Aquilino Ribeiro Volfrâmio

CIRCULO DE LEITORES Capa e Frontispício: ex-libris de Aquilino Ribeiro, desenho de Abel Manta Capa de: Antunes 1983, Livraria Bertrand, S.A.R.L., Lisboa Número de edição: 1531 Tiragem desta edição: 55 000 exemplares. Depósito legal número: 3100183

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PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO Logrou este livro certo favor do público, para lá do sufrágio a que me habituou o meu contingente de leitores fiéis, e não é difícil determinar porquê. Nele pressentiram uns a aventura empolgante à Jack London e bisbilhotaram outros uma crónica da actualidade, com retratos ao vivo de permeio e os inevitáveis episódios de rapacidade e fereza. Não se iludiram de todo, salvo que as carapuças de Mister Corbet ou Herr Hincker, para não falar dos lusitaníssimos Fráguas ou Calhorra, não acertam de modo algum nas cabeças deste ou daquele que se aureolaram na gambérria do volfrâmio. Não foi propósito nosso fazer dissecação pessoal, nem de resto o processo é compatível com a arte literária, quando exercida com largueza. Pintar almas é diferente de lançar a máscara de tal ou talfabiano à tela mercê da ciência das cores. O romancista vai de indivíduo em indivíduo, como a abelha quando jorrageia o pólen, e a um pede o físico, a outro a índole, a este uma anedota, àquele um pormenor característico, e assim amassa por aglutinação os seus figurantes, Feita a dosagem com inteligência e obtido um bom ajustamento, ninguém dirá que não foram copiados do natural e que não “falam” . E o orgulho do criador estará em dar a ilusão de que são cópias exactas do mundo de carne e osso. Já chamaram à nossa época, pelo muito que o fenómeno vincou o meio, época do volfrâmio. Quero crer que haja exagero de expoente. Entre nós, tal furunculose, com o dramático que comporta, deve antes representar uma das manifestações eruptivas da crise social que o mundo atravessa. Volfrâmio aqui, petróleo além, borracha acolá, há que integrá-los no substrato complexo e temeroso que engendrou a guerra. O volfrâmio foi para as populações do Norte, deserdadas de Deus, o que o mana foi para os Israelitas através do deserto faraónico. Imagine-se o que seriam os impulsos da horda esfaimada ante o alimento providencial, no afogo do de jejum. O irmão engalfinhar-se-ia com o irmão, o mais forte encheria duas vezes o saco, enquanto o mais débil choraria lágrimas de sangue, dado que não ficasse britado pelos pés dos digladiadores. Levaria melhor, se não o mais violento, o mais astucioso e o que tivesse olho rápido e pé leve. Os capitães, esses, acabariam advertidamente por maquiar a Zacarias e deixar correr protérvia e iniquidade. E não é ponto de fé que Moisés não comesse as mais gordas codornizes, que eram o prato do domingo, o arroz com vaca e chouriço do convento, e não atafulhasse a boca sequiosa às mãos fartas de tal mamadeira. Assim se passou mutatis mutandis com o oiro preto que imprevistamente brotou das terrinhas salaras do Norte, mais loja que húmus, mais serra que plaino, infelizes até a data. Não consta, com efeito, que as funções da vida animal tenham sofrido variante depois que o mundo é mundo. Volfrâmio e mana significam um ponto crítico na viragem do destino. Para que banda fica agora a Terra da Promissão? O século XIX e o primeiro quartel do século XX foram de desabalada e incessante sementeira. Semeou-se a torto e a direito, no alqueive e na fraga, no maninho e na própria terra atrolhada. Quem não té o grão germinar em dor e transe? As fibrilhas do centeio nascente com o seu ar de estiletes ensanguentados dizem-nos que é sempre assim. A dúvida mortificadora é que a seara seja

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antes de joio que de frumento Panificável. É temerário fazer prognósticos sobre o futuro. A meteorologia social desafia os olhos de lince dos oráculos, que espreitam por detrás dos mármores de Delfos escavacados à bomba de Liberator. Mas descansem as almas sedentas da amorfa neutralidade: estes temas febris perpassam no entrecho do livro e não constituem de modo algum o seu protoplasma. O protoplasma é a ambição humana, o evadir-se à miséria, à estreiteza natural, aos diabos negros da existência. Como terão azo de ver, o desempenho da fábula está a cargo de gente brava, sólida de rins e de músculos, em matéria de consciência pouco preocupados da vida eterna, difundidos por um friso fora como faria Steinlen ou Leal da Câmara. Todavia, sendo assim na forma, procurei que por debaixo desta armadura elementar pulsassem almas em suas secretas e supremas volições. Esta será a quota de humano, três vezes humano, como requeria o filósofo, com que pagam seu tributo à racionalidade. O público, de resto, interessa-se pouco por este particular. O que o interessa acima de tudo, já que a torrente vertiginosa da vida moderna não permite mais que uma visão instantânea e superficial, é o guinhol, os processos de combate, os leitos, o cinemático em suma. O romancista que se preza dá esse pábulo ao monstro e procura penetrar a fenomenologia das coisas. Convenho em que o ético esteja para lá das fronteiras do seu domínio. Escola de piedade e de ensinamentos morais busque-se na obra de Camilo e outros que rastejam de longe o colosso. Aí, sim, encontra-se mais lição que nas parábolas todas dos Evangelhos. Os princípios científicos em que se esteia a arte literária baniram da banca do escritor, mormente hoje que utiliza pena de aço ou typewriter, o patético, o epopaico, esse colorau doce da eloquência - à qual, já o exigia um poeta dos bons velhos tempos, il fallait tordre le cou - a deformação simpática à Júlio Dinis. A condição sine qua non é modelar em carne viva e na estufa fria. Em obediência a estes preceitos, claro está que as minhas personagens foram gizadas pelo padrão comum e seus orbes não excrescem do espaço das três dimensões. No entanto, ninguém tem mais horror a fórmulas do que eu. A fórmulas, cânones de escola e tiranias da moda. Fórmulas em arte equivalem a muletas e eu não só não uso bengala como entre dois caminhos escolho sempre o menos trilhado e aquele por onde menos andei. Em matéria de iteração, chegou-me o padre-nosso quando menino. Não ignoro que a galeria antropológica portuguesa é diminuta. Desse mal se queixava Camilo. O que vale, e valeu ao grande mestre, é que os homens, mesmo dentro duma família tão pequena como a nossa e em casa igualmente acanhada, parecem-se tanto uns com os outros como um mar com outro mar. Dois requisitos me movem quando escrevo: observância do real e originalidade. Esta, mais que a seiva dum verdadeiro temperamento de escritor, é o logos donde dimana espírito, graça; estilo próprio, simpatia humana, entendimento das coisas. O obséquio ao real não é mais do que um seu apaniguado. De olhos fitos tanto quanto posso nestas duas estrelas, presumo acautelar a modesta personalidade que me coube por dom do Espírito Santo, como queria uma minha tia velha, lida em Frei Heitor Pinto. Porque na nossa santa terrinha não há candeia que nos guie e encaminhe. Viceja para aí, salvo prodigiosas anomalias, uma crítica meio didáctica, meio apologética, geratriz de tocadores de marimba. Com o seu tom untuoso de

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a literatura despojar-se-á da túnica de Nesso. O pior do pior é que sela possível toda esta Proliferação asiática da estupidez. Nascem as escolas. a sanitária. à tona dos séculos. Como não sei fazer outra coisa que não seja novela. desidratada desde que lhe faltou a bua francesa. esvaem-se as escolas. e a bola de água de sabão evolou-se no céu dos pardais. Preciso sem ser precioso. O humano. ouvem-se destes regougos. a Rua dos Clérigos no Porto e a Rua das Fangas em Braga. como a falta da outra. o recamo que à floresta emprestam as estações e não as árvores da floresta. desde os Vedas. veio ou bolsada nodual do romance. figura e mais categoremas do pensamento historiado que é o romance. o de prosador. O luminar que procriou tal asserto deixou de soprar ao canudinho. o arranjo constitui o transitório. trajadas por aquelas ciências do homem e do belo. Raspem com a unha o gentleman sentado à mesa verde de plenipotenciário e encontram a fera. o que se modificou não foi o mundo da especulação. foi. Até lá confeccionemos 4 . Bem sei que há coordenadas em literatura. o Manel o do especulo. não a água do rio. dum passado glorioso. Permita-se-me a imagem. Chiado e Freixo de Espada à Cinta.vai cortando as remiges aos francelhos que pretendem librar-se acima dos horizontes conhecidos. Outro rabo leva-me a pensaram ultimamente. faculdades que não abundam num povo que considera a Nau Catrineta como os Nibelungen e a saudade como bolhas de ar. só quedando imunes ao contágio os mimosos do entendimento e da imaginação criadora. abismado para sempre lamais nos mares nunca dantes navegados. não se preocupe tanto com o formal . e é caso de perguntar a gente se se deve mandar lapada. respirar fundo para se ser português de lei. toda a tendência pessoalista. Volfrâmio veste como Andam Faunos pelos Bosques. com a prosa a cheirar a burel e à orelheira dos famigerados cerdos de Lamego. o guarda-fato de Madame de Genfis. e que é preciso. Em literatura. a face do rio. então sim. nada mais truculento e azabumbador que o balar da carneirada de Panúrgio. secando toda a originalidade. pelas savanas pobres da intelectualidade nacional. sucedâneo do: para aí não que é pecado. porquanto implica uma carência lastimável de higiene mental. excluindo-me por contrapartida da grei dos romancistas. Apenas quando as balizas actuais do mundo moral caírem. a moda. gostava que me dissessem o que pode ser a minha prosa descarnada do documento humano. e o que demudou é o aparente. Inofensivo no fundo. nascida sob este signo. Repararam que os príncipes dos povos de hoje falam e lançam o guante como nos seus arraiais troianos os Aquiles e Agamémnon? Compreende-se: movem ao homem os mesmos egoísmos e instintos ancestrais. Mas produzir dentro delas não pode contender com os dotes originais do escritor. continua o mesmo desde Homero: mais longe.pregação. De quando em vez. afrontosos do bom senso e até da alma cristã. pode cair no inferno. fora das quais seria mito puro o locus. amordace os sentidos. numa palavra conformando aquilo que tem por condão ser inconformável: o génio literário. que a constrange e obriga aos costumados Jarricocos. Que fazer? A esterilização contra tais bactérias é um problema bicudo. se esperar que o tempo cure a Pulmoeira. já houve tempos em que para esta bicheza seráfica eu não passava dum escritor regionalista. como se houvesse região nesta fita de terra e tudo não fosse a mesma parvalheira. Para as belas-letras. deixa a porta aberta a toda a sorte de malinas. tempus.

Fráguas e Calhorra calçarem coturno a carácter.romances e novelas o menos estafadores possível. com humildosa exacção. quanto às classes. se não são eternos. Os padrões humanos. e tudo o que possa vir na ressaca da maré viva. no género da conquista das especiarias e da corrida aos diamantes nos igarapés de Minas. a Beira. como apoucava Anatole France. a cobiça. do tempo e da fortuna. Fevereiro de 1944 AQUILINO RIBEIRO 5 . Monstruosidades. como épigrafava o frade. nem se arroga de modo algum. Nestes tópicos está configurado o Volfrâmio. dessas que de séculos a séculos avassalam os povos. que agora vê nova estampa e não é tratado de economia. Meta-se num corbillon. Longe de mim supor que venham a constituir tipos definitivos. O volframista é uma falena de pouca dura. à maneira do novo-rico da primeira grande guerra. como não? uma grande e efémera aventura. sem roubar o próximo nem termos a preocupação doentia duma geometria tão abstracta como essa da projecção no universo do produto literário. Dar-me-ei por feliz se os meus Hincker. os estímulos sociais. culto da individualidade. Pretendi descrever. fantasia própria. o papel de elucubração à Karl Marx. e terão esta anedota romanceada. a sede de felicidade. gozam doutra longevidade.

deita-se ao pescoço o baraço da escravidão.. com tal manejo traindo a sua agitada hesitação.O Dr. o que se chama para ninguém.É outra vez você. autêntica avançada dos estafadores. E a manhosa bilha de leite que a hospitalidade provincial troca opiparamente contra a bilha do azeite. não está em casa para ninguém. a sombra de Custódia. e berrou-lhe em tom de enxota-cães: . Qual. tão montesinha ou tão pouco que debalde a procuravam no mapa os parasitas de errática cordialidade . é a quarta vez desde que me sentei que me vem amolar. deposta com tão obsequiosa mão de veludo. não havendo outro remédio senão percorrer a via ominosa do peditório. Fazendo-o heroicamente até a linha que demarcava o limite da generosidade. Manuel Torres. um laparoto caçado nos ferros “para o jantarinho do senhor doutor”. batendo à porta do senhor juiz. que lhe fosse o antípoda na candura. Mas o que se chama para ninguém. Apre. personalidades preponderantes que seria indecoroso não conhecer.Sim. tornava a avançar. além de que trescalava ao fartum da carneirada. contorcendo-se em arremedilhos e partes gagas.Apostou que me não havia de deixar sossegado. Sombra que escorregava indecisa e vaga. a gozo de férias em Malhadas da Serra . advogado em Lisboa e professor de Ciências Sociais.. Assim. Às vezes tratava-se de necessidades elementares. daquelas que responsabilizam o cidadão.de novo distinguiu defronte. esta irresistível tirania dos indivíduos inferiores. e Manuel Torres conjecturou que tinha ali das tais visitas que se fazem acompanhar propiciatoriamente de dois galispos. Rejeitar a oblata. lá estava ela já à sua espalda. Dado que se não saiba resistir.aldeia que lhe fora berço. na cal da parede. no decorrer da manhã. acontecia-lhe. não ter já previamente ganho à requesta de cada um. do comandante do Regimento. Manuel Torres. nem por isso se achava mais imunizado que qualquer outro. meu senhor. pelos reveses do seu próximo. e não se julgava no direito de eximir-se.. a partir daí propunha-se resistir às choradeiras com igual coragem.? Saia-me da vista! No patamar soaram cacarejos. a velha tivera artes de lhe impor nada menos de três postulantes. e têm sempre um requerimento a apresentar. retraía-se. Pela talisga da porta. a cabeçorra de medusa avançava. desde que seja limpo de consciência. pois lhe dera essa manhã para desensurrar a lã. não havia dúvida que era ela. enxofrados cacarejos e chinfrineira de asas. sobretudo. não apostou?. uma dúzia de ovos. o que nem sempre conseguia. contra tão sinuosa e ao mesmo tempo inconsútil tirania. A boa da mulher aborrecia-o com os desvelos excessivos e as reiteradas intercessões duma simpleza permeável a todas as lástimas. !? Ouviu bem? .. E ele próprio se surpreendeu a dar um urro: . por cada um dos quais lhe fora recomendando momentos depois de se ver livre deles: Agora veja lá: desta hora em diante não estou em casa para ninguém... a par das vicieiras da terra... do secretário de Finanças. que à porta esperavam ensejo de lhe meter o cacete. aperceber-se que uma das suas funções por excelência consistia em esportular-se. Em obediência a esta regra. estando na aldeia. é um difícil problema de vontade. 6 . ouviu. que o trinco à força de devassado não consentia senão aberta. mulher.

Ao senhor doutor é que eu acho rijo e fero. . adquiriu um tear e fez-se tecedeira. na flor da vida. Como não. com um quintalório.. deixando-a com um menino nos braços. tornou a perguntar. Credo? Eu mando as criaturas embora. que era resoluto e empreendedor. resmungando: .E mais a quem vem! . mande lá entrar . Casada na altura em que ele concluía o Direito em Coimbra. ganhava quanto dinheiro apetecia? E Manuel Torres. Santa Casa. e disse.. infecção.Ainda não tinha tido o gosto de te ver. uma vez plantados no caixilho da porta saudaram à serrana: .Era sempre assim. Depois de atravessarem a saleta com acanhamento e o mais aéreos possível. festa de Nossa Senhora de Agosto.Mande lá entrar. ela de tamancas de Viseu e xailinho pelos ombros. Mal pegou do gadanho na Sapucaia. De salto perpassou no seu espírito uma série de ridentes panoramas.. com duas belgas de cada folha para dez pousadas em ano grado. qualquer remoque ser-lhe-ia insuportável. por isso mesmo contemporizando. a compor uma minuta.Mas. não fora feliz. a cardenha de telha-vã. Maria.Benza Deus tudo quanto cá há? . e encalacrados da vida muitos.tornou ele peremptório. se era um senhor doutor de leis. mariolas de alto bordo. andara com ele ao colo e. Esta ficava. pois que tinha direito quando menos a amenidades. acabando de se voltar de todo para eles na cadeira giratória.Estou uma velha. ó mulher. Meteu cara à má sorte. meu homem? . não poucos.. era como um bombeiro com obrigação a qualquer altura de acudir às misérias dos labregos.. eu mando. Estás boa? E tu. Podia tornar a casar-se que a cobiçavam muitos por mulher limpa de costumes e provada no governo da casa. embarcara para o Rio.respondeu consoante o estilo. Golpe num pé. onde bracejavam meia dúzia de videiras de cordão e um mostajeiro. peca para mais do sentido de proporções. e retraiu-se. anos e trabalhos desgastam como as mós das azenhas. embrandecida pelo sopro que a animava.e a ele próprio a voz toou noutra gama. Por isso mesmo. Era sexta-feira. foi-se abaixo. estivesse a dormir a sesta. . alguns. .. se não é que fazia simulacro de retirar-se. vindo para Malhadas.. Que só lhe querem meia palavra. meu senhor! Que lhe havemos de fazer..Credo. As suas teias eram afamadas em vila e termo. Partia do princípio que. quem traz vossemecê aí? . O homem. como se tivessem a peito não acordar o chão.Quem traz vossemecê aí? Mas já ela se retirava. tinha amigos por uma pá velha. de pequeno. Coitada da criatura. embrenhado a ler. desta feita apenas com mau humor: . acabava por condoer-se. Alguma tinhosa o viu hoje? . ponderando quanto havia de lógico e até de humano na atitude da velha criada.. recreados pela figura airosa da mocinha com quem jogara as escondidas. falecera de tétano aos dez dias de internado a uivar pela mulherzinha da sua alma. se pobres. e mãe e filho apresentavam-se endomingados segundo a etiqueta do dia santo.. 7 . o rapaz de alpargatas e com andaina nova. O dianho não tinha nenhuma espécie de respeito pela sua pessoa.A Maria Aires e o rapaz. meio repeso. dignos de amparo. onde mourejava uma colónia de patrícios.

A Maria Aires permanecera silenciosa.Que vos traz por cá? Ela sorriu-se.. como o meu senhor.. E conformou-se. ? .todas as mulheres eram o mesmo no que respeita a este tópico. e nas feições de trigueira. podia passar a salvo de tal foco de malinas. Pouca diferença fazemos dos animais. Era humaníssimo. Foi praga que nos rogaram. Só quem ali vivesse de longa data. mantiveram-se límpidas e inocentes como em criança quando na alba da Primavera patinhavam corgo abaixo.tivesse por condão esse indefectível renovamento em prejuízo do passado. só da pobreza. pela dura trabuzana da existência. de tal jeito que quando se quer fazer uma novena aparece miudagem para uma procissão. um tanto surpresa pelo tom rabujo do doutor. A Serra. Maior dor de alma ainda são aquelas que vão acabar no hospital. Como não. tão desempenada como a língua. Mas perdoe que lhe diga: muito do que causa engulhos a quem tem hábitos de fidalguia. pelas casas fidalgas. cama com a macacoa. corgo acima.Pobreza. Tudo isso que para ele era um elemento capital da personalidade jazia para ela sepulto e esvaído no tempo. medindo-a de alto a fundo em sua estatura de quarentona. Gostava que visse o inçadoiro que vai por essas aldeias! . Assestadas para as suas.Qual. Não assim as saias. haviam de perder o desgraçado costume de curtirem os estrumes nos caminhos e fazer deles vazadoiro universal? Criava-se-lhe ali moscaria para envenenar a Península Ibérica. esburgadinha até mais não poder. tanto aquelas que são um brinquinho de sala corno as que atoladas na terra mais se aproximam da natureza . Qual. O povinho cresce à desmedida. Quem tem calças mexe-se como Deus é servido. lá ganham o par de sapatos e a meia sainha com que uns anos por outros vêm embasbacar os palonsos. é obra da pobreza. como a pedir- 8 .Sim. harmoniosas ainda que roçadas pela lida. Transcorreu uma pausa durante a qual. meu senhor. começando por capacitar-se que eram brancos..É certo. baldeadas pelo negro fado. se Deus não acode. ficava frívola e chocha como as mariposas. quer ouvir porquê? Porque há gente a mais. nem rijo nem fero? Chegara de facto bem disposto. o nosso povo nasce e morre atascado em sujidade. está a dar o cadilho. zás. por ali. como as filhas da Olinda. O que se encontra à farta por essas famílias é fome e lêndeas. e umas lá se arrumam. se a terra estava uma nojeira. outras voltam. e não é fácil que possa ser de outra maneira.Embora persuadido que ela estaria a pensar em tudo menos na sua preciosa carcaça. que a mulher . bonita racha de vinte anos. perguntou-lhes: . pior que pocilga! Quando é que os moradores. mas logo ao segundo dia.. soterrado. Lisboa e Porto estão à cunha. este tom em que lateja a mais promissora boa vontade. Mas as pupilas dela não tinham nada a dizer. Assim mesmo. um pouco acanhado à sua ilharga.. largam pelo mundo? O Brasil fechou-se. ?! Ora essa? .. Não.Então não largam pelo mundo. olhou reflexivamente para o filho. imunizado por autovacinação. Lá vão cirandando por aqui. os seus olhos encontraram-se. a Serra está no osso. E foi em acento quase humilde que adiantou os seus reparos: . Em tom cordial. atrás da morte do homem. deplorando apenas que assim fosse. pelo Alentejo. caprichou em desmenti-la. cada uma com o seu neno. à cata das flores da Páscoa com que ela. é certo. lá no íntimo a cogitar o que havia de responder. ela não se lembrava já de tão importantíssimas bugiarias. . depois de empapoilar-se desde as tranças às ligas.

Eu tenho muito bem a dizer dele. ? E deu estrago? . não era ele que dormia uma noite inteira na cama enquanto não alimpasse até a última pitada.A leira andava de relvão... dize lá? . Ex. . olhos em terra. Porque mude de opinião ou não tenha vontade firme. O Calhorra é que não está pelos ajustes e teima em dar parte. cinco réis furados. meu senhor. se não valem. sim. dia de feira em Orcas. A leira era tua.. alguém acredita nas juras dele? Por 9 . Mas o entendimento deste homem gira sobre rubis que são um segredo para toda a gente. quando foi da outra guerra. mas pode V. Mas como era preciso fazer desde logo justiça. Quem tem filhos tem peguilhos. Se lá lhe cheirasse ainda volfrâmio.Será apenas a meter medo. denotando todavia estar em consciência a revolver o raio da morte das suas razões. e também motivos de sobejo para o detestar. .E então? . deu-lhe o Demo arte.Mas. declarou: Saiba V. minha santa! Esse Calhorra é um tipo como não há segundo do Vouga para cima. Maria. pôs-se a arranhar o recado: . Que tiraste de lá? A mãe dispunha-se a responder.Pode ser que tenhas malucado mal. mas para lhe falar franco.Que falasse ao Calhorra. haja de perdoar que também é pai. e torcendo-se para a outra banda. dize-me cá. bem sua..a estar certo que nem o Calhorra ficou pobre. E que esperavam vocês de mim. não atenderia ao pai.. já ele lá tinha andado a esfossar. . o delito é o mesmo. . um bicho a que só faltava falar.Não sei.a que a propriedade é aberta. para o mal. Com ele nunca se sabe ao certo de que banda sopram os ventos.Coisas aqui do meu Augusto.lhe desculpa de o trazer para pião das nicas. .Pois será. rapaz! Muito mal. . que é sábado. tu não sabias que não se pode entrar sem licença na propriedade alheia? Não sabias? Pois tinhas obrigação de saber que já não és criança nenhuma. .Procedeste mal. não sei se valem. maluquei para comigo e para com Deus que se ele não atender ao senhor doutor. ir fazer queixa.Derrotou duas ou três caneiras e eu prontifiquei-me a pagar o dano. Tirei de lá meia dúzia de pedras.respondeu a mãe. mas os estragos que causou não deitam ninguém a perder. e para que lhe havia de dar o diabo? Ir esgaravatar numa leira que o Silvestre Calhorra tem ao Vale das Donas. Não me roubou quase metade dum giestal com uma porca mascambilha de marcos. incapaz de justificar-se. tão frenético que os cobiçosos até mordem as lajas com os dentes. nem eu rico.Anda por aí tudo frenético com o volfro. mas tu não tinhas o direito de lhe bulir na terra arrelvada. Este mafarrico não podia escapar ao andaço. rapaz. do Verdegaio. deu-me uma chumbada num cão.Valham que não valham. porque o foi apanhar de manhãzinha a comer-lhe o coelho que caíra nas armadilhas? Bem sei que se fartou de jurar e trejurar que fizera fogo supondo tratar-se duma raposa.. Por modos tem tudo preparado para amanhã. Ex. lembras-te. Augusto. muito menos o Calhorra que impa de farto . . dirigindo-se ora a um ora a outro. Olha com que anjinho! . disse Manuel Torres: . mas ele. Em tempos. Veja! O rapaz mostrou-se de todo cómico ao lado da mãe. . O meu senhor sabe. mal me apanhou longe daqui? Pior do que isso. Àquele. é possível que não. dando um passo à frente com desengano e atravessando-se diante dela.Então.Ora se sabe . mesmo que cá viesse do outro mundo e lhe pedisse de joelhos e mãos postas.Pois sim.

Augusto. lá teve a birra. complicado ou parecendo-o.Ah! ah! . pelo que pronunciou também como se ele não fosse presente e com ar de quem dita sentença favorável: 10 . dou-ta a ti e é um pau. Augusto? Mas bem.. Mas teve uma birra com o primeiro sargento por mor do capitão que gostava muito dele. que castigou a ambos.É verdade. Chegou mesmo a deitar as divisas de cabo. é verdade . o mesmo era que dizer à mãe: “Conte vossemecê. decerto por não haverem há pouco tomado a sério o seu protesto.Não senhora. não porque ela não pisasse o terreno firme. Havias de ser tu a contar ao senhor doutor.. se taciturno estava. Ele. devia desagradar-lhe ao último ponto e. Mas fica entendido. Prosseguiu a mãe: .Brutos acabados.Não cismava noutra coisa.Qual mexe-te. ala. ali se despicaram de palavras. verdadeiro. meu senhor? Imagine que o alma de cão do tal sargento um dia chegou-se ao pé dele na tarimba. e aborreceu-se da tropa. Era bom homem. . rapou dum estadulho e fê-los meter na igreja de rabo entre as pernas. um dia viu-me acometido por uma roga de sicários a soldo dos talassas de Tendais. O capitão gostava muito dele. continuando embezerrado.decidiu-se ele a contrapor.O Augusto compreendeu onde pretendia chegar a malícia do salafrário e lá retrucou: . Se não tem quem lhe engraxe as botas.outra.” . Augusto..Então o Augusto parece que lhe respondeu: “. a Maria Aires fazia-o tão juvenil e possessivamente como se nela se operasse desdobramento. “ Mas conta tu. e Torres olhava para ela em silêncio e com o mesmo prazer com que ano por ano se vê reflorir uma pereira...balbuciou Manuel Torres. As ordens só eram bem cumpridas quando era este senhor o encarregado de cumpri-las. porventura. Ele ficara embezerrado.. engraxa-me aqui as botas.“0 meu sargento vem errado: essa honra vá dá-Ia a outrem que o filho de meu pai nunca teve nem cobiçou tal oficio!” . e. Mexe-te” Conta lá agora o resto. que este meu filho é espirra-canivetes. para que está a falar? . e se não entra o comandante. A mãe não percebe. ainda a melhor maneira fosse desmenti-la. se quiser. Homem. pois não era. mas porque. coitanaxo . engraxe-as você. que o amesquinhava. estás mesmo um pato mudo! A mãe falava como se ele não estivesse presente ou ela é que tivesse sido a protagonista da anedota. É uma criatura assim. . já que és mestre em engraxar..apressou-se a mãe a dizer.“Ora.Como pode imaginar. não foi nada disso. meu senhor. meu senhor. desejando afirmar a sua personalidade. ora.. Augusto.” E ela foi contando: . .Esses sargentos às vezes dá-lhes para brutos! E não foi preciso dizer mais nada para a mulher sair com a versão refervida nos soalheiros.acudiu ela. estendeu o pé e disselhe: “ó cabo. Augusto: julguei que seguias a militança? . . Assim que apanhou baixa. Tal papel. Agora dize-me cá. nem meio mexe-te. À falta de escova tem a língua que lhe pode servir de esfregão. moita carrasco. que se faz tarde! . Sempre que lhe acontecia falar no rapaz. boquiaberto. Manuel Torres sentiu-o.Sim? Augusto encolheu os ombros. botavam-se um ao outro. estavase mesmo a ver: . conta. Quero dar-te essa honra. agora dava sinais bem manifestos de contrariado. eu falo ao Calhorra.

duas dúzias de contos de réis. O moço matava-se por arranjar dois vinténs. Maria vai com as outras.E voltandose para ela com tom entre risonho e cominativo: . muito encolerizados de se verem atados pelos pés e em tal inpace. sistematicamente ela é que se arrogava de voz activa quanto a dar ao badalo.. agora que ela não estava. pois. que estava um texugo de opulento.. meu senhor. ainda quando põem navalha na cara. fazia menção de se encaminhar para o pátio. e ninguém o entendia como ela. O Augusto correra à estrada. No patamar. A própria ouvira dizer ao ricaço ..Anda ou não anda? O rapaz franzira os lábios. Bem sabia ele que escusava de teimar com gente daquela força.Ora essa?? Era uma desfeita que fazia se não aceitasse. Augusto. Mas olhe. Encolheu os ombros. um pouco para desafrontar o moço do seu enleio: . Nunca me faltou ao respeito. é pedir por boca. o que se chama sair do lugar que lhe compete em relação a mim que sou sua mãe. tornando-lho recomendável. satisfeito de se ver longe e desafogar. arrumávamos o assunto. dentro duma cesta. ambos a olhar para ele. Naquele esgar transpareceu a Manuel Torres que ele dizia escarnentamente: “Pois. Repugna-te? Manda-lhe recado.O rapaz sacudiu um ultraje. Maria Aires. e foi Manuel Torres que se viu obrigado a dizer. É verdade! Tinham ficado em silêncio. e compreende-se.Olha. sabido quanto a juventude é petulante e malcriada. Ao passo que sugeria este expediente. carregando ao mesmo tempo as sobrancelhas num gesto de abandono. como se olha para um bezerro quando dá galardão do trato que recebe. podia ser mais moderado.. à espreita de alguém que levasse rumo pela porta do Calhorra..Bah. já casados. estrebuchavam os dois ou três frangos da oferenda. senão fico mal contigo.. As palavras eram as mesmas de todos os presenteadores. e conformidade. Não era segredo nenhum que namoriscava a filha do José dos Cambais.. e deitam.e rolava o polegar sobre o indicador. O que é. entrou no caminho das confidências. São para o almocinho de amanhã.Hás-de tornar a levá-los.” Mas sua mãe soltava de novo a taramela e ele limitou-se a afivelar um sorriso despiciente. eu a bem dizer não tenho escândula deste meu filho. mas o seu toque era outro. umas vezes por outras com sobejos motivos. não há que ver. e é um moiro de trabalho. até já estoiro de rico! Se precisa. o que foi logo percebido por Maria Aires que desandou... Torres breve penetrou no segredo do coração extremoso. estão às ordens uma dúzia. podia ser moderado. Sempre que a pessoa dele estivesse em causa. Naquela ocasião não queria por nada deste mundo deixar de advogar-lhe a causa.. E que fazes tu agora? Andas então na trafulhice do volfrâmio? . Velo da tropa e fez as malhadas de fio a pavio.. novas vergônteas e novos ramos.e palavras eram estas pronunciadas de caso pensado para que ela tomasse nota e servisse ainda de correio: “Pobretanas que não sejam capazes de manter a cabritada que haja de 11 . Mas antes petulante que sabujo. Manuel Torres apontou: . Persistindo na inveterada pecha de ser a língua do moço. participava da ilusão de todas as mães: suporem os filhos sempre meninos. que este ano com a escassez da gasolina voltou-se ao mangual. se tu fosses chamar o Calhorra. . . e dizia que só dava a moça a quem tivesse disto. porque só ela é que se reputava com autoridade para fazer afirmações de certo peso: . sim.

Pela estrada. e até um carro de centeio pelas almas do Crasto. raparigas de xaile dobrado à cabeça. Manuel Torres saiu-lhe ao encontro. sapato de fivelas a ranger. primeiro à mãe que lhe deu a teta. e o Augusto e a Teodora ficavam também nas suas. e nunca mais ma pagarem. Era uma flor e então assento!? Também lhe fazia rapapés o ruivaças do José Francisco. Vestida de verde-ferrete nas lombas e de roxo na dobra dos vales. do tempo quase lendário dos capitães-mores. e Manuel Torres quedou-se ali de cabeça descoberta. sempre de corrente ao peito. O José Francisco saíra um meliante de alto lá com ele. sinal de que o rancho da Lapa entrava as portas. de Muradais. duma brancura e altitude de água represa. dar um pontapé na mofina. andavam de candeia às avessas. Ao longe. risquinho do bigode na cara deslavada. o hausto da extensão. Mas rebento da Minga e do Fráguas. Podem levar-me uma vitela fiada. prazenteiro. Era por causa da rapariga e por mais nada que ele andava a esgadanhar no chão alheio. e a sua voz parecia regerse pelo gorgolejo da água ao despenhar-se da bica de pedra e embeber-se na massa líquida do tanque com sopitada cadência. A Teodora sabia a rês que ele era. o pigarrinho a advertir: cá vou eu. abade da freguesia. direito a ele. cá VOU! 12 . Descia a tarde. filho da Júlia Minga e do Antoninho Fráguas. mas nem precisava de o saber. Amor com fome é como sardinha sem pão. poder ir ao Cambais e rolhar-lhe com um bom pacote de mil a boca destravada. brancas e altas. E. e por isso ele e o Augusto. como ultraprazenteiro caminhar. e empoleiradas por cima do xaile as soquinhas. De súbito. via-se deitada de borco a gigantona da Serra da Estrela. Que a Teodora tudo merecia não havia duas opiniões. pés para a Guarda. seguro disso. como as ribas dum bonançoso mar. cavem primeiro!” O Cambais lá estava nas sete quintas da sua razão. tep-tep. e para o povo ressoava estrondosamente o bombo e tiniam os ferrinhos. tamisado pelo verde da folhagem. isto é. homens de lódão na mão e registo no chapéu.nascer no curral. misto de pé e de cavalo. e as suas vozes na tarde serena repercutiam com um timbre tão cristalino que nem reflectindo a própria claridade celeste. razão onde cabia uma boa cestada de desacertos. cabeça para os Cântaros. os ricos e pacatos de escancha-perna no seu asno. imagem do João Ratão na facécia dum humorista. A Maria Aires falava com fluidez e brandura. bicicleta. entre a toadilha da Maria Aires e a da fonte. nem filho de cão e loba. Pelo seu Augusto é que ela tomava ventos. deitando olhos para o portão. A cachopa custou muito a criar. Respirava-se ao abrigo das velhas faias e loureiros. sem fímbria de nuvem que a mareasse. Querem ter onde esfregar os untos. regalado. avistou o Simão Tadeu. Lá a cachopa não levam nem à mão de Deus Padre. Passavam por golfadas. Alguém. Vinha com o Aires e de Alcobaça em punho esponjava a coroa sua renta. que avançava pelo pátio. por causa dela desunhava-se por ser alguém. desamparem-me a porta. que o rescaldo da terra baforava lume para assar as cotovias com penas e tudo. em segundo lugar a mim que estive sempre de corpo presente a aguentar o embeleco. Sim. a sua imensa bizarma era para lá das seis léguas de espaço. ainda ontem camaradas de regaleira. para ele o eclesiástico. passavam romeiros de outras terras. o rapaz estava-se ninando para o José Francisco e para as sentenças do Cambais. se elas não tivessem o cuidado de se defender do sol na fresquidão das boscagens. borlas a arrufar da bolsa do relógio.

Nascera no cisco. quando proclamada a República. O Simão preparava-se. Brás da Nave. já no delíquio derradeiro. todo desportivo. e já erguera casa de sobrado. Válido nos 55 anos. piloto-aviador. pai de filhos . Por outro lado. e gregoriano até a medula. engenheiro de minas. viera substituir o Lourenço Bacelar em Mouramorta. esse mesmo. a título de confessor. persistia em pagar todos os Outonos dois alqueires à parada do Miguelão. e não deu corpo às suas aversões.o que em regra lhe acontecia com a maior parte da gente que pressupunha de elevada . ficara a detestá-lo figadalmente. e soprava-se que trazia dinheiro a render. e S. no caminho para Orcas. A quarentena ulcerara-lhe corpo e alma. Caçoando cordialmente de parte a parte e cambiando-se fingidas ternuras e amenidades. Mas. Mas. Nunca mais na sua igreja se celebrou cerimónia festiva ou ritual que requeresse a presença de mais de um sacerdote. tão certo como dois e dois serem quatro. além de a época não ir para cavalarias. campeão de ténis. quando surgiu o filho e o correu à má cara do quarto do moribundo. negra e farta aldeia. O que valeu é que a fé do povinho nada tinha de farisaica e não secundou os zelotas. pouco tempo continuou a exercê-lo. O Tadeu. sabendo hebraico. para se gloriar da sua vitória total nas vozes arrependidas e tremelicantes do colega. De facto.ali estava Severo Bacelar. Por sua vez. cautíssimo. embora pobre de carnes. Nela mereceu o Simão Tadeu esporas de oiro pela arte consumada com que fez quebrar nas mãos do indigno pastor de Mouramorta o cajado de S. O velho abade quis reagir. pagara sisa de duas ou três boas regadas. Apartavam-se dele como de leproso.mas não o deixava transparecer.que não metera em linha de conta o ódio vigilante dos inconformistas e pagara caro a submissão. ultramoderno. A guerra era subterrânea. atabafada entre brenhas e penedos. Nem todos o prezavam porém em conformidade. não tardou que o velho resignasse o ministério.Que se julgasse pessoa de muito respeito. O velho abade fora um dos que ingenuamente. moldando-se à sua observância.estava rico. entre o cura dos bons velhos tempos constitucionais. meio sacerdote. e igualmente o padre não oferecia flanco. Ali estava ele que não morria de amores pelo padre . que lhe herdara nome e casa para maior lustro e acrescimento . era com ele e ninguém tinha nada com isso. era a pessoa mais cortês deste mundo. todo desempoeirado.a Igreja sempre que fecha olhos aos desmandos dos seus ministros é que não tem diante de si escandalosos . meio agricultor. desmanchadão mas cheio de humanidade. calva apenas incipiente na trunfa espessa. amigo como irmão do velho abade. se deixaram lograr pela Lei da Separação. que era a cabeça de freguesia e englobava Malhadas. andava montado numa égua vermelha pela qual. Cheio de mansuctude. Pedro. as autoridades eclesiásticas em matéria de firmeza eram do mesmo barro que as da República e temeram-se de fulminar à mão-tente seus anátemas e coriscos. que representava na igreja militante nacional o levita da transição. ainda que prudente e recatado . e sem quartel. o padre retrucava-lhe na mesma moeda. mas em que força se escudar? O poder civil largava-o ao desamparo como a todos os outros em iguais apuros. como dizia Homero de ítaca. queixando-se embora dela como Abraão de Sara. Manuel Torres. embora não o múrius de sacerdote. O Simão Tadeu. e o concordatário. talvez por isso a pior de todas. nariz esponjoso. Pelo papel. mascaravam ambos eles à maravilha a recíproca antipatia. lugar armentoso. branca. que ajuizara de insidioso. 13 .

...Vá a banhos. aguardavam a morte. embora as dores nas cruzes mal me consintam erguer a cabeça. Meia dúzia de imersões e fica são e escorreito. sem os esbanjamentos das Câmaras e as alcavalas e arbitrariedades fiscais dos organismos que lhes eram anexos. . sim. Reparei. . mas que ficasse bem assente.. . as contribuições eram pesaditas. da linhagem das Ruças de S. porque as não mereço. a girara para a Lapa a oficiar na festa de Nossa Senhora. abade.. que não têm conto. que as fontes de produção eram as mesmas e exploradas com o mesmo vigor. As condições de vida essas tinham-se modificado. comigo não alcançam mais longe. vicioso? Diga-me lá se não é um vício deixar todos os anos o fresco das praias.Bispo nem quando esta vara florir . cheias de préstimo e de virtudes. As raparigas parecem flamencas: olé! e as padeiras trazem trigo governado com levedura holandesa..? .Não bebia. e vir atascar-me nesta sujeira de terra com este sol. e tinha ao serviço a velha Maria Ruça.? Ignorância? A depressão provocada por outro gravame? O Simão Tadeu balouçou várias vezes a cabeça. hem. É ela que me traz de pé. reparei já que as berças foram substituídas pelo macarrão e a aletria e a olha pelo café . boa. que podem ser senão os ossos do ofício? O Simão Tadeu tornou a sorrir e pretendeu retorquir com bizarria: . abade. Reparasse Sua Excelência e veria que se tinham modificado. mas tão pequena que ninguém tinha ocasião de protestar como certas as suas virtudes contrárias. a Ana. mais viçoso. então a aguilhada do rei Vamba floriu ou não floriu? . que a broa desbota o dente.. estes penedos. Sim.salvou o doutor. sim. e pela medida grande. o padre dissera na capelinha de S. dores nas cruzes. quanto à miséria ambiente. Brás. ainda que compreensíveis. A irmã. pela graça de Deus. . De resto. quer dizer.Não diga isso.Vicioso.. Como se explica? Tara. O mundo é seu. com a alva. sim. E em apoio citava um caso que não se repetira. detinha-se em Malhadas a cumprimentar “o digníssimo doutor”. esta labregada. . Agora.e sorridente o Simão brandiu a chibata de sanguinho que trazia para espertar a égua. Isso não oferecia dúvida. Mas as mercês de Deus. definitiva e desinteressadamente. É uma verdadeira canceração. não jogava mais que o dominó e o loto. coitada. suportáveis.respondeu Manuel Torres. devido em primeiro lugar aos cadastros que eram defeituosos. Não se viam há coisa de um ano e apertavam-se efusivamente a mão. abade.Floriu.Ora viva o meu abade? Rijinho e próspero como tem de ser um futuro bispo. Do padre murmurava as piores enormidades a chamada boca pequena. mas imbecil de todo e comida de misérias?! O Tadeu não quis contrariá-lo. de volta.. que depois de duas ou três cabeçadas acabavam por se enfeudar a um eclesiástico ou a uma família rica e ali. que ajustara com os de Malhadas a troco de cem medidas. tratando-se de eclesiástico. e limitou-se a observar. lá teria as suas razões.Quem havia de dizer! Também já não vejo trajar de burel. e assistia-lhe à casa de lavoura que herdara em Malhadas por morte dum tio afim. assoldadara-se com o Antoninho Fráguas. Miguel a missa seca do binário.O doutor é que está cada vez mais jovem.. mas que lá quanto a projectar luz era como um verdadeiro espelho de cristal: Segundo uma postura 14 . como num claustro. a mulher e os rapazes. . Logo de manhã.

Assim sucedera ao Mões . pedia 15 .Com Pedro o Cru. do bispo ou do Senhor. Tadeu.respondeu Manuel Torres. dizia: . mas dispensáveis.. Não tem notado que os seus paroquianos pelo facto de serem batidos.Só há bocado bateram aí quatro. não passaram a ser menos mansos. o gado tinha de ser dado a manifesto até fins de Dezembro.alegaram os criadores. .. tenho uma incumbência para o meu doutor.“São as crias que nasceram posteriormente” . sim. se acocorara à moirisca ao toro duma árvore sem ninguém dar conta. Manuel Torres ergueu o dedo contra a indiscreta. se não acudissem ao relaxe... Assim se fizera.Brada aos céus .. pondo-se muito sério. e essa é de espantar que tem de seu e é governadinha.Sabe-se lá. três pessoas distintas e um só interesse verdadeiro. Pagaram. essas praças dançavam na corda.. iam os bens à praça.permitiu-se dizer a Custódia Sancha que. ..Sou todo ouvidos. . e nem sequer lhes ficou o direito de bufar. entretanto.?? Manuel Torres rompeu às gargalhadas. nem menos cristãos. a fugir à turbação. Em geral. Os tempos não correm propícios a jacqueries. é caso que as alçadas que cometem não revertam em benefício próprio. meio afável das pessoas que se reputam superiores. como bicha de rabear. Em certas alturas do ano eram mais as lágrimas nas casas dos serranos do que a água que agora levava a ribeira.insistiu ele com aquela pressão meio desdenhosa.Não sei.?? . não sei .Sua Excelência havia de tê-lo visto com bornal de mendigo .” Não chegavam ao fundamento. .. Andava tudo de chapéu na mão: ai tio.. Se não pagassem até ao fim de Março. E de repente. . no domingo passado não estava a dizer. que os seus paroquianos eram maus como as cobras e que em matéria de pouca-vergonha estavam cada vez mais refinados. E como aquele uma infinidade de abusos. senhor! É a minha opinião e é a opinião de muita gente boa.. É ou não é. Onde isto irá parar é que eu queria saber?? . pois não pagaram. ai tio? Decerto que não tinham deixado de lhe vir bater à porta?! E quantos! .É verdade. vendidos e mal pagos. abade. .Sim.“Não queremos cá saber.O Lázaro Fandinga levou-lhe 25000 rs. tosquiados.. pelo menos em Mouramorta. está visto. O principal era que pagassem . foi esbagoando o riso.. a Rosa Pedralva. e se consolava a ouvir pessoas tão bem-falantes.É ou não é. relaxe. como quem desata: . sorrindo. sabendo quanto a espécie eclesiástica foge de se lançar por sendas em que perca tempo ou latim.exclamou Manuel Torres. Em vida de meu pai. senhor. consoante. o Aurélio Bebauga.concelhia. em pleno adro. ou Setembro. depois de trazer cadeiras. meu senhor.. .. E como visse uma atenção indulgente nos olhos que a observavam. uns sediciosos de Vila da Ponte deitaram o fogo aos paços do concelho de Sernancelhe. .. acrescentou de golfada: . Mas em Fevereiro a Guarda viera vistoriar os rebanhos e encontrara na manada deste e daquele tio mais cabeças que as constantes do manifesto. . dado que mingadita com o sol que tinha feito. senhora Maria Aires? A Maria Aires sorriu.Mas V.que ficara a tinir. E quando lhe pareceu que estava livre a retirada proferiu: . A Maria Aires. mas absteve-se de responder. abusos de quotiliquê.Não serão os únicos.. R.. têm de pagar a multa. mas já o padre.acabou por declarar. estalinho a estalinho.? .

. sentados em cima da parede.respondeu o Roupinho.. É curioso. criar sombras. ar de capataz. Encerrado o aparte. pscht. estou a ver. quando um automóvel Ford. com a outra esmera-se por embelezar-lhe a casa. ele há-de estar a vir. veio oferecer-lhe chumbo de contrabando para a caça. ó patrão . de facto. volveu o reverendo: . A romaria está tomando cada vez mais incremento. Ia a voltar à esquina para a estrada.Este ano ainda lá não pus os pés. Por conseguinte. aos entivadores e salbreiros outro. O senhor doutor lá concertava com o tio Calhorra. os piteireiros.gritou-lhe o sujeito que vinha junto do chauffeur. O Roupinho.Pscht. os mirones que bamboleavam as pernas. As esmolas têm engrossado. e também já não fora pouco o tempo que lhe fizera perder.Em boa actividade. de Cruita do Alto. que era humilde e tinha a bunda calejada dos pontapés. Provavelmente em seu inconsciente estaria a desejar que o padre se pusesse ao fresco o mais depressa possível ou pelo menos que o não deixassem sozinho com ele.. à sombra dos ramalhos que refrescavam a frontaria da taverna.reatou o Tadeu .. Tem ido por lá? . E depois? . tipo “calça arregaçada”. fazendo mil reverências.. afluíram curiosos das quintãs. Também só cheguei há meia dúzia de dias. veio gemendo. desperta a atenção pelo velho Ford. tanto mendigava com meninos alugados como bufarinhava. afinal.. e que com a barulheira do motor não podia ter ouvido o doesto. da encosta que olha ao nascer do sol. puxando da sua nota.atalhou Torres de modo tão imperativo que Maria Aires compreendeu que era uma ordem que recebia. viraram a cara.que deviam aumentar os réditos do Santo Antão. Deus castiga sem pau nem pedra e o padroeiro não tem mãos a medir. lhe fez dar salto de gamo e mugir: . espera um poucochinho.Gente não falta? . . e o homem lá se foi de mão sempre no carapuço de Alvite. sim. . e fazem grande destroço nos irracionais. os andaços matam menos gente. aumentaram também os réditos. ora comprava cornelho.Não. Trazemos agora em vista desenvolver o plantio do arvoredo. seguindo sua rota.? Na estrada. se com uma mão vai amealhando. que a Mesa. que andava com a rifa de terra em terra.interrogavam.Arre que é bruto? . 16 .O doutor não é proprietário duma das encostas. a concertina. E consoante..licença para se ir embora: tinha o vivo a acomodar.. saltaram em terra. se bem me recorda. Ele próprio reparou no categórico da voz. a começar pelas pernas. .Então quando lá for. estacando de rompante. arrasrando o seu rancho. negócio de “pinchas” outro. A como pagam? . e põe-se tudo em pratos limpos . Torres despediu-o gracejando que lhe faltava tudo para caçador.A confraria de Santo Antão está no propósito de continuar com as obras no cabeço. ora vendia mecha para fumadores. ? Manuel Torres e Tadeu tinham-se insensivelmente afastado pátio fora até o portão. há-de verificar que se alargou e murou a platibanda e se dispuseram muitas árvores.Dizia o meu doutor . que o santinho em dias de tisneira é o cimo dum vulcão.faça o obséquio: por aqui não haverá gente que queira ir trabalhar para as minas da Sobriga? . De bom proveito lhe serve. matam menos gente. Aos marteleiros dá-se um salário. sim. úteis ao homem..

boquiaberto. mas primeiro hei-de-me esclarecer. olhem. Agora de sociedades em que entrem o Antoninho. persistindo as causas. o que não escapou à observação de Manuel Torres que acrescentou: Mas que tenham andado ou não tenham andado com pesquisas...? Não sei se sabe que mister James Corbet fez ali perto umas pesquisas. não sabia que contestar. irmão “pagão” já se deixa ver. Pode o terreno estar dentro das áreas registadas e não quero complicações para ninguém. Para os tempos que correm não é má pinóial .. sim.. um pouco pela rama. Mas. como lhe requeria a índole generosa. o oiteiro é particularmente metalífero. Segundo conclusões. de Malhadas. ao fazer seja o que for. persistem os efeitos. Está dito. que voltava de estendedoiro.. Daqui. irmão da Júlia. Brás da Nave. meus senhores. em princípio não digo que me recuso a dar o chavascal.. tem sempre a vista no segundo plano. A falta de memória era sinal de que o seu embaraço continuava. e Manuel Torres interrompeu: . perdão..O doutor faria grande fineza à Confraria cedendo-lhe o terreno que só lhe dá prejuízo. Manuel Torres veio ao sentimento daquele empacho e inflectiu sem esperar resposta: . resigno a posse do barreiral em proveito da Confraria.Pois se assim é. um pinheirinho novo.Quem são. Amanhã o direi. isso não tira. ou. meu abade.advertiu a tia Sancha. 17 . São como a da raposa e do jaguar. os dentes das cabras não cessarão de destruir quantas árvores ali se plantem?? . daqui é o Calhorra e o José dos Cambais... Quem são. a começar por tão simpático Santo. nem mais nem menos um dos testas-de-ferro do Antoninho Fráguas que. o Adolfo e o Manuel Minga. de. o Minga.Pode ser que não. de S..Essa é boa!.Melhor só banqueiro? .?? A menos que santo tão milagreiro como o beato Antão vá de futuro guardar as cabras? E Manuel Torres deitara a rir diante do abade que. .. libera me Domine. seis e oito horas de trabalho.Olhem.Orça entre dez e vinte mil reis. .E para que o quer a Confraria se. . julgo eu... Quem são os da Mesa? . a menos que me tenham irradiado. tanto melhor para o caso . Parece-me que sim..Não ponha mais na carta. mais do que isso.. .. de quem sou irmão. lá vem um dos sócios . são os próprios mesários que andam apostados para me aborrecer do terreno. Então é porque os rebanhos malfeitores são pertença dos mesários..gracejou Manuel Torres para o Tadeu. E digo parece-me que sou porque os gados e os mateiros ali não deixam ir por diante uma giesta. Perguntava o abade se eu era o proprietário duma das vertentes do Santo Antão.Mas já que lhe interessa. *** O abade ficou ainda mais interdito ao ouvir aquelas palavras. A Fazenda é que todos os anos me certifica que sou dono do chavascal. da fábula tupi. e o Calhorra. . É capaz de me jurar que os da Confraria não trazem pedra no sapato? Não? Com esse Minga.. quase sem transição.. que sou.. isto é.emitiu o abade.

O Calhorra. franzindo os lábios. só por doença. alto. lá sabe. Ouvi dizer que está aí quando a gente menos se precata. lá vão.. no intuito de amortecer o apimentado do despropósito. grossas botarras de bezerra por cima dos fenomenais joanetes.. com certo ar afrontoso para o velhote. desdenhoso. Mas. Temos de resistir aos agressores. como quem por desleixo abriu um escano que se deve conservar fechado. Medo cagaço é um.. de olhos absortos na fita da estrada como o santo do seu nome.. .Olhe lá. . Calhorra..? . .A Malhadas. dava Esmolensco como evacuado..Pois sim. Mal logo seus lábios delgados se fecharam apressadamente sobre esse sorriso. a Portugal e Espanha . mas há medo e medo.Quero .Com sobressalto.. Diga lá.retorquiu agridoce.O senhor abade é mestre em distinções. ao Sul.e apontava para o Augusto. . e medo receio que lhe levem o cereal e as vaquinhas é outro. esses. já que dá sota e ás em tais artes. sempre gostava que me esclarecesse numa coisa: qual preferia apanhar pelas pousadeiras. .Era com efeito o velho Calhorra. Atravessou a estrada direito a eles. . Que diabo de história é essa do rapaz que lhe foi cavar à leira do Vale das Donas? . ao Norte. que ouvi em casa do meu colega da Lapa. disse: . lá aprendeu.Para que vivam? Bonzinhos? ..Então o senhor doutor também se botou até a serranada? pronunciou sorrindo.Não o diga a brincar. os outros para meterem os tampos dentro à Alemanha.e casquinava. seu Silvestre! . Os Ingleses deixam correr e armam-se. de 18 .. . vá mobilizando os cabos de ordens. e Nicolaievo.. Trazia um paletó de montanhaque. que na sua boca nenhum era postiço nem perdido. Durma em paz. . oscilando duma para a outra não obstante a bengala a cuja forquilha de rangífer se encostava. amigo Calhorra. ria com os dentes todos. . que penso isso mesmo. chave de égua ou pau do ar? Estrugiu grande risota e o salafrário. como presidente da junta. sossegue.Para quê? .Para que viva.. deformadas por cinquenta anos de cavaleiro à chuva e à neve. cortando na Rássia como faca num queijo..Ora.Nunca fui capaz de dormir de outra maneira ..Vem a fugir à guerra. .respondeu. ao recolher a patorra larga e calosa. Na feira de Tendais era tudo cheio que mais dia. Por enquanto não há razões para sustos. pernas em aduela.. Manuel Torres sorriu e Simão que ficara estático. cadenilha de oiro a bimbalhar no colete em sinal de festa. enxuto de carnes. Mas. menos dia. por agora não deve estar no plano.Não é asnático de todo. Arcaboiço rijo. O Calhorra sorriu novamente mostrando as gengivas muito encarniçadas por debaixo da boa cutelaria da dentuça... e não tome a mal que lho pergunte. e redarguiu: . A B. caramba.Os Alamões para arranjarem urna cunha no mar contra a Inglaterra.. olhos em que uma palheta de azul parecia pela mobilidade e ligeireza uma sardanisca.disse o doutor depois duma pausa. . disse para o doutor: O Duarte Ladeira foi-me dizer a casa que Vossa Senhoria me queria uma palavra. barbela nédia.B. .C. e na cabeça um barrete de pele de coelho que deixava escapar por detrás das orelhas as farripas ruças da grenha. uns ou outros dão o salto. Os Alemães.

senhor pai. Lá andava na cavação..Você está a caçoar. uma vez em marcha. Prosseguiu o homem: . e trataram de explorá-lo em comunidade. tanto monta que fossem seixos como diamantes.banda com a mãe.Olarila? . .Produziu danos. Pois à hora do almoço o catraio não tinha voltado e foram procurá-lo. grande e pequeno. posto o Calhorra fosse um velho de cabelos brancos e presidente da junta.. certo domingo.Como o filão ia pela calçada acima. já ninguém pode com a vida deles.vossoria deve ter ouvido nomear o Joaquim Fusco.? Manuel Torres sorriu. Não levou.. Levou-me talvez uma fortuna. em Ceiloes ficam todos ricos.. Vem tudo de fora à ponta de bilhestres. como se ali estivessem por demais. Portugal é pequeno. .Está bem.Olhe. ao passo que de boca torcida ia rouquejando: . levou-lhe alguma coisa? Logo à simples pergunta se viu o Silvestre Calhorra encrespar-se todo. E o seu olhinho azul chispava. .. saída do mais fundo do seu ressentimento. esburacaram a calçada e atiraram com um ror de casas abaixo. Este cão podia ter tido a sorte de ter dado essa ferroada no meu Vale das Donas. O que tem mais graça é que chegaram de valado até o cemitério. nem aquenta. Quer ouvir?.Escorropichado o quê? Sabe-se lá o que está por baixo da terra?! Às vezes dá-se uma ferroada e salta uma panela de libras. sonhei que na nossa tapada há das tais pedras negras e hoje vou para lá com as vacas mais o zagal. podia ser sábio.. Açúcar. se mete a província de Salamanca.. Descobriram um filão pelo povo acima. Que direito tinha ele de o insultar? Manuel Torres com um gesto remeteu-o ao seu lugar. mas por modos o bispo não deu licença que passassem por baixo das campas. Calhorra! Se não sabe o que lhe falta. podia ser grande.exclamou um capucheiro que se viera critremeter na roda por sua alta recreação e era o velho Cassiano da Urra. massas. que era o Calhorra. sim senhor. mas hoje falto à missa.” Pai . mesmo por debaixo das casas..!? Mais valia ter-me ido à tulha que já sabia o que me faltava. ao passo que a detinha com um sinal.Aí é que me dói. mulher. Vieram apurar mais tarde que só naquele meio tempo tinha ajeitado em minério para cima de quinze contos. Dia a dia a encher. se meu pai me tem ensinado para doutor. tendo pulsado com certo respeito o modo feroz como a máquina de cupidez. Queriam romper adiante. se mete a Galiza. nem arrefenta.Eu sei lá o que este ladrão me levou da leira. que há uns anos apanhou a cornada dum boi e ficou a andar de esguelha . Vendo-se assim desfeiteado. Maria Aires ia a entremeter-se. como missa a mais.. arroz. . replicava: . havia de subverter quem se lhe atravessasse no caminho. há anos? .Deus me perdoe.e a voz de Silvestre Calhorra era gutural. Quer vomecê saber. Sou tolo.. Também já lá não há velha que deite galinha. . quando foi à cama chamá-lo para a missa: “. Augusto deu um passo à frente com ar respingão.. se ainda lá não chegaram. mas ele. . O que os há-de matar é a soberba. Sim senhor. O senhor não sabe o que aconteceu aqui perto? Então eu lhe conto: Em Raposeiras do Crasto um rapazote disse para o pai. é às rasas. ali pôs-se tudo a trabalhar: homem.riu-se por lhe parecer maluqueira a tineta do filho e. não o tolheu.? Os ladrões confessam-se. Tudo está no se. mas o Calhorra não tinha já escorropichado o filão. nem dona de casa que amasse pão. 19 . missa a menos.

O Reganha esteve calado a ouvir e subitamente botou alarde: . o Asdrúbal rico que tinha dinheiro nas lojas de todos os lavradores e emprestava aos famintos pão a quarta. O Silvestre recuou dois passos. vendido ali ao balcão a quem mais desse.O volfrâmio é-lhes vantajoso na guerra. do que andam na Tojeira.. que aplicava a si próprio o tonilho: sou filho da fortuna. do Filho e do Espírito Santo. diga lá. que já o automóvel rompia marcha depois de o chauffeur e o capataz se desbarretarem a Manuel Torres em quem tinham farejado pessoa de qualidade. Agora. .Tem algum que queira vender?.Ingleses e alemães disputam-no como gatos a bofes. topa-a-tudo e frascário de marca que blasonava trazer três ao ganho e não lhe escapar solteira ou casada. filho bastardo do Fráguas. e até o Gregório dos Santos. mas com ar de completa abstracção. e já é uma sorte pagarem o trabalhinho! 20 . adiantando-se. apinhada à volta: Pagamos as horas extraordinárias a dobrar.E vai subir . mas não indispensável emitiu Manuel Torres. ao que parece. . dizia com arreganho para a rapaziada. ao que consta.Qual o quê!? . ao tempo que punha o carro em andamento. novote e já dado aos sete oficios como o pai. que já fora marteleiro na Sobriga. cabaneiro onde melhor lhe ventava. Pagamo-lo a 350 escudos o quilograma.. que ouvira uns e outros. Se tem. neto da extravagância. . .. o Luís Ougado.. com certo ar de não presta nos lábios finos.. Sem o volfrâmio não podiam fazer guerra. arrematador de travessas para os Caminhos de Ferro. utilizam-no os Alemães. o Reganha da taverna. chamado à cabeceira do Cota Velho que estava com a morte no gasganete e. amanhã são capazes de se engalfinharem mesmo aqui em nossa casa para saber quem o leva. . Agora é a peso de oiro. com grande ferro da parentela.acrescentou Tadeu. de grande barrigão e maior febre de enriquecer.Além de dar uma têmpera especial aos aços. para fazerem a guerra bastava ter unhas. como catalisador na produção da gasolina sintética.chalaceou o Urra.E alguma escorre para a sua gaveta . “à base de separadora”.contestou o Luís Ougado. uma algibeira de pedras é um dinheirão. o tanas vêm cá. . o Quim da Urra. Está a entrar muita massarocal. para mais que nunca para menos. põem o burro do português de picareta. o Zé Francisco. não acabava de despegar.. . . não se deu ao incómodo de rectificar o arrazoado do homenzinho. Cachorro de mim! A última palavra fora proferida de arranco como uma golfada de sangue e remorso. Qual. Na Sobriga os jornais andam sempre adiantados dez tostões. . Depois. sim senhor. Atraídos pela pessoa do senhor doutor tinham-se aproximado mais paroquianos: o José dos Cambais com as suas suíças do tempo das almotolias de barro e a moeda de jarra ao pendurão do colete desabotoado.. o inglês. o minério havíamos de ser nós a tirá-lo. engajador.Em nome do Padre.A como corre o volfro? . cabeça robusta de Sansão. e ficou a ver o capataz da Sobriga que.. olhos garços no anegralhado da tez.O Tadeu. o alemão. e benzeu-se: .Portugal desta feita fica remediado um par de anos.Para ortugal ficar bem. o que se chama governado. barbeiro de Pedrões da Nave. flexuoso e sorna.perguntou Silvestre Calhorra. contratador de “ratinhos” para o Alentejo. sorriu. má rês.

Pode muito bem ser que uns metros abaixo das tuas patas.. e ele o que tem é larota. Sim. mas algum volfro foi e não tive por mal empregados os aguços que paguei . Volfro há-o onde Deus quer. o velho oscilava como um traquitana de molas derrancadas e a sua marcha era incerta e claudicante. vai senão quando.? . . vá de roda. No meio da rua. em tom de desprezo e piedade. estacou para replicar ao doutor que dissera: “O povo tem fome.. muito menos tu que andas no mundo por ver andar os mais. perceberam que dizia: Que diabo de terra é esta onde o oiro anda aos pontapés! Armara-se o danço dos romeiros em plena estrada e. A certa altura.Diabos levem a cainheza da nossa terra? Não dá uva. arrastados nos volteios.! . embora não tivesse a mania de chorar-se.observou-lhe o Calhorra. na pessoa do Zé Francisco. e era agradável ouvir aquele reportório dos tempos. nem fosse próprio dos seus olhos ver os horizontes em negro. Pois fiquem sabendo que à minha bisavó ouviu minha mãe contar que uma vez passou por aqui um homem e lhe aconteceu tropeçar no caminho. precisamente na direcção que o padre tomava. e viram-no baixar a aba do chapéu contra os raios que lhe batiam nos olhos. para onde quer que se deitem os olhos.redarguiu o Calhorra. o que se avista é mato e penedal. Declinava o sol no horizonte. Deus é pai de quem lhe dá na real gana?.. Não queremos obrigálo a acertar o passo pelo nosso. ... haja tanta riqueza.O senhor abade tem boas pernas. o Luís Ougado proclamava: . Para acreditar é preciso ter-se a barriga cheia. antes de colher.Vou-me lá com Deus. não dá laranja. lançaram ao vento paixões e cuidados.. e principiado outro.Não trouxe nenhuma carrada. Pode crer. .. entretanto.. ladeado de Silvestre Calhorra. O bombo trovejou a chamar o rancho disperso. Agachouse a ver o que era e. disse para os de Mouramorta.. Manuel Torres. cospe-se às mãos. duas fèveras de centeio e uma ovelha tinhosa a roê-las.M'amigos. tanta que não fosses capaz de a gastar. mas já não acredita em coisa nenhuma. esses 21 . que trazia a concertina debaixo do braço: . Os amigos ficam. mas reza e baila. És um asno? . que o Aires fora buscar à quinta do José dos Cambais e vinha a mascar a última bocada de palha. Dá-vos para o riso?? Ah. para nós é como se tivesse acabado um mundo.” . Não vieram mais invernos.Simão Tadeu. rapazes e moças. vá andando.exclamou em tom de galhofia o Quim da Urra.Quer ouvir. A despeito do esforço que fazia para mover as pernas trôpegas e manter-se com aprumo. vocês do mundo pescam menos que eu de lagares de azeite.Donde veio a Pêro falar galego? . estava-se marimbando para o bispo! Hem?. mandava ajeitar a uma pedra a égua rabona. Largou a trote. ainda que estragasses mais que Pedro Cem. seguiu estrada fora a tomar o fresco dos montes que a ardentia a meio da aldeia era mais sufocante. meu bolas.A gente sabe lá o que há por baixo do chão? . não dá bêberas.Tio Calhorra. Aldemenos havia de haver cá da melgueira com que arrotam os de Ceifces e da Raposeira! Não me venham dizer que Deus é pai de todos. Uma vez feitas as despedidas e bifurcado no aparelho. vomecê se se apanhasse com o baguinho que lhe rendiam hoje as pedras tiradas no Vale das Donas. Ninguém o sabe à primeira.? O povo reza e baila por força do hábito. vá de vira. Mas ia dando à língua de coisas e loisas sempre com o seu sainete.. meio borracho. reza. pelo meio. Dizem que trouxe uma carrada.

areia acolá. Agora repare o senhor doutor. Que é o que lá há? .objectou Manuel Torres. Vendeu quatro cabras e dois carneiros. Sei muito bem o que lá há. depois que deram em vacinar a miudagem. valeu como bichas a quem apanhou uma sova.. Imagine o senhor. . Afora o Asdrúbal rico e.Com mais o dinheirito da resina tapou.. onde há aí lavoira que não chegue endividada ao S. Este alma do Diabo levou o bácoro à feira e lá o deixou quando precisava de o cevar para casa que os meninos andam esgorjadinhos... o Sanchonas que não se cansava de fanfar contos de réis e carros de centeio? Vindo pela rua abaixo. capazes de descobrir um grão de painço nas corgas da lua. e areia aqui. o Tadeu falou-me para eu ceder à Confraria de Santo Antão o bocado que tenho na encosta.Não sei. Temos o Lázaro Fandinga.olhos assim. Quase ao pé encontramos a Pedralva.que ensopavam tanto a terra que era um regalo ver os nabos e os calondros a emborrachar-se e a pular.Mas. Vendeu o cerrado ao Asdrúbal rico. e um tal Leónidas. o mal todo é que há gente a mais nesta terra. escava 22 . Volfro a rodos não deve lá haver. Coitado. Uma malina de tempos a tempos é tão precisa como são precisas as nevadas para matar os musaranhos pelas leiras. Meta na conta aqueles que já lhe vieram bater ao ferrolho e os que estão para bater ah isso tem-no mais certo que as cerejas pelo Espírito Santo e avaliará da precisão que vai por essas casas. o mesmo é que o mamposteiro do pai.Teve sorte! .. . o melhorio do rebanho. seja franco uma vez por todas. . essa. Agora algum haverá. sempre lhe digo: os da Fazenda têm a ganchorra dos dedos mais afiada que bico de milhafre. por uma sorte. distraído o seu espírito para outro quadrante. Para cá vêm vocês de carrinho.? Então ouça. se o Corbet se não enganou quando percorreu o morro. O velho ficou calado um instante. Andaram aí a ele pelas portas este José Francisco. que possui boa casa. do Porto. Pois não viu outro remédio senão ir tirar um conto à Manfurada a vinte por cento. e no cemitério.. Ouvi-lhe a choradeira. mas foram uns esticados da fome a pagar. Temos a Josefina. palavra.Há lá volfrâmio a rodos e não é cobertos com a capa do santinho que vocês o hão-de explorar. cresce erva que se lhe pode meter foice. Por isso os anos andam falhos de mantimentos. A morcega da filha . Depois. A vinte por cento e é para quem tem padrinhos? A Anastácia. Mesmo assim. mancolitando pela estrada fora. Logo no cimo do povo temos o João Sancho. Você sabe ou não sabe o que há no Santo Antão? . e Manuel Torres volveu: .Não.. isso lhes juro eu. Manuel Torres talvez não escutasse aqueles conceitos tão simplistas como pitorescos.. porque exclamou de súbito: O amigo Calhorra. andou com sorte. Este ano ainda foi uma felícia o miné rio render. não quero que haja! apanhou-lhe um quilo de volfro. Miguel?! Nessa data é que se tira a prova. que eu lhe faço o rol dos necessitados. Aqui está um erro.Ainda não dei fé dessa pobreza franciscana . este teve que ir pedir ao abade as duas notas que lhe faltavam.Há Há?. . muitos lá ajuntaram com que empalear os tributos. que não perde nada em sê-lo. o José dos Cambais. mas o que se chama boa casa. temos depois a Rita Ougada.

decerto. encontrou o Augusto Alres que esperava. como um rolho.Trago no estômago.? . onde se respirava já o rescendor das roseiras e jasmins floridos do pátio.. Entendido? O Silvestre Calhorra deitou os olhos em alvo e assim permaneceu um momento. Diante da ruazinha que levava a sua casa. Anoitecia. fia mais fino. escava além. 23 . cambado das pernas. latidos de rafeiros anunciavam a aproximação dos rebanhos. Quanto ao que houve ou há na sua leira do Vale das Donas dá-se o mesmo. e a tilintada das campainhas alagava os caminhos disparados a toda a rosados-ventos. se atestou as algibeiras. quem sabe lá se aquele pilho te não roubou uma forturia?! Sim. Quer agora o senhor que lhe perdoe. Manuel Torres. )ogam-se as raivas ao vento. pronto. nos ilhéus de maninho. vozes de pastor. Ao redor do povo.Justamente. já que o senhor assim o quer. não passa de suposições. vinte e nove trinta. As donas chamavam as “pilinhas todas” em atraso. voltando afogueado da canícula à cruzeta formada pela estrada e o braço da alameda. . primeiro as vacas. Adeusinho? Sobre a aldeia lôbrega . Está dito.Então elha por elha. rebalsando-se por cima dos telhados. a acção do malandrete. apenas onde havia cotim e estopa pondo grã e estanforte. torcendo afinal os lábios. almas idênticas trabalhadas por iguais apetites. com a mãozada democrática. o fumo leve das lareiras espraiava-se mole e caprichoso na atmosfera. Começavam a entrar os gados. e então? . estrugiam nas escaleiras de patim a pique os socos ferrados. telha de cano ou colmo adensavam-se as primeiras sombras. isto é. considerou que podia imaginar-se. um penacho rombo e fantástico. nos alqueives de pousio. saltando duma para a outra. Mas. À entrada da porta que abria à sombra das faias. No Santo Antão. enroscando-se às empenas. espacejadamente. o que lá vai lá vai? Para mim a sua palavra é palavra de rei.. Se me mordeu. você em paga não pensa mais no que o rapaz da Maria Aires foi fazer à sua barreira do Vale das Donas. acredite. A sonda é que diz a última palavra.. Também pertenço ao rol dos escaldados. Eu deixo-o ir a você escarduçar à vontade no que é meu do Santo Antão. E olhe que eu gostava do rapaz. Mas. Mas pregar-ma a mim na menina do olho. Mutatis mutandis. quem sabe lá”. direito de torso. lhe dizer: . quantas noites não tenho eu levado em claro a magicar: “Silvestre.Não caias noutra.aqui. eram os mesmos padrões e os mesmos corpos brancos e sujos e. sem forçar muito a nota.alvenaria. reverente mas descuidoso. pode ser que tire aldemenos com que pague as décimas. um vivente do tempo de Recaredo assistindo ao recolher dum povo visigórico.Partamos do princípio que é assim. notas gordas de chocalhos. vinte e nove trinta. de lenço amarelo a voeiar do ombro a rubisca da Florinda desacravelhava a cancelinha da sua casa. junto do forno.. Não se encontra outro mais valente e desenganado. proferiu: . resvés com os alegretes. amarrotando-se como uma gaze violeta nas ruas e vielas e erguendo além. Um instante se quedou Manuel Torres a contemplar o velho Silvestre.? Deixe-me dizer-lhe. Era a ária de sempre e não valia a pena contestar. como se fosse a tombar. que seja muito feliz. tudo por enquanto são suposições. já que assim o quer. despediram-se. Ao mesmo tempo. Distraiu-se um segundo dos seus pensares para.

na teima de ainda não querer passar daquela feita as alpodras para o outro mundo. mocha! inundou becos e quintãs.há dois dias a lutar com a morte. a vaga montante do pó. balidos. bodum. com borbotões aqui e além. Uma voz clamava: os lobos levaram uma ovelha à tia Pedralva! Outra dizia: estramontou o chibo da manada . por minutos. gritos bárbaros: aqueiba! arreta! torna ali. até insular-se no negro silêncio o roncadoiro da agonia do Cota Velho .Os gados entraram nos redis e.noventa e sete anos sempre a pé. 24 .e a barafunda foi amainando. por último apoiados a uma varinha de marmeleiro .

ia acoitar o haver num dos refolhos da mina velha. estando a fazer três meses que chegara à terra. ora por moitas e giestais fora. estancando as águas da ribeira a montante. a horas mortas. mas a fugir a encontros passante a Assunção metia-se foicinha aos painços . lorgar. se lho perguntassem. puf. Aos primeiros livores do arrebol. depois de dar ao corpo riloído nos malhios o repouso do dia santo. foi-se à mina velha. Àquela altura do ano. das vezes que matou ali o corpo. maduros os fenos e barbados os milhos. soçobrada em modorra e no engorgitamento estival. cabeça embutida nos ombros. é verdade. pá e picareta às costas. quando não eram concretos opacos e ferruginosos como torresmos de forja. surdas uma contra a outra graças ao atilho de giesta. duma das cavernas tirou o saco com o tesoiro. ora a coberto pelo escuro das paredes. e à hora em que nos pauis as próprias rãs enrouquecem a cantar. Ficava o Vale das Donas numa dobra da planície. não era de contar com sotranqueiros a tornar as águas. que não havia grandes probabilidades de que o fossem empecer. Que levava ali? Ao certo não saberia responder. só lhe convinham. de pé descalço e sete olhos. lhes desfalcavam o caudal com que mover os rodízios.erguer o dedo para o Quim da Urra se pôr pronto e lesto. lhe não apareceu vivalma. de noite. Estava persuadido.II O Aires. faltara-lhe ajuda. tenteando-o na ansa do braço. Levava pedras. de modo que podia trabucar tão afoito como um alfaiate em seu sótão. os grânulos de oiro e verde-salsa incrustados em granito. varapau na axila. era o que surriplara na leira do Calhorra. tivera de esperar pelas noites de quarto. orçando-o depois ao ombro como um alforge. espreitava que homens e animais se tomassem de sono em casas e apriscos. mal a Lua apontou no horizonte. a avaliar pelo peso e pelo brilho com que acenavam aos olhos suas faces espelhadias. a arrombar os açudes que. Mas repugnava-lhe meter outrem em trabalhos de que ignorava os frutos. tais ecos seriam explicados como manobras dos moleiros. Como os texugos quando vão ao assalto das capoeiras. A manhã ainda vinha longe. opressivo como a morte. E. Tendo assentado proceder sozinho. para lá da lomba que agasalha o povo dos ventos de sudoeste. que bastaria. semiluminosas o que basta para ao perto se recortar com nitidez desejável o vulto das coisas e ao longe tudo se diluir na intransparente poalha. entrando às apalpadelas. para veigas e ferregiais. rompeu pela leiras de pousio a corta-mato. outras encerravam para ele um mistério com as palhetas resplandecentes. Era mau de levar. as de domingo para segunda. Podia portanto escavar.alargou o passo. destas. 25 . Calhaus ou pedras finas. E depois de pulsar mais uma vez com os sentidos todos a terra em redondo. Além do mais. Que o ruído ressoasse nas quebradas. e só ao sereno pôde estudar o seu carrego. à conta bem feita. raras saltadas pudera dar ao filão. onde nem Deus nem o Diabo seriam capazes de o sonhar. oprimidos pela estiagem. e. Algumas deviam ser de volfrâmío e de volfrâmio puro. rapar saibro e calhaus. a bem dizer. E não só não foram. como. extinta há tanto tempo que ninguém no povo se lembrava de a ter visto botar água. Em tais condições. é que ele largava.

ouviu o moço a requisitória do senhor presidente da junta. Com a encavacação. quem não seria..Qual boas nem más! O Calhorra julga que isto é terra de pretos e arma em Gungunhana . muito menos. que eu já estou amolado! O Calhorra remordeu. a título de que não queria fazer sangue e. se é capaz! Alguém me viu na propriedade do senhor Silvestre? Se há alguém que me visse. Sentindo que perdera a partida naquele tribunal de primeira instância. De inculca em inculca. dando a prova como conclusa. associando pequenos nadas. depositário da caixa. O Aires é que se não tolheu de voltar. De prova material. apareça. Os compadres é que não eram da sua força. um pedinte que tinha o costume de dormir pelos montes. coligindo breves sinais. ficou de sobreaviso sem se dar por achado. eu ainda sou asno maior que vos não botei o cabresto. cozido em fel e vinagre. embora tivesse pacta com o Demónio. o moço respingou alto e feio: . ficou de boca cispada para quem aludia ao 26 . e não se deixou embair. de quem se dizia que estava para nascer quem houvesse de lhe fazer o ninho atrás da orelha. e lavradores mais insofridos a madrugar. dando ao topete e prometendo notícias suas para breve prazo. verdade. Fiel à sua táctica: porfiar. convidou os presentes a entrarem em sua casa e a passarem uma busca. As senhoras testemunhas encabaram as mãos nos bolsos e baixaram a tromba para terra. ? Vá lá amolar outro. e salta à vista que comeis quanta palha vos caia na manjedoira. Não aparece? Pois não aparece. Desta feita o Aires rompeu a rir. Agora. O Calhorra conhecia a arte de negar a pés juntos contra Deus e Santa Maria. Assim o pensava também o Alres e iludia-se. o raio do velho fez duas viagens à vila para inglês ver. Com ar de surpreso. atingir a pobre da mãe que era mulher séria. não.O ladrão é mais fino do que eu supunha .O Calhorra. chamando-o a terreiro.Prove o que adianta. Riu ao desfastio e. pastorinhos e criados de moleiro. sem um só momento lhe secar à flor dos lábios o sorriso que contraluz do ditado: medo há Paio. notou que tinham ido esgadanhar à sua leira. endereçou um volumoso ofício ao administrador que bateu no goro do Reganha taverneiro. que eu lhe farei a cama! Por injunção sua o regedor interrogou Pedro e Paulo.. desandou amparado ao sacho do cebolinho. Obtido o primeiro efeito. Quem seria. e respondeu: . alguns ventos veio finalmente a ter o Silvestre do autor da gambérria.fora a dizer para os pacóvios. .Vocês não passam duns asnos chapados. verdade. a cara do Calhorra estava mesmo a dizer que eram capazes de ir jurar aos Santos Evangelhos pela inocência do acusado. salamurdos e mais silenciosos que penedos no meio do rio. Que fazer? Não era homem para esperar a resposta do Santo Breve da Marca. e. na gajice de remar contra a maré. sinal honrado de que o não tinham visto na fazenda do Calhorra. Deu matéria à falação. transitando subitamente para a indignação. . desta assentada julgaram todos que ficava a fazer cruzes na boca. fez constar por portas travessas que reunira testemunhos mais que suficientes para meter o Augusto na cadeia. nem a brocha dum sapato. intimou-o a prantar para ali o que zarpara se não queria alombar com uma polícia. formulou a acusação. Este. pela simples razão que ninguém me podia ver em sítio onde nunca pus os pés. Novamente convidado a vir às boas. Deixa. pois reza. Uma tarde dirigiu-se com dois fabianos a casa do Aires e. Mandou vir um guarda republicano que procedeu a devassas.

