Lídia da Silva

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Capítulo

Língua Brasileira de Sinais – Libras
Lídia da Silva

Curitiba 2010

I.: il. Bibliotecária – Cleide Cavalcanti Albuquerque CRB9/1424 Silva. Título.Ficha Catalográfica elaborada pela Fael. Libras. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael. 1. 2010. CDD 371. Educação inclusiva 2. – Curitiba: Editora Fael. Nota: conforme Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Lídia da S586l Língua Brasileira de Sinais – Libras/ Lídia da Silva. FAEL Diretor Acadêmico Diretor Administrativo-Financeiro Coordenadora do Núcleo de Educação a Distância Coordenadora do Curso de Pedagogia EaD Secretária Geral Osíris Manne Bastos Cássio da Silveira Carneiro Vívian de Camargo Bastos Ana Cristina Gipiela Pienta Dirlei Werle Fávaro SiStEmA EDuCACioNAL EADCoN Diretor Executivo Diretores Administrativo-Financeiros Diretora de operações Diretor de ti Coordenadora Geral Julián Rizo Armando Sakata Júlio César Algeri Cristiane Andrea Strenske Juarez Poletto Dinamara Pereira Machado EDitorA FAEL Coordenador Editorial Edição Projeto Gráfico e Capa ilustração da Capa Diagramação ilustrações William Marlos da Costa Thaisa Socher Denise Pires Pierin Cristian Crescencio Ana Lúcia Ehler Rodrigues Dilmar Kempner Júnior . 164 p.9 Direitos desta edição reservados à Fael.

intérprete de Libras.Ao Ronaldo Quirino. . que me indicou este caminho.

.

Hoje muita coisa mudou. Antes do Decreto n.apresentação A produção de textos para a disciplina de Língua Brasileira de Sinais – Libras. 5. apresentação . a Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos.. mas conhecer o porquê de a língua ser um direito na educação dos surdos. sempre divulgavam cursos de Libras. é crucial e precisa se concretizar. Professores esclarecidos quanto à complexa realidade da criança surda poderão trabalhar dispensando o carinho merecido a essas crianças. as entidades da comunidade surda. e atuar de forma a fazer avançar as condições de acolhimento na escola e na família. que reflete muitas pesquisas recentes na área. Os assuntos são apresentados de uma forma clara. sem diminuir os conteúdos necessários. visando promover a comunicação entre as pessoas. A aprendizagem da língua precisa estar dentro de um contexto organizado. como as associações de surdos. Os alunos desses cursos precisam aprofundar não apenas o conhecimento da língua de sinais. a história e as lutas do povo surdo pelo reconhecimento de sua língua. A professora Lídia da Silva conseguiu abordar os mais importantes conteúdos necessários ao entendimento dos desafios colocados aos professores pela mudança implantada na educação dos surdos.262/2002. em geral. que permita diminuir o preconceito com que. etc. nos cursos de Pedagogia. as igrejas. que exige deles uma atuação esclarecida e interessada. de uma maneira informal e nada padronizada. são vistos os surdos. A aprendizagem de Libras é lei em muitos cursos.

apresentação apresentação Esses avanços são necessários para que se concretize uma real inclusão na sociedade e a diminuição dos preconceitos existentes. língua de sinais. Marianne Rossi Stumpf* * Doutora em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. mesmo entre a maioria dos professores. Orienta pesquisas na pós-graduação em Linguística e tem experiência na área de educação de surdos. Atua como coordenadora geral do curso de Letras-Libras e como professora adjunta da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). . informática e escrita de língua de sinais.

oirámus
Prefácio.........................................................................................9

sumário

1 2 3

Status linguístico da Libras ........................................................11
Estrutura gramatical da Libras ..................................................41 Implicações sociais da surdez .................................................127 Referências...............................................................................161

oicáferp
Q

Capítulo

prefácio
9

uando nos deparamos com uma pessoa surda pela primeira vez, algo acontece que faz deste encontro um momento único e singular em nossas vidas. Para alguns, esse momento vai significar o confronto com suas dificuldades e limites, que ficará apenas na memória. Para outros, esse momento vai significar uma mudança de vida, devido a uma tomada de decisão quanto às questões relacionadas à surdez e à língua de sinais. Uma tomada de decisão que implica na proximidade com a pessoa surda e sua língua. No meu caso, o efeito do encontro foi o segundo. Diante de um primeiro contato com uma pessoa surda, fui tomada pelo desejo de me desafiar e de tentar uma aproximação com ela, ainda que isso exigisse muito esforço e dedicação, pois o processo de aprendizagem de uma segunda língua não é uma atividade das mais fáceis da nossa vida. A entrada nessa nova esfera linguística me motivou a buscar cada vez mais conhecimento sobre a Libras e suas implicações para os sujeitos surdos, e esta busca foi determinante na minha formação acadêmica e profissional. Hoje sou pesquisadora, usuária, tradutora e professora de língua de sinais, e me deparo todos os dias com os desafios que uma língua espaço-visual impõe às pessoas que são falantes nativas de uma língua oral-auditiva. Porém, além dos desafios, me deparo também com a beleza, com a completude, com a satisfação de poder estabelecer comunicação por meio das mãos, dos olhos, do corpo, dos sinais. Assim se constituiu minha busca, e assim espero que se constitua a leitura deste livro aos leitores: descobertas recheadas de desafios e encantamentos.

Além disso. Minha expectativa é conseguir.10 oicáferp prefácio Julgo que os principais desafios que se encontram neste texto são de ordem mais gramatical. de alguma forma. esclarecer a constituição dos aspectos fonológicos. É preciso que tenhamos esse encantamento para podermos. torna-se mais fácil conceber a ideia de uma pessoa viver apenas com experiências visuais e assim construir toda sua impressão sobre o mundo. já que é uma tarefa árdua esboçar graficamente os detalhes de uma língua “espacial-tridimensional”. é que gera condições de entender as implicações sociais da surdez. Até porque. e de não mais creditar como verdade as falácias sociais ditas sobre ela até então. sem esgotá-los. contribuir com as discussões sobre os surdos e sua língua. no seu valor e nas suas possibilidades comunicativas. sintáticos e semânticos da Libras. mas sempre destacamos que eles – os surdos – também devem ter voz neste processo. acredito que o leitor será tomado de encantamento ao se deparar com o status linguístico da Libras. A autora. no sentido de poder empregar a característica de “língua” a esta forma de comunicação. é claro. Atua como orientadora de aprendizagem no curso de Letras-Libras e é tradutora de Libras da Universidade Positivo. espero que esse desafio soe como um convite a uma leitura mais aprofundada sobre o tema. minimamente. Com esse olhar de diferença linguística. . Esse encantamento pela Libras. morfológicos.* * Lídia da Silva é mestre em Linguística. que o leitor possa – após receber esta introdução – percorrer caminhos mais longos no conhecimento da estrutura gramatical da Libras.

as marcas para formalidade e informalidade. este texto se insere nessas discussões por acreditar que a Libras possui os mesmos valores linguísticos que as línguas orais. a teoria entende características iguais entre os idiomas – predominantemente. atentaremos para a forma de nomeação da pessoa surda e da sua língua. tem sido muito comum as pessoas se depararem com outras conversando de um modo muito diferente do que estão . Nesse ponto. porém. bem como o refutamento aos mitos sociais que até então circundavam a concepção que se tinha sobre ela. da Libras. a estrutura sintática – enquanto que os parâmetros são as diferenças que existem entre eles – as categorias gramaticais. Vamos abordar algumas definições preliminares e algumas discussões sobre as mudanças das terminologias na área da surdez. apresentaremos uma introdução das ideias que serão desenvolvidas posteriormente. tais como aquisição da linguagem e estrutura gramatical das línguas naturais. Dessa forma. como a modalidade linguística espaço-visual. Trataremos. portanto. Essa teoria atesta que princípios e parâmetros imperam na constituição de todas as línguas do mundo. o caso de empréstimos de outra língua – fenômeno recorrente nos sistemas linguísticos. o texto apresenta os universais “comprobatórios” da natureza linguística da Libras. por exemplo. Por princípios. Há. pois ela embasa nossas considerações acerca dos fenômenos linguísticos explanados. de forma mais pormenorizada. parâmetros que a distinguem das línguas orais.Status linguístico da Libras N 1 11 este primeiro capítulo. Definições preliminares Atualmente. Assim. sobre a teoria inatista de Chomsky. e outros.

Não fosse assim. Ser uma pessoa oralizada significa desenvolver sua fala por meio da vocalização dos sons. Esse tipo de concepção e. pois elas não eram consideradas humanas. Houve uma época (século XV) em que as pessoas que não podiam ouvir eram atiradas do alto dos rochedos. consequentemente. que entendia que o método de ensino mais adequado aos surdos seria a oralização. tratamento de reabilitação. mas com o passar do tempo esse sentimento se desfaz e dá lugar a uma impressão de normalidade. A integração é a fase que compreende a concepção e a prática da pessoa com deficiência a partir de um esforço adaptativo apenas de sua parte. mais aceitável a sua forma de expressão passa a ser. no início do ano 2000. Quando isso ocorre. mas com qualquer uma que apresentasse alguma limitação física ou sensorial. prevaleceu por muito tempo. mas há um duplo envolvimento: por parte deles e por parte da sociedade. não existiriam os títulos. Porém. Após esse período. sendo considerada improdutiva para a sociedade. De fato. ainda que não pudesse ouvir sua própria voz. especialmente depois da decisão do II Congresso Internacional sobre Instrução de Surdos. como as pessoas que ouvem. a sociedade decide que as pessoas que não ouvem devem ser oralizadas. O professor era mero treinador de fonemas e o aluno deveria empreender todos os esforços possíveis para realizar uma boa leitura labial. como devemos nos referir a tais pessoas? Certamente. mesmo havendo um novo paradigma social emergindo. o modo como nos reportamos aos outros quer dizer alguma coisa. Depois. começam os rumores de uma nova filosofia social e educacional: a inclusão. num primeiro momento. Nesse sentido. surge um sentimento de estranhamento. Havia uma exclusão escancarada não só com essas pessoas. a integração foi a concepção adotada. vem impresso de significado. Porém. FAEL 12 . no sentido de que ela deve se adequar aos moldes padrões. o trabalho era de: recuperação auditiva. aquilo vai se tornando comum. para então estar integrada à sociedade. este método de ensino chamado oralismo. Porém. Normalmente. Prova disso é a própria dificuldade terminológica. os vocativos e os pronomes de tratamento. Nessa perspectiva. que aconteceu em Milão.Língua Brasileira de Sinais – Libras acostumadas a ver. ainda há contradições manifestadas nas práticas. não apenas as pessoas que não ouvem passam a se integrar e emprenhar esforço para tornarem-se normais. infelizmente. nem sempre foi assim. a forma como nos dirigimos à pessoa revela o valor que damos a ela. em 1880. À medida que estas pessoas vão se mostrando à sociedade. exercícios mecânicos.

há algumas alternativas de tratamento que podem denotar a consideração social a respeito de sua condição. parágrafo único. estamos invocando aquilo que ela não tem. além de pejora.626 (BRASIL.feneis. a sociedade progride e tem sua visão alterada.cional de Educação e Integração de Surdos que diz: SURDO-MUDO. 5. consequentemente.org. Com o acelerar da recepção de informações. ele está pronunciando-se na sua língua. aliás. Artigo 2º. surdos-mudos para aqueles que não sabem que eles falam. os surdos são deficientes auditivos para aquelas pessoas que os enxergam com uma visão clínico-terapêutica. a condição de não ouvir. não estamos vendo-a como pessoa. e isto propiciou um olhar antropológico e cultural sobre a surdez. De acordo com essa concepção de diferença (ao invés de deficiência). ainda que os fonemas sejam desorganizados por falta do feedback auditivo. mas a informação que mais nos importa é sua patologia e/ou sua condição clínica. Capítulo I. financeira. porque quando o surdo está sinalizando. aceito.a. pois todos já fazem parte da sociedade.br>. Quando usamos esse termo para nos referir a uma pessoa. de gênero. falar não significa vocalizar. Então. porque existem muitos surdos que têm domínio da língua oral e que se comunicam também com sons da voz. está falando. É o caso do termo “deficiente auditivo” ou “d. anula a necessidade de reabilitação para integração. e. religiosa. Foi a partir da década de 90 do século XX que inauguraram algumas pesquisas no país sobre a língua de sinais. etc. mas expressar a sua língua. pois. somos apenas mais uma figura no cenário da diversidade social – racial. sexual.Capítulo 1 No caso das pessoas que não podem ouvir.Há um slogan propagado pela Federação Nadinho”. Então. Primeiro. também Saiba mais deixam de ser válidos termos como “surdo-mudo” ou “mu. dizer surdo-mudo é duplamente incorreto. aquilo que lhe é deficiente. segundo o Decreto n. Nesse sentido. Esse olhar para o surdo como uma pessoa diferente acaba com a concepção de deficiente auditivo – anteriormente impregnada nos meios sociais e educacionais – e.”. estamos destacando o que há de ausente naquela pessoa. emitir sons. Depois. não estão em sintonia com o que já é socialmente Verifique em <http://www. não há necessidade de inserção das pessoas. política. para aqueles que os olham Língua Brasileira de Sinais – Libras 13 . 2005). Conceitualmente. apague esta ideia! tivos.

são apenas: surdos. É o caso. usaremos o termo “surdo”. por meio do estabelecimento de uma comunicação visual. Portanto. poucas são as pessoas que reconhecem o que significam tantos movimentos e tantas sinalizações. e não com uma visão clínica ou patológica. Contrariamente. a órgãos públicos ou privados e fazem este sinal: Oi FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitando sua diversidade linguística. a partir de agora. Surdo Ouvinte 14 Os surdos conversam com as mãos. porque ele remete a um posicionamento político de respeito ao sujeito como um ser social. De fato. por exemplo. de quando os surdos chegam a estabelecimentos comerciais. as pessoas que têm a capacidade de ouvir são chamadas de ouvintes. falante da língua de sinais. para nos referirmos a essas pessoas neste texto.

na maioria das vezes.Capítulo 1 As pessoas não sabem o que isso significa e. tentam falar mais lentamente ou buscam um papel para escrever. o desejável seria que essas pessoas pudessem responder da mesma forma. Língua Brasileira de Sinais – Libras . com os sinais da Libras. na esperança de conseguir estabelecer uma comunicação. ou seja. conforme exposto a seguir: Tudo bem? Qual é seu nome? Qual é o seu sinal?1 Bom dia 15 Boa tarde Boa noite 1 Os surdos dão um sinal para cada pessoa e não as chamam pelo nome. Porém.

as crianças já nascem equipadas com vários aspectos relacionados à organização sintática das línguas humanas que FAEL . A língua falada é conhecida por possuir uma característica oral e auditiva.Língua Brasileira de Sinais – Libras No entanto. por ora. e que escolhemos para construir nosso aporte conceitual. e a faz sob diferentes perspectivas teóricas. o processo de adquirir a estrutura de uma língua natural é universal. vemos que o desconhecimento sobre essa modalidade linguística é tanto. e o desconhecimento não é só dos vocabulários. Há. Por outro lado. Isso significa que o espaço (lugar a frente do corpo) é o canal de emissão e a visão é o canal receptor da mensagem. Posteriormente explicaremos porque esses dois últimos termos são inadequados. destituem do ser humano as responsabilidades pelo seu desempenho linguístico. há pesquisadores que são mais adeptos aos postulados teóricos de Chomsky (1957). mas da própria nomeação desta modalidade linguística. por exemplo. do Massachusetts Institute of Techonology – MIT. assim também como independe da cultura. Há outras que a chamam de “gestos” e há. mas. Trata-se da teoria gerativa. 16 A linguística é a área científica que se debruça a conceituar essas duas categorias. três modalidades das línguas naturais: língua falada. Há. enquanto que a sinalizada tem a característica de ser espaço-visual. nos Estados Unidos. que as pessoas a chamam de “linguagem de sinais”. Portanto. basicamente. Os que entendem que a influência do social é determinante para aquisição da língua. Porém. a língua de sinais tem modalidade espaço-visual. Inscrevem-se nesse tipo de abordagem as vertentes da linguística estrutural e funcional. pesquisadores que são adeptos a concepções sociais e há outros que procuram abordagens mais naturalísticas para formular suas concepções. pois independe da qualidade interativa que se estabelece com a criança. ainda. E o que vem a ser modalidade linguística? É a forma como a língua se manifesta. vamos pensar na oposição língua X linguagem. Segundo essa teoria. Para ele. infelizmente. Essa aquisição é possível devido ao fato de as crianças possuírem um conhecimento linguístico inato que as guia por esse processo. língua escrita e língua sinalizada. quem pense que são “mímicas”. Tais ideias deram origem à teoria que vigora até o presente. esses e outros tantos sinais necessários à comunicação com surdos são desconhecidos pela população ouvinte.

Capítulo 1 são geneticamente determinadas. Por isso dizemos que essa teoria é de natureza mentalista. a criança é exposta a estímulos pobres e limitados. O estágio final são as propriedades linguísticas alcançadas pelo adulto. porém. Isso se comprova. devido à discrepância entre input e output do falante. mas reflete a capacidade do ser humano de fazer uso dela no seu dia a dia. Chomsky (1957) denomina esse conhecimento linguístico predeterminado de “Dispositivo de Aquisição de Linguagem – DAL” (em inglês: Language Acquisition Device – LAD). [. entendida como um órgão biológico carente de iniciar seu funcionamento que. e 2 O argumento da “pobreza dos estímulos” é tratado por Chomsky (1957) como uma atitude platonista.] Sob esta perspectiva. pois não existem graus de humanidade. A criança é vista como aprendiz eficiente a despeito da pobreza de estímulos. livre de estímulos. essa capacidade é uma consequência direta do fato de sermos humanos.. devido ao seu inato conhecimento linguístico. é capaz de se desenvolver ao ponto de gerar infinitos enunciados bem formados. Esse argumento é comumente tratado por problema de Platão2. fica a cargo da interação social. apenas pela maturação da GU. O DAL. a aquisição da linguagem vai acontecer naturalmente – sem que haja um aprendizado formal –.. somos humanos ou não somos. A perspectiva chomskyniana de linguagem está resumida no excerto a seguir. de como é que o ser humano pode saber tanto diante de evidências tão passageiras.. Nesse sentido. Em outras palavras.] pode-se dizer que o uso criativo da linguagem não se limita ao estabelecimento de analogias. mas não para determinação do seu estágio final.. Esse fator é preponderante no princípio do funcionamento do DAL. [. além da sua capacidade de evocar os pensamentos adequados no seu interlocutor. enganosas e fragmentárias? 17 Língua Brasileira de Sinais – Libras . possibilitando um melhor entendimento de que a linguagem reflete uma capacidade mental do ser humano. sistema armazenado na mente. segundo Chomsky (1957). observando propriedades específicas. Como diz Descartes. Esses princípios formam um conjunto de regras linguísticas uniformes chamado de Gramática Universal – GU. com coerência e de forma apropriada a cada contexto. abriga os princípios que são comuns a todas as línguas humanas. pois a mente humana abriga um sistema “computacional” capaz de gerar representações linguísticas. por isso o nome problema de Platão é extraído da questão filosófica. no caso.

é de natureza muito mais individual. Assim. políticos. Um estudo da faculdade da linguagem deve propor propriedades específicas e descobrir os mecanismos da mente que as apresenta. A linguagem é uma função mental superior4. além de dar conta destas mesmas propriedades em termos da ciência física (QUADROS. 4 Função mental superior é sinônima de função psicológica. Segundo Kato (1997). nos aspectos epifenomenais3. e isso não acontece. Posto o entendimento de que há diferença teórica no conceito de língua e no conceito de linguagem. p. esse conhecimento tem caráter intencional e o uso é inconsciente devido ao uso automático da língua. significa que ela é externa a nós. 2008. 47). (QUADROS. língua é um conjunto de regras que gera uma infinidade de sentenças. o objeto de estudo é postulado como o conhecimento inconsciente da língua. percepção. ela é entendida como um conjunto de regras que geram uma infinidade de sentenças. e elas são: pensamento. nem exercer sobre eles qualquer influência. Dessa forma. 3 Epifenômenos são fenômenos adicionais que se sobrepõem a outros. 18 Apesar de já termos adiantado o conceito de língua. etc. FINGER. portanto. ela é social. FAEL . Quer dizer. p.Língua Brasileira de Sinais – Libras não há variação essencial entre os humanos. FINGER. não está instalada no cérebro humano. isto é. todos seriamos sinalizadores. e que este dispositivo deve ser acionado pelos estímulos externos para poder desenvolver a língua. raciocínio. sendo que cada uma é formada por cadeias de elementos. a não ser no nível da superficialidade. Essa é a concepção de língua que adotamos. podemos concluir que a terminologia “linguagem de sinais” passa a ser cientificamente inapropriada. enquanto a língua. mas sem modificá-los. atenção. é língua. são fatores sociais. opostamente. inteligência. culturais. econômicos. poderíamos dizer que a linguagem é um dispositivo que já está acoplado na mente humana desde o nascimento. memória. se assim fosse. Para o linguista adepto à corrente gerativa. a Libras não pode ser chamada de “linguagem de sinais”. linguagem e outras. internas (inconscientes) e intencionais (automáticas). sendo assim. mas está no seio da sociedade e por isso precisa ser adquirida. nesse modelo teórico. considerando que. 47). 2008. se será aprendida. há ainda que se colocar que. encarado como um sistema “computacional”. Podemos concluir que a Libras deve ser aprendida e. caracterizadas como individuais.

e é o termo presente em documentos legais. nais Brasileira). a Libras passou a ser aceita como língua Língua Brasileira de Sinais – Libras . A partir dessa aprovação.pdf>.fiemg.Capítulo 1 A partir dessa concepção.br/ead/pne/Terminologias. A primeira foi oficializada pela Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. podemos adentrar mais especificamente nas considerações sobre a “língua” de sinais. A LSB é a sigla utilizada por pesquisadores que publicam textos internacionais. que oficializou a língua no Brasil. 2002b).mais sobre o assunto em: <http://www. Língua de sinais Iniciamos pelo signifiSaiba mais cado do termo. reproduzimos a seguir o sinal empregado pelos surdos para nomear sua própria língua: Libras 19 Um dos documentos legais que contempla a sigla Libras é a Lei Federal n.436/2002 (BRASIL. 10. já que todas as demais línguas de sinais do mundo possuem uma sigla com três letras. é possível ter uma rápida identificação para LSB. Leia Sinais) e LSB (Língua de Si. Como Libras é nossa opção terminológica. se deve ser correntes para designar a línLIBRAS (todas as letras maiúsculas). já que há diferenLibras (Língua Brasileira de ça conceitual nestes diferentes registros. libras gua de sinais utilizada pela (todas as letras minúsculas) ou Libras (apenas comunidade surda brasileira: a primeira letra maiúscula). com. desta forma. visto que no Há pesquisas que discutem a melhor grafia Brasil há duas terminologias para a língua brasileira de sinais.

mas. pois. são nossas expressividades naturais. para produzirmos a Libras. discutindo e publicando suas investigações sobre esta língua.Língua Brasileira de Sinais – Libras usual na comunidade surda. A Lei n. elas não podem ser comparadas com a Libras. 1995. índios) relatam experiências de segregação e preconceito. Diferentemente. apertamos os dedos uns contra os outros ou passamos as mãos repetidas vezes no cabelo. FELIPE. já que sua forma de expressão não é a mesma da maioria social. que é uma língua gramaticalmente organizada. 20 Mitos sobre a Libras A língua de sinais seria uma mistura de pantomima e gesticulação concreta. todos seríamos falantes natos da Libras. já existiam pesquisadores brasileiros de língua de sinais (BRITO. com o intuito de combater os mitos que havia sobre ela. No caso da Libras. também. colocar a Libras e os gestos na mesma categoria de análise. que vai desde agregar as pessoas até convencer políticos a planejar ações disseminadoras. Considerando que a pantomima e a mímica são formas artísticas de expressão. 10. As línguas de sinais derivam da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. Não devemos. Para que isso ocorra. Ter uma lei que oficialize um idioma em um país é muito importante. estamos produzindo gestos. cruzamos os braços. incapaz de expressar conceitos abstratos. deve-se travar uma luta pelo reconhecimento linguístico de tais minorias. QUADROS.436 oficializou a Libras. apesar de ambos serem produções visuais. bem como as asseverações postuladas pelos pesquisadores pioneiros no assunto. antes disso. FAEL . possuem natureza muito diferente. 1997). Os gestos são as expressões espontâneas das pessoas. Por exemplo. visto que as minorias linguísticas (imigrantes. Vejamos cada um destes mitos. quando colocamos a mão no rosto ou na cintura. pois demonstra o reconhecimento social sobre ela. e pelo fato de muitos pesquisadores terem se empenhado para angariar conhecimentos que comprovassem o valor linguístico dessa língua. pois este sistema linguístico é abstrato e não faz parte da nossa expressividade natural – se assim fosse. 1998. Nesse sentido. há que se percorrer um longo caminho. precisamos passar por um processo formal de aprendizagem. essa conquista só foi possível mediante a congregação dos surdos em prol dessa causa.

conforme podemos verificar nas ilustrações. O primeiro grupo de sinais é o dos chamados icônicos. há outros que não tem relação alguma com os objetos da realidade. respectivamente. eles não são o todo da língua. Exemplo disso são as palavras “bem-te-vi” e “bumbo”.Capítulo 1 É verdade que a Libras é composta por sinais que representam manualmente as formas e os movimentos dos objetos do mundo. porém. como é o caso do português. nome de um pássaro e um instrumento musical. e o segundo é o dos sinais chamados arbitrários. que representam o som que reproduzem. Essa possibilidade de o referente linguístico ter relação com os objetos reais – a iconicidade – também é presente nas línguas orais. como os sinais a seguir reproduzidos. SinaiS icônicoS Passar batom SinaiS arbitrárioS Vencer 21 1 2 Passar roupa Especial Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras SinaiS icônicoS Pentear o cabelo SinaiS arbitrárioS Perigoso Escovar os dentes Vingar 22 Dormir Idade FAEL .

