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Ribeiro, Aquilino - Volfrâmio

Ribeiro, Aquilino - Volfrâmio

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Aquilino Ribeiro Volfrâmio

CIRCULO DE LEITORES Capa e Frontispício: ex-libris de Aquilino Ribeiro, desenho de Abel Manta Capa de: Antunes 1983, Livraria Bertrand, S.A.R.L., Lisboa Número de edição: 1531 Tiragem desta edição: 55 000 exemplares. Depósito legal número: 3100183

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PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO Logrou este livro certo favor do público, para lá do sufrágio a que me habituou o meu contingente de leitores fiéis, e não é difícil determinar porquê. Nele pressentiram uns a aventura empolgante à Jack London e bisbilhotaram outros uma crónica da actualidade, com retratos ao vivo de permeio e os inevitáveis episódios de rapacidade e fereza. Não se iludiram de todo, salvo que as carapuças de Mister Corbet ou Herr Hincker, para não falar dos lusitaníssimos Fráguas ou Calhorra, não acertam de modo algum nas cabeças deste ou daquele que se aureolaram na gambérria do volfrâmio. Não foi propósito nosso fazer dissecação pessoal, nem de resto o processo é compatível com a arte literária, quando exercida com largueza. Pintar almas é diferente de lançar a máscara de tal ou talfabiano à tela mercê da ciência das cores. O romancista vai de indivíduo em indivíduo, como a abelha quando jorrageia o pólen, e a um pede o físico, a outro a índole, a este uma anedota, àquele um pormenor característico, e assim amassa por aglutinação os seus figurantes, Feita a dosagem com inteligência e obtido um bom ajustamento, ninguém dirá que não foram copiados do natural e que não “falam” . E o orgulho do criador estará em dar a ilusão de que são cópias exactas do mundo de carne e osso. Já chamaram à nossa época, pelo muito que o fenómeno vincou o meio, época do volfrâmio. Quero crer que haja exagero de expoente. Entre nós, tal furunculose, com o dramático que comporta, deve antes representar uma das manifestações eruptivas da crise social que o mundo atravessa. Volfrâmio aqui, petróleo além, borracha acolá, há que integrá-los no substrato complexo e temeroso que engendrou a guerra. O volfrâmio foi para as populações do Norte, deserdadas de Deus, o que o mana foi para os Israelitas através do deserto faraónico. Imagine-se o que seriam os impulsos da horda esfaimada ante o alimento providencial, no afogo do de jejum. O irmão engalfinhar-se-ia com o irmão, o mais forte encheria duas vezes o saco, enquanto o mais débil choraria lágrimas de sangue, dado que não ficasse britado pelos pés dos digladiadores. Levaria melhor, se não o mais violento, o mais astucioso e o que tivesse olho rápido e pé leve. Os capitães, esses, acabariam advertidamente por maquiar a Zacarias e deixar correr protérvia e iniquidade. E não é ponto de fé que Moisés não comesse as mais gordas codornizes, que eram o prato do domingo, o arroz com vaca e chouriço do convento, e não atafulhasse a boca sequiosa às mãos fartas de tal mamadeira. Assim se passou mutatis mutandis com o oiro preto que imprevistamente brotou das terrinhas salaras do Norte, mais loja que húmus, mais serra que plaino, infelizes até a data. Não consta, com efeito, que as funções da vida animal tenham sofrido variante depois que o mundo é mundo. Volfrâmio e mana significam um ponto crítico na viragem do destino. Para que banda fica agora a Terra da Promissão? O século XIX e o primeiro quartel do século XX foram de desabalada e incessante sementeira. Semeou-se a torto e a direito, no alqueive e na fraga, no maninho e na própria terra atrolhada. Quem não té o grão germinar em dor e transe? As fibrilhas do centeio nascente com o seu ar de estiletes ensanguentados dizem-nos que é sempre assim. A dúvida mortificadora é que a seara seja

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antes de joio que de frumento Panificável. É temerário fazer prognósticos sobre o futuro. A meteorologia social desafia os olhos de lince dos oráculos, que espreitam por detrás dos mármores de Delfos escavacados à bomba de Liberator. Mas descansem as almas sedentas da amorfa neutralidade: estes temas febris perpassam no entrecho do livro e não constituem de modo algum o seu protoplasma. O protoplasma é a ambição humana, o evadir-se à miséria, à estreiteza natural, aos diabos negros da existência. Como terão azo de ver, o desempenho da fábula está a cargo de gente brava, sólida de rins e de músculos, em matéria de consciência pouco preocupados da vida eterna, difundidos por um friso fora como faria Steinlen ou Leal da Câmara. Todavia, sendo assim na forma, procurei que por debaixo desta armadura elementar pulsassem almas em suas secretas e supremas volições. Esta será a quota de humano, três vezes humano, como requeria o filósofo, com que pagam seu tributo à racionalidade. O público, de resto, interessa-se pouco por este particular. O que o interessa acima de tudo, já que a torrente vertiginosa da vida moderna não permite mais que uma visão instantânea e superficial, é o guinhol, os processos de combate, os leitos, o cinemático em suma. O romancista que se preza dá esse pábulo ao monstro e procura penetrar a fenomenologia das coisas. Convenho em que o ético esteja para lá das fronteiras do seu domínio. Escola de piedade e de ensinamentos morais busque-se na obra de Camilo e outros que rastejam de longe o colosso. Aí, sim, encontra-se mais lição que nas parábolas todas dos Evangelhos. Os princípios científicos em que se esteia a arte literária baniram da banca do escritor, mormente hoje que utiliza pena de aço ou typewriter, o patético, o epopaico, esse colorau doce da eloquência - à qual, já o exigia um poeta dos bons velhos tempos, il fallait tordre le cou - a deformação simpática à Júlio Dinis. A condição sine qua non é modelar em carne viva e na estufa fria. Em obediência a estes preceitos, claro está que as minhas personagens foram gizadas pelo padrão comum e seus orbes não excrescem do espaço das três dimensões. No entanto, ninguém tem mais horror a fórmulas do que eu. A fórmulas, cânones de escola e tiranias da moda. Fórmulas em arte equivalem a muletas e eu não só não uso bengala como entre dois caminhos escolho sempre o menos trilhado e aquele por onde menos andei. Em matéria de iteração, chegou-me o padre-nosso quando menino. Não ignoro que a galeria antropológica portuguesa é diminuta. Desse mal se queixava Camilo. O que vale, e valeu ao grande mestre, é que os homens, mesmo dentro duma família tão pequena como a nossa e em casa igualmente acanhada, parecem-se tanto uns com os outros como um mar com outro mar. Dois requisitos me movem quando escrevo: observância do real e originalidade. Esta, mais que a seiva dum verdadeiro temperamento de escritor, é o logos donde dimana espírito, graça; estilo próprio, simpatia humana, entendimento das coisas. O obséquio ao real não é mais do que um seu apaniguado. De olhos fitos tanto quanto posso nestas duas estrelas, presumo acautelar a modesta personalidade que me coube por dom do Espírito Santo, como queria uma minha tia velha, lida em Frei Heitor Pinto. Porque na nossa santa terrinha não há candeia que nos guie e encaminhe. Viceja para aí, salvo prodigiosas anomalias, uma crítica meio didáctica, meio apologética, geratriz de tocadores de marimba. Com o seu tom untuoso de

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gostava que me dissessem o que pode ser a minha prosa descarnada do documento humano. a literatura despojar-se-á da túnica de Nesso. o de prosador. De quando em vez. abismado para sempre lamais nos mares nunca dantes navegados. sucedâneo do: para aí não que é pecado. excluindo-me por contrapartida da grei dos romancistas. já houve tempos em que para esta bicheza seráfica eu não passava dum escritor regionalista. toda a tendência pessoalista. o que se modificou não foi o mundo da especulação. se esperar que o tempo cure a Pulmoeira. Bem sei que há coordenadas em literatura. tempus. Para as belas-letras. fora das quais seria mito puro o locus. continua o mesmo desde Homero: mais longe.vai cortando as remiges aos francelhos que pretendem librar-se acima dos horizontes conhecidos. e a bola de água de sabão evolou-se no céu dos pardais. a sanitária. e que é preciso. a face do rio. foi. desidratada desde que lhe faltou a bua francesa. desde os Vedas. secando toda a originalidade. Repararam que os príncipes dos povos de hoje falam e lançam o guante como nos seus arraiais troianos os Aquiles e Agamémnon? Compreende-se: movem ao homem os mesmos egoísmos e instintos ancestrais. Que fazer? A esterilização contra tais bactérias é um problema bicudo. O humano. dum passado glorioso. respirar fundo para se ser português de lei. Permita-se-me a imagem. não a água do rio. e é caso de perguntar a gente se se deve mandar lapada. à tona dos séculos. só quedando imunes ao contágio os mimosos do entendimento e da imaginação criadora. não se preocupe tanto com o formal . Mas produzir dentro delas não pode contender com os dotes originais do escritor. numa palavra conformando aquilo que tem por condão ser inconformável: o génio literário. Raspem com a unha o gentleman sentado à mesa verde de plenipotenciário e encontram a fera. afrontosos do bom senso e até da alma cristã. Inofensivo no fundo. ouvem-se destes regougos. com a prosa a cheirar a burel e à orelheira dos famigerados cerdos de Lamego.pregação. Até lá confeccionemos 4 . Nascem as escolas. então sim. como a falta da outra. Volfrâmio veste como Andam Faunos pelos Bosques. o Manel o do especulo. Apenas quando as balizas actuais do mundo moral caírem. veio ou bolsada nodual do romance. trajadas por aquelas ciências do homem e do belo. O pior do pior é que sela possível toda esta Proliferação asiática da estupidez. amordace os sentidos. como se houvesse região nesta fita de terra e tudo não fosse a mesma parvalheira. que a constrange e obriga aos costumados Jarricocos. O luminar que procriou tal asserto deixou de soprar ao canudinho. a moda. nascida sob este signo. Chiado e Freixo de Espada à Cinta. figura e mais categoremas do pensamento historiado que é o romance. pelas savanas pobres da intelectualidade nacional. a Rua dos Clérigos no Porto e a Rua das Fangas em Braga. pode cair no inferno. e o que demudou é o aparente. esvaem-se as escolas. Preciso sem ser precioso. deixa a porta aberta a toda a sorte de malinas. o recamo que à floresta emprestam as estações e não as árvores da floresta. faculdades que não abundam num povo que considera a Nau Catrineta como os Nibelungen e a saudade como bolhas de ar. nada mais truculento e azabumbador que o balar da carneirada de Panúrgio. Em literatura. Como não sei fazer outra coisa que não seja novela. o arranjo constitui o transitório. o guarda-fato de Madame de Genfis. porquanto implica uma carência lastimável de higiene mental. Outro rabo leva-me a pensaram ultimamente.

a sede de felicidade. como não? uma grande e efémera aventura. o papel de elucubração à Karl Marx. como épigrafava o frade. Pretendi descrever. Fráguas e Calhorra calçarem coturno a carácter. e tudo o que possa vir na ressaca da maré viva. Longe de mim supor que venham a constituir tipos definitivos. Monstruosidades. nem se arroga de modo algum. se não são eternos. fantasia própria. com humildosa exacção. a Beira. que agora vê nova estampa e não é tratado de economia. sem roubar o próximo nem termos a preocupação doentia duma geometria tão abstracta como essa da projecção no universo do produto literário. os estímulos sociais.romances e novelas o menos estafadores possível. gozam doutra longevidade. culto da individualidade. como apoucava Anatole France. a cobiça. quanto às classes. Os padrões humanos. Fevereiro de 1944 AQUILINO RIBEIRO 5 . O volframista é uma falena de pouca dura. à maneira do novo-rico da primeira grande guerra. e terão esta anedota romanceada. dessas que de séculos a séculos avassalam os povos. do tempo e da fortuna. Dar-me-ei por feliz se os meus Hincker. Meta-se num corbillon. Nestes tópicos está configurado o Volfrâmio. no género da conquista das especiarias e da corrida aos diamantes nos igarapés de Minas.

E a manhosa bilha de leite que a hospitalidade provincial troca opiparamente contra a bilha do azeite. tão montesinha ou tão pouco que debalde a procuravam no mapa os parasitas de errática cordialidade .? Saia-me da vista! No patamar soaram cacarejos. 6 . daquelas que responsabilizam o cidadão. !? Ouviu bem? . e Manuel Torres conjecturou que tinha ali das tais visitas que se fazem acompanhar propiciatoriamente de dois galispos.Apostou que me não havia de deixar sossegado. acontecia-lhe. que à porta esperavam ensejo de lhe meter o cacete. nem por isso se achava mais imunizado que qualquer outro. não havia dúvida que era ela. Dado que se não saiba resistir. personalidades preponderantes que seria indecoroso não conhecer.de novo distinguiu defronte. Pela talisga da porta.O Dr. A boa da mulher aborrecia-o com os desvelos excessivos e as reiteradas intercessões duma simpleza permeável a todas as lástimas. que o trinco à força de devassado não consentia senão aberta. no decorrer da manhã. com tal manejo traindo a sua agitada hesitação.. a velha tivera artes de lhe impor nada menos de três postulantes. Assim. batendo à porta do senhor juiz.. não apostou?. uma dúzia de ovos.aldeia que lhe fora berço. a partir daí propunha-se resistir às choradeiras com igual coragem. e não se julgava no direito de eximir-se. e berrou-lhe em tom de enxota-cães: . do comandante do Regimento. pelos reveses do seu próximo. autêntica avançada dos estafadores. além de que trescalava ao fartum da carneirada. enxofrados cacarejos e chinfrineira de asas... retraía-se.. Qual.É outra vez você. que lhe fosse o antípoda na candura. na cal da parede. é um difícil problema de vontade. e têm sempre um requerimento a apresentar. tornava a avançar. advogado em Lisboa e professor de Ciências Sociais. é a quarta vez desde que me sentei que me vem amolar. sobretudo. Apre. não está em casa para ninguém. Às vezes tratava-se de necessidades elementares. o que se chama para ninguém. desde que seja limpo de consciência. por cada um dos quais lhe fora recomendando momentos depois de se ver livre deles: Agora veja lá: desta hora em diante não estou em casa para ninguém. Mas o que se chama para ninguém. Manuel Torres. um laparoto caçado nos ferros “para o jantarinho do senhor doutor”. Manuel Torres. E ele próprio se surpreendeu a dar um urro: . Rejeitar a oblata. aperceber-se que uma das suas funções por excelência consistia em esportular-se. a cabeçorra de medusa avançava. do secretário de Finanças. deposta com tão obsequiosa mão de veludo. esta irresistível tirania dos indivíduos inferiores. pois lhe dera essa manhã para desensurrar a lã. Em obediência a esta regra.. mulher. contorcendo-se em arremedilhos e partes gagas.. não havendo outro remédio senão percorrer a via ominosa do peditório. estando na aldeia. contra tão sinuosa e ao mesmo tempo inconsútil tirania.. lá estava ela já à sua espalda. a gozo de férias em Malhadas da Serra . ouviu. Fazendo-o heroicamente até a linha que demarcava o limite da generosidade. não ter já previamente ganho à requesta de cada um. Sombra que escorregava indecisa e vaga. deita-se ao pescoço o baraço da escravidão. meu senhor.Sim. a sombra de Custódia. a par das vicieiras da terra. o que nem sempre conseguia.

Quem traz vossemecê aí? Mas já ela se retirava. se era um senhor doutor de leis. com duas belgas de cada folha para dez pousadas em ano grado. Coitada da criatura. mariolas de alto bordo. eu mando. qualquer remoque ser-lhe-ia insuportável. Ao senhor doutor é que eu acho rijo e fero. deixando-a com um menino nos braços.tornou ele peremptório. onde mourejava uma colónia de patrícios. a cardenha de telha-vã. Depois de atravessarem a saleta com acanhamento e o mais aéreos possível.respondeu consoante o estilo. de pequeno.Benza Deus tudo quanto cá há? . se pobres. recreados pela figura airosa da mocinha com quem jogara as escondidas. tornou a perguntar. e encalacrados da vida muitos. estivesse a dormir a sesta. adquiriu um tear e fez-se tecedeira.Mas.e a ele próprio a voz toou noutra gama. tinha amigos por uma pá velha. acabando de se voltar de todo para eles na cadeira giratória. meu senhor! Que lhe havemos de fazer. não poucos. se não é que fazia simulacro de retirar-se.. quem traz vossemecê aí? .Estou uma velha. embrandecida pelo sopro que a animava.Credo. ponderando quanto havia de lógico e até de humano na atitude da velha criada. uma vez plantados no caixilho da porta saudaram à serrana: . As suas teias eram afamadas em vila e termo.Era sempre assim. . resmungando: . Meteu cara à má sorte. Por isso mesmo. Santa Casa... vindo para Malhadas. .Mande lá entrar. foi-se abaixo.. que era resoluto e empreendedor. Maria.. Como não. era como um bombeiro com obrigação a qualquer altura de acudir às misérias dos labregos. . ela de tamancas de Viseu e xailinho pelos ombros. onde bracejavam meia dúzia de videiras de cordão e um mostajeiro. andara com ele ao colo e. pois que tinha direito quando menos a amenidades. O dianho não tinha nenhuma espécie de respeito pela sua pessoa. por isso mesmo contemporizando. Alguma tinhosa o viu hoje? . meu homem? . o rapaz de alpargatas e com andaina nova. na flor da vida. acabava por condoer-se. Golpe num pé.. O homem.. peca para mais do sentido de proporções. e retraiu-se. falecera de tétano aos dez dias de internado a uivar pela mulherzinha da sua alma. meio repeso. e mãe e filho apresentavam-se endomingados segundo a etiqueta do dia santo. Podia tornar a casar-se que a cobiçavam muitos por mulher limpa de costumes e provada no governo da casa. De salto perpassou no seu espírito uma série de ridentes panoramas. ó mulher. Era sexta-feira. Partia do princípio que.E mais a quem vem! . mande lá entrar .. Esta ficava. Casada na altura em que ele concluía o Direito em Coimbra. dignos de amparo. desta feita apenas com mau humor: . 7 ..Ainda não tinha tido o gosto de te ver. não fora feliz. ganhava quanto dinheiro apetecia? E Manuel Torres. Estás boa? E tu. anos e trabalhos desgastam como as mós das azenhas.A Maria Aires e o rapaz. e disse.. a compor uma minuta. festa de Nossa Senhora de Agosto. embarcara para o Rio. infecção. Mal pegou do gadanho na Sapucaia. Credo? Eu mando as criaturas embora. como se tivessem a peito não acordar o chão. alguns. Que só lhe querem meia palavra. embrenhado a ler. com um quintalório.

mas logo ao segundo dia. começando por capacitar-se que eram brancos. perguntou-lhes: .todas as mulheres eram o mesmo no que respeita a este tópico. depois de empapoilar-se desde as tranças às ligas. O povinho cresce à desmedida. é certo. O que se encontra à farta por essas famílias é fome e lêndeas. outras voltam. como a pedir- 8 .Qual.Então não largam pelo mundo. Gostava que visse o inçadoiro que vai por essas aldeias! . imunizado por autovacinação. corgo acima.Pobreza. baldeadas pelo negro fado. se a terra estava uma nojeira. um pouco acanhado à sua ilharga. Em tom cordial..É certo... Qual. Não. A Maria Aires permanecera silenciosa. um tanto surpresa pelo tom rabujo do doutor. caprichou em desmenti-la. Não assim as saias. E foi em acento quase humilde que adiantou os seus reparos: . a Serra está no osso. pelas casas fidalgas. haviam de perder o desgraçado costume de curtirem os estrumes nos caminhos e fazer deles vazadoiro universal? Criava-se-lhe ali moscaria para envenenar a Península Ibérica. só da pobreza. como o meu senhor. de tal jeito que quando se quer fazer uma novena aparece miudagem para uma procissão.tivesse por condão esse indefectível renovamento em prejuízo do passado. . ?! Ora essa? . A Serra. cada uma com o seu neno. Assim mesmo. o nosso povo nasce e morre atascado em sujidade. lá no íntimo a cogitar o que havia de responder. Transcorreu uma pausa durante a qual. nem rijo nem fero? Chegara de facto bem disposto. Maior dor de alma ainda são aquelas que vão acabar no hospital. mantiveram-se límpidas e inocentes como em criança quando na alba da Primavera patinhavam corgo abaixo. lá ganham o par de sapatos e a meia sainha com que uns anos por outros vêm embasbacar os palonsos. e nas feições de trigueira. ficava frívola e chocha como as mariposas. tanto aquelas que são um brinquinho de sala corno as que atoladas na terra mais se aproximam da natureza . deplorando apenas que assim fosse..Sim. Lá vão cirandando por aqui. pela dura trabuzana da existência. podia passar a salvo de tal foco de malinas. Lisboa e Porto estão à cunha. bonita racha de vinte anos. zás. medindo-a de alto a fundo em sua estatura de quarentona. que a mulher . Mas perdoe que lhe diga: muito do que causa engulhos a quem tem hábitos de fidalguia. cama com a macacoa. Mas as pupilas dela não tinham nada a dizer. e umas lá se arrumam. E conformou-se. pior que pocilga! Quando é que os moradores. Pouca diferença fazemos dos animais.. como as filhas da Olinda. este tom em que lateja a mais promissora boa vontade.Que vos traz por cá? Ela sorriu-se. ela não se lembrava já de tão importantíssimas bugiarias. Só quem ali vivesse de longa data. pelo Alentejo.Embora persuadido que ela estaria a pensar em tudo menos na sua preciosa carcaça. harmoniosas ainda que roçadas pela lida. os seus olhos encontraram-se.. soterrado. quer ouvir porquê? Porque há gente a mais. meu senhor. por ali. Foi praga que nos rogaram. à cata das flores da Páscoa com que ela. está a dar o cadilho. largam pelo mundo? O Brasil fechou-se. se Deus não acode. Era humaníssimo. Tudo isso que para ele era um elemento capital da personalidade jazia para ela sepulto e esvaído no tempo. esburgadinha até mais não poder. olhou reflexivamente para o filho. atrás da morte do homem. tão desempenada como a língua. Assestadas para as suas. é obra da pobreza. Quem tem calças mexe-se como Deus é servido. Como não. e não é fácil que possa ser de outra maneira. ? .

Mas o entendimento deste homem gira sobre rubis que são um segredo para toda a gente. muito menos o Calhorra que impa de farto . Porque mude de opinião ou não tenha vontade firme. Que tiraste de lá? A mãe dispunha-se a responder. pôs-se a arranhar o recado: . mesmo que cá viesse do outro mundo e lhe pedisse de joelhos e mãos postas. mas os estragos que causou não deitam ninguém a perder. um bicho a que só faltava falar.Valham que não valham.Derrotou duas ou três caneiras e eu prontifiquei-me a pagar o dano. Tirei de lá meia dúzia de pedras. Se lá lhe cheirasse ainda volfrâmio. O meu senhor sabe. quando foi da outra guerra. . sim. . tão frenético que os cobiçosos até mordem as lajas com os dentes. tu não sabias que não se pode entrar sem licença na propriedade alheia? Não sabias? Pois tinhas obrigação de saber que já não és criança nenhuma. maluquei para comigo e para com Deus que se ele não atender ao senhor doutor...Será apenas a meter medo.. minha santa! Esse Calhorra é um tipo como não há segundo do Vouga para cima. para o mal. rapaz! Muito mal.Anda por aí tudo frenético com o volfro. meu senhor. incapaz de justificar-se.Então.respondeu a mãe. Ex.a que a propriedade é aberta. do Verdegaio.Não sei. Ex.Pois será. Veja! O rapaz mostrou-se de todo cómico ao lado da mãe.A leira andava de relvão. mal me apanhou longe daqui? Pior do que isso. se não valem. Mas como era preciso fazer desde logo justiça. ? E deu estrago? . mas tu não tinhas o direito de lhe bulir na terra arrelvada.. . Por modos tem tudo preparado para amanhã.Procedeste mal. e torcendo-se para a outra banda.. dirigindo-se ora a um ora a outro. .. cinco réis furados. mas pode V. E que esperavam vocês de mim. Eu tenho muito bem a dizer dele. deu-me uma chumbada num cão.Coisas aqui do meu Augusto. Em tempos. Não me roubou quase metade dum giestal com uma porca mascambilha de marcos. não era ele que dormia uma noite inteira na cama enquanto não alimpasse até a última pitada. e também motivos de sobejo para o detestar. . rapaz. A leira era tua. Àquele. que é sábado. mas para lhe falar franco.Pois sim.lhe desculpa de o trazer para pião das nicas. dize-me cá. não sei se valem. mas ele. Quem tem filhos tem peguilhos. deu-lhe o Demo arte. o delito é o mesmo. . Com ele nunca se sabe ao certo de que banda sopram os ventos. bem sua. declarou: Saiba V. dize lá? .E então? . denotando todavia estar em consciência a revolver o raio da morte das suas razões. não atenderia ao pai. . Maria. e para que lhe havia de dar o diabo? Ir esgaravatar numa leira que o Silvestre Calhorra tem ao Vale das Donas. . Este mafarrico não podia escapar ao andaço. dia de feira em Orcas.Mas.a estar certo que nem o Calhorra ficou pobre. já ele lá tinha andado a esfossar. ir fazer queixa. alguém acredita nas juras dele? Por 9 . Augusto.Ora se sabe . é possível que não. dando um passo à frente com desengano e atravessando-se diante dela. O Calhorra é que não está pelos ajustes e teima em dar parte. .Pode ser que tenhas malucado mal. haja de perdoar que também é pai. Olha com que anjinho! . disse Manuel Torres: .Que falasse ao Calhorra. porque o foi apanhar de manhãzinha a comer-lhe o coelho que caíra nas armadilhas? Bem sei que se fartou de jurar e trejurar que fizera fogo supondo tratar-se duma raposa. nem eu rico. olhos em terra. lembras-te.

.decidiu-se ele a contrapor. decerto por não haverem há pouco tomado a sério o seu protesto.Então o Augusto parece que lhe respondeu: “. lá teve a birra.Esses sargentos às vezes dá-lhes para brutos! E não foi preciso dizer mais nada para a mulher sair com a versão refervida nos soalheiros. conta. ora.“0 meu sargento vem errado: essa honra vá dá-Ia a outrem que o filho de meu pai nunca teve nem cobiçou tal oficio!” . Prosseguiu a mãe: . e se não entra o comandante. dou-ta a ti e é um pau. Ele. e aborreceu-se da tropa. botavam-se um ao outro. mas porque.Como pode imaginar. o mesmo era que dizer à mãe: “Conte vossemecê. É uma criatura assim. Quero dar-te essa honra. já que és mestre em engraxar. Chegou mesmo a deitar as divisas de cabo. não porque ela não pisasse o terreno firme. verdadeiro. continuando embezerrado. para que está a falar? . devia desagradar-lhe ao último ponto e. que este meu filho é espirra-canivetes.Brutos acabados. Agora dize-me cá. Augusto. A mãe não percebe.balbuciou Manuel Torres. Mas teve uma birra com o primeiro sargento por mor do capitão que gostava muito dele. ..Qual mexe-te. meu senhor. Mexe-te” Conta lá agora o resto. ainda a melhor maneira fosse desmenti-la.É verdade. se quiser. coitanaxo . Tal papel. a Maria Aires fazia-o tão juvenil e possessivamente como se nela se operasse desdobramento.” . ali se despicaram de palavras. eu falo ao Calhorra.O Augusto compreendeu onde pretendia chegar a malícia do salafrário e lá retrucou: . porventura..Sim? Augusto encolheu os ombros. Augusto. O capitão gostava muito dele. não foi nada disso. rapou dum estadulho e fê-los meter na igreja de rabo entre as pernas. desejando afirmar a sua personalidade. estás mesmo um pato mudo! A mãe falava como se ele não estivesse presente ou ela é que tivesse sido a protagonista da anedota. nem meio mexe-te. Manuel Torres sentiu-o. se taciturno estava. meu senhor? Imagine que o alma de cão do tal sargento um dia chegou-se ao pé dele na tarimba. Se não tem quem lhe engraxe as botas. que castigou a ambos.. pois não era.. “ Mas conta tu.“Ora. estavase mesmo a ver: .apressou-se a mãe a dizer. e. Sempre que lhe acontecia falar no rapaz. é verdade . e Torres olhava para ela em silêncio e com o mesmo prazer com que ano por ano se vê reflorir uma pereira. As ordens só eram bem cumpridas quando era este senhor o encarregado de cumpri-las.” E ela foi contando: . Havias de ser tu a contar ao senhor doutor. boquiaberto. agora dava sinais bem manifestos de contrariado. que se faz tarde! . um dia viu-me acometido por uma roga de sicários a soldo dos talassas de Tendais. complicado ou parecendo-o. Augusto: julguei que seguias a militança? .Ah! ah! .acudiu ela. que o amesquinhava. pelo que pronunciou também como se ele não fosse presente e com ar de quem dita sentença favorável: 10 . À falta de escova tem a língua que lhe pode servir de esfregão. ala. engraxa-me aqui as botas.. Ele ficara embezerrado.Não cismava noutra coisa. engraxe-as você. Augusto? Mas bem. estendeu o pé e disselhe: “ó cabo. . Era bom homem. Homem.. meu senhor. Assim que apanhou baixa. ..outra.Não senhora. Augusto. moita carrasco. Mas fica entendido. .

Anda ou não anda? O rapaz franzira os lábios. Manuel Torres apontou: . Maria vai com as outras. Naquele esgar transpareceu a Manuel Torres que ele dizia escarnentamente: “Pois. O Augusto correra à estrada... sim. o que foi logo percebido por Maria Aires que desandou. pois.Bah. Repugna-te? Manda-lhe recado.e palavras eram estas pronunciadas de caso pensado para que ela tomasse nota e servisse ainda de correio: “Pobretanas que não sejam capazes de manter a cabritada que haja de 11 . satisfeito de se ver longe e desafogar. E que fazes tu agora? Andas então na trafulhice do volfrâmio? .. e é um moiro de trabalho. A própria ouvira dizer ao ricaço . estrebuchavam os dois ou três frangos da oferenda.Hás-de tornar a levá-los. . novas vergônteas e novos ramos. Augusto. dentro duma cesta. e deitam. como se olha para um bezerro quando dá galardão do trato que recebe. podia ser moderado. sistematicamente ela é que se arrogava de voz activa quanto a dar ao badalo. não há que ver. arrumávamos o assunto. à espreita de alguém que levasse rumo pela porta do Calhorra. É verdade! Tinham ficado em silêncio.Olha. Naquela ocasião não queria por nada deste mundo deixar de advogar-lhe a causa. Mas olhe. O que é. é pedir por boca.. um pouco para desafrontar o moço do seu enleio: .e rolava o polegar sobre o indicador. e dizia que só dava a moça a quem tivesse disto. umas vezes por outras com sobejos motivos. mas o seu toque era outro... até já estoiro de rico! Se precisa. e conformidade. senão fico mal contigo. duas dúzias de contos de réis. carregando ao mesmo tempo as sobrancelhas num gesto de abandono. fazia menção de se encaminhar para o pátio. Maria Aires. meu senhor. Nunca me faltou ao respeito... que estava um texugo de opulento. e ninguém o entendia como ela..O rapaz sacudiu um ultraje. muito encolerizados de se verem atados pelos pés e em tal inpace. participava da ilusão de todas as mães: suporem os filhos sempre meninos. São para o almocinho de amanhã. Mas antes petulante que sabujo. sabido quanto a juventude é petulante e malcriada. se tu fosses chamar o Calhorra. porque só ela é que se reputava com autoridade para fazer afirmações de certo peso: . . Sempre que a pessoa dele estivesse em causa. Encolheu os ombros. Velo da tropa e fez as malhadas de fio a pavio. ambos a olhar para ele. estão às ordens uma dúzia. Torres breve penetrou no segredo do coração extremoso. Bem sabia ele que escusava de teimar com gente daquela força.Ora essa?? Era uma desfeita que fazia se não aceitasse. tornando-lho recomendável. podia ser mais moderado. eu a bem dizer não tenho escândula deste meu filho. ainda quando põem navalha na cara. Ao passo que sugeria este expediente.. O moço matava-se por arranjar dois vinténs. e foi Manuel Torres que se viu obrigado a dizer. As palavras eram as mesmas de todos os presenteadores.. No patamar. Persistindo na inveterada pecha de ser a língua do moço. e compreende-se. Não era segredo nenhum que namoriscava a filha do José dos Cambais. agora que ela não estava. que este ano com a escassez da gasolina voltou-se ao mangual. já casados. entrou no caminho das confidências. o que se chama sair do lugar que lhe compete em relação a mim que sou sua mãe.E voltandose para ela com tom entre risonho e cominativo: .” Mas sua mãe soltava de novo a taramela e ele limitou-se a afivelar um sorriso despiciente.

razão onde cabia uma boa cestada de desacertos. tep-tep. Vestida de verde-ferrete nas lombas e de roxo na dobra dos vales. regalado. A Teodora sabia a rês que ele era. Vinha com o Aires e de Alcobaça em punho esponjava a coroa sua renta. ainda ontem camaradas de regaleira. e até um carro de centeio pelas almas do Crasto.nascer no curral. A Maria Aires falava com fluidez e brandura. Pela estrada. desamparem-me a porta. cavem primeiro!” O Cambais lá estava nas sete quintas da sua razão. avistou o Simão Tadeu. bicicleta. que o rescaldo da terra baforava lume para assar as cotovias com penas e tudo. Descia a tarde. Respirava-se ao abrigo das velhas faias e loureiros. borlas a arrufar da bolsa do relógio. via-se deitada de borco a gigantona da Serra da Estrela. andavam de candeia às avessas. que avançava pelo pátio. Que a Teodora tudo merecia não havia duas opiniões. homens de lódão na mão e registo no chapéu. prazenteiro. Ao longe. e nunca mais ma pagarem. A cachopa custou muito a criar. para ele o eclesiástico. cá VOU! 12 . Era por causa da rapariga e por mais nada que ele andava a esgadanhar no chão alheio. em segundo lugar a mim que estive sempre de corpo presente a aguentar o embeleco. primeiro à mãe que lhe deu a teta. Alguém. misto de pé e de cavalo. a sua imensa bizarma era para lá das seis léguas de espaço. raparigas de xaile dobrado à cabeça. risquinho do bigode na cara deslavada. De súbito. brancas e altas. os ricos e pacatos de escancha-perna no seu asno. Lá a cachopa não levam nem à mão de Deus Padre. dar um pontapé na mofina. seguro disso. O José Francisco saíra um meliante de alto lá com ele. Manuel Torres saiu-lhe ao encontro. o rapaz estava-se ninando para o José Francisco e para as sentenças do Cambais. Pelo seu Augusto é que ela tomava ventos. do tempo quase lendário dos capitães-mores. como ultraprazenteiro caminhar. abade da freguesia. entre a toadilha da Maria Aires e a da fonte. e empoleiradas por cima do xaile as soquinhas. passavam romeiros de outras terras. Sim. como as ribas dum bonançoso mar. Era uma flor e então assento!? Também lhe fazia rapapés o ruivaças do José Francisco. Podem levar-me uma vitela fiada. mas nem precisava de o saber. sem fímbria de nuvem que a mareasse. poder ir ao Cambais e rolhar-lhe com um bom pacote de mil a boca destravada. sempre de corrente ao peito. Querem ter onde esfregar os untos. duma brancura e altitude de água represa. o pigarrinho a advertir: cá vou eu. o hausto da extensão. e por isso ele e o Augusto. sapato de fivelas a ranger. sinal de que o rancho da Lapa entrava as portas. e a sua voz parecia regerse pelo gorgolejo da água ao despenhar-se da bica de pedra e embeber-se na massa líquida do tanque com sopitada cadência. nem filho de cão e loba. deitando olhos para o portão. e para o povo ressoava estrondosamente o bombo e tiniam os ferrinhos. e o Augusto e a Teodora ficavam também nas suas. imagem do João Ratão na facécia dum humorista. se elas não tivessem o cuidado de se defender do sol na fresquidão das boscagens. de Muradais. pés para a Guarda. E. e Manuel Torres quedou-se ali de cabeça descoberta. por causa dela desunhava-se por ser alguém. Mas rebento da Minga e do Fráguas. cabeça para os Cântaros. e as suas vozes na tarde serena repercutiam com um timbre tão cristalino que nem reflectindo a própria claridade celeste. tamisado pelo verde da folhagem. Amor com fome é como sardinha sem pão. filho da Júlia Minga e do Antoninho Fráguas. Passavam por golfadas. direito a ele. isto é.

e gregoriano até a medula. era com ele e ninguém tinha nada com isso. era a pessoa mais cortês deste mundo. quando surgiu o filho e o correu à má cara do quarto do moribundo. O Tadeu. que representava na igreja militante nacional o levita da transição. negra e farta aldeia. O Simão preparava-se. sabendo hebraico. persistia em pagar todos os Outonos dois alqueires à parada do Miguelão. cautíssimo. e não deu corpo às suas aversões. piloto-aviador. Manuel Torres. Pelo papel.ali estava Severo Bacelar. calva apenas incipiente na trunfa espessa. mascaravam ambos eles à maravilha a recíproca antipatia. A quarentena ulcerara-lhe corpo e alma. Cheio de mansuctude. todo desempoeirado. De facto. moldando-se à sua observância. 13 . queixando-se embora dela como Abraão de Sara. O velho abade quis reagir. no caminho para Orcas. meio agricultor. embora pobre de carnes. pouco tempo continuou a exercê-lo. lugar armentoso. e sem quartel. Por sua vez. Ali estava ele que não morria de amores pelo padre . Válido nos 55 anos. e igualmente o padre não oferecia flanco. entre o cura dos bons velhos tempos constitucionais. Nascera no cisco. nariz esponjoso. O velho abade fora um dos que ingenuamente. e soprava-se que trazia dinheiro a render. meio sacerdote. não tardou que o velho resignasse o ministério. engenheiro de minas. O que valeu é que a fé do povinho nada tinha de farisaica e não secundou os zelotas. amigo como irmão do velho abade. se deixaram lograr pela Lei da Separação. para se gloriar da sua vitória total nas vozes arrependidas e tremelicantes do colega. Pedro. e o concordatário. a título de confessor. todo desportivo. e já erguera casa de sobrado. talvez por isso a pior de todas. que era a cabeça de freguesia e englobava Malhadas. esse mesmo. quando proclamada a República.que não metera em linha de conta o ódio vigilante dos inconformistas e pagara caro a submissão. viera substituir o Lourenço Bacelar em Mouramorta. mas em que força se escudar? O poder civil largava-o ao desamparo como a todos os outros em iguais apuros. Nunca mais na sua igreja se celebrou cerimónia festiva ou ritual que requeresse a presença de mais de um sacerdote. atabafada entre brenhas e penedos. Mas. que lhe herdara nome e casa para maior lustro e acrescimento . pagara sisa de duas ou três boas regadas.mas não o deixava transparecer. como dizia Homero de ítaca.o que em regra lhe acontecia com a maior parte da gente que pressupunha de elevada . Brás da Nave. campeão de ténis. Nem todos o prezavam porém em conformidade. além de a época não ir para cavalarias. que ajuizara de insidioso. já no delíquio derradeiro. ultramoderno. andava montado numa égua vermelha pela qual. Mas. embora não o múrius de sacerdote.a Igreja sempre que fecha olhos aos desmandos dos seus ministros é que não tem diante de si escandalosos .Que se julgasse pessoa de muito respeito. Apartavam-se dele como de leproso. desmanchadão mas cheio de humanidade. tão certo como dois e dois serem quatro. Caçoando cordialmente de parte a parte e cambiando-se fingidas ternuras e amenidades. Por outro lado. branca.estava rico. O Simão Tadeu. A guerra era subterrânea. e S. pai de filhos . o padre retrucava-lhe na mesma moeda. ainda que prudente e recatado . ficara a detestá-lo figadalmente. Nela mereceu o Simão Tadeu esporas de oiro pela arte consumada com que fez quebrar nas mãos do indigno pastor de Mouramorta o cajado de S. as autoridades eclesiásticas em matéria de firmeza eram do mesmo barro que as da República e temeram-se de fulminar à mão-tente seus anátemas e coriscos.

hem. embora as dores nas cruzes mal me consintam erguer a cabeça.Vicioso. que ajustara com os de Malhadas a troco de cem medidas. que a broa desbota o dente..Floriu. da linhagem das Ruças de S.. Reparei. As raparigas parecem flamencas: olé! e as padeiras trazem trigo governado com levedura holandesa.respondeu Manuel Torres.Quem havia de dizer! Também já não vejo trajar de burel. o padre dissera na capelinha de S. esta labregada. sim. que podem ser senão os ossos do ofício? O Simão Tadeu tornou a sorrir e pretendeu retorquir com bizarria: .? . . quanto à miséria ambiente. a girara para a Lapa a oficiar na festa de Nossa Senhora.. abade. lá teria as suas razões.Não bebia. mas imbecil de todo e comida de misérias?! O Tadeu não quis contrariá-lo. Brás. e tinha ao serviço a velha Maria Ruça. e pela medida grande.e sorridente o Simão brandiu a chibata de sanguinho que trazia para espertar a égua. quer dizer. O mundo é seu. que as fontes de produção eram as mesmas e exploradas com o mesmo vigor... e limitou-se a observar. É ela que me traz de pé. aguardavam a morte. Não se viam há coisa de um ano e apertavam-se efusivamente a mão. tratando-se de eclesiástico. Reparasse Sua Excelência e veria que se tinham modificado. Isso não oferecia dúvida. Como se explica? Tara. sem os esbanjamentos das Câmaras e as alcavalas e arbitrariedades fiscais dos organismos que lhes eram anexos. mas que lá quanto a projectar luz era como um verdadeiro espelho de cristal: Segundo uma postura 14 .salvou o doutor. mas tão pequena que ninguém tinha ocasião de protestar como certas as suas virtudes contrárias. reparei já que as berças foram substituídas pelo macarrão e a aletria e a olha pelo café .O doutor é que está cada vez mais jovem. detinha-se em Malhadas a cumprimentar “o digníssimo doutor”. e vir atascar-me nesta sujeira de terra com este sol. vicioso? Diga-me lá se não é um vício deixar todos os anos o fresco das praias. que não têm conto. coitada. mais viçoso. a mulher e os rapazes. de volta.? Ignorância? A depressão provocada por outro gravame? O Simão Tadeu balouçou várias vezes a cabeça. e assistia-lhe à casa de lavoura que herdara em Malhadas por morte dum tio afim. como num claustro.. dores nas cruzes.Não diga isso. E em apoio citava um caso que não se repetira.. com a alva. cheias de préstimo e de virtudes. ainda que compreensíveis. assoldadara-se com o Antoninho Fráguas. Mas as mercês de Deus. mas que ficasse bem assente. . então a aguilhada do rei Vamba floriu ou não floriu? .. a Ana.Vá a banhos. É uma verdadeira canceração. devido em primeiro lugar aos cadastros que eram defeituosos. suportáveis. sim. . As condições de vida essas tinham-se modificado. Do padre murmurava as piores enormidades a chamada boca pequena. comigo não alcançam mais longe. não jogava mais que o dominó e o loto. porque as não mereço. Meia dúzia de imersões e fica são e escorreito. definitiva e desinteressadamente. .. . boa.Bispo nem quando esta vara florir . estes penedos. A irmã.. pela graça de Deus. Agora. De resto. . as contribuições eram pesaditas. Logo de manhã. Sim. abade. Miguel a missa seca do binário. abade.Ora viva o meu abade? Rijinho e próspero como tem de ser um futuro bispo. sim. que depois de duas ou três cabeçadas acabavam por se enfeudar a um eclesiástico ou a uma família rica e ali.

É ou não é. meu senhor. Assim se fizera.Sim.. acrescentou de golfada: . pois não pagaram. Os tempos não correm propícios a jacqueries. do bispo ou do Senhor. É ou não é. . a Rosa Pedralva.Com Pedro o Cru. meio afável das pessoas que se reputam superiores.O Lázaro Fandinga levou-lhe 25000 rs..respondeu Manuel Torres. ou Setembro. relaxe. vendidos e mal pagos. pondo-se muito sério. Se não pagassem até ao fim de Março. se acocorara à moirisca ao toro duma árvore sem ninguém dar conta.Sabe-se lá. está visto. foi esbagoando o riso.. não passaram a ser menos mansos.Só há bocado bateram aí quatro. estalinho a estalinho.. . dado que mingadita com o sol que tinha feito. dizia: . O principal era que pagassem . nem menos cristãos.. mas absteve-se de responder. Assim sucedera ao Mões . . se não acudissem ao relaxe. E como visse uma atenção indulgente nos olhos que a observavam. e essa é de espantar que tem de seu e é governadinha. pelo menos em Mouramorta.. pedia 15 . em pleno adro. abade.acabou por declarar.“São as crias que nasceram posteriormente” .. e se consolava a ouvir pessoas tão bem-falantes. e nem sequer lhes ficou o direito de bufar.“Não queremos cá saber. Mas em Fevereiro a Guarda viera vistoriar os rebanhos e encontrara na manada deste e daquele tio mais cabeças que as constantes do manifesto. sim. Onde isto irá parar é que eu queria saber?? . o gado tinha de ser dado a manifesto até fins de Dezembro. mas já o padre. .que ficara a tinir. Andava tudo de chapéu na mão: ai tio. iam os bens à praça. que os seus paroquianos eram maus como as cobras e que em matéria de pouca-vergonha estavam cada vez mais refinados. sabendo quanto a espécie eclesiástica foge de se lançar por sendas em que perca tempo ou latim. essas praças dançavam na corda. . A Maria Aires.Não serão os únicos.. tenho uma incumbência para o meu doutor.Sou todo ouvidos.É verdade. abusos de quotiliquê.permitiu-se dizer a Custódia Sancha que. mas dispensáveis. como quem desata: . Não tem notado que os seus paroquianos pelo facto de serem batidos. sorrindo. como bicha de rabear.Não sei. E quando lhe pareceu que estava livre a retirada proferiu: ..? . o Aurélio Bebauga.?? ... E como aquele uma infinidade de abusos. depois de trazer cadeiras. Pagaram.insistiu ele com aquela pressão meio desdenhosa. .. três pessoas distintas e um só interesse verdadeiro..” Não chegavam ao fundamento. tosquiados.alegaram os criadores. a fugir à turbação. entretanto.Brada aos céus .. têm de pagar a multa. Em certas alturas do ano eram mais as lágrimas nas casas dos serranos do que a água que agora levava a ribeira. não sei ..exclamou Manuel Torres. Tadeu. no domingo passado não estava a dizer. é caso que as alçadas que cometem não revertam em benefício próprio.?? Manuel Torres rompeu às gargalhadas. E de repente. . Manuel Torres ergueu o dedo contra a indiscreta. uns sediciosos de Vila da Ponte deitaram o fogo aos paços do concelho de Sernancelhe.. ai tio? Decerto que não tinham deixado de lhe vir bater à porta?! E quantos! . senhor. senhor! É a minha opinião e é a opinião de muita gente boa. Em vida de meu pai. consoante. .concelhia. R.. Em geral.Sua Excelência havia de tê-lo visto com bornal de mendigo .Mas V. senhora Maria Aires? A Maria Aires sorriu. .

lhe fez dar salto de gamo e mugir: .. que o santinho em dias de tisneira é o cimo dum vulcão.atalhou Torres de modo tão imperativo que Maria Aires compreendeu que era uma ordem que recebia. e que com a barulheira do motor não podia ter ouvido o doesto.faça o obséquio: por aqui não haverá gente que queira ir trabalhar para as minas da Sobriga? .O doutor não é proprietário duma das encostas. negócio de “pinchas” outro. ? Manuel Torres e Tadeu tinham-se insensivelmente afastado pátio fora até o portão. de facto.Em boa actividade.. há-de verificar que se alargou e murou a platibanda e se dispuseram muitas árvores.que deviam aumentar os réditos do Santo Antão. a concertina. os andaços matam menos gente. volveu o reverendo: . os piteireiros. sim. úteis ao homem.licença para se ir embora: tinha o vivo a acomodar. ar de capataz.? Na estrada. quando um automóvel Ford. tipo “calça arregaçada”. fazendo mil reverências. que era humilde e tinha a bunda calejada dos pontapés. viraram a cara.Arre que é bruto? . . . A romaria está tomando cada vez mais incremento. ora vendia mecha para fumadores. Por conseguinte.Dizia o meu doutor . aos entivadores e salbreiros outro... espera um poucochinho. .interrogavam. criar sombras. e fazem grande destroço nos irracionais. sim. desperta a atenção pelo velho Ford... E consoante.Pscht..A confraria de Santo Antão está no propósito de continuar com as obras no cabeço. a começar pelas pernas. veio gemendo. O senhor doutor lá concertava com o tio Calhorra. Trazemos agora em vista desenvolver o plantio do arvoredo. Encerrado o aparte..respondeu o Roupinho.reatou o Tadeu . Torres despediu-o gracejando que lhe faltava tudo para caçador. Aos marteleiros dá-se um salário. De bom proveito lhe serve. O Roupinho. Ele próprio reparou no categórico da voz. aumentaram também os réditos. com a outra esmera-se por embelezar-lhe a casa. seguindo sua rota. que andava com a rifa de terra em terra. e põe-se tudo em pratos limpos . E depois? . de Cruita do Alto. estou a ver. veio oferecer-lhe chumbo de contrabando para a caça. sentados em cima da parede. afluíram curiosos das quintãs. A como pagam? . ora comprava cornelho. tanto mendigava com meninos alugados como bufarinhava. da encosta que olha ao nascer do sol.Gente não falta? . e o homem lá se foi de mão sempre no carapuço de Alvite. 16 . os mirones que bamboleavam as pernas. Deus castiga sem pau nem pedra e o padroeiro não tem mãos a medir. Também só cheguei há meia dúzia de dias. se com uma mão vai amealhando. É curioso. As esmolas têm engrossado. ele há-de estar a vir. Tem ido por lá? . matam menos gente. Ia a voltar à esquina para a estrada. e também já não fora pouco o tempo que lhe fizera perder. estacando de rompante.Este ano ainda lá não pus os pés. pscht. ó patrão . puxando da sua nota. arrasrando o seu rancho. saltaram em terra. que a Mesa. .Então quando lá for.Não. Provavelmente em seu inconsciente estaria a desejar que o padre se pusesse ao fresco o mais depressa possível ou pelo menos que o não deixassem sozinho com ele. afinal.gritou-lhe o sujeito que vinha junto do chauffeur. se bem me recorda. à sombra dos ramalhos que refrescavam a frontaria da taverna.

. É capaz de me jurar que os da Confraria não trazem pedra no sapato? Não? Com esse Minga.Quem são.Melhor só banqueiro? .. mais do que isso... Parece-me que sim. isso não tira. de Malhadas. isto é. libera me Domine.? Não sei se sabe que mister James Corbet fez ali perto umas pesquisas. Perguntava o abade se eu era o proprietário duma das vertentes do Santo Antão. Mas.Não ponha mais na carta.. seis e oito horas de trabalho..?? A menos que santo tão milagreiro como o beato Antão vá de futuro guardar as cabras? E Manuel Torres deitara a rir diante do abade que. persistem os efeitos.advertiu a tia Sancha.Mas já que lhe interessa. Amanhã o direi...gracejou Manuel Torres para o Tadeu. da fábula tupi. um pinheirinho novo. Para os tempos que correm não é má pinóial . os dentes das cabras não cessarão de destruir quantas árvores ali se plantem?? . irmão da Júlia. resigno a posse do barreiral em proveito da Confraria.Orça entre dez e vinte mil reis... tem sempre a vista no segundo plano. a começar por tão simpático Santo.. não sabia que contestar. tanto melhor para o caso . a menos que me tenham irradiado. de. Daqui. Está dito. quase sem transição. *** O abade ficou ainda mais interdito ao ouvir aquelas palavras. e Manuel Torres interrompeu: . .O doutor faria grande fineza à Confraria cedendo-lhe o terreno que só lhe dá prejuízo.. . sim. julgo eu.. boquiaberto. Então é porque os rebanhos malfeitores são pertença dos mesários.. . mas primeiro hei-de-me esclarecer. daqui é o Calhorra e o José dos Cambais. Quem são. olhem. perdão.. nem mais nem menos um dos testas-de-ferro do Antoninho Fráguas que. irmão “pagão” já se deixa ver.. São como a da raposa e do jaguar. o Minga.. A Fazenda é que todos os anos me certifica que sou dono do chavascal. A falta de memória era sinal de que o seu embaraço continuava. Manuel Torres veio ao sentimento daquele empacho e inflectiu sem esperar resposta: . E digo parece-me que sou porque os gados e os mateiros ali não deixam ir por diante uma giesta..emitiu o abade.Pode ser que não. de S. Quem são os da Mesa? .. persistindo as causas.Pois se assim é. Brás da Nave. meus senhores.. o oiteiro é particularmente metalífero. Pode o terreno estar dentro das áreas registadas e não quero complicações para ninguém. Segundo conclusões. Agora de sociedades em que entrem o Antoninho. o Adolfo e o Manuel Minga. como lhe requeria a índole generosa. meu abade.. em princípio não digo que me recuso a dar o chavascal. ao fazer seja o que for. de quem sou irmão.E para que o quer a Confraria se. e o Calhorra. que voltava de estendedoiro. lá vem um dos sócios .Olhem.Essa é boa!. o que não escapou à observação de Manuel Torres que acrescentou: Mas que tenham andado ou não tenham andado com pesquisas. 17 . ou. um pouco pela rama. . que sou. são os próprios mesários que andam apostados para me aborrecer do terreno.

. esses. ao Sul. . lá vão..e apontava para o Augusto.B. Medo cagaço é um.. Mal logo seus lábios delgados se fecharam apressadamente sobre esse sorriso. olhos em que uma palheta de azul parecia pela mobilidade e ligeireza uma sardanisca. Diga lá. Na feira de Tendais era tudo cheio que mais dia. de olhos absortos na fita da estrada como o santo do seu nome. chave de égua ou pau do ar? Estrugiu grande risota e o salafrário. Os Ingleses deixam correr e armam-se.O Calhorra.C.Quero . Manuel Torres sorriu e Simão que ficara estático. que penso isso mesmo.O senhor abade é mestre em distinções. . disse: .Para que vivam? Bonzinhos? .Para que viva. cadenilha de oiro a bimbalhar no colete em sinal de festa. Mas. lá aprendeu. .Então o senhor doutor também se botou até a serranada? pronunciou sorrindo. Por enquanto não há razões para sustos. e redarguiu: .Não o diga a brincar.. Trazia um paletó de montanhaque. Que diabo de história é essa do rapaz que lhe foi cavar à leira do Vale das Donas? .Nunca fui capaz de dormir de outra maneira . barbela nédia. no intuito de amortecer o apimentado do despropósito. mas há medo e medo. pernas em aduela. os outros para meterem os tampos dentro à Alemanha. ria com os dentes todos.Era com efeito o velho Calhorra. caramba. . Mas. lá sabe. O Calhorra sorriu novamente mostrando as gengivas muito encarniçadas por debaixo da boa cutelaria da dentuça. Durma em paz. que na sua boca nenhum era postiço nem perdido. Arcaboiço rijo.Pois sim. só por doença. ao Norte. . enxuto de carnes. e não tome a mal que lho pergunte.respondeu.? . sossegue. que ouvi em casa do meu colega da Lapa. uns ou outros dão o salto. Atravessou a estrada direito a eles. desdenhoso. seu Silvestre! . ... já que dá sota e ás em tais artes. dava Esmolensco como evacuado. como presidente da junta. Calhorra.Olhe lá.Não é asnático de todo.Ora.. e na cabeça um barrete de pele de coelho que deixava escapar por detrás das orelhas as farripas ruças da grenha. a Portugal e Espanha .. e Nicolaievo.. A B. amigo Calhorra. . menos dia.... Ouvi dizer que está aí quando a gente menos se precata. Temos de resistir aos agressores. .. cortando na Rássia como faca num queijo.disse o doutor depois duma pausa. alto. por agora não deve estar no plano. . .e casquinava. de 18 .. grossas botarras de bezerra por cima dos fenomenais joanetes.Para quê? .Com sobressalto. com certo ar afrontoso para o velhote.Os Alamões para arranjarem urna cunha no mar contra a Inglaterra. sempre gostava que me esclarecesse numa coisa: qual preferia apanhar pelas pousadeiras. oscilando duma para a outra não obstante a bengala a cuja forquilha de rangífer se encostava.. . vá mobilizando os cabos de ordens.A Malhadas.. franzindo os lábios.. ao recolher a patorra larga e calosa. como quem por desleixo abriu um escano que se deve conservar fechado. disse para o doutor: O Duarte Ladeira foi-me dizer a casa que Vossa Senhoria me queria uma palavra. Os Alemães. e medo receio que lhe levem o cereal e as vaquinhas é outro. .Vem a fugir à guerra. deformadas por cinquenta anos de cavaleiro à chuva e à neve.retorquiu agridoce.

havia de subverter quem se lhe atravessasse no caminho.? Manuel Torres sorriu. . O senhor não sabe o que aconteceu aqui perto? Então eu lhe conto: Em Raposeiras do Crasto um rapazote disse para o pai. Vem tudo de fora à ponta de bilhestres. que era o Calhorra..Você está a caçoar. mas hoje falto à missa. mesmo por debaixo das casas. Sou tolo. Vendo-se assim desfeiteado. posto o Calhorra fosse um velho de cabelos brancos e presidente da junta. Sim senhor. Calhorra! Se não sabe o que lhe falta. Não levou. sim senhor. que há uns anos apanhou a cornada dum boi e ficou a andar de esguelha .” Pai . Queriam romper adiante. podia ser sábio.Escorropichado o quê? Sabe-se lá o que está por baixo da terra?! Às vezes dá-se uma ferroada e salta uma panela de libras.Está bem. Vieram apurar mais tarde que só naquele meio tempo tinha ajeitado em minério para cima de quinze contos. ao passo que a detinha com um sinal. se mete a província de Salamanca. Que direito tinha ele de o insultar? Manuel Torres com um gesto remeteu-o ao seu lugar. ao passo que de boca torcida ia rouquejando: . . senhor pai. não o tolheu. e trataram de explorá-lo em comunidade. Quer vomecê saber. mas o Calhorra não tinha já escorropichado o filão.. esburacaram a calçada e atiraram com um ror de casas abaixo. se ainda lá não chegaram.Olarila? . Também já lá não há velha que deite galinha. Este cão podia ter tido a sorte de ter dado essa ferroada no meu Vale das Donas. tendo pulsado com certo respeito o modo feroz como a máquina de cupidez. como se ali estivessem por demais.Deus me perdoe. mas por modos o bispo não deu licença que passassem por baixo das campas. Açúcar. levou-lhe alguma coisa? Logo à simples pergunta se viu o Silvestre Calhorra encrespar-se todo. mas ele.. missa a menos. grande e pequeno.riu-se por lhe parecer maluqueira a tineta do filho e. nem arrefenta. Dia a dia a encher. Descobriram um filão pelo povo acima. Pois à hora do almoço o catraio não tinha voltado e foram procurá-lo. se meu pai me tem ensinado para doutor..banda com a mãe. massas.e a voz de Silvestre Calhorra era gutural.Produziu danos. certo domingo.. O que os há-de matar é a soberba. sonhei que na nossa tapada há das tais pedras negras e hoje vou para lá com as vacas mais o zagal.Olhe.. quando foi à cama chamá-lo para a missa: “.? Os ladrões confessam-se. . Tudo está no se. Maria Aires ia a entremeter-se. como missa a mais.Eu sei lá o que este ladrão me levou da leira. se mete a Galiza.. Lá andava na cavação. nem dona de casa que amasse pão. ali pôs-se tudo a trabalhar: homem.. tanto monta que fossem seixos como diamantes. em Ceiloes ficam todos ricos..exclamou um capucheiro que se viera critremeter na roda por sua alta recreação e era o velho Cassiano da Urra. mulher. podia ser grande. arroz..!? Mais valia ter-me ido à tulha que já sabia o que me faltava.. Augusto deu um passo à frente com ar respingão.vossoria deve ter ouvido nomear o Joaquim Fusco.Aí é que me dói.Como o filão ia pela calçada acima. saída do mais fundo do seu ressentimento. há anos? . já ninguém pode com a vida deles. Portugal é pequeno. nem aquenta. . uma vez em marcha. Levou-me talvez uma fortuna. . 19 . Prosseguiu o homem: . E o seu olhinho azul chispava. é às rasas. Quer ouvir?. O que tem mais graça é que chegaram de valado até o cemitério. . replicava: .

O volfrâmio é-lhes vantajoso na guerra. Agora é a peso de oiro. o alemão. que já o automóvel rompia marcha depois de o chauffeur e o capataz se desbarretarem a Manuel Torres em quem tinham farejado pessoa de qualidade. .. o que se chama governado. neto da extravagância. topa-a-tudo e frascário de marca que blasonava trazer três ao ganho e não lhe escapar solteira ou casada. novote e já dado aos sete oficios como o pai. o Quim da Urra. para mais que nunca para menos. O Silvestre recuou dois passos. amanhã são capazes de se engalfinharem mesmo aqui em nossa casa para saber quem o leva. e benzeu-se: . contratador de “ratinhos” para o Alentejo. flexuoso e sorna. mas não indispensável emitiu Manuel Torres. Depois. olhos garços no anegralhado da tez. Está a entrar muita massarocal.Qual o quê!? . .A como corre o volfro? . arrematador de travessas para os Caminhos de Ferro.perguntou Silvestre Calhorra.chalaceou o Urra. O Reganha esteve calado a ouvir e subitamente botou alarde: . Sem o volfrâmio não podiam fazer guerra. .Tem algum que queira vender?. o Reganha da taverna. e até o Gregório dos Santos. Se tem. o Zé Francisco. que ouvira uns e outros. o tanas vêm cá.Para ortugal ficar bem. apinhada à volta: Pagamos as horas extraordinárias a dobrar. filho bastardo do Fráguas.E alguma escorre para a sua gaveta . dizia com arreganho para a rapaziada..O Tadeu. . . sorriu. barbeiro de Pedrões da Nave. com certo ar de não presta nos lábios finos. que aplicava a si próprio o tonilho: sou filho da fortuna. que já fora marteleiro na Sobriga. o inglês. ao que consta.contestou o Luís Ougado. mas com ar de completa abstracção. Na Sobriga os jornais andam sempre adiantados dez tostões.Portugal desta feita fica remediado um par de anos.Em nome do Padre. Qual. com grande ferro da parentela. de grande barrigão e maior febre de enriquecer. . ao que parece.. vendido ali ao balcão a quem mais desse. . . e ficou a ver o capataz da Sobriga que. põem o burro do português de picareta. como catalisador na produção da gasolina sintética.Além de dar uma têmpera especial aos aços. sim senhor. “à base de separadora”. . Cachorro de mim! A última palavra fora proferida de arranco como uma golfada de sangue e remorso. o Luís Ougado. para fazerem a guerra bastava ter unhas. má rês. cabeça robusta de Sansão. do que andam na Tojeira.. Agora. não se deu ao incómodo de rectificar o arrazoado do homenzinho. o Asdrúbal rico que tinha dinheiro nas lojas de todos os lavradores e emprestava aos famintos pão a quarta.E vai subir .acrescentou Tadeu. e já é uma sorte pagarem o trabalhinho! 20 . Pagamo-lo a 350 escudos o quilograma.. diga lá. utilizam-no os Alemães.. chamado à cabeceira do Cota Velho que estava com a morte no gasganete e. engajador. do Filho e do Espírito Santo. cabaneiro onde melhor lhe ventava... uma algibeira de pedras é um dinheirão. adiantando-se. ao tempo que punha o carro em andamento.Ingleses e alemães disputam-no como gatos a bofes. o minério havíamos de ser nós a tirá-lo. não acabava de despegar. Atraídos pela pessoa do senhor doutor tinham-se aproximado mais paroquianos: o José dos Cambais com as suas suíças do tempo das almotolias de barro e a moeda de jarra ao pendurão do colete desabotoado.

mandava ajeitar a uma pedra a égua rabona.” . Os amigos ficam. Ninguém o sabe à primeira. para nós é como se tivesse acabado um mundo. vocês do mundo pescam menos que eu de lagares de azeite.M'amigos.. Para acreditar é preciso ter-se a barriga cheia. Declinava o sol no horizonte. duas fèveras de centeio e uma ovelha tinhosa a roê-las. seguiu estrada fora a tomar o fresco dos montes que a ardentia a meio da aldeia era mais sufocante.exclamou em tom de galhofia o Quim da Urra.redarguiu o Calhorra.. ladeado de Silvestre Calhorra.? O povo reza e baila por força do hábito.. mas já não acredita em coisa nenhuma... embora não tivesse a mania de chorar-se. A certa altura. vai senão quando. arrastados nos volteios. precisamente na direcção que o padre tomava. estava-se marimbando para o bispo! Hem?. e era agradável ouvir aquele reportório dos tempos. mas algum volfro foi e não tive por mal empregados os aguços que paguei .. não dá laranja. que trazia a concertina debaixo do braço: . ainda que estragasses mais que Pedro Cem. que o Aires fora buscar à quinta do José dos Cambais e vinha a mascar a última bocada de palha. e ele o que tem é larota. na pessoa do Zé Francisco.. Pode muito bem ser que uns metros abaixo das tuas patas.Quer ouvir. estacou para replicar ao doutor que dissera: “O povo tem fome. antes de colher. . Dá-vos para o riso?? Ah. entretanto.Não trouxe nenhuma carrada. o velho oscilava como um traquitana de molas derrancadas e a sua marcha era incerta e claudicante. És um asno? . nem fosse próprio dos seus olhos ver os horizontes em negro. Não vieram mais invernos. rapazes e moças. vá andando. Sim. vá de roda. Manuel Torres. haja tanta riqueza.Vou-me lá com Deus.. o que se avista é mato e penedal. em tom de desprezo e piedade. disse para os de Mouramorta. Agachouse a ver o que era e. não dá bêberas. meu bolas. Pode crer. meio borracho. Uma vez feitas as despedidas e bifurcado no aparelho.Diabos levem a cainheza da nossa terra? Não dá uva. Não queremos obrigálo a acertar o passo pelo nosso. muito menos tu que andas no mundo por ver andar os mais. vá de vira. o Luís Ougado proclamava: . Pois fiquem sabendo que à minha bisavó ouviu minha mãe contar que uma vez passou por aqui um homem e lhe aconteceu tropeçar no caminho. esses 21 . Largou a trote. O bombo trovejou a chamar o rancho disperso.Tio Calhorra. perceberam que dizia: Que diabo de terra é esta onde o oiro anda aos pontapés! Armara-se o danço dos romeiros em plena estrada e.. vomecê se se apanhasse com o baguinho que lhe rendiam hoje as pedras tiradas no Vale das Donas. Mas ia dando à língua de coisas e loisas sempre com o seu sainete. Aldemenos havia de haver cá da melgueira com que arrotam os de Ceifces e da Raposeira! Não me venham dizer que Deus é pai de todos. No meio da rua.A gente sabe lá o que há por baixo do chão? . Dizem que trouxe uma carrada. cospe-se às mãos. pelo meio.. A despeito do esforço que fazia para mover as pernas trôpegas e manter-se com aprumo. . Volfro há-o onde Deus quer. . Deus é pai de quem lhe dá na real gana?.! . e viram-no baixar a aba do chapéu contra os raios que lhe batiam nos olhos.O senhor abade tem boas pernas.? .Simão Tadeu.Donde veio a Pêro falar galego? .observou-lhe o Calhorra. mas reza e baila. reza. lançaram ao vento paixões e cuidados. tanta que não fosses capaz de a gastar. e principiado outro. para onde quer que se deitem os olhos.

Este alma do Diabo levou o bácoro à feira e lá o deixou quando precisava de o cevar para casa que os meninos andam esgorjadinhos.. Mesmo assim. Andaram aí a ele pelas portas este José Francisco. O velho ficou calado um instante. este teve que ir pedir ao abade as duas notas que lhe faltavam.. e um tal Leónidas.objectou Manuel Torres. Agora repare o senhor doutor. Este ano ainda foi uma felícia o miné rio render. A vinte por cento e é para quem tem padrinhos? A Anastácia. Depois. Agora algum haverá.olhos assim.? Então ouça. o Sanchonas que não se cansava de fanfar contos de réis e carros de centeio? Vindo pela rua abaixo. o mesmo é que o mamposteiro do pai. . e areia aqui.. não quero que haja! apanhou-lhe um quilo de volfro. Imagine o senhor. o mal todo é que há gente a mais nesta terra. Logo no cimo do povo temos o João Sancho.Há lá volfrâmio a rodos e não é cobertos com a capa do santinho que vocês o hão-de explorar. por uma sorte.Não. capazes de descobrir um grão de painço nas corgas da lua. Você sabe ou não sabe o que há no Santo Antão? . areia acolá.. . se o Corbet se não enganou quando percorreu o morro. mas foram uns esticados da fome a pagar. Quase ao pé encontramos a Pedralva. Temos o Lázaro Fandinga. Miguel?! Nessa data é que se tira a prova. valeu como bichas a quem apanhou uma sova. do Porto. Vendeu quatro cabras e dois carneiros. Afora o Asdrúbal rico e.Com mais o dinheirito da resina tapou. Por isso os anos andam falhos de mantimentos.Ainda não dei fé dessa pobreza franciscana . sempre lhe digo: os da Fazenda têm a ganchorra dos dedos mais afiada que bico de milhafre. onde há aí lavoira que não chegue endividada ao S.Não sei. Meta na conta aqueles que já lhe vieram bater ao ferrolho e os que estão para bater ah isso tem-no mais certo que as cerejas pelo Espírito Santo e avaliará da precisão que vai por essas casas.. . cresce erva que se lhe pode meter foice.Teve sorte! . Coitado.Mas. distraído o seu espírito para outro quadrante. Vendeu o cerrado ao Asdrúbal rico. o Tadeu falou-me para eu ceder à Confraria de Santo Antão o bocado que tenho na encosta.que ensopavam tanto a terra que era um regalo ver os nabos e os calondros a emborrachar-se e a pular. muitos lá ajuntaram com que empalear os tributos. Aqui está um erro. que possui boa casa. o melhorio do rebanho. Volfro a rodos não deve lá haver. escava 22 . que não perde nada em sê-lo.Há Há?. depois que deram em vacinar a miudagem. Ouvi-lhe a choradeira. isso lhes juro eu.. Uma malina de tempos a tempos é tão precisa como são precisas as nevadas para matar os musaranhos pelas leiras. temos depois a Rita Ougada. A morcega da filha . seja franco uma vez por todas. mas o que se chama boa casa. e Manuel Torres volveu: .. Manuel Torres talvez não escutasse aqueles conceitos tão simplistas como pitorescos. Temos a Josefina. o José dos Cambais. Pois não viu outro remédio senão ir tirar um conto à Manfurada a vinte por cento. porque exclamou de súbito: O amigo Calhorra. Para cá vêm vocês de carrinho. andou com sorte.. que eu lhe faço o rol dos necessitados. palavra. Que é o que lá há? . essa. . mancolitando pela estrada fora. e no cemitério. Sei muito bem o que lá há.

de lenço amarelo a voeiar do ombro a rubisca da Florinda desacravelhava a cancelinha da sua casa. um vivente do tempo de Recaredo assistindo ao recolher dum povo visigórico..Então elha por elha.Não caias noutra. quem sabe lá se aquele pilho te não roubou uma forturia?! Sim. considerou que podia imaginar-se. reverente mas descuidoso. enroscando-se às empenas. Eu deixo-o ir a você escarduçar à vontade no que é meu do Santo Antão. encontrou o Augusto Alres que esperava. Se me mordeu. Quer agora o senhor que lhe perdoe. vozes de pastor. saltando duma para a outra. Mas. já que o senhor assim o quer.? Deixe-me dizer-lhe. Também pertenço ao rol dos escaldados. A sonda é que diz a última palavra. Mas pregar-ma a mim na menina do olho. já que assim o quer.Partamos do princípio que é assim. E olhe que eu gostava do rapaz. )ogam-se as raivas ao vento. despediram-se.. o fumo leve das lareiras espraiava-se mole e caprichoso na atmosfera. eram os mesmos padrões e os mesmos corpos brancos e sujos e. acredite. Anoitecia. fia mais fino. primeiro as vacas. vinte e nove trinta.Trago no estômago. Entendido? O Silvestre Calhorra deitou os olhos em alvo e assim permaneceu um momento. que seja muito feliz. o que lá vai lá vai? Para mim a sua palavra é palavra de rei. tudo por enquanto são suposições. como se fosse a tombar. Mutatis mutandis. latidos de rafeiros anunciavam a aproximação dos rebanhos. notas gordas de chocalhos. cambado das pernas. decerto. resvés com os alegretes. amarrotando-se como uma gaze violeta nas ruas e vielas e erguendo além. Mas. Era a ária de sempre e não valia a pena contestar. rebalsando-se por cima dos telhados. se atestou as algibeiras. direito de torso. Distraiu-se um segundo dos seus pensares para. pronto. um penacho rombo e fantástico. Começavam a entrar os gados. Ao redor do povo. sem forçar muito a nota. 23 . Quanto ao que houve ou há na sua leira do Vale das Donas dá-se o mesmo. não passa de suposições. As donas chamavam as “pilinhas todas” em atraso..aqui. apenas onde havia cotim e estopa pondo grã e estanforte. como um rolho. torcendo afinal os lábios. com a mãozada democrática. isto é. Ao mesmo tempo. espacejadamente. almas idênticas trabalhadas por iguais apetites. estrugiam nas escaleiras de patim a pique os socos ferrados.. Diante da ruazinha que levava a sua casa. quantas noites não tenho eu levado em claro a magicar: “Silvestre. e então? . onde se respirava já o rescendor das roseiras e jasmins floridos do pátio. a acção do malandrete. quem sabe lá”. lhe dizer: . Não se encontra outro mais valente e desenganado. vinte e nove trinta. e a tilintada das campainhas alagava os caminhos disparados a toda a rosados-ventos. você em paga não pensa mais no que o rapaz da Maria Aires foi fazer à sua barreira do Vale das Donas. . pode ser que tire aldemenos com que pague as décimas.Justamente. voltando afogueado da canícula à cruzeta formada pela estrada e o braço da alameda. No Santo Antão. À entrada da porta que abria à sombra das faias. telha de cano ou colmo adensavam-se as primeiras sombras. junto do forno. Manuel Torres. Um instante se quedou Manuel Torres a contemplar o velho Silvestre. proferiu: . Está dito. nos alqueives de pousio. escava além.? . Adeusinho? Sobre a aldeia lôbrega . nos ilhéus de maninho.alvenaria.

e a barafunda foi amainando. mocha! inundou becos e quintãs. com borbotões aqui e além. na teima de ainda não querer passar daquela feita as alpodras para o outro mundo. por último apoiados a uma varinha de marmeleiro . até insular-se no negro silêncio o roncadoiro da agonia do Cota Velho . a vaga montante do pó. Uma voz clamava: os lobos levaram uma ovelha à tia Pedralva! Outra dizia: estramontou o chibo da manada . por minutos. gritos bárbaros: aqueiba! arreta! torna ali. bodum.Os gados entraram nos redis e. 24 . balidos.há dois dias a lutar com a morte.noventa e sete anos sempre a pé.

raras saltadas pudera dar ao filão. oprimidos pela estiagem. e só ao sereno pôde estudar o seu carrego. tivera de esperar pelas noites de quarto. lhes desfalcavam o caudal com que mover os rodízios. as de domingo para segunda. tenteando-o na ansa do braço. Algumas deviam ser de volfrâmío e de volfrâmio puro. opressivo como a morte. Àquela altura do ano. faltara-lhe ajuda.alargou o passo. a avaliar pelo peso e pelo brilho com que acenavam aos olhos suas faces espelhadias. orçando-o depois ao ombro como um alforge. ia acoitar o haver num dos refolhos da mina velha. era o que surriplara na leira do Calhorra. Tendo assentado proceder sozinho. estando a fazer três meses que chegara à terra. E. soçobrada em modorra e no engorgitamento estival. ora por moitas e giestais fora. mas a fugir a encontros passante a Assunção metia-se foicinha aos painços . cabeça embutida nos ombros. não era de contar com sotranqueiros a tornar as águas. que bastaria. Como os texugos quando vão ao assalto das capoeiras. é verdade. de modo que podia trabucar tão afoito como um alfaiate em seu sótão. só lhe convinham. é que ele largava. à conta bem feita. varapau na axila. de pé descalço e sete olhos. tais ecos seriam explicados como manobras dos moleiros. outras encerravam para ele um mistério com as palhetas resplandecentes. surdas uma contra a outra graças ao atilho de giesta. e. A manhã ainda vinha longe. 25 . que não havia grandes probabilidades de que o fossem empecer. se lho perguntassem. depois de dar ao corpo riloído nos malhios o repouso do dia santo. foi-se à mina velha. Levava pedras.erguer o dedo para o Quim da Urra se pôr pronto e lesto. como. e à hora em que nos pauis as próprias rãs enrouquecem a cantar. ora a coberto pelo escuro das paredes.II O Aires. destas. Era mau de levar. rompeu pela leiras de pousio a corta-mato. Calhaus ou pedras finas. a arrombar os açudes que. entrando às apalpadelas. a horas mortas. Em tais condições. Podia portanto escavar. extinta há tanto tempo que ninguém no povo se lembrava de a ter visto botar água. lorgar. para veigas e ferregiais. Estava persuadido. espreitava que homens e animais se tomassem de sono em casas e apriscos. Que levava ali? Ao certo não saberia responder. onde nem Deus nem o Diabo seriam capazes de o sonhar. das vezes que matou ali o corpo. Mas repugnava-lhe meter outrem em trabalhos de que ignorava os frutos. semiluminosas o que basta para ao perto se recortar com nitidez desejável o vulto das coisas e ao longe tudo se diluir na intransparente poalha. Além do mais. estancando as águas da ribeira a montante. E não só não foram. de noite. pá e picareta às costas. E depois de pulsar mais uma vez com os sentidos todos a terra em redondo. maduros os fenos e barbados os milhos. lhe não apareceu vivalma. rapar saibro e calhaus. os grânulos de oiro e verde-salsa incrustados em granito. duma das cavernas tirou o saco com o tesoiro. a bem dizer. quando não eram concretos opacos e ferruginosos como torresmos de forja. Aos primeiros livores do arrebol. Ficava o Vale das Donas numa dobra da planície. mal a Lua apontou no horizonte. para lá da lomba que agasalha o povo dos ventos de sudoeste. puf. Que o ruído ressoasse nas quebradas.

a título de que não queria fazer sangue e. eu ainda sou asno maior que vos não botei o cabresto. . se é capaz! Alguém me viu na propriedade do senhor Silvestre? Se há alguém que me visse. associando pequenos nadas. e não se deixou embair. sem um só momento lhe secar à flor dos lábios o sorriso que contraluz do ditado: medo há Paio. endereçou um volumoso ofício ao administrador que bateu no goro do Reganha taverneiro. um pedinte que tinha o costume de dormir pelos montes. As senhoras testemunhas encabaram as mãos nos bolsos e baixaram a tromba para terra. Novamente convidado a vir às boas. Deixa. que eu já estou amolado! O Calhorra remordeu. dando ao topete e prometendo notícias suas para breve prazo. convidou os presentes a entrarem em sua casa e a passarem uma busca. atingir a pobre da mãe que era mulher séria. nem a brocha dum sapato. e lavradores mais insofridos a madrugar. Com a encavacação. Deu matéria à falação. Sentindo que perdera a partida naquele tribunal de primeira instância. dando a prova como conclusa. na gajice de remar contra a maré. e salta à vista que comeis quanta palha vos caia na manjedoira. Mandou vir um guarda republicano que procedeu a devassas. Assim o pensava também o Alres e iludia-se. e respondeu: .. apareça. desta assentada julgaram todos que ficava a fazer cruzes na boca. a cara do Calhorra estava mesmo a dizer que eram capazes de ir jurar aos Santos Evangelhos pela inocência do acusado. ouviu o moço a requisitória do senhor presidente da junta. ? Vá lá amolar outro. chamando-o a terreiro. Quem seria.O Calhorra. Uma tarde dirigiu-se com dois fabianos a casa do Aires e. Fiel à sua táctica: porfiar.O ladrão é mais fino do que eu supunha . salamurdos e mais silenciosos que penedos no meio do rio. e. depositário da caixa. transitando subitamente para a indignação. ficou de boca cispada para quem aludia ao 26 . Com ar de surpreso. sinal honrado de que o não tinham visto na fazenda do Calhorra.fora a dizer para os pacóvios. verdade. muito menos. pela simples razão que ninguém me podia ver em sítio onde nunca pus os pés. o raio do velho fez duas viagens à vila para inglês ver. De prova material. notou que tinham ido esgadanhar à sua leira.Prove o que adianta. Este. o moço respingou alto e feio: . Agora. cozido em fel e vinagre..Vocês não passam duns asnos chapados. desandou amparado ao sacho do cebolinho. quem não seria. coligindo breves sinais. De inculca em inculca. formulou a acusação. ficou de sobreaviso sem se dar por achado. fez constar por portas travessas que reunira testemunhos mais que suficientes para meter o Augusto na cadeia. Riu ao desfastio e. pastorinhos e criados de moleiro. pois reza. que eu lhe farei a cama! Por injunção sua o regedor interrogou Pedro e Paulo. embora tivesse pacta com o Demónio. Não aparece? Pois não aparece. Desta feita o Aires rompeu a rir. . não. O Calhorra conhecia a arte de negar a pés juntos contra Deus e Santa Maria. Que fazer? Não era homem para esperar a resposta do Santo Breve da Marca. O Aires é que se não tolheu de voltar. alguns ventos veio finalmente a ter o Silvestre do autor da gambérria. Obtido o primeiro efeito. verdade. intimou-o a prantar para ali o que zarpara se não queria alombar com uma polícia. Os compadres é que não eram da sua força.Qual boas nem más! O Calhorra julga que isto é terra de pretos e arma em Gungunhana . de quem se dizia que estava para nascer quem houvesse de lhe fazer o ninho atrás da orelha.

