Lídia da Silva

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Capítulo

Língua Brasileira de Sinais – Libras
Lídia da Silva

Curitiba 2010

164 p.: il. – Curitiba: Editora Fael. Lídia da S586l Língua Brasileira de Sinais – Libras/ Lídia da Silva. Bibliotecária – Cleide Cavalcanti Albuquerque CRB9/1424 Silva. I. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael. FAEL Diretor Acadêmico Diretor Administrativo-Financeiro Coordenadora do Núcleo de Educação a Distância Coordenadora do Curso de Pedagogia EaD Secretária Geral Osíris Manne Bastos Cássio da Silveira Carneiro Vívian de Camargo Bastos Ana Cristina Gipiela Pienta Dirlei Werle Fávaro SiStEmA EDuCACioNAL EADCoN Diretor Executivo Diretores Administrativo-Financeiros Diretora de operações Diretor de ti Coordenadora Geral Julián Rizo Armando Sakata Júlio César Algeri Cristiane Andrea Strenske Juarez Poletto Dinamara Pereira Machado EDitorA FAEL Coordenador Editorial Edição Projeto Gráfico e Capa ilustração da Capa Diagramação ilustrações William Marlos da Costa Thaisa Socher Denise Pires Pierin Cristian Crescencio Ana Lúcia Ehler Rodrigues Dilmar Kempner Júnior . Educação inclusiva 2.9 Direitos desta edição reservados à Fael. CDD 371.Ficha Catalográfica elaborada pela Fael. Nota: conforme Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Libras. 1. 2010. Título.

.Ao Ronaldo Quirino. que me indicou este caminho. intérprete de Libras.

.

visando promover a comunicação entre as pessoas.. Os alunos desses cursos precisam aprofundar não apenas o conhecimento da língua de sinais. são vistos os surdos. Antes do Decreto n. A aprendizagem da língua precisa estar dentro de um contexto organizado. que exige deles uma atuação esclarecida e interessada. A aprendizagem de Libras é lei em muitos cursos. em geral. Hoje muita coisa mudou. que reflete muitas pesquisas recentes na área.262/2002. mas conhecer o porquê de a língua ser um direito na educação dos surdos. apresentação . como as associações de surdos. sempre divulgavam cursos de Libras. que permita diminuir o preconceito com que. as entidades da comunidade surda. Os assuntos são apresentados de uma forma clara. A professora Lídia da Silva conseguiu abordar os mais importantes conteúdos necessários ao entendimento dos desafios colocados aos professores pela mudança implantada na educação dos surdos. é crucial e precisa se concretizar. 5. de uma maneira informal e nada padronizada. e atuar de forma a fazer avançar as condições de acolhimento na escola e na família. as igrejas.apresentação A produção de textos para a disciplina de Língua Brasileira de Sinais – Libras. nos cursos de Pedagogia. a Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. a história e as lutas do povo surdo pelo reconhecimento de sua língua. Professores esclarecidos quanto à complexa realidade da criança surda poderão trabalhar dispensando o carinho merecido a essas crianças. sem diminuir os conteúdos necessários. etc.

mesmo entre a maioria dos professores.apresentação apresentação Esses avanços são necessários para que se concretize uma real inclusão na sociedade e a diminuição dos preconceitos existentes. Atua como coordenadora geral do curso de Letras-Libras e como professora adjunta da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). informática e escrita de língua de sinais. língua de sinais. . Orienta pesquisas na pós-graduação em Linguística e tem experiência na área de educação de surdos. Marianne Rossi Stumpf* * Doutora em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

oirámus
Prefácio.........................................................................................9

sumário

1 2 3

Status linguístico da Libras ........................................................11
Estrutura gramatical da Libras ..................................................41 Implicações sociais da surdez .................................................127 Referências...............................................................................161

oicáferp
Q

Capítulo

prefácio
9

uando nos deparamos com uma pessoa surda pela primeira vez, algo acontece que faz deste encontro um momento único e singular em nossas vidas. Para alguns, esse momento vai significar o confronto com suas dificuldades e limites, que ficará apenas na memória. Para outros, esse momento vai significar uma mudança de vida, devido a uma tomada de decisão quanto às questões relacionadas à surdez e à língua de sinais. Uma tomada de decisão que implica na proximidade com a pessoa surda e sua língua. No meu caso, o efeito do encontro foi o segundo. Diante de um primeiro contato com uma pessoa surda, fui tomada pelo desejo de me desafiar e de tentar uma aproximação com ela, ainda que isso exigisse muito esforço e dedicação, pois o processo de aprendizagem de uma segunda língua não é uma atividade das mais fáceis da nossa vida. A entrada nessa nova esfera linguística me motivou a buscar cada vez mais conhecimento sobre a Libras e suas implicações para os sujeitos surdos, e esta busca foi determinante na minha formação acadêmica e profissional. Hoje sou pesquisadora, usuária, tradutora e professora de língua de sinais, e me deparo todos os dias com os desafios que uma língua espaço-visual impõe às pessoas que são falantes nativas de uma língua oral-auditiva. Porém, além dos desafios, me deparo também com a beleza, com a completude, com a satisfação de poder estabelecer comunicação por meio das mãos, dos olhos, do corpo, dos sinais. Assim se constituiu minha busca, e assim espero que se constitua a leitura deste livro aos leitores: descobertas recheadas de desafios e encantamentos.

esclarecer a constituição dos aspectos fonológicos. sintáticos e semânticos da Libras. Além disso. é claro. É preciso que tenhamos esse encantamento para podermos. e de não mais creditar como verdade as falácias sociais ditas sobre ela até então. morfológicos. A autora. que o leitor possa – após receber esta introdução – percorrer caminhos mais longos no conhecimento da estrutura gramatical da Libras. Atua como orientadora de aprendizagem no curso de Letras-Libras e é tradutora de Libras da Universidade Positivo. no seu valor e nas suas possibilidades comunicativas. Com esse olhar de diferença linguística. mas sempre destacamos que eles – os surdos – também devem ter voz neste processo. de alguma forma. Até porque. espero que esse desafio soe como um convite a uma leitura mais aprofundada sobre o tema. torna-se mais fácil conceber a ideia de uma pessoa viver apenas com experiências visuais e assim construir toda sua impressão sobre o mundo.10 oicáferp prefácio Julgo que os principais desafios que se encontram neste texto são de ordem mais gramatical. já que é uma tarefa árdua esboçar graficamente os detalhes de uma língua “espacial-tridimensional”. . contribuir com as discussões sobre os surdos e sua língua.* * Lídia da Silva é mestre em Linguística. minimamente. sem esgotá-los. acredito que o leitor será tomado de encantamento ao se deparar com o status linguístico da Libras. Minha expectativa é conseguir. é que gera condições de entender as implicações sociais da surdez. Esse encantamento pela Libras. no sentido de poder empregar a característica de “língua” a esta forma de comunicação.

por exemplo. as marcas para formalidade e informalidade. este texto se insere nessas discussões por acreditar que a Libras possui os mesmos valores linguísticos que as línguas orais. tais como aquisição da linguagem e estrutura gramatical das línguas naturais. e outros. da Libras. portanto. o texto apresenta os universais “comprobatórios” da natureza linguística da Libras. Vamos abordar algumas definições preliminares e algumas discussões sobre as mudanças das terminologias na área da surdez. Há. o caso de empréstimos de outra língua – fenômeno recorrente nos sistemas linguísticos. atentaremos para a forma de nomeação da pessoa surda e da sua língua. Assim. Dessa forma. Por princípios. a teoria entende características iguais entre os idiomas – predominantemente. sobre a teoria inatista de Chomsky. tem sido muito comum as pessoas se depararem com outras conversando de um modo muito diferente do que estão . Definições preliminares Atualmente. Trataremos. de forma mais pormenorizada. Essa teoria atesta que princípios e parâmetros imperam na constituição de todas as línguas do mundo. bem como o refutamento aos mitos sociais que até então circundavam a concepção que se tinha sobre ela. Nesse ponto. porém.Status linguístico da Libras N 1 11 este primeiro capítulo. pois ela embasa nossas considerações acerca dos fenômenos linguísticos explanados. parâmetros que a distinguem das línguas orais. apresentaremos uma introdução das ideias que serão desenvolvidas posteriormente. a estrutura sintática – enquanto que os parâmetros são as diferenças que existem entre eles – as categorias gramaticais. como a modalidade linguística espaço-visual.

Esse tipo de concepção e. como as pessoas que ouvem. que entendia que o método de ensino mais adequado aos surdos seria a oralização. Prova disso é a própria dificuldade terminológica. Ser uma pessoa oralizada significa desenvolver sua fala por meio da vocalização dos sons. Quando isso ocorre. tratamento de reabilitação. começam os rumores de uma nova filosofia social e educacional: a inclusão. surge um sentimento de estranhamento. no início do ano 2000. Havia uma exclusão escancarada não só com essas pessoas. mas com qualquer uma que apresentasse alguma limitação física ou sensorial. em 1880. FAEL 12 . o trabalho era de: recuperação auditiva. Porém. aquilo vai se tornando comum. para então estar integrada à sociedade. Houve uma época (século XV) em que as pessoas que não podiam ouvir eram atiradas do alto dos rochedos. que aconteceu em Milão. Não fosse assim. mas com o passar do tempo esse sentimento se desfaz e dá lugar a uma impressão de normalidade. prevaleceu por muito tempo. Nessa perspectiva. consequentemente. a forma como nos dirigimos à pessoa revela o valor que damos a ela. exercícios mecânicos. sendo considerada improdutiva para a sociedade. Porém. Depois. mesmo havendo um novo paradigma social emergindo. nem sempre foi assim. o modo como nos reportamos aos outros quer dizer alguma coisa. À medida que estas pessoas vão se mostrando à sociedade. De fato. a sociedade decide que as pessoas que não ouvem devem ser oralizadas. O professor era mero treinador de fonemas e o aluno deveria empreender todos os esforços possíveis para realizar uma boa leitura labial. ainda que não pudesse ouvir sua própria voz. não apenas as pessoas que não ouvem passam a se integrar e emprenhar esforço para tornarem-se normais. este método de ensino chamado oralismo. a integração foi a concepção adotada. A integração é a fase que compreende a concepção e a prática da pessoa com deficiência a partir de um esforço adaptativo apenas de sua parte. os vocativos e os pronomes de tratamento.Língua Brasileira de Sinais – Libras acostumadas a ver. especialmente depois da decisão do II Congresso Internacional sobre Instrução de Surdos. Normalmente. não existiriam os títulos. num primeiro momento. mais aceitável a sua forma de expressão passa a ser. pois elas não eram consideradas humanas. Nesse sentido. Porém. como devemos nos referir a tais pessoas? Certamente. Após esse período. infelizmente. mas há um duplo envolvimento: por parte deles e por parte da sociedade. vem impresso de significado. no sentido de que ela deve se adequar aos moldes padrões. ainda há contradições manifestadas nas práticas.

aceito. ainda que os fonemas sejam desorganizados por falta do feedback auditivo. Então. estamos invocando aquilo que ela não tem. emitir sons. É o caso do termo “deficiente auditivo” ou “d. Quando usamos esse termo para nos referir a uma pessoa. aliás. além de pejora. financeira. Conceitualmente. e isto propiciou um olhar antropológico e cultural sobre a surdez. os surdos são deficientes auditivos para aquelas pessoas que os enxergam com uma visão clínico-terapêutica. não estão em sintonia com o que já é socialmente Verifique em <http://www. falar não significa vocalizar. consequentemente.626 (BRASIL.Há um slogan propagado pela Federação Nadinho”. estamos destacando o que há de ausente naquela pessoa.cional de Educação e Integração de Surdos que diz: SURDO-MUDO. dizer surdo-mudo é duplamente incorreto. somos apenas mais uma figura no cenário da diversidade social – racial. a condição de não ouvir. porque existem muitos surdos que têm domínio da língua oral e que se comunicam também com sons da voz. segundo o Decreto n. não há necessidade de inserção das pessoas. mas expressar a sua língua. sexual. surdos-mudos para aqueles que não sabem que eles falam. está falando. Então. anula a necessidade de reabilitação para integração. pois todos já fazem parte da sociedade.org. Esse olhar para o surdo como uma pessoa diferente acaba com a concepção de deficiente auditivo – anteriormente impregnada nos meios sociais e educacionais – e. Depois. não estamos vendo-a como pessoa. Com o acelerar da recepção de informações. 2005). de gênero. Capítulo I.Capítulo 1 No caso das pessoas que não podem ouvir.a.”. aquilo que lhe é deficiente. para aqueles que os olham Língua Brasileira de Sinais – Libras 13 . política. mas a informação que mais nos importa é sua patologia e/ou sua condição clínica. ele está pronunciando-se na sua língua. etc. e.br>. pois. religiosa. parágrafo único. 5. apague esta ideia! tivos. De acordo com essa concepção de diferença (ao invés de deficiência). a sociedade progride e tem sua visão alterada. há algumas alternativas de tratamento que podem denotar a consideração social a respeito de sua condição. Primeiro. Foi a partir da década de 90 do século XX que inauguraram algumas pesquisas no país sobre a língua de sinais. também Saiba mais deixam de ser válidos termos como “surdo-mudo” ou “mu. porque quando o surdo está sinalizando. Artigo 2º. Nesse sentido.feneis.

Contrariamente. por exemplo. É o caso. as pessoas que têm a capacidade de ouvir são chamadas de ouvintes. de quando os surdos chegam a estabelecimentos comerciais. Surdo Ouvinte 14 Os surdos conversam com as mãos.Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitando sua diversidade linguística. a partir de agora. poucas são as pessoas que reconhecem o que significam tantos movimentos e tantas sinalizações. porque ele remete a um posicionamento político de respeito ao sujeito como um ser social. usaremos o termo “surdo”. De fato. para nos referirmos a essas pessoas neste texto. e não com uma visão clínica ou patológica. por meio do estabelecimento de uma comunicação visual. Portanto. falante da língua de sinais. a órgãos públicos ou privados e fazem este sinal: Oi FAEL . são apenas: surdos.

tentam falar mais lentamente ou buscam um papel para escrever.Capítulo 1 As pessoas não sabem o que isso significa e. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Porém. na maioria das vezes. o desejável seria que essas pessoas pudessem responder da mesma forma. com os sinais da Libras. na esperança de conseguir estabelecer uma comunicação. conforme exposto a seguir: Tudo bem? Qual é seu nome? Qual é o seu sinal?1 Bom dia 15 Boa tarde Boa noite 1 Os surdos dão um sinal para cada pessoa e não as chamam pelo nome. ou seja.

mas da própria nomeação desta modalidade linguística. que as pessoas a chamam de “linguagem de sinais”. nos Estados Unidos. Porém. Essa aquisição é possível devido ao fato de as crianças possuírem um conhecimento linguístico inato que as guia por esse processo. pesquisadores que são adeptos a concepções sociais e há outros que procuram abordagens mais naturalísticas para formular suas concepções. assim também como independe da cultura. E o que vem a ser modalidade linguística? É a forma como a língua se manifesta. enquanto que a sinalizada tem a característica de ser espaço-visual. Isso significa que o espaço (lugar a frente do corpo) é o canal de emissão e a visão é o canal receptor da mensagem. do Massachusetts Institute of Techonology – MIT. infelizmente. há pesquisadores que são mais adeptos aos postulados teóricos de Chomsky (1957). Trata-se da teoria gerativa. por exemplo. Para ele. e que escolhemos para construir nosso aporte conceitual. as crianças já nascem equipadas com vários aspectos relacionados à organização sintática das línguas humanas que FAEL . mas. Há outras que a chamam de “gestos” e há. a língua de sinais tem modalidade espaço-visual. Segundo essa teoria. basicamente. o processo de adquirir a estrutura de uma língua natural é universal. Tais ideias deram origem à teoria que vigora até o presente. vemos que o desconhecimento sobre essa modalidade linguística é tanto. e a faz sob diferentes perspectivas teóricas. por ora. três modalidades das línguas naturais: língua falada. A língua falada é conhecida por possuir uma característica oral e auditiva. pois independe da qualidade interativa que se estabelece com a criança. esses e outros tantos sinais necessários à comunicação com surdos são desconhecidos pela população ouvinte. destituem do ser humano as responsabilidades pelo seu desempenho linguístico. quem pense que são “mímicas”. Os que entendem que a influência do social é determinante para aquisição da língua. 16 A linguística é a área científica que se debruça a conceituar essas duas categorias. vamos pensar na oposição língua X linguagem. Há. Por outro lado. Portanto.Língua Brasileira de Sinais – Libras No entanto. Posteriormente explicaremos porque esses dois últimos termos são inadequados. Há. e o desconhecimento não é só dos vocabulários. língua escrita e língua sinalizada. Inscrevem-se nesse tipo de abordagem as vertentes da linguística estrutural e funcional. ainda.

Nesse sentido. Em outras palavras. livre de estímulos. além da sua capacidade de evocar os pensamentos adequados no seu interlocutor. no caso. possibilitando um melhor entendimento de que a linguagem reflete uma capacidade mental do ser humano. devido à discrepância entre input e output do falante. sistema armazenado na mente. Como diz Descartes. O DAL.Capítulo 1 são geneticamente determinadas. com coerência e de forma apropriada a cada contexto. fica a cargo da interação social. porém. mas não para determinação do seu estágio final.] pode-se dizer que o uso criativo da linguagem não se limita ao estabelecimento de analogias. é capaz de se desenvolver ao ponto de gerar infinitos enunciados bem formados. O estágio final são as propriedades linguísticas alcançadas pelo adulto. a aquisição da linguagem vai acontecer naturalmente – sem que haja um aprendizado formal –. por isso o nome problema de Platão é extraído da questão filosófica. e 2 O argumento da “pobreza dos estímulos” é tratado por Chomsky (1957) como uma atitude platonista. de como é que o ser humano pode saber tanto diante de evidências tão passageiras. Isso se comprova. enganosas e fragmentárias? 17 Língua Brasileira de Sinais – Libras . essa capacidade é uma consequência direta do fato de sermos humanos. a criança é exposta a estímulos pobres e limitados. abriga os princípios que são comuns a todas as línguas humanas. Esse argumento é comumente tratado por problema de Platão2. segundo Chomsky (1957).. A perspectiva chomskyniana de linguagem está resumida no excerto a seguir.. observando propriedades específicas. Por isso dizemos que essa teoria é de natureza mentalista. Esses princípios formam um conjunto de regras linguísticas uniformes chamado de Gramática Universal – GU. entendida como um órgão biológico carente de iniciar seu funcionamento que.. A criança é vista como aprendiz eficiente a despeito da pobreza de estímulos.. mas reflete a capacidade do ser humano de fazer uso dela no seu dia a dia.] Sob esta perspectiva. pois não existem graus de humanidade. pois a mente humana abriga um sistema “computacional” capaz de gerar representações linguísticas. Chomsky (1957) denomina esse conhecimento linguístico predeterminado de “Dispositivo de Aquisição de Linguagem – DAL” (em inglês: Language Acquisition Device – LAD). devido ao seu inato conhecimento linguístico. somos humanos ou não somos. Esse fator é preponderante no princípio do funcionamento do DAL. [. apenas pela maturação da GU. [.

podemos concluir que a terminologia “linguagem de sinais” passa a ser cientificamente inapropriada. sendo que cada uma é formada por cadeias de elementos. se assim fosse. mas sem modificá-los. inteligência. opostamente. FINGER. não está instalada no cérebro humano. língua é um conjunto de regras que gera uma infinidade de sentenças. se será aprendida. p. Essa é a concepção de língua que adotamos. 2008. internas (inconscientes) e intencionais (automáticas). é língua. 2008. Podemos concluir que a Libras deve ser aprendida e. caracterizadas como individuais. ela é social. nos aspectos epifenomenais3. 4 Função mental superior é sinônima de função psicológica. e isso não acontece. raciocínio. são fatores sociais. memória. (QUADROS. A linguagem é uma função mental superior4. 47). 18 Apesar de já termos adiantado o conceito de língua. isto é.Língua Brasileira de Sinais – Libras não há variação essencial entre os humanos. a Libras não pode ser chamada de “linguagem de sinais”. Segundo Kato (1997). poderíamos dizer que a linguagem é um dispositivo que já está acoplado na mente humana desde o nascimento. todos seriamos sinalizadores. linguagem e outras. esse conhecimento tem caráter intencional e o uso é inconsciente devido ao uso automático da língua. e elas são: pensamento. é de natureza muito mais individual. significa que ela é externa a nós. Um estudo da faculdade da linguagem deve propor propriedades específicas e descobrir os mecanismos da mente que as apresenta. portanto. 47). percepção. Para o linguista adepto à corrente gerativa. FAEL . 3 Epifenômenos são fenômenos adicionais que se sobrepõem a outros. nesse modelo teórico. o objeto de estudo é postulado como o conhecimento inconsciente da língua. além de dar conta destas mesmas propriedades em termos da ciência física (QUADROS. enquanto a língua. encarado como um sistema “computacional”. nem exercer sobre eles qualquer influência. ela é entendida como um conjunto de regras que geram uma infinidade de sentenças. atenção. a não ser no nível da superficialidade. sendo assim. econômicos. considerando que. etc. Dessa forma. Posto o entendimento de que há diferença teórica no conceito de língua e no conceito de linguagem. p. há ainda que se colocar que. Assim. políticos. culturais. e que este dispositivo deve ser acionado pelos estímulos externos para poder desenvolver a língua. FINGER. mas está no seio da sociedade e por isso precisa ser adquirida. Quer dizer.

