Lídia da Silva

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Capítulo

Língua Brasileira de Sinais – Libras
Lídia da Silva

Curitiba 2010

2010. FAEL Diretor Acadêmico Diretor Administrativo-Financeiro Coordenadora do Núcleo de Educação a Distância Coordenadora do Curso de Pedagogia EaD Secretária Geral Osíris Manne Bastos Cássio da Silveira Carneiro Vívian de Camargo Bastos Ana Cristina Gipiela Pienta Dirlei Werle Fávaro SiStEmA EDuCACioNAL EADCoN Diretor Executivo Diretores Administrativo-Financeiros Diretora de operações Diretor de ti Coordenadora Geral Julián Rizo Armando Sakata Júlio César Algeri Cristiane Andrea Strenske Juarez Poletto Dinamara Pereira Machado EDitorA FAEL Coordenador Editorial Edição Projeto Gráfico e Capa ilustração da Capa Diagramação ilustrações William Marlos da Costa Thaisa Socher Denise Pires Pierin Cristian Crescencio Ana Lúcia Ehler Rodrigues Dilmar Kempner Júnior . É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael. Nota: conforme Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. I. Lídia da S586l Língua Brasileira de Sinais – Libras/ Lídia da Silva.9 Direitos desta edição reservados à Fael. CDD 371.: il. Educação inclusiva 2.Ficha Catalográfica elaborada pela Fael. 1. 164 p. Título. – Curitiba: Editora Fael. Libras. Bibliotecária – Cleide Cavalcanti Albuquerque CRB9/1424 Silva.

Ao Ronaldo Quirino. . intérprete de Libras. que me indicou este caminho.

.

Os assuntos são apresentados de uma forma clara. Antes do Decreto n. 5.262/2002. A professora Lídia da Silva conseguiu abordar os mais importantes conteúdos necessários ao entendimento dos desafios colocados aos professores pela mudança implantada na educação dos surdos. em geral. nos cursos de Pedagogia. apresentação . a Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. que exige deles uma atuação esclarecida e interessada. de uma maneira informal e nada padronizada. as entidades da comunidade surda. a história e as lutas do povo surdo pelo reconhecimento de sua língua. A aprendizagem de Libras é lei em muitos cursos. Os alunos desses cursos precisam aprofundar não apenas o conhecimento da língua de sinais. mas conhecer o porquê de a língua ser um direito na educação dos surdos. Professores esclarecidos quanto à complexa realidade da criança surda poderão trabalhar dispensando o carinho merecido a essas crianças. sem diminuir os conteúdos necessários. as igrejas.. que permita diminuir o preconceito com que. etc. Hoje muita coisa mudou. sempre divulgavam cursos de Libras. é crucial e precisa se concretizar. A aprendizagem da língua precisa estar dentro de um contexto organizado. são vistos os surdos.apresentação A produção de textos para a disciplina de Língua Brasileira de Sinais – Libras. que reflete muitas pesquisas recentes na área. como as associações de surdos. e atuar de forma a fazer avançar as condições de acolhimento na escola e na família. visando promover a comunicação entre as pessoas.

. mesmo entre a maioria dos professores. Marianne Rossi Stumpf* * Doutora em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atua como coordenadora geral do curso de Letras-Libras e como professora adjunta da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). informática e escrita de língua de sinais.apresentação apresentação Esses avanços são necessários para que se concretize uma real inclusão na sociedade e a diminuição dos preconceitos existentes. Orienta pesquisas na pós-graduação em Linguística e tem experiência na área de educação de surdos. língua de sinais.

oirámus
Prefácio.........................................................................................9

sumário

1 2 3

Status linguístico da Libras ........................................................11
Estrutura gramatical da Libras ..................................................41 Implicações sociais da surdez .................................................127 Referências...............................................................................161

oicáferp
Q

Capítulo

prefácio
9

uando nos deparamos com uma pessoa surda pela primeira vez, algo acontece que faz deste encontro um momento único e singular em nossas vidas. Para alguns, esse momento vai significar o confronto com suas dificuldades e limites, que ficará apenas na memória. Para outros, esse momento vai significar uma mudança de vida, devido a uma tomada de decisão quanto às questões relacionadas à surdez e à língua de sinais. Uma tomada de decisão que implica na proximidade com a pessoa surda e sua língua. No meu caso, o efeito do encontro foi o segundo. Diante de um primeiro contato com uma pessoa surda, fui tomada pelo desejo de me desafiar e de tentar uma aproximação com ela, ainda que isso exigisse muito esforço e dedicação, pois o processo de aprendizagem de uma segunda língua não é uma atividade das mais fáceis da nossa vida. A entrada nessa nova esfera linguística me motivou a buscar cada vez mais conhecimento sobre a Libras e suas implicações para os sujeitos surdos, e esta busca foi determinante na minha formação acadêmica e profissional. Hoje sou pesquisadora, usuária, tradutora e professora de língua de sinais, e me deparo todos os dias com os desafios que uma língua espaço-visual impõe às pessoas que são falantes nativas de uma língua oral-auditiva. Porém, além dos desafios, me deparo também com a beleza, com a completude, com a satisfação de poder estabelecer comunicação por meio das mãos, dos olhos, do corpo, dos sinais. Assim se constituiu minha busca, e assim espero que se constitua a leitura deste livro aos leitores: descobertas recheadas de desafios e encantamentos.

sem esgotá-los. . mas sempre destacamos que eles – os surdos – também devem ter voz neste processo. Atua como orientadora de aprendizagem no curso de Letras-Libras e é tradutora de Libras da Universidade Positivo. Até porque. Minha expectativa é conseguir. A autora. já que é uma tarefa árdua esboçar graficamente os detalhes de uma língua “espacial-tridimensional”. sintáticos e semânticos da Libras. Além disso. É preciso que tenhamos esse encantamento para podermos. de alguma forma. contribuir com as discussões sobre os surdos e sua língua. no seu valor e nas suas possibilidades comunicativas. que o leitor possa – após receber esta introdução – percorrer caminhos mais longos no conhecimento da estrutura gramatical da Libras. é claro. é que gera condições de entender as implicações sociais da surdez. no sentido de poder empregar a característica de “língua” a esta forma de comunicação.* * Lídia da Silva é mestre em Linguística. acredito que o leitor será tomado de encantamento ao se deparar com o status linguístico da Libras. esclarecer a constituição dos aspectos fonológicos.10 oicáferp prefácio Julgo que os principais desafios que se encontram neste texto são de ordem mais gramatical. morfológicos. torna-se mais fácil conceber a ideia de uma pessoa viver apenas com experiências visuais e assim construir toda sua impressão sobre o mundo. minimamente. Com esse olhar de diferença linguística. espero que esse desafio soe como um convite a uma leitura mais aprofundada sobre o tema. Esse encantamento pela Libras. e de não mais creditar como verdade as falácias sociais ditas sobre ela até então.

a estrutura sintática – enquanto que os parâmetros são as diferenças que existem entre eles – as categorias gramaticais. Vamos abordar algumas definições preliminares e algumas discussões sobre as mudanças das terminologias na área da surdez. como a modalidade linguística espaço-visual. o texto apresenta os universais “comprobatórios” da natureza linguística da Libras. Assim. tais como aquisição da linguagem e estrutura gramatical das línguas naturais. as marcas para formalidade e informalidade. bem como o refutamento aos mitos sociais que até então circundavam a concepção que se tinha sobre ela. apresentaremos uma introdução das ideias que serão desenvolvidas posteriormente. este texto se insere nessas discussões por acreditar que a Libras possui os mesmos valores linguísticos que as línguas orais. atentaremos para a forma de nomeação da pessoa surda e da sua língua. portanto. Dessa forma. Nesse ponto. a teoria entende características iguais entre os idiomas – predominantemente. de forma mais pormenorizada. parâmetros que a distinguem das línguas orais. o caso de empréstimos de outra língua – fenômeno recorrente nos sistemas linguísticos. da Libras. e outros. Essa teoria atesta que princípios e parâmetros imperam na constituição de todas as línguas do mundo.Status linguístico da Libras N 1 11 este primeiro capítulo. Há. Por princípios. porém. tem sido muito comum as pessoas se depararem com outras conversando de um modo muito diferente do que estão . por exemplo. sobre a teoria inatista de Chomsky. Definições preliminares Atualmente. Trataremos. pois ela embasa nossas considerações acerca dos fenômenos linguísticos explanados.

Prova disso é a própria dificuldade terminológica. FAEL 12 . sendo considerada improdutiva para a sociedade. não existiriam os títulos. especialmente depois da decisão do II Congresso Internacional sobre Instrução de Surdos. Porém. consequentemente. Houve uma época (século XV) em que as pessoas que não podiam ouvir eram atiradas do alto dos rochedos. que aconteceu em Milão. como as pessoas que ouvem. Não fosse assim. em 1880. aquilo vai se tornando comum. a sociedade decide que as pessoas que não ouvem devem ser oralizadas. ainda há contradições manifestadas nas práticas. prevaleceu por muito tempo. no início do ano 2000. Esse tipo de concepção e. O professor era mero treinador de fonemas e o aluno deveria empreender todos os esforços possíveis para realizar uma boa leitura labial. Depois. num primeiro momento. que entendia que o método de ensino mais adequado aos surdos seria a oralização. o modo como nos reportamos aos outros quer dizer alguma coisa. mas há um duplo envolvimento: por parte deles e por parte da sociedade. tratamento de reabilitação. no sentido de que ela deve se adequar aos moldes padrões. pois elas não eram consideradas humanas. nem sempre foi assim. mais aceitável a sua forma de expressão passa a ser. De fato. mas com o passar do tempo esse sentimento se desfaz e dá lugar a uma impressão de normalidade.Língua Brasileira de Sinais – Libras acostumadas a ver. À medida que estas pessoas vão se mostrando à sociedade. infelizmente. a integração foi a concepção adotada. os vocativos e os pronomes de tratamento. Porém. como devemos nos referir a tais pessoas? Certamente. Porém. mas com qualquer uma que apresentasse alguma limitação física ou sensorial. Quando isso ocorre. a forma como nos dirigimos à pessoa revela o valor que damos a ela. surge um sentimento de estranhamento. vem impresso de significado. mesmo havendo um novo paradigma social emergindo. Após esse período. este método de ensino chamado oralismo. Havia uma exclusão escancarada não só com essas pessoas. Nessa perspectiva. para então estar integrada à sociedade. Ser uma pessoa oralizada significa desenvolver sua fala por meio da vocalização dos sons. o trabalho era de: recuperação auditiva. Nesse sentido. não apenas as pessoas que não ouvem passam a se integrar e emprenhar esforço para tornarem-se normais. ainda que não pudesse ouvir sua própria voz. exercícios mecânicos. Normalmente. começam os rumores de uma nova filosofia social e educacional: a inclusão. A integração é a fase que compreende a concepção e a prática da pessoa com deficiência a partir de um esforço adaptativo apenas de sua parte.

”. etc. É o caso do termo “deficiente auditivo” ou “d. surdos-mudos para aqueles que não sabem que eles falam.Capítulo 1 No caso das pessoas que não podem ouvir. a condição de não ouvir. 2005). não estão em sintonia com o que já é socialmente Verifique em <http://www. está falando. pois. e. para aqueles que os olham Língua Brasileira de Sinais – Libras 13 . Foi a partir da década de 90 do século XX que inauguraram algumas pesquisas no país sobre a língua de sinais. estamos destacando o que há de ausente naquela pessoa.626 (BRASIL. Nesse sentido. aceito. Primeiro. sexual. consequentemente. há algumas alternativas de tratamento que podem denotar a consideração social a respeito de sua condição.org. também Saiba mais deixam de ser válidos termos como “surdo-mudo” ou “mu. segundo o Decreto n. a sociedade progride e tem sua visão alterada. aquilo que lhe é deficiente. estamos invocando aquilo que ela não tem. e isto propiciou um olhar antropológico e cultural sobre a surdez. Quando usamos esse termo para nos referir a uma pessoa. mas a informação que mais nos importa é sua patologia e/ou sua condição clínica. ele está pronunciando-se na sua língua.a. religiosa. parágrafo único. Então. porque quando o surdo está sinalizando. 5. Artigo 2º. aliás.br>. porque existem muitos surdos que têm domínio da língua oral e que se comunicam também com sons da voz.Há um slogan propagado pela Federação Nadinho”. apague esta ideia! tivos. falar não significa vocalizar. Capítulo I. Conceitualmente. pois todos já fazem parte da sociedade. anula a necessidade de reabilitação para integração. política. os surdos são deficientes auditivos para aquelas pessoas que os enxergam com uma visão clínico-terapêutica. Então. dizer surdo-mudo é duplamente incorreto. além de pejora. Depois. não há necessidade de inserção das pessoas. ainda que os fonemas sejam desorganizados por falta do feedback auditivo. De acordo com essa concepção de diferença (ao invés de deficiência). não estamos vendo-a como pessoa. somos apenas mais uma figura no cenário da diversidade social – racial. Esse olhar para o surdo como uma pessoa diferente acaba com a concepção de deficiente auditivo – anteriormente impregnada nos meios sociais e educacionais – e. financeira.feneis. emitir sons. de gênero.cional de Educação e Integração de Surdos que diz: SURDO-MUDO. mas expressar a sua língua. Com o acelerar da recepção de informações.

Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitando sua diversidade linguística. Portanto. Contrariamente. De fato. porque ele remete a um posicionamento político de respeito ao sujeito como um ser social. de quando os surdos chegam a estabelecimentos comerciais. por exemplo. a partir de agora. são apenas: surdos. poucas são as pessoas que reconhecem o que significam tantos movimentos e tantas sinalizações. e não com uma visão clínica ou patológica. usaremos o termo “surdo”. a órgãos públicos ou privados e fazem este sinal: Oi FAEL . falante da língua de sinais. por meio do estabelecimento de uma comunicação visual. É o caso. as pessoas que têm a capacidade de ouvir são chamadas de ouvintes. para nos referirmos a essas pessoas neste texto. Surdo Ouvinte 14 Os surdos conversam com as mãos.

com os sinais da Libras. ou seja.Capítulo 1 As pessoas não sabem o que isso significa e. conforme exposto a seguir: Tudo bem? Qual é seu nome? Qual é o seu sinal?1 Bom dia 15 Boa tarde Boa noite 1 Os surdos dão um sinal para cada pessoa e não as chamam pelo nome. na esperança de conseguir estabelecer uma comunicação. tentam falar mais lentamente ou buscam um papel para escrever. o desejável seria que essas pessoas pudessem responder da mesma forma. na maioria das vezes. Porém. Língua Brasileira de Sinais – Libras .

assim também como independe da cultura. Há. enquanto que a sinalizada tem a característica de ser espaço-visual. e que escolhemos para construir nosso aporte conceitual. Por outro lado. infelizmente. Há. quem pense que são “mímicas”. as crianças já nascem equipadas com vários aspectos relacionados à organização sintática das línguas humanas que FAEL . vamos pensar na oposição língua X linguagem. e a faz sob diferentes perspectivas teóricas. por exemplo. nos Estados Unidos. há pesquisadores que são mais adeptos aos postulados teóricos de Chomsky (1957). ainda. Para ele. pesquisadores que são adeptos a concepções sociais e há outros que procuram abordagens mais naturalísticas para formular suas concepções. destituem do ser humano as responsabilidades pelo seu desempenho linguístico. 16 A linguística é a área científica que se debruça a conceituar essas duas categorias. A língua falada é conhecida por possuir uma característica oral e auditiva. Segundo essa teoria. pois independe da qualidade interativa que se estabelece com a criança. Posteriormente explicaremos porque esses dois últimos termos são inadequados. Os que entendem que a influência do social é determinante para aquisição da língua. que as pessoas a chamam de “linguagem de sinais”. basicamente. vemos que o desconhecimento sobre essa modalidade linguística é tanto. a língua de sinais tem modalidade espaço-visual. Inscrevem-se nesse tipo de abordagem as vertentes da linguística estrutural e funcional. Porém. o processo de adquirir a estrutura de uma língua natural é universal. Portanto. Isso significa que o espaço (lugar a frente do corpo) é o canal de emissão e a visão é o canal receptor da mensagem. Essa aquisição é possível devido ao fato de as crianças possuírem um conhecimento linguístico inato que as guia por esse processo. Há outras que a chamam de “gestos” e há. e o desconhecimento não é só dos vocabulários. Tais ideias deram origem à teoria que vigora até o presente. três modalidades das línguas naturais: língua falada. por ora. mas da própria nomeação desta modalidade linguística. esses e outros tantos sinais necessários à comunicação com surdos são desconhecidos pela população ouvinte. Trata-se da teoria gerativa. mas. do Massachusetts Institute of Techonology – MIT. E o que vem a ser modalidade linguística? É a forma como a língua se manifesta.Língua Brasileira de Sinais – Libras No entanto. língua escrita e língua sinalizada.

O DAL. [. A criança é vista como aprendiz eficiente a despeito da pobreza de estímulos.. além da sua capacidade de evocar os pensamentos adequados no seu interlocutor. essa capacidade é uma consequência direta do fato de sermos humanos. devido à discrepância entre input e output do falante. A perspectiva chomskyniana de linguagem está resumida no excerto a seguir.. abriga os princípios que são comuns a todas as línguas humanas. [. sistema armazenado na mente. pois a mente humana abriga um sistema “computacional” capaz de gerar representações linguísticas. fica a cargo da interação social. somos humanos ou não somos.. a aquisição da linguagem vai acontecer naturalmente – sem que haja um aprendizado formal –..] pode-se dizer que o uso criativo da linguagem não se limita ao estabelecimento de analogias. com coerência e de forma apropriada a cada contexto. porém.Capítulo 1 são geneticamente determinadas. Esse argumento é comumente tratado por problema de Platão2. Como diz Descartes. Isso se comprova. possibilitando um melhor entendimento de que a linguagem reflete uma capacidade mental do ser humano. Em outras palavras. e 2 O argumento da “pobreza dos estímulos” é tratado por Chomsky (1957) como uma atitude platonista.] Sob esta perspectiva. livre de estímulos. é capaz de se desenvolver ao ponto de gerar infinitos enunciados bem formados. entendida como um órgão biológico carente de iniciar seu funcionamento que. a criança é exposta a estímulos pobres e limitados. apenas pela maturação da GU. Por isso dizemos que essa teoria é de natureza mentalista. mas reflete a capacidade do ser humano de fazer uso dela no seu dia a dia. Nesse sentido. Esse fator é preponderante no princípio do funcionamento do DAL. mas não para determinação do seu estágio final. enganosas e fragmentárias? 17 Língua Brasileira de Sinais – Libras . no caso. segundo Chomsky (1957). pois não existem graus de humanidade. por isso o nome problema de Platão é extraído da questão filosófica. de como é que o ser humano pode saber tanto diante de evidências tão passageiras. O estágio final são as propriedades linguísticas alcançadas pelo adulto. devido ao seu inato conhecimento linguístico. Chomsky (1957) denomina esse conhecimento linguístico predeterminado de “Dispositivo de Aquisição de Linguagem – DAL” (em inglês: Language Acquisition Device – LAD). Esses princípios formam um conjunto de regras linguísticas uniformes chamado de Gramática Universal – GU. observando propriedades específicas.

sendo que cada uma é formada por cadeias de elementos. ela é social. ela é entendida como um conjunto de regras que geram uma infinidade de sentenças. A linguagem é uma função mental superior4. Dessa forma. não está instalada no cérebro humano. é de natureza muito mais individual. p. memória. enquanto a língua. 3 Epifenômenos são fenômenos adicionais que se sobrepõem a outros. poderíamos dizer que a linguagem é um dispositivo que já está acoplado na mente humana desde o nascimento. linguagem e outras. etc. Para o linguista adepto à corrente gerativa. sendo assim. Um estudo da faculdade da linguagem deve propor propriedades específicas e descobrir os mecanismos da mente que as apresenta. internas (inconscientes) e intencionais (automáticas). a Libras não pode ser chamada de “linguagem de sinais”. língua é um conjunto de regras que gera uma infinidade de sentenças. Assim. e isso não acontece. nem exercer sobre eles qualquer influência. 2008. mas está no seio da sociedade e por isso precisa ser adquirida. portanto. a não ser no nível da superficialidade. (QUADROS. isto é. são fatores sociais. o objeto de estudo é postulado como o conhecimento inconsciente da língua. opostamente. 4 Função mental superior é sinônima de função psicológica. 47). mas sem modificá-los. Podemos concluir que a Libras deve ser aprendida e. e que este dispositivo deve ser acionado pelos estímulos externos para poder desenvolver a língua. e elas são: pensamento. além de dar conta destas mesmas propriedades em termos da ciência física (QUADROS. considerando que. podemos concluir que a terminologia “linguagem de sinais” passa a ser cientificamente inapropriada. p. atenção. Posto o entendimento de que há diferença teórica no conceito de língua e no conceito de linguagem. se será aprendida. todos seriamos sinalizadores. Segundo Kato (1997). se assim fosse. políticos. nesse modelo teórico. significa que ela é externa a nós. caracterizadas como individuais. FAEL . Quer dizer.Língua Brasileira de Sinais – Libras não há variação essencial entre os humanos. Essa é a concepção de língua que adotamos. encarado como um sistema “computacional”. há ainda que se colocar que. raciocínio. esse conhecimento tem caráter intencional e o uso é inconsciente devido ao uso automático da língua. 47). econômicos. 2008. nos aspectos epifenomenais3. FINGER. inteligência. culturais. é língua. 18 Apesar de já termos adiantado o conceito de língua. percepção. FINGER.

436/2002 (BRASIL. podemos adentrar mais especificamente nas considerações sobre a “língua” de sinais. reproduzimos a seguir o sinal empregado pelos surdos para nomear sua própria língua: Libras 19 Um dos documentos legais que contempla a sigla Libras é a Lei Federal n. Língua de sinais Iniciamos pelo signifiSaiba mais cado do termo.pdf>.Capítulo 1 A partir dessa concepção. 2002b). A partir dessa aprovação. Como Libras é nossa opção terminológica. a Libras passou a ser aceita como língua Língua Brasileira de Sinais – Libras . A LSB é a sigla utilizada por pesquisadores que publicam textos internacionais. e é o termo presente em documentos legais.mais sobre o assunto em: <http://www. já que há diferenLibras (Língua Brasileira de ça conceitual nestes diferentes registros. se deve ser correntes para designar a línLIBRAS (todas as letras maiúsculas). desta forma.br/ead/pne/Terminologias. 10. já que todas as demais línguas de sinais do mundo possuem uma sigla com três letras. Leia Sinais) e LSB (Língua de Si. A primeira foi oficializada pela Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. libras gua de sinais utilizada pela (todas as letras minúsculas) ou Libras (apenas comunidade surda brasileira: a primeira letra maiúscula). é possível ter uma rápida identificação para LSB. nais Brasileira). com. que oficializou a língua no Brasil.fiemg. visto que no Há pesquisas que discutem a melhor grafia Brasil há duas terminologias para a língua brasileira de sinais.

