der Moselwein nicht schaden thut. Napoleão. .. O Dr.Delicioso para sardinhas assadas. . Hincker secundou.interrogou Hincker como o visse levar com toda a vénia o copo à boca e demorar o gole. Também assim é escarpado e em escaleiras. a guerra de morte entre os dois colossos. esquecera-se dos seus hóspedes. Se os Alemães se batessem em nome do existente. veio à baila a Rússia sem fim. cultivado nas encostas da Beira. com o fervor do discurso. meu doutor? .. e mais qualquer coisa. O senhor Hincker.Bebe-se e a gente fica mais moça. os senhores fazem revoluções. Não passa de abrir ao verde dos concidadãos e 120 . Mas não. neste meio tempo. O boticário. . volvera mais animado ao tema patético: Diz o amigo Jácome que este mundo precisa virado. próprio dos xistos argilosos e margas terciárias do Rheingau. Com semelhante iguaria.. A França fez revoluções. A Alemanha é o primeiro e talvez o único país verdadeiramente revolucionário do mundo.. Torres. aproximando o copo dos lábios. Não fazem mesmo ideia nenhuma..Que tal. nem haverá no mundo um Doutor Fausto capaz de fabricá-lo a martelo? Vergissmeinnicht em sublirriação.O meu caro engenheiro não precisa. libando com respeito. à sua direita: .. da latitude. do sol. senhor. o vinho do Reno.emitiu. O grosso fica. é uma terapêutica. obra de titãs...

Mas é preciso demonstrá-lo.Da mais genuína. sim.. . os marcos que estão à entrada das portas. solitários como os monges. aquela tinha muitas irmãs: Mafalda. A Alemanha. Não duvidassem.deitar pólvora a pardais.Houve e até é possível.Esses mesmos. mais amplo. Ao hors-d'oeuvre seguiu-se a sopa de cogumelos colhidos na região. Nunca estamos quietos. mesmo nada.tornou Paulinha. com um pouco de fantasia. vivia em estado de ânsia. 121 . apurada em Roma. O senhor Hincker a meio já do aparte naturalista retomara o fio do discurso. . é revolucionária. o que é. Sancha. porque é dinâmica por excelência. Fizemos uma boa provisão deles. boa. proferiu: ..Deram conta que é feita com míscaros? Pois é. Toletum. Estas sanchas. . Todo esse imenso território jaz petrificado. A esses fungos chamam frades.disse Torres. fechados uma moquinha. decantam no fervedoiro que é a guerra os povos vários. Para os lados de Malhadas há muitos.Uns que têm coleira e abertos parecem uma guarda-chuva. podia dizer-se.. uma simplificação a realizar na orgânica de tal indústria ou norma administrativa. Tal qual estas. O mundo asfixiava-o. que fundouo recolhimento das emparedadas de Alenquer. e não se compreende bem que sejam assim exclusivos sendo tão párias. . Não houve uma D. que se passa na Eslávia? Nada. denotando o dedo químico de gastrónomos de moela de avestruz. lhe chamam frades. Folgaram todos com o paralogismo. por exemplo. o Alemão era insatisfeito. Têm medo da morte. e talvez porque apenas se encontram isolados. Paula. mais conforme. tão pitoresco. desde que a Europa era uma realidade política. e Brácara Augusta. determinar o passadiço entre estas criptogâmicas e a princesa afonsina .. de lamber os beiços. nem às aias deixava ver a ponta do pé. e outras e outras de que não reza a história. sempre passos. porque se renova dia a dia. Foi ela. mais prático. Berengela. vegetam debaixo da terra. o Alemão deverá chamar-se homo faber perfecturus.A princesa viveu sempre muito recatada. lisonjeada como boa dona de casa. não.? . são de culinária fidalga! .Frade? .?! A partir da Idade Média que vemos nós? Vemos as cidades e as nações do Ocidente agruparem-se em hansas e confederações. demonstre! . mas um pouco ácida e maciça.Com esses nomes todos. . Os engenheiros pediram licença para repetir. Também lhes chamam sanchas. um nome lindo. jácome interveio com a sua experiência de homem do monte: É a única espécie que os camponeses da Beira aproveitam além duma outra que nasce nos terrenos alagadiços. Além de homo faber. . quando furam do solo. O Eslavo. No dia em que conseguisse instalar a sua ordem ficaria imóvel até o fim dos tempos. uma corrida a fazer para mais perfeito... de resto. E é-o porque nunca se contenta com o que está e com o que tem. e ainda porque lembram. Pelo aspecto. temperados à meclemburguesa.. como imóvel tinha estado. no bem-estar do habitante e na assistência pública. o Eslavo. semelhantemente. mais do que isso: nunca estamos satisfeitos. amigo Hincker. Também lhes.emitiu Jácome com intimativa. dão o nome de gasalhos.. Haverá sempre melhoramentos a introduzir na máquina e na fábrica.Demonstre lá. Branca. rainha santa de Portugal? .

. que de resto são coisas muito distintas. Mas também nunca poderá ser o paraíso terreal com que o senhor sonha e os seus amigos eslavos sonham. pelo contrário. no dia. por todos os nossos filósofos. excessiva em tudo.O mundo não é nenhuma delícia. vejam.Nesse dia. A sina do Europeu é a luta. ponderem os senhores. para europeus viver é lutar. sim.Uma raça não quebra dum dia para o outro as matrizes em que foi moldada. Isso quebra ela! Ora no compleicional do Eslavo entra. o desmesurado que trasvasa às suas espaldas da velha Ásia. numa gargalhada. Estas ervilhas julgam que as recebi do Algarve ou da Califórnia? Não senhor. estigma com o qual se julga afrontado e é legítimo que não se conforme. religiões eternas. Neste instante a atenção dos comensais foi chamada para a travessa de pombos guisados com ervilhas. tem vivido debaixo do signo zodiacal da servitude.ficará imóvel. Estou persuadido que esse mundo. estão frescas como se tivessem sido colhidas na mesma da hora. Hincker não se dignou responder e prosseguiu: . foram apanhadas aqui no quintal vai em cinco meses.. porque acrescentou no tom do pregador que perora: . o quê? como aqui a vinagreira. dê forma à sua psique. banditismo. O Moscovita.. o infinito da estepe e o desmesurado. umas ervilhas tão viçosas. . ou Weckglãser com sua bateria de 122 . quer dizer: arrumado por Pedro? Pedro o Grande.Petrificado. que maravilharam o boticário. inteligente. ou se ouviu fez de conta que não percebeu.É com teorias assim puxavantes . convenho. e uma planificação da vida também sobre o ingente. arrancado de premissas apenas negativistas. não? tornou Jácome com faceta seriedade. o Eslavo regenerou o mundo. para nós é que não serve.lançou o farmacêutico com arreganho.repetiu o médico intrigado. em que o Eslavo firmar a sua ordem. amigo Hincker.E acaba-se com ele.Lutar é mais que um meio. podia conceber? . sim. a fugir para a horta. digo eu.Tem história? Qual! Tem menos história que a mais insignificante tribo mesopotâmica. . isto é. . o Weck.respondeu Hincker. com neves eternas. Não lhes parece? Ora. concebido para a imobilidade. falha de todo o proporcionado entre a natureza e o espírito. Lá nisso estamos de acordo. Lutar para ele não pode ser mais que encontrar o equilíbrio entre a sua ânsia de justiça e o estigma da sua condição. a ver passar os tempos. O budismo.Em cinco meses? . Sabe como se obtém tal resultado? Empregando um pequeno aparelho que na Alemanha é trivial como aqui. Está escrito por Hegel.E daí? . por agora indeterminada ululante lhe chamaria Keyserling . ninguém escapa à sina com que foi gerado. . e já tem um século. hem? . .É verdade e. como não podia deixar de ser. oh. estacado na sua estepe.murmurou Jácome entre dentes que os povos acordam de quando em quando atascados em sarrabulho? Hincker não ouviu o remoque. apenas se explica com um nateiro destes.. O dono da casa riu-se e permitiu-se dizer: . . Por consequência.Os senhores foram à índia e lá ficaram. um modo de ser congénito ao nosso eu em todas as demonstrações possíveis e imagináveis da plana universal. O mundo de hoje é a organização mais assombrosa de prepotência. iniquidades que o cérebro dum homem perverso e inteligente.

seguido do olhar apreensivo de Hincker e dos engenheiros. serviu Tckay. ao menos. uma revoada de pombas. à capucha. O bandoleiro do Badanas. se aproximassem. sempre frescos e tenrinhos. e ali ninguém lho negava. mas nós é que somos bárbaros. senhor Incas? A história deste caçador furtivo era a história do mundo e das nações. de certa importância. que nunca falta na garrafeira dum sibarita de além-Reno. industriada já à maneira tudesca. Ao passar diante da janela. que se saracoteavam pela feira bica que bica a migalhinha que o pobre deixou cair do bornal ou o menino. não acabava de estrebuchar nos abismos da algibeira.? Ora essa. dizia-lhe de baixo corri certo ar risonho. que chegara de bicicleta e pedia urgentemente para lhe falar. E. Tinha amainado a disputa. O próprio. em nome do que julgam ser o direito da nação mais digna da hegemonia universal.Entendamo-nos. dizendo: .Deu-se um desmoronamento em Santo Antão. Que o façam porque lhes está na massa do sengue. meio de filósofo cínico: .já deviam lá estar. A criada. para os toasts. Ah. vendo Hincker de ar cominatório.exclamou Hincker levantando-se. Mal dele se uma. aí vinte homens. na linha da frente. Andou à roda o vinho clarete do Dão. ou por filosofia.. Não tardou que voltasse. o seu puro sangue ariano. Para mim a Alemanha não é um país bárbaro em virtude da posição que ocupa entre os povos sob o ponto de vista de progresso. Estavam no capítulo das saladas que. uma vez mais. semeava pelo chão o seu dedal de milho. ao alcance do pau. a qualquer altura do ano. .Para adubar o caldinho. Um deles é o Calhorra. Hincker distribuiu os charutos raros e levantavam a primeira saúde..frascos. para não perder o benfeitor. Para Jácome o direito do silogismo era o direito de pensar livre e desassombradamente. palpitando caso de monta. da boca. silogismos à parte. amigo Jácome@?. Como agora. descuidadas. Severo ergueu-se. Com o fim de ir buscar charutos “como só fumava o sultão AbdulHarnid” Hincker pediu vénia para sair por um momento. ia a levar o copo à boca e estacou com ar de solenidade: . o vinho sonolento das catacumbas hungáricas. nem se pergunta? . Essa é de relevo. levava horas e horas à espreita que as pombas. Com ele tem-se horta e pomar em casa. em socorro dos sinistrados. 123 . no largo. açoitando o ar com estridor. Há dois homens soterrados e outros feridos. despedia-lhes a cacetada. mostrando-se a rua deserta. deve-o a tais ou tais representantes da autoridade pelas violências que cometem ou deixam cometer. vieram advertir Bacelar que estava no pátio um contramestre da mina do Vale das Donas. chamou-lhe a atençã o para a rua. Vara rúbida de marmelo especada no sovaco. amigos amigos. ao estilo nórdico. O farmacêutico. Quando elas chegavam. Se alguém lhe chama país bárbaro. que durante os discursos de Hincker não deixara um só momento de abanar a cabeça em sinal de discordância. O senhor Hincker dá licença que do pessoal de Vale das Donas saia uma turma. de cenho carregado. meio de raposo. acabava de praticar uma das suas habituais piratarias. vem dar ao mesmo. são inúmeras e valem o melhor prato de resistência de qualquer outra cozinha.

hesitaram.. a paz pretoriana de Roma – umas vezes sem escrúpulo nenhum...neto daqueles montanheses que não deixavam coalhar um só instante. acompanho o capataz.Pois que vão..O caso era novo. nas ricas regiões da Bética. não é assim. Telo e jácome podem fazer o obséquio de nos acompanhar? Profissionalmente.. outras preso à sua palavra como o mais lídimo Bayard.? Minutos depois corriam a toda para Mouramorta com o pensamento no velho Calhorra. que vão cinquenta.Não. que vá tudo! .. . ainda nada metia medo ..Se não levam a mal. Peço aí uma bicicleta. no pendor dos anos. O Dr. aventureiro a quem. 124 . . que vão vinte. vai de automóvel e vamos todos.

ao rebusco de volfro com que pagar o enterrio. que vigiava à boca do poço. Miguel. afinal de contas. balanceara a cabeça desaprovativamente. e. mais dobrados para o chão. rocha em punho. quando o doutor retirou. na sua procissão. recomendando que reforçassem os tapumes de suporte com astiais mais sólidos e melhor ligados uns aos outros. S. com mister Corbet à testa .IX A constituição de Silvestre Calhorra. Homem de entendimento claro. os donos da exploração. Ora foi no encalço de semelhante veio que se descuidaram imprudentemente das disposições de segurança que convinha adoptar. podem chamá-lo ao cofre. e os santinhos ou os padres. além de lhe oferecer um círio da sua altura. o Calhorra chamou os filhos e a mulher. Nos últimos dias haviam batido num braço de filão que prometia. o Calhorra propunha-se obter o máximo resultado com o mínimo de dispêndio. e escapou. deixando mulher e filhos que no dia seguinte se viam pelas leiras. . a emitir opinião como prático. que era a primeira a celebrar-se na freguesia. mas que se engolfava lá muito pela terra dentro num gaveto de rocha viva. tirados debaixo dos escombros depois e porfiosa labuta. teria empenho em ver o grande salafrário amortalhado de penitente. se tinha amor ao pêlo. Com a freima exaustinada dos salvadores . instado pelo José dos Cambais.em menos de meia hora esteve ali botado o pessoal todo de Vale das Donas e um numeroso piquete de Muradais. Para maior solenidade na promessa. que são os seus procuradores na terra. Escape eu. pegando do crucifixo. é que não houve santo nem santa que valesse. não se metesse no chafurdo. pés descalços e sem fala na procissão.Este dinheiro é pedra de ara. O desastre fora previsto. e toca “a dar-lhe para a frente”. mas de todo ignorante. Ficou coberto pelos entulhos até meio corpo. figurar de amortalhado. pois que gemia e queixava-se de dores agudas nas costelas. seu sogro apalavrado. E. Tendo 125 . Em particular. mais restos dos sentidos. não se lhe toca. armar-lhe um andor na festa de S. e que a derrocada se deu. Ao introduzir a sonda. pediu à mulher que lhe passasse a caixinha de lata que ela sabia. Tinha amor à vida o velho gerifalte. e uma ferida bastante profunda na nuca causada por um penedo que se despenhara da ribanceira. Sobre a noite. O Aires. Verónica obedeceu e ele mandou-lhe tirar dez notas do macinho embrulhado na bula da Cruzada. foi dizendo ao lavrador que. Brás. rolou para a escavação de mistura com o material acumulado na borda. envolvido este em surraipa ruim de desmontar. Miguel. em despeito dos setenta anos. Ninguém o julgava! Aos dois homens. Safaram-no dali com largas escoriações nas tíbias. impelido pelo calcadoiro que as pessoas fizeram à volta na precipitação de acudirem. o médico franzira os lábios num jeito de dúvida e recusara pronunciar-se quanto a semelhante golpe e ainda quanto às lesões internas que pudesse ter no peito. O Calhorra. e com a ajuda dos facultativos operou o milagre. sobre ele jurou que se escapasse daquela havia de pesar-se a trigo em prol do bento S. Lá foram para a terra da verdade. além disso. era a dum cavalo. A entivagem era a mais precária que se pode imaginar.vieram a lucrar.

Agora dispensava tesoureiros..recebido a mina limpa como dantes. ora se virava doutro. nem um real a menos. sobressaltada com a ideia de que tivesse varrido por ali a mão dos tunantes. Ele explicou: era para semear um pinhal. e em seu foro a primeira dívida a pagar seria aos santos. disse à criatura: ó Rosa. não viesse por lá a borra à superfície. Rosa falara algumas vezes em vendê-la. tendo-o contado. ora se virava dum lado. ou bem o pesar de reconhecer a ruindade dos três mariolas juntamente com a perspectiva de se ver por portas? . acalentado por outros. Mas ela não desandava lá da sua: . desde o boléu. se os gados dessem licença.Guardaste ao menos o conto de réis para o voto? tornou-lhe ele.. “para não perder tudo” . para mais que não para menos? . O Calhorra era de bom cerne e a convalescença foi avançando mercê dos caldinhos gordos e da graça de Deus. E como nada lhe passasse despercebido à pupila abelhuda. só servia de consumição. divino Senhor. E corno o facto lhe causasse estranheza mandou Verónica buscar a caixinha em que lançava as economias. levado bebedeira pegada.alegaram eles em guisa de explicação ao público que. considerava interdito à cobiça o campo homicida. Se eu for antes de ti. como na nau Catrineta? A mulher espremeu uma lágrima. podiam recomeçar quando lhes apetecesse. certa espécie rara de alegria que por ser mais funda atravessa todas as camadas sedimentares da alma e ala-se à luz. morria se não jogava aos passantes a sua chalaça. Ali. fugindo de agitar aquela cabaça velha. O Calhorra ao sétimo dia já se arrastava até à quintã a espreitar o sol. que não era destituída de siso e tinha alguma coisa de seu. desafiando uns. Aquela leira. coisa dos seus cem mil réis. tinham-lhe alimpado com quanto arame lá havia. que não valem a baba dum caracol. Correu Verónica ao esconderijo. . quanto queres pela barrosela da Laja dos Lobos? Sempre ta compro. situada do lado de lá do rio. estritamente. E recomeçaram.Se calhar. é verdade. fungando: 126 . ainda para mais salgadinho como andava na Fazenda? Por isso ela. ficando o Calhorra sem saber o que pretendia significar tal demonstração: alegria. andava falto de estacas para os feijões. nem um real a mais. fora da vista. em seu horror. tratou de amochilá-lo na segura carteira de coiro. Foi por este canal. e o Calhorra. com um pauzinho a riscar no terreiro a par e passo que desfiava coisas e loisas da vida. em poucos anos punham-se mais altas que uma aguilhada. trancada por grossíssimo elástico. repartindo a sede entre a venda e a pipinha de casa. alegria de vê-lo são e salvo... Excomungados. os galos e as cabras de Pedrões não deixavam ir um pé de milho avante.Andamos a pagar a culpa de os ter deitado ao mundo. A raposa. o tio Silvestre sonhou por lá com alguma mina de volfro? O Calhorra ergueu as espáduas. já que a tei de todo o comércio é a exactidão.. Para outra coisa aquilo não valia um chavo furado. porque lhe doía a ilharga.O que valeu foi estar o outro em sítio onde os lobatos não sonham disse em voz atrida para a mulher.. ficou de pé atrás ao ouvir tal proposta. Lá estava o dinheirinho. Deitado na capucha. Um dia que a Rosa Pedralva se quedou acocorada ao lado dele. remolhada de lágrimas. mas quem se tentava por semelhante chaparral.. precata-te que te comem sem te tirar à sorte. que veio ao conhecimento terem os filhos..

fica-me lá muito longe para a guardar. Brás da Nave.. confeccionados à compita pelo Chedas de Caria e a Rosa de Lamego. Um engenheiro de Muradais veio de vistoria à exploração e ensinou-lhes o pe-a-pá Santa justa. partindo de Malhadas com espavento relativo. com seu eixo em S.. restituo-te a leira.O que vossemecê quis foram as pedras que estão coalhadas de volfro. também em andores. para que se soubesse. mas semelhantes artificios oneravam a obra de 3/4 dos lucros obtidos. das almas do Crasto. Bem era. É para me entreter. e marchava para S.. anjinbos e 127 . pois lá assistia o patrono. do avô. pedra por pedra. Toda a noite os ecos repercutiram aos morteiros e foguetes de três respostas. que vou largar do precipício do Santo Antão. o Calhorra foi ver em que altura ia a trafega. . Chegou o dia de S. No dia seguinte. chamou a Pedralva e disse-lhe: .Olha. mas dito dito. Brás. e embora “com pedra no sapato”. Castigou-a e logo ali. da Laja dos Lobos. não. do joguinho pessoal.. pediu pelo migalho o dobro do valor em que andava orçado: dezassete notas. inibido. principalmente a escorar os cortes. tinham voltado à mina. fazia romaria por Mouramorta. a instigação do Antoninho Fráguas. não achou nada de melhor que botar-se fora da sociedade.Enganas-te. Não vale a pena mexermos na matriz. dando nome à terra e obrigando ao forrobodó. coma-o o Diabo”. encostado à bengala de rangífer. Não havia escritura. fossem lá agarrar-lhe? Avisou deste desígnio os parceiros. as despesas que tivera com médico e boticário. que se permitiram abocanhá-lo em sua honra. anjinhos e amortalhados.. passou por ali o alamão. O número por excelência era a procissão que. a advertir léguas em redondo da rija funçanata. Rosa. Dois dias depois. já lá andavam a esfossar. em cuja capela acabava por engrossar com os elementos mais numerosos e capitais. Têm aqui uma pinta. Rosa! Coalhadas de volfro.. guardava-lhes o troco. Lá se ia o pé-de-meia e a junta de vacas sobressalentes. mais não disse. dia tão abençoado que caiu chuva no nabal e fez sol no terreiro. Com efeito. invocando a sua enfermidade. Diabos o levem. de modo a que o trabalho pudesse correr com segurança e o indispensável despacho. nem o azeite para a lâmpada do Santí ssimo! Se lá houvesse volfro. Quebrou com o José Francisco e o pai. bonitas contas deitou à consciência enquanto esteve a bater a bota!? . Estou um cepo. o carro do Calhorra começou acarretar a parede. lhe contou o sinal.Minha rica. A Pedralva devia-lhe obrigações. Quando esta acabou.. quando o soube. Olha. raciocinando talvez que “bocado que eu não hei-de comer. caiulhe o peso em cima.. que ficara a semelhante cemitério. olha! E pela alma do pai. com tanta surpresa dos compadres que a bocarra lhes ia de orelha a orelha e os olhos pareciam de olharapos. para mais. que o filão estava a render. a osga com. e a depositá-la no quinteiro que possuía à Boa Vista. Era uma das grandes festas da freguesia. jurou que não tinha outro intuito que não fosse semear penisco. a quem em Portugal nada escapa. Quanto aos impropérios. ali outra. deu por paus e por pedras. E não houve razões que o levassem a mudar de parecer. Brás. Sendo o Cambais o mais abonado. O Silvestre Calhorra. Fazendo um balanço do negócio e pesando bem os prós e contras. . onde incorporava a quota que cabia à sede da paróquia em andores.

dobrando-se ao mesmo tempo. Miguel. andava com os olhos abertos. lhe mostrou quanto media. o andor do tio Silvestre põe o ramo? Só se acomodou quando viu o andor. Pagou quanto o cirieiro quis. Eram uns tantos mil réis que do samarro lhe saíam. Queria que botassem olhos pasmados ao portento e se dissesse: . que remédio. mas se fosse que tinha isso? . a fazê-lo. E que lá na sua queria dizer: a brincadeira dava-ta eu. com efeito. vossemecê não será retroseiro? . . cáspite.Nem a torre dos Clérigos? . orago da freguesia. Quando aquilo viu. 128 . e que o cirieiro compreendeu. tendo resultado uma bisarma tão sumptuosa que era preciso pegarem-lhe oito homens. e o lojista pegou do metro para lhe tirar a medida. nunca se julgara tão alt& Do que ele rebaixava para o que era em seu ser iam nada menos de dez centímetros. se nã~o fosse a esquadra do Governo Civilficar aqui ao pé. . mas. Prometera um círio da sua altura. mas não havia outro remédio senão arrotar. . galhardo e alto. e todos os seus artifícios redundavam em farelório como foguetes de lágrimas. E ali marralharam os dois como se se tratasse de comprar os atafais para a besta num albardeiro da feira. que foi preciso o homem meter-lhe um bote à barriga para o entesar: . Pois que as celestes potestades não perdiam nada se comesse armador e cirieiro como fazia com os volframistas. que podiam tomá-lo de ponta. punha no lance. quando neste passo prometi até ir descalço e sem fala.Não se abespinhe por tão pouco! Estou a brincar proferiu o comerciante. Pagar as dívidas aos santos. isto é.rosnou de maus fígados. O mundo.Não vê que são os anos. .amortalhados. medir mais dois palmos de alto que o de S. Mas é a última vez! .dizia o Urra que servira em artilheiros da Serra do Pilar. desembolsando à justa. ainda mais comerciantes de pé fresco. encolheu-se de tal modo. fazê-lo segundo as regras. Além de regatearem quanto ao preço. embora debalde. . já daqui não queria ser aviado.Tinha que é nessas profissões que se aprendem certas manhas que nós cá sabemos. patrãozinho. mas quando encostou a grande tocha ao bento lado de S. seu homem. O Calhorra concebera um andor ao Arcanjo S. quanto mais descer a ladrão com quem nos dá tud& Se não fosse por ser taxado de soberba. mas nada de alargar os cordões à bolsa. O mesmo unhas-de-fome se mostrou o Calhorra com o cirieiro. Entre armador e Calhorra foi uma matação até chegarem a acordo. Um metro e setenta e oito. sorrindo com afabilidade.. o Calhorra exigia os tafetás mais garridos que trazia nos fardos e uma arquitectura espampanante em estilo só dele.Caramba. nunca vista. produto do seu rico dinheiro.Levante a grimpa. O Calhorra abanou repetidamente a cabeça sem soltar bus. não houve dúvida.Não sou. nem sonhada. já que negócios são negócios.Qual anos nem qual carapuço! Olhe lá.. Miguel teve a consolação de notar que o arcanjo ficava ao pé dela como marujo ao pé dum mastro. pois embatucou e foi com respeito que. quanta ronha podia. de fita na unha. tão alto que fosse preciso esgalhar as árvores pelos caminhos para romper.Farto de me deixar roubar ando eu. Sebastião.

R. e os rapazes outro a Santo Apolinário. ainda a procissão estava a sair de Mouramorta. teve de os repreender: . Foi assim que se apresentou em S. bem embora lhe soubesse a vinte escudos que era quanto escorria do seu bolso para o bolso do celebrante. depois os andores. os anjinhos não tiravam os olhos deles. Como era cedo. estava-lhe curta. Além de curta ficava-lhe apertada. apartaram-se anjinhos e penitentes para uma banda. gravata. com joanetes altos e rugosos. os mordomos deram voz para o saimento da procissão. alguns pedidos às igrejas vizinhas. Mande rezar uma missa ao S. esperou na venda do Adolfo que batesse a hora.a das Sete Espadas. Perante tal abusão. Mas por mais de uma vez o penitente se queixou que o picavam. mas as pernas não me deixam fazer a romaria por Mouramorta. Brás e o de N. Rompiam primeiro os guiões. Oficiava o reverendo Tadeu. O José Francisco era farfante e encarregou-se de levar o guião de Pedrões. Também era costume pedir a cruz de guizeiras a Rabaçais.Prometi figurar na procissão de amortalhado e sem fala. O desfraldar dos estandartes teve que se lhe diga. que era em panocru. Era gente expedita. Brás. Havia ali outros penitentes com suas aderecistas. também à conta do pároco. Era o instante solene. O Calhorra não quis nada com o fedelho e foi procurar o pároco verdadeiro: . para não parecer mal. Quando o foguetão estralejou à entrada do povo a comandar: a postos! dirigiu-se à sacristia da capela para em calma e à vontade envergar a mortalha. acolitado pelos abades de Pedrões e de Rabaçais. e a cruz de latão com o Cristo de saiote a Manfurada. na égua rabona com a Verónica à frente. que aprendia para padre e já andava de saias. À força de pontos e de alfinetes conseguiram enfiar-lha. As raparigas mandavam fazer um a Santa Luzia. destes em lugar de honra os oferecidos pelos devotos de S. que lembravam as incrustações de certos moluscos na rocha. e por ali fora. Mais dois. o que era um bico-de-obra. sempre o tio Silvestre no rebanho dos vultos brancos a dar nas vistas como o rei David. sôfrego de ouvir a missa a instrumental e o sermão que. o de S. e foi preciso deitar abaixo a bainha. Depois do sermão. se fosse como o dos mais anos. guião vermelho de 129 . Brás.Ide lá pôr alfinetes a casa do Catano! Isto é mortalha ou samarra dalgum oiriço-cacheiro?? O pior do pior foi quando teve de tirar os butes e ficar com os pés a descoberto. O Calhorra assentiu. música e canto. e a mortalha no alforge. queda o voto por cumprir? . e comprimiu-se o populacho contra as quatro paredes. corrente de jarra ao peito.Não senhor. Miguel e está quite.a S. quanto a acompanhar a procissão a seu destino. andores para outra. foi um rufo. advogado nas quebraduras. advogada nos achaques da vista.Ó meninos. ficavam à conta das esmolas angariadas pelos mordomos de porta em porta na roda do ano. e a bateria de calos monstros verdadeiras nozelhas de carvalho. fato de saragoça preta.? Se não vou. e foi de cara dura e voz que gelou o sorriso nos lábios dos circunstantes que disparou: . Imensos e deformados pelo reumatismo. um sermão que há vinte anos era único e invariável e tinha o mérito de arrancar um chuveiro de lágrimas às mesmas caras e a outras que se dispunham a suceder-lhes em tal papel. A veste. faria chorar as pedras.O Simão Tadeu passara a sobrepeliz ao Custodinho da Micas. Que me diz V. e muitas mãos se estenderam solicitamente a ajudar a vestir o senhor presidente da junta de Freguesia. nunca vistes as patas de vosso pai? Quando a procissão acedeu à capela.