Capítulo 1 SinaiS icônicoS Lavar roupa SinaiS arbitrárioS Organização Limpar o chão Sofrer 23 Varrer Opinar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

que os sinais eram iguais em todos os países. Se assim fosse. já é um forte argumento para combater o mito que aponta que a língua de sinais deriva da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. pois a representação que cada falante faz da realidade é diferente. Haveria uma única e universal língua de sinais usada por todas as pessoas surdas.Língua Brasileira de Sinais – Libras É bom ressaltar que os sinais icônicos não são iguais no mundo todo. A diferença é que aqui representamos o tronco da árvore e o balanço dos galhos. Então. se no nome da língua mencionamos sua nacionalidade. Língua Francesa de Sinais. conforme figuras a seguir: Árvore Árvore 24 Libras Língua de Sinais Chinesa (CSL) Só essa informação. não é isso que ocorre. Língua Alemã de Sinais. mas. pois se Libras é a sigla da Língua Brasileira de Sinais. ele rapidamente identificaria o significado. como sabemos. fica refutada a ideia de que os sinais da Libras são extraídos da expressividade natural dos ouvintes. Muitas pessoas pensavam que a Libras seria universal. podemos concluir que. Língua Americana de Sinais. FAEL . é porque existem outras línguas de sinais espalhadas por outros países. de que a iconicidade se realiza de acordo com a perspectiva referencial de determinado grupo. enquanto lá se faz apenas o tronco. o sinal de árvore no Brasil é icônico assim como o é na China. tais como: Língua Holandesa de Sinais. entre outras. essa afirmação não procede. por exemplo. quando um surdo sinalizasse o sinal de árvore para um ouvinte. Contudo.

Isso porque sabem que. por pidgin entendemos a mistura de duas línguas. assim como aconteceu com o esperanto. ela tem sua origem na Língua Francesa de Sinais. subordinado e inferior às línguas orais. Porém. na sua organização semântica e discursiva para atender a aspectos culturais e ideológicos das diferentes comunidades de surdos. o gestuno – assim como o essa teoria. há Saiba mais uma língua de sinais especíCom a difusão das línguas de sinais pelos fica. termos comuns na maioria das línguas orais. pois quando as analisamos. como nas expressões (1) e (2) a seguir exemplificadas. subordinada e inferior. como não era usado em momentos na teoria gerativa. E não é só pelo nome de sinais universal chamada “gestuno”. baseando-nos Porém.Capítulo 1 Assim. se estamos entendendo que a língua de sinais tem o mesmo valor que a língua oral. houve o alastramento de determinados idiomas em determinados lugares. cada uma tem sua história linguística. Por exemplo. já que as línguas orais não são iguais e ninguém questiona esses fenômenos. mas. devido às colonizações. então um questionamento como este também perde sua validade. Cada uma dessas proposições pode ser considerada um mito. apresentam organização sintática com os mesmos princípios comuns à linguagem humana. também. muitas vezes. No caso da Libras. encontramos conceituação diferenciada para os termos empregados. que reflete a cultura da países. sendo um pidgin sem estrutura própria. todas as línguas. Isso significa que as línguas de sinais se diferenciam. pensou-se em sistematizar uma língua nação e daquela comunidade surda. havia um questionamento de que seria muito mais fácil para comunicação dos surdos se todos sinalizassem da mesma forma. que são diferentes apenas em sua natureza e comportamento. Quando a informação de que a Libras não é universal começou a percorrer espaços sociais. Algumas pessoas acham que a Libras é derivada das línguas orais e é um pidgin sem estrutura própria. que seria derivada das línguas orais. como qualquer língua. O pidgin é utilizado por pessoas que estão em processo de aprendizagem e necessitam de Língua Brasileira de Sinais – Libras 25 . esperanto – deixou de existir. Segundo naturais. Haveria uma falha na organização gramatical da língua de sinais. em cada país. inclusive as de sinais. O mesmo aconteceu com as línguas de sinais. que era que entendemos haver uma uma forma de comunicação oral que reunia os língua de sinais para cada país.

Na linguística. isso também acontece.Língua Brasileira de Sinais – Libras um recurso emergente de comunicação. isto já é assegurado no campo da linguística e já foi transmitido à sociedade. Porém. Essa estrutura se caracterizará por um pidgin. Podemos admirar uma ou outra forma. 1. mas que muitas vezes é verbalizado por desconhecedores da Libras. portanto. A Libras tem uma estrutura gramatical bastante complexa. a fim de que o interlocutor o entenda. não é a Libras que é um pidgin. o que falta são algumas tomadas de decisão quanto ao tema. é o seu mau uso que pode tornar-se um. pois houve a mistura dos sinais com a voz. pois nenhum sistema linguístico será mais complexo ou superior a outro. 2. quando uma pessoa está conversando com um surdo em Libras e na ausência de um sinal resolve oralizar pausadamente. Nesse sentido. expressiva e linguisticamente inferior ao sistema de comunicação oral. sendo estética. cada um sinaliza de um jeito. Mesmo assim. da oralidade com a sinalização. também aponta para uma postura altamente preconceituosa. Esse jeito diferente de falar compõe o idioleto de cada um. mas nunca taxarmos como “certa” uma única forma. pois as línguas são apenas diferentes entre si. esse tipo de comparação inexiste. não consideramos o inglês e o português como pidgin. A língua de sinais seria um sistema de comunicação superficial. e não um julgamento de valor. ou ainda porque ela fala bicicreta. da Libras com o português. Sabemos que não podemos criticar uma pessoa porque ela fala porta acentuando o r. já que todos se prestam ao mesmo fim: a comunicação. alegar que ela é subordinada à língua oral. Na Libras. Esse é outro apontamento que não procede às descobertas científicas. Eu love você. Uma manifestação de pidgin sinalizada é. a única comparação permitida entre as línguas e em sua realização é o conhecimento dos parâmetros de cada sistema. como fazem os caipiras. além de demonstrar o desconhecimento da estrutura linguística. FAEL 26 . por exemplo. Assim como fazer comparativo de superioridade ou inferioridade em relação à língua oral é linguisticamente inviável. com conteúdo restrito. como há uma conscientização ao cessar do preconceito linguístico. Da mesma forma. I amo you. tem constituição interna própria.

é identificada a propriedade linguística. assim também como a função do espaço deste hemisfério se relaciona à questão geográfica. já que é uma língua e que. duas áreas responsáveis pelo desempenho de uma língua: a área de Broca. especialmente. basicamente. estaria no hemisfério esquerdo. estariam representadas no hemisfério direito do cérebro. estariam representadas no hemisfério direito do cérebro.Capítulo 1 Levando em conta que um sistema de comunicação superficial é aquele criado para atender a comunicação de máquinas. artístico. é dinâmica e com conteúdo absolutamente ilimitado. ou seja. O que ocorre. a Libras não é superficial. Há pessoas que dizem que as línguas de sinais. pela linguagem. Portanto. minimamente. é a linguagem de programação. por estarem organizadas espacialmente. é que a função de visão do hemisfério direito tem uma característica funcional. Ao hemisfério direito cabem as propriedades para o desenvolvimento musical. a Libras não se enquadra nesta situação. Diante disso. A partir daí. Sua modalidade é espacial e visual. uma vez que esse hemisfério é responsável pelo processamento de informação espacial. emocional. as considerações que se tinha até então eram de que a Libras instalava-se no hemisfério direito. Há. há possibilidade de transmissão do conceito da palavra. há que se pensar onde se localiza a Libras. As línguas de sinais. pois mesmo não havendo palavras comuns entre Libras e português. sabem que ele é dividido em hemisfério direito e hemisfério esquerdo. Toda língua humana – como a língua de sinais falada pelos surdos – atende aos critérios de criatividade. No hemisfério esquerdo estão algumas funções mentais como atenção. o cérebro Língua Brasileira de Sinais – Libras 27 . é uma língua natural. para poder dar conta dessa modalidade. serve para ver no sentido estrito do termo. Pessoas que conhecem. e a área de Wernicke. e que cada um deles tem uma função diferenciada. o cérebro humano. de flexibilidade e de versatilidade. enquanto que o esquerdo. na verdade. memória e outras. que determina a expressividade da fala. que emerge no seio da comunidade e se transforma ao longo do tempo. espacial. por estarem organizadas espacialmente. que determina a compreensão de uma língua. É possível falar qualquer coisa em Libras – desde de que o sinalizante tenha fluência –. uma vez que este hemisfério é responsável pelo processamento de informações espaciais. mas. e estas são características alocadas no hemisfério direito. Nesse sentido. visual. matemático e outros. por isso. nesse hemisfério.

por exemplo). EUA e França. chegando ao Brasil no século XX. houve um período em que eles – um nome bastante conhecido desta época é o Ponce de Leon – se dedicavam à instrução de pessoas surdas. Assim. Todas elas. entretanto. da Língua Francesa de Sinais e da Língua Americana de Sinais são parecidos. que burlavam a lei do silêncio que imperava nos mosteiros e conversavam por “códigos visuais”. em 1960. Então. Depois disso. e então realiza uma transferência hemisferial. emergiram a partir do primeiro trabalho conhecido sobre línguas de sinais nos Estados Unidos. posteriormente. Essas primeiras pesquisas que se prestaram a desmistificar falsas considerações sobre a Libras deram origem a outras. a comunicação espaço-visual se espalhou pela Europa e. mas com propriedades distintas. então começaram a usar uma língua estruturada para transmitir conteúdos científicos e teológicos. Ele foi o primeiro pesquisador a sistematizar a estrutura gramatical de uma língua de sinais. de William Stokoe. Assim como existem palavras muito semelhantes no português e no inglês (baby e bebê. para América. mas não foi o primeiro a usar esta forma de comunicação. citamos os sinais de casa em Libras e na Língua Americana de Sinais: Casa Casa 28 Libras Língua Americana de Sinais FAEL . no hemisfério esquerdo. pois antes dele já existiam os abades franceses. Por isso. São os chamados cognatos. Como exemplo dessa similaridade. alguns sinais da Libras.Língua Brasileira de Sinais – Libras detecta que a visão e o espaço serão utilizados pela modalidade linguística. há também algumas semelhanças de vocabulário nas línguas de sinais do Brasil. agora com função linguística que servirá para “ouvir” e “falar” a Libras. haverá a visão e o espaço.

ela não pode ser considerada como uma língua primitiva. através dos universais linguísticos. um recurso paliativo. pois todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. Não há línguas primitivas – todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. apesar de se apresentar numa modalidade diferente das línguas orais. isto reitera a existência de uma língua. percebe-se que. Verdades sobre a Libras: universais linguísticos Para uma língua ser considerada língua. passou-se a mostrar a verdade sobre esse sistema de comunicação espaço-visual. como o de qualquer língua. Assim também acontece com o vocabulário das línguas orais e sinalizadas que. Ele é. destacamos inicialmente o alfabeto manual. Ao aproximar-se da língua usada pelo grupo de surdos. pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. deve responder positivamente às questões levantadas. Vejamos cada um deles. Então. por exemplo. por meio da inclusão de palavras novas ao repertório individual. Onde houver seres humanos. ela deve passar por todos os testes postulados pelos pesquisadores. na verdade. com empréstimos linguísticos vindos do sequente aportuguesamento destes termos ou. portanto. É impossível negar que um grupo de surdos constitui-se como um grupo de seres humanos. Fizeram isso utilizando-se da “regra geral” para validação de que uma língua é língua. as palavras são incorporadas ao sistema linguístico de um modo geral. haverá língua(s). ainda. Quanto aos empréstimos linguísticos da Libras. O vocabulário de qualquer língua pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. A primeira análise feita para atestar o status linguístico da Libras pautou-se numa simples consideração: a de que onde há seres humanos há língua. e a Libras preenche estes requisitos.Capítulo 1 O que Stokoe e os primeiros linguistas brasileiros fizeram – além de mostrar o falseacionismo dos mitos – foi apontar a natureza da Libras como ela é. usado apenas para se referir a nomes próprios e a objetos que não tenham um Língua Brasileira de Sinais – Libras 29 . No português.

Os surdos representam por meio das mãos as letras do alfabeto português. às vezes. desde que não alternadamente. então. pode ser sinalizada de um jeito no Brasil e de outro nos Estados Unidos. vale ressaltar que esse recurso é externo à Libras. e não uma FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras sinal conhecido na Libras. É preferível fazer um sinal sinônimo a “escrever” a palavra a que se deseja fazer referência. passa a fazer uso do português. Por isso. Além disso. portanto. Há toda uma dificuldade que se coloca a eles. Em outros países. no caso do Brasil. deixa de usar a Libras e faz uma transferência de código. enquanto precisam aprender uma língua oral e auditiva. quando a pessoa está usando o alfabeto manual. explicaremos com mais detalhes a questão de o português ser uma segunda língua para os surdos. pois os surdos não se relacionam com a língua portuguesa como nós nos relacionamos. 30 a b c ç d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z O alfabeto manual pode ser sinalizado com qualquer uma das mãos. pois são usuários de uma língua espacial e visual. se há preferência pela mão esquerda. devemos ter muita cautela para usá-lo. Posteriormente. a palavra toda deve ser sinalizada com a esquerda. Figura 1 Alfabeto manual. ele é considerado como um empréstimo da língua portuguesa. essa representação é feita de acordo com o alfabeto do idioma local. A letra “T”.

francesas. mas. indígenas. No português. pela globalização. eles criam um sinal que será usado dali para frente. bem próximo ao tronco. Caso seja necessário escrever mais de uma palavra (nome completo ou palavra composta. pois a realização do sinal vai remeter ao sentido e ao conceito. há muitos exemplos de palavras que não compunham nosso verbete e que passaram a fazer parte de nossa fala. Um empréstimo linguístico é uma palavra original de um idioma que passa a fazer parte do repertório de um grupo de falantes de outro idioma. a digitalização da palavra passará a ser dispensável das próximas vezes. se escreve com o braço na vertical. então. deve-se fazer uma palavra numa sequência rítmica e dar uma pausa na última letra para. O desenho no ar é feito em um ponto acima de onde se escreveu inicialmente. Para os nomes de pessoas e lugares. ou outros motivos. Normalmente. ´) por meio de desenho no ar com o dedo indicador. por exemplo). Então. os quais estão reproduzidos a seguir: Figura 2 31 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Ainda com relação ao alfabeto manual. por meio da internet. O mesmo processo ocorre com a produção dos números da Libras. na sequência.Capítulo 1 letra com cada mão. e deve ser feito antes da letra que receberá o acento. sem necessariamente tirar a mão do lugar. `. é comum os surdos pedirem que se escreva a palavra com o alfabeto manual. ~. devemos ressaltar que dele são extraídos os outros empréstimos linguísticos da Libras. e as letras são feitas uma após a outra. há também a possibilidade de representação dos acentos das palavras (^. Além disso. por exemplo: JOS´E. que são usadas pelos falantes Língua Brasileira de Sinais – Libras . iniciar a nova série de letras que serão feitas com o mesmo ritmo. Na língua portuguesa há muitas expressões americanas.

entre outras. como os expostos a seguir: Neurose Mídia FAEL . “demanda de mercado”. “sintático”.Veja um exemplo de empréstimo linguístico da Libras: Bar 32 Em se tratando de termos técnicos e científicos. shampoo. abajur. podemos destacar que são criados de acordo com a necessidade. ligth. “léxico”. como os termos “paradigma”. Os empréstimos linguísticos na Libras ocorrem mediante processo de aceleração da escrita do alfabeto manual e. “biomorfologia”. Exemplos desses empréstimos são as palavras: stress. Daí surgem os novos sinais. etc. lingerie. há uma “enxurrada” de palavras novas as quais não utilizávamos antes.Língua Brasileira de Sinais – Libras normalmente. delete. Na língua de sinais. algumas vezes. pela supressão de uma das letras. “psicanálise”. Os surdos têm a capacidade de inserir em sua língua palavras novas conforme a necessidade. diet. “piagetiano”. “pragmática”. É o caso de quando entramos na faculdade. isso ocorre da mesma maneira.

Os sinais que exigem muito “trabalho” para serem realizados sofrem uma economia produtiva e passam a ser realizados de maneira mais simplificada. o amarrar. isso também acontece. é sinalizado conforme imagem a seguir. Mulher 33 Língua Brasileira de Sinais – Libras . Assim como ocorreu com o vocábulo vossa mercê. depois para você e hoje é comumente tratado por cê ou vc. esse sinal preserva apenas o trajeto do rosto ao pescoço. passando o polegar na bochecha.Capítulo 1 Ambiente virtual de aprendizagem Condicionamento Todas as línguas mudam ao longo do tempo. Podemos verificar que não há permanência vocabular e nem estrutural em nenhuma língua. numa imitação de colocar o chapéu. Na língua de sinais. por exemplo. do sinal mulher. que passou para vos mice. e isto implica dizer que as línguas mudam ao longo do tempo. onde era encerrado com um movimento que imitava o lançar. É o caso. que era realizado com ambas as mãos postas próximas à cabeça. Então descia do rosto em direção ao pescoço. Atualmente.

Podemos constatar que não há uma relação intrínseca entre a palavra cão e o animal que ele simboliza. Isso pode ser constatado na dificuldade em aprender uma língua estrangeira. por exemplo. Tal característica significa que existe uma gama de unidades que são semelhantes. a característica de arbitrariedade das línguas não se restringe à ligação entre forma e significado. pois elas diferem umas das outras. a característica da dupla articulação. a). pois é um sistema distinto do que estamos habituados a usar. quando os combinamos de diferentes maneiras. Ainda com relação a isso. g. igualmente. Toda língua falada inclui segmentos sonoros discretos. expressa a característica de dualidade ou dupla articulação comum às línguas orais e sinalizadas. dada a forma é possível prever o significado. em torno de trinta ou quarenta. n. é a característica de descontinuidade. Há ainda outra característica encontrada em línguas orais que se manifestam também nas línguas sinalizadas. os quais podem ser definidos por um conjunto de propriedades ou traços. mas que cada fonema normalmente não tem significado quando está isolado.Língua Brasileira de Sinais – Libras As relações entre sons e significados das línguas faladas e entre gestos (sinais) e significados das línguas de sinais são. dado. gado. Quadros e Karnopp (2004) apontam ainda que. Toda língua falada tem uma classe de vogais e uma classe de consoantes. Quadros e Karnopp (2004) apontam que há. Universais semânticos. os sons de f. porém. FAEL 34 . em sua maioria. arbitrárias. mas ganha um significado quando é combinado com outras unidades mínimas. Assim como as línguas orais apresentam segmentos sonoros discretos (p. camada de sons que se combinam e camadas de unidades maiores. “n”. como “p”. fado. Tal organização de língua em duas camadas. são encontrados em todas as línguas. como fêmea ou macho. d. o e a não tem um significado expresso. ou “a”. As palavras e sinais apresentam uma conexão arbitrária entre forma e significado. podemos encontrar significados. Por exemplo. visto que. mas aplica-se também à estrutura gramatical das línguas. em todas as línguas. É o caso. as línguas de sinais. Línguas de sinais apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. de fogo. Os símbolos utilizados pelas línguas são arbitrários. e dado o significado é possível prever a forma.

