Lídia da Silva

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Capítulo

Língua Brasileira de Sinais – Libras
Lídia da Silva

Curitiba 2010

Ficha Catalográfica elaborada pela Fael. – Curitiba: Editora Fael. 1. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael.9 Direitos desta edição reservados à Fael. Libras. FAEL Diretor Acadêmico Diretor Administrativo-Financeiro Coordenadora do Núcleo de Educação a Distância Coordenadora do Curso de Pedagogia EaD Secretária Geral Osíris Manne Bastos Cássio da Silveira Carneiro Vívian de Camargo Bastos Ana Cristina Gipiela Pienta Dirlei Werle Fávaro SiStEmA EDuCACioNAL EADCoN Diretor Executivo Diretores Administrativo-Financeiros Diretora de operações Diretor de ti Coordenadora Geral Julián Rizo Armando Sakata Júlio César Algeri Cristiane Andrea Strenske Juarez Poletto Dinamara Pereira Machado EDitorA FAEL Coordenador Editorial Edição Projeto Gráfico e Capa ilustração da Capa Diagramação ilustrações William Marlos da Costa Thaisa Socher Denise Pires Pierin Cristian Crescencio Ana Lúcia Ehler Rodrigues Dilmar Kempner Júnior . Lídia da S586l Língua Brasileira de Sinais – Libras/ Lídia da Silva. 164 p.: il. Bibliotecária – Cleide Cavalcanti Albuquerque CRB9/1424 Silva. I. Título. Educação inclusiva 2. 2010. Nota: conforme Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. CDD 371.

que me indicou este caminho.Ao Ronaldo Quirino. intérprete de Libras. .

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5. visando promover a comunicação entre as pessoas. Os assuntos são apresentados de uma forma clara. que reflete muitas pesquisas recentes na área. que permita diminuir o preconceito com que. a Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. Os alunos desses cursos precisam aprofundar não apenas o conhecimento da língua de sinais.apresentação A produção de textos para a disciplina de Língua Brasileira de Sinais – Libras. as entidades da comunidade surda. em geral.. mas conhecer o porquê de a língua ser um direito na educação dos surdos. sem diminuir os conteúdos necessários. nos cursos de Pedagogia. apresentação . etc. sempre divulgavam cursos de Libras. A aprendizagem de Libras é lei em muitos cursos. as igrejas. A aprendizagem da língua precisa estar dentro de um contexto organizado. Antes do Decreto n. Hoje muita coisa mudou. A professora Lídia da Silva conseguiu abordar os mais importantes conteúdos necessários ao entendimento dos desafios colocados aos professores pela mudança implantada na educação dos surdos. Professores esclarecidos quanto à complexa realidade da criança surda poderão trabalhar dispensando o carinho merecido a essas crianças. são vistos os surdos.262/2002. e atuar de forma a fazer avançar as condições de acolhimento na escola e na família. como as associações de surdos. é crucial e precisa se concretizar. que exige deles uma atuação esclarecida e interessada. de uma maneira informal e nada padronizada. a história e as lutas do povo surdo pelo reconhecimento de sua língua.

Atua como coordenadora geral do curso de Letras-Libras e como professora adjunta da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). língua de sinais. informática e escrita de língua de sinais. Orienta pesquisas na pós-graduação em Linguística e tem experiência na área de educação de surdos. .apresentação apresentação Esses avanços são necessários para que se concretize uma real inclusão na sociedade e a diminuição dos preconceitos existentes. mesmo entre a maioria dos professores. Marianne Rossi Stumpf* * Doutora em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

oirámus
Prefácio.........................................................................................9

sumário

1 2 3

Status linguístico da Libras ........................................................11
Estrutura gramatical da Libras ..................................................41 Implicações sociais da surdez .................................................127 Referências...............................................................................161

oicáferp
Q

Capítulo

prefácio
9

uando nos deparamos com uma pessoa surda pela primeira vez, algo acontece que faz deste encontro um momento único e singular em nossas vidas. Para alguns, esse momento vai significar o confronto com suas dificuldades e limites, que ficará apenas na memória. Para outros, esse momento vai significar uma mudança de vida, devido a uma tomada de decisão quanto às questões relacionadas à surdez e à língua de sinais. Uma tomada de decisão que implica na proximidade com a pessoa surda e sua língua. No meu caso, o efeito do encontro foi o segundo. Diante de um primeiro contato com uma pessoa surda, fui tomada pelo desejo de me desafiar e de tentar uma aproximação com ela, ainda que isso exigisse muito esforço e dedicação, pois o processo de aprendizagem de uma segunda língua não é uma atividade das mais fáceis da nossa vida. A entrada nessa nova esfera linguística me motivou a buscar cada vez mais conhecimento sobre a Libras e suas implicações para os sujeitos surdos, e esta busca foi determinante na minha formação acadêmica e profissional. Hoje sou pesquisadora, usuária, tradutora e professora de língua de sinais, e me deparo todos os dias com os desafios que uma língua espaço-visual impõe às pessoas que são falantes nativas de uma língua oral-auditiva. Porém, além dos desafios, me deparo também com a beleza, com a completude, com a satisfação de poder estabelecer comunicação por meio das mãos, dos olhos, do corpo, dos sinais. Assim se constituiu minha busca, e assim espero que se constitua a leitura deste livro aos leitores: descobertas recheadas de desafios e encantamentos.

no sentido de poder empregar a característica de “língua” a esta forma de comunicação. Até porque. torna-se mais fácil conceber a ideia de uma pessoa viver apenas com experiências visuais e assim construir toda sua impressão sobre o mundo. e de não mais creditar como verdade as falácias sociais ditas sobre ela até então. minimamente. Com esse olhar de diferença linguística. é que gera condições de entender as implicações sociais da surdez. Atua como orientadora de aprendizagem no curso de Letras-Libras e é tradutora de Libras da Universidade Positivo. sem esgotá-los. mas sempre destacamos que eles – os surdos – também devem ter voz neste processo. morfológicos. Esse encantamento pela Libras. É preciso que tenhamos esse encantamento para podermos. acredito que o leitor será tomado de encantamento ao se deparar com o status linguístico da Libras. no seu valor e nas suas possibilidades comunicativas.* * Lídia da Silva é mestre em Linguística. de alguma forma. que o leitor possa – após receber esta introdução – percorrer caminhos mais longos no conhecimento da estrutura gramatical da Libras. espero que esse desafio soe como um convite a uma leitura mais aprofundada sobre o tema. Minha expectativa é conseguir. é claro. Além disso. esclarecer a constituição dos aspectos fonológicos. sintáticos e semânticos da Libras. A autora. contribuir com as discussões sobre os surdos e sua língua. já que é uma tarefa árdua esboçar graficamente os detalhes de uma língua “espacial-tridimensional”.10 oicáferp prefácio Julgo que os principais desafios que se encontram neste texto são de ordem mais gramatical. .

as marcas para formalidade e informalidade. Dessa forma. Nesse ponto. sobre a teoria inatista de Chomsky. tem sido muito comum as pessoas se depararem com outras conversando de um modo muito diferente do que estão . porém. da Libras. e outros. como a modalidade linguística espaço-visual. Assim. Vamos abordar algumas definições preliminares e algumas discussões sobre as mudanças das terminologias na área da surdez. tais como aquisição da linguagem e estrutura gramatical das línguas naturais. o texto apresenta os universais “comprobatórios” da natureza linguística da Libras. Por princípios. de forma mais pormenorizada. Definições preliminares Atualmente. Há. a teoria entende características iguais entre os idiomas – predominantemente. por exemplo. parâmetros que a distinguem das línguas orais.Status linguístico da Libras N 1 11 este primeiro capítulo. bem como o refutamento aos mitos sociais que até então circundavam a concepção que se tinha sobre ela. este texto se insere nessas discussões por acreditar que a Libras possui os mesmos valores linguísticos que as línguas orais. pois ela embasa nossas considerações acerca dos fenômenos linguísticos explanados. Trataremos. atentaremos para a forma de nomeação da pessoa surda e da sua língua. a estrutura sintática – enquanto que os parâmetros são as diferenças que existem entre eles – as categorias gramaticais. portanto. apresentaremos uma introdução das ideias que serão desenvolvidas posteriormente. o caso de empréstimos de outra língua – fenômeno recorrente nos sistemas linguísticos. Essa teoria atesta que princípios e parâmetros imperam na constituição de todas as línguas do mundo.

para então estar integrada à sociedade. mas com qualquer uma que apresentasse alguma limitação física ou sensorial. mas com o passar do tempo esse sentimento se desfaz e dá lugar a uma impressão de normalidade. no sentido de que ela deve se adequar aos moldes padrões. nem sempre foi assim. De fato. Nesse sentido.Língua Brasileira de Sinais – Libras acostumadas a ver. em 1880. FAEL 12 . a sociedade decide que as pessoas que não ouvem devem ser oralizadas. a forma como nos dirigimos à pessoa revela o valor que damos a ela. Esse tipo de concepção e. mas há um duplo envolvimento: por parte deles e por parte da sociedade. como devemos nos referir a tais pessoas? Certamente. mesmo havendo um novo paradigma social emergindo. especialmente depois da decisão do II Congresso Internacional sobre Instrução de Surdos. Nessa perspectiva. Havia uma exclusão escancarada não só com essas pessoas. num primeiro momento. O professor era mero treinador de fonemas e o aluno deveria empreender todos os esforços possíveis para realizar uma boa leitura labial. surge um sentimento de estranhamento. ainda que não pudesse ouvir sua própria voz. ainda há contradições manifestadas nas práticas. os vocativos e os pronomes de tratamento. o modo como nos reportamos aos outros quer dizer alguma coisa. Quando isso ocorre. Normalmente. começam os rumores de uma nova filosofia social e educacional: a inclusão. Ser uma pessoa oralizada significa desenvolver sua fala por meio da vocalização dos sons. sendo considerada improdutiva para a sociedade. que entendia que o método de ensino mais adequado aos surdos seria a oralização. prevaleceu por muito tempo. Não fosse assim. Após esse período. que aconteceu em Milão. não existiriam os títulos. não apenas as pessoas que não ouvem passam a se integrar e emprenhar esforço para tornarem-se normais. À medida que estas pessoas vão se mostrando à sociedade. Houve uma época (século XV) em que as pessoas que não podiam ouvir eram atiradas do alto dos rochedos. vem impresso de significado. exercícios mecânicos. infelizmente. o trabalho era de: recuperação auditiva. Porém. consequentemente. mais aceitável a sua forma de expressão passa a ser. a integração foi a concepção adotada. no início do ano 2000. Depois. como as pessoas que ouvem. aquilo vai se tornando comum. Prova disso é a própria dificuldade terminológica. tratamento de reabilitação. Porém. Porém. A integração é a fase que compreende a concepção e a prática da pessoa com deficiência a partir de um esforço adaptativo apenas de sua parte. este método de ensino chamado oralismo. pois elas não eram consideradas humanas.

estamos destacando o que há de ausente naquela pessoa. Primeiro. e. de gênero. 2005). a condição de não ouvir. Esse olhar para o surdo como uma pessoa diferente acaba com a concepção de deficiente auditivo – anteriormente impregnada nos meios sociais e educacionais – e.Capítulo 1 No caso das pessoas que não podem ouvir. aquilo que lhe é deficiente. os surdos são deficientes auditivos para aquelas pessoas que os enxergam com uma visão clínico-terapêutica. dizer surdo-mudo é duplamente incorreto. Conceitualmente. parágrafo único. falar não significa vocalizar. mas a informação que mais nos importa é sua patologia e/ou sua condição clínica. etc. para aqueles que os olham Língua Brasileira de Sinais – Libras 13 . porque quando o surdo está sinalizando. está falando. sexual. mas expressar a sua língua. apague esta ideia! tivos.a. É o caso do termo “deficiente auditivo” ou “d. pois. De acordo com essa concepção de diferença (ao invés de deficiência). Artigo 2º. não estão em sintonia com o que já é socialmente Verifique em <http://www. Foi a partir da década de 90 do século XX que inauguraram algumas pesquisas no país sobre a língua de sinais.”. Nesse sentido. somos apenas mais uma figura no cenário da diversidade social – racial. ele está pronunciando-se na sua língua. porque existem muitos surdos que têm domínio da língua oral e que se comunicam também com sons da voz. segundo o Decreto n.org. pois todos já fazem parte da sociedade.br>. ainda que os fonemas sejam desorganizados por falta do feedback auditivo. financeira. Então. religiosa. não há necessidade de inserção das pessoas. aliás. emitir sons. e isto propiciou um olhar antropológico e cultural sobre a surdez. consequentemente. Capítulo I. Então.626 (BRASIL. a sociedade progride e tem sua visão alterada. Depois. não estamos vendo-a como pessoa.feneis. estamos invocando aquilo que ela não tem.Há um slogan propagado pela Federação Nadinho”. também Saiba mais deixam de ser válidos termos como “surdo-mudo” ou “mu. Quando usamos esse termo para nos referir a uma pessoa. além de pejora. aceito.cional de Educação e Integração de Surdos que diz: SURDO-MUDO. anula a necessidade de reabilitação para integração. política. há algumas alternativas de tratamento que podem denotar a consideração social a respeito de sua condição. 5. Com o acelerar da recepção de informações. surdos-mudos para aqueles que não sabem que eles falam.

por meio do estabelecimento de uma comunicação visual. porque ele remete a um posicionamento político de respeito ao sujeito como um ser social.Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitando sua diversidade linguística. falante da língua de sinais. a órgãos públicos ou privados e fazem este sinal: Oi FAEL . a partir de agora. Contrariamente. Portanto. Surdo Ouvinte 14 Os surdos conversam com as mãos. para nos referirmos a essas pessoas neste texto. usaremos o termo “surdo”. por exemplo. são apenas: surdos. e não com uma visão clínica ou patológica. as pessoas que têm a capacidade de ouvir são chamadas de ouvintes. de quando os surdos chegam a estabelecimentos comerciais. É o caso. De fato. poucas são as pessoas que reconhecem o que significam tantos movimentos e tantas sinalizações.

com os sinais da Libras. ou seja. Língua Brasileira de Sinais – Libras . na esperança de conseguir estabelecer uma comunicação. na maioria das vezes. Porém. tentam falar mais lentamente ou buscam um papel para escrever. o desejável seria que essas pessoas pudessem responder da mesma forma.Capítulo 1 As pessoas não sabem o que isso significa e. conforme exposto a seguir: Tudo bem? Qual é seu nome? Qual é o seu sinal?1 Bom dia 15 Boa tarde Boa noite 1 Os surdos dão um sinal para cada pessoa e não as chamam pelo nome.

Os que entendem que a influência do social é determinante para aquisição da língua. as crianças já nascem equipadas com vários aspectos relacionados à organização sintática das línguas humanas que FAEL . enquanto que a sinalizada tem a característica de ser espaço-visual. por exemplo. Posteriormente explicaremos porque esses dois últimos termos são inadequados. Porém. o processo de adquirir a estrutura de uma língua natural é universal. Por outro lado. Há. do Massachusetts Institute of Techonology – MIT. esses e outros tantos sinais necessários à comunicação com surdos são desconhecidos pela população ouvinte. mas da própria nomeação desta modalidade linguística. que as pessoas a chamam de “linguagem de sinais”. Trata-se da teoria gerativa. A língua falada é conhecida por possuir uma característica oral e auditiva. Há. língua escrita e língua sinalizada. vamos pensar na oposição língua X linguagem. mas. pesquisadores que são adeptos a concepções sociais e há outros que procuram abordagens mais naturalísticas para formular suas concepções. há pesquisadores que são mais adeptos aos postulados teóricos de Chomsky (1957). Essa aquisição é possível devido ao fato de as crianças possuírem um conhecimento linguístico inato que as guia por esse processo. três modalidades das línguas naturais: língua falada. e que escolhemos para construir nosso aporte conceitual. Isso significa que o espaço (lugar a frente do corpo) é o canal de emissão e a visão é o canal receptor da mensagem. e a faz sob diferentes perspectivas teóricas. E o que vem a ser modalidade linguística? É a forma como a língua se manifesta. pois independe da qualidade interativa que se estabelece com a criança. a língua de sinais tem modalidade espaço-visual.Língua Brasileira de Sinais – Libras No entanto. Tais ideias deram origem à teoria que vigora até o presente. e o desconhecimento não é só dos vocabulários. vemos que o desconhecimento sobre essa modalidade linguística é tanto. Há outras que a chamam de “gestos” e há. por ora. Para ele. nos Estados Unidos. basicamente. assim também como independe da cultura. Portanto. ainda. 16 A linguística é a área científica que se debruça a conceituar essas duas categorias. infelizmente. destituem do ser humano as responsabilidades pelo seu desempenho linguístico. Inscrevem-se nesse tipo de abordagem as vertentes da linguística estrutural e funcional. quem pense que são “mímicas”. Segundo essa teoria.

A criança é vista como aprendiz eficiente a despeito da pobreza de estímulos..Capítulo 1 são geneticamente determinadas. abriga os princípios que são comuns a todas as línguas humanas. a criança é exposta a estímulos pobres e limitados. por isso o nome problema de Platão é extraído da questão filosófica. [. apenas pela maturação da GU. essa capacidade é uma consequência direta do fato de sermos humanos.] Sob esta perspectiva. [. devido ao seu inato conhecimento linguístico. devido à discrepância entre input e output do falante. com coerência e de forma apropriada a cada contexto. somos humanos ou não somos. Chomsky (1957) denomina esse conhecimento linguístico predeterminado de “Dispositivo de Aquisição de Linguagem – DAL” (em inglês: Language Acquisition Device – LAD). é capaz de se desenvolver ao ponto de gerar infinitos enunciados bem formados. Esse fator é preponderante no princípio do funcionamento do DAL. livre de estímulos. além da sua capacidade de evocar os pensamentos adequados no seu interlocutor. pois a mente humana abriga um sistema “computacional” capaz de gerar representações linguísticas.. Esse argumento é comumente tratado por problema de Platão2. Isso se comprova. Nesse sentido. observando propriedades específicas. fica a cargo da interação social. sistema armazenado na mente. mas não para determinação do seu estágio final. de como é que o ser humano pode saber tanto diante de evidências tão passageiras. O estágio final são as propriedades linguísticas alcançadas pelo adulto. e 2 O argumento da “pobreza dos estímulos” é tratado por Chomsky (1957) como uma atitude platonista. porém. entendida como um órgão biológico carente de iniciar seu funcionamento que.. pois não existem graus de humanidade. no caso. possibilitando um melhor entendimento de que a linguagem reflete uma capacidade mental do ser humano. a aquisição da linguagem vai acontecer naturalmente – sem que haja um aprendizado formal –. enganosas e fragmentárias? 17 Língua Brasileira de Sinais – Libras . Em outras palavras. O DAL.] pode-se dizer que o uso criativo da linguagem não se limita ao estabelecimento de analogias. A perspectiva chomskyniana de linguagem está resumida no excerto a seguir. Esses princípios formam um conjunto de regras linguísticas uniformes chamado de Gramática Universal – GU. Por isso dizemos que essa teoria é de natureza mentalista. Como diz Descartes. segundo Chomsky (1957).. mas reflete a capacidade do ser humano de fazer uso dela no seu dia a dia.

Podemos concluir que a Libras deve ser aprendida e. FAEL . Posto o entendimento de que há diferença teórica no conceito de língua e no conceito de linguagem. Um estudo da faculdade da linguagem deve propor propriedades específicas e descobrir os mecanismos da mente que as apresenta. língua é um conjunto de regras que gera uma infinidade de sentenças. linguagem e outras. o objeto de estudo é postulado como o conhecimento inconsciente da língua. p. 18 Apesar de já termos adiantado o conceito de língua. p. 3 Epifenômenos são fenômenos adicionais que se sobrepõem a outros. opostamente. Segundo Kato (1997). há ainda que se colocar que. internas (inconscientes) e intencionais (automáticas). raciocínio. Para o linguista adepto à corrente gerativa. mas sem modificá-los. percepção. e que este dispositivo deve ser acionado pelos estímulos externos para poder desenvolver a língua. isto é. além de dar conta destas mesmas propriedades em termos da ciência física (QUADROS. 4 Função mental superior é sinônima de função psicológica. nem exercer sobre eles qualquer influência. 2008. a Libras não pode ser chamada de “linguagem de sinais”. significa que ela é externa a nós. todos seriamos sinalizadores. e elas são: pensamento. sendo assim. a não ser no nível da superficialidade. 47). Quer dizer. são fatores sociais. esse conhecimento tem caráter intencional e o uso é inconsciente devido ao uso automático da língua. se será aprendida. 2008. A linguagem é uma função mental superior4. não está instalada no cérebro humano. e isso não acontece. 47). FINGER. é língua. enquanto a língua. caracterizadas como individuais. FINGER. etc. podemos concluir que a terminologia “linguagem de sinais” passa a ser cientificamente inapropriada. Essa é a concepção de língua que adotamos.Língua Brasileira de Sinais – Libras não há variação essencial entre os humanos. Dessa forma. (QUADROS. memória. nesse modelo teórico. poderíamos dizer que a linguagem é um dispositivo que já está acoplado na mente humana desde o nascimento. Assim. se assim fosse. considerando que. inteligência. portanto. é de natureza muito mais individual. mas está no seio da sociedade e por isso precisa ser adquirida. ela é entendida como um conjunto de regras que geram uma infinidade de sentenças. econômicos. atenção. sendo que cada uma é formada por cadeias de elementos. culturais. encarado como um sistema “computacional”. políticos. nos aspectos epifenomenais3. ela é social.

fiemg. já que todas as demais línguas de sinais do mundo possuem uma sigla com três letras. Como Libras é nossa opção terminológica. A partir dessa aprovação. 2002b). e é o termo presente em documentos legais. libras gua de sinais utilizada pela (todas as letras minúsculas) ou Libras (apenas comunidade surda brasileira: a primeira letra maiúscula). 10.Capítulo 1 A partir dessa concepção. A primeira foi oficializada pela Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. A LSB é a sigla utilizada por pesquisadores que publicam textos internacionais. se deve ser correntes para designar a línLIBRAS (todas as letras maiúsculas). a Libras passou a ser aceita como língua Língua Brasileira de Sinais – Libras .mais sobre o assunto em: <http://www. podemos adentrar mais especificamente nas considerações sobre a “língua” de sinais.br/ead/pne/Terminologias. Leia Sinais) e LSB (Língua de Si. é possível ter uma rápida identificação para LSB. desta forma. com. nais Brasileira). Língua de sinais Iniciamos pelo signifiSaiba mais cado do termo. visto que no Há pesquisas que discutem a melhor grafia Brasil há duas terminologias para a língua brasileira de sinais. reproduzimos a seguir o sinal empregado pelos surdos para nomear sua própria língua: Libras 19 Um dos documentos legais que contempla a sigla Libras é a Lei Federal n. que oficializou a língua no Brasil.436/2002 (BRASIL.pdf>. já que há diferenLibras (Língua Brasileira de ça conceitual nestes diferentes registros.

precisamos passar por um processo formal de aprendizagem. incapaz de expressar conceitos abstratos. 1995. Para que isso ocorra. Ter uma lei que oficialize um idioma em um país é muito importante. Vejamos cada um destes mitos. cruzamos os braços. colocar a Libras e os gestos na mesma categoria de análise. Diferentemente.Língua Brasileira de Sinais – Libras usual na comunidade surda. índios) relatam experiências de segregação e preconceito. deve-se travar uma luta pelo reconhecimento linguístico de tais minorias. Os gestos são as expressões espontâneas das pessoas. 10. A Lei n. FELIPE. já que sua forma de expressão não é a mesma da maioria social. Nesse sentido. 20 Mitos sobre a Libras A língua de sinais seria uma mistura de pantomima e gesticulação concreta. No caso da Libras. discutindo e publicando suas investigações sobre esta língua. 1998. essa conquista só foi possível mediante a congregação dos surdos em prol dessa causa. FAEL . quando colocamos a mão no rosto ou na cintura. Não devemos. para produzirmos a Libras. apesar de ambos serem produções visuais. mas.436 oficializou a Libras. pois este sistema linguístico é abstrato e não faz parte da nossa expressividade natural – se assim fosse. Por exemplo. 1997). possuem natureza muito diferente. também. bem como as asseverações postuladas pelos pesquisadores pioneiros no assunto. e pelo fato de muitos pesquisadores terem se empenhado para angariar conhecimentos que comprovassem o valor linguístico dessa língua. que vai desde agregar as pessoas até convencer políticos a planejar ações disseminadoras. As línguas de sinais derivam da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. visto que as minorias linguísticas (imigrantes. todos seríamos falantes natos da Libras. com o intuito de combater os mitos que havia sobre ela. pois demonstra o reconhecimento social sobre ela. já existiam pesquisadores brasileiros de língua de sinais (BRITO. elas não podem ser comparadas com a Libras. QUADROS. são nossas expressividades naturais. estamos produzindo gestos. antes disso. que é uma língua gramaticalmente organizada. há que se percorrer um longo caminho. Considerando que a pantomima e a mímica são formas artísticas de expressão. apertamos os dedos uns contra os outros ou passamos as mãos repetidas vezes no cabelo. pois.

eles não são o todo da língua. e o segundo é o dos sinais chamados arbitrários. SinaiS icônicoS Passar batom SinaiS arbitrárioS Vencer 21 1 2 Passar roupa Especial Língua Brasileira de Sinais – Libras . que representam o som que reproduzem. há outros que não tem relação alguma com os objetos da realidade. Exemplo disso são as palavras “bem-te-vi” e “bumbo”. como é o caso do português. conforme podemos verificar nas ilustrações. porém. Essa possibilidade de o referente linguístico ter relação com os objetos reais – a iconicidade – também é presente nas línguas orais. respectivamente.Capítulo 1 É verdade que a Libras é composta por sinais que representam manualmente as formas e os movimentos dos objetos do mundo. nome de um pássaro e um instrumento musical. O primeiro grupo de sinais é o dos chamados icônicos. como os sinais a seguir reproduzidos.