Tal não era o caso. não destituído de azedume. com o qual o dono da terra nunca contara. era um cantar. Manuel Torres em Malhadas. disse para consigo e para com Deus: “Se não passar dentro de dez minutos. E com enfado. com a imaginação alvoroçada pelas histórias maravilhosas do volfrâmio. E ninguém melhor do que ele o encaminharia na barganha do volfrâmio. Inflectia ao mergulhar em Rabaçais para. que estava soterrado debaixo do solo arável talvez a muitos metros de fundura. Arrumada a pendença da banda do Calhorra. Se fica em Mouramorta. cantil e bornal a tiracolo ou coelhos e o seu lebrão à dependura do pau. Dali até Mouramorta. Agora o “não caias noutra” era outra ária. menos que uma unha negra. tão bem defesc. tanto mais que o estrago que dera pagava-o um chavo galego e ainda recebia troco. é que fica em Mouramorta. Sobre a tarde. com o vento que soprava de feição. mal apeou o Dr. e nem o cairel entrevira. a lei parece que atribuía certos direitos ao Calhorra apenas pelo facto de o filão passar no subsolo da sua fazenda. não entrava por coisíssima nenhuma no seu valor imobiliário. rosnasse. e muito longe de propósito. quando já tinha disposto as últimas couves. à relha como ao alvião. amargos de boca. Era a uns seis quilómetros de lonjura. sinal de que ia estalar o látego . Sentindo o motor. Farta de o ralar e de ralar-se. era preciso que “ aquela” estivesse acabada e começava. ressoando muito mais ao largo. se não remorsos. nem um ceitil espremera à Fazenda. deu com os burrinhos na água. Privilégios como aqueles estavam riscados da sua cartilha. 27 .e a simplória de sua mãe caiu na ariosca. batesse o pé. desprovido de senhorio como o sol. chiada de eixo. lembrava as partes gagas a que a mãe o obrigara no dia de Nossa Senhora da Lapa. Além do mais que houvesse costeado precipício. que Deus manda por igual a todos? Sim. por outra. aprontando-se em menos de nada. arremeter após breve torcicolo pela encosta sobre que assenta Tendais do Palva. Era ela. a estrada desenvolvia-se em perfeita chapada num galão inquebrantável. o rumor dum automóvel que descia a costeira de Tendais.” O carro não passou e. ou do Antoninho Fráguas. Pelo menos não se justificava a recomendação sem que da sua parte existissem. como o ar. como a chuva. pelo abrupto e articulação às serranias que esteiam o rio. a grande caixa sonora que alagava a planície com seus barulhos e motins: petardear de motor. Ali estava como o cão do Calhorra conseguira levar a água ao seu moinho. chegara-lhe aos ouvidos. que rumo tomar? Todo o dia de sábado. dois quilómetros andados de pendor. Pois porque é que o minério. desvendando a tramóia. Para tanto. malucou no problema. O senhor Severo Bacelar devia por certo lembrar-se do catraio que muitas vezes o apajeara na caça. Repeso do que fizera. ao passo que replantava a horta do Casal. mas nem sempre os seus preceitos se ajustavam ao critério da gente honrada. Por consequencia. não havia de ser de toda a gente. meteu a caminho de Mouramorta. era-lhe totalmente indiferente que o Calhorra rangesse os dentes. Deus lhe perdoasse! Lá que o doutor atafulhasse a boca do mamposteiro com o trancanaz do Santo Antão. foguetório em dia de festa. Tratava-se de coisa comum: como tal pertenceria ao primeiro que lhe pusesse a mão. é do engenheiro Severo Bacelar. ano após ano que viera a férias.caso. A lei era a lei. quando à falta de gasolina a maior parte dos automóveis jaziam de baterias descarregadas suspensos sobre matacões. mas a onda sonora ultrapassava Malhadas.

ermos ou bosques. Ia entretido com a feira interior. tal como lhe toava ao ouvido. A dúvida está em meu pai. a senhora D. cortou uma borda ao pão. quando não eram daquelas que. pé ante pé. Iria às minas. que encontra lá o senhor engenheiro. o Zé Francisco. voltou para Malhadas. Pelo que ouviu e ainda mais pelo que lhe foi lícito adivinhar. A tia de Severo. Tropeça aqui. do pio do mocho. Mato ou restolhal. nada mais que da brasa semimorta que o folezinho da aragem aviventou no deserto de cinzas das queimadas. sobrepunha-se a todas as outras: . duas febras ao presunto. que viera em pessoa atendê-lo. Deu-lhe baque o coração e escondeu-se. tão indiferente a tudo o que não fosse o seu carrocel como refractário aos medos e fantasmas que a imaginação a cada passo condensa no escuro duma giesta mais esquipática. escalava-as e toca em frente. depois de ceia. provavelmente para dali seguir para S. Noutro dia tornou-se-me a sair com a ladainha: “Quando o mariposo lavrar quarenta pousadas e colher um carro 28 . Se não queria ficar empulhado tinha que se despachar. Anda muito atarefado com a montagem da segunda lavaria e já o domingo passado não veio a casa. lamentando apenas não haver tomado mais cedo semelhante resolução. fugiam-lhe da boca pragas que faziam tremer os santos nos altares. fora o Antoninho Fráguas. Ouviu sem arrepios os lobos uivarem para os cerros fronteiros a darem senha da sua passagem. ficou a saber que tinham ido em prospecção à leira do Calhorra no Vale das Donas e que. Neste intuito. ora entreticio com Teodora. afocinha além. maviosa sem deixar de ter uma pontinha de travessa. Augusto. o zorro. entrepostas como rendas de courela para courela. dissera: . Mais de uma vez se acaçapou até se esvair na terra fofa das almargens o tamanco do guardão de meloais.Mas andava com azar. mas ânimo? Regarás a terra com o suor do teu rosto . ora molhado. e altas horas. escorrega ali. Afinal. As paredes.Bem sabes que em nós não é que está a dúvida. A certa altura do caminho. Quem chegara de carro. se propunham chamar um dos práticos do senhor Corbet. Marchava pela estimativa. como se ali fosse em pessoa. incertos quanto à Importância do jazigo.Vá à Sobriga. a voz de Teodora. à pata. Brás. ora a pés enxutos. que o tempo podia conjurar-se contra ele. nada lhe fazia torcer caminho. acabou-se. lobrigou o Fráguas que subia uma das canadas que por entre pinhais vão dar à ribeira.dissera o Padre Eterno se o Mestre da Vida não mentia. saiu de casa. Vinha a cavalo e ao lado. que é relho e terrabinto. muito raramente pelas pontes. e ali ia. Nas abas duma almuinha saltaram-lhe os sabujos à frente. De facto os calhaus pesavam mais que o esquife quando agravado com um defunto. direito à Sobriga com aquele horror de carga às costas. para não acordar a mãe que escusava de conhecer as suas aventuras. norteando-se pelos oiteiros que lhe eram familiares e estavam inscritos na sua retina como melhor não estariam nos mapas. Na noite de domingo. tupa que tupa. se deitam abaixo com uma patada. Estava inteirado. O suor que lhe merujava as fontes e as espáduas era portanto de lei. Irene. boa estrela o guiara. Ora repassando aquele brequefesta de sexta-feira da Assunção. Deixou-os desaparecer na ladeira e meteu para Malhadas. e nem se deu ao incómodo de enxotá-los. No arraial que armara dentro do seu selo. Os corgos lá os ia atravessando como lhe era possível. que por sinal estacionava diante da taverna. a enormidade do fardo lhe era leve.

à dinheirama que lhe entrava pela janela. se não ajustar-se. e entrevia-se nelas estas criaturas plurais que forjicam o bazulaque às maltas. Que haviam eles de comer naquele pedregulhal espesso. que. quase seres doutro planeta. não era por causa da saúde de tal gente. Ainda bem. por baixo da sua inquietude uma voz inquiria: era aquilo preciso? Parece que sim. E ante o ar de ferocidade que se evolava da tenebrosa fábrica. Poisando o saco. sem um lezim com húmus para que pudesse vingar raiz de sarça ou de codesco?? Com semelhante piso a marcha era escabrosa e titubeante. baixando da serra. Ao fim do primeiro estirão. nem rocha viva. nem sinal de pascerem por ali os gados. que a sua sensibilidade vibrava. O que o sobressaltava à vista daquela metrópole de escava-terras era ainda e sempre o motivo pessoal. homens mais andrajosos que ele no fito de retomar o trabalho. pouco mais adiantado estava. afinal. mesmo de trabuco na quadrilha do Olho Vivo. De caminhos afluentes desembocavam mulheres com cestos à cabeça ou o seu molho de tangos. O Fráguas. tinha os pés macerados como se acabasse de fazer jornada de muitas léguas. o mar cor de creme era a terra vazada dos desmontes. nem penedia.” Conhecia-lhe a doutrina. Do picoto daqueles autênticos paranhos do Diabo distinguiu afinal a Sobríga com barracas e instalações semeadas. encomendas das lojas. Foi-lhe amanhecer no termo de Covelo. da banda de lá da qual ficavam as Minas. uma vez que nascera fora do curral. Para que um dia chegasse à escudela. Por ele fora marchavam isolados e em bandos. que deixou à mão esquerda cortando decididamente a poente pela serrania escalvada. já nem contava as notas. tisnado pela canícula. haviam os escrivaes de borrar muita folha de papel selado. que te venha buscar. pesava-as na balança. uma almotolia. Era uma felicidade que em negócio de teres o Zé Francisco chamasse seus. se assim não fosse. espécie muito afastada dos capucheiros da serra. que é o comum para a mantença duma pessoa que tem os dentes todos. como ele. corri estranheza percorriam seus olhos o panorama truculento. Não se descortinava caminho nem atalho. e der à tosquia dez ovelhas. antes de mais nada para os homens se chacinarem civilizadamente. Que levava ali em derradeira análise? A taluda ou artigo de entremez? Foi neste estado de espírito. Mas tratando-se de ingleses e de alemães.de milho e três rasas de feijão. a tropos-galhopos uma sobre a outra. Enquanto dava ao denre. é verdade. puxou do farnel. tão outro dos agros mansíssimos que alimentam desde o princípio do mundo a aldeia e a cidade. quase cobardia. entre a ramalheira negra dos pinhais. a sua simpatia humana não alcançava tão longe. 29 . que lhe dêem lã para uma capucha e dois pares de coturnos. normalmente uns felizardos. pintada a breu. e o destino dessas nações prósperas e de seus naturais. nem num andor. remedando-o . Mas o filho. à noite e dia e às sombras dos caminhos. podia tratar doutra vida que o Cambais sonhava apenas com dinheiro -dinheirinho. Antes. na vastidão cinérea do mato galego. porque. a mole alterosa. A todo o fundo. a lavaria. mas fraga solta. entrou no braço de estrada que conduzia à exploração. com a bolsinha pendurada do pau ou do pulso. lanchuda.ganho não importa de que maneira. era-lhe indiferente como a água dos rios que caminhava para o mar. maciça como torre feudal. menino! escarneciam dele. dum negro impressionante. senão babau. Na qualidade de camponês do tempo das Sesmarias.

Até bem longe. e outra. Espera lá um poucachinho Que me hei-de sentar à ré. com as vivendas muito senhoris e claras à retaguarda de pequenas platibandas enfeitadas de pelargónios e eloendros. sernibárbaro e feroz. se calhasse. Mais ao largo. com revólveres de ar comprimido a demolir o quartzo. piquetes de entivadores especializados a escorar as galerias. doce ao tacto e maravilhosa de propriedades. descobriu-se o formigueiro humano a seus olhos admirados. em que estava integrado o transportador. testo e sabido na manobra. vinham baldear no monte o carrinho atestado de calhaus em que coruscavam com o sol as pirites e palhetas de volframina. À superfície era como um arraial. falas desencontradas. muitos extraíam o resulho dos poços ou enxugavam-lhes a água para o trabalho prosseguir eficazmente. E. a ritmo acelerado: homens e máquinas. Andando. e ainda a tasqueira que abriu à margem da mina a baiuca de vinho. Perto dali. ou afigurou-se-lhe. homens e mais homens à carga e à descarga . para o morro. altas e cegas. grande caterva de homens abria uma trincheira. ao passar à beira da lavaria. chegou a um dédalo de caminhos. por um dos quais rolavam vagonetas. o dínamo pulsava e a sua pancada mate. Por cima dos gritos. cigarros. Enquanto esperava. e ensurdecedora criava este tónus especial. repartido em turmas consoante a natureza das tarefas. quinhentos a mil metros. provavelmente empreitada. 30 . pés descalços. das bandas do mar. andando. As vagonas descarregavam o recheio da ribanceira para baixo. desprendendo uma barulheira a que era como abóbada o zunzum infernal dos volantes que se não viam. braços arremangados. O Aires conhecia a Sobriga. levava um banco de pedra e saibro à ponta-de ferro e picareta. homem e máquina conjugados. escombreiros. sem cor à força de usadas. e os olhos do Aires ficaram enlevados nela. Rapazotes. Foi direito à Direcção e pediu para falar ao senhor engenheiro Severo Bacelar. mulheres que lavavam a terra mineralizada ao ar livre e debaixo de telheiros. com boinas de homem. por vezes a dezenas de metros de profundidade. de parte duma pessoa de Mouramorta. Crispados às varas dos sarilhos. Era uma ruivita. da indústria moderna. mineiros de guilho e marreta.pessoal complexo. Aqui e além trabalhadores brocavam a rocha. à boca dum poço. se via gente. passos adiante. não deixou de estremecer de assombramento à ideia da obra de magia que ali se consumava: o calhau intonso convertido em farinha mineral. do retinir das ferramentas e estreloiçar das vagonas e raposas.as lavam e remendam. mas das rapiocas e visitas que ali fizera com outros curiosos. comandos. petiscos e o resto. saia colhida entre os joelhos para a água não esperrinchar pelas pernas acima. ao salvar a corcova do terreno. Girava tudo. enquanto a outros incumbia carregar os tiros de pólvora bombardeira. a carne tenra a espreitar das camisas cheias de surro e em frangalhos. Era subterrânea. e logo esse montão de cascalho passava através da passadeira rolante para as mandíbulas de aço dos trituradores. bombas eléctricas e manuais a sorver a água dos regueirões. com uma caradura brutesca em suas paredes a pique. uma rapariga manejava a bateia e ia cantando: ó meu amor não embarques. Agora não é maré. por outros ia e vinha o pessoal particular dos engenheiros e agentes técnicos. mas bem torneadas. que se exercia a actividade capital da mina. foi-se mais e mais possuindo da fereza e prodígio do espectáculo. não como assalariado. pernas vermelhas de perdiz. Não obstante.

dois andares. mirou dum lado. tirou uma pedra e. puxou a contrária e. em vez de levá-lo às costas. meteu-o debaixo do braço.Não presta? Fazia esta manobra com incrível velocidade. O engenheiro riu-se: boa vai ela! Quis desfazer o nó. jogou-a para o lado: .. Então que te traz por cá? Se é para venderes minério. não é comigo. Trago aqui umas pedras. .disse com menos grata disposição. o que lhe exigiu um esforço descomunal.? Estás homem. meteu o dedo. . O que é. mirou doutro... e o cordel ainda que grosso deu estoiro. A uma escrevaninha estava sentado o engenheiro Severo Bacelar.Foi arrancada no lugar das outras? .Sim. Com a febre de ser rápido. cabelo em ouriço. sopesou-a na palma da mão: . por cima da mesa atravancada por diversos utensílios da escrituração e frascos com amostras de minério.Tu não és o Aires.No Vale das Donas.. Mal apanhou o saco aberto.Mas hás-de te despachar que não tenho um minuto a perder. pela larga porta entreaberta.. Virei aí algumas lebres.. desejava que o senhor engenheiro as visse .. nem à segunda. Do vestíbulo.Não presta? Não presta? Não presta! Uma houve. Pareceu-lhe que o engenheiro ficara contente com vê-lo porque pronunciou de ar amável e tratando-o com familiaridade: Havemos de ir às lebres. misto de estação do caminho-de-ferro e repartição pública de vilória sertaneja. finalmente. vinte e oito a trinta anos..Sou. camisola à requeté. ao passo que ouvia o tep-tep duma máquina de escrever sem lobrigar quem a manejava. Tornou a aproximar dos olhos a pedra espelhadia e irradiante. . senhor. Ao vê-lo com o saco franziu o sobrolho.Este ano há caça a dar com um pau.. Bacelar introduziu a mão.. Acabaram por remetê-lo para o primeiro andar. e fitando o Alres proferiu: . . V... a marca o dia e. depois de examiná-la mais instantaneamente que o farpar da víbora.Não senhor. O filão é em Malhadas. . zás. rotulados a capricho. . nó cego.É volfrâmio. em vez de puxar a adequada ponta do nagalho. pregado na parede. Andam por lá muitas brochas dos meus sapatos. sim. teimou em levar o saco. É no baldio? 31 . ? Em que sítio? . Agora já levas escopeta. No calendário. repetindo-se o lance: . . Ex. mas como não cedesse à primeira. eu te direi. mas breve mudou de parecer ao afirmar-se nele: .Estou a ver o lugar. arrancou. que também lançou fora: . Eu mando ensinar-te onde é.. para atenuar a rebeldia. . quando acabar o defeso. enxergou mais de quantos escriturários dobrados sobre as papeletas.Não presta? Tirou segunda.Foi.A Direcção era uma casa de madeira. mesmo filão? . .Bem. Erribora lhe houvessem dito que ali não era balcão de vendas. não é para vender.Está bem. que aproximou mais da vista. desata lá..No mesmo. uma espampanante star erguia a perna e derretia-se num beijo que mandava com as pontas dos dedos a quem punha os olhos nela. segunda porta à esquerda.balbuciou apontando o saco.

de cabelo em sedeiro. Tirava-as e ia deitando umas ao chão. e estava em crer o seu negócio bem parado. negros retintos.. por último voltou à sua taleiga. sobre o balcão das tavernas. concessionário das Minas da Sobriga. Depois de esvaziar o saco com agilidade. tanto o associamos como.Dado que nos interessasse. depois de se referir com admiração à bela ruína de valentia e destreza que era o Calhorra.Para o nosso caso isso tem pouca importância .. manifestou Bacelar a persuasão de que não devia haver registo. não tinha mais que meter a viola no saco. Estavam na mesa uma meia dú zia de calhauzinhos brilhantes. administradorgeral. só deixando um rebotalho no fundo. levantando-se e aproximando-se do Aires. . . mas agora em silêncio. aquele doutor das engenharias. pagaríamos o estrago.exclamou Bacelar ao passo que caminhava para a sala ao lado. pondo outras em cima da mesa. . supondo aventurosamente o seu chefe empanne de vocabulário. Não há registo? Torcendo os lábios e meneando a cabeça negativamente. suas sardas ferruginosas.. . em linguagem levemente matraqueada. debaixo dos olhos de Hincker e em linha regimental.. quase nenhum cabelo na cabeça reboliça e cor-de-rosa. por nada deste mundo denotava preocupar-se com os seixos que cresciam em monte à sua banda. foi ele próprio tirando as pedras com a rapidez de há pouco.. depois olhou pela janela e distraiu-se com o que via.retríbuímos a descoberta. é numa leira do Calhorra.Quer-nos ir mostrar o sítio donde extraiu estas partículas de tungsténio? Se quer e nos agradar.retribuímos . a rir-se e a faiscar em suas manchas de oiro. abstracto para tudo... Alres ficou sozinho. Aires. Severo aprumou-se e aguardou. as pernas dele fazem um arco de ponte cada vez maior. Coitado. Aires teve palpite que estava diante do senhor Hincker.interpôs Bacelar. camaradescamente.. enunciando o termo estereotipado para esta classe de negócios. grandes óculos com aros de tartaruga campudos como rodas de carro.dizia-lhe Bacelar. de copo bebido de dois tragos. acabou por se lembrar das palavras que surpreendera entre o Fráguas e o filho e pareceu-lhe 32 .Traz também o saco . . Severo safou o saco das mãos do Aires. Hincker mal lhes dardejou um olhar e.. espingarda a tiracolo. e o nosso Calhorra. chamada pelo que se passava na ribanceira. gordo. ou lá o que era. olhar de nebri.Do Calhora velho. que mesmo assim virou e remexeu em duas voltas de mão. Sentado à secretária estava um importante figurão.? Vi-o em Tendais há poucos dias. pô-lo em terra e. Era homem dos diabos! O Augusto Aires. . e possessiva e gostosamente pôs-se a malucar na situação. Era o mesmo simpaticíssimo homem. . suas bostelas de verde fúlgido. Que iria ele fazer lá para dentro com a pedra na mão? E foi um pouco atarantado com as perspectivas que se lhe entremostravam que correspondeu ao aceno que lhe faziam da sala contígua.Não. proferiu com certo peremptório. naturalmente para que pudesse vê-Ias e observá-las. pescoço de várias e rubras regueifas. a atenção. falou da tineta que tivera de lhe ir cavar na fazenda arrostando com as suas reservas e má vontade. que ficara perplexo. dir-se-ia. nédio. devidamente indemnizado. O bazarugo porém.. se lhe seguia os movimentos. uma a uma. engenheiro chefe. mas irrepreensível: .

como você diz? . desvanecida à maneira de placa fotográfica já focada. Iam a sair.e sempre os hectómetros pula que pula com a imprevista brusquidão de bonecos do pimpampum. com pinheiros oprimidos pelo temporal.. Quando se acomodou entre as pás e alavancas.. Chauffeur. Ex.. Bem. Rebanhos de carneiros pequeninos mondavam pelas leiras e rabugem que germinara com as águas de trovoada. restolho e matiço. apontando Bacelar: O que o senhor engenheiro fizer está bem feito. largaram.. Pois se assim é e o agente de mister Corbet anda a rondar. Uma sachola limpou o corte. passava direito como o sulco que deixa na água a quereria dum batel vítreo aqui pelo lavar das chuvas. com o senhor Hincker repimpado e fumando o seu charuto.prudente não se calar com elas. varre-se dali o sentido. com a eminência sarjada tão de fresco que dava ideia de escorrer sangue. Ficam à tua ordem. enquanto os homens despiam as véstias e aprestavam as ferramentas. encontraram a fazendinha do Calhorra. quando deu conta que do largo fronteiro à casa das máquinas Severo lhe fazia sinal.Descansa. escurentado ao sumir-se debaixo da terra. insulações monásticas os bosques num fundo de ascese e desespero. Saltaram a cumeada da Sobriga.. já Hincker e Bacelar desapareciam na curva. amigo Jerónimo? .Tentemos.perguntou Severo. e mais de espaço os quilómetros 65. Se merecer a pena. Quilómetro 70. ao quilómetro 74 pára-se. outro automóvel aguardava com operários e ferramentas. . Bacelar disse: . mais poviléus com galinhas espavoridas e cães. . pelo fresco. depois casais meio dormentes. . Eu já te chamo. picada aqui e ali dos toros verdes das canas. 67. face às vivendas.. 68. Terra da meseta plana e taciturna: espinhaços de cão os oiteiros. é um passeio. três horas. estudaram o filão. Ali esteve um quarto de hora... ó Bacelar. A saída do delta de caminhos.. não mais largo que uma fita de máquina de escrever. Mal subiram. giestas negrais. as pedras ninguém tas rouba.Não garanto.. vinte minutos. Depende. Um carro reluzente de cristais e cromados trepidava na meia rotunda. e pulou. De manhã.. muito que bem... E despediu atrás de Hincker. 33 . um nicho de alrrias . Em Mouramorta estacaram à porta do Jerónimo. e baldearam-no para ele sem grande cerimônia. cor-de-rosa além.Cumprimentos.a. Ele. Um arrancão e. alto. se não merecer. não corremos a lebre. Franz Hincker e Severo. vamos lá em acelerado. Fui lá medir umas rendas. Reparando no ar embaraçado de Augusto. o máximo. 66. Em plena massa plutónica o veio de quartzo. espraiando olhos por tudo.Que resolve o senhor Augusto hesitou um nada à procura de palavras que traduzissem o seu pensamento e disse. mas sem retina para fixar coisa alguma. uma ermida. um poviléu e a sua coroa de palheiros ao alto. Hincker volveu para Aires: .Como estão em minha casa.. o chão parecia chamuscado. Aires quedou à porta da Direcção. já hoje estive com a tiazinha de V. precipitou-se de dentro em mangas de camisa. 71. percutiram as picaretas e os grandes ferros pontiagudos e. pastores e ovelhinhas pelas rampas. Perante tal revelação engenheiro e concessionário trocaram um breve diálogo em língua de que não penetrou patavina. seres danados sabujos da serra que arremetem investidos de quanto rancor aflige os que andam à pata. você não pode guardar para depois do almoço o que tem a fazer e damos lá um salto agora de manhã? Em duas. que já conhecia o carro. suspenderam-se à entrada da curva sobranceira ao vale. A menos de cem passos. Depois do quê.

e Pedro. vozes. corre. a poupa tocava-lhe cornetim. Em menos de nada ajuntava-se no chão a bicheza toda da aldeola: descalços e em mangas de camisa aqueles que a novidade surpreendera a virar a tigela do caldo. de todo anacrónicos e sem dignidade para o tempo dos camiões. boquiaberto.Lá em baixo. com as pilecas a bater a ferradura e a esgrimir a cauda. até se alapardarem à boca da escavação. lhe dessem um gole de água.O que lhe havíamos de dar era lume a beber? . Depois avançaram os zagais. com a sua percentagem de tungstato de ferro e manganésio. com a sua roga de serradores. Trazia o seu velho barrete de caçador de lontras. Apareceu primeiro o velho Cassiano da Urra.. mais Paulo. deixavam ir o carro à mercê dos bois. pessoal das resinas e gadanheiros.roto o banco de granito em seus folheados e lezins. estremando umas pedras. idas e vindas. há uma nascente . Mais de uma vez os pesquisadores tinham enxugado o suor da testa às costas das mãos. Mas já Severo chamava o piquete a abrir passos adiante nova sanja. pondo tais e tais de remissa. . meio nus. A segunda trincheira. arrimado ao sachinho. Vá. e até almocreves. mas via-se que fora pôr a samarra de montanhaque por contrastar com a camisa enxovalhada e as calças de cote e.que batera a hora do almoço quando lhes saiu pela frente o Silvestre Calhorra. ramelosa e esguedelhada.bravejou uma velhota. 34 . forneceu a mesma mistura de arsenopirite e sulfureto de ferro com a proporção equivalente de volfrâmio. . sucessivamente. embora com suspicaz sonsice. E a tanto alvoroço.ó Mabília. Entretanto que a pesquisa tomava amplitude. trazidos ao acaso. outros de roçadoira. Canícula. como sempre. de apartar o minério. de ir observar e meter o bedelho. Era o comum dos jazigos metalíferos da região e Hincker e o engenheiro foram percorrer os campos à roda. estendendo o braço a apontar. uns de enxada. entretanto. que se postou desconfiado e quieto como um raposo por detrás duma giesta. deitando outras fora. Secou . mordidos por saber. conglutinadas de cassiterite e mispíquel. nem uma feira franca. que acrescentou de seguida para uma pequena.disse o Aires.. depois de breve troca de impressões com Hincker. . por especial favor. Caía um sol de rachar. vai tu buscar uma cantarinha de água. afluía o gentio. descalça. de chapelão e calças de estopa os que andavam pelas eiras na debulha dos painços. Hincker veio acocorar-se ao lado deles. a ganga estoirou e foise fragmentando em estilhas multicores. a molhar com a língua os lábios abrasidos. à sua beira: . E lá iam levados a passo de carga pela resteva . cavada à lufa-lufa debaixo da vista da gentiaga que engrossara e apertava cada vez mais a roda. O capataz e Aires trataram. ao pé dos penedos. Um deles pediu que. Dois homens encarregaram-se da fita métrica enquanto um terceiro de caderno em punho ia tomando nota. Tendo-se por inteirado. O homem ficara parado. com uma capuchinha de menino não maior que o capelo dos gabinardos. oscilava de perna para perna. Não longe. As cigarras nos urgueirais erguiam uma cantara destemperada. satisfeita com a ardentia. que era homem de curiosidade imediata.advertiu a velha. mulher? Uma sede de água dá-se até ao diabo do inferno. frigidas pelas moscas. aos saltos que nem saguis. que não podiam deixar.A Mabília chega à fonte. aguilhada em punho os lavradores que. Severo mandou medir. o Zé dos Cambais.

.. Antes deste pendente . . Hornens! . e já o seu interlocutor recargava vitorioso: . como os militares em diligência. Não lhe perdi a posse.Não senhor.. ...Para que são as meças.. mas aduela de grande bojo. Se não fosse assim.É da lei. meu caro. Estava longe de o supor aqui? Homens. O prático. meu amigo. mas os senhores e que não contaram com ela. Pernas em acluela. Hoje estou aqui por obrigação.? Entramos no que é seu. O chão cá lhe fica.? . mas haja ele cá oiro. encolhendo os ombros.tornou ao cabo dum momento de circunspecção. amigo e senhor Silvestre.regougou o Calhorra. . mas vão levando as túberas..Sou o dono deste chão. onde tinham ido em prospecção..Vossemecês saíram duma terra que é minha e estão agora a pisar outra que também o é.? Os três homens continuaram na sua. andaram a cavar na nossa leira e tiraram muito volfro. se eu consentir. Tiraram muito volfro?? .Tanta gente.... o engenheiro dirigiu-se ao Calhorra: .Viva lá? . de se atravessar na linha que seguiam os dois mensuradores.Toca para a frente! . Ninguém lha rouba.. Mas o apontador gritou para o que pegava à ponta da fita: . se fosse de escopeta atrás das ruças... a sua parte é sagrada.? proferiu silvando. com uma topetada de cabeça remeteu-o para Hincker.repetiu o Calhorra em voz repicada de furor e espremendo as palavras.É verdade . achando jeito..Vem errado? Bata além àquela porta.E a saúde do senhor engenheiro boa? Estimo.. diamantes.respondeu Hincker. Mas entre nós não há azar. estimo ouvi-lo.. estimo. como se haviam de reconhecer os jazigos filonianos? O Calhorra pareceu um tanto desconcertado perante razões que apreendia apenas pela rama.Toca para a frente?!.Olá. pariu aqui a galega? . . ao passo que rosnava: . está a ouvir? . lá foi onde lhe indicavam.. olá! Então riiinho. repousando numa para se estribar na outra.Senhor avô. Palpitando de salto o que ocorria.Pois sim. À voz mais áspera do Calhorra convergiu para ali todo o peso do gentio. hem.Salvou como rezava a sua cartilha de homem bem-educado e importante: . sem embargo do tropeção. Toca para a frente. mas há volfro. E quem lhes deu licença? A pergunta dirigia-se a eles por inclusão de partes e os homens ficaram um segundo interditos diante do rompante do jarreta.Descanse que é indemnizado do prejuízo que se lhe der. Severo e Aires.Não me consta que cá no meu terrunho haja oiro ou prata.Ora para que vivarn! .. e alertados por tal movimento apressaram-se a voltar do oiteiro próximo. ou perdi-lhe a posse. que eu saiba. Uma mocita feia e suja veio a correr para ele: .. prata. não lhe perdeu a posse. sem dar cavaco. que não era fingido. derretendo-se em amenidade. . 35 .e apontava o Aires com um desdém.. . . É então o dono? Pois tenho multa honra em cumprimentar o senhor proprietário . mas agora num aparato destes.. sim.

. Teu avô fazia parte da quadrilha que assaltou a quinta do Ferro. Não haver uma tranca bem mandada que desanque um para exemplo? Onde está a lei que autoriza. Dou-lhe a minha palavra. uma mulheraça ruiva que era caseira do Fráguas: . Não ouviram? O apontador tomou nota. Estou a vê-lo na eleição danada que sustentámos contra os de S. ouviu-se murmurar no meio do monte de gente a voz da Ana Ruça. como se faz em toda a parte.De quem é. faz costas comigo. mataram-no os desgostos! Perdi. Tens a quem sair. Sim... Confronta pelo sul. avançava para o Luís Ougado que recuava trémulo e de caradura torva diante das suas mãos crispadas. aqui presente.Ninguém sabe o nome do proprietário? . Minha não é. Onde um patear. já eu tinha dado no vinte.Esta e aquela são do senhor Silvestre Calhorra. perdi ali o meu grande amigo? . de trabucos aperrados à boca da urna: Silvestre. Mas uma rapariga. e ainda queres que te peguem na candela?! O que tu precisavas sei eu. dificil de dizer se artificial.Raios te pelem! . cadelo? O Aires.Mas estacou?? .. cobrando o natural: .Vejam o desaforo? já uma pessoa não é senhora do que é seu.Tu vens roubar com os de fora. . . .Tal pai.respondeu o nomeado. de quem é a terra? . Algum minério apurei. mas depressa reagiu. Venho aqui à luz do dia. se compungida. Brás. o Aires julgou-se obrigado a intervir. num crescente de cólera. O Augusto Aires ficou um instante entupido. Levantando os olhos do papel volveu: .aqui andar a ciscar. sita ao Vale das Donas.? . meu homem.tornou o apontador. como se chama? Premaneceram todos calados.Hábitos de ladrão tens tu. Tua mãe foi apanhada uma noite com um amigo a assaltar a tulha da Javarda Velha. pateou o outro! Deus lhe fale na alma. tal filho? O Severinho não lhe herdou só os bens. e tu chamas a isto roubar?? Se eu te rebentasse a alma. é provável.e espremia uma lágrima.. surgiu de rainha Santa Isabel: 36 .Olhe.. Fez aquela promessa com tanta franqueza e sinceridade que o velho enterneceu-se e disse: . toda lépida e espevitada. não sei ainda o que vamos fazer. o amigo não há-de ter razões de queixa. lá em baixo. a uma distância de 270 metros. .. O proprietário daquele chão. herdou-lhe as maneiras e a “ária”.Sei lá. Depois.. Os homens da fita vieram para Severo: como se chamavam os homens das sortes? . Luís Ougado? ..supremo remolhado de ódio . Quem risca é o senhor Hincker.Temos: ponto de partida é a trincheira que se vê muma terra lavradia de Silvestre Calhorra. É provável que experimentemos o filão. que os bebeste de leite. Vêm estes ladrões lá dos quintos e toca a devassar.Tia Polónia Fandinga. toca a virar a terra de baixo para riba. contra o atalho de pé posto. Dado que assim seja.observou Severo com afabilidade. com. não obs tante se futurar pela hesitação que o dedo dunguinha lhe advertia ser melindroso fazê-lo: .. Em virtude do silêncio que se congelava num tal concurso de pessoas.

deixava-se ficar às espaldas da multidão para se não ver na contingência de dá-los ele ou alegar que os não sabia.proferiu ao passo que assentava. a distância do poviléu. O tumulto não amainava e ela repetiu: .É de sua mãe!? . pronto! . .O que o senhor quer é saber quem é a dona da leira retorquiu ela toda dengue. para este. vexado pela estupidez humana. muito surrona. conversava muito camarada com Silvestre Calhorra. A Ana Ruça. procurava esclarecer a turba: 37 . puxou da carteira e escreveu: “Excelente amigo: Se lhe não custa. compendioso. ante a perspect 'va nada risonha.Não me admiraria nada . Diga lá o nome dela. temos uma corga de tojo. resmungou: . Perdoe o incómodo mas.Chamo-me com a boca . Estão assanhados à ideia de que viemos para lhes roubar os tesoiros de que reza o Livro de S.Que tal está a pouca-vergonha? A gente é esfolada e ainda por cima lhes há-de dar os améns? No que é meu não prantavam eles a pata. indicou-lhe com um leve sinal de cabeça uma velhota. e com os quais. que a Hincker opunha Corbet e C. mais lombriga que gente. alta e héctica.A 250 metros. Cipriano.Pois. . voltava às confrontações e dizia: . ao passo que distribuía cigarros a torto e a direito.respondeu a criatura em tom de poucos amigos.respondeu o homem desejoso de mostrar graça. Hincker..A leira é de minha mãe. mas a Pedralvita. O. S. elha por elha. um destes havanos preciosos.” O Augusto Aires partiu a toda a pressa levar ao Dr.proferiu com um sorriso de galanteio o apontador. lhe obedecem como ao Deus do Trovão.se é assim que se chamam uns aos outros na sua terra! Crepitaram as gargalhadas. segundo é notório. além de compreensivo. gostava? . Severo Bacelar. o que por inverosímil trairia a sua má vontade.perguntou-lhe o homem do lápis.A leira é de minha mãe. já sabem? Pois se já sabem. a quem queria obrigar a fumar um charuto. Sempre seu amigo Severo Bacelar.Podia-me ter botado a adivinhar . E. de nos acompanhar ao cemitério. Se a filha é flor como é que a mãe não havia de ser Rosa??. decerto. Carregava-me de calhaus e haviam de ver! Decorreu uma longa pausa. Hincker tão-pouco tomava as coisas ao trágico. entretanto. A quem pertence? Ninguém respondeu. que tinha mau génio .tornou ela. . que quero ir convidá-la para minha sogra. O homem do caderno. O homem do caderno debalde esperava que lhe dessem os nomes dos proprietários confinantes.Mas eu digo: é a tia Rosa Pedralva. ó tiazinha? . uma noite de rouxinóis e de borracheira. grandes e redondos como eixos de carro. em cuja disposição borbulhava já o espírito de partido. não deixariam de sonhar. . . Manuel Torres o faceto S. ao seu lado. ..a..Se lhe dissesse que se chamava com o apito. sobre quem o homem trazia os olhos. o Calhorra. considero que lhe será menos penoso arrancar-se hoje ao remanso da sua tebaida que ter amanhã. durante a qual o burburinho popular ruflou como enxame poisado nos ramos duma árvore. tendo penetrado a conjura. venha aplacar estes selvagens que.Como se chama vossemecê. se bem que reputasse perigosamente susceptível o ânimo da populaça. manhosamente. . chama-se com a boca .

justo e tira-teimas. sem se dar por achado. vamos.Não. Compreendem vossemecês?! Antes de mais nada temos de fazer sondagens. Um homenzinho atarracado e barbudo como bode chegou-se ao sujeito do caderno e disse: .Ora digam-me cá: que é que vossemecês imaginam? Que por baixo do restolho há dinheiro. Se forem positivas. 38 . as carradas e que nós já amanhã começamos a abrir poços e a tirá-lo?. que está a servir aqui na casa do senhor Doutor. O encarregado escreveu o nome e ouviu que o bicho acrescentava. Tinham-no como uma espécie de manitu. . sim. Se não há mais do que isto. que vigiam a produção. salta o dinheirinho.gem. então vossemecês são chamados e pergunta-se-lhes: . . Dou a palavra de honra que. cabeça guedelhuda. mal vestido. Façam. há-de notar que não podia ser doutro modo. e com desafogo delegaram nele a causa dos seus interesses. Mas. ali estiveram a apeguilhar e.. Não aprendeu como a irmã mais velha. é assim mesmo. não sabemos o que há aqui por baixo. ou cobrar a percentagem que a lei lhes reserva? Ponham lá que para nós é o mesmo. Pronunciam-se pela percenta. em atitude reflexiva.Haja de desculpar: cá a patroa é atrigada do gênio e mal-educada. já vêem que estamos por tudo! À volta. devem-nos ficar reconhecidos por tal motivo. Não foi dificil ao homem provado no foro e afeito a jogar com as paixões mais entranhadas demonstrar aos donos das leiras o absurdo da sua obstrução e ao Luís Ougado e quejandos o que havia de indigno naquele ar de cão de quinta perante quem vinha em paz e por bem. lá isso diga-se. os fiscais do Governo. a proceder à exploração..A corga do tojo. a Custódia.Agora tudo são promessas. Esta só tem lidado com brutos como eu. se alguns houver. senhor Calhorra. Resta-lhes ainda um recurso: meterem-se por conta própria a fazer as pesquisas e. ou coisa que o valha. excitada por uma má inteligência dos seus direitos e lograda por loucas miragens. acenando para a mulher: ...Qual preferem. caso lhes sejam favoráveis. Os senhores pensarão o que mais lhes convém. E aqui está quem lhes compra ao preço mais alto o minério que extraírem. vender a terra. e nós vamo-nos embora depois de atupir os buracos que fizermos e pagar os estragos. por minha parte. Apareceram umas pintas de minério..afoitou-se a emitir o Calhorra. é minha. Não senhores. Primeiro. querem o dinheirinho logo ali na palma da mão. uma razão ocasiona duas. Para que serve a lei mineira e a fiscalização do Estado? Palavra puxa palavra. quando os recalcitrantes se encontravam já na iminência de transigir.? Era a rendição da pobre gente. Tratava-se dum homem de meia-idade. Manuel Torres. As amostras não são muito tentadoras. . a julgar pelo jogo fisionómico que ia observando nuns e noutros. não basta. Nós só teremos que nos felicitar por lhes haver ensinado o caminho... mas essas pintas aparecem frequentes vezes nas regiões da serra. que é um homem que sabe onde tem a cabeça. apareceu o Dr. as suas palavras não deixavam de causar impressão.. pronto. não lhes levanto dificuldades. Prante lá o nome: João Sancho. dizem-lhes a quanto monta a percentagem. Faltava dar o nome dum pinhal com a sua terra de sementio a poente para a delimitação estar completa. Dentro em breve estavam todos imóveis diante dele. olhos de grande mobilidade a denotar inquietude interior e obsessiva desconfiança. O senhor. O dono assistia de soslaio. e o vê-los assim pobres e tacanhos não deixou de inspirar simpatia e comiseração àqueles senhores. lá em baixo. e recebem a percentagem. onde há granito assim por atacado. e os senhores.

Que descanse.5% pelo menos. Sim. dentro de dois sacos. Duarte Ladeira. Bárbara Ladeira. Hincker perguntava: . Anda em nome de meu irmão. Admiram-se? Tem isso tudo e até água. ainda airosa de fisionomia e esbelta de linhas. homem? Não esqueças que a terreola a talhaste no baldio.Tem juízo. Modo de lhe valer no enleio. O pequeno é o espelho do grande. Mas levaria muitíssimo tempo a explicar-lhes como é que isso pode ser.disse o Calhorra. a irmã. mas sempre vão arrecadando? Este tem da malagueta. Os operários. amigo Calhorra. . os elementos de que se compõe a água: oxigénio e hidrogénio. lá sabe. e palavras foram as suas que operaram como água num braseiro: . prata. O Calhorra meteu a mão e tirou um pedregulho: Não querem pitada do que é dos outros. sorrindo: Guarde. sim senhor. tem razão a Bárbara confirmou o Zé dos Cambais.E mentecapto? . mas a nós só nos interessará se contiver volfrâmio na proporção de O. ainda que fosse uma criança que o fizesse ao desfastio. E olhem: também tem oiro. Percebeu o amigo? O Calhorra acenou que sim. bem do outro.. atirando o chapéu de palha ao chão e descarregando-lhe uma sacholada que o amolgou. ferro. e tudo o mais que em matéria de corpos simples lhes venha à cabeça.O senhor Incas lá estudou. seja do que for. mas pode vir o morraceiro mais fino que a mim não me engrola ele com a mistela mais 39 . guarde? Rompeu grande galhofa. Alvoroçou-se o gentio. chamouo à razão com brandura e boas palavras. tem volfrâmio. Este filã o encerra oiro.proferiu alguém. Bárbara. encerra em maior ou menor dose tudo o que há de tudo no mundo. não é . Bacelar acudiu em continente. E. depois de a mirar bem dum lado. prata. Isto não é a vinha de Nabote.. zinco. do mesmo modo que uma areiazinha é a sí ntese do planeta que habitamos. Manuel Torres disse-lhe. acrescentou: .É um pobre que levou a vida toda a esfossar na terra e tem medo que lhe arrasem o que agenciou à força de suor e calos. O Calhorra ficou envergonhado e semelhante dito acabou por convencer a todos da lealdade dos vedores. O energúmeno espumava e fazia forte escarcéu com os braços. mas em quantidade tal que não pagaria o trabalho de tratá-la. vencendo a sua relutância. o Duarte deu um passo à frente. disse: De facto. Assente lá na sua o senhor Calhorra que qualquer parcela. a cascalhada mineral. Ouvindo nomear-se. Eu não estudei.Não. Hincker pegou da pedra e. . carregavam para o carro a ferramenta e. Depois. enxofre. deu um passo em frente a corrigir: O senhor Reganha enganou-se. anda. isto é. de volta do almoço. estanho...Herdeiros de Joaquim Ladeira .Estivemos há tempos a ler a matriz. mulher que devia ter sido bonita nos seus tempos. que acabara de chegar. entretanto. O problema sob o ponto de vista utilitário está na proporcional idade. Anda em nome dele. posto que duma palidez de rosa branca estiolada. rugiu: Aqui está o que hei-de fazer ao primeiro safado que entre no que é meu. Faça de conta que uma gota de água é a síntese do mar.

.. não? Pelo menos o nome soa a esse ramo de negócios.Manda o Führer? .Que diabo.. . é pouco de apetecer.. se me quer dar esse prazer. Manuel Torres. Silvestre Calhorra agradeceu de rosto prazenteiro e com urbanidade. com ar de ponderar prós e contras. Sempre debaixo de pinhais.Conheço a receita. de tarde.É em Berlim.? Dirigiram-se para a estrada a passo dobrado.. topam homem? 40 . Bacelar. invalidez. a caminho da estrada.. . Dr. E o ósculo de paz do vencedor aos vencidos para que se conformem. diz bem: conflitos entre nações. Diz-lho um homem que ficou com as pernas tolhidas à força de o passear de cá para lá e vice-versa. Führer? Não conheço .Só se guardarmos o manifesto para esta tarde. Vão bem melhor amanhã de manhã.O caminho para Orcas. tirania. Basta-me olhar-lhe para a cara e vê-Ia reluzir.estão convidados para uma almoçarada em minha casa de Mouramorta. Depois. . sem fazer caso aparentemente do que dissera o Calhorra .. muito cordialmente. chega-se lá assado com o sol..bem cozinhada deste mundo. Companhia de seguros. escusavas de chamar estes piratas para o povoado! Mas. mais ou menos em vias de organização. ignorância. Poucos irão na fita! . dizia entre dentes para o Augusto Aires na pressa furiosa de dar a ferroada: . que estendera o gargalo como o grou para hipotético cibato. por agora. Apólices para todos os riscos e flagelos. Mas no próprio minuto em que o chauffeur puxava o motor de arranque.. em tom de meia seriedade proferiu: . o alemão julgou-se obrigado a dizer para o velho troglodita de barrete de coelho: Senhor Calhorra. Braço no de Severo...Reservando-nos para amanhã . Severo ouviu que o capenga.? Ou para amanhã. se é judas.Alma de cântaro. Não lhe quadra ser agente? Manuel Torres desatou a rir. entremeteu-se: . Manuel Torres inclinou-se. e digo logo se é cristo.respondeu o engenheiro em tom igualmente facecioso.. fome e miséria nos povos. O automóvel dos operários largou a toda.. . deixe lá as discussões para melhor ocasião? gritava-lhe Hincker à beira do carro. Manuel Torres dizia-lhe familiarmente em tom de chalaça: . Ombro com ombro. se chegarmos a montar aqui os serviços.O nome não me é de todo estranho.. .Pense no almoço ou apostou que me havia de arruinar a saúde.? Ficaram calados Severo e Aires. um feitor já nós sabemos quem há-de ser. mas suspendeu-se para deixar Hincker acabar o recado: . pela fresca. Manuel Torres ia a despedir-se.disse Severo. O Calhorra.Sei que há aí uma empresa. Ora espere: a sede não é em Berlim?. alijado o ar jucundo. lá continuaremos o debate. deixa. em cujo quadro não me importava de entrar: Nova Europa.Manda a Hermann Góring Werke.

o guarda-rios trouxeme um prato de trutas. . bigode tostado pelo charuto sobre a boca pequena incisa com firmeza. o esforço do homem cerebral que aprendeu primeiro a teoria do idioma e. quando fala. está a ver cada frase. lá vêm eles. esbelta e sadia.Essa menina tem alguma necessidade de ir apanhar a réssega? Que venha.. pelo pátio saibrado com areia do rio. anunciou-se milharal fora pela esteira que levantava o marulhar dos pendões. e. D. admirados da boscagem. nunca o fazia sem delatar certo esforço. Irene ficou um pouco esmagada ante aquela rapariga de carnadura rósea. ficava com a tia Irene enquanto eles chegavam a Orcas fazer o registo. não se preocupando de deixar a descoberto o minguante lunar dos cabelos sobre o occipital. mostrava-se a cara surpresa e um tanto perplexa da boa tia Irene. descreveu um círculo que abrangia os álamos. entorpecida no seu recosto de faias e álamos sob os langores da madrugada.Com quem tu entenderes. Quando se propunha falar o português literário.. na alpendrada.III Só ao quarto ou quinto toque de buzina é que a velha casa de Mouramorta acordou. Conte também com o Dr. ..e não menos ante aquele senhor alentado. e não faça cerimónia? Se a tia.. Como vinha aí um sol desabalado. E. nem se fala nisso. Manuel Torres. Olha. . em nada o bigode hitleriano tão em voga. e era de presumir que visita tão matinal . de calças arregaçadas do regadio e peitaça lanuda ao léu. mas o português correntio aprendido na vida das relações. Foi por isso que.. Não havia dúvida que falava muito correctamente o português. Ao mesmo tempo. Parece um claustro! 41 . à volta.Dá vontade de pegar aqui de estaca à semelhança destas árvores.O que a tia destinar. sem importância. Mas o senhor Hincker tratou de se pôr à vontade.. mercê do que a boa senhora perdeu o ar tímido e só por isso rebarbativo. sombras que o movimento cadente da água tornava ainda mais voláteis: . porque ainda não tenha prática suficiente. O senhor Hincker cumprimentou a boa senhora com excessos de urbanidade e repicando as palavras. Severo não se tinha anunciado. estão com sorte. Paulinha. Mando cortar o pescoço a dois frangos. que acumulava as funções de abegão com as de porteiro. viu-se afinal. Irene e o sobrinho desceram a escada a esperar Paula e o pai que avançavam. o que dava nas vistas e lhe sucedia sempre que procurava falar com elegância e precisão. D. nos quiser oferecer o almocinho.oito horas solares .causasse o mais dramático sobressalto na casa desprevenida. com a própria mão que segurava o chapéu. disparando pátio fora.Reconsideraram muito bem . e as sombras frescas à volta da bica de pedra. discreto em seu recorte. olhos muito azuis e móveis.Está bem de ver. no rosto e sorriso de visitante reconhecida verdadeiramente uma estrangeira . pular com desespero para as trancas de ferro. . em seu desdobre lógico e sintáxico. pois. cabeça quadrada imponente..exclamou ela. com óculos de escafandro. O Meirinho. Tenho ervilhas frescas. os loireiros-rosas. . correu a sossegar a dona de casa alarmada. a menina do senhor Hincker. Havia uma pequena alteração no programa..

poeta romântico ou impressionista . O engenheiro advertiu: . Paula exagerava a sua boa impressão. Naquele sorriso palpitava-se o tipo de acção e com a superioridade mental precisa para poder responder em qualquer emergência pela sua pessoa. não se descobriria no senhor que ali estava espraiando um olhar ocioso pelos quadrinhos da parede. uma sombra quase subjectiva . É em castanho novo.Pisaram os primeiros degraus da escada de dois lanços. Estava há menos de dez minutos em Mouramorta e. tal um filme de grande metragem. Era um sorriso amplo. que passou a Severo.Nesta casa respira-se bem o século XVIII .. exprimindo além do dom de circunspecção ou de oportunidade. em seu cérebro devia estar ainda a discorrer. Foi copiado à risca do antigo.quando homem de negócios. Tudo isto fez em menos tempo do que a filha levou a tirar o chapéu no quarto da tia Irene. revestidos de glicínias e rosas de toucar a todo o ascenso. Mal puseram pé na sala de estar. deu uma torção ao pescoço como se quisesse subir um ponto numa cremalheira. desobsequioso e brutal. como a seres animados.oh. a avivar o cinábrio da boca . a história imaginária da propriedade. percorreu com reverente e mesurada pausa os quadros pochades de modernistas e tabuazinhas de primitivos portugueses . era capaz de se sair com honra. E cruzando a perna e puxando da charuteira. Por muito que se procurasse. Era o caso de Hincker. ou com a brusquidão própria da gente afeita a ir depressa e incontemplativamente. convidativos como braços que fazem sinal para subir. quando viajante.Esta casa foi adquirida e adaptada. . não se descobriria o potentado que movia caudais de oiro e trazia às ordens um exército de homens. depois ante o panorama da Serra da Estrela. a dar uma dedada aos cabelos. com a outra agitava o abanico.estão por sua natureza proteica destinados a dominadores. visto ter-se reduzido a sala a 42 . e são espirituais segundo a mão que as maneja.depois do que foi observar da janela a paisagem agrícola com este olhinho refiro do homem de negócios que não admira a bucólica sem deixar de pulsar a puberdade e o rendimento do solo.Está aí na corrente. e dada a familiar curiosidade que lhe permitiam as relações com Severo pôs-se a vistoriar a casa. a despeito do esquemático. galantuomo. em sua disciplina. ao passo que acendia o fósforo.. gordo.e a volver ao salão. quando homem de sala. Do modo mais natural deste mundo. o senhor Hincker atirou o chapéu para cima dum tamborete. antes se mantêm prontas ao apelo. possessivo. sentou-se. As suas personalidades não se atropelam como no ser vulgar. Observado tudo. outro olhar meio atento pelos campos. Repare para o tecto.Oh. fixado tudo na retina. . destas ventarolas de papel que distribuem os teatros e restaurantes caros.proferiu. esponjou-se com o lenço. e ia puxando as fumaças do havano. sehr hübsch! Sehr hübsch! Com a mão direita fazia uma carícia às rosas. exclamando a cada flor mais especiosa. se o encarregassem de compor imediatamente um relatório sobre a povoação e aquela casa assolarengada. Os indivíduos que assim têm o poder de repartir-se .Vem de pais? . um à-vontade que o tornava eminentemente social. Tão-pouco se diria o estrangeiro pisando terra de roça. reclinada no extremo horizonte sob purpúrea e roxa gaza: . homem de negócios. veja lá se lhe faz mal?? O senhor Hincker sorriu com o ar suficiente com que na sua terra era costume dizer-se: um homem honrado tem medo de Deus e de mais coisa nenhuma.

mas com um só alçado. Irene.dimensões muito menores. Sempre assim se mostrou. mas ignorou de todo a comodidade.Também temos assim muito no SchIeswig. acabouse a guerra. por outro lado as divisões couraçadas de Von Bock avançam para lá de Kiev. aviador. o censo da sua gente apresentava-se assim: o filho mais velho. o paladar e o olfacto. do ramo nacionalizado alemão. Mais ao norte. Os ulanos do marechal Von Rundstedt já há dias que chegaram os cavalos a beber às nascentes do Dnieper. consoante a fé germânica. estropia outros. E então vitória em pleno. Decorreu um grande silêncio durante o qual todos viram desfilar uma procissão de aleijados.Por enquanto as clareiras não são grandes.É conforme. Quando éramos pequenos fazíamos aqui corridas de bicicleta a toda a volta. um irmão. grande. o espaço. o mais novo nos submarinos. Notícias. morto em França. Ao terceiro cálice. primos.Teremos ainda guerra por muito tempo. a segunda cidade santa dos Vermelhos. Ele abriu os braços num largo e teatral gesto de incógnita e fatalidade. minha senhora. Na entrada do estio. do ramo dinamarquês. O estilo que se adoptava aqui adoptava-se acolá. via-se bem. Depois do que. mata uns. E concluiu com um tom de voz que pretendia ser desopresso e vinha carregado de mortulha: . vadios e fantasmas. a seguir a este.O diabo é que a Hidra tem duzentos e cinquenta milhões de cabeças emitiu Bacelar. levantando-se. numa divisão Panzer destacada nas Marcas de Leste.e Hincker torceu-se na cadeira a encher novamente o seu cálice de Porto. saboreou o vinho fino até a última gota. já se deixa ver. Mas sentiu-se. Meu pai mandou reduzir esse verdadeiro Ringbahnhalle e andou bem. está meia vencida. cavacas de Freixinho . que viera fazer as honras da casa. Uma criada trouxe uma bandeja com fálgaros da Tabosa.Formidável? .e como um homem do Norte empina sempre que pode e um português nunca se julga desobrigado de fazer uma perna. outro aprisionado em África. Novamente abriu os braços num gesto cheio de vago e indefinido. As notícias chegadas recentemente são animadoras. devia ter tomado parte na ofensiva contra a Rússia. Irene. o outro. escangalha a maior parte. A Europa é um solar. Se a Alemanha abater a Rússia. umas três vezes do seu tamanho. um sobrinho. nem boas nem más. o senhor Hincker media de novo com o olhar a amplidão da sala.guloseimas da região . Pena foi que não déssemos conta mais cedo! D. Está então decidido: a menina fica? 43 . Era inconfortável de todo ao que era de grande. boas. achou de primeira civilidade inquirir dos entes queridos que o senhor Hincker trazia na guerra. mas a guerra é uma devoradora insaciável de homens. estropiado em Crera. repercutia além fora. Delicada e lentamente. . A estepe. . senhor Hincker? . . no dever de mostrar-se optimista e manifestou: . isto é. desataram a beberricar. O século XVIII entre nós conheceu o fausto. associados.Mas nós não viemos aqui para resolver a crise do Douro. proferiu: . os nossos exércitos avistam Leninegrado. no Hartz a curar-se da arranhadura duma granada que o atingira por cima de Coventry. sentenciando: .tornou D. coronel. já não tinham conta os feridos e os mortos.

V. conformada.Não vi. Temos esse direito . o Augusto Aires. de pé em frente dela. enterrara na margem. É verdade que em tão pouca distância a velocidade não conta. Temos tempo de sobra.. soberbo em seu alor e robustez. .Vamos lá. . O excelente B. Severo rejubilou em seu íntimo. Sucedia-se uma baixa.murmurou Paula. Desceram a escada. Fora duma dessas bouças que abatera o pinheiro. com ar meio atónito. Mantiveram o andamento ao atravessar Pedrões. mister Corbet. de si alagadiça. . em cima do tronco. meio divertido: 44 . Talvez. e em face da aparição imprevista Severo augurou novidade. ao desabar. Registo: um quarto de hora. Devia esperar por eles em Malhadas.O Corbet e o Antoninho Fráguas já lá vão adiante fazer o registo. A repartição só abre às onze. outro fazendo dançar a bolsa de oiro na ponta da corrente.Como sabes? . Não havia possibilidade de obliquar pelos lados. em todo o tope. mais migalho. se lhes deparou um carro parado.São dez e meia.redarguiu Hincker. que passaram. saindo-lhe ao encontro. Que acontecera.. em despeito do carro de feno que ia fora de mão e lhes surgiu pelas chedas numa curva apertada. Esse carro era o do Antoninho Fráguas. O carro tinha estacado diante dum enorme pinheiro. . atravessado na via a todo o largo. . ao fundo da aldeia iam a 90. muito esbaforido. Uma hora e quarto. visto à esquerda as terras serem em socalco ou muradas e à direita bouças com mato alto e pinhal. A questão é chegar primeiro.Daqui lá temos menos de vinte quilómetros. Há meia hora. nem resfolgava.. A coruta. decerto à procura de gente que lhe ajudasse a remover o obstáculo. Leve afrouxamento à passagem do rio. . Foi a Ruça que. se tanto . Pé no acelerador. . menos migalho. O Fráguas corria pelas leiras.. bem vai.disse Severo tomando o volante. correu a contar o que se tinha andado a fazer no Vale das Donas.Em última análise. .Talvez seja o do Fráguas. que não acontecera.Mas conta o azar . sobre a ponte de viés. Se não for o do Corbet. O Antoninho desceu-se e foi à taverna saber o nome por extenso dos donos das terras. Pelos informes estou em crer que fosse o calhambeque do Fráguas. panne não inculcava que fosse. mal os senhores ontem viraram costas..perguntou. De pé. como nastro que abambou. e lançaram-se ladeira acima a 80. dois quilómetros adiante.Ida e volta: uma hora.. Augusto? Do Corbet? .Pararam em Malhadas. logo breve subida. Passaram em Malhadas a 110.. para não dar nas vistas. Hincker tirou o relógio e disse com a maior fleuma: ..respondeu Severo. .Se não se demoram.elucidou Severo. . Será possível ultrapassá-los? . De quem era o carro. dizia para dois pastores embasbacados diante dele.M. jungido ainda ao cepo por um feixe de fibras vigorosas. um dedo espetado para o chão. e neste jogo iam a recuperar a velocidade quando ao alto. Nesse momento entrava o portão. disputa-se a primazia a sopapo..Que há? .Há-de ser dificil . as grossas e revelhas franças tão profundamente que dir-se-iam outras tantas raízes que por sua vez firmavam ao solo a árvore secular. diante do guicbet.

meia desplumada e azarenta. se alguma coisa contavam de seu. direito visivelmente ao lugarejo da Franja. cacique nas horas vagas. As suas tranquibérnias deram brado. Tomou-lhe o gosto e deste jeito se lançou no ofício de engajador. e clientes de alto bordo às penitenciárias. insulado. Aos vinte anos um bambúrrio pô-lo na pista duma indústria. havia que tentar a vida. aquele era um famoso exemplar. sólidos como cavalos. o José Francisco. servida por hábeis calígrafos. e as de usurário. nariz adunco. Ficara assim com letras gordas e princípios morais muito precários. duas farripas loiras a voeiar no toutiço. o uso da gravata e as mãos brancas no meio primitivo acabaram por imprimir-lhe o diferencial necessário. que se eclipsara por trás da lomba dum cabeço. O diminutivo com que ficou a ser conhecido pela vida fora caracteriza bem a metamorfose. chocalhando as libras: . O pai. Tentou o que ele chamava o principal negócio da vida. Sucedera um dia que para salvar das malhas da justiça certo bardino que por arruaça chacinara um pobre gaiteiro em entroviscadas de arraial.. que passou a ser o eixo da sua actividade. De déu em déu. Agente de várias Companhias de Navegação. levado por igual motivo. se eram bonitas. Sim. filha de brasileiro. tendeiro. por sua vez. além de bem 45 . não falsificasse ao sabor do freguês. eu pagar bem. para lá de todo o ridículo. lembrava uma ave pernalta de jardim zoológico. sozinho. esguio. unhas rijas e braço teso. barbeiro. No seu poleiro. se metera com ele a monte através de bosques e penhascais. Era enfezadinha. o casamento. mas. O exercício dum mester tão à parte permitiu-lhe ainda praticar as artes de D. Solange. sem disposição decidida para coisa alguma. Juan sertanejo junto das mulheres dos embarcadiços. com um pé na trampolinice e outro no parasitismo. em baixo.. magro. se vocês tiram árvore. Vocês chamam homens. mas apto mercê da audácia congénita a tentar tudo. caminhava noutro rumo. Bravio por semental. tanto Severo como Hincker conheciam-no de ginjeira.. já toda a aplicação de criança se lhe exercera na arte de assaltar os quintais. extorquindo-lhes os mais desmarcados juros e alcavalas. Oscilante entre rústico e fidalgo. nunca chegando a compreender os homens nados dentro das três dimensões da vida moral como é que as autoridades não punham a mão na lapela do chatim. alcançaram um ponto da raia seca onde a troco de boa espórtula um hombre de Dios se prestou a passá-los para Espanha. Havia na sua postura. relapso à escola. Mas este ramo de negócios. preocupado apenas com a solução do problema. burlar os da sua igualha. Ridículo? Not in the least. ainda sua prima. jogar a pedrada. largara-o à lei da natureza. E prosseguia no aranzel. o pescoço desenrolando-se como um sem-fim do alto colarinho de goma. Gloriava-se de roubar à mochila mancebos na idade militar.Eu pagar bem? O Antoninho Fráguas. qualquer coisa de leviatânico. Armado de dentuça afiada. No gênero do escalracho humano que ataca o alqueive rural e se torna o flagelo do camponês. duma acerba e incontemplativa heroicidade. Ao Antoninho. Em Muradais havia uma menina. tinha muito de aleatório e periclitante para quem se sentia tanazado por uma fome milenária. não houve passaporte que a sua falta de escrúpulos. qualquer vida. Tanto bastou para tomar-lhe o gosto. voltava a aparecer. que coara parte da meninice internada num convento de religiosas. embora cultivado assim à grande e com toda a sorte de agilidade.Eu pagar bem.

era bem 46 . fez-se empreiteiro de estradas. à testa da qual pôs a amásia. olhos de pegar o fogo em palha molhada. e agarrou-se com unhas e dentes. tão parecido com ele como o ovo dum cágado com outro ovo do mesmo cágado. Que fazes. grandes maltas de gente que pagou tarde e às más horas. das depredações de mateiros e pastores. conseguiu que lhe entregassem a título de aforamento. a murar. Marcanciou em cavalos. atrevido como os que o são e brutal. metiam-lhe os gados aos renovos e quimavam-lhe as cardenhas. era cheio de ralé e. que hás-de fazer. não a deteve no pendor. solipas e materiais de construção. deixou-se enviscar. Ainda e sempre construía na areia. Explorando com astúcia e fingido fervor as reviravoltas da política. lãs e cereais. Chegou-se a gabar de sete amigas a um tempo. Se por este conduto alguma coisa ainda viria a pingar. Era do mais fértil que havia no baldio e trouxe ali a arrotear. ia ele nos quarenta anos. Em despeito de tanto afinco. antes carão sobre o comprido. veio ele a apurar em fonte limpa que o sogro com jogatinas de Bolsa mal sucedidas espatifara a fortuna e dera com o comércio de secos e molhados em vaza-barris. Entregava-se esta empresa à compra e produção de matérias-primas para a guerra e fazia-o com uma abundâ ncia de capitais e uma largueza de processos dignos do maior império a que tem alumiado a rosa do sol desde que o mundo é mundo. volveu da alçada a jorrar sangue pelo nariz e com um olho a repolhar na órbita violácea. A família. em S. De dissabores e arrelias compensavam-no as mulheres que neste e naquele poviléu se arrepelavam pelo galo doido. Porfiou. conseguiu insinuar-se no ânimo de mister James Corbet. mãe do rapaz que agora ali corria pelas terras. Concomitantemente. e deitou olhos aos horizontes. por cujo selo ia dobando uma estéril primavera sem pássaros nem flores. mas em verdade de mão beijada.educada. picado das bexigas e quase desproporcionado de estatura. Cortejou-a. Foi a quadra negra da sua vida. À força de colear e de brando jeito. a saibrar. ombros largos de mais para a cintura muito fina. mal virava costas. palpitou-lhe o comércio dos metais. Brás montou uma taverna. A pobre. passava por vir a receber uma legítima como nã o avultava segunda na comarca. seria duns tios que a menina tinha em Malhadas da Serra. Mas tinha uma voz de veludo. melenas que lhe desciam para a fronte. arrancavam-lhe as plantações. O seu leme era: antes ladrão do que pobre e estavam explicados todos os claros-escuros e bocas de precipício do seu caminho. Mister Corbet. Mas era de raça para grimpar. uma tira de serra. que o via a arrotar grandezas. Solange só deu conta que fora lograda no dia em que. Com efeito. retirada da canastra da sardinha e do comércio dos ovos. a porca da vida não endireitava. supremo dom de sedutor. que representava em Portugal a Chester and Brothers London W. Em despeito das advertências. de quem eram celebradas a indulgência para com os pecadilhos duns e a magnanimidade para os leais serviços doutros. Não era o que se chama bonito homem. que não se conformavam com o esbulho. protestando contra o comércio que o traste do marido cometia em sua casa com criadas e jornaleiras. Mas foilhe preciso ir guardá-la. dos dixe-me-dixes quanto às baldas do pretendente e ao mulherio com que podia encher um serralho. Surgiu a guerra. lobrigou no valdevinos o seu príncipe encantado. faltos de herdeiros directos. a Júlia Minga. computada para cima de trinta hectares. de trabuco aperrado.

Mister Corbet não se deu ao incómodo de descer. sem compreenderem todavia como se encontrava a impedir de todo o trânsito aquela bisarma de madeiro. mas quanto 47 . Alres deitou a mão a um galho da árvore a experimentar. “percam-se os anéis e fiquem os dedos”. Severo. sessenta e cinco unidades pelo menos. Cumprimentou-os com desembaraço natural. Por cima deles. entregava-o na Sobriga contra os pacotes. encostaram ombros ao lenho. Eu pagar bem. com escritório no Porto. Financiou-lhe o inglês a montagem duma separadora em Tendais.na sua fraseologia pitoresca equivalia tal modo de dizer a passar o conto do vigário . além de que lhe estaria porventura a carácter. sem lhes ficar o recurso de recorrer à autoridade. Foi o princípio da sua carreira triunfal. e davam-no já como a abarrotar de rico. 14. Diante deles o morraceiro não dizia palavra. e por isso mesmo se temia deles. com Fráguas. A mesma mixórdia dizia-se que impingia a mister Corbet. protegido por grandes e misteriosos poderes. a quem meteu a faca . O volfrâmio genuíno. à qual de princípio esteve associado um outro escopeteiro do mesmo calibre. com Hincker. gesticulando: . involuntariamente. a quem chamava caloiros. nem dentre as pessoas que estavam em baixo se julgaram umas com direito de o apear. Até onde iria ele com tão robusta saúde e insaciável fome de lobo? Hincker e Severo conheciam-no por fora e por dentro. despediram o alento todo: há! há! O tronco nem buliu. Vinte homens não chegam para a remover da estrada.esteve à beira da ruína e. que faziam 9.disse Severo. para que nem sempre conseguiam comprar guias falsas com que fazer a exportação para Inglaterra. compravam a olho na febre de enriquecer. Dominava agora o Alto Paiva. o senhor esquipático flauteava. no. Os picardos do Porto.Não se matem . irem chamar muito gent& Depois que se inteiraram do entremez. alcunhado a Fera de Macinhata. parte do vale do Vouga. viu-os esbracejar por baixo dos pés e. outros assomavam no cerro. símbolo da sua nação. o rei da “mangola” no entanto não se deu por achado. vendo a separadora a funcionar. os pastores afoitaram-se a alijar as capuchas e. do Banco de Portugal. Sôfregos desta laia. Mexera. Acontecia-lhes assim levar por alto preço toneladas de titânio e ilmenite. outras que valesse a pena fazê-lo. Pedir reforço. Os pacóvios vinham das serras com o volfrâmic. com ele saíam sempre tosquiados. Entretanto apareciam os primeiros homens de socorro. Surpreendido em plena estrada. em bruto e trocavam-lho nataverna a metros de chita e a rabos de bacalhau. Praça Filipa de Lencastre.No. 10. ele não o ignorava.Eu pagar bem! Hincker e Severo retiraram a sacudir as mãos embodegadas na resina e nos cogumelos da carrasca. seu patrão. Aires e chauffeur. imperturbável. . novinhos em folha. e prosseguiu nas diligências de remover o estorvo. pode dizer~se com a boca na botija.o reflexo da política tão realistamente maleável da hora difícil. Esses e os pastores. ou simplesmente resolvidos a cometer lance tão aventureiro. apoiando o peitaço contra o lenho e fincando as tamancas no chão. Tendo acabado por decifrar a linguagem de mister Corbet. a voz que define o Britain's rule em todos os tempos e lugares escapou-lhe novamente dos gorgomilos chupados: . pelo que revelavam de insciência na mascambilha. Ele erecto. Hincker e os seus saltaram em terra e cortejaram. como se tal missão lhe coubesse a ele que chegara primeiro e pretendia passar primeiro. em seu desespero. no tempo em que era visto com olhos confiados. de pistola na mão para queimar os miolos. Um tal Leónidas Seixas.

rodar depois o lanço para a berma. já os automóveis trepidavam.Thank you! O senhor. e na projecção visual do pára-brisas desenharam-se um padre à secular. Mas esse auxílio não chegava e a sua ânsia devia superar a da boa irmã Ana. Hincker convidou o inimigo a passar. Olhava em volta à espera do auxílio providencial que um inglês acaba sempre por encontrar em terra.No. entretanto que Corbet e Hincker. Mister Corbet mostrava o mais azarento e enjoadíssimo esgar que se pode supor em rostos glabros. tornaram a relampejar. Em poucos minutos estava dado o corte do lado da coruta. no. chamar mais gente. mal se anunciando pelo estridor. se entreolhavam com silenciosa e correcta frieza. mais a que aí está note que já se foram embora dois – somam treze.Antes de nós não passam. E em poucos segundos de conciliábulo conceberam um plano. V. Serrar o tronco. Eclipsou-se tudo. compreendeu mister Corbet que a partida estava seriamente comprometida. depois. Hincker. lançado a fundo. depois de contar as pessoas que vinham a caminho. quase mudo. voou. levemente molhado de desdém. estacando par a par com o do Fráguas. mais estrepitosa que um ciclone. foi precisamente no seu prolongamento longitudinal que se puseram a serrotar o pinheiro. Relampeíou à direita em espanejamentos losangulares de cal e vermelhão uma nesga de casas presunçosas. mais nítidos. ao fundo. ficando nós de braços cruzados. este de sentinela a meio da estrada. tal qual suas índoles e temperamentos. Tanto o Aires como o Urra tinham. M. tocado pelo José Francisco. o inglês tirou o chapéu agradecendo galhardamente. Mais gente ou então ir buscar machados e serras para cortar madeiro. E com entono de coragem. a chocolateira depressa se esvaiu à retaguarda no pó e frondes do caminho. ao passo que exclamava: . Em resposta. E. marrados um no outro como em match. de desenvolver a fortaleza. Quando viu crescer daquele modo o arraial. tranquilizou: . esfalfada. Claro. arquejante. menos um do que há pouco. largaram a correr em sentidos diferentes. Primeiro que tudo o Aires e chauffeur despediam no B. o rabo-leva gris do arrabalde entre hortejos e devesas. Atacaram depois ao centro. A gente que lá vem. circunstância donde emana o seu optimismo (inico e inexaurível. Por fim. chegou de rompante com machados. pois que no segredo de suas almas se mordiam como cães.Não há-de ser necessário. Mas um inglês joga até resto. no mar. a buscar um serrão a Malhadas. no deserto. ali como no resto do mundo. Ainda um galão. formulou mais uma vez: . As apertadas e sucessivas curvas tolhiam o B. os contornos versicolores. Com uma leve mesura e gesto mal esboçado da mão. além da experiência requerida. pulso rijo. Severo disse a meia voz para Hincker: . M. no meio dos pinhais negrejou um bando de gente. serras e o Quim da Urra. Aproximavam-se da vila. aliciados ao esterlino. V. Mas assim que se lhe deparou uma recta. O automóvel de Hincker. Os zagais.. Quando viu aqueles treze peitos debalde apostos a virar o tronco.a arredar nem polegada. um 48 .. foi obra dum sopro. com a quadrela do campanário a escornar no tope. prático em derrubadas. aquele do seu posto como de gávea. o senhor primeiro? Arrancaram a um tempo. Metralho-lhe os pneumáticos. Eram as duas nações face a face.

mas que mal se estava garantida a prioridade? Ao balcão tropeçaram com o Calhorra e tiveram um vago palpite de moiro na costa. que não se deitariam à vila mais cedo do que o necessário. confrontações. Silvestre Calhorra sentia fome.Que me diz? . Madrugou.É como vês. a par da sua Verónica.. abancado a uma fritada de marrã. saíra de casa com a alba sem outro lastro além dum cálice de cachaça e duas buchas de pão. De chofre penetraram a traça do velho raposo: fora ele que mandara atravessar o pinheiro na estrada para ganhar aquela meia hora ao balcão da Secretaria. O velho gabiru lá estava. . .A gente da serra costuma ir petiscar à casa da Eduarda ponderou o Aires. Quem tem cuidados não dorme.disse-lhe o Aires.Se não está no edifício. propinou-lhe.senhor de coco. salvador do mundo! De soslaio notou que traziam cara de poucos amigos. nomes. que há tanto devia ter aberto a Secretaria da Câmara. imperturbável e cravado no charuto como adem num espeto. menos Hincker. com o brio dum antigo porta-machado. segundo o jogo das probabilidades. além da sopinha de rabo de boi. Para mais é coxo! Desceram de afogadilho. e em tudo. sem trair na voz a menor contrariedade. e dispôs-se a matá-la dignamente. . 49 . É o mesmo.. Além de que a febre do lance não o deixara cobrar sono. Credo. foi pelo livro próprio e declarou: . o amanuense observou: . nem os judeus quando entraram pelo Horto das Oliveiras dentro a prender Jesus de Nazaré.Para onde iria o homem? Sem disfarçar o lume sardônico que lhe chispava dos olhos. Mas nem no vestíbulo nem nas imediações levantaram rasto do Calhorra. pela mão diligente da Eduarda. Hincker quedou um momento em silêncio e. . uma destas fomes caninas a tal ponto azougueiras que os seus olhos quanto enxergavam era baço.. Eu leio para que Vosselê ncias fiquem inteirados. O engenheiro Severo Bacelar entregou ao amanuense. Estacaram diante dos Paços do Concelho e com repousada confiança subiram a escada. Não tiveram necessidade de comunicar os seus pensamentos.. muito alevantado e pisa-flores. perguntou: .. de que rescendia pela taverna o aroma inebriador. o manifesto lavrado nos termos da lei. que se levantou a atendê-los. com efeito. calculando.Este manifesto acabei há instantes de registá-lo. Orcas da Beira. E estava na incomparável operação de deglutir quando a porta se abriu de rópia e viu avançar direito a ele grande tropel de gente.. Como tramóia não fora mal urdido.Vossemecê por aqui? . Leu o registo. com um bolo e uma garrafa de vinho à frente.Apresentou-o o homem que aí estava: Silvestre Calhorra. Felizmente a Divina Providência. medição.. uma sertãzada de carne fresca de porco. pode dizer-se. e dois garotos a repartir um talhada de melancia.. sem tirar nem pôr. não teve ainda tempo de atravessar o Tavolado. Chegavam com atraso de meia hora. de Malhadas da Serra.. O funcionário leu.. quando ele se escamugia.Talvez o ladrão lá esteja.. Para lá bateram de espora fita. correspondia aos dados de que eram portadores. .

pois então! . Mas o que está por debaixo da terra não é como isto de perdizes que se tiram pelo faro e saltam ao nariz dos podengos. bem sabe. senhores! Não se atreviam a interrompê-lo ao que estava de excitado. Pois. lá porque lhe parecesse que tanto o Incas como o Severo se acobardavam de romper fogo. vendo o registo. setecentos quilos! Agora eu lhes juro: se este pilhancras lá não vai esfossar.. vamos lá a ver o que a coisa dá. hoje tinha pregos de oiro pelas paredes. Estou pobre. como ia dizendo.Não sei o que o menino quer significar lá na sua retorquiu-lhe com voz paciente.. .Associar-se connosco. meus senhores das barbas honradas? Quem é que primeiro lá quebrou as unhas a esgadanhar? Fiquem sabendo: aqui onde me vêem apanhei lá e no rebusco em redondo. como estacassem à volta dele. mas encrespando bem visivelmente as sobrancelhas.. Os filhos saíram uns pilordas que para pouco mais prestam do que para virar a malga do caldo e a caneca do vinho..Que espécie de negócio querem então os senhores fazer comigo? . É preciso andar a fusgar.Assim com'assim. vejam os senhores o perdimento. Uma fortuna pela água abaixo! .Olé.Nunca andei noutra escola.Que diz o senhor Calhorra? . como acoimou para aí uma boca mal lavada. quem ma fazia eram os senhores se durmo a manhã toda na cama. não há dúvida. torcendo os lábios num esgar dubitativo. .Estamos aqui para fazer negócio . aqui o menino Severo tem prática..Você sempre nos pregou uma vigarice!.Para fazer negócio? Pois vivam lá. Depôs o garfo contra a borda do prato. associar-me não quero.O amigo Calhorra podia usar processos mais leais exclamou Severo com ar agastadiço. que não fosse a do Cadelas. estão com o seu homem. Lá quanto a vigarice. serve-lhe?. para se descobrir? Estou a ensinar o padre-nosso ao vigário. Vendo-os circunspectos..Esses nem aprendidos numa escola de gangsters! . para maior desgraça com umas pernas que nem cilindros de estrada. a moer. . senhor Silvestre.. Se serve. depois na parede e. pique que pique. .barregou o garnisé do Aires. Raios o partam para excomungado! .Nós não viemos para ouvir as suas lástimas. conhece o chão que pisa.proferiu Hincker em tom conciliador. Outro ardil não lhes deu o Diabo. nem para questionar consigo. tirei lá setecentos quilos e mais tiraria se não estivesse velho e cansado.. que as más-línguas classificavam de felinos: . . proferiu erguendo os olhos. rape que rape. Sim.Está bem. nada menos de setecentos quilos.. Viemos para fazer negócio.mas não só não tremeu como o garfo se lhe não desviou da trajectória mais curta do prato para a boca. retrauteou: . 50 . Vendo. por muito que sejam dignas de dó. O senhor Incas aprendeu nos livros. os senhores nunca tinham aventado a malhoada. pedra a pedra como nozes.São servidos? .Digo e torno a dizer: escapei por uma unha negra à vigarice. respondeu: .? É de vontade? . . se tenho por uma casualidade guardado o volfro. .. mas é para que não suponham que me comem por asno. . Dóilhes? Quem descobriu o filão. Larguei-o à razão de doze vinténs o quilo..articulou Hincker. Depois. Ponho a mão numa Escritura que não aventavam.Então não são servidos.volveu dirigindo-se assinaladamente a Hincker e a Severo. está bem? . sem prestar orelha à invectiva. plantou olhos em Hincker.

era de quem desdenha quer comprar . não mais. previsto pelo Código. Supunham que o Corbet tinha abalado para longe. vale-lhe mais a pena associar-se connosco. nesta altura do discurso sorriu. e vá de facilitar.O meu caro senhor Calhorra faz o endosso por dez contos. mas neste capítulo está em branco. Firmado neste palpite. descuidado. . lá para as congonhas do Catrino. a deitar o pinheiro abaixo a golpes furiosos.. Um só. Associado nesta altura da vida só com os quatro galfarros que me hão-de levar ao cemitério. .. puseram tudo em pratos limpos.Mas o senhor Calhorra exorbita. Severo teria compreendido porquê. Os homens apanhados com os machados às costas já estão na gaiola. Para os senhores é melhor. Não faz.. ao Sarzedo. e amigos como dantes. Não sabiam aqueles amigos que estava senhor da maranha toda e que. um só homem. na sua pupila. E tal erro de reconstituição foi quanto bastou para adverti-lo de que o anúncio mofino devia ser tomado como escova e mais nada. daqui a migalho rompe aí o inglês que lhe pega a olhos fechados..Quanto há-de querer pelo endosso? . Bastava vir-se de noite.. ainda bem? O que agora mereciam era que lhes cortassem o pescoço. o arrepio nervoso do sobressalto.. Deste jeito desaparecem as desavenças do dia de amanhã ao repartir da talhada. muito levemente. saíramlhe sem querer estas vozes em que chocalhava um badalinho. . O pinheiro podia causar uma catástrofe. .. Mas era homem de prontos reflexos e reagiu: .Quinze contos . Esteve um avo de segundo interdito com um penedo sobre o peito. ao contrário do que Severo pressupusera. Pressentindo provavelmente o perigo. estava farto de o conhecer.respondeu ele com igual peremptório. Incas e o engenheiro puseram-se lá na ladração que ninguém entendia e foi este que rompeu fogo: . . Não tem pés nem cabeça. .e disse: . Por isso mesmo é que é um grande crime. como num espelho. Cautela por cautela.lançou~lhe Hincker de chofre.! . e a Guarda procede ao levantamento dos autos. Severo sorriu .tornou Hincker.Quinze contos e nem é dado nem vendido.Qual exorbito? Se o senhor Incas não quer.Está para viver! . teriam visto fuzilar a imagem de um homem.O amigo Calhorra sabe muito bem quantas polegadas bota um palmo. E como está em branco. pede fora de razão. pretendidamente apanhados de ferramenta ao ombro. O Antoninho deixou-me recado que chegavam ali adiante. ...o seu sorriso.Deitaram um pinheiro para a estrada. ?? Que malvadez? Caçaramnos. Sim. um imperceptível e quase abafado badalinho mofador: . mas o mais certo é levarem o muito. deviam sentir-lhe passar à flor de pele. mas já era tarde para desandar caminho. leve.Macacos me mordam se entendo o que está para aí a alanzoar. Opresso e de semblante muito sério. oh. 51 . riscam por onde lhes apetece. com fogo ao rabo. Nada feito.Não se faça de novas. Levem o pouco ou levem o muito. e o senhor Hincker vê-se na obrigação de apresentar queixa contra o malfeitor que foi atravessar o pinheiro na estrada. Como eram pessoas de olhos finos.Também pode ser. a jogar contra eles jogava com cartas marcadas. portanto. Foi um tornadoiro de águas.Já disse.

corrigiu Verónica. cuja exultação lhe pareceu que devia de ser comunicativa. Coitada. Ajeitando a cavalgadura a um paredinha. lenço de seda a doidejar para os ombros.murmurou o Calhorra. insinuou o baguinho. quando viu o paliteiro em frente dele. mesmo assim oprimida. desconfiado com a demora. oral Podiam arrepender-se. invocou a mulher. que já tinha comido muita rasa de sal quando eles ainda não tinham a envide. Ora. e não se gozar da massinha? Podiam até caçar-lha por artes de berliques e de berloques. mal se apanhou de posse dos quinze pacotes. o rico baguinho bem ganhado. Celebraram o trespasse e reinou a harmonia. ferrador. e não nome de gente. Por aqui vamos menos expostos a tais ventos. Coçou-lhe a estrela na testa. a ensaiar o sarambeque. dirigiu-se para a loja do Dias. quando ninguém podia toscar. . para que se visse. bebeu. entre o coiro e a camisa. lá conseguiram encarrapitarse ambos na albarda. ao fundo da escada. de bigorna. explicava ele. tornando costas ao caminho velho. . Mesmo assim o Calhorra.ferreira pela cabeçorra maciça. não anuiu a regressar com eles de automóvel. Tiveram que transigir. fazia horas. ao desandar da vila.viradinha ao norte como nos bons tempos. pesada dos anos e dos untos. Tinha bom dente o animal e depressa triturou o penso sem perder um grão. bom cordão de oiro ao pescoço. deitou-lhe o meio celamim de milho. deixe-me acabar o petisquinho e mais aqui a patroa. lá foi barquejando nas pernas zambras ao encontro do senhor Incas que. . senhora duma culatra mais larga que um palheiro. ela assentada . . Tavolado fora. E antes de sair dos Paços do Concelho. .Vamos pela estrada . Hincker estaria inteirado. de naveta com o engenheiro no Tavolado. levava os olhos todos duma feira presos ao seu donaire. trapaças em que lhe não andasse escarmentada a menina do olho.O senhor Incas já agora tenha paciência. todo teso. . deu-lhe duas palmadas carinhosas na anca e primeiro que lhe pusesse o albardão. sabe-se lá? Podia tombar o carro.disse ele para Verónica. que oferecia a vantagem de ser mais curto. o braço dele à volta da sua cinta. A primeira efusão de sua alma satisfeita foi para a égua.Vai contente por voltar para a loja . contados nota a nota da mão branca e papuda do senhor Incas para a sua mão negra e calejada. que cantava e parecia oiro ao virar. 52 . a sua valente Ferreira . e a Ferreira é que ustia. Invocou a égua. Comeu. contou andanças dos seus bons tempos. quando rapariga. menos escarrapanchado o arco das suas gâmbias.Não havia meio de se medirem com o egas. que não era falho ao peso. quando uma e outra eram como pombos-correios a ir dar a Malhadas. com um ripanço tão abacial que por duas vezes o Aires veio espreitar.Fartou-se de rezar à manjedoira do Dias. ele de escancha-perna. porque desatou: . Agora estava um basculho. e a Verónica.Venha fazer o endosso e tem os quinze contos.Até a bestinha vai contente . palitou até a dentuça. É do primeiro berrelho que mataram em Orcas e seria pena não lhe fazer o funeral. rompeu a picar o trote. Por fim.Levo comigo uma queijada que pode muito bem cheirar aos amigos do alheio. a bufar de impaciência. um aparelho vetusto e vasto como palanquim de elefante em que se içava ele. onde tinha a cavalgadura e a mulher ficara de esperar.

ora diz que a casa da Serra é a pasmaceira feliz de que nunca se desfará pelo oiro todo'do mundo. ia jogando com a mulher de caravelas. ia calado. por causa do qual. Muito tenho eu sonhado com aquela casa. À Verónica sorria ver-se dona daqueles casarios tão grandes. mal tratada como anda. ah. tal dia faz um ano. saudava este e aquele por quem passava. que tocava apito . As suas vozes eram como á gua que trasborda dum açude cheio. aquelas dezenas de escudos foram oiro sobre azul. hem. Lembras-te? Ao tempo. mas passa-se cá bem sem ele.to Agapito. O Torres é boa pessoa. pode ser que se faça um rente ao casal do Torres. sempre que me lembrava. Quando falava para si.! . não há que dizer. . Abriu-c. O melhor. o que ficava no bucho. é o miminho da terra! Calou-se que vinha lá gente e estas coisas só se confessam para o travesseiro. que tem dinheiro como terra. donde Orcas se afigurava ajoelhada. que não tirasse o chapéu. como antigamente o trabuco dos quadrilheiros. minha badalhoca! Dize lá! Esta terça-feira.fica-me assinalada com um calhauzinho branco. integrado no seu papel de pessoa importante. até sentia o coração dar estalidos como uma trave arrebentada. Esses humilhadeiros dos sentidos eram-lhe de resto familiares à força de passar por eles. e a regada. ah.O Calhorra não soube que retorquir à voz prosaica e apenas no alto. contente como um chicharo. Com os dez que estão ao canto da arca e algum que se amealhe com o febrão do volfro. ah. por cima de suas cacholas esquentadas. A gente. que lhe adivinhava os pensamentos à légua. O homem ora diz que vende. Igualmente tão santanário como cortesão. o seu sombreiro de barba de baleia. bota o pensamento e o pensamento é como uma fateixa que vai tirar o que está no fundo fundo dos impossíveis. voltava ao colóquio interior ou com a sua Verónica.Fartei-me de suar no Vale das Donas. afeita a 53 . desabafou: _ Então dize lá quem é gente. santo Deus? Mas do mal o menos. por modos. Tanto melhor. disse: . Quanto largarem de vez. cruzeiro. e os filhos gostam da terra como da sarna. ah! O Calhorra falava para a mulher e falava para si. Caía um sol de canícula tão abrasador que nem as cigarras podiam com as asas para cantar. e tinha a peito que comungassem no seu jubiloso enternecimento. Mas quem adivinha? Setecentos quilos.Deus escreve direito por linhas tortas .Pode muito bem acontecer. as tílias que dão flor para todas asboticas de Portugal.Gostava. segundo a folhinha dia de S. e o homem. Este é que deitou a lebre a correr. Eram a prata. Agora. Só então se lembrou que trazia encabado no alforge. e foi logo outra vida. Foi uma fortuna aparecer este Incas. durante a qual abarcou o panorama dos seus cuidados e canseiras através de um quarto de século. ah. pela volta que as coisas levaram. Tenho-me por contente. gente que vinha a pé e a cavalo. alminhas do Purgatório. Quinze quilos é quanto canta na algibeira. ao preço por que está hoje. ao meter a mão no bolso para lhe dar meio tostão. vá lá a gente dar crédito a um telhudo assim? A mulher. vês tu. oh a regada que. ah.tornou depois duma longa pausa. pois não gostava? . não passava por nicho. Ela.bom apito toca agora o Incas. Feito o quê. dize lá? . . Nos intervalos da loquenda. um mendigo. onde não botavam. chamado pelo cadino do Aires. os cantoneiros. o que equivale a dizer para a mulher. gente que lidava nos campos. era o oiro.Estás a ver-te a bater a chinela nas salas do convento ou a deitar milho no pátio às galinhas.