Todas as línguas apresentam categorias gramaticais (ex: substantivo. A criatividade e a produtividade são apontadas por Quadros e Karnopp (2004) como propriedades que possibilitam a construção e a interpretação de novos enunciados. presente e futuro. verbo). sabemos que tanto as línguas orais quanto as de sinais podem fazer referência ao passado. negação. para fazer solicitações. As línguas não se fixam apenas nos parâmetros fonológicos. Falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender um conjunto infinito de sentenças. Língua Brasileira de Sinais – Libras 35 . Todas as gramáticas contêm regras de um tipo semelhante. a realidades remotas ou. que são escritas e faladas de maneiras diferentes. Universais sintáticos revelam que toda língua possui meios de formar sentenças. Esse fenômeno demonstra a característica de descontinuidade da diferença formal entre forma e significado. Quadros e Karnopp (2004) apontam que essa flexibilidade e versatilidade é uma característica comum a todas as línguas. os quais. pois podemos usar a língua para dar vazão às emoções e sentimentos. por sua vez. mas apresentam diferença considerável no significado. sendo assim. pois tanto línguas orais como sinalizadas apresentam categorias gramaticais (substantivo. a coisas que não existem e que os falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender em um conjunto infinito de sentenças. bem como universais semânticos tais como a distinção fêmea/macho. verbo e outros). para formação de palavras e sentenças. para fazer ameaças.Capítulo 1 Tal fenômeno está em oposição à variação contínua. Todas as línguas humanas utilizam um conjunto finito de sons discretos (ou gestos) que são combinados para formar elementos significativos ou palavras. promessas. É o caso das palavras faca e fada. isto significa que as palavras podem diferir de maneira mínima na forma. etc. Todas as línguas possuem formas para indicar tempo passado. ordens. comando. formam um conjunto infinito de sentenças possíveis. os falantes têm a liberdade de agir criativamente. Todos os sistemas linguísticos têm a possibilidade de construção e compreensão de um número infinito de enunciados. pergunta. ainda. No concernente à sintaxe. perguntas ou afirmações.

nas cidades de São Paulo. por exemplo. haverá abertura para criação de novos falares ou modificação nos falares produzidos. Vejamos um exemplo do regionalismo da Libras nas imagens a seguir. que se prestam a designar a mesma coisa. inclusive utilizar-se de diferentes estilos de fala em diferentes ocasiões. não é possível estabelecer uma homogeneidade linguística por todo seu território nacional. nas palavras macaxeira. Esses modos distintos na fala de cada região são os chamados dialetos. assim. 36 Fonte: imagens adaptadas de Strobel e Fernandes (1998). o modo de sinalizar é diferente se o interlocutor for uma autoridade ou se forem colegas na rua. como ocorre com o português. por meio dela. Então.Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. aipim e mandioca. Podemos. e todos esses novos modos serão carregados de peculiaridades da região onde o grupo está localizado. pois. perceber que a Libras é bastante complexa em sua estrutura gramatical e que. respectivamente. revela-se a criatividade que o falante tem para inventar novas palavras e de ter um estilo próprio de fala. Sempre que houver a reunião de um grupo de sinalizadores. é possível conversar sobre diversos assuntos. Isso ocorre com a Libras. Trata-se de três sinais diferentes que se referem à palavra verde. que existem não só na Libras. Rio de Janeiro e Curitiba. mas em todas as línguas de sinais e orais. mesmo cada país adotando uma língua de sinais própria. e estes diferentes registros discursivos são manifestados por meio da velocidade dos movimentos e do espaço FAEL .

isso não denota agressividade ou briga por parte deles. vai até a cabeça e não se estende muito para os lados. Quando os ouvintes veem os surdos conversando. tem o espaço de sinalização bastante elevado e produzem muita expressão facial. Esse dado reitera que a Libras é uma língua que. é capaz de aprender qualquer língua à qual é exposta. O fato é que os surdos estão tendo uma conversa como outra qualquer. quando nós estamos em contextos informais. No entanto. na grande maioria. quando estamos conversando. O espaço para sinalização se inicia acima do quadril. Os surdos igualmente agem assim. vocalizará alguns sons. social ou econômica. provavelmente usará o espaço a frente do seu corpo com certo limite. mas uma fala normal. Os surdos sinalizam rapidamente um sinal após o outro. nascida em qualquer lugar do mundo. provavelmente. contém marcas de formalidade e de informalidade. Inicialmente. todas as palavras se ligam entre si na constituição da frase e do discurso. geográfica. sem significar uma briga. pois tem tanta completude que possibilita ao falante fazer escolhas diferenciadas de sinais. com os braços bastante alargados e. também falamos muito rápido. não nos damos conta de que são produzidos juntos. Porém. Um fenômeno elucidativo sobre esse assunto é quando as crianças surdas estão aprendendo a Libras. Assim também acontece na comunicação em Libras. Ao articular os fonemas da nossa língua portuguesa – um após o outro –. Ampliam os movimentos dos sinais. inclusive. também falamos muito alto e somos extravagantes. ou seja. de acordo com os tipos de situações experimentadas. ele sinalizará com muita expressão facial. Se o surdo quer ser bastante formal em sua fala.Capítulo 1 utilizado para sinalização. Além disso. se o contexto de fala é informal. e isto ocorre da mesma forma com o surdo. Dessa forma. de qualquer origem racial. pois sinalizam muito rápido e tem bastante expressividade. podemos ver como é possível o falante de Libras transitar entre diferentes estilos discursivos. elas têm a impressão de que estão brigando. elas aprendem Língua Brasileira de Sinais – Libras 37 . Essa impressão equivocada ocorre porque as pessoas não sinalizantes deixam de considerar que. Qualquer criança. mas o “tom” elevado da fala.

não consegue reproduzir da mesma forma a configuração de mão. Toca no filho e ajeita sua mão para que realize o sinal de forma correta. na Libras: a regularidade. como fazem as crianças ouvintes.Língua Brasileira de Sinais – Libras as unidades mínimas de maneira isolada. Solicita à mãe por várias vezes. a Libras também – têm parâmetros de realização que não podem ser alterados para sua efetiva comunicação. 38 Esse jogo discursivo. inconscientemente. sorri quando a mãe a repreende pelo mau jeito na realização do sinal. Assim. nos aponta para uma característica das línguas humanas. FAEL . mas tem dificuldade para fazer a configuração apresentada. até formar palavras completas. A criança gosta do sinal. A mãe ensina. porém. depois “babababa”. A mãe age com um input favorável. e a criança imita corretamente a localização e o movimento. Conforme já apresentamos. fazendo a intervenção devida. portanto. há exigência de que os elementos fonológicos sejam adequadamente produzidos na realização dos sinais. para que a auxilie. a localização e o movimento –. Isso também ocorre com as crianças surdas. em diálogo com a mãe. as línguas humanas – e. Tomamos como exemplo uma criança quando estava com dois anos e. que começam a balbuciar “aaaaa”. começa a aprender o sinal de sorrir (conforme figura a seguir). além de mostrar a importância do adulto no contexto de aquisição da linguagem. presente. a qualidade do input e outros. cada um dos três parâmetros – que são a configuração de mão. igualmente. até que aprende os três parâmetros e consegue realizar com precisão o sinal de sorrir.

é preciso que haja um desprendimento para aprender a se comunicar e se relacionar com os surdos. os paradigmas sobre a pessoa surda e sua língua passaram por reformas não só no que se refere à terminologia – surdo e Libras –. a chamada inclusão. o professor pode colar cartazes pela sala com o alfabeto manual e com os números.Capítulo 1 Da teoria para a prática Para aderir à ideia da diversidade linguística em sala de aula. pode colocar algumas perguntas no quadro e promover que dois alunos participem: um pergunta e o outro responde. Isso pode se dar por meio Língua Brasileira de Sinais – Libras . utilizando as letras manuais. nessa fase. Então. Perguntas: ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● Qual é o seu nome? Qual é o seu sobrenome? Quantos anos você tem? Qual é o nome da sua rua? Qual é o nome do seu bairro? Qual é o nome da cidade em que você mora? Qual o nome da sua mãe? Qual a idade da sua mãe? Qual o nome do seu pai? Qual a idade do seu pai? Qual o nome dos seus irmãos? 39 Síntese Neste capítulo. mas na forma de relacionamento com esta nova realidade. tratamos das definições preliminares e apresentamos ao leitor a fase histórica pela qual a sociedade está passando. Muito mais do que saber a forma de tratamento dessas questões. Explicamos que.

2008. mas já podem se focar em conhecer o comportamento de uma língua espaço-visual e tecer análise gramatical sobre ela. Output É a forma como a criança expressa o input que recebeu. dos empréstimos linguísticos. 21). foi preciso muito esforço para desmitificar os mitos que havia. Pidgin É um sistema de comunicação precário. É uma língua emergencial. FAEL . Atualmente. Nesses termos. percorremos com o leitor o mesmo percurso adotado no processo de valoração da Libras. de um jeito mais informal ou por meio de leituras e pesquisas linguísticas. pois. porque aparece em situações extremas de barreiras à comunicação (MCCLEARY. as pesquisas não mais se prestam a “comprovar” que a Libras é uma língua. assim como foi preciso arrolar alguns pressupostos universais na análise desta modalidade expressiva. Glossário 40 Input É o sinônimo para estímulo linguístico. os surdos foram brindados com a oficialização da sua língua por determinação legal. é o que ela consegue falar. ou seja. o que faremos no próximo capítulo. Dessa forma. p. para que houvesse todo o reconhecimento social e acadêmico que hoje existe quanto ao status desta língua.Língua Brasileira de Sinais – Libras do alfabeto manual. todas as influências verbais que são dadas às crianças quando estão aprendendo a falar.

atualmente. Neste capítulo. já que ela é uma língua espaço-visual que não tem som. e o semântico. Além dos fonemas. definição que torna o conceito suficientemente abstrato para abranger não apenas representações psíquicas de sons. Por dupla articulação. apresentaremos cada um destes aspectos linguísticos relacionados à Libras. que se ocupa em estudar as unidades mínimas da composição das palavras. o morfológico. Para resolver tal impasse. ao invés de fonema. Porém. que se ocupa com as escolhas das palavras. Assim. quando nos referirmos aos fonemas. Stokoe empregou a terminologia “querema”. as línguas naturais também são compostas por morfemas e palavras. que se ocupa em organizar as palavras na frase. e estas duas articulações – fonemas e morfemas – é que norteiam a dupla articulação apontada por Martinet (1978). não caberiam considerações fonológicas para a Libras. para o estudo das unidades mínimas da língua de sinais. Nesse sentido. Esse linguista diz que todas as línguas humanas possuem a dupla articulação. estamos fazendo menção às unidades mínimas que compõem a língua. sendo os principais: o fonológico. entendemos um plano de conteúdos (composto . que busca a relação das palavras e o sentido que elas têm. abstraída de realizações fonéticas concretas e infinitamente variáveis. Aspectos fonológicos É no nível fonológico que se encontram as considerações acerca dos fonemas – conceituados como unidade mínima do som. Para o pai da linguística. os pesquisadores de língua de sinais abandonaram o termo. a forma do significante refere-se a uma imagem acústica convencional. mas também de gestos (LEITE.Estrutura gramatical da Libras T 2 41 odo sistema linguístico é organizado em níveis de análise. o sintático. por entender o apontamento de Saussure (1970) quanto a isto. 2008).

porém. vemos que Stokoe (1960) propôs três componentes da estrutura interna dos sinais: configuração de mão (CM). Como a Libras é uma língua natural. Isoladamente. mas que sua combinação pode originar um número irrestrito de possibilidades significativas. esses parâmetros não têm conteúdo significativo (capaz de compor significação). Carro Movimento Configuração de mão Localização FAEL . podemos formar conteúdos irrestritos. quando os unimos. também é composta pela dupla articulação. Ônibus 42 Configuração de mão Movimento Localização O mesmo fenômeno ocorre com os sinais: avião e carro. conforme Leite (2008).Língua Brasileira de Sinais – Libras por morfemas e palavras) e um plano isento de conteúdos (composto por fonemas). É bom lembrar que ambas as articulações são restritas nas línguas naturais. Limitando-nos inicialmente à segunda articulação – fonemas –. localização (L) e movimento (M). Podemos constatar tal fenômeno. por meio da junção das articulações dos fonemas.

que registra 46 configurações diferentes. encontramos 64 configurações de mão. isoladamente. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Algumas dessas configurações de mão correspondem às letras do alfabeto manual. a fim de entendermos melhor a formação dos sinais. com as duas mãos.Capítulo 2 Avião Movimento Configuração de mão Localização Mesmo percebendo que. analisaremos cada um deles em sua composição. conforme podemos verificar na figura a seguir. 43 Configuração de mão O primeiro parâmetro – configuração de mão – refere-se à forma que a mão assume na realização do sinal. mas não se restringem a elas. mas ambas com configurações de mão iguais. Para as configurações de mão da Libras temos o quadro de Brito (1995). por sua vez. considerando a inexistência de identificação quanto às configurações de mão básicas e às configurações de mão variantes. com as duas mãos produzindo configurações de mão diferentes ou. ainda. Já em Felipe (2001). Essas configurações podem dar origem a sinais da Libras se forem produzidas apenas com uma mão. os parâmetros não transmitem significado. Quadros e Karnopp (2004). apontam que essas configurações de mão são representações do sistema fonético da língua.

pois o seu sentido não será alterado. expomos alguns exemplos a seguir. FAEL . 44 Fonte: adaptado de Felipe (2005). Configuração de mão com apenas uma mão: este é o tipo de sinal que pode ser produzido com qualquer uma das mãos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Figura As 64 configurações de mão da Libras. A fim de elucidarmos as possibilidades de formação de sinal a partir da configuração de mão.

Capítulo 2 Aluno Professor Lápis Caneta 45 Cola Tesoura Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Vestibular Português ou Ciências História 46 Uniforme Educação FAEL .

Capítulo 2 Duas configurações de mão diferentes. Curso Pós-graduação Mestrado Educação artística 47 Estudos sociais Intervalo Língua Brasileira de Sinais – Libras .

uma mão será a base e a outra ativará o movimento. ou seja. mas a ordem de predominância será mantida. vemos que nesse tipo de construção a primeira configuração de mão é a base que se forma em b. que se realizam com ambas as mãos moldando-se com a mesma configuração de mão e com a realização de um movimento simultâneo e simétrico. Antes de falarmos sobre a condição de simetria. A primeira é a condição de dominância. outras configurações de mão poderão ser realizadas. Duas configurações de mão iguais: sinais desta natureza são formados por duas configurações de mão iguais. nesse caso. encontramos em Battison (1974) duas restrições. É o caso dos sinais apresentados a seguir. um papel passivo. e a mão ativa se forma em c. que limitam consideravelmente as possibilidades articulatórias dos sinais.Língua Brasileira de Sinais – Libras Redação Apontador 48 Atendo-nos ao primeiro sinal. FAEL . Sobre a realização de um sinal que contém duas configurações de mão diferentes. A mão passiva. vejamos a realização de um sinal com as duas configurações de mão iguais. de apoio para a realização do movimento da mão ativa. e que realiza movimentos apenas com uma das mãos. Por condição de dominância o autor entende a ocorrência de sinais nos quais uma das mãos assume o papel ativo e. e a segunda é a condição de simetria. Em outros casos parecidos com esse. a outra. serve de base.

Capítulo 2 Sala Geografia Caderno Régua 49 Mochila Prova Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Matemática Educação física Química Nota 50 1 2 Dividir Multiplicar FAEL .

Locação O segundo parâmetro – a locação – refere-se ao espaço onde o sinal será realizado. podendo ser no próprio corpo do sinalizador ou no espaço neutro (espaço “vazio” a frente do corpo do sinalizador. em casos de sinais como os que mostramos. há a condição de simetria estabelecida. conforme imagens a seguir. Sinalização no espaço neutro: Tartaruga Hipopótamo 51 Foca Mosca Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Retomando as restrições articulatórias de Battison (1974). precisamente entre a cabeça e o quadril). temos que. em que as duas mãos estão ativas e realizam o mesmo movimento.

Dentro desses pontos principais estão as subdivisões. a saber: cabeça. Subdivisões dos principais pontos de locação: Macaco Boi Sinal com locação na cabeça Sinal com locação na testa FAEL . conforme Brito (1995).Língua Brasileira de Sinais – Libras Urso Jacaré Peixe Borboleta 52 Há. tais como os exemplos que seguem. tronco e mão. três pontos principais de locação.

Capítulo 2 Galinha Rato 1 2 Sinal com locação no rosto Papagaio Sinal com locação na bochecha Pato 53 Sinal com locação no queixo Cobra Sinal com locação na boca Coruja Sinal com locação no pescoço Sinal com locação nos olhos Língua Brasileira de Sinais – Libras .

circular. sendo possível produzi-los de forma unidirecional. Além disso. retilíneo. eles podem ser produzidos com diferentes tensões. semicircular. velocidades e frequências. helicoidal e angular. Em Strobel e Fernandes (1998). Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes tipos de movimento. bidirecional ou multidirecional.Língua Brasileira de Sinais – Libras Porco Sapo Sinal com locação no nariz Dinossauro Sinal com locação no braço Zebra 1 54 2 Sinal com locação na mão Sinal com locação no tronco Movimento Movimento. o terceiro – e principal – parâmetro. FAEL . considerando sua vastidão de possibilidades. é bastante complexo. vemos que os movimentos podem ser do tipo sinuoso.

Capítulo 2 Espelho Telhado 2 1 Movimento sinuoso Xícara Movimento sinuoso Porta 2 55 1 Movimento semicircular Jardim Movimento semicircular 2 1 Movimento circular Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Cerca 1 2 Movimento retilíneo Liquidificador 56 Movimento helicoidal Eletricidade Movimento angular FAEL .

temos muitos casos como estes. podem formar muitos sinais da Libras e. para Língua Brasileira de Sinais – Libras . ocorre um fenômeno presente também nas línguas orais: os pares mínimos. para baixo ou para o corpo de quem sinaliza. estes sinais se distinguem por alteração apenas em um dos parâmetros. em que há apenas uma sutil diferença na pronúncia dos fonemas f e v. para fora. Na Libras. A orientação de mão é a direção que a palma da mão assume na realização do sinal. às vezes. os chamados pares mínimos podem ser exemplificados pelas palavras faca e vaca. Nesses casos. destacamos a orientação de mão e as expressões não manuais. A palma da mão pode estar voltada para cima. No português. o segundo e o terceiro parâmetro.Capítulo 2 O primeiro. Citemos alguns: Laranja / sábado Aprender 57 Cantar Comunicar Além desses parâmetros. quando associados.

FAEL . Ir de frente para trás. Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes orientações para o sinal de ir. exemplos de sinais isolados com expressão facial. tópico e foco. A seguir. referência pronominal. concordância. Ir da direita para a esquerda. obrigatórias nas construções sintáticas. negação. referem-se às expressões faciais e aos movimentos do corpo produzidos durante a realização do sinal. assim como ocorre nas línguas naturais. Ir de trás para frente. As expressões faciais não são recursos adicionais ou dispensáveis na Libras. bem como para marcar afetividades. conforme Quadros e Karnopp (2004). 58 As expressões não manuais. advérbios. já que neste momento não abordaremos a construção das frases. mas. Esses movimentos também podem ser realizados isoladamente para marcar construções sintáticas – marcar sentenças interrogativas. sim. grau ou aspecto. Ir da esquerda para a direita. relativas.Língua Brasileira de Sinais – Libras a esquerda e para a direita. referência específica.

Capítulo 2

Bravo

Triste

Feliz

Cansado

59

Bondoso

Humilde

ou

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Esquisito

Tímido

Calmo

Inocente

60
ou

Doido

Esnobe

FAEL

Capítulo 2

Vaidoso

Chato

Chorão

Tarado

61

Podemos perceber que a realização desses sinais fica condicionada ao uso das expressões faciais, até por uma questão de coerência, pois não seria muito lógico produzir o sinal de triste com um sorriso no rosto ou, então, o sinal de feliz com uma expressão de cansaço e tristeza. Certamente, nosso interlocutor questionaria nossa produção e precisaríamos definir qual a mensagem a transmitir: a do rosto ou a das mãos. Isso porque há sinais produzidos apenas com a expressão facial, com a dispensa de qualquer realização manual. Na Libras, há dois tipos de expressões faciais: as que se prestam a marcar argumentos gramaticais e as que são de cunho afetivo. Neste texto, abordaremos apenas o primeiro tipo e, como exemplo, vejamos os sinais de roubar e sexo:
Língua Brasileira de Sinais – Libras

Esses elementos. 2001). FAEL . Na Libras. assim como o fonema /s/ pode indicar o plural. pode constituir um morfema. os fonemas /a/ e /o/ podem ser artigos ou desinências de gênero. é que são as unidades mínimas da morfologia (SANDALO. por exemplo. se faz necessário. 183). há elementos que carregam significado. 62 Aspectos morfológicos da Libras Se estivermos entendendo que o nível morfológico é aquele que compreende o trabalho de seleção das palavras. definirmos o que entendemos por palavra. na Libras. primeiramente. Do mesmo modo. conforme Felipe (1998). os fonemas podem ter a natureza de um morfema. determinada configuração de mão. eles apresentam significado isoladamente. chamados de morfemas. passemos a algumas considerações teóricas quanto à morfologia e à sintaxe da Libras. p.Língua Brasileira de Sinais – Libras Roubar Sexo Assim sendo. dentro das palavras. Assim como ocorre com o português. Entretanto. A seguir ilustramos alguns sinais que podem ser considerados morfemas. “palavra é a unidade mínima que pode ocorrer livremente em várias posições sintáticas”. os parâmetros fonológicos também podem ser comparados a morfemas. pois. às vezes. Segundo Sandalo (2001. por exemplo.

Capítulo 2 Dois meses Três meses Quatro meses Um dia 63 Dois dias Três dias Língua Brasileira de Sinais – Libras .

FAEL . os parâmetros – isoladamente – não constituem morfemas. resultam em uma unidade com significado. mas somente com os morfemas que indicam os meses. Os sinais reproduzidos na sequência são exemplos de que a articulação conjunta de cada um dos parâmetros é que forma o significado. não podem ocorrer isoladamente. 2004). KARNOPP. Nesse caso. nesses sinais.Língua Brasileira de Sinais – Libras Uma semana Duas semanas Três semanas 64 Vemos que. as configurações de mão carregam o significado do numeral. mas. Em alguns sinais. elas constituem um morfema preso. ou seja. no entanto. quando articulados juntos. os dias e as semanas (QUADROS.

Capítulo 2 Ontem Hoje Amanhã Passado 65 Futuro Ano Língua Brasileira de Sinais – Libras .

QUADROS. Dadas as primeiras definições. há na Libras morfemas lexicais (o sinal de sentar. LEITE. em especial o parâmetro do movimento. a locação e a orientação constituem um único morfema. de acordo com Brito (1995). altera-se somente a expressão facial do sinalizador. KARONOPP. em que apenas a configuração de mão se modifica. Ainda. o movimento. 2004. a configuração de mão que representa o numeral se combina com outro morfema preso para formar um sinal. um morfema livre. No caso da incorporação de numeral. por exemplo) e morfemas gramaticais (movimento). Como já discutimos acerca desse ponto quando exploramos a constituição de sinais que representam morfemas. 1995.Língua Brasileira de Sinais – Libras Percebemos que a configuração de mão. 2008). A seguir vemos o contraste entre os sinais dos verbos e a formação de palavras de negação. 66 Nesse processo. nesse caso. passemos às considerações dos processos de formação e classificação de palavra (BRITO. passemos a discussão da incorporação da negação. FELIPE. Ter Não ter Parâmetro movimento alterado FAEL . um dos parâmetros do sinal é alterado. Em alguns casos. via alteração de movimento e via alteração da expressão facial. Um dos processos de formação de palavras é por meio da incorporação de numeral e de negação. 1998.

Capítulo 2 Saber 1 Não saber 2 Parâmetro movimento alterado Gostar Não gostar 67 Parâmetro movimento alterado Querer Não querer Parâmetro movimento alterado Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Poder Não poder Parâmetro configuração de mão alterado Conhecer Não conhecer 68 Parâmetro expressão facial alterado Entender Não entender Parâmetro expressão facial alterado FAEL .

conforme exemplos: Não responder Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Precisar Não precisar Parâmetro expressão facial alterado Aceitar Não aceitar 69 Parâmetro expressão facial alterado Além desses processos morfológicos que caracterizam formação de palavras. a negação também pode ser formada pela adjunção do sinal não ao respectivo sinal.

Casa + cruz = igreja Casa + estudar = escola FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras Não sofrer Não terminar Não resolver 70 Há. ainda. resultando em uma composição. outro processo morfológico que acontece pela combinação de dois morfemas lexicais. Vejamos nos exemplos a seguir que um sinal pode ser formado por dois sinais independentes que se unem para formar uma palavra composta.

Capítulo 2 Casa + carne = açougue Casa + pão = padaria 1 2 Boi + leite = vaca 1 Cavalo + listras = zebra 1 71 2 2 Mulher + cruz = enfermeira Mulher + benção = mãe 1 2 Língua Brasileira de Sinais – Libras .

por meio da combinação de dois morfemas lexicais. 72 Homem + cunhado(a) = cunhado Mulher + cunhado(a) = cunhada 1 1 2 2 Homem + sogro(a) = sogro Mulher + sogro(a) = sogra 1 2 1 2 FAEL . Isso significa que. um que se refere ao elemento morfológico neutro e outro que se refere à marcação de gênero.Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + benção = pai Espaço redondo + lavar corpo = banheira 2 1 2 O mesmo processo morfológico ocorre em relação à formação de palavras que denotem gêneros. na Libras. o gênero é dado pelo processo de composição morfológica.