Ainda há rapazes. sacudido pelo bater impetuoso da grande asa vermelha. O terceiro era o tal pendão de Pedrões. ao passo que a raiva e a amargura que lhe iam na alma lho enegreciam como fuligem. lá ia direito. não se conteve que não bufasse: . . Sem pressas nem vagares.Ah. bem embora lhe exigisse mais esforço do que andar agarrado à marra. O melhor é recolher os guiões. Seguiu-se-lhe o guião verde. Ora o José Francisco. que se tinha pelo mais valente. confiar-se. Rolavam-lhe pelo rosto grossas bagas de suor. como se tal impotencia constituísse uma afronta para o seu brio de penitente. Os bicos triangulares. mas embora firmasse na cinta o conto da haste e com o desespero os dedos se lhe tornassem garra. tomado de furor. Um boizana assim avanta com os telhados para os quintos quanto mais com um pendão'. em duas alas.. puído do tempo e fanado de suas lhamas e borlas. A grande asa rubra pareceu sentir o pulso forte. Seguia-se-lhe o Manuel Calhorra que tinha corpanzil de boi e que também se avinha menos mal com o branco de Mouramorta. e. flutuou a todo o pano com placidez e galhardia. O José Francisco ia a arriar mas o Calhorra. depois de o soerguer arqueou levemente o tronco para melhor lhe dar balanço e. um dos mordomos proferiu: . voto de um brasileiro à Virgem Santa Quitéria na iminência de se ver papado por um tubarão.Deixa. caminhou a ocupar o seu posto na procissão. com o seu encabado na faixa. no momento mesmo em que começavam. vestiu a opa. que ele via-se em sérios apuros para não o deixar abater sobre o gentio que recuava assustado a toda a roda. Obstinava-se José Francisco. o pano desfraldado revestia-se de alento superior ao seu.. mal passou a galilé. imprimindo-lhe um alancão como se desprendesse uma ave. Tinha centenas de olhos em cima dele. fosse ele no meu tempo e vocês haviam de ver quantos apareciam para levar o guião? Acabou-se a rapaziada. com ele trepidante e majestoso.. com envergadura tal que cobria meio adro. desatou aos bordos. cuja carne banqueteara fidalgos e senhores eclesiásticos que já não eram deste mundo. largou-lhe o estandarte com gesto desdenhoso.Quem leva o guião sou eu. refartos de 130 . O Aires ergueu ainda mais alto e. Vendo a sua atrapalhação. Logo após avançava a chusma dos anjos. ainda há rapazes? exclamou o Augusto Alres adiantando-se. Levava-o Lázaro Fandinga e não era maravilha que arcasse com ele. remeteu-o às alturas. Logo por fatalidade soprava ventinho rijo e repontão que desdobrava o pano melhor que asas de gaivota. O José Francisco. raios. e deitou as mãos ao estandarte. ergueu o mordomo o braço: . O Aires deu o chapéu a guardar. atrás do Urra.. voltavam-se enfunando o pano. despregando-se. deixa. Dás licença?. Com dó dele. que requeria pulso rijo e quem tivesse comido já umas certas rasas de sal. . ou davam tal açoite contra a vara. senhor Silvestre. e deixavam-se conduzir pela mão das matronas que os tinham caracterizado. moço. um momento se encrespou. O primeiro a romper fora o Quim da Urra e. que estava à entrada da galilé com o rancho. opressos sob o peso dos grilhões e escravas. de ranho caído..Está uma grande ventaneira. não há braço que aguente. com ele tombado. às costas asas desplumadas de galinhas brancas e de patos.vara alta que nem um choupo. sem dizer palavra. não obstante o grande peso das franjas de oiro.. Depois. a enrolar o pano contra a vara para o recolher à igreja.

através das ruas varridas e com a gente ajoelhada pelos penedinhos. e o Calhorra.Quem há-de acabar por levar a borrega é o filho do Antoninho. Assim. comeretes e beberetes por três dias e três noites. Batiam ali calcanhar.O que te vale é eu ir aqui a pagar o grande favor que devo ao S. Caprichou o José Francisco em desertar da sua terra e vir alegrar Malhadas com a concertina.O José Francisco deita a alma com vergonha. Aos domingos não tinha outro poiso. quando o saricoté feria lume nas calçadas de Mouramorta e de S. aquele fora-se insinuando na vida do lavrador. Com tal esparrame. tio Silvestre. as cruzes de prata e de latão refulgiam porum sol que teve a bondade de se associar à festividade. Em virtude de presunções tão opostas. inflamou-se o despique entre os cantadores. Desta feita a concertina cedeu a vez ao bombo. se o quisessem achar. O facto prestou-se a que engrossassem os zunzuns que há muito andavam no ar. chegavam do cimo ao fundo do terreiro. senão ensinava-te o respeito? Silvestre Calhorra apoiava-se à bengala de castão de rangifer e. assentes desde longe. Em verdade. A música à sua espalda fungava um pase-calle estrondoso. de que se compõe o balho. Brás. com o correntio de relações que se estabeleceu entre José Francisco e José dos Cambais. Raios o pelem. Com harmónica ou sem ela. ferrinhos e viola. O Joaquim da Urra tinha voz sã. Tão certo o zorro ficar a fazer cruzes na boca como eu chamar-me Lourenço e ser de Braga. os andores. já que não fora por querer. e disse-lhe: . Bem se derrete ele. Limitou-se a acenar com a bengala. para maior cautela. além de Malhadas. Mas também não era só uma pessoa nem duas a protestar: . as duas alas. sem falar já de S. armou-se o danço. frequentando-lhe a casa e acompanhando-o por felrãs e alcriquetes. a passo de boi. mandara a mulher ir à sua ilharga. aflautada. é o pingo da rocha que cai para o chão enquanto o padre reza o responso. esbagulhava-se em lágrimas. punha maior fanfúrria e era mais próprio dum dia de grande borga. Nos terreiros de Malhadas.Falais ao toledo. que era dança para todos. daquele jeito. resplandecentes como tronos. bamboleando-se nos ombros dos mocetões. de romaria aos quatro grandes cruzeiros que flanqueavam o lugar de S. E lá ia. procurassem-no ali. Brás. Boquejava-se: . porque aí a solenidade prolongava-se em balhos. Quando ao entardecer a gentiaga dispersou. Deus que é pai lhe perdoaria. Brás. O mordomo que estivera na pendência dos estandartes chegou-se neste entrementes ao Calhorra. Brás. o mais alto dos amortalhados. muito sensibilizado com tanta grandeza e tal preito divino. tornando cada poviléu para seus cabeços. e em matéria de sainete poucos lhe levavam a melhor. a ninguém causou espanto ver o José Francisco em Malhadas. que o descante. Contra ele versejavam o José 131 . na compra e venda de gado.lindezas. aquelas terras que lhe ficavam aquém. bem como de Mouramorta. A Teodora não pode ver o filho do Antoninho nem pintado. nem por isso a festa teve remate. avançavam com segura cadência. Miguel. que não se importa de quebrar o voto para atirar assim o homem ao desespero! Só então o Calhorra se lembrou que infringira a promessa. De volteio em volteio acabaram os festeiros por estacar no largo da capela e armar a chula. sócios da mesma empresa. o mesmo era que dissesse: . no caminho para S. mas.

julgou-se também no direito de tomar. entrança e destrança. dava-lhe para o melodrama. das raras vezes que lhe subia ao capitel. Mas. Que por andar ameaçado. Mas andas muito enganado. distraído. empurravam-na. à má cara umas. o home é cego.Francisco e o Luís Ougado. A rapariga cruzou o xaile do ombro para a cinta e foi. E novamente o Quim lançou à zanguizarra: O que tu querias sei eu. Quanto a ela. mas não disse palavra. Pra quem pêro está guardado. mas o reumatismo falseava-lhe os movimentos. que ninguém lhe viu demudar cor nem jeito. a fugir ao desafio em que era de toda a evidência ficar desbaratado ou para desmentir o subentendido que pudesse transparecer da quadra do Urra. pela vida fora. Continuava o danço no largo muito alvoriçado. um honrado pifão. mas faltava-lhes veia e ralé para competir com o cantador de fama. meteu-se para o meio das outras e. rodopiavam numa perna só e ele chorava. Menina. Vai o pêro. assim que chegou a primeira suspensão. mais amalandrados do que é legítimo sofrer o cristão. Requintava o balho em evoluções. até então por algum cuidado da última hora. fez-se mais branco que a camisa gomada que trazia. de companhia com o José dos Cambais. Entretanto andava a caneca à roda e o Calhorra. rebolando a anca e castanholando com os dedos livres. cavalheiros com damas. e o José Francisco. foi no seu íntimo. mão na mão. os pares davam a volta e subiam tornejando com os demais pares. não arredou da negativa. foi convidar Teodora para sua dama.. sobe e desce. Punha-se então uma madalena arrependida e todo se desfazia em lamúrias pelo tempo que perdera. E ao refrão vira. o rego. Os pares agora subiam e desciam. as mangas intermináveis do balho. embora o seu par a requeresse com insistência. Andava a bailar. vira-vi. se encordoou. acudiu. apareceu à boca do adro o Augusto Aires.Vai. Mas as outras raparigas. Não ta merece. surdas outras quando adjudicadas de noite à porta dos serões. Azango. em arco por cima de cada ala. rompeu o 132 . Da atitude dos três ficaram todas as comadres murmurando. Quem não deve não teme Nem se põe a cortar prego. além de dar licença aos sarrafaçais dos filhos para se emborracharem a última vez.Não faças essa desfeita ao homem. menina.. vira-vi. dando-lhe com o cotovelo: . que mal tem!? O Zé dos Cambais percebeu e muito trôpego. dizendo todo chorão: . O vinho. mas depois de o ouvirem pingueiro a contar as cacetadas que tinha à sua conta. damas com cavalheiros. até endireitar carreira. Vendo Teodora a dançar com o filho do Antoninho. Queria valsar com o antigo sócio. Consigo vou ter sem medo. E logo o Quim da Urra despedia com requebro malicioso: Não corre água nem vinho. O José Francisco entretanto garganteou: Se à sua porta corre água. as topetadas que dera. a bailar ficou. já toda a gente sabia que o tio Silvestre não era para cócegas. Era uma das sortes da chula enquanto o par do alto e o par do fundo revoluteavam enlaçados. diz o outro. A moça escusou-se. é que vinham ao fundamento da boa peseta que ele era. tem-te não caias. Mesmo assim. os cachações que se vira obrigado a aplicar a este e àquele.

Tivemos ambos um peguilho.Razão.. quase titubeante. puderam ficar à vontade. ou. ou pô-la a salvo de temporais. ela picou: .. Entre elas Teodora.Não há-de ser preciso..temos de falar com o coração nas mãos. desculpou-se Fráguas com não beber fora das refeições. o velho disse-lhe. Mas as mocinhas ramboieiras. Pronunciadas tais palavras com certa sequidão despediu rua abaixo mais o rapaz. A nuvem de poeira e de balidos.E depois? . Como ao lado deles marchasse o Luís Ougado. O filho despegou da zanguizarra. meu homem. Augusto.proferiu ela um pouco no seu modo arisco.Devo acreditar que têm razão. Como a pausa se dilatasse. Onde ele cair caio eu .. Rosna-se para aí que te viraste para o filho do Antoninho Fráguas.Sentes-te ameaçado? -.Onde ele cair caio eu . . veio para ele. Ao fundo do patim chamou pela senhora Verónica que viesse tomar conta do cativo. um tanto exalçado pela laracha do homem.significou-lhe o Fráguas. depois de jogar ao ar o barrete de pele de coelho: .. começaram a despedir umas após outras. que assoberbava durante minutos a povoação. com o fim de afogar duma vez para sempre a sua paixão. a abanar a cabeça a um vago inimigo. de ar torvo e sem erguer os olhos. Brás. ..Está bem. de caneca em punho. Uma pessoa disse-me: vou-o jurar. As danças prosseguiram até a noite remontar dos vales para as aldeias e os picotos dos montes. que parecia meio pingueiro. desde S. embora de pé menos lépido do que tinham vindo. de xaile descaído para a cinta. que parecia peado. Agradado. .entoou o Ougado.. em sua importância sentindo-se talvez afrontado pela presença do bebedola. dize lá. Falava com dificuldade. o Calhorra. esquecendo-se que estavam de relações quebradas. O moço trazia Teodora dentro do peito e foi procurá-la. O pai acomodava as vacas. ao só cio da vigairada. .disse ele no tom sentido. a escolher caminho.As bocas do mundo. .? . a velha entretinha-se com a ceia. aclui não se corta prego? . obrigadinho! . . porquê? É um amigo às direitas. Fica-te com esta e podes dizê-lo à lambisgóia do Zé dos Cambais. Afidalgado. deu em bem. para esconder o pesadume. . sabes? É que não tenha uma filha que ta dava com os dois vinténs que guardo num buraco.Antoninho de automóvel.Ao pé de mim não há azar. mas agradecia como se tivesse bebido. para o acompanhar a casa. O Augusto Aires deu o braço ao Calhorra. Aparece. se não com pesar de interromper o plantão que fizera todo o santo dia.Sinto e não sinto.Teodora . quem? .Sabes a minha pena. 133 .perguntou o Antoninho fitando o filho. Ou.repetia o Luís Ougado na cegarrega obtusa de borracho. de quem joga tudo na vaza . nem sequer atrapalhou o bailado. ouviram-lhe que dizia: Este moço vem connosco. Mas deixem lá berregar o paspalhão do Urra. Ao entrarem os rebanhos nos currais. .e batia no peito. ainda na praça tiniam os ferrinhos e zurrava o zabumba. não se fala de pecados velhos. mais zambro do que nunca. O Luís Ougado apartou-se cabisbaixo..

. que não estou bem lembrado. . imóvel.. rija.. Teodora. a sua tortura era atroz.Ora essa. conhecendo-lhe o génio: Não julgo nada.. Para onde for um.. Foi-me cometer para o baile.. Augusto apertou-a contra si e ela deixou-se apertar. O céu e a terra revestiam novo aspecto para o Aires. que ta não corto. se não.? O Aires quedou um instante em suspensão. O que não se compreende é a aceitação que tu lhe dás.Pois sim. ouves? Eu te digo o que já não devia ser novo para ti: tua ou de mais ninguém. Moldava-se.Não lhe dou aceitação nenhuma .. Ele e teu pai são como cabeçalho e chavelhão. disselhe que não. suponhamos. E tartamudo balbuciou: . nem disse: deixa-me? Quando voltaram à terra.. como: não tem pés nem cabeça. que a cabeça não me governa bem. grande pausa. . e numa voz em que latejava não sabia se amor se ira pronunciou: .disse ela em voz áspera.. não o bispei agarrado a ti a dançar.. aquela espécie de ar fresco que não vem apenas da atmosfera e embebeda como o melhor vinho. E volveu: . Tenho com a minha palavra e o meu querer e basta. Meteram-mo à cara.Torna-me a dizer essa palavra.E tu que julgas? Soltava as palavras no seu jeito despachado e tom escarnento. . Era uma razão para te negares. que tanto podia exprimir: sim. de olhos em terra. hesitante em ler-lhe nos olhos aquilo que tanto buscava.Dá cá. vai outro. o sujeitinho agora não sal da tua beira..proferiu ela num trejeito que transitava repentinamente do sério para o jocoso e regressava logo ao tom primeiro.. Vês. Teodora. Intercorreu uma pausa. Aí tens porque me viste a dançar com semelhante meijengro.Mauzão! 134 .Assim és esquecido?? . é verdade. pô-la em cima dos seios sem aquele pudor com que as raparigas fogem ao toque atrevido dos rapazes. .E que palavra é essa.Pois andava e andava mesmo? Não acreditas? Podes acreditar. Olhava para ela e como a visse calada. moldava-se branda como a cera.Ouves bater o coração. Se é o que eu suponho. Torna-ma a dizer. Teimou. . enlevo que não espanto. As raparigas em volta: vai. moldava-se no seu peito... Suponhamos que semelhante compadrio é devido ao negócio. Mais do que isso..? Não me vais dizer que trago cataratas nos olhos ou que andavas forçada. .Ele tornou. em que comungava tudo à volta. Eu não o chamei... Que homem és tu para guardar memória de coisas que bolem com a vida toda duma pessoa. tudo tem fim.Já te disse e torno-te a repetir que não tenho nada com o que os outros pensam. Mais uma razão para definirem suas vidas. quase tão pétrea como a massa da masseira a ponto de levedar. porque não hás-de ir? Meu pai teve ventos da minha má vontade e veio-me ralhar. meia sorrindo: . viver e sofrer. meta sisuda. Entrava-lhe nos pulmões ar fresco. . Mesmo assim porfiou: . como se ditasse uma ordem a quem fosse mau cumpridor. Perdido e achado é em vossa casa. estreitou-a contra a apojadura das pomas.replicou ela com sequidão. ela murmurou. paciência.. Depois.. abençoada seja a luz que nos alumia. .. Pegou-lhe da mão. mas para ti não deve ser novidade o que corre a esse respeito.Dize-ma.Dá cá a tua mão..

Teodora.. O mocho piou e as notas agoirentas pareceram-lhe alegres parabéns. Agora. anunciava: vigia. total: sublimação do humano. Teodora confundia-se consigo. pé ante pé e reprimindo o fôlego subiu o patim que conduzia à casa propriamente dita. Para tirar a prova real. ainda sob os fumos da pagodeira. nunca és recompensada da prova de confiança que me deste. inebriado de amor. mesmo na ribeira. ruminando a grande felicidade. como se por cima da terra o sustentassem asas. duas notas do chocalhinho tangido pelo carneiro ao coçar o piolho. fustigado pelas rabanadas glaciais e farto de tropeçar nos calhaus. Que ressaibo o da sua boca? Que fluidez no seu sangue? Leve.. os olhos dela e os seus numa só luz. Era noite e não se apercebera ainda bem da escuridão. as comas dos pinheiros novos em levitação. entrou na quintã. Para gente tão meticulosa o facto era singular. Um ventinho assobiador vinha da serra e tão-pouco dava conta dele. e bendita sejas! Por mais tombos que dê. deixou-se ir ao acaso pelos caminhos fora. com a breca. Foi andando a passo cada vez mais largo. as paredes que alojavam a sua Teodora.. perscrutanto à direita e à esquerda. trazido pela pancada. Cada vez mais apressado. a mãe. que não se via a linha dos troncos. em boa paz e segurança.. soçobrado em silê ncio. nã o. uma chamazinha trémula. antes de se ir deitar.. era a noite inviolada e profunda. o Calhorra. deteve-se um ápice. O sol. se dormia. Uma vez diante da moradia do Cambais. entrava já na sua rua. Haviam-se calado há muito as vozes que quase adormecem a rezar sobre o açafate e. Uma névoa leitosa de amanhecer recobria tudo nos horizontes da sua imaginação. À entrada do povo que. Teodora. saber que ela lá estava a dormir. mil penedos de cima do peito.Tiraste-me. necessária a sua quietação. e as giestas acocoradas nas rampas. irradiante. Dois minutos concedem-se ao homem que vai a enforcar quanto mais ao coração alvoroçado? E abandonou-se à vontade pueril de rever. E pôs-se a arrepiar caminho.. Respiro. O escuro adensara-se acrescido dos bulcões que o vento tocava do norte e que. Eram duas almas numa só alma. como no concurso harmonioso das leis da vida uma vez pode acontecer. quando se sentiu levado por uma irreprimível veneta a torcer caminho pelo domicílio do José dos Cambais. tendo-lhe acudido ao espírito que a mãe podia estar em cuidados com a sua ausência. o senhor Hincker e a menina erguiam-se-lhe diante tal os arnieiros nas margens do rio. rolando no céu baixo. as pedras o juravam com o seu sossego. mas sem fazer ruído. o vagido do menino que logo esmorece sufocado contra o bico do peito. não havia de andar sobre brasas?? Mas perdoa. Tanto dentro como fora nada entreviu de suspeito. Foi-se dali. E afoito. Os pés o guiavam certo e direito como se levasse rumo. acabaram por se entornar na terra. Passou à beira da mina do Vale das Donas com os aterros encavalitados a trouxe-mouxe e os tejadilhos de fibrocimento mal sobrenadando no imóvel e imenso mar da escuridão. E com os seus botões considerou que o Cambais. No patamar afitou a orelha. com as ondulações caprichosas da casaria lembrava um barrocal. 135 . leve. tinha a noção de que marchava. com os cães enrodilhados nos ninhos. se esquecera à última da hora de pôr trancas às portas. seguro do mundo.?! Mesmo. Eras a minha vida. Na casa do guarda. notou com estranheza que no portal carreiro um dos batentes estava escancarado. Onde ele estava. sem noção do itinerário. Não se ouvia nada de nada.. por mais trabalhos que passe. sim.

afigurou-se-lhe reconhecer o José Francisco. Uma inalterável e peganhosa modorra de inverno recobria a aldeia e a terra toda. Na breve pausa que se seguiu ao acto de decisão: vou-me embora? figurou-se-lhe ouvir na rua um rumor imperceptível. que o Cambais tinha de reserva como todos os lavradores. destes estadulhos da carreta descascados e mais altos que um homem.. “Ladrão.. quem era devia fazer a sua socresta. E ao desenvolver-se em altura a arredondar-se de linhas. não destituído porém de certo recato.salvo o vento nos pinhais do Oiteiro Alto e a toada dum fio de água a despenhar-se do talude. Mas já o vulto. fosse reflexo dalgum dos seus movimentos. Sorrindo contrafeito. Mas. até se traduzir num chapejar seguido. Foi como se lhe tivessem cravado um punhal no peito. para os fundos da quintã. e até pelo pigarro que a custo sofreava.” Mas o vulto tornou a crescer na penumbra. pareceulhe mais o Ougado. machadinha em punho. escoava-se na noite sem ruído nem rasto. afirmando-se melhor. disse para a mãe: . Depois. a ofegar. a prevista forma humana entremostrou-se projectada contra a palha branca que lastrava a quintã. A mãe veio abrir e vendoo transtornado. Vendo-a embrenhar-se na escuridão para o lado das pocilgas. e afigurou-se ao Aires que manejava um estadulho. como se viesse furtado a perseguição. Quer dizer. Foi instantâneo. disse-lhe a tremer toda: . mas essa repelia-a como iníqua e absurda. mas não lhe fazem segunda. O rumor pouco a pouco foi-se acentuando. virava a esquina e. ainda mais intrigado do que inquieto: “Vem para roubar?” Uma segunda interrogação brotara no seu espírito. descosendo-se da porteira. O Aires quedou um momento interdito. uma sombra enovelada delatou-se pelo seu chumaço de negror no vão da porta e aí fez alto. portanto.?? Que te fizeram que não vens em ti. não é nada comigo. Aquilo é como um 136 .. Varrasco?” E a infame dúvida de há pouco voltou a bater-lhe na cabeça e ele a recalcá-la.. atravessou os umbrais.. Agora. foi-lhe empós. um instante perplexa ou cavidosa. coitado do homem! Embarrilaram-no uma vez. Breve. homem sem dúvida.?. assestados com fixidez hipnótica sobre o noitibó. Talvez voltasse. fui até o Vale das Donas. mal teve tempo de se dizer. Voltar para quê? E de ímpeto. parado como se estivesse novamente irresoluto ou à espera. quase fulgurante. contra o mainel. meu filho. que te fizeram. Não lhe dissera Teodora: “Tua ou de mais ninguém”? Mais do que isso: não lho demonstrara? De súbito.Ai. fosse ilusão dos seus olhos. E outra vez se perfilou contra a ombreira. a desenhar-se. Lá estava. Olhe. sossegue. e o Aires deitou a mã o à machadinha que entrevira a um canto. “Alguém que precisa duma enxada e vem por ela onde sabe que não faltam. definindo. não parece. Quem era não estava ali por bom. mas semelhante a bicho que anda à caça.Não é nada. Bateu à porta com mão nervosa e insistente. Tinham-me avisado que certos ratoneiros que para aí há andavam com tenções de dar um assalto ao filão e quis ver se o guarda dormia ou estava no seu posto. e foi quanto bastou para o petrificar de novo na imobilidade. pela estatura meã e certo franzino do tronco. Soprou ao desafogo. pois se ouvia o sonido da ferramenta e de paus ou tábuas entrechocando-se.. descalço ou de alpargatas.

.. .exclamou a mãe.clamava não traduz bem aquele gorgulhar de sons guturais e incompreensíveis .. da noite assombrada exalava-se urna impressão única: Homem morto! Homem morto! Foi atrás da mãe.? . deu-me para ter medo? Que tem de ceia? A mãe pôs-lhe na mesa o ensopado que há muito tempo acalentava ao lume para não arrefecer. Quando chegue. Tinha já os olhos vidrados. olhou para a mãe. Brás.. como o piar da coruja. do clarão das lumiciras trémulo e fúgidiço. subitamente. de alevante. assim. Na camisa de goma.. . repcso de 137 . Para que ela compreendesse. tornou com o vero acento da franqueza: . postado um pouco de esconso entre a ombreira da casa da Pedralva e o rancho das mulheres.? Então não ouve?. Ouvia-se um burburinho de enxame alvoroçado.Então que quer. Não acreditara nem uma só palavra de quanto acabava de lhe dizer com boa lábia. E também sem náusea alguma inclinou-se a observar. o cabelo em pasta sobre a testa e o toutiço tão feito em estilhas que se lhe tocassem tremia como uma abóbora melada.Mãe. que não tem medo de nada. desvendar-lhe o facto estupendo que fizera essa felicidade. Que assuada será aquela? Uma voz clamava . ao tempo que torcia a cara para a banda.cão da Serra.disse ele.. Do sussurro. não acha. . Muito menos acreditaria na verdade pura. . não sabia como nem quem.observou-lhe ela. e esse brancor falava da festa de S.Ouve. pois lhe havia de parecer também a mais acabada das patranhas. percebeu que estava a dobar a sua teia. Augusto volveu de novo olhos para a mãe e. com a cabeça feita numa bola de sangue e lama.Agora ao entrar.Quem foi trazia-lhe gana? .ladrava à volta do resplendor dum lampião. Em dada altura estacou de garfo no ar. Reparou ainda que muitos olhos se cravavam nele interrogativos. Abriu a porta. E de facto ele alguma coisa escondia.. .. ainda mostrava os colmilhos a rosnar. vá ver o que é... vendo-a de pupilas assestadas nele. ensopada em sangue. procurando ler-lhe nos olhos. se conjuravam contra a sua felicidade. . Era a tela da pessoa discreta. e. cujas sombras oscilavam até desmaiar por cima dos telhados. Ao proferir tais palavras..Homessa! Um valentão como tu. fazendo-se muito branco. O golpe que o prostrara devia ter sido dado à mão~tente com olho de sachola ou grosso varapau para assim quedar a caveira escaqueirada. exclamou: . era demorado. Era o relâmpago que na noite negra ilumina subitamente a imensidade com sinistro fulgor.. abertos desmesuradamente. desconfiada que lhe escondem coisa grave. Comeu em sobressalto. ouvi na rua uma barulheira que me assustou. e depois de falar reparou que a sua voz soara na açudada de imprecações. viu sem manifestar espanto o José Francisco estatelado no chão. muito demorado explicar-se e melindroso desvendar-lhe o que tinha de ficar oculto. Não obstante. Essa voz foi engrossando pouco a pouco e agora parece enchia as ruas. ao pé dele e lhe falei. .. Deve ter sido para o pé da casa da Pedralva.. se lha dissesse. assarapantado!.. nal prestando atenção ao que lhe diziam.. À luz duma lanterna pousada à beira. lamentos e rezas. luziam ainda ilhéus de brancor.É o povo. Escondia-lhe que.Jesus. varava através dos pinhais e leiras de centeio o próprio coração da terra.

mas a Polónia Fandinga. foi pessoa sabida? Neste meio tempo chegava o regedor. O corpo ainda estava quente. .Vão chamá-lo? Pois então não hão-de ir chamá-lo?. tacteou a ferida. Depis. na direcção de Mouramorta. e ficou de pé a fitá-lo. vá que é uma obra de misericórdia! A Pedralva não foi por ela.Vá por ela. . Contou depois que a Florinda estava na cama. começou em voz grunhida a clamar pelos cabos de ordens. tia Rosa.advertiram-lhe.. ajoelhando e colando-lhe o ouvido ao peito. Mas. . Aquela tinha mesmo alma de cebola.exclamou um dos presentes. Mas voltara para quê? E voltara sozinho ou acompanhado? Não eram ainda onze horas.Não há dúvida. e como ninguém lhe respondesse. a coitanaxa da Júlia Minga. Mais de quatro testemunhavam em conformidade.A travesseira lava-se . Afastou a mãe. ou melhor levado no sistema de sacudir a água do capote. como que interrogando-se sobre o drama que o vitimara. fizera-a bem feita e esgueirara-se como um trasgo. Manhã alta. abraçada ao filho. que desde a alva se esbagoava em alto pranto. de que ele próprio se arrepiou: .iterou o Aires como de peito feito. A avaliar pela tepidez do corpo. Meio arrelampado. ao largar do estábulo onde estivera a acalentar a vaquinha parida. . que voltara a examinar o cadáver.. com um froixo de riso forçado. sem reparar bem no que dizia. em hora a que ninguém o vira. a bater o dente tão alto ou tão rijo que nem que curtisse maleitas. mas dos degraus do patim por onde se subia para sua casa chamou pela filha que lha trouxesse. . a destrancar ainda os olhos da ramela. Mas não podia dar razão de vulto. resolveu-se então a ir buscá-la. não podia ver sangue! O regedor designou por escala os cabos de ordens que haviam de velar o assassinado e o povinho dispersou aos quatro pontos. pau argolado. pois saltara da cama estremunhado dum destes sonos que só têm igual ao das bolas das pirâmides nos pináculos das igrejas. O José Francisco fora visto à boca da noite desandar sozinho pela estrada fora. por seu belo querer. 138 . para a aldeia. Sobre tal particular não havia discrepância. proferiu impensadamente.A travesseira suja-se com o sangue que ainda está a escorrer da brecha .já devia aí estar? Vão chamá-lo. ninguém se dispensando de aventar a sua hipótese quanto à forma como o crime poderia ter sido praticado. debruçando-se sobre o corpo. Outra vez o Augusto Aires. como se explicava que aparecesse morto numa rua de Malhadas? Explicava-se admitindo que voltara atrás. . Revendo-se na sua boa acção. sendo assim. Fora o João Sancho que.Então o regedor dorme-lhe?? . já noite velha. Repetiu o apelo. mas obedecendo ao instinto de varrer de si qualquer suspeição. . Quem a fizera. que tinha a casa mesmo em frente. Chocalhou rua fora a tamancada a par de grosso vozeiro: Regedor! Regedor! Entretanto crescia o babaréu em volta do cadáver.. a morte devia ter-se dado depois das dez. O adjunto engrossava cada vez mais e a tia Pedralva. demais a mais domingo. já não sentiu bater o coração.. sombra sequer. tropeçara no morto e soltara brado.sentenciou outrem. chegou o Antoninho Fráguas de automóvel. veio com uma manta e deitou-a sobre o cadáver. emitindo as suas opiniões e bichanando os seus palpites.ter aberto a boca. a escapulir-se. com a cabeça debaixo das mantas. deu conta que faltava uma travesseira para lhe meter debaixo da cabeça.