. se calhar. Comparados com ele. Saem. O Calhorra quando a viu a manquitar. . ao passo que com a outra mão retinha a rédea.. Serviu para espevitar o apetite. acordando-o num desses momentos de compenetração. Ela foi-o segurando como pôde. Gasta quanto ganha em vinho e cigarros. A mim não. . mas podia magoar-se e ficou a chorincar.Deu-me uma soneira que sonhei que me estava a virar na enxerga.Metade. És muito franca? Dou-lhe metade da melgueira.disse ela. E ali se ateou uma contumélia tão azeda e assanhada que a certa altura o Calhorra deitou-a da égua abaixo... mas pecou por pouca. achava que devia presenteá-lo ao menos com umas calças de picotilho. Dizes tu convidá-lo bem. depois de grande reflexão. O brequefesta armava-se por dá cá aquela palha. que foi preciso dares-lhe o lençol com que foi a enterrar.Apanha umas calças e está com sorte. Não sei a quem os almas do diabo saem. De raro em raro permitia-se uma pergunta inocente ou uma observação que por via de regra lhe iam acender o mau gênio. tantas melúrias disse. O que te juro é que se em vez do Luís Ougado meto na dança um tanganhão dos nossos estava a fazer cruzes na boca. Mas de repente. Mas alguma. Silvestre! Os nossos lá levam a vidinha direita e não é com o copo que bebem aos domingos que hão-de deitar a casa a perder. o Luís Ougado é que meteu uma lança em África? . A marrã estava de se lhe tirar o chapéu. Assim teve ele o fim. um pouco por impostura.Que é má rês. Quando se apanharam entre os pinhais. ... Deus perdoe ao pele-de-as no. dize? . não me dás novidade. Olha o disparate? Foi de não dormir a noite.. e era destes que não movem um pé sem perguntar ao outro se dá licença. o Calhorra disse: .exclamou ela. . teve pena e ralou-se.Olha a novidade? Em chegando a casa.Em chegando a casa já te fartas.É verdade. Mas agora iam silenciosos e não tardou que ele começasse a cabecear e o pé do guarda-sol a amolecer-lhe nos dedos. A como anda o cotim? Verónica. 54 . bem embora convindo que duas machadadas depressa se dão. O avô pertencia à quadrilha do Olho Vivo.Estamos a chegar.não ser mais que voz de acompanhamento na ária de que ele por nada deste mundo deixaria de ser parte cantante.Tens de convidá-lo. que dali a pouco a Verónica montava de novo na Ferreira. Atravessaram o povo amodorrado debaixo de calmaria e com ondas de moscas alvoroçadas nos chiqueiros. andas-me com uma fritada de chouriça ou salpicão com ovos. . mas levado de todos os moscardos? O ladrão vira-se em cima duma moeda de vintém.. agora vou com fome. acordou para dizer meio estrenoitado: . E tanto apertou com ela. . já passámos Manfurada? . .Não digas isso. concordava sempre..Hem. os nossos são uns burgessos nem lá vou nem faço míngua. Caiu de pé. àquele teu tio do Forno. não. garranito. Não sei.Ia com sono. que passava a vida a fazer gaitas de sabugueiro e de urgueira para os pastores. que na idade deles era capaz de dar um pontapé numa estrela. que é má rês? . outro pouco porque caíra com todo o peso sobre o tornozelo. assim se começa e assim se acaba na beberroma. depois dum alancão que ia baldeando os dois em terra. E tens de convidá-lo bem.

em linha recta. mas agora tens de ir à pata. Era um regimento.Não. Silvestre soltou-lhe uma gargalhada: .Estamos com sorte. Adiante de Manfurada. apontando contra a parede um tufo de ervas. e água a despenhar-se da cale de Pedra para o tanque. noras e netos. cesta com eles. A certa altura. quando passámos.Enchem a sertã? Abana-os a ver se chocalham... Vá. enfiada no braço. O macadame.Ovos talvez eu os arranje. perturbada no seu ripanço de poedeira. Só lhes chegam os abades e os fidalgos.. Ao entrarem na terra.. Dela. Sabes a como? A três tostões cada um.. habituada a todos os caprichos do seu senhor... como por um argueiro se tira um cavaleiro.. Verónica tornou a subir para a albarda em frente do seu homem. . Silvestre deu-lhe um beliscão e logo de seguida levou a mão aos lábios no gesto do cadeado que 55 . ao passo que passava a cestinha a uma das mulheres.Raios te confundam! Quantos ovos. cabeça de burra? Esta manhã estive vai e não vai para te mandar descer da égua e passares-lhe os cinco mandamentos. Ia com a minha fisgada. não há-de haver novidade.Também a pita? . elas sem pôr! O Calhorra não respondeu. Não? Foi uma fortuna. .. Vê se ainda lá estão.Arranja-los tu. o Calhorra refreou a égua e.Lá pelo fumeiro. A última meia dúzia levou-os a Inês. Quem vai a pé ou mesmo a cavalo toma por ali fora se quer ir mais depressa. o Calhorra disse para a mulher: Santa paciência. a pita é do dono.. Era volfro branco. Porque esperas? . ainda quando não há compras a fazer. a perguntar: . onde há um casal com suas de endências.E o tal volfro branco? . Mas ovos? Não tenho um só de portas adentro.? Tens-me tirado os ovos das pitas? Lá me queria parecer. avista-se todo o troço da antiga via. Ajeitou a besta a um poiso e Verónica. a infalível cestinha das compras. Vê lá quantos são? . forno. . vieram-lhes ao encontro filhos. não disse bus. Ia muito lépida. encontra-se o caminho velho numa extensão de trezentos metros. saltou em terra. Encontrou dezasseis. havemos de ir ali adiante aliviar uma parida. Verónica dobrou-se a procurar com a mão.. que demos com o ninho. que chegassem ao fundamento da operação e não a achassem segundo o bom direito.Não o levas já aí. encarou em Silvestre. Mas receei que na vila te vissem os ovos e. a contar a aventura do volfro branco. quando lhe respondeu um cacarejo mal-humorado de galinha. costeou pela direita numa curva lenta e escarpada. Além de que o caminho é mau e a égua pode escorregar e partir uma perna. Quando se endireitou com a mandioca no cabaz. a fugir ao pendor que era grande. debaixo do sombreiro como um mandarim. com a cestinha. A mulher insinuou a mão por debaixo da parturiente a contar. os ovos é que são nossos. eira. Daqui a pouco estava a chocá-los. proferiu: _ Esta manhã. lagar. como dum balcão. avistei ali umas pedras de volfro.Quantos quê? . Ao chegar à embocadura do caminho. coitada.

56 .fecha uma porta. pois que se o segredo é a alma dos negócios. dos negócios que se fizeram ou se têm sob palavra. não é menos o viático daqueles que se premeditam ao longe e não passam por enquanto de sonhos mal sonhados.

O homem. um frouxo de riso nervoso e regalado. passeando ora um pé ora outro por cima da labareda. O Duarte tomou-lhe o peso. parecera-lhe ver relampejar um vulto ao cimo do pinhal do Urra.. Na mesma da hora em que acabara de sachar a leira do Gradil e já traçava o sacho no braço para se vir embora.emitiu o Duarte muito concho. deve passar de três arráteis. tu por -aqui às Jurtadelas! ? Temos endrómina. acabado o trabalho. fora.. tirava os tamancos e se aquecia. ajoelhando ao toro da giesta. tendo-se capacitado que não pisava por ali gente. Uma assim! Breve percebera que o que ele estava a fazer era a desentupir uma cova. se pôs a rapar terra. a partir com a tapada do Urra.. três arráteis para mais que não para merios'?.. compôs o chão. que voltava de deitar as águas. foi pelo volfro para lhe mostrar. como se acertasse destorcer uma grande meada. 57 .. esvaziou para lá a algibeira. imprimiu-lhe. ih? lh? ih! – e soltava-se-lhe outra vez o riso. . aquela sua voz cauta de roncão. oh se estava! Fora por uma casualidade. que não? . pois a gente da terra tinha a pecha de andar sempre a escutar por detrás das paredes que eram rotas.. pulou a direito para o caminho. que caíra debaixo dos seus cinco mandamentos.IV Reavivou a fogueira com um punhado de gravetos e enquanto ele.E outra vez se viu Bárbara obrigada a explicar como aquilo fora. ufa? mas ela iria lá direita com os olhos fechados. mal se enxergavam os talhadoiros.. expondo-o à claridade do lume.. Toda a sua pena era que não fosse urna arroba. uma casualidade como não há muitas na vida.. O macanio fizera a cova.O Luís Ougado há-de-lha sempre pregar. Foi como se desatasse um saquitel para a arca. e em voz pastosa. . .Vês tu. Depois tornou a encher a cova de terra. Assim que a apanhou em conformidade. Acachapara-se. deitou um olhar à volta e. para ele ver bem.. À moita da Cismas metia-se a gente pela demarcação arriba e era logo no tope. Escuro fazia. Também tinha pouco que errar: carreira dos gados fora. e frio. Hum. e ali.Dizes tu: três arráteis.. olhou à esquerda..O volfro estava bem guardado. pronunciou: . ih? ih? ih? Com que então... depois de escamoteá-lo com tanta finura.A endrómina está à vista . um pouco desconfiado com a ucharia. ! Ora toma-lhe o peso. ao tojal do Zé dos Cambais carregava-se à esquerda para a moita da Cismas. o guarde com tã o pouco ardil? Ai. não esteve com panos quentes. o machucho olhou à direita..? o Ougado. . mas que lhe fazia doer o peito. ? Sim.. não se pusesse por lá o irmão a deitar imaginações erradas. lá deitou o ponto até que. mesmo ao toro duma giesta. um sacolejão que fez estreloiçar as pedras: . na menina do olho? proferiu depois em tom prazenteiro e admirativo ao mesmo tempo. . rente a um penedinho. Olha quem ele era.Para estranhar é que.. Também o Duarte se não soube manter naquele seu sisudo macareno e largou uma risota baixa e esbagoada como de galo a ensinar o bom cibato a uma franga.. e como não lobrigasse vivalma lá veio pela mata abaixo todo farófia. Estava ainda na giga da meia como o trouxera e. O que me admira é que acertasses com a cafua por um escuro destes? Caramba. zás. e não são roubados.

pelo muito. um mês. embora não medisse mais que duas canchas. Mas espera lá que se a diligência que ela fizera à boquinha da 58 . Aquele linhar do Fandinga era como uma espinha que trouxessem trancada na garganta. Louvado fosse Nosso Senhor. além de que as perdizes enjeitam às duas por três. que lhes fazes? . E agora.. podia ser que valesse.A quê. de facto. trup-trup..? Sim. louvado seja o Senhor! Agora pergunto-me eu: não valeria mais a pena esperar uns dias e deixar que o melcatrefe enchesse a buraca. acontecendo calhar de milho. para terem o regalo de atestar as arcas. tão estreme que quita esborraçado. trazer dinheiro ao ganho. um ano inteiro a acarretar para o celeiro como na própria noite ir à toca e pôr tudo com novo dono. com a malta toda. nunca secariam menos de carro e terça. dali a cigalho quebrou o silêncio para dizer: . malhavam as suas setenta pousadas e. devia ser assim. Dqui a nada vale mais que o oiro. Embora os surripiadores da Fazenda lhes levassem muito do que granjeavam. uma terra de unto onde tudo vingava que só de vê-Ia caíam os olhos aos invejosos. Era este rico maná. Matavam porco pelo Santo André e. cabeça para os joelhos. era uma terra gorda.Deixei-o virar costas e fui ver. e já passavam de trinta os números que traziam na matriz.. Em casa. uma mata. que a conta dos leites. Tu que preferes? Eu cá pertenço à seita dos desconfiados: toca a botar o laço.largava das Minas. Uns anos por outros os Ladeiras adquiriam uma belga. Pagavam-no hoje pelas portas a trezentos e cinquenta mil reis. Não é? Ela acenou que. porque tendo-se sentado. partindo com eles da banda da Fonte e dando-lhes rego. dizia para os camaradinhas. Era a matação do Duarte aquele linhar do primo sapateiro que. Se é jogador. Tinham crescido às esmolas.. mas podia ser assado. dize-me lá. Viu ao clarão dum chamiço o Duarte estender a beiceira. pelo prazer de possuir. arma o laço e não espera por mais. pelos vistos. deixa-lhe pôr a dozena antes de lhe armar. sempre havia umas sobras para o riscado do avental e as brochas dos tamancos. também ele indeciso quanto ao que em tal emergência mais convinha fazer. o que ele próprio pelo encolher de ombros deu a entender que reconhecia. lhes cortava as águas de lima para duas propriedades. Sobretudo queimava-os a fome de terra. Acabavam-se os onzeneiros e estoiravam os necessitados antes do tempo. Por isso em primeiro lugar e também porque. O Duarte pareceu não concordar de todo. farturinha no açafate também avezavam. mas se eu fora adivinho não era mesquinho. um vintém Catarina o tem. um chaparral.. . lhes andava sempre forra. Este está tão purinho. O diabo é que no entrementes pode vir outro e lá se vai quanto Marta fiou. Ela então reatou: . Se é desconfiado. Com pães grados.. ? Ao volfro? O volfro vai para o pé do outro. é que o não quis e é bom de calcular porquê. fingindo-se tomado de aperto: andai lá que já vos apanho! E corria a enterrar o roubo. Chegados ali. mais que arriscado.Suponhamos: um rapaz acha um ninho de perdiz e ela na postura. cada vez punham mais febre na labuta. Pois embora. medidos à desnatadeira. Um bicho destes tanto pode passar uma semana.Por esse andar. --em feiras e romarias podiam chocalhar a sua coroa. Deixa-me cá: quem arranja dinheiro para comprar o linhar do Fandinga sou eu. o melhorio da casa. não se perca por lá o que tem jeitos de certo. ninguém dava mais dinheiro a juros.

que tinha ele com isso? A noite. no género do irmão. tromba ferrada para o lume. o fulgor das brasas a deslumbrar os olhos. Mas tinha de fazer de conta que o pobre boizana estava a calcular os punhados de carqueja que gastava sem proveito. com a carne quentinha e regalada. Estava a verlhe trabalhar o maquinismo interior como a um relógio quando se lhe levanta a tampa. um momento apenas aliviado da ralação quando ela lhe fez dançar diante dos olhos a feliz bolada do volfro. O Duarte acabou por desencravar a cabeça dentre os joelhos e ergueu-se resmungando: ia um grande inverno e era preciso ter governo na lenha. assim a esfogueirar. ficara sobre brasas.noite. estavam como queriam. quando podia meter-se na cama como ele. cada vez mais raras. No fundo. além da obsessão do que se teria dado. como de resto 59 .Não te aflijas. antes de ir crestar o cortiço do Ougado. não se sentia passar. Decerto que diante dum lume rijo. como tiborna de verdete e água choca. porque sentia a humidade nos ossos. aconselham esses enlaces brutais que saltam por cima de todos os recatos e castidades? Não havia para sentir-lhe o chamariz como as pessoas. o mesmo era que continuar a pouca-vergonha. dali a pouco não havia com que cozer as castanholas. venenoso e fétido ao mesmo tempo. a alma despe-se como o corpo quando se dá a um amigo. não tendo ânimo para a tolher de lhe ir falar. de olhos no lume. E fazendo com aquela lengalenga e os socos ferrados nas lajes mais barulho que um carro por uma ladeira abaixo. obcecado por aquela sua vontade desesperada de arranjar dinheiro. A casa era um pardieiro onde uma alma cristã se não achava mais abrigada que no meio da rua. Por isso. depois das colheitas. Era como zorra que vai pelos campos. do que se teria passado entre ela e o Fráguas. destas moinhas finas como paraganas e glaciais. assim a horas. Que grande alcoviteira que é a chama e como as suas línguas a lamber. e foi-lhe dizendo em tom de mofa: . não havia como o fogo para o Demónio entrar com as criaturas. afora curtas e ásperas guinadas do vento. Aquele pobre burro das panelas imaginava-a a ver-se ou a sentir-se com o Antoninho no meio das moitas. a abraçar-se em fúria lasciva. interrompida de quando em quando em sua modorra pela refega do vento nos pinhais. O homem viera a Malhadas receber as rendas e destinar a lavoira da casa que lhe deixara o tio. junto do senhor Antoninho Fráguas. De facto. e ela bem via correrem-lhe no bestunto as minhocas negras e viscosas da sua cisma. e. apuradas bem as contas. Morto andava ele por arranjar a bagalhoça precisa para a operação. via-a entregue à sua ideia. que em matéria de tais orgias são dos que têm escutado apenas às portas. o que o atormentava era o pensamento. Compunha-se de uma só peça. não existem veredas conhecidas ou apenas sonhadas que o pensamento não bata e vá tenteando. e pôs mais achas depois de espertar o lume com ramos secos. Mas o Antoninho era o fantasma negro que enoitecia os horizontes do Duarte. o sangue a espirrar em seus espíritos todos. Diante duma boa fogueira a arder. Lá fora com certeza estava a cair moinha. Suspeitava-a de ter pacta com ele. Quando faltar a lenha. O Duarte ficara macambüzio. E. viesse ela donde viesse. esquecidos do resto do mundo. nem de encomenda. de continuarem a encontrar-se de vez em quando a favor da primeira ocasião. onde não tremeluz folha viva. Pela telha moira tanto entrava a chuva como a neve e o vento. Estava uma noite de geada. lá se foi meter entre mantas. vou ao molho pelas tapadas! Coitado. a nadar em ódio. e tal ideia fora e continuava a ser o seu inferno. desse o fruto devido.

Dois pontaletes grosseiros. A princípio. . contra a luz. aquele olhar diabólico que despia as mulheres antes de elas se porem em camisa. Também ainda pudera dar duas cardadas ao cabelo. ajuntou-as em seguida. sem contornos. foi-lhe dizendo em tom sacudido: 60 . pois então? Era ao entardecer e foi quase ao escapulir-se para a cerca.Com que sim. quando dobrava o portão. Primeiro imprecisas. Achá-la-ia mais velha. mandados ainda meter por seu avô.. Quem na dividia eram as arcas. Mas espera: . O Fráguas observava-a dos pés à cabeça com certo enlevo. a sua voz foi como quando se acende unia candeia no escuro: . mas o meu Duarte é um encolhido. . Com a tenaz mexeu as brasas.?? Pois se entendes que é essa uma razão para lá ir eu. o fumo. Bárbara? . a bater o dente de taró. Também ele já não era rapazola nenhum. restos contra a tesoira. que uma vez ali entrara por curiosidade. Mas assim que atinou quem era. Procurassem nele o estoira-vergas que apertava um cavalo entre os joelhos e lhe fazia dar ronco. o que é. a que penduravam as peneiras e o candil. e para ela com sobrada razão. afoitara-se a dizer-lhe: . Que dizes? O Duarte despedira.proferiu ela a medo.Bota-te a falar com ele. não perdera uma centelha daquele seu olhar magano. haviam-na tingido como uma essa. por dentro. Torres. O tempo. salvo a fechadura e um ou outro prego pelas paredes. agoniado como andava na ideia de que lhe iam expropriar a regadita do Vale das Donas por dez reis de mel coado. Um figuro de Lisboa. Para que acabasse com a devassa. ainda nada pesadão. do que logo se apercebeu com desvanecimento e vaidade. senhor Antoninho para toda a gente.. Não estivesse ele possuído pela febre do linhar? E ela decidira-se. Fizera como em certos actos da vida que se fecham os olhos antes de dar o passo fatal.O meu Duarte é que havia de lhe vir falar... com excepção das casas do senhor Antoninho e do Dr. uma vez que o Duarte largara com uma moenda para o moleiro e não via. mais fria que uma corga da serra à meia-noite. a aparecer por grande acaso na terra e o Duarte a pular. que o não descobriam. Mas o que tinha de pior era ser fria. E de novo depondo olhos no crisol e fechando-os maquinalmente. Ouvindo-o sonhar alto. por fora. saíra a dizer que tal habitação era semelhante às que se tinham feito no princípio do mundo. que não envergonhavam uma cidade. Se não fora o chamicinho morria-se inteiriçado. e eram de ferro. Mais assente.O senhor Antoninho haja de perdoar . a armação que ameaçava desabar. escoravam ao Centro. Dar um recado custa-lhe mais que levar uma saca de dez arrobas às costas. depois pouco a pouco com relevo e relação.Nem que me matassem? julgas que sou desenvergonhado como tu?? Estivera para mandá-lo bugiar. que conseguiu falar-lhe.. Não ia assim tão fregona como de ordinário e bem deu conta que os olhos dele se foram acendendo pouco a pouco como auricus.no povo.. sou desenvergonhada. no horizonte do seu espírito se ergueram as suas preocupações como montes ao longe.És tu. não me nego a Isso. Tivera o cuidado de cobrir o xaile e de calçar as tamanquinhas. ao chegar do Gradil. não se esquecendo de lhes fazer uma covinha ao centro para activar a combustão. o Antoninho não a reconheceu. O Fráguas.

Torres e do senhor Antoninho ali conservassem bens e. Ela então não se conteve que não desatasse a rir. o certo é que eram uns infelizes da sorte. logo a seguir. e queríamos semear lá erva. ali viessem deitar âncora. Não é assim.disse subitamente o Fráguas... números redondos . Estaria farto de saber... deitava-se a perder se o não indemnizavam segundo os cálculos que orçara. Bem entendido. e espantava que figuros da classe do senhor Dr.. que os pinheiros tão jambotos eram que não mereciam serragem. Desejam que a terra fique a monte. A regadita. das vezes que ali passava à caça. tarde e às más horas. . Ela. e que só a murá-lo arrancara passante de trezentas carradas de pedra e trouxera dois pedreiros. de facto. Talvez os engenheiros do Incas tivessem carradas de razão e o seu Duarte não passasse dum enxovedo que nascera com má sina. a comer. tisicado do gênio como todos sabiam. outro ali. Pronunciara a lição de cor como tantas vezes fazia com Pêro e Sancho e estava admirada tão bem ter representado que um finório daqueles se deixara engrolar. que os gaios e a raposa não deixavam amadurar ali maçaroca e que lá de água. como tantas outras terras. que. atalhando a jaculatória.. todo o ano a labutar como negros.Não o quero demorar que está muito frio aqui no meio da rua. Deram-lhe ordem para não deitar nada na regadita. Eu desato o saco. a três escudos.. sim senhor. por um reverso da decepção e por manha. por muito que o Duarte houvesse minado no oiteiro. mas paguem. Era o nervoso. Paguem e não façam como fizeram corri a Cismas que recebeu uma tuta-emeia. por sinal uma boa carrada. Há dois dias voltou a ter com eles tal bate-língua que chegou a casa num estado que ninguém podia com a vida dele.a última sangra. e ela seria a primeira a experimentar-lhe a pancada. Que não valia a pena.? Lá que retalhem o chão. rendera uns duzentos e vinte mil réis. depois de ter consentido no sacrificio abominável de a 61 . e não só lhes faltava pão no açafate.. mas tinham que tirar dinheiro a 20% para pagar a décima.e que de facto o bocadinho fora agenciado pelo Duarte no baldio.O senhor Antoninho não conhece os louvados.. não valia o amanho. como todas as propriedades daquelas parvalheiras. foi pouco mais ou menos o que disse. o Duarte não quis chegar-se às boas e vêm os louvados. pois que fique. Em realidade o que há pouco a atormentava era o que ia fazer o irmão por ricochete. rompeu a concordar com ele. com brusquidão pouco delicada.Eu sopro uma palavra aos louvados . assim que soubesse terem sido frustradas as suas esperanças. tinha-a quando arreganhava a cabra e mijava a rã. Vou-lhes dizer que tenham em atenção que vocês são pobres e levam vida dura... . Ele deu-lhe uma fungadela. e.? . ainda que de mau humor. três semanas. se foram quem eu imagino.. como a visse calada tempo mais que suficiente para tomar fôlego. Era isto o que ela lhe presentia no catarro.? Porque saiba. lá medravam dois pinheiros revelhos escapos por milagre ao dente das cabras. a fazendória era um pedriçal que dava quatro espigas chochas.. afora aquele ano que haviam trazido de lá a sebe cheia.E queres a minha intervenção para que. mas andavam à resina . até umas vezes por outras. Ora cada um manda no que é seu. A regadinha hoje vale dinheiro. mas não cavem a sepultura dos vivos. O pior de tudo era que o Duarte. O meu Duarte anda muito escandalizado com os homens do volfro. Ora se sabia! Na parte pedregosa haviam deitado penisco e um aqui. . Tirámos o milho..perguntou. acabou-se..

não sabia o que murmuravam as bocas do mundo? O importante é que lhe não descobrira nos olhos reflexo suspeito nem vinco na face pelo que devesse ficar de pé atrás. Os homens quando estão diante duma mulher deixam-se seduzir pela ideia do gozo que ela lhes pode oferecer . e não..Pode acontecer. Quanto ao mais. Ao passo que despedia. cem vezes não.. embora logo se arrependesse: . . E ali estava: dia em cheio? 62 . Como ele a visse rir. Ah. apoquentados pela soma de relices que saltaram a pés juntos para matar seus desejos. e de expectativa ante o tamanco-seria ja o bruto do Duarte? . atirou o xaile e as tamanquinhas para um canto.. Era a medirem o galão que dera o tempo. Bárbara. Rascoeiro até a morte? Afinal tudo isto de homens eram a mesma choldraboldra. à volta dos olhos apardaçados.Um dia será.tinha-o observado em muitas ocasiões ... e fora então que dera o salto à lura do Gradil. brincando. Eu?? Diga dessas. Casou lá para Muradais.? . ela a rir.que estreloiçava na rua. pois que lhe interessava ainda. Ia a abraçá-la outra vez.. chegou-se para ela e passando-lhe a mão em volta da cinta.. Sentia crepitar a chama e difundir calor... proferiu reatando a ordem de pensamentos solapados: .. O senhor Antoninho.. Mas exalava o mesmo odor poderoso e envolvente e ao seu lado experimentava a mesma fateixa forte a arrancá-la para fora de si. mas mesmo assim as palavras dele entravam-lhe no peito como uma golfada de ar fresco. Largaram cada um para seu lado.deixar ir falar com o homem detestado. Depois.. o ar bendito das manhãs de Primavera.. o seu tanto distante ainda. excitado porventura. viu-lhe reluzir nas têmporas os primeiros cabelos brancos e. É um alegrão que lhe levo.Não diga isso? Estou acabada. Sim. talvez coisa nenhuma. Dentro dela não se apagara a fogueira. arranjou melhores entretimentos . Então lá dou o recado ao Duarte e bem haja.. não podendo desconfiar do que lhe ia no entendimento. E. E que estaria ele a pensar dela? Que estava boa para calço de panela? Talvez coisa nenhuma. mas ouviu-se desta feita a chanca da Ana Ruça caminhar para eles e ela furtou-se. Meia bêbeda. as capelas cerzidas de garatujas.... já ele dizia com voz que fingia de arrufada: Fartaste-te de mangar comigo.. Um dia.Então não acredita? . Durava o entremez: quero-te bem! amanhã será o dia? ... julgava-se uma meronga. Anoitecia..Nunca é tarde. Fitando-o de perto. e que bálsamo não era esse para a sua alma sentida? Tanto assim que teve coragem de lho dizer. pois mal se calara o tamanco.Estás a mesma rapariga... Assim animosa. O tempo não te viu. tornou rapidamente: .Acredito o quê? Plantou os olhos nos dele.. . .. já não se sentia há muito. tretas? houvesse ele saúde? Saúde e. como o visse calado e sério. Que era legítimo concluir de tais palavras? Sabia. negava crédito às línguas depravadas. e três vezes volveu a cabeça.longe de pensarem nos engulhos que virão depois a sentir.Aqui me tens.vinte. disse com melado entono: . Mas ele metera cara ao portão e caminhava para casa sem olhar à retaguarda. para vinte e cinco anos. que é o mesmo que dizer bóia. bichas. O senhor Antoninho é que nunca mais quis saber.Agora. além disso.. Àquela efusão sucedeu-se uma pequena mas enleante pausa.

. O céu enchia-se outra vez de silêncio.. Ouves. sentiu-se transir e aconchegou-se contra o lumaréu.. No poleiro. mas por mais que acalentasse o sono.. e logo a voz do Duarte encheu a casa toda: . vencendo a hesitação. O que é o coração das pessoas.. por lá a Rosa Pedralva que andava a cozer.. À ideia do forno com a borralheira à porta e os mendigos em redor a disputarem um lugarzinho mais bafejado pelas brasas.. vem por lá o meu Duarte? Dianhos.. empapaçando a atmosfera. mas há que tempos isso foi? O padre que coma as galinhas dos baptizados. deixe-me. ping. um. num rufo. Calaram-se e a noite continuou a dobar-se em mistério e escuridão.Diabos levem o galarozI Amanhã corta-lhe o pescoço. O vento volvia ao bufadoiro. das voltas que o mundo dá mais retorcidas que o nagalho dos sacos para. santo Deus? Não fora a realidade. Cerrou as pálpebras nesta beatitude.... três. o galo cantou três vezes. e enfiou-se entre as mantas. o chambre. mas levava as mesmas voltas... infundida da molinha viscosa que... até que desenganada acabou por 63 . pang. Há duas noites que o ladrão anda a chamar desgraças . Solange Fráguas. a qual apercebeu-se. para as despedir depois com impetuosa e ríspida estridência: vuu! Sucedia-se uma pausa. pois ainda não seria meio serão. continuou em meia modorra a vadiar por trancos e barrancos conhecidos. e nova rabecada. para a direita. Canudinho. Cantava a desoras o maldito. Tropicavam socos na rua.. Ouvia-se para os cerros o seu bruto fôlego vergar as corutas dos pinheiros.À lareira gélida e silenciosa revivia a cena toda e pasmava do seu rasgo. durante a qual apenas sussurravam as frondes convulsas. que o Duarte fizera mesmo à entrada da porta por causa da fuinha. E ficou a malucar de olhos muito abertos em coisas e loisas.. dois. salvo de que via uma senhora à janela de juba para as costas.Não disseste que havíamos de o dar ao senhor Tadeu?. acabava por escorrer dos beirais.És muito franca? Disse.. para a esquerda. Bárbara . papudinha e desdenhosa. tanto a realidade lhe parecia de carne e osso. foi para as lameiras da serra com as vacas e lá lhe apareceu o senhor Antoninho a querer saciar apetites. .. uma escuridão que abafava a casa como um corvo abafa os ovos que está a chocar..era a senhora D. e andou a estudar a maneira de se introduzir na mina do Vale das Donas e bifar uma abada de minério sem a caçarem na ariosca. não? Ora o fidalgo? . Em menos de um amém despiu a sala. com náusea . mais os meninos. este verdadeiro sono que leva a criatura para fora do mundo. À força de ouvir aquela música começaram a fechar-se-lhe os olhos e.Ai. Deu voltas sobre voltas.. girou a deitar-se.. . nos lábios um grito açucarado: . Tornou ao volfro. tudo voltar ao que fora dantes. o pensamento lançado à rédea solta por incertos lugares e incertas gentes. Acordou com o Fráguas a puxar-lhe pelo braço. que frialdade? Fechou os olhos e pôs-se a bichanar o padre-nosso. tê-las sujeitas um instante a gemer e a guinchar.Olha. entrara já nos gonzos e perguntava-se ainda onde é que ele estava.Corto-lhe o pescoço e toca a imolá-lo. pregasses com ele na feira? . terra de que não fazia bem ideia. Foi num rufo a Muradais. e na lata que Bárbara deixara debaixo do algeroz.. humedecendo as coisas e trespassando as roupas.. até dez. a gota de água batucava em dois tempos ao desafio com o caleiro mais próximo e menos tomado da chuva: ping. pang.

que nem uma míssinha mandariam rezar pelo descanso de suas almas!? Todo o ror de anos da mocidade lhe foram de endoença. alé m do mais. Grunhia. Em que data isso foi. o senhor Antoninho a dar-lhe a mão de esposo. com uma carapuça de Judas na cabeça. Tudo ela sacrificara à cobiça daquele seu morcego.ficar de costas. o Duarte instalado de procurador na casa onde estava agora a tia Ana Ruça. e algum era. 64 . Estaria por lá com algum pesadelo: ó Duarte? .. e com o que arrebanhava a mão canhota. tão longe.. Custaria a aturar um côdeas e foleiro daquela ordem. Agora. ainda não teriam saído dos serões se fosse o tempo. Passava para o gemedoiro. noites mal dormidas. de bailar no terreiro. Ah. foi no ano em que a Cismas gritou aqui-d'el-rei contra o Silvestre Calhorra que para se vingar dela. mas havia mulheres para todos os feitios como há formas para todos os pés..Menos na minha algibeira. muitas vezes pensava: que valiam tantos sacrifícios. fartara-se de carretar para o celeiro como a formiga rabiga. tão longe que nem na margem povoada de estrelas. a quis “levar ao castigo”. que era a delimitação do seu cubículo.. que cobras e lagartos uma pessoa traz no seio: a morte de D. Duarte? Há! Estás a sonhar. ? Não. lesma de todo! O Duarte ressonava. mas o Duarte suspirava. todas bem longe de ter um palminho de rosto fino como o seu. como a noite era arrastadiça. uns primos e velhacos na quinta casa. Não o fazia naquela altura porque as noites eram grandes e temia que durante o sono ela lhe fugisse ou o senhor Antoninho viesse ter com ela à cama. sem um só dia raiar o sol. tem entrado muita nota? . espreitou para a lareira: lá estava uma brasa a rutilar como o olho dum gato. Talvez encontrasse quem o quisesse. Anjo bento. Agora grunhia. criaram borregos e cabritos. podendo ter boa enxerga. Porque se não casava o grande jagodes? Nunca ele pensara nisso. O regalo dele era encafoar-se pelo feno dentro. Por essa altura. a rilhar a broa pelos caminhos. estou bem esperto. da banda de lá da noite. Os ladrões do volfro dão comigo doido. à meia dúzia de abadas de volfro que ia buscar à exploração do Incas! Mas que horas seriam? Erguendo a cabeça por cima da arca. Compraram uma vaca.? Espera. calava-se um instante.Deixa lá.. engastada na cinza. tornava a grunhir. se tudo haviam de deixar a outros. do que mais gostava. Cresceu com o que Deus dava. homem. Solange. que lhe andava aos ficitos novos num pinhal. olhos presos à babugem da luz. como aqueles Fandingas e Urras. que se coava das telhas de vidro. cada vez mais somítico e apertado de contas. o Duarte tinha ido à benta das Dornas com ideia de que a Ana Ruça lhe deitara mau olhado. A casa cresceu. minha santa. graças. a mocidade. Era como um porco a bulhar com outro pela bolota. Oh. Mil raios os confundissem quando olharam para esta terra? . Mas não procurara fêmea.. dar trela aos rapazes e o respectivo retrós a torcer. andava tudo a lazarar. e seria o mais. vencendo a natureza. luz rarefacta do quarto crescente. Para esquecer e se vingar da mofina. o prazer de se assear aos domingos à semelhança das mais raparigas. afundida no oceano de negrume que era o interior do casebre. mesa de lázaros. da Rua Nova. No mais certo dos palpites. a alegria. manhãs perdidas. era do palhal.. um Verão a porca pariu-lhes oito leitões e todos botaram à feira.. Da mesma maneira que nascera nas palhas.

Está tudo a nadar em dinheiro. Faziam-no por sua mãe. é que me tiraste da devoção.. enquanto se era vivo. uns que ela conhecera.Apanhavam nada? . Importância tinha-a o que passava no papinho da gente.? . Também haviam de cantar em cima da sua campa.Quem fica rico é o excomungado do Calhorra. Por causa disso passaram grandes vergonhas.. .Eu não te estorvei. além da resina e da caruma que davam para as estrumeiras. muitos de quem já não restava sequer à flor da terra o eco dum sonido. Sua tia acabara zaranza de todo a falazar sozinha pelos quelhos.... Os pinheiros. Reinou de novo silêncio dentro de casa. por sua tia.Talvez. vinte e cinco anos.Dois contos de réis.. .Não sei.Não faço ideia nenhuma. Torres lhe deixe o charravascal do Santo Antão de mão beijada. Contava o que fizera pela vida fora. e era um grande perigo para ela própria e para todos. já me dou por feliz se me pagarem a regadinha pelo seu valor.. Em volta do povo. mas valeu mais assim. Para que é que o diabo do homem havia de vir ainda tentá-la naquela altura. estamos governados.. dize. como sucedia na familagem.Não quiseste ir trabalhar para a mina. . O carrasco do vento esmerava-se agora em arrancar aos pinhais maior e mais aguda gemedeira..Aquela Malhadas é uma madrigueira? Vejam como tratam os defuntos? Mandavam-nos para aquele migalho de terra onde ainda eram úteis. Tu.. acusara-se dos latrocínios que praticara e das maldades que fizera ou deixara de fazer. Todo o santo inverno fartavam-se de lhes cantar o miseré. até tomarem as cautelas 65 .O Fráguas veio para comprar o volfro à capucha.. Era um grande perigo se te apanhavam a furtar. Por isso. Ouviu-se o vento zunir na cumeeira e nos intervalos a cantoria macaca do pote debaixo do beirado. já que os vivos os não choravam. pela tropa toda dos finados.Diz-se que cinquenta contos.? . . Calaram-se. não sabia ao certo. Assim. só havia matas. com as tuas desconfianças. tinham por obrigação chorar os mortos. . Agora não é ponto assente que o Dr. O cemitério ficava mesmo soterrado entre pinhais.. Quanto lhe deu o Incas? . Durava aquilo há vinte. É verdade. era costume dizer a gente das outras terras: .Modera-te que não tens razão de queixa. outros de que ouvira falar.. Os pinheiros iam com as raízes por baixo das campas chupar os mortos. Quanto calculas que podem escarrar? . Têm vendido para aí minério que é uma abusão. decerto a deitar contas à importância em que vinha a converter-se a queijada. Temos ali à beira dos seus quatro arráteis.E tu a dares-lhe! Quis e tornei a querer. O Duarte tornou: .. Achas pouco? Com dois contos dessa banda e com o que temos no volfro. O Duarte calou-se um momento. Nãu_ tinha mais importância que o latim dos responsos..Olha. O pior de tudo é que se esbagachava como o canganho da uva. E proferiu em tom de magoada inveja: . Lá fora o ping-pang da chuva tornara-se repetida e molesta toada. A cabeça já lhe não governava.

Fora assim em tudo. para debaixo do avental ou então pela saia acima.Tanto vale confessar-se a um padre como a um buraco... Chamai um padre. De verdade. todos se punhan à coca para ouvir e ir contar. o Mondego! E tudo por esta cartilha. à falta desse cão providencial. já ela estava com os dentes enfechelados. Rape. Rezava alto e era uma pagodeira. o modo de uma pessoa atilada se safar da enrascada. mas quando desatava a acusar-se e a acusar os seus. Valeu à Bárbara ter coragem e contratestemunhá-la pela aleivosia que lançava sobre gente honrada. que é atirando o ovo a terra e gritando ao cão que vem a passar ou. Mas o Duarte teve que abrir uma cova bem funda. reduzida a esterco. em caso de se vir a ser surpreendido. e sepultar lá o raio da saia da mulher. .. Aí é que está mais fora de riscos. Olha. que chegou ao estado de inocente. acusou-se de ter roubado uma saia à Cismai. Fora ela que lhe ensinara a regra do bom viver: Olha. mas não tinha grande arte. uma paz de alma. rezava. a mão dela era uma gadanha afiada. Ensinou-lhe também o processo de não deixar chocar os ovos nas quintas do próximo e. Agarrava o que podia. Calhou ela culpar-se de coisas e de pecados que estava averiguado terem sido cometidos por outros. 66 . As comadres faziam-lhe roda e até lhe puxavam pela língua. como havia de suceder a ela e a todos.É Deus que fala pela boca dela. senão ia dar parte. Descoseu-se hoje ao soalheiro. é que se mete a farripa de lã para a algibeira. Comia como uma tulha e nada a fartava.mas não pegou. Ela ainda ensaiara a estrangeirinha: Minha mãe é santa.tornava a mãe. Padre-Nosso e Ave-Maria: fora o que se chama lagóia espertenida. . depois de erguer uma laja. Diziam: . cães? . que é um grande encarrego.. a sua rica saia de merino. Dava um salto na noite que nem gineta. ao cão que mora mais perto do ninheiro.Chamai o padre.. Você quer ir acabar à cadeia? Não foi pouco que o senhor Bacelar viesse ministrar-lhe a Extrema-Unção. leinbram-se quando lhe faltou do coradoiro? Outra corria com a novidade: já se sabe quem bifou o cordão de oiro à Rosa Pedralva. até a fazê-los. Umas zoinas chegaram a testemunhá-la. a Cismas foi a que fez maior escarcéu: “Queria para ali a sua sala. . quando se lhes enchesse a boca de terra.” Sua tia tinha dito em público e raso como a roubara e onde a roubara. servindo-se das palavras irresponsáveis duma tolinha.foi a tia Soledade. Deus lhe fale n'alma.Vá ladrar a uma horta. Nunca mais puderam deixá-la sair sozinha? Fechavam-na na quintã. Essa não falava alto pelos caminhos. E o ardil surtiu efeito.Se a alminha dela se perder vós sois os responsaveis.. menina. mesmo em casa. . senão era motivo para a levarem à justiça. quando se está na carmeada e um patola se tranca diante da candeia ou se arrima a nós a fazer-nos gatimanhos. para a algibeira. Queria que chamassem o padre e a mãe fazia coro com ela: .. e ela passava o tempo de joelhos virada para duas paredes a rezar e a acusar-se. Só tem direito de lá tocar quem sobe ao poleiro. que nunca ninguém mais viu nem veria. Nos seus tempos nada lhe metia medo. abandonando-se a um homem casado.respondia o Duarte. já sua mãe era mais comedida. Que surras não fez dar ao cão do Calhorra. Vem o meninojesus ter com ela à cama . Entre elas. Acabou sequinha como as palhas a pedir confissão. não havia ninguém que pusesse em dúvida que estava louca.Vossemecê não vê que está zorata? .necessárias.

Ele sentava-se no banco. não esfarele o pão. desde que estiveram depositadas no celário. e sentava-se à beira da cama.Senhora mãe. ou na pedra lar um graveto erguesse mais alto a chama. as paredes alegravam-se.É depois que a gata da Pedralva desamurou daqui. ela continuava a andar de roda. umas vezes a fiar na roca. De noite. expirou naquela chieira: tenho fominha! e com a mão na boca a fazer o gesto de engamelar. Eram como unha com carne. de ventre empinado e a bater os queixais.Ouves os ratos? . Ia atiçando a borralheira porque sabia que o Duarte chegava entanguido. às vezes pingando.Senhora mãe. acocorada sobre os calcanhares. Jesus. pouparam mais de trinta alqueires por ano e o caldo medrou tanto na horta que se desorelhavam as couves. traçava a cruz no ar e evaporavam-se. abrenúncio. lado a lado. Outras vezes era ele que o fazia a ela. Como se atormentassem com estas idas e vindas. teria. mais nojo que pena. muito compostas dentro da mortalha. as vacas fartaram-se de canas. outras vezes a rilhar a côdea. nas regas. Bastava que a bafejasse a aragem. Às vezes acordava e ouvia-o dizer com santa paciência: . Assim se desvaneceram ondas e ondas de anos. o leite hoje é mais grosso. e por todos os fiéis defuntos que lhe vinham à memória. Outras vezes o irmão clamava: . então que já não lhes faltava côdea no açafate. ela no esteirão. Outras vezes o Duarte largava a deitar as águas. mas passaram a afligir o Duarte. Miguel se não voltassem mais.Devorava um pão inteiro e uma abada de batatas em três tempos. pé ante pé. e iam para as mantas.Está a gear. Apareciam de noite. Nem homem e mulher. dir-se-ia. A candeia era a única coisa que naquela casa não parava. A cada passo visitavam os lugares. Coitada. Às vezes ele acabava primeiro o caldo. E estava sempre a gemer: Tenho muita fominha. Pode deitar mais um quartilho de água na panela. Comiam à lareira. ela acabou por prometer uma novena a S. Sua mãe. Tudo lhe servia para encher o odre. Quando lhe faltavam com a malga do caldo ou se atrasava a trincadeira com os empecilhos da lida ia-se à pia da porca e atufava-se na vianda. e era delas. que custa a ganhar.ia jurar que vinham reavivar o fedor que se sentia na casa. tão próximos que ouviam bater o coração um ao outro.. e era dessas vezes que a alma dela se amedrontava e fazia pequenina. molhado até os ossos. Soava um ronquido e esse ronquido não podia deixar de ser a velha a protestar. Ela espiava a roca. Seu irmão não as sabia esconjurar. a bater as matráculas dos queixos. 67 . ele tosquenejava. Faleceram as duas com diferença de um ano e por muito tempo a casa ficou cheia delas. Mas deixavam um cheiro acre . De raro em raro trocavam uma palavra e era tudo: . Maria. Se punha uma rocada de carqueja ou de sargaço.. animada dum movimento de dança. cada mocho a seu souto. A tia Soledade vinha leve e rápida como das vezes que se metia nas frescatas do mosco. na lavoira. o próprio tempo.Arrefeceu. . Passavam o inverno com uma candeia de petrolina à dependura dum ourelo de serguilha por cima da fogueira. Disse o barbeiro que tinha a solitária. nas sachas. com aquela voz canina: tenho fominha! causava-lhe. Depois que deu a alma a Deus. Rezava então pelo eterno descanso da tia e da mãe. Ela virava o fundo da sua malga para a dele: Pega que não tenho fome. Parava a chuva. Não voltaram a ter com ela.? . De dia.

No fundo.. A gente que fora ao acompanhamento voltara tão caiada que nem parecia deste mundo. ficou a conhecê-lo. Credo. a casa recaía na sua morna tristura e lôbrego silêncio. E a noite lá ia mancando. Passou o murmurinho pelos lábios do Duarte. perdida no meio de penedais.. vá. Safado? Se me derem menos. mas bater como quando era moça. . Ficaram calados. Por dentro era um borrego. Que doze anos aqueles! Primeiro a aturar as almas penadas. Por alma de nossa mãe.. bufou ao borralho. buliu com o quer que fosse que tinha jeito de papel ou asa de noitibó.. . grito ó da guarda? . plantado como um buzilhão de pássaro numa das patorras. com a perna encanada.A labareda era uma aleluia: espantava medos e negrores. Rosnava.. Acompanhava o rosnado dum encrespar de sobrancelhas que fazia gelar o sangue aos que se dispunham a defrontá-lo. caía neve que se desfazia o céu em farfalha branca. que não era nada de nada o que a outra gente supunha! Sua mãe falecera por aquela altura. e até os fantasmas das duas defuntas.Reza também. . 68 . mancando. Tamancos apressados chocalhavam na calçada. Era como os cachorros de porta que mostram os dentes. Desde a hora em que se engrifou com ele. passeava a outra sobre as brasas. Ora o serão é para tudo isso e para o que é menos é para fiar. a cozer há oito dias sem interrupção. O que acontecia era andar oito dias mais macambúzio que um cerdo com arganei e não lhe falar.. único na terra. Um espiche de ar atravessou a casa. esgrimia com os braços. Ferrara-se a chover deveras. tenho para ali duas dúzias. Ela de princípio também se iludira. e ao cabo da oração tornou-lhe a ouvir: . Daquele modo a vencia. se ocupasse das vidas alheias. À porta eram capazes de dizer que os roubei. Também lhe era preciso “pedir a vez” que não lhe restava mais que pão e meio no tabuleiro.Com que sonhas. Tinham cortado com o serão... porco!? Dorme. mas só os vendo na feira. tudo aquilo era postiço.. Ameaças. Os palitos não custam a dois tostões a caixa? E os ovos? É verdade.Pois se me apanho com os dois pacotes!. Pelo repouso de sua alma.. por lá gente que voltava do forno.ouviu dizer o irmão. Mas desde que vinha o Duarte e. Ouviu-se a chuva tamborilar no telhado e nas lajas do caminho. vagarosa como uma ovelha velha. padre-nosso .. depois as manias dum solteirão. escamugiu-se pela gateira da porta depois de percorrer os cantos todos como uma doninha e deixar um frio mortal. Passaram por ela carros e carroças de pensamentos. Agora uma passarola qualquer esganíçava-se por cima da casa. Barafustava.. folgasse com os rapazes. que estais no céu. O Duarte não tolerava que ela dançasse. Mais de uma vez se tomara de rixa com um ou outro atrevido. Extinguira-se na lata a trasbordar o batuque da gota de água. Falava pouco e quem fala pouco mete mais respeito que os fanfarrões. tó ruça.Se te derem os dois contos não fazem grande favor.. Temiam-no supondo-o capaz de maus repentes. mas porque lhe causava dó aquela eternidade inconsolável. mas nunca mais se atreveu a tocar-lhe com um dedo molhado. Sempre assim. pontuado de sibilos como do vento nos buracos do telhado. ..Darão os dois contos pela regadinha? O cão do Calhorra saiu-se a dizer que a não queria por quinhentos mil réis. não que precisasse das suas falas.Estás a rezar? .

mas tinham ar de ser bisnaus. a agarrá-la... grito. filada pelo braço. Ela recrudescia em sua zanga: ..Minha desenvergonhada. Ao tempo usava bigode. a coruja piou em quantos telhados havia no cimo do povo. ela via-se na obrigação de sacudilo: _ Deixe-me? já lhe disse. Também ia no acompanhamento o senhor Antoninho. a súbitas. ouvira dizer a um figurilha... cada vez a abanava mais: . Estás a sonhar com o varrão. deixe-me! Qual deixar? Para que andara com negaças? Ia-lhas pagar todas. acorda.? Se me não deixa. berravamlhe: . onde uma vez esperara com a tia Soledade o recado arriavioso do dianho dum fidalgo.. Recurvo por cima da enxerga. Estava no seu princípio e era fresca como abrótega. desabavam aves e flores daquele céu de presépio e. aguçavam o bico na casca das franças e espreguiçavam-se desembainhando molengamente a asa sarapintada. Fora há doze anos. que estás tu a sonhar?. que era como que a voz. Bárbara estrenoitava em pleno transporte do seu ser.?! 69 ....Barboreta? Àquele engodo celestial respondia ela com um aulido estridente e gozoso.. Lá vinha ele todo dengoso. vinte a vinte e cinco anos àquela parte.. Passarinhos que nunca vira...Quando morrera sua mãe. O corpo dele nu e truculento enchumaçava-se na meia penumbra que descia do olheiro de vidro. transido de cólera. talvez do mundo todo.Ó desenvergonhada. ao passo que bruta mão a sacudia. e a voz lançada na noite silenciosa não era mais que a expressã o do mistério inefável. como quem não quer a coisa. via o Duarte.Olhe que eu grito. a brenha transfigurava-se no bosque de japoneiras em flor. mau grado da bicha-solitária.. As camélias estavam suspensas a vê-Ia e parece que também elas diziam com o Fráguas no chilreio dos passarinhos: . preto que nem azeviche. E. Mas.. Subitamente.. pesava como chumbo. Que zarelho! Mas era casmurro. um bigodinho muito nédio. parecia a duma fonte a alegrar com seu murmurinho os codessos do montado. porém. no arrabalde de Orcas. Eram seis homens a levá-la.. Sua mãe.durna segunda pessoa a desdobrar-se da sua carne. Não a deixava e conduzia-a para o meio das giestas. A sua voz. porfiava. Essa pessoa vinha não sabia donde. Mas o facataz vinha de mais longe..

Ceifões. vinham mães e irmãs com o comer para os homens que trabalhavam no volfro e os passos daqueles andurriais repercutiam das vozes ásperas e cristalinas. tigela em punho. Brás da Nave. estendiam a toalha do comer. ala. De certas culminâncias descobria-se o desdobre dos vales e por eles fora os velhos caminhos vadios. de par com o trrá-trrá das tairocas ferradas mordendo o códão e o lajedo. Gastam em cheiros quanto ganham. presumidas disse. E novamente a campina se alagava com a voz de córrego das mulheres. 70 . quer dizer. rotinha e ranhosa. em grupo acolá. acendia-se toda aquela branquidão dos almoços. veja bem. ou rompendo de trás dos barrancos.Deixem lá ver o que sobrou do almoço. O jornaleiro agrícola tem outras exigências de mesa que não tem o operário das cidades. contra o desmonte.. que passavam da centena os assalariados. sim. Calçam sapatinho de pelica e andam que nem comboios. nas barracas em dia de chuva. semeada de aldeias lôbregas. Pedrões. As de Mouramorta porventura tangiam esquila. e não era romaria a nenhum dos santos milagreiros que dos altos picotos espargem sua brancura celeste pelo mar de urze e penedal que é a Nave. prestavam-se de boa mente ao exame: .V À hora do meio-dia os caminhos para o Vale das Donas animavam-se. não menos desdenhosa: O rancho de S.. arrumada a louça.. traçados com tantas curvas e reviravoltas que bem se notava não saberem o que era tempo os homens do passado. Que havia de ser senão a busca prevista?? já se não revoltavam. Chegados aí. um homem comandava: alto! Eram os vigilantes da mina. E. outro ali. só de jornada e pelas tabernas. Malhadas da Serra. a sua baixela ainda que humilde. À mão. S. Brás hoje está adiantado. porque come muito com os olhos. é nojento. Com a cesta à cabeça ou enfiada no braço. Sentase por terra. no cotovelo do caminho. a terra baça cobria-se de losangos brancos como se por ali se houvesse esflocado neve. Dos quatro pontos. costas dobradas. Nos dias estivais. Alçavam a mão para os cabazes no jeito de soerguer a toalha: . a sua faca. interjeições joviais. traziam pela mão a garota descalça. um aqui. Transcorrida a hora regulamentar.Veja. Arriando as cestinhas. Mouramorta. por uma qualquer coisa se engulha. os ranchos avistavam-se reciprocamente. Não raro. mas de olhos floridos da maravilha que era a mina donde brotavam as saias de chita deslumbrante. o que dava ensejo a trocarem as raparigas as suas impressões: . um tamanco que tropeçava. neolíticas. os cordões de oiro e as tamanquinhas de verniz com que ficavam umas fidalgas. mas há-de ter a ilusão que está em casa. À volta da mina e encosta fora. à sombra dum penedo se fizesse bom tempo. que já se estendiam pelas leiras e excresciam em montes de desaterro.Lá vêm as de Mouramorta. a trouxe-mouxe. uma ou outra vez varrido o prato para o rafeiro fiel.. um apelo mais alto lançado ao longe. Ao longo das escavações. com o seu garfo.

ditara para os engenheiros: _ Não aparem as unhas muito rentes. e desanichara a mulher jeitosa para tais artes numa das frandunas que tinha por conta na almuinha do Rapa-Tachos. mostravam-se elas mestras no engenho de passá-lo. como nas minas do Rand. E perdurava na opinião de que não valia a pena. Equivalia à exsudação inevitável que se dá nos canos de gás e nos depósitos de benzina. em vez de trazerem o minério assim em bruto. Hincker folgava imenso quando lhe faziam a história de tais ardis em que se aprazia ver ressurgir aquele génio celto-turdetano. De princípio a escandaleira passara as marcas. É o quinhão dos ratos na despensa e dos pardais na seara. Tais e tais abarrotavam de contrabando. a montagem dum cordão fiscal mais próprio para vexar do que para trazer prestígio ou emenda. que não havia como o miolo para esconder umas pitadas de volfrâmio. mesmo com os capatazes à perna. alcançava altos preços e corria que certos párias quando apanhavam uma pedrinha a talho de mão. dado que andasse de pedra no sapato ou recebesse ordens. e botavam à grandura dum ovo de codorniz. ou jogando chufas. as que transigiam levando o vexame à conta de patuscada. metia o nariz até ao fundo das caçoilas e mandava-lhes esfarelar a grossa broa centeeira. O que se evade por esta forma não conta. dando ao topete: . varrer as migalhas e restos para terra ou duma vasilha para outra. por isso mesmo refractário à filtragem. oferecendo uma pinga na terra.O homem. Os processos variavam. Fora precisa uma apalpadeira. a título de pôr cobro a desvios que computava de nonada. O volfrâmio.Deixem lá. reprimiriam a fraude de maneira a que os rapinantes. desde que tinham tranças grossas. posto não conseguissem estancar de todo em todo a fuga sub-reptícia do minério. Depois. na exultação de terem iludido a devassa ou por natural singeleza. Hincker. embora não impossível. e em última análise insignificante no volume da massa mineralizada. areias estremes que pesavam às vezes onça. Tornouse difícil a roubalheira. A Administração acabou por fechar os olhos a um género de fraude assim miudinho. e deixava correr. sem arestas que lhes magoassem a tripa. tão falho de escrúpulos como pitoresco. Assim como os homens conseguiam sempre um meio de escamotear o seu migalho. à semelhança dos guardasfiscais nas barreiras. passavam-na ao estreito. uma vez limpo.Podem seguir! Riam com desafogo. bem à vista. desafiando a imaginação mais fecunda e atilada. que era homem de rasgo e vistas largas. Foram apanhadas algumas mulheres com pedregulhos tão recheados de volfro que excedia o arrátel. Fazia-lhes ainda plantar tudo no chão e. e ia até apalpá-las. . Por enquanto vai chegando para se furar a pele aos godemes! Com providências elementares. com o que multas recalcitravam. reduzidos a fazer mão baixa apenas em 71 . Enfronharem-no no cabelo. era o mais cândido e comum dos recursos. Mas também acontecia. que consagrava a manha como uma virtude e admitia roubo desde que praticado com boa e original sagacidade. Não levavam por isso as buscas até onde o Antoninho Fráguas queria que se fizesse em Muradais: despir as mulheres antes de largarem com o gigo do comer e dar a sua purga aos homens. sem que ao focinho do argos chegassem ventos da candonga. traziam-no em estilhas. arrebitar apenas a ponta da toalha e proferir de bom grado. Mas os guardas porfiaram na caça.

amarelos. surdos e cinéreos.000 rs. Produção. procediam à vara larga. Representavam estes por sua constância e ainda gratidão o partido dos legítimos interesses. sobre a conduta dos quais podiam repousar confiadamente. a febre de minar tornara-se endémica. o mais invejável possível em face da importância que assumiam os minérios de tungsténio no fabrico do material de guerra. escudado por Berlim. havendo a intromissão dolosa do Calhorra desobrigado Hincker dos compromissos tomados na primeira plana. A dois meses da primeira enxadada tinham erguido no Vale das Donas armazéns e telheiros de abrigo. Já por duas vezes os grandes camiões de seis rodas. recebido a preciosa fazenda e abalado de noite em direcção às forjas ciclópicas de Leste. Hincker visava acima de tudo aos resultados.quantidades mínimas. 750 nos entrepostos. e donde menos sai é do rico corpinho de john BuIl. tendo por função especial contratar e despedir gente. O pessoal superior repartiu-se da Sobriga para a nova empreitada. francês e espanhol. o quilograma às portas.Vamos até onde a concorrência nos force . Uma turma manejava já com acerto e eficácia os revólveres de ar comprimido. Chegou aos ouvidos de mister Corbet o dito detraente e observou: 72 . era. Na expressão enfática dos Nazis.. não sendo em tempo normal duma produtividade de primeira. só não cantava as estrofes heróicas do DeutschIand über alles na música da Internaclonal porque a desconhecia. . Ou pelo menos partiam desse pressuposto. E por natureza estavam destinados a contrabalançar a corrente da desordem e da cupidez. ruivos. adquirir e consertar ferramentas. A exploração. fechados a ferrolho e lacrados. superintender nas arrecadações. depois de frisar a significação ecurnénica do facto. não há que ver. o níquel da Finlândia.notificara Hincker aos agentes. Depois de pesquisas mais ou menos prometedoras no Vale das Donas. e o carvão do Ruhr>. 400 a 450. saltando por cima das teorias estabelecidas pela economia política em matéria de capital industrial e seu rendimento. O marco sai do suor. a Hermann Gõring Werke requerera o alvará de exploração. Graças ao metal precioso. embora não haja guerra mais desigual do que esta que sustenta o marco contra a libra. produção. que o engenheiro Severo. pretos. Hungria e Croácia. não causassem dano de monta. e tratavam de instalar separadora e lavaria. O Aires trouxe consigo o Quim da Urra. Como o volfrâmio atingira a escala do oiro. afundidas em criptas à prova de bomba. . reverberada porventura do lema que norteava o Reich hitleriano. a bauxite de Itália. E mãos à obra. “a velha Europa estava a defender-se com armas fabricadas com o que havia de especial em cada terra. desencadeadas com a concorrência e a cotaçáo espasmódica do produto. exclusivamente do suor de Michel. e outros que lhe eram afectos. presumia a Wehrmacht possuir o primeiro armamento do mundo. bem lembrado do seu grande desembaraço na estrada para Orcas. o petróleo romeno. o volfrâmic.Vamos. o ferro noruego. tinham parado ali. E o senhor Hincker. integrados em conceito tão dinâmico. de Portugal. montado o dínamo. e os engenheiros e os próprios capatazes. Augusto Aires. homem para quebrar uma laia com os dentes. foi investido do cargo de fiel. A libra saí do suor de toda a gente que cobre a terra. mais produção era a sua divisa. arvorou em capataz. como em regra as outras da província.

rasgando valados e fojos absurdos. . e manta do Diabo sempre a ponto de encobrir-lhe as mascambilhas. fizera banca com o Simão Tadeu e um capitalista inominado para explorarern o filão descoberto nas terras do Dr. E sucedendo que os trabalhadores. o trabalho dos dois filhos. animado de espírito comunal. tão fonas como suspicazes. cerca da ponte da Mizarela. Esgaivavam na seara e no maninho. implicava a responsabilidade do Dr. Hincker fez reparo. Manuel Torres. gato escondido rabo ao léu. Uma martelada imprudente cortou a corda e três homens vieram britar-se nos abismos rochosos da torrente. Pode haver equiparência entre os dois? Lavradores patudos. à mão-de-obra. estilhaçada a pólvora bombardeira e a gatilho. viravam a courela desde os penetrais ao húmus. tal como as trutas na ribeira e os coelhos no monte. Que mina era aquela do Santo Antão com uma exploração tão paradoxal? Examinando bem. por baixo das casas e das ruas. Por montes e vales a terra aparecia picada desta furunculose. Com efeito a pesquisa oferecera logo de princí pio promessas tão pouco satisfatórias que nada justificava trazerem ali a gente em barda que se sabia. de modo a poderem alforjar para os bolsos e terem arame para a vinhaça. ou qualquer filão encasquetado em granito. Cipriano. correndo debaixo do rótulo do Calhorra.O Reichsmark é um farroupilha e a libra uma grande aristocrata. e em muitos casos sem outra razão que a de serem donos de duas aguilhadas de saibro ou de fraga. ou ir à consulta do subdelegado de saúde. Assoclavam-se às três pancadas e um pouco à toa revolviam o solo onde aflorasse veio de quartzo.avisava-se de dizer um belo dia o visionário à tribo congregada. a engenhara a alma danada do Fráguas para servir de ventosa. além um poviléu inteiro que. veio a averiguar que. . A mamara era o volfro. Manuel Torres. que noutros tempos seriam insusceptíveis de arriscar uma coroa com o veterinário. onde punham nada mais que o palpite. na região.Vamos experimentar na belga . associavam-se uns com os outros. suspensos por amarras do alto cairel. porque às qualidades nutritivas do leite maternal reunia a vantagem de ser grato Deo. devorarem outros o seu e o alheio. Em verdade. Nas arribas a pique do Cairria. além do seu tempo de feitor e respectivas sentenças. alegando não ter vintém e sorvida a massinha ganha com o endosso do Vale das Donas na voragem de velhas dívidas. lapuzes que antes de descerem à cova se benziam três vezes para o volfro lhes saltar ao bico da picareta.. à falta dum indicador no gênero do Livro de S. se tinham a vaca doente. Mas no meio da vesânia geral não havia maneira de um insucesso pôr entraves aos despaurérios da cobiça. O Calhorra. E. O resultado as mais das vezes era calamitoso. se lhes sobreviesse uma tifóide. o Calhorra. E acontecia da manhã para a noite ficarem uns podres de ricos. ao Santo Antão. Cavavam onde lhes sugeria o sonho. arriscava. O capital anónimo era dele e. desmentindo o princípio de que o português era um primário na fase da inaglutinação.Pode ser que lá se encontre mamara. O padre não passava da union-jack daquela empresa escura. que era homem turbulento e de sorte. levantados os salários. e para as bandas do Ladário o fosso foi de tal ordem que se assapou sobre os pesquisadores a capela dum santo. pois que este 73 . Aqui era uma família que fazia a lavra por sua conta e risco. esvurmadoiros de saibro e rimas de pedra. manobrava a toque de sino a picareta e a enxada. refluíssem em número da Sobriga e do Vale das Donas para ali. trabalhavam firmados em andaimes sucessivos. dito e feito.

74 . não podia deixar de crescer dum dia para o outro a cambada pitoresca dos traficantes. Torres concordou e prometeu rever o assunto. De par com actividade tão tumultuária. A certa altura. que implicava atropelo e agravo para eles. trazido à tona pela relha do arado e a enxada dos cadabulhos. o apanhado ao rebusco pelos campos. Entretanto o Calhorra era avisado que tinha de suspender a exploração até nova ordem. aldeia duma densidade asiática: todo o garoto. À noite. ociosa e lazeirenta. que em tempo normal enxameavam pelas portas a comprar o cornelho e a moinha e a belfurinhar a petinga corchada carretada à cabeça da Régua e de Caverriães. A cada passo batiam à aldraba. e ainda por bandos em certos sítios da chá e do cerro. e pouco era. e alguma colheita fazia quem tinha pachorra e olhos de lince. daí o suceder pagarem o volfrâmio um pouco mais caro que a cravagem do centeio. Interrompida a actividade no Santo. comparável pelo número e carreira que faziam uns atrás dos outros à das lagartas no enfolhar dos bosques. com os dedos dos pé s a espreitar da biqueira arreganhada dos sapatos amarelos e a crina da trunfa a espichar do velho mazzantini derrubado. prontos a tomar o minério de contado.ainda tivera a lembrança de registar o filão em seu nome. dir-se-ia. vendilhão. se Manuel Torres cedera o terreno a Silvestre para o explorar a título de compensaçao pelo dano que lhe causara o Augusto Aires. pelas quintãs. E eram uma praga borbulhante. com a carteira atafulhada de notas. o arranjado ao pilha e outras malas-artes. salteador nas suas horas. o compromisso caducara automaticamente em face da atitude posterior do trapaceiro. na mão direita um saco. ou simplesmente soprada por uma aragem imprevista como os gafanhotos. os agros andavam coalhados duma vérmina que se aqui não causava detrimento. O Dr. na esquerda cobres. Nas terras de sementeira ou de pousio enxergavam-se vultos pervagando isoladamente. do bronco assombro dos penedos destroçados pelas leiras. Severo Bacelar foi despachado a Lisboa representar contra a comandita. vendia acolá. e arrebanhava tudo. ao cigano tropiqueiro. o Calhorra arvorou-se em negociante miliciano de minério. nas escaleiras toscas de granito. ouviam-se os martelos até altas horas a britar o quartzo. de mistura com o: dê lá uma esmolinha! . O exame dos peritos foi-lhe desfavorável. empresário de pedintes. que por vezes cortam fundo. Entregavam-se a esta tarefa em geral os velhos e as crianças e uma ou outra pobre mulher. Em verdade. toda a velha foleira. com o solo de alqueive. gente de gravata e cachucho no anular. e um abuso de confiança em relação ao proprietário. Na veniaga desaguava toda a casta de indivíduos. além calcava o pãozinho na medrança. Como vinte gramas do minério rendiam mais que a melhor jorna.. Mister Corbet surgiu a reclamar o direito de prosseguir nas pesquisas a título de que o terreno em questão estava adentro da área registada em seu nome. ou movendo-se aos pares com a lentidão compenetrada. Marchanteava aqui. desabou sobre a várzea de Malhadas a mendigagem de Cruita do Alto.. O Reganha ia. todo o jarreta. ao chamariz do Roupinho. Fazia-lhe frente o Calhorra. Protestou. e nunca se sabia o seu montante. tanto fino como em bruto. Conhecidos os dados do problema. candongueiro. desde o Antoninho Fráguas e quejandos. Comprava o produzido nesta e naquela lavra singular à margem da lei e da razão. Eram os rebuscadores do metal desligado da madre por erosão. homem da rifa.