436 oficializou a Libras. discutindo e publicando suas investigações sobre esta língua. Não devemos. Diferentemente. antes disso. essa conquista só foi possível mediante a congregação dos surdos em prol dessa causa. cruzamos os braços. com o intuito de combater os mitos que havia sobre ela. estamos produzindo gestos. há que se percorrer um longo caminho. mas. 1998. FAEL . Ter uma lei que oficialize um idioma em um país é muito importante.Língua Brasileira de Sinais – Libras usual na comunidade surda. 20 Mitos sobre a Libras A língua de sinais seria uma mistura de pantomima e gesticulação concreta. pois este sistema linguístico é abstrato e não faz parte da nossa expressividade natural – se assim fosse. A Lei n. pois. e pelo fato de muitos pesquisadores terem se empenhado para angariar conhecimentos que comprovassem o valor linguístico dessa língua. 1995. já que sua forma de expressão não é a mesma da maioria social. 10. FELIPE. são nossas expressividades naturais. bem como as asseverações postuladas pelos pesquisadores pioneiros no assunto. Para que isso ocorra. Nesse sentido. apertamos os dedos uns contra os outros ou passamos as mãos repetidas vezes no cabelo. deve-se travar uma luta pelo reconhecimento linguístico de tais minorias. que é uma língua gramaticalmente organizada. colocar a Libras e os gestos na mesma categoria de análise. todos seríamos falantes natos da Libras. que vai desde agregar as pessoas até convencer políticos a planejar ações disseminadoras. Os gestos são as expressões espontâneas das pessoas. No caso da Libras. visto que as minorias linguísticas (imigrantes. pois demonstra o reconhecimento social sobre ela. elas não podem ser comparadas com a Libras. também. incapaz de expressar conceitos abstratos. QUADROS. índios) relatam experiências de segregação e preconceito. precisamos passar por um processo formal de aprendizagem. já existiam pesquisadores brasileiros de língua de sinais (BRITO. Considerando que a pantomima e a mímica são formas artísticas de expressão. As línguas de sinais derivam da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. Por exemplo. 1997). Vejamos cada um destes mitos. possuem natureza muito diferente. para produzirmos a Libras. apesar de ambos serem produções visuais. quando colocamos a mão no rosto ou na cintura.

há outros que não tem relação alguma com os objetos da realidade. O primeiro grupo de sinais é o dos chamados icônicos. conforme podemos verificar nas ilustrações. eles não são o todo da língua. Essa possibilidade de o referente linguístico ter relação com os objetos reais – a iconicidade – também é presente nas línguas orais. que representam o som que reproduzem. Exemplo disso são as palavras “bem-te-vi” e “bumbo”. SinaiS icônicoS Passar batom SinaiS arbitrárioS Vencer 21 1 2 Passar roupa Especial Língua Brasileira de Sinais – Libras . nome de um pássaro e um instrumento musical. como é o caso do português.Capítulo 1 É verdade que a Libras é composta por sinais que representam manualmente as formas e os movimentos dos objetos do mundo. respectivamente. porém. como os sinais a seguir reproduzidos. e o segundo é o dos sinais chamados arbitrários.

Língua Brasileira de Sinais – Libras SinaiS icônicoS Pentear o cabelo SinaiS arbitrárioS Perigoso Escovar os dentes Vingar 22 Dormir Idade FAEL .

Capítulo 1 SinaiS icônicoS Lavar roupa SinaiS arbitrárioS Organização Limpar o chão Sofrer 23 Varrer Opinar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

essa afirmação não procede. enquanto lá se faz apenas o tronco. podemos concluir que. pois a representação que cada falante faz da realidade é diferente. tais como: Língua Holandesa de Sinais. ele rapidamente identificaria o significado. A diferença é que aqui representamos o tronco da árvore e o balanço dos galhos. se no nome da língua mencionamos sua nacionalidade. Contudo. Língua Francesa de Sinais. entre outras. Muitas pessoas pensavam que a Libras seria universal. como sabemos. quando um surdo sinalizasse o sinal de árvore para um ouvinte. Se assim fosse. FAEL . por exemplo. que os sinais eram iguais em todos os países. o sinal de árvore no Brasil é icônico assim como o é na China. mas. Haveria uma única e universal língua de sinais usada por todas as pessoas surdas. conforme figuras a seguir: Árvore Árvore 24 Libras Língua de Sinais Chinesa (CSL) Só essa informação. Então. pois se Libras é a sigla da Língua Brasileira de Sinais. fica refutada a ideia de que os sinais da Libras são extraídos da expressividade natural dos ouvintes. Língua Americana de Sinais. Língua Alemã de Sinais. de que a iconicidade se realiza de acordo com a perspectiva referencial de determinado grupo.Língua Brasileira de Sinais – Libras É bom ressaltar que os sinais icônicos não são iguais no mundo todo. não é isso que ocorre. é porque existem outras línguas de sinais espalhadas por outros países. já é um forte argumento para combater o mito que aponta que a língua de sinais deriva da comunicação gestual espontânea dos ouvintes.

na sua organização semântica e discursiva para atender a aspectos culturais e ideológicos das diferentes comunidades de surdos. pois quando as analisamos. ela tem sua origem na Língua Francesa de Sinais. sendo um pidgin sem estrutura própria. que são diferentes apenas em sua natureza e comportamento. que era que entendemos haver uma uma forma de comunicação oral que reunia os língua de sinais para cada país. Algumas pessoas acham que a Libras é derivada das línguas orais e é um pidgin sem estrutura própria. Isso significa que as línguas de sinais se diferenciam. O pidgin é utilizado por pessoas que estão em processo de aprendizagem e necessitam de Língua Brasileira de Sinais – Libras 25 . por pidgin entendemos a mistura de duas línguas. E não é só pelo nome de sinais universal chamada “gestuno”.Capítulo 1 Assim. subordinado e inferior às línguas orais. que reflete a cultura da países. também. subordinada e inferior. Cada uma dessas proposições pode ser considerada um mito. pensou-se em sistematizar uma língua nação e daquela comunidade surda. Segundo naturais. se estamos entendendo que a língua de sinais tem o mesmo valor que a língua oral. então um questionamento como este também perde sua validade. havia um questionamento de que seria muito mais fácil para comunicação dos surdos se todos sinalizassem da mesma forma. O mesmo aconteceu com as línguas de sinais. baseando-nos Porém. houve o alastramento de determinados idiomas em determinados lugares. em cada país. Haveria uma falha na organização gramatical da língua de sinais. No caso da Libras. encontramos conceituação diferenciada para os termos empregados. inclusive as de sinais. já que as línguas orais não são iguais e ninguém questiona esses fenômenos. o gestuno – assim como o essa teoria. apresentam organização sintática com os mesmos princípios comuns à linguagem humana. como qualquer língua. mas. assim como aconteceu com o esperanto. há Saiba mais uma língua de sinais especíCom a difusão das línguas de sinais pelos fica. cada uma tem sua história linguística. todas as línguas. Isso porque sabem que. Quando a informação de que a Libras não é universal começou a percorrer espaços sociais. muitas vezes. como nas expressões (1) e (2) a seguir exemplificadas. como não era usado em momentos na teoria gerativa. Porém. termos comuns na maioria das línguas orais. esperanto – deixou de existir. que seria derivada das línguas orais. devido às colonizações. Por exemplo.

Podemos admirar uma ou outra forma. Essa estrutura se caracterizará por um pidgin. Uma manifestação de pidgin sinalizada é. como fazem os caipiras. Sabemos que não podemos criticar uma pessoa porque ela fala porta acentuando o r. o que falta são algumas tomadas de decisão quanto ao tema. além de demonstrar o desconhecimento da estrutura linguística. esse tipo de comparação inexiste. Na linguística. com conteúdo restrito. isto já é assegurado no campo da linguística e já foi transmitido à sociedade. Na Libras. isso também acontece. não é a Libras que é um pidgin. já que todos se prestam ao mesmo fim: a comunicação. da Libras com o português. a única comparação permitida entre as línguas e em sua realização é o conhecimento dos parâmetros de cada sistema. a fim de que o interlocutor o entenda. ou ainda porque ela fala bicicreta. também aponta para uma postura altamente preconceituosa. Da mesma forma. como há uma conscientização ao cessar do preconceito linguístico. da oralidade com a sinalização. Esse é outro apontamento que não procede às descobertas científicas. A Libras tem uma estrutura gramatical bastante complexa. Mesmo assim. é o seu mau uso que pode tornar-se um. alegar que ela é subordinada à língua oral. não consideramos o inglês e o português como pidgin. Porém. I amo you. Nesse sentido. mas nunca taxarmos como “certa” uma única forma. Eu love você. pois as línguas são apenas diferentes entre si. quando uma pessoa está conversando com um surdo em Libras e na ausência de um sinal resolve oralizar pausadamente. Esse jeito diferente de falar compõe o idioleto de cada um. portanto. 2. Assim como fazer comparativo de superioridade ou inferioridade em relação à língua oral é linguisticamente inviável. por exemplo. expressiva e linguisticamente inferior ao sistema de comunicação oral. A língua de sinais seria um sistema de comunicação superficial. pois nenhum sistema linguístico será mais complexo ou superior a outro. e não um julgamento de valor. 1. pois houve a mistura dos sinais com a voz. cada um sinaliza de um jeito. FAEL 26 . tem constituição interna própria. sendo estética. mas que muitas vezes é verbalizado por desconhecedores da Libras.Língua Brasileira de Sinais – Libras um recurso emergente de comunicação.

é que a função de visão do hemisfério direito tem uma característica funcional. as considerações que se tinha até então eram de que a Libras instalava-se no hemisfério direito. matemático e outros. Pessoas que conhecem. há possibilidade de transmissão do conceito da palavra. é a linguagem de programação. É possível falar qualquer coisa em Libras – desde de que o sinalizante tenha fluência –. já que é uma língua e que. de flexibilidade e de versatilidade. estariam representadas no hemisfério direito do cérebro. que determina a compreensão de uma língua. nesse hemisfério. A partir daí. Há pessoas que dizem que as línguas de sinais. Nesse sentido. por isso. estaria no hemisfério esquerdo. uma vez que este hemisfério é responsável pelo processamento de informações espaciais. é identificada a propriedade linguística. especialmente. estariam representadas no hemisfério direito do cérebro. Portanto. Sua modalidade é espacial e visual. a Libras não é superficial. espacial. basicamente. é dinâmica e com conteúdo absolutamente ilimitado. por estarem organizadas espacialmente.Capítulo 1 Levando em conta que um sistema de comunicação superficial é aquele criado para atender a comunicação de máquinas. pois mesmo não havendo palavras comuns entre Libras e português. ou seja. artístico. é uma língua natural. enquanto que o esquerdo. duas áreas responsáveis pelo desempenho de uma língua: a área de Broca. Toda língua humana – como a língua de sinais falada pelos surdos – atende aos critérios de criatividade. emocional. e que cada um deles tem uma função diferenciada. a Libras não se enquadra nesta situação. o cérebro Língua Brasileira de Sinais – Libras 27 . e a área de Wernicke. há que se pensar onde se localiza a Libras. que emerge no seio da comunidade e se transforma ao longo do tempo. O que ocorre. assim também como a função do espaço deste hemisfério se relaciona à questão geográfica. uma vez que esse hemisfério é responsável pelo processamento de informação espacial. o cérebro humano. minimamente. serve para ver no sentido estrito do termo. que determina a expressividade da fala. mas. No hemisfério esquerdo estão algumas funções mentais como atenção. Há. visual. As línguas de sinais. por estarem organizadas espacialmente. Diante disso. para poder dar conta dessa modalidade. memória e outras. na verdade. e estas são características alocadas no hemisfério direito. sabem que ele é dividido em hemisfério direito e hemisfério esquerdo. pela linguagem. Ao hemisfério direito cabem as propriedades para o desenvolvimento musical.

em 1960. Como exemplo dessa similaridade. Depois disso. houve um período em que eles – um nome bastante conhecido desta época é o Ponce de Leon – se dedicavam à instrução de pessoas surdas. Então. por exemplo). São os chamados cognatos. Ele foi o primeiro pesquisador a sistematizar a estrutura gramatical de uma língua de sinais. EUA e França. alguns sinais da Libras. para América. da Língua Francesa de Sinais e da Língua Americana de Sinais são parecidos. Todas elas. e então realiza uma transferência hemisferial. posteriormente. de William Stokoe. no hemisfério esquerdo. há também algumas semelhanças de vocabulário nas línguas de sinais do Brasil. pois antes dele já existiam os abades franceses. haverá a visão e o espaço. a comunicação espaço-visual se espalhou pela Europa e. Essas primeiras pesquisas que se prestaram a desmistificar falsas considerações sobre a Libras deram origem a outras. agora com função linguística que servirá para “ouvir” e “falar” a Libras. emergiram a partir do primeiro trabalho conhecido sobre línguas de sinais nos Estados Unidos. Por isso. citamos os sinais de casa em Libras e na Língua Americana de Sinais: Casa Casa 28 Libras Língua Americana de Sinais FAEL . que burlavam a lei do silêncio que imperava nos mosteiros e conversavam por “códigos visuais”. chegando ao Brasil no século XX. então começaram a usar uma língua estruturada para transmitir conteúdos científicos e teológicos. mas com propriedades distintas.Língua Brasileira de Sinais – Libras detecta que a visão e o espaço serão utilizados pela modalidade linguística. Assim. mas não foi o primeiro a usar esta forma de comunicação. entretanto. Assim como existem palavras muito semelhantes no português e no inglês (baby e bebê.

pois todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. É impossível negar que um grupo de surdos constitui-se como um grupo de seres humanos. através dos universais linguísticos. pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. deve responder positivamente às questões levantadas. Não há línguas primitivas – todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. as palavras são incorporadas ao sistema linguístico de um modo geral. Verdades sobre a Libras: universais linguísticos Para uma língua ser considerada língua. Assim também acontece com o vocabulário das línguas orais e sinalizadas que. No português. portanto.Capítulo 1 O que Stokoe e os primeiros linguistas brasileiros fizeram – além de mostrar o falseacionismo dos mitos – foi apontar a natureza da Libras como ela é. Ele é. usado apenas para se referir a nomes próprios e a objetos que não tenham um Língua Brasileira de Sinais – Libras 29 . percebe-se que. apesar de se apresentar numa modalidade diferente das línguas orais. ainda. e a Libras preenche estes requisitos. destacamos inicialmente o alfabeto manual. O vocabulário de qualquer língua pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. A primeira análise feita para atestar o status linguístico da Libras pautou-se numa simples consideração: a de que onde há seres humanos há língua. passou-se a mostrar a verdade sobre esse sistema de comunicação espaço-visual. Fizeram isso utilizando-se da “regra geral” para validação de que uma língua é língua. um recurso paliativo. Onde houver seres humanos. por exemplo. na verdade. como o de qualquer língua. haverá língua(s). por meio da inclusão de palavras novas ao repertório individual. com empréstimos linguísticos vindos do sequente aportuguesamento destes termos ou. Então. ela deve passar por todos os testes postulados pelos pesquisadores. Vejamos cada um deles. Quanto aos empréstimos linguísticos da Libras. isto reitera a existência de uma língua. ela não pode ser considerada como uma língua primitiva. Ao aproximar-se da língua usada pelo grupo de surdos.

Além disso. É preferível fazer um sinal sinônimo a “escrever” a palavra a que se deseja fazer referência. ele é considerado como um empréstimo da língua portuguesa. Figura 1 Alfabeto manual. essa representação é feita de acordo com o alfabeto do idioma local. Por isso. e não uma FAEL . A letra “T”. vale ressaltar que esse recurso é externo à Libras. às vezes. explicaremos com mais detalhes a questão de o português ser uma segunda língua para os surdos. Posteriormente. então. desde que não alternadamente. pode ser sinalizada de um jeito no Brasil e de outro nos Estados Unidos. passa a fazer uso do português. Há toda uma dificuldade que se coloca a eles.Língua Brasileira de Sinais – Libras sinal conhecido na Libras. devemos ter muita cautela para usá-lo. a palavra toda deve ser sinalizada com a esquerda. 30 a b c ç d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z O alfabeto manual pode ser sinalizado com qualquer uma das mãos. portanto. Os surdos representam por meio das mãos as letras do alfabeto português. pois são usuários de uma língua espacial e visual. enquanto precisam aprender uma língua oral e auditiva. se há preferência pela mão esquerda. pois os surdos não se relacionam com a língua portuguesa como nós nos relacionamos. quando a pessoa está usando o alfabeto manual. no caso do Brasil. deixa de usar a Libras e faz uma transferência de código. Em outros países.

ou outros motivos. Um empréstimo linguístico é uma palavra original de um idioma que passa a fazer parte do repertório de um grupo de falantes de outro idioma. pela globalização. devemos ressaltar que dele são extraídos os outros empréstimos linguísticos da Libras. Normalmente. francesas. Na língua portuguesa há muitas expressões americanas. que são usadas pelos falantes Língua Brasileira de Sinais – Libras . há também a possibilidade de representação dos acentos das palavras (^. por exemplo: JOS´E. iniciar a nova série de letras que serão feitas com o mesmo ritmo. O desenho no ar é feito em um ponto acima de onde se escreveu inicialmente.Capítulo 1 letra com cada mão. Então. Para os nomes de pessoas e lugares. Além disso. bem próximo ao tronco. eles criam um sinal que será usado dali para frente. `. Caso seja necessário escrever mais de uma palavra (nome completo ou palavra composta. há muitos exemplos de palavras que não compunham nosso verbete e que passaram a fazer parte de nossa fala. se escreve com o braço na vertical. na sequência. a digitalização da palavra passará a ser dispensável das próximas vezes. O mesmo processo ocorre com a produção dos números da Libras. mas. deve-se fazer uma palavra numa sequência rítmica e dar uma pausa na última letra para. e deve ser feito antes da letra que receberá o acento. No português. indígenas. pois a realização do sinal vai remeter ao sentido e ao conceito. os quais estão reproduzidos a seguir: Figura 2 31 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Ainda com relação ao alfabeto manual. e as letras são feitas uma após a outra. é comum os surdos pedirem que se escreva a palavra com o alfabeto manual. ~. por exemplo). sem necessariamente tirar a mão do lugar. então. por meio da internet. ´) por meio de desenho no ar com o dedo indicador.

Exemplos desses empréstimos são as palavras: stress. shampoo. Na língua de sinais. “piagetiano”. entre outras. “sintático”. isso ocorre da mesma maneira. como os termos “paradigma”. “pragmática”. ligth. pela supressão de uma das letras. lingerie. delete. podemos destacar que são criados de acordo com a necessidade. abajur. Os surdos têm a capacidade de inserir em sua língua palavras novas conforme a necessidade. “demanda de mercado”.Veja um exemplo de empréstimo linguístico da Libras: Bar 32 Em se tratando de termos técnicos e científicos. etc. É o caso de quando entramos na faculdade. Daí surgem os novos sinais. há uma “enxurrada” de palavras novas as quais não utilizávamos antes. “biomorfologia”. Os empréstimos linguísticos na Libras ocorrem mediante processo de aceleração da escrita do alfabeto manual e. diet.Língua Brasileira de Sinais – Libras normalmente. algumas vezes. “psicanálise”. como os expostos a seguir: Neurose Mídia FAEL . “léxico”.

Assim como ocorreu com o vocábulo vossa mercê. passando o polegar na bochecha. Os sinais que exigem muito “trabalho” para serem realizados sofrem uma economia produtiva e passam a ser realizados de maneira mais simplificada. esse sinal preserva apenas o trajeto do rosto ao pescoço. Atualmente. Mulher 33 Língua Brasileira de Sinais – Libras . Na língua de sinais. É o caso. numa imitação de colocar o chapéu.Capítulo 1 Ambiente virtual de aprendizagem Condicionamento Todas as línguas mudam ao longo do tempo. por exemplo. Podemos verificar que não há permanência vocabular e nem estrutural em nenhuma língua. Então descia do rosto em direção ao pescoço. é sinalizado conforme imagem a seguir. o amarrar. que era realizado com ambas as mãos postas próximas à cabeça. depois para você e hoje é comumente tratado por cê ou vc. isso também acontece. onde era encerrado com um movimento que imitava o lançar. e isto implica dizer que as línguas mudam ao longo do tempo. do sinal mulher. que passou para vos mice.

As palavras e sinais apresentam uma conexão arbitrária entre forma e significado. em sua maioria. porém. Tal característica significa que existe uma gama de unidades que são semelhantes. Os símbolos utilizados pelas línguas são arbitrários. Por exemplo. Assim como as línguas orais apresentam segmentos sonoros discretos (p. Quadros e Karnopp (2004) apontam ainda que. Toda língua falada tem uma classe de vogais e uma classe de consoantes. o e a não tem um significado expresso. dado. apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. Línguas de sinais apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. de fogo.Língua Brasileira de Sinais – Libras As relações entre sons e significados das línguas faladas e entre gestos (sinais) e significados das línguas de sinais são. Quadros e Karnopp (2004) apontam que há. a característica de arbitrariedade das línguas não se restringe à ligação entre forma e significado. d. podemos encontrar significados. quando os combinamos de diferentes maneiras. em torno de trinta ou quarenta. mas ganha um significado quando é combinado com outras unidades mínimas. Há ainda outra característica encontrada em línguas orais que se manifestam também nas línguas sinalizadas. É o caso. Ainda com relação a isso. mas que cada fonema normalmente não tem significado quando está isolado. Tal organização de língua em duas camadas. por exemplo. e dado o significado é possível prever a forma. arbitrárias. Isso pode ser constatado na dificuldade em aprender uma língua estrangeira. Toda língua falada inclui segmentos sonoros discretos. expressa a característica de dualidade ou dupla articulação comum às línguas orais e sinalizadas. as línguas de sinais. pois elas diferem umas das outras. a). fado. n. os sons de f. é a característica de descontinuidade. camada de sons que se combinam e camadas de unidades maiores. ou “a”. são encontrados em todas as línguas. dada a forma é possível prever o significado. “n”. mas aplica-se também à estrutura gramatical das línguas. como “p”. g. a característica da dupla articulação. visto que. Podemos constatar que não há uma relação intrínseca entre a palavra cão e o animal que ele simboliza. FAEL 34 . como fêmea ou macho. os quais podem ser definidos por um conjunto de propriedades ou traços. em todas as línguas. Universais semânticos. igualmente. gado. pois é um sistema distinto do que estamos habituados a usar.

para fazer ameaças. As línguas não se fixam apenas nos parâmetros fonológicos.Capítulo 1 Tal fenômeno está em oposição à variação contínua. pergunta. ainda. os quais. comando. Todas as línguas humanas utilizam um conjunto finito de sons discretos (ou gestos) que são combinados para formar elementos significativos ou palavras. pois podemos usar a língua para dar vazão às emoções e sentimentos. etc. perguntas ou afirmações. bem como universais semânticos tais como a distinção fêmea/macho. Todos os sistemas linguísticos têm a possibilidade de construção e compreensão de um número infinito de enunciados. os falantes têm a liberdade de agir criativamente. que são escritas e faladas de maneiras diferentes. verbo). para fazer solicitações. por sua vez. sabemos que tanto as línguas orais quanto as de sinais podem fazer referência ao passado. Todas as línguas possuem formas para indicar tempo passado. presente e futuro. a realidades remotas ou. mas apresentam diferença considerável no significado. formam um conjunto infinito de sentenças possíveis. Quadros e Karnopp (2004) apontam que essa flexibilidade e versatilidade é uma característica comum a todas as línguas. isto significa que as palavras podem diferir de maneira mínima na forma. promessas. No concernente à sintaxe. Universais sintáticos revelam que toda língua possui meios de formar sentenças. para formação de palavras e sentenças. Todas as gramáticas contêm regras de um tipo semelhante. Falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender um conjunto infinito de sentenças. ordens. verbo e outros). sendo assim. negação. pois tanto línguas orais como sinalizadas apresentam categorias gramaticais (substantivo. A criatividade e a produtividade são apontadas por Quadros e Karnopp (2004) como propriedades que possibilitam a construção e a interpretação de novos enunciados. É o caso das palavras faca e fada. Língua Brasileira de Sinais – Libras 35 . a coisas que não existem e que os falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender em um conjunto infinito de sentenças. Todas as línguas apresentam categorias gramaticais (ex: substantivo. Esse fenômeno demonstra a característica de descontinuidade da diferença formal entre forma e significado.

