Lídia da Silva

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Capítulo

Língua Brasileira de Sinais – Libras
Lídia da Silva

Curitiba 2010

Nota: conforme Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. 164 p. CDD 371. 1. Bibliotecária – Cleide Cavalcanti Albuquerque CRB9/1424 Silva.Ficha Catalográfica elaborada pela Fael. Lídia da S586l Língua Brasileira de Sinais – Libras/ Lídia da Silva. 2010. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael. – Curitiba: Editora Fael.9 Direitos desta edição reservados à Fael. Libras. I. Título. Educação inclusiva 2. FAEL Diretor Acadêmico Diretor Administrativo-Financeiro Coordenadora do Núcleo de Educação a Distância Coordenadora do Curso de Pedagogia EaD Secretária Geral Osíris Manne Bastos Cássio da Silveira Carneiro Vívian de Camargo Bastos Ana Cristina Gipiela Pienta Dirlei Werle Fávaro SiStEmA EDuCACioNAL EADCoN Diretor Executivo Diretores Administrativo-Financeiros Diretora de operações Diretor de ti Coordenadora Geral Julián Rizo Armando Sakata Júlio César Algeri Cristiane Andrea Strenske Juarez Poletto Dinamara Pereira Machado EDitorA FAEL Coordenador Editorial Edição Projeto Gráfico e Capa ilustração da Capa Diagramação ilustrações William Marlos da Costa Thaisa Socher Denise Pires Pierin Cristian Crescencio Ana Lúcia Ehler Rodrigues Dilmar Kempner Júnior .: il.

intérprete de Libras.Ao Ronaldo Quirino. que me indicou este caminho. .

.

as entidades da comunidade surda. Os alunos desses cursos precisam aprofundar não apenas o conhecimento da língua de sinais. como as associações de surdos. 5. A aprendizagem de Libras é lei em muitos cursos. sempre divulgavam cursos de Libras. que exige deles uma atuação esclarecida e interessada. visando promover a comunicação entre as pessoas. Professores esclarecidos quanto à complexa realidade da criança surda poderão trabalhar dispensando o carinho merecido a essas crianças. A aprendizagem da língua precisa estar dentro de um contexto organizado. apresentação . a história e as lutas do povo surdo pelo reconhecimento de sua língua. Antes do Decreto n. é crucial e precisa se concretizar. Hoje muita coisa mudou. a Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. que permita diminuir o preconceito com que. nos cursos de Pedagogia. em geral. são vistos os surdos. que reflete muitas pesquisas recentes na área.apresentação A produção de textos para a disciplina de Língua Brasileira de Sinais – Libras.. e atuar de forma a fazer avançar as condições de acolhimento na escola e na família. de uma maneira informal e nada padronizada. Os assuntos são apresentados de uma forma clara.262/2002. sem diminuir os conteúdos necessários. etc. mas conhecer o porquê de a língua ser um direito na educação dos surdos. as igrejas. A professora Lídia da Silva conseguiu abordar os mais importantes conteúdos necessários ao entendimento dos desafios colocados aos professores pela mudança implantada na educação dos surdos.

. língua de sinais. informática e escrita de língua de sinais. Orienta pesquisas na pós-graduação em Linguística e tem experiência na área de educação de surdos. Marianne Rossi Stumpf* * Doutora em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. mesmo entre a maioria dos professores.apresentação apresentação Esses avanços são necessários para que se concretize uma real inclusão na sociedade e a diminuição dos preconceitos existentes. Atua como coordenadora geral do curso de Letras-Libras e como professora adjunta da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

oirámus
Prefácio.........................................................................................9

sumário

1 2 3

Status linguístico da Libras ........................................................11
Estrutura gramatical da Libras ..................................................41 Implicações sociais da surdez .................................................127 Referências...............................................................................161

oicáferp
Q

Capítulo

prefácio
9

uando nos deparamos com uma pessoa surda pela primeira vez, algo acontece que faz deste encontro um momento único e singular em nossas vidas. Para alguns, esse momento vai significar o confronto com suas dificuldades e limites, que ficará apenas na memória. Para outros, esse momento vai significar uma mudança de vida, devido a uma tomada de decisão quanto às questões relacionadas à surdez e à língua de sinais. Uma tomada de decisão que implica na proximidade com a pessoa surda e sua língua. No meu caso, o efeito do encontro foi o segundo. Diante de um primeiro contato com uma pessoa surda, fui tomada pelo desejo de me desafiar e de tentar uma aproximação com ela, ainda que isso exigisse muito esforço e dedicação, pois o processo de aprendizagem de uma segunda língua não é uma atividade das mais fáceis da nossa vida. A entrada nessa nova esfera linguística me motivou a buscar cada vez mais conhecimento sobre a Libras e suas implicações para os sujeitos surdos, e esta busca foi determinante na minha formação acadêmica e profissional. Hoje sou pesquisadora, usuária, tradutora e professora de língua de sinais, e me deparo todos os dias com os desafios que uma língua espaço-visual impõe às pessoas que são falantes nativas de uma língua oral-auditiva. Porém, além dos desafios, me deparo também com a beleza, com a completude, com a satisfação de poder estabelecer comunicação por meio das mãos, dos olhos, do corpo, dos sinais. Assim se constituiu minha busca, e assim espero que se constitua a leitura deste livro aos leitores: descobertas recheadas de desafios e encantamentos.

contribuir com as discussões sobre os surdos e sua língua. torna-se mais fácil conceber a ideia de uma pessoa viver apenas com experiências visuais e assim construir toda sua impressão sobre o mundo. Atua como orientadora de aprendizagem no curso de Letras-Libras e é tradutora de Libras da Universidade Positivo. é claro. mas sempre destacamos que eles – os surdos – também devem ter voz neste processo. esclarecer a constituição dos aspectos fonológicos.10 oicáferp prefácio Julgo que os principais desafios que se encontram neste texto são de ordem mais gramatical. e de não mais creditar como verdade as falácias sociais ditas sobre ela até então.* * Lídia da Silva é mestre em Linguística. Minha expectativa é conseguir. que o leitor possa – após receber esta introdução – percorrer caminhos mais longos no conhecimento da estrutura gramatical da Libras. A autora. é que gera condições de entender as implicações sociais da surdez. sintáticos e semânticos da Libras. Além disso. minimamente. no seu valor e nas suas possibilidades comunicativas. . morfológicos. espero que esse desafio soe como um convite a uma leitura mais aprofundada sobre o tema. Com esse olhar de diferença linguística. já que é uma tarefa árdua esboçar graficamente os detalhes de uma língua “espacial-tridimensional”. sem esgotá-los. de alguma forma. acredito que o leitor será tomado de encantamento ao se deparar com o status linguístico da Libras. Até porque. Esse encantamento pela Libras. É preciso que tenhamos esse encantamento para podermos. no sentido de poder empregar a característica de “língua” a esta forma de comunicação.

Dessa forma. Essa teoria atesta que princípios e parâmetros imperam na constituição de todas as línguas do mundo. Definições preliminares Atualmente. por exemplo. bem como o refutamento aos mitos sociais que até então circundavam a concepção que se tinha sobre ela. parâmetros que a distinguem das línguas orais. a teoria entende características iguais entre os idiomas – predominantemente. Vamos abordar algumas definições preliminares e algumas discussões sobre as mudanças das terminologias na área da surdez. da Libras. sobre a teoria inatista de Chomsky. e outros. este texto se insere nessas discussões por acreditar que a Libras possui os mesmos valores linguísticos que as línguas orais. atentaremos para a forma de nomeação da pessoa surda e da sua língua. o texto apresenta os universais “comprobatórios” da natureza linguística da Libras. Nesse ponto. Há. de forma mais pormenorizada. como a modalidade linguística espaço-visual. portanto. tem sido muito comum as pessoas se depararem com outras conversando de um modo muito diferente do que estão . apresentaremos uma introdução das ideias que serão desenvolvidas posteriormente. Trataremos. a estrutura sintática – enquanto que os parâmetros são as diferenças que existem entre eles – as categorias gramaticais. o caso de empréstimos de outra língua – fenômeno recorrente nos sistemas linguísticos. porém.Status linguístico da Libras N 1 11 este primeiro capítulo. Assim. tais como aquisição da linguagem e estrutura gramatical das línguas naturais. Por princípios. as marcas para formalidade e informalidade. pois ela embasa nossas considerações acerca dos fenômenos linguísticos explanados.

O professor era mero treinador de fonemas e o aluno deveria empreender todos os esforços possíveis para realizar uma boa leitura labial. Depois. este método de ensino chamado oralismo. o trabalho era de: recuperação auditiva. Esse tipo de concepção e. a integração foi a concepção adotada. mais aceitável a sua forma de expressão passa a ser. exercícios mecânicos. Não fosse assim. começam os rumores de uma nova filosofia social e educacional: a inclusão. Havia uma exclusão escancarada não só com essas pessoas. FAEL 12 . mas com qualquer uma que apresentasse alguma limitação física ou sensorial. não existiriam os títulos. no sentido de que ela deve se adequar aos moldes padrões. surge um sentimento de estranhamento. Normalmente. Prova disso é a própria dificuldade terminológica. mas com o passar do tempo esse sentimento se desfaz e dá lugar a uma impressão de normalidade. Porém. A integração é a fase que compreende a concepção e a prática da pessoa com deficiência a partir de um esforço adaptativo apenas de sua parte. nem sempre foi assim. Nessa perspectiva. como devemos nos referir a tais pessoas? Certamente. ainda há contradições manifestadas nas práticas. o modo como nos reportamos aos outros quer dizer alguma coisa. Quando isso ocorre. prevaleceu por muito tempo. tratamento de reabilitação. ainda que não pudesse ouvir sua própria voz. Nesse sentido. Houve uma época (século XV) em que as pessoas que não podiam ouvir eram atiradas do alto dos rochedos. aquilo vai se tornando comum. De fato. especialmente depois da decisão do II Congresso Internacional sobre Instrução de Surdos. Após esse período. que aconteceu em Milão. no início do ano 2000. À medida que estas pessoas vão se mostrando à sociedade. mesmo havendo um novo paradigma social emergindo. num primeiro momento. não apenas as pessoas que não ouvem passam a se integrar e emprenhar esforço para tornarem-se normais. a sociedade decide que as pessoas que não ouvem devem ser oralizadas. Porém.Língua Brasileira de Sinais – Libras acostumadas a ver. Ser uma pessoa oralizada significa desenvolver sua fala por meio da vocalização dos sons. vem impresso de significado. mas há um duplo envolvimento: por parte deles e por parte da sociedade. pois elas não eram consideradas humanas. infelizmente. sendo considerada improdutiva para a sociedade. Porém. a forma como nos dirigimos à pessoa revela o valor que damos a ela. consequentemente. que entendia que o método de ensino mais adequado aos surdos seria a oralização. os vocativos e os pronomes de tratamento. para então estar integrada à sociedade. como as pessoas que ouvem. em 1880.

Capítulo 1 No caso das pessoas que não podem ouvir. de gênero. política. religiosa.Há um slogan propagado pela Federação Nadinho”. porque quando o surdo está sinalizando. pois todos já fazem parte da sociedade. falar não significa vocalizar. aceito. emitir sons. há algumas alternativas de tratamento que podem denotar a consideração social a respeito de sua condição. ele está pronunciando-se na sua língua. e isto propiciou um olhar antropológico e cultural sobre a surdez. está falando. surdos-mudos para aqueles que não sabem que eles falam.feneis. mas a informação que mais nos importa é sua patologia e/ou sua condição clínica. além de pejora. De acordo com essa concepção de diferença (ao invés de deficiência). Primeiro. financeira. a sociedade progride e tem sua visão alterada. etc. não estão em sintonia com o que já é socialmente Verifique em <http://www. mas expressar a sua língua. e. a condição de não ouvir. estamos invocando aquilo que ela não tem. apague esta ideia! tivos. não estamos vendo-a como pessoa.br>.”. dizer surdo-mudo é duplamente incorreto. aliás. 2005). consequentemente.a. Então. 5. Artigo 2º. segundo o Decreto n. estamos destacando o que há de ausente naquela pessoa. Capítulo I. somos apenas mais uma figura no cenário da diversidade social – racial.cional de Educação e Integração de Surdos que diz: SURDO-MUDO. Depois. Então. os surdos são deficientes auditivos para aquelas pessoas que os enxergam com uma visão clínico-terapêutica. também Saiba mais deixam de ser válidos termos como “surdo-mudo” ou “mu.626 (BRASIL. sexual. pois. Foi a partir da década de 90 do século XX que inauguraram algumas pesquisas no país sobre a língua de sinais. Quando usamos esse termo para nos referir a uma pessoa. para aqueles que os olham Língua Brasileira de Sinais – Libras 13 . Esse olhar para o surdo como uma pessoa diferente acaba com a concepção de deficiente auditivo – anteriormente impregnada nos meios sociais e educacionais – e. não há necessidade de inserção das pessoas. É o caso do termo “deficiente auditivo” ou “d. Nesse sentido. ainda que os fonemas sejam desorganizados por falta do feedback auditivo. Com o acelerar da recepção de informações.org. porque existem muitos surdos que têm domínio da língua oral e que se comunicam também com sons da voz. aquilo que lhe é deficiente. anula a necessidade de reabilitação para integração. parágrafo único. Conceitualmente.

a partir de agora. de quando os surdos chegam a estabelecimentos comerciais. a órgãos públicos ou privados e fazem este sinal: Oi FAEL . para nos referirmos a essas pessoas neste texto. por meio do estabelecimento de uma comunicação visual. Portanto. falante da língua de sinais. são apenas: surdos. as pessoas que têm a capacidade de ouvir são chamadas de ouvintes. Contrariamente. É o caso. por exemplo. De fato. usaremos o termo “surdo”.Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitando sua diversidade linguística. porque ele remete a um posicionamento político de respeito ao sujeito como um ser social. e não com uma visão clínica ou patológica. poucas são as pessoas que reconhecem o que significam tantos movimentos e tantas sinalizações. Surdo Ouvinte 14 Os surdos conversam com as mãos.

com os sinais da Libras. tentam falar mais lentamente ou buscam um papel para escrever. na maioria das vezes. o desejável seria que essas pessoas pudessem responder da mesma forma. Língua Brasileira de Sinais – Libras . na esperança de conseguir estabelecer uma comunicação.Capítulo 1 As pessoas não sabem o que isso significa e. conforme exposto a seguir: Tudo bem? Qual é seu nome? Qual é o seu sinal?1 Bom dia 15 Boa tarde Boa noite 1 Os surdos dão um sinal para cada pessoa e não as chamam pelo nome. ou seja. Porém.

e o desconhecimento não é só dos vocabulários. vamos pensar na oposição língua X linguagem. A língua falada é conhecida por possuir uma característica oral e auditiva. a língua de sinais tem modalidade espaço-visual. E o que vem a ser modalidade linguística? É a forma como a língua se manifesta. pesquisadores que são adeptos a concepções sociais e há outros que procuram abordagens mais naturalísticas para formular suas concepções. que as pessoas a chamam de “linguagem de sinais”. Portanto. enquanto que a sinalizada tem a característica de ser espaço-visual. vemos que o desconhecimento sobre essa modalidade linguística é tanto. por ora. Os que entendem que a influência do social é determinante para aquisição da língua. Para ele. por exemplo. quem pense que são “mímicas”. o processo de adquirir a estrutura de uma língua natural é universal. Essa aquisição é possível devido ao fato de as crianças possuírem um conhecimento linguístico inato que as guia por esse processo. Posteriormente explicaremos porque esses dois últimos termos são inadequados. infelizmente. Inscrevem-se nesse tipo de abordagem as vertentes da linguística estrutural e funcional. três modalidades das línguas naturais: língua falada. ainda. há pesquisadores que são mais adeptos aos postulados teóricos de Chomsky (1957). e que escolhemos para construir nosso aporte conceitual. e a faz sob diferentes perspectivas teóricas. mas. 16 A linguística é a área científica que se debruça a conceituar essas duas categorias. Trata-se da teoria gerativa. pois independe da qualidade interativa que se estabelece com a criança. Segundo essa teoria. assim também como independe da cultura. língua escrita e língua sinalizada. esses e outros tantos sinais necessários à comunicação com surdos são desconhecidos pela população ouvinte. Porém.Língua Brasileira de Sinais – Libras No entanto. mas da própria nomeação desta modalidade linguística. Há. do Massachusetts Institute of Techonology – MIT. basicamente. Por outro lado. as crianças já nascem equipadas com vários aspectos relacionados à organização sintática das línguas humanas que FAEL . Isso significa que o espaço (lugar a frente do corpo) é o canal de emissão e a visão é o canal receptor da mensagem. nos Estados Unidos. Há. Tais ideias deram origem à teoria que vigora até o presente. Há outras que a chamam de “gestos” e há. destituem do ser humano as responsabilidades pelo seu desempenho linguístico.

sistema armazenado na mente. enganosas e fragmentárias? 17 Língua Brasileira de Sinais – Libras . apenas pela maturação da GU. devido ao seu inato conhecimento linguístico. porém. essa capacidade é uma consequência direta do fato de sermos humanos. A criança é vista como aprendiz eficiente a despeito da pobreza de estímulos. mas reflete a capacidade do ser humano de fazer uso dela no seu dia a dia. a aquisição da linguagem vai acontecer naturalmente – sem que haja um aprendizado formal –. com coerência e de forma apropriada a cada contexto.] pode-se dizer que o uso criativo da linguagem não se limita ao estabelecimento de analogias. Nesse sentido. Esse fator é preponderante no princípio do funcionamento do DAL.. Esses princípios formam um conjunto de regras linguísticas uniformes chamado de Gramática Universal – GU. e 2 O argumento da “pobreza dos estímulos” é tratado por Chomsky (1957) como uma atitude platonista. observando propriedades específicas. pois a mente humana abriga um sistema “computacional” capaz de gerar representações linguísticas. segundo Chomsky (1957).Capítulo 1 são geneticamente determinadas. a criança é exposta a estímulos pobres e limitados. Como diz Descartes. [. somos humanos ou não somos. pois não existem graus de humanidade. Isso se comprova. fica a cargo da interação social. de como é que o ser humano pode saber tanto diante de evidências tão passageiras. A perspectiva chomskyniana de linguagem está resumida no excerto a seguir... Por isso dizemos que essa teoria é de natureza mentalista. Em outras palavras. no caso. abriga os princípios que são comuns a todas as línguas humanas. [.. além da sua capacidade de evocar os pensamentos adequados no seu interlocutor. entendida como um órgão biológico carente de iniciar seu funcionamento que. mas não para determinação do seu estágio final. O DAL. Esse argumento é comumente tratado por problema de Platão2. é capaz de se desenvolver ao ponto de gerar infinitos enunciados bem formados. O estágio final são as propriedades linguísticas alcançadas pelo adulto. livre de estímulos.] Sob esta perspectiva. devido à discrepância entre input e output do falante. possibilitando um melhor entendimento de que a linguagem reflete uma capacidade mental do ser humano. por isso o nome problema de Platão é extraído da questão filosófica. Chomsky (1957) denomina esse conhecimento linguístico predeterminado de “Dispositivo de Aquisição de Linguagem – DAL” (em inglês: Language Acquisition Device – LAD).

memória. Essa é a concepção de língua que adotamos. há ainda que se colocar que. nem exercer sobre eles qualquer influência. e isso não acontece. mas está no seio da sociedade e por isso precisa ser adquirida. nos aspectos epifenomenais3. ela é entendida como um conjunto de regras que geram uma infinidade de sentenças. 47). 2008. e elas são: pensamento. encarado como um sistema “computacional”. Segundo Kato (1997). nesse modelo teórico. 18 Apesar de já termos adiantado o conceito de língua. considerando que. o objeto de estudo é postulado como o conhecimento inconsciente da língua. se será aprendida. 2008. se assim fosse. FAEL . (QUADROS. poderíamos dizer que a linguagem é um dispositivo que já está acoplado na mente humana desde o nascimento. inteligência. ela é social. 4 Função mental superior é sinônima de função psicológica. é de natureza muito mais individual. e que este dispositivo deve ser acionado pelos estímulos externos para poder desenvolver a língua. atenção. A linguagem é uma função mental superior4. p. econômicos. podemos concluir que a terminologia “linguagem de sinais” passa a ser cientificamente inapropriada. culturais. mas sem modificá-los. enquanto a língua. Para o linguista adepto à corrente gerativa. internas (inconscientes) e intencionais (automáticas). FINGER. Um estudo da faculdade da linguagem deve propor propriedades específicas e descobrir os mecanismos da mente que as apresenta. Assim. 3 Epifenômenos são fenômenos adicionais que se sobrepõem a outros. é língua. caracterizadas como individuais. políticos. Podemos concluir que a Libras deve ser aprendida e. percepção. significa que ela é externa a nós. todos seriamos sinalizadores. portanto. raciocínio. 47). esse conhecimento tem caráter intencional e o uso é inconsciente devido ao uso automático da língua. sendo assim. sendo que cada uma é formada por cadeias de elementos. FINGER. a não ser no nível da superficialidade. Dessa forma. além de dar conta destas mesmas propriedades em termos da ciência física (QUADROS. língua é um conjunto de regras que gera uma infinidade de sentenças. linguagem e outras. etc. p.Língua Brasileira de Sinais – Libras não há variação essencial entre os humanos. são fatores sociais. não está instalada no cérebro humano. Quer dizer. Posto o entendimento de que há diferença teórica no conceito de língua e no conceito de linguagem. isto é. a Libras não pode ser chamada de “linguagem de sinais”. opostamente.

br/ead/pne/Terminologias. A LSB é a sigla utilizada por pesquisadores que publicam textos internacionais. 2002b). Leia Sinais) e LSB (Língua de Si. Como Libras é nossa opção terminológica. reproduzimos a seguir o sinal empregado pelos surdos para nomear sua própria língua: Libras 19 Um dos documentos legais que contempla a sigla Libras é a Lei Federal n. A partir dessa aprovação. se deve ser correntes para designar a línLIBRAS (todas as letras maiúsculas).436/2002 (BRASIL. visto que no Há pesquisas que discutem a melhor grafia Brasil há duas terminologias para a língua brasileira de sinais. já que todas as demais línguas de sinais do mundo possuem uma sigla com três letras.pdf>. desta forma. e é o termo presente em documentos legais.Capítulo 1 A partir dessa concepção. A primeira foi oficializada pela Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. podemos adentrar mais especificamente nas considerações sobre a “língua” de sinais. Língua de sinais Iniciamos pelo signifiSaiba mais cado do termo. que oficializou a língua no Brasil. 10. a Libras passou a ser aceita como língua Língua Brasileira de Sinais – Libras .fiemg. é possível ter uma rápida identificação para LSB. com. libras gua de sinais utilizada pela (todas as letras minúsculas) ou Libras (apenas comunidade surda brasileira: a primeira letra maiúscula).mais sobre o assunto em: <http://www. nais Brasileira). já que há diferenLibras (Língua Brasileira de ça conceitual nestes diferentes registros.