Tanto Corbet como Hincker traziam assoldadados, não falando nos compradores oficiais, agentes secretos que compravam o volfrâmio a este e àquele pela porta travessa, na intenção simultaneamente de, seguindo a marcha do negócio em seus conchavos e vias ocultas, estarem habilitados qualquer hora a refrear a roubalheira e a prender os larápios. Foi por este canal que na mina do Vale das Donas se veio a saber que o Calhorra vendia todas as semanas uma dose maior do que era lícito supurar, tendo em vista o minério arrebanhado duma banda e doutra. E, motivo superior para ficarem de pé atrás, o velho negava-se a transaccionar com quem quer que fosse que não ostentasse bem clara a marca britânica. Ao Augusto Aires foi dada carta branca para deslindar o cambalacho. Era preciso o maior recato na devassa para não pôr a conrobia de sobreaviso, mormente o Calhorra, conhecido de tutilimúndi pelo autêntico pai da manha. Por isso o Aires andou a escolher a dedo os seus moscas, não se contentando que fossem cautos, mas sim que dessem prova de sagazes, com arte tanto para armar como desarmar um estrangeirinha, surpreender a ariosca no ar, seguir o fio da meada sem o enredador dar por isso. E ele com o Quim da Urra tomou a cargo espiar as passadas nocturnas do raposão, esperando-o a pé firme nas seitas costumadas e nos locais em que era useiro. Só ao cabo de semanas puderam ter os cordelinhos na mão. Secundavam ao Calhorra dois meliantes de alto bordo, o José Francisco e o Luís Ougado, aquele para a alicantina comercial, este para a alicantina, digamos, mineralógica. Ambos de estrela, beta e pé calçado, mas o seu braço direito era o Ougado. Era ele que no Vale das Donas metia os camaradas à ratonice e lhes dava instruções úteis quanto a uma indústria de si tão perigosa como arteira. Demais, era ele que recolhia o saque na quase totalidade e pagava proporcionalmente aos contribuidores. Mas na operação subsistiam quindins de todo impenetráveis. Como é que o volfrâmio continuava a fugar-se do Vale das Donas? Os guardas redobravam de vigilância e astúcia sempre que submetiam à revista as paquetas do comer. Mas nada descortinavam. E ou elas tinham de facto acabado com a candonga, ou haviam inventado sortes com que ludibriar o mais ladino. Hincker gracejava: - Pois que temos aí a Intelligence Service, não há remédio senão mandar vir a Gestapo. Além deste papel todo mercuriano, o Ougado exercia junto do Calhorra as funções não menos eficientes e herméticas de alquimista. Era o seu preparador. Fora do povo, na tapada das Margaças, onde em tempos erguera uma cardenha que servia para recolher o milho do secadoiro, se desatava a chover, e vinha dormir de guarda ao meloal, instalara agora o laboratório de morraceiro com ventoinha, crisóis, e os pertences necessários à mangola. Ali, alumiado pela candeia fumarenta de creosende, procedia à transmutação: os óxidos de ferro e o mispíquel, de que todas as explorações era abundantes, aquecidos ao rubro num tabuleiro de zinco e “engraxados” de maneira a adquirir brilho, tornarem-se “volfrâmio de lei>@. Esse brilho conseguia-o, entre outros processos, fritando a mistela em resina de pinheiro, óleos queimados de motor, ou negro da palha. Também, em vez da pirite, acontecia-lhe lançar mão da cassiterite e da blenda, que reduzia previamente a pó impalpável, e ainda do titânio, que na região e mais raro, mas tem a propriedade de ser dotado de peso específico aproximado do tungsténio. O minério verdadeiro servia-lhes para criar a

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superilusão caldeado com morraça, sobretudo para formar à superfície dos sacos a película venal: a amostra. Os belfurinheiros, mais ávidos que experimentados, vinham, examinavam a fazenda, friccionavam-na entre os dedos e na cova da mão, e punham-se, tantas vezes, a cheirá-la, que certos produtos não perdiam o odor próprio mesmo depois de “sublimados” por meio de ustulação. - Homem, quita de fungar - nitria o velho, deitando lume verde pela pupila de gato. - Aqui não se fazem tibornas. Pega ou larga! Acanhavam-se de levar longe a suspicácia. Além de império que baforava de tanta arrogancia, acrescia ser o presidente de senhora junta. E lá levavam a carga da mistela, paga às vezes por alto preço. O curioso é que, à parte estas transacções realizadas de portas adentro, a mercadoria dirigia-se em linha recta aos armazéns de mister Corbet pela mão do Antoninho Fráguas, que a recebia da mão do José Francisco, seu agente e digno filho. No Vale das Donas achavam-lhe pilhéria infinita. E pois que a tramóia revertia mais em prejuízo desse concorrente do que de outrem, os engenheiros da Hermann Gõring W,erke deram ordens aos capatazes para fazer vista grossa até o momento em que a fraude, no que lhes dizia respeito, assumisse maior vulto. O negócio do volfrâmio batia o auge. Sarabandeavam pelas portas os chatins comprando a olho, pesando, quando pesavam, em velhas balanças de gancho com arráteis à romana. Nem todos acalentavam ilusões: eram enganados aqui, iam enganar além. De modo geral as aldeias mudavam de pele. Cobriam-se as casas de telhados novos. O quintalinho era murado a capricho e a escarpa escalonada por bons e luzidios calços de alvenaria. Mas simultaneamente surgia o negócio do marchanteador de terras, compra hoje, vende amanhã, impinge logo que possas,- o pior dos venenos. Embora? A Beira, a velha província dos nobres solares em ruína, com vidraças sem vidros e grandes portões de castanho emplastrados com rodapés de lata, paredes à escoda e bojuda comija taciturnas, porque se não há nada tão loução como o granito novo, também não há nada mais melancólico que o granito das casas mortas, abandonado à corrosão dos anos e pasto de musgos e líquenes, a velha província rejuvenescia. Na serra, as raparigas atiravam fora a capticha de lã e punham blusa de gorgoriria por cima da sainha curta. Os rapazes compravam botas, a sua bicicleta, e armavam-se de revólver. O revólver, que era o símbolo da época, equivalia a uma emancipação. Só armados eram maiores, como sucedia antigamente com os pajens. Por seu turno os velhos campónios, dobrados à lida e aos impostos, viam pela primeira vez maneira de saldar velhas dívidas cancerosas e de se porem em dia com o fisco. Os harpagões das aldeias davam ao demo a cardada que lhes subtraía o carneiro à tosquia e aviltava o mérito do préstamo. Em regra entrava ar fresco, vigorizador, na pobre e mais ú til célula da nação, a localidade rural. Economizando daqui, puxando dalém, o Augusto Aires pôde adquirir o casal do defunto Pata-Larga, falecido sem herdeiros directos lá para Lisboa, e circunstância foi essa que levou o José dos Cambais a permitir-lhe o acesso à sua porta. Sempre que lhe era azado, vinha dar o seu dedo de colóquio à Teodora, que já não escondia os sentimentos. Não andavam os pregões a correr, mas ela ia aprontando as peças do enxoval. O José Francisco, posto que preterido, recusava-se a desarvorar. Aos domingos, de cambulhada com os de S. Brás e Mouramorta, subia a rua plangendo a concertina e botando cantigas ao seu amor dum dia. Apenas

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por estes rapapés se mantinha fiel ao tipo clássico do enamorado. No mais era em tudo o manel do século vinte: gravata de malha, lenço a espreitar do bolso de encontro à carapeta da pena de tinta permanente, sapatos de cor, na lapela uma divisa de clube em vez do raminho de serpol. Entretanto foi informada a Administração de Vale das Donas de que dos aviamentos do Calhorra em minério iam crescendo, o que supunha maior consumo do metal verdadeiro para colorir a potreia. Era de supor que, por contrapartida, dalgum modo os lesasse aquele progresso. E de novo os podengos da mina se puseram a rastejar a marosca. E tanto beberam as auras, farejaram, colheram zunzuns daqui e dalém, que acabaram, nos termos da linguagem batoteira, por dar no vinte. Um sábado, dia de paga, o pessoal em vez de cobrar a féria ao postigo, como era costume, recebeu ordem para ir recebê-la ao escritório por piquetes de cinco. Uma vez o primeiro turno em frente do pagador, o vigilante que tinha vindo da Sobriga, e era homem forçudo, mandou alinhar. Depois ordenou: - Arregaçai as calças! Os cinco homens tergiversaram, procurando eximir-se: - Ora essa? Para que havemos nós de arregaçar as calças? - Para quê? já ides ver. Arregaçai? Hesitaram. O vigilante buliu com o vergueiro. Ao lado, os dois auxiliares, cada um com sua ripa, aprumaram-se de cenho descido e silenciosos. Desarmados como estavam diante dos três pimpões, não tiveram remédio os homens senão obedecer. - Desatai agora os nastros das ceroulas... Compreenderam: estavam queimados. Mesmo assim, tentaram reagir. O capataz ergueu o cipó. Deslaçaram os nastros. Deste, daquele, de todos enfim, caíram pedras de volfrâmio, se miúdas no geral, algumas grossas como avelãs, e tudo minério estreme e cristalino. Um dos rapinantes mostrava os fundilhos esfiapados à força de servirem de alforge. Os cinco homens, a seguir à revista, foram encaminhados para o barracão contíguo pela passagem interior, e sucedeu-lhes segundo turno. A cena repetiu-se três, quatro vezes com idêntico cerimonial e vozes equivalentes. Derivou enfim, tendo os homens rumor do varejo ou, na mais simples das hipóteses, acabando por desconfiar. E antes de penetrar na barraca aliviaram-se da carga que traziam. Num desses grupos estava o Luís Ougado. A voz de: arregaçai as calças! Todos se prontificaram a fazê-lo - tão pressurosamente que semelhante despacho se tornou suspeito menos ele, o que, em contraste, se tornava pela sobrançaria objecto de igual prevenção. O vigilante, que tinha fumaças de teso, sentindo farsola pela proa, cresceu para ele, depois de atirar fora a cachamorra: - Ai sim, homem para homem! Em resposta o Ougado sacou do revólver e meteu-lho à cara. Mas o Aires dum salto prendeu-lhe o pulso, iludindo a pontaria. A bala foi cravar-se no chão ao passo que os dois pendiam sobre a mesa, parecendo que se tenteavam, corpo contra corpo, quando era o Aires que, filado ao braço do Ougado, lho torcia até obrigá-lo a largar a arma. A luta foi tão breve que o vigilante da Sobriga nem tempo teve para intervir. Quando viu o Ougado sem o mata-moscas, jogado de escantilhão para a casa ao lado, limitou-se a dizer para o Aires: - Deixe o homem! Não é esse que traz minério com ele. Outros'... O Ougado arruaçava: - Ceguinho eu seja se mas não pagares! Eu cá tas guardo.

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- Quando quiseres - respondeu-lhe o Aires. - Aqui ou no cabo do mundo, com aviso ou sem aviso, tens homem. Não só não prosseguiram no despique como puseram remate à rusga. Para escarmento bastava. Estancada a fuga do minério em Vale das Donas, voltou-se o Calhorra para a pesquisa de Santo Antão, recuperado o beneplácito do registante. Pusera este como condição expressa ser o Calhorra, sozinho ou associado exclusivamente a pessoas da freguesia, a fazer a exploração, não recorrer a capitais estranhos, nem ajustar pessoal que à data do acordo andasse ao serviço de qualquer empresa, salvo ter sido despedido ou autorizado. Deste modo julgou defender a neutralidade, acautelando-se contra as reclamações e injunções duns e doutros. O Calhorra, depois de deitar contas à vidinha, chamou novamente a fazer parte da sociedade o Simão Tadeu que, se desta feita se não decidiu ainda a arriscar a importância duma missa seca, induziu o José dos Cambais a entrar com a valia de duas juntas de bois. E manobrou muito pela sonsa para que ao Fráguas fosse reconhecido o direito de sacrificar ao lado dos amigos o seu pacotinho de notas debaixo do nome do José Francisco. E assim sob palavra, como era de costume fazer os negócios na província portuguesa, que para os antigos a palavra valia oiro e escritura em tabelião, se formou aquela bisca lambida com o fim de sarjar as entranhas do cerro à cata do tungstato de ferro e manganésio, que ali se tivesse coalhado desde o magma original para os Calhorras esfomeados e fura-bolos. Mas se atrás do José Francisco estava manifestamente o pai Fráguas; atrás do Calhorra, Mercúrio; atrás do cura, Deus e o Diabo; atrás de todos quem riscava era John Bull com precisão de ganhar a guerra. Salvo Sebastopol, os Alemães ocupavam a Quersoneso deliciosa dos Gregos, com seu mar sempre azul e cidades cheias de lenda e regaladas de perpétua primavera. Com o torpedeamento sucessivo dos seus portaaviões, a Home Fleet desertava do mar do Norte, o seu bulevar. Em contraste, poderosas formações da RAF sobrevoavam a terra germânica, plantando aqui e além cenários do inferno. Após o raide de 26 de Outubro a Hamburgo, que escavacara os bairros aristocráticos alinhados à beira do AIster, volvendo de novo na segunda semana de Novembro, despejaram sobre Berlim toneladas de bombas ainda mais explosivas e incendiárias. Os Alemães atupíram as crateras das ruas, e esconderam com taipais os prédios esbandulhados em atenção à estética e ao moral do público. E pela primeira vez rosnaram: “Pois é possível que a título de inutilizar uma fábrica de carrinhos de retrós, adstrita como aliás a mais rudimentar actividade à economia de guerra, ou mesmo uma oficina que manipula lentes para periscópios, se devastem quarteirões inteiros, para cúmulo, em países ocupados, reduzindo multidões indefesas a lama sangrental?” A ferocidade da guerra total tinha os seus reflexos até a mais remota ondulação da natureza humana. Também no Luís Ougado vibrava a sanha que lançava metade do mundo contra outra metade quando apareceu no Santo Antão a exibir a carta de desquite, e o Calhorra, acolhendo-o de braços abertos, disse alto para que constasse: - Deixa lá? Doze escudos também aqui os ganhas sem mais suor. Hincker achava o Calhorra sumamente pitoresco, dum pitoresco que o absolvia da nocividade, e deixava-lhe os caminhos livres, inclusive aqueles que conduziam à traficância. Consultado por Torres, antes da transacção, não vira inconveniente em que a lavra fosse retomada nos termos rescrítos.

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E o Calhorra e os seus pegaram-lhe com a gana toda, se bem que o filão parecesse de reduzidíssima possança e mergulhar. Por todo aquele fim de Outubro, no Vale das Donas, na Sobriga, na Tojeira, em Muradais, o trabalho prosseguiu tão afincado como surdo, e esse silêncio criador correspondia à pausa com que nos países em guerra se incubavam as ofensivas trernebundas. Do Vale das Donas, por um acaso feliz, saía minério a rodos, tendo dado numa bolsada que era o assombro dos engenheiros. Saltavam à picareta pedras com dois e tres quilos de metal puríssimo, e de extracção relativamente fácil devido à circunstância de o gaveto de granito descoser sem necessidade de fogo. Isso perturbou, quando correu o rumor, mister Corbet e fez cismar o Calhorra seu aliado, como aliado do próprio Porco-Sujo na colusão de interesses, além do mais, invejoso, o que não é para estranhar num bicho de presa e rapina, com o apetite nada enfariado. E o Calhorra decidiu nem mais nem menos levar uma daquelas noites de luar, com o céu estanhado pela algidez do codo, a velha guarda - os dois filhos, brutos e espessos como búfalos, o Luís Ougado, olho vivo e pé leve, o José Francisco, ágil e arteiro, a Florinda, a mais fina das lambisgóias - ao assalto do jazigo maravilhoso. Meia dúzia de arráteis que arrepanhassem contariam no orçamento dum cristão. Ora havia noites que o guarda da mina ficava morto com a tachada, podendo passar por cima dele carros e carretas que não vinha a si. Precisamente nessa tarde o Calhorra tivera jeitos de atraí-lo à pipinha, e graças à prateira de azeitonas e à lasca do presunto, despendurado da trave, a animar a funçanata como puxavante, o homem despediu dali que nem um terno de abades depois de um jantar de quaresma. Para mantê-lo no estado celestial, levou a largueza a aviar-lhe uma cabacinha, sabendo quanto o piteireiro era sanguessuga com o briol a talho de mão, e o seu palhete das Margaças chamava-se dum quodore de respeito no género de trepador. Às dez da noite, hora dada para o trancafio, o guarda ressonava à porta da barraca, enrolado no capindó, e o seu resfôlego era estrondoso como de cetáceo sentido do arpão. Não farejando vivalma que pudesse tolhê-los, a quadrilha muniu-se de picaretas e enxadas no próprio ferramental da empresa e guiada pelo Luís Ougado desceu à mina. A Florinda tinha a seu cargo alumiá-los, para o que o José Francisco a munira duma lanterna de furta-fogo. O Calhorra postara-se de atalaia, um olho no guarda, não fosse por lá o ladrão cozer antes do tempo a camoeca e fazer das suas, que era homem de maus fígados, outro olho nos caminhos, não se lembrasse o Diabo de trazer àquela hora os vigilantes ou algum engenheiro. Um assobio seu e os francelhos punham-se de sobreaviso; dois, e acaçapavam-se; três, e salve-se quem puder. O trabalhinho começou bem e prosseguiu pela noite fora com regularidade e aproveitamento. Não mexia uma paragana na terra, entanguida pelo codo e a crassa imobilidade do céu. Para o povo, de quando em quando, um rafeiro lançava dois latidos, aguentava-se vinte, trinta segundos naquela charachina, calava-se, volvia a ladrar, e ao cabo de duas notas soltas em bemol tudo tornava a soçobrar na paz nocturna. Um automóvel anunciou-se de longe, veio arcabuzando o silêncio, rorejando com a luz dos faróis a coruta das árvores, vestindo-as de brocados e pedrarias... rompeu adiante. Ainda não era meia-noite, já tinham extraído dois sacos de ganga, mais pesados que defuntos. A obra ia em seu curso, com denodo e sem quebranto, apenas pelo desembaraço um pouco caótico

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denotando não ser regular. já o Manuel Calhorra subia o terceiro saco, gemendo, que botava lá para os noventa quilos, ouviu-se não um silvo, nem dois, mas logo três, sinal de cataclismo. Cada um tratou de se escamugir para seu lado; a rapariga acocorou-se sobre a lanterna; o Manuel deixou cair a carga ao chão, que foi rebolando, fazendo pela escada de madeira abaixo o barulho dum casario a desaba. Acompanhados da Guarda Republicana, vigilantes e capatazes puseram cerco à exploração e catrafilaram os larápios. Não tardou que estivessem todos sob custódia, salvo o Calhorra que se esgueirara não se sabia por onde. Mal se ouviu soar um galope para a estrada, disse o Quim da Urra: - Lá vai o Calhorra... Mas em vez de tomar o rumo de Malhadas, o eco toava do lado de Mouramorta, e o Aires, que lhe conhecia as manhas, ponderou: - Vai avisar o Antoninho. Toca a prevenir. De facto, o Calhorra tupa que tupa, como mais tarde se veio a saber, fustigando a Ferreira, em pêlo, com os nós da corda, foi alvoroçar o Fráguas que dormia em Muradais o sono profundo dos justos, que em beatitude apenas diverge do dos patifes na cor que têm as asas do anjo de vela à cabeceira. Quando soube que levavam o filho preso - o que para o Calhorra era perfeitamente indiferente se não tivessem sido gazofilados os seus lapuzes - acordou os criados, mandou chamar o Manuel Minga, por alcunha o Espadagana, mais dois ou três companheiros da vigairada e, depois de se encharcarem de cachaça contra o frio da alba e para ganhar rompante, terçando de quantas espingardas e revólveres puderam haver à mão, lançaram-se na chocolateira, a toda, para Malhadas. Em Malhadas informaram-nos que os presos já iam a caminho de Orcas da Beira. O Fráguas desembraiou, meteu o acelerador a fundo e antes de chegar a Pedrões da Nave, ao cabo da recta, lobrigou a escolta com os presos. Afrouxando a marcha, conferenciaram: - Atiramos-lhes sem dar tempo a prevenirem-se? propôs um que entrara heroicamente pela bagaceira. - Não; é perigoso - proferiu o Minga, mais aliviado do cérebro. - Não vale a pena irmos já às do cabo. De resto, podíamos ferir os nossos. Prevaleceu a opinião moderada e foi o salvatério, bêbedos como estavam. Ao acercarem-se, evidentemente porque sabiam a rês que o Fráguas era, a guarda fez meia volta e aperrou as armas: - Alto ou vai fogo?? Detiveram-se; fingiram em seguida a maior surpresa ao defrontar com os detidos. Com modos irónicos o cabo aconselhou-os a arrepiar caminho: - Façam de conta que vão errados. Nós é que vamos bem: ordinário marche! O Antoninho convidou-os ainda a molhar a goela na tavertia, que era costume o Catrino ter sempre um vinhinho de três assobios e, como se estava na quadra das matanças, a assadura mais que certa para amigos e unhacas. O cabo não ignorava nenhum dos estratagemas a que recorriam picardos e contrabandistas em tais colisões, e muito menos a boa peseta que lhes saía pela frente, todo falas de mel depois que vira as Mauser engatilhadas. - Não se mate. Havemos de entregar entes anjinhos, em jejum, na cadeia do concelho. Foi promessa que fizemos a Nossa Senhora da Agrela. O Fráguas retrocedeu com os seus, enquanto a escolta prosseguia para Orcas da Beira. Os presos foram entregues ao administrador. Rogos,

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Dizia-se que Hincker se empenhara por semelhante solução. 81 .súplicas. decorrida a semana sem culpa formada. puseram-nos em liberdade. que já envolvia corrigenda e era a menos susceptível de lhe causar engulhos e contratempos.

. O Calhorra também o queria. A terra dum dia para o outro mudara de face. suspendeu ao alto. vende-o lá a quem adregar. do outro pôs. arrenego! Além de ser um marralheiro de alto lá com ele. introduzindo o dedo na argola. despediu para o lameiro da serra. tudo lhe servia de pretexto para peguilhar: a fazenda que não era estreme. em seneca.Vende-c. tendo-lhe constado que possuíam o seu migalho. Bárbara meteu de espora fita para o Vale das Donas. os pesos que eram ladros. uns da terra.. arranjado ao rebusco. Desta feita o braço deslocou-se no sentido contrário. depois de seguir com olhos refitos o vaivém do fiel.Vamos a ver com a chave. roçar mato. Mas como a irmão desse a impressão de perder o fôlego ao levantar os ganchos. tirou-lhos da mão e. Toca a pô-la em sítio onde não chegassem gatos. assim que engrolou o caldo de unto com as duas batatas rachadas. vende-o ao Leónidas.Pesa mais de três arráteis e meio .. Com o quilo a 350$00 não havia duvida que estava ali uma rica melgueira. adicionando um peso: . sinal de que se entrava em estiagem. Tinhao num taleigo e pendurou-o dum lado pelo nagalho. mais cigano Pedro do que Paulo. depois que apanhara o grande carambolim. Deitaram contas ao seu haver. eram do Duarte nesse sábado e. Chovera a potes durante semanas e semanas. . a chave pesa meio arrátel certinho. só o aceitava à condição: crivado pela separadora. As vacas. Mal o ergueu no ar.. ao rebusco. faiscavam os charcos. que estava a ver e a ouvir do próprio buraco da fechadura. mal chegaria para empeçonhar um rato. mas se o souber.Quita. .. impelidas por baforadas leves do vento galego. devido talvez a que estava acocorada por terra. Mas vinham aí os Carapitanos que em tempos tinham sido adueiros. o que a levou a dizer com regozijo. Há muitas Marias na terra. a cálculo. segundo os termos da parçaria. o braço inclinou-se impetuosamente da banda da veniaga. e por onde quer que se derramasse a vista. Para sul. conhecido por homem abonado e sério de contas. Parece que era um sacrifício que fazia em pegar-lhe. Foi buscar a chave. menos arroba. 82 . três arráteis. . Logo vou-me dar uma volta. contanto que mo ponhas depressinha de casa para fora decretou o Duarte. . entre eles o Zé das Almarges... Lá dizia o outro: ao bom calar chamam santo. Mas o Leónidas. as chuvas descarnaram as pedras pelas aradas. nuvens brancas iam vogando com ripanço. Era sábado.E cadeado na boca.verificou ela. ao Zé das Almarges. O Duarte assistia à operação muito interessado e sem abrir boca. mais onça. Tem à roda de quatro arráteis. mas o que falta. pode ser que arredonde o peso. O Luís Ougado quita de sabê-lo. O Leónidas Seixas falara ao Duarte.Não são bem os quatro arráteis. entretanto que elas pastavam. que por ser murado lhe permitia. pela tarde não faltariam compradores à porta. . posto que em mole e mal pronunciado pendor.Bem me queria parecer. certinho. que o pagavam à justa. a mão que sustinha a romana pouco honrada. não me rala. outros de fora. Mas esse. Andava um cardume de gente no negócio.VI Bárbara foi pedir os ganchos à Pedralva para pesar o seu volfro.

onde se punha o pé. E o seu coração batia e tornava a bater como dantes.. Precisava de espairecer. por ali divagou até se ouvirem os chocalhos dos rebanhos descendo as escarpas para os currais. geada. por muito que lhe caísse em cima a fuligem das contrariedades. Não havia vulto que saísse do povo de que ela não desse fé e não começasse a estudá-lo de longe até atinar quem fosse. Desejava alguma coisa dele? Ela não desejava nada. embora fosse bicho para passá-las a fio todas as manhãs pela sua espora de cavaleiro. embora mais friorento do que se acabasse de nascer. a água represada contra a filaça verde dos trolhos era do mais lindo e caprichoso cristal que se pode imaginar. e espreitando o horizonte. sempre porfiosos. o chão cedia. ao entrar em casa. outros a haviam tido igualmente. Uma vezes por outras. murmurava num falatório animado consigo e com Deus.Fontainhas gorgulhavam donde menos se esperava e a cada passo dos côrnoros e taludes um fiozinho de água. de olho na mina do Vale das Donas. A várzea enxameava de vultos. pegasse nela. antes do sol-pôr. pouco mais ronceiras que anáguas de velha ao . se não mais maluco. à velocidade com que corria o tempo e ia tocando tudo para a morte. mas não ia jurar que tivesse vindo apenas com sentido no volfro. e fosse segá-la ao lenteiro. E em cima dos penedos as caldeirinhas naturais reflectiam como límpidos e ágeis espelhos a luz celeste e as nuvens que passavam. Ou se desejava. Pelas centeciras. Se porventura acontecesse vê-lo. mostrava trechos amplos por entre amieiros. procurando o cascalho que valia oiro. injuriou a porca que estava sempre naquela música pegada e era capaz de comê-la viva se lhe faltasse com a vianda. Como todos os serranos. para lá dos caracolões do aterro do Vale das Donas. começando de novo sempre esperançados. tão móbil e traiçoeiro se tornara o lamaçal. À tardinha. projectando a sua brancura a céus e terra. dar dois dedos de trela a este e à quele. movediços o que bonda para se dar conta que tinham corda à procura do minério. quando não era um rego cheio que vinha de longe. viera tarde. lhe perguntou pelo molho de erva com que havia de acomodar a Cereja. Rabujou com as galinhas que não punham todos os dias. quando o Duarte. era muito menos do que o que os mendigos. Chegara essa manhã a Malhadas. e os próprios franguitos vissem uma fona com ele. para quem não há esterilidade. Em seu peito turvado cachoava um mundo de impressões desabridas e inclementes à volta duma realidade irremediável: acabou-se! acabou-se! Entrou em casa rabugenta e a odiar. acabava também por clarificar. dir-lhe-ia adeus e que não voltasse mais a mangar com quem não lhe fazia febre. quando se postam à beira do caminho de mão estendida. nos regos recurvos. 83 . Deixá-lo. Mas se Bárbara tivera aquela boa ideia.. A cada passo. E na fímbria do caminho lá ia procurando. esperam de quem passa. sim. atirou um pontapé ao gato da Pedralva que saía pela gateira com uma grande rara nos dentes.r para a missa. com o galo que era peco na galadura. onde havia sempre espectáculos proveitosos para a sua curiosidade. Era um regalo gozar ao ar livre aquele sol abençoado. pequenino e vulgar. era preciso ir às apalpadelas. azar que ate as mãos e esgote a paciência. soube dizer que a seitoira estava no sítio. tão luzente tudo que a alma duma pessoa. passava por ali o senhor Antoninho de escopeta às costas a botar dois bagos de chumbo às perdizes. E o rio. e dizia-lhe o coração que desta vez era o fim da intriga. Em muitos sítios.

É do puro. diga lá a como o paga. Todos dizem o mesmo. .Por esse preço. dando volta com o macho...Sim.A como é que o senhor o paga? . nem que o senhor se mate. O homem caminhou para ela com ar decidido: . adeus. Agora. Eu dê ainda hoje estoiro no inferno se não é verdade. de parte a parte só perdemos o nosso tempo. Porque é que não veio seu compadre? ..Homem. ela pôs a gamela de lado e veio para o sujeito que mostrava a cabeça pela talisga. Prendeu o macho a uma ralada da parede pelo nó do rabeiro o atirou os alforges para o chão. . sem o quê tenha-me por boca mentirosa. ainda com ar de dia. .Valha-o Deus? A trezentos pagavam-no a semana de além. resvés com a cabeça do macho.Vá buscar a fazenda. a ponta da corda lançada para a espádua em sinal de marcha. está bom de ver. sempre a quero ver. andam os marchantes à lufa-lufa por todos os cambais. o que se chama puro.Só à vista. . sentada na soleira da porta. Ainda esta manhã o andavam a comprar a quatrocentos mil réis.Então para que o compra?? .ouviu que dizia o irmão. Mas ele ou o filho de meu pai é a mesma coisa: andamos de sociedade. . pegue-me na palavra.. fazendo de conta que é puro. senhora.. . Estava a aparar os nabos para o caldo da cela. Como não atava nem desatava. não se ganha para a sola dos sapatos.Compromissos.? É para não ir de mãos a abanar.Lá me queria parecer. muito bem. ..Pois por isso mesmo. Quer? Se quer. . mas saiba pedir. disse: quatrocentos. bateram à aldraba da quintã.E embicando para Bárbara: . serve.Indicaram-me esta casa como tendo volfro para vender. abrindo a porta ao homem para que entrasse com a cavalgadura: . mesmo nada.Se assim tem a certeza do que diz. Mesmo a duzentos e cinquenta mil reis é já para perder dinheiro.Onde irá tal mercador que eu forneço-lhe uma carga? Também o vendo à minha santa por esse preço. São tantos os que andam nesta vida que se comem uns aos outros. e na fazenda não há nada que deitar fora.Bem.Disse. posso pagá-lo a duzentos e cinquenta mil réis. Isto de volfro já foi negócio. Ao chegar à porta virouse com brusquidão: . se não se fizer. Peça duma vez. O homem fez menção de abalar.Vossemecê quem procura? . . O melhor é vê-lo.Mas resolva lá que se me está a fazer tarde e eu quero-dormir nos lençóis que fiou a patroa.. Precisamente tropeçavam os socos do Duarte na calçada. Se se fizer negócio. indeciso com o molho da erva às costas enfiado no cabo do sacho.. compadre do Zé das Almarges. .Foi para Muradais.. . . Dos alforges safou as balanças o permaneceu com elas em punho em atitude de 84 . O Duarte arrumou a erva e ela acabou por inquirir. O Duarte empurrou a porteira e ficou-se no traço. .. ... sem um argalho. . homem de uma só abotoadura. Ficaram hesitantes. que nunca chocou pintos nem vendeu bulas..Aqueles maus repentes aliviaram-na das mortificações.O senhor não é de Carapito? .. de Carapito: João Vitorino.A trezentos...

ia sobre ele! . Mais exacto nem Cristo. isto também. em vez de atirá-las para o chão. Bárbara veio com a saquinha do volfrâmio e urna almofia. Foi a toda a pressa procurá-las. levounos passante de cem escudos. eu levo-lho a trezentos e cinquenta escudos.espera. Por essas e outras. Aceitaram. . deitar fora esta pedra. não engana.Foi-te bem feita! Quem se lembra de fazer negócios destes ao escurecer!? 85 . deveras.. Isto é bom.. fica uma pitadinha de rapé. Mas. em que o despejou. quanto mais pederneiras? Mas sossegue. e cego eu seja se ganho dinheiro. mais uma. que é delas? Tinha-se afigurado aos dois que o homem atirara fora as que não eram boas e.exclamou Bárbara. É bem a quanto bota.. brilharam concentrando em suas faces polidas os últimos raios do poente. já esta pedra maior é de qualidade inferior. Ao erguer o alforge. Caiu-lhe a alma aos pés. com ar desenganado e um natural tão verdadeiro que o seu coração se amargurou.Quem lhe ensinou a minha porta? . O belfurinheiro meteu a mão. só depois de entrar em casa e arrecadar o dinheiro. a conta estava boa de fazer. . era o preço corrente. aquela. . atirando-as ao chão. Os pesos estão aferidos.Um moço que conheço há um par de anos. Depois que o homem acabou de revolver o minério e pôr de parte um. Se não fosse cá por coisas. Conferiram com os ganchos da Pedralva. mais outra. vasculhou. As pedras de minério puro crepitaram na faiança. que a cara iludia um doutor. enfiaram todas para as bolsas. é que se lembrou das pedras que o homem refugara. mas não teve coragem de articular o mínimo reparo.. Os ganchos ainda eram mais escassos. louvando aqui.Pelas contas que esta manhã estivemos a deitar e as de agora. Duarte? .Refinadíssimo ladrão? . ao tempo que fechava a quintã.Isto é minério queimado.. Aquela prova decidiu o negócio. Não chegava a pesar três arráteis. mal vá à separadora. Ergueu-a no ar em sinal de lisura e era convincente. Não presta.Uma mancheia de dinheiro .proferiu o negociante em tom de quem pondera com filosófica melancolia a imensidade do que dá contra a bisbórria do que leva. Servia para pesar almas. talvez outro lhes pegasse.. Contado o dinheiro na palma da mão: adeusinho.. 525 000 réis. decidam-se: querem vender ou não querem vender? Para não gastarmos aqui o dia inteiro a regatear.perguntou ela. Não as topou. Começava a minguar a luz.. pesava três arrá teis e umas areiazinhas a mais.. Veja.Precisava as tripas ao sol. para ver que espécie de droga era aquela. atirava-as para cima do alforge. Bárbara foi buscar os ganchos da Pedralva.. Estas areiazinhas representavam o peso do pano. aqui estava o trancafio.. e correu ao lume por um tição aceso. Luís Ougado.. Passa no meio das outras. Metade de 300 eram 150. sossegue. que o sol dobara por detrás de Mouramorta. trouxe à de cima duas ou três pedras que se pôs a olhar de alto: . Isto. Pedras. metade de 50 25: vinha a somar 500. É a quanto bota: cinco notas e mais vinte e cinco mil réis. perguntou ainda: .Tenho aqui balança. atirava-as fora. mas ele interpôs-se: . . desdenhando além. disse: .Vá. rejeitar outro. até mais ver? Bárbara. deitado outra vez para o saco. A 350 escudos. O volfro. tara-se pela sua e vai ver. Bárbara viu-o escolher.

Nunca desejei mal a ninguém. . . bem adentro duma facha de palha.. que lhes pareceu ouvir taramelar um tamanco detrás da casa. sem o darem a entender. Em seguida àquele desafogo entraram para dentro de casa a comer o caldo e o Duarte proferiu em tom de remordimento: . à qual cobria um testo de ferro..É perigoso...ardera tudo.Onde puseste o dinheiro. que o petróleo fora-se e já não aparecia nas tendas. Depois de contadas novamente às avessas. o espinho continuasse a picar em sua consciência de logrados. De dentro. Guarda. Oito notas e meia. com um remendo de lata no bojo. mas a culpa é tua que me matavas o bicho do ouvido: Vende. por baixo da moinha. tirou o pacotinho das notas. que podem vir passar uma busca a casa e dão conta! Davam conta de quê? Que foi arrancado? Ora.. arriscas-te a ter o Ougado à perna.. e lá ia feno e dinheiro.? Quem to disse. Pode trazer à sacada o Luís Ougado. Assim que se certificou que eram iguaizinhas e sem mácula.. murmurou com voz chorada: . também já fora do amanho. o que já não acontecia há que mundos.Pois não vás. Apodrece com a humidade. O Duarte contou-as: . sem uma asa. Ela objectou que podia deitar-se fogo ao palhal. . tanto que até gosto lhes faltou para arrecadar a bagalhoça. contou-as pela derradeira vez ao resplendor do braseiro. Só depois de dar graças a Deus é que o Duarte disse com arremesso: . vende... Das palavras passaram a actos: o Duarte deu-lhe um bofetão. tinha que prantar para mais de seiscentos mil réis! Seiscentos diabos o carreguem ainda hoje para as profundas do inferno? exclamou Bárbara. do brasido só 86 . mas este gatuno oxalá tenha tanto descanso como o volfro que nos roubou! Calaram-se. embora. Era impressão deles que vinham para ali escutar de noite. ora.Guarda tu! Era uma turra que se renovava todos os dias quanto ao sítio em que o dinheiro estaria seguro. E quedaram de malga na mão. entre cacaria rebentada. Pesava o lance.Espera que eu já me raio? Quem garante que era dele? Consolaramse do seu pouco ardil desopilando quanto àquele pormenor..? Bárbara foi buscar de cima da pilheira. o que andava não menos fora de uso. nalfo de duas bandas. E erguendo-lhe diante dos olhos o grande espelho que se dera em Mouramorta em casa da Joana Enjeitada . Onde ele está bem é debaixo duma das pedras do lajedo. não davam conta de coisíssima alguma? A cara não é a mesma? Nenhum deles queria responsabilidade e acabaram por injuriar-se. vai ver se o pilhas.Grande cão. Só te digo uma coisa: antes um cão de fila que semelhante traste? ..Para mais... A avaliar pela fisionomia estava a procurar razões para não se mexer. O dinheiro aí não está bem.Com este faz oitocentos e cinquenta mil réis. e encontrou-as: .. orelha colada contra algum buraco mal rolhado pelos tomentos. a velha caçoila das papas. dissipadas as reservas dum para o outro. flusão ou realidade. Houve tempo em que na opinião do Duarte o lugar garantido era o palhal. viera-lhe à cabeça que podia ser falso e pôs-se a mirar as notas uma por uma.. e ela arranhou-o todo.Anda. ? Enquanto rezava. Não podiam proferir palavra mais alta que se não soubesse no povo. o que fora desvaneceu-se e o Duarte rosnou acariciando as notas gordurosas: .? O Duarte ficou indeciso.Traze cá a caçoila.

ou quem fora lesado não desse parte em juízo. Alguns dias estiveram de acordo que a melhor guarida era a algibeira.opinou Bárbara. De raciocínio em raciocínio.ele teve de assentir à possibilidade de semelhante desgraça. declarou ao passo que se dirigia para a porta: . os ratos podiam dar com ele e esfandegá-lo para fazer o ninho. agora são osjapões lá no calcanhar do mundo que se atiraram a Ingleses e seus parceiros. mas agora. folha verde. os Alamões levaram tudo raso. Onde se esconde.. Mas o Duarte ficou enfadado e girou à deita. Primeiro foram os Franceses e Ingleses que se pegaram com os Alamões. É desta vez? . além de que não estava mais livre que no palhal dos riscos de incêndio. alma do Senhor. caminho franco quando estes ladrões tiverem disparado a última bala? Sabe-o Deus.é como um incêndio no restolho.Se alevantasses uma laja e o metesse debaixo. Mas dinheiro a juros numa terra em que se não dava um traque que todos. que não dessem uma demão grátis a outrem. Mas pô-lo a render não era quebrar aquela redoma de pobreza dentro da qual se tinham metido.A guerra .puderam tirar os ossos da dona e duma burrinha . Toca a arrecadá-lo e a arrecadá-lo bem. Mal-pecado se Portugal vai nas águas envoltas? Ficará casa de pé. capacitados de que eram pobrezinhos e não tinham por onde pagar!? Já a vaca dera engulhos a muitos invejosos e atirara a primeira pedra ao cristal desta redoma. modo. a algibeira interior do colete.. 87 . acabaram por amochilar o baguinho na -caçoila velha. Não falta quem o queira. . segundo muitos.disse o Duarte . estava a bom recato. onde se há-de esconder. representava um sacrifício heróico. rente à carne. mas breve o tiraram de lá raciocinando o Duarte que.Tanto vale então guardar o dinheiro como derretê-lo. por modos. tratando-se de papel. e a opinião pública condescendera em aceitar tal posse como não infringindo o seu caixilho de necessitados.Os doutores também erram. não há que contestar. em nada diferente dos mais trastes velhos. em virtude do quê todos compreendiam que andassem mal vestidos. Mas. com bulcões negros que de quando em quando passavam em vaga no céu e obscureciam as quatro telhas de vidro que alumiavam a casa. junta à grossa maquia que entrava e com a guerra que. do fundo ao cimo do povo. nisto estavam ambos de acordo. não faltava quem o quisesse. o não cheirassem!?. resguardada das fonas pelo testo e do primeiro apalpão dos larápios pelo empacho da moinha. tal esconderijo merecia ainda os mesmos votos de confiança?! . de terem para as décimas. A questão toda é a humidade? . Mudaram-no para um buraco na parede. Mas com o acidente que tombou o Clero sem sentidos à beira do rego de água concluíram que também esse lugar era precário. ainda que Deus em seu bem-querer a varresse para longe. Esta dúvida martelava no espírito do Duarte que.Dá-se a juros. graças ao leite. estava aí botada.. erguendo-se da lareira. Dizia nosso avô ter ouvido ler ao padre de Tendais que a terra havia de acabar abrasada em fogo. Estava uma noite serena e fria de luar. uns eliminando outros. . optaram pela caçoila. De facto. que lá de quando em vez praticassem o seu cardanho e quem os via os não denunciasse. enfim. Começa por uma ponta e acaba por outra. Ali estava há semanas.. meneando a cabeça. acudiram os Russianos.

em plena feira. E agora? Era preciso procurar no peito. Aquilo durava bem há um assopro. não rumorejava folha. Ele dera-lhe a mão e. Há pouco.dissera ela um pouco por lha querer sentir entre as suas. ao princípio do mundo. ela a segurar-lhe a mão a Cingir que podia cair. que fora morrer ao Brasil. E Bárbara fiava. e ia cismando.. como na igreja quando. os caminhos não esrão desempedidos? já sabes que tens de a coimar.. hoje outro. e viera a casa do tio. . caía se não o amparasse.? Sim.. uns que vinham atrás dos outros. à fidalga. que queria passar adiante dela. Deixá-lo chegar. ela descalça. em Pedrões. pos-se a fiar. Solanginha. do Senhor das Cinco Chagas. embora remontasse à romaria.. Que lhe doía ontem? já nem se lembrava. era o casamento. A voz ociosa tornou: . servir-lhe-ia de emenda.. quando de facto era supérfluo com tão grande braseiro.. chega-lhe pouco aos farelos. ergueu a voz: . que é como quem diz.. .Que tal? A Cereja trazia grande amojo.Não te parece que a porca está a desmedrar? . Ontem era um axe. Raios te confundam! . patinha de si. Ao princípio do mundo. eram pequenos e iam pelo carreiro alagado das Fontes. emornecia a lareira e irradiava mortiça mas difusa claridade. Rosnou e. uma rapariga. não se julgava ainda velha. como se tivesse esquecido de fazer as perguntas sacramentais de todas as noites. há pouco o que a apoquentava era o roubo descarado de que. ajoelhados os noivos aos pés do padre. sobrepostos como no novelo as camadas de linho. no fundo do peito. Sim. Puxava a estriga. amanhã sabe Deus qual seria. ele de bota e calção. Ah. soprara nas suas costas: Esta velha. o padre lhes deita a estola.. Remontava portanto aquele enleio para lá do Senhor das Cinco Chagas.Dê cá a sua mão.Não fazia vento. que sempre armara. àquele dia. sim. pois tinham cozido de tarde. irmão do pai da D. Seria palermice de todo supor que os destinos dos dois se encontravam doutra maneira que não fosse por simples acaso e. Bárbara crirodilhou-se junto das brasas e. arrepanhando a capticha para as costas e espetando a haste da roca no cós da sala. Noutro dia. . 88 . que para isso enxergava cabonde.? Pois não era. Não remontava mais atrás.Fosses lá tu.Não foste ver se a pastora da vizinha meteu as ovelhas no cerrado.. Decorreu uma pausa vazia como cisterna sem água. adiante. outro pouco não fosse por lá escorregar ao saltar de pedra em pedra e tornarem-na responsável. A vida compunha-se de cuidados. Houve outra pausa e o Duarte proferiu: . ele a deixarlha e a fingir que.. mas sempre novo e imprevisto. dançava o fuso. Fiava e onde menos punha o pensamento era no que o irmão dizia.Coitada. Estava idosa. Cada um seguia o seu destino. Mas não. Automaticamente levou a mão a um tanganho para queimar. Há quanto tempo durava o derriço?! Durava já há mais tempo de que tempo ela tinha dali em diante até à tumba.. fora objecto. ala. o Antoninho chegara aquela manhã. tinham ficado esposados. e o Duarte rosnou dentre as mantas. cada um para sua banda. longe.Deu mais um gorchinho. como quem procura um alfinete enterrado numa almofada. e o borralho que trouxera do forno. para encontrar. . sim. Ele não lhe dizia: Nunca é tarde?. Mas.

o cabelo de risca ao meio a alvorecer por debaixo do chapéu atirado para a nuca... duas vezes o seu queixume macareno. Que lhe dissera o descarado. lá estava ela. Fez-se desentendida. os dentes a rir. Também o que é de mais deita por fora. Cáspite. Debandaram por um segundo os maus pensamentos. para cima da arca como os 89 . ali recalcados desde a juventude. ainda o Duarte não fora às sortes. irra.. é porque estava a dormir? Nessa persuasão pôs um sargaço no lume. Daí as suas aversões. Lançou uma. onde tivesse esperanças de que ele fosse. onde lhe ia a cabeça! Por cima dos telhados piava a coruja. Deviam estar a sair dos serões se os houvesse. no fundo da sua carne. todos lá iam parar. mas com o Duarte acordado queimar lenha trazia recadeira pela certa. a apalpar aquela.Qual. Mas não. porque tudo no crispamento da sua mão se resumia em “venha a nós” e em deitar para o saco. Tinha-se por poupada. santo Deus? Dobrada sobre os joelhos. ao tempo o perfeito galo doido. Nunca o sol o encontrava na cama. à luz do sol. A chama extinguiu-se.. O mundo. Trabucava como um moiro e aferrolhava. e o mundo murmurava. O seu regalo era fazer chama. Por onde lhe andava a cabeça. onde mergulhava senão na sepultura? Entretanto aquele chamiço que ardera há pouco e os olhos que algum dia a envolveram na sua luz eram ainda os instantes do mundo em que se suspendera a caminhada para a morte. supersticioso como era. Viviam os dois debaixo da mesma telha.Amanhã é preciso madrugar. Como devia ser fria a cova no cemitério! Deixá-lo..Essa romaria há que ror de anos fora. A sua casa era feita disto: de trabalhar à bruta e aferrolhar. e o irmão que não dizia nada.? Ainda era viva e reviva sua tia Soledade. Esteve um instante calado e volveu: . Mas a aversão do pobre é limitada pelo interesse. Coloriu-se tudo como numa aleluia. Da romaria tornava-se em rancho. fazia-se aparecida. Adrega assim não havia. mas ele excedia as marcas.. é à boquinha da noite. entrando pela sua casa dentro. involuntariamente pôs lenha do canto. às vezes aos pares. Por vício que não por necessidade. seria dele se soubesse levar a água ao moinho. o Duarte rabujou: . hem? já sabes que não se carrega uma carrada de tojos como se enche uma maçaroca. sim. menos o Duarte que se botara a adivinhar. Credo. dizia-se que a gozar-se da arreganhadita?? O certo é que desde esse dia passou a andar à volta dele como sombra. toca a virá-Ia em cima da primeira arca. darse claridade. Tudo lhe parecia pouco para o dia de amanhã. O dia de hoje para ele não entrava em linha de conta no tocante a dar à vida o que requer da maior parte dos homens na satisfação dos apetites ou gozo dos bens granjeados. Uma vez. Onde soubesse que ele poderia aparecer. quis tomar posse daquilo que lhe daria de boa mente. a casa ficou ainda mais gelada. Chamavam-no Gadunhas. distanciados tanto uns dos outros que podiam falar à vontade sem serem ouvidos.. envolveu-se na capucha e acercou-se mais do lume. recebia o hausto do borralho que se amortecia. Estava a gear.. e era uma consumição. depois da volta completa. a fuligem das paredes tornou-se em folhado de oiro. Dali a Muradais iam duas léguas das fartas. Só esses interessavam. Quanto a ela ninguém sabia do que ia em realidade no seu peito.São horas de ferrar o galho. . a catrapiscar esta.

Tão zangada que durante muito tempo não o podia ver nem tragado.Não vale a pena. está bem . Como foi aquilo? O mais certo foi o terem pejo à hora das Trindades. cinco. que lhe valeria gritar!? Mas ele lá se foi.... Deixou de caminhar para as bandas de Muradais. Quando já andava cansada de lhe querer mal. Encontraram-se. Se se quisesse casar já o podia ter feito há muito tempo. encontrou-a sozinha no lameiro a guardar as vacas.. ainda mais desastrado e grosseiro que envergonhado. Começaram o paleio em tom agridoce e terminaram acusando-se de andar a jogar o té-té. hora em que o homem deixa de ver a sua sombra na terra. Para que serves? Indignou-se toda. que desandava a assobiar aos cães. andavam a fingir que o eram. Se teima. e ela então julgou no seu sentimento que tudo acabara. nem uma passa... Cometeu-a. estava na laja a erguer o milho painço. mais forte . grito! Não andava por ali ninguém... Pretendentes não lhe faltavam..Ai. desapareceu. Experimente e verá. Na festa da Senhora dos Remédios. Ficas para aí mirrada.defuntos? Seu irmão tinha ido ao lado. No dia seguinte. Mas o tolo acreditou. Era ao escurecer e mal viam a expressão dos olhos um do outro.. Ele a aparecer num caminho e ela a tornar para trás. mais bonito homem. Mas ao menos estivesse na crença de que podia vir dum momento para o outro. Não seria este também o seu pensar? Uma tarde de Outono que saíra à caça.replicara ele.. Outros. não vale? Se valesse. Não e não. duas. Um dia acharam-se de cara ao virar duma esquina. Por despeito. É verdade. tão pequeno o faz o céu que o cobre. Regressou ao sexto ano. era só chegar. doido por ela. que já lhe ouço o tarnanco! Não se ouvia tamanco algum e ela estava a espreitar-lhe os olhos e a dizer que não acreditasse. . Começou a contar os anos de ausência pelas romarias do Senhor das Cinco Chagas: uma. para o não ver sequer...Ensinaria o quê?. Rosnava-se que se ia casar com a prima. Passou o Inverno. eu te ensinaria! . Ficou zangada com ele e consigo. Fartou-se de o evitar.. ai. de o arrenegar. Não o esperava.Mas casa-te e acabou-se.. que é na gente a coisa que não fala mentira.Está bem. Certo dia que apareceu com a senhora e uma menina. a cuspir fora: .. três. Veio o passado à baila e ela explicou-se: “Não era homem casado? Então julgava que podia fazer o que lhe requeresse o capricho.?” . que vem o meu Duarte e mata-nos? Ai. tratou de persuadir-se que nunca se passara nada entre eles e de traçar em conformidade a sua regra de conduta... de lhe torcer as voltas. de continuar com o ridículo arrufo ou enganarem-se. Assim de surpresa era como se fosse um estranho que se apresentasse.. a requestavam. atravessou ele por ali. tombar uma mulher de costas. Pareceu enternecido com aquele pensamento de fidelidade porque murmurou com voz que era uma flauta a gemer: 90 ... nem o bom-dia se deram. .. Era de contar que se demorasse. desapareceu. Foi durante o tempo em que o Diabo o levou para a cidade. o seu destino por esse lado ia dar a um beco sem saída. voltou as costas ao malcriado. Eram inimigos? Qual. que nem ele adivinhava quem poderiam ser. Andava farta de se repetir: Olha que entre vós nunca houve nada . e se dizia que a culpada fora ela. O Joaquim da Mariana retirara para o Rio. se soubesse! Mas não.que acabara de crer que dum para o outro não havia nenhuma espécie de compromisso quer de pensamento quer de obras.

Não me fujas. uma destas 91 . onde não haveria mais que um fogaréu sob cinzas. É uma fatalidade. sem coragem de se dizer que agora tudo era tarde. e cruz. ela caduca. Sim. mas na progressiva maturescência. Qual. Pois que era ela senão uma velha. e fechou os olhos. ao mundo dos vivos e àquela madrigueira de gente. nula e sonsa entre as panelas. era melhor deitar-se. má e venenosa. Grunhiu palavras ininteligíveis. refarto de carniça. que a tinha na conta da última das depravadas. com mais pingo. Bárbara! Ela esquivara para dentro do bioco do lenço o sorriso. Seria assim morrer? Abriu as pálpebras. Dentro do esquife. um destes sorrisos de agrado que apenas se não mostram para não serem tidos por deslavamento. o senhor Antoninho não voltou a Malhadas. Tornou a cerrá-las e teve a impressão novamente de que ia deslizando pelo ar fora dentro do esquife. se ofereceu oportunidade ou ele a não buscou. aos apalpões. já recessa. Ainda de cócoras. O senhor Antoninho. Ela. só por isso. havia que levantar cedo. sofreram um baque. a tanto que os desfigurara por fora. O tempo trocara-os. se meteu na cama. deixou-se ir sem relutância. era vida safada. mas não manda no seu pensamento. sentiu-se presa.é curioso . Não eram os mesmos. Qualquer homem manda no seu criado. e pareceu que se virava para a outra banda e reatava o sono interrompido. já no tarde da idade. Lá iriam todos para o meio dos pinheiros. deixando as chancas na lareira para não fazer barulho. deu as duas e três voltas dos cães e dos mendicantes.. Mesmo assim apertaram-se peito contra peito. que ela apreciava. A noite ia dobando mais surda que a meada na dobadoira.. então ter-se-ia verdadeiramente descanso. talvez mentindo com medo de reconhecer a feia realidade. Não era dormir nem morrer. Achava-se bem ao lume. menos pingo de água benta. do saiote. como as bruxas. e é natural que por dentro. Aquelas duas léguas de espaço entre os dois fizeram o resto. e respondeu: Se eu tivesse asas. se não era a cavalo no rabo duma vassoura. nem depois e depois. E. Que viera cheirar naquela altura do ario?! Ouvindo tropel na rua. pelos passos de sua mãe e da tia Soledade. do chambre. ele.? Mas o Duarte acordou e grunhiu. e ela quase lhe fez quantas promessas quis. Enfiou-se vestida entre as mantas e só debaixo da roupa se despojou da saia. não pensou mais nela. como advertia o seu olharapo. enrodilhado nas saias de outras. nem no outro.. Agora ali estavam outra vez. decerto espavorida. por um encarniçado azar. Ela enrodilhou-se nas mantas. O mais importante era parar o pensamento. deixando que a primavera dela. nem nesse dia. que era poiso. Mas ainda desta feita. dormir não era o mais importante. fora perdendo o viço da juventude. -outro para a caçoila. Erguera de rompante. não. diabo! retomava lá longe a feia macarena. trocara-os. por mais alto. Aquilo era já mania de velha. não tivesse pegado faúlha nas varas secas. dardejou um olhar para o caniço. se encararam com olhos de se verem sem ilusões. Quando um belo dia. Adormecia. Mas o pensamento não era cavalo que se prendesse à argola. provavelmente no mais íntimo. sim. Porque não dormia? Ora. varreu as brasas para o paranheiro. O raio do homem fora a Orcas e voltara a dormir ali a noite. A coruja agora esganiçava-se para a casa do Calhorra como se alguém . estancá-lo.a tivesse enxotado do telhado da Pedralva. sentindo-se como que levar pelo ar. se o pensamento parasse. como tudo. acabasse de murchar. Arregalou os olhos. desasada. mas no dia seguinte.

A tia Soledade morrera doida. às ordens. Resumia o boi acabado. a asa do milhafre contra o próprio milhafre. Se vinha por causa dela.? . . .coisas absurdas. nem coisa que se aproximasse.. e ficou mais esperta. menos uma. Tornou a esbagoar o rosário. que escorrega. Era um nimbo e tinha parecenças com o manto nevado de Nossa Senhora da Boa Morte. rezou. aquelas grandes pedras com que murara a regada. Rezou. em pouco tempo feita esterco e pó? Que se ganhava em a defender da bocada deste e daquele? Que havia ela ganho com tanto luxo e esquisitice? Não. manso. e era um regalo tocar com a carne na carne dele ao que a pele era fina e veludosa... “Dê cá a mão. que mora lá dentro. O luar.Tampei. reflectindo no roubo que sofrera e votando o gatuno a todas as pragas deste mundo e do outro. a brasa viva entre tições apagados lembrava-lhe onde estava. Ouviu a coruja lá bem longe. ao menos quem pudera subjugar o lobocerval. Por enquanto não lhe tocava pela porta. Ao menos aquele não tinha argueiros a remorder-lhe na consciência. não tinha os seus desesperos. O Duarte ressonava e era outro aviso de presença. para romper logo a ressonar.. Sentiu-o dar volta na enxerga com o escarcéu dum porco no palhuço. de modo a não causar dano à comodidade da criatura? Não houvesse dúvida que o bicho roía a bom roer na raiz da sua gente. ele trazia botinhas. A noite continuava a passar sorrateira como uma loba por uma estrada. para cima da casa. Para o homem domar o pensamento só havia um processo: escangalhar a corda da vida como se escangalha a corda dum relógio. entrando pelo olheiro. como se andasse a ajudar o Duarte a tombar pedras. Rezou. para o fundo do povo. sua mãe liru. aquela tosse que parece vinha de trás das costas e às vezes a lanceava. depois de pegar no rosário tacteando. Na lareira. se tem tantas e todos os dias as malbarata ceifando-as antes da hora? Mas. que sucedem ao bicho homem: a linfa rebelar-se contra a torrente. Andaria a fairar a casa em que estava para entrar Nosso Pai. não era mortalha. Pôs-se a rezar o terço pelo eterno descanso da alma de sua mãe e tia. nem o vapor diáfano da cambraia. Para que é que ele a quer? Que lhe vale mais uma. incríveis.Ó Bárbara. tampei. Bendita ela fosse. Felizardo. mais branda que a espuma do rio. Possuiu-a um acesso de tosse. Mas não. A sua mulher sou eu. em suma.. Num meio quebranto ouviu por cima dela a voz agreste do Duarte: 92 .. a ladrona da coruja veio crocitar mesmo.. Nada lhe faltava. tecia ali uma bruma leitosa.... nem rendas.. Acordaste relampado com algum pesadelo.. a luz contra o sol.Podia saltar para lá uma centelha e pegar o fogo. Que valia afinal a porca da carne da gente.. perna nua até por cima do joelho. rezou. Fechou outra vez os olhos. mas o malvado do pensamento prosseguiu na vadiagem. ruminador e incansável à lida. apancada também ela era. Não o são os dedos da mão? Aquilo durava desde longe.. se ainda aquela noite lhe servisse de mortalha. O galo cantou e recantou. Mas dizem que a vida a Deus pertence. não estava persuadida que Deus Nosso Senhor tivesse algum interesse em que ficasse para ali uma donzela relha e revelha só para pasto dos vermes..Até foste tu que a tampaste. . Eram diferentes. homem.. ensopou-se de padre-nossos. se a vida é como a parede na tapada dum rei que não há o direito de deitar abaixo.” Estava a pegar no sono.mugiu a voz choca do Duarte. mesmo. tu tampaste a caçoila? .

- Toca a levantar que são horas. Tens de ir fazer o caldo depressinha que já lá vai meio mundo. - Ainda se não enxerga... - Qual, é meia manhã. Está baço o céu. Deixei-me adormecer depois do cantar da toutinegra. Levantou-se sem dizer mais palavraa, contente por ter acabado a noite, o seu jardim das oliveiras, mas tão má consigo e com Deus que nem sequer se persignou. Acendeu o lume, preparou o caldo para eles e a vianda para a reca. Na aldeia ia mais alvoroço do que num cortiço em dias de verão. Estavam no fundo da tigela, bateram à porta. Bárbara foi abrir. - Trago-vos um recado - dizia a tia Ana Ruça introduzindo pela greta a estriga vassoiruda que era a sua cabeça enfarinhada por dois carros de anos. - Havia de cá ter vindo ontem, mas lembrei-me que já vos tivésseis deitado... Esta pertencia ao número das que tinham malícia até as unhas dos pés e Bárbara respondeu-lhe com ar simplório: - Não senhora, nós deitamo-nos sempre tarde. Umas vezes ele reza e eu respondo; outras vezes toca gaita e eu danço. É como nos carrega a pancada. A Ana Ruça ficou de cara à banda e lá arrancou do bucho: - Foi o senhor Antoninho que chegou já noite de Orcas e me mandou cá. O Duarte pode ir buscar o dinheiro quando quiser. Ficou tudo arrumado. És um cão de sorte! - Arrumado o quê? - Pagarem-te. Cobrem-te o arneiro a notas. Hem, quatro contos nunca tu sonhavas abispar? Bárbara ergueu as mãos ao céu: - Louvado seja Nosso Senhor! O Duarte por pouco não ia deixando cair a malga ao chão. Não acreditou de princípio. Depois acabou por concordar que a fazenda assim não lhe era roubada. O senhor Antoninho fazia o que queria com uma perna à s costas e ainda lhe crescia tempo. Quis, pronto, pagaram. O seu cálculo orçava por ali, mais moeda, menos moeda. Vá, que é homem dum querer. A tia Ana Ruça retirou-se a mascar: - Arranjaste bom padrinho! Sorte de cão. Olé! - Dá-se-lhe o galo? - propôs Bárbara quando a tamanca da velha deixou de se ouvir. - Dá-se-lhe o galo, dizes tu... ? Pois dá-lhe, dá-lhe lá o galo. Isto a ele pouco custa. Sai do pêlo dos Alamões. Uma palavra que deitou pela boca fora e feito. Mas dá-lhe lá o galo. Leva-o à tia Ruça... - Então logo lho levo. E eu, sabes que mais - exclamou ao cabo dum momento de circunspecção - boto-me a Orcas a buscar o dinheiro, se é que lá está. Para estas coisas quanto mais depressa melhor. - Ah, lá isso? Acabou o caldo soprando à colher de lata. Vestiu camisa lavada; tirou os sapatos do frontal e o brejoeiro de trás da porta. - Eu antes da tarde não estarei de volta - declarou. E mais estarei. Aquilo para ser bem era pagar e girar. Levo um bocado de pão e metade dum chouriço, se tens. Acomoda a vaca. Para os tojos, sozinha, não anda a roda?

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- Não, vou para a fonte lavar a roupa que está a encardir. À saída da porta pareceu-lhe o tempo pouco firme. Voltou atrás a trocar o pau pelo guarda-chuva de paninho azul. A irmã ouviu os passos que estrepitavam na rua fora e, quando o último eco se desvaneceu, enclavinhou as mãos uma na outra: podia lá ser! Arrancou da caldeira e deitou para lá a água quente que tinha ao lume. Temperou com água fria, despiu-se, e meteu-se dentro. Ensaboou o corpo todo, tronco, pernas, pés, o peito do pecado e as axilas em que babuja o suor. Despejou aquela água, deitou outra e chapinhou, lavou-se de alto a baixo, sobretudo o pescoço, mordido do sol e da poeira, e as orelhas, ninho de toda a imundície. Limpou-se a um farrapo à falta de toalha e, nua como a mãe a pariu, pôs lenha e enxugou-se a um grandioso lume de sargaços. E, depois que se viu quente e limpa, vestiu roupa de baixo, lavadinha, a cheirar a mentrastos. Pôs meias novas, as chanquinhas de verniz, a saia de castorina de ver a Deus e o lenço de lã que reservava para quando fosse amortalhada. Lembrou-se então do galo e correu à quintã com um punhado de milho: - Pilinhas? Pilinhas todas! ... Acudiu a criação entretida a rapar na montureira e no meio o seu rico e faceiríssimo galaroz. Passou-lhe os cinco dedos e trouxe-o a regougar para dentro de casa. Atou-lhe as patas, abaixo dos esporões, as asas na nascente, uma contra a outra, e encafuou-o na giga, fazendo festas às badalhocas dos barbilhões: - Era com estas que endoidavas as frangainhas, meu parvajão! Pegou do pente para se pentear, mas não teve paciência de desatar as tranças, que eram longas e espessas. Anediou o topete, puxou o cabelinho nas têmporas. Viu-se a um motreco de espelho e, minutos depois, mais depressa do que se fosse pelo ar, batia à porta do senhor Antoninho. - Ó tia Ana? Tia Ana... Foi ele próprio que veio à porta: - És tu, Bárbara? Entra. A Ana foi agora neste instantinho ao leite. Entrou. Disse-lhe com um sorriso que ela mesmo sentia branco, desnevado de todo, embora deixasse ver lindos dentes: - Trago-lhe um galo para o jantar... - Obrigado. Põe aí... Estava em mangas de camisa e via-se que acabara de se levantar. Trazia ainda agarrado ao corpo o calor envolvente e sápido da cama. - Entra para aqui... - tornou. Conduziu-a para o quarto. Desviava-a da saleta que se lhe afigurou atravancada de sacos, pequenos sacos de lona, em fila contra a parede, que deviam conter volfro ou o diabo por ele. Mas que lhe importava a mixórdia mineral ou a riqueza? Foi-se deixando levar, ao passo que murmurava: - Ai, e se a tia Ana Ruça vem...? Nem lhe respondeu. A casa desdobrava-se em duas partes, unidas por uma galeria envidraçada. Naquela metade reinava ele. Tirou-lhe o xaile e ela deixou-se despojar. Depois, ao desatar-lhe as tranças - um capricho - e ao abrir-lhe o chambre, apenas disse: - Mas que feio! Mas que feio? Empossou-se dela: - Tardaste, Barboreta...?? Por culpa de quem...? - Benza-me Deus - exclamou Bárbara, olhando para a colcha, consternada. - Não te inquietes - pronunciou ele, com ar meio enjoado, meio grato às primícias da virgem serôdia. – Por esta porta...

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Quase a empurrou. Havia no sol um lume novo. O céu, a terra, a bandeira da Noite Boa, batida pela aragem à porta do S. Miguel, a mãe Calhorra com os netos atrás ranhosos e a roer o seu trancanaz de pão, as pedras tisnadas pelo tempo, a leitoa com os berrelhos, diziam-lhe por compenetração de sua alma no fadário universal: - És das nossas?

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do precioso cadáver. julgara a cafua à prova de todas as devassas ao que estava de dissimulada? Afinal. desafogava! Ao que andava intrigado nem o comer lhe servia de préstimo. fora dar com ela.protestou pagar-se do dano e respectivo desaforo. esconder e trocar a vinténs 96 . Bem certo que não fora o Duarte com o seu olhar baixo de porco. à custa de muito ardil e paciência e com risco. O mundo estava assim estupidamente repartido: cães da felícia e enjeitados de tal porca. De quem era a culpa? Não sua. Se é certo que o dinheiro só vale pelo partido que se tira dele.que é de lei chamá-lo a testemunha nos juramentos de vingança . tinha de ser fatalmente o seu volfro. outrem mais maligno e esperto do que ele. Estava corrido o véu? Assim às lascas. deu salto. quando João Vitorino lhe pôs diante dos olhos o minério comprado aos Ladeiras. em tais mãos era como pérolas a bácoros. lampando como os outros da sua igualha a fruta na sorte do rico e o canivete deculdado no patim do vizinho. Cáspite. não davam mostras de acrescentos de nenhuma ordem.que Cristo estivesse em sangue e divindade na hóstia consagrada. no canal dos gados. areia a areia. feitas para girar. verdadeiro olho de noitibó. todo se roía de inveja. o Ougado sofreu novo abalo. o seu rico volfro. amealhado dia a dia durante mais de duas semanas para a cova ao toro da giesta. Não tinham alma para sair do triste passadio do caldo de unto e da batata rachada. Para consigo e para com Deus . Pacóvio de si.abrenúncio? . em vez de ir forjicá-lo com um fidalgo rico e esmoler. eram uns mimosos da sorte. O importante é que ficara a fazer cruzes na boca diante dela vazia. mas sim a arrelampada da irmã. a fazendória não valia quatro patacos falsos. pouco mais que pedriçal e saibro. pouco adiantava. Para que queriam semelhantes brutos a bagalhoça? Para eles tanto representavam quatro contos como quatro pintos que já não correm. se metera debaixo dum côdeas. Que tivesse ou não andado à espreita. Aqueles Ladeiras. tisnada pelo sol nos meses de sequeiro. atendendo às mãos donde viera. já se deixa ver. tão ladina da vista como ágil de perna e de braço. escamoteado no Vale das Donas. o fino alambre do seu volfro. Nascera nas ervas e fora medrando à lei da natureza. não punham um trapinho novo. Amochilavam ou iam à Fazenda pôr mais um charrabeco no cadastro. quadrilheiro. Mas ante o ar interrogativo do marchante não se deu por achado. que não podia sentir o açafate do próximo farto de pão. Apre. escavada pelos enxurros nos meses de invernia. chupado da fome e dos piolhos. o que era sempre travar com unhas de fome coisas vivas. Servira muito amo e apanhara muita soma de arrocho! Deitar a mão a foice mal guardada. para ele tornava-se matéria de fé que aquele era o seu volfro.VII O Luís Ougado. à espera que se lhe proporcionasse o ensejo de passá-lo a patacos. para mais. No dia em que se divulgou que o Duarte recebera quatro contos pela expropriação do arneiro. como se viu. ainda que pilões. Limitou-se a torcer os lábios no jeito tão peculiar de pessoa que deixa em suspenso por escrúpulo de consciência uma dúvida séria. A culpa era de sua mãe que. com arestas a fugir para a mina. nem o ar dos altos ermos lhe refrescava os bofes. ao que se dizia. que fizera a socresta. E o Ougado. Podia ainda duvidar . ou as mãos lhe caíssem ao chão sequinhas como as palhas por bolónias e estuporadas. Ele pertencia ao número dos enjeitados.

abria uma cova e enterrava o seu quinhão. consoante o ano. nem a própria senhora professora. Mais de uma vez que por um triz o santo se não voltou contra a esmola. Não fora até o simulacro de esconder volfro na toca saqueada e em esconderijos idênticos. nem os filhos. Ningué m dava conta. enquanto o Diabo esfrega o olho. pondo no chamariz todo o natural de modo a que o lambaraz desse na esparrela?! Debalde. pesados da rabadilha. Mas ele gostava de fazer-lhe as vontadinhas. Era a norma: toca a roubar. mas também não era menos limpo que os outros. Em que leito de santidades se deitava o Mafarrico! 97 . inerentes a tais cavalarias. alertado por um vago rumor. já que a criatura tinha predilecção especial pelo seu serviço. e até do Calhorra chegou a desconfiar. picada a isca pelos rebusqueiros de sanchas e pelos caçadores da trama que vão à hora do lusco-fusco armar aos coelhos nos estercais dos brejos. Agora que estava descoberta a marosca. malandragem! Os outros nao roubavam mais porque lhes faltava engenho e arte. e ficarem com a mesma cara. costumava incumbi-lo de lhe tirar as batatas na horta que trazia arrendada ao Asdrúbal rico. maquiava-a numa ou mesmo duas cestas-brezas de batatas. que nem valia a pena acusar na confissão. enjangado do reumático. pudera? A senhora mestra. não dava nada pela alçada. Mas nem o Calhorra. pois que era da regra e não lhe parecia bem ser aqui mais papista do que acolá. De noite. Baldões como aquele. Às vezes pagava-se por suas mãos. fora exercer o oficio a outra porta. assim que os paroquianos ferravam o galho. tão-pouco lhe pesavam na consciência. compreendia-os e aceitava-os. Serva de Deusfurta laranjas. uns para os outros. Depois. que era isso? Pecadilhos. mormente os que lhe pareceram capazes de cometer o cardanho. se lembrou de encaminhar para casa deles o João Vitorino. e noves fora nada. Caçado de boca na botija. À altura em que a paqueta desandava para a escola a levar o carrego. procurava roubar com destreza e aviamento. Um momento esteve inclinado a que o ladrão podia muito bem ser o José Francisco. por exemplo. Dentre a rapaziada que trabalhava no volfro. Fora então o Vargas da Violeira? Passava-lhe lá pela cabeça que os Gadunhas. Mas. tão longe do volfro como da China. fazia a trasfega para casa. Com o que se não conformava era que se trocassem os papéis. consumindo horas sem conto à caça do larápio. fossem os autores da frajoca? Quando. troçava dos laços que chegara a armar. Por isso dera mil voltas ao juízo. estes pilhanços via-os praticar aos homens honrados. sim. segar a campainha na coleira da vaca ou do carneiro. suspeitou daquele. que tem carradas e carradas e traz o gorgulho a lavrar nas ceveiras. de ladrão passando a roubado.lá no fundo da sua alma ficou banzado. arrepelou-se todo. Levara a devassa a ponto de espiar os vizinhos. sacada de gorra com o filho estroina da tulha do ricaço. suspeitou deste. uma rasa de pão. gente metida consigo e salamurda. Não seria mais. que lá tinha o pai para receptador. Sempre a terra ali andava pesada e era uma matação cavá-la. o corte do surrobeco bifado ao fardo do mercador que anda de macho pelas portas e se farta de roubar os tolos.a machadinha do lavrador caída do carro com os solavancos. tinham topete para tais áfricas. Ao aparecer-lhe o negociante com o minério: é este? . Quando chegou à conclusão de que havia que ilibar também este pincha-no-crivo. e arrotava postas de pescada. que mal vinha ao mundo? No Vale das Donas.

O Calhorra. enxergam tão bem de noite como de dia e. depois de entendimento havido com o Dr. ao balcão das tavernas. Mas deixa. ter medo que desse com a língua nos dentes. antepunha-se a tudo. no Santo Antão. Aquele mariola. Sim. haviam de pagar a tranquibérnia com língua de palmo. nada mais legítimo que exigir capital e juros aos mal-andantes. pois que acertara no alvo. ia dar com ele de corpo ao alto. . Sua mãe tinha-o inteirado de quem era a Soledade nos tempos em que alcovitava por conta dos fidalgos da vila. não havia além dos Ladeiras. mas sempre lho ia dizendo. Em sua imaginação comparava-o a certas máquinas que conhecia por alto. não te rales que eu também não. mas leigo quanto ao resto. onde nem ao padre confessor deixaria meter o rabo do olho. não só pelo detrimento como pelas horas perdidas e amargos de boca que lhe haviam feito provar. Além do mais. de aço fino e pouco consumo. a lavra tornava-se tão árdua como dispendiosa. prático em tudo que dizia respeito a esfossar o solo e estoirar um penedo. O desmonte. na sua opinião. Luís Ougado. Com uma côdea no bolso e um dedal de vinho emborcado. auferindo boa renda da desvergonha. surpreendem a cada canto as maiandrices alheias. consoante este tomo. alma de cântaro velho? Olha que não roubamos os doze escudos que levantas ao pôr do sol! Dizia-lho a rir para lhe sacar a mostarda. Igualmente a mandar a marra não pensava bem no que estava a fazer. em realidade. a ponto duma vez pouco faltar para expedir desta para melhor ao filho mais velho do Calhorra. trabalhavam dez homens. ficando com as suas tapadas até a morte. pequeninas e oxidadas para que a intempérie lhes não faça mossa. estava sempre pronto para tudo. O Luís. além da falta que lhe fazia. Aos filhos cada vez lhes pesava mais a bunda e os amieiros dos tamancos. volta e meia. pelo contrário. não precisam de dormir. Apenas na Sobriga se perfuravam poços fundos como aquele. à boca da exploração.Agora. não põem vulto nem erguem assuada. a ver para onde corriam as nuvens. apreciava-o como a poucos pelas suas prendas singulares. que tinha a cargo o pistolo. Ali. o Calhorra têlo-ia mandado pentear macacos se não fosse o seu cabo de ordens para toda a casta de manigâncias e. como penetrasse muito para o centro da terra. incluindo os três que o José dos Cambais trouxera à sua parte.Em que estás a cismar. Sentindo-lhe minhocas no seio. de pé. ninguém avaliando a não ser os práticos que força são capazes de desenvolver. doía-lhe ter sido tão sendeiro. deixava correr. virote na leveza e rapidez. era o Silvestre. Requeria grande esforço remover os entulhos. apenas um sendeiro chapado não dava conta que a flostria só podia ter partido desta sorte de indivíduos que. E semelhante propósito. O Calhorra. Ora podia dar-se volta ao povo com uma candeia que outrem susceptível de tais aventuras. Manuel Torres. espetava duas vezes a picareta no salão e punha-se de costa direita a contas com o seu problema. botava de 98 . O filão não era escasso de todo mas. que era perito na arte de conhecer os homens. medrando naquela zona mais recôndita da consciência. como tal. nã o sonham alto e só falam o preciso na terra chocalheira. e muita pólvora e braço teso descoser o balcão de seixo. representava um milagre de equilíbrio que só não metia susto àquela gente pela ignorância dos riscos que corria. têm o hábito de caminhar subtis à semelhança dos bichos do monte. sempre a magicar em portas falsas. magros e hécticos como os lobos. Quem dirigia os trabalhos. que era o mais.

à maneira do galeguito: “Vendédem’os bois. Às vezes turravam de parte a parte e armavam grande brequefesta. Deste modo. depois a acendê-lo. Quando se curvava para a enxada. Tinha de ser. com o resfolegar. ou mesmo no forro da japona. que exige a jorna. boa parte do dia escoava-se deste jeito. Irra 99 .jornada até onde mesmo um macho requeria sólida pitança. sabia escolher como um bruxo o rumo conveniente. a espicaçar o vício do fumador. mas não me trambiques a mim que sou teu amigo. O Ougado para prova de lealdade revirava as algibeiras. Procediam então ao apuramento da colheita à ponta de balança. torciam os dois muito manos pela tapada das Margaças. Depois. a tirar com o devido ripanço as primeiras fumaças. que nunca ele corre mais vagaroso do que de ferro em punho. enrodilhada no cotão. Faziam menção de ir encaminhar a água para os lenteiros. Assim as mãos me meleml . até pôr a petisca de remissa detrás da orelha. Não que lhe faltasse ralé. ficava sempre de melhor.dizia dele o Calhorra.. Metade para cada bico.Deixa lá ver. mas non me vendades o meu tabaqueiro. Possuía o sentido da direcção e lá ia por caminhos ínvios e ignorados certo como uma seta. ainda ficou malaguera. defraudava os patrões e empulhava o tempo. perdia um ror de tempo. visto o tabaco ser admitido no serviço como a água quando se tem sede.. as ventas fumegavam-lhe como uma chaminé. ainda que nunca por lá tivesse rompido solas. o paivante colado ao canto do lábio apanhava o seu resquício de saliva e apagava-se. depois que o trabalho cessava com o bater das Trindades. Antoninho Fráguas. Não era preciso dizer-lhe: À saída das Antas tomas pela esquerda mal avistares as Alminhas. Tem pacta com o Inimigo . vendéden’as vacas e non me vendades o pote d'as papas. . Vendédem-o pote. Por todas estas razões e mais uma. Deixa lá ver. Palpitava o itinerário. tenaz e aturado. Simão Tadeu..Vê lá bem. Toca a reacendê-lo.” Entremeada de ócios e partes gagas.. Luís . Tanto andava de noite como de dia.?! . o Calhorra observava-lhe: . Mas como eram quatro os sócios. uma “beata” mal cheirosa. À noite. Chegado às bifurcações. A preparar o cigarro. meu cara de lascarinho? O Calhorra acabava sempre por lhe encontrar uma pedra de onça ao canto do bolso.Não ficou coisíssíma nenhuma. José dos Cambais e ele. mas perdera a paciência para o esforço. ficava para ali uma coisa sem sentido e reles. Extinto. com o odor da nicotina. Como trabalhador era péssimo e o Calhorra renegava dele. e lhe queria como amigo da “vigalrada”. Mas estavam acorrentados um ao outro por um ajuste secreto: usar o Ougado de pulso livre para laraplar quanto pudesse com a condição de repartir com o Calhorra. e o Luís por nada deste mundo deixaria de meter a unha. O Calhorra não tinha outras obrigações senão fechar os olhos. vendede o cunqueiro. também um nauta de primeira pelos velhos caminhos onde Cristo nunca gastou as sandálias. Segundo a letra de pacto tão serniscarúnfio. o Calhorra roubava-se a si próprio.Vai lá trambicar outro. activado pela babugem.Assim não é de valha. o que era o seu primeiro ganho. . Talvez por isso abendiçoava o cigarro. A rir.dizia o Calhorra com ar formalizado. Fumava uma onça de Java por dia. Esta parte repetia-se cinco e mais vezes por cada cigarro. o Calhorra tê-lo-ia há muito tempo recambiado para a mae que o pariu.

Agarra-te ao verbo.Cá varnos! Regressava a casa com noite fechada.Ceguinho eu seja. E quando apanhava o Calhorra balanceado em sentimentos opostos. conhecera mais barregões que de cabelos tinha na cabeça. 100 . o que era exagero evidente dada a sua espessa e viçosa trunfa. .Anda-me.. no dizer das bocas do mundo.c. Estava-lhe na massa do sangue. ? Mas tu não me manténs! . mais que a admirálo. O principal é que não faltassem. O Ougado. com a preocupação secreta.Em que estás a matutar. a desafiá-lo para uma aposta em como tinha guardada no fato que vestia uma rica. e com isso se desculpava quando o seu Luis rompia em desatinos e acusações: . escapas à mão meticulosa do Calhorra.Trabalhe! .Olho no macanjo. A casa deles ficava à boqueira do povo. Luís? É na paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo? Olha que ainda vem longe o tempo da via-sacra. É capaz de roubar a madre a uma égua e ela a galope! Agora o Ougado. O filho. de se governar como lhe ditava a cabeça. Ontem do Sancho do Prado. nas horas de trapio. chamando a si o direi. Ia-se um. embora em casa muitas vezes chamasse por Deus nas necessidades. e no pé leve com que mudava de homem para homem. de modo que lhes era cómodo entrar e sair sem ninguém dar conta. . estimulado na sua destreza de ratoneiro. A razão da sua munificência carnal não residia absolutamente na penúria. ainda avezado desde menino a semelhante despautério. O Calhorra ficava varado. vinha outro. ficou a ter medo dele. que era o verbo que o Calhorra lhe mandava iniquamente conjugar. Os amigos sempre lhe iam dando com que acalentar a vidinha.Valha-te o Demo! O que tu querias é que eu morresse à fome. e tinha o seu quê nos olhos que atraía a quem se deixava fitar por eles. A senhora Rira Ougada era uma mulherona alta. Que andaria a tramar o grande meliante? Da orla da buraca.dizia em seu íntimo. puxava um lindo motreco de minério do limbo dos frangalhos. Desde essa data o Calhorra. . e não faltavam pois que era fêmea salerosa e desenxovalhada.. afrouxara até na prática daqueles palmanços que eram o pão nosso de cada dia e se emalhavam como petinga na rede moral do seu carácter. e todavia rogavam-na pouco. ria e lá dobrava com moleza e não pequeno desdém o espinhaço à picareta.. que valiam umas centenas de escudos. rompia a negacear com ele. que para isso te pagam. Chegava a noite e aparecia com os bolsos vazios. tio Silvestre? O chão se abra e me coma! Depois de muito jurar. Tambem a mãe o estranhava. Não gostavam dela pela sua fidúcia na independência. aéreo de todo. ao presente do José das Almarges. de banda da serra. ruivaça. expedita no trabalho. Um dia. riquíssima pedra de volfro. berrava-lhe para baixo: . e daí boa parte da sua insubmissão e faltas de respeito. não aceitava os remoques do filho. não se compadecia com a liberalidade.Cheira-te mal.com a bestinhal O Ougado jurava e trejurava que não tinha no bolso nem tanto como a cabeça dum alfinete: . que perdera o respeito a semelhante autoridade.. quando o Calhorra começava a convencer-se. Silvestre . Desde franganota que. atrá s duma pedra apresentou segunda e atrás dessa segunda uma terceira.