mas em todas as línguas de sinais e orais. Sempre que houver a reunião de um grupo de sinalizadores. Então. que existem não só na Libras. nas palavras macaxeira. 36 Fonte: imagens adaptadas de Strobel e Fernandes (1998). inclusive utilizar-se de diferentes estilos de fala em diferentes ocasiões. Trata-se de três sinais diferentes que se referem à palavra verde. Vejamos um exemplo do regionalismo da Libras nas imagens a seguir. revela-se a criatividade que o falante tem para inventar novas palavras e de ter um estilo próprio de fala. que se prestam a designar a mesma coisa. pois. e estes diferentes registros discursivos são manifestados por meio da velocidade dos movimentos e do espaço FAEL . assim. aipim e mandioca. Rio de Janeiro e Curitiba. Esses modos distintos na fala de cada região são os chamados dialetos. perceber que a Libras é bastante complexa em sua estrutura gramatical e que. Podemos. Isso ocorre com a Libras. como ocorre com o português. e todos esses novos modos serão carregados de peculiaridades da região onde o grupo está localizado. mesmo cada país adotando uma língua de sinais própria. é possível conversar sobre diversos assuntos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. haverá abertura para criação de novos falares ou modificação nos falares produzidos. não é possível estabelecer uma homogeneidade linguística por todo seu território nacional. respectivamente. por meio dela. nas cidades de São Paulo. por exemplo. o modo de sinalizar é diferente se o interlocutor for uma autoridade ou se forem colegas na rua.

contém marcas de formalidade e de informalidade. Um fenômeno elucidativo sobre esse assunto é quando as crianças surdas estão aprendendo a Libras. quando nós estamos em contextos informais. Esse dado reitera que a Libras é uma língua que. O espaço para sinalização se inicia acima do quadril. No entanto. também falamos muito rápido. Inicialmente. elas aprendem Língua Brasileira de Sinais – Libras 37 . Ao articular os fonemas da nossa língua portuguesa – um após o outro –. Essa impressão equivocada ocorre porque as pessoas não sinalizantes deixam de considerar que. Dessa forma. tem o espaço de sinalização bastante elevado e produzem muita expressão facial. Além disso. mas uma fala normal. Os surdos igualmente agem assim. se o contexto de fala é informal. social ou econômica. nascida em qualquer lugar do mundo. com os braços bastante alargados e. isso não denota agressividade ou briga por parte deles. vocalizará alguns sons. vai até a cabeça e não se estende muito para os lados. Os surdos sinalizam rapidamente um sinal após o outro. na grande maioria. Porém. Qualquer criança. ele sinalizará com muita expressão facial. pois sinalizam muito rápido e tem bastante expressividade. Ampliam os movimentos dos sinais.Capítulo 1 utilizado para sinalização. sem significar uma briga. também falamos muito alto e somos extravagantes. não nos damos conta de que são produzidos juntos. mas o “tom” elevado da fala. provavelmente usará o espaço a frente do seu corpo com certo limite. inclusive. quando estamos conversando. pois tem tanta completude que possibilita ao falante fazer escolhas diferenciadas de sinais. ou seja. é capaz de aprender qualquer língua à qual é exposta. Quando os ouvintes veem os surdos conversando. O fato é que os surdos estão tendo uma conversa como outra qualquer. geográfica. todas as palavras se ligam entre si na constituição da frase e do discurso. provavelmente. de acordo com os tipos de situações experimentadas. Assim também acontece na comunicação em Libras. podemos ver como é possível o falante de Libras transitar entre diferentes estilos discursivos. e isto ocorre da mesma forma com o surdo. elas têm a impressão de que estão brigando. Se o surdo quer ser bastante formal em sua fala. de qualquer origem racial.

como fazem as crianças ouvintes. Conforme já apresentamos. para que a auxilie. na Libras: a regularidade. porém. depois “babababa”. as línguas humanas – e. sorri quando a mãe a repreende pelo mau jeito na realização do sinal. além de mostrar a importância do adulto no contexto de aquisição da linguagem. fazendo a intervenção devida. a qualidade do input e outros. 38 Esse jogo discursivo. mas tem dificuldade para fazer a configuração apresentada. Tomamos como exemplo uma criança quando estava com dois anos e. não consegue reproduzir da mesma forma a configuração de mão.Língua Brasileira de Sinais – Libras as unidades mínimas de maneira isolada. a Libras também – têm parâmetros de realização que não podem ser alterados para sua efetiva comunicação. a localização e o movimento –. cada um dos três parâmetros – que são a configuração de mão. presente. A mãe ensina. Isso também ocorre com as crianças surdas. que começam a balbuciar “aaaaa”. Solicita à mãe por várias vezes. até formar palavras completas. em diálogo com a mãe. Assim. até que aprende os três parâmetros e consegue realizar com precisão o sinal de sorrir. há exigência de que os elementos fonológicos sejam adequadamente produzidos na realização dos sinais. começa a aprender o sinal de sorrir (conforme figura a seguir). portanto. FAEL . A criança gosta do sinal. igualmente. Toca no filho e ajeita sua mão para que realize o sinal de forma correta. A mãe age com um input favorável. e a criança imita corretamente a localização e o movimento. inconscientemente. nos aponta para uma característica das línguas humanas.

o professor pode colar cartazes pela sala com o alfabeto manual e com os números.Capítulo 1 Da teoria para a prática Para aderir à ideia da diversidade linguística em sala de aula. Perguntas: ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● Qual é o seu nome? Qual é o seu sobrenome? Quantos anos você tem? Qual é o nome da sua rua? Qual é o nome do seu bairro? Qual é o nome da cidade em que você mora? Qual o nome da sua mãe? Qual a idade da sua mãe? Qual o nome do seu pai? Qual a idade do seu pai? Qual o nome dos seus irmãos? 39 Síntese Neste capítulo. tratamos das definições preliminares e apresentamos ao leitor a fase histórica pela qual a sociedade está passando. a chamada inclusão. os paradigmas sobre a pessoa surda e sua língua passaram por reformas não só no que se refere à terminologia – surdo e Libras –. pode colocar algumas perguntas no quadro e promover que dois alunos participem: um pergunta e o outro responde. é preciso que haja um desprendimento para aprender a se comunicar e se relacionar com os surdos. nessa fase. Então. Muito mais do que saber a forma de tratamento dessas questões. utilizando as letras manuais. mas na forma de relacionamento com esta nova realidade. Isso pode se dar por meio Língua Brasileira de Sinais – Libras . Explicamos que.

Dessa forma. assim como foi preciso arrolar alguns pressupostos universais na análise desta modalidade expressiva. percorremos com o leitor o mesmo percurso adotado no processo de valoração da Libras. pois. ou seja. dos empréstimos linguísticos. Pidgin É um sistema de comunicação precário. é o que ela consegue falar. Glossário 40 Input É o sinônimo para estímulo linguístico. de um jeito mais informal ou por meio de leituras e pesquisas linguísticas. FAEL . foi preciso muito esforço para desmitificar os mitos que havia. porque aparece em situações extremas de barreiras à comunicação (MCCLEARY. É uma língua emergencial. Nesses termos. 21). o que faremos no próximo capítulo.Língua Brasileira de Sinais – Libras do alfabeto manual. mas já podem se focar em conhecer o comportamento de uma língua espaço-visual e tecer análise gramatical sobre ela. Atualmente. Output É a forma como a criança expressa o input que recebeu. para que houvesse todo o reconhecimento social e acadêmico que hoje existe quanto ao status desta língua. p. todas as influências verbais que são dadas às crianças quando estão aprendendo a falar. 2008. as pesquisas não mais se prestam a “comprovar” que a Libras é uma língua. os surdos foram brindados com a oficialização da sua língua por determinação legal.

por entender o apontamento de Saussure (1970) quanto a isto. o sintático. que se ocupa com as escolhas das palavras. os pesquisadores de língua de sinais abandonaram o termo. Nesse sentido. estamos fazendo menção às unidades mínimas que compõem a língua. as línguas naturais também são compostas por morfemas e palavras. Para o pai da linguística. e o semântico. atualmente. não caberiam considerações fonológicas para a Libras. abstraída de realizações fonéticas concretas e infinitamente variáveis. Por dupla articulação. Assim. Neste capítulo. e estas duas articulações – fonemas e morfemas – é que norteiam a dupla articulação apontada por Martinet (1978). Para resolver tal impasse. já que ela é uma língua espaço-visual que não tem som. Além dos fonemas. apresentaremos cada um destes aspectos linguísticos relacionados à Libras. que se ocupa em organizar as palavras na frase. o morfológico. definição que torna o conceito suficientemente abstrato para abranger não apenas representações psíquicas de sons. Stokoe empregou a terminologia “querema”. Porém. sendo os principais: o fonológico. para o estudo das unidades mínimas da língua de sinais. 2008). Esse linguista diz que todas as línguas humanas possuem a dupla articulação. a forma do significante refere-se a uma imagem acústica convencional. ao invés de fonema. que busca a relação das palavras e o sentido que elas têm. mas também de gestos (LEITE.Estrutura gramatical da Libras T 2 41 odo sistema linguístico é organizado em níveis de análise. entendemos um plano de conteúdos (composto . que se ocupa em estudar as unidades mínimas da composição das palavras. Aspectos fonológicos É no nível fonológico que se encontram as considerações acerca dos fonemas – conceituados como unidade mínima do som. quando nos referirmos aos fonemas.

É bom lembrar que ambas as articulações são restritas nas línguas naturais. quando os unimos. Como a Libras é uma língua natural. por meio da junção das articulações dos fonemas. localização (L) e movimento (M). porém. também é composta pela dupla articulação. podemos formar conteúdos irrestritos. conforme Leite (2008). mas que sua combinação pode originar um número irrestrito de possibilidades significativas. Isoladamente. Carro Movimento Configuração de mão Localização FAEL . esses parâmetros não têm conteúdo significativo (capaz de compor significação).Língua Brasileira de Sinais – Libras por morfemas e palavras) e um plano isento de conteúdos (composto por fonemas). vemos que Stokoe (1960) propôs três componentes da estrutura interna dos sinais: configuração de mão (CM). Ônibus 42 Configuração de mão Movimento Localização O mesmo fenômeno ocorre com os sinais: avião e carro. Limitando-nos inicialmente à segunda articulação – fonemas –. Podemos constatar tal fenômeno.

Para as configurações de mão da Libras temos o quadro de Brito (1995). encontramos 64 configurações de mão. apontam que essas configurações de mão são representações do sistema fonético da língua. mas ambas com configurações de mão iguais. analisaremos cada um deles em sua composição. a fim de entendermos melhor a formação dos sinais. considerando a inexistência de identificação quanto às configurações de mão básicas e às configurações de mão variantes. isoladamente.Capítulo 2 Avião Movimento Configuração de mão Localização Mesmo percebendo que. 43 Configuração de mão O primeiro parâmetro – configuração de mão – refere-se à forma que a mão assume na realização do sinal. por sua vez. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Algumas dessas configurações de mão correspondem às letras do alfabeto manual. mas não se restringem a elas. Essas configurações podem dar origem a sinais da Libras se forem produzidas apenas com uma mão. com as duas mãos. Já em Felipe (2001). que registra 46 configurações diferentes. Quadros e Karnopp (2004). ainda. os parâmetros não transmitem significado. com as duas mãos produzindo configurações de mão diferentes ou. conforme podemos verificar na figura a seguir.

44 Fonte: adaptado de Felipe (2005). A fim de elucidarmos as possibilidades de formação de sinal a partir da configuração de mão. FAEL . expomos alguns exemplos a seguir.Língua Brasileira de Sinais – Libras Figura As 64 configurações de mão da Libras. pois o seu sentido não será alterado. Configuração de mão com apenas uma mão: este é o tipo de sinal que pode ser produzido com qualquer uma das mãos.

Capítulo 2 Aluno Professor Lápis Caneta 45 Cola Tesoura Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Vestibular Português ou Ciências História 46 Uniforme Educação FAEL .

Curso Pós-graduação Mestrado Educação artística 47 Estudos sociais Intervalo Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Duas configurações de mão diferentes.

mas a ordem de predominância será mantida. encontramos em Battison (1974) duas restrições. de apoio para a realização do movimento da mão ativa. a outra. que se realizam com ambas as mãos moldando-se com a mesma configuração de mão e com a realização de um movimento simultâneo e simétrico. um papel passivo. Em outros casos parecidos com esse. vejamos a realização de um sinal com as duas configurações de mão iguais. Antes de falarmos sobre a condição de simetria. que limitam consideravelmente as possibilidades articulatórias dos sinais. e que realiza movimentos apenas com uma das mãos. e a mão ativa se forma em c. nesse caso. Por condição de dominância o autor entende a ocorrência de sinais nos quais uma das mãos assume o papel ativo e. A mão passiva.Língua Brasileira de Sinais – Libras Redação Apontador 48 Atendo-nos ao primeiro sinal. outras configurações de mão poderão ser realizadas. e a segunda é a condição de simetria. Duas configurações de mão iguais: sinais desta natureza são formados por duas configurações de mão iguais. Sobre a realização de um sinal que contém duas configurações de mão diferentes. serve de base. A primeira é a condição de dominância. ou seja. vemos que nesse tipo de construção a primeira configuração de mão é a base que se forma em b. FAEL . É o caso dos sinais apresentados a seguir. uma mão será a base e a outra ativará o movimento.

Capítulo 2 Sala Geografia Caderno Régua 49 Mochila Prova Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Matemática Educação física Química Nota 50 1 2 Dividir Multiplicar FAEL .

conforme imagens a seguir. há a condição de simetria estabelecida. precisamente entre a cabeça e o quadril). em que as duas mãos estão ativas e realizam o mesmo movimento. Locação O segundo parâmetro – a locação – refere-se ao espaço onde o sinal será realizado.Capítulo 2 Retomando as restrições articulatórias de Battison (1974). temos que. podendo ser no próprio corpo do sinalizador ou no espaço neutro (espaço “vazio” a frente do corpo do sinalizador. Sinalização no espaço neutro: Tartaruga Hipopótamo 51 Foca Mosca Língua Brasileira de Sinais – Libras . em casos de sinais como os que mostramos.

tais como os exemplos que seguem. três pontos principais de locação. a saber: cabeça. conforme Brito (1995).Língua Brasileira de Sinais – Libras Urso Jacaré Peixe Borboleta 52 Há. Subdivisões dos principais pontos de locação: Macaco Boi Sinal com locação na cabeça Sinal com locação na testa FAEL . Dentro desses pontos principais estão as subdivisões. tronco e mão.

Capítulo 2 Galinha Rato 1 2 Sinal com locação no rosto Papagaio Sinal com locação na bochecha Pato 53 Sinal com locação no queixo Cobra Sinal com locação na boca Coruja Sinal com locação no pescoço Sinal com locação nos olhos Língua Brasileira de Sinais – Libras .

velocidades e frequências. vemos que os movimentos podem ser do tipo sinuoso. circular. eles podem ser produzidos com diferentes tensões. helicoidal e angular. bidirecional ou multidirecional. FAEL . semicircular. considerando sua vastidão de possibilidades. Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes tipos de movimento. sendo possível produzi-los de forma unidirecional.Língua Brasileira de Sinais – Libras Porco Sapo Sinal com locação no nariz Dinossauro Sinal com locação no braço Zebra 1 54 2 Sinal com locação na mão Sinal com locação no tronco Movimento Movimento. é bastante complexo. Em Strobel e Fernandes (1998). Além disso. o terceiro – e principal – parâmetro. retilíneo.

Capítulo 2 Espelho Telhado 2 1 Movimento sinuoso Xícara Movimento sinuoso Porta 2 55 1 Movimento semicircular Jardim Movimento semicircular 2 1 Movimento circular Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Cerca 1 2 Movimento retilíneo Liquidificador 56 Movimento helicoidal Eletricidade Movimento angular FAEL .

Capítulo 2 O primeiro. o segundo e o terceiro parâmetro. para baixo ou para o corpo de quem sinaliza. Nesses casos. quando associados. destacamos a orientação de mão e as expressões não manuais. Citemos alguns: Laranja / sábado Aprender 57 Cantar Comunicar Além desses parâmetros. para Língua Brasileira de Sinais – Libras . A orientação de mão é a direção que a palma da mão assume na realização do sinal. temos muitos casos como estes. às vezes. estes sinais se distinguem por alteração apenas em um dos parâmetros. podem formar muitos sinais da Libras e. No português. Na Libras. os chamados pares mínimos podem ser exemplificados pelas palavras faca e vaca. A palma da mão pode estar voltada para cima. em que há apenas uma sutil diferença na pronúncia dos fonemas f e v. ocorre um fenômeno presente também nas línguas orais: os pares mínimos. para fora.

assim como ocorre nas línguas naturais. Ir da esquerda para a direita. bem como para marcar afetividades. Esses movimentos também podem ser realizados isoladamente para marcar construções sintáticas – marcar sentenças interrogativas. obrigatórias nas construções sintáticas. referem-se às expressões faciais e aos movimentos do corpo produzidos durante a realização do sinal. referência específica. tópico e foco. grau ou aspecto. Ir da direita para a esquerda. mas. FAEL . negação. Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes orientações para o sinal de ir. exemplos de sinais isolados com expressão facial. As expressões faciais não são recursos adicionais ou dispensáveis na Libras. já que neste momento não abordaremos a construção das frases. Ir de trás para frente. sim. A seguir.Língua Brasileira de Sinais – Libras a esquerda e para a direita. advérbios. Ir de frente para trás. relativas. referência pronominal. concordância. 58 As expressões não manuais. conforme Quadros e Karnopp (2004).

Capítulo 2

Bravo

Triste

Feliz

Cansado

59

Bondoso

Humilde

ou

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Esquisito

Tímido

Calmo

Inocente

60
ou

Doido

Esnobe

FAEL

Capítulo 2

Vaidoso

Chato

Chorão

Tarado

61

Podemos perceber que a realização desses sinais fica condicionada ao uso das expressões faciais, até por uma questão de coerência, pois não seria muito lógico produzir o sinal de triste com um sorriso no rosto ou, então, o sinal de feliz com uma expressão de cansaço e tristeza. Certamente, nosso interlocutor questionaria nossa produção e precisaríamos definir qual a mensagem a transmitir: a do rosto ou a das mãos. Isso porque há sinais produzidos apenas com a expressão facial, com a dispensa de qualquer realização manual. Na Libras, há dois tipos de expressões faciais: as que se prestam a marcar argumentos gramaticais e as que são de cunho afetivo. Neste texto, abordaremos apenas o primeiro tipo e, como exemplo, vejamos os sinais de roubar e sexo:
Língua Brasileira de Sinais – Libras

“palavra é a unidade mínima que pode ocorrer livremente em várias posições sintáticas”. Entretanto. Segundo Sandalo (2001. FAEL . Do mesmo modo. assim como o fonema /s/ pode indicar o plural. Na Libras. Assim como ocorre com o português. dentro das palavras. pois. 183). determinada configuração de mão. conforme Felipe (1998). passemos a algumas considerações teóricas quanto à morfologia e à sintaxe da Libras. eles apresentam significado isoladamente. às vezes. os parâmetros fonológicos também podem ser comparados a morfemas. há elementos que carregam significado. definirmos o que entendemos por palavra. por exemplo. os fonemas podem ter a natureza de um morfema. chamados de morfemas. A seguir ilustramos alguns sinais que podem ser considerados morfemas. 2001). pode constituir um morfema. por exemplo. p. é que são as unidades mínimas da morfologia (SANDALO.Língua Brasileira de Sinais – Libras Roubar Sexo Assim sendo. na Libras. se faz necessário. os fonemas /a/ e /o/ podem ser artigos ou desinências de gênero. primeiramente. 62 Aspectos morfológicos da Libras Se estivermos entendendo que o nível morfológico é aquele que compreende o trabalho de seleção das palavras. Esses elementos.

Capítulo 2 Dois meses Três meses Quatro meses Um dia 63 Dois dias Três dias Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Em alguns sinais. Nesse caso. quando articulados juntos. resultam em uma unidade com significado. KARNOPP. as configurações de mão carregam o significado do numeral. FAEL . 2004). os dias e as semanas (QUADROS. no entanto. os parâmetros – isoladamente – não constituem morfemas. não podem ocorrer isoladamente. elas constituem um morfema preso. mas. Os sinais reproduzidos na sequência são exemplos de que a articulação conjunta de cada um dos parâmetros é que forma o significado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Uma semana Duas semanas Três semanas 64 Vemos que. ou seja. nesses sinais. mas somente com os morfemas que indicam os meses.

Capítulo 2 Ontem Hoje Amanhã Passado 65 Futuro Ano Língua Brasileira de Sinais – Libras .

nesse caso. Um dos processos de formação de palavras é por meio da incorporação de numeral e de negação. em especial o parâmetro do movimento. de acordo com Brito (1995). um morfema livre. 1995. Como já discutimos acerca desse ponto quando exploramos a constituição de sinais que representam morfemas. em que apenas a configuração de mão se modifica. Ainda. a configuração de mão que representa o numeral se combina com outro morfema preso para formar um sinal. o movimento. KARONOPP. 1998. por exemplo) e morfemas gramaticais (movimento). No caso da incorporação de numeral. A seguir vemos o contraste entre os sinais dos verbos e a formação de palavras de negação. Ter Não ter Parâmetro movimento alterado FAEL . a locação e a orientação constituem um único morfema. Dadas as primeiras definições. 2008). um dos parâmetros do sinal é alterado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Percebemos que a configuração de mão. LEITE. QUADROS. FELIPE. 2004. via alteração de movimento e via alteração da expressão facial. Em alguns casos. altera-se somente a expressão facial do sinalizador. passemos às considerações dos processos de formação e classificação de palavra (BRITO. 66 Nesse processo. há na Libras morfemas lexicais (o sinal de sentar. passemos a discussão da incorporação da negação.

Capítulo 2 Saber 1 Não saber 2 Parâmetro movimento alterado Gostar Não gostar 67 Parâmetro movimento alterado Querer Não querer Parâmetro movimento alterado Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Poder Não poder Parâmetro configuração de mão alterado Conhecer Não conhecer 68 Parâmetro expressão facial alterado Entender Não entender Parâmetro expressão facial alterado FAEL .

a negação também pode ser formada pela adjunção do sinal não ao respectivo sinal. conforme exemplos: Não responder Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Precisar Não precisar Parâmetro expressão facial alterado Aceitar Não aceitar 69 Parâmetro expressão facial alterado Além desses processos morfológicos que caracterizam formação de palavras.

ainda. resultando em uma composição.Língua Brasileira de Sinais – Libras Não sofrer Não terminar Não resolver 70 Há. Vejamos nos exemplos a seguir que um sinal pode ser formado por dois sinais independentes que se unem para formar uma palavra composta. outro processo morfológico que acontece pela combinação de dois morfemas lexicais. Casa + cruz = igreja Casa + estudar = escola FAEL .

Capítulo 2 Casa + carne = açougue Casa + pão = padaria 1 2 Boi + leite = vaca 1 Cavalo + listras = zebra 1 71 2 2 Mulher + cruz = enfermeira Mulher + benção = mãe 1 2 Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + benção = pai Espaço redondo + lavar corpo = banheira 2 1 2 O mesmo processo morfológico ocorre em relação à formação de palavras que denotem gêneros. o gênero é dado pelo processo de composição morfológica. 72 Homem + cunhado(a) = cunhado Mulher + cunhado(a) = cunhada 1 1 2 2 Homem + sogro(a) = sogro Mulher + sogro(a) = sogra 1 2 1 2 FAEL . Isso significa que. por meio da combinação de dois morfemas lexicais. na Libras. um que se refere ao elemento morfológico neutro e outro que se refere à marcação de gênero.