1997). precisamos passar por um processo formal de aprendizagem. essa conquista só foi possível mediante a congregação dos surdos em prol dessa causa. Para que isso ocorra. quando colocamos a mão no rosto ou na cintura. Ter uma lei que oficialize um idioma em um país é muito importante. deve-se travar uma luta pelo reconhecimento linguístico de tais minorias. colocar a Libras e os gestos na mesma categoria de análise. discutindo e publicando suas investigações sobre esta língua. também. e pelo fato de muitos pesquisadores terem se empenhado para angariar conhecimentos que comprovassem o valor linguístico dessa língua. elas não podem ser comparadas com a Libras. para produzirmos a Libras. estamos produzindo gestos. bem como as asseverações postuladas pelos pesquisadores pioneiros no assunto. Vejamos cada um destes mitos. com o intuito de combater os mitos que havia sobre ela. possuem natureza muito diferente. 1998. FELIPE. A Lei n. pois demonstra o reconhecimento social sobre ela. Não devemos. índios) relatam experiências de segregação e preconceito. mas. Nesse sentido.Língua Brasileira de Sinais – Libras usual na comunidade surda. No caso da Libras. pois. Diferentemente. FAEL . incapaz de expressar conceitos abstratos.436 oficializou a Libras. já existiam pesquisadores brasileiros de língua de sinais (BRITO. visto que as minorias linguísticas (imigrantes. Por exemplo. há que se percorrer um longo caminho. todos seríamos falantes natos da Libras. Considerando que a pantomima e a mímica são formas artísticas de expressão. QUADROS. são nossas expressividades naturais. já que sua forma de expressão não é a mesma da maioria social. que é uma língua gramaticalmente organizada. antes disso. cruzamos os braços. apesar de ambos serem produções visuais. As línguas de sinais derivam da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. 1995. pois este sistema linguístico é abstrato e não faz parte da nossa expressividade natural – se assim fosse. apertamos os dedos uns contra os outros ou passamos as mãos repetidas vezes no cabelo. que vai desde agregar as pessoas até convencer políticos a planejar ações disseminadoras. 10. 20 Mitos sobre a Libras A língua de sinais seria uma mistura de pantomima e gesticulação concreta. Os gestos são as expressões espontâneas das pessoas.

Exemplo disso são as palavras “bem-te-vi” e “bumbo”. eles não são o todo da língua. nome de um pássaro e um instrumento musical. como é o caso do português. como os sinais a seguir reproduzidos. O primeiro grupo de sinais é o dos chamados icônicos. e o segundo é o dos sinais chamados arbitrários. Essa possibilidade de o referente linguístico ter relação com os objetos reais – a iconicidade – também é presente nas línguas orais.Capítulo 1 É verdade que a Libras é composta por sinais que representam manualmente as formas e os movimentos dos objetos do mundo. porém. SinaiS icônicoS Passar batom SinaiS arbitrárioS Vencer 21 1 2 Passar roupa Especial Língua Brasileira de Sinais – Libras . conforme podemos verificar nas ilustrações. respectivamente. há outros que não tem relação alguma com os objetos da realidade. que representam o som que reproduzem.

Língua Brasileira de Sinais – Libras SinaiS icônicoS Pentear o cabelo SinaiS arbitrárioS Perigoso Escovar os dentes Vingar 22 Dormir Idade FAEL .

Capítulo 1 SinaiS icônicoS Lavar roupa SinaiS arbitrárioS Organização Limpar o chão Sofrer 23 Varrer Opinar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Francesa de Sinais. Língua Americana de Sinais. Haveria uma única e universal língua de sinais usada por todas as pessoas surdas. FAEL . Muitas pessoas pensavam que a Libras seria universal. conforme figuras a seguir: Árvore Árvore 24 Libras Língua de Sinais Chinesa (CSL) Só essa informação. Contudo. de que a iconicidade se realiza de acordo com a perspectiva referencial de determinado grupo. não é isso que ocorre. pois a representação que cada falante faz da realidade é diferente. como sabemos. A diferença é que aqui representamos o tronco da árvore e o balanço dos galhos. quando um surdo sinalizasse o sinal de árvore para um ouvinte. já é um forte argumento para combater o mito que aponta que a língua de sinais deriva da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. é porque existem outras línguas de sinais espalhadas por outros países. essa afirmação não procede. entre outras. por exemplo.Língua Brasileira de Sinais – Libras É bom ressaltar que os sinais icônicos não são iguais no mundo todo. fica refutada a ideia de que os sinais da Libras são extraídos da expressividade natural dos ouvintes. Se assim fosse. se no nome da língua mencionamos sua nacionalidade. que os sinais eram iguais em todos os países. mas. tais como: Língua Holandesa de Sinais. Então. o sinal de árvore no Brasil é icônico assim como o é na China. enquanto lá se faz apenas o tronco. podemos concluir que. pois se Libras é a sigla da Língua Brasileira de Sinais. ele rapidamente identificaria o significado. Língua Alemã de Sinais.

mas. que seria derivada das línguas orais. também. ela tem sua origem na Língua Francesa de Sinais. Cada uma dessas proposições pode ser considerada um mito. esperanto – deixou de existir. que são diferentes apenas em sua natureza e comportamento. subordinada e inferior. baseando-nos Porém. Haveria uma falha na organização gramatical da língua de sinais. cada uma tem sua história linguística. inclusive as de sinais. assim como aconteceu com o esperanto. Isso porque sabem que. Porém. como qualquer língua. já que as línguas orais não são iguais e ninguém questiona esses fenômenos. Segundo naturais. sendo um pidgin sem estrutura própria. Algumas pessoas acham que a Libras é derivada das línguas orais e é um pidgin sem estrutura própria. Quando a informação de que a Libras não é universal começou a percorrer espaços sociais. apresentam organização sintática com os mesmos princípios comuns à linguagem humana. há Saiba mais uma língua de sinais especíCom a difusão das línguas de sinais pelos fica. como não era usado em momentos na teoria gerativa. devido às colonizações. que era que entendemos haver uma uma forma de comunicação oral que reunia os língua de sinais para cada país. houve o alastramento de determinados idiomas em determinados lugares. pensou-se em sistematizar uma língua nação e daquela comunidade surda. na sua organização semântica e discursiva para atender a aspectos culturais e ideológicos das diferentes comunidades de surdos. todas as línguas.Capítulo 1 Assim. O pidgin é utilizado por pessoas que estão em processo de aprendizagem e necessitam de Língua Brasileira de Sinais – Libras 25 . como nas expressões (1) e (2) a seguir exemplificadas. No caso da Libras. Por exemplo. encontramos conceituação diferenciada para os termos empregados. subordinado e inferior às línguas orais. E não é só pelo nome de sinais universal chamada “gestuno”. por pidgin entendemos a mistura de duas línguas. pois quando as analisamos. muitas vezes. se estamos entendendo que a língua de sinais tem o mesmo valor que a língua oral. Isso significa que as línguas de sinais se diferenciam. então um questionamento como este também perde sua validade. termos comuns na maioria das línguas orais. que reflete a cultura da países. havia um questionamento de que seria muito mais fácil para comunicação dos surdos se todos sinalizassem da mesma forma. O mesmo aconteceu com as línguas de sinais. em cada país. o gestuno – assim como o essa teoria.

Da mesma forma. pois houve a mistura dos sinais com a voz. 1. mas que muitas vezes é verbalizado por desconhecedores da Libras. com conteúdo restrito. da oralidade com a sinalização.Língua Brasileira de Sinais – Libras um recurso emergente de comunicação. Mesmo assim. Na Libras. como há uma conscientização ao cessar do preconceito linguístico. Esse jeito diferente de falar compõe o idioleto de cada um. 2. pois nenhum sistema linguístico será mais complexo ou superior a outro. também aponta para uma postura altamente preconceituosa. Na linguística. expressiva e linguisticamente inferior ao sistema de comunicação oral. Assim como fazer comparativo de superioridade ou inferioridade em relação à língua oral é linguisticamente inviável. Porém. I amo you. portanto. a fim de que o interlocutor o entenda. Esse é outro apontamento que não procede às descobertas científicas. A língua de sinais seria um sistema de comunicação superficial. por exemplo. isso também acontece. isto já é assegurado no campo da linguística e já foi transmitido à sociedade. Essa estrutura se caracterizará por um pidgin. Eu love você. esse tipo de comparação inexiste. Sabemos que não podemos criticar uma pessoa porque ela fala porta acentuando o r. mas nunca taxarmos como “certa” uma única forma. quando uma pessoa está conversando com um surdo em Libras e na ausência de um sinal resolve oralizar pausadamente. alegar que ela é subordinada à língua oral. sendo estética. não consideramos o inglês e o português como pidgin. como fazem os caipiras. a única comparação permitida entre as línguas e em sua realização é o conhecimento dos parâmetros de cada sistema. A Libras tem uma estrutura gramatical bastante complexa. FAEL 26 . além de demonstrar o desconhecimento da estrutura linguística. ou ainda porque ela fala bicicreta. Uma manifestação de pidgin sinalizada é. da Libras com o português. Podemos admirar uma ou outra forma. já que todos se prestam ao mesmo fim: a comunicação. tem constituição interna própria. e não um julgamento de valor. é o seu mau uso que pode tornar-se um. Nesse sentido. o que falta são algumas tomadas de decisão quanto ao tema. pois as línguas são apenas diferentes entre si. cada um sinaliza de um jeito. não é a Libras que é um pidgin.

é dinâmica e com conteúdo absolutamente ilimitado. emocional. Nesse sentido. Sua modalidade é espacial e visual. matemático e outros. que determina a compreensão de uma língua. Portanto. nesse hemisfério. basicamente. serve para ver no sentido estrito do termo. a Libras não se enquadra nesta situação. é a linguagem de programação. por estarem organizadas espacialmente. espacial. minimamente. Toda língua humana – como a língua de sinais falada pelos surdos – atende aos critérios de criatividade. sabem que ele é dividido em hemisfério direito e hemisfério esquerdo. há possibilidade de transmissão do conceito da palavra. Há. na verdade. memória e outras. No hemisfério esquerdo estão algumas funções mentais como atenção. Há pessoas que dizem que as línguas de sinais. e estas são características alocadas no hemisfério direito. O que ocorre. estariam representadas no hemisfério direito do cérebro. Diante disso. o cérebro Língua Brasileira de Sinais – Libras 27 . mas. para poder dar conta dessa modalidade. o cérebro humano. É possível falar qualquer coisa em Libras – desde de que o sinalizante tenha fluência –. Pessoas que conhecem. de flexibilidade e de versatilidade. as considerações que se tinha até então eram de que a Libras instalava-se no hemisfério direito. e a área de Wernicke. uma vez que esse hemisfério é responsável pelo processamento de informação espacial. artístico. A partir daí. é identificada a propriedade linguística. e que cada um deles tem uma função diferenciada. pois mesmo não havendo palavras comuns entre Libras e português. por estarem organizadas espacialmente. a Libras não é superficial. uma vez que este hemisfério é responsável pelo processamento de informações espaciais. estariam representadas no hemisfério direito do cérebro. enquanto que o esquerdo. já que é uma língua e que. pela linguagem. ou seja. visual. As línguas de sinais.Capítulo 1 Levando em conta que um sistema de comunicação superficial é aquele criado para atender a comunicação de máquinas. estaria no hemisfério esquerdo. é que a função de visão do hemisfério direito tem uma característica funcional. é uma língua natural. há que se pensar onde se localiza a Libras. duas áreas responsáveis pelo desempenho de uma língua: a área de Broca. especialmente. que determina a expressividade da fala. por isso. que emerge no seio da comunidade e se transforma ao longo do tempo. Ao hemisfério direito cabem as propriedades para o desenvolvimento musical. assim também como a função do espaço deste hemisfério se relaciona à questão geográfica.

agora com função linguística que servirá para “ouvir” e “falar” a Libras. haverá a visão e o espaço.Língua Brasileira de Sinais – Libras detecta que a visão e o espaço serão utilizados pela modalidade linguística. houve um período em que eles – um nome bastante conhecido desta época é o Ponce de Leon – se dedicavam à instrução de pessoas surdas. Essas primeiras pesquisas que se prestaram a desmistificar falsas considerações sobre a Libras deram origem a outras. então começaram a usar uma língua estruturada para transmitir conteúdos científicos e teológicos. da Língua Francesa de Sinais e da Língua Americana de Sinais são parecidos. posteriormente. a comunicação espaço-visual se espalhou pela Europa e. de William Stokoe. citamos os sinais de casa em Libras e na Língua Americana de Sinais: Casa Casa 28 Libras Língua Americana de Sinais FAEL . e então realiza uma transferência hemisferial. Depois disso. em 1960. mas não foi o primeiro a usar esta forma de comunicação. Assim como existem palavras muito semelhantes no português e no inglês (baby e bebê. entretanto. mas com propriedades distintas. Então. Por isso. no hemisfério esquerdo. para América. que burlavam a lei do silêncio que imperava nos mosteiros e conversavam por “códigos visuais”. alguns sinais da Libras. Como exemplo dessa similaridade. emergiram a partir do primeiro trabalho conhecido sobre línguas de sinais nos Estados Unidos. Assim. por exemplo). pois antes dele já existiam os abades franceses. chegando ao Brasil no século XX. Todas elas. São os chamados cognatos. há também algumas semelhanças de vocabulário nas línguas de sinais do Brasil. EUA e França. Ele foi o primeiro pesquisador a sistematizar a estrutura gramatical de uma língua de sinais.

um recurso paliativo. O vocabulário de qualquer língua pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. através dos universais linguísticos. ainda. isto reitera a existência de uma língua. É impossível negar que um grupo de surdos constitui-se como um grupo de seres humanos. Assim também acontece com o vocabulário das línguas orais e sinalizadas que.Capítulo 1 O que Stokoe e os primeiros linguistas brasileiros fizeram – além de mostrar o falseacionismo dos mitos – foi apontar a natureza da Libras como ela é. No português. e a Libras preenche estes requisitos. Então. destacamos inicialmente o alfabeto manual. Vejamos cada um deles. por exemplo. passou-se a mostrar a verdade sobre esse sistema de comunicação espaço-visual. usado apenas para se referir a nomes próprios e a objetos que não tenham um Língua Brasileira de Sinais – Libras 29 . Onde houver seres humanos. Ao aproximar-se da língua usada pelo grupo de surdos. as palavras são incorporadas ao sistema linguístico de um modo geral. Ele é. por meio da inclusão de palavras novas ao repertório individual. Fizeram isso utilizando-se da “regra geral” para validação de que uma língua é língua. Não há línguas primitivas – todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. ela deve passar por todos os testes postulados pelos pesquisadores. ela não pode ser considerada como uma língua primitiva. com empréstimos linguísticos vindos do sequente aportuguesamento destes termos ou. portanto. na verdade. apesar de se apresentar numa modalidade diferente das línguas orais. percebe-se que. haverá língua(s). pois todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. Verdades sobre a Libras: universais linguísticos Para uma língua ser considerada língua. como o de qualquer língua. pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. A primeira análise feita para atestar o status linguístico da Libras pautou-se numa simples consideração: a de que onde há seres humanos há língua. deve responder positivamente às questões levantadas. Quanto aos empréstimos linguísticos da Libras.

passa a fazer uso do português. no caso do Brasil. desde que não alternadamente. enquanto precisam aprender uma língua oral e auditiva. pois os surdos não se relacionam com a língua portuguesa como nós nos relacionamos. Em outros países. Figura 1 Alfabeto manual. devemos ter muita cautela para usá-lo. É preferível fazer um sinal sinônimo a “escrever” a palavra a que se deseja fazer referência. Há toda uma dificuldade que se coloca a eles. pode ser sinalizada de um jeito no Brasil e de outro nos Estados Unidos. às vezes. essa representação é feita de acordo com o alfabeto do idioma local. Por isso. a palavra toda deve ser sinalizada com a esquerda. quando a pessoa está usando o alfabeto manual. ele é considerado como um empréstimo da língua portuguesa. então. se há preferência pela mão esquerda. explicaremos com mais detalhes a questão de o português ser uma segunda língua para os surdos. portanto. vale ressaltar que esse recurso é externo à Libras. Posteriormente. deixa de usar a Libras e faz uma transferência de código. pois são usuários de uma língua espacial e visual. e não uma FAEL . Os surdos representam por meio das mãos as letras do alfabeto português.Língua Brasileira de Sinais – Libras sinal conhecido na Libras. Além disso. 30 a b c ç d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z O alfabeto manual pode ser sinalizado com qualquer uma das mãos. A letra “T”.

mas. bem próximo ao tronco. Além disso. Então. Um empréstimo linguístico é uma palavra original de um idioma que passa a fazer parte do repertório de um grupo de falantes de outro idioma. então. ´) por meio de desenho no ar com o dedo indicador. se escreve com o braço na vertical. e as letras são feitas uma após a outra. deve-se fazer uma palavra numa sequência rítmica e dar uma pausa na última letra para. No português. devemos ressaltar que dele são extraídos os outros empréstimos linguísticos da Libras.Capítulo 1 letra com cada mão. iniciar a nova série de letras que serão feitas com o mesmo ritmo. `. O desenho no ar é feito em um ponto acima de onde se escreveu inicialmente. indígenas. eles criam um sinal que será usado dali para frente. francesas. pela globalização. por exemplo: JOS´E. é comum os surdos pedirem que se escreva a palavra com o alfabeto manual. Normalmente. por meio da internet. a digitalização da palavra passará a ser dispensável das próximas vezes. na sequência. ou outros motivos. há muitos exemplos de palavras que não compunham nosso verbete e que passaram a fazer parte de nossa fala. há também a possibilidade de representação dos acentos das palavras (^. Caso seja necessário escrever mais de uma palavra (nome completo ou palavra composta. ~. O mesmo processo ocorre com a produção dos números da Libras. e deve ser feito antes da letra que receberá o acento. Na língua portuguesa há muitas expressões americanas. sem necessariamente tirar a mão do lugar. por exemplo). Para os nomes de pessoas e lugares. pois a realização do sinal vai remeter ao sentido e ao conceito. os quais estão reproduzidos a seguir: Figura 2 31 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Ainda com relação ao alfabeto manual. que são usadas pelos falantes Língua Brasileira de Sinais – Libras .

“psicanálise”. pela supressão de uma das letras. É o caso de quando entramos na faculdade. isso ocorre da mesma maneira. “piagetiano”. shampoo. Os surdos têm a capacidade de inserir em sua língua palavras novas conforme a necessidade. Exemplos desses empréstimos são as palavras: stress. “pragmática”. como os termos “paradigma”. Na língua de sinais. Os empréstimos linguísticos na Libras ocorrem mediante processo de aceleração da escrita do alfabeto manual e. como os expostos a seguir: Neurose Mídia FAEL .Veja um exemplo de empréstimo linguístico da Libras: Bar 32 Em se tratando de termos técnicos e científicos. lingerie. entre outras. ligth. algumas vezes. “biomorfologia”.Língua Brasileira de Sinais – Libras normalmente. delete. “demanda de mercado”. abajur. podemos destacar que são criados de acordo com a necessidade. “léxico”. há uma “enxurrada” de palavras novas as quais não utilizávamos antes. etc. diet. “sintático”. Daí surgem os novos sinais.

É o caso. passando o polegar na bochecha. por exemplo. Podemos verificar que não há permanência vocabular e nem estrutural em nenhuma língua. isso também acontece. que passou para vos mice. que era realizado com ambas as mãos postas próximas à cabeça. Assim como ocorreu com o vocábulo vossa mercê.Capítulo 1 Ambiente virtual de aprendizagem Condicionamento Todas as línguas mudam ao longo do tempo. é sinalizado conforme imagem a seguir. numa imitação de colocar o chapéu. Os sinais que exigem muito “trabalho” para serem realizados sofrem uma economia produtiva e passam a ser realizados de maneira mais simplificada. Na língua de sinais. Mulher 33 Língua Brasileira de Sinais – Libras . esse sinal preserva apenas o trajeto do rosto ao pescoço. e isto implica dizer que as línguas mudam ao longo do tempo. Atualmente. onde era encerrado com um movimento que imitava o lançar. o amarrar. Então descia do rosto em direção ao pescoço. depois para você e hoje é comumente tratado por cê ou vc. do sinal mulher.

d. Há ainda outra característica encontrada em línguas orais que se manifestam também nas línguas sinalizadas. as línguas de sinais. ou “a”. podemos encontrar significados. g. Quadros e Karnopp (2004) apontam ainda que. mas que cada fonema normalmente não tem significado quando está isolado. mas ganha um significado quando é combinado com outras unidades mínimas. como “p”. os sons de f. apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. Ainda com relação a isso. são encontrados em todas as línguas. Assim como as línguas orais apresentam segmentos sonoros discretos (p. em torno de trinta ou quarenta. a característica da dupla articulação. igualmente. é a característica de descontinuidade. visto que. FAEL 34 . Universais semânticos. fado. “n”. pois é um sistema distinto do que estamos habituados a usar. Toda língua falada inclui segmentos sonoros discretos. Línguas de sinais apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. Quadros e Karnopp (2004) apontam que há. Isso pode ser constatado na dificuldade em aprender uma língua estrangeira. expressa a característica de dualidade ou dupla articulação comum às línguas orais e sinalizadas. mas aplica-se também à estrutura gramatical das línguas. em todas as línguas. arbitrárias. porém. dado. pois elas diferem umas das outras. o e a não tem um significado expresso. por exemplo. como fêmea ou macho. os quais podem ser definidos por um conjunto de propriedades ou traços. É o caso. Podemos constatar que não há uma relação intrínseca entre a palavra cão e o animal que ele simboliza. camada de sons que se combinam e camadas de unidades maiores. Tal organização de língua em duas camadas. Os símbolos utilizados pelas línguas são arbitrários. n. a característica de arbitrariedade das línguas não se restringe à ligação entre forma e significado. quando os combinamos de diferentes maneiras. Por exemplo. dada a forma é possível prever o significado. Tal característica significa que existe uma gama de unidades que são semelhantes. de fogo. Toda língua falada tem uma classe de vogais e uma classe de consoantes. gado. e dado o significado é possível prever a forma. a).Língua Brasileira de Sinais – Libras As relações entre sons e significados das línguas faladas e entre gestos (sinais) e significados das línguas de sinais são. As palavras e sinais apresentam uma conexão arbitrária entre forma e significado. em sua maioria.

