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Pedagogia_Língua Brasileira de Sinais_Libras

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Lídia da Silva

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Capítulo

Língua Brasileira de Sinais – Libras
Lídia da Silva

Curitiba 2010

Lídia da S586l Língua Brasileira de Sinais – Libras/ Lídia da Silva. CDD 371.Ficha Catalográfica elaborada pela Fael.9 Direitos desta edição reservados à Fael. Libras. Bibliotecária – Cleide Cavalcanti Albuquerque CRB9/1424 Silva. FAEL Diretor Acadêmico Diretor Administrativo-Financeiro Coordenadora do Núcleo de Educação a Distância Coordenadora do Curso de Pedagogia EaD Secretária Geral Osíris Manne Bastos Cássio da Silveira Carneiro Vívian de Camargo Bastos Ana Cristina Gipiela Pienta Dirlei Werle Fávaro SiStEmA EDuCACioNAL EADCoN Diretor Executivo Diretores Administrativo-Financeiros Diretora de operações Diretor de ti Coordenadora Geral Julián Rizo Armando Sakata Júlio César Algeri Cristiane Andrea Strenske Juarez Poletto Dinamara Pereira Machado EDitorA FAEL Coordenador Editorial Edição Projeto Gráfico e Capa ilustração da Capa Diagramação ilustrações William Marlos da Costa Thaisa Socher Denise Pires Pierin Cristian Crescencio Ana Lúcia Ehler Rodrigues Dilmar Kempner Júnior . 2010. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael. – Curitiba: Editora Fael. Título. I.: il. 164 p. Nota: conforme Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Educação inclusiva 2. 1.

intérprete de Libras.Ao Ronaldo Quirino. . que me indicou este caminho.

.

que exige deles uma atuação esclarecida e interessada. nos cursos de Pedagogia. a Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. mas conhecer o porquê de a língua ser um direito na educação dos surdos. como as associações de surdos. e atuar de forma a fazer avançar as condições de acolhimento na escola e na família. que permita diminuir o preconceito com que. que reflete muitas pesquisas recentes na área. A aprendizagem da língua precisa estar dentro de um contexto organizado. A aprendizagem de Libras é lei em muitos cursos. sem diminuir os conteúdos necessários. Hoje muita coisa mudou. em geral. A professora Lídia da Silva conseguiu abordar os mais importantes conteúdos necessários ao entendimento dos desafios colocados aos professores pela mudança implantada na educação dos surdos. as igrejas. 5. etc. sempre divulgavam cursos de Libras. visando promover a comunicação entre as pessoas. as entidades da comunidade surda.262/2002. é crucial e precisa se concretizar. Antes do Decreto n. a história e as lutas do povo surdo pelo reconhecimento de sua língua. são vistos os surdos. Os alunos desses cursos precisam aprofundar não apenas o conhecimento da língua de sinais. Professores esclarecidos quanto à complexa realidade da criança surda poderão trabalhar dispensando o carinho merecido a essas crianças. apresentação .apresentação A produção de textos para a disciplina de Língua Brasileira de Sinais – Libras. Os assuntos são apresentados de uma forma clara. de uma maneira informal e nada padronizada..

Marianne Rossi Stumpf* * Doutora em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. informática e escrita de língua de sinais.apresentação apresentação Esses avanços são necessários para que se concretize uma real inclusão na sociedade e a diminuição dos preconceitos existentes. . língua de sinais. Atua como coordenadora geral do curso de Letras-Libras e como professora adjunta da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Orienta pesquisas na pós-graduação em Linguística e tem experiência na área de educação de surdos. mesmo entre a maioria dos professores.

oirámus
Prefácio.........................................................................................9

sumário

1 2 3

Status linguístico da Libras ........................................................11
Estrutura gramatical da Libras ..................................................41 Implicações sociais da surdez .................................................127 Referências...............................................................................161

oicáferp
Q

Capítulo

prefácio
9

uando nos deparamos com uma pessoa surda pela primeira vez, algo acontece que faz deste encontro um momento único e singular em nossas vidas. Para alguns, esse momento vai significar o confronto com suas dificuldades e limites, que ficará apenas na memória. Para outros, esse momento vai significar uma mudança de vida, devido a uma tomada de decisão quanto às questões relacionadas à surdez e à língua de sinais. Uma tomada de decisão que implica na proximidade com a pessoa surda e sua língua. No meu caso, o efeito do encontro foi o segundo. Diante de um primeiro contato com uma pessoa surda, fui tomada pelo desejo de me desafiar e de tentar uma aproximação com ela, ainda que isso exigisse muito esforço e dedicação, pois o processo de aprendizagem de uma segunda língua não é uma atividade das mais fáceis da nossa vida. A entrada nessa nova esfera linguística me motivou a buscar cada vez mais conhecimento sobre a Libras e suas implicações para os sujeitos surdos, e esta busca foi determinante na minha formação acadêmica e profissional. Hoje sou pesquisadora, usuária, tradutora e professora de língua de sinais, e me deparo todos os dias com os desafios que uma língua espaço-visual impõe às pessoas que são falantes nativas de uma língua oral-auditiva. Porém, além dos desafios, me deparo também com a beleza, com a completude, com a satisfação de poder estabelecer comunicação por meio das mãos, dos olhos, do corpo, dos sinais. Assim se constituiu minha busca, e assim espero que se constitua a leitura deste livro aos leitores: descobertas recheadas de desafios e encantamentos.

morfológicos. espero que esse desafio soe como um convite a uma leitura mais aprofundada sobre o tema. É preciso que tenhamos esse encantamento para podermos. que o leitor possa – após receber esta introdução – percorrer caminhos mais longos no conhecimento da estrutura gramatical da Libras. acredito que o leitor será tomado de encantamento ao se deparar com o status linguístico da Libras. é que gera condições de entender as implicações sociais da surdez. Atua como orientadora de aprendizagem no curso de Letras-Libras e é tradutora de Libras da Universidade Positivo. Com esse olhar de diferença linguística. e de não mais creditar como verdade as falácias sociais ditas sobre ela até então.* * Lídia da Silva é mestre em Linguística. no sentido de poder empregar a característica de “língua” a esta forma de comunicação. é claro. minimamente. de alguma forma. esclarecer a constituição dos aspectos fonológicos. A autora. Minha expectativa é conseguir. Além disso. . Até porque. torna-se mais fácil conceber a ideia de uma pessoa viver apenas com experiências visuais e assim construir toda sua impressão sobre o mundo. Esse encantamento pela Libras. no seu valor e nas suas possibilidades comunicativas. mas sempre destacamos que eles – os surdos – também devem ter voz neste processo. sem esgotá-los. sintáticos e semânticos da Libras.10 oicáferp prefácio Julgo que os principais desafios que se encontram neste texto são de ordem mais gramatical. já que é uma tarefa árdua esboçar graficamente os detalhes de uma língua “espacial-tridimensional”. contribuir com as discussões sobre os surdos e sua língua.

portanto. as marcas para formalidade e informalidade. e outros. Definições preliminares Atualmente. da Libras.Status linguístico da Libras N 1 11 este primeiro capítulo. este texto se insere nessas discussões por acreditar que a Libras possui os mesmos valores linguísticos que as línguas orais. porém. pois ela embasa nossas considerações acerca dos fenômenos linguísticos explanados. Assim. como a modalidade linguística espaço-visual. de forma mais pormenorizada. Nesse ponto. apresentaremos uma introdução das ideias que serão desenvolvidas posteriormente. atentaremos para a forma de nomeação da pessoa surda e da sua língua. a teoria entende características iguais entre os idiomas – predominantemente. sobre a teoria inatista de Chomsky. Dessa forma. Essa teoria atesta que princípios e parâmetros imperam na constituição de todas as línguas do mundo. a estrutura sintática – enquanto que os parâmetros são as diferenças que existem entre eles – as categorias gramaticais. Por princípios. por exemplo. o caso de empréstimos de outra língua – fenômeno recorrente nos sistemas linguísticos. Vamos abordar algumas definições preliminares e algumas discussões sobre as mudanças das terminologias na área da surdez. tais como aquisição da linguagem e estrutura gramatical das línguas naturais. Há. tem sido muito comum as pessoas se depararem com outras conversando de um modo muito diferente do que estão . o texto apresenta os universais “comprobatórios” da natureza linguística da Libras. parâmetros que a distinguem das línguas orais. Trataremos. bem como o refutamento aos mitos sociais que até então circundavam a concepção que se tinha sobre ela.

consequentemente. sendo considerada improdutiva para a sociedade. mas há um duplo envolvimento: por parte deles e por parte da sociedade. que aconteceu em Milão. nem sempre foi assim.Língua Brasileira de Sinais – Libras acostumadas a ver. Porém. Não fosse assim. Havia uma exclusão escancarada não só com essas pessoas. o trabalho era de: recuperação auditiva. não existiriam os títulos. a sociedade decide que as pessoas que não ouvem devem ser oralizadas. ainda que não pudesse ouvir sua própria voz. pois elas não eram consideradas humanas. num primeiro momento. À medida que estas pessoas vão se mostrando à sociedade. A integração é a fase que compreende a concepção e a prática da pessoa com deficiência a partir de um esforço adaptativo apenas de sua parte. Prova disso é a própria dificuldade terminológica. infelizmente. começam os rumores de uma nova filosofia social e educacional: a inclusão. Porém. que entendia que o método de ensino mais adequado aos surdos seria a oralização. especialmente depois da decisão do II Congresso Internacional sobre Instrução de Surdos. vem impresso de significado. em 1880. mais aceitável a sua forma de expressão passa a ser. os vocativos e os pronomes de tratamento. não apenas as pessoas que não ouvem passam a se integrar e emprenhar esforço para tornarem-se normais. Houve uma época (século XV) em que as pessoas que não podiam ouvir eram atiradas do alto dos rochedos. Depois. Quando isso ocorre. Nessa perspectiva. a forma como nos dirigimos à pessoa revela o valor que damos a ela. Ser uma pessoa oralizada significa desenvolver sua fala por meio da vocalização dos sons. ainda há contradições manifestadas nas práticas. mesmo havendo um novo paradigma social emergindo. Esse tipo de concepção e. prevaleceu por muito tempo. exercícios mecânicos. no início do ano 2000. como as pessoas que ouvem. aquilo vai se tornando comum. como devemos nos referir a tais pessoas? Certamente. o modo como nos reportamos aos outros quer dizer alguma coisa. Normalmente. FAEL 12 . no sentido de que ela deve se adequar aos moldes padrões. mas com qualquer uma que apresentasse alguma limitação física ou sensorial. a integração foi a concepção adotada. tratamento de reabilitação. De fato. surge um sentimento de estranhamento. Porém. para então estar integrada à sociedade. mas com o passar do tempo esse sentimento se desfaz e dá lugar a uma impressão de normalidade. Após esse período. O professor era mero treinador de fonemas e o aluno deveria empreender todos os esforços possíveis para realizar uma boa leitura labial. Nesse sentido. este método de ensino chamado oralismo.

a. mas a informação que mais nos importa é sua patologia e/ou sua condição clínica.org. financeira. etc.626 (BRASIL.Capítulo 1 No caso das pessoas que não podem ouvir. ele está pronunciando-se na sua língua. e. Então. religiosa. Foi a partir da década de 90 do século XX que inauguraram algumas pesquisas no país sobre a língua de sinais. de gênero. além de pejora. aceito. Depois. 2005). a condição de não ouvir. parágrafo único. pois todos já fazem parte da sociedade. pois. estamos invocando aquilo que ela não tem.feneis. emitir sons. e isto propiciou um olhar antropológico e cultural sobre a surdez. não estamos vendo-a como pessoa. sexual. porque quando o surdo está sinalizando. Esse olhar para o surdo como uma pessoa diferente acaba com a concepção de deficiente auditivo – anteriormente impregnada nos meios sociais e educacionais – e. apague esta ideia! tivos. somos apenas mais uma figura no cenário da diversidade social – racial. Capítulo I. aquilo que lhe é deficiente. aliás. Nesse sentido. Com o acelerar da recepção de informações. Artigo 2º.Há um slogan propagado pela Federação Nadinho”. segundo o Decreto n. a sociedade progride e tem sua visão alterada. os surdos são deficientes auditivos para aquelas pessoas que os enxergam com uma visão clínico-terapêutica. surdos-mudos para aqueles que não sabem que eles falam. não há necessidade de inserção das pessoas. 5. porque existem muitos surdos que têm domínio da língua oral e que se comunicam também com sons da voz. dizer surdo-mudo é duplamente incorreto. há algumas alternativas de tratamento que podem denotar a consideração social a respeito de sua condição. De acordo com essa concepção de diferença (ao invés de deficiência). falar não significa vocalizar. ainda que os fonemas sejam desorganizados por falta do feedback auditivo.”. Primeiro. política. Conceitualmente.br>. Então. consequentemente. para aqueles que os olham Língua Brasileira de Sinais – Libras 13 . anula a necessidade de reabilitação para integração.cional de Educação e Integração de Surdos que diz: SURDO-MUDO. não estão em sintonia com o que já é socialmente Verifique em <http://www. está falando. Quando usamos esse termo para nos referir a uma pessoa. mas expressar a sua língua. É o caso do termo “deficiente auditivo” ou “d. estamos destacando o que há de ausente naquela pessoa. também Saiba mais deixam de ser válidos termos como “surdo-mudo” ou “mu.

para nos referirmos a essas pessoas neste texto. poucas são as pessoas que reconhecem o que significam tantos movimentos e tantas sinalizações. a órgãos públicos ou privados e fazem este sinal: Oi FAEL . porque ele remete a um posicionamento político de respeito ao sujeito como um ser social. usaremos o termo “surdo”. a partir de agora. Contrariamente. Surdo Ouvinte 14 Os surdos conversam com as mãos. É o caso. falante da língua de sinais. e não com uma visão clínica ou patológica. as pessoas que têm a capacidade de ouvir são chamadas de ouvintes. são apenas: surdos. De fato. Portanto. por exemplo.Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitando sua diversidade linguística. por meio do estabelecimento de uma comunicação visual. de quando os surdos chegam a estabelecimentos comerciais.

na maioria das vezes. ou seja. conforme exposto a seguir: Tudo bem? Qual é seu nome? Qual é o seu sinal?1 Bom dia 15 Boa tarde Boa noite 1 Os surdos dão um sinal para cada pessoa e não as chamam pelo nome. com os sinais da Libras. na esperança de conseguir estabelecer uma comunicação. tentam falar mais lentamente ou buscam um papel para escrever. o desejável seria que essas pessoas pudessem responder da mesma forma. Porém.Capítulo 1 As pessoas não sabem o que isso significa e. Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Posteriormente explicaremos porque esses dois últimos termos são inadequados. 16 A linguística é a área científica que se debruça a conceituar essas duas categorias. assim também como independe da cultura. e que escolhemos para construir nosso aporte conceitual. as crianças já nascem equipadas com vários aspectos relacionados à organização sintática das línguas humanas que FAEL . mas. Portanto. nos Estados Unidos. enquanto que a sinalizada tem a característica de ser espaço-visual. quem pense que são “mímicas”. há pesquisadores que são mais adeptos aos postulados teóricos de Chomsky (1957). infelizmente. E o que vem a ser modalidade linguística? É a forma como a língua se manifesta. mas da própria nomeação desta modalidade linguística. Há. A língua falada é conhecida por possuir uma característica oral e auditiva. Essa aquisição é possível devido ao fato de as crianças possuírem um conhecimento linguístico inato que as guia por esse processo. Os que entendem que a influência do social é determinante para aquisição da língua. por exemplo. esses e outros tantos sinais necessários à comunicação com surdos são desconhecidos pela população ouvinte. ainda. Tais ideias deram origem à teoria que vigora até o presente. e o desconhecimento não é só dos vocabulários. o processo de adquirir a estrutura de uma língua natural é universal. vemos que o desconhecimento sobre essa modalidade linguística é tanto. Segundo essa teoria. Trata-se da teoria gerativa.Língua Brasileira de Sinais – Libras No entanto. Isso significa que o espaço (lugar a frente do corpo) é o canal de emissão e a visão é o canal receptor da mensagem. língua escrita e língua sinalizada. do Massachusetts Institute of Techonology – MIT. três modalidades das línguas naturais: língua falada. Há. por ora. Porém. Inscrevem-se nesse tipo de abordagem as vertentes da linguística estrutural e funcional. pesquisadores que são adeptos a concepções sociais e há outros que procuram abordagens mais naturalísticas para formular suas concepções. Para ele. a língua de sinais tem modalidade espaço-visual. que as pessoas a chamam de “linguagem de sinais”. destituem do ser humano as responsabilidades pelo seu desempenho linguístico. Há outras que a chamam de “gestos” e há. basicamente. pois independe da qualidade interativa que se estabelece com a criança. Por outro lado. e a faz sob diferentes perspectivas teóricas. vamos pensar na oposição língua X linguagem.

pois a mente humana abriga um sistema “computacional” capaz de gerar representações linguísticas. sistema armazenado na mente. de como é que o ser humano pode saber tanto diante de evidências tão passageiras. [. mas não para determinação do seu estágio final. possibilitando um melhor entendimento de que a linguagem reflete uma capacidade mental do ser humano. Em outras palavras. porém. entendida como um órgão biológico carente de iniciar seu funcionamento que. mas reflete a capacidade do ser humano de fazer uso dela no seu dia a dia.Capítulo 1 são geneticamente determinadas. Nesse sentido. O estágio final são as propriedades linguísticas alcançadas pelo adulto. observando propriedades específicas.. [.. e 2 O argumento da “pobreza dos estímulos” é tratado por Chomsky (1957) como uma atitude platonista. A criança é vista como aprendiz eficiente a despeito da pobreza de estímulos. A perspectiva chomskyniana de linguagem está resumida no excerto a seguir.] pode-se dizer que o uso criativo da linguagem não se limita ao estabelecimento de analogias. apenas pela maturação da GU. enganosas e fragmentárias? 17 Língua Brasileira de Sinais – Libras . a criança é exposta a estímulos pobres e limitados. pois não existem graus de humanidade.] Sob esta perspectiva. O DAL.. fica a cargo da interação social. Esse fator é preponderante no princípio do funcionamento do DAL. Esse argumento é comumente tratado por problema de Platão2. Chomsky (1957) denomina esse conhecimento linguístico predeterminado de “Dispositivo de Aquisição de Linguagem – DAL” (em inglês: Language Acquisition Device – LAD). no caso. por isso o nome problema de Platão é extraído da questão filosófica. Isso se comprova. Esses princípios formam um conjunto de regras linguísticas uniformes chamado de Gramática Universal – GU. com coerência e de forma apropriada a cada contexto. devido à discrepância entre input e output do falante. a aquisição da linguagem vai acontecer naturalmente – sem que haja um aprendizado formal –. devido ao seu inato conhecimento linguístico. somos humanos ou não somos.. essa capacidade é uma consequência direta do fato de sermos humanos. é capaz de se desenvolver ao ponto de gerar infinitos enunciados bem formados. além da sua capacidade de evocar os pensamentos adequados no seu interlocutor. livre de estímulos. segundo Chomsky (1957). Como diz Descartes. abriga os princípios que são comuns a todas as línguas humanas. Por isso dizemos que essa teoria é de natureza mentalista.

Segundo Kato (1997). ela é entendida como um conjunto de regras que geram uma infinidade de sentenças. Assim. opostamente. etc. a não ser no nível da superficialidade. portanto. 4 Função mental superior é sinônima de função psicológica. língua é um conjunto de regras que gera uma infinidade de sentenças. caracterizadas como individuais. memória. sendo assim. FINGER. a Libras não pode ser chamada de “linguagem de sinais”. se assim fosse. Podemos concluir que a Libras deve ser aprendida e. FAEL . e elas são: pensamento. são fatores sociais. 47). culturais. não está instalada no cérebro humano. considerando que. linguagem e outras. enquanto a língua. nesse modelo teórico. Essa é a concepção de língua que adotamos. Para o linguista adepto à corrente gerativa. internas (inconscientes) e intencionais (automáticas). 2008. e que este dispositivo deve ser acionado pelos estímulos externos para poder desenvolver a língua. inteligência. é língua. encarado como um sistema “computacional”. nos aspectos epifenomenais3. há ainda que se colocar que. 3 Epifenômenos são fenômenos adicionais que se sobrepõem a outros. raciocínio.Língua Brasileira de Sinais – Libras não há variação essencial entre os humanos. (QUADROS. econômicos. A linguagem é uma função mental superior4. sendo que cada uma é formada por cadeias de elementos. 2008. p. além de dar conta destas mesmas propriedades em termos da ciência física (QUADROS. Um estudo da faculdade da linguagem deve propor propriedades específicas e descobrir os mecanismos da mente que as apresenta. Posto o entendimento de que há diferença teórica no conceito de língua e no conceito de linguagem. podemos concluir que a terminologia “linguagem de sinais” passa a ser cientificamente inapropriada. e isso não acontece. 18 Apesar de já termos adiantado o conceito de língua. mas sem modificá-los. ela é social. políticos. Dessa forma. o objeto de estudo é postulado como o conhecimento inconsciente da língua. todos seriamos sinalizadores. 47). se será aprendida. poderíamos dizer que a linguagem é um dispositivo que já está acoplado na mente humana desde o nascimento. atenção. significa que ela é externa a nós. nem exercer sobre eles qualquer influência. FINGER. isto é. percepção. é de natureza muito mais individual. p. Quer dizer. mas está no seio da sociedade e por isso precisa ser adquirida. esse conhecimento tem caráter intencional e o uso é inconsciente devido ao uso automático da língua.

desta forma. 2002b). é possível ter uma rápida identificação para LSB. visto que no Há pesquisas que discutem a melhor grafia Brasil há duas terminologias para a língua brasileira de sinais. A partir dessa aprovação.436/2002 (BRASIL. a Libras passou a ser aceita como língua Língua Brasileira de Sinais – Libras . se deve ser correntes para designar a línLIBRAS (todas as letras maiúsculas). podemos adentrar mais especificamente nas considerações sobre a “língua” de sinais. libras gua de sinais utilizada pela (todas as letras minúsculas) ou Libras (apenas comunidade surda brasileira: a primeira letra maiúscula). nais Brasileira). reproduzimos a seguir o sinal empregado pelos surdos para nomear sua própria língua: Libras 19 Um dos documentos legais que contempla a sigla Libras é a Lei Federal n. Leia Sinais) e LSB (Língua de Si.fiemg.Capítulo 1 A partir dessa concepção.br/ead/pne/Terminologias. já que há diferenLibras (Língua Brasileira de ça conceitual nestes diferentes registros. e é o termo presente em documentos legais. com. 10. Como Libras é nossa opção terminológica.pdf>. Língua de sinais Iniciamos pelo signifiSaiba mais cado do termo. que oficializou a língua no Brasil. A LSB é a sigla utilizada por pesquisadores que publicam textos internacionais. A primeira foi oficializada pela Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. já que todas as demais línguas de sinais do mundo possuem uma sigla com três letras.mais sobre o assunto em: <http://www.

deve-se travar uma luta pelo reconhecimento linguístico de tais minorias. pois este sistema linguístico é abstrato e não faz parte da nossa expressividade natural – se assim fosse. incapaz de expressar conceitos abstratos. Por exemplo. apesar de ambos serem produções visuais. pois demonstra o reconhecimento social sobre ela. QUADROS. quando colocamos a mão no rosto ou na cintura. Ter uma lei que oficialize um idioma em um país é muito importante. pois.436 oficializou a Libras. estamos produzindo gestos. antes disso. Vejamos cada um destes mitos. precisamos passar por um processo formal de aprendizagem. 1997). Não devemos. que vai desde agregar as pessoas até convencer políticos a planejar ações disseminadoras. são nossas expressividades naturais. As línguas de sinais derivam da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. 1995. 1998. essa conquista só foi possível mediante a congregação dos surdos em prol dessa causa. A Lei n. Nesse sentido. cruzamos os braços. com o intuito de combater os mitos que havia sobre ela. também. e pelo fato de muitos pesquisadores terem se empenhado para angariar conhecimentos que comprovassem o valor linguístico dessa língua. apertamos os dedos uns contra os outros ou passamos as mãos repetidas vezes no cabelo. já que sua forma de expressão não é a mesma da maioria social. mas. FELIPE. todos seríamos falantes natos da Libras. Considerando que a pantomima e a mímica são formas artísticas de expressão. índios) relatam experiências de segregação e preconceito. colocar a Libras e os gestos na mesma categoria de análise.Língua Brasileira de Sinais – Libras usual na comunidade surda. No caso da Libras. Os gestos são as expressões espontâneas das pessoas. Para que isso ocorra. para produzirmos a Libras. possuem natureza muito diferente. há que se percorrer um longo caminho. 10. FAEL . bem como as asseverações postuladas pelos pesquisadores pioneiros no assunto. elas não podem ser comparadas com a Libras. Diferentemente. já existiam pesquisadores brasileiros de língua de sinais (BRITO. 20 Mitos sobre a Libras A língua de sinais seria uma mistura de pantomima e gesticulação concreta. que é uma língua gramaticalmente organizada. discutindo e publicando suas investigações sobre esta língua. visto que as minorias linguísticas (imigrantes.