10. com. desta forma. e é o termo presente em documentos legais. reproduzimos a seguir o sinal empregado pelos surdos para nomear sua própria língua: Libras 19 Um dos documentos legais que contempla a sigla Libras é a Lei Federal n. Leia Sinais) e LSB (Língua de Si.br/ead/pne/Terminologias.Capítulo 1 A partir dessa concepção. nais Brasileira). A LSB é a sigla utilizada por pesquisadores que publicam textos internacionais. Como Libras é nossa opção terminológica. a Libras passou a ser aceita como língua Língua Brasileira de Sinais – Libras .fiemg. já que todas as demais línguas de sinais do mundo possuem uma sigla com três letras. que oficializou a língua no Brasil. já que há diferenLibras (Língua Brasileira de ça conceitual nestes diferentes registros. libras gua de sinais utilizada pela (todas as letras minúsculas) ou Libras (apenas comunidade surda brasileira: a primeira letra maiúscula). A primeira foi oficializada pela Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. Língua de sinais Iniciamos pelo signifiSaiba mais cado do termo. se deve ser correntes para designar a línLIBRAS (todas as letras maiúsculas).pdf>. podemos adentrar mais especificamente nas considerações sobre a “língua” de sinais.436/2002 (BRASIL. A partir dessa aprovação.mais sobre o assunto em: <http://www. é possível ter uma rápida identificação para LSB. visto que no Há pesquisas que discutem a melhor grafia Brasil há duas terminologias para a língua brasileira de sinais. 2002b).

visto que as minorias linguísticas (imigrantes. quando colocamos a mão no rosto ou na cintura. Nesse sentido. colocar a Libras e os gestos na mesma categoria de análise. pois demonstra o reconhecimento social sobre ela. e pelo fato de muitos pesquisadores terem se empenhado para angariar conhecimentos que comprovassem o valor linguístico dessa língua. 1995. Vejamos cada um destes mitos. QUADROS. 1998. mas. apertamos os dedos uns contra os outros ou passamos as mãos repetidas vezes no cabelo. antes disso. elas não podem ser comparadas com a Libras. bem como as asseverações postuladas pelos pesquisadores pioneiros no assunto. precisamos passar por um processo formal de aprendizagem. Ter uma lei que oficialize um idioma em um país é muito importante. Por exemplo. As línguas de sinais derivam da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. também. deve-se travar uma luta pelo reconhecimento linguístico de tais minorias. 1997). Os gestos são as expressões espontâneas das pessoas. todos seríamos falantes natos da Libras. já existiam pesquisadores brasileiros de língua de sinais (BRITO. 20 Mitos sobre a Libras A língua de sinais seria uma mistura de pantomima e gesticulação concreta. FELIPE. Não devemos. que vai desde agregar as pessoas até convencer políticos a planejar ações disseminadoras. FAEL . com o intuito de combater os mitos que havia sobre ela. índios) relatam experiências de segregação e preconceito. No caso da Libras. pois este sistema linguístico é abstrato e não faz parte da nossa expressividade natural – se assim fosse. essa conquista só foi possível mediante a congregação dos surdos em prol dessa causa. há que se percorrer um longo caminho. são nossas expressividades naturais. 10. estamos produzindo gestos.Língua Brasileira de Sinais – Libras usual na comunidade surda. Diferentemente. A Lei n. pois. incapaz de expressar conceitos abstratos. já que sua forma de expressão não é a mesma da maioria social.436 oficializou a Libras. discutindo e publicando suas investigações sobre esta língua. para produzirmos a Libras. que é uma língua gramaticalmente organizada. Considerando que a pantomima e a mímica são formas artísticas de expressão. cruzamos os braços. apesar de ambos serem produções visuais. possuem natureza muito diferente. Para que isso ocorra.

conforme podemos verificar nas ilustrações. e o segundo é o dos sinais chamados arbitrários. eles não são o todo da língua. como os sinais a seguir reproduzidos. nome de um pássaro e um instrumento musical. que representam o som que reproduzem. SinaiS icônicoS Passar batom SinaiS arbitrárioS Vencer 21 1 2 Passar roupa Especial Língua Brasileira de Sinais – Libras . O primeiro grupo de sinais é o dos chamados icônicos. porém. Exemplo disso são as palavras “bem-te-vi” e “bumbo”. como é o caso do português. Essa possibilidade de o referente linguístico ter relação com os objetos reais – a iconicidade – também é presente nas línguas orais. há outros que não tem relação alguma com os objetos da realidade. respectivamente.Capítulo 1 É verdade que a Libras é composta por sinais que representam manualmente as formas e os movimentos dos objetos do mundo.

Língua Brasileira de Sinais – Libras SinaiS icônicoS Pentear o cabelo SinaiS arbitrárioS Perigoso Escovar os dentes Vingar 22 Dormir Idade FAEL .

Capítulo 1 SinaiS icônicoS Lavar roupa SinaiS arbitrárioS Organização Limpar o chão Sofrer 23 Varrer Opinar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

mas. já é um forte argumento para combater o mito que aponta que a língua de sinais deriva da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. Muitas pessoas pensavam que a Libras seria universal. como sabemos. por exemplo. quando um surdo sinalizasse o sinal de árvore para um ouvinte. de que a iconicidade se realiza de acordo com a perspectiva referencial de determinado grupo. podemos concluir que. é porque existem outras línguas de sinais espalhadas por outros países. tais como: Língua Holandesa de Sinais. FAEL . Contudo. ele rapidamente identificaria o significado. A diferença é que aqui representamos o tronco da árvore e o balanço dos galhos. fica refutada a ideia de que os sinais da Libras são extraídos da expressividade natural dos ouvintes. Se assim fosse. Haveria uma única e universal língua de sinais usada por todas as pessoas surdas. Língua Alemã de Sinais. o sinal de árvore no Brasil é icônico assim como o é na China. pois a representação que cada falante faz da realidade é diferente. que os sinais eram iguais em todos os países. se no nome da língua mencionamos sua nacionalidade. Língua Francesa de Sinais. entre outras. pois se Libras é a sigla da Língua Brasileira de Sinais. enquanto lá se faz apenas o tronco. Língua Americana de Sinais. Então. não é isso que ocorre. conforme figuras a seguir: Árvore Árvore 24 Libras Língua de Sinais Chinesa (CSL) Só essa informação. essa afirmação não procede.Língua Brasileira de Sinais – Libras É bom ressaltar que os sinais icônicos não são iguais no mundo todo.

Capítulo 1 Assim. como qualquer língua. Quando a informação de que a Libras não é universal começou a percorrer espaços sociais. havia um questionamento de que seria muito mais fácil para comunicação dos surdos se todos sinalizassem da mesma forma. baseando-nos Porém. já que as línguas orais não são iguais e ninguém questiona esses fenômenos. apresentam organização sintática com os mesmos princípios comuns à linguagem humana. Segundo naturais. subordinada e inferior. Por exemplo. Isso significa que as línguas de sinais se diferenciam. Algumas pessoas acham que a Libras é derivada das línguas orais e é um pidgin sem estrutura própria. sendo um pidgin sem estrutura própria. ela tem sua origem na Língua Francesa de Sinais. O mesmo aconteceu com as línguas de sinais. então um questionamento como este também perde sua validade. houve o alastramento de determinados idiomas em determinados lugares. encontramos conceituação diferenciada para os termos empregados. cada uma tem sua história linguística. há Saiba mais uma língua de sinais especíCom a difusão das línguas de sinais pelos fica. pensou-se em sistematizar uma língua nação e daquela comunidade surda. que reflete a cultura da países. termos comuns na maioria das línguas orais. Porém. Haveria uma falha na organização gramatical da língua de sinais. assim como aconteceu com o esperanto. em cada país. devido às colonizações. se estamos entendendo que a língua de sinais tem o mesmo valor que a língua oral. O pidgin é utilizado por pessoas que estão em processo de aprendizagem e necessitam de Língua Brasileira de Sinais – Libras 25 . E não é só pelo nome de sinais universal chamada “gestuno”. pois quando as analisamos. mas. No caso da Libras. inclusive as de sinais. subordinado e inferior às línguas orais. que era que entendemos haver uma uma forma de comunicação oral que reunia os língua de sinais para cada país. também. muitas vezes. o gestuno – assim como o essa teoria. que seria derivada das línguas orais. na sua organização semântica e discursiva para atender a aspectos culturais e ideológicos das diferentes comunidades de surdos. Cada uma dessas proposições pode ser considerada um mito. esperanto – deixou de existir. que são diferentes apenas em sua natureza e comportamento. todas as línguas. como não era usado em momentos na teoria gerativa. Isso porque sabem que. como nas expressões (1) e (2) a seguir exemplificadas. por pidgin entendemos a mistura de duas línguas.

Da mesma forma. e não um julgamento de valor. por exemplo. é o seu mau uso que pode tornar-se um.Língua Brasileira de Sinais – Libras um recurso emergente de comunicação. ou ainda porque ela fala bicicreta. como há uma conscientização ao cessar do preconceito linguístico. pois as línguas são apenas diferentes entre si. Assim como fazer comparativo de superioridade ou inferioridade em relação à língua oral é linguisticamente inviável. FAEL 26 . A Libras tem uma estrutura gramatical bastante complexa. Podemos admirar uma ou outra forma. Na Libras. o que falta são algumas tomadas de decisão quanto ao tema. como fazem os caipiras. Porém. tem constituição interna própria. Esse é outro apontamento que não procede às descobertas científicas. Sabemos que não podemos criticar uma pessoa porque ela fala porta acentuando o r. cada um sinaliza de um jeito. também aponta para uma postura altamente preconceituosa. não é a Libras que é um pidgin. com conteúdo restrito. além de demonstrar o desconhecimento da estrutura linguística. a única comparação permitida entre as línguas e em sua realização é o conhecimento dos parâmetros de cada sistema. Esse jeito diferente de falar compõe o idioleto de cada um. Uma manifestação de pidgin sinalizada é. esse tipo de comparação inexiste. da oralidade com a sinalização. expressiva e linguisticamente inferior ao sistema de comunicação oral. pois nenhum sistema linguístico será mais complexo ou superior a outro. Nesse sentido. não consideramos o inglês e o português como pidgin. mas que muitas vezes é verbalizado por desconhecedores da Libras. já que todos se prestam ao mesmo fim: a comunicação. quando uma pessoa está conversando com um surdo em Libras e na ausência de um sinal resolve oralizar pausadamente. a fim de que o interlocutor o entenda. 1. 2. mas nunca taxarmos como “certa” uma única forma. Na linguística. Mesmo assim. pois houve a mistura dos sinais com a voz. A língua de sinais seria um sistema de comunicação superficial. sendo estética. I amo you. portanto. isto já é assegurado no campo da linguística e já foi transmitido à sociedade. Essa estrutura se caracterizará por um pidgin. Eu love você. da Libras com o português. alegar que ela é subordinada à língua oral. isso também acontece.

por estarem organizadas espacialmente. as considerações que se tinha até então eram de que a Libras instalava-se no hemisfério direito. matemático e outros. pela linguagem.Capítulo 1 Levando em conta que um sistema de comunicação superficial é aquele criado para atender a comunicação de máquinas. duas áreas responsáveis pelo desempenho de uma língua: a área de Broca. Há pessoas que dizem que as línguas de sinais. pois mesmo não havendo palavras comuns entre Libras e português. por isso. serve para ver no sentido estrito do termo. é a linguagem de programação. uma vez que este hemisfério é responsável pelo processamento de informações espaciais. para poder dar conta dessa modalidade. estaria no hemisfério esquerdo. na verdade. a Libras não se enquadra nesta situação. por estarem organizadas espacialmente. enquanto que o esquerdo. que emerge no seio da comunidade e se transforma ao longo do tempo. minimamente. No hemisfério esquerdo estão algumas funções mentais como atenção. Sua modalidade é espacial e visual. memória e outras. basicamente. a Libras não é superficial. Nesse sentido. uma vez que esse hemisfério é responsável pelo processamento de informação espacial. Ao hemisfério direito cabem as propriedades para o desenvolvimento musical. visual. Há. emocional. e estas são características alocadas no hemisfério direito. é identificada a propriedade linguística. é uma língua natural. A partir daí. de flexibilidade e de versatilidade. espacial. já que é uma língua e que. sabem que ele é dividido em hemisfério direito e hemisfério esquerdo. É possível falar qualquer coisa em Libras – desde de que o sinalizante tenha fluência –. Pessoas que conhecem. Toda língua humana – como a língua de sinais falada pelos surdos – atende aos critérios de criatividade. e a área de Wernicke. o cérebro Língua Brasileira de Sinais – Libras 27 . O que ocorre. As línguas de sinais. especialmente. estariam representadas no hemisfério direito do cérebro. é dinâmica e com conteúdo absolutamente ilimitado. ou seja. que determina a compreensão de uma língua. mas. artístico. é que a função de visão do hemisfério direito tem uma característica funcional. Diante disso. Portanto. há possibilidade de transmissão do conceito da palavra. estariam representadas no hemisfério direito do cérebro. nesse hemisfério. há que se pensar onde se localiza a Libras. e que cada um deles tem uma função diferenciada. o cérebro humano. que determina a expressividade da fala. assim também como a função do espaço deste hemisfério se relaciona à questão geográfica.

para América. mas não foi o primeiro a usar esta forma de comunicação. chegando ao Brasil no século XX. que burlavam a lei do silêncio que imperava nos mosteiros e conversavam por “códigos visuais”. Assim como existem palavras muito semelhantes no português e no inglês (baby e bebê. então começaram a usar uma língua estruturada para transmitir conteúdos científicos e teológicos. e então realiza uma transferência hemisferial. EUA e França. Por isso.Língua Brasileira de Sinais – Libras detecta que a visão e o espaço serão utilizados pela modalidade linguística. de William Stokoe. há também algumas semelhanças de vocabulário nas línguas de sinais do Brasil. por exemplo). posteriormente. houve um período em que eles – um nome bastante conhecido desta época é o Ponce de Leon – se dedicavam à instrução de pessoas surdas. a comunicação espaço-visual se espalhou pela Europa e. da Língua Francesa de Sinais e da Língua Americana de Sinais são parecidos. no hemisfério esquerdo. em 1960. São os chamados cognatos. Então. Todas elas. Assim. emergiram a partir do primeiro trabalho conhecido sobre línguas de sinais nos Estados Unidos. Essas primeiras pesquisas que se prestaram a desmistificar falsas considerações sobre a Libras deram origem a outras. citamos os sinais de casa em Libras e na Língua Americana de Sinais: Casa Casa 28 Libras Língua Americana de Sinais FAEL . Como exemplo dessa similaridade. agora com função linguística que servirá para “ouvir” e “falar” a Libras. Depois disso. haverá a visão e o espaço. pois antes dele já existiam os abades franceses. entretanto. Ele foi o primeiro pesquisador a sistematizar a estrutura gramatical de uma língua de sinais. alguns sinais da Libras. mas com propriedades distintas.

através dos universais linguísticos. destacamos inicialmente o alfabeto manual. portanto. usado apenas para se referir a nomes próprios e a objetos que não tenham um Língua Brasileira de Sinais – Libras 29 . O vocabulário de qualquer língua pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. deve responder positivamente às questões levantadas. haverá língua(s). Ele é. ela não pode ser considerada como uma língua primitiva. A primeira análise feita para atestar o status linguístico da Libras pautou-se numa simples consideração: a de que onde há seres humanos há língua.Capítulo 1 O que Stokoe e os primeiros linguistas brasileiros fizeram – além de mostrar o falseacionismo dos mitos – foi apontar a natureza da Libras como ela é. ela deve passar por todos os testes postulados pelos pesquisadores. Vejamos cada um deles. passou-se a mostrar a verdade sobre esse sistema de comunicação espaço-visual. por exemplo. isto reitera a existência de uma língua. Assim também acontece com o vocabulário das línguas orais e sinalizadas que. Ao aproximar-se da língua usada pelo grupo de surdos. com empréstimos linguísticos vindos do sequente aportuguesamento destes termos ou. percebe-se que. Fizeram isso utilizando-se da “regra geral” para validação de que uma língua é língua. É impossível negar que um grupo de surdos constitui-se como um grupo de seres humanos. na verdade. como o de qualquer língua. pois todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. um recurso paliativo. pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. apesar de se apresentar numa modalidade diferente das línguas orais. Então. Não há línguas primitivas – todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. Quanto aos empréstimos linguísticos da Libras. por meio da inclusão de palavras novas ao repertório individual. as palavras são incorporadas ao sistema linguístico de um modo geral. Onde houver seres humanos. No português. e a Libras preenche estes requisitos. Verdades sobre a Libras: universais linguísticos Para uma língua ser considerada língua. ainda.

quando a pessoa está usando o alfabeto manual. desde que não alternadamente.Língua Brasileira de Sinais – Libras sinal conhecido na Libras. vale ressaltar que esse recurso é externo à Libras. essa representação é feita de acordo com o alfabeto do idioma local. Em outros países. portanto. deixa de usar a Libras e faz uma transferência de código. pode ser sinalizada de um jeito no Brasil e de outro nos Estados Unidos. passa a fazer uso do português. 30 a b c ç d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z O alfabeto manual pode ser sinalizado com qualquer uma das mãos. Os surdos representam por meio das mãos as letras do alfabeto português. e não uma FAEL . Há toda uma dificuldade que se coloca a eles. então. se há preferência pela mão esquerda. às vezes. Por isso. Posteriormente. ele é considerado como um empréstimo da língua portuguesa. Além disso. no caso do Brasil. Figura 1 Alfabeto manual. pois os surdos não se relacionam com a língua portuguesa como nós nos relacionamos. a palavra toda deve ser sinalizada com a esquerda. A letra “T”. devemos ter muita cautela para usá-lo. explicaremos com mais detalhes a questão de o português ser uma segunda língua para os surdos. É preferível fazer um sinal sinônimo a “escrever” a palavra a que se deseja fazer referência. enquanto precisam aprender uma língua oral e auditiva. pois são usuários de uma língua espacial e visual.

No português. Um empréstimo linguístico é uma palavra original de um idioma que passa a fazer parte do repertório de um grupo de falantes de outro idioma. ou outros motivos.Capítulo 1 letra com cada mão. se escreve com o braço na vertical. há também a possibilidade de representação dos acentos das palavras (^. Para os nomes de pessoas e lugares. na sequência. e as letras são feitas uma após a outra. então. sem necessariamente tirar a mão do lugar. os quais estão reproduzidos a seguir: Figura 2 31 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Ainda com relação ao alfabeto manual. indígenas. iniciar a nova série de letras que serão feitas com o mesmo ritmo. é comum os surdos pedirem que se escreva a palavra com o alfabeto manual. mas. O desenho no ar é feito em um ponto acima de onde se escreveu inicialmente. e deve ser feito antes da letra que receberá o acento. Então. eles criam um sinal que será usado dali para frente. Normalmente. devemos ressaltar que dele são extraídos os outros empréstimos linguísticos da Libras. a digitalização da palavra passará a ser dispensável das próximas vezes. Caso seja necessário escrever mais de uma palavra (nome completo ou palavra composta. por meio da internet. O mesmo processo ocorre com a produção dos números da Libras. pois a realização do sinal vai remeter ao sentido e ao conceito. bem próximo ao tronco. por exemplo). Além disso. há muitos exemplos de palavras que não compunham nosso verbete e que passaram a fazer parte de nossa fala. Na língua portuguesa há muitas expressões americanas. por exemplo: JOS´E. ~. pela globalização. que são usadas pelos falantes Língua Brasileira de Sinais – Libras . francesas. `. deve-se fazer uma palavra numa sequência rítmica e dar uma pausa na última letra para. ´) por meio de desenho no ar com o dedo indicador.

ligth.Veja um exemplo de empréstimo linguístico da Libras: Bar 32 Em se tratando de termos técnicos e científicos. abajur. diet. etc. “demanda de mercado”. pela supressão de uma das letras. “pragmática”.Língua Brasileira de Sinais – Libras normalmente. Na língua de sinais. isso ocorre da mesma maneira. delete. lingerie. como os expostos a seguir: Neurose Mídia FAEL . entre outras. “léxico”. algumas vezes. É o caso de quando entramos na faculdade. como os termos “paradigma”. podemos destacar que são criados de acordo com a necessidade. “psicanálise”. Exemplos desses empréstimos são as palavras: stress. Os empréstimos linguísticos na Libras ocorrem mediante processo de aceleração da escrita do alfabeto manual e. “sintático”. Os surdos têm a capacidade de inserir em sua língua palavras novas conforme a necessidade. shampoo. “piagetiano”. há uma “enxurrada” de palavras novas as quais não utilizávamos antes. Daí surgem os novos sinais. “biomorfologia”.

passando o polegar na bochecha. isso também acontece. que era realizado com ambas as mãos postas próximas à cabeça. É o caso. Na língua de sinais. é sinalizado conforme imagem a seguir. por exemplo. Assim como ocorreu com o vocábulo vossa mercê. esse sinal preserva apenas o trajeto do rosto ao pescoço. do sinal mulher. Os sinais que exigem muito “trabalho” para serem realizados sofrem uma economia produtiva e passam a ser realizados de maneira mais simplificada. Podemos verificar que não há permanência vocabular e nem estrutural em nenhuma língua. e isto implica dizer que as línguas mudam ao longo do tempo. que passou para vos mice. onde era encerrado com um movimento que imitava o lançar. Atualmente. Mulher 33 Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 1 Ambiente virtual de aprendizagem Condicionamento Todas as línguas mudam ao longo do tempo. Então descia do rosto em direção ao pescoço. numa imitação de colocar o chapéu. o amarrar. depois para você e hoje é comumente tratado por cê ou vc.

a). são encontrados em todas as línguas. e dado o significado é possível prever a forma. porém. os quais podem ser definidos por um conjunto de propriedades ou traços. podemos encontrar significados. Línguas de sinais apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. igualmente. Quadros e Karnopp (2004) apontam que há. é a característica de descontinuidade. mas que cada fonema normalmente não tem significado quando está isolado. gado. camada de sons que se combinam e camadas de unidades maiores. expressa a característica de dualidade ou dupla articulação comum às línguas orais e sinalizadas. os sons de f. d. por exemplo. quando os combinamos de diferentes maneiras. Universais semânticos. Toda língua falada tem uma classe de vogais e uma classe de consoantes. como “p”. a característica da dupla articulação. fado. As palavras e sinais apresentam uma conexão arbitrária entre forma e significado. o e a não tem um significado expresso. apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. pois é um sistema distinto do que estamos habituados a usar. Há ainda outra característica encontrada em línguas orais que se manifestam também nas línguas sinalizadas. É o caso. a característica de arbitrariedade das línguas não se restringe à ligação entre forma e significado. de fogo. em todas as línguas. pois elas diferem umas das outras. em sua maioria. arbitrárias. visto que. Tal característica significa que existe uma gama de unidades que são semelhantes. Podemos constatar que não há uma relação intrínseca entre a palavra cão e o animal que ele simboliza. “n”. Ainda com relação a isso. como fêmea ou macho. as línguas de sinais. Toda língua falada inclui segmentos sonoros discretos. FAEL 34 . Tal organização de língua em duas camadas. Por exemplo. dado. mas aplica-se também à estrutura gramatical das línguas. dada a forma é possível prever o significado. ou “a”. mas ganha um significado quando é combinado com outras unidades mínimas. Os símbolos utilizados pelas línguas são arbitrários. Quadros e Karnopp (2004) apontam ainda que. Assim como as línguas orais apresentam segmentos sonoros discretos (p. n. Isso pode ser constatado na dificuldade em aprender uma língua estrangeira. g. em torno de trinta ou quarenta.Língua Brasileira de Sinais – Libras As relações entre sons e significados das línguas faladas e entre gestos (sinais) e significados das línguas de sinais são.

para formação de palavras e sentenças. bem como universais semânticos tais como a distinção fêmea/macho. promessas. Quadros e Karnopp (2004) apontam que essa flexibilidade e versatilidade é uma característica comum a todas as línguas. a coisas que não existem e que os falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender em um conjunto infinito de sentenças. por sua vez. formam um conjunto infinito de sentenças possíveis. pergunta. para fazer solicitações. No concernente à sintaxe. perguntas ou afirmações. ordens. Todos os sistemas linguísticos têm a possibilidade de construção e compreensão de um número infinito de enunciados. As línguas não se fixam apenas nos parâmetros fonológicos. Todas as gramáticas contêm regras de um tipo semelhante. Esse fenômeno demonstra a característica de descontinuidade da diferença formal entre forma e significado. presente e futuro.Capítulo 1 Tal fenômeno está em oposição à variação contínua. que são escritas e faladas de maneiras diferentes. mas apresentam diferença considerável no significado. a realidades remotas ou. isto significa que as palavras podem diferir de maneira mínima na forma. etc. negação. Falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender um conjunto infinito de sentenças. Todas as línguas possuem formas para indicar tempo passado. sendo assim. ainda. A criatividade e a produtividade são apontadas por Quadros e Karnopp (2004) como propriedades que possibilitam a construção e a interpretação de novos enunciados. Universais sintáticos revelam que toda língua possui meios de formar sentenças. verbo). verbo e outros). É o caso das palavras faca e fada. Todas as línguas humanas utilizam um conjunto finito de sons discretos (ou gestos) que são combinados para formar elementos significativos ou palavras. pois tanto línguas orais como sinalizadas apresentam categorias gramaticais (substantivo. para fazer ameaças. pois podemos usar a língua para dar vazão às emoções e sentimentos. comando. os quais. Língua Brasileira de Sinais – Libras 35 . Todas as línguas apresentam categorias gramaticais (ex: substantivo. os falantes têm a liberdade de agir criativamente. sabemos que tanto as línguas orais quanto as de sinais podem fazer referência ao passado.