Língua Brasileira de Sinais – Libras 35 . para formação de palavras e sentenças. bem como universais semânticos tais como a distinção fêmea/macho. ainda. Todas as línguas apresentam categorias gramaticais (ex: substantivo. que são escritas e faladas de maneiras diferentes. etc. sendo assim. Todos os sistemas linguísticos têm a possibilidade de construção e compreensão de um número infinito de enunciados. para fazer solicitações. presente e futuro. É o caso das palavras faca e fada. a realidades remotas ou. a coisas que não existem e que os falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender em um conjunto infinito de sentenças. os quais. Universais sintáticos revelam que toda língua possui meios de formar sentenças. promessas. No concernente à sintaxe. pergunta. As línguas não se fixam apenas nos parâmetros fonológicos. para fazer ameaças. formam um conjunto infinito de sentenças possíveis. pois podemos usar a língua para dar vazão às emoções e sentimentos. Esse fenômeno demonstra a característica de descontinuidade da diferença formal entre forma e significado. comando.Capítulo 1 Tal fenômeno está em oposição à variação contínua. ordens. perguntas ou afirmações. Todas as gramáticas contêm regras de um tipo semelhante. Todas as línguas humanas utilizam um conjunto finito de sons discretos (ou gestos) que são combinados para formar elementos significativos ou palavras. isto significa que as palavras podem diferir de maneira mínima na forma. Falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender um conjunto infinito de sentenças. verbo). pois tanto línguas orais como sinalizadas apresentam categorias gramaticais (substantivo. A criatividade e a produtividade são apontadas por Quadros e Karnopp (2004) como propriedades que possibilitam a construção e a interpretação de novos enunciados. por sua vez. sabemos que tanto as línguas orais quanto as de sinais podem fazer referência ao passado. os falantes têm a liberdade de agir criativamente. Quadros e Karnopp (2004) apontam que essa flexibilidade e versatilidade é uma característica comum a todas as línguas. negação. verbo e outros). mas apresentam diferença considerável no significado. Todas as línguas possuem formas para indicar tempo passado.

assim. e estes diferentes registros discursivos são manifestados por meio da velocidade dos movimentos e do espaço FAEL . Então. Esses modos distintos na fala de cada região são os chamados dialetos. por meio dela. aipim e mandioca. Rio de Janeiro e Curitiba. nas cidades de São Paulo. Isso ocorre com a Libras.Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. como ocorre com o português. não é possível estabelecer uma homogeneidade linguística por todo seu território nacional. perceber que a Libras é bastante complexa em sua estrutura gramatical e que. que se prestam a designar a mesma coisa. mesmo cada país adotando uma língua de sinais própria. Trata-se de três sinais diferentes que se referem à palavra verde. haverá abertura para criação de novos falares ou modificação nos falares produzidos. inclusive utilizar-se de diferentes estilos de fala em diferentes ocasiões. por exemplo. respectivamente. é possível conversar sobre diversos assuntos. Vejamos um exemplo do regionalismo da Libras nas imagens a seguir. e todos esses novos modos serão carregados de peculiaridades da região onde o grupo está localizado. Podemos. 36 Fonte: imagens adaptadas de Strobel e Fernandes (1998). nas palavras macaxeira. mas em todas as línguas de sinais e orais. o modo de sinalizar é diferente se o interlocutor for uma autoridade ou se forem colegas na rua. Sempre que houver a reunião de um grupo de sinalizadores. pois. revela-se a criatividade que o falante tem para inventar novas palavras e de ter um estilo próprio de fala. que existem não só na Libras.

isso não denota agressividade ou briga por parte deles. O fato é que os surdos estão tendo uma conversa como outra qualquer. No entanto. vai até a cabeça e não se estende muito para os lados. também falamos muito rápido. sem significar uma briga. social ou econômica. Essa impressão equivocada ocorre porque as pessoas não sinalizantes deixam de considerar que. Os surdos igualmente agem assim. é capaz de aprender qualquer língua à qual é exposta. inclusive. ele sinalizará com muita expressão facial. pois tem tanta completude que possibilita ao falante fazer escolhas diferenciadas de sinais. Dessa forma. Um fenômeno elucidativo sobre esse assunto é quando as crianças surdas estão aprendendo a Libras. vocalizará alguns sons. Ampliam os movimentos dos sinais. na grande maioria. O espaço para sinalização se inicia acima do quadril. mas o “tom” elevado da fala. elas têm a impressão de que estão brigando. Os surdos sinalizam rapidamente um sinal após o outro. de qualquer origem racial. mas uma fala normal. com os braços bastante alargados e. Porém. quando estamos conversando. geográfica. Esse dado reitera que a Libras é uma língua que. Inicialmente.Capítulo 1 utilizado para sinalização. e isto ocorre da mesma forma com o surdo. podemos ver como é possível o falante de Libras transitar entre diferentes estilos discursivos. pois sinalizam muito rápido e tem bastante expressividade. contém marcas de formalidade e de informalidade. Qualquer criança. Quando os ouvintes veem os surdos conversando. provavelmente. Ao articular os fonemas da nossa língua portuguesa – um após o outro –. Além disso. Assim também acontece na comunicação em Libras. ou seja. Se o surdo quer ser bastante formal em sua fala. não nos damos conta de que são produzidos juntos. quando nós estamos em contextos informais. elas aprendem Língua Brasileira de Sinais – Libras 37 . provavelmente usará o espaço a frente do seu corpo com certo limite. de acordo com os tipos de situações experimentadas. todas as palavras se ligam entre si na constituição da frase e do discurso. se o contexto de fala é informal. tem o espaço de sinalização bastante elevado e produzem muita expressão facial. nascida em qualquer lugar do mundo. também falamos muito alto e somos extravagantes.

mas tem dificuldade para fazer a configuração apresentada. cada um dos três parâmetros – que são a configuração de mão. inconscientemente. além de mostrar a importância do adulto no contexto de aquisição da linguagem.Língua Brasileira de Sinais – Libras as unidades mínimas de maneira isolada. 38 Esse jogo discursivo. Isso também ocorre com as crianças surdas. igualmente. até que aprende os três parâmetros e consegue realizar com precisão o sinal de sorrir. para que a auxilie. Conforme já apresentamos. que começam a balbuciar “aaaaa”. Tomamos como exemplo uma criança quando estava com dois anos e. na Libras: a regularidade. depois “babababa”. porém. e a criança imita corretamente a localização e o movimento. a localização e o movimento –. há exigência de que os elementos fonológicos sejam adequadamente produzidos na realização dos sinais. presente. portanto. como fazem as crianças ouvintes. começa a aprender o sinal de sorrir (conforme figura a seguir). as línguas humanas – e. fazendo a intervenção devida. nos aponta para uma característica das línguas humanas. a Libras também – têm parâmetros de realização que não podem ser alterados para sua efetiva comunicação. A mãe ensina. não consegue reproduzir da mesma forma a configuração de mão. a qualidade do input e outros. Solicita à mãe por várias vezes. Toca no filho e ajeita sua mão para que realize o sinal de forma correta. FAEL . sorri quando a mãe a repreende pelo mau jeito na realização do sinal. A criança gosta do sinal. até formar palavras completas. Assim. A mãe age com um input favorável. em diálogo com a mãe.

Isso pode se dar por meio Língua Brasileira de Sinais – Libras . pode colocar algumas perguntas no quadro e promover que dois alunos participem: um pergunta e o outro responde. os paradigmas sobre a pessoa surda e sua língua passaram por reformas não só no que se refere à terminologia – surdo e Libras –. a chamada inclusão. mas na forma de relacionamento com esta nova realidade. nessa fase. Perguntas: ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● Qual é o seu nome? Qual é o seu sobrenome? Quantos anos você tem? Qual é o nome da sua rua? Qual é o nome do seu bairro? Qual é o nome da cidade em que você mora? Qual o nome da sua mãe? Qual a idade da sua mãe? Qual o nome do seu pai? Qual a idade do seu pai? Qual o nome dos seus irmãos? 39 Síntese Neste capítulo. utilizando as letras manuais. Então. tratamos das definições preliminares e apresentamos ao leitor a fase histórica pela qual a sociedade está passando. o professor pode colar cartazes pela sala com o alfabeto manual e com os números. Explicamos que.Capítulo 1 Da teoria para a prática Para aderir à ideia da diversidade linguística em sala de aula. é preciso que haja um desprendimento para aprender a se comunicar e se relacionar com os surdos. Muito mais do que saber a forma de tratamento dessas questões.

Nesses termos. FAEL . mas já podem se focar em conhecer o comportamento de uma língua espaço-visual e tecer análise gramatical sobre ela. 21). Glossário 40 Input É o sinônimo para estímulo linguístico. porque aparece em situações extremas de barreiras à comunicação (MCCLEARY. dos empréstimos linguísticos.Língua Brasileira de Sinais – Libras do alfabeto manual. Atualmente. Output É a forma como a criança expressa o input que recebeu. todas as influências verbais que são dadas às crianças quando estão aprendendo a falar. pois. 2008. para que houvesse todo o reconhecimento social e acadêmico que hoje existe quanto ao status desta língua. p. Dessa forma. de um jeito mais informal ou por meio de leituras e pesquisas linguísticas. ou seja. Pidgin É um sistema de comunicação precário. as pesquisas não mais se prestam a “comprovar” que a Libras é uma língua. foi preciso muito esforço para desmitificar os mitos que havia. percorremos com o leitor o mesmo percurso adotado no processo de valoração da Libras. É uma língua emergencial. assim como foi preciso arrolar alguns pressupostos universais na análise desta modalidade expressiva. o que faremos no próximo capítulo. é o que ela consegue falar. os surdos foram brindados com a oficialização da sua língua por determinação legal.

Por dupla articulação. apresentaremos cada um destes aspectos linguísticos relacionados à Libras. que se ocupa com as escolhas das palavras. abstraída de realizações fonéticas concretas e infinitamente variáveis. estamos fazendo menção às unidades mínimas que compõem a língua. que se ocupa em organizar as palavras na frase. e o semântico. e estas duas articulações – fonemas e morfemas – é que norteiam a dupla articulação apontada por Martinet (1978). atualmente. Para resolver tal impasse. quando nos referirmos aos fonemas. para o estudo das unidades mínimas da língua de sinais. ao invés de fonema. que se ocupa em estudar as unidades mínimas da composição das palavras. Assim. que busca a relação das palavras e o sentido que elas têm. entendemos um plano de conteúdos (composto . definição que torna o conceito suficientemente abstrato para abranger não apenas representações psíquicas de sons. a forma do significante refere-se a uma imagem acústica convencional. por entender o apontamento de Saussure (1970) quanto a isto. os pesquisadores de língua de sinais abandonaram o termo. Esse linguista diz que todas as línguas humanas possuem a dupla articulação. Além dos fonemas. 2008). Aspectos fonológicos É no nível fonológico que se encontram as considerações acerca dos fonemas – conceituados como unidade mínima do som. o sintático. as línguas naturais também são compostas por morfemas e palavras. Nesse sentido. mas também de gestos (LEITE.Estrutura gramatical da Libras T 2 41 odo sistema linguístico é organizado em níveis de análise. sendo os principais: o fonológico. Porém. não caberiam considerações fonológicas para a Libras. Stokoe empregou a terminologia “querema”. Para o pai da linguística. já que ela é uma língua espaço-visual que não tem som. o morfológico. Neste capítulo.

esses parâmetros não têm conteúdo significativo (capaz de compor significação). É bom lembrar que ambas as articulações são restritas nas línguas naturais. quando os unimos. vemos que Stokoe (1960) propôs três componentes da estrutura interna dos sinais: configuração de mão (CM). localização (L) e movimento (M). Carro Movimento Configuração de mão Localização FAEL . por meio da junção das articulações dos fonemas. Limitando-nos inicialmente à segunda articulação – fonemas –. conforme Leite (2008). Ônibus 42 Configuração de mão Movimento Localização O mesmo fenômeno ocorre com os sinais: avião e carro. podemos formar conteúdos irrestritos. porém.Língua Brasileira de Sinais – Libras por morfemas e palavras) e um plano isento de conteúdos (composto por fonemas). Como a Libras é uma língua natural. mas que sua combinação pode originar um número irrestrito de possibilidades significativas. Podemos constatar tal fenômeno. também é composta pela dupla articulação. Isoladamente.

conforme podemos verificar na figura a seguir. analisaremos cada um deles em sua composição. considerando a inexistência de identificação quanto às configurações de mão básicas e às configurações de mão variantes. encontramos 64 configurações de mão. que registra 46 configurações diferentes. isoladamente. a fim de entendermos melhor a formação dos sinais. 43 Configuração de mão O primeiro parâmetro – configuração de mão – refere-se à forma que a mão assume na realização do sinal. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Essas configurações podem dar origem a sinais da Libras se forem produzidas apenas com uma mão. apontam que essas configurações de mão são representações do sistema fonético da língua. por sua vez. Quadros e Karnopp (2004). mas não se restringem a elas.Capítulo 2 Avião Movimento Configuração de mão Localização Mesmo percebendo que. Para as configurações de mão da Libras temos o quadro de Brito (1995). com as duas mãos. mas ambas com configurações de mão iguais. Já em Felipe (2001). ainda. Algumas dessas configurações de mão correspondem às letras do alfabeto manual. os parâmetros não transmitem significado. com as duas mãos produzindo configurações de mão diferentes ou.

FAEL . 44 Fonte: adaptado de Felipe (2005). Configuração de mão com apenas uma mão: este é o tipo de sinal que pode ser produzido com qualquer uma das mãos. pois o seu sentido não será alterado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Figura As 64 configurações de mão da Libras. A fim de elucidarmos as possibilidades de formação de sinal a partir da configuração de mão. expomos alguns exemplos a seguir.

Capítulo 2 Aluno Professor Lápis Caneta 45 Cola Tesoura Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Vestibular Português ou Ciências História 46 Uniforme Educação FAEL .

Capítulo 2 Duas configurações de mão diferentes. Curso Pós-graduação Mestrado Educação artística 47 Estudos sociais Intervalo Língua Brasileira de Sinais – Libras .

e que realiza movimentos apenas com uma das mãos. Antes de falarmos sobre a condição de simetria. A mão passiva. e a mão ativa se forma em c. e a segunda é a condição de simetria. É o caso dos sinais apresentados a seguir. que se realizam com ambas as mãos moldando-se com a mesma configuração de mão e com a realização de um movimento simultâneo e simétrico. outras configurações de mão poderão ser realizadas. ou seja. vemos que nesse tipo de construção a primeira configuração de mão é a base que se forma em b. Em outros casos parecidos com esse. encontramos em Battison (1974) duas restrições. vejamos a realização de um sinal com as duas configurações de mão iguais. Por condição de dominância o autor entende a ocorrência de sinais nos quais uma das mãos assume o papel ativo e. nesse caso. que limitam consideravelmente as possibilidades articulatórias dos sinais. FAEL . Sobre a realização de um sinal que contém duas configurações de mão diferentes. mas a ordem de predominância será mantida.Língua Brasileira de Sinais – Libras Redação Apontador 48 Atendo-nos ao primeiro sinal. um papel passivo. uma mão será a base e a outra ativará o movimento. de apoio para a realização do movimento da mão ativa. serve de base. A primeira é a condição de dominância. Duas configurações de mão iguais: sinais desta natureza são formados por duas configurações de mão iguais. a outra.

Capítulo 2 Sala Geografia Caderno Régua 49 Mochila Prova Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Matemática Educação física Química Nota 50 1 2 Dividir Multiplicar FAEL .

podendo ser no próprio corpo do sinalizador ou no espaço neutro (espaço “vazio” a frente do corpo do sinalizador. em que as duas mãos estão ativas e realizam o mesmo movimento. temos que. em casos de sinais como os que mostramos. conforme imagens a seguir. Locação O segundo parâmetro – a locação – refere-se ao espaço onde o sinal será realizado. Sinalização no espaço neutro: Tartaruga Hipopótamo 51 Foca Mosca Língua Brasileira de Sinais – Libras . precisamente entre a cabeça e o quadril). há a condição de simetria estabelecida.Capítulo 2 Retomando as restrições articulatórias de Battison (1974).

tais como os exemplos que seguem. tronco e mão. conforme Brito (1995). a saber: cabeça. três pontos principais de locação.Língua Brasileira de Sinais – Libras Urso Jacaré Peixe Borboleta 52 Há. Subdivisões dos principais pontos de locação: Macaco Boi Sinal com locação na cabeça Sinal com locação na testa FAEL . Dentro desses pontos principais estão as subdivisões.

Capítulo 2 Galinha Rato 1 2 Sinal com locação no rosto Papagaio Sinal com locação na bochecha Pato 53 Sinal com locação no queixo Cobra Sinal com locação na boca Coruja Sinal com locação no pescoço Sinal com locação nos olhos Língua Brasileira de Sinais – Libras .

é bastante complexo. retilíneo. Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes tipos de movimento. Em Strobel e Fernandes (1998).Língua Brasileira de Sinais – Libras Porco Sapo Sinal com locação no nariz Dinossauro Sinal com locação no braço Zebra 1 54 2 Sinal com locação na mão Sinal com locação no tronco Movimento Movimento. bidirecional ou multidirecional. eles podem ser produzidos com diferentes tensões. velocidades e frequências. sendo possível produzi-los de forma unidirecional. circular. vemos que os movimentos podem ser do tipo sinuoso. Além disso. helicoidal e angular. considerando sua vastidão de possibilidades. o terceiro – e principal – parâmetro. semicircular. FAEL .

Capítulo 2 Espelho Telhado 2 1 Movimento sinuoso Xícara Movimento sinuoso Porta 2 55 1 Movimento semicircular Jardim Movimento semicircular 2 1 Movimento circular Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Cerca 1 2 Movimento retilíneo Liquidificador 56 Movimento helicoidal Eletricidade Movimento angular FAEL .

estes sinais se distinguem por alteração apenas em um dos parâmetros. Nesses casos. ocorre um fenômeno presente também nas línguas orais: os pares mínimos. temos muitos casos como estes. Citemos alguns: Laranja / sábado Aprender 57 Cantar Comunicar Além desses parâmetros. A palma da mão pode estar voltada para cima. quando associados. para Língua Brasileira de Sinais – Libras . destacamos a orientação de mão e as expressões não manuais. em que há apenas uma sutil diferença na pronúncia dos fonemas f e v. para fora. o segundo e o terceiro parâmetro. os chamados pares mínimos podem ser exemplificados pelas palavras faca e vaca.Capítulo 2 O primeiro. A orientação de mão é a direção que a palma da mão assume na realização do sinal. às vezes. No português. Na Libras. podem formar muitos sinais da Libras e. para baixo ou para o corpo de quem sinaliza.

concordância. Ir de trás para frente. já que neste momento não abordaremos a construção das frases. referem-se às expressões faciais e aos movimentos do corpo produzidos durante a realização do sinal. Ir da esquerda para a direita.Língua Brasileira de Sinais – Libras a esquerda e para a direita. A seguir. Esses movimentos também podem ser realizados isoladamente para marcar construções sintáticas – marcar sentenças interrogativas. grau ou aspecto. mas. obrigatórias nas construções sintáticas. relativas. tópico e foco. Ir da direita para a esquerda. exemplos de sinais isolados com expressão facial. As expressões faciais não são recursos adicionais ou dispensáveis na Libras. referência específica. assim como ocorre nas línguas naturais. Ir de frente para trás. Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes orientações para o sinal de ir. bem como para marcar afetividades. sim. referência pronominal. FAEL . conforme Quadros e Karnopp (2004). advérbios. 58 As expressões não manuais. negação.

Capítulo 2

Bravo

Triste

Feliz

Cansado

59

Bondoso

Humilde

ou

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Esquisito

Tímido

Calmo

Inocente

60
ou

Doido

Esnobe

FAEL

Capítulo 2

Vaidoso

Chato

Chorão

Tarado

61

Podemos perceber que a realização desses sinais fica condicionada ao uso das expressões faciais, até por uma questão de coerência, pois não seria muito lógico produzir o sinal de triste com um sorriso no rosto ou, então, o sinal de feliz com uma expressão de cansaço e tristeza. Certamente, nosso interlocutor questionaria nossa produção e precisaríamos definir qual a mensagem a transmitir: a do rosto ou a das mãos. Isso porque há sinais produzidos apenas com a expressão facial, com a dispensa de qualquer realização manual. Na Libras, há dois tipos de expressões faciais: as que se prestam a marcar argumentos gramaticais e as que são de cunho afetivo. Neste texto, abordaremos apenas o primeiro tipo e, como exemplo, vejamos os sinais de roubar e sexo:
Língua Brasileira de Sinais – Libras

é que são as unidades mínimas da morfologia (SANDALO. p. por exemplo. Entretanto. determinada configuração de mão. 2001). definirmos o que entendemos por palavra. dentro das palavras. se faz necessário. Esses elementos. Segundo Sandalo (2001. às vezes. pois. por exemplo. Assim como ocorre com o português. A seguir ilustramos alguns sinais que podem ser considerados morfemas. 62 Aspectos morfológicos da Libras Se estivermos entendendo que o nível morfológico é aquele que compreende o trabalho de seleção das palavras. conforme Felipe (1998). chamados de morfemas. assim como o fonema /s/ pode indicar o plural. FAEL . Na Libras. os fonemas podem ter a natureza de um morfema. 183).Língua Brasileira de Sinais – Libras Roubar Sexo Assim sendo. “palavra é a unidade mínima que pode ocorrer livremente em várias posições sintáticas”. há elementos que carregam significado. passemos a algumas considerações teóricas quanto à morfologia e à sintaxe da Libras. Do mesmo modo. os parâmetros fonológicos também podem ser comparados a morfemas. pode constituir um morfema. primeiramente. na Libras. eles apresentam significado isoladamente. os fonemas /a/ e /o/ podem ser artigos ou desinências de gênero.

Capítulo 2 Dois meses Três meses Quatro meses Um dia 63 Dois dias Três dias Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Nesse caso.Língua Brasileira de Sinais – Libras Uma semana Duas semanas Três semanas 64 Vemos que. resultam em uma unidade com significado. mas. não podem ocorrer isoladamente. quando articulados juntos. os parâmetros – isoladamente – não constituem morfemas. Em alguns sinais. FAEL . elas constituem um morfema preso. nesses sinais. ou seja. os dias e as semanas (QUADROS. KARNOPP. 2004). as configurações de mão carregam o significado do numeral. mas somente com os morfemas que indicam os meses. Os sinais reproduzidos na sequência são exemplos de que a articulação conjunta de cada um dos parâmetros é que forma o significado. no entanto.

Capítulo 2 Ontem Hoje Amanhã Passado 65 Futuro Ano Língua Brasileira de Sinais – Libras .

1995. 66 Nesse processo. via alteração de movimento e via alteração da expressão facial. um dos parâmetros do sinal é alterado. altera-se somente a expressão facial do sinalizador. 2008). passemos a discussão da incorporação da negação. um morfema livre. por exemplo) e morfemas gramaticais (movimento). No caso da incorporação de numeral. FELIPE. a locação e a orientação constituem um único morfema. Dadas as primeiras definições.Língua Brasileira de Sinais – Libras Percebemos que a configuração de mão. 2004. o movimento. QUADROS. passemos às considerações dos processos de formação e classificação de palavra (BRITO. Em alguns casos. a configuração de mão que representa o numeral se combina com outro morfema preso para formar um sinal. Ter Não ter Parâmetro movimento alterado FAEL . KARONOPP. Como já discutimos acerca desse ponto quando exploramos a constituição de sinais que representam morfemas. LEITE. Um dos processos de formação de palavras é por meio da incorporação de numeral e de negação. em especial o parâmetro do movimento. Ainda. em que apenas a configuração de mão se modifica. 1998. há na Libras morfemas lexicais (o sinal de sentar. nesse caso. de acordo com Brito (1995). A seguir vemos o contraste entre os sinais dos verbos e a formação de palavras de negação.

Capítulo 2 Saber 1 Não saber 2 Parâmetro movimento alterado Gostar Não gostar 67 Parâmetro movimento alterado Querer Não querer Parâmetro movimento alterado Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Poder Não poder Parâmetro configuração de mão alterado Conhecer Não conhecer 68 Parâmetro expressão facial alterado Entender Não entender Parâmetro expressão facial alterado FAEL .

conforme exemplos: Não responder Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Precisar Não precisar Parâmetro expressão facial alterado Aceitar Não aceitar 69 Parâmetro expressão facial alterado Além desses processos morfológicos que caracterizam formação de palavras. a negação também pode ser formada pela adjunção do sinal não ao respectivo sinal.

resultando em uma composição. Casa + cruz = igreja Casa + estudar = escola FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras Não sofrer Não terminar Não resolver 70 Há. Vejamos nos exemplos a seguir que um sinal pode ser formado por dois sinais independentes que se unem para formar uma palavra composta. outro processo morfológico que acontece pela combinação de dois morfemas lexicais. ainda.

Capítulo 2 Casa + carne = açougue Casa + pão = padaria 1 2 Boi + leite = vaca 1 Cavalo + listras = zebra 1 71 2 2 Mulher + cruz = enfermeira Mulher + benção = mãe 1 2 Língua Brasileira de Sinais – Libras .

o gênero é dado pelo processo de composição morfológica. um que se refere ao elemento morfológico neutro e outro que se refere à marcação de gênero. na Libras. 72 Homem + cunhado(a) = cunhado Mulher + cunhado(a) = cunhada 1 1 2 2 Homem + sogro(a) = sogro Mulher + sogro(a) = sogra 1 2 1 2 FAEL . Isso significa que. por meio da combinação de dois morfemas lexicais.Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + benção = pai Espaço redondo + lavar corpo = banheira 2 1 2 O mesmo processo morfológico ocorre em relação à formação de palavras que denotem gêneros.