Língua Brasileira de Sinais – Libras SinaiS icônicoS Pentear o cabelo SinaiS arbitrárioS Perigoso Escovar os dentes Vingar 22 Dormir Idade FAEL .

Capítulo 1 SinaiS icônicoS Lavar roupa SinaiS arbitrárioS Organização Limpar o chão Sofrer 23 Varrer Opinar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

é porque existem outras línguas de sinais espalhadas por outros países. não é isso que ocorre. FAEL . Se assim fosse.Língua Brasileira de Sinais – Libras É bom ressaltar que os sinais icônicos não são iguais no mundo todo. pois se Libras é a sigla da Língua Brasileira de Sinais. fica refutada a ideia de que os sinais da Libras são extraídos da expressividade natural dos ouvintes. mas. A diferença é que aqui representamos o tronco da árvore e o balanço dos galhos. entre outras. Contudo. Muitas pessoas pensavam que a Libras seria universal. podemos concluir que. já é um forte argumento para combater o mito que aponta que a língua de sinais deriva da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. ele rapidamente identificaria o significado. Língua Alemã de Sinais. pois a representação que cada falante faz da realidade é diferente. por exemplo. Língua Americana de Sinais. de que a iconicidade se realiza de acordo com a perspectiva referencial de determinado grupo. Então. Haveria uma única e universal língua de sinais usada por todas as pessoas surdas. quando um surdo sinalizasse o sinal de árvore para um ouvinte. se no nome da língua mencionamos sua nacionalidade. enquanto lá se faz apenas o tronco. o sinal de árvore no Brasil é icônico assim como o é na China. tais como: Língua Holandesa de Sinais. essa afirmação não procede. que os sinais eram iguais em todos os países. como sabemos. conforme figuras a seguir: Árvore Árvore 24 Libras Língua de Sinais Chinesa (CSL) Só essa informação. Língua Francesa de Sinais.

ela tem sua origem na Língua Francesa de Sinais. encontramos conceituação diferenciada para os termos empregados. na sua organização semântica e discursiva para atender a aspectos culturais e ideológicos das diferentes comunidades de surdos. que são diferentes apenas em sua natureza e comportamento. Porém. assim como aconteceu com o esperanto. por pidgin entendemos a mistura de duas línguas. mas. já que as línguas orais não são iguais e ninguém questiona esses fenômenos. havia um questionamento de que seria muito mais fácil para comunicação dos surdos se todos sinalizassem da mesma forma. No caso da Libras. Segundo naturais. inclusive as de sinais. que reflete a cultura da países. baseando-nos Porém. Cada uma dessas proposições pode ser considerada um mito. Por exemplo. como qualquer língua. termos comuns na maioria das línguas orais. todas as línguas. apresentam organização sintática com os mesmos princípios comuns à linguagem humana. sendo um pidgin sem estrutura própria. pensou-se em sistematizar uma língua nação e daquela comunidade surda. Quando a informação de que a Libras não é universal começou a percorrer espaços sociais. que seria derivada das línguas orais. em cada país. cada uma tem sua história linguística. então um questionamento como este também perde sua validade. o gestuno – assim como o essa teoria. O mesmo aconteceu com as línguas de sinais. Isso significa que as línguas de sinais se diferenciam. também. houve o alastramento de determinados idiomas em determinados lugares. se estamos entendendo que a língua de sinais tem o mesmo valor que a língua oral. Isso porque sabem que. há Saiba mais uma língua de sinais especíCom a difusão das línguas de sinais pelos fica. muitas vezes. que era que entendemos haver uma uma forma de comunicação oral que reunia os língua de sinais para cada país.Capítulo 1 Assim. devido às colonizações. Algumas pessoas acham que a Libras é derivada das línguas orais e é um pidgin sem estrutura própria. pois quando as analisamos. subordinada e inferior. esperanto – deixou de existir. como nas expressões (1) e (2) a seguir exemplificadas. subordinado e inferior às línguas orais. como não era usado em momentos na teoria gerativa. O pidgin é utilizado por pessoas que estão em processo de aprendizagem e necessitam de Língua Brasileira de Sinais – Libras 25 . Haveria uma falha na organização gramatical da língua de sinais. E não é só pelo nome de sinais universal chamada “gestuno”.

alegar que ela é subordinada à língua oral. I amo you. quando uma pessoa está conversando com um surdo em Libras e na ausência de um sinal resolve oralizar pausadamente. como há uma conscientização ao cessar do preconceito linguístico. pois houve a mistura dos sinais com a voz. é o seu mau uso que pode tornar-se um. da Libras com o português. não é a Libras que é um pidgin. Na Libras. Assim como fazer comparativo de superioridade ou inferioridade em relação à língua oral é linguisticamente inviável. Sabemos que não podemos criticar uma pessoa porque ela fala porta acentuando o r. não consideramos o inglês e o português como pidgin. mas nunca taxarmos como “certa” uma única forma. Porém. além de demonstrar o desconhecimento da estrutura linguística. ou ainda porque ela fala bicicreta. e não um julgamento de valor. Essa estrutura se caracterizará por um pidgin. com conteúdo restrito. 2. pois as línguas são apenas diferentes entre si. como fazem os caipiras. mas que muitas vezes é verbalizado por desconhecedores da Libras. o que falta são algumas tomadas de decisão quanto ao tema. Mesmo assim. Esse é outro apontamento que não procede às descobertas científicas. isto já é assegurado no campo da linguística e já foi transmitido à sociedade. isso também acontece. A língua de sinais seria um sistema de comunicação superficial. sendo estética. a fim de que o interlocutor o entenda. Eu love você.Língua Brasileira de Sinais – Libras um recurso emergente de comunicação. Da mesma forma. Nesse sentido. Uma manifestação de pidgin sinalizada é. a única comparação permitida entre as línguas e em sua realização é o conhecimento dos parâmetros de cada sistema. pois nenhum sistema linguístico será mais complexo ou superior a outro. esse tipo de comparação inexiste. portanto. 1. A Libras tem uma estrutura gramatical bastante complexa. Esse jeito diferente de falar compõe o idioleto de cada um. Na linguística. Podemos admirar uma ou outra forma. expressiva e linguisticamente inferior ao sistema de comunicação oral. já que todos se prestam ao mesmo fim: a comunicação. tem constituição interna própria. por exemplo. FAEL 26 . cada um sinaliza de um jeito. também aponta para uma postura altamente preconceituosa. da oralidade com a sinalização.

artístico. enquanto que o esquerdo. visual. especialmente. Portanto. Há pessoas que dizem que as línguas de sinais. Sua modalidade é espacial e visual. No hemisfério esquerdo estão algumas funções mentais como atenção. uma vez que este hemisfério é responsável pelo processamento de informações espaciais. serve para ver no sentido estrito do termo. estaria no hemisfério esquerdo. matemático e outros. O que ocorre. estariam representadas no hemisfério direito do cérebro. e estas são características alocadas no hemisfério direito. por isso. há que se pensar onde se localiza a Libras. assim também como a função do espaço deste hemisfério se relaciona à questão geográfica. de flexibilidade e de versatilidade. emocional. por estarem organizadas espacialmente. as considerações que se tinha até então eram de que a Libras instalava-se no hemisfério direito. pela linguagem. o cérebro Língua Brasileira de Sinais – Libras 27 . é uma língua natural. espacial. a Libras não se enquadra nesta situação. por estarem organizadas espacialmente. há possibilidade de transmissão do conceito da palavra. é que a função de visão do hemisfério direito tem uma característica funcional. que emerge no seio da comunidade e se transforma ao longo do tempo. e que cada um deles tem uma função diferenciada. na verdade. pois mesmo não havendo palavras comuns entre Libras e português. Ao hemisfério direito cabem as propriedades para o desenvolvimento musical. para poder dar conta dessa modalidade. que determina a compreensão de uma língua. A partir daí. o cérebro humano. estariam representadas no hemisfério direito do cérebro. e a área de Wernicke. é identificada a propriedade linguística. Diante disso. As línguas de sinais. é dinâmica e com conteúdo absolutamente ilimitado. Toda língua humana – como a língua de sinais falada pelos surdos – atende aos critérios de criatividade. É possível falar qualquer coisa em Libras – desde de que o sinalizante tenha fluência –. que determina a expressividade da fala. memória e outras.Capítulo 1 Levando em conta que um sistema de comunicação superficial é aquele criado para atender a comunicação de máquinas. uma vez que esse hemisfério é responsável pelo processamento de informação espacial. basicamente. ou seja. minimamente. duas áreas responsáveis pelo desempenho de uma língua: a área de Broca. a Libras não é superficial. mas. Pessoas que conhecem. Há. é a linguagem de programação. sabem que ele é dividido em hemisfério direito e hemisfério esquerdo. Nesse sentido. nesse hemisfério. já que é uma língua e que.

Como exemplo dessa similaridade. a comunicação espaço-visual se espalhou pela Europa e. citamos os sinais de casa em Libras e na Língua Americana de Sinais: Casa Casa 28 Libras Língua Americana de Sinais FAEL . posteriormente. que burlavam a lei do silêncio que imperava nos mosteiros e conversavam por “códigos visuais”. houve um período em que eles – um nome bastante conhecido desta época é o Ponce de Leon – se dedicavam à instrução de pessoas surdas. São os chamados cognatos. agora com função linguística que servirá para “ouvir” e “falar” a Libras. no hemisfério esquerdo. Todas elas. por exemplo). pois antes dele já existiam os abades franceses. e então realiza uma transferência hemisferial. Por isso. da Língua Francesa de Sinais e da Língua Americana de Sinais são parecidos. alguns sinais da Libras. Assim. Então. Ele foi o primeiro pesquisador a sistematizar a estrutura gramatical de uma língua de sinais. de William Stokoe. chegando ao Brasil no século XX. Assim como existem palavras muito semelhantes no português e no inglês (baby e bebê.Língua Brasileira de Sinais – Libras detecta que a visão e o espaço serão utilizados pela modalidade linguística. haverá a visão e o espaço. para América. mas com propriedades distintas. há também algumas semelhanças de vocabulário nas línguas de sinais do Brasil. emergiram a partir do primeiro trabalho conhecido sobre línguas de sinais nos Estados Unidos. entretanto. Depois disso. mas não foi o primeiro a usar esta forma de comunicação. em 1960. Essas primeiras pesquisas que se prestaram a desmistificar falsas considerações sobre a Libras deram origem a outras. EUA e França. então começaram a usar uma língua estruturada para transmitir conteúdos científicos e teológicos.

apesar de se apresentar numa modalidade diferente das línguas orais. Não há línguas primitivas – todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. por exemplo. pois todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. No português. com empréstimos linguísticos vindos do sequente aportuguesamento destes termos ou. ainda. ela deve passar por todos os testes postulados pelos pesquisadores. destacamos inicialmente o alfabeto manual. haverá língua(s). por meio da inclusão de palavras novas ao repertório individual. passou-se a mostrar a verdade sobre esse sistema de comunicação espaço-visual. pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. um recurso paliativo. A primeira análise feita para atestar o status linguístico da Libras pautou-se numa simples consideração: a de que onde há seres humanos há língua. ela não pode ser considerada como uma língua primitiva. na verdade. percebe-se que. as palavras são incorporadas ao sistema linguístico de um modo geral. Fizeram isso utilizando-se da “regra geral” para validação de que uma língua é língua. deve responder positivamente às questões levantadas. Então. Vejamos cada um deles.Capítulo 1 O que Stokoe e os primeiros linguistas brasileiros fizeram – além de mostrar o falseacionismo dos mitos – foi apontar a natureza da Libras como ela é. como o de qualquer língua. isto reitera a existência de uma língua. Assim também acontece com o vocabulário das línguas orais e sinalizadas que. Ao aproximar-se da língua usada pelo grupo de surdos. Quanto aos empréstimos linguísticos da Libras. É impossível negar que um grupo de surdos constitui-se como um grupo de seres humanos. através dos universais linguísticos. Verdades sobre a Libras: universais linguísticos Para uma língua ser considerada língua. O vocabulário de qualquer língua pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. Onde houver seres humanos. usado apenas para se referir a nomes próprios e a objetos que não tenham um Língua Brasileira de Sinais – Libras 29 . portanto. Ele é. e a Libras preenche estes requisitos.

essa representação é feita de acordo com o alfabeto do idioma local. pode ser sinalizada de um jeito no Brasil e de outro nos Estados Unidos. Os surdos representam por meio das mãos as letras do alfabeto português. vale ressaltar que esse recurso é externo à Libras. portanto. passa a fazer uso do português.Língua Brasileira de Sinais – Libras sinal conhecido na Libras. deixa de usar a Libras e faz uma transferência de código. enquanto precisam aprender uma língua oral e auditiva. e não uma FAEL . É preferível fazer um sinal sinônimo a “escrever” a palavra a que se deseja fazer referência. Além disso. explicaremos com mais detalhes a questão de o português ser uma segunda língua para os surdos. pois são usuários de uma língua espacial e visual. então. às vezes. Por isso. Posteriormente. desde que não alternadamente. ele é considerado como um empréstimo da língua portuguesa. no caso do Brasil. se há preferência pela mão esquerda. Em outros países. 30 a b c ç d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z O alfabeto manual pode ser sinalizado com qualquer uma das mãos. devemos ter muita cautela para usá-lo. quando a pessoa está usando o alfabeto manual. A letra “T”. Figura 1 Alfabeto manual. a palavra toda deve ser sinalizada com a esquerda. pois os surdos não se relacionam com a língua portuguesa como nós nos relacionamos. Há toda uma dificuldade que se coloca a eles.

bem próximo ao tronco. indígenas. eles criam um sinal que será usado dali para frente. pois a realização do sinal vai remeter ao sentido e ao conceito. O desenho no ar é feito em um ponto acima de onde se escreveu inicialmente. `. se escreve com o braço na vertical. No português. ou outros motivos. então. devemos ressaltar que dele são extraídos os outros empréstimos linguísticos da Libras. Normalmente. Na língua portuguesa há muitas expressões americanas. é comum os surdos pedirem que se escreva a palavra com o alfabeto manual. ~. Além disso. Caso seja necessário escrever mais de uma palavra (nome completo ou palavra composta. Então. por exemplo). por exemplo: JOS´E. Para os nomes de pessoas e lugares. na sequência.Capítulo 1 letra com cada mão. iniciar a nova série de letras que serão feitas com o mesmo ritmo. francesas. pela globalização. e as letras são feitas uma após a outra. os quais estão reproduzidos a seguir: Figura 2 31 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Ainda com relação ao alfabeto manual. que são usadas pelos falantes Língua Brasileira de Sinais – Libras . mas. ´) por meio de desenho no ar com o dedo indicador. O mesmo processo ocorre com a produção dos números da Libras. há muitos exemplos de palavras que não compunham nosso verbete e que passaram a fazer parte de nossa fala. deve-se fazer uma palavra numa sequência rítmica e dar uma pausa na última letra para. e deve ser feito antes da letra que receberá o acento. há também a possibilidade de representação dos acentos das palavras (^. por meio da internet. a digitalização da palavra passará a ser dispensável das próximas vezes. Um empréstimo linguístico é uma palavra original de um idioma que passa a fazer parte do repertório de um grupo de falantes de outro idioma. sem necessariamente tirar a mão do lugar.

shampoo. É o caso de quando entramos na faculdade. Os surdos têm a capacidade de inserir em sua língua palavras novas conforme a necessidade. pela supressão de uma das letras. Exemplos desses empréstimos são as palavras: stress. há uma “enxurrada” de palavras novas as quais não utilizávamos antes. “pragmática”. delete. “sintático”. “biomorfologia”. podemos destacar que são criados de acordo com a necessidade. como os termos “paradigma”. Os empréstimos linguísticos na Libras ocorrem mediante processo de aceleração da escrita do alfabeto manual e. algumas vezes. “demanda de mercado”. “psicanálise”.Veja um exemplo de empréstimo linguístico da Libras: Bar 32 Em se tratando de termos técnicos e científicos. Daí surgem os novos sinais. entre outras.Língua Brasileira de Sinais – Libras normalmente. “piagetiano”. abajur. ligth. lingerie. etc. Na língua de sinais. como os expostos a seguir: Neurose Mídia FAEL . isso ocorre da mesma maneira. “léxico”. diet.

o amarrar. isso também acontece. é sinalizado conforme imagem a seguir. passando o polegar na bochecha. que era realizado com ambas as mãos postas próximas à cabeça. que passou para vos mice. esse sinal preserva apenas o trajeto do rosto ao pescoço.Capítulo 1 Ambiente virtual de aprendizagem Condicionamento Todas as línguas mudam ao longo do tempo. do sinal mulher. Atualmente. Na língua de sinais. Os sinais que exigem muito “trabalho” para serem realizados sofrem uma economia produtiva e passam a ser realizados de maneira mais simplificada. É o caso. e isto implica dizer que as línguas mudam ao longo do tempo. numa imitação de colocar o chapéu. depois para você e hoje é comumente tratado por cê ou vc. por exemplo. Então descia do rosto em direção ao pescoço. Mulher 33 Língua Brasileira de Sinais – Libras . onde era encerrado com um movimento que imitava o lançar. Podemos verificar que não há permanência vocabular e nem estrutural em nenhuma língua. Assim como ocorreu com o vocábulo vossa mercê.

pois elas diferem umas das outras. gado. pois é um sistema distinto do que estamos habituados a usar. mas aplica-se também à estrutura gramatical das línguas. expressa a característica de dualidade ou dupla articulação comum às línguas orais e sinalizadas. É o caso. em torno de trinta ou quarenta. como fêmea ou macho. Por exemplo. apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. g. ou “a”.Língua Brasileira de Sinais – Libras As relações entre sons e significados das línguas faladas e entre gestos (sinais) e significados das línguas de sinais são. FAEL 34 . Tal organização de língua em duas camadas. visto que. As palavras e sinais apresentam uma conexão arbitrária entre forma e significado. “n”. Tal característica significa que existe uma gama de unidades que são semelhantes. os quais podem ser definidos por um conjunto de propriedades ou traços. d. de fogo. a característica da dupla articulação. e dado o significado é possível prever a forma. em sua maioria. mas que cada fonema normalmente não tem significado quando está isolado. a). arbitrárias. por exemplo. Quadros e Karnopp (2004) apontam ainda que. em todas as línguas. as línguas de sinais. Assim como as línguas orais apresentam segmentos sonoros discretos (p. Ainda com relação a isso. fado. n. igualmente. Toda língua falada tem uma classe de vogais e uma classe de consoantes. dado. são encontrados em todas as línguas. o e a não tem um significado expresso. Toda língua falada inclui segmentos sonoros discretos. é a característica de descontinuidade. Podemos constatar que não há uma relação intrínseca entre a palavra cão e o animal que ele simboliza. Isso pode ser constatado na dificuldade em aprender uma língua estrangeira. Universais semânticos. quando os combinamos de diferentes maneiras. Quadros e Karnopp (2004) apontam que há. a característica de arbitrariedade das línguas não se restringe à ligação entre forma e significado. dada a forma é possível prever o significado. porém. Há ainda outra característica encontrada em línguas orais que se manifestam também nas línguas sinalizadas. os sons de f. Os símbolos utilizados pelas línguas são arbitrários. como “p”. Línguas de sinais apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. mas ganha um significado quando é combinado com outras unidades mínimas. camada de sons que se combinam e camadas de unidades maiores. podemos encontrar significados.

sabemos que tanto as línguas orais quanto as de sinais podem fazer referência ao passado. pois podemos usar a língua para dar vazão às emoções e sentimentos. mas apresentam diferença considerável no significado. Língua Brasileira de Sinais – Libras 35 . Falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender um conjunto infinito de sentenças. Todas as línguas apresentam categorias gramaticais (ex: substantivo. para formação de palavras e sentenças. Todas as línguas possuem formas para indicar tempo passado. por sua vez. perguntas ou afirmações. isto significa que as palavras podem diferir de maneira mínima na forma. que são escritas e faladas de maneiras diferentes. Quadros e Karnopp (2004) apontam que essa flexibilidade e versatilidade é uma característica comum a todas as línguas. ainda. promessas. pergunta. pois tanto línguas orais como sinalizadas apresentam categorias gramaticais (substantivo. negação. a coisas que não existem e que os falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender em um conjunto infinito de sentenças. etc. os falantes têm a liberdade de agir criativamente. verbo). presente e futuro. comando. É o caso das palavras faca e fada. Esse fenômeno demonstra a característica de descontinuidade da diferença formal entre forma e significado. para fazer solicitações. bem como universais semânticos tais como a distinção fêmea/macho. formam um conjunto infinito de sentenças possíveis. A criatividade e a produtividade são apontadas por Quadros e Karnopp (2004) como propriedades que possibilitam a construção e a interpretação de novos enunciados. sendo assim.Capítulo 1 Tal fenômeno está em oposição à variação contínua. No concernente à sintaxe. Todos os sistemas linguísticos têm a possibilidade de construção e compreensão de um número infinito de enunciados. verbo e outros). Todas as gramáticas contêm regras de um tipo semelhante. ordens. As línguas não se fixam apenas nos parâmetros fonológicos. Todas as línguas humanas utilizam um conjunto finito de sons discretos (ou gestos) que são combinados para formar elementos significativos ou palavras. Universais sintáticos revelam que toda língua possui meios de formar sentenças. para fazer ameaças. os quais. a realidades remotas ou.

nas palavras macaxeira. por meio dela. respectivamente. que se prestam a designar a mesma coisa. inclusive utilizar-se de diferentes estilos de fala em diferentes ocasiões. haverá abertura para criação de novos falares ou modificação nos falares produzidos. pois. e estes diferentes registros discursivos são manifestados por meio da velocidade dos movimentos e do espaço FAEL . o modo de sinalizar é diferente se o interlocutor for uma autoridade ou se forem colegas na rua. Sempre que houver a reunião de um grupo de sinalizadores. e todos esses novos modos serão carregados de peculiaridades da região onde o grupo está localizado. por exemplo. é possível conversar sobre diversos assuntos. que existem não só na Libras. Isso ocorre com a Libras. Trata-se de três sinais diferentes que se referem à palavra verde. perceber que a Libras é bastante complexa em sua estrutura gramatical e que. 36 Fonte: imagens adaptadas de Strobel e Fernandes (1998). assim. não é possível estabelecer uma homogeneidade linguística por todo seu território nacional. Então. Vejamos um exemplo do regionalismo da Libras nas imagens a seguir. revela-se a criatividade que o falante tem para inventar novas palavras e de ter um estilo próprio de fala. Esses modos distintos na fala de cada região são os chamados dialetos. mas em todas as línguas de sinais e orais. nas cidades de São Paulo. mesmo cada país adotando uma língua de sinais própria. Rio de Janeiro e Curitiba. Podemos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. como ocorre com o português. aipim e mandioca.