” O carro não passou e. aprontando-se em menos de nada. desvendando a tramóia. a estrada desenvolvia-se em perfeita chapada num galão inquebrantável. desprovido de senhorio como o sol. era-lhe totalmente indiferente que o Calhorra rangesse os dentes.caso. Dali até Mouramorta. à relha como ao alvião. nem um ceitil espremera à Fazenda. Farta de o ralar e de ralar-se. foguetório em dia de festa. Privilégios como aqueles estavam riscados da sua cartilha. Era a uns seis quilómetros de lonjura. a lei parece que atribuía certos direitos ao Calhorra apenas pelo facto de o filão passar no subsolo da sua fazenda. a grande caixa sonora que alagava a planície com seus barulhos e motins: petardear de motor. com o qual o dono da terra nunca contara. Além do mais que houvesse costeado precipício. ou do Antoninho Fráguas. quando à falta de gasolina a maior parte dos automóveis jaziam de baterias descarregadas suspensos sobre matacões. é do engenheiro Severo Bacelar. disse para consigo e para com Deus: “Se não passar dentro de dez minutos. cantil e bornal a tiracolo ou coelhos e o seu lebrão à dependura do pau. Se fica em Mouramorta. que rumo tomar? Todo o dia de sábado. Sentindo o motor. Por consequencia. lembrava as partes gagas a que a mãe o obrigara no dia de Nossa Senhora da Lapa.e a simplória de sua mãe caiu na ariosca. e muito longe de propósito. com o vento que soprava de feição. E ninguém melhor do que ele o encaminharia na barganha do volfrâmio. batesse o pé. tão bem defesc. tanto mais que o estrago que dera pagava-o um chavo galego e ainda recebia troco. que Deus manda por igual a todos? Sim. amargos de boca. quando já tinha disposto as últimas couves. Sobre a tarde. ao passo que replantava a horta do Casal. menos que uma unha negra. era preciso que “ aquela” estivesse acabada e começava. mas nem sempre os seus preceitos se ajustavam ao critério da gente honrada. ano após ano que viera a férias. Manuel Torres em Malhadas. Inflectia ao mergulhar em Rabaçais para. E com enfado. por outra. não entrava por coisíssima nenhuma no seu valor imobiliário. meteu a caminho de Mouramorta. O senhor Severo Bacelar devia por certo lembrar-se do catraio que muitas vezes o apajeara na caça. se não remorsos. e nem o cairel entrevira. mal apeou o Dr. com a imaginação alvoroçada pelas histórias maravilhosas do volfrâmio. Para tanto. deu com os burrinhos na água. Tal não era o caso. ressoando muito mais ao largo. Tratava-se de coisa comum: como tal pertenceria ao primeiro que lhe pusesse a mão. Arrumada a pendença da banda do Calhorra. é que fica em Mouramorta. era um cantar. dois quilómetros andados de pendor. que estava soterrado debaixo do solo arável talvez a muitos metros de fundura. chiada de eixo. malucou no problema. Era ela. como o ar. Agora o “não caias noutra” era outra ária. arremeter após breve torcicolo pela encosta sobre que assenta Tendais do Palva. não destituído de azedume. mas a onda sonora ultrapassava Malhadas. o rumor dum automóvel que descia a costeira de Tendais. como a chuva. Repeso do que fizera. Pois porque é que o minério. rosnasse. sinal de que ia estalar o látego . não havia de ser de toda a gente. Ali estava como o cão do Calhorra conseguira levar a água ao seu moinho. Pelo menos não se justificava a recomendação sem que da sua parte existissem. chegara-lhe aos ouvidos. Deus lhe perdoasse! Lá que o doutor atafulhasse a boca do mamposteiro com o trancanaz do Santo Antão. pelo abrupto e articulação às serranias que esteiam o rio. A lei era a lei. 27 .

depois de ceia. tupa que tupa. norteando-se pelos oiteiros que lhe eram familiares e estavam inscritos na sua retina como melhor não estariam nos mapas.Mas andava com azar. fugiam-lhe da boca pragas que faziam tremer os santos nos altares. fora o Antoninho Fráguas. A dúvida está em meu pai. cortou uma borda ao pão. à pata. entrepostas como rendas de courela para courela. Neste intuito. ora a pés enxutos. saiu de casa. De facto os calhaus pesavam mais que o esquife quando agravado com um defunto. que é relho e terrabinto. Brás. dissera: . quando não eram daquelas que. o Zé Francisco. Ia entretido com a feira interior. que por sinal estacionava diante da taverna. muito raramente pelas pontes. escalava-as e toca em frente. a enormidade do fardo lhe era leve. provavelmente para dali seguir para S. No arraial que armara dentro do seu selo. Se não queria ficar empulhado tinha que se despachar. Anda muito atarefado com a montagem da segunda lavaria e já o domingo passado não veio a casa. Deu-lhe baque o coração e escondeu-se. que encontra lá o senhor engenheiro. Ora repassando aquele brequefesta de sexta-feira da Assunção. como se ali fosse em pessoa. Irene. Ouviu sem arrepios os lobos uivarem para os cerros fronteiros a darem senha da sua passagem. lamentando apenas não haver tomado mais cedo semelhante resolução. sobrepunha-se a todas as outras: . Marchava pela estimativa. duas febras ao presunto.Vá à Sobriga. Tropeça aqui. ficou a saber que tinham ido em prospecção à leira do Calhorra no Vale das Donas e que. Os corgos lá os ia atravessando como lhe era possível. se propunham chamar um dos práticos do senhor Corbet.dissera o Padre Eterno se o Mestre da Vida não mentia. ora entreticio com Teodora. Iria às minas. voltou para Malhadas. tão indiferente a tudo o que não fosse o seu carrocel como refractário aos medos e fantasmas que a imaginação a cada passo condensa no escuro duma giesta mais esquipática. mas ânimo? Regarás a terra com o suor do teu rosto . e altas horas. e ali ia.Bem sabes que em nós não é que está a dúvida. a voz de Teodora. maviosa sem deixar de ter uma pontinha de travessa. o zorro. nada mais que da brasa semimorta que o folezinho da aragem aviventou no deserto de cinzas das queimadas. Vinha a cavalo e ao lado. Mais de uma vez se acaçapou até se esvair na terra fofa das almargens o tamanco do guardão de meloais. para não acordar a mãe que escusava de conhecer as suas aventuras. A certa altura do caminho. Nas abas duma almuinha saltaram-lhe os sabujos à frente. Mato ou restolhal. nada lhe fazia torcer caminho. a senhora D. incertos quanto à Importância do jazigo. que viera em pessoa atendê-lo. tal como lhe toava ao ouvido. pé ante pé. O suor que lhe merujava as fontes e as espáduas era portanto de lei. direito à Sobriga com aquele horror de carga às costas. Na noite de domingo. Estava inteirado. Augusto. se deitam abaixo com uma patada. A tia de Severo. Deixou-os desaparecer na ladeira e meteu para Malhadas. do pio do mocho. ora molhado. boa estrela o guiara. ermos ou bosques. lobrigou o Fráguas que subia uma das canadas que por entre pinhais vão dar à ribeira. afocinha além. As paredes. Afinal. Quem chegara de carro. Noutro dia tornou-se-me a sair com a ladainha: “Quando o mariposo lavrar quarenta pousadas e colher um carro 28 . Pelo que ouviu e ainda mais pelo que lhe foi lícito adivinhar. e nem se deu ao incómodo de enxotá-los. escorrega ali. que o tempo podia conjurar-se contra ele. acabou-se.

pintada a breu. Para que um dia chegasse à escudela. que deixou à mão esquerda cortando decididamente a poente pela serrania escalvada. e entrevia-se nelas estas criaturas plurais que forjicam o bazulaque às maltas. e der à tosquia dez ovelhas. remedando-o . Não se descortinava caminho nem atalho. espécie muito afastada dos capucheiros da serra. Na qualidade de camponês do tempo das Sesmarias. corri estranheza percorriam seus olhos o panorama truculento. com a bolsinha pendurada do pau ou do pulso. a tropos-galhopos uma sobre a outra. é verdade. lanchuda. haviam os escrivaes de borrar muita folha de papel selado. nem penedia. 29 . nem sinal de pascerem por ali os gados. antes de mais nada para os homens se chacinarem civilizadamente. menino! escarneciam dele. já nem contava as notas. dum negro impressionante. como ele. na vastidão cinérea do mato galego. se não ajustar-se. sem um lezim com húmus para que pudesse vingar raiz de sarça ou de codesco?? Com semelhante piso a marcha era escabrosa e titubeante. e o destino dessas nações prósperas e de seus naturais. pesava-as na balança. era-lhe indiferente como a água dos rios que caminhava para o mar. Poisando o saco. a sua simpatia humana não alcançava tão longe. uma vez que nascera fora do curral. a lavaria. afinal. se assim não fosse. E ante o ar de ferocidade que se evolava da tenebrosa fábrica. à noite e dia e às sombras dos caminhos. pouco mais adiantado estava. à dinheirama que lhe entrava pela janela. quase cobardia. que a sua sensibilidade vibrava. normalmente uns felizardos.ganho não importa de que maneira. O que o sobressaltava à vista daquela metrópole de escava-terras era ainda e sempre o motivo pessoal. porque. o mar cor de creme era a terra vazada dos desmontes. tinha os pés macerados como se acabasse de fazer jornada de muitas léguas. encomendas das lojas. homens mais andrajosos que ele no fito de retomar o trabalho. maciça como torre feudal. Que levava ali em derradeira análise? A taluda ou artigo de entremez? Foi neste estado de espírito. entre a ramalheira negra dos pinhais. Mas o filho. De caminhos afluentes desembocavam mulheres com cestos à cabeça ou o seu molho de tangos. que lhe dêem lã para uma capucha e dois pares de coturnos. Foi-lhe amanhecer no termo de Covelo. não era por causa da saúde de tal gente. tisnado pela canícula. Ainda bem. Antes. da banda de lá da qual ficavam as Minas. senão babau. que te venha buscar. tão outro dos agros mansíssimos que alimentam desde o princípio do mundo a aldeia e a cidade. quase seres doutro planeta. Mas tratando-se de ingleses e de alemães.” Conhecia-lhe a doutrina. mesmo de trabuco na quadrilha do Olho Vivo. que é o comum para a mantença duma pessoa que tem os dentes todos. nem num andor. A todo o fundo. Por ele fora marchavam isolados e em bandos. Do picoto daqueles autênticos paranhos do Diabo distinguiu afinal a Sobríga com barracas e instalações semeadas. Ao fim do primeiro estirão. uma almotolia. O Fráguas.de milho e três rasas de feijão. puxou do farnel. entrou no braço de estrada que conduzia à exploração. a mole alterosa. que. baixando da serra. Que haviam eles de comer naquele pedregulhal espesso. podia tratar doutra vida que o Cambais sonhava apenas com dinheiro -dinheirinho. nem rocha viva. por baixo da sua inquietude uma voz inquiria: era aquilo preciso? Parece que sim. mas fraga solta. Enquanto dava ao denre. Era uma felicidade que em negócio de teres o Zé Francisco chamasse seus.

não deixou de estremecer de assombramento à ideia da obra de magia que ali se consumava: o calhau intonso convertido em farinha mineral.as lavam e remendam. e logo esse montão de cascalho passava através da passadeira rolante para as mandíbulas de aço dos trituradores. da indústria moderna. mas bem torneadas. Agora não é maré. levava um banco de pedra e saibro à ponta-de ferro e picareta. se calhasse. cigarros. Não obstante. pés descalços. saia colhida entre os joelhos para a água não esperrinchar pelas pernas acima.pessoal complexo. à boca dum poço. passos adiante. piquetes de entivadores especializados a escorar as galerias. muitos extraíam o resulho dos poços ou enxugavam-lhes a água para o trabalho prosseguir eficazmente. E. por outros ia e vinha o pessoal particular dos engenheiros e agentes técnicos. com as vivendas muito senhoris e claras à retaguarda de pequenas platibandas enfeitadas de pelargónios e eloendros. se via gente. para o morro. O Aires conhecia a Sobriga. desprendendo uma barulheira a que era como abóbada o zunzum infernal dos volantes que se não viam. Rapazotes. chegou a um dédalo de caminhos. Mais ao largo. sernibárbaro e feroz. quinhentos a mil metros. 30 . mulheres que lavavam a terra mineralizada ao ar livre e debaixo de telheiros. vinham baldear no monte o carrinho atestado de calhaus em que coruscavam com o sol as pirites e palhetas de volframina. e os olhos do Aires ficaram enlevados nela. À superfície era como um arraial. Crispados às varas dos sarilhos. enquanto a outros incumbia carregar os tiros de pólvora bombardeira. ao passar à beira da lavaria. provavelmente empreitada. uma rapariga manejava a bateia e ia cantando: ó meu amor não embarques. Até bem longe. escombreiros. com uma caradura brutesca em suas paredes a pique. Enquanto esperava. por vezes a dezenas de metros de profundidade. Aqui e além trabalhadores brocavam a rocha. Era subterrânea. repartido em turmas consoante a natureza das tarefas. com boinas de homem. Era uma ruivita. Girava tudo. homens e mais homens à carga e à descarga . foi-se mais e mais possuindo da fereza e prodígio do espectáculo. e outra. a carne tenra a espreitar das camisas cheias de surro e em frangalhos. braços arremangados. grande caterva de homens abria uma trincheira. com revólveres de ar comprimido a demolir o quartzo. Por cima dos gritos. das bandas do mar. por um dos quais rolavam vagonetas. Perto dali. Espera lá um poucachinho Que me hei-de sentar à ré. descobriu-se o formigueiro humano a seus olhos admirados. pernas vermelhas de perdiz. sem cor à força de usadas. mineiros de guilho e marreta. doce ao tacto e maravilhosa de propriedades. ao salvar a corcova do terreno. não como assalariado. falas desencontradas. em que estava integrado o transportador. do retinir das ferramentas e estreloiçar das vagonas e raposas. que se exercia a actividade capital da mina. ou afigurou-se-lhe. de parte duma pessoa de Mouramorta. As vagonas descarregavam o recheio da ribanceira para baixo. e ensurdecedora criava este tónus especial. o dínamo pulsava e a sua pancada mate. altas e cegas. andando. Foi direito à Direcção e pediu para falar ao senhor engenheiro Severo Bacelar. homem e máquina conjugados. mas das rapiocas e visitas que ali fizera com outros curiosos. testo e sabido na manobra. petiscos e o resto. Andando. e ainda a tasqueira que abriu à margem da mina a baiuca de vinho. bombas eléctricas e manuais a sorver a água dos regueirões. comandos. a ritmo acelerado: homens e máquinas.

zás. Mal apanhou o saco aberto. Do vestíbulo. dois andares.. meteu o dedo. . meteu-o debaixo do braço. a marca o dia e.Sim. vinte e oito a trinta anos.... uma espampanante star erguia a perna e derretia-se num beijo que mandava com as pontas dos dedos a quem punha os olhos nela. arrancou. mas como não cedesse à primeira. . quando acabar o defeso.Bem. finalmente. puxou a contrária e. mirou dum lado.Foi arrancada no lugar das outras? . teimou em levar o saco. No calendário. É no baldio? 31 . que aproximou mais da vista.Foi.. ..Estou a ver o lugar. Ex. nem à segunda. . V. A uma escrevaninha estava sentado o engenheiro Severo Bacelar.balbuciou apontando o saco..Está bem. mirou doutro. sim. nó cego. para atenuar a rebeldia. eu te direi. o que lhe exigiu um esforço descomunal.No Vale das Donas..No mesmo.. Tornou a aproximar dos olhos a pedra espelhadia e irradiante. não é comigo. que também lançou fora: .? Estás homem. .. camisola à requeté. Virei aí algumas lebres. pregado na parede. e fitando o Alres proferiu: .Não presta? Fazia esta manobra com incrível velocidade. por cima da mesa atravancada por diversos utensílios da escrituração e frascos com amostras de minério. Trago aqui umas pedras. enxergou mais de quantos escriturários dobrados sobre as papeletas. Andam por lá muitas brochas dos meus sapatos. desejava que o senhor engenheiro as visse .Tu não és o Aires. Então que te traz por cá? Se é para venderes minério. O que é. . em vez de levá-lo às costas. sopesou-a na palma da mão: . Pareceu-lhe que o engenheiro ficara contente com vê-lo porque pronunciou de ar amável e tratando-o com familiaridade: Havemos de ir às lebres. tirou uma pedra e. mesmo filão? .Este ano há caça a dar com um pau. O engenheiro riu-se: boa vai ela! Quis desfazer o nó. ..É volfrâmio. Agora já levas escopeta. O filão é em Malhadas. Com a febre de ser rápido. ao passo que ouvia o tep-tep duma máquina de escrever sem lobrigar quem a manejava.Mas hás-de te despachar que não tenho um minuto a perder. mas breve mudou de parecer ao afirmar-se nele: . misto de estação do caminho-de-ferro e repartição pública de vilória sertaneja. repetindo-se o lance: . e o cordel ainda que grosso deu estoiro.. Erribora lhe houvessem dito que ali não era balcão de vendas. não é para vender. Ao vê-lo com o saco franziu o sobrolho. em vez de puxar a adequada ponta do nagalho.Não senhor. . ? Em que sítio? . senhor. segunda porta à esquerda.Não presta? Não presta? Não presta! Uma houve.disse com menos grata disposição.. jogou-a para o lado: .. desata lá. Bacelar introduziu a mão. depois de examiná-la mais instantaneamente que o farpar da víbora. Eu mando ensinar-te onde é. . Acabaram por remetê-lo para o primeiro andar. rotulados a capricho.Sou. pela larga porta entreaberta. cabelo em ouriço.Não presta? Tirou segunda.A Direcção era uma casa de madeira.

. Severo aprumou-se e aguardou. devidamente indemnizado.. só deixando um rebotalho no fundo. mas irrepreensível: . Depois de esvaziar o saco com agilidade.Não. Não há registo? Torcendo os lábios e meneando a cabeça negativamente. manifestou Bacelar a persuasão de que não devia haver registo. e o nosso Calhorra. que mesmo assim virou e remexeu em duas voltas de mão. pondo outras em cima da mesa. Coitado. suas sardas ferruginosas. proferiu com certo peremptório.. quase nenhum cabelo na cabeça reboliça e cor-de-rosa. .retribuímos . Severo safou o saco das mãos do Aires.Traz também o saco . Aires. chamada pelo que se passava na ribanceira.interpôs Bacelar. engenheiro chefe. por último voltou à sua taleiga. Era o mesmo simpaticíssimo homem. é numa leira do Calhorra. debaixo dos olhos de Hincker e em linha regimental. pagaríamos o estrago. negros retintos. depois olhou pela janela e distraiu-se com o que via. as pernas dele fazem um arco de ponte cada vez maior.Do Calhora velho. aquele doutor das engenharias. O bazarugo porém. se lhe seguia os movimentos. depois de se referir com admiração à bela ruína de valentia e destreza que era o Calhorra.. dir-se-ia.Para o nosso caso isso tem pouca importância . Estavam na mesa uma meia dú zia de calhauzinhos brilhantes..? Vi-o em Tendais há poucos dias. pescoço de várias e rubras regueifas. camaradescamente.Quer-nos ir mostrar o sítio donde extraiu estas partículas de tungsténio? Se quer e nos agradar. . gordo. a atenção. sobre o balcão das tavernas. nédio. e possessiva e gostosamente pôs-se a malucar na situação. espingarda a tiracolo.exclamou Bacelar ao passo que caminhava para a sala ao lado. por nada deste mundo denotava preocupar-se com os seixos que cresciam em monte à sua banda.retríbuímos a descoberta. em linguagem levemente matraqueada. de copo bebido de dois tragos. falou da tineta que tivera de lhe ir cavar na fazenda arrostando com as suas reservas e má vontade.. mas agora em silêncio. . Tirava-as e ia deitando umas ao chão. concessionário das Minas da Sobriga. Era homem dos diabos! O Augusto Aires. uma a uma. . não tinha mais que meter a viola no saco. olhar de nebri. de cabelo em sedeiro. foi ele próprio tirando as pedras com a rapidez de há pouco. suas bostelas de verde fúlgido. a rir-se e a faiscar em suas manchas de oiro. Que iria ele fazer lá para dentro com a pedra na mão? E foi um pouco atarantado com as perspectivas que se lhe entremostravam que correspondeu ao aceno que lhe faziam da sala contígua.. e estava em crer o seu negócio bem parado. administradorgeral. Alres ficou sozinho. enunciando o termo estereotipado para esta classe de negócios. pô-lo em terra e.Dado que nos interessasse. .. ou lá o que era. levantando-se e aproximando-se do Aires. grandes óculos com aros de tartaruga campudos como rodas de carro. Aires teve palpite que estava diante do senhor Hincker. naturalmente para que pudesse vê-Ias e observá-las. abstracto para tudo. Sentado à secretária estava um importante figurão. acabou por se lembrar das palavras que surpreendera entre o Fráguas e o filho e pareceu-lhe 32 .. . Hincker mal lhes dardejou um olhar e. tanto o associamos como. .dizia-lhe Bacelar.. supondo aventurosamente o seu chefe empanne de vocabulário. que ficara perplexo.

Cumprimentos. picada aqui e ali dos toros verdes das canas.. Quando se acomodou entre as pás e alavancas. 68. não mais largo que uma fita de máquina de escrever. amigo Jerónimo? . um nicho de alrrias . Ele. como você diz? .e sempre os hectómetros pula que pula com a imprevista brusquidão de bonecos do pimpampum.. Fui lá medir umas rendas.. pastores e ovelhinhas pelas rampas. escurentado ao sumir-se debaixo da terra.. percutiram as picaretas e os grandes ferros pontiagudos e. que já conhecia o carro. Iam a sair.. Franz Hincker e Severo. já Hincker e Bacelar desapareciam na curva.. 67. 66. . Reparando no ar embaraçado de Augusto.. Pois se assim é e o agente de mister Corbet anda a rondar. enquanto os homens despiam as véstias e aprestavam as ferramentas. Ficam à tua ordem. um poviléu e a sua coroa de palheiros ao alto. e baldearam-no para ele sem grande cerimônia. Uma sachola limpou o corte. Saltaram a cumeada da Sobriga. varre-se dali o sentido. com o senhor Hincker repimpado e fumando o seu charuto.. suspenderam-se à entrada da curva sobranceira ao vale. Eu já te chamo. se não merecer. Ex.. Um arrancão e. uma ermida. 33 . precipitou-se de dentro em mangas de camisa. com a eminência sarjada tão de fresco que dava ideia de escorrer sangue.prudente não se calar com elas. cor-de-rosa além.Não garanto. é um passeio. Rebanhos de carneiros pequeninos mondavam pelas leiras e rabugem que germinara com as águas de trovoada. o máximo. Mal subiram. Um carro reluzente de cristais e cromados trepidava na meia rotunda. Se merecer a pena. espraiando olhos por tudo. largaram. três horas. Quilómetro 70. . insulações monásticas os bosques num fundo de ascese e desespero. com pinheiros oprimidos pelo temporal. Depende. Terra da meseta plana e taciturna: espinhaços de cão os oiteiros. Bem.. o chão parecia chamuscado. estudaram o filão. Depois do quê. as pedras ninguém tas rouba. encontraram a fazendinha do Calhorra. passava direito como o sulco que deixa na água a quereria dum batel vítreo aqui pelo lavar das chuvas.a. Em Mouramorta estacaram à porta do Jerónimo. restolho e matiço. . você não pode guardar para depois do almoço o que tem a fazer e damos lá um salto agora de manhã? Em duas. desvanecida à maneira de placa fotográfica já focada. ó Bacelar. não corremos a lebre. 71..Tentemos. Ali esteve um quarto de hora. e pulou. quando deu conta que do largo fronteiro à casa das máquinas Severo lhe fazia sinal.Descansa. A saída do delta de caminhos. Perante tal revelação engenheiro e concessionário trocaram um breve diálogo em língua de que não penetrou patavina. Bacelar disse: .Como estão em minha casa... vamos lá em acelerado. outro automóvel aguardava com operários e ferramentas.perguntou Severo. Em plena massa plutónica o veio de quartzo. seres danados sabujos da serra que arremetem investidos de quanto rancor aflige os que andam à pata. alto. face às vivendas. já hoje estive com a tiazinha de V. ao quilómetro 74 pára-se. depois casais meio dormentes. e mais de espaço os quilómetros 65. pelo fresco.. mais poviléus com galinhas espavoridas e cães. Aires quedou à porta da Direcção. De manhã.Que resolve o senhor Augusto hesitou um nada à procura de palavras que traduzissem o seu pensamento e disse. apontando Bacelar: O que o senhor engenheiro fizer está bem feito. Hincker volveu para Aires: . A menos de cem passos. vinte minutos. E despediu atrás de Hincker. Chauffeur. giestas negrais. muito que bem. mas sem retina para fixar coisa alguma.

E lá iam levados a passo de carga pela resteva . arrimado ao sachinho. Hincker veio acocorar-se ao lado deles. Depois avançaram os zagais. uns de enxada. depois de breve troca de impressões com Hincker.disse o Aires. satisfeita com a ardentia. de apartar o minério. vozes. com as pilecas a bater a ferradura e a esgrimir a cauda.O que lhe havíamos de dar era lume a beber? . e Pedro. vai tu buscar uma cantarinha de água. Em menos de nada ajuntava-se no chão a bicheza toda da aldeola: descalços e em mangas de camisa aqueles que a novidade surpreendera a virar a tigela do caldo. mas via-se que fora pôr a samarra de montanhaque por contrastar com a camisa enxovalhada e as calças de cote e. corre. oscilava de perna para perna. Trazia o seu velho barrete de caçador de lontras. aguilhada em punho os lavradores que. cavada à lufa-lufa debaixo da vista da gentiaga que engrossara e apertava cada vez mais a roda. Não longe. de chapelão e calças de estopa os que andavam pelas eiras na debulha dos painços. forneceu a mesma mistura de arsenopirite e sulfureto de ferro com a proporção equivalente de volfrâmio. As cigarras nos urgueirais erguiam uma cantara destemperada. E a tanto alvoroço. e até almocreves. ramelosa e esguedelhada. há uma nascente . nem uma feira franca. pondo tais e tais de remissa. a poupa tocava-lhe cornetim. O homem ficara parado. frigidas pelas moscas. à sua beira: . aos saltos que nem saguis.roto o banco de granito em seus folheados e lezins. deitando outras fora. Tendo-se por inteirado. conglutinadas de cassiterite e mispíquel. ao pé dos penedos. estendendo o braço a apontar. mordidos por saber. a molhar com a língua os lábios abrasidos. pessoal das resinas e gadanheiros. até se alapardarem à boca da escavação.ó Mabília. Secou .Lá em baixo. idas e vindas. com a sua roga de serradores. lhe dessem um gole de água. boquiaberto. a ganga estoirou e foise fragmentando em estilhas multicores. estremando umas pedras. com a sua percentagem de tungstato de ferro e manganésio. de ir observar e meter o bedelho. descalça. que não podiam deixar. entretanto. afluía o gentio. Entretanto que a pesquisa tomava amplitude. o Zé dos Cambais. meio nus. Vá. como sempre. Severo mandou medir. mais Paulo. 34 . A segunda trincheira. Mas já Severo chamava o piquete a abrir passos adiante nova sanja. deixavam ir o carro à mercê dos bois. outros de roçadoira. trazidos ao acaso.que batera a hora do almoço quando lhes saiu pela frente o Silvestre Calhorra.A Mabília chega à fonte. que era homem de curiosidade imediata. com uma capuchinha de menino não maior que o capelo dos gabinardos... Canícula. embora com suspicaz sonsice. Um deles pediu que. que acrescentou de seguida para uma pequena.bravejou uma velhota. Dois homens encarregaram-se da fita métrica enquanto um terceiro de caderno em punho ia tomando nota. mulher? Uma sede de água dá-se até ao diabo do inferno. por especial favor. que se postou desconfiado e quieto como um raposo por detrás duma giesta. de todo anacrónicos e sem dignidade para o tempo dos camiões. O capataz e Aires trataram. . Caía um sol de rachar. Mais de uma vez os pesquisadores tinham enxugado o suor da testa às costas das mãos. Era o comum dos jazigos metalíferos da região e Hincker e o engenheiro foram percorrer os campos à roda. . . sucessivamente. Apareceu primeiro o velho Cassiano da Urra.advertiu a velha.

O prático. mas os senhores e que não contaram com ela. sim. a sua parte é sagrada.Toca para a frente! . Antes deste pendente . como se haviam de reconhecer os jazigos filonianos? O Calhorra pareceu um tanto desconcertado perante razões que apreendia apenas pela rama. diamantes. sem dar cavaco. . ... Se não fosse assim. Não lhe perdi a posse.? Entramos no que é seu.Não me consta que cá no meu terrunho haja oiro ou prata. mas agora num aparato destes. O chão cá lhe fica. Estava longe de o supor aqui? Homens.Não senhor. mas há volfro.Toca para a frente?!. À voz mais áspera do Calhorra convergiu para ali todo o peso do gentio.. como os militares em diligência.Para que são as meças.? Os três homens continuaram na sua. e já o seu interlocutor recargava vitorioso: . encolhendo os ombros.E a saúde do senhor engenheiro boa? Estimo.Ora para que vivarn! . ..... prata.Tanta gente.Pois sim. Toca para a frente. repousando numa para se estribar na outra... . que eu saiba. estimo.Vossemecês saíram duma terra que é minha e estão agora a pisar outra que também o é. Tiraram muito volfro?? ..regougou o Calhorra... e alertados por tal movimento apressaram-se a voltar do oiteiro próximo.? proferiu silvando. mas haja ele cá oiro. Uma mocita feia e suja veio a correr para ele: . E quem lhes deu licença? A pergunta dirigia-se a eles por inclusão de partes e os homens ficaram um segundo interditos diante do rompante do jarreta. está a ouvir? .. se eu consentir. . não lhe perdeu a posse. lá foi onde lhe indicavam. Pernas em acluela.Sou o dono deste chão.Vem errado? Bata além àquela porta. o engenheiro dirigiu-se ao Calhorra: . mas aduela de grande bojo. sem embargo do tropeção. É então o dono? Pois tenho multa honra em cumprimentar o senhor proprietário . pariu aqui a galega? . que não era fingido. Hornens! . com uma topetada de cabeça remeteu-o para Hincker. ao passo que rosnava: .repetiu o Calhorra em voz repicada de furor e espremendo as palavras.. ou perdi-lhe a posse. achando jeito. Ninguém lha rouba. meu amigo. .Descanse que é indemnizado do prejuízo que se lhe der.É verdade . Severo e Aires.Senhor avô.. Hoje estou aqui por obrigação.Viva lá? . Mas entre nós não há azar. se fosse de escopeta atrás das ruças. .É da lei. olá! Então riiinho..Salvou como rezava a sua cartilha de homem bem-educado e importante: . Palpitando de salto o que ocorria. amigo e senhor Silvestre.tornou ao cabo dum momento de circunspecção. mas vão levando as túberas. andaram a cavar na nossa leira e tiraram muito volfro. hem... derretendo-se em amenidade..? ... de se atravessar na linha que seguiam os dois mensuradores. estimo ouvi-lo.Olá.. onde tinham ido em prospecção. Mas o apontador gritou para o que pegava à ponta da fita: .e apontava o Aires com um desdém.respondeu Hincker. 35 . meu caro.

Teu avô fazia parte da quadrilha que assaltou a quinta do Ferro.Tia Polónia Fandinga. Luís Ougado? .Tu vens roubar com os de fora. contra o atalho de pé posto.supremo remolhado de ódio . que os bebeste de leite. Quem risca é o senhor Hincker. tal filho? O Severinho não lhe herdou só os bens. avançava para o Luís Ougado que recuava trémulo e de caradura torva diante das suas mãos crispadas. Algum minério apurei. sita ao Vale das Donas. de quem é a terra? .Vejam o desaforo? já uma pessoa não é senhora do que é seu. faz costas comigo. surgiu de rainha Santa Isabel: 36 . cadelo? O Aires. aqui presente. Levantando os olhos do papel volveu: . dificil de dizer se artificial.. como se faz em toda a parte..Hábitos de ladrão tens tu. se compungida. Confronta pelo sul. lá em baixo. ouviu-se murmurar no meio do monte de gente a voz da Ana Ruça. Venho aqui à luz do dia. Depois. O proprietário daquele chão. Sim.tornou o apontador. Onde um patear. . Estou a vê-lo na eleição danada que sustentámos contra os de S. O Augusto Aires ficou um instante entupido.De quem é. Minha não é. . Tua mãe foi apanhada uma noite com um amigo a assaltar a tulha da Javarda Velha...respondeu o nomeado. já eu tinha dado no vinte. não sei ainda o que vamos fazer.. e tu chamas a isto roubar?? Se eu te rebentasse a alma.Olhe. num crescente de cólera. . É provável que experimentemos o filão. uma mulheraça ruiva que era caseira do Fráguas: .aqui andar a ciscar. meu homem.. a uma distância de 270 metros.Ninguém sabe o nome do proprietário? . de trabucos aperrados à boca da urna: Silvestre. não obs tante se futurar pela hesitação que o dedo dunguinha lhe advertia ser melindroso fazê-lo: . com. toda lépida e espevitada. como se chama? Premaneceram todos calados. Brás. Os homens da fita vieram para Severo: como se chamavam os homens das sortes? . Tens a quem sair.Tal pai. Não haver uma tranca bem mandada que desanque um para exemplo? Onde está a lei que autoriza. o Aires julgou-se obrigado a intervir. herdou-lhe as maneiras e a “ária”. Vêm estes ladrões lá dos quintos e toca a devassar. Não ouviram? O apontador tomou nota. pateou o outro! Deus lhe fale na alma... mas depressa reagiu. . Dou-lhe a minha palavra. Dado que assim seja. é provável.Temos: ponto de partida é a trincheira que se vê muma terra lavradia de Silvestre Calhorra. o amigo não há-de ter razões de queixa.observou Severo com afabilidade. cobrando o natural: .? .Mas estacou?? .e espremia uma lágrima. Mas uma rapariga...Esta e aquela são do senhor Silvestre Calhorra. mataram-no os desgostos! Perdi.Raios te pelem! . Fez aquela promessa com tanta franqueza e sinceridade que o velho enterneceu-se e disse: . Em virtude do silêncio que se congelava num tal concurso de pessoas. toca a virar a terra de baixo para riba.Sei lá. e ainda queres que te peguem na candela?! O que tu precisavas sei eu. perdi ali o meu grande amigo? .

A 250 metros. manhosamente. . durante a qual o burburinho popular ruflou como enxame poisado nos ramos duma árvore. muito surrona. compendioso. conversava muito camarada com Silvestre Calhorra. Hincker tão-pouco tomava as coisas ao trágico.Que tal está a pouca-vergonha? A gente é esfolada e ainda por cima lhes há-de dar os améns? No que é meu não prantavam eles a pata. .Não me admiraria nada . vexado pela estupidez humana. O homem do caderno debalde esperava que lhe dessem os nomes dos proprietários confinantes. .respondeu o homem desejoso de mostrar graça. sobre quem o homem trazia os olhos.respondeu a criatura em tom de poucos amigos. grandes e redondos como eixos de carro. o que por inverosímil trairia a sua má vontade.. para este.a. . resmungou: .” O Augusto Aires partiu a toda a pressa levar ao Dr. o Calhorra. não deixariam de sonhar. a quem queria obrigar a fumar um charuto.O que o senhor quer é saber quem é a dona da leira retorquiu ela toda dengue.proferiu com um sorriso de galanteio o apontador. S. tendo penetrado a conjura.A leira é de minha mãe. Hincker.perguntou-lhe o homem do lápis. um destes havanos preciosos. gostava? . O tumulto não amainava e ela repetiu: . considero que lhe será menos penoso arrancar-se hoje ao remanso da sua tebaida que ter amanhã. entretanto. temos uma corga de tojo. Estão assanhados à ideia de que viemos para lhes roubar os tesoiros de que reza o Livro de S. já sabem? Pois se já sabem. . ó tiazinha? .Como se chama vossemecê. Perdoe o incómodo mas. Manuel Torres o faceto S.proferiu ao passo que assentava.Mas eu digo: é a tia Rosa Pedralva. ao seu lado. . voltava às confrontações e dizia: . Cipriano.Se lhe dissesse que se chamava com o apito.Pois. mais lombriga que gente. lhe obedecem como ao Deus do Trovão. A Ana Ruça. Carregava-me de calhaus e haviam de ver! Decorreu uma longa pausa. Se a filha é flor como é que a mãe não havia de ser Rosa??. . indicou-lhe com um leve sinal de cabeça uma velhota. que a Hincker opunha Corbet e C. além de compreensivo. de nos acompanhar ao cemitério. Severo Bacelar. e com os quais.. ante a perspect 'va nada risonha. A quem pertence? Ninguém respondeu. segundo é notório. venha aplacar estes selvagens que.A leira é de minha mãe.Podia-me ter botado a adivinhar . Sempre seu amigo Severo Bacelar. se bem que reputasse perigosamente susceptível o ânimo da populaça.Chamo-me com a boca . O homem do caderno. chama-se com a boca . deixava-se ficar às espaldas da multidão para se não ver na contingência de dá-los ele ou alegar que os não sabia. procurava esclarecer a turba: 37 . que quero ir convidá-la para minha sogra. E. em cuja disposição borbulhava já o espírito de partido. decerto.se é assim que se chamam uns aos outros na sua terra! Crepitaram as gargalhadas. ao passo que distribuía cigarros a torto e a direito. mas a Pedralvita. que tinha mau génio . pronto! . alta e héctica. Diga lá o nome dela. uma noite de rouxinóis e de borracheira. puxou da carteira e escreveu: “Excelente amigo: Se lhe não custa.É de sua mãe!? .tornou ela. O.. elha por elha. a distância do poviléu.

dizem-lhes a quanto monta a percentagem. caso lhes sejam favoráveis. Dentro em breve estavam todos imóveis diante dele. a Custódia. . e o vê-los assim pobres e tacanhos não deixou de inspirar simpatia e comiseração àqueles senhores. .A corga do tojo.Não. 38 . os fiscais do Governo.Ora digam-me cá: que é que vossemecês imaginam? Que por baixo do restolho há dinheiro. Não senhores. e nós vamo-nos embora depois de atupir os buracos que fizermos e pagar os estragos. que vigiam a produção. Compreendem vossemecês?! Antes de mais nada temos de fazer sondagens. ou cobrar a percentagem que a lei lhes reserva? Ponham lá que para nós é o mesmo. não lhes levanto dificuldades.gem. Não foi dificil ao homem provado no foro e afeito a jogar com as paixões mais entranhadas demonstrar aos donos das leiras o absurdo da sua obstrução e ao Luís Ougado e quejandos o que havia de indigno naquele ar de cão de quinta perante quem vinha em paz e por bem.. as suas palavras não deixavam de causar impressão. vender a terra. Dou a palavra de honra que. salta o dinheirinho. e com desafogo delegaram nele a causa dos seus interesses. Pronunciam-se pela percenta. O senhor. .. Tratava-se dum homem de meia-idade. acenando para a mulher: . As amostras não são muito tentadoras. Faltava dar o nome dum pinhal com a sua terra de sementio a poente para a delimitação estar completa. as carradas e que nós já amanhã começamos a abrir poços e a tirá-lo?. Apareceram umas pintas de minério. então vossemecês são chamados e pergunta-se-lhes: . justo e tira-teimas. e recebem a percentagem. querem o dinheirinho logo ali na palma da mão. senhor Calhorra. O dono assistia de soslaio. por minha parte. apareceu o Dr. O encarregado escreveu o nome e ouviu que o bicho acrescentava. e os senhores. Não aprendeu como a irmã mais velha. devem-nos ficar reconhecidos por tal motivo. já vêem que estamos por tudo! À volta. a julgar pelo jogo fisionómico que ia observando nuns e noutros. mal vestido. Primeiro. Prante lá o nome: João Sancho.. Mas.. ali estiveram a apeguilhar e. Façam. Para que serve a lei mineira e a fiscalização do Estado? Palavra puxa palavra.. lá isso diga-se. Um homenzinho atarracado e barbudo como bode chegou-se ao sujeito do caderno e disse: . pronto. Esta só tem lidado com brutos como eu. Nós só teremos que nos felicitar por lhes haver ensinado o caminho. em atitude reflexiva.Agora tudo são promessas. a proceder à exploração. Se forem positivas. E aqui está quem lhes compra ao preço mais alto o minério que extraírem. ou coisa que o valha. Se não há mais do que isto. não basta. cabeça guedelhuda.. Tinham-no como uma espécie de manitu. sem se dar por achado. Manuel Torres.. olhos de grande mobilidade a denotar inquietude interior e obsessiva desconfiança. Resta-lhes ainda um recurso: meterem-se por conta própria a fazer as pesquisas e. lá em baixo. Os senhores pensarão o que mais lhes convém. onde há granito assim por atacado. é assim mesmo. mas essas pintas aparecem frequentes vezes nas regiões da serra. vamos.Qual preferem.? Era a rendição da pobre gente. quando os recalcitrantes se encontravam já na iminência de transigir.. não sabemos o que há aqui por baixo. sim. excitada por uma má inteligência dos seus direitos e lograda por loucas miragens.afoitou-se a emitir o Calhorra. se alguns houver. é minha. que é um homem que sabe onde tem a cabeça.Haja de desculpar: cá a patroa é atrigada do gênio e mal-educada. há-de notar que não podia ser doutro modo. uma razão ocasiona duas. que está a servir aqui na casa do senhor Doutor.

Tem juízo. chamouo à razão com brandura e boas palavras. rugiu: Aqui está o que hei-de fazer ao primeiro safado que entre no que é meu. Este filã o encerra oiro. O Calhorra ficou envergonhado e semelhante dito acabou por convencer a todos da lealdade dos vedores.5% pelo menos. entretanto. tem razão a Bárbara confirmou o Zé dos Cambais. bem do outro. Anda em nome dele. mas sempre vão arrecadando? Este tem da malagueta. carregavam para o carro a ferramenta e. os elementos de que se compõe a água: oxigénio e hidrogénio.Herdeiros de Joaquim Ladeira . do mesmo modo que uma areiazinha é a sí ntese do planeta que habitamos. prata.Não. Bárbara Ladeira. depois de a mirar bem dum lado. Alvoroçou-se o gentio.. mas em quantidade tal que não pagaria o trabalho de tratá-la. o Duarte deu um passo à frente. posto que duma palidez de rosa branca estiolada.O senhor Incas lá estudou. ferro. seja do que for. Os operários. E olhem: também tem oiro. mas a nós só nos interessará se contiver volfrâmio na proporção de O. mas pode vir o morraceiro mais fino que a mim não me engrola ele com a mistela mais 39 . estanho. Ouvindo nomear-se. Bacelar acudiu em continente.disse o Calhorra. Sim. a irmã. E.. sorrindo: Guarde. ainda airosa de fisionomia e esbelta de linhas.Estivemos há tempos a ler a matriz. que acabara de chegar. O problema sob o ponto de vista utilitário está na proporcional idade. Hincker perguntava: .proferiu alguém. Faça de conta que uma gota de água é a síntese do mar. ainda que fosse uma criança que o fizesse ao desfastio. enxofre. acrescentou: . O pequeno é o espelho do grande. mulher que devia ter sido bonita nos seus tempos. guarde? Rompeu grande galhofa. disse: De facto. anda. Bárbara. Isto não é a vinha de Nabote. Que descanse. dentro de dois sacos. a cascalhada mineral. Depois. lá sabe. Anda em nome de meu irmão. encerra em maior ou menor dose tudo o que há de tudo no mundo.É um pobre que levou a vida toda a esfossar na terra e tem medo que lhe arrasem o que agenciou à força de suor e calos. Eu não estudei. Hincker pegou da pedra e. Duarte Ladeira. e palavras foram as suas que operaram como água num braseiro: . amigo Calhorra. isto é. O Calhorra meteu a mão e tirou um pedregulho: Não querem pitada do que é dos outros. sim senhor. O energúmeno espumava e fazia forte escarcéu com os braços. .. e tudo o mais que em matéria de corpos simples lhes venha à cabeça. deu um passo em frente a corrigir: O senhor Reganha enganou-se. zinco.E mentecapto? . não é . Manuel Torres disse-lhe. atirando o chapéu de palha ao chão e descarregando-lhe uma sacholada que o amolgou. Mas levaria muitíssimo tempo a explicar-lhes como é que isso pode ser. tem volfrâmio. Admiram-se? Tem isso tudo e até água. prata. de volta do almoço. Assente lá na sua o senhor Calhorra que qualquer parcela. vencendo a sua relutância. . Modo de lhe valer no enleio. homem? Não esqueças que a terreola a talhaste no baldio. Percebeu o amigo? O Calhorra acenou que sim..

o alemão julgou-se obrigado a dizer para o velho troglodita de barrete de coelho: Senhor Calhorra... se me quer dar esse prazer. . Silvestre Calhorra agradeceu de rosto prazenteiro e com urbanidade. escusavas de chamar estes piratas para o povoado! Mas. Manuel Torres ia a despedir-se. alijado o ar jucundo. Braço no de Severo. . Dr. se chegarmos a montar aqui os serviços.. E o ósculo de paz do vencedor aos vencidos para que se conformem.. O automóvel dos operários largou a toda. se é judas. não? Pelo menos o nome soa a esse ramo de negócios... e digo logo se é cristo.Pense no almoço ou apostou que me havia de arruinar a saúde. .Manda a Hermann Góring Werke. mas suspendeu-se para deixar Hincker acabar o recado: .Que diabo. entremeteu-se: . pela fresca. Ombro com ombro. tirania. Não lhe quadra ser agente? Manuel Torres desatou a rir. fome e miséria nos povos. que estendera o gargalo como o grou para hipotético cibato.. topam homem? 40 .É em Berlim. chega-se lá assado com o sol.Manda o Führer? . Mas no próprio minuto em que o chauffeur puxava o motor de arranque. Poucos irão na fita! . .Só se guardarmos o manifesto para esta tarde. em tom de meia seriedade proferiu: . Companhia de seguros.bem cozinhada deste mundo.. deixe lá as discussões para melhor ocasião? gritava-lhe Hincker à beira do carro. Manuel Torres dizia-lhe familiarmente em tom de chalaça: .disse Severo. Sempre debaixo de pinhais.. a caminho da estrada. .. O Calhorra. um feitor já nós sabemos quem há-de ser.Conheço a receita. Führer? Não conheço .? Ou para amanhã. Ora espere: a sede não é em Berlim?.? Ficaram calados Severo e Aires. Severo ouviu que o capenga. mais ou menos em vias de organização.Alma de cântaro. Manuel Torres inclinou-se. deixa. lá continuaremos o debate. Basta-me olhar-lhe para a cara e vê-Ia reluzir. Apólices para todos os riscos e flagelos. invalidez. com ar de ponderar prós e contras. por agora. Depois. é pouco de apetecer. Manuel Torres. em cujo quadro não me importava de entrar: Nova Europa.O caminho para Orcas.Sei que há aí uma empresa. Bacelar.? Dirigiram-se para a estrada a passo dobrado...Reservando-nos para amanhã .. Vão bem melhor amanhã de manhã.O nome não me é de todo estranho. Diz-lho um homem que ficou com as pernas tolhidas à força de o passear de cá para lá e vice-versa. sem fazer caso aparentemente do que dissera o Calhorra . de tarde. dizia entre dentes para o Augusto Aires na pressa furiosa de dar a ferroada: . ignorância.respondeu o engenheiro em tom igualmente facecioso.estão convidados para uma almoçarada em minha casa de Mouramorta.. diz bem: conflitos entre nações. muito cordialmente.

Tenho ervilhas frescas. com óculos de escafandro. e as sombras frescas à volta da bica de pedra. Conte também com o Dr. anunciou-se milharal fora pela esteira que levantava o marulhar dos pendões. esbelta e sadia. Como vinha aí um sol desabalado. quando fala.. à volta. mostrava-se a cara surpresa e um tanto perplexa da boa tia Irene.. Foi por isso que.. Irene e o sobrinho desceram a escada a esperar Paula e o pai que avançavam. entorpecida no seu recosto de faias e álamos sob os langores da madrugada. a menina do senhor Hincker.exclamou ela.. de calças arregaçadas do regadio e peitaça lanuda ao léu. o esforço do homem cerebral que aprendeu primeiro a teoria do idioma e.. porque ainda não tenha prática suficiente. O Meirinho.oito horas solares . sem importância. e não faça cerimónia? Se a tia. e era de presumir que visita tão matinal . E. . estão com sorte. na alpendrada. olhos muito azuis e móveis. .Reconsideraram muito bem . lá vêm eles. Severo não se tinha anunciado. no rosto e sorriso de visitante reconhecida verdadeiramente uma estrangeira . D. correu a sossegar a dona de casa alarmada. Mando cortar o pescoço a dois frangos.Com quem tu entenderes. pois. Olha. que acumulava as funções de abegão com as de porteiro. Irene ficou um pouco esmagada ante aquela rapariga de carnadura rósea.causasse o mais dramático sobressalto na casa desprevenida. O senhor Hincker cumprimentou a boa senhora com excessos de urbanidade e repicando as palavras.Essa menina tem alguma necessidade de ir apanhar a réssega? Que venha. cabeça quadrada imponente.Está bem de ver. Ao mesmo tempo. nunca o fazia sem delatar certo esforço.Dá vontade de pegar aqui de estaca à semelhança destas árvores. . Manuel Torres. mas o português correntio aprendido na vida das relações. . pelo pátio saibrado com areia do rio. discreto em seu recorte. em seu desdobre lógico e sintáxico. bigode tostado pelo charuto sobre a boca pequena incisa com firmeza. descreveu um círculo que abrangia os álamos. pular com desespero para as trancas de ferro.. com a própria mão que segurava o chapéu. Mas o senhor Hincker tratou de se pôr à vontade.III Só ao quarto ou quinto toque de buzina é que a velha casa de Mouramorta acordou. D. o guarda-rios trouxeme um prato de trutas. sombras que o movimento cadente da água tornava ainda mais voláteis: . Quando se propunha falar o português literário. nem se fala nisso. disparando pátio fora. .. nos quiser oferecer o almocinho. Parece um claustro! 41 . mercê do que a boa senhora perdeu o ar tímido e só por isso rebarbativo. viu-se afinal. Não havia dúvida que falava muito correctamente o português. não se preocupando de deixar a descoberto o minguante lunar dos cabelos sobre o occipital. Havia uma pequena alteração no programa. admirados da boscagem. Paulinha. está a ver cada frase.e não menos ante aquele senhor alentado.O que a tia destinar. e. os loireiros-rosas. ficava com a tia Irene enquanto eles chegavam a Orcas fazer o registo.. em nada o bigode hitleriano tão em voga. o que dava nas vistas e lhe sucedia sempre que procurava falar com elegância e precisão.

Esta casa foi adquirida e adaptada. revestidos de glicínias e rosas de toucar a todo o ascenso. O engenheiro advertiu: . gordo. desobsequioso e brutal. em sua disciplina. .Nesta casa respira-se bem o século XVIII . convidativos como braços que fazem sinal para subir. a história imaginária da propriedade. Naquele sorriso palpitava-se o tipo de acção e com a superioridade mental precisa para poder responder em qualquer emergência pela sua pessoa.depois do que foi observar da janela a paisagem agrícola com este olhinho refiro do homem de negócios que não admira a bucólica sem deixar de pulsar a puberdade e o rendimento do solo. ao passo que acendia o fósforo. um à-vontade que o tornava eminentemente social. que passou a Severo. sentou-se. Os indivíduos que assim têm o poder de repartir-se . a dar uma dedada aos cabelos. depois ante o panorama da Serra da Estrela. Mal puseram pé na sala de estar.Oh. percorreu com reverente e mesurada pausa os quadros pochades de modernistas e tabuazinhas de primitivos portugueses . exclamando a cada flor mais especiosa. exprimindo além do dom de circunspecção ou de oportunidade.. esponjou-se com o lenço. Por muito que se procurasse. uma sombra quase subjectiva . fixado tudo na retina. e ia puxando as fumaças do havano. Estava há menos de dez minutos em Mouramorta e. deu uma torção ao pescoço como se quisesse subir um ponto numa cremalheira. antes se mantêm prontas ao apelo.Está aí na corrente. veja lá se lhe faz mal?? O senhor Hincker sorriu com o ar suficiente com que na sua terra era costume dizer-se: um homem honrado tem medo de Deus e de mais coisa nenhuma. reclinada no extremo horizonte sob purpúrea e roxa gaza: . se o encarregassem de compor imediatamente um relatório sobre a povoação e aquela casa assolarengada. Era um sorriso amplo. É em castanho novo. quando viajante. quando homem de sala. a avivar o cinábrio da boca . Tão-pouco se diria o estrangeiro pisando terra de roça. em seu cérebro devia estar ainda a discorrer. galantuomo. outro olhar meio atento pelos campos. visto ter-se reduzido a sala a 42 . homem de negócios.estão por sua natureza proteica destinados a dominadores. ou com a brusquidão própria da gente afeita a ir depressa e incontemplativamente. As suas personalidades não se atropelam como no ser vulgar. com a outra agitava o abanico. poeta romântico ou impressionista .Pisaram os primeiros degraus da escada de dois lanços. e são espirituais segundo a mão que as maneja. como a seres animados. era capaz de se sair com honra. sehr hübsch! Sehr hübsch! Com a mão direita fazia uma carícia às rosas. Paula exagerava a sua boa impressão. o senhor Hincker atirou o chapéu para cima dum tamborete. Era o caso de Hincker.proferiu. destas ventarolas de papel que distribuem os teatros e restaurantes caros. tal um filme de grande metragem. possessivo. não se descobriria o potentado que movia caudais de oiro e trazia às ordens um exército de homens. Tudo isto fez em menos tempo do que a filha levou a tirar o chapéu no quarto da tia Irene. Repare para o tecto. E cruzando a perna e puxando da charuteira. Foi copiado à risca do antigo.oh. e dada a familiar curiosidade que lhe permitiam as relações com Severo pôs-se a vistoriar a casa.e a volver ao salão.quando homem de negócios. não se descobriria no senhor que ali estava espraiando um olhar ocioso pelos quadrinhos da parede..Vem de pais? . a despeito do esquemático. Observado tudo. Do modo mais natural deste mundo. .

morto em França. estropia outros. Depois do que. coronel. saboreou o vinho fino até a última gota. mata uns. numa divisão Panzer destacada nas Marcas de Leste. mas ignorou de todo a comodidade. o censo da sua gente apresentava-se assim: o filho mais velho. mas com um só alçado.e Hincker torceu-se na cadeira a encher novamente o seu cálice de Porto. Ele abriu os braços num largo e teatral gesto de incógnita e fatalidade. Era inconfortável de todo ao que era de grande. estropiado em Crera. Na entrada do estio. O século XVIII entre nós conheceu o fausto. um irmão. Meu pai mandou reduzir esse verdadeiro Ringbahnhalle e andou bem. senhor Hincker? . o senhor Hincker media de novo com o olhar a amplidão da sala. mas a guerra é uma devoradora insaciável de homens.Formidável? . consoante a fé germânica.e como um homem do Norte empina sempre que pode e um português nunca se julga desobrigado de fazer uma perna. a seguir a este. o mais novo nos submarinos. Decorreu um grande silêncio durante o qual todos viram desfilar uma procissão de aleijados. Quando éramos pequenos fazíamos aqui corridas de bicicleta a toda a volta.Teremos ainda guerra por muito tempo.O diabo é que a Hidra tem duzentos e cinquenta milhões de cabeças emitiu Bacelar. Irene.guloseimas da região . associados. já se deixa ver. outro aprisionado em África. no Hartz a curar-se da arranhadura duma granada que o atingira por cima de Coventry. boas. levantando-se. minha senhora. E concluiu com um tom de voz que pretendia ser desopresso e vinha carregado de mortulha: .dimensões muito menores. Notícias. As notícias chegadas recentemente são animadoras. já não tinham conta os feridos e os mortos.Por enquanto as clareiras não são grandes. Irene. cavacas de Freixinho . isto é. que viera fazer as honras da casa. grande. Está então decidido: a menina fica? 43 . o outro. escangalha a maior parte.Mas nós não viemos aqui para resolver a crise do Douro. umas três vezes do seu tamanho. do ramo dinamarquês. . Mais ao norte. . sentenciando: . no dever de mostrar-se optimista e manifestou: . achou de primeira civilidade inquirir dos entes queridos que o senhor Hincker trazia na guerra. O estilo que se adoptava aqui adoptava-se acolá. um sobrinho. a segunda cidade santa dos Vermelhos. aviador. Sempre assim se mostrou. Os ulanos do marechal Von Rundstedt já há dias que chegaram os cavalos a beber às nascentes do Dnieper. Se a Alemanha abater a Rússia. A Europa é um solar. vadios e fantasmas. Novamente abriu os braços num gesto cheio de vago e indefinido. Mas sentiu-se. os nossos exércitos avistam Leninegrado. primos. E então vitória em pleno. A estepe. o paladar e o olfacto. Ao terceiro cálice. o espaço. nem boas nem más. devia ter tomado parte na ofensiva contra a Rússia.É conforme. . do ramo nacionalizado alemão. Uma criada trouxe uma bandeja com fálgaros da Tabosa. proferiu: .Também temos assim muito no SchIeswig. repercutia além fora.tornou D. desataram a beberricar. por outro lado as divisões couraçadas de Von Bock avançam para lá de Kiev. Pena foi que não déssemos conta mais cedo! D. acabouse a guerra. Delicada e lentamente. está meia vencida. via-se bem.

que passaram.São dez e meia. e em face da aparição imprevista Severo augurou novidade.Não vi. Devia esperar por eles em Malhadas. Sucedia-se uma baixa. ..V. outro fazendo dançar a bolsa de oiro na ponta da corrente. Temos esse direito .. em todo o tope. Desceram a escada. enterrara na margem.O Corbet e o Antoninho Fráguas já lá vão adiante fazer o registo. bem vai.Há-de ser dificil . decerto à procura de gente que lhe ajudasse a remover o obstáculo. para não dar nas vistas.Vamos lá. Hincker tirou o relógio e disse com a maior fleuma: . O Antoninho desceu-se e foi à taverna saber o nome por extenso dos donos das terras. . diante do guicbet. Pé no acelerador.Como sabes? ..perguntou. Temos tempo de sobra. Que acontecera. que não acontecera.Em última análise. Será possível ultrapassá-los? . jungido ainda ao cepo por um feixe de fibras vigorosas. ao desabar. É verdade que em tão pouca distância a velocidade não conta. Pelos informes estou em crer que fosse o calhambeque do Fráguas. menos migalho.Talvez seja o do Fráguas. Nesse momento entrava o portão. Leve afrouxamento à passagem do rio. O carro tinha estacado diante dum enorme pinheiro. as grossas e revelhas franças tão profundamente que dir-se-iam outras tantas raízes que por sua vez firmavam ao solo a árvore secular. ao fundo da aldeia iam a 90. disputa-se a primazia a sopapo. A repartição só abre às onze. Registo: um quarto de hora.. como nastro que abambou. . A questão é chegar primeiro.. em despeito do carro de feno que ia fora de mão e lhes surgiu pelas chedas numa curva apertada. . . nem resfolgava..respondeu Severo. e neste jogo iam a recuperar a velocidade quando ao alto. Mantiveram o andamento ao atravessar Pedrões. saindo-lhe ao encontro. mal os senhores ontem viraram costas. mister Corbet. visto à esquerda as terras serem em socalco ou muradas e à direita bouças com mato alto e pinhal.Que há? .. Passaram em Malhadas a 110. Augusto? Do Corbet? .Daqui lá temos menos de vinte quilómetros. e lançaram-se ladeira acima a 80. conformada. panne não inculcava que fosse. meio divertido: 44 .Pararam em Malhadas. de pé em frente dela. dizia para dois pastores embasbacados diante dele. Fora duma dessas bouças que abatera o pinheiro. Há meia hora. muito esbaforido. Se não for o do Corbet. correu a contar o que se tinha andado a fazer no Vale das Donas. Não havia possibilidade de obliquar pelos lados.murmurou Paula.redarguiu Hincker. o Augusto Aires. . atravessado na via a todo o largo.M. .Se não se demoram. dois quilómetros adiante. se lhes deparou um carro parado. Talvez. em cima do tronco. mais migalho. Esse carro era o do Antoninho Fráguas. Foi a Ruça que. um dedo espetado para o chão. De pé.disse Severo tomando o volante.Ida e volta: uma hora. de si alagadiça. .. sobre a ponte de viés. O excelente B. se tanto . com ar meio atónito. .. .elucidou Severo.Mas conta o azar . O Fráguas corria pelas leiras. De quem era o carro. Severo rejubilou em seu íntimo. logo breve subida. Uma hora e quarto. soberbo em seu alor e robustez. A coruta.

o casamento. meia desplumada e azarenta. direito visivelmente ao lugarejo da Franja. Havia na sua postura. que passou a ser o eixo da sua actividade. lembrava uma ave pernalta de jardim zoológico. que coara parte da meninice internada num convento de religiosas. Juan sertanejo junto das mulheres dos embarcadiços. mas. Sucedera um dia que para salvar das malhas da justiça certo bardino que por arruaça chacinara um pobre gaiteiro em entroviscadas de arraial. não falsificasse ao sabor do freguês. Ficara assim com letras gordas e princípios morais muito precários. Em Muradais havia uma menina. voltava a aparecer. O diminutivo com que ficou a ser conhecido pela vida fora caracteriza bem a metamorfose. Ao Antoninho. tanto Severo como Hincker conheciam-no de ginjeira. sem disposição decidida para coisa alguma. jogar a pedrada. relapso à escola. Vocês chamam homens.Eu pagar bem. aquele era um famoso exemplar. magro. Bravio por semental. O exercício dum mester tão à parte permitiu-lhe ainda praticar as artes de D. Sim. Era enfezadinha. com um pé na trampolinice e outro no parasitismo. nunca chegando a compreender os homens nados dentro das três dimensões da vida moral como é que as autoridades não punham a mão na lapela do chatim. extorquindo-lhes os mais desmarcados juros e alcavalas. o uso da gravata e as mãos brancas no meio primitivo acabaram por imprimir-lhe o diferencial necessário. Gloriava-se de roubar à mochila mancebos na idade militar. filha de brasileiro. burlar os da sua igualha. esguio. O pai. e clientes de alto bordo às penitenciárias. Armado de dentuça afiada. ainda sua prima. em baixo. não houve passaporte que a sua falta de escrúpulos. preocupado apenas com a solução do problema. No gênero do escalracho humano que ataca o alqueive rural e se torna o flagelo do camponês. Tanto bastou para tomar-lhe o gosto. já toda a aplicação de criança se lhe exercera na arte de assaltar os quintais. além de bem 45 . insulado. qualquer coisa de leviatânico. mas apto mercê da audácia congénita a tentar tudo. o pescoço desenrolando-se como um sem-fim do alto colarinho de goma. Solange. Agente de várias Companhias de Navegação. E prosseguia no aranzel. barbeiro. que se eclipsara por trás da lomba dum cabeço. tinha muito de aleatório e periclitante para quem se sentia tanazado por uma fome milenária. unhas rijas e braço teso. o José Francisco. As suas tranquibérnias deram brado. tendeiro. chocalhando as libras: . alcançaram um ponto da raia seca onde a troco de boa espórtula um hombre de Dios se prestou a passá-los para Espanha. se alguma coisa contavam de seu. levado por igual motivo. largara-o à lei da natureza. Aos vinte anos um bambúrrio pô-lo na pista duma indústria. No seu poleiro. duma acerba e incontemplativa heroicidade. Mas este ramo de negócios. se metera com ele a monte através de bosques e penhascais. nariz adunco. por sua vez.. havia que tentar a vida. qualquer vida.Eu pagar bem? O Antoninho Fráguas. Ridículo? Not in the least. embora cultivado assim à grande e com toda a sorte de agilidade. Tomou-lhe o gosto e deste jeito se lançou no ofício de engajador. cacique nas horas vagas. caminhava noutro rumo. se vocês tiram árvore. sólidos como cavalos. para lá de todo o ridículo. Tentou o que ele chamava o principal negócio da vida. servida por hábeis calígrafos.. Oscilante entre rústico e fidalgo.. e as de usurário. se eram bonitas. De déu em déu. duas farripas loiras a voeiar no toutiço. sozinho. eu pagar bem.

grandes maltas de gente que pagou tarde e às más horas. que não se conformavam com o esbulho. passava por vir a receber uma legítima como nã o avultava segunda na comarca. era bem 46 . atrevido como os que o são e brutal. Mas tinha uma voz de veludo. mas em verdade de mão beijada. por cujo selo ia dobando uma estéril primavera sem pássaros nem flores. Chegou-se a gabar de sete amigas a um tempo. computada para cima de trinta hectares. veio ele a apurar em fonte limpa que o sogro com jogatinas de Bolsa mal sucedidas espatifara a fortuna e dera com o comércio de secos e molhados em vaza-barris. picado das bexigas e quase desproporcionado de estatura. mãe do rapaz que agora ali corria pelas terras. arrancavam-lhe as plantações. Em despeito das advertências. de quem eram celebradas a indulgência para com os pecadilhos duns e a magnanimidade para os leais serviços doutros. solipas e materiais de construção. em S. não a deteve no pendor. Concomitantemente. conseguiu insinuar-se no ânimo de mister James Corbet. ia ele nos quarenta anos. dos dixe-me-dixes quanto às baldas do pretendente e ao mulherio com que podia encher um serralho. A família. Com efeito. e agarrou-se com unhas e dentes. a porca da vida não endireitava. deixou-se enviscar. ombros largos de mais para a cintura muito fina. supremo dom de sedutor. e deitou olhos aos horizontes. volveu da alçada a jorrar sangue pelo nariz e com um olho a repolhar na órbita violácea. A pobre. Que fazes. uma tira de serra. melenas que lhe desciam para a fronte. metiam-lhe os gados aos renovos e quimavam-lhe as cardenhas.educada. tão parecido com ele como o ovo dum cágado com outro ovo do mesmo cágado. Explorando com astúcia e fingido fervor as reviravoltas da política. Foi a quadra negra da sua vida. Se por este conduto alguma coisa ainda viria a pingar. À força de colear e de brando jeito. Em despeito de tanto afinco. Surgiu a guerra. a Júlia Minga. Cortejou-a. à testa da qual pôs a amásia. lobrigou no valdevinos o seu príncipe encantado. Mas foilhe preciso ir guardá-la. Mas era de raça para grimpar. protestando contra o comércio que o traste do marido cometia em sua casa com criadas e jornaleiras. olhos de pegar o fogo em palha molhada. a murar. Mister Corbet. Brás montou uma taverna. mal virava costas. conseguiu que lhe entregassem a título de aforamento. que hás-de fazer. de trabuco aperrado. faltos de herdeiros directos. De dissabores e arrelias compensavam-no as mulheres que neste e naquele poviléu se arrepelavam pelo galo doido. Marcanciou em cavalos. O seu leme era: antes ladrão do que pobre e estavam explicados todos os claros-escuros e bocas de precipício do seu caminho. Porfiou. Não era o que se chama bonito homem. Entregava-se esta empresa à compra e produção de matérias-primas para a guerra e fazia-o com uma abundâ ncia de capitais e uma largueza de processos dignos do maior império a que tem alumiado a rosa do sol desde que o mundo é mundo. era cheio de ralé e. Era do mais fértil que havia no baldio e trouxe ali a arrotear. palpitou-lhe o comércio dos metais. que representava em Portugal a Chester and Brothers London W. a saibrar. lãs e cereais. que o via a arrotar grandezas. Solange só deu conta que fora lograda no dia em que. Ainda e sempre construía na areia. das depredações de mateiros e pastores. antes carão sobre o comprido. fez-se empreiteiro de estradas. retirada da canastra da sardinha e do comércio dos ovos. seria duns tios que a menina tinha em Malhadas da Serra.

involuntariamente. entregava-o na Sobriga contra os pacotes. símbolo da sua nação. Esses e os pastores. com Fráguas. sessenta e cinco unidades pelo menos. o senhor esquipático flauteava. encostaram ombros ao lenho. Um tal Leónidas Seixas. para que nem sempre conseguiam comprar guias falsas com que fazer a exportação para Inglaterra. Ele erecto. Vinte homens não chegam para a remover da estrada. Até onde iria ele com tão robusta saúde e insaciável fome de lobo? Hincker e Severo conheciam-no por fora e por dentro.na sua fraseologia pitoresca equivalia tal modo de dizer a passar o conto do vigário . seu patrão. outros assomavam no cerro. o rei da “mangola” no entanto não se deu por achado. Financiou-lhe o inglês a montagem duma separadora em Tendais. pelo que revelavam de insciência na mascambilha. além de que lhe estaria porventura a carácter. “percam-se os anéis e fiquem os dedos”. de pistola na mão para queimar os miolos. Alres deitou a mão a um galho da árvore a experimentar. Os picardos do Porto.esteve à beira da ruína e. despediram o alento todo: há! há! O tronco nem buliu. Os pacóvios vinham das serras com o volfrâmic. Severo. mas quanto 47 . parte do vale do Vouga. no. em seu desespero. novinhos em folha. Mister Corbet não se deu ao incómodo de descer. Eu pagar bem. Acontecia-lhes assim levar por alto preço toneladas de titânio e ilmenite. ele não o ignorava. Praça Filipa de Lencastre.disse Severo. gesticulando: . e por isso mesmo se temia deles. que faziam 9. Aires e chauffeur.Eu pagar bem! Hincker e Severo retiraram a sacudir as mãos embodegadas na resina e nos cogumelos da carrasca. apoiando o peitaço contra o lenho e fincando as tamancas no chão. Tendo acabado por decifrar a linguagem de mister Corbet. O volfrâmio genuíno. em bruto e trocavam-lho nataverna a metros de chita e a rabos de bacalhau. do Banco de Portugal. nem dentre as pessoas que estavam em baixo se julgaram umas com direito de o apear. e prosseguiu nas diligências de remover o estorvo. alcunhado a Fera de Macinhata. a quem chamava caloiros. como se tal missão lhe coubesse a ele que chegara primeiro e pretendia passar primeiro. no tempo em que era visto com olhos confiados. Mexera. Surpreendido em plena estrada. os pastores afoitaram-se a alijar as capuchas e. irem chamar muito gent& Depois que se inteiraram do entremez. Diante deles o morraceiro não dizia palavra. viu-os esbracejar por baixo dos pés e. com escritório no Porto.No. Cumprimentou-os com desembaraço natural. pode dizer~se com a boca na botija. com ele saíam sempre tosquiados. 14. compravam a olho na febre de enriquecer. . a quem meteu a faca . protegido por grandes e misteriosos poderes. sem compreenderem todavia como se encontrava a impedir de todo o trânsito aquela bisarma de madeiro. Por cima deles. Pedir reforço. Sôfregos desta laia. vendo a separadora a funcionar. outras que valesse a pena fazê-lo. Foi o princípio da sua carreira triunfal. Dominava agora o Alto Paiva.Não se matem . sem lhes ficar o recurso de recorrer à autoridade. ou simplesmente resolvidos a cometer lance tão aventureiro. A mesma mixórdia dizia-se que impingia a mister Corbet. Hincker e os seus saltaram em terra e cortejaram. com Hincker. a voz que define o Britain's rule em todos os tempos e lugares escapou-lhe novamente dos gorgomilos chupados: . Entretanto apareciam os primeiros homens de socorro. 10. e davam-no já como a abarrotar de rico. imperturbável. à qual de princípio esteve associado um outro escopeteiro do mesmo calibre.o reflexo da política tão realistamente maleável da hora difícil.

A gente que lá vem.. mais estrepitosa que um ciclone. Ainda um galão. no mar. aquele do seu posto como de gávea. o rabo-leva gris do arrabalde entre hortejos e devesas. a buscar um serrão a Malhadas. se entreolhavam com silenciosa e correcta frieza. aliciados ao esterlino. tornaram a relampejar. depois de contar as pessoas que vinham a caminho. no deserto. circunstância donde emana o seu optimismo (inico e inexaurível.Não há-de ser necessário. arquejante. M. os contornos versicolores. lançado a fundo. As apertadas e sucessivas curvas tolhiam o B. Mister Corbet mostrava o mais azarento e enjoadíssimo esgar que se pode supor em rostos glabros. voou. tal qual suas índoles e temperamentos. Mas um inglês joga até resto. ali como no resto do mundo. este de sentinela a meio da estrada. ao passo que exclamava: . o inglês tirou o chapéu agradecendo galhardamente. menos um do que há pouco. Claro. mais nítidos. quase mudo. mais a que aí está note que já se foram embora dois – somam treze. Mas esse auxílio não chegava e a sua ânsia devia superar a da boa irmã Ana. serras e o Quim da Urra. entretanto que Corbet e Hincker. ficando nós de braços cruzados. ao fundo. Primeiro que tudo o Aires e chauffeur despediam no B. E em poucos segundos de conciliábulo conceberam um plano. Eclipsou-se tudo. Eram as duas nações face a face. E. Quando viu crescer daquele modo o arraial.Antes de nós não passam. esfalfada. Hincker convidou o inimigo a passar. mal se anunciando pelo estridor.. Metralho-lhe os pneumáticos. pois que no segredo de suas almas se mordiam como cães. no meio dos pinhais negrejou um bando de gente. a chocolateira depressa se esvaiu à retaguarda no pó e frondes do caminho. levemente molhado de desdém. chegou de rompante com machados. Quando viu aqueles treze peitos debalde apostos a virar o tronco. prático em derrubadas. O automóvel de Hincker. E com entono de coragem. de desenvolver a fortaleza. foi obra dum sopro.No. depois. largaram a correr em sentidos diferentes. V. Olhava em volta à espera do auxílio providencial que um inglês acaba sempre por encontrar em terra. Aproximavam-se da vila. Os zagais. e na projecção visual do pára-brisas desenharam-se um padre à secular. Relampeíou à direita em espanejamentos losangulares de cal e vermelhão uma nesga de casas presunçosas. além da experiência requerida. V. o senhor primeiro? Arrancaram a um tempo. Mas assim que se lhe deparou uma recta. já os automóveis trepidavam. Severo disse a meia voz para Hincker: . rodar depois o lanço para a berma. Serrar o tronco. Tanto o Aires como o Urra tinham. Em poucos minutos estava dado o corte do lado da coruta. foi precisamente no seu prolongamento longitudinal que se puseram a serrotar o pinheiro. com a quadrela do campanário a escornar no tope. chamar mais gente. compreendeu mister Corbet que a partida estava seriamente comprometida. pulso rijo. tocado pelo José Francisco. Por fim. Em resposta. Hincker. Mais gente ou então ir buscar machados e serras para cortar madeiro. tranquilizou: . formulou mais uma vez: .Thank you! O senhor.a arredar nem polegada. estacando par a par com o do Fráguas. Com uma leve mesura e gesto mal esboçado da mão. M. no. marrados um no outro como em match. Atacaram depois ao centro. um 48 .

É o mesmo.. Hincker quedou um momento em silêncio e. de que rescendia pela taverna o aroma inebriador. . quando ele se escamugia. . correspondia aos dados de que eram portadores.Se não está no edifício. Credo. Felizmente a Divina Providência. O funcionário leu.É como vês..Que me diz? . menos Hincker. Para mais é coxo! Desceram de afogadilho. com o brio dum antigo porta-machado.Vossemecê por aqui? . medição. o amanuense observou: . propinou-lhe. com um bolo e uma garrafa de vinho à frente. Chegavam com atraso de meia hora. que se levantou a atendê-los.disse-lhe o Aires. Para lá bateram de espora fita. foi pelo livro próprio e declarou: . e dispôs-se a matá-la dignamente. nomes. segundo o jogo das probabilidades. O engenheiro Severo Bacelar entregou ao amanuense. uma sertãzada de carne fresca de porco. muito alevantado e pisa-flores. pela mão diligente da Eduarda. sem trair na voz a menor contrariedade.. abancado a uma fritada de marrã. 49 ... Madrugou.. de Malhadas da Serra. De chofre penetraram a traça do velho raposo: fora ele que mandara atravessar o pinheiro na estrada para ganhar aquela meia hora ao balcão da Secretaria.Para onde iria o homem? Sem disfarçar o lume sardônico que lhe chispava dos olhos. O velho gabiru lá estava.. confrontações. salvador do mundo! De soslaio notou que traziam cara de poucos amigos.Apresentou-o o homem que aí estava: Silvestre Calhorra. calculando. . imperturbável e cravado no charuto como adem num espeto. uma destas fomes caninas a tal ponto azougueiras que os seus olhos quanto enxergavam era baço. a par da sua Verónica. e dois garotos a repartir um talhada de melancia. .A gente da serra costuma ir petiscar à casa da Eduarda ponderou o Aires. Quem tem cuidados não dorme. Mas nem no vestíbulo nem nas imediações levantaram rasto do Calhorra. mas que mal se estava garantida a prioridade? Ao balcão tropeçaram com o Calhorra e tiveram um vago palpite de moiro na costa. saíra de casa com a alba sem outro lastro além dum cálice de cachaça e duas buchas de pão. Não tiveram necessidade de comunicar os seus pensamentos. não teve ainda tempo de atravessar o Tavolado... sem tirar nem pôr. Estacaram diante dos Paços do Concelho e com repousada confiança subiram a escada. nem os judeus quando entraram pelo Horto das Oliveiras dentro a prender Jesus de Nazaré. Silvestre Calhorra sentia fome.Talvez o ladrão lá esteja.senhor de coco. . Como tramóia não fora mal urdido. E estava na incomparável operação de deglutir quando a porta se abriu de rópia e viu avançar direito a ele grande tropel de gente. Orcas da Beira. que não se deitariam à vila mais cedo do que o necessário.. perguntou: . pode dizer-se. Além de que a febre do lance não o deixara cobrar sono. além da sopinha de rabo de boi. Eu leio para que Vosselê ncias fiquem inteirados. que há tanto devia ter aberto a Secretaria da Câmara..Este manifesto acabei há instantes de registá-lo. com efeito. e em tudo. Leu o registo. o manifesto lavrado nos termos da lei.