Capítulo 2 Homem + primo(a) = primo Mulher + primo(a) = prima 1 1 2 2 Homem + tio(a) = tio 73 Mulher + tio(a) = tia Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + irmão(ã) = irmão Mulher + irmão(ã) = irmã 74 Homem + sobrinho(a) = sobrinho Mulher + sobrinho(a) = sobrinha FAEL .

a formação de palavras que denotam “categorias” também passa pelo processo de composição. conforme exemplos a seguir. Maçã + vários = frutas Alface + vários = verduras 1 1 2 2 Arroz + vários = cereais Leão + vários = animais 75 1 2 Batata + vários = legumes Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Não obstante.

que diferem sua classificação nominal ou verbal pela alteração do parâmetro movimento: Cadeira Sentar FAEL . como é o caso destes sinais: Telefone Telefonar 76 O sinal de telefone é produzido com a configuração de mão em y. Se o movimento for alongado. firme e feito mais de uma vez. firme e único. na locação perto da orelha e com movimentos curtos. pode dar a ideia de telefonar várias vezes. mas o movimento é mais alongado. leves e repetitivos na direção do espaço a frente do corpo do sinalizador.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com relação à classificação das palavras. O sinal de telefonar tem a mesma configuração de mão e a mesma locação. Da mesma forma se configuram estes outros sinais. o que sabemos é que um nome pode derivar de um verbo por meio da repetição e do encurtamento do movimento do verbo.

Capítulo 2 Comida Comer Pente Pentear 77 Foto Fotografar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

os parâmetros fonológicos que compõe o sinal serão mantidos. FAEL . destacamos neste momento três tipos deles.Língua Brasileira de Sinais – Libras Casa Morar Bebida Beber 78 Ainda com relação aos verbos da Libras. A seguir. processo distinto do que ocorre com os verbos vistos na seção flexão. os verbos manuais e os classificadores. independente da construção da frase. ilustramos alguns verbos simples da Libras. a saber: os verbos simples. os que se enquadram nesta categoria serão abordados na próxima seção. Esses verbos não são produzidos por processo de flexão. Constituir-se como um verbo simples significa que.

Capítulo 2 Quebrar Rir Sentir Sujar 79 Trabalhar Viver Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Sonhar Gritar ou Trair Tentar 80 Ouvir Opinar FAEL .

apontamos que são aqueles que se configuram pela incorporação do objeto a que se referem. pois estas partes são o lugar de localização do sinal. Eles podem ser considerados icônicos pela representação da realidade. na mesma localização. Ainda que seja para se referir a outra pessoa do discurso. com a mesma configuração de mão e com a mesma orientação. Alguns exemplos: Língua Brasileira de Sinais – Libras . o verbo será produzido do mesmo modo. Com relação aos verbos manuais.Capítulo 2 Roubar Salvar / apoiar Morrer Preocupar 81 A maioria desses verbos é produzida nas partes do corpo do sinalizador.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Abrir (o pote) Cozinhar Mendigar Limpar (janela) 82 Costurar Escrever FAEL .

Então.M. este sinal remete à ideia da ação que ocorre com uma pessoa. Verbo cair Originalmente. Classificador do verbo cair (papéis) Se for preciso referir-se a mesma ação de cair. Assim. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. Isso é perceptível pela configuração em v. porém. mas alguns papéis. e preservação do movimento. apresentamos a seguir o sinal raiz de alguns verbos e o sinal classificador.Capítulo 2 Cortar (com tesoura) Dormir Lavar (a roupa) Os classificadores são aqueles verbos que têm sua configuração de mão inicial (sinal raiz) alterada por influência da semântica. do léxico ou da sintaxe. 83 Língua Brasileira de Sinais – Libras . que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir ao chão. haverá alteração da C. com o parâmetro configuração de mão alterado. o sinal foi classificado em sua semântica.

passaremos a conhecer os processos morfológicos mais complexos. haverá alteração da C. o sinal foi classificado em sua semântica.M. no entanto. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa.Língua Brasileira de Sinais – Libras Verbo andar Originalmente. FAEL .M. Então.. mas um gato. haverá alteração da C.. Então. 84 Classificador do verbo andar (de um gato(a)) Se for preciso referir-se a mesma ação de andar. Isso é perceptível pela configuração em v que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir à frente. porém. Então o sinal foi classificado em sua semântica. Então. Classificador do verbo andar (de uma galinha) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar. Classificador do verbo andar (de carro) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar. o sinal foi classificado em sua semântica. haverá alteração da C. mas um carro. este sinal remete à ideia da ação realizada por uma pessoa. especialmente aqueles formados por flexão. Postas as questões preliminares dos processos morfológicos da Libras. do movimento e da localização. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma cobra.. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma galinha. Classificador do verbo andar (de uma cobra) Se é preciso referir-se a mesma ação de andar. do movimento e da localização.M. haverá alteração da C. e preservação da direção. do movimento e da localização. o sinal foi classificado em sua semântica.M.

de flexão nominal.Capítulo 2 Flexão Segundo Câmara Jr. o termo “flexão” tem sua origem na língua alemã. conforme ilustrados a seguir. demonstrativos. com o acréscimo de uma desinência correspondente à função que exerça na frase. (1985). ao conceito de flexão. numa relação fechada. há pronomes pessoais. segunda e terceira pessoa. Para ele. O primeiro processo. vamos conhecer cada um deles. É nesse escopo da morfologia flexional que se destacam os processos de flexão nominal e verbal. e os primórdios de sua utilização aconteceram na indicação do desdobramento de uma palavra em outros empregos. também. a obrigatoriedade e a sistematização coerente. possessivos. Câmara Jr. (1985) associa. Sendo assim. ● Pronomes pessoais podem representar primeira. Na Libras. a flexão é a formação de uma palavra por meio de um morfema. indicando uma modalidade específica. sendo que estas são impostas pela própria natureza da frase. de acordo com a natureza desta. o autor assinala que a flexão se apresenta sob o aspecto de desinências ou sufixos flexionais. e podem aparecer no singular ou no plural: Singular 1ª pessoa – eu Nós dois 85 Plural Nós três Nós quatro Nós grupo Língua Brasileira de Sinais – Libras . No português. constituindo uma ideia acessória em que o significado base não é alterado. Isso demonstra que a flexão é definida como um processo pelo qual uma palavra é adaptada a um contexto. interrogativos e indefinidos. pode ser explicitado por meio dos pronomes.

que se voltam para o local referenciado. Este(a) aqui Esse(a) aí Aquele(a) lá FAEL . Sua realização sempre vem acompanhada da direção dos olhos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Singular 2ª pessoa – você Vocês dois Plural Vocês três Vocês quatro Vocês grupo 3ª pessoa – ele(a) Eles(as) dois/duas Eles(as) três Eles(as) quatro Eles(as) grupo 86 ● Os pronomes demonstrativos são iguais aos advérbios de lugar.

A realização desses pronomes sempre vem acompanhada de expressão facial. incorporam alguns advérbios de tempo.Capítulo 2 ● Pronomes possessivos: Meu (minha) Teu (tua) Seu (sua) ● Pronomes interrogativos: em alguns aspectos. Que? / Quem? Porque ou por que? 87 Onde? Quando? 2 1 Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Como? Qual? Quantos(as)? ● Pronomes indefinidos: Ninguém Nada = sem 88 Nenhum Nada FAEL .

A seguir. é a modificação paramétrica capaz de apresentar distinções para “tamanhos”.Capítulo 2 Já a flexão para grau. nos quais constam alterações das expressões faciais. alguns exemplos para flexão nominal de grau. Casa Casinha Bonito(a) Bonitinho(a) 89 Legal Legalzinho(a) Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Alto(a) Altão (altona) Calor Calorão 90 Inteligente Inteligentão (inteligentona) FAEL .

ao invés de ser na boca. mas a trajetória do movimento será à esquerda. Se o receptor da fala está à esquerda. temos o verbo falar. Nesse caso. ser concordado para ele(a) me falou. a direção do movimento será à direita. ou seja. temos a possibilidade de flexão para pessoa. apresentamos alguns exemplos de verbos que concordam com a pessoa do discurso. para todas as diversas localizações possíveis para o receptor. Assim. o ponto inicial do movimento permanece sendo na boca. Como primeiro exemplo. anteriormente ilustrado. É o caso do sinal falar. haverá inversão do ponto inicial do sinal que. número. será na localização que está referenciada para o objeto (segunda pessoa do discurso). Os verbos que se flexionam em pessoa são chamados de verbos com concordância.Capítulo 2 Quanto à flexão verbal. A localização inicia-se com o polegar próximo a boca do sinalizador e movimenta-se na direção de quem receberá a fala. A seguir. e assim sucessivamente. dedos mínimo e polegar abertos). a concordância na Libras está na sentença: eu falo para você. a primeira pessoa do discurso – eu – falo (verbo com concordância) para a segunda pessoa do discurso – você. a trajetória do movimento é oposta: inicia-se no objeto indo em direção ao sujeito. Esses verbos são chamados de verbos reversos (backward verbs).Concordância do verbo falar: Língua Brasileira de Sinais – Libras 91 . Falar O verbo falar é produzido com a configuração de mão em y (mão fechada. Isso que dizer que se a pessoa que será o receptor está à direita do emissor. Ocorre que. locativo e aspecto. em alguns casos.

Adiantamos.Língua Brasileira de Sinais – Libras 1s Falar2s 5 2s Falar1s 92 Falar3s 2s Explicando a concordância para os sinais apresentados anteriormente. que as pessoas do discurso são transcritas como: 1s = 1 pessoa. entretanto. entendemos que há um processo morfologicamente complexo 5 Maiores detalhes sobre as transcrições adotadas no texto estão expostos no capítulo 3. FAEL . e assim sucessivamente.

que marca o argumento semanticamente. ● Um afixo verbal – a orientação da mão. denominado DIR (directional). pois.Capítulo 2 envolvido nesta realização. ● Um morfema direcional – o movimento da trajetória. O mesmo processo pode ocorrer com os seguintes verbos: Perguntar Ver Mandar Dar Responder Visitar 93 Mostrar Mudar Obedecer Língua Brasileira de Sinais – Libras . segundo Meir (2002). é possível visualizar três componentes: ● A raiz do verbo falar.

uma delas é a diferenciação entre singular e plural.Língua Brasileira de Sinais – Libras Mexer Paquerar Pedir Influenciar Matar Pagar 94 Em relação à flexão para número. o sinalizador pode referir-se a. do trial e do múltiplo. Além disso. dar para três pessoas. por exemplo. apontamos que pode ocorrer com os mesmos verbos colocados anteriormente (verbos com concordância) e há. perguntar para duas pessoas. FAEL . Assim. do dual. dando a indicação de flexão para número e depois a marcação diferenciada pelas palavras no singular e no plural. apresentamos alguns exemplos do sinal entregar com concordância para número e outros. realizada por meio da repetição do sinal. A flexão de número refere-se à distinção feita para um. possibilidade de indicação do singular. dois. neste caso. três ou mais referentes. Vejamos outros verbos de concordância. na Libras existe a possibilidade de várias formas de substantivos e verbos apresentarem a flexão de número. mostrar para quatro pessoas ou ver todas as pessoas. A seguir.

Capítulo 2

Concordância do verbo entregar:
1s

Entregar

2s

1s

Entregar

2s + 3s

95

1s

Entregar2s + 3s + 4s

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

1s

Entregar vários

96

1s

Entregar grupo6

6 Uma variação possível desse sinal é a realização do movimento com ambas as mãos, denotando, desta forma, a ideia de entregar para muitas pessoas ou entregar para um
grupo grande.

FAEL

Capítulo 2

Agradecer uma pessoa

Abandonar duas pessoas

97

Encontrar três pessoas

Língua Brasileira de Sinais – Libras

como em pessoas no sentido de multidão. se faz a repetição da forma no singular. Quanto à flexão de locação. exceto em casos em que houver sinal específico para marcação do plural. em que sinalizamos ano + ano + ano. FAEL . para o plural. por exemplo. em que é possível perceber o trajeto percorrido desde o seu início até o local de chegada. como no caso da marcação de anos. Para árvores. flexionado para a locação que está à frente do corpo do sinalizador. e assim com todos os outros nomes que recebem flexão de número. conforme a seguir. Os verbos que recebem essa flexão são chamados de verbos espaciais. como é o caso do verbo ir. usamos o sinal de árvore repetidamente. temos a incorporação de locativo na sua realização.Língua Brasileira de Sinais – Libras Aconselhar quatro pessoas Beijar todas as pessoas 98 A diferença da marcação do singular e do plural é que.

apenas o verbo.Capítulo 2 Ir Outros exemplos desses verbos: Verbo andar Ir de carro Ir de avião 99 A flexão para aspecto é marcada de duas formas: lexical e gramaticalmente. pois a flexão codifica como a situação por eles referida se estrutura. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Tais marcações dão origem ao aspecto lexical e ao aspecto gramatical. Sua expressividade se manifesta. O aspecto lexical é aquele em que. reproduzidos na sequência. por exemplo. manifesta a duração da ação. na oposição semântica verificada entre os verbos procurar e encontrar. respectivamente.

como não durativa. e se refere a eventos presentes. ou seja. O perfectivo é produzido com movimentos retos e abruptos. tomemos o exemplo do verbo cuidar em seu padrão de movimento: Cuidar O sinal raiz do verbo cuidar é produzido com a mão passiva fechada (configuração de mão em s). Para ilustrar o que dissemos até aqui. já encontrar codifica a situação como pontual. e se relaciona a eventos passados. A mão ativa configura-se em v e FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras Procurar Encontrar 100 Procurar é um verbo que codifica a situação como durativa. Por outro lado. sendo que o braço fica na horizontal do tronco. enquanto que o imperfectivo é produzido com movimentos lentos e contínuos. aspecto gramatical é aquele que pode ser codificado em perfectivo ou imperfectivo. colocada à frente do corpo.

podemos reforçar essa indicação lexical por meio do aspecto gramatical imperfectivo. através do movimento representado a seguir. É claro que. ou seja. e que o afastamento da mão passiva será mais alongado em relação ao afastamento que há na produção do sinal raiz. indicando uma situação que se desenvolve ao longo do tempo.Capítulo 2 leva o pulso a tocar no peito da mão passiva. Isso quer dizer que haverá o contato do pulso da mão ativa com o pulso da mão passiva mais de uma vez. lento e contínuo. Cuidar imperfectivo 101 Nesse caso. Todavia. pelo próprio léxico. esse verbo transmite o significado aspectual durativo. a retomada do contato será feita de modo mais lento. podemos indicar uma situação que perdura de forma ininterrupta. O movimento que gera o contato de ambos os pulsos é curto e firme. temos a seguinte observação: Passear perfectivo Língua Brasileira de Sinais – Libras . mantém-se a configuração de mão e a localização do sinal raiz e altera-se o movimento para alongado. Já com relação ao verbo passear.

O mesmo ocorre com o verbo esperar: Esperar Mãos configuradas como “esperar” na direção de cima para baixo. com movimentos retos e curtos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Pudemos observar as mãos configuradas em b. curtos e abruptos no espaço neutro. Passear imperfectivo 102 Observamos que. para realizar o sinal com marca do imperfectivo. passando alternadamente sobre os ombros. mas o movimento foi mais alongado e contínuo. FAEL . foi utilizada a mesma configuração de mão do sinal neutro. com movimentos retos.

como também existem sinais da Libras que não são traduzíveis para o português. em. Sintaxe é a organização de um enunciado em torno de um verbo. Veremos o passo a passo da construção sintática da Libras. alongado e contínuo no espaço neutro. Para construir um enunciado na Libras não é preciso adicionar conjunções e preposições (de. te. até porque existem palavras do português que não são traduzíveis para Libras. pois as ideias são formuladas no espaço e a construção da coerência e da coesão acontece de modo bem diferente. mas com movimento lento. Assim como não é necessário seguirmos a mesma ideia do português. para. todos os conceitos que são transmitidos em uma língua podem ser transmitidos em outra. sentenças condicionais. é preciso apenas buscar termos equivalentes. Aspectos sintáticos da Libras Neste tópico.Capítulo 2 Esperar imperfectivo Mesma configuração de mão do sinal neutro. a saber: sentenças negativas. sentenças afirmativas. Porém. com. da organização dos campos de referência e da flexibilidade das categorias gramaticais. sentenças relativas. sentenças com 103 Língua Brasileira de Sinais – Libras . sentenças com foco. da ordem dos constituintes. vamos discutir um pouco sobre a sintaxe da Libras. sentenças interrogativas. na) como fazemos no português. em se tratando dos tipos de frases. Tipos de frases na Libras Na Libras é possível construir sete tipos de frases.

Língua Brasileira de Sinais – Libras

tópico. Elas são constituídas de um tipo dado, especialmente pela expressão facial. Vejamos cada uma delas: ● Sentenças negativas – são aquelas que apresentam uma ideia sendo negada. Elas podem ser formadas pelos sinais que incorporam a negação – anteriormente apresentados –, pela expressão facial negativa junto ao verbo ou pelos sinais a seguir, acrescidos ao final da frase.
Não Nada Nunca

104

Em Libras é possível negar a ação de comer de várias formas: Eu comer não. Eu comer nada. Eu comer nunca. Eu comer (expressão de negação). ● Sentenças interrogativas – são aquelas formuladas com a intenção de obter alguma informação desconhecida. A formulação do questionamento se dá com os pronomes interrogativos – anteriormente dados – inseridos no início ou no final da frase, como nos exemplos a seguir:
O que você comer hoje? Como você trabalha? Você comer hoje o quê? Você trabalha como?

FAEL

Capítulo 2

Onde você mora? Quem sabe? Por que isso aconteceu? Para que você fez isso? Quando você vai casar?

Você mora onde? Sabe quem? Aconteceu por quê? Você fez para que? Você vai casar quando?

Além das perguntas chamadas qu, há também as sentenças interrogativas nas quais a intenção não é obter uma resposta completa, mas simplesmente sim ou não, como: Você quer leite? Você gosta dele? Você conhece a China? ● ● Sentenças afirmativas – são aquelas que afirmam determinada ação: Eu vou a festa à noite. Sentenças condicionais – são aquelas que estabelecem uma relação de condição e consequência para a realização de algo. Por exemplo: Se você me contar, faço segredo. Sentenças relativas – são aquelas que inserem uma informação adicional à frase, uma informação que seja relativa à informação principal que está sendo transmitida pela sentença. Em Libras, isso ocorre com a expressão facial mantida na oração principal e modificada na relativa. Por exemplo: Aquele homem, que fala muito, está de férias. Sentenças topicalizadas – são aquelas que empregam o tópico. O tópico anuncia o assunto a ser desenvolvido ao longo da sentença. Por exemplo: Carro, eu gosto de Uno. Sentenças focalizadas – são aquelas que usam o foco. O foco serve para destacar ou contrastar alguma informação da sentença como em: Ana chorou, não Paula chorou.
105

Explicitados os principais tipos de frases na Libras, vamos aprofundar como os elementos se organizam na oração.
Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Ordem dos constituintes Em todas as línguas humanas há, pelo menos, três elementos sintáticos principais, que podem se ordenar na frase de diferentes maneiras. Esses elementos são: sujeito – é o termo que expressa o agente da ação (que pratica ou sofre); verbo – é o termo que expressa a ação; objeto – é o termo que qualifica ou detalha o verbo. Quadros e Karnopp (2004) apontam que a ordem dos elementos na sentença da Libras é, geralmente, SVO (sujeito – verbo – objeto). Elas dizem que, além dessa ordem, são possíveis também as seguintes: OSV, SOV e VOS, sendo estas derivadas da ordem canônica e construídas a partir de operações sintáticas, tais como topicalização ou focalização, conforme pesquisa de Pizzio (2006). A seguir, exemplificamos algumas sentenças com a ordem básica da Libras: SVO Eu gostar laranja. Você ter dinheiro.
106

Ele(a) saber Libras. Essa é a ordem chamada canônica, básica, e dela derivam as outras ordens – apontadas anteriormente –, exemplificadas a seguir:
oSV
Laranja ele amar. Bolo eu fazer. TV você ver.

SoV
Você laranja gostar? Eu presente comprar. Ele mãe visitar.

VoS
Gostar laranja ele? Passear praia você. Comprar casa eu.