Capítulo 2 Homem + primo(a) = primo Mulher + primo(a) = prima 1 1 2 2 Homem + tio(a) = tio 73 Mulher + tio(a) = tia Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + irmão(ã) = irmão Mulher + irmão(ã) = irmã 74 Homem + sobrinho(a) = sobrinho Mulher + sobrinho(a) = sobrinha FAEL .

Maçã + vários = frutas Alface + vários = verduras 1 1 2 2 Arroz + vários = cereais Leão + vários = animais 75 1 2 Batata + vários = legumes Língua Brasileira de Sinais – Libras . conforme exemplos a seguir.Capítulo 2 Não obstante. a formação de palavras que denotam “categorias” também passa pelo processo de composição.

firme e feito mais de uma vez.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com relação à classificação das palavras. como é o caso destes sinais: Telefone Telefonar 76 O sinal de telefone é produzido com a configuração de mão em y. o que sabemos é que um nome pode derivar de um verbo por meio da repetição e do encurtamento do movimento do verbo. pode dar a ideia de telefonar várias vezes. que diferem sua classificação nominal ou verbal pela alteração do parâmetro movimento: Cadeira Sentar FAEL . leves e repetitivos na direção do espaço a frente do corpo do sinalizador. O sinal de telefonar tem a mesma configuração de mão e a mesma locação. Se o movimento for alongado. firme e único. na locação perto da orelha e com movimentos curtos. Da mesma forma se configuram estes outros sinais. mas o movimento é mais alongado.

Capítulo 2 Comida Comer Pente Pentear 77 Foto Fotografar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

independente da construção da frase. processo distinto do que ocorre com os verbos vistos na seção flexão. ilustramos alguns verbos simples da Libras. a saber: os verbos simples. FAEL . os verbos manuais e os classificadores. Esses verbos não são produzidos por processo de flexão. A seguir.Língua Brasileira de Sinais – Libras Casa Morar Bebida Beber 78 Ainda com relação aos verbos da Libras. destacamos neste momento três tipos deles. os parâmetros fonológicos que compõe o sinal serão mantidos. os que se enquadram nesta categoria serão abordados na próxima seção. Constituir-se como um verbo simples significa que.

Capítulo 2 Quebrar Rir Sentir Sujar 79 Trabalhar Viver Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Sonhar Gritar ou Trair Tentar 80 Ouvir Opinar FAEL .

Com relação aos verbos manuais. Ainda que seja para se referir a outra pessoa do discurso. o verbo será produzido do mesmo modo.Capítulo 2 Roubar Salvar / apoiar Morrer Preocupar 81 A maioria desses verbos é produzida nas partes do corpo do sinalizador. Alguns exemplos: Língua Brasileira de Sinais – Libras . com a mesma configuração de mão e com a mesma orientação. apontamos que são aqueles que se configuram pela incorporação do objeto a que se referem. na mesma localização. pois estas partes são o lugar de localização do sinal. Eles podem ser considerados icônicos pela representação da realidade.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Abrir (o pote) Cozinhar Mendigar Limpar (janela) 82 Costurar Escrever FAEL .

do léxico ou da sintaxe.M. 83 Língua Brasileira de Sinais – Libras . haverá alteração da C. mas alguns papéis. Classificador do verbo cair (papéis) Se for preciso referir-se a mesma ação de cair.Capítulo 2 Cortar (com tesoura) Dormir Lavar (a roupa) Os classificadores são aqueles verbos que têm sua configuração de mão inicial (sinal raiz) alterada por influência da semântica. Assim. Verbo cair Originalmente. e preservação do movimento. com o parâmetro configuração de mão alterado. porém. Isso é perceptível pela configuração em v. apresentamos a seguir o sinal raiz de alguns verbos e o sinal classificador. que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir ao chão. Então. este sinal remete à ideia da ação que ocorre com uma pessoa. o sinal foi classificado em sua semântica. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa.

o sinal foi classificado em sua semântica. passaremos a conhecer os processos morfológicos mais complexos. Classificador do verbo andar (de carro) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar. Então. mas um carro. o sinal foi classificado em sua semântica..M. Postas as questões preliminares dos processos morfológicos da Libras.Língua Brasileira de Sinais – Libras Verbo andar Originalmente. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma galinha.M. do movimento e da localização. 84 Classificador do verbo andar (de um gato(a)) Se for preciso referir-se a mesma ação de andar. do movimento e da localização. mas um gato. Então o sinal foi classificado em sua semântica. haverá alteração da C. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. este sinal remete à ideia da ação realizada por uma pessoa. FAEL .M. especialmente aqueles formados por flexão. o sinal foi classificado em sua semântica. no entanto. Isso é perceptível pela configuração em v que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir à frente. haverá alteração da C. Classificador do verbo andar (de uma galinha) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar. haverá alteração da C.. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. Então. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma cobra. porém. Então. Classificador do verbo andar (de uma cobra) Se é preciso referir-se a mesma ação de andar. haverá alteração da C. do movimento e da localização.. e preservação da direção.M.

Isso demonstra que a flexão é definida como um processo pelo qual uma palavra é adaptada a um contexto. também. conforme ilustrados a seguir. É nesse escopo da morfologia flexional que se destacam os processos de flexão nominal e verbal. possessivos. a flexão é a formação de uma palavra por meio de um morfema. numa relação fechada. demonstrativos. o autor assinala que a flexão se apresenta sob o aspecto de desinências ou sufixos flexionais. (1985) associa. Câmara Jr. o termo “flexão” tem sua origem na língua alemã. No português. com o acréscimo de uma desinência correspondente à função que exerça na frase. e podem aparecer no singular ou no plural: Singular 1ª pessoa – eu Nós dois 85 Plural Nós três Nós quatro Nós grupo Língua Brasileira de Sinais – Libras . Para ele. e os primórdios de sua utilização aconteceram na indicação do desdobramento de uma palavra em outros empregos. constituindo uma ideia acessória em que o significado base não é alterado. sendo que estas são impostas pela própria natureza da frase. vamos conhecer cada um deles. a obrigatoriedade e a sistematização coerente. de flexão nominal. segunda e terceira pessoa. de acordo com a natureza desta. Na Libras. Sendo assim. (1985). interrogativos e indefinidos. há pronomes pessoais. indicando uma modalidade específica. ● Pronomes pessoais podem representar primeira.Capítulo 2 Flexão Segundo Câmara Jr. O primeiro processo. pode ser explicitado por meio dos pronomes. ao conceito de flexão.

que se voltam para o local referenciado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Singular 2ª pessoa – você Vocês dois Plural Vocês três Vocês quatro Vocês grupo 3ª pessoa – ele(a) Eles(as) dois/duas Eles(as) três Eles(as) quatro Eles(as) grupo 86 ● Os pronomes demonstrativos são iguais aos advérbios de lugar. Este(a) aqui Esse(a) aí Aquele(a) lá FAEL . Sua realização sempre vem acompanhada da direção dos olhos.

A realização desses pronomes sempre vem acompanhada de expressão facial.Capítulo 2 ● Pronomes possessivos: Meu (minha) Teu (tua) Seu (sua) ● Pronomes interrogativos: em alguns aspectos. Que? / Quem? Porque ou por que? 87 Onde? Quando? 2 1 Língua Brasileira de Sinais – Libras . incorporam alguns advérbios de tempo.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Como? Qual? Quantos(as)? ● Pronomes indefinidos: Ninguém Nada = sem 88 Nenhum Nada FAEL .

é a modificação paramétrica capaz de apresentar distinções para “tamanhos”. alguns exemplos para flexão nominal de grau.Capítulo 2 Já a flexão para grau. A seguir. Casa Casinha Bonito(a) Bonitinho(a) 89 Legal Legalzinho(a) Língua Brasileira de Sinais – Libras . nos quais constam alterações das expressões faciais.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Alto(a) Altão (altona) Calor Calorão 90 Inteligente Inteligentão (inteligentona) FAEL .

dedos mínimo e polegar abertos). Assim. a trajetória do movimento é oposta: inicia-se no objeto indo em direção ao sujeito. temos o verbo falar. ou seja. Nesse caso. a primeira pessoa do discurso – eu – falo (verbo com concordância) para a segunda pessoa do discurso – você. ser concordado para ele(a) me falou. apresentamos alguns exemplos de verbos que concordam com a pessoa do discurso. para todas as diversas localizações possíveis para o receptor. anteriormente ilustrado. A seguir. ao invés de ser na boca. Ocorre que.Concordância do verbo falar: Língua Brasileira de Sinais – Libras 91 . mas a trajetória do movimento será à esquerda. haverá inversão do ponto inicial do sinal que. número. o ponto inicial do movimento permanece sendo na boca. locativo e aspecto. Isso que dizer que se a pessoa que será o receptor está à direita do emissor. Esses verbos são chamados de verbos reversos (backward verbs). e assim sucessivamente. É o caso do sinal falar. Os verbos que se flexionam em pessoa são chamados de verbos com concordância. A localização inicia-se com o polegar próximo a boca do sinalizador e movimenta-se na direção de quem receberá a fala. temos a possibilidade de flexão para pessoa.Capítulo 2 Quanto à flexão verbal. Como primeiro exemplo. Falar O verbo falar é produzido com a configuração de mão em y (mão fechada. em alguns casos. Se o receptor da fala está à esquerda. a concordância na Libras está na sentença: eu falo para você. será na localização que está referenciada para o objeto (segunda pessoa do discurso). a direção do movimento será à direita.

e assim sucessivamente. que as pessoas do discurso são transcritas como: 1s = 1 pessoa. entendemos que há um processo morfologicamente complexo 5 Maiores detalhes sobre as transcrições adotadas no texto estão expostos no capítulo 3. entretanto. Adiantamos.Língua Brasileira de Sinais – Libras 1s Falar2s 5 2s Falar1s 92 Falar3s 2s Explicando a concordância para os sinais apresentados anteriormente. FAEL .

que marca o argumento semanticamente.Capítulo 2 envolvido nesta realização. denominado DIR (directional). O mesmo processo pode ocorrer com os seguintes verbos: Perguntar Ver Mandar Dar Responder Visitar 93 Mostrar Mudar Obedecer Língua Brasileira de Sinais – Libras . ● Um morfema direcional – o movimento da trajetória. segundo Meir (2002). ● Um afixo verbal – a orientação da mão. é possível visualizar três componentes: ● A raiz do verbo falar. pois.

do trial e do múltiplo. perguntar para duas pessoas. dar para três pessoas. uma delas é a diferenciação entre singular e plural. três ou mais referentes. Além disso. A flexão de número refere-se à distinção feita para um. FAEL . por exemplo. A seguir.Língua Brasileira de Sinais – Libras Mexer Paquerar Pedir Influenciar Matar Pagar 94 Em relação à flexão para número. dando a indicação de flexão para número e depois a marcação diferenciada pelas palavras no singular e no plural. apresentamos alguns exemplos do sinal entregar com concordância para número e outros. possibilidade de indicação do singular. apontamos que pode ocorrer com os mesmos verbos colocados anteriormente (verbos com concordância) e há. dois. do dual. mostrar para quatro pessoas ou ver todas as pessoas. realizada por meio da repetição do sinal. o sinalizador pode referir-se a. na Libras existe a possibilidade de várias formas de substantivos e verbos apresentarem a flexão de número. neste caso. Assim. Vejamos outros verbos de concordância.

Capítulo 2

Concordância do verbo entregar:
1s

Entregar

2s

1s

Entregar

2s + 3s

95

1s

Entregar2s + 3s + 4s

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

1s

Entregar vários

96

1s

Entregar grupo6

6 Uma variação possível desse sinal é a realização do movimento com ambas as mãos, denotando, desta forma, a ideia de entregar para muitas pessoas ou entregar para um
grupo grande.

FAEL

Capítulo 2

Agradecer uma pessoa

Abandonar duas pessoas

97

Encontrar três pessoas

Língua Brasileira de Sinais – Libras

e assim com todos os outros nomes que recebem flexão de número. como é o caso do verbo ir. por exemplo. em que sinalizamos ano + ano + ano. como no caso da marcação de anos. conforme a seguir. se faz a repetição da forma no singular. FAEL . Os verbos que recebem essa flexão são chamados de verbos espaciais. exceto em casos em que houver sinal específico para marcação do plural.Língua Brasileira de Sinais – Libras Aconselhar quatro pessoas Beijar todas as pessoas 98 A diferença da marcação do singular e do plural é que. em que é possível perceber o trajeto percorrido desde o seu início até o local de chegada. Quanto à flexão de locação. temos a incorporação de locativo na sua realização. Para árvores. para o plural. flexionado para a locação que está à frente do corpo do sinalizador. usamos o sinal de árvore repetidamente. como em pessoas no sentido de multidão.

Capítulo 2 Ir Outros exemplos desses verbos: Verbo andar Ir de carro Ir de avião 99 A flexão para aspecto é marcada de duas formas: lexical e gramaticalmente. apenas o verbo. por exemplo. pois a flexão codifica como a situação por eles referida se estrutura. reproduzidos na sequência. respectivamente. Tais marcações dão origem ao aspecto lexical e ao aspecto gramatical. manifesta a duração da ação. na oposição semântica verificada entre os verbos procurar e encontrar. O aspecto lexical é aquele em que. Sua expressividade se manifesta. Língua Brasileira de Sinais – Libras .

enquanto que o imperfectivo é produzido com movimentos lentos e contínuos. ou seja. A mão ativa configura-se em v e FAEL . aspecto gramatical é aquele que pode ser codificado em perfectivo ou imperfectivo. e se relaciona a eventos passados. tomemos o exemplo do verbo cuidar em seu padrão de movimento: Cuidar O sinal raiz do verbo cuidar é produzido com a mão passiva fechada (configuração de mão em s). já encontrar codifica a situação como pontual. e se refere a eventos presentes. O perfectivo é produzido com movimentos retos e abruptos. Para ilustrar o que dissemos até aqui.Língua Brasileira de Sinais – Libras Procurar Encontrar 100 Procurar é um verbo que codifica a situação como durativa. sendo que o braço fica na horizontal do tronco. Por outro lado. colocada à frente do corpo. como não durativa.

Todavia. Isso quer dizer que haverá o contato do pulso da mão ativa com o pulso da mão passiva mais de uma vez.Capítulo 2 leva o pulso a tocar no peito da mão passiva. indicando uma situação que se desenvolve ao longo do tempo. temos a seguinte observação: Passear perfectivo Língua Brasileira de Sinais – Libras . Cuidar imperfectivo 101 Nesse caso. ou seja. e que o afastamento da mão passiva será mais alongado em relação ao afastamento que há na produção do sinal raiz. a retomada do contato será feita de modo mais lento. através do movimento representado a seguir. podemos indicar uma situação que perdura de forma ininterrupta. mantém-se a configuração de mão e a localização do sinal raiz e altera-se o movimento para alongado. O movimento que gera o contato de ambos os pulsos é curto e firme. Já com relação ao verbo passear. lento e contínuo. podemos reforçar essa indicação lexical por meio do aspecto gramatical imperfectivo. esse verbo transmite o significado aspectual durativo. pelo próprio léxico. É claro que.

para realizar o sinal com marca do imperfectivo. foi utilizada a mesma configuração de mão do sinal neutro. mas o movimento foi mais alongado e contínuo. com movimentos retos. com movimentos retos e curtos. FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras Pudemos observar as mãos configuradas em b. O mesmo ocorre com o verbo esperar: Esperar Mãos configuradas como “esperar” na direção de cima para baixo. curtos e abruptos no espaço neutro. passando alternadamente sobre os ombros. Passear imperfectivo 102 Observamos que.

vamos discutir um pouco sobre a sintaxe da Libras. sentenças afirmativas. até porque existem palavras do português que não são traduzíveis para Libras. Tipos de frases na Libras Na Libras é possível construir sete tipos de frases. com. te. Porém. Veremos o passo a passo da construção sintática da Libras. sentenças relativas. pois as ideias são formuladas no espaço e a construção da coerência e da coesão acontece de modo bem diferente. sentenças condicionais. em se tratando dos tipos de frases. em. é preciso apenas buscar termos equivalentes. Para construir um enunciado na Libras não é preciso adicionar conjunções e preposições (de.Capítulo 2 Esperar imperfectivo Mesma configuração de mão do sinal neutro. sentenças interrogativas. alongado e contínuo no espaço neutro. como também existem sinais da Libras que não são traduzíveis para o português. mas com movimento lento. sentenças com 103 Língua Brasileira de Sinais – Libras . sentenças com foco. para. todos os conceitos que são transmitidos em uma língua podem ser transmitidos em outra. da ordem dos constituintes. Sintaxe é a organização de um enunciado em torno de um verbo. na) como fazemos no português. Assim como não é necessário seguirmos a mesma ideia do português. a saber: sentenças negativas. da organização dos campos de referência e da flexibilidade das categorias gramaticais. Aspectos sintáticos da Libras Neste tópico.

Língua Brasileira de Sinais – Libras

tópico. Elas são constituídas de um tipo dado, especialmente pela expressão facial. Vejamos cada uma delas: ● Sentenças negativas – são aquelas que apresentam uma ideia sendo negada. Elas podem ser formadas pelos sinais que incorporam a negação – anteriormente apresentados –, pela expressão facial negativa junto ao verbo ou pelos sinais a seguir, acrescidos ao final da frase.
Não Nada Nunca

104

Em Libras é possível negar a ação de comer de várias formas: Eu comer não. Eu comer nada. Eu comer nunca. Eu comer (expressão de negação). ● Sentenças interrogativas – são aquelas formuladas com a intenção de obter alguma informação desconhecida. A formulação do questionamento se dá com os pronomes interrogativos – anteriormente dados – inseridos no início ou no final da frase, como nos exemplos a seguir:
O que você comer hoje? Como você trabalha? Você comer hoje o quê? Você trabalha como?

FAEL

Capítulo 2

Onde você mora? Quem sabe? Por que isso aconteceu? Para que você fez isso? Quando você vai casar?

Você mora onde? Sabe quem? Aconteceu por quê? Você fez para que? Você vai casar quando?

Além das perguntas chamadas qu, há também as sentenças interrogativas nas quais a intenção não é obter uma resposta completa, mas simplesmente sim ou não, como: Você quer leite? Você gosta dele? Você conhece a China? ● ● Sentenças afirmativas – são aquelas que afirmam determinada ação: Eu vou a festa à noite. Sentenças condicionais – são aquelas que estabelecem uma relação de condição e consequência para a realização de algo. Por exemplo: Se você me contar, faço segredo. Sentenças relativas – são aquelas que inserem uma informação adicional à frase, uma informação que seja relativa à informação principal que está sendo transmitida pela sentença. Em Libras, isso ocorre com a expressão facial mantida na oração principal e modificada na relativa. Por exemplo: Aquele homem, que fala muito, está de férias. Sentenças topicalizadas – são aquelas que empregam o tópico. O tópico anuncia o assunto a ser desenvolvido ao longo da sentença. Por exemplo: Carro, eu gosto de Uno. Sentenças focalizadas – são aquelas que usam o foco. O foco serve para destacar ou contrastar alguma informação da sentença como em: Ana chorou, não Paula chorou.
105

Explicitados os principais tipos de frases na Libras, vamos aprofundar como os elementos se organizam na oração.
Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Ordem dos constituintes Em todas as línguas humanas há, pelo menos, três elementos sintáticos principais, que podem se ordenar na frase de diferentes maneiras. Esses elementos são: sujeito – é o termo que expressa o agente da ação (que pratica ou sofre); verbo – é o termo que expressa a ação; objeto – é o termo que qualifica ou detalha o verbo. Quadros e Karnopp (2004) apontam que a ordem dos elementos na sentença da Libras é, geralmente, SVO (sujeito – verbo – objeto). Elas dizem que, além dessa ordem, são possíveis também as seguintes: OSV, SOV e VOS, sendo estas derivadas da ordem canônica e construídas a partir de operações sintáticas, tais como topicalização ou focalização, conforme pesquisa de Pizzio (2006). A seguir, exemplificamos algumas sentenças com a ordem básica da Libras: SVO Eu gostar laranja. Você ter dinheiro.
106

Ele(a) saber Libras. Essa é a ordem chamada canônica, básica, e dela derivam as outras ordens – apontadas anteriormente –, exemplificadas a seguir:
oSV
Laranja ele amar. Bolo eu fazer. TV você ver.

SoV
Você laranja gostar? Eu presente comprar. Ele mãe visitar.

VoS
Gostar laranja ele? Passear praia você. Comprar casa eu.