Capítulo 2 Homem + primo(a) = primo Mulher + primo(a) = prima 1 1 2 2 Homem + tio(a) = tio 73 Mulher + tio(a) = tia Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + irmão(ã) = irmão Mulher + irmão(ã) = irmã 74 Homem + sobrinho(a) = sobrinho Mulher + sobrinho(a) = sobrinha FAEL .

Capítulo 2 Não obstante. a formação de palavras que denotam “categorias” também passa pelo processo de composição. conforme exemplos a seguir. Maçã + vários = frutas Alface + vários = verduras 1 1 2 2 Arroz + vários = cereais Leão + vários = animais 75 1 2 Batata + vários = legumes Língua Brasileira de Sinais – Libras .

firme e feito mais de uma vez. Da mesma forma se configuram estes outros sinais. o que sabemos é que um nome pode derivar de um verbo por meio da repetição e do encurtamento do movimento do verbo. mas o movimento é mais alongado. Se o movimento for alongado. leves e repetitivos na direção do espaço a frente do corpo do sinalizador. que diferem sua classificação nominal ou verbal pela alteração do parâmetro movimento: Cadeira Sentar FAEL . na locação perto da orelha e com movimentos curtos. O sinal de telefonar tem a mesma configuração de mão e a mesma locação. pode dar a ideia de telefonar várias vezes. firme e único.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com relação à classificação das palavras. como é o caso destes sinais: Telefone Telefonar 76 O sinal de telefone é produzido com a configuração de mão em y.

Capítulo 2 Comida Comer Pente Pentear 77 Foto Fotografar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Esses verbos não são produzidos por processo de flexão. Constituir-se como um verbo simples significa que. ilustramos alguns verbos simples da Libras. os parâmetros fonológicos que compõe o sinal serão mantidos. A seguir.Língua Brasileira de Sinais – Libras Casa Morar Bebida Beber 78 Ainda com relação aos verbos da Libras. os verbos manuais e os classificadores. processo distinto do que ocorre com os verbos vistos na seção flexão. independente da construção da frase. FAEL . destacamos neste momento três tipos deles. os que se enquadram nesta categoria serão abordados na próxima seção. a saber: os verbos simples.

Capítulo 2 Quebrar Rir Sentir Sujar 79 Trabalhar Viver Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Sonhar Gritar ou Trair Tentar 80 Ouvir Opinar FAEL .

na mesma localização. com a mesma configuração de mão e com a mesma orientação.Capítulo 2 Roubar Salvar / apoiar Morrer Preocupar 81 A maioria desses verbos é produzida nas partes do corpo do sinalizador. o verbo será produzido do mesmo modo. Eles podem ser considerados icônicos pela representação da realidade. Alguns exemplos: Língua Brasileira de Sinais – Libras . apontamos que são aqueles que se configuram pela incorporação do objeto a que se referem. Ainda que seja para se referir a outra pessoa do discurso. Com relação aos verbos manuais. pois estas partes são o lugar de localização do sinal.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Abrir (o pote) Cozinhar Mendigar Limpar (janela) 82 Costurar Escrever FAEL .

Verbo cair Originalmente. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. haverá alteração da C. o sinal foi classificado em sua semântica. mas alguns papéis. com o parâmetro configuração de mão alterado. apresentamos a seguir o sinal raiz de alguns verbos e o sinal classificador. este sinal remete à ideia da ação que ocorre com uma pessoa. Assim. Então. Isso é perceptível pela configuração em v. do léxico ou da sintaxe. e preservação do movimento. que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir ao chão.M.Capítulo 2 Cortar (com tesoura) Dormir Lavar (a roupa) Os classificadores são aqueles verbos que têm sua configuração de mão inicial (sinal raiz) alterada por influência da semântica. 83 Língua Brasileira de Sinais – Libras . Classificador do verbo cair (papéis) Se for preciso referir-se a mesma ação de cair. porém.

haverá alteração da C.M. haverá alteração da C. 84 Classificador do verbo andar (de um gato(a)) Se for preciso referir-se a mesma ação de andar. especialmente aqueles formados por flexão. este sinal remete à ideia da ação realizada por uma pessoa. o sinal foi classificado em sua semântica.M. Então. o sinal foi classificado em sua semântica. Isso é perceptível pela configuração em v que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir à frente. haverá alteração da C. do movimento e da localização. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma galinha. o sinal foi classificado em sua semântica. Classificador do verbo andar (de carro) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar.. haverá alteração da C.Língua Brasileira de Sinais – Libras Verbo andar Originalmente.M. passaremos a conhecer os processos morfológicos mais complexos. no entanto..M. Postas as questões preliminares dos processos morfológicos da Libras. Então. do movimento e da localização. do movimento e da localização. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. FAEL .. Então. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma cobra. Então o sinal foi classificado em sua semântica. e preservação da direção. Classificador do verbo andar (de uma cobra) Se é preciso referir-se a mesma ação de andar. porém. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. mas um carro. Classificador do verbo andar (de uma galinha) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar. mas um gato.

vamos conhecer cada um deles. segunda e terceira pessoa. Sendo assim. e os primórdios de sua utilização aconteceram na indicação do desdobramento de uma palavra em outros empregos. a flexão é a formação de uma palavra por meio de um morfema. há pronomes pessoais. Na Libras. O primeiro processo. Câmara Jr. com o acréscimo de uma desinência correspondente à função que exerça na frase. No português. sendo que estas são impostas pela própria natureza da frase. possessivos. (1985) associa. constituindo uma ideia acessória em que o significado base não é alterado.Capítulo 2 Flexão Segundo Câmara Jr. Isso demonstra que a flexão é definida como um processo pelo qual uma palavra é adaptada a um contexto. o autor assinala que a flexão se apresenta sob o aspecto de desinências ou sufixos flexionais. conforme ilustrados a seguir. interrogativos e indefinidos. É nesse escopo da morfologia flexional que se destacam os processos de flexão nominal e verbal. indicando uma modalidade específica. e podem aparecer no singular ou no plural: Singular 1ª pessoa – eu Nós dois 85 Plural Nós três Nós quatro Nós grupo Língua Brasileira de Sinais – Libras . (1985). de acordo com a natureza desta. também. Para ele. a obrigatoriedade e a sistematização coerente. de flexão nominal. ao conceito de flexão. pode ser explicitado por meio dos pronomes. demonstrativos. o termo “flexão” tem sua origem na língua alemã. numa relação fechada. ● Pronomes pessoais podem representar primeira.

Este(a) aqui Esse(a) aí Aquele(a) lá FAEL . Sua realização sempre vem acompanhada da direção dos olhos. que se voltam para o local referenciado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Singular 2ª pessoa – você Vocês dois Plural Vocês três Vocês quatro Vocês grupo 3ª pessoa – ele(a) Eles(as) dois/duas Eles(as) três Eles(as) quatro Eles(as) grupo 86 ● Os pronomes demonstrativos são iguais aos advérbios de lugar.

Capítulo 2 ● Pronomes possessivos: Meu (minha) Teu (tua) Seu (sua) ● Pronomes interrogativos: em alguns aspectos. A realização desses pronomes sempre vem acompanhada de expressão facial. Que? / Quem? Porque ou por que? 87 Onde? Quando? 2 1 Língua Brasileira de Sinais – Libras . incorporam alguns advérbios de tempo.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Como? Qual? Quantos(as)? ● Pronomes indefinidos: Ninguém Nada = sem 88 Nenhum Nada FAEL .

Casa Casinha Bonito(a) Bonitinho(a) 89 Legal Legalzinho(a) Língua Brasileira de Sinais – Libras . nos quais constam alterações das expressões faciais. A seguir.Capítulo 2 Já a flexão para grau. é a modificação paramétrica capaz de apresentar distinções para “tamanhos”. alguns exemplos para flexão nominal de grau.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Alto(a) Altão (altona) Calor Calorão 90 Inteligente Inteligentão (inteligentona) FAEL .

A localização inicia-se com o polegar próximo a boca do sinalizador e movimenta-se na direção de quem receberá a fala. Ocorre que. será na localização que está referenciada para o objeto (segunda pessoa do discurso). dedos mínimo e polegar abertos). a direção do movimento será à direita. e assim sucessivamente.Capítulo 2 Quanto à flexão verbal. para todas as diversas localizações possíveis para o receptor. número. locativo e aspecto. temos o verbo falar. a trajetória do movimento é oposta: inicia-se no objeto indo em direção ao sujeito.Concordância do verbo falar: Língua Brasileira de Sinais – Libras 91 . a primeira pessoa do discurso – eu – falo (verbo com concordância) para a segunda pessoa do discurso – você. Isso que dizer que se a pessoa que será o receptor está à direita do emissor. temos a possibilidade de flexão para pessoa. Assim. ser concordado para ele(a) me falou. ou seja. o ponto inicial do movimento permanece sendo na boca. anteriormente ilustrado. a concordância na Libras está na sentença: eu falo para você. ao invés de ser na boca. Nesse caso. haverá inversão do ponto inicial do sinal que. Falar O verbo falar é produzido com a configuração de mão em y (mão fechada. Se o receptor da fala está à esquerda. em alguns casos. A seguir. apresentamos alguns exemplos de verbos que concordam com a pessoa do discurso. É o caso do sinal falar. Os verbos que se flexionam em pessoa são chamados de verbos com concordância. mas a trajetória do movimento será à esquerda. Esses verbos são chamados de verbos reversos (backward verbs). Como primeiro exemplo.

FAEL . entendemos que há um processo morfologicamente complexo 5 Maiores detalhes sobre as transcrições adotadas no texto estão expostos no capítulo 3.Língua Brasileira de Sinais – Libras 1s Falar2s 5 2s Falar1s 92 Falar3s 2s Explicando a concordância para os sinais apresentados anteriormente. Adiantamos. que as pessoas do discurso são transcritas como: 1s = 1 pessoa. entretanto. e assim sucessivamente.

segundo Meir (2002). é possível visualizar três componentes: ● A raiz do verbo falar. denominado DIR (directional). que marca o argumento semanticamente. O mesmo processo pode ocorrer com os seguintes verbos: Perguntar Ver Mandar Dar Responder Visitar 93 Mostrar Mudar Obedecer Língua Brasileira de Sinais – Libras . ● Um morfema direcional – o movimento da trajetória. ● Um afixo verbal – a orientação da mão.Capítulo 2 envolvido nesta realização. pois.

mostrar para quatro pessoas ou ver todas as pessoas. A flexão de número refere-se à distinção feita para um. do dual. o sinalizador pode referir-se a. FAEL . dando a indicação de flexão para número e depois a marcação diferenciada pelas palavras no singular e no plural. na Libras existe a possibilidade de várias formas de substantivos e verbos apresentarem a flexão de número. por exemplo. perguntar para duas pessoas. apontamos que pode ocorrer com os mesmos verbos colocados anteriormente (verbos com concordância) e há. dois. uma delas é a diferenciação entre singular e plural. três ou mais referentes. do trial e do múltiplo. possibilidade de indicação do singular. apresentamos alguns exemplos do sinal entregar com concordância para número e outros. Assim.Língua Brasileira de Sinais – Libras Mexer Paquerar Pedir Influenciar Matar Pagar 94 Em relação à flexão para número. Vejamos outros verbos de concordância. Além disso. neste caso. dar para três pessoas. A seguir. realizada por meio da repetição do sinal.

Capítulo 2

Concordância do verbo entregar:
1s

Entregar

2s

1s

Entregar

2s + 3s

95

1s

Entregar2s + 3s + 4s

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

1s

Entregar vários

96

1s

Entregar grupo6

6 Uma variação possível desse sinal é a realização do movimento com ambas as mãos, denotando, desta forma, a ideia de entregar para muitas pessoas ou entregar para um
grupo grande.

FAEL

Capítulo 2

Agradecer uma pessoa

Abandonar duas pessoas

97

Encontrar três pessoas

Língua Brasileira de Sinais – Libras

por exemplo. como no caso da marcação de anos. temos a incorporação de locativo na sua realização. Quanto à flexão de locação.Língua Brasileira de Sinais – Libras Aconselhar quatro pessoas Beijar todas as pessoas 98 A diferença da marcação do singular e do plural é que. para o plural. exceto em casos em que houver sinal específico para marcação do plural. Os verbos que recebem essa flexão são chamados de verbos espaciais. e assim com todos os outros nomes que recebem flexão de número. em que é possível perceber o trajeto percorrido desde o seu início até o local de chegada. em que sinalizamos ano + ano + ano. se faz a repetição da forma no singular. Para árvores. conforme a seguir. usamos o sinal de árvore repetidamente. flexionado para a locação que está à frente do corpo do sinalizador. como em pessoas no sentido de multidão. FAEL . como é o caso do verbo ir.

respectivamente. manifesta a duração da ação. reproduzidos na sequência. Tais marcações dão origem ao aspecto lexical e ao aspecto gramatical. apenas o verbo. Sua expressividade se manifesta. O aspecto lexical é aquele em que. pois a flexão codifica como a situação por eles referida se estrutura. Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Ir Outros exemplos desses verbos: Verbo andar Ir de carro Ir de avião 99 A flexão para aspecto é marcada de duas formas: lexical e gramaticalmente. por exemplo. na oposição semântica verificada entre os verbos procurar e encontrar.

ou seja. Para ilustrar o que dissemos até aqui. e se refere a eventos presentes. aspecto gramatical é aquele que pode ser codificado em perfectivo ou imperfectivo. como não durativa. A mão ativa configura-se em v e FAEL . Por outro lado. sendo que o braço fica na horizontal do tronco. e se relaciona a eventos passados.Língua Brasileira de Sinais – Libras Procurar Encontrar 100 Procurar é um verbo que codifica a situação como durativa. O perfectivo é produzido com movimentos retos e abruptos. já encontrar codifica a situação como pontual. enquanto que o imperfectivo é produzido com movimentos lentos e contínuos. tomemos o exemplo do verbo cuidar em seu padrão de movimento: Cuidar O sinal raiz do verbo cuidar é produzido com a mão passiva fechada (configuração de mão em s). colocada à frente do corpo.

indicando uma situação que se desenvolve ao longo do tempo. Isso quer dizer que haverá o contato do pulso da mão ativa com o pulso da mão passiva mais de uma vez. a retomada do contato será feita de modo mais lento. mantém-se a configuração de mão e a localização do sinal raiz e altera-se o movimento para alongado. temos a seguinte observação: Passear perfectivo Língua Brasileira de Sinais – Libras . É claro que. lento e contínuo. pelo próprio léxico. através do movimento representado a seguir. e que o afastamento da mão passiva será mais alongado em relação ao afastamento que há na produção do sinal raiz. O movimento que gera o contato de ambos os pulsos é curto e firme. esse verbo transmite o significado aspectual durativo. ou seja. podemos reforçar essa indicação lexical por meio do aspecto gramatical imperfectivo. Todavia. Já com relação ao verbo passear.Capítulo 2 leva o pulso a tocar no peito da mão passiva. Cuidar imperfectivo 101 Nesse caso. podemos indicar uma situação que perdura de forma ininterrupta.

O mesmo ocorre com o verbo esperar: Esperar Mãos configuradas como “esperar” na direção de cima para baixo. FAEL . foi utilizada a mesma configuração de mão do sinal neutro. mas o movimento foi mais alongado e contínuo. passando alternadamente sobre os ombros. curtos e abruptos no espaço neutro. com movimentos retos. Passear imperfectivo 102 Observamos que. para realizar o sinal com marca do imperfectivo. com movimentos retos e curtos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Pudemos observar as mãos configuradas em b.

Aspectos sintáticos da Libras Neste tópico. sentenças afirmativas. Para construir um enunciado na Libras não é preciso adicionar conjunções e preposições (de. sentenças condicionais. Sintaxe é a organização de um enunciado em torno de um verbo. sentenças com 103 Língua Brasileira de Sinais – Libras . sentenças relativas. mas com movimento lento. é preciso apenas buscar termos equivalentes. Assim como não é necessário seguirmos a mesma ideia do português. na) como fazemos no português. em. sentenças com foco. da organização dos campos de referência e da flexibilidade das categorias gramaticais. até porque existem palavras do português que não são traduzíveis para Libras. Tipos de frases na Libras Na Libras é possível construir sete tipos de frases. para. pois as ideias são formuladas no espaço e a construção da coerência e da coesão acontece de modo bem diferente. Veremos o passo a passo da construção sintática da Libras. sentenças interrogativas. com. da ordem dos constituintes. como também existem sinais da Libras que não são traduzíveis para o português. alongado e contínuo no espaço neutro. Porém. te. a saber: sentenças negativas. todos os conceitos que são transmitidos em uma língua podem ser transmitidos em outra.Capítulo 2 Esperar imperfectivo Mesma configuração de mão do sinal neutro. vamos discutir um pouco sobre a sintaxe da Libras. em se tratando dos tipos de frases.

Língua Brasileira de Sinais – Libras

tópico. Elas são constituídas de um tipo dado, especialmente pela expressão facial. Vejamos cada uma delas: ● Sentenças negativas – são aquelas que apresentam uma ideia sendo negada. Elas podem ser formadas pelos sinais que incorporam a negação – anteriormente apresentados –, pela expressão facial negativa junto ao verbo ou pelos sinais a seguir, acrescidos ao final da frase.
Não Nada Nunca

104

Em Libras é possível negar a ação de comer de várias formas: Eu comer não. Eu comer nada. Eu comer nunca. Eu comer (expressão de negação). ● Sentenças interrogativas – são aquelas formuladas com a intenção de obter alguma informação desconhecida. A formulação do questionamento se dá com os pronomes interrogativos – anteriormente dados – inseridos no início ou no final da frase, como nos exemplos a seguir:
O que você comer hoje? Como você trabalha? Você comer hoje o quê? Você trabalha como?

FAEL

Capítulo 2

Onde você mora? Quem sabe? Por que isso aconteceu? Para que você fez isso? Quando você vai casar?

Você mora onde? Sabe quem? Aconteceu por quê? Você fez para que? Você vai casar quando?

Além das perguntas chamadas qu, há também as sentenças interrogativas nas quais a intenção não é obter uma resposta completa, mas simplesmente sim ou não, como: Você quer leite? Você gosta dele? Você conhece a China? ● ● Sentenças afirmativas – são aquelas que afirmam determinada ação: Eu vou a festa à noite. Sentenças condicionais – são aquelas que estabelecem uma relação de condição e consequência para a realização de algo. Por exemplo: Se você me contar, faço segredo. Sentenças relativas – são aquelas que inserem uma informação adicional à frase, uma informação que seja relativa à informação principal que está sendo transmitida pela sentença. Em Libras, isso ocorre com a expressão facial mantida na oração principal e modificada na relativa. Por exemplo: Aquele homem, que fala muito, está de férias. Sentenças topicalizadas – são aquelas que empregam o tópico. O tópico anuncia o assunto a ser desenvolvido ao longo da sentença. Por exemplo: Carro, eu gosto de Uno. Sentenças focalizadas – são aquelas que usam o foco. O foco serve para destacar ou contrastar alguma informação da sentença como em: Ana chorou, não Paula chorou.
105

Explicitados os principais tipos de frases na Libras, vamos aprofundar como os elementos se organizam na oração.
Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Ordem dos constituintes Em todas as línguas humanas há, pelo menos, três elementos sintáticos principais, que podem se ordenar na frase de diferentes maneiras. Esses elementos são: sujeito – é o termo que expressa o agente da ação (que pratica ou sofre); verbo – é o termo que expressa a ação; objeto – é o termo que qualifica ou detalha o verbo. Quadros e Karnopp (2004) apontam que a ordem dos elementos na sentença da Libras é, geralmente, SVO (sujeito – verbo – objeto). Elas dizem que, além dessa ordem, são possíveis também as seguintes: OSV, SOV e VOS, sendo estas derivadas da ordem canônica e construídas a partir de operações sintáticas, tais como topicalização ou focalização, conforme pesquisa de Pizzio (2006). A seguir, exemplificamos algumas sentenças com a ordem básica da Libras: SVO Eu gostar laranja. Você ter dinheiro.
106

Ele(a) saber Libras. Essa é a ordem chamada canônica, básica, e dela derivam as outras ordens – apontadas anteriormente –, exemplificadas a seguir:
oSV
Laranja ele amar. Bolo eu fazer. TV você ver.

SoV
Você laranja gostar? Eu presente comprar. Ele mãe visitar.

VoS
Gostar laranja ele? Passear praia você. Comprar casa eu.

Deve-se ressaltar, ainda, que alguns elementos apontados na frase podem ser apagados, pois na Libras, assim como em outras línguas, é possível que ocorra o apagamento, não apenas do sujeito, mas também do objeto. Na frase gostar laranja, o interlocutor identifica que há o sujeito eu oculto. Organização espacial Ao estudar os pronomes, verificamos que eles são utilizados para marcar as referências pessoais nos verbos com concordância. Em relação à
FAEL

porém. Isso pode ser feito. 107 7 As exceções dessa construção sintática no espaço são o tópico e o foco. são marcadas segundo o lugar que cada um ocupa no espaço de sinalização. estando o narrador no centro do raio do semicírculo e os demais participantes da interação nas periferias. Sobre isto. As vozes dos sujeitos. Dessa forma. Conforme Quadros (1997). Por exemplo. pode ocorrer mudanças quanto à direção e à localização de seu corpo. que são construídos pela expressão facial. então. seus diálogos e suas ações. inclusive por apontação. sempre que precisar retomar o referente. ainda. No primeiro caso. nas diferentes situações discursivas. o sinalizador vai estabelecer aleatoriamente um ponto no espaço de sinalização para se referir ao sujeito e/ou objeto e fazer as apontações devidas. Assim. a que se lembrar que a Libras estabelece a maioria de sua organização sintática no espaço7. Estando o sujeito e/ou objeto visíveis. que se desencadeiam todas as relações entre os sujeitos. quer dizer. É nesse espaço. por exemplo. suas enunciações. ver: Pizzio (2006). à esquerda e/ou à direita do narrador. neste espaço.Capítulo 2 sintaxe. é possível usar o dedo indicador na direção do referido. com a outra mão aberta e com a palma sobre o dedo que aponta. Algumas vezes. cujo perímetro é usado para a realização de referência a pessoas do discurso. obviamente. com referentes presentes ou não. conforme Quadros e Karnopp (2004). de várias maneiras. será uma fala às escondidas. ou quando ele está fisicamente no mesmo ambiente de quem fala. ou seja. todo enunciado em Libras é realizado no espaço de enunciação: um semicírculo virtual. por ser esta sua natureza linguística. Língua Brasileira de Sinais – Libras . basta que a apontação seja feita diretamente ao referente presente. A enunciação se desenvolve com a mudança de posição de referência. se o sinalizador não quer que o referente saiba que ele está fazendo menção a ele. a sinalização em direção a um lócus predeterminado ou a movimentação ocular para este mesmo local significa uma marca de referência a uma pessoa e/ou objeto. por questão de etiqueta ou. O corpo do sinalizador deve se situar no centro do raio do semicírculo e. é preciso que o sinalizador defina pontos específicos no espaço a cada referente que aborda no discurso. A apontação se dá em dois casos: quando o referente não está presente no momento da enunciação.

o sinalizador aponta para um lugar a sua direita ou esquerda para marcação do espaço a ser ocupado pelo referido sujeito. por exemplo. os políticos suavam bastante. por isso. o sinalizador toma primeiramente o lado direito. Porém. sinaliza a fala desta pessoa na direção de onde está a outra. Porém. O dia estava muito quente e. se houver um diálogo entre dois personagens. levar os olhos naquela direção para marcar o espaço. bem ao meio do círculo de sinalização. dependendo do contexto em que se encontra. ou seja. ele se alterna continuamente dentro do espaço sinalizador. de acordo com a organização interna do discurso. disse que discursaria tão rápido quanto havia feito seu amigo. quando for a vez do personagem que está à esquerda falar. o sinalizador estará sempre no centro do espaço e poderá produzir os sinais na direção do referente ou.Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. a pessoa assume o papel de narrador e a produção dos seus sinais será no espaço neutro. as lideranças locais falaram primeiro. No comício. Outra forma de o sinalizador construir a voz do personagem é por meio do processo chamado anafórico. Quando esse narrador deixa de contar os episódios gerais e passa a dar voz a algum personagem em específico. se por ora o sujeito referenciado aparecer à esquerda do narrador – centro do semicírculo – e por ora aparecer à direita. o que fez com que Maluf comentasse com os políticos que estavam à sua volta: “– Imagine se ele não fosse careca!” Considerando que esse texto se caracteriza como uma narrativa. de acordo com Massone (1993). Maluf foi sucinto em seu discurso e quando Amim – o careca – tomou a palavra. e guiaram durante uma hora uma grande carreata pelas ruas. mas. sim. enquanto acenavam para todos. o FAEL 108 . até porque as alterações do lócus não ocorrem aleatoriamente. Tomemos como exemplo para análise da construção sintática um texto que trata do fato de que o prefeito Paulo Maluf e o senador Amin foram visitar a cidade de Joinville. Então. não haverá comprometimento da clareza de informação. estavam em comitiva. Nesse sentido. o lócus referencial das pessoas do discurso não é fixo. seguidos de Maluf e de Amim. em cima de uma caminhonete. ainda. com seu corpo voltado à esquerda. Na ocasião. Esse processo é a incorporação do personagem e a elaboração do discurso direto. Esse espaço será fixo enquanto houver ação ou fala dessa mesma pessoa. sua fala perdurou muito tempo. Então. ao começar a sinalizar.