Ao articular os fonemas da nossa língua portuguesa – um após o outro –. elas têm a impressão de que estão brigando. todas as palavras se ligam entre si na constituição da frase e do discurso. mas uma fala normal. também falamos muito rápido. Quando os ouvintes veem os surdos conversando. nascida em qualquer lugar do mundo. também falamos muito alto e somos extravagantes. isso não denota agressividade ou briga por parte deles. de qualquer origem racial. Qualquer criança. é capaz de aprender qualquer língua à qual é exposta. com os braços bastante alargados e. Inicialmente. contém marcas de formalidade e de informalidade. não nos damos conta de que são produzidos juntos. geográfica.Capítulo 1 utilizado para sinalização. O fato é que os surdos estão tendo uma conversa como outra qualquer. inclusive. pois tem tanta completude que possibilita ao falante fazer escolhas diferenciadas de sinais. No entanto. O espaço para sinalização se inicia acima do quadril. Assim também acontece na comunicação em Libras. Além disso. Porém. vai até a cabeça e não se estende muito para os lados. Se o surdo quer ser bastante formal em sua fala. se o contexto de fala é informal. Um fenômeno elucidativo sobre esse assunto é quando as crianças surdas estão aprendendo a Libras. Os surdos sinalizam rapidamente um sinal após o outro. Esse dado reitera que a Libras é uma língua que. Ampliam os movimentos dos sinais. de acordo com os tipos de situações experimentadas. quando estamos conversando. pois sinalizam muito rápido e tem bastante expressividade. elas aprendem Língua Brasileira de Sinais – Libras 37 . vocalizará alguns sons. podemos ver como é possível o falante de Libras transitar entre diferentes estilos discursivos. mas o “tom” elevado da fala. Dessa forma. ele sinalizará com muita expressão facial. Essa impressão equivocada ocorre porque as pessoas não sinalizantes deixam de considerar que. e isto ocorre da mesma forma com o surdo. ou seja. Os surdos igualmente agem assim. provavelmente usará o espaço a frente do seu corpo com certo limite. tem o espaço de sinalização bastante elevado e produzem muita expressão facial. provavelmente. quando nós estamos em contextos informais. na grande maioria. sem significar uma briga. social ou econômica.

a Libras também – têm parâmetros de realização que não podem ser alterados para sua efetiva comunicação. Isso também ocorre com as crianças surdas. nos aponta para uma característica das línguas humanas. Toca no filho e ajeita sua mão para que realize o sinal de forma correta. a localização e o movimento –. FAEL . Conforme já apresentamos. que começam a balbuciar “aaaaa”. não consegue reproduzir da mesma forma a configuração de mão. além de mostrar a importância do adulto no contexto de aquisição da linguagem. até formar palavras completas. 38 Esse jogo discursivo. Tomamos como exemplo uma criança quando estava com dois anos e. A mãe ensina. começa a aprender o sinal de sorrir (conforme figura a seguir). até que aprende os três parâmetros e consegue realizar com precisão o sinal de sorrir. para que a auxilie. depois “babababa”. igualmente. presente.Língua Brasileira de Sinais – Libras as unidades mínimas de maneira isolada. sorri quando a mãe a repreende pelo mau jeito na realização do sinal. Solicita à mãe por várias vezes. portanto. A mãe age com um input favorável. inconscientemente. porém. A criança gosta do sinal. na Libras: a regularidade. há exigência de que os elementos fonológicos sejam adequadamente produzidos na realização dos sinais. as línguas humanas – e. Assim. como fazem as crianças ouvintes. cada um dos três parâmetros – que são a configuração de mão. e a criança imita corretamente a localização e o movimento. a qualidade do input e outros. em diálogo com a mãe. mas tem dificuldade para fazer a configuração apresentada. fazendo a intervenção devida.

Muito mais do que saber a forma de tratamento dessas questões. Perguntas: ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● Qual é o seu nome? Qual é o seu sobrenome? Quantos anos você tem? Qual é o nome da sua rua? Qual é o nome do seu bairro? Qual é o nome da cidade em que você mora? Qual o nome da sua mãe? Qual a idade da sua mãe? Qual o nome do seu pai? Qual a idade do seu pai? Qual o nome dos seus irmãos? 39 Síntese Neste capítulo. os paradigmas sobre a pessoa surda e sua língua passaram por reformas não só no que se refere à terminologia – surdo e Libras –. a chamada inclusão. mas na forma de relacionamento com esta nova realidade. tratamos das definições preliminares e apresentamos ao leitor a fase histórica pela qual a sociedade está passando. utilizando as letras manuais. o professor pode colar cartazes pela sala com o alfabeto manual e com os números. nessa fase.Capítulo 1 Da teoria para a prática Para aderir à ideia da diversidade linguística em sala de aula. Isso pode se dar por meio Língua Brasileira de Sinais – Libras . Então. é preciso que haja um desprendimento para aprender a se comunicar e se relacionar com os surdos. Explicamos que. pode colocar algumas perguntas no quadro e promover que dois alunos participem: um pergunta e o outro responde.

Glossário 40 Input É o sinônimo para estímulo linguístico. pois. é o que ela consegue falar. foi preciso muito esforço para desmitificar os mitos que havia. Dessa forma. as pesquisas não mais se prestam a “comprovar” que a Libras é uma língua. o que faremos no próximo capítulo. os surdos foram brindados com a oficialização da sua língua por determinação legal. porque aparece em situações extremas de barreiras à comunicação (MCCLEARY. mas já podem se focar em conhecer o comportamento de uma língua espaço-visual e tecer análise gramatical sobre ela. Atualmente. dos empréstimos linguísticos. ou seja. 21). FAEL . 2008. assim como foi preciso arrolar alguns pressupostos universais na análise desta modalidade expressiva. p. É uma língua emergencial. para que houvesse todo o reconhecimento social e acadêmico que hoje existe quanto ao status desta língua. Pidgin É um sistema de comunicação precário.Língua Brasileira de Sinais – Libras do alfabeto manual. Output É a forma como a criança expressa o input que recebeu. Nesses termos. todas as influências verbais que são dadas às crianças quando estão aprendendo a falar. percorremos com o leitor o mesmo percurso adotado no processo de valoração da Libras. de um jeito mais informal ou por meio de leituras e pesquisas linguísticas.

ao invés de fonema. Porém. e estas duas articulações – fonemas e morfemas – é que norteiam a dupla articulação apontada por Martinet (1978). estamos fazendo menção às unidades mínimas que compõem a língua. que se ocupa em estudar as unidades mínimas da composição das palavras. 2008). Stokoe empregou a terminologia “querema”. Para resolver tal impasse. Por dupla articulação. mas também de gestos (LEITE. sendo os principais: o fonológico. quando nos referirmos aos fonemas. Neste capítulo. a forma do significante refere-se a uma imagem acústica convencional. que se ocupa com as escolhas das palavras. os pesquisadores de língua de sinais abandonaram o termo. para o estudo das unidades mínimas da língua de sinais. Além dos fonemas. Para o pai da linguística. que busca a relação das palavras e o sentido que elas têm. o morfológico. abstraída de realizações fonéticas concretas e infinitamente variáveis. Assim. entendemos um plano de conteúdos (composto . que se ocupa em organizar as palavras na frase. apresentaremos cada um destes aspectos linguísticos relacionados à Libras. atualmente.Estrutura gramatical da Libras T 2 41 odo sistema linguístico é organizado em níveis de análise. e o semântico. por entender o apontamento de Saussure (1970) quanto a isto. Aspectos fonológicos É no nível fonológico que se encontram as considerações acerca dos fonemas – conceituados como unidade mínima do som. já que ela é uma língua espaço-visual que não tem som. não caberiam considerações fonológicas para a Libras. as línguas naturais também são compostas por morfemas e palavras. Esse linguista diz que todas as línguas humanas possuem a dupla articulação. Nesse sentido. o sintático. definição que torna o conceito suficientemente abstrato para abranger não apenas representações psíquicas de sons.

porém. Ônibus 42 Configuração de mão Movimento Localização O mesmo fenômeno ocorre com os sinais: avião e carro. conforme Leite (2008). quando os unimos. Limitando-nos inicialmente à segunda articulação – fonemas –. também é composta pela dupla articulação. esses parâmetros não têm conteúdo significativo (capaz de compor significação). Podemos constatar tal fenômeno. por meio da junção das articulações dos fonemas. Carro Movimento Configuração de mão Localização FAEL . mas que sua combinação pode originar um número irrestrito de possibilidades significativas. podemos formar conteúdos irrestritos. É bom lembrar que ambas as articulações são restritas nas línguas naturais. vemos que Stokoe (1960) propôs três componentes da estrutura interna dos sinais: configuração de mão (CM). Isoladamente. localização (L) e movimento (M).Língua Brasileira de Sinais – Libras por morfemas e palavras) e um plano isento de conteúdos (composto por fonemas). Como a Libras é uma língua natural.

43 Configuração de mão O primeiro parâmetro – configuração de mão – refere-se à forma que a mão assume na realização do sinal. mas não se restringem a elas. os parâmetros não transmitem significado. Essas configurações podem dar origem a sinais da Libras se forem produzidas apenas com uma mão. Para as configurações de mão da Libras temos o quadro de Brito (1995). com as duas mãos. isoladamente. a fim de entendermos melhor a formação dos sinais. que registra 46 configurações diferentes. mas ambas com configurações de mão iguais. com as duas mãos produzindo configurações de mão diferentes ou. apontam que essas configurações de mão são representações do sistema fonético da língua. Quadros e Karnopp (2004). conforme podemos verificar na figura a seguir. encontramos 64 configurações de mão. ainda.Capítulo 2 Avião Movimento Configuração de mão Localização Mesmo percebendo que. Já em Felipe (2001). analisaremos cada um deles em sua composição. Língua Brasileira de Sinais – Libras . considerando a inexistência de identificação quanto às configurações de mão básicas e às configurações de mão variantes. por sua vez. Algumas dessas configurações de mão correspondem às letras do alfabeto manual.

pois o seu sentido não será alterado. A fim de elucidarmos as possibilidades de formação de sinal a partir da configuração de mão. expomos alguns exemplos a seguir.Língua Brasileira de Sinais – Libras Figura As 64 configurações de mão da Libras. 44 Fonte: adaptado de Felipe (2005). Configuração de mão com apenas uma mão: este é o tipo de sinal que pode ser produzido com qualquer uma das mãos. FAEL .

Capítulo 2 Aluno Professor Lápis Caneta 45 Cola Tesoura Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Vestibular Português ou Ciências História 46 Uniforme Educação FAEL .

Capítulo 2 Duas configurações de mão diferentes. Curso Pós-graduação Mestrado Educação artística 47 Estudos sociais Intervalo Língua Brasileira de Sinais – Libras .

outras configurações de mão poderão ser realizadas. vejamos a realização de um sinal com as duas configurações de mão iguais. vemos que nesse tipo de construção a primeira configuração de mão é a base que se forma em b. uma mão será a base e a outra ativará o movimento. que limitam consideravelmente as possibilidades articulatórias dos sinais. A mão passiva. Antes de falarmos sobre a condição de simetria. e a mão ativa se forma em c. Sobre a realização de um sinal que contém duas configurações de mão diferentes. nesse caso. Em outros casos parecidos com esse. de apoio para a realização do movimento da mão ativa. mas a ordem de predominância será mantida. encontramos em Battison (1974) duas restrições. e que realiza movimentos apenas com uma das mãos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Redação Apontador 48 Atendo-nos ao primeiro sinal. a outra. um papel passivo. Duas configurações de mão iguais: sinais desta natureza são formados por duas configurações de mão iguais. FAEL . que se realizam com ambas as mãos moldando-se com a mesma configuração de mão e com a realização de um movimento simultâneo e simétrico. serve de base. Por condição de dominância o autor entende a ocorrência de sinais nos quais uma das mãos assume o papel ativo e. A primeira é a condição de dominância. e a segunda é a condição de simetria. É o caso dos sinais apresentados a seguir. ou seja.

Capítulo 2 Sala Geografia Caderno Régua 49 Mochila Prova Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Matemática Educação física Química Nota 50 1 2 Dividir Multiplicar FAEL .

Capítulo 2 Retomando as restrições articulatórias de Battison (1974). temos que. Locação O segundo parâmetro – a locação – refere-se ao espaço onde o sinal será realizado. Sinalização no espaço neutro: Tartaruga Hipopótamo 51 Foca Mosca Língua Brasileira de Sinais – Libras . em casos de sinais como os que mostramos. conforme imagens a seguir. há a condição de simetria estabelecida. precisamente entre a cabeça e o quadril). podendo ser no próprio corpo do sinalizador ou no espaço neutro (espaço “vazio” a frente do corpo do sinalizador. em que as duas mãos estão ativas e realizam o mesmo movimento.

a saber: cabeça. tronco e mão.Língua Brasileira de Sinais – Libras Urso Jacaré Peixe Borboleta 52 Há. tais como os exemplos que seguem. Subdivisões dos principais pontos de locação: Macaco Boi Sinal com locação na cabeça Sinal com locação na testa FAEL . três pontos principais de locação. conforme Brito (1995). Dentro desses pontos principais estão as subdivisões.

Capítulo 2 Galinha Rato 1 2 Sinal com locação no rosto Papagaio Sinal com locação na bochecha Pato 53 Sinal com locação no queixo Cobra Sinal com locação na boca Coruja Sinal com locação no pescoço Sinal com locação nos olhos Língua Brasileira de Sinais – Libras .

bidirecional ou multidirecional. retilíneo. Além disso.Língua Brasileira de Sinais – Libras Porco Sapo Sinal com locação no nariz Dinossauro Sinal com locação no braço Zebra 1 54 2 Sinal com locação na mão Sinal com locação no tronco Movimento Movimento. velocidades e frequências. circular. helicoidal e angular. FAEL . vemos que os movimentos podem ser do tipo sinuoso. é bastante complexo. Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes tipos de movimento. o terceiro – e principal – parâmetro. Em Strobel e Fernandes (1998). eles podem ser produzidos com diferentes tensões. considerando sua vastidão de possibilidades. semicircular. sendo possível produzi-los de forma unidirecional.

Capítulo 2 Espelho Telhado 2 1 Movimento sinuoso Xícara Movimento sinuoso Porta 2 55 1 Movimento semicircular Jardim Movimento semicircular 2 1 Movimento circular Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Cerca 1 2 Movimento retilíneo Liquidificador 56 Movimento helicoidal Eletricidade Movimento angular FAEL .

A palma da mão pode estar voltada para cima. para fora. podem formar muitos sinais da Libras e. o segundo e o terceiro parâmetro. às vezes.Capítulo 2 O primeiro. ocorre um fenômeno presente também nas línguas orais: os pares mínimos. estes sinais se distinguem por alteração apenas em um dos parâmetros. os chamados pares mínimos podem ser exemplificados pelas palavras faca e vaca. destacamos a orientação de mão e as expressões não manuais. No português. para Língua Brasileira de Sinais – Libras . Nesses casos. em que há apenas uma sutil diferença na pronúncia dos fonemas f e v. Na Libras. para baixo ou para o corpo de quem sinaliza. temos muitos casos como estes. quando associados. Citemos alguns: Laranja / sábado Aprender 57 Cantar Comunicar Além desses parâmetros. A orientação de mão é a direção que a palma da mão assume na realização do sinal.

já que neste momento não abordaremos a construção das frases. Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes orientações para o sinal de ir. As expressões faciais não são recursos adicionais ou dispensáveis na Libras. negação. concordância. referem-se às expressões faciais e aos movimentos do corpo produzidos durante a realização do sinal. bem como para marcar afetividades. relativas.Língua Brasileira de Sinais – Libras a esquerda e para a direita. referência pronominal. Ir de trás para frente. sim. grau ou aspecto. referência específica. Ir da esquerda para a direita. tópico e foco. Ir da direita para a esquerda. Esses movimentos também podem ser realizados isoladamente para marcar construções sintáticas – marcar sentenças interrogativas. A seguir. advérbios. Ir de frente para trás. exemplos de sinais isolados com expressão facial. assim como ocorre nas línguas naturais. obrigatórias nas construções sintáticas. 58 As expressões não manuais. conforme Quadros e Karnopp (2004). FAEL . mas.

Capítulo 2

Bravo

Triste

Feliz

Cansado

59

Bondoso

Humilde

ou

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Esquisito

Tímido

Calmo

Inocente

60
ou

Doido

Esnobe

FAEL

Capítulo 2

Vaidoso

Chato

Chorão

Tarado

61

Podemos perceber que a realização desses sinais fica condicionada ao uso das expressões faciais, até por uma questão de coerência, pois não seria muito lógico produzir o sinal de triste com um sorriso no rosto ou, então, o sinal de feliz com uma expressão de cansaço e tristeza. Certamente, nosso interlocutor questionaria nossa produção e precisaríamos definir qual a mensagem a transmitir: a do rosto ou a das mãos. Isso porque há sinais produzidos apenas com a expressão facial, com a dispensa de qualquer realização manual. Na Libras, há dois tipos de expressões faciais: as que se prestam a marcar argumentos gramaticais e as que são de cunho afetivo. Neste texto, abordaremos apenas o primeiro tipo e, como exemplo, vejamos os sinais de roubar e sexo:
Língua Brasileira de Sinais – Libras

por exemplo. os parâmetros fonológicos também podem ser comparados a morfemas. os fonemas podem ter a natureza de um morfema. Assim como ocorre com o português. assim como o fonema /s/ pode indicar o plural. há elementos que carregam significado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Roubar Sexo Assim sendo. 183). Segundo Sandalo (2001. eles apresentam significado isoladamente. pode constituir um morfema. os fonemas /a/ e /o/ podem ser artigos ou desinências de gênero. determinada configuração de mão. FAEL . Entretanto. Do mesmo modo. dentro das palavras. Na Libras. 2001). é que são as unidades mínimas da morfologia (SANDALO. conforme Felipe (1998). definirmos o que entendemos por palavra. 62 Aspectos morfológicos da Libras Se estivermos entendendo que o nível morfológico é aquele que compreende o trabalho de seleção das palavras. às vezes. se faz necessário. passemos a algumas considerações teóricas quanto à morfologia e à sintaxe da Libras. p. chamados de morfemas. “palavra é a unidade mínima que pode ocorrer livremente em várias posições sintáticas”. primeiramente. por exemplo. pois. Esses elementos. na Libras. A seguir ilustramos alguns sinais que podem ser considerados morfemas.

Capítulo 2 Dois meses Três meses Quatro meses Um dia 63 Dois dias Três dias Língua Brasileira de Sinais – Libras .

não podem ocorrer isoladamente. elas constituem um morfema preso. Em alguns sinais.Língua Brasileira de Sinais – Libras Uma semana Duas semanas Três semanas 64 Vemos que. resultam em uma unidade com significado. Nesse caso. ou seja. 2004). KARNOPP. FAEL . no entanto. nesses sinais. Os sinais reproduzidos na sequência são exemplos de que a articulação conjunta de cada um dos parâmetros é que forma o significado. quando articulados juntos. os dias e as semanas (QUADROS. mas somente com os morfemas que indicam os meses. os parâmetros – isoladamente – não constituem morfemas. mas. as configurações de mão carregam o significado do numeral.

Capítulo 2 Ontem Hoje Amanhã Passado 65 Futuro Ano Língua Brasileira de Sinais – Libras .

um dos parâmetros do sinal é alterado. 1998. Ainda. Em alguns casos. 2004. Como já discutimos acerca desse ponto quando exploramos a constituição de sinais que representam morfemas. Dadas as primeiras definições. passemos às considerações dos processos de formação e classificação de palavra (BRITO.Língua Brasileira de Sinais – Libras Percebemos que a configuração de mão. No caso da incorporação de numeral. LEITE. a locação e a orientação constituem um único morfema. nesse caso. via alteração de movimento e via alteração da expressão facial. de acordo com Brito (1995). A seguir vemos o contraste entre os sinais dos verbos e a formação de palavras de negação. Um dos processos de formação de palavras é por meio da incorporação de numeral e de negação. 66 Nesse processo. 2008). Ter Não ter Parâmetro movimento alterado FAEL . KARONOPP. FELIPE. um morfema livre. passemos a discussão da incorporação da negação. o movimento. por exemplo) e morfemas gramaticais (movimento). há na Libras morfemas lexicais (o sinal de sentar. altera-se somente a expressão facial do sinalizador. QUADROS. 1995. a configuração de mão que representa o numeral se combina com outro morfema preso para formar um sinal. em que apenas a configuração de mão se modifica. em especial o parâmetro do movimento.

Capítulo 2 Saber 1 Não saber 2 Parâmetro movimento alterado Gostar Não gostar 67 Parâmetro movimento alterado Querer Não querer Parâmetro movimento alterado Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Poder Não poder Parâmetro configuração de mão alterado Conhecer Não conhecer 68 Parâmetro expressão facial alterado Entender Não entender Parâmetro expressão facial alterado FAEL .

Capítulo 2 Precisar Não precisar Parâmetro expressão facial alterado Aceitar Não aceitar 69 Parâmetro expressão facial alterado Além desses processos morfológicos que caracterizam formação de palavras. a negação também pode ser formada pela adjunção do sinal não ao respectivo sinal. conforme exemplos: Não responder Língua Brasileira de Sinais – Libras .

outro processo morfológico que acontece pela combinação de dois morfemas lexicais.Língua Brasileira de Sinais – Libras Não sofrer Não terminar Não resolver 70 Há. Casa + cruz = igreja Casa + estudar = escola FAEL . resultando em uma composição. Vejamos nos exemplos a seguir que um sinal pode ser formado por dois sinais independentes que se unem para formar uma palavra composta. ainda.

