Lídia da Silva

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Capítulo

Língua Brasileira de Sinais – Libras
Lídia da Silva

Curitiba 2010

Nota: conforme Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. 1.9 Direitos desta edição reservados à Fael. – Curitiba: Editora Fael. CDD 371. Libras. FAEL Diretor Acadêmico Diretor Administrativo-Financeiro Coordenadora do Núcleo de Educação a Distância Coordenadora do Curso de Pedagogia EaD Secretária Geral Osíris Manne Bastos Cássio da Silveira Carneiro Vívian de Camargo Bastos Ana Cristina Gipiela Pienta Dirlei Werle Fávaro SiStEmA EDuCACioNAL EADCoN Diretor Executivo Diretores Administrativo-Financeiros Diretora de operações Diretor de ti Coordenadora Geral Julián Rizo Armando Sakata Júlio César Algeri Cristiane Andrea Strenske Juarez Poletto Dinamara Pereira Machado EDitorA FAEL Coordenador Editorial Edição Projeto Gráfico e Capa ilustração da Capa Diagramação ilustrações William Marlos da Costa Thaisa Socher Denise Pires Pierin Cristian Crescencio Ana Lúcia Ehler Rodrigues Dilmar Kempner Júnior .: il. Bibliotecária – Cleide Cavalcanti Albuquerque CRB9/1424 Silva. 2010. I. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael.Ficha Catalográfica elaborada pela Fael. Título. 164 p. Lídia da S586l Língua Brasileira de Sinais – Libras/ Lídia da Silva. Educação inclusiva 2.

que me indicou este caminho. .Ao Ronaldo Quirino. intérprete de Libras.

.

sempre divulgavam cursos de Libras.262/2002. Professores esclarecidos quanto à complexa realidade da criança surda poderão trabalhar dispensando o carinho merecido a essas crianças. a Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. e atuar de forma a fazer avançar as condições de acolhimento na escola e na família. A professora Lídia da Silva conseguiu abordar os mais importantes conteúdos necessários ao entendimento dos desafios colocados aos professores pela mudança implantada na educação dos surdos. A aprendizagem de Libras é lei em muitos cursos. em geral. Hoje muita coisa mudou. 5. apresentação .. que permita diminuir o preconceito com que. visando promover a comunicação entre as pessoas. Os assuntos são apresentados de uma forma clara. mas conhecer o porquê de a língua ser um direito na educação dos surdos. sem diminuir os conteúdos necessários.apresentação A produção de textos para a disciplina de Língua Brasileira de Sinais – Libras. Antes do Decreto n. a história e as lutas do povo surdo pelo reconhecimento de sua língua. como as associações de surdos. as entidades da comunidade surda. que reflete muitas pesquisas recentes na área. Os alunos desses cursos precisam aprofundar não apenas o conhecimento da língua de sinais. são vistos os surdos. é crucial e precisa se concretizar. as igrejas. de uma maneira informal e nada padronizada. etc. que exige deles uma atuação esclarecida e interessada. nos cursos de Pedagogia. A aprendizagem da língua precisa estar dentro de um contexto organizado.

. Orienta pesquisas na pós-graduação em Linguística e tem experiência na área de educação de surdos. língua de sinais. mesmo entre a maioria dos professores. informática e escrita de língua de sinais. Marianne Rossi Stumpf* * Doutora em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.apresentação apresentação Esses avanços são necessários para que se concretize uma real inclusão na sociedade e a diminuição dos preconceitos existentes. Atua como coordenadora geral do curso de Letras-Libras e como professora adjunta da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

oirámus
Prefácio.........................................................................................9

sumário

1 2 3

Status linguístico da Libras ........................................................11
Estrutura gramatical da Libras ..................................................41 Implicações sociais da surdez .................................................127 Referências...............................................................................161

oicáferp
Q

Capítulo

prefácio
9

uando nos deparamos com uma pessoa surda pela primeira vez, algo acontece que faz deste encontro um momento único e singular em nossas vidas. Para alguns, esse momento vai significar o confronto com suas dificuldades e limites, que ficará apenas na memória. Para outros, esse momento vai significar uma mudança de vida, devido a uma tomada de decisão quanto às questões relacionadas à surdez e à língua de sinais. Uma tomada de decisão que implica na proximidade com a pessoa surda e sua língua. No meu caso, o efeito do encontro foi o segundo. Diante de um primeiro contato com uma pessoa surda, fui tomada pelo desejo de me desafiar e de tentar uma aproximação com ela, ainda que isso exigisse muito esforço e dedicação, pois o processo de aprendizagem de uma segunda língua não é uma atividade das mais fáceis da nossa vida. A entrada nessa nova esfera linguística me motivou a buscar cada vez mais conhecimento sobre a Libras e suas implicações para os sujeitos surdos, e esta busca foi determinante na minha formação acadêmica e profissional. Hoje sou pesquisadora, usuária, tradutora e professora de língua de sinais, e me deparo todos os dias com os desafios que uma língua espaço-visual impõe às pessoas que são falantes nativas de uma língua oral-auditiva. Porém, além dos desafios, me deparo também com a beleza, com a completude, com a satisfação de poder estabelecer comunicação por meio das mãos, dos olhos, do corpo, dos sinais. Assim se constituiu minha busca, e assim espero que se constitua a leitura deste livro aos leitores: descobertas recheadas de desafios e encantamentos.

Até porque. A autora. Com esse olhar de diferença linguística. já que é uma tarefa árdua esboçar graficamente os detalhes de uma língua “espacial-tridimensional”. Além disso. contribuir com as discussões sobre os surdos e sua língua. é claro. minimamente. É preciso que tenhamos esse encantamento para podermos. acredito que o leitor será tomado de encantamento ao se deparar com o status linguístico da Libras.10 oicáferp prefácio Julgo que os principais desafios que se encontram neste texto são de ordem mais gramatical. morfológicos. mas sempre destacamos que eles – os surdos – também devem ter voz neste processo. Atua como orientadora de aprendizagem no curso de Letras-Libras e é tradutora de Libras da Universidade Positivo. de alguma forma. esclarecer a constituição dos aspectos fonológicos. que o leitor possa – após receber esta introdução – percorrer caminhos mais longos no conhecimento da estrutura gramatical da Libras. torna-se mais fácil conceber a ideia de uma pessoa viver apenas com experiências visuais e assim construir toda sua impressão sobre o mundo. sintáticos e semânticos da Libras. no seu valor e nas suas possibilidades comunicativas. é que gera condições de entender as implicações sociais da surdez. . no sentido de poder empregar a característica de “língua” a esta forma de comunicação.* * Lídia da Silva é mestre em Linguística. sem esgotá-los. Minha expectativa é conseguir. Esse encantamento pela Libras. e de não mais creditar como verdade as falácias sociais ditas sobre ela até então. espero que esse desafio soe como um convite a uma leitura mais aprofundada sobre o tema.

por exemplo. e outros. Nesse ponto. pois ela embasa nossas considerações acerca dos fenômenos linguísticos explanados. Dessa forma. Assim. bem como o refutamento aos mitos sociais que até então circundavam a concepção que se tinha sobre ela. Vamos abordar algumas definições preliminares e algumas discussões sobre as mudanças das terminologias na área da surdez. Essa teoria atesta que princípios e parâmetros imperam na constituição de todas as línguas do mundo. a estrutura sintática – enquanto que os parâmetros são as diferenças que existem entre eles – as categorias gramaticais. como a modalidade linguística espaço-visual. o texto apresenta os universais “comprobatórios” da natureza linguística da Libras. a teoria entende características iguais entre os idiomas – predominantemente. de forma mais pormenorizada. Definições preliminares Atualmente. parâmetros que a distinguem das línguas orais. Por princípios. porém. o caso de empréstimos de outra língua – fenômeno recorrente nos sistemas linguísticos. tais como aquisição da linguagem e estrutura gramatical das línguas naturais. atentaremos para a forma de nomeação da pessoa surda e da sua língua. portanto. as marcas para formalidade e informalidade.Status linguístico da Libras N 1 11 este primeiro capítulo. Trataremos. tem sido muito comum as pessoas se depararem com outras conversando de um modo muito diferente do que estão . sobre a teoria inatista de Chomsky. da Libras. este texto se insere nessas discussões por acreditar que a Libras possui os mesmos valores linguísticos que as línguas orais. Há. apresentaremos uma introdução das ideias que serão desenvolvidas posteriormente.

De fato. infelizmente. a integração foi a concepção adotada. que aconteceu em Milão. FAEL 12 . prevaleceu por muito tempo. mas com o passar do tempo esse sentimento se desfaz e dá lugar a uma impressão de normalidade. Havia uma exclusão escancarada não só com essas pessoas. Porém. o modo como nos reportamos aos outros quer dizer alguma coisa. Porém. ainda há contradições manifestadas nas práticas. O professor era mero treinador de fonemas e o aluno deveria empreender todos os esforços possíveis para realizar uma boa leitura labial. que entendia que o método de ensino mais adequado aos surdos seria a oralização. como as pessoas que ouvem. não existiriam os títulos. Esse tipo de concepção e. começam os rumores de uma nova filosofia social e educacional: a inclusão. sendo considerada improdutiva para a sociedade. os vocativos e os pronomes de tratamento. exercícios mecânicos. no início do ano 2000. em 1880. Nessa perspectiva. nem sempre foi assim. Porém.Língua Brasileira de Sinais – Libras acostumadas a ver. mais aceitável a sua forma de expressão passa a ser. a sociedade decide que as pessoas que não ouvem devem ser oralizadas. o trabalho era de: recuperação auditiva. num primeiro momento. mesmo havendo um novo paradigma social emergindo. Ser uma pessoa oralizada significa desenvolver sua fala por meio da vocalização dos sons. Depois. especialmente depois da decisão do II Congresso Internacional sobre Instrução de Surdos. a forma como nos dirigimos à pessoa revela o valor que damos a ela. para então estar integrada à sociedade. A integração é a fase que compreende a concepção e a prática da pessoa com deficiência a partir de um esforço adaptativo apenas de sua parte. pois elas não eram consideradas humanas. ainda que não pudesse ouvir sua própria voz. Normalmente. mas com qualquer uma que apresentasse alguma limitação física ou sensorial. Após esse período. vem impresso de significado. aquilo vai se tornando comum. no sentido de que ela deve se adequar aos moldes padrões. Houve uma época (século XV) em que as pessoas que não podiam ouvir eram atiradas do alto dos rochedos. À medida que estas pessoas vão se mostrando à sociedade. Prova disso é a própria dificuldade terminológica. este método de ensino chamado oralismo. mas há um duplo envolvimento: por parte deles e por parte da sociedade. Não fosse assim. consequentemente. surge um sentimento de estranhamento. Quando isso ocorre. não apenas as pessoas que não ouvem passam a se integrar e emprenhar esforço para tornarem-se normais. tratamento de reabilitação. como devemos nos referir a tais pessoas? Certamente. Nesse sentido.

Há um slogan propagado pela Federação Nadinho”. está falando. e. ainda que os fonemas sejam desorganizados por falta do feedback auditivo. Primeiro. porque quando o surdo está sinalizando. dizer surdo-mudo é duplamente incorreto. Conceitualmente. além de pejora. etc. Artigo 2º. Depois. de gênero. Então. Foi a partir da década de 90 do século XX que inauguraram algumas pesquisas no país sobre a língua de sinais.Capítulo 1 No caso das pessoas que não podem ouvir. e isto propiciou um olhar antropológico e cultural sobre a surdez. política. não estão em sintonia com o que já é socialmente Verifique em <http://www. anula a necessidade de reabilitação para integração. falar não significa vocalizar. De acordo com essa concepção de diferença (ao invés de deficiência).cional de Educação e Integração de Surdos que diz: SURDO-MUDO. não estamos vendo-a como pessoa. É o caso do termo “deficiente auditivo” ou “d. pois todos já fazem parte da sociedade. Então. 5. aquilo que lhe é deficiente. sexual. mas expressar a sua língua. 2005). consequentemente. ele está pronunciando-se na sua língua. Esse olhar para o surdo como uma pessoa diferente acaba com a concepção de deficiente auditivo – anteriormente impregnada nos meios sociais e educacionais – e. há algumas alternativas de tratamento que podem denotar a consideração social a respeito de sua condição. Quando usamos esse termo para nos referir a uma pessoa.br>. Capítulo I. surdos-mudos para aqueles que não sabem que eles falam. também Saiba mais deixam de ser válidos termos como “surdo-mudo” ou “mu.626 (BRASIL. a sociedade progride e tem sua visão alterada. religiosa. segundo o Decreto n. a condição de não ouvir. porque existem muitos surdos que têm domínio da língua oral e que se comunicam também com sons da voz. emitir sons. aceito. estamos invocando aquilo que ela não tem. parágrafo único.org. aliás.”. os surdos são deficientes auditivos para aquelas pessoas que os enxergam com uma visão clínico-terapêutica. apague esta ideia! tivos. estamos destacando o que há de ausente naquela pessoa. financeira. Nesse sentido. mas a informação que mais nos importa é sua patologia e/ou sua condição clínica.feneis. somos apenas mais uma figura no cenário da diversidade social – racial.a. Com o acelerar da recepção de informações. para aqueles que os olham Língua Brasileira de Sinais – Libras 13 . não há necessidade de inserção das pessoas. pois.

e não com uma visão clínica ou patológica. a órgãos públicos ou privados e fazem este sinal: Oi FAEL . Surdo Ouvinte 14 Os surdos conversam com as mãos. porque ele remete a um posicionamento político de respeito ao sujeito como um ser social. Portanto. É o caso. falante da língua de sinais. para nos referirmos a essas pessoas neste texto. De fato.Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitando sua diversidade linguística. usaremos o termo “surdo”. as pessoas que têm a capacidade de ouvir são chamadas de ouvintes. poucas são as pessoas que reconhecem o que significam tantos movimentos e tantas sinalizações. por exemplo. a partir de agora. por meio do estabelecimento de uma comunicação visual. são apenas: surdos. Contrariamente. de quando os surdos chegam a estabelecimentos comerciais.

ou seja. Porém. tentam falar mais lentamente ou buscam um papel para escrever. na maioria das vezes. Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 1 As pessoas não sabem o que isso significa e. conforme exposto a seguir: Tudo bem? Qual é seu nome? Qual é o seu sinal?1 Bom dia 15 Boa tarde Boa noite 1 Os surdos dão um sinal para cada pessoa e não as chamam pelo nome. com os sinais da Libras. o desejável seria que essas pessoas pudessem responder da mesma forma. na esperança de conseguir estabelecer uma comunicação.

e que escolhemos para construir nosso aporte conceitual. as crianças já nascem equipadas com vários aspectos relacionados à organização sintática das línguas humanas que FAEL . língua escrita e língua sinalizada. Segundo essa teoria. esses e outros tantos sinais necessários à comunicação com surdos são desconhecidos pela população ouvinte. vamos pensar na oposição língua X linguagem. e o desconhecimento não é só dos vocabulários.Língua Brasileira de Sinais – Libras No entanto. Há. infelizmente. por exemplo. do Massachusetts Institute of Techonology – MIT. o processo de adquirir a estrutura de uma língua natural é universal. por ora. mas da própria nomeação desta modalidade linguística. que as pessoas a chamam de “linguagem de sinais”. Os que entendem que a influência do social é determinante para aquisição da língua. Tais ideias deram origem à teoria que vigora até o presente. nos Estados Unidos. destituem do ser humano as responsabilidades pelo seu desempenho linguístico. Posteriormente explicaremos porque esses dois últimos termos são inadequados. mas. basicamente. enquanto que a sinalizada tem a característica de ser espaço-visual. E o que vem a ser modalidade linguística? É a forma como a língua se manifesta. e a faz sob diferentes perspectivas teóricas. pesquisadores que são adeptos a concepções sociais e há outros que procuram abordagens mais naturalísticas para formular suas concepções. há pesquisadores que são mais adeptos aos postulados teóricos de Chomsky (1957). quem pense que são “mímicas”. três modalidades das línguas naturais: língua falada. ainda. Essa aquisição é possível devido ao fato de as crianças possuírem um conhecimento linguístico inato que as guia por esse processo. Há outras que a chamam de “gestos” e há. Portanto. pois independe da qualidade interativa que se estabelece com a criança. Isso significa que o espaço (lugar a frente do corpo) é o canal de emissão e a visão é o canal receptor da mensagem. Trata-se da teoria gerativa. vemos que o desconhecimento sobre essa modalidade linguística é tanto. Porém. assim também como independe da cultura. Há. a língua de sinais tem modalidade espaço-visual. A língua falada é conhecida por possuir uma característica oral e auditiva. Para ele. Por outro lado. Inscrevem-se nesse tipo de abordagem as vertentes da linguística estrutural e funcional. 16 A linguística é a área científica que se debruça a conceituar essas duas categorias.

mas não para determinação do seu estágio final. enganosas e fragmentárias? 17 Língua Brasileira de Sinais – Libras . observando propriedades específicas. além da sua capacidade de evocar os pensamentos adequados no seu interlocutor. devido ao seu inato conhecimento linguístico. Isso se comprova. essa capacidade é uma consequência direta do fato de sermos humanos..] pode-se dizer que o uso criativo da linguagem não se limita ao estabelecimento de analogias. Chomsky (1957) denomina esse conhecimento linguístico predeterminado de “Dispositivo de Aquisição de Linguagem – DAL” (em inglês: Language Acquisition Device – LAD). Nesse sentido. [. mas reflete a capacidade do ser humano de fazer uso dela no seu dia a dia. porém. a criança é exposta a estímulos pobres e limitados.] Sob esta perspectiva. livre de estímulos. abriga os princípios que são comuns a todas as línguas humanas. sistema armazenado na mente. O estágio final são as propriedades linguísticas alcançadas pelo adulto. Esses princípios formam um conjunto de regras linguísticas uniformes chamado de Gramática Universal – GU. fica a cargo da interação social. entendida como um órgão biológico carente de iniciar seu funcionamento que. A criança é vista como aprendiz eficiente a despeito da pobreza de estímulos. Por isso dizemos que essa teoria é de natureza mentalista. O DAL. e 2 O argumento da “pobreza dos estímulos” é tratado por Chomsky (1957) como uma atitude platonista. Em outras palavras.. com coerência e de forma apropriada a cada contexto. pois a mente humana abriga um sistema “computacional” capaz de gerar representações linguísticas. no caso. é capaz de se desenvolver ao ponto de gerar infinitos enunciados bem formados. apenas pela maturação da GU. [. Esse argumento é comumente tratado por problema de Platão2.Capítulo 1 são geneticamente determinadas. A perspectiva chomskyniana de linguagem está resumida no excerto a seguir. a aquisição da linguagem vai acontecer naturalmente – sem que haja um aprendizado formal –. pois não existem graus de humanidade. Como diz Descartes. somos humanos ou não somos. por isso o nome problema de Platão é extraído da questão filosófica. possibilitando um melhor entendimento de que a linguagem reflete uma capacidade mental do ser humano. devido à discrepância entre input e output do falante. Esse fator é preponderante no princípio do funcionamento do DAL.. segundo Chomsky (1957). de como é que o ser humano pode saber tanto diante de evidências tão passageiras..

e isso não acontece. sendo que cada uma é formada por cadeias de elementos. A linguagem é uma função mental superior4. língua é um conjunto de regras que gera uma infinidade de sentenças. é língua. portanto. ela é entendida como um conjunto de regras que geram uma infinidade de sentenças. nos aspectos epifenomenais3. FINGER. inteligência. etc. e que este dispositivo deve ser acionado pelos estímulos externos para poder desenvolver a língua. culturais. 47). sendo assim. são fatores sociais. p. internas (inconscientes) e intencionais (automáticas). e elas são: pensamento. Posto o entendimento de que há diferença teórica no conceito de língua e no conceito de linguagem. poderíamos dizer que a linguagem é um dispositivo que já está acoplado na mente humana desde o nascimento. econômicos. além de dar conta destas mesmas propriedades em termos da ciência física (QUADROS. caracterizadas como individuais. Um estudo da faculdade da linguagem deve propor propriedades específicas e descobrir os mecanismos da mente que as apresenta. linguagem e outras. p. políticos. todos seriamos sinalizadores. Segundo Kato (1997). Quer dizer. raciocínio. significa que ela é externa a nós. Essa é a concepção de língua que adotamos. enquanto a língua. considerando que. 3 Epifenômenos são fenômenos adicionais que se sobrepõem a outros. há ainda que se colocar que. nem exercer sobre eles qualquer influência. 18 Apesar de já termos adiantado o conceito de língua. Podemos concluir que a Libras deve ser aprendida e. mas está no seio da sociedade e por isso precisa ser adquirida. 47). opostamente. o objeto de estudo é postulado como o conhecimento inconsciente da língua. se assim fosse. Para o linguista adepto à corrente gerativa. FINGER. 4 Função mental superior é sinônima de função psicológica. se será aprendida. esse conhecimento tem caráter intencional e o uso é inconsciente devido ao uso automático da língua. nesse modelo teórico. a não ser no nível da superficialidade. podemos concluir que a terminologia “linguagem de sinais” passa a ser cientificamente inapropriada. isto é. Dessa forma. a Libras não pode ser chamada de “linguagem de sinais”. encarado como um sistema “computacional”. não está instalada no cérebro humano. 2008. (QUADROS. 2008. percepção. é de natureza muito mais individual. ela é social. mas sem modificá-los. FAEL .Língua Brasileira de Sinais – Libras não há variação essencial entre os humanos. atenção. Assim. memória.