Para tanto. Durante a tomada de voz de cada um dos personagens discursivos. se faz priorizando as pessoas do discurso e não as coisas e objetos nele envolvidos. É interessante observar que. ou seja. este espaço não pode invadir o espaço anteriormente definido para os personagens já apresentados. Nesse momento. utilizando-se da direção do olhar como um recurso identificador do sujeito. enquanto Amin fala ao público. Assim. No caso sob análise. a sinalização é projetada para frente. a carreata e a comitiva. expressa pelas duas mãos passando da direita para esquerda. Além de organizar o espaço de sinalização para marcar o lugar de quem fala. quando é preciso lançar mão de mais de uma construção espacial. há necessidade de se fazer uma organização sequencial. por meio de uma marcação sinalizada. a sinalização é feita na direção do espaço marcado para esse personagem e o último movimento de ombros. marcando a direção de origem e destino da ação expressa pelo verbo direcional. Quando Amin fala ao prefeito. o espaço da comitiva se desfaz e dá lugar à presença de um grupo de políticos e assessores. Dessa feita. há facilmente uma desconstrução desse primeiro espaço. Nesse caso. por exemplo. como se estivesse limpando a fala dita até então e dando lugar a uma nova enunciação. Língua Brasileira de Sinais – Libras 109 . na Libras. pelo contato ideário com o interlocutor colocado no espaço referenciado a ele e. É interessante notar que há prevalência do sujeito em relação ao objeto nas enunciações. mas com uma inclinação de tronco à direta – como se estivesse olhando para quem fala – e sinaliza. No entanto. há construção das enunciações de cada um. destacamos que. o sinalizador precisa destinar um lugar específico para outras referências. na Libras.Capítulo 2 sinalizador se coloca deste lado. entretanto. quando há necessidade de alocação de outros sujeitos no mesmo espaço que está sendo ocupado por objetos. a comitiva vai andar de um ponto definido pelo sinalizador até o outro no espaço. os verbos direcionais – como é o caso de andar – instauram uma necessidade eminente de movimento. bem como a direção do olhar é para um terceiro espaço – do grupo de políticos. ainda. se pontua – com os números não quantitativos – a ordem de fala. há a possibilidade de fazer a diferenciação das vozes ao longo do discurso mediante movimento de ombros e incorporação do personagem.

a ordem dos constituintes e a forma de organização dos elementos no espaço. passemos à exemplificação.Língua Brasileira de Sinais – Libras Agora que já conhecemos os tipos de frases. relacionamos a seguir alguns adjetivos da Libras. para depois os colocarmos em frases comparativas. Barulhento Bobo Bondoso Confuso Chorão Bruto 110 Corajoso Infantil Engraçado FAEL . Para tanto.

oposto ao primeiro. Na seção destinada à semântica. Em um segundo momento. para escrevermos o nome “Maria”.Capítulo 2 Fofoqueiro Famoso Egoísta Pensando numa construção frasal temos: João é mais bobo do que Maria. Em Libras. se o marcador comparativo for sinalizado da direção do espaço da Maria para o espaço em que se encontra João. na sequência. para escrevermos com o alfabeto manual “João”. Então. Língua Brasileira de Sinais – Libras . há um apontamento para o espaço onde foi colocado o primeiro personagem. com a intenção de dizer “ele”. A mesma forma de construção frasal ocorrerá na utilização de qualquer adjetivo ou para suscitar qualquer tipo de comparação. Do que 111 8 Há muitos sinais que podem significar mais. por exemplo. haverá inversão da informação. temos que destinar um espaço de sinalização. à esquerda. colocamos o marcador “do que” (conforme a figura a seguir) na direção do espaço do João para o espaço da Maria. fazemos o sinal de “mais8 bobo” e. Imediatamente. destinamos outro espaço de sinalização. explicaremos cada um deles. Contrariamente.

ele situa o acontecimento como contemporâneo à instância do discurso que o menciona. FAEL 112 . como Fiorin. Tanto aspecto quanto tempo são noções que se referem à temporalidade dos eventos. momento de referência (MR) e momento do acontecimento (MA). todo discurso instaura um agora que equivale ao momento da enunciação. que postulam três momentos relevantes na constituição do tempo: momento da enunciação (ME). ordenado em função de momentos de referência (MR) instalados no enunciado. Cada vez que um locutor emprega a forma gramatical do presente. autores mais recentes. que expressa o momento em que ações verbais acontecem e. Com isso. passado e futuro.Língua Brasileira de Sinais – Libras Flexibilidade da Libras A Libras é uma língua flexível. que diz que o tempo linguístico é aquele que realiza o tempo do homem. ao fato de se definir e de se organizar como função do discurso. pois tal nos permite entender esta característica. levando em consideração o momento da fala como ponto de referência para situar os acontecimentos. há uma vasta literatura. por exemplo. por isso. e isso pode ser demonstrado pela “junção” de categorias gramaticais em sua expressão e composição. Para ilustrar a flexibilidade da Libras. o autor aponta para a existência de dois sistemas temporais: o enunciativo. o tempo linguístico é singular por ser organicamente ligado ao exercício da fala. Sobre questões como essas e outras peculiaridades teóricas da conceituação da categoria tempo. escolhemos tratar da temporalidade. e um agora em que acontece a não concomitância. Nesse sentido. Fiorin (2002) afirma que a temporalidade instaurada pela língua refere-se também às relações de sucessividade entre estados e transformações. porém. É o caso. e o enuncivo. o qual transcorre no tempo presente linguístico. representadas no próprio discurso. relacionado diretamente ao momento da enunciação (ME) e organizado em função do presente que já está implícito na enunciação. a qual se divide em anterioridade e posterioridade ao agora. na qual encontramos diferentes abordagens e discussões dos autores. também. pode definir a existência de três tempos linguísticos: presente. sob diferentes perspectivas. A conceituação mais básica de tempo é que ele é uma categoria gramatical dêitica. Podemos citar. instaurando-o em um discurso. em que existe uma concomitância entre o evento narrado e o momento da narração. Para esse autor. de Benveniste (1989).

Os três conceitos de tempo dados por Reichenbach (1947) podem ser aplicados a quaisquer línguas. em relação ao momento da fala. Esse autor analisa a lógica da manifestação temporal e realiza uma interpretação linguística da categoria tempo com base em três conceitos: momento de fala. simultaneidade e posterioridade – podemos obter codificações mais complexas. simultâneo e posterior. uma vez que o próprio momento de referência se norteia em relação ao momento de fala. futuro. existe um marcador temporal específico. Por meio do momento de referência – em relação ao qual o momento do acontecimento também se norteia em termos de anterioridade. entretanto. conforme figura a seguir. Passado 113 Língua Brasileira de Sinais – Libras . dando a representação de passado. para o tempo passado. Dessa forma. sua expressividade se dará por expedientes linguísticos distintos. momento do evento. que Reichenbach (1947) tem sido o grande marco teórico e que suas postulações têm servido de base a outros estudos acerca do tempo. Por exemplo. porém. o momento do acontecimento pode se nortear de modo anterior. passaremos à demonstração de algumas possibilidades de expressão do tempo na Libras. que é formulado com a configuração de mão no espaço próximo ao ombro e com movimento dos dedos para trás. Na Libras. presente e futuro. para então localizar os acontecimentos no eixo temporal. momento de referência. presente.Capítulo 2 Há que se destacar. assim como em outras línguas. o tempo pode ser expresso por operadores temporais específicos na sentença: passado. Tal representação objetiva organizar as manifestações temporais das línguas naturais. Nesse sentido.

que é sinalizado com ambas as mãos abertas. remeter ao referido tempo linguístico: passado. Nesse caso. o sinal é produzido com a configuração de mão em f. se o sinalizador fizer os movimentos para cima e/ou para frente. sendo que o posicionamento inicial da mão é no espaço neutro na altura do rosto e o movimento produzido é de afastar a mão em direção diagonal à frente. dedos juntos.Língua Brasileira de Sinais – Libras É interessante observar que esse sinal não segue as antigas relações de que sinais produzidos para trás do ombro estão no passado. O presente é definido pelo marcador temporal agora/hoje. de modo que fique longe do rosto: Futuro 9 Se não for produzido dessa forma. então. o operador temporal específico obedece ao critério “para trás e para baixo9” para. palmas voltadas para cima e com um movimento simultâneo de aproximar e afastar as mãos. pois para denotar a ideia de posterioridade ao momento da fala é preciso também que o sinal seja produzido para baixo. de modo que os dedos mínimos quase se tocam e paralelamente se distanciam. haverá um fenômeno agramatical. ou seja. FAEL . Conforme vemos na figura a seguir. Agora / hoje / presente 114 O futuro é sinalizado com o marcador temporal de futuro.

haverá denotações de “posteriormente” ou “antes disso”. também. antes disso. dependendo da posição em que os sinais de passado e futuro estejam na frase. Isso significa que. se o sinal de passado sofrer ampliação dos movimentos dos dedos para o braço e houver um afastamento do cotovelo. eles podem estar demonstrando intervalos que ocorrem no passado. com isto. portanto. da marcação interna aos eventos. será denotado passado distante. também. referindo-se a situações já ocorridas. além do reforço na expressão facial. com uma expressão facial reduzida. Passado recente 115 Língua Brasileira de Sinais – Libras . Sabemos que a Libras possui uma morfologia flexional que emprega variação no movimento do sinal e que.Capítulo 2 Esses três sinais são os principais marcadores dos conhecidos tempos linguísticos: passado. sua leitura. portanto.” O sinal destacado demonstra intervalo que ocorreu no passado. presente e futuro. sua leitura. Nesse sentido. com uma aproximação do cotovelo ao tronco do sinalizador e. é possível que a diminuição do movimento somente para a ponta dos dedos. como a língua é um sistema dinâmico e flexível. Tal variação pode acontecer em níveis distintos e caracterizar uma gradação temporal. gere o sinal de passado recente. é de antes disso. ● “Eu ano 2000 casar futuro nascer filho 2003. namorei três anos”. Tradução: “Eu me casei em 2000 e posteriormente nasceu meu filho”. Porém.” A palavra em destaque demonstra intervalo que ocorreu no passado. é de posteriormente. Assim. conforme podemos ver nos exemplos a seguir. sua temporalidade vai além dos estabelecimentos tradicionais de tempo e se ocupa. Tradução: “Eu me casei em 2000. ou seja. ● “Eu ano 2000 casar passado 3-anos namorar. é capaz de expressar conceitos diferentes do sinal raiz.

sendo ampliado com alongamento do braço para frente e a expressão facial com reforço no olhar ao longe. Sua realização se dá com o aproximar das mãos e com movimentos mais rápidos. se dá para o sinal de futuro. obtém-se o futuro próximo. conforme vemos nas imagens a seguir. a leitura é de agora/hoje/presente/atualmente. curtos e abruptos. Se o movimento for “neutro” e mais repetido.Língua Brasileira de Sinais – Libras Passado distante Quando ocorrem flexões morfológicas via alteração do movimento do sinal presente. caracteriza-se por futuro distante. FAEL . temos a variação para imediatamente/já/neste instante. Se ocorrer a diminuição do alcance do braço e uma expressão facial menos intensa. O sinal de futuro. 116 Imediatamente Essa mesma flexão morfológica. por meio de alteração de movimento.

semana passada. anteontem. mas também podem aparecer no final. o pressuposto da temporalidade marcada inicialmente é mantida até que apareça outro marcador temporal. presente e futuro –. Quando esses itens lexicais aparecem na frase. antes. nunca.Capítulo 2 Futuro próximo Futuro distante Além desses três sinais principais – passado. amanhã. depois. São os sinais adverbiais: ontem. próxima semana. há outros que podem expressar a categoria tempo. seguem as imagens de ontem e anteontem: Ontem Anteontem 117 Língua Brasileira de Sinais – Libras . normalmente. Com fim elucidativo. Assim sendo. eles são inseridos no início da narrativa e servem para “conjugar” o tempo de toda a sentença. Esses advérbios geralmente vêm no começo da frase. sempre.

desse exemplo colocado por Finau (2004). p. por flexão e por advérbios. mesmo não havendo marcas temporais explícitas (operadores ou flexões) no discurso do falante. A leitura de tempo durante o ato conversacional ou discursivo pode ser estabelecida por pressupostos da pragmática generalizada. três princípios norteadores de escolhas de seleção linguísticas que o falante opera. Esse conhecimento compartilhado hipotético auxilia a interpretação temporal dos eventos (FINAU. 140). advérbios ou quantificadores. Tradução: “Namoraram. assim. Isso implica em conhecimentos de mundo que os interlocutores compartilham e que possibilitam uma flexão semântica para os verbos e as devidas distinções temporais. provavelmente. Para Levinson apud Finau (2004). compõem uma organização interpretativa dos enunciados. as FAEL . conversar. 118 Quer dizer.Língua Brasileira de Sinais – Libras Além de o tempo na Libras ser marcado por operadores temporais. o falante escolhe significados restritos à sua língua que podem ser presumíveis pela inferência do outro e. 2004. Numa sentença como “Ana estudar até quarta série” vemos que o emprego do sinal quarta série é um quantificador que expressa o tempo de estudo. principalmente pelo conhecimento compartilhado entre os interlocutores. ele serve como um limitador. conforme observado no exemplo: “Namorar. Nas palavras da autora: O locutor pode se valer da suposição de que seu interlocutor tenha como familiar. No entanto. pela sequência discursiva para a narrativa. em um dos seus mundos possíveis. ele também conta com expressões quantizadas para sua realização. pois muitas vezes é preciso recorrer a aspectos pragmáticos para a interpretação temporal. Finau (2004) apresenta a teoria da análise pressuposicional para justificar a leitura temporal de sentenças que não contenham operadores temporais específicos. futuro casar”. é possível perceber o tempo. chamados também de heurísticas. A análise subsequente. o common ground (conhecimento compartilhado pelos falantes). acontece a restrição temporal. Esses princípios. é de que a referência temporal é dada de modo implícito. Tal teoria postula que. conversaram e no futuro casaram”. conversar. Finau (2004) coloca que há. nessa teoria. que é preciso namorar. para depois se casar. a expressão da categoria tempo na Libras não conta apenas com léxicos específicos para sua realização.

Capítulo 2 determinações temporais dadas a partir de implicaturas conversacionais generalizadas são: ● O que não é dito não é. Se não foi dito. Esse é o princípio que trata das ampliações interpretativas feitas pelo interlocutor. no caso da Libras podem ser os sinais futuro. todo seu conhecimento de mundo e tem. Língua Brasileira de Sinais – Libras 119 . dessa forma. a sentença não pode ser interpretada estando no futuro. ou seja. Finau (2004) aplica essa heurística para Libras e diz que se a sentença não apresentar o sinal futuro. Em Finau (2004) vemos que. este elemento ausente não poderá ser o escolhido para a interpretação da estrutura frasal. É o caso do sinal passado que. se um sinal foi flexionado por meio de alteração no parâmetro movimento. passado. permitem multiplicar o conteúdo informacional de qualquer sentença. se recebe uma descrição mínima ele traz à tona. 2004) que. de acordo com os estereótipos dados. na conversação. ● Aquilo que é dito de uma maneira anormal. São as heurísticas de Levinson (apud FINAU. considerando a concordância implícita entre os interlocutores. aplicadas ao estudo da temporalidade na Libras. Essa é a heurística que viabiliza a interpretação aspectualizada para marcadores que sofrem alteração morfológica. uma interpretação maximizada. tem um significado a mais no enunciado. Assim. hoje/agora. pois não foi dito de uma forma normal. ● Aquilo que é simplesmente descrito é um exemplo estereotipado. se há ausência de determinado fator temporal. não é normal. Essa heurística propõe um contraste na restrição da seleção do que é dito e do que não é dito. Para Finau (2004). não deve estar presente na interpretação temporal. ele revela “algo a mais” do que sua lexicalidade permite expressar. Isso quer dizer que. Então. esses três princípios norteiam o status da interpretação do tempo das sentenças. quando flexionado.

moradia.. eu pensei que fosse demorar uns vinte minutinhos. de fato. É o caso. se empregado em outro. Por outro lado. apartamento e cabana. temos diferentes palavras que são capazes de representar. Apesar de terem suas especificidades.. quanto à semântica da expressão “daqui a pouquinho”. O “problema” no discurso acima se deu devido a uma discordância quanto ao entendimento. todas elas representam a ideia de lugar onde se mora. a mesma ideia. para quem está à espera de alguém. de brevidade no espaço temporal e.. Logo. Poderíamos citar como exemplo os casos de desentendimentos de detalhes. Podemos. nesse caso. Quatro horas depois. Esposa: – Demorou sim. por exemplo. que têm seu significado restrito a determinado contexto que.. estamos descartando o significado de tempo para cada um dos envolvidos no processo. abrigo. Claro que. você demorou. Você disse que daqui a pouquinho estava de volta. há palavras que não têm esta possibilidade dúbia de expressão. estamos apenas brincando com uma situação que é recorrente no nosso cotidiano. sobrado.. 120 Esposa: – Ué! Você não falou que voltava logo? Marido: – Mas eu não vim logo? Esposa: – Não. lar. Marido: – Não demorei. das palavras casa. que horas você volta? Marido: – Ah. quanto ao significado. daqui a pouquinho eu to aqui. por exemplo. residência. quatro horas é muito tempo. trata-se de uma família de ideias.. essa expressão ganha um sentido de pouco tempo. FAEL . assim. pode caracterizar uma comunicação truncada.Língua Brasileira de Sinais – Libras Aspectos semânticos da Libras Toda língua tem uma semântica implicada em seus itens lexicais. como no discurso abaixo reproduzido: Esposa: – Amor. Especialmente por estar no diminutivo. inferir que pouco tempo se aproxima de uma quantidade determinada de minutos e nem chega a completar o ciclo de uma hora do relógio. No português. basicamente.

se produzidos em determinados contextos. Já na Libras. ele não está querendo dizer que esta pessoa é importante em sua vida. excelente. Assim. singular.Capítulo 2 Esse mesmo fenômeno acontece na Libras. tornam-se mais adequados do que em outros. como: importante no caso da primeira sentença e coisas próprias no caso da segunda. esse sinal não é muito usual em contextos relacionados às pessoas. fora do comum. exclusivo. de beleza que se destaca tal qual o brilho em meio à escuridão. Especial 121 Língua Brasileira de Sinais – Libras . está mais relacionada às coisas que se vê. mas está querendo destacar qualidades que se deslumbram para ele. quer dar ênfase a uma vivacidade notória. Quando um surdo usa o sinal de especial para alguém. A palavra “especial” é usada no português para definir algo ou alguém como muito peculiar. em uma frase como “Você é muito especial para mim” ou “Esta criança tem necessidades especiais”. privativo. que se ressalta sobre os olhos. O sinal de especial é empregado na Libras em contexto de definição bela sobre algo ou alguém. pois – mesmo sendo entendidos – podem gerar certo “estranhamento” ao interlocutor. Isso significa que especial. notável. Essa relação entre significado e significante (o sinal) da Libras não é análoga à relação de significado e significante (palavras) da língua portuguesa. na Libras. tem uma conotação mais “concreta” do que em português. deve haver a sinalização de outro item lexical que equivalha a este termo do português. Há sinais que.

Em português. Há a possibilidade da seguinte construção na Libras: “Ele Libras famoso”. se sinalizadas como a seguir. podem não se adequar semanticamente. Em Libras. Educação Ensino 122 Algo semelhante se dá com o sinal de famoso. que não tem correspondência com a palavra na língua portuguesa. muito proficiente na sinalização. pois em Libras a melhor forma de representação desta ideia seria o uso do sinal de ensino. já que educação tem um cunho mais comportamental para os surdos. não há o emprego desse termo para definição do conceito. Há expressões como “educação especial” ou “educação de surdos” que.Língua Brasileira de Sinais – Libras Esse tipo de especificidade de uso ocorre também com o sinal de educação. Famoso Essa frase está invocando a informação de que a referida pessoa é muito fluente. FAEL . mas também com uma grande habilidade que ela possua. seu emprego não está relacionado só ao fato de uma pessoa ser muito conhecida. que é muito habilidoso na área da Libras.

vamos pegar uma mesma palavra e ver as várias possibilidades de sinalização. aproximar. 123 Sinal para marcar a ação de juntar. no sentido de “maior”. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Sinal para marcar a ação de “mais uma vez”. Começando pela primeira maneira. Exemplo: 2 + 2. operações matemáticas. mas encerramos por aqui nossas exemplificações e passamos ao estudo da polissemia. numericamente falando. de repetição. Sinal para marcar a ação de comparação em relação a algo. dependendo do contexto de realização.Capítulo 2 Há inúmeros sinais dessa natureza para serem detalhados. A palavra mais pode ser sinalizada das seguintes formas se os contextos de realização implicarem nas informações correspondentes: Sinal para marcar a ação de somar. Polissemia Vamos pensar na polissemia em Libras de duas maneiras: a versão que o português impõe aos sinais da Libras e a versão que os sinais da Libras impõe ao português. acrescentar.