Capítulo 2 Casa + carne = açougue Casa + pão = padaria 1 2 Boi + leite = vaca 1 Cavalo + listras = zebra 1 71 2 2 Mulher + cruz = enfermeira Mulher + benção = mãe 1 2 Língua Brasileira de Sinais – Libras .

na Libras. 72 Homem + cunhado(a) = cunhado Mulher + cunhado(a) = cunhada 1 1 2 2 Homem + sogro(a) = sogro Mulher + sogro(a) = sogra 1 2 1 2 FAEL . Isso significa que.Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + benção = pai Espaço redondo + lavar corpo = banheira 2 1 2 O mesmo processo morfológico ocorre em relação à formação de palavras que denotem gêneros. por meio da combinação de dois morfemas lexicais. um que se refere ao elemento morfológico neutro e outro que se refere à marcação de gênero. o gênero é dado pelo processo de composição morfológica.

Capítulo 2 Homem + primo(a) = primo Mulher + primo(a) = prima 1 1 2 2 Homem + tio(a) = tio 73 Mulher + tio(a) = tia Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + irmão(ã) = irmão Mulher + irmão(ã) = irmã 74 Homem + sobrinho(a) = sobrinho Mulher + sobrinho(a) = sobrinha FAEL .

Capítulo 2 Não obstante. Maçã + vários = frutas Alface + vários = verduras 1 1 2 2 Arroz + vários = cereais Leão + vários = animais 75 1 2 Batata + vários = legumes Língua Brasileira de Sinais – Libras . a formação de palavras que denotam “categorias” também passa pelo processo de composição. conforme exemplos a seguir.

o que sabemos é que um nome pode derivar de um verbo por meio da repetição e do encurtamento do movimento do verbo. mas o movimento é mais alongado. Se o movimento for alongado. pode dar a ideia de telefonar várias vezes. como é o caso destes sinais: Telefone Telefonar 76 O sinal de telefone é produzido com a configuração de mão em y. O sinal de telefonar tem a mesma configuração de mão e a mesma locação. firme e único. firme e feito mais de uma vez. que diferem sua classificação nominal ou verbal pela alteração do parâmetro movimento: Cadeira Sentar FAEL . na locação perto da orelha e com movimentos curtos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com relação à classificação das palavras. leves e repetitivos na direção do espaço a frente do corpo do sinalizador. Da mesma forma se configuram estes outros sinais.

Capítulo 2 Comida Comer Pente Pentear 77 Foto Fotografar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

os parâmetros fonológicos que compõe o sinal serão mantidos. ilustramos alguns verbos simples da Libras. Esses verbos não são produzidos por processo de flexão.Língua Brasileira de Sinais – Libras Casa Morar Bebida Beber 78 Ainda com relação aos verbos da Libras. os que se enquadram nesta categoria serão abordados na próxima seção. A seguir. Constituir-se como um verbo simples significa que. destacamos neste momento três tipos deles. processo distinto do que ocorre com os verbos vistos na seção flexão. independente da construção da frase. FAEL . os verbos manuais e os classificadores. a saber: os verbos simples.

Capítulo 2 Quebrar Rir Sentir Sujar 79 Trabalhar Viver Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Sonhar Gritar ou Trair Tentar 80 Ouvir Opinar FAEL .

Com relação aos verbos manuais. apontamos que são aqueles que se configuram pela incorporação do objeto a que se referem. pois estas partes são o lugar de localização do sinal. Alguns exemplos: Língua Brasileira de Sinais – Libras . Eles podem ser considerados icônicos pela representação da realidade.Capítulo 2 Roubar Salvar / apoiar Morrer Preocupar 81 A maioria desses verbos é produzida nas partes do corpo do sinalizador. Ainda que seja para se referir a outra pessoa do discurso. com a mesma configuração de mão e com a mesma orientação. na mesma localização. o verbo será produzido do mesmo modo.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Abrir (o pote) Cozinhar Mendigar Limpar (janela) 82 Costurar Escrever FAEL .

Capítulo 2 Cortar (com tesoura) Dormir Lavar (a roupa) Os classificadores são aqueles verbos que têm sua configuração de mão inicial (sinal raiz) alterada por influência da semântica.M. Assim. o sinal foi classificado em sua semântica. e preservação do movimento. apresentamos a seguir o sinal raiz de alguns verbos e o sinal classificador. Isso é perceptível pela configuração em v. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. este sinal remete à ideia da ação que ocorre com uma pessoa. Então. porém. do léxico ou da sintaxe. haverá alteração da C. Verbo cair Originalmente. que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir ao chão. 83 Língua Brasileira de Sinais – Libras . mas alguns papéis. Classificador do verbo cair (papéis) Se for preciso referir-se a mesma ação de cair. com o parâmetro configuração de mão alterado.

.. Classificador do verbo andar (de uma galinha) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar. Classificador do verbo andar (de uma cobra) Se é preciso referir-se a mesma ação de andar. porém. do movimento e da localização. Classificador do verbo andar (de carro) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. Postas as questões preliminares dos processos morfológicos da Libras. haverá alteração da C. no entanto. este sinal remete à ideia da ação realizada por uma pessoa. Então o sinal foi classificado em sua semântica. haverá alteração da C. do movimento e da localização. Isso é perceptível pela configuração em v que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir à frente. FAEL .M. mas um gato.M. haverá alteração da C. Então. mas um carro. o sinal foi classificado em sua semântica.. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma galinha. o sinal foi classificado em sua semântica. haverá alteração da C. e preservação da direção.M. 84 Classificador do verbo andar (de um gato(a)) Se for preciso referir-se a mesma ação de andar. do movimento e da localização. Então.Língua Brasileira de Sinais – Libras Verbo andar Originalmente. passaremos a conhecer os processos morfológicos mais complexos. especialmente aqueles formados por flexão.M. o sinal foi classificado em sua semântica. Então. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma cobra.

com o acréscimo de uma desinência correspondente à função que exerça na frase. possessivos. constituindo uma ideia acessória em que o significado base não é alterado. sendo que estas são impostas pela própria natureza da frase. É nesse escopo da morfologia flexional que se destacam os processos de flexão nominal e verbal. (1985). de acordo com a natureza desta. e podem aparecer no singular ou no plural: Singular 1ª pessoa – eu Nós dois 85 Plural Nós três Nós quatro Nós grupo Língua Brasileira de Sinais – Libras . a obrigatoriedade e a sistematização coerente. segunda e terceira pessoa. a flexão é a formação de uma palavra por meio de um morfema. Isso demonstra que a flexão é definida como um processo pelo qual uma palavra é adaptada a um contexto. O primeiro processo. e os primórdios de sua utilização aconteceram na indicação do desdobramento de uma palavra em outros empregos. ao conceito de flexão.Capítulo 2 Flexão Segundo Câmara Jr. o autor assinala que a flexão se apresenta sob o aspecto de desinências ou sufixos flexionais. demonstrativos. Câmara Jr. o termo “flexão” tem sua origem na língua alemã. No português. conforme ilustrados a seguir. numa relação fechada. interrogativos e indefinidos. Para ele. (1985) associa. há pronomes pessoais. ● Pronomes pessoais podem representar primeira. também. Sendo assim. de flexão nominal. indicando uma modalidade específica. vamos conhecer cada um deles. Na Libras. pode ser explicitado por meio dos pronomes.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Singular 2ª pessoa – você Vocês dois Plural Vocês três Vocês quatro Vocês grupo 3ª pessoa – ele(a) Eles(as) dois/duas Eles(as) três Eles(as) quatro Eles(as) grupo 86 ● Os pronomes demonstrativos são iguais aos advérbios de lugar. Sua realização sempre vem acompanhada da direção dos olhos. Este(a) aqui Esse(a) aí Aquele(a) lá FAEL . que se voltam para o local referenciado.

Capítulo 2 ● Pronomes possessivos: Meu (minha) Teu (tua) Seu (sua) ● Pronomes interrogativos: em alguns aspectos. Que? / Quem? Porque ou por que? 87 Onde? Quando? 2 1 Língua Brasileira de Sinais – Libras . A realização desses pronomes sempre vem acompanhada de expressão facial. incorporam alguns advérbios de tempo.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Como? Qual? Quantos(as)? ● Pronomes indefinidos: Ninguém Nada = sem 88 Nenhum Nada FAEL .

Capítulo 2 Já a flexão para grau. nos quais constam alterações das expressões faciais. A seguir. é a modificação paramétrica capaz de apresentar distinções para “tamanhos”. alguns exemplos para flexão nominal de grau. Casa Casinha Bonito(a) Bonitinho(a) 89 Legal Legalzinho(a) Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Alto(a) Altão (altona) Calor Calorão 90 Inteligente Inteligentão (inteligentona) FAEL .

ou seja. ser concordado para ele(a) me falou. Nesse caso. ao invés de ser na boca. temos o verbo falar. Esses verbos são chamados de verbos reversos (backward verbs). mas a trajetória do movimento será à esquerda. anteriormente ilustrado. a direção do movimento será à direita. locativo e aspecto. a concordância na Libras está na sentença: eu falo para você.Capítulo 2 Quanto à flexão verbal. A seguir.Concordância do verbo falar: Língua Brasileira de Sinais – Libras 91 . Assim. É o caso do sinal falar. a primeira pessoa do discurso – eu – falo (verbo com concordância) para a segunda pessoa do discurso – você. Ocorre que. o ponto inicial do movimento permanece sendo na boca. Isso que dizer que se a pessoa que será o receptor está à direita do emissor. será na localização que está referenciada para o objeto (segunda pessoa do discurso). Os verbos que se flexionam em pessoa são chamados de verbos com concordância. dedos mínimo e polegar abertos). A localização inicia-se com o polegar próximo a boca do sinalizador e movimenta-se na direção de quem receberá a fala. e assim sucessivamente. temos a possibilidade de flexão para pessoa. haverá inversão do ponto inicial do sinal que. apresentamos alguns exemplos de verbos que concordam com a pessoa do discurso. a trajetória do movimento é oposta: inicia-se no objeto indo em direção ao sujeito. Se o receptor da fala está à esquerda. para todas as diversas localizações possíveis para o receptor. Como primeiro exemplo. número. em alguns casos. Falar O verbo falar é produzido com a configuração de mão em y (mão fechada.

que as pessoas do discurso são transcritas como: 1s = 1 pessoa. FAEL . entendemos que há um processo morfologicamente complexo 5 Maiores detalhes sobre as transcrições adotadas no texto estão expostos no capítulo 3.Língua Brasileira de Sinais – Libras 1s Falar2s 5 2s Falar1s 92 Falar3s 2s Explicando a concordância para os sinais apresentados anteriormente. entretanto. Adiantamos. e assim sucessivamente.

Capítulo 2 envolvido nesta realização. O mesmo processo pode ocorrer com os seguintes verbos: Perguntar Ver Mandar Dar Responder Visitar 93 Mostrar Mudar Obedecer Língua Brasileira de Sinais – Libras . ● Um afixo verbal – a orientação da mão. denominado DIR (directional). ● Um morfema direcional – o movimento da trajetória. segundo Meir (2002). pois. é possível visualizar três componentes: ● A raiz do verbo falar. que marca o argumento semanticamente.

na Libras existe a possibilidade de várias formas de substantivos e verbos apresentarem a flexão de número. A seguir. apontamos que pode ocorrer com os mesmos verbos colocados anteriormente (verbos com concordância) e há. uma delas é a diferenciação entre singular e plural. mostrar para quatro pessoas ou ver todas as pessoas. Vejamos outros verbos de concordância. do trial e do múltiplo. realizada por meio da repetição do sinal. três ou mais referentes. por exemplo. dando a indicação de flexão para número e depois a marcação diferenciada pelas palavras no singular e no plural. perguntar para duas pessoas. dar para três pessoas.Língua Brasileira de Sinais – Libras Mexer Paquerar Pedir Influenciar Matar Pagar 94 Em relação à flexão para número. A flexão de número refere-se à distinção feita para um. dois. FAEL . apresentamos alguns exemplos do sinal entregar com concordância para número e outros. neste caso. o sinalizador pode referir-se a. possibilidade de indicação do singular. do dual. Assim. Além disso.

Capítulo 2

Concordância do verbo entregar:
1s

Entregar

2s

1s

Entregar

2s + 3s

95

1s

Entregar2s + 3s + 4s

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

1s

Entregar vários

96

1s

Entregar grupo6

6 Uma variação possível desse sinal é a realização do movimento com ambas as mãos, denotando, desta forma, a ideia de entregar para muitas pessoas ou entregar para um
grupo grande.

FAEL

Capítulo 2

Agradecer uma pessoa

Abandonar duas pessoas

97

Encontrar três pessoas

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Quanto à flexão de locação. FAEL . Os verbos que recebem essa flexão são chamados de verbos espaciais. temos a incorporação de locativo na sua realização. como em pessoas no sentido de multidão. usamos o sinal de árvore repetidamente. por exemplo. e assim com todos os outros nomes que recebem flexão de número. em que é possível perceber o trajeto percorrido desde o seu início até o local de chegada. exceto em casos em que houver sinal específico para marcação do plural. em que sinalizamos ano + ano + ano. conforme a seguir.Língua Brasileira de Sinais – Libras Aconselhar quatro pessoas Beijar todas as pessoas 98 A diferença da marcação do singular e do plural é que. como é o caso do verbo ir. para o plural. Para árvores. se faz a repetição da forma no singular. flexionado para a locação que está à frente do corpo do sinalizador. como no caso da marcação de anos.

Língua Brasileira de Sinais – Libras . manifesta a duração da ação. reproduzidos na sequência. por exemplo. Sua expressividade se manifesta. O aspecto lexical é aquele em que. apenas o verbo. respectivamente. Tais marcações dão origem ao aspecto lexical e ao aspecto gramatical.Capítulo 2 Ir Outros exemplos desses verbos: Verbo andar Ir de carro Ir de avião 99 A flexão para aspecto é marcada de duas formas: lexical e gramaticalmente. na oposição semântica verificada entre os verbos procurar e encontrar. pois a flexão codifica como a situação por eles referida se estrutura.

já encontrar codifica a situação como pontual. sendo que o braço fica na horizontal do tronco. e se refere a eventos presentes. A mão ativa configura-se em v e FAEL . Para ilustrar o que dissemos até aqui. ou seja. aspecto gramatical é aquele que pode ser codificado em perfectivo ou imperfectivo. Por outro lado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Procurar Encontrar 100 Procurar é um verbo que codifica a situação como durativa. e se relaciona a eventos passados. O perfectivo é produzido com movimentos retos e abruptos. enquanto que o imperfectivo é produzido com movimentos lentos e contínuos. tomemos o exemplo do verbo cuidar em seu padrão de movimento: Cuidar O sinal raiz do verbo cuidar é produzido com a mão passiva fechada (configuração de mão em s). como não durativa. colocada à frente do corpo.

pelo próprio léxico. Já com relação ao verbo passear. Cuidar imperfectivo 101 Nesse caso. Isso quer dizer que haverá o contato do pulso da mão ativa com o pulso da mão passiva mais de uma vez. e que o afastamento da mão passiva será mais alongado em relação ao afastamento que há na produção do sinal raiz. O movimento que gera o contato de ambos os pulsos é curto e firme. podemos reforçar essa indicação lexical por meio do aspecto gramatical imperfectivo. lento e contínuo. É claro que. indicando uma situação que se desenvolve ao longo do tempo. esse verbo transmite o significado aspectual durativo. mantém-se a configuração de mão e a localização do sinal raiz e altera-se o movimento para alongado. temos a seguinte observação: Passear perfectivo Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 leva o pulso a tocar no peito da mão passiva. podemos indicar uma situação que perdura de forma ininterrupta. Todavia. através do movimento representado a seguir. ou seja. a retomada do contato será feita de modo mais lento.

curtos e abruptos no espaço neutro. mas o movimento foi mais alongado e contínuo. FAEL . Passear imperfectivo 102 Observamos que. foi utilizada a mesma configuração de mão do sinal neutro. com movimentos retos e curtos. com movimentos retos. O mesmo ocorre com o verbo esperar: Esperar Mãos configuradas como “esperar” na direção de cima para baixo. passando alternadamente sobre os ombros.Língua Brasileira de Sinais – Libras Pudemos observar as mãos configuradas em b. para realizar o sinal com marca do imperfectivo.

te. Veremos o passo a passo da construção sintática da Libras. a saber: sentenças negativas. com. alongado e contínuo no espaço neutro. sentenças com 103 Língua Brasileira de Sinais – Libras . sentenças afirmativas. até porque existem palavras do português que não são traduzíveis para Libras. da organização dos campos de referência e da flexibilidade das categorias gramaticais. sentenças com foco. Porém.Capítulo 2 Esperar imperfectivo Mesma configuração de mão do sinal neutro. vamos discutir um pouco sobre a sintaxe da Libras. pois as ideias são formuladas no espaço e a construção da coerência e da coesão acontece de modo bem diferente. Aspectos sintáticos da Libras Neste tópico. em. para. todos os conceitos que são transmitidos em uma língua podem ser transmitidos em outra. sentenças condicionais. é preciso apenas buscar termos equivalentes. sentenças interrogativas. Sintaxe é a organização de um enunciado em torno de um verbo. da ordem dos constituintes. em se tratando dos tipos de frases. como também existem sinais da Libras que não são traduzíveis para o português. sentenças relativas. Tipos de frases na Libras Na Libras é possível construir sete tipos de frases. na) como fazemos no português. Para construir um enunciado na Libras não é preciso adicionar conjunções e preposições (de. Assim como não é necessário seguirmos a mesma ideia do português. mas com movimento lento.

Língua Brasileira de Sinais – Libras

tópico. Elas são constituídas de um tipo dado, especialmente pela expressão facial. Vejamos cada uma delas: ● Sentenças negativas – são aquelas que apresentam uma ideia sendo negada. Elas podem ser formadas pelos sinais que incorporam a negação – anteriormente apresentados –, pela expressão facial negativa junto ao verbo ou pelos sinais a seguir, acrescidos ao final da frase.
Não Nada Nunca

104

Em Libras é possível negar a ação de comer de várias formas: Eu comer não. Eu comer nada. Eu comer nunca. Eu comer (expressão de negação). ● Sentenças interrogativas – são aquelas formuladas com a intenção de obter alguma informação desconhecida. A formulação do questionamento se dá com os pronomes interrogativos – anteriormente dados – inseridos no início ou no final da frase, como nos exemplos a seguir:
O que você comer hoje? Como você trabalha? Você comer hoje o quê? Você trabalha como?

FAEL

Capítulo 2

Onde você mora? Quem sabe? Por que isso aconteceu? Para que você fez isso? Quando você vai casar?

Você mora onde? Sabe quem? Aconteceu por quê? Você fez para que? Você vai casar quando?

Além das perguntas chamadas qu, há também as sentenças interrogativas nas quais a intenção não é obter uma resposta completa, mas simplesmente sim ou não, como: Você quer leite? Você gosta dele? Você conhece a China? ● ● Sentenças afirmativas – são aquelas que afirmam determinada ação: Eu vou a festa à noite. Sentenças condicionais – são aquelas que estabelecem uma relação de condição e consequência para a realização de algo. Por exemplo: Se você me contar, faço segredo. Sentenças relativas – são aquelas que inserem uma informação adicional à frase, uma informação que seja relativa à informação principal que está sendo transmitida pela sentença. Em Libras, isso ocorre com a expressão facial mantida na oração principal e modificada na relativa. Por exemplo: Aquele homem, que fala muito, está de férias. Sentenças topicalizadas – são aquelas que empregam o tópico. O tópico anuncia o assunto a ser desenvolvido ao longo da sentença. Por exemplo: Carro, eu gosto de Uno. Sentenças focalizadas – são aquelas que usam o foco. O foco serve para destacar ou contrastar alguma informação da sentença como em: Ana chorou, não Paula chorou.
105

Explicitados os principais tipos de frases na Libras, vamos aprofundar como os elementos se organizam na oração.
Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Ordem dos constituintes Em todas as línguas humanas há, pelo menos, três elementos sintáticos principais, que podem se ordenar na frase de diferentes maneiras. Esses elementos são: sujeito – é o termo que expressa o agente da ação (que pratica ou sofre); verbo – é o termo que expressa a ação; objeto – é o termo que qualifica ou detalha o verbo. Quadros e Karnopp (2004) apontam que a ordem dos elementos na sentença da Libras é, geralmente, SVO (sujeito – verbo – objeto). Elas dizem que, além dessa ordem, são possíveis também as seguintes: OSV, SOV e VOS, sendo estas derivadas da ordem canônica e construídas a partir de operações sintáticas, tais como topicalização ou focalização, conforme pesquisa de Pizzio (2006). A seguir, exemplificamos algumas sentenças com a ordem básica da Libras: SVO Eu gostar laranja. Você ter dinheiro.
106

Ele(a) saber Libras. Essa é a ordem chamada canônica, básica, e dela derivam as outras ordens – apontadas anteriormente –, exemplificadas a seguir:
oSV
Laranja ele amar. Bolo eu fazer. TV você ver.

SoV
Você laranja gostar? Eu presente comprar. Ele mãe visitar.

VoS
Gostar laranja ele? Passear praia você. Comprar casa eu.