Deve-se ressaltar, ainda, que alguns elementos apontados na frase podem ser apagados, pois na Libras, assim como em outras línguas, é possível que ocorra o apagamento, não apenas do sujeito, mas também do objeto. Na frase gostar laranja, o interlocutor identifica que há o sujeito eu oculto. Organização espacial Ao estudar os pronomes, verificamos que eles são utilizados para marcar as referências pessoais nos verbos com concordância. Em relação à
FAEL

então. se o sinalizador não quer que o referente saiba que ele está fazendo menção a ele. pode ocorrer mudanças quanto à direção e à localização de seu corpo. conforme Quadros e Karnopp (2004). Isso pode ser feito. 107 7 As exceções dessa construção sintática no espaço são o tópico e o foco. por ser esta sua natureza linguística. Assim. a que se lembrar que a Libras estabelece a maioria de sua organização sintática no espaço7. A enunciação se desenvolve com a mudança de posição de referência. à esquerda e/ou à direita do narrador. Por exemplo. suas enunciações. o sinalizador vai estabelecer aleatoriamente um ponto no espaço de sinalização para se referir ao sujeito e/ou objeto e fazer as apontações devidas. com referentes presentes ou não. ou quando ele está fisicamente no mesmo ambiente de quem fala. obviamente. neste espaço. Sobre isto. Algumas vezes. Conforme Quadros (1997). As vozes dos sujeitos. ainda. por exemplo. Língua Brasileira de Sinais – Libras . inclusive por apontação. No primeiro caso. a sinalização em direção a um lócus predeterminado ou a movimentação ocular para este mesmo local significa uma marca de referência a uma pessoa e/ou objeto. Estando o sujeito e/ou objeto visíveis. ver: Pizzio (2006).Capítulo 2 sintaxe. de várias maneiras. são marcadas segundo o lugar que cada um ocupa no espaço de sinalização. ou seja. todo enunciado em Libras é realizado no espaço de enunciação: um semicírculo virtual. que são construídos pela expressão facial. O corpo do sinalizador deve se situar no centro do raio do semicírculo e. quer dizer. porém. estando o narrador no centro do raio do semicírculo e os demais participantes da interação nas periferias. será uma fala às escondidas. que se desencadeiam todas as relações entre os sujeitos. A apontação se dá em dois casos: quando o referente não está presente no momento da enunciação. Dessa forma. com a outra mão aberta e com a palma sobre o dedo que aponta. por questão de etiqueta ou. É nesse espaço. sempre que precisar retomar o referente. nas diferentes situações discursivas. é possível usar o dedo indicador na direção do referido. basta que a apontação seja feita diretamente ao referente presente. seus diálogos e suas ações. é preciso que o sinalizador defina pontos específicos no espaço a cada referente que aborda no discurso. cujo perímetro é usado para a realização de referência a pessoas do discurso.

de acordo com a organização interna do discurso. o FAEL 108 . os políticos suavam bastante. Quando esse narrador deixa de contar os episódios gerais e passa a dar voz a algum personagem em específico. Esse espaço será fixo enquanto houver ação ou fala dessa mesma pessoa. por isso. No comício. as lideranças locais falaram primeiro. ao começar a sinalizar. ou seja. Então. até porque as alterações do lócus não ocorrem aleatoriamente. por exemplo. Então. estavam em comitiva. sua fala perdurou muito tempo. sim. quando for a vez do personagem que está à esquerda falar. dependendo do contexto em que se encontra. disse que discursaria tão rápido quanto havia feito seu amigo. ainda. Outra forma de o sinalizador construir a voz do personagem é por meio do processo chamado anafórico. Tomemos como exemplo para análise da construção sintática um texto que trata do fato de que o prefeito Paulo Maluf e o senador Amin foram visitar a cidade de Joinville. em cima de uma caminhonete. com seu corpo voltado à esquerda. ele se alterna continuamente dentro do espaço sinalizador. seguidos de Maluf e de Amim. Porém. enquanto acenavam para todos. Nesse sentido. e guiaram durante uma hora uma grande carreata pelas ruas. não haverá comprometimento da clareza de informação. o lócus referencial das pessoas do discurso não é fixo. mas. sinaliza a fala desta pessoa na direção de onde está a outra. de acordo com Massone (1993). se houver um diálogo entre dois personagens. Esse processo é a incorporação do personagem e a elaboração do discurso direto. o sinalizador aponta para um lugar a sua direita ou esquerda para marcação do espaço a ser ocupado pelo referido sujeito. o sinalizador estará sempre no centro do espaço e poderá produzir os sinais na direção do referente ou. o que fez com que Maluf comentasse com os políticos que estavam à sua volta: “– Imagine se ele não fosse careca!” Considerando que esse texto se caracteriza como uma narrativa. a pessoa assume o papel de narrador e a produção dos seus sinais será no espaço neutro.Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. o sinalizador toma primeiramente o lado direito. bem ao meio do círculo de sinalização. Porém. Maluf foi sucinto em seu discurso e quando Amim – o careca – tomou a palavra. Na ocasião. levar os olhos naquela direção para marcar o espaço. se por ora o sujeito referenciado aparecer à esquerda do narrador – centro do semicírculo – e por ora aparecer à direita. O dia estava muito quente e.

quando há necessidade de alocação de outros sujeitos no mesmo espaço que está sendo ocupado por objetos. na Libras. entretanto. É interessante notar que há prevalência do sujeito em relação ao objeto nas enunciações. a carreata e a comitiva. por meio de uma marcação sinalizada. Durante a tomada de voz de cada um dos personagens discursivos. há a possibilidade de fazer a diferenciação das vozes ao longo do discurso mediante movimento de ombros e incorporação do personagem. Para tanto. Dessa feita. Nesse momento. bem como a direção do olhar é para um terceiro espaço – do grupo de políticos. o sinalizador precisa destinar um lugar específico para outras referências. Assim.Capítulo 2 sinalizador se coloca deste lado. Além de organizar o espaço de sinalização para marcar o lugar de quem fala. os verbos direcionais – como é o caso de andar – instauram uma necessidade eminente de movimento. ainda. marcando a direção de origem e destino da ação expressa pelo verbo direcional. se faz priorizando as pessoas do discurso e não as coisas e objetos nele envolvidos. este espaço não pode invadir o espaço anteriormente definido para os personagens já apresentados. mas com uma inclinação de tronco à direta – como se estivesse olhando para quem fala – e sinaliza. Nesse caso. destacamos que. pelo contato ideário com o interlocutor colocado no espaço referenciado a ele e. Quando Amin fala ao prefeito. quando é preciso lançar mão de mais de uma construção espacial. como se estivesse limpando a fala dita até então e dando lugar a uma nova enunciação. No caso sob análise. há facilmente uma desconstrução desse primeiro espaço. a comitiva vai andar de um ponto definido pelo sinalizador até o outro no espaço. o espaço da comitiva se desfaz e dá lugar à presença de um grupo de políticos e assessores. Língua Brasileira de Sinais – Libras 109 . a sinalização é projetada para frente. enquanto Amin fala ao público. se pontua – com os números não quantitativos – a ordem de fala. por exemplo. há construção das enunciações de cada um. há necessidade de se fazer uma organização sequencial. ou seja. expressa pelas duas mãos passando da direita para esquerda. No entanto. utilizando-se da direção do olhar como um recurso identificador do sujeito. na Libras. a sinalização é feita na direção do espaço marcado para esse personagem e o último movimento de ombros. É interessante observar que.

a ordem dos constituintes e a forma de organização dos elementos no espaço. passemos à exemplificação. Barulhento Bobo Bondoso Confuso Chorão Bruto 110 Corajoso Infantil Engraçado FAEL . para depois os colocarmos em frases comparativas. relacionamos a seguir alguns adjetivos da Libras.Língua Brasileira de Sinais – Libras Agora que já conhecemos os tipos de frases. Para tanto.

Contrariamente. A mesma forma de construção frasal ocorrerá na utilização de qualquer adjetivo ou para suscitar qualquer tipo de comparação. explicaremos cada um deles.Capítulo 2 Fofoqueiro Famoso Egoísta Pensando numa construção frasal temos: João é mais bobo do que Maria. há um apontamento para o espaço onde foi colocado o primeiro personagem. na sequência. temos que destinar um espaço de sinalização. Na seção destinada à semântica. Imediatamente. colocamos o marcador “do que” (conforme a figura a seguir) na direção do espaço do João para o espaço da Maria. oposto ao primeiro. com a intenção de dizer “ele”. Do que 111 8 Há muitos sinais que podem significar mais. para escrevermos o nome “Maria”. haverá inversão da informação. Língua Brasileira de Sinais – Libras . por exemplo. destinamos outro espaço de sinalização. Em um segundo momento. à esquerda. Então. se o marcador comparativo for sinalizado da direção do espaço da Maria para o espaço em que se encontra João. Em Libras. para escrevermos com o alfabeto manual “João”. fazemos o sinal de “mais8 bobo” e.

momento de referência (MR) e momento do acontecimento (MA). Podemos citar. pois tal nos permite entender esta característica. representadas no próprio discurso. e um agora em que acontece a não concomitância. por exemplo. o qual transcorre no tempo presente linguístico. e o enuncivo. Cada vez que um locutor emprega a forma gramatical do presente. passado e futuro. como Fiorin. levando em consideração o momento da fala como ponto de referência para situar os acontecimentos. porém. FAEL 112 . Fiorin (2002) afirma que a temporalidade instaurada pela língua refere-se também às relações de sucessividade entre estados e transformações. Com isso. sob diferentes perspectivas. por isso. que expressa o momento em que ações verbais acontecem e. ao fato de se definir e de se organizar como função do discurso. É o caso. há uma vasta literatura. e isso pode ser demonstrado pela “junção” de categorias gramaticais em sua expressão e composição. autores mais recentes. que diz que o tempo linguístico é aquele que realiza o tempo do homem. em que existe uma concomitância entre o evento narrado e o momento da narração. todo discurso instaura um agora que equivale ao momento da enunciação. a qual se divide em anterioridade e posterioridade ao agora. Sobre questões como essas e outras peculiaridades teóricas da conceituação da categoria tempo. ordenado em função de momentos de referência (MR) instalados no enunciado. na qual encontramos diferentes abordagens e discussões dos autores.Língua Brasileira de Sinais – Libras Flexibilidade da Libras A Libras é uma língua flexível. Tanto aspecto quanto tempo são noções que se referem à temporalidade dos eventos. de Benveniste (1989). instaurando-o em um discurso. Para esse autor. escolhemos tratar da temporalidade. pode definir a existência de três tempos linguísticos: presente. relacionado diretamente ao momento da enunciação (ME) e organizado em função do presente que já está implícito na enunciação. Nesse sentido. que postulam três momentos relevantes na constituição do tempo: momento da enunciação (ME). também. A conceituação mais básica de tempo é que ele é uma categoria gramatical dêitica. Para ilustrar a flexibilidade da Libras. o tempo linguístico é singular por ser organicamente ligado ao exercício da fala. ele situa o acontecimento como contemporâneo à instância do discurso que o menciona. o autor aponta para a existência de dois sistemas temporais: o enunciativo.

simultâneo e posterior. presente e futuro. futuro. Esse autor analisa a lógica da manifestação temporal e realiza uma interpretação linguística da categoria tempo com base em três conceitos: momento de fala. entretanto. passaremos à demonstração de algumas possibilidades de expressão do tempo na Libras. Na Libras. que é formulado com a configuração de mão no espaço próximo ao ombro e com movimento dos dedos para trás. Nesse sentido. Por meio do momento de referência – em relação ao qual o momento do acontecimento também se norteia em termos de anterioridade. assim como em outras línguas. Passado 113 Língua Brasileira de Sinais – Libras . existe um marcador temporal específico. para então localizar os acontecimentos no eixo temporal. o tempo pode ser expresso por operadores temporais específicos na sentença: passado. conforme figura a seguir. momento do evento. dando a representação de passado. o momento do acontecimento pode se nortear de modo anterior.Capítulo 2 Há que se destacar. Por exemplo. simultaneidade e posterioridade – podemos obter codificações mais complexas. em relação ao momento da fala. porém. sua expressividade se dará por expedientes linguísticos distintos. Tal representação objetiva organizar as manifestações temporais das línguas naturais. para o tempo passado. momento de referência. presente. Dessa forma. Os três conceitos de tempo dados por Reichenbach (1947) podem ser aplicados a quaisquer línguas. que Reichenbach (1947) tem sido o grande marco teórico e que suas postulações têm servido de base a outros estudos acerca do tempo. uma vez que o próprio momento de referência se norteia em relação ao momento de fala.

Agora / hoje / presente 114 O futuro é sinalizado com o marcador temporal de futuro. que é sinalizado com ambas as mãos abertas. ou seja. pois para denotar a ideia de posterioridade ao momento da fala é preciso também que o sinal seja produzido para baixo. então. haverá um fenômeno agramatical. sendo que o posicionamento inicial da mão é no espaço neutro na altura do rosto e o movimento produzido é de afastar a mão em direção diagonal à frente. o operador temporal específico obedece ao critério “para trás e para baixo9” para. de modo que os dedos mínimos quase se tocam e paralelamente se distanciam. remeter ao referido tempo linguístico: passado. o sinal é produzido com a configuração de mão em f. O presente é definido pelo marcador temporal agora/hoje. se o sinalizador fizer os movimentos para cima e/ou para frente. palmas voltadas para cima e com um movimento simultâneo de aproximar e afastar as mãos. Conforme vemos na figura a seguir. FAEL . Nesse caso.Língua Brasileira de Sinais – Libras É interessante observar que esse sinal não segue as antigas relações de que sinais produzidos para trás do ombro estão no passado. de modo que fique longe do rosto: Futuro 9 Se não for produzido dessa forma. dedos juntos.

referindo-se a situações já ocorridas. ● “Eu ano 2000 casar futuro nascer filho 2003. antes disso. Tal variação pode acontecer em níveis distintos e caracterizar uma gradação temporal. sua leitura. Assim. portanto. Tradução: “Eu me casei em 2000. com uma expressão facial reduzida. conforme podemos ver nos exemplos a seguir. Isso significa que. namorei três anos”. é de posteriormente. portanto. ou seja.Capítulo 2 Esses três sinais são os principais marcadores dos conhecidos tempos linguísticos: passado. Sabemos que a Libras possui uma morfologia flexional que emprega variação no movimento do sinal e que. também. Nesse sentido. com isto. haverá denotações de “posteriormente” ou “antes disso”. com uma aproximação do cotovelo ao tronco do sinalizador e. eles podem estar demonstrando intervalos que ocorrem no passado. Porém. além do reforço na expressão facial. também. da marcação interna aos eventos. é possível que a diminuição do movimento somente para a ponta dos dedos. é de antes disso. ● “Eu ano 2000 casar passado 3-anos namorar. é capaz de expressar conceitos diferentes do sinal raiz. sua leitura. presente e futuro. Passado recente 115 Língua Brasileira de Sinais – Libras . se o sinal de passado sofrer ampliação dos movimentos dos dedos para o braço e houver um afastamento do cotovelo. será denotado passado distante.” A palavra em destaque demonstra intervalo que ocorreu no passado.” O sinal destacado demonstra intervalo que ocorreu no passado. como a língua é um sistema dinâmico e flexível. Tradução: “Eu me casei em 2000 e posteriormente nasceu meu filho”. dependendo da posição em que os sinais de passado e futuro estejam na frase. gere o sinal de passado recente. sua temporalidade vai além dos estabelecimentos tradicionais de tempo e se ocupa.

a leitura é de agora/hoje/presente/atualmente. 116 Imediatamente Essa mesma flexão morfológica. Sua realização se dá com o aproximar das mãos e com movimentos mais rápidos. Se ocorrer a diminuição do alcance do braço e uma expressão facial menos intensa. O sinal de futuro. sendo ampliado com alongamento do braço para frente e a expressão facial com reforço no olhar ao longe.Língua Brasileira de Sinais – Libras Passado distante Quando ocorrem flexões morfológicas via alteração do movimento do sinal presente. temos a variação para imediatamente/já/neste instante. caracteriza-se por futuro distante. Se o movimento for “neutro” e mais repetido. curtos e abruptos. obtém-se o futuro próximo. FAEL . por meio de alteração de movimento. conforme vemos nas imagens a seguir. se dá para o sinal de futuro.

antes. Esses advérbios geralmente vêm no começo da frase.Capítulo 2 Futuro próximo Futuro distante Além desses três sinais principais – passado. normalmente. mas também podem aparecer no final. semana passada. há outros que podem expressar a categoria tempo. Quando esses itens lexicais aparecem na frase. depois. anteontem. Assim sendo. São os sinais adverbiais: ontem. eles são inseridos no início da narrativa e servem para “conjugar” o tempo de toda a sentença. presente e futuro –. nunca. seguem as imagens de ontem e anteontem: Ontem Anteontem 117 Língua Brasileira de Sinais – Libras . Com fim elucidativo. o pressuposto da temporalidade marcada inicialmente é mantida até que apareça outro marcador temporal. amanhã. próxima semana. sempre.

as FAEL . Nas palavras da autora: O locutor pode se valer da suposição de que seu interlocutor tenha como familiar. 140). 118 Quer dizer. por flexão e por advérbios. três princípios norteadores de escolhas de seleção linguísticas que o falante opera. A leitura de tempo durante o ato conversacional ou discursivo pode ser estabelecida por pressupostos da pragmática generalizada. Finau (2004) coloca que há. para depois se casar. p. conversaram e no futuro casaram”. Esses princípios. ele serve como um limitador. é de que a referência temporal é dada de modo implícito. No entanto. o falante escolhe significados restritos à sua língua que podem ser presumíveis pela inferência do outro e. é possível perceber o tempo. o common ground (conhecimento compartilhado pelos falantes). a expressão da categoria tempo na Libras não conta apenas com léxicos específicos para sua realização. Esse conhecimento compartilhado hipotético auxilia a interpretação temporal dos eventos (FINAU. assim. mesmo não havendo marcas temporais explícitas (operadores ou flexões) no discurso do falante. desse exemplo colocado por Finau (2004). principalmente pelo conhecimento compartilhado entre os interlocutores. Isso implica em conhecimentos de mundo que os interlocutores compartilham e que possibilitam uma flexão semântica para os verbos e as devidas distinções temporais. em um dos seus mundos possíveis. Tradução: “Namoraram. conforme observado no exemplo: “Namorar. pois muitas vezes é preciso recorrer a aspectos pragmáticos para a interpretação temporal. Numa sentença como “Ana estudar até quarta série” vemos que o emprego do sinal quarta série é um quantificador que expressa o tempo de estudo. advérbios ou quantificadores. pela sequência discursiva para a narrativa.Língua Brasileira de Sinais – Libras Além de o tempo na Libras ser marcado por operadores temporais. conversar. que é preciso namorar. A análise subsequente. Para Levinson apud Finau (2004). futuro casar”. chamados também de heurísticas. Finau (2004) apresenta a teoria da análise pressuposicional para justificar a leitura temporal de sentenças que não contenham operadores temporais específicos. conversar. acontece a restrição temporal. 2004. ele também conta com expressões quantizadas para sua realização. compõem uma organização interpretativa dos enunciados. provavelmente. nessa teoria. Tal teoria postula que.

● Aquilo que é simplesmente descrito é um exemplo estereotipado. tem um significado a mais no enunciado. esses três princípios norteiam o status da interpretação do tempo das sentenças. Essa heurística propõe um contraste na restrição da seleção do que é dito e do que não é dito. não deve estar presente na interpretação temporal. pois não foi dito de uma forma normal. todo seu conhecimento de mundo e tem. passado. dessa forma. Língua Brasileira de Sinais – Libras 119 . se recebe uma descrição mínima ele traz à tona. 2004) que. hoje/agora. considerando a concordância implícita entre os interlocutores. ● Aquilo que é dito de uma maneira anormal. não é normal. uma interpretação maximizada. Se não foi dito. este elemento ausente não poderá ser o escolhido para a interpretação da estrutura frasal. no caso da Libras podem ser os sinais futuro. São as heurísticas de Levinson (apud FINAU. Esse é o princípio que trata das ampliações interpretativas feitas pelo interlocutor. Para Finau (2004). a sentença não pode ser interpretada estando no futuro. ele revela “algo a mais” do que sua lexicalidade permite expressar. aplicadas ao estudo da temporalidade na Libras. ou seja.Capítulo 2 determinações temporais dadas a partir de implicaturas conversacionais generalizadas são: ● O que não é dito não é. se um sinal foi flexionado por meio de alteração no parâmetro movimento. Em Finau (2004) vemos que. na conversação. permitem multiplicar o conteúdo informacional de qualquer sentença. Então. de acordo com os estereótipos dados. Finau (2004) aplica essa heurística para Libras e diz que se a sentença não apresentar o sinal futuro. quando flexionado. Isso quer dizer que. se há ausência de determinado fator temporal. É o caso do sinal passado que. Assim. Essa é a heurística que viabiliza a interpretação aspectualizada para marcadores que sofrem alteração morfológica.

estamos descartando o significado de tempo para cada um dos envolvidos no processo. por exemplo. trata-se de uma família de ideias. há palavras que não têm esta possibilidade dúbia de expressão. lar. para quem está à espera de alguém. por exemplo. se empregado em outro.Língua Brasileira de Sinais – Libras Aspectos semânticos da Libras Toda língua tem uma semântica implicada em seus itens lexicais. Apesar de terem suas especificidades. Podemos. daqui a pouquinho eu to aqui. É o caso. Por outro lado. Logo. Claro que.. abrigo.. inferir que pouco tempo se aproxima de uma quantidade determinada de minutos e nem chega a completar o ciclo de uma hora do relógio. O “problema” no discurso acima se deu devido a uma discordância quanto ao entendimento. que têm seu significado restrito a determinado contexto que. No português. Marido: – Não demorei. de brevidade no espaço temporal e. apartamento e cabana. eu pensei que fosse demorar uns vinte minutinhos. moradia. Poderíamos citar como exemplo os casos de desentendimentos de detalhes. quanto ao significado. estamos apenas brincando com uma situação que é recorrente no nosso cotidiano. Especialmente por estar no diminutivo. Esposa: – Demorou sim. quatro horas é muito tempo. quanto à semântica da expressão “daqui a pouquinho”. 120 Esposa: – Ué! Você não falou que voltava logo? Marido: – Mas eu não vim logo? Esposa: – Não. Quatro horas depois. das palavras casa. FAEL . como no discurso abaixo reproduzido: Esposa: – Amor. basicamente. Você disse que daqui a pouquinho estava de volta. essa expressão ganha um sentido de pouco tempo. a mesma ideia... assim.. sobrado. pode caracterizar uma comunicação truncada. nesse caso. você demorou. de fato.. residência. que horas você volta? Marido: – Ah. temos diferentes palavras que são capazes de representar. todas elas representam a ideia de lugar onde se mora.

tem uma conotação mais “concreta” do que em português. Especial 121 Língua Brasileira de Sinais – Libras . esse sinal não é muito usual em contextos relacionados às pessoas. O sinal de especial é empregado na Libras em contexto de definição bela sobre algo ou alguém. mas está querendo destacar qualidades que se deslumbram para ele. se produzidos em determinados contextos. privativo. como: importante no caso da primeira sentença e coisas próprias no caso da segunda. Essa relação entre significado e significante (o sinal) da Libras não é análoga à relação de significado e significante (palavras) da língua portuguesa. exclusivo. Quando um surdo usa o sinal de especial para alguém. Há sinais que. de beleza que se destaca tal qual o brilho em meio à escuridão. pois – mesmo sendo entendidos – podem gerar certo “estranhamento” ao interlocutor. ele não está querendo dizer que esta pessoa é importante em sua vida. fora do comum. excelente. Já na Libras. Assim. que se ressalta sobre os olhos. singular. deve haver a sinalização de outro item lexical que equivalha a este termo do português. notável.Capítulo 2 Esse mesmo fenômeno acontece na Libras. tornam-se mais adequados do que em outros. Isso significa que especial. quer dar ênfase a uma vivacidade notória. na Libras. está mais relacionada às coisas que se vê. em uma frase como “Você é muito especial para mim” ou “Esta criança tem necessidades especiais”. A palavra “especial” é usada no português para definir algo ou alguém como muito peculiar.

pois em Libras a melhor forma de representação desta ideia seria o uso do sinal de ensino. Há expressões como “educação especial” ou “educação de surdos” que. Educação Ensino 122 Algo semelhante se dá com o sinal de famoso. FAEL . Em Libras.Língua Brasileira de Sinais – Libras Esse tipo de especificidade de uso ocorre também com o sinal de educação. mas também com uma grande habilidade que ela possua. não há o emprego desse termo para definição do conceito. Famoso Essa frase está invocando a informação de que a referida pessoa é muito fluente. Em português. que é muito habilidoso na área da Libras. podem não se adequar semanticamente. se sinalizadas como a seguir. Há a possibilidade da seguinte construção na Libras: “Ele Libras famoso”. já que educação tem um cunho mais comportamental para os surdos. seu emprego não está relacionado só ao fato de uma pessoa ser muito conhecida. muito proficiente na sinalização. que não tem correspondência com a palavra na língua portuguesa.

dependendo do contexto de realização. 123 Sinal para marcar a ação de juntar. Língua Brasileira de Sinais – Libras . A palavra mais pode ser sinalizada das seguintes formas se os contextos de realização implicarem nas informações correspondentes: Sinal para marcar a ação de somar. acrescentar.Capítulo 2 Há inúmeros sinais dessa natureza para serem detalhados. Começando pela primeira maneira. no sentido de “maior”. numericamente falando. aproximar. de repetição. Sinal para marcar a ação de “mais uma vez”. Sinal para marcar a ação de comparação em relação a algo. operações matemáticas. mas encerramos por aqui nossas exemplificações e passamos ao estudo da polissemia. Exemplo: 2 + 2. vamos pegar uma mesma palavra e ver as várias possibilidades de sinalização. Polissemia Vamos pensar na polissemia em Libras de duas maneiras: a versão que o português impõe aos sinais da Libras e a versão que os sinais da Libras impõe ao português.

sentido de advertido. Agora temos um único sinal que pode denotar várias palavras no português: ocupado. Ocupado FAEL . como se houvesse um destaque de maioridade. Sinal para marcar a ação de comparação absoluta.Língua Brasileira de Sinais – Libras Sinal para marcar a necessidade de continuidade no percurso. pegaremos um sinal da Libras e averiguaremos as possibilidades de tradução para o português. 124 Em relação à segunda maneira. Sinal para marcar a necessidade de aumentar o som. ou seja. sentido de não posso. faremos o contrário. daquele que está acima de todos. Esse sinal também pode significar sentido de ocupado.