desta forma.436/2002 (BRASIL. a Libras passou a ser aceita como língua Língua Brasileira de Sinais – Libras . Língua de sinais Iniciamos pelo signifiSaiba mais cado do termo.fiemg. A primeira foi oficializada pela Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. já que todas as demais línguas de sinais do mundo possuem uma sigla com três letras. reproduzimos a seguir o sinal empregado pelos surdos para nomear sua própria língua: Libras 19 Um dos documentos legais que contempla a sigla Libras é a Lei Federal n.pdf>. com. 10. se deve ser correntes para designar a línLIBRAS (todas as letras maiúsculas). A LSB é a sigla utilizada por pesquisadores que publicam textos internacionais. Leia Sinais) e LSB (Língua de Si. podemos adentrar mais especificamente nas considerações sobre a “língua” de sinais.mais sobre o assunto em: <http://www. Como Libras é nossa opção terminológica. nais Brasileira). 2002b). A partir dessa aprovação. e é o termo presente em documentos legais. que oficializou a língua no Brasil.br/ead/pne/Terminologias. é possível ter uma rápida identificação para LSB. visto que no Há pesquisas que discutem a melhor grafia Brasil há duas terminologias para a língua brasileira de sinais.Capítulo 1 A partir dessa concepção. já que há diferenLibras (Língua Brasileira de ça conceitual nestes diferentes registros. libras gua de sinais utilizada pela (todas as letras minúsculas) ou Libras (apenas comunidade surda brasileira: a primeira letra maiúscula).

incapaz de expressar conceitos abstratos. que é uma língua gramaticalmente organizada. para produzirmos a Libras. precisamos passar por um processo formal de aprendizagem. 1998. essa conquista só foi possível mediante a congregação dos surdos em prol dessa causa. Nesse sentido. que vai desde agregar as pessoas até convencer políticos a planejar ações disseminadoras. Não devemos. colocar a Libras e os gestos na mesma categoria de análise. e pelo fato de muitos pesquisadores terem se empenhado para angariar conhecimentos que comprovassem o valor linguístico dessa língua. Para que isso ocorra. mas. todos seríamos falantes natos da Libras. Considerando que a pantomima e a mímica são formas artísticas de expressão. possuem natureza muito diferente. QUADROS. Os gestos são as expressões espontâneas das pessoas. são nossas expressividades naturais.436 oficializou a Libras. A Lei n. estamos produzindo gestos. 10. As línguas de sinais derivam da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. Por exemplo. já existiam pesquisadores brasileiros de língua de sinais (BRITO. Ter uma lei que oficialize um idioma em um país é muito importante. apesar de ambos serem produções visuais. 20 Mitos sobre a Libras A língua de sinais seria uma mistura de pantomima e gesticulação concreta. quando colocamos a mão no rosto ou na cintura. há que se percorrer um longo caminho. Diferentemente. apertamos os dedos uns contra os outros ou passamos as mãos repetidas vezes no cabelo. pois este sistema linguístico é abstrato e não faz parte da nossa expressividade natural – se assim fosse. cruzamos os braços. índios) relatam experiências de segregação e preconceito. No caso da Libras. elas não podem ser comparadas com a Libras.Língua Brasileira de Sinais – Libras usual na comunidade surda. 1995. FELIPE. pois. com o intuito de combater os mitos que havia sobre ela. antes disso. discutindo e publicando suas investigações sobre esta língua. já que sua forma de expressão não é a mesma da maioria social. pois demonstra o reconhecimento social sobre ela. FAEL . deve-se travar uma luta pelo reconhecimento linguístico de tais minorias. também. visto que as minorias linguísticas (imigrantes. Vejamos cada um destes mitos. bem como as asseverações postuladas pelos pesquisadores pioneiros no assunto. 1997).

que representam o som que reproduzem. porém. nome de um pássaro e um instrumento musical. eles não são o todo da língua. respectivamente. como os sinais a seguir reproduzidos. SinaiS icônicoS Passar batom SinaiS arbitrárioS Vencer 21 1 2 Passar roupa Especial Língua Brasileira de Sinais – Libras . como é o caso do português. conforme podemos verificar nas ilustrações. e o segundo é o dos sinais chamados arbitrários. há outros que não tem relação alguma com os objetos da realidade. Exemplo disso são as palavras “bem-te-vi” e “bumbo”. O primeiro grupo de sinais é o dos chamados icônicos. Essa possibilidade de o referente linguístico ter relação com os objetos reais – a iconicidade – também é presente nas línguas orais.Capítulo 1 É verdade que a Libras é composta por sinais que representam manualmente as formas e os movimentos dos objetos do mundo.

Língua Brasileira de Sinais – Libras SinaiS icônicoS Pentear o cabelo SinaiS arbitrárioS Perigoso Escovar os dentes Vingar 22 Dormir Idade FAEL .

Capítulo 1 SinaiS icônicoS Lavar roupa SinaiS arbitrárioS Organização Limpar o chão Sofrer 23 Varrer Opinar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

podemos concluir que. Língua Americana de Sinais. Então. pois se Libras é a sigla da Língua Brasileira de Sinais. entre outras. quando um surdo sinalizasse o sinal de árvore para um ouvinte. Língua Francesa de Sinais. já é um forte argumento para combater o mito que aponta que a língua de sinais deriva da comunicação gestual espontânea dos ouvintes. conforme figuras a seguir: Árvore Árvore 24 Libras Língua de Sinais Chinesa (CSL) Só essa informação. ele rapidamente identificaria o significado. tais como: Língua Holandesa de Sinais. de que a iconicidade se realiza de acordo com a perspectiva referencial de determinado grupo. Haveria uma única e universal língua de sinais usada por todas as pessoas surdas. Se assim fosse. mas. se no nome da língua mencionamos sua nacionalidade.Língua Brasileira de Sinais – Libras É bom ressaltar que os sinais icônicos não são iguais no mundo todo. o sinal de árvore no Brasil é icônico assim como o é na China. pois a representação que cada falante faz da realidade é diferente. como sabemos. Muitas pessoas pensavam que a Libras seria universal. Contudo. por exemplo. enquanto lá se faz apenas o tronco. que os sinais eram iguais em todos os países. não é isso que ocorre. fica refutada a ideia de que os sinais da Libras são extraídos da expressividade natural dos ouvintes. FAEL . essa afirmação não procede. é porque existem outras línguas de sinais espalhadas por outros países. A diferença é que aqui representamos o tronco da árvore e o balanço dos galhos. Língua Alemã de Sinais.

na sua organização semântica e discursiva para atender a aspectos culturais e ideológicos das diferentes comunidades de surdos. também. sendo um pidgin sem estrutura própria. todas as línguas. o gestuno – assim como o essa teoria. subordinado e inferior às línguas orais. Isso significa que as línguas de sinais se diferenciam. mas. Porém. esperanto – deixou de existir. Isso porque sabem que. O pidgin é utilizado por pessoas que estão em processo de aprendizagem e necessitam de Língua Brasileira de Sinais – Libras 25 . baseando-nos Porém. ela tem sua origem na Língua Francesa de Sinais. já que as línguas orais não são iguais e ninguém questiona esses fenômenos. que são diferentes apenas em sua natureza e comportamento. subordinada e inferior. cada uma tem sua história linguística. assim como aconteceu com o esperanto. se estamos entendendo que a língua de sinais tem o mesmo valor que a língua oral. que era que entendemos haver uma uma forma de comunicação oral que reunia os língua de sinais para cada país. Haveria uma falha na organização gramatical da língua de sinais. Quando a informação de que a Libras não é universal começou a percorrer espaços sociais. termos comuns na maioria das línguas orais. há Saiba mais uma língua de sinais especíCom a difusão das línguas de sinais pelos fica. pensou-se em sistematizar uma língua nação e daquela comunidade surda. Algumas pessoas acham que a Libras é derivada das línguas orais e é um pidgin sem estrutura própria. em cada país. como qualquer língua. havia um questionamento de que seria muito mais fácil para comunicação dos surdos se todos sinalizassem da mesma forma. Segundo naturais. como nas expressões (1) e (2) a seguir exemplificadas.Capítulo 1 Assim. que reflete a cultura da países. Por exemplo. muitas vezes. por pidgin entendemos a mistura de duas línguas. então um questionamento como este também perde sua validade. pois quando as analisamos. como não era usado em momentos na teoria gerativa. houve o alastramento de determinados idiomas em determinados lugares. que seria derivada das línguas orais. No caso da Libras. Cada uma dessas proposições pode ser considerada um mito. devido às colonizações. inclusive as de sinais. encontramos conceituação diferenciada para os termos empregados. O mesmo aconteceu com as línguas de sinais. apresentam organização sintática com os mesmos princípios comuns à linguagem humana. E não é só pelo nome de sinais universal chamada “gestuno”.

da Libras com o português. quando uma pessoa está conversando com um surdo em Libras e na ausência de um sinal resolve oralizar pausadamente. A Libras tem uma estrutura gramatical bastante complexa. é o seu mau uso que pode tornar-se um. e não um julgamento de valor. cada um sinaliza de um jeito. alegar que ela é subordinada à língua oral. Mesmo assim. como há uma conscientização ao cessar do preconceito linguístico. esse tipo de comparação inexiste. como fazem os caipiras. isso também acontece. mas que muitas vezes é verbalizado por desconhecedores da Libras. pois nenhum sistema linguístico será mais complexo ou superior a outro. da oralidade com a sinalização. 1. sendo estética. por exemplo. Na linguística. além de demonstrar o desconhecimento da estrutura linguística. 2. isto já é assegurado no campo da linguística e já foi transmitido à sociedade. A língua de sinais seria um sistema de comunicação superficial. portanto. tem constituição interna própria. a única comparação permitida entre as línguas e em sua realização é o conhecimento dos parâmetros de cada sistema. já que todos se prestam ao mesmo fim: a comunicação. Da mesma forma. Porém. Podemos admirar uma ou outra forma. pois as línguas são apenas diferentes entre si.Língua Brasileira de Sinais – Libras um recurso emergente de comunicação. Esse é outro apontamento que não procede às descobertas científicas. Na Libras. o que falta são algumas tomadas de decisão quanto ao tema. com conteúdo restrito. a fim de que o interlocutor o entenda. não é a Libras que é um pidgin. FAEL 26 . ou ainda porque ela fala bicicreta. Sabemos que não podemos criticar uma pessoa porque ela fala porta acentuando o r. Esse jeito diferente de falar compõe o idioleto de cada um. Assim como fazer comparativo de superioridade ou inferioridade em relação à língua oral é linguisticamente inviável. I amo you. Nesse sentido. Uma manifestação de pidgin sinalizada é. não consideramos o inglês e o português como pidgin. expressiva e linguisticamente inferior ao sistema de comunicação oral. pois houve a mistura dos sinais com a voz. Essa estrutura se caracterizará por um pidgin. mas nunca taxarmos como “certa” uma única forma. também aponta para uma postura altamente preconceituosa. Eu love você.

há que se pensar onde se localiza a Libras. já que é uma língua e que. Diante disso. ou seja. Sua modalidade é espacial e visual. é identificada a propriedade linguística. é que a função de visão do hemisfério direito tem uma característica funcional. Há pessoas que dizem que as línguas de sinais. As línguas de sinais. por isso. e a área de Wernicke. A partir daí. duas áreas responsáveis pelo desempenho de uma língua: a área de Broca. Portanto. memória e outras. pela linguagem. a Libras não se enquadra nesta situação. o cérebro Língua Brasileira de Sinais – Libras 27 . matemático e outros. Pessoas que conhecem. Nesse sentido. especialmente. sabem que ele é dividido em hemisfério direito e hemisfério esquerdo. na verdade. No hemisfério esquerdo estão algumas funções mentais como atenção. e estas são características alocadas no hemisfério direito. Ao hemisfério direito cabem as propriedades para o desenvolvimento musical. assim também como a função do espaço deste hemisfério se relaciona à questão geográfica. Há. nesse hemisfério. estariam representadas no hemisfério direito do cérebro. que determina a compreensão de uma língua. de flexibilidade e de versatilidade. uma vez que este hemisfério é responsável pelo processamento de informações espaciais. o cérebro humano. espacial. por estarem organizadas espacialmente.Capítulo 1 Levando em conta que um sistema de comunicação superficial é aquele criado para atender a comunicação de máquinas. É possível falar qualquer coisa em Libras – desde de que o sinalizante tenha fluência –. é dinâmica e com conteúdo absolutamente ilimitado. basicamente. pois mesmo não havendo palavras comuns entre Libras e português. minimamente. é a linguagem de programação. uma vez que esse hemisfério é responsável pelo processamento de informação espacial. Toda língua humana – como a língua de sinais falada pelos surdos – atende aos critérios de criatividade. por estarem organizadas espacialmente. serve para ver no sentido estrito do termo. visual. artístico. mas. há possibilidade de transmissão do conceito da palavra. O que ocorre. para poder dar conta dessa modalidade. enquanto que o esquerdo. que emerge no seio da comunidade e se transforma ao longo do tempo. emocional. as considerações que se tinha até então eram de que a Libras instalava-se no hemisfério direito. a Libras não é superficial. é uma língua natural. e que cada um deles tem uma função diferenciada. estariam representadas no hemisfério direito do cérebro. estaria no hemisfério esquerdo. que determina a expressividade da fala.

que burlavam a lei do silêncio que imperava nos mosteiros e conversavam por “códigos visuais”. há também algumas semelhanças de vocabulário nas línguas de sinais do Brasil. alguns sinais da Libras. mas não foi o primeiro a usar esta forma de comunicação. pois antes dele já existiam os abades franceses. entretanto. Ele foi o primeiro pesquisador a sistematizar a estrutura gramatical de uma língua de sinais. Essas primeiras pesquisas que se prestaram a desmistificar falsas considerações sobre a Libras deram origem a outras. EUA e França. por exemplo). haverá a visão e o espaço. para América. e então realiza uma transferência hemisferial. mas com propriedades distintas. posteriormente. Assim como existem palavras muito semelhantes no português e no inglês (baby e bebê. Então. Como exemplo dessa similaridade. então começaram a usar uma língua estruturada para transmitir conteúdos científicos e teológicos. Por isso.Língua Brasileira de Sinais – Libras detecta que a visão e o espaço serão utilizados pela modalidade linguística. Depois disso. citamos os sinais de casa em Libras e na Língua Americana de Sinais: Casa Casa 28 Libras Língua Americana de Sinais FAEL . chegando ao Brasil no século XX. Assim. agora com função linguística que servirá para “ouvir” e “falar” a Libras. Todas elas. no hemisfério esquerdo. São os chamados cognatos. de William Stokoe. houve um período em que eles – um nome bastante conhecido desta época é o Ponce de Leon – se dedicavam à instrução de pessoas surdas. emergiram a partir do primeiro trabalho conhecido sobre línguas de sinais nos Estados Unidos. da Língua Francesa de Sinais e da Língua Americana de Sinais são parecidos. a comunicação espaço-visual se espalhou pela Europa e. em 1960.

ela deve passar por todos os testes postulados pelos pesquisadores. com empréstimos linguísticos vindos do sequente aportuguesamento destes termos ou. as palavras são incorporadas ao sistema linguístico de um modo geral. Assim também acontece com o vocabulário das línguas orais e sinalizadas que. Então. como o de qualquer língua. Fizeram isso utilizando-se da “regra geral” para validação de que uma língua é língua. ainda. Vejamos cada um deles. isto reitera a existência de uma língua. um recurso paliativo. usado apenas para se referir a nomes próprios e a objetos que não tenham um Língua Brasileira de Sinais – Libras 29 . percebe-se que. pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. através dos universais linguísticos.Capítulo 1 O que Stokoe e os primeiros linguistas brasileiros fizeram – além de mostrar o falseacionismo dos mitos – foi apontar a natureza da Libras como ela é. Não há línguas primitivas – todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. e a Libras preenche estes requisitos. deve responder positivamente às questões levantadas. Verdades sobre a Libras: universais linguísticos Para uma língua ser considerada língua. por exemplo. Onde houver seres humanos. destacamos inicialmente o alfabeto manual. Quanto aos empréstimos linguísticos da Libras. Ele é. apesar de se apresentar numa modalidade diferente das línguas orais. O vocabulário de qualquer língua pode ser expandido a fim de incluir novas palavras para expressar novos conceitos. pois todas as línguas são igualmente complexas e igualmente capazes de expressar qualquer ideia. A primeira análise feita para atestar o status linguístico da Libras pautou-se numa simples consideração: a de que onde há seres humanos há língua. na verdade. Ao aproximar-se da língua usada pelo grupo de surdos. É impossível negar que um grupo de surdos constitui-se como um grupo de seres humanos. ela não pode ser considerada como uma língua primitiva. haverá língua(s). por meio da inclusão de palavras novas ao repertório individual. portanto. No português. passou-se a mostrar a verdade sobre esse sistema de comunicação espaço-visual.

quando a pessoa está usando o alfabeto manual. desde que não alternadamente. portanto. Em outros países. enquanto precisam aprender uma língua oral e auditiva. pois são usuários de uma língua espacial e visual. explicaremos com mais detalhes a questão de o português ser uma segunda língua para os surdos. Por isso. a palavra toda deve ser sinalizada com a esquerda. no caso do Brasil. deixa de usar a Libras e faz uma transferência de código. devemos ter muita cautela para usá-lo. É preferível fazer um sinal sinônimo a “escrever” a palavra a que se deseja fazer referência. vale ressaltar que esse recurso é externo à Libras. Há toda uma dificuldade que se coloca a eles.Língua Brasileira de Sinais – Libras sinal conhecido na Libras. Posteriormente. e não uma FAEL . pode ser sinalizada de um jeito no Brasil e de outro nos Estados Unidos. Figura 1 Alfabeto manual. ele é considerado como um empréstimo da língua portuguesa. Os surdos representam por meio das mãos as letras do alfabeto português. então. Além disso. essa representação é feita de acordo com o alfabeto do idioma local. se há preferência pela mão esquerda. 30 a b c ç d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z O alfabeto manual pode ser sinalizado com qualquer uma das mãos. às vezes. pois os surdos não se relacionam com a língua portuguesa como nós nos relacionamos. A letra “T”. passa a fazer uso do português.

então. indígenas. que são usadas pelos falantes Língua Brasileira de Sinais – Libras . Normalmente. mas. Caso seja necessário escrever mais de uma palavra (nome completo ou palavra composta. Além disso. os quais estão reproduzidos a seguir: Figura 2 31 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Ainda com relação ao alfabeto manual. é comum os surdos pedirem que se escreva a palavra com o alfabeto manual. ou outros motivos. eles criam um sinal que será usado dali para frente. deve-se fazer uma palavra numa sequência rítmica e dar uma pausa na última letra para. O desenho no ar é feito em um ponto acima de onde se escreveu inicialmente. e as letras são feitas uma após a outra. Então. pois a realização do sinal vai remeter ao sentido e ao conceito. bem próximo ao tronco. pela globalização. e deve ser feito antes da letra que receberá o acento. Na língua portuguesa há muitas expressões americanas. francesas. O mesmo processo ocorre com a produção dos números da Libras. Um empréstimo linguístico é uma palavra original de um idioma que passa a fazer parte do repertório de um grupo de falantes de outro idioma. por meio da internet. se escreve com o braço na vertical. por exemplo). há muitos exemplos de palavras que não compunham nosso verbete e que passaram a fazer parte de nossa fala. ´) por meio de desenho no ar com o dedo indicador. a digitalização da palavra passará a ser dispensável das próximas vezes. No português. sem necessariamente tirar a mão do lugar. `. Para os nomes de pessoas e lugares. há também a possibilidade de representação dos acentos das palavras (^. por exemplo: JOS´E. ~. iniciar a nova série de letras que serão feitas com o mesmo ritmo.Capítulo 1 letra com cada mão. devemos ressaltar que dele são extraídos os outros empréstimos linguísticos da Libras. na sequência.

algumas vezes. shampoo. ligth. diet.Veja um exemplo de empréstimo linguístico da Libras: Bar 32 Em se tratando de termos técnicos e científicos. “léxico”. É o caso de quando entramos na faculdade. isso ocorre da mesma maneira. “biomorfologia”. “piagetiano”. entre outras. lingerie. Exemplos desses empréstimos são as palavras: stress. como os termos “paradigma”. Daí surgem os novos sinais. há uma “enxurrada” de palavras novas as quais não utilizávamos antes. Na língua de sinais. delete. podemos destacar que são criados de acordo com a necessidade. Os surdos têm a capacidade de inserir em sua língua palavras novas conforme a necessidade. “pragmática”.Língua Brasileira de Sinais – Libras normalmente. como os expostos a seguir: Neurose Mídia FAEL . “demanda de mercado”. “psicanálise”. pela supressão de uma das letras. “sintático”. Os empréstimos linguísticos na Libras ocorrem mediante processo de aceleração da escrita do alfabeto manual e. etc. abajur.

o amarrar. É o caso. onde era encerrado com um movimento que imitava o lançar. e isto implica dizer que as línguas mudam ao longo do tempo. que era realizado com ambas as mãos postas próximas à cabeça. Então descia do rosto em direção ao pescoço. do sinal mulher. passando o polegar na bochecha. numa imitação de colocar o chapéu. é sinalizado conforme imagem a seguir.Capítulo 1 Ambiente virtual de aprendizagem Condicionamento Todas as línguas mudam ao longo do tempo. por exemplo. isso também acontece. que passou para vos mice. depois para você e hoje é comumente tratado por cê ou vc. Mulher 33 Língua Brasileira de Sinais – Libras . Na língua de sinais. esse sinal preserva apenas o trajeto do rosto ao pescoço. Os sinais que exigem muito “trabalho” para serem realizados sofrem uma economia produtiva e passam a ser realizados de maneira mais simplificada. Podemos verificar que não há permanência vocabular e nem estrutural em nenhuma língua. Atualmente. Assim como ocorreu com o vocábulo vossa mercê.