Deve-se ressaltar, ainda, que alguns elementos apontados na frase podem ser apagados, pois na Libras, assim como em outras línguas, é possível que ocorra o apagamento, não apenas do sujeito, mas também do objeto. Na frase gostar laranja, o interlocutor identifica que há o sujeito eu oculto. Organização espacial Ao estudar os pronomes, verificamos que eles são utilizados para marcar as referências pessoais nos verbos com concordância. Em relação à
FAEL

neste espaço. basta que a apontação seja feita diretamente ao referente presente. sempre que precisar retomar o referente. será uma fala às escondidas. As vozes dos sujeitos. Sobre isto. porém. todo enunciado em Libras é realizado no espaço de enunciação: um semicírculo virtual. Dessa forma. é possível usar o dedo indicador na direção do referido. por questão de etiqueta ou. É nesse espaço. quer dizer. por exemplo. O corpo do sinalizador deve se situar no centro do raio do semicírculo e. a que se lembrar que a Libras estabelece a maioria de sua organização sintática no espaço7. cujo perímetro é usado para a realização de referência a pessoas do discurso. à esquerda e/ou à direita do narrador. então. são marcadas segundo o lugar que cada um ocupa no espaço de sinalização. o sinalizador vai estabelecer aleatoriamente um ponto no espaço de sinalização para se referir ao sujeito e/ou objeto e fazer as apontações devidas. Isso pode ser feito.Capítulo 2 sintaxe. A apontação se dá em dois casos: quando o referente não está presente no momento da enunciação. por ser esta sua natureza linguística. No primeiro caso. a sinalização em direção a um lócus predeterminado ou a movimentação ocular para este mesmo local significa uma marca de referência a uma pessoa e/ou objeto. Estando o sujeito e/ou objeto visíveis. ver: Pizzio (2006). é preciso que o sinalizador defina pontos específicos no espaço a cada referente que aborda no discurso. pode ocorrer mudanças quanto à direção e à localização de seu corpo. Assim. ou seja. se o sinalizador não quer que o referente saiba que ele está fazendo menção a ele. com referentes presentes ou não. Algumas vezes. suas enunciações. conforme Quadros e Karnopp (2004). A enunciação se desenvolve com a mudança de posição de referência. nas diferentes situações discursivas. obviamente. estando o narrador no centro do raio do semicírculo e os demais participantes da interação nas periferias. Conforme Quadros (1997). Língua Brasileira de Sinais – Libras . inclusive por apontação. seus diálogos e suas ações. com a outra mão aberta e com a palma sobre o dedo que aponta. ainda. ou quando ele está fisicamente no mesmo ambiente de quem fala. que são construídos pela expressão facial. Por exemplo. 107 7 As exceções dessa construção sintática no espaço são o tópico e o foco. de várias maneiras. que se desencadeiam todas as relações entre os sujeitos.

ao começar a sinalizar. Na ocasião. bem ao meio do círculo de sinalização. sim. disse que discursaria tão rápido quanto havia feito seu amigo. o lócus referencial das pessoas do discurso não é fixo. o que fez com que Maluf comentasse com os políticos que estavam à sua volta: “– Imagine se ele não fosse careca!” Considerando que esse texto se caracteriza como uma narrativa. por isso. de acordo com Massone (1993). dependendo do contexto em que se encontra. enquanto acenavam para todos. Então. ou seja. Outra forma de o sinalizador construir a voz do personagem é por meio do processo chamado anafórico. por exemplo. as lideranças locais falaram primeiro. estavam em comitiva. levar os olhos naquela direção para marcar o espaço. os políticos suavam bastante. se houver um diálogo entre dois personagens. até porque as alterações do lócus não ocorrem aleatoriamente.Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. mas. Porém. Então. o sinalizador aponta para um lugar a sua direita ou esquerda para marcação do espaço a ser ocupado pelo referido sujeito. se por ora o sujeito referenciado aparecer à esquerda do narrador – centro do semicírculo – e por ora aparecer à direita. Porém. Esse processo é a incorporação do personagem e a elaboração do discurso direto. ainda. No comício. de acordo com a organização interna do discurso. Nesse sentido. e guiaram durante uma hora uma grande carreata pelas ruas. o sinalizador estará sempre no centro do espaço e poderá produzir os sinais na direção do referente ou. sinaliza a fala desta pessoa na direção de onde está a outra. o FAEL 108 . Esse espaço será fixo enquanto houver ação ou fala dessa mesma pessoa. a pessoa assume o papel de narrador e a produção dos seus sinais será no espaço neutro. O dia estava muito quente e. não haverá comprometimento da clareza de informação. com seu corpo voltado à esquerda. o sinalizador toma primeiramente o lado direito. sua fala perdurou muito tempo. Maluf foi sucinto em seu discurso e quando Amim – o careca – tomou a palavra. em cima de uma caminhonete. seguidos de Maluf e de Amim. quando for a vez do personagem que está à esquerda falar. Quando esse narrador deixa de contar os episódios gerais e passa a dar voz a algum personagem em específico. Tomemos como exemplo para análise da construção sintática um texto que trata do fato de que o prefeito Paulo Maluf e o senador Amin foram visitar a cidade de Joinville. ele se alterna continuamente dentro do espaço sinalizador.

os verbos direcionais – como é o caso de andar – instauram uma necessidade eminente de movimento. destacamos que. enquanto Amin fala ao público. o sinalizador precisa destinar um lugar específico para outras referências. pelo contato ideário com o interlocutor colocado no espaço referenciado a ele e. a sinalização é projetada para frente. o espaço da comitiva se desfaz e dá lugar à presença de um grupo de políticos e assessores. por exemplo. Durante a tomada de voz de cada um dos personagens discursivos. se pontua – com os números não quantitativos – a ordem de fala. ainda. há construção das enunciações de cada um. É interessante notar que há prevalência do sujeito em relação ao objeto nas enunciações. expressa pelas duas mãos passando da direita para esquerda. quando é preciso lançar mão de mais de uma construção espacial. a comitiva vai andar de um ponto definido pelo sinalizador até o outro no espaço. utilizando-se da direção do olhar como um recurso identificador do sujeito. há facilmente uma desconstrução desse primeiro espaço. No entanto. marcando a direção de origem e destino da ação expressa pelo verbo direcional. há necessidade de se fazer uma organização sequencial. entretanto. há a possibilidade de fazer a diferenciação das vozes ao longo do discurso mediante movimento de ombros e incorporação do personagem. bem como a direção do olhar é para um terceiro espaço – do grupo de políticos. por meio de uma marcação sinalizada.Capítulo 2 sinalizador se coloca deste lado. Para tanto. este espaço não pode invadir o espaço anteriormente definido para os personagens já apresentados. Dessa feita. na Libras. É interessante observar que. Língua Brasileira de Sinais – Libras 109 . a carreata e a comitiva. se faz priorizando as pessoas do discurso e não as coisas e objetos nele envolvidos. Assim. Nesse momento. Nesse caso. quando há necessidade de alocação de outros sujeitos no mesmo espaço que está sendo ocupado por objetos. ou seja. Quando Amin fala ao prefeito. No caso sob análise. como se estivesse limpando a fala dita até então e dando lugar a uma nova enunciação. mas com uma inclinação de tronco à direta – como se estivesse olhando para quem fala – e sinaliza. na Libras. a sinalização é feita na direção do espaço marcado para esse personagem e o último movimento de ombros. Além de organizar o espaço de sinalização para marcar o lugar de quem fala.

Barulhento Bobo Bondoso Confuso Chorão Bruto 110 Corajoso Infantil Engraçado FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras Agora que já conhecemos os tipos de frases. relacionamos a seguir alguns adjetivos da Libras. passemos à exemplificação. Para tanto. a ordem dos constituintes e a forma de organização dos elementos no espaço. para depois os colocarmos em frases comparativas.

Contrariamente. há um apontamento para o espaço onde foi colocado o primeiro personagem.Capítulo 2 Fofoqueiro Famoso Egoísta Pensando numa construção frasal temos: João é mais bobo do que Maria. temos que destinar um espaço de sinalização. Então. Em Libras. haverá inversão da informação. por exemplo. fazemos o sinal de “mais8 bobo” e. A mesma forma de construção frasal ocorrerá na utilização de qualquer adjetivo ou para suscitar qualquer tipo de comparação. à esquerda. se o marcador comparativo for sinalizado da direção do espaço da Maria para o espaço em que se encontra João. na sequência. Língua Brasileira de Sinais – Libras . com a intenção de dizer “ele”. destinamos outro espaço de sinalização. Do que 111 8 Há muitos sinais que podem significar mais. Na seção destinada à semântica. para escrevermos o nome “Maria”. Imediatamente. oposto ao primeiro. Em um segundo momento. para escrevermos com o alfabeto manual “João”. explicaremos cada um deles. colocamos o marcador “do que” (conforme a figura a seguir) na direção do espaço do João para o espaço da Maria.

A conceituação mais básica de tempo é que ele é uma categoria gramatical dêitica. Nesse sentido. que expressa o momento em que ações verbais acontecem e. Podemos citar. o autor aponta para a existência de dois sistemas temporais: o enunciativo. pode definir a existência de três tempos linguísticos: presente. e um agora em que acontece a não concomitância. Para ilustrar a flexibilidade da Libras. relacionado diretamente ao momento da enunciação (ME) e organizado em função do presente que já está implícito na enunciação. Com isso. sob diferentes perspectivas. que postulam três momentos relevantes na constituição do tempo: momento da enunciação (ME). ao fato de se definir e de se organizar como função do discurso. Tanto aspecto quanto tempo são noções que se referem à temporalidade dos eventos. pois tal nos permite entender esta característica. Sobre questões como essas e outras peculiaridades teóricas da conceituação da categoria tempo. também. por isso. por exemplo. em que existe uma concomitância entre o evento narrado e o momento da narração. FAEL 112 . há uma vasta literatura. representadas no próprio discurso. Fiorin (2002) afirma que a temporalidade instaurada pela língua refere-se também às relações de sucessividade entre estados e transformações. ele situa o acontecimento como contemporâneo à instância do discurso que o menciona. escolhemos tratar da temporalidade. como Fiorin. passado e futuro. e o enuncivo. o qual transcorre no tempo presente linguístico.Língua Brasileira de Sinais – Libras Flexibilidade da Libras A Libras é uma língua flexível. que diz que o tempo linguístico é aquele que realiza o tempo do homem. na qual encontramos diferentes abordagens e discussões dos autores. porém. e isso pode ser demonstrado pela “junção” de categorias gramaticais em sua expressão e composição. o tempo linguístico é singular por ser organicamente ligado ao exercício da fala. a qual se divide em anterioridade e posterioridade ao agora. É o caso. Para esse autor. momento de referência (MR) e momento do acontecimento (MA). instaurando-o em um discurso. todo discurso instaura um agora que equivale ao momento da enunciação. autores mais recentes. ordenado em função de momentos de referência (MR) instalados no enunciado. levando em consideração o momento da fala como ponto de referência para situar os acontecimentos. Cada vez que um locutor emprega a forma gramatical do presente. de Benveniste (1989).

momento de referência. que é formulado com a configuração de mão no espaço próximo ao ombro e com movimento dos dedos para trás. existe um marcador temporal específico. Esse autor analisa a lógica da manifestação temporal e realiza uma interpretação linguística da categoria tempo com base em três conceitos: momento de fala. o tempo pode ser expresso por operadores temporais específicos na sentença: passado. para o tempo passado. uma vez que o próprio momento de referência se norteia em relação ao momento de fala. futuro. dando a representação de passado. passaremos à demonstração de algumas possibilidades de expressão do tempo na Libras. Por exemplo. Tal representação objetiva organizar as manifestações temporais das línguas naturais. conforme figura a seguir. para então localizar os acontecimentos no eixo temporal. assim como em outras línguas. momento do evento.Capítulo 2 Há que se destacar. sua expressividade se dará por expedientes linguísticos distintos. simultaneidade e posterioridade – podemos obter codificações mais complexas. presente e futuro. simultâneo e posterior. Os três conceitos de tempo dados por Reichenbach (1947) podem ser aplicados a quaisquer línguas. entretanto. Por meio do momento de referência – em relação ao qual o momento do acontecimento também se norteia em termos de anterioridade. que Reichenbach (1947) tem sido o grande marco teórico e que suas postulações têm servido de base a outros estudos acerca do tempo. em relação ao momento da fala. Passado 113 Língua Brasileira de Sinais – Libras . Nesse sentido. Na Libras. Dessa forma. porém. presente. o momento do acontecimento pode se nortear de modo anterior.

de modo que fique longe do rosto: Futuro 9 Se não for produzido dessa forma. se o sinalizador fizer os movimentos para cima e/ou para frente. o operador temporal específico obedece ao critério “para trás e para baixo9” para. remeter ao referido tempo linguístico: passado. o sinal é produzido com a configuração de mão em f.Língua Brasileira de Sinais – Libras É interessante observar que esse sinal não segue as antigas relações de que sinais produzidos para trás do ombro estão no passado. FAEL . dedos juntos. então. Conforme vemos na figura a seguir. haverá um fenômeno agramatical. palmas voltadas para cima e com um movimento simultâneo de aproximar e afastar as mãos. de modo que os dedos mínimos quase se tocam e paralelamente se distanciam. ou seja. Agora / hoje / presente 114 O futuro é sinalizado com o marcador temporal de futuro. Nesse caso. O presente é definido pelo marcador temporal agora/hoje. sendo que o posicionamento inicial da mão é no espaço neutro na altura do rosto e o movimento produzido é de afastar a mão em direção diagonal à frente. pois para denotar a ideia de posterioridade ao momento da fala é preciso também que o sinal seja produzido para baixo. que é sinalizado com ambas as mãos abertas.

é possível que a diminuição do movimento somente para a ponta dos dedos. também. antes disso. ● “Eu ano 2000 casar passado 3-anos namorar. referindo-se a situações já ocorridas. também. ● “Eu ano 2000 casar futuro nascer filho 2003. com uma aproximação do cotovelo ao tronco do sinalizador e. presente e futuro. é de posteriormente. da marcação interna aos eventos.Capítulo 2 Esses três sinais são os principais marcadores dos conhecidos tempos linguísticos: passado. sua leitura. conforme podemos ver nos exemplos a seguir. será denotado passado distante. Nesse sentido.” O sinal destacado demonstra intervalo que ocorreu no passado. Tradução: “Eu me casei em 2000. Sabemos que a Libras possui uma morfologia flexional que emprega variação no movimento do sinal e que. Isso significa que. portanto. gere o sinal de passado recente. eles podem estar demonstrando intervalos que ocorrem no passado. Porém. namorei três anos”. Passado recente 115 Língua Brasileira de Sinais – Libras . é de antes disso. ou seja. portanto. Assim. Tradução: “Eu me casei em 2000 e posteriormente nasceu meu filho”. sua temporalidade vai além dos estabelecimentos tradicionais de tempo e se ocupa.” A palavra em destaque demonstra intervalo que ocorreu no passado. com uma expressão facial reduzida. como a língua é um sistema dinâmico e flexível. dependendo da posição em que os sinais de passado e futuro estejam na frase. Tal variação pode acontecer em níveis distintos e caracterizar uma gradação temporal. além do reforço na expressão facial. é capaz de expressar conceitos diferentes do sinal raiz. com isto. se o sinal de passado sofrer ampliação dos movimentos dos dedos para o braço e houver um afastamento do cotovelo. sua leitura. haverá denotações de “posteriormente” ou “antes disso”.

Se ocorrer a diminuição do alcance do braço e uma expressão facial menos intensa. curtos e abruptos. caracteriza-se por futuro distante. Se o movimento for “neutro” e mais repetido. a leitura é de agora/hoje/presente/atualmente.Língua Brasileira de Sinais – Libras Passado distante Quando ocorrem flexões morfológicas via alteração do movimento do sinal presente. se dá para o sinal de futuro. obtém-se o futuro próximo. sendo ampliado com alongamento do braço para frente e a expressão facial com reforço no olhar ao longe. temos a variação para imediatamente/já/neste instante. conforme vemos nas imagens a seguir. O sinal de futuro. por meio de alteração de movimento. FAEL . 116 Imediatamente Essa mesma flexão morfológica. Sua realização se dá com o aproximar das mãos e com movimentos mais rápidos.

eles são inseridos no início da narrativa e servem para “conjugar” o tempo de toda a sentença. normalmente. Assim sendo. Esses advérbios geralmente vêm no começo da frase. nunca. mas também podem aparecer no final. São os sinais adverbiais: ontem. semana passada. Com fim elucidativo. sempre.Capítulo 2 Futuro próximo Futuro distante Além desses três sinais principais – passado. o pressuposto da temporalidade marcada inicialmente é mantida até que apareça outro marcador temporal. presente e futuro –. anteontem. antes. amanhã. próxima semana. há outros que podem expressar a categoria tempo. seguem as imagens de ontem e anteontem: Ontem Anteontem 117 Língua Brasileira de Sinais – Libras . depois. Quando esses itens lexicais aparecem na frase.

Tradução: “Namoraram. pois muitas vezes é preciso recorrer a aspectos pragmáticos para a interpretação temporal. chamados também de heurísticas. compõem uma organização interpretativa dos enunciados. acontece a restrição temporal. o falante escolhe significados restritos à sua língua que podem ser presumíveis pela inferência do outro e. conversar. assim. três princípios norteadores de escolhas de seleção linguísticas que o falante opera. nessa teoria. Esses princípios. ele também conta com expressões quantizadas para sua realização. por flexão e por advérbios. desse exemplo colocado por Finau (2004). 118 Quer dizer. Isso implica em conhecimentos de mundo que os interlocutores compartilham e que possibilitam uma flexão semântica para os verbos e as devidas distinções temporais. Finau (2004) coloca que há. conversaram e no futuro casaram”. p. provavelmente. o common ground (conhecimento compartilhado pelos falantes). para depois se casar. a expressão da categoria tempo na Libras não conta apenas com léxicos específicos para sua realização. 140). A leitura de tempo durante o ato conversacional ou discursivo pode ser estabelecida por pressupostos da pragmática generalizada. principalmente pelo conhecimento compartilhado entre os interlocutores. advérbios ou quantificadores. A análise subsequente. conversar. 2004. pela sequência discursiva para a narrativa. é possível perceber o tempo. Tal teoria postula que. em um dos seus mundos possíveis. Para Levinson apud Finau (2004). é de que a referência temporal é dada de modo implícito. ele serve como um limitador. as FAEL . Nas palavras da autora: O locutor pode se valer da suposição de que seu interlocutor tenha como familiar. conforme observado no exemplo: “Namorar. que é preciso namorar. Esse conhecimento compartilhado hipotético auxilia a interpretação temporal dos eventos (FINAU.Língua Brasileira de Sinais – Libras Além de o tempo na Libras ser marcado por operadores temporais. Numa sentença como “Ana estudar até quarta série” vemos que o emprego do sinal quarta série é um quantificador que expressa o tempo de estudo. Finau (2004) apresenta a teoria da análise pressuposicional para justificar a leitura temporal de sentenças que não contenham operadores temporais específicos. mesmo não havendo marcas temporais explícitas (operadores ou flexões) no discurso do falante. No entanto. futuro casar”.

aplicadas ao estudo da temporalidade na Libras. ● Aquilo que é dito de uma maneira anormal. Então. Finau (2004) aplica essa heurística para Libras e diz que se a sentença não apresentar o sinal futuro. dessa forma. Isso quer dizer que. Em Finau (2004) vemos que. Essa heurística propõe um contraste na restrição da seleção do que é dito e do que não é dito. quando flexionado. esses três princípios norteiam o status da interpretação do tempo das sentenças. se recebe uma descrição mínima ele traz à tona. a sentença não pode ser interpretada estando no futuro. São as heurísticas de Levinson (apud FINAU. na conversação. ele revela “algo a mais” do que sua lexicalidade permite expressar. não é normal. Para Finau (2004). se há ausência de determinado fator temporal. Esse é o princípio que trata das ampliações interpretativas feitas pelo interlocutor. de acordo com os estereótipos dados. no caso da Libras podem ser os sinais futuro. ● Aquilo que é simplesmente descrito é um exemplo estereotipado. 2004) que. Assim. este elemento ausente não poderá ser o escolhido para a interpretação da estrutura frasal. passado. ou seja. se um sinal foi flexionado por meio de alteração no parâmetro movimento. permitem multiplicar o conteúdo informacional de qualquer sentença. Essa é a heurística que viabiliza a interpretação aspectualizada para marcadores que sofrem alteração morfológica. Língua Brasileira de Sinais – Libras 119 . não deve estar presente na interpretação temporal.Capítulo 2 determinações temporais dadas a partir de implicaturas conversacionais generalizadas são: ● O que não é dito não é. É o caso do sinal passado que. pois não foi dito de uma forma normal. hoje/agora. todo seu conhecimento de mundo e tem. Se não foi dito. considerando a concordância implícita entre os interlocutores. tem um significado a mais no enunciado. uma interpretação maximizada.

se empregado em outro. 120 Esposa: – Ué! Você não falou que voltava logo? Marido: – Mas eu não vim logo? Esposa: – Não. moradia. eu pensei que fosse demorar uns vinte minutinhos. Por outro lado. estamos descartando o significado de tempo para cada um dos envolvidos no processo.. Logo. temos diferentes palavras que são capazes de representar. que têm seu significado restrito a determinado contexto que. No português. de brevidade no espaço temporal e. essa expressão ganha um sentido de pouco tempo. pode caracterizar uma comunicação truncada. a mesma ideia. apartamento e cabana. nesse caso. daqui a pouquinho eu to aqui. de fato. O “problema” no discurso acima se deu devido a uma discordância quanto ao entendimento. FAEL . Quatro horas depois.. Especialmente por estar no diminutivo. basicamente.. Marido: – Não demorei. residência. das palavras casa. por exemplo. há palavras que não têm esta possibilidade dúbia de expressão. estamos apenas brincando com uma situação que é recorrente no nosso cotidiano. inferir que pouco tempo se aproxima de uma quantidade determinada de minutos e nem chega a completar o ciclo de uma hora do relógio. assim. lar. todas elas representam a ideia de lugar onde se mora. Podemos. Poderíamos citar como exemplo os casos de desentendimentos de detalhes. Claro que. quatro horas é muito tempo. quanto à semântica da expressão “daqui a pouquinho”. Apesar de terem suas especificidades. É o caso. Você disse que daqui a pouquinho estava de volta. abrigo... para quem está à espera de alguém. sobrado. trata-se de uma família de ideias. que horas você volta? Marido: – Ah. Esposa: – Demorou sim. você demorou. quanto ao significado. por exemplo.Língua Brasileira de Sinais – Libras Aspectos semânticos da Libras Toda língua tem uma semântica implicada em seus itens lexicais.. como no discurso abaixo reproduzido: Esposa: – Amor.

O sinal de especial é empregado na Libras em contexto de definição bela sobre algo ou alguém. quer dar ênfase a uma vivacidade notória. exclusivo. tornam-se mais adequados do que em outros.Capítulo 2 Esse mesmo fenômeno acontece na Libras. tem uma conotação mais “concreta” do que em português. Há sinais que. como: importante no caso da primeira sentença e coisas próprias no caso da segunda. em uma frase como “Você é muito especial para mim” ou “Esta criança tem necessidades especiais”. A palavra “especial” é usada no português para definir algo ou alguém como muito peculiar. Já na Libras. pois – mesmo sendo entendidos – podem gerar certo “estranhamento” ao interlocutor. Essa relação entre significado e significante (o sinal) da Libras não é análoga à relação de significado e significante (palavras) da língua portuguesa. na Libras. fora do comum. deve haver a sinalização de outro item lexical que equivalha a este termo do português. ele não está querendo dizer que esta pessoa é importante em sua vida. privativo. excelente. mas está querendo destacar qualidades que se deslumbram para ele. que se ressalta sobre os olhos. de beleza que se destaca tal qual o brilho em meio à escuridão. notável. singular. está mais relacionada às coisas que se vê. Isso significa que especial. Assim. esse sinal não é muito usual em contextos relacionados às pessoas. Especial 121 Língua Brasileira de Sinais – Libras . se produzidos em determinados contextos. Quando um surdo usa o sinal de especial para alguém.

Há a possibilidade da seguinte construção na Libras: “Ele Libras famoso”. já que educação tem um cunho mais comportamental para os surdos. Famoso Essa frase está invocando a informação de que a referida pessoa é muito fluente. seu emprego não está relacionado só ao fato de uma pessoa ser muito conhecida. mas também com uma grande habilidade que ela possua. não há o emprego desse termo para definição do conceito. Em português. pois em Libras a melhor forma de representação desta ideia seria o uso do sinal de ensino. que não tem correspondência com a palavra na língua portuguesa. muito proficiente na sinalização. se sinalizadas como a seguir. Educação Ensino 122 Algo semelhante se dá com o sinal de famoso.Língua Brasileira de Sinais – Libras Esse tipo de especificidade de uso ocorre também com o sinal de educação. Há expressões como “educação especial” ou “educação de surdos” que. Em Libras. que é muito habilidoso na área da Libras. FAEL . podem não se adequar semanticamente.

Exemplo: 2 + 2. vamos pegar uma mesma palavra e ver as várias possibilidades de sinalização. Começando pela primeira maneira. operações matemáticas. acrescentar. de repetição. Sinal para marcar a ação de comparação em relação a algo. no sentido de “maior”. aproximar. dependendo do contexto de realização. Polissemia Vamos pensar na polissemia em Libras de duas maneiras: a versão que o português impõe aos sinais da Libras e a versão que os sinais da Libras impõe ao português. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Sinal para marcar a ação de “mais uma vez”.Capítulo 2 Há inúmeros sinais dessa natureza para serem detalhados. A palavra mais pode ser sinalizada das seguintes formas se os contextos de realização implicarem nas informações correspondentes: Sinal para marcar a ação de somar. 123 Sinal para marcar a ação de juntar. mas encerramos por aqui nossas exemplificações e passamos ao estudo da polissemia. numericamente falando.

sentido de não posso. daquele que está acima de todos. sentido de advertido.Língua Brasileira de Sinais – Libras Sinal para marcar a necessidade de continuidade no percurso. pegaremos um sinal da Libras e averiguaremos as possibilidades de tradução para o português. Esse sinal também pode significar sentido de ocupado. Sinal para marcar a necessidade de aumentar o som. Sinal para marcar a ação de comparação absoluta. Agora temos um único sinal que pode denotar várias palavras no português: ocupado. 124 Em relação à segunda maneira. Ocupado FAEL . ou seja. como se houvesse um destaque de maioridade. faremos o contrário.