124 Em relação à segunda maneira. Sinal para marcar a necessidade de aumentar o som. Ocupado FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras Sinal para marcar a necessidade de continuidade no percurso. Agora temos um único sinal que pode denotar várias palavras no português: ocupado. pegaremos um sinal da Libras e averiguaremos as possibilidades de tradução para o português. sentido de advertido. faremos o contrário. ou seja. sentido de não posso. Sinal para marcar a ação de comparação absoluta. daquele que está acima de todos. como se houvesse um destaque de maioridade. Esse sinal também pode significar sentido de ocupado.

se São Paulo ficará em um espaço. observamos sua realização no espaço neutro e no corpo. a partir delas. o professor pode realizar algumas brincadeiras em sala de aula. 2. No nível fonológico. conhecemos suas seis possibilidades principais. Colocar a expressão “Vendo vozes” no quadro e verificar quem consegue melhor interpretação semântica para ela. 3. Pedir aos alunos para sinalizarem a frase “Fui de São Paulo a Curitiba”. nos debruçamos sobre a gramática da Libras e olhamos. para ver se entenderam que os verbos de movimento se realizam com concordância com o local. Verificar se sabem separar os espaços para cada elemento. a fim de proporcionar ao leitor um conhecimento das “partes” da língua. 125 Síntese Neste capítulo. detalhadamente. e que deixam a marca do seu trajeto.Capítulo 2 Da teoria para a prática Para trabalhar. com a estrutura gramatical da Libras. vimos as possibilidade de formação de sinais a partir de apenas uma mão. eles pesquisem cinco sinais que se realizem da mesma forma. Língua Brasileira de Sinais – Libras . de duas mãos com formas iguais. destacamos a existência de pares mínimos e de parâmetros secundários para realização dos sinais: orientação da mão e expressão facial. observamos que a Libras apresenta três parâmetros principais: localização. Quanto à localização. para cada um dos seus níveis de análise linguística. e se realizam o sinal de avião fazendo o percurso do espaço de São Paulo a Curitiba. Curitiba em outro espaço. como as seguintes: 1. Ainda com relação ao nível fonológico. Entregar as 64 configurações de mão aos alunos e pedir que. de duas mãos com formas diferentes ou. minimamente. Quanto à configuração. configuração de mão e movimento. ainda. Quanto aos movimentos.

trouxemos a questão dos tipos de frase. classificação de palavras. e discutimos questões pertinentes à formação de palavras. 126 FAEL . tipos de verbos e os dois tipos de flexão: nominal e verbal.Língua Brasileira de Sinais – Libras Na análise morfológica. ordem dos constituintes. evidenciamos as possibilidades de formação de sinais a partir de morfemas presos e livres. Finalizamos o capítulo com uma pequena abordagem quanto à semântica implicada nos sinais da Libras. Na parte sintática. organização espacial e a flexibilidade da sentença da Libras.

partimos da premissa de que Libras é sua primeira língua e. apresentaremos um panorama geral sobre as relações sociais que são estabelecidas a partir da experiência da surdez. mas. Ter peculiaridades diferentes não significa. Com relação à escolaridade da pessoa surda. necessariamente. destacaremos a subjetividade inerente. arte). N As relações sociais do surdo Analisando sob a perspectiva de que a surdez está inserida e constituída em ambiente e mundo visual. ser. as relações de amizade (associação de surdos. abordaremos as configurações dos relacionamentos pessoais (casamento e filhos). em qualquer espaço que se for. entendemos que a necessidade de saber o português é urgente e esta pode ser sanada com métodos específicos de segunda língua. Disso tudo. Diante disso. a surdez como característica que compõe a própria diversidade e a individualização do ser humano em sua constituição. Feneis) e cultura (cinema. Partindo disso. deve fazer parte da instrução recebida. a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades distintas em relação à vida de uma pessoa ouvinte. Por meio da Libras. para tal enfoque. sendo que.Implicações sociais da surdez 3 127 este capítulo. É desse modo que a pessoa surda precisa ser vista na sua relação com a sociedade. portanto. é possível refletir sobre o modo de como as pessoas surdas conseguem interagir com a sociedade e garantir sua participação ativa. sim. ser melhor ou pior. podemos pensar que elas se inserem e retêm conteúdos visuais sob a forma de expressão. destacam-se os processos de leitura e escrita. olharemos para o que é impregnado no surdo a partir de tais vivências: sua identidade e cultura. . Nesse sentido. ou seja.

poder celebrar essa união tem um significado muito relevante. em culturas diferentes não é algo juiz) não consegue estabelecer uma comunicação com os noivos. independente de ser ou não surda. diálogo e participação com o outro. pois permite ter contato. acaba por ser deficitária devido à comunicação que. por não haver clareza na comunicação. O que antes era comprometido e problemático. formalizando a relação. exige empenho e reforpressar os votos na língua oral. Frente à convivência em família. E no que tange à transmissão de conteúdos concernentes a valores. acaba sendo natural que ocorra uma comunicação em que haja gestos e falas oriundas deste contexto. ao lado do celebrante. podemos perceber como ocorre. já que o celebrante (pastor.Língua Brasileira de Sinais – Libras Pensando por esse viés. eles poderão ser ouvintes (havendo exceções em que pais surdos concebem filhos da mesma natureza). Essa organização. tão pouco consegue exsimples. culminando em um viver bastante comprometido e problemático. porque o surdo se une a quem conhece a língua de sinais. muitas vezes. Para a maioria dos surdos. caser o mais discreto possível para não ofuscar o racteriza-se pelo nome de Coda glamour que envolve o casal. a presença de mais um intérprete uma realidade semelhante quané recomendada. seus pais não têm participação ativa em suas vidas. O significado da união com o outro representa algo diferente. são acompanhados de discutir questões conflitantes. O traje do profissional deve to a ser filho de pais surdos. princípios e comportamentos de vida. Isso é compartilhado mundialmente por essas pessoas e. padre. 128 Como fruto dessa comunhão. e como a surdez não é hereditária. acaba por não ser estimulado e não desenvolve a audição e a fala. (children of deaf adults). destinada vos. normalmente. fica assim caracterizada. o filho. Caso haja surdos também às pessoas que possuem na plateia. pois vai em direção oposta a tudo que aprendeu e viveu. Uma situação que pode acontecer é uma adequação em relação aos pais surdos e filhos ouvintes em que. devido à grande quantidade de filhos que se inclui nessa categoria. pois interagir simultaneamente tradução. torna-se algo natural. do mesmo modo. para o surdo. um ritual que em nossa sociedade é muito comum: a questão da união conjugal. devido à barreira da comunicação. criou-se uma organiSaiba mais zação internacional destinada a Os casamentos de surdos (com pessoa surda ou ouvinte). a partir desse momento. O profissional mulação daquilo que se apreenintérprete deve se colocar em frente aos noideu. Isso porque. acaba por virem os filhos. FAEL .

para ambos. por conta deste sentido estimulado. desta forma. Pensar em ser ouvinte é algo bem estranho. é possível estabelecer contato com a outra pessoa que. Para Perlin (2004). A vibração é tão poderosa no corpo como o som é no ouvido. Quando acontece um diálogo de filhos ouvintes de pais surdos. para eles.Capítulo 3 A maioria das pessoas que participa dessa organização tem a audição preservada. Eles conseguem acompanhar os ritmos musicais somente pelo que seu corpo sente. mesmo sendo ouvintes. conseguem reagir bem ao estímulo recebido. o que para os ouvintes “normais” – ouvintes de pais ouvintes – seria uma tarefa bem difícil. Os filhos entendem que a possibilidade de ver as coisas. consideram a tranquilidade da comunicação em Libras algo bem acessível. compras. Com isso. Os surdos têm uma forte potencialidade para sentirem as vibrações do ambiente e. enquanto o português. conseguem não ouvir quando estão em um ambiente com alta sonorização (volume alto de TV ou rádio). elas desenvolvem habilidades que são específicas do surdo. Eles conseguem ficar insensíveis a tudo isso. por isso. com a convivência constante e indireta em viagens. Língua Brasileira de Sinais – Libras 129 . ver tudo que há no mundo é algo muito bom e. estes se utilizam de alguns sinais no meio da conversa. Outro exemplo disso é quando querem se comunicar e batem o pé no chão. assim como os surdos fazem. as identidades surdas são construídas mediante as possíveis representações da cultura surda. pois. está no quarto ao lado e. a profundidade no contato visual desenvolve sua subjetividade e possibilita impressões acerca do olhar. passeios. aprender a língua de sinais. conseguem se expressar com maior clareza em relação ao português. porventura. criando assim uma identidade como a deles. nada muito comum. Os Codas procuram desenvolver o olhar como meio de referência. no sentido biológico. Por meio da vibração. é comum que adolescentes e jovens surdos frequentem as baladas e dancem por muito tempo. mas frente ao contato com surdos ou suas comunidades. como consequência. consultas. acabam por praticar e. pois entendem que. ambos surdos e Codas. Um exemplo bem comum é que. o normal é ser surdo. Somente quando essas pessoas vão para a escola é que se inicia o processo de aprendizagem do português. pois esta vai ser moldada de acordo com o grau de receptividade cultural assumida pelo sujeito.

a escola deve ver o sujeito como instrumento/meio de produção de sentidos e aplicar seus diversos mecanismos de atuação para impor saberes. capaz No Brasil. Comumente. desconhecem essa língua e as questões que envolvem a surdez. Para Skliar (2001). pois nessas situações não há ninguém com capacidade para estabelecer a interação entre eles. Por outro lado. cabendo à criança a responsabilidade dos pais. outros ritmos que os surdos tarem a tudo. sim. fato este que ocorre independente da pessoa ter ou não surdez. Essas crianças que falam Libras desde a infância e que enxergam a surdez como constituição cultural.Língua Brasileira de Sinais – Libras Isso significa que o Coda tem um ouvido seletivo. e com isso o prejuízo torna-se presente e generalizado. devido à dificuldade quanto à comunicação. surdos. Codas utilizam estratégias para não conversar. Pensar no processo de construção da identidade surda da pessoa que é ouvinte não seria algo tão complexo se somente houvesse comunidades que partilham do mesmo sentimento. A escola não consegue atribuir a esses pais a condição de pais. certamente. devido a tal visão. pois ver significa dançam. culturas. eles a possibilidade de se atenHá. Diante desse afastamento. há uma banda conhecida como de não processar alguns sons Surdodum. FAEL Saiba mais 130 .abril. como os que tocam nas raves. um ritmo musical que acentua a vibração dos instrumentos. Nesse ambiente dotado de pessoas que. Nesse ambiente. bilidade muito grande. dando a php?option=com_content&do_pdf=1&id=75>. a realidade não é bem assim. os pais do Coda não recebem convites para eventos escolares ou quando o filho não apresenta bom rendimento escolar. Sobre isso consultar: seus olhos possuem uma sensi<http://www.com. Não muito diexistem festas especiais para surdos. fecham os olhos ou desviam o olhar. valores e identidades.com. porque ela ouve. que trabalha com Olodum para em sua mente. os membros da escola estabelecem relações pouco íntimas com os alunos e seus pais.br/ ferente dos surdos. também. a escola. mas.clubedochoro. a escola estabelece um abismo que a separa dos pais do aluno Coda. Já muito para eles.br/index2. quando os superarquivo/2004/conteudo_333010. as crianças acabam sendo concebidas como deficientes e.shtml>. Porém. Sobre esse assunto acesse: <http://super. de surdos. os pais se tornam seres estranhos. social e política irão precisar de um ambiente com características diferentes destas. no caso.

não podendo utilizar a língua de sinais e recebendo cobranças que dizem respeito a adultos e não a ela. sabe-se que as crianças ouvintes que são filhas de pais surdos (Coda) têm seu processo cognitivo e de aprendizagem preservados. bons intérpretes. Porém. a convivência com pais surdos – em alguns casos – gera algumas consequências sociais Língua Brasileira de Sinais – Libras atilfeR Reflita 131 . os pais pedem à criança que interprete aquilo que está sendo transmitido. a criança sente-se ausente de seu mundo. Mas daí pensar que estas pessoas são. independentemente do ambiente em que estejam. não conseguindo estabelecer laços com aquele lugar por causa das limitações impostas quanto à comunicação. pois já têm a língua adquirida. quando seus pais necessitam de interação social. será um excelente sinalizador. o solicitam pela condição auditiva que possui. a automatização é complicada. em casa ou na escola. além de serem peritos e mestres no quesito identidade e cultura surda. pois. e isto procede. Tais circunstâncias exigem da criança esforços psicológicos para mediar uma comunicação que não condiz com sua idade. para que possam entender. No meio da comunidade surda. Outra dificuldade enfrentada pelo Coda que possui identidade cultural surda é a de que. é muito comum que o fato de ser Coda seja um diferencial. Frente a uma gama de informações advindas da televisão. no Brasil. eles terão “vantagem” em detrimento aos demais ouvintes.Capítulo 3 Dessa forma. É claro que. conforme discutimos no texto. Entretanto. se os Codas desejarem se profissionalizar. considerando que tais pessoas aprendem a Libras como os surdos – como primeira língua. Da mesma forma acontece com ligações telefônicas. automaticamente. um bom desenvolvimento linguístico e técnico. um status. especialmente entre os intérpretes. ou em consultas médicas. por meio de estudos e pesquisa. existem excelentes intérpretes que não são filhos de surdos e que conseguiram. os pais exigem a tradução daquilo que está sendo falado. Isso porque se julga que se é filho de surdo. em que os pais pedem que tudo seja minuciosamente relatado em sinais. não significa depreciar todo um trabalho estruturado de técnicas tradutórias? Até porque.

Em relação aos Codas. além disso. a língua adquirida será a mesma. no caso das crianças estarem no mesmo ambiente físico. e tais quesitos são muito exigidos do intérprete. neste caso. O simples contato com a língua possibilitará à criança desenvolver sua expressividade linguística – os itens lexicais e a estrutura gramatical que ela já possui de forma inata. compartilhar ou estar em desacordo com propostas e para estabelecer a atividade com objetivo de organizar algum aspecto da ação. Para a autora. independente da língua ou do desenvolvimento das habilidades motoras. pois os estímulos seriam aceitos de forma natural e o processo de desenvolvimento da criança seria semelhante ao de uma criança ouvinte com pais ouvintes. o processo de aquisição da língua é idêntico ao de uma criança surda filha de pais surdos. ocorre do mesmo modo em crianças surdas e ouvintes. diz que a aquisição da linguagem ocorre num período curto de tempo. A universalidade da aquisição da linguagem explica que. em seu processo. De acordo com Grolla (2006). todas as intervenções ocorrem na língua de sinais. diferenciando-se apenas se o pai ou a mãe forem ouvintes. FAEL 132 atilfeR Reflita . em que pais surdos têm filhos surdos. ocorrerá uma apropriação de enunciados diversos. Em se tratando de uma situação paralela. Tal processo irá ocorrer de maneira mais facilitada mesmo na ausência de uma fala dirigida a ela.Língua Brasileira de Sinais – Libras não muito boas para a criança. a criança adquire uma língua natural sem que seja preciso passar por treinamentos intensivos ou estímulos linguísticos. em que a criança aprenderá duas línguas ao mesmo tempo. por mais que os inputs oferecidos sejam diferentes quanto à forma. dentro da relação pais surdos e filhos surdos. Skliar (2001) aponta que. Pais e filhos se utilizam dela para propor a ação de uma atividade. é possível pensar que a aquisição da linguagem. o processo se dará de modo bilíngue. os problemas que os Codas enfrentam quanto à família talvez não existissem. Esse é um caso muito específico de pais surdos com filhos ouvintes. pois. como amarrar sapatos ou desenhar formas geométricas. Sendo assim. fato que pode levar ao desenvolvimento truncado e à falta de domínio do português.

começam a produzir os primeiros sinais e. independente da modalidade da língua: oral-auditiva ou espaço-visual. quando chegam próximo aos seis meses. a uniformidade e a rapidez. o aprendizado com relação à língua se dará mediante a inserção de novas palavras realizadas pelos falantes e.Capítulo 3 A criança aprende uma língua. Diante da aquisição da linguagem em que consta a universalidade. Com relação aos ouvintes. Meier (2000) aponta que os ouvintes produzem movimentos com as mãos e conseguem retorno confirmativo de seus pais. quando chegam aos oito meses. como consequência. assim como os surdos. já que sabe as regras para formação de sentenças e domina as estruturas do idioma. Indiferente de sua condição auditiva. indicam que no ser humano decorre uma capacidade linguística que suporta a aquisição da linguagem. começam a balbuciar por volta dos oito meses. Passada essa fase. tanto a criança surda como a ouvinte apresentam o balbucio manual. neste processo. Na sequência. portanto. estes conseguem perceber aos quatro dias de idade diferentes tipos de língua. alguns deles são descartados. Os bebês têm muita sensibilidade. até os quatro anos. que antes de começarem a aprender sinais fazem balbucios com as mãos. quer seja sinalizada ou falada. as crianças surdas. acontece o balbucio oral e. Segundo Emmorey (2002). É o caso da apontação. são capazes de perceber as propriedades fonológicas da sua língua. mediante a entonação e o ritmo. pois são avaliados como gestos e não como sinais lexicais. Quadros (1997) reivindica que a descoberta pela estrutura fonológica da língua. o processo de desenvolvimento linguístico e os estágios internos que ocorrem nas crianças surdas podem ser comparados aos das crianças ouvintes. a dinâmica da língua. Já com a emissão de sons. toda criança apresenta comportamentos semelhantes ao chorar e emitir sons sem qualquer significado. que não serão aproveitadas Língua Brasileira de Sinais – Libras 133 . com pouca diferenciação nas sílabas executadas. de crianças surdas e ouvintes no período de balbucio. pois nesta idade dificilmente comete erros sintáticos. conseguem produzir um número muito grande de sílabas e as repetem de forma exaustiva. Isso ocorre nas enunciações. devido ao retorno auditivo estar ausente. não se encaixam em seu repertório atualizado. em média. no decorrer da vida. e as semelhanças na sistematização do balbucio das crianças surdas e ouvintes. No caso dos surdos.

pois a criança entenderá que a apontação sofreu modificação e se tornou elemento gramatical. quando as crianças atingem um ano de idade. apresentando erros naquilo que equivale à conjugação de passado. simultaneamente. ou seja. o inglês falado e a língua de sinais americana. elas começam a elaborar enunciados com apenas uma palavra – com significado de sentença completa – e conseguem assimilar pequenas imposições. a coordenação motora das mãos evolui de forma mais acelerada do que a coordenação para o trato vocal e a articulação para a fala. Emmorey (2002) verificou. ocorrerá sua reorganização e aceitação. nesse estágio. apontam para o interlocutor se referindo a elas mesmas. quando a estrutura gramatical tiver sofrido maturação. os sons exercem maior dificuldade perceptiva aos ouvidos do que os movimentos espaciais aos olhos. que são os indicativos de que ela entendeu a regra e está se superando. Por certo tempo. em diversos momentos. Conforme Grolla (2006). Em Quadros (1997) percebemos que as crianças surdas. Grolla (2006) acrescenta que. FAEL 134 . diferentemente das surdas. as crianças ouvintes fazem relação semântica – de ordem lexical como a organização de classes prototípicas – para escolha das palavras. a habilidade de identificação de línguas estrangeiras diminui e concede espaço ao refinamento para sua língua natural. com um ano e seis meses de idade.Língua Brasileira de Sinais – Libras pelos surdos para pronominar. que a sinalização foi a primeira a ser adquirida. em pesquisa com crianças ouvintes adquirindo. aumentando seu repertório e elaborando falas pausadas entre uma e outra palavra. as crianças ouvintes continuam no balbucio e somente depois partem para a palavra. De maneira sucessiva. conseguem aprender um grande número de palavras diferentes a cada dia. e a construção das frases se dá na ordem canônica. ou vice-versa. por isso. neste momento. as crianças vivenciam o período das primeiras combinações. falada. Esse início antecipado de elaboração de sinais e o lento processo do estágio de uma palavra dita. que têm essa vivência aos oito meses. ocorre pelo desenvolvimento de mecanismos de emissão e recepção linguística. apresentam dificuldades para entender os pronomes e. pois. Da mesma forma. Então. Posteriormente. pronominalização e outros.

estabelece mais de um referente num mesmo ponto.aspx>. sendo assim. Aos pais. como orações relativas e coordenadas. produzindo frases complexas. No Brasil. aos três anos de idade. comete um excesso de generalização para concordância de verbos simples semelhante à gramática dos adultos. Nesse momento. em que a sequência de concordâncias se dará do mesmo modo. que recebem todo um trabalho de treino visual com adultos surdos. e somente escolas especializadas são capazes de suprir o estímulo que não há em casa. Quadros (1997) diz que a criança surda: não adota pronomes para referentes ausentes ou o faz incorretamente. destacamos que a aquisição possui uma universalidade. vivenciam uma propagação vocabular muito grande. pois esta é capaz de olhar para o brinquedo que está nas mãos do adulto e ouvi-lo ao mesmo tempo.MUL732407-5598. no caso dos pais serem ouvintes.ecs. também. entretanto.Capítulo 3 A pronominalização na língua de sinais é produzida por meio de apontação.00-BEBES+SU RDOS+DEVEM+APRENDER+LINGUA+DOS+SINAIS+NOS+PRIMEIRO S+MESES+DE+VIDA. não cria correspondência entre a pessoa e o ponto estabelecido no espaço. mas pelo nível elevado de dificuldade gramatical.br/site/default.com/Noticias/Brasil/0. 135 Língua Brasileira de Sinais – Libras . as crianças ouvintes utilizam o eu para demonstrar ou apontar outra pessoa. os olhos da criança surda devem ser treinados para isso. Nessa escola entram crianças em tenra idade. o inverso.org. pois. pois as crianças surdas precisam lançar os olhos para o objeto que está nas mãos de quem fala e para seu rosto.globo. uma escola de referência no quesito ensino da língua de sinais a bebês surdos é a Escola Rio Branco. é exigida a inscrição em curso de Libras. continuam o curso da aquisição cometendo pequenos equívocos. pois não convém à instituição ensinar a língua a criança (por meio de interação e brincadeira) se seus pais não forem capazes de se comunicar com ela. indiferente da modalidade. em São Paulo. a relação significado e significante não fica evidente para a criança surda que está desenvolvendo a linguagem. Tanto crianças surdas quanto ouvintes. Sobre esse assunto acessar os links: <http://g1. É um processo diferente da criança ouvinte. Então.. sendo verdadeiro.html> e <http://www.

Além disso. um aprendizado de decodificação. inclusive sobre informes da TV que. foi disponibilizado nos Estados Unidos. ainda. Existem outras atividades e programações acessíveis. a televisão não é o único meio de interação e lazer que os surdos gostam de ter. favorece pessoas idosas que apresentam alguma diminuição auditiva. Esse recurso é recente e. O termo em inglês possui a tradução “legenda oculta” e está relacionado a uma função que muitos televisores possuem. FAEL 136 . religiosos e outras pessoas com interesses variados. designando ordens. então é provável que existam surdos que não participem. neste caso. tratando de assuntos futuros. Favorece. Sendo assim. acionada mediante controle remoto. etc. intérpretes. as crianças surdas dominam a língua de sinais. Atualmente. com a utilização do closed caption. a função closed caption propicia entretenimento. shopping centers ou qualquer outro lugar de acesso público com elevado nível de barulho. vindo para o Brasil um longo período depois. aqueles que são considerados analfabetos. em que a televisão tem seu volume diminuído e não se ouve. além de promover a interação dos surdos em discussão de grandes temas. Tal ferramenta. profissionais. por diversos motivos. Esse ambiente em que pais ouvintes e filhos surdos (ou Codas) participam é que denominamos um espaço de convivência da comunidade surda. Essa possibilidade existe mediante a função closed caption. ouvintes que. como surdos. pessoas que frequentam aeroportos. se utilizar a língua de sinais é aquilo que motiva o ingresso na comunidade. assim. aquilo que os evidencia é a utilização da língua de sinais. somente em 1980. Falam sobre tudo. oferecendo carinho. com perfis diferenciados. Apesar de comunicativa.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com quatro anos. mesmo sendo amplamente divulgado que essa ferramenta possibilita a acessibilidade de grande parte da população que tem perda auditiva. na atual sociedade. Essa comunidade é constituída por um grande número de adeptos. conhecimento e informação ao público em geral. sendo que seus pais abordam qualquer assunto com elas. ouvintes. podem relacionar o som das palavras com a legenda. pois preferem a utilização da língua falada. familiares. iniciando. é o meio que mais rapidamente comunica. muitas emissoras não dispõem desse recurso em toda a programação. Porém. estando ao alcance de todo e qualquer indivíduo. identificando na palavra escrita o som da fala.