Tal organização de língua em duas camadas. por exemplo. porém. expressa a característica de dualidade ou dupla articulação comum às línguas orais e sinalizadas. é a característica de descontinuidade. a característica de arbitrariedade das línguas não se restringe à ligação entre forma e significado. em torno de trinta ou quarenta. a). Quadros e Karnopp (2004) apontam que há. em todas as línguas. g. fado. Ainda com relação a isso. camada de sons que se combinam e camadas de unidades maiores. É o caso. a característica da dupla articulação. arbitrárias. quando os combinamos de diferentes maneiras. As palavras e sinais apresentam uma conexão arbitrária entre forma e significado. mas que cada fonema normalmente não tem significado quando está isolado. dado. como fêmea ou macho. n. Tal característica significa que existe uma gama de unidades que são semelhantes. gado. ou “a”. Línguas de sinais apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. são encontrados em todas as línguas. Por exemplo. Isso pode ser constatado na dificuldade em aprender uma língua estrangeira. as línguas de sinais. Quadros e Karnopp (2004) apontam ainda que. mas aplica-se também à estrutura gramatical das línguas. Há ainda outra característica encontrada em línguas orais que se manifestam também nas línguas sinalizadas. visto que. Toda língua falada tem uma classe de vogais e uma classe de consoantes. os quais podem ser definidos por um conjunto de propriedades ou traços. FAEL 34 . pois é um sistema distinto do que estamos habituados a usar. pois elas diferem umas das outras. e dado o significado é possível prever a forma. igualmente. o e a não tem um significado expresso. Universais semânticos. Toda língua falada inclui segmentos sonoros discretos. de fogo. os sons de f. Os símbolos utilizados pelas línguas são arbitrários. apresentam segmentos discretos na composição dos sinais. dada a forma é possível prever o significado. Podemos constatar que não há uma relação intrínseca entre a palavra cão e o animal que ele simboliza. como “p”. em sua maioria. podemos encontrar significados. d. Assim como as línguas orais apresentam segmentos sonoros discretos (p. mas ganha um significado quando é combinado com outras unidades mínimas. “n”.Língua Brasileira de Sinais – Libras As relações entre sons e significados das línguas faladas e entre gestos (sinais) e significados das línguas de sinais são.

Universais sintáticos revelam que toda língua possui meios de formar sentenças. verbo). Todas as línguas humanas utilizam um conjunto finito de sons discretos (ou gestos) que são combinados para formar elementos significativos ou palavras. Quadros e Karnopp (2004) apontam que essa flexibilidade e versatilidade é uma característica comum a todas as línguas. negação. que são escritas e faladas de maneiras diferentes. os quais. Todas as gramáticas contêm regras de um tipo semelhante. sendo assim. para fazer ameaças. a coisas que não existem e que os falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender em um conjunto infinito de sentenças. sabemos que tanto as línguas orais quanto as de sinais podem fazer referência ao passado. bem como universais semânticos tais como a distinção fêmea/macho. comando. Esse fenômeno demonstra a característica de descontinuidade da diferença formal entre forma e significado. mas apresentam diferença considerável no significado. No concernente à sintaxe. para formação de palavras e sentenças. etc. isto significa que as palavras podem diferir de maneira mínima na forma. promessas. ordens. pergunta.Capítulo 1 Tal fenômeno está em oposição à variação contínua. formam um conjunto infinito de sentenças possíveis. Todas as línguas possuem formas para indicar tempo passado. presente e futuro. verbo e outros). os falantes têm a liberdade de agir criativamente. Língua Brasileira de Sinais – Libras 35 . Todos os sistemas linguísticos têm a possibilidade de construção e compreensão de um número infinito de enunciados. pois podemos usar a língua para dar vazão às emoções e sentimentos. Todas as línguas apresentam categorias gramaticais (ex: substantivo. As línguas não se fixam apenas nos parâmetros fonológicos. por sua vez. a realidades remotas ou. para fazer solicitações. pois tanto línguas orais como sinalizadas apresentam categorias gramaticais (substantivo. É o caso das palavras faca e fada. perguntas ou afirmações. ainda. A criatividade e a produtividade são apontadas por Quadros e Karnopp (2004) como propriedades que possibilitam a construção e a interpretação de novos enunciados. Falantes de todas as línguas são capazes de produzir e compreender um conjunto infinito de sentenças.

Então. Trata-se de três sinais diferentes que se referem à palavra verde. não é possível estabelecer uma homogeneidade linguística por todo seu território nacional. nas cidades de São Paulo. Isso ocorre com a Libras. por meio dela. Esses modos distintos na fala de cada região são os chamados dialetos. revela-se a criatividade que o falante tem para inventar novas palavras e de ter um estilo próprio de fala. respectivamente. e todos esses novos modos serão carregados de peculiaridades da região onde o grupo está localizado. pois. assim. Podemos. mesmo cada país adotando uma língua de sinais própria. que se prestam a designar a mesma coisa. que existem não só na Libras. e estes diferentes registros discursivos são manifestados por meio da velocidade dos movimentos e do espaço FAEL . haverá abertura para criação de novos falares ou modificação nos falares produzidos. 36 Fonte: imagens adaptadas de Strobel e Fernandes (1998). perceber que a Libras é bastante complexa em sua estrutura gramatical e que. inclusive utilizar-se de diferentes estilos de fala em diferentes ocasiões. Sempre que houver a reunião de um grupo de sinalizadores. por exemplo. Vejamos um exemplo do regionalismo da Libras nas imagens a seguir. Rio de Janeiro e Curitiba. como ocorre com o português. o modo de sinalizar é diferente se o interlocutor for uma autoridade ou se forem colegas na rua.Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. é possível conversar sobre diversos assuntos. aipim e mandioca. nas palavras macaxeira. mas em todas as línguas de sinais e orais.

se o contexto de fala é informal. Dessa forma. geográfica. de qualquer origem racial. ele sinalizará com muita expressão facial. pois tem tanta completude que possibilita ao falante fazer escolhas diferenciadas de sinais. todas as palavras se ligam entre si na constituição da frase e do discurso. de acordo com os tipos de situações experimentadas. pois sinalizam muito rápido e tem bastante expressividade. Um fenômeno elucidativo sobre esse assunto é quando as crianças surdas estão aprendendo a Libras. é capaz de aprender qualquer língua à qual é exposta. não nos damos conta de que são produzidos juntos. social ou econômica. tem o espaço de sinalização bastante elevado e produzem muita expressão facial. Quando os ouvintes veem os surdos conversando. provavelmente. com os braços bastante alargados e. quando estamos conversando. Essa impressão equivocada ocorre porque as pessoas não sinalizantes deixam de considerar que. também falamos muito alto e somos extravagantes. mas o “tom” elevado da fala. e isto ocorre da mesma forma com o surdo. Inicialmente. inclusive. podemos ver como é possível o falante de Libras transitar entre diferentes estilos discursivos. Se o surdo quer ser bastante formal em sua fala. Assim também acontece na comunicação em Libras. nascida em qualquer lugar do mundo. Ao articular os fonemas da nossa língua portuguesa – um após o outro –. Porém. também falamos muito rápido. Os surdos sinalizam rapidamente um sinal após o outro. mas uma fala normal. elas aprendem Língua Brasileira de Sinais – Libras 37 .Capítulo 1 utilizado para sinalização. O fato é que os surdos estão tendo uma conversa como outra qualquer. quando nós estamos em contextos informais. isso não denota agressividade ou briga por parte deles. sem significar uma briga. ou seja. contém marcas de formalidade e de informalidade. Os surdos igualmente agem assim. provavelmente usará o espaço a frente do seu corpo com certo limite. Ampliam os movimentos dos sinais. Qualquer criança. vocalizará alguns sons. vai até a cabeça e não se estende muito para os lados. No entanto. na grande maioria. O espaço para sinalização se inicia acima do quadril. Esse dado reitera que a Libras é uma língua que. elas têm a impressão de que estão brigando. Além disso.

portanto. nos aponta para uma característica das línguas humanas. além de mostrar a importância do adulto no contexto de aquisição da linguagem. na Libras: a regularidade. A mãe age com um input favorável. 38 Esse jogo discursivo. para que a auxilie. igualmente. A mãe ensina. as línguas humanas – e. e a criança imita corretamente a localização e o movimento. começa a aprender o sinal de sorrir (conforme figura a seguir). Toca no filho e ajeita sua mão para que realize o sinal de forma correta. inconscientemente. a Libras também – têm parâmetros de realização que não podem ser alterados para sua efetiva comunicação. Solicita à mãe por várias vezes. há exigência de que os elementos fonológicos sejam adequadamente produzidos na realização dos sinais. A criança gosta do sinal. Tomamos como exemplo uma criança quando estava com dois anos e. não consegue reproduzir da mesma forma a configuração de mão. FAEL . Isso também ocorre com as crianças surdas. porém. a qualidade do input e outros. cada um dos três parâmetros – que são a configuração de mão. até que aprende os três parâmetros e consegue realizar com precisão o sinal de sorrir. como fazem as crianças ouvintes. Assim. mas tem dificuldade para fazer a configuração apresentada. até formar palavras completas. depois “babababa”. sorri quando a mãe a repreende pelo mau jeito na realização do sinal.Língua Brasileira de Sinais – Libras as unidades mínimas de maneira isolada. Conforme já apresentamos. fazendo a intervenção devida. que começam a balbuciar “aaaaa”. a localização e o movimento –. presente. em diálogo com a mãe.

os paradigmas sobre a pessoa surda e sua língua passaram por reformas não só no que se refere à terminologia – surdo e Libras –. Muito mais do que saber a forma de tratamento dessas questões. nessa fase. Então. utilizando as letras manuais. Perguntas: ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● Qual é o seu nome? Qual é o seu sobrenome? Quantos anos você tem? Qual é o nome da sua rua? Qual é o nome do seu bairro? Qual é o nome da cidade em que você mora? Qual o nome da sua mãe? Qual a idade da sua mãe? Qual o nome do seu pai? Qual a idade do seu pai? Qual o nome dos seus irmãos? 39 Síntese Neste capítulo. mas na forma de relacionamento com esta nova realidade. é preciso que haja um desprendimento para aprender a se comunicar e se relacionar com os surdos. Isso pode se dar por meio Língua Brasileira de Sinais – Libras . pode colocar algumas perguntas no quadro e promover que dois alunos participem: um pergunta e o outro responde. Explicamos que. o professor pode colar cartazes pela sala com o alfabeto manual e com os números.Capítulo 1 Da teoria para a prática Para aderir à ideia da diversidade linguística em sala de aula. a chamada inclusão. tratamos das definições preliminares e apresentamos ao leitor a fase histórica pela qual a sociedade está passando.

as pesquisas não mais se prestam a “comprovar” que a Libras é uma língua. Atualmente. 2008. todas as influências verbais que são dadas às crianças quando estão aprendendo a falar. Dessa forma. os surdos foram brindados com a oficialização da sua língua por determinação legal. Glossário 40 Input É o sinônimo para estímulo linguístico. 21). É uma língua emergencial. para que houvesse todo o reconhecimento social e acadêmico que hoje existe quanto ao status desta língua. assim como foi preciso arrolar alguns pressupostos universais na análise desta modalidade expressiva. ou seja. de um jeito mais informal ou por meio de leituras e pesquisas linguísticas.Língua Brasileira de Sinais – Libras do alfabeto manual. é o que ela consegue falar. Output É a forma como a criança expressa o input que recebeu. pois. foi preciso muito esforço para desmitificar os mitos que havia. Pidgin É um sistema de comunicação precário. FAEL . dos empréstimos linguísticos. Nesses termos. p. mas já podem se focar em conhecer o comportamento de uma língua espaço-visual e tecer análise gramatical sobre ela. porque aparece em situações extremas de barreiras à comunicação (MCCLEARY. o que faremos no próximo capítulo. percorremos com o leitor o mesmo percurso adotado no processo de valoração da Libras.

que se ocupa com as escolhas das palavras. Por dupla articulação. Para resolver tal impasse. para o estudo das unidades mínimas da língua de sinais. por entender o apontamento de Saussure (1970) quanto a isto. sendo os principais: o fonológico. Para o pai da linguística. que se ocupa em estudar as unidades mínimas da composição das palavras. Além dos fonemas. Porém. entendemos um plano de conteúdos (composto . o sintático. quando nos referirmos aos fonemas. definição que torna o conceito suficientemente abstrato para abranger não apenas representações psíquicas de sons. que se ocupa em organizar as palavras na frase. atualmente. e o semântico. as línguas naturais também são compostas por morfemas e palavras. 2008). Stokoe empregou a terminologia “querema”. Aspectos fonológicos É no nível fonológico que se encontram as considerações acerca dos fonemas – conceituados como unidade mínima do som. já que ela é uma língua espaço-visual que não tem som. mas também de gestos (LEITE. Neste capítulo.Estrutura gramatical da Libras T 2 41 odo sistema linguístico é organizado em níveis de análise. e estas duas articulações – fonemas e morfemas – é que norteiam a dupla articulação apontada por Martinet (1978). ao invés de fonema. Assim. que busca a relação das palavras e o sentido que elas têm. os pesquisadores de língua de sinais abandonaram o termo. não caberiam considerações fonológicas para a Libras. abstraída de realizações fonéticas concretas e infinitamente variáveis. estamos fazendo menção às unidades mínimas que compõem a língua. a forma do significante refere-se a uma imagem acústica convencional. Nesse sentido. Esse linguista diz que todas as línguas humanas possuem a dupla articulação. apresentaremos cada um destes aspectos linguísticos relacionados à Libras. o morfológico.

esses parâmetros não têm conteúdo significativo (capaz de compor significação). É bom lembrar que ambas as articulações são restritas nas línguas naturais. também é composta pela dupla articulação. Isoladamente. Podemos constatar tal fenômeno. conforme Leite (2008).Língua Brasileira de Sinais – Libras por morfemas e palavras) e um plano isento de conteúdos (composto por fonemas). vemos que Stokoe (1960) propôs três componentes da estrutura interna dos sinais: configuração de mão (CM). mas que sua combinação pode originar um número irrestrito de possibilidades significativas. Carro Movimento Configuração de mão Localização FAEL . por meio da junção das articulações dos fonemas. Como a Libras é uma língua natural. porém. Limitando-nos inicialmente à segunda articulação – fonemas –. localização (L) e movimento (M). quando os unimos. Ônibus 42 Configuração de mão Movimento Localização O mesmo fenômeno ocorre com os sinais: avião e carro. podemos formar conteúdos irrestritos.

mas não se restringem a elas. conforme podemos verificar na figura a seguir. os parâmetros não transmitem significado. Para as configurações de mão da Libras temos o quadro de Brito (1995). a fim de entendermos melhor a formação dos sinais. que registra 46 configurações diferentes. isoladamente. ainda. por sua vez. mas ambas com configurações de mão iguais. apontam que essas configurações de mão são representações do sistema fonético da língua. considerando a inexistência de identificação quanto às configurações de mão básicas e às configurações de mão variantes. Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Avião Movimento Configuração de mão Localização Mesmo percebendo que. Quadros e Karnopp (2004). Já em Felipe (2001). encontramos 64 configurações de mão. analisaremos cada um deles em sua composição. com as duas mãos. Algumas dessas configurações de mão correspondem às letras do alfabeto manual. Essas configurações podem dar origem a sinais da Libras se forem produzidas apenas com uma mão. com as duas mãos produzindo configurações de mão diferentes ou. 43 Configuração de mão O primeiro parâmetro – configuração de mão – refere-se à forma que a mão assume na realização do sinal.

FAEL . A fim de elucidarmos as possibilidades de formação de sinal a partir da configuração de mão. Configuração de mão com apenas uma mão: este é o tipo de sinal que pode ser produzido com qualquer uma das mãos. pois o seu sentido não será alterado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Figura As 64 configurações de mão da Libras. expomos alguns exemplos a seguir. 44 Fonte: adaptado de Felipe (2005).

Capítulo 2 Aluno Professor Lápis Caneta 45 Cola Tesoura Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Vestibular Português ou Ciências História 46 Uniforme Educação FAEL .

Curso Pós-graduação Mestrado Educação artística 47 Estudos sociais Intervalo Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Duas configurações de mão diferentes.

e que realiza movimentos apenas com uma das mãos. um papel passivo. e a segunda é a condição de simetria. Sobre a realização de um sinal que contém duas configurações de mão diferentes. uma mão será a base e a outra ativará o movimento. A primeira é a condição de dominância. nesse caso. A mão passiva. mas a ordem de predominância será mantida. a outra. que se realizam com ambas as mãos moldando-se com a mesma configuração de mão e com a realização de um movimento simultâneo e simétrico. FAEL . que limitam consideravelmente as possibilidades articulatórias dos sinais. outras configurações de mão poderão ser realizadas. Em outros casos parecidos com esse. e a mão ativa se forma em c. É o caso dos sinais apresentados a seguir. Antes de falarmos sobre a condição de simetria. ou seja. vejamos a realização de um sinal com as duas configurações de mão iguais. Duas configurações de mão iguais: sinais desta natureza são formados por duas configurações de mão iguais. encontramos em Battison (1974) duas restrições.Língua Brasileira de Sinais – Libras Redação Apontador 48 Atendo-nos ao primeiro sinal. vemos que nesse tipo de construção a primeira configuração de mão é a base que se forma em b. de apoio para a realização do movimento da mão ativa. serve de base. Por condição de dominância o autor entende a ocorrência de sinais nos quais uma das mãos assume o papel ativo e.

Capítulo 2 Sala Geografia Caderno Régua 49 Mochila Prova Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Matemática Educação física Química Nota 50 1 2 Dividir Multiplicar FAEL .

Capítulo 2 Retomando as restrições articulatórias de Battison (1974). em que as duas mãos estão ativas e realizam o mesmo movimento. conforme imagens a seguir. podendo ser no próprio corpo do sinalizador ou no espaço neutro (espaço “vazio” a frente do corpo do sinalizador. precisamente entre a cabeça e o quadril). Sinalização no espaço neutro: Tartaruga Hipopótamo 51 Foca Mosca Língua Brasileira de Sinais – Libras . Locação O segundo parâmetro – a locação – refere-se ao espaço onde o sinal será realizado. em casos de sinais como os que mostramos. temos que. há a condição de simetria estabelecida.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Urso Jacaré Peixe Borboleta 52 Há. tais como os exemplos que seguem. conforme Brito (1995). tronco e mão. a saber: cabeça. Dentro desses pontos principais estão as subdivisões. Subdivisões dos principais pontos de locação: Macaco Boi Sinal com locação na cabeça Sinal com locação na testa FAEL . três pontos principais de locação.