Quanto aos movimentos. o professor pode realizar algumas brincadeiras em sala de aula. de duas mãos com formas diferentes ou. a partir delas. nos debruçamos sobre a gramática da Libras e olhamos. Colocar a expressão “Vendo vozes” no quadro e verificar quem consegue melhor interpretação semântica para ela. observamos sua realização no espaço neutro e no corpo. observamos que a Libras apresenta três parâmetros principais: localização. configuração de mão e movimento. 125 Síntese Neste capítulo. Língua Brasileira de Sinais – Libras . destacamos a existência de pares mínimos e de parâmetros secundários para realização dos sinais: orientação da mão e expressão facial. 3. Quanto à configuração. No nível fonológico. a fim de proporcionar ao leitor um conhecimento das “partes” da língua. Verificar se sabem separar os espaços para cada elemento. eles pesquisem cinco sinais que se realizem da mesma forma. de duas mãos com formas iguais. e que deixam a marca do seu trajeto. como as seguintes: 1. se São Paulo ficará em um espaço. ainda. detalhadamente. vimos as possibilidade de formação de sinais a partir de apenas uma mão. para cada um dos seus níveis de análise linguística. para ver se entenderam que os verbos de movimento se realizam com concordância com o local. Quanto à localização.Capítulo 2 Da teoria para a prática Para trabalhar. conhecemos suas seis possibilidades principais. com a estrutura gramatical da Libras. Ainda com relação ao nível fonológico. Pedir aos alunos para sinalizarem a frase “Fui de São Paulo a Curitiba”. 2. e se realizam o sinal de avião fazendo o percurso do espaço de São Paulo a Curitiba. minimamente. Curitiba em outro espaço. Entregar as 64 configurações de mão aos alunos e pedir que.

e discutimos questões pertinentes à formação de palavras. organização espacial e a flexibilidade da sentença da Libras. ordem dos constituintes. tipos de verbos e os dois tipos de flexão: nominal e verbal. evidenciamos as possibilidades de formação de sinais a partir de morfemas presos e livres. Finalizamos o capítulo com uma pequena abordagem quanto à semântica implicada nos sinais da Libras.Língua Brasileira de Sinais – Libras Na análise morfológica. trouxemos a questão dos tipos de frase. 126 FAEL . Na parte sintática. classificação de palavras.

ser melhor ou pior. ou seja. para tal enfoque. destacam-se os processos de leitura e escrita. portanto. Com relação à escolaridade da pessoa surda. podemos pensar que elas se inserem e retêm conteúdos visuais sob a forma de expressão. abordaremos as configurações dos relacionamentos pessoais (casamento e filhos). necessariamente. Diante disso. Partindo disso. é possível refletir sobre o modo de como as pessoas surdas conseguem interagir com a sociedade e garantir sua participação ativa. Nesse sentido. em qualquer espaço que se for. partimos da premissa de que Libras é sua primeira língua e. olharemos para o que é impregnado no surdo a partir de tais vivências: sua identidade e cultura. a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades distintas em relação à vida de uma pessoa ouvinte. É desse modo que a pessoa surda precisa ser vista na sua relação com a sociedade. N As relações sociais do surdo Analisando sob a perspectiva de que a surdez está inserida e constituída em ambiente e mundo visual. arte). deve fazer parte da instrução recebida. mas. entendemos que a necessidade de saber o português é urgente e esta pode ser sanada com métodos específicos de segunda língua. Feneis) e cultura (cinema. sim. as relações de amizade (associação de surdos. Por meio da Libras. Disso tudo. ser. a surdez como característica que compõe a própria diversidade e a individualização do ser humano em sua constituição. . destacaremos a subjetividade inerente.Implicações sociais da surdez 3 127 este capítulo. Ter peculiaridades diferentes não significa. apresentaremos um panorama geral sobre as relações sociais que são estabelecidas a partir da experiência da surdez. sendo que.

o filho. Isso porque. O que antes era comprometido e problemático. eles poderão ser ouvintes (havendo exceções em que pais surdos concebem filhos da mesma natureza). do mesmo modo. a partir desse momento. fica assim caracterizada. independente de ser ou não surda. acaba sendo natural que ocorra uma comunicação em que haja gestos e falas oriundas deste contexto. em culturas diferentes não é algo juiz) não consegue estabelecer uma comunicação com os noivos. devido à grande quantidade de filhos que se inclui nessa categoria. seus pais não têm participação ativa em suas vidas. exige empenho e reforpressar os votos na língua oral. criou-se uma organiSaiba mais zação internacional destinada a Os casamentos de surdos (com pessoa surda ou ouvinte). acaba por virem os filhos. porque o surdo se une a quem conhece a língua de sinais. pois vai em direção oposta a tudo que aprendeu e viveu. formalizando a relação. O significado da união com o outro representa algo diferente. já que o celebrante (pastor. (children of deaf adults). Uma situação que pode acontecer é uma adequação em relação aos pais surdos e filhos ouvintes em que. por não haver clareza na comunicação. E no que tange à transmissão de conteúdos concernentes a valores. devido à barreira da comunicação. Para a maioria dos surdos. princípios e comportamentos de vida. culminando em um viver bastante comprometido e problemático. diálogo e participação com o outro. e como a surdez não é hereditária. pois permite ter contato. Caso haja surdos também às pessoas que possuem na plateia. O traje do profissional deve to a ser filho de pais surdos. podemos perceber como ocorre. acaba por não ser estimulado e não desenvolve a audição e a fala. O profissional mulação daquilo que se apreenintérprete deve se colocar em frente aos noideu. normalmente. caser o mais discreto possível para não ofuscar o racteriza-se pelo nome de Coda glamour que envolve o casal. são acompanhados de discutir questões conflitantes. Isso é compartilhado mundialmente por essas pessoas e. poder celebrar essa união tem um significado muito relevante. pois interagir simultaneamente tradução. padre. a presença de mais um intérprete uma realidade semelhante quané recomendada. para o surdo.Língua Brasileira de Sinais – Libras Pensando por esse viés. Essa organização. acaba por ser deficitária devido à comunicação que. Frente à convivência em família. ao lado do celebrante. tão pouco consegue exsimples. 128 Como fruto dessa comunhão. muitas vezes. FAEL . destinada vos. um ritual que em nossa sociedade é muito comum: a questão da união conjugal. torna-se algo natural.

Quando acontece um diálogo de filhos ouvintes de pais surdos. enquanto o português. conseguem reagir bem ao estímulo recebido. Por meio da vibração. Outro exemplo disso é quando querem se comunicar e batem o pé no chão. ambos surdos e Codas. pois entendem que. pois. Com isso. para ambos. para eles. Os filhos entendem que a possibilidade de ver as coisas. acabam por praticar e. aprender a língua de sinais. Os surdos têm uma forte potencialidade para sentirem as vibrações do ambiente e. compras. Um exemplo bem comum é que. conseguem se expressar com maior clareza em relação ao português. ver tudo que há no mundo é algo muito bom e. desta forma. nada muito comum. passeios. como consequência. consideram a tranquilidade da comunicação em Libras algo bem acessível. por isso. Os Codas procuram desenvolver o olhar como meio de referência. Eles conseguem ficar insensíveis a tudo isso. conseguem não ouvir quando estão em um ambiente com alta sonorização (volume alto de TV ou rádio). Pensar em ser ouvinte é algo bem estranho. com a convivência constante e indireta em viagens. por conta deste sentido estimulado. mesmo sendo ouvintes. pois esta vai ser moldada de acordo com o grau de receptividade cultural assumida pelo sujeito. Eles conseguem acompanhar os ritmos musicais somente pelo que seu corpo sente. consultas. no sentido biológico. a profundidade no contato visual desenvolve sua subjetividade e possibilita impressões acerca do olhar. A vibração é tão poderosa no corpo como o som é no ouvido. assim como os surdos fazem. o que para os ouvintes “normais” – ouvintes de pais ouvintes – seria uma tarefa bem difícil. criando assim uma identidade como a deles. é possível estabelecer contato com a outra pessoa que.Capítulo 3 A maioria das pessoas que participa dessa organização tem a audição preservada. é comum que adolescentes e jovens surdos frequentem as baladas e dancem por muito tempo. o normal é ser surdo. porventura. as identidades surdas são construídas mediante as possíveis representações da cultura surda. Somente quando essas pessoas vão para a escola é que se inicia o processo de aprendizagem do português. elas desenvolvem habilidades que são específicas do surdo. mas frente ao contato com surdos ou suas comunidades. está no quarto ao lado e. Para Perlin (2004). estes se utilizam de alguns sinais no meio da conversa. Língua Brasileira de Sinais – Libras 129 .

Nesse ambiente. e com isso o prejuízo torna-se presente e generalizado.shtml>. Comumente. valores e identidades. dando a php?option=com_content&do_pdf=1&id=75>. os membros da escola estabelecem relações pouco íntimas com os alunos e seus pais.clubedochoro. devido a tal visão. Por outro lado. surdos. porque ela ouve. eles a possibilidade de se atenHá. Nesse ambiente dotado de pessoas que. Sobre isso consultar: seus olhos possuem uma sensi<http://www. que trabalha com Olodum para em sua mente. os pais se tornam seres estranhos. no caso. Codas utilizam estratégias para não conversar. um ritmo musical que acentua a vibração dos instrumentos.com. Essas crianças que falam Libras desde a infância e que enxergam a surdez como constituição cultural.Língua Brasileira de Sinais – Libras Isso significa que o Coda tem um ouvido seletivo.br/index2. também. Pensar no processo de construção da identidade surda da pessoa que é ouvinte não seria algo tão complexo se somente houvesse comunidades que partilham do mesmo sentimento. Para Skliar (2001). outros ritmos que os surdos tarem a tudo. as crianças acabam sendo concebidas como deficientes e. cabendo à criança a responsabilidade dos pais. quando os superarquivo/2004/conteudo_333010. devido à dificuldade quanto à comunicação. fecham os olhos ou desviam o olhar. bilidade muito grande.abril.com. Sobre esse assunto acesse: <http://super. FAEL Saiba mais 130 . fato este que ocorre independente da pessoa ter ou não surdez. sim. A escola não consegue atribuir a esses pais a condição de pais. social e política irão precisar de um ambiente com características diferentes destas. certamente. há uma banda conhecida como de não processar alguns sons Surdodum. Já muito para eles. Diante desse afastamento. a escola. culturas.br/ ferente dos surdos. como os que tocam nas raves. capaz No Brasil. mas. Não muito diexistem festas especiais para surdos. a escola estabelece um abismo que a separa dos pais do aluno Coda. pois ver significa dançam. pois nessas situações não há ninguém com capacidade para estabelecer a interação entre eles. os pais do Coda não recebem convites para eventos escolares ou quando o filho não apresenta bom rendimento escolar. a escola deve ver o sujeito como instrumento/meio de produção de sentidos e aplicar seus diversos mecanismos de atuação para impor saberes. Porém. desconhecem essa língua e as questões que envolvem a surdez. a realidade não é bem assim. de surdos.

Capítulo 3 Dessa forma. sabe-se que as crianças ouvintes que são filhas de pais surdos (Coda) têm seu processo cognitivo e de aprendizagem preservados. Outra dificuldade enfrentada pelo Coda que possui identidade cultural surda é a de que. além de serem peritos e mestres no quesito identidade e cultura surda. independentemente do ambiente em que estejam. a convivência com pais surdos – em alguns casos – gera algumas consequências sociais Língua Brasileira de Sinais – Libras atilfeR Reflita 131 . no Brasil. Entretanto. No meio da comunidade surda. Porém. se os Codas desejarem se profissionalizar. em que os pais pedem que tudo seja minuciosamente relatado em sinais. bons intérpretes. É claro que. pois. por meio de estudos e pesquisa. os pais pedem à criança que interprete aquilo que está sendo transmitido. especialmente entre os intérpretes. em casa ou na escola. Mas daí pensar que estas pessoas são. um status. Isso porque se julga que se é filho de surdo. Frente a uma gama de informações advindas da televisão. será um excelente sinalizador. a automatização é complicada. não podendo utilizar a língua de sinais e recebendo cobranças que dizem respeito a adultos e não a ela. não conseguindo estabelecer laços com aquele lugar por causa das limitações impostas quanto à comunicação. não significa depreciar todo um trabalho estruturado de técnicas tradutórias? Até porque. e isto procede. o solicitam pela condição auditiva que possui. pois já têm a língua adquirida. existem excelentes intérpretes que não são filhos de surdos e que conseguiram. Da mesma forma acontece com ligações telefônicas. os pais exigem a tradução daquilo que está sendo falado. eles terão “vantagem” em detrimento aos demais ouvintes. é muito comum que o fato de ser Coda seja um diferencial. um bom desenvolvimento linguístico e técnico. automaticamente. ou em consultas médicas. para que possam entender. a criança sente-se ausente de seu mundo. considerando que tais pessoas aprendem a Libras como os surdos – como primeira língua. quando seus pais necessitam de interação social. conforme discutimos no texto. Tais circunstâncias exigem da criança esforços psicológicos para mediar uma comunicação que não condiz com sua idade.

O simples contato com a língua possibilitará à criança desenvolver sua expressividade linguística – os itens lexicais e a estrutura gramatical que ela já possui de forma inata. Em se tratando de uma situação paralela. no caso das crianças estarem no mesmo ambiente físico. De acordo com Grolla (2006). diferenciando-se apenas se o pai ou a mãe forem ouvintes. ocorrerá uma apropriação de enunciados diversos. como amarrar sapatos ou desenhar formas geométricas. pois os estímulos seriam aceitos de forma natural e o processo de desenvolvimento da criança seria semelhante ao de uma criança ouvinte com pais ouvintes. ocorre do mesmo modo em crianças surdas e ouvintes. Para a autora. Esse é um caso muito específico de pais surdos com filhos ouvintes. o processo se dará de modo bilíngue. em que a criança aprenderá duas línguas ao mesmo tempo. em que pais surdos têm filhos surdos. dentro da relação pais surdos e filhos surdos. Sendo assim. neste caso. Skliar (2001) aponta que. por mais que os inputs oferecidos sejam diferentes quanto à forma. a língua adquirida será a mesma. A universalidade da aquisição da linguagem explica que. diz que a aquisição da linguagem ocorre num período curto de tempo. Tal processo irá ocorrer de maneira mais facilitada mesmo na ausência de uma fala dirigida a ela. Pais e filhos se utilizam dela para propor a ação de uma atividade. e tais quesitos são muito exigidos do intérprete. pois. além disso. os problemas que os Codas enfrentam quanto à família talvez não existissem.Língua Brasileira de Sinais – Libras não muito boas para a criança. a criança adquire uma língua natural sem que seja preciso passar por treinamentos intensivos ou estímulos linguísticos. em seu processo. FAEL 132 atilfeR Reflita . o processo de aquisição da língua é idêntico ao de uma criança surda filha de pais surdos. independente da língua ou do desenvolvimento das habilidades motoras. todas as intervenções ocorrem na língua de sinais. Em relação aos Codas. fato que pode levar ao desenvolvimento truncado e à falta de domínio do português. compartilhar ou estar em desacordo com propostas e para estabelecer a atividade com objetivo de organizar algum aspecto da ação. é possível pensar que a aquisição da linguagem.

devido ao retorno auditivo estar ausente. Quadros (1997) reivindica que a descoberta pela estrutura fonológica da língua. são capazes de perceber as propriedades fonológicas da sua língua.Capítulo 3 A criança aprende uma língua. assim como os surdos. de crianças surdas e ouvintes no período de balbucio. começam a balbuciar por volta dos oito meses. É o caso da apontação. que não serão aproveitadas Língua Brasileira de Sinais – Libras 133 . quando chegam aos oito meses. começam a produzir os primeiros sinais e. Passada essa fase. o aprendizado com relação à língua se dará mediante a inserção de novas palavras realizadas pelos falantes e. independente da modalidade da língua: oral-auditiva ou espaço-visual. já que sabe as regras para formação de sentenças e domina as estruturas do idioma. pois são avaliados como gestos e não como sinais lexicais. Com relação aos ouvintes. até os quatro anos. Na sequência. indicam que no ser humano decorre uma capacidade linguística que suporta a aquisição da linguagem. tanto a criança surda como a ouvinte apresentam o balbucio manual. como consequência. neste processo. alguns deles são descartados. Indiferente de sua condição auditiva. Diante da aquisição da linguagem em que consta a universalidade. quer seja sinalizada ou falada. conseguem produzir um número muito grande de sílabas e as repetem de forma exaustiva. mediante a entonação e o ritmo. o processo de desenvolvimento linguístico e os estágios internos que ocorrem nas crianças surdas podem ser comparados aos das crianças ouvintes. toda criança apresenta comportamentos semelhantes ao chorar e emitir sons sem qualquer significado. em média. e as semelhanças na sistematização do balbucio das crianças surdas e ouvintes. portanto. a dinâmica da língua. acontece o balbucio oral e. pois nesta idade dificilmente comete erros sintáticos. Já com a emissão de sons. não se encaixam em seu repertório atualizado. Meier (2000) aponta que os ouvintes produzem movimentos com as mãos e conseguem retorno confirmativo de seus pais. a uniformidade e a rapidez. que antes de começarem a aprender sinais fazem balbucios com as mãos. no decorrer da vida. Os bebês têm muita sensibilidade. as crianças surdas. com pouca diferenciação nas sílabas executadas. Segundo Emmorey (2002). estes conseguem perceber aos quatro dias de idade diferentes tipos de língua. No caso dos surdos. quando chegam próximo aos seis meses. Isso ocorre nas enunciações.

as crianças ouvintes fazem relação semântica – de ordem lexical como a organização de classes prototípicas – para escolha das palavras. ou vice-versa. simultaneamente. pois. FAEL 134 . por isso. apresentando erros naquilo que equivale à conjugação de passado. apontam para o interlocutor se referindo a elas mesmas. Por certo tempo. falada. ocorrerá sua reorganização e aceitação. ocorre pelo desenvolvimento de mecanismos de emissão e recepção linguística. em pesquisa com crianças ouvintes adquirindo. quando as crianças atingem um ano de idade. ou seja. que são os indicativos de que ela entendeu a regra e está se superando. os sons exercem maior dificuldade perceptiva aos ouvidos do que os movimentos espaciais aos olhos. Da mesma forma. as crianças vivenciam o período das primeiras combinações. e a construção das frases se dá na ordem canônica. Posteriormente. em diversos momentos. quando a estrutura gramatical tiver sofrido maturação. Em Quadros (1997) percebemos que as crianças surdas. diferentemente das surdas. De maneira sucessiva. que têm essa vivência aos oito meses. as crianças ouvintes continuam no balbucio e somente depois partem para a palavra. elas começam a elaborar enunciados com apenas uma palavra – com significado de sentença completa – e conseguem assimilar pequenas imposições. apresentam dificuldades para entender os pronomes e. o inglês falado e a língua de sinais americana.Língua Brasileira de Sinais – Libras pelos surdos para pronominar. aumentando seu repertório e elaborando falas pausadas entre uma e outra palavra. Então. neste momento. Esse início antecipado de elaboração de sinais e o lento processo do estágio de uma palavra dita. Emmorey (2002) verificou. Conforme Grolla (2006). a habilidade de identificação de línguas estrangeiras diminui e concede espaço ao refinamento para sua língua natural. Grolla (2006) acrescenta que. nesse estágio. pois a criança entenderá que a apontação sofreu modificação e se tornou elemento gramatical. que a sinalização foi a primeira a ser adquirida. conseguem aprender um grande número de palavras diferentes a cada dia. a coordenação motora das mãos evolui de forma mais acelerada do que a coordenação para o trato vocal e a articulação para a fala. com um ano e seis meses de idade. pronominalização e outros.

pois não convém à instituição ensinar a língua a criança (por meio de interação e brincadeira) se seus pais não forem capazes de se comunicar com ela.MUL732407-5598. Então. produzindo frases complexas.globo. destacamos que a aquisição possui uma universalidade. no caso dos pais serem ouvintes. No Brasil. mas pelo nível elevado de dificuldade gramatical. o inverso. sendo verdadeiro. É um processo diferente da criança ouvinte. que recebem todo um trabalho de treino visual com adultos surdos. Aos pais. como orações relativas e coordenadas. Quadros (1997) diz que a criança surda: não adota pronomes para referentes ausentes ou o faz incorretamente. comete um excesso de generalização para concordância de verbos simples semelhante à gramática dos adultos. as crianças ouvintes utilizam o eu para demonstrar ou apontar outra pessoa. pois esta é capaz de olhar para o brinquedo que está nas mãos do adulto e ouvi-lo ao mesmo tempo. vivenciam uma propagação vocabular muito grande.00-BEBES+SU RDOS+DEVEM+APRENDER+LINGUA+DOS+SINAIS+NOS+PRIMEIRO S+MESES+DE+VIDA. pois as crianças surdas precisam lançar os olhos para o objeto que está nas mãos de quem fala e para seu rosto. indiferente da modalidade. os olhos da criança surda devem ser treinados para isso. uma escola de referência no quesito ensino da língua de sinais a bebês surdos é a Escola Rio Branco. também. Nessa escola entram crianças em tenra idade. em que a sequência de concordâncias se dará do mesmo modo. entretanto. Tanto crianças surdas quanto ouvintes.org. Nesse momento. é exigida a inscrição em curso de Libras. a relação significado e significante não fica evidente para a criança surda que está desenvolvendo a linguagem. Sobre esse assunto acessar os links: <http://g1.aspx>. em São Paulo.com/Noticias/Brasil/0. não cria correspondência entre a pessoa e o ponto estabelecido no espaço.html> e <http://www.ecs..Capítulo 3 A pronominalização na língua de sinais é produzida por meio de apontação. sendo assim. 135 Língua Brasileira de Sinais – Libras . e somente escolas especializadas são capazes de suprir o estímulo que não há em casa.br/site/default. pois. estabelece mais de um referente num mesmo ponto. aos três anos de idade. continuam o curso da aquisição cometendo pequenos equívocos.

na atual sociedade. Essa comunidade é constituída por um grande número de adeptos. favorece pessoas idosas que apresentam alguma diminuição auditiva. etc. Além disso. mesmo sendo amplamente divulgado que essa ferramenta possibilita a acessibilidade de grande parte da população que tem perda auditiva. estando ao alcance de todo e qualquer indivíduo. Existem outras atividades e programações acessíveis. um aprendizado de decodificação. pessoas que frequentam aeroportos. podem relacionar o som das palavras com a legenda. assim. O termo em inglês possui a tradução “legenda oculta” e está relacionado a uma função que muitos televisores possuem. conhecimento e informação ao público em geral. inclusive sobre informes da TV que. sendo que seus pais abordam qualquer assunto com elas. como surdos. além de promover a interação dos surdos em discussão de grandes temas. Falam sobre tudo. FAEL 136 . intérpretes. muitas emissoras não dispõem desse recurso em toda a programação. com perfis diferenciados. Essa possibilidade existe mediante a função closed caption.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com quatro anos. religiosos e outras pessoas com interesses variados. ainda. Sendo assim. então é provável que existam surdos que não participem. iniciando. aquilo que os evidencia é a utilização da língua de sinais. acionada mediante controle remoto. somente em 1980. as crianças surdas dominam a língua de sinais. em que a televisão tem seu volume diminuído e não se ouve. vindo para o Brasil um longo período depois. por diversos motivos. shopping centers ou qualquer outro lugar de acesso público com elevado nível de barulho. Porém. é o meio que mais rapidamente comunica. Esse ambiente em que pais ouvintes e filhos surdos (ou Codas) participam é que denominamos um espaço de convivência da comunidade surda. com a utilização do closed caption. Atualmente. foi disponibilizado nos Estados Unidos. neste caso. se utilizar a língua de sinais é aquilo que motiva o ingresso na comunidade. Apesar de comunicativa. profissionais. aqueles que são considerados analfabetos. Esse recurso é recente e. Tal ferramenta. pois preferem a utilização da língua falada. a função closed caption propicia entretenimento. ouvintes que. Favorece. identificando na palavra escrita o som da fala. tratando de assuntos futuros. familiares. oferecendo carinho. ouvintes. a televisão não é o único meio de interação e lazer que os surdos gostam de ter. designando ordens.