O primeiro grupo de sinais é o dos chamados icônicos.Capítulo 1 É verdade que a Libras é composta por sinais que representam manualmente as formas e os movimentos dos objetos do mundo. Exemplo disso são as palavras “bem-te-vi” e “bumbo”. respectivamente. eles não são o todo da língua. Essa possibilidade de o referente linguístico ter relação com os objetos reais – a iconicidade – também é presente nas línguas orais. conforme podemos verificar nas ilustrações. porém. há outros que não tem relação alguma com os objetos da realidade. que representam o som que reproduzem. e o segundo é o dos sinais chamados arbitrários. como é o caso do português. nome de um pássaro e um instrumento musical. como os sinais a seguir reproduzidos. SinaiS icônicoS Passar batom SinaiS arbitrárioS Vencer 21 1 2 Passar roupa Especial Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras SinaiS icônicoS Pentear o cabelo SinaiS arbitrárioS Perigoso Escovar os dentes Vingar 22 Dormir Idade FAEL .

Capítulo 1 SinaiS icônicoS Lavar roupa SinaiS arbitrárioS Organização Limpar o chão Sofrer 23 Varrer Opinar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

entre outras. ele rapidamente identificaria o significado. como sabemos. é porque existem outras línguas de sinais espalhadas por outros países. FAEL . pois a representação que cada falante faz da realidade é diferente. mas. não é isso que ocorre. Contudo. Muitas pessoas pensavam que a Libras seria universal. já é um forte argumento para combater o mito que aponta que a língua de sinais deriva da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. Haveria uma única e universal língua de sinais usada por todas as pessoas surdas. pois se Libras é a sigla da Língua Brasileira de Sinais.Língua Brasileira de Sinais – Libras É bom ressaltar que os sinais icônicos não são iguais no mundo todo. Então. o sinal de árvore no Brasil é icônico assim como o é na China. de que a iconicidade se realiza de acordo com a perspectiva referencial de determinado grupo. fica refutada a ideia de que os sinais da Libras são extraídos da expressividade natural dos ouvintes. Língua Francesa de Sinais. que os sinais eram iguais em todos os países. Língua Alemã de Sinais. podemos concluir que. enquanto lá se faz apenas o tronco. por exemplo. Língua Americana de Sinais. essa afirmação não procede. A diferença é que aqui representamos o tronco da árvore e o balanço dos galhos. conforme figuras a seguir: Árvore Árvore 24 Libras Língua de Sinais Chinesa (CSL) Só essa informação. Se assim fosse. tais como: Língua Holandesa de Sinais. quando um surdo sinalizasse o sinal de árvore para um ouvinte. se no nome da língua mencionamos sua nacionalidade.

que era que entendemos haver uma uma forma de comunicação oral que reunia os língua de sinais para cada país. O mesmo aconteceu com as línguas de sinais. Algumas pessoas acham que a Libras é derivada das línguas orais e é um pidgin sem estrutura própria. todas as línguas. também. então um questionamento como este também perde sua validade. Por exemplo. subordinada e inferior. Quando a informação de que a Libras não é universal começou a percorrer espaços sociais. encontramos conceituação diferenciada para os termos empregados. E não é só pelo nome de sinais universal chamada “gestuno”. O pidgin é utilizado por pessoas que estão em processo de aprendizagem e necessitam de Língua Brasileira de Sinais – Libras 25 . Segundo naturais. baseando-nos Porém. como nas expressões (1) e (2) a seguir exemplificadas. No caso da Libras. muitas vezes. esperanto – deixou de existir. se estamos entendendo que a língua de sinais tem o mesmo valor que a língua oral. mas. assim como aconteceu com o esperanto. já que as línguas orais não são iguais e ninguém questiona esses fenômenos. na sua organização semântica e discursiva para atender a aspectos culturais e ideológicos das diferentes comunidades de surdos. subordinado e inferior às línguas orais. que são diferentes apenas em sua natureza e comportamento.Capítulo 1 Assim. Haveria uma falha na organização gramatical da língua de sinais. sendo um pidgin sem estrutura própria. o gestuno – assim como o essa teoria. Cada uma dessas proposições pode ser considerada um mito. devido às colonizações. como não era usado em momentos na teoria gerativa. que seria derivada das línguas orais. havia um questionamento de que seria muito mais fácil para comunicação dos surdos se todos sinalizassem da mesma forma. Isso significa que as línguas de sinais se diferenciam. ela tem sua origem na Língua Francesa de Sinais. termos comuns na maioria das línguas orais. inclusive as de sinais. há Saiba mais uma língua de sinais especíCom a difusão das línguas de sinais pelos fica. em cada país. apresentam organização sintática com os mesmos princípios comuns à linguagem humana. pois quando as analisamos. Isso porque sabem que. houve o alastramento de determinados idiomas em determinados lugares. por pidgin entendemos a mistura de duas línguas. que reflete a cultura da países. como qualquer língua. Porém. pensou-se em sistematizar uma língua nação e daquela comunidade surda. cada uma tem sua história linguística.

sendo estética. o que falta são algumas tomadas de decisão quanto ao tema. A Libras tem uma estrutura gramatical bastante complexa. expressiva e linguisticamente inferior ao sistema de comunicação oral. pois houve a mistura dos sinais com a voz. além de demonstrar o desconhecimento da estrutura linguística. Eu love você. Sabemos que não podemos criticar uma pessoa porque ela fala porta acentuando o r. Uma manifestação de pidgin sinalizada é. Esse jeito diferente de falar compõe o idioleto de cada um. pois as línguas são apenas diferentes entre si. Da mesma forma. já que todos se prestam ao mesmo fim: a comunicação. esse tipo de comparação inexiste. e não um julgamento de valor. ou ainda porque ela fala bicicreta. mas que muitas vezes é verbalizado por desconhecedores da Libras. isso também acontece. FAEL 26 . 1. com conteúdo restrito. por exemplo. da oralidade com a sinalização. portanto. Mesmo assim. 2. Na linguística. também aponta para uma postura altamente preconceituosa. Esse é outro apontamento que não procede às descobertas científicas. isto já é assegurado no campo da linguística e já foi transmitido à sociedade. não consideramos o inglês e o português como pidgin. pois nenhum sistema linguístico será mais complexo ou superior a outro. mas nunca taxarmos como “certa” uma única forma. alegar que ela é subordinada à língua oral. como há uma conscientização ao cessar do preconceito linguístico. cada um sinaliza de um jeito. Essa estrutura se caracterizará por um pidgin. da Libras com o português. A língua de sinais seria um sistema de comunicação superficial. Assim como fazer comparativo de superioridade ou inferioridade em relação à língua oral é linguisticamente inviável. I amo you. como fazem os caipiras. Podemos admirar uma ou outra forma. Nesse sentido. Porém. a única comparação permitida entre as línguas e em sua realização é o conhecimento dos parâmetros de cada sistema. não é a Libras que é um pidgin. é o seu mau uso que pode tornar-se um. quando uma pessoa está conversando com um surdo em Libras e na ausência de um sinal resolve oralizar pausadamente. a fim de que o interlocutor o entenda.Língua Brasileira de Sinais – Libras um recurso emergente de comunicação. tem constituição interna própria. Na Libras.

estariam representadas no hemisfério direito do cérebro. espacial. para poder dar conta dessa modalidade. nesse hemisfério. é identificada a propriedade linguística. que determina a compreensão de uma língua. na verdade. que determina a expressividade da fala. enquanto que o esquerdo. É possível falar qualquer coisa em Libras – desde de que o sinalizante tenha fluência –. pela linguagem. especialmente. é dinâmica e com conteúdo absolutamente ilimitado. serve para ver no sentido estrito do termo. As línguas de sinais. No hemisfério esquerdo estão algumas funções mentais como atenção. O que ocorre. é que a função de visão do hemisfério direito tem uma característica funcional. memória e outras. já que é uma língua e que. e a área de Wernicke. minimamente. pois mesmo não havendo palavras comuns entre Libras e português. Nesse sentido. há possibilidade de transmissão do conceito da palavra. de flexibilidade e de versatilidade. Toda língua humana – como a língua de sinais falada pelos surdos – atende aos critérios de criatividade. o cérebro Língua Brasileira de Sinais – Libras 27 . sabem que ele é dividido em hemisfério direito e hemisfério esquerdo. duas áreas responsáveis pelo desempenho de uma língua: a área de Broca. Há pessoas que dizem que as línguas de sinais.Capítulo 1 Levando em conta que um sistema de comunicação superficial é aquele criado para atender a comunicação de máquinas. Diante disso. uma vez que este hemisfério é responsável pelo processamento de informações espaciais. estaria no hemisfério esquerdo. a Libras não se enquadra nesta situação. a Libras não é superficial. e que cada um deles tem uma função diferenciada. por isso. Ao hemisfério direito cabem as propriedades para o desenvolvimento musical. estariam representadas no hemisfério direito do cérebro. assim também como a função do espaço deste hemisfério se relaciona à questão geográfica. Portanto. é a linguagem de programação. que emerge no seio da comunidade e se transforma ao longo do tempo. emocional. basicamente. Pessoas que conhecem. há que se pensar onde se localiza a Libras. ou seja. o cérebro humano. Há. uma vez que esse hemisfério é responsável pelo processamento de informação espacial. A partir daí. por estarem organizadas espacialmente. Sua modalidade é espacial e visual. por estarem organizadas espacialmente. visual. mas. e estas são características alocadas no hemisfério direito. é uma língua natural. artístico. matemático e outros. as considerações que se tinha até então eram de que a Libras instalava-se no hemisfério direito.

houve um período em que eles – um nome bastante conhecido desta época é o Ponce de Leon – se dedicavam à instrução de pessoas surdas. Ele foi o primeiro pesquisador a sistematizar a estrutura gramatical de uma língua de sinais. há também algumas semelhanças de vocabulário nas línguas de sinais do Brasil. emergiram a partir do primeiro trabalho conhecido sobre línguas de sinais nos Estados Unidos. entretanto. posteriormente. em 1960. mas com propriedades distintas. Essas primeiras pesquisas que se prestaram a desmistificar falsas considerações sobre a Libras deram origem a outras. que burlavam a lei do silêncio que imperava nos mosteiros e conversavam por “códigos visuais”. por exemplo). Por isso. então começaram a usar uma língua estruturada para transmitir conteúdos científicos e teológicos. haverá a visão e o espaço. da Língua Francesa de Sinais e da Língua Americana de Sinais são parecidos. Assim. Como exemplo dessa similaridade. no hemisfério esquerdo. Depois disso. chegando ao Brasil no século XX. de William Stokoe. mas não foi o primeiro a usar esta forma de comunicação. alguns sinais da Libras. agora com função linguística que servirá para “ouvir” e “falar” a Libras. pois antes dele já existiam os abades franceses. Assim como existem palavras muito semelhantes no português e no inglês (baby e bebê. e então realiza uma transferência hemisferial. a comunicação espaço-visual se espalhou pela Europa e. para América. EUA e França. citamos os sinais de casa em Libras e na Língua Americana de Sinais: Casa Casa 28 Libras Língua Americana de Sinais FAEL . São os chamados cognatos. Todas elas. Então.Língua Brasileira de Sinais – Libras detecta que a visão e o espaço serão utilizados pela modalidade linguística.

percebe-se que. e a Libras preenche estes requisitos. pois todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. Vejamos cada um deles. usado apenas para se referir a nomes próprios e a objetos que não tenham um Língua Brasileira de Sinais – Libras 29 . Onde houver seres humanos. Fizeram isso utilizando-se da “regra geral” para validação de que uma língua é língua. Não há línguas primitivas – todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. Verdades sobre a Libras: universais linguísticos Para uma língua ser considerada língua. Ao aproximar-se da língua usada pelo grupo de surdos. na verdade. por exemplo. É impossível negar que um grupo de surdos constitui-se como um grupo de seres humanos. Ele é. as palavras são incorporadas ao sistema linguístico de um modo geral. No português. ela não pode ser considerada como uma língua primitiva. Quanto aos empréstimos linguísticos da Libras. isto reitera a existência de uma língua. Assim também acontece com o vocabulário das línguas orais e sinalizadas que. haverá língua(s). passou-se a mostrar a verdade sobre esse sistema de comunicação espaço-visual. Então.Capítulo 1 O que Stokoe e os primeiros linguistas brasileiros fizeram – além de mostrar o falseacionismo dos mitos – foi apontar a natureza da Libras como ela é. A primeira análise feita para atestar o status linguístico da Libras pautou-se numa simples consideração: a de que onde há seres humanos há língua. ela deve passar por todos os testes postulados pelos pesquisadores. deve responder positivamente às questões levantadas. apesar de se apresentar numa modalidade diferente das línguas orais. O vocabulário de qualquer língua pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. por meio da inclusão de palavras novas ao repertório individual. um recurso paliativo. pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. como o de qualquer língua. com empréstimos linguísticos vindos do sequente aportuguesamento destes termos ou. através dos universais linguísticos. ainda. portanto. destacamos inicialmente o alfabeto manual.

Há toda uma dificuldade que se coloca a eles. quando a pessoa está usando o alfabeto manual. explicaremos com mais detalhes a questão de o português ser uma segunda língua para os surdos. 30 a b c ç d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z O alfabeto manual pode ser sinalizado com qualquer uma das mãos. a palavra toda deve ser sinalizada com a esquerda. vale ressaltar que esse recurso é externo à Libras. A letra “T”. Em outros países. enquanto precisam aprender uma língua oral e auditiva. ele é considerado como um empréstimo da língua portuguesa. essa representação é feita de acordo com o alfabeto do idioma local. desde que não alternadamente. às vezes. Posteriormente. Figura 1 Alfabeto manual. Os surdos representam por meio das mãos as letras do alfabeto português. pois os surdos não se relacionam com a língua portuguesa como nós nos relacionamos. Além disso. portanto. deixa de usar a Libras e faz uma transferência de código. pois são usuários de uma língua espacial e visual. É preferível fazer um sinal sinônimo a “escrever” a palavra a que se deseja fazer referência. devemos ter muita cautela para usá-lo. e não uma FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras sinal conhecido na Libras. no caso do Brasil. Por isso. passa a fazer uso do português. então. se há preferência pela mão esquerda. pode ser sinalizada de um jeito no Brasil e de outro nos Estados Unidos.

O desenho no ar é feito em um ponto acima de onde se escreveu inicialmente. O mesmo processo ocorre com a produção dos números da Libras. `. Caso seja necessário escrever mais de uma palavra (nome completo ou palavra composta. devemos ressaltar que dele são extraídos os outros empréstimos linguísticos da Libras. Normalmente. Na língua portuguesa há muitas expressões americanas. indígenas. mas. há também a possibilidade de representação dos acentos das palavras (^. que são usadas pelos falantes Língua Brasileira de Sinais – Libras . a digitalização da palavra passará a ser dispensável das próximas vezes. os quais estão reproduzidos a seguir: Figura 2 31 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Ainda com relação ao alfabeto manual. ~. Um empréstimo linguístico é uma palavra original de um idioma que passa a fazer parte do repertório de um grupo de falantes de outro idioma. pois a realização do sinal vai remeter ao sentido e ao conceito. e deve ser feito antes da letra que receberá o acento. francesas. é comum os surdos pedirem que se escreva a palavra com o alfabeto manual. sem necessariamente tirar a mão do lugar. por exemplo). se escreve com o braço na vertical. na sequência.Capítulo 1 letra com cada mão. deve-se fazer uma palavra numa sequência rítmica e dar uma pausa na última letra para. ou outros motivos. então. No português. Para os nomes de pessoas e lugares. bem próximo ao tronco. iniciar a nova série de letras que serão feitas com o mesmo ritmo. Então. por exemplo: JOS´E. e as letras são feitas uma após a outra. por meio da internet. eles criam um sinal que será usado dali para frente. pela globalização. ´) por meio de desenho no ar com o dedo indicador. há muitos exemplos de palavras que não compunham nosso verbete e que passaram a fazer parte de nossa fala. Além disso.

lingerie. “pragmática”. há uma “enxurrada” de palavras novas as quais não utilizávamos antes. Os empréstimos linguísticos na Libras ocorrem mediante processo de aceleração da escrita do alfabeto manual e. isso ocorre da mesma maneira. “demanda de mercado”. “biomorfologia”. como os termos “paradigma”. “sintático”. “psicanálise”. É o caso de quando entramos na faculdade. algumas vezes. como os expostos a seguir: Neurose Mídia FAEL . delete. diet. Na língua de sinais. etc. entre outras. ligth. Exemplos desses empréstimos são as palavras: stress. Os surdos têm a capacidade de inserir em sua língua palavras novas conforme a necessidade. abajur.Língua Brasileira de Sinais – Libras normalmente. shampoo. podemos destacar que são criados de acordo com a necessidade.Veja um exemplo de empréstimo linguístico da Libras: Bar 32 Em se tratando de termos técnicos e científicos. pela supressão de uma das letras. “piagetiano”. “léxico”. Daí surgem os novos sinais.

que passou para vos mice. é sinalizado conforme imagem a seguir.Capítulo 1 Ambiente virtual de aprendizagem Condicionamento Todas as línguas mudam ao longo do tempo. Podemos verificar que não há permanência vocabular e nem estrutural em nenhuma língua. por exemplo. o amarrar. Atualmente. do sinal mulher. onde era encerrado com um movimento que imitava o lançar. numa imitação de colocar o chapéu. passando o polegar na bochecha. Os sinais que exigem muito “trabalho” para serem realizados sofrem uma economia produtiva e passam a ser realizados de maneira mais simplificada. Mulher 33 Língua Brasileira de Sinais – Libras . esse sinal preserva apenas o trajeto do rosto ao pescoço. depois para você e hoje é comumente tratado por cê ou vc. Então descia do rosto em direção ao pescoço. Na língua de sinais. Assim como ocorreu com o vocábulo vossa mercê. isso também acontece. que era realizado com ambas as mãos postas próximas à cabeça. É o caso. e isto implica dizer que as línguas mudam ao longo do tempo.

é a característica de descontinuidade. As palavras e sinais apresentam uma conexão arbitrária entre forma e significado. Quadros e Karnopp (2004) apontam ainda que. visto que. os sons de f. g. Universais semânticos. Podemos constatar que não há uma relação intrínseca entre a palavra cão e o animal que ele simboliza. Quadros e Karnopp (2004) apontam que há. porém. em todas as línguas. e dado o significado é possível prever a forma. É o caso. apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. são encontrados em todas as línguas. n. Ainda com relação a isso. Toda língua falada inclui segmentos sonoros discretos. a). camada de sons que se combinam e camadas de unidades maiores. mas aplica-se também à estrutura gramatical das línguas. gado. arbitrárias. pois é um sistema distinto do que estamos habituados a usar. Assim como as línguas orais apresentam segmentos sonoros discretos (p. Línguas de sinais apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. Por exemplo. Há ainda outra característica encontrada em línguas orais que se manifestam também nas línguas sinalizadas. igualmente. como “p”. Os símbolos utilizados pelas línguas são arbitrários. mas que cada fonema normalmente não tem significado quando está isolado. por exemplo. Tal característica significa que existe uma gama de unidades que são semelhantes. Tal organização de língua em duas camadas. o e a não tem um significado expresso. expressa a característica de dualidade ou dupla articulação comum às línguas orais e sinalizadas. a característica da dupla articulação. a característica de arbitrariedade das línguas não se restringe à ligação entre forma e significado. em sua maioria. dado. FAEL 34 . Isso pode ser constatado na dificuldade em aprender uma língua estrangeira. fado. ou “a”. d. dada a forma é possível prever o significado. os quais podem ser definidos por um conjunto de propriedades ou traços. Toda língua falada tem uma classe de vogais e uma classe de consoantes. como fêmea ou macho. quando os combinamos de diferentes maneiras. “n”.Língua Brasileira de Sinais – Libras As relações entre sons e significados das línguas faladas e entre gestos (sinais) e significados das línguas de sinais são. em torno de trinta ou quarenta. mas ganha um significado quando é combinado com outras unidades mínimas. as línguas de sinais. de fogo. podemos encontrar significados. pois elas diferem umas das outras.

Todas as línguas apresentam categorias gramaticais (ex: substantivo. presente e futuro. verbo). Todas as línguas possuem formas para indicar tempo passado. promessas. mas apresentam diferença considerável no significado. sabemos que tanto as línguas orais quanto as de sinais podem fazer referência ao passado. formam um conjunto infinito de sentenças possíveis. bem como universais semânticos tais como a distinção fêmea/macho. sendo assim. A criatividade e a produtividade são apontadas por Quadros e Karnopp (2004) como propriedades que possibilitam a construção e a interpretação de novos enunciados. a realidades remotas ou. As línguas não se fixam apenas nos parâmetros fonológicos. comando. a coisas que não existem e que os falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender em um conjunto infinito de sentenças. verbo e outros). ordens. etc. pois tanto línguas orais como sinalizadas apresentam categorias gramaticais (substantivo. os quais. pergunta. Língua Brasileira de Sinais – Libras 35 . É o caso das palavras faca e fada. Quadros e Karnopp (2004) apontam que essa flexibilidade e versatilidade é uma característica comum a todas as línguas. perguntas ou afirmações. pois podemos usar a língua para dar vazão às emoções e sentimentos. No concernente à sintaxe. para formação de palavras e sentenças. para fazer ameaças. os falantes têm a liberdade de agir criativamente. para fazer solicitações. isto significa que as palavras podem diferir de maneira mínima na forma. Todos os sistemas linguísticos têm a possibilidade de construção e compreensão de um número infinito de enunciados. Falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender um conjunto infinito de sentenças. por sua vez. Todas as gramáticas contêm regras de um tipo semelhante. que são escritas e faladas de maneiras diferentes. Esse fenômeno demonstra a característica de descontinuidade da diferença formal entre forma e significado. Todas as línguas humanas utilizam um conjunto finito de sons discretos (ou gestos) que são combinados para formar elementos significativos ou palavras. Universais sintáticos revelam que toda língua possui meios de formar sentenças.Capítulo 1 Tal fenômeno está em oposição à variação contínua. ainda. negação.