Levais um inocente.Onde vão vocês? . Achais-me com cara de matar um homem? Para mais. pupilas mortas. foi-os acompanhando a distância. depondo-lhe na testa um beijo. . ah.. agravado em sua regedoria.Vamos a prender o Aires. . . meio tartaranha. além de rico que é prenda de respeito. Seguiram. ah? .. No caminho encontraram-se com Silvestre Calhorra que vinha para o lugar do alevante. andai lá! Levais um inocente.? Ah. o Ougado tornou para o José Carrasco..Andai lá. o Carrasco coçou a cabeça. Vede lá bem. .Vindes-me prender. 139 .Já prenderam o assassino? Estava ali a autoridade que o encarou com olhos de espanto. quanto mais matar um homem..Ah. . esse lhes afianço eu que não foi! Não foi? É falso? Como a autoridade parecesse hesitante. tão certo como o sol que nos alumia?. regedor.Grandes alarves? Esse rapaz é incapaz de dar uma pan~ cada à falsa fé. eu lhe darei o arrocho. mais ditérios e segredinhos e no silêncio a voz de Teodora ergueu-se irada e resoluta: . murmurando sempre: . mas toda a gente pronuncia um nome! lançou de rópia e circurivagando os olhos pela gentiaga a tomar apoio do que adiantava. à traição.. À retaguarda havia murmúrios. sem resposta se o Antoninho não secundasse: .É que é mouco.Ainda não ouvi. é verdade que deste sorriso amarelo que tanto indica desdém por tudo como confiança.Homem..Pois quem havia de ser?? Mais cicios. risonho e pálido. olhos no chão..Eu não vi. Por isso. Nomeou dois cabos de ordens e. Ides errados... rua abaixo.. o nome anda em todas as bocas. O Antoninho Fráguas. prende-se o Aires. ? Tem de levar os ouvidos ao ferreiro. tinha fama de braço comprido. mesmo assim. o Fráguas observou para o regedor: .. Ficaria.. . Após uma pausa. tanto para proteger. Figurou-se-lhes que o Augusto já os esperava porque o viram a sorrir. e acabou por dizer: .soergueu-lhe a cabeça a medir a extensão do golpe e. cheia de acusações e fantasmas..Então ainda não ouviu um nome.Se o deixa fugir. aprumou-se para dizer: .exclamou com a veemência de que é capaz um regedor. entre perplexo e atemorizado..proferiu o Luís Ougado em voz alterada. com que sim. . .perguntou. na sua voz lenta e emperrada: . A mãe ao lado escondia as lágrimas. . .. interjeições de pessoas que ansiavam por desabafar e não tinham ânimo. dize lá quem foi? .. absorto no seu panorama. como para castigar. Eu já desconfiava.Não sabe quem é? Caramba. tio do morto e factoto do Fráguas.. ombro a ombro com o Manuel Minga. já que o sabes.Ora essa? . O Fráguas continuava estático. cicios de vozes. mas estava de pé e de pé ficou sem se mexer.e desatou outra vez numa risada.Pois se estão certos que foi o Aires que matou.. O filho deixou-se conduzir. Dizem que foi ele que matou o José Francisco.

pelas rampas dos caminhos se descobriam ovelhas zorreiras. até por cima dos penedos. no resguardo do cisco e das sombras. anunciados aos quatro pontos pelo estertor das vítimas e as vozes cruas e chinfrim judaico dos matadores. celibatário e sibarita. tratou de se ir chegando a casa que estava frio de cortar coiro e cabelo. mal lhe viu a tromba e provou os pitéus. e ameaçava mais neve. mal alvejando à beira das paredes. Esta sua criada entroncava na meritíssima linhagem das Ruças. mas nenhum tão duro como aquele de trazer o estômago de quarentena. o exemplar mais completo era a Ana. posto que travado por um estreito regime de dispéptico. Simão? Coitada. que era severo em artigo de contubérnios. dera o seu tombo até derivar da livre frescata na placidez enxuridiosa de alfaia eclesiástica. a casta soror. A neve derretera de todo. como para as peruas a muda da pena. que de saia entalada à frente por via das partidas do vento. sopeiras e mais nada. A cada passo. Aquela sua Ruça. e uma quarta cobrava boas gorjetas pelas redondezas em bodas e entrudadas. Pusessem ali os olhos os adversários contumazes da ordem social! Gozavam estas Ruças de bom crédito e mereciam-no. a não ser tementes a Deus. se entregava aos prazeres da mesa. por lhe serem defesos os outros. segundo o 140 . sempre em frente. ao serviço de Antônio Fráguas. alastrava nutrice e verdinha or toda a parte. que mais não fosse pelo dedo com que sabiam temperar um pratinho para abades e filhos de boa mãe. afogando as pernas das raparigas. O prelado. depois de dizer por alma do José Francisco a missa do sétimo dia. encomendada pela mãe lastimosa. Ouvindo as colcheias mortuárias. roxas de frio. puxado da serra pelo vento galego. embora o seu poiso habitual fose a Quinta das Meruges. E a erva crescia. ainda que o sol pela manhãzinha tivesse espreitado por detrás dos montes. Mas era um regalo ver os regos por entre os trolhos das leiras a luzir como cutelarias. onde o velho fidalgo. com que os rapazes andaram a reinar pelos caminhos. antes. e o corgo e arroios derivantes animando as paisagens ingratas de inverno duma vida que só a água é capaz de dar com a sua ágil e autónoma mobilidade. cada vez mais atarefada. o senhor Tadeu involuntariamente pressaboreou a sertãzinha de marrã que a Maria Ruça não deixaria de lhe apresentar ao almoço. À retaguarda da sua grossa beiçorra de alguidar exibia velhas e temerosas arnelas com vazios largos como canhoneiras. Ela. Uma terceira estava para o Porto. pelo contrário. o borraçal em que tinham vindo encalhar as bolas. De todas. a carreira eclesiástica tinha os seus ossos. O inverno estava a virar. rendia as honras merecidas à sua governanta. oferecendo às crias um amojo refarto. além de perfeita pascácia. mandavam a seitoira nos ferregiais. lá ia silenciosa ou botando o seu solilóquio. Nunca a nobre víscera podia contar com horas certas de comer. e nas quintãs representavam -se os últimos dramas paritagruélicos da matança. e Tadeu. era a mais canónica e imalsinável das amas. Como todas as carreiras.X O senhor Tadeu. proferiu: Onde desencantou esta avis rara. mas dando ainda mostras de muito ferrado à terra. como nascera nas palhas. e tinha os pés como dois calhaus. depois da crise do pé leve. O céu. voltara a encarvoar-se não tendo descarregado suficientemente.

tudo passa. para o caso em que. Se hoje se comia em tempo oportuno. frigia uma boa febra de porco com fígado do mesmo. quando se persuadiu que já havia batatas suficientes na frigideira. gente esta que se mede toda pela mesma rasa em matéria de pontualidade.abade do Ramalhal. em última análise. a serva a debulhar à unha as batatas de neve. tão junto do lume que a chama fazia esvurmar a resina dos nós da madeira e ondular a franja da toalha. porca ou porco. a dita. perdida para sempre jamais. A Maria Ruça pôs a mesa na velha banca. A Ruça. e ao ouvir pelas quintas aqueles sustenidos de agonia. as vezes que o eclesiástico vai celebrar em festividade fora da sua igreja. em prima tonsura. dos fogueteiros. dois decilitros a emornecer no púcaro de Molelos. que lhe aviava o Jácome. Depois 141 . entrasse a lutar com ele. a ponto de não os sentir e causarem-lhe torturas insuportáveis. o fígado do suíno beirão que é melhor que de vitela e se dissolve formando um molho sobre o grosso que é o regalo dos regalos. Chegado o Santo André. o gozo da bemaventurança à mão direita de Deus Padre. cilhou as mãos sobre os joelhos. absorta para o brasido. O labrego lê as horas pelo setestrelo para tudo o que seja a lida dos campos. autorizara que o sacerdote tomasse logo de manhã uma pitançazinha moderada. naco de lombo ou cobro. que lhe mandavam as almas amigas. Era certo que a venerável Congregação dos Ritos. que levara para o seminário e eram o terror das pelangas de cabra e do fiel amigo? Ai Deus. Ah. com elas mais várias que o relógio de Santo Antão. e ao bafo confortador e ao estalido sinfónico que produzia o fogo devorando o lenho. filosofar com os botões da garnacha. os paroquianos mais dignos não passavam sem lhe mandar o prato com as primícias. como muito bem calculara. Na lareira ardia um bom lume de carvalho. Porém nada recompensava a irregularidade do horário. depois do almoço de marrã. sim. mal depôs o cálice das consagrações com a sua bolsinha de chita ramalhuda. que se rinha acocorado no esteirão. mas que tinha o defeito de ser apenas no outro mundo. a vida não lhe pareceu tãe feia como a pintam. que andava sempre como o da Joana. correu a aquecer-se. avinhado por dentro. é pau-mandado dos mordomos. E com os pés alongados para a brasa. Em casa também se cevava porco e se fazia salgadeira. Nada.. negro duas vezes por fora. dos armadores.. a não ser. fora disso é de absoluta inconformidade com o cronómetro. Por isso. à medida que iam metendo a faca ao requinho. Costumava o Tadeu. por outro chorava a sua riqueza de rei de Tule. moleja. mais intemporal que o programa das obrigações paroquiais. e desta vez perguntava-se com justificado sobressalto se ainda lhe restariam na caixinha daqueles com-primidos de bicarbonato de sódio. era mais de apreciar que a carne de vinha-de-alhos ou o presunto já curado. quanto não daria pelo maravilhoso estômago. em cima duma tabuinha. tanto mais que adverte Avicena: est caro porcina sine vino pel or caprina. fígado. capazes de arrancar um prego melhor que uma turquês. e pelos dentes de lobo. forrado de zinco. quando estava só. a ponto de rescender como a ânfora siracusana do pai Esopo. movida por ponderosas razões. se por um lado lhe crescia água na boca. Entrou em casa e. entrou em actividade deglutiva na mais ameníssimacias monções. Gelavam-lhe os pés. amanhã apenas quando Deus era servido. dos próprios colegas que chegam quando chegam a arrotar em suas éguas passeiras. Mas a chicha fresca. do mestre da música. a contemplar qualquer panorama interior. Na trempe. o seu moiro de sangue.

Tinha que regularizar a sua situação com o José dos Cambais. que alugava a quem tinha abundância deles. Mas a Ruça não era cabra para virar com duas lapadas e ele. ao estilo dos príncipes. pôs os olhos na banca.Mas para mim. o outro. e estava dito tudo. o Calhorra. largou-lhe a corda toda. R. dali a pouco. mas agora de 142 .suspirou. uma desinfeliz negra e mirrada.” Àquelas palavras. a criançada em Cruita do Alto era como os peixinhos no chafurdo do pontigo quando se lhes deitam migalhinhas de pão. e alugara um garoto de dez anos à tia Maria de Alvite. bem sei que salmoira nem cheirá-la. Restavam os dois. onde dizem que os ricos têm a mão larga. essa que anda pelos povos a comprar cornelho e ovos e vende lumes-prontos e pólvora de caçador. num aceniscar de olhos. metera a mulher ao peditório e um menino. no garfo. contou como morreram sepultadas na neve a mulher do Roupinho e a criança. “Aquele ladrão do Roupinho . Corta o coração. o José Francisco. sobretudo quando o petisco era como aquele de trás da orelha. e o negócio afigurava-se-lhe muito mal parado. . As mulheres casam aos doze anos e aos vinte estão carregadas como as vides. O homem que a andava a vender.Ouvi. em vez de lhe matarem o bicho do ouvido com misérias do mundo. voara a dar contas a Deus das maroteiras em que era useiro e vezeiro a despeito dos verdes anos. uma música afinada executasse árias amenas.” O senhor Tadeu declarou que estava muito bem a par da referida criatura. O Roupinho. hem? O meu estômago agora já não funciona com esse combustível. Podias ter comprado . As malinas vem e varrem as famílias de ponta a ponta. como estava em maré de condescendência. em vez de bater para Cruita do Alto com a esmola. além disso. Ele era sócio honorário. no movimento dos seus maxilares. Seja pelo amor de Deus. Nem coelhas! Pois o alma de cão trazia a mulher na moina. o senhor abade doeu-se como se o malvado dum espinho lhe picasse as meninges. A Ruça não dera conta do sal amargo que acabava de deitar na marrã.O meu senhor não ouviu pregoar a sardinha? . . e era a mãe dum tal Trinta chacinado depois de muita pouca-vergonha pelo povo de Manfurada. a tia Maria de Alvite que lançava mão de tudo o que podia. ao comer. já com quatro marmotinhos de um a seis anos que ficavam entregues à avó. Um dos sócios. lembraram-se de trocá-la a patacos à Pomba Nova. enquanto aviava um quarteirão ali à Madalena. complacente.respondeu ele. taleigos à cunha e. e proferiu em voz gemida: . mas o Cambais é que havia de aguentar. sabia quem era? e meteram para o Vale das Donas ao rebusco do volfro pelas leiras. “Pois Roupinho. não se acaba o mundo enquanto houver chocadeiras como a Cruita do Alto. estava farto de o saber quando não armava a rifa ou a vermelhinha nas feiras e romarias. deitara-se fora da empresa. mulher e menino tinham chegado das bandas de Trancoso. elevou-os até o fitar bem nas pupilas. Não é isso. e continuou: “Lá passaram o dia ao rebusco. R. e vá de rondear pelas terras de Marialva e pelo Zonho. Para quem padece como o senhor de arrotos chocos.S. na marrã. O senhor Tadeu preferia que. pedia esmola pelas portas. S. sabia. tão pegados que só se foram um migalho antes de escurecer com os taleigos outra vez cheios. de resto era o Cambais que manobrava os bilhestres e recolhia o minério.Deus me livre de lha prantar. inçou outra vez tudo. não. Deixava crescer as barbas. agravava com terebintina uma chaga que tinha no braço.

R. até o entendimento lhes dizer: ides errados! Tomavam à direita e. isso estavam eles? Avançavam ao palpite. que é onde acaba a serra de Malhadas e começa a de Pedrões. transitara alguma vez por ali.. nem quando seguiam à mão direita.” _ Jesus. e o céu não se cansava de peneirar neve. arrasta que arrasta. luar de quarto. e não admira que lhes atasse os movimentos.” “Era a desgraça a chamá-lo? Qual. era a ambição. Pois não houve rogos que o tolhessem.Seja o que Deus quiser. sempre pela serra e desamparadas. estamos aqui estamos na Cruita. Quando alcançaram os altos. Segundo consta estiveram vai e não vai a voltar para trás. quanto mais casa.? Era então escusado dizer-lhe que naqueles cumes não se ergue árvore. e estava com medo que lhas roubassem.ia com a ideia fisgada de que levava ali uma riqueza nas pedras sarapintadas que arrebanhara pela folha do Vale das Donas.” De facto. lisos como a palma da mão. O menino batia o dente e clamava que já não podia dar passo. S. Fiquem cá e vão de manhã pelo seguro. “Aquilo o frio. nem quando seguiam à mão esquerda. lá iam até uma voz de dentro outra vez os avisar: não é para aí! Não era para ali.” “O Roupinho coçou a cabeça e parece que respondeu: . “Muito tempo andaram enrodilhados.pedras. O alma de cântaro velho . fora. por mais que se mate. atiraram ao chão as sacas cheias de pedras. Jesus. que era uma magrizela. A neve cobria a terra. De Malhadas à Cruita são bem duas léguas.velo depois a apurar-se . andaram para trás. que vai ser de nós! . Teimou que não era nada: o ano já estava muito adiantado para nevadas. uma lauda de papel antes de escrita. já tão atarantado como a mulher e o menino. nem penedo. nem quando carregavam de rópia por uma vereda que lhes parecia a certa. que o homem tinha o costume de desancá-la sem dó nem piedade. Quando chegaram aos Cuvos. fora.parece que se prantou a gemer o Roupinho. “Vocês assim carregados não botam a casa com de dia. aí podem achar? Assim acontecia aos desinfelizes no alto da Nave. Ele animava a sua gente dizendo: “Vá. asas estroncadas. também. Corno não pudessem mais. ao que dobavam do céu e eram grandes. Mas o alma do diabo. alvadio mas cerrado. Andaram para diante. mal se distinguindo as farripas das urgueiras meio tombadas para o chão ao peso da mortalha branca. rompeu a nevar. atascados no nevão. não se enxergava já caminho. a deitar os bofes com a maldita riqueza às costas. Lisos. batia o dente e chorava baixinho. a mulher. sinal de moscas brancas. que a mulher trazia apenas vestido um chambrito de riscado e um saiote e o menino os farrapos dumas calças de cotim e a camisa. Que é que os olhos dum letrado. mesmo. mas duas léguas das velhas. já ouvi ladrar os cães!” “Não estavam nada na Cruita. Prometi à mãe deste menino apresentar-lho até o bater da última badalada do dia de hoje e não quero borrar a minha palavra. disse para a mulher: 143 . O senhor abade estava lembrado dos farrapos que caíam? Pareciam asas de passarinho. fazia muito frio e para as bandas de Montemuro o céu estava a entabuar. cada vez mais basto e danado o remoinho no ar e mais fofa a camada branca debaixo dos pés. com a neve ficavam mesmo. Mas sempre havia um resquício de luar. trespassava-lhes as roupas. Avisaram-nos: “Não se metam a caminho que vem lá a neve.. lá porque lhe custasse deixar para ali ao abandono o seu rico pedregulhal. e tocaram adiante.

meteu-se com ele entre os sacos. a mulher estendida ao comprido e com uma poça aos pés. o pequeno dobrado. é boa! Estás na tua terra. caía se Deus a dava? Depois de muito tropeçar. mal ia a agarrálas.. Que houve gente que aproveitou.? “Puseram-se a escutar. . tanto andou. Ora. . tanto andou. olhe. que me perdi outra vez! Botou os seus cálculos. Eu dou lá um salto. Você s não ouvem. tornou a botá-los. homem de Deus! . que o Diabo levasse para bem longe daquelas terrinhas. e lá ficaram a bater o dente e a rezar.. foram dar a descampado muito para fora do caminho de Malhadas. com o arranco da agonia. de facto. Sua Senhoria não chegara a andar metido com o Calhorra e o Zé dos Cambais na mina do Santo Antão. de torcer e destorcer caminho. ora não parecia. E a neve caía.Está bem .Tu atinas lá com a Cruita.Vocês fiquem aí que eu chego ao povo buscar uma burra. melhor.. . se voltares. encontras-nos mortos. As sombras fugiam diante dele. a correr em frente.” “Quando tal ouviu caiu ao chão sem sentidos. a Cruita não pode estar longe.E afinal que levava o Roupínho nos taleigos? 144 . do seu foro íntimo. pondo ponto final às considerações da Ruça. caminhou. qualquer coisa que ora parecia. rijos. Aí tinha no que dava o volfro. E torceu caminho.Nossa Senhora me valha. Deram conta dum moroucinho.Patrãozinho..Onde estás.Andei. onde ficara a mulher e o menino. cavaram a neve.já te disse que a Cruita não pode estar longe. Mas indo. deram pela falta da mulher e do menino e largaram à busca deles tendo pensado e muito bem que tivessem tombado na jornada. Era manhã e com o livor do céu a neve pela encosta como que chegava às estrelas que ainda pestanejavam na casa do Senhor.?! .pronunciou ele. acudiu o povo todo. Como havia de dar pão uma coisa que é para matar. puxou o menino para debaixo do braço como fazem as galinhas aos pintainhos.Pois se acabou. de pedir a Deus a morte. O Roupinho deitou a correr. Onde é que estaria? Perguntou ao primeiro fantasma que avistou: .. O homem botou alarme.. os dois estavam por baixo. não se compreende bem. como quem apanha o fio dum novelo. que o volfro só deu pão a meia dúzia de trafulhas. afigurou-se-lhe ver certas sombras encavaladas ao longe e meteu para lá cheio de esperança.. que disse consigo: -Não vou bem. “A mulher. e novamente disse arrepelando os cabelos: . julgaram ouvir ao longe.. andei mas acabou-se. só lhes serviu para ganhar vícios e maus costumes.. de joelhos à boca. sim. . Não me consumas! ...Quando voltares.Não há que duvidar? É a Cruita. A Cruita deve ser para ali. Chico Roupinho. chegou a um povo atolado em branquidão.gritou ele com o mau génio que tem. Outras se levantavam a seus olhos e novamente corria para elas o triste.. Caminhou. mas julgam alguns que feita pelo bater dos calcanhares e o rascanhar das unhas.. mas na terra. julgando que em poucos minutos chegava à povoação.” .?” . onde é que eu estou? O fantasma olhava para ele muito fito e acabou por dizer: . conta ele. não apenas uma poça na neve. rijos que nem carapaus. . houve. Está a gente farta de andar. muito melindroso.exclamou ela. indo pelo rasto. Mais de seis vezes estivera a entrar na terra e sempre a sua má estrela o tornara a arredar para longe. a zoeira do vento nos pinhais do povo ou a água a cair dum açude. que tocavam de resto em determinado sector. Foram no rasto do Roupinho e notaram que o desgraçado andara em volta do povo como um cavalo no picadeiro.

ora chora.. Corre o ano bom para os pães proferiu: . mas não da teológica. Tadeu acenou que não sabia de nada. vou-me até Malhadas desenredar a meada com o José dos Cambais . que lhe fala no corpo.Também fiz esse reparo. escondeu a face. um tanto fremente e de finca-pé.. Dão-lhe acidentes ruins e deita a dizer asneiras e um palavreado que ninguém entende. A mulher.. meu senhor? Vergonhas do mundo? . que estava à mesa quando lhe levaram a notícia da morte do grão-duque de Weimar. o seu cento de ovos. não lhe trago novidade nenhuma.. além de que são precisos três homens para a segurar. Era a Rosa Pedralva que pedia para lhe falar. Agora mesmo era tarde para tal expediente. Agarrem-no! Não o vêem. e a darem-se ouvidos às bocas do mundo é a alma penada do José Francisco.. que purpureara. Ela então afoitou-se.pego do Breviário. espreitou o céu fosco pela vidraça embaciada e começou a sentir o peso da marrã. Estava indeciso . A Rosa Pedralva nunca deixava de lhe trazer o folar: um galo paívante. ora se arrepela.. na capucha.. A capucha em que se embiocava.? À-d'el-rei! E ora grita. E levantou-se para a saleta que lhe servia de cartório. e deitando a sua casquinada párvoa de riso. O senhor Simão não soube retorquir. Como Goethe.? . Mas como têm o desinfeliz do homem como trespassado sem confissão lá julgam que diabo ou alma do diabo são uma e a mesma coisa. . e apressou-se a mandá-la subir. Por último.. impediu-lhe de a reconhecer. Faz então os seus desconchavos. que Deus tenha. livraria e casa de receber.. Temos encomendas . desprevenido para aquele ponto da casuística. mas reparou que era despachada e pisava com segurança.. .deu conta duma mulher que vinha direita à sua porta.observou o eclesiástico. o cabrito na devida altura.Só queria que visse! Umas vezes atira-se ao chão. Para qualquer parte que vá são todos à uma a perguntar: Então a sua rapariga anda endemoninhada? Aqui tem. Rosa? .Que há. . . deixando apenas luzir uma réstia do rosto.Se é a alma penada do José Francisco não é o Demónio.. torcendose uma. desatou: .caiu um grande codo esta noite.Que havia de levar o tolo? Levava calhaus que não prestavam para nada e só podiam enganar. está necessitada de medicina. e ficou à espera que a Ruça chegasse com a parte.. Deu dois passos de cá para lá. espolinha-se toda e pranta-se a gritar: Estou no Inferno! Estou no Inferno a arder! Quero para cá o ladrão que me matou! Porque não o deitais para cá? Lá sai ele da esquina.A minha Florinda que dá que falar. susceptível de peguilhos. é por isso que eu aqui venho. como não havia de estarfrio! Ainda temos mais neve. realmente. que é a minha.. prosseguiu: 145 .Cuidei que sabia. duas vezes para a banda. sim. de sacho feito. um lorpa que deu na vida de mendigo e mariola.rosnou com os seus botões. Que ande ou não ande. levada em sua freima. .Então que há. Se a fortuna andasse assim aos pontapés à superfície da terra quem quer deitava gravata! O senhor Tadeu ficou com o coração apertado depois de ouvir a história macabra do homem da rifa. teria dito se a Ruça não fosse a Ruça: Mudemos de conversa. Se calhar.e a criatura. Depois dos intróitos da lei . com seus amarelos e verdes a luzir.Se lhe dão acidentes.

. correu o fecho e pôs-se a remexer a papelada.5 e q. lhe mostre o desprezo q. Luís. delle fazemos e a infallivel obediencia q. ditas com hua brandura tibia na fée. Eram umas Advertências manuscritas. riam use pois de palavras: deixame ou quero q. queira ou não queira. levemente flectido mas distinto. A bem dizer começaram-lhe a dar na tarde em que o corpo do José Francisco baixou à terra. faças. tirei-me dos cuidados para vir ter com V.. A Maria Choca pôs-lhe o pé na barriga e conjurou: Em nome do Padre. porem revestido de hua authoridade s. demorando os olhos um segundo a compenetrar-se do antídoto receitável em semelhante operação contra a timidez: “0 remedio p. ao diabo não fallem de amores. Ao seo e nosso criador tem: p.Se ele nunca a largou. béu!. R. desandando.. mestres de cerimônias e rituais.Chamou-se o Gregório dos Santos. . pareça se lhe pede por fineza aquilo q. inquiriu: .Há que tempos tem os acidentes? ..? lugar advirtam exorcistas e exorcizado q. Porq.” O senhor Tadeu desceu de afogadilho pelo texto compacto.e por estas vozes. referentes a exorcismos.ta.s castiga as 146 ..Estava com a cardina. mais não pode. agarraram-na e levaram-na à força à Maria Choca. E.Há já uns dias.. e do poder do santissimo nome de JESUS falle com elle como com hu cachorro rebelde a D. béu. me deixes. roncada.s. D. despede pela estrada a baixo a berrar: Agarra. quando ia com este destampatório.. Lá estava. em que se repete o João Gomes que morreu a enxotar as pitas da horta. parou diante da copeira. respondeu: Não saio e não saio! Mas o mais frequente é rebolar-se no chão e romper a gritar contra assassino. Umas vezes dá-lhe para aquilo. dizem que também a alma penada dele se lhe meteu no corpo.. são os espíritos.. em nome do Espírito Santo. Não descortinou o tratadista especial. Lentamente passeou um olhar. isto he com taes palavras e tom de voz q. actualmente blasfema e desja vingar em nós o odio q. digno duma folha membranácea e de capitulares a azul e mínio: “Em pr. em nome do Filho.. vai ouvir. cachorrinha. não podes escapar e desobedecer ao poder da Igreja e do s. para dizer alguma coisa. eu.Foram ao doutor? . que herdara do antecessor na igreja.? Mas porque são todos à uma: é o Porco-Sujo. pela estante em que se perfilavam em seus pergaminhos amarelentos e carneiras arregoadas os Fernandes de Moure. Por isso mesmo há quem afiance que é o espírito do assassinado que se meteu nela.Mas não é tudo. . António de S. O senhor Tadeu ficou suspenso a considerar o caso bicudo e. finalmente... O demonio he a espada com q. De mão afoita. o barbeiro de Pedrões. montando a luneta na bitácula mole e esponjosa. outras vezes. R. intimo-te a sair desta irmã.a isto principie sempre usando da palavra: mandote q. benzedeira. em que não houve uma só pessoa que não reconhecesse a gosma do tio Gomes. elle faz porq. V. O grande machucho viu-a e cuspiu para a banda: É com os padres. e.? . e isto com hu tal modo e metal de voz q.a estes medos he meterse de gorra com D. Noutro diaço. E uma voz de dentro. Larragas. agarra! Agarra! Béu. mudo e cismático em operação remissiva. hade dar. mais mental que perspectivo. mergulhou naquele bastardinho do século XVIII. O Simão Tadeu não lhe tornou resposta. mo nome úeJESUS. antes de ir à benta.

.. Ali o veio encontrar o José dos Cambais. não há outro remédio senão V. À medida que foram avanç ando pela estrada deserta . está bem arranjado. He loucura temer a espada e não fazer caso da mão q. Na esteira da mulherzinha. Ontem vieram-lhe à roda do meio-dia. Continuava escuro para os lados da Serra da Estrela. espavorindo as galinhas. tanto mais que tinham ido chamá-lo para exercer o seu múrius e para pantominas não estava. O senhor Tadeu foi à janela considerar o cariz do céu. A Pedralva. Mas a Florinda não estava em casa e as vizinhas não sabiam dar razão dela. mas pela imobilidade. mas o lavrador nem lhe deu tempo a respirar: . divisando ali a dois passos a 147 . Mas para ver.A que horas costumam vir-lhe os acessos? . aqui no meio da rua? Homessa. Ele quis resistir.. vencendo a repugnância que sentia pelo assunto.inquietações de seos amados f. Para não arrefecer de todo. e os meninos.. e de porta em porta a indagar: . R.os rafeiros dos rebanhos arremetiam das escarpas. R. minha santa.Também digo: só vendo. de monco caído e zimbório da barriga ovante. mas de modo algum a sua pragmática. E logo a mãe ficou sobre brasas.É variável. não era naquelas duas horas que virava o tempo.Vamos lá. Viram-na a caminhar para Manfurada. dir-se-ia pétrea. estranhados dos rari nanti.não se lembrou mais dele. “ Por ali fora de página em página. ponderou: . meio nus. Foi ao quarto vestir a garnacha e armar-se do guardachuva. As manchas arredondadas das reses distraíam os olhos do verde jacente universal e do marasmo que varava a terra. dar-se ao incómodo de chegar a Malhadas. embora não quisesse descontentar a boa paroquiana. ia com a mosca. começou a calcorrear a rua para trás e para diante.faltava a gasolina aos automóveis . ensinava-se o modus faciendi psicológico do exorcismo. tanto mais que a carniça começava a pesar no estômago. E.Se espera pela Florinda. entrou nos domínios da Ruça a avisar dos seus propósitos. que se espenujavam no ciscalho. Foi-lhe grato desemperrar as pernas. para que lhe viesse falar. V. sem abarcar bem as razões do padre.Só vendo. que pesava sobre a natureza. que morava no Casal. desceu as ruelas mortas da aldeia neolítica..Homessa. Estaria previsto na administração de tal sacramento o caso de Florinda Pedralva? O senhor Tadeu tinha as suas dúvidas e.. Mas a lengalenga da mulher acabou por tornar-se-lhe insuportável e puxando do ripanço.Vistes a minha Florindá? . já lá vai a mãe e a parentela em cata da cabroila. leva que leva pelo tacto. Era mais de meia manhã e já os gados andavam pelos montes. O assunto é muito melindroso para o pároco se poder paronunciar de outiva quanto à oportunidade da sua intervenção. . que tem lá uma boa fogueira para matar o frio. abismou-se na leitura das horas canónicas. e enterrando o chapéu na cabeça limitou-se a proferir para Rosa com voz bem timbrada de conformação: . a move. farejou relutância e redarguiu: . Aqui é pior que nos altos da Nave. À entrada do povo de Malhadas encontrou o Fandinga sapateiro. batendo a bota. mandou recado ao José dos Cambais. Venha para minha casa.os. sempre liberal e mesureiro: . Mas o Cambais. O senhor Tadeu mostrou-se interessado em apanhar o fio da maranha. a patinhar no charco.

tapando-se a boca das viúvas com umas centenas de escudos. se desquitara do negócio. dono do terreno e endossante. Torres. Mas do seu bolso não recebia ele nem tanto como um feijão-frade. não estava. De sobejo estava ao corrente das manhas e malas-artes usadas por uns e por outros. muitos deles corriam os soalheiros. ferramentas e agora a multa e papel selado. Estava persuadido que.000 a 7. da pretendida indemnidade. ou fossem vinte e três contos e pico? Não estava certo. em contra do que dispunha a lei. e nã o ser só ele a mandar para a vila juncos de trutas e cabritos. com foros já de clássicos. Arrotava quem podia. a exigência dava em águas de bacalhau. não lhe chegassem ele aos ouvidos mil e um rumores através de condutos especiais e infalíveis! De resto. e também do Antoninho Frâguas. que uns anos por outros lavrava meia dúzia de alqueires de milho e comia as batatas com azeite. Quem havia de pagar as favas? O senhor Tadeu. não .000 escudos e bem sabia ele que o seu nome fora uma espécie de pavilhão para cobrir a mascambilha. lançados os latrocínios numa balança de ourives. O Calhorra surripiara ao José Francisco e ao Cambais. no fundo. Mas assim que ficaram cientes de que o filho do Fráguas estava debaixo da terra a fazer tijolo e o Calhorra. não havia dúvida que. enquanto lhes pareceu. em atenção ao Calhorra. o Cambais surriplara ao Calhorra e ao José Francisco. Irra. não se falando. presidente da junta da Parola e todo deles. assim Deus lhe desse a salvação! O senhor Tadeu ouviu a longa deprecada do homem sem proferir palavra. Mas haviam de pôr todos o ombro. Soga fora ela que pesava em mais de trinta e sete contos.mulher do Lázaro Fandinga de orelhas fitas para o que se dizia. Apurados em sua mão havia por junto treze contos e setecentos. vieralhe fazer um varejo a casa e. chegar-se-la a concluir que cada um deles tinha exactissimamente sacado o seu quinhão. estava ali aquele sendeiro do Zé dos Cambais. somadas todas as despesas com jornas. restringiu-se a piscar o olho e a sorrir malicioso. achava muito bem. encerrado na sentença que ouvira a um tolo: dizem e dirão que a pega não é gavião. à ordem do senhor administrador. madeiras.por todos os motivos e mais um. colectiva. A guarda de Orcas da Beira. Em Orcas. Então quem? Ora. Na totalidade embolsara 6. deitava-se-lhe a soga. a política do olho morto. senhor Ligório. para trabalhos que se seguiram. além de lhe apreender o volfrâmio que lá tinha e multá-lo em cinco contos e quatrocentos a pretexto de que executava trabalhos de mineração fora de todo o regulamento. se a lavra de Santo Antão fora dada ao manifesto pelo Dr. os técnicos não tinham sido ouvidos nem chamados. Tinha muita pena que a soga aperreasse de tal modo o amigo José dos Cambais que. Mas em muitas outras partes não sucedia a mesma coisa e as autoridades não faziam vista grossa? Quanto ao rescaldo do desastre que atirara para o maneta com os dois homens. Era ele que havia de ustir com a diferença. manda-chuva daquelas parvónias. Em compensação rompeu logo a contar pela centésima vez a história da “grande pouca-vergonha” de que era vítima. avisara-o que tinha a satisfazer uma renda vitalícia à gentinha dos desgraçados que haviam pateado no Santo Antão. está bem de ver. não era bastante quanto amanhava ainda que passasse a comer o caldo sem unto! Pelo que respeita à multa. praticaram. a responsabilidade era. Os três sócios requintavam em roubar-se reciprocamente com tão seguro jeito e malignidade que. mas ele não podia. irrorio. o José Francisco 148 . o grande patife.e ele estava plenissimamente de acordo . como para o mais. casados e pais de filhos. não era mais larápio que os outros. toca a andar com a devassa.

se bem que de fisionomia enjoada e um recato funérco no vestir. o Tonico. hediondos como as ventosas dos polvos depois de secos. da cobertura moral e até crédito bancário que emprestara à empresa na sua qualidade de eclesiástico. quando cinturado o saco pelo cordel. cascudos e enfisemáticos. associavam-se os três para roubar o quarto. bem sentia que pusera os olhos nele e o espreitava. Mas ele. sem largar o seu ar bom-serás de burro das panelas. por fim. Contas feitas. não valia a pena ficar tempo indefinido à espera dela. Era por estas e outras que o grande caloio para ele vinha de carrinho! Chegado à porta do José dos Cambais. Verdade. estava sabido. bem embora no âmago da sua cortesia se entremostrasse o empenho que tinha de captá-lo. Ao tempo em que os três sócios se não chamavam ainda gatunos com todas as letras. não haja dúvida. Pouco lhe importava que pelas costas o chamassem fona e dissessem que dinheiro que lhe vinha à unha era alma que caía ao inferno. Tinha passado o equador da vida. vinha bem ao fundamento das palavras que o Calhorra dizia: Hem. ia comprimindo para os lados. sucessivamente associavam-se dois para roubar o terceiro. O malandrico tinha a mão fina. o certo é que o rapaz estreou sapatos amarelos e quem quer podia ver-lhe aos domingos pendurada no bolso da jaqueta uma rica pena de tinta permanente. Mas o homem soube ser bizarro. Uma vez lá dentro. Sem falar no que estragara e passara às unhas aduncas do paizão e da mãezona. o senhor Tadeu mostrou certa relutância em subir. alargando. Mas nisso se enganava ele muito enganado. ensinado pelo pai. não passava pelo entendimento de ninguém que o volfrâmio pudesse sem escândalo ser maquiado. Mas ouvindo aquele José dos Cambais. Estava ali a Teodora e. A somiticaria de notas que recebera ficavam à conta das muitas passadas que dera. meu compadre Cambai-ç é um inocente!? É tão inocente que vos come o caldo na cabeça e ainda lhe migais a tigela! Sim. Bem atados com nó cego. Eram uns gramas de cada vez. como Pilatos no credo. Depois veio o Cambais muito solícito para lhe tirar os butes. Conduziram-no para a lareira onde ardia um lume magnífico de raízes de carvalho. estava a ganhar a morte no meio da rua. mas não lhe era indiferente que se rissem do seu físico. e insinuava-a pela sorte de meato que fica na folheatura da serapilheira. protestou. Mas grão a grão enche a galinha o sarrão. Ao bafo caricioso sentiu-se outro homem. todo melúrias. Enchia-a e despejava-a para o chapéu. a rapariga conservava-se fiel ao compromisso que tomara com o 149 . quem levava os sacos para a casamata que haviam arrendado a Pedro Reganha era o catraio do Cambais. verdadinha. A senhora Emília dobrou uma capucha nova muito bem dobrada. cobriu com ela um escabelo à laia de almofadinha. Pois maquiava-o o rapazito. nanja pelo filho de seu pai que figurava na empresa. o José dos Cambais tinha direito a ser indemnizado pelos dois sócios da vigairada. e convidou-o a sentar-se. marcados os nagalhos do sinal de cada um. como as bulas do Papa. e podia comparar-se a descoberta ao chupar vinho com uma palha pelo batoque da pipa.surriplara ao Cambais e ao Calhorra. uns calos olho-de-perdiz. à ideia de que tinha uma meia rota e se lhe viam os dedos dos pés cheios de calos. sabia-a toda. fina como uma tenta. Ao menos o Cambais estava advertido. Pois que a presumível possessa abalara para longe. Segundo os murmurinhos. que era o modo de se aquecer à vontade. furando até poder retirar a concha carregada. que era ele.