é necessária a utilização da língua de sinais. Os benefícios advindos da participação do ouvinte nessa comunidade são vários. que faz parte de uma sociedade e é repassado aos seus membros. sentindo-se à vontade para expressar seus sentimentos e ideias para aqueles que estão em um nível. a possibilidade de um futuro. sendo estabelecida por meio das afinidades daqueles que a integram. terão a oportunidade de enxergar a si próprios de forma diferente. pois vislumbra exemplos positivos. as ideias. pois o coloca em contato com aquilo que é diferente. mas assimilando que existe diferença linguística. surdos adultos interagindo na sociedade. que possui outra cultura. como a da igreja. sendo neste momento que ocorre a formação da identidade e cultura surda. Nesse ambiente. da escola. tanto para nós mesmos como para as outras pessoas. outra visão. línguas. isso tem um significado muito grande. a comunidade representa a projeção com o amanhã. Em relação às crianças surdas. tanto individualmente quanto em comunidade. sim. Isso leva a crer que não existe somente uma comunidade surda. crenças. por ser considerado minoria social. as crenças. não como deficientes. para que tenha acesso e possa interagir mediante as percepções visuais. Strobel (2008) define que a cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e modificá-lo. mas. o que compreende a língua. De um modo geral. O contato com pessoas que se comunicam em sua língua permite que sua diferença não seja enaltecida. o que mais se percebe são estes elementos. quando visto sob a perspectiva de um grupo diferente. dos líderes e tantas outras que evidenciem sua identidade cultural. leis. ou seja. a cultura representa um conjunto complexo de conhecimentos.Capítulo 3 Para que ocorra a constituição da comunidade surda. capacidades e hábitos. moral. Conjunto esse que é evidenciado pelos elementos da língua e pelos costumes. diversas comunidades. uma relação de igualdade. levando-se em conta que. como a oportunidade de conhecer o sujeito surdo de perto. aprender a língua de sinais e conhecer os costumes e hábitos vivenciados pelo surdo. do hip-hop. Aproveitar a oportunidade de conviver com a diversidade promove um sentido diferente. No caso do surdo. arte. os costumes e os hábitos do povo surdo. já que tem uma vivência isolada em seu mundo. caracterizado assim a Língua Brasileira de Sinais – Libras 137 . costumes.

Até o momento. está inserida a cultura surda. conforme Strobel (2008). Isto é. é de costume falar da representação da surdez por dois vieses: passado e futuro. Assim. é histórica. e teríamos resultados que se restringiriam ao que se fala: inglês. A arte e a poesia do surdo acontecem por diferentes movimentos com as mãos. por meio da língua.Língua Brasileira de Sinais – Libras identidade surda. Tal processo de transmissão cultural de surdos. adulta. estamos nos restringindo ao contexto de cultura popular. se nos perguntarem a respeito da cultura norte-americana. A cultura se modifica constantemente. hábitos e crenças. Nesse ambiente. Dessa forma. pois é na comunidade surda que ocorre o processo de aprendizagem e o sujeito poderá proferir suas falas. quando passamos a olhar para as ações de um determinado grupo de pessoas e tais ações começam a fazer sentido para nós. ao acesso. Devido a essas questões é que. existem outros componentes nesse conjunto. sendo esta transmitida livremente nas relações com o outro. pois a grande maioria de surdos são filhos de pais ouvintes. precisa obtê-la na comunidade surda. é passiva de mudanças quando em contato com outra cultura. A cultura surda é muito importante. Então. sem a convivência na escola FAEL 138 . a cultura surda não é transmitida naturalmente de geração a geração. e ao que se come: fast food. e pensam sobre as perspectivas de futuro para esta população. em que a composição dos elementos ocorre de modo visual. nessa cultura. os surdos possuem família ouvinte. ao desenvolvimento e à transmissão dos elementos que o integram procederem naturalmente com as relações sociais. Dessa forma. Então. poderíamos abordar o assunto sob a ótica da língua e do costume. ou até mesmo pela imposição de estudarem em escolas ouvintes. sua cultura visual. no seio da comunidade surda. com isso. passamos a atribuir valores e. Diferente do que ocorre com os ouvintes. para ter sua língua. então. Chamamos a cultura de “conjunto complexo” quanto à composição. tratam da história do surdo abordando as represálias que enfrentaram quanto ao oralismo. é possível pensar que a cultura surda compreende aquele conjunto complexo. pois. o sujeito surdo. o compartilhar ocorre naturalmente. Assim. de geração a geração. isto é. em sua maioria. sua língua se manifesta no espaço e a leitura se faz com os olhos. seu conhecimento começa com o contato do que vê. também pode ocorrer na idade mais avançada. como também hábitos e costumes ocorrem mediante o que viram e se constroem no envolvimento com os outros surdos.

podemos destacar a importância de se refletir sobre si mesmas. Língua Brasileira de Sinais – Libras ● . adotavam o critério clínico-patológico para o surdo e lhe atribuíam uma identidade. Pela dificuldade de ter sido conquistada por seus criadores e por ser tão ofuscada pela cultura ouvinte é que a cultura surda precisa ser enaltecida. as definições são as seguintes: ● ● ● identidade surda – pessoa consciente quanto à sua condição de surdez. surdez moderada – não é possível ouvir as palavras com clareza. sobre como sua constituição atuará em sua percepção do mundo de forma visual. enquanto acontecia a educação dos surdos – dirigida pela corrente oralista –. muito tempo depois. quando a sociedade mudou a forma de olhar para a surdez e novas taxionomias se imprimiram na educação de surdos. dependendo daquilo que era respondido com a audição. pelo sentimento de inferioridade em relação aos ouvintes. surdez profunda – a pessoa não retém som algum. As especificações eram: ● ● ● ● surdez leve – capacidade de ouvir a voz humana. acabam por perder o contato com a comunidade surda. descobre a comunidade surda e transita do mundo auditivo para o mundo visual. No que diz respeito à formação de identidade das crianças que participam das comunidades surdas. identidade surda embaçada – surdo que não consegue captar o mundo de forma visual e nem auditiva. surdez severa – surdez que só permite perceber os sons muito graves. não ouve nada. a pessoa tende a aumentar a voz progressivamente. a classificação passou a ser pelo critério linguístico e o rótulo de identidade era feito mediante o conhecimento que o surdo apresentava a respeito da língua de sinais.Capítulo 3 de surdos. é politizada e tem a língua de sinais como nativa. Desse modo. 139 No decorrer da história. identidade surda de transição – surdo oralizado que. Segundo Perlin (2004). identidade surda incompleta – é o surdo que não se aceita.

indiferente de onde eles estejam. tem a possibilidade de participar de movimentos sociais. No entanto. pobre. além de desenvolver a cultura e a identidade surda. flexível e mutável. No caso de alguém descrever sua identidade como mulher. pois FAEL . evangélica. ocorre por meio da linguagem e é construído por papéis sociais que exercemos em diferentes locais. professora. lutas e reivindicações de determinados grupo de pessoas. convivendo tanto com surdos quanto com ouvintes. tanto que. Tem conhecimento da estrutura do português falado. Agregado a essas articulações está o reconhecimento de sua língua. a identidade está ligada a relações sociais. branca. solteira. quando nos referimos à identidade surda. mas adaptável. É possível que. não se pode conceber uma visão reducionista do homem. posteriormente. apresentam-se ultrapassadas. A criança que participa da comunidade surda. ● ● 140 Quando o assunto se refere à identidade. Esse conjunto de características próprias. Esses movimentos sociais e espaços de luta social são chamados de movimento surdo. mas acaba por ser único e singular tudo aquilo que compreende a identidade da pessoa. em relação às visões comentadas. seja ela qual for. pensamos numa pequena parte do conjunto de características que ela apresenta. identidade surda flutuante – surdo que oscila de uma comunidade a outra. podendo ser entendida como o conjunto de características específicas de uma pessoa que a diferencia da outra. se tornou surda.Língua Brasileira de Sinais – Libras ● identidade surda híbrida – pessoa que nasceu ouvinte e. a identidade. exista algo de semelhante. pessoas e contextos. ouvinte. A manifestação da identidade deve acontecer pela subjetivação que ocorre mediante interiorização de uma língua. Há falta de língua de sinais com surdos e falta de comunicação com ouvintes. identidade surda diáspora – pessoa que tem a necessidade de trocar experiências com seus colegas surdos. pois é constituída e manifestada na interação com o outro. pois a constituição não é perene. que entendemos como um espaço de articulação das aspirações. ocorre que está havendo um condicionamento de tais características naquele dado momento. sendo de muita importância. em uma comparação com o outro. Para Skliar (2001). heterossexual.

no ano de 1983. O movimento não é contrário diretamente às pessoas. como a Confederação Brasileira de Surdos – CBS. que começam a ser vistas não como deficientes auditivas. Todas se caracterizam pela cumplicidade linguística cultural dos participantes. se organizam em outros espaços como associações. Para conhecer mais sobre a CBS. espalhadas pelos estados. Trata-se do curso Letras-Libras. mas em relação a evidentes posições de liderança ao longo da história. O movimento surdo atinge espaços acadêmicos e chega a conquistar um curso de Saiba mais licenciatura a distância. A princípio.org. sim. Atualmente. Um grupo de surdos. os surdos dão início à liderança e alteram o nome para Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos – Feneis. pessoas com diferença linguística. existem vários escritórios regionais da Feneis espalhados pelo país. educação e lazer. Hoje. cooperativas e clubes. Em 1983. mas. persistiram até conquistarem uma posição de destaque dentro da instituição a ponto de serem atendidos em suas aspirações políticas. com sede na Universidade Língua Brasileira de Sinais – Libras 141 .Capítulo 3 representam um local onde ocorre resistência à predominância das pessoas ouvintes dentro dos locais de trabalho. por isso o nome da instituição era Federação Nacional de Educação e Integração dos Deficientes Auditivos – Feneida. Não muito satisfeitos. se organiza para reclamar seus direitos junto à direção e pede participação dentro da Feneida. aproximadamente. um grupo de profissionais ouvintes funda uma organização e dá início aos seus ideais de reabilitação dos chamados deficientes auditivos. ou seja. Existem duzentas associações. Em 1970. a missão passa a atender aos ideais das pessoas surdas.br>. conseguiram participação em pequenas atividades. Essa alteração não se deu por simples mudança terminológica. os quatro milhões de surdos brasileiros.cbsurdos. É possível citar como exemplo a reestruturação da Feneida em Feneis. mas em decorrência da perspectiva de trabalho. e órgãos voltados apenas à questão desportiva dos surdos. com o objetivo de difundir a Libras e congregar surdos para discussões em relação à sua participação ativa na sociedade. além de se reunirem na Feneis. acesse o link: <http://www. como também as afirmações dos direitos do sujeito surdo em diferentes instâncias sociais. saúde.

editores e diretores. Existem. como também.org>. Envolver-se com o movimento surdo é mais do que. Esse movimento circulou em importantes eventos do cinema e do teatro e. promover a participação no mundo. simplesmente. Mesmo porque.br>. contendo vários polos distribuídos pelo Brasil. em meios culturais começaram a ser resolvidas quando um surdo. os alunos surdos têm a possibilidade de se qualificarem para atuarem como professores de Libras. Libras. em outros países. A formatação desse movimento tem tomado dimensões cada vez maiores. despertar a atenção para esses lugares e perceber que os surdos possuem capacidade de liderança. é possível fazer a opção pela legenda ao invés da dublada. vem tentando propagar a ideia a produtores. 142 A possibilidade de acesso aos filmes que são transmitidos no cinema foi uma das conquistas mais recentes do movimento surdo. Nessa graduação.ufsc. com sede na Finlândia. mas. o grupo conseguiu provar para os produtores que a legenda nacional não iria ocultar as diversidades regionais ou depreciar os dialetos falados na nação. desde 2004. não somente no Brasil acontece de o moviPara mais detalhes sobre o curso de Letras mento surdo ser preponderante. instituições que se colocam como representantes do potencial dessas pessoas. chegando ao ponto de ter uma Federação Mundial de Surdos (Word Federation of the Deaf – WFD).libras. no Saiba mais caso de filmes nacionais. pois é algo indispensável para a evolução do homem em todos os seus aspectos. desde 1951. Marcelo de Carvalho Pedroso. pois. no entanto. Porém. mas que significaria acesso no que se refere à cultura.Língua Brasileira de Sinais – Libras Federal de Santa Catarina. inclusive o artístico. somente em 2008. em Pernambuco. sim. é desenvolver um intercâmbio linguístico e cultural.wfdeaf. FAEL . As dificuldades de inserção <http://www. Saiba mais No entanto. a acessibilidade não pode restringir. consulte: <http://www. na edição do Festival do Audiovisual – Cine/PE. participar dos eventos que promovem. no caso de filmes estrangeiros. organizou um movimento de reivindicação a respeito da legenda nacional. esta opção é Conheça mais sobre a WFD acessando: inviável.

foi criado o Projeto de Lei n.legendanacional. O slogan é LEGENDA PARA QUEM NÃO OUVE. A escolha fica a critério da produtora. O Projeto de Lei n.078 entrou em vigor no Brasil em 2007 e presume que: ● As empresas responsáveis por distribuir obras cinematográficas ou videofonográficas. para exibição em salas de cinema. a civilidade. tanto em filmes como em teatros nacionais as legendas se tornaram obrigatórias. A obrigação estende-se a todos os filmes comercializados para exibição. 1. 2007) que. MAS SE EMOCIONA! A partir de tal convencimento. com a oportunidade de diminuir a distância que ficou estabeleSaiba mais cida da cultura nacional. e os promotores de peças teatrais e demais obras cenográficas. após análise. os de curta-metragem. mas se emociona!”. Língua Brasileira de Sinais – Libras .com. 1. exceto: os destinados à divulgação de músicas.Capítulo 3 A campanha “Legenda para quem não ouve. acesse: <http://www. conhecimento. sendo Para mais informações sobre a legenda nacioesta muito importante para o nal. foi a grande encabeçadora da conquista dos surdos pela legenda. sejam obrigados a incluir a legenda nas obras exibidas ou a ofertar interpretação do texto correspondente. e os exibidos em caráter não comercial ou em festivais e mostras competitivas. os surdos têm a possibilidade de ir ao cinema e ao teatro como qualquer outra pessoa. conforme disposto em regulamento. 143 ● Sendo assim. a criatividade e br/campanha.078 (BRASIL. Essas legendas podem ser em Libras – com o espaço (a janelinha) destinado para o intérprete – ou com caracteres. Com a aprovação. foi aprovado por representantes políticos.php>. em linguagem compreensível a pessoas com deficiência auditiva. os de peças publicitárias.

se mostra favorável. Tais escolas. somente no futuro poderemos mensurar. Essa distinção se contrapõe à antiga terminologia de escolas especiais. Esse termo se refere ao sistema de escrita dos usuários da língua de sinais. projeto político-pedagógico e atendimento específico para determinada clientela. mas com a clientela.Língua Brasileira de Sinais – Libras Inclusão educacional de surdos Com a liberdade de escolha. a criança surda pode ser inserida tanto na escola de surdos como na escola de ouvintes. diferentemente da escrita. com professores. já existente no Brasil. currículo. Em relação aos surdos. uma maneira de registrar ideias que as tornam atemporais. Muitas comunidades surdas de diferentes países possuem. em termos de conquista. sendo evidente que a implantação desse sistema. Entende-se por escola de surdos aqueles espaços que possuem toda uma estrutura formalizada. denominadas especiais. a Libras sempre deverá estar presente. à sua disposição. aquilo que se produz e elabora não pode ser revisado e avaliado. Em relação à escola de ouvintes. pois é possível perceber que a Libras é entendida como primeira língua e o português como segunda. apenas após o término da produção. seriação. percebe-se a mesma formação do espaço citado anteriormente. Outra forma de registro FAEL . Se a primeira língua do surdo é a Libras e se ela é usuária de língua de sinais. chamado de SignWriting (escrita de sinais). um recurso de fixação de sua língua. Até o momento. 144 Independente do espaço de escolarização dos surdos – seja na escola de surdo ou escola de ouvintes –. ouvinte. fazer o registro de produções dos surdos só era possível mediante filmagens. não como meio de comunicação secular restrito a crianças em horário de intervalo. que se prestam a ministrar métodos de letramento e oferecer reforço pedagógico aos alunos que participam da escola comum. cabe destacar que a escola deve ensiná-la um método de escrita compatível com sua habilidade visual. possuem profissionais especializados em uma deficiência específica e atuam como reabilitadores. ainda tendo a desvantagem de que. mas pensar a possibilidade de registrar a língua de sinais de forma escrita é algo que. um meio custoso quando pensado em produção de alta escala. em sua grande maioria. mas como língua de instrução. aprendizagem. Certamente que ainda existem centros especializados de apoio ao surdo. a visão começa a variar. Esse sistema ainda permanece sob pesquisa.

expressões –. Semelhantemente ao que ocorreu com as línguas orais. fonológico e morfológico. No entanto. Marianne Rossi Stumpf (2005). numa ferramenta bem elaborada. A princípio. fundamentado em elementos fônicos. que aponta que as crianças surdas. é para o surdo um sistema de grafia muito mais compreensível do que o alfabético. esse recurso é muito limitado. é a Glosa.ª Dra. ao aprenderem a escrita de sinais. para que isso se torne real. empreenderam-se pesquisas no sentido de tornar aquela ferramenta inicial. A maior dificuldade é que não existem profissionais formados para desempenhar tal tarefa. uma vez que a escrita de sinais consegue armazenar e propagar. mas somente agora teve início sua divulgação e implantação. Língua Brasileira de Sinais – Libras 145 . Esse sistema paliativo transcreve as línguas de sinais com auxilio dos códigos da língua oral. e as ações relacionadas com a alfabetização dos surdos em escritas de sinais são ações isoladas e específicas de pesquisadores. configurações. sendo muito utilizado em pesquisas linguísticas. essa ferramenta foi elaborada como uma forma de registrar as coreografias a serem realizadas numa apresentação de dança. podemos citar o trabalho da Prof. que até então vem sendo utilizada. A criação dessa ferramenta se deu nos anos 70 do século XX. nos níveis sintático. pois não abrange as sutilezas visuais da língua de sinais. No Brasil. informações entre as pessoas. é preciso que essa ferramenta seja ensinada aos usuários das línguas de sinais. A pesquisa também demonstra que o SignWriting é uma ferramenta de escrita que o surdo assimila com maior facilidade. demonstrando ser uma nova linguagem que modela o pensamento e o organiza quando escrito. a implantação de um método de escrita para as línguas visuais possibilita abertura ao desenvolvimento da cultura e produção de conhecimento nas comunidades surdas. a ferramenta adequada para a fixação da língua de sinais seria o SignWriting. cujos objetivos são descobrir e aperfeiçoar métodos de ensino para o SignWriting. por ter como fundamento elementos visuais. Quase sempre. Dessa forma. passam pelo mesmo processo de alfabetização que as crianças ouvintes em relação ao português. básica. por gerações. Uma vez percebida a oportunidade de aplicar tal ferramenta às línguas de sinais – representando seus movimentos. A escrita de sinais. pois ela se objetiva a uma representação visual de uma língua que é visual. com o objetivo de promover uma tradução em que os pesquisadores podem propor outras discussões em relação à estrutura da língua de sinais.Capítulo 3 da língua.