Então. mas em todas as línguas de sinais e orais. Esses modos distintos na fala de cada região são os chamados dialetos. é possível conversar sobre diversos assuntos. que se prestam a designar a mesma coisa. aipim e mandioca. o modo de sinalizar é diferente se o interlocutor for uma autoridade ou se forem colegas na rua. respectivamente. Podemos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. que existem não só na Libras. por meio dela. e todos esses novos modos serão carregados de peculiaridades da região onde o grupo está localizado. haverá abertura para criação de novos falares ou modificação nos falares produzidos. nas cidades de São Paulo. revela-se a criatividade que o falante tem para inventar novas palavras e de ter um estilo próprio de fala. assim. mesmo cada país adotando uma língua de sinais própria. inclusive utilizar-se de diferentes estilos de fala em diferentes ocasiões. como ocorre com o português. Isso ocorre com a Libras. perceber que a Libras é bastante complexa em sua estrutura gramatical e que. por exemplo. Rio de Janeiro e Curitiba. 36 Fonte: imagens adaptadas de Strobel e Fernandes (1998). não é possível estabelecer uma homogeneidade linguística por todo seu território nacional. e estes diferentes registros discursivos são manifestados por meio da velocidade dos movimentos e do espaço FAEL . Vejamos um exemplo do regionalismo da Libras nas imagens a seguir. pois. nas palavras macaxeira. Sempre que houver a reunião de um grupo de sinalizadores. Trata-se de três sinais diferentes que se referem à palavra verde.

Assim também acontece na comunicação em Libras. sem significar uma briga. Ampliam os movimentos dos sinais. pois tem tanta completude que possibilita ao falante fazer escolhas diferenciadas de sinais. contém marcas de formalidade e de informalidade. pois sinalizam muito rápido e tem bastante expressividade. Ao articular os fonemas da nossa língua portuguesa – um após o outro –. também falamos muito alto e somos extravagantes. podemos ver como é possível o falante de Libras transitar entre diferentes estilos discursivos. se o contexto de fala é informal. Os surdos sinalizam rapidamente um sinal após o outro. Esse dado reitera que a Libras é uma língua que. Qualquer criança. mas uma fala normal. na grande maioria. vocalizará alguns sons. de acordo com os tipos de situações experimentadas. provavelmente. de qualquer origem racial. provavelmente usará o espaço a frente do seu corpo com certo limite. ou seja. elas aprendem Língua Brasileira de Sinais – Libras 37 . geográfica. elas têm a impressão de que estão brigando. Um fenômeno elucidativo sobre esse assunto é quando as crianças surdas estão aprendendo a Libras. mas o “tom” elevado da fala. Dessa forma. nascida em qualquer lugar do mundo. Essa impressão equivocada ocorre porque as pessoas não sinalizantes deixam de considerar que. quando estamos conversando. e isto ocorre da mesma forma com o surdo. com os braços bastante alargados e. Porém. todas as palavras se ligam entre si na constituição da frase e do discurso. inclusive. isso não denota agressividade ou briga por parte deles. No entanto. Se o surdo quer ser bastante formal em sua fala. é capaz de aprender qualquer língua à qual é exposta. ele sinalizará com muita expressão facial. social ou econômica. Inicialmente. não nos damos conta de que são produzidos juntos. Quando os ouvintes veem os surdos conversando. quando nós estamos em contextos informais. O fato é que os surdos estão tendo uma conversa como outra qualquer. vai até a cabeça e não se estende muito para os lados. O espaço para sinalização se inicia acima do quadril. também falamos muito rápido. tem o espaço de sinalização bastante elevado e produzem muita expressão facial. Além disso. Os surdos igualmente agem assim.Capítulo 1 utilizado para sinalização.

a qualidade do input e outros. portanto. começa a aprender o sinal de sorrir (conforme figura a seguir). a localização e o movimento –. as línguas humanas – e. para que a auxilie. Assim. depois “babababa”. inconscientemente. nos aponta para uma característica das línguas humanas. mas tem dificuldade para fazer a configuração apresentada. A criança gosta do sinal. Tomamos como exemplo uma criança quando estava com dois anos e. que começam a balbuciar “aaaaa”. igualmente. Toca no filho e ajeita sua mão para que realize o sinal de forma correta. fazendo a intervenção devida. há exigência de que os elementos fonológicos sejam adequadamente produzidos na realização dos sinais. Conforme já apresentamos.Língua Brasileira de Sinais – Libras as unidades mínimas de maneira isolada. cada um dos três parâmetros – que são a configuração de mão. além de mostrar a importância do adulto no contexto de aquisição da linguagem. até formar palavras completas. FAEL . não consegue reproduzir da mesma forma a configuração de mão. A mãe age com um input favorável. até que aprende os três parâmetros e consegue realizar com precisão o sinal de sorrir. na Libras: a regularidade. Isso também ocorre com as crianças surdas. Solicita à mãe por várias vezes. a Libras também – têm parâmetros de realização que não podem ser alterados para sua efetiva comunicação. em diálogo com a mãe. sorri quando a mãe a repreende pelo mau jeito na realização do sinal. e a criança imita corretamente a localização e o movimento. porém. como fazem as crianças ouvintes. A mãe ensina. 38 Esse jogo discursivo. presente.

é preciso que haja um desprendimento para aprender a se comunicar e se relacionar com os surdos. Perguntas: ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● Qual é o seu nome? Qual é o seu sobrenome? Quantos anos você tem? Qual é o nome da sua rua? Qual é o nome do seu bairro? Qual é o nome da cidade em que você mora? Qual o nome da sua mãe? Qual a idade da sua mãe? Qual o nome do seu pai? Qual a idade do seu pai? Qual o nome dos seus irmãos? 39 Síntese Neste capítulo. o professor pode colar cartazes pela sala com o alfabeto manual e com os números.Capítulo 1 Da teoria para a prática Para aderir à ideia da diversidade linguística em sala de aula. a chamada inclusão. Muito mais do que saber a forma de tratamento dessas questões. utilizando as letras manuais. os paradigmas sobre a pessoa surda e sua língua passaram por reformas não só no que se refere à terminologia – surdo e Libras –. Isso pode se dar por meio Língua Brasileira de Sinais – Libras . mas na forma de relacionamento com esta nova realidade. Explicamos que. nessa fase. pode colocar algumas perguntas no quadro e promover que dois alunos participem: um pergunta e o outro responde. tratamos das definições preliminares e apresentamos ao leitor a fase histórica pela qual a sociedade está passando. Então.

Dessa forma. é o que ela consegue falar. FAEL . ou seja. 21). foi preciso muito esforço para desmitificar os mitos que havia. assim como foi preciso arrolar alguns pressupostos universais na análise desta modalidade expressiva. para que houvesse todo o reconhecimento social e acadêmico que hoje existe quanto ao status desta língua. p. dos empréstimos linguísticos. Pidgin É um sistema de comunicação precário. de um jeito mais informal ou por meio de leituras e pesquisas linguísticas.Língua Brasileira de Sinais – Libras do alfabeto manual. pois. 2008. os surdos foram brindados com a oficialização da sua língua por determinação legal. Nesses termos. Output É a forma como a criança expressa o input que recebeu. percorremos com o leitor o mesmo percurso adotado no processo de valoração da Libras. porque aparece em situações extremas de barreiras à comunicação (MCCLEARY. Glossário 40 Input É o sinônimo para estímulo linguístico. todas as influências verbais que são dadas às crianças quando estão aprendendo a falar. as pesquisas não mais se prestam a “comprovar” que a Libras é uma língua. Atualmente. o que faremos no próximo capítulo. É uma língua emergencial. mas já podem se focar em conhecer o comportamento de uma língua espaço-visual e tecer análise gramatical sobre ela.

Além dos fonemas. quando nos referirmos aos fonemas. o sintático. definição que torna o conceito suficientemente abstrato para abranger não apenas representações psíquicas de sons. o morfológico. a forma do significante refere-se a uma imagem acústica convencional. Stokoe empregou a terminologia “querema”. Porém. Para resolver tal impasse. não caberiam considerações fonológicas para a Libras. Nesse sentido. apresentaremos cada um destes aspectos linguísticos relacionados à Libras. abstraída de realizações fonéticas concretas e infinitamente variáveis. Para o pai da linguística. que se ocupa em estudar as unidades mínimas da composição das palavras. as línguas naturais também são compostas por morfemas e palavras. atualmente. 2008). ao invés de fonema. Aspectos fonológicos É no nível fonológico que se encontram as considerações acerca dos fonemas – conceituados como unidade mínima do som. mas também de gestos (LEITE. Assim. já que ela é uma língua espaço-visual que não tem som. Neste capítulo. os pesquisadores de língua de sinais abandonaram o termo. que busca a relação das palavras e o sentido que elas têm.Estrutura gramatical da Libras T 2 41 odo sistema linguístico é organizado em níveis de análise. Por dupla articulação. Esse linguista diz que todas as línguas humanas possuem a dupla articulação. por entender o apontamento de Saussure (1970) quanto a isto. e o semântico. sendo os principais: o fonológico. estamos fazendo menção às unidades mínimas que compõem a língua. que se ocupa com as escolhas das palavras. que se ocupa em organizar as palavras na frase. para o estudo das unidades mínimas da língua de sinais. entendemos um plano de conteúdos (composto . e estas duas articulações – fonemas e morfemas – é que norteiam a dupla articulação apontada por Martinet (1978).

esses parâmetros não têm conteúdo significativo (capaz de compor significação). conforme Leite (2008). Ônibus 42 Configuração de mão Movimento Localização O mesmo fenômeno ocorre com os sinais: avião e carro. por meio da junção das articulações dos fonemas. Podemos constatar tal fenômeno. Limitando-nos inicialmente à segunda articulação – fonemas –. vemos que Stokoe (1960) propôs três componentes da estrutura interna dos sinais: configuração de mão (CM). É bom lembrar que ambas as articulações são restritas nas línguas naturais. mas que sua combinação pode originar um número irrestrito de possibilidades significativas. podemos formar conteúdos irrestritos.Língua Brasileira de Sinais – Libras por morfemas e palavras) e um plano isento de conteúdos (composto por fonemas). localização (L) e movimento (M). também é composta pela dupla articulação. Isoladamente. porém. Como a Libras é uma língua natural. quando os unimos. Carro Movimento Configuração de mão Localização FAEL .

Essas configurações podem dar origem a sinais da Libras se forem produzidas apenas com uma mão. Quadros e Karnopp (2004). por sua vez. considerando a inexistência de identificação quanto às configurações de mão básicas e às configurações de mão variantes. que registra 46 configurações diferentes. apontam que essas configurações de mão são representações do sistema fonético da língua. com as duas mãos produzindo configurações de mão diferentes ou. ainda. isoladamente. mas não se restringem a elas. encontramos 64 configurações de mão. analisaremos cada um deles em sua composição. Para as configurações de mão da Libras temos o quadro de Brito (1995). mas ambas com configurações de mão iguais. conforme podemos verificar na figura a seguir. Já em Felipe (2001). os parâmetros não transmitem significado. com as duas mãos. a fim de entendermos melhor a formação dos sinais. Algumas dessas configurações de mão correspondem às letras do alfabeto manual. Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Avião Movimento Configuração de mão Localização Mesmo percebendo que. 43 Configuração de mão O primeiro parâmetro – configuração de mão – refere-se à forma que a mão assume na realização do sinal.

pois o seu sentido não será alterado. Configuração de mão com apenas uma mão: este é o tipo de sinal que pode ser produzido com qualquer uma das mãos. expomos alguns exemplos a seguir.Língua Brasileira de Sinais – Libras Figura As 64 configurações de mão da Libras. 44 Fonte: adaptado de Felipe (2005). A fim de elucidarmos as possibilidades de formação de sinal a partir da configuração de mão. FAEL .

Capítulo 2 Aluno Professor Lápis Caneta 45 Cola Tesoura Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Vestibular Português ou Ciências História 46 Uniforme Educação FAEL .

Curso Pós-graduação Mestrado Educação artística 47 Estudos sociais Intervalo Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Duas configurações de mão diferentes.

mas a ordem de predominância será mantida. Em outros casos parecidos com esse. FAEL . Por condição de dominância o autor entende a ocorrência de sinais nos quais uma das mãos assume o papel ativo e. A primeira é a condição de dominância. Antes de falarmos sobre a condição de simetria. nesse caso. um papel passivo. e que realiza movimentos apenas com uma das mãos. Duas configurações de mão iguais: sinais desta natureza são formados por duas configurações de mão iguais.Língua Brasileira de Sinais – Libras Redação Apontador 48 Atendo-nos ao primeiro sinal. que se realizam com ambas as mãos moldando-se com a mesma configuração de mão e com a realização de um movimento simultâneo e simétrico. serve de base. a outra. Sobre a realização de um sinal que contém duas configurações de mão diferentes. uma mão será a base e a outra ativará o movimento. encontramos em Battison (1974) duas restrições. e a segunda é a condição de simetria. vejamos a realização de um sinal com as duas configurações de mão iguais. A mão passiva. que limitam consideravelmente as possibilidades articulatórias dos sinais. É o caso dos sinais apresentados a seguir. de apoio para a realização do movimento da mão ativa. e a mão ativa se forma em c. vemos que nesse tipo de construção a primeira configuração de mão é a base que se forma em b. outras configurações de mão poderão ser realizadas. ou seja.

Capítulo 2 Sala Geografia Caderno Régua 49 Mochila Prova Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Matemática Educação física Química Nota 50 1 2 Dividir Multiplicar FAEL .

precisamente entre a cabeça e o quadril). podendo ser no próprio corpo do sinalizador ou no espaço neutro (espaço “vazio” a frente do corpo do sinalizador. Sinalização no espaço neutro: Tartaruga Hipopótamo 51 Foca Mosca Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Retomando as restrições articulatórias de Battison (1974). em casos de sinais como os que mostramos. temos que. em que as duas mãos estão ativas e realizam o mesmo movimento. conforme imagens a seguir. Locação O segundo parâmetro – a locação – refere-se ao espaço onde o sinal será realizado. há a condição de simetria estabelecida.

Dentro desses pontos principais estão as subdivisões. conforme Brito (1995). Subdivisões dos principais pontos de locação: Macaco Boi Sinal com locação na cabeça Sinal com locação na testa FAEL . a saber: cabeça. tronco e mão. três pontos principais de locação. tais como os exemplos que seguem.Língua Brasileira de Sinais – Libras Urso Jacaré Peixe Borboleta 52 Há.

Capítulo 2 Galinha Rato 1 2 Sinal com locação no rosto Papagaio Sinal com locação na bochecha Pato 53 Sinal com locação no queixo Cobra Sinal com locação na boca Coruja Sinal com locação no pescoço Sinal com locação nos olhos Língua Brasileira de Sinais – Libras .

velocidades e frequências. eles podem ser produzidos com diferentes tensões. Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes tipos de movimento. o terceiro – e principal – parâmetro. sendo possível produzi-los de forma unidirecional. bidirecional ou multidirecional. Em Strobel e Fernandes (1998). circular. é bastante complexo. retilíneo. considerando sua vastidão de possibilidades. FAEL . helicoidal e angular.Língua Brasileira de Sinais – Libras Porco Sapo Sinal com locação no nariz Dinossauro Sinal com locação no braço Zebra 1 54 2 Sinal com locação na mão Sinal com locação no tronco Movimento Movimento. semicircular. vemos que os movimentos podem ser do tipo sinuoso. Além disso.

Capítulo 2 Espelho Telhado 2 1 Movimento sinuoso Xícara Movimento sinuoso Porta 2 55 1 Movimento semicircular Jardim Movimento semicircular 2 1 Movimento circular Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Cerca 1 2 Movimento retilíneo Liquidificador 56 Movimento helicoidal Eletricidade Movimento angular FAEL .

destacamos a orientação de mão e as expressões não manuais. para fora. quando associados. Citemos alguns: Laranja / sábado Aprender 57 Cantar Comunicar Além desses parâmetros. A orientação de mão é a direção que a palma da mão assume na realização do sinal. A palma da mão pode estar voltada para cima.Capítulo 2 O primeiro. em que há apenas uma sutil diferença na pronúncia dos fonemas f e v. estes sinais se distinguem por alteração apenas em um dos parâmetros. às vezes. No português. Na Libras. temos muitos casos como estes. Nesses casos. para baixo ou para o corpo de quem sinaliza. o segundo e o terceiro parâmetro. os chamados pares mínimos podem ser exemplificados pelas palavras faca e vaca. podem formar muitos sinais da Libras e. para Língua Brasileira de Sinais – Libras . ocorre um fenômeno presente também nas línguas orais: os pares mínimos.

exemplos de sinais isolados com expressão facial. conforme Quadros e Karnopp (2004). A seguir. referência pronominal. mas. sim. Ir de frente para trás. Ir da esquerda para a direita. referem-se às expressões faciais e aos movimentos do corpo produzidos durante a realização do sinal. negação. Ir de trás para frente. referência específica. Esses movimentos também podem ser realizados isoladamente para marcar construções sintáticas – marcar sentenças interrogativas. grau ou aspecto. assim como ocorre nas línguas naturais. 58 As expressões não manuais.Língua Brasileira de Sinais – Libras a esquerda e para a direita. concordância. Ir da direita para a esquerda. tópico e foco. advérbios. já que neste momento não abordaremos a construção das frases. bem como para marcar afetividades. relativas. As expressões faciais não são recursos adicionais ou dispensáveis na Libras. FAEL . Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes orientações para o sinal de ir. obrigatórias nas construções sintáticas.

Capítulo 2

Bravo

Triste

Feliz

Cansado

59

Bondoso

Humilde

ou

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Esquisito

Tímido

Calmo

Inocente

60
ou

Doido

Esnobe

FAEL

Capítulo 2

Vaidoso

Chato

Chorão

Tarado

61

Podemos perceber que a realização desses sinais fica condicionada ao uso das expressões faciais, até por uma questão de coerência, pois não seria muito lógico produzir o sinal de triste com um sorriso no rosto ou, então, o sinal de feliz com uma expressão de cansaço e tristeza. Certamente, nosso interlocutor questionaria nossa produção e precisaríamos definir qual a mensagem a transmitir: a do rosto ou a das mãos. Isso porque há sinais produzidos apenas com a expressão facial, com a dispensa de qualquer realização manual. Na Libras, há dois tipos de expressões faciais: as que se prestam a marcar argumentos gramaticais e as que são de cunho afetivo. Neste texto, abordaremos apenas o primeiro tipo e, como exemplo, vejamos os sinais de roubar e sexo:
Língua Brasileira de Sinais – Libras

na Libras. primeiramente. 62 Aspectos morfológicos da Libras Se estivermos entendendo que o nível morfológico é aquele que compreende o trabalho de seleção das palavras. eles apresentam significado isoladamente. às vezes. dentro das palavras. conforme Felipe (1998). pois. os fonemas /a/ e /o/ podem ser artigos ou desinências de gênero. 2001). Do mesmo modo.Língua Brasileira de Sinais – Libras Roubar Sexo Assim sendo. os parâmetros fonológicos também podem ser comparados a morfemas. FAEL . Entretanto. “palavra é a unidade mínima que pode ocorrer livremente em várias posições sintáticas”. Segundo Sandalo (2001. pode constituir um morfema. p. por exemplo. 183). Esses elementos. Na Libras. os fonemas podem ter a natureza de um morfema. determinada configuração de mão. se faz necessário. Assim como ocorre com o português. há elementos que carregam significado. passemos a algumas considerações teóricas quanto à morfologia e à sintaxe da Libras. A seguir ilustramos alguns sinais que podem ser considerados morfemas. é que são as unidades mínimas da morfologia (SANDALO. chamados de morfemas. definirmos o que entendemos por palavra. assim como o fonema /s/ pode indicar o plural. por exemplo.

Capítulo 2 Dois meses Três meses Quatro meses Um dia 63 Dois dias Três dias Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Uma semana Duas semanas Três semanas 64 Vemos que. elas constituem um morfema preso. Os sinais reproduzidos na sequência são exemplos de que a articulação conjunta de cada um dos parâmetros é que forma o significado. nesses sinais. as configurações de mão carregam o significado do numeral. ou seja. 2004). Em alguns sinais. no entanto. resultam em uma unidade com significado. KARNOPP. mas somente com os morfemas que indicam os meses. os dias e as semanas (QUADROS. não podem ocorrer isoladamente. Nesse caso. quando articulados juntos. os parâmetros – isoladamente – não constituem morfemas. mas. FAEL .

Capítulo 2 Ontem Hoje Amanhã Passado 65 Futuro Ano Língua Brasileira de Sinais – Libras .

em que apenas a configuração de mão se modifica. via alteração de movimento e via alteração da expressão facial. 2004. o movimento. a configuração de mão que representa o numeral se combina com outro morfema preso para formar um sinal. 1998. Dadas as primeiras definições. Ainda. a locação e a orientação constituem um único morfema. 66 Nesse processo. A seguir vemos o contraste entre os sinais dos verbos e a formação de palavras de negação. QUADROS. passemos a discussão da incorporação da negação. por exemplo) e morfemas gramaticais (movimento). Um dos processos de formação de palavras é por meio da incorporação de numeral e de negação. um morfema livre. um dos parâmetros do sinal é alterado. FELIPE. nesse caso. em especial o parâmetro do movimento. 2008). 1995. passemos às considerações dos processos de formação e classificação de palavra (BRITO. altera-se somente a expressão facial do sinalizador. Em alguns casos. No caso da incorporação de numeral. Como já discutimos acerca desse ponto quando exploramos a constituição de sinais que representam morfemas. de acordo com Brito (1995). KARONOPP. LEITE.Língua Brasileira de Sinais – Libras Percebemos que a configuração de mão. há na Libras morfemas lexicais (o sinal de sentar. Ter Não ter Parâmetro movimento alterado FAEL .

Capítulo 2 Saber 1 Não saber 2 Parâmetro movimento alterado Gostar Não gostar 67 Parâmetro movimento alterado Querer Não querer Parâmetro movimento alterado Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Poder Não poder Parâmetro configuração de mão alterado Conhecer Não conhecer 68 Parâmetro expressão facial alterado Entender Não entender Parâmetro expressão facial alterado FAEL .

conforme exemplos: Não responder Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Precisar Não precisar Parâmetro expressão facial alterado Aceitar Não aceitar 69 Parâmetro expressão facial alterado Além desses processos morfológicos que caracterizam formação de palavras. a negação também pode ser formada pela adjunção do sinal não ao respectivo sinal.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Não sofrer Não terminar Não resolver 70 Há. Casa + cruz = igreja Casa + estudar = escola FAEL . outro processo morfológico que acontece pela combinação de dois morfemas lexicais. resultando em uma composição. Vejamos nos exemplos a seguir que um sinal pode ser formado por dois sinais independentes que se unem para formar uma palavra composta. ainda.

Capítulo 2 Casa + carne = açougue Casa + pão = padaria 1 2 Boi + leite = vaca 1 Cavalo + listras = zebra 1 71 2 2 Mulher + cruz = enfermeira Mulher + benção = mãe 1 2 Língua Brasileira de Sinais – Libras .

na Libras. Isso significa que.Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + benção = pai Espaço redondo + lavar corpo = banheira 2 1 2 O mesmo processo morfológico ocorre em relação à formação de palavras que denotem gêneros. um que se refere ao elemento morfológico neutro e outro que se refere à marcação de gênero. por meio da combinação de dois morfemas lexicais. 72 Homem + cunhado(a) = cunhado Mulher + cunhado(a) = cunhada 1 1 2 2 Homem + sogro(a) = sogro Mulher + sogro(a) = sogra 1 2 1 2 FAEL . o gênero é dado pelo processo de composição morfológica.