para cada um dos seus níveis de análise linguística. com a estrutura gramatical da Libras. Quanto aos movimentos. Quanto à configuração. de duas mãos com formas diferentes ou. Quanto à localização. Língua Brasileira de Sinais – Libras . configuração de mão e movimento. vimos as possibilidade de formação de sinais a partir de apenas uma mão. de duas mãos com formas iguais. Verificar se sabem separar os espaços para cada elemento. eles pesquisem cinco sinais que se realizem da mesma forma. como as seguintes: 1. Curitiba em outro espaço.Capítulo 2 Da teoria para a prática Para trabalhar. minimamente. e se realizam o sinal de avião fazendo o percurso do espaço de São Paulo a Curitiba. detalhadamente. 125 Síntese Neste capítulo. a fim de proporcionar ao leitor um conhecimento das “partes” da língua. a partir delas. conhecemos suas seis possibilidades principais. ainda. 3. se São Paulo ficará em um espaço. o professor pode realizar algumas brincadeiras em sala de aula. No nível fonológico. Colocar a expressão “Vendo vozes” no quadro e verificar quem consegue melhor interpretação semântica para ela. Entregar as 64 configurações de mão aos alunos e pedir que. observamos sua realização no espaço neutro e no corpo. nos debruçamos sobre a gramática da Libras e olhamos. observamos que a Libras apresenta três parâmetros principais: localização. e que deixam a marca do seu trajeto. Pedir aos alunos para sinalizarem a frase “Fui de São Paulo a Curitiba”. destacamos a existência de pares mínimos e de parâmetros secundários para realização dos sinais: orientação da mão e expressão facial. 2. Ainda com relação ao nível fonológico. para ver se entenderam que os verbos de movimento se realizam com concordância com o local.

tipos de verbos e os dois tipos de flexão: nominal e verbal. Na parte sintática. e discutimos questões pertinentes à formação de palavras. 126 FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras Na análise morfológica. organização espacial e a flexibilidade da sentença da Libras. evidenciamos as possibilidades de formação de sinais a partir de morfemas presos e livres. Finalizamos o capítulo com uma pequena abordagem quanto à semântica implicada nos sinais da Libras. ordem dos constituintes. trouxemos a questão dos tipos de frase. classificação de palavras.

abordaremos as configurações dos relacionamentos pessoais (casamento e filhos). mas. destacam-se os processos de leitura e escrita. portanto. para tal enfoque. em qualquer espaço que se for. Partindo disso. é possível refletir sobre o modo de como as pessoas surdas conseguem interagir com a sociedade e garantir sua participação ativa. apresentaremos um panorama geral sobre as relações sociais que são estabelecidas a partir da experiência da surdez. arte). Feneis) e cultura (cinema. Disso tudo. a surdez como característica que compõe a própria diversidade e a individualização do ser humano em sua constituição. podemos pensar que elas se inserem e retêm conteúdos visuais sob a forma de expressão. . Ter peculiaridades diferentes não significa. ser.Implicações sociais da surdez 3 127 este capítulo. sim. a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades distintas em relação à vida de uma pessoa ouvinte. sendo que. necessariamente. Nesse sentido. ou seja. Com relação à escolaridade da pessoa surda. deve fazer parte da instrução recebida. Diante disso. ser melhor ou pior. partimos da premissa de que Libras é sua primeira língua e. olharemos para o que é impregnado no surdo a partir de tais vivências: sua identidade e cultura. destacaremos a subjetividade inerente. É desse modo que a pessoa surda precisa ser vista na sua relação com a sociedade. Por meio da Libras. as relações de amizade (associação de surdos. N As relações sociais do surdo Analisando sob a perspectiva de que a surdez está inserida e constituída em ambiente e mundo visual. entendemos que a necessidade de saber o português é urgente e esta pode ser sanada com métodos específicos de segunda língua.

Caso haja surdos também às pessoas que possuem na plateia. a partir desse momento. porque o surdo se une a quem conhece a língua de sinais. acaba sendo natural que ocorra uma comunicação em que haja gestos e falas oriundas deste contexto. Essa organização. são acompanhados de discutir questões conflitantes. seus pais não têm participação ativa em suas vidas. torna-se algo natural. independente de ser ou não surda. padre. já que o celebrante (pastor. poder celebrar essa união tem um significado muito relevante. do mesmo modo.Língua Brasileira de Sinais – Libras Pensando por esse viés. podemos perceber como ocorre. pois permite ter contato. pois vai em direção oposta a tudo que aprendeu e viveu. normalmente. eles poderão ser ouvintes (havendo exceções em que pais surdos concebem filhos da mesma natureza). Frente à convivência em família. em culturas diferentes não é algo juiz) não consegue estabelecer uma comunicação com os noivos. por não haver clareza na comunicação. e como a surdez não é hereditária. O significado da união com o outro representa algo diferente. a presença de mais um intérprete uma realidade semelhante quané recomendada. E no que tange à transmissão de conteúdos concernentes a valores. caser o mais discreto possível para não ofuscar o racteriza-se pelo nome de Coda glamour que envolve o casal. devido à grande quantidade de filhos que se inclui nessa categoria. O que antes era comprometido e problemático. um ritual que em nossa sociedade é muito comum: a questão da união conjugal. O profissional mulação daquilo que se apreenintérprete deve se colocar em frente aos noideu. 128 Como fruto dessa comunhão. acaba por virem os filhos. destinada vos. pois interagir simultaneamente tradução. fica assim caracterizada. FAEL . criou-se uma organiSaiba mais zação internacional destinada a Os casamentos de surdos (com pessoa surda ou ouvinte). diálogo e participação com o outro. acaba por não ser estimulado e não desenvolve a audição e a fala. devido à barreira da comunicação. para o surdo. Isso é compartilhado mundialmente por essas pessoas e. ao lado do celebrante. tão pouco consegue exsimples. princípios e comportamentos de vida. acaba por ser deficitária devido à comunicação que. exige empenho e reforpressar os votos na língua oral. Uma situação que pode acontecer é uma adequação em relação aos pais surdos e filhos ouvintes em que. O traje do profissional deve to a ser filho de pais surdos. Isso porque. culminando em um viver bastante comprometido e problemático. muitas vezes. formalizando a relação. o filho. Para a maioria dos surdos. (children of deaf adults).

pois esta vai ser moldada de acordo com o grau de receptividade cultural assumida pelo sujeito. ambos surdos e Codas. Com isso. assim como os surdos fazem. desta forma. pois. a profundidade no contato visual desenvolve sua subjetividade e possibilita impressões acerca do olhar. as identidades surdas são construídas mediante as possíveis representações da cultura surda. no sentido biológico. conseguem não ouvir quando estão em um ambiente com alta sonorização (volume alto de TV ou rádio). Quando acontece um diálogo de filhos ouvintes de pais surdos. nada muito comum. conseguem se expressar com maior clareza em relação ao português.Capítulo 3 A maioria das pessoas que participa dessa organização tem a audição preservada. porventura. o que para os ouvintes “normais” – ouvintes de pais ouvintes – seria uma tarefa bem difícil. é possível estabelecer contato com a outra pessoa que. por isso. é comum que adolescentes e jovens surdos frequentem as baladas e dancem por muito tempo. pois entendem que. Os Codas procuram desenvolver o olhar como meio de referência. por conta deste sentido estimulado. Para Perlin (2004). Eles conseguem ficar insensíveis a tudo isso. enquanto o português. conseguem reagir bem ao estímulo recebido. Outro exemplo disso é quando querem se comunicar e batem o pé no chão. Por meio da vibração. mas frente ao contato com surdos ou suas comunidades. criando assim uma identidade como a deles. mesmo sendo ouvintes. Os filhos entendem que a possibilidade de ver as coisas. o normal é ser surdo. consideram a tranquilidade da comunicação em Libras algo bem acessível. Um exemplo bem comum é que. passeios. estes se utilizam de alguns sinais no meio da conversa. acabam por praticar e. Os surdos têm uma forte potencialidade para sentirem as vibrações do ambiente e. aprender a língua de sinais. Língua Brasileira de Sinais – Libras 129 . ver tudo que há no mundo é algo muito bom e. está no quarto ao lado e. consultas. A vibração é tão poderosa no corpo como o som é no ouvido. Eles conseguem acompanhar os ritmos musicais somente pelo que seu corpo sente. como consequência. Pensar em ser ouvinte é algo bem estranho. com a convivência constante e indireta em viagens. elas desenvolvem habilidades que são específicas do surdo. Somente quando essas pessoas vão para a escola é que se inicia o processo de aprendizagem do português. compras. para ambos. para eles.

como os que tocam nas raves. bilidade muito grande. certamente. a escola estabelece um abismo que a separa dos pais do aluno Coda. Nesse ambiente dotado de pessoas que. e com isso o prejuízo torna-se presente e generalizado. os membros da escola estabelecem relações pouco íntimas com os alunos e seus pais. A escola não consegue atribuir a esses pais a condição de pais. capaz No Brasil. Codas utilizam estratégias para não conversar.Língua Brasileira de Sinais – Libras Isso significa que o Coda tem um ouvido seletivo.br/ ferente dos surdos. cabendo à criança a responsabilidade dos pais. no caso.com. Por outro lado. FAEL Saiba mais 130 . as crianças acabam sendo concebidas como deficientes e.br/index2. Não muito diexistem festas especiais para surdos. os pais do Coda não recebem convites para eventos escolares ou quando o filho não apresenta bom rendimento escolar. Já muito para eles. a escola. mas. fato este que ocorre independente da pessoa ter ou não surdez. surdos. a escola deve ver o sujeito como instrumento/meio de produção de sentidos e aplicar seus diversos mecanismos de atuação para impor saberes. Porém. social e política irão precisar de um ambiente com características diferentes destas. valores e identidades.clubedochoro. sim. culturas. há uma banda conhecida como de não processar alguns sons Surdodum. dando a php?option=com_content&do_pdf=1&id=75>. Diante desse afastamento. porque ela ouve.abril. Pensar no processo de construção da identidade surda da pessoa que é ouvinte não seria algo tão complexo se somente houvesse comunidades que partilham do mesmo sentimento. Comumente. devido a tal visão. um ritmo musical que acentua a vibração dos instrumentos. Sobre isso consultar: seus olhos possuem uma sensi<http://www. eles a possibilidade de se atenHá.com. desconhecem essa língua e as questões que envolvem a surdez. Nesse ambiente.shtml>. Sobre esse assunto acesse: <http://super. Para Skliar (2001). outros ritmos que os surdos tarem a tudo. a realidade não é bem assim. devido à dificuldade quanto à comunicação. fecham os olhos ou desviam o olhar. pois ver significa dançam. de surdos. quando os superarquivo/2004/conteudo_333010. os pais se tornam seres estranhos. Essas crianças que falam Libras desde a infância e que enxergam a surdez como constituição cultural. também. pois nessas situações não há ninguém com capacidade para estabelecer a interação entre eles. que trabalha com Olodum para em sua mente.

eles terão “vantagem” em detrimento aos demais ouvintes. no Brasil. pois. um status. por meio de estudos e pesquisa. É claro que. e isto procede. bons intérpretes. ou em consultas médicas. não significa depreciar todo um trabalho estruturado de técnicas tradutórias? Até porque. a convivência com pais surdos – em alguns casos – gera algumas consequências sociais Língua Brasileira de Sinais – Libras atilfeR Reflita 131 . a criança sente-se ausente de seu mundo. pois já têm a língua adquirida. Porém. independentemente do ambiente em que estejam. sabe-se que as crianças ouvintes que são filhas de pais surdos (Coda) têm seu processo cognitivo e de aprendizagem preservados. em casa ou na escola. para que possam entender. será um excelente sinalizador. Entretanto. Tais circunstâncias exigem da criança esforços psicológicos para mediar uma comunicação que não condiz com sua idade. Outra dificuldade enfrentada pelo Coda que possui identidade cultural surda é a de que. o solicitam pela condição auditiva que possui. automaticamente. em que os pais pedem que tudo seja minuciosamente relatado em sinais. além de serem peritos e mestres no quesito identidade e cultura surda. quando seus pais necessitam de interação social. os pais exigem a tradução daquilo que está sendo falado. não podendo utilizar a língua de sinais e recebendo cobranças que dizem respeito a adultos e não a ela. os pais pedem à criança que interprete aquilo que está sendo transmitido. Frente a uma gama de informações advindas da televisão. Da mesma forma acontece com ligações telefônicas. No meio da comunidade surda. Mas daí pensar que estas pessoas são. é muito comum que o fato de ser Coda seja um diferencial. Isso porque se julga que se é filho de surdo. considerando que tais pessoas aprendem a Libras como os surdos – como primeira língua. especialmente entre os intérpretes. a automatização é complicada. um bom desenvolvimento linguístico e técnico. conforme discutimos no texto. se os Codas desejarem se profissionalizar. existem excelentes intérpretes que não são filhos de surdos e que conseguiram. não conseguindo estabelecer laços com aquele lugar por causa das limitações impostas quanto à comunicação.Capítulo 3 Dessa forma.

dentro da relação pais surdos e filhos surdos. Esse é um caso muito específico de pais surdos com filhos ouvintes. pois os estímulos seriam aceitos de forma natural e o processo de desenvolvimento da criança seria semelhante ao de uma criança ouvinte com pais ouvintes. é possível pensar que a aquisição da linguagem. pois. no caso das crianças estarem no mesmo ambiente físico. em seu processo. por mais que os inputs oferecidos sejam diferentes quanto à forma. Tal processo irá ocorrer de maneira mais facilitada mesmo na ausência de uma fala dirigida a ela. Sendo assim. O simples contato com a língua possibilitará à criança desenvolver sua expressividade linguística – os itens lexicais e a estrutura gramatical que ela já possui de forma inata.Língua Brasileira de Sinais – Libras não muito boas para a criança. em que pais surdos têm filhos surdos. A universalidade da aquisição da linguagem explica que. compartilhar ou estar em desacordo com propostas e para estabelecer a atividade com objetivo de organizar algum aspecto da ação. FAEL 132 atilfeR Reflita . Skliar (2001) aponta que. diferenciando-se apenas se o pai ou a mãe forem ouvintes. Em se tratando de uma situação paralela. a criança adquire uma língua natural sem que seja preciso passar por treinamentos intensivos ou estímulos linguísticos. De acordo com Grolla (2006). ocorre do mesmo modo em crianças surdas e ouvintes. em que a criança aprenderá duas línguas ao mesmo tempo. e tais quesitos são muito exigidos do intérprete. o processo se dará de modo bilíngue. a língua adquirida será a mesma. neste caso. ocorrerá uma apropriação de enunciados diversos. como amarrar sapatos ou desenhar formas geométricas. os problemas que os Codas enfrentam quanto à família talvez não existissem. diz que a aquisição da linguagem ocorre num período curto de tempo. fato que pode levar ao desenvolvimento truncado e à falta de domínio do português. além disso. todas as intervenções ocorrem na língua de sinais. independente da língua ou do desenvolvimento das habilidades motoras. Para a autora. Pais e filhos se utilizam dela para propor a ação de uma atividade. o processo de aquisição da língua é idêntico ao de uma criança surda filha de pais surdos. Em relação aos Codas.

No caso dos surdos. portanto. independente da modalidade da língua: oral-auditiva ou espaço-visual. que não serão aproveitadas Língua Brasileira de Sinais – Libras 133 . toda criança apresenta comportamentos semelhantes ao chorar e emitir sons sem qualquer significado. as crianças surdas. a dinâmica da língua. alguns deles são descartados. Diante da aquisição da linguagem em que consta a universalidade. quando chegam próximo aos seis meses. de crianças surdas e ouvintes no período de balbucio. Passada essa fase. Com relação aos ouvintes. acontece o balbucio oral e. começam a balbuciar por volta dos oito meses. não se encaixam em seu repertório atualizado. Meier (2000) aponta que os ouvintes produzem movimentos com as mãos e conseguem retorno confirmativo de seus pais. assim como os surdos.Capítulo 3 A criança aprende uma língua. pois são avaliados como gestos e não como sinais lexicais. o aprendizado com relação à língua se dará mediante a inserção de novas palavras realizadas pelos falantes e. já que sabe as regras para formação de sentenças e domina as estruturas do idioma. pois nesta idade dificilmente comete erros sintáticos. começam a produzir os primeiros sinais e. quer seja sinalizada ou falada. como consequência. Já com a emissão de sons. Segundo Emmorey (2002). em média. Indiferente de sua condição auditiva. neste processo. quando chegam aos oito meses. são capazes de perceber as propriedades fonológicas da sua língua. indicam que no ser humano decorre uma capacidade linguística que suporta a aquisição da linguagem. e as semelhanças na sistematização do balbucio das crianças surdas e ouvintes. É o caso da apontação. Os bebês têm muita sensibilidade. que antes de começarem a aprender sinais fazem balbucios com as mãos. no decorrer da vida. Quadros (1997) reivindica que a descoberta pela estrutura fonológica da língua. tanto a criança surda como a ouvinte apresentam o balbucio manual. conseguem produzir um número muito grande de sílabas e as repetem de forma exaustiva. Na sequência. mediante a entonação e o ritmo. Isso ocorre nas enunciações. o processo de desenvolvimento linguístico e os estágios internos que ocorrem nas crianças surdas podem ser comparados aos das crianças ouvintes. estes conseguem perceber aos quatro dias de idade diferentes tipos de língua. até os quatro anos. devido ao retorno auditivo estar ausente. a uniformidade e a rapidez. com pouca diferenciação nas sílabas executadas.

a coordenação motora das mãos evolui de forma mais acelerada do que a coordenação para o trato vocal e a articulação para a fala. ou seja. as crianças ouvintes continuam no balbucio e somente depois partem para a palavra. FAEL 134 . Conforme Grolla (2006). Em Quadros (1997) percebemos que as crianças surdas. simultaneamente. Por certo tempo. por isso. elas começam a elaborar enunciados com apenas uma palavra – com significado de sentença completa – e conseguem assimilar pequenas imposições. diferentemente das surdas. ocorrerá sua reorganização e aceitação. conseguem aprender um grande número de palavras diferentes a cada dia. e a construção das frases se dá na ordem canônica. Da mesma forma. que a sinalização foi a primeira a ser adquirida. em diversos momentos. Grolla (2006) acrescenta que. quando as crianças atingem um ano de idade. falada. pois a criança entenderá que a apontação sofreu modificação e se tornou elemento gramatical. pois. os sons exercem maior dificuldade perceptiva aos ouvidos do que os movimentos espaciais aos olhos. Esse início antecipado de elaboração de sinais e o lento processo do estágio de uma palavra dita. aumentando seu repertório e elaborando falas pausadas entre uma e outra palavra. apresentam dificuldades para entender os pronomes e. ou vice-versa. Posteriormente. as crianças vivenciam o período das primeiras combinações. com um ano e seis meses de idade. apresentando erros naquilo que equivale à conjugação de passado. neste momento. De maneira sucessiva. pronominalização e outros. as crianças ouvintes fazem relação semântica – de ordem lexical como a organização de classes prototípicas – para escolha das palavras. em pesquisa com crianças ouvintes adquirindo. quando a estrutura gramatical tiver sofrido maturação.Língua Brasileira de Sinais – Libras pelos surdos para pronominar. que têm essa vivência aos oito meses. apontam para o interlocutor se referindo a elas mesmas. Então. Emmorey (2002) verificou. o inglês falado e a língua de sinais americana. que são os indicativos de que ela entendeu a regra e está se superando. a habilidade de identificação de línguas estrangeiras diminui e concede espaço ao refinamento para sua língua natural. nesse estágio. ocorre pelo desenvolvimento de mecanismos de emissão e recepção linguística.

sendo verdadeiro. destacamos que a aquisição possui uma universalidade. que recebem todo um trabalho de treino visual com adultos surdos.ecs. Aos pais. e somente escolas especializadas são capazes de suprir o estímulo que não há em casa. indiferente da modalidade. a relação significado e significante não fica evidente para a criança surda que está desenvolvendo a linguagem..globo.MUL732407-5598. em São Paulo. os olhos da criança surda devem ser treinados para isso. mas pelo nível elevado de dificuldade gramatical. não cria correspondência entre a pessoa e o ponto estabelecido no espaço.aspx>. Nessa escola entram crianças em tenra idade. no caso dos pais serem ouvintes.Capítulo 3 A pronominalização na língua de sinais é produzida por meio de apontação. como orações relativas e coordenadas.org. vivenciam uma propagação vocabular muito grande. pois esta é capaz de olhar para o brinquedo que está nas mãos do adulto e ouvi-lo ao mesmo tempo. em que a sequência de concordâncias se dará do mesmo modo.00-BEBES+SU RDOS+DEVEM+APRENDER+LINGUA+DOS+SINAIS+NOS+PRIMEIRO S+MESES+DE+VIDA. 135 Língua Brasileira de Sinais – Libras . Quadros (1997) diz que a criança surda: não adota pronomes para referentes ausentes ou o faz incorretamente. uma escola de referência no quesito ensino da língua de sinais a bebês surdos é a Escola Rio Branco. No Brasil. sendo assim. entretanto. produzindo frases complexas.br/site/default. continuam o curso da aquisição cometendo pequenos equívocos. o inverso.html> e <http://www. pois as crianças surdas precisam lançar os olhos para o objeto que está nas mãos de quem fala e para seu rosto. É um processo diferente da criança ouvinte. Tanto crianças surdas quanto ouvintes. Nesse momento. comete um excesso de generalização para concordância de verbos simples semelhante à gramática dos adultos. é exigida a inscrição em curso de Libras. as crianças ouvintes utilizam o eu para demonstrar ou apontar outra pessoa.com/Noticias/Brasil/0. pois não convém à instituição ensinar a língua a criança (por meio de interação e brincadeira) se seus pais não forem capazes de se comunicar com ela. Então. aos três anos de idade. Sobre esse assunto acessar os links: <http://g1. estabelece mais de um referente num mesmo ponto. pois. também.

aquilo que os evidencia é a utilização da língua de sinais. mesmo sendo amplamente divulgado que essa ferramenta possibilita a acessibilidade de grande parte da população que tem perda auditiva. sendo que seus pais abordam qualquer assunto com elas. profissionais. muitas emissoras não dispõem desse recurso em toda a programação. então é provável que existam surdos que não participem. pois preferem a utilização da língua falada. Favorece. ainda. favorece pessoas idosas que apresentam alguma diminuição auditiva. assim. Sendo assim. com perfis diferenciados. Além disso. designando ordens. se utilizar a língua de sinais é aquilo que motiva o ingresso na comunidade. Porém. oferecendo carinho. somente em 1980. aqueles que são considerados analfabetos. a função closed caption propicia entretenimento. vindo para o Brasil um longo período depois. pessoas que frequentam aeroportos. religiosos e outras pessoas com interesses variados. Esse recurso é recente e. iniciando. as crianças surdas dominam a língua de sinais. acionada mediante controle remoto. Atualmente. shopping centers ou qualquer outro lugar de acesso público com elevado nível de barulho. como surdos. podem relacionar o som das palavras com a legenda. O termo em inglês possui a tradução “legenda oculta” e está relacionado a uma função que muitos televisores possuem. estando ao alcance de todo e qualquer indivíduo. Apesar de comunicativa. inclusive sobre informes da TV que. conhecimento e informação ao público em geral. com a utilização do closed caption. identificando na palavra escrita o som da fala. é o meio que mais rapidamente comunica. FAEL 136 . Tal ferramenta. familiares. Existem outras atividades e programações acessíveis. foi disponibilizado nos Estados Unidos. ouvintes. em que a televisão tem seu volume diminuído e não se ouve. a televisão não é o único meio de interação e lazer que os surdos gostam de ter. um aprendizado de decodificação. por diversos motivos. Falam sobre tudo. Essa comunidade é constituída por um grande número de adeptos. na atual sociedade. intérpretes. além de promover a interação dos surdos em discussão de grandes temas. ouvintes que. neste caso. Essa possibilidade existe mediante a função closed caption. etc. tratando de assuntos futuros.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com quatro anos. Esse ambiente em que pais ouvintes e filhos surdos (ou Codas) participam é que denominamos um espaço de convivência da comunidade surda.