.E onde é que a guardava. seios fartos..? Isso é que eu gostava de saber. doutra que a atirara ao chão e. À roda dos quarenta anos. berrando por Nossa Senhora. depois de cismar sentado. vendo o filho arreganhar a tacha. despedíu-lhe à queima-roupa: . Pois então? . enquanto batia aquela corda de poviléus? Ninguém acreditava que fosse o sargento Laurindo do 9. num sítio onde não visse sol nem lua. Assim.. mudava de amorios mais fácil que de camisa. repicando as palavras com certo acinte. Verdade ou mentira. Estalavam.Mas.. pondo-lhe o joelho na arca. Ver a Deus e aos amigos. Quando estivesse a maquinar ou para fazer das suas havia de mostrar sempre aquela cara. nunca avezou mais do que os seis vinténs em cobre com que compra na feira o sal. para ires funfiar nas tavernas com os compadres ou fazeres bodeganas com as favelcas. .? Guardava-a bem guardada para as precisões. Quem era o pai do Luís? O abade de Pedrões da Nave.. Com efeito. está-se a ver. morrera a aparar as tripas às mãos ambas. Era graças a esses banzés que se vinha a apurar quem eram os amásios dela e as últimas roubalheiras dele. é um modo de dizer. o carcereiro da vila ou um samarreiro da Bezelga que se aboletava em sua casa às temporadas. e cuia a dar a dar. . À parte o descarado bem-fazer a quem lho pedia. Temerosa diante daquele maroto. uma boa maquia de dinheiro. os alhos e o lenço de ver a Deus. esforçava-se sempre por lhe fazer os apaparicos. que passara por ali de diligência e se alambazara corri aquela lasca. 101 .Faço ideia. efectuado o devido desconto. A opinião mais autorizada apontavalhe como pai o MeIrinho.. Um daqueles domingos. era um coro de anjinhos que estavarri no céu a pedir por ela ao Senhor. ainda ficavam homens para formar um batalhão. que não possuía muitas. da Ribeira. sem querer confessar corno aquilo acontecera. que lhe fazia.Onde queres chegar? . sempre frescalhota e lasciva. Conhecia-lha duma vez que meditara fazer uma espera ao Quim da Urra. não é? . não raro. .Que lhe fazia. embora ela jurasse e trejurasse que não era outro. Tivera não se sabia ao justo quantos filhos. o filho... que és honrado. Não havia de deixá-la em cima da masseira ou nas seixas da janela ao alcance dos cinco mandamentos de qualquer santinho tornou ele. até aí também eu chego.Nem mais nem menos. vossemecê nunca avezou cheta? Sim. No que não havia incerteza é que se lhe fossem todos avante era devorada por tal rabugem.perguntou com o seu sisudo todo. Ouça: se por acaso lhe saísse a sorte grande.Está bem..Já entendo: se recebesse.Mas em que sítio? Ela viu-lhe o cenho carregado e ficou de sobreaviso. e assim foi que disse: . só despedira quando lhe revelou onde o peleiro arrumava a trouxa. .Olha.Homem.Senhora mãe. o Capa-Cavalos da Póvoa.? Metia-ta na unha. e passara por fazer parte duma quadrilha que operava para as bandas de Castendo.. que negociara em gado miúdo. arrecadava-a. era muito boa espadeleira e habilitada nos mesteres de ocasião. no mocho.. tais altercações dentro da cardenha que acudia gente do povo todo.Sério: que lhe fazia? . que fazia à bagalhoça? . onde é que eu a escondia? É o que tu queres saber. ainda despertava apetite..Fica sabendo que já me passou muito dinheiro pela mão.. . .

atirou com ele ao balde do porco. Foi um malvado das Rãs. Mas se as não metia na barra. é falso.. Estava meio de vianda.. .? .. as notas faziam-se em açorda. ouviu.. Pôs o chapéu na cabeça e sem mais processos rodou. Esse de quem falas andava a comprar cabras para Coimbra e não precisava de roubar. debaixo da cinza. suponha vossemecê como qualquer juiz da fome. uma vez que não fico mais rico. O filho quedou-se a reflectir um instante e replicou: . a quem ele foi exigir o dinheiro que lhe emprestara.. hás-de me dizer: com que fim é que tu me fazes estas perguntas? . Trazia sempre a carteira atafulhada de notas. .. diria que a saída do velho não era tola de todo. O Luís dobrou a cabeça para terra e por muito tempo esteve a conversar com os seus botões.. sabes onde o escondia.Deixa rosnar.Ela pôs-se a reflectir e murmurou: ..Os filhos desse Plácido saíram uns estúpidos de primeira. Não vê que se apanhassem molha... tem paciência. por um cabelo que não salvaram o dinheiro. que acabou por perder a paciência. ficava a saber mais do que eu. Os ladrões já lá iam. afinal de contas. Andava a concertina do José Francisco no largo da capela e tinham-lhe mandado recado para ir cantar..Não. alarves maiores não passeiam nestas cinco léguas.. já te disse que teu pai é o Laurindo..Não falta ele onde meter o dinheiro! Se fosse papel. Diga agora lá como é que o Plácido quis salvar o dinheiro da quadrilha. No cós não era fácil apanharem chuva... Tanto se me dá que meu pai tenha sido Pedro como Paulo. mas já que temos as mãos na massa. da última facha que lhes deitei. é o Laurindo das Salzedas e era sargento no 9 quando me cometeu. Trata-se de guardá-los. que era muito apreciada a sua voz de falsete. era asneira fazer-lhe a vontade. . E lá ia 102 .. Olha.proferiu em tom faceto fitando-a muito: . não me interessa.Seja franca uma vez na vida: não foi nessa quadrilha que meu pai apanhou a choupada que o mandou para o “lindos”. metia-o na pilheira. onde menos se espera é que está melhor guardado. Ela.. metia-as no cós.Vossemecê é zorata. .? .Tens razão.. Hem! Pelo menos é o que rosnam.volveu com o sorriso alvarinho que lhe arrepiava os lábios e deixava ver as gengivas muito encarniçadas.Sabes. guardálos por muito tempo. estou farta de to dizer. . Meteram a mão e lá o acharam. há-de-me dizer uma coisa . pai destes Afonsos. que lhe deu a chuçada no ventre com um fueiro.Foi meu pai o da lembrança. . Mas não se trata de furtar os cobres aos quadrilheiros.Aí vem a viola sem cordas! Se lho dissesse.Se fosse dinheiro em prata..Foi o Diabo que te leve. Conheço-os bem. Teu pai.Não é o que para aí corre. com o que sabe e com o que sei. Há-de concordar que. Se não fosse pai de tais rebentos. Nunca ouviste contar como é que em S. . de repente um lembrou-se e voltaram atrás. uma noite que a quadrilha do Olho Vivo assaltou a casa do Plácido Velho. sendo nós duas pessoas assistentes de portas adentro. proferiu: . .. Brás da Nave. Mas isso.. embora tenha dado em droga.Agora..? Despregava a barra da saia e metia-o na costura. A ferida engangrenou-se e foi morrer ao hospital de Viseu...

não nego. o menos que te acontecia era eu mandar-te à fava. Só servem para o lume. O linhar dá-te uma carrada de batatas. a valer. eu tenho lá um riquíssimo minério para qualquer hora. E aposto que a minha terra dá mais rendimento se a formos a avaliar. enjoada. que resposta me dás. já dizia meu pai: Salomão cem anos semeou pão. As gargalhadas esfuziaram à direita e à esquerda e as interjeições admirativas: . primo Gadunha.Homem.direito quando. o que é um arrisco. Tu és o dono do linhar. duas a três pousadas de trigo e no serôdio.Ora essa? Põe-te no meu lugar. O Luís Ougado ergueu voz por ele: . faço como os ciganos.Não. reparou que o irmão quedara confuso e acudiu: . Ora essa! Dizia-lhe que. entre risos. ? Mandas-me bugiar! Tira-me as cocas dos olhos. A proporção não conta. postas as coisas neste pé. Tu terás lá ricas batatas. ou lá quanto é. O que importa no caso é o meu primo Fandinga julgar que lhe hão-de dar dez contos. Além disso. ou se não é antes fogo de vistas. em virtude de termos recebido quatro pela regada. O arneiro dá quanto muito dez alqueires de milho. Bárbara redarguiu: . carrega um mulo. embora primos. pela Senhora dos Remédios. ponho-lhe em riba as próprias virtudes teologais.. Tinha ou não tinha esse direito? .Bem vês que se lhe deitas painço ou milho. não tinha? . 103 . não o mandava bugiar. apoiavam o Fandinga embora o escambo de senhorios a todos se afigurasse uma rabulice de caracacá.? Ora. se anda de milho. a terra está escaldada e a semente não topa sezão. é semear no temporão. perdeu sempre no serôdio e só uma vez no temporão.. louvo e torno a louvar. para cá vinha de carrinho. tiras tarde. . ainda se compreendia tal resposta. ao passar pela venda. O Fandinga dizia e dizia com segura lábia: . O teu linhar tem tudo isso. eu da regada. como toda a gente sabe. bota os seus trinta a trinta e cinco alqueires. Duarte. tem uma nogueira que ano por ano. aproveitadas as terras como nós as aproveitamos. Bárbara que assistia ao paleio com a sua cara bonita.Resta apurar se lá há volfro. Há também lá meia dúzia de pinheiros.Se tu aqui há semanas me oferecesses a regadita do Vale das Donas pelo linhar. mais cambados uns que os outros.. nos alforges são assado. bebe quanta água apetece.. Quem lhe pega? .Isso não importa. tu és o dono do linhar e eu da regadinha e. E digo-te: trocamos? Que resposta me dás. e ouro é o que ouro vale. Mas o primo sabe o chão que pisa e com certeza não deixava de retrucar: “Olha. marralhavam como judeu e cristão acerca da Santíssima Trindade. as coisas vistas por cima da albarda são assim. Sim. primo Fandinga. mas não está recheado de volfro como está a minha regada. notou grosso chinfrim: o Duarte que se propunha comprar o linhar ao Fandinga sapateiro e. tão pouco esperta como desnecessária. é assim ou não é assim? Todos.Não senhor. Mas bem. pelo linhar. admitindo que não foi porque o Fráguas se meteu nisso que lho pagaram por bom.Pega? Pega! Resposta assim só um doutor! O Duarte lambia-se todo de regozijo ao passo que o Fandinga quedava amachucado com a argumentação. “ Assim é que o primo Fandinga respondia e estava certo.

Tanto lhes custa dar quatro contos como quarenta. e argumentava como quem joga à cabra-cega.Estás a dizer baboseiras1 . ou. Não pagou já vossemecê o bolo-trigo a pataco e não o paga agora a dez tostões? Tudo vai na alta que sofreram os preços. Ouvi dizer que os Alamões têm máquinas muito perfeitas de fazer notas. para pouco depois romperem os dois a peguilhar da guerra. . Nações são nações. O Duarte ficou um momento atarantado e respondeu: .Suponhamos . que era um assunto infernal.exclamou o Fandinga entre risadas. . descendo e emperrou em 800$000 réis. .retrucava ele ao primo.Não. A América é uma sarna de gente.. O Duarte ofereceu 4. as meninas dos olhos a fuzilar. para lá do seu entendimento. se é possível. onde se ia sortir de fazenda uma vez por mês. Mas. O Duarte não fazia nenhuma ideia de nada. que é nossa. cheio de sombras e de larvas. sinal manifesto de que não desejava outra coisa senão chegar-se à razão com o Fandinga.Pois compra . se o não é. muito menos. As amarelinhas sempre levam mais tempo a forjar. Decorreu entre eles um silêncio molesto.Puseram a América contra eles.Pois por isso mesmo. da guerra. nem a guerra é briga de sopapos. e reis. que admirava a força. primo? Aproximando-se do balcão.tornou o Fandinga entre risinhos mas foram os Alemães que te deram os quatro Contos. agora lá se foi à gaita uma grande cidade dos Ingleses ao pé de Macau. . a ajuntada dos estrumes. pareceu-me perceber há pouco que não tinham dúvidas de a doutorar. os Alamões não vencem . Os Alemães têm os japoneses a favor.Os submarinos metem-lhe quantos navios tem no fundo. tomava o partido dos Alamões. Lázaro Fandinga falava da guerra pelo que lia na Voz da Província. Mais de metade estão no charco. o Fandinga pediu 104 . por modos o que há de mais rico e soberbo. .Pois será. de que era assinante. o Duarte mandou deitar um copo de vinho.proferiu ela com voz sibilada.Não passou. . ele necessariamente tinha que tomar o partido adverso. O Inglês tem muitas cidades.Homem. e pelo que escutava na cidade e na camioneta para a cidade. . a ceva dos porcos. Tanto desce ao fundo do mar como vai a casa do Alamão e arruma dois socos que vai tudo raso. Mas em que ficamos. Ao menos a ti não te compraram os bifes! O Duarte ficou um instante embatucado e proferiu coçando a nuca: . Meu alma de chicharro. porque o sapateiro. passante o qual veio à baila o corte e carreta dos tolos em bom andamento. O braço do Inglês vai a toda a parte. hoje vale trinta. generais. Tem libras que é um nunca acabar. . . e ao fim quem ganha é ele. o Inglês está em toda a parte e leva o mundo consigo. como nós compramos carneiros. e com elas compra homens. não são nenhum Santa Camarão.É verdade. mas bem grande é o Marão e dá-se-lhe volta.500$000 réis. Mas não posso ver com sangue-frio que se embarrile alguém.Deixa ir. Muitas cidades e muitos navios.O meu primo passou-te procuração? . . .Mas se o linhar ontem valia cinco. tornam-nos a pescar. vinte anos a perder. Olha. A diferença foi descendo. estão virados de pernas ao ar.volveu o Ougado. Pode estar dez. que não sou formado em leis como vossemecê é.

ao que ele correspondeu logo em seguida. Dos amigos ou do Diabo.300$000 réis. mesmo sobre o pomo-de-adão. Dinheiro no cós da saia só uma tola como vossemecê é que lá o metia. grato como estava à sua intervenção.Esperava. Espere mais uns tempos e o linhar bota-lhe aos dez contos. A meio da estrada segredou-lhe: . . o Fandinga torceu e destorceu o bigode. façam lá negócio? Um anda pilhando por cheta.Ora. que era beberem para ali à tripa forra à custa dos contratantes. outro morre por vê-Ia do bolso para fora.pronunciou o Fandinga..Rache-se a diferença! . À hora de jantar disse para a mãe: .Está tudo a subir.propôs o Urra. Duvidas? É uma aposta. com a mão no jarro. Talvez eu lhe valha. com soberano desprezo. O Fandinga triunfava e como tal. perdem o tempo. os camaradirffias não arredam do adjunto para fora. o Ougado cruzou e descruzou a perna. é meu. vai mas é rachar cavacos para a tua casa? remordeu o Ougado por entre os dentes.não são capazes de prantar aí na palma da mão tanta massaroca como eu. e pronunciou com filáucia batendo na zona do jaquetão que se sobrepunha ao bolso da carteira: .Enganas-te. Cochicharam.5. Claro.Fiquei a matutar no que lhe ouvi esta manhã. Num dado momento o Ougado pôde fazer um aceno ao Fandinga para que lhe viesse falar de parte. O vendeiro olhou ainda para o Duarte que lhe fez sinal de que não trazia um chavo com ele. Ficou a aposta em suspenso. nã o se despe? Além disso.É uma aposta. Erguera-se grande rebuliço porque todos aguardavam o alvaroque. estragado e faminto. À noite.Vá. tenho-o comigo.Pois agora é que eu vos digo: à nisgal O Ougado foi com ele. Umas calças de surrobeco que ontem se tiravam por quinze mil réis custam agora setenta e cinco. vossemecê não tem amigos e eles não costumam apalpá-la? 105 .. encarregue de fazer pagamentos ou compras por conta de alguém de posses? O sapateiro repicava: . Dê-me dois dias. picado por aquele conceito. Lázaro Fandinga aprumou-se todo. .Não vendo por menos um real . O taverneiro. É uma aposta em como vocês os dois – e indicava-o a ele e ao Duarte . aqui há muito dinheirinho. Apostamos uma notinha de cem paus para ser aqui espatifada em vinho e trigo. quando se deita. Se marralham. Não seria acaso portador de quantia alta. O taverneiro tinha o Fandinga por um pobre de Cristo..murmurou ele com voz trágica o dialho é que estou com a corda por aqui. largou pela porta fora cuspinhando: . em tom que excluía teimas. tudo com tal descanso que um dos presentes gritou em tom de “casar ou meter freira”: . mas andavam tantas pelegas semeadas ao presente pelas algibeiras de todo e qualquer bicho-careta que hesitou.Homens.. . era dos que mais atiçavam: . Reganha. . cheguem-se ao W. o seu tanto desprimoroso.. esperava . E levava a mão em prancha à garganta. voltando para o adjunto.Aguente-se por muito que lhe custe.. .

Ande cá.Se a casa tivesse soalho.É como se uma broca andasse cá por dentro a bater e a abrir furo. Por muito tempo a mãe ficou estática e calada a olhar para ele. a gemer. de sorte.? . 106 .. Acalentou a fogueira com mais duas achas. . .Se lhe não custasse muito ia chamar o barbeiro a Pedrões para me ver. A concertina subia a rua fungando..proferiu em voz lamuriosa. . já sabe. A mãe veio encontrá-lo de colete desabotoado. . . . e disse: .. Mas hás-de meter-te na cama. um bom fogo estralejava no lar. pensativo. e não deu mais sinal de si. como um ladrão que escuta para entrar.Na arca.. Retrocedeu sabendo de que jaez era aquele cabo dos trabalhos. Bota-se a esteira no chão e deitas-te nela. . se fosse lajeada.. num buraco da parece. A Rira Ougada trocou a capucha pelo xaile. Ai. além de que não gostava de aparecer mal trajada em terra alheia.. mão no seio.? Talvez.. mas se quieto estava quieto permaneceu. com ar de enfadado consigo e com Deus.interrogou ela.Uma panela velha .. .Sim. Aqui e aqui. Apenas quando a mãe largou ao caldo.Se não estiver.Estás com alguma dor?? . Sim..E estará ele em casa? Hoje é domingo. pôs o chapéu em cima dos olhos por causa da luz. . Com o mormaço não fazia frio. sem tirar os sapatos. deixá-la fungar? Estava uma tarde suja de inverno....Num buraco.Numa panela velha. . . de cesta enfiada no braço. como se quisesse dormir.Ela virou-lhe as costas.Faço-te um chá de cidreira.. senhora mãe. .. Acarinhando a voz.Na cama não me meto. Onde é que o metia? .? Sim. com uma quartilhaça a emornecer à quentura da brasa num pucarinho de Molelos. tornou o filho: .Caramba. Estendeu-se bem ao comprido. Quando me vir encafuar a cabeça debaixo das mantas. pode rezar-me por alma. podia ser. Era uma grandiosíssima asneira metê-lo no cós. . E mais nada? ..Está bem.. Toma-lo? Não respondeu. Bem. .. .. sentado um cristão à fogueira. chego lá num rufo. E em que outros sítios? . Hesitou um instante de nada e logo se decidiu: . Ande cá e responda.. debaixo duma tábua. Precisamente...Ao menos vem para o lume.. mas nada mais agradável que o lume de torgos. sim. o solo embebido de água e o vento ronceirinho à porta. despojando os cavacos da corcódea. no meio do pão.Tenho aqui uma pontada muito grande. que eu morro? . com o cé u pousado como chapa de zinco sobre os telhados.. Pense bem.Num buraco da parede. deixa-lhe recado.No chão.Não acha justo o que lhe digo?. muito tinha onde a meter e estava com a língua perra! proferiu atirando-se para cima da cama.Sabe o que eu lhe agradecia. que a terra de lenhas era farta. .Querias que te dissesse... ...Debaixo duma pedra. Nossa Senhora. os tamancos pelas chanquinhas para ir mais lesta. é que atirou o chapéu para um canto e se sentou na cama.. faça agora de contas que se via obrigada a guardar a massa dentro de casa.. destas tardes de luz minguada. E que mais? ..e apalpava a região abdominal e parte do tórax.

Mal teve tempo de jogar o cigarro ao fogo e escorregar para a esteira. ele a saltar num pé. mais ítem menos ítem.. decerto a referir em lição correcta e aumentada os motivos que a levavam por aquela estrada fora. Enterneceu-se sobre o destino. alguém verteria lágrimas por ele?.. passas. Ouviu que dizia: . de carapuça na tola e a Arte debaixo do braço numa taleiga que já andara a boldrié dum pedinte nos tempos afonsinos. procurou içá-lo para o banco. a alma banhada pela mais salutar das alegrias. Quantas vezes se não suspenderia ainda a dar à taramela. Vou a toda a pressa chamar o Gregório dos Santos. Ali esteve meditando. A mãe soltou um grito quando o viu estatelado. até chegar à porta do barbeiro. Não tardaria que todo o povo soubesse que estava de pés para a cova. A distância era grande. estacava no colóquio com a Júlia Calhorra. Quando lá se viu. A porta abriu-se de rópia. para cumprir o dever. em guisa de garfo. mas ele que não queria escândalo proferiu em voz que se esforçava por não ser trémula. excedia a capacidade da sua fortaleza e desistiu. Ergueu a tampa do açafate e cortou uma fatia de pão. cruzou-se sua mãe com a Rosa Pedralva. A criatura ainda não tinha dado dez passos. e com a ponta da navalha. tia Rira. Mandriou por lá uns dias. disparou para Pedrões.. não se distinguiam as vozes. aos fernicoques. . corpo morto. O Gregório dos Santos. e por certo que poria todo o empenho em ter azo a fazer novo e circunstanciado relato. Correu à porta e colou a bugalha do olho contra a talisga. não podia mais. e vai ver como arriba em menos dum amém. até que ouviu traulitar à porta a tairoca da mãe. aipo. ao desaparecer na curva . Está às ânsias. atemorizada. um novelo de fumo a desfiar-se para o caniço. piscando o olho para o brasido. lá vinha o barbeiro. Ouvi dizer que anda muito arcada em Mouramorta. repimpado no tamborete. atirou-se a terra. Corri ele apertado nos beiços.outra vez se deteve.Tenho o meu Luís a morrer. e obrigadas aos mesmos oxalás.Deve ser andaço. Apartaram-se. de fornecer informações a quem lhas pedia e não pedia.. calculando. barbeiro muito bem afreguesado e escanhoador de fama. Foi o juízo que se me varreu. puxado por todos os foles. Isto de mulheres eram todas pucarinhas do mesmo barro. nem a Florinda e mais tinham feito juras das que só desata às pessoas o outro mundo. Deglutia e magicava. Mas deviam ser as mesmas. Além da mãe. e não se segura nas pernas. tantas voltas deu na arca que acabou por descobrir um cíbo de queijo. mas foi mais breve que o pestanejar dum finório. O meu medo é que seja por lá a tifóia.O barbeiro dirá. toca a embrulhar o cigarrinho. Vá com o seráfico e para atalhar a quaisquer ideias aziagas que se pusesse o próximo a vomitar sobre ele? Na própria palma da mão ia cortando aos nacos. cheia de mossas o ferrugenta. Desapertou-lhe o alto da 107 .o Ougado vía-lhe só a anca . em sua alma quase abençoou a safadeza de ser gente. aquela cara de machadinha velha. Mas. Foi como um malho. Dê-lhe um cozimento de arruda. Composto do estômago. pronto. mas. embrulhou-se na capucha e foi-se arrastando para a lareira. no intuito de a tranquilizar: . levava à boca. Numa garrafa desencantou um chorro de vinho e remeteu-o ao paiol. O meu Serafim também assim esteve.Vagarosamente. E. A mae. Voltou ainda a parar à porta da taverna. Não sei o que aquilo é nem que não... como um inválido. dois quilómetros dali?? O Ougado abandonou o posto de atalaia. Se fosse verdade. . já passou.Não é nada. salsaparrilha. Mais adiante. Hum. Mal ela virou costas.

Vi-te na festa de S. às colheres.. O Ougado obedeceu e o tio Gregório debruçou-se a examinar aquele bacalhau de primeira. Entreranto o barbeiro notava a receita num sarrafo de papel para aviar na botica. não sou nenhum valente. sem reagir. pelo dorso. Leva-se a xí cara à boca. O Luís submeteu-se como um cordeiro e o fisico pôde batucar-lhe à vontade no costelado. Sou como sou.braguilha e o colarinho para “o sangue circular à vontade” e pediu-lhe o pulso.. .? A isso não dizes que não. O barbeiro ria e fazia para a mãe do paciente uma mímica variada e imperativa. Numa palavra: há que trazer de olho os humores! Deitaram-lhe a cataplasma na peitaça.Mande aviar cedo. antes morrer. pela frente. Sorriu na sua consciente sabedoria. seca.. que estava a bispar tudo por debaixo da mão em pala. . À saída. fecham-se os olhos. E como o vissem de ar parado. Tan-tan-tan. A purga toma-se em jejum. cada pancada que nem um pandeiro.. assaz formalizado com enfermo tão pouco submisso.. meu rapaz? Palpou-lhe a barriga e desejou ouvir-lhe o coração.Antes morrer . Se depois de amanhã não estiver bom. já sei o que tens. está já para baixo dos gorgomilos. a outro. Feito o quê. quando Rira Ougado lhe veio perguntar quanto 108 .Deita cá a língua de fora. mas só depois de emornecer. filho de boa mãe? Enganei-me. no intervalo dos comeres.É um pleuris.E uma cataplasma de linhaça. desenganou-os: . o barbeiro estendeu o papel: . O Gregório dos Santos ficou perplexo. aprumando-se.. Na terra haverá cáusticos.? O Luís ficou calado a imaginar a possível mordedura da linhaça em seu respeitável canastro. Brás de naifa aberta a desafiar meio mundo.. Fez menção de retirar-se. A mãe tinha linhaça em casa e tratou de preparar o emplastro. concluíram que anuía. declarou: .? . Quando ela compreendeu e ia a largar em busca do vesicatório. Mas como era homem de imaginação propôs: . O sangue é a lima. Torceu o nariz. bolsinha à dependura das costas pelo nagalho. Lima a mais..O nosso corpo é tal qual a terra de regadio. quando se voltam a abrir. O remédio vaise tomando pelo dia fora. Tinha que tirar a farpela e deitar-se de costas. que à primeira deu berro que se ouviu em Pedrões e desmentia eloquentemente a aproximação da morte.Tens medo?? Ah? W e eu que te julgava um valente! chalaceou o barbeiro. mandem-me chamar. lima a menos.. como faria ao tampo dum tonel para supurar a altura do vinho. o Ougado. muito ancho e senhor do seu nariz. .prostestou o enfermo. amaruja-se o agro. Mas eu perca o nome que tenho se amanhã por estas horas se não sentir noutro fole. está tão suja que parece que andou a varrer o forno. Desmancham-se os poses em caldo ou em leite. e disse para comigo: aí. deitando as suas filosofias: . .Caramba.. aplicar o ouvido a um lado.Quita de dar um passo que no meu corpo não poisa sinapismo quanto mais cáustico? já disse. com a água sempre justa nos talhadoiros e os regos sempre limpos. Pois então?? Tenho carne de galinha. É preciso trazer o corpo temperado. Ah! ah! -Não senhor. Ao cabo de meticuloso exame.

devia, respondeu, e nenhuma palavra escapou ao ouvido precatado e fino do Luís: - Não há-de ser uma só vez nem duas que cá tenha de vir. O rapaz está muito mal e, se me não chamam, não me admirava nada que batesse a bota. Tenho esperança que o remédio que lhe dou, e é o rei dos remédios, o salve. A ver vamos. O Luís fechou os olhos e deixou-se vogar no silêncio da casa, quebrado de quando em quando pelo tamanco cavidoso da mãe. Ouviam-se as campainhas das vacas de regresso dos pastos e ainda a matinada roufenha da concertina lá para a porta do José dos Cambais. Depois, pouco a pouco, a luz do dia foi-se amortecendo e invadindo a casa o resplendor da chama a devorar na lareira a pilha de cavacos. Acocorada ao pé do lume, a mãe espiava a roca e velava, dardejando de quando em vez um olhar inquieto para o filho. De repente desceu da serra a enxurrada de chocalhos, vozes e estrépitos de tamancos, e, pouco a pouco, o silêncio foi-se restabelecendo até encher o mundo como um odre em que se soprou ar. Enoiteceu. A mãe rezava e o chilido das ave-marias fazia por vezes coro com o cicio do fogo retraçando a lenha. Bateram à porta. Eram as comadres a perguntar como estava o doente. A mãe acudiu muito solícita a dar a todas a mesma resposta: “Bem haja, ele, para que digamos, piorzinho não está. O que o mata é aquele pesadume no peito...” e não quis ouvir mais, desviado o espírito para outra matéria. Veio ainda o Calhorra e a Florinda, ambos com voz de caso. Mas, fez-se Lucas, e não quiseram que o acordasse, uma vez que passava pelo sono. No dia seguinte que não pegasse do trabalho, muito menos na mina. Aquilo não havia de ser nada; mesmo assim, matasse-lhe a tia Rira uma galinha bem gorda, ainda mais que ia purgar-se pela mão do Gregório, que receitava para um cristão como para um cavalo. Não havia como as enxúndias para ajudar a desimpedir o corpo!... A noite alapardou-se em cima da terra, rotundamente, como avejão sobre o ovo que anda a chocar. Um após outro apagaram-se os rumores da aldeia, balidos de gado, choros de menino. Tudo adormeceu, a própria mãe, que a meio serão ressonava como um órgão, o sobressalto tendo-lhe batido na massa do sangue como uma semanada com os amigos. Ele é que não podia dormir. Há muito que atirara o emplastro para casa do Deus verdadeiro. E, sentado na cama, novamente ensaiou o seu papel. Quando luziu a telha, afundiu-se nas mantas e rompeu a gemer. Gemeu, tornou a gemer, mas a mãe dormia como pedra num poço. Um carro de lavrador atravessou a estrada e meteu aos solavancos pelo caminho da serra: o primeiro que girava ao mato. Gemeu mais forte. A mãe estramontou: - Sentes-te pior, filho? - Sinto-me bem mal... bem mal. Vá pelo remédio. A mãe ergueu-se da enxerga, atirou dois bochechos de água para os olhos, falou em ir chamar alguém que ficasse ao pé dele e, ante a sua recusa categórica, pegando do xaile e duma côdea de pão duro, despediu. Mal lhe lobrigou a rabadilha a dar a dar, pôs-se ao alto. Pela frincha da porta passou revista a quantos lavradores saíam para a serra. Viu passar os operários das minas, uns direito ao Santo Antão, outros ao Vale das Donas. Levantaram em rancho os matejadores, de roçadoira pendente da espádua, e logo depois os zagais, de bornal aviado para o dia todo, com os rabanhos ronceiros. Pouco a pouco a aldeia foi-se despejando... Quando lhe pareceu que o açude tinha acabado de escoar-se, abriu a porta a medo, sete olhos à direita e à esquerda. Estava o céu escuro e fazia frio. Não era nevoeiro,

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todavia para lá dos duzentos passos divisavam-se os vultos das coisas, mas não as linhas. Tão-pouco lhe pareceu ar de neve. Era um cariz sonolento de inverno, sujo e triste, com grossas nuvens baças a prepararem-se para alagar os cambais da terra a poder de cargas de água. Muito embiocado na capucha, descalço, depois de observar que não bulia vivalma, largou numa carreira. À capela torceu para casa do Duarte; desacravelhou a porta do forno e, empurrando-a, espreitou... Não estava lá carro nenhum, que fora o seu susto. Não estava também gente, e entrou afoito para a quintã. Ao rumor que fez, a porca, lograda em seus hábitos, grunhiu: “Trouxessem-lhe que tasquinhar. “Bem. Fez pressão contra a porta da casa propriamente dita: estava fechada à chave. Procurou a chave na gateira; depois na torça; lembrou-se que também era costume metê-la no cisco, contra o limiar, e vasculhou com mão cuidadosa e ligeira. Lá estava efectivamente. Continuava a ir bem? Descerrou a porta com todo o ripanço e aos estalidos que soltaram os gonzos ficou interdito: abro-te?... fechote?... Abriu-a por fim de rópia e a sanfona mal deu sinal. O silêncio lôbrego do interior é que foi como um cão que estava a dormir e, estrovinhado, se atirou a ele. Levou um bom migalho e recobrar-se. Pouco a pouco, os olhos foram-se habituando ao bicho hirsuto, que voltava a aninhar-se nos cantos com as arcas velhas, ferramentas, trastes sem nome, entre taipais encardidos de fuligem. Contra a parede as duas peneiras eram duas monstruosas pupilas da aventesma, estupidamente atentas ao que ia fazer. Mas ah! detrás das caixas, como separadas por sebes, mostravam-se duas camas... duas. O mais, paredes, bafio, cainheza, era alcatrão. A laja recebeu os seus passos mais surda que a própria terra, que tem a sua sensibilidade e se queixa até da lebre que passa. Mas era álgida como o caramelo dos charcos. Levantou a tampa da primeira arca, que estava meia de centeio. Enterrou o braço aos cantos, no centro, aos lados. Nada. Passou à segunda arca atravancada com toda a ordem de tarecos, a escudela do fermento, a queijeira, bexigas de coalho, uma almofia de feijãofradinho, e roupa, manaixos, mondongos, coisas quase todas de trapiche. Resolutamente desatou a esvaziar a arca e a espíolhar peça por peça? Nada de nada. Com um varrer de olhos percorreu a casa toda. O tanheiro observava-o semelhante a um bonzo acocorado ao canto, zombador e imperturbável. Lá estavam em cima da pilheira, como as comadres à boca da fonte, panelas, caçoilas, potes de ferro, toda a útil e inútil olaria de cem anos. Antes de passar-lhe revista, velo à porta observar. A quintã era o mesmo poço de silêncio e de rescendores fétidos. Nem uma galinha. Na pocilga refunfava a leitoa. Volveu dentro da casa, admirado do seu sangue-frio. Nem sequer lhe palpitava o coração. Trouxera-o ou deixara-o lá fora?? A verdade é que se achava ali na propriedade alheia tão naturalmente como na taverna a beber meio quartilho. De todo à vontade, investigou à direita, investigou à esquerda, e novamente lhe incidiram os olhos para a cacaria e o pucareiro. “Vamos lá ver? “ proferiu em voz alta. Acercou-se da pilheira. Revistou uma panela, revistou outra, destampou aqui, emborcou além. E a caçoila...? Moinha...?? Apalpou papel e não teve mais dúvidas. Com ele bem apertado, sem ver sequer de que se tratava, nem pensar em coisa alguma, com o coração agora aos saltos, os trastes todos; tanheiro, cântaros, arcas escancaradas, o negror da casa e a alimária do silêncio, acocorada nos ângulos da cardenha e na quintã, a gritar: ao ladrão! deitou a fugir, a fugir às sete partidas sem reparar onde punha o pé. O sentido levou-o, sem

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desvio nem quebranto, por onde viera, para mais, leve e subtil como uma pena. A mãe veio encontrá-lo de olhos esbugalhados, a arder em febre, mãos a segurar a cabeça. Pôs-lhe os remédios na banca. - Vá-me por água fresca à fonte. Vá que eu cá tomo as drogas... Estou a morrer de sede. Despejou purga e eclegma para a cinza e, quando a mãe rompeu casa dentro com a cantarinha a trasbordar, levou-a ao meio. Depois caiu em quebranto. A horas de jantar visitou-o o Calhorra, que também era meio médico e lhe achou ares de bem disposto. Estavam na santa cavaqueira, ouviram grande rebuliço no povo. Sussurram assim as colmeias quando levantam voo e vão pousar de largo, nos ramalhais. O Calhorra moveu com a maior presteza possível os membros trôpegos; o Luís, pois que a mãe lho exigiu, agasalhou-se na capucha e foi atrás do cambado. No largo da capela, ao entrar para o forno dos Ladeiras, pela quintã e moradia espraiava-se um mar de gente. Singraram a custo até chegar à porta da casa. Da trave fuliginosa, ao pendurão, um corpo de enforcado bailava. Bailava sem ninguém lhe tocar, ao simples bafo, parecia, das pessoas que ali vinham, para que vissem bem e contemplassem. Quando a face, em sua rotação, colheu a luz diurna que se coava pela porta, o Ougado reconheceu o Duarte de olhos muito abertos, fitos nos seus, com a boca escancarada, boca de través, que uivava: ao ladrão! Ficou transido coisa de segundos e, fincando os queixais um no outro, não se pusessem por lá a matraquear a semana santa, desandou pela porta fora, de esguelha, de modo a que Bárbara o não visse.

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Tanto o Pelicas. que trazia jaleco de alamares e faixa. o que se chama um lar. Hincker entretinhase com a paisagem humana da vila. por detrás dos estores. bater de portas. o que lhe permitia partilhar-se mais a seu cómodo pelas duas explorações. E por sorte deparara-se-lhe a construção tipo da mediania provincial. Entre ir morar para as minas . o universo real e o imaginado. coveiro. perfumado. todos os rumores preambulares do formigueiro rural que desperta. mas quartos para bonecas e uma noção do conforto herdada do eneolítico. Mas com o amanhecer a consciência ficou sossegada. o que viera tranquilizá-lo no mais latente da sua alma sobressaltada. uma varanda a sueste. riscada por um pedreiro de talento para morgado farto e desembaraçado. Mas o seu principal intuito fora oferecer à filha um lar. de dores e de venturas dos seres que por ali passaram. uma boa cozinha. sem os estigmas do nobre solar: escada garbosa.dá umas calcinhas. cântaro à cabeça como vira na Arábia Feliz. Passavam as primeiras mulheres para a fonte. Pela vila ouviam-se vozes siricopadas. e com a ginástica respiratória em regra. sem falar na peça central. isto é. E como não havia de estar naquela disposição psíquica? A Reichs-Rundfunk da emissão da meia-noite dera um copioso relato do que se passava nos campos de batalha. mas o que existe tão de concreto como de vago à volta dos sentidos e do intelecto do homem. eixos gementes. vasta e quadrada. e isto equivalia a um sono reparador. senhor Incas? . com as paredes sensibilizadas pela infinita profusão de rostos. Sem embargo. corruja de abadia. de colóquios. estava vestido. Mas o sol retoucava na rama alta das carvalhas que ensombram o largo da feira. a meio caminho para a Sobriga e o Vale das Donas. que daria salão de baile. pois estático só na tumba. seus fregueses: . salões grandes como gares. sempre encostado ao Pauzinho de marmelo da cor do carrascão. como o velho Badanas.rondavam já à porta da taverna. Um Alvitano surgiu às upas no potro.as minas não poderiam oferecer-lhe senão domicílio abarracado – e morar no povoado. Aquela moradia. Não estadeava brasão no lintel nem galeria com antepassados de prosápia. que se conquista com actos de adoração. No piso inferior a criadagem. durante as quais queimara havano sobre havano. Paulinha dava também sinais de ter passado ao gabinete de toucar. desses que passaram à imortalidade 112 . tomou aquele velho prédio de Tendais.VIII Franz Hincker levantou-se cedo naquela manhã fria mas luminosa de inverno. a tal consciência panteísta que Goethe numa carta a Eckermann punha acima das contingencias universais. não dormira o que se chama uma boa e pétrea noite. encetava a lide quotidiana. não é o deus eclesiástico do resto do mundo. quase contente consigo e com Deus. Deus para um germano. mais divertido que diante dum guinhol. Nas horas despreocupadas. matinalmente exacta segundo a nova disciplina. Felicitava-se cada vez mais de ter alugado ali casa. sim. ainda quando oriundo do SchIeswig. ora e logo balouçado em sonhos pelos solavancos fortes dos armões de campanha. tal um rico marabu. salvo o albornós. com insônias de permeio. compunha-se de quartos amplos e vistosos.

ao berço da nacionalidade. As explorações da Sobriga e do Vale das Donas eram conduzidas com tão denodado como meticuloso impulso. arrecadações. superando de muito o contingente de produção que lhes fora atribuído. com freima nunca vista. se fosse necessário. reunia os cómodos indispensáveis à sua lavra. não menos molestado. raros em Alemanha como as baleias no mar. De modo geral. também plurisseculares. Sábados à noite. encaixado o veio umas vezes em salão roto. quer nos soalhos quer nos apainelados do tecto. No dia seguinte um piquete de trolhas. Mas para chegar a esse ponto tivera Hincker de sustentar uma guerra bruta com os concorrentes. eram um inçadoiro prodigioso de precevejos. depois de munidos das respectivas guias fiscais. garagem. contra os quais. teria dado em terra. e no mainel da varanda sardinheiras entornavam até meia povoação um vermelho que Hincker pela rutilante candura e a carência de aroma classificava de amoral. Kammerjãger.empanturrados de padre-nossos e de glória. Ao cabo duma semana de refrega e quebração de cabeça a casa deixou de ser o valhacoito dos cínicos e abjectos hemípteros. Com efeito. E selados a sete selos abalavam e lá iam em recova. Mister Corbet era temível no ataque. carregavam debaixo do olho vigilante dos fiéis a sacaria pesada e lacrada. A primeira noite que Paulinha acordou em seus edredões de pluma com a alvura dos lençóis sarapintada da ignóbil bicheza. outras em quartzo atravessado de lezins que descosia a ponta de picareta. Veio dos aposentos o pai. o resultado era compensador. cuja estirpe devia remontar. em suas madrigueiras. rendendo o máximo que era de esperar de jazigos de segunda ordem. para ele. tapados como arcas. há caçadores especializados. da cor do chumbo. A Sobriga produzia dez vezes mais que o Vale das Donas. as duas empresas sob a regência de Hincker alcançavam plena estabilidade. dado que não fosse dotado de tão sólidos rins. De Muradais partiam igualmente com perfeita cronicidade outros camiões repletos de minério. regou a petróleo e soda cáustica os interstícios da madeira povoados pela fauna até então feliz e sem história. tanto se importando de atirar com meia dúzia de mancheias de libras pela janela como com o resto do copo de água que não acabara de beber. pelas estradas intermináveis. O pior de tudo foi que as frinchas. Em seguida às mil e uma peripécias duma rivalidade que chegara a saltar todas as barreiras do fair play. Outro piquete emparedou com argamassa. a avaliar pelo repululamento. desatou em convulso e clamoroso choro. e iam baldear 113 . que detestava tudo o que é lemural. por via de regra. em que a extracção no entanto era mais fácil. para o país negro dos altos fornos. perfeitamente bem-ditosos sem a existência nas redondezas de bois bichanos que vinham às vezes murar para aquele paredal. onde cismavam artemísias. cerca de 75% da área metalífera conhecida estava registada por firmas contrárias. Para os gostos simples da menina possuía a vivenda um quintalinho com seu tanque. ao passo que além o rompimento exigia constantemente perfuradora mecânica e dinamite. Metiam pelas estradas a poente. de molde a armazenar a bom recato todo o minério produzido. como os ocos da alvenaria solta o eram dos ratos. confortá-la e dispor-lhe o ânimo a transigir por uma vez com a habitação infestada de parasitas. em todo o Portugal senhores do campo. e Hincker. estimou. sempre direitos a leste. famílias de ratos bemditosos. Mas Hincker. vinham camiões de seis rodas velozes e surdos.

dizia-se que mais que um barco que conseguira alcançar o destino denunciara o 114 . acima. dois. e. todas as vinte e quatro horas.que já me ganhaste para um Rolls. Matavam o bicho com vinho velho da Ferreirinha e estadeavam equipagem de grão-duque. Blindavam os dedos com anéis e não sabiam dar dois passos que não fosse de automóvel. A questão era que de dez transportes chegassem dois ao porto. de Muradais. em cada molécula do qual se sentia palpitar toda a imaginável espécie de ânsias e gemidos. Aconteceu-lhe escaqueirar a chocolateira numa das curvas do Vouga. como não? Um destes.nos molhes de Leixões para cargueiros negros.proferira. amassado com o suor de meio mundo desde o Spitzberg à terra de Francisco José. Na terra das meias solas. dois a seguir. Assim desapareciam tais navios de carga no fundo do mar e com eles a candonga dos infiéis representantes. Oito sobre dez daqueles navios soturnos iam para o fundo em três tempos. Mas tal contingencia não alterava em nada o ritmo da tenacidade insular. dissimulados debaixo de catafalcos de serguilha. e não se falava no resto. a cavalarias altas. cifrada em duas letras ou algarismos. corações triturados. quatro mil quilos arrasar as cidades orgulhosas do inimigo. Acima. Os agentes que o Reino Unido assoldadara no país neutral enriqueciam a olhos vistos. encontravam-se milhas dali com torpedeiros velozes. para que os submarinos a esperassem. que. casara a filha. Cada onça. a carga valiosa. O problema era que nas matrizes cíclópicas das suas fundições não escasseasse o minério fantástico com que revigorizar o aço que iria em bombas de mil. Esses navios recebiam uma ordem telegráfica. com uma película de volfrâmio à superfície para o conspecto inicial. de dois. Projécteis dum supermetal. resplandecentes de civilização e arte.um factoto avisava o chefe da Gestapo do embarque da mercadoria. ao começo. deixando a tapada da serra a tojo. era vedado inquirir. todos os meses.terceiro lance . levantando-se dentre a ferralhada com uma costela partida e as ventas a gorgolejar sangue . era o Antoninho Fráguas. dois pelo menos. e seria este o primeiro passe do manigante. que acabava de fazer treze anos e a instrução primária. classificado e novo em folha. No mar traiçoeiro da Biscaia rondavam porém os submarinos de Roeder. vinte libras? Numa ocasião destas não se tratava de saber quanto custava. mais precioso que a platina. por fim. Ostentavam duas parker no bolso do jaquetão e traziam as notas de Banco em pastas porque lhes não cabiam nas algibeiras. Acrescentavam que o segundo consistia em subornar à força de pecúrila o engenheiro que na barra referendava a entrega. todas as semanas. custava o quê? Dez. Dizia-se que a Ilha disparava contra o inimigo projécteis de oiro puro. e prosseguia de vento em popa. dois mil. e a custosa mistela lá seguia caminho. chegasse o metal. Fábula ou não. Comprara já uma quinta para o Dão. tinham por missão escoltá-los a porto seguro. levantando âncora. correndo à direita e à esquerda como galgos marinhos. À boca cheia se contava que impingia a mister Corbet gato por lebre. Simultaneamente .Fica-te com o Demo . os volframistas davam nas vistas. Os sacos que ele rareava e pesava iriam atestados de titânio e da mais ignóbil morraça. com um visconde papalino. numa cadência melhorada dia a dia. com os grostescos e imprevistos que se podem imaginar em lapuzes elevados. . feitas as contas. almas em revolta. E mandou vir o melhor estojo que se exibia nos stands de Lisboa. toda as semanas. de dois. com um canhão à proa e outro à ré.

Estava inerente à sua fácies moral não admitir semelhantes quebras de carácter. O que prezava era o certo. às portas. à conta destes seus amos. metallo divites. E deixava-os entregues às suas tibornadas. o objectivamente certo. aversão congénita quanto a conceber certas formas da indelicadeza? Parece que não. como atrás de Hincker o Reich. saltaram fora dos limites que lhes haviam fixado para a compra. o outro em esquife para o cemitério. Que remédio senão render-se à evidência duma lei transcendental ou a processos que não seria cómodo reformar? O ideal em semelhante emergência fora reduzido a proporções tais que estava fora de toda a hipótese deixar de tornar-se realidade. todos os três meses. desde que constituíssem processos de promover 115 . a 750 escudos. como curso médio com oscilações verticais. Contentava-se com isso. um conduzido em maca para o hospital. O conflito mundial reflectia-se nos dois comissários. instintivo. o Almirantado devia receber dez navios. Na melhor das hipóteses. com seu sentido prático. Eram substâncias análogas no transcendente e no destino.. resvés do irracional.. Dolo. tratava-se de bater o adversário. filtrado fosse lá por que mandis fosse da desonestidade e do dolo. Vinte gramas importavam em mais que a jorna dum obreiro. que eram manifestamente maus. De ordinário a cotação do volfrâmio era dada pelo Porto. levados pela velocidade do amorpróprio. para lá do conceito clássico de justiça e bondade. Atrás de Corbet postavam-se Insulae laxe jacentes. arribavam apenas dois. De resto. o que Dantec chamava sem acrimónia hipocrisia. Neste particular era como a Hélade. queria dizer: daqui para cima. Quando o Porto fixava a tong long da volfrarnite. Aqui. roubo. Num plano superior. o ilhéu nunca chegava a ser fraudado em sua expectativa. de Avienus. Aconteceu numa aldeia serrana dois regatões encontrarem-se a disputar. Muito frequentemente dobrava de preço. com urna percentagem média de 75% de metal e 25% de quebra. mentira. falsidade. As aldeias esvaziavam-se. trouxesse na cova da mão duas areias do oiro negro. ou considerado como tal.. 65 unidades. em nome dessa filosofia do real. Mas aos seus hábitos de decoro. Da carga destes dois apenas um dízimo era aproveitável. segundo sucede em Bolsa. mas nunca tida. por montes e vales em busca de volfro. podiam vir outros requintadamente péssimos. Formava-se uma moral nova com a nova indústria. Todas as canseiras dum dia eram dadas por muito bem empregadas se à noite a sombra vágula. como é de supor que andassem os hebreus no deserto. Vendía-se o quilograma estreme. uns punhados de minério. Firmaram a transacção a tiro. Era um pouco a psicologia do cocu magnífico: contanto que.comércio facinoroso.. caíam imprevistamente do céu e vinham matar a fome a multidões igualmente famintas. entre 400 e 500 escudos. pagando a fazenda por um preço incomportável em relação às suas bolsas e fora do senso comum. quando se recusava a encarar o crime de parricídio.. o grande insular professava que atrás de semelhantes agentes. A certa altura. em busca de maná. todas as poucas-vergonhas eram desculpadas dado que conduzissem ao enriquecimento. carregados de volfrâmio. Com margem tão larga para o fortuito e o contratempo. em bruto. pois não vira separadora.. A nação em guerra é que por nada do mundo desautorizava os seus corretores. dobrada para terra. mal nascia o dia. a 400 contos. Por daltonismo. como daí em escala degressiva em todos aqueles que estavam ao serviço de cada uma das entidades. repugnava revolver misérias desta ordem.

abana a árvore das patacas e é só abrir a boca ao saco. Manifestou. fritando-o. procuraram desde o início montar as suas separadoras. A sua predisposição para a mascambilha era proporcional à longanimidade com que encarava os seus desbaratos na guerra: sempre gentil-homem. O singular é que o ludíbrio se exercesse em regra com a facção insular. não lhe ficava o direito de ser desconfiado. mas primeiro havia de a mercadoria passar pela separadora. senhor deste mundo e do outro. Mister Corbet.o negócio do volfrâmio. tinham chegado no calor do despique a testemunhar-se em público e raso de gatunos e difamadores. mas dando a impressão de tornar sempre ao seu ser como de borracha. em última análise. De sobra sabia pelos seus secretas . propuseram-lhe a venda. bem embora o sorriso muitas vezes lhe fugisse para esgar. de antemão sabiam que iam buscar uma taleigada da miraculosa terra. sem atender à origem. era um recurso industrial como outro qualquer. Aquele dia em Mouramorta. tudo levava a crer que a operação seria feita com o seu beneplácito. Mas os milicianos. Para atalhar 116 . Resultava de tal consenso que procuravam todos empulhar-se uns aos outros o mais conspicuamente possível. mais contuso que o canganho. comprando na boca do lobo. Franz Hincker explicava o fenômeno dizendo: . E pregavam-lha na menina do olho. Por essas e outras razões farejou grosso latrocínio. sempre de sorriso nos lábios. cobrir a oferta. Teimaram em mostrar-lhe a fazenda e fechar o negócio de afogadilho. se umas vezes logravam o próximo. a sua receptiva para o roubo estava a toda a prova. que jogavam ao ganha-tudo. cometido é muito provável na exploração de Santo Antão. Nas costeiras do Alva descobrira-se um cabeço cuja areia preta e lustrosa orçava em seu peso pelo do volfrâmio. outro tanto não fazia ele. Não lho consentia de resto a situação que ocupava. e que falsificar o minério. esse. Por sua condição tradicional de ricaço. Os chauffeurs da praça de Viseu. inclusive em Portugal. como tinha por norma.já o germano confundia os processos de informação com a espionagem. era o lorde. de pôr em dúvida. este simpático e glorioso Portugal. mas admitida. Embora. A grandeza da Ilha está nisto: possuir árvores das patacas em todo o mundo. discutível ainda. Não tardou que o monte aparecesse lorgado como as saibreiras que se entremostram à margem das fábricas de cerâmica. como tantas vezes. e recusou terminantemente. tornavam-se ordinários. Entre eles a descompostura era quase quotidiana. caçados cada um por sua vez a surrípiar do monte em desproveito dos restantes. por conseguinte de prática corrente. de contestar. Explorações categorizadas. duma grossa porção de minério. Quem pagava as favas. mas velhaco. todos os passos lhe parecendo bons para estar a par que no Santo Antão os sócios se roubavam uns aos outros o mais honradamente que podiam. como Sobriga. O senhor Hincker conhecia todos os artifícios do comércio e industriava os seus agentes na arte de descobrir as esparreIas e chincá-las ou deixá-las armadas para os parolos da outra coriróbia.O dinheirinho com que temos de nos esportular sai-nos do lombo. Se os seus agentes fechavam os olhos e compravam o que se lhes oferecia. do concorrente. O José dos Cambais e o Silvestre Calhorra. à porta fechada. Como o vendedor era parente do Calhorra. Tojeira e Muradais. gênero Leónidas Seixas. quando um destes fura-paredes lhes mandava bater para Arganil. não poucas eram logrados pelo campónio mazombo. desencantando-lhe substitutos falaciosos. A tout seigneur tout honneur.

os pardais que saltitam à volta do fachoco de palha que cresceu da matança do porco.obviou o Calhorra. muito embora a sacristia fosse do pároco. e os colegas escudaram-se em iguais considerandos. entrar de noite com o minério. tinha também uma chave.? Ora. Quando chegou à mina. muito apertadas quanto ao policiamento da mina que a gatunagem andava mais sobeja do que nunca. e ora se transvertia naqueles abomináveis bate-línguas. desfiava todos estes ardis de peles-vermelhas. inviolável. São sobre o largo. a coisa foi realizada com tanta presteza e rasgo por parte do canejo. tira-lha? .. quem acompanha a fazenda? Eu? Não obstante o tropeção de que padecia. Riram e não houve remédio senão render-se ao amável dictat.à desconfiança que lhes roía por dentro. árvores. destes dias que no campo. Da sequência deste jogo de enganos não soube informar a Hincker o seu espia nictalope. servem a todos os corpos. Lá em casa há um variadíssimo guarda-roupa. os penedos que parece terem perdido daquela manhã em diante um pouco o ar baturro. numa cadela inenodável e sem fim. Depositar o minério extraído cada dia em lugar competente. Vou telefonar a minha filha que reforce apopote. se revestem de leveza e luz tão branca e boreal que irradia certo ar de melindre e friabilidade da amplidão: terra.? Arranjam-se smokings e casacas para os mais exigentes.. depois duma rápida visita à exploração. mas onde? Sim. O Calhorra em voz baixa.. e depois duma escovadela aos fatos e 117 . No dia seguinte.. Estava um saboroso dia de sol. com arcanjos a guardá-lo de espada desembainhada. Entendem que se devem vestir a preceito.. Sim. Os engenheiros despiram as camurcinas. achou tudo em ordem e o trabalho em bom andamento. por causa dos pedreiros-livres. no fundo contentes por irem espairecer num dia de sol e verem o seu landegrave satisfeito. largos. O sacristão.. mas há de tudo neste mundo.. depois que recusara o volfrâmio de Mourarnorta. . boa para retém. só desbocados poderiam taxar o acto de escandaloso. engrolando-os a todos muito bem engrolados até aos cadinhos de Birmingliam e Newcastle? Franz Hincker. qual o lugar seguro. Torceu o nariz. sempre mais outro.. claro com os devidos resguardos. Mas Hincker persistiu: . matutaram em muitos e vários remédios. acumulado desde o princípio do mundo. Deram ordens. após invernada. a voz aprendida com os senhores padres nas Orações Secretas da santa missinha. Tadeu hesitou. optimista consigo e com Deus. e de novo o saco foi trocado por um terceiro.Os senhores vêm. que lhes permitisse dormir a sono solto sobre o seu bem? Nem no Paraíso à mão direita de Deus Padre. se tem chave. pães.. Seria preciso ter muito cuidado com a língua. veio o Antoninho Fráguas por sua vez. no gênero da cadeia da felicidade inventada pelo maduro anglo-saxão. Iriam os sacos da mexerufada logrando um e outro. altas horas. para mais. ao passo que o automóvel corria a toda para o Vale das Donas. lembrou-se de convidar os engenheiros para o almoço. não era mau expediente. E bem disposto. sair de noite. tão pouco curial. . falou na sacristia. que nem sequer a cachorra do Reganha deu o alamiré.. Severo Bacelar quis desculpar-se com o seu trajo de cote. Não era nada prático. De facto.E nos carretos de noite.Ora. depois de pesado? Vendê-lo à boca do poço? Quanto a depositá-lo. de modo que se não soubesse. atestado de morraça.

adiantou-se para ele. contra os seus hábitos inveterados. Calabaz.. Hincker não lhe deixou abrir a boca: . e Hincker convidou-o a subir para a sua arca de Noé. façam favor. mando-o pôr na lista negra da Gestapo. Quero-os para vistas. e por isto. familiarmente: . apurada pelos Ingleses. por conseguinte. perfeita paz octaviana. . proferiu para o Dr. julgo eu. torcendo por Malhadas a embarcar o Dr. Pegando dum postal a cores que representava um aviador de uniforme. germanó fobo na ordem do lugar-comum. .Amigo Jácome. Lobão no foro e lobão na gana com que lhes metia o dente.Tenho para aí mais. um belo galo andaluz dandinava-se a meio duma rebanhada de galinhas de toda a casta.. Manuel Torres que pousava ao tempo na casa da serra. juntamente com o correio. Gosto a valer destes bichos.É verdade. Quando entraram em Tendais. Na sala. foi buscar o correio e. Manuel Torres.emitiu Manuel Torres. afagando-lhe os barbilhões. Pois que vinha o boticário. uma caixa de charutos que estendeu aberta para os convidados: . e entretinha-se muitas vezes. no dizer do Café Bijou o Lobão dos volframistas. a derribar-lhe as construções lógicas com o mesmo regalo com que o batia ao xadrez. Mas eu não os quero para combate. ..É muito meu amigo .. venha almoçar connosco.. depois de pedir vénia. a cuja sombra se fazia todos os quinze dias uma ruidosa e amoiriscada feira.E que. . Quando viu o amo saltar do automóvel.. pelo que envolvia de obsesso quanto ao carácter do seu povo: .São para combate? .Não. Hincker tinha pronunciada simpatia por aquele espírito de pedreiro-livre. Arpou-o de passagem. tão destro a manusear a espátula na farmácia como a espingarda no monte e toda a sorte de redes no rio. Se recusa. Em Mouramorta deparou-se-lhes o advogado topa-a-tudo Dr. Logo hei-delhes mostrar a colecção. Era perto da uma hora. estes são bichos de paz.gracejou Calabaz. de raça indostânica. Largaram. mal parecia que não viesse o médico.. a boa vila de Tendais com o seu bosquedo de carvalhas ao norte. Guilherme Cabalaz. em dialéctica com ele. Estão no outro lado do quintal. as galinhas dos outros poleiros deviam ser odaliscas suas . . . liberalão..acrescentou Hincker sorrindo. O farmacêutico ia a escusar-se. As notícias eram anódirias. Hincker sorriu da frase inconsiderada do bacharel.. .Subam. É verdade que tenho ali dois de combate. Lábios a espremer o havano.Ou que lhes foram raptadas . à sua direita: 118 . ocupou-se. em rasgar cintas e sobrescritos. laureado com as Folhas de Carvalho. impávido e garboso. largando um gó-gó-gó que pareceu o mais jovial dos cumprimentos.chapéus abalaram com Hincker. Diante do semelhante recusam-se a ver outra coisa que não seja um rival.Um charutinho.. deram de cara com o boticário.Nem fum nem fum e meio.. Pararam à porta do homem afável e obrigaram-no.Todos os galos são mais ou menos combativos . o excelente Nestor jácome. a almoçar fora de casa.perguntou o Dr.. .declarou para os convidados. No pátio da residência. porque em poucas espécies está mais desenvolvido o instinto sexual do que nos galináceos.

.tornou ele. com prateleiras povoadas de cristais de Boémia e estanhos flamengos e alemães do mais esquisito talho. No Chemin de table. em frente de cada talher. . .Sim. Os engenheiros vieram considerar circunspectos aquele ás da guerra. Entrei pela Sibéria. . compartes duma culinária planturosa. ao bacará. meio prostradas. embora não passasse pelo desaire de ontem receber um capote. mas felizmente ainda é maior o número dos que escapam. A série de pratos.. as flautas de Pá dos copos. Resplandeciam na grande mesa o linho de brocado e. a abundância. adornara nos espaços compreendidos entre os contadores rotundos e luzentes.Decerto. O mais novo anda nos submarinos. meio vivas..Tudo vai na sorte.proferiu Jácome. indolentemente.O mais velho é tenente de artilheiros e lá está para leste. .. . veja.Aqui está o comandante da esquadrilha Condor. A mesa dum teutão é dum teutão e de mais ninguém. mas como os que mandam para a Rússia têm de ser de pele. . precisa bem deles a Alemanha na frente russa.Que não foi o de Aquiles .. senão faltaria ao meu amigo o melhor cliente dos rebuçados de avenca.. Telo. Hincker saiu-lhe ao encontro agradecido e hospitaleiro. E querem saber? Apenas uma bala me feriu no calcanhar. Parecia mais mulher e mais graciosa depois de desterrada na serra. à retaguarda.Todos sem novidade? . . ao gosto tudesco. que um enredo de amor se atara entre eles. Sentia-se no seu ar feliz e desembaraçado e na postura de Bacelar. e. Os ares bravios tinham-lhe roubado à tez o rubor melindroso de peónia. pareciam dirigir aos hóspedes um sorriso derradeiro. entre os quais contava o caviar. diferentes de cor como de tamanho. Hoje a precisão é relativa. que nem vale a pena mencionar o arranhão que uma bala fez no peito de Karl e a cabeça do dedo que voou ao marujo em combate com torpedeiros. que debaixo dos olhos punha um matiz de leite e carmesim. advertia que o almoço estava servido. nós os Alemães somos tão generosos que começamos por dá-los aos nossos amigos. Era sobre a tarde e entraram ardidamente pelos hors-d'oeuvre. são privativos desta gente gastadora. arrancam-na a quem lhes cai nas mãos. para os vinhos variados.. Encaminharam-se todos em rumoroso à-vontade para a sala de jantar. ao mesmo tempo que vinha curriprimentar os convidados. Eu fiz a Grande Guerra.Até a data todos sem novidade. condimentados sui generis. Anunciou-se no patamar o simpático Dr. . mas nada sabe negar aos regalos da vida.Este pertence à Luftwaffe. O farmacêutico sorriu e disse galhofeiramente: . mas o que se chama um capote. Paula semeara violetas. é o cadete . esbatendo a rede vascular finíssima.. Bati-me na defesa de Quiao-Tcheou. . o paladar sobre o substancial. Entretanto Paulinha. Mas. e fui incorporado no regimento que mais sofreu na ofensiva de Amiens. que Hincker. de facto. com Lenine no Krerrilim.Precisou. de que faz parte o meu Karl. 119 . por um trigueiro mais ao estilo da cromática portuguesa e com o seu sabor entre ibérico e loiro do Norte. o antigo e vasto refeitório da casa morgadia. entrando. que tudo pede ao esforço. A guerra mata muita gente..Tudo vai na sorte.Capotes.

Das nossas pouco se vai em resíduo.O vinho do Reno é a bondade pura. original. inocência perfeita o do Mosela.. se quero ver o mundo novo .surpresa inédita para a maior parte dos comensais..Bebe-se e a gente fica mais moça. Hincker. com o fervor do discurso. traduziu Bacelar. do sol. sabem os senhores.. A França fez revoluções. . Se os Alemães se batessem em nome do existente. . Não passa de abrir ao verde dos concidadãos e 120 . Conhece? Foi meu irmão Hans que de França nos mandou para cá uma caixa de garrafas. filho da terra. .Branco e seco. derradeiras sarandalhas do espólio da paz.interrogou Hincker como o visse levar com toda a vénia o copo à boca e demorar o gole. o inverno....emitiu. O Dr.Que tal. senhor doutor Torres. Os senhores não conhecem a Alemanha que está de armas em punho a defender o direito à existência e. meu doutor? . . Torres. a Europa. nem haverá no mundo um Doutor Fausto capaz de fabricá-lo a martelo? Vergissmeinnicht em sublirriação. Nestor Jácome..? . sim.O Rheingau. da latitude. O boticário. veio à baila a Rússia sem fim. O senhor Hincker. Napoleão.. De acordo. pegando na garrafa do Reno de colo alto.. Mas de tudo isso que fica senão ódio e poeira? Das nossas. é chinfrim. aproximando o copo dos lábios. é uma terapêutica.. .. com isso. um aroma original. libando com respeito.O meu caro engenheiro não precisa. levantando também o seu copo e mergulhando olhos regalados na limpidez do vinho. Mas não. a Inglaterra sonhou com revoluções. Com semelhante iguaria. .Delicioso para sardinhas assadas.. volvera mais animado ao tema patético: Diz o amigo Jácome que este mundo precisa virado. chamado a derrotar o rascãozinho da terra. Paula. lembra o Douro. o vinho do Reno.Good Hoch keeps off the doctor. A Alemanha é o primeiro e talvez o único país verdadeiramente revolucionário do mundo. ah. Países revolucionários os vossos?? Ah. para matarmos saudades da Alemanha. cultivado nas encostas da Beira. com a reverência dum oficiante. obra de titãs. Também assim é escarpado e em escaleiras. neste meio tempo. eu seria o primeiro a dizer aos meus filhos que desertassem. proferiu depois de dar um estalido na boca: . dizia ele.. a guerra de morte entre os dois colossos.. . Hincker secundou. Beberam todos com a devida mesura o vinho raro.murmurou Jácome. . à sua direita: . Rüdesheim. O grosso fica. Não fazem mesmo ideia nenhuma. proferiu baixinho para Calabaz. das que pingam no pão. Der Wlein von Rhein ist immer gut.Ah! ah? Aí tem uma sentença inglesa que pela primeira vez está certa? Sim. O doutor tornou a levantar o copo ao alto. além dum regalo. diga lá se não tem o picãozinho do palhete. de tal ordem que pode dizer-se. gracejando. sem receio de errar que jamais houve. deixa-me rir? O que os senhores fazem não é revolução. os senhores fazem revoluções. senhor. Eu é que preciso de deitar uns anos fora. próprio dos xistos argilosos e margas terciárias do Rheingau.Uma gota do nosso vinho. esquecera-se dos seus hóspedes. e mais qualquer coisa.. der Moselwein nicht schaden thut. depois dos estalos da lei. começou por oferecer ao advogado de Lisboa: . absolut a dentro daquele seu flavor característico. não.

que se passa na Eslávia? Nada. denotando o dedo químico de gastrónomos de moela de avestruz. como imóvel tinha estado. rainha santa de Portugal? . tão pitoresco. apurada em Roma. Estas sanchas. mas um pouco ácida e maciça. que fundouo recolhimento das emparedadas de Alenquer. dão o nome de gasalhos. uma simplificação a realizar na orgânica de tal indústria ou norma administrativa. . determinar o passadiço entre estas criptogâmicas e a princesa afonsina . desde que a Europa era uma realidade política. Fizemos uma boa provisão deles. não. e talvez porque apenas se encontram isolados. porque é dinâmica por excelência. mais do que isso: nunca estamos satisfeitos. proferiu: . Também lhes chamam sanchas. vivia em estado de ânsia. vegetam debaixo da terra.tornou Paulinha. Para os lados de Malhadas há muitos. Branca. mais amplo.Esses mesmos. e ainda porque lembram. No dia em que conseguisse instalar a sua ordem ficaria imóvel até o fim dos tempos. e outras e outras de que não reza a história.A princesa viveu sempre muito recatada.. Nunca estamos quietos.Com esses nomes todos. no bem-estar do habitante e na assistência pública. porque se renova dia a dia. O Eslavo.Uns que têm coleira e abertos parecem uma guarda-chuva. temperados à meclemburguesa.Da mais genuína. mais conforme. . . Além de homo faber.Demonstre lá. Também lhes. o Alemão era insatisfeito. sim. . mais prático. Não duvidassem. Haverá sempre melhoramentos a introduzir na máquina e na fábrica.emitiu Jácome com intimativa. e Brácara Augusta. um nome lindo. Os engenheiros pediram licença para repetir. com um pouco de fantasia. Sancha.deitar pólvora a pardais. Toletum. uma corrida a fazer para mais perfeito. o Eslavo. sempre passos. por exemplo. boa. Tal qual estas. quando furam do solo.Frade? . lisonjeada como boa dona de casa. amigo Hincker.Deram conta que é feita com míscaros? Pois é. são de culinária fidalga! . Ao hors-d'oeuvre seguiu-se a sopa de cogumelos colhidos na região. o que é.Mas é preciso demonstrá-lo. Foi ela. nem às aias deixava ver a ponta do pé. jácome interveio com a sua experiência de homem do monte: É a única espécie que os camponeses da Beira aproveitam além duma outra que nasce nos terrenos alagadiços. semelhantemente. aquela tinha muitas irmãs: Mafalda. o Alemão deverá chamar-se homo faber perfecturus. os marcos que estão à entrada das portas.?! A partir da Idade Média que vemos nós? Vemos as cidades e as nações do Ocidente agruparem-se em hansas e confederações.. Paula. O senhor Hincker a meio já do aparte naturalista retomara o fio do discurso. E é-o porque nunca se contenta com o que está e com o que tem. Todo esse imenso território jaz petrificado.. podia dizer-se.. . A esses fungos chamam frades. Berengela. O mundo asfixiava-o.? . mesmo nada. e não se compreende bem que sejam assim exclusivos sendo tão párias. Folgaram todos com o paralogismo. lhe chamam frades.Houve e até é possível. Têm medo da morte. decantam no fervedoiro que é a guerra os povos vários. 121 . demonstre! .. fechados uma moquinha. Não houve uma D. de resto. A Alemanha. solitários como os monges. ... Pelo aspecto. é revolucionária.disse Torres. de lamber os beiços..

É verdade e. ponderem os senhores.respondeu Hincker.Em cinco meses? . . tem vivido debaixo do signo zodiacal da servitude. que de resto são coisas muito distintas. numa gargalhada. . Está escrito por Hegel. o quê? como aqui a vinagreira. porque acrescentou no tom do pregador que perora: . que maravilharam o boticário. ninguém escapa à sina com que foi gerado. digo eu. O mundo de hoje é a organização mais assombrosa de prepotência.Os senhores foram à índia e lá ficaram. Lá nisso estamos de acordo. Neste instante a atenção dos comensais foi chamada para a travessa de pombos guisados com ervilhas. a ver passar os tempos. quer dizer: arrumado por Pedro? Pedro o Grande.Lutar é mais que um meio. hem? .O mundo não é nenhuma delícia. sim. Não lhes parece? Ora. . Isso quebra ela! Ora no compleicional do Eslavo entra.E acaba-se com ele. dê forma à sua psique. vejam. estão frescas como se tivessem sido colhidas na mesma da hora. a fugir para a horta. estacado na sua estepe. no dia. o Weck. o infinito da estepe e o desmesurado. com neves eternas.É com teorias assim puxavantes . o desmesurado que trasvasa às suas espaldas da velha Ásia. excessiva em tudo. . religiões eternas.Nesse dia. . Sabe como se obtém tal resultado? Empregando um pequeno aparelho que na Alemanha é trivial como aqui. O dono da casa riu-se e permitiu-se dizer: . por todos os nossos filósofos. Mas também nunca poderá ser o paraíso terreal com que o senhor sonha e os seus amigos eslavos sonham. banditismo.Petrificado.. umas ervilhas tão viçosas. para nós é que não serve. Estou persuadido que esse mundo. . estigma com o qual se julga afrontado e é legítimo que não se conforme. e uma planificação da vida também sobre o ingente.Tem história? Qual! Tem menos história que a mais insignificante tribo mesopotâmica. falha de todo o proporcionado entre a natureza e o espírito. em que o Eslavo firmar a sua ordem. convenho.ficará imóvel. pelo contrário. podia conceber? .E daí? . ou se ouviu fez de conta que não percebeu. Lutar para ele não pode ser mais que encontrar o equilíbrio entre a sua ânsia de justiça e o estigma da sua condição. sim. . não? tornou Jácome com faceta seriedade.. foram apanhadas aqui no quintal vai em cinco meses. inteligente. isto é..Uma raça não quebra dum dia para o outro as matrizes em que foi moldada. arrancado de premissas apenas negativistas. apenas se explica com um nateiro destes. Estas ervilhas julgam que as recebi do Algarve ou da Califórnia? Não senhor. concebido para a imobilidade. O budismo. o Eslavo regenerou o mundo. amigo Hincker. por agora indeterminada ululante lhe chamaria Keyserling . iniquidades que o cérebro dum homem perverso e inteligente.murmurou Jácome entre dentes que os povos acordam de quando em quando atascados em sarrabulho? Hincker não ouviu o remoque. como não podia deixar de ser.lançou o farmacêutico com arreganho. um modo de ser congénito ao nosso eu em todas as demonstrações possíveis e imagináveis da plana universal. e já tem um século.repetiu o médico intrigado. para europeus viver é lutar. oh. O Moscovita. Hincker não se dignou responder e prosseguiu: . ou Weckglãser com sua bateria de 122 . A sina do Europeu é a luta. Por consequência.

Hincker distribuiu os charutos raros e levantavam a primeira saúde. ao alcance do pau. que se saracoteavam pela feira bica que bica a migalhinha que o pobre deixou cair do bornal ou o menino. de certa importância. na linha da frente. levava horas e horas à espreita que as pombas. Severo ergueu-se.Para adubar o caldinho. serviu Tckay. para os toasts. amigos amigos. Quando elas chegavam. dizia-lhe de baixo corri certo ar risonho. A criada. ia a levar o copo à boca e estacou com ar de solenidade: . seguido do olhar apreensivo de Hincker e dos engenheiros. de cenho carregado. à capucha. e ali ninguém lho negava.frascos. acabava de praticar uma das suas habituais piratarias.. Que o façam porque lhes está na massa do sengue. Há dois homens soterrados e outros feridos. O farmacêutico. descuidadas. que chegara de bicicleta e pedia urgentemente para lhe falar.exclamou Hincker levantando-se. despedia-lhes a cacetada. vendo Hincker de ar cominatório. Essa é de relevo.Deu-se um desmoronamento em Santo Antão.. uma vez mais. Andou à roda o vinho clarete do Dão. Ao passar diante da janela. a qualquer altura do ano. ao menos. ou por filosofia. 123 .já deviam lá estar. industriada já à maneira tudesca. para não perder o benfeitor.? Ora essa. Estavam no capítulo das saladas que. que nunca falta na garrafeira dum sibarita de além-Reno. Como agora. mostrando-se a rua deserta. meio de raposo. O próprio. em socorro dos sinistrados. no largo. se aproximassem. que durante os discursos de Hincker não deixara um só momento de abanar a cabeça em sinal de discordância. Vara rúbida de marmelo especada no sovaco. Tinha amainado a disputa. silogismos à parte. senhor Incas? A história deste caçador furtivo era a história do mundo e das nações. Com o fim de ir buscar charutos “como só fumava o sultão AbdulHarnid” Hincker pediu vénia para sair por um momento. Se alguém lhe chama país bárbaro. não acabava de estrebuchar nos abismos da algibeira. açoitando o ar com estridor. mas nós é que somos bárbaros. E. palpitando caso de monta. nem se pergunta? . o vinho sonolento das catacumbas hungáricas. semeava pelo chão o seu dedal de milho. são inúmeras e valem o melhor prato de resistência de qualquer outra cozinha. sempre frescos e tenrinhos. O bandoleiro do Badanas. aí vinte homens. Para Jácome o direito do silogismo era o direito de pensar livre e desassombradamente. Para mim a Alemanha não é um país bárbaro em virtude da posição que ocupa entre os povos sob o ponto de vista de progresso. da boca. deve-o a tais ou tais representantes da autoridade pelas violências que cometem ou deixam cometer. Mal dele se uma. amigo Jácome@?. Ah. ao estilo nórdico. . Com ele tem-se horta e pomar em casa. meio de filósofo cínico: . vieram advertir Bacelar que estava no pátio um contramestre da mina do Vale das Donas. Um deles é o Calhorra. dizendo: .Entendamo-nos. em nome do que julgam ser o direito da nação mais digna da hegemonia universal. vem dar ao mesmo. Não tardou que voltasse. o seu puro sangue ariano. uma revoada de pombas. O senhor Hincker dá licença que do pessoal de Vale das Donas saia uma turma. chamou-lhe a atençã o para a rua.

O caso era novo. O Dr. outras preso à sua palavra como o mais lídimo Bayard.. nas ricas regiões da Bética.Pois que vão. .. hesitaram.Não.. que vá tudo! . . a paz pretoriana de Roma – umas vezes sem escrúpulo nenhum..? Minutos depois corriam a toda para Mouramorta com o pensamento no velho Calhorra.Se não levam a mal.neto daqueles montanheses que não deixavam coalhar um só instante. que vão cinquenta. no pendor dos anos.. ainda nada metia medo ... aventureiro a quem. Telo e jácome podem fazer o obséquio de nos acompanhar? Profissionalmente. acompanho o capataz. não é assim. Peço aí uma bicicleta. 124 . que vão vinte. vai de automóvel e vamos todos.

Miguel.vieram a lucrar. mas que se engolfava lá muito pela terra dentro num gaveto de rocha viva. Para maior solenidade na promessa. e escapou. foi dizendo ao lavrador que. não se lhe toca. . Miguel. envolvido este em surraipa ruim de desmontar. Tendo 125 . sobre ele jurou que se escapasse daquela havia de pesar-se a trigo em prol do bento S. o Calhorra propunha-se obter o máximo resultado com o mínimo de dispêndio. tirados debaixo dos escombros depois e porfiosa labuta. Brás. Com a freima exaustinada dos salvadores . Lá foram para a terra da verdade. os donos da exploração. em despeito dos setenta anos. armar-lhe um andor na festa de S. se tinha amor ao pêlo. que são os seus procuradores na terra.IX A constituição de Silvestre Calhorra. teria empenho em ver o grande salafrário amortalhado de penitente. pegando do crucifixo. O Aires.em menos de meia hora esteve ali botado o pessoal todo de Vale das Donas e um numeroso piquete de Muradais. Sobre a noite.Este dinheiro é pedra de ara. rocha em punho. é que não houve santo nem santa que valesse. Nos últimos dias haviam batido num braço de filão que prometia. figurar de amortalhado. e uma ferida bastante profunda na nuca causada por um penedo que se despenhara da ribanceira. Em particular. pés descalços e sem fala na procissão. ao rebusco de volfro com que pagar o enterrio. além disso. seu sogro apalavrado. e toca “a dar-lhe para a frente”. com mister Corbet à testa . Escape eu. Ficou coberto pelos entulhos até meio corpo. não se metesse no chafurdo. Ao introduzir a sonda. era a dum cavalo. pediu à mulher que lhe passasse a caixinha de lata que ela sabia. O desastre fora previsto. Safaram-no dali com largas escoriações nas tíbias. pois que gemia e queixava-se de dores agudas nas costelas. deixando mulher e filhos que no dia seguinte se viam pelas leiras. o Calhorra chamou os filhos e a mulher. Ninguém o julgava! Aos dois homens. e os santinhos ou os padres. e com a ajuda dos facultativos operou o milagre. Ora foi no encalço de semelhante veio que se descuidaram imprudentemente das disposições de segurança que convinha adoptar. e. mais restos dos sentidos. quando o doutor retirou. impelido pelo calcadoiro que as pessoas fizeram à volta na precipitação de acudirem. rolou para a escavação de mistura com o material acumulado na borda. que vigiava à boca do poço. balanceara a cabeça desaprovativamente. podem chamá-lo ao cofre. instado pelo José dos Cambais. Verónica obedeceu e ele mandou-lhe tirar dez notas do macinho embrulhado na bula da Cruzada. A entivagem era a mais precária que se pode imaginar. S. que era a primeira a celebrar-se na freguesia. o médico franzira os lábios num jeito de dúvida e recusara pronunciar-se quanto a semelhante golpe e ainda quanto às lesões internas que pudesse ter no peito. mas de todo ignorante. além de lhe oferecer um círio da sua altura. Tinha amor à vida o velho gerifalte. e que a derrocada se deu. recomendando que reforçassem os tapumes de suporte com astiais mais sólidos e melhor ligados uns aos outros. afinal de contas. O Calhorra. mais dobrados para o chão. Homem de entendimento claro. na sua procissão. E. a emitir opinião como prático.