Capítulo 2 Homem + primo(a) = primo Mulher + primo(a) = prima 1 1 2 2 Homem + tio(a) = tio 73 Mulher + tio(a) = tia Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + irmão(ã) = irmão Mulher + irmão(ã) = irmã 74 Homem + sobrinho(a) = sobrinho Mulher + sobrinho(a) = sobrinha FAEL .

conforme exemplos a seguir.Capítulo 2 Não obstante. a formação de palavras que denotam “categorias” também passa pelo processo de composição. Maçã + vários = frutas Alface + vários = verduras 1 1 2 2 Arroz + vários = cereais Leão + vários = animais 75 1 2 Batata + vários = legumes Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Da mesma forma se configuram estes outros sinais. na locação perto da orelha e com movimentos curtos. firme e único. mas o movimento é mais alongado. firme e feito mais de uma vez. Se o movimento for alongado. pode dar a ideia de telefonar várias vezes. o que sabemos é que um nome pode derivar de um verbo por meio da repetição e do encurtamento do movimento do verbo.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com relação à classificação das palavras. leves e repetitivos na direção do espaço a frente do corpo do sinalizador. como é o caso destes sinais: Telefone Telefonar 76 O sinal de telefone é produzido com a configuração de mão em y. que diferem sua classificação nominal ou verbal pela alteração do parâmetro movimento: Cadeira Sentar FAEL . O sinal de telefonar tem a mesma configuração de mão e a mesma locação.

Capítulo 2 Comida Comer Pente Pentear 77 Foto Fotografar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Esses verbos não são produzidos por processo de flexão. a saber: os verbos simples. FAEL . os verbos manuais e os classificadores. processo distinto do que ocorre com os verbos vistos na seção flexão. destacamos neste momento três tipos deles. independente da construção da frase. ilustramos alguns verbos simples da Libras.Língua Brasileira de Sinais – Libras Casa Morar Bebida Beber 78 Ainda com relação aos verbos da Libras. Constituir-se como um verbo simples significa que. A seguir. os que se enquadram nesta categoria serão abordados na próxima seção. os parâmetros fonológicos que compõe o sinal serão mantidos.

Capítulo 2 Quebrar Rir Sentir Sujar 79 Trabalhar Viver Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Sonhar Gritar ou Trair Tentar 80 Ouvir Opinar FAEL .

Ainda que seja para se referir a outra pessoa do discurso. com a mesma configuração de mão e com a mesma orientação. o verbo será produzido do mesmo modo. na mesma localização. apontamos que são aqueles que se configuram pela incorporação do objeto a que se referem. Com relação aos verbos manuais. Eles podem ser considerados icônicos pela representação da realidade. pois estas partes são o lugar de localização do sinal. Alguns exemplos: Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Roubar Salvar / apoiar Morrer Preocupar 81 A maioria desses verbos é produzida nas partes do corpo do sinalizador.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Abrir (o pote) Cozinhar Mendigar Limpar (janela) 82 Costurar Escrever FAEL .

Capítulo 2 Cortar (com tesoura) Dormir Lavar (a roupa) Os classificadores são aqueles verbos que têm sua configuração de mão inicial (sinal raiz) alterada por influência da semântica. o sinal foi classificado em sua semântica. 83 Língua Brasileira de Sinais – Libras .M. e preservação do movimento. Então. haverá alteração da C. que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir ao chão. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. do léxico ou da sintaxe. este sinal remete à ideia da ação que ocorre com uma pessoa. com o parâmetro configuração de mão alterado. Classificador do verbo cair (papéis) Se for preciso referir-se a mesma ação de cair. Isso é perceptível pela configuração em v. Assim. mas alguns papéis. apresentamos a seguir o sinal raiz de alguns verbos e o sinal classificador. Verbo cair Originalmente. porém.

Classificador do verbo andar (de carro) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar.Língua Brasileira de Sinais – Libras Verbo andar Originalmente. Isso é perceptível pela configuração em v que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir à frente. porém. o sinal foi classificado em sua semântica. o sinal foi classificado em sua semântica. Postas as questões preliminares dos processos morfológicos da Libras. Então. Classificador do verbo andar (de uma cobra) Se é preciso referir-se a mesma ação de andar. haverá alteração da C. do movimento e da localização. especialmente aqueles formados por flexão. mas um carro. e preservação da direção. no entanto.M. do movimento e da localização. haverá alteração da C. haverá alteração da C. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma cobra. FAEL . passaremos a conhecer os processos morfológicos mais complexos. haverá alteração da C. do movimento e da localização. Então..M. mas um gato. Então. Então o sinal foi classificado em sua semântica. 84 Classificador do verbo andar (de um gato(a)) Se for preciso referir-se a mesma ação de andar. o sinal foi classificado em sua semântica. Classificador do verbo andar (de uma galinha) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar.M. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma galinha.M.. este sinal remete à ideia da ação realizada por uma pessoa. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa..

Sendo assim. também. (1985) associa. O primeiro processo. indicando uma modalidade específica.Capítulo 2 Flexão Segundo Câmara Jr. segunda e terceira pessoa. sendo que estas são impostas pela própria natureza da frase. Isso demonstra que a flexão é definida como um processo pelo qual uma palavra é adaptada a um contexto. possessivos. No português. o termo “flexão” tem sua origem na língua alemã. (1985). Na Libras. a obrigatoriedade e a sistematização coerente. e os primórdios de sua utilização aconteceram na indicação do desdobramento de uma palavra em outros empregos. e podem aparecer no singular ou no plural: Singular 1ª pessoa – eu Nós dois 85 Plural Nós três Nós quatro Nós grupo Língua Brasileira de Sinais – Libras . constituindo uma ideia acessória em que o significado base não é alterado. demonstrativos. É nesse escopo da morfologia flexional que se destacam os processos de flexão nominal e verbal. o autor assinala que a flexão se apresenta sob o aspecto de desinências ou sufixos flexionais. há pronomes pessoais. com o acréscimo de uma desinência correspondente à função que exerça na frase. Câmara Jr. interrogativos e indefinidos. de flexão nominal. conforme ilustrados a seguir. numa relação fechada. Para ele. pode ser explicitado por meio dos pronomes. vamos conhecer cada um deles. de acordo com a natureza desta. ao conceito de flexão. a flexão é a formação de uma palavra por meio de um morfema. ● Pronomes pessoais podem representar primeira.

que se voltam para o local referenciado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Singular 2ª pessoa – você Vocês dois Plural Vocês três Vocês quatro Vocês grupo 3ª pessoa – ele(a) Eles(as) dois/duas Eles(as) três Eles(as) quatro Eles(as) grupo 86 ● Os pronomes demonstrativos são iguais aos advérbios de lugar. Este(a) aqui Esse(a) aí Aquele(a) lá FAEL . Sua realização sempre vem acompanhada da direção dos olhos.

Capítulo 2 ● Pronomes possessivos: Meu (minha) Teu (tua) Seu (sua) ● Pronomes interrogativos: em alguns aspectos. incorporam alguns advérbios de tempo. Que? / Quem? Porque ou por que? 87 Onde? Quando? 2 1 Língua Brasileira de Sinais – Libras . A realização desses pronomes sempre vem acompanhada de expressão facial.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Como? Qual? Quantos(as)? ● Pronomes indefinidos: Ninguém Nada = sem 88 Nenhum Nada FAEL .

é a modificação paramétrica capaz de apresentar distinções para “tamanhos”. nos quais constam alterações das expressões faciais.Capítulo 2 Já a flexão para grau. Casa Casinha Bonito(a) Bonitinho(a) 89 Legal Legalzinho(a) Língua Brasileira de Sinais – Libras . alguns exemplos para flexão nominal de grau. A seguir.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Alto(a) Altão (altona) Calor Calorão 90 Inteligente Inteligentão (inteligentona) FAEL .

Se o receptor da fala está à esquerda. Assim.Capítulo 2 Quanto à flexão verbal. A seguir. locativo e aspecto. o ponto inicial do movimento permanece sendo na boca. ser concordado para ele(a) me falou. número. para todas as diversas localizações possíveis para o receptor. temos o verbo falar. a concordância na Libras está na sentença: eu falo para você. temos a possibilidade de flexão para pessoa. Os verbos que se flexionam em pessoa são chamados de verbos com concordância. será na localização que está referenciada para o objeto (segunda pessoa do discurso). Ocorre que. a primeira pessoa do discurso – eu – falo (verbo com concordância) para a segunda pessoa do discurso – você. apresentamos alguns exemplos de verbos que concordam com a pessoa do discurso.Concordância do verbo falar: Língua Brasileira de Sinais – Libras 91 . Falar O verbo falar é produzido com a configuração de mão em y (mão fechada. dedos mínimo e polegar abertos). em alguns casos. A localização inicia-se com o polegar próximo a boca do sinalizador e movimenta-se na direção de quem receberá a fala. e assim sucessivamente. a direção do movimento será à direita. Como primeiro exemplo. anteriormente ilustrado. ao invés de ser na boca. haverá inversão do ponto inicial do sinal que. Isso que dizer que se a pessoa que será o receptor está à direita do emissor. a trajetória do movimento é oposta: inicia-se no objeto indo em direção ao sujeito. Esses verbos são chamados de verbos reversos (backward verbs). mas a trajetória do movimento será à esquerda. É o caso do sinal falar. ou seja. Nesse caso.

entretanto. entendemos que há um processo morfologicamente complexo 5 Maiores detalhes sobre as transcrições adotadas no texto estão expostos no capítulo 3.Língua Brasileira de Sinais – Libras 1s Falar2s 5 2s Falar1s 92 Falar3s 2s Explicando a concordância para os sinais apresentados anteriormente. Adiantamos. que as pessoas do discurso são transcritas como: 1s = 1 pessoa. e assim sucessivamente. FAEL .

pois. segundo Meir (2002). ● Um morfema direcional – o movimento da trajetória. ● Um afixo verbal – a orientação da mão. denominado DIR (directional).Capítulo 2 envolvido nesta realização. é possível visualizar três componentes: ● A raiz do verbo falar. O mesmo processo pode ocorrer com os seguintes verbos: Perguntar Ver Mandar Dar Responder Visitar 93 Mostrar Mudar Obedecer Língua Brasileira de Sinais – Libras . que marca o argumento semanticamente.

uma delas é a diferenciação entre singular e plural. FAEL . apresentamos alguns exemplos do sinal entregar com concordância para número e outros. dando a indicação de flexão para número e depois a marcação diferenciada pelas palavras no singular e no plural. A seguir. do dual. dar para três pessoas. na Libras existe a possibilidade de várias formas de substantivos e verbos apresentarem a flexão de número. Além disso. apontamos que pode ocorrer com os mesmos verbos colocados anteriormente (verbos com concordância) e há. mostrar para quatro pessoas ou ver todas as pessoas. do trial e do múltiplo. A flexão de número refere-se à distinção feita para um. neste caso. Vejamos outros verbos de concordância. dois. o sinalizador pode referir-se a.Língua Brasileira de Sinais – Libras Mexer Paquerar Pedir Influenciar Matar Pagar 94 Em relação à flexão para número. Assim. três ou mais referentes. por exemplo. perguntar para duas pessoas. realizada por meio da repetição do sinal. possibilidade de indicação do singular.

Capítulo 2

Concordância do verbo entregar:
1s

Entregar

2s

1s

Entregar

2s + 3s

95

1s

Entregar2s + 3s + 4s

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

1s

Entregar vários

96

1s

Entregar grupo6

6 Uma variação possível desse sinal é a realização do movimento com ambas as mãos, denotando, desta forma, a ideia de entregar para muitas pessoas ou entregar para um
grupo grande.

FAEL

Capítulo 2

Agradecer uma pessoa

Abandonar duas pessoas

97

Encontrar três pessoas

Língua Brasileira de Sinais – Libras

como é o caso do verbo ir. por exemplo. flexionado para a locação que está à frente do corpo do sinalizador. temos a incorporação de locativo na sua realização. conforme a seguir. Os verbos que recebem essa flexão são chamados de verbos espaciais. exceto em casos em que houver sinal específico para marcação do plural. Quanto à flexão de locação. como em pessoas no sentido de multidão. em que é possível perceber o trajeto percorrido desde o seu início até o local de chegada.Língua Brasileira de Sinais – Libras Aconselhar quatro pessoas Beijar todas as pessoas 98 A diferença da marcação do singular e do plural é que. em que sinalizamos ano + ano + ano. FAEL . como no caso da marcação de anos. para o plural. e assim com todos os outros nomes que recebem flexão de número. usamos o sinal de árvore repetidamente. se faz a repetição da forma no singular. Para árvores.

respectivamente. manifesta a duração da ação. Língua Brasileira de Sinais – Libras . na oposição semântica verificada entre os verbos procurar e encontrar. apenas o verbo. reproduzidos na sequência. pois a flexão codifica como a situação por eles referida se estrutura. Sua expressividade se manifesta. por exemplo. Tais marcações dão origem ao aspecto lexical e ao aspecto gramatical. O aspecto lexical é aquele em que.Capítulo 2 Ir Outros exemplos desses verbos: Verbo andar Ir de carro Ir de avião 99 A flexão para aspecto é marcada de duas formas: lexical e gramaticalmente.

e se relaciona a eventos passados. Por outro lado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Procurar Encontrar 100 Procurar é um verbo que codifica a situação como durativa. tomemos o exemplo do verbo cuidar em seu padrão de movimento: Cuidar O sinal raiz do verbo cuidar é produzido com a mão passiva fechada (configuração de mão em s). ou seja. já encontrar codifica a situação como pontual. Para ilustrar o que dissemos até aqui. sendo que o braço fica na horizontal do tronco. A mão ativa configura-se em v e FAEL . aspecto gramatical é aquele que pode ser codificado em perfectivo ou imperfectivo. e se refere a eventos presentes. enquanto que o imperfectivo é produzido com movimentos lentos e contínuos. O perfectivo é produzido com movimentos retos e abruptos. como não durativa. colocada à frente do corpo.

podemos indicar uma situação que perdura de forma ininterrupta. mantém-se a configuração de mão e a localização do sinal raiz e altera-se o movimento para alongado. lento e contínuo. Isso quer dizer que haverá o contato do pulso da mão ativa com o pulso da mão passiva mais de uma vez. indicando uma situação que se desenvolve ao longo do tempo. esse verbo transmite o significado aspectual durativo. através do movimento representado a seguir. Já com relação ao verbo passear. O movimento que gera o contato de ambos os pulsos é curto e firme. podemos reforçar essa indicação lexical por meio do aspecto gramatical imperfectivo. a retomada do contato será feita de modo mais lento.Capítulo 2 leva o pulso a tocar no peito da mão passiva. pelo próprio léxico. ou seja. e que o afastamento da mão passiva será mais alongado em relação ao afastamento que há na produção do sinal raiz. temos a seguinte observação: Passear perfectivo Língua Brasileira de Sinais – Libras . É claro que. Cuidar imperfectivo 101 Nesse caso. Todavia.

passando alternadamente sobre os ombros. com movimentos retos. foi utilizada a mesma configuração de mão do sinal neutro. para realizar o sinal com marca do imperfectivo. Passear imperfectivo 102 Observamos que.Língua Brasileira de Sinais – Libras Pudemos observar as mãos configuradas em b. mas o movimento foi mais alongado e contínuo. curtos e abruptos no espaço neutro. FAEL . com movimentos retos e curtos. O mesmo ocorre com o verbo esperar: Esperar Mãos configuradas como “esperar” na direção de cima para baixo.

Assim como não é necessário seguirmos a mesma ideia do português. para. a saber: sentenças negativas. sentenças com foco. da organização dos campos de referência e da flexibilidade das categorias gramaticais. Aspectos sintáticos da Libras Neste tópico. todos os conceitos que são transmitidos em uma língua podem ser transmitidos em outra. em. com. Sintaxe é a organização de um enunciado em torno de um verbo. sentenças interrogativas. sentenças condicionais. é preciso apenas buscar termos equivalentes. pois as ideias são formuladas no espaço e a construção da coerência e da coesão acontece de modo bem diferente. mas com movimento lento. sentenças afirmativas. sentenças relativas.Capítulo 2 Esperar imperfectivo Mesma configuração de mão do sinal neutro. da ordem dos constituintes. na) como fazemos no português. como também existem sinais da Libras que não são traduzíveis para o português. vamos discutir um pouco sobre a sintaxe da Libras. sentenças com 103 Língua Brasileira de Sinais – Libras . em se tratando dos tipos de frases. Veremos o passo a passo da construção sintática da Libras. Para construir um enunciado na Libras não é preciso adicionar conjunções e preposições (de. alongado e contínuo no espaço neutro. te. até porque existem palavras do português que não são traduzíveis para Libras. Porém. Tipos de frases na Libras Na Libras é possível construir sete tipos de frases.

Língua Brasileira de Sinais – Libras

tópico. Elas são constituídas de um tipo dado, especialmente pela expressão facial. Vejamos cada uma delas: ● Sentenças negativas – são aquelas que apresentam uma ideia sendo negada. Elas podem ser formadas pelos sinais que incorporam a negação – anteriormente apresentados –, pela expressão facial negativa junto ao verbo ou pelos sinais a seguir, acrescidos ao final da frase.
Não Nada Nunca

104

Em Libras é possível negar a ação de comer de várias formas: Eu comer não. Eu comer nada. Eu comer nunca. Eu comer (expressão de negação). ● Sentenças interrogativas – são aquelas formuladas com a intenção de obter alguma informação desconhecida. A formulação do questionamento se dá com os pronomes interrogativos – anteriormente dados – inseridos no início ou no final da frase, como nos exemplos a seguir:
O que você comer hoje? Como você trabalha? Você comer hoje o quê? Você trabalha como?

FAEL

Capítulo 2

Onde você mora? Quem sabe? Por que isso aconteceu? Para que você fez isso? Quando você vai casar?

Você mora onde? Sabe quem? Aconteceu por quê? Você fez para que? Você vai casar quando?

Além das perguntas chamadas qu, há também as sentenças interrogativas nas quais a intenção não é obter uma resposta completa, mas simplesmente sim ou não, como: Você quer leite? Você gosta dele? Você conhece a China? ● ● Sentenças afirmativas – são aquelas que afirmam determinada ação: Eu vou a festa à noite. Sentenças condicionais – são aquelas que estabelecem uma relação de condição e consequência para a realização de algo. Por exemplo: Se você me contar, faço segredo. Sentenças relativas – são aquelas que inserem uma informação adicional à frase, uma informação que seja relativa à informação principal que está sendo transmitida pela sentença. Em Libras, isso ocorre com a expressão facial mantida na oração principal e modificada na relativa. Por exemplo: Aquele homem, que fala muito, está de férias. Sentenças topicalizadas – são aquelas que empregam o tópico. O tópico anuncia o assunto a ser desenvolvido ao longo da sentença. Por exemplo: Carro, eu gosto de Uno. Sentenças focalizadas – são aquelas que usam o foco. O foco serve para destacar ou contrastar alguma informação da sentença como em: Ana chorou, não Paula chorou.
105

Explicitados os principais tipos de frases na Libras, vamos aprofundar como os elementos se organizam na oração.
Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Ordem dos constituintes Em todas as línguas humanas há, pelo menos, três elementos sintáticos principais, que podem se ordenar na frase de diferentes maneiras. Esses elementos são: sujeito – é o termo que expressa o agente da ação (que pratica ou sofre); verbo – é o termo que expressa a ação; objeto – é o termo que qualifica ou detalha o verbo. Quadros e Karnopp (2004) apontam que a ordem dos elementos na sentença da Libras é, geralmente, SVO (sujeito – verbo – objeto). Elas dizem que, além dessa ordem, são possíveis também as seguintes: OSV, SOV e VOS, sendo estas derivadas da ordem canônica e construídas a partir de operações sintáticas, tais como topicalização ou focalização, conforme pesquisa de Pizzio (2006). A seguir, exemplificamos algumas sentenças com a ordem básica da Libras: SVO Eu gostar laranja. Você ter dinheiro.
106

Ele(a) saber Libras. Essa é a ordem chamada canônica, básica, e dela derivam as outras ordens – apontadas anteriormente –, exemplificadas a seguir:
oSV
Laranja ele amar. Bolo eu fazer. TV você ver.

SoV
Você laranja gostar? Eu presente comprar. Ele mãe visitar.

VoS
Gostar laranja ele? Passear praia você. Comprar casa eu.

Deve-se ressaltar, ainda, que alguns elementos apontados na frase podem ser apagados, pois na Libras, assim como em outras línguas, é possível que ocorra o apagamento, não apenas do sujeito, mas também do objeto. Na frase gostar laranja, o interlocutor identifica que há o sujeito eu oculto. Organização espacial Ao estudar os pronomes, verificamos que eles são utilizados para marcar as referências pessoais nos verbos com concordância. Em relação à
FAEL

com referentes presentes ou não. cujo perímetro é usado para a realização de referência a pessoas do discurso. pode ocorrer mudanças quanto à direção e à localização de seu corpo. Por exemplo. de várias maneiras. É nesse espaço. todo enunciado em Libras é realizado no espaço de enunciação: um semicírculo virtual. 107 7 As exceções dessa construção sintática no espaço são o tópico e o foco. por ser esta sua natureza linguística. Conforme Quadros (1997). quer dizer. por questão de etiqueta ou. à esquerda e/ou à direita do narrador. Isso pode ser feito. então. Língua Brasileira de Sinais – Libras . No primeiro caso. Sobre isto. a que se lembrar que a Libras estabelece a maioria de sua organização sintática no espaço7. seus diálogos e suas ações. inclusive por apontação.Capítulo 2 sintaxe. nas diferentes situações discursivas. é possível usar o dedo indicador na direção do referido. ainda. estando o narrador no centro do raio do semicírculo e os demais participantes da interação nas periferias. conforme Quadros e Karnopp (2004). obviamente. que são construídos pela expressão facial. será uma fala às escondidas. são marcadas segundo o lugar que cada um ocupa no espaço de sinalização. A enunciação se desenvolve com a mudança de posição de referência. é preciso que o sinalizador defina pontos específicos no espaço a cada referente que aborda no discurso. Estando o sujeito e/ou objeto visíveis. Algumas vezes. basta que a apontação seja feita diretamente ao referente presente. o sinalizador vai estabelecer aleatoriamente um ponto no espaço de sinalização para se referir ao sujeito e/ou objeto e fazer as apontações devidas. O corpo do sinalizador deve se situar no centro do raio do semicírculo e. sempre que precisar retomar o referente. As vozes dos sujeitos. Assim. Dessa forma. neste espaço. ou quando ele está fisicamente no mesmo ambiente de quem fala. se o sinalizador não quer que o referente saiba que ele está fazendo menção a ele. por exemplo. suas enunciações. A apontação se dá em dois casos: quando o referente não está presente no momento da enunciação. ou seja. porém. com a outra mão aberta e com a palma sobre o dedo que aponta. a sinalização em direção a um lócus predeterminado ou a movimentação ocular para este mesmo local significa uma marca de referência a uma pessoa e/ou objeto. ver: Pizzio (2006). que se desencadeiam todas as relações entre os sujeitos.