Afinal. O SignWriting. ele também é dotado de limitações. e nem por este motivo há descaso em relação à continuidade de escrita dessa língua. alguns exemplos dos símbolos do SignWriting: FAEL . que não devem. Dentre os princípios básicos estão: a representação da configuração de mão levando em conta sua orientação (se a mão é vista de frente. de perfil. Isso significa que pode ser um sistema reversível e que. é dotado de regras quanto à organização. que procuram – no sentido de que toda escrita é uma tentativa – representar a língua utilizada pelos surdos. necessita de ensino específico e treino para seu aprendizado. assim como acontece com as escritas das línguas orais – como o português que. como tal. que podem conceder diferentes significados em uma dada frase. recentemente.Língua Brasileira de Sinais – Libras a ponto de funcionar como meio de representação de uma língua. do sentido em que o sinal é realizado (esquerda ou direita). etc. os elementos do sistema são finitos e podem ser organizados e reorganizados com o objetivo de formular os diferentes sinais escritos. foi reformado ortograficamente. etc. significar desmotivação em relação à escrita.). a escrita do português não consegue explicitar as diferentes inflexões de vozes. assim como na escrita alfabética do português. se é alternado.) e sua distância do corpo (perto ou longe). pesquisas vêm sendo realizadas e aperfeiçoamentos vêm ocorrendo. como toda escrita. Porém. Muitos elementos presentes nas línguas de sinais são contemplados pelo SignWriting e. como todo e qualquer sistema de escrita. no entanto. do movimento presente no sinal (se é circular. Desde então. da localização (se a mão toca alguma parte do corpo). 146 A seguir. se é lento.

no máximo. seus sete anos. por excelência. oportunizando que diferentes pessoas pudessem interagir de forma clara em lugares diferentes. o contato com aqueles que fazem uso da língua que se quer aprender. denota o prazer de poder se expressar. Não é o caso de língua estrangeira porque ele se encontra no Brasil. para o primeiro caso a língua falada está próxima e no caso de língua estrangeira o aprendizado é de outra língua que se fala em outro lugar diferente daquele que se está. uma segunda língua para a pessoa surda (QUADROS. Sendo assim. deve ser sua primeira língua. salvo por exceções. p. em sua própria língua. para os surdos. para além de sua própria geração. 84). O método de ensino do português como segunda língua presume que. foi a invenção da escrita que possibilitou que as línguas se estabelecessem e se padronizassem. Por exemplo. É o caso de alunos brasileiros aprendendo francês sem qualquer contato com pessoas do país de referência. no caso. nas línguas orais.Capítulo 3 Finalmente. A aquisição dessa língua precisa ser assegurada para realizar um trabalho sistemático com a L2. pois. o professor retire do conteúdo a ser lecionado as aulas com exercícios de leitura em grupo ou coletiva (em que o professor Língua Brasileira de Sinais – Libras 147 . consequentemente. O que difere entre segunda língua e língua estrangeira é que. o português. o sujeito surdo poderá iniciar o processo de aprendizagem da segunda língua. sem ser ensinada. ouve as pessoas falando em alemão e precisa interagir nesta língua. brincando e se divertindo com colegas na escola. considerando a realidade do ensino formal. uma criança. Para ter uma segunda língua se faz necessária a aproximação. Em relação aos surdos. 1997. pois quando está em horário de lazer. A Libras é adquirida pelos surdos brasileiros de forma natural mediante contato com sinalizadores. filha de brasileiros que moram em colônias alemãs. o português caracteriza-se para eles como uma segunda língua. mas é segunda língua. A necessidade formal do ensino da língua portuguesa evidencia que essa língua é. em suas aulas. irá adquirir o alemão como uma segunda língua. a possibilidade de empregar um sistema de escrita que empreenda sua primeira língua significa mais do que um avanço técnico. Representa o valor de poder possuir uma língua escrita e preservada ao longo da vida e para além dela. já que adquire naturalmente uma língua espaço-visual até. Mesmo fazendo uso do português para se comunicar com seus pais.

isto é. cabe ao professor ajudá-lo no aperfeiçoamento da leitura. narrativo. a fim de que haja exploração na leitura. a leitura procederá conforme o texto. que informações possui. caso o professor proponha este tipo de atividade para a sala. atualmente. evitando escrevê-lo no 148 quadro. baseado no cartaz ao lado. Após isso. que palavras já conhece e se tais palavras podem ser aplicadas naquele contexto. O aluno surdo não lerá em voz alta. sinalizar a temática do texto. como: cartazes. em seguida.).Língua Brasileira de Sinais – Libras aponta com a régua aquilo que deve ser lido). mas visual. FAEL . cores. deve “pular” o surdo. panfletos. pois. concede abertura para uma aprendizagem mais significativa. Antecipadamente. ou seja. anúncios de jornal e outros. deve garantir sua formatação e cores. Deve também possuir uma cópia ampliada. Para a criança surda. pois ela não consegue fazer uma leitura linear – os olhos não percorrem palavra a palavra dentro do texto –. como descritivo. na íntegra. Após essa realização. manifestando um sinal equivalente. o professor precisa ter planejado algumas perguntas para fazer ao aluno surdo (não sendo interpretação de texto). pois o respeito fica estabelecido quando a pessoa é tratada com os mesmos direitos e com sua especificidade. uma orientação para que o aluno seja estimulado a pensar sobre o conteúdo que está sendo abordado naquele texto. Possuir o texto em mãos. A leitura consiste no primeiro passo e. Tal atitude não significa ser excludente. ou aqueles que tornam evidente a silabação (junção de b + a = ba). ou seja. um exemplo de como realizar esse trabalho. propõe o trabalho em forma de texto e não com palavras. a partir do texto pode tratar de questões diversas quanto à realidade. A seguir. irá destacar aquilo que mais se evidencia (imagens. o professor deve passar para o aluno surdo o texto integral. Então. sílabas ou frases. letras negritadas. Deve percorrer visualmente todo o texto e. etc. dissertativo e permeado de função social explícita. O letramento possui sua abordagem mais globalizada quanto à língua. contendo elementos visuais. itálicas. significa que. se o professor for reproduzi-lo. Fonte: São Paulo (2007). em slide ou transparência. o foco de discussão incide sobre práticas de letramento. isto é muito significativo. para Quadros (1997). diferenciando o tipo de texto a cada aula. Esse aluno deverá realizar a sinalização quanto ao texto. Dessa forma.

e conversarem sobre o porquê disto. Os sinais das cores são demonstrados a seguir. da Prefeitura de São Paulo. sobre o objetivo social desse gênero textual. No cartaz sobre a campanha de vacinação contra a raiva. pois. além de despertarem muito a atenção. podem ser exploradas.Capítulo 3 Inicialmente. é necessário deixar os alunos discutirem sobre os elementos extralinguísticos (cores e desenhos). o que possibilita o desenvolvimento de um trabalho interessante. há variedade de cores. vermelho verde azul 149 alaranjado amarelo cor-de-rosa marrom preto branco Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Em seguida. várias vezes. o professor irá registrá-la no quadro para servir de orientação. torna-se muito significativo. d) Onde podemos obter maiores informações sobre a vacinação?. as cores e os dias da semana na Libras. o professor atuaria de forma semelhante. por isso. de real circulação. O educador deve oferecer uma leitura de texto que contenha uma imagem condizente com o discurso apresentado. b) Precisa pagar?. Após apontar no texto a palavra “falada” pelo aluno. e) O que significa o termo “contra”. quanto aos surdos. em Libras: evitar bravo morder. seriam: a) Quem pode tomar esta vacina?. encaminha-se para a aula propriamente dita. o professor pode fazer a pergunta. mostrar a palavra raiva no panfleto. para seu aluno surdo: “Por que é importante vacinar o cachorro e o gato?” Saiba mais Consulte: <http://www.youtube. Após o trabalho de escolha do texto. o professor deve apontar no texto onde isso se encontra escrito. em Libras. 2002a). não muito delongado e que tenha um objetivo social específico. fazendo a ligação daquilo que o aluno diz com o que está escrito no cartaz e. Diferentes tipos de perguntas que o professor poderia formular e oferecer ao aluno. Quadros (1997) aborda que esse contato. os números. Devido a isso. ele consiga voltar ao caderno e lembrar-se. O contato intenso com o material abordado nos textos proporciona a aquisição de conhecimento. considerando que se destaca como FAEL 150 . registrando o roteiro no quadro.com/ watch?v=0l3NX__oQAk>. para quando for necessária nova leitura ou haver esquecimento da palavra. na frase “Vacinação contra a raiva em cães e gatos”? Frente às respostas em Libras. Nesse link é possível visualizar o alfabeto. c) Qual o período de vacinação?. o professor necessita empreender tempo oportuno em busca desse material. representa aprendizado a todos os alunos e não apenas aos surdos. simultaneamente. acréscimo de informação e. o contato do material com o aluno. O desafio de trabalho com a leitura é um momento muito importante na aula de alfabetização. apreensão do saber. para que seja algo muito interessante ao aluno surdo. E quando o aluno responder. bem como a interação discursiva sobre a temática apresentada (BRASIL. ou seja. que é o momento em que o professor deve oportunizar.

visando traçar paralelos e sugerindo uma conversa intertextos. com o diferencial de que o canal de comunicação será o espaço e a visão. o professor poderá propor temas a serem discutidos com todo o grupo. produtivas ao aprendizado. Essa função do professor. a intervenção do professor pode ser decisiva para o aluno. quando as questões relativas às considerações abordados pelo autor são pontuadas. ele sente-se participante no processo de aprendizagem. Depois. algo tão importante quanto o processo de leitura é o da elaboração escrita. Língua Brasileira de Sinais – Libras 151 . bem como a elaboração de frases curtas a ele pertinentes. para Silva (2001). Com a possibilidade de o aluno interagir com o a temática do texto. se forem apropriados à idade das crianças. Isso porque. é de suma importância para que o aluno obtenha uma referência na leitura e. ou seja. Sendo assim. Após a leitura do texto sugerido. Temas esses que.” e indagar a colocação do pronome seguido do sujeito da sentença na seguinte situação: se você é uma menina escrevendo. ao aluno surdo. pois é quando o aluno tem a oportunidade de manifestar o seu entendimento sobre a temática apresentada. é como se pudesse confirmar as hipóteses que ele levanta. pode-se exibir uma parte do texto. A fim de elucidarmos a proposta apresentada.Capítulo 3 uma das únicas formas de acesso às atualidades. a intertextualidade. como esse aluno ainda está no processo de aquisição da língua escrita e trabalha com dificuldade frente aos códigos da língua portuguesa. 2002a). o encaminhamento para a aula de português e a metodologia utilizada para trabalhar o letramento com as crianças surdas serão iguais aos dos alunos ouvintes. pois são privados das informações que são veiculadas de forma auditiva na sociedade. o professor se coloca como um mediador. Dessa forma. Em seguida. em situações assim. colocaria “o menina”? E assim. é interessante obter sentenças modelo que possam servir de fonte para outras situações semelhantes. o objetivo principal pode ser o da apropriação das palavras relacionadas ao tema. Em relação a essa proposta. No momento da interpretação do texto. ele procura descobrir o significado de algumas palavras e. poderão promover grandes discussões. No trabalho com a escrita. estabelecendo relações. segue o exemplo de um trabalho com a temática: materiais escolares. ele pode ser levado pelo professor a refletir sobre o conteúdo apresentado. como: “O menino escreveu com o lápis. quer dizer. o professor irá propor atividades para que reflitam sobre a língua. a interação se dará por meio da Libras (BRASIL.

a concordância nominal para evidenciar o número de pessoas. em que o nome do lugar FAEL 152 . está em processo. em relação ao surdo. Isso porque esse momento é de tamanha riqueza para os surdos. em que os alunos deverão revisar aquilo que foi trabalhado no texto. Nota-se que. frases para serem completadas. mas em ambas.Língua Brasileira de Sinais – Libras ir promovendo a aula. as palavras discutidas na reflexão linguística feita coletivamente. Quando esse processo se estabelece. Assim. no caso. A essa mistura chamamos interlíngua. o processo de escrita é muito mais difícil do que para os ouvintes. poderão surgir caça-palavras. pois é diferente da língua de sinais. ______________ escreveram com o lápis. a frase escrita não será nem em uma língua nem em outra. 1997). muitas vezes. vimos a questão da flexão verbal apontando as pessoas no discurso. atividades de ligar gravuras a palavras. Após essa explanação. quando estão tentando elaborar mentalmente uma frase em português. O menino escreveu com ______________. há interferência da Libras e. É necessário que o professor sempre retorne às frases escolhidas para aprofundar a reflexão em aula. No caso dos surdos. o que significa que o aluno não se apropriou do português completamente e não se distanciou da Libras. O menino escreveu com ______________. Uma frase típica de interlíngua escrita por surdos é: casa ir. Essa frase representa seu aprendizado no português. ou seja. abordem possíveis comutações com outras palavras: Insira as palavras a seguir nos seus devidos lugares. significa a aquisição de uma segunda língua (QUADROS. cruzadinhas. as canetas – a caneta – os meninos – as meninas O menino escreveu com o lápis. porque para os surdos que não ouvem e nem falam o português. No caso anteriormente apresentado. ______________ escreveram com o lápis. o uso do s como identificador de plural para o complemento caneta e sua inexistência no caso de lápis. o professor poderá desenvolver exercícios de fixação. permitindo espaços para que os alunos. inclusive o surdo. a mesma situação acontece. é natural recorrer a primeira língua ao se deparar com uma determinada insegurança. etc.

nesta língua. devido a isso. existe uma grande propensão de que o erro seja internalizado por quem produz. ou seja. que é o que permeia todas as áreas do conhecimento. É necessário ir além. é importante que os professores das variadas disciplinas entendam a especificidade da forma como o surdo escreve para poder estabelecer critérios diferenciados de avaliação. seria: eu irei. se está no Ensino Médio. o erro é apreendido. Quando o professor avalia qualitativamente. então. Além disso. Tanto o uso de preposição quanto a conjugação do verbo são questões gramaticais que não seriam omitidas pelas crianças ouvintes. ele fará novamente. Isso pode se tornar algo costumeiro e. Sabemos que o ato avaliativo é de suma importância no contexto pedagógico e que não deve ser de caráter punitivo. 2002a). se esse aluno surdo se encontra na segunda etapa do Ensino Fundamental. e mais uma vez o professor fará a marcação sobre o erro e não dará explicações a respeito. enfim. nesse caso. a pessoa surda ainda não aprendeu que. depois do verbo ir. e assim sucessivamente. está contribuindo para o desenvolvimento e crescimento intelectual e pessoal do seu aluno e. de imediato se indica a direção do deslocamento (percurso) e aponta-se quem vai (pessoa) a determinado lugar. ele desconhece a necessidade de conjugar o verbo para que haja concordância com a pessoa. pois. diferentemente. a preposição e a conjunção são implícitas ao sinal (BRASIL. As crianças surdas. Porém. já que estão habituadas a ouvir os adultos se comunicando. até que. porque após tantas repetições daquilo que é errado o aluno entenderá o que é certo. No entanto.Capítulo 3 onde moramos é casa e em que usamos o verbo ir quando anunciamos que haverá deslocamento de um lugar para outro. com o sujeito da frase que. o aluno sempre comete o mesmo equívoco e o professor sempre o evidencia (com caneta vermelha). quando o verbo ir é sinalizado. é necessário o uso da preposição para. deve entender que a simples disposição de valor a uma atividade não será significativa. O professor precisa destacar claramente a atuação incorreta do aluno e mostrar a ele qual a maneira correta de fazer. Língua Brasileira de Sinais – Libras 153 . Caso contrário. Na Libras. pois estas já possuem total domínio na hora de escrever. mas construtivo e reflexivo. ou então. mas não explica a razão do erro. decoram os nomes dos sinais que produzem em Libras.

preposições. os alunos surdos costumam decorar a ortografia destas palavras e confundir sua ordem sintática. Ao olhar para a produção textual de um aluno surdo. o professor deverá estimular o diálogo com seu aluno. o aluno tenha uma expressividade fluente com clareza e objetividade. FAEL 154 . assim. pois. tornar importante aquilo que foi produzido por ele mediante incentivo e fazer com que ele perceba que sua comunicação poderia ter acontecido de outra maneira. desta forma. os surdos alteram a ordem da frase por não se lembrarem do local exato em que se deve empregar os constituintes da língua. Tais pontuações é que devem ser avaliadas com frequência nas correções textuais. surgem frases como: “Casa é a bonita”. poderá atentar para a separação das ideias em parágrafos e para a coesão. passem a ter aversão à língua portuguesa. a correção será mais uma forma de interação. mas de acordo com as regras gramaticais normativas. Sendo assim. É importante saber que tal trabalho será contínuo e constante. ao final de um processo pedagógico de ensino da língua portuguesa. os alunos surdos os esquecem com frequência. pois. Normalmente. sempre pensarem que é difícil e que nada sabem. Frente à tamanha dificuldade de lidar com artigos. O próximo passo requer ensino dos elementos coesivos.Língua Brasileira de Sinais – Libras Em casos de correção de textos. é preciso que ele tenha em mente o significado social da escrita. devido a tantas sinalizações sem qualquer explicação. para que se obtenha sucesso no propósito pedagógico de ensino do português para surdos. Quando o professor fizer a correção dos textos elaborados pelos alunos. Dessa forma. ligações e conjunções necessárias na língua portuguesa. tornando a escrita relevante. o normal é que os alunos. já que o aprendizado acontece mediante interações sociais. É necessário que o professor se coloque na posição de interlocutor e faça interação com o texto. O propósito pelo qual o professor deve corrigir o texto do aluno é de que. O texto deverá servir como elemento de comunicação entre o professor e o aluno. se relaciona com o português como uma segunda língua. devido aos conectivos inexistirem na Libras. não melhor. o professor deve participar em língua de sinais e compreender que a dificuldade destacada em relação a esse aluno ocorre devido a ele escrever em uma língua que não fala e. Porém. o professor deve considerar a organização do pensamento e. O mesmo objetivo que se aplica ao aluno ouvinte deve ser aplicado ao aluno surdo. assim.

em seguida. O trabalho do intérprete consiste em transpor textos ou discursos de uma língua para outra. Eventuais situações exigirão do professor que esclareça as exceções.Capítulo 3 Essa frase demonstra que o seu responsável já tem ciência da necessidade de nomes femininos virem acompanhados da vogal “a” e. pois. por desconhecer onde deve colocá-la. o professor precisa intervir a esse respeito e mostrar para o aluno que há uma dependência estrutural (organização obrigatória da frase) que rege o local do nome e o local do artigo e. há que se destacar que os sistemas de ensino têm garantido a presença de um profissional muito importante para acompanhar o aluno surdo. tais como: “O moto”. Por isso. o intérprete com discursos orais. o aluno adota o hábito de decorar a regra e utilizá-la de maneira genérica em qualquer caso. um vocabulário masculino solicita o acompanhamento de um artigo do mesmo gênero. Além do intérprete. há outro sujeito. por dominar a Libras e o português. por se tratar de uma situação muito específica do português. assim. neste caso. em conformidade com as regras gramaticais. Ainda no contexto dos anos finais do Ensino Fundamental ou de Ensino Médio. o tradutor. Quadros (1997) diz que. procurando Língua Brasileira de Sinais – Libras 155 . O que será altamente compreensível. Esse profissional é aquele que. Para tanto. pessoas surdas podem atuar como tradutores quando leem textos em português e os transpõem para Libras. o que consiste num trabalho sistemático para ele. mas que desempenha um trabalhado diferenciado. Dessa feita. apreendem o seu sentido geral e. construir sentenças erradas. procedem à sua tradução. podendo. figura esta que também faz parte da comunidade surda e é responsável pela mediação entre surdos e ouvintes: o intérprete. A principal diferença entre a atuação desses profissionais está no fato de que o tradutor trabalha com textos escritos. também envolvido na comunidade surda e com o mesmo domínio linguístico. Tal regra não existe no português. permitindo que pessoas que escrevem e falam em línguas diferentes possam se comunicar entre si. o que ocasiona uma sentença agramatical. Ou ainda. escolhe aleatoriamente um lugar próximo ao adjetivo. podem ser intérpretes quando veem uma língua sinalizada de um país em específico e a transpõe para a língua de sinais de outro país. pode vincular a interação entre pessoas que as desconheçam. os tradutores leem e estudam o texto original. a vogal “a” deve ser inserida antes do sujeito (casa).

interpreta integralmente em outra língua o discurso feito. Já as pessoas ouvintes que atuam profissionalmente como intérpretes. ele pode optar por desempenhar seu trabalho de forma consecutiva ou simultânea. mesas-redondas. o profissional intérprete pode escolher entre uma das principais modalidades de interpretação existentes: ● interpretação de acompanhamento – é o profissional que. e funcionam como elo entre pessoas que se comunicam verbalmente em idiomas diferentes. interpretação de conferência – é realizada em reuniões multilíngues formais. quando o ouvinte fala. Nesses casos. designadamente. o intérprete passa a Libras para o português. interpreta em ambos os sentidos os diálogos que esta estabelece com interlocutores que se comunicam em outra língua. normalmente. Para desempenhar bem esse trabalho. tais como pequenas reuniões técnicas entre especialistas. na primeira pessoa do singular). ouvindo a sua intervenção e tirando apontamentos. FAEL . como se este fosse seu (isto é. interpretação judicial – é a interpretação realizada no âmbito de um julgamento.Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitar as ideias e os pensamentos nele presentes. garantindo a transposição quase imediata dos discursos orais. o intérprete sinaliza para o surdo. A interpretação consecutiva é mais adequada para as conversações que envolvem um número reduzido de participantes. pois em situações formais de palestras e simpósios. Já a interpretação simultânea é mais adequada para encontros que envolvem muitos participantes. é solicitada a presença do profissional intérprete. ● 156 ● Essa última forma de atuação é bastante comum em relação à Libras. a fim de que o interlocutor o entenda e. encontros ou jornadas. ou seja. em seguida. acompanhando determinada pessoa. congressos. Quando o intérprete está mediando uma relação entre surdos e ouvintes de ordem formal. conferências. o intérprete encontra-se junto ao orador. seminários. transpõem um discurso oral emitido em uma língua para outra língua. quando o surdo fala. aplicando a terminologia mais correta. a fim de que os participantes surdos possam acompanhar o evento.

preservando a continuidade e o sentido dos discursos orais. Isso é importante porque os intérpretes nunca têm a possibilidade de voltar a ouvir o que foi dito. Nesse sentido. e de conhecimento sobre atualidade política. econômica e social. o estilo e o espírito que o discurso apresenta. como se dão as relações sociais da surdez. nosso respeito e consideração pelo grande trabalho desempenhado junto às pessoas surdas. sons dos instrumentos) pelo professor denotará preconceito. de conhecimento sobre as culturas envolvidas – de surdos e de ouvintes. consiga manter o ritmo da intervenção sem perder informações. afinal. precisa ter grande capacidade de concentração e de memória. é essencial que o intérprete também tenha excelentes faculdades de análise e de síntese. treino auditivo e rápida compreensão dos discursos orais. já que ele sentirá que não produz na mesma proporção que os demais alunos. Além disso. coloca-se uma questão: a relação do direito assegurado e do julgamento de valor. Por isso. Libras e português. sua constituição intelectual. Aos intérpretes de Libras. de forma que. Nesse caso. a saber: de conhecimento profundo sobre as línguas envolvidos. Diante de tantas exigências para atuação. 157 Da teoria para a prática Agora que o profissional da educação já entende. cabe à coordenação pedagógica gerir qual o melhor procedimento diante de uma disciplina de música a ser trabalha em uma sala de aula em que estejam incluídas pessoas surdas. Para isso. de forma a não perder nenhuma informação. Língua Brasileira de Sinais – Libras . a melhor atitude a ser tomada seria: ● Poupá-lo da aula. vemos o quão árdua é a profissão de intérprete e o quão importante ela é para que a interação social entre falantes de línguas diferentes seja bem-sucedida. e deixá-lo junto às atividades desenvolvidas (coral. pessoal e subjetiva é construída a partir da visão. neste caso.Capítulo 3 Ao mediador de relações entre surdos e ouvintes são outorgadas pelo menos três grandes responsabilidades. esse profissional precisa ter clareza do que ouve para interpretar adequadamente o sentido.

salvaguardando suas especificidades e tentando adaptar os sons para os gestos e/ou movimentos dos sinais. que quando têm filhos surdos a relação é amena. Ainda levando em conta a tomada de decisão no contexto escolar. 158 ● Síntese Neste capítulo. pois não há janela e. Adaptar a atividade. o que poderá acarretar em algumas dificuldades de relacionamento. Destacamos que a aquisição da linguagem da criança surda acontece nos mesmos moldes da criança ouvinte. ainda que existam critérios diferenciados para avaliação. o aluno surdo comparece à aula sem a atividade executada e argumenta que não deve ficar sem a nota. FAEL . Além disso. Ao invés de assistir ao filme – dada a ausência de legenda –. vimos que o surdo prefere se casar com outro surdo. o professor passa o relatório de um dos alunos para que o surdo leia e o dispensa da entrega do relatório. para ter uma comunicação facilitada. vimos que a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades que não se encontram na organização de uma pessoa ouvinte. humanamente falando. injusto. sugere-se uma questão ao professor regente de sala de aula: diante da proposta de assistir um filme e fazer um relatório. pois o filme tem um conteúdo extremamente importante para a disciplina. ele explique em Libras o que entendeu da leitura. já que o português é sua segunda língua). a melhor atitude seria: ● Insistir na cobrança da atividade. Apenas solicita que. se possível. já que a condição auditiva não poderá ser alterada. Privá-lo dessa participação implica em reserva de cultura e isso é. como aluno. por isso. afinal. ele não entende e não consegue escrever no nível exigido. ao passo que quando os filhos são ouvintes (Codas) haverá uma dupla constituição psicológica. O aluno deverá procurar uma forma de assistir ao filme e compreendê-lo.Língua Brasileira de Sinais – Libras ● Integrá-lo à aula. Diante disso. ele deverá realizar todas as demandas apresentadas em sala. devido ao fato das dificuldades inerentes à sua história de vida (não adianta assistir ao filme.

078/2007). já que estas pessoas não ouvem e não falam a língua que devem escrever e ler. trouxemos os tipos possíveis de escolarização (escola especial.Capítulo 3 Abordamos. também. Quanto à inclusão dos surdos. a questão de que as relações sociais se mostram como espaço constituidor de identidade e de desenvolvimento cultural e apresentamos as disseminações políticas consideradas no caso da surdez (closed claption e Lei n. pois este se apresenta como segunda língua e por isto vem carregado de dificuldades para ser aprendido. a Libras deve ser assegurada como língua de instrução. Dessa forma. escola inclusiva e centro de apoio ao surdo) e defendemos que. 159 Língua Brasileira de Sinais – Libras . indiferente do espaço. apresentamos a importância do seu registro por meio do SignWriting (escrita de sinais) e de metodologia específica para o ensino do português. 1.

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