Capítulo 2 Galinha Rato 1 2 Sinal com locação no rosto Papagaio Sinal com locação na bochecha Pato 53 Sinal com locação no queixo Cobra Sinal com locação na boca Coruja Sinal com locação no pescoço Sinal com locação nos olhos Língua Brasileira de Sinais – Libras .

FAEL . circular. retilíneo. considerando sua vastidão de possibilidades. Em Strobel e Fernandes (1998). helicoidal e angular. velocidades e frequências. o terceiro – e principal – parâmetro. Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes tipos de movimento.Língua Brasileira de Sinais – Libras Porco Sapo Sinal com locação no nariz Dinossauro Sinal com locação no braço Zebra 1 54 2 Sinal com locação na mão Sinal com locação no tronco Movimento Movimento. é bastante complexo. sendo possível produzi-los de forma unidirecional. semicircular. Além disso. bidirecional ou multidirecional. vemos que os movimentos podem ser do tipo sinuoso. eles podem ser produzidos com diferentes tensões.

Capítulo 2 Espelho Telhado 2 1 Movimento sinuoso Xícara Movimento sinuoso Porta 2 55 1 Movimento semicircular Jardim Movimento semicircular 2 1 Movimento circular Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Cerca 1 2 Movimento retilíneo Liquidificador 56 Movimento helicoidal Eletricidade Movimento angular FAEL .

para Língua Brasileira de Sinais – Libras . destacamos a orientação de mão e as expressões não manuais. podem formar muitos sinais da Libras e. ocorre um fenômeno presente também nas línguas orais: os pares mínimos. para fora. temos muitos casos como estes. Citemos alguns: Laranja / sábado Aprender 57 Cantar Comunicar Além desses parâmetros. às vezes. para baixo ou para o corpo de quem sinaliza. No português. Na Libras. o segundo e o terceiro parâmetro. A palma da mão pode estar voltada para cima. Nesses casos. em que há apenas uma sutil diferença na pronúncia dos fonemas f e v. estes sinais se distinguem por alteração apenas em um dos parâmetros. os chamados pares mínimos podem ser exemplificados pelas palavras faca e vaca. A orientação de mão é a direção que a palma da mão assume na realização do sinal.Capítulo 2 O primeiro. quando associados.

relativas. Ir de frente para trás. referência pronominal. referem-se às expressões faciais e aos movimentos do corpo produzidos durante a realização do sinal. Esses movimentos também podem ser realizados isoladamente para marcar construções sintáticas – marcar sentenças interrogativas. negação. Ir da esquerda para a direita. advérbios. bem como para marcar afetividades. tópico e foco. As expressões faciais não são recursos adicionais ou dispensáveis na Libras. Ir de trás para frente.Língua Brasileira de Sinais – Libras a esquerda e para a direita. conforme Quadros e Karnopp (2004). exemplos de sinais isolados com expressão facial. sim. FAEL . mas. assim como ocorre nas línguas naturais. grau ou aspecto. 58 As expressões não manuais. referência específica. Apresentamos a seguir alguns exemplos de sinais produzidos com diferentes orientações para o sinal de ir. obrigatórias nas construções sintáticas. concordância. já que neste momento não abordaremos a construção das frases. Ir da direita para a esquerda. A seguir.

Capítulo 2

Bravo

Triste

Feliz

Cansado

59

Bondoso

Humilde

ou

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Esquisito

Tímido

Calmo

Inocente

60
ou

Doido

Esnobe

FAEL

Capítulo 2

Vaidoso

Chato

Chorão

Tarado

61

Podemos perceber que a realização desses sinais fica condicionada ao uso das expressões faciais, até por uma questão de coerência, pois não seria muito lógico produzir o sinal de triste com um sorriso no rosto ou, então, o sinal de feliz com uma expressão de cansaço e tristeza. Certamente, nosso interlocutor questionaria nossa produção e precisaríamos definir qual a mensagem a transmitir: a do rosto ou a das mãos. Isso porque há sinais produzidos apenas com a expressão facial, com a dispensa de qualquer realização manual. Na Libras, há dois tipos de expressões faciais: as que se prestam a marcar argumentos gramaticais e as que são de cunho afetivo. Neste texto, abordaremos apenas o primeiro tipo e, como exemplo, vejamos os sinais de roubar e sexo:
Língua Brasileira de Sinais – Libras

definirmos o que entendemos por palavra. chamados de morfemas. “palavra é a unidade mínima que pode ocorrer livremente em várias posições sintáticas”. Na Libras. 62 Aspectos morfológicos da Libras Se estivermos entendendo que o nível morfológico é aquele que compreende o trabalho de seleção das palavras. há elementos que carregam significado. 183). p. Esses elementos. Entretanto.Língua Brasileira de Sinais – Libras Roubar Sexo Assim sendo. Segundo Sandalo (2001. eles apresentam significado isoladamente. se faz necessário. por exemplo. passemos a algumas considerações teóricas quanto à morfologia e à sintaxe da Libras. por exemplo. os parâmetros fonológicos também podem ser comparados a morfemas. é que são as unidades mínimas da morfologia (SANDALO. primeiramente. às vezes. Assim como ocorre com o português. conforme Felipe (1998). na Libras. os fonemas /a/ e /o/ podem ser artigos ou desinências de gênero. A seguir ilustramos alguns sinais que podem ser considerados morfemas. FAEL . determinada configuração de mão. 2001). Do mesmo modo. assim como o fonema /s/ pode indicar o plural. os fonemas podem ter a natureza de um morfema. pode constituir um morfema. pois. dentro das palavras.

Capítulo 2 Dois meses Três meses Quatro meses Um dia 63 Dois dias Três dias Língua Brasileira de Sinais – Libras .

FAEL . as configurações de mão carregam o significado do numeral. Os sinais reproduzidos na sequência são exemplos de que a articulação conjunta de cada um dos parâmetros é que forma o significado. os parâmetros – isoladamente – não constituem morfemas. os dias e as semanas (QUADROS. não podem ocorrer isoladamente. mas. resultam em uma unidade com significado. ou seja. Em alguns sinais. KARNOPP. Nesse caso. quando articulados juntos. elas constituem um morfema preso. 2004). no entanto.Língua Brasileira de Sinais – Libras Uma semana Duas semanas Três semanas 64 Vemos que. nesses sinais. mas somente com os morfemas que indicam os meses.

Capítulo 2 Ontem Hoje Amanhã Passado 65 Futuro Ano Língua Brasileira de Sinais – Libras .

passemos às considerações dos processos de formação e classificação de palavra (BRITO. 2004. altera-se somente a expressão facial do sinalizador. 1998. nesse caso. 66 Nesse processo. 1995. o movimento.Língua Brasileira de Sinais – Libras Percebemos que a configuração de mão. um morfema livre. de acordo com Brito (1995). Um dos processos de formação de palavras é por meio da incorporação de numeral e de negação. KARONOPP. LEITE. QUADROS. em que apenas a configuração de mão se modifica. em especial o parâmetro do movimento. Ter Não ter Parâmetro movimento alterado FAEL . Em alguns casos. Como já discutimos acerca desse ponto quando exploramos a constituição de sinais que representam morfemas. um dos parâmetros do sinal é alterado. No caso da incorporação de numeral. a locação e a orientação constituem um único morfema. Dadas as primeiras definições. a configuração de mão que representa o numeral se combina com outro morfema preso para formar um sinal. 2008). há na Libras morfemas lexicais (o sinal de sentar. Ainda. FELIPE. passemos a discussão da incorporação da negação. por exemplo) e morfemas gramaticais (movimento). A seguir vemos o contraste entre os sinais dos verbos e a formação de palavras de negação. via alteração de movimento e via alteração da expressão facial.

Capítulo 2 Saber 1 Não saber 2 Parâmetro movimento alterado Gostar Não gostar 67 Parâmetro movimento alterado Querer Não querer Parâmetro movimento alterado Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Poder Não poder Parâmetro configuração de mão alterado Conhecer Não conhecer 68 Parâmetro expressão facial alterado Entender Não entender Parâmetro expressão facial alterado FAEL .

a negação também pode ser formada pela adjunção do sinal não ao respectivo sinal. conforme exemplos: Não responder Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 2 Precisar Não precisar Parâmetro expressão facial alterado Aceitar Não aceitar 69 Parâmetro expressão facial alterado Além desses processos morfológicos que caracterizam formação de palavras.

ainda.Língua Brasileira de Sinais – Libras Não sofrer Não terminar Não resolver 70 Há. resultando em uma composição. Vejamos nos exemplos a seguir que um sinal pode ser formado por dois sinais independentes que se unem para formar uma palavra composta. Casa + cruz = igreja Casa + estudar = escola FAEL . outro processo morfológico que acontece pela combinação de dois morfemas lexicais.

Capítulo 2 Casa + carne = açougue Casa + pão = padaria 1 2 Boi + leite = vaca 1 Cavalo + listras = zebra 1 71 2 2 Mulher + cruz = enfermeira Mulher + benção = mãe 1 2 Língua Brasileira de Sinais – Libras .

um que se refere ao elemento morfológico neutro e outro que se refere à marcação de gênero. na Libras. por meio da combinação de dois morfemas lexicais. 72 Homem + cunhado(a) = cunhado Mulher + cunhado(a) = cunhada 1 1 2 2 Homem + sogro(a) = sogro Mulher + sogro(a) = sogra 1 2 1 2 FAEL . Isso significa que. o gênero é dado pelo processo de composição morfológica.Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + benção = pai Espaço redondo + lavar corpo = banheira 2 1 2 O mesmo processo morfológico ocorre em relação à formação de palavras que denotem gêneros.

Capítulo 2 Homem + primo(a) = primo Mulher + primo(a) = prima 1 1 2 2 Homem + tio(a) = tio 73 Mulher + tio(a) = tia Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Homem + irmão(ã) = irmão Mulher + irmão(ã) = irmã 74 Homem + sobrinho(a) = sobrinho Mulher + sobrinho(a) = sobrinha FAEL .

a formação de palavras que denotam “categorias” também passa pelo processo de composição. Maçã + vários = frutas Alface + vários = verduras 1 1 2 2 Arroz + vários = cereais Leão + vários = animais 75 1 2 Batata + vários = legumes Língua Brasileira de Sinais – Libras . conforme exemplos a seguir.Capítulo 2 Não obstante.

Se o movimento for alongado. como é o caso destes sinais: Telefone Telefonar 76 O sinal de telefone é produzido com a configuração de mão em y. firme e único.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com relação à classificação das palavras. que diferem sua classificação nominal ou verbal pela alteração do parâmetro movimento: Cadeira Sentar FAEL . leves e repetitivos na direção do espaço a frente do corpo do sinalizador. Da mesma forma se configuram estes outros sinais. o que sabemos é que um nome pode derivar de um verbo por meio da repetição e do encurtamento do movimento do verbo. O sinal de telefonar tem a mesma configuração de mão e a mesma locação. firme e feito mais de uma vez. mas o movimento é mais alongado. pode dar a ideia de telefonar várias vezes. na locação perto da orelha e com movimentos curtos.

Capítulo 2 Comida Comer Pente Pentear 77 Foto Fotografar Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Esses verbos não são produzidos por processo de flexão. FAEL . Constituir-se como um verbo simples significa que. destacamos neste momento três tipos deles.Língua Brasileira de Sinais – Libras Casa Morar Bebida Beber 78 Ainda com relação aos verbos da Libras. ilustramos alguns verbos simples da Libras. a saber: os verbos simples. os verbos manuais e os classificadores. A seguir. independente da construção da frase. os parâmetros fonológicos que compõe o sinal serão mantidos. processo distinto do que ocorre com os verbos vistos na seção flexão. os que se enquadram nesta categoria serão abordados na próxima seção.

Capítulo 2 Quebrar Rir Sentir Sujar 79 Trabalhar Viver Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Sonhar Gritar ou Trair Tentar 80 Ouvir Opinar FAEL .

com a mesma configuração de mão e com a mesma orientação. Alguns exemplos: Língua Brasileira de Sinais – Libras . apontamos que são aqueles que se configuram pela incorporação do objeto a que se referem. o verbo será produzido do mesmo modo. Com relação aos verbos manuais. Eles podem ser considerados icônicos pela representação da realidade. na mesma localização.Capítulo 2 Roubar Salvar / apoiar Morrer Preocupar 81 A maioria desses verbos é produzida nas partes do corpo do sinalizador. Ainda que seja para se referir a outra pessoa do discurso. pois estas partes são o lugar de localização do sinal.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Abrir (o pote) Cozinhar Mendigar Limpar (janela) 82 Costurar Escrever FAEL .

M. apresentamos a seguir o sinal raiz de alguns verbos e o sinal classificador. haverá alteração da C. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. mas alguns papéis. Isso é perceptível pela configuração em v. e preservação do movimento. Então. com o parâmetro configuração de mão alterado. que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir ao chão. do léxico ou da sintaxe. porém. Classificador do verbo cair (papéis) Se for preciso referir-se a mesma ação de cair. o sinal foi classificado em sua semântica. Assim.Capítulo 2 Cortar (com tesoura) Dormir Lavar (a roupa) Os classificadores são aqueles verbos que têm sua configuração de mão inicial (sinal raiz) alterada por influência da semântica. 83 Língua Brasileira de Sinais – Libras . este sinal remete à ideia da ação que ocorre com uma pessoa. Verbo cair Originalmente.

haverá alteração da C. e preservação da direção. FAEL . haverá alteração da C. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma cobra..M. este sinal remete à ideia da ação realizada por uma pessoa. Então o sinal foi classificado em sua semântica. Isso é perceptível pela configuração em v que representa “as pernas” de alguém e o movimento de ir à frente. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. do movimento e da localização. do movimento e da localização. no entanto. mas não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa e sim uma galinha.. Então. Então. não com a ideia de que o sujeito seja uma pessoa. Classificador do verbo andar (de uma cobra) Se é preciso referir-se a mesma ação de andar. mas um carro. especialmente aqueles formados por flexão.. Classificador do verbo andar (de carro) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar.M. 84 Classificador do verbo andar (de um gato(a)) Se for preciso referir-se a mesma ação de andar. o sinal foi classificado em sua semântica. haverá alteração da C. porém.M. Postas as questões preliminares dos processos morfológicos da Libras. Classificador do verbo andar (de uma galinha) Se for necessário referir-se a mesma ação de andar.M. o sinal foi classificado em sua semântica. o sinal foi classificado em sua semântica. Então. passaremos a conhecer os processos morfológicos mais complexos. do movimento e da localização. mas um gato.Língua Brasileira de Sinais – Libras Verbo andar Originalmente. haverá alteração da C.

demonstrativos. sendo que estas são impostas pela própria natureza da frase. segunda e terceira pessoa. com o acréscimo de uma desinência correspondente à função que exerça na frase. ● Pronomes pessoais podem representar primeira. (1985). vamos conhecer cada um deles. possessivos. pode ser explicitado por meio dos pronomes. também. (1985) associa.Capítulo 2 Flexão Segundo Câmara Jr. a flexão é a formação de uma palavra por meio de um morfema. indicando uma modalidade específica. Na Libras. a obrigatoriedade e a sistematização coerente. Para ele. de acordo com a natureza desta. No português. o autor assinala que a flexão se apresenta sob o aspecto de desinências ou sufixos flexionais. interrogativos e indefinidos. o termo “flexão” tem sua origem na língua alemã. e podem aparecer no singular ou no plural: Singular 1ª pessoa – eu Nós dois 85 Plural Nós três Nós quatro Nós grupo Língua Brasileira de Sinais – Libras . O primeiro processo. há pronomes pessoais. ao conceito de flexão. Sendo assim. numa relação fechada. constituindo uma ideia acessória em que o significado base não é alterado. conforme ilustrados a seguir. É nesse escopo da morfologia flexional que se destacam os processos de flexão nominal e verbal. e os primórdios de sua utilização aconteceram na indicação do desdobramento de uma palavra em outros empregos. de flexão nominal. Isso demonstra que a flexão é definida como um processo pelo qual uma palavra é adaptada a um contexto. Câmara Jr.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Singular 2ª pessoa – você Vocês dois Plural Vocês três Vocês quatro Vocês grupo 3ª pessoa – ele(a) Eles(as) dois/duas Eles(as) três Eles(as) quatro Eles(as) grupo 86 ● Os pronomes demonstrativos são iguais aos advérbios de lugar. Este(a) aqui Esse(a) aí Aquele(a) lá FAEL . que se voltam para o local referenciado. Sua realização sempre vem acompanhada da direção dos olhos.

incorporam alguns advérbios de tempo. A realização desses pronomes sempre vem acompanhada de expressão facial.Capítulo 2 ● Pronomes possessivos: Meu (minha) Teu (tua) Seu (sua) ● Pronomes interrogativos: em alguns aspectos. Que? / Quem? Porque ou por que? 87 Onde? Quando? 2 1 Língua Brasileira de Sinais – Libras .

Língua Brasileira de Sinais – Libras Como? Qual? Quantos(as)? ● Pronomes indefinidos: Ninguém Nada = sem 88 Nenhum Nada FAEL .

nos quais constam alterações das expressões faciais.Capítulo 2 Já a flexão para grau. A seguir. alguns exemplos para flexão nominal de grau. Casa Casinha Bonito(a) Bonitinho(a) 89 Legal Legalzinho(a) Língua Brasileira de Sinais – Libras . é a modificação paramétrica capaz de apresentar distinções para “tamanhos”.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Alto(a) Altão (altona) Calor Calorão 90 Inteligente Inteligentão (inteligentona) FAEL .

A localização inicia-se com o polegar próximo a boca do sinalizador e movimenta-se na direção de quem receberá a fala. Isso que dizer que se a pessoa que será o receptor está à direita do emissor. Ocorre que. a direção do movimento será à direita. e assim sucessivamente. haverá inversão do ponto inicial do sinal que. Falar O verbo falar é produzido com a configuração de mão em y (mão fechada. temos a possibilidade de flexão para pessoa. Nesse caso. para todas as diversas localizações possíveis para o receptor. a concordância na Libras está na sentença: eu falo para você. mas a trajetória do movimento será à esquerda. o ponto inicial do movimento permanece sendo na boca. É o caso do sinal falar. anteriormente ilustrado. temos o verbo falar. em alguns casos. ou seja.Capítulo 2 Quanto à flexão verbal. Assim. apresentamos alguns exemplos de verbos que concordam com a pessoa do discurso. locativo e aspecto. Os verbos que se flexionam em pessoa são chamados de verbos com concordância. Esses verbos são chamados de verbos reversos (backward verbs). a trajetória do movimento é oposta: inicia-se no objeto indo em direção ao sujeito. A seguir. a primeira pessoa do discurso – eu – falo (verbo com concordância) para a segunda pessoa do discurso – você. Como primeiro exemplo. dedos mínimo e polegar abertos). número. ser concordado para ele(a) me falou.Concordância do verbo falar: Língua Brasileira de Sinais – Libras 91 . Se o receptor da fala está à esquerda. ao invés de ser na boca. será na localização que está referenciada para o objeto (segunda pessoa do discurso).

Língua Brasileira de Sinais – Libras 1s Falar2s 5 2s Falar1s 92 Falar3s 2s Explicando a concordância para os sinais apresentados anteriormente. FAEL . entendemos que há um processo morfologicamente complexo 5 Maiores detalhes sobre as transcrições adotadas no texto estão expostos no capítulo 3. Adiantamos. e assim sucessivamente. que as pessoas do discurso são transcritas como: 1s = 1 pessoa. entretanto.

pois. denominado DIR (directional). segundo Meir (2002). ● Um afixo verbal – a orientação da mão. ● Um morfema direcional – o movimento da trajetória. que marca o argumento semanticamente.Capítulo 2 envolvido nesta realização. O mesmo processo pode ocorrer com os seguintes verbos: Perguntar Ver Mandar Dar Responder Visitar 93 Mostrar Mudar Obedecer Língua Brasileira de Sinais – Libras . é possível visualizar três componentes: ● A raiz do verbo falar.

três ou mais referentes. realizada por meio da repetição do sinal.Língua Brasileira de Sinais – Libras Mexer Paquerar Pedir Influenciar Matar Pagar 94 Em relação à flexão para número. perguntar para duas pessoas. por exemplo. Assim. uma delas é a diferenciação entre singular e plural. apontamos que pode ocorrer com os mesmos verbos colocados anteriormente (verbos com concordância) e há. A flexão de número refere-se à distinção feita para um. dar para três pessoas. A seguir. do trial e do múltiplo. dando a indicação de flexão para número e depois a marcação diferenciada pelas palavras no singular e no plural. neste caso. Vejamos outros verbos de concordância. na Libras existe a possibilidade de várias formas de substantivos e verbos apresentarem a flexão de número. dois. mostrar para quatro pessoas ou ver todas as pessoas. o sinalizador pode referir-se a. possibilidade de indicação do singular. do dual. FAEL . apresentamos alguns exemplos do sinal entregar com concordância para número e outros. Além disso.