O dia estava muito quente e. Porém. por exemplo. Porém. Na ocasião. e guiaram durante uma hora uma grande carreata pelas ruas. sim. de acordo com a organização interna do discurso. ainda. o que fez com que Maluf comentasse com os políticos que estavam à sua volta: “– Imagine se ele não fosse careca!” Considerando que esse texto se caracteriza como uma narrativa. de acordo com Massone (1993). Maluf foi sucinto em seu discurso e quando Amim – o careca – tomou a palavra. com seu corpo voltado à esquerda. ao começar a sinalizar. em cima de uma caminhonete. mas. seguidos de Maluf e de Amim. sua fala perdurou muito tempo. a pessoa assume o papel de narrador e a produção dos seus sinais será no espaço neutro. quando for a vez do personagem que está à esquerda falar. o sinalizador toma primeiramente o lado direito. se por ora o sujeito referenciado aparecer à esquerda do narrador – centro do semicírculo – e por ora aparecer à direita. Quando esse narrador deixa de contar os episódios gerais e passa a dar voz a algum personagem em específico. se houver um diálogo entre dois personagens. o lócus referencial das pessoas do discurso não é fixo. até porque as alterações do lócus não ocorrem aleatoriamente. Nesse sentido. estavam em comitiva. o sinalizador estará sempre no centro do espaço e poderá produzir os sinais na direção do referente ou. enquanto acenavam para todos. Outra forma de o sinalizador construir a voz do personagem é por meio do processo chamado anafórico. dependendo do contexto em que se encontra. por isso. não haverá comprometimento da clareza de informação. sinaliza a fala desta pessoa na direção de onde está a outra. o FAEL 108 . Esse processo é a incorporação do personagem e a elaboração do discurso direto. o sinalizador aponta para um lugar a sua direita ou esquerda para marcação do espaço a ser ocupado pelo referido sujeito. os políticos suavam bastante. as lideranças locais falaram primeiro. ele se alterna continuamente dentro do espaço sinalizador. Então. Esse espaço será fixo enquanto houver ação ou fala dessa mesma pessoa. Então. levar os olhos naquela direção para marcar o espaço.Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. No comício. disse que discursaria tão rápido quanto havia feito seu amigo. bem ao meio do círculo de sinalização. Tomemos como exemplo para análise da construção sintática um texto que trata do fato de que o prefeito Paulo Maluf e o senador Amin foram visitar a cidade de Joinville. ou seja.

enquanto Amin fala ao público. Nesse caso. expressa pelas duas mãos passando da direita para esquerda. a sinalização é projetada para frente. Quando Amin fala ao prefeito. No caso sob análise. há construção das enunciações de cada um. Nesse momento. É interessante observar que. marcando a direção de origem e destino da ação expressa pelo verbo direcional. bem como a direção do olhar é para um terceiro espaço – do grupo de políticos. a comitiva vai andar de um ponto definido pelo sinalizador até o outro no espaço. o sinalizador precisa destinar um lugar específico para outras referências. Para tanto. ainda. na Libras. os verbos direcionais – como é o caso de andar – instauram uma necessidade eminente de movimento. Língua Brasileira de Sinais – Libras 109 . É interessante notar que há prevalência do sujeito em relação ao objeto nas enunciações.Capítulo 2 sinalizador se coloca deste lado. Dessa feita. por meio de uma marcação sinalizada. como se estivesse limpando a fala dita até então e dando lugar a uma nova enunciação. mas com uma inclinação de tronco à direta – como se estivesse olhando para quem fala – e sinaliza. há necessidade de se fazer uma organização sequencial. este espaço não pode invadir o espaço anteriormente definido para os personagens já apresentados. No entanto. pelo contato ideário com o interlocutor colocado no espaço referenciado a ele e. destacamos que. a sinalização é feita na direção do espaço marcado para esse personagem e o último movimento de ombros. na Libras. Durante a tomada de voz de cada um dos personagens discursivos. a carreata e a comitiva. Além de organizar o espaço de sinalização para marcar o lugar de quem fala. por exemplo. se faz priorizando as pessoas do discurso e não as coisas e objetos nele envolvidos. quando há necessidade de alocação de outros sujeitos no mesmo espaço que está sendo ocupado por objetos. utilizando-se da direção do olhar como um recurso identificador do sujeito. se pontua – com os números não quantitativos – a ordem de fala. Assim. entretanto. quando é preciso lançar mão de mais de uma construção espacial. ou seja. há facilmente uma desconstrução desse primeiro espaço. há a possibilidade de fazer a diferenciação das vozes ao longo do discurso mediante movimento de ombros e incorporação do personagem. o espaço da comitiva se desfaz e dá lugar à presença de um grupo de políticos e assessores.

Barulhento Bobo Bondoso Confuso Chorão Bruto 110 Corajoso Infantil Engraçado FAEL . Para tanto.Língua Brasileira de Sinais – Libras Agora que já conhecemos os tipos de frases. relacionamos a seguir alguns adjetivos da Libras. para depois os colocarmos em frases comparativas. a ordem dos constituintes e a forma de organização dos elementos no espaço. passemos à exemplificação.

Imediatamente. haverá inversão da informação. Contrariamente. Na seção destinada à semântica. na sequência. destinamos outro espaço de sinalização. Do que 111 8 Há muitos sinais que podem significar mais. há um apontamento para o espaço onde foi colocado o primeiro personagem. para escrevermos o nome “Maria”. oposto ao primeiro.Capítulo 2 Fofoqueiro Famoso Egoísta Pensando numa construção frasal temos: João é mais bobo do que Maria. Em Libras. explicaremos cada um deles. se o marcador comparativo for sinalizado da direção do espaço da Maria para o espaço em que se encontra João. A mesma forma de construção frasal ocorrerá na utilização de qualquer adjetivo ou para suscitar qualquer tipo de comparação. para escrevermos com o alfabeto manual “João”. com a intenção de dizer “ele”. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Então. fazemos o sinal de “mais8 bobo” e. Em um segundo momento. colocamos o marcador “do que” (conforme a figura a seguir) na direção do espaço do João para o espaço da Maria. por exemplo. temos que destinar um espaço de sinalização. à esquerda.

Tanto aspecto quanto tempo são noções que se referem à temporalidade dos eventos. relacionado diretamente ao momento da enunciação (ME) e organizado em função do presente que já está implícito na enunciação. porém. Sobre questões como essas e outras peculiaridades teóricas da conceituação da categoria tempo. passado e futuro. Para esse autor. Nesse sentido. FAEL 112 .Língua Brasileira de Sinais – Libras Flexibilidade da Libras A Libras é uma língua flexível. o autor aponta para a existência de dois sistemas temporais: o enunciativo. que postulam três momentos relevantes na constituição do tempo: momento da enunciação (ME). de Benveniste (1989). o tempo linguístico é singular por ser organicamente ligado ao exercício da fala. Com isso. momento de referência (MR) e momento do acontecimento (MA). a qual se divide em anterioridade e posterioridade ao agora. pode definir a existência de três tempos linguísticos: presente. por exemplo. Cada vez que um locutor emprega a forma gramatical do presente. escolhemos tratar da temporalidade. ao fato de se definir e de se organizar como função do discurso. e um agora em que acontece a não concomitância. como Fiorin. na qual encontramos diferentes abordagens e discussões dos autores. representadas no próprio discurso. pois tal nos permite entender esta característica. todo discurso instaura um agora que equivale ao momento da enunciação. há uma vasta literatura. sob diferentes perspectivas. que diz que o tempo linguístico é aquele que realiza o tempo do homem. em que existe uma concomitância entre o evento narrado e o momento da narração. o qual transcorre no tempo presente linguístico. autores mais recentes. levando em consideração o momento da fala como ponto de referência para situar os acontecimentos. e isso pode ser demonstrado pela “junção” de categorias gramaticais em sua expressão e composição. e o enuncivo. que expressa o momento em que ações verbais acontecem e. Para ilustrar a flexibilidade da Libras. Fiorin (2002) afirma que a temporalidade instaurada pela língua refere-se também às relações de sucessividade entre estados e transformações. É o caso. também. A conceituação mais básica de tempo é que ele é uma categoria gramatical dêitica. por isso. Podemos citar. ele situa o acontecimento como contemporâneo à instância do discurso que o menciona. instaurando-o em um discurso. ordenado em função de momentos de referência (MR) instalados no enunciado.

o momento do acontecimento pode se nortear de modo anterior. presente e futuro. passaremos à demonstração de algumas possibilidades de expressão do tempo na Libras. que Reichenbach (1947) tem sido o grande marco teórico e que suas postulações têm servido de base a outros estudos acerca do tempo. porém. Tal representação objetiva organizar as manifestações temporais das línguas naturais. momento do evento. para então localizar os acontecimentos no eixo temporal. em relação ao momento da fala. conforme figura a seguir. simultâneo e posterior. Nesse sentido. Dessa forma. futuro. o tempo pode ser expresso por operadores temporais específicos na sentença: passado. Na Libras.Capítulo 2 Há que se destacar. que é formulado com a configuração de mão no espaço próximo ao ombro e com movimento dos dedos para trás. presente. dando a representação de passado. Esse autor analisa a lógica da manifestação temporal e realiza uma interpretação linguística da categoria tempo com base em três conceitos: momento de fala. entretanto. para o tempo passado. Passado 113 Língua Brasileira de Sinais – Libras . uma vez que o próprio momento de referência se norteia em relação ao momento de fala. Por exemplo. sua expressividade se dará por expedientes linguísticos distintos. existe um marcador temporal específico. simultaneidade e posterioridade – podemos obter codificações mais complexas. momento de referência. assim como em outras línguas. Os três conceitos de tempo dados por Reichenbach (1947) podem ser aplicados a quaisquer línguas. Por meio do momento de referência – em relação ao qual o momento do acontecimento também se norteia em termos de anterioridade.

de modo que os dedos mínimos quase se tocam e paralelamente se distanciam. que é sinalizado com ambas as mãos abertas. Conforme vemos na figura a seguir. haverá um fenômeno agramatical. Agora / hoje / presente 114 O futuro é sinalizado com o marcador temporal de futuro. remeter ao referido tempo linguístico: passado. o operador temporal específico obedece ao critério “para trás e para baixo9” para. O presente é definido pelo marcador temporal agora/hoje. dedos juntos. o sinal é produzido com a configuração de mão em f. então. de modo que fique longe do rosto: Futuro 9 Se não for produzido dessa forma. se o sinalizador fizer os movimentos para cima e/ou para frente. FAEL . ou seja.Língua Brasileira de Sinais – Libras É interessante observar que esse sinal não segue as antigas relações de que sinais produzidos para trás do ombro estão no passado. pois para denotar a ideia de posterioridade ao momento da fala é preciso também que o sinal seja produzido para baixo. Nesse caso. sendo que o posicionamento inicial da mão é no espaço neutro na altura do rosto e o movimento produzido é de afastar a mão em direção diagonal à frente. palmas voltadas para cima e com um movimento simultâneo de aproximar e afastar as mãos.

como a língua é um sistema dinâmico e flexível. sua leitura. Assim. ● “Eu ano 2000 casar passado 3-anos namorar. antes disso. eles podem estar demonstrando intervalos que ocorrem no passado. com uma aproximação do cotovelo ao tronco do sinalizador e. além do reforço na expressão facial. Nesse sentido. referindo-se a situações já ocorridas. da marcação interna aos eventos. namorei três anos”. Passado recente 115 Língua Brasileira de Sinais – Libras . haverá denotações de “posteriormente” ou “antes disso”.” O sinal destacado demonstra intervalo que ocorreu no passado. gere o sinal de passado recente. sua leitura. se o sinal de passado sofrer ampliação dos movimentos dos dedos para o braço e houver um afastamento do cotovelo. Tal variação pode acontecer em níveis distintos e caracterizar uma gradação temporal. ou seja. com uma expressão facial reduzida.Capítulo 2 Esses três sinais são os principais marcadores dos conhecidos tempos linguísticos: passado. Tradução: “Eu me casei em 2000 e posteriormente nasceu meu filho”. também. Porém. portanto. sua temporalidade vai além dos estabelecimentos tradicionais de tempo e se ocupa. Tradução: “Eu me casei em 2000. Isso significa que. portanto. ● “Eu ano 2000 casar futuro nascer filho 2003. dependendo da posição em que os sinais de passado e futuro estejam na frase. é possível que a diminuição do movimento somente para a ponta dos dedos. é capaz de expressar conceitos diferentes do sinal raiz. é de antes disso. presente e futuro. conforme podemos ver nos exemplos a seguir. com isto.” A palavra em destaque demonstra intervalo que ocorreu no passado. Sabemos que a Libras possui uma morfologia flexional que emprega variação no movimento do sinal e que. também. é de posteriormente. será denotado passado distante.

curtos e abruptos. caracteriza-se por futuro distante. 116 Imediatamente Essa mesma flexão morfológica. Se ocorrer a diminuição do alcance do braço e uma expressão facial menos intensa. Sua realização se dá com o aproximar das mãos e com movimentos mais rápidos. obtém-se o futuro próximo. O sinal de futuro. FAEL . temos a variação para imediatamente/já/neste instante. se dá para o sinal de futuro.Língua Brasileira de Sinais – Libras Passado distante Quando ocorrem flexões morfológicas via alteração do movimento do sinal presente. Se o movimento for “neutro” e mais repetido. a leitura é de agora/hoje/presente/atualmente. sendo ampliado com alongamento do braço para frente e a expressão facial com reforço no olhar ao longe. por meio de alteração de movimento. conforme vemos nas imagens a seguir.

Com fim elucidativo. há outros que podem expressar a categoria tempo. presente e futuro –. seguem as imagens de ontem e anteontem: Ontem Anteontem 117 Língua Brasileira de Sinais – Libras . São os sinais adverbiais: ontem. semana passada. mas também podem aparecer no final. normalmente. depois. Esses advérbios geralmente vêm no começo da frase. eles são inseridos no início da narrativa e servem para “conjugar” o tempo de toda a sentença. amanhã. Quando esses itens lexicais aparecem na frase. nunca. antes. o pressuposto da temporalidade marcada inicialmente é mantida até que apareça outro marcador temporal. próxima semana. sempre. anteontem.Capítulo 2 Futuro próximo Futuro distante Além desses três sinais principais – passado. Assim sendo.

conversaram e no futuro casaram”. o falante escolhe significados restritos à sua língua que podem ser presumíveis pela inferência do outro e. Esses princípios. é possível perceber o tempo. futuro casar”. pois muitas vezes é preciso recorrer a aspectos pragmáticos para a interpretação temporal. Tal teoria postula que. ele também conta com expressões quantizadas para sua realização. A leitura de tempo durante o ato conversacional ou discursivo pode ser estabelecida por pressupostos da pragmática generalizada. conversar. por flexão e por advérbios. Finau (2004) coloca que há. pela sequência discursiva para a narrativa. o common ground (conhecimento compartilhado pelos falantes). advérbios ou quantificadores. Nas palavras da autora: O locutor pode se valer da suposição de que seu interlocutor tenha como familiar. 118 Quer dizer. Finau (2004) apresenta a teoria da análise pressuposicional para justificar a leitura temporal de sentenças que não contenham operadores temporais específicos. conversar. Para Levinson apud Finau (2004). mesmo não havendo marcas temporais explícitas (operadores ou flexões) no discurso do falante. a expressão da categoria tempo na Libras não conta apenas com léxicos específicos para sua realização.Língua Brasileira de Sinais – Libras Além de o tempo na Libras ser marcado por operadores temporais. acontece a restrição temporal. em um dos seus mundos possíveis. A análise subsequente. assim. Tradução: “Namoraram. compõem uma organização interpretativa dos enunciados. Isso implica em conhecimentos de mundo que os interlocutores compartilham e que possibilitam uma flexão semântica para os verbos e as devidas distinções temporais. para depois se casar. conforme observado no exemplo: “Namorar. que é preciso namorar. 140). três princípios norteadores de escolhas de seleção linguísticas que o falante opera. ele serve como um limitador. as FAEL . desse exemplo colocado por Finau (2004). chamados também de heurísticas. provavelmente. é de que a referência temporal é dada de modo implícito. principalmente pelo conhecimento compartilhado entre os interlocutores. nessa teoria. Esse conhecimento compartilhado hipotético auxilia a interpretação temporal dos eventos (FINAU. Numa sentença como “Ana estudar até quarta série” vemos que o emprego do sinal quarta série é um quantificador que expressa o tempo de estudo. No entanto. p. 2004.

não deve estar presente na interpretação temporal. dessa forma. É o caso do sinal passado que. ou seja. Assim. a sentença não pode ser interpretada estando no futuro. ● Aquilo que é dito de uma maneira anormal. se recebe uma descrição mínima ele traz à tona.Capítulo 2 determinações temporais dadas a partir de implicaturas conversacionais generalizadas são: ● O que não é dito não é. Para Finau (2004). hoje/agora. no caso da Libras podem ser os sinais futuro. Essa heurística propõe um contraste na restrição da seleção do que é dito e do que não é dito. uma interpretação maximizada. de acordo com os estereótipos dados. ele revela “algo a mais” do que sua lexicalidade permite expressar. Finau (2004) aplica essa heurística para Libras e diz que se a sentença não apresentar o sinal futuro. se um sinal foi flexionado por meio de alteração no parâmetro movimento. este elemento ausente não poderá ser o escolhido para a interpretação da estrutura frasal. São as heurísticas de Levinson (apud FINAU. Esse é o princípio que trata das ampliações interpretativas feitas pelo interlocutor. considerando a concordância implícita entre os interlocutores. quando flexionado. Se não foi dito. todo seu conhecimento de mundo e tem. Língua Brasileira de Sinais – Libras 119 . Isso quer dizer que. Então. tem um significado a mais no enunciado. na conversação. pois não foi dito de uma forma normal. Em Finau (2004) vemos que. aplicadas ao estudo da temporalidade na Libras. Essa é a heurística que viabiliza a interpretação aspectualizada para marcadores que sofrem alteração morfológica. 2004) que. permitem multiplicar o conteúdo informacional de qualquer sentença. esses três princípios norteiam o status da interpretação do tempo das sentenças. ● Aquilo que é simplesmente descrito é um exemplo estereotipado. se há ausência de determinado fator temporal. não é normal. passado.

É o caso.. assim. há palavras que não têm esta possibilidade dúbia de expressão. quanto ao significado. se empregado em outro. como no discurso abaixo reproduzido: Esposa: – Amor.. inferir que pouco tempo se aproxima de uma quantidade determinada de minutos e nem chega a completar o ciclo de uma hora do relógio.. para quem está à espera de alguém. por exemplo. moradia. você demorou. temos diferentes palavras que são capazes de representar. Marido: – Não demorei. lar. No português. basicamente. estamos descartando o significado de tempo para cada um dos envolvidos no processo. a mesma ideia. Esposa: – Demorou sim. 120 Esposa: – Ué! Você não falou que voltava logo? Marido: – Mas eu não vim logo? Esposa: – Não. por exemplo. Especialmente por estar no diminutivo. Claro que. residência. Poderíamos citar como exemplo os casos de desentendimentos de detalhes. Por outro lado. trata-se de uma família de ideias.. todas elas representam a ideia de lugar onde se mora. sobrado. pode caracterizar uma comunicação truncada. de fato. Logo.Língua Brasileira de Sinais – Libras Aspectos semânticos da Libras Toda língua tem uma semântica implicada em seus itens lexicais. Quatro horas depois. Apesar de terem suas especificidades. estamos apenas brincando com uma situação que é recorrente no nosso cotidiano. quanto à semântica da expressão “daqui a pouquinho”. de brevidade no espaço temporal e. das palavras casa. abrigo. Você disse que daqui a pouquinho estava de volta. daqui a pouquinho eu to aqui. O “problema” no discurso acima se deu devido a uma discordância quanto ao entendimento. nesse caso. que têm seu significado restrito a determinado contexto que.. FAEL . eu pensei que fosse demorar uns vinte minutinhos. que horas você volta? Marido: – Ah.. essa expressão ganha um sentido de pouco tempo. quatro horas é muito tempo. Podemos. apartamento e cabana.

Isso significa que especial. excelente. mas está querendo destacar qualidades que se deslumbram para ele. tem uma conotação mais “concreta” do que em português. tornam-se mais adequados do que em outros. singular. se produzidos em determinados contextos. Quando um surdo usa o sinal de especial para alguém. exclusivo. como: importante no caso da primeira sentença e coisas próprias no caso da segunda. deve haver a sinalização de outro item lexical que equivalha a este termo do português. notável. de beleza que se destaca tal qual o brilho em meio à escuridão. fora do comum. ele não está querendo dizer que esta pessoa é importante em sua vida. esse sinal não é muito usual em contextos relacionados às pessoas. privativo. Há sinais que. pois – mesmo sendo entendidos – podem gerar certo “estranhamento” ao interlocutor. Essa relação entre significado e significante (o sinal) da Libras não é análoga à relação de significado e significante (palavras) da língua portuguesa. A palavra “especial” é usada no português para definir algo ou alguém como muito peculiar. na Libras. Já na Libras. Assim. em uma frase como “Você é muito especial para mim” ou “Esta criança tem necessidades especiais”. O sinal de especial é empregado na Libras em contexto de definição bela sobre algo ou alguém. quer dar ênfase a uma vivacidade notória.Capítulo 2 Esse mesmo fenômeno acontece na Libras. está mais relacionada às coisas que se vê. Especial 121 Língua Brasileira de Sinais – Libras . que se ressalta sobre os olhos.

mas também com uma grande habilidade que ela possua. Em Libras. já que educação tem um cunho mais comportamental para os surdos. que não tem correspondência com a palavra na língua portuguesa. Há a possibilidade da seguinte construção na Libras: “Ele Libras famoso”. não há o emprego desse termo para definição do conceito. Há expressões como “educação especial” ou “educação de surdos” que. Famoso Essa frase está invocando a informação de que a referida pessoa é muito fluente. pois em Libras a melhor forma de representação desta ideia seria o uso do sinal de ensino. muito proficiente na sinalização. seu emprego não está relacionado só ao fato de uma pessoa ser muito conhecida. Em português. que é muito habilidoso na área da Libras. se sinalizadas como a seguir.Língua Brasileira de Sinais – Libras Esse tipo de especificidade de uso ocorre também com o sinal de educação. Educação Ensino 122 Algo semelhante se dá com o sinal de famoso. podem não se adequar semanticamente. FAEL .

no sentido de “maior”. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Começando pela primeira maneira. dependendo do contexto de realização. de repetição. Sinal para marcar a ação de comparação em relação a algo. acrescentar.Capítulo 2 Há inúmeros sinais dessa natureza para serem detalhados. vamos pegar uma mesma palavra e ver as várias possibilidades de sinalização. Polissemia Vamos pensar na polissemia em Libras de duas maneiras: a versão que o português impõe aos sinais da Libras e a versão que os sinais da Libras impõe ao português. aproximar. A palavra mais pode ser sinalizada das seguintes formas se os contextos de realização implicarem nas informações correspondentes: Sinal para marcar a ação de somar. numericamente falando. Sinal para marcar a ação de “mais uma vez”. 123 Sinal para marcar a ação de juntar. operações matemáticas. Exemplo: 2 + 2. mas encerramos por aqui nossas exemplificações e passamos ao estudo da polissemia.