.. Mas o que está por debaixo da terra não é como isto de perdizes que se tiram pelo faro e saltam ao nariz dos podengos..Olé. vejam os senhores o perdimento. tirei lá setecentos quilos e mais tiraria se não estivesse velho e cansado. Raios o partam para excomungado! . pedra a pedra como nozes. Viemos para fazer negócio. Uma fortuna pela água abaixo! . Depôs o garfo contra a borda do prato. os senhores nunca tinham aventado a malhoada.Você sempre nos pregou uma vigarice!. estão com o seu homem.Digo e torno a dizer: escapei por uma unha negra à vigarice. rape que rape. a moer. proferiu erguendo os olhos. Estou pobre.Nunca andei noutra escola.mas não só não tremeu como o garfo se lhe não desviou da trajectória mais curta do prato para a boca. hoje tinha pregos de oiro pelas paredes. sem prestar orelha à invectiva. depois na parede e. para se descobrir? Estou a ensinar o padre-nosso ao vigário. torcendo os lábios num esgar dubitativo.volveu dirigindo-se assinaladamente a Hincker e a Severo. .. lá porque lhe parecesse que tanto o Incas como o Severo se acobardavam de romper fogo. se tenho por uma casualidade guardado o volfro. Vendo. por muito que sejam dignas de dó.Que diz o senhor Calhorra? .Para fazer negócio? Pois vivam lá. setecentos quilos! Agora eu lhes juro: se este pilhancras lá não vai esfossar.proferiu Hincker em tom conciliador. vendo o registo. que não fosse a do Cadelas. como acoimou para aí uma boca mal lavada. quem ma fazia eram os senhores se durmo a manhã toda na cama. Ponho a mão numa Escritura que não aventavam. está bem? . conhece o chão que pisa. como estacassem à volta dele. como ia dizendo. para maior desgraça com umas pernas que nem cilindros de estrada. retrauteou: . Dóilhes? Quem descobriu o filão. Outro ardil não lhes deu o Diabo.São servidos? ..O amigo Calhorra podia usar processos mais leais exclamou Severo com ar agastadiço. Se serve. nada menos de setecentos quilos. senhor Silvestre..Nós não viemos para ouvir as suas lástimas.Então não são servidos. aqui o menino Severo tem prática. .articulou Hincker.Está bem.Associar-se connosco. É preciso andar a fusgar. vamos lá a ver o que a coisa dá.. nem para questionar consigo. serve-lhe?. .. associar-me não quero. Lá quanto a vigarice.. 50 . Pois.Assim com'assim.Não sei o que o menino quer significar lá na sua retorquiu-lhe com voz paciente. Sim. mas encrespando bem visivelmente as sobrancelhas. pois então! . Vendo-os circunspectos.? É de vontade? . Os filhos saíram uns pilordas que para pouco mais prestam do que para virar a malga do caldo e a caneca do vinho..Que espécie de negócio querem então os senhores fazer comigo? . mas é para que não suponham que me comem por asno. . que as más-línguas classificavam de felinos: . senhores! Não se atreviam a interrompê-lo ao que estava de excitado. Larguei-o à razão de doze vinténs o quilo. não há dúvida. bem sabe. O senhor Incas aprendeu nos livros. .barregou o garnisé do Aires. . Depois.. meus senhores das barbas honradas? Quem é que primeiro lá quebrou as unhas a esgadanhar? Fiquem sabendo: aqui onde me vêem apanhei lá e no rebusco em redondo.Estamos aqui para fazer negócio . respondeu: .. pique que pique. plantou olhos em Hincker.Esses nem aprendidos numa escola de gangsters! . .

na sua pupila.Qual exorbito? Se o senhor Incas não quer..Quinze contos e nem é dado nem vendido. Sim. ?? Que malvadez? Caçaramnos. e vá de facilitar. previsto pelo Código. Incas e o engenheiro puseram-se lá na ladração que ninguém entendia e foi este que rompeu fogo: .e disse: . Severo teria compreendido porquê. Não sabiam aqueles amigos que estava senhor da maranha toda e que.. Não faz. com fogo ao rabo. nesta altura do discurso sorriu. a deitar o pinheiro abaixo a golpes furiosos. O Antoninho deixou-me recado que chegavam ali adiante. ... a jogar contra eles jogava com cartas marcadas. o arrepio nervoso do sobressalto. Os homens apanhados com os machados às costas já estão na gaiola. ao Sarzedo. saíramlhe sem querer estas vozes em que chocalhava um badalinho.Também pode ser.. Firmado neste palpite. Levem o pouco ou levem o muito.Está para viver! . E tal erro de reconstituição foi quanto bastou para adverti-lo de que o anúncio mofino devia ser tomado como escova e mais nada. Opresso e de semblante muito sério. pretendidamente apanhados de ferramenta ao ombro. O pinheiro podia causar uma catástrofe. um só homem.Não se faça de novas. Foi um tornadoiro de águas. daqui a migalho rompe aí o inglês que lhe pega a olhos fechados. mas o mais certo é levarem o muito. descuidado.. Pressentindo provavelmente o perigo. e amigos como dantes. e a Guarda procede ao levantamento dos autos. . e o senhor Hincker vê-se na obrigação de apresentar queixa contra o malfeitor que foi atravessar o pinheiro na estrada. portanto. leve. como num espelho. mas já era tarde para desandar caminho.lançou~lhe Hincker de chofre.! . . estava farto de o conhecer. Cautela por cautela. Esteve um avo de segundo interdito com um penedo sobre o peito. era de quem desdenha quer comprar . Para os senhores é melhor. Deste jeito desaparecem as desavenças do dia de amanhã ao repartir da talhada. .Macacos me mordam se entendo o que está para aí a alanzoar. ao contrário do que Severo pressupusera. Como eram pessoas de olhos finos. Mas era homem de prontos reflexos e reagiu: ..O meu caro senhor Calhorra faz o endosso por dez contos. riscam por onde lhes apetece.o seu sorriso.Já disse.O amigo Calhorra sabe muito bem quantas polegadas bota um palmo. um imperceptível e quase abafado badalinho mofador: .respondeu ele com igual peremptório. Por isso mesmo é que é um grande crime. . Associado nesta altura da vida só com os quatro galfarros que me hão-de levar ao cemitério. lá para as congonhas do Catrino. mas neste capítulo está em branco. . pede fora de razão. Severo sorriu . teriam visto fuzilar a imagem de um homem. E como está em branco. Nada feito.Quanto há-de querer pelo endosso? . vale-lhe mais a pena associar-se connosco. Bastava vir-se de noite. puseram tudo em pratos limpos. . Um só.Quinze contos . não mais. 51 .Mas o senhor Calhorra exorbita.Deitaram um pinheiro para a estrada. ainda bem? O que agora mereciam era que lhes cortassem o pescoço. oh... muito levemente.tornou Hincker. Não tem pés nem cabeça. deviam sentir-lhe passar à flor de pele. Supunham que o Corbet tinha abalado para longe.

deitou-lhe o meio celamim de milho. lenço de seda a doidejar para os ombros. Coitada. lá foi barquejando nas pernas zambras ao encontro do senhor Incas que. .viradinha ao norte como nos bons tempos. Agora estava um basculho. com um ripanço tão abacial que por duas vezes o Aires veio espreitar. bebeu. rompeu a picar o trote. quando ninguém podia toscar. lá conseguiram encarrapitarse ambos na albarda. senhora duma culatra mais larga que um palheiro. Mesmo assim o Calhorra.Não havia meio de se medirem com o egas. que cantava e parecia oiro ao virar. ao desandar da vila. ela assentada .Vamos pela estrada . onde tinha a cavalgadura e a mulher ficara de esperar. explicava ele. . o braço dele à volta da sua cinta. . mal se apanhou de posse dos quinze pacotes. sabe-se lá? Podia tombar o carro.Vai contente por voltar para a loja . não anuiu a regressar com eles de automóvel. ferrador. todo teso. Ajeitando a cavalgadura a um paredinha. contou andanças dos seus bons tempos. entre o coiro e a camisa. pesada dos anos e dos untos. quando uma e outra eram como pombos-correios a ir dar a Malhadas. trapaças em que lhe não andasse escarmentada a menina do olho. o rico baguinho bem ganhado. ao fundo da escada. tornando costas ao caminho velho. que oferecia a vantagem de ser mais curto. . insinuou o baguinho. Coçou-lhe a estrela na testa. deixe-me acabar o petisquinho e mais aqui a patroa. fazia horas. Tinha bom dente o animal e depressa triturou o penso sem perder um grão. Por fim. Por aqui vamos menos expostos a tais ventos. .corrigiu Verónica. de bigorna.disse ele para Verónica. a bufar de impaciência. oral Podiam arrepender-se. ele de escancha-perna.O senhor Incas já agora tenha paciência. quando viu o paliteiro em frente dele. palitou até a dentuça. cuja exultação lhe pareceu que devia de ser comunicativa. Celebraram o trespasse e reinou a harmonia. Tavolado fora. e não nome de gente. menos escarrapanchado o arco das suas gâmbias. dirigiu-se para a loja do Dias. que já tinha comido muita rasa de sal quando eles ainda não tinham a envide. Comeu. que não era falho ao peso. . e não se gozar da massinha? Podiam até caçar-lha por artes de berliques e de berloques. Hincker estaria inteirado. bom cordão de oiro ao pescoço. para que se visse.Até a bestinha vai contente . A primeira efusão de sua alma satisfeita foi para a égua. Invocou a égua. desconfiado com a demora. contados nota a nota da mão branca e papuda do senhor Incas para a sua mão negra e calejada. É do primeiro berrelho que mataram em Orcas e seria pena não lhe fazer o funeral.Venha fazer o endosso e tem os quinze contos. 52 . de naveta com o engenheiro no Tavolado.Fartou-se de rezar à manjedoira do Dias. invocou a mulher. a sua valente Ferreira . porque desatou: . mesmo assim oprimida. quando rapariga. deu-lhe duas palmadas carinhosas na anca e primeiro que lhe pusesse o albardão. um aparelho vetusto e vasto como palanquim de elefante em que se içava ele.ferreira pela cabeçorra maciça. Ora.murmurou o Calhorra. Tiveram que transigir. e a Ferreira é que ustia. e a Verónica. E antes de sair dos Paços do Concelho. levava os olhos todos duma feira presos ao seu donaire.Levo comigo uma queijada que pode muito bem cheirar aos amigos do alheio. a ensaiar o sarambeque.

Eram a prata. não passava por nicho. por modos. como antigamente o trabuco dos quadrilheiros. cruzeiro. alminhas do Purgatório. À Verónica sorria ver-se dona daqueles casarios tão grandes. que não tirasse o chapéu. Com os dez que estão ao canto da arca e algum que se amealhe com o febrão do volfro. por cima de suas cacholas esquentadas. que lhe adivinhava os pensamentos à légua. não há que dizer. durante a qual abarcou o panorama dos seus cuidados e canseiras através de um quarto de século. saudava este e aquele por quem passava. Muito tenho eu sonhado com aquela casa. integrado no seu papel de pessoa importante. donde Orcas se afigurava ajoelhada. que tem dinheiro como terra. aquelas dezenas de escudos foram oiro sobre azul. ao meter a mão no bolso para lhe dar meio tostão. dize lá? . O Torres é boa pessoa.Fartei-me de suar no Vale das Donas. ao preço por que está hoje. Igualmente tão santanário como cortesão. Foi uma fortuna aparecer este Incas. ah. chamado pelo cadino do Aires. oh a regada que. O melhor. vês tu. ah. contente como um chicharo. gente que lidava nos campos. sempre que me lembrava. ah. os cantoneiros. ah. o que equivale a dizer para a mulher. Agora. Caía um sol de canícula tão abrasador que nem as cigarras podiam com as asas para cantar.Estás a ver-te a bater a chinela nas salas do convento ou a deitar milho no pátio às galinhas. ah! O Calhorra falava para a mulher e falava para si. O homem ora diz que vende. .O Calhorra não soube que retorquir à voz prosaica e apenas no alto. ia calado. as tílias que dão flor para todas asboticas de Portugal. santo Deus? Mas do mal o menos. Lembras-te? Ao tempo. e foi logo outra vida. Quanto largarem de vez. Quando falava para si. afeita a 53 . disse: .! . Quinze quilos é quanto canta na algibeira. o que ficava no bucho.Deus escreve direito por linhas tortas . o seu sombreiro de barba de baleia. Ela. Mas quem adivinha? Setecentos quilos. Esses humilhadeiros dos sentidos eram-lhe de resto familiares à força de passar por eles. Feito o quê. A gente. e o homem. Tenho-me por contente.tornou depois duma longa pausa. e tinha a peito que comungassem no seu jubiloso enternecimento. e os filhos gostam da terra como da sarna. e a regada. um mendigo. desabafou: _ Então dize lá quem é gente. onde não botavam. minha badalhoca! Dize lá! Esta terça-feira. voltava ao colóquio interior ou com a sua Verónica. ora diz que a casa da Serra é a pasmaceira feliz de que nunca se desfará pelo oiro todo'do mundo. que tocava apito . era o oiro. vá lá a gente dar crédito a um telhudo assim? A mulher. por causa do qual. Só então se lembrou que trazia encabado no alforge. As suas vozes eram como á gua que trasborda dum açude cheio. . bota o pensamento e o pensamento é como uma fateixa que vai tirar o que está no fundo fundo dos impossíveis. pode ser que se faça um rente ao casal do Torres. ia jogando com a mulher de caravelas. Abriu-c. hem. mal tratada como anda.Gostava.Pode muito bem acontecer.to Agapito. Tanto melhor. pela volta que as coisas levaram. tal dia faz um ano.bom apito toca agora o Incas. Nos intervalos da loquenda. é o miminho da terra! Calou-se que vinha lá gente e estas coisas só se confessam para o travesseiro. ah. pois não gostava? . gente que vinha a pé e a cavalo. até sentia o coração dar estalidos como uma trave arrebentada. mas passa-se cá bem sem ele.fica-me assinalada com um calhauzinho branco. Este é que deitou a lebre a correr. segundo a folhinha dia de S.

acordando-o num desses momentos de compenetração.Olha a novidade? Em chegando a casa. Deus perdoe ao pele-de-as no. O Calhorra quando a viu a manquitar. um pouco por impostura. Não sei a quem os almas do diabo saem. que foi preciso dares-lhe o lençol com que foi a enterrar. outro pouco porque caíra com todo o peso sobre o tornozelo. o Luís Ougado é que meteu uma lança em África? . A mim não. que dali a pouco a Verónica montava de novo na Ferreira. Gasta quanto ganha em vinho e cigarros.. O avô pertencia à quadrilha do Olho Vivo. Mas de repente. mas levado de todos os moscardos? O ladrão vira-se em cima duma moeda de vintém..não ser mais que voz de acompanhamento na ária de que ele por nada deste mundo deixaria de ser parte cantante. De raro em raro permitia-se uma pergunta inocente ou uma observação que por via de regra lhe iam acender o mau gênio. acordou para dizer meio estrenoitado: .Estamos a chegar. Serviu para espevitar o apetite. E tanto apertou com ela. que passava a vida a fazer gaitas de sabugueiro e de urgueira para os pastores. que é má rês? . não. não me dás novidade.. . Ela foi-o segurando como pôde. que na idade deles era capaz de dar um pontapé numa estrela. assim se começa e assim se acaba na beberroma. Dizes tu convidá-lo bem.disse ela. Olha o disparate? Foi de não dormir a noite. tantas melúrias disse.. A como anda o cotim? Verónica. .Tens de convidá-lo. E tens de convidá-lo bem. Comparados com ele. Saem. andas-me com uma fritada de chouriça ou salpicão com ovos. mas podia magoar-se e ficou a chorincar. O que te juro é que se em vez do Luís Ougado meto na dança um tanganhão dos nossos estava a fazer cruzes na boca. . . Mas alguma. . A marrã estava de se lhe tirar o chapéu. os nossos são uns burgessos nem lá vou nem faço míngua. 54 . e era destes que não movem um pé sem perguntar ao outro se dá licença. se calhar. És muito franca? Dou-lhe metade da melgueira. dize? .Apanha umas calças e está com sorte. àquele teu tio do Forno. o Calhorra disse: . Assim teve ele o fim.Que é má rês. . Atravessaram o povo amodorrado debaixo de calmaria e com ondas de moscas alvoroçadas nos chiqueiros. E ali se ateou uma contumélia tão azeda e assanhada que a certa altura o Calhorra deitou-a da égua abaixo. agora vou com fome. achava que devia presenteá-lo ao menos com umas calças de picotilho. Quando se apanharam entre os pinhais. . . ao passo que com a outra mão retinha a rédea. bem embora convindo que duas machadadas depressa se dão.É verdade..Hem. garranito.Ia com sono. Não sei. depois dum alancão que ia baldeando os dois em terra. teve pena e ralou-se. depois de grande reflexão.. Mas agora iam silenciosos e não tardou que ele começasse a cabecear e o pé do guarda-sol a amolecer-lhe nos dedos. Silvestre! Os nossos lá levam a vidinha direita e não é com o copo que bebem aos domingos que hão-de deitar a casa a perder. concordava sempre.exclamou ela.Deu-me uma soneira que sonhei que me estava a virar na enxerga...Não digas isso. O brequefesta armava-se por dá cá aquela palha.Metade. Caiu de pé.Em chegando a casa já te fartas. já passámos Manfurada? . mas pecou por pouca.

não disse bus. ainda quando não há compras a fazer.Enchem a sertã? Abana-os a ver se chocalham. Só lhes chegam os abades e os fidalgos. em linha recta.. enfiada no braço. . A última meia dúzia levou-os a Inês. Mas ovos? Não tenho um só de portas adentro. Ia muito lépida. lagar. Silvestre deu-lhe um beliscão e logo de seguida levou a mão aos lábios no gesto do cadeado que 55 . A mulher insinuou a mão por debaixo da parturiente a contar. o Calhorra refreou a égua e. coitada.E o tal volfro branco? . debaixo do sombreiro como um mandarim.. encarou em Silvestre. Adiante de Manfurada. os ovos é que são nossos... Ia com a minha fisgada. O macadame.Ovos talvez eu os arranje. mas agora tens de ir à pata. Encontrou dezasseis. Silvestre soltou-lhe uma gargalhada: . e água a despenhar-se da cale de Pedra para o tanque.. Mas receei que na vila te vissem os ovos e. ao passo que passava a cestinha a uma das mulheres. eira. cesta com eles.Também a pita? .. avista-se todo o troço da antiga via. a fugir ao pendor que era grande. Sabes a como? A três tostões cada um. quando passámos. . Dela.Não o levas já aí. costeou pela direita numa curva lenta e escarpada. quando lhe respondeu um cacarejo mal-humorado de galinha. a infalível cestinha das compras. Vê lá quantos são? . Era volfro branco. Era um regimento.Arranja-los tu. perturbada no seu ripanço de poedeira.? Tens-me tirado os ovos das pitas? Lá me queria parecer. Quem vai a pé ou mesmo a cavalo toma por ali fora se quer ir mais depressa. noras e netos. o Calhorra disse para a mulher: Santa paciência.. Vê se ainda lá estão. Ao chegar à embocadura do caminho. proferiu: _ Esta manhã. não há-de haver novidade. Porque esperas? . avistei ali umas pedras de volfro.Não. A certa altura. elas sem pôr! O Calhorra não respondeu. Ajeitou a besta a um poiso e Verónica.Estamos com sorte. como dum balcão. Não? Foi uma fortuna. saltou em terra. habituada a todos os caprichos do seu senhor..Quantos quê? .. que chegassem ao fundamento da operação e não a achassem segundo o bom direito. cabeça de burra? Esta manhã estive vai e não vai para te mandar descer da égua e passares-lhe os cinco mandamentos... que demos com o ninho. a contar a aventura do volfro branco. vieram-lhes ao encontro filhos.Raios te confundam! Quantos ovos. Verónica dobrou-se a procurar com a mão. a perguntar: . com a cestinha. encontra-se o caminho velho numa extensão de trezentos metros. Além de que o caminho é mau e a égua pode escorregar e partir uma perna. a pita é do dono. como por um argueiro se tira um cavaleiro. Verónica tornou a subir para a albarda em frente do seu homem. Daqui a pouco estava a chocá-los. forno. Vá. Quando se endireitou com a mandioca no cabaz. havemos de ir ali adiante aliviar uma parida.Lá pelo fumeiro. Ao entrarem na terra. onde há um casal com suas de endências. . apontando contra a parede um tufo de ervas.

não é menos o viático daqueles que se premeditam ao longe e não passam por enquanto de sonhos mal sonhados. dos negócios que se fizeram ou se têm sob palavra. pois que se o segredo é a alma dos negócios. 56 .fecha uma porta.

tu por -aqui às Jurtadelas! ? Temos endrómina. Olha quem ele era.. deve passar de três arráteis. um pouco desconfiado com a ucharia. mesmo ao toro duma giesta. um frouxo de riso nervoso e regalado. se pôs a rapar terra. Assim que a apanhou em conformidade. mal se enxergavam os talhadoiros.O Luís Ougado há-de-lha sempre pregar. mas que lhe fazia doer o peito. ajoelhando ao toro da giesta.. a partir com a tapada do Urra. e não são roubados.Dizes tu: três arráteis.IV Reavivou a fogueira com um punhado de gravetos e enquanto ele.. Hum. Estava ainda na giga da meia como o trouxera e.. esvaziou para lá a algibeira. ! Ora toma-lhe o peso. fora.. olhou à esquerda. Na mesma da hora em que acabara de sachar a leira do Gradil e já traçava o sacho no braço para se vir embora. o guarde com tã o pouco ardil? Ai. oh se estava! Fora por uma casualidade. tirava os tamancos e se aquecia. Também tinha pouco que errar: carreira dos gados fora. passeando ora um pé ora outro por cima da labareda.Para estranhar é que. e ali. compôs o chão. rente a um penedinho. aquela sua voz cauta de roncão. ? Sim.Vês tu. lá deitou o ponto até que. acabado o trabalho.. tendo-se capacitado que não pisava por ali gente. O Duarte tomou-lhe o peso.. e como não lobrigasse vivalma lá veio pela mata abaixo todo farófia. ih? lh? ih! – e soltava-se-lhe outra vez o riso.. foi pelo volfro para lhe mostrar. Também o Duarte se não soube manter naquele seu sisudo macareno e largou uma risota baixa e esbagoada como de galo a ensinar o bom cibato a uma franga. e em voz pastosa.? o Ougado. .O homem. 57 . pronunciou: . o machucho olhou à direita..O volfro estava bem guardado. Uma assim! Breve percebera que o que ele estava a fazer era a desentupir uma cova. e frio. ih? ih? ih? Com que então. Acachapara-se. um sacolejão que fez estreloiçar as pedras: . na menina do olho? proferiu depois em tom prazenteiro e admirativo ao mesmo tempo. .. . não esteve com panos quentes. uma casualidade como não há muitas na vida. que caíra debaixo dos seus cinco mandamentos. O macanio fizera a cova. . Escuro fazia. imprimiu-lhe. Foi como se desatasse um saquitel para a arca.. O que me admira é que acertasses com a cafua por um escuro destes? Caramba. Toda a sua pena era que não fosse urna arroba. pulou a direito para o caminho.. três arráteis para mais que não para merios'?. deitou um olhar à volta e.A endrómina está à vista .... À moita da Cismas metia-se a gente pela demarcação arriba e era logo no tope. depois de escamoteá-lo com tanta finura..emitiu o Duarte muito concho. não se pusesse por lá o irmão a deitar imaginações erradas. ufa? mas ela iria lá direita com os olhos fechados. expondo-o à claridade do lume... Depois tornou a encher a cova de terra. . que não? . pois a gente da terra tinha a pecha de andar sempre a escutar por detrás das paredes que eram rotas. como se acertasse destorcer uma grande meada. ao tojal do Zé dos Cambais carregava-se à esquerda para a moita da Cismas. zás. parecera-lhe ver relampejar um vulto ao cimo do pinhal do Urra.E outra vez se viu Bárbara obrigada a explicar como aquilo fora. que voltava de deitar as águas. para ele ver bem.

. mas podia ser assado. malhavam as suas setenta pousadas e. porque tendo-se sentado. trazer dinheiro ao ganho. O Duarte pareceu não concordar de todo. sempre havia umas sobras para o riscado do avental e as brochas dos tamancos.largava das Minas. uma terra de unto onde tudo vingava que só de vê-Ia caíam os olhos aos invejosos.A quê. acontecendo calhar de milho. Pagavam-no hoje pelas portas a trezentos e cinquenta mil reis. Uns anos por outros os Ladeiras adquiriam uma belga. embora não medisse mais que duas canchas. um chaparral. lhes andava sempre forra. podia ser que valesse. também ele indeciso quanto ao que em tal emergência mais convinha fazer. um vintém Catarina o tem. Viu ao clarão dum chamiço o Duarte estender a beiceira. dizia para os camaradinhas. --em feiras e romarias podiam chocalhar a sua coroa. arma o laço e não espera por mais. com a malta toda. ? Ao volfro? O volfro vai para o pé do outro.. o que ele próprio pelo encolher de ombros deu a entender que reconhecia. . tão estreme que quita esborraçado. O diabo é que no entrementes pode vir outro e lá se vai quanto Marta fiou. deixa-lhe pôr a dozena antes de lhe armar. não se perca por lá o que tem jeitos de certo. que lhes fazes? . partindo com eles da banda da Fonte e dando-lhes rego. Mas espera lá que se a diligência que ela fizera à boquinha da 58 . Se é desconfiado. Tinham crescido às esmolas. Era a matação do Duarte aquele linhar do primo sapateiro que.. Se é jogador. Este está tão purinho. dize-me lá. nunca secariam menos de carro e terça. mas se eu fora adivinho não era mesquinho.? Sim. dali a cigalho quebrou o silêncio para dizer: . cabeça para os joelhos.Deixei-o virar costas e fui ver. mais que arriscado. cada vez punham mais febre na labuta. Um bicho destes tanto pode passar uma semana.. Deixa-me cá: quem arranja dinheiro para comprar o linhar do Fandinga sou eu. Louvado fosse Nosso Senhor. para terem o regalo de atestar as arcas. Embora os surripiadores da Fazenda lhes levassem muito do que granjeavam. e já passavam de trinta os números que traziam na matriz. um mês.Suponhamos: um rapaz acha um ninho de perdiz e ela na postura. trup-trup. era uma terra gorda. Pois embora.. Em casa. Tu que preferes? Eu cá pertenço à seita dos desconfiados: toca a botar o laço. ninguém dava mais dinheiro a juros. fingindo-se tomado de aperto: andai lá que já vos apanho! E corria a enterrar o roubo. Era este rico maná.Por esse andar. uma mata. Matavam porco pelo Santo André e. lhes cortava as águas de lima para duas propriedades. pelo prazer de possuir. além de que as perdizes enjeitam às duas por três. farturinha no açafate também avezavam. um ano inteiro a acarretar para o celeiro como na própria noite ir à toca e pôr tudo com novo dono. Com pães grados. Sobretudo queimava-os a fome de terra. Chegados ali. que a conta dos leites. Aquele linhar do Fandinga era como uma espinha que trouxessem trancada na garganta. Dqui a nada vale mais que o oiro. Acabavam-se os onzeneiros e estoiravam os necessitados antes do tempo. E agora. medidos à desnatadeira. Não é? Ela acenou que. de facto. Por isso em primeiro lugar e também porque. Ela então reatou: .. pelo muito. pelos vistos. o melhorio da casa. é que o não quis e é bom de calcular porquê. devia ser assim. louvado seja o Senhor! Agora pergunto-me eu: não valeria mais a pena esperar uns dias e deixar que o melcatrefe enchesse a buraca.

Por isso. vou ao molho pelas tapadas! Coitado. porque sentia a humidade nos ossos. apuradas bem as contas. como de resto 59 . Estava uma noite de geada. a alma despe-se como o corpo quando se dá a um amigo. Morto andava ele por arranjar a bagalhoça precisa para a operação. A casa era um pardieiro onde uma alma cristã se não achava mais abrigada que no meio da rua. desse o fruto devido. Lá fora com certeza estava a cair moinha. de continuarem a encontrar-se de vez em quando a favor da primeira ocasião. interrompida de quando em quando em sua modorra pela refega do vento nos pinhais. Que grande alcoviteira que é a chama e como as suas línguas a lamber.Não te aflijas. o fulgor das brasas a deslumbrar os olhos. Era como zorra que vai pelos campos. Diante duma boa fogueira a arder. além da obsessão do que se teria dado. ficara sobre brasas. nem de encomenda. o que o atormentava era o pensamento. O Duarte acabou por desencravar a cabeça dentre os joelhos e ergueu-se resmungando: ia um grande inverno e era preciso ter governo na lenha. Decerto que diante dum lume rijo. estavam como queriam. No fundo. E fazendo com aquela lengalenga e os socos ferrados nas lajes mais barulho que um carro por uma ladeira abaixo. de olhos no lume. Pela telha moira tanto entrava a chuva como a neve e o vento. afora curtas e ásperas guinadas do vento. no género do irmão. via-a entregue à sua ideia. obcecado por aquela sua vontade desesperada de arranjar dinheiro. cada vez mais raras. viesse ela donde viesse. tromba ferrada para o lume. O homem viera a Malhadas receber as rendas e destinar a lavoira da casa que lhe deixara o tio. Mas o Antoninho era o fantasma negro que enoitecia os horizontes do Duarte. como tiborna de verdete e água choca. De facto. a nadar em ódio. o mesmo era que continuar a pouca-vergonha. assim a esfogueirar. depois das colheitas. do que se teria passado entre ela e o Fráguas. o sangue a espirrar em seus espíritos todos. não tendo ânimo para a tolher de lhe ir falar. com a carne quentinha e regalada. Quando faltar a lenha. esquecidos do resto do mundo. e. Suspeitava-a de ter pacta com ele. venenoso e fétido ao mesmo tempo. Compunha-se de uma só peça. e ela bem via correrem-lhe no bestunto as minhocas negras e viscosas da sua cisma. a abraçar-se em fúria lasciva. assim a horas. junto do senhor Antoninho Fráguas. e foi-lhe dizendo em tom de mofa: . aconselham esses enlaces brutais que saltam por cima de todos os recatos e castidades? Não havia para sentir-lhe o chamariz como as pessoas. E. O Duarte ficara macambüzio. onde não tremeluz folha viva. Mas tinha de fazer de conta que o pobre boizana estava a calcular os punhados de carqueja que gastava sem proveito.noite. dali a pouco não havia com que cozer as castanholas. e pôs mais achas depois de espertar o lume com ramos secos. que em matéria de tais orgias são dos que têm escutado apenas às portas. um momento apenas aliviado da ralação quando ela lhe fez dançar diante dos olhos a feliz bolada do volfro. não existem veredas conhecidas ou apenas sonhadas que o pensamento não bata e vá tenteando. não se sentia passar. e tal ideia fora e continuava a ser o seu inferno. quando podia meter-se na cama como ele. não havia como o fogo para o Demónio entrar com as criaturas. lá se foi meter entre mantas. que tinha ele com isso? A noite. Estava a verlhe trabalhar o maquinismo interior como a um relógio quando se lhe levanta a tampa. antes de ir crestar o cortiço do Ougado. destas moinhas finas como paraganas e glaciais. Aquele pobre burro das panelas imaginava-a a ver-se ou a sentir-se com o Antoninho no meio das moitas.

Não ia assim tão fregona como de ordinário e bem deu conta que os olhos dele se foram acendendo pouco a pouco como auricus. Mas espera: . mas o meu Duarte é um encolhido. pois então? Era ao entardecer e foi quase ao escapulir-se para a cerca. aquele olhar diabólico que despia as mulheres antes de elas se porem em camisa. Achá-la-ia mais velha. por dentro. o Antoninho não a reconheceu. ao chegar do Gradil. mais fria que uma corga da serra à meia-noite. Também ainda pudera dar duas cardadas ao cabelo.O meu Duarte é que havia de lhe vir falar. afoitara-se a dizer-lhe: . que o não descobriam. O Fráguas observava-a dos pés à cabeça com certo enlevo. Se não fora o chamicinho morria-se inteiriçado. Dar um recado custa-lhe mais que levar uma saca de dez arrobas às costas. contra a luz. Mas assim que atinou quem era. do que logo se apercebeu com desvanecimento e vaidade..O senhor Antoninho haja de perdoar . quando dobrava o portão. e eram de ferro. depois pouco a pouco com relevo e relação. . salvo a fechadura e um ou outro prego pelas paredes. Ouvindo-o sonhar alto. Tivera o cuidado de cobrir o xaile e de calçar as tamanquinhas. o fumo.. Primeiro imprecisas. Fizera como em certos actos da vida que se fecham os olhos antes de dar o passo fatal.Bota-te a falar com ele. haviam-na tingido como uma essa. Mas o que tinha de pior era ser fria. Quem na dividia eram as arcas. não se esquecendo de lhes fazer uma covinha ao centro para activar a combustão. foi-lhe dizendo em tom sacudido: 60 ...no povo.. escoravam ao Centro. a aparecer por grande acaso na terra e o Duarte a pular. Dois pontaletes grosseiros. que conseguiu falar-lhe. com excepção das casas do senhor Antoninho e do Dr. a armação que ameaçava desabar. agoniado como andava na ideia de que lhe iam expropriar a regadita do Vale das Donas por dez reis de mel coado. sem contornos. . O tempo. restos contra a tesoira. o que é. a sua voz foi como quando se acende unia candeia no escuro: . que não envergonhavam uma cidade. Procurassem nele o estoira-vergas que apertava um cavalo entre os joelhos e lhe fazia dar ronco. no horizonte do seu espírito se ergueram as suas preocupações como montes ao longe. saíra a dizer que tal habitação era semelhante às que se tinham feito no princípio do mundo. ajuntou-as em seguida. O Fráguas. uma vez que o Duarte largara com uma moenda para o moleiro e não via. Não estivesse ele possuído pela febre do linhar? E ela decidira-se. Mais assente. não perdera uma centelha daquele seu olhar magano. A princípio. não me nego a Isso. Também ele já não era rapazola nenhum.proferiu ela a medo.Com que sim. a bater o dente de taró. que uma vez ali entrara por curiosidade. mandados ainda meter por seu avô. Para que acabasse com a devassa. Um figuro de Lisboa. a que penduravam as peneiras e o candil. e para ela com sobrada razão. ainda nada pesadão. Torres. E de novo depondo olhos no crisol e fechando-os maquinalmente.?? Pois se entendes que é essa uma razão para lá ir eu. por fora. Que dizes? O Duarte despedira.. Com a tenaz mexeu as brasas. senhor Antoninho para toda a gente. sou desenvergonhada.És tu.Nem que me matassem? julgas que sou desenvergonhado como tu?? Estivera para mandá-lo bugiar. Bárbara? .

.E queres a minha intervenção para que. de facto. mas andavam à resina . Bem entendido. como todas as propriedades daquelas parvalheiras.. Há dois dias voltou a ter com eles tal bate-língua que chegou a casa num estado que ninguém podia com a vida dele. depois de ter consentido no sacrificio abominável de a 61 . outro ali.. como tantas outras terras. ali viessem deitar âncora.. atalhando a jaculatória. Eu desato o saco. e ela seria a primeira a experimentar-lhe a pancada.disse subitamente o Fráguas. acabou-se. e queríamos semear lá erva. que os pinheiros tão jambotos eram que não mereciam serragem. a comer.e que de facto o bocadinho fora agenciado pelo Duarte no baldio. que os gaios e a raposa não deixavam amadurar ali maçaroca e que lá de água.. todo o ano a labutar como negros. . foi pouco mais ou menos o que disse. Talvez os engenheiros do Incas tivessem carradas de razão e o seu Duarte não passasse dum enxovedo que nascera com má sina.? Porque saiba. que. Ora se sabia! Na parte pedregosa haviam deitado penisco e um aqui.? .. até umas vezes por outras. como a visse calada tempo mais que suficiente para tomar fôlego. Era o nervoso. das vezes que ali passava à caça. e não só lhes faltava pão no açafate.. e espantava que figuros da classe do senhor Dr. por sinal uma boa carrada. por muito que o Duarte houvesse minado no oiteiro. rendera uns duzentos e vinte mil réis. . pois que fique. A regadinha hoje vale dinheiro. a fazendória era um pedriçal que dava quatro espigas chochas. deitava-se a perder se o não indemnizavam segundo os cálculos que orçara. ainda que de mau humor. logo a seguir. Tirámos o milho.? Lá que retalhem o chão.. Que não valia a pena. Pronunciara a lição de cor como tantas vezes fazia com Pêro e Sancho e estava admirada tão bem ter representado que um finório daqueles se deixara engrolar. Torres e do senhor Antoninho ali conservassem bens e. não valia o amanho... sim senhor. e. Ele deu-lhe uma fungadela. Em realidade o que há pouco a atormentava era o que ia fazer o irmão por ricochete. afora aquele ano que haviam trazido de lá a sebe cheia.Não o quero demorar que está muito frio aqui no meio da rua. Ela então não se conteve que não desatasse a rir.. tarde e às más horas.Eu sopro uma palavra aos louvados . Vou-lhes dizer que tenham em atenção que vocês são pobres e levam vida dura. O meu Duarte anda muito escandalizado com os homens do volfro. Deram-lhe ordem para não deitar nada na regadita.perguntou. tisicado do gênio como todos sabiam. mas não cavem a sepultura dos vivos. com brusquidão pouco delicada.a última sangra. tinha-a quando arreganhava a cabra e mijava a rã. se foram quem eu imagino. rompeu a concordar com ele. a três escudos. assim que soubesse terem sido frustradas as suas esperanças. O pior de tudo era que o Duarte. três semanas. lá medravam dois pinheiros revelhos escapos por milagre ao dente das cabras. mas tinham que tirar dinheiro a 20% para pagar a décima. e que só a murá-lo arrancara passante de trezentas carradas de pedra e trouxera dois pedreiros.. Era isto o que ela lhe presentia no catarro. Ora cada um manda no que é seu.O senhor Antoninho não conhece os louvados. Estaria farto de saber. o certo é que eram uns infelizes da sorte.. por um reverso da decepção e por manha. o Duarte não quis chegar-se às boas e vêm os louvados. Paguem e não façam como fizeram corri a Cismas que recebeu uma tuta-emeia. Não é assim. Desejam que a terra fique a monte. Ela.. números redondos . . A regadita.. mas paguem.

. O tempo não te viu. E. e três vezes volveu a cabeça.. para vinte e cinco anos.. Era a medirem o galão que dera o tempo. Ah.. O senhor Antoninho. e fora então que dera o salto à lura do Gradil..Nunca é tarde...Então não acredita? . Ia a abraçá-la outra vez. apoquentados pela soma de relices que saltaram a pés juntos para matar seus desejos. atirou o xaile e as tamanquinhas para um canto.. . Sim. o seu tanto distante ainda. brincando.Estás a mesma rapariga. Meia bêbeda.. viu-lhe reluzir nas têmporas os primeiros cabelos brancos e. Um dia.. não sabia o que murmuravam as bocas do mundo? O importante é que lhe não descobrira nos olhos reflexo suspeito nem vinco na face pelo que devesse ficar de pé atrás.. Largaram cada um para seu lado.deixar ir falar com o homem detestado.. disse com melado entono: . já ele dizia com voz que fingia de arrufada: Fartaste-te de mangar comigo. arranjou melhores entretimentos .Acredito o quê? Plantou os olhos nos dele. à volta dos olhos apardaçados. e que bálsamo não era esse para a sua alma sentida? Tanto assim que teve coragem de lho dizer. julgava-se uma meronga... pois mal se calara o tamanco. que é o mesmo que dizer bóia. ela a rir. cem vezes não.longe de pensarem nos engulhos que virão depois a sentir... Que era legítimo concluir de tais palavras? Sabia. as capelas cerzidas de garatujas.Agora. Os homens quando estão diante duma mulher deixam-se seduzir pela ideia do gozo que ela lhes pode oferecer . já não se sentia há muito. E ali estava: dia em cheio? 62 . bichas. Àquela efusão sucedeu-se uma pequena mas enleante pausa.Aqui me tens... mas mesmo assim as palavras dele entravam-lhe no peito como uma golfada de ar fresco. talvez coisa nenhuma. Casou lá para Muradais. o ar bendito das manhãs de Primavera. Como ele a visse rir. E que estaria ele a pensar dela? Que estava boa para calço de panela? Talvez coisa nenhuma.Pode acontecer... Durava o entremez: quero-te bem! amanhã será o dia? .Um dia será.que estreloiçava na rua. pois que lhe interessava ainda. negava crédito às línguas depravadas.. chegou-se para ela e passando-lhe a mão em volta da cinta.. tretas? houvesse ele saúde? Saúde e. Assim animosa. Bárbara. e de expectativa ante o tamanco-seria ja o bruto do Duarte? . . Quanto ao mais. tornou rapidamente: . É um alegrão que lhe levo. Fitando-o de perto. Então lá dou o recado ao Duarte e bem haja. Depois. embora logo se arrependesse: .vinte. O senhor Antoninho é que nunca mais quis saber.? . proferiu reatando a ordem de pensamentos solapados: . Anoitecia. Sentia crepitar a chama e difundir calor. como o visse calado e sério.tinha-o observado em muitas ocasiões .. . além disso.Não diga isso? Estou acabada. Mas exalava o mesmo odor poderoso e envolvente e ao seu lado experimentava a mesma fateixa forte a arrancá-la para fora de si. Dentro dela não se apagara a fogueira. não podendo desconfiar do que lhe ia no entendimento. mas ouviu-se desta feita a chanca da Ana Ruça caminhar para eles e ela furtou-se.. Ao passo que despedia.. Rascoeiro até a morte? Afinal tudo isto de homens eram a mesma choldraboldra. e não.. excitado porventura. Mas ele metera cara ao portão e caminhava para casa sem olhar à retaguarda. Eu?? Diga dessas.

Tropicavam socos na rua. vencendo a hesitação. Em menos de um amém despiu a sala. Há duas noites que o ladrão anda a chamar desgraças . . santo Deus? Não fora a realidade.. vem por lá o meu Duarte? Dianhos. Canudinho. mais os meninos..És muito franca? Disse. pang. nos lábios um grito açucarado: ... sentiu-se transir e aconchegou-se contra o lumaréu. infundida da molinha viscosa que.. e nova rabecada. acabava por escorrer dos beirais. tudo voltar ao que fora dantes. e andou a estudar a maneira de se introduzir na mina do Vale das Donas e bifar uma abada de minério sem a caçarem na ariosca. O vento volvia ao bufadoiro. mas há que tempos isso foi? O padre que coma as galinhas dos baptizados.. a qual apercebeu-se.era a senhora D. Ouvia-se para os cerros o seu bruto fôlego vergar as corutas dos pinheiros.. este verdadeiro sono que leva a criatura para fora do mundo. salvo de que via uma senhora à janela de juba para as costas. não? Ora o fidalgo? . mas por mais que acalentasse o sono. Foi num rufo a Muradais.. À força de ouvir aquela música começaram a fechar-se-lhe os olhos e. um. a gota de água batucava em dois tempos ao desafio com o caleiro mais próximo e menos tomado da chuva: ping. o pensamento lançado à rédea solta por incertos lugares e incertas gentes. O que é o coração das pessoas. Cerrou as pálpebras nesta beatitude.. Solange Fráguas.. .. ping. Tornou ao volfro.. e logo a voz do Duarte encheu a casa toda: . e enfiou-se entre as mantas. tanto a realidade lhe parecia de carne e osso.Não disseste que havíamos de o dar ao senhor Tadeu?. papudinha e desdenhosa..Olha. O céu enchia-se outra vez de silêncio. pang. para a direita. até que desenganada acabou por 63 . uma escuridão que abafava a casa como um corvo abafa os ovos que está a chocar. Ouves. até dez. deixe-me.Ai. três. e na lata que Bárbara deixara debaixo do algeroz. terra de que não fazia bem ideia.Corto-lhe o pescoço e toca a imolá-lo. pois ainda não seria meio serão. empapaçando a atmosfera.Diabos levem o galarozI Amanhã corta-lhe o pescoço.. dois.. entrara já nos gonzos e perguntava-se ainda onde é que ele estava. por lá a Rosa Pedralva que andava a cozer. para as despedir depois com impetuosa e ríspida estridência: vuu! Sucedia-se uma pausa.. humedecendo as coisas e trespassando as roupas. num rufo.. continuou em meia modorra a vadiar por trancos e barrancos conhecidos.. No poleiro. que o Duarte fizera mesmo à entrada da porta por causa da fuinha.. E ficou a malucar de olhos muito abertos em coisas e loisas. o chambre. tê-las sujeitas um instante a gemer e a guinchar. que frialdade? Fechou os olhos e pôs-se a bichanar o padre-nosso. Bárbara .. Cantava a desoras o maldito. com náusea . durante a qual apenas sussurravam as frondes convulsas. Deu voltas sobre voltas. Acordou com o Fráguas a puxar-lhe pelo braço.À lareira gélida e silenciosa revivia a cena toda e pasmava do seu rasgo. o galo cantou três vezes. Calaram-se e a noite continuou a dobar-se em mistério e escuridão.. À ideia do forno com a borralheira à porta e os mendigos em redor a disputarem um lugarzinho mais bafejado pelas brasas. das voltas que o mundo dá mais retorcidas que o nagalho dos sacos para.. para a esquerda... pregasses com ele na feira? . mas levava as mesmas voltas. girou a deitar-se. foi para as lameiras da serra com as vacas e lá lhe apareceu o senhor Antoninho a querer saciar apetites.

mas o Duarte suspirava. Porque se não casava o grande jagodes? Nunca ele pensara nisso. No mais certo dos palpites. sem um só dia raiar o sol. e com o que arrebanhava a mão canhota. Agora. Talvez encontrasse quem o quisesse. o prazer de se assear aos domingos à semelhança das mais raparigas.. como a noite era arrastadiça. espreitou para a lareira: lá estava uma brasa a rutilar como o olho dum gato. que nem uma míssinha mandariam rezar pelo descanso de suas almas!? Todo o ror de anos da mocidade lhe foram de endoença. Solange. o senhor Antoninho a dar-lhe a mão de esposo. Mil raios os confundissem quando olharam para esta terra? . engastada na cinza. à meia dúzia de abadas de volfro que ia buscar à exploração do Incas! Mas que horas seriam? Erguendo a cabeça por cima da arca. Em que data isso foi... todas bem longe de ter um palminho de rosto fino como o seu.. Oh. Cresceu com o que Deus dava. uns primos e velhacos na quinta casa. Era como um porco a bulhar com outro pela bolota. noites mal dormidas. a mocidade. Os ladrões do volfro dão comigo doido. Custaria a aturar um côdeas e foleiro daquela ordem. Duarte? Há! Estás a sonhar. Estaria por lá com algum pesadelo: ó Duarte? . 64 . da banda de lá da noite. Mas não procurara fêmea. vencendo a natureza. se tudo haviam de deixar a outros. de bailar no terreiro. Passava para o gemedoiro.. que era a delimitação do seu cubículo. com uma carapuça de Judas na cabeça.. como aqueles Fandingas e Urras. olhos presos à babugem da luz. criaram borregos e cabritos. O regalo dele era encafoar-se pelo feno dentro. estou bem esperto. Não o fazia naquela altura porque as noites eram grandes e temia que durante o sono ela lhe fugisse ou o senhor Antoninho viesse ter com ela à cama.. Da mesma maneira que nascera nas palhas.ficar de costas. do que mais gostava. tão longe que nem na margem povoada de estrelas. andava tudo a lazarar. homem. a alegria. que cobras e lagartos uma pessoa traz no seio: a morte de D. era do palhal. ainda não teriam saído dos serões se fosse o tempo. Compraram uma vaca. a rilhar a broa pelos caminhos. e algum era. Tudo ela sacrificara à cobiça daquele seu morcego. um Verão a porca pariu-lhes oito leitões e todos botaram à feira. manhãs perdidas. mas havia mulheres para todos os feitios como há formas para todos os pés. tão longe. A casa cresceu. a quis “levar ao castigo”. Ah. podendo ter boa enxerga. lesma de todo! O Duarte ressonava. graças. luz rarefacta do quarto crescente.? Espera. Anjo bento. muitas vezes pensava: que valiam tantos sacrifícios. Grunhia. minha santa. cada vez mais somítico e apertado de contas. afundida no oceano de negrume que era o interior do casebre.Menos na minha algibeira. fartara-se de carretar para o celeiro como a formiga rabiga.Deixa lá. da Rua Nova. o Duarte instalado de procurador na casa onde estava agora a tia Ana Ruça. o Duarte tinha ido à benta das Dornas com ideia de que a Ana Ruça lhe deitara mau olhado. que se coava das telhas de vidro. tornava a grunhir. Agora grunhia.. Para esquecer e se vingar da mofina. ? Não. e seria o mais. que lhe andava aos ficitos novos num pinhal. mesa de lázaros. dar trela aos rapazes e o respectivo retrós a torcer. alé m do mais. calava-se um instante. foi no ano em que a Cismas gritou aqui-d'el-rei contra o Silvestre Calhorra que para se vingar dela. tem entrado muita nota? . Por essa altura.

Quanto lhe deu o Incas? . Durava aquilo há vinte.. . Faziam-no por sua mãe. Os pinheiros iam com as raízes por baixo das campas chupar os mortos. Para que é que o diabo do homem havia de vir ainda tentá-la naquela altura..Não sei. Era um grande perigo se te apanhavam a furtar. . Ouviu-se o vento zunir na cumeeira e nos intervalos a cantoria macaca do pote debaixo do beirado. vinte e cinco anos.... O cemitério ficava mesmo soterrado entre pinhais. Todo o santo inverno fartavam-se de lhes cantar o miseré. enquanto se era vivo.. Está tudo a nadar em dinheiro.Não faço ideia nenhuma. é que me tiraste da devoção. Agora não é ponto assente que o Dr.? . Por isso. já que os vivos os não choravam.Dois contos de réis. O Duarte calou-se um momento.Modera-te que não tens razão de queixa.. ... Reinou de novo silêncio dentro de casa.. . O Duarte tornou: . Por causa disso passaram grandes vergonhas. . mas valeu mais assim. estamos governados..Aquela Malhadas é uma madrigueira? Vejam como tratam os defuntos? Mandavam-nos para aquele migalho de terra onde ainda eram úteis.. muitos de quem já não restava sequer à flor da terra o eco dum sonido.E tu a dares-lhe! Quis e tornei a querer. Temos ali à beira dos seus quatro arráteis. Assim. Calaram-se. dize.Quem fica rico é o excomungado do Calhorra. Nãu_ tinha mais importância que o latim dos responsos. Têm vendido para aí minério que é uma abusão. como sucedia na familagem. É verdade. Sua tia acabara zaranza de todo a falazar sozinha pelos quelhos. O pior de tudo é que se esbagachava como o canganho da uva. E proferiu em tom de magoada inveja: .. Lá fora o ping-pang da chuva tornara-se repetida e molesta toada. Achas pouco? Com dois contos dessa banda e com o que temos no volfro.. Quanto calculas que podem escarrar? . O carrasco do vento esmerava-se agora em arrancar aos pinhais maior e mais aguda gemedeira. e era um grande perigo para ela própria e para todos. Os pinheiros. era costume dizer a gente das outras terras: . Também haviam de cantar em cima da sua campa. Em volta do povo. decerto a deitar contas à importância em que vinha a converter-se a queijada.O Fráguas veio para comprar o volfro à capucha.Eu não te estorvei. além da resina e da caruma que davam para as estrumeiras. Contava o que fizera pela vida fora. já me dou por feliz se me pagarem a regadinha pelo seu valor.Apanhavam nada? . Importância tinha-a o que passava no papinho da gente.Não quiseste ir trabalhar para a mina. pela tropa toda dos finados..Talvez. tinham por obrigação chorar os mortos.Diz-se que cinquenta contos. Tu. não sabia ao certo. Torres lhe deixe o charravascal do Santo Antão de mão beijada. A cabeça já lhe não governava. até tomarem as cautelas 65 . uns que ela conhecera. por sua tia.? . outros de que ouvira falar.Olha. só havia matas. com as tuas desconfianças. acusara-se dos latrocínios que praticara e das maldades que fizera ou deixara de fazer.

.” Sua tia tinha dito em público e raso como a roubara e onde a roubara. Nos seus tempos nada lhe metia medo. Valeu à Bárbara ter coragem e contratestemunhá-la pela aleivosia que lançava sobre gente honrada.tornava a mãe. e sepultar lá o raio da saia da mulher. todos se punhan à coca para ouvir e ir contar. o Mondego! E tudo por esta cartilha. leinbram-se quando lhe faltou do coradoiro? Outra corria com a novidade: já se sabe quem bifou o cordão de oiro à Rosa Pedralva. Mas o Duarte teve que abrir uma cova bem funda. Fora assim em tudo. depois de erguer uma laja. Ensinou-lhe também o processo de não deixar chocar os ovos nas quintas do próximo e. De verdade. Padre-Nosso e Ave-Maria: fora o que se chama lagóia espertenida. Agarrava o que podia. Nunca mais puderam deixá-la sair sozinha? Fechavam-na na quintã. Só tem direito de lá tocar quem sobe ao poleiro. rezava. não havia ninguém que pusesse em dúvida que estava louca.. mas quando desatava a acusar-se e a acusar os seus. até a fazê-los. que é um grande encarrego. em caso de se vir a ser surpreendido. senão ia dar parte. que é atirando o ovo a terra e gritando ao cão que vem a passar ou. E o ardil surtiu efeito. Umas zoinas chegaram a testemunhá-la. Fora ela que lhe ensinara a regra do bom viver: Olha. servindo-se das palavras irresponsáveis duma tolinha. .É Deus que fala pela boca dela. como havia de suceder a ela e a todos. já ela estava com os dentes enfechelados. a mão dela era uma gadanha afiada. Entre elas.necessárias. para debaixo do avental ou então pela saia acima. Olha. acusou-se de ter roubado uma saia à Cismai.. que nunca ninguém mais viu nem veria.. Rape. Rezava alto e era uma pagodeira.foi a tia Soledade. mas não tinha grande arte. Acabou sequinha como as palhas a pedir confissão. Você quer ir acabar à cadeia? Não foi pouco que o senhor Bacelar viesse ministrar-lhe a Extrema-Unção. ao cão que mora mais perto do ninheiro. Comia como uma tulha e nada a fartava. Chamai um padre. . Aí é que está mais fora de riscos. já sua mãe era mais comedida. quando se lhes enchesse a boca de terra. senão era motivo para a levarem à justiça. a sua rica saia de merino.respondia o Duarte. para a algibeira.Se a alminha dela se perder vós sois os responsaveis. Diziam: . quando se está na carmeada e um patola se tranca diante da candeia ou se arrima a nós a fazer-nos gatimanhos. As comadres faziam-lhe roda e até lhe puxavam pela língua. Ela ainda ensaiara a estrangeirinha: Minha mãe é santa. Queria que chamassem o padre e a mãe fazia coro com ela: .. a Cismas foi a que fez maior escarcéu: “Queria para ali a sua sala. à falta desse cão providencial. menina. abandonando-se a um homem casado.Chamai o padre. Vem o meninojesus ter com ela à cama .Tanto vale confessar-se a um padre como a um buraco. mesmo em casa.Vá ladrar a uma horta. que chegou ao estado de inocente. cães? . Deus lhe fale n'alma. 66 . .Vossemecê não vê que está zorata? . uma paz de alma. Essa não falava alto pelos caminhos.. Que surras não fez dar ao cão do Calhorra. Calhou ela culpar-se de coisas e de pecados que estava averiguado terem sido cometidos por outros.mas não pegou.. Descoseu-se hoje ao soalheiro. o modo de uma pessoa atilada se safar da enrascada. reduzida a esterco. Dava um salto na noite que nem gineta. é que se mete a farripa de lã para a algibeira. e ela passava o tempo de joelhos virada para duas paredes a rezar e a acusar-se..

Coitada. ela no esteirão. Quando lhe faltavam com a malga do caldo ou se atrasava a trincadeira com os empecilhos da lida ia-se à pia da porca e atufava-se na vianda. expirou naquela chieira: tenho fominha! e com a mão na boca a fazer o gesto de engamelar. Apareciam de noite. Soava um ronquido e esse ronquido não podia deixar de ser a velha a protestar. E estava sempre a gemer: Tenho muita fominha. Disse o barbeiro que tinha a solitária. Comiam à lareira. De noite. Sua mãe. Se punha uma rocada de carqueja ou de sargaço. Passavam o inverno com uma candeia de petrolina à dependura dum ourelo de serguilha por cima da fogueira.Arrefeceu. e iam para as mantas. Ele sentava-se no banco. Rezava então pelo eterno descanso da tia e da mãe. De dia. às vezes pingando. Ia atiçando a borralheira porque sabia que o Duarte chegava entanguido. acocorada sobre os calcanhares. e era dessas vezes que a alma dela se amedrontava e fazia pequenina. nas regas. Outras vezes o irmão clamava: . pouparam mais de trinta alqueires por ano e o caldo medrou tanto na horta que se desorelhavam as couves. dir-se-ia. A candeia era a única coisa que naquela casa não parava. pé ante pé. Às vezes ele acabava primeiro o caldo. e sentava-se à beira da cama. ela acabou por prometer uma novena a S.Ouves os ratos? . umas vezes a fiar na roca. abrenúncio. Depois que deu a alma a Deus. 67 . ou na pedra lar um graveto erguesse mais alto a chama. outras vezes a rilhar a côdea. mas passaram a afligir o Duarte. Como se atormentassem com estas idas e vindas. Outras vezes o Duarte largava a deitar as águas. animada dum movimento de dança. Jesus.Devorava um pão inteiro e uma abada de batatas em três tempos. desde que estiveram depositadas no celário. Pode deitar mais um quartilho de água na panela. Não voltaram a ter com ela. ele tosquenejava. não esfarele o pão. o leite hoje é mais grosso. Maria. Outras vezes era ele que o fazia a ela. Faleceram as duas com diferença de um ano e por muito tempo a casa ficou cheia delas. ela continuava a andar de roda. Tudo lhe servia para encher o odre. . com aquela voz canina: tenho fominha! causava-lhe. as vacas fartaram-se de canas. A cada passo visitavam os lugares. na lavoira.? .. a bater as matráculas dos queixos. traçava a cruz no ar e evaporavam-se. Bastava que a bafejasse a aragem.É depois que a gata da Pedralva desamurou daqui. as paredes alegravam-se. teria. muito compostas dentro da mortalha. então que já não lhes faltava côdea no açafate.. e era delas.Senhora mãe. De raro em raro trocavam uma palavra e era tudo: . Seu irmão não as sabia esconjurar.Está a gear. nas sachas. molhado até os ossos. tão próximos que ouviam bater o coração um ao outro. Parava a chuva. o próprio tempo. Eram como unha com carne. A tia Soledade vinha leve e rápida como das vezes que se metia nas frescatas do mosco. e por todos os fiéis defuntos que lhe vinham à memória. Ela virava o fundo da sua malga para a dele: Pega que não tenho fome. cada mocho a seu souto. Mas deixavam um cheiro acre .ia jurar que vinham reavivar o fedor que se sentia na casa. Nem homem e mulher. que custa a ganhar. Ela espiava a roca. Assim se desvaneceram ondas e ondas de anos. Miguel se não voltassem mais. de ventre empinado e a bater os queixais. lado a lado.Senhora mãe. Às vezes acordava e ouvia-o dizer com santa paciência: . mais nojo que pena.

Barafustava. Agora uma passarola qualquer esganíçava-se por cima da casa...Reza também. Que doze anos aqueles! Primeiro a aturar as almas penadas. tudo aquilo era postiço. Ouviu-se a chuva tamborilar no telhado e nas lajas do caminho. único na terra. Mas desde que vinha o Duarte e. Extinguira-se na lata a trasbordar o batuque da gota de água. com a perna encanada. 68 . a cozer há oito dias sem interrupção. Tinham cortado com o serão. mas nunca mais se atreveu a tocar-lhe com um dedo molhado. se ocupasse das vidas alheias.. Temiam-no supondo-o capaz de maus repentes. mancando. por lá gente que voltava do forno. que não era nada de nada o que a outra gente supunha! Sua mãe falecera por aquela altura. depois as manias dum solteirão. mas bater como quando era moça. tenho para ali duas dúzias. esgrimia com os braços. buliu com o quer que fosse que tinha jeito de papel ou asa de noitibó. não que precisasse das suas falas..ouviu dizer o irmão. Ora o serão é para tudo isso e para o que é menos é para fiar. . Pelo repouso de sua alma. escamugiu-se pela gateira da porta depois de percorrer os cantos todos como uma doninha e deixar um frio mortal. .Se te derem os dois contos não fazem grande favor.. passeava a outra sobre as brasas.. E a noite lá ia mancando. Sempre assim.A labareda era uma aleluia: espantava medos e negrores.. plantado como um buzilhão de pássaro numa das patorras. Rosnava. Ferrara-se a chover deveras. À porta eram capazes de dizer que os roubei. O Duarte não tolerava que ela dançasse. mas porque lhe causava dó aquela eternidade inconsolável. vá. padre-nosso . caía neve que se desfazia o céu em farfalha branca. O que acontecia era andar oito dias mais macambúzio que um cerdo com arganei e não lhe falar. Por alma de nossa mãe. Ameaças. folgasse com os rapazes.. Mais de uma vez se tomara de rixa com um ou outro atrevido.Com que sonhas. . Falava pouco e quem fala pouco mete mais respeito que os fanfarrões. Safado? Se me derem menos. Ela de princípio também se iludira. Era como os cachorros de porta que mostram os dentes. Daquele modo a vencia.. Passou o murmurinho pelos lábios do Duarte. a casa recaía na sua morna tristura e lôbrego silêncio. porco!? Dorme. ficou a conhecê-lo. Acompanhava o rosnado dum encrespar de sobrancelhas que fazia gelar o sangue aos que se dispunham a defrontá-lo. . Credo. A gente que fora ao acompanhamento voltara tão caiada que nem parecia deste mundo. pontuado de sibilos como do vento nos buracos do telhado. que estais no céu. Por dentro era um borrego. Ficaram calados. Também lhe era preciso “pedir a vez” que não lhe restava mais que pão e meio no tabuleiro. grito ó da guarda? . bufou ao borralho. Tamancos apressados chocalhavam na calçada. e ao cabo da oração tornou-lhe a ouvir: .Darão os dois contos pela regadinha? O cão do Calhorra saiu-se a dizer que a não queria por quinhentos mil réis. No fundo.. e até os fantasmas das duas defuntas.Estás a rezar? ... Passaram por ela carros e carroças de pensamentos. vagarosa como uma ovelha velha. tó ruça. mas só os vendo na feira. Desde a hora em que se engrifou com ele. perdida no meio de penedais. Um espiche de ar atravessou a casa..Pois se me apanho com os dois pacotes!.. Os palitos não custam a dois tostões a caixa? E os ovos? É verdade.

Quando morrera sua mãe.Minha desenvergonhada.? Se me não deixa. que era como que a voz. aguçavam o bico na casca das franças e espreguiçavam-se desembainhando molengamente a asa sarapintada. grito. deixe-me! Qual deixar? Para que andara com negaças? Ia-lhas pagar todas.Ó desenvergonhada. parecia a duma fonte a alegrar com seu murmurinho os codessos do montado. preto que nem azeviche. Mas. porém. Recurvo por cima da enxerga..Barboreta? Àquele engodo celestial respondia ela com um aulido estridente e gozoso. Ela recrudescia em sua zanga: . Sua mãe.. a agarrá-la. como quem não quer a coisa... filada pelo braço.. acorda. e a voz lançada na noite silenciosa não era mais que a expressã o do mistério inefável.... Que zarelho! Mas era casmurro. berravamlhe: . A sua voz. ao passo que bruta mão a sacudia. Estava no seu princípio e era fresca como abrótega.?! 69 . E.. via o Duarte. que estás tu a sonhar?. Essa pessoa vinha não sabia donde. O corpo dele nu e truculento enchumaçava-se na meia penumbra que descia do olheiro de vidro. Também ia no acompanhamento o senhor Antoninho.. onde uma vez esperara com a tia Soledade o recado arriavioso do dianho dum fidalgo. Estás a sonhar com o varrão. Passarinhos que nunca vira. transido de cólera.. a brenha transfigurava-se no bosque de japoneiras em flor. cada vez a abanava mais: . Fora há doze anos. vinte a vinte e cinco anos àquela parte.. mas tinham ar de ser bisnaus.Olhe que eu grito. ela via-se na obrigação de sacudilo: _ Deixe-me? já lhe disse. Lá vinha ele todo dengoso. um bigodinho muito nédio.. no arrabalde de Orcas. Ao tempo usava bigode.. a súbitas. porfiava. a coruja piou em quantos telhados havia no cimo do povo. Eram seis homens a levá-la. talvez do mundo todo. Mas o facataz vinha de mais longe. desabavam aves e flores daquele céu de presépio e. Bárbara estrenoitava em pleno transporte do seu ser... As camélias estavam suspensas a vê-Ia e parece que também elas diziam com o Fráguas no chilreio dos passarinhos: .. Subitamente. pesava como chumbo. ouvira dizer a um figurilha.durna segunda pessoa a desdobrar-se da sua carne. Não a deixava e conduzia-a para o meio das giestas. mau grado da bicha-solitária..

Mouramorta. 70 . O jornaleiro agrícola tem outras exigências de mesa que não tem o operário das cidades. Chegados aí. Nos dias estivais. um apelo mais alto lançado ao longe. os cordões de oiro e as tamanquinhas de verniz com que ficavam umas fidalgas. Malhadas da Serra. mas de olhos floridos da maravilha que era a mina donde brotavam as saias de chita deslumbrante. traçados com tantas curvas e reviravoltas que bem se notava não saberem o que era tempo os homens do passado. não menos desdenhosa: O rancho de S.. ala. Com a cesta à cabeça ou enfiada no braço. que já se estendiam pelas leiras e excresciam em montes de desaterro. mas há-de ter a ilusão que está em casa. uma ou outra vez varrido o prato para o rafeiro fiel. neolíticas. quer dizer. traziam pela mão a garota descalça.. a sua baixela ainda que humilde. ou rompendo de trás dos barrancos. em grupo acolá. Brás da Nave.. a sua faca. Ceifões.Deixem lá ver o que sobrou do almoço. vinham mães e irmãs com o comer para os homens que trabalhavam no volfro e os passos daqueles andurriais repercutiam das vozes ásperas e cristalinas. Sentase por terra. Arriando as cestinhas. no cotovelo do caminho.. por uma qualquer coisa se engulha. Alçavam a mão para os cabazes no jeito de soerguer a toalha: . acendia-se toda aquela branquidão dos almoços. a trouxe-mouxe. Brás hoje está adiantado. a terra baça cobria-se de losangos brancos como se por ali se houvesse esflocado neve. De certas culminâncias descobria-se o desdobre dos vales e por eles fora os velhos caminhos vadios. rotinha e ranhosa. com o seu garfo. Não raro. só de jornada e pelas tabernas. nas barracas em dia de chuva.V À hora do meio-dia os caminhos para o Vale das Donas animavam-se. À mão. arrumada a louça. e não era romaria a nenhum dos santos milagreiros que dos altos picotos espargem sua brancura celeste pelo mar de urze e penedal que é a Nave. Gastam em cheiros quanto ganham. S. costas dobradas. o que dava ensejo a trocarem as raparigas as suas impressões: . é nojento. Calçam sapatinho de pelica e andam que nem comboios. um tamanco que tropeçava. sim. E novamente a campina se alagava com a voz de córrego das mulheres. Que havia de ser senão a busca prevista?? já se não revoltavam. porque come muito com os olhos. estendiam a toalha do comer. Ao longo das escavações. contra o desmonte. E. presumidas disse. interjeições joviais. os ranchos avistavam-se reciprocamente. veja bem. tigela em punho. outro ali. um aqui. prestavam-se de boa mente ao exame: . semeada de aldeias lôbregas. à sombra dum penedo se fizesse bom tempo. Transcorrida a hora regulamentar. de par com o trrá-trrá das tairocas ferradas mordendo o códão e o lajedo. que passavam da centena os assalariados. Dos quatro pontos. Pedrões. um homem comandava: alto! Eram os vigilantes da mina. À volta da mina e encosta fora.Lá vêm as de Mouramorta.Veja. As de Mouramorta porventura tangiam esquila.

traziam-no em estilhas. Assim como os homens conseguiam sempre um meio de escamotear o seu migalho. De princípio a escandaleira passara as marcas. posto não conseguissem estancar de todo em todo a fuga sub-reptícia do minério.Podem seguir! Riam com desafogo. Tais e tais abarrotavam de contrabando. que não havia como o miolo para esconder umas pitadas de volfrâmio. em vez de trazerem o minério assim em bruto. que era homem de rasgo e vistas largas. oferecendo uma pinga na terra.O homem. Fora precisa uma apalpadeira. era o mais cândido e comum dos recursos. E perdurava na opinião de que não valia a pena. na exultação de terem iludido a devassa ou por natural singeleza. Depois. Equivalia à exsudação inevitável que se dá nos canos de gás e nos depósitos de benzina. Mas também acontecia. por isso mesmo refractário à filtragem. reduzidos a fazer mão baixa apenas em 71 . sem arestas que lhes magoassem a tripa. sem que ao focinho do argos chegassem ventos da candonga. Tornouse difícil a roubalheira. Fazia-lhes ainda plantar tudo no chão e. que consagrava a manha como uma virtude e admitia roubo desde que praticado com boa e original sagacidade. ditara para os engenheiros: _ Não aparem as unhas muito rentes. Enfronharem-no no cabelo. O que se evade por esta forma não conta. e desanichara a mulher jeitosa para tais artes numa das frandunas que tinha por conta na almuinha do Rapa-Tachos. É o quinhão dos ratos na despensa e dos pardais na seara. Mas os guardas porfiaram na caça. e em última análise insignificante no volume da massa mineralizada. Hincker folgava imenso quando lhe faziam a história de tais ardis em que se aprazia ver ressurgir aquele génio celto-turdetano. mostravam-se elas mestras no engenho de passá-lo. e ia até apalpá-las. e botavam à grandura dum ovo de codorniz. Hincker. alcançava altos preços e corria que certos párias quando apanhavam uma pedrinha a talho de mão. passavam-na ao estreito. como nas minas do Rand. Os processos variavam. as que transigiam levando o vexame à conta de patuscada. uma vez limpo. A Administração acabou por fechar os olhos a um género de fraude assim miudinho.Deixem lá. . Foram apanhadas algumas mulheres com pedregulhos tão recheados de volfro que excedia o arrátel. embora não impossível. tão falho de escrúpulos como pitoresco. dando ao topete: . ou jogando chufas. mesmo com os capatazes à perna. e deixava correr. metia o nariz até ao fundo das caçoilas e mandava-lhes esfarelar a grossa broa centeeira. varrer as migalhas e restos para terra ou duma vasilha para outra. bem à vista. areias estremes que pesavam às vezes onça. arrebitar apenas a ponta da toalha e proferir de bom grado. dado que andasse de pedra no sapato ou recebesse ordens. com o que multas recalcitravam. desde que tinham tranças grossas. a montagem dum cordão fiscal mais próprio para vexar do que para trazer prestígio ou emenda. desafiando a imaginação mais fecunda e atilada. O volfrâmio. reprimiriam a fraude de maneira a que os rapinantes. à semelhança dos guardasfiscais nas barreiras. Não levavam por isso as buscas até onde o Antoninho Fráguas queria que se fizesse em Muradais: despir as mulheres antes de largarem com o gigo do comer e dar a sua purga aos homens. Por enquanto vai chegando para se furar a pele aos godemes! Com providências elementares. a título de pôr cobro a desvios que computava de nonada.

a bauxite de Itália. Como o volfrâmio atingira a escala do oiro. Chegou aos ouvidos de mister Corbet o dito detraente e observou: 72 . produção. Na expressão enfática dos Nazis..quantidades mínimas. saltando por cima das teorias estabelecidas pela economia política em matéria de capital industrial e seu rendimento. A dois meses da primeira enxadada tinham erguido no Vale das Donas armazéns e telheiros de abrigo. montado o dínamo. arvorou em capataz. E mãos à obra. escudado por Berlim. amarelos. superintender nas arrecadações. tendo por função especial contratar e despedir gente. homem para quebrar uma laia com os dentes. sobre a conduta dos quais podiam repousar confiadamente. Ou pelo menos partiam desse pressuposto. A exploração. desencadeadas com a concorrência e a cotaçáo espasmódica do produto. . 750 nos entrepostos. E o senhor Hincker. Produção. exclusivamente do suor de Michel. e outros que lhe eram afectos. Hincker visava acima de tudo aos resultados. francês e espanhol. Depois de pesquisas mais ou menos prometedoras no Vale das Donas. O marco sai do suor. . que o engenheiro Severo. Representavam estes por sua constância e ainda gratidão o partido dos legítimos interesses. embora não haja guerra mais desigual do que esta que sustenta o marco contra a libra. e donde menos sai é do rico corpinho de john BuIl. Uma turma manejava já com acerto e eficácia os revólveres de ar comprimido. e tratavam de instalar separadora e lavaria.Vamos. o ferro noruego. era. bem lembrado do seu grande desembaraço na estrada para Orcas. não sendo em tempo normal duma produtividade de primeira. O pessoal superior repartiu-se da Sobriga para a nova empreitada. só não cantava as estrofes heróicas do DeutschIand über alles na música da Internaclonal porque a desconhecia. a Hermann Gõring Werke requerera o alvará de exploração. presumia a Wehrmacht possuir o primeiro armamento do mundo. Já por duas vezes os grandes camiões de seis rodas. pretos. O Aires trouxe consigo o Quim da Urra. o níquel da Finlândia. surdos e cinéreos. afundidas em criptas à prova de bomba. tinham parado ali. integrados em conceito tão dinâmico. E por natureza estavam destinados a contrabalançar a corrente da desordem e da cupidez. depois de frisar a significação ecurnénica do facto. Augusto Aires. foi investido do cargo de fiel. procediam à vara larga. e os engenheiros e os próprios capatazes. de Portugal. não há que ver.Vamos até onde a concorrência nos force . fechados a ferrolho e lacrados. não causassem dano de monta. 400 a 450. A libra saí do suor de toda a gente que cobre a terra. adquirir e consertar ferramentas. como em regra as outras da província. mais produção era a sua divisa.notificara Hincker aos agentes. a febre de minar tornara-se endémica. o quilograma às portas. e o carvão do Ruhr>. Hungria e Croácia. havendo a intromissão dolosa do Calhorra desobrigado Hincker dos compromissos tomados na primeira plana. “a velha Europa estava a defender-se com armas fabricadas com o que havia de especial em cada terra. recebido a preciosa fazenda e abalado de noite em direcção às forjas ciclópicas de Leste. Graças ao metal precioso. reverberada porventura do lema que norteava o Reich hitleriano. ruivos.000 rs. o petróleo romeno. o mais invejável possível em face da importância que assumiam os minérios de tungsténio no fabrico do material de guerra. o volfrâmic.

Uma martelada imprudente cortou a corda e três homens vieram britar-se nos abismos rochosos da torrente. porque às qualidades nutritivas do leite maternal reunia a vantagem de ser grato Deo. e para as bandas do Ladário o fosso foi de tal ordem que se assapou sobre os pesquisadores a capela dum santo. Aqui era uma família que fazia a lavra por sua conta e risco. Que mina era aquela do Santo Antão com uma exploração tão paradoxal? Examinando bem. rasgando valados e fojos absurdos. O Calhorra. . além um poviléu inteiro que. Nas arribas a pique do Cairria. manobrava a toque de sino a picareta e a enxada. Esgaivavam na seara e no maninho. na região. Manuel Torres. e manta do Diabo sempre a ponto de encobrir-lhe as mascambilhas. esvurmadoiros de saibro e rimas de pedra. à mão-de-obra. se tinham a vaca doente. se lhes sobreviesse uma tifóide. levantados os salários. que noutros tempos seriam insusceptíveis de arriscar uma coroa com o veterinário. Manuel Torres. trabalhavam firmados em andaimes sucessivos. pois que este 73 . à falta dum indicador no gênero do Livro de S. Por montes e vales a terra aparecia picada desta furunculose. alegando não ter vintém e sorvida a massinha ganha com o endosso do Vale das Donas na voragem de velhas dívidas. veio a averiguar que. o Calhorra. fizera banca com o Simão Tadeu e um capitalista inominado para explorarern o filão descoberto nas terras do Dr. Cavavam onde lhes sugeria o sonho. ou ir à consulta do subdelegado de saúde. O capital anónimo era dele e. estilhaçada a pólvora bombardeira e a gatilho. que era homem turbulento e de sorte. cerca da ponte da Mizarela. correndo debaixo do rótulo do Calhorra. O resultado as mais das vezes era calamitoso. Com efeito a pesquisa oferecera logo de princí pio promessas tão pouco satisfatórias que nada justificava trazerem ali a gente em barda que se sabia. associavam-se uns com os outros.. dito e feito. por baixo das casas e das ruas. onde punham nada mais que o palpite. O padre não passava da union-jack daquela empresa escura. Em verdade. Assoclavam-se às três pancadas e um pouco à toa revolviam o solo onde aflorasse veio de quartzo. ao Santo Antão. E acontecia da manhã para a noite ficarem uns podres de ricos.avisava-se de dizer um belo dia o visionário à tribo congregada. animado de espírito comunal. de modo a poderem alforjar para os bolsos e terem arame para a vinhaça. além do seu tempo de feitor e respectivas sentenças. Pode haver equiparência entre os dois? Lavradores patudos.Pode ser que lá se encontre mamara. Hincker fez reparo. A mamara era o volfro. tão fonas como suspicazes. Cipriano. implicava a responsabilidade do Dr. refluíssem em número da Sobriga e do Vale das Donas para ali. e em muitos casos sem outra razão que a de serem donos de duas aguilhadas de saibro ou de fraga. . a engenhara a alma danada do Fráguas para servir de ventosa. E sucedendo que os trabalhadores. tal como as trutas na ribeira e os coelhos no monte.O Reichsmark é um farroupilha e a libra uma grande aristocrata. ou qualquer filão encasquetado em granito. Mas no meio da vesânia geral não havia maneira de um insucesso pôr entraves aos despaurérios da cobiça. viravam a courela desde os penetrais ao húmus. devorarem outros o seu e o alheio. suspensos por amarras do alto cairel. desmentindo o princípio de que o português era um primário na fase da inaglutinação. o trabalho dos dois filhos.Vamos experimentar na belga . lapuzes que antes de descerem à cova se benziam três vezes para o volfro lhes saltar ao bico da picareta. E. arriscava. gato escondido rabo ao léu.

de mistura com o: dê lá uma esmolinha! . dir-se-ia. homem da rifa.. com o solo de alqueive. com os dedos dos pé s a espreitar da biqueira arreganhada dos sapatos amarelos e a crina da trunfa a espichar do velho mazzantini derrubado. Na veniaga desaguava toda a casta de indivíduos. E eram uma praga borbulhante. A certa altura.ainda tivera a lembrança de registar o filão em seu nome. Eram os rebuscadores do metal desligado da madre por erosão. trazido à tona pela relha do arado e a enxada dos cadabulhos. À noite. O exame dos peritos foi-lhe desfavorável. toda a velha foleira. com a carteira atafulhada de notas. e arrebanhava tudo. daí o suceder pagarem o volfrâmio um pouco mais caro que a cravagem do centeio. O Dr. ociosa e lazeirenta. prontos a tomar o minério de contado. 74 . Entretanto o Calhorra era avisado que tinha de suspender a exploração até nova ordem. salteador nas suas horas. comparável pelo número e carreira que faziam uns atrás dos outros à das lagartas no enfolhar dos bosques. candongueiro. tanto fino como em bruto. que em tempo normal enxameavam pelas portas a comprar o cornelho e a moinha e a belfurinhar a petinga corchada carretada à cabeça da Régua e de Caverriães. empresário de pedintes. na mão direita um saco. ao chamariz do Roupinho. Entregavam-se a esta tarefa em geral os velhos e as crianças e uma ou outra pobre mulher. os agros andavam coalhados duma vérmina que se aqui não causava detrimento. Mister Corbet surgiu a reclamar o direito de prosseguir nas pesquisas a título de que o terreno em questão estava adentro da área registada em seu nome. e pouco era. ouviam-se os martelos até altas horas a britar o quartzo. Interrompida a actividade no Santo. além calcava o pãozinho na medrança. Comprava o produzido nesta e naquela lavra singular à margem da lei e da razão. do bronco assombro dos penedos destroçados pelas leiras. De par com actividade tão tumultuária. gente de gravata e cachucho no anular. ou movendo-se aos pares com a lentidão compenetrada. desde o Antoninho Fráguas e quejandos. que implicava atropelo e agravo para eles. Nas terras de sementeira ou de pousio enxergavam-se vultos pervagando isoladamente. aldeia duma densidade asiática: todo o garoto.. e um abuso de confiança em relação ao proprietário. o apanhado ao rebusco pelos campos. Em verdade. Marchanteava aqui. o compromisso caducara automaticamente em face da atitude posterior do trapaceiro. Torres concordou e prometeu rever o assunto. ou simplesmente soprada por uma aragem imprevista como os gafanhotos. O Reganha ia. na esquerda cobres. e alguma colheita fazia quem tinha pachorra e olhos de lince. todo o jarreta. que por vezes cortam fundo. e ainda por bandos em certos sítios da chá e do cerro. Fazia-lhe frente o Calhorra. não podia deixar de crescer dum dia para o outro a cambada pitoresca dos traficantes. vendia acolá. pelas quintãs. Como vinte gramas do minério rendiam mais que a melhor jorna. vendilhão. A cada passo batiam à aldraba. se Manuel Torres cedera o terreno a Silvestre para o explorar a título de compensaçao pelo dano que lhe causara o Augusto Aires. ao cigano tropiqueiro. Conhecidos os dados do problema. desabou sobre a várzea de Malhadas a mendigagem de Cruita do Alto. Protestou. e nunca se sabia o seu montante. Severo Bacelar foi despachado a Lisboa representar contra a comandita. o arranjado ao pilha e outras malas-artes. nas escaleiras toscas de granito. o Calhorra arvorou-se em negociante miliciano de minério.