Os benefícios advindos da participação do ouvinte nessa comunidade são vários. os costumes e os hábitos do povo surdo. capacidades e hábitos. não como deficientes. crenças. a cultura representa um conjunto complexo de conhecimentos. línguas. o que compreende a língua. De um modo geral. outra visão. levando-se em conta que. Aproveitar a oportunidade de conviver com a diversidade promove um sentido diferente. isso tem um significado muito grande. é necessária a utilização da língua de sinais. moral. Strobel (2008) define que a cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e modificá-lo. quando visto sob a perspectiva de um grupo diferente. tanto para nós mesmos como para as outras pessoas. pois vislumbra exemplos positivos. Em relação às crianças surdas. costumes. por ser considerado minoria social. que possui outra cultura. as crenças. dos líderes e tantas outras que evidenciem sua identidade cultural. o que mais se percebe são estes elementos. O contato com pessoas que se comunicam em sua língua permite que sua diferença não seja enaltecida. sendo estabelecida por meio das afinidades daqueles que a integram. as ideias. que faz parte de uma sociedade e é repassado aos seus membros. terão a oportunidade de enxergar a si próprios de forma diferente. caracterizado assim a Língua Brasileira de Sinais – Libras 137 . da escola. surdos adultos interagindo na sociedade. arte. já que tem uma vivência isolada em seu mundo. Nesse ambiente. aprender a língua de sinais e conhecer os costumes e hábitos vivenciados pelo surdo. No caso do surdo. ou seja. a comunidade representa a projeção com o amanhã. tanto individualmente quanto em comunidade. como a oportunidade de conhecer o sujeito surdo de perto. para que tenha acesso e possa interagir mediante as percepções visuais. Conjunto esse que é evidenciado pelos elementos da língua e pelos costumes. uma relação de igualdade.Capítulo 3 Para que ocorra a constituição da comunidade surda. mas assimilando que existe diferença linguística. como a da igreja. sentindo-se à vontade para expressar seus sentimentos e ideias para aqueles que estão em um nível. a possibilidade de um futuro. pois o coloca em contato com aquilo que é diferente. sim. diversas comunidades. mas. leis. do hip-hop. sendo neste momento que ocorre a formação da identidade e cultura surda. Isso leva a crer que não existe somente uma comunidade surda.

Então. existem outros componentes nesse conjunto. Tal processo de transmissão cultural de surdos. por meio da língua. é passiva de mudanças quando em contato com outra cultura. é de costume falar da representação da surdez por dois vieses: passado e futuro. está inserida a cultura surda. tratam da história do surdo abordando as represálias que enfrentaram quanto ao oralismo. Então. estamos nos restringindo ao contexto de cultura popular. pois. sua cultura visual. conforme Strobel (2008). ou até mesmo pela imposição de estudarem em escolas ouvintes. precisa obtê-la na comunidade surda. hábitos e crenças. passamos a atribuir valores e. em que a composição dos elementos ocorre de modo visual. se nos perguntarem a respeito da cultura norte-americana. Devido a essas questões é que. ao acesso. Diferente do que ocorre com os ouvintes. também pode ocorrer na idade mais avançada. seu conhecimento começa com o contato do que vê. e teríamos resultados que se restringiriam ao que se fala: inglês. sendo esta transmitida livremente nas relações com o outro. A cultura surda é muito importante. nessa cultura. então. Assim. quando passamos a olhar para as ações de um determinado grupo de pessoas e tais ações começam a fazer sentido para nós. sem a convivência na escola FAEL 138 . para ter sua língua. ao desenvolvimento e à transmissão dos elementos que o integram procederem naturalmente com as relações sociais. adulta. Nesse ambiente. o compartilhar ocorre naturalmente. A cultura se modifica constantemente. A arte e a poesia do surdo acontecem por diferentes movimentos com as mãos. o sujeito surdo. é possível pensar que a cultura surda compreende aquele conjunto complexo. como também hábitos e costumes ocorrem mediante o que viram e se constroem no envolvimento com os outros surdos. e ao que se come: fast food. Isto é. Dessa forma. Até o momento. Dessa forma. Assim. e pensam sobre as perspectivas de futuro para esta população. é histórica. no seio da comunidade surda. pois a grande maioria de surdos são filhos de pais ouvintes. os surdos possuem família ouvinte. em sua maioria. de geração a geração. com isso. pois é na comunidade surda que ocorre o processo de aprendizagem e o sujeito poderá proferir suas falas. isto é. Chamamos a cultura de “conjunto complexo” quanto à composição. a cultura surda não é transmitida naturalmente de geração a geração.Língua Brasileira de Sinais – Libras identidade surda. sua língua se manifesta no espaço e a leitura se faz com os olhos. poderíamos abordar o assunto sob a ótica da língua e do costume.

Pela dificuldade de ter sido conquistada por seus criadores e por ser tão ofuscada pela cultura ouvinte é que a cultura surda precisa ser enaltecida.Capítulo 3 de surdos. a pessoa tende a aumentar a voz progressivamente. 139 No decorrer da história. não ouve nada. surdez profunda – a pessoa não retém som algum. muito tempo depois. enquanto acontecia a educação dos surdos – dirigida pela corrente oralista –. sobre como sua constituição atuará em sua percepção do mundo de forma visual. No que diz respeito à formação de identidade das crianças que participam das comunidades surdas. adotavam o critério clínico-patológico para o surdo e lhe atribuíam uma identidade. As especificações eram: ● ● ● ● surdez leve – capacidade de ouvir a voz humana. pelo sentimento de inferioridade em relação aos ouvintes. dependendo daquilo que era respondido com a audição. Língua Brasileira de Sinais – Libras ● . acabam por perder o contato com a comunidade surda. a classificação passou a ser pelo critério linguístico e o rótulo de identidade era feito mediante o conhecimento que o surdo apresentava a respeito da língua de sinais. Desse modo. podemos destacar a importância de se refletir sobre si mesmas. surdez severa – surdez que só permite perceber os sons muito graves. identidade surda de transição – surdo oralizado que. descobre a comunidade surda e transita do mundo auditivo para o mundo visual. identidade surda incompleta – é o surdo que não se aceita. surdez moderada – não é possível ouvir as palavras com clareza. identidade surda embaçada – surdo que não consegue captar o mundo de forma visual e nem auditiva. é politizada e tem a língua de sinais como nativa. as definições são as seguintes: ● ● ● identidade surda – pessoa consciente quanto à sua condição de surdez. Segundo Perlin (2004). quando a sociedade mudou a forma de olhar para a surdez e novas taxionomias se imprimiram na educação de surdos.

podendo ser entendida como o conjunto de características específicas de uma pessoa que a diferencia da outra. ocorre por meio da linguagem e é construído por papéis sociais que exercemos em diferentes locais. Esses movimentos sociais e espaços de luta social são chamados de movimento surdo. não se pode conceber uma visão reducionista do homem. que entendemos como um espaço de articulação das aspirações. identidade surda diáspora – pessoa que tem a necessidade de trocar experiências com seus colegas surdos. professora. pessoas e contextos. tanto que. pois FAEL . pobre. lutas e reivindicações de determinados grupo de pessoas. quando nos referimos à identidade surda. Esse conjunto de características próprias. identidade surda flutuante – surdo que oscila de uma comunidade a outra. evangélica. em uma comparação com o outro. No entanto. É possível que. A manifestação da identidade deve acontecer pela subjetivação que ocorre mediante interiorização de uma língua. ouvinte. solteira. No caso de alguém descrever sua identidade como mulher. ● ● 140 Quando o assunto se refere à identidade. ocorre que está havendo um condicionamento de tais características naquele dado momento. se tornou surda. seja ela qual for. flexível e mutável. pensamos numa pequena parte do conjunto de características que ela apresenta. sendo de muita importância. Para Skliar (2001). indiferente de onde eles estejam. Tem conhecimento da estrutura do português falado. exista algo de semelhante. heterossexual. tem a possibilidade de participar de movimentos sociais. Agregado a essas articulações está o reconhecimento de sua língua. pois a constituição não é perene.Língua Brasileira de Sinais – Libras ● identidade surda híbrida – pessoa que nasceu ouvinte e. posteriormente. em relação às visões comentadas. branca. A criança que participa da comunidade surda. convivendo tanto com surdos quanto com ouvintes. a identidade. além de desenvolver a cultura e a identidade surda. mas acaba por ser único e singular tudo aquilo que compreende a identidade da pessoa. mas adaptável. apresentam-se ultrapassadas. a identidade está ligada a relações sociais. pois é constituída e manifestada na interação com o outro. Há falta de língua de sinais com surdos e falta de comunicação com ouvintes.

acesse o link: <http://www. Todas se caracterizam pela cumplicidade linguística cultural dos participantes. os quatro milhões de surdos brasileiros. O movimento não é contrário diretamente às pessoas. no ano de 1983. Um grupo de surdos. A princípio. mas. Atualmente. Trata-se do curso Letras-Libras. se organizam em outros espaços como associações. persistiram até conquistarem uma posição de destaque dentro da instituição a ponto de serem atendidos em suas aspirações políticas. É possível citar como exemplo a reestruturação da Feneida em Feneis. Essa alteração não se deu por simples mudança terminológica. Em 1970.Capítulo 3 representam um local onde ocorre resistência à predominância das pessoas ouvintes dentro dos locais de trabalho. mas em decorrência da perspectiva de trabalho. se organiza para reclamar seus direitos junto à direção e pede participação dentro da Feneida. a missão passa a atender aos ideais das pessoas surdas. Não muito satisfeitos. educação e lazer. existem vários escritórios regionais da Feneis espalhados pelo país. mas em relação a evidentes posições de liderança ao longo da história. como a Confederação Brasileira de Surdos – CBS. O movimento surdo atinge espaços acadêmicos e chega a conquistar um curso de Saiba mais licenciatura a distância. um grupo de profissionais ouvintes funda uma organização e dá início aos seus ideais de reabilitação dos chamados deficientes auditivos. que começam a ser vistas não como deficientes auditivas. espalhadas pelos estados.cbsurdos. Em 1983.org. com sede na Universidade Língua Brasileira de Sinais – Libras 141 . Para conhecer mais sobre a CBS. ou seja.br>. com o objetivo de difundir a Libras e congregar surdos para discussões em relação à sua participação ativa na sociedade. Existem duzentas associações. cooperativas e clubes. aproximadamente. pessoas com diferença linguística. por isso o nome da instituição era Federação Nacional de Educação e Integração dos Deficientes Auditivos – Feneida. Hoje. saúde. além de se reunirem na Feneis. como também as afirmações dos direitos do sujeito surdo em diferentes instâncias sociais. e órgãos voltados apenas à questão desportiva dos surdos. conseguiram participação em pequenas atividades. os surdos dão início à liderança e alteram o nome para Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos – Feneis. sim.

esta opção é Conheça mais sobre a WFD acessando: inviável. participar dos eventos que promovem. Envolver-se com o movimento surdo é mais do que. chegando ao ponto de ter uma Federação Mundial de Surdos (Word Federation of the Deaf – WFD). despertar a atenção para esses lugares e perceber que os surdos possuem capacidade de liderança. como também. Saiba mais No entanto. desde 1951. o grupo conseguiu provar para os produtores que a legenda nacional não iria ocultar as diversidades regionais ou depreciar os dialetos falados na nação.org>. Libras. a acessibilidade não pode restringir. Nessa graduação. pois. sim. editores e diretores. desde 2004. instituições que se colocam como representantes do potencial dessas pessoas. Esse movimento circulou em importantes eventos do cinema e do teatro e. consulte: <http://www. é possível fazer a opção pela legenda ao invés da dublada.libras. simplesmente. é desenvolver um intercâmbio linguístico e cultural. Marcelo de Carvalho Pedroso.wfdeaf.Língua Brasileira de Sinais – Libras Federal de Santa Catarina. mas. no Saiba mais caso de filmes nacionais. mas que significaria acesso no que se refere à cultura. vem tentando propagar a ideia a produtores. promover a participação no mundo.br>. em meios culturais começaram a ser resolvidas quando um surdo. Porém. em outros países. na edição do Festival do Audiovisual – Cine/PE. Mesmo porque. somente em 2008. contendo vários polos distribuídos pelo Brasil. em Pernambuco. no entanto. FAEL . não somente no Brasil acontece de o moviPara mais detalhes sobre o curso de Letras mento surdo ser preponderante.ufsc. no caso de filmes estrangeiros. As dificuldades de inserção <http://www. inclusive o artístico. A formatação desse movimento tem tomado dimensões cada vez maiores. com sede na Finlândia. organizou um movimento de reivindicação a respeito da legenda nacional. 142 A possibilidade de acesso aos filmes que são transmitidos no cinema foi uma das conquistas mais recentes do movimento surdo. Existem. pois é algo indispensável para a evolução do homem em todos os seus aspectos. os alunos surdos têm a possibilidade de se qualificarem para atuarem como professores de Libras.

acesse: <http://www. foi aprovado por representantes políticos. sejam obrigados a incluir a legenda nas obras exibidas ou a ofertar interpretação do texto correspondente. MAS SE EMOCIONA! A partir de tal convencimento.php>. e os exibidos em caráter não comercial ou em festivais e mostras competitivas. 143 ● Sendo assim. O Projeto de Lei n.078 entrou em vigor no Brasil em 2007 e presume que: ● As empresas responsáveis por distribuir obras cinematográficas ou videofonográficas. Essas legendas podem ser em Libras – com o espaço (a janelinha) destinado para o intérprete – ou com caracteres. 2007) que. os de curta-metragem. Com a aprovação. em linguagem compreensível a pessoas com deficiência auditiva. conforme disposto em regulamento. após análise. A obrigação estende-se a todos os filmes comercializados para exibição.078 (BRASIL. mas se emociona!”. 1. Língua Brasileira de Sinais – Libras . e os promotores de peças teatrais e demais obras cenográficas. foi a grande encabeçadora da conquista dos surdos pela legenda. 1. para exibição em salas de cinema. com a oportunidade de diminuir a distância que ficou estabeleSaiba mais cida da cultura nacional. a civilidade. exceto: os destinados à divulgação de músicas. a criatividade e br/campanha.com.legendanacional. tanto em filmes como em teatros nacionais as legendas se tornaram obrigatórias.Capítulo 3 A campanha “Legenda para quem não ouve. os surdos têm a possibilidade de ir ao cinema e ao teatro como qualquer outra pessoa. A escolha fica a critério da produtora. O slogan é LEGENDA PARA QUEM NÃO OUVE. os de peças publicitárias. foi criado o Projeto de Lei n. conhecimento. sendo Para mais informações sobre a legenda nacioesta muito importante para o nal.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Inclusão educacional de surdos Com a liberdade de escolha. chamado de SignWriting (escrita de sinais). seriação. Em relação aos surdos. uma maneira de registrar ideias que as tornam atemporais. já existente no Brasil. Até o momento. 144 Independente do espaço de escolarização dos surdos – seja na escola de surdo ou escola de ouvintes –. mas pensar a possibilidade de registrar a língua de sinais de forma escrita é algo que. a criança surda pode ser inserida tanto na escola de surdos como na escola de ouvintes. Tais escolas. com professores. Certamente que ainda existem centros especializados de apoio ao surdo. que se prestam a ministrar métodos de letramento e oferecer reforço pedagógico aos alunos que participam da escola comum. à sua disposição. denominadas especiais. Entende-se por escola de surdos aqueles espaços que possuem toda uma estrutura formalizada. mas como língua de instrução. um recurso de fixação de sua língua. Se a primeira língua do surdo é a Libras e se ela é usuária de língua de sinais. percebe-se a mesma formação do espaço citado anteriormente. um meio custoso quando pensado em produção de alta escala. Esse termo se refere ao sistema de escrita dos usuários da língua de sinais. em sua grande maioria. ouvinte. diferentemente da escrita. mas com a clientela. Outra forma de registro FAEL . somente no futuro poderemos mensurar. sendo evidente que a implantação desse sistema. aprendizagem. em termos de conquista. fazer o registro de produções dos surdos só era possível mediante filmagens. projeto político-pedagógico e atendimento específico para determinada clientela. a visão começa a variar. pois é possível perceber que a Libras é entendida como primeira língua e o português como segunda. Em relação à escola de ouvintes. apenas após o término da produção. currículo. Essa distinção se contrapõe à antiga terminologia de escolas especiais. Muitas comunidades surdas de diferentes países possuem. cabe destacar que a escola deve ensiná-la um método de escrita compatível com sua habilidade visual. aquilo que se produz e elabora não pode ser revisado e avaliado. possuem profissionais especializados em uma deficiência específica e atuam como reabilitadores. se mostra favorável. Esse sistema ainda permanece sob pesquisa. não como meio de comunicação secular restrito a crianças em horário de intervalo. ainda tendo a desvantagem de que. a Libras sempre deverá estar presente.

ª Dra. pois ela se objetiva a uma representação visual de uma língua que é visual. por ter como fundamento elementos visuais. podemos citar o trabalho da Prof. que até então vem sendo utilizada. pois não abrange as sutilezas visuais da língua de sinais. passam pelo mesmo processo de alfabetização que as crianças ouvintes em relação ao português. Uma vez percebida a oportunidade de aplicar tal ferramenta às línguas de sinais – representando seus movimentos. Quase sempre. empreenderam-se pesquisas no sentido de tornar aquela ferramenta inicial. configurações. que aponta que as crianças surdas. básica. é preciso que essa ferramenta seja ensinada aos usuários das línguas de sinais. é a Glosa. por gerações. A pesquisa também demonstra que o SignWriting é uma ferramenta de escrita que o surdo assimila com maior facilidade. Marianne Rossi Stumpf (2005). esse recurso é muito limitado. Semelhantemente ao que ocorreu com as línguas orais. essa ferramenta foi elaborada como uma forma de registrar as coreografias a serem realizadas numa apresentação de dança. A princípio.Capítulo 3 da língua. No entanto. expressões –. numa ferramenta bem elaborada. Esse sistema paliativo transcreve as línguas de sinais com auxilio dos códigos da língua oral. e as ações relacionadas com a alfabetização dos surdos em escritas de sinais são ações isoladas e específicas de pesquisadores. A criação dessa ferramenta se deu nos anos 70 do século XX. fonológico e morfológico. No Brasil. fundamentado em elementos fônicos. é para o surdo um sistema de grafia muito mais compreensível do que o alfabético. mas somente agora teve início sua divulgação e implantação. cujos objetivos são descobrir e aperfeiçoar métodos de ensino para o SignWriting. com o objetivo de promover uma tradução em que os pesquisadores podem propor outras discussões em relação à estrutura da língua de sinais. ao aprenderem a escrita de sinais. A maior dificuldade é que não existem profissionais formados para desempenhar tal tarefa. a ferramenta adequada para a fixação da língua de sinais seria o SignWriting. informações entre as pessoas. nos níveis sintático. a implantação de um método de escrita para as línguas visuais possibilita abertura ao desenvolvimento da cultura e produção de conhecimento nas comunidades surdas. Língua Brasileira de Sinais – Libras 145 . sendo muito utilizado em pesquisas linguísticas. A escrita de sinais. uma vez que a escrita de sinais consegue armazenar e propagar. Dessa forma. demonstrando ser uma nova linguagem que modela o pensamento e o organiza quando escrito. para que isso se torne real.

se é lento. Desde então. etc. 146 A seguir. alguns exemplos dos símbolos do SignWriting: FAEL . que não devem. do sentido em que o sinal é realizado (esquerda ou direita). se é alternado. Dentre os princípios básicos estão: a representação da configuração de mão levando em conta sua orientação (se a mão é vista de frente. Isso significa que pode ser um sistema reversível e que. como toda escrita. significar desmotivação em relação à escrita. foi reformado ortograficamente.Língua Brasileira de Sinais – Libras a ponto de funcionar como meio de representação de uma língua. assim como acontece com as escritas das línguas orais – como o português que. a escrita do português não consegue explicitar as diferentes inflexões de vozes. como todo e qualquer sistema de escrita. recentemente. que procuram – no sentido de que toda escrita é uma tentativa – representar a língua utilizada pelos surdos. ele também é dotado de limitações. do movimento presente no sinal (se é circular.). é dotado de regras quanto à organização.) e sua distância do corpo (perto ou longe). como tal. necessita de ensino específico e treino para seu aprendizado. assim como na escrita alfabética do português. Muitos elementos presentes nas línguas de sinais são contemplados pelo SignWriting e. que podem conceder diferentes significados em uma dada frase. etc. e nem por este motivo há descaso em relação à continuidade de escrita dessa língua. O SignWriting. pesquisas vêm sendo realizadas e aperfeiçoamentos vêm ocorrendo. da localização (se a mão toca alguma parte do corpo). Afinal. Porém. no entanto. de perfil. os elementos do sistema são finitos e podem ser organizados e reorganizados com o objetivo de formular os diferentes sinais escritos.

pois. 1997. O que difere entre segunda língua e língua estrangeira é que. o professor retire do conteúdo a ser lecionado as aulas com exercícios de leitura em grupo ou coletiva (em que o professor Língua Brasileira de Sinais – Libras 147 . considerando a realidade do ensino formal. mas é segunda língua. o sujeito surdo poderá iniciar o processo de aprendizagem da segunda língua.Capítulo 3 Finalmente. para o primeiro caso a língua falada está próxima e no caso de língua estrangeira o aprendizado é de outra língua que se fala em outro lugar diferente daquele que se está. denota o prazer de poder se expressar. seus sete anos. irá adquirir o alemão como uma segunda língua. salvo por exceções. em suas aulas. Não é o caso de língua estrangeira porque ele se encontra no Brasil. A Libras é adquirida pelos surdos brasileiros de forma natural mediante contato com sinalizadores. sem ser ensinada. p. já que adquire naturalmente uma língua espaço-visual até. A aquisição dessa língua precisa ser assegurada para realizar um trabalho sistemático com a L2. o português caracteriza-se para eles como uma segunda língua. oportunizando que diferentes pessoas pudessem interagir de forma clara em lugares diferentes. em sua própria língua. Mesmo fazendo uso do português para se comunicar com seus pais. no caso. no máximo. 84). uma criança. o português. A necessidade formal do ensino da língua portuguesa evidencia que essa língua é. Sendo assim. filha de brasileiros que moram em colônias alemãs. ouve as pessoas falando em alemão e precisa interagir nesta língua. brincando e se divertindo com colegas na escola. para além de sua própria geração. consequentemente. nas línguas orais. o contato com aqueles que fazem uso da língua que se quer aprender. deve ser sua primeira língua. O método de ensino do português como segunda língua presume que. a possibilidade de empregar um sistema de escrita que empreenda sua primeira língua significa mais do que um avanço técnico. para os surdos. Em relação aos surdos. uma segunda língua para a pessoa surda (QUADROS. foi a invenção da escrita que possibilitou que as línguas se estabelecessem e se padronizassem. por excelência. pois quando está em horário de lazer. Para ter uma segunda língua se faz necessária a aproximação. É o caso de alunos brasileiros aprendendo francês sem qualquer contato com pessoas do país de referência. Por exemplo. Representa o valor de poder possuir uma língua escrita e preservada ao longo da vida e para além dela.