Agora temos um único sinal que pode denotar várias palavras no português: ocupado. ou seja. Sinal para marcar a ação de comparação absoluta. Ocupado FAEL . pegaremos um sinal da Libras e averiguaremos as possibilidades de tradução para o português. daquele que está acima de todos. Esse sinal também pode significar sentido de ocupado. Sinal para marcar a necessidade de aumentar o som. sentido de advertido. faremos o contrário. 124 Em relação à segunda maneira. como se houvesse um destaque de maioridade. sentido de não posso.Língua Brasileira de Sinais – Libras Sinal para marcar a necessidade de continuidade no percurso.

conhecemos suas seis possibilidades principais. ainda. Entregar as 64 configurações de mão aos alunos e pedir que. 125 Síntese Neste capítulo. de duas mãos com formas diferentes ou. Colocar a expressão “Vendo vozes” no quadro e verificar quem consegue melhor interpretação semântica para ela. 2. a fim de proporcionar ao leitor um conhecimento das “partes” da língua. e que deixam a marca do seu trajeto. Quanto à configuração. Pedir aos alunos para sinalizarem a frase “Fui de São Paulo a Curitiba”. configuração de mão e movimento. Ainda com relação ao nível fonológico. de duas mãos com formas iguais. para cada um dos seus níveis de análise linguística. detalhadamente. o professor pode realizar algumas brincadeiras em sala de aula. com a estrutura gramatical da Libras. Curitiba em outro espaço. Quanto aos movimentos. observamos sua realização no espaço neutro e no corpo. No nível fonológico. Língua Brasileira de Sinais – Libras . destacamos a existência de pares mínimos e de parâmetros secundários para realização dos sinais: orientação da mão e expressão facial.Capítulo 2 Da teoria para a prática Para trabalhar. a partir delas. 3. para ver se entenderam que os verbos de movimento se realizam com concordância com o local. e se realizam o sinal de avião fazendo o percurso do espaço de São Paulo a Curitiba. nos debruçamos sobre a gramática da Libras e olhamos. minimamente. se São Paulo ficará em um espaço. eles pesquisem cinco sinais que se realizem da mesma forma. Quanto à localização. como as seguintes: 1. vimos as possibilidade de formação de sinais a partir de apenas uma mão. Verificar se sabem separar os espaços para cada elemento. observamos que a Libras apresenta três parâmetros principais: localização.

classificação de palavras. ordem dos constituintes. trouxemos a questão dos tipos de frase. organização espacial e a flexibilidade da sentença da Libras. e discutimos questões pertinentes à formação de palavras. 126 FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras Na análise morfológica. Na parte sintática. tipos de verbos e os dois tipos de flexão: nominal e verbal. evidenciamos as possibilidades de formação de sinais a partir de morfemas presos e livres. Finalizamos o capítulo com uma pequena abordagem quanto à semântica implicada nos sinais da Libras.

Por meio da Libras. mas. a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades distintas em relação à vida de uma pessoa ouvinte. destacaremos a subjetividade inerente. Feneis) e cultura (cinema. partimos da premissa de que Libras é sua primeira língua e. podemos pensar que elas se inserem e retêm conteúdos visuais sob a forma de expressão. arte). Disso tudo. entendemos que a necessidade de saber o português é urgente e esta pode ser sanada com métodos específicos de segunda língua. Com relação à escolaridade da pessoa surda. sendo que. é possível refletir sobre o modo de como as pessoas surdas conseguem interagir com a sociedade e garantir sua participação ativa. as relações de amizade (associação de surdos. apresentaremos um panorama geral sobre as relações sociais que são estabelecidas a partir da experiência da surdez. Nesse sentido. deve fazer parte da instrução recebida. N As relações sociais do surdo Analisando sob a perspectiva de que a surdez está inserida e constituída em ambiente e mundo visual. olharemos para o que é impregnado no surdo a partir de tais vivências: sua identidade e cultura. em qualquer espaço que se for. ou seja. a surdez como característica que compõe a própria diversidade e a individualização do ser humano em sua constituição. É desse modo que a pessoa surda precisa ser vista na sua relação com a sociedade. para tal enfoque. portanto. destacam-se os processos de leitura e escrita. .Implicações sociais da surdez 3 127 este capítulo. necessariamente. Diante disso. sim. Partindo disso. ser melhor ou pior. ser. abordaremos as configurações dos relacionamentos pessoais (casamento e filhos). Ter peculiaridades diferentes não significa.

um ritual que em nossa sociedade é muito comum: a questão da união conjugal. devido à grande quantidade de filhos que se inclui nessa categoria. já que o celebrante (pastor. a presença de mais um intérprete uma realidade semelhante quané recomendada. acaba por não ser estimulado e não desenvolve a audição e a fala. exige empenho e reforpressar os votos na língua oral. criou-se uma organiSaiba mais zação internacional destinada a Os casamentos de surdos (com pessoa surda ou ouvinte). acaba por ser deficitária devido à comunicação que. em culturas diferentes não é algo juiz) não consegue estabelecer uma comunicação com os noivos. padre. Isso é compartilhado mundialmente por essas pessoas e. culminando em um viver bastante comprometido e problemático. são acompanhados de discutir questões conflitantes. O profissional mulação daquilo que se apreenintérprete deve se colocar em frente aos noideu. muitas vezes. a partir desse momento. acaba sendo natural que ocorra uma comunicação em que haja gestos e falas oriundas deste contexto.Língua Brasileira de Sinais – Libras Pensando por esse viés. Uma situação que pode acontecer é uma adequação em relação aos pais surdos e filhos ouvintes em que. seus pais não têm participação ativa em suas vidas. normalmente. O significado da união com o outro representa algo diferente. Isso porque. podemos perceber como ocorre. poder celebrar essa união tem um significado muito relevante. Para a maioria dos surdos. pois vai em direção oposta a tudo que aprendeu e viveu. Essa organização. acaba por virem os filhos. FAEL . O que antes era comprometido e problemático. diálogo e participação com o outro. porque o surdo se une a quem conhece a língua de sinais. independente de ser ou não surda. pois interagir simultaneamente tradução. O traje do profissional deve to a ser filho de pais surdos. do mesmo modo. e como a surdez não é hereditária. eles poderão ser ouvintes (havendo exceções em que pais surdos concebem filhos da mesma natureza). caser o mais discreto possível para não ofuscar o racteriza-se pelo nome de Coda glamour que envolve o casal. o filho. (children of deaf adults). devido à barreira da comunicação. 128 Como fruto dessa comunhão. Caso haja surdos também às pessoas que possuem na plateia. ao lado do celebrante. princípios e comportamentos de vida. tão pouco consegue exsimples. formalizando a relação. torna-se algo natural. para o surdo. destinada vos. E no que tange à transmissão de conteúdos concernentes a valores. por não haver clareza na comunicação. fica assim caracterizada. pois permite ter contato. Frente à convivência em família.

passeios. as identidades surdas são construídas mediante as possíveis representações da cultura surda. pois. ambos surdos e Codas. o normal é ser surdo. Eles conseguem ficar insensíveis a tudo isso. Pensar em ser ouvinte é algo bem estranho. Os surdos têm uma forte potencialidade para sentirem as vibrações do ambiente e. aprender a língua de sinais. Quando acontece um diálogo de filhos ouvintes de pais surdos. é comum que adolescentes e jovens surdos frequentem as baladas e dancem por muito tempo. mesmo sendo ouvintes. Para Perlin (2004). é possível estabelecer contato com a outra pessoa que. Um exemplo bem comum é que. Os filhos entendem que a possibilidade de ver as coisas. compras. no sentido biológico. porventura. nada muito comum. criando assim uma identidade como a deles. Os Codas procuram desenvolver o olhar como meio de referência. conseguem reagir bem ao estímulo recebido. consultas. por isso. conseguem não ouvir quando estão em um ambiente com alta sonorização (volume alto de TV ou rádio). para eles. pois entendem que. com a convivência constante e indireta em viagens. está no quarto ao lado e. consideram a tranquilidade da comunicação em Libras algo bem acessível. a profundidade no contato visual desenvolve sua subjetividade e possibilita impressões acerca do olhar. enquanto o português. Outro exemplo disso é quando querem se comunicar e batem o pé no chão. pois esta vai ser moldada de acordo com o grau de receptividade cultural assumida pelo sujeito. A vibração é tão poderosa no corpo como o som é no ouvido. por conta deste sentido estimulado. Por meio da vibração. mas frente ao contato com surdos ou suas comunidades. desta forma.Capítulo 3 A maioria das pessoas que participa dessa organização tem a audição preservada. Somente quando essas pessoas vão para a escola é que se inicia o processo de aprendizagem do português. ver tudo que há no mundo é algo muito bom e. o que para os ouvintes “normais” – ouvintes de pais ouvintes – seria uma tarefa bem difícil. assim como os surdos fazem. Com isso. Eles conseguem acompanhar os ritmos musicais somente pelo que seu corpo sente. conseguem se expressar com maior clareza em relação ao português. para ambos. estes se utilizam de alguns sinais no meio da conversa. acabam por praticar e. Língua Brasileira de Sinais – Libras 129 . elas desenvolvem habilidades que são específicas do surdo. como consequência.

quando os superarquivo/2004/conteudo_333010. Nesse ambiente dotado de pessoas que. devido a tal visão. outros ritmos que os surdos tarem a tudo. certamente. como os que tocam nas raves. há uma banda conhecida como de não processar alguns sons Surdodum. que trabalha com Olodum para em sua mente. de surdos. Para Skliar (2001). FAEL Saiba mais 130 . surdos. Sobre isso consultar: seus olhos possuem uma sensi<http://www. sim. um ritmo musical que acentua a vibração dos instrumentos. a escola estabelece um abismo que a separa dos pais do aluno Coda. as crianças acabam sendo concebidas como deficientes e. devido à dificuldade quanto à comunicação. também. Por outro lado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Isso significa que o Coda tem um ouvido seletivo. mas. dando a php?option=com_content&do_pdf=1&id=75>.com. a escola. os membros da escola estabelecem relações pouco íntimas com os alunos e seus pais. Essas crianças que falam Libras desde a infância e que enxergam a surdez como constituição cultural. A escola não consegue atribuir a esses pais a condição de pais. Pensar no processo de construção da identidade surda da pessoa que é ouvinte não seria algo tão complexo se somente houvesse comunidades que partilham do mesmo sentimento. Comumente. cabendo à criança a responsabilidade dos pais.shtml>. fecham os olhos ou desviam o olhar. Sobre esse assunto acesse: <http://super. Diante desse afastamento. pois ver significa dançam. a realidade não é bem assim. os pais do Coda não recebem convites para eventos escolares ou quando o filho não apresenta bom rendimento escolar. Codas utilizam estratégias para não conversar. porque ela ouve. Já muito para eles. desconhecem essa língua e as questões que envolvem a surdez. culturas.br/ ferente dos surdos. fato este que ocorre independente da pessoa ter ou não surdez.br/index2.com. capaz No Brasil. os pais se tornam seres estranhos. social e política irão precisar de um ambiente com características diferentes destas. eles a possibilidade de se atenHá. Porém. Não muito diexistem festas especiais para surdos. bilidade muito grande.abril. Nesse ambiente. pois nessas situações não há ninguém com capacidade para estabelecer a interação entre eles. no caso. a escola deve ver o sujeito como instrumento/meio de produção de sentidos e aplicar seus diversos mecanismos de atuação para impor saberes. e com isso o prejuízo torna-se presente e generalizado. valores e identidades.clubedochoro.

considerando que tais pessoas aprendem a Libras como os surdos – como primeira língua. um status. para que possam entender. e isto procede. Outra dificuldade enfrentada pelo Coda que possui identidade cultural surda é a de que. um bom desenvolvimento linguístico e técnico. é muito comum que o fato de ser Coda seja um diferencial. pois já têm a língua adquirida. os pais exigem a tradução daquilo que está sendo falado. em que os pais pedem que tudo seja minuciosamente relatado em sinais. Mas daí pensar que estas pessoas são. bons intérpretes. não conseguindo estabelecer laços com aquele lugar por causa das limitações impostas quanto à comunicação. conforme discutimos no texto. não podendo utilizar a língua de sinais e recebendo cobranças que dizem respeito a adultos e não a ela. existem excelentes intérpretes que não são filhos de surdos e que conseguiram. no Brasil. o solicitam pela condição auditiva que possui. a convivência com pais surdos – em alguns casos – gera algumas consequências sociais Língua Brasileira de Sinais – Libras atilfeR Reflita 131 . pois. será um excelente sinalizador. a automatização é complicada. ou em consultas médicas. No meio da comunidade surda. Da mesma forma acontece com ligações telefônicas. se os Codas desejarem se profissionalizar. a criança sente-se ausente de seu mundo. eles terão “vantagem” em detrimento aos demais ouvintes. automaticamente. Isso porque se julga que se é filho de surdo. Porém. em casa ou na escola. os pais pedem à criança que interprete aquilo que está sendo transmitido.Capítulo 3 Dessa forma. independentemente do ambiente em que estejam. sabe-se que as crianças ouvintes que são filhas de pais surdos (Coda) têm seu processo cognitivo e de aprendizagem preservados. Entretanto. especialmente entre os intérpretes. não significa depreciar todo um trabalho estruturado de técnicas tradutórias? Até porque. É claro que. Frente a uma gama de informações advindas da televisão. Tais circunstâncias exigem da criança esforços psicológicos para mediar uma comunicação que não condiz com sua idade. quando seus pais necessitam de interação social. além de serem peritos e mestres no quesito identidade e cultura surda. por meio de estudos e pesquisa.

Língua Brasileira de Sinais – Libras não muito boas para a criança. ocorrerá uma apropriação de enunciados diversos. compartilhar ou estar em desacordo com propostas e para estabelecer a atividade com objetivo de organizar algum aspecto da ação. diz que a aquisição da linguagem ocorre num período curto de tempo. De acordo com Grolla (2006). diferenciando-se apenas se o pai ou a mãe forem ouvintes. o processo de aquisição da língua é idêntico ao de uma criança surda filha de pais surdos. em que pais surdos têm filhos surdos. em que a criança aprenderá duas línguas ao mesmo tempo. pois. e tais quesitos são muito exigidos do intérprete. Em se tratando de uma situação paralela. dentro da relação pais surdos e filhos surdos. todas as intervenções ocorrem na língua de sinais. como amarrar sapatos ou desenhar formas geométricas. no caso das crianças estarem no mesmo ambiente físico. fato que pode levar ao desenvolvimento truncado e à falta de domínio do português. é possível pensar que a aquisição da linguagem. Tal processo irá ocorrer de maneira mais facilitada mesmo na ausência de uma fala dirigida a ela. a língua adquirida será a mesma. A universalidade da aquisição da linguagem explica que. Em relação aos Codas. FAEL 132 atilfeR Reflita . o processo se dará de modo bilíngue. pois os estímulos seriam aceitos de forma natural e o processo de desenvolvimento da criança seria semelhante ao de uma criança ouvinte com pais ouvintes. Pais e filhos se utilizam dela para propor a ação de uma atividade. os problemas que os Codas enfrentam quanto à família talvez não existissem. Skliar (2001) aponta que. Esse é um caso muito específico de pais surdos com filhos ouvintes. além disso. a criança adquire uma língua natural sem que seja preciso passar por treinamentos intensivos ou estímulos linguísticos. O simples contato com a língua possibilitará à criança desenvolver sua expressividade linguística – os itens lexicais e a estrutura gramatical que ela já possui de forma inata. independente da língua ou do desenvolvimento das habilidades motoras. Sendo assim. em seu processo. ocorre do mesmo modo em crianças surdas e ouvintes. neste caso. Para a autora. por mais que os inputs oferecidos sejam diferentes quanto à forma.

Os bebês têm muita sensibilidade. Isso ocorre nas enunciações. que não serão aproveitadas Língua Brasileira de Sinais – Libras 133 . são capazes de perceber as propriedades fonológicas da sua língua. devido ao retorno auditivo estar ausente. como consequência. Segundo Emmorey (2002). a uniformidade e a rapidez. Diante da aquisição da linguagem em que consta a universalidade. Passada essa fase. pois são avaliados como gestos e não como sinais lexicais. no decorrer da vida. conseguem produzir um número muito grande de sílabas e as repetem de forma exaustiva. a dinâmica da língua. o aprendizado com relação à língua se dará mediante a inserção de novas palavras realizadas pelos falantes e. quando chegam aos oito meses. Indiferente de sua condição auditiva. Na sequência. Quadros (1997) reivindica que a descoberta pela estrutura fonológica da língua. com pouca diferenciação nas sílabas executadas. já que sabe as regras para formação de sentenças e domina as estruturas do idioma. portanto. e as semelhanças na sistematização do balbucio das crianças surdas e ouvintes. neste processo. toda criança apresenta comportamentos semelhantes ao chorar e emitir sons sem qualquer significado. de crianças surdas e ouvintes no período de balbucio. o processo de desenvolvimento linguístico e os estágios internos que ocorrem nas crianças surdas podem ser comparados aos das crianças ouvintes. estes conseguem perceber aos quatro dias de idade diferentes tipos de língua. É o caso da apontação. quando chegam próximo aos seis meses. quer seja sinalizada ou falada. começam a balbuciar por volta dos oito meses. acontece o balbucio oral e. não se encaixam em seu repertório atualizado. No caso dos surdos. indicam que no ser humano decorre uma capacidade linguística que suporta a aquisição da linguagem. Com relação aos ouvintes.Capítulo 3 A criança aprende uma língua. as crianças surdas. assim como os surdos. alguns deles são descartados. até os quatro anos. independente da modalidade da língua: oral-auditiva ou espaço-visual. tanto a criança surda como a ouvinte apresentam o balbucio manual. pois nesta idade dificilmente comete erros sintáticos. começam a produzir os primeiros sinais e. em média. que antes de começarem a aprender sinais fazem balbucios com as mãos. mediante a entonação e o ritmo. Meier (2000) aponta que os ouvintes produzem movimentos com as mãos e conseguem retorno confirmativo de seus pais. Já com a emissão de sons.

ocorrerá sua reorganização e aceitação. em pesquisa com crianças ouvintes adquirindo. quando as crianças atingem um ano de idade. o inglês falado e a língua de sinais americana. falada. pois a criança entenderá que a apontação sofreu modificação e se tornou elemento gramatical. elas começam a elaborar enunciados com apenas uma palavra – com significado de sentença completa – e conseguem assimilar pequenas imposições. FAEL 134 . apresentando erros naquilo que equivale à conjugação de passado. Conforme Grolla (2006). diferentemente das surdas. apontam para o interlocutor se referindo a elas mesmas. pois. as crianças vivenciam o período das primeiras combinações. Emmorey (2002) verificou. que são os indicativos de que ela entendeu a regra e está se superando. nesse estágio. neste momento. que têm essa vivência aos oito meses.Língua Brasileira de Sinais – Libras pelos surdos para pronominar. ou vice-versa. ou seja. ocorre pelo desenvolvimento de mecanismos de emissão e recepção linguística. os sons exercem maior dificuldade perceptiva aos ouvidos do que os movimentos espaciais aos olhos. pronominalização e outros. por isso. Grolla (2006) acrescenta que. aumentando seu repertório e elaborando falas pausadas entre uma e outra palavra. simultaneamente. De maneira sucessiva. Por certo tempo. a habilidade de identificação de línguas estrangeiras diminui e concede espaço ao refinamento para sua língua natural. as crianças ouvintes continuam no balbucio e somente depois partem para a palavra. que a sinalização foi a primeira a ser adquirida. Posteriormente. as crianças ouvintes fazem relação semântica – de ordem lexical como a organização de classes prototípicas – para escolha das palavras. com um ano e seis meses de idade. e a construção das frases se dá na ordem canônica. a coordenação motora das mãos evolui de forma mais acelerada do que a coordenação para o trato vocal e a articulação para a fala. apresentam dificuldades para entender os pronomes e. Em Quadros (1997) percebemos que as crianças surdas. conseguem aprender um grande número de palavras diferentes a cada dia. Então. Da mesma forma. quando a estrutura gramatical tiver sofrido maturação. Esse início antecipado de elaboração de sinais e o lento processo do estágio de uma palavra dita. em diversos momentos.

os olhos da criança surda devem ser treinados para isso. sendo assim. pois as crianças surdas precisam lançar os olhos para o objeto que está nas mãos de quem fala e para seu rosto. destacamos que a aquisição possui uma universalidade. No Brasil. as crianças ouvintes utilizam o eu para demonstrar ou apontar outra pessoa. que recebem todo um trabalho de treino visual com adultos surdos. Então. sendo verdadeiro.com/Noticias/Brasil/0. indiferente da modalidade.00-BEBES+SU RDOS+DEVEM+APRENDER+LINGUA+DOS+SINAIS+NOS+PRIMEIRO S+MESES+DE+VIDA. pois. Tanto crianças surdas quanto ouvintes.. como orações relativas e coordenadas.MUL732407-5598. Sobre esse assunto acessar os links: <http://g1. Nessa escola entram crianças em tenra idade. em que a sequência de concordâncias se dará do mesmo modo. pois esta é capaz de olhar para o brinquedo que está nas mãos do adulto e ouvi-lo ao mesmo tempo. é exigida a inscrição em curso de Libras. continuam o curso da aquisição cometendo pequenos equívocos.org.br/site/default.html> e <http://www. 135 Língua Brasileira de Sinais – Libras . uma escola de referência no quesito ensino da língua de sinais a bebês surdos é a Escola Rio Branco.aspx>. a relação significado e significante não fica evidente para a criança surda que está desenvolvendo a linguagem. Aos pais. entretanto. aos três anos de idade. É um processo diferente da criança ouvinte.ecs. estabelece mais de um referente num mesmo ponto. no caso dos pais serem ouvintes. vivenciam uma propagação vocabular muito grande. não cria correspondência entre a pessoa e o ponto estabelecido no espaço. produzindo frases complexas. mas pelo nível elevado de dificuldade gramatical.globo. Nesse momento. o inverso.Capítulo 3 A pronominalização na língua de sinais é produzida por meio de apontação. comete um excesso de generalização para concordância de verbos simples semelhante à gramática dos adultos. Quadros (1997) diz que a criança surda: não adota pronomes para referentes ausentes ou o faz incorretamente. também. em São Paulo. e somente escolas especializadas são capazes de suprir o estímulo que não há em casa. pois não convém à instituição ensinar a língua a criança (por meio de interação e brincadeira) se seus pais não forem capazes de se comunicar com ela.