Tanto Corbet como Hincker traziam assoldadados, não falando nos compradores oficiais, agentes secretos que compravam o volfrâmio a este e àquele pela porta travessa, na intenção simultaneamente de, seguindo a marcha do negócio em seus conchavos e vias ocultas, estarem habilitados qualquer hora a refrear a roubalheira e a prender os larápios. Foi por este canal que na mina do Vale das Donas se veio a saber que o Calhorra vendia todas as semanas uma dose maior do que era lícito supurar, tendo em vista o minério arrebanhado duma banda e doutra. E, motivo superior para ficarem de pé atrás, o velho negava-se a transaccionar com quem quer que fosse que não ostentasse bem clara a marca britânica. Ao Augusto Aires foi dada carta branca para deslindar o cambalacho. Era preciso o maior recato na devassa para não pôr a conrobia de sobreaviso, mormente o Calhorra, conhecido de tutilimúndi pelo autêntico pai da manha. Por isso o Aires andou a escolher a dedo os seus moscas, não se contentando que fossem cautos, mas sim que dessem prova de sagazes, com arte tanto para armar como desarmar um estrangeirinha, surpreender a ariosca no ar, seguir o fio da meada sem o enredador dar por isso. E ele com o Quim da Urra tomou a cargo espiar as passadas nocturnas do raposão, esperando-o a pé firme nas seitas costumadas e nos locais em que era useiro. Só ao cabo de semanas puderam ter os cordelinhos na mão. Secundavam ao Calhorra dois meliantes de alto bordo, o José Francisco e o Luís Ougado, aquele para a alicantina comercial, este para a alicantina, digamos, mineralógica. Ambos de estrela, beta e pé calçado, mas o seu braço direito era o Ougado. Era ele que no Vale das Donas metia os camaradas à ratonice e lhes dava instruções úteis quanto a uma indústria de si tão perigosa como arteira. Demais, era ele que recolhia o saque na quase totalidade e pagava proporcionalmente aos contribuidores. Mas na operação subsistiam quindins de todo impenetráveis. Como é que o volfrâmio continuava a fugar-se do Vale das Donas? Os guardas redobravam de vigilância e astúcia sempre que submetiam à revista as paquetas do comer. Mas nada descortinavam. E ou elas tinham de facto acabado com a candonga, ou haviam inventado sortes com que ludibriar o mais ladino. Hincker gracejava: - Pois que temos aí a Intelligence Service, não há remédio senão mandar vir a Gestapo. Além deste papel todo mercuriano, o Ougado exercia junto do Calhorra as funções não menos eficientes e herméticas de alquimista. Era o seu preparador. Fora do povo, na tapada das Margaças, onde em tempos erguera uma cardenha que servia para recolher o milho do secadoiro, se desatava a chover, e vinha dormir de guarda ao meloal, instalara agora o laboratório de morraceiro com ventoinha, crisóis, e os pertences necessários à mangola. Ali, alumiado pela candeia fumarenta de creosende, procedia à transmutação: os óxidos de ferro e o mispíquel, de que todas as explorações era abundantes, aquecidos ao rubro num tabuleiro de zinco e “engraxados” de maneira a adquirir brilho, tornarem-se “volfrâmio de lei>@. Esse brilho conseguia-o, entre outros processos, fritando a mistela em resina de pinheiro, óleos queimados de motor, ou negro da palha. Também, em vez da pirite, acontecia-lhe lançar mão da cassiterite e da blenda, que reduzia previamente a pó impalpável, e ainda do titânio, que na região e mais raro, mas tem a propriedade de ser dotado de peso específico aproximado do tungsténio. O minério verdadeiro servia-lhes para criar a

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superilusão caldeado com morraça, sobretudo para formar à superfície dos sacos a película venal: a amostra. Os belfurinheiros, mais ávidos que experimentados, vinham, examinavam a fazenda, friccionavam-na entre os dedos e na cova da mão, e punham-se, tantas vezes, a cheirá-la, que certos produtos não perdiam o odor próprio mesmo depois de “sublimados” por meio de ustulação. - Homem, quita de fungar - nitria o velho, deitando lume verde pela pupila de gato. - Aqui não se fazem tibornas. Pega ou larga! Acanhavam-se de levar longe a suspicácia. Além de império que baforava de tanta arrogancia, acrescia ser o presidente de senhora junta. E lá levavam a carga da mistela, paga às vezes por alto preço. O curioso é que, à parte estas transacções realizadas de portas adentro, a mercadoria dirigia-se em linha recta aos armazéns de mister Corbet pela mão do Antoninho Fráguas, que a recebia da mão do José Francisco, seu agente e digno filho. No Vale das Donas achavam-lhe pilhéria infinita. E pois que a tramóia revertia mais em prejuízo desse concorrente do que de outrem, os engenheiros da Hermann Gõring W,erke deram ordens aos capatazes para fazer vista grossa até o momento em que a fraude, no que lhes dizia respeito, assumisse maior vulto. O negócio do volfrâmio batia o auge. Sarabandeavam pelas portas os chatins comprando a olho, pesando, quando pesavam, em velhas balanças de gancho com arráteis à romana. Nem todos acalentavam ilusões: eram enganados aqui, iam enganar além. De modo geral as aldeias mudavam de pele. Cobriam-se as casas de telhados novos. O quintalinho era murado a capricho e a escarpa escalonada por bons e luzidios calços de alvenaria. Mas simultaneamente surgia o negócio do marchanteador de terras, compra hoje, vende amanhã, impinge logo que possas,- o pior dos venenos. Embora? A Beira, a velha província dos nobres solares em ruína, com vidraças sem vidros e grandes portões de castanho emplastrados com rodapés de lata, paredes à escoda e bojuda comija taciturnas, porque se não há nada tão loução como o granito novo, também não há nada mais melancólico que o granito das casas mortas, abandonado à corrosão dos anos e pasto de musgos e líquenes, a velha província rejuvenescia. Na serra, as raparigas atiravam fora a capticha de lã e punham blusa de gorgoriria por cima da sainha curta. Os rapazes compravam botas, a sua bicicleta, e armavam-se de revólver. O revólver, que era o símbolo da época, equivalia a uma emancipação. Só armados eram maiores, como sucedia antigamente com os pajens. Por seu turno os velhos campónios, dobrados à lida e aos impostos, viam pela primeira vez maneira de saldar velhas dívidas cancerosas e de se porem em dia com o fisco. Os harpagões das aldeias davam ao demo a cardada que lhes subtraía o carneiro à tosquia e aviltava o mérito do préstamo. Em regra entrava ar fresco, vigorizador, na pobre e mais ú til célula da nação, a localidade rural. Economizando daqui, puxando dalém, o Augusto Aires pôde adquirir o casal do defunto Pata-Larga, falecido sem herdeiros directos lá para Lisboa, e circunstância foi essa que levou o José dos Cambais a permitir-lhe o acesso à sua porta. Sempre que lhe era azado, vinha dar o seu dedo de colóquio à Teodora, que já não escondia os sentimentos. Não andavam os pregões a correr, mas ela ia aprontando as peças do enxoval. O José Francisco, posto que preterido, recusava-se a desarvorar. Aos domingos, de cambulhada com os de S. Brás e Mouramorta, subia a rua plangendo a concertina e botando cantigas ao seu amor dum dia. Apenas

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por estes rapapés se mantinha fiel ao tipo clássico do enamorado. No mais era em tudo o manel do século vinte: gravata de malha, lenço a espreitar do bolso de encontro à carapeta da pena de tinta permanente, sapatos de cor, na lapela uma divisa de clube em vez do raminho de serpol. Entretanto foi informada a Administração de Vale das Donas de que dos aviamentos do Calhorra em minério iam crescendo, o que supunha maior consumo do metal verdadeiro para colorir a potreia. Era de supor que, por contrapartida, dalgum modo os lesasse aquele progresso. E de novo os podengos da mina se puseram a rastejar a marosca. E tanto beberam as auras, farejaram, colheram zunzuns daqui e dalém, que acabaram, nos termos da linguagem batoteira, por dar no vinte. Um sábado, dia de paga, o pessoal em vez de cobrar a féria ao postigo, como era costume, recebeu ordem para ir recebê-la ao escritório por piquetes de cinco. Uma vez o primeiro turno em frente do pagador, o vigilante que tinha vindo da Sobriga, e era homem forçudo, mandou alinhar. Depois ordenou: - Arregaçai as calças! Os cinco homens tergiversaram, procurando eximir-se: - Ora essa? Para que havemos nós de arregaçar as calças? - Para quê? já ides ver. Arregaçai? Hesitaram. O vigilante buliu com o vergueiro. Ao lado, os dois auxiliares, cada um com sua ripa, aprumaram-se de cenho descido e silenciosos. Desarmados como estavam diante dos três pimpões, não tiveram remédio os homens senão obedecer. - Desatai agora os nastros das ceroulas... Compreenderam: estavam queimados. Mesmo assim, tentaram reagir. O capataz ergueu o cipó. Deslaçaram os nastros. Deste, daquele, de todos enfim, caíram pedras de volfrâmio, se miúdas no geral, algumas grossas como avelãs, e tudo minério estreme e cristalino. Um dos rapinantes mostrava os fundilhos esfiapados à força de servirem de alforge. Os cinco homens, a seguir à revista, foram encaminhados para o barracão contíguo pela passagem interior, e sucedeu-lhes segundo turno. A cena repetiu-se três, quatro vezes com idêntico cerimonial e vozes equivalentes. Derivou enfim, tendo os homens rumor do varejo ou, na mais simples das hipóteses, acabando por desconfiar. E antes de penetrar na barraca aliviaram-se da carga que traziam. Num desses grupos estava o Luís Ougado. A voz de: arregaçai as calças! Todos se prontificaram a fazê-lo - tão pressurosamente que semelhante despacho se tornou suspeito menos ele, o que, em contraste, se tornava pela sobrançaria objecto de igual prevenção. O vigilante, que tinha fumaças de teso, sentindo farsola pela proa, cresceu para ele, depois de atirar fora a cachamorra: - Ai sim, homem para homem! Em resposta o Ougado sacou do revólver e meteu-lho à cara. Mas o Aires dum salto prendeu-lhe o pulso, iludindo a pontaria. A bala foi cravar-se no chão ao passo que os dois pendiam sobre a mesa, parecendo que se tenteavam, corpo contra corpo, quando era o Aires que, filado ao braço do Ougado, lho torcia até obrigá-lo a largar a arma. A luta foi tão breve que o vigilante da Sobriga nem tempo teve para intervir. Quando viu o Ougado sem o mata-moscas, jogado de escantilhão para a casa ao lado, limitou-se a dizer para o Aires: - Deixe o homem! Não é esse que traz minério com ele. Outros'... O Ougado arruaçava: - Ceguinho eu seja se mas não pagares! Eu cá tas guardo.

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- Quando quiseres - respondeu-lhe o Aires. - Aqui ou no cabo do mundo, com aviso ou sem aviso, tens homem. Não só não prosseguiram no despique como puseram remate à rusga. Para escarmento bastava. Estancada a fuga do minério em Vale das Donas, voltou-se o Calhorra para a pesquisa de Santo Antão, recuperado o beneplácito do registante. Pusera este como condição expressa ser o Calhorra, sozinho ou associado exclusivamente a pessoas da freguesia, a fazer a exploração, não recorrer a capitais estranhos, nem ajustar pessoal que à data do acordo andasse ao serviço de qualquer empresa, salvo ter sido despedido ou autorizado. Deste modo julgou defender a neutralidade, acautelando-se contra as reclamações e injunções duns e doutros. O Calhorra, depois de deitar contas à vidinha, chamou novamente a fazer parte da sociedade o Simão Tadeu que, se desta feita se não decidiu ainda a arriscar a importância duma missa seca, induziu o José dos Cambais a entrar com a valia de duas juntas de bois. E manobrou muito pela sonsa para que ao Fráguas fosse reconhecido o direito de sacrificar ao lado dos amigos o seu pacotinho de notas debaixo do nome do José Francisco. E assim sob palavra, como era de costume fazer os negócios na província portuguesa, que para os antigos a palavra valia oiro e escritura em tabelião, se formou aquela bisca lambida com o fim de sarjar as entranhas do cerro à cata do tungstato de ferro e manganésio, que ali se tivesse coalhado desde o magma original para os Calhorras esfomeados e fura-bolos. Mas se atrás do José Francisco estava manifestamente o pai Fráguas; atrás do Calhorra, Mercúrio; atrás do cura, Deus e o Diabo; atrás de todos quem riscava era John Bull com precisão de ganhar a guerra. Salvo Sebastopol, os Alemães ocupavam a Quersoneso deliciosa dos Gregos, com seu mar sempre azul e cidades cheias de lenda e regaladas de perpétua primavera. Com o torpedeamento sucessivo dos seus portaaviões, a Home Fleet desertava do mar do Norte, o seu bulevar. Em contraste, poderosas formações da RAF sobrevoavam a terra germânica, plantando aqui e além cenários do inferno. Após o raide de 26 de Outubro a Hamburgo, que escavacara os bairros aristocráticos alinhados à beira do AIster, volvendo de novo na segunda semana de Novembro, despejaram sobre Berlim toneladas de bombas ainda mais explosivas e incendiárias. Os Alemães atupíram as crateras das ruas, e esconderam com taipais os prédios esbandulhados em atenção à estética e ao moral do público. E pela primeira vez rosnaram: “Pois é possível que a título de inutilizar uma fábrica de carrinhos de retrós, adstrita como aliás a mais rudimentar actividade à economia de guerra, ou mesmo uma oficina que manipula lentes para periscópios, se devastem quarteirões inteiros, para cúmulo, em países ocupados, reduzindo multidões indefesas a lama sangrental?” A ferocidade da guerra total tinha os seus reflexos até a mais remota ondulação da natureza humana. Também no Luís Ougado vibrava a sanha que lançava metade do mundo contra outra metade quando apareceu no Santo Antão a exibir a carta de desquite, e o Calhorra, acolhendo-o de braços abertos, disse alto para que constasse: - Deixa lá? Doze escudos também aqui os ganhas sem mais suor. Hincker achava o Calhorra sumamente pitoresco, dum pitoresco que o absolvia da nocividade, e deixava-lhe os caminhos livres, inclusive aqueles que conduziam à traficância. Consultado por Torres, antes da transacção, não vira inconveniente em que a lavra fosse retomada nos termos rescrítos.

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E o Calhorra e os seus pegaram-lhe com a gana toda, se bem que o filão parecesse de reduzidíssima possança e mergulhar. Por todo aquele fim de Outubro, no Vale das Donas, na Sobriga, na Tojeira, em Muradais, o trabalho prosseguiu tão afincado como surdo, e esse silêncio criador correspondia à pausa com que nos países em guerra se incubavam as ofensivas trernebundas. Do Vale das Donas, por um acaso feliz, saía minério a rodos, tendo dado numa bolsada que era o assombro dos engenheiros. Saltavam à picareta pedras com dois e tres quilos de metal puríssimo, e de extracção relativamente fácil devido à circunstância de o gaveto de granito descoser sem necessidade de fogo. Isso perturbou, quando correu o rumor, mister Corbet e fez cismar o Calhorra seu aliado, como aliado do próprio Porco-Sujo na colusão de interesses, além do mais, invejoso, o que não é para estranhar num bicho de presa e rapina, com o apetite nada enfariado. E o Calhorra decidiu nem mais nem menos levar uma daquelas noites de luar, com o céu estanhado pela algidez do codo, a velha guarda - os dois filhos, brutos e espessos como búfalos, o Luís Ougado, olho vivo e pé leve, o José Francisco, ágil e arteiro, a Florinda, a mais fina das lambisgóias - ao assalto do jazigo maravilhoso. Meia dúzia de arráteis que arrepanhassem contariam no orçamento dum cristão. Ora havia noites que o guarda da mina ficava morto com a tachada, podendo passar por cima dele carros e carretas que não vinha a si. Precisamente nessa tarde o Calhorra tivera jeitos de atraí-lo à pipinha, e graças à prateira de azeitonas e à lasca do presunto, despendurado da trave, a animar a funçanata como puxavante, o homem despediu dali que nem um terno de abades depois de um jantar de quaresma. Para mantê-lo no estado celestial, levou a largueza a aviar-lhe uma cabacinha, sabendo quanto o piteireiro era sanguessuga com o briol a talho de mão, e o seu palhete das Margaças chamava-se dum quodore de respeito no género de trepador. Às dez da noite, hora dada para o trancafio, o guarda ressonava à porta da barraca, enrolado no capindó, e o seu resfôlego era estrondoso como de cetáceo sentido do arpão. Não farejando vivalma que pudesse tolhê-los, a quadrilha muniu-se de picaretas e enxadas no próprio ferramental da empresa e guiada pelo Luís Ougado desceu à mina. A Florinda tinha a seu cargo alumiá-los, para o que o José Francisco a munira duma lanterna de furta-fogo. O Calhorra postara-se de atalaia, um olho no guarda, não fosse por lá o ladrão cozer antes do tempo a camoeca e fazer das suas, que era homem de maus fígados, outro olho nos caminhos, não se lembrasse o Diabo de trazer àquela hora os vigilantes ou algum engenheiro. Um assobio seu e os francelhos punham-se de sobreaviso; dois, e acaçapavam-se; três, e salve-se quem puder. O trabalhinho começou bem e prosseguiu pela noite fora com regularidade e aproveitamento. Não mexia uma paragana na terra, entanguida pelo codo e a crassa imobilidade do céu. Para o povo, de quando em quando, um rafeiro lançava dois latidos, aguentava-se vinte, trinta segundos naquela charachina, calava-se, volvia a ladrar, e ao cabo de duas notas soltas em bemol tudo tornava a soçobrar na paz nocturna. Um automóvel anunciou-se de longe, veio arcabuzando o silêncio, rorejando com a luz dos faróis a coruta das árvores, vestindo-as de brocados e pedrarias... rompeu adiante. Ainda não era meia-noite, já tinham extraído dois sacos de ganga, mais pesados que defuntos. A obra ia em seu curso, com denodo e sem quebranto, apenas pelo desembaraço um pouco caótico

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denotando não ser regular. já o Manuel Calhorra subia o terceiro saco, gemendo, que botava lá para os noventa quilos, ouviu-se não um silvo, nem dois, mas logo três, sinal de cataclismo. Cada um tratou de se escamugir para seu lado; a rapariga acocorou-se sobre a lanterna; o Manuel deixou cair a carga ao chão, que foi rebolando, fazendo pela escada de madeira abaixo o barulho dum casario a desaba. Acompanhados da Guarda Republicana, vigilantes e capatazes puseram cerco à exploração e catrafilaram os larápios. Não tardou que estivessem todos sob custódia, salvo o Calhorra que se esgueirara não se sabia por onde. Mal se ouviu soar um galope para a estrada, disse o Quim da Urra: - Lá vai o Calhorra... Mas em vez de tomar o rumo de Malhadas, o eco toava do lado de Mouramorta, e o Aires, que lhe conhecia as manhas, ponderou: - Vai avisar o Antoninho. Toca a prevenir. De facto, o Calhorra tupa que tupa, como mais tarde se veio a saber, fustigando a Ferreira, em pêlo, com os nós da corda, foi alvoroçar o Fráguas que dormia em Muradais o sono profundo dos justos, que em beatitude apenas diverge do dos patifes na cor que têm as asas do anjo de vela à cabeceira. Quando soube que levavam o filho preso - o que para o Calhorra era perfeitamente indiferente se não tivessem sido gazofilados os seus lapuzes - acordou os criados, mandou chamar o Manuel Minga, por alcunha o Espadagana, mais dois ou três companheiros da vigairada e, depois de se encharcarem de cachaça contra o frio da alba e para ganhar rompante, terçando de quantas espingardas e revólveres puderam haver à mão, lançaram-se na chocolateira, a toda, para Malhadas. Em Malhadas informaram-nos que os presos já iam a caminho de Orcas da Beira. O Fráguas desembraiou, meteu o acelerador a fundo e antes de chegar a Pedrões da Nave, ao cabo da recta, lobrigou a escolta com os presos. Afrouxando a marcha, conferenciaram: - Atiramos-lhes sem dar tempo a prevenirem-se? propôs um que entrara heroicamente pela bagaceira. - Não; é perigoso - proferiu o Minga, mais aliviado do cérebro. - Não vale a pena irmos já às do cabo. De resto, podíamos ferir os nossos. Prevaleceu a opinião moderada e foi o salvatério, bêbedos como estavam. Ao acercarem-se, evidentemente porque sabiam a rês que o Fráguas era, a guarda fez meia volta e aperrou as armas: - Alto ou vai fogo?? Detiveram-se; fingiram em seguida a maior surpresa ao defrontar com os detidos. Com modos irónicos o cabo aconselhou-os a arrepiar caminho: - Façam de conta que vão errados. Nós é que vamos bem: ordinário marche! O Antoninho convidou-os ainda a molhar a goela na tavertia, que era costume o Catrino ter sempre um vinhinho de três assobios e, como se estava na quadra das matanças, a assadura mais que certa para amigos e unhacas. O cabo não ignorava nenhum dos estratagemas a que recorriam picardos e contrabandistas em tais colisões, e muito menos a boa peseta que lhes saía pela frente, todo falas de mel depois que vira as Mauser engatilhadas. - Não se mate. Havemos de entregar entes anjinhos, em jejum, na cadeia do concelho. Foi promessa que fizemos a Nossa Senhora da Agrela. O Fráguas retrocedeu com os seus, enquanto a escolta prosseguia para Orcas da Beira. Os presos foram entregues ao administrador. Rogos,

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decorrida a semana sem culpa formada. Dizia-se que Hincker se empenhara por semelhante solução.súplicas. puseram-nos em liberdade. que já envolvia corrigenda e era a menos susceptível de lhe causar engulhos e contratempos. 81 .

introduzindo o dedo na argola. mais onça. arrenego! Além de ser um marralheiro de alto lá com ele. a cálculo. . Desta feita o braço deslocou-se no sentido contrário. Deitaram contas ao seu haver. pode ser que arredonde o peso. O Leónidas Seixas falara ao Duarte. mal chegaria para empeçonhar um rato. Mas vinham aí os Carapitanos que em tempos tinham sido adueiros. Mal o ergueu no ar.. Mas esse.Quita. entre eles o Zé das Almarges. . posto que em mole e mal pronunciado pendor.. Tem à roda de quatro arráteis. do outro pôs. tudo lhe servia de pretexto para peguilhar: a fazenda que não era estreme. três arráteis. despediu para o lameiro da serra. Bárbara meteu de espora fita para o Vale das Donas. tendo-lhe constado que possuíam o seu migalho. As vacas. pela tarde não faltariam compradores à porta. conhecido por homem abonado e sério de contas. sinal de que se entrava em estiagem.E cadeado na boca. Há muitas Marias na terra. . Mas como a irmão desse a impressão de perder o fôlego ao levantar os ganchos. outros de fora. vende-o lá a quem adregar. só o aceitava à condição: crivado pela separadora. a mão que sustinha a romana pouco honrada. Tinhao num taleigo e pendurou-o dum lado pelo nagalho. O Calhorra também o queria. menos arroba. mais cigano Pedro do que Paulo. Andava um cardume de gente no negócio. Lá dizia o outro: ao bom calar chamam santo.Bem me queria parecer. que por ser murado lhe permitia. impelidas por baforadas leves do vento galego.Vamos a ver com a chave. Para sul. a chave pesa meio arrátel certinho. Toca a pô-la em sítio onde não chegassem gatos. depois que apanhara o grande carambolim. devido talvez a que estava acocorada por terra. que estava a ver e a ouvir do próprio buraco da fechadura. Foi buscar a chave. não me rala. Chovera a potes durante semanas e semanas. o braço inclinou-se impetuosamente da banda da veniaga. em seneca. faiscavam os charcos.Vende-c. . mas se o souber. o que a levou a dizer com regozijo. e por onde quer que se derramasse a vista.verificou ela. as chuvas descarnaram as pedras pelas aradas. Mas o Leónidas. os pesos que eram ladros. nuvens brancas iam vogando com ripanço. O Duarte assistia à operação muito interessado e sem abrir boca. certinho. que o pagavam à justa.. Parece que era um sacrifício que fazia em pegar-lhe. contanto que mo ponhas depressinha de casa para fora decretou o Duarte. . Era sábado. Com o quilo a 350$00 não havia duvida que estava ali uma rica melgueira. arranjado ao rebusco. O Luís Ougado quita de sabê-lo.. adicionando um peso: . uns da terra. ao rebusco.Pesa mais de três arráteis e meio . suspendeu ao alto. vende-o ao Leónidas. assim que engrolou o caldo de unto com as duas batatas rachadas. ao Zé das Almarges. entretanto que elas pastavam. eram do Duarte nesse sábado e. roçar mato.VI Bárbara foi pedir os ganchos à Pedralva para pesar o seu volfro. 82 .Não são bem os quatro arráteis. A terra dum dia para o outro mudara de face. tirou-lhos da mão e... mas o que falta. . depois de seguir com olhos refitos o vaivém do fiel. segundo os termos da parçaria. Logo vou-me dar uma volta.

Uma vezes por outras. tão luzente tudo que a alma duma pessoa. E o seu coração batia e tornava a bater como dantes. atirou um pontapé ao gato da Pedralva que saía pela gateira com uma grande rara nos dentes. e dizia-lhe o coração que desta vez era o fim da intriga. pequenino e vulgar. murmurava num falatório animado consigo e com Deus. lhe perguntou pelo molho de erva com que havia de acomodar a Cereja. era muito menos do que o que os mendigos. onde se punha o pé. dir-lhe-ia adeus e que não voltasse mais a mangar com quem não lhe fazia febre.Fontainhas gorgulhavam donde menos se esperava e a cada passo dos côrnoros e taludes um fiozinho de água. quando se postam à beira do caminho de mão estendida. e os próprios franguitos vissem uma fona com ele. sempre porfiosos. para quem não há esterilidade. geada. nos regos recurvos. Era um regalo gozar ao ar livre aquele sol abençoado. Como todos os serranos. A cada passo. Pelas centeciras. À tardinha.. Rabujou com as galinhas que não punham todos os dias. antes do sol-pôr. de olho na mina do Vale das Donas. Precisava de espairecer. azar que ate as mãos e esgote a paciência. esperam de quem passa. com o galo que era peco na galadura. 83 . à velocidade com que corria o tempo e ia tocando tudo para a morte. Chegara essa manhã a Malhadas. embora mais friorento do que se acabasse de nascer. dar dois dedos de trela a este e à quele. passava por ali o senhor Antoninho de escopeta às costas a botar dois bagos de chumbo às perdizes. A várzea enxameava de vultos. Em muitos sítios. tão móbil e traiçoeiro se tornara o lamaçal. E o rio. Se porventura acontecesse vê-lo. soube dizer que a seitoira estava no sítio. Deixá-lo. a água represada contra a filaça verde dos trolhos era do mais lindo e caprichoso cristal que se pode imaginar. E em cima dos penedos as caldeirinhas naturais reflectiam como límpidos e ágeis espelhos a luz celeste e as nuvens que passavam. viera tarde. quando não era um rego cheio que vinha de longe. por muito que lhe caísse em cima a fuligem das contrariedades. Mas se Bárbara tivera aquela boa ideia. projectando a sua brancura a céus e terra. por ali divagou até se ouvirem os chocalhos dos rebanhos descendo as escarpas para os currais. injuriou a porca que estava sempre naquela música pegada e era capaz de comê-la viva se lhe faltasse com a vianda. mas não ia jurar que tivesse vindo apenas com sentido no volfro. Desejava alguma coisa dele? Ela não desejava nada. e espreitando o horizonte. E na fímbria do caminho lá ia procurando. para lá dos caracolões do aterro do Vale das Donas. o chão cedia. procurando o cascalho que valia oiro.. pouco mais ronceiras que anáguas de velha ao . embora fosse bicho para passá-las a fio todas as manhãs pela sua espora de cavaleiro. onde havia sempre espectáculos proveitosos para a sua curiosidade. e fosse segá-la ao lenteiro. era preciso ir às apalpadelas. Não havia vulto que saísse do povo de que ela não desse fé e não começasse a estudá-lo de longe até atinar quem fosse. acabava também por clarificar. mostrava trechos amplos por entre amieiros. movediços o que bonda para se dar conta que tinham corda à procura do minério. sim. se não mais maluco. Em seu peito turvado cachoava um mundo de impressões desabridas e inclementes à volta duma realidade irremediável: acabou-se! acabou-se! Entrou em casa rabugenta e a odiar. começando de novo sempre esperançados.r para a missa. pegasse nela. quando o Duarte. Ou se desejava. ao entrar em casa. outros a haviam tido igualmente.

Estava a aparar os nabos para o caldo da cela.Disse. Se se fizer negócio.A trezentos. .Sim.Pois por isso mesmo. . e na fazenda não há nada que deitar fora. ainda com ar de dia.. Ainda esta manhã o andavam a comprar a quatrocentos mil réis.... posso pagá-lo a duzentos e cinquenta mil réis. Como não atava nem desatava.A como é que o senhor o paga? . . O Duarte empurrou a porteira e ficou-se no traço. sem o quê tenha-me por boca mentirosa. nem que o senhor se mate.Só à vista. resvés com a cabeça do macho. Todos dizem o mesmo.Valha-o Deus? A trezentos pagavam-no a semana de além. não se ganha para a sola dos sapatos. sem um argalho. . O homem fez menção de abalar. . serve. Mesmo a duzentos e cinquenta mil reis é já para perder dinheiro. homem de uma só abotoadura. muito bem. .. . fazendo de conta que é puro. de parte a parte só perdemos o nosso tempo.Vossemecê quem procura? . Peça duma vez... . mesmo nada.. O homem caminhou para ela com ar decidido: .É do puro. sentada na soleira da porta. sempre a quero ver... .? É para não ir de mãos a abanar.Onde irá tal mercador que eu forneço-lhe uma carga? Também o vendo à minha santa por esse preço.Indicaram-me esta casa como tendo volfro para vender. o que se chama puro.Foi para Muradais.ouviu que dizia o irmão.Por esse preço. Mas ele ou o filho de meu pai é a mesma coisa: andamos de sociedade.. Agora. Precisamente tropeçavam os socos do Duarte na calçada. indeciso com o molho da erva às costas enfiado no cabo do sacho.Aqueles maus repentes aliviaram-na das mortificações..Homem.. mas saiba pedir. O Duarte arrumou a erva e ela acabou por inquirir. a ponta da corda lançada para a espádua em sinal de marcha. disse: quatrocentos. Quer? Se quer. Isto de volfro já foi negócio. andam os marchantes à lufa-lufa por todos os cambais. está bom de ver. . . abrindo a porta ao homem para que entrasse com a cavalgadura: . .Bem. adeus.Compromissos.. O melhor é vê-lo. bateram à aldraba da quintã. Ficaram hesitantes. Porque é que não veio seu compadre? . senhora. . Ao chegar à porta virouse com brusquidão: . de Carapito: João Vitorino.Vá buscar a fazenda. pegue-me na palavra.Mas resolva lá que se me está a fazer tarde e eu quero-dormir nos lençóis que fiou a patroa. diga lá a como o paga. se não se fizer.. ela pôs a gamela de lado e veio para o sujeito que mostrava a cabeça pela talisga. que nunca chocou pintos nem vendeu bulas. .Lá me queria parecer. Prendeu o macho a uma ralada da parede pelo nó do rabeiro o atirou os alforges para o chão.O senhor não é de Carapito? . .Se assim tem a certeza do que diz. compadre do Zé das Almarges.Então para que o compra?? .E embicando para Bárbara: . Eu dê ainda hoje estoiro no inferno se não é verdade. dando volta com o macho. São tantos os que andam nesta vida que se comem uns aos outros.. Dos alforges safou as balanças o permaneceu com elas em punho em atitude de 84 .

Não presta. pesava três arrá teis e umas areiazinhas a mais. enfiaram todas para as bolsas.. mais uma. Aceitaram. Servia para pesar almas.proferiu o negociante em tom de quem pondera com filosófica melancolia a imensidade do que dá contra a bisbórria do que leva..Tenho aqui balança. Os pesos estão aferidos. O volfro. rejeitar outro. aqui estava o trancafio. a conta estava boa de fazer. mas não teve coragem de articular o mínimo reparo. brilharam concentrando em suas faces polidas os últimos raios do poente.. Isto é bom.Refinadíssimo ladrão? . atirando-as ao chão. eu levo-lho a trezentos e cinquenta escudos. Começava a minguar a luz. decidam-se: querem vender ou não querem vender? Para não gastarmos aqui o dia inteiro a regatear. talvez outro lhes pegasse.Um moço que conheço há um par de anos.Isto é minério queimado. Caiu-lhe a alma aos pés. . quanto mais pederneiras? Mas sossegue...exclamou Bárbara. Ao erguer o alforge. Foi a toda a pressa procurá-las. já esta pedra maior é de qualidade inferior.. deitar fora esta pedra. é que se lembrou das pedras que o homem refugara. Por essas e outras. tara-se pela sua e vai ver.. que é delas? Tinha-se afigurado aos dois que o homem atirara fora as que não eram boas e. Bárbara veio com a saquinha do volfrâmio e urna almofia. Ergueu-a no ar em sinal de lisura e era convincente.. Os ganchos ainda eram mais escassos. mas ele interpôs-se: . metade de 50 25: vinha a somar 500. trouxe à de cima duas ou três pedras que se pôs a olhar de alto: . deveras.Pelas contas que esta manhã estivemos a deitar e as de agora. Luís Ougado. A 350 escudos. louvando aqui. ao tempo que fechava a quintã.espera. Estas areiazinhas representavam o peso do pano. fica uma pitadinha de rapé. até mais ver? Bárbara. . Pedras. atirava-as para cima do alforge. deitado outra vez para o saco.perguntou ela. atirava-as fora. perguntou ainda: . aquela. isto também. Mais exacto nem Cristo..Precisava as tripas ao sol..Quem lhe ensinou a minha porta? . Mas. disse: . só depois de entrar em casa e arrecadar o dinheiro. Conferiram com os ganchos da Pedralva. era o preço corrente. 525 000 réis.Foi-te bem feita! Quem se lembra de fazer negócios destes ao escurecer!? 85 . Bárbara foi buscar os ganchos da Pedralva. As pedras de minério puro crepitaram na faiança. e cego eu seja se ganho dinheiro.Uma mancheia de dinheiro . sossegue. mal vá à separadora. com ar desenganado e um natural tão verdadeiro que o seu coração se amargurou. Se não fosse cá por coisas. Não chegava a pesar três arráteis. Veja. levounos passante de cem escudos. para ver que espécie de droga era aquela. desdenhando além. não engana. Depois que o homem acabou de revolver o minério e pôr de parte um. em vez de atirá-las para o chão. Não as topou. É bem a quanto bota.. em que o despejou. ia sobre ele! .. Isto. Contado o dinheiro na palma da mão: adeusinho. . É a quanto bota: cinco notas e mais vinte e cinco mil réis. Aquela prova decidiu o negócio. que o sol dobara por detrás de Mouramorta. mais outra.Vá. e correu ao lume por um tição aceso. que a cara iludia um doutor. Metade de 300 eram 150. vasculhou. O belfurinheiro meteu a mão. Bárbara viu-o escolher. Passa no meio das outras. . Duarte? .

Pesava o lance. sem o darem a entender. não davam conta de coisíssima alguma? A cara não é a mesma? Nenhum deles queria responsabilidade e acabaram por injuriar-se.? Quem to disse. o que fora desvaneceu-se e o Duarte rosnou acariciando as notas gordurosas: . tanto que até gosto lhes faltou para arrecadar a bagalhoça.Onde puseste o dinheiro. nalfo de duas bandas. De dentro. bem adentro duma facha de palha.Espera que eu já me raio? Quem garante que era dele? Consolaramse do seu pouco ardil desopilando quanto àquele pormenor. que lhes pareceu ouvir taramelar um tamanco detrás da casa. A avaliar pela fisionomia estava a procurar razões para não se mexer. sem uma asa. tirou o pacotinho das notas... que podem vir passar uma busca a casa e dão conta! Davam conta de quê? Que foi arrancado? Ora.. Das palavras passaram a actos: o Duarte deu-lhe um bofetão. Onde ele está bem é debaixo duma das pedras do lajedo. Era impressão deles que vinham para ali escutar de noite.. embora. Apodrece com a humidade.. O dinheiro aí não está bem. flusão ou realidade.? Bárbara foi buscar de cima da pilheira. a velha caçoila das papas. E quedaram de malga na mão. orelha colada contra algum buraco mal rolhado pelos tomentos.. e encontrou-as: . tinha que prantar para mais de seiscentos mil réis! Seiscentos diabos o carreguem ainda hoje para as profundas do inferno? exclamou Bárbara.. dissipadas as reservas dum para o outro. contou-as pela derradeira vez ao resplendor do braseiro. . do brasido só 86 .? O Duarte ficou indeciso. .Traze cá a caçoila. Só depois de dar graças a Deus é que o Duarte disse com arremesso: . .. ora. arriscas-te a ter o Ougado à perna. Pode trazer à sacada o Luís Ougado.Para mais. Não podiam proferir palavra mais alta que se não soubesse no povo. que o petróleo fora-se e já não aparecia nas tendas.. Ela objectou que podia deitar-se fogo ao palhal. com um remendo de lata no bojo. murmurou com voz chorada: .Com este faz oitocentos e cinquenta mil réis. Oito notas e meia. mas a culpa é tua que me matavas o bicho do ouvido: Vende. e lá ia feno e dinheiro. Depois de contadas novamente às avessas.Pois não vás. viera-lhe à cabeça que podia ser falso e pôs-se a mirar as notas uma por uma..Grande cão. por baixo da moinha.Nunca desejei mal a ninguém.. Só te digo uma coisa: antes um cão de fila que semelhante traste? . Houve tempo em que na opinião do Duarte o lugar garantido era o palhal.. à qual cobria um testo de ferro. o que já não acontecia há que mundos.É perigoso. Em seguida àquele desafogo entraram para dentro de casa a comer o caldo e o Duarte proferiu em tom de remordimento: . mas este gatuno oxalá tenha tanto descanso como o volfro que nos roubou! Calaram-se. vai ver se o pilhas. Assim que se certificou que eram iguaizinhas e sem mácula. entre cacaria rebentada.Guarda tu! Era uma turra que se renovava todos os dias quanto ao sítio em que o dinheiro estaria seguro. e ela arranhou-o todo.. o espinho continuasse a picar em sua consciência de logrados. também já fora do amanho.. o que andava não menos fora de uso. O Duarte contou-as: .Anda. ? Enquanto rezava. Guarda.. vende.ardera tudo. E erguendo-lhe diante dos olhos o grande espelho que se dera em Mouramorta em casa da Joana Enjeitada .

meneando a cabeça. . Não falta quem o queira. junta à grossa maquia que entrava e com a guerra que.. estava a bom recato. os Alamões levaram tudo raso. Mas. Mas dinheiro a juros numa terra em que se não dava um traque que todos. De facto.Se alevantasses uma laja e o metesse debaixo..opinou Bárbara. declarou ao passo que se dirigia para a porta: .disse o Duarte . optaram pela caçoila. alma do Senhor. 87 . Mal-pecado se Portugal vai nas águas envoltas? Ficará casa de pé.Os doutores também erram. folha verde. não faltava quem o quisesse. Ali estava há semanas. Alguns dias estiveram de acordo que a melhor guarida era a algibeira. em virtude do quê todos compreendiam que andassem mal vestidos.Tanto vale então guardar o dinheiro como derretê-lo. Onde se esconde.. resguardada das fonas pelo testo e do primeiro apalpão dos larápios pelo empacho da moinha. Mas o Duarte ficou enfadado e girou à deita. A questão toda é a humidade? . Toca a arrecadá-lo e a arrecadá-lo bem. do fundo ao cimo do povo. De raciocínio em raciocínio. que lá de quando em vez praticassem o seu cardanho e quem os via os não denunciasse. não há que contestar. acudiram os Russianos. ou quem fora lesado não desse parte em juízo. Mas pô-lo a render não era quebrar aquela redoma de pobreza dentro da qual se tinham metido. que não dessem uma demão grátis a outrem. ainda que Deus em seu bem-querer a varresse para longe. e a opinião pública condescendera em aceitar tal posse como não infringindo o seu caixilho de necessitados. rente à carne. em nada diferente dos mais trastes velhos.puderam tirar os ossos da dona e duma burrinha . por modos. tal esconderijo merecia ainda os mesmos votos de confiança?! . caminho franco quando estes ladrões tiverem disparado a última bala? Sabe-o Deus. acabaram por amochilar o baguinho na -caçoila velha. os ratos podiam dar com ele e esfandegá-lo para fazer o ninho. Primeiro foram os Franceses e Ingleses que se pegaram com os Alamões. Dizia nosso avô ter ouvido ler ao padre de Tendais que a terra havia de acabar abrasada em fogo.Dá-se a juros. o não cheirassem!?. uns eliminando outros. Mudaram-no para um buraco na parede.. . além de que não estava mais livre que no palhal dos riscos de incêndio. capacitados de que eram pobrezinhos e não tinham por onde pagar!? Já a vaca dera engulhos a muitos invejosos e atirara a primeira pedra ao cristal desta redoma. de terem para as décimas. Estava uma noite serena e fria de luar. representava um sacrifício heróico. estava aí botada.é como um incêndio no restolho. Começa por uma ponta e acaba por outra. erguendo-se da lareira. segundo muitos. É desta vez? . graças ao leite. onde se há-de esconder.A guerra . mas agora. enfim. Esta dúvida martelava no espírito do Duarte que. com bulcões negros que de quando em quando passavam em vaga no céu e obscureciam as quatro telhas de vidro que alumiavam a casa. modo. agora são osjapões lá no calcanhar do mundo que se atiraram a Ingleses e seus parceiros. mas breve o tiraram de lá raciocinando o Duarte que. tratando-se de papel. nisto estavam ambos de acordo. a algibeira interior do colete. Mas com o acidente que tombou o Clero sem sentidos à beira do rego de água concluíram que também esse lugar era precário.ele teve de assentir à possibilidade de semelhante desgraça.

sobrepostos como no novelo as camadas de linho. arrepanhando a capticha para as costas e espetando a haste da roca no cós da sala. em plena feira. Ao princípio do mundo. Rosnou e. irmão do pai da D. . e viera a casa do tio. hoje outro. caía se não o amparasse.dissera ela um pouco por lha querer sentir entre as suas. Ontem era um axe. como quem procura um alfinete enterrado numa almofada. ao princípio do mundo. e ia cismando. do Senhor das Cinco Chagas. que fora morrer ao Brasil. mas sempre novo e imprevisto. Bárbara crirodilhou-se junto das brasas e. Ele dera-lhe a mão e. e o Duarte rosnou dentre as mantas. Houve outra pausa e o Duarte proferiu: .. e o borralho que trouxera do forno..Que tal? A Cereja trazia grande amojo. ela a segurar-lhe a mão a Cingir que podia cair. não rumorejava folha. Seria palermice de todo supor que os destinos dos dois se encontravam doutra maneira que não fosse por simples acaso e.. como na igreja quando. há pouco o que a apoquentava era o roubo descarado de que. uma rapariga. ergueu a voz: .. àquele dia. Que lhe doía ontem? já nem se lembrava. no fundo do peito. ela descalça. adiante. chega-lhe pouco aos farelos. Sim.Coitada. eram pequenos e iam pelo carreiro alagado das Fontes.? Pois não era. A vida compunha-se de cuidados. o Antoninho chegara aquela manhã. Decorreu uma pausa vazia como cisterna sem água. fora objecto. pos-se a fiar.Deu mais um gorchinho. Puxava a estriga.Dê cá a sua mão.. sim. Não remontava mais atrás. embora remontasse à romaria. amanhã sabe Deus qual seria. E agora? Era preciso procurar no peito. que sempre armara. quando de facto era supérfluo com tão grande braseiro. que é como quem diz. A voz ociosa tornou: . Remontava portanto aquele enleio para lá do Senhor das Cinco Chagas. emornecia a lareira e irradiava mortiça mas difusa claridade. Noutro dia. patinha de si.Não foste ver se a pastora da vizinha meteu as ovelhas no cerrado. dançava o fuso. longe. ele a deixarlha e a fingir que. E Bárbara fiava..Fosses lá tu. Solanginha. era o casamento... como se tivesse esquecido de fazer as perguntas sacramentais de todas as noites. uns que vinham atrás dos outros.Não te parece que a porca está a desmedrar? . à fidalga. outro pouco não fosse por lá escorregar ao saltar de pedra em pedra e tornarem-na responsável. Ah. não se julgava ainda velha. Deixá-lo chegar. cada um para sua banda. .? Sim. sim. Mas. ele de bota e calção.. Mas não. Estava idosa. que queria passar adiante dela. ajoelhados os noivos aos pés do padre. . Automaticamente levou a mão a um tanganho para queimar. .Não fazia vento. Raios te confundam! . o padre lhes deita a estola. em Pedrões. Aquilo durava bem há um assopro. tinham ficado esposados. servir-lhe-ia de emenda. soprara nas suas costas: Esta velha.. Há pouco.. os caminhos não esrão desempedidos? já sabes que tens de a coimar. Ele não lhe dizia: Nunca é tarde?. Há quanto tempo durava o derriço?! Durava já há mais tempo de que tempo ela tinha dali em diante até à tumba. pois tinham cozido de tarde. Cada um seguia o seu destino. que para isso enxergava cabonde. 88 . Fiava e onde menos punha o pensamento era no que o irmão dizia. ala. para encontrar.

A sua casa era feita disto: de trabalhar à bruta e aferrolhar. toca a virá-Ia em cima da primeira arca. recebia o hausto do borralho que se amortecia. onde tivesse esperanças de que ele fosse. Só esses interessavam. irra. é porque estava a dormir? Nessa persuasão pôs um sargaço no lume. Lançou uma. Mas a aversão do pobre é limitada pelo interesse. Quanto a ela ninguém sabia do que ia em realidade no seu peito. entrando pela sua casa dentro. o Duarte rabujou: . fazia-se aparecida.? Ainda era viva e reviva sua tia Soledade. envolveu-se na capucha e acercou-se mais do lume. a apalpar aquela. é à boquinha da noite. Adrega assim não havia. quis tomar posse daquilo que lhe daria de boa mente. A chama extinguiu-se. à luz do sol. e o irmão que não dizia nada. Por onde lhe andava a cabeça. a catrapiscar esta. e era uma consumição. distanciados tanto uns dos outros que podiam falar à vontade sem serem ouvidos.Essa romaria há que ror de anos fora. . O dia de hoje para ele não entrava em linha de conta no tocante a dar à vida o que requer da maior parte dos homens na satisfação dos apetites ou gozo dos bens granjeados. Debandaram por um segundo os maus pensamentos. onde mergulhava senão na sepultura? Entretanto aquele chamiço que ardera há pouco e os olhos que algum dia a envolveram na sua luz eram ainda os instantes do mundo em que se suspendera a caminhada para a morte. a fuligem das paredes tornou-se em folhado de oiro. duas vezes o seu queixume macareno. para cima da arca como os 89 . supersticioso como era.. Daí as suas aversões. depois da volta completa. às vezes aos pares. sim. e o mundo murmurava. Da romaria tornava-se em rancho. Tinha-se por poupada. Que lhe dissera o descarado. Viviam os dois debaixo da mesma telha.. involuntariamente pôs lenha do canto. Fez-se desentendida. Onde soubesse que ele poderia aparecer. Chamavam-no Gadunhas.. Uma vez. o cabelo de risca ao meio a alvorecer por debaixo do chapéu atirado para a nuca. no fundo da sua carne.. ali recalcados desde a juventude. Mas não. mas ele excedia as marcas. O mundo. todos lá iam parar. Cáspite.Qual.São horas de ferrar o galho. Esteve um instante calado e volveu: . Credo... a casa ficou ainda mais gelada. hem? já sabes que não se carrega uma carrada de tojos como se enche uma maçaroca. ainda o Duarte não fora às sortes. dizia-se que a gozar-se da arreganhadita?? O certo é que desde esse dia passou a andar à volta dele como sombra. Como devia ser fria a cova no cemitério! Deixá-lo. porque tudo no crispamento da sua mão se resumia em “venha a nós” e em deitar para o saco. Trabucava como um moiro e aferrolhava. lá estava ela. Por vício que não por necessidade. santo Deus? Dobrada sobre os joelhos. Nunca o sol o encontrava na cama. onde lhe ia a cabeça! Por cima dos telhados piava a coruja.. ao tempo o perfeito galo doido.. menos o Duarte que se botara a adivinhar.Amanhã é preciso madrugar. O seu regalo era fazer chama. Também o que é de mais deita por fora. seria dele se soubesse levar a água ao moinho. Tudo lhe parecia pouco para o dia de amanhã. darse claridade. Deviam estar a sair dos serões se os houvesse. os dentes a rir. mas com o Duarte acordado queimar lenha trazia recadeira pela certa. Estava a gear. Dali a Muradais iam duas léguas das fartas. Coloriu-se tudo como numa aleluia.

nem uma passa. Na festa da Senhora dos Remédios. de continuar com o ridículo arrufo ou enganarem-se. era só chegar.. Começaram o paleio em tom agridoce e terminaram acusando-se de andar a jogar o té-té. Andava farta de se repetir: Olha que entre vós nunca houve nada . andavam a fingir que o eram. que já lhe ouço o tarnanco! Não se ouvia tamanco algum e ela estava a espreitar-lhe os olhos e a dizer que não acreditasse. que desandava a assobiar aos cães. Pareceu enternecido com aquele pensamento de fidelidade porque murmurou com voz que era uma flauta a gemer: 90 .?” . está bem .. Pretendentes não lhe faltavam. para o não ver sequer.... Como foi aquilo? O mais certo foi o terem pejo à hora das Trindades. Se teima. .defuntos? Seu irmão tinha ido ao lado. atravessou ele por ali.. estava na laja a erguer o milho painço. ai. Mas o tolo acreditou.. e ela então julgou no seu sentimento que tudo acabara.Ai. encontrou-a sozinha no lameiro a guardar as vacas. cinco.. mais forte .Está bem.. Ficas para aí mirrada.. . Assim de surpresa era como se fosse um estranho que se apresentasse. Se se quisesse casar já o podia ter feito há muito tempo. Certo dia que apareceu com a senhora e uma menina. que lhe valeria gritar!? Mas ele lá se foi. mais bonito homem. Veio o passado à baila e ela explicou-se: “Não era homem casado? Então julgava que podia fazer o que lhe requeresse o capricho. desapareceu. Eram inimigos? Qual. Quando já andava cansada de lhe querer mal. Encontraram-se. Não o esperava. Era ao escurecer e mal viam a expressão dos olhos um do outro.Mas casa-te e acabou-se. Rosnava-se que se ia casar com a prima.. Experimente e verá. de o arrenegar. Por despeito. Não e não. Outros. hora em que o homem deixa de ver a sua sombra na terra.Não vale a pena. Era de contar que se demorasse. Tão zangada que durante muito tempo não o podia ver nem tragado... que é na gente a coisa que não fala mentira. grito! Não andava por ali ninguém. Ele a aparecer num caminho e ela a tornar para trás. três. nem o bom-dia se deram.que acabara de crer que dum para o outro não havia nenhuma espécie de compromisso quer de pensamento quer de obras. Foi durante o tempo em que o Diabo o levou para a cidade.. voltou as costas ao malcriado. Deixou de caminhar para as bandas de Muradais.. É verdade. Regressou ao sexto ano.. eu te ensinaria! . tombar uma mulher de costas. desapareceu. No dia seguinte. o seu destino por esse lado ia dar a um beco sem saída. Mas ao menos estivesse na crença de que podia vir dum momento para o outro. Para que serves? Indignou-se toda.replicara ele.. a requestavam. de lhe torcer as voltas. ainda mais desastrado e grosseiro que envergonhado. não vale? Se valesse. Um dia acharam-se de cara ao virar duma esquina. duas. Passou o Inverno. que vem o meu Duarte e mata-nos? Ai. doido por ela.. Começou a contar os anos de ausência pelas romarias do Senhor das Cinco Chagas: uma. O Joaquim da Mariana retirara para o Rio. se soubesse! Mas não. Ficou zangada com ele e consigo. e se dizia que a culpada fora ela.. tão pequeno o faz o céu que o cobre. a cuspir fora: . que nem ele adivinhava quem poderiam ser.Ensinaria o quê?... Não seria este também o seu pensar? Uma tarde de Outono que saíra à caça. Fartou-se de o evitar.. Cometeu-a. tratou de persuadir-se que nunca se passara nada entre eles e de traçar em conformidade a sua regra de conduta.

Mesmo assim apertaram-se peito contra peito. diabo! retomava lá longe a feia macarena. Aquilo era já mania de velha. Bárbara! Ela esquivara para dentro do bioco do lenço o sorriso. nem no outro. A noite ia dobando mais surda que a meada na dobadoira. ao mundo dos vivos e àquela madrigueira de gente. O raio do homem fora a Orcas e voltara a dormir ali a noite. e cruz. uma destas 91 . não tivesse pegado faúlha nas varas secas. Não eram os mesmos. mas no dia seguinte.é curioso . dormir não era o mais importante. o senhor Antoninho não voltou a Malhadas. O senhor Antoninho. Agora ali estavam outra vez. pelos passos de sua mãe e da tia Soledade. se encararam com olhos de se verem sem ilusões. nem nesse dia. -outro para a caçoila. má e venenosa. se ofereceu oportunidade ou ele a não buscou. Não era dormir nem morrer. talvez mentindo com medo de reconhecer a feia realidade. que era poiso. Enfiou-se vestida entre as mantas e só debaixo da roupa se despojou da saia. Mas o pensamento não era cavalo que se prendesse à argola. sim. Erguera de rompante. do saiote. aos apalpões.. deixou-se ir sem relutância. se meteu na cama. era vida safada. então ter-se-ia verdadeiramente descanso. não pensou mais nela. Que viera cheirar naquela altura do ario?! Ouvindo tropel na rua. como as bruxas. e respondeu: Se eu tivesse asas. deixando as chancas na lareira para não fazer barulho. só por isso. Sim. Aquelas duas léguas de espaço entre os dois fizeram o resto. Porque não dormia? Ora. acabasse de murchar. Arregalou os olhos. desasada. do chambre. sentiu-se presa. O tempo trocara-os. ele. A coruja agora esganiçava-se para a casa do Calhorra como se alguém . Ela. fora perdendo o viço da juventude. varreu as brasas para o paranheiro. sofreram um baque. Lá iriam todos para o meio dos pinheiros.Não me fujas. nem depois e depois. um destes sorrisos de agrado que apenas se não mostram para não serem tidos por deslavamento. não. Ainda de cócoras. mas não manda no seu pensamento. ela caduca. se o pensamento parasse. decerto espavorida. e é natural que por dentro. Seria assim morrer? Abriu as pálpebras. sentindo-se como que levar pelo ar. como advertia o seu olharapo. É uma fatalidade. com mais pingo. era melhor deitar-se.a tivesse enxotado do telhado da Pedralva.? Mas o Duarte acordou e grunhiu. refarto de carniça. e fechou os olhos. enrodilhado nas saias de outras. Tornou a cerrá-las e teve a impressão novamente de que ia deslizando pelo ar fora dentro do esquife. onde não haveria mais que um fogaréu sob cinzas. havia que levantar cedo. que a tinha na conta da última das depravadas. deu as duas e três voltas dos cães e dos mendicantes. por mais alto. O mais importante era parar o pensamento. Achava-se bem ao lume. E. estancá-lo. Grunhiu palavras ininteligíveis. como tudo. mas na progressiva maturescência. Quando um belo dia. sem coragem de se dizer que agora tudo era tarde. e pareceu que se virava para a outra banda e reatava o sono interrompido. e ela quase lhe fez quantas promessas quis. já no tarde da idade.. a tanto que os desfigurara por fora. Ela enrodilhou-se nas mantas. provavelmente no mais íntimo. Qual. já recessa. se não era a cavalo no rabo duma vassoura. Mas ainda desta feita. Qualquer homem manda no seu criado. menos pingo de água benta. Dentro do esquife. Pois que era ela senão uma velha. Adormecia.. nula e sonsa entre as panelas. deixando que a primavera dela. trocara-os. dardejou um olhar para o caniço. por um encarniçado azar. que ela apreciava.

ruminador e incansável à lida..coisas absurdas. incríveis.. Num meio quebranto ouviu por cima dela a voz agreste do Duarte: 92 . ensopou-se de padre-nossos. de modo a não causar dano à comodidade da criatura? Não houvesse dúvida que o bicho roía a bom roer na raiz da sua gente. . Nada lhe faltava. nem o vapor diáfano da cambraia. Por enquanto não lhe tocava pela porta. entrando pelo olheiro.Podia saltar para lá uma centelha e pegar o fogo. “Dê cá a mão. a asa do milhafre contra o próprio milhafre. nem rendas. Se vinha por causa dela.. Rezou. Rezou.” Estava a pegar no sono. tu tampaste a caçoila? . se ainda aquela noite lhe servisse de mortalha. Não o são os dedos da mão? Aquilo durava desde longe. mais branda que a espuma do rio. não era mortalha. A sua mulher sou eu. reflectindo no roubo que sofrera e votando o gatuno a todas as pragas deste mundo e do outro.. A tia Soledade morrera doida.mugiu a voz choca do Duarte. às ordens. se tem tantas e todos os dias as malbarata ceifando-as antes da hora? Mas. apancada também ela era. O Duarte ressonava e era outro aviso de presença. Para o homem domar o pensamento só havia um processo: escangalhar a corda da vida como se escangalha a corda dum relógio. tecia ali uma bruma leitosa. a luz contra o sol.. O luar... para romper logo a ressonar. a ladrona da coruja veio crocitar mesmo. menos uma. em suma.. Sentiu-o dar volta na enxerga com o escarcéu dum porco no palhuço.. depois de pegar no rosário tacteando. ele trazia botinhas. O galo cantou e recantou. para o fundo do povo. . Eram diferentes. nem coisa que se aproximasse. Resumia o boi acabado. em pouco tempo feita esterco e pó? Que se ganhava em a defender da bocada deste e daquele? Que havia ela ganho com tanto luxo e esquisitice? Não. Andaria a fairar a casa em que estava para entrar Nosso Pai. mesmo. Na lareira.Tampei. que mora lá dentro. Para que é que ele a quer? Que lhe vale mais uma. a brasa viva entre tições apagados lembrava-lhe onde estava.. Ao menos aquele não tinha argueiros a remorder-lhe na consciência. não estava persuadida que Deus Nosso Senhor tivesse algum interesse em que ficasse para ali uma donzela relha e revelha só para pasto dos vermes.. Que valia afinal a porca da carne da gente. Mas dizem que a vida a Deus pertence. e era um regalo tocar com a carne na carne dele ao que a pele era fina e veludosa. que escorrega. e ficou mais esperta. Mas não. perna nua até por cima do joelho.? . aquelas grandes pedras com que murara a regada. para cima da casa. Era um nimbo e tinha parecenças com o manto nevado de Nossa Senhora da Boa Morte. que sucedem ao bicho homem: a linfa rebelar-se contra a torrente. homem. A noite continuava a passar sorrateira como uma loba por uma estrada.. Felizardo.Até foste tu que a tampaste. Tornou a esbagoar o rosário.Ó Bárbara. mas o malvado do pensamento prosseguiu na vadiagem. rezou. ao menos quem pudera subjugar o lobocerval.. sua mãe liru. Pôs-se a rezar o terço pelo eterno descanso da alma de sua mãe e tia. se a vida é como a parede na tapada dum rei que não há o direito de deitar abaixo. manso.. não tinha os seus desesperos.. Bendita ela fosse. tampei. Acordaste relampado com algum pesadelo. como se andasse a ajudar o Duarte a tombar pedras.. Ouviu a coruja lá bem longe. Possuiu-a um acesso de tosse. . Fechou outra vez os olhos. aquela tosse que parece vinha de trás das costas e às vezes a lanceava. rezou.

- Toca a levantar que são horas. Tens de ir fazer o caldo depressinha que já lá vai meio mundo. - Ainda se não enxerga... - Qual, é meia manhã. Está baço o céu. Deixei-me adormecer depois do cantar da toutinegra. Levantou-se sem dizer mais palavraa, contente por ter acabado a noite, o seu jardim das oliveiras, mas tão má consigo e com Deus que nem sequer se persignou. Acendeu o lume, preparou o caldo para eles e a vianda para a reca. Na aldeia ia mais alvoroço do que num cortiço em dias de verão. Estavam no fundo da tigela, bateram à porta. Bárbara foi abrir. - Trago-vos um recado - dizia a tia Ana Ruça introduzindo pela greta a estriga vassoiruda que era a sua cabeça enfarinhada por dois carros de anos. - Havia de cá ter vindo ontem, mas lembrei-me que já vos tivésseis deitado... Esta pertencia ao número das que tinham malícia até as unhas dos pés e Bárbara respondeu-lhe com ar simplório: - Não senhora, nós deitamo-nos sempre tarde. Umas vezes ele reza e eu respondo; outras vezes toca gaita e eu danço. É como nos carrega a pancada. A Ana Ruça ficou de cara à banda e lá arrancou do bucho: - Foi o senhor Antoninho que chegou já noite de Orcas e me mandou cá. O Duarte pode ir buscar o dinheiro quando quiser. Ficou tudo arrumado. És um cão de sorte! - Arrumado o quê? - Pagarem-te. Cobrem-te o arneiro a notas. Hem, quatro contos nunca tu sonhavas abispar? Bárbara ergueu as mãos ao céu: - Louvado seja Nosso Senhor! O Duarte por pouco não ia deixando cair a malga ao chão. Não acreditou de princípio. Depois acabou por concordar que a fazenda assim não lhe era roubada. O senhor Antoninho fazia o que queria com uma perna à s costas e ainda lhe crescia tempo. Quis, pronto, pagaram. O seu cálculo orçava por ali, mais moeda, menos moeda. Vá, que é homem dum querer. A tia Ana Ruça retirou-se a mascar: - Arranjaste bom padrinho! Sorte de cão. Olé! - Dá-se-lhe o galo? - propôs Bárbara quando a tamanca da velha deixou de se ouvir. - Dá-se-lhe o galo, dizes tu... ? Pois dá-lhe, dá-lhe lá o galo. Isto a ele pouco custa. Sai do pêlo dos Alamões. Uma palavra que deitou pela boca fora e feito. Mas dá-lhe lá o galo. Leva-o à tia Ruça... - Então logo lho levo. E eu, sabes que mais - exclamou ao cabo dum momento de circunspecção - boto-me a Orcas a buscar o dinheiro, se é que lá está. Para estas coisas quanto mais depressa melhor. - Ah, lá isso? Acabou o caldo soprando à colher de lata. Vestiu camisa lavada; tirou os sapatos do frontal e o brejoeiro de trás da porta. - Eu antes da tarde não estarei de volta - declarou. E mais estarei. Aquilo para ser bem era pagar e girar. Levo um bocado de pão e metade dum chouriço, se tens. Acomoda a vaca. Para os tojos, sozinha, não anda a roda?

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- Não, vou para a fonte lavar a roupa que está a encardir. À saída da porta pareceu-lhe o tempo pouco firme. Voltou atrás a trocar o pau pelo guarda-chuva de paninho azul. A irmã ouviu os passos que estrepitavam na rua fora e, quando o último eco se desvaneceu, enclavinhou as mãos uma na outra: podia lá ser! Arrancou da caldeira e deitou para lá a água quente que tinha ao lume. Temperou com água fria, despiu-se, e meteu-se dentro. Ensaboou o corpo todo, tronco, pernas, pés, o peito do pecado e as axilas em que babuja o suor. Despejou aquela água, deitou outra e chapinhou, lavou-se de alto a baixo, sobretudo o pescoço, mordido do sol e da poeira, e as orelhas, ninho de toda a imundície. Limpou-se a um farrapo à falta de toalha e, nua como a mãe a pariu, pôs lenha e enxugou-se a um grandioso lume de sargaços. E, depois que se viu quente e limpa, vestiu roupa de baixo, lavadinha, a cheirar a mentrastos. Pôs meias novas, as chanquinhas de verniz, a saia de castorina de ver a Deus e o lenço de lã que reservava para quando fosse amortalhada. Lembrou-se então do galo e correu à quintã com um punhado de milho: - Pilinhas? Pilinhas todas! ... Acudiu a criação entretida a rapar na montureira e no meio o seu rico e faceiríssimo galaroz. Passou-lhe os cinco dedos e trouxe-o a regougar para dentro de casa. Atou-lhe as patas, abaixo dos esporões, as asas na nascente, uma contra a outra, e encafuou-o na giga, fazendo festas às badalhocas dos barbilhões: - Era com estas que endoidavas as frangainhas, meu parvajão! Pegou do pente para se pentear, mas não teve paciência de desatar as tranças, que eram longas e espessas. Anediou o topete, puxou o cabelinho nas têmporas. Viu-se a um motreco de espelho e, minutos depois, mais depressa do que se fosse pelo ar, batia à porta do senhor Antoninho. - Ó tia Ana? Tia Ana... Foi ele próprio que veio à porta: - És tu, Bárbara? Entra. A Ana foi agora neste instantinho ao leite. Entrou. Disse-lhe com um sorriso que ela mesmo sentia branco, desnevado de todo, embora deixasse ver lindos dentes: - Trago-lhe um galo para o jantar... - Obrigado. Põe aí... Estava em mangas de camisa e via-se que acabara de se levantar. Trazia ainda agarrado ao corpo o calor envolvente e sápido da cama. - Entra para aqui... - tornou. Conduziu-a para o quarto. Desviava-a da saleta que se lhe afigurou atravancada de sacos, pequenos sacos de lona, em fila contra a parede, que deviam conter volfro ou o diabo por ele. Mas que lhe importava a mixórdia mineral ou a riqueza? Foi-se deixando levar, ao passo que murmurava: - Ai, e se a tia Ana Ruça vem...? Nem lhe respondeu. A casa desdobrava-se em duas partes, unidas por uma galeria envidraçada. Naquela metade reinava ele. Tirou-lhe o xaile e ela deixou-se despojar. Depois, ao desatar-lhe as tranças - um capricho - e ao abrir-lhe o chambre, apenas disse: - Mas que feio! Mas que feio? Empossou-se dela: - Tardaste, Barboreta...?? Por culpa de quem...? - Benza-me Deus - exclamou Bárbara, olhando para a colcha, consternada. - Não te inquietes - pronunciou ele, com ar meio enjoado, meio grato às primícias da virgem serôdia. – Por esta porta...

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Quase a empurrou. Havia no sol um lume novo. O céu, a terra, a bandeira da Noite Boa, batida pela aragem à porta do S. Miguel, a mãe Calhorra com os netos atrás ranhosos e a roer o seu trancanaz de pão, as pedras tisnadas pelo tempo, a leitoa com os berrelhos, diziam-lhe por compenetração de sua alma no fadário universal: - És das nossas?

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tinha de ser fatalmente o seu volfro. fora dar com ela. se metera debaixo dum côdeas. do precioso cadáver. atendendo às mãos donde viera. verdadeiro olho de noitibó. O mundo estava assim estupidamente repartido: cães da felícia e enjeitados de tal porca. chupado da fome e dos piolhos. eram uns mimosos da sorte. não punham um trapinho novo. o Ougado sofreu novo abalo.que Cristo estivesse em sangue e divindade na hóstia consagrada. Ele pertencia ao número dos enjeitados. que fizera a socresta. pouco adiantava. para mais. Apre. mas sim a arrelampada da irmã. o fino alambre do seu volfro. à espera que se lhe proporcionasse o ensejo de passá-lo a patacos. para ele tornava-se matéria de fé que aquele era o seu volfro. Bem certo que não fora o Duarte com o seu olhar baixo de porco. ao que se dizia. A culpa era de sua mãe que. esconder e trocar a vinténs 96 . amealhado dia a dia durante mais de duas semanas para a cova ao toro da giesta. E o Ougado. Para consigo e para com Deus . quadrilheiro. Estava corrido o véu? Assim às lascas. Mas ante o ar interrogativo do marchante não se deu por achado. já se deixa ver. em vez de ir forjicá-lo com um fidalgo rico e esmoler. não davam mostras de acrescentos de nenhuma ordem.que é de lei chamá-lo a testemunha nos juramentos de vingança . O importante é que ficara a fazer cruzes na boca diante dela vazia. à custa de muito ardil e paciência e com risco. deu salto. Servira muito amo e apanhara muita soma de arrocho! Deitar a mão a foice mal guardada. no canal dos gados. Limitou-se a torcer os lábios no jeito tão peculiar de pessoa que deixa em suspenso por escrúpulo de consciência uma dúvida séria.protestou pagar-se do dano e respectivo desaforo. Para que queriam semelhantes brutos a bagalhoça? Para eles tanto representavam quatro contos como quatro pintos que já não correm.VII O Luís Ougado. escavada pelos enxurros nos meses de invernia. areia a areia. escamoteado no Vale das Donas.abrenúncio? . julgara a cafua à prova de todas as devassas ao que estava de dissimulada? Afinal. desafogava! Ao que andava intrigado nem o comer lhe servia de préstimo. Se é certo que o dinheiro só vale pelo partido que se tira dele. quando João Vitorino lhe pôs diante dos olhos o minério comprado aos Ladeiras. em tais mãos era como pérolas a bácoros. No dia em que se divulgou que o Duarte recebera quatro contos pela expropriação do arneiro. nem o ar dos altos ermos lhe refrescava os bofes. o seu rico volfro. o que era sempre travar com unhas de fome coisas vivas. lampando como os outros da sua igualha a fruta na sorte do rico e o canivete deculdado no patim do vizinho. Aqueles Ladeiras. Amochilavam ou iam à Fazenda pôr mais um charrabeco no cadastro. todo se roía de inveja. Cáspite. como se viu. a fazendória não valia quatro patacos falsos. tão ladina da vista como ágil de perna e de braço. pouco mais que pedriçal e saibro. Pacóvio de si. Nascera nas ervas e fora medrando à lei da natureza. De quem era a culpa? Não sua. Podia ainda duvidar . Não tinham alma para sair do triste passadio do caldo de unto e da batata rachada. ou as mãos lhe caíssem ao chão sequinhas como as palhas por bolónias e estuporadas. Que tivesse ou não andado à espreita. feitas para girar. ainda que pilões. que não podia sentir o açafate do próximo farto de pão. outrem mais maligno e esperto do que ele. com arestas a fugir para a mina. tisnada pelo sol nos meses de sequeiro.

uma rasa de pão. Agora que estava descoberta a marosca. enjangado do reumático. e noves fora nada. Era a norma: toca a roubar. já que a criatura tinha predilecção especial pelo seu serviço. Serva de Deusfurta laranjas.lá no fundo da sua alma ficou banzado. Caçado de boca na botija. alertado por um vago rumor. compreendia-os e aceitava-os. consumindo horas sem conto à caça do larápio.a machadinha do lavrador caída do carro com os solavancos. sim. uns para os outros. procurava roubar com destreza e aviamento. segar a campainha na coleira da vaca ou do carneiro. Às vezes pagava-se por suas mãos. fossem os autores da frajoca? Quando. e ficarem com a mesma cara. e até do Calhorra chegou a desconfiar. fazia a trasfega para casa. Quando chegou à conclusão de que havia que ilibar também este pincha-no-crivo. que tem carradas e carradas e traz o gorgulho a lavrar nas ceveiras. Mais de uma vez que por um triz o santo se não voltou contra a esmola. gente metida consigo e salamurda. picada a isca pelos rebusqueiros de sanchas e pelos caçadores da trama que vão à hora do lusco-fusco armar aos coelhos nos estercais dos brejos. tão longe do volfro como da China. nem a própria senhora professora. abria uma cova e enterrava o seu quinhão. tinham topete para tais áfricas. suspeitou daquele. Não fora até o simulacro de esconder volfro na toca saqueada e em esconderijos idênticos. Levara a devassa a ponto de espiar os vizinhos. que lá tinha o pai para receptador. pesados da rabadilha. pudera? A senhora mestra. Não seria mais. Mas nem o Calhorra. arrepelou-se todo. Ao aparecer-lhe o negociante com o minério: é este? . suspeitou deste. Sempre a terra ali andava pesada e era uma matação cavá-la. Mas ele gostava de fazer-lhe as vontadinhas. pondo no chamariz todo o natural de modo a que o lambaraz desse na esparrela?! Debalde. que era isso? Pecadilhos. maquiava-a numa ou mesmo duas cestas-brezas de batatas. não dava nada pela alçada. malandragem! Os outros nao roubavam mais porque lhes faltava engenho e arte. consoante o ano. que nem valia a pena acusar na confissão. costumava incumbi-lo de lhe tirar as batatas na horta que trazia arrendada ao Asdrúbal rico. que mal vinha ao mundo? No Vale das Donas. pois que era da regra e não lhe parecia bem ser aqui mais papista do que acolá. Depois. enquanto o Diabo esfrega o olho. por exemplo. mas também não era menos limpo que os outros. Ningué m dava conta. se lembrou de encaminhar para casa deles o João Vitorino. o corte do surrobeco bifado ao fardo do mercador que anda de macho pelas portas e se farta de roubar os tolos. mormente os que lhe pareceram capazes de cometer o cardanho. Dentre a rapaziada que trabalhava no volfro. Com o que se não conformava era que se trocassem os papéis. Mas. À altura em que a paqueta desandava para a escola a levar o carrego. sacada de gorra com o filho estroina da tulha do ricaço. De noite. assim que os paroquianos ferravam o galho. nem os filhos. troçava dos laços que chegara a armar. inerentes a tais cavalarias. tão-pouco lhe pesavam na consciência. fora exercer o oficio a outra porta. de ladrão passando a roubado. Fora então o Vargas da Violeira? Passava-lhe lá pela cabeça que os Gadunhas. Baldões como aquele. e arrotava postas de pescada. Por isso dera mil voltas ao juízo. Em que leito de santidades se deitava o Mafarrico! 97 . Um momento esteve inclinado a que o ladrão podia muito bem ser o José Francisco. estes pilhanços via-os praticar aos homens honrados.

Agora. apreciava-o como a poucos pelas suas prendas singulares. de pé. virote na leveza e rapidez. não põem vulto nem erguem assuada. doía-lhe ter sido tão sendeiro. volta e meia. Igualmente a mandar a marra não pensava bem no que estava a fazer. no Santo Antão. pois que acertara no alvo. Apenas na Sobriga se perfuravam poços fundos como aquele. que era o mais. têm o hábito de caminhar subtis à semelhança dos bichos do monte. sempre a magicar em portas falsas. Aquele mariola. consoante este tomo. em realidade. a lavra tornava-se tão árdua como dispendiosa. Ali. medrando naquela zona mais recôndita da consciência. Sim. surpreendem a cada canto as maiandrices alheias. depois de entendimento havido com o Dr. Sentindo-lhe minhocas no seio. magros e hécticos como os lobos. ia dar com ele de corpo ao alto. o Calhorra têlo-ia mandado pentear macacos se não fosse o seu cabo de ordens para toda a casta de manigâncias e. ao balcão das tavernas. além da falta que lhe fazia. Sua mãe tinha-o inteirado de quem era a Soledade nos tempos em que alcovitava por conta dos fidalgos da vila. nã o sonham alto e só falam o preciso na terra chocalheira. enxergam tão bem de noite como de dia e. Aos filhos cada vez lhes pesava mais a bunda e os amieiros dos tamancos. pequeninas e oxidadas para que a intempérie lhes não faça mossa. que tinha a cargo o pistolo. ninguém avaliando a não ser os práticos que força são capazes de desenvolver. Em sua imaginação comparava-o a certas máquinas que conhecia por alto. de aço fino e pouco consumo. onde nem ao padre confessor deixaria meter o rabo do olho. não te rales que eu também não. alma de cântaro velho? Olha que não roubamos os doze escudos que levantas ao pôr do sol! Dizia-lho a rir para lhe sacar a mostarda. não havia além dos Ladeiras. O Calhorra. nada mais legítimo que exigir capital e juros aos mal-andantes. Além do mais. antepunha-se a tudo. a ver para onde corriam as nuvens. ter medo que desse com a língua nos dentes.Em que estás a cismar. Manuel Torres. O Luís. Mas deixa. não só pelo detrimento como pelas horas perdidas e amargos de boca que lhe haviam feito provar. trabalhavam dez homens. Ora podia dar-se volta ao povo com uma candeia que outrem susceptível de tais aventuras. pelo contrário. espetava duas vezes a picareta no salão e punha-se de costa direita a contas com o seu problema. representava um milagre de equilíbrio que só não metia susto àquela gente pela ignorância dos riscos que corria. na sua opinião. E semelhante propósito. como penetrasse muito para o centro da terra. Quem dirigia os trabalhos. ficando com as suas tapadas até a morte. à boca da exploração. haviam de pagar a tranquibérnia com língua de palmo. auferindo boa renda da desvergonha. estava sempre pronto para tudo. O desmonte. e muita pólvora e braço teso descoser o balcão de seixo. deixava correr. O Calhorra. não precisam de dormir. apenas um sendeiro chapado não dava conta que a flostria só podia ter partido desta sorte de indivíduos que. Com uma côdea no bolso e um dedal de vinho emborcado. incluindo os três que o José dos Cambais trouxera à sua parte. . era o Silvestre. mas sempre lho ia dizendo. prático em tudo que dizia respeito a esfossar o solo e estoirar um penedo. botava de 98 . como tal. Luís Ougado. que era perito na arte de conhecer os homens. a ponto duma vez pouco faltar para expedir desta para melhor ao filho mais velho do Calhorra. mas leigo quanto ao resto. Requeria grande esforço remover os entulhos. O filão não era escasso de todo mas.

vendede o cunqueiro. ficava para ali uma coisa sem sentido e reles.” Entremeada de ócios e partes gagas.Vai lá trambicar outro. Metade para cada bico. Toca a reacendê-lo.dizia o Calhorra com ar formalizado.. Talvez por isso abendiçoava o cigarro. Segundo a letra de pacto tão serniscarúnfio. também um nauta de primeira pelos velhos caminhos onde Cristo nunca gastou as sandálias. o paivante colado ao canto do lábio apanhava o seu resquício de saliva e apagava-se. À noite. o Calhorra observava-lhe: . Tanto andava de noite como de dia. o que era o seu primeiro ganho. Extinto. perdia um ror de tempo. boa parte do dia escoava-se deste jeito. uma “beata” mal cheirosa. A rir. depois que o trabalho cessava com o bater das Trindades. a tirar com o devido ripanço as primeiras fumaças.dizia dele o Calhorra. ou mesmo no forro da japona.Deixa lá ver. mas não me trambiques a mim que sou teu amigo. ainda ficou malaguera. enrodilhada no cotão.jornada até onde mesmo um macho requeria sólida pitança. Mas estavam acorrentados um ao outro por um ajuste secreto: usar o Ougado de pulso livre para laraplar quanto pudesse com a condição de repartir com o Calhorra. A preparar o cigarro. Possuía o sentido da direcção e lá ia por caminhos ínvios e ignorados certo como uma seta.. Simão Tadeu. Por todas estas razões e mais uma. Quando se curvava para a enxada. que nunca ele corre mais vagaroso do que de ferro em punho. ainda que nunca por lá tivesse rompido solas. Palpitava o itinerário. O Calhorra não tinha outras obrigações senão fechar os olhos. a espicaçar o vício do fumador. até pôr a petisca de remissa detrás da orelha. Procediam então ao apuramento da colheita à ponta de balança. Faziam menção de ir encaminhar a água para os lenteiros. visto o tabaco ser admitido no serviço como a água quando se tem sede. Irra 99 . Antoninho Fráguas. defraudava os patrões e empulhava o tempo. Vendédem-o pote. o Calhorra tê-lo-ia há muito tempo recambiado para a mae que o pariu.Assim não é de valha. depois a acendê-lo. Tinha de ser. Como trabalhador era péssimo e o Calhorra renegava dele. Esta parte repetia-se cinco e mais vezes por cada cigarro. sabia escolher como um bruxo o rumo conveniente. Luís . Deste modo. Tem pacta com o Inimigo . meu cara de lascarinho? O Calhorra acabava sempre por lhe encontrar uma pedra de onça ao canto do bolso. Mas como eram quatro os sócios. . com o resfolegar. Depois. Deixa lá ver. e lhe queria como amigo da “vigalrada”. activado pela babugem. à maneira do galeguito: “Vendédem’os bois...Vê lá bem. ficava sempre de melhor.Não ficou coisíssíma nenhuma. com o odor da nicotina. Fumava uma onça de Java por dia. Às vezes turravam de parte a parte e armavam grande brequefesta. tenaz e aturado. o Calhorra roubava-se a si próprio. O Ougado para prova de lealdade revirava as algibeiras. vendéden’as vacas e non me vendades o pote d'as papas. que exige a jorna. . torciam os dois muito manos pela tapada das Margaças.?! . Não que lhe faltasse ralé. e o Luís por nada deste mundo deixaria de meter a unha. Chegado às bifurcações. as ventas fumegavam-lhe como uma chaminé. mas perdera a paciência para o esforço. Não era preciso dizer-lhe: À saída das Antas tomas pela esquerda mal avistares as Alminhas. José dos Cambais e ele. Assim as mãos me meleml . mas non me vendades o meu tabaqueiro.

vinha outro. não se compadecia com a liberalidade. A senhora Rira Ougada era uma mulherona alta. Ia-se um. E quando apanhava o Calhorra balanceado em sentimentos opostos. O filho. riquíssima pedra de volfro. tio Silvestre? O chão se abra e me coma! Depois de muito jurar. chamando a si o direi. o que era exagero evidente dada a sua espessa e viçosa trunfa. escapas à mão meticulosa do Calhorra. e tinha o seu quê nos olhos que atraía a quem se deixava fitar por eles.c. ainda avezado desde menino a semelhante despautério. . É capaz de roubar a madre a uma égua e ela a galope! Agora o Ougado. Não gostavam dela pela sua fidúcia na independência. que perdera o respeito a semelhante autoridade. e todavia rogavam-na pouco. Ontem do Sancho do Prado. estimulado na sua destreza de ratoneiro. e não faltavam pois que era fêmea salerosa e desenxovalhada. ao presente do José das Almarges. mais que a admirálo.Ceguinho eu seja. Desde essa data o Calhorra. aéreo de todo. Agarra-te ao verbo. .Anda-me. Que andaria a tramar o grande meliante? Da orla da buraca. atrá s duma pedra apresentou segunda e atrás dessa segunda uma terceira. embora em casa muitas vezes chamasse por Deus nas necessidades. conhecera mais barregões que de cabelos tinha na cabeça.Em que estás a matutar. e no pé leve com que mudava de homem para homem.dizia em seu íntimo. Desde franganota que. puxava um lindo motreco de minério do limbo dos frangalhos. que para isso te pagam. quando o Calhorra começava a convencer-se.Cheira-te mal. de modo que lhes era cómodo entrar e sair sem ninguém dar conta. ruivaça. rompia a negacear com ele. Luís? É na paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo? Olha que ainda vem longe o tempo da via-sacra. Chegava a noite e aparecia com os bolsos vazios. que valiam umas centenas de escudos.Cá varnos! Regressava a casa com noite fechada. Um dia. e com isso se desculpava quando o seu Luis rompia em desatinos e acusações: . Os amigos sempre lhe iam dando com que acalentar a vidinha. Silvestre . e daí boa parte da sua insubmissão e faltas de respeito.Valha-te o Demo! O que tu querias é que eu morresse à fome. expedita no trabalho. que era o verbo que o Calhorra lhe mandava iniquamente conjugar.. não aceitava os remoques do filho. A razão da sua munificência carnal não residia absolutamente na penúria.. A casa deles ficava à boqueira do povo. berrava-lhe para baixo: .. a desafiá-lo para uma aposta em como tinha guardada no fato que vestia uma rica. .Olho no macanjo.. ? Mas tu não me manténs! . ria e lá dobrava com moleza e não pequeno desdém o espinhaço à picareta.com a bestinhal O Ougado jurava e trejurava que não tinha no bolso nem tanto como a cabeça dum alfinete: .Trabalhe! . Tambem a mãe o estranhava. O principal é que não faltassem. 100 . de se governar como lhe ditava a cabeça. no dizer das bocas do mundo. ficou a ter medo dele. Estava-lhe na massa do sangue. O Ougado. nas horas de trapio. com a preocupação secreta. de banda da serra. afrouxara até na prática daqueles palmanços que eram o pão nosso de cada dia e se emalhavam como petinga na rede moral do seu carácter. O Calhorra ficava varado.

despedíu-lhe à queima-roupa: . que negociara em gado miúdo. . era um coro de anjinhos que estavarri no céu a pedir por ela ao Senhor. .. . Conhecia-lha duma vez que meditara fazer uma espera ao Quim da Urra. ainda ficavam homens para formar um batalhão. morrera a aparar as tripas às mãos ambas. onde é que eu a escondia? É o que tu queres saber. os alhos e o lenço de ver a Deus. está-se a ver. sem querer confessar corno aquilo acontecera.? Guardava-a bem guardada para as precisões. Com efeito. À roda dos quarenta anos. A opinião mais autorizada apontavalhe como pai o MeIrinho.perguntou com o seu sisudo todo.Onde queres chegar? . da Ribeira. não é? . ..Já entendo: se recebesse. o carcereiro da vila ou um samarreiro da Bezelga que se aboletava em sua casa às temporadas. . esforçava-se sempre por lhe fazer os apaparicos. uma boa maquia de dinheiro. Um daqueles domingos. . Temerosa diante daquele maroto. tais altercações dentro da cardenha que acudia gente do povo todo. nunca avezou mais do que os seis vinténs em cobre com que compra na feira o sal.. arrecadava-a. enquanto batia aquela corda de poviléus? Ninguém acreditava que fosse o sargento Laurindo do 9. para ires funfiar nas tavernas com os compadres ou fazeres bodeganas com as favelcas.. vendo o filho arreganhar a tacha. e assim foi que disse: ..Fica sabendo que já me passou muito dinheiro pela mão. repicando as palavras com certo acinte. e cuia a dar a dar. só despedira quando lhe revelou onde o peleiro arrumava a trouxa. seios fartos.Está bem. Era graças a esses banzés que se vinha a apurar quem eram os amásios dela e as últimas roubalheiras dele.. vossemecê nunca avezou cheta? Sim. mudava de amorios mais fácil que de camisa.Faço ideia..Mas em que sítio? Ela viu-lhe o cenho carregado e ficou de sobreaviso.. não raro.Senhora mãe. Tivera não se sabia ao justo quantos filhos. o Capa-Cavalos da Póvoa. Assim.Mas. berrando por Nossa Senhora.Que lhe fazia. sempre frescalhota e lasciva.Olha. Não havia de deixá-la em cima da masseira ou nas seixas da janela ao alcance dos cinco mandamentos de qualquer santinho tornou ele. pondo-lhe o joelho na arca.Nem mais nem menos. doutra que a atirara ao chão e. que és honrado.? Metia-ta na unha. depois de cismar sentado. é um modo de dizer.. num sítio onde não visse sol nem lua.. que passara por ali de diligência e se alambazara corri aquela lasca. que lhe fazia. À parte o descarado bem-fazer a quem lho pedia. que não possuía muitas. até aí também eu chego.? Isso é que eu gostava de saber. Quem era o pai do Luís? O abade de Pedrões da Nave.E onde é que a guardava. Verdade ou mentira.Homem. Estalavam. que fazia à bagalhoça? . Ouça: se por acaso lhe saísse a sorte grande. efectuado o devido desconto. . Pois então? . 101 . Quando estivesse a maquinar ou para fazer das suas havia de mostrar sempre aquela cara. e passara por fazer parte duma quadrilha que operava para as bandas de Castendo. o filho.Sério: que lhe fazia? .. no mocho. Ver a Deus e aos amigos. ainda despertava apetite. era muito boa espadeleira e habilitada nos mesteres de ocasião. No que não havia incerteza é que se lhe fossem todos avante era devorada por tal rabugem. embora ela jurasse e trejurasse que não era outro..

por um cabelo que não salvaram o dinheiro. A ferida engangrenou-se e foi morrer ao hospital de Viseu.. com o que sabe e com o que sei. Meteram a mão e lá o acharam.. Estava meio de vianda. suponha vossemecê como qualquer juiz da fome.. . de repente um lembrou-se e voltaram atrás. não me interessa.. Brás da Nave. há-de-me dizer uma coisa . Se não fosse pai de tais rebentos. uma noite que a quadrilha do Olho Vivo assaltou a casa do Plácido Velho. ouviu. Não vê que se apanhassem molha... tem paciência.Sabes... alarves maiores não passeiam nestas cinco léguas. que acabou por perder a paciência. Esse de quem falas andava a comprar cabras para Coimbra e não precisava de roubar. Conheço-os bem.. já te disse que teu pai é o Laurindo. Olha. pai destes Afonsos. Teu pai. as notas faziam-se em açorda..volveu com o sorriso alvarinho que lhe arrepiava os lábios e deixava ver as gengivas muito encarniçadas..Deixa rosnar. a quem ele foi exigir o dinheiro que lhe emprestara. Mas não se trata de furtar os cobres aos quadrilheiros. proferiu: . Trata-se de guardá-los. onde menos se espera é que está melhor guardado.Foi meu pai o da lembrança.Vossemecê é zorata. .Não é o que para aí corre. No cós não era fácil apanharem chuva. guardálos por muito tempo.. metia-as no cós.. metia-o na pilheira.. Mas se as não metia na barra.? Despregava a barra da saia e metia-o na costura.. Pôs o chapéu na cabeça e sem mais processos rodou.Aí vem a viola sem cordas! Se lho dissesse.Se fosse dinheiro em prata. sendo nós duas pessoas assistentes de portas adentro.Seja franca uma vez na vida: não foi nessa quadrilha que meu pai apanhou a choupada que o mandou para o “lindos”. .? .Os filhos desse Plácido saíram uns estúpidos de primeira.. Os ladrões já lá iam.. . era asneira fazer-lhe a vontade.Agora.Ela pôs-se a reflectir e murmurou: . da última facha que lhes deitei.Tens razão. estou farta de to dizer.Não. é o Laurindo das Salzedas e era sargento no 9 quando me cometeu. Tanto se me dá que meu pai tenha sido Pedro como Paulo.. Nunca ouviste contar como é que em S... diria que a saída do velho não era tola de todo. debaixo da cinza.. que lhe deu a chuçada no ventre com um fueiro. embora tenha dado em droga. hás-de me dizer: com que fim é que tu me fazes estas perguntas? .proferiu em tom faceto fitando-a muito: . afinal de contas. .. ficava a saber mais do que eu. Ela. O filho quedou-se a reflectir um instante e replicou: . uma vez que não fico mais rico.Não falta ele onde meter o dinheiro! Se fosse papel. é falso. O Luís dobrou a cabeça para terra e por muito tempo esteve a conversar com os seus botões. . atirou com ele ao balde do porco.? .Foi o Diabo que te leve. . Trazia sempre a carteira atafulhada de notas. Há-de concordar que. Foi um malvado das Rãs. sabes onde o escondia. .. Hem! Pelo menos é o que rosnam. que era muito apreciada a sua voz de falsete. mas já que temos as mãos na massa.. Andava a concertina do José Francisco no largo da capela e tinham-lhe mandado recado para ir cantar. Diga agora lá como é que o Plácido quis salvar o dinheiro da quadrilha. E lá ia 102 . Mas isso.