assombrado perante a manobra do Cambais. R.Aires e não podia ouvir dizer que fora ele o matador. logo mais. Mandou à mulher que trouxesse uma chouriça. “Que não e não. e rúbido da chama. O Cambais penetrou a sua indecisão porque acudiu prontamente: . negra. de reserva na cantareira até que a Teodora com uma tesoura caprichosa a talhasse em bicos e renda para forrar o armário. Não estava resolvido a deixar-se arruinar pelos bonitos olhos do Calhorra ou do Antoninho. Por sua parte não votava nenhuma espécie de azar ao homem. e dizia do Antoninho. meteu-a por baixo. Veio a chouriça que ele embrulhou na Semana Católica. burundanga maior ainda.. não lhe parece que os dois sócios devem pagar a parte que lhes venha a competir na contravenção? O senhor Tadeu. não passava dum frontispício. levava a freguesia toda atrás de si. Perdoassem.ele voltava à vaca-fria. a Florinda e a hora em que caíra na arara de deitar até Malhadas. Com ar profundamente infeliz. a soprar. No fundo de sua alma. com muito gosto. dava verdadeiramente a todos os diabos. chamava-se desprimor.. Mas o Cambais foi implacável. pois era notório que o filho. pousando os olhos nos olhos do padre. não apenas a um.. R. mais hora. entrava na casa deles e. Pelo menos entendo que não temos que o citar para o ajuste de contas.. embora V. tinha imolado ao almoço uma rica pratalhada de marrã e estava repleto. quem foi? O senhor Tadeu. trutas de escabeche. negra como um tição. Que me diz V. E. nem sequer molhava a boca? Não e não. abrindo urna cova nas cinzas que beiravam da fogueira.? 150 . pois que não é discreto falar de corda em casa de enforcado e ignorava o pensar de José dos Cambais. e novamente implorou que o deixassem. era melinite.torresmos. quando a digestão chegasse ao seu termo.” Talvez assim viesse a suceder. A senhora Emília encheu o copo de vinho e ofereceu-lho. além de que era faltar à justiça. Era uma desfeita que fazia. atirada para o seu estômago. R. O Cambais e a Emília. dentro da casa que à sua maneira se esmerava em obsequiá-lo. como se se tratasse de águas passadas. eu não quero que seja aqui chamado.. Pediu que o não obrigassem a comer.A V. porque era de pobres. R. Comer ou beber fora de horas era roubar-lhe anos de vida. acesos cada um mais que o outro em bizarria. protestaram. O Cambais fez-lhe o prato e pôs-lho nos joelhos. havia de resplandecer como o sol ao meio-dia. Então S. a inocência do seu namorado. dizer que não. de Lamego. ciente por experiência que chouriça nas brasas. R. Que dizer ali naquele caso anfractuoso? Concordar com o Cambaís era ele próprio oferecer a cerviz ao jugo fiscal.Já sei o que V. aconchegou o borralho. tenha assumido sob palavra a sua quota de responsabilidade no negócio. fugiu de aludir ao acontecimento que enlutara a freguesia. mas repetia com o seu amigo Fráguas e ninguém de sã consciência saíra a responder à sentença: Se não foi o Augusto Aires que assassinou.. Enquanto a mulher improvisava um beberete .. e a jarra de vinho espirrador . anotando: . menos hora. o senhor Tadeu olhou para os torresmos que se lhe afiguraram a descair para o ranço e os peixes.Deixe-me dizer-lhe. Se precisasse de testemunhas para ir jurar que os dois eram tão autores como ele na frajoca do Santo Antão. a quem Deus falasse na alma. Bem bastam os incómodos que já tem tido. perguntou: . quase perdera a fala. Tão-pouco o Cambais tocou em semelhante matéria. quer.

Hem. fale claro. onde se lhe requeira. espargindo à roda um odor voluptuoso. meu senhor. Numa última e desesperada tentativa invocou os arrotos chocos a que era atreito e a sua pobre máquina combalida. O senhor Tadeu. está bem de ver. quem a urdiu e pôs os primeiros aviamentos. mesmo salgado com rosalgar. ali à Emília que forjicou o fumeiro. sim senhor.A chouriça chiava no brasido.. nem parece que todas as manhãs bota abaixo! O senhor Tadeu já não resistia. para empregar a expressão herética de Jácome. Zé dos Cambais? Homem. ganhou ânimo e respondeu com desembaraço: .. para V. prova. como um nadador ainda pouco experiente que perdeu o medo. o grande mariola.. Pegou do chouriço.Mais uma gotinha. Foram os emolumentos de péde-altar. no que diz respeito a V. depois de virar o canecão... pagaram-me. Eu lhe digo. foram. O senhor Tadeu não pôde deixar de sorrir à frase por demais especiosa do homem. R. aos três sócios. É uma auguinha rosada consoante saiu das videiras. Pois lá se arranjem. Contra a prepotência amável daqueles anfitriões não havia escudo possível.. José dos Cambais. Se não gostar. enquanto Calhorra e 151 . no que diz respeito aos mais. Despejou a sua taça e só depois disso é que o Cambais. . Porventura porque as pepsinas se estimulassem no seu aparelho gastrintestinal.Mas onde quer você chegar. comia igualmente aquilo que lhe viesse ao prato.. que e um supor.. atirou-se de cabeça. Este pode beber-se que não trepa.. ocupado a extrair a chouricinha do lume. Ah. R. O Cambais não respondeu. . Vox clamantis in deserto. Vá. disse-lhe: . Pois é ou não é verdade que eu só entrei para ela depois de o Calhorra e o Fráguas terem moído e tornado a moer ferro no oiteiro? É ou não é verdade que ao fim de cada semana eu pagava quatro )ornas.. mas o quodore estava divino. Cheirava que era um consolo. depois a limpá-la do invólucro engordurado e comburente da gazeta. R. tinha dedo.Não é tanto assim! . Acabou-se. Partiu à unha para um prato: . R. o farmacêutico.Mas está bem.Olhe. pode atirá-la fora que não levamos a mal e mandar-nos prender.. V. que dizia eu? Vá mais. Engoliu em duas bocadas o segundo naco. Quero chegar a que V. . Por esse lado acabou-se. pronunciou como se não houvesse mediado na conferência pausa tão considerável: .Vá? V. dum naco da broa centeeira e encomendou a alma a Deus. cobrou-se dos direitos de pé-de-altar e ninguém lhe pode levar a mal. ainda que fosse a tibornada que os judeus deram a Cristo pregado na cruz.. a mim que comprei o leitãozinho de mamoto. E fitando-o bem nas meninas dos olhos. quem andou com o arame e quem levantou os lucros. voltou ases moutons. quem foram os pais da cria? Não foram vocês três? Foram.. Bebia tudo. será o primeiro a declarar. sim senhor. como é que nasceu esta comandita. emborcou um segundo copo e afoitou-se a investir pela terceira vez com o especione. A tia Emília tinha dedo.Eu pus-lhe a bênção.Sabe onde eu quero chegar. Foi então que o Cambais. R.. Absorveu a talhada toda e liturgicamente lançou-lhe em cima o digno aspersório dum copázio. Meteu-lhe na mão tassalho ainda maior. Agora não se acabou para V. O Cambais que tal viu rejubilava: . R.

Eu comprometo-me ir a Orcas. concordo. se é verdade.. uma lágrima marota de crocodilo: .. . se ficavam nas duas? E diga-me ainda V.Esse dinheiro que me levaram é para salvar o desinfeliz. na presença do antístite: . o primeiro. Abafa-se o processo da indemnização. o aguço dos picos está ainda por pagar. mas bebericar de piteireiros. além de atirá-lo para fora dos alicerces naturais. raposão de rabo pelado que não adiantava passo sem averiguar que era para ali? E o Tadeu antegostou a resposta cordata que em consciência devia ao Cambais. Faz-me dó. que era ao mesmo tempo como o selo da sua vontade assente e contrária ao que o pai dizia. Agora já não era beber. não há que fugir. Como renhir contra o Fráguas. meu senhor. e contra o Calhorra. O Tadeu olhou para o Cambais e viu-o transfigurado.casa. O sentimento de que.. Está pelos ajustes? O Cambais parecia hesitante. mas o que se chama o conselho desinteressado dum amigo: faça de contas que há dois casos. o que eu desejo que confirme com o peso da sua palavra acreditada. E acabou-se. que metia os sócios tal tal e tal. ou desminta a pés juntos. homem estreado em toda a sorte de cambalachos e omnipotente tanto quanto se é numa terra venal. Ele estendeu-lhe a mão. levo o Calhorra. Tornaram a encher os copos. certo de que as suas palavras operariam como um bálsamo naquela alma ulcerada de proPrietário: .Fráguas. Mas ele não podia prometer-lhe semelhante testemunho que brigava com a mais rudimentar prudência e o compadrio solidário que nutria com os parceiros. Não é também verdade que a madeira gasta nos escoramentos do bolso me saiu.! .. Embora cá na rapariguinha escuse mais de botar o sentido. o segundo. Não é só até o momento em que a sociedade se dissolve que o caso é uni: daí em diante o caso continua a ser o mesmo. gesto que só uma vez tivera para um colega. que o mete a você sozinho. Quase fora eloquente.Mas fico de pernas ao ar.Não fica. se é mentira. Depois de se ter atirado contra todas as leis divinas e humanas da conservação a comer e a beber à tripa forra. Mas. e na partilha dos dinheiros não recebi um real a mais que os meus dois sócios? Aqui está. R. atravessara já as várias fases da beberronia e estava na saturação. Quer um conselho. O senhor Tadeu sentiu que o Cambais mentia pelos cotovelos quanto à colocação do seu capital. Mas era 152 . Reflexamente ergueu os olhos para Teodora e viu-lhe nos lábios um esgar de desafio. está liquidado. dava-lhe um lume mental que lhe desconhecia. que eram a pacatez e o siso comum. muito colaços e roçando-se um pelo outro.Toque. está para liquidar.. Devolvem-lhe o dinheiro da multa e o volfrâmio que lhe apreenderam.. toque? O Cambais ao tempo que encalhava a manápula calosa e grossa na sua mão papuda deixava verter uma lágrima.. corno homem que salta de pára-quedas da estratosfera. homem. vai ver. consumar-se-ía a ruína da. ouça. quem se queima alhos come. metendo ainda em conta o trabalho dos filhos que têm rabo e mais nada. se não atalhava com mão de ferro.O Cambais pôs a questão no seu lugar. levo o Antoninho e arrumamos tudo. pouco mais adiantado está que seja assim ou assado. Se bem penetrava no íntimo do Cambais ele caçava por longe para alguma coisa alcançar ao perto.

Levantou-se e com dois cumprimentos à boa dona e à sua menina despediu. 153 . na bóla centecira.. Proibiu-lho... com a pressa que vinham as bandas da capucha em asas de aeroplano: . está zorata como a tia . no verdasco. Tinha pressa de ver-se sozinho pela estrada silenciosa a lutar contra os mil diabinhos da gula. Ao atravessarem diante da casa da Bárbara Ladeira. O senhor Tadeu seguiu adiante estugando o passo.Ora. tomou-lhes o passo a Polónia Fandinga. que haviam tomado de assalto a pobre ruína do seu estômago. meu senhor..? Não pode ser. Fazia frio. Então até a saída do povo. O José dos Cambais porfiou em acompanhá-lo até Mouramorta. Fora persistia o silêncio hibernal. . mas ao calor que recolhera à fogueira e à chama do briol que lhe alambrava nas entranhas.tempo de regressar a penares. encarnados na marrã. na chouriça. um frio seco de aço em barra.Está mal.A esta hora. Foram palmilhando as ruas tristonhas e desertas.A Bárbara queria confessar-se... nem um cocoricó de galo pelas quintãs. cada um a ruminar pensamentos de abnegação e grandiosos no tocante a suas pessoas.aduziu o Cambais. ... . piores que diabos do inferno. não o sentia. àquela hora sem coleira de vaca a casquinar os tintinábulos.

. passando em frente da casa. percebeu logo o farrapeiro que o convidavam a entrar e foi avançando. e sobraçava outro. Logo que o irmão foi dado à terra. e fez dois montes. voltou atrás. entretanto. quando vendas.Compfrrapos! desfraldava de novo a voz. perfilava-se no vão da porta.e ao passo que isto dizia entrava em casa. ó patrãozinho. Sabe onde fica? Nunca para aí gastei a amieira dos socos. . mais ou menos pouco conta. Está aqui a roupa dum trabalhador danado. Caramba. santinha . O seu preceito. ih. têm muito gravanço. O belfurinheiro anuiu e. que podia entrar para o cabedal da sabedoria das nações. da sua pele aciganada. mãos sobre o dintel. . toma tento que o mais é sempre menos. ambos de serapilheira. ih. combinado em sua toadilha quente ao sol claro de Abril e ao cantar dos galos. Compôs a sala e a passo vagaroso. tão usada e delida.Todos havemos de passar por essa portela. quanto quer por isto. que tinha cara de rato. marralharam. Trazia um saco às costas. para outro o que o não era.Vamos lá a ver. dois pêlos no queixo e andava de blusa espanhola e chapéu desabado.Faça favor.. . Tivera bom mestre. Numa volta de mão virou a trapagem toda. sobretudo andrajos de homem. e com a vaquinha tudo o que respeitava a apeiros e achamboaria. já com alguma joça. Supunham que. era meu irmão! E tanto bastou para romper num choro alto e convulso. que agora para ela só causava estorvo. que ainda era mais seguro no vender do que no comprar. 154 . sem se fazer rogado.. O senhor donde é? . à força de servir da cor suja. a embarrilavam! Quê. admira como a segurava no corpo? Era o seu homem? .. lã. E. por ser mulher.. caminhou para a porta.. pst. então. Dentro havia de tudo. desatou o fardel. estopa. chapéu para a nuca. atada em cruz pelas quatro pontas e chamou-o: .Então. e soerguia a tampa duma arca. vazio.. tire-me daqui esta trouxa. Quando pôde estancar o pranto. alguns mondongos de mulher. era este: quando compres. . tão rápido quanto as forças lho permitiam. quem se cobiçou do que era dela pagou-o com língua de palmo. Bárbara tinha já o trapo apartado para uma manta velha. inclassificável. para ver à sua vontade. Bárbara. Bárbara era uma bemvende. para um lado o que era burel.Sou da Cruita do Alto. . O homem. o Duarte.Não senhor. tratou de desfazer-se da Cereja. um diabalma que se não prendia com as louçainhas do mundo. venha cá. Nesse mesmo momento desandou ela o cravelho da porteira: . como lhe costumava dar multas vezes ao dia: . mas já ouvi dizer que são boas terras..Tenho para ali uma trapada que não me importa de lhe vender se ma pagar em conta. que eu não posso.XI Compro farrapos! Ao ouvir o pregão que alagava a rua.. que se acocorara na quintã a chorar. ihf . ou pouco menos. olhe. mas tenho andado ao negócio para as bandas de Vale de Ia Mula. Como ela se postasse da parte de dentro da porta.Não se consuma. limpou a lágrima e ergueu-se.Pst. quase tacteante... que era baixo. O homem. levea para a quintã.Irmãozinho da minha alma.confortou o bufarinheiro.

. não se conteve que não bramasse: Vornecê. quero-o para o meu bem-de-alma. Valha-a uma figa torta. Polónia percebeu que a prima se desfizera do bragal do Duarte. apossando-se dela.Queres saber para que quero o dinheiro. para responder. que a andaina melhor levou-a para a cova. quita de andar com panos quentes.perguntou alçando a mão para o saco. . e Polónia. por três vezes volveu atrás à voz dela.e voltava à sua fisionomia de carta que se deita à caixa. sendo prima pela banda da mãe e sentindo-a no fim dos dias.. Não que lhe fizesse mossa anunciarem-lhe o fim para breve.Vá com Nossa Senhora? . . Mas ele não despegava.Que leva aí? . lábios cerrados como o sobrescrito duma carta que se deita ao correio e não deixa ver o que diz por dentro.E que tens tu com isso? . Não era isso. e outras tantas se desfeitearam de palavras. Não tenha dó. uns frangalhos coçados e meio podres. acudiu chofrada: . o que era caso raro. traindo a desarrumação dos manaxos. saía com o fardo às costas.? Queres? acabou por responder. mais sotranqueira ainda que a própria inveja. nem uma voz. Mas a cólera. E necessitados não lhe faltam na família. a quem Deus perdoasse o desvairo.Sempre te digo. .. minha santa. entretido com o brequefesta.? A outra que era uma pobre de Cristo. perguntou-lhe: .lançou-lhe Bárbara em voz sacudida. Pois então. Em face das arcas abertas. Hei-de gastá-lo em missas e responsos. apareceu a Polónia Fandinga que. puxou-lhe aquele pigarro seco e teimoso que a deixava ofegante e vermelha como uma papoila..Pois a vender o espólio do enforcado. E ainda que a roupa dele não. valesse dez réis de mel coado. Tomara ela que viesse já. O farrapeiro que se detivera à porta a ouvir o despique exclamou: . Para que quer o dinheiro. ao que andava nas últimas e ter mais côdeas do que fios. O meu Lázaro não tem um jaqueta com que se possa apresentar na feira a comprar a sola. por três vezes o homem despediu. A tiazinha torna-me o dinheiro que eu torno-lhe os farrapos. O que a aborrecia era aquele zumbido de vareja ao cheiro de carne morta. 155 .Para que é o trapo? . às duas por três estava ali deitada. Pois para que queria vossemecê que fosse? Isto assim já não dá vestir. aninhada no palhuço da quintã. se é certo o que diz o tio Gregório dos Santos..Culdais que é só fazer filhos a rabo destapado? Agora aguentai! . .. nem um aceno. . para logo recair naquela caradura que lhe era comum. que era curiosa. Os meninos andam tão rotinhos que se olha para eles e vê-se mais coiro que pano. .Derreter derrete-se o volfro.. aos poucos dias que tem de vida? Ela ainda descerrou os lábios.respondeu Bárbara em tom áspero e de olhos duros.Para derreter. Quando já haviam fechado o negócio e o farrapeiro. mas não vás ter-me por beata fingida...O bem-de-alma faz-se em vida socorrendo os necessitados.Não vale a pena arrufarem-se.

Pouco lhe há-de durar? Não a vêem a secar dia a dia? Aquilo há-de ser como a caruma que está mirrada quando chega a adubar a terra. que fora uma abelha a moirejar. Miguel.Mas não lhe fazia mal nenhum que fosse mais amorável com quem é do seu sangue. não deita o Outono fora. não tão curta que não visse três padres colarem-se na freguesia. Lá vai para a guerra. agora quase não mexia palha. como nunca mais pegara do pente para se pentear ou de sabão para lavar uma fralda.É com medo que a roubem como da outra vez . . Guardava essas até à colheita. .. ih. vai hoje.. Houve tempos que precisava do próximo. a distância 156 . Não se despia porque tudo lhe fazia febre. Trocava o pão na padeira. vozeirando: . Ela dava bem conta de tais etiquetas. e. Bárbara. de verdade. Escarolada para quem? Trazia há quatro meses a mesma roupa. assim imprevisto e intermitente como as sezões: .exclamou a sapateira. e fazem cordas para prender os prisioneiros e roupa para os soldados. e quem precisa humilha-se.Traz o dinheiro com ela na patrona. Ainda cá chegam.Credo. Abandonara-se ao comer.remordia Polónia.compro farrapos! . quedara desconcertada de todo. se estivesse na mão de Cicrano ou Beitrano coisa que lhe fosse indispensável ou preciosa. .Fica que nem uma baronesa . vão vender por cem. mas não era só por isso. dar-lhes-ia igual arrumação. lhi Durava-lhe dois minutos e regressava à imobilidade e mutismo. Um cartaxo poisa em cima delas. credo. Os Alemães pegam nisto. como por exemplo a saúde ou a salvação. Isto de lãs por modos anda caro como a morte. Também nã o devia um alho a ninguém. a folha da couve galega. vai amanhã.E isto volfro é. Agora desprezava este mundo e o outro.Quem sabe lá? . e recaiu no acesso. As terras por fora tratou de arrendá-las e dá-Ias de meias. tirante as que tinham renovos. . Ela. a fugir ao agouro. destas pedras enterradas nas leiras até mais de meio. se não longe. O seu regalo era mudar-se em pedra.contramarcava a Joana da Urra. que viva cem anos que eu não desejo a morte a ninguém . Não era ponto de fé que. depois que faltara o irmão. aprendera a ser indiferente ao que diziam e pensavam dela. lh. mas já lhe não pesava que andassem comidas com grama. O mundo.já se tem visto muitas pessoas. Dormia com ela vestida. Trazia sem dúvida o dinheiro com ela. Foi para vomecê lhe deitar as roupinhas pela água abaixo que o primo se enforcou. lhes tocasse à aldraba. a talhada do unto. se fosse viva. O Gregório barbeiro dava-a como héctica no último grau. Pela vida fora.. chisca. Está aqui está na Alemanha. esse que estava longe dela. atiram-no às caldeiras. Ainda ia às hortas ripar dois espigos para o caldo. . e quando se sentavam à sua volta tinham mesmo cara de velar um cadáver. Andava um estrume. Tinha o essencial para o resto dos dias.? E que lhe fez à capucha? Bárbara esteve um momento a olhar em alvo.A vida está para estes pendentes . e outros cartaxos podem vir se quiserem. contanto que não se pusessem com lamentações.dizia-se. ..murmurou Polónia. que também era prima direita. Deu-lhe uma risada e desandou pela rua acima. já lho viram. não se ralava nada de nada..Compram por dez. que vêem passar o dia e a noite pelos séculos dos séculos e não se ralam com coisa nenhuma. . fazerem conchavo com a morte e enterrar a geração toda que estava de gargalo no ar à espera de lhe cantar o miseré. . a baratinha. muda.Irmãozinho da minha alma. Chegado o S.

nem para os alfacinhas chega. Agora que via ir os mondongos .. “ “ Meus santos. Mas parece que. roer cá por dentro. que também costuma dar de comer aos feirantes. pois quando menos se esperava.Irmãozinho da minha alma. Voltaram a tocar berimbau. Depois. Sabes de certa certeza que não falei com ninguém.. O tio Calhorra e o senhor Antoninho tinham na antevéspera ido a Orcas levados pelo senhor Tadeu a ver se de algum modo acudiam à multa e não sei que alcavalas que haviam deitado ao tio Zé dos Cambais. Ela não se deu ao trabalho de a desmentir. Calhorra? . que é homem insofrido. Temos três hóspedes. sim. em que ânsias..indignou-se. com muito gosto.Se mo chegarem ao bico.Sinto um morganho a... ih. dera-o Deus.. como as sardinheiras com a sardinha. encarregos de tal ordem que se fossem por diante ficava o homem aleijado para toda a vida. amigos e senhores. ih. O tio Zé dos Cambais também fora. A Polónia.. nem saí daqui. e onde não há el-rei o perde. “O estalajadeiro riuse: “Bacalhau. já que o Duarte tinha o vezo de tirá-los do corpo para vestir os espantalhos dos milharais. que lhe conhecia os gostos e procurava fazer-lhe a boca doce com vista em caçar alguma leira. . o hotel estava debulhado. Não havia para que erguer 157 . não fazias tais perguntas. considerando que de pouco préstimo podiam ser. ih? Quando vendera a vaca. Para Espanha ou para a Alemanha. vinha com os mexericos mais salgados. Aquilo descobriram por lá algum explosivo com gema de ovo. Ela não saía da sua hirteza para botar dito ou risada desdenhosa. lá apertam com uns. na qual o irmão tinha papel mais importante que a tenda das colheres e canivetes. nicles1 Era dia de feira e estava muita gente na vila. não digo que não. um deles é o senhor doutor delegado.E você.que podia observar sem gastar o coração. Aqui o Tadeu deve estar com a sua larota. e Polónia contou. quanto mais botar a estas falperras!” “Uma sertãzada de ovos?” “Ovos? Andam a arrebanhá-los por todo o preço para os mandarem para Espanha. Outras vezes não era certo que ouvisse o seu correio de notícias.” “Homem.Vamos almoçar.. lá mexem. lá se agarram a outros. Acabou-se o azeite. como todos sabem: .. ainda a distraía.. Ali vão os quatro e chegam ao Barradas: almoço? “Almoço. “ “Um caldo. a Polónia limitou-se a chorar. entretida com a feira interior. ao menos? As hortas agora estão espigadas. Se não fosses mais tola do que te julgas. . e fica areia e água choca. mas resolver o negócio. mas já não aceitamos comensais avulso. rompia na zangurriana: . Foram ao Requeijo. Falta tudo.. julguei que tivesse ouvido. esteve para se deitar ao gasnete do homem. arranj e-nos uma bacalhoada com batatas. Estavam até os rapazes a dizê-lo numa roda atrás da casa. E não admira. Nesse olhar significava: “ Bem te entendo.Anda para aí tudo cheio. sabe Deus. deixem passar o Verão..” Polónia devia sentir esta resposta porque acudiu de pronto: . “ O Antoninho. que é assomadiço.Então já sabe o que se passou em Orcas da Beira com o tio Calhorra e a gente da vila? Bárbara dardejou-lhe como única resposta um olhar breve e iracundo. A certa altura diz o Fráguas.quanto mais não fosse serviam para remendar a sua cáfila . Chegam à vila. Muita água leva o Mondego. pudera. Sou aqui como o Cambais que tem a mó sempre pronta para a moenda. se tivéssemos tempero. arrependeu-se de ter ido tã o longe e torceu por outra vereda: .

Vai lá ser careiro para a Terra Querite! -Nem que me virassem do avesso. veio a guarda: . Trombavam bem e bebiam melhor. E assim foi. Pudera. você e o cabo estão convidados a vir tasquinhar uma lasca em casa do Rufino. . Queria por ela quatro notas. . Esperem um pouco. A certa altura o Calhorra esteve a cochichar com o Cambais e disse: . direito ao Antunes. Lá o volfro não lho restituíram que já não haveria meio de se lhe descobrir o rasto. são três e meia. “Diferenças hoje em dia. coitado. razão. cheirava que era um regalo. . pela rua e quelhas confinantes. se fosse homem instruído. que ia vender uma vitela. Ao que era de rosada e bonita crescia a água na boca à gente que a via. já a bezerra estava esfolada e esquartejada.Pronto? Isto é para consumo particular. pois mal começavam a apontar-lhe os cornichos por debaixo da pele. homem bem comido e bebido. o caso é que ali se combinou riscar as penalidades ao tio Cambais. .Ministro não queria ser . Um deles soltou um berro: comem todos ou rebenta aqui uma revolução? O Calhorra mandara assar uma perna no forno. mas quanto lhe não valeu? Gastou uma novilha. O Antoninho Fráguas.O mais. à volta.A licença? . palavra de rei. seu Calhorra. vá de amizades. que lá é que se forjica. não pegavam. não vale a pena afligir nem apertar muito com o pagante. e toca com ela para o galho duma árvore a esfolar. era à mesa entre duas boas garfadas e dois goles dum vinho velho . os fiscais e senhores da justiça e das Finanças. justiça. Lá lhe compraram a vitela. . empenhos. Apareceu um outro doutor mais descarado. esta vida são dois dias. Dali a pouco o que havia de melhor em Orcas trombava. de Pedrões. Dali a pouco voava pela feira que os de Mouramorta.olhos. Chamam o veterinário.” O senhor Tadeu. Estavam ali deitados os guardas assim que se puderam pisgar. Com a fraqueza. Sim senhora. . São três e meia. por modos que dissera para o Calhorra: . povo noutra. vem o cortador. Mas vá de saúde. mais católicas que as estações da Via-Sacra.Por ser para você. uma vitela que se derretia em gordura e novinha. Ao cheiro foi vindo povo.tornou-lhe o Calhorra. para se resolverem com honra. tinham abatido uma vitela e o mesmo foi começar-se a juntar o pagode da vila. o senhor Tadeu.Eu vou arranjar papança. Caiu bem no paladar o regabofe de vitela que deram os volframistas de Mouramorta. era capaz de chegar a ministro! . Foi-se à feira. 158 .dizia o seu Lázaro. fazer uma segunda em bifes. ao menos uma vez na vida. já desesperava. as outras e os lombos fora dependurá-Ias a tais e tais portas. Pois então?? Veio este e viria o Governador Civil se ali houvesse tal bicho. chegou o senhor administrador. Em menos de uma hora à porta do Rufino. Figuros e volframistas numa sala. Estavam na santa trincadeira. já que hotéis e estalagens não davam de comer. forrou uma vacada. .Hás-de deixá-la por três e ainda lhe comes um bife. mal se tinha nas pernas. Havia de fazer notas e distribuí-Ias de avião cá pelas falperras para toda a gente comer vitela e migar trigo no caldo. metem-lhe a faca.O que eu queria era mandar na Casa da Moeda. Atrás dos guardas.Pois já que está bem.Você.Ah! ah! Está bem. anda tudo ao mesmo: comer. que o tio Calhorra não é trouxa. o tio Cambais pagou a vitela. a menos que fossem do bispo. por fantasia.

o volfro. quando vinham das romarias. As raparigas. muito grande e forçudo. A “sepultura da vida” ficaria também sepultura da morte se a lei cristã não mandasse retirar o cadáver do ambicioso e dá-lo à terra santa. Rai's partissem. as desgraças eram à rasa por essas terras fora. cachenés. tiveram de desarvorar para os lajeais da serra. Na vila de Orcas comera uma vitela inteira para saciar a fome. Era ele o autor de todo o esparrame que ia pelas parvalheiras. outro com a mão lesa ao brincar com a pistola que se disparou. imberbe. Todos queriam comer do bom. tão pimpão. ou de que cuida antes de morrer. Polónia. No Ramalhal minara a casinha dum pobre homem. Pôs-se a chorar: . deixava de ser um mineral para se tornar o substituto do tranglomango ou do Pedro de Malas-Artes.aquilo tinham-lho por lá abafado ..Deixe lá. Sim. pôr gravata. que já galava! Quem mo comeu. vestir à fidalga. que dantes não sucediam estas abusões. Punha-se a olhar para o lume a devorar tangos e cavacos.E todo este cagaçal é obra do volfro? Terçã coma tais pedras mailo primeiro ladrão que deu conta que andavam a atirá-las às cabras? arrenegou Bárbara. que tanto pulverizava o casario das cidades como a cabeça da gente. sem o galaripo . que dantes eram felizes com a flanela e o riscadinho. Deixa. que ficou soterrado debaixo dos escombros. que de sénica lhe sirva! Continuou a pôr tanganhos no lume. ele é que botara à trave a corda com que o seu Duarte se havia enforcado. É o que lhe digo. e era como se o visse em sua faina secreta de destruidor. porque galinhas são a última coisa de que se desfaz uma dona de casa. A Polónia ofereceu-se para ir procurá-lo pelas casas das vizinhas e pela primeira vez lhe acudiu aos lábios exangues um arzinho de agrado. e traziam veneras de latão na lapela onde antigamente. no dia seguinte. um galinho tão bonito. ih. Ele é que era o pai de todas as pachouchadas e poucas-vergonhas de que há tempo se falava pela serra. reze-lhe por alma. que vale mais . À tardinha levantou-se a deitar dois rabos de centeio às galinhas. à força de virar o mundo de pernas para o ar. um. os asnos. Matava. espetavam por devota garridice um raminho com a sua pena de canário ou de marantéu. ih. Quando voltou. não deitavam agora seda e zefir? E os rapazes só compravam sapatos de calfe e bonés de pala.dizia-lhe Polónia. quando iam para malhar o milho dos canastros. por muito que Polónia a puxasse a terreiro. ih! _ Deixe lá quem morreu e reze. Bárbara julgava vê-lo sob a fGrma dum homem negro. outros lambidos pela chama.já ela se encontrava ajoelhada à lareira a acender dois chamiços. Brás da Nave certa noite desmontara a eira que era de brita. seduzia as donzelas. Umas raparigas davam em droga. ter revólver. e vivia-se. armado dum martelão. Todos queriam ser homens. e aborreciam uns o trabalho. os rapazes entravam pela vida de tunos. fazia as pessoas ruins. ser gente. Não deu mais palavra. roubava. uns já em brasa. com a perna direita esmagada debaixo duma pedra em Muradais. de lágrima no olho. Irmãozinho da sua alma. rebentavam outros com os excessos que faziam. 159 . e introduzia a mão espatulada onde houvesse que subtrair. Ainda naquela roubalheira quem andava era o volfro. botar relógio. Não viu o frango que viera substituir o lascarinho que levara de peita ao senhor Fráguas e ficou muito aflita. Ali tinham! O volfro. têm dado muito dinheirinho aos pobres! Depois daquele dito foi como se lhe partissem a corda. prima.Vê lá tu. Em S. . Só dali da terra tinham ficado aleijados dois.