revela-se a criatividade que o falante tem para inventar novas palavras e de ter um estilo próprio de fala. que existem não só na Libras. é possível conversar sobre diversos assuntos. assim. Isso ocorre com a Libras. por meio dela. Então. perceber que a Libras é bastante complexa em sua estrutura gramatical e que. não é possível estabelecer uma homogeneidade linguística por todo seu território nacional. respectivamente. nas cidades de São Paulo. Vejamos um exemplo do regionalismo da Libras nas imagens a seguir. Trata-se de três sinais diferentes que se referem à palavra verde. o modo de sinalizar é diferente se o interlocutor for uma autoridade ou se forem colegas na rua. que se prestam a designar a mesma coisa. pois. aipim e mandioca. nas palavras macaxeira. 36 Fonte: imagens adaptadas de Strobel e Fernandes (1998).Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. Rio de Janeiro e Curitiba. haverá abertura para criação de novos falares ou modificação nos falares produzidos. Esses modos distintos na fala de cada região são os chamados dialetos. Podemos. como ocorre com o português. mesmo cada país adotando uma língua de sinais própria. Sempre que houver a reunião de um grupo de sinalizadores. por exemplo. inclusive utilizar-se de diferentes estilos de fala em diferentes ocasiões. e todos esses novos modos serão carregados de peculiaridades da região onde o grupo está localizado. e estes diferentes registros discursivos são manifestados por meio da velocidade dos movimentos e do espaço FAEL . mas em todas as línguas de sinais e orais.

sem significar uma briga. Os surdos igualmente agem assim. de qualquer origem racial. Quando os ouvintes veem os surdos conversando. também falamos muito alto e somos extravagantes. geográfica. não nos damos conta de que são produzidos juntos. mas uma fala normal. inclusive. quando nós estamos em contextos informais. pois sinalizam muito rápido e tem bastante expressividade. também falamos muito rápido. isso não denota agressividade ou briga por parte deles. provavelmente.Capítulo 1 utilizado para sinalização. se o contexto de fala é informal. vocalizará alguns sons. tem o espaço de sinalização bastante elevado e produzem muita expressão facial. elas aprendem Língua Brasileira de Sinais – Libras 37 . Um fenômeno elucidativo sobre esse assunto é quando as crianças surdas estão aprendendo a Libras. todas as palavras se ligam entre si na constituição da frase e do discurso. quando estamos conversando. Os surdos sinalizam rapidamente um sinal após o outro. contém marcas de formalidade e de informalidade. provavelmente usará o espaço a frente do seu corpo com certo limite. mas o “tom” elevado da fala. Além disso. O espaço para sinalização se inicia acima do quadril. Dessa forma. podemos ver como é possível o falante de Libras transitar entre diferentes estilos discursivos. O fato é que os surdos estão tendo uma conversa como outra qualquer. elas têm a impressão de que estão brigando. Inicialmente. e isto ocorre da mesma forma com o surdo. Esse dado reitera que a Libras é uma língua que. Assim também acontece na comunicação em Libras. ele sinalizará com muita expressão facial. Porém. Essa impressão equivocada ocorre porque as pessoas não sinalizantes deixam de considerar que. é capaz de aprender qualquer língua à qual é exposta. Ao articular os fonemas da nossa língua portuguesa – um após o outro –. vai até a cabeça e não se estende muito para os lados. social ou econômica. pois tem tanta completude que possibilita ao falante fazer escolhas diferenciadas de sinais. nascida em qualquer lugar do mundo. Ampliam os movimentos dos sinais. na grande maioria. No entanto. de acordo com os tipos de situações experimentadas. Qualquer criança. ou seja. com os braços bastante alargados e. Se o surdo quer ser bastante formal em sua fala.

Assim. fazendo a intervenção devida. há exigência de que os elementos fonológicos sejam adequadamente produzidos na realização dos sinais. Tomamos como exemplo uma criança quando estava com dois anos e. mas tem dificuldade para fazer a configuração apresentada. inconscientemente.Língua Brasileira de Sinais – Libras as unidades mínimas de maneira isolada. as línguas humanas – e. igualmente. nos aponta para uma característica das línguas humanas. começa a aprender o sinal de sorrir (conforme figura a seguir). a localização e o movimento –. a qualidade do input e outros. depois “babababa”. A mãe ensina. Isso também ocorre com as crianças surdas. na Libras: a regularidade. portanto. A criança gosta do sinal. a Libras também – têm parâmetros de realização que não podem ser alterados para sua efetiva comunicação. para que a auxilie. Solicita à mãe por várias vezes. até formar palavras completas. Toca no filho e ajeita sua mão para que realize o sinal de forma correta. e a criança imita corretamente a localização e o movimento. A mãe age com um input favorável. porém. presente. Conforme já apresentamos. além de mostrar a importância do adulto no contexto de aquisição da linguagem. sorri quando a mãe a repreende pelo mau jeito na realização do sinal. cada um dos três parâmetros – que são a configuração de mão. em diálogo com a mãe. FAEL . como fazem as crianças ouvintes. que começam a balbuciar “aaaaa”. 38 Esse jogo discursivo. até que aprende os três parâmetros e consegue realizar com precisão o sinal de sorrir. não consegue reproduzir da mesma forma a configuração de mão.

nessa fase. a chamada inclusão.Capítulo 1 Da teoria para a prática Para aderir à ideia da diversidade linguística em sala de aula. tratamos das definições preliminares e apresentamos ao leitor a fase histórica pela qual a sociedade está passando. Isso pode se dar por meio Língua Brasileira de Sinais – Libras . mas na forma de relacionamento com esta nova realidade. Muito mais do que saber a forma de tratamento dessas questões. Perguntas: ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● Qual é o seu nome? Qual é o seu sobrenome? Quantos anos você tem? Qual é o nome da sua rua? Qual é o nome do seu bairro? Qual é o nome da cidade em que você mora? Qual o nome da sua mãe? Qual a idade da sua mãe? Qual o nome do seu pai? Qual a idade do seu pai? Qual o nome dos seus irmãos? 39 Síntese Neste capítulo. pode colocar algumas perguntas no quadro e promover que dois alunos participem: um pergunta e o outro responde. o professor pode colar cartazes pela sala com o alfabeto manual e com os números. é preciso que haja um desprendimento para aprender a se comunicar e se relacionar com os surdos. os paradigmas sobre a pessoa surda e sua língua passaram por reformas não só no que se refere à terminologia – surdo e Libras –. utilizando as letras manuais. Explicamos que. Então.

foi preciso muito esforço para desmitificar os mitos que havia. p. os surdos foram brindados com a oficialização da sua língua por determinação legal. mas já podem se focar em conhecer o comportamento de uma língua espaço-visual e tecer análise gramatical sobre ela. Glossário 40 Input É o sinônimo para estímulo linguístico. dos empréstimos linguísticos.Língua Brasileira de Sinais – Libras do alfabeto manual. ou seja. Nesses termos. as pesquisas não mais se prestam a “comprovar” que a Libras é uma língua. o que faremos no próximo capítulo. Output É a forma como a criança expressa o input que recebeu. É uma língua emergencial. FAEL . todas as influências verbais que são dadas às crianças quando estão aprendendo a falar. 2008. porque aparece em situações extremas de barreiras à comunicação (MCCLEARY. pois. Atualmente. é o que ela consegue falar. Dessa forma. assim como foi preciso arrolar alguns pressupostos universais na análise desta modalidade expressiva. para que houvesse todo o reconhecimento social e acadêmico que hoje existe quanto ao status desta língua. percorremos com o leitor o mesmo percurso adotado no processo de valoração da Libras. de um jeito mais informal ou por meio de leituras e pesquisas linguísticas. Pidgin É um sistema de comunicação precário. 21).

Stokoe empregou a terminologia “querema”. estamos fazendo menção às unidades mínimas que compõem a língua. e estas duas articulações – fonemas e morfemas – é que norteiam a dupla articulação apontada por Martinet (1978). mas também de gestos (LEITE. as línguas naturais também são compostas por morfemas e palavras. para o estudo das unidades mínimas da língua de sinais. não caberiam considerações fonológicas para a Libras. e o semântico. que se ocupa em organizar as palavras na frase. Nesse sentido. Assim. que busca a relação das palavras e o sentido que elas têm. os pesquisadores de língua de sinais abandonaram o termo. entendemos um plano de conteúdos (composto . Para resolver tal impasse. Além dos fonemas. definição que torna o conceito suficientemente abstrato para abranger não apenas representações psíquicas de sons. já que ela é uma língua espaço-visual que não tem som. sendo os principais: o fonológico. Esse linguista diz que todas as línguas humanas possuem a dupla articulação. por entender o apontamento de Saussure (1970) quanto a isto. quando nos referirmos aos fonemas. 2008). Por dupla articulação. que se ocupa com as escolhas das palavras. Para o pai da linguística. que se ocupa em estudar as unidades mínimas da composição das palavras. Porém. Aspectos fonológicos É no nível fonológico que se encontram as considerações acerca dos fonemas – conceituados como unidade mínima do som.Estrutura gramatical da Libras T 2 41 odo sistema linguístico é organizado em níveis de análise. Neste capítulo. apresentaremos cada um destes aspectos linguísticos relacionados à Libras. atualmente. a forma do significante refere-se a uma imagem acústica convencional. o sintático. ao invés de fonema. abstraída de realizações fonéticas concretas e infinitamente variáveis. o morfológico.

quando os unimos. podemos formar conteúdos irrestritos. esses parâmetros não têm conteúdo significativo (capaz de compor significação). localização (L) e movimento (M). Como a Libras é uma língua natural. porém. conforme Leite (2008).Língua Brasileira de Sinais – Libras por morfemas e palavras) e um plano isento de conteúdos (composto por fonemas). Limitando-nos inicialmente à segunda articulação – fonemas –. Ônibus 42 Configuração de mão Movimento Localização O mesmo fenômeno ocorre com os sinais: avião e carro. por meio da junção das articulações dos fonemas. Carro Movimento Configuração de mão Localização FAEL . É bom lembrar que ambas as articulações são restritas nas línguas naturais. Podemos constatar tal fenômeno. Isoladamente. mas que sua combinação pode originar um número irrestrito de possibilidades significativas. também é composta pela dupla articulação. vemos que Stokoe (1960) propôs três componentes da estrutura interna dos sinais: configuração de mão (CM).

Algumas dessas configurações de mão correspondem às letras do alfabeto manual. por sua vez. analisaremos cada um deles em sua composição. Para as configurações de mão da Libras temos o quadro de Brito (1995). isoladamente. considerando a inexistência de identificação quanto às configurações de mão básicas e às configurações de mão variantes. a fim de entendermos melhor a formação dos sinais. mas não se restringem a elas. encontramos 64 configurações de mão. Essas configurações podem dar origem a sinais da Libras se forem produzidas apenas com uma mão. apontam que essas configurações de mão são representações do sistema fonético da língua. os parâmetros não transmitem significado. com as duas mãos. ainda. Já em Felipe (2001). conforme podemos verificar na figura a seguir. Quadros e Karnopp (2004). 43 Configuração de mão O primeiro parâmetro – configuração de mão – refere-se à forma que a mão assume na realização do sinal. Língua Brasileira de Sinais – Libras . mas ambas com configurações de mão iguais. com as duas mãos produzindo configurações de mão diferentes ou.Capítulo 2 Avião Movimento Configuração de mão Localização Mesmo percebendo que. que registra 46 configurações diferentes.

expomos alguns exemplos a seguir. FAEL . 44 Fonte: adaptado de Felipe (2005). pois o seu sentido não será alterado. A fim de elucidarmos as possibilidades de formação de sinal a partir da configuração de mão. Configuração de mão com apenas uma mão: este é o tipo de sinal que pode ser produzido com qualquer uma das mãos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Figura As 64 configurações de mão da Libras.

Capítulo 2 Aluno Professor Lápis Caneta 45 Cola Tesoura Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Vestibular Português ou Ciências História 46 Uniforme Educação FAEL .

Capítulo 2 Duas configurações de mão diferentes. Curso Pós-graduação Mestrado Educação artística 47 Estudos sociais Intervalo Língua Brasileira de Sinais – Libras .

a outra. Por condição de dominância o autor entende a ocorrência de sinais nos quais uma das mãos assume o papel ativo e. ou seja. e a mão ativa se forma em c. FAEL . outras configurações de mão poderão ser realizadas. Duas configurações de mão iguais: sinais desta natureza são formados por duas configurações de mão iguais. que se realizam com ambas as mãos moldando-se com a mesma configuração de mão e com a realização de um movimento simultâneo e simétrico. e a segunda é a condição de simetria. Em outros casos parecidos com esse.Língua Brasileira de Sinais – Libras Redação Apontador 48 Atendo-nos ao primeiro sinal. Sobre a realização de um sinal que contém duas configurações de mão diferentes. vejamos a realização de um sinal com as duas configurações de mão iguais. A mão passiva. encontramos em Battison (1974) duas restrições. um papel passivo. Antes de falarmos sobre a condição de simetria. e que realiza movimentos apenas com uma das mãos. uma mão será a base e a outra ativará o movimento. nesse caso. vemos que nesse tipo de construção a primeira configuração de mão é a base que se forma em b. que limitam consideravelmente as possibilidades articulatórias dos sinais. É o caso dos sinais apresentados a seguir. A primeira é a condição de dominância. serve de base. mas a ordem de predominância será mantida. de apoio para a realização do movimento da mão ativa.

Capítulo 2 Sala Geografia Caderno Régua 49 Mochila Prova Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Matemática Educação física Química Nota 50 1 2 Dividir Multiplicar FAEL .

podendo ser no próprio corpo do sinalizador ou no espaço neutro (espaço “vazio” a frente do corpo do sinalizador. há a condição de simetria estabelecida. Locação O segundo parâmetro – a locação – refere-se ao espaço onde o sinal será realizado. precisamente entre a cabeça e o quadril). temos que. em casos de sinais como os que mostramos. em que as duas mãos estão ativas e realizam o mesmo movimento.Capítulo 2 Retomando as restrições articulatórias de Battison (1974). conforme imagens a seguir. Sinalização no espaço neutro: Tartaruga Hipopótamo 51 Foca Mosca Língua Brasileira de Sinais – Libras .

conforme Brito (1995). tais como os exemplos que seguem. Dentro desses pontos principais estão as subdivisões. Subdivisões dos principais pontos de locação: Macaco Boi Sinal com locação na cabeça Sinal com locação na testa FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras Urso Jacaré Peixe Borboleta 52 Há. três pontos principais de locação. tronco e mão. a saber: cabeça.

Capítulo 2 Galinha Rato 1 2 Sinal com locação no rosto Papagaio Sinal com locação na bochecha Pato 53 Sinal com locação no queixo Cobra Sinal com locação na boca Coruja Sinal com locação no pescoço Sinal com locação nos olhos Língua Brasileira de Sinais – Libras .

bidirecional ou multidirecional. sendo possível produzi-los de forma unidirecional. velocidades e frequências. Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes tipos de movimento. retilíneo. Em Strobel e Fernandes (1998). semicircular.Língua Brasileira de Sinais – Libras Porco Sapo Sinal com locação no nariz Dinossauro Sinal com locação no braço Zebra 1 54 2 Sinal com locação na mão Sinal com locação no tronco Movimento Movimento. eles podem ser produzidos com diferentes tensões. é bastante complexo. Além disso. o terceiro – e principal – parâmetro. FAEL . circular. helicoidal e angular. considerando sua vastidão de possibilidades. vemos que os movimentos podem ser do tipo sinuoso.

Capítulo 2 Espelho Telhado 2 1 Movimento sinuoso Xícara Movimento sinuoso Porta 2 55 1 Movimento semicircular Jardim Movimento semicircular 2 1 Movimento circular Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Cerca 1 2 Movimento retilíneo Liquidificador 56 Movimento helicoidal Eletricidade Movimento angular FAEL .

ocorre um fenômeno presente também nas línguas orais: os pares mínimos. estes sinais se distinguem por alteração apenas em um dos parâmetros. o segundo e o terceiro parâmetro. Citemos alguns: Laranja / sábado Aprender 57 Cantar Comunicar Além desses parâmetros. para baixo ou para o corpo de quem sinaliza. quando associados. temos muitos casos como estes. A palma da mão pode estar voltada para cima. No português. os chamados pares mínimos podem ser exemplificados pelas palavras faca e vaca. Nesses casos. para fora. às vezes. para Língua Brasileira de Sinais – Libras . A orientação de mão é a direção que a palma da mão assume na realização do sinal.Capítulo 2 O primeiro. Na Libras. podem formar muitos sinais da Libras e. destacamos a orientação de mão e as expressões não manuais. em que há apenas uma sutil diferença na pronúncia dos fonemas f e v.

A seguir. bem como para marcar afetividades. grau ou aspecto. As expressões faciais não são recursos adicionais ou dispensáveis na Libras. Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes orientações para o sinal de ir. referem-se às expressões faciais e aos movimentos do corpo produzidos durante a realização do sinal. Ir da direita para a esquerda. mas.Língua Brasileira de Sinais – Libras a esquerda e para a direita. negação. concordância. Ir de frente para trás. advérbios. assim como ocorre nas línguas naturais. 58 As expressões não manuais. exemplos de sinais isolados com expressão facial. obrigatórias nas construções sintáticas. FAEL . conforme Quadros e Karnopp (2004). Ir de trás para frente. tópico e foco. referência pronominal. referência específica. relativas. Ir da esquerda para a direita. sim. já que neste momento não abordaremos a construção das frases. Esses movimentos também podem ser realizados isoladamente para marcar construções sintáticas – marcar sentenças interrogativas.

Capítulo 2

Bravo

Triste

Feliz

Cansado

59

Bondoso

Humilde

ou

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Esquisito

Tímido

Calmo

Inocente

60
ou

Doido

Esnobe

FAEL

Capítulo 2

Vaidoso

Chato

Chorão

Tarado

61

Podemos perceber que a realização desses sinais fica condicionada ao uso das expressões faciais, até por uma questão de coerência, pois não seria muito lógico produzir o sinal de triste com um sorriso no rosto ou, então, o sinal de feliz com uma expressão de cansaço e tristeza. Certamente, nosso interlocutor questionaria nossa produção e precisaríamos definir qual a mensagem a transmitir: a do rosto ou a das mãos. Isso porque há sinais produzidos apenas com a expressão facial, com a dispensa de qualquer realização manual. Na Libras, há dois tipos de expressões faciais: as que se prestam a marcar argumentos gramaticais e as que são de cunho afetivo. Neste texto, abordaremos apenas o primeiro tipo e, como exemplo, vejamos os sinais de roubar e sexo:
Língua Brasileira de Sinais – Libras

há elementos que carregam significado. os fonemas podem ter a natureza de um morfema. 62 Aspectos morfológicos da Libras Se estivermos entendendo que o nível morfológico é aquele que compreende o trabalho de seleção das palavras. 2001). é que são as unidades mínimas da morfologia (SANDALO. Entretanto. FAEL . 183). chamados de morfemas. Do mesmo modo. Na Libras. Segundo Sandalo (2001.Língua Brasileira de Sinais – Libras Roubar Sexo Assim sendo. eles apresentam significado isoladamente. por exemplo. pois. às vezes. “palavra é a unidade mínima que pode ocorrer livremente em várias posições sintáticas”. primeiramente. na Libras. conforme Felipe (1998). p. os parâmetros fonológicos também podem ser comparados a morfemas. os fonemas /a/ e /o/ podem ser artigos ou desinências de gênero. A seguir ilustramos alguns sinais que podem ser considerados morfemas. Assim como ocorre com o português. por exemplo. se faz necessário. assim como o fonema /s/ pode indicar o plural. pode constituir um morfema. determinada configuração de mão. dentro das palavras. definirmos o que entendemos por palavra. Esses elementos. passemos a algumas considerações teóricas quanto à morfologia e à sintaxe da Libras.

Capítulo 2 Dois meses Três meses Quatro meses Um dia 63 Dois dias Três dias Língua Brasileira de Sinais – Libras .

os parâmetros – isoladamente – não constituem morfemas. no entanto. as configurações de mão carregam o significado do numeral. Em alguns sinais. mas. resultam em uma unidade com significado. Os sinais reproduzidos na sequência são exemplos de que a articulação conjunta de cada um dos parâmetros é que forma o significado. FAEL . Nesse caso. mas somente com os morfemas que indicam os meses. KARNOPP. nesses sinais. não podem ocorrer isoladamente.Língua Brasileira de Sinais – Libras Uma semana Duas semanas Três semanas 64 Vemos que. 2004). quando articulados juntos. elas constituem um morfema preso. os dias e as semanas (QUADROS. ou seja.

Capítulo 2 Ontem Hoje Amanhã Passado 65 Futuro Ano Língua Brasileira de Sinais – Libras .

QUADROS. passemos às considerações dos processos de formação e classificação de palavra (BRITO. a locação e a orientação constituem um único morfema. 1998. um dos parâmetros do sinal é alterado. o movimento. Ter Não ter Parâmetro movimento alterado FAEL . 1995. em que apenas a configuração de mão se modifica. passemos a discussão da incorporação da negação. Dadas as primeiras definições. 2008). 2004. FELIPE. Um dos processos de formação de palavras é por meio da incorporação de numeral e de negação. de acordo com Brito (1995). via alteração de movimento e via alteração da expressão facial. por exemplo) e morfemas gramaticais (movimento). um morfema livre. Ainda. A seguir vemos o contraste entre os sinais dos verbos e a formação de palavras de negação. Em alguns casos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Percebemos que a configuração de mão. LEITE. No caso da incorporação de numeral. Como já discutimos acerca desse ponto quando exploramos a constituição de sinais que representam morfemas. altera-se somente a expressão facial do sinalizador. 66 Nesse processo. em especial o parâmetro do movimento. a configuração de mão que representa o numeral se combina com outro morfema preso para formar um sinal. há na Libras morfemas lexicais (o sinal de sentar. nesse caso. KARONOPP.

Capítulo 2 Saber 1 Não saber 2 Parâmetro movimento alterado Gostar Não gostar 67 Parâmetro movimento alterado Querer Não querer Parâmetro movimento alterado Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Poder Não poder Parâmetro configuração de mão alterado Conhecer Não conhecer 68 Parâmetro expressão facial alterado Entender Não entender Parâmetro expressão facial alterado FAEL .

Capítulo 2 Precisar Não precisar Parâmetro expressão facial alterado Aceitar Não aceitar 69 Parâmetro expressão facial alterado Além desses processos morfológicos que caracterizam formação de palavras. conforme exemplos: Não responder Língua Brasileira de Sinais – Libras . a negação também pode ser formada pela adjunção do sinal não ao respectivo sinal.

ainda. Casa + cruz = igreja Casa + estudar = escola FAEL . resultando em uma composição.Língua Brasileira de Sinais – Libras Não sofrer Não terminar Não resolver 70 Há. outro processo morfológico que acontece pela combinação de dois morfemas lexicais. Vejamos nos exemplos a seguir que um sinal pode ser formado por dois sinais independentes que se unem para formar uma palavra composta.

Capítulo 2 Casa + carne = açougue Casa + pão = padaria 1 2 Boi + leite = vaca 1 Cavalo + listras = zebra 1 71 2 2 Mulher + cruz = enfermeira Mulher + benção = mãe 1 2 Língua Brasileira de Sinais – Libras .