é necessária a utilização da língua de sinais. o que compreende a língua. isso tem um significado muito grande. crenças. No caso do surdo. por ser considerado minoria social. outra visão. Conjunto esse que é evidenciado pelos elementos da língua e pelos costumes. Os benefícios advindos da participação do ouvinte nessa comunidade são vários. da escola. tanto para nós mesmos como para as outras pessoas. as ideias. uma relação de igualdade. como a da igreja. sentindo-se à vontade para expressar seus sentimentos e ideias para aqueles que estão em um nível. Em relação às crianças surdas. Aproveitar a oportunidade de conviver com a diversidade promove um sentido diferente. ou seja. o que mais se percebe são estes elementos. a comunidade representa a projeção com o amanhã. Strobel (2008) define que a cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e modificá-lo. os costumes e os hábitos do povo surdo. dos líderes e tantas outras que evidenciem sua identidade cultural. a cultura representa um conjunto complexo de conhecimentos. capacidades e hábitos. tanto individualmente quanto em comunidade. pois vislumbra exemplos positivos. caracterizado assim a Língua Brasileira de Sinais – Libras 137 . costumes. as crenças. já que tem uma vivência isolada em seu mundo. Nesse ambiente. mas. do hip-hop. moral. O contato com pessoas que se comunicam em sua língua permite que sua diferença não seja enaltecida. Isso leva a crer que não existe somente uma comunidade surda. para que tenha acesso e possa interagir mediante as percepções visuais. De um modo geral. línguas. leis. a possibilidade de um futuro. como a oportunidade de conhecer o sujeito surdo de perto. aprender a língua de sinais e conhecer os costumes e hábitos vivenciados pelo surdo. que faz parte de uma sociedade e é repassado aos seus membros. arte. sim. quando visto sob a perspectiva de um grupo diferente. terão a oportunidade de enxergar a si próprios de forma diferente. diversas comunidades. sendo estabelecida por meio das afinidades daqueles que a integram. que possui outra cultura. mas assimilando que existe diferença linguística. não como deficientes. sendo neste momento que ocorre a formação da identidade e cultura surda. levando-se em conta que.Capítulo 3 Para que ocorra a constituição da comunidade surda. pois o coloca em contato com aquilo que é diferente. surdos adultos interagindo na sociedade.

então. Até o momento. hábitos e crenças. precisa obtê-la na comunidade surda. A cultura surda é muito importante. pois a grande maioria de surdos são filhos de pais ouvintes. A arte e a poesia do surdo acontecem por diferentes movimentos com as mãos. Tal processo de transmissão cultural de surdos. e pensam sobre as perspectivas de futuro para esta população. a cultura surda não é transmitida naturalmente de geração a geração. Isto é. estamos nos restringindo ao contexto de cultura popular. de geração a geração. Nesse ambiente. ao desenvolvimento e à transmissão dos elementos que o integram procederem naturalmente com as relações sociais. e ao que se come: fast food. é histórica. A cultura se modifica constantemente. Então. o sujeito surdo. sua cultura visual. e teríamos resultados que se restringiriam ao que se fala: inglês. Assim. se nos perguntarem a respeito da cultura norte-americana. pois. quando passamos a olhar para as ações de um determinado grupo de pessoas e tais ações começam a fazer sentido para nós. Assim. sem a convivência na escola FAEL 138 . conforme Strobel (2008). em que a composição dos elementos ocorre de modo visual. é de costume falar da representação da surdez por dois vieses: passado e futuro. passamos a atribuir valores e. pois é na comunidade surda que ocorre o processo de aprendizagem e o sujeito poderá proferir suas falas. existem outros componentes nesse conjunto. Dessa forma. seu conhecimento começa com o contato do que vê. tratam da história do surdo abordando as represálias que enfrentaram quanto ao oralismo. também pode ocorrer na idade mais avançada. com isso. Então. isto é. ou até mesmo pela imposição de estudarem em escolas ouvintes. por meio da língua. Dessa forma. como também hábitos e costumes ocorrem mediante o que viram e se constroem no envolvimento com os outros surdos. sua língua se manifesta no espaço e a leitura se faz com os olhos. Devido a essas questões é que. nessa cultura.Língua Brasileira de Sinais – Libras identidade surda. para ter sua língua. os surdos possuem família ouvinte. poderíamos abordar o assunto sob a ótica da língua e do costume. ao acesso. em sua maioria. o compartilhar ocorre naturalmente. adulta. no seio da comunidade surda. é possível pensar que a cultura surda compreende aquele conjunto complexo. Diferente do que ocorre com os ouvintes. é passiva de mudanças quando em contato com outra cultura. está inserida a cultura surda. Chamamos a cultura de “conjunto complexo” quanto à composição. sendo esta transmitida livremente nas relações com o outro.

Segundo Perlin (2004). Desse modo. 139 No decorrer da história. identidade surda de transição – surdo oralizado que. enquanto acontecia a educação dos surdos – dirigida pela corrente oralista –.Capítulo 3 de surdos. surdez moderada – não é possível ouvir as palavras com clareza. Língua Brasileira de Sinais – Libras ● . quando a sociedade mudou a forma de olhar para a surdez e novas taxionomias se imprimiram na educação de surdos. dependendo daquilo que era respondido com a audição. Pela dificuldade de ter sido conquistada por seus criadores e por ser tão ofuscada pela cultura ouvinte é que a cultura surda precisa ser enaltecida. a classificação passou a ser pelo critério linguístico e o rótulo de identidade era feito mediante o conhecimento que o surdo apresentava a respeito da língua de sinais. As especificações eram: ● ● ● ● surdez leve – capacidade de ouvir a voz humana. pelo sentimento de inferioridade em relação aos ouvintes. a pessoa tende a aumentar a voz progressivamente. as definições são as seguintes: ● ● ● identidade surda – pessoa consciente quanto à sua condição de surdez. não ouve nada. surdez profunda – a pessoa não retém som algum. muito tempo depois. identidade surda incompleta – é o surdo que não se aceita. é politizada e tem a língua de sinais como nativa. podemos destacar a importância de se refletir sobre si mesmas. acabam por perder o contato com a comunidade surda. No que diz respeito à formação de identidade das crianças que participam das comunidades surdas. sobre como sua constituição atuará em sua percepção do mundo de forma visual. surdez severa – surdez que só permite perceber os sons muito graves. descobre a comunidade surda e transita do mundo auditivo para o mundo visual. adotavam o critério clínico-patológico para o surdo e lhe atribuíam uma identidade. identidade surda embaçada – surdo que não consegue captar o mundo de forma visual e nem auditiva.

Tem conhecimento da estrutura do português falado. quando nos referimos à identidade surda. podendo ser entendida como o conjunto de características específicas de uma pessoa que a diferencia da outra. tem a possibilidade de participar de movimentos sociais. ocorre que está havendo um condicionamento de tais características naquele dado momento. heterossexual. A criança que participa da comunidade surda. solteira. a identidade. Esses movimentos sociais e espaços de luta social são chamados de movimento surdo. pensamos numa pequena parte do conjunto de características que ela apresenta.Língua Brasileira de Sinais – Libras ● identidade surda híbrida – pessoa que nasceu ouvinte e. Agregado a essas articulações está o reconhecimento de sua língua. identidade surda diáspora – pessoa que tem a necessidade de trocar experiências com seus colegas surdos. evangélica. pois é constituída e manifestada na interação com o outro. No entanto. professora. tanto que. pois FAEL . indiferente de onde eles estejam. A manifestação da identidade deve acontecer pela subjetivação que ocorre mediante interiorização de uma língua. flexível e mutável. seja ela qual for. exista algo de semelhante. em relação às visões comentadas. ● ● 140 Quando o assunto se refere à identidade. além de desenvolver a cultura e a identidade surda. lutas e reivindicações de determinados grupo de pessoas. Esse conjunto de características próprias. mas acaba por ser único e singular tudo aquilo que compreende a identidade da pessoa. identidade surda flutuante – surdo que oscila de uma comunidade a outra. posteriormente. pobre. convivendo tanto com surdos quanto com ouvintes. pessoas e contextos. Há falta de língua de sinais com surdos e falta de comunicação com ouvintes. No caso de alguém descrever sua identidade como mulher. branca. É possível que. sendo de muita importância. pois a constituição não é perene. apresentam-se ultrapassadas. ouvinte. a identidade está ligada a relações sociais. Para Skliar (2001). em uma comparação com o outro. ocorre por meio da linguagem e é construído por papéis sociais que exercemos em diferentes locais. mas adaptável. que entendemos como um espaço de articulação das aspirações. não se pode conceber uma visão reducionista do homem. se tornou surda.

O movimento não é contrário diretamente às pessoas. que começam a ser vistas não como deficientes auditivas. a missão passa a atender aos ideais das pessoas surdas. Não muito satisfeitos. conseguiram participação em pequenas atividades. acesse o link: <http://www. se organiza para reclamar seus direitos junto à direção e pede participação dentro da Feneida.Capítulo 3 representam um local onde ocorre resistência à predominância das pessoas ouvintes dentro dos locais de trabalho. Existem duzentas associações. Hoje.br>. persistiram até conquistarem uma posição de destaque dentro da instituição a ponto de serem atendidos em suas aspirações políticas. mas em decorrência da perspectiva de trabalho. sim. A princípio. Atualmente. Um grupo de surdos. educação e lazer. além de se reunirem na Feneis. como também as afirmações dos direitos do sujeito surdo em diferentes instâncias sociais. Todas se caracterizam pela cumplicidade linguística cultural dos participantes. por isso o nome da instituição era Federação Nacional de Educação e Integração dos Deficientes Auditivos – Feneida. Trata-se do curso Letras-Libras. mas em relação a evidentes posições de liderança ao longo da história. Em 1983. É possível citar como exemplo a reestruturação da Feneida em Feneis. aproximadamente. ou seja. existem vários escritórios regionais da Feneis espalhados pelo país. um grupo de profissionais ouvintes funda uma organização e dá início aos seus ideais de reabilitação dos chamados deficientes auditivos. saúde. se organizam em outros espaços como associações. cooperativas e clubes. os surdos dão início à liderança e alteram o nome para Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos – Feneis.cbsurdos. com sede na Universidade Língua Brasileira de Sinais – Libras 141 . com o objetivo de difundir a Libras e congregar surdos para discussões em relação à sua participação ativa na sociedade. no ano de 1983. e órgãos voltados apenas à questão desportiva dos surdos. como a Confederação Brasileira de Surdos – CBS. Para conhecer mais sobre a CBS. Essa alteração não se deu por simples mudança terminológica. pessoas com diferença linguística. O movimento surdo atinge espaços acadêmicos e chega a conquistar um curso de Saiba mais licenciatura a distância. mas.org. espalhadas pelos estados. Em 1970. os quatro milhões de surdos brasileiros.

mas. com sede na Finlândia. Existem.Língua Brasileira de Sinais – Libras Federal de Santa Catarina. pois.br>. no entanto. Saiba mais No entanto. Libras. somente em 2008. consulte: <http://www. os alunos surdos têm a possibilidade de se qualificarem para atuarem como professores de Libras. na edição do Festival do Audiovisual – Cine/PE. chegando ao ponto de ter uma Federação Mundial de Surdos (Word Federation of the Deaf – WFD). despertar a atenção para esses lugares e perceber que os surdos possuem capacidade de liderança. Marcelo de Carvalho Pedroso. em Pernambuco. é desenvolver um intercâmbio linguístico e cultural.wfdeaf. Nessa graduação. editores e diretores. 142 A possibilidade de acesso aos filmes que são transmitidos no cinema foi uma das conquistas mais recentes do movimento surdo. organizou um movimento de reivindicação a respeito da legenda nacional. desde 1951. é possível fazer a opção pela legenda ao invés da dublada. FAEL . inclusive o artístico. no Saiba mais caso de filmes nacionais. a acessibilidade não pode restringir. o grupo conseguiu provar para os produtores que a legenda nacional não iria ocultar as diversidades regionais ou depreciar os dialetos falados na nação. A formatação desse movimento tem tomado dimensões cada vez maiores.libras. contendo vários polos distribuídos pelo Brasil. participar dos eventos que promovem. em meios culturais começaram a ser resolvidas quando um surdo. Envolver-se com o movimento surdo é mais do que. As dificuldades de inserção <http://www. sim. instituições que se colocam como representantes do potencial dessas pessoas. Porém. Esse movimento circulou em importantes eventos do cinema e do teatro e.ufsc. Mesmo porque. mas que significaria acesso no que se refere à cultura. desde 2004. no caso de filmes estrangeiros. promover a participação no mundo. pois é algo indispensável para a evolução do homem em todos os seus aspectos. como também. esta opção é Conheça mais sobre a WFD acessando: inviável. vem tentando propagar a ideia a produtores. não somente no Brasil acontece de o moviPara mais detalhes sobre o curso de Letras mento surdo ser preponderante. em outros países. simplesmente.org>.

em linguagem compreensível a pessoas com deficiência auditiva. 2007) que.Capítulo 3 A campanha “Legenda para quem não ouve. conhecimento. 1. sendo Para mais informações sobre a legenda nacioesta muito importante para o nal. Língua Brasileira de Sinais – Libras . os de peças publicitárias. foi a grande encabeçadora da conquista dos surdos pela legenda.078 (BRASIL. A obrigação estende-se a todos os filmes comercializados para exibição. acesse: <http://www. Com a aprovação. com a oportunidade de diminuir a distância que ficou estabeleSaiba mais cida da cultura nacional. 1. foi criado o Projeto de Lei n.legendanacional. A escolha fica a critério da produtora. MAS SE EMOCIONA! A partir de tal convencimento. e os exibidos em caráter não comercial ou em festivais e mostras competitivas. exceto: os destinados à divulgação de músicas. após análise.078 entrou em vigor no Brasil em 2007 e presume que: ● As empresas responsáveis por distribuir obras cinematográficas ou videofonográficas. Essas legendas podem ser em Libras – com o espaço (a janelinha) destinado para o intérprete – ou com caracteres. 143 ● Sendo assim. conforme disposto em regulamento.php>. os surdos têm a possibilidade de ir ao cinema e ao teatro como qualquer outra pessoa. os de curta-metragem. sejam obrigados a incluir a legenda nas obras exibidas ou a ofertar interpretação do texto correspondente. mas se emociona!”. a criatividade e br/campanha. O Projeto de Lei n. para exibição em salas de cinema. e os promotores de peças teatrais e demais obras cenográficas. O slogan é LEGENDA PARA QUEM NÃO OUVE.com. a civilidade. foi aprovado por representantes políticos. tanto em filmes como em teatros nacionais as legendas se tornaram obrigatórias.

Em relação aos surdos. Essa distinção se contrapõe à antiga terminologia de escolas especiais. fazer o registro de produções dos surdos só era possível mediante filmagens. projeto político-pedagógico e atendimento específico para determinada clientela. a Libras sempre deverá estar presente. denominadas especiais. chamado de SignWriting (escrita de sinais). um meio custoso quando pensado em produção de alta escala. um recurso de fixação de sua língua. a visão começa a variar. apenas após o término da produção. em termos de conquista. uma maneira de registrar ideias que as tornam atemporais. Certamente que ainda existem centros especializados de apoio ao surdo. a criança surda pode ser inserida tanto na escola de surdos como na escola de ouvintes. Esse sistema ainda permanece sob pesquisa. diferentemente da escrita. Esse termo se refere ao sistema de escrita dos usuários da língua de sinais. à sua disposição. ouvinte. ainda tendo a desvantagem de que. que se prestam a ministrar métodos de letramento e oferecer reforço pedagógico aos alunos que participam da escola comum. somente no futuro poderemos mensurar. cabe destacar que a escola deve ensiná-la um método de escrita compatível com sua habilidade visual. Se a primeira língua do surdo é a Libras e se ela é usuária de língua de sinais. em sua grande maioria. Muitas comunidades surdas de diferentes países possuem. Até o momento. aprendizagem. Em relação à escola de ouvintes. Tais escolas. já existente no Brasil. se mostra favorável. mas pensar a possibilidade de registrar a língua de sinais de forma escrita é algo que. mas como língua de instrução. 144 Independente do espaço de escolarização dos surdos – seja na escola de surdo ou escola de ouvintes –. sendo evidente que a implantação desse sistema. currículo. Entende-se por escola de surdos aqueles espaços que possuem toda uma estrutura formalizada. com professores. aquilo que se produz e elabora não pode ser revisado e avaliado. não como meio de comunicação secular restrito a crianças em horário de intervalo. Outra forma de registro FAEL . percebe-se a mesma formação do espaço citado anteriormente. possuem profissionais especializados em uma deficiência específica e atuam como reabilitadores. mas com a clientela.Língua Brasileira de Sinais – Libras Inclusão educacional de surdos Com a liberdade de escolha. seriação. pois é possível perceber que a Libras é entendida como primeira língua e o português como segunda.

cujos objetivos são descobrir e aperfeiçoar métodos de ensino para o SignWriting. a ferramenta adequada para a fixação da língua de sinais seria o SignWriting. Dessa forma. é para o surdo um sistema de grafia muito mais compreensível do que o alfabético. informações entre as pessoas. fundamentado em elementos fônicos. ao aprenderem a escrita de sinais. A escrita de sinais. A pesquisa também demonstra que o SignWriting é uma ferramenta de escrita que o surdo assimila com maior facilidade. é preciso que essa ferramenta seja ensinada aos usuários das línguas de sinais. fonológico e morfológico. Língua Brasileira de Sinais – Libras 145 . demonstrando ser uma nova linguagem que modela o pensamento e o organiza quando escrito. por ter como fundamento elementos visuais. uma vez que a escrita de sinais consegue armazenar e propagar. a implantação de um método de escrita para as línguas visuais possibilita abertura ao desenvolvimento da cultura e produção de conhecimento nas comunidades surdas. Quase sempre. Marianne Rossi Stumpf (2005). Esse sistema paliativo transcreve as línguas de sinais com auxilio dos códigos da língua oral.Capítulo 3 da língua. com o objetivo de promover uma tradução em que os pesquisadores podem propor outras discussões em relação à estrutura da língua de sinais. que aponta que as crianças surdas. pois não abrange as sutilezas visuais da língua de sinais. No entanto. é a Glosa. essa ferramenta foi elaborada como uma forma de registrar as coreografias a serem realizadas numa apresentação de dança. sendo muito utilizado em pesquisas linguísticas. nos níveis sintático. A criação dessa ferramenta se deu nos anos 70 do século XX. básica. mas somente agora teve início sua divulgação e implantação. podemos citar o trabalho da Prof. Uma vez percebida a oportunidade de aplicar tal ferramenta às línguas de sinais – representando seus movimentos. expressões –.ª Dra. A maior dificuldade é que não existem profissionais formados para desempenhar tal tarefa. por gerações. No Brasil. Semelhantemente ao que ocorreu com as línguas orais. esse recurso é muito limitado. numa ferramenta bem elaborada. e as ações relacionadas com a alfabetização dos surdos em escritas de sinais são ações isoladas e específicas de pesquisadores. passam pelo mesmo processo de alfabetização que as crianças ouvintes em relação ao português. pois ela se objetiva a uma representação visual de uma língua que é visual. que até então vem sendo utilizada. configurações. empreenderam-se pesquisas no sentido de tornar aquela ferramenta inicial. para que isso se torne real. A princípio.

Isso significa que pode ser um sistema reversível e que. de perfil. etc. da localização (se a mão toca alguma parte do corpo). etc. como tal. se é lento. assim como acontece com as escritas das línguas orais – como o português que. ele também é dotado de limitações. e nem por este motivo há descaso em relação à continuidade de escrita dessa língua. do sentido em que o sinal é realizado (esquerda ou direita). alguns exemplos dos símbolos do SignWriting: FAEL . assim como na escrita alfabética do português. Desde então. do movimento presente no sinal (se é circular. que não devem.Língua Brasileira de Sinais – Libras a ponto de funcionar como meio de representação de uma língua. é dotado de regras quanto à organização. necessita de ensino específico e treino para seu aprendizado. recentemente. se é alternado. O SignWriting. Afinal. que procuram – no sentido de que toda escrita é uma tentativa – representar a língua utilizada pelos surdos.) e sua distância do corpo (perto ou longe). significar desmotivação em relação à escrita. que podem conceder diferentes significados em uma dada frase. os elementos do sistema são finitos e podem ser organizados e reorganizados com o objetivo de formular os diferentes sinais escritos. Dentre os princípios básicos estão: a representação da configuração de mão levando em conta sua orientação (se a mão é vista de frente. 146 A seguir. Muitos elementos presentes nas línguas de sinais são contemplados pelo SignWriting e. como toda escrita.). a escrita do português não consegue explicitar as diferentes inflexões de vozes. como todo e qualquer sistema de escrita. pesquisas vêm sendo realizadas e aperfeiçoamentos vêm ocorrendo. foi reformado ortograficamente. no entanto. Porém.

o português caracteriza-se para eles como uma segunda língua. considerando a realidade do ensino formal. A necessidade formal do ensino da língua portuguesa evidencia que essa língua é. em sua própria língua. Mesmo fazendo uso do português para se comunicar com seus pais. foi a invenção da escrita que possibilitou que as línguas se estabelecessem e se padronizassem. Não é o caso de língua estrangeira porque ele se encontra no Brasil. pois quando está em horário de lazer. seus sete anos. consequentemente. ouve as pessoas falando em alemão e precisa interagir nesta língua. o sujeito surdo poderá iniciar o processo de aprendizagem da segunda língua. uma segunda língua para a pessoa surda (QUADROS. 1997. por excelência. irá adquirir o alemão como uma segunda língua. Para ter uma segunda língua se faz necessária a aproximação. no máximo. A Libras é adquirida pelos surdos brasileiros de forma natural mediante contato com sinalizadores. É o caso de alunos brasileiros aprendendo francês sem qualquer contato com pessoas do país de referência. nas línguas orais. deve ser sua primeira língua. no caso. brincando e se divertindo com colegas na escola. O método de ensino do português como segunda língua presume que. o professor retire do conteúdo a ser lecionado as aulas com exercícios de leitura em grupo ou coletiva (em que o professor Língua Brasileira de Sinais – Libras 147 . para o primeiro caso a língua falada está próxima e no caso de língua estrangeira o aprendizado é de outra língua que se fala em outro lugar diferente daquele que se está. filha de brasileiros que moram em colônias alemãs. O que difere entre segunda língua e língua estrangeira é que. 84). denota o prazer de poder se expressar. mas é segunda língua. o contato com aqueles que fazem uso da língua que se quer aprender. sem ser ensinada. Sendo assim. para os surdos. A aquisição dessa língua precisa ser assegurada para realizar um trabalho sistemático com a L2.Capítulo 3 Finalmente. Representa o valor de poder possuir uma língua escrita e preservada ao longo da vida e para além dela. Por exemplo. oportunizando que diferentes pessoas pudessem interagir de forma clara em lugares diferentes. a possibilidade de empregar um sistema de escrita que empreenda sua primeira língua significa mais do que um avanço técnico. em suas aulas. uma criança. pois. já que adquire naturalmente uma língua espaço-visual até. salvo por exceções. p. o português. para além de sua própria geração. Em relação aos surdos.

que palavras já conhece e se tais palavras podem ser aplicadas naquele contexto. propõe o trabalho em forma de texto e não com palavras. diferenciando o tipo de texto a cada aula. o foco de discussão incide sobre práticas de letramento. Tal atitude não significa ser excludente. atualmente. significa que. dissertativo e permeado de função social explícita. ou seja. Após essa realização. o professor precisa ter planejado algumas perguntas para fazer ao aluno surdo (não sendo interpretação de texto). Para a criança surda. A leitura consiste no primeiro passo e. concede abertura para uma aprendizagem mais significativa. mas visual. FAEL . Antecipadamente. na íntegra. etc. O letramento possui sua abordagem mais globalizada quanto à língua. que informações possui. Fonte: São Paulo (2007). se o professor for reproduzi-lo. pois o respeito fica estabelecido quando a pessoa é tratada com os mesmos direitos e com sua especificidade. como: cartazes. deve garantir sua formatação e cores. ou aqueles que tornam evidente a silabação (junção de b + a = ba).Língua Brasileira de Sinais – Libras aponta com a régua aquilo que deve ser lido). sílabas ou frases. deve “pular” o surdo. pois ela não consegue fazer uma leitura linear – os olhos não percorrem palavra a palavra dentro do texto –. a fim de que haja exploração na leitura. para Quadros (1997). isto é. isto é muito significativo. baseado no cartaz ao lado. uma orientação para que o aluno seja estimulado a pensar sobre o conteúdo que está sendo abordado naquele texto. sinalizar a temática do texto. em seguida. A seguir. panfletos. Dessa forma. narrativo. em slide ou transparência.). evitando escrevê-lo no 148 quadro. Deve também possuir uma cópia ampliada. a leitura procederá conforme o texto. letras negritadas. irá destacar aquilo que mais se evidencia (imagens. a partir do texto pode tratar de questões diversas quanto à realidade. como descritivo. Esse aluno deverá realizar a sinalização quanto ao texto. pois. Possuir o texto em mãos. um exemplo de como realizar esse trabalho. Então. Após isso. cabe ao professor ajudá-lo no aperfeiçoamento da leitura. ou seja. itálicas. contendo elementos visuais. O aluno surdo não lerá em voz alta. cores. anúncios de jornal e outros. manifestando um sinal equivalente. o professor deve passar para o aluno surdo o texto integral. Deve percorrer visualmente todo o texto e. caso o professor proponha este tipo de atividade para a sala.