Capítulo 2

Concordância do verbo entregar:
1s

Entregar

2s

1s

Entregar

2s + 3s

95

1s

Entregar2s + 3s + 4s

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

1s

Entregar vários

96

1s

Entregar grupo6

6 Uma variação possível desse sinal é a realização do movimento com ambas as mãos, denotando, desta forma, a ideia de entregar para muitas pessoas ou entregar para um
grupo grande.

FAEL

Capítulo 2

Agradecer uma pessoa

Abandonar duas pessoas

97

Encontrar três pessoas

Língua Brasileira de Sinais – Libras

como em pessoas no sentido de multidão.Língua Brasileira de Sinais – Libras Aconselhar quatro pessoas Beijar todas as pessoas 98 A diferença da marcação do singular e do plural é que. como no caso da marcação de anos. se faz a repetição da forma no singular. FAEL . por exemplo. flexionado para a locação que está à frente do corpo do sinalizador. conforme a seguir. temos a incorporação de locativo na sua realização. para o plural. Quanto à flexão de locação. Os verbos que recebem essa flexão são chamados de verbos espaciais. Para árvores. em que sinalizamos ano + ano + ano. exceto em casos em que houver sinal específico para marcação do plural. usamos o sinal de árvore repetidamente. e assim com todos os outros nomes que recebem flexão de número. em que é possível perceber o trajeto percorrido desde o seu início até o local de chegada. como é o caso do verbo ir.

Tais marcações dão origem ao aspecto lexical e ao aspecto gramatical. pois a flexão codifica como a situação por eles referida se estrutura. apenas o verbo.Capítulo 2 Ir Outros exemplos desses verbos: Verbo andar Ir de carro Ir de avião 99 A flexão para aspecto é marcada de duas formas: lexical e gramaticalmente. Sua expressividade se manifesta. O aspecto lexical é aquele em que. respectivamente. na oposição semântica verificada entre os verbos procurar e encontrar. Língua Brasileira de Sinais – Libras . manifesta a duração da ação. por exemplo. reproduzidos na sequência.

Por outro lado. A mão ativa configura-se em v e FAEL . como não durativa. e se relaciona a eventos passados. colocada à frente do corpo. O perfectivo é produzido com movimentos retos e abruptos. tomemos o exemplo do verbo cuidar em seu padrão de movimento: Cuidar O sinal raiz do verbo cuidar é produzido com a mão passiva fechada (configuração de mão em s). Para ilustrar o que dissemos até aqui. ou seja. e se refere a eventos presentes.Língua Brasileira de Sinais – Libras Procurar Encontrar 100 Procurar é um verbo que codifica a situação como durativa. aspecto gramatical é aquele que pode ser codificado em perfectivo ou imperfectivo. já encontrar codifica a situação como pontual. enquanto que o imperfectivo é produzido com movimentos lentos e contínuos. sendo que o braço fica na horizontal do tronco.

É claro que. a retomada do contato será feita de modo mais lento. Isso quer dizer que haverá o contato do pulso da mão ativa com o pulso da mão passiva mais de uma vez. O movimento que gera o contato de ambos os pulsos é curto e firme. ou seja. mantém-se a configuração de mão e a localização do sinal raiz e altera-se o movimento para alongado. indicando uma situação que se desenvolve ao longo do tempo. através do movimento representado a seguir. Já com relação ao verbo passear. podemos reforçar essa indicação lexical por meio do aspecto gramatical imperfectivo. esse verbo transmite o significado aspectual durativo. podemos indicar uma situação que perdura de forma ininterrupta. lento e contínuo. Cuidar imperfectivo 101 Nesse caso.Capítulo 2 leva o pulso a tocar no peito da mão passiva. e que o afastamento da mão passiva será mais alongado em relação ao afastamento que há na produção do sinal raiz. temos a seguinte observação: Passear perfectivo Língua Brasileira de Sinais – Libras . Todavia. pelo próprio léxico.

Língua Brasileira de Sinais – Libras Pudemos observar as mãos configuradas em b. O mesmo ocorre com o verbo esperar: Esperar Mãos configuradas como “esperar” na direção de cima para baixo. foi utilizada a mesma configuração de mão do sinal neutro. FAEL . curtos e abruptos no espaço neutro. mas o movimento foi mais alongado e contínuo. com movimentos retos. para realizar o sinal com marca do imperfectivo. passando alternadamente sobre os ombros. com movimentos retos e curtos. Passear imperfectivo 102 Observamos que.

Sintaxe é a organização de um enunciado em torno de um verbo. mas com movimento lento. sentenças condicionais. Assim como não é necessário seguirmos a mesma ideia do português. te.Capítulo 2 Esperar imperfectivo Mesma configuração de mão do sinal neutro. sentenças com foco. sentenças com 103 Língua Brasileira de Sinais – Libras . vamos discutir um pouco sobre a sintaxe da Libras. até porque existem palavras do português que não são traduzíveis para Libras. Tipos de frases na Libras Na Libras é possível construir sete tipos de frases. Para construir um enunciado na Libras não é preciso adicionar conjunções e preposições (de. é preciso apenas buscar termos equivalentes. Aspectos sintáticos da Libras Neste tópico. em. da organização dos campos de referência e da flexibilidade das categorias gramaticais. com. alongado e contínuo no espaço neutro. em se tratando dos tipos de frases. Veremos o passo a passo da construção sintática da Libras. Porém. na) como fazemos no português. sentenças interrogativas. como também existem sinais da Libras que não são traduzíveis para o português. para. pois as ideias são formuladas no espaço e a construção da coerência e da coesão acontece de modo bem diferente. sentenças afirmativas. a saber: sentenças negativas. sentenças relativas. todos os conceitos que são transmitidos em uma língua podem ser transmitidos em outra. da ordem dos constituintes.

Língua Brasileira de Sinais – Libras

tópico. Elas são constituídas de um tipo dado, especialmente pela expressão facial. Vejamos cada uma delas: ● Sentenças negativas – são aquelas que apresentam uma ideia sendo negada. Elas podem ser formadas pelos sinais que incorporam a negação – anteriormente apresentados –, pela expressão facial negativa junto ao verbo ou pelos sinais a seguir, acrescidos ao final da frase.
Não Nada Nunca

104

Em Libras é possível negar a ação de comer de várias formas: Eu comer não. Eu comer nada. Eu comer nunca. Eu comer (expressão de negação). ● Sentenças interrogativas – são aquelas formuladas com a intenção de obter alguma informação desconhecida. A formulação do questionamento se dá com os pronomes interrogativos – anteriormente dados – inseridos no início ou no final da frase, como nos exemplos a seguir:
O que você comer hoje? Como você trabalha? Você comer hoje o quê? Você trabalha como?

FAEL

Capítulo 2

Onde você mora? Quem sabe? Por que isso aconteceu? Para que você fez isso? Quando você vai casar?

Você mora onde? Sabe quem? Aconteceu por quê? Você fez para que? Você vai casar quando?

Além das perguntas chamadas qu, há também as sentenças interrogativas nas quais a intenção não é obter uma resposta completa, mas simplesmente sim ou não, como: Você quer leite? Você gosta dele? Você conhece a China? ● ● Sentenças afirmativas – são aquelas que afirmam determinada ação: Eu vou a festa à noite. Sentenças condicionais – são aquelas que estabelecem uma relação de condição e consequência para a realização de algo. Por exemplo: Se você me contar, faço segredo. Sentenças relativas – são aquelas que inserem uma informação adicional à frase, uma informação que seja relativa à informação principal que está sendo transmitida pela sentença. Em Libras, isso ocorre com a expressão facial mantida na oração principal e modificada na relativa. Por exemplo: Aquele homem, que fala muito, está de férias. Sentenças topicalizadas – são aquelas que empregam o tópico. O tópico anuncia o assunto a ser desenvolvido ao longo da sentença. Por exemplo: Carro, eu gosto de Uno. Sentenças focalizadas – são aquelas que usam o foco. O foco serve para destacar ou contrastar alguma informação da sentença como em: Ana chorou, não Paula chorou.
105

Explicitados os principais tipos de frases na Libras, vamos aprofundar como os elementos se organizam na oração.
Língua Brasileira de Sinais – Libras

Língua Brasileira de Sinais – Libras

Ordem dos constituintes Em todas as línguas humanas há, pelo menos, três elementos sintáticos principais, que podem se ordenar na frase de diferentes maneiras. Esses elementos são: sujeito – é o termo que expressa o agente da ação (que pratica ou sofre); verbo – é o termo que expressa a ação; objeto – é o termo que qualifica ou detalha o verbo. Quadros e Karnopp (2004) apontam que a ordem dos elementos na sentença da Libras é, geralmente, SVO (sujeito – verbo – objeto). Elas dizem que, além dessa ordem, são possíveis também as seguintes: OSV, SOV e VOS, sendo estas derivadas da ordem canônica e construídas a partir de operações sintáticas, tais como topicalização ou focalização, conforme pesquisa de Pizzio (2006). A seguir, exemplificamos algumas sentenças com a ordem básica da Libras: SVO Eu gostar laranja. Você ter dinheiro.
106

Ele(a) saber Libras. Essa é a ordem chamada canônica, básica, e dela derivam as outras ordens – apontadas anteriormente –, exemplificadas a seguir:
oSV
Laranja ele amar. Bolo eu fazer. TV você ver.

SoV
Você laranja gostar? Eu presente comprar. Ele mãe visitar.

VoS
Gostar laranja ele? Passear praia você. Comprar casa eu.

Deve-se ressaltar, ainda, que alguns elementos apontados na frase podem ser apagados, pois na Libras, assim como em outras línguas, é possível que ocorra o apagamento, não apenas do sujeito, mas também do objeto. Na frase gostar laranja, o interlocutor identifica que há o sujeito eu oculto. Organização espacial Ao estudar os pronomes, verificamos que eles são utilizados para marcar as referências pessoais nos verbos com concordância. Em relação à
FAEL

é possível usar o dedo indicador na direção do referido. cujo perímetro é usado para a realização de referência a pessoas do discurso. Dessa forma. Isso pode ser feito. ver: Pizzio (2006). nas diferentes situações discursivas. Sobre isto. com referentes presentes ou não. A enunciação se desenvolve com a mudança de posição de referência. então. são marcadas segundo o lugar que cada um ocupa no espaço de sinalização. de várias maneiras. por exemplo. que se desencadeiam todas as relações entre os sujeitos. o sinalizador vai estabelecer aleatoriamente um ponto no espaço de sinalização para se referir ao sujeito e/ou objeto e fazer as apontações devidas. obviamente. seus diálogos e suas ações. basta que a apontação seja feita diretamente ao referente presente. é preciso que o sinalizador defina pontos específicos no espaço a cada referente que aborda no discurso.Capítulo 2 sintaxe. Língua Brasileira de Sinais – Libras . neste espaço. ou quando ele está fisicamente no mesmo ambiente de quem fala. Estando o sujeito e/ou objeto visíveis. Por exemplo. por ser esta sua natureza linguística. Conforme Quadros (1997). se o sinalizador não quer que o referente saiba que ele está fazendo menção a ele. conforme Quadros e Karnopp (2004). porém. ou seja. quer dizer. pode ocorrer mudanças quanto à direção e à localização de seu corpo. É nesse espaço. será uma fala às escondidas. A apontação se dá em dois casos: quando o referente não está presente no momento da enunciação. sempre que precisar retomar o referente. ainda. No primeiro caso. com a outra mão aberta e com a palma sobre o dedo que aponta. O corpo do sinalizador deve se situar no centro do raio do semicírculo e. As vozes dos sujeitos. à esquerda e/ou à direita do narrador. Algumas vezes. Assim. estando o narrador no centro do raio do semicírculo e os demais participantes da interação nas periferias. a sinalização em direção a um lócus predeterminado ou a movimentação ocular para este mesmo local significa uma marca de referência a uma pessoa e/ou objeto. suas enunciações. inclusive por apontação. que são construídos pela expressão facial. a que se lembrar que a Libras estabelece a maioria de sua organização sintática no espaço7. todo enunciado em Libras é realizado no espaço de enunciação: um semicírculo virtual. 107 7 As exceções dessa construção sintática no espaço são o tópico e o foco. por questão de etiqueta ou.

não haverá comprometimento da clareza de informação. o sinalizador toma primeiramente o lado direito. por exemplo. ainda. Quando esse narrador deixa de contar os episódios gerais e passa a dar voz a algum personagem em específico. o sinalizador aponta para um lugar a sua direita ou esquerda para marcação do espaço a ser ocupado pelo referido sujeito. Na ocasião. a pessoa assume o papel de narrador e a produção dos seus sinais será no espaço neutro. Esse espaço será fixo enquanto houver ação ou fala dessa mesma pessoa. Então. sinaliza a fala desta pessoa na direção de onde está a outra. seguidos de Maluf e de Amim. o que fez com que Maluf comentasse com os políticos que estavam à sua volta: “– Imagine se ele não fosse careca!” Considerando que esse texto se caracteriza como uma narrativa. de acordo com Massone (1993). disse que discursaria tão rápido quanto havia feito seu amigo. se houver um diálogo entre dois personagens. dependendo do contexto em que se encontra. em cima de uma caminhonete. se por ora o sujeito referenciado aparecer à esquerda do narrador – centro do semicírculo – e por ora aparecer à direita. os políticos suavam bastante. Nesse sentido. por isso. estavam em comitiva. e guiaram durante uma hora uma grande carreata pelas ruas. quando for a vez do personagem que está à esquerda falar. sua fala perdurou muito tempo. levar os olhos naquela direção para marcar o espaço. Tomemos como exemplo para análise da construção sintática um texto que trata do fato de que o prefeito Paulo Maluf e o senador Amin foram visitar a cidade de Joinville.Língua Brasileira de Sinais – Libras Assim. Outra forma de o sinalizador construir a voz do personagem é por meio do processo chamado anafórico. de acordo com a organização interna do discurso. ele se alterna continuamente dentro do espaço sinalizador. o FAEL 108 . as lideranças locais falaram primeiro. sim. Esse processo é a incorporação do personagem e a elaboração do discurso direto. até porque as alterações do lócus não ocorrem aleatoriamente. No comício. ao começar a sinalizar. mas. Porém. Maluf foi sucinto em seu discurso e quando Amim – o careca – tomou a palavra. Porém. o lócus referencial das pessoas do discurso não é fixo. Então. bem ao meio do círculo de sinalização. com seu corpo voltado à esquerda. O dia estava muito quente e. ou seja. o sinalizador estará sempre no centro do espaço e poderá produzir os sinais na direção do referente ou. enquanto acenavam para todos.

marcando a direção de origem e destino da ação expressa pelo verbo direcional. enquanto Amin fala ao público. Dessa feita. Língua Brasileira de Sinais – Libras 109 . o espaço da comitiva se desfaz e dá lugar à presença de um grupo de políticos e assessores. quando é preciso lançar mão de mais de uma construção espacial. a comitiva vai andar de um ponto definido pelo sinalizador até o outro no espaço. há necessidade de se fazer uma organização sequencial. há facilmente uma desconstrução desse primeiro espaço. na Libras. pelo contato ideário com o interlocutor colocado no espaço referenciado a ele e. destacamos que. há a possibilidade de fazer a diferenciação das vozes ao longo do discurso mediante movimento de ombros e incorporação do personagem. Além de organizar o espaço de sinalização para marcar o lugar de quem fala.Capítulo 2 sinalizador se coloca deste lado. o sinalizador precisa destinar um lugar específico para outras referências. Nesse momento. Quando Amin fala ao prefeito. este espaço não pode invadir o espaço anteriormente definido para os personagens já apresentados. se pontua – com os números não quantitativos – a ordem de fala. quando há necessidade de alocação de outros sujeitos no mesmo espaço que está sendo ocupado por objetos. expressa pelas duas mãos passando da direita para esquerda. ou seja. entretanto. bem como a direção do olhar é para um terceiro espaço – do grupo de políticos. No caso sob análise. se faz priorizando as pessoas do discurso e não as coisas e objetos nele envolvidos. Nesse caso. há construção das enunciações de cada um. por meio de uma marcação sinalizada. No entanto. Durante a tomada de voz de cada um dos personagens discursivos. É interessante observar que. a sinalização é projetada para frente. como se estivesse limpando a fala dita até então e dando lugar a uma nova enunciação. na Libras. a carreata e a comitiva. utilizando-se da direção do olhar como um recurso identificador do sujeito. ainda. por exemplo. Assim. É interessante notar que há prevalência do sujeito em relação ao objeto nas enunciações. os verbos direcionais – como é o caso de andar – instauram uma necessidade eminente de movimento. a sinalização é feita na direção do espaço marcado para esse personagem e o último movimento de ombros. mas com uma inclinação de tronco à direta – como se estivesse olhando para quem fala – e sinaliza. Para tanto.

Barulhento Bobo Bondoso Confuso Chorão Bruto 110 Corajoso Infantil Engraçado FAEL . relacionamos a seguir alguns adjetivos da Libras. a ordem dos constituintes e a forma de organização dos elementos no espaço. para depois os colocarmos em frases comparativas.Língua Brasileira de Sinais – Libras Agora que já conhecemos os tipos de frases. passemos à exemplificação. Para tanto.

explicaremos cada um deles. Então. haverá inversão da informação. destinamos outro espaço de sinalização. colocamos o marcador “do que” (conforme a figura a seguir) na direção do espaço do João para o espaço da Maria.Capítulo 2 Fofoqueiro Famoso Egoísta Pensando numa construção frasal temos: João é mais bobo do que Maria. Contrariamente. oposto ao primeiro. por exemplo. na sequência. para escrevermos com o alfabeto manual “João”. com a intenção de dizer “ele”. fazemos o sinal de “mais8 bobo” e. Em Libras. à esquerda. Na seção destinada à semântica. Imediatamente. Em um segundo momento. Língua Brasileira de Sinais – Libras . temos que destinar um espaço de sinalização. para escrevermos o nome “Maria”. há um apontamento para o espaço onde foi colocado o primeiro personagem. se o marcador comparativo for sinalizado da direção do espaço da Maria para o espaço em que se encontra João. A mesma forma de construção frasal ocorrerá na utilização de qualquer adjetivo ou para suscitar qualquer tipo de comparação. Do que 111 8 Há muitos sinais que podem significar mais.

relacionado diretamente ao momento da enunciação (ME) e organizado em função do presente que já está implícito na enunciação. como Fiorin. escolhemos tratar da temporalidade.Língua Brasileira de Sinais – Libras Flexibilidade da Libras A Libras é uma língua flexível. de Benveniste (1989). Sobre questões como essas e outras peculiaridades teóricas da conceituação da categoria tempo. e um agora em que acontece a não concomitância. Para ilustrar a flexibilidade da Libras. Podemos citar. ao fato de se definir e de se organizar como função do discurso. FAEL 112 . Fiorin (2002) afirma que a temporalidade instaurada pela língua refere-se também às relações de sucessividade entre estados e transformações. autores mais recentes. e o enuncivo. e isso pode ser demonstrado pela “junção” de categorias gramaticais em sua expressão e composição. momento de referência (MR) e momento do acontecimento (MA). o tempo linguístico é singular por ser organicamente ligado ao exercício da fala. que expressa o momento em que ações verbais acontecem e. ele situa o acontecimento como contemporâneo à instância do discurso que o menciona. Nesse sentido. Tanto aspecto quanto tempo são noções que se referem à temporalidade dos eventos. Cada vez que um locutor emprega a forma gramatical do presente. ordenado em função de momentos de referência (MR) instalados no enunciado. pois tal nos permite entender esta característica. em que existe uma concomitância entre o evento narrado e o momento da narração. porém. o autor aponta para a existência de dois sistemas temporais: o enunciativo. na qual encontramos diferentes abordagens e discussões dos autores. que postulam três momentos relevantes na constituição do tempo: momento da enunciação (ME). sob diferentes perspectivas. há uma vasta literatura. Para esse autor. o qual transcorre no tempo presente linguístico. também. passado e futuro. levando em consideração o momento da fala como ponto de referência para situar os acontecimentos. a qual se divide em anterioridade e posterioridade ao agora. por exemplo. todo discurso instaura um agora que equivale ao momento da enunciação. É o caso. pode definir a existência de três tempos linguísticos: presente. que diz que o tempo linguístico é aquele que realiza o tempo do homem. instaurando-o em um discurso. por isso. A conceituação mais básica de tempo é que ele é uma categoria gramatical dêitica. representadas no próprio discurso. Com isso.

assim como em outras línguas. dando a representação de passado. Por exemplo. o momento do acontecimento pode se nortear de modo anterior. Por meio do momento de referência – em relação ao qual o momento do acontecimento também se norteia em termos de anterioridade. em relação ao momento da fala. porém. entretanto. Passado 113 Língua Brasileira de Sinais – Libras . o tempo pode ser expresso por operadores temporais específicos na sentença: passado. Dessa forma. Nesse sentido. que é formulado com a configuração de mão no espaço próximo ao ombro e com movimento dos dedos para trás. momento do evento. para então localizar os acontecimentos no eixo temporal. presente. passaremos à demonstração de algumas possibilidades de expressão do tempo na Libras. momento de referência. simultâneo e posterior. futuro. sua expressividade se dará por expedientes linguísticos distintos. Tal representação objetiva organizar as manifestações temporais das línguas naturais. Na Libras. para o tempo passado. simultaneidade e posterioridade – podemos obter codificações mais complexas. existe um marcador temporal específico. uma vez que o próprio momento de referência se norteia em relação ao momento de fala. Esse autor analisa a lógica da manifestação temporal e realiza uma interpretação linguística da categoria tempo com base em três conceitos: momento de fala. Os três conceitos de tempo dados por Reichenbach (1947) podem ser aplicados a quaisquer línguas. que Reichenbach (1947) tem sido o grande marco teórico e que suas postulações têm servido de base a outros estudos acerca do tempo.Capítulo 2 Há que se destacar. presente e futuro. conforme figura a seguir.

se o sinalizador fizer os movimentos para cima e/ou para frente.Língua Brasileira de Sinais – Libras É interessante observar que esse sinal não segue as antigas relações de que sinais produzidos para trás do ombro estão no passado. Agora / hoje / presente 114 O futuro é sinalizado com o marcador temporal de futuro. Nesse caso. sendo que o posicionamento inicial da mão é no espaço neutro na altura do rosto e o movimento produzido é de afastar a mão em direção diagonal à frente. haverá um fenômeno agramatical. o operador temporal específico obedece ao critério “para trás e para baixo9” para. de modo que os dedos mínimos quase se tocam e paralelamente se distanciam. o sinal é produzido com a configuração de mão em f. pois para denotar a ideia de posterioridade ao momento da fala é preciso também que o sinal seja produzido para baixo. FAEL . palmas voltadas para cima e com um movimento simultâneo de aproximar e afastar as mãos. Conforme vemos na figura a seguir. O presente é definido pelo marcador temporal agora/hoje. de modo que fique longe do rosto: Futuro 9 Se não for produzido dessa forma. então. que é sinalizado com ambas as mãos abertas. ou seja. dedos juntos. remeter ao referido tempo linguístico: passado.