72 Homem + cunhado(a) = cunhado Mulher + cunhado(a) = cunhada 1 1 2 2 Homem + sogro(a) = sogro Mulher + sogro(a) = sogra 1 2 1 2 FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + benção = pai Espaço redondo + lavar corpo = banheira 2 1 2 O mesmo processo morfológico ocorre em relação à formação de palavras que denotem gêneros. o gênero é dado pelo processo de composição morfológica. por meio da combinação de dois morfemas lexicais. um que se refere ao elemento morfológico neutro e outro que se refere à marcação de gênero. Isso significa que. na Libras.

Capítulo 2 Homem + primo(a) = primo Mulher + primo(a) = prima 1 1 2 2 Homem + tio(a) = tio 73 Mulher + tio(a) = tia Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + irmão(ã) = irmão Mulher + irmão(ã) = irmã 74 Homem + sobrinho(a) = sobrinho Mulher + sobrinho(a) = sobrinha FAEL .

Capítulo 2 Não obstante. a formação de palavras que denotam “categorias” também passa pelo processo de composição. conforme exemplos a seguir. Maçã + vários = frutas Alface + vários = verduras 1 1 2 2 Arroz + vários = cereais Leão + vários = animais 75 1 2 Batata + vários = legumes Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Se o movimento for alongado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com relação à classificação das palavras. O sinal de telefonar tem a mesma configuração de mão e a mesma locação. firme e único. leves e repetitivos na direção do espaço a frente do corpo do sinalizador. mas o movimento é mais alongado. Da mesma forma se configuram estes outros sinais. pode dar a ideia de telefonar várias vezes. que diferem sua classificação nominal ou verbal pela alteração do parâmetro movimento: Cadeira Sentar FAEL . como é o caso destes sinais: Telefone Telefonar 76 O sinal de telefone é produzido com a configuração de mão em y. firme e feito mais de uma vez. na locação perto da orelha e com movimentos curtos. o que sabemos é que um nome pode derivar de um verbo por meio da repetição e do encurtamento do movimento do verbo.

Capítulo 2 Comida Comer Pente Pentear 77 Foto Fotografar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

A seguir. os que se enquadram nesta categoria serão abordados na próxima seção. ilustramos alguns verbos simples da Libras. processo distinto do que ocorre com os verbos vistos na seção flexão. Constituir-se como um verbo simples significa que. destacamos neste momento três tipos deles. Esses verbos não são produzidos por processo de flexão. os parâmetros fonológicos que compõe o sinal serão mantidos. a saber: os verbos simples. independente da construção da frase. FAEL . os verbos manuais e os classificadores.Língua Brasileira de Sinais – Libras Casa Morar Bebida Beber 78 Ainda com relação aos verbos da Libras.

Capítulo 2 Quebrar Rir Sentir Sujar 79 Trabalhar Viver Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Sonhar Gritar ou Trair Tentar 80 Ouvir Opinar FAEL .

apontamos que são aqueles que se configuram pela incorporação do objeto a que se referem. Com relação aos verbos manuais. o verbo será produzido do mesmo modo. Alguns exemplos: Língua Brasileira de Sinais – Libras . com a mesma configuração de mão e com a mesma orientação. Ainda que seja para se referir a outra pessoa do discurso. pois estas partes são o lugar de localização do sinal.Capítulo 2 Roubar Salvar / apoiar Morrer Preocupar 81 A maioria desses verbos é produzida nas partes do corpo do sinalizador. na mesma localização. Eles podem ser considerados icônicos pela representação da realidade.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Abrir (o pote) Cozinhar Mendigar Limpar (janela) 82 Costurar Escrever FAEL .

Capítulo 2 Cortar (com tesoura) Dormir Lavar (a roupa) Os classificadores são aqueles verbos que têm sua configuração de mão inicial (sinal raiz) alterada por influência da semântica. do léxico ou da sintaxe. que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir ao chão. Então. 83 Língua Brasileira de Sinais – Libras . Verbo cair Originalmente. o sinal foi classificado em sua semântica. e preservação do movimento. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. Assim.M. haverá alteração da C. com o parâmetro configuração de mão alterado. porém. mas alguns papéis. este sinal remete à ideia da ação que ocorre com uma pessoa. Classificador do verbo cair (papéis) Se for preciso referir-se a mesma ação de cair. apresentamos a seguir o sinal raiz de alguns verbos e o sinal classificador. Isso é perceptível pela configuração em v.

Então. passaremos a conhecer os processos morfológicos mais complexos. FAEL . não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. 84 Classificador do verbo andar (de um gato(a)) Se for preciso referir-se a mesma ação de andar. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma cobra.Língua Brasileira de Sinais – Libras Verbo andar Originalmente. especialmente aqueles formados por flexão.M.M. Então. Então o sinal foi classificado em sua semântica. no entanto. o sinal foi classificado em sua semântica. porém. haverá alteração da C. haverá alteração da C. Classificador do verbo andar (de carro) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma galinha.. mas um carro.. Classificador do verbo andar (de uma cobra) Se é preciso referir-se a mesma ação de andar. o sinal foi classificado em sua semântica. Então. este sinal remete à ideia da ação realizada por uma pessoa. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. do movimento e da localização. do movimento e da localização.. Classificador do verbo andar (de uma galinha) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar. haverá alteração da C. do movimento e da localização. Postas as questões preliminares dos processos morfológicos da Libras. o sinal foi classificado em sua semântica.M. e preservação da direção. haverá alteração da C. Isso é perceptível pela configuração em v que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir à frente.M. mas um gato.

O primeiro processo. sendo que estas são impostas pela própria natureza da frase. de flexão nominal. pode ser explicitado por meio dos pronomes. ● Pronomes pessoais podem representar primeira. Câmara Jr. a obrigatoriedade e a sistematização coerente. constituindo uma ideia acessória em que o significado base não é alterado. há pronomes pessoais. possessivos. vamos conhecer cada um deles. Para ele. É nesse escopo da morfologia flexional que se destacam os processos de flexão nominal e verbal. e podem aparecer no singular ou no plural: Singular 1ª pessoa – eu Nós dois 85 Plural Nós três Nós quatro Nós grupo Língua Brasileira de Sinais – Libras . interrogativos e indefinidos. com o acréscimo de uma desinência correspondente à função que exerça na frase. (1985). numa relação fechada. conforme ilustrados a seguir. demonstrativos. segunda e terceira pessoa. e os primórdios de sua utilização aconteceram na indicação do desdobramento de uma palavra em outros empregos. Isso demonstra que a flexão é definida como um processo pelo qual uma palavra é adaptada a um contexto. Sendo assim.Capítulo 2 Flexão Segundo Câmara Jr. também. o autor assinala que a flexão se apresenta sob o aspecto de desinências ou sufixos flexionais. o termo “flexão” tem sua origem na língua alemã. No português. (1985) associa. de acordo com a natureza desta. indicando uma modalidade específica. a flexão é a formação de uma palavra por meio de um morfema. Na Libras. ao conceito de flexão.

Sua realização sempre vem acompanhada da direção dos olhos. Este(a) aqui Esse(a) aí Aquele(a) lá FAEL . que se voltam para o local referenciado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Singular 2ª pessoa – você Vocês dois Plural Vocês três Vocês quatro Vocês grupo 3ª pessoa – ele(a) Eles(as) dois/duas Eles(as) três Eles(as) quatro Eles(as) grupo 86 ● Os pronomes demonstrativos são iguais aos advérbios de lugar.

incorporam alguns advérbios de tempo. Que? / Quem? Porque ou por que? 87 Onde? Quando? 2 1 Língua Brasileira de Sinais – Libras . A realização desses pronomes sempre vem acompanhada de expressão facial.Capítulo 2 ● Pronomes possessivos: Meu (minha) Teu (tua) Seu (sua) ● Pronomes interrogativos: em alguns aspectos.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Como? Qual? Quantos(as)? ● Pronomes indefinidos: Ninguém Nada = sem 88 Nenhum Nada FAEL .

Casa Casinha Bonito(a) Bonitinho(a) 89 Legal Legalzinho(a) Língua Brasileira de Sinais – Libras . alguns exemplos para flexão nominal de grau. é a modificação paramétrica capaz de apresentar distinções para “tamanhos”. nos quais constam alterações das expressões faciais.Capítulo 2 Já a flexão para grau. A seguir.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Alto(a) Altão (altona) Calor Calorão 90 Inteligente Inteligentão (inteligentona) FAEL .

mas a trajetória do movimento será à esquerda. locativo e aspecto. ser concordado para ele(a) me falou. haverá inversão do ponto inicial do sinal que. ou seja. anteriormente ilustrado.Concordância do verbo falar: Língua Brasileira de Sinais – Libras 91 . A seguir. será na localização que está referenciada para o objeto (segunda pessoa do discurso). a direção do movimento será à direita. para todas as diversas localizações possíveis para o receptor. a concordância na Libras está na sentença: eu falo para você.Capítulo 2 Quanto à flexão verbal. Nesse caso. É o caso do sinal falar. Isso que dizer que se a pessoa que será o receptor está à direita do emissor. Assim. a primeira pessoa do discurso – eu – falo (verbo com concordância) para a segunda pessoa do discurso – você. temos o verbo falar. o ponto inicial do movimento permanece sendo na boca. Ocorre que. Falar O verbo falar é produzido com a configuração de mão em y (mão fechada. ao invés de ser na boca. Como primeiro exemplo. e assim sucessivamente. apresentamos alguns exemplos de verbos que concordam com a pessoa do discurso. temos a possibilidade de flexão para pessoa. número. em alguns casos. dedos mínimo e polegar abertos). Os verbos que se flexionam em pessoa são chamados de verbos com concordância. Esses verbos são chamados de verbos reversos (backward verbs). A localização inicia-se com o polegar próximo a boca do sinalizador e movimenta-se na direção de quem receberá a fala. a trajetória do movimento é oposta: inicia-se no objeto indo em direção ao sujeito. Se o receptor da fala está à esquerda.

e assim sucessivamente. Adiantamos. entretanto. entendemos que há um processo morfologicamente complexo 5 Maiores detalhes sobre as transcrições adotadas no texto estão expostos no capítulo 3.Língua Brasileira de Sinais – Libras 1s Falar2s 5 2s Falar1s 92 Falar3s 2s Explicando a concordância para os sinais apresentados anteriormente. que as pessoas do discurso são transcritas como: 1s = 1 pessoa. FAEL .

Capítulo 2 envolvido nesta realização. é possível visualizar três componentes: ● A raiz do verbo falar. segundo Meir (2002). ● Um morfema direcional – o movimento da trajetória. ● Um afixo verbal – a orientação da mão. que marca o argumento semanticamente. O mesmo processo pode ocorrer com os seguintes verbos: Perguntar Ver Mandar Dar Responder Visitar 93 Mostrar Mudar Obedecer Língua Brasileira de Sinais – Libras . pois. denominado DIR (directional).

Vejamos outros verbos de concordância. mostrar para quatro pessoas ou ver todas as pessoas. por exemplo. na Libras existe a possibilidade de várias formas de substantivos e verbos apresentarem a flexão de número. dois. dar para três pessoas. Além disso. o sinalizador pode referir-se a. A seguir. FAEL . perguntar para duas pessoas. do trial e do múltiplo. A flexão de número refere-se à distinção feita para um. uma delas é a diferenciação entre singular e plural. do dual. Assim. dando a indicação de flexão para número e depois a marcação diferenciada pelas palavras no singular e no plural. apresentamos alguns exemplos do sinal entregar com concordância para número e outros. três ou mais referentes. possibilidade de indicação do singular. neste caso. realizada por meio da repetição do sinal.Língua Brasileira de Sinais – Libras Mexer Paquerar Pedir Influenciar Matar Pagar 94 Em relação à flexão para número. apontamos que pode ocorrer com os mesmos verbos colocados anteriormente (verbos com concordância) e há.

Capítulo 2

Concordância do verbo entregar:
1s

Entregar

2s

1s

Entregar

2s + 3s

95

1s

Entregar2s + 3s + 4s

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

1s

Entregar vários

96

1s

Entregar grupo6

6 Uma variação possível desse sinal é a realização do movimento com ambas as mãos, denotando, desta forma, a ideia de entregar para muitas pessoas ou entregar para um
grupo grande.

FAEL

Capítulo 2

Agradecer uma pessoa

Abandonar duas pessoas

97

Encontrar três pessoas

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras Aconselhar quatro pessoas Beijar todas as pessoas 98 A diferença da marcação do singular e do plural é que. por exemplo. como em pessoas no sentido de multidão. em que sinalizamos ano + ano + ano. FAEL . e assim com todos os outros nomes que recebem flexão de número. flexionado para a locação que está à frente do corpo do sinalizador. usamos o sinal de árvore repetidamente. exceto em casos em que houver sinal específico para marcação do plural. Os verbos que recebem essa flexão são chamados de verbos espaciais. Para árvores. temos a incorporação de locativo na sua realização. como é o caso do verbo ir. para o plural. se faz a repetição da forma no singular. Quanto à flexão de locação. como no caso da marcação de anos. em que é possível perceber o trajeto percorrido desde o seu início até o local de chegada. conforme a seguir.

apenas o verbo. por exemplo.Capítulo 2 Ir Outros exemplos desses verbos: Verbo andar Ir de carro Ir de avião 99 A flexão para aspecto é marcada de duas formas: lexical e gramaticalmente. na oposição semântica verificada entre os verbos procurar e encontrar. reproduzidos na sequência. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Sua expressividade se manifesta. Tais marcações dão origem ao aspecto lexical e ao aspecto gramatical. manifesta a duração da ação. O aspecto lexical é aquele em que. pois a flexão codifica como a situação por eles referida se estrutura. respectivamente.

enquanto que o imperfectivo é produzido com movimentos lentos e contínuos. colocada à frente do corpo. sendo que o braço fica na horizontal do tronco. já encontrar codifica a situação como pontual. e se refere a eventos presentes. Por outro lado. Para ilustrar o que dissemos até aqui. aspecto gramatical é aquele que pode ser codificado em perfectivo ou imperfectivo. ou seja. tomemos o exemplo do verbo cuidar em seu padrão de movimento: Cuidar O sinal raiz do verbo cuidar é produzido com a mão passiva fechada (configuração de mão em s).Língua Brasileira de Sinais – Libras Procurar Encontrar 100 Procurar é um verbo que codifica a situação como durativa. A mão ativa configura-se em v e FAEL . e se relaciona a eventos passados. como não durativa. O perfectivo é produzido com movimentos retos e abruptos.

Já com relação ao verbo passear. pelo próprio léxico. e que o afastamento da mão passiva será mais alongado em relação ao afastamento que há na produção do sinal raiz. podemos reforçar essa indicação lexical por meio do aspecto gramatical imperfectivo. podemos indicar uma situação que perdura de forma ininterrupta. O movimento que gera o contato de ambos os pulsos é curto e firme. através do movimento representado a seguir. a retomada do contato será feita de modo mais lento. Cuidar imperfectivo 101 Nesse caso. lento e contínuo. Todavia. indicando uma situação que se desenvolve ao longo do tempo. ou seja. esse verbo transmite o significado aspectual durativo. Isso quer dizer que haverá o contato do pulso da mão ativa com o pulso da mão passiva mais de uma vez.Capítulo 2 leva o pulso a tocar no peito da mão passiva. temos a seguinte observação: Passear perfectivo Língua Brasileira de Sinais – Libras . É claro que. mantém-se a configuração de mão e a localização do sinal raiz e altera-se o movimento para alongado.

mas o movimento foi mais alongado e contínuo.Língua Brasileira de Sinais – Libras Pudemos observar as mãos configuradas em b. curtos e abruptos no espaço neutro. passando alternadamente sobre os ombros. com movimentos retos. para realizar o sinal com marca do imperfectivo. foi utilizada a mesma configuração de mão do sinal neutro. FAEL . O mesmo ocorre com o verbo esperar: Esperar Mãos configuradas como “esperar” na direção de cima para baixo. Passear imperfectivo 102 Observamos que. com movimentos retos e curtos.

Capítulo 2 Esperar imperfectivo Mesma configuração de mão do sinal neutro. na) como fazemos no português. sentenças com 103 Língua Brasileira de Sinais – Libras . alongado e contínuo no espaço neutro. pois as ideias são formuladas no espaço e a construção da coerência e da coesão acontece de modo bem diferente. em se tratando dos tipos de frases. sentenças interrogativas. te. da organização dos campos de referência e da flexibilidade das categorias gramaticais. em. a saber: sentenças negativas. Veremos o passo a passo da construção sintática da Libras. é preciso apenas buscar termos equivalentes. Porém. Para construir um enunciado na Libras não é preciso adicionar conjunções e preposições (de. sentenças relativas. sentenças com foco. Sintaxe é a organização de um enunciado em torno de um verbo. mas com movimento lento. da ordem dos constituintes. sentenças condicionais. sentenças afirmativas. todos os conceitos que são transmitidos em uma língua podem ser transmitidos em outra. vamos discutir um pouco sobre a sintaxe da Libras. Assim como não é necessário seguirmos a mesma ideia do português. como também existem sinais da Libras que não são traduzíveis para o português. Tipos de frases na Libras Na Libras é possível construir sete tipos de frases. até porque existem palavras do português que não são traduzíveis para Libras. para. Aspectos sintáticos da Libras Neste tópico. com.

Língua Brasileira de Sinais – Libras

tópico. Elas são constituídas de um tipo dado, especialmente pela expressão facial. Vejamos cada uma delas: ● Sentenças negativas – são aquelas que apresentam uma ideia sendo negada. Elas podem ser formadas pelos sinais que incorporam a negação – anteriormente apresentados –, pela expressão facial negativa junto ao verbo ou pelos sinais a seguir, acrescidos ao final da frase.
Não Nada Nunca

104

Em Libras é possível negar a ação de comer de várias formas: Eu comer não. Eu comer nada. Eu comer nunca. Eu comer (expressão de negação). ● Sentenças interrogativas – são aquelas formuladas com a intenção de obter alguma informação desconhecida. A formulação do questionamento se dá com os pronomes interrogativos – anteriormente dados – inseridos no início ou no final da frase, como nos exemplos a seguir:
O que você comer hoje? Como você trabalha? Você comer hoje o quê? Você trabalha como?

FAEL

Capítulo 2

Onde você mora? Quem sabe? Por que isso aconteceu? Para que você fez isso? Quando você vai casar?

Você mora onde? Sabe quem? Aconteceu por quê? Você fez para que? Você vai casar quando?

Além das perguntas chamadas qu, há também as sentenças interrogativas nas quais a intenção não é obter uma resposta completa, mas simplesmente sim ou não, como: Você quer leite? Você gosta dele? Você conhece a China? ● ● Sentenças afirmativas – são aquelas que afirmam determinada ação: Eu vou a festa à noite. Sentenças condicionais – são aquelas que estabelecem uma relação de condição e consequência para a realização de algo. Por exemplo: Se você me contar, faço segredo. Sentenças relativas – são aquelas que inserem uma informação adicional à frase, uma informação que seja relativa à informação principal que está sendo transmitida pela sentença. Em Libras, isso ocorre com a expressão facial mantida na oração principal e modificada na relativa. Por exemplo: Aquele homem, que fala muito, está de férias. Sentenças topicalizadas – são aquelas que empregam o tópico. O tópico anuncia o assunto a ser desenvolvido ao longo da sentença. Por exemplo: Carro, eu gosto de Uno. Sentenças focalizadas – são aquelas que usam o foco. O foco serve para destacar ou contrastar alguma informação da sentença como em: Ana chorou, não Paula chorou.
105

Explicitados os principais tipos de frases na Libras, vamos aprofundar como os elementos se organizam na oração.
Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Ordem dos constituintes Em todas as línguas humanas há, pelo menos, três elementos sintáticos principais, que podem se ordenar na frase de diferentes maneiras. Esses elementos são: sujeito – é o termo que expressa o agente da ação (que pratica ou sofre); verbo – é o termo que expressa a ação; objeto – é o termo que qualifica ou detalha o verbo. Quadros e Karnopp (2004) apontam que a ordem dos elementos na sentença da Libras é, geralmente, SVO (sujeito – verbo – objeto). Elas dizem que, além dessa ordem, são possíveis também as seguintes: OSV, SOV e VOS, sendo estas derivadas da ordem canônica e construídas a partir de operações sintáticas, tais como topicalização ou focalização, conforme pesquisa de Pizzio (2006). A seguir, exemplificamos algumas sentenças com a ordem básica da Libras: SVO Eu gostar laranja. Você ter dinheiro.
106

Ele(a) saber Libras. Essa é a ordem chamada canônica, básica, e dela derivam as outras ordens – apontadas anteriormente –, exemplificadas a seguir:
oSV
Laranja ele amar. Bolo eu fazer. TV você ver.

SoV
Você laranja gostar? Eu presente comprar. Ele mãe visitar.

VoS
Gostar laranja ele? Passear praia você. Comprar casa eu.

Deve-se ressaltar, ainda, que alguns elementos apontados na frase podem ser apagados, pois na Libras, assim como em outras línguas, é possível que ocorra o apagamento, não apenas do sujeito, mas também do objeto. Na frase gostar laranja, o interlocutor identifica que há o sujeito eu oculto. Organização espacial Ao estudar os pronomes, verificamos que eles são utilizados para marcar as referências pessoais nos verbos com concordância. Em relação à
FAEL

Capítulo 2 sintaxe. É nesse espaço. é possível usar o dedo indicador na direção do referido. O corpo do sinalizador deve se situar no centro do raio do semicírculo e. o sinalizador vai estabelecer aleatoriamente um ponto no espaço de sinalização para se referir ao sujeito e/ou objeto e fazer as apontações devidas. é preciso que o sinalizador defina pontos específicos no espaço a cada referente que aborda no discurso. pode ocorrer mudanças quanto à direção e à localização de seu corpo. todo enunciado em Libras é realizado no espaço de enunciação: um semicírculo virtual. ainda. basta que a apontação seja feita diretamente ao referente presente. por ser esta sua natureza linguística. quer dizer. Conforme Quadros (1997). Por exemplo. A apontação se dá em dois casos: quando o referente não está presente no momento da enunciação. se o sinalizador não quer que o referente saiba que ele está fazendo menção a ele. ou quando ele está fisicamente no mesmo ambiente de quem fala. estando o narrador no centro do raio do semicírculo e os demais participantes da interação nas periferias. de várias maneiras. Sobre isto. As vozes dos sujeitos. com referentes presentes ou não. Assim. Dessa forma. a que se lembrar que a Libras estabelece a maioria de sua organização sintática no espaço7. inclusive por apontação. com a outra mão aberta e com a palma sobre o dedo que aponta. Isso pode ser feito. sempre que precisar retomar o referente. que são construídos pela expressão facial. então. ver: Pizzio (2006). neste espaço. à esquerda e/ou à direita do narrador. suas enunciações. a sinalização em direção a um lócus predeterminado ou a movimentação ocular para este mesmo local significa uma marca de referência a uma pessoa e/ou objeto. por exemplo. que se desencadeiam todas as relações entre os sujeitos. Algumas vezes. obviamente. conforme Quadros e Karnopp (2004). Língua Brasileira de Sinais – Libras . seus diálogos e suas ações. são marcadas segundo o lugar que cada um ocupa no espaço de sinalização. cujo perímetro é usado para a realização de referência a pessoas do discurso. nas diferentes situações discursivas. Estando o sujeito e/ou objeto visíveis. será uma fala às escondidas. No primeiro caso. 107 7 As exceções dessa construção sintática no espaço são o tópico e o foco. A enunciação se desenvolve com a mudança de posição de referência. por questão de etiqueta ou. porém. ou seja.

por isso. e guiaram durante uma hora uma grande carreata pelas ruas. ele se alterna continuamente dentro do espaço sinalizador. Maluf foi sucinto em seu discurso e quando Amim – o careca – tomou a palavra. quando for a vez do personagem que está à esquerda falar. bem ao meio do círculo de sinalização. por exemplo. com seu corpo voltado à esquerda. ao começar a sinalizar. de acordo com Massone (1993). de acordo com a organização interna do discurso. seguidos de Maluf e de Amim. o sinalizador toma primeiramente o lado direito. o que fez com que Maluf comentasse com os políticos que estavam à sua volta: “– Imagine se ele não fosse careca!” Considerando que esse texto se caracteriza como uma narrativa. Então. as lideranças locais falaram primeiro. sim. ou seja. O dia estava muito quente e. o sinalizador estará sempre no centro do espaço e poderá produzir os sinais na direção do referente ou. Porém. até porque as alterações do lócus não ocorrem aleatoriamente. o sinalizador aponta para um lugar a sua direita ou esquerda para marcação do espaço a ser ocupado pelo referido sujeito. o FAEL 108 . Esse processo é a incorporação do personagem e a elaboração do discurso direto. Outra forma de o sinalizador construir a voz do personagem é por meio do processo chamado anafórico. disse que discursaria tão rápido quanto havia feito seu amigo. sinaliza a fala desta pessoa na direção de onde está a outra. Nesse sentido. levar os olhos naquela direção para marcar o espaço. Na ocasião. mas. se por ora o sujeito referenciado aparecer à esquerda do narrador – centro do semicírculo – e por ora aparecer à direita. estavam em comitiva. os políticos suavam bastante. se houver um diálogo entre dois personagens. Quando esse narrador deixa de contar os episódios gerais e passa a dar voz a algum personagem em específico. não haverá comprometimento da clareza de informação. Esse espaço será fixo enquanto houver ação ou fala dessa mesma pessoa. o lócus referencial das pessoas do discurso não é fixo. Porém. dependendo do contexto em que se encontra.Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. sua fala perdurou muito tempo. em cima de uma caminhonete. enquanto acenavam para todos. ainda. Tomemos como exemplo para análise da construção sintática um texto que trata do fato de que o prefeito Paulo Maluf e o senador Amin foram visitar a cidade de Joinville. No comício. a pessoa assume o papel de narrador e a produção dos seus sinais será no espaço neutro. Então.