tanto na terra como no mar. Essa primeira noite. e até para os viandantes descuidados. iroso. Mal fitava os olhos nas brasas. quem ceifava gente por filas. para os borrachos e as crianças. quando a felicidade do morto é dormir. o arraial dos fantasmas. o barzabu negro e malvado? E por esse mundo além. maldito ele fosse? Matara-lhe o Duarte e não havia dúvida que fora ele quem assassinara o José Francisco à traição. sepultado nas entranhas da terra. Procurassem bem e não culpassem outro. e ficavam para ali de fojo para os bichos do monte. mais medonho do que nunca. não sabia se das suas pupilas. que perde a alminha! seu irmão. se dos buracos negros da casa. se dentre os carvões.Chorava e deixava de ver por instantes. encher-lhe a cântara de água. fazendo finca-pé na certeza que tudo aquilo era desvairo do seu entendimento. com a diferença de que esta tinha de passá-la de espertina. como tantas vezes acontece a quem vai seu destino. A Polónia só abalava depois de lhe ajeitar o lume. o pretalhaz desalmado. estirado desde o claro-escuro até à fogueira. Mas o tanganhão cedo voltava. Eram todos eles dotados de carne e osso e vinham tal qual: sua tia Soledade a pedir um padre. ao canto roufenho do reverendíssimo Tadeu com o nariz como uma batata quando lhe grelam os olhos: à porta infra! E ela e o Duarte ficavam sozinhos.dizia ela com um sorriso.Já lá está o pai. que fazia estas avarias pelos povos. a gemer: deixai-a confessar. o resto do corpanzil. pôr-lhe um panelo com batatas a cozer e dobrar-lhe a capucha atrás das costas para se encostar. e negra. como a gadanha do ceifeiro ceifa feno. embora arrenegasse de beatices. as duas tarascas.Que é o que a prima procura? Veja lá se cai para o lume? Voltava a si.pãozinho de Nosso Senhor. sua mãe. Ainda se lhe ouvia a chanca.. que temos fome. que lorgava as encostas e chapadas dos montes. Acontecia os pequenos da Polónia virem lamuriar para a porta: . e no seu entendimento perverso o mesmo era que mandá-los para a torre da Madorna onde havia um gigante que comia meninos. baixava a noite para Bárbara. Pensamentos que vinham do negrume.Manda-os ao volfro . pior do que bexigas na gente. por outro lado. deixando a terra com uma espécie de furúnculos e de impigens. noite sempre enorme. ininterruptos e nojentos 160 . senhora mãe? Venha. daí a pouco rompia. que acalcava as sementeiras como mil cavalões arreitados. lhe marinhavam para o selo. tinha a impressão nítida que o volfro estava ali: a pilheira era cabeça. e a escuridão. Era aquele mesmo que revolvia as chás em que se cria o. quase tão grande como a outra de que nunca mais se acorda. O homenzarrão que era o volfro sumia-se para dar lugar a outros macavencos. Oh. sozinhos. não sabia dizer já que malandros de pensamentos lhe tinham vindo à cabeça. Involuntariamente se punha a dizer isso mesmo entre si. e a prima via-a mexer com os lábios e cuidava que estava a rezar. Fora o volfro. aos gritos: façam-lhe a vontade e ainda esta noite vão dormir ao estarim! Eu não as vou soltar! Depois lá iam as duas velhas. pela leiva da superflcie adubada com rios de suor.. de olhos nas nuvens. que por onde passasse fazia aqueles poços tão fundos que já se lhes não via pé. ela se fartava de repelir. o lume. o negro da família. Não raro lhe sucedia estender o pescoço como se se dispusesse a ouvi-lo falar. eles se fartavam de voltar. . senão o volfro?? Às vezes. os bofes. para o cemitério. A Polónia via-lhe aquele movimento absurdo e interrogava: . tornando-as deste modo improdutivas para sempre. que vinham do inferno. atrás dela pela casa. trocando o saibro.

até ao enforcamento do Duarte quando. Mas pronto. sem pinga de sangue. A primeira noite que uma vaca tilintou à sua nianjedoira dormiram na corte com ela. já da margem de lá. a chegar-se a ela e a querer rendê-la. aparece o volfro. e justaram uma parçaria com o Sancho. Via-se mesquinha de todo e perguntava-se se o senhor Antônio Fráguas não andara a vida inteira a mangar com ela. mormente as cardenhas da eira. ih.1 Era a garotada a arremedá-la. a tentá-la e a meter-lhe o veneno que nunca mais perdoa. Poupavam-no ao corpo. acabou mesmo por deixar de ouvi-Ias. gordas. Ajuntaram pecúlio. Atrá s da lida veio a poupança. E. Compraram vaca e carro. O mesmo pauzinho a arder lhe dizia que fora um sopro de tempo esse durante o qual se lhe haviam fechado os olhos. mas desconfiava que deviam de ser os filhos mais velhos do Fandinga. Desenvergonhados? Aquelas vozes. Mas. cacarejava uma voz escarninha: Irmãozinho da minha alma. espantava. e andavam reflectindo os pais na exaustinação de ver quando é que ela esticava o pernil. só porque erguera mais a voz. ih. se calhava ter de puxar pela carteira. Lá fora. por uma noite de geada. na dor que o acometera ao entrar em casa e dar com as arcas abertas e a caçoila sem o precioso recheio. zás. os olhos a olharem para esta vida. e o Duarte. anos e anos a fio. Estava a sonhar. e toda ela ficou hirta. não afrouxaram. Era um cassamente. passara um nó da corda de encarrar ao pescoço. e as lojas. desde a maquia extorquida ao Luís Ougado. Semelhante acesso era uma rabanada de vento que lufava sobre o seu arraial de fantasmas. Também botavam renovos que encandeavam a vista. muito recatadas ao abrigo das três voltas. O volfro era o pai de suas turpitudes e desgraças. esvaíam-se todos. mais uma para o rol. só aquele palco em foco. Iam aos mercados. Às vezes a cabeça caía-lhe para o ombro. ao fim. ia-se-lhe representando de espingarda a tiracolo. soluçava até se encher. sem embargo dos olhos ruins que tanto gostariam de lhe deitar empeço. e dali em diante os derrancados dos pensamentos não tornaram. como a comédia em Orcas a que a tia uma vez a levara. O seu Duarte era um ganhão de mão cheia. e um momento a mão dele veio agarrar-se-lhe ao corpo. ou de botas amarelas e chapéu faia. caminho da romagem fora. E entrava de 161 . não era nada. gordíssimas como fidalgas. E. Ele é que fornecera a matéria-prima do mal. atestadas até cima de lenha para o Inverno. que a torcida da candeia já nem sequer cheirava a petróleo. Tudo isso entrecorria na lareira à resplandecência do crisol. como meninas por detrás das grades dum recolhimento. Agora. Estava a vê-lo muito negro. nas traseiras da casa. rápido como abrir e fechar a mão. louvado seja Nosso Senhor. com negror espessíssimo à volta. fora ao desfatio. Disfarçavam a voz para que os não conhecesse. O Duarte dava voltas sobre voltas com o sono muito agitado. Estavam lavradores. ele adormecera como um canzarrão que andou a lutar com os lobos. ih. todos os anos pelo Santo André matavam porco. As suas terras atolavam em estrume. A casa estava sepultada em silêncio e trevas. língua de fora. É que não gostaria dela. Não descansava enquanto não via a quintã e o combarro a abarrotar de mato. Fartaram-se de cavar a vida. que eram fracos trastes. que mal a tiravam da sua cisma. Como luzes que se apagam a um tempo se lhes sopra a nortada. E tudo ia em acréscimo. mostrava o seu pacote de notas. Um alma do diabo que tinha filhos por toda a parte e assim lhe catara respeito. Soluçava. Rompia a soluçar. conforme o lume devorava os tanganhos.como as lagartas dos pinheiros. associados com os do Urra. Não queriam crer.

pouco a pouco. além agonizavam: ela andava a tomar nota como empregado de cangalheiro. contrataram-te para fistor? Se levantavam a grimpa. A noite negra poisava-lhe em cima o seu joelho de giganta. e estavam logo lá. pousava com não menos chinfrim na casa da Pedralva. agora que elas já eram menores. um bocado ficava o seu entendimento. a catadupa de rumores indistintos. Passava boa parte da noite. de chocalhadas. afogado na noite. Dali andavam mais de uma dúzia em Muradais... Parecia que se ensaiava para lhe cantar o bendito. rua. E de olhos abertos lia no escuro como lia nas brasas. à lareira. E depois. Borbulhava o formigueiro dos defuntos.Olha lá. Deitava-se de costas que de lado nã o aguentava com as dores do peito. Aqui adoeciam. mesmo de pés atados. Por fim. Se não estavam. Depois. Sobre a alva calava a grasnada sinistra e rompiam a gorjear os passarinhos que não metem medo e trouxeram a voz do céu. E era o mesmo que estar com os olhos abertos. Para o Casal cantava um rouxinol e para o cimo do povo uma toutinegra que amanhecia com as estrelas a chamar pelos pastores. de anjo. custava-lhe respirar e a pieira saía-lhe mais assobiada. Entretanto os rapazes que trabalhavam nas minas subiam e desciam os patins com grande estreloiçada e ouviam-se cliamar uns pelos outros. Depois. abria-os. como se se tratasse duma romaria.novo com o seu arraial de fantasmas no casarão amplo e soturno que descobrira por debaixo da terra do cemitério. com o completo despertar do cortiço. tal como tinham sido em vida. A sua vozinha alegre. De 162 . Mas aquela convivência acabava por lhe ser molesta e. com o adiantar da manhã. dava graças ao Senhor que a não tinha chamado aquela noite ao seu terrível tribunal. que a aldeola era feudo seu. estendendose em cima da cama. As chamiças charriscavam até lhes arder o manto. Os capatazes sabiam que eles metiam a unha e andavam-lhes na garupa como carraças. que é sala de cães. de vozes humanas. A casa era lôbrega. Tratavam-nos. bem embora não tivesse saudades do mundo. Se algum esbarrava a ver para onde corriam as nuvens. acendiam-se as luzes dentro das meninas dos seus olhos. e via-o tão perfeitamente como se se acogulasse à sua volta. tão juntinho que bastava os defuntos darem uma cambalhota. como os galuchos nos quartéis. Quando começavam os tamancos a matraquear na rua. Lá se punham outra vez todos a falar e a fazer tagatés. Mais acalcanhados nem os bois do cilindro. mas pela telha de vidro a luz banhava-a como se caísse em cima dela um vestido branco de noivado. fechando os olhos. ia deitar-se. mais de vinte no Vale das Donas. a grande zarga? Ao levantar. Assim mesmo. abria-se. a toque de buzina. Via a fogueira a apagar-se e punha mais lenha. vinham logo de rabo alçado: . porque era vezo. Depois o lume ficava a triturar os gravetos e era como um cão a roer um osso. acabava de repô-la na terra. Os encarregados tinham-lhes raiva porque a vasilha continuava a verter e não acertavam com a fonte por onde melava. a vogar à tona do mar tenebroso como uma cortiça. estava mesmo a dizer: levantar? levantar? Um cão latia e era quanto bastava para se achar menos só no mundo. Também ali farejava desgraças. reapareciam os figurantes a bater o tacão. Esse vestido. à raiz das covas. era o bastante para lhes apontarem o largo: . A coruja vinha também com o bater da meianoite e armava grande alarido e guincheira.Põe-te a mexer! Num rufo. Oprimida de todo. armava-se outra vez o teatro. lá ia por cima dos telhados visitando a clientela. Às oito em ponto tinham de estar a pegar da picareta. Pois que assim era.

Nada a prendia à safadeza da vida. Às vezes badalava o sino para a missa. soprava às duas brasas que luziam ainda no meio da cinza. Que mais não fosse. por ser de cascalho e muito esburacada.e não lhe tinha passado bocada nos gorgomilos. punha duas farmalhas. Até que a fêmea saísse da toquinha. Também lá floria o alecrim que o Jamboto coveiro punha aqui e acolá para que se não dissesse que aquilo era pior que um curral de gado. muito à capucha. com o marantéu nas moitas.Então sente-se melhorzinha? . . igual à de véspera. como podem ser iguais gotas da mesma água choca. buscá-lo em mulas. levava-lhe a enxerga para a quintã. pschi. que já saíam duas vezes ao dia. davam os galos a alvorada.Comi e soube-me bem . largavam com o lusco-fusco. também. Os poleiros eram coretos de charanga. que nem o Demo seria capaz de adivinhar. Ou: . e a vida recomeçava para ela. ganhava arreliar aquela coruja. Mas o febrão estava a passar. não desse ela o cadilho inesperadamente e a roubassem os outros. Era para semelhante primavera que ela corria e tomara que fosse já. Em cima tinham uma copazinha que lembrava uma gota de sangue. continuavam a ajuntar volfro. Estava varejada a árvore das patacas. Muito pela sonsa. que trabalhavam em Muradais. À porta uma acácia cobria-se de cachos brancos. A corcolher punhase a cantar e logo a seguir o pedreiro que todos os anos fazia o ninho ali perto na casa da Cismas.Sonhei que Nossa Senhora me acenava com um lencinho de rendas e depois me dava a mão para passar uma ribeira muito grande. a quererem roubar o rolo umas às outras à força de melúrias e denguices. sempre igual às transactas. Não chegava o sebo para a mecha. A baixa que sofrera o quilograma com as leis danadas do Governo não dava para a grandefreirria dos meses anteriores. sabor de mortulho. Depois. . girava à vida como os pastores das vacas. Dormiu? Ela dizia que sim. vendendo acolá. Ora? No cemitério também nasciam aquelas flores que se erguem numa haste alta e fina e parecem os antigos alfinetes com que as senhoras seguravam o chapéu. Ia correndo a levada do tempo e a leiteira tocava a buzina no terreiro da fonte. que andava a rondar. 163 . Tudo andava já de alevante. Bárbara arrastava-se para a lareira. de modo que lhes não faltavam braços. comprando aqui.facto. A Polónia. respondendo ao avesso do que ela esperava. e as rolas na cruta dos pinheiros ao desafio. tinha dormido como uma pedra. Regalava-se toda em lhe torcer as voltas.Comeu? . Viam-se só em campo as grandes empresas. a que chamavam navarros. uns e outros.Teve bons sonhos? . que até para lhe ser mais antipática que a outra se prantava ao pé dela em vez de andar por cima dos telhados. o tio Calhorra continuava no negócio. vinha cedo com a mancheia de caruma.Hoje acho-a mais animada. fartava-se de gazear. Acendia a fogueira. Lá tinham maneiras de surripiá-lo. Vinham homens de Espanha. Os homens de Malhadas. De manhã trazia perra a garganta e falava pouco: . A Primavera era bem bonita por aqueles campos abaixo. o cuco onde calha. Eles fora.Estou aqui estou fina. de verter os seus lamentos. Uma vez deu-se a provar: tinham um sabor esquisito. pschi.

Bárbara indignou-se toda. do que os sapatos. justinha na anca.Já disse. como se também eles se associassem com a terra a comer a gente.Vista-me os marmotinhos que andam rotos. mas no cibeiro. “Não tinha posses para se tratar a leite.? Era uma sondagem e respondia invariavelmente: .. Está a perceber? 164 . sombra que se esvai quita candeia. e nada metia mais nojo no cemitério. e uns meiotes novos. . com a tromba arreganhada à semelhança do jacaré que está na Lapa. sempre me quero confessar. disse-lhe de caso pensado: .Lá irá para onde o pague? Ela não respondia. quando ao fim de sete anos o Jamboto abria as campas. provavelmente para o Lázaro. e percebeu que dizia: “Não ouve o cuco?” Voltando para dentro. Pois que não lhe consentiram enterrá-lo na terra santa.Sabes que mais. que levara havia mais de vinte anos à romagem das Cinco Chagas e de que ele dissera: “Que bem que te vai essa sala. Tinha proferido aquelas palavras com certo esforço e Polónia considerou: . que todos os mortos hão-de passar quer queiram quer não. um real seu não viram para missas ou responsos. ainda pode demorar. a roda toda para trás como os turnus!” Reservava então essa saia.Então já quer..Sabe. . como em geral era modo seu. “Olha que não pára na sepultura e vai andar pelos caminhos a fazer espalhafato. Abria a boca e ficava a papear. Para mortalha reservava a saia de castorina. Um dia mete-se contigo na cama e esgana-te!” Coitadinho. pelo não.Olha.? Sente chegada a hora. A sola levava tanto tempo a consumir-se como a caveira. se não fora as consumições com que o Demo derranca as almas. o lenço de seda ramalhudo que fora da tia e era um jardim. Os padres que fossem comer a outra manjedoira. . A prima observou-a de soslaio e franziu o focinho. O certo é que tinha em mente gastar o menos possível com o enterro. lá ficou tão abafado debaixo dos cardos e das ortigas que nunca mais deu sinal.. vai-me chamar o padre. Polónia.. Para que quer a riqueza. Deita-lhe o milhinho que está na teiga.. que ela bem viu.. vai-me destapar o buraco às galinhas.. mesmo que quisesse falar. Não queria lá chinelas.? Acenou que sim. ofereceu-se para ir arranjar meio quartilho de leite. veio para esconjurar a Florinda Pedralva .. que vinham na enxada. . Que imaginava ela?” Polónia sorriu com desdém. tocou o sino. Tenho-me desobrigado todos os anos e. muito raro que por trancafio lhe ficasse a talho de mão assistir grato Deo às suas ovelhas distantes. .. Às porteiras pôs-se a cochichar. parece que não podia.. ao pé do Trinta que morreu chacinado. Quando a prima voltou.Hei-de empregá-la no bem-de-alma..serrazinava Polónia com voz pedinchona. Aquela manhã. o chambre de flanela que estreara há dez anos na festa de S. .esclareceu Polónia.É a ribeira do Jordão. nojo e medo. “Fica-lhe a alma penada no mundo!” diziam-lhe. Mas. Quanto a rezas. Enquanto Mónia girava a abrir às pitas. Nada lhes dera com o Duarte. todo o dinheiro que tenho e pouco para o bem-de-alma. Pelo sim. que estão arrenegadas por ir ganhar a vida. Miguel. olhe.. não temia dar contas a Deus. o que sucedia as poucas vezes que o senhor Tadeu ali vinha dizer missa encomendada ou no desempenho das suas obrigações paroquiais. durma-lhe e coma-lhe bem.

permaneceu de cócoras que lhe doíam as costas e se esfalfara a chegar até ali. O seu primeiro movimento foi gritar. depois do abalo que sentiu ao pousar os olhos nos olhos. depôs o 165 . Vinha descalço e tão escoteiro que só reparou nele quando passou por diante. já se não via há que mundos. Quando atingiu o açafate que estava no sítio. pois não lhe dera nada a rilhar pela morte do Duarte. Aquilo não ia com benta nem benzilhão. se calhar nem se conhecia. causaram-lhe tal impressão que os fechou.. a pobre mãe tanto gemera. outro pé na rua.Tinham ido à benta de Quintela. mas faleceu-lhe a voz nas goelas. onde fora a cama do Duarte. mostrando os dentes. Mas ora. sem dúvida a testa mais branca. como se a mão da morte andasse a enfolar o saco para lhe atar o nagalho. condoído. ergueu o espelhinho e mirou-se. como fazem as águas vivas quando começam a subir nos açudes e encontram um buraco dos ratos. horrorizada. puída ao meio corno laja depois que se malhou. Onde ia porém o azougue e frescor da moça que um dia o senhor Antoninho cometera à volta da rornaria?! Estava agachada detrás da arca. como que sorriu. não viria. de rópia pela casa dentro. ih. aríscos e vagarosos ao mesmo tempo. a meditar nas voltas que o mundo dá. Corcovada. foi pelo espelho e ao esforço que teve de fazer capacitou-se que chegara ao fim dos dias. bebeu. Quem olhava para ela. e reconheceu-se naquele sorriso. com o espelho caído no regaço. Bárbara chasqueou baixinho: .. mas se fosse assim para o caixão não meteria medo a ninguém. com olhos que fugiam para dentro do crânio.. que de modo algum queria perder um espelho de tanta edificação como aquele de ver enxotar o Diabo do corpo do seu semelhante. Era bem a Bárbara Barboreta. Lembrou-se que tinha um espelho no açafate da costura.. ergueu o cântaro pela asa. Assim que respirou. tão retraídos como bichos bravos no fundo dum fojo? Ah. Mas os dentes reluziam e eram eles que davam ao rosto o tom derramado que tinha a Senhora da Boa Morte no santuário da Lapa. seguiu-o com os olhos e afigurou-se-lhe que trazia carapuça de Alvite na cabeça e estava em mangas de camisa. Mesmo assim sufocada. Ela ouviu-lhe o glugIu. vinha aquele dia rezar-lhe o exorcismo. e sempre se decidiu a lavar a cara e a tirar a ramela dos olhos. e veiolhe o desejo de se ver. Bebeu. Quem quer que era foi direito à cantareira. permeáveis à luz. um espelhinho redondo que ganhara havia mais de dez anos na rifa do Roupinho. e levou-o à boca. além de amarela. o seu tanto escaveirada. entrou umhomem. de lhe atacar tibornadas pela boca abaixo. À dita confira. ah. vítima do volfro.Ah. encostando-se à parede. de a benzer. Polónia falava de afogadilho. Iii. se lhe oferecia encarquilhada. e despegavam-se da cabeça como vagens debulhadas.. tanto suplicara que o senhor Tadeu. No pescoço é que a pele. estava urna surrona. no padre que era muito capaz de não vir confessá-la. um pé em casa. irmãozinho da sua alma! Viria. ih. talvez afinadas as arestas e retingidos de escarlate os lábios. e ela ficou a malucar na Florinda. por detrás da arca. Também as orelhas se haviam tornado diáfanas. Estavam fartos de a defumar. O que era o barro de que Deus ou o Diabo amassavam a gente? Tornou a mirar-se e notou com reconforro. estão muito enganados com a delambida! Polónia desandou. que a fisionomia pouco mudara. esses olhos negros luzidios. que era só dela corno o vermelho das rosas de Alexandria.

maldito fosse o dinheiro e mais quem o fabricava? Todas as manhãs que Deus deitava ao mundo.Ficais aqui.. deixe lá os moleiros e encomende-se a Nossa Senhora! 166 . Polónia abanou a cabeça negativamente. soergueu a tampa da arca e abismou-se a olhar para o que havia dentro.? Foi para isso que se veio meter detrás da arca? Ah... afinal. Oh. Oh. Seria aquele o ladrão do seu rico dinheirinho e causador de o Duarte se enforcar? Arriscava-se a sê-lo. deitou a correr e esgueirou-se pela porta como uma engula. logo de seguida. se a casa nao caira por cima dele e não o esborrachara. Pois como explicar o ímpeto com que aquele pilhanqueiro entrara pela casa dentro e as vozes: “a mulherzinha está aqui está a alçar as pernas. Mas tão-pouco naquele momento encontrou voz para berrar sobre ele.A mulherzinha está aqui está a alçar as pernas.perguntou Bárbara erguendo olhos para eles. Polónia recomendou para os filhos: . O pai do Céu não lhe perdoava que acusasse um inocente embora a acusação não subisse ao tribunal dos homens. coitadinha. trouxessem-lho à sua presença. Quem sabe se o ladrão nem era o tal ladrão fino. só Deus é bom juiz.Quer aviar o pão. limpou os beiços às costas da mão e. hoje o dinheiro da vaca. agora compreendo. já aí vem o senhor padre. se nao vomitara as notas. ainda na caçoila de má morte. E ela. o seu tanto intrigada. que começava por matar a sede no cântaro alheio? Vinha gente que se ouviam passos no palhuço batido da quintã. circurivagando o olhar e não topando ninguém. um pró. Quando já não precisa deles. A sua pena era que chegasse quando estivesse já debaixo da terra. Foi ao transpor o limiar que Bárbara reparou ainda trazer o homem a fralda da camisa de fora. Ai. depois num pote. Lázaro. e a súbitas. o assento enfarinhado. se andara a roçar pelos sacos da farinha. Ela então pediu-lhes para saírem ao povo e. esse dia havia de chegar.. Era a Polónia com o homem e a ranchada dos meninos. se descobrissem um moleiro com carapuça de Alvite na cabeça e a fralda da camisa de fora. com a cara de fuinha que herdara duma geração de famintos. põe-lhes a calva à mostra.Não encontraram um moleiro? . quedou confundida. que no segredo do seu peito e foro de Deus acoimara outro. porque ouvisse chapejar na rua ou assim se lhe afigurasse. outro contra. que era do conhecimento de toda a gente estar em seu poder? E dois contendores. .. foi à pilheira e meteu a mão numa panela. A prima está a morrer. proferiu em voz alta: . martelavam-lhe na cabeça como dois ferreiros malham o ferro em cima da bigorna. Porque lá que havia de chegar havia. o Diabo cobre os patifes até à altura em que lhe ajudam a fazer o joguinho. meio divertida: . nem aquele ladrão porco. perguntou em tom de melaço se não se sentia mais aliviada. e lhe palpitou que. Observou-lhe Polónia. mas haveis de estar muito quietos. ainda que pilho notório e confesso. à boa mente ou à fina força. Faltava-lhe aquele tormento: duvidar. se não era moço de moleiro. Mas. E. Sem esperar que respondesse.. a primeira coisa que inquiria era se o gatuno se não tinha dado a matar.” senão como a desculpa antecipada de repetir a má acção. Desceu a tampa. E.cântaro. olhe. ontem o roubo do dinheiro suado e tressuado por ela e o Duarte.

dar-lhe leite. à frente o grosso nariz de batata grelada. de ordinário fechado. matou. Bárbara julgou ver luzir em seu rosto.Pois se se sente fraca... matar-lhe de tempos a tempos uma galinha. sempre muito recatados. Deixa. como se entrasse numa furna. fungou e dobrou-se para o chão a estudar o caminho. com a agonia na garganta.Nosso Pai tanto entra na cabana como no palácio. desses que actuam na livração das almas do Purgatório como os remédios caros na cura das doenças. que a mãe assoara e lavara com o rabo do gato. Mas a Polónia começara a revolver a roupa da arca com mira.As galinhas não põem. ela está a pé.. o que botava ao fim da semana a dúzia e meia de ovos. com o sorriso querendo significar: “Matou-se uma pita. o sagrado viático. Tinha três pitas que punham três dias a fio e descansavam um. Os meninos tinham-se postado em volta dela a vê-Ia esticar. era de supor.. e durante o breve movimento que imprimiu às pestanas surpreendeu o Fandinga a fazer para a mulher um gesto. meu senhor. voltando-se para Polónia: . ao gosto delas. Faltou-lhe um galipanso. o que era caso... advertido que a confessanda não tinha herdeiros directos. Lindezas são para ti. E sentiu-se beliscada ante aquela alta recreação: . Bebi uma água chilra. Ela não tem meios? . Pois não enxergava a sombra dum ovo? Às duas por três. com os que as pitas das vizinhas vinham pôr nos seus ninheiros. Apalpando o piso desigual de laia. está uma galinha a cantar'“ Lá ia a 167 . Ao pôr pé no limiar.. O senhor padre bem sabe que a casa é de pobre. por sinal satisfeito. coma-lhe! . Dali a migalho aparecia o senhor Tadeu. como quando lhe iam ao mostajeiro. de encontrar os lençóis com que se recebe na Páscoa a visita do Senhor ressurrecto e. Entre dois frouxos de tosse ciciou Bárbara que apenas se sentia muito fraca e não podia com o corpo..Vá-lhe chegando umas gemadínhas. Bárbara sorriu de novo. meu senhor .. E ao contemplar aqueles carinhas de anjo.. teve vontade de corrê-los à bofetada. Mas não pode ouvir falar que se corte o pescoço a uma ave. Bom.Parece mal? . entretida no deserto da sua alma com sucesso tão estranho. tem meios . Pois'“ .É preciso alimentá-la. Fartava-se a cada hora de ouvir cacarejar na quintã. . quando deu com ela encolhida atrás da arca saudou em voz que se esmerava por ser prazenteira: .Então como passa esta doente? Ah. acalentasse a esperança de que lhe encomendasse algum trintário bem pago. que se podia traduzir assim: Entrou no delírio! Magicou que não valia a pena estar com explicações e calou-se. quase duas dúzias.Não tires nada para fora. quando era ela a tirálos.apressou-se Polónia a responder. . A olha escumaste-la muito bem escumada e imolou-a com sopas de trigo o esgorjado do teu homem. cantés a missa vulgar de cinco paus nem um bochecho de água representa quanto a refrigério das respectivas labaredas. e consigo e com Deus ficou a cogitar que ele.tornou Polónia.Bárbara baixou os olhos.Tem sim. Mas a carne corneste-la tu e os teus miúdos. Bárbara olhou para a prima e sorriu. dava o alamiré: “Polónia. o mal não é de morte. dando como razão pôr-se-me na fraqueza por ter muita enxúndia. delgada como a da fonte.e o senhor Tadeu acrescentou. ia morrendo de consurnição. um ar amável. deixa. .

de boné na mão: . caía para a banda e acabou-se. Ouviu. Pegou da bilha e baptizou-o segunda vez até encher a medida. durante as quais se esquecia de si e do padre. E reparando nos olhos da alcatéia acesos para ela. bota cá a saia que roubaste a minha mãe! 168 .Fala pelos cotovelos. meio de coisa podrida. Ouvi dizer que é anclaço. decidida em seu peito a fazer o contrário. referveu o seu sopitado ódio.. meio de mofo. senhora Bárbara? Ela acenou que sim. . embora repleto de zelo sacerdotal.. Fosse pelas benditas Cinco Chagas. da banda de fora. Que não e não. alimentar-se a leite! Tinha há dias mandado comprar um quartilho: mais de três quartas partes eram água. Que andasse até onde pudesse.. podendo.Pois tem que tratar-se. Que esperavam agora dela? Do lado de fora. Mas não permitiu.Ainda não morreste.? Dê-lhe leite.Dá por paus e por pedras.. As suas galinhas só põem vento..Está no uso da fala5 . transportado já à super-human idade do seu papel. feiticeira?? Antes de morrer. mais filtrado que o soro. volveu para Lázaro Fandinga que se aproximara muito ronceiro. Interessava-lhe pouco a máquina.? Trouxeram-lhe um mocho.” O senhor Tadeu levou a tenta para outro quartel: . e a sua voz adormecia como água em chão liso. Era a fugir àqueles dois pesadumes que ela retraía o olhar para a quintã e avistava os Fandingas. Olha. quando não pudesse mais.. mais abaixo. A terra produ-lo com abundância. Um primeiro baptismo devia ficar à conta do produtor. e aspirava o seu hálito enjoativo. não é assim? E. Sentou-se então. Foi recalcando o asco que interrogou: . com pequenas pausas. Nunca pela vida fora lhe tinham chegado uma sede de água. E daí provinham as pausas. punham a boca a um buraco da parede e buzinavam para o interior: . acessos de tosse. os Urras e outros parentes comprimidos e silenciosos contra o vão da porta. tem.Não haverá um banquinho para eu me sentar. Mas eles espreitavam-na receosos de que levasse por diante a ameaça de encomendar um dispendioso bemde-alma.. . murmúrios que imprevistamente subiam de tom como água num regozinho de leito irregular. E o sacramento começou e foi decorrendo sibilado. que mais gatunos não se encontravam na Falperra? O senhor padre esteve um momento a aferir da situação da doente. resplendente. Depois. era um rebotalho. a Polónia tirou metade para uma xícara que deu à menina mais novinha que acabava de desmamar. Quando lhe chegou às mãos. Bárbara via acima dela. é pecado. o comer de leite está acima das suas posses. tão outro do do Antoninho Fráguas. como ela se limitasse a baixar a cabeça. que ela se pusesse de joelhos ou alterasse sequer a posição que tinha por mais cómoda. depois de passear a casa com a vista.zouvineira. acabando compenetrado duma imundície que vinha do tempo das cavernas. Não o fazer.. negra como o volfro. Mas é assim por todo o povo.Vamos à confissão. Polónia acudiu a pôr em cima a capucha dobrada. lá vinha: “Pôs vento. o tomarão mal maduro da penca. no largo.E leire. que parecia esquisitória. a cabeleira do padre. .