Assim.” A palavra em destaque demonstra intervalo que ocorreu no passado. além do reforço na expressão facial. conforme podemos ver nos exemplos a seguir. Sabemos que a Libras possui uma morfologia flexional que emprega variação no movimento do sinal e que.Capítulo 2 Esses três sinais são os principais marcadores dos conhecidos tempos linguísticos: passado. presente e futuro. com uma aproximação do cotovelo ao tronco do sinalizador e.” O sinal destacado demonstra intervalo que ocorreu no passado. é de posteriormente. Passado recente 115 Língua Brasileira de Sinais – Libras . se o sinal de passado sofrer ampliação dos movimentos dos dedos para o braço e houver um afastamento do cotovelo. Isso significa que. ou seja. será denotado passado distante. sua leitura. sua leitura. ● “Eu ano 2000 casar futuro nascer filho 2003. também. é capaz de expressar conceitos diferentes do sinal raiz. Nesse sentido. portanto. Porém. portanto. Tradução: “Eu me casei em 2000 e posteriormente nasceu meu filho”. sua temporalidade vai além dos estabelecimentos tradicionais de tempo e se ocupa. também. Tal variação pode acontecer em níveis distintos e caracterizar uma gradação temporal. com uma expressão facial reduzida. é de antes disso. referindo-se a situações já ocorridas. é possível que a diminuição do movimento somente para a ponta dos dedos. com isto. dependendo da posição em que os sinais de passado e futuro estejam na frase. haverá denotações de “posteriormente” ou “antes disso”. ● “Eu ano 2000 casar passado 3-anos namorar. como a língua é um sistema dinâmico e flexível. antes disso. da marcação interna aos eventos. Tradução: “Eu me casei em 2000. eles podem estar demonstrando intervalos que ocorrem no passado. gere o sinal de passado recente. namorei três anos”.

sendo ampliado com alongamento do braço para frente e a expressão facial com reforço no olhar ao longe. a leitura é de agora/hoje/presente/atualmente. 116 Imediatamente Essa mesma flexão morfológica. Sua realização se dá com o aproximar das mãos e com movimentos mais rápidos. por meio de alteração de movimento.Língua Brasileira de Sinais – Libras Passado distante Quando ocorrem flexões morfológicas via alteração do movimento do sinal presente. Se ocorrer a diminuição do alcance do braço e uma expressão facial menos intensa. se dá para o sinal de futuro. conforme vemos nas imagens a seguir. Se o movimento for “neutro” e mais repetido. curtos e abruptos. O sinal de futuro. caracteriza-se por futuro distante. FAEL . temos a variação para imediatamente/já/neste instante. obtém-se o futuro próximo.

Quando esses itens lexicais aparecem na frase. há outros que podem expressar a categoria tempo. Esses advérbios geralmente vêm no começo da frase. próxima semana. depois. anteontem. eles são inseridos no início da narrativa e servem para “conjugar” o tempo de toda a sentença. normalmente. presente e futuro –. nunca. mas também podem aparecer no final. antes. seguem as imagens de ontem e anteontem: Ontem Anteontem 117 Língua Brasileira de Sinais – Libras . semana passada. sempre. Com fim elucidativo.Capítulo 2 Futuro próximo Futuro distante Além desses três sinais principais – passado. Assim sendo. o pressuposto da temporalidade marcada inicialmente é mantida até que apareça outro marcador temporal. São os sinais adverbiais: ontem. amanhã.

p. pela sequência discursiva para a narrativa. que é preciso namorar. conforme observado no exemplo: “Namorar. provavelmente. Tal teoria postula que. o falante escolhe significados restritos à sua língua que podem ser presumíveis pela inferência do outro e. Esse conhecimento compartilhado hipotético auxilia a interpretação temporal dos eventos (FINAU. chamados também de heurísticas. Esses princípios. mesmo não havendo marcas temporais explícitas (operadores ou flexões) no discurso do falante. principalmente pelo conhecimento compartilhado entre os interlocutores. pois muitas vezes é preciso recorrer a aspectos pragmáticos para a interpretação temporal. o common ground (conhecimento compartilhado pelos falantes). ele também conta com expressões quantizadas para sua realização. A leitura de tempo durante o ato conversacional ou discursivo pode ser estabelecida por pressupostos da pragmática generalizada. compõem uma organização interpretativa dos enunciados. 140). ele serve como um limitador. A análise subsequente. a expressão da categoria tempo na Libras não conta apenas com léxicos específicos para sua realização. No entanto. conversaram e no futuro casaram”.Língua Brasileira de Sinais – Libras Além de o tempo na Libras ser marcado por operadores temporais. para depois se casar. conversar. Finau (2004) coloca que há. Isso implica em conhecimentos de mundo que os interlocutores compartilham e que possibilitam uma flexão semântica para os verbos e as devidas distinções temporais. conversar. em um dos seus mundos possíveis. 118 Quer dizer. desse exemplo colocado por Finau (2004). Finau (2004) apresenta a teoria da análise pressuposicional para justificar a leitura temporal de sentenças que não contenham operadores temporais específicos. é possível perceber o tempo. advérbios ou quantificadores. as FAEL . nessa teoria. Tradução: “Namoraram. assim. Nas palavras da autora: O locutor pode se valer da suposição de que seu interlocutor tenha como familiar. Numa sentença como “Ana estudar até quarta série” vemos que o emprego do sinal quarta série é um quantificador que expressa o tempo de estudo. acontece a restrição temporal. 2004. três princípios norteadores de escolhas de seleção linguísticas que o falante opera. futuro casar”. é de que a referência temporal é dada de modo implícito. por flexão e por advérbios. Para Levinson apud Finau (2004).

este elemento ausente não poderá ser o escolhido para a interpretação da estrutura frasal. considerando a concordância implícita entre os interlocutores. uma interpretação maximizada. permitem multiplicar o conteúdo informacional de qualquer sentença. ele revela “algo a mais” do que sua lexicalidade permite expressar. não é normal. tem um significado a mais no enunciado. na conversação. a sentença não pode ser interpretada estando no futuro. Em Finau (2004) vemos que. Então.Capítulo 2 determinações temporais dadas a partir de implicaturas conversacionais generalizadas são: ● O que não é dito não é. de acordo com os estereótipos dados. não deve estar presente na interpretação temporal. se há ausência de determinado fator temporal. hoje/agora. ou seja. se recebe uma descrição mínima ele traz à tona. quando flexionado. dessa forma. Se não foi dito. Assim. Essa heurística propõe um contraste na restrição da seleção do que é dito e do que não é dito. São as heurísticas de Levinson (apud FINAU. aplicadas ao estudo da temporalidade na Libras. Isso quer dizer que. se um sinal foi flexionado por meio de alteração no parâmetro movimento. Para Finau (2004). ● Aquilo que é dito de uma maneira anormal. todo seu conhecimento de mundo e tem. Essa é a heurística que viabiliza a interpretação aspectualizada para marcadores que sofrem alteração morfológica. Esse é o princípio que trata das ampliações interpretativas feitas pelo interlocutor. ● Aquilo que é simplesmente descrito é um exemplo estereotipado. no caso da Libras podem ser os sinais futuro. passado. pois não foi dito de uma forma normal. esses três princípios norteiam o status da interpretação do tempo das sentenças. 2004) que. Finau (2004) aplica essa heurística para Libras e diz que se a sentença não apresentar o sinal futuro. É o caso do sinal passado que. Língua Brasileira de Sinais – Libras 119 .

abrigo. assim. Por outro lado. Claro que.. sobrado. que têm seu significado restrito a determinado contexto que. Logo. de brevidade no espaço temporal e.. nesse caso.Língua Brasileira de Sinais – Libras Aspectos semânticos da Libras Toda língua tem uma semântica implicada em seus itens lexicais. Quatro horas depois. Esposa: – Demorou sim. que horas você volta? Marido: – Ah.. há palavras que não têm esta possibilidade dúbia de expressão. quanto à semântica da expressão “daqui a pouquinho”. 120 Esposa: – Ué! Você não falou que voltava logo? Marido: – Mas eu não vim logo? Esposa: – Não. essa expressão ganha um sentido de pouco tempo. Especialmente por estar no diminutivo. das palavras casa. FAEL . de fato. estamos apenas brincando com uma situação que é recorrente no nosso cotidiano. como no discurso abaixo reproduzido: Esposa: – Amor. basicamente. moradia.. se empregado em outro. lar. quanto ao significado.. quatro horas é muito tempo. O “problema” no discurso acima se deu devido a uma discordância quanto ao entendimento. residência. No português. Você disse que daqui a pouquinho estava de volta. eu pensei que fosse demorar uns vinte minutinhos. para quem está à espera de alguém. a mesma ideia. temos diferentes palavras que são capazes de representar. daqui a pouquinho eu to aqui. trata-se de uma família de ideias. Apesar de terem suas especificidades. apartamento e cabana. você demorou. estamos descartando o significado de tempo para cada um dos envolvidos no processo. Podemos.. Poderíamos citar como exemplo os casos de desentendimentos de detalhes. pode caracterizar uma comunicação truncada. É o caso. por exemplo. todas elas representam a ideia de lugar onde se mora. Marido: – Não demorei. inferir que pouco tempo se aproxima de uma quantidade determinada de minutos e nem chega a completar o ciclo de uma hora do relógio. por exemplo.

mas está querendo destacar qualidades que se deslumbram para ele. na Libras. privativo. Quando um surdo usa o sinal de especial para alguém. excelente. A palavra “especial” é usada no português para definir algo ou alguém como muito peculiar. em uma frase como “Você é muito especial para mim” ou “Esta criança tem necessidades especiais”. de beleza que se destaca tal qual o brilho em meio à escuridão. se produzidos em determinados contextos. quer dar ênfase a uma vivacidade notória. Há sinais que. ele não está querendo dizer que esta pessoa é importante em sua vida. como: importante no caso da primeira sentença e coisas próprias no caso da segunda. fora do comum. O sinal de especial é empregado na Libras em contexto de definição bela sobre algo ou alguém. singular. pois – mesmo sendo entendidos – podem gerar certo “estranhamento” ao interlocutor. notável. Isso significa que especial. tem uma conotação mais “concreta” do que em português. Assim. esse sinal não é muito usual em contextos relacionados às pessoas. Já na Libras. deve haver a sinalização de outro item lexical que equivalha a este termo do português. está mais relacionada às coisas que se vê. Essa relação entre significado e significante (o sinal) da Libras não é análoga à relação de significado e significante (palavras) da língua portuguesa. Especial 121 Língua Brasileira de Sinais – Libras . exclusivo. que se ressalta sobre os olhos.Capítulo 2 Esse mesmo fenômeno acontece na Libras. tornam-se mais adequados do que em outros.

Em Libras. Em português. Há expressões como “educação especial” ou “educação de surdos” que. que é muito habilidoso na área da Libras. que não tem correspondência com a palavra na língua portuguesa. podem não se adequar semanticamente. muito proficiente na sinalização.Língua Brasileira de Sinais – Libras Esse tipo de especificidade de uso ocorre também com o sinal de educação. Educação Ensino 122 Algo semelhante se dá com o sinal de famoso. mas também com uma grande habilidade que ela possua. Famoso Essa frase está invocando a informação de que a referida pessoa é muito fluente. FAEL . pois em Libras a melhor forma de representação desta ideia seria o uso do sinal de ensino. não há o emprego desse termo para definição do conceito. seu emprego não está relacionado só ao fato de uma pessoa ser muito conhecida. já que educação tem um cunho mais comportamental para os surdos. Há a possibilidade da seguinte construção na Libras: “Ele Libras famoso”. se sinalizadas como a seguir.

A palavra mais pode ser sinalizada das seguintes formas se os contextos de realização implicarem nas informações correspondentes: Sinal para marcar a ação de somar. no sentido de “maior”. numericamente falando. mas encerramos por aqui nossas exemplificações e passamos ao estudo da polissemia. dependendo do contexto de realização. operações matemáticas. Exemplo: 2 + 2. 123 Sinal para marcar a ação de juntar. vamos pegar uma mesma palavra e ver as várias possibilidades de sinalização. aproximar. Polissemia Vamos pensar na polissemia em Libras de duas maneiras: a versão que o português impõe aos sinais da Libras e a versão que os sinais da Libras impõe ao português. Começando pela primeira maneira. acrescentar.Capítulo 2 Há inúmeros sinais dessa natureza para serem detalhados. Sinal para marcar a ação de comparação em relação a algo. de repetição. Língua Brasileira de Sinais – Libras . Sinal para marcar a ação de “mais uma vez”.

como se houvesse um destaque de maioridade. Ocupado FAEL . ou seja. faremos o contrário. sentido de advertido. Sinal para marcar a necessidade de aumentar o som. pegaremos um sinal da Libras e averiguaremos as possibilidades de tradução para o português. Agora temos um único sinal que pode denotar várias palavras no português: ocupado.Língua Brasileira de Sinais – Libras Sinal para marcar a necessidade de continuidade no percurso. daquele que está acima de todos. sentido de não posso. Sinal para marcar a ação de comparação absoluta. Esse sinal também pode significar sentido de ocupado. 124 Em relação à segunda maneira.

eles pesquisem cinco sinais que se realizem da mesma forma. a partir delas. como as seguintes: 1. Quanto aos movimentos. com a estrutura gramatical da Libras. Língua Brasileira de Sinais – Libras . 125 Síntese Neste capítulo. para ver se entenderam que os verbos de movimento se realizam com concordância com o local. de duas mãos com formas iguais. para cada um dos seus níveis de análise linguística. ainda. de duas mãos com formas diferentes ou. Verificar se sabem separar os espaços para cada elemento. configuração de mão e movimento. o professor pode realizar algumas brincadeiras em sala de aula. Ainda com relação ao nível fonológico. detalhadamente. destacamos a existência de pares mínimos e de parâmetros secundários para realização dos sinais: orientação da mão e expressão facial.Capítulo 2 Da teoria para a prática Para trabalhar. nos debruçamos sobre a gramática da Libras e olhamos. observamos que a Libras apresenta três parâmetros principais: localização. 3. Curitiba em outro espaço. 2. se São Paulo ficará em um espaço. No nível fonológico. Colocar a expressão “Vendo vozes” no quadro e verificar quem consegue melhor interpretação semântica para ela. Entregar as 64 configurações de mão aos alunos e pedir que. a fim de proporcionar ao leitor um conhecimento das “partes” da língua. Pedir aos alunos para sinalizarem a frase “Fui de São Paulo a Curitiba”. observamos sua realização no espaço neutro e no corpo. e se realizam o sinal de avião fazendo o percurso do espaço de São Paulo a Curitiba. conhecemos suas seis possibilidades principais. e que deixam a marca do seu trajeto. vimos as possibilidade de formação de sinais a partir de apenas uma mão. Quanto à configuração. minimamente. Quanto à localização.

ordem dos constituintes. classificação de palavras. Finalizamos o capítulo com uma pequena abordagem quanto à semântica implicada nos sinais da Libras. Na parte sintática.Língua Brasileira de Sinais – Libras Na análise morfológica. e discutimos questões pertinentes à formação de palavras. tipos de verbos e os dois tipos de flexão: nominal e verbal. evidenciamos as possibilidades de formação de sinais a partir de morfemas presos e livres. organização espacial e a flexibilidade da sentença da Libras. trouxemos a questão dos tipos de frase. 126 FAEL .

a surdez como característica que compõe a própria diversidade e a individualização do ser humano em sua constituição. Por meio da Libras. ser melhor ou pior. . Partindo disso. Disso tudo. destacaremos a subjetividade inerente. mas. apresentaremos um panorama geral sobre as relações sociais que são estabelecidas a partir da experiência da surdez. é possível refletir sobre o modo de como as pessoas surdas conseguem interagir com a sociedade e garantir sua participação ativa. Diante disso. a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades distintas em relação à vida de uma pessoa ouvinte.Implicações sociais da surdez 3 127 este capítulo. em qualquer espaço que se for. destacam-se os processos de leitura e escrita. partimos da premissa de que Libras é sua primeira língua e. para tal enfoque. ou seja. Ter peculiaridades diferentes não significa. deve fazer parte da instrução recebida. abordaremos as configurações dos relacionamentos pessoais (casamento e filhos). Feneis) e cultura (cinema. Nesse sentido. sendo que. entendemos que a necessidade de saber o português é urgente e esta pode ser sanada com métodos específicos de segunda língua. arte). necessariamente. N As relações sociais do surdo Analisando sob a perspectiva de que a surdez está inserida e constituída em ambiente e mundo visual. sim. as relações de amizade (associação de surdos. ser. olharemos para o que é impregnado no surdo a partir de tais vivências: sua identidade e cultura. podemos pensar que elas se inserem e retêm conteúdos visuais sob a forma de expressão. É desse modo que a pessoa surda precisa ser vista na sua relação com a sociedade. portanto. Com relação à escolaridade da pessoa surda.