. e em seu foro a primeira dívida a pagar seria aos santos. Mas ela não desandava lá da sua: . como na nau Catrineta? A mulher espremeu uma lágrima. Agora dispensava tesoureiros. considerava interdito à cobiça o campo homicida. tinham-lhe alimpado com quanto arame lá havia. precata-te que te comem sem te tirar à sorte. Aquela leira. Um dia que a Rosa Pedralva se quedou acocorada ao lado dele. estritamente. quanto queres pela barrosela da Laja dos Lobos? Sempre ta compro. .. para mais que não para menos? . A raposa. trancada por grossíssimo elástico. levado bebedeira pegada. E recomeçaram. ficando o Calhorra sem saber o que pretendia significar tal demonstração: alegria. com um pauzinho a riscar no terreiro a par e passo que desfiava coisas e loisas da vida. repartindo a sede entre a venda e a pipinha de casa. E como nada lhe passasse despercebido à pupila abelhuda.recebido a mina limpa como dantes. certa espécie rara de alegria que por ser mais funda atravessa todas as camadas sedimentares da alma e ala-se à luz. coisa dos seus cem mil réis. Ali. não viesse por lá a borra à superfície. desafiando uns. andava falto de estacas para os feijões. já que a tei de todo o comércio é a exactidão. nem um real a mais. “para não perder tudo” . e o Calhorra. só servia de consumição. Foi por este canal.Se calhar. Excomungados. fugindo de agitar aquela cabaça velha. mas quem se tentava por semelhante chaparral.. tratou de amochilá-lo na segura carteira de coiro. Ele explicou: era para semear um pinhal. E corno o facto lhe causasse estranheza mandou Verónica buscar a caixinha em que lançava as economias. morria se não jogava aos passantes a sua chalaça. que não era destituída de siso e tinha alguma coisa de seu. em seu horror.alegaram eles em guisa de explicação ao público que. Deitado na capucha. Rosa falara algumas vezes em vendê-la. porque lhe doía a ilharga.. fora da vista. podiam recomeçar quando lhes apetecesse. O Calhorra ao sétimo dia já se arrastava até à quintã a espreitar o sol. situada do lado de lá do rio. Correu Verónica ao esconderijo. remolhada de lágrimas. O Calhorra era de bom cerne e a convalescença foi avançando mercê dos caldinhos gordos e da graça de Deus. se os gados dessem licença. que não valem a baba dum caracol. ou bem o pesar de reconhecer a ruindade dos três mariolas juntamente com a perspectiva de se ver por portas? . é verdade.Guardaste ao menos o conto de réis para o voto? tornou-lhe ele. divino Senhor. acalentado por outros. ora se virava dum lado. o tio Silvestre sonhou por lá com alguma mina de volfro? O Calhorra ergueu as espáduas. tendo-o contado. fungando: 126 . alegria de vê-lo são e salvo.O que valeu foi estar o outro em sítio onde os lobatos não sonham disse em voz atrida para a mulher. ora se virava doutro..... Se eu for antes de ti. disse à criatura: ó Rosa. os galos e as cabras de Pedrões não deixavam ir um pé de milho avante. ainda para mais salgadinho como andava na Fazenda? Por isso ela. nem um real a menos. sobressaltada com a ideia de que tivesse varrido por ali a mão dos tunantes. em poucos anos punham-se mais altas que uma aguilhada. que veio ao conhecimento terem os filhos. Lá estava o dinheirinho. Para outra coisa aquilo não valia um chavo furado. desde o boléu.Andamos a pagar a culpa de os ter deitado ao mundo. ficou de pé atrás ao ouvir tal proposta.

com seu eixo em S. bonitas contas deitou à consciência enquanto esteve a bater a bota!? . de modo a que o trabalho pudesse correr com segurança e o indispensável despacho. o carro do Calhorra começou acarretar a parede. confeccionados à compita pelo Chedas de Caria e a Rosa de Lamego. chamou a Pedralva e disse-lhe: . Bem era. em cuja capela acabava por engrossar com os elementos mais numerosos e capitais. com tanta surpresa dos compadres que a bocarra lhes ia de orelha a orelha e os olhos pareciam de olharapos. Com efeito. O Silvestre Calhorra. encostado à bengala de rangífer. nem o azeite para a lâmpada do Santí ssimo! Se lá houvesse volfro. não. Olha. coma-o o Diabo”.. do joguinho pessoal. Lá se ia o pé-de-meia e a junta de vacas sobressalentes. Dois dias depois. que se permitiram abocanhá-lo em sua honra.Minha rica. Quebrou com o José Francisco e o pai.. pois lá assistia o patrono. Brás. olha! E pela alma do pai. partindo de Malhadas com espavento relativo.Olha. Brás da Nave. Sendo o Cambais o mais abonado. .. a instigação do Antoninho Fráguas. Quanto aos impropérios. raciocinando talvez que “bocado que eu não hei-de comer. tinham voltado à mina. caiulhe o peso em cima. Toda a noite os ecos repercutiram aos morteiros e foguetes de três respostas. Não havia escritura. as despesas que tivera com médico e boticário. A Pedralva devia-lhe obrigações. do avô. inibido. Rosa! Coalhadas de volfro. já lá andavam a esfossar. fica-me lá muito longe para a guardar. Chegou o dia de S.. que o filão estava a render. também em andores. a osga com. restituo-te a leira. ali outra. É para me entreter. anjinbos e 127 . que ficara a semelhante cemitério. fossem lá agarrar-lhe? Avisou deste desígnio os parceiros. das almas do Crasto. anjinhos e amortalhados. passou por ali o alamão. pediu pelo migalho o dobro do valor em que andava orçado: dezassete notas. guardava-lhes o troco. dia tão abençoado que caiu chuva no nabal e fez sol no terreiro. lhe contou o sinal. . não achou nada de melhor que botar-se fora da sociedade. O número por excelência era a procissão que. principalmente a escorar os cortes. dando nome à terra e obrigando ao forrobodó. jurou que não tinha outro intuito que não fosse semear penisco. e embora “com pedra no sapato”.O que vossemecê quis foram as pedras que estão coalhadas de volfro.. e marchava para S. a advertir léguas em redondo da rija funçanata. onde incorporava a quota que cabia à sede da paróquia em andores. Um engenheiro de Muradais veio de vistoria à exploração e ensinou-lhes o pe-a-pá Santa justa. invocando a sua enfermidade. Era uma das grandes festas da freguesia... E não houve razões que o levassem a mudar de parecer. para mais. para que se soubesse.Enganas-te. Rosa. a quem em Portugal nada escapa. que vou largar do precipício do Santo Antão. o Calhorra foi ver em que altura ia a trafega. deu por paus e por pedras. fazia romaria por Mouramorta. No dia seguinte. Quando esta acabou. Castigou-a e logo ali. mas semelhantes artificios oneravam a obra de 3/4 dos lucros obtidos. mas dito dito. da Laja dos Lobos. mais não disse. Estou um cepo. Fazendo um balanço do negócio e pesando bem os prós e contras. Não vale a pena mexermos na matriz. quando o soube. Diabos o levem. e a depositá-la no quinteiro que possuía à Boa Vista. Têm aqui uma pinta. Brás.. pedra por pedra.

que foi preciso o homem meter-lhe um bote à barriga para o entesar: . Miguel. Pagou quanto o cirieiro quis. tão alto que fosse preciso esgalhar as árvores pelos caminhos para romper. Queria que botassem olhos pasmados ao portento e se dissesse: .Não se abespinhe por tão pouco! Estou a brincar proferiu o comerciante. vossemecê não será retroseiro? . nunca se julgara tão alt& Do que ele rebaixava para o que era em seu ser iam nada menos de dez centímetros. medir mais dois palmos de alto que o de S. o Calhorra exigia os tafetás mais garridos que trazia nos fardos e uma arquitectura espampanante em estilo só dele. Além de regatearem quanto ao preço. que podiam tomá-lo de ponta. embora debalde. e todos os seus artifícios redundavam em farelório como foguetes de lágrimas. tendo resultado uma bisarma tão sumptuosa que era preciso pegarem-lhe oito homens. quanto mais descer a ladrão com quem nos dá tud& Se não fosse por ser taxado de soberba.Farto de me deixar roubar ando eu.Não vê que são os anos. O Calhorra abanou repetidamente a cabeça sem soltar bus. .Não sou. lhe mostrou quanto media. Eram uns tantos mil réis que do samarro lhe saíam. o andor do tio Silvestre põe o ramo? Só se acomodou quando viu o andor. quando neste passo prometi até ir descalço e sem fala. . que remédio. ainda mais comerciantes de pé fresco. se nã~o fosse a esquadra do Governo Civilficar aqui ao pé. dobrando-se ao mesmo tempo. andava com os olhos abertos. pois embatucou e foi com respeito que. a fazê-lo. não houve dúvida. de fita na unha. e que o cirieiro compreendeu. O Calhorra concebera um andor ao Arcanjo S. mas não havia outro remédio senão arrotar.amortalhados. Mas é a última vez! . Pagar as dívidas aos santos. Pois que as celestes potestades não perdiam nada se comesse armador e cirieiro como fazia com os volframistas. . seu homem. desembolsando à justa. Quando aquilo viu. fazê-lo segundo as regras. mas se fosse que tinha isso? . cáspite. E ali marralharam os dois como se se tratasse de comprar os atafais para a besta num albardeiro da feira. E que lá na sua queria dizer: a brincadeira dava-ta eu.Caramba.Levante a grimpa. . produto do seu rico dinheiro.dizia o Urra que servira em artilheiros da Serra do Pilar. Prometera um círio da sua altura. patrãozinho.Qual anos nem qual carapuço! Olhe lá.. galhardo e alto. Entre armador e Calhorra foi uma matação até chegarem a acordo. com efeito. punha no lance. sorrindo com afabilidade. orago da freguesia. Sebastião.Nem a torre dos Clérigos? . mas nada de alargar os cordões à bolsa. encolheu-se de tal modo. O mundo. . isto é.rosnou de maus fígados. já daqui não queria ser aviado. O mesmo unhas-de-fome se mostrou o Calhorra com o cirieiro. 128 . já que negócios são negócios. mas. Miguel teve a consolação de notar que o arcanjo ficava ao pé dela como marujo ao pé dum mastro. nunca vista. Um metro e setenta e oito.Tinha que é nessas profissões que se aprendem certas manhas que nós cá sabemos. nem sonhada.. quanta ronha podia. mas quando encostou a grande tocha ao bento lado de S. e o lojista pegou do metro para lhe tirar a medida.

Depois do sermão. e por ali fora. Brás. Como era cedo. Também era costume pedir a cruz de guizeiras a Rabaçais. alguns pedidos às igrejas vizinhas. Brás e o de N. Mais dois. quanto a acompanhar a procissão a seu destino. corrente de jarra ao peito. Quando o foguetão estralejou à entrada do povo a comandar: a postos! dirigiu-se à sacristia da capela para em calma e à vontade envergar a mortalha. e a cruz de latão com o Cristo de saiote a Manfurada. e muitas mãos se estenderam solicitamente a ajudar a vestir o senhor presidente da junta de Freguesia. acolitado pelos abades de Pedrões e de Rabaçais. o que era um bico-de-obra. se fosse como o dos mais anos. e a mortalha no alforge. Que me diz V. guião vermelho de 129 . À força de pontos e de alfinetes conseguiram enfiar-lha. com joanetes altos e rugosos. Mas por mais de uma vez o penitente se queixou que o picavam. e foi preciso deitar abaixo a bainha. bem embora lhe soubesse a vinte escudos que era quanto escorria do seu bolso para o bolso do celebrante. O Calhorra não quis nada com o fedelho e foi procurar o pároco verdadeiro: . R. O desfraldar dos estandartes teve que se lhe diga. estava-lhe curta. Era gente expedita. teve de os repreender: .Prometi figurar na procissão de amortalhado e sem fala. ainda a procissão estava a sair de Mouramorta. sempre o tio Silvestre no rebanho dos vultos brancos a dar nas vistas como o rei David. andores para outra. que aprendia para padre e já andava de saias. Foi assim que se apresentou em S. e os rapazes outro a Santo Apolinário.? Se não vou.O Simão Tadeu passara a sobrepeliz ao Custodinho da Micas. depois os andores. As raparigas mandavam fazer um a Santa Luzia. mas as pernas não me deixam fazer a romaria por Mouramorta. música e canto. foi um rufo. Imensos e deformados pelo reumatismo. e foi de cara dura e voz que gelou o sorriso nos lábios dos circunstantes que disparou: . destes em lugar de honra os oferecidos pelos devotos de S. sôfrego de ouvir a missa a instrumental e o sermão que. os anjinhos não tiravam os olhos deles. fato de saragoça preta. Miguel e está quite. queda o voto por cumprir? . Além de curta ficava-lhe apertada. apartaram-se anjinhos e penitentes para uma banda.a S. Perante tal abusão.a das Sete Espadas. que lembravam as incrustações de certos moluscos na rocha. Oficiava o reverendo Tadeu. que era em panocru.Não senhor. O Calhorra assentiu. A veste. o de S. os mordomos deram voz para o saimento da procissão. ficavam à conta das esmolas angariadas pelos mordomos de porta em porta na roda do ano. esperou na venda do Adolfo que batesse a hora. também à conta do pároco. advogado nas quebraduras. Era o instante solene. Havia ali outros penitentes com suas aderecistas. para não parecer mal.Ó meninos. nunca vistes as patas de vosso pai? Quando a procissão acedeu à capela. Mande rezar uma missa ao S. um sermão que há vinte anos era único e invariável e tinha o mérito de arrancar um chuveiro de lágrimas às mesmas caras e a outras que se dispunham a suceder-lhes em tal papel. faria chorar as pedras. advogada nos achaques da vista. e comprimiu-se o populacho contra as quatro paredes. na égua rabona com a Verónica à frente. gravata. e a bateria de calos monstros verdadeiras nozelhas de carvalho. Rompiam primeiro os guiões. O José Francisco era farfante e encarregou-se de levar o guião de Pedrões. Brás.Ide lá pôr alfinetes a casa do Catano! Isto é mortalha ou samarra dalgum oiriço-cacheiro?? O pior do pior foi quando teve de tirar os butes e ficar com os pés a descoberto.

Vendo a sua atrapalhação. mal passou a galilé. vestiu a opa. a enrolar o pano contra a vara para o recolher à igreja. tomado de furor. atrás do Urra. despregando-se. voto de um brasileiro à Virgem Santa Quitéria na iminência de se ver papado por um tubarão. com ele trepidante e majestoso. moço. um dos mordomos proferiu: . O Aires ergueu ainda mais alto e.. Um boizana assim avanta com os telhados para os quintos quanto mais com um pendão'. largou-lhe o estandarte com gesto desdenhoso. com ele tombado.. Sem pressas nem vagares. voltavam-se enfunando o pano. O terceiro era o tal pendão de Pedrões. Obstinava-se José Francisco. imprimindo-lhe um alancão como se desprendesse uma ave.Quem leva o guião sou eu. desatou aos bordos. Depois. A grande asa rubra pareceu sentir o pulso forte. confiar-se. às costas asas desplumadas de galinhas brancas e de patos. bem embora lhe exigisse mais esforço do que andar agarrado à marra.. Ora o José Francisco. Os bicos triangulares. Tinha centenas de olhos em cima dele.. não há braço que aguente. flutuou a todo o pano com placidez e galhardia. O José Francisco. Seguia-se-lhe o Manuel Calhorra que tinha corpanzil de boi e que também se avinha menos mal com o branco de Mouramorta. Levava-o Lázaro Fandinga e não era maravilha que arcasse com ele. com o seu encabado na faixa.. fosse ele no meu tempo e vocês haviam de ver quantos apareciam para levar o guião? Acabou-se a rapaziada. .Ainda há rapazes. lá ia direito. cuja carne banqueteara fidalgos e senhores eclesiásticos que já não eram deste mundo. senhor Silvestre. e deitou as mãos ao estandarte. mas embora firmasse na cinta o conto da haste e com o desespero os dedos se lhe tornassem garra. um momento se encrespou. Seguiu-se-lhe o guião verde.Está uma grande ventaneira. Dás licença?. ao passo que a raiva e a amargura que lhe iam na alma lho enegreciam como fuligem. deixa. sem dizer palavra. . O melhor é recolher os guiões. que estava à entrada da galilé com o rancho. não obstante o grande peso das franjas de oiro. Logo por fatalidade soprava ventinho rijo e repontão que desdobrava o pano melhor que asas de gaivota. ou davam tal açoite contra a vara. e. O José Francisco ia a arriar mas o Calhorra. O Aires deu o chapéu a guardar.Ah. de ranho caído..vara alta que nem um choupo. ergueu o mordomo o braço: . sacudido pelo bater impetuoso da grande asa vermelha. que se tinha pelo mais valente. ainda há rapazes? exclamou o Augusto Alres adiantando-se. refartos de 130 . remeteu-o às alturas. com envergadura tal que cobria meio adro. Logo após avançava a chusma dos anjos. como se tal impotencia constituísse uma afronta para o seu brio de penitente. raios. no momento mesmo em que começavam. puído do tempo e fanado de suas lhamas e borlas. que ele via-se em sérios apuros para não o deixar abater sobre o gentio que recuava assustado a toda a roda. depois de o soerguer arqueou levemente o tronco para melhor lhe dar balanço e. e deixavam-se conduzir pela mão das matronas que os tinham caracterizado. caminhou a ocupar o seu posto na procissão. não se conteve que não bufasse: . opressos sob o peso dos grilhões e escravas. o pano desfraldado revestia-se de alento superior ao seu. que requeria pulso rijo e quem tivesse comido já umas certas rasas de sal. O primeiro a romper fora o Quim da Urra e. Rolavam-lhe pelo rosto grossas bagas de suor.Deixa. Com dó dele. em duas alas.

O facto prestou-se a que engrossassem os zunzuns que há muito andavam no ar. Desta feita a concertina cedeu a vez ao bombo. inflamou-se o despique entre os cantadores. Bem se derrete ele. Nos terreiros de Malhadas. e em matéria de sainete poucos lhe levavam a melhor. Brás. sócios da mesma empresa. Tão certo o zorro ficar a fazer cruzes na boca como eu chamar-me Lourenço e ser de Braga. tornando cada poviléu para seus cabeços. senão ensinava-te o respeito? Silvestre Calhorra apoiava-se à bengala de castão de rangifer e. chegavam do cimo ao fundo do terreiro. aflautada. Brás. Batiam ali calcanhar. na compra e venda de gado. Assim. de romaria aos quatro grandes cruzeiros que flanqueavam o lugar de S. Boquejava-se: . as cruzes de prata e de latão refulgiam porum sol que teve a bondade de se associar à festividade. esbagulhava-se em lágrimas. é o pingo da rocha que cai para o chão enquanto o padre reza o responso. nem por isso a festa teve remate. Limitou-se a acenar com a bengala. O mordomo que estivera na pendência dos estandartes chegou-se neste entrementes ao Calhorra. a ninguém causou espanto ver o José Francisco em Malhadas. comeretes e beberetes por três dias e três noites. punha maior fanfúrria e era mais próprio dum dia de grande borga. assentes desde longe. O Joaquim da Urra tinha voz sã. quando o saricoté feria lume nas calçadas de Mouramorta e de S. A música à sua espalda fungava um pase-calle estrondoso. De volteio em volteio acabaram os festeiros por estacar no largo da capela e armar a chula. o mesmo era que dissesse: . além de Malhadas. os andores. Contra ele versejavam o José 131 . e o Calhorra. A Teodora não pode ver o filho do Antoninho nem pintado. Deus que é pai lhe perdoaria. frequentando-lhe a casa e acompanhando-o por felrãs e alcriquetes. no caminho para S. Caprichou o José Francisco em desertar da sua terra e vir alegrar Malhadas com a concertina. muito sensibilizado com tanta grandeza e tal preito divino.Falais ao toledo. mas. Quando ao entardecer a gentiaga dispersou. aquele fora-se insinuando na vida do lavrador. que não se importa de quebrar o voto para atirar assim o homem ao desespero! Só então o Calhorra se lembrou que infringira a promessa. Miguel. e disse-lhe: . armou-se o danço. ferrinhos e viola. o mais alto dos amortalhados. a passo de boi.Quem há-de acabar por levar a borrega é o filho do Antoninho. tio Silvestre. sem falar já de S. através das ruas varridas e com a gente ajoelhada pelos penedinhos.O José Francisco deita a alma com vergonha. bem como de Mouramorta.O que te vale é eu ir aqui a pagar o grande favor que devo ao S. resplandecentes como tronos. avançavam com segura cadência. Com tal esparrame. com o correntio de relações que se estabeleceu entre José Francisco e José dos Cambais. que o descante. procurassem-no ali. E lá ia. daquele jeito. Em verdade. aquelas terras que lhe ficavam aquém. se o quisessem achar. Brás. que era dança para todos.lindezas. Mas também não era só uma pessoa nem duas a protestar: . as duas alas. Raios o pelem. Brás. porque aí a solenidade prolongava-se em balhos. de que se compõe o balho. Com harmónica ou sem ela. já que não fora por querer. bamboleando-se nos ombros dos mocetões. Em virtude de presunções tão opostas. mandara a mulher ir à sua ilharga. Aos domingos não tinha outro poiso. para maior cautela.

distraído. além de dar licença aos sarrafaçais dos filhos para se emborracharem a última vez. os pares davam a volta e subiam tornejando com os demais pares. Da atitude dos três ficaram todas as comadres murmurando. rodopiavam numa perna só e ele chorava. mão na mão. mas o reumatismo falseava-lhe os movimentos. Queria valsar com o antigo sócio. a fugir ao desafio em que era de toda a evidência ficar desbaratado ou para desmentir o subentendido que pudesse transparecer da quadra do Urra.Não faças essa desfeita ao homem. se encordoou. A moça escusou-se. o rego. foi convidar Teodora para sua dama. mas faltava-lhes veia e ralé para competir com o cantador de fama. E novamente o Quim lançou à zanguizarra: O que tu querias sei eu. Os pares agora subiam e desciam. até então por algum cuidado da última hora.. até endireitar carreira. e o José Francisco. Menina.. as mangas intermináveis do balho. acudiu. Mas. Continuava o danço no largo muito alvoriçado. vira-vi. Mas as outras raparigas. que ninguém lhe viu demudar cor nem jeito. Mesmo assim. E logo o Quim da Urra despedia com requebro malicioso: Não corre água nem vinho. pela vida fora. das raras vezes que lhe subia ao capitel. cavalheiros com damas. mais amalandrados do que é legítimo sofrer o cristão. vira-vi. em arco por cima de cada ala. empurravam-na. Quem não deve não teme Nem se põe a cortar prego. fez-se mais branco que a camisa gomada que trazia. as topetadas que dera. O José Francisco entretanto garganteou: Se à sua porta corre água. A rapariga cruzou o xaile do ombro para a cinta e foi. rompeu o 132 . O vinho. rebolando a anca e castanholando com os dedos livres. julgou-se também no direito de tomar. já toda a gente sabia que o tio Silvestre não era para cócegas. Andava a bailar. Mas andas muito enganado. não arredou da negativa. mas não disse palavra.Francisco e o Luís Ougado. Quanto a ela. de companhia com o José dos Cambais. Era uma das sortes da chula enquanto o par do alto e o par do fundo revoluteavam enlaçados. apareceu à boca do adro o Augusto Aires. a bailar ficou. sobe e desce. embora o seu par a requeresse com insistência. Que por andar ameaçado. Vai o pêro. Azango. E ao refrão vira. é que vinham ao fundamento da boa peseta que ele era.Vai. Pra quem pêro está guardado. Vendo Teodora a dançar com o filho do Antoninho. dizendo todo chorão: . Não ta merece. menina. Punha-se então uma madalena arrependida e todo se desfazia em lamúrias pelo tempo que perdera. Requintava o balho em evoluções. à má cara umas. meteu-se para o meio das outras e. foi no seu íntimo. que mal tem!? O Zé dos Cambais percebeu e muito trôpego. os cachações que se vira obrigado a aplicar a este e àquele. damas com cavalheiros. assim que chegou a primeira suspensão. Entretanto andava a caneca à roda e o Calhorra. diz o outro. entrança e destrança. dando-lhe com o cotovelo: . Consigo vou ter sem medo. surdas outras quando adjudicadas de noite à porta dos serões. o home é cego. dava-lhe para o melodrama. mas depois de o ouvirem pingueiro a contar as cacetadas que tinha à sua conta. tem-te não caias. um honrado pifão.

.Antoninho de automóvel. . deu em bem. começaram a despedir umas após outras. O pai acomodava as vacas. ainda na praça tiniam os ferrinhos e zurrava o zabumba. Pronunciadas tais palavras com certa sequidão despediu rua abaixo mais o rapaz.Razão.e batia no peito.Sabes a minha pena. Ou. quem? . Como ao lado deles marchasse o Luís Ougado. Aparece. Rosna-se para aí que te viraste para o filho do Antoninho Fráguas. porquê? É um amigo às direitas. desculpou-se Fráguas com não beber fora das refeições.E depois? . que parecia peado. a abanar a cabeça a um vago inimigo. mas agradecia como se tivesse bebido. de xaile descaído para a cinta. .Está bem. para esconder o pesadume. para o acompanhar a casa. ela picou: . quase titubeante. não se fala de pecados velhos. nem sequer atrapalhou o bailado.Ao pé de mim não há azar. ou. Entre elas Teodora.temos de falar com o coração nas mãos.Onde ele cair caio eu . o velho disse-lhe..disse ele no tom sentido.significou-lhe o Fráguas.? . a escolher caminho. Mas deixem lá berregar o paspalhão do Urra. de caneca em punho. O filho despegou da zanguizarra.Sentes-te ameaçado? -. veio para ele..entoou o Ougado.Não há-de ser preciso. Ao fundo do patim chamou pela senhora Verónica que viesse tomar conta do cativo. . sabes? É que não tenha uma filha que ta dava com os dois vinténs que guardo num buraco. Afidalgado. Falava com dificuldade. O Luís Ougado apartou-se cabisbaixo. ouviram-lhe que dizia: Este moço vem connosco.. esquecendo-se que estavam de relações quebradas.. depois de jogar ao ar o barrete de pele de coelho: .perguntou o Antoninho fitando o filho. a velha entretinha-se com a ceia. Ao entrarem os rebanhos nos currais. um tanto exalçado pela laracha do homem. . de ar torvo e sem erguer os olhos. Uma pessoa disse-me: vou-o jurar. puderam ficar à vontade. Fica-te com esta e podes dizê-lo à lambisgóia do Zé dos Cambais.Teodora . com o fim de afogar duma vez para sempre a sua paixão. Agradado. desde S.proferiu ela um pouco no seu modo arisco. . de quem joga tudo na vaza . o Calhorra. As danças prosseguiram até a noite remontar dos vales para as aldeias e os picotos dos montes. embora de pé menos lépido do que tinham vindo. Como a pausa se dilatasse. A nuvem de poeira e de balidos. dize lá..Sinto e não sinto. 133 . O Augusto Aires deu o braço ao Calhorra. . obrigadinho! .. Augusto.. mais zambro do que nunca. Mas as mocinhas ramboieiras.As bocas do mundo. se não com pesar de interromper o plantão que fizera todo o santo dia. ao só cio da vigairada. em sua importância sentindo-se talvez afrontado pela presença do bebedola. aclui não se corta prego? . O moço trazia Teodora dentro do peito e foi procurá-la. meu homem. Onde ele cair caio eu . Brás.. . que parecia meio pingueiro. ou pô-la a salvo de temporais. Tivemos ambos um peguilho.repetia o Luís Ougado na cegarrega obtusa de borracho.Devo acreditar que têm razão. que assoberbava durante minutos a povoação.

enlevo que não espanto. Para onde for um. . Entrava-lhe nos pulmões ar fresco. Moldava-se. nem disse: deixa-me? Quando voltaram à terra..Pois sim. e numa voz em que latejava não sabia se amor se ira pronunciou: . O que não se compreende é a aceitação que tu lhe dás.Torna-me a dizer essa palavra.Dize-ma.Ora essa. conhecendo-lhe o génio: Não julgo nada. que ta não corto. que a cabeça não me governa bem. moldava-se no seu peito.. não o bispei agarrado a ti a dançar. Teodora. . Olhava para ela e como a visse calada.replicou ela com sequidão. se não. porque não hás-de ir? Meu pai teve ventos da minha má vontade e veio-me ralhar. ela murmurou. que tanto podia exprimir: sim. estreitou-a contra a apojadura das pomas.Pois andava e andava mesmo? Não acreditas? Podes acreditar. imóvel. em que comungava tudo à volta. Aí tens porque me viste a dançar com semelhante meijengro. Augusto apertou-a contra si e ela deixou-se apertar. Se é o que eu suponho. Tenho com a minha palavra e o meu querer e basta. aquela espécie de ar fresco que não vem apenas da atmosfera e embebeda como o melhor vinho. E volveu: . é verdade. grande pausa..? O Aires quedou um instante em suspensão. Que homem és tu para guardar memória de coisas que bolem com a vida toda duma pessoa.Assim és esquecido?? . como: não tem pés nem cabeça.E que palavra é essa. Eu não o chamei.disse ela em voz áspera.Mauzão! 134 . . Torna-ma a dizer. moldava-se branda como a cera. meta sisuda. Meteram-mo à cara. suponhamos. Mais do que isso. .Ouves bater o coração.. ouves? Eu te digo o que já não devia ser novo para ti: tua ou de mais ninguém. Pegou-lhe da mão.. Intercorreu uma pausa.. a sua tortura era atroz. . tudo tem fim. rija. Suponhamos que semelhante compadrio é devido ao negócio. como se ditasse uma ordem a quem fosse mau cumpridor.Dá cá a tua mão. vai outro. de olhos em terra. disselhe que não. paciência.Não lhe dou aceitação nenhuma . Era uma razão para te negares. viver e sofrer. meia sorrindo: . Perdido e achado é em vossa casa. Depois. Mesmo assim porfiou: . E tartamudo balbuciou: ... As raparigas em volta: vai. .proferiu ela num trejeito que transitava repentinamente do sério para o jocoso e regressava logo ao tom primeiro. .. . Vês. mas para ti não deve ser novidade o que corre a esse respeito..Ele tornou. Foi-me cometer para o baile. que não estou bem lembrado... Ele e teu pai são como cabeçalho e chavelhão. O céu e a terra revestiam novo aspecto para o Aires.Já te disse e torno-te a repetir que não tenho nada com o que os outros pensam. Teodora. quase tão pétrea como a massa da masseira a ponto de levedar. o sujeitinho agora não sal da tua beira. Teimou.. Mais uma razão para definirem suas vidas.Dá cá... abençoada seja a luz que nos alumia..E tu que julgas? Soltava as palavras no seu jeito despachado e tom escarnento..? Não me vais dizer que trago cataratas nos olhos ou que andavas forçada.. hesitante em ler-lhe nos olhos aquilo que tanto buscava.. . pô-la em cima dos seios sem aquele pudor com que as raparigas fogem ao toque atrevido dos rapazes..

anunciava: vigia. inebriado de amor. tinha a noção de que marchava. fustigado pelas rabanadas glaciais e farto de tropeçar nos calhaus. perscrutanto à direita e à esquerda. Eram duas almas numa só alma. Foi-se dali. Uma névoa leitosa de amanhecer recobria tudo nos horizontes da sua imaginação. Haviam-se calado há muito as vozes que quase adormecem a rezar sobre o açafate e.. Que ressaibo o da sua boca? Que fluidez no seu sangue? Leve. a mãe. O mocho piou e as notas agoirentas pareceram-lhe alegres parabéns. Teodora confundia-se consigo. em boa paz e segurança. mil penedos de cima do peito. entrava já na sua rua. e as giestas acocoradas nas rampas. com os cães enrodilhados nos ninhos. entrou na quintã.. Não se ouvia nada de nada. sem noção do itinerário.. ruminando a grande felicidade.. Era noite e não se apercebera ainda bem da escuridão. as paredes que alojavam a sua Teodora. rolando no céu baixo. pé ante pé e reprimindo o fôlego subiu o patim que conduzia à casa propriamente dita. por mais trabalhos que passe. seguro do mundo.. Passou à beira da mina do Vale das Donas com os aterros encavalitados a trouxe-mouxe e os tejadilhos de fibrocimento mal sobrenadando no imóvel e imenso mar da escuridão. ainda sob os fumos da pagodeira. mas sem fazer ruído. Uma vez diante da moradia do Cambais. E pôs-se a arrepiar caminho. À entrada do povo que. Eras a minha vida. era a noite inviolada e profunda. Teodora. não havia de andar sobre brasas?? Mas perdoa. acabaram por se entornar na terra.?! Mesmo. se esquecera à última da hora de pôr trancas às portas. Um ventinho assobiador vinha da serra e tão-pouco dava conta dele. deixou-se ir ao acaso pelos caminhos fora. sim. Teodora. Onde ele estava. Respiro. Dois minutos concedem-se ao homem que vai a enforcar quanto mais ao coração alvoroçado? E abandonou-se à vontade pueril de rever. Para gente tão meticulosa o facto era singular. total: sublimação do humano. duas notas do chocalhinho tangido pelo carneiro ao coçar o piolho. Para tirar a prova real. uma chamazinha trémula. leve. o Calhorra. mesmo na ribeira. Na casa do guarda. antes de se ir deitar. E afoito. Cada vez mais apressado. O escuro adensara-se acrescido dos bulcões que o vento tocava do norte e que.. as pedras o juravam com o seu sossego. nunca és recompensada da prova de confiança que me deste. saber que ela lá estava a dormir. nã o. O sol. tendo-lhe acudido ao espírito que a mãe podia estar em cuidados com a sua ausência. 135 .. e bendita sejas! Por mais tombos que dê. Os pés o guiavam certo e direito como se levasse rumo.Tiraste-me. o senhor Hincker e a menina erguiam-se-lhe diante tal os arnieiros nas margens do rio. Foi andando a passo cada vez mais largo. irradiante. as comas dos pinheiros novos em levitação. os olhos dela e os seus numa só luz. como no concurso harmonioso das leis da vida uma vez pode acontecer. deteve-se um ápice. se dormia. Tanto dentro como fora nada entreviu de suspeito. necessária a sua quietação. com a breca. trazido pela pancada. soçobrado em silê ncio. que não se via a linha dos troncos. No patamar afitou a orelha. notou com estranheza que no portal carreiro um dos batentes estava escancarado. E com os seus botões considerou que o Cambais. quando se sentiu levado por uma irreprimível veneta a torcer caminho pelo domicílio do José dos Cambais. como se por cima da terra o sustentassem asas. com as ondulações caprichosas da casaria lembrava um barrocal. o vagido do menino que logo esmorece sufocado contra o bico do peito. Agora.

.. não parece. virava a esquina e. Olhe.salvo o vento nos pinhais do Oiteiro Alto e a toada dum fio de água a despenhar-se do talude. parado como se estivesse novamente irresoluto ou à espera. Voltar para quê? E de ímpeto. e afigurou-se ao Aires que manejava um estadulho. A mãe veio abrir e vendoo transtornado.Não é nada. E ao desenvolver-se em altura a arredondar-se de linhas. meu filho. Sorrindo contrafeito. Tinham-me avisado que certos ratoneiros que para aí há andavam com tenções de dar um assalto ao filão e quis ver se o guarda dormia ou estava no seu posto. um instante perplexa ou cavidosa. Mas. “Alguém que precisa duma enxada e vem por ela onde sabe que não faltam. O rumor pouco a pouco foi-se acentuando. Aquilo é como um 136 . Uma inalterável e peganhosa modorra de inverno recobria a aldeia e a terra toda. que te fizeram. O Aires quedou um momento interdito.?. escoava-se na noite sem ruído nem rasto. machadinha em punho. atravessou os umbrais. disse-lhe a tremer toda: . não é nada comigo. assestados com fixidez hipnótica sobre o noitibó.. até se traduzir num chapejar seguido. não destituído porém de certo recato. mas essa repelia-a como iníqua e absurda. coitado do homem! Embarrilaram-no uma vez.. fosse reflexo dalgum dos seus movimentos. pareceulhe mais o Ougado. “Ladrão. Depois. Foi instantâneo. quase fulgurante.Ai. Vendo-a embrenhar-se na escuridão para o lado das pocilgas. e foi quanto bastou para o petrificar de novo na imobilidade. a ofegar. foi-lhe empós. Agora. Quer dizer. como se viesse furtado a perseguição. mas não lhe fazem segunda. Lá estava. fui até o Vale das Donas. Talvez voltasse. Não lhe dissera Teodora: “Tua ou de mais ninguém”? Mais do que isso: não lho demonstrara? De súbito. e até pelo pigarro que a custo sofreava. a desenhar-se. ainda mais intrigado do que inquieto: “Vem para roubar?” Uma segunda interrogação brotara no seu espírito. mal teve tempo de se dizer.. descosendo-se da porteira.?? Que te fizeram que não vens em ti. a prevista forma humana entremostrou-se projectada contra a palha branca que lastrava a quintã. definindo. que o Cambais tinha de reserva como todos os lavradores.. Mas já o vulto. disse para a mãe: . contra o mainel.” Mas o vulto tornou a crescer na penumbra. Bateu à porta com mão nervosa e insistente. mas semelhante a bicho que anda à caça. e o Aires deitou a mã o à machadinha que entrevira a um canto. sossegue. fosse ilusão dos seus olhos. pois se ouvia o sonido da ferramenta e de paus ou tábuas entrechocando-se. para os fundos da quintã. portanto. pela estatura meã e certo franzino do tronco. quem era devia fazer a sua socresta. Foi como se lhe tivessem cravado um punhal no peito. destes estadulhos da carreta descascados e mais altos que um homem. afigurou-se-lhe reconhecer o José Francisco. Breve. E outra vez se perfilou contra a ombreira. afirmando-se melhor. Quem era não estava ali por bom. Soprou ao desafogo. uma sombra enovelada delatou-se pelo seu chumaço de negror no vão da porta e aí fez alto. homem sem dúvida. Varrasco?” E a infame dúvida de há pouco voltou a bater-lhe na cabeça e ele a recalcá-la. Na breve pausa que se seguiu ao acto de decisão: vou-me embora? figurou-se-lhe ouvir na rua um rumor imperceptível. descalço ou de alpargatas.

o cabelo em pasta sobre a testa e o toutiço tão feito em estilhas que se lhe tocassem tremia como uma abóbora melada.. E de facto ele alguma coisa escondia. se lha dissesse. Muito menos acreditaria na verdade pura. Para que ela compreendesse. Não obstante. muito demorado explicar-se e melindroso desvendar-lhe o que tinha de ficar oculto. subitamente. viu sem manifestar espanto o José Francisco estatelado no chão. . ainda mostrava os colmilhos a rosnar. Do sussurro. ao tempo que torcia a cara para a banda. percebeu que estava a dobar a sua teia. Era a tela da pessoa discreta.Homessa! Um valentão como tu.. . não acha. desconfiada que lhe escondem coisa grave. ..ladrava à volta do resplendor dum lampião. vendo-a de pupilas assestadas nele. Essa voz foi engrossando pouco a pouco e agora parece enchia as ruas.exclamou a mãe. era demorado. e.. Na camisa de goma. como o piar da coruja.Jesus. varava através dos pinhais e leiras de centeio o próprio coração da terra.. procurando ler-lhe nos olhos. Brás. ao pé dele e lhe falei.. O golpe que o prostrara devia ter sido dado à mão~tente com olho de sachola ou grosso varapau para assim quedar a caveira escaqueirada.disse ele. olhou para a mãe.Quem foi trazia-lhe gana? . lamentos e rezas. Ao proferir tais palavras..... se conjuravam contra a sua felicidade. assim. . Reparou ainda que muitos olhos se cravavam nele interrogativos.Então que quer. Abriu a porta. com a cabeça feita numa bola de sangue e lama. . e depois de falar reparou que a sua voz soara na açudada de imprecações.? . exclamou: .Mãe.? Então não ouve?.cão da Serra. Comeu em sobressalto.É o povo. À luz duma lanterna pousada à beira.Agora ao entrar. Augusto volveu de novo olhos para a mãe e. Era o relâmpago que na noite negra ilumina subitamente a imensidade com sinistro fulgor. postado um pouco de esconso entre a ombreira da casa da Pedralva e o rancho das mulheres. Não acreditara nem uma só palavra de quanto acabava de lhe dizer com boa lábia. vá ver o que é. não sabia como nem quem. do clarão das lumiciras trémulo e fúgidiço. Que assuada será aquela? Uma voz clamava .observou-lhe ela. . Deve ter sido para o pé da casa da Pedralva. E também sem náusea alguma inclinou-se a observar. luziam ainda ilhéus de brancor. nal prestando atenção ao que lhe diziam.. ouvi na rua uma barulheira que me assustou. que não tem medo de nada. cujas sombras oscilavam até desmaiar por cima dos telhados.. fazendo-se muito branco. Quando chegue.. Escondia-lhe que. . Em dada altura estacou de garfo no ar. da noite assombrada exalava-se urna impressão única: Homem morto! Homem morto! Foi atrás da mãe.. ensopada em sangue.. de alevante. repcso de 137 . assarapantado!. Ouvia-se um burburinho de enxame alvoroçado. Tinha já os olhos vidrados. deu-me para ter medo? Que tem de ceia? A mãe pôs-lhe na mesa o ensopado que há muito tempo acalentava ao lume para não arrefecer. abertos desmesuradamente.. desvendar-lhe o facto estupendo que fizera essa felicidade. pois lhe havia de parecer também a mais acabada das patranhas. tornou com o vero acento da franqueza: .Ouve.clamava não traduz bem aquele gorgulhar de sons guturais e incompreensíveis . e esse brancor falava da festa de S.

por seu belo querer. Depis. O adjunto engrossava cada vez mais e a tia Pedralva. a destrancar ainda os olhos da ramela. proferiu impensadamente. com a cabeça debaixo das mantas. emitindo as suas opiniões e bichanando os seus palpites. pois saltara da cama estremunhado dum destes sonos que só têm igual ao das bolas das pirâmides nos pináculos das igrejas. que tinha a casa mesmo em frente.A travesseira lava-se . vá que é uma obra de misericórdia! A Pedralva não foi por ela. ninguém se dispensando de aventar a sua hipótese quanto à forma como o crime poderia ter sido praticado.. como que interrogando-se sobre o drama que o vitimara.sentenciou outrem. a coitanaxa da Júlia Minga. a bater o dente tão alto ou tão rijo que nem que curtisse maleitas. resolveu-se então a ir buscá-la. que voltara a examinar o cadáver. que desde a alva se esbagoava em alto pranto. A avaliar pela tepidez do corpo. O José Francisco fora visto à boca da noite desandar sozinho pela estrada fora. não podia ver sangue! O regedor designou por escala os cabos de ordens que haviam de velar o assassinado e o povinho dispersou aos quatro pontos. . Chocalhou rua fora a tamancada a par de grosso vozeiro: Regedor! Regedor! Entretanto crescia o babaréu em volta do cadáver. . Outra vez o Augusto Aires. . Manhã alta. mas obedecendo ao instinto de varrer de si qualquer suspeição. pau argolado. Aquela tinha mesmo alma de cebola. e ficou de pé a fitá-lo. a morte devia ter-se dado depois das dez. tropeçara no morto e soltara brado.Então o regedor dorme-lhe?? . chegou o Antoninho Fráguas de automóvel. para a aldeia. como se explicava que aparecesse morto numa rua de Malhadas? Explicava-se admitindo que voltara atrás. já noite velha.iterou o Aires como de peito feito. 138 . mas a Polónia Fandinga. abraçada ao filho. ou melhor levado no sistema de sacudir a água do capote. . Mas não podia dar razão de vulto. . demais a mais domingo.ter aberto a boca. tia Rosa.já devia aí estar? Vão chamá-lo. deu conta que faltava uma travesseira para lhe meter debaixo da cabeça.A travesseira suja-se com o sangue que ainda está a escorrer da brecha . Contou depois que a Florinda estava na cama. começou em voz grunhida a clamar pelos cabos de ordens. ajoelhando e colando-lhe o ouvido ao peito. .exclamou um dos presentes.Vão chamá-lo? Pois então não hão-de ir chamá-lo?. e como ninguém lhe respondesse. mas dos degraus do patim por onde se subia para sua casa chamou pela filha que lha trouxesse.Não há dúvida. Revendo-se na sua boa acção. Fora o João Sancho que. veio com uma manta e deitou-a sobre o cadáver. Mas voltara para quê? E voltara sozinho ou acompanhado? Não eram ainda onze horas. ao largar do estábulo onde estivera a acalentar a vaquinha parida. Afastou a mãe. tacteou a ferida. de que ele próprio se arrepiou: .. com um froixo de riso forçado.advertiram-lhe. Sobre tal particular não havia discrepância. ..Vá por ela. Mais de quatro testemunhavam em conformidade. Quem a fizera. Repetiu o apelo. Meio arrelampado.. a escapulir-se. fizera-a bem feita e esgueirara-se como um trasgo. Mas. debruçando-se sobre o corpo. em hora a que ninguém o vira. sem reparar bem no que dizia. foi pessoa sabida? Neste meio tempo chegava o regedor. O corpo ainda estava quente. na direcção de Mouramorta. já não sentiu bater o coração. sendo assim. sombra sequer.

À retaguarda havia murmúrios. Vede lá bem.e desatou outra vez numa risada. prende-se o Aires. o nome anda em todas as bocas.Vamos a prender o Aires..Onde vão vocês? .Andai lá. Seguiram.. regedor. mas estava de pé e de pé ficou sem se mexer. à traição. quanto mais matar um homem.. mas toda a gente pronuncia um nome! lançou de rópia e circurivagando os olhos pela gentiaga a tomar apoio do que adiantava. entre perplexo e atemorizado.Pois quem havia de ser?? Mais cicios. O Fráguas continuava estático. 139 . No caminho encontraram-se com Silvestre Calhorra que vinha para o lugar do alevante.perguntou.exclamou com a veemência de que é capaz um regedor.Não sabe quem é? Caramba. cheia de acusações e fantasmas.? Ah. o Fráguas observou para o regedor: . O Antoninho Fráguas. além de rico que é prenda de respeito. andai lá! Levais um inocente. A mãe ao lado escondia as lágrimas. . cicios de vozes. o Carrasco coçou a cabeça.Eu não vi.Já prenderam o assassino? Estava ali a autoridade que o encarou com olhos de espanto. Nomeou dois cabos de ordens e. Ides errados. pupilas mortas.Pois se estão certos que foi o Aires que matou. como para castigar. esse lhes afianço eu que não foi! Não foi? É falso? Como a autoridade parecesse hesitante. Figurou-se-lhes que o Augusto já os esperava porque o viram a sorrir. depondo-lhe na testa um beijo. Dizem que foi ele que matou o José Francisco. ? Tem de levar os ouvidos ao ferreiro.Se o deixa fugir. murmurando sempre: .. eu lhe darei o arrocho. Ficaria.. . rua abaixo. ah? ..Então ainda não ouviu um nome.proferiu o Luís Ougado em voz alterada.. foi-os acompanhando a distância. tão certo como o sol que nos alumia?... tinha fama de braço comprido.. dize lá quem foi? . Levais um inocente. na sua voz lenta e emperrada: .soergueu-lhe a cabeça a medir a extensão do golpe e. ah. e acabou por dizer: . mesmo assim. já que o sabes.. tio do morto e factoto do Fráguas. Por isso.. .. meio tartaranha. aprumou-se para dizer: .Ainda não ouvi. ..Grandes alarves? Esse rapaz é incapaz de dar uma pan~ cada à falsa fé.. mais ditérios e segredinhos e no silêncio a voz de Teodora ergueu-se irada e resoluta: . absorto no seu panorama.. . Após uma pausa.Homem..Ora essa? . risonho e pálido. ombro a ombro com o Manuel Minga. interjeições de pessoas que ansiavam por desabafar e não tinham ânimo. olhos no chão.Ah. é verdade que deste sorriso amarelo que tanto indica desdém por tudo como confiança. . o Ougado tornou para o José Carrasco. . Eu já desconfiava.Vindes-me prender. . tanto para proteger. O filho deixou-se conduzir. agravado em sua regedoria. Achais-me com cara de matar um homem? Para mais.É que é mouco. . sem resposta se o Antoninho não secundasse: . com que sim. ..

a carreira eclesiástica tinha os seus ossos. pelas rampas dos caminhos se descobriam ovelhas zorreiras. e tinha os pés como dois calhaus. puxado da serra pelo vento galego. encomendada pela mãe lastimosa. o exemplar mais completo era a Ana. era a mais canónica e imalsinável das amas. mas dando ainda mostras de muito ferrado à terra. afogando as pernas das raparigas. À retaguarda da sua grossa beiçorra de alguidar exibia velhas e temerosas arnelas com vazios largos como canhoneiras. ao serviço de Antônio Fráguas. oferecendo às crias um amojo refarto. Pusessem ali os olhos os adversários contumazes da ordem social! Gozavam estas Ruças de bom crédito e mereciam-no. Esta sua criada entroncava na meritíssima linhagem das Ruças. Ela. ainda que o sol pela manhãzinha tivesse espreitado por detrás dos montes. Ouvindo as colcheias mortuárias. e ameaçava mais neve. O céu. que era severo em artigo de contubérnios. depois da crise do pé leve. antes. pelo contrário. proferiu: Onde desencantou esta avis rara. até por cima dos penedos. E a erva crescia. como para as peruas a muda da pena. rendia as honras merecidas à sua governanta. dera o seu tombo até derivar da livre frescata na placidez enxuridiosa de alfaia eclesiástica. a casta soror. Mas era um regalo ver os regos por entre os trolhos das leiras a luzir como cutelarias. que de saia entalada à frente por via das partidas do vento. cada vez mais atarefada. e o corgo e arroios derivantes animando as paisagens ingratas de inverno duma vida que só a água é capaz de dar com a sua ágil e autónoma mobilidade. anunciados aos quatro pontos pelo estertor das vítimas e as vozes cruas e chinfrim judaico dos matadores. sempre em frente. se entregava aos prazeres da mesa. depois de dizer por alma do José Francisco a missa do sétimo dia. segundo o 140 . com que os rapazes andaram a reinar pelos caminhos. onde o velho fidalgo. mal lhe viu a tromba e provou os pitéus. O inverno estava a virar. como nascera nas palhas. voltara a encarvoar-se não tendo descarregado suficientemente. Uma terceira estava para o Porto. a não ser tementes a Deus. Nunca a nobre víscera podia contar com horas certas de comer. lá ia silenciosa ou botando o seu solilóquio. mas nenhum tão duro como aquele de trazer o estômago de quarentena. embora o seu poiso habitual fose a Quinta das Meruges. mal alvejando à beira das paredes. A cada passo. no resguardo do cisco e das sombras. e uma quarta cobrava boas gorjetas pelas redondezas em bodas e entrudadas. e Tadeu. De todas. Como todas as carreiras.X O senhor Tadeu. O prelado. A neve derretera de todo. Aquela sua Ruça. o borraçal em que tinham vindo encalhar as bolas. posto que travado por um estreito regime de dispéptico. que mais não fosse pelo dedo com que sabiam temperar um pratinho para abades e filhos de boa mãe. além de perfeita pascácia. por lhe serem defesos os outros. sopeiras e mais nada. celibatário e sibarita. e nas quintãs representavam -se os últimos dramas paritagruélicos da matança. o senhor Tadeu involuntariamente pressaboreou a sertãzinha de marrã que a Maria Ruça não deixaria de lhe apresentar ao almoço. tratou de se ir chegando a casa que estava frio de cortar coiro e cabelo. roxas de frio. mandavam a seitoira nos ferregiais. alastrava nutrice e verdinha or toda a parte. Simão? Coitada.

Porém nada recompensava a irregularidade do horário. E com os pés alongados para a brasa. à medida que iam metendo a faca ao requinho. que se rinha acocorado no esteirão. Chegado o Santo André. Gelavam-lhe os pés. fora disso é de absoluta inconformidade com o cronómetro. correu a aquecer-se. Na trempe. porca ou porco. Depois 141 . o gozo da bemaventurança à mão direita de Deus Padre. quando se persuadiu que já havia batatas suficientes na frigideira. do mestre da música. perdida para sempre jamais. tudo passa. A Maria Ruça pôs a mesa na velha banca. que levara para o seminário e eram o terror das pelangas de cabra e do fiel amigo? Ai Deus. naco de lombo ou cobro. e ao bafo confortador e ao estalido sinfónico que produzia o fogo devorando o lenho. e ao ouvir pelas quintas aqueles sustenidos de agonia. a contemplar qualquer panorama interior. o seu moiro de sangue. A Ruça. Ah. Na lareira ardia um bom lume de carvalho. que lhe mandavam as almas amigas. mal depôs o cálice das consagrações com a sua bolsinha de chita ramalhuda. mas que tinha o defeito de ser apenas no outro mundo. a ponto de rescender como a ânfora siracusana do pai Esopo. tão junto do lume que a chama fazia esvurmar a resina dos nós da madeira e ondular a franja da toalha. depois do almoço de marrã. e desta vez perguntava-se com justificado sobressalto se ainda lhe restariam na caixinha daqueles com-primidos de bicarbonato de sódio. cilhou as mãos sobre os joelhos. por outro chorava a sua riqueza de rei de Tule. as vezes que o eclesiástico vai celebrar em festividade fora da sua igreja. quanto não daria pelo maravilhoso estômago.abade do Ramalhal. forrado de zinco. avinhado por dentro. movida por ponderosas razões. moleja. o fígado do suíno beirão que é melhor que de vitela e se dissolve formando um molho sobre o grosso que é o regalo dos regalos. os paroquianos mais dignos não passavam sem lhe mandar o prato com as primícias. fígado. gente esta que se mede toda pela mesma rasa em matéria de pontualidade. em prima tonsura. é pau-mandado dos mordomos. era mais de apreciar que a carne de vinha-de-alhos ou o presunto já curado. para o caso em que. a serva a debulhar à unha as batatas de neve.. dois decilitros a emornecer no púcaro de Molelos. negro duas vezes por fora. Nada. frigia uma boa febra de porco com fígado do mesmo. dos armadores. mais intemporal que o programa das obrigações paroquiais. a dita. quando estava só. sim. Mas a chicha fresca. que andava sempre como o da Joana.. dos próprios colegas que chegam quando chegam a arrotar em suas éguas passeiras. a vida não lhe pareceu tãe feia como a pintam. e pelos dentes de lobo. entrasse a lutar com ele. Se hoje se comia em tempo oportuno. Costumava o Tadeu. a não ser. Entrou em casa e. capazes de arrancar um prego melhor que uma turquês. tanto mais que adverte Avicena: est caro porcina sine vino pel or caprina. com elas mais várias que o relógio de Santo Antão. a ponto de não os sentir e causarem-lhe torturas insuportáveis. se por um lado lhe crescia água na boca. em última análise. Era certo que a venerável Congregação dos Ritos. autorizara que o sacerdote tomasse logo de manhã uma pitançazinha moderada. dos fogueteiros. O labrego lê as horas pelo setestrelo para tudo o que seja a lida dos campos. absorta para o brasido. como muito bem calculara. amanhã apenas quando Deus era servido. em cima duma tabuinha. Por isso. entrou em actividade deglutiva na mais ameníssimacias monções. Em casa também se cevava porco e se fazia salgadeira. que lhe aviava o Jácome. filosofar com os botões da garnacha.

já com quatro marmotinhos de um a seis anos que ficavam entregues à avó. S. Um dos sócios. . o José Francisco. sobretudo quando o petisco era como aquele de trás da orelha. enquanto aviava um quarteirão ali à Madalena. Tinha que regularizar a sua situação com o José dos Cambais. Seja pelo amor de Deus. não. Não é isso. Deixava crescer as barbas.Ouvi. “Aquele ladrão do Roupinho . R. elevou-os até o fitar bem nas pupilas.O meu senhor não ouviu pregoar a sardinha? . agravava com terebintina uma chaga que tinha no braço. e o negócio afigurava-se-lhe muito mal parado. sabia quem era? e meteram para o Vale das Donas ao rebusco do volfro pelas leiras. sabia. O Roupinho. onde dizem que os ricos têm a mão larga. uma desinfeliz negra e mirrada. a criançada em Cruita do Alto era como os peixinhos no chafurdo do pontigo quando se lhes deitam migalhinhas de pão. na marrã.S. Restavam os dois. que alugava a quem tinha abundância deles. de resto era o Cambais que manobrava os bilhestres e recolhia o minério. largou-lhe a corda toda. inçou outra vez tudo. deitara-se fora da empresa. “Pois Roupinho. em vez de bater para Cruita do Alto com a esmola. taleigos à cunha e.suspirou. voara a dar contas a Deus das maroteiras em que era useiro e vezeiro a despeito dos verdes anos. o outro. e continuou: “Lá passaram o dia ao rebusco. e estava dito tudo. mulher e menino tinham chegado das bandas de Trancoso. a tia Maria de Alvite que lançava mão de tudo o que podia. o senhor abade doeu-se como se o malvado dum espinho lhe picasse as meninges. além disso. não se acaba o mundo enquanto houver chocadeiras como a Cruita do Alto. estava farto de o saber quando não armava a rifa ou a vermelhinha nas feiras e romarias. como estava em maré de condescendência. Nem coelhas! Pois o alma de cão trazia a mulher na moina. mas o Cambais é que havia de aguentar. mas agora de 142 . pedia esmola pelas portas.” Àquelas palavras. As malinas vem e varrem as famílias de ponta a ponta. num aceniscar de olhos. metera a mulher ao peditório e um menino. . Para quem padece como o senhor de arrotos chocos. pôs os olhos na banca. bem sei que salmoira nem cheirá-la. uma música afinada executasse árias amenas.” O senhor Tadeu declarou que estava muito bem a par da referida criatura. lembraram-se de trocá-la a patacos à Pomba Nova. O senhor Tadeu preferia que. no movimento dos seus maxilares. e proferiu em voz gemida: . dali a pouco. o Calhorra. complacente. As mulheres casam aos doze anos e aos vinte estão carregadas como as vides. e alugara um garoto de dez anos à tia Maria de Alvite. no garfo. Corta o coração. essa que anda pelos povos a comprar cornelho e ovos e vende lumes-prontos e pólvora de caçador.Mas para mim. hem? O meu estômago agora já não funciona com esse combustível. Mas a Ruça não era cabra para virar com duas lapadas e ele. contou como morreram sepultadas na neve a mulher do Roupinho e a criança. O homem que a andava a vender. ao estilo dos príncipes.Deus me livre de lha prantar. A Ruça não dera conta do sal amargo que acabava de deitar na marrã. tão pegados que só se foram um migalho antes de escurecer com os taleigos outra vez cheios. e vá de rondear pelas terras de Marialva e pelo Zonho. Podias ter comprado .respondeu ele. R. ao comer. em vez de lhe matarem o bicho do ouvido com misérias do mundo. Ele era sócio honorário. e era a mãe dum tal Trinta chacinado depois de muita pouca-vergonha pelo povo de Manfurada.

fora. que era uma magrizela. De Malhadas à Cruita são bem duas léguas. não se enxergava já caminho. mal se distinguindo as farripas das urgueiras meio tombadas para o chão ao peso da mortalha branca.velo depois a apurar-se . Fiquem cá e vão de manhã pelo seguro. a deitar os bofes com a maldita riqueza às costas. sempre pela serra e desamparadas. “Muito tempo andaram enrodilhados. Lisos. até o entendimento lhes dizer: ides errados! Tomavam à direita e. Quando chegaram aos Cuvos. O alma de cântaro velho . e o céu não se cansava de peneirar neve. Mas sempre havia um resquício de luar. já tão atarantado como a mulher e o menino. e estava com medo que lhas roubassem. O menino batia o dente e clamava que já não podia dar passo. O senhor abade estava lembrado dos farrapos que caíam? Pareciam asas de passarinho. com a neve ficavam mesmo. também.. andaram para trás. Avisaram-nos: “Não se metam a caminho que vem lá a neve. batia o dente e chorava baixinho. Pois não houve rogos que o tolhessem. lá porque lhe custasse deixar para ali ao abandono o seu rico pedregulhal. Ele animava a sua gente dizendo: “Vá.parece que se prantou a gemer o Roupinho.” _ Jesus. nem quando seguiam à mão direita.Seja o que Deus quiser. sinal de moscas brancas. era a ambição. “Aquilo o frio. luar de quarto. arrasta que arrasta. Corno não pudessem mais. cada vez mais basto e danado o remoinho no ar e mais fofa a camada branca debaixo dos pés. nem quando seguiam à mão esquerda. trespassava-lhes as roupas. Que é que os olhos dum letrado. estamos aqui estamos na Cruita. alvadio mas cerrado.pedras. já ouvi ladrar os cães!” “Não estavam nada na Cruita. Jesus. que o homem tinha o costume de desancá-la sem dó nem piedade.? Era então escusado dizer-lhe que naqueles cumes não se ergue árvore. que vai ser de nós! .” “Era a desgraça a chamá-lo? Qual. fora.ia com a ideia fisgada de que levava ali uma riqueza nas pedras sarapintadas que arrebanhara pela folha do Vale das Donas. que é onde acaba a serra de Malhadas e começa a de Pedrões. isso estavam eles? Avançavam ao palpite. asas estroncadas. Quando alcançaram os altos.” De facto. nem quando carregavam de rópia por uma vereda que lhes parecia a certa. quanto mais casa.. uma lauda de papel antes de escrita. que a mulher trazia apenas vestido um chambrito de riscado e um saiote e o menino os farrapos dumas calças de cotim e a camisa. Teimou que não era nada: o ano já estava muito adiantado para nevadas. a mulher. e tocaram adiante. Andaram para diante. lá iam até uma voz de dentro outra vez os avisar: não é para aí! Não era para ali. Prometi à mãe deste menino apresentar-lho até o bater da última badalada do dia de hoje e não quero borrar a minha palavra. atascados no nevão. mesmo. e não admira que lhes atasse os movimentos. “Vocês assim carregados não botam a casa com de dia. rompeu a nevar. Mas o alma do diabo. atiraram ao chão as sacas cheias de pedras. Segundo consta estiveram vai e não vai a voltar para trás. fazia muito frio e para as bandas de Montemuro o céu estava a entabuar. mas duas léguas das velhas. R. lisos como a palma da mão. nem penedo. ao que dobavam do céu e eram grandes.” “O Roupinho coçou a cabeça e parece que respondeu: . por mais que se mate. S. A neve cobria a terra. transitara alguma vez por ali. aí podem achar? Assim acontecia aos desinfelizes no alto da Nave. disse para a mulher: 143 .

Ora. se voltares. não apenas uma poça na neve. mas julgam alguns que feita pelo bater dos calcanhares e o rascanhar das unhas. acudiu o povo todo. Mais de seis vezes estivera a entrar na terra e sempre a sua má estrela o tornara a arredar para longe. “A mulher. Chico Roupinho.Onde estás. os dois estavam por baixo. sim.. a correr em frente. Caminhou. chegou a um povo atolado em branquidão. deram pela falta da mulher e do menino e largaram à busca deles tendo pensado e muito bem que tivessem tombado na jornada.já te disse que a Cruita não pode estar longe. E torceu caminho. e novamente disse arrepelando os cabelos: .? “Puseram-se a escutar. a Cruita não pode estar longe. Era manhã e com o livor do céu a neve pela encosta como que chegava às estrelas que ainda pestanejavam na casa do Senhor. Como havia de dar pão uma coisa que é para matar. muito melindroso. só lhes serviu para ganhar vícios e maus costumes. que me perdi outra vez! Botou os seus cálculos.Andei. Está a gente farta de andar.Patrãozinho.exclamou ela. tanto andou.Pois se acabou. tanto andou. que disse consigo: -Não vou bem. Deram conta dum moroucinho. Você s não ouvem. com o arranco da agonia. .Vocês fiquem aí que eu chego ao povo buscar uma burra. que o volfro só deu pão a meia dúzia de trafulhas.?” . Aí tinha no que dava o volfro. O Roupinho deitou a correr. Não me consumas! . Onde é que estaria? Perguntou ao primeiro fantasma que avistou: . As sombras fugiam diante dele. que tocavam de resto em determinado sector. de pedir a Deus a morte. encontras-nos mortos. mal ia a agarrálas.?! . indo pelo rasto. Sua Senhoria não chegara a andar metido com o Calhorra e o Zé dos Cambais na mina do Santo Antão. julgaram ouvir ao longe.. foram dar a descampado muito para fora do caminho de Malhadas. Foram no rasto do Roupinho e notaram que o desgraçado andara em volta do povo como um cavalo no picadeiro.Nossa Senhora me valha.Quando voltares.” . . . melhor. Eu dou lá um salto. andei mas acabou-se. Mas indo. conta ele. homem de Deus! .Está bem . julgando que em poucos minutos chegava à povoação... ora não parecia. a mulher estendida ao comprido e com uma poça aos pés. tornou a botá-los. houve. puxou o menino para debaixo do braço como fazem as galinhas aos pintainhos.pronunciou ele.. que o Diabo levasse para bem longe daquelas terrinhas.” “Quando tal ouviu caiu ao chão sem sentidos. do seu foro íntimo. meteu-se com ele entre os sacos. como quem apanha o fio dum novelo. . a zoeira do vento nos pinhais do povo ou a água a cair dum açude. Outras se levantavam a seus olhos e novamente corria para elas o triste. pondo ponto final às considerações da Ruça. onde é que eu estou? O fantasma olhava para ele muito fito e acabou por dizer: . de facto. rijos. afigurou-se-lhe ver certas sombras encavaladas ao longe e meteu para lá cheio de esperança. Que houve gente que aproveitou..E afinal que levava o Roupínho nos taleigos? 144 .Não há que duvidar? É a Cruita. é boa! Estás na tua terra.. não se compreende bem.gritou ele com o mau génio que tem. e lá ficaram a bater o dente e a rezar.... . E a neve caía. rijos que nem carapaus.. onde ficara a mulher e o menino. cavaram a neve. de joelhos à boca. de torcer e destorcer caminho. A Cruita deve ser para ali.Tu atinas lá com a Cruita. caminhou. mas na terra.. O homem botou alarme. caía se Deus a dava? Depois de muito tropeçar. o pequeno dobrado. olhe.. qualquer coisa que ora parecia.

Se calhar. Agora mesmo era tarde para tal expediente. sim. é por isso que eu aqui venho. está necessitada de medicina. Faz então os seus desconchavos. Deu dois passos de cá para lá. além de que são precisos três homens para a segurar.observou o eclesiástico..Só queria que visse! Umas vezes atira-se ao chão.? À-d'el-rei! E ora grita. desatou: . Como Goethe. Ela então afoitou-se... espreitou o céu fosco pela vidraça embaciada e começou a sentir o peso da marrã.Então que há.Cuidei que sabia. A Rosa Pedralva nunca deixava de lhe trazer o folar: um galo paívante. O senhor Simão não soube retorquir. espolinha-se toda e pranta-se a gritar: Estou no Inferno! Estou no Inferno a arder! Quero para cá o ladrão que me matou! Porque não o deitais para cá? Lá sai ele da esquina. teria dito se a Ruça não fosse a Ruça: Mudemos de conversa. e apressou-se a mandá-la subir. ora se arrepela. Que ande ou não ande. Era a Rosa Pedralva que pedia para lhe falar. que é a minha. duas vezes para a banda.Se lhe dão acidentes. Se a fortuna andasse assim aos pontapés à superfície da terra quem quer deitava gravata! O senhor Tadeu ficou com o coração apertado depois de ouvir a história macabra do homem da rifa. que lhe fala no corpo. como não havia de estarfrio! Ainda temos mais neve. o seu cento de ovos. A mulher.. . Por último.? . e deitando a sua casquinada párvoa de riso. Tadeu acenou que não sabia de nada. prosseguiu: 145 .pego do Breviário. .. desprevenido para aquele ponto da casuística. com seus amarelos e verdes a luzir. vou-me até Malhadas desenredar a meada com o José dos Cambais . impediu-lhe de a reconhecer.Que há. Estava indeciso . A capucha em que se embiocava.caiu um grande codo esta noite. ora chora. mas não da teológica. E levantou-se para a saleta que lhe servia de cartório. Agarrem-no! Não o vêem. deixando apenas luzir uma réstia do rosto... não lhe trago novidade nenhuma.rosnou com os seus botões. levada em sua freima. Corre o ano bom para os pães proferiu: . o cabrito na devida altura. meu senhor? Vergonhas do mundo? . escondeu a face. na capucha.Que havia de levar o tolo? Levava calhaus que não prestavam para nada e só podiam enganar. mas reparou que era despachada e pisava com segurança. Temos encomendas . Para qualquer parte que vá são todos à uma a perguntar: Então a sua rapariga anda endemoninhada? Aqui tem.e a criatura.. Mas como têm o desinfeliz do homem como trespassado sem confissão lá julgam que diabo ou alma do diabo são uma e a mesma coisa. livraria e casa de receber.Também fiz esse reparo.. que purpureara. .Se é a alma penada do José Francisco não é o Demónio.. Depois dos intróitos da lei . que Deus tenha. . Rosa? .deu conta duma mulher que vinha direita à sua porta. um tanto fremente e de finca-pé. e ficou à espera que a Ruça chegasse com a parte. susceptível de peguilhos. .. Dão-lhe acidentes ruins e deita a dizer asneiras e um palavreado que ninguém entende. um lorpa que deu na vida de mendigo e mariola. que estava à mesa quando lhe levaram a notícia da morte do grão-duque de Weimar.A minha Florinda que dá que falar.. de sacho feito. torcendose uma.. e a darem-se ouvidos às bocas do mundo é a alma penada do José Francisco. realmente.

pela estante em que se perfilavam em seus pergaminhos amarelentos e carneiras arregoadas os Fernandes de Moure.Estava com a cardina.5 e q. mais mental que perspectivo. riam use pois de palavras: deixame ou quero q.s. o barbeiro de Pedrões.? . mestres de cerimônias e rituais. Luís.Se ele nunca a largou. levemente flectido mas distinto. Por isso mesmo há quem afiance que é o espírito do assassinado que se meteu nela. actualmente blasfema e desja vingar em nós o odio q.Foram ao doutor? . vai ouvir. mo nome úeJESUS. isto he com taes palavras e tom de voz q.s castiga as 146 . referentes a exorcismos. inquiriu: . em que não houve uma só pessoa que não reconhecesse a gosma do tio Gomes.. Umas vezes dá-lhe para aquilo.. lhe mostre o desprezo q. montando a luneta na bitácula mole e esponjosa.a isto principie sempre usando da palavra: mandote q.” O senhor Tadeu desceu de afogadilho pelo texto compacto. respondeu: Não saio e não saio! Mas o mais frequente é rebolar-se no chão e romper a gritar contra assassino. Lentamente passeou um olhar. R. me deixes. . R.. Não descortinou o tratadista especial.Há que tempos tem os acidentes? . digno duma folha membranácea e de capitulares a azul e mínio: “Em pr.ta. para dizer alguma coisa. dizem que também a alma penada dele se lhe meteu no corpo. não podes escapar e desobedecer ao poder da Igreja e do s. eu. outras vezes. em nome do Espírito Santo. finalmente.. pareça se lhe pede por fineza aquilo q.. roncada. são os espíritos. E. que herdara do antecessor na igreja. Lá estava.Há já uns dias. despede pela estrada a baixo a berrar: Agarra. e isto com hu tal modo e metal de voz q. mais não pode.e por estas vozes. A bem dizer começaram-lhe a dar na tarde em que o corpo do José Francisco baixou à terra. Larragas. e do poder do santissimo nome de JESUS falle com elle como com hu cachorro rebelde a D.. correu o fecho e pôs-se a remexer a papelada. béu. . parou diante da copeira. mergulhou naquele bastardinho do século XVIII. quando ia com este destampatório. Porq. agarraram-na e levaram-na à força à Maria Choca. Noutro diaço. De mão afoita. E uma voz de dentro. delle fazemos e a infallivel obediencia q.. A Maria Choca pôs-lhe o pé na barriga e conjurou: Em nome do Padre.? lugar advirtam exorcistas e exorcizado q...Mas não é tudo. . demorando os olhos um segundo a compenetrar-se do antídoto receitável em semelhante operação contra a timidez: “0 remedio p. porem revestido de hua authoridade s. elle faz porq. benzedeira. António de S. O senhor Tadeu ficou suspenso a considerar o caso bicudo e. antes de ir à benta. cachorrinha. O Simão Tadeu não lhe tornou resposta.Chamou-se o Gregório dos Santos. V. D. mudo e cismático em operação remissiva. Eram umas Advertências manuscritas. O grande machucho viu-a e cuspiu para a banda: É com os padres.. béu!. ditas com hua brandura tibia na fée. faças. e. Ao seo e nosso criador tem: p. intimo-te a sair desta irmã. em nome do Filho.? Mas porque são todos à uma: é o Porco-Sujo. O demonio he a espada com q. tirei-me dos cuidados para vir ter com V.. desandando. em que se repete o João Gomes que morreu a enxotar as pitas da horta. hade dar.a estes medos he meterse de gorra com D. agarra! Agarra! Béu. ao diabo não fallem de amores. queira ou não queira.

e de porta em porta a indagar: . ponderou: . não há outro remédio senão V. de monco caído e zimbório da barriga ovante. começou a calcorrear a rua para trás e para diante.Só vendo. “ Por ali fora de página em página. mas de modo algum a sua pragmática. divisando ali a dois passos a 147 . não era naquelas duas horas que virava o tempo. aqui no meio da rua? Homessa. Na esteira da mulherzinha.Homessa. Foi-lhe grato desemperrar as pernas. tanto mais que tinham ido chamá-lo para exercer o seu múrius e para pantominas não estava. que tem lá uma boa fogueira para matar o frio. para que lhe viesse falar. Viram-na a caminhar para Manfurada. mas pela imobilidade. Mas a lengalenga da mulher acabou por tornar-se-lhe insuportável e puxando do ripanço. Aqui é pior que nos altos da Nave. que morava no Casal. V. Era mais de meia manhã e já os gados andavam pelos montes. Estaria previsto na administração de tal sacramento o caso de Florinda Pedralva? O senhor Tadeu tinha as suas dúvidas e. farejou relutância e redarguiu: . abismou-se na leitura das horas canónicas.. e enterrando o chapéu na cabeça limitou-se a proferir para Rosa com voz bem timbrada de conformação: . sempre liberal e mesureiro: . O senhor Tadeu foi à janela considerar o cariz do céu. O assunto é muito melindroso para o pároco se poder paronunciar de outiva quanto à oportunidade da sua intervenção. vencendo a repugnância que sentia pelo assunto. As manchas arredondadas das reses distraíam os olhos do verde jacente universal e do marasmo que varava a terra.É variável.Vamos lá. meio nus. sem abarcar bem as razões do padre.faltava a gasolina aos automóveis . mas o lavrador nem lhe deu tempo a respirar: . leva que leva pelo tacto. Continuava escuro para os lados da Serra da Estrela. minha santa. R. batendo a bota. À entrada do povo de Malhadas encontrou o Fandinga sapateiro.não se lembrou mais dele. E. À medida que foram avanç ando pela estrada deserta . Ontem vieram-lhe à roda do meio-dia. Mas a Florinda não estava em casa e as vizinhas não sabiam dar razão dela. E logo a mãe ficou sobre brasas. ia com a mosca... A Pedralva. dir-se-ia pétrea. Ele quis resistir. espavorindo as galinhas.os rafeiros dos rebanhos arremetiam das escarpas. Para não arrefecer de todo.. mandou recado ao José dos Cambais. entrou nos domínios da Ruça a avisar dos seus propósitos..inquietações de seos amados f. que pesava sobre a natureza. já lá vai a mãe e a parentela em cata da cabroila. ensinava-se o modus faciendi psicológico do exorcismo. está bem arranjado.Se espera pela Florinda. a patinhar no charco. que se espenujavam no ciscalho. . tanto mais que a carniça começava a pesar no estômago. estranhados dos rari nanti. Venha para minha casa. Ali o veio encontrar o José dos Cambais.A que horas costumam vir-lhe os acessos? . Mas o Cambais. desceu as ruelas mortas da aldeia neolítica.Vistes a minha Florindá? . Mas para ver. Foi ao quarto vestir a garnacha e armar-se do guardachuva. a move.. R. He loucura temer a espada e não fazer caso da mão q. dar-se ao incómodo de chegar a Malhadas.Também digo: só vendo. O senhor Tadeu mostrou-se interessado em apanhar o fio da maranha.os. e os meninos. embora não quisesse descontentar a boa paroquiana.

vieralhe fazer um varejo a casa e. madeiras. A guarda de Orcas da Beira. e também do Antoninho Frâguas. encerrado na sentença que ouvira a um tolo: dizem e dirão que a pega não é gavião. O Calhorra surripiara ao José Francisco e ao Cambais. muitos deles corriam os soalheiros. além de lhe apreender o volfrâmio que lá tinha e multá-lo em cinco contos e quatrocentos a pretexto de que executava trabalhos de mineração fora de todo o regulamento. Torres. Irra. praticaram. Era ele que havia de ustir com a diferença. com foros já de clássicos. Mas haviam de pôr todos o ombro. avisara-o que tinha a satisfazer uma renda vitalícia à gentinha dos desgraçados que haviam pateado no Santo Antão. Quem havia de pagar as favas? O senhor Tadeu. enquanto lhes pareceu. o José Francisco 148 . De sobejo estava ao corrente das manhas e malas-artes usadas por uns e por outros.000 a 7. manda-chuva daquelas parvónias. em atenção ao Calhorra. não era mais larápio que os outros. Arrotava quem podia. estava ali aquele sendeiro do Zé dos Cambais. como para o mais. chegar-se-la a concluir que cada um deles tinha exactissimamente sacado o seu quinhão. presidente da junta da Parola e todo deles. casados e pais de filhos. não era bastante quanto amanhava ainda que passasse a comer o caldo sem unto! Pelo que respeita à multa. não . no fundo. está bem de ver. restringiu-se a piscar o olho e a sorrir malicioso. a política do olho morto.mulher do Lázaro Fandinga de orelhas fitas para o que se dizia. em contra do que dispunha a lei. que uns anos por outros lavrava meia dúzia de alqueires de milho e comia as batatas com azeite. Em compensação rompeu logo a contar pela centésima vez a história da “grande pouca-vergonha” de que era vítima. achava muito bem. Tinha muita pena que a soga aperreasse de tal modo o amigo José dos Cambais que. da pretendida indemnidade. não estava. assim Deus lhe desse a salvação! O senhor Tadeu ouviu a longa deprecada do homem sem proferir palavra. colectiva. a exigência dava em águas de bacalhau.por todos os motivos e mais um. dono do terreno e endossante. o Cambais surriplara ao Calhorra e ao José Francisco. ferramentas e agora a multa e papel selado. não havia dúvida que. para trabalhos que se seguiram. Soga fora ela que pesava em mais de trinta e sete contos. e nã o ser só ele a mandar para a vila juncos de trutas e cabritos. Mas assim que ficaram cientes de que o filho do Fráguas estava debaixo da terra a fazer tijolo e o Calhorra. Apurados em sua mão havia por junto treze contos e setecentos. não lhe chegassem ele aos ouvidos mil e um rumores através de condutos especiais e infalíveis! De resto. toca a andar com a devassa. Estava persuadido que. os técnicos não tinham sido ouvidos nem chamados. Mas em muitas outras partes não sucedia a mesma coisa e as autoridades não faziam vista grossa? Quanto ao rescaldo do desastre que atirara para o maneta com os dois homens. lançados os latrocínios numa balança de ourives.e ele estava plenissimamente de acordo . irrorio. à ordem do senhor administrador. ou fossem vinte e três contos e pico? Não estava certo. se a lavra de Santo Antão fora dada ao manifesto pelo Dr. senhor Ligório. Então quem? Ora. não se falando. Mas do seu bolso não recebia ele nem tanto como um feijão-frade. tapando-se a boca das viúvas com umas centenas de escudos. mas ele não podia. deitava-se-lhe a soga. somadas todas as despesas com jornas. a responsabilidade era. se desquitara do negócio. Em Orcas. o grande patife. Na totalidade embolsara 6. Os três sócios requintavam em roubar-se reciprocamente com tão seguro jeito e malignidade que.000 escudos e bem sabia ele que o seu nome fora uma espécie de pavilhão para cobrir a mascambilha.

todo melúrias. associavam-se os três para roubar o quarto. hediondos como as ventosas dos polvos depois de secos. uns calos olho-de-perdiz. alargando. não valia a pena ficar tempo indefinido à espera dela. Enchia-a e despejava-a para o chapéu. Mas grão a grão enche a galinha o sarrão. e insinuava-a pela sorte de meato que fica na folheatura da serapilheira. Mas ouvindo aquele José dos Cambais. cobriu com ela um escabelo à laia de almofadinha. da cobertura moral e até crédito bancário que emprestara à empresa na sua qualidade de eclesiástico. e convidou-o a sentar-se. protestou. estava sabido. Estava ali a Teodora e. Ao menos o Cambais estava advertido. não passava pelo entendimento de ninguém que o volfrâmio pudesse sem escândalo ser maquiado. sucessivamente associavam-se dois para roubar o terceiro. Contas feitas. não haja dúvida. sabia-a toda. que era o modo de se aquecer à vontade. quando cinturado o saco pelo cordel. vinha bem ao fundamento das palavras que o Calhorra dizia: Hem. como Pilatos no credo. Depois veio o Cambais muito solícito para lhe tirar os butes. bem sentia que pusera os olhos nele e o espreitava. cascudos e enfisemáticos. se bem que de fisionomia enjoada e um recato funérco no vestir. o José dos Cambais tinha direito a ser indemnizado pelos dois sócios da vigairada. Tinha passado o equador da vida. Eram uns gramas de cada vez. Mas nisso se enganava ele muito enganado. sem largar o seu ar bom-serás de burro das panelas. Segundo os murmurinhos. marcados os nagalhos do sinal de cada um. por fim. Era por estas e outras que o grande caloio para ele vinha de carrinho! Chegado à porta do José dos Cambais. verdadinha. nanja pelo filho de seu pai que figurava na empresa. Bem atados com nó cego. A senhora Emília dobrou uma capucha nova muito bem dobrada. Mas o homem soube ser bizarro. o Tonico. e podia comparar-se a descoberta ao chupar vinho com uma palha pelo batoque da pipa. quem levava os sacos para a casamata que haviam arrendado a Pedro Reganha era o catraio do Cambais. O malandrico tinha a mão fina. ensinado pelo pai. Ao bafo caricioso sentiu-se outro homem. furando até poder retirar a concha carregada. como as bulas do Papa. à ideia de que tinha uma meia rota e se lhe viam os dedos dos pés cheios de calos. bem embora no âmago da sua cortesia se entremostrasse o empenho que tinha de captá-lo. Mas ele.surriplara ao Cambais e ao Calhorra. a rapariga conservava-se fiel ao compromisso que tomara com o 149 . fina como uma tenta. o certo é que o rapaz estreou sapatos amarelos e quem quer podia ver-lhe aos domingos pendurada no bolso da jaqueta uma rica pena de tinta permanente. Verdade. ia comprimindo para os lados. meu compadre Cambai-ç é um inocente!? É tão inocente que vos come o caldo na cabeça e ainda lhe migais a tigela! Sim. A somiticaria de notas que recebera ficavam à conta das muitas passadas que dera. Pois maquiava-o o rapazito. mas não lhe era indiferente que se rissem do seu físico. Pois que a presumível possessa abalara para longe. Sem falar no que estragara e passara às unhas aduncas do paizão e da mãezona. Ao tempo em que os três sócios se não chamavam ainda gatunos com todas as letras. o senhor Tadeu mostrou certa relutância em subir. Uma vez lá dentro. Conduziram-no para a lareira onde ardia um lume magnífico de raízes de carvalho. Pouco lhe importava que pelas costas o chamassem fona e dissessem que dinheiro que lhe vinha à unha era alma que caía ao inferno. estava a ganhar a morte no meio da rua. que era ele.

nem sequer molhava a boca? Não e não. burundanga maior ainda. Mandou à mulher que trouxesse uma chouriça. negra como um tição. R. de reserva na cantareira até que a Teodora com uma tesoura caprichosa a talhasse em bicos e renda para forrar o armário.. Com ar profundamente infeliz. O Cambais penetrou a sua indecisão porque acudiu prontamente: . pousando os olhos nos olhos do padre. não passava dum frontispício. fugiu de aludir ao acontecimento que enlutara a freguesia. protestaram. quem foi? O senhor Tadeu.? 150 . Por sua parte não votava nenhuma espécie de azar ao homem. dentro da casa que à sua maneira se esmerava em obsequiá-lo.. havia de resplandecer como o sol ao meio-dia.ele voltava à vaca-fria. E. R. e rúbido da chama. A senhora Emília encheu o copo de vinho e ofereceu-lho. Enquanto a mulher improvisava um beberete . como se se tratasse de águas passadas. O Cambais e a Emília..Deixe-me dizer-lhe. Perdoassem. aconchegou o borralho. Que me diz V.Aires e não podia ouvir dizer que fora ele o matador. além de que era faltar à justiça. tinha imolado ao almoço uma rica pratalhada de marrã e estava repleto. trutas de escabeche. dava verdadeiramente a todos os diabos. Pediu que o não obrigassem a comer. era melinite. Se precisasse de testemunhas para ir jurar que os dois eram tão autores como ele na frajoca do Santo Antão. mas repetia com o seu amigo Fráguas e ninguém de sã consciência saíra a responder à sentença: Se não foi o Augusto Aires que assassinou. eu não quero que seja aqui chamado. entrava na casa deles e. logo mais.Já sei o que V. quer. acesos cada um mais que o outro em bizarria. abrindo urna cova nas cinzas que beiravam da fogueira. e dizia do Antoninho. e a jarra de vinho espirrador . pois que não é discreto falar de corda em casa de enforcado e ignorava o pensar de José dos Cambais. quando a digestão chegasse ao seu termo. a Florinda e a hora em que caíra na arara de deitar até Malhadas. Bem bastam os incómodos que já tem tido. o senhor Tadeu olhou para os torresmos que se lhe afiguraram a descair para o ranço e os peixes. porque era de pobres. Mas o Cambais foi implacável. a soprar. a inocência do seu namorado. Era uma desfeita que fazia. menos hora. dizer que não. No fundo de sua alma. Tão-pouco o Cambais tocou em semelhante matéria. Não estava resolvido a deixar-se arruinar pelos bonitos olhos do Calhorra ou do Antoninho. perguntou: . assombrado perante a manobra do Cambais. não apenas a um.torresmos. ciente por experiência que chouriça nas brasas. Então S.” Talvez assim viesse a suceder. Pelo menos entendo que não temos que o citar para o ajuste de contas.. pois era notório que o filho. mais hora. R. não lhe parece que os dois sócios devem pagar a parte que lhes venha a competir na contravenção? O senhor Tadeu. com muito gosto. R. atirada para o seu estômago. de Lamego. anotando: . R. negra. quase perdera a fala.. e novamente implorou que o deixassem.. chamava-se desprimor. levava a freguesia toda atrás de si.. Comer ou beber fora de horas era roubar-lhe anos de vida. meteu-a por baixo. tenha assumido sob palavra a sua quota de responsabilidade no negócio. O Cambais fez-lhe o prato e pôs-lho nos joelhos. a quem Deus falasse na alma. Que dizer ali naquele caso anfractuoso? Concordar com o Cambaís era ele próprio oferecer a cerviz ao jugo fiscal. Veio a chouriça que ele embrulhou na Semana Católica. “Que não e não.A V. embora V.