Deve-se ressaltar, ainda, que alguns elementos apontados na frase podem ser apagados, pois na Libras, assim como em outras línguas, é possível que ocorra o apagamento, não apenas do sujeito, mas também do objeto. Na frase gostar laranja, o interlocutor identifica que há o sujeito eu oculto. Organização espacial Ao estudar os pronomes, verificamos que eles são utilizados para marcar as referências pessoais nos verbos com concordância. Em relação à
FAEL

são marcadas segundo o lugar que cada um ocupa no espaço de sinalização. A enunciação se desenvolve com a mudança de posição de referência. É nesse espaço. Por exemplo. ou quando ele está fisicamente no mesmo ambiente de quem fala. então. Conforme Quadros (1997). conforme Quadros e Karnopp (2004). pode ocorrer mudanças quanto à direção e à localização de seu corpo. As vozes dos sujeitos. por exemplo. a sinalização em direção a um lócus predeterminado ou a movimentação ocular para este mesmo local significa uma marca de referência a uma pessoa e/ou objeto. O corpo do sinalizador deve se situar no centro do raio do semicírculo e. que são construídos pela expressão facial. porém. a que se lembrar que a Libras estabelece a maioria de sua organização sintática no espaço7. sempre que precisar retomar o referente. estando o narrador no centro do raio do semicírculo e os demais participantes da interação nas periferias. é possível usar o dedo indicador na direção do referido. se o sinalizador não quer que o referente saiba que ele está fazendo menção a ele. neste espaço. A apontação se dá em dois casos: quando o referente não está presente no momento da enunciação. Língua Brasileira de Sinais – Libras . nas diferentes situações discursivas. Isso pode ser feito. com referentes presentes ou não.Capítulo 2 sintaxe. com a outra mão aberta e com a palma sobre o dedo que aponta. é preciso que o sinalizador defina pontos específicos no espaço a cada referente que aborda no discurso. ou seja. Sobre isto. Algumas vezes. inclusive por apontação. de várias maneiras. basta que a apontação seja feita diretamente ao referente presente. 107 7 As exceções dessa construção sintática no espaço são o tópico e o foco. será uma fala às escondidas. por questão de etiqueta ou. cujo perímetro é usado para a realização de referência a pessoas do discurso. quer dizer. seus diálogos e suas ações. todo enunciado em Libras é realizado no espaço de enunciação: um semicírculo virtual. suas enunciações. o sinalizador vai estabelecer aleatoriamente um ponto no espaço de sinalização para se referir ao sujeito e/ou objeto e fazer as apontações devidas. Dessa forma. Estando o sujeito e/ou objeto visíveis. por ser esta sua natureza linguística. ainda. ver: Pizzio (2006). que se desencadeiam todas as relações entre os sujeitos. obviamente. No primeiro caso. à esquerda e/ou à direita do narrador. Assim.

as lideranças locais falaram primeiro. mas. Então. ou seja. Maluf foi sucinto em seu discurso e quando Amim – o careca – tomou a palavra. seguidos de Maluf e de Amim. Quando esse narrador deixa de contar os episódios gerais e passa a dar voz a algum personagem em específico. bem ao meio do círculo de sinalização. o que fez com que Maluf comentasse com os políticos que estavam à sua volta: “– Imagine se ele não fosse careca!” Considerando que esse texto se caracteriza como uma narrativa. por isso. Porém. o sinalizador estará sempre no centro do espaço e poderá produzir os sinais na direção do referente ou. sinaliza a fala desta pessoa na direção de onde está a outra. estavam em comitiva. não haverá comprometimento da clareza de informação. por exemplo. ao começar a sinalizar. Outra forma de o sinalizador construir a voz do personagem é por meio do processo chamado anafórico. No comício. Nesse sentido. Esse processo é a incorporação do personagem e a elaboração do discurso direto.Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. de acordo com Massone (1993). Tomemos como exemplo para análise da construção sintática um texto que trata do fato de que o prefeito Paulo Maluf e o senador Amin foram visitar a cidade de Joinville. se por ora o sujeito referenciado aparecer à esquerda do narrador – centro do semicírculo – e por ora aparecer à direita. se houver um diálogo entre dois personagens. Então. de acordo com a organização interna do discurso. Na ocasião. Porém. levar os olhos naquela direção para marcar o espaço. sim. em cima de uma caminhonete. até porque as alterações do lócus não ocorrem aleatoriamente. a pessoa assume o papel de narrador e a produção dos seus sinais será no espaço neutro. ainda. ele se alterna continuamente dentro do espaço sinalizador. o lócus referencial das pessoas do discurso não é fixo. com seu corpo voltado à esquerda. sua fala perdurou muito tempo. o FAEL 108 . o sinalizador toma primeiramente o lado direito. enquanto acenavam para todos. dependendo do contexto em que se encontra. O dia estava muito quente e. e guiaram durante uma hora uma grande carreata pelas ruas. o sinalizador aponta para um lugar a sua direita ou esquerda para marcação do espaço a ser ocupado pelo referido sujeito. Esse espaço será fixo enquanto houver ação ou fala dessa mesma pessoa. os políticos suavam bastante. disse que discursaria tão rápido quanto havia feito seu amigo. quando for a vez do personagem que está à esquerda falar.

entretanto. há construção das enunciações de cada um. Assim. destacamos que. quando é preciso lançar mão de mais de uma construção espacial. Nesse caso. mas com uma inclinação de tronco à direta – como se estivesse olhando para quem fala – e sinaliza. É interessante notar que há prevalência do sujeito em relação ao objeto nas enunciações. pelo contato ideário com o interlocutor colocado no espaço referenciado a ele e. há necessidade de se fazer uma organização sequencial. na Libras. se pontua – com os números não quantitativos – a ordem de fala. a sinalização é feita na direção do espaço marcado para esse personagem e o último movimento de ombros. se faz priorizando as pessoas do discurso e não as coisas e objetos nele envolvidos. ainda. expressa pelas duas mãos passando da direita para esquerda. utilizando-se da direção do olhar como um recurso identificador do sujeito. a carreata e a comitiva. como se estivesse limpando a fala dita até então e dando lugar a uma nova enunciação. No caso sob análise. Para tanto. os verbos direcionais – como é o caso de andar – instauram uma necessidade eminente de movimento. marcando a direção de origem e destino da ação expressa pelo verbo direcional. o sinalizador precisa destinar um lugar específico para outras referências. este espaço não pode invadir o espaço anteriormente definido para os personagens já apresentados. Nesse momento. por exemplo. ou seja. Além de organizar o espaço de sinalização para marcar o lugar de quem fala. o espaço da comitiva se desfaz e dá lugar à presença de um grupo de políticos e assessores. há a possibilidade de fazer a diferenciação das vozes ao longo do discurso mediante movimento de ombros e incorporação do personagem. por meio de uma marcação sinalizada. Durante a tomada de voz de cada um dos personagens discursivos. quando há necessidade de alocação de outros sujeitos no mesmo espaço que está sendo ocupado por objetos. Dessa feita. No entanto. Quando Amin fala ao prefeito. a sinalização é projetada para frente. a comitiva vai andar de um ponto definido pelo sinalizador até o outro no espaço. enquanto Amin fala ao público. na Libras. É interessante observar que.Capítulo 2 sinalizador se coloca deste lado. bem como a direção do olhar é para um terceiro espaço – do grupo de políticos. há facilmente uma desconstrução desse primeiro espaço. Língua Brasileira de Sinais – Libras 109 .

a ordem dos constituintes e a forma de organização dos elementos no espaço. relacionamos a seguir alguns adjetivos da Libras. Barulhento Bobo Bondoso Confuso Chorão Bruto 110 Corajoso Infantil Engraçado FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras Agora que já conhecemos os tipos de frases. Para tanto. para depois os colocarmos em frases comparativas. passemos à exemplificação.

fazemos o sinal de “mais8 bobo” e. Na seção destinada à semântica. Então. oposto ao primeiro. Imediatamente. há um apontamento para o espaço onde foi colocado o primeiro personagem. Língua Brasileira de Sinais – Libras . destinamos outro espaço de sinalização.Capítulo 2 Fofoqueiro Famoso Egoísta Pensando numa construção frasal temos: João é mais bobo do que Maria. à esquerda. para escrevermos com o alfabeto manual “João”. Em um segundo momento. explicaremos cada um deles. haverá inversão da informação. Em Libras. com a intenção de dizer “ele”. na sequência. Do que 111 8 Há muitos sinais que podem significar mais. temos que destinar um espaço de sinalização. por exemplo. se o marcador comparativo for sinalizado da direção do espaço da Maria para o espaço em que se encontra João. colocamos o marcador “do que” (conforme a figura a seguir) na direção do espaço do João para o espaço da Maria. para escrevermos o nome “Maria”. A mesma forma de construção frasal ocorrerá na utilização de qualquer adjetivo ou para suscitar qualquer tipo de comparação. Contrariamente.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Flexibilidade da Libras A Libras é uma língua flexível. Fiorin (2002) afirma que a temporalidade instaurada pela língua refere-se também às relações de sucessividade entre estados e transformações. ordenado em função de momentos de referência (MR) instalados no enunciado. de Benveniste (1989). Podemos citar. pois tal nos permite entender esta característica. passado e futuro. momento de referência (MR) e momento do acontecimento (MA). também. a qual se divide em anterioridade e posterioridade ao agora. todo discurso instaura um agora que equivale ao momento da enunciação. relacionado diretamente ao momento da enunciação (ME) e organizado em função do presente que já está implícito na enunciação. e o enuncivo. Sobre questões como essas e outras peculiaridades teóricas da conceituação da categoria tempo. A conceituação mais básica de tempo é que ele é uma categoria gramatical dêitica. escolhemos tratar da temporalidade. há uma vasta literatura. e isso pode ser demonstrado pela “junção” de categorias gramaticais em sua expressão e composição. o autor aponta para a existência de dois sistemas temporais: o enunciativo. que expressa o momento em que ações verbais acontecem e. Tanto aspecto quanto tempo são noções que se referem à temporalidade dos eventos. por exemplo. Para ilustrar a flexibilidade da Libras. instaurando-o em um discurso. Com isso. Cada vez que um locutor emprega a forma gramatical do presente. pode definir a existência de três tempos linguísticos: presente. levando em consideração o momento da fala como ponto de referência para situar os acontecimentos. É o caso. como Fiorin. em que existe uma concomitância entre o evento narrado e o momento da narração. representadas no próprio discurso. na qual encontramos diferentes abordagens e discussões dos autores. porém. o tempo linguístico é singular por ser organicamente ligado ao exercício da fala. por isso. e um agora em que acontece a não concomitância. Nesse sentido. autores mais recentes. FAEL 112 . Para esse autor. o qual transcorre no tempo presente linguístico. ao fato de se definir e de se organizar como função do discurso. que diz que o tempo linguístico é aquele que realiza o tempo do homem. que postulam três momentos relevantes na constituição do tempo: momento da enunciação (ME). ele situa o acontecimento como contemporâneo à instância do discurso que o menciona. sob diferentes perspectivas.

simultâneo e posterior. conforme figura a seguir. Passado 113 Língua Brasileira de Sinais – Libras . que Reichenbach (1947) tem sido o grande marco teórico e que suas postulações têm servido de base a outros estudos acerca do tempo. presente e futuro. uma vez que o próprio momento de referência se norteia em relação ao momento de fala. Na Libras. presente. momento de referência. assim como em outras línguas. Dessa forma. simultaneidade e posterioridade – podemos obter codificações mais complexas. Por meio do momento de referência – em relação ao qual o momento do acontecimento também se norteia em termos de anterioridade.Capítulo 2 Há que se destacar. em relação ao momento da fala. dando a representação de passado. Por exemplo. Os três conceitos de tempo dados por Reichenbach (1947) podem ser aplicados a quaisquer línguas. para o tempo passado. o tempo pode ser expresso por operadores temporais específicos na sentença: passado. Esse autor analisa a lógica da manifestação temporal e realiza uma interpretação linguística da categoria tempo com base em três conceitos: momento de fala. para então localizar os acontecimentos no eixo temporal. Tal representação objetiva organizar as manifestações temporais das línguas naturais. o momento do acontecimento pode se nortear de modo anterior. passaremos à demonstração de algumas possibilidades de expressão do tempo na Libras. momento do evento. sua expressividade se dará por expedientes linguísticos distintos. entretanto. existe um marcador temporal específico. porém. que é formulado com a configuração de mão no espaço próximo ao ombro e com movimento dos dedos para trás. Nesse sentido. futuro.

Nesse caso. sendo que o posicionamento inicial da mão é no espaço neutro na altura do rosto e o movimento produzido é de afastar a mão em direção diagonal à frente. de modo que os dedos mínimos quase se tocam e paralelamente se distanciam. ou seja. o sinal é produzido com a configuração de mão em f. Agora / hoje / presente 114 O futuro é sinalizado com o marcador temporal de futuro. o operador temporal específico obedece ao critério “para trás e para baixo9” para. dedos juntos. que é sinalizado com ambas as mãos abertas. Conforme vemos na figura a seguir. palmas voltadas para cima e com um movimento simultâneo de aproximar e afastar as mãos. se o sinalizador fizer os movimentos para cima e/ou para frente. então. haverá um fenômeno agramatical. de modo que fique longe do rosto: Futuro 9 Se não for produzido dessa forma. O presente é definido pelo marcador temporal agora/hoje. FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras É interessante observar que esse sinal não segue as antigas relações de que sinais produzidos para trás do ombro estão no passado. pois para denotar a ideia de posterioridade ao momento da fala é preciso também que o sinal seja produzido para baixo. remeter ao referido tempo linguístico: passado.

é capaz de expressar conceitos diferentes do sinal raiz. Assim. será denotado passado distante. ● “Eu ano 2000 casar futuro nascer filho 2003. Nesse sentido. Isso significa que. antes disso. Tal variação pode acontecer em níveis distintos e caracterizar uma gradação temporal. Tradução: “Eu me casei em 2000 e posteriormente nasceu meu filho”. com uma aproximação do cotovelo ao tronco do sinalizador e. ou seja. eles podem estar demonstrando intervalos que ocorrem no passado. com uma expressão facial reduzida. também. Porém. haverá denotações de “posteriormente” ou “antes disso”. gere o sinal de passado recente. portanto. Passado recente 115 Língua Brasileira de Sinais – Libras . sua leitura. além do reforço na expressão facial. sua leitura. é de posteriormente. sua temporalidade vai além dos estabelecimentos tradicionais de tempo e se ocupa. namorei três anos”. da marcação interna aos eventos. é possível que a diminuição do movimento somente para a ponta dos dedos. ● “Eu ano 2000 casar passado 3-anos namorar. se o sinal de passado sofrer ampliação dos movimentos dos dedos para o braço e houver um afastamento do cotovelo. como a língua é um sistema dinâmico e flexível. com isto. portanto. presente e futuro. referindo-se a situações já ocorridas. conforme podemos ver nos exemplos a seguir.” A palavra em destaque demonstra intervalo que ocorreu no passado. Tradução: “Eu me casei em 2000. Sabemos que a Libras possui uma morfologia flexional que emprega variação no movimento do sinal e que. dependendo da posição em que os sinais de passado e futuro estejam na frase. também.” O sinal destacado demonstra intervalo que ocorreu no passado. é de antes disso.Capítulo 2 Esses três sinais são os principais marcadores dos conhecidos tempos linguísticos: passado.

O sinal de futuro. obtém-se o futuro próximo. conforme vemos nas imagens a seguir. se dá para o sinal de futuro. 116 Imediatamente Essa mesma flexão morfológica. por meio de alteração de movimento. curtos e abruptos. sendo ampliado com alongamento do braço para frente e a expressão facial com reforço no olhar ao longe. caracteriza-se por futuro distante. Se o movimento for “neutro” e mais repetido. FAEL . Sua realização se dá com o aproximar das mãos e com movimentos mais rápidos. a leitura é de agora/hoje/presente/atualmente. temos a variação para imediatamente/já/neste instante. Se ocorrer a diminuição do alcance do braço e uma expressão facial menos intensa.Língua Brasileira de Sinais – Libras Passado distante Quando ocorrem flexões morfológicas via alteração do movimento do sinal presente.

mas também podem aparecer no final. Quando esses itens lexicais aparecem na frase. semana passada. eles são inseridos no início da narrativa e servem para “conjugar” o tempo de toda a sentença. antes. nunca. depois. seguem as imagens de ontem e anteontem: Ontem Anteontem 117 Língua Brasileira de Sinais – Libras . sempre. presente e futuro –. normalmente. Assim sendo. próxima semana. Com fim elucidativo. amanhã. São os sinais adverbiais: ontem. anteontem. Esses advérbios geralmente vêm no começo da frase. há outros que podem expressar a categoria tempo. o pressuposto da temporalidade marcada inicialmente é mantida até que apareça outro marcador temporal.Capítulo 2 Futuro próximo Futuro distante Além desses três sinais principais – passado.

pois muitas vezes é preciso recorrer a aspectos pragmáticos para a interpretação temporal. 118 Quer dizer. Finau (2004) apresenta a teoria da análise pressuposicional para justificar a leitura temporal de sentenças que não contenham operadores temporais específicos. três princípios norteadores de escolhas de seleção linguísticas que o falante opera. advérbios ou quantificadores. provavelmente. o falante escolhe significados restritos à sua língua que podem ser presumíveis pela inferência do outro e. por flexão e por advérbios. conversar. ele serve como um limitador. futuro casar”. Isso implica em conhecimentos de mundo que os interlocutores compartilham e que possibilitam uma flexão semântica para os verbos e as devidas distinções temporais. Numa sentença como “Ana estudar até quarta série” vemos que o emprego do sinal quarta série é um quantificador que expressa o tempo de estudo. que é preciso namorar. A leitura de tempo durante o ato conversacional ou discursivo pode ser estabelecida por pressupostos da pragmática generalizada. é possível perceber o tempo. 140). em um dos seus mundos possíveis. Tradução: “Namoraram. para depois se casar. compõem uma organização interpretativa dos enunciados. 2004. a expressão da categoria tempo na Libras não conta apenas com léxicos específicos para sua realização. conversaram e no futuro casaram”. Tal teoria postula que. o common ground (conhecimento compartilhado pelos falantes). nessa teoria. pela sequência discursiva para a narrativa. as FAEL . é de que a referência temporal é dada de modo implícito. A análise subsequente. No entanto. Nas palavras da autora: O locutor pode se valer da suposição de que seu interlocutor tenha como familiar. Para Levinson apud Finau (2004). conversar. ele também conta com expressões quantizadas para sua realização. conforme observado no exemplo: “Namorar. Esse conhecimento compartilhado hipotético auxilia a interpretação temporal dos eventos (FINAU. Finau (2004) coloca que há. mesmo não havendo marcas temporais explícitas (operadores ou flexões) no discurso do falante. acontece a restrição temporal. desse exemplo colocado por Finau (2004). p. assim. chamados também de heurísticas. Esses princípios.Língua Brasileira de Sinais – Libras Além de o tempo na Libras ser marcado por operadores temporais. principalmente pelo conhecimento compartilhado entre os interlocutores.

permitem multiplicar o conteúdo informacional de qualquer sentença. Língua Brasileira de Sinais – Libras 119 . hoje/agora. Então. ou seja. esses três princípios norteiam o status da interpretação do tempo das sentenças. não deve estar presente na interpretação temporal. ● Aquilo que é dito de uma maneira anormal. quando flexionado. Isso quer dizer que. a sentença não pode ser interpretada estando no futuro. Finau (2004) aplica essa heurística para Libras e diz que se a sentença não apresentar o sinal futuro. 2004) que. no caso da Libras podem ser os sinais futuro. ele revela “algo a mais” do que sua lexicalidade permite expressar. Se não foi dito. este elemento ausente não poderá ser o escolhido para a interpretação da estrutura frasal. Em Finau (2004) vemos que. se há ausência de determinado fator temporal. Essa é a heurística que viabiliza a interpretação aspectualizada para marcadores que sofrem alteração morfológica. Esse é o princípio que trata das ampliações interpretativas feitas pelo interlocutor. ● Aquilo que é simplesmente descrito é um exemplo estereotipado. todo seu conhecimento de mundo e tem. considerando a concordância implícita entre os interlocutores. dessa forma. aplicadas ao estudo da temporalidade na Libras. uma interpretação maximizada. passado. É o caso do sinal passado que. se recebe uma descrição mínima ele traz à tona. se um sinal foi flexionado por meio de alteração no parâmetro movimento. Essa heurística propõe um contraste na restrição da seleção do que é dito e do que não é dito. Assim. tem um significado a mais no enunciado. Para Finau (2004). na conversação. de acordo com os estereótipos dados.Capítulo 2 determinações temporais dadas a partir de implicaturas conversacionais generalizadas são: ● O que não é dito não é. pois não foi dito de uma forma normal. São as heurísticas de Levinson (apud FINAU. não é normal.

Esposa: – Demorou sim. Você disse que daqui a pouquinho estava de volta. quanto ao significado.. Apesar de terem suas especificidades. Claro que. há palavras que não têm esta possibilidade dúbia de expressão. nesse caso. Marido: – Não demorei. FAEL . quanto à semântica da expressão “daqui a pouquinho”. É o caso. moradia. você demorou. de brevidade no espaço temporal e... Podemos. que horas você volta? Marido: – Ah. abrigo. assim. Por outro lado. Poderíamos citar como exemplo os casos de desentendimentos de detalhes. O “problema” no discurso acima se deu devido a uma discordância quanto ao entendimento. temos diferentes palavras que são capazes de representar. pode caracterizar uma comunicação truncada. essa expressão ganha um sentido de pouco tempo. para quem está à espera de alguém. Especialmente por estar no diminutivo. eu pensei que fosse demorar uns vinte minutinhos. trata-se de uma família de ideias. Quatro horas depois. estamos descartando o significado de tempo para cada um dos envolvidos no processo. quatro horas é muito tempo. 120 Esposa: – Ué! Você não falou que voltava logo? Marido: – Mas eu não vim logo? Esposa: – Não. de fato.. apartamento e cabana. residência. das palavras casa. Logo. estamos apenas brincando com uma situação que é recorrente no nosso cotidiano.Língua Brasileira de Sinais – Libras Aspectos semânticos da Libras Toda língua tem uma semântica implicada em seus itens lexicais. lar. como no discurso abaixo reproduzido: Esposa: – Amor. que têm seu significado restrito a determinado contexto que. por exemplo. sobrado.. a mesma ideia. daqui a pouquinho eu to aqui. por exemplo. todas elas representam a ideia de lugar onde se mora. inferir que pouco tempo se aproxima de uma quantidade determinada de minutos e nem chega a completar o ciclo de uma hora do relógio.. se empregado em outro. basicamente. No português.

exclusivo. na Libras. está mais relacionada às coisas que se vê. tornam-se mais adequados do que em outros. Isso significa que especial. Quando um surdo usa o sinal de especial para alguém. privativo. quer dar ênfase a uma vivacidade notória. Especial 121 Língua Brasileira de Sinais – Libras . excelente. em uma frase como “Você é muito especial para mim” ou “Esta criança tem necessidades especiais”. ele não está querendo dizer que esta pessoa é importante em sua vida. Já na Libras. A palavra “especial” é usada no português para definir algo ou alguém como muito peculiar. mas está querendo destacar qualidades que se deslumbram para ele. como: importante no caso da primeira sentença e coisas próprias no caso da segunda. que se ressalta sobre os olhos. Essa relação entre significado e significante (o sinal) da Libras não é análoga à relação de significado e significante (palavras) da língua portuguesa. singular. de beleza que se destaca tal qual o brilho em meio à escuridão. esse sinal não é muito usual em contextos relacionados às pessoas. Há sinais que.Capítulo 2 Esse mesmo fenômeno acontece na Libras. Assim. notável. deve haver a sinalização de outro item lexical que equivalha a este termo do português. O sinal de especial é empregado na Libras em contexto de definição bela sobre algo ou alguém. tem uma conotação mais “concreta” do que em português. pois – mesmo sendo entendidos – podem gerar certo “estranhamento” ao interlocutor. se produzidos em determinados contextos. fora do comum.

mas também com uma grande habilidade que ela possua. muito proficiente na sinalização. podem não se adequar semanticamente. Em Libras. FAEL . seu emprego não está relacionado só ao fato de uma pessoa ser muito conhecida.Língua Brasileira de Sinais – Libras Esse tipo de especificidade de uso ocorre também com o sinal de educação. já que educação tem um cunho mais comportamental para os surdos. Famoso Essa frase está invocando a informação de que a referida pessoa é muito fluente. não há o emprego desse termo para definição do conceito. que é muito habilidoso na área da Libras. Há expressões como “educação especial” ou “educação de surdos” que. pois em Libras a melhor forma de representação desta ideia seria o uso do sinal de ensino. se sinalizadas como a seguir. Educação Ensino 122 Algo semelhante se dá com o sinal de famoso. que não tem correspondência com a palavra na língua portuguesa. Em português. Há a possibilidade da seguinte construção na Libras: “Ele Libras famoso”.

no sentido de “maior”. Exemplo: 2 + 2. A palavra mais pode ser sinalizada das seguintes formas se os contextos de realização implicarem nas informações correspondentes: Sinal para marcar a ação de somar. aproximar. Língua Brasileira de Sinais – Libras . vamos pegar uma mesma palavra e ver as várias possibilidades de sinalização. Polissemia Vamos pensar na polissemia em Libras de duas maneiras: a versão que o português impõe aos sinais da Libras e a versão que os sinais da Libras impõe ao português. 123 Sinal para marcar a ação de juntar. Sinal para marcar a ação de comparação em relação a algo. mas encerramos por aqui nossas exemplificações e passamos ao estudo da polissemia.Capítulo 2 Há inúmeros sinais dessa natureza para serem detalhados. dependendo do contexto de realização. acrescentar. operações matemáticas. numericamente falando. Sinal para marcar a ação de “mais uma vez”. de repetição. Começando pela primeira maneira.

como se houvesse um destaque de maioridade. 124 Em relação à segunda maneira. pegaremos um sinal da Libras e averiguaremos as possibilidades de tradução para o português. sentido de não posso.Língua Brasileira de Sinais – Libras Sinal para marcar a necessidade de continuidade no percurso. faremos o contrário. sentido de advertido. daquele que está acima de todos. Sinal para marcar a ação de comparação absoluta. Agora temos um único sinal que pode denotar várias palavras no português: ocupado. Esse sinal também pode significar sentido de ocupado. Ocupado FAEL . Sinal para marcar a necessidade de aumentar o som. ou seja.