é semear no temporão. Bárbara redarguiu: .Ora essa? Põe-te no meu lugar. O que importa no caso é o meu primo Fandinga julgar que lhe hão-de dar dez contos. E aposto que a minha terra dá mais rendimento se a formos a avaliar. primo Fandinga. admitindo que não foi porque o Fráguas se meteu nisso que lho pagaram por bom.. O arneiro dá quanto muito dez alqueires de milho.Se tu aqui há semanas me oferecesses a regadita do Vale das Donas pelo linhar.Resta apurar se lá há volfro. notou grosso chinfrim: o Duarte que se propunha comprar o linhar ao Fandinga sapateiro e. Tu terás lá ricas batatas. E digo-te: trocamos? Que resposta me dás. em virtude de termos recebido quatro pela regada. . nos alforges são assado. Duarte. As gargalhadas esfuziaram à direita e à esquerda e as interjeições admirativas: . pelo linhar. ? Mandas-me bugiar! Tira-me as cocas dos olhos. já dizia meu pai: Salomão cem anos semeou pão. O Fandinga dizia e dizia com segura lábia: . é assim ou não é assim? Todos. postas as coisas neste pé. como toda a gente sabe.Bem vês que se lhe deitas painço ou milho. para cá vinha de carrinho. Mas bem. tiras tarde.Pega? Pega! Resposta assim só um doutor! O Duarte lambia-se todo de regozijo ao passo que o Fandinga quedava amachucado com a argumentação.? Ora. ainda se compreendia tal resposta. a terra está escaldada e a semente não topa sezão.. faço como os ciganos. entre risos. ou lá quanto é... carrega um mulo. louvo e torno a louvar. marralhavam como judeu e cristão acerca da Santíssima Trindade. 103 . Além disso. e ouro é o que ouro vale. ou se não é antes fogo de vistas. mais cambados uns que os outros. enjoada. mas não está recheado de volfro como está a minha regada. que resposta me dás. O linhar dá-te uma carrada de batatas.Homem. não nego. não tinha? . Tu és o dono do linhar.direito quando. embora primos. Sim. aproveitadas as terras como nós as aproveitamos. o que é um arrisco.Não. a valer. Bárbara que assistia ao paleio com a sua cara bonita. Quem lhe pega? . “ Assim é que o primo Fandinga respondia e estava certo. bebe quanta água apetece. tem uma nogueira que ano por ano. as coisas vistas por cima da albarda são assim. tão pouco esperta como desnecessária.Não senhor. Mas o primo sabe o chão que pisa e com certeza não deixava de retrucar: “Olha. eu da regada. duas a três pousadas de trigo e no serôdio. não o mandava bugiar. pela Senhora dos Remédios. o menos que te acontecia era eu mandar-te à fava. reparou que o irmão quedara confuso e acudiu: .Isso não importa. Tinha ou não tinha esse direito? . bota os seus trinta a trinta e cinco alqueires. A proporção não conta. apoiavam o Fandinga embora o escambo de senhorios a todos se afigurasse uma rabulice de caracacá. ao passar pela venda. ponho-lhe em riba as próprias virtudes teologais. se anda de milho. tu és o dono do linhar e eu da regadinha e. O teu linhar tem tudo isso. Só servem para o lume. O Luís Ougado ergueu voz por ele: . Ora essa! Dizia-lhe que. eu tenho lá um riquíssimo minério para qualquer hora. Há também lá meia dúzia de pinheiros. primo Gadunha. perdeu sempre no serôdio e só uma vez no temporão.

como nós compramos carneiros. que era um assunto infernal. Ao menos a ti não te compraram os bifes! O Duarte ficou um instante embatucado e proferiu coçando a nuca: . o Fandinga pediu 104 . Os Alemães têm os japoneses a favor. . a ajuntada dos estrumes. A diferença foi descendo. Nações são nações.exclamou o Fandinga entre risadas.Estás a dizer baboseiras1 . generais. passante o qual veio à baila o corte e carreta dos tolos em bom andamento.500$000 réis. primo? Aproximando-se do balcão. que é nossa. muito menos. de que era assinante. . vinte anos a perder.tornou o Fandinga entre risinhos mas foram os Alemães que te deram os quatro Contos.Pois será.. . ele necessariamente tinha que tomar o partido adverso.retrucava ele ao primo. Decorreu entre eles um silêncio molesto. . para pouco depois romperem os dois a peguilhar da guerra. Tem libras que é um nunca acabar. . que não sou formado em leis como vossemecê é. que admirava a força. Pode estar dez. onde se ia sortir de fazenda uma vez por mês.Deixa ir. por modos o que há de mais rico e soberbo. da guerra.Não. se é possível. O braço do Inglês vai a toda a parte.proferiu ela com voz sibilada. ou.Homem.volveu o Ougado.É verdade. .Mas se o linhar ontem valia cinco. As amarelinhas sempre levam mais tempo a forjar. mas bem grande é o Marão e dá-se-lhe volta. O Duarte ficou um momento atarantado e respondeu: . Lázaro Fandinga falava da guerra pelo que lia na Voz da Província. os Alamões não vencem . nem a guerra é briga de sopapos. e pelo que escutava na cidade e na camioneta para a cidade. a ceva dos porcos. Tanto lhes custa dar quatro contos como quarenta. tornam-nos a pescar. O Duarte não fazia nenhuma ideia de nada. porque o sapateiro.Puseram a América contra eles. o Duarte mandou deitar um copo de vinho. as meninas dos olhos a fuzilar. pareceu-me perceber há pouco que não tinham dúvidas de a doutorar. . cheio de sombras e de larvas. e argumentava como quem joga à cabra-cega. Tanto desce ao fundo do mar como vai a casa do Alamão e arruma dois socos que vai tudo raso. Olha. estão virados de pernas ao ar. não são nenhum Santa Camarão.O meu primo passou-te procuração? . Não pagou já vossemecê o bolo-trigo a pataco e não o paga agora a dez tostões? Tudo vai na alta que sofreram os preços. Meu alma de chicharro.Pois compra . o Inglês está em toda a parte e leva o mundo consigo. . sinal manifesto de que não desejava outra coisa senão chegar-se à razão com o Fandinga. . Ouvi dizer que os Alamões têm máquinas muito perfeitas de fazer notas. e com elas compra homens. O Inglês tem muitas cidades.Não passou.Suponhamos .Os submarinos metem-lhe quantos navios tem no fundo. agora lá se foi à gaita uma grande cidade dos Ingleses ao pé de Macau. e ao fim quem ganha é ele. Mas em que ficamos. O Duarte ofereceu 4. se o não é. hoje vale trinta. e reis. A América é uma sarna de gente. Mas.Pois por isso mesmo. Mais de metade estão no charco. Mas não posso ver com sangue-frio que se embarrile alguém. Muitas cidades e muitos navios. para lá do seu entendimento. . tomava o partido dos Alamões. . descendo e emperrou em 800$000 réis.

É uma aposta. Espere mais uns tempos e o linhar bota-lhe aos dez contos. E levava a mão em prancha à garganta. Dos amigos ou do Diabo. com soberano desprezo. .Aguente-se por muito que lhe custe.Rache-se a diferença! . tenho-o comigo. aqui há muito dinheirinho. e pronunciou com filáucia batendo na zona do jaquetão que se sobrepunha ao bolso da carteira: .. Dinheiro no cós da saia só uma tola como vossemecê é que lá o metia. vai mas é rachar cavacos para a tua casa? remordeu o Ougado por entre os dentes. que era beberem para ali à tripa forra à custa dos contratantes. Talvez eu lhe valha. O taverneiro tinha o Fandinga por um pobre de Cristo.propôs o Urra. grato como estava à sua intervenção. Ficou a aposta em suspenso. Erguera-se grande rebuliço porque todos aguardavam o alvaroque.murmurou ele com voz trágica o dialho é que estou com a corda por aqui. Duvidas? É uma aposta. os camaradirffias não arredam do adjunto para fora. . À noite. largou pela porta fora cuspinhando: .Enganas-te.não são capazes de prantar aí na palma da mão tanta massaroca como eu. Se marralham. .Ora.Esperava.. mas andavam tantas pelegas semeadas ao presente pelas algibeiras de todo e qualquer bicho-careta que hesitou.300$000 réis. o Ougado cruzou e descruzou a perna. o Fandinga torceu e destorceu o bigode. o seu tanto desprimoroso. A meio da estrada segredou-lhe: . picado por aquele conceito. Lázaro Fandinga aprumou-se todo. esperava . vossemecê não tem amigos e eles não costumam apalpá-la? 105 . . Cochicharam. À hora de jantar disse para a mãe: . O taverneiro.pronunciou o Fandinga. O Fandinga triunfava e como tal. estragado e faminto. Num dado momento o Ougado pôde fazer um aceno ao Fandinga para que lhe viesse falar de parte. em tom que excluía teimas.5. É uma aposta em como vocês os dois – e indicava-o a ele e ao Duarte . O vendeiro olhou ainda para o Duarte que lhe fez sinal de que não trazia um chavo com ele. tudo com tal descanso que um dos presentes gritou em tom de “casar ou meter freira”: . encarregue de fazer pagamentos ou compras por conta de alguém de posses? O sapateiro repicava: . Claro.Não vendo por menos um real . era dos que mais atiçavam: . ao que ele correspondeu logo em seguida. Umas calças de surrobeco que ontem se tiravam por quinze mil réis custam agora setenta e cinco. ..Vá. Apostamos uma notinha de cem paus para ser aqui espatifada em vinho e trigo.. Não seria acaso portador de quantia alta.. façam lá negócio? Um anda pilhando por cheta. quando se deita. voltando para o adjunto. mesmo sobre o pomo-de-adão.Está tudo a subir. nã o se despe? Além disso. com a mão no jarro. é meu. Reganha. cheguem-se ao W.Fiquei a matutar no que lhe ouvi esta manhã.Pois agora é que eu vos digo: à nisgal O Ougado foi com ele..Homens. Dê-me dois dias. outro morre por vê-Ia do bolso para fora. perdem o tempo.

interrogou ela. . mas nada mais agradável que o lume de torgos.? Sim. E que mais? .Ande cá.. os tamancos pelas chanquinhas para ir mais lesta. que a terra de lenhas era farta. ..Numa panela velha. que eu morro? . Acalentou a fogueira com mais duas achas. mas se quieto estava quieto permaneceu. e não deu mais sinal de si. Mas hás-de meter-te na cama.Tenho aqui uma pontada muito grande. despojando os cavacos da corcódea. mão no seio.. Pense bem. além de que não gostava de aparecer mal trajada em terra alheia.. com uma quartilhaça a emornecer à quentura da brasa num pucarinho de Molelos.. Era uma grandiosíssima asneira metê-lo no cós. Aqui e aqui. Bota-se a esteira no chão e deitas-te nela. E em que outros sítios? . 106 . pode rezar-me por alma.Está bem.e apalpava a região abdominal e parte do tórax.? . como se quisesse dormir...Faço-te um chá de cidreira. E mais nada? . Onde é que o metia? .. . A Rira Ougada trocou a capucha pelo xaile.Não acha justo o que lhe digo?. .. debaixo duma tábua. faça agora de contas que se via obrigada a guardar a massa dentro de casa. como um ladrão que escuta para entrar. podia ser.... . destas tardes de luz minguada..Sim. a gemer. Hesitou um instante de nada e logo se decidiu: . deixa-lhe recado..Ela virou-lhe as costas.Caramba.Se não estiver.? Talvez. com o cé u pousado como chapa de zinco sobre os telhados.Debaixo duma pedra. Estendeu-se bem ao comprido. . pôs o chapéu em cima dos olhos por causa da luz. Toma-lo? Não respondeu. Apenas quando a mãe largou ao caldo. A concertina subia a rua fungando.É como se uma broca andasse cá por dentro a bater e a abrir furo. Nossa Senhora. tornou o filho: .Na arca.Na cama não me meto. ... muito tinha onde a meter e estava com a língua perra! proferiu atirando-se para cima da cama.Uma panela velha .proferiu em voz lamuriosa. Com o mormaço não fazia frio. Retrocedeu sabendo de que jaez era aquele cabo dos trabalhos. .. . de cesta enfiada no braço. com ar de enfadado consigo e com Deus. o solo embebido de água e o vento ronceirinho à porta. Acarinhando a voz.Se a casa tivesse soalho. já sabe.. um bom fogo estralejava no lar. deixá-la fungar? Estava uma tarde suja de inverno. sem tirar os sapatos. Precisamente. senhora mãe.. A mãe veio encontrá-lo de colete desabotoado.. . é que atirou o chapéu para um canto e se sentou na cama... Ande cá e responda. . .Ao menos vem para o lume.. Por muito tempo a mãe ficou estática e calada a olhar para ele... pensativo. .Se lhe não custasse muito ia chamar o barbeiro a Pedrões para me ver... se fosse lajeada.Num buraco da parede. Quando me vir encafuar a cabeça debaixo das mantas.Num buraco. e disse: . Bem.. .No chão. Sim.Querias que te dissesse.E estará ele em casa? Hoje é domingo. sentado um cristão à fogueira.. . .Sabe o que eu lhe agradecia.Estás com alguma dor?? . de sorte. Ai. . sim. num buraco da parece.. no meio do pão. chego lá num rufo.

salsaparrilha. Mas deviam ser as mesmas. barbeiro muito bem afreguesado e escanhoador de fama. Enterneceu-se sobre o destino. A mãe soltou um grito quando o viu estatelado. Foi como um malho. Deglutia e magicava. Ali esteve meditando. Quantas vezes se não suspenderia ainda a dar à taramela. estacava no colóquio com a Júlia Calhorra. levava à boca. Correu à porta e colou a bugalha do olho contra a talisga. embrulhou-se na capucha e foi-se arrastando para a lareira. piscando o olho para o brasido.Deve ser andaço. . Corri ele apertado nos beiços. Mal teve tempo de jogar o cigarro ao fogo e escorregar para a esteira. puxado por todos os foles. cruzou-se sua mãe com a Rosa Pedralva.Não é nada. . até que ouviu traulitar à porta a tairoca da mãe.. Ouvi dizer que anda muito arcada em Mouramorta. alguém verteria lágrimas por ele?. Não sei o que aquilo é nem que não. para cumprir o dever. Está às ânsias. Foi o juízo que se me varreu. ao desaparecer na curva . A mae. tia Rira. Hum. e obrigadas aos mesmos oxalás. disparou para Pedrões. Isto de mulheres eram todas pucarinhas do mesmo barro. Mais adiante. E. dois quilómetros dali?? O Ougado abandonou o posto de atalaia. A criatura ainda não tinha dado dez passos.. O Gregório dos Santos. excedia a capacidade da sua fortaleza e desistiu. mais ítem menos ítem. toca a embrulhar o cigarrinho. mas foi mais breve que o pestanejar dum finório. Voltou ainda a parar à porta da taverna. como um inválido. ele a saltar num pé. Ergueu a tampa do açafate e cortou uma fatia de pão. e com a ponta da navalha. procurou içá-lo para o banco. aipo. e não se segura nas pernas. mas ele que não queria escândalo proferiu em voz que se esforçava por não ser trémula. A porta abriu-se de rópia. Vá com o seráfico e para atalhar a quaisquer ideias aziagas que se pusesse o próximo a vomitar sobre ele? Na própria palma da mão ia cortando aos nacos. Numa garrafa desencantou um chorro de vinho e remeteu-o ao paiol. em guisa de garfo. pronto. Composto do estômago. Ouviu que dizia: . Não tardaria que todo o povo soubesse que estava de pés para a cova. O meu medo é que seja por lá a tifóia. O meu Serafim também assim esteve. passas.. mas. Desapertou-lhe o alto da 107 . a alma banhada pela mais salutar das alegrias. de fornecer informações a quem lhas pedia e não pedia...O barbeiro dirá. Mandriou por lá uns dias.Tenho o meu Luís a morrer. de carapuça na tola e a Arte debaixo do braço numa taleiga que já andara a boldrié dum pedinte nos tempos afonsinos.Vagarosamente. Apartaram-se. em sua alma quase abençoou a safadeza de ser gente. atemorizada. Quando lá se viu. aquela cara de machadinha velha. aos fernicoques. até chegar à porta do barbeiro. e vai ver como arriba em menos dum amém. A distância era grande. decerto a referir em lição correcta e aumentada os motivos que a levavam por aquela estrada fora.. Mas.outra vez se deteve. nem a Florinda e mais tinham feito juras das que só desata às pessoas o outro mundo. lá vinha o barbeiro. Dê-lhe um cozimento de arruda. Além da mãe. calculando. não podia mais. no intuito de a tranquilizar: . tantas voltas deu na arca que acabou por descobrir um cíbo de queijo. corpo morto. Mal ela virou costas. já passou. e por certo que poria todo o empenho em ter azo a fazer novo e circunstanciado relato. atirou-se a terra. um novelo de fumo a desfiar-se para o caniço. repimpado no tamborete. Se fosse verdade. Vou a toda a pressa chamar o Gregório dos Santos.o Ougado vía-lhe só a anca . não se distinguiam as vozes. cheia de mossas o ferrugenta.

Desmancham-se os poses em caldo ou em leite. .. Sorriu na sua consciente sabedoria. seca. pelo dorso. A purga toma-se em jejum. assaz formalizado com enfermo tão pouco submisso. deitando as suas filosofias: . muito ancho e senhor do seu nariz. a outro.. aprumando-se. E como o vissem de ar parado. Ah! ah! -Não senhor. como faria ao tampo dum tonel para supurar a altura do vinho. antes morrer. não sou nenhum valente.Quita de dar um passo que no meu corpo não poisa sinapismo quanto mais cáustico? já disse.Caramba. está tão suja que parece que andou a varrer o forno. no intervalo dos comeres.. Mas como era homem de imaginação propôs: . Entreranto o barbeiro notava a receita num sarrafo de papel para aviar na botica.É um pleuris. O sangue é a lima. O barbeiro ria e fazia para a mãe do paciente uma mímica variada e imperativa..Vi-te na festa de S. . Leva-se a xí cara à boca. O remédio vaise tomando pelo dia fora. Mas eu perca o nome que tenho se amanhã por estas horas se não sentir noutro fole. Na terra haverá cáusticos. Quando ela compreendeu e ia a largar em busca do vesicatório. Sou como sou.. já sei o que tens. ..braguilha e o colarinho para “o sangue circular à vontade” e pediu-lhe o pulso.Tens medo?? Ah? W e eu que te julgava um valente! chalaceou o barbeiro.. Brás de naifa aberta a desafiar meio mundo. filho de boa mãe? Enganei-me. mas só depois de emornecer. Tinha que tirar a farpela e deitar-se de costas. Pois então?? Tenho carne de galinha. mandem-me chamar. declarou: . fecham-se os olhos. amaruja-se o agro. com a água sempre justa nos talhadoiros e os regos sempre limpos. lima a menos. meu rapaz? Palpou-lhe a barriga e desejou ouvir-lhe o coração.. Feito o quê.. Numa palavra: há que trazer de olho os humores! Deitaram-lhe a cataplasma na peitaça. aplicar o ouvido a um lado. O Ougado obedeceu e o tio Gregório debruçou-se a examinar aquele bacalhau de primeira. Tan-tan-tan. o barbeiro estendeu o papel: . Se depois de amanhã não estiver bom. que estava a bispar tudo por debaixo da mão em pala. Torceu o nariz. que à primeira deu berro que se ouviu em Pedrões e desmentia eloquentemente a aproximação da morte.? A isso não dizes que não.Deita cá a língua de fora. e disse para comigo: aí. O Luís submeteu-se como um cordeiro e o fisico pôde batucar-lhe à vontade no costelado.? O Luís ficou calado a imaginar a possível mordedura da linhaça em seu respeitável canastro. pela frente. Ao cabo de meticuloso exame. sem reagir. bolsinha à dependura das costas pelo nagalho. À saída.? .O nosso corpo é tal qual a terra de regadio. está já para baixo dos gorgomilos.Mande aviar cedo. Lima a mais. às colheres.E uma cataplasma de linhaça.. É preciso trazer o corpo temperado. desenganou-os: . O Gregório dos Santos ficou perplexo. A mãe tinha linhaça em casa e tratou de preparar o emplastro. cada pancada que nem um pandeiro.Antes morrer .prostestou o enfermo. quando Rira Ougado lhe veio perguntar quanto 108 . concluíram que anuía. quando se voltam a abrir. Fez menção de retirar-se. o Ougado. .

devia, respondeu, e nenhuma palavra escapou ao ouvido precatado e fino do Luís: - Não há-de ser uma só vez nem duas que cá tenha de vir. O rapaz está muito mal e, se me não chamam, não me admirava nada que batesse a bota. Tenho esperança que o remédio que lhe dou, e é o rei dos remédios, o salve. A ver vamos. O Luís fechou os olhos e deixou-se vogar no silêncio da casa, quebrado de quando em quando pelo tamanco cavidoso da mãe. Ouviam-se as campainhas das vacas de regresso dos pastos e ainda a matinada roufenha da concertina lá para a porta do José dos Cambais. Depois, pouco a pouco, a luz do dia foi-se amortecendo e invadindo a casa o resplendor da chama a devorar na lareira a pilha de cavacos. Acocorada ao pé do lume, a mãe espiava a roca e velava, dardejando de quando em vez um olhar inquieto para o filho. De repente desceu da serra a enxurrada de chocalhos, vozes e estrépitos de tamancos, e, pouco a pouco, o silêncio foi-se restabelecendo até encher o mundo como um odre em que se soprou ar. Enoiteceu. A mãe rezava e o chilido das ave-marias fazia por vezes coro com o cicio do fogo retraçando a lenha. Bateram à porta. Eram as comadres a perguntar como estava o doente. A mãe acudiu muito solícita a dar a todas a mesma resposta: “Bem haja, ele, para que digamos, piorzinho não está. O que o mata é aquele pesadume no peito...” e não quis ouvir mais, desviado o espírito para outra matéria. Veio ainda o Calhorra e a Florinda, ambos com voz de caso. Mas, fez-se Lucas, e não quiseram que o acordasse, uma vez que passava pelo sono. No dia seguinte que não pegasse do trabalho, muito menos na mina. Aquilo não havia de ser nada; mesmo assim, matasse-lhe a tia Rira uma galinha bem gorda, ainda mais que ia purgar-se pela mão do Gregório, que receitava para um cristão como para um cavalo. Não havia como as enxúndias para ajudar a desimpedir o corpo!... A noite alapardou-se em cima da terra, rotundamente, como avejão sobre o ovo que anda a chocar. Um após outro apagaram-se os rumores da aldeia, balidos de gado, choros de menino. Tudo adormeceu, a própria mãe, que a meio serão ressonava como um órgão, o sobressalto tendo-lhe batido na massa do sangue como uma semanada com os amigos. Ele é que não podia dormir. Há muito que atirara o emplastro para casa do Deus verdadeiro. E, sentado na cama, novamente ensaiou o seu papel. Quando luziu a telha, afundiu-se nas mantas e rompeu a gemer. Gemeu, tornou a gemer, mas a mãe dormia como pedra num poço. Um carro de lavrador atravessou a estrada e meteu aos solavancos pelo caminho da serra: o primeiro que girava ao mato. Gemeu mais forte. A mãe estramontou: - Sentes-te pior, filho? - Sinto-me bem mal... bem mal. Vá pelo remédio. A mãe ergueu-se da enxerga, atirou dois bochechos de água para os olhos, falou em ir chamar alguém que ficasse ao pé dele e, ante a sua recusa categórica, pegando do xaile e duma côdea de pão duro, despediu. Mal lhe lobrigou a rabadilha a dar a dar, pôs-se ao alto. Pela frincha da porta passou revista a quantos lavradores saíam para a serra. Viu passar os operários das minas, uns direito ao Santo Antão, outros ao Vale das Donas. Levantaram em rancho os matejadores, de roçadoira pendente da espádua, e logo depois os zagais, de bornal aviado para o dia todo, com os rabanhos ronceiros. Pouco a pouco a aldeia foi-se despejando... Quando lhe pareceu que o açude tinha acabado de escoar-se, abriu a porta a medo, sete olhos à direita e à esquerda. Estava o céu escuro e fazia frio. Não era nevoeiro,

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todavia para lá dos duzentos passos divisavam-se os vultos das coisas, mas não as linhas. Tão-pouco lhe pareceu ar de neve. Era um cariz sonolento de inverno, sujo e triste, com grossas nuvens baças a prepararem-se para alagar os cambais da terra a poder de cargas de água. Muito embiocado na capucha, descalço, depois de observar que não bulia vivalma, largou numa carreira. À capela torceu para casa do Duarte; desacravelhou a porta do forno e, empurrando-a, espreitou... Não estava lá carro nenhum, que fora o seu susto. Não estava também gente, e entrou afoito para a quintã. Ao rumor que fez, a porca, lograda em seus hábitos, grunhiu: “Trouxessem-lhe que tasquinhar. “Bem. Fez pressão contra a porta da casa propriamente dita: estava fechada à chave. Procurou a chave na gateira; depois na torça; lembrou-se que também era costume metê-la no cisco, contra o limiar, e vasculhou com mão cuidadosa e ligeira. Lá estava efectivamente. Continuava a ir bem? Descerrou a porta com todo o ripanço e aos estalidos que soltaram os gonzos ficou interdito: abro-te?... fechote?... Abriu-a por fim de rópia e a sanfona mal deu sinal. O silêncio lôbrego do interior é que foi como um cão que estava a dormir e, estrovinhado, se atirou a ele. Levou um bom migalho e recobrar-se. Pouco a pouco, os olhos foram-se habituando ao bicho hirsuto, que voltava a aninhar-se nos cantos com as arcas velhas, ferramentas, trastes sem nome, entre taipais encardidos de fuligem. Contra a parede as duas peneiras eram duas monstruosas pupilas da aventesma, estupidamente atentas ao que ia fazer. Mas ah! detrás das caixas, como separadas por sebes, mostravam-se duas camas... duas. O mais, paredes, bafio, cainheza, era alcatrão. A laja recebeu os seus passos mais surda que a própria terra, que tem a sua sensibilidade e se queixa até da lebre que passa. Mas era álgida como o caramelo dos charcos. Levantou a tampa da primeira arca, que estava meia de centeio. Enterrou o braço aos cantos, no centro, aos lados. Nada. Passou à segunda arca atravancada com toda a ordem de tarecos, a escudela do fermento, a queijeira, bexigas de coalho, uma almofia de feijãofradinho, e roupa, manaixos, mondongos, coisas quase todas de trapiche. Resolutamente desatou a esvaziar a arca e a espíolhar peça por peça? Nada de nada. Com um varrer de olhos percorreu a casa toda. O tanheiro observava-o semelhante a um bonzo acocorado ao canto, zombador e imperturbável. Lá estavam em cima da pilheira, como as comadres à boca da fonte, panelas, caçoilas, potes de ferro, toda a útil e inútil olaria de cem anos. Antes de passar-lhe revista, velo à porta observar. A quintã era o mesmo poço de silêncio e de rescendores fétidos. Nem uma galinha. Na pocilga refunfava a leitoa. Volveu dentro da casa, admirado do seu sangue-frio. Nem sequer lhe palpitava o coração. Trouxera-o ou deixara-o lá fora?? A verdade é que se achava ali na propriedade alheia tão naturalmente como na taverna a beber meio quartilho. De todo à vontade, investigou à direita, investigou à esquerda, e novamente lhe incidiram os olhos para a cacaria e o pucareiro. “Vamos lá ver? “ proferiu em voz alta. Acercou-se da pilheira. Revistou uma panela, revistou outra, destampou aqui, emborcou além. E a caçoila...? Moinha...?? Apalpou papel e não teve mais dúvidas. Com ele bem apertado, sem ver sequer de que se tratava, nem pensar em coisa alguma, com o coração agora aos saltos, os trastes todos; tanheiro, cântaros, arcas escancaradas, o negror da casa e a alimária do silêncio, acocorada nos ângulos da cardenha e na quintã, a gritar: ao ladrão! deitou a fugir, a fugir às sete partidas sem reparar onde punha o pé. O sentido levou-o, sem

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desvio nem quebranto, por onde viera, para mais, leve e subtil como uma pena. A mãe veio encontrá-lo de olhos esbugalhados, a arder em febre, mãos a segurar a cabeça. Pôs-lhe os remédios na banca. - Vá-me por água fresca à fonte. Vá que eu cá tomo as drogas... Estou a morrer de sede. Despejou purga e eclegma para a cinza e, quando a mãe rompeu casa dentro com a cantarinha a trasbordar, levou-a ao meio. Depois caiu em quebranto. A horas de jantar visitou-o o Calhorra, que também era meio médico e lhe achou ares de bem disposto. Estavam na santa cavaqueira, ouviram grande rebuliço no povo. Sussurram assim as colmeias quando levantam voo e vão pousar de largo, nos ramalhais. O Calhorra moveu com a maior presteza possível os membros trôpegos; o Luís, pois que a mãe lho exigiu, agasalhou-se na capucha e foi atrás do cambado. No largo da capela, ao entrar para o forno dos Ladeiras, pela quintã e moradia espraiava-se um mar de gente. Singraram a custo até chegar à porta da casa. Da trave fuliginosa, ao pendurão, um corpo de enforcado bailava. Bailava sem ninguém lhe tocar, ao simples bafo, parecia, das pessoas que ali vinham, para que vissem bem e contemplassem. Quando a face, em sua rotação, colheu a luz diurna que se coava pela porta, o Ougado reconheceu o Duarte de olhos muito abertos, fitos nos seus, com a boca escancarada, boca de través, que uivava: ao ladrão! Ficou transido coisa de segundos e, fincando os queixais um no outro, não se pusessem por lá a matraquear a semana santa, desandou pela porta fora, de esguelha, de modo a que Bárbara o não visse.

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e com a ginástica respiratória em regra. perfumado. Pela vila ouviam-se vozes siricopadas. por detrás dos estores. o universo real e o imaginado. Um Alvitano surgiu às upas no potro. Entre ir morar para as minas . mas o que existe tão de concreto como de vago à volta dos sentidos e do intelecto do homem. não é o deus eclesiástico do resto do mundo. Passavam as primeiras mulheres para a fonte. com insônias de permeio. que se conquista com actos de adoração. todos os rumores preambulares do formigueiro rural que desperta. salões grandes como gares. que daria salão de baile. uma varanda a sueste. No piso inferior a criadagem.rondavam já à porta da taverna. pois estático só na tumba. salvo o albornós. corruja de abadia. ainda quando oriundo do SchIeswig. não dormira o que se chama uma boa e pétrea noite. riscada por um pedreiro de talento para morgado farto e desembaraçado. Nas horas despreocupadas. compunha-se de quartos amplos e vistosos. e isto equivalia a um sono reparador.as minas não poderiam oferecer-lhe senão domicílio abarracado – e morar no povoado. bater de portas. Deus para um germano. seus fregueses: . de dores e de venturas dos seres que por ali passaram. Felicitava-se cada vez mais de ter alugado ali casa. estava vestido. o que viera tranquilizá-lo no mais latente da sua alma sobressaltada.VIII Franz Hincker levantou-se cedo naquela manhã fria mas luminosa de inverno. durante as quais queimara havano sobre havano. sim. Mas o seu principal intuito fora oferecer à filha um lar. isto é. matinalmente exacta segundo a nova disciplina. Não estadeava brasão no lintel nem galeria com antepassados de prosápia. desses que passaram à imortalidade 112 . tal um rico marabu. cântaro à cabeça como vira na Arábia Feliz. E como não havia de estar naquela disposição psíquica? A Reichs-Rundfunk da emissão da meia-noite dera um copioso relato do que se passava nos campos de batalha. o que se chama um lar. encetava a lide quotidiana. sempre encostado ao Pauzinho de marmelo da cor do carrascão. senhor Incas? . que trazia jaleco de alamares e faixa. Paulinha dava também sinais de ter passado ao gabinete de toucar. vasta e quadrada. tomou aquele velho prédio de Tendais. mas quartos para bonecas e uma noção do conforto herdada do eneolítico. a meio caminho para a Sobriga e o Vale das Donas.dá umas calcinhas. quase contente consigo e com Deus. E por sorte deparara-se-lhe a construção tipo da mediania provincial. sem os estigmas do nobre solar: escada garbosa. uma boa cozinha. mais divertido que diante dum guinhol. ora e logo balouçado em sonhos pelos solavancos fortes dos armões de campanha. Aquela moradia. Tanto o Pelicas. com as paredes sensibilizadas pela infinita profusão de rostos. o que lhe permitia partilhar-se mais a seu cómodo pelas duas explorações. coveiro. eixos gementes. Mas o sol retoucava na rama alta das carvalhas que ensombram o largo da feira. Mas com o amanhecer a consciência ficou sossegada. sem falar na peça central. como o velho Badanas. Hincker entretinhase com a paisagem humana da vila. de colóquios. Sem embargo. a tal consciência panteísta que Goethe numa carta a Eckermann punha acima das contingencias universais.

se fosse necessário. famílias de ratos bemditosos.empanturrados de padre-nossos e de glória. rendendo o máximo que era de esperar de jazigos de segunda ordem. regou a petróleo e soda cáustica os interstícios da madeira povoados pela fauna até então feliz e sem história. vinham camiões de seis rodas velozes e surdos. para ele. de molde a armazenar a bom recato todo o minério produzido. com freima nunca vista. De Muradais partiam igualmente com perfeita cronicidade outros camiões repletos de minério. Em seguida às mil e uma peripécias duma rivalidade que chegara a saltar todas as barreiras do fair play. por via de regra. arrecadações. perfeitamente bem-ditosos sem a existência nas redondezas de bois bichanos que vinham às vezes murar para aquele paredal. Para os gostos simples da menina possuía a vivenda um quintalinho com seu tanque. garagem. em que a extracção no entanto era mais fácil. desatou em convulso e clamoroso choro. que detestava tudo o que é lemural. também plurisseculares. depois de munidos das respectivas guias fiscais. da cor do chumbo. contra os quais. De modo geral. As explorações da Sobriga e do Vale das Donas eram conduzidas com tão denodado como meticuloso impulso. outras em quartzo atravessado de lezins que descosia a ponta de picareta. Veio dos aposentos o pai. Kammerjãger. cuja estirpe devia remontar. Mas Hincker. eram um inçadoiro prodigioso de precevejos. raros em Alemanha como as baleias no mar. reunia os cómodos indispensáveis à sua lavra. No dia seguinte um piquete de trolhas. Sábados à noite. teria dado em terra. confortá-la e dispor-lhe o ânimo a transigir por uma vez com a habitação infestada de parasitas. tapados como arcas. A Sobriga produzia dez vezes mais que o Vale das Donas. Mister Corbet era temível no ataque. onde cismavam artemísias. e no mainel da varanda sardinheiras entornavam até meia povoação um vermelho que Hincker pela rutilante candura e a carência de aroma classificava de amoral. e iam baldear 113 . quer nos soalhos quer nos apainelados do tecto. superando de muito o contingente de produção que lhes fora atribuído. cerca de 75% da área metalífera conhecida estava registada por firmas contrárias. o resultado era compensador. em suas madrigueiras. em todo o Portugal senhores do campo. Com efeito. a avaliar pelo repululamento. as duas empresas sob a regência de Hincker alcançavam plena estabilidade. O pior de tudo foi que as frinchas. carregavam debaixo do olho vigilante dos fiéis a sacaria pesada e lacrada. pelas estradas intermináveis. Mas para chegar a esse ponto tivera Hincker de sustentar uma guerra bruta com os concorrentes. E selados a sete selos abalavam e lá iam em recova. sempre direitos a leste. e Hincker. encaixado o veio umas vezes em salão roto. não menos molestado. para o país negro dos altos fornos. Ao cabo duma semana de refrega e quebração de cabeça a casa deixou de ser o valhacoito dos cínicos e abjectos hemípteros. como os ocos da alvenaria solta o eram dos ratos. Outro piquete emparedou com argamassa. ao berço da nacionalidade. Metiam pelas estradas a poente. estimou. há caçadores especializados. ao passo que além o rompimento exigia constantemente perfuradora mecânica e dinamite. tanto se importando de atirar com meia dúzia de mancheias de libras pela janela como com o resto do copo de água que não acabara de beber. A primeira noite que Paulinha acordou em seus edredões de pluma com a alvura dos lençóis sarapintada da ignóbil bicheza. dado que não fosse dotado de tão sólidos rins.

que acabava de fazer treze anos e a instrução primária.proferira. cifrada em duas letras ou algarismos. era o Antoninho Fráguas. Ostentavam duas parker no bolso do jaquetão e traziam as notas de Banco em pastas porque lhes não cabiam nas algibeiras. tinham por missão escoltá-los a porto seguro. e seria este o primeiro passe do manigante. com uma película de volfrâmio à superfície para o conspecto inicial. dois mil. Fábula ou não. para que os submarinos a esperassem. Blindavam os dedos com anéis e não sabiam dar dois passos que não fosse de automóvel. amassado com o suor de meio mundo desde o Spitzberg à terra de Francisco José. casara a filha. a cavalarias altas. No mar traiçoeiro da Biscaia rondavam porém os submarinos de Roeder. e a custosa mistela lá seguia caminho. Oito sobre dez daqueles navios soturnos iam para o fundo em três tempos. era vedado inquirir. Os sacos que ele rareava e pesava iriam atestados de titânio e da mais ignóbil morraça. com um canhão à proa e outro à ré. Matavam o bicho com vinho velho da Ferreirinha e estadeavam equipagem de grão-duque. deixando a tapada da serra a tojo. . a carga valiosa. Acrescentavam que o segundo consistia em subornar à força de pecúrila o engenheiro que na barra referendava a entrega. ao começo. dizia-se que mais que um barco que conseguira alcançar o destino denunciara o 114 . acima. com os grostescos e imprevistos que se podem imaginar em lapuzes elevados. numa cadência melhorada dia a dia. e prosseguia de vento em popa. todos os meses. corações triturados. levantando âncora. A questão era que de dez transportes chegassem dois ao porto. por fim.Fica-te com o Demo . levantando-se dentre a ferralhada com uma costela partida e as ventas a gorgolejar sangue . resplandecentes de civilização e arte. chegasse o metal. classificado e novo em folha. todas as vinte e quatro horas. Acima. Dizia-se que a Ilha disparava contra o inimigo projécteis de oiro puro. almas em revolta. Os agentes que o Reino Unido assoldadara no país neutral enriqueciam a olhos vistos. quatro mil quilos arrasar as cidades orgulhosas do inimigo. encontravam-se milhas dali com torpedeiros velozes. dissimulados debaixo de catafalcos de serguilha. todas as semanas.um factoto avisava o chefe da Gestapo do embarque da mercadoria. custava o quê? Dez. Comprara já uma quinta para o Dão. e não se falava no resto. O problema era que nas matrizes cíclópicas das suas fundições não escasseasse o minério fantástico com que revigorizar o aço que iria em bombas de mil. E mandou vir o melhor estojo que se exibia nos stands de Lisboa. Simultaneamente . Esses navios recebiam uma ordem telegráfica. Assim desapareciam tais navios de carga no fundo do mar e com eles a candonga dos infiéis representantes. correndo à direita e à esquerda como galgos marinhos.nos molhes de Leixões para cargueiros negros. dois pelo menos. com um visconde papalino. feitas as contas. Cada onça. os volframistas davam nas vistas.terceiro lance . dois. dois a seguir. Projécteis dum supermetal. vinte libras? Numa ocasião destas não se tratava de saber quanto custava. de dois. que. e. Mas tal contingencia não alterava em nada o ritmo da tenacidade insular. À boca cheia se contava que impingia a mister Corbet gato por lebre. como não? Um destes. em cada molécula do qual se sentia palpitar toda a imaginável espécie de ânsias e gemidos.que já me ganhaste para um Rolls. de Muradais. toda as semanas. de dois. mais precioso que a platina. Aconteceu-lhe escaqueirar a chocolateira numa das curvas do Vouga. Na terra das meias solas.

dobrada para terra. Mas aos seus hábitos de decoro. O que prezava era o certo. em busca de maná.. pois não vira separadora. De resto. Firmaram a transacção a tiro. roubo. Vendía-se o quilograma estreme. De ordinário a cotação do volfrâmio era dada pelo Porto. para lá do conceito clássico de justiça e bondade. falsidade. que eram manifestamente maus.. com urna percentagem média de 75% de metal e 25% de quebra. o outro em esquife para o cemitério. como curso médio com oscilações verticais. a 750 escudos. carregados de volfrâmio. podiam vir outros requintadamente péssimos. segundo sucede em Bolsa. Estava inerente à sua fácies moral não admitir semelhantes quebras de carácter. levados pela velocidade do amorpróprio. Todas as canseiras dum dia eram dadas por muito bem empregadas se à noite a sombra vágula. Neste particular era como a Hélade. Eram substâncias análogas no transcendente e no destino. por montes e vales em busca de volfro. tratava-se de bater o adversário. em nome dessa filosofia do real.. mal nascia o dia. às portas. o Almirantado devia receber dez navios. o objectivamente certo. Quando o Porto fixava a tong long da volfrarnite. Formava-se uma moral nova com a nova indústria.. em bruto. saltaram fora dos limites que lhes haviam fixado para a compra. o que Dantec chamava sem acrimónia hipocrisia. caíam imprevistamente do céu e vinham matar a fome a multidões igualmente famintas. como atrás de Hincker o Reich. A nação em guerra é que por nada do mundo desautorizava os seus corretores. Com margem tão larga para o fortuito e o contratempo. Que remédio senão render-se à evidência duma lei transcendental ou a processos que não seria cómodo reformar? O ideal em semelhante emergência fora reduzido a proporções tais que estava fora de toda a hipótese deixar de tornar-se realidade.comércio facinoroso. com seu sentido prático. mas nunca tida. instintivo. o ilhéu nunca chegava a ser fraudado em sua expectativa. aversão congénita quanto a conceber certas formas da indelicadeza? Parece que não. O conflito mundial reflectia-se nos dois comissários. Na melhor das hipóteses. repugnava revolver misérias desta ordem. As aldeias esvaziavam-se. todas as poucas-vergonhas eram desculpadas dado que conduzissem ao enriquecimento. Por daltonismo. Contentava-se com isso. E deixava-os entregues às suas tibornadas. filtrado fosse lá por que mandis fosse da desonestidade e do dolo. Vinte gramas importavam em mais que a jorna dum obreiro. Era um pouco a psicologia do cocu magnífico: contanto que. todos os três meses. Muito frequentemente dobrava de preço. desde que constituíssem processos de promover 115 . mentira. pagando a fazenda por um preço incomportável em relação às suas bolsas e fora do senso comum. Num plano superior. Aconteceu numa aldeia serrana dois regatões encontrarem-se a disputar. 65 unidades.. Aqui. quando se recusava a encarar o crime de parricídio. Atrás de Corbet postavam-se Insulae laxe jacentes. trouxesse na cova da mão duas areias do oiro negro. uns punhados de minério. resvés do irracional. a 400 contos. metallo divites.. de Avienus. como daí em escala degressiva em todos aqueles que estavam ao serviço de cada uma das entidades. à conta destes seus amos. o grande insular professava que atrás de semelhantes agentes. Da carga destes dois apenas um dízimo era aproveitável. arribavam apenas dois. ou considerado como tal. A certa altura. entre 400 e 500 escudos. um conduzido em maca para o hospital. queria dizer: daqui para cima. como é de supor que andassem os hebreus no deserto. Dolo.

era um recurso industrial como outro qualquer. Se os seus agentes fechavam os olhos e compravam o que se lhes oferecia. bem embora o sorriso muitas vezes lhe fugisse para esgar. mas dando a impressão de tornar sempre ao seu ser como de borracha. como tinha por norma. de contestar. Franz Hincker explicava o fenômeno dizendo: . Mister Corbet. Nas costeiras do Alva descobrira-se um cabeço cuja areia preta e lustrosa orçava em seu peso pelo do volfrâmio. Os chauffeurs da praça de Viseu. A grandeza da Ilha está nisto: possuir árvores das patacas em todo o mundo.O dinheirinho com que temos de nos esportular sai-nos do lombo. inclusive em Portugal. A sua predisposição para a mascambilha era proporcional à longanimidade com que encarava os seus desbaratos na guerra: sempre gentil-homem. caçados cada um por sua vez a surrípiar do monte em desproveito dos restantes. cometido é muito provável na exploração de Santo Antão. como tantas vezes. não lhe ficava o direito de ser desconfiado. tornavam-se ordinários. tudo levava a crer que a operação seria feita com o seu beneplácito. cobrir a oferta. procuraram desde o início montar as suas separadoras. gênero Leónidas Seixas. sem atender à origem. do concorrente. abana a árvore das patacas e é só abrir a boca ao saco.já o germano confundia os processos de informação com a espionagem. mas admitida. Mas os milicianos. Como o vendedor era parente do Calhorra. à porta fechada. de pôr em dúvida. e recusou terminantemente. A tout seigneur tout honneur. Por essas e outras razões farejou grosso latrocínio. Explorações categorizadas. fritando-o. de antemão sabiam que iam buscar uma taleigada da miraculosa terra. todos os passos lhe parecendo bons para estar a par que no Santo Antão os sócios se roubavam uns aos outros o mais honradamente que podiam. Quem pagava as favas. O senhor Hincker conhecia todos os artifícios do comércio e industriava os seus agentes na arte de descobrir as esparreIas e chincá-las ou deixá-las armadas para os parolos da outra coriróbia. Manifestou. mais contuso que o canganho. outro tanto não fazia ele. se umas vezes logravam o próximo. mas velhaco. Embora. O José dos Cambais e o Silvestre Calhorra. Não lho consentia de resto a situação que ocupava. senhor deste mundo e do outro. propuseram-lhe a venda.o negócio do volfrâmio. não poucas eram logrados pelo campónio mazombo. Aquele dia em Mouramorta. Resultava de tal consenso que procuravam todos empulhar-se uns aos outros o mais conspicuamente possível. era o lorde. e que falsificar o minério. em última análise. mas primeiro havia de a mercadoria passar pela separadora. duma grossa porção de minério. E pregavam-lha na menina do olho. Por sua condição tradicional de ricaço. Para atalhar 116 . desencantando-lhe substitutos falaciosos. como Sobriga. por conseguinte de prática corrente. Tojeira e Muradais. Teimaram em mostrar-lhe a fazenda e fechar o negócio de afogadilho. este simpático e glorioso Portugal. Não tardou que o monte aparecesse lorgado como as saibreiras que se entremostram à margem das fábricas de cerâmica. discutível ainda. Entre eles a descompostura era quase quotidiana. sempre de sorriso nos lábios. quando um destes fura-paredes lhes mandava bater para Arganil. esse. De sobra sabia pelos seus secretas . tinham chegado no calor do despique a testemunhar-se em público e raso de gatunos e difamadores. comprando na boca do lobo. O singular é que o ludíbrio se exercesse em regra com a facção insular. que jogavam ao ganha-tudo. a sua receptiva para o roubo estava a toda a prova.

E bem disposto. Riram e não houve remédio senão render-se ao amável dictat. veio o Antoninho Fráguas por sua vez.. com arcanjos a guardá-lo de espada desembainhada. altas horas. sempre mais outro. e de novo o saco foi trocado por um terceiro. de modo que se não soubesse. servem a todos os corpos. optimista consigo e com Deus.. .. boa para retém. Os engenheiros despiram as camurcinas. Mas Hincker persistiu: . Seria preciso ter muito cuidado com a língua. destes dias que no campo. numa cadela inenodável e sem fim. tira-lha? . no gênero da cadeia da felicidade inventada pelo maduro anglo-saxão. Iriam os sacos da mexerufada logrando um e outro. claro com os devidos resguardos. a coisa foi realizada com tanta presteza e rasgo por parte do canejo. matutaram em muitos e vários remédios. depois de pesado? Vendê-lo à boca do poço? Quanto a depositá-lo.? Arranjam-se smokings e casacas para os mais exigentes. muito apertadas quanto ao policiamento da mina que a gatunagem andava mais sobeja do que nunca. no fundo contentes por irem espairecer num dia de sol e verem o seu landegrave satisfeito. Não era nada prático.Os senhores vêm. achou tudo em ordem e o trabalho em bom andamento. De facto.. muito embora a sacristia fosse do pároco. após invernada. Quando chegou à mina. só desbocados poderiam taxar o acto de escandaloso. Lá em casa há um variadíssimo guarda-roupa. os pardais que saltitam à volta do fachoco de palha que cresceu da matança do porco. Severo Bacelar quis desculpar-se com o seu trajo de cote. No dia seguinte. Depositar o minério extraído cada dia em lugar competente.. engrolando-os a todos muito bem engrolados até aos cadinhos de Birmingliam e Newcastle? Franz Hincker.. depois duma rápida visita à exploração. tão pouco curial. Sim. Vou telefonar a minha filha que reforce apopote. Da sequência deste jogo de enganos não soube informar a Hincker o seu espia nictalope. se tem chave. qual o lugar seguro. tinha também uma chave. . se revestem de leveza e luz tão branca e boreal que irradia certo ar de melindre e friabilidade da amplidão: terra. lembrou-se de convidar os engenheiros para o almoço. mas há de tudo neste mundo. São sobre o largo. a voz aprendida com os senhores padres nas Orações Secretas da santa missinha. por causa dos pedreiros-livres. quem acompanha a fazenda? Eu? Não obstante o tropeção de que padecia. árvores. Entendem que se devem vestir a preceito.à desconfiança que lhes roía por dentro. sair de noite. depois que recusara o volfrâmio de Mourarnorta. que nem sequer a cachorra do Reganha deu o alamiré. Deram ordens. e ora se transvertia naqueles abomináveis bate-línguas. falou na sacristia. Estava um saboroso dia de sol. que lhes permitisse dormir a sono solto sobre o seu bem? Nem no Paraíso à mão direita de Deus Padre. os penedos que parece terem perdido daquela manhã em diante um pouco o ar baturro. O sacristão. O Calhorra em voz baixa. acumulado desde o princípio do mundo.E nos carretos de noite.Ora. ao passo que o automóvel corria a toda para o Vale das Donas. mas onde? Sim. e os colegas escudaram-se em iguais considerandos. pães. Torceu o nariz. entrar de noite com o minério. atestado de morraça. largos..? Ora. Tadeu hesitou.obviou o Calhorra. inviolável. para mais. não era mau expediente. desfiava todos estes ardis de peles-vermelhas.... e depois duma escovadela aos fatos e 117 .

Se recusa. Mas eu não os quero para combate. afagando-lhe os barbilhões.acrescentou Hincker sorrindo.Ou que lhes foram raptadas . Hincker tinha pronunciada simpatia por aquele espírito de pedreiro-livre. Gosto a valer destes bichos. um belo galo andaluz dandinava-se a meio duma rebanhada de galinhas de toda a casta. depois de pedir vénia.emitiu Manuel Torres. .. As notícias eram anódirias. uma caixa de charutos que estendeu aberta para os convidados: . Quando viu o amo saltar do automóvel. contra os seus hábitos inveterados. venha almoçar connosco.São para combate? . estes são bichos de paz. juntamente com o correio. . Pararam à porta do homem afável e obrigaram-no..É muito meu amigo . . .. liberalão. Lobão no foro e lobão na gana com que lhes metia o dente.perguntou o Dr.Um charutinho.. germanó fobo na ordem do lugar-comum. a boa vila de Tendais com o seu bosquedo de carvalhas ao norte. proferiu para o Dr. torcendo por Malhadas a embarcar o Dr. Pegando dum postal a cores que representava um aviador de uniforme. É verdade que tenho ali dois de combate.. Calabaz. foi buscar o correio e. Em Mouramorta deparou-se-lhes o advogado topa-a-tudo Dr. Hincker sorriu da frase inconsiderada do bacharel.chapéus abalaram com Hincker. Arpou-o de passagem. Guilherme Cabalaz.. perfeita paz octaviana. Era perto da uma hora. No pátio da residência.Não. Quero-os para vistas..Tenho para aí mais. em dialéctica com ele. de raça indostânica.Nem fum nem fum e meio.. o excelente Nestor jácome. e Hincker convidou-o a subir para a sua arca de Noé.Subam. porque em poucas espécies está mais desenvolvido o instinto sexual do que nos galináceos. Pois que vinha o boticário. deram de cara com o boticário. a derribar-lhe as construções lógicas com o mesmo regalo com que o batia ao xadrez. mal parecia que não viesse o médico.É verdade. . impávido e garboso. por conseguinte. Lábios a espremer o havano. . adiantou-se para ele. Manuel Torres. laureado com as Folhas de Carvalho... julgo eu. . as galinhas dos outros poleiros deviam ser odaliscas suas . mando-o pôr na lista negra da Gestapo. pelo que envolvia de obsesso quanto ao carácter do seu povo: . façam favor. a cuja sombra se fazia todos os quinze dias uma ruidosa e amoiriscada feira. Largaram. Manuel Torres que pousava ao tempo na casa da serra. no dizer do Café Bijou o Lobão dos volframistas.gracejou Calabaz. Logo hei-delhes mostrar a colecção.Amigo Jácome. Hincker não lhe deixou abrir a boca: . ocupou-se.. a almoçar fora de casa. em rasgar cintas e sobrescritos. e por isto. e entretinha-se muitas vezes.Todos os galos são mais ou menos combativos . Estão no outro lado do quintal. O farmacêutico ia a escusar-se. familiarmente: . apurada pelos Ingleses. largando um gó-gó-gó que pareceu o mais jovial dos cumprimentos. Na sala. Diante do semelhante recusam-se a ver outra coisa que não seja um rival.. tão destro a manusear a espátula na farmácia como a espingarda no monte e toda a sorte de redes no rio. à sua direita: 118 . .E que.declarou para os convidados. Quando entraram em Tendais.

à retaguarda. .. embora não passasse pelo desaire de ontem receber um capote. a abundância.Aqui está o comandante da esquadrilha Condor.proferiu Jácome. Mas. Era sobre a tarde e entraram ardidamente pelos hors-d'oeuvre. . que Hincker. O farmacêutico sorriu e disse galhofeiramente: . é o cadete . com Lenine no Krerrilim. Hincker saiu-lhe ao encontro agradecido e hospitaleiro. que nem vale a pena mencionar o arranhão que uma bala fez no peito de Karl e a cabeça do dedo que voou ao marujo em combate com torpedeiros. ao mesmo tempo que vinha curriprimentar os convidados. Entrei pela Sibéria. Anunciou-se no patamar o simpático Dr. que debaixo dos olhos punha um matiz de leite e carmesim. mas nada sabe negar aos regalos da vida. ao bacará. ..Tudo vai na sorte. por um trigueiro mais ao estilo da cromática portuguesa e com o seu sabor entre ibérico e loiro do Norte. Bati-me na defesa de Quiao-Tcheou. A guerra mata muita gente.. A mesa dum teutão é dum teutão e de mais ninguém. A série de pratos. precisa bem deles a Alemanha na frente russa. Eu fiz a Grande Guerra.Tudo vai na sorte. arrancam-na a quem lhes cai nas mãos. . Telo. meio vivas. mas como os que mandam para a Rússia têm de ser de pele. Os engenheiros vieram considerar circunspectos aquele ás da guerra. com prateleiras povoadas de cristais de Boémia e estanhos flamengos e alemães do mais esquisito talho.. de que faz parte o meu Karl. adornara nos espaços compreendidos entre os contadores rotundos e luzentes.. Entretanto Paulinha. veja. ao gosto tudesco. diferentes de cor como de tamanho. nós os Alemães somos tão generosos que começamos por dá-los aos nossos amigos. .Sim. .Até a data todos sem novidade. . 119 . mas o que se chama um capote. pareciam dirigir aos hóspedes um sorriso derradeiro.Capotes. condimentados sui generis. entre os quais contava o caviar. indolentemente.Que não foi o de Aquiles . Resplandeciam na grande mesa o linho de brocado e. Os ares bravios tinham-lhe roubado à tez o rubor melindroso de peónia. . o antigo e vasto refeitório da casa morgadia. em frente de cada talher. mas felizmente ainda é maior o número dos que escapam. Hoje a precisão é relativa. No Chemin de table. compartes duma culinária planturosa. que um enredo de amor se atara entre eles. entrando.. senão faltaria ao meu amigo o melhor cliente dos rebuçados de avenca.Precisou.Este pertence à Luftwaffe. Parecia mais mulher e mais graciosa depois de desterrada na serra. e fui incorporado no regimento que mais sofreu na ofensiva de Amiens. esbatendo a rede vascular finíssima. advertia que o almoço estava servido. e. as flautas de Pá dos copos.Todos sem novidade? . o paladar sobre o substancial. E querem saber? Apenas uma bala me feriu no calcanhar. que tudo pede ao esforço.. . são privativos desta gente gastadora. O mais novo anda nos submarinos. meio prostradas..O mais velho é tenente de artilheiros e lá está para leste. para os vinhos variados. Sentia-se no seu ar feliz e desembaraçado e na postura de Bacelar. Encaminharam-se todos em rumoroso à-vontade para a sala de jantar. Paula semeara violetas.. de facto.tornou ele.Decerto.

sabem os senhores.. Paula. Mas de tudo isso que fica senão ódio e poeira? Das nossas.Delicioso para sardinhas assadas. Rüdesheim. . levantando também o seu copo e mergulhando olhos regalados na limpidez do vinho. Der Wlein von Rhein ist immer gut. original. depois dos estalos da lei. não.Uma gota do nosso vinho.Ah! ah? Aí tem uma sentença inglesa que pela primeira vez está certa? Sim. além dum regalo. de tal ordem que pode dizer-se.O meu caro engenheiro não precisa. próprio dos xistos argilosos e margas terciárias do Rheingau. O senhor Hincker. . der Moselwein nicht schaden thut. os senhores fazem revoluções. obra de titãs. neste meio tempo. a guerra de morte entre os dois colossos. das que pingam no pão. proferiu baixinho para Calabaz. A Alemanha é o primeiro e talvez o único país verdadeiramente revolucionário do mundo.. deixa-me rir? O que os senhores fazem não é revolução. O Dr. aproximando o copo dos lábios.surpresa inédita para a maior parte dos comensais. senhor. o inverno. com o fervor do discurso. Hincker secundou. se quero ver o mundo novo . traduziu Bacelar. . pegando na garrafa do Reno de colo alto. dizia ele.. Não fazem mesmo ideia nenhuma. filho da terra. Napoleão. cultivado nas encostas da Beira.. inocência perfeita o do Mosela. Com semelhante iguaria.Que tal. diga lá se não tem o picãozinho do palhete. Se os Alemães se batessem em nome do existente. O doutor tornou a levantar o copo ao alto...Bebe-se e a gente fica mais moça. . senhor doutor Torres. A França fez revoluções.. De acordo. eu seria o primeiro a dizer aos meus filhos que desertassem. ah. Os senhores não conhecem a Alemanha que está de armas em punho a defender o direito à existência e. esquecera-se dos seus hóspedes. .? . o vinho do Reno.. Beberam todos com a devida mesura o vinho raro. absolut a dentro daquele seu flavor característico.. à sua direita: . nem haverá no mundo um Doutor Fausto capaz de fabricá-lo a martelo? Vergissmeinnicht em sublirriação.Branco e seco.O vinho do Reno é a bondade pura. chamado a derrotar o rascãozinho da terra. começou por oferecer ao advogado de Lisboa: . a Inglaterra sonhou com revoluções. Hincker. da latitude. . . lembra o Douro. Das nossas pouco se vai em resíduo.. proferiu depois de dar um estalido na boca: .. O boticário. sim.O Rheingau. meu doutor? .murmurou Jácome. derradeiras sarandalhas do espólio da paz. Países revolucionários os vossos?? Ah.interrogou Hincker como o visse levar com toda a vénia o copo à boca e demorar o gole. gracejando. . um aroma original. com a reverência dum oficiante. volvera mais animado ao tema patético: Diz o amigo Jácome que este mundo precisa virado. veio à baila a Rússia sem fim. Mas não. Também assim é escarpado e em escaleiras. O grosso fica.. Torres. libando com respeito. sem receio de errar que jamais houve.emitiu.. é uma terapêutica.. Conhece? Foi meu irmão Hans que de França nos mandou para cá uma caixa de garrafas. para matarmos saudades da Alemanha. Nestor Jácome. com isso. e mais qualquer coisa. a Europa.Good Hoch keeps off the doctor. do sol.. é chinfrim. Não passa de abrir ao verde dos concidadãos e 120 . Eu é que preciso de deitar uns anos fora.

O senhor Hincker a meio já do aparte naturalista retomara o fio do discurso. semelhantemente.Esses mesmos. Fizemos uma boa provisão deles. . vivia em estado de ânsia. Todo esse imenso território jaz petrificado. sempre passos. desde que a Europa era uma realidade política. Foi ela. demonstre! . Folgaram todos com o paralogismo. . mais do que isso: nunca estamos satisfeitos. porque se renova dia a dia. Ao hors-d'oeuvre seguiu-se a sopa de cogumelos colhidos na região. Berengela. Os engenheiros pediram licença para repetir.Com esses nomes todos. que se passa na Eslávia? Nada. aquela tinha muitas irmãs: Mafalda.disse Torres. Também lhes chamam sanchas.. solitários como os monges. como imóvel tinha estado. fechados uma moquinha.. boa.tornou Paulinha.. que fundouo recolhimento das emparedadas de Alenquer. Haverá sempre melhoramentos a introduzir na máquina e na fábrica. temperados à meclemburguesa.. são de culinária fidalga! . podia dizer-se.Da mais genuína. .Mas é preciso demonstrá-lo..? . jácome interveio com a sua experiência de homem do monte: É a única espécie que os camponeses da Beira aproveitam além duma outra que nasce nos terrenos alagadiços.Demonstre lá. Sancha. o Alemão deverá chamar-se homo faber perfecturus. rainha santa de Portugal? . mesmo nada. os marcos que estão à entrada das portas. o Eslavo. quando furam do solo. A Alemanha.. Não houve uma D. lisonjeada como boa dona de casa. Para os lados de Malhadas há muitos. . amigo Hincker. vegetam debaixo da terra. 121 . O Eslavo. de lamber os beiços. E é-o porque nunca se contenta com o que está e com o que tem. Paula.Uns que têm coleira e abertos parecem uma guarda-chuva. por exemplo.deitar pólvora a pardais. porque é dinâmica por excelência. lhe chamam frades. . nem às aias deixava ver a ponta do pé.Houve e até é possível. no bem-estar do habitante e na assistência pública. uma simplificação a realizar na orgânica de tal indústria ou norma administrativa. o Alemão era insatisfeito. apurada em Roma. .A princesa viveu sempre muito recatada. Estas sanchas. proferiu: . com um pouco de fantasia. de resto.. Toletum. No dia em que conseguisse instalar a sua ordem ficaria imóvel até o fim dos tempos. determinar o passadiço entre estas criptogâmicas e a princesa afonsina . Branca.?! A partir da Idade Média que vemos nós? Vemos as cidades e as nações do Ocidente agruparem-se em hansas e confederações. mais prático. o que é.. Tal qual estas. Não duvidassem.Deram conta que é feita com míscaros? Pois é. decantam no fervedoiro que é a guerra os povos vários. e ainda porque lembram. um nome lindo. Pelo aspecto. tão pitoresco. Além de homo faber. sim. A esses fungos chamam frades. e talvez porque apenas se encontram isolados.Frade? . dão o nome de gasalhos. mas um pouco ácida e maciça. e Brácara Augusta. uma corrida a fazer para mais perfeito.emitiu Jácome com intimativa. denotando o dedo químico de gastrónomos de moela de avestruz. Nunca estamos quietos. não. e não se compreende bem que sejam assim exclusivos sendo tão párias. mais conforme. e outras e outras de que não reza a história. é revolucionária. mais amplo. Têm medo da morte. Também lhes. O mundo asfixiava-o.

. arrancado de premissas apenas negativistas.O mundo não é nenhuma delícia. inteligente. Mas também nunca poderá ser o paraíso terreal com que o senhor sonha e os seus amigos eslavos sonham. concebido para a imobilidade. ..respondeu Hincker.E acaba-se com ele. o desmesurado que trasvasa às suas espaldas da velha Ásia. e já tem um século. O dono da casa riu-se e permitiu-se dizer: . Não lhes parece? Ora. e uma planificação da vida também sobre o ingente. Sabe como se obtém tal resultado? Empregando um pequeno aparelho que na Alemanha é trivial como aqui. Está escrito por Hegel. estão frescas como se tivessem sido colhidas na mesma da hora. numa gargalhada. que de resto são coisas muito distintas. ou se ouviu fez de conta que não percebeu. digo eu. . dê forma à sua psique. excessiva em tudo. apenas se explica com um nateiro destes. por agora indeterminada ululante lhe chamaria Keyserling . o infinito da estepe e o desmesurado.Lutar é mais que um meio. oh. pelo contrário.Os senhores foram à índia e lá ficaram. isto é. iniquidades que o cérebro dum homem perverso e inteligente. hem? .E daí? . ponderem os senhores. ou Weckglãser com sua bateria de 122 . amigo Hincker. que maravilharam o boticário. em que o Eslavo firmar a sua ordem. Hincker não se dignou responder e prosseguiu: . como não podia deixar de ser. o quê? como aqui a vinagreira. A sina do Europeu é a luta. Estou persuadido que esse mundo. um modo de ser congénito ao nosso eu em todas as demonstrações possíveis e imagináveis da plana universal. por todos os nossos filósofos. Estas ervilhas julgam que as recebi do Algarve ou da Califórnia? Não senhor. podia conceber? . sim. Lá nisso estamos de acordo. o Weck. Neste instante a atenção dos comensais foi chamada para a travessa de pombos guisados com ervilhas. no dia. não? tornou Jácome com faceta seriedade. estacado na sua estepe. a ver passar os tempos. sim. para nós é que não serve. porque acrescentou no tom do pregador que perora: . . estigma com o qual se julga afrontado e é legítimo que não se conforme.lançou o farmacêutico com arreganho. . falha de todo o proporcionado entre a natureza e o espírito. Por consequência. tem vivido debaixo do signo zodiacal da servitude. quer dizer: arrumado por Pedro? Pedro o Grande. com neves eternas.Petrificado. religiões eternas. vejam. . O mundo de hoje é a organização mais assombrosa de prepotência. O budismo.Nesse dia. para europeus viver é lutar. convenho.repetiu o médico intrigado. . O Moscovita. foram apanhadas aqui no quintal vai em cinco meses. Isso quebra ela! Ora no compleicional do Eslavo entra.Tem história? Qual! Tem menos história que a mais insignificante tribo mesopotâmica. banditismo.ficará imóvel. a fugir para a horta.Em cinco meses? . umas ervilhas tão viçosas.Uma raça não quebra dum dia para o outro as matrizes em que foi moldada. Lutar para ele não pode ser mais que encontrar o equilíbrio entre a sua ânsia de justiça e o estigma da sua condição.É verdade e.. ninguém escapa à sina com que foi gerado.É com teorias assim puxavantes .. o Eslavo regenerou o mundo.murmurou Jácome entre dentes que os povos acordam de quando em quando atascados em sarrabulho? Hincker não ouviu o remoque.

O farmacêutico. A criada. O senhor Hincker dá licença que do pessoal de Vale das Donas saia uma turma. . Como agora. aí vinte homens. senhor Incas? A história deste caçador furtivo era a história do mundo e das nações. serviu Tckay. Ah. da boca. ao alcance do pau. sempre frescos e tenrinhos. nem se pergunta? . uma revoada de pombas. são inúmeras e valem o melhor prato de resistência de qualquer outra cozinha. amigo Jácome@?. Há dois homens soterrados e outros feridos. que chegara de bicicleta e pedia urgentemente para lhe falar. Hincker distribuiu os charutos raros e levantavam a primeira saúde. dizendo: . Mal dele se uma. Andou à roda o vinho clarete do Dão. no largo. descuidadas. dizia-lhe de baixo corri certo ar risonho.. na linha da frente.. uma vez mais.Para adubar o caldinho. Um deles é o Calhorra. que se saracoteavam pela feira bica que bica a migalhinha que o pobre deixou cair do bornal ou o menino. E. açoitando o ar com estridor. ia a levar o copo à boca e estacou com ar de solenidade: . se aproximassem. Severo ergueu-se. e ali ninguém lho negava. mas nós é que somos bárbaros.Entendamo-nos. ao menos. O bandoleiro do Badanas. para não perder o benfeitor. mostrando-se a rua deserta.frascos. vendo Hincker de ar cominatório. não acabava de estrebuchar nos abismos da algibeira. Não tardou que voltasse. Essa é de relevo. seguido do olhar apreensivo de Hincker e dos engenheiros. o vinho sonolento das catacumbas hungáricas. industriada já à maneira tudesca. vieram advertir Bacelar que estava no pátio um contramestre da mina do Vale das Donas.? Ora essa. Estavam no capítulo das saladas que. levava horas e horas à espreita que as pombas. despedia-lhes a cacetada. Ao passar diante da janela.já deviam lá estar. deve-o a tais ou tais representantes da autoridade pelas violências que cometem ou deixam cometer. ao estilo nórdico. à capucha. chamou-lhe a atençã o para a rua. Quando elas chegavam. Para Jácome o direito do silogismo era o direito de pensar livre e desassombradamente.Deu-se um desmoronamento em Santo Antão. o seu puro sangue ariano. a qualquer altura do ano. em socorro dos sinistrados. O próprio. meio de raposo. Se alguém lhe chama país bárbaro. em nome do que julgam ser o direito da nação mais digna da hegemonia universal. de certa importância. meio de filósofo cínico: . Tinha amainado a disputa. ou por filosofia. semeava pelo chão o seu dedal de milho. silogismos à parte. Que o façam porque lhes está na massa do sengue. Para mim a Alemanha não é um país bárbaro em virtude da posição que ocupa entre os povos sob o ponto de vista de progresso. acabava de praticar uma das suas habituais piratarias. para os toasts. Vara rúbida de marmelo especada no sovaco. que nunca falta na garrafeira dum sibarita de além-Reno.exclamou Hincker levantando-se. amigos amigos. vem dar ao mesmo. que durante os discursos de Hincker não deixara um só momento de abanar a cabeça em sinal de discordância. Com o fim de ir buscar charutos “como só fumava o sultão AbdulHarnid” Hincker pediu vénia para sair por um momento. de cenho carregado. palpitando caso de monta. 123 . Com ele tem-se horta e pomar em casa.

aventureiro a quem. hesitaram. . outras preso à sua palavra como o mais lídimo Bayard. .. 124 .. que vá tudo! . O Dr..neto daqueles montanheses que não deixavam coalhar um só instante.. não é assim. que vão cinquenta. a paz pretoriana de Roma – umas vezes sem escrúpulo nenhum. nas ricas regiões da Bética.. vai de automóvel e vamos todos.O caso era novo. Telo e jácome podem fazer o obséquio de nos acompanhar? Profissionalmente. no pendor dos anos. acompanho o capataz. que vão vinte.Não.? Minutos depois corriam a toda para Mouramorta com o pensamento no velho Calhorra.Pois que vão.. Peço aí uma bicicleta..Se não levam a mal. ainda nada metia medo .

instado pelo José dos Cambais.Este dinheiro é pedra de ara. Para maior solenidade na promessa. deixando mulher e filhos que no dia seguinte se viam pelas leiras. mais dobrados para o chão. seu sogro apalavrado. Miguel. impelido pelo calcadoiro que as pessoas fizeram à volta na precipitação de acudirem. Tinha amor à vida o velho gerifalte. mas de todo ignorante. além disso. . se tinha amor ao pêlo. O Calhorra. Ora foi no encalço de semelhante veio que se descuidaram imprudentemente das disposições de segurança que convinha adoptar. envolvido este em surraipa ruim de desmontar. e com a ajuda dos facultativos operou o milagre. rolou para a escavação de mistura com o material acumulado na borda. S. e toca “a dar-lhe para a frente”. pés descalços e sem fala na procissão. e que a derrocada se deu. e uma ferida bastante profunda na nuca causada por um penedo que se despenhara da ribanceira. afinal de contas. Lá foram para a terra da verdade.vieram a lucrar. Nos últimos dias haviam batido num braço de filão que prometia. e escapou. Ao introduzir a sonda. Tendo 125 . com mister Corbet à testa . que são os seus procuradores na terra. pois que gemia e queixava-se de dores agudas nas costelas. rocha em punho. mais restos dos sentidos. o Calhorra propunha-se obter o máximo resultado com o mínimo de dispêndio. quando o doutor retirou. Com a freima exaustinada dos salvadores . não se metesse no chafurdo. é que não houve santo nem santa que valesse. era a dum cavalo. recomendando que reforçassem os tapumes de suporte com astiais mais sólidos e melhor ligados uns aos outros. Verónica obedeceu e ele mandou-lhe tirar dez notas do macinho embrulhado na bula da Cruzada. que vigiava à boca do poço. Sobre a noite. que era a primeira a celebrar-se na freguesia. Ninguém o julgava! Aos dois homens.em menos de meia hora esteve ali botado o pessoal todo de Vale das Donas e um numeroso piquete de Muradais. balanceara a cabeça desaprovativamente. ao rebusco de volfro com que pagar o enterrio. o médico franzira os lábios num jeito de dúvida e recusara pronunciar-se quanto a semelhante golpe e ainda quanto às lesões internas que pudesse ter no peito. mas que se engolfava lá muito pela terra dentro num gaveto de rocha viva. Ficou coberto pelos entulhos até meio corpo. A entivagem era a mais precária que se pode imaginar. Homem de entendimento claro. Miguel. e os santinhos ou os padres. na sua procissão. Em particular. pediu à mulher que lhe passasse a caixinha de lata que ela sabia. sobre ele jurou que se escapasse daquela havia de pesar-se a trigo em prol do bento S. teria empenho em ver o grande salafrário amortalhado de penitente. e. além de lhe oferecer um círio da sua altura. os donos da exploração. não se lhe toca. figurar de amortalhado. podem chamá-lo ao cofre. armar-lhe um andor na festa de S. pegando do crucifixo. em despeito dos setenta anos. tirados debaixo dos escombros depois e porfiosa labuta. Safaram-no dali com largas escoriações nas tíbias. Escape eu. foi dizendo ao lavrador que. o Calhorra chamou os filhos e a mulher. a emitir opinião como prático. O Aires.IX A constituição de Silvestre Calhorra. Brás. O desastre fora previsto. E.

desafiando uns. desde o boléu. fungando: 126 . tratou de amochilá-lo na segura carteira de coiro. ora se virava doutro.recebido a mina limpa como dantes. O Calhorra era de bom cerne e a convalescença foi avançando mercê dos caldinhos gordos e da graça de Deus. é verdade. “para não perder tudo” . ficou de pé atrás ao ouvir tal proposta.. A raposa. nem um real a mais. trancada por grossíssimo elástico. O Calhorra ao sétimo dia já se arrastava até à quintã a espreitar o sol.. e o Calhorra. E recomeçaram. certa espécie rara de alegria que por ser mais funda atravessa todas as camadas sedimentares da alma e ala-se à luz.Andamos a pagar a culpa de os ter deitado ao mundo. em seu horror. tinham-lhe alimpado com quanto arame lá havia. Excomungados.Se calhar. ora se virava dum lado. morria se não jogava aos passantes a sua chalaça. coisa dos seus cem mil réis. não viesse por lá a borra à superfície. porque lhe doía a ilharga. que não era destituída de siso e tinha alguma coisa de seu.O que valeu foi estar o outro em sítio onde os lobatos não sonham disse em voz atrida para a mulher. fora da vista. nem um real a menos. Rosa falara algumas vezes em vendê-la. Lá estava o dinheirinho. Correu Verónica ao esconderijo. Agora dispensava tesoureiros. Ele explicou: era para semear um pinhal... acalentado por outros. E como nada lhe passasse despercebido à pupila abelhuda. ainda para mais salgadinho como andava na Fazenda? Por isso ela.. alegria de vê-lo são e salvo. se os gados dessem licença. os galos e as cabras de Pedrões não deixavam ir um pé de milho avante. ou bem o pesar de reconhecer a ruindade dos três mariolas juntamente com a perspectiva de se ver por portas? .alegaram eles em guisa de explicação ao público que. Um dia que a Rosa Pedralva se quedou acocorada ao lado dele. que não valem a baba dum caracol.. situada do lado de lá do rio. fugindo de agitar aquela cabaça velha. . para mais que não para menos? . estritamente. divino Senhor. levado bebedeira pegada. disse à criatura: ó Rosa. que veio ao conhecimento terem os filhos. como na nau Catrineta? A mulher espremeu uma lágrima. só servia de consumição. o tio Silvestre sonhou por lá com alguma mina de volfro? O Calhorra ergueu as espáduas. E corno o facto lhe causasse estranheza mandou Verónica buscar a caixinha em que lançava as economias. quanto queres pela barrosela da Laja dos Lobos? Sempre ta compro. sobressaltada com a ideia de que tivesse varrido por ali a mão dos tunantes. mas quem se tentava por semelhante chaparral. repartindo a sede entre a venda e a pipinha de casa.. em poucos anos punham-se mais altas que uma aguilhada. já que a tei de todo o comércio é a exactidão.. remolhada de lágrimas. andava falto de estacas para os feijões. Foi por este canal. tendo-o contado. podiam recomeçar quando lhes apetecesse. com um pauzinho a riscar no terreiro a par e passo que desfiava coisas e loisas da vida.Guardaste ao menos o conto de réis para o voto? tornou-lhe ele. Aquela leira. Se eu for antes de ti. Ali. Para outra coisa aquilo não valia um chavo furado. precata-te que te comem sem te tirar à sorte. e em seu foro a primeira dívida a pagar seria aos santos. Deitado na capucha. ficando o Calhorra sem saber o que pretendia significar tal demonstração: alegria. considerava interdito à cobiça o campo homicida. Mas ela não desandava lá da sua: .

pois lá assistia o patrono. guardava-lhes o troco. anjinhos e amortalhados. anjinbos e 127 . encostado à bengala de rangífer. Bem era. que vou largar do precipício do Santo Antão. Diabos o levem. principalmente a escorar os cortes. da Laja dos Lobos. onde incorporava a quota que cabia à sede da paróquia em andores. Brás. Dois dias depois. das almas do Crasto. o carro do Calhorra começou acarretar a parede. E não houve razões que o levassem a mudar de parecer. invocando a sua enfermidade. e a depositá-la no quinteiro que possuía à Boa Vista. bonitas contas deitou à consciência enquanto esteve a bater a bota!? . Estou um cepo. com seu eixo em S. lhe contou o sinal. já lá andavam a esfossar.Enganas-te. Era uma das grandes festas da freguesia. jurou que não tinha outro intuito que não fosse semear penisco. passou por ali o alamão. a advertir léguas em redondo da rija funçanata. Brás. fica-me lá muito longe para a guardar. nem o azeite para a lâmpada do Santí ssimo! Se lá houvesse volfro.. caiulhe o peso em cima. Quebrou com o José Francisco e o pai. raciocinando talvez que “bocado que eu não hei-de comer. que se permitiram abocanhá-lo em sua honra. restituo-te a leira. pediu pelo migalho o dobro do valor em que andava orçado: dezassete notas. Castigou-a e logo ali. Brás da Nave. deu por paus e por pedras. também em andores. Rosa.. que ficara a semelhante cemitério. não. Quando esta acabou. pedra por pedra. O número por excelência era a procissão que. mais não disse. mas semelhantes artificios oneravam a obra de 3/4 dos lucros obtidos.. em cuja capela acabava por engrossar com os elementos mais numerosos e capitais. . Não havia escritura.. para que se soubesse. dando nome à terra e obrigando ao forrobodó. mas dito dito. a instigação do Antoninho Fráguas. inibido. ali outra. coma-o o Diabo”. olha! E pela alma do pai. Não vale a pena mexermos na matriz.Olha.. Toda a noite os ecos repercutiram aos morteiros e foguetes de três respostas.O que vossemecê quis foram as pedras que estão coalhadas de volfro. Têm aqui uma pinta. fossem lá agarrar-lhe? Avisou deste desígnio os parceiros. Um engenheiro de Muradais veio de vistoria à exploração e ensinou-lhes o pe-a-pá Santa justa. confeccionados à compita pelo Chedas de Caria e a Rosa de Lamego. e embora “com pedra no sapato”. . quando o soube.. dia tão abençoado que caiu chuva no nabal e fez sol no terreiro. a osga com. Quanto aos impropérios. Chegou o dia de S.Minha rica. Lá se ia o pé-de-meia e a junta de vacas sobressalentes. com tanta surpresa dos compadres que a bocarra lhes ia de orelha a orelha e os olhos pareciam de olharapos. Rosa! Coalhadas de volfro. que o filão estava a render. A Pedralva devia-lhe obrigações. É para me entreter. partindo de Malhadas com espavento relativo. Sendo o Cambais o mais abonado. fazia romaria por Mouramorta. O Silvestre Calhorra. Fazendo um balanço do negócio e pesando bem os prós e contras. não achou nada de melhor que botar-se fora da sociedade. tinham voltado à mina. do avô. o Calhorra foi ver em que altura ia a trafega. e marchava para S. para mais. a quem em Portugal nada escapa. Olha. No dia seguinte. Com efeito. as despesas que tivera com médico e boticário. de modo a que o trabalho pudesse correr com segurança e o indispensável despacho. chamou a Pedralva e disse-lhe: .. do joguinho pessoal..