Nesse caso. pelo contato ideário com o interlocutor colocado no espaço referenciado a ele e. por exemplo. Para tanto. utilizando-se da direção do olhar como um recurso identificador do sujeito. Língua Brasileira de Sinais – Libras 109 . os verbos direcionais – como é o caso de andar – instauram uma necessidade eminente de movimento. por meio de uma marcação sinalizada. a sinalização é projetada para frente. se faz priorizando as pessoas do discurso e não as coisas e objetos nele envolvidos. É interessante notar que há prevalência do sujeito em relação ao objeto nas enunciações. No caso sob análise. ainda. na Libras. o sinalizador precisa destinar um lugar específico para outras referências. entretanto. há necessidade de se fazer uma organização sequencial. se pontua – com os números não quantitativos – a ordem de fala. marcando a direção de origem e destino da ação expressa pelo verbo direcional. No entanto. Nesse momento. quando é preciso lançar mão de mais de uma construção espacial. expressa pelas duas mãos passando da direita para esquerda. quando há necessidade de alocação de outros sujeitos no mesmo espaço que está sendo ocupado por objetos. Além de organizar o espaço de sinalização para marcar o lugar de quem fala. este espaço não pode invadir o espaço anteriormente definido para os personagens já apresentados. mas com uma inclinação de tronco à direta – como se estivesse olhando para quem fala – e sinaliza. como se estivesse limpando a fala dita até então e dando lugar a uma nova enunciação. na Libras. Dessa feita. destacamos que. enquanto Amin fala ao público. há a possibilidade de fazer a diferenciação das vozes ao longo do discurso mediante movimento de ombros e incorporação do personagem. há facilmente uma desconstrução desse primeiro espaço. ou seja. o espaço da comitiva se desfaz e dá lugar à presença de um grupo de políticos e assessores.Capítulo 2 sinalizador se coloca deste lado. Assim. Durante a tomada de voz de cada um dos personagens discursivos. bem como a direção do olhar é para um terceiro espaço – do grupo de políticos. Quando Amin fala ao prefeito. há construção das enunciações de cada um. a comitiva vai andar de um ponto definido pelo sinalizador até o outro no espaço. a sinalização é feita na direção do espaço marcado para esse personagem e o último movimento de ombros. a carreata e a comitiva. É interessante observar que.

para depois os colocarmos em frases comparativas. Para tanto. passemos à exemplificação. a ordem dos constituintes e a forma de organização dos elementos no espaço.Língua Brasileira de Sinais – Libras Agora que já conhecemos os tipos de frases. Barulhento Bobo Bondoso Confuso Chorão Bruto 110 Corajoso Infantil Engraçado FAEL . relacionamos a seguir alguns adjetivos da Libras.

destinamos outro espaço de sinalização. A mesma forma de construção frasal ocorrerá na utilização de qualquer adjetivo ou para suscitar qualquer tipo de comparação. fazemos o sinal de “mais8 bobo” e. Imediatamente. oposto ao primeiro. com a intenção de dizer “ele”. Na seção destinada à semântica. Contrariamente. colocamos o marcador “do que” (conforme a figura a seguir) na direção do espaço do João para o espaço da Maria. explicaremos cada um deles. para escrevermos com o alfabeto manual “João”. Do que 111 8 Há muitos sinais que podem significar mais. por exemplo. Então. à esquerda. temos que destinar um espaço de sinalização. se o marcador comparativo for sinalizado da direção do espaço da Maria para o espaço em que se encontra João. Em um segundo momento. Em Libras. Língua Brasileira de Sinais – Libras . há um apontamento para o espaço onde foi colocado o primeiro personagem. para escrevermos o nome “Maria”. na sequência. haverá inversão da informação.Capítulo 2 Fofoqueiro Famoso Egoísta Pensando numa construção frasal temos: João é mais bobo do que Maria.

Para esse autor. relacionado diretamente ao momento da enunciação (ME) e organizado em função do presente que já está implícito na enunciação. representadas no próprio discurso. ao fato de se definir e de se organizar como função do discurso. Cada vez que um locutor emprega a forma gramatical do presente. que postulam três momentos relevantes na constituição do tempo: momento da enunciação (ME). que expressa o momento em que ações verbais acontecem e. por isso. pode definir a existência de três tempos linguísticos: presente. sob diferentes perspectivas. Sobre questões como essas e outras peculiaridades teóricas da conceituação da categoria tempo. porém. que diz que o tempo linguístico é aquele que realiza o tempo do homem. o qual transcorre no tempo presente linguístico. e um agora em que acontece a não concomitância. Nesse sentido. Com isso. Fiorin (2002) afirma que a temporalidade instaurada pela língua refere-se também às relações de sucessividade entre estados e transformações. A conceituação mais básica de tempo é que ele é uma categoria gramatical dêitica. como Fiorin. momento de referência (MR) e momento do acontecimento (MA). É o caso. levando em consideração o momento da fala como ponto de referência para situar os acontecimentos. Para ilustrar a flexibilidade da Libras. FAEL 112 . passado e futuro. há uma vasta literatura. autores mais recentes. ordenado em função de momentos de referência (MR) instalados no enunciado. pois tal nos permite entender esta característica. na qual encontramos diferentes abordagens e discussões dos autores. Tanto aspecto quanto tempo são noções que se referem à temporalidade dos eventos. e o enuncivo. todo discurso instaura um agora que equivale ao momento da enunciação. de Benveniste (1989). ele situa o acontecimento como contemporâneo à instância do discurso que o menciona. e isso pode ser demonstrado pela “junção” de categorias gramaticais em sua expressão e composição. Podemos citar. o autor aponta para a existência de dois sistemas temporais: o enunciativo. o tempo linguístico é singular por ser organicamente ligado ao exercício da fala. em que existe uma concomitância entre o evento narrado e o momento da narração. a qual se divide em anterioridade e posterioridade ao agora. também.Língua Brasileira de Sinais – Libras Flexibilidade da Libras A Libras é uma língua flexível. escolhemos tratar da temporalidade. instaurando-o em um discurso. por exemplo.

dando a representação de passado.Capítulo 2 Há que se destacar. assim como em outras línguas. o tempo pode ser expresso por operadores temporais específicos na sentença: passado. Por meio do momento de referência – em relação ao qual o momento do acontecimento também se norteia em termos de anterioridade. presente e futuro. Esse autor analisa a lógica da manifestação temporal e realiza uma interpretação linguística da categoria tempo com base em três conceitos: momento de fala. Os três conceitos de tempo dados por Reichenbach (1947) podem ser aplicados a quaisquer línguas. Por exemplo. passaremos à demonstração de algumas possibilidades de expressão do tempo na Libras. para então localizar os acontecimentos no eixo temporal. Tal representação objetiva organizar as manifestações temporais das línguas naturais. presente. simultaneidade e posterioridade – podemos obter codificações mais complexas. entretanto. que Reichenbach (1947) tem sido o grande marco teórico e que suas postulações têm servido de base a outros estudos acerca do tempo. sua expressividade se dará por expedientes linguísticos distintos. para o tempo passado. Passado 113 Língua Brasileira de Sinais – Libras . porém. existe um marcador temporal específico. Nesse sentido. Dessa forma. em relação ao momento da fala. uma vez que o próprio momento de referência se norteia em relação ao momento de fala. o momento do acontecimento pode se nortear de modo anterior. que é formulado com a configuração de mão no espaço próximo ao ombro e com movimento dos dedos para trás. simultâneo e posterior. momento de referência. conforme figura a seguir. futuro. Na Libras. momento do evento.

palmas voltadas para cima e com um movimento simultâneo de aproximar e afastar as mãos. de modo que fique longe do rosto: Futuro 9 Se não for produzido dessa forma. O presente é definido pelo marcador temporal agora/hoje. de modo que os dedos mínimos quase se tocam e paralelamente se distanciam. se o sinalizador fizer os movimentos para cima e/ou para frente. o sinal é produzido com a configuração de mão em f. haverá um fenômeno agramatical. remeter ao referido tempo linguístico: passado. então.Língua Brasileira de Sinais – Libras É interessante observar que esse sinal não segue as antigas relações de que sinais produzidos para trás do ombro estão no passado. o operador temporal específico obedece ao critério “para trás e para baixo9” para. dedos juntos. pois para denotar a ideia de posterioridade ao momento da fala é preciso também que o sinal seja produzido para baixo. que é sinalizado com ambas as mãos abertas. Agora / hoje / presente 114 O futuro é sinalizado com o marcador temporal de futuro. sendo que o posicionamento inicial da mão é no espaço neutro na altura do rosto e o movimento produzido é de afastar a mão em direção diagonal à frente. ou seja. FAEL . Conforme vemos na figura a seguir. Nesse caso.

além do reforço na expressão facial. será denotado passado distante. Passado recente 115 Língua Brasileira de Sinais – Libras . também. sua leitura. Tal variação pode acontecer em níveis distintos e caracterizar uma gradação temporal. haverá denotações de “posteriormente” ou “antes disso”.” A palavra em destaque demonstra intervalo que ocorreu no passado. com uma aproximação do cotovelo ao tronco do sinalizador e. portanto. Tradução: “Eu me casei em 2000 e posteriormente nasceu meu filho”. como a língua é um sistema dinâmico e flexível. também. Tradução: “Eu me casei em 2000. conforme podemos ver nos exemplos a seguir. é de antes disso. portanto. namorei três anos”. com uma expressão facial reduzida. presente e futuro. se o sinal de passado sofrer ampliação dos movimentos dos dedos para o braço e houver um afastamento do cotovelo.Capítulo 2 Esses três sinais são os principais marcadores dos conhecidos tempos linguísticos: passado. Nesse sentido. é de posteriormente. dependendo da posição em que os sinais de passado e futuro estejam na frase.” O sinal destacado demonstra intervalo que ocorreu no passado. Assim. eles podem estar demonstrando intervalos que ocorrem no passado. Porém. com isto. Isso significa que. ou seja. gere o sinal de passado recente. sua leitura. antes disso. referindo-se a situações já ocorridas. é possível que a diminuição do movimento somente para a ponta dos dedos. é capaz de expressar conceitos diferentes do sinal raiz. Sabemos que a Libras possui uma morfologia flexional que emprega variação no movimento do sinal e que. da marcação interna aos eventos. sua temporalidade vai além dos estabelecimentos tradicionais de tempo e se ocupa. ● “Eu ano 2000 casar passado 3-anos namorar. ● “Eu ano 2000 casar futuro nascer filho 2003.

conforme vemos nas imagens a seguir.Língua Brasileira de Sinais – Libras Passado distante Quando ocorrem flexões morfológicas via alteração do movimento do sinal presente. por meio de alteração de movimento. caracteriza-se por futuro distante. Sua realização se dá com o aproximar das mãos e com movimentos mais rápidos. 116 Imediatamente Essa mesma flexão morfológica. FAEL . sendo ampliado com alongamento do braço para frente e a expressão facial com reforço no olhar ao longe. Se ocorrer a diminuição do alcance do braço e uma expressão facial menos intensa. obtém-se o futuro próximo. se dá para o sinal de futuro. curtos e abruptos. temos a variação para imediatamente/já/neste instante. O sinal de futuro. a leitura é de agora/hoje/presente/atualmente. Se o movimento for “neutro” e mais repetido.

Assim sendo. anteontem. sempre. o pressuposto da temporalidade marcada inicialmente é mantida até que apareça outro marcador temporal. São os sinais adverbiais: ontem. próxima semana. eles são inseridos no início da narrativa e servem para “conjugar” o tempo de toda a sentença. há outros que podem expressar a categoria tempo. presente e futuro –. amanhã. mas também podem aparecer no final. Com fim elucidativo. Quando esses itens lexicais aparecem na frase. semana passada. depois. seguem as imagens de ontem e anteontem: Ontem Anteontem 117 Língua Brasileira de Sinais – Libras . nunca. normalmente.Capítulo 2 Futuro próximo Futuro distante Além desses três sinais principais – passado. Esses advérbios geralmente vêm no começo da frase. antes.

conversaram e no futuro casaram”. principalmente pelo conhecimento compartilhado entre os interlocutores. o falante escolhe significados restritos à sua língua que podem ser presumíveis pela inferência do outro e. Tal teoria postula que. futuro casar”. Isso implica em conhecimentos de mundo que os interlocutores compartilham e que possibilitam uma flexão semântica para os verbos e as devidas distinções temporais. em um dos seus mundos possíveis. Tradução: “Namoraram. é possível perceber o tempo. a expressão da categoria tempo na Libras não conta apenas com léxicos específicos para sua realização. p. chamados também de heurísticas. para depois se casar. compõem uma organização interpretativa dos enunciados. as FAEL . nessa teoria. No entanto. por flexão e por advérbios. pois muitas vezes é preciso recorrer a aspectos pragmáticos para a interpretação temporal. Finau (2004) coloca que há. 2004. acontece a restrição temporal. conforme observado no exemplo: “Namorar. conversar. A análise subsequente. mesmo não havendo marcas temporais explícitas (operadores ou flexões) no discurso do falante. 118 Quer dizer. Numa sentença como “Ana estudar até quarta série” vemos que o emprego do sinal quarta série é um quantificador que expressa o tempo de estudo. ele serve como um limitador. desse exemplo colocado por Finau (2004). 140). assim. Esses princípios. Finau (2004) apresenta a teoria da análise pressuposicional para justificar a leitura temporal de sentenças que não contenham operadores temporais específicos. advérbios ou quantificadores. provavelmente. ele também conta com expressões quantizadas para sua realização. conversar. Para Levinson apud Finau (2004). que é preciso namorar. o common ground (conhecimento compartilhado pelos falantes). pela sequência discursiva para a narrativa. A leitura de tempo durante o ato conversacional ou discursivo pode ser estabelecida por pressupostos da pragmática generalizada. Esse conhecimento compartilhado hipotético auxilia a interpretação temporal dos eventos (FINAU. Nas palavras da autora: O locutor pode se valer da suposição de que seu interlocutor tenha como familiar. é de que a referência temporal é dada de modo implícito.Língua Brasileira de Sinais – Libras Além de o tempo na Libras ser marcado por operadores temporais. três princípios norteadores de escolhas de seleção linguísticas que o falante opera.

Então. não é normal. ou seja. Se não foi dito. Isso quer dizer que. Finau (2004) aplica essa heurística para Libras e diz que se a sentença não apresentar o sinal futuro. se um sinal foi flexionado por meio de alteração no parâmetro movimento. todo seu conhecimento de mundo e tem. esses três princípios norteiam o status da interpretação do tempo das sentenças. pois não foi dito de uma forma normal. Essa é a heurística que viabiliza a interpretação aspectualizada para marcadores que sofrem alteração morfológica. ● Aquilo que é dito de uma maneira anormal. não deve estar presente na interpretação temporal. dessa forma. passado. Para Finau (2004). de acordo com os estereótipos dados. aplicadas ao estudo da temporalidade na Libras. tem um significado a mais no enunciado. na conversação. hoje/agora. 2004) que. a sentença não pode ser interpretada estando no futuro. ele revela “algo a mais” do que sua lexicalidade permite expressar. Em Finau (2004) vemos que. se recebe uma descrição mínima ele traz à tona. São as heurísticas de Levinson (apud FINAU. se há ausência de determinado fator temporal. Assim. no caso da Libras podem ser os sinais futuro. Esse é o princípio que trata das ampliações interpretativas feitas pelo interlocutor. permitem multiplicar o conteúdo informacional de qualquer sentença. ● Aquilo que é simplesmente descrito é um exemplo estereotipado. quando flexionado.Capítulo 2 determinações temporais dadas a partir de implicaturas conversacionais generalizadas são: ● O que não é dito não é. Essa heurística propõe um contraste na restrição da seleção do que é dito e do que não é dito. considerando a concordância implícita entre os interlocutores. Língua Brasileira de Sinais – Libras 119 . É o caso do sinal passado que. este elemento ausente não poderá ser o escolhido para a interpretação da estrutura frasal. uma interpretação maximizada.

lar. pode caracterizar uma comunicação truncada. quanto à semântica da expressão “daqui a pouquinho”. É o caso. que têm seu significado restrito a determinado contexto que. No português. se empregado em outro. das palavras casa. O “problema” no discurso acima se deu devido a uma discordância quanto ao entendimento. a mesma ideia. Quatro horas depois.. assim. estamos apenas brincando com uma situação que é recorrente no nosso cotidiano.. temos diferentes palavras que são capazes de representar. você demorou. abrigo. Poderíamos citar como exemplo os casos de desentendimentos de detalhes. há palavras que não têm esta possibilidade dúbia de expressão. residência. inferir que pouco tempo se aproxima de uma quantidade determinada de minutos e nem chega a completar o ciclo de uma hora do relógio.. essa expressão ganha um sentido de pouco tempo. Por outro lado. Podemos. nesse caso. que horas você volta? Marido: – Ah. 120 Esposa: – Ué! Você não falou que voltava logo? Marido: – Mas eu não vim logo? Esposa: – Não. daqui a pouquinho eu to aqui.. por exemplo. Apesar de terem suas especificidades. todas elas representam a ideia de lugar onde se mora. Você disse que daqui a pouquinho estava de volta. moradia. trata-se de uma família de ideias. de fato. FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras Aspectos semânticos da Libras Toda língua tem uma semântica implicada em seus itens lexicais. eu pensei que fosse demorar uns vinte minutinhos. Marido: – Não demorei.. de brevidade no espaço temporal e. quatro horas é muito tempo. Especialmente por estar no diminutivo. apartamento e cabana. Claro que. sobrado. quanto ao significado. Esposa: – Demorou sim. basicamente. para quem está à espera de alguém. como no discurso abaixo reproduzido: Esposa: – Amor.. estamos descartando o significado de tempo para cada um dos envolvidos no processo. por exemplo. Logo.

fora do comum. Assim. Quando um surdo usa o sinal de especial para alguém. ele não está querendo dizer que esta pessoa é importante em sua vida. em uma frase como “Você é muito especial para mim” ou “Esta criança tem necessidades especiais”. tem uma conotação mais “concreta” do que em português. pois – mesmo sendo entendidos – podem gerar certo “estranhamento” ao interlocutor. está mais relacionada às coisas que se vê. excelente. Já na Libras. Essa relação entre significado e significante (o sinal) da Libras não é análoga à relação de significado e significante (palavras) da língua portuguesa. que se ressalta sobre os olhos. se produzidos em determinados contextos. singular. na Libras. notável. deve haver a sinalização de outro item lexical que equivalha a este termo do português. mas está querendo destacar qualidades que se deslumbram para ele. A palavra “especial” é usada no português para definir algo ou alguém como muito peculiar. O sinal de especial é empregado na Libras em contexto de definição bela sobre algo ou alguém. privativo. exclusivo. Isso significa que especial. Especial 121 Língua Brasileira de Sinais – Libras . de beleza que se destaca tal qual o brilho em meio à escuridão.Capítulo 2 Esse mesmo fenômeno acontece na Libras. como: importante no caso da primeira sentença e coisas próprias no caso da segunda. tornam-se mais adequados do que em outros. esse sinal não é muito usual em contextos relacionados às pessoas. Há sinais que. quer dar ênfase a uma vivacidade notória.

já que educação tem um cunho mais comportamental para os surdos. que é muito habilidoso na área da Libras. Educação Ensino 122 Algo semelhante se dá com o sinal de famoso. podem não se adequar semanticamente. Há expressões como “educação especial” ou “educação de surdos” que. que não tem correspondência com a palavra na língua portuguesa. muito proficiente na sinalização. Famoso Essa frase está invocando a informação de que a referida pessoa é muito fluente. Em Libras. Há a possibilidade da seguinte construção na Libras: “Ele Libras famoso”. seu emprego não está relacionado só ao fato de uma pessoa ser muito conhecida. FAEL . não há o emprego desse termo para definição do conceito. pois em Libras a melhor forma de representação desta ideia seria o uso do sinal de ensino.Língua Brasileira de Sinais – Libras Esse tipo de especificidade de uso ocorre também com o sinal de educação. se sinalizadas como a seguir. mas também com uma grande habilidade que ela possua. Em português.

no sentido de “maior”. 123 Sinal para marcar a ação de juntar. mas encerramos por aqui nossas exemplificações e passamos ao estudo da polissemia. Sinal para marcar a ação de comparação em relação a algo. operações matemáticas. acrescentar. dependendo do contexto de realização. Sinal para marcar a ação de “mais uma vez”.Capítulo 2 Há inúmeros sinais dessa natureza para serem detalhados. de repetição. Exemplo: 2 + 2. aproximar. numericamente falando. Começando pela primeira maneira. A palavra mais pode ser sinalizada das seguintes formas se os contextos de realização implicarem nas informações correspondentes: Sinal para marcar a ação de somar. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Polissemia Vamos pensar na polissemia em Libras de duas maneiras: a versão que o português impõe aos sinais da Libras e a versão que os sinais da Libras impõe ao português. vamos pegar uma mesma palavra e ver as várias possibilidades de sinalização.

daquele que está acima de todos. 124 Em relação à segunda maneira. como se houvesse um destaque de maioridade. pegaremos um sinal da Libras e averiguaremos as possibilidades de tradução para o português. Agora temos um único sinal que pode denotar várias palavras no português: ocupado. sentido de não posso. Ocupado FAEL . Sinal para marcar a necessidade de aumentar o som. Sinal para marcar a ação de comparação absoluta. sentido de advertido.Língua Brasileira de Sinais – Libras Sinal para marcar a necessidade de continuidade no percurso. Esse sinal também pode significar sentido de ocupado. ou seja. faremos o contrário.