125 Síntese Neste capítulo. Curitiba em outro espaço. com a estrutura gramatical da Libras. Colocar a expressão “Vendo vozes” no quadro e verificar quem consegue melhor interpretação semântica para ela. detalhadamente. de duas mãos com formas iguais. 2. e se realizam o sinal de avião fazendo o percurso do espaço de São Paulo a Curitiba. para cada um dos seus níveis de análise linguística. para ver se entenderam que os verbos de movimento se realizam com concordância com o local. a fim de proporcionar ao leitor um conhecimento das “partes” da língua. minimamente. a partir delas. Quanto à localização. se São Paulo ficará em um espaço. e que deixam a marca do seu trajeto. o professor pode realizar algumas brincadeiras em sala de aula. Quanto aos movimentos. configuração de mão e movimento. Língua Brasileira de Sinais – Libras . vimos as possibilidade de formação de sinais a partir de apenas uma mão. No nível fonológico. Entregar as 64 configurações de mão aos alunos e pedir que. destacamos a existência de pares mínimos e de parâmetros secundários para realização dos sinais: orientação da mão e expressão facial. de duas mãos com formas diferentes ou. Quanto à configuração. Verificar se sabem separar os espaços para cada elemento. nos debruçamos sobre a gramática da Libras e olhamos. Pedir aos alunos para sinalizarem a frase “Fui de São Paulo a Curitiba”. Ainda com relação ao nível fonológico. eles pesquisem cinco sinais que se realizem da mesma forma.Capítulo 2 Da teoria para a prática Para trabalhar. observamos sua realização no espaço neutro e no corpo. 3. ainda. como as seguintes: 1. conhecemos suas seis possibilidades principais. observamos que a Libras apresenta três parâmetros principais: localização.

tipos de verbos e os dois tipos de flexão: nominal e verbal. Finalizamos o capítulo com uma pequena abordagem quanto à semântica implicada nos sinais da Libras. Na parte sintática. classificação de palavras. evidenciamos as possibilidades de formação de sinais a partir de morfemas presos e livres. 126 FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras Na análise morfológica. e discutimos questões pertinentes à formação de palavras. trouxemos a questão dos tipos de frase. ordem dos constituintes. organização espacial e a flexibilidade da sentença da Libras.

necessariamente. Nesse sentido. ser melhor ou pior. apresentaremos um panorama geral sobre as relações sociais que são estabelecidas a partir da experiência da surdez. entendemos que a necessidade de saber o português é urgente e esta pode ser sanada com métodos específicos de segunda língua. deve fazer parte da instrução recebida. Diante disso. Partindo disso. é possível refletir sobre o modo de como as pessoas surdas conseguem interagir com a sociedade e garantir sua participação ativa. mas. N As relações sociais do surdo Analisando sob a perspectiva de que a surdez está inserida e constituída em ambiente e mundo visual. em qualquer espaço que se for. a surdez como característica que compõe a própria diversidade e a individualização do ser humano em sua constituição. olharemos para o que é impregnado no surdo a partir de tais vivências: sua identidade e cultura. Com relação à escolaridade da pessoa surda. sim. ou seja. É desse modo que a pessoa surda precisa ser vista na sua relação com a sociedade. destacaremos a subjetividade inerente. abordaremos as configurações dos relacionamentos pessoais (casamento e filhos). as relações de amizade (associação de surdos. podemos pensar que elas se inserem e retêm conteúdos visuais sob a forma de expressão. partimos da premissa de que Libras é sua primeira língua e. portanto. para tal enfoque. destacam-se os processos de leitura e escrita. Ter peculiaridades diferentes não significa. sendo que. Disso tudo. ser. a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades distintas em relação à vida de uma pessoa ouvinte. Por meio da Libras. . Feneis) e cultura (cinema. arte).Implicações sociais da surdez 3 127 este capítulo.

pois permite ter contato. porque o surdo se une a quem conhece a língua de sinais.Língua Brasileira de Sinais – Libras Pensando por esse viés. para o surdo. fica assim caracterizada. Isso porque. Caso haja surdos também às pessoas que possuem na plateia. Uma situação que pode acontecer é uma adequação em relação aos pais surdos e filhos ouvintes em que. O significado da união com o outro representa algo diferente. a partir desse momento. devido à grande quantidade de filhos que se inclui nessa categoria. O profissional mulação daquilo que se apreenintérprete deve se colocar em frente aos noideu. acaba por ser deficitária devido à comunicação que. acaba por virem os filhos. eles poderão ser ouvintes (havendo exceções em que pais surdos concebem filhos da mesma natureza). independente de ser ou não surda. e como a surdez não é hereditária. culminando em um viver bastante comprometido e problemático. princípios e comportamentos de vida. criou-se uma organiSaiba mais zação internacional destinada a Os casamentos de surdos (com pessoa surda ou ouvinte). o filho. FAEL . Frente à convivência em família. Isso é compartilhado mundialmente por essas pessoas e. ao lado do celebrante. Essa organização. Para a maioria dos surdos. já que o celebrante (pastor. devido à barreira da comunicação. destinada vos. acaba sendo natural que ocorra uma comunicação em que haja gestos e falas oriundas deste contexto. muitas vezes. pois interagir simultaneamente tradução. seus pais não têm participação ativa em suas vidas. um ritual que em nossa sociedade é muito comum: a questão da união conjugal. O que antes era comprometido e problemático. a presença de mais um intérprete uma realidade semelhante quané recomendada. O traje do profissional deve to a ser filho de pais surdos. caser o mais discreto possível para não ofuscar o racteriza-se pelo nome de Coda glamour que envolve o casal. pois vai em direção oposta a tudo que aprendeu e viveu. por não haver clareza na comunicação. exige empenho e reforpressar os votos na língua oral. E no que tange à transmissão de conteúdos concernentes a valores. normalmente. formalizando a relação. padre. são acompanhados de discutir questões conflitantes. do mesmo modo. 128 Como fruto dessa comunhão. acaba por não ser estimulado e não desenvolve a audição e a fala. torna-se algo natural. podemos perceber como ocorre. tão pouco consegue exsimples. poder celebrar essa união tem um significado muito relevante. (children of deaf adults). diálogo e participação com o outro. em culturas diferentes não é algo juiz) não consegue estabelecer uma comunicação com os noivos.

A vibração é tão poderosa no corpo como o som é no ouvido. aprender a língua de sinais. porventura. Um exemplo bem comum é que. o normal é ser surdo. no sentido biológico. consultas. Eles conseguem ficar insensíveis a tudo isso. pois. elas desenvolvem habilidades que são específicas do surdo. criando assim uma identidade como a deles. consideram a tranquilidade da comunicação em Libras algo bem acessível. é possível estabelecer contato com a outra pessoa que. Para Perlin (2004). para eles. ver tudo que há no mundo é algo muito bom e. Os surdos têm uma forte potencialidade para sentirem as vibrações do ambiente e. Somente quando essas pessoas vão para a escola é que se inicia o processo de aprendizagem do português. com a convivência constante e indireta em viagens. pois entendem que. conseguem se expressar com maior clareza em relação ao português. conseguem não ouvir quando estão em um ambiente com alta sonorização (volume alto de TV ou rádio). conseguem reagir bem ao estímulo recebido. Língua Brasileira de Sinais – Libras 129 . assim como os surdos fazem. pois esta vai ser moldada de acordo com o grau de receptividade cultural assumida pelo sujeito. é comum que adolescentes e jovens surdos frequentem as baladas e dancem por muito tempo. nada muito comum. compras. por conta deste sentido estimulado. está no quarto ao lado e. Quando acontece um diálogo de filhos ouvintes de pais surdos. enquanto o português. passeios. ambos surdos e Codas. Os filhos entendem que a possibilidade de ver as coisas. estes se utilizam de alguns sinais no meio da conversa. a profundidade no contato visual desenvolve sua subjetividade e possibilita impressões acerca do olhar. mas frente ao contato com surdos ou suas comunidades. as identidades surdas são construídas mediante as possíveis representações da cultura surda. para ambos. mesmo sendo ouvintes. Com isso. o que para os ouvintes “normais” – ouvintes de pais ouvintes – seria uma tarefa bem difícil. como consequência. Os Codas procuram desenvolver o olhar como meio de referência. acabam por praticar e. Eles conseguem acompanhar os ritmos musicais somente pelo que seu corpo sente. Pensar em ser ouvinte é algo bem estranho. por isso. Por meio da vibração. desta forma.Capítulo 3 A maioria das pessoas que participa dessa organização tem a audição preservada. Outro exemplo disso é quando querem se comunicar e batem o pé no chão.

no caso. capaz No Brasil. Sobre esse assunto acesse: <http://super.clubedochoro. Porém. Pensar no processo de construção da identidade surda da pessoa que é ouvinte não seria algo tão complexo se somente houvesse comunidades que partilham do mesmo sentimento.br/ ferente dos surdos. a escola estabelece um abismo que a separa dos pais do aluno Coda. A escola não consegue atribuir a esses pais a condição de pais. os membros da escola estabelecem relações pouco íntimas com os alunos e seus pais.shtml>. de surdos. surdos. como os que tocam nas raves. Nesse ambiente dotado de pessoas que. culturas.abril. as crianças acabam sendo concebidas como deficientes e. porque ela ouve. Sobre isso consultar: seus olhos possuem uma sensi<http://www.com.com. eles a possibilidade de se atenHá. Nesse ambiente. sim. e com isso o prejuízo torna-se presente e generalizado. devido a tal visão. a realidade não é bem assim. Não muito diexistem festas especiais para surdos. Diante desse afastamento. social e política irão precisar de um ambiente com características diferentes destas. os pais do Coda não recebem convites para eventos escolares ou quando o filho não apresenta bom rendimento escolar. pois ver significa dançam. que trabalha com Olodum para em sua mente. Essas crianças que falam Libras desde a infância e que enxergam a surdez como constituição cultural. desconhecem essa língua e as questões que envolvem a surdez. há uma banda conhecida como de não processar alguns sons Surdodum. valores e identidades. fecham os olhos ou desviam o olhar. certamente. dando a php?option=com_content&do_pdf=1&id=75>. mas.br/index2. Já muito para eles. os pais se tornam seres estranhos. a escola deve ver o sujeito como instrumento/meio de produção de sentidos e aplicar seus diversos mecanismos de atuação para impor saberes. bilidade muito grande. Comumente.Língua Brasileira de Sinais – Libras Isso significa que o Coda tem um ouvido seletivo. quando os superarquivo/2004/conteudo_333010. Codas utilizam estratégias para não conversar. outros ritmos que os surdos tarem a tudo. a escola. também. fato este que ocorre independente da pessoa ter ou não surdez. Por outro lado. devido à dificuldade quanto à comunicação. FAEL Saiba mais 130 . um ritmo musical que acentua a vibração dos instrumentos. Para Skliar (2001). pois nessas situações não há ninguém com capacidade para estabelecer a interação entre eles. cabendo à criança a responsabilidade dos pais.

a criança sente-se ausente de seu mundo. Frente a uma gama de informações advindas da televisão. Mas daí pensar que estas pessoas são. a convivência com pais surdos – em alguns casos – gera algumas consequências sociais Língua Brasileira de Sinais – Libras atilfeR Reflita 131 . No meio da comunidade surda. Isso porque se julga que se é filho de surdo. no Brasil. quando seus pais necessitam de interação social. ou em consultas médicas. não podendo utilizar a língua de sinais e recebendo cobranças que dizem respeito a adultos e não a ela. em casa ou na escola. bons intérpretes. não significa depreciar todo um trabalho estruturado de técnicas tradutórias? Até porque. automaticamente. Tais circunstâncias exigem da criança esforços psicológicos para mediar uma comunicação que não condiz com sua idade. além de serem peritos e mestres no quesito identidade e cultura surda. um bom desenvolvimento linguístico e técnico. conforme discutimos no texto. será um excelente sinalizador. independentemente do ambiente em que estejam. pois. não conseguindo estabelecer laços com aquele lugar por causa das limitações impostas quanto à comunicação. É claro que. os pais exigem a tradução daquilo que está sendo falado. o solicitam pela condição auditiva que possui. Da mesma forma acontece com ligações telefônicas. os pais pedem à criança que interprete aquilo que está sendo transmitido. considerando que tais pessoas aprendem a Libras como os surdos – como primeira língua. eles terão “vantagem” em detrimento aos demais ouvintes. um status. pois já têm a língua adquirida. para que possam entender. se os Codas desejarem se profissionalizar. a automatização é complicada.Capítulo 3 Dessa forma. existem excelentes intérpretes que não são filhos de surdos e que conseguiram. Outra dificuldade enfrentada pelo Coda que possui identidade cultural surda é a de que. e isto procede. Entretanto. sabe-se que as crianças ouvintes que são filhas de pais surdos (Coda) têm seu processo cognitivo e de aprendizagem preservados. especialmente entre os intérpretes. é muito comum que o fato de ser Coda seja um diferencial. em que os pais pedem que tudo seja minuciosamente relatado em sinais. Porém. por meio de estudos e pesquisa.

fato que pode levar ao desenvolvimento truncado e à falta de domínio do português. no caso das crianças estarem no mesmo ambiente físico. os problemas que os Codas enfrentam quanto à família talvez não existissem. FAEL 132 atilfeR Reflita . neste caso. Em relação aos Codas. diz que a aquisição da linguagem ocorre num período curto de tempo. o processo se dará de modo bilíngue. diferenciando-se apenas se o pai ou a mãe forem ouvintes. Pais e filhos se utilizam dela para propor a ação de uma atividade. Skliar (2001) aponta que. além disso. compartilhar ou estar em desacordo com propostas e para estabelecer a atividade com objetivo de organizar algum aspecto da ação. o processo de aquisição da língua é idêntico ao de uma criança surda filha de pais surdos. Para a autora. ocorre do mesmo modo em crianças surdas e ouvintes. dentro da relação pais surdos e filhos surdos. Tal processo irá ocorrer de maneira mais facilitada mesmo na ausência de uma fala dirigida a ela.Língua Brasileira de Sinais – Libras não muito boas para a criança. e tais quesitos são muito exigidos do intérprete. todas as intervenções ocorrem na língua de sinais. ocorrerá uma apropriação de enunciados diversos. a língua adquirida será a mesma. Esse é um caso muito específico de pais surdos com filhos ouvintes. independente da língua ou do desenvolvimento das habilidades motoras. a criança adquire uma língua natural sem que seja preciso passar por treinamentos intensivos ou estímulos linguísticos. De acordo com Grolla (2006). pois os estímulos seriam aceitos de forma natural e o processo de desenvolvimento da criança seria semelhante ao de uma criança ouvinte com pais ouvintes. Em se tratando de uma situação paralela. Sendo assim. em que pais surdos têm filhos surdos. como amarrar sapatos ou desenhar formas geométricas. em seu processo. A universalidade da aquisição da linguagem explica que. em que a criança aprenderá duas línguas ao mesmo tempo. O simples contato com a língua possibilitará à criança desenvolver sua expressividade linguística – os itens lexicais e a estrutura gramatical que ela já possui de forma inata. pois. é possível pensar que a aquisição da linguagem. por mais que os inputs oferecidos sejam diferentes quanto à forma.

quer seja sinalizada ou falada. tanto a criança surda como a ouvinte apresentam o balbucio manual. de crianças surdas e ouvintes no período de balbucio. assim como os surdos. Os bebês têm muita sensibilidade. até os quatro anos. a uniformidade e a rapidez. com pouca diferenciação nas sílabas executadas. devido ao retorno auditivo estar ausente. quando chegam próximo aos seis meses. acontece o balbucio oral e. como consequência. pois nesta idade dificilmente comete erros sintáticos. É o caso da apontação. independente da modalidade da língua: oral-auditiva ou espaço-visual. toda criança apresenta comportamentos semelhantes ao chorar e emitir sons sem qualquer significado. são capazes de perceber as propriedades fonológicas da sua língua. Passada essa fase. portanto. quando chegam aos oito meses. a dinâmica da língua. conseguem produzir um número muito grande de sílabas e as repetem de forma exaustiva. Quadros (1997) reivindica que a descoberta pela estrutura fonológica da língua. o aprendizado com relação à língua se dará mediante a inserção de novas palavras realizadas pelos falantes e. indicam que no ser humano decorre uma capacidade linguística que suporta a aquisição da linguagem. Isso ocorre nas enunciações. começam a produzir os primeiros sinais e. Diante da aquisição da linguagem em que consta a universalidade. Indiferente de sua condição auditiva. mediante a entonação e o ritmo. Segundo Emmorey (2002). no decorrer da vida. Já com a emissão de sons. as crianças surdas. começam a balbuciar por volta dos oito meses. o processo de desenvolvimento linguístico e os estágios internos que ocorrem nas crianças surdas podem ser comparados aos das crianças ouvintes. neste processo. em média. e as semelhanças na sistematização do balbucio das crianças surdas e ouvintes. Na sequência. Meier (2000) aponta que os ouvintes produzem movimentos com as mãos e conseguem retorno confirmativo de seus pais.Capítulo 3 A criança aprende uma língua. Com relação aos ouvintes. estes conseguem perceber aos quatro dias de idade diferentes tipos de língua. não se encaixam em seu repertório atualizado. No caso dos surdos. que antes de começarem a aprender sinais fazem balbucios com as mãos. que não serão aproveitadas Língua Brasileira de Sinais – Libras 133 . já que sabe as regras para formação de sentenças e domina as estruturas do idioma. pois são avaliados como gestos e não como sinais lexicais. alguns deles são descartados.

pois. que têm essa vivência aos oito meses. nesse estágio. apresentam dificuldades para entender os pronomes e. falada. De maneira sucessiva. conseguem aprender um grande número de palavras diferentes a cada dia. pois a criança entenderá que a apontação sofreu modificação e se tornou elemento gramatical. simultaneamente. Da mesma forma. elas começam a elaborar enunciados com apenas uma palavra – com significado de sentença completa – e conseguem assimilar pequenas imposições. que a sinalização foi a primeira a ser adquirida. Esse início antecipado de elaboração de sinais e o lento processo do estágio de uma palavra dita. a habilidade de identificação de línguas estrangeiras diminui e concede espaço ao refinamento para sua língua natural. Posteriormente. apresentando erros naquilo que equivale à conjugação de passado. por isso. Conforme Grolla (2006). Em Quadros (1997) percebemos que as crianças surdas.Língua Brasileira de Sinais – Libras pelos surdos para pronominar. diferentemente das surdas. as crianças ouvintes fazem relação semântica – de ordem lexical como a organização de classes prototípicas – para escolha das palavras. em diversos momentos. as crianças vivenciam o período das primeiras combinações. quando a estrutura gramatical tiver sofrido maturação. Emmorey (2002) verificou. Grolla (2006) acrescenta que. quando as crianças atingem um ano de idade. ou vice-versa. FAEL 134 . com um ano e seis meses de idade. Então. ocorrerá sua reorganização e aceitação. aumentando seu repertório e elaborando falas pausadas entre uma e outra palavra. ou seja. as crianças ouvintes continuam no balbucio e somente depois partem para a palavra. apontam para o interlocutor se referindo a elas mesmas. a coordenação motora das mãos evolui de forma mais acelerada do que a coordenação para o trato vocal e a articulação para a fala. pronominalização e outros. em pesquisa com crianças ouvintes adquirindo. neste momento. o inglês falado e a língua de sinais americana. ocorre pelo desenvolvimento de mecanismos de emissão e recepção linguística. que são os indicativos de que ela entendeu a regra e está se superando. os sons exercem maior dificuldade perceptiva aos ouvidos do que os movimentos espaciais aos olhos. e a construção das frases se dá na ordem canônica. Por certo tempo.

MUL732407-5598. 135 Língua Brasileira de Sinais – Libras . estabelece mais de um referente num mesmo ponto. em que a sequência de concordâncias se dará do mesmo modo.org. não cria correspondência entre a pessoa e o ponto estabelecido no espaço. a relação significado e significante não fica evidente para a criança surda que está desenvolvendo a linguagem. É um processo diferente da criança ouvinte. entretanto. uma escola de referência no quesito ensino da língua de sinais a bebês surdos é a Escola Rio Branco. mas pelo nível elevado de dificuldade gramatical.. comete um excesso de generalização para concordância de verbos simples semelhante à gramática dos adultos. sendo assim. e somente escolas especializadas são capazes de suprir o estímulo que não há em casa. aos três anos de idade. pois as crianças surdas precisam lançar os olhos para o objeto que está nas mãos de quem fala e para seu rosto. os olhos da criança surda devem ser treinados para isso. pois esta é capaz de olhar para o brinquedo que está nas mãos do adulto e ouvi-lo ao mesmo tempo. destacamos que a aquisição possui uma universalidade. Nesse momento.00-BEBES+SU RDOS+DEVEM+APRENDER+LINGUA+DOS+SINAIS+NOS+PRIMEIRO S+MESES+DE+VIDA. Aos pais. é exigida a inscrição em curso de Libras. Quadros (1997) diz que a criança surda: não adota pronomes para referentes ausentes ou o faz incorretamente. vivenciam uma propagação vocabular muito grande. pois. Nessa escola entram crianças em tenra idade.Capítulo 3 A pronominalização na língua de sinais é produzida por meio de apontação. as crianças ouvintes utilizam o eu para demonstrar ou apontar outra pessoa. Então. no caso dos pais serem ouvintes. produzindo frases complexas.aspx>. também. como orações relativas e coordenadas. continuam o curso da aquisição cometendo pequenos equívocos. indiferente da modalidade.html> e <http://www. em São Paulo. Tanto crianças surdas quanto ouvintes. o inverso. pois não convém à instituição ensinar a língua a criança (por meio de interação e brincadeira) se seus pais não forem capazes de se comunicar com ela. sendo verdadeiro. Sobre esse assunto acessar os links: <http://g1.com/Noticias/Brasil/0.ecs. que recebem todo um trabalho de treino visual com adultos surdos.globo. No Brasil.br/site/default.