. quanto mais descer a ladrão com quem nos dá tud& Se não fosse por ser taxado de soberba. e todos os seus artifícios redundavam em farelório como foguetes de lágrimas. patrãozinho. desembolsando à justa. lhe mostrou quanto media. medir mais dois palmos de alto que o de S.Caramba. já daqui não queria ser aviado. Mas é a última vez! .Não sou.. Pagar as dívidas aos santos.Farto de me deixar roubar ando eu. tendo resultado uma bisarma tão sumptuosa que era preciso pegarem-lhe oito homens. produto do seu rico dinheiro. O Calhorra abanou repetidamente a cabeça sem soltar bus. mas não havia outro remédio senão arrotar. O mesmo unhas-de-fome se mostrou o Calhorra com o cirieiro. que remédio. fazê-lo segundo as regras.rosnou de maus fígados. não houve dúvida. e que o cirieiro compreendeu. Um metro e setenta e oito. . isto é. E que lá na sua queria dizer: a brincadeira dava-ta eu. pois embatucou e foi com respeito que. mas. Queria que botassem olhos pasmados ao portento e se dissesse: . com efeito. ainda mais comerciantes de pé fresco. o Calhorra exigia os tafetás mais garridos que trazia nos fardos e uma arquitectura espampanante em estilo só dele. mas nada de alargar os cordões à bolsa. de fita na unha. já que negócios são negócios.Levante a grimpa. nem sonhada. E ali marralharam os dois como se se tratasse de comprar os atafais para a besta num albardeiro da feira. tão alto que fosse preciso esgalhar as árvores pelos caminhos para romper. a fazê-lo.Tinha que é nessas profissões que se aprendem certas manhas que nós cá sabemos. e o lojista pegou do metro para lhe tirar a medida. seu homem. Prometera um círio da sua altura.Nem a torre dos Clérigos? . O mundo. que podiam tomá-lo de ponta. mas se fosse que tinha isso? . Quando aquilo viu. sorrindo com afabilidade. Miguel. orago da freguesia. Eram uns tantos mil réis que do samarro lhe saíam. se nã~o fosse a esquadra do Governo Civilficar aqui ao pé. 128 . nunca vista. O Calhorra concebera um andor ao Arcanjo S. Entre armador e Calhorra foi uma matação até chegarem a acordo.dizia o Urra que servira em artilheiros da Serra do Pilar.Não vê que são os anos.Não se abespinhe por tão pouco! Estou a brincar proferiu o comerciante. Pois que as celestes potestades não perdiam nada se comesse armador e cirieiro como fazia com os volframistas. .Qual anos nem qual carapuço! Olhe lá. embora debalde. quando neste passo prometi até ir descalço e sem fala. nunca se julgara tão alt& Do que ele rebaixava para o que era em seu ser iam nada menos de dez centímetros. Sebastião.amortalhados. galhardo e alto. mas quando encostou a grande tocha ao bento lado de S.. que foi preciso o homem meter-lhe um bote à barriga para o entesar: . o andor do tio Silvestre põe o ramo? Só se acomodou quando viu o andor. Pagou quanto o cirieiro quis. cáspite. . . vossemecê não será retroseiro? . quanta ronha podia. punha no lance. Miguel teve a consolação de notar que o arcanjo ficava ao pé dela como marujo ao pé dum mastro. andava com os olhos abertos. encolheu-se de tal modo. Além de regatearem quanto ao preço. dobrando-se ao mesmo tempo.

faria chorar as pedras. Rompiam primeiro os guiões. um sermão que há vinte anos era único e invariável e tinha o mérito de arrancar um chuveiro de lágrimas às mesmas caras e a outras que se dispunham a suceder-lhes em tal papel. Mas por mais de uma vez o penitente se queixou que o picavam. Mande rezar uma missa ao S. gravata. Miguel e está quite. Além de curta ficava-lhe apertada. Era gente expedita.a das Sete Espadas. os anjinhos não tiravam os olhos deles. que era em panocru.Prometi figurar na procissão de amortalhado e sem fala. Como era cedo. ainda a procissão estava a sair de Mouramorta. e a bateria de calos monstros verdadeiras nozelhas de carvalho. O Calhorra não quis nada com o fedelho e foi procurar o pároco verdadeiro: . O José Francisco era farfante e encarregou-se de levar o guião de Pedrões. esperou na venda do Adolfo que batesse a hora. Era o instante solene. Também era costume pedir a cruz de guizeiras a Rabaçais. quanto a acompanhar a procissão a seu destino. os mordomos deram voz para o saimento da procissão. À força de pontos e de alfinetes conseguiram enfiar-lha. e os rapazes outro a Santo Apolinário.O Simão Tadeu passara a sobrepeliz ao Custodinho da Micas. Brás. corrente de jarra ao peito. e muitas mãos se estenderam solicitamente a ajudar a vestir o senhor presidente da junta de Freguesia.Ide lá pôr alfinetes a casa do Catano! Isto é mortalha ou samarra dalgum oiriço-cacheiro?? O pior do pior foi quando teve de tirar os butes e ficar com os pés a descoberto. Mais dois. se fosse como o dos mais anos. fato de saragoça preta. ficavam à conta das esmolas angariadas pelos mordomos de porta em porta na roda do ano. O Calhorra assentiu. Brás e o de N. Havia ali outros penitentes com suas aderecistas. Que me diz V. Quando o foguetão estralejou à entrada do povo a comandar: a postos! dirigiu-se à sacristia da capela para em calma e à vontade envergar a mortalha. andores para outra. que lembravam as incrustações de certos moluscos na rocha. queda o voto por cumprir? . O desfraldar dos estandartes teve que se lhe diga. o que era um bico-de-obra. sempre o tio Silvestre no rebanho dos vultos brancos a dar nas vistas como o rei David. advogada nos achaques da vista. advogado nas quebraduras. e comprimiu-se o populacho contra as quatro paredes. foi um rufo. e foi preciso deitar abaixo a bainha. depois os andores. sôfrego de ouvir a missa a instrumental e o sermão que. As raparigas mandavam fazer um a Santa Luzia. alguns pedidos às igrejas vizinhas. Brás. R. na égua rabona com a Verónica à frente.? Se não vou. guião vermelho de 129 . A veste. com joanetes altos e rugosos. Perante tal abusão. Imensos e deformados pelo reumatismo. mas as pernas não me deixam fazer a romaria por Mouramorta.Ó meninos. e a cruz de latão com o Cristo de saiote a Manfurada.a S. Foi assim que se apresentou em S. para não parecer mal. estava-lhe curta. Depois do sermão. acolitado pelos abades de Pedrões e de Rabaçais. apartaram-se anjinhos e penitentes para uma banda.Não senhor. e foi de cara dura e voz que gelou o sorriso nos lábios dos circunstantes que disparou: . teve de os repreender: . música e canto. também à conta do pároco. nunca vistes as patas de vosso pai? Quando a procissão acedeu à capela. e por ali fora. Oficiava o reverendo Tadeu. e a mortalha no alforge. que aprendia para padre e já andava de saias. o de S. destes em lugar de honra os oferecidos pelos devotos de S. bem embora lhe soubesse a vinte escudos que era quanto escorria do seu bolso para o bolso do celebrante.

não há braço que aguente. O José Francisco.vara alta que nem um choupo. confiar-se. Depois. O Aires ergueu ainda mais alto e. opressos sob o peso dos grilhões e escravas.. Os bicos triangulares.. como se tal impotencia constituísse uma afronta para o seu brio de penitente. no momento mesmo em que começavam. o pano desfraldado revestia-se de alento superior ao seu. . Tinha centenas de olhos em cima dele. voto de um brasileiro à Virgem Santa Quitéria na iminência de se ver papado por um tubarão. voltavam-se enfunando o pano. sacudido pelo bater impetuoso da grande asa vermelha. ergueu o mordomo o braço: . que requeria pulso rijo e quem tivesse comido já umas certas rasas de sal. senhor Silvestre. ou davam tal açoite contra a vara. puído do tempo e fanado de suas lhamas e borlas. não obstante o grande peso das franjas de oiro. Levava-o Lázaro Fandinga e não era maravilha que arcasse com ele. Seguiu-se-lhe o guião verde.Ah. A grande asa rubra pareceu sentir o pulso forte. não se conteve que não bufasse: . em duas alas. ainda há rapazes? exclamou o Augusto Alres adiantando-se. atrás do Urra. e deixavam-se conduzir pela mão das matronas que os tinham caracterizado. O José Francisco ia a arriar mas o Calhorra. Ora o José Francisco. caminhou a ocupar o seu posto na procissão. imprimindo-lhe um alancão como se desprendesse uma ave. um dos mordomos proferiu: . que se tinha pelo mais valente. Dás licença?.Ainda há rapazes. O melhor é recolher os guiões. despregando-se. depois de o soerguer arqueou levemente o tronco para melhor lhe dar balanço e. remeteu-o às alturas. com ele tombado. Seguia-se-lhe o Manuel Calhorra que tinha corpanzil de boi e que também se avinha menos mal com o branco de Mouramorta. Com dó dele. Obstinava-se José Francisco. que ele via-se em sérios apuros para não o deixar abater sobre o gentio que recuava assustado a toda a roda. mas embora firmasse na cinta o conto da haste e com o desespero os dedos se lhe tornassem garra. às costas asas desplumadas de galinhas brancas e de patos. desatou aos bordos. com envergadura tal que cobria meio adro. um momento se encrespou. . que estava à entrada da galilé com o rancho. lá ia direito. fosse ele no meu tempo e vocês haviam de ver quantos apareciam para levar o guião? Acabou-se a rapaziada. com o seu encabado na faixa.. O Aires deu o chapéu a guardar. mal passou a galilé. e deitou as mãos ao estandarte. e. ao passo que a raiva e a amargura que lhe iam na alma lho enegreciam como fuligem.Está uma grande ventaneira. O terceiro era o tal pendão de Pedrões. Vendo a sua atrapalhação. moço.Quem leva o guião sou eu. deixa.. Sem pressas nem vagares. de ranho caído. tomado de furor.. flutuou a todo o pano com placidez e galhardia. Logo após avançava a chusma dos anjos. a enrolar o pano contra a vara para o recolher à igreja. Rolavam-lhe pelo rosto grossas bagas de suor.. raios.Deixa. refartos de 130 . O primeiro a romper fora o Quim da Urra e. com ele trepidante e majestoso. bem embora lhe exigisse mais esforço do que andar agarrado à marra. cuja carne banqueteara fidalgos e senhores eclesiásticos que já não eram deste mundo. largou-lhe o estandarte com gesto desdenhoso. Logo por fatalidade soprava ventinho rijo e repontão que desdobrava o pano melhor que asas de gaivota. Um boizana assim avanta com os telhados para os quintos quanto mais com um pendão'. sem dizer palavra. vestiu a opa.

bem como de Mouramorta. aquelas terras que lhe ficavam aquém. Caprichou o José Francisco em desertar da sua terra e vir alegrar Malhadas com a concertina. através das ruas varridas e com a gente ajoelhada pelos penedinhos. punha maior fanfúrria e era mais próprio dum dia de grande borga. as cruzes de prata e de latão refulgiam porum sol que teve a bondade de se associar à festividade. Desta feita a concertina cedeu a vez ao bombo. O facto prestou-se a que engrossassem os zunzuns que há muito andavam no ar.lindezas. o mesmo era que dissesse: . que era dança para todos. as duas alas. o mais alto dos amortalhados. O mordomo que estivera na pendência dos estandartes chegou-se neste entrementes ao Calhorra. Em verdade. além de Malhadas. ferrinhos e viola. que o descante. Quando ao entardecer a gentiaga dispersou. Brás.Falais ao toledo. O Joaquim da Urra tinha voz sã. muito sensibilizado com tanta grandeza e tal preito divino. Nos terreiros de Malhadas. na compra e venda de gado. e em matéria de sainete poucos lhe levavam a melhor. com o correntio de relações que se estabeleceu entre José Francisco e José dos Cambais. porque aí a solenidade prolongava-se em balhos. A Teodora não pode ver o filho do Antoninho nem pintado. De volteio em volteio acabaram os festeiros por estacar no largo da capela e armar a chula. Limitou-se a acenar com a bengala. de romaria aos quatro grandes cruzeiros que flanqueavam o lugar de S. Miguel. sem falar já de S. já que não fora por querer. senão ensinava-te o respeito? Silvestre Calhorra apoiava-se à bengala de castão de rangifer e. para maior cautela. daquele jeito. Em virtude de presunções tão opostas. Deus que é pai lhe perdoaria. assentes desde longe. A música à sua espalda fungava um pase-calle estrondoso. chegavam do cimo ao fundo do terreiro. Brás. comeretes e beberetes por três dias e três noites. mas. Aos domingos não tinha outro poiso. sócios da mesma empresa. esbagulhava-se em lágrimas. Assim. Brás. no caminho para S. nem por isso a festa teve remate. inflamou-se o despique entre os cantadores. e o Calhorra. Brás. é o pingo da rocha que cai para o chão enquanto o padre reza o responso. Boquejava-se: . e disse-lhe: . tio Silvestre. de que se compõe o balho.O que te vale é eu ir aqui a pagar o grande favor que devo ao S. Batiam ali calcanhar. resplandecentes como tronos.O José Francisco deita a alma com vergonha. aquele fora-se insinuando na vida do lavrador. frequentando-lhe a casa e acompanhando-o por felrãs e alcriquetes. Mas também não era só uma pessoa nem duas a protestar: . E lá ia. Raios o pelem. bamboleando-se nos ombros dos mocetões. armou-se o danço. aflautada. se o quisessem achar. Tão certo o zorro ficar a fazer cruzes na boca como eu chamar-me Lourenço e ser de Braga. Com tal esparrame.Quem há-de acabar por levar a borrega é o filho do Antoninho. os andores. quando o saricoté feria lume nas calçadas de Mouramorta e de S. que não se importa de quebrar o voto para atirar assim o homem ao desespero! Só então o Calhorra se lembrou que infringira a promessa. procurassem-no ali. Bem se derrete ele. mandara a mulher ir à sua ilharga. avançavam com segura cadência. tornando cada poviléu para seus cabeços. Com harmónica ou sem ela. a passo de boi. Contra ele versejavam o José 131 . a ninguém causou espanto ver o José Francisco em Malhadas.

mão na mão. os pares davam a volta e subiam tornejando com os demais pares. mas depois de o ouvirem pingueiro a contar as cacetadas que tinha à sua conta. Andava a bailar. Mas andas muito enganado. fez-se mais branco que a camisa gomada que trazia. foi no seu íntimo.Não faças essa desfeita ao homem.. um honrado pifão. damas com cavalheiros. Não ta merece. Vendo Teodora a dançar com o filho do Antoninho. o home é cego. E logo o Quim da Urra despedia com requebro malicioso: Não corre água nem vinho. o rego. Os pares agora subiam e desciam. rodopiavam numa perna só e ele chorava. Continuava o danço no largo muito alvoriçado. Era uma das sortes da chula enquanto o par do alto e o par do fundo revoluteavam enlaçados. cavalheiros com damas. sobe e desce. Quem não deve não teme Nem se põe a cortar prego. se encordoou. embora o seu par a requeresse com insistência.. surdas outras quando adjudicadas de noite à porta dos serões. foi convidar Teodora para sua dama. menina. dando-lhe com o cotovelo: . as mangas intermináveis do balho. Punha-se então uma madalena arrependida e todo se desfazia em lamúrias pelo tempo que perdera. Pra quem pêro está guardado. a bailar ficou. Queria valsar com o antigo sócio. Quanto a ela. pela vida fora. além de dar licença aos sarrafaçais dos filhos para se emborracharem a última vez.Vai. rebolando a anca e castanholando com os dedos livres. as topetadas que dera. já toda a gente sabia que o tio Silvestre não era para cócegas. à má cara umas. tem-te não caias. julgou-se também no direito de tomar. apareceu à boca do adro o Augusto Aires. Mesmo assim. A moça escusou-se. das raras vezes que lhe subia ao capitel. Vai o pêro. assim que chegou a primeira suspensão. Azango. E novamente o Quim lançou à zanguizarra: O que tu querias sei eu. Consigo vou ter sem medo. mas o reumatismo falseava-lhe os movimentos. diz o outro. dava-lhe para o melodrama. que ninguém lhe viu demudar cor nem jeito. mas faltava-lhes veia e ralé para competir com o cantador de fama.Francisco e o Luís Ougado. A rapariga cruzou o xaile do ombro para a cinta e foi. a fugir ao desafio em que era de toda a evidência ficar desbaratado ou para desmentir o subentendido que pudesse transparecer da quadra do Urra. acudiu. Entretanto andava a caneca à roda e o Calhorra. Da atitude dos três ficaram todas as comadres murmurando. vira-vi. que mal tem!? O Zé dos Cambais percebeu e muito trôpego. E ao refrão vira. em arco por cima de cada ala. entrança e destrança. até então por algum cuidado da última hora. O vinho. vira-vi. mais amalandrados do que é legítimo sofrer o cristão. os cachações que se vira obrigado a aplicar a este e àquele. dizendo todo chorão: . Mas. O José Francisco entretanto garganteou: Se à sua porta corre água. não arredou da negativa. Requintava o balho em evoluções. empurravam-na. de companhia com o José dos Cambais. Mas as outras raparigas. distraído. mas não disse palavra. é que vinham ao fundamento da boa peseta que ele era. rompeu o 132 . meteu-se para o meio das outras e. até endireitar carreira. Que por andar ameaçado. Menina. e o José Francisco.

dize lá. puderam ficar à vontade. ou. de xaile descaído para a cinta. obrigadinho! . mais zambro do que nunca. porquê? É um amigo às direitas. que parecia meio pingueiro. de caneca em punho.Razão.disse ele no tom sentido. se não com pesar de interromper o plantão que fizera todo o santo dia. a abanar a cabeça a um vago inimigo. deu em bem. Falava com dificuldade. O Augusto Aires deu o braço ao Calhorra. o Calhorra. Como a pausa se dilatasse. para o acompanhar a casa.Antoninho de automóvel.Não há-de ser preciso. Brás. Entre elas Teodora. ao só cio da vigairada. . O moço trazia Teodora dentro do peito e foi procurá-la.. quase titubeante. Tivemos ambos um peguilho. esquecendo-se que estavam de relações quebradas. quem? . 133 . o velho disse-lhe. Fica-te com esta e podes dizê-lo à lambisgóia do Zé dos Cambais.. depois de jogar ao ar o barrete de pele de coelho: . Onde ele cair caio eu ..entoou o Ougado. a velha entretinha-se com a ceia. O filho despegou da zanguizarra. Ao fundo do patim chamou pela senhora Verónica que viesse tomar conta do cativo. Mas deixem lá berregar o paspalhão do Urra.. para esconder o pesadume. Uma pessoa disse-me: vou-o jurar. Como ao lado deles marchasse o Luís Ougado.. ouviram-lhe que dizia: Este moço vem connosco. com o fim de afogar duma vez para sempre a sua paixão.Teodora .significou-lhe o Fráguas.? . . de quem joga tudo na vaza . ela picou: . embora de pé menos lépido do que tinham vindo. nem sequer atrapalhou o bailado. A nuvem de poeira e de balidos. de ar torvo e sem erguer os olhos. . As danças prosseguiram até a noite remontar dos vales para as aldeias e os picotos dos montes. sabes? É que não tenha uma filha que ta dava com os dois vinténs que guardo num buraco.Sinto e não sinto.Está bem. que assoberbava durante minutos a povoação. Augusto.proferiu ela um pouco no seu modo arisco. Aparece. . .Ao pé de mim não há azar. desculpou-se Fráguas com não beber fora das refeições. ou pô-la a salvo de temporais.temos de falar com o coração nas mãos. veio para ele.Onde ele cair caio eu . Ou. O pai acomodava as vacas.e batia no peito. Afidalgado. começaram a despedir umas após outras.As bocas do mundo. Pronunciadas tais palavras com certa sequidão despediu rua abaixo mais o rapaz. a escolher caminho.Sabes a minha pena. ainda na praça tiniam os ferrinhos e zurrava o zabumba.repetia o Luís Ougado na cegarrega obtusa de borracho. O Luís Ougado apartou-se cabisbaixo. Rosna-se para aí que te viraste para o filho do Antoninho Fráguas.perguntou o Antoninho fitando o filho. meu homem. ..E depois? . que parecia peado. Ao entrarem os rebanhos nos currais.. um tanto exalçado pela laracha do homem. . . aclui não se corta prego? . mas agradecia como se tivesse bebido. não se fala de pecados velhos. Mas as mocinhas ramboieiras. desde S. em sua importância sentindo-se talvez afrontado pela presença do bebedola. Agradado.Sentes-te ameaçado? -..Devo acreditar que têm razão.

. Olhava para ela e como a visse calada. vai outro. que não estou bem lembrado. Mesmo assim porfiou: . As raparigas em volta: vai.Já te disse e torno-te a repetir que não tenho nada com o que os outros pensam. Teodora. de olhos em terra. conhecendo-lhe o génio: Não julgo nada.. O que não se compreende é a aceitação que tu lhe dás. Vês. Tenho com a minha palavra e o meu querer e basta. Suponhamos que semelhante compadrio é devido ao negócio.. Mais do que isso.Assim és esquecido?? .Dize-ma.Ouves bater o coração. nem disse: deixa-me? Quando voltaram à terra.. rija.Ele tornou. grande pausa. não o bispei agarrado a ti a dançar. . Teimou.. . e numa voz em que latejava não sabia se amor se ira pronunciou: . que a cabeça não me governa bem. em que comungava tudo à volta. Meteram-mo à cara. Eu não o chamei.Mauzão! 134 .. . . meta sisuda. moldava-se no seu peito. que tanto podia exprimir: sim.. pô-la em cima dos seios sem aquele pudor com que as raparigas fogem ao toque atrevido dos rapazes. tudo tem fim. Ele e teu pai são como cabeçalho e chavelhão. Moldava-se. Teodora. .. Para onde for um.. O céu e a terra revestiam novo aspecto para o Aires. Intercorreu uma pausa. Augusto apertou-a contra si e ela deixou-se apertar. Se é o que eu suponho. estreitou-a contra a apojadura das pomas. disselhe que não. enlevo que não espanto. é verdade. ela murmurou. Pegou-lhe da mão.. mas para ti não deve ser novidade o que corre a esse respeito. . hesitante em ler-lhe nos olhos aquilo que tanto buscava.Dá cá a tua mão.. imóvel..Pois andava e andava mesmo? Não acreditas? Podes acreditar. Entrava-lhe nos pulmões ar fresco.Dá cá.proferiu ela num trejeito que transitava repentinamente do sério para o jocoso e regressava logo ao tom primeiro.? O Aires quedou um instante em suspensão. Foi-me cometer para o baile.Torna-me a dizer essa palavra. quase tão pétrea como a massa da masseira a ponto de levedar.Ora essa. porque não hás-de ir? Meu pai teve ventos da minha má vontade e veio-me ralhar..E tu que julgas? Soltava as palavras no seu jeito despachado e tom escarnento.. Que homem és tu para guardar memória de coisas que bolem com a vida toda duma pessoa.replicou ela com sequidão. Depois.. . Mais uma razão para definirem suas vidas. abençoada seja a luz que nos alumia.E que palavra é essa. Torna-ma a dizer.Pois sim. se não. paciência. E volveu: . meia sorrindo: . suponhamos. como: não tem pés nem cabeça. moldava-se branda como a cera.. Aí tens porque me viste a dançar com semelhante meijengro..disse ela em voz áspera. como se ditasse uma ordem a quem fosse mau cumpridor. . Perdido e achado é em vossa casa. viver e sofrer... ouves? Eu te digo o que já não devia ser novo para ti: tua ou de mais ninguém. E tartamudo balbuciou: . . Era uma razão para te negares. aquela espécie de ar fresco que não vem apenas da atmosfera e embebeda como o melhor vinho. que ta não corto.Não lhe dou aceitação nenhuma .? Não me vais dizer que trago cataratas nos olhos ou que andavas forçada. a sua tortura era atroz. o sujeitinho agora não sal da tua beira..

tendo-lhe acudido ao espírito que a mãe podia estar em cuidados com a sua ausência. O mocho piou e as notas agoirentas pareceram-lhe alegres parabéns. necessária a sua quietação. irradiante. as pedras o juravam com o seu sossego. entrou na quintã. mesmo na ribeira. as paredes que alojavam a sua Teodora.. nã o. quando se sentiu levado por uma irreprimível veneta a torcer caminho pelo domicílio do José dos Cambais. soçobrado em silê ncio. Para gente tão meticulosa o facto era singular. Respiro. as comas dos pinheiros novos em levitação. o vagido do menino que logo esmorece sufocado contra o bico do peito. Os pés o guiavam certo e direito como se levasse rumo. com as ondulações caprichosas da casaria lembrava um barrocal. o senhor Hincker e a menina erguiam-se-lhe diante tal os arnieiros nas margens do rio. como se por cima da terra o sustentassem asas. Onde ele estava. com os cães enrodilhados nos ninhos. duas notas do chocalhinho tangido pelo carneiro ao coçar o piolho. Teodora.. O sol. pé ante pé e reprimindo o fôlego subiu o patim que conduzia à casa propriamente dita. E pôs-se a arrepiar caminho. Haviam-se calado há muito as vozes que quase adormecem a rezar sobre o açafate e. em boa paz e segurança. mil penedos de cima do peito. Na casa do guarda. Teodora. se esquecera à última da hora de pôr trancas às portas. antes de se ir deitar. Foi andando a passo cada vez mais largo. Teodora confundia-se consigo. leve. O escuro adensara-se acrescido dos bulcões que o vento tocava do norte e que.?! Mesmo. ruminando a grande felicidade. perscrutanto à direita e à esquerda.. Eram duas almas numa só alma. total: sublimação do humano. Que ressaibo o da sua boca? Que fluidez no seu sangue? Leve.Tiraste-me. acabaram por se entornar na terra. sem noção do itinerário. trazido pela pancada. e bendita sejas! Por mais tombos que dê.. se dormia. não havia de andar sobre brasas?? Mas perdoa. No patamar afitou a orelha. ainda sob os fumos da pagodeira. À entrada do povo que. Era noite e não se apercebera ainda bem da escuridão. deteve-se um ápice. 135 . era a noite inviolada e profunda. Para tirar a prova real. nunca és recompensada da prova de confiança que me deste. sim. Não se ouvia nada de nada. E afoito. notou com estranheza que no portal carreiro um dos batentes estava escancarado. Eras a minha vida. uma chamazinha trémula. os olhos dela e os seus numa só luz. anunciava: vigia. Foi-se dali. Um ventinho assobiador vinha da serra e tão-pouco dava conta dele. tinha a noção de que marchava. inebriado de amor. o Calhorra. e as giestas acocoradas nas rampas. entrava já na sua rua.. por mais trabalhos que passe. fustigado pelas rabanadas glaciais e farto de tropeçar nos calhaus. E com os seus botões considerou que o Cambais. saber que ela lá estava a dormir. Cada vez mais apressado. como no concurso harmonioso das leis da vida uma vez pode acontecer. Dois minutos concedem-se ao homem que vai a enforcar quanto mais ao coração alvoroçado? E abandonou-se à vontade pueril de rever. Tanto dentro como fora nada entreviu de suspeito. mas sem fazer ruído.. Passou à beira da mina do Vale das Donas com os aterros encavalitados a trouxe-mouxe e os tejadilhos de fibrocimento mal sobrenadando no imóvel e imenso mar da escuridão. a mãe.. com a breca. rolando no céu baixo. Uma névoa leitosa de amanhecer recobria tudo nos horizontes da sua imaginação. Agora. seguro do mundo. que não se via a linha dos troncos. deixou-se ir ao acaso pelos caminhos fora. Uma vez diante da moradia do Cambais.

sossegue. Vendo-a embrenhar-se na escuridão para o lado das pocilgas. Agora. destes estadulhos da carreta descascados e mais altos que um homem. descosendo-se da porteira.. a prevista forma humana entremostrou-se projectada contra a palha branca que lastrava a quintã. Sorrindo contrafeito. Foi como se lhe tivessem cravado um punhal no peito. Foi instantâneo.. para os fundos da quintã. a ofegar. Quem era não estava ali por bom. atravessou os umbrais. O Aires quedou um momento interdito.Não é nada.salvo o vento nos pinhais do Oiteiro Alto e a toada dum fio de água a despenhar-se do talude. parado como se estivesse novamente irresoluto ou à espera.Ai. quem era devia fazer a sua socresta. pela estatura meã e certo franzino do tronco. Bateu à porta com mão nervosa e insistente. E ao desenvolver-se em altura a arredondar-se de linhas. assestados com fixidez hipnótica sobre o noitibó. meu filho. Talvez voltasse. descalço ou de alpargatas. quase fulgurante. Breve. como se viesse furtado a perseguição. machadinha em punho.. pareceulhe mais o Ougado. contra o mainel. Tinham-me avisado que certos ratoneiros que para aí há andavam com tenções de dar um assalto ao filão e quis ver se o guarda dormia ou estava no seu posto. ainda mais intrigado do que inquieto: “Vem para roubar?” Uma segunda interrogação brotara no seu espírito. Não lhe dissera Teodora: “Tua ou de mais ninguém”? Mais do que isso: não lho demonstrara? De súbito. escoava-se na noite sem ruído nem rasto. homem sem dúvida.. e o Aires deitou a mã o à machadinha que entrevira a um canto. Quer dizer. até se traduzir num chapejar seguido. definindo.. Na breve pausa que se seguiu ao acto de decisão: vou-me embora? figurou-se-lhe ouvir na rua um rumor imperceptível. mas essa repelia-a como iníqua e absurda. fosse reflexo dalgum dos seus movimentos. e afigurou-se ao Aires que manejava um estadulho. Olhe.?. A mãe veio abrir e vendoo transtornado. virava a esquina e. uma sombra enovelada delatou-se pelo seu chumaço de negror no vão da porta e aí fez alto. E outra vez se perfilou contra a ombreira. um instante perplexa ou cavidosa. pois se ouvia o sonido da ferramenta e de paus ou tábuas entrechocando-se. Soprou ao desafogo. portanto. Lá estava. foi-lhe empós. Aquilo é como um 136 . mas não lhe fazem segunda. “Alguém que precisa duma enxada e vem por ela onde sabe que não faltam. que o Cambais tinha de reserva como todos os lavradores.. fosse ilusão dos seus olhos. e foi quanto bastou para o petrificar de novo na imobilidade. Mas já o vulto. que te fizeram. coitado do homem! Embarrilaram-no uma vez. Uma inalterável e peganhosa modorra de inverno recobria a aldeia e a terra toda. não destituído porém de certo recato. “Ladrão. não é nada comigo. O rumor pouco a pouco foi-se acentuando.” Mas o vulto tornou a crescer na penumbra. Varrasco?” E a infame dúvida de há pouco voltou a bater-lhe na cabeça e ele a recalcá-la. Mas.?? Que te fizeram que não vens em ti. não parece. afirmando-se melhor. mas semelhante a bicho que anda à caça. Voltar para quê? E de ímpeto. e até pelo pigarro que a custo sofreava. a desenhar-se. mal teve tempo de se dizer. afigurou-se-lhe reconhecer o José Francisco. disse para a mãe: . fui até o Vale das Donas. Depois. disse-lhe a tremer toda: .

Quando chegue. ouvi na rua uma barulheira que me assustou.. exclamou: . Que assuada será aquela? Uma voz clamava . .? Então não ouve?. ensopada em sangue. O golpe que o prostrara devia ter sido dado à mão~tente com olho de sachola ou grosso varapau para assim quedar a caveira escaqueirada. vá ver o que é...ladrava à volta do resplendor dum lampião. assarapantado!. que não tem medo de nada. E de facto ele alguma coisa escondia. procurando ler-lhe nos olhos. pois lhe havia de parecer também a mais acabada das patranhas. fazendo-se muito branco. . Comeu em sobressalto. Abriu a porta. Essa voz foi engrossando pouco a pouco e agora parece enchia as ruas.. como o piar da coruja.. Na camisa de goma.Então que quer.. Em dada altura estacou de garfo no ar. percebeu que estava a dobar a sua teia. Augusto volveu de novo olhos para a mãe e. se conjuravam contra a sua felicidade.. o cabelo em pasta sobre a testa e o toutiço tão feito em estilhas que se lhe tocassem tremia como uma abóbora melada. desconfiada que lhe escondem coisa grave.Jesus. ainda mostrava os colmilhos a rosnar. E também sem náusea alguma inclinou-se a observar. se lha dissesse.. Não obstante. não sabia como nem quem. .Homessa! Um valentão como tu. luziam ainda ilhéus de brancor. vendo-a de pupilas assestadas nele. Muito menos acreditaria na verdade pura. Escondia-lhe que. e. lamentos e rezas.exclamou a mãe. assim.. olhou para a mãe. Não acreditara nem uma só palavra de quanto acabava de lhe dizer com boa lábia. postado um pouco de esconso entre a ombreira da casa da Pedralva e o rancho das mulheres.. da noite assombrada exalava-se urna impressão única: Homem morto! Homem morto! Foi atrás da mãe. muito demorado explicar-se e melindroso desvendar-lhe o que tinha de ficar oculto. Deve ter sido para o pé da casa da Pedralva.clamava não traduz bem aquele gorgulhar de sons guturais e incompreensíveis . não acha. Para que ela compreendesse. ao pé dele e lhe falei.. subitamente.cão da Serra. Era a tela da pessoa discreta. ao tempo que torcia a cara para a banda. era demorado.. Ao proferir tais palavras. de alevante. repcso de 137 . Brás. ..disse ele..Quem foi trazia-lhe gana? .observou-lhe ela. Tinha já os olhos vidrados. À luz duma lanterna pousada à beira.Agora ao entrar. nal prestando atenção ao que lhe diziam. com a cabeça feita numa bola de sangue e lama. Ouvia-se um burburinho de enxame alvoroçado.. Do sussurro.Mãe.É o povo. Reparou ainda que muitos olhos se cravavam nele interrogativos. tornou com o vero acento da franqueza: . deu-me para ter medo? Que tem de ceia? A mãe pôs-lhe na mesa o ensopado que há muito tempo acalentava ao lume para não arrefecer. abertos desmesuradamente. varava através dos pinhais e leiras de centeio o próprio coração da terra. desvendar-lhe o facto estupendo que fizera essa felicidade.Ouve. . cujas sombras oscilavam até desmaiar por cima dos telhados. e depois de falar reparou que a sua voz soara na açudada de imprecações. . viu sem manifestar espanto o José Francisco estatelado no chão. .. do clarão das lumiciras trémulo e fúgidiço.? . Era o relâmpago que na noite negra ilumina subitamente a imensidade com sinistro fulgor. e esse brancor falava da festa de S.

Quem a fizera. sem reparar bem no que dizia. a coitanaxa da Júlia Minga.Vá por ela.Não há dúvida. na direcção de Mouramorta. fizera-a bem feita e esgueirara-se como um trasgo. como que interrogando-se sobre o drama que o vitimara. ao largar do estábulo onde estivera a acalentar a vaquinha parida. A avaliar pela tepidez do corpo.A travesseira lava-se . emitindo as suas opiniões e bichanando os seus palpites. . Depis. começou em voz grunhida a clamar pelos cabos de ordens. abraçada ao filho. tropeçara no morto e soltara brado. Manhã alta. resolveu-se então a ir buscá-la. debruçando-se sobre o corpo. pois saltara da cama estremunhado dum destes sonos que só têm igual ao das bolas das pirâmides nos pináculos das igrejas. Afastou a mãe. chegou o Antoninho Fráguas de automóvel. O adjunto engrossava cada vez mais e a tia Pedralva. já noite velha. . a morte devia ter-se dado depois das dez.Então o regedor dorme-lhe?? . Mais de quatro testemunhavam em conformidade. 138 .exclamou um dos presentes.A travesseira suja-se com o sangue que ainda está a escorrer da brecha . Fora o João Sancho que. já não sentiu bater o coração. . e como ninguém lhe respondesse. Mas não podia dar razão de vulto. mas dos degraus do patim por onde se subia para sua casa chamou pela filha que lha trouxesse. Revendo-se na sua boa acção. a escapulir-se. sombra sequer. em hora a que ninguém o vira. O José Francisco fora visto à boca da noite desandar sozinho pela estrada fora. foi pessoa sabida? Neste meio tempo chegava o regedor. e ficou de pé a fitá-lo. Chocalhou rua fora a tamancada a par de grosso vozeiro: Regedor! Regedor! Entretanto crescia o babaréu em volta do cadáver.advertiram-lhe. Outra vez o Augusto Aires. não podia ver sangue! O regedor designou por escala os cabos de ordens que haviam de velar o assassinado e o povinho dispersou aos quatro pontos. que tinha a casa mesmo em frente. Repetiu o apelo. sendo assim. tia Rosa. Sobre tal particular não havia discrepância. que desde a alva se esbagoava em alto pranto. .iterou o Aires como de peito feito. pau argolado. Meio arrelampado. Mas. por seu belo querer.Vão chamá-lo? Pois então não hão-de ir chamá-lo?. mas obedecendo ao instinto de varrer de si qualquer suspeição. que voltara a examinar o cadáver. demais a mais domingo. mas a Polónia Fandinga.já devia aí estar? Vão chamá-lo. de que ele próprio se arrepiou: .ter aberto a boca. a bater o dente tão alto ou tão rijo que nem que curtisse maleitas. proferiu impensadamente. tacteou a ferida. . ou melhor levado no sistema de sacudir a água do capote. com um froixo de riso forçado. O corpo ainda estava quente. . a destrancar ainda os olhos da ramela.. ajoelhando e colando-lhe o ouvido ao peito. como se explicava que aparecesse morto numa rua de Malhadas? Explicava-se admitindo que voltara atrás. para a aldeia. Mas voltara para quê? E voltara sozinho ou acompanhado? Não eram ainda onze horas. ninguém se dispensando de aventar a sua hipótese quanto à forma como o crime poderia ter sido praticado... deu conta que faltava uma travesseira para lhe meter debaixo da cabeça. .. com a cabeça debaixo das mantas. Contou depois que a Florinda estava na cama. vá que é uma obra de misericórdia! A Pedralva não foi por ela. Aquela tinha mesmo alma de cebola.sentenciou outrem. veio com uma manta e deitou-a sobre o cadáver.

Não sabe quem é? Caramba. mesmo assim. Figurou-se-lhes que o Augusto já os esperava porque o viram a sorrir. Ficaria. esse lhes afianço eu que não foi! Não foi? É falso? Como a autoridade parecesse hesitante. ah? .. ...Ainda não ouvi.. .Ah. . cicios de vozes. tinha fama de braço comprido. Dizem que foi ele que matou o José Francisco. Por isso. mas estava de pé e de pé ficou sem se mexer. rua abaixo.? Ah. o Ougado tornou para o José Carrasco.. murmurando sempre: . dize lá quem foi? . Achais-me com cara de matar um homem? Para mais. tio do morto e factoto do Fráguas. como para castigar.. .. já que o sabes. .Pois se estão certos que foi o Aires que matou. o Fráguas observou para o regedor: .É que é mouco. depondo-lhe na testa um beijo. o Carrasco coçou a cabeça.Onde vão vocês? . quanto mais matar um homem..Andai lá. tão certo como o sol que nos alumia?.Pois quem havia de ser?? Mais cicios. Após uma pausa. à traição. agravado em sua regedoria. ah.Já prenderam o assassino? Estava ali a autoridade que o encarou com olhos de espanto.Ora essa? .Vindes-me prender. o nome anda em todas as bocas.Se o deixa fugir. além de rico que é prenda de respeito. andai lá! Levais um inocente. mas toda a gente pronuncia um nome! lançou de rópia e circurivagando os olhos pela gentiaga a tomar apoio do que adiantava. . na sua voz lenta e emperrada: .exclamou com a veemência de que é capaz um regedor. regedor. entre perplexo e atemorizado. eu lhe darei o arrocho. Nomeou dois cabos de ordens e. Levais um inocente. No caminho encontraram-se com Silvestre Calhorra que vinha para o lugar do alevante. tanto para proteger.Vamos a prender o Aires. aprumou-se para dizer: .. sem resposta se o Antoninho não secundasse: .Grandes alarves? Esse rapaz é incapaz de dar uma pan~ cada à falsa fé. olhos no chão... O Fráguas continuava estático. é verdade que deste sorriso amarelo que tanto indica desdém por tudo como confiança. cheia de acusações e fantasmas. Vede lá bem. Seguiram..Então ainda não ouviu um nome... .Homem. mais ditérios e segredinhos e no silêncio a voz de Teodora ergueu-se irada e resoluta: . O filho deixou-se conduzir. risonho e pálido. O Antoninho Fráguas. pupilas mortas. 139 . ? Tem de levar os ouvidos ao ferreiro. meio tartaranha.perguntou.proferiu o Luís Ougado em voz alterada.Eu não vi.e desatou outra vez numa risada. com que sim. Ides errados. e acabou por dizer: . absorto no seu panorama. interjeições de pessoas que ansiavam por desabafar e não tinham ânimo.soergueu-lhe a cabeça a medir a extensão do golpe e.. ... À retaguarda havia murmúrios. A mãe ao lado escondia as lágrimas. Eu já desconfiava. ombro a ombro com o Manuel Minga. foi-os acompanhando a distância. . . prende-se o Aires..

Mas era um regalo ver os regos por entre os trolhos das leiras a luzir como cutelarias. embora o seu poiso habitual fose a Quinta das Meruges. Ouvindo as colcheias mortuárias. O inverno estava a virar. que mais não fosse pelo dedo com que sabiam temperar um pratinho para abades e filhos de boa mãe. Uma terceira estava para o Porto. além de perfeita pascácia. Aquela sua Ruça. e nas quintãs representavam -se os últimos dramas paritagruélicos da matança. mas dando ainda mostras de muito ferrado à terra. era a mais canónica e imalsinável das amas. O prelado. posto que travado por um estreito regime de dispéptico. e o corgo e arroios derivantes animando as paisagens ingratas de inverno duma vida que só a água é capaz de dar com a sua ágil e autónoma mobilidade. por lhe serem defesos os outros. se entregava aos prazeres da mesa. Como todas as carreiras. o senhor Tadeu involuntariamente pressaboreou a sertãzinha de marrã que a Maria Ruça não deixaria de lhe apresentar ao almoço. como para as peruas a muda da pena. Ela. até por cima dos penedos. sopeiras e mais nada. mal alvejando à beira das paredes. Esta sua criada entroncava na meritíssima linhagem das Ruças. no resguardo do cisco e das sombras. afogando as pernas das raparigas. A neve derretera de todo. ainda que o sol pela manhãzinha tivesse espreitado por detrás dos montes. Nunca a nobre víscera podia contar com horas certas de comer. puxado da serra pelo vento galego. anunciados aos quatro pontos pelo estertor das vítimas e as vozes cruas e chinfrim judaico dos matadores. A cada passo. Simão? Coitada. o exemplar mais completo era a Ana. pelo contrário. cada vez mais atarefada. sempre em frente. rendia as honras merecidas à sua governanta. pelas rampas dos caminhos se descobriam ovelhas zorreiras. depois da crise do pé leve. proferiu: Onde desencantou esta avis rara. segundo o 140 . a não ser tementes a Deus. a carreira eclesiástica tinha os seus ossos. depois de dizer por alma do José Francisco a missa do sétimo dia. celibatário e sibarita. De todas. com que os rapazes andaram a reinar pelos caminhos. O céu. e ameaçava mais neve. e uma quarta cobrava boas gorjetas pelas redondezas em bodas e entrudadas. tratou de se ir chegando a casa que estava frio de cortar coiro e cabelo. o borraçal em que tinham vindo encalhar as bolas. roxas de frio. e tinha os pés como dois calhaus. dera o seu tombo até derivar da livre frescata na placidez enxuridiosa de alfaia eclesiástica. Pusessem ali os olhos os adversários contumazes da ordem social! Gozavam estas Ruças de bom crédito e mereciam-no. oferecendo às crias um amojo refarto. mal lhe viu a tromba e provou os pitéus. À retaguarda da sua grossa beiçorra de alguidar exibia velhas e temerosas arnelas com vazios largos como canhoneiras. como nascera nas palhas. lá ia silenciosa ou botando o seu solilóquio. voltara a encarvoar-se não tendo descarregado suficientemente. que era severo em artigo de contubérnios. e Tadeu. alastrava nutrice e verdinha or toda a parte. mandavam a seitoira nos ferregiais. que de saia entalada à frente por via das partidas do vento.X O senhor Tadeu. encomendada pela mãe lastimosa. onde o velho fidalgo. a casta soror. antes. mas nenhum tão duro como aquele de trazer o estômago de quarentena. E a erva crescia. ao serviço de Antônio Fráguas.

amanhã apenas quando Deus era servido. dois decilitros a emornecer no púcaro de Molelos. dos fogueteiros. o gozo da bemaventurança à mão direita de Deus Padre. negro duas vezes por fora. perdida para sempre jamais. Na trempe. moleja. Mas a chicha fresca. e desta vez perguntava-se com justificado sobressalto se ainda lhe restariam na caixinha daqueles com-primidos de bicarbonato de sódio. Em casa também se cevava porco e se fazia salgadeira. por outro chorava a sua riqueza de rei de Tule. A Ruça. que se rinha acocorado no esteirão. que lhe mandavam as almas amigas. quando se persuadiu que já havia batatas suficientes na frigideira. fígado. correu a aquecer-se. entrasse a lutar com ele. e ao ouvir pelas quintas aqueles sustenidos de agonia. Costumava o Tadeu. tudo passa. que andava sempre como o da Joana. forrado de zinco. mais intemporal que o programa das obrigações paroquiais.abade do Ramalhal. mas que tinha o defeito de ser apenas no outro mundo. E com os pés alongados para a brasa. se por um lado lhe crescia água na boca. a contemplar qualquer panorama interior. Por isso. em cima duma tabuinha. que lhe aviava o Jácome. para o caso em que. e pelos dentes de lobo. entrou em actividade deglutiva na mais ameníssimacias monções. movida por ponderosas razões. absorta para o brasido. frigia uma boa febra de porco com fígado do mesmo. as vezes que o eclesiástico vai celebrar em festividade fora da sua igreja. Era certo que a venerável Congregação dos Ritos. em prima tonsura. depois do almoço de marrã. que levara para o seminário e eram o terror das pelangas de cabra e do fiel amigo? Ai Deus. do mestre da música. a ponto de rescender como a ânfora siracusana do pai Esopo. é pau-mandado dos mordomos. gente esta que se mede toda pela mesma rasa em matéria de pontualidade. porca ou porco. Se hoje se comia em tempo oportuno. cilhou as mãos sobre os joelhos. dos armadores. naco de lombo ou cobro. a dita. Gelavam-lhe os pés. Chegado o Santo André. Ah. e ao bafo confortador e ao estalido sinfónico que produzia o fogo devorando o lenho. o fígado do suíno beirão que é melhor que de vitela e se dissolve formando um molho sobre o grosso que é o regalo dos regalos. a não ser. capazes de arrancar um prego melhor que uma turquês. O labrego lê as horas pelo setestrelo para tudo o que seja a lida dos campos. fora disso é de absoluta inconformidade com o cronómetro. autorizara que o sacerdote tomasse logo de manhã uma pitançazinha moderada. Entrou em casa e. filosofar com os botões da garnacha. Porém nada recompensava a irregularidade do horário. Na lareira ardia um bom lume de carvalho. a ponto de não os sentir e causarem-lhe torturas insuportáveis. A Maria Ruça pôs a mesa na velha banca. sim. tanto mais que adverte Avicena: est caro porcina sine vino pel or caprina. era mais de apreciar que a carne de vinha-de-alhos ou o presunto já curado. o seu moiro de sangue. à medida que iam metendo a faca ao requinho. a serva a debulhar à unha as batatas de neve. os paroquianos mais dignos não passavam sem lhe mandar o prato com as primícias. como muito bem calculara. quando estava só. avinhado por dentro. Nada.. a vida não lhe pareceu tãe feia como a pintam. Depois 141 . com elas mais várias que o relógio de Santo Antão. dos próprios colegas que chegam quando chegam a arrotar em suas éguas passeiras. tão junto do lume que a chama fazia esvurmar a resina dos nós da madeira e ondular a franja da toalha. quanto não daria pelo maravilhoso estômago.. mal depôs o cálice das consagrações com a sua bolsinha de chita ramalhuda. em última análise.

O Roupinho. hem? O meu estômago agora já não funciona com esse combustível. em vez de bater para Cruita do Alto com a esmola.Deus me livre de lha prantar. e alugara um garoto de dez anos à tia Maria de Alvite. o senhor abade doeu-se como se o malvado dum espinho lhe picasse as meninges. já com quatro marmotinhos de um a seis anos que ficavam entregues à avó.Ouvi. e estava dito tudo. A Ruça não dera conta do sal amargo que acabava de deitar na marrã. Não é isso. “Pois Roupinho.O meu senhor não ouviu pregoar a sardinha? . Nem coelhas! Pois o alma de cão trazia a mulher na moina. uma desinfeliz negra e mirrada. no garfo. uma música afinada executasse árias amenas. e vá de rondear pelas terras de Marialva e pelo Zonho. Deixava crescer as barbas. sobretudo quando o petisco era como aquele de trás da orelha. complacente. O senhor Tadeu preferia que. onde dizem que os ricos têm a mão larga.Mas para mim. .suspirou. não se acaba o mundo enquanto houver chocadeiras como a Cruita do Alto. Um dos sócios. elevou-os até o fitar bem nas pupilas. Podias ter comprado . além disso. As mulheres casam aos doze anos e aos vinte estão carregadas como as vides. e era a mãe dum tal Trinta chacinado depois de muita pouca-vergonha pelo povo de Manfurada. de resto era o Cambais que manobrava os bilhestres e recolhia o minério. mulher e menino tinham chegado das bandas de Trancoso. Mas a Ruça não era cabra para virar com duas lapadas e ele. Tinha que regularizar a sua situação com o José dos Cambais.respondeu ele. e o negócio afigurava-se-lhe muito mal parado. Seja pelo amor de Deus. num aceniscar de olhos. e proferiu em voz gemida: . sabia quem era? e meteram para o Vale das Donas ao rebusco do volfro pelas leiras. tão pegados que só se foram um migalho antes de escurecer com os taleigos outra vez cheios. R. que alugava a quem tinha abundância deles. As malinas vem e varrem as famílias de ponta a ponta. mas agora de 142 . contou como morreram sepultadas na neve a mulher do Roupinho e a criança. Para quem padece como o senhor de arrotos chocos. ao estilo dos príncipes. voara a dar contas a Deus das maroteiras em que era useiro e vezeiro a despeito dos verdes anos. largou-lhe a corda toda. dali a pouco. R. pôs os olhos na banca. o Calhorra. não. pedia esmola pelas portas. o outro. a tia Maria de Alvite que lançava mão de tudo o que podia. sabia. estava farto de o saber quando não armava a rifa ou a vermelhinha nas feiras e romarias. metera a mulher ao peditório e um menino. o José Francisco. Corta o coração. lembraram-se de trocá-la a patacos à Pomba Nova. no movimento dos seus maxilares. taleigos à cunha e. como estava em maré de condescendência. ao comer. a criançada em Cruita do Alto era como os peixinhos no chafurdo do pontigo quando se lhes deitam migalhinhas de pão.S. S. e continuou: “Lá passaram o dia ao rebusco. . essa que anda pelos povos a comprar cornelho e ovos e vende lumes-prontos e pólvora de caçador.” Àquelas palavras. O homem que a andava a vender. mas o Cambais é que havia de aguentar. enquanto aviava um quarteirão ali à Madalena. agravava com terebintina uma chaga que tinha no braço. Ele era sócio honorário.” O senhor Tadeu declarou que estava muito bem a par da referida criatura. na marrã. “Aquele ladrão do Roupinho . em vez de lhe matarem o bicho do ouvido com misérias do mundo. bem sei que salmoira nem cheirá-la. deitara-se fora da empresa. Restavam os dois. inçou outra vez tudo.

já ouvi ladrar os cães!” “Não estavam nada na Cruita. até o entendimento lhes dizer: ides errados! Tomavam à direita e. Corno não pudessem mais. por mais que se mate.” De facto. Mas o alma do diabo.” “O Roupinho coçou a cabeça e parece que respondeu: . “Vocês assim carregados não botam a casa com de dia. estamos aqui estamos na Cruita.pedras. com a neve ficavam mesmo. andaram para trás. já tão atarantado como a mulher e o menino. Que é que os olhos dum letrado.. S. De Malhadas à Cruita são bem duas léguas. lisos como a palma da mão. A neve cobria a terra. transitara alguma vez por ali. e o céu não se cansava de peneirar neve.velo depois a apurar-se . fazia muito frio e para as bandas de Montemuro o céu estava a entabuar. mas duas léguas das velhas. nem quando carregavam de rópia por uma vereda que lhes parecia a certa. Quando alcançaram os altos. mesmo. “Aquilo o frio. aí podem achar? Assim acontecia aos desinfelizes no alto da Nave. nem quando seguiam à mão esquerda. atiraram ao chão as sacas cheias de pedras. e estava com medo que lhas roubassem. a mulher. fora. Jesus. que era uma magrizela. Andaram para diante. Quando chegaram aos Cuvos. e não admira que lhes atasse os movimentos. uma lauda de papel antes de escrita. Prometi à mãe deste menino apresentar-lho até o bater da última badalada do dia de hoje e não quero borrar a minha palavra. batia o dente e chorava baixinho. Teimou que não era nada: o ano já estava muito adiantado para nevadas. nem penedo. e tocaram adiante. rompeu a nevar. “Muito tempo andaram enrodilhados. Lisos. O alma de cântaro velho . Mas sempre havia um resquício de luar. nem quando seguiam à mão direita. sinal de moscas brancas. Avisaram-nos: “Não se metam a caminho que vem lá a neve. que a mulher trazia apenas vestido um chambrito de riscado e um saiote e o menino os farrapos dumas calças de cotim e a camisa. lá iam até uma voz de dentro outra vez os avisar: não é para aí! Não era para ali.” “Era a desgraça a chamá-lo? Qual. luar de quarto. Segundo consta estiveram vai e não vai a voltar para trás. sempre pela serra e desamparadas. lá porque lhe custasse deixar para ali ao abandono o seu rico pedregulhal. R. arrasta que arrasta.parece que se prantou a gemer o Roupinho. era a ambição. cada vez mais basto e danado o remoinho no ar e mais fofa a camada branca debaixo dos pés. Ele animava a sua gente dizendo: “Vá. asas estroncadas. também. O menino batia o dente e clamava que já não podia dar passo.? Era então escusado dizer-lhe que naqueles cumes não se ergue árvore. que vai ser de nós! .” _ Jesus. mal se distinguindo as farripas das urgueiras meio tombadas para o chão ao peso da mortalha branca. quanto mais casa. que o homem tinha o costume de desancá-la sem dó nem piedade. alvadio mas cerrado. trespassava-lhes as roupas. atascados no nevão. fora. a deitar os bofes com a maldita riqueza às costas. Fiquem cá e vão de manhã pelo seguro. isso estavam eles? Avançavam ao palpite. Pois não houve rogos que o tolhessem.Seja o que Deus quiser.. não se enxergava já caminho. O senhor abade estava lembrado dos farrapos que caíam? Pareciam asas de passarinho. disse para a mulher: 143 . que é onde acaba a serra de Malhadas e começa a de Pedrões. ao que dobavam do céu e eram grandes.ia com a ideia fisgada de que levava ali uma riqueza nas pedras sarapintadas que arrebanhara pela folha do Vale das Donas.

indo pelo rasto. de torcer e destorcer caminho. tanto andou. os dois estavam por baixo. tanto andou.. como quem apanha o fio dum novelo. foram dar a descampado muito para fora do caminho de Malhadas.Onde estás. conta ele. Está a gente farta de andar.” “Quando tal ouviu caiu ao chão sem sentidos.Está bem . e lá ficaram a bater o dente e a rezar. caminhou. Como havia de dar pão uma coisa que é para matar. Mas indo. Eu dou lá um salto. Mais de seis vezes estivera a entrar na terra e sempre a sua má estrela o tornara a arredar para longe. muito melindroso. Deram conta dum moroucinho.. que me perdi outra vez! Botou os seus cálculos. a correr em frente..já te disse que a Cruita não pode estar longe. acudiu o povo todo. com o arranco da agonia. andei mas acabou-se. cavaram a neve.Andei. mas julgam alguns que feita pelo bater dos calcanhares e o rascanhar das unhas. . o pequeno dobrado. E a neve caía.. olhe.. . meteu-se com ele entre os sacos. . caía se Deus a dava? Depois de muito tropeçar. . houve. que tocavam de resto em determinado sector. tornou a botá-los. Outras se levantavam a seus olhos e novamente corria para elas o triste. O homem botou alarme. Chico Roupinho.?! . ora não parecia.Pois se acabou... que o Diabo levasse para bem longe daquelas terrinhas.Tu atinas lá com a Cruita. melhor..Não há que duvidar? É a Cruita.pronunciou ele.. a zoeira do vento nos pinhais do povo ou a água a cair dum açude. chegou a um povo atolado em branquidão. de joelhos à boca. é boa! Estás na tua terra. Não me consumas! . não apenas uma poça na neve.exclamou ela. onde ficara a mulher e o menino. a Cruita não pode estar longe.. pondo ponto final às considerações da Ruça. julgaram ouvir ao longe. a mulher estendida ao comprido e com uma poça aos pés. se voltares. julgando que em poucos minutos chegava à povoação. Sua Senhoria não chegara a andar metido com o Calhorra e o Zé dos Cambais na mina do Santo Antão.. Foram no rasto do Roupinho e notaram que o desgraçado andara em volta do povo como um cavalo no picadeiro. Onde é que estaria? Perguntou ao primeiro fantasma que avistou: . “A mulher. Você s não ouvem. que disse consigo: -Não vou bem. E torceu caminho. qualquer coisa que ora parecia. rijos que nem carapaus.Vocês fiquem aí que eu chego ao povo buscar uma burra. sim. deram pela falta da mulher e do menino e largaram à busca deles tendo pensado e muito bem que tivessem tombado na jornada. mal ia a agarrálas. onde é que eu estou? O fantasma olhava para ele muito fito e acabou por dizer: . Que houve gente que aproveitou. rijos..gritou ele com o mau génio que tem.Nossa Senhora me valha. de pedir a Deus a morte. afigurou-se-lhe ver certas sombras encavaladas ao longe e meteu para lá cheio de esperança. só lhes serviu para ganhar vícios e maus costumes.Patrãozinho. As sombras fugiam diante dele.” .E afinal que levava o Roupínho nos taleigos? 144 . .?” . O Roupinho deitou a correr. Era manhã e com o livor do céu a neve pela encosta como que chegava às estrelas que ainda pestanejavam na casa do Senhor. do seu foro íntimo. e novamente disse arrepelando os cabelos: . puxou o menino para debaixo do braço como fazem as galinhas aos pintainhos.. que o volfro só deu pão a meia dúzia de trafulhas. não se compreende bem. de facto.? “Puseram-se a escutar. mas na terra. homem de Deus! . Ora. encontras-nos mortos. Caminhou. Aí tinha no que dava o volfro.Quando voltares. A Cruita deve ser para ali.

Rosa? .Só queria que visse! Umas vezes atira-se ao chão. .e a criatura. Deu dois passos de cá para lá. que purpureara. e deitando a sua casquinada párvoa de riso.? À-d'el-rei! E ora grita. ora se arrepela. A mulher.Então que há.. como não havia de estarfrio! Ainda temos mais neve. que é a minha. meu senhor? Vergonhas do mundo? .caiu um grande codo esta noite. impediu-lhe de a reconhecer. Depois dos intróitos da lei . ..Cuidei que sabia. Ela então afoitou-se. prosseguiu: 145 . de sacho feito.. Tadeu acenou que não sabia de nada. um tanto fremente e de finca-pé. Era a Rosa Pedralva que pedia para lhe falar. sim.. duas vezes para a banda. Mas como têm o desinfeliz do homem como trespassado sem confissão lá julgam que diabo ou alma do diabo são uma e a mesma coisa. O senhor Simão não soube retorquir. .. Para qualquer parte que vá são todos à uma a perguntar: Então a sua rapariga anda endemoninhada? Aqui tem. realmente. deixando apenas luzir uma réstia do rosto. vou-me até Malhadas desenredar a meada com o José dos Cambais . Temos encomendas . o seu cento de ovos. um lorpa que deu na vida de mendigo e mariola. Como Goethe. ora chora. A capucha em que se embiocava.. que estava à mesa quando lhe levaram a notícia da morte do grão-duque de Weimar. E levantou-se para a saleta que lhe servia de cartório. Faz então os seus desconchavos. desatou: . na capucha. Dão-lhe acidentes ruins e deita a dizer asneiras e um palavreado que ninguém entende.. que Deus tenha.? . . Agarrem-no! Não o vêem.Que havia de levar o tolo? Levava calhaus que não prestavam para nada e só podiam enganar. Se calhar. torcendose uma. Estava indeciso .deu conta duma mulher que vinha direita à sua porta. é por isso que eu aqui venho. espolinha-se toda e pranta-se a gritar: Estou no Inferno! Estou no Inferno a arder! Quero para cá o ladrão que me matou! Porque não o deitais para cá? Lá sai ele da esquina.A minha Florinda que dá que falar.Que há.Se lhe dão acidentes. Agora mesmo era tarde para tal expediente.. Se a fortuna andasse assim aos pontapés à superfície da terra quem quer deitava gravata! O senhor Tadeu ficou com o coração apertado depois de ouvir a história macabra do homem da rifa.rosnou com os seus botões.Se é a alma penada do José Francisco não é o Demónio. o cabrito na devida altura.. e ficou à espera que a Ruça chegasse com a parte. levada em sua freima. mas reparou que era despachada e pisava com segurança. livraria e casa de receber. . mas não da teológica.Também fiz esse reparo. com seus amarelos e verdes a luzir. que lhe fala no corpo.pego do Breviário. escondeu a face. além de que são precisos três homens para a segurar... desprevenido para aquele ponto da casuística. teria dito se a Ruça não fosse a Ruça: Mudemos de conversa.observou o eclesiástico. A Rosa Pedralva nunca deixava de lhe trazer o folar: um galo paívante. não lhe trago novidade nenhuma. e apressou-se a mandá-la subir.. e a darem-se ouvidos às bocas do mundo é a alma penada do José Francisco. susceptível de peguilhos.. espreitou o céu fosco pela vidraça embaciada e começou a sentir o peso da marrã. está necessitada de medicina. Que ande ou não ande. Por último. Corre o ano bom para os pães proferiu: .

delle fazemos e a infallivel obediencia q. Porq. vai ouvir. antes de ir à benta. eu. De mão afoita. ditas com hua brandura tibia na fée. A bem dizer começaram-lhe a dar na tarde em que o corpo do José Francisco baixou à terra. parou diante da copeira.” O senhor Tadeu desceu de afogadilho pelo texto compacto. béu!.5 e q.s. Larragas.. em nome do Filho. O senhor Tadeu ficou suspenso a considerar o caso bicudo e. em que não houve uma só pessoa que não reconhecesse a gosma do tio Gomes..Há que tempos tem os acidentes? .. e do poder do santissimo nome de JESUS falle com elle como com hu cachorro rebelde a D. que herdara do antecessor na igreja. desandando. agarra! Agarra! Béu. agarraram-na e levaram-na à força à Maria Choca. riam use pois de palavras: deixame ou quero q. correu o fecho e pôs-se a remexer a papelada. E.. Não descortinou o tratadista especial. referentes a exorcismos.Estava com a cardina. dizem que também a alma penada dele se lhe meteu no corpo.? lugar advirtam exorcistas e exorcizado q. hade dar. Lá estava. Noutro diaço. demorando os olhos um segundo a compenetrar-se do antídoto receitável em semelhante operação contra a timidez: “0 remedio p. e. . queira ou não queira.Chamou-se o Gregório dos Santos.. Eram umas Advertências manuscritas.ta. inquiriu: .Se ele nunca a largou. roncada. benzedeira. despede pela estrada a baixo a berrar: Agarra.s castiga as 146 . o barbeiro de Pedrões.. em que se repete o João Gomes que morreu a enxotar as pitas da horta. não podes escapar e desobedecer ao poder da Igreja e do s.. . montando a luneta na bitácula mole e esponjosa. Lentamente passeou um olhar.. mais não pode. pela estante em que se perfilavam em seus pergaminhos amarelentos e carneiras arregoadas os Fernandes de Moure.. A Maria Choca pôs-lhe o pé na barriga e conjurou: Em nome do Padre. Umas vezes dá-lhe para aquilo.. e isto com hu tal modo e metal de voz q. Por isso mesmo há quem afiance que é o espírito do assassinado que se meteu nela. O Simão Tadeu não lhe tornou resposta.? . me deixes. respondeu: Não saio e não saio! Mas o mais frequente é rebolar-se no chão e romper a gritar contra assassino. pareça se lhe pede por fineza aquilo q.a isto principie sempre usando da palavra: mandote q. em nome do Espírito Santo. O demonio he a espada com q. actualmente blasfema e desja vingar em nós o odio q. R. mais mental que perspectivo.a estes medos he meterse de gorra com D. quando ia com este destampatório. béu. finalmente. cachorrinha. intimo-te a sair desta irmã. tirei-me dos cuidados para vir ter com V. levemente flectido mas distinto. elle faz porq. Ao seo e nosso criador tem: p. digno duma folha membranácea e de capitulares a azul e mínio: “Em pr. faças. mestres de cerimônias e rituais. . D. lhe mostre o desprezo q. mergulhou naquele bastardinho do século XVIII.? Mas porque são todos à uma: é o Porco-Sujo.e por estas vozes. para dizer alguma coisa. Luís.. O grande machucho viu-a e cuspiu para a banda: É com os padres. R. ao diabo não fallem de amores. outras vezes.Foram ao doutor? .Mas não é tudo. porem revestido de hua authoridade s. E uma voz de dentro. V. mo nome úeJESUS. mudo e cismático em operação remissiva. são os espíritos. isto he com taes palavras e tom de voz q. António de S.Há já uns dias.

não era naquelas duas horas que virava o tempo. Mas para ver. dar-se ao incómodo de chegar a Malhadas. As manchas arredondadas das reses distraíam os olhos do verde jacente universal e do marasmo que varava a terra. O senhor Tadeu foi à janela considerar o cariz do céu. V. Na esteira da mulherzinha. para que lhe viesse falar. vencendo a repugnância que sentia pelo assunto.inquietações de seos amados f. não há outro remédio senão V. À medida que foram avanç ando pela estrada deserta .. minha santa. Foi ao quarto vestir a garnacha e armar-se do guardachuva. sempre liberal e mesureiro: .Vamos lá. e os meninos. R.não se lembrou mais dele. que morava no Casal. R. tanto mais que tinham ido chamá-lo para exercer o seu múrius e para pantominas não estava. Mas a Florinda não estava em casa e as vizinhas não sabiam dar razão dela. Aqui é pior que nos altos da Nave. que tem lá uma boa fogueira para matar o frio. He loucura temer a espada e não fazer caso da mão q.A que horas costumam vir-lhe os acessos? . mas o lavrador nem lhe deu tempo a respirar: ..Também digo: só vendo. espavorindo as galinhas. Foi-lhe grato desemperrar as pernas. embora não quisesse descontentar a boa paroquiana. Para não arrefecer de todo. mandou recado ao José dos Cambais. desceu as ruelas mortas da aldeia neolítica. O senhor Tadeu mostrou-se interessado em apanhar o fio da maranha. Mas o Cambais. de monco caído e zimbório da barriga ovante. aqui no meio da rua? Homessa. meio nus.faltava a gasolina aos automóveis . Viram-na a caminhar para Manfurada..Homessa. a move.Vistes a minha Florindá? . O assunto é muito melindroso para o pároco se poder paronunciar de outiva quanto à oportunidade da sua intervenção. estranhados dos rari nanti. farejou relutância e redarguiu: . e enterrando o chapéu na cabeça limitou-se a proferir para Rosa com voz bem timbrada de conformação: . .os rafeiros dos rebanhos arremetiam das escarpas. mas pela imobilidade. Ali o veio encontrar o José dos Cambais. mas de modo algum a sua pragmática. A Pedralva. que se espenujavam no ciscalho. começou a calcorrear a rua para trás e para diante. entrou nos domínios da Ruça a avisar dos seus propósitos. sem abarcar bem as razões do padre. À entrada do povo de Malhadas encontrou o Fandinga sapateiro. Venha para minha casa. ia com a mosca.Se espera pela Florinda.Só vendo. Era mais de meia manhã e já os gados andavam pelos montes.... ponderou: . abismou-se na leitura das horas canónicas. já lá vai a mãe e a parentela em cata da cabroila. batendo a bota. e de porta em porta a indagar: . Ontem vieram-lhe à roda do meio-dia. tanto mais que a carniça começava a pesar no estômago.os. “ Por ali fora de página em página. que pesava sobre a natureza. E logo a mãe ficou sobre brasas. Mas a lengalenga da mulher acabou por tornar-se-lhe insuportável e puxando do ripanço. Continuava escuro para os lados da Serra da Estrela. E. divisando ali a dois passos a 147 . Estaria previsto na administração de tal sacramento o caso de Florinda Pedralva? O senhor Tadeu tinha as suas dúvidas e. a patinhar no charco. Ele quis resistir. dir-se-ia pétrea. leva que leva pelo tacto. ensinava-se o modus faciendi psicológico do exorcismo.É variável. está bem arranjado.

ferramentas e agora a multa e papel selado. A guarda de Orcas da Beira. em atenção ao Calhorra. somadas todas as despesas com jornas. dono do terreno e endossante. Os três sócios requintavam em roubar-se reciprocamente com tão seguro jeito e malignidade que. como para o mais. tapando-se a boca das viúvas com umas centenas de escudos. não havia dúvida que. em contra do que dispunha a lei. De sobejo estava ao corrente das manhas e malas-artes usadas por uns e por outros. Mas haviam de pôr todos o ombro. Em Orcas. Torres. Soga fora ela que pesava em mais de trinta e sete contos. que uns anos por outros lavrava meia dúzia de alqueires de milho e comia as batatas com azeite. o José Francisco 148 . e também do Antoninho Frâguas. deitava-se-lhe a soga. restringiu-se a piscar o olho e a sorrir malicioso. se desquitara do negócio. Quem havia de pagar as favas? O senhor Tadeu. o grande patife. O Calhorra surripiara ao José Francisco e ao Cambais.000 a 7. madeiras.mulher do Lázaro Fandinga de orelhas fitas para o que se dizia. não era bastante quanto amanhava ainda que passasse a comer o caldo sem unto! Pelo que respeita à multa. Então quem? Ora. a exigência dava em águas de bacalhau. assim Deus lhe desse a salvação! O senhor Tadeu ouviu a longa deprecada do homem sem proferir palavra. a política do olho morto.por todos os motivos e mais um. Estava persuadido que. achava muito bem. a responsabilidade era. avisara-o que tinha a satisfazer uma renda vitalícia à gentinha dos desgraçados que haviam pateado no Santo Antão. manda-chuva daquelas parvónias. da pretendida indemnidade. não . Arrotava quem podia. encerrado na sentença que ouvira a um tolo: dizem e dirão que a pega não é gavião. Apurados em sua mão havia por junto treze contos e setecentos.000 escudos e bem sabia ele que o seu nome fora uma espécie de pavilhão para cobrir a mascambilha. Em compensação rompeu logo a contar pela centésima vez a história da “grande pouca-vergonha” de que era vítima. colectiva. e nã o ser só ele a mandar para a vila juncos de trutas e cabritos. Mas em muitas outras partes não sucedia a mesma coisa e as autoridades não faziam vista grossa? Quanto ao rescaldo do desastre que atirara para o maneta com os dois homens. além de lhe apreender o volfrâmio que lá tinha e multá-lo em cinco contos e quatrocentos a pretexto de que executava trabalhos de mineração fora de todo o regulamento. toca a andar com a devassa. vieralhe fazer um varejo a casa e. Mas assim que ficaram cientes de que o filho do Fráguas estava debaixo da terra a fazer tijolo e o Calhorra. se a lavra de Santo Antão fora dada ao manifesto pelo Dr. presidente da junta da Parola e todo deles. estava ali aquele sendeiro do Zé dos Cambais. o Cambais surriplara ao Calhorra e ao José Francisco. está bem de ver. no fundo. ou fossem vinte e três contos e pico? Não estava certo. Tinha muita pena que a soga aperreasse de tal modo o amigo José dos Cambais que. não era mais larápio que os outros. Era ele que havia de ustir com a diferença. muitos deles corriam os soalheiros. mas ele não podia. senhor Ligório. para trabalhos que se seguiram. irrorio. Na totalidade embolsara 6.e ele estava plenissimamente de acordo . à ordem do senhor administrador. lançados os latrocínios numa balança de ourives. Irra. os técnicos não tinham sido ouvidos nem chamados. praticaram. com foros já de clássicos. enquanto lhes pareceu. não lhe chegassem ele aos ouvidos mil e um rumores através de condutos especiais e infalíveis! De resto. não se falando. não estava. casados e pais de filhos. chegar-se-la a concluir que cada um deles tinha exactissimamente sacado o seu quinhão. Mas do seu bolso não recebia ele nem tanto como um feijão-frade.