Ainda com relação ao nível fonológico. Colocar a expressão “Vendo vozes” no quadro e verificar quem consegue melhor interpretação semântica para ela. se São Paulo ficará em um espaço. a partir delas. Curitiba em outro espaço. o professor pode realizar algumas brincadeiras em sala de aula. de duas mãos com formas diferentes ou. de duas mãos com formas iguais. eles pesquisem cinco sinais que se realizem da mesma forma. Quanto à localização. com a estrutura gramatical da Libras. observamos sua realização no espaço neutro e no corpo. configuração de mão e movimento. Entregar as 64 configurações de mão aos alunos e pedir que. Quanto à configuração. nos debruçamos sobre a gramática da Libras e olhamos.Capítulo 2 Da teoria para a prática Para trabalhar. para cada um dos seus níveis de análise linguística. Pedir aos alunos para sinalizarem a frase “Fui de São Paulo a Curitiba”. Língua Brasileira de Sinais – Libras . como as seguintes: 1. 2. ainda. Verificar se sabem separar os espaços para cada elemento. minimamente. No nível fonológico. para ver se entenderam que os verbos de movimento se realizam com concordância com o local. 3. a fim de proporcionar ao leitor um conhecimento das “partes” da língua. conhecemos suas seis possibilidades principais. observamos que a Libras apresenta três parâmetros principais: localização. detalhadamente. Quanto aos movimentos. destacamos a existência de pares mínimos e de parâmetros secundários para realização dos sinais: orientação da mão e expressão facial. e se realizam o sinal de avião fazendo o percurso do espaço de São Paulo a Curitiba. e que deixam a marca do seu trajeto. vimos as possibilidade de formação de sinais a partir de apenas uma mão. 125 Síntese Neste capítulo.

classificação de palavras. 126 FAEL . organização espacial e a flexibilidade da sentença da Libras. Finalizamos o capítulo com uma pequena abordagem quanto à semântica implicada nos sinais da Libras. e discutimos questões pertinentes à formação de palavras.Língua Brasileira de Sinais – Libras Na análise morfológica. tipos de verbos e os dois tipos de flexão: nominal e verbal. Na parte sintática. ordem dos constituintes. evidenciamos as possibilidades de formação de sinais a partir de morfemas presos e livres. trouxemos a questão dos tipos de frase.

ou seja. mas. ser. deve fazer parte da instrução recebida. Diante disso. Com relação à escolaridade da pessoa surda. em qualquer espaço que se for. Partindo disso. N As relações sociais do surdo Analisando sob a perspectiva de que a surdez está inserida e constituída em ambiente e mundo visual. apresentaremos um panorama geral sobre as relações sociais que são estabelecidas a partir da experiência da surdez. Disso tudo. partimos da premissa de que Libras é sua primeira língua e. a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades distintas em relação à vida de uma pessoa ouvinte. destacaremos a subjetividade inerente. Nesse sentido. a surdez como característica que compõe a própria diversidade e a individualização do ser humano em sua constituição. olharemos para o que é impregnado no surdo a partir de tais vivências: sua identidade e cultura.Implicações sociais da surdez 3 127 este capítulo. ser melhor ou pior. entendemos que a necessidade de saber o português é urgente e esta pode ser sanada com métodos específicos de segunda língua. abordaremos as configurações dos relacionamentos pessoais (casamento e filhos). Feneis) e cultura (cinema. arte). para tal enfoque. necessariamente. portanto. . sim. é possível refletir sobre o modo de como as pessoas surdas conseguem interagir com a sociedade e garantir sua participação ativa. podemos pensar que elas se inserem e retêm conteúdos visuais sob a forma de expressão. as relações de amizade (associação de surdos. Ter peculiaridades diferentes não significa. destacam-se os processos de leitura e escrita. sendo que. Por meio da Libras. É desse modo que a pessoa surda precisa ser vista na sua relação com a sociedade.

acaba sendo natural que ocorra uma comunicação em que haja gestos e falas oriundas deste contexto. já que o celebrante (pastor. são acompanhados de discutir questões conflitantes. tão pouco consegue exsimples. princípios e comportamentos de vida. ao lado do celebrante. formalizando a relação. acaba por ser deficitária devido à comunicação que. acaba por virem os filhos. (children of deaf adults). culminando em um viver bastante comprometido e problemático. normalmente. Essa organização. acaba por não ser estimulado e não desenvolve a audição e a fala. padre. O profissional mulação daquilo que se apreenintérprete deve se colocar em frente aos noideu. poder celebrar essa união tem um significado muito relevante. E no que tange à transmissão de conteúdos concernentes a valores. O significado da união com o outro representa algo diferente. o filho. a presença de mais um intérprete uma realidade semelhante quané recomendada. Frente à convivência em família. Caso haja surdos também às pessoas que possuem na plateia. a partir desse momento. Uma situação que pode acontecer é uma adequação em relação aos pais surdos e filhos ouvintes em que. porque o surdo se une a quem conhece a língua de sinais. O traje do profissional deve to a ser filho de pais surdos. exige empenho e reforpressar os votos na língua oral. pois interagir simultaneamente tradução. eles poderão ser ouvintes (havendo exceções em que pais surdos concebem filhos da mesma natureza). fica assim caracterizada. pois permite ter contato. 128 Como fruto dessa comunhão. por não haver clareza na comunicação. devido à barreira da comunicação. FAEL . destinada vos. pois vai em direção oposta a tudo que aprendeu e viveu. torna-se algo natural. devido à grande quantidade de filhos que se inclui nessa categoria. caser o mais discreto possível para não ofuscar o racteriza-se pelo nome de Coda glamour que envolve o casal. Isso é compartilhado mundialmente por essas pessoas e. O que antes era comprometido e problemático. podemos perceber como ocorre. seus pais não têm participação ativa em suas vidas. muitas vezes. Isso porque. criou-se uma organiSaiba mais zação internacional destinada a Os casamentos de surdos (com pessoa surda ou ouvinte). em culturas diferentes não é algo juiz) não consegue estabelecer uma comunicação com os noivos. do mesmo modo. independente de ser ou não surda. e como a surdez não é hereditária. Para a maioria dos surdos. um ritual que em nossa sociedade é muito comum: a questão da união conjugal. para o surdo. diálogo e participação com o outro.Língua Brasileira de Sinais – Libras Pensando por esse viés.

consideram a tranquilidade da comunicação em Libras algo bem acessível. para ambos. passeios. por isso. pois. mesmo sendo ouvintes. é comum que adolescentes e jovens surdos frequentem as baladas e dancem por muito tempo. A vibração é tão poderosa no corpo como o som é no ouvido. conseguem se expressar com maior clareza em relação ao português. Um exemplo bem comum é que. nada muito comum. mas frente ao contato com surdos ou suas comunidades. Com isso. acabam por praticar e. compras. para eles. a profundidade no contato visual desenvolve sua subjetividade e possibilita impressões acerca do olhar. Pensar em ser ouvinte é algo bem estranho. ver tudo que há no mundo é algo muito bom e. Para Perlin (2004). Eles conseguem acompanhar os ritmos musicais somente pelo que seu corpo sente. desta forma. ambos surdos e Codas. Outro exemplo disso é quando querem se comunicar e batem o pé no chão. Os surdos têm uma forte potencialidade para sentirem as vibrações do ambiente e. o que para os ouvintes “normais” – ouvintes de pais ouvintes – seria uma tarefa bem difícil. porventura. assim como os surdos fazem. com a convivência constante e indireta em viagens. consultas. elas desenvolvem habilidades que são específicas do surdo. Os Codas procuram desenvolver o olhar como meio de referência. pois esta vai ser moldada de acordo com o grau de receptividade cultural assumida pelo sujeito. estes se utilizam de alguns sinais no meio da conversa.Capítulo 3 A maioria das pessoas que participa dessa organização tem a audição preservada. Os filhos entendem que a possibilidade de ver as coisas. Eles conseguem ficar insensíveis a tudo isso. Quando acontece um diálogo de filhos ouvintes de pais surdos. o normal é ser surdo. por conta deste sentido estimulado. pois entendem que. conseguem não ouvir quando estão em um ambiente com alta sonorização (volume alto de TV ou rádio). enquanto o português. Por meio da vibração. é possível estabelecer contato com a outra pessoa que. conseguem reagir bem ao estímulo recebido. está no quarto ao lado e. criando assim uma identidade como a deles. aprender a língua de sinais. Língua Brasileira de Sinais – Libras 129 . como consequência. no sentido biológico. Somente quando essas pessoas vão para a escola é que se inicia o processo de aprendizagem do português. as identidades surdas são construídas mediante as possíveis representações da cultura surda.

shtml>. Por outro lado. A escola não consegue atribuir a esses pais a condição de pais. mas. Não muito diexistem festas especiais para surdos. desconhecem essa língua e as questões que envolvem a surdez. social e política irão precisar de um ambiente com características diferentes destas. bilidade muito grande. dando a php?option=com_content&do_pdf=1&id=75>. a realidade não é bem assim. os pais do Coda não recebem convites para eventos escolares ou quando o filho não apresenta bom rendimento escolar. surdos. Comumente. as crianças acabam sendo concebidas como deficientes e. a escola estabelece um abismo que a separa dos pais do aluno Coda.com. certamente. a escola. Nesse ambiente. quando os superarquivo/2004/conteudo_333010. que trabalha com Olodum para em sua mente. e com isso o prejuízo torna-se presente e generalizado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Isso significa que o Coda tem um ouvido seletivo. como os que tocam nas raves. a escola deve ver o sujeito como instrumento/meio de produção de sentidos e aplicar seus diversos mecanismos de atuação para impor saberes.clubedochoro.abril.com. pois ver significa dançam. os pais se tornam seres estranhos. Codas utilizam estratégias para não conversar. Pensar no processo de construção da identidade surda da pessoa que é ouvinte não seria algo tão complexo se somente houvesse comunidades que partilham do mesmo sentimento. fato este que ocorre independente da pessoa ter ou não surdez. Sobre isso consultar: seus olhos possuem uma sensi<http://www. Porém. Diante desse afastamento. eles a possibilidade de se atenHá.br/ ferente dos surdos. sim.br/index2. no caso. Já muito para eles. culturas. também. um ritmo musical que acentua a vibração dos instrumentos. capaz No Brasil. cabendo à criança a responsabilidade dos pais. Nesse ambiente dotado de pessoas que. valores e identidades. devido à dificuldade quanto à comunicação. Sobre esse assunto acesse: <http://super. fecham os olhos ou desviam o olhar. há uma banda conhecida como de não processar alguns sons Surdodum. outros ritmos que os surdos tarem a tudo. pois nessas situações não há ninguém com capacidade para estabelecer a interação entre eles. os membros da escola estabelecem relações pouco íntimas com os alunos e seus pais. Para Skliar (2001). de surdos. porque ela ouve. FAEL Saiba mais 130 . Essas crianças que falam Libras desde a infância e que enxergam a surdez como constituição cultural. devido a tal visão.

ou em consultas médicas. no Brasil. conforme discutimos no texto. por meio de estudos e pesquisa. considerando que tais pessoas aprendem a Libras como os surdos – como primeira língua. independentemente do ambiente em que estejam. bons intérpretes. a automatização é complicada. a criança sente-se ausente de seu mundo. Porém. Outra dificuldade enfrentada pelo Coda que possui identidade cultural surda é a de que. não significa depreciar todo um trabalho estruturado de técnicas tradutórias? Até porque. em casa ou na escola. sabe-se que as crianças ouvintes que são filhas de pais surdos (Coda) têm seu processo cognitivo e de aprendizagem preservados. a convivência com pais surdos – em alguns casos – gera algumas consequências sociais Língua Brasileira de Sinais – Libras atilfeR Reflita 131 . Da mesma forma acontece com ligações telefônicas. No meio da comunidade surda. se os Codas desejarem se profissionalizar. não conseguindo estabelecer laços com aquele lugar por causa das limitações impostas quanto à comunicação. quando seus pais necessitam de interação social. pois já têm a língua adquirida.Capítulo 3 Dessa forma. um status. além de serem peritos e mestres no quesito identidade e cultura surda. para que possam entender. Mas daí pensar que estas pessoas são. o solicitam pela condição auditiva que possui. eles terão “vantagem” em detrimento aos demais ouvintes. um bom desenvolvimento linguístico e técnico. Isso porque se julga que se é filho de surdo. É claro que. e isto procede. especialmente entre os intérpretes. Entretanto. Frente a uma gama de informações advindas da televisão. será um excelente sinalizador. automaticamente. em que os pais pedem que tudo seja minuciosamente relatado em sinais. pois. existem excelentes intérpretes que não são filhos de surdos e que conseguiram. é muito comum que o fato de ser Coda seja um diferencial. Tais circunstâncias exigem da criança esforços psicológicos para mediar uma comunicação que não condiz com sua idade. os pais pedem à criança que interprete aquilo que está sendo transmitido. não podendo utilizar a língua de sinais e recebendo cobranças que dizem respeito a adultos e não a ela. os pais exigem a tradução daquilo que está sendo falado.

todas as intervenções ocorrem na língua de sinais. como amarrar sapatos ou desenhar formas geométricas. no caso das crianças estarem no mesmo ambiente físico. Esse é um caso muito específico de pais surdos com filhos ouvintes. por mais que os inputs oferecidos sejam diferentes quanto à forma. a língua adquirida será a mesma. O simples contato com a língua possibilitará à criança desenvolver sua expressividade linguística – os itens lexicais e a estrutura gramatical que ela já possui de forma inata. em que a criança aprenderá duas línguas ao mesmo tempo. diz que a aquisição da linguagem ocorre num período curto de tempo. Pais e filhos se utilizam dela para propor a ação de uma atividade. compartilhar ou estar em desacordo com propostas e para estabelecer a atividade com objetivo de organizar algum aspecto da ação. pois. Para a autora. o processo se dará de modo bilíngue.Língua Brasileira de Sinais – Libras não muito boas para a criança. fato que pode levar ao desenvolvimento truncado e à falta de domínio do português. é possível pensar que a aquisição da linguagem. Em relação aos Codas. além disso. A universalidade da aquisição da linguagem explica que. ocorrerá uma apropriação de enunciados diversos. dentro da relação pais surdos e filhos surdos. em que pais surdos têm filhos surdos. neste caso. Tal processo irá ocorrer de maneira mais facilitada mesmo na ausência de uma fala dirigida a ela. e tais quesitos são muito exigidos do intérprete. em seu processo. De acordo com Grolla (2006). Em se tratando de uma situação paralela. o processo de aquisição da língua é idêntico ao de uma criança surda filha de pais surdos. Sendo assim. os problemas que os Codas enfrentam quanto à família talvez não existissem. ocorre do mesmo modo em crianças surdas e ouvintes. a criança adquire uma língua natural sem que seja preciso passar por treinamentos intensivos ou estímulos linguísticos. FAEL 132 atilfeR Reflita . pois os estímulos seriam aceitos de forma natural e o processo de desenvolvimento da criança seria semelhante ao de uma criança ouvinte com pais ouvintes. diferenciando-se apenas se o pai ou a mãe forem ouvintes. Skliar (2001) aponta que. independente da língua ou do desenvolvimento das habilidades motoras.

a dinâmica da língua. No caso dos surdos. o processo de desenvolvimento linguístico e os estágios internos que ocorrem nas crianças surdas podem ser comparados aos das crianças ouvintes. o aprendizado com relação à língua se dará mediante a inserção de novas palavras realizadas pelos falantes e. assim como os surdos. acontece o balbucio oral e. como consequência. não se encaixam em seu repertório atualizado. quando chegam aos oito meses. Passada essa fase. conseguem produzir um número muito grande de sílabas e as repetem de forma exaustiva. começam a produzir os primeiros sinais e. que não serão aproveitadas Língua Brasileira de Sinais – Libras 133 . indicam que no ser humano decorre uma capacidade linguística que suporta a aquisição da linguagem. quando chegam próximo aos seis meses. Indiferente de sua condição auditiva. já que sabe as regras para formação de sentenças e domina as estruturas do idioma. que antes de começarem a aprender sinais fazem balbucios com as mãos. neste processo. Diante da aquisição da linguagem em que consta a universalidade.Capítulo 3 A criança aprende uma língua. até os quatro anos. Segundo Emmorey (2002). mediante a entonação e o ritmo. Já com a emissão de sons. devido ao retorno auditivo estar ausente. começam a balbuciar por volta dos oito meses. portanto. com pouca diferenciação nas sílabas executadas. a uniformidade e a rapidez. no decorrer da vida. Meier (2000) aponta que os ouvintes produzem movimentos com as mãos e conseguem retorno confirmativo de seus pais. estes conseguem perceber aos quatro dias de idade diferentes tipos de língua. em média. e as semelhanças na sistematização do balbucio das crianças surdas e ouvintes. É o caso da apontação. são capazes de perceber as propriedades fonológicas da sua língua. Com relação aos ouvintes. quer seja sinalizada ou falada. pois são avaliados como gestos e não como sinais lexicais. Na sequência. Isso ocorre nas enunciações. pois nesta idade dificilmente comete erros sintáticos. toda criança apresenta comportamentos semelhantes ao chorar e emitir sons sem qualquer significado. independente da modalidade da língua: oral-auditiva ou espaço-visual. de crianças surdas e ouvintes no período de balbucio. tanto a criança surda como a ouvinte apresentam o balbucio manual. Quadros (1997) reivindica que a descoberta pela estrutura fonológica da língua. as crianças surdas. Os bebês têm muita sensibilidade. alguns deles são descartados.

Então. nesse estágio. apresentando erros naquilo que equivale à conjugação de passado. De maneira sucessiva. a habilidade de identificação de línguas estrangeiras diminui e concede espaço ao refinamento para sua língua natural. simultaneamente. quando as crianças atingem um ano de idade. Emmorey (2002) verificou. ocorrerá sua reorganização e aceitação. as crianças ouvintes fazem relação semântica – de ordem lexical como a organização de classes prototípicas – para escolha das palavras. FAEL 134 . conseguem aprender um grande número de palavras diferentes a cada dia. e a construção das frases se dá na ordem canônica. falada. pois a criança entenderá que a apontação sofreu modificação e se tornou elemento gramatical. que têm essa vivência aos oito meses. Conforme Grolla (2006). Em Quadros (1997) percebemos que as crianças surdas. as crianças vivenciam o período das primeiras combinações. as crianças ouvintes continuam no balbucio e somente depois partem para a palavra. o inglês falado e a língua de sinais americana. elas começam a elaborar enunciados com apenas uma palavra – com significado de sentença completa – e conseguem assimilar pequenas imposições. diferentemente das surdas. apontam para o interlocutor se referindo a elas mesmas. a coordenação motora das mãos evolui de forma mais acelerada do que a coordenação para o trato vocal e a articulação para a fala. aumentando seu repertório e elaborando falas pausadas entre uma e outra palavra. ocorre pelo desenvolvimento de mecanismos de emissão e recepção linguística. Grolla (2006) acrescenta que. quando a estrutura gramatical tiver sofrido maturação. ou seja. ou vice-versa. neste momento. pronominalização e outros. em diversos momentos. apresentam dificuldades para entender os pronomes e. Da mesma forma. com um ano e seis meses de idade.Língua Brasileira de Sinais – Libras pelos surdos para pronominar. em pesquisa com crianças ouvintes adquirindo. que a sinalização foi a primeira a ser adquirida. pois. Esse início antecipado de elaboração de sinais e o lento processo do estágio de uma palavra dita. que são os indicativos de que ela entendeu a regra e está se superando. Posteriormente. os sons exercem maior dificuldade perceptiva aos ouvidos do que os movimentos espaciais aos olhos. Por certo tempo. por isso.

as crianças ouvintes utilizam o eu para demonstrar ou apontar outra pessoa.html> e <http://www. aos três anos de idade. pois.aspx>.br/site/default.globo. como orações relativas e coordenadas.. e somente escolas especializadas são capazes de suprir o estímulo que não há em casa. também. pois esta é capaz de olhar para o brinquedo que está nas mãos do adulto e ouvi-lo ao mesmo tempo. é exigida a inscrição em curso de Libras. pois não convém à instituição ensinar a língua a criança (por meio de interação e brincadeira) se seus pais não forem capazes de se comunicar com ela. estabelece mais de um referente num mesmo ponto. sendo verdadeiro. que recebem todo um trabalho de treino visual com adultos surdos. Aos pais. mas pelo nível elevado de dificuldade gramatical. não cria correspondência entre a pessoa e o ponto estabelecido no espaço. destacamos que a aquisição possui uma universalidade. uma escola de referência no quesito ensino da língua de sinais a bebês surdos é a Escola Rio Branco.MUL732407-5598. No Brasil.com/Noticias/Brasil/0. Nessa escola entram crianças em tenra idade. produzindo frases complexas. Tanto crianças surdas quanto ouvintes. Nesse momento. comete um excesso de generalização para concordância de verbos simples semelhante à gramática dos adultos. vivenciam uma propagação vocabular muito grande. entretanto.org. continuam o curso da aquisição cometendo pequenos equívocos. 135 Língua Brasileira de Sinais – Libras . indiferente da modalidade. os olhos da criança surda devem ser treinados para isso. É um processo diferente da criança ouvinte. em São Paulo. no caso dos pais serem ouvintes. a relação significado e significante não fica evidente para a criança surda que está desenvolvendo a linguagem.ecs. o inverso.Capítulo 3 A pronominalização na língua de sinais é produzida por meio de apontação. pois as crianças surdas precisam lançar os olhos para o objeto que está nas mãos de quem fala e para seu rosto.00-BEBES+SU RDOS+DEVEM+APRENDER+LINGUA+DOS+SINAIS+NOS+PRIMEIRO S+MESES+DE+VIDA. Então. em que a sequência de concordâncias se dará do mesmo modo. Quadros (1997) diz que a criança surda: não adota pronomes para referentes ausentes ou o faz incorretamente. sendo assim. Sobre esse assunto acessar os links: <http://g1.

shopping centers ou qualquer outro lugar de acesso público com elevado nível de barulho. Tal ferramenta. ouvintes. ouvintes que. oferecendo carinho. FAEL 136 . por diversos motivos. com perfis diferenciados. O termo em inglês possui a tradução “legenda oculta” e está relacionado a uma função que muitos televisores possuem.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com quatro anos. pessoas que frequentam aeroportos. iniciando. se utilizar a língua de sinais é aquilo que motiva o ingresso na comunidade. então é provável que existam surdos que não participem. Esse ambiente em que pais ouvintes e filhos surdos (ou Codas) participam é que denominamos um espaço de convivência da comunidade surda. favorece pessoas idosas que apresentam alguma diminuição auditiva. a televisão não é o único meio de interação e lazer que os surdos gostam de ter. designando ordens. intérpretes. a função closed caption propicia entretenimento. tratando de assuntos futuros. profissionais. acionada mediante controle remoto. Favorece. familiares. aquilo que os evidencia é a utilização da língua de sinais. como surdos. estando ao alcance de todo e qualquer indivíduo. Existem outras atividades e programações acessíveis. Essa comunidade é constituída por um grande número de adeptos. Além disso. somente em 1980. é o meio que mais rapidamente comunica. em que a televisão tem seu volume diminuído e não se ouve. as crianças surdas dominam a língua de sinais. Porém. aqueles que são considerados analfabetos. identificando na palavra escrita o som da fala. podem relacionar o som das palavras com a legenda. Sendo assim. foi disponibilizado nos Estados Unidos. na atual sociedade. inclusive sobre informes da TV que. ainda. Atualmente. um aprendizado de decodificação. neste caso. pois preferem a utilização da língua falada. Falam sobre tudo. religiosos e outras pessoas com interesses variados. vindo para o Brasil um longo período depois. conhecimento e informação ao público em geral. Apesar de comunicativa. além de promover a interação dos surdos em discussão de grandes temas. sendo que seus pais abordam qualquer assunto com elas. com a utilização do closed caption. assim. Esse recurso é recente e. muitas emissoras não dispõem desse recurso em toda a programação. Essa possibilidade existe mediante a função closed caption. mesmo sendo amplamente divulgado que essa ferramenta possibilita a acessibilidade de grande parte da população que tem perda auditiva. etc.

como a oportunidade de conhecer o sujeito surdo de perto. da escola. sentindo-se à vontade para expressar seus sentimentos e ideias para aqueles que estão em um nível. arte. o que mais se percebe são estes elementos. terão a oportunidade de enxergar a si próprios de forma diferente. é necessária a utilização da língua de sinais. a cultura representa um conjunto complexo de conhecimentos. outra visão. Nesse ambiente. aprender a língua de sinais e conhecer os costumes e hábitos vivenciados pelo surdo. tanto para nós mesmos como para as outras pessoas. uma relação de igualdade. Os benefícios advindos da participação do ouvinte nessa comunidade são vários. que faz parte de uma sociedade e é repassado aos seus membros. não como deficientes. Isso leva a crer que não existe somente uma comunidade surda. que possui outra cultura. o que compreende a língua. Aproveitar a oportunidade de conviver com a diversidade promove um sentido diferente. pois o coloca em contato com aquilo que é diferente. por ser considerado minoria social. como a da igreja. capacidades e hábitos. No caso do surdo. costumes. quando visto sob a perspectiva de um grupo diferente. tanto individualmente quanto em comunidade. a comunidade representa a projeção com o amanhã. diversas comunidades. O contato com pessoas que se comunicam em sua língua permite que sua diferença não seja enaltecida. Conjunto esse que é evidenciado pelos elementos da língua e pelos costumes. sendo estabelecida por meio das afinidades daqueles que a integram. leis. crenças. para que tenha acesso e possa interagir mediante as percepções visuais. sim.Capítulo 3 Para que ocorra a constituição da comunidade surda. isso tem um significado muito grande. dos líderes e tantas outras que evidenciem sua identidade cultural. ou seja. as crenças. caracterizado assim a Língua Brasileira de Sinais – Libras 137 . moral. línguas. Strobel (2008) define que a cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e modificá-lo. a possibilidade de um futuro. mas. os costumes e os hábitos do povo surdo. levando-se em conta que. as ideias. Em relação às crianças surdas. mas assimilando que existe diferença linguística. pois vislumbra exemplos positivos. do hip-hop. sendo neste momento que ocorre a formação da identidade e cultura surda. surdos adultos interagindo na sociedade. De um modo geral. já que tem uma vivência isolada em seu mundo.