V. mas o quodore estava divino. pode atirá-la fora que não levamos a mal e mandar-nos prender. atirou-se de cabeça. voltou ases moutons. mesmo salgado com rosalgar. como é que nasceu esta comandita. Contra a prepotência amável daqueles anfitriões não havia escudo possível. Vox clamantis in deserto. O senhor Tadeu. Cheirava que era um consolo. nem parece que todas as manhãs bota abaixo! O senhor Tadeu já não resistia. sim senhor. ainda que fosse a tibornada que os judeus deram a Cristo pregado na cruz.. pronunciou como se não houvesse mediado na conferência pausa tão considerável: . Pegou do chouriço. A tia Emília tinha dedo. R. que dizia eu? Vá mais. Quero chegar a que V. tinha dedo.Mas onde quer você chegar. R.Hem. R. Pois lá se arranjem...Mais uma gotinha. O Cambais que tal viu rejubilava: . disse-lhe: . meu senhor. Numa última e desesperada tentativa invocou os arrotos chocos a que era atreito e a sua pobre máquina combalida. . Acabou-se.Mas está bem. prova.. O Cambais não respondeu. quem foram os pais da cria? Não foram vocês três? Foram. Vá.A chouriça chiava no brasido. quem andou com o arame e quem levantou os lucros. será o primeiro a declarar. Engoliu em duas bocadas o segundo naco.. Foram os emolumentos de péde-altar. enquanto Calhorra e 151 . cobrou-se dos direitos de pé-de-altar e ninguém lhe pode levar a mal. espargindo à roda um odor voluptuoso.. onde se lhe requeira. Se não gostar. E fitando-o bem nas meninas dos olhos. depois a limpá-la do invólucro engordurado e comburente da gazeta. aos três sócios. como um nadador ainda pouco experiente que perdeu o medo. pagaram-me.Não é tanto assim! .. Despejou a sua taça e só depois disso é que o Cambais. foram. está bem de ver. Este pode beber-se que não trepa. ocupado a extrair a chouricinha do lume. para V. . R. R. que e um supor. o grande mariola.. É uma auguinha rosada consoante saiu das videiras. comia igualmente aquilo que lhe viesse ao prato.. fale claro. Foi então que o Cambais... R. Meteu-lhe na mão tassalho ainda maior. Agora não se acabou para V. Porventura porque as pepsinas se estimulassem no seu aparelho gastrintestinal. Bebia tudo. O senhor Tadeu não pôde deixar de sorrir à frase por demais especiosa do homem. Zé dos Cambais? Homem. Por esse lado acabou-se. para empregar a expressão herética de Jácome.. Ah. dum naco da broa centeeira e encomendou a alma a Deus. a mim que comprei o leitãozinho de mamoto.Eu pus-lhe a bênção. Partiu à unha para um prato: . o farmacêutico. ganhou ânimo e respondeu com desembaraço: . José dos Cambais. depois de virar o canecão. quem a urdiu e pôs os primeiros aviamentos.. sim senhor.. no que diz respeito aos mais.Vá? V. Absorveu a talhada toda e liturgicamente lançou-lhe em cima o digno aspersório dum copázio. no que diz respeito a V.Olhe. Eu lhe digo. ali à Emília que forjicou o fumeiro. emborcou um segundo copo e afoitou-se a investir pela terceira vez com o especione.Sabe onde eu quero chegar. Pois é ou não é verdade que eu só entrei para ela depois de o Calhorra e o Fráguas terem moído e tornado a moer ferro no oiteiro? É ou não é verdade que ao fim de cada semana eu pagava quatro )ornas. .

que o mete a você sozinho. o segundo. dava-lhe um lume mental que lhe desconhecia. Mas.. ou desminta a pés juntos. Mas ele não podia prometer-lhe semelhante testemunho que brigava com a mais rudimentar prudência e o compadrio solidário que nutria com os parceiros.. levo o Antoninho e arrumamos tudo. se é mentira. corno homem que salta de pára-quedas da estratosfera. e na partilha dos dinheiros não recebi um real a mais que os meus dois sócios? Aqui está.Mas fico de pernas ao ar. toque? O Cambais ao tempo que encalhava a manápula calosa e grossa na sua mão papuda deixava verter uma lágrima.Toque. concordo.Fráguas. se ficavam nas duas? E diga-me ainda V. .. Reflexamente ergueu os olhos para Teodora e viu-lhe nos lábios um esgar de desafio. está para liquidar. muito colaços e roçando-se um pelo outro. Como renhir contra o Fráguas. está liquidado. Embora cá na rapariguinha escuse mais de botar o sentido. e contra o Calhorra. Tornaram a encher os copos. certo de que as suas palavras operariam como um bálsamo naquela alma ulcerada de proPrietário: . mas bebericar de piteireiros. mas o que se chama o conselho desinteressado dum amigo: faça de contas que há dois casos. levo o Calhorra. Ele estendeu-lhe a mão.Não fica. quem se queima alhos come. Se bem penetrava no íntimo do Cambais ele caçava por longe para alguma coisa alcançar ao perto. pouco mais adiantado está que seja assim ou assado. homem estreado em toda a sorte de cambalachos e omnipotente tanto quanto se é numa terra venal. ouça. que metia os sócios tal tal e tal. Está pelos ajustes? O Cambais parecia hesitante. o primeiro.O Cambais pôs a questão no seu lugar. gesto que só uma vez tivera para um colega. não há que fugir. raposão de rabo pelado que não adiantava passo sem averiguar que era para ali? E o Tadeu antegostou a resposta cordata que em consciência devia ao Cambais. Não é só até o momento em que a sociedade se dissolve que o caso é uni: daí em diante o caso continua a ser o mesmo. consumar-se-ía a ruína da. Devolvem-lhe o dinheiro da multa e o volfrâmio que lhe apreenderam. além de atirá-lo para fora dos alicerces naturais. E acabou-se. homem. metendo ainda em conta o trabalho dos filhos que têm rabo e mais nada. R.. Depois de se ter atirado contra todas as leis divinas e humanas da conservação a comer e a beber à tripa forra.. O sentimento de que..! .Esse dinheiro que me levaram é para salvar o desinfeliz. vai ver. Eu comprometo-me ir a Orcas. Quer um conselho. atravessara já as várias fases da beberronia e estava na saturação. uma lágrima marota de crocodilo: . o que eu desejo que confirme com o peso da sua palavra acreditada. que eram a pacatez e o siso comum. se não atalhava com mão de ferro. Agora já não era beber. Abafa-se o processo da indemnização. meu senhor.. O senhor Tadeu sentiu que o Cambais mentia pelos cotovelos quanto à colocação do seu capital. se é verdade. Quase fora eloquente. que era ao mesmo tempo como o selo da sua vontade assente e contrária ao que o pai dizia. Mas era 152 . na presença do antístite: . o aguço dos picos está ainda por pagar. O Tadeu olhou para o Cambais e viu-o transfigurado. Não é também verdade que a madeira gasta nos escoramentos do bolso me saiu.casa. Faz-me dó.

aduziu o Cambais.. um frio seco de aço em barra. não o sentia. que haviam tomado de assalto a pobre ruína do seu estômago.Está mal.. . Tinha pressa de ver-se sozinho pela estrada silenciosa a lutar contra os mil diabinhos da gula. tomou-lhes o passo a Polónia Fandinga. O José dos Cambais porfiou em acompanhá-lo até Mouramorta. 153 . Levantou-se e com dois cumprimentos à boa dona e à sua menina despediu. Então até a saída do povo.. no verdasco. Foram palmilhando as ruas tristonhas e desertas. . O senhor Tadeu seguiu adiante estugando o passo. piores que diabos do inferno.. Proibiu-lho. na bóla centecira. mas ao calor que recolhera à fogueira e à chama do briol que lhe alambrava nas entranhas. Ao atravessarem diante da casa da Bárbara Ladeira. .? Não pode ser.. meu senhor.Ora..A Bárbara queria confessar-se...A esta hora. encarnados na marrã. nem um cocoricó de galo pelas quintãs.tempo de regressar a penares. Fora persistia o silêncio hibernal. cada um a ruminar pensamentos de abnegação e grandiosos no tocante a suas pessoas. Fazia frio. está zorata como a tia . àquela hora sem coleira de vaca a casquinar os tintinábulos. na chouriça. com a pressa que vinham as bandas da capucha em asas de aeroplano: .

. que podia entrar para o cabedal da sabedoria das nações. como lhe costumava dar multas vezes ao dia: . e fez dois montes.Não senhor. pst. então. . combinado em sua toadilha quente ao sol claro de Abril e ao cantar dos galos. quando vendas. santinha . já com alguma joça. ó patrãozinho. sem se fazer rogado. ih. e com a vaquinha tudo o que respeitava a apeiros e achamboaria. chapéu para a nuca. Numa volta de mão virou a trapagem toda. Bárbara tinha já o trapo apartado para uma manta velha. perfilava-se no vão da porta. sobretudo andrajos de homem.confortou o bufarinheiro. ih. entretanto.Todos havemos de passar por essa portela. Supunham que.XI Compro farrapos! Ao ouvir o pregão que alagava a rua. que se acocorara na quintã a chorar.. da sua pele aciganada. ihf . que ainda era mais seguro no vender do que no comprar.. era meu irmão! E tanto bastou para romper num choro alto e convulso. . O seu preceito. lã. à força de servir da cor suja. desatou o fardel. marralharam.Irmãozinho da minha alma. têm muito gravanço. Quando pôde estancar o pranto. estopa. vazio.. Como ela se postasse da parte de dentro da porta. inclassificável. que era baixo. passando em frente da casa.Vamos lá a ver. limpou a lágrima e ergueu-se. . mas tenho andado ao negócio para as bandas de Vale de Ia Mula. levea para a quintã. para outro o que o não era. voltou atrás. O belfurinheiro anuiu e. Dentro havia de tudo. mais ou menos pouco conta. Bárbara era uma bemvende. . 154 . quanto quer por isto. Tivera bom mestre. um diabalma que se não prendia com as louçainhas do mundo. ambos de serapilheira. Está aqui a roupa dum trabalhador danado. Compôs a sala e a passo vagaroso. que tinha cara de rato. O senhor donde é? . tratou de desfazer-se da Cereja. Trazia um saco às costas. para ver à sua vontade.. mas já ouvi dizer que são boas terras. mãos sobre o dintel.Faça favor. Bárbara.. tão usada e delida. Caramba. Logo que o irmão foi dado à terra. O homem. e soerguia a tampa duma arca..e ao passo que isto dizia entrava em casa. tão rápido quanto as forças lho permitiam. Nesse mesmo momento desandou ela o cravelho da porteira: .Pst. . toma tento que o mais é sempre menos. quase tacteante. dois pêlos no queixo e andava de blusa espanhola e chapéu desabado. por ser mulher... que eu não posso. caminhou para a porta. ou pouco menos.. Sabe onde fica? Nunca para aí gastei a amieira dos socos. O homem. a embarrilavam! Quê. E.Tenho para ali uma trapada que não me importa de lhe vender se ma pagar em conta. para um lado o que era burel. o Duarte. tire-me daqui esta trouxa. alguns mondongos de mulher. era este: quando compres. olhe. atada em cruz pelas quatro pontas e chamou-o: .Sou da Cruita do Alto. admira como a segurava no corpo? Era o seu homem? . e sobraçava outro..Compfrrapos! desfraldava de novo a voz. que agora para ela só causava estorvo. venha cá. quem se cobiçou do que era dela pagou-o com língua de palmo.Não se consuma.Então. percebeu logo o farrapeiro que o convidavam a entrar e foi avançando.

por três vezes o homem despediu. E ainda que a roupa dele não.e voltava à sua fisionomia de carta que se deita à caixa. . A tiazinha torna-me o dinheiro que eu torno-lhe os farrapos. e Polónia. entretido com o brequefesta..Vá com Nossa Senhora? . mas não vás ter-me por beata fingida.Que leva aí? . Para que quer o dinheiro. . uns frangalhos coçados e meio podres. lábios cerrados como o sobrescrito duma carta que se deita ao correio e não deixa ver o que diz por dentro. valesse dez réis de mel coado.respondeu Bárbara em tom áspero e de olhos duros. Não tenha dó.Para derreter. Tomara ela que viesse já. Mas a cólera. nem uma voz. a quem Deus perdoasse o desvairo. saía com o fardo às costas. ..? A outra que era uma pobre de Cristo. apareceu a Polónia Fandinga que. não se conteve que não bramasse: Vornecê. Polónia percebeu que a prima se desfizera do bragal do Duarte. apossando-se dela. ao que andava nas últimas e ter mais côdeas do que fios. se é certo o que diz o tio Gregório dos Santos. perguntou-lhe: . para responder. quero-o para o meu bem-de-alma.Culdais que é só fazer filhos a rabo destapado? Agora aguentai! . puxou-lhe aquele pigarro seco e teimoso que a deixava ofegante e vermelha como uma papoila.Não vale a pena arrufarem-se. e outras tantas se desfeitearam de palavras.. que era curiosa. E necessitados não lhe faltam na família. Os meninos andam tão rotinhos que se olha para eles e vê-se mais coiro que pano. o que era caso raro. Não que lhe fizesse mossa anunciarem-lhe o fim para breve. . O farrapeiro que se detivera à porta a ouvir o despique exclamou: .Derreter derrete-se o volfro. por três vezes volveu atrás à voz dela. Pois então. . Quando já haviam fechado o negócio e o farrapeiro..Queres saber para que quero o dinheiro.lançou-lhe Bárbara em voz sacudida.Para que é o trapo? . Não era isso. O que a aborrecia era aquele zumbido de vareja ao cheiro de carne morta.. Em face das arcas abertas. traindo a desarrumação dos manaxos.. Mas ele não despegava. Hei-de gastá-lo em missas e responsos. sendo prima pela banda da mãe e sentindo-a no fim dos dias. acudiu chofrada: .? Queres? acabou por responder. O meu Lázaro não tem um jaqueta com que se possa apresentar na feira a comprar a sola. que a andaina melhor levou-a para a cova.Sempre te digo.O bem-de-alma faz-se em vida socorrendo os necessitados. nem um aceno.E que tens tu com isso? . mais sotranqueira ainda que a própria inveja.. Pois para que queria vossemecê que fosse? Isto assim já não dá vestir. para logo recair naquela caradura que lhe era comum. . aninhada no palhuço da quintã. . às duas por três estava ali deitada. 155 .Pois a vender o espólio do enforcado. aos poucos dias que tem de vida? Ela ainda descerrou os lábios. Valha-a uma figa torta.. quita de andar com panos quentes. minha santa.perguntou alçando a mão para o saco.

Não se despia porque tudo lhe fazia febre. Bárbara. Trazia sem dúvida o dinheiro com ela. Ainda cá chegam.Compram por dez.exclamou a sapateira. As terras por fora tratou de arrendá-las e dá-Ias de meias.É com medo que a roubem como da outra vez .Irmãozinho da minha alma. atiram-no às caldeiras. como nunca mais pegara do pente para se pentear ou de sabão para lavar uma fralda. Chegado o S. .remordia Polónia. . Guardava essas até à colheita. mas não era só por isso. O seu regalo era mudar-se em pedra. a talhada do unto. O Gregório barbeiro dava-a como héctica no último grau. a folha da couve galega. e.. Miguel.? E que lhe fez à capucha? Bárbara esteve um momento a olhar em alvo.E isto volfro é. . depois que faltara o irmão. aprendera a ser indiferente ao que diziam e pensavam dela. Abandonara-se ao comer. Escarolada para quem? Trazia há quatro meses a mesma roupa. que viva cem anos que eu não desejo a morte a ninguém . lhi Durava-lhe dois minutos e regressava à imobilidade e mutismo. Foi para vomecê lhe deitar as roupinhas pela água abaixo que o primo se enforcou. e fazem cordas para prender os prisioneiros e roupa para os soldados. que fora uma abelha a moirejar. e outros cartaxos podem vir se quiserem. se fosse viva. . ih. Ela dava bem conta de tais etiquetas. . muda. Trocava o pão na padeira.Quem sabe lá? . dar-lhes-ia igual arrumação.Credo. vão vender por cem. mas já lhe não pesava que andassem comidas com grama. Também nã o devia um alho a ninguém. Lá vai para a guerra.dizia-se. que vêem passar o dia e a noite pelos séculos dos séculos e não se ralam com coisa nenhuma. Agora desprezava este mundo e o outro. credo.murmurou Polónia. e quando se sentavam à sua volta tinham mesmo cara de velar um cadáver. se estivesse na mão de Cicrano ou Beitrano coisa que lhe fosse indispensável ou preciosa. como por exemplo a saúde ou a salvação. Dormia com ela vestida.Traz o dinheiro com ela na patrona. . destas pedras enterradas nas leiras até mais de meio.. de verdade.A vida está para estes pendentes . Tinha o essencial para o resto dos dias. vai amanhã. esse que estava longe dela. lh. . assim imprevisto e intermitente como as sezões: . Está aqui está na Alemanha. lhes tocasse à aldraba. Os Alemães pegam nisto. que também era prima direita. Pela vida fora. Ela. não tão curta que não visse três padres colarem-se na freguesia.já se tem visto muitas pessoas. vai hoje.compro farrapos! . Deu-lhe uma risada e desandou pela rua acima. já lho viram. tirante as que tinham renovos. Andava um estrume. a baratinha. agora quase não mexia palha. quedara desconcertada de todo. não deita o Outono fora. O mundo. a distância 156 .Mas não lhe fazia mal nenhum que fosse mais amorável com quem é do seu sangue. Ainda ia às hortas ripar dois espigos para o caldo. Um cartaxo poisa em cima delas. a fugir ao agouro. não se ralava nada de nada. Isto de lãs por modos anda caro como a morte.. vozeirando: . . e recaiu no acesso. contanto que não se pusessem com lamentações.. chisca. se não longe. fazerem conchavo com a morte e enterrar a geração toda que estava de gargalo no ar à espera de lhe cantar o miseré. Pouco lhe há-de durar? Não a vêem a secar dia a dia? Aquilo há-de ser como a caruma que está mirrada quando chega a adubar a terra.contramarcava a Joana da Urra. Não era ponto de fé que..Fica que nem uma baronesa . e quem precisa humilha-se. Houve tempos que precisava do próximo.

“ “ Meus santos. O tio Zé dos Cambais também fora. não digo que não. que lhe conhecia os gostos e procurava fazer-lhe a boca doce com vista em caçar alguma leira. e Polónia contou. Ela não se deu ao trabalho de a desmentir. rompia na zangurriana: . lá mexem. Estavam até os rapazes a dizê-lo numa roda atrás da casa. encarregos de tal ordem que se fossem por diante ficava o homem aleijado para toda a vida.. lá apertam com uns. nem saí daqui. lá se agarram a outros.Anda para aí tudo cheio. a Polónia limitou-se a chorar.. Aqui o Tadeu deve estar com a sua larota. “ O Antoninho. que é assomadiço. Foram ao Requeijo. quanto mais botar a estas falperras!” “Uma sertãzada de ovos?” “Ovos? Andam a arrebanhá-los por todo o preço para os mandarem para Espanha. ih? Quando vendera a vaca. Sou aqui como o Cambais que tem a mó sempre pronta para a moenda. Falta tudo. A Polónia.Irmãozinho da minha alma. e fica areia e água choca. O tio Calhorra e o senhor Antoninho tinham na antevéspera ido a Orcas levados pelo senhor Tadeu a ver se de algum modo acudiam à multa e não sei que alcavalas que haviam deitado ao tio Zé dos Cambais. já que o Duarte tinha o vezo de tirá-los do corpo para vestir os espantalhos dos milharais. mas já não aceitamos comensais avulso.. Ela não saía da sua hirteza para botar dito ou risada desdenhosa.indignou-se. Nesse olhar significava: “ Bem te entendo.Sinto um morganho a. ao menos? As hortas agora estão espigadas.. ainda a distraía.. roer cá por dentro. um deles é o senhor doutor delegado. Muita água leva o Mondego. Chegam à vila. deixem passar o Verão. entretida com a feira interior. E não admira. “ “Um caldo... A certa altura diz o Fráguas. Para Espanha ou para a Alemanha. Voltaram a tocar berimbau. Não havia para que erguer 157 .Vamos almoçar.. amigos e senhores.. como as sardinheiras com a sardinha. considerando que de pouco préstimo podiam ser. na qual o irmão tinha papel mais importante que a tenda das colheres e canivetes. ih. Ali vão os quatro e chegam ao Barradas: almoço? “Almoço. sabe Deus. e onde não há el-rei o perde. que é homem insofrido.. o hotel estava debulhado. Mas parece que. arranj e-nos uma bacalhoada com batatas. Se não fosses mais tola do que te julgas. Depois. não fazias tais perguntas.que podia observar sem gastar o coração. mas resolver o negócio. Sabes de certa certeza que não falei com ninguém. Outras vezes não era certo que ouvisse o seu correio de notícias. nem para os alfacinhas chega. com muito gosto..Se mo chegarem ao bico. arrependeu-se de ter ido tã o longe e torceu por outra vereda: . vinha com os mexericos mais salgados. se tivéssemos tempero. como todos sabem: .” Polónia devia sentir esta resposta porque acudiu de pronto: . “O estalajadeiro riuse: “Bacalhau. .E você. sim.Então já sabe o que se passou em Orcas da Beira com o tio Calhorra e a gente da vila? Bárbara dardejou-lhe como única resposta um olhar breve e iracundo. Aquilo descobriram por lá algum explosivo com gema de ovo.” “Homem. nicles1 Era dia de feira e estava muita gente na vila.quanto mais não fosse serviam para remendar a sua cáfila . Agora que via ir os mondongos .. . dera-o Deus. em que ânsias. Calhorra? . ih. que também costuma dar de comer aos feirantes. pudera. esteve para se deitar ao gasnete do homem. pois quando menos se esperava. julguei que tivesse ouvido. Temos três hóspedes. Acabou-se o azeite.

e toca com ela para o galho duma árvore a esfolar. que lá é que se forjica. Esperem um pouco. Atrás dos guardas. O Antoninho Fráguas. chegou o senhor administrador.Pois já que está bem. Dali a pouco o que havia de melhor em Orcas trombava. que o tio Calhorra não é trouxa. veio a guarda: . os fiscais e senhores da justiça e das Finanças. . razão. à volta. mais católicas que as estações da Via-Sacra. por fantasia.Hás-de deixá-la por três e ainda lhe comes um bife. se fosse homem instruído.Eu vou arranjar papança. mal se tinha nas pernas. já a bezerra estava esfolada e esquartejada. anda tudo ao mesmo: comer. já desesperava. a menos que fossem do bispo. de Pedrões. Estavam ali deitados os guardas assim que se puderam pisgar. homem bem comido e bebido. . era à mesa entre duas boas garfadas e dois goles dum vinho velho . . . tinham abatido uma vitela e o mesmo foi começar-se a juntar o pagode da vila. ao menos uma vez na vida. “Diferenças hoje em dia. cheirava que era um regalo. seu Calhorra. empenhos. o senhor Tadeu. Ao que era de rosada e bonita crescia a água na boca à gente que a via. para se resolverem com honra. o caso é que ali se combinou riscar as penalidades ao tio Cambais. Lá o volfro não lho restituíram que já não haveria meio de se lhe descobrir o rasto. vá de amizades. .Pronto? Isto é para consumo particular. você e o cabo estão convidados a vir tasquinhar uma lasca em casa do Rufino. uma vitela que se derretia em gordura e novinha. 158 .” O senhor Tadeu. Queria por ela quatro notas. Pois então?? Veio este e viria o Governador Civil se ali houvesse tal bicho. o tio Cambais pagou a vitela. Um deles soltou um berro: comem todos ou rebenta aqui uma revolução? O Calhorra mandara assar uma perna no forno. Chamam o veterinário. E assim foi. pela rua e quelhas confinantes. povo noutra.dizia o seu Lázaro. . Figuros e volframistas numa sala. Havia de fazer notas e distribuí-Ias de avião cá pelas falperras para toda a gente comer vitela e migar trigo no caldo. . Ao cheiro foi vindo povo. Em menos de uma hora à porta do Rufino. por modos que dissera para o Calhorra: .Você.O mais.Vai lá ser careiro para a Terra Querite! -Nem que me virassem do avesso. Dali a pouco voava pela feira que os de Mouramorta. esta vida são dois dias. já que hotéis e estalagens não davam de comer.A licença? . direito ao Antunes.Por ser para você. Trombavam bem e bebiam melhor. coitado. São três e meia. que ia vender uma vitela. pois mal começavam a apontar-lhe os cornichos por debaixo da pele. são três e meia. metem-lhe a faca. vem o cortador. fazer uma segunda em bifes. Foi-se à feira. não vale a pena afligir nem apertar muito com o pagante. Mas vá de saúde. as outras e os lombos fora dependurá-Ias a tais e tais portas. justiça. Com a fraqueza.Ministro não queria ser . Estavam na santa trincadeira. forrou uma vacada. era capaz de chegar a ministro! .olhos. Apareceu um outro doutor mais descarado. não pegavam.Ah! ah! Está bem. Pudera.tornou-lhe o Calhorra. Lá lhe compraram a vitela. Sim senhora. palavra de rei. Caiu bem no paladar o regabofe de vitela que deram os volframistas de Mouramorta. A certa altura o Calhorra esteve a cochichar com o Cambais e disse: .O que eu queria era mandar na Casa da Moeda. mas quanto lhe não valeu? Gastou uma novilha.

rebentavam outros com os excessos que faziam. armado dum martelão. É o que lhe digo. reze-lhe por alma. ter revólver. ou de que cuida antes de morrer. fazia as pessoas ruins. e introduzia a mão espatulada onde houvesse que subtrair. tão pimpão. os asnos. Irmãozinho da sua alma. muito grande e forçudo.Vê lá tu. que vale mais . e aborreciam uns o trabalho. Deixa. que ficou soterrado debaixo dos escombros. Bárbara julgava vê-lo sob a fGrma dum homem negro. outros lambidos pela chama. à força de virar o mundo de pernas para o ar. prima. pôr gravata. no dia seguinte.aquilo tinham-lho por lá abafado . Punha-se a olhar para o lume a devorar tangos e cavacos. Pôs-se a chorar: . Todos queriam comer do bom. Umas raparigas davam em droga. .já ela se encontrava ajoelhada à lareira a acender dois chamiços. Na vila de Orcas comera uma vitela inteira para saciar a fome. quando iam para malhar o milho dos canastros. Era ele o autor de todo o esparrame que ia pelas parvalheiras. espetavam por devota garridice um raminho com a sua pena de canário ou de marantéu. Ali tinham! O volfro. Em S. e era como se o visse em sua faina secreta de destruidor. ele é que botara à trave a corda com que o seu Duarte se havia enforcado. uns já em brasa. Não deu mais palavra. os rapazes entravam pela vida de tunos. Só dali da terra tinham ficado aleijados dois. porque galinhas são a última coisa de que se desfaz uma dona de casa. um. Sim. botar relógio.. quando vinham das romarias. Não viu o frango que viera substituir o lascarinho que levara de peita ao senhor Fráguas e ficou muito aflita. sem o galaripo . cachenés. outro com a mão lesa ao brincar com a pistola que se disparou. As raparigas. Quando voltou. Polónia. A “sepultura da vida” ficaria também sepultura da morte se a lei cristã não mandasse retirar o cadáver do ambicioso e dá-lo à terra santa. tiveram de desarvorar para os lajeais da serra. não deitavam agora seda e zefir? E os rapazes só compravam sapatos de calfe e bonés de pala. têm dado muito dinheirinho aos pobres! Depois daquele dito foi como se lhe partissem a corda. que de sénica lhe sirva! Continuou a pôr tanganhos no lume.Deixe lá. Ele é que era o pai de todas as pachouchadas e poucas-vergonhas de que há tempo se falava pela serra. ih. por muito que Polónia a puxasse a terreiro. Todos queriam ser homens. deixava de ser um mineral para se tornar o substituto do tranglomango ou do Pedro de Malas-Artes. 159 . Ainda naquela roubalheira quem andava era o volfro. À tardinha levantou-se a deitar dois rabos de centeio às galinhas. que dantes não sucediam estas abusões. seduzia as donzelas. que já galava! Quem mo comeu. que tanto pulverizava o casario das cidades como a cabeça da gente. imberbe. Matava. No Ramalhal minara a casinha dum pobre homem. vestir à fidalga. roubava. e vivia-se. as desgraças eram à rasa por essas terras fora. ih. e traziam veneras de latão na lapela onde antigamente.E todo este cagaçal é obra do volfro? Terçã coma tais pedras mailo primeiro ladrão que deu conta que andavam a atirá-las às cabras? arrenegou Bárbara. ser gente. Brás da Nave certa noite desmontara a eira que era de brita. ih! _ Deixe lá quem morreu e reze. o volfro. Rai's partissem. A Polónia ofereceu-se para ir procurá-lo pelas casas das vizinhas e pela primeira vez lhe acudiu aos lábios exangues um arzinho de agrado. que dantes eram felizes com a flanela e o riscadinho.dizia-lhe Polónia. de lágrima no olho. com a perna direita esmagada debaixo duma pedra em Muradais. um galinho tão bonito.

sua mãe. que lorgava as encostas e chapadas dos montes. o pretalhaz desalmado. que fazia estas avarias pelos povos. como a gadanha do ceifeiro ceifa feno. mais medonho do que nunca. para os borrachos e as crianças. tinha a impressão nítida que o volfro estava ali: a pilheira era cabeça. daí a pouco rompia. não sabia se das suas pupilas. A Polónia via-lhe aquele movimento absurdo e interrogava: . tornando-as deste modo improdutivas para sempre. iroso. Procurassem bem e não culpassem outro. senhora mãe? Venha.Já lá está o pai. que temos fome. para o cemitério. encher-lhe a cântara de água. eles se fartavam de voltar. o lume. Involuntariamente se punha a dizer isso mesmo entre si. Oh. Era aquele mesmo que revolvia as chás em que se cria o.dizia ela com um sorriso. Acontecia os pequenos da Polónia virem lamuriar para a porta: . Pensamentos que vinham do negrume. com a diferença de que esta tinha de passá-la de espertina. o resto do corpanzil.Chorava e deixava de ver por instantes. Fora o volfro. se dentre os carvões. e a prima via-a mexer com os lábios e cuidava que estava a rezar. ao canto roufenho do reverendíssimo Tadeu com o nariz como uma batata quando lhe grelam os olhos: à porta infra! E ela e o Duarte ficavam sozinhos. ela se fartava de repelir. aos gritos: façam-lhe a vontade e ainda esta noite vão dormir ao estarim! Eu não as vou soltar! Depois lá iam as duas velhas. por outro lado. pior do que bexigas na gente. atrás dela pela casa. fazendo finca-pé na certeza que tudo aquilo era desvairo do seu entendimento. . baixava a noite para Bárbara.. que perde a alminha! seu irmão.Manda-os ao volfro . quem ceifava gente por filas. o barzabu negro e malvado? E por esse mundo além. Mas o tanganhão cedo voltava. e negra. pôr-lhe um panelo com batatas a cozer e dobrar-lhe a capucha atrás das costas para se encostar.Que é o que a prima procura? Veja lá se cai para o lume? Voltava a si. senão o volfro?? Às vezes. quando a felicidade do morto é dormir. pela leiva da superflcie adubada com rios de suor. O homenzarrão que era o volfro sumia-se para dar lugar a outros macavencos. o negro da família. de olhos nas nuvens.pãozinho de Nosso Senhor. e no seu entendimento perverso o mesmo era que mandá-los para a torre da Madorna onde havia um gigante que comia meninos. que por onde passasse fazia aqueles poços tão fundos que já se lhes não via pé. o arraial dos fantasmas. ininterruptos e nojentos 160 . os bofes. deixando a terra com uma espécie de furúnculos e de impigens. trocando o saibro. quase tão grande como a outra de que nunca mais se acorda. as duas tarascas. A Polónia só abalava depois de lhe ajeitar o lume. Não raro lhe sucedia estender o pescoço como se se dispusesse a ouvi-lo falar. que acalcava as sementeiras como mil cavalões arreitados. Essa primeira noite. embora arrenegasse de beatices. sozinhos. não sabia dizer já que malandros de pensamentos lhe tinham vindo à cabeça. a gemer: deixai-a confessar. e até para os viandantes descuidados. e ficavam para ali de fojo para os bichos do monte. Eram todos eles dotados de carne e osso e vinham tal qual: sua tia Soledade a pedir um padre. tanto na terra como no mar. que vinham do inferno. estirado desde o claro-escuro até à fogueira.. sepultado nas entranhas da terra. se dos buracos negros da casa. Mal fitava os olhos nas brasas. noite sempre enorme. maldito ele fosse? Matara-lhe o Duarte e não havia dúvida que fora ele quem assassinara o José Francisco à traição. Ainda se lhe ouvia a chanca. lhe marinhavam para o selo. e a escuridão. como tantas vezes acontece a quem vai seu destino.

ia-se-lhe representando de espingarda a tiracolo. Não queriam crer. até ao enforcamento do Duarte quando. ou de botas amarelas e chapéu faia.como as lagartas dos pinheiros. não afrouxaram. ao fim. só aquele palco em foco. Disfarçavam a voz para que os não conhecesse. ih. conforme o lume devorava os tanganhos. Agora. ih. a tentá-la e a meter-lhe o veneno que nunca mais perdoa. mais uma para o rol. por uma noite de geada. Compraram vaca e carro. e andavam reflectindo os pais na exaustinação de ver quando é que ela esticava o pernil. e dali em diante os derrancados dos pensamentos não tornaram. na dor que o acometera ao entrar em casa e dar com as arcas abertas e a caçoila sem o precioso recheio. Não descansava enquanto não via a quintã e o combarro a abarrotar de mato. não era nada. como meninas por detrás das grades dum recolhimento. espantava. desde a maquia extorquida ao Luís Ougado. O mesmo pauzinho a arder lhe dizia que fora um sopro de tempo esse durante o qual se lhe haviam fechado os olhos.1 Era a garotada a arremedá-la. O volfro era o pai de suas turpitudes e desgraças. É que não gostaria dela. anos e anos a fio. gordas. e toda ela ficou hirta. E. e o Duarte. caminho da romagem fora. Um alma do diabo que tinha filhos por toda a parte e assim lhe catara respeito. que eram fracos trastes. As suas terras atolavam em estrume. Via-se mesquinha de todo e perguntava-se se o senhor Antônio Fráguas não andara a vida inteira a mangar com ela. Mas. como a comédia em Orcas a que a tia uma vez a levara. soluçava até se encher. E. E tudo ia em acréscimo. fora ao desfatio. Mas pronto. O Duarte dava voltas sobre voltas com o sono muito agitado. associados com os do Urra. sem embargo dos olhos ruins que tanto gostariam de lhe deitar empeço. Soluçava. Desenvergonhados? Aquelas vozes. ele adormecera como um canzarrão que andou a lutar com os lobos. Atrá s da lida veio a poupança. mostrava o seu pacote de notas. zás. Estava a vê-lo muito negro. Como luzes que se apagam a um tempo se lhes sopra a nortada. rápido como abrir e fechar a mão. Estava a sonhar. língua de fora. Tudo isso entrecorria na lareira à resplandecência do crisol. E entrava de 161 . sem pinga de sangue. Fartaram-se de cavar a vida. acabou mesmo por deixar de ouvi-Ias. Ajuntaram pecúlio. Era um cassamente. com negror espessíssimo à volta. cacarejava uma voz escarninha: Irmãozinho da minha alma. Ele é que fornecera a matéria-prima do mal. mormente as cardenhas da eira. e um momento a mão dele veio agarrar-se-lhe ao corpo. atestadas até cima de lenha para o Inverno. O seu Duarte era um ganhão de mão cheia. todos os anos pelo Santo André matavam porco. Estavam lavradores. Também botavam renovos que encandeavam a vista. se calhava ter de puxar pela carteira. os olhos a olharem para esta vida. Semelhante acesso era uma rabanada de vento que lufava sobre o seu arraial de fantasmas. Lá fora. só porque erguera mais a voz. Às vezes a cabeça caía-lhe para o ombro. e justaram uma parçaria com o Sancho. Iam aos mercados. A casa estava sepultada em silêncio e trevas. a chegar-se a ela e a querer rendê-la. louvado seja Nosso Senhor. gordíssimas como fidalgas. que mal a tiravam da sua cisma. passara um nó da corda de encarrar ao pescoço. esvaíam-se todos. Rompia a soluçar. nas traseiras da casa. e as lojas. A primeira noite que uma vaca tilintou à sua nianjedoira dormiram na corte com ela. Poupavam-no ao corpo. muito recatadas ao abrigo das três voltas. que a torcida da candeia já nem sequer cheirava a petróleo. já da margem de lá. mas desconfiava que deviam de ser os filhos mais velhos do Fandinga. aparece o volfro. ih.

Via a fogueira a apagar-se e punha mais lenha. A noite negra poisava-lhe em cima o seu joelho de giganta.. a toque de buzina. agora que elas já eram menores. mesmo de pés atados.novo com o seu arraial de fantasmas no casarão amplo e soturno que descobrira por debaixo da terra do cemitério. a grande zarga? Ao levantar. A casa era lôbrega. Entretanto os rapazes que trabalhavam nas minas subiam e desciam os patins com grande estreloiçada e ouviam-se cliamar uns pelos outros. dava graças ao Senhor que a não tinha chamado aquela noite ao seu terrível tribunal. Depois o lume ficava a triturar os gravetos e era como um cão a roer um osso.Olha lá. A sua vozinha alegre. Depois. estendendose em cima da cama. Deitava-se de costas que de lado nã o aguentava com as dores do peito. Pois que assim era. contrataram-te para fistor? Se levantavam a grimpa. lá ia por cima dos telhados visitando a clientela. como se se tratasse duma romaria. com o adiantar da manhã. rua. como os galuchos nos quartéis. vinham logo de rabo alçado: . Sobre a alva calava a grasnada sinistra e rompiam a gorjear os passarinhos que não metem medo e trouxeram a voz do céu. A coruja vinha também com o bater da meianoite e armava grande alarido e guincheira. E de olhos abertos lia no escuro como lia nas brasas. Aqui adoeciam. Lá se punham outra vez todos a falar e a fazer tagatés. Depois. porque era vezo. Assim mesmo. bem embora não tivesse saudades do mundo. Os capatazes sabiam que eles metiam a unha e andavam-lhes na garupa como carraças. Oprimida de todo. pouco a pouco. mas pela telha de vidro a luz banhava-a como se caísse em cima dela um vestido branco de noivado. armava-se outra vez o teatro. estava mesmo a dizer: levantar? levantar? Um cão latia e era quanto bastava para se achar menos só no mundo. pousava com não menos chinfrim na casa da Pedralva. que a aldeola era feudo seu. Parecia que se ensaiava para lhe cantar o bendito. Mas aquela convivência acabava por lhe ser molesta e. acabava de repô-la na terra. a vogar à tona do mar tenebroso como uma cortiça. Se não estavam. com o completo despertar do cortiço. abria-se. E era o mesmo que estar com os olhos abertos. tal como tinham sido em vida. Também ali farejava desgraças. Borbulhava o formigueiro dos defuntos.. e via-o tão perfeitamente como se se acogulasse à sua volta. afogado na noite. a catadupa de rumores indistintos. De 162 . e estavam logo lá. tão juntinho que bastava os defuntos darem uma cambalhota. acendiam-se as luzes dentro das meninas dos seus olhos. Mais acalcanhados nem os bois do cilindro. Por fim. um bocado ficava o seu entendimento. abria-os. ia deitar-se. Esse vestido. à lareira. mais de vinte no Vale das Donas. Passava boa parte da noite. de chocalhadas. à raiz das covas. reapareciam os figurantes a bater o tacão. Para o Casal cantava um rouxinol e para o cimo do povo uma toutinegra que amanhecia com as estrelas a chamar pelos pastores.Põe-te a mexer! Num rufo. era o bastante para lhes apontarem o largo: . Às oito em ponto tinham de estar a pegar da picareta. Tratavam-nos. de anjo. Os encarregados tinham-lhes raiva porque a vasilha continuava a verter e não acertavam com a fonte por onde melava. As chamiças charriscavam até lhes arder o manto. fechando os olhos. que é sala de cães. Quando começavam os tamancos a matraquear na rua. além agonizavam: ela andava a tomar nota como empregado de cangalheiro. Se algum esbarrava a ver para onde corriam as nuvens. E depois. Dali andavam mais de uma dúzia em Muradais. de vozes humanas. custava-lhe respirar e a pieira saía-lhe mais assobiada.

Regalava-se toda em lhe torcer as voltas. Também lá floria o alecrim que o Jamboto coveiro punha aqui e acolá para que se não dissesse que aquilo era pior que um curral de gado. Os poleiros eram coretos de charanga. que até para lhe ser mais antipática que a outra se prantava ao pé dela em vez de andar por cima dos telhados. fartava-se de gazear. por ser de cascalho e muito esburacada.e não lhe tinha passado bocada nos gorgomilos. Muito pela sonsa. 163 . comprando aqui. pschi. muito à capucha. Viam-se só em campo as grandes empresas.Comeu? . que já saíam duas vezes ao dia. Ora? No cemitério também nasciam aquelas flores que se erguem numa haste alta e fina e parecem os antigos alfinetes com que as senhoras seguravam o chapéu. a quererem roubar o rolo umas às outras à força de melúrias e denguices. Em cima tinham uma copazinha que lembrava uma gota de sangue. Depois. não desse ela o cadilho inesperadamente e a roubassem os outros.Comi e soube-me bem .Então sente-se melhorzinha? . largavam com o lusco-fusco. com o marantéu nas moitas. vinha cedo com a mancheia de caruma. que andava a rondar. Uma vez deu-se a provar: tinham um sabor esquisito. Até que a fêmea saísse da toquinha.Estou aqui estou fina. davam os galos a alvorada. . A baixa que sofrera o quilograma com as leis danadas do Governo não dava para a grandefreirria dos meses anteriores. uns e outros. . Acendia a fogueira. Às vezes badalava o sino para a missa. À porta uma acácia cobria-se de cachos brancos. A Primavera era bem bonita por aqueles campos abaixo.Hoje acho-a mais animada. e as rolas na cruta dos pinheiros ao desafio. continuavam a ajuntar volfro. A corcolher punhase a cantar e logo a seguir o pedreiro que todos os anos fazia o ninho ali perto na casa da Cismas. Estava varejada a árvore das patacas.Sonhei que Nossa Senhora me acenava com um lencinho de rendas e depois me dava a mão para passar uma ribeira muito grande. de modo que lhes não faltavam braços. a que chamavam navarros. Lá tinham maneiras de surripiá-lo. o tio Calhorra continuava no negócio. também. Dormiu? Ela dizia que sim.facto. Ou: . pschi. Os homens de Malhadas. igual à de véspera. De manhã trazia perra a garganta e falava pouco: . sempre igual às transactas. Nada a prendia à safadeza da vida. Eles fora. Que mais não fosse. de verter os seus lamentos. como podem ser iguais gotas da mesma água choca. tinha dormido como uma pedra. ganhava arreliar aquela coruja. o cuco onde calha. que nem o Demo seria capaz de adivinhar. Mas o febrão estava a passar. Não chegava o sebo para a mecha. levava-lhe a enxerga para a quintã. Era para semelhante primavera que ela corria e tomara que fosse já. Tudo andava já de alevante. vendendo acolá. A Polónia. respondendo ao avesso do que ela esperava. e a vida recomeçava para ela. Ia correndo a levada do tempo e a leiteira tocava a buzina no terreiro da fonte. Bárbara arrastava-se para a lareira. girava à vida como os pastores das vacas. sabor de mortulho. que trabalhavam em Muradais. punha duas farmalhas.Teve bons sonhos? . Vinham homens de Espanha. buscá-lo em mulas. soprava às duas brasas que luziam ainda no meio da cinza.

não temia dar contas a Deus. vai-me destapar o buraco às galinhas.Lá irá para onde o pague? Ela não respondia. Polónia.. que estão arrenegadas por ir ganhar a vida. . que levara havia mais de vinte anos à romagem das Cinco Chagas e de que ele dissera: “Que bem que te vai essa sala. Pelo sim. ainda pode demorar. provavelmente para o Lázaro.. quando ao fim de sete anos o Jamboto abria as campas. disse-lhe de caso pensado: . veio para esconjurar a Florinda Pedralva . Tenho-me desobrigado todos os anos e. ao pé do Trinta que morreu chacinado. que vinham na enxada. olhe. parece que não podia. sempre me quero confessar.Então já quer. Mas. Está a perceber? 164 .. mas no cibeiro. sombra que se esvai quita candeia. muito raro que por trancafio lhe ficasse a talho de mão assistir grato Deo às suas ovelhas distantes.. Às porteiras pôs-se a cochichar. Miguel..Sabe. e uns meiotes novos. que ela bem viu. ofereceu-se para ir arranjar meio quartilho de leite. como se também eles se associassem com a terra a comer a gente.. . “Não tinha posses para se tratar a leite.É a ribeira do Jordão.Vista-me os marmotinhos que andam rotos. “Fica-lhe a alma penada no mundo!” diziam-lhe. Aquela manhã. a roda toda para trás como os turnus!” Reservava então essa saia. o lenço de seda ramalhudo que fora da tia e era um jardim. e percebeu que dizia: “Não ouve o cuco?” Voltando para dentro.Olha. Bárbara indignou-se toda.. O certo é que tinha em mente gastar o menos possível com o enterro.. Enquanto Mónia girava a abrir às pitas. nojo e medo.? Era uma sondagem e respondia invariavelmente: .? Acenou que sim. Os padres que fossem comer a outra manjedoira. e nada metia mais nojo no cemitério. pelo não. Deita-lhe o milhinho que está na teiga. todo o dinheiro que tenho e pouco para o bem-de-alma. . . justinha na anca. que todos os mortos hão-de passar quer queiram quer não. A sola levava tanto tempo a consumir-se como a caveira. Pois que não lhe consentiram enterrá-lo na terra santa. Para mortalha reservava a saia de castorina. com a tromba arreganhada à semelhança do jacaré que está na Lapa. durma-lhe e coma-lhe bem. se não fora as consumições com que o Demo derranca as almas.? Sente chegada a hora. o chambre de flanela que estreara há dez anos na festa de S.Hei-de empregá-la no bem-de-alma. Um dia mete-se contigo na cama e esgana-te!” Coitadinho. vai-me chamar o padre.. mesmo que quisesse falar.esclareceu Polónia. . “Olha que não pára na sepultura e vai andar pelos caminhos a fazer espalhafato. Quanto a rezas.Sabes que mais. o que sucedia as poucas vezes que o senhor Tadeu ali vinha dizer missa encomendada ou no desempenho das suas obrigações paroquiais.Já disse. Para que quer a riqueza.. Que imaginava ela?” Polónia sorriu com desdém. tocou o sino.serrazinava Polónia com voz pedinchona.. . do que os sapatos. como em geral era modo seu. Tinha proferido aquelas palavras com certo esforço e Polónia considerou: . Abria a boca e ficava a papear. lá ficou tão abafado debaixo dos cardos e das ortigas que nunca mais deu sinal. um real seu não viram para missas ou responsos. Nada lhes dera com o Duarte.. A prima observou-a de soslaio e franziu o focinho. Não queria lá chinelas. Quando a prima voltou.

aríscos e vagarosos ao mesmo tempo. de lhe atacar tibornadas pela boca abaixo. sem dúvida a testa mais branca. seguiu-o com os olhos e afigurou-se-lhe que trazia carapuça de Alvite na cabeça e estava em mangas de camisa. por detrás da arca. se calhar nem se conhecia. mas faleceu-lhe a voz nas goelas. causaram-lhe tal impressão que os fechou. O que era o barro de que Deus ou o Diabo amassavam a gente? Tornou a mirar-se e notou com reconforro. vítima do volfro. Aquilo não ia com benta nem benzilhão. no padre que era muito capaz de não vir confessá-la. O seu primeiro movimento foi gritar. esses olhos negros luzidios. Quando atingiu o açafate que estava no sítio. irmãozinho da sua alma! Viria. Quem quer que era foi direito à cantareira. como que sorriu. não viria. foi pelo espelho e ao esforço que teve de fazer capacitou-se que chegara ao fim dos dias. ih. permeáveis à luz. Corcovada. Onde ia porém o azougue e frescor da moça que um dia o senhor Antoninho cometera à volta da rornaria?! Estava agachada detrás da arca. e veiolhe o desejo de se ver.. Bebeu.. puída ao meio corno laja depois que se malhou. Vinha descalço e tão escoteiro que só reparou nele quando passou por diante. pois não lhe dera nada a rilhar pela morte do Duarte. a meditar nas voltas que o mundo dá. e ela ficou a malucar na Florinda. ah. que era só dela corno o vermelho das rosas de Alexandria. estão muito enganados com a delambida! Polónia desandou. horrorizada. estava urna surrona. e levou-o à boca. bebeu.Tinham ido à benta de Quintela. permaneceu de cócoras que lhe doíam as costas e se esfalfara a chegar até ali. a pobre mãe tanto gemera. Bárbara chasqueou baixinho: . como fazem as águas vivas quando começam a subir nos açudes e encontram um buraco dos ratos. com olhos que fugiam para dentro do crânio. talvez afinadas as arestas e retingidos de escarlate os lábios. mostrando os dentes. Iii. e reconheceu-se naquele sorriso. ergueu o cântaro pela asa.Ah. que de modo algum queria perder um espelho de tanta edificação como aquele de ver enxotar o Diabo do corpo do seu semelhante.. se lhe oferecia encarquilhada. Era bem a Bárbara Barboreta. já se não via há que mundos. Polónia falava de afogadilho. com o espelho caído no regaço. vinha aquele dia rezar-lhe o exorcismo. Também as orelhas se haviam tornado diáfanas.. Mas ora. tanto suplicara que o senhor Tadeu. mas se fosse assim para o caixão não meteria medo a ninguém. de a benzer. o seu tanto escaveirada. condoído. como se a mão da morte andasse a enfolar o saco para lhe atar o nagalho. Ela ouviu-lhe o glugIu. No pescoço é que a pele. Assim que respirou. Mas os dentes reluziam e eram eles que davam ao rosto o tom derramado que tinha a Senhora da Boa Morte no santuário da Lapa. um espelhinho redondo que ganhara havia mais de dez anos na rifa do Roupinho. depôs o 165 . um pé em casa. de rópia pela casa dentro. Quem olhava para ela. À dita confira. outro pé na rua. que a fisionomia pouco mudara. depois do abalo que sentiu ao pousar os olhos nos olhos. entrou umhomem. Mesmo assim sufocada.. Lembrou-se que tinha um espelho no açafate da costura. tão retraídos como bichos bravos no fundo dum fojo? Ah. além de amarela. ih. e despegavam-se da cabeça como vagens debulhadas. encostando-se à parede. Estavam fartos de a defumar. onde fora a cama do Duarte. e sempre se decidiu a lavar a cara e a tirar a ramela dos olhos. ergueu o espelhinho e mirou-se.

A prima está a morrer. foi à pilheira e meteu a mão numa panela. Era a Polónia com o homem e a ranchada dos meninos. o Diabo cobre os patifes até à altura em que lhe ajudam a fazer o joguinho. o seu tanto intrigada. com a cara de fuinha que herdara duma geração de famintos. martelavam-lhe na cabeça como dois ferreiros malham o ferro em cima da bigorna. Pois como explicar o ímpeto com que aquele pilhanqueiro entrara pela casa dentro e as vozes: “a mulherzinha está aqui está a alçar as pernas. Ela então pediu-lhes para saírem ao povo e. à boa mente ou à fina força. que era do conhecimento de toda a gente estar em seu poder? E dois contendores. se a casa nao caira por cima dele e não o esborrachara. Faltava-lhe aquele tormento: duvidar. Porque lá que havia de chegar havia. meio divertida: . Oh. coitadinha. esse dia havia de chegar. proferiu em voz alta: .Quer aviar o pão. Quem sabe se o ladrão nem era o tal ladrão fino. Sem esperar que respondesse. um pró. Mas. ainda que pilho notório e confesso.. que começava por matar a sede no cântaro alheio? Vinha gente que se ouviam passos no palhuço batido da quintã. que no segredo do seu peito e foro de Deus acoimara outro.A mulherzinha está aqui está a alçar as pernas.. Quando já não precisa deles. se andara a roçar pelos sacos da farinha. já aí vem o senhor padre.Ficais aqui. A sua pena era que chegasse quando estivesse já debaixo da terra. deixe lá os moleiros e encomende-se a Nossa Senhora! 166 . mas haveis de estar muito quietos. ontem o roubo do dinheiro suado e tressuado por ela e o Duarte. . porque ouvisse chapejar na rua ou assim se lhe afigurasse. hoje o dinheiro da vaca.. E ela.Não encontraram um moleiro? . Seria aquele o ladrão do seu rico dinheirinho e causador de o Duarte se enforcar? Arriscava-se a sê-lo. Polónia abanou a cabeça negativamente. se nao vomitara as notas. trouxessem-lho à sua presença. se não era moço de moleiro. perguntou em tom de melaço se não se sentia mais aliviada. quedou confundida. deitou a correr e esgueirou-se pela porta como uma engula. põe-lhes a calva à mostra. logo de seguida. depois num pote. se descobrissem um moleiro com carapuça de Alvite na cabeça e a fralda da camisa de fora. e a súbitas. afinal. só Deus é bom juiz.cântaro.perguntou Bárbara erguendo olhos para eles. olhe. soergueu a tampa da arca e abismou-se a olhar para o que havia dentro.... e lhe palpitou que. outro contra. a primeira coisa que inquiria era se o gatuno se não tinha dado a matar.? Foi para isso que se veio meter detrás da arca? Ah. E. o assento enfarinhado. maldito fosse o dinheiro e mais quem o fabricava? Todas as manhãs que Deus deitava ao mundo. O pai do Céu não lhe perdoava que acusasse um inocente embora a acusação não subisse ao tribunal dos homens. ainda na caçoila de má morte. nem aquele ladrão porco. Mas tão-pouco naquele momento encontrou voz para berrar sobre ele. Observou-lhe Polónia. Foi ao transpor o limiar que Bárbara reparou ainda trazer o homem a fralda da camisa de fora.” senão como a desculpa antecipada de repetir a má acção. Polónia recomendou para os filhos: . Oh. Lázaro. agora compreendo. Ai. E. circurivagando o olhar e não topando ninguém. Desceu a tampa. limpou os beiços às costas da mão e.

teve vontade de corrê-los à bofetada. como se entrasse numa furna. que se podia traduzir assim: Entrou no delírio! Magicou que não valia a pena estar com explicações e calou-se. Mas a carne corneste-la tu e os teus miúdos. dava o alamiré: “Polónia. E sentiu-se beliscada ante aquela alta recreação: .. cantés a missa vulgar de cinco paus nem um bochecho de água representa quanto a refrigério das respectivas labaredas.Parece mal? . à frente o grosso nariz de batata grelada. de encontrar os lençóis com que se recebe na Páscoa a visita do Senhor ressurrecto e. quase duas dúzias.. com o sorriso querendo significar: “Matou-se uma pita. Dali a migalho aparecia o senhor Tadeu. o que botava ao fim da semana a dúzia e meia de ovos. O senhor padre bem sabe que a casa é de pobre. Bárbara olhou para a prima e sorriu. sempre muito recatados. com a agonia na garganta. Pois'“ . Ao pôr pé no limiar. e consigo e com Deus ficou a cogitar que ele. ela está a pé. e durante o breve movimento que imprimiu às pestanas surpreendeu o Fandinga a fazer para a mulher um gesto. meu senhor . coma-lhe! . desses que actuam na livração das almas do Purgatório como os remédios caros na cura das doenças. Mas a Polónia começara a revolver a roupa da arca com mira. com os que as pitas das vizinhas vinham pôr nos seus ninheiros. Tinha três pitas que punham três dias a fio e descansavam um. delgada como a da fonte. advertido que a confessanda não tinha herdeiros directos.e o senhor Tadeu acrescentou. ia morrendo de consurnição. Pois não enxergava a sombra dum ovo? Às duas por três. ..Vá-lhe chegando umas gemadínhas. . E ao contemplar aqueles carinhas de anjo. Fartava-se a cada hora de ouvir cacarejar na quintã. Ela não tem meios? . acalentasse a esperança de que lhe encomendasse algum trintário bem pago. Bárbara sorriu de novo. Mas não pode ouvir falar que se corte o pescoço a uma ave.Pois se se sente fraca. A olha escumaste-la muito bem escumada e imolou-a com sopas de trigo o esgorjado do teu homem. matar-lhe de tempos a tempos uma galinha. que a mãe assoara e lavara com o rabo do gato. Bom. está uma galinha a cantar'“ Lá ia a 167 ..Nosso Pai tanto entra na cabana como no palácio. Faltou-lhe um galipanso.tornou Polónia.. dar-lhe leite. entretida no deserto da sua alma com sucesso tão estranho. Deixa.. ao gosto delas. por sinal satisfeito.É preciso alimentá-la.Tem sim. Lindezas são para ti. meu senhor.Bárbara baixou os olhos. matou. fungou e dobrou-se para o chão a estudar o caminho. o sagrado viático. quando deu com ela encolhida atrás da arca saudou em voz que se esmerava por ser prazenteira: .apressou-se Polónia a responder.As galinhas não põem..Não tires nada para fora. tem meios . o que era caso. Os meninos tinham-se postado em volta dela a vê-Ia esticar. Entre dois frouxos de tosse ciciou Bárbara que apenas se sentia muito fraca e não podia com o corpo. Bebi uma água chilra. como quando lhe iam ao mostajeiro.. voltando-se para Polónia: . de ordinário fechado. . um ar amável. dando como razão pôr-se-me na fraqueza por ter muita enxúndia.Então como passa esta doente? Ah. era de supor. deixa. o mal não é de morte. Bárbara julgou ver luzir em seu rosto... quando era ela a tirálos. Apalpando o piso desigual de laia.

caía para a banda e acabou-se. o comer de leite está acima das suas posses. E reparando nos olhos da alcatéia acesos para ela. embora repleto de zelo sacerdotal.Dá por paus e por pedras.Está no uso da fala5 . de boné na mão: . que parecia esquisitória. Ouviu. acessos de tosse. Polónia acudiu a pôr em cima a capucha dobrada. alimentar-se a leite! Tinha há dias mandado comprar um quartilho: mais de três quartas partes eram água. Foi recalcando o asco que interrogou: ..? Dê-lhe leite. da banda de fora. é pecado. Era a fugir àqueles dois pesadumes que ela retraía o olhar para a quintã e avistava os Fandingas. com pequenas pausas.Fala pelos cotovelos. transportado já à super-human idade do seu papel.? Trouxeram-lhe um mocho. Nunca pela vida fora lhe tinham chegado uma sede de água..Não haverá um banquinho para eu me sentar. mais filtrado que o soro.. murmúrios que imprevistamente subiam de tom como água num regozinho de leito irregular. Interessava-lhe pouco a máquina. o tomarão mal maduro da penca. e aspirava o seu hálito enjoativo. acabando compenetrado duma imundície que vinha do tempo das cavernas. Bárbara via acima dela. depois de passear a casa com a vista. resplendente. E o sacramento começou e foi decorrendo sibilado. . Não o fazer. mais abaixo. Quando lhe chegou às mãos. E daí provinham as pausas. Que não e não. Que andasse até onde pudesse. A terra produ-lo com abundância. referveu o seu sopitado ódio.E leire. que ela se pusesse de joelhos ou alterasse sequer a posição que tinha por mais cómoda. os Urras e outros parentes comprimidos e silenciosos contra o vão da porta. meio de coisa podrida. Pegou da bilha e baptizou-o segunda vez até encher a medida.Ainda não morreste. bota cá a saia que roubaste a minha mãe! 168 . era um rebotalho. . As suas galinhas só põem vento.Pois tem que tratar-se.zouvineira. quando não pudesse mais.. que mais gatunos não se encontravam na Falperra? O senhor padre esteve um momento a aferir da situação da doente. senhora Bárbara? Ela acenou que sim. e a sua voz adormecia como água em chão liso. Mas é assim por todo o povo. Mas não permitiu. Depois. tão outro do do Antoninho Fráguas. como ela se limitasse a baixar a cabeça.Vamos à confissão. a cabeleira do padre. Que esperavam agora dela? Do lado de fora. durante as quais se esquecia de si e do padre.. meio de mofo. tem. a Polónia tirou metade para uma xícara que deu à menina mais novinha que acabava de desmamar..” O senhor Tadeu levou a tenta para outro quartel: . no largo. Sentou-se então. volveu para Lázaro Fandinga que se aproximara muito ronceiro. . não é assim? E. decidida em seu peito a fazer o contrário. podendo. Um primeiro baptismo devia ficar à conta do produtor. negra como o volfro. feiticeira?? Antes de morrer. punham a boca a um buraco da parede e buzinavam para o interior: . Olha.. Mas eles espreitavam-na receosos de que levasse por diante a ameaça de encomendar um dispendioso bemde-alma. lá vinha: “Pôs vento.. Ouvi dizer que é anclaço. Fosse pelas benditas Cinco Chagas.

Ela torceu-se para ele e levando o dedo aos lábios ciciou de olhos na choldra que. Ao cabo.objectou. R. . dispunha-se a largar quando se sentiu preso pela garnacha.Era o filho da Casimira.. 169 . . mandou-lhe rezar o acto de contrição. do Zé dos Cambais. Era o remate. mo mandasse cá... mas não o sabia. . Se V.. . R.articulou em voz e num bulício tão rápido de lábios que só por si inculcava puridade. dizendo com ela. . e ele foi-lhe emprestando a muleta da sua memória. Também do fundo do horizonte um raio de sol vinha direito à sua alma.. invadia a casa: .Deus me livre? Eram capazes de me esfolar. lá está uma pita a cacarejar. Tenho por onde pague. Ele então percebeu a comédia toda. cansado de vagares e de suspensões. que saíra um melro de bico amarelo. levantando-se por certo com alívio. Deus lhe agradeceria melhor do que eu.. O senhor Tadeu.Diga.Está bem. que se punha a falsetear ao mesmo buraco: .Estou com vontade de ditar o meu bem-de-alma a um tabelião. ainda que sem pago não haja de ficar.. e respondeu com pressurosa discrição: . particularmente à sua alma. O que tinha sofrido por causa daquela saia apanhada no estendedoiro? E quem podia jurar que fora ela? Não havia muitas ladras no povo? Agora era o Tonico..Vomecê não quer um ovinho para a pleira? Olhe.Porque o não diz aos seus parentes? . eu mando-lhe o notário.Queria pedir um favor a V. compreendendo que terminara o mistério.

sinhazinha. de quando em quando escorregava-lhe o pé para. no entanto. Mistérios da vaidade. carrego-te a part& Era um termo muito seu: carregar. metia. se tivesse apoquentação. onde tinha um testa-deferro. Desde que houvesse vaza a levantar. sabe-se lá! Os depoimentos prestados comprometiam acerbamente o Augusto Aires. que era senão carregar? E com o mesmo vocábulo significava a pressão que exercia junto do tribunal contra o Aires. Depois. ai. ao dar de si o gabiru.Compadre Antoninho metia cabeça ao mato. Ficara estabelecida de modo terminante a rivalidade que lavrara entre réu e morto. Assim foi muito notado. .Não me move contra o Aires nenhum outro sentimento que não seja o de vingar o meu filho. arroteador de baldios. ou encher os navios mercantes com mistela parecida. o reconhecera como hastilha do seu tronco. e estas palavras traduziam bem toda a sua premente e danada obra à margem da causa. quando só recentemente. Que esta rivalidade era como uma trovoada armada. quem podia ter sido? Enquanto se não prove que foi outro. Dizia-se à boca pequena . pode estar certo que hei-de carregar o mais que possa .XII .faceteava para Solange o seu comendador José Plácido. Como a metamorfose. que é um supor. Não sendo ele. a comprar e vender travessas aos Caminhos de Ferro. Influente e endinheirado. que tivesse artes de lhe abarbatar o anel que lhe reluzia no dedo com um brilhante de dez quilates. do amorpróprio. conduzir para casa pela calada os sacos de volfrâmio. Era notório que ambos cortejavam e pretendiam a mesma mulher. negociante de cavalos.Se não pões para aí o anel. Em bandas di lá . capitão de cangaceiros? À data era pessoa importante.declarou o senhor Antoninho Fráguas. prestes a desatar em raios e 170 . hoje agente falido de passaportes. passador de moeda falsa. Vinha-lhe dos tempos em que se prestava a fazer todos os fretes. tanto que apanhou o colega volframista Leónidas Seixas em maus assados. se operara à lufa-lufa. os dedos cheios de anéis. para mais que não para menos. Não era debalde que inculcavam o volframista como homem capaz de mover a vila e a capital do distrito com uma perna às costas. ainda havíamos de ver-ele. para empregar a linguagem duma das testemunhas. do sangue. como o espírito bem lastrado de sadios conceitos quanto à moral e dever de cada um. pilhados à paróquia por mascambilha.os trilhos constitucionais. As testemunhas foram industriadas umas. nenhuma tarefa lhe causava nojo. Ouviram-lhe as ameaças: . não foi dificil ao Fráguas encontrar na terra pobre e explicavelmente venal matéria com que erguer o cobiçado cadafalso. pequena ou grande. como esfaquear um cristão ou assaltar as prisões e libertar um preso.e não o trombeteavam a boca grande e ele próprio para não dar âncoras ao fisco que a sua fortuna botava aos seis mil contos. Apontam-no como matador. Quem o conhecera e quem o via? Levara o melhor dos anos a passar criminosos foraíÍdos pela Portela do Homem. O negócio dos metais tinha-o enriquecido fabulosamente. metia. amanhã empreiteiro de estradas. com loja de armarinho no Piau -. Muita gente admirava-se que assim pusesse ralé em querer sacrificar uma vítima aos manes do morto. forjadas outras a martelo.

Procure o senhor juiz o matador noutra porta. . dar uma versão concordante. não fez mais que referendá-las. que por aqui vem errado. esse monstro verde. que outrem apresentava melhores títulos que o Augusto? Sumariamente. As declarações de Maria Aires. confirmada pelo réu. que se alimenta das próprias entranhas. chamado a confirmar ou desmentir semelhantes provas. . passou ele à minha porta . entrei em casa um migalho antes de bradarem na rua a homem morto e concordo que o Luís Ougado podia ter ouvido os meus passos. Afigurava-se supérfluo procurar algures ou melhor. o seu Augusto entrara em casa pouco depois do anoitecer. não restando melhor recurso do que “sangrar-se em vida”. cuja casa e a da Maria Aires ficava costas com costas.elucidou o Luís Ougado. Sim..Conheço-lhe o chapejar do sapato. . para mais não sair até ser preso. angustiosa. mas pois que houvera um matador e de natureza sentimental.Ouvi o Aires subir precipitadamente a escada. Ninguém tãopouco o acusava de desonestidades. No decorrer das inquirições ficou ainda estabelecido que o Alres era homem tranquilo por temperamento. Deste modo ficava neutralizado o efeito que. pouco antes de gritarem na rua a homem morto. estavam em contradição flagrante com os depoimentos que prestaram não só as demais testemunhas como o filho. convocada pelo juiz por escrúpulo de consciência. isto é. admitia a hipótese.Seriam dez horas.instou o juiz. Alé m de reticentes. Acossada a adoptar tal expediente. mormente daquelas que motivam a alçada judicial. . “zaro Fandinga declarou: . Mas tudo isso não vai além de coincidências.Estou tão certo do que digo como da luz que nos alumia. . uma vez que na carteira do morto fora encontrada intacta a quantia avultada que horas antes lhe confiara o pai para o negócio.Eu também juro o mesmo . a indiciação criminal assentava na palavra das várias testemunhas. Mas semelhantes qualidades não se podiam chamar inibitórias quanto a determinar uma destas crises agudas de ciúme que desfecham no crime. Brás. devia ter sido o móbil imediato do assassínio. traindo não se sabe bem que ideia fixa. Em conclusão: ninguém vira matar. Segundo ela. na frase de Shakespeare. O próprio Augusto Aires. Confirmou-se horas depois com o ostensivo despeito do Aires ao encontrar a namorada a bailar no terreiro com o José Francisco. se bem que reservado. a bem do réu. dir-se-la. como homem esperto. . . e esta versão ia pouco a pouco prevalecendo de todas as mais.Sim. podia resultar do encontro do seu testemunho com o do Ougado e doutros. dado que não tivesse a certeza.Tem a certeza? . Em tal asserto todos os testemunhos eram concordes. de que fora ele o autor do crime. Era intuitivo que a Maria Aires tinha em mente forjar um alibi.corroborou o Reganha. constituíram devido à sua impróvida e ludibriante singeleza o acto de criminação mais grave que foi produzido à barra contra o réu.e o juiz lavrara despacho de pronúncia. àquele. o ciúme.Meça bem a gravidade da sua afirmação. 171 .. e na contraluz que ressaltava da viciação da verdade por Maria Aires .coriscos. viu-se na competição de forças a que se entregaram os dois na manhã do crime quando se tratou de arvorar os estandartes na festa de S. excluído o roubo como causa. Tal era o estribilho do representante do Ministério Público.

nome consagrado no cível mercê do seu saber e experiência em digesto mineiro. com o Minga. proeminente nos tempos utilitários. Tal circunstância cimentara entre os dois uma estima robusta e solidária. O advogado da defesa era dos tais que julgam a prática da justiça incompatível com a chicana e a malignidade. uma minuta a bagatela de cinquenta. Queria Fráguas um criminoso. Defesa que exigisse audiência e a sua mão de papel selado ou em que tivesse de interferir a influência pessoal. persuadidos ambos da sua inocência. Muitas quintas mudaram várias vezes de mão em poucos dias. mas tinha como nenhum colega urna fome devoradora e concomitante gana de ser rico. Para mover o causídico bastaria uma palavra da pobre mã e. convidou o Dr.Severo Bacelar. Ranheta e Facada. com o novo processo passou a residir em Muradais às temporadas.não tivesse ele antes de se formar cursado teologia. coroadas do mais feliz êxito. cego e cínico a bem de tudo o que reporte pecúnia. Teodora Luísa. Surgira no entanto um depoimento desconcertador. causas. Contavam-se a este respeito histórias do mais pícaro descoco. pelo contrário. que manda ao causídico seja faca-de-mato.. por conseguinte. Este Dr. Começou o advogado por requerer a instrução contraditória. Um simples requerimento era cotado entre dez a vinte contos em matéria de honorários. se visava a espórtula alta. Guilherme Calabaz. para serem inquiridas como testemunhas. Retido entretanto na capital por um importante processo em curso. Calabaz . com designar acusador o Dr. O negócio de resto estava bem parado. e nada mais fácil que sacrificar aquele pobre diabo em holocausto ao filho assassinado. com plena aprovação de Franz Hincker. E tratou de cumprir o que julgava uma obrigação. Fráguas havia-o constituído procurador em duas causas de certo tomo. não poderia cobrar para baixo de duzentos contos. Manuel Torres a tomar o patronato do empregado fiel. Mas não se confinava neste ramo da advocacia a sua celebridade. mas os jurisconsultos encarregavam-se a propósito de tudo e de nada de os aligeirar dum capital que lhes caíra do céu em revoo de lotaria e até certo ponto os desconcertava. o Espadagana. Os volframistas ganhavam mundos e fundos. chamavam os codilhados do volfrâmio Cocó. nem mais nem menos rábula que os outros. substabeleceu no filho dum amigo. que o Fráguas assoldadara para remeter o Aires para a Penitenciária. Calabaz. filha de José dos Cambais. e daí para cima. A defesa indicara entre outras pessoas. que era já seu hóspede assíduo. do que empregar toda a ralé em consolidar a culpabilidade do Augusto Aires. Respondeu a família do morto. facha de palha do Antoninho. nem era mais nem menos honesto. À data própria compareceu a mocinha com natural modéstia e trajar quase 172 . cuja pele não lhe merecia mais respeito que a dos cabritos com que o presenteavam os constituintes agradecidos ou mesuradamente cardados. representada por Manuel Minga. ambas elas. mestre em tricas e sem igual no silogismo . novel e talentoso advogado. feito com nobre altivez e um espírito de sacrifício tão abnegado que todo o edifício da acusação ameaçou ruir. Foi um período de vacas gordas esse dos volframistas na fase do comércio livre e na que lhe sucedeu com o apuramento do imposto de guerra. Nada mais natural. para assumir a defesa logo que estivesse livre. Tinham-no por escarmentado em toda a espécie de foro. A eles. Guilherme Calabaz. representava uma escola de advocacia.

por detrás da cadeira. .. .Seria caso novo no direito que o depoimento duma testemunha fosse submetido a tal espécie de verificação respondeu o juiz. a dar-se.. vamos ao que nos tem aqui. Não sei se me fiz compreender. não retirou as palavras que proferiu? . De olhos em terra. não é?.Tenha a bondade. mas tal declaração não é bastante para a natureza da injúria.? toma o partido da desvergonha! O juiz ergueu-se com brusquidão e. susceptível a certos impulsos. eu não quis ofender V..Estou satisfeito. Não lhe ficaram dúvidas. associados às pernas de vitela remetidas sob capucha pelo Zé dos Cambais.a há-de dar licença que me explique. . A certa altura interrompeu: ... confundido. ouviu uma longa. Quando o patético se desvaneceu. e fazia-o com bizarria. no que se refere ao juiz. o baixar vergonhoso dos olhos projectaram luz plena quanto ao seu significado. Há a sua diferença. repare..? .remascou o magistrado. O advogado da acusação percebeu e. em voz estridente de cólera. . 173 .O magistrado aqui desapareceu. ..?. essa mesma tarde deixou de tê-los! Tinha-os por duvidar de mim. Chegou a dizer-se que se deixara seduzir pelos bonitos olhos de Teodora. mas certa reticência em abrir-se.. não respondeu. enrodilhada e nem sempre hábil palinódia.? faz o obséquio de mandar sujeitar esta mulher a um exame médico? . podia tirar gala da natural independência de carácter. Sentou-se o juiz. crescendo para ele. Ex. Tais palavras encerravam muito de sibilino. Retirou.Ciúmes..Esta senhora é testemunha e não parte. acrescentando para o juiz: . ? Não retira.. Deseja mais alguma coisa da testemunha? . mas V.Retiro.Sim senhor. lábios vincados por um sorriso manifestamente desdenhoso. . está bem.. agora pode explicar-se. ainda na zona do aturdimento. desenganadamente exclamara: .Não quis. Exijo uma retractação imediata do que acaba de dizer. não deixou de se mostrar impressionado. pronunciou: .. articulou: . o juiz que era homem novo... Era rico. desvirtuado por outros quanto a trair parcialidade em favor duma das partes.. bem relacionado. Calabaz recuou instintivamente e de pé..E quem me garante que o facto se tenha dado? E. Retira . foi avolumado por uns no sentido da dignidade desafrontada com brio. o arranco com que desatou. não achou melhor que agarrar-se a uma obscenidade pouco generosa.A senhora pode retirar-se. tomo nota.. .Retirei. O incidente. se os tinha. Imediata. Ex.. Fica apenas homem para homem.? A fisionomia do juiz era tal que o Dr. foi na altura em questão. Imóvel. Instada quanto aos motivos de ciúme que pudera ter ocasionado ao Augusto. Ex. a sua deposição faz fé. lábio contra lábio. Mas uma grossa e sincera lágrima sulcou-lhe a face e não foi preciso acrescentar mais palavras.lutuoso. Digo contradita e não prova expressa. um instante surpreso.Está bem. Como tal. mas eu..V. até o momento em que seja infirmada em boa e leal contradita.Compreendo muito bem: V. Ex. e sob este aspecto tem jus ao nosso respeito..Que diz a menina? .