FAEL 136 . vindo para o Brasil um longo período depois. como surdos. Falam sobre tudo. a função closed caption propicia entretenimento. assim. neste caso. na atual sociedade. profissionais. Essa comunidade é constituída por um grande número de adeptos. a televisão não é o único meio de interação e lazer que os surdos gostam de ter. ainda. Apesar de comunicativa. Existem outras atividades e programações acessíveis.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com quatro anos. com perfis diferenciados. com a utilização do closed caption. oferecendo carinho. se utilizar a língua de sinais é aquilo que motiva o ingresso na comunidade. Esse recurso é recente e. aqueles que são considerados analfabetos. inclusive sobre informes da TV que. um aprendizado de decodificação. Favorece. conhecimento e informação ao público em geral. O termo em inglês possui a tradução “legenda oculta” e está relacionado a uma função que muitos televisores possuem. Sendo assim. designando ordens. aquilo que os evidencia é a utilização da língua de sinais. então é provável que existam surdos que não participem. mesmo sendo amplamente divulgado que essa ferramenta possibilita a acessibilidade de grande parte da população que tem perda auditiva. acionada mediante controle remoto. Tal ferramenta. foi disponibilizado nos Estados Unidos. etc. é o meio que mais rapidamente comunica. Atualmente. por diversos motivos. estando ao alcance de todo e qualquer indivíduo. iniciando. favorece pessoas idosas que apresentam alguma diminuição auditiva. Esse ambiente em que pais ouvintes e filhos surdos (ou Codas) participam é que denominamos um espaço de convivência da comunidade surda. em que a televisão tem seu volume diminuído e não se ouve. pois preferem a utilização da língua falada. além de promover a interação dos surdos em discussão de grandes temas. ouvintes que. Porém. religiosos e outras pessoas com interesses variados. ouvintes. sendo que seus pais abordam qualquer assunto com elas. tratando de assuntos futuros. Além disso. Essa possibilidade existe mediante a função closed caption. muitas emissoras não dispõem desse recurso em toda a programação. identificando na palavra escrita o som da fala. shopping centers ou qualquer outro lugar de acesso público com elevado nível de barulho. as crianças surdas dominam a língua de sinais. somente em 1980. intérpretes. pessoas que frequentam aeroportos. podem relacionar o som das palavras com a legenda. familiares.

como a da igreja. pois o coloca em contato com aquilo que é diferente. o que compreende a língua. mas assimilando que existe diferença linguística. já que tem uma vivência isolada em seu mundo. costumes. dos líderes e tantas outras que evidenciem sua identidade cultural. De um modo geral. uma relação de igualdade. tanto individualmente quanto em comunidade. as ideias. como a oportunidade de conhecer o sujeito surdo de perto. não como deficientes. que faz parte de uma sociedade e é repassado aos seus membros. sendo estabelecida por meio das afinidades daqueles que a integram. Aproveitar a oportunidade de conviver com a diversidade promove um sentido diferente. surdos adultos interagindo na sociedade. capacidades e hábitos. ou seja. caracterizado assim a Língua Brasileira de Sinais – Libras 137 . No caso do surdo. sendo neste momento que ocorre a formação da identidade e cultura surda. arte. isso tem um significado muito grande. por ser considerado minoria social. Nesse ambiente. aprender a língua de sinais e conhecer os costumes e hábitos vivenciados pelo surdo. a comunidade representa a projeção com o amanhã. moral. que possui outra cultura. levando-se em conta que. quando visto sob a perspectiva de um grupo diferente. sim. da escola. para que tenha acesso e possa interagir mediante as percepções visuais. os costumes e os hábitos do povo surdo. diversas comunidades. é necessária a utilização da língua de sinais. Isso leva a crer que não existe somente uma comunidade surda. Conjunto esse que é evidenciado pelos elementos da língua e pelos costumes. Os benefícios advindos da participação do ouvinte nessa comunidade são vários. as crenças. Strobel (2008) define que a cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e modificá-lo. línguas. terão a oportunidade de enxergar a si próprios de forma diferente. tanto para nós mesmos como para as outras pessoas.Capítulo 3 Para que ocorra a constituição da comunidade surda. a possibilidade de um futuro. O contato com pessoas que se comunicam em sua língua permite que sua diferença não seja enaltecida. a cultura representa um conjunto complexo de conhecimentos. Em relação às crianças surdas. pois vislumbra exemplos positivos. outra visão. leis. do hip-hop. crenças. mas. sentindo-se à vontade para expressar seus sentimentos e ideias para aqueles que estão em um nível. o que mais se percebe são estes elementos.

hábitos e crenças. sem a convivência na escola FAEL 138 . Dessa forma. pois é na comunidade surda que ocorre o processo de aprendizagem e o sujeito poderá proferir suas falas. e ao que se come: fast food. A cultura se modifica constantemente. a cultura surda não é transmitida naturalmente de geração a geração. seu conhecimento começa com o contato do que vê. de geração a geração. Chamamos a cultura de “conjunto complexo” quanto à composição. pois a grande maioria de surdos são filhos de pais ouvintes. Até o momento. ao desenvolvimento e à transmissão dos elementos que o integram procederem naturalmente com as relações sociais. poderíamos abordar o assunto sob a ótica da língua e do costume. Tal processo de transmissão cultural de surdos. ao acesso. é histórica. é de costume falar da representação da surdez por dois vieses: passado e futuro. para ter sua língua. A cultura surda é muito importante. no seio da comunidade surda. os surdos possuem família ouvinte. A arte e a poesia do surdo acontecem por diferentes movimentos com as mãos. então. Nesse ambiente. como também hábitos e costumes ocorrem mediante o que viram e se constroem no envolvimento com os outros surdos. se nos perguntarem a respeito da cultura norte-americana. pois. Diferente do que ocorre com os ouvintes. também pode ocorrer na idade mais avançada. por meio da língua. é possível pensar que a cultura surda compreende aquele conjunto complexo. o compartilhar ocorre naturalmente.Língua Brasileira de Sinais – Libras identidade surda. adulta. Então. e teríamos resultados que se restringiriam ao que se fala: inglês. está inserida a cultura surda. é passiva de mudanças quando em contato com outra cultura. o sujeito surdo. em que a composição dos elementos ocorre de modo visual. quando passamos a olhar para as ações de um determinado grupo de pessoas e tais ações começam a fazer sentido para nós. nessa cultura. precisa obtê-la na comunidade surda. com isso. existem outros componentes nesse conjunto. Assim. Dessa forma. estamos nos restringindo ao contexto de cultura popular. e pensam sobre as perspectivas de futuro para esta população. ou até mesmo pela imposição de estudarem em escolas ouvintes. isto é. em sua maioria. sua cultura visual. Devido a essas questões é que. Assim. tratam da história do surdo abordando as represálias que enfrentaram quanto ao oralismo. sendo esta transmitida livremente nas relações com o outro. Então. sua língua se manifesta no espaço e a leitura se faz com os olhos. Isto é. passamos a atribuir valores e. conforme Strobel (2008).

podemos destacar a importância de se refletir sobre si mesmas. adotavam o critério clínico-patológico para o surdo e lhe atribuíam uma identidade. dependendo daquilo que era respondido com a audição.Capítulo 3 de surdos. identidade surda incompleta – é o surdo que não se aceita. Língua Brasileira de Sinais – Libras ● . Pela dificuldade de ter sido conquistada por seus criadores e por ser tão ofuscada pela cultura ouvinte é que a cultura surda precisa ser enaltecida. descobre a comunidade surda e transita do mundo auditivo para o mundo visual. surdez moderada – não é possível ouvir as palavras com clareza. 139 No decorrer da história. identidade surda embaçada – surdo que não consegue captar o mundo de forma visual e nem auditiva. acabam por perder o contato com a comunidade surda. pelo sentimento de inferioridade em relação aos ouvintes. Segundo Perlin (2004). surdez profunda – a pessoa não retém som algum. surdez severa – surdez que só permite perceber os sons muito graves. as definições são as seguintes: ● ● ● identidade surda – pessoa consciente quanto à sua condição de surdez. muito tempo depois. a classificação passou a ser pelo critério linguístico e o rótulo de identidade era feito mediante o conhecimento que o surdo apresentava a respeito da língua de sinais. Desse modo. enquanto acontecia a educação dos surdos – dirigida pela corrente oralista –. quando a sociedade mudou a forma de olhar para a surdez e novas taxionomias se imprimiram na educação de surdos. é politizada e tem a língua de sinais como nativa. No que diz respeito à formação de identidade das crianças que participam das comunidades surdas. As especificações eram: ● ● ● ● surdez leve – capacidade de ouvir a voz humana. não ouve nada. sobre como sua constituição atuará em sua percepção do mundo de forma visual. identidade surda de transição – surdo oralizado que. a pessoa tende a aumentar a voz progressivamente.

professora. pensamos numa pequena parte do conjunto de características que ela apresenta.Língua Brasileira de Sinais – Libras ● identidade surda híbrida – pessoa que nasceu ouvinte e. pobre. pessoas e contextos. identidade surda diáspora – pessoa que tem a necessidade de trocar experiências com seus colegas surdos. se tornou surda. Tem conhecimento da estrutura do português falado. podendo ser entendida como o conjunto de características específicas de uma pessoa que a diferencia da outra. identidade surda flutuante – surdo que oscila de uma comunidade a outra. sendo de muita importância. posteriormente. convivendo tanto com surdos quanto com ouvintes. ocorre por meio da linguagem e é construído por papéis sociais que exercemos em diferentes locais. quando nos referimos à identidade surda. evangélica. pois a constituição não é perene. lutas e reivindicações de determinados grupo de pessoas. No caso de alguém descrever sua identidade como mulher. pois é constituída e manifestada na interação com o outro. em relação às visões comentadas. No entanto. não se pode conceber uma visão reducionista do homem. além de desenvolver a cultura e a identidade surda. A criança que participa da comunidade surda. a identidade está ligada a relações sociais. Há falta de língua de sinais com surdos e falta de comunicação com ouvintes. a identidade. flexível e mutável. Esse conjunto de características próprias. ouvinte. É possível que. Esses movimentos sociais e espaços de luta social são chamados de movimento surdo. mas acaba por ser único e singular tudo aquilo que compreende a identidade da pessoa. A manifestação da identidade deve acontecer pela subjetivação que ocorre mediante interiorização de uma língua. mas adaptável. tanto que. exista algo de semelhante. seja ela qual for. ● ● 140 Quando o assunto se refere à identidade. Agregado a essas articulações está o reconhecimento de sua língua. em uma comparação com o outro. pois FAEL . branca. heterossexual. indiferente de onde eles estejam. Para Skliar (2001). ocorre que está havendo um condicionamento de tais características naquele dado momento. que entendemos como um espaço de articulação das aspirações. tem a possibilidade de participar de movimentos sociais. solteira. apresentam-se ultrapassadas.

persistiram até conquistarem uma posição de destaque dentro da instituição a ponto de serem atendidos em suas aspirações políticas. e órgãos voltados apenas à questão desportiva dos surdos. A princípio. no ano de 1983. Todas se caracterizam pela cumplicidade linguística cultural dos participantes.cbsurdos. conseguiram participação em pequenas atividades. É possível citar como exemplo a reestruturação da Feneida em Feneis. cooperativas e clubes. mas em decorrência da perspectiva de trabalho. sim. mas em relação a evidentes posições de liderança ao longo da história. Existem duzentas associações. aproximadamente. Em 1970. educação e lazer. os quatro milhões de surdos brasileiros. existem vários escritórios regionais da Feneis espalhados pelo país. Para conhecer mais sobre a CBS.org. como também as afirmações dos direitos do sujeito surdo em diferentes instâncias sociais. se organiza para reclamar seus direitos junto à direção e pede participação dentro da Feneida. Não muito satisfeitos. Um grupo de surdos. acesse o link: <http://www. espalhadas pelos estados. ou seja. que começam a ser vistas não como deficientes auditivas. a missão passa a atender aos ideais das pessoas surdas. como a Confederação Brasileira de Surdos – CBS.br>. saúde. mas. Essa alteração não se deu por simples mudança terminológica. pessoas com diferença linguística. Hoje. por isso o nome da instituição era Federação Nacional de Educação e Integração dos Deficientes Auditivos – Feneida. os surdos dão início à liderança e alteram o nome para Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos – Feneis. Em 1983. Atualmente. um grupo de profissionais ouvintes funda uma organização e dá início aos seus ideais de reabilitação dos chamados deficientes auditivos. se organizam em outros espaços como associações. com sede na Universidade Língua Brasileira de Sinais – Libras 141 . além de se reunirem na Feneis. Trata-se do curso Letras-Libras. O movimento não é contrário diretamente às pessoas. com o objetivo de difundir a Libras e congregar surdos para discussões em relação à sua participação ativa na sociedade. O movimento surdo atinge espaços acadêmicos e chega a conquistar um curso de Saiba mais licenciatura a distância.Capítulo 3 representam um local onde ocorre resistência à predominância das pessoas ouvintes dentro dos locais de trabalho.

chegando ao ponto de ter uma Federação Mundial de Surdos (Word Federation of the Deaf – WFD). somente em 2008. Porém. a acessibilidade não pode restringir. despertar a atenção para esses lugares e perceber que os surdos possuem capacidade de liderança. simplesmente. em meios culturais começaram a ser resolvidas quando um surdo. é desenvolver um intercâmbio linguístico e cultural. com sede na Finlândia. mas. não somente no Brasil acontece de o moviPara mais detalhes sobre o curso de Letras mento surdo ser preponderante. desde 2004. é possível fazer a opção pela legenda ao invés da dublada. Libras. sim. vem tentando propagar a ideia a produtores. instituições que se colocam como representantes do potencial dessas pessoas. mas que significaria acesso no que se refere à cultura. As dificuldades de inserção <http://www. participar dos eventos que promovem. Envolver-se com o movimento surdo é mais do que. contendo vários polos distribuídos pelo Brasil. pois é algo indispensável para a evolução do homem em todos os seus aspectos. o grupo conseguiu provar para os produtores que a legenda nacional não iria ocultar as diversidades regionais ou depreciar os dialetos falados na nação. Existem. em Pernambuco.br>. desde 1951. no Saiba mais caso de filmes nacionais. em outros países. pois. FAEL . inclusive o artístico. Marcelo de Carvalho Pedroso. esta opção é Conheça mais sobre a WFD acessando: inviável.ufsc. os alunos surdos têm a possibilidade de se qualificarem para atuarem como professores de Libras.wfdeaf. no caso de filmes estrangeiros. Saiba mais No entanto. consulte: <http://www. organizou um movimento de reivindicação a respeito da legenda nacional. como também. Esse movimento circulou em importantes eventos do cinema e do teatro e. editores e diretores. 142 A possibilidade de acesso aos filmes que são transmitidos no cinema foi uma das conquistas mais recentes do movimento surdo. Mesmo porque. no entanto.Língua Brasileira de Sinais – Libras Federal de Santa Catarina. na edição do Festival do Audiovisual – Cine/PE. promover a participação no mundo. Nessa graduação.org>. A formatação desse movimento tem tomado dimensões cada vez maiores.libras.

para exibição em salas de cinema. com a oportunidade de diminuir a distância que ficou estabeleSaiba mais cida da cultura nacional. e os promotores de peças teatrais e demais obras cenográficas. mas se emociona!”. foi aprovado por representantes políticos.com. foi criado o Projeto de Lei n. os surdos têm a possibilidade de ir ao cinema e ao teatro como qualquer outra pessoa. 1. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Essas legendas podem ser em Libras – com o espaço (a janelinha) destinado para o intérprete – ou com caracteres. exceto: os destinados à divulgação de músicas. tanto em filmes como em teatros nacionais as legendas se tornaram obrigatórias. foi a grande encabeçadora da conquista dos surdos pela legenda. 2007) que. Com a aprovação. os de curta-metragem.078 (BRASIL.078 entrou em vigor no Brasil em 2007 e presume que: ● As empresas responsáveis por distribuir obras cinematográficas ou videofonográficas. sendo Para mais informações sobre a legenda nacioesta muito importante para o nal. sejam obrigados a incluir a legenda nas obras exibidas ou a ofertar interpretação do texto correspondente. em linguagem compreensível a pessoas com deficiência auditiva. após análise. 1. 143 ● Sendo assim. A obrigação estende-se a todos os filmes comercializados para exibição. a civilidade. A escolha fica a critério da produtora. MAS SE EMOCIONA! A partir de tal convencimento. a criatividade e br/campanha.Capítulo 3 A campanha “Legenda para quem não ouve. O slogan é LEGENDA PARA QUEM NÃO OUVE. O Projeto de Lei n. conforme disposto em regulamento. e os exibidos em caráter não comercial ou em festivais e mostras competitivas. os de peças publicitárias.php>. conhecimento. acesse: <http://www.legendanacional.

a visão começa a variar. Tais escolas. 144 Independente do espaço de escolarização dos surdos – seja na escola de surdo ou escola de ouvintes –. Em relação aos surdos. seriação. Muitas comunidades surdas de diferentes países possuem. ouvinte.Língua Brasileira de Sinais – Libras Inclusão educacional de surdos Com a liberdade de escolha. Outra forma de registro FAEL . já existente no Brasil. não como meio de comunicação secular restrito a crianças em horário de intervalo. projeto político-pedagógico e atendimento específico para determinada clientela. Certamente que ainda existem centros especializados de apoio ao surdo. aquilo que se produz e elabora não pode ser revisado e avaliado. se mostra favorável. Entende-se por escola de surdos aqueles espaços que possuem toda uma estrutura formalizada. Esse sistema ainda permanece sob pesquisa. somente no futuro poderemos mensurar. a criança surda pode ser inserida tanto na escola de surdos como na escola de ouvintes. possuem profissionais especializados em uma deficiência específica e atuam como reabilitadores. Até o momento. Essa distinção se contrapõe à antiga terminologia de escolas especiais. mas pensar a possibilidade de registrar a língua de sinais de forma escrita é algo que. que se prestam a ministrar métodos de letramento e oferecer reforço pedagógico aos alunos que participam da escola comum. percebe-se a mesma formação do espaço citado anteriormente. aprendizagem. ainda tendo a desvantagem de que. mas como língua de instrução. em sua grande maioria. Se a primeira língua do surdo é a Libras e se ela é usuária de língua de sinais. pois é possível perceber que a Libras é entendida como primeira língua e o português como segunda. à sua disposição. diferentemente da escrita. mas com a clientela. uma maneira de registrar ideias que as tornam atemporais. cabe destacar que a escola deve ensiná-la um método de escrita compatível com sua habilidade visual. em termos de conquista. Esse termo se refere ao sistema de escrita dos usuários da língua de sinais. sendo evidente que a implantação desse sistema. denominadas especiais. chamado de SignWriting (escrita de sinais). apenas após o término da produção. um meio custoso quando pensado em produção de alta escala. fazer o registro de produções dos surdos só era possível mediante filmagens. com professores. a Libras sempre deverá estar presente. Em relação à escola de ouvintes. um recurso de fixação de sua língua. currículo.

numa ferramenta bem elaborada. esse recurso é muito limitado. A criação dessa ferramenta se deu nos anos 70 do século XX. é a Glosa. fonológico e morfológico. é preciso que essa ferramenta seja ensinada aos usuários das línguas de sinais. Língua Brasileira de Sinais – Libras 145 . A pesquisa também demonstra que o SignWriting é uma ferramenta de escrita que o surdo assimila com maior facilidade. fundamentado em elementos fônicos. Esse sistema paliativo transcreve as línguas de sinais com auxilio dos códigos da língua oral. A princípio. mas somente agora teve início sua divulgação e implantação. por ter como fundamento elementos visuais. nos níveis sintático. Semelhantemente ao que ocorreu com as línguas orais. que aponta que as crianças surdas. informações entre as pessoas. No entanto. podemos citar o trabalho da Prof. Quase sempre. essa ferramenta foi elaborada como uma forma de registrar as coreografias a serem realizadas numa apresentação de dança. Dessa forma. e as ações relacionadas com a alfabetização dos surdos em escritas de sinais são ações isoladas e específicas de pesquisadores. que até então vem sendo utilizada. demonstrando ser uma nova linguagem que modela o pensamento e o organiza quando escrito. passam pelo mesmo processo de alfabetização que as crianças ouvintes em relação ao português. pois não abrange as sutilezas visuais da língua de sinais. A escrita de sinais. ao aprenderem a escrita de sinais. para que isso se torne real. A maior dificuldade é que não existem profissionais formados para desempenhar tal tarefa. uma vez que a escrita de sinais consegue armazenar e propagar. Uma vez percebida a oportunidade de aplicar tal ferramenta às línguas de sinais – representando seus movimentos. a ferramenta adequada para a fixação da língua de sinais seria o SignWriting. cujos objetivos são descobrir e aperfeiçoar métodos de ensino para o SignWriting. No Brasil. básica. a implantação de um método de escrita para as línguas visuais possibilita abertura ao desenvolvimento da cultura e produção de conhecimento nas comunidades surdas. Marianne Rossi Stumpf (2005). empreenderam-se pesquisas no sentido de tornar aquela ferramenta inicial.Capítulo 3 da língua. expressões –. é para o surdo um sistema de grafia muito mais compreensível do que o alfabético. pois ela se objetiva a uma representação visual de uma língua que é visual. por gerações. com o objetivo de promover uma tradução em que os pesquisadores podem propor outras discussões em relação à estrutura da língua de sinais. sendo muito utilizado em pesquisas linguísticas.ª Dra. configurações.

no entanto. ele também é dotado de limitações. recentemente. Isso significa que pode ser um sistema reversível e que. que podem conceder diferentes significados em uma dada frase. os elementos do sistema são finitos e podem ser organizados e reorganizados com o objetivo de formular os diferentes sinais escritos.Língua Brasileira de Sinais – Libras a ponto de funcionar como meio de representação de uma língua. se é lento. pesquisas vêm sendo realizadas e aperfeiçoamentos vêm ocorrendo. necessita de ensino específico e treino para seu aprendizado. que não devem. da localização (se a mão toca alguma parte do corpo). Dentre os princípios básicos estão: a representação da configuração de mão levando em conta sua orientação (se a mão é vista de frente. Afinal. significar desmotivação em relação à escrita. é dotado de regras quanto à organização. como tal. Desde então. a escrita do português não consegue explicitar as diferentes inflexões de vozes. e nem por este motivo há descaso em relação à continuidade de escrita dessa língua. do movimento presente no sinal (se é circular. de perfil.) e sua distância do corpo (perto ou longe). Porém. foi reformado ortograficamente. alguns exemplos dos símbolos do SignWriting: FAEL . Muitos elementos presentes nas línguas de sinais são contemplados pelo SignWriting e. O SignWriting. 146 A seguir.). como toda escrita. assim como na escrita alfabética do português. que procuram – no sentido de que toda escrita é uma tentativa – representar a língua utilizada pelos surdos. do sentido em que o sinal é realizado (esquerda ou direita). assim como acontece com as escritas das línguas orais – como o português que. como todo e qualquer sistema de escrita. se é alternado. etc. etc.

sem ser ensinada. o sujeito surdo poderá iniciar o processo de aprendizagem da segunda língua. Sendo assim. o português. pois quando está em horário de lazer. p. salvo por exceções. Não é o caso de língua estrangeira porque ele se encontra no Brasil.Capítulo 3 Finalmente. Mesmo fazendo uso do português para se comunicar com seus pais. irá adquirir o alemão como uma segunda língua. em suas aulas. o português caracteriza-se para eles como uma segunda língua. É o caso de alunos brasileiros aprendendo francês sem qualquer contato com pessoas do país de referência. por excelência. no máximo. já que adquire naturalmente uma língua espaço-visual até. brincando e se divertindo com colegas na escola. O método de ensino do português como segunda língua presume que. a possibilidade de empregar um sistema de escrita que empreenda sua primeira língua significa mais do que um avanço técnico. pois. nas línguas orais. A Libras é adquirida pelos surdos brasileiros de forma natural mediante contato com sinalizadores. A necessidade formal do ensino da língua portuguesa evidencia que essa língua é. para além de sua própria geração. foi a invenção da escrita que possibilitou que as línguas se estabelecessem e se padronizassem. Representa o valor de poder possuir uma língua escrita e preservada ao longo da vida e para além dela. considerando a realidade do ensino formal. uma segunda língua para a pessoa surda (QUADROS. O que difere entre segunda língua e língua estrangeira é que. mas é segunda língua. A aquisição dessa língua precisa ser assegurada para realizar um trabalho sistemático com a L2. Em relação aos surdos. em sua própria língua. 1997. oportunizando que diferentes pessoas pudessem interagir de forma clara em lugares diferentes. seus sete anos. no caso. para o primeiro caso a língua falada está próxima e no caso de língua estrangeira o aprendizado é de outra língua que se fala em outro lugar diferente daquele que se está. o contato com aqueles que fazem uso da língua que se quer aprender. Por exemplo. denota o prazer de poder se expressar. consequentemente. uma criança. ouve as pessoas falando em alemão e precisa interagir nesta língua. o professor retire do conteúdo a ser lecionado as aulas com exercícios de leitura em grupo ou coletiva (em que o professor Língua Brasileira de Sinais – Libras 147 . Para ter uma segunda língua se faz necessária a aproximação. para os surdos. deve ser sua primeira língua. 84). filha de brasileiros que moram em colônias alemãs.