é passiva de mudanças quando em contato com outra cultura. seu conhecimento começa com o contato do que vê. está inserida a cultura surda. Dessa forma. ao acesso. Então.Língua Brasileira de Sinais – Libras identidade surda. hábitos e crenças. os surdos possuem família ouvinte. estamos nos restringindo ao contexto de cultura popular. para ter sua língua. Nesse ambiente. e pensam sobre as perspectivas de futuro para esta população. sua língua se manifesta no espaço e a leitura se faz com os olhos. Então. a cultura surda não é transmitida naturalmente de geração a geração. sendo esta transmitida livremente nas relações com o outro. ao desenvolvimento e à transmissão dos elementos que o integram procederem naturalmente com as relações sociais. em sua maioria. Diferente do que ocorre com os ouvintes. se nos perguntarem a respeito da cultura norte-americana. A cultura surda é muito importante. tratam da história do surdo abordando as represálias que enfrentaram quanto ao oralismo. Assim. então. Até o momento. conforme Strobel (2008). quando passamos a olhar para as ações de um determinado grupo de pessoas e tais ações começam a fazer sentido para nós. por meio da língua. Tal processo de transmissão cultural de surdos. sua cultura visual. o sujeito surdo. Assim. nessa cultura. também pode ocorrer na idade mais avançada. pois a grande maioria de surdos são filhos de pais ouvintes. poderíamos abordar o assunto sob a ótica da língua e do costume. sem a convivência na escola FAEL 138 . é histórica. e teríamos resultados que se restringiriam ao que se fala: inglês. o compartilhar ocorre naturalmente. isto é. precisa obtê-la na comunidade surda. Devido a essas questões é que. ou até mesmo pela imposição de estudarem em escolas ouvintes. em que a composição dos elementos ocorre de modo visual. A arte e a poesia do surdo acontecem por diferentes movimentos com as mãos. é de costume falar da representação da surdez por dois vieses: passado e futuro. passamos a atribuir valores e. adulta. como também hábitos e costumes ocorrem mediante o que viram e se constroem no envolvimento com os outros surdos. Isto é. Dessa forma. pois. e ao que se come: fast food. Chamamos a cultura de “conjunto complexo” quanto à composição. A cultura se modifica constantemente. existem outros componentes nesse conjunto. de geração a geração. pois é na comunidade surda que ocorre o processo de aprendizagem e o sujeito poderá proferir suas falas. com isso. no seio da comunidade surda. é possível pensar que a cultura surda compreende aquele conjunto complexo.

a classificação passou a ser pelo critério linguístico e o rótulo de identidade era feito mediante o conhecimento que o surdo apresentava a respeito da língua de sinais. dependendo daquilo que era respondido com a audição. descobre a comunidade surda e transita do mundo auditivo para o mundo visual. identidade surda de transição – surdo oralizado que. As especificações eram: ● ● ● ● surdez leve – capacidade de ouvir a voz humana.Capítulo 3 de surdos. sobre como sua constituição atuará em sua percepção do mundo de forma visual. enquanto acontecia a educação dos surdos – dirigida pela corrente oralista –. quando a sociedade mudou a forma de olhar para a surdez e novas taxionomias se imprimiram na educação de surdos. Segundo Perlin (2004). identidade surda incompleta – é o surdo que não se aceita. surdez severa – surdez que só permite perceber os sons muito graves. identidade surda embaçada – surdo que não consegue captar o mundo de forma visual e nem auditiva. as definições são as seguintes: ● ● ● identidade surda – pessoa consciente quanto à sua condição de surdez. é politizada e tem a língua de sinais como nativa. surdez moderada – não é possível ouvir as palavras com clareza. 139 No decorrer da história. a pessoa tende a aumentar a voz progressivamente. Desse modo. muito tempo depois. Língua Brasileira de Sinais – Libras ● . acabam por perder o contato com a comunidade surda. surdez profunda – a pessoa não retém som algum. No que diz respeito à formação de identidade das crianças que participam das comunidades surdas. adotavam o critério clínico-patológico para o surdo e lhe atribuíam uma identidade. pelo sentimento de inferioridade em relação aos ouvintes. não ouve nada. podemos destacar a importância de se refletir sobre si mesmas. Pela dificuldade de ter sido conquistada por seus criadores e por ser tão ofuscada pela cultura ouvinte é que a cultura surda precisa ser enaltecida.

Esses movimentos sociais e espaços de luta social são chamados de movimento surdo. Para Skliar (2001). flexível e mutável. identidade surda flutuante – surdo que oscila de uma comunidade a outra. heterossexual. lutas e reivindicações de determinados grupo de pessoas. posteriormente. tem a possibilidade de participar de movimentos sociais.Língua Brasileira de Sinais – Libras ● identidade surda híbrida – pessoa que nasceu ouvinte e. podendo ser entendida como o conjunto de características específicas de uma pessoa que a diferencia da outra. além de desenvolver a cultura e a identidade surda. No caso de alguém descrever sua identidade como mulher. Tem conhecimento da estrutura do português falado. exista algo de semelhante. a identidade. convivendo tanto com surdos quanto com ouvintes. sendo de muita importância. ocorre por meio da linguagem e é construído por papéis sociais que exercemos em diferentes locais. pois a constituição não é perene. No entanto. Esse conjunto de características próprias. professora. não se pode conceber uma visão reducionista do homem. branca. que entendemos como um espaço de articulação das aspirações. ouvinte. A manifestação da identidade deve acontecer pela subjetivação que ocorre mediante interiorização de uma língua. tanto que. mas acaba por ser único e singular tudo aquilo que compreende a identidade da pessoa. indiferente de onde eles estejam. apresentam-se ultrapassadas. ocorre que está havendo um condicionamento de tais características naquele dado momento. evangélica. ● ● 140 Quando o assunto se refere à identidade. quando nos referimos à identidade surda. em uma comparação com o outro. pensamos numa pequena parte do conjunto de características que ela apresenta. pessoas e contextos. solteira. em relação às visões comentadas. se tornou surda. pois é constituída e manifestada na interação com o outro. Há falta de língua de sinais com surdos e falta de comunicação com ouvintes. seja ela qual for. mas adaptável. identidade surda diáspora – pessoa que tem a necessidade de trocar experiências com seus colegas surdos. Agregado a essas articulações está o reconhecimento de sua língua. pois FAEL . A criança que participa da comunidade surda. É possível que. pobre. a identidade está ligada a relações sociais.

mas em decorrência da perspectiva de trabalho. aproximadamente. mas em relação a evidentes posições de liderança ao longo da história. Hoje. acesse o link: <http://www.org. espalhadas pelos estados. mas. educação e lazer.br>.cbsurdos. pessoas com diferença linguística. como a Confederação Brasileira de Surdos – CBS. sim. se organizam em outros espaços como associações. além de se reunirem na Feneis.Capítulo 3 representam um local onde ocorre resistência à predominância das pessoas ouvintes dentro dos locais de trabalho. O movimento surdo atinge espaços acadêmicos e chega a conquistar um curso de Saiba mais licenciatura a distância. por isso o nome da instituição era Federação Nacional de Educação e Integração dos Deficientes Auditivos – Feneida. Em 1970. como também as afirmações dos direitos do sujeito surdo em diferentes instâncias sociais. persistiram até conquistarem uma posição de destaque dentro da instituição a ponto de serem atendidos em suas aspirações políticas. Essa alteração não se deu por simples mudança terminológica. Atualmente. Um grupo de surdos. saúde. existem vários escritórios regionais da Feneis espalhados pelo país. A princípio. e órgãos voltados apenas à questão desportiva dos surdos. Existem duzentas associações. Não muito satisfeitos. cooperativas e clubes. a missão passa a atender aos ideais das pessoas surdas. que começam a ser vistas não como deficientes auditivas. com o objetivo de difundir a Libras e congregar surdos para discussões em relação à sua participação ativa na sociedade. os surdos dão início à liderança e alteram o nome para Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos – Feneis. Para conhecer mais sobre a CBS. Todas se caracterizam pela cumplicidade linguística cultural dos participantes. se organiza para reclamar seus direitos junto à direção e pede participação dentro da Feneida. no ano de 1983. O movimento não é contrário diretamente às pessoas. os quatro milhões de surdos brasileiros. Trata-se do curso Letras-Libras. conseguiram participação em pequenas atividades. Em 1983. É possível citar como exemplo a reestruturação da Feneida em Feneis. um grupo de profissionais ouvintes funda uma organização e dá início aos seus ideais de reabilitação dos chamados deficientes auditivos. com sede na Universidade Língua Brasileira de Sinais – Libras 141 . ou seja.

Nessa graduação. como também. Esse movimento circulou em importantes eventos do cinema e do teatro e.org>. somente em 2008. A formatação desse movimento tem tomado dimensões cada vez maiores. editores e diretores. organizou um movimento de reivindicação a respeito da legenda nacional. no entanto. Porém. Libras. desde 1951. As dificuldades de inserção <http://www. despertar a atenção para esses lugares e perceber que os surdos possuem capacidade de liderança.ufsc. promover a participação no mundo. a acessibilidade não pode restringir. contendo vários polos distribuídos pelo Brasil. é desenvolver um intercâmbio linguístico e cultural. 142 A possibilidade de acesso aos filmes que são transmitidos no cinema foi uma das conquistas mais recentes do movimento surdo.Língua Brasileira de Sinais – Libras Federal de Santa Catarina. desde 2004. os alunos surdos têm a possibilidade de se qualificarem para atuarem como professores de Libras. simplesmente. pois é algo indispensável para a evolução do homem em todos os seus aspectos. no Saiba mais caso de filmes nacionais. Envolver-se com o movimento surdo é mais do que. instituições que se colocam como representantes do potencial dessas pessoas. participar dos eventos que promovem. consulte: <http://www. Marcelo de Carvalho Pedroso. não somente no Brasil acontece de o moviPara mais detalhes sobre o curso de Letras mento surdo ser preponderante. pois. é possível fazer a opção pela legenda ao invés da dublada. sim. na edição do Festival do Audiovisual – Cine/PE. mas. em Pernambuco. em meios culturais começaram a ser resolvidas quando um surdo. em outros países. FAEL .br>. esta opção é Conheça mais sobre a WFD acessando: inviável. o grupo conseguiu provar para os produtores que a legenda nacional não iria ocultar as diversidades regionais ou depreciar os dialetos falados na nação. inclusive o artístico.wfdeaf. Existem. vem tentando propagar a ideia a produtores. com sede na Finlândia. mas que significaria acesso no que se refere à cultura. no caso de filmes estrangeiros.libras. Saiba mais No entanto. Mesmo porque. chegando ao ponto de ter uma Federação Mundial de Surdos (Word Federation of the Deaf – WFD).

O slogan é LEGENDA PARA QUEM NÃO OUVE. conforme disposto em regulamento. e os promotores de peças teatrais e demais obras cenográficas. e os exibidos em caráter não comercial ou em festivais e mostras competitivas.com. acesse: <http://www. foi a grande encabeçadora da conquista dos surdos pela legenda. foi aprovado por representantes políticos. A escolha fica a critério da produtora. sejam obrigados a incluir a legenda nas obras exibidas ou a ofertar interpretação do texto correspondente. foi criado o Projeto de Lei n. exceto: os destinados à divulgação de músicas. os de peças publicitárias. Língua Brasileira de Sinais – Libras . sendo Para mais informações sobre a legenda nacioesta muito importante para o nal.078 entrou em vigor no Brasil em 2007 e presume que: ● As empresas responsáveis por distribuir obras cinematográficas ou videofonográficas.Capítulo 3 A campanha “Legenda para quem não ouve. a civilidade. 143 ● Sendo assim. a criatividade e br/campanha. mas se emociona!”.078 (BRASIL. em linguagem compreensível a pessoas com deficiência auditiva. A obrigação estende-se a todos os filmes comercializados para exibição. após análise. Com a aprovação. tanto em filmes como em teatros nacionais as legendas se tornaram obrigatórias. 2007) que. para exibição em salas de cinema. MAS SE EMOCIONA! A partir de tal convencimento. com a oportunidade de diminuir a distância que ficou estabeleSaiba mais cida da cultura nacional. 1. conhecimento. Essas legendas podem ser em Libras – com o espaço (a janelinha) destinado para o intérprete – ou com caracteres. os surdos têm a possibilidade de ir ao cinema e ao teatro como qualquer outra pessoa. 1.legendanacional.php>. O Projeto de Lei n. os de curta-metragem.

somente no futuro poderemos mensurar. possuem profissionais especializados em uma deficiência específica e atuam como reabilitadores. ouvinte. em sua grande maioria. mas com a clientela. a visão começa a variar. não como meio de comunicação secular restrito a crianças em horário de intervalo. que se prestam a ministrar métodos de letramento e oferecer reforço pedagógico aos alunos que participam da escola comum. pois é possível perceber que a Libras é entendida como primeira língua e o português como segunda. Esse termo se refere ao sistema de escrita dos usuários da língua de sinais. Certamente que ainda existem centros especializados de apoio ao surdo. em termos de conquista. seriação. sendo evidente que a implantação desse sistema. a criança surda pode ser inserida tanto na escola de surdos como na escola de ouvintes. já existente no Brasil. mas pensar a possibilidade de registrar a língua de sinais de forma escrita é algo que. à sua disposição. Até o momento. Entende-se por escola de surdos aqueles espaços que possuem toda uma estrutura formalizada.Língua Brasileira de Sinais – Libras Inclusão educacional de surdos Com a liberdade de escolha. Em relação à escola de ouvintes. com professores. chamado de SignWriting (escrita de sinais). a Libras sempre deverá estar presente. denominadas especiais. Muitas comunidades surdas de diferentes países possuem. mas como língua de instrução. diferentemente da escrita. Outra forma de registro FAEL . 144 Independente do espaço de escolarização dos surdos – seja na escola de surdo ou escola de ouvintes –. projeto político-pedagógico e atendimento específico para determinada clientela. se mostra favorável. um recurso de fixação de sua língua. Tais escolas. aprendizagem. aquilo que se produz e elabora não pode ser revisado e avaliado. uma maneira de registrar ideias que as tornam atemporais. cabe destacar que a escola deve ensiná-la um método de escrita compatível com sua habilidade visual. apenas após o término da produção. um meio custoso quando pensado em produção de alta escala. percebe-se a mesma formação do espaço citado anteriormente. Se a primeira língua do surdo é a Libras e se ela é usuária de língua de sinais. fazer o registro de produções dos surdos só era possível mediante filmagens. currículo. Em relação aos surdos. ainda tendo a desvantagem de que. Esse sistema ainda permanece sob pesquisa. Essa distinção se contrapõe à antiga terminologia de escolas especiais.

esse recurso é muito limitado. Uma vez percebida a oportunidade de aplicar tal ferramenta às línguas de sinais – representando seus movimentos. A princípio. por ter como fundamento elementos visuais. Dessa forma. Língua Brasileira de Sinais – Libras 145 . é para o surdo um sistema de grafia muito mais compreensível do que o alfabético. pois não abrange as sutilezas visuais da língua de sinais. a implantação de um método de escrita para as línguas visuais possibilita abertura ao desenvolvimento da cultura e produção de conhecimento nas comunidades surdas. fonológico e morfológico. A pesquisa também demonstra que o SignWriting é uma ferramenta de escrita que o surdo assimila com maior facilidade. uma vez que a escrita de sinais consegue armazenar e propagar. é a Glosa. cujos objetivos são descobrir e aperfeiçoar métodos de ensino para o SignWriting. demonstrando ser uma nova linguagem que modela o pensamento e o organiza quando escrito. que aponta que as crianças surdas. sendo muito utilizado em pesquisas linguísticas. mas somente agora teve início sua divulgação e implantação.Capítulo 3 da língua. informações entre as pessoas. a ferramenta adequada para a fixação da língua de sinais seria o SignWriting. é preciso que essa ferramenta seja ensinada aos usuários das línguas de sinais. fundamentado em elementos fônicos. com o objetivo de promover uma tradução em que os pesquisadores podem propor outras discussões em relação à estrutura da língua de sinais. numa ferramenta bem elaborada. Marianne Rossi Stumpf (2005). No entanto.ª Dra. Quase sempre. que até então vem sendo utilizada. por gerações. podemos citar o trabalho da Prof. expressões –. A maior dificuldade é que não existem profissionais formados para desempenhar tal tarefa. passam pelo mesmo processo de alfabetização que as crianças ouvintes em relação ao português. Semelhantemente ao que ocorreu com as línguas orais. empreenderam-se pesquisas no sentido de tornar aquela ferramenta inicial. A escrita de sinais. e as ações relacionadas com a alfabetização dos surdos em escritas de sinais são ações isoladas e específicas de pesquisadores. nos níveis sintático. básica. para que isso se torne real. A criação dessa ferramenta se deu nos anos 70 do século XX. ao aprenderem a escrita de sinais. pois ela se objetiva a uma representação visual de uma língua que é visual. Esse sistema paliativo transcreve as línguas de sinais com auxilio dos códigos da língua oral. configurações. essa ferramenta foi elaborada como uma forma de registrar as coreografias a serem realizadas numa apresentação de dança. No Brasil.

assim como acontece com as escritas das línguas orais – como o português que. Isso significa que pode ser um sistema reversível e que. Afinal. que não devem. se é alternado. que podem conceder diferentes significados em uma dada frase. etc. a escrita do português não consegue explicitar as diferentes inflexões de vozes. que procuram – no sentido de que toda escrita é uma tentativa – representar a língua utilizada pelos surdos. como tal. como toda escrita. etc. Muitos elementos presentes nas línguas de sinais são contemplados pelo SignWriting e. no entanto. O SignWriting. ele também é dotado de limitações. necessita de ensino específico e treino para seu aprendizado. assim como na escrita alfabética do português. de perfil. recentemente. é dotado de regras quanto à organização. do movimento presente no sinal (se é circular. e nem por este motivo há descaso em relação à continuidade de escrita dessa língua. Porém. do sentido em que o sinal é realizado (esquerda ou direita).) e sua distância do corpo (perto ou longe). se é lento.). alguns exemplos dos símbolos do SignWriting: FAEL . 146 A seguir. Desde então. Dentre os princípios básicos estão: a representação da configuração de mão levando em conta sua orientação (se a mão é vista de frente. como todo e qualquer sistema de escrita. os elementos do sistema são finitos e podem ser organizados e reorganizados com o objetivo de formular os diferentes sinais escritos. foi reformado ortograficamente.Língua Brasileira de Sinais – Libras a ponto de funcionar como meio de representação de uma língua. pesquisas vêm sendo realizadas e aperfeiçoamentos vêm ocorrendo. da localização (se a mão toca alguma parte do corpo). significar desmotivação em relação à escrita.

deve ser sua primeira língua. mas é segunda língua. filha de brasileiros que moram em colônias alemãs. Para ter uma segunda língua se faz necessária a aproximação. o português. em sua própria língua. Sendo assim. para além de sua própria geração. pois. A Libras é adquirida pelos surdos brasileiros de forma natural mediante contato com sinalizadores.Capítulo 3 Finalmente. O método de ensino do português como segunda língua presume que. uma segunda língua para a pessoa surda (QUADROS. nas línguas orais. irá adquirir o alemão como uma segunda língua. 1997. uma criança. foi a invenção da escrita que possibilitou que as línguas se estabelecessem e se padronizassem. Representa o valor de poder possuir uma língua escrita e preservada ao longo da vida e para além dela. consequentemente. o professor retire do conteúdo a ser lecionado as aulas com exercícios de leitura em grupo ou coletiva (em que o professor Língua Brasileira de Sinais – Libras 147 . para o primeiro caso a língua falada está próxima e no caso de língua estrangeira o aprendizado é de outra língua que se fala em outro lugar diferente daquele que se está. por excelência. ouve as pessoas falando em alemão e precisa interagir nesta língua. a possibilidade de empregar um sistema de escrita que empreenda sua primeira língua significa mais do que um avanço técnico. p. denota o prazer de poder se expressar. no caso. salvo por exceções. no máximo. o sujeito surdo poderá iniciar o processo de aprendizagem da segunda língua. considerando a realidade do ensino formal. em suas aulas. brincando e se divertindo com colegas na escola. para os surdos. 84). Mesmo fazendo uso do português para se comunicar com seus pais. já que adquire naturalmente uma língua espaço-visual até. A aquisição dessa língua precisa ser assegurada para realizar um trabalho sistemático com a L2. oportunizando que diferentes pessoas pudessem interagir de forma clara em lugares diferentes. Não é o caso de língua estrangeira porque ele se encontra no Brasil. A necessidade formal do ensino da língua portuguesa evidencia que essa língua é. O que difere entre segunda língua e língua estrangeira é que. Por exemplo. o português caracteriza-se para eles como uma segunda língua. pois quando está em horário de lazer. É o caso de alunos brasileiros aprendendo francês sem qualquer contato com pessoas do país de referência. seus sete anos. o contato com aqueles que fazem uso da língua que se quer aprender. sem ser ensinada. Em relação aos surdos.

ou seja. evitando escrevê-lo no 148 quadro. Após essa realização. anúncios de jornal e outros. Antecipadamente. para Quadros (1997). isto é muito significativo. em slide ou transparência. manifestando um sinal equivalente. atualmente. panfletos.). contendo elementos visuais. uma orientação para que o aluno seja estimulado a pensar sobre o conteúdo que está sendo abordado naquele texto. irá destacar aquilo que mais se evidencia (imagens. baseado no cartaz ao lado. Após isso. ou seja. pois ela não consegue fazer uma leitura linear – os olhos não percorrem palavra a palavra dentro do texto –. itálicas. pois o respeito fica estabelecido quando a pessoa é tratada com os mesmos direitos e com sua especificidade. FAEL . A seguir. narrativo. Para a criança surda. como descritivo. o professor deve passar para o aluno surdo o texto integral. Dessa forma. Fonte: São Paulo (2007). sílabas ou frases. cabe ao professor ajudá-lo no aperfeiçoamento da leitura. o foco de discussão incide sobre práticas de letramento. dissertativo e permeado de função social explícita. etc. deve garantir sua formatação e cores. que informações possui. O letramento possui sua abordagem mais globalizada quanto à língua. a partir do texto pode tratar de questões diversas quanto à realidade. na íntegra. propõe o trabalho em forma de texto e não com palavras. Esse aluno deverá realizar a sinalização quanto ao texto. ou aqueles que tornam evidente a silabação (junção de b + a = ba). a fim de que haja exploração na leitura. se o professor for reproduzi-lo. isto é. deve “pular” o surdo. A leitura consiste no primeiro passo e. Deve também possuir uma cópia ampliada. a leitura procederá conforme o texto. O aluno surdo não lerá em voz alta. mas visual. um exemplo de como realizar esse trabalho. Então. como: cartazes. Deve percorrer visualmente todo o texto e. pois. sinalizar a temática do texto. em seguida. caso o professor proponha este tipo de atividade para a sala.Língua Brasileira de Sinais – Libras aponta com a régua aquilo que deve ser lido). diferenciando o tipo de texto a cada aula. Tal atitude não significa ser excludente. concede abertura para uma aprendizagem mais significativa. significa que. letras negritadas. Possuir o texto em mãos. o professor precisa ter planejado algumas perguntas para fazer ao aluno surdo (não sendo interpretação de texto). que palavras já conhece e se tais palavras podem ser aplicadas naquele contexto. cores.