articulou em voz e num bulício tão rápido de lábios que só por si inculcava puridade.Porque o não diz aos seus parentes? .objectou. Era o remate. do Zé dos Cambais. ainda que sem pago não haja de ficar. R.Era o filho da Casimira.. lá está uma pita a cacarejar. 169 .. dispunha-se a largar quando se sentiu preso pela garnacha. O que tinha sofrido por causa daquela saia apanhada no estendedoiro? E quem podia jurar que fora ela? Não havia muitas ladras no povo? Agora era o Tonico. R. mas não o sabia. mandou-lhe rezar o acto de contrição. levantando-se por certo com alívio.Deus me livre? Eram capazes de me esfolar. Se V.Queria pedir um favor a V. e respondeu com pressurosa discrição: .. . . Ao cabo. invadia a casa: .. compreendendo que terminara o mistério. . Também do fundo do horizonte um raio de sol vinha direito à sua alma. Ela torceu-se para ele e levando o dedo aos lábios ciciou de olhos na choldra que. Ele então percebeu a comédia toda. que saíra um melro de bico amarelo.. dizendo com ela.Diga. eu mando-lhe o notário. e ele foi-lhe emprestando a muleta da sua memória. Tenho por onde pague.Estou com vontade de ditar o meu bem-de-alma a um tabelião.Está bem.. cansado de vagares e de suspensões. . que se punha a falsetear ao mesmo buraco: . O senhor Tadeu. mo mandasse cá.Vomecê não quer um ovinho para a pleira? Olhe. Deus lhe agradeceria melhor do que eu.. particularmente à sua alma. ..

amanhã empreiteiro de estradas. Assim foi muito notado. o reconhecera como hastilha do seu tronco. que tivesse artes de lhe abarbatar o anel que lhe reluzia no dedo com um brilhante de dez quilates. pequena ou grande. Em bandas di lá . negociante de cavalos. de quando em quando escorregava-lhe o pé para. metia.Não me move contra o Aires nenhum outro sentimento que não seja o de vingar o meu filho. com loja de armarinho no Piau -. Dizia-se à boca pequena . a comprar e vender travessas aos Caminhos de Ferro. que era senão carregar? E com o mesmo vocábulo significava a pressão que exercia junto do tribunal contra o Aires. Ouviram-lhe as ameaças: . Influente e endinheirado. hoje agente falido de passaportes. quando só recentemente. Muita gente admirava-se que assim pusesse ralé em querer sacrificar uma vítima aos manes do morto. para mais que não para menos. sinhazinha.os trilhos constitucionais. onde tinha um testa-deferro. os dedos cheios de anéis. ai. sabe-se lá! Os depoimentos prestados comprometiam acerbamente o Augusto Aires. Não era debalde que inculcavam o volframista como homem capaz de mover a vila e a capital do distrito com uma perna às costas. passador de moeda falsa.Compadre Antoninho metia cabeça ao mato. que é um supor. como o espírito bem lastrado de sadios conceitos quanto à moral e dever de cada um. nenhuma tarefa lhe causava nojo. pilhados à paróquia por mascambilha. para empregar a linguagem duma das testemunhas. Depois. arroteador de baldios. Era notório que ambos cortejavam e pretendiam a mesma mulher. Não sendo ele. carrego-te a part& Era um termo muito seu: carregar. Que esta rivalidade era como uma trovoada armada. capitão de cangaceiros? À data era pessoa importante. metia. se tivesse apoquentação. Ficara estabelecida de modo terminante a rivalidade que lavrara entre réu e morto. Desde que houvesse vaza a levantar. conduzir para casa pela calada os sacos de volfrâmio. não foi dificil ao Fráguas encontrar na terra pobre e explicavelmente venal matéria com que erguer o cobiçado cadafalso.XII . se operara à lufa-lufa. Quem o conhecera e quem o via? Levara o melhor dos anos a passar criminosos foraíÍdos pela Portela do Homem. do amorpróprio. Mistérios da vaidade. ao dar de si o gabiru. ainda havíamos de ver-ele. ou encher os navios mercantes com mistela parecida. no entanto. Como a metamorfose. pode estar certo que hei-de carregar o mais que possa . As testemunhas foram industriadas umas. Apontam-no como matador. quem podia ter sido? Enquanto se não prove que foi outro.e não o trombeteavam a boca grande e ele próprio para não dar âncoras ao fisco que a sua fortuna botava aos seis mil contos. O negócio dos metais tinha-o enriquecido fabulosamente. prestes a desatar em raios e 170 . e estas palavras traduziam bem toda a sua premente e danada obra à margem da causa. forjadas outras a martelo.faceteava para Solange o seu comendador José Plácido. . do sangue.Se não pões para aí o anel. Vinha-lhe dos tempos em que se prestava a fazer todos os fretes. tanto que apanhou o colega volframista Leónidas Seixas em maus assados. como esfaquear um cristão ou assaltar as prisões e libertar um preso.declarou o senhor Antoninho Fráguas.

mas pois que houvera um matador e de natureza sentimental. devia ter sido o móbil imediato do assassínio. . Sim. que se alimenta das próprias entranhas. e esta versão ia pouco a pouco prevalecendo de todas as mais. pouco antes de gritarem na rua a homem morto. não restando melhor recurso do que “sangrar-se em vida”. .coriscos. isto é. Ninguém tãopouco o acusava de desonestidades. Confirmou-se horas depois com o ostensivo despeito do Aires ao encontrar a namorada a bailar no terreiro com o José Francisco. Acossada a adoptar tal expediente. e na contraluz que ressaltava da viciação da verdade por Maria Aires . Alé m de reticentes. para mais não sair até ser preso. . O próprio Augusto Aires. Em tal asserto todos os testemunhos eram concordes. dado que não tivesse a certeza. viu-se na competição de forças a que se entregaram os dois na manhã do crime quando se tratou de arvorar os estandartes na festa de S. Tal era o estribilho do representante do Ministério Público. Procure o senhor juiz o matador noutra porta. excluído o roubo como causa. “zaro Fandinga declarou: . No decorrer das inquirições ficou ainda estabelecido que o Alres era homem tranquilo por temperamento. confirmada pelo réu.Conheço-lhe o chapejar do sapato. não fez mais que referendá-las.Tem a certeza? . Mas semelhantes qualidades não se podiam chamar inibitórias quanto a determinar uma destas crises agudas de ciúme que desfecham no crime. estavam em contradição flagrante com os depoimentos que prestaram não só as demais testemunhas como o filho. que por aqui vem errado. que outrem apresentava melhores títulos que o Augusto? Sumariamente. mormente daquelas que motivam a alçada judicial. o seu Augusto entrara em casa pouco depois do anoitecer.corroborou o Reganha.Eu também juro o mesmo .e o juiz lavrara despacho de pronúncia.. de que fora ele o autor do crime. 171 . constituíram devido à sua impróvida e ludibriante singeleza o acto de criminação mais grave que foi produzido à barra contra o réu. . passou ele à minha porta . admitia a hipótese. se bem que reservado. . esse monstro verde. chamado a confirmar ou desmentir semelhantes provas..Ouvi o Aires subir precipitadamente a escada. traindo não se sabe bem que ideia fixa. Em conclusão: ninguém vira matar. Afigurava-se supérfluo procurar algures ou melhor. dar uma versão concordante. . Segundo ela. a indiciação criminal assentava na palavra das várias testemunhas. As declarações de Maria Aires.Meça bem a gravidade da sua afirmação. na frase de Shakespeare. angustiosa. Mas tudo isso não vai além de coincidências. Brás. àquele. cuja casa e a da Maria Aires ficava costas com costas. Era intuitivo que a Maria Aires tinha em mente forjar um alibi. uma vez que na carteira do morto fora encontrada intacta a quantia avultada que horas antes lhe confiara o pai para o negócio. como homem esperto. a bem do réu. convocada pelo juiz por escrúpulo de consciência. .Seriam dez horas. dir-se-la.Sim. o ciúme.elucidou o Luís Ougado. Deste modo ficava neutralizado o efeito que.Estou tão certo do que digo como da luz que nos alumia. podia resultar do encontro do seu testemunho com o do Ougado e doutros. entrei em casa um migalho antes de bradarem na rua a homem morto e concordo que o Luís Ougado podia ter ouvido os meus passos.instou o juiz.

filha de José dos Cambais. mas os jurisconsultos encarregavam-se a propósito de tudo e de nada de os aligeirar dum capital que lhes caíra do céu em revoo de lotaria e até certo ponto os desconcertava. se visava a espórtula alta. Teodora Luísa. por conseguinte. cego e cínico a bem de tudo o que reporte pecúnia. Surgira no entanto um depoimento desconcertador. pelo contrário.Severo Bacelar. representada por Manuel Minga. Ranheta e Facada. Começou o advogado por requerer a instrução contraditória. que o Fráguas assoldadara para remeter o Aires para a Penitenciária. do que empregar toda a ralé em consolidar a culpabilidade do Augusto Aires. e daí para cima. coroadas do mais feliz êxito. representava uma escola de advocacia. uma minuta a bagatela de cinquenta. A defesa indicara entre outras pessoas. feito com nobre altivez e um espírito de sacrifício tão abnegado que todo o edifício da acusação ameaçou ruir. o Espadagana. ambas elas. Retido entretanto na capital por um importante processo em curso. Muitas quintas mudaram várias vezes de mão em poucos dias. causas. substabeleceu no filho dum amigo. que manda ao causídico seja faca-de-mato. não poderia cobrar para baixo de duzentos contos. A eles. e nada mais fácil que sacrificar aquele pobre diabo em holocausto ao filho assassinado.. convidou o Dr. Respondeu a família do morto. com designar acusador o Dr. Tinham-no por escarmentado em toda a espécie de foro. Para mover o causídico bastaria uma palavra da pobre mã e. Calabaz . facha de palha do Antoninho. chamavam os codilhados do volfrâmio Cocó. Os volframistas ganhavam mundos e fundos. O negócio de resto estava bem parado. E tratou de cumprir o que julgava uma obrigação. que era já seu hóspede assíduo. Guilherme Calabaz. Queria Fráguas um criminoso. Tal circunstância cimentara entre os dois uma estima robusta e solidária.não tivesse ele antes de se formar cursado teologia. Fráguas havia-o constituído procurador em duas causas de certo tomo. para assumir a defesa logo que estivesse livre. nem era mais nem menos honesto. com o Minga. Nada mais natural. Um simples requerimento era cotado entre dez a vinte contos em matéria de honorários. proeminente nos tempos utilitários. mestre em tricas e sem igual no silogismo . O advogado da defesa era dos tais que julgam a prática da justiça incompatível com a chicana e a malignidade. novel e talentoso advogado. nem mais nem menos rábula que os outros. Foi um período de vacas gordas esse dos volframistas na fase do comércio livre e na que lhe sucedeu com o apuramento do imposto de guerra. persuadidos ambos da sua inocência. cuja pele não lhe merecia mais respeito que a dos cabritos com que o presenteavam os constituintes agradecidos ou mesuradamente cardados. À data própria compareceu a mocinha com natural modéstia e trajar quase 172 . mas tinha como nenhum colega urna fome devoradora e concomitante gana de ser rico. com o novo processo passou a residir em Muradais às temporadas. Calabaz. Defesa que exigisse audiência e a sua mão de papel selado ou em que tivesse de interferir a influência pessoal. Mas não se confinava neste ramo da advocacia a sua celebridade. Contavam-se a este respeito histórias do mais pícaro descoco. nome consagrado no cível mercê do seu saber e experiência em digesto mineiro. Este Dr. com plena aprovação de Franz Hincker. para serem inquiridas como testemunhas. Manuel Torres a tomar o patronato do empregado fiel. Guilherme Calabaz.

. articulou: . confundido. .? faz o obséquio de mandar sujeitar esta mulher a um exame médico? . crescendo para ele. mas eu..lutuoso. se os tinha. Ex. mas certa reticência em abrir-se.V. ? Não retira.Esta senhora é testemunha e não parte. Exijo uma retractação imediata do que acaba de dizer. Imóvel. não achou melhor que agarrar-se a uma obscenidade pouco generosa.A senhora pode retirar-se. Retira .. desenganadamente exclamara: . mas tal declaração não é bastante para a natureza da injúria.. lábio contra lábio. Ex. . mas V. . por detrás da cadeira. ..E quem me garante que o facto se tenha dado? E.. não respondeu. lábios vincados por um sorriso manifestamente desdenhoso. De olhos em terra.Estou satisfeito. ouviu uma longa. A certa altura interrompeu: . Ex.Tenha a bondade. a dar-se.. enrodilhada e nem sempre hábil palinódia. eu não quis ofender V. foi avolumado por uns no sentido da dignidade desafrontada com brio. Ex.? toma o partido da desvergonha! O juiz ergueu-se com brusquidão e.Não quis. até o momento em que seja infirmada em boa e leal contradita. Imediata. tomo nota. Chegou a dizer-se que se deixara seduzir pelos bonitos olhos de Teodora. Deseja mais alguma coisa da testemunha? .. acrescentando para o juiz: . ainda na zona do aturdimento.Sim senhor. agora pode explicar-se. essa mesma tarde deixou de tê-los! Tinha-os por duvidar de mim.. Digo contradita e não prova expressa.Está bem. .. Era rico. desvirtuado por outros quanto a trair parcialidade em favor duma das partes.. não retirou as palavras que proferiu? . Há a sua diferença. Mas uma grossa e sincera lágrima sulcou-lhe a face e não foi preciso acrescentar mais palavras. o juiz que era homem novo.? A fisionomia do juiz era tal que o Dr. vamos ao que nos tem aqui. foi na altura em questão..Seria caso novo no direito que o depoimento duma testemunha fosse submetido a tal espécie de verificação respondeu o juiz. Não sei se me fiz compreender.Retirei.? . pronunciou: . Tais palavras encerravam muito de sibilino. e sob este aspecto tem jus ao nosso respeito. não é?... está bem.Retiro. Quando o patético se desvaneceu..Compreendo muito bem: V. Não lhe ficaram dúvidas. O incidente.Ciúmes. susceptível a certos impulsos.. Instada quanto aos motivos de ciúme que pudera ter ocasionado ao Augusto.a há-de dar licença que me explique. Calabaz recuou instintivamente e de pé. no que se refere ao juiz. Como tal. ... bem relacionado. Sentou-se o juiz. repare. associados às pernas de vitela remetidas sob capucha pelo Zé dos Cambais. a sua deposição faz fé. o baixar vergonhoso dos olhos projectaram luz plena quanto ao seu significado.remascou o magistrado. e fazia-o com bizarria. em voz estridente de cólera.. não deixou de se mostrar impressionado.O magistrado aqui desapareceu. o arranco com que desatou. 173 . Fica apenas homem para homem. Retirou. um instante surpreso. podia tirar gala da natural independência de carácter.?..Que diz a menina? . O advogado da acusação percebeu e..

Vossemecê sabe. Ex. O Augusto conjurou a pobrezinha: . O juiz interveio. tinha Augusto de matar. 174 .O senhor. Está convencida que eu é que matei o José Francisco?! Se não está. com efeito. e seria para admirar que a justiça cometesse um erro tão grave como condenarme. Vejamos: o réu regressou a casa no momento do crime.Entrou em casa debaixo da impressão de que tinha havido morte de homem. suponho eu . minha mãe. depois. O acusador.a que se vinculara o crime fora entranhadamente aluída. agradecia-lhe que desfigurasse o que se passou. Tanto assim que minha mãe deu conta e. Estou inocente. Maria Aires começou por manter a primeira versão. Embaraçou-se ainda mais. .respondeu Aires com lisura desconcertadora ao que envolvia de comprometimento.Entrei em casa um pouco debaixo dessa impressão.a defere. podem julgálo. O meu papel é clarificar o acto criminal.Quando entrou em casa sabia pois que tinha havido morte de homem à sua porta.obra do ciúme . exultante. Que necessidade. se Teodora lhe dera iniludíveis provas de ser o preferido? O réu. .. O juiz. A infeliz é que se não capacitou das razões do filho. em proveito ou desproveito deste ou daquele. Manuel Torres em hora de puridade: . apreciando no justo valor o papel da defesa. mal se percebendo que pedia perdão ao filho de lhe cavar a desgraça por sua má cabeça. tão enrodilhadas saem as declarações da sua boca. mais tarde ou mais cedo a luz faz-se. foi tão discreto que nada adiantou que pudesse ferir o pundonor da namorada. Que factos ou que circunstâncias determinaram essa impressão? Quer explicar-nos. não sabia disfarçar o seu sorriso sardónico. limitando-se a responder a todas as instâncias que tinha fé absoluta na palavra dela e na firmeza dos seus sentimentos.. Por alma de meu pai lhe juro que nada tenho que ver com a morte do José Francisco. atire o coração para trás das costas e não tenha medo de dizer a verdade.E uma acareação entre a mãe e o filho? V. . se eu a pedir. toda a verdade.Os rumores pejorativos lançou-os com uma topetada soberana da cabeça à voragem surda do desprezo. Devia estar mesmo alterado de parecer. meteu os pés pelas mãos no esforço manifesto de conciliar o que dissera antes com o que sentia agora que era seu mister dizer. Calabaz e o defensor: . Esteja certa que me não compromete. advertindo para o Dr. observou ao substituto do Dr.. chamado a comprovar tais assertos..Oh. afogou-se-lhe a voz e acabou a soluçar. como eu não me abri com ela. Supondo ainda que se tenha de pôr de remissa que foi o ciúme o móbil do crime.? É drástico. Requereu o atrapalhado causídico a acareação. Assim. tem a causa muito comprometida. A imputação . se não consegue anular de qualquer modo o depoimento que prestou a palerma da Maria Aires. mas para que se faça cedo é preciso ser franco. é arbitrário. mas pode dar bom resultado. ficou a ajuizar mal. todas as presunções recaem sobre o Augusto.Depois do crime. registemos. peço-lhe para se nã o confranger e contar tudo tal qual.? . . como costuma dizer-se agora. Se eu estivesse culpado.Aqui há uma situação que não está bem definida.

cometera um acto de cobardia e por isso estava a pagar. Tornei à casa do Cambais pôr a machadinha no seu lugar. A alhada não se explicava doutra maneira..Assim que o encapuchado despegou da quintã do Cambais.” Aqui tem V.. porque não restava dúvida que ele e assassino eram uma e a mesma pessoa.É fantástico. à falta de outrem.. Agora. depois como que o baque dum corpo. passos primeiro. O que o noctívago fora fazer avaliava-se. Ex. o provável é que tivesse voltado à quintã pelo estadulho.. te catrafilam a ti.. Fora armar-se. se não era a manha que lhe ditava todas as partes. um estadulho do carro do Cambais com marcas de sangue e até com uma manchoquinha de cabelos. Posso mesmo dizer que estava resolvido a apurar quem fosse.Aires descreveu então a cena que presenciara na noite do crime quando arrastado até à quintã do Cambais por tineta caprichosa. arrepiou caminho. .Porque soubesse de antemão que o homem havia de passar por ali . É uma hipótese..Que cocas.Que cisma foi essa. diga. O Aires dobrou a cabeça para o peito e entre soluços reconheceu que. largueilhe na peugada.. e depois? . mas por agora o que nos interessa saber é diferente. Foi na peugada do homem. Teriam passado vinte minutos. Brás fizera-o com o fim de deitar poeira nos olhos da gente e. não vou acudir.. lá viu para onde se meteu.. passam-nos cocas pelos olhos. A que vinha ali o tipo?.Adiante. a bem ou a mal.A cisma foi esta: “andas fora de horas pelos caminhos..Fiquei hesitante: vou. um homem menos se precata.Compreende V. Meti por uma quelha. e mais passos. Que circunstâncias influíram no seu ânimo para entrar em casa debaixo da impressão de que acabavam de matar um homem? Percebeu onde quero chegar.Àquela altura é singular? Que bicho foi esse que lhe mordeu. se era verdade ter o Cambais acravelhado as portas. uma vez que tinham encontrado na rua. Bem lhe advertira o instinto. lá tenteou o lance. é uma hipótese a encarar. . caminhava já para me ir embora quando ouvi certo restolho. que precisa classificado? O Aires não respondeu e o juiz tornou a repetir: . Ex. noite fechada. sim. debaixo daquele tecto dormia Teodora.. de facto.Fui na peugada dele. Supondo que era assim. gemidos. . que a sua 175 .. Sim. já ia. não saberias responder. Duma coisa estava certo: o José Francisco ao largar de rópia para S. que se apurou serem do morto. . como dizia. sem saber explicar como.... e queres-te ir meter onde não és chamado?! Supõe que houve sarrabulho e. detrás duns toros de pinheiro. Estava escuro como breu.? . voltei por outra. achando-se desarmado por qualquer motivo. agarrada às farpas. . se tanto. de repente.ele a mostrar-se e a ir-lhe na cola.. Uma vez à espreita . . Os passos ao resto eram de criatura largada. cometeu uma cobardia imperdoável. diga lá? . e à distância de dez passos um vulto mal se via negrejar.E que fez? . Quando . a quintã em primeiro lugar tinha-lhe servido de esculca. mas perdi-o.. se não acontece meter-seme uma cisma na cabeça.a. fechei as portas e fiquei de plantão à esquina. se te perguntassem o que andas a sisar.. Lá o rastejou. Ia de peito feito. e nada.

que fui. O juiz deu por findo o interrogatório depois de instar Maria Aíres: . Tremulante. no número das quais estava a Rosa Pedralva.proferiu o juiz ao cabo de curta pausa. parece esquisito. e agora me digo que não fui mais adiante porque a água me tolheu o passo e vim a acordo do lugar onde estava. ..Sim. passei à banda das minas do Vale das Donas. em choro desfeito. Depo1s voltei para trás. e mais isto e mais aquilo. Uma nova inquirição de testemunhas gravitou àvolta deste ponto de vista. estreitada contra a carne. Lá que cheguei a ter certos zelos.. dóceis à lição. senhor Dr. meu senhor.Olhe.. Subira tão ofegante a escada de sua casa que os vizinhos deram conta. embora não soubesse dizer porquê. não tendo o costume de vaguear sozinho. estava à beira do rio. . Teodora desfez todos os melindres.Não. senhor juiz. Mas. . cujo sorriso lembrava uma rosa-chá desbotada. Ex. Calabaz. e sua mãe por mais que se reprimisse tremia como um vime. despi~ cado com o ácido rancor de que são capazes dois rivais. senhor juiz. aquela que levava ali como uma pessoa aconchegada ao peito. Terminou aos arquejos.felicidade. Não sei como. Que andava a fazer por fora? . a voz de dentro dava-lhe rebate que um tal escarcéu deixara de ser com outros para ser com ele. que nada provava que o encontro se não 176 . o advogado de acusação não se demorou em arquitectar outra. encarando no Dr. Que não gostei de a ver dançar com o José Francisco. . Mas ela contou-me como aceitara o convite do homem.É admissível que tivesse esse relâmpago de premoniçao .Sim.. largasse assim pelo escuro. olhe V.Como se explica que. E deitara a fugir desatinado.. sem direcção. . quer de vozes. estando como estava uma noite escura. quer de passos.Não encontrou ninguém. era com ele. antes do grito de socorro soltado pelo homem do lampião. levar pela marcha. fui como se fosse pelo ar. a partir daquele minuto. à primeira vista não menos lógica: de que ele e José Francisco se houvessem encontrado. juiz. não tinha dúvida em aceitá-lo. e fiquei tão contente e fora dos eixos.Meta a mão na consciência e diga a verdade como lhe pede o seu filho.?. realmente. Mas se umas. é exacto.. todas as dúvidas que concebera a seu respeito. tão feliz da vida. à toa. eu tinha-me encontrado com Teodora pouco depois de anoitecer. Isto que ele contou parece-lhe exacto? Das profundas da sua dor. misturadas com soluços. é também certo. Contra argumento tão óbvio redarguiu o acusador. a maioria. a fugir como se transportasse alguma coisa que lhe quisessem roubar.. garantiram solenemente que não deram fé de rumor algum.Não é caso inédito. o mais forte abatendo ferozmente o mais fraco. fui-me deixando levar. Sim. não nego. Mas diga-me: o crime deu-se entre as dez e as dez e meia. que já é uma hora adiantada para terteolas como Malhadas. se não derrubada a teoria de que o Aires assassinara por ciúme. corria perigo. Mande-me para a cadeia que eu é que menti. Nem reparou em nada de especial. não ter eu hábitos de tresnoitado. em aparte. escuro fora. Era. e acabado por vir às mãos.Não. até o rio. que possa invocar?. o que andei a fazer foi a vadiar pelos caminhos.. por mais fabuloso que se afigure. quando dei conta. ouviram-se-lhe estas palavras atribuladas: . . . depuseram em conformidade.

amiga do que é recto como sempre foi.. como observara com judiciosa oportunidade o advogado da defesa. na mira porventura de justificar a grossa espórtula que contava pedir ao volframista. Oxalá. Com as idas reiteradas à sede da comarca. o exame médico-forense.. e todavia não se impediu de dizer para o constituinte: . .É estranho.O que a habilita agora a acreditar na sua inocência pode muito bem ser um fenómeno precursor. e ela por sua vez deixou-se possuir desse palpite.A sua culpabilidade assenta apenas sobre presunções. se quiser. Por isso. a que minha mãe agora já está convencida da minha inocência? Que se passou no seu entendimento. por qualquer circunstância. relegado o volfrâmio para segunda plana ante a tabelização inferior. Ex. que esta causa tira-me o sono e estou morto por que chegue o Dr. pressupunha golpe à traição. provavelmente por considerar de somenos semelhante tó pico. O que não lhe posso levar a mal é que não soubesse dissimular a sua convicção. o que se não compadecia com a ideia de conflito ou luta corpo a corpo. que redundava num destampatório a que nenhuma espécie de juízo seria capaz de quedar impermeável. 177 . Calabaz. e o cadáver transportado para ali com o propósito de desnortear a justiça. Posso garantir que nós não contribuímos nada para a reviravolta. que era sagaz e requintava na qualidade pela hora crítica em que se via. ao agente investido de tal excruciação chamam na linguagem rural o aterrador. em que depunham Lombroso e Conan Doyle. sem ser preciso. a verdade é que se a defesa se contentava com a espécie de clarão de inocencia que resplandecia no rosto do Aires e o halo psicológico que se exalava da causa. o assunto versado em Malhadas era a morte do José Francisco. não sei. Com tão desabalado acusador acabou por condensar-se à volta de Augusto Aires o que se chama má atmosfera. a anatomia e o jogo do pau.A minha esperança é que mais dia menos dia. O seu antagonista e o juiz sorriram despicientemente. Fosse como fosse. embrenhou-se numa explicação fantástica. . reforçando as suas premissas com novos e ousados argumentos. por um acaso.Muito estranho. Lógicas. talvez mesmo fora da localidade. Torres para lhe entregar a pasta. o alvorecer da verdade. ou oprimido mesmo pela amizade. . A tal raciocínio faltava lisura. mas onde está o tribunal que se atreva a condená-lo sem uma verdadeira e insofismável prova? .tivesse dado algures. Assim. era lógica num segundo plano e não valia a pena levar o debate para tão longe. o acusador ardorosa e porfiadamente buscava tapar as brechas por onde ameaçava ruir a arquitectura do corpo de delito. Daí o relativo silêncio em que decorrera o drama. digamos. . O advogadozito notou-o. tendo em vista a sua profundidade e ser situado sobre o occipital. Reparou V. despercebido dos vizinhos. Minha mãe viu-me entrar em casa dominado pelo palpite diabólico de que tinha havido mortede homem e eram muito bem capazes de me apontar como matador.respondeu o preso. se rasgue a cerração. De resto. Estava no seu papel. forcejava em expedir de toda a maneira o Aires para a Penitenciária.Nisso não vou eu muito fiado .

Não percebo o que Vossa Senhoria quer dizer . E. Se até então a sua filha não tiver tido o nené. excomungada. coitada. Só um tolo não quedaria capacitado que a Florinda estivera a urdir uma fábula com os capítulos principais alinhavados atabalhoadamente. Mas uma vez que havia um críanço. A tia Rosa. O Fráguas sentiu-o e procurou activar o andamento do processo. de bigode à Carloto. perdendo a cor.Entre dois e três meses vá-me ver.tartamudeou a mãe. restituo-lhe a importância da chamada.. montou a cavalo. que se chamasse o médico. era o beijinho do rapariguedo. jurando por todos os santos e santas da Corte Celestial que sua filha continuava pura como quando a deitara ao mundo. e a soluçar para ali ficaram. se as tinha. Como a Florinda Pedralva não desse sinal de melhorar. E. Veio o doutor e.O sucesso transvasara já para as gazetas do distrito e daí para os diários da capital. quem era o autor? Porque lhe escondia ela o nome? Teodora. desmentiu o doutor. . apoiados pelos velhos Salorriões da aldeia. que soltava lágrimas gordas como repolhos. Tomara ele assim as filhas.?? Já sabia que as ameaças e ralhos da mãe se resolviam.. A mãe arremeteu para ela de tamanco no ar: . referências quanto ao violentador e tanto disse como desdisse. disse para a Rosa Pedralva que a moça não tinha mal nenhum. Pediram-lhe sinais. . a Florinda. que há muitos anos exercia as funções de parteira e se julgava no direito de coscuvilhar em todo o sector de tal actividade. isto é. acabou por confessar no meio de choro convulso que um homem das minas abusara dela na serra. em água celestial. e agarrou-se a ela a ganir e a soluçar. bons cem mil reis com que ela teve de explicar-se. lançava âncora pelo Aires. Pulsou-lhe de ouvido colado sobre a camisa o fervor de todos os respiráculos. que nunca os noivos ficariam roubados quando lhes fossem a tocar? E tais doestos lhe dirigiu que ele mandou-a calar. estimulada pelo romance apaixonado de Teodora. Apertada pela Ana Ruça. em lágrimas. uma vez que fora aos fieitos para deitar na cama da porca. rufou-lhe no tórax aqui e além com o dedo em martelete. Caiu ali o Carmo e a Trindade. levantando-se. na cama. e foi como se caíssem as escamas dos olhos de toda a gente. ora em Muradais. palpou e tornou a palpar-lhe a bacia. Entretanto dava-se no povo um acontecimento do mais castiço e avantajado melodrama. como certas trovoadas. outras de meia-idade e com calças de bombazina. meio condoído do desaire: . para a auscultar. mandou-lhe que se desapertasse e estendesse ao comprido. antes de a praga do volfrâmio desabar sobre o mundo. A própria tia Rosa dobrou a cabeça. A opinião. depois de muitas negas. ameaçando-a com uma polícia se continuasse a faltar-lhe ao respeito. que noutros tempos. Umas vezes era um homem novo. o que ela fez com enjoada e retardativa obediência.Oh. que te mato? Dizes quem é o varrão ou é aqui o teu último dia. adormentando-se com o tóxico de ambas se verem desinfelizes da sorte. porquanto não podia considerar-se a prenhez como enfermidade. juras e trejuras. confidente de todos os 178 . Olharam com olhos precavidos para a barriga da moça. depois de lhe exigir o preço da visita.É fácil de perceber. Sua filha está grávida e duma gravidez muito adiantada. dizendo-lhe com ar meio zombeteiro. decidiram os parentes. ora empregado no Vale das Donas.