Sendo assim. Essa possibilidade existe mediante a função closed caption. muitas emissoras não dispõem desse recurso em toda a programação. FAEL 136 . neste caso. shopping centers ou qualquer outro lugar de acesso público com elevado nível de barulho. etc. então é provável que existam surdos que não participem. podem relacionar o som das palavras com a legenda. foi disponibilizado nos Estados Unidos. ainda. identificando na palavra escrita o som da fala. vindo para o Brasil um longo período depois. as crianças surdas dominam a língua de sinais. tratando de assuntos futuros. familiares. aqueles que são considerados analfabetos. conhecimento e informação ao público em geral. religiosos e outras pessoas com interesses variados. Além disso. Apesar de comunicativa. iniciando. oferecendo carinho. Favorece. assim. intérpretes. com perfis diferenciados. designando ordens. Esse ambiente em que pais ouvintes e filhos surdos (ou Codas) participam é que denominamos um espaço de convivência da comunidade surda. sendo que seus pais abordam qualquer assunto com elas. inclusive sobre informes da TV que. Existem outras atividades e programações acessíveis. Falam sobre tudo. estando ao alcance de todo e qualquer indivíduo. Porém. se utilizar a língua de sinais é aquilo que motiva o ingresso na comunidade. somente em 1980. acionada mediante controle remoto. em que a televisão tem seu volume diminuído e não se ouve. a função closed caption propicia entretenimento. além de promover a interação dos surdos em discussão de grandes temas. é o meio que mais rapidamente comunica. Esse recurso é recente e. profissionais. ouvintes. um aprendizado de decodificação. com a utilização do closed caption. mesmo sendo amplamente divulgado que essa ferramenta possibilita a acessibilidade de grande parte da população que tem perda auditiva. a televisão não é o único meio de interação e lazer que os surdos gostam de ter. Essa comunidade é constituída por um grande número de adeptos. O termo em inglês possui a tradução “legenda oculta” e está relacionado a uma função que muitos televisores possuem. Atualmente. pessoas que frequentam aeroportos. como surdos. aquilo que os evidencia é a utilização da língua de sinais. por diversos motivos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com quatro anos. na atual sociedade. ouvintes que. Tal ferramenta. pois preferem a utilização da língua falada. favorece pessoas idosas que apresentam alguma diminuição auditiva.

sendo neste momento que ocorre a formação da identidade e cultura surda. crenças. é necessária a utilização da língua de sinais.Capítulo 3 Para que ocorra a constituição da comunidade surda. do hip-hop. tanto individualmente quanto em comunidade. ou seja. isso tem um significado muito grande. levando-se em conta que. Strobel (2008) define que a cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e modificá-lo. o que mais se percebe são estes elementos. o que compreende a língua. as crenças. Nesse ambiente. Em relação às crianças surdas. mas. que possui outra cultura. No caso do surdo. De um modo geral. mas assimilando que existe diferença linguística. tanto para nós mesmos como para as outras pessoas. como a da igreja. dos líderes e tantas outras que evidenciem sua identidade cultural. surdos adultos interagindo na sociedade. não como deficientes. terão a oportunidade de enxergar a si próprios de forma diferente. a possibilidade de um futuro. a cultura representa um conjunto complexo de conhecimentos. as ideias. uma relação de igualdade. já que tem uma vivência isolada em seu mundo. para que tenha acesso e possa interagir mediante as percepções visuais. os costumes e os hábitos do povo surdo. Conjunto esse que é evidenciado pelos elementos da língua e pelos costumes. quando visto sob a perspectiva de um grupo diferente. sendo estabelecida por meio das afinidades daqueles que a integram. outra visão. Os benefícios advindos da participação do ouvinte nessa comunidade são vários. por ser considerado minoria social. O contato com pessoas que se comunicam em sua língua permite que sua diferença não seja enaltecida. pois o coloca em contato com aquilo que é diferente. Isso leva a crer que não existe somente uma comunidade surda. pois vislumbra exemplos positivos. caracterizado assim a Língua Brasileira de Sinais – Libras 137 . arte. da escola. que faz parte de uma sociedade e é repassado aos seus membros. línguas. sentindo-se à vontade para expressar seus sentimentos e ideias para aqueles que estão em um nível. sim. a comunidade representa a projeção com o amanhã. capacidades e hábitos. costumes. Aproveitar a oportunidade de conviver com a diversidade promove um sentido diferente. leis. como a oportunidade de conhecer o sujeito surdo de perto. diversas comunidades. aprender a língua de sinais e conhecer os costumes e hábitos vivenciados pelo surdo. moral.

isto é. então. está inserida a cultura surda. em sua maioria. Até o momento. estamos nos restringindo ao contexto de cultura popular. no seio da comunidade surda. como também hábitos e costumes ocorrem mediante o que viram e se constroem no envolvimento com os outros surdos. de geração a geração. para ter sua língua. adulta. se nos perguntarem a respeito da cultura norte-americana. precisa obtê-la na comunidade surda. conforme Strobel (2008). sua língua se manifesta no espaço e a leitura se faz com os olhos. em que a composição dos elementos ocorre de modo visual. sem a convivência na escola FAEL 138 . Nesse ambiente. Dessa forma. o sujeito surdo. passamos a atribuir valores e. a cultura surda não é transmitida naturalmente de geração a geração. Isto é. é passiva de mudanças quando em contato com outra cultura. o compartilhar ocorre naturalmente. Tal processo de transmissão cultural de surdos. Chamamos a cultura de “conjunto complexo” quanto à composição. é possível pensar que a cultura surda compreende aquele conjunto complexo. A cultura se modifica constantemente. sendo esta transmitida livremente nas relações com o outro. tratam da história do surdo abordando as represálias que enfrentaram quanto ao oralismo. e ao que se come: fast food. Dessa forma. Assim. seu conhecimento começa com o contato do que vê. pois a grande maioria de surdos são filhos de pais ouvintes. ao acesso. sua cultura visual. e teríamos resultados que se restringiriam ao que se fala: inglês. também pode ocorrer na idade mais avançada. com isso. A arte e a poesia do surdo acontecem por diferentes movimentos com as mãos. quando passamos a olhar para as ações de um determinado grupo de pessoas e tais ações começam a fazer sentido para nós. Então. e pensam sobre as perspectivas de futuro para esta população. é de costume falar da representação da surdez por dois vieses: passado e futuro. poderíamos abordar o assunto sob a ótica da língua e do costume. A cultura surda é muito importante. Então. ou até mesmo pela imposição de estudarem em escolas ouvintes. hábitos e crenças. nessa cultura. é histórica. Devido a essas questões é que.Língua Brasileira de Sinais – Libras identidade surda. Assim. Diferente do que ocorre com os ouvintes. pois. por meio da língua. existem outros componentes nesse conjunto. os surdos possuem família ouvinte. ao desenvolvimento e à transmissão dos elementos que o integram procederem naturalmente com as relações sociais. pois é na comunidade surda que ocorre o processo de aprendizagem e o sujeito poderá proferir suas falas.

Pela dificuldade de ter sido conquistada por seus criadores e por ser tão ofuscada pela cultura ouvinte é que a cultura surda precisa ser enaltecida. é politizada e tem a língua de sinais como nativa. identidade surda incompleta – é o surdo que não se aceita. adotavam o critério clínico-patológico para o surdo e lhe atribuíam uma identidade. a pessoa tende a aumentar a voz progressivamente. 139 No decorrer da história. enquanto acontecia a educação dos surdos – dirigida pela corrente oralista –. Desse modo. as definições são as seguintes: ● ● ● identidade surda – pessoa consciente quanto à sua condição de surdez. As especificações eram: ● ● ● ● surdez leve – capacidade de ouvir a voz humana. surdez severa – surdez que só permite perceber os sons muito graves. não ouve nada. descobre a comunidade surda e transita do mundo auditivo para o mundo visual. Segundo Perlin (2004). identidade surda de transição – surdo oralizado que. dependendo daquilo que era respondido com a audição.Capítulo 3 de surdos. muito tempo depois. surdez moderada – não é possível ouvir as palavras com clareza. surdez profunda – a pessoa não retém som algum. sobre como sua constituição atuará em sua percepção do mundo de forma visual. Língua Brasileira de Sinais – Libras ● . a classificação passou a ser pelo critério linguístico e o rótulo de identidade era feito mediante o conhecimento que o surdo apresentava a respeito da língua de sinais. quando a sociedade mudou a forma de olhar para a surdez e novas taxionomias se imprimiram na educação de surdos. pelo sentimento de inferioridade em relação aos ouvintes. identidade surda embaçada – surdo que não consegue captar o mundo de forma visual e nem auditiva. acabam por perder o contato com a comunidade surda. podemos destacar a importância de se refletir sobre si mesmas. No que diz respeito à formação de identidade das crianças que participam das comunidades surdas.

Esses movimentos sociais e espaços de luta social são chamados de movimento surdo. ocorre por meio da linguagem e é construído por papéis sociais que exercemos em diferentes locais. exista algo de semelhante. solteira. quando nos referimos à identidade surda. pois FAEL . flexível e mutável. pois é constituída e manifestada na interação com o outro. lutas e reivindicações de determinados grupo de pessoas. posteriormente. ouvinte. convivendo tanto com surdos quanto com ouvintes. Esse conjunto de características próprias. podendo ser entendida como o conjunto de características específicas de uma pessoa que a diferencia da outra. No caso de alguém descrever sua identidade como mulher. indiferente de onde eles estejam. ocorre que está havendo um condicionamento de tais características naquele dado momento. pessoas e contextos. além de desenvolver a cultura e a identidade surda. É possível que. sendo de muita importância. identidade surda diáspora – pessoa que tem a necessidade de trocar experiências com seus colegas surdos. seja ela qual for. Tem conhecimento da estrutura do português falado. branca. tem a possibilidade de participar de movimentos sociais. não se pode conceber uma visão reducionista do homem. evangélica. se tornou surda. ● ● 140 Quando o assunto se refere à identidade. a identidade está ligada a relações sociais. pois a constituição não é perene. mas adaptável. identidade surda flutuante – surdo que oscila de uma comunidade a outra. que entendemos como um espaço de articulação das aspirações. professora. em uma comparação com o outro. tanto que. pobre. Agregado a essas articulações está o reconhecimento de sua língua. No entanto. pensamos numa pequena parte do conjunto de características que ela apresenta. Há falta de língua de sinais com surdos e falta de comunicação com ouvintes. a identidade.Língua Brasileira de Sinais – Libras ● identidade surda híbrida – pessoa que nasceu ouvinte e. em relação às visões comentadas. apresentam-se ultrapassadas. heterossexual. Para Skliar (2001). A criança que participa da comunidade surda. mas acaba por ser único e singular tudo aquilo que compreende a identidade da pessoa. A manifestação da identidade deve acontecer pela subjetivação que ocorre mediante interiorização de uma língua.

um grupo de profissionais ouvintes funda uma organização e dá início aos seus ideais de reabilitação dos chamados deficientes auditivos. acesse o link: <http://www. mas em decorrência da perspectiva de trabalho. mas em relação a evidentes posições de liderança ao longo da história. Atualmente. conseguiram participação em pequenas atividades. Hoje. os quatro milhões de surdos brasileiros. e órgãos voltados apenas à questão desportiva dos surdos.br>. Existem duzentas associações. a missão passa a atender aos ideais das pessoas surdas. Todas se caracterizam pela cumplicidade linguística cultural dos participantes. por isso o nome da instituição era Federação Nacional de Educação e Integração dos Deficientes Auditivos – Feneida. se organizam em outros espaços como associações. Um grupo de surdos. sim. aproximadamente. Em 1983. como também as afirmações dos direitos do sujeito surdo em diferentes instâncias sociais. educação e lazer. saúde. ou seja. Essa alteração não se deu por simples mudança terminológica. espalhadas pelos estados. É possível citar como exemplo a reestruturação da Feneida em Feneis.cbsurdos. além de se reunirem na Feneis. os surdos dão início à liderança e alteram o nome para Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos – Feneis. Em 1970. O movimento surdo atinge espaços acadêmicos e chega a conquistar um curso de Saiba mais licenciatura a distância. pessoas com diferença linguística. Trata-se do curso Letras-Libras. com sede na Universidade Língua Brasileira de Sinais – Libras 141 . que começam a ser vistas não como deficientes auditivas. persistiram até conquistarem uma posição de destaque dentro da instituição a ponto de serem atendidos em suas aspirações políticas.Capítulo 3 representam um local onde ocorre resistência à predominância das pessoas ouvintes dentro dos locais de trabalho. com o objetivo de difundir a Libras e congregar surdos para discussões em relação à sua participação ativa na sociedade. existem vários escritórios regionais da Feneis espalhados pelo país.org. como a Confederação Brasileira de Surdos – CBS. Para conhecer mais sobre a CBS. Não muito satisfeitos. A princípio. cooperativas e clubes. mas. se organiza para reclamar seus direitos junto à direção e pede participação dentro da Feneida. no ano de 1983. O movimento não é contrário diretamente às pessoas.

Nessa graduação. mas. 142 A possibilidade de acesso aos filmes que são transmitidos no cinema foi uma das conquistas mais recentes do movimento surdo.Língua Brasileira de Sinais – Libras Federal de Santa Catarina. despertar a atenção para esses lugares e perceber que os surdos possuem capacidade de liderança. promover a participação no mundo. é possível fazer a opção pela legenda ao invés da dublada. somente em 2008. pois.libras. a acessibilidade não pode restringir. pois é algo indispensável para a evolução do homem em todos os seus aspectos. inclusive o artístico. o grupo conseguiu provar para os produtores que a legenda nacional não iria ocultar as diversidades regionais ou depreciar os dialetos falados na nação. os alunos surdos têm a possibilidade de se qualificarem para atuarem como professores de Libras. como também. esta opção é Conheça mais sobre a WFD acessando: inviável. desde 1951. Saiba mais No entanto. vem tentando propagar a ideia a produtores. não somente no Brasil acontece de o moviPara mais detalhes sobre o curso de Letras mento surdo ser preponderante. em outros países. participar dos eventos que promovem. FAEL . Libras. com sede na Finlândia. no Saiba mais caso de filmes nacionais. chegando ao ponto de ter uma Federação Mundial de Surdos (Word Federation of the Deaf – WFD). consulte: <http://www. Envolver-se com o movimento surdo é mais do que.br>. As dificuldades de inserção <http://www. Esse movimento circulou em importantes eventos do cinema e do teatro e. Mesmo porque. no caso de filmes estrangeiros.org>. no entanto. é desenvolver um intercâmbio linguístico e cultural. Marcelo de Carvalho Pedroso. contendo vários polos distribuídos pelo Brasil. desde 2004. A formatação desse movimento tem tomado dimensões cada vez maiores.ufsc. sim. em Pernambuco. instituições que se colocam como representantes do potencial dessas pessoas. organizou um movimento de reivindicação a respeito da legenda nacional. editores e diretores. simplesmente. mas que significaria acesso no que se refere à cultura. Porém.wfdeaf. na edição do Festival do Audiovisual – Cine/PE. Existem. em meios culturais começaram a ser resolvidas quando um surdo.

Essas legendas podem ser em Libras – com o espaço (a janelinha) destinado para o intérprete – ou com caracteres. conforme disposto em regulamento. 143 ● Sendo assim. sejam obrigados a incluir a legenda nas obras exibidas ou a ofertar interpretação do texto correspondente. O slogan é LEGENDA PARA QUEM NÃO OUVE. foi a grande encabeçadora da conquista dos surdos pela legenda. após análise. 2007) que.php>. MAS SE EMOCIONA! A partir de tal convencimento. em linguagem compreensível a pessoas com deficiência auditiva.Capítulo 3 A campanha “Legenda para quem não ouve. exceto: os destinados à divulgação de músicas. A obrigação estende-se a todos os filmes comercializados para exibição. 1. os de curta-metragem. 1. Língua Brasileira de Sinais – Libras . e os exibidos em caráter não comercial ou em festivais e mostras competitivas. A escolha fica a critério da produtora. a civilidade.078 entrou em vigor no Brasil em 2007 e presume que: ● As empresas responsáveis por distribuir obras cinematográficas ou videofonográficas. tanto em filmes como em teatros nacionais as legendas se tornaram obrigatórias.078 (BRASIL.legendanacional. e os promotores de peças teatrais e demais obras cenográficas. os de peças publicitárias. a criatividade e br/campanha. sendo Para mais informações sobre a legenda nacioesta muito importante para o nal. com a oportunidade de diminuir a distância que ficou estabeleSaiba mais cida da cultura nacional. conhecimento. para exibição em salas de cinema. mas se emociona!”. os surdos têm a possibilidade de ir ao cinema e ao teatro como qualquer outra pessoa. acesse: <http://www. O Projeto de Lei n. Com a aprovação. foi aprovado por representantes políticos.com. foi criado o Projeto de Lei n.

com professores. possuem profissionais especializados em uma deficiência específica e atuam como reabilitadores. fazer o registro de produções dos surdos só era possível mediante filmagens. um meio custoso quando pensado em produção de alta escala. ouvinte. Se a primeira língua do surdo é a Libras e se ela é usuária de língua de sinais. a Libras sempre deverá estar presente. percebe-se a mesma formação do espaço citado anteriormente. diferentemente da escrita. currículo. se mostra favorável.Língua Brasileira de Sinais – Libras Inclusão educacional de surdos Com a liberdade de escolha. apenas após o término da produção. Em relação à escola de ouvintes. em termos de conquista. mas como língua de instrução. cabe destacar que a escola deve ensiná-la um método de escrita compatível com sua habilidade visual. em sua grande maioria. que se prestam a ministrar métodos de letramento e oferecer reforço pedagógico aos alunos que participam da escola comum. aprendizagem. Até o momento. à sua disposição. Esse sistema ainda permanece sob pesquisa. chamado de SignWriting (escrita de sinais). Esse termo se refere ao sistema de escrita dos usuários da língua de sinais. Tais escolas. a visão começa a variar. uma maneira de registrar ideias que as tornam atemporais. Essa distinção se contrapõe à antiga terminologia de escolas especiais. denominadas especiais. sendo evidente que a implantação desse sistema. somente no futuro poderemos mensurar. pois é possível perceber que a Libras é entendida como primeira língua e o português como segunda. ainda tendo a desvantagem de que. 144 Independente do espaço de escolarização dos surdos – seja na escola de surdo ou escola de ouvintes –. aquilo que se produz e elabora não pode ser revisado e avaliado. Em relação aos surdos. Outra forma de registro FAEL . a criança surda pode ser inserida tanto na escola de surdos como na escola de ouvintes. Entende-se por escola de surdos aqueles espaços que possuem toda uma estrutura formalizada. não como meio de comunicação secular restrito a crianças em horário de intervalo. um recurso de fixação de sua língua. seriação. mas pensar a possibilidade de registrar a língua de sinais de forma escrita é algo que. projeto político-pedagógico e atendimento específico para determinada clientela. já existente no Brasil. mas com a clientela. Certamente que ainda existem centros especializados de apoio ao surdo. Muitas comunidades surdas de diferentes países possuem.

No Brasil. Dessa forma. A princípio. por gerações. numa ferramenta bem elaborada. No entanto. Quase sempre. pois ela se objetiva a uma representação visual de uma língua que é visual. Esse sistema paliativo transcreve as línguas de sinais com auxilio dos códigos da língua oral. por ter como fundamento elementos visuais. a implantação de um método de escrita para as línguas visuais possibilita abertura ao desenvolvimento da cultura e produção de conhecimento nas comunidades surdas.ª Dra. é a Glosa. e as ações relacionadas com a alfabetização dos surdos em escritas de sinais são ações isoladas e específicas de pesquisadores. demonstrando ser uma nova linguagem que modela o pensamento e o organiza quando escrito. é para o surdo um sistema de grafia muito mais compreensível do que o alfabético. ao aprenderem a escrita de sinais. com o objetivo de promover uma tradução em que os pesquisadores podem propor outras discussões em relação à estrutura da língua de sinais. essa ferramenta foi elaborada como uma forma de registrar as coreografias a serem realizadas numa apresentação de dança. A escrita de sinais. passam pelo mesmo processo de alfabetização que as crianças ouvintes em relação ao português. para que isso se torne real. Semelhantemente ao que ocorreu com as línguas orais. empreenderam-se pesquisas no sentido de tornar aquela ferramenta inicial. Língua Brasileira de Sinais – Libras 145 . básica. informações entre as pessoas. a ferramenta adequada para a fixação da língua de sinais seria o SignWriting. sendo muito utilizado em pesquisas linguísticas. é preciso que essa ferramenta seja ensinada aos usuários das línguas de sinais. esse recurso é muito limitado. uma vez que a escrita de sinais consegue armazenar e propagar.Capítulo 3 da língua. A maior dificuldade é que não existem profissionais formados para desempenhar tal tarefa. A pesquisa também demonstra que o SignWriting é uma ferramenta de escrita que o surdo assimila com maior facilidade. que aponta que as crianças surdas. expressões –. nos níveis sintático. fonológico e morfológico. cujos objetivos são descobrir e aperfeiçoar métodos de ensino para o SignWriting. Marianne Rossi Stumpf (2005). Uma vez percebida a oportunidade de aplicar tal ferramenta às línguas de sinais – representando seus movimentos. que até então vem sendo utilizada. configurações. pois não abrange as sutilezas visuais da língua de sinais. fundamentado em elementos fônicos. mas somente agora teve início sua divulgação e implantação. podemos citar o trabalho da Prof. A criação dessa ferramenta se deu nos anos 70 do século XX.

ele também é dotado de limitações. a escrita do português não consegue explicitar as diferentes inflexões de vozes. que não devem. como toda escrita. no entanto. Desde então. e nem por este motivo há descaso em relação à continuidade de escrita dessa língua. 146 A seguir. Dentre os princípios básicos estão: a representação da configuração de mão levando em conta sua orientação (se a mão é vista de frente. assim como na escrita alfabética do português. como todo e qualquer sistema de escrita. como tal. de perfil. O SignWriting. que podem conceder diferentes significados em uma dada frase. que procuram – no sentido de que toda escrita é uma tentativa – representar a língua utilizada pelos surdos. alguns exemplos dos símbolos do SignWriting: FAEL . recentemente. do sentido em que o sinal é realizado (esquerda ou direita). significar desmotivação em relação à escrita. pesquisas vêm sendo realizadas e aperfeiçoamentos vêm ocorrendo. etc.) e sua distância do corpo (perto ou longe). se é lento. Muitos elementos presentes nas línguas de sinais são contemplados pelo SignWriting e. Afinal. da localização (se a mão toca alguma parte do corpo).Língua Brasileira de Sinais – Libras a ponto de funcionar como meio de representação de uma língua.). necessita de ensino específico e treino para seu aprendizado. etc. Isso significa que pode ser um sistema reversível e que. os elementos do sistema são finitos e podem ser organizados e reorganizados com o objetivo de formular os diferentes sinais escritos. foi reformado ortograficamente. Porém. se é alternado. assim como acontece com as escritas das línguas orais – como o português que. do movimento presente no sinal (se é circular. é dotado de regras quanto à organização.

O método de ensino do português como segunda língua presume que. o português caracteriza-se para eles como uma segunda língua. denota o prazer de poder se expressar. o sujeito surdo poderá iniciar o processo de aprendizagem da segunda língua. para além de sua própria geração. mas é segunda língua. a possibilidade de empregar um sistema de escrita que empreenda sua primeira língua significa mais do que um avanço técnico. no caso. brincando e se divertindo com colegas na escola. nas línguas orais. em suas aulas. uma segunda língua para a pessoa surda (QUADROS. pois quando está em horário de lazer. filha de brasileiros que moram em colônias alemãs. Representa o valor de poder possuir uma língua escrita e preservada ao longo da vida e para além dela. salvo por exceções. irá adquirir o alemão como uma segunda língua. p. deve ser sua primeira língua. 1997. já que adquire naturalmente uma língua espaço-visual até. ouve as pessoas falando em alemão e precisa interagir nesta língua. A aquisição dessa língua precisa ser assegurada para realizar um trabalho sistemático com a L2. pois. Sendo assim. Para ter uma segunda língua se faz necessária a aproximação. Em relação aos surdos. em sua própria língua. para os surdos. foi a invenção da escrita que possibilitou que as línguas se estabelecessem e se padronizassem. Não é o caso de língua estrangeira porque ele se encontra no Brasil.Capítulo 3 Finalmente. A necessidade formal do ensino da língua portuguesa evidencia que essa língua é. por excelência. seus sete anos. o professor retire do conteúdo a ser lecionado as aulas com exercícios de leitura em grupo ou coletiva (em que o professor Língua Brasileira de Sinais – Libras 147 . sem ser ensinada. para o primeiro caso a língua falada está próxima e no caso de língua estrangeira o aprendizado é de outra língua que se fala em outro lugar diferente daquele que se está. Mesmo fazendo uso do português para se comunicar com seus pais. oportunizando que diferentes pessoas pudessem interagir de forma clara em lugares diferentes. no máximo. consequentemente. É o caso de alunos brasileiros aprendendo francês sem qualquer contato com pessoas do país de referência. o contato com aqueles que fazem uso da língua que se quer aprender. 84). Por exemplo. considerando a realidade do ensino formal. uma criança. A Libras é adquirida pelos surdos brasileiros de forma natural mediante contato com sinalizadores. O que difere entre segunda língua e língua estrangeira é que. o português.