Depois do crime..Os rumores pejorativos lançou-os com uma topetada soberana da cabeça à voragem surda do desprezo. podem julgálo. chamado a comprovar tais assertos. Calabaz e o defensor: . peço-lhe para se nã o confranger e contar tudo tal qual. foi tão discreto que nada adiantou que pudesse ferir o pundonor da namorada. .? É drástico. registemos. toda a verdade. Vossemecê sabe. e seria para admirar que a justiça cometesse um erro tão grave como condenarme. Estou inocente. Maria Aires começou por manter a primeira versão. Ex. Esteja certa que me não compromete. O Augusto conjurou a pobrezinha: . não sabia disfarçar o seu sorriso sardónico. O juiz. tem a causa muito comprometida. com efeito. Tanto assim que minha mãe deu conta e. em proveito ou desproveito deste ou daquele.. se eu a pedir. A infeliz é que se não capacitou das razões do filho. mas pode dar bom resultado. meteu os pés pelas mãos no esforço manifesto de conciliar o que dissera antes com o que sentia agora que era seu mister dizer.O senhor. ficou a ajuizar mal.obra do ciúme .Oh. O meu papel é clarificar o acto criminal. . . mal se percebendo que pedia perdão ao filho de lhe cavar a desgraça por sua má cabeça. como eu não me abri com ela. Requereu o atrapalhado causídico a acareação. Supondo ainda que se tenha de pôr de remissa que foi o ciúme o móbil do crime.. exultante. Manuel Torres em hora de puridade: . A imputação . observou ao substituto do Dr. Devia estar mesmo alterado de parecer. 174 .? . Que necessidade.respondeu Aires com lisura desconcertadora ao que envolvia de comprometimento..Aqui há uma situação que não está bem definida.Entrou em casa debaixo da impressão de que tinha havido morte de homem.Quando entrou em casa sabia pois que tinha havido morte de homem à sua porta. tinha Augusto de matar.E uma acareação entre a mãe e o filho? V.a que se vinculara o crime fora entranhadamente aluída. mais tarde ou mais cedo a luz faz-se.a defere. Por alma de meu pai lhe juro que nada tenho que ver com a morte do José Francisco. todas as presunções recaem sobre o Augusto. afogou-se-lhe a voz e acabou a soluçar. minha mãe. atire o coração para trás das costas e não tenha medo de dizer a verdade. Está convencida que eu é que matei o José Francisco?! Se não está. Embaraçou-se ainda mais. tão enrodilhadas saem as declarações da sua boca. se não consegue anular de qualquer modo o depoimento que prestou a palerma da Maria Aires. se Teodora lhe dera iniludíveis provas de ser o preferido? O réu. O acusador. é arbitrário. . agradecia-lhe que desfigurasse o que se passou. Assim. advertindo para o Dr. limitando-se a responder a todas as instâncias que tinha fé absoluta na palavra dela e na firmeza dos seus sentimentos. depois. apreciando no justo valor o papel da defesa. Se eu estivesse culpado. mas para que se faça cedo é preciso ser franco. Vejamos: o réu regressou a casa no momento do crime. Que factos ou que circunstâncias determinaram essa impressão? Quer explicar-nos. como costuma dizer-se agora. suponho eu .Entrei em casa um pouco debaixo dessa impressão. O juiz interveio.

diga. agarrada às farpas. um homem menos se precata. Sim. e nada. Brás fizera-o com o fim de deitar poeira nos olhos da gente e. . Duma coisa estava certo: o José Francisco ao largar de rópia para S. como dizia.Adiante. porque não restava dúvida que ele e assassino eram uma e a mesma pessoa. A que vinha ali o tipo?. caminhava já para me ir embora quando ouvi certo restolho. e queres-te ir meter onde não és chamado?! Supõe que houve sarrabulho e. . Ia de peito feito. passam-nos cocas pelos olhos... que a sua 175 . lá tenteou o lance.. cometera um acto de cobardia e por isso estava a pagar..Compreende V.. já ia. . Posso mesmo dizer que estava resolvido a apurar quem fosse. Tornei à casa do Cambais pôr a machadinha no seu lugar.Fui na peugada dele. à falta de outrem.” Aqui tem V. sim.. . se não era a manha que lhe ditava todas as partes. de repente. Que circunstâncias influíram no seu ânimo para entrar em casa debaixo da impressão de que acabavam de matar um homem? Percebeu onde quero chegar.a. .Àquela altura é singular? Que bicho foi esse que lhe mordeu. que precisa classificado? O Aires não respondeu e o juiz tornou a repetir: . depois como que o baque dum corpo. arrepiou caminho.É fantástico. cometeu uma cobardia imperdoável. a bem ou a mal. se não acontece meter-seme uma cisma na cabeça.. Fora armar-se. é uma hipótese a encarar.Fiquei hesitante: vou. e depois? . debaixo daquele tecto dormia Teodora. lá viu para onde se meteu. se te perguntassem o que andas a sisar.. Ex. não saberias responder. A alhada não se explicava doutra maneira. a quintã em primeiro lugar tinha-lhe servido de esculca. sem saber explicar como... não vou acudir.ele a mostrar-se e a ir-lhe na cola. te catrafilam a ti. um estadulho do carro do Cambais com marcas de sangue e até com uma manchoquinha de cabelos.Assim que o encapuchado despegou da quintã do Cambais. largueilhe na peugada. Meti por uma quelha. É uma hipótese.. voltei por outra.Que cocas. passos primeiro. de facto. e mais passos. o provável é que tivesse voltado à quintã pelo estadulho.Aires descreveu então a cena que presenciara na noite do crime quando arrastado até à quintã do Cambais por tineta caprichosa. e à distância de dez passos um vulto mal se via negrejar. diga lá? . detrás duns toros de pinheiro.. mas perdi-o. Bem lhe advertira o instinto..Que cisma foi essa... Agora. Os passos ao resto eram de criatura largada. uma vez que tinham encontrado na rua. Supondo que era assim. gemidos. Teriam passado vinte minutos. fechei as portas e fiquei de plantão à esquina. se era verdade ter o Cambais acravelhado as portas. O Aires dobrou a cabeça para o peito e entre soluços reconheceu que. noite fechada. Foi na peugada do homem. Lá o rastejou. .E que fez? .. mas por agora o que nos interessa saber é diferente. achando-se desarmado por qualquer motivo. Quando . Uma vez à espreita ..Porque soubesse de antemão que o homem havia de passar por ali . Estava escuro como breu. O que o noctívago fora fazer avaliava-se. que se apurou serem do morto..? .A cisma foi esta: “andas fora de horas pelos caminhos. Ex. se tanto.

quer de passos. Mande-me para a cadeia que eu é que menti. dóceis à lição. corria perigo. . Era. a partir daquele minuto.. Contra argumento tão óbvio redarguiu o acusador.. cujo sorriso lembrava uma rosa-chá desbotada. Que não gostei de a ver dançar com o José Francisco. Que andava a fazer por fora? . Não sei como. fui como se fosse pelo ar. Mas diga-me: o crime deu-se entre as dez e as dez e meia.. Isto que ele contou parece-lhe exacto? Das profundas da sua dor. passei à banda das minas do Vale das Donas.Não é caso inédito.?. depuseram em conformidade.Meta a mão na consciência e diga a verdade como lhe pede o seu filho. estava à beira do rio. à toa.Olhe. estando como estava uma noite escura. E deitara a fugir desatinado. juiz. até o rio. e fiquei tão contente e fora dos eixos. que possa invocar?. olhe V. a maioria. Sim. em aparte. senhor Dr. Teodora desfez todos os melindres. sem direcção. parece esquisito. . Mas. e sua mãe por mais que se reprimisse tremia como um vime. e acabado por vir às mãos. a fugir como se transportasse alguma coisa que lhe quisessem roubar. escuro fora.Como se explica que. Ex. garantiram solenemente que não deram fé de rumor algum. o que andei a fazer foi a vadiar pelos caminhos. não nego. . O juiz deu por findo o interrogatório depois de instar Maria Aíres: . levar pela marcha. . quer de vozes. senhor juiz.É admissível que tivesse esse relâmpago de premoniçao .. . o mais forte abatendo ferozmente o mais fraco.Não. Tremulante. misturadas com soluços. se não derrubada a teoria de que o Aires assassinara por ciúme.. e mais isto e mais aquilo.Sim. Mas se umas. Nem reparou em nada de especial. Mas ela contou-me como aceitara o convite do homem. não tendo o costume de vaguear sozinho. ouviram-se-lhe estas palavras atribuladas: . por mais fabuloso que se afigure. o advogado de acusação não se demorou em arquitectar outra. embora não soubesse dizer porquê. aquela que levava ali como uma pessoa aconchegada ao peito. Calabaz.felicidade. Lá que cheguei a ter certos zelos. que já é uma hora adiantada para terteolas como Malhadas.proferiu o juiz ao cabo de curta pausa. no número das quais estava a Rosa Pedralva. encarando no Dr. largasse assim pelo escuro. Uma nova inquirição de testemunhas gravitou àvolta deste ponto de vista.. tão feliz da vida. realmente. . que fui. todas as dúvidas que concebera a seu respeito. despi~ cado com o ácido rancor de que são capazes dois rivais. meu senhor. Depo1s voltei para trás.Sim. em choro desfeito. não ter eu hábitos de tresnoitado. não tinha dúvida em aceitá-lo. à primeira vista não menos lógica: de que ele e José Francisco se houvessem encontrado. fui-me deixando levar.. é exacto.. Subira tão ofegante a escada de sua casa que os vizinhos deram conta. eu tinha-me encontrado com Teodora pouco depois de anoitecer. que nada provava que o encontro se não 176 .Não. Terminou aos arquejos. e agora me digo que não fui mais adiante porque a água me tolheu o passo e vim a acordo do lugar onde estava. senhor juiz. a voz de dentro dava-lhe rebate que um tal escarcéu deixara de ser com outros para ser com ele. antes do grito de socorro soltado pelo homem do lampião. . era com ele. estreitada contra a carne.Não encontrou ninguém. é também certo. quando dei conta.

ao agente investido de tal excruciação chamam na linguagem rural o aterrador. por qualquer circunstância. o assunto versado em Malhadas era a morte do José Francisco. despercebido dos vizinhos. era lógica num segundo plano e não valia a pena levar o debate para tão longe. Estava no seu papel.A minha esperança é que mais dia menos dia. talvez mesmo fora da localidade. que redundava num destampatório a que nenhuma espécie de juízo seria capaz de quedar impermeável.A sua culpabilidade assenta apenas sobre presunções. Posso garantir que nós não contribuímos nada para a reviravolta. o alvorecer da verdade.É estranho. Reparou V. . amiga do que é recto como sempre foi. O que não lhe posso levar a mal é que não soubesse dissimular a sua convicção. . Lógicas. Assim. provavelmente por considerar de somenos semelhante tó pico. a verdade é que se a defesa se contentava com a espécie de clarão de inocencia que resplandecia no rosto do Aires e o halo psicológico que se exalava da causa. que era sagaz e requintava na qualidade pela hora crítica em que se via. . O seu antagonista e o juiz sorriram despicientemente.tivesse dado algures. sem ser preciso. a que minha mãe agora já está convencida da minha inocência? Que se passou no seu entendimento. ou oprimido mesmo pela amizade. Ex. e todavia não se impediu de dizer para o constituinte: . Oxalá. 177 . A tal raciocínio faltava lisura. como observara com judiciosa oportunidade o advogado da defesa. Calabaz.O que a habilita agora a acreditar na sua inocência pode muito bem ser um fenómeno precursor. o exame médico-forense. por um acaso. forcejava em expedir de toda a maneira o Aires para a Penitenciária. O advogadozito notou-o. o que se não compadecia com a ideia de conflito ou luta corpo a corpo.. na mira porventura de justificar a grossa espórtula que contava pedir ao volframista. o acusador ardorosa e porfiadamente buscava tapar as brechas por onde ameaçava ruir a arquitectura do corpo de delito. Com tão desabalado acusador acabou por condensar-se à volta de Augusto Aires o que se chama má atmosfera.Muito estranho. Por isso. a anatomia e o jogo do pau.. Fosse como fosse. mas onde está o tribunal que se atreva a condená-lo sem uma verdadeira e insofismável prova? . digamos. não sei. se rasgue a cerração. pressupunha golpe à traição. relegado o volfrâmio para segunda plana ante a tabelização inferior. Com as idas reiteradas à sede da comarca. tendo em vista a sua profundidade e ser situado sobre o occipital. em que depunham Lombroso e Conan Doyle. . se quiser. e ela por sua vez deixou-se possuir desse palpite. reforçando as suas premissas com novos e ousados argumentos.respondeu o preso. De resto. e o cadáver transportado para ali com o propósito de desnortear a justiça. Daí o relativo silêncio em que decorrera o drama. Minha mãe viu-me entrar em casa dominado pelo palpite diabólico de que tinha havido mortede homem e eram muito bem capazes de me apontar como matador. Torres para lhe entregar a pasta. embrenhou-se numa explicação fantástica. que esta causa tira-me o sono e estou morto por que chegue o Dr.Nisso não vou eu muito fiado .

e agarrou-se a ela a ganir e a soluçar. ora empregado no Vale das Donas.. restituo-lhe a importância da chamada.Não percebo o que Vossa Senhoria quer dizer .tartamudeou a mãe. Veio o doutor e. Umas vezes era um homem novo. juras e trejuras. o que ela fez com enjoada e retardativa obediência. antes de a praga do volfrâmio desabar sobre o mundo. bons cem mil reis com que ela teve de explicar-se. adormentando-se com o tóxico de ambas se verem desinfelizes da sorte. apoiados pelos velhos Salorriões da aldeia. que há muitos anos exercia as funções de parteira e se julgava no direito de coscuvilhar em todo o sector de tal actividade. Como a Florinda Pedralva não desse sinal de melhorar. se as tinha. palpou e tornou a palpar-lhe a bacia. E. coitada. . que te mato? Dizes quem é o varrão ou é aqui o teu último dia. . de bigode à Carloto. que noutros tempos. Apertada pela Ana Ruça. que soltava lágrimas gordas como repolhos.É fácil de perceber. ameaçando-a com uma polícia se continuasse a faltar-lhe ao respeito. desmentiu o doutor.Entre dois e três meses vá-me ver. para a auscultar. rufou-lhe no tórax aqui e além com o dedo em martelete. isto é. A própria tia Rosa dobrou a cabeça. confidente de todos os 178 . estimulada pelo romance apaixonado de Teodora. depois de lhe exigir o preço da visita. mandou-lhe que se desapertasse e estendesse ao comprido. e foi como se caíssem as escamas dos olhos de toda a gente. que nunca os noivos ficariam roubados quando lhes fossem a tocar? E tais doestos lhe dirigiu que ele mandou-a calar. em lágrimas. A tia Rosa. outras de meia-idade e com calças de bombazina. a Florinda. Mas uma vez que havia um críanço. e a soluçar para ali ficaram. quem era o autor? Porque lhe escondia ela o nome? Teodora. era o beijinho do rapariguedo. dizendo-lhe com ar meio zombeteiro. Tomara ele assim as filhas. em água celestial. disse para a Rosa Pedralva que a moça não tinha mal nenhum. excomungada. Entretanto dava-se no povo um acontecimento do mais castiço e avantajado melodrama. E. Pediram-lhe sinais. levantando-se. uma vez que fora aos fieitos para deitar na cama da porca. como certas trovoadas. decidiram os parentes.O sucesso transvasara já para as gazetas do distrito e daí para os diários da capital. na cama. perdendo a cor. jurando por todos os santos e santas da Corte Celestial que sua filha continuava pura como quando a deitara ao mundo. A opinião. Caiu ali o Carmo e a Trindade. O Fráguas sentiu-o e procurou activar o andamento do processo. acabou por confessar no meio de choro convulso que um homem das minas abusara dela na serra. Só um tolo não quedaria capacitado que a Florinda estivera a urdir uma fábula com os capítulos principais alinhavados atabalhoadamente.Oh.?? Já sabia que as ameaças e ralhos da mãe se resolviam. meio condoído do desaire: . lançava âncora pelo Aires. que se chamasse o médico. Pulsou-lhe de ouvido colado sobre a camisa o fervor de todos os respiráculos. A mãe arremeteu para ela de tamanco no ar: . depois de muitas negas. montou a cavalo. ora em Muradais. Sua filha está grávida e duma gravidez muito adiantada. porquanto não podia considerar-se a prenhez como enfermidade. Olharam com olhos precavidos para a barriga da moça.. Se até então a sua filha não tiver tido o nené. referências quanto ao violentador e tanto disse como desdisse.

sou capaz de jurar numas Horas que nos achávamos no bom caminho? 179 . toda a sua amizade e mútuo paparicalho voltavam ao que tinham sido. fitando-a muito no fundo dos olhos. carmeadas e romarias. para mais desafortunadas ambas. com reatarem. Cerra-se outra vez a escuridão sobre nós.Jesus. de se quererem bem e derramarem em ternuras quando se encontravam. Uma ocasião ousou avançar a sonda: . E seus olhos de mãe viram ao longe. tempos àquela parte. estava a outra. Teodora fez-se encontrada com Florinda. olha tu. E tanto fez.Quem foi que te enganou. não se sabia bem porquê. tais carinhos prodigalizou à casquivana que ela pouco a pouco foi-se despojando de sua frieza e prevenção. Como era do domínio público. Teodora contou o passo à Maria Aires que disse: . De repente. onde se via uma.. Agora. Florinda? Hás-de-mo dizer que eu guardo segreào. E abriu-se com Maria Aires. a Teodora para o Augusto Aires. ouvi dizer que a audiência está marcada para breve. na esperança de acharem o fio que lhes ajudasse a desenvencilhar a meada em que estrebuchava o Augusto. Se qualquer delas erguia a voz. E logo ela. que não iam lá muito à bola um com o outro. entreluzir aquela pequenina e providencial estrela que nunca falta aos sequiosos de justiça e sonhadores com seu clarão piedoso. deu salto. respondeu como se a tivesse mordido uma víbora: . quase arisca sempre que a conversa descaía na desgraça que lhes batera à porta. com os seus palpites e sobretudo com as suas esperanças. e foram pouco a pouco apartando-se sem deixar. Mas recalcou o desânimo e porfiou. Soubesse-o eu e era capaz de ir matar o carrasco. se não quisesse reconhecer o meu filho. por festas. não deixou de verificar Teodora quanto a amiga se mostrava reservada. todavia. logo a outra acertava o tom. No entanto. estranhou aquela comédia e mistério e notou a singularidade de certos factos que tanto podiam ser naturais como não ser.derriços. a Florinda começou a pender para o Luís Ougado. na noite do entendimento.Soubesse-o eu. Que vai ser do meu filho! E.. Nossa Senhora. E traçaram um plano. A pobre mulher quando a rapariga lhe foi com as suas dúvidas.

Então de que se trata? . que trazia na patrona. Saiu ao patamar o senhor presidente da junta.perguntou o Lázaro Fandinga. adivinhou logo o móbil que os trazia. . podeis fazer cruzes na boca . Foram encontrar a criatura à porta da quintã a carmear.XIII Um sujeito desconhecido apareceu à porta de Silvestre Calhorra.É o senhor Calhorra. E erguendo-se muito guicha. ditada em voz baixa. há-de vir servir de testemunha e arranjar mais duas que sejam competentes. . na saquinha.Raios a partam que está aqui está no inferno! Não querem lá ver que a alma do diabo foi amiga dele?? Queriam desancar a mulher. com uma agilidade que não lhe supunham. o que maravilhou o Fandinga que a um canto se benzeu com a canhota. . Permaneceram assombrados e mudos como se lhes tivesse caído uma faísca aos pés...Então? . deu o recado: . o Calhorra chamou o João Sancho e o Reganha que não eram nada à testadora.A dois passos. Foi preciso que o Silvestre Calhorra os admoestasse. mal os viu. em tamancos e mangas de camisa. chamando-os à razão. De caminho. rolhou o tinteiro. formava cortejo atrás deles.M’amigos. Ela. mas quando chegaram ao destino já a parentela. . a quem. sinal de engulhos. assinou também o notário. de bicicleta. . Vamos lá. chamou o tabelião e as testemunhas para dentro de casa. e pagou. encafuou-c. A espaços as testemunhas pigarreavam. ao passo que dizia para a turbamulta: . não é? Foi o reverendíssimo senhor p. A Polónia foi a primeira a romper o quebranto: . a esganada.. faziam estardalhaço com os tamancos.Essa agora.Uma tal Bárbara Ladeira que deseja assegurar o bem-de-alma. suspenso do guiador. com um livro a espreitar pela abertura do saquitel de lona. Depois. para missas não dispôs nem um real! O padre também ficou a chuchar no dedo. amaldiçoava aquela colondrina e votava a todas as pragas do Egipto o 180 .! . mal aqueles tios saíram de cambulhada com o tabelião. como era lagóia fina. É só pôr a véstia. quando Deus for servido de chamá-la a contas. nem um padre-nosso lhe manda rezar por alma. Estavam com reverencia como quando se ministra um sacramento.Esperem lá fora. . em voz de ladário.E anda com juízo. Sou o notário novo de Tendais.proferiu o Calhorra abanando a cabeça.Mora perto a mulherzinha? . Consolai-vos. avisada pelos alvissareiros e apreensiva como se pode imaginar. fechou o livro. lá assinaram todos. se não deixa o preto no branco. depois de cumprimentar. aqui não há bêberas! O notário improvisou a escrevaninha em cima duma arca. Tenha paciência. claudicantemente foi recebendo a vontade da mulher. Polónia..e Tadeu que me disse para bater à sua porta. e lenta.Deixou tudo ao Antoninho Fráguas que é o fiel testamenteiro. Tem para aí uma familagem mais cainha e derrancada que. Bárbara puxou do pacote de notas.

informavam o senhor Antoninho Fráguas da caprichosa tineta da Ladeira. a Maria Choca e a Cismas cada uma em sua jerica. estrada e caminhos que levam à vila de Orcas iam coalhados de pessoas que. o Carrasco. com urna gente a fugir pelas serras. de que Deus o havia de livrar.) e boa paparoca. O do Aires. era o mais numeroso. o Zé dos Cambais.Mais de duas dúzias.lamuriou a Casimira Urra. Hoje semelhante quantia não é dinheiro.respondeu o Calhorra com a segurança de presidente da junta de Paróquia que mandara afixar os editaís nas portas da igreja. .Leve o quê. os povos incendiados e a soldadesca inimiga de sabre em punho a picar a gente na barriga e na sola dos pés até se lhes prantar para ali o bagu@nh. embora menos luzido que o do Fráguas. . .Sabe-o Deus. E com a voz tomada do vago e do maravilhoso que há na aventura o Fandinga exclamava: 181 . alguns a cavalo.Com o imposto sucessório. e em ranchos consoante o partido e afinidades. transmissão e alcavalas de vária ordem não cabia a cada bico um conto e quinhentos. corriam para a audiência. e assim por diante.Quantos eram os parentes a herdar? . o Sancho. . que nada lhe falte em casa. Coitada. uma hora não era decorrida. . É favor que lhes faço aceitando o legado. Encolheu os ombros. comadre? . Para abreviar a caminhada.Nuns sessenta contos.O que te digo é que vai uma sangueira pelo mundo que as malvas quitam que lhes chova para crescer. Vieram-lhe dizer que em Malhadas e povos limítrofes não se falava doutra coisa e o apodavam de azeiteiro. o Celestino da Maria Choca um relógio de plaqué. . contando que recebera uma roupa nova para jurar falso. A parentela de Bárbara era numerosa e aí perdia a patuleia do Fráguas o contingente mais garabulha e arrifador. de pau argolado o Fandinga e os Urras dum e doutro ramo.inquiriu o Zé dos Cambais. de Mouramorta e localidades convizinhas. A Ana Ruça que se ocupe da criatura. davam à taramela. outra escondida nas minas. acrescido com os trânsfugas do arraial contrário. . hem! .Em quanto avaliam a sorte da mulher? .A guerra. ainda há quem se lembre de mim. Podiam contar-se pelos dedos da mão os que perduravam fiéis: Luís Ougado. . Pois que havia de ser? Tinham da guerra a ideia atávica que se lhes infiltrara no sangue através de gerações e gerações martirizadas. Dois dias andados. o jamboto coveiro. o José Reganha um chafariz à porta.disse Lázaro para o Calhorra. O mais patusco é que o Fandinga lhe denunciava alto e bom som a obra de sapa que empreendera para fazer condenar o assassino do filho. Por ora não há outros ventos . a sua Polónia dinheiro para uma fornada de pão. Muitos a pé.Trancas corridas. Naquele alinhavam em suas éguas rabonas o Calhorra. compadre.ladrão que se ia gozar dos bens que haviam de competir aos seus perdigotinhos pelo direito estabelecido. e dois paparretas sem vergonha e sem camisa.Deus a leve lá por longe . que metia duas camionetas.Então o Governo chamou as praças de há dois e três anos . Soube-se depois que. Andava com uma turma de homens a plantar uma bacelada e ao cabo de breve instante de surpresa proferiu sorrindo: .

vozes ásperas e todo o borbulhar do formigueiro humano. Estava uma manhã clara de sol e pelos caminhos as giestas desfaziam-se em cataratas de flores amarelas. cales da lavagem.lhe a cada passo vestígios da recente mineração. . Também já o rosmaninho erguia ao alto as suas pequemnas piaçabas roxas e aqui e além a umbela da esteva chamava a abelha ainda recolhida. com a água a cintilar como cutelos dos côrnoros para baixo. .Se é para matar.Todo o bicho-careta se pôs a esburacar na terra comentou o Calhorra ante o panorama. começavam a aparecer pelas encostas as pequenas explorações de volfrâmic. . Sobre os desmontes esvoaçava o cartaxo. apodrentava às intempéries. Por modos. botam-se abaixo dos aerop)anos e toca a pôr mão forte em tudo.perguntou a Cismas para o Calhorra. ingleses e alamões haviam de levar quanta mistela cá há . Sobressaía do mato galego. as balas caldeadas com volfro matam melhor e chegam mais longe.Fráguas & C.. abandonadas. senhor compadre? . . e mais nada. . assustadiças. a pedra nova de arranque entre montes de saibro a descorar. tinir de marras nos guilhos. à beira das trincheiras.gemeu a Rira Cismas.disse o Zé dos Cambais. a rabugem vegetal estendia já uma coirama verde e fugidia. Às duas por três.Não faz cá falta. Uma cancela pintada de fresco cheirava ainda a zarcão.trazia o bolso quente doutras empreitadas.a . Estavam ali enterrados uns centenares de contos. Não chegava para os aguços da ferramenta.Para que é? Para matar. Ouvi estar a ler que a guerra agora não se anuncia de véspera. como se unha rascanhasse uma ardósia.O ano não vai mau. não vai mau. Não se viam nuvens no céu e o Calhorra. Arrulhavam as rolas no pináculo dos pinheiros e as calhandras erguiam voo aqui e além. estrondo de tiros. e relampejava entre as pedras a casaca furta-cores dum sardão apavorado. Paredes acabadas de erguer seguravam socalcos agenciados nas vertentes. acima de tudo lavrador. . Na Cabeça de Alva a obra de engenharia. ninguém ia esfossar na terra. Mas à labuta infrene dos meses anteriores. barracas jaziam à mercê de quem vinha arrancar-lhes um braçado de cavacos para fazer fogueira. mas quem os perdera . Em alguns desaterros.acrescentou num lamento. Pelas pequeninas ladeiras.Se alguns perderam as orelhas. sucedera a imobilidade sepulcral. Olhem- 182 . A aldeia dava ares de ter rejuvenescido. a maioria lucrou. a cento e cinquenta escudos o quilograma. A partir de Pedrões. .apoiou Manuel Urra. Passou um arrepio entre eles à voz crocitada.Mesmo com alvará de franquia. . telhados de telha novinha ensanguentavam a onda de verde. . Sarilhos. À medida que desciam a lomba alpestre que mergulha para o rio.Também sou dessa opinião .Assim seja. . deparavam -se. cor de marfim. espraiando olhos às duas bandas da estrada e sentindo os baratais livres do codo e próxima a hora de deitar os feijões à terra.Pois não é ele o mais interessado em que a gente leve vida direita? . Uma noite chega e cresce para ocupar uma nação. alvas. encoiradas da erva primaveril. assim a guerra arrame lá por longe.Nunca vim bem ao fundamento porque é que o Governo deitou um barbilho assim apertado a quem andava neste badanal do volÊro . dizia consoladamente: . ainda que elementar.Ele para que é o volfro.Anjo bento? .

E para os distritos da Guarda e de Vila Real também há que contar.esses calços. se é que não estendia até ali seus ramos a maior e mais decidida instituição de defesa imperial que se for)ara a Inglaterra depois da Home Fleet. Entre as da defesa. E tu. ainda que sobrepondo-se ao empenho notório do seu corretor Antônio Fráguas.E muita morte! . à tenda.me para essas casas novas . Nele a libra esterlina não achara furo e não tinha pejo de confessá-lo. com pequeno intervalo. dois repórteres. Entretanto o debate com dizer. Na sua voz tartaranha.. de moinar pelos quiosques. tudo no seu posto. Sabem quem foi que fez tudo isso? O volfro.E até o fez a vossernecê rico . com sala tão cheia que se abafava. que não disseram nada de novo. Também ele dispunha duma pequena Intelligence Service. Mais ocioso que um burocrata da província apenas um fidalgo também provinciano. outras vezes. uma vez que o carro lhe estava empanne. o que surpreendeu muita gente. de abrir a boca e lançarem olhos assarapantados às criadinhas que vão ao talho. Levado pelo sentimento de justiça. A noite é dos amigos. até destrancarem portas as repartições. de bom grado anuíra a depor em abono do Aires. .Vou dizer que o Antoninho andou pelas portas a ensinar-vos a lição e a prometer-vos peitas. ouvido o réu. Um dos Urras dizia: . novamente indicadas. magro como 183 . articulando um português infernal em despeito de habitar o país havia mais de vinte anos. . rijo e direito como os negrilhos da serra. Manuel Torres. Quase às portas de Orcas passaram pela caravana. na paz dos lençóis. aves estranhas. umas vezes. Dispensada a leitura dos autos. Orcas levantava-se tqrde. mais admirados ficavam. O volfro deu muita vida! . não direi mais nem menos.Que vais tu agora dizer. verdades como punhos.Se fossem para baixo de Viseu.exclamou o Fandinga que gostava da contradição. e não lhe deu resposta.chalaceou o Fandinga. Sabia quanto o Aires era dotado de um carácter íntegro a toda a prova. prestar-lhe de tão boa mente e com o maior desinteresse os serviços de mecânico e que no seu ânimo o facto ficou a pesar como estrondoso obséquio. É certo o Aires. Uma delas interpelou-o: . Luís Ougado. foram aligeirando a jornada. nada mais que solicitado pela pobre mãe acabrunhada. que também fora dado como testernunha de descarga. do concessionário Hincker e engenheiros. e de mister Corbet. O Ougado fitou-o com um olhar de través.. refractário à venalidade.. manténs que foi o Augusto que matou. no rosto uma expressão esverdinhada. ao padeiro. Que sabia ele da vida e costumes do rapaz? Sabia tudo. meu casaca virada? . Falto à verdade? Quanto a mim. Cansado de bater o Tavolado. A audiência abrira à hora precisa. e a manhã está por conta própria. Os serranos fartavam-se de roçar as ombreiras dos Paços do Concelho. causou sensação o inglês mister James Corbet. magistrados. essas encostas salbradas. inquiriram-se as testemunhas. Mudou tudo de pele! . os automóveis do Dr.já chegou à razão com o Dr. advogados. o Fandinga encontrou-se com as tes rem unhas fixes do Antoninho Fráguas. arremedilhos de verdades. Torres para a compra do casal? O Calhorra punha sempre um certo pudor em assoalhar não só grandezas corno acrescentamentos e não se dignou responder. testemunhas..

Dá-me licença que lhe dirija uma pergunta? Serei breve. indiferente a agradar ou a desagradar.gostava que me dissesse deixa de nutrir zelos. quente. senhor. receios. Depois o advogado acusador encetou o seu libelo. . Sim. E o efeito que esperava duma opinião prejudicial para com o réu escapou-lhe de todo. cuío nome não me ocorre. Franz Hincker limitou-se a abonar o bom proceder do réu. As outras testemunhas não trouxeram luz nova à causa. não haja dúvida. desencadeadas pelo mais divino e infernal dos sentimentos? Alguém.Afirma o colega que o réu estava seguro quanto à vontade da moça. não apenas ciúmes. e sempre gentleman. E porque me ufano de conhecer nosso semelhante. começou por puxar o velho cavalo de batalha do foro criminal: a quem aproveitara a morte do José Francisco? . tratado com muita gente. Sem embargo de ser homem provado no foro e matreiro. a sua rectidão. calcorreando com pequena diferenç a o caminho andado na instrução. 184 . se não extinguira o sussurro. Por conseguinte destituída de valor probatório. demonstrando que não ao Aires. a limpar o suor. Eu ter andado as sete partidas. imprevistos cuidados quanto ao objecto da sua paixão.espinafre. já o volantim do meirinho introduzira nova testemunha. Torres.. aliando.Eu ver Aires poucas vezes.de seguro efeito como prelúdio. embora sem patético teatral. discutível. que no dizer do Calhorra não aquentou nem arrefentou a justiça. Ora não são eles que cegam as almas mais diamantinas e armam tantas vezes o braço do mais pacífico? De resto. como é constitucional na sua raça. notou-se que caí ra a fundo um pouco desatinadamente. afirmo e garanto que Aires não matou. certo da vontade de Teodora. Se Aires amava. depois de fazer a síntese das excelentes qualidades do seu constituinte. . toda a casta de bicho-homem. de que perdera a vaza. o encanto dum troveíro à arte de dizer dum contador de histórias.Faz obséquio . . Calabaz interrompendo-o a certa altura. e era de presumir que por simetria psicológica no ânimo dos juízes. amor ao trabalho e culto do dever. isto é. Aires não matou. dir-se-ia. A sua voz era colorida. sem grande inédito. Ainda na sala. sentia-os. Sentou-se. quando é que um homem apaixonado . em face da atitude confiada de Aires e das palavras impressivas do inglês. . não esqueça. mas apreensões. à parte a ressentida deposição do Fandinga e afins com uma vaga história de suborno. conhecer homem.. a afirmação de que o réu não acalentava a menor suspeita quanto à retribuição do seu afecto foi produzida post hoc.anuiu o Dr. chamou a estes zelos fumo de amor. após uma vénia mal esboçada abandonou a audiência. amarguras. Mas ainda nesse caso. mas o bastante para formar juízo seguro a seu respeito.proferiu o Dr. porque seu natural não consentir. senhor! A acusação não ousara instá-lo. Torres. o que mais lhe importaria. inteligente e discretíssimo capataz. Dê-nos de barato que assim era. Aires não podia matar. e o engenheiro Severo Bacelar a desenhar em pequenos e nervosos traços quem era o seu primeiro. quando é que deixa de nutrir zelos e sofrer todo esse assalto de feras. como bosque batido pela rajada. ao verificar a reviravolta que se produzira no público. o seu ricto de odioso e odiando impregnado do palpite de que fora desastrado e. o pescoço a sair dum colarinho de goma de inverosímil altura? declarou voltado para o juiz presidente: .

não lhe ia nada por diante. o ramalhar das vozes foi crescendo como sacudido por desarvorada comoção. Que era.Então quem foi? . . tenho vergonha de o dizer.. .Então. Sempre te quero dizer uma coisa. fica-te o sorriso do menino para te consolar.Para mim o mundo acabou.Sei muito bem quem matou o Zé Francisco.. sir-n. . .. ninguém como nós duas para se entender. pionunciou: 185 . como espadas que a trespassassem.Jesus.. Se mo levarem. gentes? Deixem passar! Naquela mesma manhã do julgamento. A ti. voltavam-se todas as cabeças. mas.Nada mais certo.Neste momento rompeu da teia um burburinho anormal... morro de que se saiba! Teodora ergueu-se com brusquidão.. . . do que pagarem os filhos pelos pais e os justos pelos pecadores. Certas palavras esvoaçavam mais altas: . .Teodora. ouve. se for rapariga. puxando-a com brandura pelo braço e afagando-a: ... . cruzar os braços e deixar que a justiça julgue às cegas quando podia ser guiada. até o coração me estala? Teodora continuava a arquejar cada vez mais violentamente e a desfazer-se em lágrimas. Eu sei quem matou. pergunte-o ao Volfro! Ela. se há gente que sabe e se cala. E cravando olhos duros nos olhos de Florínda.Assim tem empenho em o saber.Ouve. podem condenar um inocente e é uma quebração de alma.observou Florinda. Eu sei como foi. Que dizes.Pois bem hajas tu . ondeava o auditório.Pelo meu filho darei o sangue dos braços.. Teodora entrou em casa de Florinda com olhos roxos a tanto chorar e falou-lhe assim: .Nã o lho digo. se for rapaz há-de chamar-se Augusto. . Tu és infeliz. eu sou infeliz. bem está! Mas que culpa tinham as outras pessoas da família? . é para o castigo ser maior! Nós não andamos a pagar por conta dos nossos primeiros pais? . também te digo. só um monstro. se o meu filho havia de padecer por minha culpa. nem os meninos nem o vivo..? Olhe. jurar falso é grande crime. o homem ficou debaixo duma casticeira ao cortarem-na para fazer traves. o Augusto está inocente.. Vieram-me dizer que a Bárbara esteve há pouco com este aranzel para a tia Ana Ruça: . . e também há outras pessoas que o sabem. outro dia. agora que se desquitou do seu querer. Mas eu hei-de ser madrinha do teu filho e tu por um lado e eu por outro o acautelaremos das horas más.. eu nunca mais serei mulher se me levarem o Augusto. Um dia caiu-lhe o raio em casa.? E desatou a soluçar em tão forte e atribulado choro que Florinda se comoveu. . Mas. menina. se mo levarem..murmurou ela. que ele há-de ser um amor como tu. parece tolinha..Dize lá. comete um pecado que não tem perdão aos olhos de Deus. Teodora. Em Riodades empeceu assim uma família inteira. o meu homem. hirta e de caradura feroz. e não se lhe tira coisa com coisa. que não era....Teodora .. ai Jesus.Deixem passar.respondeu-lhe a outra enternecida. No bom pano urna nódoa cai e nem por isso o pano fica inutilizado. e Florinda tornou..Quero fazer-lhe um enxoval muito bonito. mas aí. Mais bem desventurada sou eu.Se foi o homem que pagou por se ter calado.

O colega não deixaria de notar essa circunstância. com ela albardada sem manta nem xairel. mas também não vejo vantagem.? Acenou afirmativamente e.. .. Com um olhar consultou os colegas e logo inferiu pela expressão de suas físionomias que não viam inconveniente em que se ouvissem as criaturas. desgraçada. ah. como é condenar um inocente. .. abalaram as duas para a vila.. Angelino como eu. gesto esquivo.. Tu és capaz de deixar cometer um crime tão grande. ah. Conhecemos o truque. com medo de que o próprio vento ouvisse. zás. a aduzir um pressuposto facto à sensation. ? O aterrador levantou o cartel: . E tapou logo o rosto às mãos ambas. chegou a casa cobrir o xaile. cego. Mas já. A outra não figura no processo. qual. declinou ao ouvido de Teodora as temíveis palavras reveladoras. depois que a viu resoluta quanto a alijar o horror daquele segredo. Manuel Torres acenou afirmativamente..Franca.logo me dirão se a mulher que a acompanha não envolve um desdobramento .. Chorava. Essa Teodora produziu à altura devida o testemunho que muito bem lhe pareceu. em dispensá-la. Tu vais-te arranjar depressa.Ó mulher.Os guardas não sabem manter a ordem.. mas acudiu-lhe que valia mais formular o quesito segundo a norma: . A priori podemos ajuizar que a anunciada revelação não passa dum drop. Voltando do estonteamento Teodora disse-lhe: . Fazia-se-lhe uma pergunta.perguntou o juiz descendo o sobrolho. quando podes atalhar!? Deus castiga sem pau nem pedra! Castiga-te no teu filho. ah. as lágrimas embargavam-lhe a voz.. tão grande que nem tem perdão. senão está tudo perdido. que era a Verdade encarnada. tanto o Dr. um drop fondant de suspiros românticos e lágrimas à 186 . A partir de certo momento deixou de dizer coisa com coisa.. O Dr. não vês. pois tu sabes a verdade e não a dizes. que sai aleijadinho. E arquejando. Concordámos. para que não resplandecesse a sua vergonha confessa. e o colega decerto está ao corrente. francamente.. para que a amiga a não visse.. pupilas em alvo. Vou-me arranjar. já. Com outro olhar sondou os advogados. . pediu a burra à Casimira e.a querer falar. É singular que apenas neste instante que a prova está feita.. ou o pior dos malvados! Não vês os tristes espelhos pelo mundo.Apareceu agora esta Madalena desdobrada .Quem são as mulheres? .?! Florinda arregalou os olhos espavorida. calçar os sapatos.Se os patronos das partes não vêem inconveniente. apenas neste instante nos venha com o archote aceso. Veio o oficial de diligências direito à mesa e proferiu em tom que se fingia reservado mas soava com nitidez suficiente para ser ouvido nas primeiras filas: .Estão ali duas mulheres que dizem ter uma revelação importante a fazer. O senhor juiz mostrou-se perplexo.Tens de ir dizê-lo ao tribunal.? Que há? bracejava da tribuna o senhor juiz presidente... .. Havia uma dúvida a esclarecer. Esteve um instante imóvel. Consta dos autos. tanto quanto se pode considerar feita com almas rudes que se entrincheiram na negativa e daí não saem nem à mão de Cristo. soluços.Uma delas já foi inquirida e dispensada pelos senhores advogados: é a Teodora.. não veio inconveniente. no mais opressivo desgarre. muito depressa.

Requeiro por conseguinte que sejam ouvidas as mulheres. dispensou Teodora. .retorquiu-lhe com sorriso sarcástico o Dr. Ex.Mariana Cruz com manhas gentis de Frineia. não tivesse rebuço de confessar-se arrependido de haver cedido a um movimento precipitado de compaixão. Mas adiante: é exacto que o Dr. Dá-me licença.Que têm a declarar? Depois duns segundos de turbação Teodora respondeu com voz corajosa e bem timbrada: . Acusar ou ainda defender para levantar o pleno pareceme contrário à mais elementar moral judiciária e sem dúvida alguma ao tópico a que obedece o foro: justiçar. Angelino.chasqueou o advogado de acusação. sem embargo do agreste e obsessivo. Aqui o sal amargo.Realmente a cena parece de Hollywood . como não. olhos baixos.a. a lavradeira de posses. Muito menos roleta. protesto indignadamente contra a insídia com que veio o senhor advogado da acusação. Nunca venho para aqui representar. e o meu parecer é contrário. Penso assim e porque penso assim e estou pronto aqui e em toda a parte a responder pelas minhas opiniões. Quem aspira a tilintar esporas de oiro. que me dizem batedor de montes. ocupado em deliberar à puridade com os colegas. com pessoas de gostos sãos e objectivas. comummente praticaríamos. xaile de seda e saia de merino. 187 .a. lá cozinha-se às vezes ou quase sempre com mau tempero. que se dignou anteceder-me. se continuasse a ocupar este lugar. pertence-lhe a palavra? O senhor Dr. Para mim o pretório não é um teatro. Atrás dela.E. Em nenhuma parte tenho menos medo de tais produtos do que à barra. Torres. proferiu: . Mas bem. Ora essa. senhor juiz? . melhor. Traz a cabeça do criminoso na bandeja? Pois se traz. ar contrafeito mas animoso . cabelo almofadado em tranças para a nuca à antiga moda campesina.Temos filme americano . o juiz ordenou para o oficial de diligências: . na guerra ou no sport. de acordo com S. pelas arrrecadas pomposas e cordão de muitas voltas. Estava mesmo a adivinhar! . e as palanganas da garganta. não vejo vantagem. puxando os punhos de goma. no seu lugar.Mande entrar as mulheres. Abriram-se alas e Teodora apareceu no seu traje meio senhoril. de barriga à boca. Se S. Após brevíssimo aparte. chambre de seda cor de azeitona. Repilo a insinuação e o contubérnio. passo irresoluto e todavia certos ademanes de cascaroleta. Ex. amochava~se Florinda. portanto. Ex.emitiu a defesa. denotando pelo vestir. matou um leão nos matagais da Nave. a vida faz-se aqui. eu não os pratico. Por tudo isto. talentoso quanto novel advogado. para que não subsistam mais dúvidas de que o meu constituinte matou o José Francisco tanto como S. Talvez que. . em face dos processos pouco generosos do seu opositor. Também não o julgo picadeiro. como são os senhores magistrados. O juiz mirou-as com aparente frieza e no silêncio leve e súbito que enchera a sala.uma flor das serras que.a os pratica. repito.Sabemos quem foi o assassino. Calabaz aludiu a truques que todos nós conhecemos e que. vá ganhá-las algures. de ser instada. Teodora pede para voltar à barra e eu não sei para quê. inspirava imediata simpatia. nem desvantagem para o processo em que se ouçam as proponentes. ter-me-ia arrependido. Eu. não tem aplicação.

tratei de cumprir o meu dever. que tivera o casamento emprazado corri ela. Trouxeram-lhe um copo de água.?! Também tu. Demais. . sentindo-se que o seu regalo seria meter-se pelo chão abaixo. de imprecações. Brás tê-lo-ia andado a espiar. Os juizes reconheceram que o incidente só podia ficar encerrado imprimindo-se ao processo o seu verdadeiro rumo. Todos os olhos incidiram sobre o arguido e nada mais que àquele simples conspecto não houve porventura ninguém que não ficasse convicto da sua culpabilidade. Mas já que dizem que fui eu.Excomungada sejas? Tu. não fui. é que causaste a minha desgraça! Mas o oficial de diligências agarrou a rapariga por um braço e levou~a à presença dos juízes. O presidente interpelou-o: . O senhor juiz incitou-a a dizer a verdade e ela em voz tartamuda.É aquele homem? . pelo olhar vago. Pretendera ainda? desenhar um gesto de protestação.. Por isso não o quis mais comigo. O José Francisco a sair a porta e o Ougado. de que havia lembrança naquele tribunal afeito às audiências plácidas e sonolentas. Estão com a lágrima no olho. pelo esmorecimento fisico geral.tornou o )Uiz em rom rosnado. Na noite de S.. senhor juiz. melhor eu não podia desejar. ergueu-se a increpá-la: .Não tem nada a opor? Só então o Ougado se ergueu do assento. Sempre disse que este estupor do Ougado havia de acabar mal. compadre Zé dos Cambais? Também tu. o Ougado sabia que o outro costumava vir ter com ela a casa quando tudo estava sossegado. perdido na fila das testemunhas. O José Francisco era o seu amigo e o Luís Ougado. O público desatara na mais estrepitosa cachoeira de vozes. o que procuraram realizar durante a suspensão. o gajo mandava-te ver a Costa de África.Não fui eu. entretanto.e Teodora apontava para o Luís Ougado. Aires? 188 . Postada à janela vira tudo. pois sim. atinara a descobri-lo. mas fora tão rápido que levara menos tempo do que se gasta a dizer. entrecortada de pausas e suspiros. Os advogados observavam-na com silenciosa curiosidade. O verdadeiro matador entregou-se. não fosse a cachopa.Pois sim. hão-de prová-lo. era já o náufrago que não tenta sequer resistir contra a onda. cambaleante. a dizer num pobre esgar: . só tu. Augusto. Viva o amigo! À sua retaguarda Silvestre Calhorra abanava a cabeça: . de ar sonso e cabisbaixa ao pé de si. Aquilo. de juras. decorria a lastimável peripécia.. Célere e fugaz corno enguia foi o advogado aterrador cumprimentar o Aires: . como se o desgostasse o rumo que tomava a audiência..Felícito-o sincerarnente.Se sabem quem foi o assassino. Reparando em Florinda. Houve que fazer evacuar a sala. descosendo-se da sombra. Eu nada tinha de animosidade pessoal contra si. digam-no? . lívido. O Luís Ougado caía de borco a soluçar. Era preciso vingar o assassinado. contou o seu pobre romance. mas logo no começo da trajectória o braço lhe caiu flácido. O desgraçado fizera-se branco como a morte. Tanto valeu tanger a campainha da ordem como chamar pelo miraculoso padre Santo António. a lançar-se sobre ele de varapau. Na teia. Notaram também os juizes como o homem se tornara farrapo e em seu foro íntimo confluíram ao parecer geral. O mais era a história da sua vergonha.

o que buscava era eximir-se a ser o desopilatório. Promessa assim reticente valeu-lhe logo um cachação despedido à laia de amostra. a Maria Alonsa fitou-o com ar espavorido. ao passo que a fazia retroceder para dentro da cardanha. gemendo: . Dize. junho tórrido e pães lampos.. mal entreviu um lenço vermelho a esvoaçar. eu digo. eu digo. e botou-se lá dum salto. As donas que poderiam ter ficado de portas adentro não seria cómodo desviá-las da caçoila em que grugulejavam as papas para os segadores. o carro a estacar à porta..Dize depressa! Dize lá e largo-te.Ouves ou não ouves. correu-lhe no encalço: . mas solte-me o braço. o Antoninho Fráguas encontrou a casa fechada. Espraiando olhos pelos caminhos e as quintãs. exclamou: . Um vivo sobressalto. amortecendo com sete vozes a um tempo o desagulsado da surpresa. Por muito que batesse com mão rija e frenética.. Tinha-a já agarrada pelo pulso e. E de braço alçado ante secundar o golpe. A moça. eu digo tudo. a porta conservou-se como a janua c(eli para o mau ladrão.. mas largue-me! Há-de-me largar primeiro. largara para a folha.. juro-lho pelas cinco chagas de Cristo. O Antoninho.. queixosa do seu desamor e vesânias. acudiu-lhe que a Maria Alonsa. sabendo que lhe era precisa uma cabeça-de-turco nas suas raivas de fera para não morrer sufocado..Onde está a senhora?. Era como se estivesse diante da casa dum pestífero.. Quem se cria capaz de empunhar a seitoira. Para onde se tinha metido agora toda essa estúpida cambada? Era obra de meia manhã e. senhor Antoninho. não olhes para mim apalermada. cravava-lhe as unhas na massa da carne. tinha a casa da mãj ali perto. a criada de dentro. .. No fervedoiro da ira. rosnava: .Pois sim. o prédio ofereceu-lhe a mesma impenetrável e insólita clausura.Que me quer? . tendo baque de que devia ser ela. e. e a criadagem a precipitar-se ao seu encontro humildosa e alvissareira.Eu digo. não se avistava vivalma. E por 189 . espera que já vais! Ante o seu rompante a criada suspendeu-se com um pé no limiar. Mas dessas vezes. velho de sete fôlegos virou-se para a banda a limpar às costas da manápula também a lágrima. desse lado. obrigada a tendas de campanha e vedetas da Rádio e do Cinema. Conhecedora do seu gênio impetuoso e feroz. acompanhado destas cóleras que lhe faziam retrincar os dentes e toldavam o lume da razão. seladas portas e janelas com os sete chumbos do lazareto. cabeça à retaguarda. desamparando o lar.. Silvestre Caffiorra. A rapariga arquejava e não respondia.Só Teodora estava ao lado grave e serena. Foi pelos quintais e. Aquelas palavras era eloquentes o que basta para certificarem-no de que alguma coisa muito séria se tinha passado. uma lágrima envergonhada... pedir asilo a segundos. outro pé na rua. lhe pregara a partida de ir de lágrima no olho.. o íntimo inundado de febril regozijo. ao largar pela porta das traseiras. De volta durna pescaria às trutas no alto Paiva. 1 gemeu com voz entrecortada. tronco projectado ainda na flexão da fuga. já por duas vezes Solange.. rompera com desabalada sanha a faina das ceifas. Subiu a escada tão de afogadilho que à moça minguou o tempo para calçar as tairocas. presidente da junta de Freguesia.Pscht.? Onde está a senhora? . ó coisinha. se empossou dele.

testade-ferro e alcaiote.e as manápulas do Fráguas erguiam-se e baixavam-se no dorso da rapariga com um ritmo cada vez mais acelerado e violento. Deu-lhe um murro mais forte.Seu malandro? julga que é só armar os outros coronéis! Foi-lhe bem feita. E silvava: .Vai dizê-lo. agora assobie-lhe às botas! O Fráguas ergueu os olhos e na retina baça e parada do Minga.Despacha-te! Dize lá. como não fosse perseguida. certos gestos que pareciam insignificativos e vozes absurdas que lembravam bexigas de porco à dependura. é que alargou a golilha e lhe repetiu com a voz pausada e segura de quem sabe ter a vítima à mercê: . fora ludibriado da maneira mais imprevista e desbragada. leu a insofismável e porca verdade. só depois de mantê-la sufocada por um tempo.Ai. meu estuporinho..Bateu-me. proferiu em voz atrida. que sempre lhe brincava nos lábios grossos. . anda? Vai dizer que fui eu o primeiro que subi à laranjeira. Um instante apenas quedou interdito. o Minga segurou-o. Como uma cadela batida. não dizes. já. o que equivalia à rendição e a uma censura. sem poder mascarar suficienremente a fúria homicida que lhe estuava no sangue. Ela fitou-o em silêncio e abanando a cabeça. Pudera: Faze-te niorto. mas que estivesse aberta. de lhe ver os olhos extravasarem das órbitas e ela a debater-se debalde.. o vago e cínico luaceiro. Não havia que ver. Guilherme Calabaz... também lhe chegou a vez! Foi-lhe bem feita! Ia a arremeter. Mais longe.. mas meu pai e meus irmãos hão-de saber ainda hoje quem foi que me desonrou e é meu amigo! Que tal disseste! Os dois braços do Fráguas desataram a malhar alternativamente como um jogo de dois manguais.. a ver se alguém te acredita? Vai. atirou a pedra: . confidente e amigo íntimo. A 190 .. Pega!.antecipação logo ele lhe aplicou um segundo trompaço. Passo a passo das repetidas e bruscas lucilações do entendimento.? . . dúlcar-te-á o tourf). Uma das mãos dele não fez mais que deslocar-se. a chorar. reconstituiu o rúrbido romance. mas eu seja cega se me fizer abrir a boca? regougou ela. seu procurador. quando se )ulgou a coberto da investida do tigre assanhado. mas deixei correr.repetia ela. Mais.. Pronto.Não digo e não digo! .. com desfrute de permeio.Levou quinze anos a querer persuadir-me que era uma pobre e santa rapariga e que eu não passava ao pé dela dum gabiru de marca maior. Solange rinha fugido com o Dr. a rnoceta retrauteou: . que enristava para ele um focinho de condolência e curiosidade..? Mate-me. a aldeia tinha-se esvaziado para as searas.Há muito que sabia que a senhora era amiga do Calabaz. Então ela rompeu em altos gritos: . Ao Espadagana. a Maria Alonsa largou pela quelha fora. teimosa e convulsionando-se. sob o engulho das lágrimas: . pequenas e grandes ninharias. E escumava: .. que a vergou para a direita.Quem me acode? Quem me acode! Quem lhe havia de acudir? O Fráguas atirara a porta contra a fecheleira.Não.. seguido dum terceiro que a repôs na vertical. Sabia. as comissuras dos lábios arrepanhadas num esgar de dor e decisão. vai! Apareceu o Minga que lha safou das mãos. Ferrando-a pela garganta.? Queres festa? Então pega!. mate-me. associando mil coisas. A distância. disse bamboleando a cabeça: .

revestidas de vidraça Nseautà. Não avistou também o “necessário” em pele de crocodilo. matizada de 191 . mal constou que o senhor Antoninho chegara de fora e a sua bílis negra revulsada. Também ela tresti-ialliara a fugir-lhe aos destemperos do primeiro febrão. quem havia de futurar que tinha perna para tal coice? . o Fráguas. . ó Minga. nariz ao alto a coscuvilhar. o cofre à prova de fogo. Ah. não dava fé que faltasse algum dos bons objectos de sumptuária. espelhos Sr.. mas a verdade é que nunca acreditei. rraste rico e solene. Os escrínios com as jóias. que nos hotéis incutia um sagrado respeito aos groo?iis e embaçava os pelintras. como se a palavra do Mi nga lhe chegasse só então aos ouvidos. é que pronunciou: . onde madame estudava horas e horas o sinalinho do rosto e os cabelos encanudados em mola de sofá. Tinha alfaiado a casa com mobília em contraplacado. mala de viagem tão catita de pregueados e fivelas corno o peito dum general em dia de parada. última moda: grandes superfícies planas.zê-lo. par a par. tanto mais de apetecer que com o refervor da canícula a attnosfera se tornava irrespirável e a pele da gente ficava negra corno se a chamuscasse um incêndio. Tenho que me desagravar. sim.volveu o Fráguas detendo-se no patamar antes de mais nada o que faço é rebentar o canastro aos dois. E não acreditei por várias razões e mais uma: no fundo são todas as mesmas.Tu no meu lugar que fazias-? Sê franco. O Antoninho foi de sila em sala. que é deles? Mais de cem contos que se iam à viola? Com mão já enfadada escancarou as grandes portas duplas do guarda-fato. com aquela carinha de Senhora da Piedade. e a cada passo o surpreendiam agradavelmente as irisações 'fátuas dos vernizes arpejados pela luz.E agora. Mas dize-me lá. Era uma vez a raposa argentée. envolveu-os o ar fresco e hospitaleiro da casa em trevas. aquela bata de organdi amarelo.. Apenas junto das suas pantalonas de smoking. Lá estava o aparelho da Rádio com o seu supedâneo de Mogno. e transformarem-se em catadupa sonora ou arroiozinho melódico. brilhava pela ausência a inala de coiro da Riássia. que valia um par de contos. o vestido de lhama a “estilo” para bailes e teatradas. custoso e Majestático que nem o armário norte-americano dum dentista. grandes como talhas das azeitonas e vistosas como coristas de uma revista de ano. em que uma vez por outra lhe era grato ver o ft)rmiguQiro das notas marinhar processionalmente como lagartas da couve até o esófago musical da máquina. Aberta a porta. Na alcova conjugal. Lá estava a pianola.Pois eu .esta altura não tem mérito algum di . os naples de carneira verde a pedir charutos e negociatas. penduradas de cós para baixo e pernas para cima. e as duas grandes jarras chinesas inade in Gerniany. de olhos no chão e silencioso.. cederam ao leve empuxão. ou falando com os seus botões. A questão toda é caçá-los! O Minga introduziu na fechadura a cliave que a criada de cozinha viera entregar. trazidos na sua jubilação de ricaço. com as diferentes peças todas de cristal e prata. O outro limitou-se a torcer a belceira num gesto de perplexidade. que era costume estarem fechadas a sete chaves. Antonio? Seguiam rua fora.. Por enquanto. linhas rectas. Toda a indumentária rica e preciosa de Solange tinha desaparecido. as gavetas dos toucadores. lentamente. Ao subir a escada. Lá estava a sua secretária de corrediça. o bolero de arminho. Aubin a granel. quase um palco. no quarto das arrumações.

Tão-pouco a quebra de hábitos que vinham de longe. queimado na soledade do sol-pôr. Viragem da fortuna? Puf.azul. Sendo mais novo. outra boca. ele adiante. embora essa sobrepujasse as outras de muito. Do mesmo modo não deitaram grande malícia quando viram os dois sair a porta. figurava de mais idoso. a grande zoina. em linho subtil ou sedas duma brandura de teia de aranha. Calabaz chegara na véspera pouco depois do meio-dia. ninguém estranhou que se fechasse com a senhora durante mais de duas horas. Entretanto a casa animava-se. Só passante um grande migalho é que a Maria Alonsa. como revoada de pardais que sentem o gavião. Outra forma. o que sobremaneira lhe doia era que Solange. comparável à que se evola na espiral de fumo dum cigarro. restavam-lhe dúvidas de que aquilo poderia ser sonho. à 192 . dos tempos difíceis. pois que desmpenhara tal papel. apertando a fronte às mãos ambas. Tudo ia nisto: ser trocado por outro. Um momento se esqueceu e esperou ouvir a chinelinha arrastada de Solange. sentiu certa melancolia. estava explicada. Em face das cómodas. de turbante pela cabeça e saquinho. já tranquilizada de ânimo. encobrideira e correio de notícias. E. Estava explicado o susto com que a moça o vira aproximar e as suas ânsias. a paqueta. já chocalhavam para os lados da copa as risadas de matraca do Espadagana. na qualidade de esposo. rotundamente a favor: a variedade. aquele pelém. e abalarem no H. Ah. outros beijos e abraços. oh! um tudo-nada de melancolia. que deixava filtrar a tíbia de cabra de Solange. um sonho mau?? Não. para lá da crise hidrófoba. ela atrás. despojadas do recheio voluptuoso das roupas de baixo. Sendo bacharel. era uma concreta pouca-vergonha. Conclusão: eram todas as mesmas! A cozinheira chamou para o almoço. lhe preferisse um outro. sopesando a mala de viagem com a direita e o “necessário” de pele de crocodilo com a esquerda. pindérica e lamentosa. Quanto a ela. completando o óleo. debandaram cada um para seu lado. veio anunciar que a senhora partira de vez com o Calabaz e já trazia o processo do divórcio a correr. Veio a cozinheira. pior que uma impigem. deixou-se abismar no maple e um instante prostrado. Só não veio a Maria Alonsa. estava longe de competir com a sua lábia. o abegão.J. pelos vistos. disse mal da sua sorte. quanto a ele. 23-41. pelém por dentro e por fora. tinha dado grandes esteiradas para se ir abaixo com mais uma. o moço da garagem. Quando tal ouviram. era clara como a luz do sol. Entretanto que ficava sozinho. Como eram de grande intimidade as suas relações na casa. Qual. Não eram as excrescências da minotaurização o que mais o incomodava. Vasculhando na consciência. Aqui estava o artigo em que. só se tinham perdido as que caíram no chão! Fráguas despediu o pessoal e encarregou o Minga de aprontar o carro. Nem ainda aquele descambar subitâneo da imperial com o desfalque que o sucesso podia trazer ao seu pecúlio. verificando rodas e a ignição. pôde Fráguas levantar o corpo de delito. lhe era subalterno. escorria mole. Ouvindo a uns e outros os informes voluntários ou arrancados a saca-trapo. fora arvorada em confidente. Mas não tinham culpa: aqueles amorios haviam-lhes passado tão alheios como se fosse na China. Que tinha a mais o Calabaz? Havia de virar-se três vezes de dentro para fora e de fora para dentro até poder concorrer com ele em ralé. e os dixe-medixes que andavam no ar como o zumbido das moscas. Para se tentar duma mulher em tais condiçõ es. A Maria Alonsa é que. havia uma coisa que ele tinha a favor. a criadagem voltava ao redil.

De resto. . Pois então?! A raciocinar assim. Afonso Henriques que conquistou estas terras aos moiros e permitiu que pegassem aqui as estacas donde saíste tu e tua mulher..Por modos foi a D. a quem acontece às vezes os amargos de boca fazerem perder o apetite.desprovida de todo o sex-appeal. não falando na casa. outro para baixo. Cem. Marzoelos a tratar-se duma doença vergonhosa .São menos medidas que saem da patarrega. um ombro para cima. cento e noventa e cinco contos. Contra os seus créditos de primeiro garfo do concelho . Querem vir tomar ares. Se não matam o Zé Francisco. murcha. o rendimento das terras e as raparigas da terra são para as gozarem os que cá estão. pernil caprídeo. uma mancheia de notas por dois chaparrais e uma regada que não rendia quatro carros de centeio. @ Havia de se ter ido embora há mais tempo? . e ainda tinha modo de entremear a santa trincadeira com histórias da vida.disse o Fráguas com um sorriso de desdém. Mas saíra salgado ao cambaio. Juan viera ao faro da bagalhoça. mas só os ares.Se ele não dá os améris ao Aires.Essa agora! . O Silvestre Calhorra sempre ficara com o casal de Malhadas do Dr.meio lombo de porco. uns olhos invulgares em que. . refinadíssimo calabrês!! A cozinheira caprichou em servir-lhe um almocinho delicado. um cabrito assado. Ouvi dizer que o Torres se foi embora com a lágrima no olho. o Calabaz não era aqui visto nem achado. pois que não era discreto falar de corda em casa de enforcado.. consoante a luz.concluiu o Minga em voz de réquiem. Torres tem muita culpa no que me aconteceu. mas sim jogo de monte.beira dos quarenta anos. cento e vinte.. Quanto aos grossos capitais depositados em Banco e investidos em empresas várias. coisas e loisas que contendiam com tudo menos com mulherio. mas que para o labrego do Calhorra era como pérolas a porcos! Um homem de peso que deixa a serra! . Sim. As terras. já ninguém lhe tirava do papo o dinheirão das jóias.. e paguem. é que o salto à dama não fora jogo de amor. mas só enfados”. Tinham lavrado a escritura no dia de trás em Tendais. esvoaçavam asas de colibris ou se viam peixinhos chineses bater com as barbatanas de oiro a água morta dum lago. D. com uma filha casada e um filho homem tanganhão de tal calibre que estava àquela data hospitalizado na casa de saúde do Dr. Margarida que o obrigou a largar o que ela chama “uma parvalheira donde se não tira honra nem proveito. destes que se fazem com temperos genuínos e o sinal-da-cruz para os amachucados da mofina. para ao cabo da gargalhada pronunciar sorumbático: 193 . só bonitos olhos.mal debicou num ou noutro prato. interessante com o pátio e as árvores antigas. e o Antoninho arregaçando os lábios num jeito pessimista pronunciou como em remate do solilóquio interior: . este Dr. O Minga comia por si e por dois iguais a ele. cotados pelo estalão normal. o Aires não se pegava de rixa com o Zé Francisco. como acautelá-los das manobras do rãbula. ah! ah? Até o Fráguas desatou a rir. . picado pelo Tadeu que à última hora lhe dera para o cobiçar. venham.Calabaz?? Calabrês. duas molejas de vitela não requer? am para ele outra companhia além de seis “meninas” do Dão . tens de culpar D. sem peito. Manuel Torres. praticadas à margem do inevitável processo de divórcio? Sabia quanto era fecundo em tricas e audacioso nos meios.

na vizinhança. em casa. homem. irmã zeladora do S. que regressava de Tondela. à última hora dar em droga! ah? ah? . . tem de experimentar os esporões do galo? E lá fora. vê tu. com o bando das titis. 194 . Mas logo por desgraça lhe caíram os olhos na assinatura de Calabaz . Em Tendais já era tudo cheio com a fuga de D. E o pior dos remédios. Era ao entardecer. Vens tu comigo? Lastrou os bolsos e.. grande amador de fotografia. depois de o contemplar com um interesse que não conhecia há muitos anos. o visconde papalino. no justo receio de que a paixão lhe fizesse perder o sentido da direcçã o e atirasse com o carro por uma ribanceira.Qual sossega uns dias!? É para já. ? Deixá-lo? Vou-me à cata deles até os desentocar.Homem. olha com que menino.Sossega uns dias. Manuel.Ora essa. estou roubado! O ladrão sabe tudo. . para a sancadilha. à socapa virou-o de costas. é o que calha@” O Antoninho riu por entre dentes. Aí tens. mais dois dedos de palestra para aqui. A notícia ainda não alastrara.. . seja em que idade for. . será como me der na gana: britá-los ou limitar-me a verificar o adultério.Dás licença que te diga? A mulher e o vidro sempre estão em perigo.Mas. Têm-no de índole. Mas que fosse. Sebastioa. para não dar o espectáculo da dor do cotovelo. Mas consulta que não consulta dum advogado. aquela criatura está avelhada. o tempo foi passando e acharam-se a horas & jantar abancados a um bife de vitela no botequim. mas era um encharcado de perfumes. Guilherme Calabaz e informaram-no que haviam tomado a direcção de Viseu. Solange e do Dr.. não é tanto assim. em poucos minutos. uma mártir S. hei-de dar com eles? . Pensou ainda em telegrafar ao genro. Deixava-Ia para aí ao abandono como uma canastra velha. Peripaterizando de cá para lá. à beira dos quarenta anos uma mulher não é nenhuma flor do rrevo. metia a toda a mecha para Tendais.. e Fráguas achou-se à vontade para pulsar a lei quanto às perspectivas principais que decorriam daquela emergência. sim. Rompeu estrada fora.onde é que os vais desentocar? . que o tirara . informou-o que se cruzara com ele para lá de Sabugosa.. mas desta feita o seu sorriso era amarelo.. encontrava as tuas fúfias. Queixa-te da tua má cabeça. beatas de óculos e albuminúricas. nas famílias das relações. mais outros dois de conferência para acolá a propósito de negócios pendentes ou em curso.e restituiu-o à posição primitiva.A estas horas..J. Depois.Portugal não é grande. carregado de escapulários. Na cidade o H. até quantos botões tenho em cada colete. Não tinha segredos para ele. À velocidade que parecia levar meteria a Santa Comba antes do lusco-fusco.. e à atitude que mais convinha adoptar sob o ponto de vista dos interesses. Estou roubado? Agora só a tiro! E o pior dos remédios? O Antoninho levantou-se. Ele aproveitou.. incapaz de dar um passo sem se aconselhar com o senhor Bispo. há sempre seiva para as borbulhas da leviandade. E volveu ao responsório: . dizes tu. Mas no corpo da mulher. que se tenham ido acolher às profundas do inferno.C. para onde quer que se virasse. descobriu o retrato da esposa na cantoneira e.porque fora ele.J. e desistiu. com o Minga ao volante. 23-41 tinha sido visto à porta duma garagem e um chauffeur de praça. quantas vezes te ouvi: “Galinha que entre cá no poleiro.Mas esta foi bestial. Manuel? Senhora tão compostinha. que sob os pontos de vista da dignidade não pedia conselhos a sua honra.

É noiva do engenheiro Bacelar. segundo o voto do Antoninho..e meteu-lhe à cara uma nota de cem escudos. Ainda me caso outra vez. e a que produziam os líquidos capítosos que ia engorgitando aqui e além. nas horas de grande ternura.Se apanhasse uma rapariga séria e apetitosa. .E tu mais cem escudos suplementares pela diligência. podendo eu “constatar” o adultério..Não tenhas dúvida. ou quando o Demo lhe soprava ralé.Sabes tu quem ma dava toda.Bem. Caramba. tanto mais que eu teria abandonado o lar culposamente. . . não há duas opiniões. se as coisas correrem a favor.. Esta vida são dois sopros. pegava11-ic. O busílis é a prova. Antes das dez estavam no Luso. . que patriotismo? Que pele de maracotão no pescoço e no lábio superior? E que encontros. Em crise. em caso de negativa. o Mínga ao volante. É tu quereres. Para que servem os milhafres de milhafres que tens na gaveta?? . recorreu à gazua infalível: . deambulava 195 .E então. divagando pelos logradoiros públicos das termas. Teriam ali estanciado os pombinhos? O Fráguas desceu e entrou no hall do Grande Hotel.. .. a sossegado. .Disso és tu capaz.Que meta. trazia grao na asa. fica-te muito moni. Naquele dia. . lançaram-se pela estrada de Lisboa a urna velocidade de bólide. Ex. entre os vinte e os vinte e cinco anos. que não fosse bronca de todo e de boa família.O corpo está-me a pedir folia.Esteja V. Espadagana dum raio!? Sempre que o tratava por Espadagana ou cunhado.. de pândega corri as actrizecas de Lisboa. Agora para o meu paladar só frarigas. limitome a mandar verificar o adultério e acabou-se.Saber se não pernoitou a noite passada neste hotel e. Acompanhas-me? . Que o meu quinhão lhe sirva de rosalgar. Foram matar o tempo.a descia então. num ponto já eu assentei-. toda. Corno não era -a primeira vez que o patife do Calabaz e ela viajavam sozinhos e com o meu consentimento. mas folia da fina. O ladrão do Calabaz não deixa de meter a unha.Há muito disso. . . do pontapé que pouco faltou para lhe romper o espinhaço.? ..Para te compensar do tempo que perdes e para as despesas do telefone aqui está. por traumarismo.Mal empregada? Para quem estava boa era para o ego. . meu velho. Mas vamos lá. . vou eu. no Buçaco um casal que chegou das bandas de Santa Comba no carro H. Vê lá tu os alçapões da vida? O que eu precisava era caçá-los com a boca na botija. Meteram gasolina e.Vão ficar reduzidos. Ex.? .Então..Isso é papa fina.. o Antoninho estava sob a acção das duas ebriedades: a que vinha.Dísse-me o advogado que. Espadagana. Cunhado. Dentro de meia hora tem a resposta. . o facto não constitui prova cabal. a pontos que ainda rendia graças ao Criador e ao rna)andro do Calabaz ter-me levado Solange! Quem ma dava toda era a Paula Hincker. Estás a compreender que tens de ser discreto. . o divórcio seria pronunciado a meu favor.Já sabes: para onde fores tu.J. sigo em frente até dar com eles. Perante a desatenção dum dos chasseurs.V. . Saía gente das inúmeras pensões e hotéis ou entrava. . 23-41.

hem?? O Fráguas só acordou na meia manhã. Bom almoço e cavaco ameno. reconfortou-se. A Alemanha caprichava em realçar o seu carácter de mantenedora da cultura. Depois do julgamento em Orcas ficara de candeías às avessas com James Corbet e realizara com Hincker transacções de certo tomo. tudo integralmente soberbo. podia. um corpo sinfónico de sumidades. depois da meia-noite.J. E. Rua fora.pelos caminhos a tomar o fresco. 23-41. 196 . O Minga piscou o olho ao amigo. manda-nos preparar dois quartos.. cais como os peregrinos de Bayreuth. Se o desejasse. digno da nação organizadora por excelência. Animais com aqueles dentes renunciam a tudo menos a comer. reluzente de cromados.Pois telefona para a Curia. Nunca se sentira tão isolado no mundo. namoriscava. e Fráguas ofereceu a sua mesa. o que lhes fez atrasar a viagem. para quem nada de nada neste mundo deixava de ter a sua ponrinha de intencional. fosse este intencional obra de Deus ou do Diabo. de Norte a Sul. ainda e sempre fora de si. corno é tarde. 2341. S. Hincker com a filha iam a Lisboa assistir à representação de Tristão e Isolda que essa mesma noite a Staatsoper Berfin e a Berfiner Philldrmonches Orchester davam em S. aerodinâmico do último estilo. Entre duas fumaças. Carlos. surgiu uma garrafa de Moêt et Chandon e Hincker ficou penhorado com a bizarria.. e o Fráguas experimentou a mais alterosa das invejas. balouçava-se nos terraços em cadeiras de verga. os devotos de Wagner. sem exigências mentais. Desceram Hincker e Paulinha. E o estribilho subia-lhe aos lábios como num realejo: Vê lá tu. Afinal. olha. Ele próprio percorreu as garagens todas da Baixa que conhecia de cor e salteado. satisfeita consigo e com a vida ou assim o dava a entender. apanhar uma mesa devoluta. comprimindo-se ele e o Minga para unia ponta. Dois quartos ou preferivelmente um quarto com duas camas. Tal representação fora trombeteada aos quatro ventos como um acontecimento excepcional. Era a sazão das festas da cidade e custou-lhes. cenários e indumentária do maior requinte. Ninguém lhe soube dar razão do automóvel H. talvez tivesse cortado para a Curia. . dar assim um chuto na vergonha. estavam no admirável jubiléu da papança. caminhavam para a capital.. em rimeira fila o elemento alemão. telefonava-se para a Curia. encontravam-se os dois compadres de cigarro aceso. mas já ele se precipitava a oferecer os serviços. na outra a pistola. Fráguas. Ia para os cinemas. marchava aos cotovelões deste e daquele. À sobremesa. como em dado momento palpasse numa das algibeiras as dezenas de contos com que se munira. Não havia lugares vagos no restaurante. Mas. uma não quebra-utn-prato.. com enviar ao país neutro uma embaixada de arte de primeira: cantores de renome universal.J. um automóvel rico. teleforia para toda a parte. não obstante a companhia do Manuel Minga. cabeça na travesseira. trocando impressóes sobre as trabuzanas que o Diabo tece. recusando-se no fundo a aceitar o labéu que acabava de esparrinhar sobre a sua pessoa. uma boa-serás.a estar absolutamente certo e garantido. a meia voz. E. parou em frente. Chegaram a Coimbra um pouco antes do meio-dia. Espadagana. Ouviste? O Fráguas tinha medo de ficar sozinho corri os seus cuidados e. Agora. Aceitaram. a voz confidente da barriga cheia. embora em guerra. tendo recebido resposta negativa da Curia. Que temia? Em nenhuma garagern do Luso nem do Buçaco fora recolhido o H. Ex.

Fráguas. catrapus. O senhor é novo. à minha direita vão pelos ares dois gasómetros. para quem estas coisas se passavam no mais trivial e benigno dos mundos. em que o aviador descrevia o bombardeamento da capital do Reino Unido. que por vezes crepitam contra as paredes da barquinha como o granizo nas vidraças. contou o “sarilho” corri a mulher. que teimara em ir alistar-se na Luftwaffe e lá andava num Heinkel III. & Severo Bacelar. declarou: . senhor Fráguas? Hesitou o volframista na resposta. as praças gânglios absurdos. ao lado dele o Fráguas. semieixo partido. de dia e de noite. de centenas de metros de altura. negra ali. Era como o descrigelhar dum odre quando lhe deitam vinho. deixando apenas o espaço que basta para não aspirar os gases do escape. Quando falou em desagravar-se. dado que em Coimbra se pudesse encontrar a peça sobresselente. Ouvi lá para a sua aldeia um provérbio que diz: Mordedura de cao cura-se com o pêlo do mesmo cão. O céu. João. o que não espantou nada o estrangeiro. lembra uma estrada.Não é para a capital que se dirige. Tudo o mais é Idade Média. As docas Royal Albert. Havia lugar para os dois sem sacrifício de nenhuma espécie. nas acrobacias mais consentâneas com a posição. Romperam. Fráguas apenas fixou períodos salteados e sem verdadeira conexão: “. Carlos. Tinham sido prazenteira companhia ao almoço. Para lá de Condeixa. o automóvel de Hincker teve uma derrapagem monstra. a City é como a Alfama em noite de S. O rio. Hincker sorriu: . Por toda a parte se erguem incendios e lumaréus. a engasgar-se nas talas de goma dos colarinhos altos. O Minga continuou ao volante. E Franz Hincker puxou duma carta. onde os transatlânticos não são maiores que brinquedos de menino. O Antoninho Fráguas coçou a barba regalado ao golpe de ar fresco que varria sua alma conturbada. que o Antoninho tinha pelo símbolo duma Grã-Bretanha desmesurada. requeria vagar. Trate de aplicar a rece Ira. o Fráguas logo após.. De olhos em Paulinha. Em baixo. senhor Fráguas. Não houve danos pessoais. Victoria e East India sobrenadam no gigantesco mar de chamas. São dois fantásticos ramalhetes de fogo.Hoje esses métodos já se não usam.imaginando que ia relatar um grande drama. por cima. deliberadamente. amassado 197 . Depois. depois. está picado de estrelas. é para a capital. ganhando ousio. do Calhorra. Não puderam recusar. a todo o longo. está a tempo de refazer a vida. verde aqui. De nada servem as nossas granadas iluminantes. invocando o contratempo que seria perderem a récita em S. a estudar-lhe o jogo fisionómico. pelos lados. torcendo-se à retaguarda. novo paladino do S. choque da roda contra a guarda de pedra da berma.. mas o conserto. e nelas os vãos rectangulares dos portais sobressaem desenhados a negro.Sim. do Tadeu. Depois a fumareda ou a velocidade varrem do horizonte a zona dos cais. São as balas da defesa antiaérea. É o conselho que lhe dou sem mo ter pedido. e nós temos a impressão que estendendo um pouco o braço lhes poderíamos tocar. praças e ruas. de princípio muito hirto e solene no seu posto de senhor que ofereceu hospitalidade. Graal. como uma valquíria. do inglês Corbet. As ruas parecem delgados cordéis. iriam de caravana por ali abaixo. Hincker à frente. Falaram de conhecidos e de pessoas sabidas. ofereceu o seu carro. e tudo se ilumina à volta. . O espaço é vergastado. ensanguentada além.

e sempre hoje. Que importava de resto e dia de amanhã?? A vida era hoje. 1943. e vogamos num oceano irreal. cabelos grisalhos. O demónio de tal longitude que viesse! Paulinha ia nos dezoito anos: quando chegasse aos vinte e cinco. Àquela hora a ReichsRundfunk. Na marcha rápida do carro. do Piauí.Terrível e épico! .Beethoven . era o dinheiro. Cruz Quebrada. Estava. com ossatura de ferro e músculos de jaguar. Ainda era homem. Paulinha não dera sinal de emoção alguma. Por causa daquele. sem favor.. e o mundo continuava a rolar como dantes. mesmo debaixo das bombas das Fortalezas Voadoras. A Fráguas a mensagem do herói pareceu tola.. 198 . Quando botasse aos trinta. o mundo perecível e detestando desapareceu.proferiu Hincker dobrando a carta com solenidade e metendo-a na carteira. depoís o opróbrio. Que música era aquela? . Gozar o festim da carne tenra. estava ele nos cinquenta. São os fachos dos holofotes... Bah. A sua absoluta vontade era ainda a realidade apreciável.Terrível? . não era diferença que lhe metesse medo. .por verdadeiros batedores de luz de todas as cores. moscada. no meio-dia.Sonata a Kreutzer. de olhos sempre em Paulinha. como dizia um augusto sibarita.murmurou Fráguas. a morte macaca. Milhares de milhares de gajos análogos a atirar bombas ou ideias. corpos e almas. fazia estas considerações amenas e outras decorrentes. Abriu o comutador da Rádio sobre Berlim. . teria cinquenta e cinco. dois anos. um ano que fosse.” . embalado pelos acordes divinos. como dizia o compadre. cinco. Quem o governava.disse Paulinha. nunca mais se levantariam os padeiros à meianoite. pretensiosa e sem consequências. que importância tinha à face da eternidade?. mas.. E de facto. o dilúvio. Tinha quarenta e três anos. Ficava só paraíso. ho)e. Hurra pelo ladrão que o inventou. Deus escrevia direito por linhas tortas. na melhor da probabilidades. daquela vitelinha loira. Meio tombado sobre a ilharga de modo a ouvir Hincker e a divisar Paula. inundava o mundo de melodia.

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