normalmente. (children of deaf adults). em culturas diferentes não é algo juiz) não consegue estabelecer uma comunicação com os noivos. acaba por não ser estimulado e não desenvolve a audição e a fala. poder celebrar essa união tem um significado muito relevante. acaba sendo natural que ocorra uma comunicação em que haja gestos e falas oriundas deste contexto. criou-se uma organiSaiba mais zação internacional destinada a Os casamentos de surdos (com pessoa surda ou ouvinte). fica assim caracterizada. Frente à convivência em família. devido à grande quantidade de filhos que se inclui nessa categoria. princípios e comportamentos de vida. são acompanhados de discutir questões conflitantes. Caso haja surdos também às pessoas que possuem na plateia. Uma situação que pode acontecer é uma adequação em relação aos pais surdos e filhos ouvintes em que. um ritual que em nossa sociedade é muito comum: a questão da união conjugal. exige empenho e reforpressar os votos na língua oral. Isso é compartilhado mundialmente por essas pessoas e. FAEL . do mesmo modo. o filho. acaba por virem os filhos. e como a surdez não é hereditária. podemos perceber como ocorre. culminando em um viver bastante comprometido e problemático. E no que tange à transmissão de conteúdos concernentes a valores. O traje do profissional deve to a ser filho de pais surdos. destinada vos. muitas vezes. pois interagir simultaneamente tradução. padre. pois permite ter contato. por não haver clareza na comunicação. torna-se algo natural. para o surdo. O significado da união com o outro representa algo diferente. independente de ser ou não surda. tão pouco consegue exsimples. O profissional mulação daquilo que se apreenintérprete deve se colocar em frente aos noideu. caser o mais discreto possível para não ofuscar o racteriza-se pelo nome de Coda glamour que envolve o casal. porque o surdo se une a quem conhece a língua de sinais. Para a maioria dos surdos. ao lado do celebrante. já que o celebrante (pastor. diálogo e participação com o outro. pois vai em direção oposta a tudo que aprendeu e viveu. O que antes era comprometido e problemático.Língua Brasileira de Sinais – Libras Pensando por esse viés. formalizando a relação. eles poderão ser ouvintes (havendo exceções em que pais surdos concebem filhos da mesma natureza). Isso porque. devido à barreira da comunicação. a partir desse momento. 128 Como fruto dessa comunhão. acaba por ser deficitária devido à comunicação que. a presença de mais um intérprete uma realidade semelhante quané recomendada. Essa organização. seus pais não têm participação ativa em suas vidas.

ver tudo que há no mundo é algo muito bom e. por conta deste sentido estimulado. para eles. conseguem reagir bem ao estímulo recebido. ambos surdos e Codas. como consequência. desta forma. o que para os ouvintes “normais” – ouvintes de pais ouvintes – seria uma tarefa bem difícil. a profundidade no contato visual desenvolve sua subjetividade e possibilita impressões acerca do olhar. é possível estabelecer contato com a outra pessoa que. conseguem não ouvir quando estão em um ambiente com alta sonorização (volume alto de TV ou rádio). Língua Brasileira de Sinais – Libras 129 . aprender a língua de sinais. com a convivência constante e indireta em viagens. Os surdos têm uma forte potencialidade para sentirem as vibrações do ambiente e. por isso. no sentido biológico. enquanto o português. assim como os surdos fazem. Pensar em ser ouvinte é algo bem estranho. Eles conseguem acompanhar os ritmos musicais somente pelo que seu corpo sente. o normal é ser surdo. A vibração é tão poderosa no corpo como o som é no ouvido. mesmo sendo ouvintes. Com isso. compras. porventura. é comum que adolescentes e jovens surdos frequentem as baladas e dancem por muito tempo. criando assim uma identidade como a deles. as identidades surdas são construídas mediante as possíveis representações da cultura surda. acabam por praticar e. Somente quando essas pessoas vão para a escola é que se inicia o processo de aprendizagem do português. pois.Capítulo 3 A maioria das pessoas que participa dessa organização tem a audição preservada. elas desenvolvem habilidades que são específicas do surdo. nada muito comum. conseguem se expressar com maior clareza em relação ao português. estes se utilizam de alguns sinais no meio da conversa. Eles conseguem ficar insensíveis a tudo isso. Um exemplo bem comum é que. Por meio da vibração. Os filhos entendem que a possibilidade de ver as coisas. Para Perlin (2004). pois entendem que. Os Codas procuram desenvolver o olhar como meio de referência. Outro exemplo disso é quando querem se comunicar e batem o pé no chão. passeios. mas frente ao contato com surdos ou suas comunidades. consultas. para ambos. Quando acontece um diálogo de filhos ouvintes de pais surdos. está no quarto ao lado e. pois esta vai ser moldada de acordo com o grau de receptividade cultural assumida pelo sujeito. consideram a tranquilidade da comunicação em Libras algo bem acessível.

Codas utilizam estratégias para não conversar. pois nessas situações não há ninguém com capacidade para estabelecer a interação entre eles. Diante desse afastamento. cabendo à criança a responsabilidade dos pais. Comumente. fato este que ocorre independente da pessoa ter ou não surdez. outros ritmos que os surdos tarem a tudo. desconhecem essa língua e as questões que envolvem a surdez. surdos. Pensar no processo de construção da identidade surda da pessoa que é ouvinte não seria algo tão complexo se somente houvesse comunidades que partilham do mesmo sentimento. no caso. quando os superarquivo/2004/conteudo_333010. social e política irão precisar de um ambiente com características diferentes destas. culturas. mas.br/index2. Por outro lado. eles a possibilidade de se atenHá. capaz No Brasil. Nesse ambiente dotado de pessoas que. Sobre esse assunto acesse: <http://super. como os que tocam nas raves. e com isso o prejuízo torna-se presente e generalizado. um ritmo musical que acentua a vibração dos instrumentos. Porém. os pais se tornam seres estranhos. a escola deve ver o sujeito como instrumento/meio de produção de sentidos e aplicar seus diversos mecanismos de atuação para impor saberes.com. Sobre isso consultar: seus olhos possuem uma sensi<http://www.shtml>. devido à dificuldade quanto à comunicação.br/ ferente dos surdos. há uma banda conhecida como de não processar alguns sons Surdodum. a escola estabelece um abismo que a separa dos pais do aluno Coda. fecham os olhos ou desviam o olhar. a escola. Nesse ambiente. Para Skliar (2001). de surdos. A escola não consegue atribuir a esses pais a condição de pais. as crianças acabam sendo concebidas como deficientes e. os pais do Coda não recebem convites para eventos escolares ou quando o filho não apresenta bom rendimento escolar.abril. devido a tal visão. porque ela ouve. pois ver significa dançam. Essas crianças que falam Libras desde a infância e que enxergam a surdez como constituição cultural.com. os membros da escola estabelecem relações pouco íntimas com os alunos e seus pais. Não muito diexistem festas especiais para surdos. Já muito para eles. dando a php?option=com_content&do_pdf=1&id=75>. certamente. a realidade não é bem assim. que trabalha com Olodum para em sua mente. sim. também. valores e identidades. bilidade muito grande.clubedochoro. FAEL Saiba mais 130 .Língua Brasileira de Sinais – Libras Isso significa que o Coda tem um ouvido seletivo.

os pais pedem à criança que interprete aquilo que está sendo transmitido. É claro que. e isto procede. no Brasil. Outra dificuldade enfrentada pelo Coda que possui identidade cultural surda é a de que. não conseguindo estabelecer laços com aquele lugar por causa das limitações impostas quanto à comunicação. além de serem peritos e mestres no quesito identidade e cultura surda. bons intérpretes. existem excelentes intérpretes que não são filhos de surdos e que conseguiram. pois. para que possam entender. considerando que tais pessoas aprendem a Libras como os surdos – como primeira língua. não significa depreciar todo um trabalho estruturado de técnicas tradutórias? Até porque. conforme discutimos no texto. por meio de estudos e pesquisa. em casa ou na escola. os pais exigem a tradução daquilo que está sendo falado. um status. é muito comum que o fato de ser Coda seja um diferencial. o solicitam pela condição auditiva que possui. pois já têm a língua adquirida. a convivência com pais surdos – em alguns casos – gera algumas consequências sociais Língua Brasileira de Sinais – Libras atilfeR Reflita 131 . será um excelente sinalizador. ou em consultas médicas. a automatização é complicada. Da mesma forma acontece com ligações telefônicas. No meio da comunidade surda. Frente a uma gama de informações advindas da televisão. Tais circunstâncias exigem da criança esforços psicológicos para mediar uma comunicação que não condiz com sua idade. independentemente do ambiente em que estejam. a criança sente-se ausente de seu mundo. Porém. automaticamente. se os Codas desejarem se profissionalizar. eles terão “vantagem” em detrimento aos demais ouvintes. sabe-se que as crianças ouvintes que são filhas de pais surdos (Coda) têm seu processo cognitivo e de aprendizagem preservados. em que os pais pedem que tudo seja minuciosamente relatado em sinais. um bom desenvolvimento linguístico e técnico. Isso porque se julga que se é filho de surdo. Entretanto. quando seus pais necessitam de interação social. Mas daí pensar que estas pessoas são.Capítulo 3 Dessa forma. especialmente entre os intérpretes. não podendo utilizar a língua de sinais e recebendo cobranças que dizem respeito a adultos e não a ela.

A universalidade da aquisição da linguagem explica que. compartilhar ou estar em desacordo com propostas e para estabelecer a atividade com objetivo de organizar algum aspecto da ação. Tal processo irá ocorrer de maneira mais facilitada mesmo na ausência de uma fala dirigida a ela. O simples contato com a língua possibilitará à criança desenvolver sua expressividade linguística – os itens lexicais e a estrutura gramatical que ela já possui de forma inata. fato que pode levar ao desenvolvimento truncado e à falta de domínio do português. Pais e filhos se utilizam dela para propor a ação de uma atividade. ocorrerá uma apropriação de enunciados diversos.Língua Brasileira de Sinais – Libras não muito boas para a criança. é possível pensar que a aquisição da linguagem. neste caso. em que a criança aprenderá duas línguas ao mesmo tempo. pois os estímulos seriam aceitos de forma natural e o processo de desenvolvimento da criança seria semelhante ao de uma criança ouvinte com pais ouvintes. em seu processo. Em relação aos Codas. diz que a aquisição da linguagem ocorre num período curto de tempo. De acordo com Grolla (2006). diferenciando-se apenas se o pai ou a mãe forem ouvintes. a criança adquire uma língua natural sem que seja preciso passar por treinamentos intensivos ou estímulos linguísticos. a língua adquirida será a mesma. FAEL 132 atilfeR Reflita . ocorre do mesmo modo em crianças surdas e ouvintes. os problemas que os Codas enfrentam quanto à família talvez não existissem. no caso das crianças estarem no mesmo ambiente físico. o processo de aquisição da língua é idêntico ao de uma criança surda filha de pais surdos. independente da língua ou do desenvolvimento das habilidades motoras. e tais quesitos são muito exigidos do intérprete. em que pais surdos têm filhos surdos. pois. dentro da relação pais surdos e filhos surdos. Para a autora. o processo se dará de modo bilíngue. Sendo assim. Skliar (2001) aponta que. todas as intervenções ocorrem na língua de sinais. Esse é um caso muito específico de pais surdos com filhos ouvintes. Em se tratando de uma situação paralela. além disso. por mais que os inputs oferecidos sejam diferentes quanto à forma. como amarrar sapatos ou desenhar formas geométricas.

toda criança apresenta comportamentos semelhantes ao chorar e emitir sons sem qualquer significado. estes conseguem perceber aos quatro dias de idade diferentes tipos de língua. o processo de desenvolvimento linguístico e os estágios internos que ocorrem nas crianças surdas podem ser comparados aos das crianças ouvintes. não se encaixam em seu repertório atualizado. de crianças surdas e ouvintes no período de balbucio. no decorrer da vida. Na sequência. portanto. assim como os surdos. até os quatro anos. Já com a emissão de sons. Meier (2000) aponta que os ouvintes produzem movimentos com as mãos e conseguem retorno confirmativo de seus pais. conseguem produzir um número muito grande de sílabas e as repetem de forma exaustiva. devido ao retorno auditivo estar ausente. as crianças surdas. Com relação aos ouvintes. independente da modalidade da língua: oral-auditiva ou espaço-visual. e as semelhanças na sistematização do balbucio das crianças surdas e ouvintes. quer seja sinalizada ou falada. quando chegam próximo aos seis meses. No caso dos surdos. mediante a entonação e o ritmo. quando chegam aos oito meses. Indiferente de sua condição auditiva. com pouca diferenciação nas sílabas executadas. Os bebês têm muita sensibilidade. Segundo Emmorey (2002). Isso ocorre nas enunciações. que antes de começarem a aprender sinais fazem balbucios com as mãos. indicam que no ser humano decorre uma capacidade linguística que suporta a aquisição da linguagem. Quadros (1997) reivindica que a descoberta pela estrutura fonológica da língua. acontece o balbucio oral e. pois nesta idade dificilmente comete erros sintáticos. Passada essa fase. começam a balbuciar por volta dos oito meses. É o caso da apontação. Diante da aquisição da linguagem em que consta a universalidade. o aprendizado com relação à língua se dará mediante a inserção de novas palavras realizadas pelos falantes e. tanto a criança surda como a ouvinte apresentam o balbucio manual. a uniformidade e a rapidez. pois são avaliados como gestos e não como sinais lexicais. alguns deles são descartados.Capítulo 3 A criança aprende uma língua. em média. a dinâmica da língua. já que sabe as regras para formação de sentenças e domina as estruturas do idioma. que não serão aproveitadas Língua Brasileira de Sinais – Libras 133 . começam a produzir os primeiros sinais e. são capazes de perceber as propriedades fonológicas da sua língua. neste processo. como consequência.

pois. os sons exercem maior dificuldade perceptiva aos ouvidos do que os movimentos espaciais aos olhos. Da mesma forma. simultaneamente. quando a estrutura gramatical tiver sofrido maturação. que são os indicativos de que ela entendeu a regra e está se superando. Por certo tempo. conseguem aprender um grande número de palavras diferentes a cada dia. neste momento. De maneira sucessiva. diferentemente das surdas. com um ano e seis meses de idade. as crianças ouvintes continuam no balbucio e somente depois partem para a palavra. em diversos momentos. o inglês falado e a língua de sinais americana. pois a criança entenderá que a apontação sofreu modificação e se tornou elemento gramatical. a coordenação motora das mãos evolui de forma mais acelerada do que a coordenação para o trato vocal e a articulação para a fala. apontam para o interlocutor se referindo a elas mesmas. que têm essa vivência aos oito meses. elas começam a elaborar enunciados com apenas uma palavra – com significado de sentença completa – e conseguem assimilar pequenas imposições. apresentam dificuldades para entender os pronomes e. ocorrerá sua reorganização e aceitação. por isso. Então. em pesquisa com crianças ouvintes adquirindo. FAEL 134 .Língua Brasileira de Sinais – Libras pelos surdos para pronominar. nesse estágio. Esse início antecipado de elaboração de sinais e o lento processo do estágio de uma palavra dita. apresentando erros naquilo que equivale à conjugação de passado. as crianças ouvintes fazem relação semântica – de ordem lexical como a organização de classes prototípicas – para escolha das palavras. as crianças vivenciam o período das primeiras combinações. ou seja. Em Quadros (1997) percebemos que as crianças surdas. a habilidade de identificação de línguas estrangeiras diminui e concede espaço ao refinamento para sua língua natural. quando as crianças atingem um ano de idade. ou vice-versa. aumentando seu repertório e elaborando falas pausadas entre uma e outra palavra. Conforme Grolla (2006). que a sinalização foi a primeira a ser adquirida. pronominalização e outros. Posteriormente. e a construção das frases se dá na ordem canônica. falada. Grolla (2006) acrescenta que. ocorre pelo desenvolvimento de mecanismos de emissão e recepção linguística. Emmorey (2002) verificou.

globo. é exigida a inscrição em curso de Libras. Quadros (1997) diz que a criança surda: não adota pronomes para referentes ausentes ou o faz incorretamente. mas pelo nível elevado de dificuldade gramatical. como orações relativas e coordenadas. 135 Língua Brasileira de Sinais – Libras . destacamos que a aquisição possui uma universalidade.aspx>. pois. sendo assim.ecs.Capítulo 3 A pronominalização na língua de sinais é produzida por meio de apontação. que recebem todo um trabalho de treino visual com adultos surdos. comete um excesso de generalização para concordância de verbos simples semelhante à gramática dos adultos. não cria correspondência entre a pessoa e o ponto estabelecido no espaço. Nesse momento. os olhos da criança surda devem ser treinados para isso. sendo verdadeiro. no caso dos pais serem ouvintes.com/Noticias/Brasil/0. É um processo diferente da criança ouvinte. No Brasil. Aos pais. pois esta é capaz de olhar para o brinquedo que está nas mãos do adulto e ouvi-lo ao mesmo tempo. uma escola de referência no quesito ensino da língua de sinais a bebês surdos é a Escola Rio Branco.html> e <http://www.MUL732407-5598. em São Paulo.org. pois as crianças surdas precisam lançar os olhos para o objeto que está nas mãos de quem fala e para seu rosto. indiferente da modalidade. aos três anos de idade. a relação significado e significante não fica evidente para a criança surda que está desenvolvendo a linguagem. Então. as crianças ouvintes utilizam o eu para demonstrar ou apontar outra pessoa. Nessa escola entram crianças em tenra idade. também. o inverso. vivenciam uma propagação vocabular muito grande. em que a sequência de concordâncias se dará do mesmo modo. produzindo frases complexas.. continuam o curso da aquisição cometendo pequenos equívocos. entretanto. pois não convém à instituição ensinar a língua a criança (por meio de interação e brincadeira) se seus pais não forem capazes de se comunicar com ela.00-BEBES+SU RDOS+DEVEM+APRENDER+LINGUA+DOS+SINAIS+NOS+PRIMEIRO S+MESES+DE+VIDA.br/site/default. estabelece mais de um referente num mesmo ponto. Tanto crianças surdas quanto ouvintes. e somente escolas especializadas são capazes de suprir o estímulo que não há em casa. Sobre esse assunto acessar os links: <http://g1.

por diversos motivos. designando ordens. a televisão não é o único meio de interação e lazer que os surdos gostam de ter. Apesar de comunicativa. familiares. Essa comunidade é constituída por um grande número de adeptos. na atual sociedade. com perfis diferenciados. O termo em inglês possui a tradução “legenda oculta” e está relacionado a uma função que muitos televisores possuem. intérpretes. mesmo sendo amplamente divulgado que essa ferramenta possibilita a acessibilidade de grande parte da população que tem perda auditiva.Língua Brasileira de Sinais – Libras Com quatro anos. profissionais. Esse ambiente em que pais ouvintes e filhos surdos (ou Codas) participam é que denominamos um espaço de convivência da comunidade surda. acionada mediante controle remoto. Sendo assim. pessoas que frequentam aeroportos. em que a televisão tem seu volume diminuído e não se ouve. favorece pessoas idosas que apresentam alguma diminuição auditiva. assim. ouvintes que. vindo para o Brasil um longo período depois. pois preferem a utilização da língua falada. com a utilização do closed caption. Existem outras atividades e programações acessíveis. oferecendo carinho. identificando na palavra escrita o som da fala. FAEL 136 . Atualmente. Favorece. a função closed caption propicia entretenimento. foi disponibilizado nos Estados Unidos. Porém. Falam sobre tudo. religiosos e outras pessoas com interesses variados. Além disso. conhecimento e informação ao público em geral. Tal ferramenta. as crianças surdas dominam a língua de sinais. inclusive sobre informes da TV que. podem relacionar o som das palavras com a legenda. iniciando. shopping centers ou qualquer outro lugar de acesso público com elevado nível de barulho. se utilizar a língua de sinais é aquilo que motiva o ingresso na comunidade. aquilo que os evidencia é a utilização da língua de sinais. aqueles que são considerados analfabetos. além de promover a interação dos surdos em discussão de grandes temas. tratando de assuntos futuros. muitas emissoras não dispõem desse recurso em toda a programação. um aprendizado de decodificação. Essa possibilidade existe mediante a função closed caption. então é provável que existam surdos que não participem. é o meio que mais rapidamente comunica. etc. estando ao alcance de todo e qualquer indivíduo. neste caso. sendo que seus pais abordam qualquer assunto com elas. ainda. somente em 1980. ouvintes. como surdos. Esse recurso é recente e.

aprender a língua de sinais e conhecer os costumes e hábitos vivenciados pelo surdo. crenças. terão a oportunidade de enxergar a si próprios de forma diferente. Isso leva a crer que não existe somente uma comunidade surda. por ser considerado minoria social. é necessária a utilização da língua de sinais. costumes. quando visto sob a perspectiva de um grupo diferente. pois vislumbra exemplos positivos. que faz parte de uma sociedade e é repassado aos seus membros. No caso do surdo. para que tenha acesso e possa interagir mediante as percepções visuais. capacidades e hábitos. dos líderes e tantas outras que evidenciem sua identidade cultural. Strobel (2008) define que a cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e modificá-lo. como a oportunidade de conhecer o sujeito surdo de perto. a possibilidade de um futuro. mas assimilando que existe diferença linguística. De um modo geral. tanto individualmente quanto em comunidade. Os benefícios advindos da participação do ouvinte nessa comunidade são vários. como a da igreja. isso tem um significado muito grande. do hip-hop. uma relação de igualdade. Conjunto esse que é evidenciado pelos elementos da língua e pelos costumes. da escola. arte. sentindo-se à vontade para expressar seus sentimentos e ideias para aqueles que estão em um nível. o que compreende a língua. pois o coloca em contato com aquilo que é diferente. que possui outra cultura.Capítulo 3 Para que ocorra a constituição da comunidade surda. moral. línguas. sendo neste momento que ocorre a formação da identidade e cultura surda. Em relação às crianças surdas. tanto para nós mesmos como para as outras pessoas. o que mais se percebe são estes elementos. já que tem uma vivência isolada em seu mundo. Nesse ambiente. a comunidade representa a projeção com o amanhã. O contato com pessoas que se comunicam em sua língua permite que sua diferença não seja enaltecida. caracterizado assim a Língua Brasileira de Sinais – Libras 137 . sendo estabelecida por meio das afinidades daqueles que a integram. sim. surdos adultos interagindo na sociedade. Aproveitar a oportunidade de conviver com a diversidade promove um sentido diferente. ou seja. a cultura representa um conjunto complexo de conhecimentos. outra visão. diversas comunidades. não como deficientes. as crenças. mas. leis. levando-se em conta que. os costumes e os hábitos do povo surdo. as ideias.