propõe o trabalho em forma de texto e não com palavras. a leitura procederá conforme o texto. que informações possui. Possuir o texto em mãos. o foco de discussão incide sobre práticas de letramento. panfletos. o professor precisa ter planejado algumas perguntas para fazer ao aluno surdo (não sendo interpretação de texto). Após isso. concede abertura para uma aprendizagem mais significativa. para Quadros (1997). deve “pular” o surdo. a fim de que haja exploração na leitura. Deve também possuir uma cópia ampliada. dissertativo e permeado de função social explícita. manifestando um sinal equivalente. sinalizar a temática do texto. A seguir. isto é. O aluno surdo não lerá em voz alta. Antecipadamente. diferenciando o tipo de texto a cada aula. ou aqueles que tornam evidente a silabação (junção de b + a = ba). narrativo. itálicas. sílabas ou frases. baseado no cartaz ao lado. FAEL . anúncios de jornal e outros. pois o respeito fica estabelecido quando a pessoa é tratada com os mesmos direitos e com sua especificidade. letras negritadas. Deve percorrer visualmente todo o texto e. em seguida. a partir do texto pode tratar de questões diversas quanto à realidade. etc. caso o professor proponha este tipo de atividade para a sala. irá destacar aquilo que mais se evidencia (imagens. evitando escrevê-lo no 148 quadro. um exemplo de como realizar esse trabalho. mas visual. que palavras já conhece e se tais palavras podem ser aplicadas naquele contexto. Após essa realização. Fonte: São Paulo (2007). contendo elementos visuais. Esse aluno deverá realizar a sinalização quanto ao texto. isto é muito significativo. em slide ou transparência. Dessa forma. pois. Então. Tal atitude não significa ser excludente. uma orientação para que o aluno seja estimulado a pensar sobre o conteúdo que está sendo abordado naquele texto. cabe ao professor ajudá-lo no aperfeiçoamento da leitura. pois ela não consegue fazer uma leitura linear – os olhos não percorrem palavra a palavra dentro do texto –. Para a criança surda. ou seja. na íntegra. significa que.). A leitura consiste no primeiro passo e. ou seja. se o professor for reproduzi-lo. como descritivo. deve garantir sua formatação e cores. cores. como: cartazes.Língua Brasileira de Sinais – Libras aponta com a régua aquilo que deve ser lido). o professor deve passar para o aluno surdo o texto integral. O letramento possui sua abordagem mais globalizada quanto à língua. atualmente.

vermelho verde azul 149 alaranjado amarelo cor-de-rosa marrom preto branco Língua Brasileira de Sinais – Libras . sobre o objetivo social desse gênero textual. e conversarem sobre o porquê disto. há variedade de cores. No cartaz sobre a campanha de vacinação contra a raiva.Capítulo 3 Inicialmente. Os sinais das cores são demonstrados a seguir. o que possibilita o desenvolvimento de um trabalho interessante. é necessário deixar os alunos discutirem sobre os elementos extralinguísticos (cores e desenhos). podem ser exploradas. além de despertarem muito a atenção. pois. da Prefeitura de São Paulo.

para que seja algo muito interessante ao aluno surdo. simultaneamente. ou seja. para quando for necessária nova leitura ou haver esquecimento da palavra. o professor deve apontar no texto onde isso se encontra escrito. encaminha-se para a aula propriamente dita. apreensão do saber. quanto aos surdos. acréscimo de informação e. bem como a interação discursiva sobre a temática apresentada (BRASIL. em Libras: evitar bravo morder. registrando o roteiro no quadro. o professor atuaria de forma semelhante. Quadros (1997) aborda que esse contato. o professor irá registrá-la no quadro para servir de orientação. o professor necessita empreender tempo oportuno em busca desse material. O educador deve oferecer uma leitura de texto que contenha uma imagem condizente com o discurso apresentado.com/ watch?v=0l3NX__oQAk>. Nesse link é possível visualizar o alfabeto. várias vezes. os números. o contato do material com o aluno. seriam: a) Quem pode tomar esta vacina?. Após apontar no texto a palavra “falada” pelo aluno. e) O que significa o termo “contra”. d) Onde podemos obter maiores informações sobre a vacinação?. em Libras. Diferentes tipos de perguntas que o professor poderia formular e oferecer ao aluno. Devido a isso. de real circulação. O desafio de trabalho com a leitura é um momento muito importante na aula de alfabetização. 2002a). as cores e os dias da semana na Libras.Língua Brasileira de Sinais – Libras Em seguida.youtube. na frase “Vacinação contra a raiva em cães e gatos”? Frente às respostas em Libras. para seu aluno surdo: “Por que é importante vacinar o cachorro e o gato?” Saiba mais Consulte: <http://www. não muito delongado e que tenha um objetivo social específico. b) Precisa pagar?. torna-se muito significativo. representa aprendizado a todos os alunos e não apenas aos surdos. c) Qual o período de vacinação?. O contato intenso com o material abordado nos textos proporciona a aquisição de conhecimento. o professor pode fazer a pergunta. Após o trabalho de escolha do texto. fazendo a ligação daquilo que o aluno diz com o que está escrito no cartaz e. que é o momento em que o professor deve oportunizar. E quando o aluno responder. ele consiga voltar ao caderno e lembrar-se. considerando que se destaca como FAEL 150 . por isso. mostrar a palavra raiva no panfleto.

o professor se coloca como um mediador. pois é quando o aluno tem a oportunidade de manifestar o seu entendimento sobre a temática apresentada. é de suma importância para que o aluno obtenha uma referência na leitura e. o professor poderá propor temas a serem discutidos com todo o grupo. é como se pudesse confirmar as hipóteses que ele levanta. estabelecendo relações. Após a leitura do texto sugerido. pode-se exibir uma parte do texto. se forem apropriados à idade das crianças. poderão promover grandes discussões. Em seguida. segue o exemplo de um trabalho com a temática: materiais escolares. com o diferencial de que o canal de comunicação será o espaço e a visão. No momento da interpretação do texto. A fim de elucidarmos a proposta apresentada. Temas esses que. 2002a). No trabalho com a escrita. a intertextualidade. como: “O menino escreveu com o lápis. ele sente-se participante no processo de aprendizagem. ele procura descobrir o significado de algumas palavras e.” e indagar a colocação do pronome seguido do sujeito da sentença na seguinte situação: se você é uma menina escrevendo. algo tão importante quanto o processo de leitura é o da elaboração escrita. a interação se dará por meio da Libras (BRASIL. bem como a elaboração de frases curtas a ele pertinentes. visando traçar paralelos e sugerindo uma conversa intertextos. pois são privados das informações que são veiculadas de forma auditiva na sociedade. Isso porque. o professor irá propor atividades para que reflitam sobre a língua. Em relação a essa proposta. ele pode ser levado pelo professor a refletir sobre o conteúdo apresentado. como esse aluno ainda está no processo de aquisição da língua escrita e trabalha com dificuldade frente aos códigos da língua portuguesa. para Silva (2001). Depois. a intervenção do professor pode ser decisiva para o aluno. Língua Brasileira de Sinais – Libras 151 . ao aluno surdo. quer dizer. Essa função do professor. o encaminhamento para a aula de português e a metodologia utilizada para trabalhar o letramento com as crianças surdas serão iguais aos dos alunos ouvintes. produtivas ao aprendizado. Sendo assim. ou seja.Capítulo 3 uma das únicas formas de acesso às atualidades. em situações assim. Dessa forma. o objetivo principal pode ser o da apropriação das palavras relacionadas ao tema. Com a possibilidade de o aluno interagir com o a temática do texto. quando as questões relativas às considerações abordados pelo autor são pontuadas. é interessante obter sentenças modelo que possam servir de fonte para outras situações semelhantes. colocaria “o menina”? E assim.

porque para os surdos que não ouvem e nem falam o português. Após essa explanação. no caso. etc. No caso dos surdos. as canetas – a caneta – os meninos – as meninas O menino escreveu com o lápis. muitas vezes. em que os alunos deverão revisar aquilo que foi trabalhado no texto. o que significa que o aluno não se apropriou do português completamente e não se distanciou da Libras. vimos a questão da flexão verbal apontando as pessoas no discurso. é natural recorrer a primeira língua ao se deparar com uma determinada insegurança. em relação ao surdo. mas em ambas. está em processo. pois é diferente da língua de sinais. É necessário que o professor sempre retorne às frases escolhidas para aprofundar a reflexão em aula. a mesma situação acontece. inclusive o surdo. em que o nome do lugar FAEL 152 . há interferência da Libras e. Isso porque esse momento é de tamanha riqueza para os surdos. poderão surgir caça-palavras. ______________ escreveram com o lápis.Língua Brasileira de Sinais – Libras ir promovendo a aula. frases para serem completadas. cruzadinhas. abordem possíveis comutações com outras palavras: Insira as palavras a seguir nos seus devidos lugares. atividades de ligar gravuras a palavras. o processo de escrita é muito mais difícil do que para os ouvintes. o uso do s como identificador de plural para o complemento caneta e sua inexistência no caso de lápis. o professor poderá desenvolver exercícios de fixação. Uma frase típica de interlíngua escrita por surdos é: casa ir. O menino escreveu com ______________. A essa mistura chamamos interlíngua. permitindo espaços para que os alunos. Assim. a frase escrita não será nem em uma língua nem em outra. quando estão tentando elaborar mentalmente uma frase em português. significa a aquisição de uma segunda língua (QUADROS. ______________ escreveram com o lápis. ou seja. Quando esse processo se estabelece. a concordância nominal para evidenciar o número de pessoas. Nota-se que. 1997). Essa frase representa seu aprendizado no português. O menino escreveu com ______________. as palavras discutidas na reflexão linguística feita coletivamente. No caso anteriormente apresentado.

Capítulo 3 onde moramos é casa e em que usamos o verbo ir quando anunciamos que haverá deslocamento de um lugar para outro. de imediato se indica a direção do deslocamento (percurso) e aponta-se quem vai (pessoa) a determinado lugar. Caso contrário. o aluno sempre comete o mesmo equívoco e o professor sempre o evidencia (com caneta vermelha). As crianças surdas. a preposição e a conjunção são implícitas ao sinal (BRASIL. existe uma grande propensão de que o erro seja internalizado por quem produz. É necessário ir além. seria: eu irei. Isso pode se tornar algo costumeiro e. pois. Tanto o uso de preposição quanto a conjugação do verbo são questões gramaticais que não seriam omitidas pelas crianças ouvintes. porque após tantas repetições daquilo que é errado o aluno entenderá o que é certo. No entanto. ele desconhece a necessidade de conjugar o verbo para que haja concordância com a pessoa. com o sujeito da frase que. ele fará novamente. Além disso. Porém. que é o que permeia todas as áreas do conhecimento. enfim. decoram os nomes dos sinais que produzem em Libras. e assim sucessivamente. Sabemos que o ato avaliativo é de suma importância no contexto pedagógico e que não deve ser de caráter punitivo. até que. a pessoa surda ainda não aprendeu que. diferentemente. é necessário o uso da preposição para. está contribuindo para o desenvolvimento e crescimento intelectual e pessoal do seu aluno e. mas construtivo e reflexivo. Língua Brasileira de Sinais – Libras 153 . O professor precisa destacar claramente a atuação incorreta do aluno e mostrar a ele qual a maneira correta de fazer. nesse caso. pois estas já possuem total domínio na hora de escrever. Na Libras. se está no Ensino Médio. depois do verbo ir. 2002a). Quando o professor avalia qualitativamente. ou seja. o erro é apreendido. mas não explica a razão do erro. é importante que os professores das variadas disciplinas entendam a especificidade da forma como o surdo escreve para poder estabelecer critérios diferenciados de avaliação. devido a isso. então. quando o verbo ir é sinalizado. ou então. se esse aluno surdo se encontra na segunda etapa do Ensino Fundamental. deve entender que a simples disposição de valor a uma atividade não será significativa. nesta língua. e mais uma vez o professor fará a marcação sobre o erro e não dará explicações a respeito. já que estão habituadas a ouvir os adultos se comunicando.

assim.Língua Brasileira de Sinais – Libras Em casos de correção de textos. o professor deve participar em língua de sinais e compreender que a dificuldade destacada em relação a esse aluno ocorre devido a ele escrever em uma língua que não fala e. É importante saber que tal trabalho será contínuo e constante. os surdos alteram a ordem da frase por não se lembrarem do local exato em que se deve empregar os constituintes da língua. passem a ter aversão à língua portuguesa. o professor deverá estimular o diálogo com seu aluno. Frente à tamanha dificuldade de lidar com artigos. O mesmo objetivo que se aplica ao aluno ouvinte deve ser aplicado ao aluno surdo. ao final de um processo pedagógico de ensino da língua portuguesa. FAEL 154 . os alunos surdos os esquecem com frequência. os alunos surdos costumam decorar a ortografia destas palavras e confundir sua ordem sintática. a correção será mais uma forma de interação. Tais pontuações é que devem ser avaliadas com frequência nas correções textuais. desta forma. Porém. tornar importante aquilo que foi produzido por ele mediante incentivo e fazer com que ele perceba que sua comunicação poderia ter acontecido de outra maneira. surgem frases como: “Casa é a bonita”. mas de acordo com as regras gramaticais normativas. não melhor. Sendo assim. pois. o aluno tenha uma expressividade fluente com clareza e objetividade. devido aos conectivos inexistirem na Libras. é preciso que ele tenha em mente o significado social da escrita. ligações e conjunções necessárias na língua portuguesa. pois. para que se obtenha sucesso no propósito pedagógico de ensino do português para surdos. já que o aprendizado acontece mediante interações sociais. Dessa forma. se relaciona com o português como uma segunda língua. tornando a escrita relevante. Ao olhar para a produção textual de um aluno surdo. o professor deve considerar a organização do pensamento e. devido a tantas sinalizações sem qualquer explicação. Quando o professor fizer a correção dos textos elaborados pelos alunos. sempre pensarem que é difícil e que nada sabem. poderá atentar para a separação das ideias em parágrafos e para a coesão. preposições. É necessário que o professor se coloque na posição de interlocutor e faça interação com o texto. assim. o normal é que os alunos. Normalmente. O próximo passo requer ensino dos elementos coesivos. O texto deverá servir como elemento de comunicação entre o professor e o aluno. O propósito pelo qual o professor deve corrigir o texto do aluno é de que.

o professor precisa intervir a esse respeito e mostrar para o aluno que há uma dependência estrutural (organização obrigatória da frase) que rege o local do nome e o local do artigo e. o que ocasiona uma sentença agramatical. permitindo que pessoas que escrevem e falam em línguas diferentes possam se comunicar entre si. por se tratar de uma situação muito específica do português. O que será altamente compreensível. pessoas surdas podem atuar como tradutores quando leem textos em português e os transpõem para Libras. assim. há que se destacar que os sistemas de ensino têm garantido a presença de um profissional muito importante para acompanhar o aluno surdo. o que consiste num trabalho sistemático para ele. tais como: “O moto”. o tradutor. os tradutores leem e estudam o texto original. Dessa feita. por dominar a Libras e o português. Por isso. mas que desempenha um trabalhado diferenciado. procedem à sua tradução. a vogal “a” deve ser inserida antes do sujeito (casa). Eventuais situações exigirão do professor que esclareça as exceções. em conformidade com as regras gramaticais. Tal regra não existe no português. em seguida. Além do intérprete. figura esta que também faz parte da comunidade surda e é responsável pela mediação entre surdos e ouvintes: o intérprete. procurando Língua Brasileira de Sinais – Libras 155 . o intérprete com discursos orais. A principal diferença entre a atuação desses profissionais está no fato de que o tradutor trabalha com textos escritos. um vocabulário masculino solicita o acompanhamento de um artigo do mesmo gênero. escolhe aleatoriamente um lugar próximo ao adjetivo. pode vincular a interação entre pessoas que as desconheçam. podem ser intérpretes quando veem uma língua sinalizada de um país em específico e a transpõe para a língua de sinais de outro país. Ou ainda. também envolvido na comunidade surda e com o mesmo domínio linguístico. Ainda no contexto dos anos finais do Ensino Fundamental ou de Ensino Médio. o aluno adota o hábito de decorar a regra e utilizá-la de maneira genérica em qualquer caso. O trabalho do intérprete consiste em transpor textos ou discursos de uma língua para outra. há outro sujeito. apreendem o seu sentido geral e. Quadros (1997) diz que. neste caso. pois. construir sentenças erradas. podendo. por desconhecer onde deve colocá-la. Para tanto. Esse profissional é aquele que.Capítulo 3 Essa frase demonstra que o seu responsável já tem ciência da necessidade de nomes femininos virem acompanhados da vogal “a” e.

Para desempenhar bem esse trabalho. o intérprete encontra-se junto ao orador. interpretação judicial – é a interpretação realizada no âmbito de um julgamento. ouvindo a sua intervenção e tirando apontamentos. Quando o intérprete está mediando uma relação entre surdos e ouvintes de ordem formal. pois em situações formais de palestras e simpósios. tais como pequenas reuniões técnicas entre especialistas. Já as pessoas ouvintes que atuam profissionalmente como intérpretes. o profissional intérprete pode escolher entre uma das principais modalidades de interpretação existentes: ● interpretação de acompanhamento – é o profissional que. o intérprete sinaliza para o surdo. quando o ouvinte fala. Nesses casos. a fim de que o interlocutor o entenda e. aplicando a terminologia mais correta. ● 156 ● Essa última forma de atuação é bastante comum em relação à Libras. A interpretação consecutiva é mais adequada para as conversações que envolvem um número reduzido de participantes. ou seja. é solicitada a presença do profissional intérprete. ele pode optar por desempenhar seu trabalho de forma consecutiva ou simultânea. interpretação de conferência – é realizada em reuniões multilíngues formais. designadamente. interpreta integralmente em outra língua o discurso feito. a fim de que os participantes surdos possam acompanhar o evento. congressos. em seguida. acompanhando determinada pessoa. na primeira pessoa do singular). normalmente.Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitar as ideias e os pensamentos nele presentes. FAEL . seminários. como se este fosse seu (isto é. quando o surdo fala. transpõem um discurso oral emitido em uma língua para outra língua. encontros ou jornadas. o intérprete passa a Libras para o português. garantindo a transposição quase imediata dos discursos orais. interpreta em ambos os sentidos os diálogos que esta estabelece com interlocutores que se comunicam em outra língua. mesas-redondas. e funcionam como elo entre pessoas que se comunicam verbalmente em idiomas diferentes. conferências. Já a interpretação simultânea é mais adequada para encontros que envolvem muitos participantes.

sua constituição intelectual. de forma que. Nesse caso. Diante de tantas exigências para atuação. preservando a continuidade e o sentido dos discursos orais. pessoal e subjetiva é construída a partir da visão. Nesse sentido. nosso respeito e consideração pelo grande trabalho desempenhado junto às pessoas surdas. 157 Da teoria para a prática Agora que o profissional da educação já entende. Por isso.Capítulo 3 Ao mediador de relações entre surdos e ouvintes são outorgadas pelo menos três grandes responsabilidades. de conhecimento sobre as culturas envolvidas – de surdos e de ouvintes. de forma a não perder nenhuma informação. consiga manter o ritmo da intervenção sem perder informações. e deixá-lo junto às atividades desenvolvidas (coral. já que ele sentirá que não produz na mesma proporção que os demais alunos. coloca-se uma questão: a relação do direito assegurado e do julgamento de valor. vemos o quão árdua é a profissão de intérprete e o quão importante ela é para que a interação social entre falantes de línguas diferentes seja bem-sucedida. o estilo e o espírito que o discurso apresenta. Para isso. sons dos instrumentos) pelo professor denotará preconceito. econômica e social. Isso é importante porque os intérpretes nunca têm a possibilidade de voltar a ouvir o que foi dito. e de conhecimento sobre atualidade política. Aos intérpretes de Libras. como se dão as relações sociais da surdez. é essencial que o intérprete também tenha excelentes faculdades de análise e de síntese. precisa ter grande capacidade de concentração e de memória. afinal. Língua Brasileira de Sinais – Libras . a saber: de conhecimento profundo sobre as línguas envolvidos. Libras e português. cabe à coordenação pedagógica gerir qual o melhor procedimento diante de uma disciplina de música a ser trabalha em uma sala de aula em que estejam incluídas pessoas surdas. treino auditivo e rápida compreensão dos discursos orais. a melhor atitude a ser tomada seria: ● Poupá-lo da aula. Além disso. neste caso. esse profissional precisa ter clareza do que ouve para interpretar adequadamente o sentido.

a melhor atitude seria: ● Insistir na cobrança da atividade. já que a condição auditiva não poderá ser alterada. Além disso. 158 ● Síntese Neste capítulo. Ao invés de assistir ao filme – dada a ausência de legenda –. Destacamos que a aquisição da linguagem da criança surda acontece nos mesmos moldes da criança ouvinte. já que o português é sua segunda língua). para ter uma comunicação facilitada. como aluno. por isso. sugere-se uma questão ao professor regente de sala de aula: diante da proposta de assistir um filme e fazer um relatório. salvaguardando suas especificidades e tentando adaptar os sons para os gestos e/ou movimentos dos sinais. ele explique em Libras o que entendeu da leitura. que quando têm filhos surdos a relação é amena. FAEL . injusto.Língua Brasileira de Sinais – Libras ● Integrá-lo à aula. Apenas solicita que. ele não entende e não consegue escrever no nível exigido. afinal. o aluno surdo comparece à aula sem a atividade executada e argumenta que não deve ficar sem a nota. Ainda levando em conta a tomada de decisão no contexto escolar. se possível. Privá-lo dessa participação implica em reserva de cultura e isso é. humanamente falando. o professor passa o relatório de um dos alunos para que o surdo leia e o dispensa da entrega do relatório. pois o filme tem um conteúdo extremamente importante para a disciplina. vimos que o surdo prefere se casar com outro surdo. ao passo que quando os filhos são ouvintes (Codas) haverá uma dupla constituição psicológica. Adaptar a atividade. o que poderá acarretar em algumas dificuldades de relacionamento. ele deverá realizar todas as demandas apresentadas em sala. pois não há janela e. ainda que existam critérios diferenciados para avaliação. Diante disso. devido ao fato das dificuldades inerentes à sua história de vida (não adianta assistir ao filme. vimos que a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades que não se encontram na organização de uma pessoa ouvinte. O aluno deverá procurar uma forma de assistir ao filme e compreendê-lo.

a Libras deve ser assegurada como língua de instrução. Quanto à inclusão dos surdos. apresentamos a importância do seu registro por meio do SignWriting (escrita de sinais) e de metodologia específica para o ensino do português. também. a questão de que as relações sociais se mostram como espaço constituidor de identidade e de desenvolvimento cultural e apresentamos as disseminações políticas consideradas no caso da surdez (closed claption e Lei n.Capítulo 3 Abordamos. trouxemos os tipos possíveis de escolarização (escola especial. já que estas pessoas não ouvem e não falam a língua que devem escrever e ler. 159 Língua Brasileira de Sinais – Libras . Dessa forma. pois este se apresenta como segunda língua e por isto vem carregado de dificuldades para ser aprendido.078/2007). escola inclusiva e centro de apoio ao surdo) e defendemos que. indiferente do espaço. 1.

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