Capítulo 3 Inicialmente. da Prefeitura de São Paulo. além de despertarem muito a atenção. é necessário deixar os alunos discutirem sobre os elementos extralinguísticos (cores e desenhos). Os sinais das cores são demonstrados a seguir. podem ser exploradas. No cartaz sobre a campanha de vacinação contra a raiva. há variedade de cores. o que possibilita o desenvolvimento de um trabalho interessante. vermelho verde azul 149 alaranjado amarelo cor-de-rosa marrom preto branco Língua Brasileira de Sinais – Libras . e conversarem sobre o porquê disto. sobre o objetivo social desse gênero textual. pois.

para que seja algo muito interessante ao aluno surdo. o professor deve apontar no texto onde isso se encontra escrito. que é o momento em que o professor deve oportunizar. representa aprendizado a todos os alunos e não apenas aos surdos. o professor pode fazer a pergunta. para seu aluno surdo: “Por que é importante vacinar o cachorro e o gato?” Saiba mais Consulte: <http://www. e) O que significa o termo “contra”. seriam: a) Quem pode tomar esta vacina?. torna-se muito significativo. para quando for necessária nova leitura ou haver esquecimento da palavra.youtube.com/ watch?v=0l3NX__oQAk>. bem como a interação discursiva sobre a temática apresentada (BRASIL. O desafio de trabalho com a leitura é um momento muito importante na aula de alfabetização. em Libras: evitar bravo morder. Diferentes tipos de perguntas que o professor poderia formular e oferecer ao aluno. as cores e os dias da semana na Libras. ou seja. em Libras. de real circulação. registrando o roteiro no quadro. O educador deve oferecer uma leitura de texto que contenha uma imagem condizente com o discurso apresentado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Em seguida. acréscimo de informação e. considerando que se destaca como FAEL 150 . por isso. encaminha-se para a aula propriamente dita. o professor necessita empreender tempo oportuno em busca desse material. c) Qual o período de vacinação?. Após apontar no texto a palavra “falada” pelo aluno. Devido a isso. não muito delongado e que tenha um objetivo social específico. o professor irá registrá-la no quadro para servir de orientação. quanto aos surdos. fazendo a ligação daquilo que o aluno diz com o que está escrito no cartaz e. d) Onde podemos obter maiores informações sobre a vacinação?. b) Precisa pagar?. O contato intenso com o material abordado nos textos proporciona a aquisição de conhecimento. 2002a). Quadros (1997) aborda que esse contato. o professor atuaria de forma semelhante. mostrar a palavra raiva no panfleto. os números. na frase “Vacinação contra a raiva em cães e gatos”? Frente às respostas em Libras. várias vezes. E quando o aluno responder. ele consiga voltar ao caderno e lembrar-se. Após o trabalho de escolha do texto. simultaneamente. apreensão do saber. o contato do material com o aluno. Nesse link é possível visualizar o alfabeto.

algo tão importante quanto o processo de leitura é o da elaboração escrita. Essa função do professor. o objetivo principal pode ser o da apropriação das palavras relacionadas ao tema. com o diferencial de que o canal de comunicação será o espaço e a visão. 2002a). Após a leitura do texto sugerido. Sendo assim. visando traçar paralelos e sugerindo uma conversa intertextos. produtivas ao aprendizado. segue o exemplo de um trabalho com a temática: materiais escolares. ele pode ser levado pelo professor a refletir sobre o conteúdo apresentado. o professor irá propor atividades para que reflitam sobre a língua. quando as questões relativas às considerações abordados pelo autor são pontuadas. a intertextualidade. colocaria “o menina”? E assim. a interação se dará por meio da Libras (BRASIL. ele procura descobrir o significado de algumas palavras e. pois são privados das informações que são veiculadas de forma auditiva na sociedade. pode-se exibir uma parte do texto. é de suma importância para que o aluno obtenha uma referência na leitura e. No trabalho com a escrita. Depois. o encaminhamento para a aula de português e a metodologia utilizada para trabalhar o letramento com as crianças surdas serão iguais aos dos alunos ouvintes. estabelecendo relações. Em seguida. se forem apropriados à idade das crianças. o professor poderá propor temas a serem discutidos com todo o grupo. como: “O menino escreveu com o lápis. Em relação a essa proposta. Dessa forma. bem como a elaboração de frases curtas a ele pertinentes. A fim de elucidarmos a proposta apresentada. a intervenção do professor pode ser decisiva para o aluno. pois é quando o aluno tem a oportunidade de manifestar o seu entendimento sobre a temática apresentada. Com a possibilidade de o aluno interagir com o a temática do texto.” e indagar a colocação do pronome seguido do sujeito da sentença na seguinte situação: se você é uma menina escrevendo. para Silva (2001). Língua Brasileira de Sinais – Libras 151 .Capítulo 3 uma das únicas formas de acesso às atualidades. é interessante obter sentenças modelo que possam servir de fonte para outras situações semelhantes. ou seja. em situações assim. poderão promover grandes discussões. quer dizer. ele sente-se participante no processo de aprendizagem. é como se pudesse confirmar as hipóteses que ele levanta. como esse aluno ainda está no processo de aquisição da língua escrita e trabalha com dificuldade frente aos códigos da língua portuguesa. No momento da interpretação do texto. ao aluno surdo. o professor se coloca como um mediador. Isso porque. Temas esses que.

no caso. quando estão tentando elaborar mentalmente uma frase em português. É necessário que o professor sempre retorne às frases escolhidas para aprofundar a reflexão em aula. Quando esse processo se estabelece.Língua Brasileira de Sinais – Libras ir promovendo a aula. o uso do s como identificador de plural para o complemento caneta e sua inexistência no caso de lápis. a mesma situação acontece. em que os alunos deverão revisar aquilo que foi trabalhado no texto. ou seja. cruzadinhas. Uma frase típica de interlíngua escrita por surdos é: casa ir. pois é diferente da língua de sinais. é natural recorrer a primeira língua ao se deparar com uma determinada insegurança. Nota-se que. No caso dos surdos. Isso porque esse momento é de tamanha riqueza para os surdos. há interferência da Libras e. atividades de ligar gravuras a palavras. mas em ambas. significa a aquisição de uma segunda língua (QUADROS. abordem possíveis comutações com outras palavras: Insira as palavras a seguir nos seus devidos lugares. o professor poderá desenvolver exercícios de fixação. O menino escreveu com ______________. porque para os surdos que não ouvem e nem falam o português. as palavras discutidas na reflexão linguística feita coletivamente. No caso anteriormente apresentado. muitas vezes. Essa frase representa seu aprendizado no português. A essa mistura chamamos interlíngua. vimos a questão da flexão verbal apontando as pessoas no discurso. a frase escrita não será nem em uma língua nem em outra. em relação ao surdo. permitindo espaços para que os alunos. Assim. a concordância nominal para evidenciar o número de pessoas. Após essa explanação. poderão surgir caça-palavras. ______________ escreveram com o lápis. ______________ escreveram com o lápis. em que o nome do lugar FAEL 152 . está em processo. o que significa que o aluno não se apropriou do português completamente e não se distanciou da Libras. as canetas – a caneta – os meninos – as meninas O menino escreveu com o lápis. inclusive o surdo. O menino escreveu com ______________. o processo de escrita é muito mais difícil do que para os ouvintes. frases para serem completadas. etc. 1997).

depois do verbo ir. ele fará novamente. enfim. No entanto. de imediato se indica a direção do deslocamento (percurso) e aponta-se quem vai (pessoa) a determinado lugar. e mais uma vez o professor fará a marcação sobre o erro e não dará explicações a respeito. As crianças surdas. e assim sucessivamente. até que. se está no Ensino Médio. mas não explica a razão do erro. quando o verbo ir é sinalizado. Na Libras. devido a isso. Sabemos que o ato avaliativo é de suma importância no contexto pedagógico e que não deve ser de caráter punitivo. pois. já que estão habituadas a ouvir os adultos se comunicando. a preposição e a conjunção são implícitas ao sinal (BRASIL. é necessário o uso da preposição para. decoram os nomes dos sinais que produzem em Libras. mas construtivo e reflexivo. É necessário ir além. diferentemente. a pessoa surda ainda não aprendeu que. existe uma grande propensão de que o erro seja internalizado por quem produz. está contribuindo para o desenvolvimento e crescimento intelectual e pessoal do seu aluno e. ele desconhece a necessidade de conjugar o verbo para que haja concordância com a pessoa. Isso pode se tornar algo costumeiro e. Tanto o uso de preposição quanto a conjugação do verbo são questões gramaticais que não seriam omitidas pelas crianças ouvintes. 2002a). que é o que permeia todas as áreas do conhecimento. Língua Brasileira de Sinais – Libras 153 . seria: eu irei. Caso contrário. porque após tantas repetições daquilo que é errado o aluno entenderá o que é certo. se esse aluno surdo se encontra na segunda etapa do Ensino Fundamental. Porém. O professor precisa destacar claramente a atuação incorreta do aluno e mostrar a ele qual a maneira correta de fazer. então. o erro é apreendido. pois estas já possuem total domínio na hora de escrever. deve entender que a simples disposição de valor a uma atividade não será significativa. é importante que os professores das variadas disciplinas entendam a especificidade da forma como o surdo escreve para poder estabelecer critérios diferenciados de avaliação. nesta língua. ou seja. o aluno sempre comete o mesmo equívoco e o professor sempre o evidencia (com caneta vermelha). nesse caso. com o sujeito da frase que. Quando o professor avalia qualitativamente. ou então.Capítulo 3 onde moramos é casa e em que usamos o verbo ir quando anunciamos que haverá deslocamento de um lugar para outro. Além disso.

O próximo passo requer ensino dos elementos coesivos. Dessa forma. Frente à tamanha dificuldade de lidar com artigos. ao final de um processo pedagógico de ensino da língua portuguesa. passem a ter aversão à língua portuguesa. Tais pontuações é que devem ser avaliadas com frequência nas correções textuais. para que se obtenha sucesso no propósito pedagógico de ensino do português para surdos. assim. não melhor. FAEL 154 .Língua Brasileira de Sinais – Libras Em casos de correção de textos. o aluno tenha uma expressividade fluente com clareza e objetividade. mas de acordo com as regras gramaticais normativas. o professor deve considerar a organização do pensamento e. ligações e conjunções necessárias na língua portuguesa. o professor deverá estimular o diálogo com seu aluno. os alunos surdos costumam decorar a ortografia destas palavras e confundir sua ordem sintática. preposições. desta forma. sempre pensarem que é difícil e que nada sabem. é preciso que ele tenha em mente o significado social da escrita. É necessário que o professor se coloque na posição de interlocutor e faça interação com o texto. se relaciona com o português como uma segunda língua. Quando o professor fizer a correção dos textos elaborados pelos alunos. devido aos conectivos inexistirem na Libras. o normal é que os alunos. O mesmo objetivo que se aplica ao aluno ouvinte deve ser aplicado ao aluno surdo. poderá atentar para a separação das ideias em parágrafos e para a coesão. já que o aprendizado acontece mediante interações sociais. os surdos alteram a ordem da frase por não se lembrarem do local exato em que se deve empregar os constituintes da língua. Porém. surgem frases como: “Casa é a bonita”. Ao olhar para a produção textual de um aluno surdo. a correção será mais uma forma de interação. tornando a escrita relevante. O propósito pelo qual o professor deve corrigir o texto do aluno é de que. Normalmente. pois. pois. assim. O texto deverá servir como elemento de comunicação entre o professor e o aluno. tornar importante aquilo que foi produzido por ele mediante incentivo e fazer com que ele perceba que sua comunicação poderia ter acontecido de outra maneira. o professor deve participar em língua de sinais e compreender que a dificuldade destacada em relação a esse aluno ocorre devido a ele escrever em uma língua que não fala e. É importante saber que tal trabalho será contínuo e constante. devido a tantas sinalizações sem qualquer explicação. os alunos surdos os esquecem com frequência. Sendo assim.

podem ser intérpretes quando veem uma língua sinalizada de um país em específico e a transpõe para a língua de sinais de outro país. Tal regra não existe no português. em conformidade com as regras gramaticais. procurando Língua Brasileira de Sinais – Libras 155 . por desconhecer onde deve colocá-la. O que será altamente compreensível. os tradutores leem e estudam o texto original. pessoas surdas podem atuar como tradutores quando leem textos em português e os transpõem para Libras. figura esta que também faz parte da comunidade surda e é responsável pela mediação entre surdos e ouvintes: o intérprete. Ainda no contexto dos anos finais do Ensino Fundamental ou de Ensino Médio. Dessa feita. podendo. o que ocasiona uma sentença agramatical. pode vincular a interação entre pessoas que as desconheçam. escolhe aleatoriamente um lugar próximo ao adjetivo. Além do intérprete. o aluno adota o hábito de decorar a regra e utilizá-la de maneira genérica em qualquer caso. pois. permitindo que pessoas que escrevem e falam em línguas diferentes possam se comunicar entre si. por dominar a Libras e o português. em seguida. por se tratar de uma situação muito específica do português. há outro sujeito. Para tanto. Por isso.Capítulo 3 Essa frase demonstra que o seu responsável já tem ciência da necessidade de nomes femininos virem acompanhados da vogal “a” e. tais como: “O moto”. procedem à sua tradução. o professor precisa intervir a esse respeito e mostrar para o aluno que há uma dependência estrutural (organização obrigatória da frase) que rege o local do nome e o local do artigo e. a vogal “a” deve ser inserida antes do sujeito (casa). A principal diferença entre a atuação desses profissionais está no fato de que o tradutor trabalha com textos escritos. apreendem o seu sentido geral e. Quadros (1997) diz que. O trabalho do intérprete consiste em transpor textos ou discursos de uma língua para outra. o intérprete com discursos orais. um vocabulário masculino solicita o acompanhamento de um artigo do mesmo gênero. há que se destacar que os sistemas de ensino têm garantido a presença de um profissional muito importante para acompanhar o aluno surdo. assim. Ou ainda. também envolvido na comunidade surda e com o mesmo domínio linguístico. Esse profissional é aquele que. mas que desempenha um trabalhado diferenciado. Eventuais situações exigirão do professor que esclareça as exceções. o que consiste num trabalho sistemático para ele. construir sentenças erradas. o tradutor. neste caso.

quando o surdo fala. congressos. o intérprete encontra-se junto ao orador. Para desempenhar bem esse trabalho. interpretação judicial – é a interpretação realizada no âmbito de um julgamento. a fim de que o interlocutor o entenda e.Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitar as ideias e os pensamentos nele presentes. designadamente. acompanhando determinada pessoa. a fim de que os participantes surdos possam acompanhar o evento. Já a interpretação simultânea é mais adequada para encontros que envolvem muitos participantes. em seguida. é solicitada a presença do profissional intérprete. conferências. tais como pequenas reuniões técnicas entre especialistas. mesas-redondas. A interpretação consecutiva é mais adequada para as conversações que envolvem um número reduzido de participantes. o intérprete sinaliza para o surdo. ele pode optar por desempenhar seu trabalho de forma consecutiva ou simultânea. transpõem um discurso oral emitido em uma língua para outra língua. o profissional intérprete pode escolher entre uma das principais modalidades de interpretação existentes: ● interpretação de acompanhamento – é o profissional que. aplicando a terminologia mais correta. Nesses casos. na primeira pessoa do singular). como se este fosse seu (isto é. pois em situações formais de palestras e simpósios. normalmente. interpreta em ambos os sentidos os diálogos que esta estabelece com interlocutores que se comunicam em outra língua. e funcionam como elo entre pessoas que se comunicam verbalmente em idiomas diferentes. Quando o intérprete está mediando uma relação entre surdos e ouvintes de ordem formal. Já as pessoas ouvintes que atuam profissionalmente como intérpretes. encontros ou jornadas. o intérprete passa a Libras para o português. interpretação de conferência – é realizada em reuniões multilíngues formais. garantindo a transposição quase imediata dos discursos orais. interpreta integralmente em outra língua o discurso feito. FAEL . ● 156 ● Essa última forma de atuação é bastante comum em relação à Libras. quando o ouvinte fala. seminários. ouvindo a sua intervenção e tirando apontamentos. ou seja.

de forma a não perder nenhuma informação. a saber: de conhecimento profundo sobre as línguas envolvidos. econômica e social. coloca-se uma questão: a relação do direito assegurado e do julgamento de valor. Aos intérpretes de Libras. esse profissional precisa ter clareza do que ouve para interpretar adequadamente o sentido. de conhecimento sobre as culturas envolvidas – de surdos e de ouvintes. afinal. cabe à coordenação pedagógica gerir qual o melhor procedimento diante de uma disciplina de música a ser trabalha em uma sala de aula em que estejam incluídas pessoas surdas. Língua Brasileira de Sinais – Libras . e deixá-lo junto às atividades desenvolvidas (coral. Por isso. Diante de tantas exigências para atuação. neste caso. Além disso. pessoal e subjetiva é construída a partir da visão. como se dão as relações sociais da surdez.Capítulo 3 Ao mediador de relações entre surdos e ouvintes são outorgadas pelo menos três grandes responsabilidades. Nesse caso. sua constituição intelectual. a melhor atitude a ser tomada seria: ● Poupá-lo da aula. e de conhecimento sobre atualidade política. Libras e português. treino auditivo e rápida compreensão dos discursos orais. preservando a continuidade e o sentido dos discursos orais. o estilo e o espírito que o discurso apresenta. 157 Da teoria para a prática Agora que o profissional da educação já entende. já que ele sentirá que não produz na mesma proporção que os demais alunos. consiga manter o ritmo da intervenção sem perder informações. Isso é importante porque os intérpretes nunca têm a possibilidade de voltar a ouvir o que foi dito. sons dos instrumentos) pelo professor denotará preconceito. nosso respeito e consideração pelo grande trabalho desempenhado junto às pessoas surdas. de forma que. Nesse sentido. vemos o quão árdua é a profissão de intérprete e o quão importante ela é para que a interação social entre falantes de línguas diferentes seja bem-sucedida. precisa ter grande capacidade de concentração e de memória. Para isso. é essencial que o intérprete também tenha excelentes faculdades de análise e de síntese.

Ao invés de assistir ao filme – dada a ausência de legenda –. Além disso. já que a condição auditiva não poderá ser alterada. Adaptar a atividade. 158 ● Síntese Neste capítulo. Privá-lo dessa participação implica em reserva de cultura e isso é. humanamente falando. pois o filme tem um conteúdo extremamente importante para a disciplina. injusto. por isso. ainda que existam critérios diferenciados para avaliação. O aluno deverá procurar uma forma de assistir ao filme e compreendê-lo. Destacamos que a aquisição da linguagem da criança surda acontece nos mesmos moldes da criança ouvinte. já que o português é sua segunda língua).Língua Brasileira de Sinais – Libras ● Integrá-lo à aula. que quando têm filhos surdos a relação é amena. ele deverá realizar todas as demandas apresentadas em sala. vimos que o surdo prefere se casar com outro surdo. ao passo que quando os filhos são ouvintes (Codas) haverá uma dupla constituição psicológica. vimos que a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades que não se encontram na organização de uma pessoa ouvinte. ele não entende e não consegue escrever no nível exigido. como aluno. o que poderá acarretar em algumas dificuldades de relacionamento. a melhor atitude seria: ● Insistir na cobrança da atividade. ele explique em Libras o que entendeu da leitura. FAEL . afinal. Apenas solicita que. Diante disso. Ainda levando em conta a tomada de decisão no contexto escolar. o professor passa o relatório de um dos alunos para que o surdo leia e o dispensa da entrega do relatório. o aluno surdo comparece à aula sem a atividade executada e argumenta que não deve ficar sem a nota. se possível. para ter uma comunicação facilitada. sugere-se uma questão ao professor regente de sala de aula: diante da proposta de assistir um filme e fazer um relatório. pois não há janela e. salvaguardando suas especificidades e tentando adaptar os sons para os gestos e/ou movimentos dos sinais. devido ao fato das dificuldades inerentes à sua história de vida (não adianta assistir ao filme.

a questão de que as relações sociais se mostram como espaço constituidor de identidade e de desenvolvimento cultural e apresentamos as disseminações políticas consideradas no caso da surdez (closed claption e Lei n. trouxemos os tipos possíveis de escolarização (escola especial. também. escola inclusiva e centro de apoio ao surdo) e defendemos que. 159 Língua Brasileira de Sinais – Libras . a Libras deve ser assegurada como língua de instrução. pois este se apresenta como segunda língua e por isto vem carregado de dificuldades para ser aprendido.Capítulo 3 Abordamos. apresentamos a importância do seu registro por meio do SignWriting (escrita de sinais) e de metodologia específica para o ensino do português. já que estas pessoas não ouvem e não falam a língua que devem escrever e ler. indiferente do espaço. 1.078/2007). Quanto à inclusão dos surdos. Dessa forma.

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