o foco de discussão incide sobre práticas de letramento. O aluno surdo não lerá em voz alta. atualmente. A seguir. como descritivo. pois ela não consegue fazer uma leitura linear – os olhos não percorrem palavra a palavra dentro do texto –. O letramento possui sua abordagem mais globalizada quanto à língua. Esse aluno deverá realizar a sinalização quanto ao texto. isto é muito significativo. dissertativo e permeado de função social explícita.). pois. anúncios de jornal e outros. Deve também possuir uma cópia ampliada. etc. como: cartazes. mas visual. concede abertura para uma aprendizagem mais significativa. Antecipadamente. cores. narrativo. a fim de que haja exploração na leitura. o professor deve passar para o aluno surdo o texto integral. Então. caso o professor proponha este tipo de atividade para a sala. contendo elementos visuais. em seguida. Para a criança surda. Deve percorrer visualmente todo o texto e. a leitura procederá conforme o texto. letras negritadas. Após essa realização. se o professor for reproduzi-lo. itálicas. irá destacar aquilo que mais se evidencia (imagens. um exemplo de como realizar esse trabalho. uma orientação para que o aluno seja estimulado a pensar sobre o conteúdo que está sendo abordado naquele texto. para Quadros (1997). evitando escrevê-lo no 148 quadro. baseado no cartaz ao lado. pois o respeito fica estabelecido quando a pessoa é tratada com os mesmos direitos e com sua especificidade. isto é. manifestando um sinal equivalente. Após isso. ou seja. propõe o trabalho em forma de texto e não com palavras. diferenciando o tipo de texto a cada aula. sinalizar a temática do texto. o professor precisa ter planejado algumas perguntas para fazer ao aluno surdo (não sendo interpretação de texto). Tal atitude não significa ser excludente. em slide ou transparência. significa que. deve garantir sua formatação e cores. cabe ao professor ajudá-lo no aperfeiçoamento da leitura. ou seja. panfletos. deve “pular” o surdo. ou aqueles que tornam evidente a silabação (junção de b + a = ba). na íntegra. Fonte: São Paulo (2007). que informações possui. A leitura consiste no primeiro passo e. a partir do texto pode tratar de questões diversas quanto à realidade. FAEL . sílabas ou frases. Possuir o texto em mãos. Dessa forma.Língua Brasileira de Sinais – Libras aponta com a régua aquilo que deve ser lido). que palavras já conhece e se tais palavras podem ser aplicadas naquele contexto.

da Prefeitura de São Paulo. e conversarem sobre o porquê disto. Os sinais das cores são demonstrados a seguir. vermelho verde azul 149 alaranjado amarelo cor-de-rosa marrom preto branco Língua Brasileira de Sinais – Libras . há variedade de cores. é necessário deixar os alunos discutirem sobre os elementos extralinguísticos (cores e desenhos). No cartaz sobre a campanha de vacinação contra a raiva.Capítulo 3 Inicialmente. pois. o que possibilita o desenvolvimento de um trabalho interessante. podem ser exploradas. sobre o objetivo social desse gênero textual. além de despertarem muito a atenção.

simultaneamente. seriam: a) Quem pode tomar esta vacina?. E quando o aluno responder. para seu aluno surdo: “Por que é importante vacinar o cachorro e o gato?” Saiba mais Consulte: <http://www. registrando o roteiro no quadro. acréscimo de informação e. quanto aos surdos. por isso. Quadros (1997) aborda que esse contato. em Libras. ou seja. c) Qual o período de vacinação?. e) O que significa o termo “contra”. bem como a interação discursiva sobre a temática apresentada (BRASIL. o contato do material com o aluno. d) Onde podemos obter maiores informações sobre a vacinação?. não muito delongado e que tenha um objetivo social específico. mostrar a palavra raiva no panfleto. Devido a isso. O contato intenso com o material abordado nos textos proporciona a aquisição de conhecimento. o professor atuaria de forma semelhante. 2002a). encaminha-se para a aula propriamente dita. Após o trabalho de escolha do texto. torna-se muito significativo. o professor deve apontar no texto onde isso se encontra escrito. várias vezes. O educador deve oferecer uma leitura de texto que contenha uma imagem condizente com o discurso apresentado. Diferentes tipos de perguntas que o professor poderia formular e oferecer ao aluno. O desafio de trabalho com a leitura é um momento muito importante na aula de alfabetização.youtube. que é o momento em que o professor deve oportunizar. Após apontar no texto a palavra “falada” pelo aluno. ele consiga voltar ao caderno e lembrar-se.Língua Brasileira de Sinais – Libras Em seguida. apreensão do saber. considerando que se destaca como FAEL 150 . o professor pode fazer a pergunta. o professor necessita empreender tempo oportuno em busca desse material. as cores e os dias da semana na Libras. em Libras: evitar bravo morder. o professor irá registrá-la no quadro para servir de orientação. para quando for necessária nova leitura ou haver esquecimento da palavra.com/ watch?v=0l3NX__oQAk>. representa aprendizado a todos os alunos e não apenas aos surdos. os números. b) Precisa pagar?. de real circulação. para que seja algo muito interessante ao aluno surdo. fazendo a ligação daquilo que o aluno diz com o que está escrito no cartaz e. na frase “Vacinação contra a raiva em cães e gatos”? Frente às respostas em Libras. Nesse link é possível visualizar o alfabeto.

é como se pudesse confirmar as hipóteses que ele levanta. em situações assim. para Silva (2001). produtivas ao aprendizado. bem como a elaboração de frases curtas a ele pertinentes. ele procura descobrir o significado de algumas palavras e. é de suma importância para que o aluno obtenha uma referência na leitura e. a interação se dará por meio da Libras (BRASIL. pois é quando o aluno tem a oportunidade de manifestar o seu entendimento sobre a temática apresentada. estabelecendo relações. Dessa forma. No trabalho com a escrita. ele sente-se participante no processo de aprendizagem. Em seguida.” e indagar a colocação do pronome seguido do sujeito da sentença na seguinte situação: se você é uma menina escrevendo. algo tão importante quanto o processo de leitura é o da elaboração escrita. poderão promover grandes discussões. ou seja. é interessante obter sentenças modelo que possam servir de fonte para outras situações semelhantes. ele pode ser levado pelo professor a refletir sobre o conteúdo apresentado.Capítulo 3 uma das únicas formas de acesso às atualidades. o encaminhamento para a aula de português e a metodologia utilizada para trabalhar o letramento com as crianças surdas serão iguais aos dos alunos ouvintes. 2002a). Isso porque. Após a leitura do texto sugerido. quer dizer. A fim de elucidarmos a proposta apresentada. Língua Brasileira de Sinais – Libras 151 . Sendo assim. quando as questões relativas às considerações abordados pelo autor são pontuadas. como esse aluno ainda está no processo de aquisição da língua escrita e trabalha com dificuldade frente aos códigos da língua portuguesa. Depois. Com a possibilidade de o aluno interagir com o a temática do texto. segue o exemplo de um trabalho com a temática: materiais escolares. a intervenção do professor pode ser decisiva para o aluno. o objetivo principal pode ser o da apropriação das palavras relacionadas ao tema. com o diferencial de que o canal de comunicação será o espaço e a visão. visando traçar paralelos e sugerindo uma conversa intertextos. o professor irá propor atividades para que reflitam sobre a língua. a intertextualidade. colocaria “o menina”? E assim. como: “O menino escreveu com o lápis. pode-se exibir uma parte do texto. pois são privados das informações que são veiculadas de forma auditiva na sociedade. se forem apropriados à idade das crianças. ao aluno surdo. Essa função do professor. o professor poderá propor temas a serem discutidos com todo o grupo. o professor se coloca como um mediador. Em relação a essa proposta. No momento da interpretação do texto. Temas esses que.

Quando esse processo se estabelece. Assim. em relação ao surdo. as canetas – a caneta – os meninos – as meninas O menino escreveu com o lápis. há interferência da Libras e. em que o nome do lugar FAEL 152 . Isso porque esse momento é de tamanha riqueza para os surdos. A essa mistura chamamos interlíngua. ou seja. ______________ escreveram com o lápis. significa a aquisição de uma segunda língua (QUADROS. a concordância nominal para evidenciar o número de pessoas. atividades de ligar gravuras a palavras. ______________ escreveram com o lápis. muitas vezes. cruzadinhas. permitindo espaços para que os alunos. vimos a questão da flexão verbal apontando as pessoas no discurso. a frase escrita não será nem em uma língua nem em outra. Após essa explanação. é natural recorrer a primeira língua ao se deparar com uma determinada insegurança. o uso do s como identificador de plural para o complemento caneta e sua inexistência no caso de lápis. mas em ambas. Nota-se que. em que os alunos deverão revisar aquilo que foi trabalhado no texto. está em processo. No caso dos surdos. no caso. pois é diferente da língua de sinais. etc. 1997). inclusive o surdo. É necessário que o professor sempre retorne às frases escolhidas para aprofundar a reflexão em aula. poderão surgir caça-palavras. as palavras discutidas na reflexão linguística feita coletivamente. o professor poderá desenvolver exercícios de fixação.Língua Brasileira de Sinais – Libras ir promovendo a aula. porque para os surdos que não ouvem e nem falam o português. quando estão tentando elaborar mentalmente uma frase em português. O menino escreveu com ______________. O menino escreveu com ______________. o processo de escrita é muito mais difícil do que para os ouvintes. frases para serem completadas. o que significa que o aluno não se apropriou do português completamente e não se distanciou da Libras. Essa frase representa seu aprendizado no português. No caso anteriormente apresentado. Uma frase típica de interlíngua escrita por surdos é: casa ir. abordem possíveis comutações com outras palavras: Insira as palavras a seguir nos seus devidos lugares. a mesma situação acontece.

ele desconhece a necessidade de conjugar o verbo para que haja concordância com a pessoa. Porém. ou então. Tanto o uso de preposição quanto a conjugação do verbo são questões gramaticais que não seriam omitidas pelas crianças ouvintes. As crianças surdas. Na Libras. a pessoa surda ainda não aprendeu que. e mais uma vez o professor fará a marcação sobre o erro e não dará explicações a respeito. ou seja. mas construtivo e reflexivo. até que. Quando o professor avalia qualitativamente. o erro é apreendido. a preposição e a conjunção são implícitas ao sinal (BRASIL. porque após tantas repetições daquilo que é errado o aluno entenderá o que é certo. Língua Brasileira de Sinais – Libras 153 . devido a isso. de imediato se indica a direção do deslocamento (percurso) e aponta-se quem vai (pessoa) a determinado lugar. Sabemos que o ato avaliativo é de suma importância no contexto pedagógico e que não deve ser de caráter punitivo. existe uma grande propensão de que o erro seja internalizado por quem produz. e assim sucessivamente. O professor precisa destacar claramente a atuação incorreta do aluno e mostrar a ele qual a maneira correta de fazer. enfim. pois estas já possuem total domínio na hora de escrever. Além disso. nesta língua. está contribuindo para o desenvolvimento e crescimento intelectual e pessoal do seu aluno e.Capítulo 3 onde moramos é casa e em que usamos o verbo ir quando anunciamos que haverá deslocamento de um lugar para outro. então. deve entender que a simples disposição de valor a uma atividade não será significativa. mas não explica a razão do erro. se esse aluno surdo se encontra na segunda etapa do Ensino Fundamental. o aluno sempre comete o mesmo equívoco e o professor sempre o evidencia (com caneta vermelha). nesse caso. diferentemente. com o sujeito da frase que. depois do verbo ir. se está no Ensino Médio. já que estão habituadas a ouvir os adultos se comunicando. que é o que permeia todas as áreas do conhecimento. é necessário o uso da preposição para. quando o verbo ir é sinalizado. pois. é importante que os professores das variadas disciplinas entendam a especificidade da forma como o surdo escreve para poder estabelecer critérios diferenciados de avaliação. É necessário ir além. No entanto. Caso contrário. seria: eu irei. ele fará novamente. Isso pode se tornar algo costumeiro e. decoram os nomes dos sinais que produzem em Libras. 2002a).

Língua Brasileira de Sinais – Libras Em casos de correção de textos. desta forma. ligações e conjunções necessárias na língua portuguesa. O texto deverá servir como elemento de comunicação entre o professor e o aluno. Normalmente. passem a ter aversão à língua portuguesa. Ao olhar para a produção textual de um aluno surdo. É necessário que o professor se coloque na posição de interlocutor e faça interação com o texto. os alunos surdos os esquecem com frequência. o professor deve considerar a organização do pensamento e. devido aos conectivos inexistirem na Libras. os surdos alteram a ordem da frase por não se lembrarem do local exato em que se deve empregar os constituintes da língua. tornando a escrita relevante. sempre pensarem que é difícil e que nada sabem. poderá atentar para a separação das ideias em parágrafos e para a coesão. Tais pontuações é que devem ser avaliadas com frequência nas correções textuais. Sendo assim. O próximo passo requer ensino dos elementos coesivos. devido a tantas sinalizações sem qualquer explicação. assim. surgem frases como: “Casa é a bonita”. se relaciona com o português como uma segunda língua. mas de acordo com as regras gramaticais normativas. não melhor. a correção será mais uma forma de interação. O mesmo objetivo que se aplica ao aluno ouvinte deve ser aplicado ao aluno surdo. o normal é que os alunos. Quando o professor fizer a correção dos textos elaborados pelos alunos. Frente à tamanha dificuldade de lidar com artigos. O propósito pelo qual o professor deve corrigir o texto do aluno é de que. É importante saber que tal trabalho será contínuo e constante. Dessa forma. tornar importante aquilo que foi produzido por ele mediante incentivo e fazer com que ele perceba que sua comunicação poderia ter acontecido de outra maneira. é preciso que ele tenha em mente o significado social da escrita. pois. o professor deverá estimular o diálogo com seu aluno. os alunos surdos costumam decorar a ortografia destas palavras e confundir sua ordem sintática. FAEL 154 . para que se obtenha sucesso no propósito pedagógico de ensino do português para surdos. assim. Porém. ao final de um processo pedagógico de ensino da língua portuguesa. preposições. o professor deve participar em língua de sinais e compreender que a dificuldade destacada em relação a esse aluno ocorre devido a ele escrever em uma língua que não fala e. já que o aprendizado acontece mediante interações sociais. o aluno tenha uma expressividade fluente com clareza e objetividade. pois.

o que ocasiona uma sentença agramatical. neste caso. assim. tais como: “O moto”. figura esta que também faz parte da comunidade surda e é responsável pela mediação entre surdos e ouvintes: o intérprete. construir sentenças erradas. procedem à sua tradução. em conformidade com as regras gramaticais. procurando Língua Brasileira de Sinais – Libras 155 . a vogal “a” deve ser inserida antes do sujeito (casa). o aluno adota o hábito de decorar a regra e utilizá-la de maneira genérica em qualquer caso. Quadros (1997) diz que. mas que desempenha um trabalhado diferenciado. podem ser intérpretes quando veem uma língua sinalizada de um país em específico e a transpõe para a língua de sinais de outro país. Para tanto. Esse profissional é aquele que. apreendem o seu sentido geral e. os tradutores leem e estudam o texto original. Eventuais situações exigirão do professor que esclareça as exceções. em seguida. Tal regra não existe no português. por dominar a Libras e o português. há outro sujeito. permitindo que pessoas que escrevem e falam em línguas diferentes possam se comunicar entre si. o tradutor. pode vincular a interação entre pessoas que as desconheçam. O trabalho do intérprete consiste em transpor textos ou discursos de uma língua para outra. o intérprete com discursos orais.Capítulo 3 Essa frase demonstra que o seu responsável já tem ciência da necessidade de nomes femininos virem acompanhados da vogal “a” e. Dessa feita. por desconhecer onde deve colocá-la. podendo. A principal diferença entre a atuação desses profissionais está no fato de que o tradutor trabalha com textos escritos. pessoas surdas podem atuar como tradutores quando leem textos em português e os transpõem para Libras. um vocabulário masculino solicita o acompanhamento de um artigo do mesmo gênero. o que consiste num trabalho sistemático para ele. Por isso. escolhe aleatoriamente um lugar próximo ao adjetivo. o professor precisa intervir a esse respeito e mostrar para o aluno que há uma dependência estrutural (organização obrigatória da frase) que rege o local do nome e o local do artigo e. Ainda no contexto dos anos finais do Ensino Fundamental ou de Ensino Médio. por se tratar de uma situação muito específica do português. Ou ainda. também envolvido na comunidade surda e com o mesmo domínio linguístico. Além do intérprete. há que se destacar que os sistemas de ensino têm garantido a presença de um profissional muito importante para acompanhar o aluno surdo. pois. O que será altamente compreensível.

o intérprete passa a Libras para o português. acompanhando determinada pessoa. o profissional intérprete pode escolher entre uma das principais modalidades de interpretação existentes: ● interpretação de acompanhamento – é o profissional que. interpretação judicial – é a interpretação realizada no âmbito de um julgamento. em seguida. pois em situações formais de palestras e simpósios. normalmente. transpõem um discurso oral emitido em uma língua para outra língua. ou seja. interpretação de conferência – é realizada em reuniões multilíngues formais. quando o surdo fala. congressos. o intérprete sinaliza para o surdo. FAEL . A interpretação consecutiva é mais adequada para as conversações que envolvem um número reduzido de participantes. Para desempenhar bem esse trabalho. ● 156 ● Essa última forma de atuação é bastante comum em relação à Libras. seminários. tais como pequenas reuniões técnicas entre especialistas. a fim de que o interlocutor o entenda e. o intérprete encontra-se junto ao orador. é solicitada a presença do profissional intérprete. Quando o intérprete está mediando uma relação entre surdos e ouvintes de ordem formal. quando o ouvinte fala. Já a interpretação simultânea é mais adequada para encontros que envolvem muitos participantes. ouvindo a sua intervenção e tirando apontamentos. a fim de que os participantes surdos possam acompanhar o evento. interpreta em ambos os sentidos os diálogos que esta estabelece com interlocutores que se comunicam em outra língua. na primeira pessoa do singular). garantindo a transposição quase imediata dos discursos orais. encontros ou jornadas. Já as pessoas ouvintes que atuam profissionalmente como intérpretes. conferências. mesas-redondas. e funcionam como elo entre pessoas que se comunicam verbalmente em idiomas diferentes. interpreta integralmente em outra língua o discurso feito. designadamente.Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitar as ideias e os pensamentos nele presentes. aplicando a terminologia mais correta. ele pode optar por desempenhar seu trabalho de forma consecutiva ou simultânea. Nesses casos. como se este fosse seu (isto é.

o estilo e o espírito que o discurso apresenta. de forma a não perder nenhuma informação. precisa ter grande capacidade de concentração e de memória. a saber: de conhecimento profundo sobre as línguas envolvidos. sua constituição intelectual. afinal. econômica e social. e de conhecimento sobre atualidade política. sons dos instrumentos) pelo professor denotará preconceito. Libras e português. Por isso. Nesse sentido. Diante de tantas exigências para atuação. neste caso. vemos o quão árdua é a profissão de intérprete e o quão importante ela é para que a interação social entre falantes de línguas diferentes seja bem-sucedida. Além disso.Capítulo 3 Ao mediador de relações entre surdos e ouvintes são outorgadas pelo menos três grandes responsabilidades. é essencial que o intérprete também tenha excelentes faculdades de análise e de síntese. como se dão as relações sociais da surdez. a melhor atitude a ser tomada seria: ● Poupá-lo da aula. Para isso. já que ele sentirá que não produz na mesma proporção que os demais alunos. Língua Brasileira de Sinais – Libras . 157 Da teoria para a prática Agora que o profissional da educação já entende. e deixá-lo junto às atividades desenvolvidas (coral. cabe à coordenação pedagógica gerir qual o melhor procedimento diante de uma disciplina de música a ser trabalha em uma sala de aula em que estejam incluídas pessoas surdas. esse profissional precisa ter clareza do que ouve para interpretar adequadamente o sentido. treino auditivo e rápida compreensão dos discursos orais. de conhecimento sobre as culturas envolvidas – de surdos e de ouvintes. pessoal e subjetiva é construída a partir da visão. Aos intérpretes de Libras. de forma que. Isso é importante porque os intérpretes nunca têm a possibilidade de voltar a ouvir o que foi dito. Nesse caso. coloca-se uma questão: a relação do direito assegurado e do julgamento de valor. nosso respeito e consideração pelo grande trabalho desempenhado junto às pessoas surdas. preservando a continuidade e o sentido dos discursos orais. consiga manter o ritmo da intervenção sem perder informações.

para ter uma comunicação facilitada. ele explique em Libras o que entendeu da leitura. por isso. afinal. Diante disso. Ao invés de assistir ao filme – dada a ausência de legenda –. Adaptar a atividade. injusto. devido ao fato das dificuldades inerentes à sua história de vida (não adianta assistir ao filme. ele não entende e não consegue escrever no nível exigido. a melhor atitude seria: ● Insistir na cobrança da atividade. pois não há janela e. pois o filme tem um conteúdo extremamente importante para a disciplina. já que a condição auditiva não poderá ser alterada. FAEL . humanamente falando. Além disso. Privá-lo dessa participação implica em reserva de cultura e isso é. se possível. 158 ● Síntese Neste capítulo. o professor passa o relatório de um dos alunos para que o surdo leia e o dispensa da entrega do relatório. o aluno surdo comparece à aula sem a atividade executada e argumenta que não deve ficar sem a nota. O aluno deverá procurar uma forma de assistir ao filme e compreendê-lo. ainda que existam critérios diferenciados para avaliação.Língua Brasileira de Sinais – Libras ● Integrá-lo à aula. Ainda levando em conta a tomada de decisão no contexto escolar. como aluno. sugere-se uma questão ao professor regente de sala de aula: diante da proposta de assistir um filme e fazer um relatório. já que o português é sua segunda língua). vimos que o surdo prefere se casar com outro surdo. ele deverá realizar todas as demandas apresentadas em sala. Destacamos que a aquisição da linguagem da criança surda acontece nos mesmos moldes da criança ouvinte. salvaguardando suas especificidades e tentando adaptar os sons para os gestos e/ou movimentos dos sinais. vimos que a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades que não se encontram na organização de uma pessoa ouvinte. Apenas solicita que. que quando têm filhos surdos a relação é amena. o que poderá acarretar em algumas dificuldades de relacionamento. ao passo que quando os filhos são ouvintes (Codas) haverá uma dupla constituição psicológica.

também. trouxemos os tipos possíveis de escolarização (escola especial. Quanto à inclusão dos surdos. a Libras deve ser assegurada como língua de instrução.078/2007). 159 Língua Brasileira de Sinais – Libras . já que estas pessoas não ouvem e não falam a língua que devem escrever e ler.Capítulo 3 Abordamos. a questão de que as relações sociais se mostram como espaço constituidor de identidade e de desenvolvimento cultural e apresentamos as disseminações políticas consideradas no caso da surdez (closed claption e Lei n. escola inclusiva e centro de apoio ao surdo) e defendemos que. indiferente do espaço. pois este se apresenta como segunda língua e por isto vem carregado de dificuldades para ser aprendido. Dessa forma. 1. apresentamos a importância do seu registro por meio do SignWriting (escrita de sinais) e de metodologia específica para o ensino do português.

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