Soubesse-o eu e era capaz de ir matar o carrasco. A pobre mulher quando a rapariga lhe foi com as suas dúvidas. se não quisesse reconhecer o meu filho. na noite do entendimento. estranhou aquela comédia e mistério e notou a singularidade de certos factos que tanto podiam ser naturais como não ser. tempos àquela parte. não se sabia bem porquê. Mas recalcou o desânimo e porfiou.Quem foi que te enganou. respondeu como se a tivesse mordido uma víbora: . quase arisca sempre que a conversa descaía na desgraça que lhes batera à porta. Teodora contou o passo à Maria Aires que disse: . por festas. de se quererem bem e derramarem em ternuras quando se encontravam. a Teodora para o Augusto Aires. Se qualquer delas erguia a voz. não deixou de verificar Teodora quanto a amiga se mostrava reservada. onde se via uma. E logo ela. E abriu-se com Maria Aires. deu salto. com os seus palpites e sobretudo com as suas esperanças.Jesus. carmeadas e romarias. ouvi dizer que a audiência está marcada para breve. Como era do domínio público. E seus olhos de mãe viram ao longe. tais carinhos prodigalizou à casquivana que ela pouco a pouco foi-se despojando de sua frieza e prevenção. Teodora fez-se encontrada com Florinda. na esperança de acharem o fio que lhes ajudasse a desenvencilhar a meada em que estrebuchava o Augusto.derriços. sou capaz de jurar numas Horas que nos achávamos no bom caminho? 179 .. E tanto fez. com reatarem. para mais desafortunadas ambas. Uma ocasião ousou avançar a sonda: . olha tu. a Florinda começou a pender para o Luís Ougado. No entanto. e foram pouco a pouco apartando-se sem deixar. que não iam lá muito à bola um com o outro..Soubesse-o eu. entreluzir aquela pequenina e providencial estrela que nunca falta aos sequiosos de justiça e sonhadores com seu clarão piedoso. logo a outra acertava o tom. Que vai ser do meu filho! E. estava a outra. Nossa Senhora. toda a sua amizade e mútuo paparicalho voltavam ao que tinham sido. fitando-a muito no fundo dos olhos. todavia. De repente. Cerra-se outra vez a escuridão sobre nós. E traçaram um plano. Florinda? Hás-de-mo dizer que eu guardo segreào. Agora.

chamou o tabelião e as testemunhas para dentro de casa. De caminho. sinal de engulhos. formava cortejo atrás deles. A espaços as testemunhas pigarreavam.É o senhor Calhorra. deu o recado: . claudicantemente foi recebendo a vontade da mulher. quando Deus for servido de chamá-la a contas.! . Bárbara puxou do pacote de notas... Ela. chamando-os à razão..proferiu o Calhorra abanando a cabeça. adivinhou logo o móbil que os trazia. Sou o notário novo de Tendais. . Polónia. faziam estardalhaço com os tamancos. mal os viu. lá assinaram todos.Uma tal Bárbara Ladeira que deseja assegurar o bem-de-alma. Tem para aí uma familagem mais cainha e derrancada que. A Polónia foi a primeira a romper o quebranto: .E anda com juízo. que trazia na patrona. Estavam com reverencia como quando se ministra um sacramento.perguntou o Lázaro Fandinga. Depois. E erguendo-se muito guicha. assinou também o notário. nem um padre-nosso lhe manda rezar por alma. Vamos lá. ditada em voz baixa. fechou o livro.e Tadeu que me disse para bater à sua porta. . Foi preciso que o Silvestre Calhorra os admoestasse. Foram encontrar a criatura à porta da quintã a carmear. na saquinha.Raios a partam que está aqui está no inferno! Não querem lá ver que a alma do diabo foi amiga dele?? Queriam desancar a mulher. como era lagóia fina.Essa agora. Permaneceram assombrados e mudos como se lhes tivesse caído uma faísca aos pés. para missas não dispôs nem um real! O padre também ficou a chuchar no dedo. depois de cumprimentar. . Tenha paciência.XIII Um sujeito desconhecido apareceu à porta de Silvestre Calhorra. e pagou. e lenta.Deixou tudo ao Antoninho Fráguas que é o fiel testamenteiro. . amaldiçoava aquela colondrina e votava a todas as pragas do Egipto o 180 . ao passo que dizia para a turbamulta: .. encafuou-c. Saiu ao patamar o senhor presidente da junta.Então de que se trata? .Mora perto a mulherzinha? . . a esganada. Consolai-vos. de bicicleta. com um livro a espreitar pela abertura do saquitel de lona. . se não deixa o preto no branco. podeis fazer cruzes na boca . suspenso do guiador. com uma agilidade que não lhe supunham. há-de vir servir de testemunha e arranjar mais duas que sejam competentes.Então? . a quem. em tamancos e mangas de camisa. o que maravilhou o Fandinga que a um canto se benzeu com a canhota. rolhou o tinteiro. mas quando chegaram ao destino já a parentela. o Calhorra chamou o João Sancho e o Reganha que não eram nada à testadora.A dois passos. não é? Foi o reverendíssimo senhor p. É só pôr a véstia.M’amigos. avisada pelos alvissareiros e apreensiva como se pode imaginar. em voz de ladário. aqui não há bêberas! O notário improvisou a escrevaninha em cima duma arca. mal aqueles tios saíram de cambulhada com o tabelião.Esperem lá fora.

alguns a cavalo. que metia duas camionetas. que nada lhe falte em casa. E com a voz tomada do vago e do maravilhoso que há na aventura o Fandinga exclamava: 181 . de Mouramorta e localidades convizinhas. davam à taramela. Soube-se depois que.Sabe-o Deus.respondeu o Calhorra com a segurança de presidente da junta de Paróquia que mandara afixar os editaís nas portas da igreja.) e boa paparoca. Dois dias andados.Trancas corridas. hem! . a sua Polónia dinheiro para uma fornada de pão.Mais de duas dúzias. Andava com uma turma de homens a plantar uma bacelada e ao cabo de breve instante de surpresa proferiu sorrindo: . o Celestino da Maria Choca um relógio de plaqué. o José Reganha um chafariz à porta.Deus a leve lá por longe . . embora menos luzido que o do Fráguas. Coitada. a Maria Choca e a Cismas cada uma em sua jerica. com urna gente a fugir pelas serras. outra escondida nas minas. A Ana Ruça que se ocupe da criatura. estrada e caminhos que levam à vila de Orcas iam coalhados de pessoas que.O que te digo é que vai uma sangueira pelo mundo que as malvas quitam que lhes chova para crescer. e dois paparretas sem vergonha e sem camisa.ladrão que se ia gozar dos bens que haviam de competir aos seus perdigotinhos pelo direito estabelecido. e assim por diante.Nuns sessenta contos. Muitos a pé. os povos incendiados e a soldadesca inimiga de sabre em punho a picar a gente na barriga e na sola dos pés até se lhes prantar para ali o bagu@nh. acrescido com os trânsfugas do arraial contrário. ainda há quem se lembre de mim. Hoje semelhante quantia não é dinheiro. contando que recebera uma roupa nova para jurar falso. . o Carrasco. Naquele alinhavam em suas éguas rabonas o Calhorra. transmissão e alcavalas de vária ordem não cabia a cada bico um conto e quinhentos.inquiriu o Zé dos Cambais. o jamboto coveiro. compadre.disse Lázaro para o Calhorra. e em ranchos consoante o partido e afinidades. o Zé dos Cambais.lamuriou a Casimira Urra. . informavam o senhor Antoninho Fráguas da caprichosa tineta da Ladeira. corriam para a audiência. Podiam contar-se pelos dedos da mão os que perduravam fiéis: Luís Ougado. Vieram-lhe dizer que em Malhadas e povos limítrofes não se falava doutra coisa e o apodavam de azeiteiro.Leve o quê. de pau argolado o Fandinga e os Urras dum e doutro ramo. O mais patusco é que o Fandinga lhe denunciava alto e bom som a obra de sapa que empreendera para fazer condenar o assassino do filho. É favor que lhes faço aceitando o legado. era o mais numeroso. Para abreviar a caminhada. .Então o Governo chamou as praças de há dois e três anos . . O do Aires. A parentela de Bárbara era numerosa e aí perdia a patuleia do Fráguas o contingente mais garabulha e arrifador. . comadre? . Pois que havia de ser? Tinham da guerra a ideia atávica que se lhes infiltrara no sangue através de gerações e gerações martirizadas.Com o imposto sucessório. . . o Sancho.Quantos eram os parentes a herdar? .A guerra. uma hora não era decorrida. de que Deus o havia de livrar. Por ora não há outros ventos . Encolheu os ombros.Em quanto avaliam a sorte da mulher? .

. Uma cancela pintada de fresco cheirava ainda a zarcão. A partir de Pedrões.a . cor de marfim.gemeu a Rira Cismas. a cento e cinquenta escudos o quilograma. Arrulhavam as rolas no pináculo dos pinheiros e as calhandras erguiam voo aqui e além. deparavam -se. Por modos. e relampejava entre as pedras a casaca furta-cores dum sardão apavorado. Estavam ali enterrados uns centenares de contos. a maioria lucrou.Fráguas & C.Mesmo com alvará de franquia. . e mais nada.Se é para matar. estrondo de tiros.Nunca vim bem ao fundamento porque é que o Governo deitou um barbilho assim apertado a quem andava neste badanal do volÊro . cales da lavagem. . Também já o rosmaninho erguia ao alto as suas pequemnas piaçabas roxas e aqui e além a umbela da esteva chamava a abelha ainda recolhida.trazia o bolso quente doutras empreitadas.Todo o bicho-careta se pôs a esburacar na terra comentou o Calhorra ante o panorama. Passou um arrepio entre eles à voz crocitada. À medida que desciam a lomba alpestre que mergulha para o rio. senhor compadre? . não vai mau. como se unha rascanhasse uma ardósia. . vozes ásperas e todo o borbulhar do formigueiro humano.acrescentou num lamento. Ouvi estar a ler que a guerra agora não se anuncia de véspera. telhados de telha novinha ensanguentavam a onda de verde. botam-se abaixo dos aerop)anos e toca a pôr mão forte em tudo. Estava uma manhã clara de sol e pelos caminhos as giestas desfaziam-se em cataratas de flores amarelas. . assustadiças.Para que é? Para matar. Mas à labuta infrene dos meses anteriores. assim a guerra arrame lá por longe. apodrentava às intempéries.perguntou a Cismas para o Calhorra. tinir de marras nos guilhos. Olhem- 182 . ninguém ia esfossar na terra. Uma noite chega e cresce para ocupar uma nação. ingleses e alamões haviam de levar quanta mistela cá há . Na Cabeça de Alva a obra de engenharia.lhe a cada passo vestígios da recente mineração. . mas quem os perdera . Não se viam nuvens no céu e o Calhorra.Não faz cá falta. A aldeia dava ares de ter rejuvenescido. a pedra nova de arranque entre montes de saibro a descorar.. espraiando olhos às duas bandas da estrada e sentindo os baratais livres do codo e próxima a hora de deitar os feijões à terra. Sobre os desmontes esvoaçava o cartaxo. .O ano não vai mau. dizia consoladamente: . Paredes acabadas de erguer seguravam socalcos agenciados nas vertentes.apoiou Manuel Urra. barracas jaziam à mercê de quem vinha arrancar-lhes um braçado de cavacos para fazer fogueira.Se alguns perderam as orelhas. Sarilhos. Sobressaía do mato galego.Ele para que é o volfro. Não chegava para os aguços da ferramenta. a rabugem vegetal estendia já uma coirama verde e fugidia. Pelas pequeninas ladeiras. começavam a aparecer pelas encostas as pequenas explorações de volfrâmic.Anjo bento? . ainda que elementar. as balas caldeadas com volfro matam melhor e chegam mais longe. Em alguns desaterros. . Às duas por três. com a água a cintilar como cutelos dos côrnoros para baixo.disse o Zé dos Cambais. acima de tudo lavrador.Assim seja. sucedera a imobilidade sepulcral. abandonadas. . encoiradas da erva primaveril.Também sou dessa opinião . . alvas.Pois não é ele o mais interessado em que a gente leve vida direita? . à beira das trincheiras.

É certo o Aires.Que vais tu agora dizer. Na sua voz tartaranha. Manuel Torres.já chegou à razão com o Dr. Dispensada a leitura dos autos. Também ele dispunha duma pequena Intelligence Service. articulando um português infernal em despeito de habitar o país havia mais de vinte anos. E tu. Quase às portas de Orcas passaram pela caravana. e de mister Corbet. essas encostas salbradas.me para essas casas novas . . Entre as da defesa. dois repórteres. magro como 183 .Se fossem para baixo de Viseu. prestar-lhe de tão boa mente e com o maior desinteresse os serviços de mecânico e que no seu ânimo o facto ficou a pesar como estrondoso obséquio. à tenda. Cansado de bater o Tavolado.E muita morte! . Entretanto o debate com dizer. . e não lhe deu resposta. nada mais que solicitado pela pobre mãe acabrunhada. com sala tão cheia que se abafava.chalaceou o Fandinga. de bom grado anuíra a depor em abono do Aires. A audiência abrira à hora precisa. o que surpreendeu muita gente. Um dos Urras dizia: . A noite é dos amigos. Que sabia ele da vida e costumes do rapaz? Sabia tudo. aves estranhas. Mais ocioso que um burocrata da província apenas um fidalgo também provinciano. Nele a libra esterlina não achara furo e não tinha pejo de confessá-lo. não direi mais nem menos. Levado pelo sentimento de justiça.E até o fez a vossernecê rico . se é que não estendia até ali seus ramos a maior e mais decidida instituição de defesa imperial que se for)ara a Inglaterra depois da Home Fleet. advogados. meu casaca virada? . verdades como punhos. Luís Ougado. refractário à venalidade..E para os distritos da Guarda e de Vila Real também há que contar. manténs que foi o Augusto que matou. que não disseram nada de novo.Vou dizer que o Antoninho andou pelas portas a ensinar-vos a lição e a prometer-vos peitas. do concessionário Hincker e engenheiros. novamente indicadas. inquiriram-se as testemunhas. Uma delas interpelou-o: . Torres para a compra do casal? O Calhorra punha sempre um certo pudor em assoalhar não só grandezas corno acrescentamentos e não se dignou responder. arremedilhos de verdades. com pequeno intervalo. de abrir a boca e lançarem olhos assarapantados às criadinhas que vão ao talho. os automóveis do Dr. ainda que sobrepondo-se ao empenho notório do seu corretor Antônio Fráguas. até destrancarem portas as repartições. foram aligeirando a jornada. outras vezes. testemunhas. umas vezes. tudo no seu posto. Os serranos fartavam-se de roçar as ombreiras dos Paços do Concelho. Sabia quanto o Aires era dotado de um carácter íntegro a toda a prova.exclamou o Fandinga que gostava da contradição. O volfro deu muita vida! . Falto à verdade? Quanto a mim. ouvido o réu. rijo e direito como os negrilhos da serra.. magistrados. que também fora dado como testernunha de descarga.esses calços. mais admirados ficavam. no rosto uma expressão esverdinhada. Mudou tudo de pele! . e a manhã está por conta própria. O Ougado fitou-o com um olhar de través. causou sensação o inglês mister James Corbet. uma vez que o carro lhe estava empanne... Orcas levantava-se tqrde. de moinar pelos quiosques. Sabem quem foi que fez tudo isso? O volfro. o Fandinga encontrou-se com as tes rem unhas fixes do Antoninho Fráguas. na paz dos lençóis. ao padeiro.

Franz Hincker limitou-se a abonar o bom proceder do réu. começou por puxar o velho cavalo de batalha do foro criminal: a quem aproveitara a morte do José Francisco? . o que mais lhe importaria.Faz obséquio . imprevistos cuidados quanto ao objecto da sua paixão. chamou a estes zelos fumo de amor. Sentou-se. o encanto dum troveíro à arte de dizer dum contador de histórias. sem grande inédito. Aires não matou. dir-se-ia. a limpar o suor. que no dizer do Calhorra não aquentou nem arrefentou a justiça. notou-se que caí ra a fundo um pouco desatinadamente.proferiu o Dr. e o engenheiro Severo Bacelar a desenhar em pequenos e nervosos traços quem era o seu primeiro. o seu ricto de odioso e odiando impregnado do palpite de que fora desastrado e. e era de presumir que por simetria psicológica no ânimo dos juízes. Por conseguinte destituída de valor probatório.Afirma o colega que o réu estava seguro quanto à vontade da moça. . . se não extinguira o sussurro. como bosque batido pela rajada. E o efeito que esperava duma opinião prejudicial para com o réu escapou-lhe de todo. não apenas ciúmes. não haja dúvida. de que perdera a vaza. . Sem embargo de ser homem provado no foro e matreiro. o pescoço a sair dum colarinho de goma de inverosímil altura? declarou voltado para o juiz presidente: . quando é que deixa de nutrir zelos e sofrer todo esse assalto de feras.anuiu o Dr.Eu ver Aires poucas vezes. mas o bastante para formar juízo seguro a seu respeito. ao verificar a reviravolta que se produzira no público. sentia-os.Dá-me licença que lhe dirija uma pergunta? Serei breve. receios. aliando. a afirmação de que o réu não acalentava a menor suspeita quanto à retribuição do seu afecto foi produzida post hoc. em face da atitude confiada de Aires e das palavras impressivas do inglês. quando é que um homem apaixonado . As outras testemunhas não trouxeram luz nova à causa. toda a casta de bicho-homem. E porque me ufano de conhecer nosso semelhante. Ora não são eles que cegam as almas mais diamantinas e armam tantas vezes o braço do mais pacífico? De resto. A sua voz era colorida. como é constitucional na sua raça. Ainda na sala. Depois o advogado acusador encetou o seu libelo. . a sua rectidão. Sim. amor ao trabalho e culto do dever. certo da vontade de Teodora. indiferente a agradar ou a desagradar. calcorreando com pequena diferenç a o caminho andado na instrução. Torres. depois de fazer a síntese das excelentes qualidades do seu constituinte. desencadeadas pelo mais divino e infernal dos sentimentos? Alguém. tratado com muita gente. senhor! A acusação não ousara instá-lo. Calabaz interrompendo-o a certa altura.. mas apreensões. afirmo e garanto que Aires não matou. Torres. e sempre gentleman. isto é.gostava que me dissesse deixa de nutrir zelos. conhecer homem. já o volantim do meirinho introduzira nova testemunha.. porque seu natural não consentir. 184 . inteligente e discretíssimo capataz. não esqueça. embora sem patético teatral. Aires não podia matar. Mas ainda nesse caso. à parte a ressentida deposição do Fandinga e afins com uma vaga história de suborno. quente. Se Aires amava.espinafre. cuío nome não me ocorre. senhor. Eu ter andado as sete partidas.de seguro efeito como prelúdio. discutível. Dê-nos de barato que assim era. amarguras. após uma vénia mal esboçada abandonou a audiência. demonstrando que não ao Aires.

gentes? Deixem passar! Naquela mesma manhã do julgamento. outro dia.. mas aí. Sempre te quero dizer uma coisa. Mais bem desventurada sou eu. .. nem os meninos nem o vivo.. mas.Teodora. .. do que pagarem os filhos pelos pais e os justos pelos pecadores. cruzar os braços e deixar que a justiça julgue às cegas quando podia ser guiada.. se há gente que sabe e se cala. ninguém como nós duas para se entender. hirta e de caradura feroz. menina. . Que dizes.Sei muito bem quem matou o Zé Francisco. Vieram-me dizer que a Bárbara esteve há pouco com este aranzel para a tia Ana Ruça: . o ramalhar das vozes foi crescendo como sacudido por desarvorada comoção. Teodora. Mas eu hei-de ser madrinha do teu filho e tu por um lado e eu por outro o acautelaremos das horas más... é para o castigo ser maior! Nós não andamos a pagar por conta dos nossos primeiros pais? . Tu és infeliz. Eu sei como foi. A ti.. o homem ficou debaixo duma casticeira ao cortarem-na para fazer traves. . No bom pano urna nódoa cai e nem por isso o pano fica inutilizado.? E desatou a soluçar em tão forte e atribulado choro que Florinda se comoveu. Se mo levarem. fica-te o sorriso do menino para te consolar. Eu sei quem matou.. que não era.Então. Em Riodades empeceu assim uma família inteira. Um dia caiu-lhe o raio em casa. só um monstro.Ouve.Neste momento rompeu da teia um burburinho anormal.. tenho vergonha de o dizer.. Que era. se o meu filho havia de padecer por minha culpa... E cravando olhos duros nos olhos de Florínda. ouve. o meu homem.Pelo meu filho darei o sangue dos braços. eu nunca mais serei mulher se me levarem o Augusto. e também há outras pessoas que o sabem. .Pois bem hajas tu . pergunte-o ao Volfro! Ela. sir-n. e Florinda tornou.Para mim o mundo acabou. podem condenar um inocente e é uma quebração de alma. . agora que se desquitou do seu querer. jurar falso é grande crime. não lhe ia nada por diante. até o coração me estala? Teodora continuava a arquejar cada vez mais violentamente e a desfazer-se em lágrimas. parece tolinha. bem está! Mas que culpa tinham as outras pessoas da família? . ai Jesus.respondeu-lhe a outra enternecida. morro de que se saiba! Teodora ergueu-se com brusquidão. Mas.. puxando-a com brandura pelo braço e afagando-a: . se mo levarem..Dize lá. . .Nã o lho digo. eu sou infeliz. voltavam-se todas as cabeças.Então quem foi? . como espadas que a trespassassem.. também te digo. Teodora entrou em casa de Florinda com olhos roxos a tanto chorar e falou-lhe assim: .Se foi o homem que pagou por se ter calado.? Olhe.Deixem passar. se for rapaz há-de chamar-se Augusto.Nada mais certo.observou Florinda.Teodora ... que ele há-de ser um amor como tu.Assim tem empenho em o saber. comete um pecado que não tem perdão aos olhos de Deus. e não se lhe tira coisa com coisa. o Augusto está inocente.. ondeava o auditório. Certas palavras esvoaçavam mais altas: . . pionunciou: 185 . .Quero fazer-lhe um enxoval muito bonito. .. se for rapariga.murmurou ela.Jesus.

. Tu vais-te arranjar depressa. Com um olhar consultou os colegas e logo inferiu pela expressão de suas físionomias que não viam inconveniente em que se ouvissem as criaturas. ah. ...a querer falar. senão está tudo perdido.. com ela albardada sem manta nem xairel. Esteve um instante imóvel. as lágrimas embargavam-lhe a voz. Angelino como eu.? Que há? bracejava da tribuna o senhor juiz presidente. Havia uma dúvida a esclarecer. quando podes atalhar!? Deus castiga sem pau nem pedra! Castiga-te no teu filho.?! Florinda arregalou os olhos espavorida.. calçar os sapatos. como é condenar um inocente.Estão ali duas mulheres que dizem ter uma revelação importante a fazer. desgraçada. mas também não vejo vantagem. pediu a burra à Casimira e.. Com outro olhar sondou os advogados.. A priori podemos ajuizar que a anunciada revelação não passa dum drop. em dispensá-la.Franca.? Acenou afirmativamente e. depois que a viu resoluta quanto a alijar o horror daquele segredo. declinou ao ouvido de Teodora as temíveis palavras reveladoras. ou o pior dos malvados! Não vês os tristes espelhos pelo mundo.Quem são as mulheres? . com medo de que o próprio vento ouvisse. não vês.. zás. não veio inconveniente. O Dr. Veio o oficial de diligências direito à mesa e proferiu em tom que se fingia reservado mas soava com nitidez suficiente para ser ouvido nas primeiras filas: . Mas já. qual.. pois tu sabes a verdade e não a dizes. tanto quanto se pode considerar feita com almas rudes que se entrincheiram na negativa e daí não saem nem à mão de Cristo. que sai aleijadinho. que era a Verdade encarnada.. Essa Teodora produziu à altura devida o testemunho que muito bem lhe pareceu. um drop fondant de suspiros românticos e lágrimas à 186 . chegou a casa cobrir o xaile. E tapou logo o rosto às mãos ambas. . O colega não deixaria de notar essa circunstância..Uma delas já foi inquirida e dispensada pelos senhores advogados: é a Teodora. Conhecemos o truque.Apareceu agora esta Madalena desdobrada . Manuel Torres acenou afirmativamente. Consta dos autos. Voltando do estonteamento Teodora disse-lhe: .. tanto o Dr. Concordámos..logo me dirão se a mulher que a acompanha não envolve um desdobramento . E arquejando. abalaram as duas para a vila.Ó mulher. .Os guardas não sabem manter a ordem. francamente. tão grande que nem tem perdão. para que não resplandecesse a sua vergonha confessa. .perguntou o juiz descendo o sobrolho. cego. pupilas em alvo. para que a amiga a não visse.Se os patronos das partes não vêem inconveniente. muito depressa. É singular que apenas neste instante que a prova está feita. no mais opressivo desgarre.. soluços. A partir de certo momento deixou de dizer coisa com coisa. ah. e o colega decerto está ao corrente. Tu és capaz de deixar cometer um crime tão grande. ah. gesto esquivo. Fazia-se-lhe uma pergunta. Chorava. mas acudiu-lhe que valia mais formular o quesito segundo a norma: . apenas neste instante nos venha com o archote aceso. A outra não figura no processo. já.. a aduzir um pressuposto facto à sensation. ? O aterrador levantou o cartel: . Vou-me arranjar. O senhor juiz mostrou-se perplexo..Tens de ir dizê-lo ao tribunal..

senhor juiz? . de acordo com S. que me dizem batedor de montes. e o meu parecer é contrário. Aqui o sal amargo. pertence-lhe a palavra? O senhor Dr. Em nenhuma parte tenho menos medo de tais produtos do que à barra. na guerra ou no sport. . Angelino. Se S. em face dos processos pouco generosos do seu opositor. eu não os pratico. xaile de seda e saia de merino. de ser instada.Mande entrar as mulheres. sem embargo do agreste e obsessivo. Abriram-se alas e Teodora apareceu no seu traje meio senhoril. Ex. Mas adiante: é exacto que o Dr. Quem aspira a tilintar esporas de oiro. Ex. passo irresoluto e todavia certos ademanes de cascaroleta. o juiz ordenou para o oficial de diligências: . a lavradeira de posses. Eu. inspirava imediata simpatia. lá cozinha-se às vezes ou quase sempre com mau tempero. ocupado em deliberar à puridade com os colegas. se continuasse a ocupar este lugar. no seu lugar. Penso assim e porque penso assim e estou pronto aqui e em toda a parte a responder pelas minhas opiniões. Atrás dela. que se dignou anteceder-me.Temos filme americano . chambre de seda cor de azeitona. melhor.a. Teodora pede para voltar à barra e eu não sei para quê. e as palanganas da garganta. proferiu: .Realmente a cena parece de Hollywood . Também não o julgo picadeiro. cabelo almofadado em tranças para a nuca à antiga moda campesina. Acusar ou ainda defender para levantar o pleno pareceme contrário à mais elementar moral judiciária e sem dúvida alguma ao tópico a que obedece o foro: justiçar.E. Muito menos roleta. para que não subsistam mais dúvidas de que o meu constituinte matou o José Francisco tanto como S. não tivesse rebuço de confessar-se arrependido de haver cedido a um movimento precipitado de compaixão.uma flor das serras que. a vida faz-se aqui. Nunca venho para aqui representar. Por tudo isto.a. Para mim o pretório não é um teatro.retorquiu-lhe com sorriso sarcástico o Dr. Torres. Ora essa. pelas arrrecadas pomposas e cordão de muitas voltas. não vejo vantagem.Mariana Cruz com manhas gentis de Frineia. Estava mesmo a adivinhar! . portanto. protesto indignadamente contra a insídia com que veio o senhor advogado da acusação. como são os senhores magistrados.emitiu a defesa. nem desvantagem para o processo em que se ouçam as proponentes. Mas bem. Dá-me licença. matou um leão nos matagais da Nave.a os pratica. Traz a cabeça do criminoso na bandeja? Pois se traz. vá ganhá-las algures. amochava~se Florinda. O juiz mirou-as com aparente frieza e no silêncio leve e súbito que enchera a sala. comummente praticaríamos. com pessoas de gostos sãos e objectivas. Ex. Calabaz aludiu a truques que todos nós conhecemos e que.chasqueou o advogado de acusação. 187 . Repilo a insinuação e o contubérnio. denotando pelo vestir. olhos baixos. talentoso quanto novel advogado. não tem aplicação. puxando os punhos de goma.Sabemos quem foi o assassino. ter-me-ia arrependido. Talvez que. como não. repito. . Requeiro por conseguinte que sejam ouvidas as mulheres. dispensou Teodora. ar contrafeito mas animoso .Que têm a declarar? Depois duns segundos de turbação Teodora respondeu com voz corajosa e bem timbrada: . de barriga à boca. Após brevíssimo aparte.

entretanto. Os juizes reconheceram que o incidente só podia ficar encerrado imprimindo-se ao processo o seu verdadeiro rumo.Pois sim. o Ougado sabia que o outro costumava vir ter com ela a casa quando tudo estava sossegado. cambaleante.Felícito-o sincerarnente.Não fui eu. Notaram também os juizes como o homem se tornara farrapo e em seu foro íntimo confluíram ao parecer geral.tornou o )Uiz em rom rosnado. O público desatara na mais estrepitosa cachoeira de vozes. Tanto valeu tanger a campainha da ordem como chamar pelo miraculoso padre Santo António. o gajo mandava-te ver a Costa de África. não fui. perdido na fila das testemunhas.. Os advogados observavam-na com silenciosa curiosidade.Excomungada sejas? Tu. entrecortada de pausas e suspiros. o que procuraram realizar durante a suspensão. O José Francisco a sair a porta e o Ougado. pelo esmorecimento fisico geral. Na noite de S. Demais.É aquele homem? . era já o náufrago que não tenta sequer resistir contra a onda.Se sabem quem foi o assassino. Sempre disse que este estupor do Ougado havia de acabar mal. compadre Zé dos Cambais? Também tu.. é que causaste a minha desgraça! Mas o oficial de diligências agarrou a rapariga por um braço e levou~a à presença dos juízes. . Postada à janela vira tudo. Augusto. hão-de prová-lo.Não tem nada a opor? Só então o Ougado se ergueu do assento. Todos os olhos incidiram sobre o arguido e nada mais que àquele simples conspecto não houve porventura ninguém que não ficasse convicto da sua culpabilidade. Pretendera ainda? desenhar um gesto de protestação. de que havia lembrança naquele tribunal afeito às audiências plácidas e sonolentas. mas logo no começo da trajectória o braço lhe caiu flácido. mas fora tão rápido que levara menos tempo do que se gasta a dizer. descosendo-se da sombra. digam-no? .. Aires? 188 . de ar sonso e cabisbaixa ao pé de si. a lançar-se sobre ele de varapau. Era preciso vingar o assassinado. contou o seu pobre romance.e Teodora apontava para o Luís Ougado. Viva o amigo! À sua retaguarda Silvestre Calhorra abanava a cabeça: . de imprecações. Reparando em Florinda. Estão com a lágrima no olho. O mais era a história da sua vergonha. tratei de cumprir o meu dever. atinara a descobri-lo. decorria a lastimável peripécia. Mas já que dizem que fui eu. Na teia. pois sim. Brás tê-lo-ia andado a espiar. O Luís Ougado caía de borco a soluçar. como se o desgostasse o rumo que tomava a audiência. O presidente interpelou-o: . só tu. de juras. ergueu-se a increpá-la: . melhor eu não podia desejar. Eu nada tinha de animosidade pessoal contra si. lívido. O verdadeiro matador entregou-se.. que tivera o casamento emprazado corri ela. Houve que fazer evacuar a sala. Por isso não o quis mais comigo. não fosse a cachopa. O desgraçado fizera-se branco como a morte. Trouxeram-lhe um copo de água. Célere e fugaz corno enguia foi o advogado aterrador cumprimentar o Aires: . a dizer num pobre esgar: . senhor juiz. Aquilo.?! Também tu. pelo olhar vago. O José Francisco era o seu amigo e o Luís Ougado. O senhor juiz incitou-a a dizer a verdade e ela em voz tartamuda. sentindo-se que o seu regalo seria meter-se pelo chão abaixo.