Capítulo 3 Inicialmente. vermelho verde azul 149 alaranjado amarelo cor-de-rosa marrom preto branco Língua Brasileira de Sinais – Libras . é necessário deixar os alunos discutirem sobre os elementos extralinguísticos (cores e desenhos). pois. e conversarem sobre o porquê disto. No cartaz sobre a campanha de vacinação contra a raiva. da Prefeitura de São Paulo. sobre o objetivo social desse gênero textual. além de despertarem muito a atenção. há variedade de cores. Os sinais das cores são demonstrados a seguir. podem ser exploradas. o que possibilita o desenvolvimento de um trabalho interessante.

várias vezes. Diferentes tipos de perguntas que o professor poderia formular e oferecer ao aluno. o professor pode fazer a pergunta. considerando que se destaca como FAEL 150 . E quando o aluno responder. O desafio de trabalho com a leitura é um momento muito importante na aula de alfabetização. bem como a interação discursiva sobre a temática apresentada (BRASIL. que é o momento em que o professor deve oportunizar. Nesse link é possível visualizar o alfabeto. o contato do material com o aluno. torna-se muito significativo. d) Onde podemos obter maiores informações sobre a vacinação?.Língua Brasileira de Sinais – Libras Em seguida. acréscimo de informação e. ele consiga voltar ao caderno e lembrar-se. para que seja algo muito interessante ao aluno surdo.youtube. encaminha-se para a aula propriamente dita. b) Precisa pagar?. para seu aluno surdo: “Por que é importante vacinar o cachorro e o gato?” Saiba mais Consulte: <http://www.com/ watch?v=0l3NX__oQAk>. em Libras. O educador deve oferecer uma leitura de texto que contenha uma imagem condizente com o discurso apresentado. de real circulação. fazendo a ligação daquilo que o aluno diz com o que está escrito no cartaz e. as cores e os dias da semana na Libras. Após apontar no texto a palavra “falada” pelo aluno. o professor necessita empreender tempo oportuno em busca desse material. o professor deve apontar no texto onde isso se encontra escrito. mostrar a palavra raiva no panfleto. em Libras: evitar bravo morder. o professor atuaria de forma semelhante. não muito delongado e que tenha um objetivo social específico. os números. apreensão do saber. seriam: a) Quem pode tomar esta vacina?. simultaneamente. c) Qual o período de vacinação?. Quadros (1997) aborda que esse contato. quanto aos surdos. registrando o roteiro no quadro. representa aprendizado a todos os alunos e não apenas aos surdos. Após o trabalho de escolha do texto. e) O que significa o termo “contra”. o professor irá registrá-la no quadro para servir de orientação. 2002a). ou seja. O contato intenso com o material abordado nos textos proporciona a aquisição de conhecimento. na frase “Vacinação contra a raiva em cães e gatos”? Frente às respostas em Libras. Devido a isso. para quando for necessária nova leitura ou haver esquecimento da palavra. por isso.

Com a possibilidade de o aluno interagir com o a temática do texto. é de suma importância para que o aluno obtenha uma referência na leitura e. Dessa forma. visando traçar paralelos e sugerindo uma conversa intertextos. estabelecendo relações. Depois. Temas esses que. segue o exemplo de um trabalho com a temática: materiais escolares. colocaria “o menina”? E assim. o professor irá propor atividades para que reflitam sobre a língua. Língua Brasileira de Sinais – Libras 151 . produtivas ao aprendizado. em situações assim. Em seguida. A fim de elucidarmos a proposta apresentada.Capítulo 3 uma das únicas formas de acesso às atualidades. a intertextualidade. para Silva (2001). pois são privados das informações que são veiculadas de forma auditiva na sociedade. é como se pudesse confirmar as hipóteses que ele levanta. ele pode ser levado pelo professor a refletir sobre o conteúdo apresentado. o encaminhamento para a aula de português e a metodologia utilizada para trabalhar o letramento com as crianças surdas serão iguais aos dos alunos ouvintes. bem como a elaboração de frases curtas a ele pertinentes. como esse aluno ainda está no processo de aquisição da língua escrita e trabalha com dificuldade frente aos códigos da língua portuguesa. ou seja. poderão promover grandes discussões. Após a leitura do texto sugerido. quando as questões relativas às considerações abordados pelo autor são pontuadas.” e indagar a colocação do pronome seguido do sujeito da sentença na seguinte situação: se você é uma menina escrevendo. Sendo assim. com o diferencial de que o canal de comunicação será o espaço e a visão. a interação se dará por meio da Libras (BRASIL. ao aluno surdo. quer dizer. como: “O menino escreveu com o lápis. ele procura descobrir o significado de algumas palavras e. o professor poderá propor temas a serem discutidos com todo o grupo. Isso porque. a intervenção do professor pode ser decisiva para o aluno. pois é quando o aluno tem a oportunidade de manifestar o seu entendimento sobre a temática apresentada. No trabalho com a escrita. pode-se exibir uma parte do texto. o objetivo principal pode ser o da apropriação das palavras relacionadas ao tema. 2002a). se forem apropriados à idade das crianças. é interessante obter sentenças modelo que possam servir de fonte para outras situações semelhantes. Em relação a essa proposta. Essa função do professor. ele sente-se participante no processo de aprendizagem. o professor se coloca como um mediador. algo tão importante quanto o processo de leitura é o da elaboração escrita. No momento da interpretação do texto.

cruzadinhas. o processo de escrita é muito mais difícil do que para os ouvintes. o uso do s como identificador de plural para o complemento caneta e sua inexistência no caso de lápis. A essa mistura chamamos interlíngua. o que significa que o aluno não se apropriou do português completamente e não se distanciou da Libras. Nota-se que. as palavras discutidas na reflexão linguística feita coletivamente. É necessário que o professor sempre retorne às frases escolhidas para aprofundar a reflexão em aula. poderão surgir caça-palavras. No caso anteriormente apresentado. Uma frase típica de interlíngua escrita por surdos é: casa ir. quando estão tentando elaborar mentalmente uma frase em português. Essa frase representa seu aprendizado no português. é natural recorrer a primeira língua ao se deparar com uma determinada insegurança. inclusive o surdo. Assim. o professor poderá desenvolver exercícios de fixação. em que o nome do lugar FAEL 152 . vimos a questão da flexão verbal apontando as pessoas no discurso. etc. Isso porque esse momento é de tamanha riqueza para os surdos. ou seja. ______________ escreveram com o lápis. Quando esse processo se estabelece. O menino escreveu com ______________. 1997). em que os alunos deverão revisar aquilo que foi trabalhado no texto. há interferência da Libras e. as canetas – a caneta – os meninos – as meninas O menino escreveu com o lápis. a frase escrita não será nem em uma língua nem em outra. muitas vezes. mas em ambas. Após essa explanação. abordem possíveis comutações com outras palavras: Insira as palavras a seguir nos seus devidos lugares. no caso. frases para serem completadas.Língua Brasileira de Sinais – Libras ir promovendo a aula. permitindo espaços para que os alunos. está em processo. porque para os surdos que não ouvem e nem falam o português. em relação ao surdo. O menino escreveu com ______________. No caso dos surdos. a mesma situação acontece. a concordância nominal para evidenciar o número de pessoas. significa a aquisição de uma segunda língua (QUADROS. atividades de ligar gravuras a palavras. ______________ escreveram com o lápis. pois é diferente da língua de sinais.

a pessoa surda ainda não aprendeu que. No entanto. enfim. É necessário ir além. 2002a). ele fará novamente. Isso pode se tornar algo costumeiro e. existe uma grande propensão de que o erro seja internalizado por quem produz. Quando o professor avalia qualitativamente. é necessário o uso da preposição para. diferentemente. com o sujeito da frase que. Sabemos que o ato avaliativo é de suma importância no contexto pedagógico e que não deve ser de caráter punitivo. está contribuindo para o desenvolvimento e crescimento intelectual e pessoal do seu aluno e. mas construtivo e reflexivo. o erro é apreendido. é importante que os professores das variadas disciplinas entendam a especificidade da forma como o surdo escreve para poder estabelecer critérios diferenciados de avaliação. até que. depois do verbo ir. ou então. Tanto o uso de preposição quanto a conjugação do verbo são questões gramaticais que não seriam omitidas pelas crianças ouvintes. decoram os nomes dos sinais que produzem em Libras. pois estas já possuem total domínio na hora de escrever. a preposição e a conjunção são implícitas ao sinal (BRASIL. seria: eu irei. mas não explica a razão do erro. nesta língua. Porém. Língua Brasileira de Sinais – Libras 153 . se esse aluno surdo se encontra na segunda etapa do Ensino Fundamental. devido a isso. que é o que permeia todas as áreas do conhecimento. e assim sucessivamente. Na Libras. o aluno sempre comete o mesmo equívoco e o professor sempre o evidencia (com caneta vermelha). quando o verbo ir é sinalizado. pois. ele desconhece a necessidade de conjugar o verbo para que haja concordância com a pessoa. O professor precisa destacar claramente a atuação incorreta do aluno e mostrar a ele qual a maneira correta de fazer. nesse caso. se está no Ensino Médio. Além disso. Caso contrário. então. As crianças surdas. deve entender que a simples disposição de valor a uma atividade não será significativa. ou seja.Capítulo 3 onde moramos é casa e em que usamos o verbo ir quando anunciamos que haverá deslocamento de um lugar para outro. porque após tantas repetições daquilo que é errado o aluno entenderá o que é certo. já que estão habituadas a ouvir os adultos se comunicando. e mais uma vez o professor fará a marcação sobre o erro e não dará explicações a respeito. de imediato se indica a direção do deslocamento (percurso) e aponta-se quem vai (pessoa) a determinado lugar.

assim. Ao olhar para a produção textual de um aluno surdo. se relaciona com o português como uma segunda língua. É necessário que o professor se coloque na posição de interlocutor e faça interação com o texto. Frente à tamanha dificuldade de lidar com artigos. assim. sempre pensarem que é difícil e que nada sabem.Língua Brasileira de Sinais – Libras Em casos de correção de textos. o professor deverá estimular o diálogo com seu aluno. FAEL 154 . Normalmente. O propósito pelo qual o professor deve corrigir o texto do aluno é de que. tornar importante aquilo que foi produzido por ele mediante incentivo e fazer com que ele perceba que sua comunicação poderia ter acontecido de outra maneira. o professor deve participar em língua de sinais e compreender que a dificuldade destacada em relação a esse aluno ocorre devido a ele escrever em uma língua que não fala e. não melhor. Tais pontuações é que devem ser avaliadas com frequência nas correções textuais. já que o aprendizado acontece mediante interações sociais. Porém. pois. O mesmo objetivo que se aplica ao aluno ouvinte deve ser aplicado ao aluno surdo. para que se obtenha sucesso no propósito pedagógico de ensino do português para surdos. mas de acordo com as regras gramaticais normativas. desta forma. a correção será mais uma forma de interação. O próximo passo requer ensino dos elementos coesivos. poderá atentar para a separação das ideias em parágrafos e para a coesão. devido aos conectivos inexistirem na Libras. o professor deve considerar a organização do pensamento e. passem a ter aversão à língua portuguesa. o normal é que os alunos. ligações e conjunções necessárias na língua portuguesa. os surdos alteram a ordem da frase por não se lembrarem do local exato em que se deve empregar os constituintes da língua. Sendo assim. os alunos surdos costumam decorar a ortografia destas palavras e confundir sua ordem sintática. os alunos surdos os esquecem com frequência. ao final de um processo pedagógico de ensino da língua portuguesa. devido a tantas sinalizações sem qualquer explicação. surgem frases como: “Casa é a bonita”. o aluno tenha uma expressividade fluente com clareza e objetividade. é preciso que ele tenha em mente o significado social da escrita. Quando o professor fizer a correção dos textos elaborados pelos alunos. tornando a escrita relevante. O texto deverá servir como elemento de comunicação entre o professor e o aluno. Dessa forma. preposições. pois. É importante saber que tal trabalho será contínuo e constante.

Além do intérprete. Quadros (1997) diz que. em conformidade com as regras gramaticais. os tradutores leem e estudam o texto original. tais como: “O moto”. construir sentenças erradas. Por isso. assim. por dominar a Libras e o português. Dessa feita. O que será altamente compreensível. também envolvido na comunidade surda e com o mesmo domínio linguístico. há outro sujeito. Eventuais situações exigirão do professor que esclareça as exceções. o que ocasiona uma sentença agramatical. Ainda no contexto dos anos finais do Ensino Fundamental ou de Ensino Médio.Capítulo 3 Essa frase demonstra que o seu responsável já tem ciência da necessidade de nomes femininos virem acompanhados da vogal “a” e. procedem à sua tradução. procurando Língua Brasileira de Sinais – Libras 155 . permitindo que pessoas que escrevem e falam em línguas diferentes possam se comunicar entre si. o que consiste num trabalho sistemático para ele. em seguida. neste caso. mas que desempenha um trabalhado diferenciado. o intérprete com discursos orais. por desconhecer onde deve colocá-la. escolhe aleatoriamente um lugar próximo ao adjetivo. a vogal “a” deve ser inserida antes do sujeito (casa). figura esta que também faz parte da comunidade surda e é responsável pela mediação entre surdos e ouvintes: o intérprete. um vocabulário masculino solicita o acompanhamento de um artigo do mesmo gênero. Ou ainda. pois. podendo. há que se destacar que os sistemas de ensino têm garantido a presença de um profissional muito importante para acompanhar o aluno surdo. o aluno adota o hábito de decorar a regra e utilizá-la de maneira genérica em qualquer caso. A principal diferença entre a atuação desses profissionais está no fato de que o tradutor trabalha com textos escritos. podem ser intérpretes quando veem uma língua sinalizada de um país em específico e a transpõe para a língua de sinais de outro país. Esse profissional é aquele que. apreendem o seu sentido geral e. o tradutor. por se tratar de uma situação muito específica do português. Tal regra não existe no português. o professor precisa intervir a esse respeito e mostrar para o aluno que há uma dependência estrutural (organização obrigatória da frase) que rege o local do nome e o local do artigo e. pode vincular a interação entre pessoas que as desconheçam. O trabalho do intérprete consiste em transpor textos ou discursos de uma língua para outra. Para tanto. pessoas surdas podem atuar como tradutores quando leem textos em português e os transpõem para Libras.

o intérprete sinaliza para o surdo. o intérprete encontra-se junto ao orador. ouvindo a sua intervenção e tirando apontamentos. aplicando a terminologia mais correta. interpreta em ambos os sentidos os diálogos que esta estabelece com interlocutores que se comunicam em outra língua. garantindo a transposição quase imediata dos discursos orais. A interpretação consecutiva é mais adequada para as conversações que envolvem um número reduzido de participantes. Para desempenhar bem esse trabalho. interpretação de conferência – é realizada em reuniões multilíngues formais. o profissional intérprete pode escolher entre uma das principais modalidades de interpretação existentes: ● interpretação de acompanhamento – é o profissional que. conferências. na primeira pessoa do singular). tais como pequenas reuniões técnicas entre especialistas. Quando o intérprete está mediando uma relação entre surdos e ouvintes de ordem formal. Já as pessoas ouvintes que atuam profissionalmente como intérpretes. mesas-redondas. a fim de que o interlocutor o entenda e. normalmente. quando o surdo fala. ou seja. Já a interpretação simultânea é mais adequada para encontros que envolvem muitos participantes. acompanhando determinada pessoa. ele pode optar por desempenhar seu trabalho de forma consecutiva ou simultânea. a fim de que os participantes surdos possam acompanhar o evento. interpreta integralmente em outra língua o discurso feito. como se este fosse seu (isto é. em seguida. FAEL . seminários. é solicitada a presença do profissional intérprete. ● 156 ● Essa última forma de atuação é bastante comum em relação à Libras. quando o ouvinte fala. o intérprete passa a Libras para o português. e funcionam como elo entre pessoas que se comunicam verbalmente em idiomas diferentes. designadamente. Nesses casos. interpretação judicial – é a interpretação realizada no âmbito de um julgamento. congressos. pois em situações formais de palestras e simpósios. encontros ou jornadas. transpõem um discurso oral emitido em uma língua para outra língua.Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitar as ideias e os pensamentos nele presentes.

Aos intérpretes de Libras. preservando a continuidade e o sentido dos discursos orais. e de conhecimento sobre atualidade política. 157 Da teoria para a prática Agora que o profissional da educação já entende. o estilo e o espírito que o discurso apresenta. afinal. a melhor atitude a ser tomada seria: ● Poupá-lo da aula. Além disso.Capítulo 3 Ao mediador de relações entre surdos e ouvintes são outorgadas pelo menos três grandes responsabilidades. nosso respeito e consideração pelo grande trabalho desempenhado junto às pessoas surdas. precisa ter grande capacidade de concentração e de memória. pessoal e subjetiva é construída a partir da visão. Diante de tantas exigências para atuação. vemos o quão árdua é a profissão de intérprete e o quão importante ela é para que a interação social entre falantes de línguas diferentes seja bem-sucedida. já que ele sentirá que não produz na mesma proporção que os demais alunos. de conhecimento sobre as culturas envolvidas – de surdos e de ouvintes. e deixá-lo junto às atividades desenvolvidas (coral. Para isso. Isso é importante porque os intérpretes nunca têm a possibilidade de voltar a ouvir o que foi dito. treino auditivo e rápida compreensão dos discursos orais. Nesse caso. Língua Brasileira de Sinais – Libras . neste caso. sons dos instrumentos) pelo professor denotará preconceito. econômica e social. esse profissional precisa ter clareza do que ouve para interpretar adequadamente o sentido. de forma que. coloca-se uma questão: a relação do direito assegurado e do julgamento de valor. Libras e português. de forma a não perder nenhuma informação. a saber: de conhecimento profundo sobre as línguas envolvidos. cabe à coordenação pedagógica gerir qual o melhor procedimento diante de uma disciplina de música a ser trabalha em uma sala de aula em que estejam incluídas pessoas surdas. consiga manter o ritmo da intervenção sem perder informações. Por isso. é essencial que o intérprete também tenha excelentes faculdades de análise e de síntese. sua constituição intelectual. como se dão as relações sociais da surdez. Nesse sentido.

ele não entende e não consegue escrever no nível exigido.Língua Brasileira de Sinais – Libras ● Integrá-lo à aula. Diante disso. Adaptar a atividade. o professor passa o relatório de um dos alunos para que o surdo leia e o dispensa da entrega do relatório. já que a condição auditiva não poderá ser alterada. vimos que o surdo prefere se casar com outro surdo. o aluno surdo comparece à aula sem a atividade executada e argumenta que não deve ficar sem a nota. humanamente falando. Ao invés de assistir ao filme – dada a ausência de legenda –. Destacamos que a aquisição da linguagem da criança surda acontece nos mesmos moldes da criança ouvinte. se possível. ele explique em Libras o que entendeu da leitura. Privá-lo dessa participação implica em reserva de cultura e isso é. a melhor atitude seria: ● Insistir na cobrança da atividade. já que o português é sua segunda língua). como aluno. vimos que a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades que não se encontram na organização de uma pessoa ouvinte. ainda que existam critérios diferenciados para avaliação. para ter uma comunicação facilitada. pois o filme tem um conteúdo extremamente importante para a disciplina. ele deverá realizar todas as demandas apresentadas em sala. salvaguardando suas especificidades e tentando adaptar os sons para os gestos e/ou movimentos dos sinais. sugere-se uma questão ao professor regente de sala de aula: diante da proposta de assistir um filme e fazer um relatório. devido ao fato das dificuldades inerentes à sua história de vida (não adianta assistir ao filme. FAEL . injusto. ao passo que quando os filhos são ouvintes (Codas) haverá uma dupla constituição psicológica. Além disso. que quando têm filhos surdos a relação é amena. O aluno deverá procurar uma forma de assistir ao filme e compreendê-lo. pois não há janela e. 158 ● Síntese Neste capítulo. Apenas solicita que. o que poderá acarretar em algumas dificuldades de relacionamento. por isso. afinal. Ainda levando em conta a tomada de decisão no contexto escolar.

trouxemos os tipos possíveis de escolarização (escola especial. Quanto à inclusão dos surdos. pois este se apresenta como segunda língua e por isto vem carregado de dificuldades para ser aprendido. 1.078/2007). 159 Língua Brasileira de Sinais – Libras . escola inclusiva e centro de apoio ao surdo) e defendemos que. apresentamos a importância do seu registro por meio do SignWriting (escrita de sinais) e de metodologia específica para o ensino do português. Dessa forma. a Libras deve ser assegurada como língua de instrução. a questão de que as relações sociais se mostram como espaço constituidor de identidade e de desenvolvimento cultural e apresentamos as disseminações políticas consideradas no caso da surdez (closed claption e Lei n. também. indiferente do espaço.Capítulo 3 Abordamos. já que estas pessoas não ouvem e não falam a língua que devem escrever e ler.

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