Conduziram-no para a lareira onde ardia um lume magnífico de raízes de carvalho. cascudos e enfisemáticos. Tinha passado o equador da vida. sucessivamente associavam-se dois para roubar o terceiro. Segundo os murmurinhos. e insinuava-a pela sorte de meato que fica na folheatura da serapilheira. da cobertura moral e até crédito bancário que emprestara à empresa na sua qualidade de eclesiástico. furando até poder retirar a concha carregada. Ao bafo caricioso sentiu-se outro homem. à ideia de que tinha uma meia rota e se lhe viam os dedos dos pés cheios de calos. meu compadre Cambai-ç é um inocente!? É tão inocente que vos come o caldo na cabeça e ainda lhe migais a tigela! Sim. associavam-se os três para roubar o quarto. Mas ouvindo aquele José dos Cambais. Mas o homem soube ser bizarro. A senhora Emília dobrou uma capucha nova muito bem dobrada. o senhor Tadeu mostrou certa relutância em subir.surriplara ao Cambais e ao Calhorra. O malandrico tinha a mão fina. Mas nisso se enganava ele muito enganado. Bem atados com nó cego. estava a ganhar a morte no meio da rua. Contas feitas. Verdade. Depois veio o Cambais muito solícito para lhe tirar os butes. que era ele. hediondos como as ventosas dos polvos depois de secos. alargando. ensinado pelo pai. Enchia-a e despejava-a para o chapéu. Uma vez lá dentro. quando cinturado o saco pelo cordel. verdadinha. Pouco lhe importava que pelas costas o chamassem fona e dissessem que dinheiro que lhe vinha à unha era alma que caía ao inferno. e convidou-o a sentar-se. estava sabido. ia comprimindo para os lados. Ao tempo em que os três sócios se não chamavam ainda gatunos com todas as letras. Sem falar no que estragara e passara às unhas aduncas do paizão e da mãezona. Mas grão a grão enche a galinha o sarrão. fina como uma tenta. mas não lhe era indiferente que se rissem do seu físico. o Tonico. Ao menos o Cambais estava advertido. o certo é que o rapaz estreou sapatos amarelos e quem quer podia ver-lhe aos domingos pendurada no bolso da jaqueta uma rica pena de tinta permanente. e podia comparar-se a descoberta ao chupar vinho com uma palha pelo batoque da pipa. sabia-a toda. não passava pelo entendimento de ninguém que o volfrâmio pudesse sem escândalo ser maquiado. sem largar o seu ar bom-serás de burro das panelas. cobriu com ela um escabelo à laia de almofadinha. como as bulas do Papa. Mas ele. como Pilatos no credo. vinha bem ao fundamento das palavras que o Calhorra dizia: Hem. Pois maquiava-o o rapazito. nanja pelo filho de seu pai que figurava na empresa. quem levava os sacos para a casamata que haviam arrendado a Pedro Reganha era o catraio do Cambais. não haja dúvida. que era o modo de se aquecer à vontade. por fim. marcados os nagalhos do sinal de cada um. protestou. uns calos olho-de-perdiz. se bem que de fisionomia enjoada e um recato funérco no vestir. Pois que a presumível possessa abalara para longe. o José dos Cambais tinha direito a ser indemnizado pelos dois sócios da vigairada. Era por estas e outras que o grande caloio para ele vinha de carrinho! Chegado à porta do José dos Cambais. Estava ali a Teodora e. não valia a pena ficar tempo indefinido à espera dela. Eram uns gramas de cada vez. bem sentia que pusera os olhos nele e o espreitava. todo melúrias. a rapariga conservava-se fiel ao compromisso que tomara com o 149 . bem embora no âmago da sua cortesia se entremostrasse o empenho que tinha de captá-lo. A somiticaria de notas que recebera ficavam à conta das muitas passadas que dera.

dentro da casa que à sua maneira se esmerava em obsequiá-lo. protestaram. e a jarra de vinho espirrador . com muito gosto. mas repetia com o seu amigo Fráguas e ninguém de sã consciência saíra a responder à sentença: Se não foi o Augusto Aires que assassinou. não passava dum frontispício. No fundo de sua alma. Era uma desfeita que fazia.Deixe-me dizer-lhe.ele voltava à vaca-fria. R. Então S. de reserva na cantareira até que a Teodora com uma tesoura caprichosa a talhasse em bicos e renda para forrar o armário. A senhora Emília encheu o copo de vinho e ofereceu-lho. dizer que não.. além de que era faltar à justiça. trutas de escabeche. Que me diz V.Aires e não podia ouvir dizer que fora ele o matador. a Florinda e a hora em que caíra na arara de deitar até Malhadas. R. aconchegou o borralho. mais hora. Por sua parte não votava nenhuma espécie de azar ao homem. havia de resplandecer como o sol ao meio-dia. Com ar profundamente infeliz. Tão-pouco o Cambais tocou em semelhante matéria. porque era de pobres. de Lamego. burundanga maior ainda. Pediu que o não obrigassem a comer.torresmos. era melinite.” Talvez assim viesse a suceder.. pois que não é discreto falar de corda em casa de enforcado e ignorava o pensar de José dos Cambais.. como se se tratasse de águas passadas. abrindo urna cova nas cinzas que beiravam da fogueira. O Cambais e a Emília. pois era notório que o filho. embora V. tenha assumido sob palavra a sua quota de responsabilidade no negócio. ciente por experiência que chouriça nas brasas. nem sequer molhava a boca? Não e não. Se precisasse de testemunhas para ir jurar que os dois eram tão autores como ele na frajoca do Santo Antão. R. não lhe parece que os dois sócios devem pagar a parte que lhes venha a competir na contravenção? O senhor Tadeu. fugiu de aludir ao acontecimento que enlutara a freguesia. Veio a chouriça que ele embrulhou na Semana Católica. eu não quero que seja aqui chamado. Não estava resolvido a deixar-se arruinar pelos bonitos olhos do Calhorra ou do Antoninho. logo mais. anotando: . tinha imolado ao almoço uma rica pratalhada de marrã e estava repleto. Bem bastam os incómodos que já tem tido.A V. acesos cada um mais que o outro em bizarria.. Comer ou beber fora de horas era roubar-lhe anos de vida. quem foi? O senhor Tadeu. negra como um tição. O Cambais fez-lhe o prato e pôs-lho nos joelhos. “Que não e não. Mandou à mulher que trouxesse uma chouriça.. quando a digestão chegasse ao seu termo. a quem Deus falasse na alma. dava verdadeiramente a todos os diabos. perguntou: . e novamente implorou que o deixassem.? 150 . a soprar. entrava na casa deles e. Que dizer ali naquele caso anfractuoso? Concordar com o Cambaís era ele próprio oferecer a cerviz ao jugo fiscal. atirada para o seu estômago. Perdoassem. assombrado perante a manobra do Cambais.Já sei o que V. E. levava a freguesia toda atrás de si. o senhor Tadeu olhou para os torresmos que se lhe afiguraram a descair para o ranço e os peixes. meteu-a por baixo... quase perdera a fala. quer. Mas o Cambais foi implacável. Enquanto a mulher improvisava um beberete . e dizia do Antoninho. negra. menos hora. O Cambais penetrou a sua indecisão porque acudiu prontamente: . pousando os olhos nos olhos do padre. a inocência do seu namorado. chamava-se desprimor. R. R. não apenas a um. e rúbido da chama. Pelo menos entendo que não temos que o citar para o ajuste de contas.

Cheirava que era um consolo. atirou-se de cabeça.Olhe.. Bebia tudo.Eu pus-lhe a bênção. dum naco da broa centeeira e encomendou a alma a Deus. Pois é ou não é verdade que eu só entrei para ela depois de o Calhorra e o Fráguas terem moído e tornado a moer ferro no oiteiro? É ou não é verdade que ao fim de cada semana eu pagava quatro )ornas.. Vox clamantis in deserto.. Zé dos Cambais? Homem. Vá. Absorveu a talhada toda e liturgicamente lançou-lhe em cima o digno aspersório dum copázio.. para V. foram. V. que e um supor. enquanto Calhorra e 151 .. onde se lhe requeira. mesmo salgado com rosalgar. É uma auguinha rosada consoante saiu das videiras. como um nadador ainda pouco experiente que perdeu o medo. pode atirá-la fora que não levamos a mal e mandar-nos prender. pagaram-me. como é que nasceu esta comandita.Mais uma gotinha. ganhou ânimo e respondeu com desembaraço: . comia igualmente aquilo que lhe viesse ao prato. Agora não se acabou para V.. depois de virar o canecão. ..Não é tanto assim! . espargindo à roda um odor voluptuoso. Eu lhe digo.Mas está bem. Pegou do chouriço. R. depois a limpá-la do invólucro engordurado e comburente da gazeta. R. O Cambais não respondeu. para empregar a expressão herética de Jácome. Engoliu em duas bocadas o segundo naco. R.. Quero chegar a que V. R. sim senhor. emborcou um segundo copo e afoitou-se a investir pela terceira vez com o especione. mas o quodore estava divino. R. no que diz respeito a V. Foi então que o Cambais. será o primeiro a declarar. Despejou a sua taça e só depois disso é que o Cambais. quem andou com o arame e quem levantou os lucros. pronunciou como se não houvesse mediado na conferência pausa tão considerável: . Meteu-lhe na mão tassalho ainda maior. o farmacêutico. ocupado a extrair a chouricinha do lume. ainda que fosse a tibornada que os judeus deram a Cristo pregado na cruz. O senhor Tadeu não pôde deixar de sorrir à frase por demais especiosa do homem. quem foram os pais da cria? Não foram vocês três? Foram. .A chouriça chiava no brasido. Pois lá se arranjem. ali à Emília que forjicou o fumeiro. quem a urdiu e pôs os primeiros aviamentos. o grande mariola.. que dizia eu? Vá mais. cobrou-se dos direitos de pé-de-altar e ninguém lhe pode levar a mal. Porventura porque as pepsinas se estimulassem no seu aparelho gastrintestinal. Foram os emolumentos de péde-altar.. Por esse lado acabou-se. Numa última e desesperada tentativa invocou os arrotos chocos a que era atreito e a sua pobre máquina combalida. E fitando-o bem nas meninas dos olhos. A tia Emília tinha dedo.Hem. Ah. Contra a prepotência amável daqueles anfitriões não havia escudo possível.. meu senhor.. a mim que comprei o leitãozinho de mamoto. fale claro. O Cambais que tal viu rejubilava: .Vá? V. nem parece que todas as manhãs bota abaixo! O senhor Tadeu já não resistia. prova. O senhor Tadeu.. . aos três sócios.Sabe onde eu quero chegar.Mas onde quer você chegar. voltou ases moutons. disse-lhe: . R. Se não gostar. no que diz respeito aos mais. Acabou-se. tinha dedo. José dos Cambais. Este pode beber-se que não trepa. está bem de ver.. Partiu à unha para um prato: . sim senhor.

está liquidado. . que era ao mesmo tempo como o selo da sua vontade assente e contrária ao que o pai dizia. levo o Calhorra. certo de que as suas palavras operariam como um bálsamo naquela alma ulcerada de proPrietário: . homem estreado em toda a sorte de cambalachos e omnipotente tanto quanto se é numa terra venal. dava-lhe um lume mental que lhe desconhecia.Mas fico de pernas ao ar. raposão de rabo pelado que não adiantava passo sem averiguar que era para ali? E o Tadeu antegostou a resposta cordata que em consciência devia ao Cambais.Esse dinheiro que me levaram é para salvar o desinfeliz. e na partilha dos dinheiros não recebi um real a mais que os meus dois sócios? Aqui está. na presença do antístite: . mas o que se chama o conselho desinteressado dum amigo: faça de contas que há dois casos. não há que fugir. o primeiro. se é mentira.. ouça. Quase fora eloquente. mas bebericar de piteireiros. Eu comprometo-me ir a Orcas. gesto que só uma vez tivera para um colega.. metendo ainda em conta o trabalho dos filhos que têm rabo e mais nada. Faz-me dó. O sentimento de que.casa. meu senhor. Mas. e contra o Calhorra. quem se queima alhos come. E acabou-se. que o mete a você sozinho. o que eu desejo que confirme com o peso da sua palavra acreditada. O Tadeu olhou para o Cambais e viu-o transfigurado..Fráguas. além de atirá-lo para fora dos alicerces naturais. toque? O Cambais ao tempo que encalhava a manápula calosa e grossa na sua mão papuda deixava verter uma lágrima. se ficavam nas duas? E diga-me ainda V.! . se é verdade. consumar-se-ía a ruína da. levo o Antoninho e arrumamos tudo. está para liquidar. Abafa-se o processo da indemnização. vai ver. Agora já não era beber.O Cambais pôs a questão no seu lugar. Não é também verdade que a madeira gasta nos escoramentos do bolso me saiu. homem.. Se bem penetrava no íntimo do Cambais ele caçava por longe para alguma coisa alcançar ao perto. Mas ele não podia prometer-lhe semelhante testemunho que brigava com a mais rudimentar prudência e o compadrio solidário que nutria com os parceiros. Ele estendeu-lhe a mão. concordo. Embora cá na rapariguinha escuse mais de botar o sentido. R. que eram a pacatez e o siso comum.Toque. Quer um conselho.Não fica. Está pelos ajustes? O Cambais parecia hesitante... O senhor Tadeu sentiu que o Cambais mentia pelos cotovelos quanto à colocação do seu capital. muito colaços e roçando-se um pelo outro. Depois de se ter atirado contra todas as leis divinas e humanas da conservação a comer e a beber à tripa forra. pouco mais adiantado está que seja assim ou assado. corno homem que salta de pára-quedas da estratosfera. Tornaram a encher os copos. atravessara já as várias fases da beberronia e estava na saturação. Mas era 152 . o aguço dos picos está ainda por pagar. o segundo. ou desminta a pés juntos. Não é só até o momento em que a sociedade se dissolve que o caso é uni: daí em diante o caso continua a ser o mesmo. Devolvem-lhe o dinheiro da multa e o volfrâmio que lhe apreenderam.. Como renhir contra o Fráguas. que metia os sócios tal tal e tal. uma lágrima marota de crocodilo: . se não atalhava com mão de ferro. Reflexamente ergueu os olhos para Teodora e viu-lhe nos lábios um esgar de desafio.

cada um a ruminar pensamentos de abnegação e grandiosos no tocante a suas pessoas. está zorata como a tia . com a pressa que vinham as bandas da capucha em asas de aeroplano: .? Não pode ser.. mas ao calor que recolhera à fogueira e à chama do briol que lhe alambrava nas entranhas. encarnados na marrã. Levantou-se e com dois cumprimentos à boa dona e à sua menina despediu. nem um cocoricó de galo pelas quintãs. tomou-lhes o passo a Polónia Fandinga.A esta hora. àquela hora sem coleira de vaca a casquinar os tintinábulos.tempo de regressar a penares. O senhor Tadeu seguiu adiante estugando o passo. na bóla centecira.. Fazia frio.A Bárbara queria confessar-se. O José dos Cambais porfiou em acompanhá-lo até Mouramorta. Ao atravessarem diante da casa da Bárbara Ladeira. na chouriça.. meu senhor. 153 ..Ora. no verdasco.aduziu o Cambais.Está mal. Foram palmilhando as ruas tristonhas e desertas. Fora persistia o silêncio hibernal.. que haviam tomado de assalto a pobre ruína do seu estômago.. um frio seco de aço em barra. . . ... piores que diabos do inferno. Tinha pressa de ver-se sozinho pela estrada silenciosa a lutar contra os mil diabinhos da gula. Proibiu-lho. Então até a saída do povo. não o sentia.

Não senhor. limpou a lágrima e ergueu-se. o Duarte. E. Sabe onde fica? Nunca para aí gastei a amieira dos socos. quem se cobiçou do que era dela pagou-o com língua de palmo. marralharam. dois pêlos no queixo e andava de blusa espanhola e chapéu desabado. que podia entrar para o cabedal da sabedoria das nações. tratou de desfazer-se da Cereja..confortou o bufarinheiro.XI Compro farrapos! Ao ouvir o pregão que alagava a rua. olhe. Bárbara. que agora para ela só causava estorvo.Vamos lá a ver. e fez dois montes. mas já ouvi dizer que são boas terras. Caramba. ó patrãozinho. Como ela se postasse da parte de dentro da porta. atada em cruz pelas quatro pontas e chamou-o: . Numa volta de mão virou a trapagem toda. ihf . chapéu para a nuca. quase tacteante. que ainda era mais seguro no vender do que no comprar. entretanto. Bárbara tinha já o trapo apartado para uma manta velha. . então. percebeu logo o farrapeiro que o convidavam a entrar e foi avançando.. que eu não posso. era este: quando compres.. tire-me daqui esta trouxa.Faça favor. têm muito gravanço. 154 . desatou o fardel. . mãos sobre o dintel. tão rápido quanto as forças lho permitiam. a embarrilavam! Quê. já com alguma joça. vazio. sobretudo andrajos de homem. voltou atrás.Então. e soerguia a tampa duma arca. quanto quer por isto.Tenho para ali uma trapada que não me importa de lhe vender se ma pagar em conta. perfilava-se no vão da porta. Quando pôde estancar o pranto. mais ou menos pouco conta. para um lado o que era burel. ih.. O homem.. Bárbara era uma bemvende. por ser mulher.. O homem. . e com a vaquinha tudo o que respeitava a apeiros e achamboaria.. Nesse mesmo momento desandou ela o cravelho da porteira: .e ao passo que isto dizia entrava em casa. admira como a segurava no corpo? Era o seu homem? . Trazia um saco às costas. Logo que o irmão foi dado à terra.Compfrrapos! desfraldava de novo a voz.. passando em frente da casa. para ver à sua vontade. Supunham que.Irmãozinho da minha alma.Sou da Cruita do Alto. inclassificável. que se acocorara na quintã a chorar. à força de servir da cor suja. santinha . venha cá. ambos de serapilheira. lã. ou pouco menos. ih. que era baixo. combinado em sua toadilha quente ao sol claro de Abril e ao cantar dos galos. e sobraçava outro. . da sua pele aciganada.Não se consuma. Dentro havia de tudo. toma tento que o mais é sempre menos. . caminhou para a porta. O belfurinheiro anuiu e. como lhe costumava dar multas vezes ao dia: . levea para a quintã. alguns mondongos de mulher. . sem se fazer rogado. que tinha cara de rato. Está aqui a roupa dum trabalhador danado. para outro o que o não era. mas tenho andado ao negócio para as bandas de Vale de Ia Mula. tão usada e delida.Todos havemos de passar por essa portela. quando vendas.. O senhor donde é? . um diabalma que se não prendia com as louçainhas do mundo.. Compôs a sala e a passo vagaroso.Pst. estopa. Tivera bom mestre. pst. O seu preceito. era meu irmão! E tanto bastou para romper num choro alto e convulso.

Para que é o trapo? . para responder. mas não vás ter-me por beata fingida. Não que lhe fizesse mossa anunciarem-lhe o fim para breve. se é certo o que diz o tio Gregório dos Santos. Pois para que queria vossemecê que fosse? Isto assim já não dá vestir.lançou-lhe Bárbara em voz sacudida. Em face das arcas abertas. quero-o para o meu bem-de-alma.perguntou alçando a mão para o saco..Derreter derrete-se o volfro.Para derreter. a quem Deus perdoasse o desvairo. . acudiu chofrada: . Tomara ela que viesse já.E que tens tu com isso? .Que leva aí? . uns frangalhos coçados e meio podres. que a andaina melhor levou-a para a cova. E necessitados não lhe faltam na família.? Queres? acabou por responder.Pois a vender o espólio do enforcado. aos poucos dias que tem de vida? Ela ainda descerrou os lábios. . Não tenha dó... puxou-lhe aquele pigarro seco e teimoso que a deixava ofegante e vermelha como uma papoila. traindo a desarrumação dos manaxos. . mais sotranqueira ainda que a própria inveja. Os meninos andam tão rotinhos que se olha para eles e vê-se mais coiro que pano. O meu Lázaro não tem um jaqueta com que se possa apresentar na feira a comprar a sola.. Mas ele não despegava. . por três vezes o homem despediu. O que a aborrecia era aquele zumbido de vareja ao cheiro de carne morta. minha santa.Vá com Nossa Senhora? .. Hei-de gastá-lo em missas e responsos. Para que quer o dinheiro.respondeu Bárbara em tom áspero e de olhos duros.. aninhada no palhuço da quintã.Culdais que é só fazer filhos a rabo destapado? Agora aguentai! . perguntou-lhe: . não se conteve que não bramasse: Vornecê. nem uma voz.Queres saber para que quero o dinheiro. apareceu a Polónia Fandinga que.? A outra que era uma pobre de Cristo. saía com o fardo às costas. quita de andar com panos quentes. ao que andava nas últimas e ter mais côdeas do que fios. e outras tantas se desfeitearam de palavras.. entretido com o brequefesta. Quando já haviam fechado o negócio e o farrapeiro. Mas a cólera. e Polónia.e voltava à sua fisionomia de carta que se deita à caixa. lábios cerrados como o sobrescrito duma carta que se deita ao correio e não deixa ver o que diz por dentro. nem um aceno. sendo prima pela banda da mãe e sentindo-a no fim dos dias.Não vale a pena arrufarem-se. . . E ainda que a roupa dele não. o que era caso raro. Não era isso.O bem-de-alma faz-se em vida socorrendo os necessitados. Valha-a uma figa torta. 155 . Polónia percebeu que a prima se desfizera do bragal do Duarte.. valesse dez réis de mel coado. apossando-se dela. A tiazinha torna-me o dinheiro que eu torno-lhe os farrapos. às duas por três estava ali deitada.Sempre te digo. O farrapeiro que se detivera à porta a ouvir o despique exclamou: . para logo recair naquela caradura que lhe era comum. Pois então. por três vezes volveu atrás à voz dela. que era curiosa. .

e quando se sentavam à sua volta tinham mesmo cara de velar um cadáver. que também era prima direita. . Um cartaxo poisa em cima delas. Abandonara-se ao comer.Fica que nem uma baronesa . que vêem passar o dia e a noite pelos séculos dos séculos e não se ralam com coisa nenhuma. a fugir ao agouro. ih. lhes tocasse à aldraba. Trazia sem dúvida o dinheiro com ela. Está aqui está na Alemanha. O Gregório barbeiro dava-a como héctica no último grau.. e.Credo. Isto de lãs por modos anda caro como a morte. Pouco lhe há-de durar? Não a vêem a secar dia a dia? Aquilo há-de ser como a caruma que está mirrada quando chega a adubar a terra. . Pela vida fora. aprendera a ser indiferente ao que diziam e pensavam dela. como nunca mais pegara do pente para se pentear ou de sabão para lavar uma fralda.. a folha da couve galega. Ainda cá chegam. se estivesse na mão de Cicrano ou Beitrano coisa que lhe fosse indispensável ou preciosa. . a talhada do unto.murmurou Polónia. que fora uma abelha a moirejar.exclamou a sapateira.E isto volfro é. muda. Foi para vomecê lhe deitar as roupinhas pela água abaixo que o primo se enforcou. .A vida está para estes pendentes . credo. Deu-lhe uma risada e desandou pela rua acima. não tão curta que não visse três padres colarem-se na freguesia. mas não era só por isso.remordia Polónia. depois que faltara o irmão. vozeirando: . Guardava essas até à colheita. fazerem conchavo com a morte e enterrar a geração toda que estava de gargalo no ar à espera de lhe cantar o miseré. não deita o Outono fora. que viva cem anos que eu não desejo a morte a ninguém . O mundo. Ela dava bem conta de tais etiquetas. assim imprevisto e intermitente como as sezões: . Miguel. Os Alemães pegam nisto.É com medo que a roubem como da outra vez . atiram-no às caldeiras. Ainda ia às hortas ripar dois espigos para o caldo. Chegado o S..Traz o dinheiro com ela na patrona. O seu regalo era mudar-se em pedra. lh. a baratinha. Andava um estrume. .? E que lhe fez à capucha? Bárbara esteve um momento a olhar em alvo. lhi Durava-lhe dois minutos e regressava à imobilidade e mutismo. não se ralava nada de nada. Trocava o pão na padeira. Também nã o devia um alho a ninguém. tirante as que tinham renovos.compro farrapos! . . e quem precisa humilha-se. chisca. Dormia com ela vestida. vai hoje.Mas não lhe fazia mal nenhum que fosse mais amorável com quem é do seu sangue. dar-lhes-ia igual arrumação. Ela. Bárbara. de verdade. . Escarolada para quem? Trazia há quatro meses a mesma roupa.Quem sabe lá? . Agora desprezava este mundo e o outro. agora quase não mexia palha.Irmãozinho da minha alma.dizia-se. contanto que não se pusessem com lamentações. e recaiu no acesso.contramarcava a Joana da Urra. Lá vai para a guerra. destas pedras enterradas nas leiras até mais de meio. se não longe. mas já lhe não pesava que andassem comidas com grama. Não se despia porque tudo lhe fazia febre. quedara desconcertada de todo.já se tem visto muitas pessoas... esse que estava longe dela. .Compram por dez. a distância 156 . As terras por fora tratou de arrendá-las e dá-Ias de meias. já lho viram. como por exemplo a saúde ou a salvação. vão vender por cem. Houve tempos que precisava do próximo. Tinha o essencial para o resto dos dias. Não era ponto de fé que. vai amanhã. e outros cartaxos podem vir se quiserem. e fazem cordas para prender os prisioneiros e roupa para os soldados. se fosse viva.

lá apertam com uns. Outras vezes não era certo que ouvisse o seu correio de notícias. Ela não saía da sua hirteza para botar dito ou risada desdenhosa. lá se agarram a outros. e fica areia e água choca. arranj e-nos uma bacalhoada com batatas. pois quando menos se esperava... Calhorra? . que lhe conhecia os gostos e procurava fazer-lhe a boca doce com vista em caçar alguma leira. Sou aqui como o Cambais que tem a mó sempre pronta para a moenda. Depois. lá mexem. A certa altura diz o Fráguas.” “Homem.E você. que é assomadiço. Nesse olhar significava: “ Bem te entendo. mas já não aceitamos comensais avulso. a Polónia limitou-se a chorar. Falta tudo. Voltaram a tocar berimbau. entretida com a feira interior. E não admira. considerando que de pouco préstimo podiam ser. que é homem insofrido.quanto mais não fosse serviam para remendar a sua cáfila . deixem passar o Verão. ih? Quando vendera a vaca. pudera.Vamos almoçar. Chegam à vila. já que o Duarte tinha o vezo de tirá-los do corpo para vestir os espantalhos dos milharais. Muita água leva o Mondego.. que também costuma dar de comer aos feirantes. O tio Calhorra e o senhor Antoninho tinham na antevéspera ido a Orcas levados pelo senhor Tadeu a ver se de algum modo acudiam à multa e não sei que alcavalas que haviam deitado ao tio Zé dos Cambais.indignou-se. “ O Antoninho.. Aquilo descobriram por lá algum explosivo com gema de ovo.. Acabou-se o azeite. não digo que não. mas resolver o negócio. ao menos? As hortas agora estão espigadas. “ “ Meus santos. julguei que tivesse ouvido. Ela não se deu ao trabalho de a desmentir. na qual o irmão tinha papel mais importante que a tenda das colheres e canivetes. rompia na zangurriana: . dera-o Deus... como todos sabem: . nem saí daqui.. sim. Ali vão os quatro e chegam ao Barradas: almoço? “Almoço. Sabes de certa certeza que não falei com ninguém. Para Espanha ou para a Alemanha. . esteve para se deitar ao gasnete do homem. Mas parece que. “O estalajadeiro riuse: “Bacalhau.. Foram ao Requeijo. com muito gosto. A Polónia. amigos e senhores. Não havia para que erguer 157 .Então já sabe o que se passou em Orcas da Beira com o tio Calhorra e a gente da vila? Bárbara dardejou-lhe como única resposta um olhar breve e iracundo.” Polónia devia sentir esta resposta porque acudiu de pronto: .Se mo chegarem ao bico.Irmãozinho da minha alma. Temos três hóspedes.Anda para aí tudo cheio. quanto mais botar a estas falperras!” “Uma sertãzada de ovos?” “Ovos? Andam a arrebanhá-los por todo o preço para os mandarem para Espanha. nem para os alfacinhas chega. arrependeu-se de ter ido tã o longe e torceu por outra vereda: . ainda a distraía. roer cá por dentro. O tio Zé dos Cambais também fora. e onde não há el-rei o perde. como as sardinheiras com a sardinha. se tivéssemos tempero. Aqui o Tadeu deve estar com a sua larota. . e Polónia contou.. “ “Um caldo. Se não fosses mais tola do que te julgas.. ih. Estavam até os rapazes a dizê-lo numa roda atrás da casa. o hotel estava debulhado. em que ânsias. vinha com os mexericos mais salgados. ih. sabe Deus.Sinto um morganho a.. Agora que via ir os mondongos . um deles é o senhor doutor delegado. nicles1 Era dia de feira e estava muita gente na vila. não fazias tais perguntas. encarregos de tal ordem que se fossem por diante ficava o homem aleijado para toda a vida.que podia observar sem gastar o coração.

” O senhor Tadeu. Queria por ela quatro notas. Havia de fazer notas e distribuí-Ias de avião cá pelas falperras para toda a gente comer vitela e migar trigo no caldo. seu Calhorra. já desesperava. São três e meia. razão. pela rua e quelhas confinantes. Pudera. mais católicas que as estações da Via-Sacra. Estavam na santa trincadeira. que o tio Calhorra não é trouxa. o senhor Tadeu. anda tudo ao mesmo: comer. povo noutra. mal se tinha nas pernas. Sim senhora. de Pedrões. Trombavam bem e bebiam melhor. metem-lhe a faca. e toca com ela para o galho duma árvore a esfolar. . Com a fraqueza.Pois já que está bem. por fantasia. esta vida são dois dias. Apareceu um outro doutor mais descarado. à volta.O mais.O que eu queria era mandar na Casa da Moeda.Ministro não queria ser . Figuros e volframistas numa sala. Ao que era de rosada e bonita crescia a água na boca à gente que a via. Estavam ali deitados os guardas assim que se puderam pisgar. Pois então?? Veio este e viria o Governador Civil se ali houvesse tal bicho. Lá o volfro não lho restituíram que já não haveria meio de se lhe descobrir o rasto. para se resolverem com honra. coitado. Dali a pouco voava pela feira que os de Mouramorta. se fosse homem instruído. chegou o senhor administrador. as outras e os lombos fora dependurá-Ias a tais e tais portas. mas quanto lhe não valeu? Gastou uma novilha. . uma vitela que se derretia em gordura e novinha. homem bem comido e bebido. . “Diferenças hoje em dia. cheirava que era um regalo. Foi-se à feira. fazer uma segunda em bifes. era à mesa entre duas boas garfadas e dois goles dum vinho velho . o tio Cambais pagou a vitela. .A licença? .Pronto? Isto é para consumo particular. Atrás dos guardas. ao menos uma vez na vida. Esperem um pouco.olhos. Um deles soltou um berro: comem todos ou rebenta aqui uma revolução? O Calhorra mandara assar uma perna no forno. forrou uma vacada. você e o cabo estão convidados a vir tasquinhar uma lasca em casa do Rufino. não pegavam. Em menos de uma hora à porta do Rufino. O Antoninho Fráguas. tinham abatido uma vitela e o mesmo foi começar-se a juntar o pagode da vila. já que hotéis e estalagens não davam de comer.tornou-lhe o Calhorra.Por ser para você. justiça. por modos que dissera para o Calhorra: . A certa altura o Calhorra esteve a cochichar com o Cambais e disse: . não vale a pena afligir nem apertar muito com o pagante.Hás-de deixá-la por três e ainda lhe comes um bife. veio a guarda: . Lá lhe compraram a vitela. são três e meia.Você. empenhos. vá de amizades. .Vai lá ser careiro para a Terra Querite! -Nem que me virassem do avesso. era capaz de chegar a ministro! . vem o cortador. já a bezerra estava esfolada e esquartejada. . Ao cheiro foi vindo povo. 158 . a menos que fossem do bispo. os fiscais e senhores da justiça e das Finanças.Eu vou arranjar papança. Chamam o veterinário. Mas vá de saúde. E assim foi. que ia vender uma vitela. Caiu bem no paladar o regabofe de vitela que deram os volframistas de Mouramorta. o caso é que ali se combinou riscar as penalidades ao tio Cambais. Dali a pouco o que havia de melhor em Orcas trombava.Ah! ah! Está bem. . direito ao Antunes. palavra de rei.dizia o seu Lázaro. que lá é que se forjica. pois mal começavam a apontar-lhe os cornichos por debaixo da pele.

que vale mais . ih! _ Deixe lá quem morreu e reze. por muito que Polónia a puxasse a terreiro. e aborreciam uns o trabalho. A Polónia ofereceu-se para ir procurá-lo pelas casas das vizinhas e pela primeira vez lhe acudiu aos lábios exangues um arzinho de agrado. cachenés. Matava. que ficou soterrado debaixo dos escombros. ih.E todo este cagaçal é obra do volfro? Terçã coma tais pedras mailo primeiro ladrão que deu conta que andavam a atirá-las às cabras? arrenegou Bárbara. uns já em brasa. ter revólver. 159 . armado dum martelão. Na vila de Orcas comera uma vitela inteira para saciar a fome. quando vinham das romarias. fazia as pessoas ruins. os rapazes entravam pela vida de tunos. reze-lhe por alma. muito grande e forçudo. ih. um galinho tão bonito. outro com a mão lesa ao brincar com a pistola que se disparou. À tardinha levantou-se a deitar dois rabos de centeio às galinhas. botar relógio. rebentavam outros com os excessos que faziam. Ali tinham! O volfro. no dia seguinte. e introduzia a mão espatulada onde houvesse que subtrair. porque galinhas são a última coisa de que se desfaz uma dona de casa. roubava. Irmãozinho da sua alma. Sim. outros lambidos pela chama. tão pimpão. têm dado muito dinheirinho aos pobres! Depois daquele dito foi como se lhe partissem a corda. à força de virar o mundo de pernas para o ar. seduzia as donzelas. Punha-se a olhar para o lume a devorar tangos e cavacos. pôr gravata. Brás da Nave certa noite desmontara a eira que era de brita. sem o galaripo . ou de que cuida antes de morrer. prima. ser gente. Ele é que era o pai de todas as pachouchadas e poucas-vergonhas de que há tempo se falava pela serra.já ela se encontrava ajoelhada à lareira a acender dois chamiços. É o que lhe digo. Umas raparigas davam em droga. não deitavam agora seda e zefir? E os rapazes só compravam sapatos de calfe e bonés de pala. que de sénica lhe sirva! Continuou a pôr tanganhos no lume. os asnos. que dantes eram felizes com a flanela e o riscadinho. A “sepultura da vida” ficaria também sepultura da morte se a lei cristã não mandasse retirar o cadáver do ambicioso e dá-lo à terra santa. tiveram de desarvorar para os lajeais da serra.Vê lá tu. . Só dali da terra tinham ficado aleijados dois.. Quando voltou. As raparigas. Todos queriam comer do bom. Todos queriam ser homens. Em S. que dantes não sucediam estas abusões. vestir à fidalga. No Ramalhal minara a casinha dum pobre homem.Deixe lá.aquilo tinham-lho por lá abafado . que tanto pulverizava o casario das cidades como a cabeça da gente. e traziam veneras de latão na lapela onde antigamente. Ainda naquela roubalheira quem andava era o volfro. e era como se o visse em sua faina secreta de destruidor. Não deu mais palavra. Bárbara julgava vê-lo sob a fGrma dum homem negro. Rai's partissem. Não viu o frango que viera substituir o lascarinho que levara de peita ao senhor Fráguas e ficou muito aflita. Deixa. espetavam por devota garridice um raminho com a sua pena de canário ou de marantéu.dizia-lhe Polónia. as desgraças eram à rasa por essas terras fora. que já galava! Quem mo comeu. quando iam para malhar o milho dos canastros. de lágrima no olho. Era ele o autor de todo o esparrame que ia pelas parvalheiras. deixava de ser um mineral para se tornar o substituto do tranglomango ou do Pedro de Malas-Artes. o volfro. ele é que botara à trave a corda com que o seu Duarte se havia enforcado. imberbe. Polónia. um. e vivia-se. com a perna direita esmagada debaixo duma pedra em Muradais. Pôs-se a chorar: .

pãozinho de Nosso Senhor. que por onde passasse fazia aqueles poços tão fundos que já se lhes não via pé. que acalcava as sementeiras como mil cavalões arreitados.Chorava e deixava de ver por instantes. Eram todos eles dotados de carne e osso e vinham tal qual: sua tia Soledade a pedir um padre. tinha a impressão nítida que o volfro estava ali: a pilheira era cabeça.. se dos buracos negros da casa. Essa primeira noite. embora arrenegasse de beatices. por outro lado. aos gritos: façam-lhe a vontade e ainda esta noite vão dormir ao estarim! Eu não as vou soltar! Depois lá iam as duas velhas. Procurassem bem e não culpassem outro. fazendo finca-pé na certeza que tudo aquilo era desvairo do seu entendimento. quem ceifava gente por filas. como tantas vezes acontece a quem vai seu destino. O homenzarrão que era o volfro sumia-se para dar lugar a outros macavencos. a gemer: deixai-a confessar. Fora o volfro. sua mãe. e ficavam para ali de fojo para os bichos do monte. estirado desde o claro-escuro até à fogueira. tanto na terra como no mar. Pensamentos que vinham do negrume.. o resto do corpanzil. ela se fartava de repelir. mais medonho do que nunca. e a prima via-a mexer com os lábios e cuidava que estava a rezar. para os borrachos e as crianças. o barzabu negro e malvado? E por esse mundo além. o arraial dos fantasmas. e a escuridão. sozinhos. que vinham do inferno. Involuntariamente se punha a dizer isso mesmo entre si. trocando o saibro. de olhos nas nuvens. lhe marinhavam para o selo. e no seu entendimento perverso o mesmo era que mandá-los para a torre da Madorna onde havia um gigante que comia meninos. como a gadanha do ceifeiro ceifa feno. pela leiva da superflcie adubada com rios de suor. senhora mãe? Venha. que fazia estas avarias pelos povos. os bofes. quando a felicidade do morto é dormir. daí a pouco rompia. . e negra. pior do que bexigas na gente. sepultado nas entranhas da terra. A Polónia só abalava depois de lhe ajeitar o lume. deixando a terra com uma espécie de furúnculos e de impigens.dizia ela com um sorriso. que temos fome. o pretalhaz desalmado. iroso. maldito ele fosse? Matara-lhe o Duarte e não havia dúvida que fora ele quem assassinara o José Francisco à traição.Já lá está o pai. se dentre os carvões. o negro da família. que lorgava as encostas e chapadas dos montes. Acontecia os pequenos da Polónia virem lamuriar para a porta: . não sabia se das suas pupilas. baixava a noite para Bárbara. quase tão grande como a outra de que nunca mais se acorda. que perde a alminha! seu irmão. noite sempre enorme. Não raro lhe sucedia estender o pescoço como se se dispusesse a ouvi-lo falar.Manda-os ao volfro . Era aquele mesmo que revolvia as chás em que se cria o. as duas tarascas. com a diferença de que esta tinha de passá-la de espertina. Mal fitava os olhos nas brasas. atrás dela pela casa. Oh. eles se fartavam de voltar.Que é o que a prima procura? Veja lá se cai para o lume? Voltava a si. não sabia dizer já que malandros de pensamentos lhe tinham vindo à cabeça. pôr-lhe um panelo com batatas a cozer e dobrar-lhe a capucha atrás das costas para se encostar. ao canto roufenho do reverendíssimo Tadeu com o nariz como uma batata quando lhe grelam os olhos: à porta infra! E ela e o Duarte ficavam sozinhos. encher-lhe a cântara de água. senão o volfro?? Às vezes. o lume. Mas o tanganhão cedo voltava. ininterruptos e nojentos 160 . e até para os viandantes descuidados. A Polónia via-lhe aquele movimento absurdo e interrogava: . para o cemitério. Ainda se lhe ouvia a chanca. tornando-as deste modo improdutivas para sempre.

A primeira noite que uma vaca tilintou à sua nianjedoira dormiram na corte com ela. até ao enforcamento do Duarte quando. muito recatadas ao abrigo das três voltas. Ajuntaram pecúlio. associados com os do Urra. como a comédia em Orcas a que a tia uma vez a levara. O seu Duarte era um ganhão de mão cheia. e um momento a mão dele veio agarrar-se-lhe ao corpo. esvaíam-se todos. se calhava ter de puxar pela carteira. Disfarçavam a voz para que os não conhecesse. ia-se-lhe representando de espingarda a tiracolo. A casa estava sepultada em silêncio e trevas. ele adormecera como um canzarrão que andou a lutar com os lobos. desde a maquia extorquida ao Luís Ougado. como meninas por detrás das grades dum recolhimento. Estava a sonhar. caminho da romagem fora. ih. a tentá-la e a meter-lhe o veneno que nunca mais perdoa. Lá fora. gordas. não afrouxaram. só aquele palco em foco. Tudo isso entrecorria na lareira à resplandecência do crisol. que eram fracos trastes. Semelhante acesso era uma rabanada de vento que lufava sobre o seu arraial de fantasmas. e dali em diante os derrancados dos pensamentos não tornaram. Fartaram-se de cavar a vida. Como luzes que se apagam a um tempo se lhes sopra a nortada. mas desconfiava que deviam de ser os filhos mais velhos do Fandinga. Não queriam crer. na dor que o acometera ao entrar em casa e dar com as arcas abertas e a caçoila sem o precioso recheio. O volfro era o pai de suas turpitudes e desgraças. língua de fora. E tudo ia em acréscimo. E. As suas terras atolavam em estrume. mormente as cardenhas da eira. todos os anos pelo Santo André matavam porco. Atrá s da lida veio a poupança. a chegar-se a ela e a querer rendê-la. E. aparece o volfro. e o Duarte. passara um nó da corda de encarrar ao pescoço. Também botavam renovos que encandeavam a vista. Rompia a soluçar. Ele é que fornecera a matéria-prima do mal. com negror espessíssimo à volta. Mas pronto. O mesmo pauzinho a arder lhe dizia que fora um sopro de tempo esse durante o qual se lhe haviam fechado os olhos. só porque erguera mais a voz. e andavam reflectindo os pais na exaustinação de ver quando é que ela esticava o pernil. soluçava até se encher. Estava a vê-lo muito negro. anos e anos a fio. nas traseiras da casa. Desenvergonhados? Aquelas vozes. Compraram vaca e carro. sem embargo dos olhos ruins que tanto gostariam de lhe deitar empeço.1 Era a garotada a arremedá-la. atestadas até cima de lenha para o Inverno. Agora. Às vezes a cabeça caía-lhe para o ombro. ih. gordíssimas como fidalgas. que mal a tiravam da sua cisma. ou de botas amarelas e chapéu faia. que a torcida da candeia já nem sequer cheirava a petróleo. e justaram uma parçaria com o Sancho. Um alma do diabo que tinha filhos por toda a parte e assim lhe catara respeito. mais uma para o rol. louvado seja Nosso Senhor. já da margem de lá. acabou mesmo por deixar de ouvi-Ias. cacarejava uma voz escarninha: Irmãozinho da minha alma. Soluçava. os olhos a olharem para esta vida. Estavam lavradores. mostrava o seu pacote de notas. Via-se mesquinha de todo e perguntava-se se o senhor Antônio Fráguas não andara a vida inteira a mangar com ela. Era um cassamente. sem pinga de sangue. ao fim. e toda ela ficou hirta. rápido como abrir e fechar a mão. zás. Poupavam-no ao corpo. Não descansava enquanto não via a quintã e o combarro a abarrotar de mato. Iam aos mercados. ih. não era nada. conforme o lume devorava os tanganhos. fora ao desfatio. e as lojas. É que não gostaria dela. espantava. E entrava de 161 .como as lagartas dos pinheiros. por uma noite de geada. Mas. O Duarte dava voltas sobre voltas com o sono muito agitado.

Depois. mas pela telha de vidro a luz banhava-a como se caísse em cima dela um vestido branco de noivado. dava graças ao Senhor que a não tinha chamado aquela noite ao seu terrível tribunal. tal como tinham sido em vida. Por fim. lá ia por cima dos telhados visitando a clientela. Se não estavam. Esse vestido. acendiam-se as luzes dentro das meninas dos seus olhos. custava-lhe respirar e a pieira saía-lhe mais assobiada. de anjo. E de olhos abertos lia no escuro como lia nas brasas. um bocado ficava o seu entendimento. como os galuchos nos quartéis. Para o Casal cantava um rouxinol e para o cimo do povo uma toutinegra que amanhecia com as estrelas a chamar pelos pastores. além agonizavam: ela andava a tomar nota como empregado de cangalheiro. Borbulhava o formigueiro dos defuntos. à raiz das covas. que é sala de cães. As chamiças charriscavam até lhes arder o manto. pousava com não menos chinfrim na casa da Pedralva. vinham logo de rabo alçado: . Dali andavam mais de uma dúzia em Muradais. Lá se punham outra vez todos a falar e a fazer tagatés. estendendose em cima da cama.. a catadupa de rumores indistintos. tão juntinho que bastava os defuntos darem uma cambalhota. Os capatazes sabiam que eles metiam a unha e andavam-lhes na garupa como carraças. a grande zarga? Ao levantar. pouco a pouco. reapareciam os figurantes a bater o tacão. era o bastante para lhes apontarem o largo: . ia deitar-se. Mais acalcanhados nem os bois do cilindro. Aqui adoeciam. Sobre a alva calava a grasnada sinistra e rompiam a gorjear os passarinhos que não metem medo e trouxeram a voz do céu. De 162 . mesmo de pés atados. Se algum esbarrava a ver para onde corriam as nuvens. e via-o tão perfeitamente como se se acogulasse à sua volta.. rua. Deitava-se de costas que de lado nã o aguentava com as dores do peito. Às oito em ponto tinham de estar a pegar da picareta. A coruja vinha também com o bater da meianoite e armava grande alarido e guincheira. A sua vozinha alegre. estava mesmo a dizer: levantar? levantar? Um cão latia e era quanto bastava para se achar menos só no mundo. com o adiantar da manhã. abria-os. Os encarregados tinham-lhes raiva porque a vasilha continuava a verter e não acertavam com a fonte por onde melava. Assim mesmo. Via a fogueira a apagar-se e punha mais lenha. de vozes humanas. A noite negra poisava-lhe em cima o seu joelho de giganta.Põe-te a mexer! Num rufo. Também ali farejava desgraças.novo com o seu arraial de fantasmas no casarão amplo e soturno que descobrira por debaixo da terra do cemitério. porque era vezo. mais de vinte no Vale das Donas. Mas aquela convivência acabava por lhe ser molesta e. Parecia que se ensaiava para lhe cantar o bendito. a vogar à tona do mar tenebroso como uma cortiça. à lareira. Depois. Tratavam-nos. como se se tratasse duma romaria. E depois. afogado na noite. E era o mesmo que estar com os olhos abertos. Oprimida de todo. a toque de buzina. com o completo despertar do cortiço. Quando começavam os tamancos a matraquear na rua. Depois o lume ficava a triturar os gravetos e era como um cão a roer um osso.Olha lá. acabava de repô-la na terra. Passava boa parte da noite. contrataram-te para fistor? Se levantavam a grimpa. agora que elas já eram menores. Pois que assim era. fechando os olhos. Entretanto os rapazes que trabalhavam nas minas subiam e desciam os patins com grande estreloiçada e ouviam-se cliamar uns pelos outros. armava-se outra vez o teatro. de chocalhadas. bem embora não tivesse saudades do mundo. A casa era lôbrega. abria-se. e estavam logo lá. que a aldeola era feudo seu.

Os poleiros eram coretos de charanga. Até que a fêmea saísse da toquinha. tinha dormido como uma pedra. 163 . que andava a rondar. de modo que lhes não faltavam braços. Ou: . continuavam a ajuntar volfro. A corcolher punhase a cantar e logo a seguir o pedreiro que todos os anos fazia o ninho ali perto na casa da Cismas.Comeu? . Regalava-se toda em lhe torcer as voltas. a que chamavam navarros. Depois. Não chegava o sebo para a mecha. com o marantéu nas moitas. que até para lhe ser mais antipática que a outra se prantava ao pé dela em vez de andar por cima dos telhados. respondendo ao avesso do que ela esperava. Viam-se só em campo as grandes empresas. fartava-se de gazear. Às vezes badalava o sino para a missa. Estava varejada a árvore das patacas. o cuco onde calha. À porta uma acácia cobria-se de cachos brancos. girava à vida como os pastores das vacas. Os homens de Malhadas. Também lá floria o alecrim que o Jamboto coveiro punha aqui e acolá para que se não dissesse que aquilo era pior que um curral de gado. a quererem roubar o rolo umas às outras à força de melúrias e denguices. levava-lhe a enxerga para a quintã. Vinham homens de Espanha. comprando aqui. que já saíam duas vezes ao dia. Lá tinham maneiras de surripiá-lo. Tudo andava já de alevante. muito à capucha. Mas o febrão estava a passar. A Polónia. buscá-lo em mulas. pschi. Uma vez deu-se a provar: tinham um sabor esquisito. vendendo acolá.Hoje acho-a mais animada.Estou aqui estou fina. Em cima tinham uma copazinha que lembrava uma gota de sangue. sempre igual às transactas. . uns e outros. Que mais não fosse. sabor de mortulho.Sonhei que Nossa Senhora me acenava com um lencinho de rendas e depois me dava a mão para passar uma ribeira muito grande.e não lhe tinha passado bocada nos gorgomilos. Era para semelhante primavera que ela corria e tomara que fosse já. Dormiu? Ela dizia que sim. Eles fora. punha duas farmalhas. também. Bárbara arrastava-se para a lareira. não desse ela o cadilho inesperadamente e a roubassem os outros.Então sente-se melhorzinha? . que trabalhavam em Muradais. que nem o Demo seria capaz de adivinhar. . Ia correndo a levada do tempo e a leiteira tocava a buzina no terreiro da fonte. de verter os seus lamentos.facto.Teve bons sonhos? . largavam com o lusco-fusco. igual à de véspera. pschi. vinha cedo com a mancheia de caruma. A Primavera era bem bonita por aqueles campos abaixo. soprava às duas brasas que luziam ainda no meio da cinza. Acendia a fogueira. Nada a prendia à safadeza da vida. por ser de cascalho e muito esburacada. e a vida recomeçava para ela. A baixa que sofrera o quilograma com as leis danadas do Governo não dava para a grandefreirria dos meses anteriores. Muito pela sonsa.Comi e soube-me bem . De manhã trazia perra a garganta e falava pouco: . davam os galos a alvorada. ganhava arreliar aquela coruja. e as rolas na cruta dos pinheiros ao desafio. o tio Calhorra continuava no negócio. Ora? No cemitério também nasciam aquelas flores que se erguem numa haste alta e fina e parecem os antigos alfinetes com que as senhoras seguravam o chapéu. como podem ser iguais gotas da mesma água choca.

A prima observou-a de soslaio e franziu o focinho. do que os sapatos... ofereceu-se para ir arranjar meio quartilho de leite. mesmo que quisesse falar.Já disse. Miguel. que levara havia mais de vinte anos à romagem das Cinco Chagas e de que ele dissera: “Que bem que te vai essa sala. Nada lhes dera com o Duarte. Pelo sim. todo o dinheiro que tenho e pouco para o bem-de-alma... com a tromba arreganhada à semelhança do jacaré que está na Lapa.Sabes que mais.? Sente chegada a hora. Enquanto Mónia girava a abrir às pitas. tocou o sino. provavelmente para o Lázaro. A sola levava tanto tempo a consumir-se como a caveira. veio para esconjurar a Florinda Pedralva . Bárbara indignou-se toda. ao pé do Trinta que morreu chacinado. O certo é que tinha em mente gastar o menos possível com o enterro. “Não tinha posses para se tratar a leite. sombra que se esvai quita candeia. . olhe. Quando a prima voltou.É a ribeira do Jordão. parece que não podia.. um real seu não viram para missas ou responsos. que vinham na enxada. Abria a boca e ficava a papear. e nada metia mais nojo no cemitério. disse-lhe de caso pensado: . “Fica-lhe a alma penada no mundo!” diziam-lhe. vai-me destapar o buraco às galinhas.? Era uma sondagem e respondia invariavelmente: . ainda pode demorar. que ela bem viu..Sabe. Para que quer a riqueza. .. Tenho-me desobrigado todos os anos e. lá ficou tão abafado debaixo dos cardos e das ortigas que nunca mais deu sinal. não temia dar contas a Deus. que estão arrenegadas por ir ganhar a vida.Olha.Lá irá para onde o pague? Ela não respondia. sempre me quero confessar. quando ao fim de sete anos o Jamboto abria as campas. Tinha proferido aquelas palavras com certo esforço e Polónia considerou: .? Acenou que sim. Está a perceber? 164 .. Deita-lhe o milhinho que está na teiga.Então já quer. o chambre de flanela que estreara há dez anos na festa de S. como em geral era modo seu. muito raro que por trancafio lhe ficasse a talho de mão assistir grato Deo às suas ovelhas distantes. como se também eles se associassem com a terra a comer a gente. durma-lhe e coma-lhe bem. Um dia mete-se contigo na cama e esgana-te!” Coitadinho. ... mas no cibeiro. “Olha que não pára na sepultura e vai andar pelos caminhos a fazer espalhafato. Não queria lá chinelas. que todos os mortos hão-de passar quer queiram quer não. nojo e medo. . Polónia. Às porteiras pôs-se a cochichar. Quanto a rezas.. . . o lenço de seda ramalhudo que fora da tia e era um jardim. e uns meiotes novos. vai-me chamar o padre. Pois que não lhe consentiram enterrá-lo na terra santa. Aquela manhã. Mas.serrazinava Polónia com voz pedinchona.. a roda toda para trás como os turnus!” Reservava então essa saia. justinha na anca.Vista-me os marmotinhos que andam rotos. se não fora as consumições com que o Demo derranca as almas. Para mortalha reservava a saia de castorina. pelo não. o que sucedia as poucas vezes que o senhor Tadeu ali vinha dizer missa encomendada ou no desempenho das suas obrigações paroquiais. Que imaginava ela?” Polónia sorriu com desdém.esclareceu Polónia. Os padres que fossem comer a outra manjedoira. e percebeu que dizia: “Não ouve o cuco?” Voltando para dentro.Hei-de empregá-la no bem-de-alma.

mas faleceu-lhe a voz nas goelas. não viria. ergueu o espelhinho e mirou-se. Iii. Quem quer que era foi direito à cantareira. Quando atingiu o açafate que estava no sítio. O que era o barro de que Deus ou o Diabo amassavam a gente? Tornou a mirar-se e notou com reconforro. depois do abalo que sentiu ao pousar os olhos nos olhos. Ela ouviu-lhe o glugIu. Corcovada. aríscos e vagarosos ao mesmo tempo. estão muito enganados com a delambida! Polónia desandou.. bebeu. Aquilo não ia com benta nem benzilhão. ih. O seu primeiro movimento foi gritar... o seu tanto escaveirada. no padre que era muito capaz de não vir confessá-la. se lhe oferecia encarquilhada. permeáveis à luz. Polónia falava de afogadilho. depôs o 165 . vítima do volfro. seguiu-o com os olhos e afigurou-se-lhe que trazia carapuça de Alvite na cabeça e estava em mangas de camisa. outro pé na rua.. À dita confira. já se não via há que mundos. Também as orelhas se haviam tornado diáfanas. e ela ficou a malucar na Florinda.Ah. estava urna surrona. a pobre mãe tanto gemera. Estavam fartos de a defumar. Bebeu. de rópia pela casa dentro. foi pelo espelho e ao esforço que teve de fazer capacitou-se que chegara ao fim dos dias. ergueu o cântaro pela asa. e reconheceu-se naquele sorriso. Quem olhava para ela. Mesmo assim sufocada. se calhar nem se conhecia. pois não lhe dera nada a rilhar pela morte do Duarte. tão retraídos como bichos bravos no fundo dum fojo? Ah. No pescoço é que a pele. sem dúvida a testa mais branca. condoído. horrorizada. causaram-lhe tal impressão que os fechou. ih. Assim que respirou. onde fora a cama do Duarte. encostando-se à parede. como que sorriu. mas se fosse assim para o caixão não meteria medo a ninguém. Era bem a Bárbara Barboreta. de lhe atacar tibornadas pela boca abaixo. que era só dela corno o vermelho das rosas de Alexandria. vinha aquele dia rezar-lhe o exorcismo. com olhos que fugiam para dentro do crânio. Vinha descalço e tão escoteiro que só reparou nele quando passou por diante. com o espelho caído no regaço. esses olhos negros luzidios. tanto suplicara que o senhor Tadeu. que de modo algum queria perder um espelho de tanta edificação como aquele de ver enxotar o Diabo do corpo do seu semelhante. mostrando os dentes. a meditar nas voltas que o mundo dá. um espelhinho redondo que ganhara havia mais de dez anos na rifa do Roupinho. por detrás da arca. Bárbara chasqueou baixinho: .. Lembrou-se que tinha um espelho no açafate da costura. puída ao meio corno laja depois que se malhou. entrou umhomem. e sempre se decidiu a lavar a cara e a tirar a ramela dos olhos. como fazem as águas vivas quando começam a subir nos açudes e encontram um buraco dos ratos. e veiolhe o desejo de se ver. como se a mão da morte andasse a enfolar o saco para lhe atar o nagalho. que a fisionomia pouco mudara. Mas os dentes reluziam e eram eles que davam ao rosto o tom derramado que tinha a Senhora da Boa Morte no santuário da Lapa. talvez afinadas as arestas e retingidos de escarlate os lábios. irmãozinho da sua alma! Viria. permaneceu de cócoras que lhe doíam as costas e se esfalfara a chegar até ali. e despegavam-se da cabeça como vagens debulhadas. Mas ora.Tinham ido à benta de Quintela. além de amarela. de a benzer. ah. Onde ia porém o azougue e frescor da moça que um dia o senhor Antoninho cometera à volta da rornaria?! Estava agachada detrás da arca. e levou-o à boca. um pé em casa.

e lhe palpitou que. Oh. afinal. porque ouvisse chapejar na rua ou assim se lhe afigurasse.perguntou Bárbara erguendo olhos para eles. a primeira coisa que inquiria era se o gatuno se não tinha dado a matar. Ai. que era do conhecimento de toda a gente estar em seu poder? E dois contendores. martelavam-lhe na cabeça como dois ferreiros malham o ferro em cima da bigorna. mas haveis de estar muito quietos. trouxessem-lho à sua presença. ainda que pilho notório e confesso. Polónia abanou a cabeça negativamente. soergueu a tampa da arca e abismou-se a olhar para o que havia dentro. que começava por matar a sede no cântaro alheio? Vinha gente que se ouviam passos no palhuço batido da quintã. hoje o dinheiro da vaca.Não encontraram um moleiro? . um pró. Quem sabe se o ladrão nem era o tal ladrão fino. Quando já não precisa deles. circurivagando o olhar e não topando ninguém. Desceu a tampa. se a casa nao caira por cima dele e não o esborrachara.Quer aviar o pão. se descobrissem um moleiro com carapuça de Alvite na cabeça e a fralda da camisa de fora. ontem o roubo do dinheiro suado e tressuado por ela e o Duarte. foi à pilheira e meteu a mão numa panela. Mas. que no segredo do seu peito e foro de Deus acoimara outro. Ela então pediu-lhes para saírem ao povo e. quedou confundida. Mas tão-pouco naquele momento encontrou voz para berrar sobre ele. se não era moço de moleiro...A mulherzinha está aqui está a alçar as pernas.cântaro. esse dia havia de chegar. O pai do Céu não lhe perdoava que acusasse um inocente embora a acusação não subisse ao tribunal dos homens. limpou os beiços às costas da mão e. outro contra. Lázaro.. . proferiu em voz alta: . deixe lá os moleiros e encomende-se a Nossa Senhora! 166 . o assento enfarinhado. E. Foi ao transpor o limiar que Bárbara reparou ainda trazer o homem a fralda da camisa de fora. se nao vomitara as notas. olhe. Porque lá que havia de chegar havia. A prima está a morrer.. o Diabo cobre os patifes até à altura em que lhe ajudam a fazer o joguinho. Polónia recomendou para os filhos: . Seria aquele o ladrão do seu rico dinheirinho e causador de o Duarte se enforcar? Arriscava-se a sê-lo. depois num pote. agora compreendo.. perguntou em tom de melaço se não se sentia mais aliviada. à boa mente ou à fina força. E ela. já aí vem o senhor padre.” senão como a desculpa antecipada de repetir a má acção. o seu tanto intrigada.Ficais aqui.. maldito fosse o dinheiro e mais quem o fabricava? Todas as manhãs que Deus deitava ao mundo.? Foi para isso que se veio meter detrás da arca? Ah. ainda na caçoila de má morte. Observou-lhe Polónia. Faltava-lhe aquele tormento: duvidar. com a cara de fuinha que herdara duma geração de famintos. Pois como explicar o ímpeto com que aquele pilhanqueiro entrara pela casa dentro e as vozes: “a mulherzinha está aqui está a alçar as pernas. põe-lhes a calva à mostra. Oh. A sua pena era que chegasse quando estivesse já debaixo da terra. deitou a correr e esgueirou-se pela porta como uma engula. Sem esperar que respondesse. nem aquele ladrão porco. logo de seguida. E. Era a Polónia com o homem e a ranchada dos meninos. meio divertida: . só Deus é bom juiz. coitadinha. e a súbitas. se andara a roçar pelos sacos da farinha.

um ar amável. Os meninos tinham-se postado em volta dela a vê-Ia esticar. Ela não tem meios? ..Então como passa esta doente? Ah.. coma-lhe! . Apalpando o piso desigual de laia. meu senhor.tornou Polónia. Dali a migalho aparecia o senhor Tadeu. como quando lhe iam ao mostajeiro. Bárbara olhou para a prima e sorriu. o que botava ao fim da semana a dúzia e meia de ovos. teve vontade de corrê-los à bofetada. o sagrado viático. desses que actuam na livração das almas do Purgatório como os remédios caros na cura das doenças. Bebi uma água chilra. por sinal satisfeito. Lindezas são para ti. de ordinário fechado. e durante o breve movimento que imprimiu às pestanas surpreendeu o Fandinga a fazer para a mulher um gesto. Bárbara julgou ver luzir em seu rosto. Faltou-lhe um galipanso. era de supor.Pois se se sente fraca. matou. . .Tem sim. Pois'“ .. ia morrendo de consurnição.apressou-se Polónia a responder. Pois não enxergava a sombra dum ovo? Às duas por três. Mas não pode ouvir falar que se corte o pescoço a uma ave. Tinha três pitas que punham três dias a fio e descansavam um. delgada como a da fonte. Mas a carne corneste-la tu e os teus miúdos. com a agonia na garganta. fungou e dobrou-se para o chão a estudar o caminho. Bom. A olha escumaste-la muito bem escumada e imolou-a com sopas de trigo o esgorjado do teu homem. advertido que a confessanda não tinha herdeiros directos.e o senhor Tadeu acrescentou. ela está a pé.Parece mal? . acalentasse a esperança de que lhe encomendasse algum trintário bem pago.. que a mãe assoara e lavara com o rabo do gato. . Mas a Polónia começara a revolver a roupa da arca com mira. dando como razão pôr-se-me na fraqueza por ter muita enxúndia. à frente o grosso nariz de batata grelada. O senhor padre bem sabe que a casa é de pobre. E sentiu-se beliscada ante aquela alta recreação: . o que era caso. entretida no deserto da sua alma com sucesso tão estranho. quando deu com ela encolhida atrás da arca saudou em voz que se esmerava por ser prazenteira: . e consigo e com Deus ficou a cogitar que ele. que se podia traduzir assim: Entrou no delírio! Magicou que não valia a pena estar com explicações e calou-se.. matar-lhe de tempos a tempos uma galinha. dar-lhe leite. meu senhor . como se entrasse numa furna. quase duas dúzias. Entre dois frouxos de tosse ciciou Bárbara que apenas se sentia muito fraca e não podia com o corpo. está uma galinha a cantar'“ Lá ia a 167 .As galinhas não põem.. quando era ela a tirálos. Deixa. ao gosto delas.Bárbara baixou os olhos. deixa. com o sorriso querendo significar: “Matou-se uma pita. com os que as pitas das vizinhas vinham pôr nos seus ninheiros. sempre muito recatados. de encontrar os lençóis com que se recebe na Páscoa a visita do Senhor ressurrecto e. E ao contemplar aqueles carinhas de anjo...É preciso alimentá-la.Nosso Pai tanto entra na cabana como no palácio. tem meios . dava o alamiré: “Polónia. Bárbara sorriu de novo. Ao pôr pé no limiar. Fartava-se a cada hora de ouvir cacarejar na quintã. cantés a missa vulgar de cinco paus nem um bochecho de água representa quanto a refrigério das respectivas labaredas.Vá-lhe chegando umas gemadínhas.Não tires nada para fora... o mal não é de morte. voltando-se para Polónia: .

. mais abaixo. transportado já à super-human idade do seu papel. Fosse pelas benditas Cinco Chagas. depois de passear a casa com a vista. acessos de tosse.E leire.. meio de coisa podrida. meio de mofo. o comer de leite está acima das suas posses. Era a fugir àqueles dois pesadumes que ela retraía o olhar para a quintã e avistava os Fandingas. acabando compenetrado duma imundície que vinha do tempo das cavernas. quando não pudesse mais. não é assim? E. volveu para Lázaro Fandinga que se aproximara muito ronceiro. Olha. o tomarão mal maduro da penca.. Sentou-se então. Foi recalcando o asco que interrogou: . podendo. que parecia esquisitória.. Que andasse até onde pudesse.Não haverá um banquinho para eu me sentar. da banda de fora. Mas não permitiu..Fala pelos cotovelos. embora repleto de zelo sacerdotal. resplendente. . a Polónia tirou metade para uma xícara que deu à menina mais novinha que acabava de desmamar. senhora Bárbara? Ela acenou que sim. e a sua voz adormecia como água em chão liso. Ouviu. Que não e não.Dá por paus e por pedras. A terra produ-lo com abundância. negra como o volfro. durante as quais se esquecia de si e do padre.? Trouxeram-lhe um mocho. Pegou da bilha e baptizou-o segunda vez até encher a medida. os Urras e outros parentes comprimidos e silenciosos contra o vão da porta. a cabeleira do padre. e aspirava o seu hálito enjoativo. tem. alimentar-se a leite! Tinha há dias mandado comprar um quartilho: mais de três quartas partes eram água. Mas eles espreitavam-na receosos de que levasse por diante a ameaça de encomendar um dispendioso bemde-alma. E reparando nos olhos da alcatéia acesos para ela. punham a boca a um buraco da parede e buzinavam para o interior: .zouvineira. Mas é assim por todo o povo. era um rebotalho. bota cá a saia que roubaste a minha mãe! 168 .Vamos à confissão. As suas galinhas só põem vento.. Bárbara via acima dela. como ela se limitasse a baixar a cabeça. Não o fazer. que mais gatunos não se encontravam na Falperra? O senhor padre esteve um momento a aferir da situação da doente. que ela se pusesse de joelhos ou alterasse sequer a posição que tinha por mais cómoda. E daí provinham as pausas.” O senhor Tadeu levou a tenta para outro quartel: . no largo. é pecado.. Quando lhe chegou às mãos. murmúrios que imprevistamente subiam de tom como água num regozinho de leito irregular. E o sacramento começou e foi decorrendo sibilado. . de boné na mão: . referveu o seu sopitado ódio. lá vinha: “Pôs vento. Interessava-lhe pouco a máquina.? Dê-lhe leite. Nunca pela vida fora lhe tinham chegado uma sede de água. mais filtrado que o soro.Pois tem que tratar-se. Polónia acudiu a pôr em cima a capucha dobrada. Ouvi dizer que é anclaço. Que esperavam agora dela? Do lado de fora.Está no uso da fala5 . feiticeira?? Antes de morrer.Ainda não morreste. decidida em seu peito a fazer o contrário. Um primeiro baptismo devia ficar à conta do produtor. .. caía para a banda e acabou-se. com pequenas pausas. tão outro do do Antoninho Fráguas. Depois.

lá está uma pita a cacarejar. que se punha a falsetear ao mesmo buraco: . . mas não o sabia.. Ela torceu-se para ele e levando o dedo aos lábios ciciou de olhos na choldra que.. mandou-lhe rezar o acto de contrição.objectou. que saíra um melro de bico amarelo. do Zé dos Cambais.. mo mandasse cá. 169 .Está bem. Tenho por onde pague.Deus me livre? Eram capazes de me esfolar... Se V. Também do fundo do horizonte um raio de sol vinha direito à sua alma.Porque o não diz aos seus parentes? .Estou com vontade de ditar o meu bem-de-alma a um tabelião. R. Era o remate. e respondeu com pressurosa discrição: .articulou em voz e num bulício tão rápido de lábios que só por si inculcava puridade.Era o filho da Casimira. eu mando-lhe o notário. particularmente à sua alma. dispunha-se a largar quando se sentiu preso pela garnacha. Ao cabo. Ele então percebeu a comédia toda. levantando-se por certo com alívio. dizendo com ela. Deus lhe agradeceria melhor do que eu. compreendendo que terminara o mistério.. .Diga.Vomecê não quer um ovinho para a pleira? Olhe. O senhor Tadeu.. e ele foi-lhe emprestando a muleta da sua memória. .Queria pedir um favor a V. cansado de vagares e de suspensões. O que tinha sofrido por causa daquela saia apanhada no estendedoiro? E quem podia jurar que fora ela? Não havia muitas ladras no povo? Agora era o Tonico. ainda que sem pago não haja de ficar.. R. . . invadia a casa: .

no entanto. tanto que apanhou o colega volframista Leónidas Seixas em maus assados.faceteava para Solange o seu comendador José Plácido. do sangue. pequena ou grande.e não o trombeteavam a boca grande e ele próprio para não dar âncoras ao fisco que a sua fortuna botava aos seis mil contos. Vinha-lhe dos tempos em que se prestava a fazer todos os fretes. Como a metamorfose. Depois. pode estar certo que hei-de carregar o mais que possa . se tivesse apoquentação. para empregar a linguagem duma das testemunhas. Mistérios da vaidade. do amorpróprio. arroteador de baldios. pilhados à paróquia por mascambilha. ainda havíamos de ver-ele.Não me move contra o Aires nenhum outro sentimento que não seja o de vingar o meu filho. não foi dificil ao Fráguas encontrar na terra pobre e explicavelmente venal matéria com que erguer o cobiçado cadafalso. os dedos cheios de anéis. Em bandas di lá . metia. ai.Se não pões para aí o anel. Era notório que ambos cortejavam e pretendiam a mesma mulher. Muita gente admirava-se que assim pusesse ralé em querer sacrificar uma vítima aos manes do morto. Não era debalde que inculcavam o volframista como homem capaz de mover a vila e a capital do distrito com uma perna às costas. que era senão carregar? E com o mesmo vocábulo significava a pressão que exercia junto do tribunal contra o Aires. forjadas outras a martelo. como o espírito bem lastrado de sadios conceitos quanto à moral e dever de cada um. Assim foi muito notado. que tivesse artes de lhe abarbatar o anel que lhe reluzia no dedo com um brilhante de dez quilates. Não sendo ele. Quem o conhecera e quem o via? Levara o melhor dos anos a passar criminosos foraíÍdos pela Portela do Homem. Desde que houvesse vaza a levantar. passador de moeda falsa. onde tinha um testa-deferro.Compadre Antoninho metia cabeça ao mato. Que esta rivalidade era como uma trovoada armada. nenhuma tarefa lhe causava nojo. amanhã empreiteiro de estradas. O negócio dos metais tinha-o enriquecido fabulosamente. de quando em quando escorregava-lhe o pé para. . Dizia-se à boca pequena .os trilhos constitucionais. ao dar de si o gabiru. o reconhecera como hastilha do seu tronco. e estas palavras traduziam bem toda a sua premente e danada obra à margem da causa. prestes a desatar em raios e 170 . sinhazinha. carrego-te a part& Era um termo muito seu: carregar. As testemunhas foram industriadas umas. conduzir para casa pela calada os sacos de volfrâmio. ou encher os navios mercantes com mistela parecida. metia. Ficara estabelecida de modo terminante a rivalidade que lavrara entre réu e morto. quando só recentemente. quem podia ter sido? Enquanto se não prove que foi outro. hoje agente falido de passaportes. com loja de armarinho no Piau -. Apontam-no como matador. que é um supor. Ouviram-lhe as ameaças: . Influente e endinheirado.declarou o senhor Antoninho Fráguas. para mais que não para menos. como esfaquear um cristão ou assaltar as prisões e libertar um preso. sabe-se lá! Os depoimentos prestados comprometiam acerbamente o Augusto Aires. a comprar e vender travessas aos Caminhos de Ferro. negociante de cavalos.XII . capitão de cangaceiros? À data era pessoa importante. se operara à lufa-lufa.

Eu também juro o mesmo .Ouvi o Aires subir precipitadamente a escada. mormente daquelas que motivam a alçada judicial. . dado que não tivesse a certeza.Sim. Procure o senhor juiz o matador noutra porta. “zaro Fandinga declarou: . na frase de Shakespeare. Segundo ela. confirmada pelo réu. As declarações de Maria Aires. a indiciação criminal assentava na palavra das várias testemunhas. que outrem apresentava melhores títulos que o Augusto? Sumariamente. Alé m de reticentes.. pouco antes de gritarem na rua a homem morto. dir-se-la. Em tal asserto todos os testemunhos eram concordes. podia resultar do encontro do seu testemunho com o do Ougado e doutros. não restando melhor recurso do que “sangrar-se em vida”. Era intuitivo que a Maria Aires tinha em mente forjar um alibi. Deste modo ficava neutralizado o efeito que. e na contraluz que ressaltava da viciação da verdade por Maria Aires . Ninguém tãopouco o acusava de desonestidades.corroborou o Reganha. angustiosa. isto é. traindo não se sabe bem que ideia fixa.e o juiz lavrara despacho de pronúncia. viu-se na competição de forças a que se entregaram os dois na manhã do crime quando se tratou de arvorar os estandartes na festa de S. que por aqui vem errado. Tal era o estribilho do representante do Ministério Público. excluído o roubo como causa.Estou tão certo do que digo como da luz que nos alumia. de que fora ele o autor do crime.elucidou o Luís Ougado. o seu Augusto entrara em casa pouco depois do anoitecer.Tem a certeza? .Meça bem a gravidade da sua afirmação. Acossada a adoptar tal expediente. O próprio Augusto Aires. Afigurava-se supérfluo procurar algures ou melhor. dar uma versão concordante.coriscos. .instou o juiz. Mas tudo isso não vai além de coincidências. como homem esperto. Confirmou-se horas depois com o ostensivo despeito do Aires ao encontrar a namorada a bailar no terreiro com o José Francisco. e esta versão ia pouco a pouco prevalecendo de todas as mais. devia ter sido o móbil imediato do assassínio. constituíram devido à sua impróvida e ludibriante singeleza o acto de criminação mais grave que foi produzido à barra contra o réu. chamado a confirmar ou desmentir semelhantes provas. para mais não sair até ser preso. se bem que reservado. .Seriam dez horas. que se alimenta das próprias entranhas. esse monstro verde. convocada pelo juiz por escrúpulo de consciência. . Sim. . . Mas semelhantes qualidades não se podiam chamar inibitórias quanto a determinar uma destas crises agudas de ciúme que desfecham no crime. Brás. o ciúme. a bem do réu. estavam em contradição flagrante com os depoimentos que prestaram não só as demais testemunhas como o filho. passou ele à minha porta . uma vez que na carteira do morto fora encontrada intacta a quantia avultada que horas antes lhe confiara o pai para o negócio. àquele.Conheço-lhe o chapejar do sapato. Em conclusão: ninguém vira matar. admitia a hipótese.. entrei em casa um migalho antes de bradarem na rua a homem morto e concordo que o Luís Ougado podia ter ouvido os meus passos. mas pois que houvera um matador e de natureza sentimental. cuja casa e a da Maria Aires ficava costas com costas. No decorrer das inquirições ficou ainda estabelecido que o Alres era homem tranquilo por temperamento. não fez mais que referendá-las. 171 . .

A defesa indicara entre outras pessoas. Surgira no entanto um depoimento desconcertador. filha de José dos Cambais. substabeleceu no filho dum amigo. Calabaz. chamavam os codilhados do volfrâmio Cocó. mas os jurisconsultos encarregavam-se a propósito de tudo e de nada de os aligeirar dum capital que lhes caíra do céu em revoo de lotaria e até certo ponto os desconcertava. Retido entretanto na capital por um importante processo em curso. cego e cínico a bem de tudo o que reporte pecúnia. Mas não se confinava neste ramo da advocacia a sua celebridade. O negócio de resto estava bem parado. cuja pele não lhe merecia mais respeito que a dos cabritos com que o presenteavam os constituintes agradecidos ou mesuradamente cardados. mas tinha como nenhum colega urna fome devoradora e concomitante gana de ser rico. facha de palha do Antoninho. convidou o Dr. ambas elas. Para mover o causídico bastaria uma palavra da pobre mã e. que era já seu hóspede assíduo. Contavam-se a este respeito histórias do mais pícaro descoco. pelo contrário. que o Fráguas assoldadara para remeter o Aires para a Penitenciária. nem mais nem menos rábula que os outros. À data própria compareceu a mocinha com natural modéstia e trajar quase 172 . Respondeu a família do morto. O advogado da defesa era dos tais que julgam a prática da justiça incompatível com a chicana e a malignidade. persuadidos ambos da sua inocência. Tal circunstância cimentara entre os dois uma estima robusta e solidária. Defesa que exigisse audiência e a sua mão de papel selado ou em que tivesse de interferir a influência pessoal. Este Dr. Guilherme Calabaz. Muitas quintas mudaram várias vezes de mão em poucos dias. Ranheta e Facada. por conseguinte. Manuel Torres a tomar o patronato do empregado fiel. representava uma escola de advocacia. Guilherme Calabaz. Os volframistas ganhavam mundos e fundos. Nada mais natural. representada por Manuel Minga. uma minuta a bagatela de cinquenta.não tivesse ele antes de se formar cursado teologia. do que empregar toda a ralé em consolidar a culpabilidade do Augusto Aires. Calabaz . Fráguas havia-o constituído procurador em duas causas de certo tomo. A eles. com o Minga. E tratou de cumprir o que julgava uma obrigação. Foi um período de vacas gordas esse dos volframistas na fase do comércio livre e na que lhe sucedeu com o apuramento do imposto de guerra. se visava a espórtula alta. com plena aprovação de Franz Hincker. não poderia cobrar para baixo de duzentos contos. com designar acusador o Dr.Severo Bacelar. Queria Fráguas um criminoso. Tinham-no por escarmentado em toda a espécie de foro. Um simples requerimento era cotado entre dez a vinte contos em matéria de honorários. nome consagrado no cível mercê do seu saber e experiência em digesto mineiro. para serem inquiridas como testemunhas. com o novo processo passou a residir em Muradais às temporadas. e nada mais fácil que sacrificar aquele pobre diabo em holocausto ao filho assassinado. mestre em tricas e sem igual no silogismo . que manda ao causídico seja faca-de-mato. proeminente nos tempos utilitários. novel e talentoso advogado. e daí para cima. nem era mais nem menos honesto.. feito com nobre altivez e um espírito de sacrifício tão abnegado que todo o edifício da acusação ameaçou ruir. para assumir a defesa logo que estivesse livre. Começou o advogado por requerer a instrução contraditória. o Espadagana. causas. Teodora Luísa. coroadas do mais feliz êxito.

Não lhe ficaram dúvidas.Tenha a bondade.? faz o obséquio de mandar sujeitar esta mulher a um exame médico? . bem relacionado.. um instante surpreso. Há a sua diferença.V. De olhos em terra. vamos ao que nos tem aqui. não é?. Ex.Esta senhora é testemunha e não parte.. não respondeu. Chegou a dizer-se que se deixara seduzir pelos bonitos olhos de Teodora. lábio contra lábio. mas certa reticência em abrir-se. ? Não retira.Sim senhor. O incidente. acrescentando para o juiz: . . desvirtuado por outros quanto a trair parcialidade em favor duma das partes. no que se refere ao juiz. e fazia-o com bizarria.. Ex. associados às pernas de vitela remetidas sob capucha pelo Zé dos Cambais. Tais palavras encerravam muito de sibilino. eu não quis ofender V..?. crescendo para ele. . a dar-se...a há-de dar licença que me explique. a sua deposição faz fé..Retirei.Estou satisfeito. pronunciou: .remascou o magistrado. essa mesma tarde deixou de tê-los! Tinha-os por duvidar de mim. Calabaz recuou instintivamente e de pé.Compreendo muito bem: V.. Fica apenas homem para homem. . está bem. o baixar vergonhoso dos olhos projectaram luz plena quanto ao seu significado.? toma o partido da desvergonha! O juiz ergueu-se com brusquidão e. tomo nota.Ciúmes. Retira .A senhora pode retirar-se.. mas V. e sob este aspecto tem jus ao nosso respeito. lábios vincados por um sorriso manifestamente desdenhoso. ouviu uma longa.? A fisionomia do juiz era tal que o Dr. desenganadamente exclamara: . Ex. repare. . por detrás da cadeira.O magistrado aqui desapareceu.Não quis. até o momento em que seja infirmada em boa e leal contradita.. o juiz que era homem novo. em voz estridente de cólera. enrodilhada e nem sempre hábil palinódia. Exijo uma retractação imediata do que acaba de dizer. Digo contradita e não prova expressa.Retiro. Imóvel. . não achou melhor que agarrar-se a uma obscenidade pouco generosa. o arranco com que desatou. confundido. Era rico. susceptível a certos impulsos. não deixou de se mostrar impressionado.Está bem. mas eu. Retirou..lutuoso. não retirou as palavras que proferiu? . Deseja mais alguma coisa da testemunha? ..? . O advogado da acusação percebeu e.. Como tal.. Mas uma grossa e sincera lágrima sulcou-lhe a face e não foi preciso acrescentar mais palavras. Imediata. Sentou-se o juiz. Quando o patético se desvaneceu. .Que diz a menina? . agora pode explicar-se.. Ex. Não sei se me fiz compreender.. podia tirar gala da natural independência de carácter. Instada quanto aos motivos de ciúme que pudera ter ocasionado ao Augusto.. ainda na zona do aturdimento. A certa altura interrompeu: . articulou: .. foi avolumado por uns no sentido da dignidade desafrontada com brio.. se os tinha. 173 .. mas tal declaração não é bastante para a natureza da injúria. foi na altura em questão.E quem me garante que o facto se tenha dado? E.Seria caso novo no direito que o depoimento duma testemunha fosse submetido a tal espécie de verificação respondeu o juiz. .

observou ao substituto do Dr. advertindo para o Dr. peço-lhe para se nã o confranger e contar tudo tal qual.Aqui há uma situação que não está bem definida. tem a causa muito comprometida. meteu os pés pelas mãos no esforço manifesto de conciliar o que dissera antes com o que sentia agora que era seu mister dizer. ficou a ajuizar mal. afogou-se-lhe a voz e acabou a soluçar. podem julgálo. Que factos ou que circunstâncias determinaram essa impressão? Quer explicar-nos. registemos. como costuma dizer-se agora. Manuel Torres em hora de puridade: . agradecia-lhe que desfigurasse o que se passou.. com efeito. Por alma de meu pai lhe juro que nada tenho que ver com a morte do José Francisco. tinha Augusto de matar. se não consegue anular de qualquer modo o depoimento que prestou a palerma da Maria Aires. 174 . limitando-se a responder a todas as instâncias que tinha fé absoluta na palavra dela e na firmeza dos seus sentimentos. O Augusto conjurou a pobrezinha: .. mas para que se faça cedo é preciso ser franco.? É drástico. O meu papel é clarificar o acto criminal. Está convencida que eu é que matei o José Francisco?! Se não está.Entrei em casa um pouco debaixo dessa impressão. Vejamos: o réu regressou a casa no momento do crime. depois. Assim. A infeliz é que se não capacitou das razões do filho. O acusador. Esteja certa que me não compromete. Maria Aires começou por manter a primeira versão.Oh. Devia estar mesmo alterado de parecer. como eu não me abri com ela. atire o coração para trás das costas e não tenha medo de dizer a verdade. Tanto assim que minha mãe deu conta e. foi tão discreto que nada adiantou que pudesse ferir o pundonor da namorada.Quando entrou em casa sabia pois que tinha havido morte de homem à sua porta.Os rumores pejorativos lançou-os com uma topetada soberana da cabeça à voragem surda do desprezo. é arbitrário.. exultante. toda a verdade.a defere. minha mãe. Que necessidade.Entrou em casa debaixo da impressão de que tinha havido morte de homem. Supondo ainda que se tenha de pôr de remissa que foi o ciúme o móbil do crime. mas pode dar bom resultado. Calabaz e o defensor: .O senhor. apreciando no justo valor o papel da defesa. todas as presunções recaem sobre o Augusto. Se eu estivesse culpado.Depois do crime. suponho eu . Vossemecê sabe.a que se vinculara o crime fora entranhadamente aluída. O juiz. .respondeu Aires com lisura desconcertadora ao que envolvia de comprometimento. A imputação . mais tarde ou mais cedo a luz faz-se. O juiz interveio. . chamado a comprovar tais assertos. Estou inocente. mal se percebendo que pedia perdão ao filho de lhe cavar a desgraça por sua má cabeça. Requereu o atrapalhado causídico a acareação. se eu a pedir..obra do ciúme .? .E uma acareação entre a mãe e o filho? V. não sabia disfarçar o seu sorriso sardónico. Embaraçou-se ainda mais. tão enrodilhadas saem as declarações da sua boca. se Teodora lhe dera iniludíveis provas de ser o preferido? O réu. Ex. . e seria para admirar que a justiça cometesse um erro tão grave como condenarme. em proveito ou desproveito deste ou daquele. .