Quem se cria capaz de empunhar a seitoira. tronco projectado ainda na flexão da fuga. A rapariga arquejava e não respondia. e a criadagem a precipitar-se ao seu encontro humildosa e alvissareira..? Onde está a senhora? . a criada de dentro. tendo baque de que devia ser ela. Tinha-a já agarrada pelo pulso e. outro pé na rua. o íntimo inundado de febril regozijo. velho de sete fôlegos virou-se para a banda a limpar às costas da manápula também a lágrima. obrigada a tendas de campanha e vedetas da Rádio e do Cinema. Para onde se tinha metido agora toda essa estúpida cambada? Era obra de meia manhã e.Só Teodora estava ao lado grave e serena. desse lado. 1 gemeu com voz entrecortada... lhe pregara a partida de ir de lágrima no olho. eu digo. e. Conhecedora do seu gênio impetuoso e feroz. O Antoninho. junho tórrido e pães lampos.. rosnava: . presidente da junta de Freguesia. pedir asilo a segundos. a porta conservou-se como a janua c(eli para o mau ladrão. Era como se estivesse diante da casa dum pestífero. As donas que poderiam ter ficado de portas adentro não seria cómodo desviá-las da caçoila em que grugulejavam as papas para os segadores. ó coisinha. mal entreviu um lenço vermelho a esvoaçar. Silvestre Caffiorra. espera que já vais! Ante o seu rompante a criada suspendeu-se com um pé no limiar. E de braço alçado ante secundar o golpe. não se avistava vivalma.. mas largue-me! Há-de-me largar primeiro. seladas portas e janelas com os sete chumbos do lazareto. Aquelas palavras era eloquentes o que basta para certificarem-no de que alguma coisa muito séria se tinha passado. Espraiando olhos pelos caminhos e as quintãs.Que me quer? .Pscht. já por duas vezes Solange. rompera com desabalada sanha a faina das ceifas. Subiu a escada tão de afogadilho que à moça minguou o tempo para calçar as tairocas. senhor Antoninho. ao passo que a fazia retroceder para dentro da cardanha. exclamou: . eu digo. acompanhado destas cóleras que lhe faziam retrincar os dentes e toldavam o lume da razão.. o carro a estacar à porta. tinha a casa da mãj ali perto. Foi pelos quintais e. Por muito que batesse com mão rija e frenética. o prédio ofereceu-lhe a mesma impenetrável e insólita clausura. ao largar pela porta das traseiras.. se empossou dele. desamparando o lar. o que buscava era eximir-se a ser o desopilatório. correu-lhe no encalço: . sabendo que lhe era precisa uma cabeça-de-turco nas suas raivas de fera para não morrer sufocado. Um vivo sobressalto. gemendo: ... queixosa do seu desamor e vesânias. largara para a folha. No fervedoiro da ira. mas solte-me o braço. o Antoninho Fráguas encontrou a casa fechada. Dize... eu digo tudo.Ouves ou não ouves.. a Maria Alonsa fitou-o com ar espavorido. A moça. e botou-se lá dum salto. uma lágrima envergonhada. . cravava-lhe as unhas na massa da carne. Promessa assim reticente valeu-lhe logo um cachação despedido à laia de amostra..Eu digo. E por 189 . juro-lho pelas cinco chagas de Cristo.Dize depressa! Dize lá e largo-te. cabeça à retaguarda.Pois sim.. amortecendo com sete vozes a um tempo o desagulsado da surpresa. acudiu-lhe que a Maria Alonsa. Mas dessas vezes. De volta durna pescaria às trutas no alto Paiva. não olhes para mim apalermada.Onde está a senhora?.

e as manápulas do Fráguas erguiam-se e baixavam-se no dorso da rapariga com um ritmo cada vez mais acelerado e violento.. como não fosse perseguida.. a Maria Alonsa largou pela quelha fora. Uma das mãos dele não fez mais que deslocar-se. Pronto. Sabia. o que equivalia à rendição e a uma censura. Pega!. teimosa e convulsionando-se. já. mas meu pai e meus irmãos hão-de saber ainda hoje quem foi que me desonrou e é meu amigo! Que tal disseste! Os dois braços do Fráguas desataram a malhar alternativamente como um jogo de dois manguais. Ferrando-a pela garganta. Pudera: Faze-te niorto.. sem poder mascarar suficienremente a fúria homicida que lhe estuava no sangue.. Como uma cadela batida. seguido dum terceiro que a repôs na vertical. seu procurador.Ai. Então ela rompeu em altos gritos: . pequenas e grandes ninharias. também lhe chegou a vez! Foi-lhe bem feita! Ia a arremeter.Não digo e não digo! . o Minga segurou-o.Há muito que sabia que a senhora era amiga do Calabaz.Quem me acode? Quem me acode! Quem lhe havia de acudir? O Fráguas atirara a porta contra a fecheleira. Ao Espadagana. confidente e amigo íntimo.? . fora ludibriado da maneira mais imprevista e desbragada. Não havia que ver.. A 190 . certos gestos que pareciam insignificativos e vozes absurdas que lembravam bexigas de porco à dependura. vai! Apareceu o Minga que lha safou das mãos. E escumava: ..Não. proferiu em voz atrida. não dizes.Levou quinze anos a querer persuadir-me que era uma pobre e santa rapariga e que eu não passava ao pé dela dum gabiru de marca maior. o vago e cínico luaceiro.Seu malandro? julga que é só armar os outros coronéis! Foi-lhe bem feita. . atirou a pedra: . Solange rinha fugido com o Dr. Um instante apenas quedou interdito. . a aldeia tinha-se esvaziado para as searas.. mas eu seja cega se me fizer abrir a boca? regougou ela. Passo a passo das repetidas e bruscas lucilações do entendimento. dúlcar-te-á o tourf). só depois de mantê-la sufocada por um tempo.... as comissuras dos lábios arrepanhadas num esgar de dor e decisão. que a vergou para a direita. E silvava: .Despacha-te! Dize lá. meu estuporinho. quando se )ulgou a coberto da investida do tigre assanhado.antecipação logo ele lhe aplicou um segundo trompaço. testade-ferro e alcaiote. Mais longe.. reconstituiu o rúrbido romance. a ver se alguém te acredita? Vai. com desfrute de permeio. a rnoceta retrauteou: .Bateu-me. que enristava para ele um focinho de condolência e curiosidade. de lhe ver os olhos extravasarem das órbitas e ela a debater-se debalde. que sempre lhe brincava nos lábios grossos..Vai dizê-lo. mate-me. Deu-lhe um murro mais forte. leu a insofismável e porca verdade.? Queres festa? Então pega!. Guilherme Calabaz. anda? Vai dizer que fui eu o primeiro que subi à laranjeira.? Mate-me. mas que estivesse aberta. Ela fitou-o em silêncio e abanando a cabeça. disse bamboleando a cabeça: . é que alargou a golilha e lhe repetiu com a voz pausada e segura de quem sabe ter a vítima à mercê: . Mais. associando mil coisas. agora assobie-lhe às botas! O Fráguas ergueu os olhos e na retina baça e parada do Minga. a chorar.repetia ela. sob o engulho das lágrimas: . A distância. mas deixei correr.

Ah. revestidas de vidraça Nseautà. de olhos no chão e silencioso. brilhava pela ausência a inala de coiro da Riássia. mala de viagem tão catita de pregueados e fivelas corno o peito dum general em dia de parada.E agora. Era uma vez a raposa argentée. trazidos na sua jubilação de ricaço. lentamente. que valia um par de contos. custoso e Majestático que nem o armário norte-americano dum dentista.. quem havia de futurar que tinha perna para tal coice? .Pois eu .zê-lo. onde madame estudava horas e horas o sinalinho do rosto e os cabelos encanudados em mola de sofá. que nos hotéis incutia um sagrado respeito aos groo?iis e embaçava os pelintras. quase um palco. matizada de 191 . e as duas grandes jarras chinesas inade in Gerniany. sim. grandes como talhas das azeitonas e vistosas como coristas de uma revista de ano. cederam ao leve empuxão. o Fráguas. A questão toda é caçá-los! O Minga introduziu na fechadura a cliave que a criada de cozinha viera entregar. Na alcova conjugal. E não acreditei por várias razões e mais uma: no fundo são todas as mesmas. Os escrínios com as jóias. rraste rico e solene. aquela bata de organdi amarelo. que é deles? Mais de cem contos que se iam à viola? Com mão já enfadada escancarou as grandes portas duplas do guarda-fato. mas a verdade é que nunca acreditei. tanto mais de apetecer que com o refervor da canícula a attnosfera se tornava irrespirável e a pele da gente ficava negra corno se a chamuscasse um incêndio. como se a palavra do Mi nga lhe chegasse só então aos ouvidos. Toda a indumentária rica e preciosa de Solange tinha desaparecido. o bolero de arminho. última moda: grandes superfícies planas.. penduradas de cós para baixo e pernas para cima. ou falando com os seus botões. o vestido de lhama a “estilo” para bailes e teatradas. o cofre à prova de fogo. em que uma vez por outra lhe era grato ver o ft)rmiguQiro das notas marinhar processionalmente como lagartas da couve até o esófago musical da máquina. Tenho que me desagravar. O outro limitou-se a torcer a belceira num gesto de perplexidade. Aubin a granel. O Antoninho foi de sila em sala. par a par. os naples de carneira verde a pedir charutos e negociatas. Antonio? Seguiam rua fora. Lá estava a pianola. Apenas junto das suas pantalonas de smoking. nariz ao alto a coscuvilhar. com aquela carinha de Senhora da Piedade. Por enquanto. envolveu-os o ar fresco e hospitaleiro da casa em trevas. não dava fé que faltasse algum dos bons objectos de sumptuária. e transformarem-se em catadupa sonora ou arroiozinho melódico.esta altura não tem mérito algum di . mal constou que o senhor Antoninho chegara de fora e a sua bílis negra revulsada. com as diferentes peças todas de cristal e prata. Lá estava a sua secretária de corrediça. Aberta a porta.. Também ela tresti-ialliara a fugir-lhe aos destemperos do primeiro febrão. e a cada passo o surpreendiam agradavelmente as irisações 'fátuas dos vernizes arpejados pela luz.Tu no meu lugar que fazias-? Sê franco. Ao subir a escada. Lá estava o aparelho da Rádio com o seu supedâneo de Mogno. espelhos Sr. Não avistou também o “necessário” em pele de crocodilo. ó Minga. Tinha alfaiado a casa com mobília em contraplacado. as gavetas dos toucadores. . é que pronunciou: .. que era costume estarem fechadas a sete chaves.volveu o Fráguas detendo-se no patamar antes de mais nada o que faço é rebentar o canastro aos dois. Mas dize-me lá. linhas rectas. no quarto das arrumações.

para lá da crise hidrófoba. tinha dado grandes esteiradas para se ir abaixo com mais uma. Sendo mais novo. escorria mole. fora arvorada em confidente. estava longe de competir com a sua lábia. ninguém estranhou que se fechasse com a senhora durante mais de duas horas. como revoada de pardais que sentem o gavião. Mas não tinham culpa: aqueles amorios haviam-lhes passado tão alheios como se fosse na China. debandaram cada um para seu lado. Não eram as excrescências da minotaurização o que mais o incomodava. estava explicada. Entretanto que ficava sozinho. pior que uma impigem. Viragem da fortuna? Puf. dos tempos difíceis. Em face das cómodas. o que sobremaneira lhe doia era que Solange. o moço da garagem. pois que desmpenhara tal papel. pôde Fráguas levantar o corpo de delito. apertando a fronte às mãos ambas. 23-41. Só passante um grande migalho é que a Maria Alonsa. Tão-pouco a quebra de hábitos que vinham de longe. despojadas do recheio voluptuoso das roupas de baixo. embora essa sobrepujasse as outras de muito. Vasculhando na consciência. A Maria Alonsa é que. só se tinham perdido as que caíram no chão! Fráguas despediu o pessoal e encarregou o Minga de aprontar o carro. Quanto a ela. Do mesmo modo não deitaram grande malícia quando viram os dois sair a porta. completando o óleo. pelém por dentro e por fora. Aqui estava o artigo em que. lhe era subalterno. Um momento se esqueceu e esperou ouvir a chinelinha arrastada de Solange. era clara como a luz do sol. disse mal da sua sorte.J. Ouvindo a uns e outros os informes voluntários ou arrancados a saca-trapo. pelos vistos. ela atrás. que deixava filtrar a tíbia de cabra de Solange. sopesando a mala de viagem com a direita e o “necessário” de pele de crocodilo com a esquerda. havia uma coisa que ele tinha a favor. Para se tentar duma mulher em tais condiçõ es. já chocalhavam para os lados da copa as risadas de matraca do Espadagana. Qual. comparável à que se evola na espiral de fumo dum cigarro. Outra forma.azul. E. Estava explicado o susto com que a moça o vira aproximar e as suas ânsias. Veio a cozinheira. Como eram de grande intimidade as suas relações na casa. Que tinha a mais o Calabaz? Havia de virar-se três vezes de dentro para fora e de fora para dentro até poder concorrer com ele em ralé. na qualidade de esposo. já tranquilizada de ânimo. à 192 . outra boca. verificando rodas e a ignição. a paqueta. de turbante pela cabeça e saquinho. oh! um tudo-nada de melancolia. rotundamente a favor: a variedade. pindérica e lamentosa. o abegão. Quando tal ouviram. restavam-lhe dúvidas de que aquilo poderia ser sonho. Ah. Tudo ia nisto: ser trocado por outro. Conclusão: eram todas as mesmas! A cozinheira chamou para o almoço. figurava de mais idoso. a grande zoina. um sonho mau?? Não. ele adiante. sentiu certa melancolia. Nem ainda aquele descambar subitâneo da imperial com o desfalque que o sucesso podia trazer ao seu pecúlio. deixou-se abismar no maple e um instante prostrado. a criadagem voltava ao redil. queimado na soledade do sol-pôr. e os dixe-medixes que andavam no ar como o zumbido das moscas. outros beijos e abraços. encobrideira e correio de notícias. quanto a ele. Entretanto a casa animava-se. em linho subtil ou sedas duma brandura de teia de aranha. Sendo bacharel. era uma concreta pouca-vergonha. veio anunciar que a senhora partira de vez com o Calabaz e já trazia o processo do divórcio a correr. e abalarem no H. Calabaz chegara na véspera pouco depois do meio-dia. lhe preferisse um outro. Só não veio a Maria Alonsa. aquele pelém.

coisas e loisas que contendiam com tudo menos com mulherio. só bonitos olhos. este Dr. Querem vir tomar ares. e o Antoninho arregaçando os lábios num jeito pessimista pronunciou como em remate do solilóquio interior: . consoante a luz. cotados pelo estalão normal. Torres tem muita culpa no que me aconteceu. esvoaçavam asas de colibris ou se viam peixinhos chineses bater com as barbatanas de oiro a água morta dum lago. picado pelo Tadeu que à última hora lhe dera para o cobiçar. ah! ah? Até o Fráguas desatou a rir. . uns olhos invulgares em que. um cabrito assado. a quem acontece às vezes os amargos de boca fazerem perder o apetite. pois que não era discreto falar de corda em casa de enforcado. . mas só os ares.. De resto. O Silvestre Calhorra sempre ficara com o casal de Malhadas do Dr. Quanto aos grossos capitais depositados em Banco e investidos em empresas várias. Mas saíra salgado ao cambaio. um ombro para cima. o Aires não se pegava de rixa com o Zé Francisco.Por modos foi a D.. pernil caprídeo.beira dos quarenta anos. Pois então?! A raciocinar assim. murcha.Essa agora! . Tinham lavrado a escritura no dia de trás em Tendais. Juan viera ao faro da bagalhoça.desprovida de todo o sex-appeal. cento e noventa e cinco contos.Calabaz?? Calabrês. O Minga comia por si e por dois iguais a ele. refinadíssimo calabrês!! A cozinheira caprichou em servir-lhe um almocinho delicado. praticadas à margem do inevitável processo de divórcio? Sabia quanto era fecundo em tricas e audacioso nos meios. Afonso Henriques que conquistou estas terras aos moiros e permitiu que pegassem aqui as estacas donde saíste tu e tua mulher.Se ele não dá os améris ao Aires. Contra os seus créditos de primeiro garfo do concelho . sem peito. @ Havia de se ter ido embora há mais tempo? . mas só enfados”.disse o Fráguas com um sorriso de desdém. para ao cabo da gargalhada pronunciar sorumbático: 193 . e paguem. o Calabaz não era aqui visto nem achado. e ainda tinha modo de entremear a santa trincadeira com histórias da vida.. como acautelá-los das manobras do rãbula. . já ninguém lhe tirava do papo o dinheirão das jóias. cento e vinte. outro para baixo. Ouvi dizer que o Torres se foi embora com a lágrima no olho. As terras. é que o salto à dama não fora jogo de amor.concluiu o Minga em voz de réquiem. Cem. D. interessante com o pátio e as árvores antigas.São menos medidas que saem da patarrega. destes que se fazem com temperos genuínos e o sinal-da-cruz para os amachucados da mofina. tens de culpar D.. Margarida que o obrigou a largar o que ela chama “uma parvalheira donde se não tira honra nem proveito. mas que para o labrego do Calhorra era como pérolas a porcos! Um homem de peso que deixa a serra! . Manuel Torres. venham. Se não matam o Zé Francisco. Marzoelos a tratar-se duma doença vergonhosa . Sim. com uma filha casada e um filho homem tanganhão de tal calibre que estava àquela data hospitalizado na casa de saúde do Dr.meio lombo de porco. não falando na casa. uma mancheia de notas por dois chaparrais e uma regada que não rendia quatro carros de centeio.mal debicou num ou noutro prato. duas molejas de vitela não requer? am para ele outra companhia além de seis “meninas” do Dão . o rendimento das terras e as raparigas da terra são para as gozarem os que cá estão. mas sim jogo de monte.

e desistiu. mais outros dois de conferência para acolá a propósito de negócios pendentes ou em curso. será como me der na gana: britá-los ou limitar-me a verificar o adultério. Guilherme Calabaz e informaram-no que haviam tomado a direcção de Viseu. à socapa virou-o de costas. A notícia ainda não alastrara. Aí tens. e à atitude que mais convinha adoptar sob o ponto de vista dos interesses. até quantos botões tenho em cada colete. que regressava de Tondela. 23-41 tinha sido visto à porta duma garagem e um chauffeur de praça. o visconde papalino. encontrava as tuas fúfias.. Mas consulta que não consulta dum advogado. no justo receio de que a paixão lhe fizesse perder o sentido da direcçã o e atirasse com o carro por uma ribanceira. para não dar o espectáculo da dor do cotovelo. depois de o contemplar com um interesse que não conhecia há muitos anos... quantas vezes te ouvi: “Galinha que entre cá no poleiro.Ora essa. hei-de dar com eles? . Ele aproveitou. Queixa-te da tua má cabeça.Sossega uns dias.A estas horas. em poucos minutos. Mas no corpo da mulher. há sempre seiva para as borbulhas da leviandade. Vens tu comigo? Lastrou os bolsos e.J. grande amador de fotografia. para onde quer que se virasse. 194 .Homem. mais dois dedos de palestra para aqui. Estou roubado? Agora só a tiro! E o pior dos remédios? O Antoninho levantou-se. mas era um encharcado de perfumes. beatas de óculos e albuminúricas.porque fora ele. Rompeu estrada fora. à beira dos quarenta anos uma mulher não é nenhuma flor do rrevo. vê tu. com o Minga ao volante.Mas esta foi bestial. Manuel. uma mártir S. o tempo foi passando e acharam-se a horas & jantar abancados a um bife de vitela no botequim. aquela criatura está avelhada. dizes tu.. Peripaterizando de cá para lá. metia a toda a mecha para Tendais. em casa. .e restituiu-o à posição primitiva.Mas. que se tenham ido acolher às profundas do inferno. . Sebastioa. que sob os pontos de vista da dignidade não pedia conselhos a sua honra. Na cidade o H. irmã zeladora do S.. Pensou ainda em telegrafar ao genro. Não tinha segredos para ele. E volveu ao responsório: . nas famílias das relações. Em Tendais já era tudo cheio com a fuga de D. informou-o que se cruzara com ele para lá de Sabugosa.Portugal não é grande. . Mas logo por desgraça lhe caíram os olhos na assinatura de Calabaz .. olha com que menino. na vizinhança. seja em que idade for. à última hora dar em droga! ah? ah? . Solange e do Dr. Manuel? Senhora tão compostinha..onde é que os vais desentocar? . que o tirara . homem. com o bando das titis.Dás licença que te diga? A mulher e o vidro sempre estão em perigo. para a sancadilha.. Têm-no de índole. carregado de escapulários. e Fráguas achou-se à vontade para pulsar a lei quanto às perspectivas principais que decorriam daquela emergência.C. ? Deixá-lo? Vou-me à cata deles até os desentocar.Qual sossega uns dias!? É para já. sim.J. Depois. é o que calha@” O Antoninho riu por entre dentes. . incapaz de dar um passo sem se aconselhar com o senhor Bispo. tem de experimentar os esporões do galo? E lá fora. E o pior dos remédios. Mas que fosse. Era ao entardecer. À velocidade que parecia levar meteria a Santa Comba antes do lusco-fusco. descobriu o retrato da esposa na cantoneira e. Deixava-Ia para aí ao abandono como uma canastra velha.. estou roubado! O ladrão sabe tudo. mas desta feita o seu sorriso era amarelo. não é tanto assim.

J. podendo eu “constatar” o adultério. ..? .? . Estás a compreender que tens de ser discreto. Acompanhas-me? . ou quando o Demo lhe soprava ralé. o Antoninho estava sob a acção das duas ebriedades: a que vinha.Mal empregada? Para quem estava boa era para o ego. . Teriam ali estanciado os pombinhos? O Fráguas desceu e entrou no hall do Grande Hotel. segundo o voto do Antoninho..Então. divagando pelos logradoiros públicos das termas. vou eu.. pegava11-ic.Que meta. deambulava 195 . que não fosse bronca de todo e de boa família.Saber se não pernoitou a noite passada neste hotel e. lançaram-se pela estrada de Lisboa a urna velocidade de bólide. ..Esteja V. de pândega corri as actrizecas de Lisboa. Espadagana dum raio!? Sempre que o tratava por Espadagana ou cunhado. . Para que servem os milhafres de milhafres que tens na gaveta?? . toda. o facto não constitui prova cabal. .V. tanto mais que eu teria abandonado o lar culposamente. Mas vamos lá. . 23-41. Que o meu quinhão lhe sirva de rosalgar. num ponto já eu assentei-. Meteram gasolina e.Isso é papa fina.a descia então. O ladrão do Calabaz não deixa de meter a unha. .O corpo está-me a pedir folia. meu velho. Ex. a pontos que ainda rendia graças ao Criador e ao rna)andro do Calabaz ter-me levado Solange! Quem ma dava toda era a Paula Hincker.Sabes tu quem ma dava toda. Perante a desatenção dum dos chasseurs. a sossegado. Ex. . por traumarismo..Dísse-me o advogado que. Caramba. .Para te compensar do tempo que perdes e para as despesas do telefone aqui está. Corno não era -a primeira vez que o patife do Calabaz e ela viajavam sozinhos e com o meu consentimento.E então. o divórcio seria pronunciado a meu favor. do pontapé que pouco faltou para lhe romper o espinhaço.. Saía gente das inúmeras pensões e hotéis ou entrava.Já sabes: para onde fores tu. sigo em frente até dar com eles. . Espadagana. que patriotismo? Que pele de maracotão no pescoço e no lábio superior? E que encontros. em caso de negativa.Há muito disso. Vê lá tu os alçapões da vida? O que eu precisava era caçá-los com a boca na botija. Esta vida são dois sopros.Não tenhas dúvida. Foram matar o tempo. Dentro de meia hora tem a resposta. . . Antes das dez estavam no Luso. .Vão ficar reduzidos. Cunhado.e meteu-lhe à cara uma nota de cem escudos.. nas horas de grande ternura. O busílis é a prova. o Mínga ao volante.Disso és tu capaz. Em crise.Se apanhasse uma rapariga séria e apetitosa. Agora para o meu paladar só frarigas. mas folia da fina. É noiva do engenheiro Bacelar. . não há duas opiniões. Naquele dia. trazia grao na asa. entre os vinte e os vinte e cinco anos. se as coisas correrem a favor.E tu mais cem escudos suplementares pela diligência. É tu quereres.. . limitome a mandar verificar o adultério e acabou-se. e a que produziam os líquidos capítosos que ia engorgitando aqui e além. no Buçaco um casal que chegou das bandas de Santa Comba no carro H.Bem. recorreu à gazua infalível: .. Ainda me caso outra vez. fica-te muito moni.

J. Não havia lugares vagos no restaurante. uma não quebra-utn-prato. marchava aos cotovelões deste e daquele. teleforia para toda a parte. satisfeita consigo e com a vida ou assim o dava a entender. Chegaram a Coimbra um pouco antes do meio-dia. surgiu uma garrafa de Moêt et Chandon e Hincker ficou penhorado com a bizarria. Entre duas fumaças. de Norte a Sul. fosse este intencional obra de Deus ou do Diabo. digno da nação organizadora por excelência. para quem nada de nada neste mundo deixava de ter a sua ponrinha de intencional. mas já ele se precipitava a oferecer os serviços. Afinal. parou em frente. comprimindo-se ele e o Minga para unia ponta. À sobremesa. ainda e sempre fora de si. e o Fráguas experimentou a mais alterosa das invejas. 23-41. apanhar uma mesa devoluta. E o estribilho subia-lhe aos lábios como num realejo: Vê lá tu. Bom almoço e cavaco ameno. recusando-se no fundo a aceitar o labéu que acabava de esparrinhar sobre a sua pessoa. Aceitaram. tendo recebido resposta negativa da Curia.. Animais com aqueles dentes renunciam a tudo menos a comer. na outra a pistola. manda-nos preparar dois quartos. trocando impressóes sobre as trabuzanas que o Diabo tece. e Fráguas ofereceu a sua mesa. Ninguém lhe soube dar razão do automóvel H. Rua fora. aerodinâmico do último estilo. E. E. balouçava-se nos terraços em cadeiras de verga. olha. Se o desejasse. talvez tivesse cortado para a Curia. cabeça na travesseira. uma boa-serás. Desceram Hincker e Paulinha. Agora. Ex. S. 2341. embora em guerra. encontravam-se os dois compadres de cigarro aceso.. depois da meia-noite. caminhavam para a capital.. não obstante a companhia do Manuel Minga. A Alemanha caprichava em realçar o seu carácter de mantenedora da cultura.. 196 . um corpo sinfónico de sumidades. Carlos. reconfortou-se.a estar absolutamente certo e garantido. telefonava-se para a Curia. reluzente de cromados. os devotos de Wagner. Que temia? Em nenhuma garagern do Luso nem do Buçaco fora recolhido o H. Mas. Ele próprio percorreu as garagens todas da Baixa que conhecia de cor e salteado. dar assim um chuto na vergonha. namoriscava. sem exigências mentais. podia. Hincker com a filha iam a Lisboa assistir à representação de Tristão e Isolda que essa mesma noite a Staatsoper Berfin e a Berfiner Philldrmonches Orchester davam em S. estavam no admirável jubiléu da papança. a meia voz. como em dado momento palpasse numa das algibeiras as dezenas de contos com que se munira.J. cais como os peregrinos de Bayreuth. corno é tarde. um automóvel rico. Dois quartos ou preferivelmente um quarto com duas camas.pelos caminhos a tomar o fresco. em rimeira fila o elemento alemão. tudo integralmente soberbo. com enviar ao país neutro uma embaixada de arte de primeira: cantores de renome universal. Fráguas. Tal representação fora trombeteada aos quatro ventos como um acontecimento excepcional.Pois telefona para a Curia. Nunca se sentira tão isolado no mundo. o que lhes fez atrasar a viagem. . O Minga piscou o olho ao amigo. hem?? O Fráguas só acordou na meia manhã. cenários e indumentária do maior requinte. Depois do julgamento em Orcas ficara de candeías às avessas com James Corbet e realizara com Hincker transacções de certo tomo. Ia para os cinemas. Espadagana. Ouviste? O Fráguas tinha medo de ficar sozinho corri os seus cuidados e. a voz confidente da barriga cheia. Era a sazão das festas da cidade e custou-lhes.

o que não espantou nada o estrangeiro. a estudar-lhe o jogo fisionómico. O céu. Falaram de conhecidos e de pessoas sabidas. pelos lados. São as balas da defesa antiaérea. do Calhorra. está picado de estrelas. onde os transatlânticos não são maiores que brinquedos de menino. São dois fantásticos ramalhetes de fogo. Fráguas. é para a capital. De nada servem as nossas granadas iluminantes. catrapus. a City é como a Alfama em noite de S. de princípio muito hirto e solene no seu posto de senhor que ofereceu hospitalidade. invocando o contratempo que seria perderem a récita em S. a engasgar-se nas talas de goma dos colarinhos altos. e tudo se ilumina à volta. choque da roda contra a guarda de pedra da berma. dado que em Coimbra se pudesse encontrar a peça sobresselente. Tudo o mais é Idade Média. Era como o descrigelhar dum odre quando lhe deitam vinho. deliberadamente.Não é para a capital que se dirige. e nelas os vãos rectangulares dos portais sobressaem desenhados a negro. Carlos. verde aqui. O senhor é novo. requeria vagar. depois. de dia e de noite. do inglês Corbet.imaginando que ia relatar um grande drama. do Tadeu. É o conselho que lhe dou sem mo ter pedido. Em baixo. Por toda a parte se erguem incendios e lumaréus. As docas Royal Albert. para quem estas coisas se passavam no mais trivial e benigno dos mundos. O rio. deixando apenas o espaço que basta para não aspirar os gases do escape. & Severo Bacelar.Sim. Depois. Ouvi lá para a sua aldeia um provérbio que diz: Mordedura de cao cura-se com o pêlo do mesmo cão. O espaço é vergastado. está a tempo de refazer a vida. semieixo partido. novo paladino do S. nas acrobacias mais consentâneas com a posição. ensanguentada além. como uma valquíria. amassado 197 . de centenas de metros de altura. o Fráguas logo após. E Franz Hincker puxou duma carta. ofereceu o seu carro. senhor Fráguas? Hesitou o volframista na resposta. Graal. Quando falou em desagravar-se. Victoria e East India sobrenadam no gigantesco mar de chamas. praças e ruas. As ruas parecem delgados cordéis. iriam de caravana por ali abaixo. contou o “sarilho” corri a mulher. por cima. Trate de aplicar a rece Ira. O Antoninho Fráguas coçou a barba regalado ao golpe de ar fresco que varria sua alma conturbada. ao lado dele o Fráguas. as praças gânglios absurdos. que teimara em ir alistar-se na Luftwaffe e lá andava num Heinkel III.. De olhos em Paulinha.. ganhando ousio. a todo o longo. Não houve danos pessoais. mas o conserto. Romperam. em que o aviador descrevia o bombardeamento da capital do Reino Unido. e nós temos a impressão que estendendo um pouco o braço lhes poderíamos tocar. O Minga continuou ao volante. Depois a fumareda ou a velocidade varrem do horizonte a zona dos cais. lembra uma estrada.Hoje esses métodos já se não usam. senhor Fráguas. Não puderam recusar. declarou: . Havia lugar para os dois sem sacrifício de nenhuma espécie. Fráguas apenas fixou períodos salteados e sem verdadeira conexão: “. João. Hincker à frente. . que o Antoninho tinha pelo símbolo duma Grã-Bretanha desmesurada. o automóvel de Hincker teve uma derrapagem monstra. Hincker sorriu: . que por vezes crepitam contra as paredes da barquinha como o granizo nas vidraças. negra ali. à minha direita vão pelos ares dois gasómetros. Tinham sido prazenteira companhia ao almoço. Para lá de Condeixa. torcendo-se à retaguarda.

cinco.. cabelos grisalhos. fazia estas considerações amenas e outras decorrentes. Hurra pelo ladrão que o inventou. E de facto. Por causa daquele. Bah. Ficava só paraíso. Deus escrevia direito por linhas tortas. depoís o opróbrio. o mundo perecível e detestando desapareceu. O demónio de tal longitude que viesse! Paulinha ia nos dezoito anos: quando chegasse aos vinte e cinco. corpos e almas. Meio tombado sobre a ilharga de modo a ouvir Hincker e a divisar Paula. Na marcha rápida do carro. A Fráguas a mensagem do herói pareceu tola. ho)e. do Piauí. Milhares de milhares de gajos análogos a atirar bombas ou ideias. como dizia o compadre.Beethoven . Que música era aquela? . 198 .. moscada.. pretensiosa e sem consequências.. um ano que fosse. 1943. Cruz Quebrada. e sempre hoje. estava ele nos cinquenta. Que importava de resto e dia de amanhã?? A vida era hoje. era o dinheiro.Terrível? . Quando botasse aos trinta. o dilúvio. . embalado pelos acordes divinos. nunca mais se levantariam os padeiros à meianoite. que importância tinha à face da eternidade?. teria cinquenta e cinco. de olhos sempre em Paulinha. Estava.” . dois anos. daquela vitelinha loira. . sem favor. A sua absoluta vontade era ainda a realidade apreciável. a morte macaca.proferiu Hincker dobrando a carta com solenidade e metendo-a na carteira.murmurou Fráguas. São os fachos dos holofotes. inundava o mundo de melodia. Àquela hora a ReichsRundfunk. Abriu o comutador da Rádio sobre Berlim. mas.Terrível e épico! . Quem o governava. Ainda era homem. com ossatura de ferro e músculos de jaguar. Tinha quarenta e três anos.Sonata a Kreutzer. Paulinha não dera sinal de emoção alguma. Gozar o festim da carne tenra. no meio-dia.disse Paulinha. e o mundo continuava a rolar como dantes. como dizia um augusto sibarita.por verdadeiros batedores de luz de todas as cores. na melhor da probabilidades.. não era diferença que lhe metesse medo. mesmo debaixo das bombas das Fortalezas Voadoras. e vogamos num oceano irreal.

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