Tal atitude não significa ser excludente. como descritivo. uma orientação para que o aluno seja estimulado a pensar sobre o conteúdo que está sendo abordado naquele texto. ou seja. O aluno surdo não lerá em voz alta.). Dessa forma. Após isso. concede abertura para uma aprendizagem mais significativa. o foco de discussão incide sobre práticas de letramento. anúncios de jornal e outros. significa que. Antecipadamente. Deve percorrer visualmente todo o texto e. a leitura procederá conforme o texto. para Quadros (1997). irá destacar aquilo que mais se evidencia (imagens. a fim de que haja exploração na leitura. Para a criança surda. pois. FAEL . cabe ao professor ajudá-lo no aperfeiçoamento da leitura. dissertativo e permeado de função social explícita. pois ela não consegue fazer uma leitura linear – os olhos não percorrem palavra a palavra dentro do texto –. ou aqueles que tornam evidente a silabação (junção de b + a = ba). letras negritadas. narrativo. Esse aluno deverá realizar a sinalização quanto ao texto. como: cartazes. a partir do texto pode tratar de questões diversas quanto à realidade. Possuir o texto em mãos. em slide ou transparência. contendo elementos visuais. Então. o professor deve passar para o aluno surdo o texto integral. se o professor for reproduzi-lo. etc. deve garantir sua formatação e cores. mas visual. sinalizar a temática do texto. manifestando um sinal equivalente. A seguir. panfletos. propõe o trabalho em forma de texto e não com palavras. na íntegra. em seguida. A leitura consiste no primeiro passo e. Fonte: São Paulo (2007). pois o respeito fica estabelecido quando a pessoa é tratada com os mesmos direitos e com sua especificidade. ou seja. isto é muito significativo. sílabas ou frases. caso o professor proponha este tipo de atividade para a sala. Deve também possuir uma cópia ampliada. isto é. cores. itálicas. Após essa realização. que palavras já conhece e se tais palavras podem ser aplicadas naquele contexto. O letramento possui sua abordagem mais globalizada quanto à língua. diferenciando o tipo de texto a cada aula. baseado no cartaz ao lado. que informações possui. um exemplo de como realizar esse trabalho. atualmente. deve “pular” o surdo. evitando escrevê-lo no 148 quadro.Língua Brasileira de Sinais – Libras aponta com a régua aquilo que deve ser lido). o professor precisa ter planejado algumas perguntas para fazer ao aluno surdo (não sendo interpretação de texto).

vermelho verde azul 149 alaranjado amarelo cor-de-rosa marrom preto branco Língua Brasileira de Sinais – Libras . Os sinais das cores são demonstrados a seguir. No cartaz sobre a campanha de vacinação contra a raiva. além de despertarem muito a atenção. o que possibilita o desenvolvimento de um trabalho interessante. podem ser exploradas. da Prefeitura de São Paulo. e conversarem sobre o porquê disto. sobre o objetivo social desse gênero textual.Capítulo 3 Inicialmente. é necessário deixar os alunos discutirem sobre os elementos extralinguísticos (cores e desenhos). há variedade de cores. pois.

encaminha-se para a aula propriamente dita. torna-se muito significativo. e) O que significa o termo “contra”. O contato intenso com o material abordado nos textos proporciona a aquisição de conhecimento. O desafio de trabalho com a leitura é um momento muito importante na aula de alfabetização. quanto aos surdos. o professor pode fazer a pergunta. os números. em Libras: evitar bravo morder. por isso. b) Precisa pagar?. Diferentes tipos de perguntas que o professor poderia formular e oferecer ao aluno. na frase “Vacinação contra a raiva em cães e gatos”? Frente às respostas em Libras. bem como a interação discursiva sobre a temática apresentada (BRASIL. c) Qual o período de vacinação?. Devido a isso. Após o trabalho de escolha do texto. fazendo a ligação daquilo que o aluno diz com o que está escrito no cartaz e. em Libras. simultaneamente. o professor necessita empreender tempo oportuno em busca desse material. 2002a). registrando o roteiro no quadro. para quando for necessária nova leitura ou haver esquecimento da palavra. para seu aluno surdo: “Por que é importante vacinar o cachorro e o gato?” Saiba mais Consulte: <http://www. de real circulação. ele consiga voltar ao caderno e lembrar-se.youtube. apreensão do saber. O educador deve oferecer uma leitura de texto que contenha uma imagem condizente com o discurso apresentado. Quadros (1997) aborda que esse contato. E quando o aluno responder. Nesse link é possível visualizar o alfabeto. as cores e os dias da semana na Libras. para que seja algo muito interessante ao aluno surdo. o professor deve apontar no texto onde isso se encontra escrito. várias vezes. Após apontar no texto a palavra “falada” pelo aluno. d) Onde podemos obter maiores informações sobre a vacinação?. não muito delongado e que tenha um objetivo social específico. representa aprendizado a todos os alunos e não apenas aos surdos. que é o momento em que o professor deve oportunizar. considerando que se destaca como FAEL 150 . seriam: a) Quem pode tomar esta vacina?. acréscimo de informação e. ou seja.com/ watch?v=0l3NX__oQAk>. o professor irá registrá-la no quadro para servir de orientação. o professor atuaria de forma semelhante.Língua Brasileira de Sinais – Libras Em seguida. mostrar a palavra raiva no panfleto. o contato do material com o aluno.

algo tão importante quanto o processo de leitura é o da elaboração escrita. produtivas ao aprendizado. como esse aluno ainda está no processo de aquisição da língua escrita e trabalha com dificuldade frente aos códigos da língua portuguesa. a interação se dará por meio da Libras (BRASIL. o professor irá propor atividades para que reflitam sobre a língua.” e indagar a colocação do pronome seguido do sujeito da sentença na seguinte situação: se você é uma menina escrevendo. quer dizer. pois é quando o aluno tem a oportunidade de manifestar o seu entendimento sobre a temática apresentada. Em relação a essa proposta. a intervenção do professor pode ser decisiva para o aluno. Com a possibilidade de o aluno interagir com o a temática do texto. estabelecendo relações. em situações assim. Após a leitura do texto sugerido. Temas esses que. é de suma importância para que o aluno obtenha uma referência na leitura e. ele procura descobrir o significado de algumas palavras e. ao aluno surdo. bem como a elaboração de frases curtas a ele pertinentes. No momento da interpretação do texto. o encaminhamento para a aula de português e a metodologia utilizada para trabalhar o letramento com as crianças surdas serão iguais aos dos alunos ouvintes. segue o exemplo de um trabalho com a temática: materiais escolares. Sendo assim. Dessa forma. Isso porque. Depois. pode-se exibir uma parte do texto. ele sente-se participante no processo de aprendizagem. pois são privados das informações que são veiculadas de forma auditiva na sociedade. Essa função do professor. ou seja. Em seguida. No trabalho com a escrita. o professor poderá propor temas a serem discutidos com todo o grupo. como: “O menino escreveu com o lápis. o professor se coloca como um mediador. é como se pudesse confirmar as hipóteses que ele levanta. A fim de elucidarmos a proposta apresentada. a intertextualidade. ele pode ser levado pelo professor a refletir sobre o conteúdo apresentado. colocaria “o menina”? E assim. o objetivo principal pode ser o da apropriação das palavras relacionadas ao tema. para Silva (2001). poderão promover grandes discussões. Língua Brasileira de Sinais – Libras 151 . 2002a). com o diferencial de que o canal de comunicação será o espaço e a visão. se forem apropriados à idade das crianças. quando as questões relativas às considerações abordados pelo autor são pontuadas. visando traçar paralelos e sugerindo uma conversa intertextos. é interessante obter sentenças modelo que possam servir de fonte para outras situações semelhantes.Capítulo 3 uma das únicas formas de acesso às atualidades.

pois é diferente da língua de sinais. a mesma situação acontece. Uma frase típica de interlíngua escrita por surdos é: casa ir. cruzadinhas. há interferência da Libras e. vimos a questão da flexão verbal apontando as pessoas no discurso. O menino escreveu com ______________. as palavras discutidas na reflexão linguística feita coletivamente. 1997). porque para os surdos que não ouvem e nem falam o português. quando estão tentando elaborar mentalmente uma frase em português. a frase escrita não será nem em uma língua nem em outra. ______________ escreveram com o lápis. Isso porque esse momento é de tamanha riqueza para os surdos.Língua Brasileira de Sinais – Libras ir promovendo a aula. atividades de ligar gravuras a palavras. A essa mistura chamamos interlíngua. No caso dos surdos. em que o nome do lugar FAEL 152 . inclusive o surdo. Assim. o processo de escrita é muito mais difícil do que para os ouvintes. abordem possíveis comutações com outras palavras: Insira as palavras a seguir nos seus devidos lugares. ou seja. poderão surgir caça-palavras. significa a aquisição de uma segunda língua (QUADROS. está em processo. É necessário que o professor sempre retorne às frases escolhidas para aprofundar a reflexão em aula. mas em ambas. O menino escreveu com ______________. etc. é natural recorrer a primeira língua ao se deparar com uma determinada insegurança. no caso. a concordância nominal para evidenciar o número de pessoas. o que significa que o aluno não se apropriou do português completamente e não se distanciou da Libras. ______________ escreveram com o lápis. Nota-se que. muitas vezes. Após essa explanação. permitindo espaços para que os alunos. Essa frase representa seu aprendizado no português. o professor poderá desenvolver exercícios de fixação. em que os alunos deverão revisar aquilo que foi trabalhado no texto. Quando esse processo se estabelece. frases para serem completadas. as canetas – a caneta – os meninos – as meninas O menino escreveu com o lápis. em relação ao surdo. o uso do s como identificador de plural para o complemento caneta e sua inexistência no caso de lápis. No caso anteriormente apresentado.

É necessário ir além. No entanto. Caso contrário. então.Capítulo 3 onde moramos é casa e em que usamos o verbo ir quando anunciamos que haverá deslocamento de um lugar para outro. pois estas já possuem total domínio na hora de escrever. devido a isso. que é o que permeia todas as áreas do conhecimento. ou seja. decoram os nomes dos sinais que produzem em Libras. Sabemos que o ato avaliativo é de suma importância no contexto pedagógico e que não deve ser de caráter punitivo. e assim sucessivamente. é necessário o uso da preposição para. 2002a). nesta língua. está contribuindo para o desenvolvimento e crescimento intelectual e pessoal do seu aluno e. mas construtivo e reflexivo. já que estão habituadas a ouvir os adultos se comunicando. Língua Brasileira de Sinais – Libras 153 . As crianças surdas. Quando o professor avalia qualitativamente. ele desconhece a necessidade de conjugar o verbo para que haja concordância com a pessoa. a preposição e a conjunção são implícitas ao sinal (BRASIL. nesse caso. Além disso. depois do verbo ir. Porém. Tanto o uso de preposição quanto a conjugação do verbo são questões gramaticais que não seriam omitidas pelas crianças ouvintes. se está no Ensino Médio. porque após tantas repetições daquilo que é errado o aluno entenderá o que é certo. e mais uma vez o professor fará a marcação sobre o erro e não dará explicações a respeito. de imediato se indica a direção do deslocamento (percurso) e aponta-se quem vai (pessoa) a determinado lugar. até que. se esse aluno surdo se encontra na segunda etapa do Ensino Fundamental. enfim. Isso pode se tornar algo costumeiro e. pois. seria: eu irei. Na Libras. diferentemente. existe uma grande propensão de que o erro seja internalizado por quem produz. ou então. deve entender que a simples disposição de valor a uma atividade não será significativa. o aluno sempre comete o mesmo equívoco e o professor sempre o evidencia (com caneta vermelha). mas não explica a razão do erro. o erro é apreendido. é importante que os professores das variadas disciplinas entendam a especificidade da forma como o surdo escreve para poder estabelecer critérios diferenciados de avaliação. quando o verbo ir é sinalizado. a pessoa surda ainda não aprendeu que. O professor precisa destacar claramente a atuação incorreta do aluno e mostrar a ele qual a maneira correta de fazer. ele fará novamente. com o sujeito da frase que.

Porém. Ao olhar para a produção textual de um aluno surdo. Dessa forma. Quando o professor fizer a correção dos textos elaborados pelos alunos. Sendo assim. FAEL 154 . tornar importante aquilo que foi produzido por ele mediante incentivo e fazer com que ele perceba que sua comunicação poderia ter acontecido de outra maneira. os surdos alteram a ordem da frase por não se lembrarem do local exato em que se deve empregar os constituintes da língua. devido aos conectivos inexistirem na Libras. Tais pontuações é que devem ser avaliadas com frequência nas correções textuais. devido a tantas sinalizações sem qualquer explicação. O próximo passo requer ensino dos elementos coesivos. O texto deverá servir como elemento de comunicação entre o professor e o aluno. já que o aprendizado acontece mediante interações sociais. ligações e conjunções necessárias na língua portuguesa. desta forma. sempre pensarem que é difícil e que nada sabem. o professor deverá estimular o diálogo com seu aluno. passem a ter aversão à língua portuguesa. os alunos surdos costumam decorar a ortografia destas palavras e confundir sua ordem sintática. o professor deve considerar a organização do pensamento e. o normal é que os alunos. a correção será mais uma forma de interação. O mesmo objetivo que se aplica ao aluno ouvinte deve ser aplicado ao aluno surdo. pois. poderá atentar para a separação das ideias em parágrafos e para a coesão. tornando a escrita relevante. assim. é preciso que ele tenha em mente o significado social da escrita. É importante saber que tal trabalho será contínuo e constante. preposições. Frente à tamanha dificuldade de lidar com artigos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Em casos de correção de textos. É necessário que o professor se coloque na posição de interlocutor e faça interação com o texto. pois. mas de acordo com as regras gramaticais normativas. os alunos surdos os esquecem com frequência. assim. ao final de um processo pedagógico de ensino da língua portuguesa. O propósito pelo qual o professor deve corrigir o texto do aluno é de que. para que se obtenha sucesso no propósito pedagógico de ensino do português para surdos. o aluno tenha uma expressividade fluente com clareza e objetividade. surgem frases como: “Casa é a bonita”. o professor deve participar em língua de sinais e compreender que a dificuldade destacada em relação a esse aluno ocorre devido a ele escrever em uma língua que não fala e. se relaciona com o português como uma segunda língua. não melhor. Normalmente.

o que consiste num trabalho sistemático para ele. Esse profissional é aquele que. Para tanto. o aluno adota o hábito de decorar a regra e utilizá-la de maneira genérica em qualquer caso. pessoas surdas podem atuar como tradutores quando leem textos em português e os transpõem para Libras. Quadros (1997) diz que. há outro sujeito. apreendem o seu sentido geral e. figura esta que também faz parte da comunidade surda e é responsável pela mediação entre surdos e ouvintes: o intérprete. escolhe aleatoriamente um lugar próximo ao adjetivo. por se tratar de uma situação muito específica do português. o tradutor. assim. a vogal “a” deve ser inserida antes do sujeito (casa).Capítulo 3 Essa frase demonstra que o seu responsável já tem ciência da necessidade de nomes femininos virem acompanhados da vogal “a” e. há que se destacar que os sistemas de ensino têm garantido a presença de um profissional muito importante para acompanhar o aluno surdo. Tal regra não existe no português. procedem à sua tradução. os tradutores leem e estudam o texto original. Ou ainda. neste caso. Dessa feita. O que será altamente compreensível. o que ocasiona uma sentença agramatical. Além do intérprete. mas que desempenha um trabalhado diferenciado. em seguida. pois. permitindo que pessoas que escrevem e falam em línguas diferentes possam se comunicar entre si. também envolvido na comunidade surda e com o mesmo domínio linguístico. o professor precisa intervir a esse respeito e mostrar para o aluno que há uma dependência estrutural (organização obrigatória da frase) que rege o local do nome e o local do artigo e. em conformidade com as regras gramaticais. podendo. construir sentenças erradas. Ainda no contexto dos anos finais do Ensino Fundamental ou de Ensino Médio. por dominar a Libras e o português. o intérprete com discursos orais. procurando Língua Brasileira de Sinais – Libras 155 . Eventuais situações exigirão do professor que esclareça as exceções. podem ser intérpretes quando veem uma língua sinalizada de um país em específico e a transpõe para a língua de sinais de outro país. por desconhecer onde deve colocá-la. O trabalho do intérprete consiste em transpor textos ou discursos de uma língua para outra. tais como: “O moto”. pode vincular a interação entre pessoas que as desconheçam. um vocabulário masculino solicita o acompanhamento de um artigo do mesmo gênero. A principal diferença entre a atuação desses profissionais está no fato de que o tradutor trabalha com textos escritos. Por isso.

o intérprete sinaliza para o surdo. tais como pequenas reuniões técnicas entre especialistas. e funcionam como elo entre pessoas que se comunicam verbalmente em idiomas diferentes. a fim de que o interlocutor o entenda e. transpõem um discurso oral emitido em uma língua para outra língua. FAEL . interpreta em ambos os sentidos os diálogos que esta estabelece com interlocutores que se comunicam em outra língua. ou seja. normalmente. Já as pessoas ouvintes que atuam profissionalmente como intérpretes. interpretação de conferência – é realizada em reuniões multilíngues formais. o intérprete encontra-se junto ao orador. interpreta integralmente em outra língua o discurso feito. encontros ou jornadas. quando o ouvinte fala. aplicando a terminologia mais correta. a fim de que os participantes surdos possam acompanhar o evento. seminários. ouvindo a sua intervenção e tirando apontamentos. Nesses casos. designadamente. ele pode optar por desempenhar seu trabalho de forma consecutiva ou simultânea. ● 156 ● Essa última forma de atuação é bastante comum em relação à Libras. pois em situações formais de palestras e simpósios. mesas-redondas. acompanhando determinada pessoa. Quando o intérprete está mediando uma relação entre surdos e ouvintes de ordem formal. interpretação judicial – é a interpretação realizada no âmbito de um julgamento. é solicitada a presença do profissional intérprete. o profissional intérprete pode escolher entre uma das principais modalidades de interpretação existentes: ● interpretação de acompanhamento – é o profissional que. conferências.Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitar as ideias e os pensamentos nele presentes. em seguida. A interpretação consecutiva é mais adequada para as conversações que envolvem um número reduzido de participantes. Para desempenhar bem esse trabalho. como se este fosse seu (isto é. na primeira pessoa do singular). garantindo a transposição quase imediata dos discursos orais. quando o surdo fala. o intérprete passa a Libras para o português. congressos. Já a interpretação simultânea é mais adequada para encontros que envolvem muitos participantes.

esse profissional precisa ter clareza do que ouve para interpretar adequadamente o sentido. e de conhecimento sobre atualidade política. de conhecimento sobre as culturas envolvidas – de surdos e de ouvintes. Nesse sentido. Isso é importante porque os intérpretes nunca têm a possibilidade de voltar a ouvir o que foi dito. Aos intérpretes de Libras. Nesse caso. e deixá-lo junto às atividades desenvolvidas (coral. consiga manter o ritmo da intervenção sem perder informações. cabe à coordenação pedagógica gerir qual o melhor procedimento diante de uma disciplina de música a ser trabalha em uma sala de aula em que estejam incluídas pessoas surdas. como se dão as relações sociais da surdez. a melhor atitude a ser tomada seria: ● Poupá-lo da aula. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Além disso. sons dos instrumentos) pelo professor denotará preconceito. preservando a continuidade e o sentido dos discursos orais. neste caso. o estilo e o espírito que o discurso apresenta. Por isso. sua constituição intelectual. coloca-se uma questão: a relação do direito assegurado e do julgamento de valor. é essencial que o intérprete também tenha excelentes faculdades de análise e de síntese. 157 Da teoria para a prática Agora que o profissional da educação já entende.Capítulo 3 Ao mediador de relações entre surdos e ouvintes são outorgadas pelo menos três grandes responsabilidades. de forma a não perder nenhuma informação. econômica e social. nosso respeito e consideração pelo grande trabalho desempenhado junto às pessoas surdas. treino auditivo e rápida compreensão dos discursos orais. já que ele sentirá que não produz na mesma proporção que os demais alunos. pessoal e subjetiva é construída a partir da visão. Diante de tantas exigências para atuação. Libras e português. precisa ter grande capacidade de concentração e de memória. Para isso. a saber: de conhecimento profundo sobre as línguas envolvidos. afinal. de forma que. vemos o quão árdua é a profissão de intérprete e o quão importante ela é para que a interação social entre falantes de línguas diferentes seja bem-sucedida.

já que a condição auditiva não poderá ser alterada. Adaptar a atividade. para ter uma comunicação facilitada. se possível. ele explique em Libras o que entendeu da leitura. humanamente falando. a melhor atitude seria: ● Insistir na cobrança da atividade. 158 ● Síntese Neste capítulo.Língua Brasileira de Sinais – Libras ● Integrá-lo à aula. pois não há janela e. o que poderá acarretar em algumas dificuldades de relacionamento. injusto. ele não entende e não consegue escrever no nível exigido. ao passo que quando os filhos são ouvintes (Codas) haverá uma dupla constituição psicológica. Diante disso. vimos que o surdo prefere se casar com outro surdo. Além disso. Apenas solicita que. Privá-lo dessa participação implica em reserva de cultura e isso é. o aluno surdo comparece à aula sem a atividade executada e argumenta que não deve ficar sem a nota. salvaguardando suas especificidades e tentando adaptar os sons para os gestos e/ou movimentos dos sinais. FAEL . afinal. Destacamos que a aquisição da linguagem da criança surda acontece nos mesmos moldes da criança ouvinte. Ao invés de assistir ao filme – dada a ausência de legenda –. o professor passa o relatório de um dos alunos para que o surdo leia e o dispensa da entrega do relatório. devido ao fato das dificuldades inerentes à sua história de vida (não adianta assistir ao filme. sugere-se uma questão ao professor regente de sala de aula: diante da proposta de assistir um filme e fazer um relatório. vimos que a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades que não se encontram na organização de uma pessoa ouvinte. como aluno. ainda que existam critérios diferenciados para avaliação. que quando têm filhos surdos a relação é amena. pois o filme tem um conteúdo extremamente importante para a disciplina. Ainda levando em conta a tomada de decisão no contexto escolar. por isso. ele deverá realizar todas as demandas apresentadas em sala. já que o português é sua segunda língua). O aluno deverá procurar uma forma de assistir ao filme e compreendê-lo.

escola inclusiva e centro de apoio ao surdo) e defendemos que. apresentamos a importância do seu registro por meio do SignWriting (escrita de sinais) e de metodologia específica para o ensino do português.078/2007). Dessa forma. pois este se apresenta como segunda língua e por isto vem carregado de dificuldades para ser aprendido. trouxemos os tipos possíveis de escolarização (escola especial. 159 Língua Brasileira de Sinais – Libras . já que estas pessoas não ouvem e não falam a língua que devem escrever e ler. também. Quanto à inclusão dos surdos. 1. indiferente do espaço.Capítulo 3 Abordamos. a questão de que as relações sociais se mostram como espaço constituidor de identidade e de desenvolvimento cultural e apresentamos as disseminações políticas consideradas no caso da surdez (closed claption e Lei n. a Libras deve ser assegurada como língua de instrução.

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