Ia de peito feito. um homem menos se precata. cometeu uma cobardia imperdoável. de facto... mas perdi-o. debaixo daquele tecto dormia Teodora.. Que circunstâncias influíram no seu ânimo para entrar em casa debaixo da impressão de que acabavam de matar um homem? Percebeu onde quero chegar.. A alhada não se explicava doutra maneira. e à distância de dez passos um vulto mal se via negrejar. Foi na peugada do homem.. . sem saber explicar como. gemidos. que precisa classificado? O Aires não respondeu e o juiz tornou a repetir: .ele a mostrar-se e a ir-lhe na cola. O que o noctívago fora fazer avaliava-se. uma vez que tinham encontrado na rua..Compreende V. detrás duns toros de pinheiro. Quando . passos primeiro.. diga.. se não acontece meter-seme uma cisma na cabeça. como dizia.Fiquei hesitante: vou. a quintã em primeiro lugar tinha-lhe servido de esculca. cometera um acto de cobardia e por isso estava a pagar. Posso mesmo dizer que estava resolvido a apurar quem fosse.. Tornei à casa do Cambais pôr a machadinha no seu lugar. Teriam passado vinte minutos. que a sua 175 . achando-se desarmado por qualquer motivo. que se apurou serem do morto. se não era a manha que lhe ditava todas as partes. Ex. lá tenteou o lance. É uma hipótese. Bem lhe advertira o instinto. diga lá? . A que vinha ali o tipo?..a. . Duma coisa estava certo: o José Francisco ao largar de rópia para S. já ia. Agora. de repente. porque não restava dúvida que ele e assassino eram uma e a mesma pessoa. e depois? .Fui na peugada dele. se tanto. é uma hipótese a encarar.E que fez? . depois como que o baque dum corpo.Porque soubesse de antemão que o homem havia de passar por ali . Sim. e queres-te ir meter onde não és chamado?! Supõe que houve sarrabulho e. Brás fizera-o com o fim de deitar poeira nos olhos da gente e. Lá o rastejou. não saberias responder. Ex.Que cisma foi essa.. à falta de outrem. se te perguntassem o que andas a sisar.Aires descreveu então a cena que presenciara na noite do crime quando arrastado até à quintã do Cambais por tineta caprichosa.. voltei por outra.A cisma foi esta: “andas fora de horas pelos caminhos. não vou acudir. largueilhe na peugada. lá viu para onde se meteu. Supondo que era assim. se era verdade ter o Cambais acravelhado as portas. o provável é que tivesse voltado à quintã pelo estadulho. caminhava já para me ir embora quando ouvi certo restolho. e nada. a bem ou a mal. sim.Adiante.É fantástico.Àquela altura é singular? Que bicho foi esse que lhe mordeu. te catrafilam a ti. Os passos ao resto eram de criatura largada. Fora armar-se.. .? . Meti por uma quelha. agarrada às farpas.. e mais passos. . arrepiou caminho. Uma vez à espreita . mas por agora o que nos interessa saber é diferente. O Aires dobrou a cabeça para o peito e entre soluços reconheceu que. . passam-nos cocas pelos olhos... . fechei as portas e fiquei de plantão à esquina.. um estadulho do carro do Cambais com marcas de sangue e até com uma manchoquinha de cabelos.Assim que o encapuchado despegou da quintã do Cambais.. noite fechada. Estava escuro como breu.” Aqui tem V.Que cocas.

. ouviram-se-lhe estas palavras atribuladas: .É admissível que tivesse esse relâmpago de premoniçao .Não. que já é uma hora adiantada para terteolas como Malhadas.. corria perigo.. . encarando no Dr..proferiu o juiz ao cabo de curta pausa. . o advogado de acusação não se demorou em arquitectar outra. misturadas com soluços. . senhor juiz. antes do grito de socorro soltado pelo homem do lampião. largasse assim pelo escuro. não tinha dúvida em aceitá-lo. . estreitada contra a carne. cujo sorriso lembrava uma rosa-chá desbotada. estava à beira do rio. em aparte. Não sei como. Uma nova inquirição de testemunhas gravitou àvolta deste ponto de vista. Calabaz. olhe V. Sim.. despi~ cado com o ácido rancor de que são capazes dois rivais. Ex. .Sim.. não ter eu hábitos de tresnoitado. era com ele. por mais fabuloso que se afigure. quer de passos. Isto que ele contou parece-lhe exacto? Das profundas da sua dor. o mais forte abatendo ferozmente o mais fraco. Tremulante. a voz de dentro dava-lhe rebate que um tal escarcéu deixara de ser com outros para ser com ele. juiz. . Que andava a fazer por fora? . levar pela marcha.Sim. passei à banda das minas do Vale das Donas.Olhe. eu tinha-me encontrado com Teodora pouco depois de anoitecer. parece esquisito. Mande-me para a cadeia que eu é que menti. E deitara a fugir desatinado. que possa invocar?. é exacto. quer de vozes. Terminou aos arquejos.Meta a mão na consciência e diga a verdade como lhe pede o seu filho. Mas ela contou-me como aceitara o convite do homem. meu senhor. o que andei a fazer foi a vadiar pelos caminhos. não nego. embora não soubesse dizer porquê. dóceis à lição. Era. tão feliz da vida. estando como estava uma noite escura.Como se explica que. Contra argumento tão óbvio redarguiu o acusador. a maioria. fui-me deixando levar. fui como se fosse pelo ar. . depuseram em conformidade. senhor Dr. em choro desfeito. O juiz deu por findo o interrogatório depois de instar Maria Aíres: .felicidade. à toa. e agora me digo que não fui mais adiante porque a água me tolheu o passo e vim a acordo do lugar onde estava. até o rio.Não. à primeira vista não menos lógica: de que ele e José Francisco se houvessem encontrado. a partir daquele minuto. Depo1s voltei para trás. senhor juiz.?.Não é caso inédito. garantiram solenemente que não deram fé de rumor algum. Mas diga-me: o crime deu-se entre as dez e as dez e meia. e fiquei tão contente e fora dos eixos. Que não gostei de a ver dançar com o José Francisco.. e sua mãe por mais que se reprimisse tremia como um vime. Mas se umas. sem direcção. quando dei conta. Nem reparou em nada de especial. no número das quais estava a Rosa Pedralva. não tendo o costume de vaguear sozinho. é também certo.Não encontrou ninguém. e mais isto e mais aquilo. a fugir como se transportasse alguma coisa que lhe quisessem roubar. se não derrubada a teoria de que o Aires assassinara por ciúme. escuro fora. realmente. todas as dúvidas que concebera a seu respeito. Teodora desfez todos os melindres. que fui. Mas. que nada provava que o encontro se não 176 . Lá que cheguei a ter certos zelos. Subira tão ofegante a escada de sua casa que os vizinhos deram conta.. e acabado por vir às mãos. aquela que levava ali como uma pessoa aconchegada ao peito.

não sei. Com tão desabalado acusador acabou por condensar-se à volta de Augusto Aires o que se chama má atmosfera. 177 . mas onde está o tribunal que se atreva a condená-lo sem uma verdadeira e insofismável prova? . . Torres para lhe entregar a pasta. o exame médico-forense. a verdade é que se a defesa se contentava com a espécie de clarão de inocencia que resplandecia no rosto do Aires e o halo psicológico que se exalava da causa.Muito estranho. como observara com judiciosa oportunidade o advogado da defesa. O que não lhe posso levar a mal é que não soubesse dissimular a sua convicção. O seu antagonista e o juiz sorriram despicientemente. Estava no seu papel. Calabaz. . O advogadozito notou-o. por um acaso.tivesse dado algures. digamos. se rasgue a cerração. Ex. relegado o volfrâmio para segunda plana ante a tabelização inferior. Daí o relativo silêncio em que decorrera o drama.A minha esperança é que mais dia menos dia. era lógica num segundo plano e não valia a pena levar o debate para tão longe. pressupunha golpe à traição. sem ser preciso. provavelmente por considerar de somenos semelhante tó pico. despercebido dos vizinhos. a anatomia e o jogo do pau. e todavia não se impediu de dizer para o constituinte: .O que a habilita agora a acreditar na sua inocência pode muito bem ser um fenómeno precursor. e o cadáver transportado para ali com o propósito de desnortear a justiça. se quiser.A sua culpabilidade assenta apenas sobre presunções.. Reparou V. e ela por sua vez deixou-se possuir desse palpite. amiga do que é recto como sempre foi. o assunto versado em Malhadas era a morte do José Francisco. ao agente investido de tal excruciação chamam na linguagem rural o aterrador. reforçando as suas premissas com novos e ousados argumentos.respondeu o preso. Fosse como fosse. em que depunham Lombroso e Conan Doyle. a que minha mãe agora já está convencida da minha inocência? Que se passou no seu entendimento.Nisso não vou eu muito fiado . forcejava em expedir de toda a maneira o Aires para a Penitenciária.É estranho. que esta causa tira-me o sono e estou morto por que chegue o Dr. Lógicas. na mira porventura de justificar a grossa espórtula que contava pedir ao volframista. . Assim. por qualquer circunstância. tendo em vista a sua profundidade e ser situado sobre o occipital. Posso garantir que nós não contribuímos nada para a reviravolta. ou oprimido mesmo pela amizade. talvez mesmo fora da localidade. Minha mãe viu-me entrar em casa dominado pelo palpite diabólico de que tinha havido mortede homem e eram muito bem capazes de me apontar como matador. Por isso. que redundava num destampatório a que nenhuma espécie de juízo seria capaz de quedar impermeável. que era sagaz e requintava na qualidade pela hora crítica em que se via. o alvorecer da verdade. o que se não compadecia com a ideia de conflito ou luta corpo a corpo.. o acusador ardorosa e porfiadamente buscava tapar as brechas por onde ameaçava ruir a arquitectura do corpo de delito. De resto. . A tal raciocínio faltava lisura. Oxalá. embrenhou-se numa explicação fantástica. Com as idas reiteradas à sede da comarca.

acabou por confessar no meio de choro convulso que um homem das minas abusara dela na serra. Caiu ali o Carmo e a Trindade. . meio condoído do desaire: .É fácil de perceber. que se chamasse o médico. restituo-lhe a importância da chamada. coitada. que nunca os noivos ficariam roubados quando lhes fossem a tocar? E tais doestos lhe dirigiu que ele mandou-a calar. que soltava lágrimas gordas como repolhos. Só um tolo não quedaria capacitado que a Florinda estivera a urdir uma fábula com os capítulos principais alinhavados atabalhoadamente. rufou-lhe no tórax aqui e além com o dedo em martelete. dizendo-lhe com ar meio zombeteiro. Entretanto dava-se no povo um acontecimento do mais castiço e avantajado melodrama.. como certas trovoadas.tartamudeou a mãe. Pulsou-lhe de ouvido colado sobre a camisa o fervor de todos os respiráculos. confidente de todos os 178 . adormentando-se com o tóxico de ambas se verem desinfelizes da sorte. que há muitos anos exercia as funções de parteira e se julgava no direito de coscuvilhar em todo o sector de tal actividade. antes de a praga do volfrâmio desabar sobre o mundo. Pediram-lhe sinais.Oh.. ameaçando-a com uma polícia se continuasse a faltar-lhe ao respeito.?? Já sabia que as ameaças e ralhos da mãe se resolviam. ora empregado no Vale das Donas. na cama. Sua filha está grávida e duma gravidez muito adiantada. A tia Rosa. Se até então a sua filha não tiver tido o nené. que te mato? Dizes quem é o varrão ou é aqui o teu último dia. quem era o autor? Porque lhe escondia ela o nome? Teodora. montou a cavalo. Tomara ele assim as filhas. levantando-se. em água celestial. Umas vezes era um homem novo. e foi como se caíssem as escamas dos olhos de toda a gente. disse para a Rosa Pedralva que a moça não tinha mal nenhum.O sucesso transvasara já para as gazetas do distrito e daí para os diários da capital. lançava âncora pelo Aires. depois de lhe exigir o preço da visita. O Fráguas sentiu-o e procurou activar o andamento do processo. o que ela fez com enjoada e retardativa obediência. se as tinha. excomungada. a Florinda. palpou e tornou a palpar-lhe a bacia. estimulada pelo romance apaixonado de Teodora. Como a Florinda Pedralva não desse sinal de melhorar. E. A própria tia Rosa dobrou a cabeça. depois de muitas negas. E. apoiados pelos velhos Salorriões da aldeia. e agarrou-se a ela a ganir e a soluçar. Olharam com olhos precavidos para a barriga da moça. porquanto não podia considerar-se a prenhez como enfermidade. outras de meia-idade e com calças de bombazina. bons cem mil reis com que ela teve de explicar-se. para a auscultar. jurando por todos os santos e santas da Corte Celestial que sua filha continuava pura como quando a deitara ao mundo. A opinião. decidiram os parentes. . desmentiu o doutor. que noutros tempos. Veio o doutor e.Não percebo o que Vossa Senhoria quer dizer . referências quanto ao violentador e tanto disse como desdisse. de bigode à Carloto. juras e trejuras. Apertada pela Ana Ruça. em lágrimas. Mas uma vez que havia um críanço. ora em Muradais. mandou-lhe que se desapertasse e estendesse ao comprido. isto é. A mãe arremeteu para ela de tamanco no ar: . era o beijinho do rapariguedo. uma vez que fora aos fieitos para deitar na cama da porca.Entre dois e três meses vá-me ver. e a soluçar para ali ficaram. perdendo a cor.

tais carinhos prodigalizou à casquivana que ela pouco a pouco foi-se despojando de sua frieza e prevenção. onde se via uma. de se quererem bem e derramarem em ternuras quando se encontravam..Quem foi que te enganou. Que vai ser do meu filho! E. Cerra-se outra vez a escuridão sobre nós. a Teodora para o Augusto Aires. Nossa Senhora. e foram pouco a pouco apartando-se sem deixar. Agora. se não quisesse reconhecer o meu filho.Jesus. carmeadas e romarias. Mas recalcou o desânimo e porfiou. Como era do domínio público.Soubesse-o eu. que não iam lá muito à bola um com o outro. quase arisca sempre que a conversa descaía na desgraça que lhes batera à porta. na esperança de acharem o fio que lhes ajudasse a desenvencilhar a meada em que estrebuchava o Augusto. entreluzir aquela pequenina e providencial estrela que nunca falta aos sequiosos de justiça e sonhadores com seu clarão piedoso. toda a sua amizade e mútuo paparicalho voltavam ao que tinham sido. tempos àquela parte. para mais desafortunadas ambas. não se sabia bem porquê. Soubesse-o eu e era capaz de ir matar o carrasco. olha tu. Teodora contou o passo à Maria Aires que disse: . estava a outra. Uma ocasião ousou avançar a sonda: . Se qualquer delas erguia a voz. A pobre mulher quando a rapariga lhe foi com as suas dúvidas. na noite do entendimento. No entanto. fitando-a muito no fundo dos olhos. ouvi dizer que a audiência está marcada para breve. por festas. E logo ela. respondeu como se a tivesse mordido uma víbora: . com os seus palpites e sobretudo com as suas esperanças. E traçaram um plano. Florinda? Hás-de-mo dizer que eu guardo segreào. sou capaz de jurar numas Horas que nos achávamos no bom caminho? 179 .derriços. logo a outra acertava o tom. estranhou aquela comédia e mistério e notou a singularidade de certos factos que tanto podiam ser naturais como não ser. De repente.. todavia. E seus olhos de mãe viram ao longe. E abriu-se com Maria Aires. com reatarem. a Florinda começou a pender para o Luís Ougado. Teodora fez-se encontrada com Florinda. deu salto. não deixou de verificar Teodora quanto a amiga se mostrava reservada. E tanto fez.

A espaços as testemunhas pigarreavam.. Estavam com reverencia como quando se ministra um sacramento. Bárbara puxou do pacote de notas. ao passo que dizia para a turbamulta: . quando Deus for servido de chamá-la a contas. mal os viu. Tenha paciência. . e pagou. para missas não dispôs nem um real! O padre também ficou a chuchar no dedo. há-de vir servir de testemunha e arranjar mais duas que sejam competentes.proferiu o Calhorra abanando a cabeça. a quem.Então? . Consolai-vos. encafuou-c. formava cortejo atrás deles. o Calhorra chamou o João Sancho e o Reganha que não eram nada à testadora. fechou o livro.Essa agora. se não deixa o preto no branco. como era lagóia fina. Foi preciso que o Silvestre Calhorra os admoestasse. amaldiçoava aquela colondrina e votava a todas as pragas do Egipto o 180 .. sinal de engulhos.M’amigos. A Polónia foi a primeira a romper o quebranto: . de bicicleta. que trazia na patrona. na saquinha. É só pôr a véstia. faziam estardalhaço com os tamancos.XIII Um sujeito desconhecido apareceu à porta de Silvestre Calhorra. Sou o notário novo de Tendais.Raios a partam que está aqui está no inferno! Não querem lá ver que a alma do diabo foi amiga dele?? Queriam desancar a mulher. aqui não há bêberas! O notário improvisou a escrevaninha em cima duma arca.perguntou o Lázaro Fandinga. mas quando chegaram ao destino já a parentela. nem um padre-nosso lhe manda rezar por alma. avisada pelos alvissareiros e apreensiva como se pode imaginar. chamou o tabelião e as testemunhas para dentro de casa.É o senhor Calhorra.Esperem lá fora. não é? Foi o reverendíssimo senhor p. deu o recado: .. De caminho.. E erguendo-se muito guicha. . com uma agilidade que não lhe supunham. Ela. . chamando-os à razão. ditada em voz baixa. em tamancos e mangas de camisa.E anda com juízo. assinou também o notário.Mora perto a mulherzinha? . .Uma tal Bárbara Ladeira que deseja assegurar o bem-de-alma. Saiu ao patamar o senhor presidente da junta. Polónia. suspenso do guiador. e lenta. depois de cumprimentar. .! . Permaneceram assombrados e mudos como se lhes tivesse caído uma faísca aos pés.Deixou tudo ao Antoninho Fráguas que é o fiel testamenteiro. a esganada. adivinhou logo o móbil que os trazia. com um livro a espreitar pela abertura do saquitel de lona. claudicantemente foi recebendo a vontade da mulher. podeis fazer cruzes na boca . Foram encontrar a criatura à porta da quintã a carmear. . Vamos lá. Tem para aí uma familagem mais cainha e derrancada que. em voz de ladário. o que maravilhou o Fandinga que a um canto se benzeu com a canhota.Então de que se trata? . rolhou o tinteiro.A dois passos. Depois. mal aqueles tios saíram de cambulhada com o tabelião. lá assinaram todos.e Tadeu que me disse para bater à sua porta.

ladrão que se ia gozar dos bens que haviam de competir aos seus perdigotinhos pelo direito estabelecido. a sua Polónia dinheiro para uma fornada de pão.Leve o quê.Com o imposto sucessório. . o Sancho. contando que recebera uma roupa nova para jurar falso. o Carrasco. Por ora não há outros ventos . alguns a cavalo.disse Lázaro para o Calhorra. e assim por diante. hem! . compadre.respondeu o Calhorra com a segurança de presidente da junta de Paróquia que mandara afixar os editaís nas portas da igreja. de que Deus o havia de livrar.Em quanto avaliam a sorte da mulher? . . a Maria Choca e a Cismas cada uma em sua jerica. .Nuns sessenta contos. o José Reganha um chafariz à porta. Podiam contar-se pelos dedos da mão os que perduravam fiéis: Luís Ougado. Dois dias andados. Soube-se depois que. transmissão e alcavalas de vária ordem não cabia a cada bico um conto e quinhentos. de pau argolado o Fandinga e os Urras dum e doutro ramo. Para abreviar a caminhada. que metia duas camionetas. que nada lhe falte em casa. comadre? . acrescido com os trânsfugas do arraial contrário. o Celestino da Maria Choca um relógio de plaqué. estrada e caminhos que levam à vila de Orcas iam coalhados de pessoas que. davam à taramela. .Mais de duas dúzias. . . Muitos a pé.Trancas corridas.) e boa paparoca.O que te digo é que vai uma sangueira pelo mundo que as malvas quitam que lhes chova para crescer. uma hora não era decorrida. É favor que lhes faço aceitando o legado. o jamboto coveiro. o Zé dos Cambais. era o mais numeroso.inquiriu o Zé dos Cambais.Quantos eram os parentes a herdar? . e dois paparretas sem vergonha e sem camisa. outra escondida nas minas.Então o Governo chamou as praças de há dois e três anos .A guerra. Vieram-lhe dizer que em Malhadas e povos limítrofes não se falava doutra coisa e o apodavam de azeiteiro. O do Aires. A parentela de Bárbara era numerosa e aí perdia a patuleia do Fráguas o contingente mais garabulha e arrifador. embora menos luzido que o do Fráguas. Encolheu os ombros. ainda há quem se lembre de mim. O mais patusco é que o Fandinga lhe denunciava alto e bom som a obra de sapa que empreendera para fazer condenar o assassino do filho.lamuriou a Casimira Urra. A Ana Ruça que se ocupe da criatura. os povos incendiados e a soldadesca inimiga de sabre em punho a picar a gente na barriga e na sola dos pés até se lhes prantar para ali o bagu@nh. corriam para a audiência.Deus a leve lá por longe . Andava com uma turma de homens a plantar uma bacelada e ao cabo de breve instante de surpresa proferiu sorrindo: . Hoje semelhante quantia não é dinheiro. Naquele alinhavam em suas éguas rabonas o Calhorra. com urna gente a fugir pelas serras. de Mouramorta e localidades convizinhas. Coitada. e em ranchos consoante o partido e afinidades. . informavam o senhor Antoninho Fráguas da caprichosa tineta da Ladeira.Sabe-o Deus. E com a voz tomada do vago e do maravilhoso que há na aventura o Fandinga exclamava: 181 . Pois que havia de ser? Tinham da guerra a ideia atávica que se lhes infiltrara no sangue através de gerações e gerações martirizadas. .

assustadiças.acrescentou num lamento. acima de tudo lavrador. e mais nada.Todo o bicho-careta se pôs a esburacar na terra comentou o Calhorra ante o panorama. Arrulhavam as rolas no pináculo dos pinheiros e as calhandras erguiam voo aqui e além.Também sou dessa opinião . cor de marfim. estrondo de tiros. não vai mau. . ingleses e alamões haviam de levar quanta mistela cá há . Por modos. a maioria lucrou. tinir de marras nos guilhos.Ele para que é o volfro. à beira das trincheiras. sucedera a imobilidade sepulcral. deparavam -se.gemeu a Rira Cismas. Pelas pequeninas ladeiras.disse o Zé dos Cambais. Sarilhos. Paredes acabadas de erguer seguravam socalcos agenciados nas vertentes. encoiradas da erva primaveril. . a rabugem vegetal estendia já uma coirama verde e fugidia. Olhem- 182 . Uma cancela pintada de fresco cheirava ainda a zarcão. Não chegava para os aguços da ferramenta. . ainda que elementar.a . botam-se abaixo dos aerop)anos e toca a pôr mão forte em tudo. . .Fráguas & C. abandonadas. .Pois não é ele o mais interessado em que a gente leve vida direita? . as balas caldeadas com volfro matam melhor e chegam mais longe. Sobressaía do mato galego.perguntou a Cismas para o Calhorra.O ano não vai mau.Nunca vim bem ao fundamento porque é que o Governo deitou um barbilho assim apertado a quem andava neste badanal do volÊro .Anjo bento? . e relampejava entre as pedras a casaca furta-cores dum sardão apavorado. mas quem os perdera . Passou um arrepio entre eles à voz crocitada. . Na Cabeça de Alva a obra de engenharia. a pedra nova de arranque entre montes de saibro a descorar.Assim seja. vozes ásperas e todo o borbulhar do formigueiro humano. . como se unha rascanhasse uma ardósia. . A aldeia dava ares de ter rejuvenescido.lhe a cada passo vestígios da recente mineração. Em alguns desaterros.. telhados de telha novinha ensanguentavam a onda de verde. À medida que desciam a lomba alpestre que mergulha para o rio. espraiando olhos às duas bandas da estrada e sentindo os baratais livres do codo e próxima a hora de deitar os feijões à terra. Também já o rosmaninho erguia ao alto as suas pequemnas piaçabas roxas e aqui e além a umbela da esteva chamava a abelha ainda recolhida. cales da lavagem. A partir de Pedrões. começavam a aparecer pelas encostas as pequenas explorações de volfrâmic. Sobre os desmontes esvoaçava o cartaxo. alvas.Mesmo com alvará de franquia. Às duas por três. apodrentava às intempéries.Se é para matar.apoiou Manuel Urra.Se alguns perderam as orelhas.trazia o bolso quente doutras empreitadas. ninguém ia esfossar na terra. dizia consoladamente: .Para que é? Para matar. Não se viam nuvens no céu e o Calhorra. Mas à labuta infrene dos meses anteriores. barracas jaziam à mercê de quem vinha arrancar-lhes um braçado de cavacos para fazer fogueira. a cento e cinquenta escudos o quilograma. com a água a cintilar como cutelos dos côrnoros para baixo. .Não faz cá falta. assim a guerra arrame lá por longe. Uma noite chega e cresce para ocupar uma nação. senhor compadre? . Estavam ali enterrados uns centenares de contos. Estava uma manhã clara de sol e pelos caminhos as giestas desfaziam-se em cataratas de flores amarelas. Ouvi estar a ler que a guerra agora não se anuncia de véspera.

outras vezes. mais admirados ficavam. Entretanto o debate com dizer. testemunhas.. uma vez que o carro lhe estava empanne. novamente indicadas. aves estranhas. E tu. com sala tão cheia que se abafava.esses calços. e de mister Corbet.Vou dizer que o Antoninho andou pelas portas a ensinar-vos a lição e a prometer-vos peitas. os automóveis do Dr. A noite é dos amigos. prestar-lhe de tão boa mente e com o maior desinteresse os serviços de mecânico e que no seu ânimo o facto ficou a pesar como estrondoso obséquio.Que vais tu agora dizer. ouvido o réu. arremedilhos de verdades. Sabia quanto o Aires era dotado de um carácter íntegro a toda a prova. tudo no seu posto. advogados. Sabem quem foi que fez tudo isso? O volfro. no rosto uma expressão esverdinhada. Cansado de bater o Tavolado. . de moinar pelos quiosques. Falto à verdade? Quanto a mim. . nada mais que solicitado pela pobre mãe acabrunhada. à tenda. magistrados. Que sabia ele da vida e costumes do rapaz? Sabia tudo. manténs que foi o Augusto que matou. É certo o Aires. que não disseram nada de novo.. causou sensação o inglês mister James Corbet. que também fora dado como testernunha de descarga. se é que não estendia até ali seus ramos a maior e mais decidida instituição de defesa imperial que se for)ara a Inglaterra depois da Home Fleet. o Fandinga encontrou-se com as tes rem unhas fixes do Antoninho Fráguas. A audiência abrira à hora precisa. Entre as da defesa. rijo e direito como os negrilhos da serra. meu casaca virada? . Dispensada a leitura dos autos.já chegou à razão com o Dr. Na sua voz tartaranha. Luís Ougado. refractário à venalidade. Uma delas interpelou-o: . Mudou tudo de pele! . magro como 183 .E para os distritos da Guarda e de Vila Real também há que contar. com pequeno intervalo. dois repórteres. Nele a libra esterlina não achara furo e não tinha pejo de confessá-lo.E até o fez a vossernecê rico .exclamou o Fandinga que gostava da contradição. ao padeiro. O volfro deu muita vida! . não direi mais nem menos.me para essas casas novas .. Orcas levantava-se tqrde. Levado pelo sentimento de justiça. o que surpreendeu muita gente. de abrir a boca e lançarem olhos assarapantados às criadinhas que vão ao talho.chalaceou o Fandinga. Torres para a compra do casal? O Calhorra punha sempre um certo pudor em assoalhar não só grandezas corno acrescentamentos e não se dignou responder. O Ougado fitou-o com um olhar de través. Mais ocioso que um burocrata da província apenas um fidalgo também provinciano. de bom grado anuíra a depor em abono do Aires. verdades como punhos.E muita morte! . Também ele dispunha duma pequena Intelligence Service. Os serranos fartavam-se de roçar as ombreiras dos Paços do Concelho. e não lhe deu resposta. essas encostas salbradas. umas vezes. ainda que sobrepondo-se ao empenho notório do seu corretor Antônio Fráguas.. até destrancarem portas as repartições. na paz dos lençóis. e a manhã está por conta própria. Um dos Urras dizia: .Se fossem para baixo de Viseu. articulando um português infernal em despeito de habitar o país havia mais de vinte anos. inquiriram-se as testemunhas. do concessionário Hincker e engenheiros. Manuel Torres. Quase às portas de Orcas passaram pela caravana. foram aligeirando a jornada.

se não extinguira o sussurro. não haja dúvida. não apenas ciúmes.Dá-me licença que lhe dirija uma pergunta? Serei breve.proferiu o Dr.de seguro efeito como prelúdio. aliando. Calabaz interrompendo-o a certa altura. ao verificar a reviravolta que se produzira no público. mas apreensões. As outras testemunhas não trouxeram luz nova à causa. a afirmação de que o réu não acalentava a menor suspeita quanto à retribuição do seu afecto foi produzida post hoc. e o engenheiro Severo Bacelar a desenhar em pequenos e nervosos traços quem era o seu primeiro. . senhor! A acusação não ousara instá-lo. já o volantim do meirinho introduzira nova testemunha. a limpar o suor. depois de fazer a síntese das excelentes qualidades do seu constituinte. o encanto dum troveíro à arte de dizer dum contador de histórias. sem grande inédito. Mas ainda nesse caso. embora sem patético teatral. Por conseguinte destituída de valor probatório. e era de presumir que por simetria psicológica no ânimo dos juízes. Torres. Aires não matou. Sentou-se. discutível. tratado com muita gente.. quando é que um homem apaixonado . o pescoço a sair dum colarinho de goma de inverosímil altura? declarou voltado para o juiz presidente: . como bosque batido pela rajada. à parte a ressentida deposição do Fandinga e afins com uma vaga história de suborno. cuío nome não me ocorre. Depois o advogado acusador encetou o seu libelo. Franz Hincker limitou-se a abonar o bom proceder do réu. de que perdera a vaza. quando é que deixa de nutrir zelos e sofrer todo esse assalto de feras.espinafre.anuiu o Dr. e sempre gentleman. chamou a estes zelos fumo de amor. receios. desencadeadas pelo mais divino e infernal dos sentimentos? Alguém. . como é constitucional na sua raça. começou por puxar o velho cavalo de batalha do foro criminal: a quem aproveitara a morte do José Francisco? . Ora não são eles que cegam as almas mais diamantinas e armam tantas vezes o braço do mais pacífico? De resto. Aires não podia matar. conhecer homem. Sim. não esqueça. amor ao trabalho e culto do dever. . calcorreando com pequena diferenç a o caminho andado na instrução. afirmo e garanto que Aires não matou. Ainda na sala. que no dizer do Calhorra não aquentou nem arrefentou a justiça. senhor.Eu ver Aires poucas vezes. mas o bastante para formar juízo seguro a seu respeito. Sem embargo de ser homem provado no foro e matreiro. demonstrando que não ao Aires.. inteligente e discretíssimo capataz. a sua rectidão. após uma vénia mal esboçada abandonou a audiência. E o efeito que esperava duma opinião prejudicial para com o réu escapou-lhe de todo. Se Aires amava. 184 .gostava que me dissesse deixa de nutrir zelos. quente.Faz obséquio . certo da vontade de Teodora.Afirma o colega que o réu estava seguro quanto à vontade da moça. Eu ter andado as sete partidas. isto é. indiferente a agradar ou a desagradar. em face da atitude confiada de Aires e das palavras impressivas do inglês. Torres. A sua voz era colorida. Dê-nos de barato que assim era. E porque me ufano de conhecer nosso semelhante. notou-se que caí ra a fundo um pouco desatinadamente. dir-se-ia. o seu ricto de odioso e odiando impregnado do palpite de que fora desastrado e. sentia-os. imprevistos cuidados quanto ao objecto da sua paixão. porque seu natural não consentir. toda a casta de bicho-homem. o que mais lhe importaria. . amarguras.

mas.Para mim o mundo acabou. parece tolinha. Que era. No bom pano urna nódoa cai e nem por isso o pano fica inutilizado.Assim tem empenho em o saber. não lhe ia nada por diante. . Em Riodades empeceu assim uma família inteira.. até o coração me estala? Teodora continuava a arquejar cada vez mais violentamente e a desfazer-se em lágrimas. morro de que se saiba! Teodora ergueu-se com brusquidão. E cravando olhos duros nos olhos de Florínda. Tu és infeliz. A ti. .Deixem passar.? E desatou a soluçar em tão forte e atribulado choro que Florinda se comoveu. eu sou infeliz. fica-te o sorriso do menino para te consolar. . pergunte-o ao Volfro! Ela. se for rapariga. ai Jesus. e também há outras pessoas que o sabem..Pois bem hajas tu . cruzar os braços e deixar que a justiça julgue às cegas quando podia ser guiada. voltavam-se todas as cabeças. ondeava o auditório. só um monstro.Teodora .. .. ..Neste momento rompeu da teia um burburinho anormal. se mo levarem.. hirta e de caradura feroz. . . . comete um pecado que não tem perdão aos olhos de Deus. do que pagarem os filhos pelos pais e os justos pelos pecadores. Se mo levarem. o homem ficou debaixo duma casticeira ao cortarem-na para fazer traves... gentes? Deixem passar! Naquela mesma manhã do julgamento.. pionunciou: 185 .. ouve.Pelo meu filho darei o sangue dos braços. agora que se desquitou do seu querer. ninguém como nós duas para se entender. Que dizes. . menina. Um dia caiu-lhe o raio em casa. Mais bem desventurada sou eu..Se foi o homem que pagou por se ter calado. . como espadas que a trespassassem. Vieram-me dizer que a Bárbara esteve há pouco com este aranzel para a tia Ana Ruça: . também te digo. que ele há-de ser um amor como tu.. Sempre te quero dizer uma coisa.Quero fazer-lhe um enxoval muito bonito.. Teodora entrou em casa de Florinda com olhos roxos a tanto chorar e falou-lhe assim: .Dize lá. Eu sei quem matou.Nã o lho digo. outro dia. eu nunca mais serei mulher se me levarem o Augusto. é para o castigo ser maior! Nós não andamos a pagar por conta dos nossos primeiros pais? .. nem os meninos nem o vivo. sir-n. se há gente que sabe e se cala. . jurar falso é grande crime. o Augusto está inocente. e não se lhe tira coisa com coisa.respondeu-lhe a outra enternecida.. podem condenar um inocente e é uma quebração de alma.. puxando-a com brandura pelo braço e afagando-a: .Então. e Florinda tornou.Então quem foi? .. o meu homem. Eu sei como foi. o ramalhar das vozes foi crescendo como sacudido por desarvorada comoção.Sei muito bem quem matou o Zé Francisco.Jesus. Teodora. se for rapaz há-de chamar-se Augusto. que não era.Ouve.. Mas.? Olhe. mas aí. se o meu filho havia de padecer por minha culpa.Nada mais certo.. tenho vergonha de o dizer.. Certas palavras esvoaçavam mais altas: .murmurou ela. bem está! Mas que culpa tinham as outras pessoas da família? .observou Florinda. Mas eu hei-de ser madrinha do teu filho e tu por um lado e eu por outro o acautelaremos das horas más.Teodora.

Se os patronos das partes não vêem inconveniente. Esteve um instante imóvel. A priori podemos ajuizar que a anunciada revelação não passa dum drop. chegou a casa cobrir o xaile. .. quando podes atalhar!? Deus castiga sem pau nem pedra! Castiga-te no teu filho.. E arquejando.logo me dirão se a mulher que a acompanha não envolve um desdobramento .Os guardas não sabem manter a ordem.. . e o colega decerto está ao corrente.a querer falar. com ela albardada sem manta nem xairel. ah. gesto esquivo.. Com um olhar consultou os colegas e logo inferiu pela expressão de suas físionomias que não viam inconveniente em que se ouvissem as criaturas. ah. a aduzir um pressuposto facto à sensation.. . desgraçada. qual. não veio inconveniente.Tens de ir dizê-lo ao tribunal. pediu a burra à Casimira e. Tu és capaz de deixar cometer um crime tão grande. A outra não figura no processo. mas acudiu-lhe que valia mais formular o quesito segundo a norma: .perguntou o juiz descendo o sobrolho.. Tu vais-te arranjar depressa. Concordámos.? Acenou afirmativamente e. senão está tudo perdido. calçar os sapatos.. no mais opressivo desgarre. pois tu sabes a verdade e não a dizes....Franca. com medo de que o próprio vento ouvisse. O senhor juiz mostrou-se perplexo. como é condenar um inocente. um drop fondant de suspiros românticos e lágrimas à 186 .. ah.Quem são as mulheres? .. ou o pior dos malvados! Não vês os tristes espelhos pelo mundo. O Dr. . Conhecemos o truque. Vou-me arranjar. Consta dos autos.. Fazia-se-lhe uma pergunta. para que não resplandecesse a sua vergonha confessa. para que a amiga a não visse. Chorava. O colega não deixaria de notar essa circunstância. Com outro olhar sondou os advogados. soluços. cego. tanto quanto se pode considerar feita com almas rudes que se entrincheiram na negativa e daí não saem nem à mão de Cristo. Mas já. em dispensá-la. ? O aterrador levantou o cartel: .Uma delas já foi inquirida e dispensada pelos senhores advogados: é a Teodora. Essa Teodora produziu à altura devida o testemunho que muito bem lhe pareceu.. pupilas em alvo. Havia uma dúvida a esclarecer. mas também não vejo vantagem.Apareceu agora esta Madalena desdobrada . É singular que apenas neste instante que a prova está feita. que sai aleijadinho. depois que a viu resoluta quanto a alijar o horror daquele segredo. apenas neste instante nos venha com o archote aceso. tanto o Dr.Ó mulher.. Manuel Torres acenou afirmativamente. tão grande que nem tem perdão. já. E tapou logo o rosto às mãos ambas. que era a Verdade encarnada.Estão ali duas mulheres que dizem ter uma revelação importante a fazer. não vês.. francamente. as lágrimas embargavam-lhe a voz. Angelino como eu. Voltando do estonteamento Teodora disse-lhe: . Veio o oficial de diligências direito à mesa e proferiu em tom que se fingia reservado mas soava com nitidez suficiente para ser ouvido nas primeiras filas: .?! Florinda arregalou os olhos espavorida. zás. declinou ao ouvido de Teodora as temíveis palavras reveladoras. A partir de certo momento deixou de dizer coisa com coisa. muito depressa.? Que há? bracejava da tribuna o senhor juiz presidente.. abalaram as duas para a vila.

Muito menos roleta. amochava~se Florinda. como não.E. xaile de seda e saia de merino. de ser instada. puxando os punhos de goma. dispensou Teodora. senhor juiz? . Em nenhuma parte tenho menos medo de tais produtos do que à barra. Angelino. Ex. protesto indignadamente contra a insídia com que veio o senhor advogado da acusação. Quem aspira a tilintar esporas de oiro. Mas adiante: é exacto que o Dr. Após brevíssimo aparte. e as palanganas da garganta. Aqui o sal amargo. ocupado em deliberar à puridade com os colegas. melhor.a os pratica. Eu. comummente praticaríamos. de barriga à boca. que se dignou anteceder-me. Para mim o pretório não é um teatro. Ora essa.Sabemos quem foi o assassino. com pessoas de gostos sãos e objectivas. chambre de seda cor de azeitona. cabelo almofadado em tranças para a nuca à antiga moda campesina. . não tem aplicação. na guerra ou no sport. Também não o julgo picadeiro. nem desvantagem para o processo em que se ouçam as proponentes. talentoso quanto novel advogado.Realmente a cena parece de Hollywood . não tivesse rebuço de confessar-se arrependido de haver cedido a um movimento precipitado de compaixão. Repilo a insinuação e o contubérnio. olhos baixos. 187 . Calabaz aludiu a truques que todos nós conhecemos e que. Dá-me licença. eu não os pratico.a. sem embargo do agreste e obsessivo. matou um leão nos matagais da Nave. passo irresoluto e todavia certos ademanes de cascaroleta. vá ganhá-las algures. Penso assim e porque penso assim e estou pronto aqui e em toda a parte a responder pelas minhas opiniões. repito. O juiz mirou-as com aparente frieza e no silêncio leve e súbito que enchera a sala.Que têm a declarar? Depois duns segundos de turbação Teodora respondeu com voz corajosa e bem timbrada: . se continuasse a ocupar este lugar. portanto. denotando pelo vestir. Talvez que. Ex. Traz a cabeça do criminoso na bandeja? Pois se traz. e o meu parecer é contrário. Estava mesmo a adivinhar! .retorquiu-lhe com sorriso sarcástico o Dr. não vejo vantagem. Abriram-se alas e Teodora apareceu no seu traje meio senhoril.a. Mas bem. Nunca venho para aqui representar. Requeiro por conseguinte que sejam ouvidas as mulheres. Ex. pelas arrrecadas pomposas e cordão de muitas voltas.uma flor das serras que.chasqueou o advogado de acusação. lá cozinha-se às vezes ou quase sempre com mau tempero. no seu lugar. pertence-lhe a palavra? O senhor Dr. proferiu: .Mariana Cruz com manhas gentis de Frineia.Temos filme americano . Por tudo isto. de acordo com S. o juiz ordenou para o oficial de diligências: . Atrás dela. Acusar ou ainda defender para levantar o pleno pareceme contrário à mais elementar moral judiciária e sem dúvida alguma ao tópico a que obedece o foro: justiçar. como são os senhores magistrados.emitiu a defesa.Mande entrar as mulheres. Se S. inspirava imediata simpatia. ter-me-ia arrependido. para que não subsistam mais dúvidas de que o meu constituinte matou o José Francisco tanto como S. em face dos processos pouco generosos do seu opositor. a lavradeira de posses. a vida faz-se aqui. que me dizem batedor de montes. ar contrafeito mas animoso . Torres. Teodora pede para voltar à barra e eu não sei para quê. .

?! Também tu.. hão-de prová-lo. Na teia. . Os advogados observavam-na com silenciosa curiosidade.Pois sim. Reparando em Florinda. Viva o amigo! À sua retaguarda Silvestre Calhorra abanava a cabeça: . de que havia lembrança naquele tribunal afeito às audiências plácidas e sonolentas. Notaram também os juizes como o homem se tornara farrapo e em seu foro íntimo confluíram ao parecer geral. mas logo no começo da trajectória o braço lhe caiu flácido. Mas já que dizem que fui eu. ergueu-se a increpá-la: . Na noite de S.Não fui eu. Todos os olhos incidiram sobre o arguido e nada mais que àquele simples conspecto não houve porventura ninguém que não ficasse convicto da sua culpabilidade. o que procuraram realizar durante a suspensão. sentindo-se que o seu regalo seria meter-se pelo chão abaixo. Demais. O senhor juiz incitou-a a dizer a verdade e ela em voz tartamuda. O verdadeiro matador entregou-se. de imprecações. melhor eu não podia desejar. O Luís Ougado caía de borco a soluçar. que tivera o casamento emprazado corri ela. O José Francisco a sair a porta e o Ougado. era já o náufrago que não tenta sequer resistir contra a onda. entrecortada de pausas e suspiros. Aquilo. Por isso não o quis mais comigo.Felícito-o sincerarnente. entretanto. a lançar-se sobre ele de varapau. O desgraçado fizera-se branco como a morte. mas fora tão rápido que levara menos tempo do que se gasta a dizer. de ar sonso e cabisbaixa ao pé de si. como se o desgostasse o rumo que tomava a audiência. tratei de cumprir o meu dever. O público desatara na mais estrepitosa cachoeira de vozes.tornou o )Uiz em rom rosnado. Estão com a lágrima no olho. pois sim. O mais era a história da sua vergonha. contou o seu pobre romance. a dizer num pobre esgar: . Aires? 188 .Excomungada sejas? Tu.Não tem nada a opor? Só então o Ougado se ergueu do assento.É aquele homem? . pelo esmorecimento fisico geral. Era preciso vingar o assassinado. só tu. O presidente interpelou-o: . de juras.e Teodora apontava para o Luís Ougado. decorria a lastimável peripécia. digam-no? . Os juizes reconheceram que o incidente só podia ficar encerrado imprimindo-se ao processo o seu verdadeiro rumo. Tanto valeu tanger a campainha da ordem como chamar pelo miraculoso padre Santo António.. cambaleante. Augusto.. o gajo mandava-te ver a Costa de África. Pretendera ainda? desenhar um gesto de protestação. não fosse a cachopa. pelo olhar vago. é que causaste a minha desgraça! Mas o oficial de diligências agarrou a rapariga por um braço e levou~a à presença dos juízes. compadre Zé dos Cambais? Também tu.. perdido na fila das testemunhas. atinara a descobri-lo. Postada à janela vira tudo. descosendo-se da sombra. o Ougado sabia que o outro costumava vir ter com ela a casa quando tudo estava sossegado. Trouxeram-lhe um copo de água. lívido. Eu nada tinha de animosidade pessoal contra si. Célere e fugaz corno enguia foi o advogado aterrador cumprimentar o Aires: . não fui. Brás tê-lo-ia andado a espiar. Sempre disse que este estupor do Ougado havia de acabar mal. senhor juiz.Se sabem quem foi o assassino. O José Francisco era o seu amigo e o Luís Ougado. Houve que fazer evacuar a sala.

Promessa assim reticente valeu-lhe logo um cachação despedido à laia de amostra. seladas portas e janelas com os sete chumbos do lazareto. presidente da junta de Freguesia. a criada de dentro. .. Espraiando olhos pelos caminhos e as quintãs. e. Subiu a escada tão de afogadilho que à moça minguou o tempo para calçar as tairocas. tinha a casa da mãj ali perto. Para onde se tinha metido agora toda essa estúpida cambada? Era obra de meia manhã e. senhor Antoninho. mas largue-me! Há-de-me largar primeiro. outro pé na rua.Ouves ou não ouves. 1 gemeu com voz entrecortada. Silvestre Caffiorra.... Aquelas palavras era eloquentes o que basta para certificarem-no de que alguma coisa muito séria se tinha passado.Eu digo.. velho de sete fôlegos virou-se para a banda a limpar às costas da manápula também a lágrima. gemendo: . o íntimo inundado de febril regozijo. rosnava: . A moça. rompera com desabalada sanha a faina das ceifas. o Antoninho Fráguas encontrou a casa fechada. mas solte-me o braço. ó coisinha. obrigada a tendas de campanha e vedetas da Rádio e do Cinema. uma lágrima envergonhada. cabeça à retaguarda. exclamou: . Dize. Tinha-a já agarrada pelo pulso e. desse lado. junho tórrido e pães lampos. ao passo que a fazia retroceder para dentro da cardanha. Mas dessas vezes.Pscht.. acudiu-lhe que a Maria Alonsa. Conhecedora do seu gênio impetuoso e feroz. ao largar pela porta das traseiras. e botou-se lá dum salto.. o prédio ofereceu-lhe a mesma impenetrável e insólita clausura. e a criadagem a precipitar-se ao seu encontro humildosa e alvissareira.? Onde está a senhora? . tronco projectado ainda na flexão da fuga... Por muito que batesse com mão rija e frenética. já por duas vezes Solange. não se avistava vivalma.. a Maria Alonsa fitou-o com ar espavorido. o carro a estacar à porta. No fervedoiro da ira. eu digo. E de braço alçado ante secundar o golpe. Quem se cria capaz de empunhar a seitoira. não olhes para mim apalermada. amortecendo com sete vozes a um tempo o desagulsado da surpresa. largara para a folha. se empossou dele. De volta durna pescaria às trutas no alto Paiva.Onde está a senhora?. pedir asilo a segundos. lhe pregara a partida de ir de lágrima no olho.Pois sim. sabendo que lhe era precisa uma cabeça-de-turco nas suas raivas de fera para não morrer sufocado.Dize depressa! Dize lá e largo-te. correu-lhe no encalço: . juro-lho pelas cinco chagas de Cristo.. espera que já vais! Ante o seu rompante a criada suspendeu-se com um pé no limiar. Foi pelos quintais e. mal entreviu um lenço vermelho a esvoaçar. a porta conservou-se como a janua c(eli para o mau ladrão.. O Antoninho. eu digo tudo. A rapariga arquejava e não respondia. tendo baque de que devia ser ela.Que me quer? . desamparando o lar. Era como se estivesse diante da casa dum pestífero. E por 189 . acompanhado destas cóleras que lhe faziam retrincar os dentes e toldavam o lume da razão. Um vivo sobressalto. cravava-lhe as unhas na massa da carne... As donas que poderiam ter ficado de portas adentro não seria cómodo desviá-las da caçoila em que grugulejavam as papas para os segadores. o que buscava era eximir-se a ser o desopilatório. queixosa do seu desamor e vesânias. eu digo.Só Teodora estava ao lado grave e serena.

confidente e amigo íntimo. não dizes. mas meu pai e meus irmãos hão-de saber ainda hoje quem foi que me desonrou e é meu amigo! Que tal disseste! Os dois braços do Fráguas desataram a malhar alternativamente como um jogo de dois manguais. as comissuras dos lábios arrepanhadas num esgar de dor e decisão.antecipação logo ele lhe aplicou um segundo trompaço. com desfrute de permeio. leu a insofismável e porca verdade. Como uma cadela batida. dúlcar-te-á o tourf)... a Maria Alonsa largou pela quelha fora. mate-me.. disse bamboleando a cabeça: . também lhe chegou a vez! Foi-lhe bem feita! Ia a arremeter. que sempre lhe brincava nos lábios grossos.repetia ela. o que equivalia à rendição e a uma censura. Ela fitou-o em silêncio e abanando a cabeça. o Minga segurou-o. Pega!.Há muito que sabia que a senhora era amiga do Calabaz. Ao Espadagana. mas eu seja cega se me fizer abrir a boca? regougou ela.. mas deixei correr. a rnoceta retrauteou: . sob o engulho das lágrimas: . sem poder mascarar suficienremente a fúria homicida que lhe estuava no sangue. que a vergou para a direita. Um instante apenas quedou interdito. quando se )ulgou a coberto da investida do tigre assanhado. pequenas e grandes ninharias. mas que estivesse aberta. A distância. certos gestos que pareciam insignificativos e vozes absurdas que lembravam bexigas de porco à dependura. Pudera: Faze-te niorto. anda? Vai dizer que fui eu o primeiro que subi à laranjeira. Mais.Não. já. vai! Apareceu o Minga que lha safou das mãos. como não fosse perseguida.Seu malandro? julga que é só armar os outros coronéis! Foi-lhe bem feita. Não havia que ver. teimosa e convulsionando-se. agora assobie-lhe às botas! O Fráguas ergueu os olhos e na retina baça e parada do Minga. a ver se alguém te acredita? Vai.. . Passo a passo das repetidas e bruscas lucilações do entendimento. seguido dum terceiro que a repôs na vertical.. atirou a pedra: . A 190 . só depois de mantê-la sufocada por um tempo. E silvava: .Quem me acode? Quem me acode! Quem lhe havia de acudir? O Fráguas atirara a porta contra a fecheleira. Sabia.. reconstituiu o rúrbido romance. Ferrando-a pela garganta. meu estuporinho. Guilherme Calabaz. associando mil coisas. seu procurador. Uma das mãos dele não fez mais que deslocar-se. de lhe ver os olhos extravasarem das órbitas e ela a debater-se debalde. a aldeia tinha-se esvaziado para as searas. proferiu em voz atrida. Solange rinha fugido com o Dr. Deu-lhe um murro mais forte. o vago e cínico luaceiro.Levou quinze anos a querer persuadir-me que era uma pobre e santa rapariga e que eu não passava ao pé dela dum gabiru de marca maior. fora ludibriado da maneira mais imprevista e desbragada. Mais longe.. Então ela rompeu em altos gritos: . Pronto.Não digo e não digo! .? Queres festa? Então pega!.. é que alargou a golilha e lhe repetiu com a voz pausada e segura de quem sabe ter a vítima à mercê: .? Mate-me. que enristava para ele um focinho de condolência e curiosidade.e as manápulas do Fráguas erguiam-se e baixavam-se no dorso da rapariga com um ritmo cada vez mais acelerado e violento. .Vai dizê-lo... testade-ferro e alcaiote.Despacha-te! Dize lá.Ai. E escumava: .? ..Bateu-me. a chorar.

rraste rico e solene. e transformarem-se em catadupa sonora ou arroiozinho melódico. em que uma vez por outra lhe era grato ver o ft)rmiguQiro das notas marinhar processionalmente como lagartas da couve até o esófago musical da máquina. Os escrínios com as jóias. Antonio? Seguiam rua fora. Aubin a granel. Tinha alfaiado a casa com mobília em contraplacado. com as diferentes peças todas de cristal e prata. onde madame estudava horas e horas o sinalinho do rosto e os cabelos encanudados em mola de sofá. matizada de 191 . cederam ao leve empuxão. com aquela carinha de Senhora da Piedade. que era costume estarem fechadas a sete chaves. custoso e Majestático que nem o armário norte-americano dum dentista. o vestido de lhama a “estilo” para bailes e teatradas. grandes como talhas das azeitonas e vistosas como coristas de uma revista de ano. penduradas de cós para baixo e pernas para cima.. Toda a indumentária rica e preciosa de Solange tinha desaparecido. última moda: grandes superfícies planas.E agora. o bolero de arminho. e a cada passo o surpreendiam agradavelmente as irisações 'fátuas dos vernizes arpejados pela luz. Lá estava o aparelho da Rádio com o seu supedâneo de Mogno. como se a palavra do Mi nga lhe chegasse só então aos ouvidos. o Fráguas. mala de viagem tão catita de pregueados e fivelas corno o peito dum general em dia de parada. quem havia de futurar que tinha perna para tal coice? . . Ao subir a escada. envolveu-os o ar fresco e hospitaleiro da casa em trevas. de olhos no chão e silencioso. E não acreditei por várias razões e mais uma: no fundo são todas as mesmas. O Antoninho foi de sila em sala. que valia um par de contos. espelhos Sr. A questão toda é caçá-los! O Minga introduziu na fechadura a cliave que a criada de cozinha viera entregar.zê-lo. linhas rectas. brilhava pela ausência a inala de coiro da Riássia. quase um palco. mal constou que o senhor Antoninho chegara de fora e a sua bílis negra revulsada. no quarto das arrumações. Por enquanto. par a par. Lá estava a pianola. Lá estava a sua secretária de corrediça. ou falando com os seus botões. Na alcova conjugal. Também ela tresti-ialliara a fugir-lhe aos destemperos do primeiro febrão. não dava fé que faltasse algum dos bons objectos de sumptuária. e as duas grandes jarras chinesas inade in Gerniany. Era uma vez a raposa argentée. Tenho que me desagravar. os naples de carneira verde a pedir charutos e negociatas. que é deles? Mais de cem contos que se iam à viola? Com mão já enfadada escancarou as grandes portas duplas do guarda-fato. mas a verdade é que nunca acreditei. Mas dize-me lá..esta altura não tem mérito algum di . as gavetas dos toucadores.Tu no meu lugar que fazias-? Sê franco. ó Minga. Aberta a porta. sim. Apenas junto das suas pantalonas de smoking. é que pronunciou: . O outro limitou-se a torcer a belceira num gesto de perplexidade. o cofre à prova de fogo. aquela bata de organdi amarelo. Não avistou também o “necessário” em pele de crocodilo. tanto mais de apetecer que com o refervor da canícula a attnosfera se tornava irrespirável e a pele da gente ficava negra corno se a chamuscasse um incêndio. que nos hotéis incutia um sagrado respeito aos groo?iis e embaçava os pelintras.Pois eu . Ah..volveu o Fráguas detendo-se no patamar antes de mais nada o que faço é rebentar o canastro aos dois. trazidos na sua jubilação de ricaço. lentamente.. nariz ao alto a coscuvilhar. revestidas de vidraça Nseautà.

havia uma coisa que ele tinha a favor. escorria mole. era clara como a luz do sol. Ah. Quanto a ela. Qual. quanto a ele. e abalarem no H. Só não veio a Maria Alonsa. um sonho mau?? Não. Quando tal ouviram. Do mesmo modo não deitaram grande malícia quando viram os dois sair a porta. outros beijos e abraços. apertando a fronte às mãos ambas. estava longe de competir com a sua lábia. à 192 . pelos vistos. Conclusão: eram todas as mesmas! A cozinheira chamou para o almoço. Que tinha a mais o Calabaz? Havia de virar-se três vezes de dentro para fora e de fora para dentro até poder concorrer com ele em ralé. comparável à que se evola na espiral de fumo dum cigarro. pindérica e lamentosa. ela atrás. oh! um tudo-nada de melancolia. 23-41. sopesando a mala de viagem com a direita e o “necessário” de pele de crocodilo com a esquerda. o que sobremaneira lhe doia era que Solange. Em face das cómodas. na qualidade de esposo. a grande zoina. Mas não tinham culpa: aqueles amorios haviam-lhes passado tão alheios como se fosse na China. deixou-se abismar no maple e um instante prostrado. já tranquilizada de ânimo. Calabaz chegara na véspera pouco depois do meio-dia. Nem ainda aquele descambar subitâneo da imperial com o desfalque que o sucesso podia trazer ao seu pecúlio. Para se tentar duma mulher em tais condiçõ es. Sendo mais novo. Viragem da fortuna? Puf. pois que desmpenhara tal papel. sentiu certa melancolia. A Maria Alonsa é que. Só passante um grande migalho é que a Maria Alonsa. lhe era subalterno. queimado na soledade do sol-pôr. dos tempos difíceis. Tão-pouco a quebra de hábitos que vinham de longe. estava explicada. Sendo bacharel. disse mal da sua sorte. veio anunciar que a senhora partira de vez com o Calabaz e já trazia o processo do divórcio a correr. Tudo ia nisto: ser trocado por outro. Vasculhando na consciência. só se tinham perdido as que caíram no chão! Fráguas despediu o pessoal e encarregou o Minga de aprontar o carro. o abegão. o moço da garagem. a paqueta. Como eram de grande intimidade as suas relações na casa. para lá da crise hidrófoba. era uma concreta pouca-vergonha. Um momento se esqueceu e esperou ouvir a chinelinha arrastada de Solange. em linho subtil ou sedas duma brandura de teia de aranha. Veio a cozinheira. verificando rodas e a ignição. lhe preferisse um outro. ninguém estranhou que se fechasse com a senhora durante mais de duas horas. E. fora arvorada em confidente. Entretanto a casa animava-se. já chocalhavam para os lados da copa as risadas de matraca do Espadagana.azul. tinha dado grandes esteiradas para se ir abaixo com mais uma. de turbante pela cabeça e saquinho. Entretanto que ficava sozinho. a criadagem voltava ao redil. embora essa sobrepujasse as outras de muito. ele adiante. encobrideira e correio de notícias. Ouvindo a uns e outros os informes voluntários ou arrancados a saca-trapo. pior que uma impigem. que deixava filtrar a tíbia de cabra de Solange. rotundamente a favor: a variedade. aquele pelém.J. despojadas do recheio voluptuoso das roupas de baixo. restavam-lhe dúvidas de que aquilo poderia ser sonho. pelém por dentro e por fora. Estava explicado o susto com que a moça o vira aproximar e as suas ânsias. como revoada de pardais que sentem o gavião. completando o óleo. pôde Fráguas levantar o corpo de delito. figurava de mais idoso. debandaram cada um para seu lado. Outra forma. Aqui estava o artigo em que. outra boca. Não eram as excrescências da minotaurização o que mais o incomodava. e os dixe-medixes que andavam no ar como o zumbido das moscas.

. uma mancheia de notas por dois chaparrais e uma regada que não rendia quatro carros de centeio. @ Havia de se ter ido embora há mais tempo? . mas que para o labrego do Calhorra era como pérolas a porcos! Um homem de peso que deixa a serra! . Quanto aos grossos capitais depositados em Banco e investidos em empresas várias.. duas molejas de vitela não requer? am para ele outra companhia além de seis “meninas” do Dão .disse o Fráguas com um sorriso de desdém. e o Antoninho arregaçando os lábios num jeito pessimista pronunciou como em remate do solilóquio interior: . coisas e loisas que contendiam com tudo menos com mulherio. esvoaçavam asas de colibris ou se viam peixinhos chineses bater com as barbatanas de oiro a água morta dum lago. mas sim jogo de monte. . é que o salto à dama não fora jogo de amor. o rendimento das terras e as raparigas da terra são para as gozarem os que cá estão. este Dr.Por modos foi a D.Calabaz?? Calabrês. sem peito. . Margarida que o obrigou a largar o que ela chama “uma parvalheira donde se não tira honra nem proveito. De resto. cotados pelo estalão normal. um ombro para cima. Sim. cento e noventa e cinco contos. pernil caprídeo.beira dos quarenta anos. murcha.São menos medidas que saem da patarrega. destes que se fazem com temperos genuínos e o sinal-da-cruz para os amachucados da mofina. D. O Minga comia por si e por dois iguais a ele. não falando na casa. outro para baixo. pois que não era discreto falar de corda em casa de enforcado. um cabrito assado. tens de culpar D.Se ele não dá os améris ao Aires. mas só os ares. como acautelá-los das manobras do rãbula. Torres tem muita culpa no que me aconteceu.meio lombo de porco.Essa agora! . refinadíssimo calabrês!! A cozinheira caprichou em servir-lhe um almocinho delicado. o Aires não se pegava de rixa com o Zé Francisco. Afonso Henriques que conquistou estas terras aos moiros e permitiu que pegassem aqui as estacas donde saíste tu e tua mulher. a quem acontece às vezes os amargos de boca fazerem perder o apetite. ah! ah? Até o Fráguas desatou a rir. venham. uns olhos invulgares em que. Marzoelos a tratar-se duma doença vergonhosa . Pois então?! A raciocinar assim. interessante com o pátio e as árvores antigas. consoante a luz..concluiu o Minga em voz de réquiem. Contra os seus créditos de primeiro garfo do concelho . cento e vinte. mas só enfados”. e paguem. As terras. .desprovida de todo o sex-appeal. Se não matam o Zé Francisco. já ninguém lhe tirava do papo o dinheirão das jóias. O Silvestre Calhorra sempre ficara com o casal de Malhadas do Dr. Mas saíra salgado ao cambaio. com uma filha casada e um filho homem tanganhão de tal calibre que estava àquela data hospitalizado na casa de saúde do Dr. o Calabaz não era aqui visto nem achado. só bonitos olhos. picado pelo Tadeu que à última hora lhe dera para o cobiçar. e ainda tinha modo de entremear a santa trincadeira com histórias da vida. Juan viera ao faro da bagalhoça. praticadas à margem do inevitável processo de divórcio? Sabia quanto era fecundo em tricas e audacioso nos meios. Tinham lavrado a escritura no dia de trás em Tendais. Querem vir tomar ares. Cem.. Ouvi dizer que o Torres se foi embora com a lágrima no olho. para ao cabo da gargalhada pronunciar sorumbático: 193 . Manuel Torres.mal debicou num ou noutro prato.

que o tirara . nas famílias das relações.Sossega uns dias. . à última hora dar em droga! ah? ah? . na vizinhança. hei-de dar com eles? . e Fráguas achou-se à vontade para pulsar a lei quanto às perspectivas principais que decorriam daquela emergência. que regressava de Tondela. E o pior dos remédios.. em poucos minutos. à socapa virou-o de costas. com o Minga ao volante.A estas horas. para a sancadilha. Pensou ainda em telegrafar ao genro. Na cidade o H. mais outros dois de conferência para acolá a propósito de negócios pendentes ou em curso.Mas esta foi bestial. A notícia ainda não alastrara. à beira dos quarenta anos uma mulher não é nenhuma flor do rrevo. estou roubado! O ladrão sabe tudo.. olha com que menino. Mas no corpo da mulher. Manuel. encontrava as tuas fúfias. que sob os pontos de vista da dignidade não pedia conselhos a sua honra. depois de o contemplar com um interesse que não conhecia há muitos anos.e restituiu-o à posição primitiva.Mas. e desistiu. para onde quer que se virasse. seja em que idade for. no justo receio de que a paixão lhe fizesse perder o sentido da direcçã o e atirasse com o carro por uma ribanceira. À velocidade que parecia levar meteria a Santa Comba antes do lusco-fusco. Estou roubado? Agora só a tiro! E o pior dos remédios? O Antoninho levantou-se. que se tenham ido acolher às profundas do inferno. descobriu o retrato da esposa na cantoneira e. tem de experimentar os esporões do galo? E lá fora. Queixa-te da tua má cabeça. o tempo foi passando e acharam-se a horas & jantar abancados a um bife de vitela no botequim. beatas de óculos e albuminúricas. mas desta feita o seu sorriso era amarelo.. mas era um encharcado de perfumes. quantas vezes te ouvi: “Galinha que entre cá no poleiro. metia a toda a mecha para Tendais. carregado de escapulários. Vens tu comigo? Lastrou os bolsos e. Era ao entardecer. mais dois dedos de palestra para aqui.. Aí tens. aquela criatura está avelhada.Dás licença que te diga? A mulher e o vidro sempre estão em perigo.J. . Depois.C. informou-o que se cruzara com ele para lá de Sabugosa. será como me der na gana: britá-los ou limitar-me a verificar o adultério. Guilherme Calabaz e informaram-no que haviam tomado a direcção de Viseu. uma mártir S.Ora essa. ? Deixá-lo? Vou-me à cata deles até os desentocar.Portugal não é grande.Qual sossega uns dias!? É para já. o visconde papalino. grande amador de fotografia.. Rompeu estrada fora. E volveu ao responsório: .. Solange e do Dr. há sempre seiva para as borbulhas da leviandade. dizes tu.porque fora ele. Sebastioa. 23-41 tinha sido visto à porta duma garagem e um chauffeur de praça. irmã zeladora do S. 194 . . em casa. Peripaterizando de cá para lá.. sim. Mas logo por desgraça lhe caíram os olhos na assinatura de Calabaz . até quantos botões tenho em cada colete. para não dar o espectáculo da dor do cotovelo. com o bando das titis. Deixava-Ia para aí ao abandono como uma canastra velha. e à atitude que mais convinha adoptar sob o ponto de vista dos interesses. Não tinha segredos para ele. não é tanto assim. Mas que fosse.Homem. .onde é que os vais desentocar? . incapaz de dar um passo sem se aconselhar com o senhor Bispo. é o que calha@” O Antoninho riu por entre dentes. Mas consulta que não consulta dum advogado. Ele aproveitou. vê tu.J. Manuel? Senhora tão compostinha.. Têm-no de índole. homem. Em Tendais já era tudo cheio com a fuga de D..

e a que produziam os líquidos capítosos que ia engorgitando aqui e além. O busílis é a prova. Espadagana dum raio!? Sempre que o tratava por Espadagana ou cunhado. tanto mais que eu teria abandonado o lar culposamente. Caramba.V.Sabes tu quem ma dava toda.e meteu-lhe à cara uma nota de cem escudos. Agora para o meu paladar só frarigas. em caso de negativa. toda.Esteja V. nas horas de grande ternura. Em crise. O ladrão do Calabaz não deixa de meter a unha. . no Buçaco um casal que chegou das bandas de Santa Comba no carro H. recorreu à gazua infalível: . Para que servem os milhafres de milhafres que tens na gaveta?? . 23-41. . fica-te muito moni. que patriotismo? Que pele de maracotão no pescoço e no lábio superior? E que encontros. Acompanhas-me? .E tu mais cem escudos suplementares pela diligência.. o facto não constitui prova cabal. o divórcio seria pronunciado a meu favor. a sossegado.. Espadagana. .Bem. Ex.? . Ainda me caso outra vez. .? . que não fosse bronca de todo e de boa família.. Naquele dia. . . . lançaram-se pela estrada de Lisboa a urna velocidade de bólide. limitome a mandar verificar o adultério e acabou-se.. . Que o meu quinhão lhe sirva de rosalgar. pegava11-ic. Cunhado. o Antoninho estava sob a acção das duas ebriedades: a que vinha.E então. Saía gente das inúmeras pensões e hotéis ou entrava. . . segundo o voto do Antoninho. Dentro de meia hora tem a resposta. se as coisas correrem a favor. deambulava 195 . por traumarismo. entre os vinte e os vinte e cinco anos.Para te compensar do tempo que perdes e para as despesas do telefone aqui está. Ex. podendo eu “constatar” o adultério. . num ponto já eu assentei-.Vão ficar reduzidos. Esta vida são dois sopros. . trazia grao na asa. Perante a desatenção dum dos chasseurs. mas folia da fina.Mal empregada? Para quem estava boa era para o ego.Já sabes: para onde fores tu.Se apanhasse uma rapariga séria e apetitosa. .Então... o Mínga ao volante. ou quando o Demo lhe soprava ralé. Corno não era -a primeira vez que o patife do Calabaz e ela viajavam sozinhos e com o meu consentimento. sigo em frente até dar com eles.Disso és tu capaz. não há duas opiniões. do pontapé que pouco faltou para lhe romper o espinhaço.Não tenhas dúvida. a pontos que ainda rendia graças ao Criador e ao rna)andro do Calabaz ter-me levado Solange! Quem ma dava toda era a Paula Hincker. É tu quereres. Estás a compreender que tens de ser discreto.O corpo está-me a pedir folia. vou eu. de pândega corri as actrizecas de Lisboa... ..Há muito disso. meu velho. Teriam ali estanciado os pombinhos? O Fráguas desceu e entrou no hall do Grande Hotel. Mas vamos lá.Que meta. Foram matar o tempo. Antes das dez estavam no Luso. É noiva do engenheiro Bacelar.Isso é papa fina. Vê lá tu os alçapões da vida? O que eu precisava era caçá-los com a boca na botija.a descia então.Saber se não pernoitou a noite passada neste hotel e.Dísse-me o advogado que.J. Meteram gasolina e. . divagando pelos logradoiros públicos das termas.

A Alemanha caprichava em realçar o seu carácter de mantenedora da cultura. com enviar ao país neutro uma embaixada de arte de primeira: cantores de renome universal.J. Afinal. dar assim um chuto na vergonha. 196 . 2341. Aceitaram. S. Carlos. recusando-se no fundo a aceitar o labéu que acabava de esparrinhar sobre a sua pessoa. como em dado momento palpasse numa das algibeiras as dezenas de contos com que se munira. talvez tivesse cortado para a Curia. sem exigências mentais. Tal representação fora trombeteada aos quatro ventos como um acontecimento excepcional. Espadagana. . a meia voz. digno da nação organizadora por excelência. olha. não obstante a companhia do Manuel Minga. reconfortou-se. Não havia lugares vagos no restaurante. em rimeira fila o elemento alemão. caminhavam para a capital. corno é tarde. Agora. depois da meia-noite. Ex. parou em frente. estavam no admirável jubiléu da papança.. trocando impressóes sobre as trabuzanas que o Diabo tece. teleforia para toda a parte. E. 23-41. manda-nos preparar dois quartos. Desceram Hincker e Paulinha. na outra a pistola. Rua fora. Dois quartos ou preferivelmente um quarto com duas camas. Chegaram a Coimbra um pouco antes do meio-dia. um automóvel rico. Ouviste? O Fráguas tinha medo de ficar sozinho corri os seus cuidados e. E. uma não quebra-utn-prato.a estar absolutamente certo e garantido. Bom almoço e cavaco ameno. aerodinâmico do último estilo. os devotos de Wagner. encontravam-se os dois compadres de cigarro aceso. e Fráguas ofereceu a sua mesa. tendo recebido resposta negativa da Curia. Animais com aqueles dentes renunciam a tudo menos a comer. namoriscava. E o estribilho subia-lhe aos lábios como num realejo: Vê lá tu.pelos caminhos a tomar o fresco. Fráguas. Depois do julgamento em Orcas ficara de candeías às avessas com James Corbet e realizara com Hincker transacções de certo tomo. uma boa-serás. comprimindo-se ele e o Minga para unia ponta. apanhar uma mesa devoluta.J.. À sobremesa. O Minga piscou o olho ao amigo. embora em guerra. satisfeita consigo e com a vida ou assim o dava a entender. surgiu uma garrafa de Moêt et Chandon e Hincker ficou penhorado com a bizarria. telefonava-se para a Curia. e o Fráguas experimentou a mais alterosa das invejas. marchava aos cotovelões deste e daquele. reluzente de cromados.. ainda e sempre fora de si.. mas já ele se precipitava a oferecer os serviços. podia. de Norte a Sul. um corpo sinfónico de sumidades. Que temia? Em nenhuma garagern do Luso nem do Buçaco fora recolhido o H. cenários e indumentária do maior requinte. cabeça na travesseira. hem?? O Fráguas só acordou na meia manhã. tudo integralmente soberbo. Hincker com a filha iam a Lisboa assistir à representação de Tristão e Isolda que essa mesma noite a Staatsoper Berfin e a Berfiner Philldrmonches Orchester davam em S. Ia para os cinemas. cais como os peregrinos de Bayreuth. Mas. balouçava-se nos terraços em cadeiras de verga. a voz confidente da barriga cheia. Nunca se sentira tão isolado no mundo. Se o desejasse. Ninguém lhe soube dar razão do automóvel H. o que lhes fez atrasar a viagem. Ele próprio percorreu as garagens todas da Baixa que conhecia de cor e salteado. fosse este intencional obra de Deus ou do Diabo. Era a sazão das festas da cidade e custou-lhes.Pois telefona para a Curia. Entre duas fumaças. para quem nada de nada neste mundo deixava de ter a sua ponrinha de intencional.

As ruas parecem delgados cordéis. a estudar-lhe o jogo fisionómico. João. verde aqui. Para lá de Condeixa. senhor Fráguas? Hesitou o volframista na resposta. E Franz Hincker puxou duma carta. Havia lugar para os dois sem sacrifício de nenhuma espécie. amassado 197 . de centenas de metros de altura. De nada servem as nossas granadas iluminantes. em que o aviador descrevia o bombardeamento da capital do Reino Unido. Quando falou em desagravar-se. Hincker à frente. O senhor é novo. mas o conserto. negra ali. deliberadamente. do Calhorra. É o conselho que lhe dou sem mo ter pedido. que teimara em ir alistar-se na Luftwaffe e lá andava num Heinkel III. contou o “sarilho” corri a mulher. como uma valquíria. Romperam. Era como o descrigelhar dum odre quando lhe deitam vinho. ao lado dele o Fráguas. de princípio muito hirto e solene no seu posto de senhor que ofereceu hospitalidade. é para a capital. invocando o contratempo que seria perderem a récita em S. Graal. Fráguas apenas fixou períodos salteados e sem verdadeira conexão: “. ganhando ousio. do inglês Corbet. depois. do Tadeu. a todo o longo. onde os transatlânticos não são maiores que brinquedos de menino. As docas Royal Albert.imaginando que ia relatar um grande drama. Por toda a parte se erguem incendios e lumaréus. Tinham sido prazenteira companhia ao almoço. e nelas os vãos rectangulares dos portais sobressaem desenhados a negro. ensanguentada além. O Antoninho Fráguas coçou a barba regalado ao golpe de ar fresco que varria sua alma conturbada. Não houve danos pessoais. Não puderam recusar. & Severo Bacelar. novo paladino do S. requeria vagar. São as balas da defesa antiaérea. . de dia e de noite. Em baixo. lembra uma estrada. De olhos em Paulinha. Fráguas. senhor Fráguas. ofereceu o seu carro. que o Antoninho tinha pelo símbolo duma Grã-Bretanha desmesurada. e nós temos a impressão que estendendo um pouco o braço lhes poderíamos tocar.Hoje esses métodos já se não usam. que por vezes crepitam contra as paredes da barquinha como o granizo nas vidraças. para quem estas coisas se passavam no mais trivial e benigno dos mundos. o que não espantou nada o estrangeiro. semieixo partido. as praças gânglios absurdos. torcendo-se à retaguarda. nas acrobacias mais consentâneas com a posição. O céu. o Fráguas logo após. O rio.. praças e ruas. Ouvi lá para a sua aldeia um provérbio que diz: Mordedura de cao cura-se com o pêlo do mesmo cão. Hincker sorriu: . está a tempo de refazer a vida. O espaço é vergastado. choque da roda contra a guarda de pedra da berma. Victoria e East India sobrenadam no gigantesco mar de chamas.. São dois fantásticos ramalhetes de fogo. pelos lados. o automóvel de Hincker teve uma derrapagem monstra. a engasgar-se nas talas de goma dos colarinhos altos. dado que em Coimbra se pudesse encontrar a peça sobresselente. Tudo o mais é Idade Média. a City é como a Alfama em noite de S. Falaram de conhecidos e de pessoas sabidas. à minha direita vão pelos ares dois gasómetros. por cima. iriam de caravana por ali abaixo. O Minga continuou ao volante. Trate de aplicar a rece Ira.Sim.Não é para a capital que se dirige. declarou: . e tudo se ilumina à volta. Carlos. deixando apenas o espaço que basta para não aspirar os gases do escape. Depois. está picado de estrelas. Depois a fumareda ou a velocidade varrem do horizonte a zona dos cais. catrapus.

não era diferença que lhe metesse medo. e vogamos num oceano irreal. O demónio de tal longitude que viesse! Paulinha ia nos dezoito anos: quando chegasse aos vinte e cinco. e o mundo continuava a rolar como dantes. Por causa daquele.Beethoven . Quando botasse aos trinta.. . Na marcha rápida do carro. daquela vitelinha loira. como dizia o compadre. Que importava de resto e dia de amanhã?? A vida era hoje. Milhares de milhares de gajos análogos a atirar bombas ou ideias. A Fráguas a mensagem do herói pareceu tola. e sempre hoje. com ossatura de ferro e músculos de jaguar.” . Paulinha não dera sinal de emoção alguma. Estava. moscada. A sua absoluta vontade era ainda a realidade apreciável. 198 .Terrível e épico! . Hurra pelo ladrão que o inventou. dois anos. Ainda era homem. Tinha quarenta e três anos. mas.. o dilúvio. como dizia um augusto sibarita.disse Paulinha. pretensiosa e sem consequências. Gozar o festim da carne tenra. Quem o governava. cabelos grisalhos. embalado pelos acordes divinos.por verdadeiros batedores de luz de todas as cores. Meio tombado sobre a ilharga de modo a ouvir Hincker e a divisar Paula. Cruz Quebrada. Bah.Sonata a Kreutzer. corpos e almas. 1943. inundava o mundo de melodia. . de olhos sempre em Paulinha. teria cinquenta e cinco. Ficava só paraíso. ho)e. Deus escrevia direito por linhas tortas. que importância tinha à face da eternidade?. era o dinheiro.murmurou Fráguas. do Piauí.proferiu Hincker dobrando a carta com solenidade e metendo-a na carteira. fazia estas considerações amenas e outras decorrentes. depoís o opróbrio. São os fachos dos holofotes. Àquela hora a ReichsRundfunk. no meio-dia. na melhor da probabilidades. a morte macaca. estava ele nos cinquenta. nunca mais se levantariam os padeiros à meianoite. cinco. sem favor.Terrível? . um ano que fosse. Que música era aquela? . E de facto.. mesmo debaixo das bombas das Fortalezas Voadoras. o mundo perecível e detestando desapareceu.. Abriu o comutador da Rádio sobre Berlim..

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