também pode ocorrer na idade mais avançada. se nos perguntarem a respeito da cultura norte-americana. é de costume falar da representação da surdez por dois vieses: passado e futuro. o sujeito surdo. sendo esta transmitida livremente nas relações com o outro. Então. Dessa forma. passamos a atribuir valores e. Nesse ambiente. Assim. tratam da história do surdo abordando as represálias que enfrentaram quanto ao oralismo. conforme Strobel (2008). hábitos e crenças. adulta. como também hábitos e costumes ocorrem mediante o que viram e se constroem no envolvimento com os outros surdos. Devido a essas questões é que. em sua maioria. e teríamos resultados que se restringiriam ao que se fala: inglês. Isto é. os surdos possuem família ouvinte. Diferente do que ocorre com os ouvintes. é possível pensar que a cultura surda compreende aquele conjunto complexo. A arte e a poesia do surdo acontecem por diferentes movimentos com as mãos. é histórica. estamos nos restringindo ao contexto de cultura popular. no seio da comunidade surda. ao desenvolvimento e à transmissão dos elementos que o integram procederem naturalmente com as relações sociais. ou até mesmo pela imposição de estudarem em escolas ouvintes. pois é na comunidade surda que ocorre o processo de aprendizagem e o sujeito poderá proferir suas falas. Então. por meio da língua. está inserida a cultura surda. pois a grande maioria de surdos são filhos de pais ouvintes. é passiva de mudanças quando em contato com outra cultura. Dessa forma. Assim. Até o momento. sua língua se manifesta no espaço e a leitura se faz com os olhos. pois. e ao que se come: fast food. então. existem outros componentes nesse conjunto. de geração a geração. quando passamos a olhar para as ações de um determinado grupo de pessoas e tais ações começam a fazer sentido para nós.Língua Brasileira de Sinais – Libras identidade surda. nessa cultura. em que a composição dos elementos ocorre de modo visual. a cultura surda não é transmitida naturalmente de geração a geração. para ter sua língua. com isso. isto é. seu conhecimento começa com o contato do que vê. ao acesso. Chamamos a cultura de “conjunto complexo” quanto à composição. A cultura surda é muito importante. poderíamos abordar o assunto sob a ótica da língua e do costume. precisa obtê-la na comunidade surda. e pensam sobre as perspectivas de futuro para esta população. sem a convivência na escola FAEL 138 . Tal processo de transmissão cultural de surdos. A cultura se modifica constantemente. o compartilhar ocorre naturalmente. sua cultura visual.

Pela dificuldade de ter sido conquistada por seus criadores e por ser tão ofuscada pela cultura ouvinte é que a cultura surda precisa ser enaltecida. dependendo daquilo que era respondido com a audição. surdez severa – surdez que só permite perceber os sons muito graves. podemos destacar a importância de se refletir sobre si mesmas. quando a sociedade mudou a forma de olhar para a surdez e novas taxionomias se imprimiram na educação de surdos. é politizada e tem a língua de sinais como nativa. sobre como sua constituição atuará em sua percepção do mundo de forma visual. acabam por perder o contato com a comunidade surda. Desse modo. adotavam o critério clínico-patológico para o surdo e lhe atribuíam uma identidade. não ouve nada. as definições são as seguintes: ● ● ● identidade surda – pessoa consciente quanto à sua condição de surdez. surdez moderada – não é possível ouvir as palavras com clareza. descobre a comunidade surda e transita do mundo auditivo para o mundo visual. surdez profunda – a pessoa não retém som algum. identidade surda incompleta – é o surdo que não se aceita. No que diz respeito à formação de identidade das crianças que participam das comunidades surdas. 139 No decorrer da história. a pessoa tende a aumentar a voz progressivamente.Capítulo 3 de surdos. muito tempo depois. enquanto acontecia a educação dos surdos – dirigida pela corrente oralista –. Língua Brasileira de Sinais – Libras ● . identidade surda de transição – surdo oralizado que. identidade surda embaçada – surdo que não consegue captar o mundo de forma visual e nem auditiva. Segundo Perlin (2004). pelo sentimento de inferioridade em relação aos ouvintes. As especificações eram: ● ● ● ● surdez leve – capacidade de ouvir a voz humana. a classificação passou a ser pelo critério linguístico e o rótulo de identidade era feito mediante o conhecimento que o surdo apresentava a respeito da língua de sinais.

tanto que. não se pode conceber uma visão reducionista do homem. em uma comparação com o outro. mas adaptável. mas acaba por ser único e singular tudo aquilo que compreende a identidade da pessoa. Agregado a essas articulações está o reconhecimento de sua língua. ocorre que está havendo um condicionamento de tais características naquele dado momento. ● ● 140 Quando o assunto se refere à identidade. É possível que. pois é constituída e manifestada na interação com o outro. Tem conhecimento da estrutura do português falado. indiferente de onde eles estejam. pois a constituição não é perene. que entendemos como um espaço de articulação das aspirações. pois FAEL . Esses movimentos sociais e espaços de luta social são chamados de movimento surdo. podendo ser entendida como o conjunto de características específicas de uma pessoa que a diferencia da outra. se tornou surda. pobre. a identidade está ligada a relações sociais. professora. No caso de alguém descrever sua identidade como mulher. A manifestação da identidade deve acontecer pela subjetivação que ocorre mediante interiorização de uma língua. apresentam-se ultrapassadas. pensamos numa pequena parte do conjunto de características que ela apresenta. No entanto. lutas e reivindicações de determinados grupo de pessoas. exista algo de semelhante. solteira. evangélica. ocorre por meio da linguagem e é construído por papéis sociais que exercemos em diferentes locais. Esse conjunto de características próprias. Para Skliar (2001). tem a possibilidade de participar de movimentos sociais. seja ela qual for.Língua Brasileira de Sinais – Libras ● identidade surda híbrida – pessoa que nasceu ouvinte e. em relação às visões comentadas. identidade surda flutuante – surdo que oscila de uma comunidade a outra. ouvinte. quando nos referimos à identidade surda. sendo de muita importância. posteriormente. branca. além de desenvolver a cultura e a identidade surda. A criança que participa da comunidade surda. heterossexual. Há falta de língua de sinais com surdos e falta de comunicação com ouvintes. a identidade. convivendo tanto com surdos quanto com ouvintes. identidade surda diáspora – pessoa que tem a necessidade de trocar experiências com seus colegas surdos. pessoas e contextos. flexível e mutável.

Capítulo 3 representam um local onde ocorre resistência à predominância das pessoas ouvintes dentro dos locais de trabalho. Todas se caracterizam pela cumplicidade linguística cultural dos participantes. sim. a missão passa a atender aos ideais das pessoas surdas.br>. mas em decorrência da perspectiva de trabalho. como também as afirmações dos direitos do sujeito surdo em diferentes instâncias sociais. e órgãos voltados apenas à questão desportiva dos surdos. O movimento surdo atinge espaços acadêmicos e chega a conquistar um curso de Saiba mais licenciatura a distância.org. cooperativas e clubes. aproximadamente. saúde. O movimento não é contrário diretamente às pessoas. os surdos dão início à liderança e alteram o nome para Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos – Feneis. persistiram até conquistarem uma posição de destaque dentro da instituição a ponto de serem atendidos em suas aspirações políticas. que começam a ser vistas não como deficientes auditivas. Não muito satisfeitos. Um grupo de surdos. ou seja. como a Confederação Brasileira de Surdos – CBS.cbsurdos. espalhadas pelos estados. Atualmente. com sede na Universidade Língua Brasileira de Sinais – Libras 141 . Trata-se do curso Letras-Libras. educação e lazer. com o objetivo de difundir a Libras e congregar surdos para discussões em relação à sua participação ativa na sociedade. por isso o nome da instituição era Federação Nacional de Educação e Integração dos Deficientes Auditivos – Feneida. mas em relação a evidentes posições de liderança ao longo da história. os quatro milhões de surdos brasileiros. um grupo de profissionais ouvintes funda uma organização e dá início aos seus ideais de reabilitação dos chamados deficientes auditivos. Em 1970. conseguiram participação em pequenas atividades. É possível citar como exemplo a reestruturação da Feneida em Feneis. Em 1983. no ano de 1983. Essa alteração não se deu por simples mudança terminológica. existem vários escritórios regionais da Feneis espalhados pelo país. acesse o link: <http://www. mas. pessoas com diferença linguística. A princípio. além de se reunirem na Feneis. Hoje. se organiza para reclamar seus direitos junto à direção e pede participação dentro da Feneida. Existem duzentas associações. se organizam em outros espaços como associações. Para conhecer mais sobre a CBS.

sim. os alunos surdos têm a possibilidade de se qualificarem para atuarem como professores de Libras.br>. o grupo conseguiu provar para os produtores que a legenda nacional não iria ocultar as diversidades regionais ou depreciar os dialetos falados na nação. consulte: <http://www. é desenvolver um intercâmbio linguístico e cultural. como também. chegando ao ponto de ter uma Federação Mundial de Surdos (Word Federation of the Deaf – WFD). participar dos eventos que promovem.ufsc. FAEL . editores e diretores. organizou um movimento de reivindicação a respeito da legenda nacional.wfdeaf. mas que significaria acesso no que se refere à cultura. em meios culturais começaram a ser resolvidas quando um surdo. Libras. em outros países. 142 A possibilidade de acesso aos filmes que são transmitidos no cinema foi uma das conquistas mais recentes do movimento surdo. As dificuldades de inserção <http://www. inclusive o artístico. promover a participação no mundo. despertar a atenção para esses lugares e perceber que os surdos possuem capacidade de liderança. desde 1951. pois. na edição do Festival do Audiovisual – Cine/PE. contendo vários polos distribuídos pelo Brasil. com sede na Finlândia. Mesmo porque. Nessa graduação.libras. desde 2004. Existem. Esse movimento circulou em importantes eventos do cinema e do teatro e. vem tentando propagar a ideia a produtores. pois é algo indispensável para a evolução do homem em todos os seus aspectos.org>. simplesmente. a acessibilidade não pode restringir. Porém. mas. no Saiba mais caso de filmes nacionais. instituições que se colocam como representantes do potencial dessas pessoas. no entanto. A formatação desse movimento tem tomado dimensões cada vez maiores. Envolver-se com o movimento surdo é mais do que. Marcelo de Carvalho Pedroso. é possível fazer a opção pela legenda ao invés da dublada. em Pernambuco. não somente no Brasil acontece de o moviPara mais detalhes sobre o curso de Letras mento surdo ser preponderante.Língua Brasileira de Sinais – Libras Federal de Santa Catarina. Saiba mais No entanto. esta opção é Conheça mais sobre a WFD acessando: inviável. no caso de filmes estrangeiros. somente em 2008.

2007) que. A escolha fica a critério da produtora. acesse: <http://www. os de peças publicitárias. Com a aprovação. 1. os de curta-metragem. A obrigação estende-se a todos os filmes comercializados para exibição. mas se emociona!”. e os promotores de peças teatrais e demais obras cenográficas.Capítulo 3 A campanha “Legenda para quem não ouve.com. 1. MAS SE EMOCIONA! A partir de tal convencimento. foi a grande encabeçadora da conquista dos surdos pela legenda. para exibição em salas de cinema. Essas legendas podem ser em Libras – com o espaço (a janelinha) destinado para o intérprete – ou com caracteres. exceto: os destinados à divulgação de músicas.legendanacional. em linguagem compreensível a pessoas com deficiência auditiva. e os exibidos em caráter não comercial ou em festivais e mostras competitivas. a criatividade e br/campanha. sejam obrigados a incluir a legenda nas obras exibidas ou a ofertar interpretação do texto correspondente. foi aprovado por representantes políticos.078 (BRASIL. conhecimento. O Projeto de Lei n. com a oportunidade de diminuir a distância que ficou estabeleSaiba mais cida da cultura nacional.php>. foi criado o Projeto de Lei n. O slogan é LEGENDA PARA QUEM NÃO OUVE.078 entrou em vigor no Brasil em 2007 e presume que: ● As empresas responsáveis por distribuir obras cinematográficas ou videofonográficas. Língua Brasileira de Sinais – Libras . 143 ● Sendo assim. sendo Para mais informações sobre a legenda nacioesta muito importante para o nal. os surdos têm a possibilidade de ir ao cinema e ao teatro como qualquer outra pessoa. a civilidade. tanto em filmes como em teatros nacionais as legendas se tornaram obrigatórias. conforme disposto em regulamento. após análise.

denominadas especiais. diferentemente da escrita. ouvinte. em termos de conquista. Esse termo se refere ao sistema de escrita dos usuários da língua de sinais. mas como língua de instrução. 144 Independente do espaço de escolarização dos surdos – seja na escola de surdo ou escola de ouvintes –. mas com a clientela. que se prestam a ministrar métodos de letramento e oferecer reforço pedagógico aos alunos que participam da escola comum. cabe destacar que a escola deve ensiná-la um método de escrita compatível com sua habilidade visual. a visão começa a variar. a criança surda pode ser inserida tanto na escola de surdos como na escola de ouvintes. Certamente que ainda existem centros especializados de apoio ao surdo. não como meio de comunicação secular restrito a crianças em horário de intervalo. sendo evidente que a implantação desse sistema. já existente no Brasil. Outra forma de registro FAEL . Esse sistema ainda permanece sob pesquisa. Até o momento. Tais escolas. fazer o registro de produções dos surdos só era possível mediante filmagens. possuem profissionais especializados em uma deficiência específica e atuam como reabilitadores. pois é possível perceber que a Libras é entendida como primeira língua e o português como segunda. chamado de SignWriting (escrita de sinais). se mostra favorável. uma maneira de registrar ideias que as tornam atemporais. Em relação aos surdos. um meio custoso quando pensado em produção de alta escala. apenas após o término da produção. um recurso de fixação de sua língua. à sua disposição. somente no futuro poderemos mensurar. projeto político-pedagógico e atendimento específico para determinada clientela. a Libras sempre deverá estar presente. com professores. Entende-se por escola de surdos aqueles espaços que possuem toda uma estrutura formalizada. currículo.Língua Brasileira de Sinais – Libras Inclusão educacional de surdos Com a liberdade de escolha. mas pensar a possibilidade de registrar a língua de sinais de forma escrita é algo que. aquilo que se produz e elabora não pode ser revisado e avaliado. percebe-se a mesma formação do espaço citado anteriormente. Em relação à escola de ouvintes. ainda tendo a desvantagem de que. Essa distinção se contrapõe à antiga terminologia de escolas especiais. aprendizagem. Muitas comunidades surdas de diferentes países possuem. em sua grande maioria. Se a primeira língua do surdo é a Libras e se ela é usuária de língua de sinais. seriação.

A princípio.Capítulo 3 da língua. pois não abrange as sutilezas visuais da língua de sinais. podemos citar o trabalho da Prof. No Brasil. uma vez que a escrita de sinais consegue armazenar e propagar. Marianne Rossi Stumpf (2005). Dessa forma. e as ações relacionadas com a alfabetização dos surdos em escritas de sinais são ações isoladas e específicas de pesquisadores. fonológico e morfológico. com o objetivo de promover uma tradução em que os pesquisadores podem propor outras discussões em relação à estrutura da língua de sinais. Uma vez percebida a oportunidade de aplicar tal ferramenta às línguas de sinais – representando seus movimentos. a ferramenta adequada para a fixação da língua de sinais seria o SignWriting. por ter como fundamento elementos visuais. configurações. fundamentado em elementos fônicos. essa ferramenta foi elaborada como uma forma de registrar as coreografias a serem realizadas numa apresentação de dança. expressões –. para que isso se torne real. Semelhantemente ao que ocorreu com as línguas orais. pois ela se objetiva a uma representação visual de uma língua que é visual. Quase sempre. esse recurso é muito limitado. que aponta que as crianças surdas. é a Glosa. básica. é para o surdo um sistema de grafia muito mais compreensível do que o alfabético. Esse sistema paliativo transcreve as línguas de sinais com auxilio dos códigos da língua oral. Língua Brasileira de Sinais – Libras 145 . A escrita de sinais. informações entre as pessoas. por gerações. sendo muito utilizado em pesquisas linguísticas. passam pelo mesmo processo de alfabetização que as crianças ouvintes em relação ao português. A criação dessa ferramenta se deu nos anos 70 do século XX. mas somente agora teve início sua divulgação e implantação. A maior dificuldade é que não existem profissionais formados para desempenhar tal tarefa. demonstrando ser uma nova linguagem que modela o pensamento e o organiza quando escrito. No entanto.ª Dra. nos níveis sintático. é preciso que essa ferramenta seja ensinada aos usuários das línguas de sinais. ao aprenderem a escrita de sinais. a implantação de um método de escrita para as línguas visuais possibilita abertura ao desenvolvimento da cultura e produção de conhecimento nas comunidades surdas. cujos objetivos são descobrir e aperfeiçoar métodos de ensino para o SignWriting. que até então vem sendo utilizada. numa ferramenta bem elaborada. A pesquisa também demonstra que o SignWriting é uma ferramenta de escrita que o surdo assimila com maior facilidade. empreenderam-se pesquisas no sentido de tornar aquela ferramenta inicial.

etc.) e sua distância do corpo (perto ou longe). significar desmotivação em relação à escrita. a escrita do português não consegue explicitar as diferentes inflexões de vozes. como tal. se é lento. recentemente. necessita de ensino específico e treino para seu aprendizado. os elementos do sistema são finitos e podem ser organizados e reorganizados com o objetivo de formular os diferentes sinais escritos. se é alternado. pesquisas vêm sendo realizadas e aperfeiçoamentos vêm ocorrendo. assim como na escrita alfabética do português. Muitos elementos presentes nas línguas de sinais são contemplados pelo SignWriting e. foi reformado ortograficamente. Porém. assim como acontece com as escritas das línguas orais – como o português que.). que não devem. Isso significa que pode ser um sistema reversível e que. O SignWriting. como toda escrita. do sentido em que o sinal é realizado (esquerda ou direita). alguns exemplos dos símbolos do SignWriting: FAEL . do movimento presente no sinal (se é circular.Língua Brasileira de Sinais – Libras a ponto de funcionar como meio de representação de uma língua. Desde então. Afinal. Dentre os princípios básicos estão: a representação da configuração de mão levando em conta sua orientação (se a mão é vista de frente. de perfil. como todo e qualquer sistema de escrita. e nem por este motivo há descaso em relação à continuidade de escrita dessa língua. etc. que procuram – no sentido de que toda escrita é uma tentativa – representar a língua utilizada pelos surdos. da localização (se a mão toca alguma parte do corpo). no entanto. que podem conceder diferentes significados em uma dada frase. 146 A seguir. ele também é dotado de limitações. é dotado de regras quanto à organização.

o professor retire do conteúdo a ser lecionado as aulas com exercícios de leitura em grupo ou coletiva (em que o professor Língua Brasileira de Sinais – Libras 147 . O método de ensino do português como segunda língua presume que. Representa o valor de poder possuir uma língua escrita e preservada ao longo da vida e para além dela. nas línguas orais. ouve as pessoas falando em alemão e precisa interagir nesta língua. salvo por exceções. É o caso de alunos brasileiros aprendendo francês sem qualquer contato com pessoas do país de referência. em suas aulas. Em relação aos surdos. a possibilidade de empregar um sistema de escrita que empreenda sua primeira língua significa mais do que um avanço técnico. filha de brasileiros que moram em colônias alemãs. para além de sua própria geração. consequentemente. Por exemplo. denota o prazer de poder se expressar. irá adquirir o alemão como uma segunda língua. seus sete anos. sem ser ensinada. pois quando está em horário de lazer. uma criança. brincando e se divertindo com colegas na escola. A aquisição dessa língua precisa ser assegurada para realizar um trabalho sistemático com a L2. por excelência. A necessidade formal do ensino da língua portuguesa evidencia que essa língua é. pois. oportunizando que diferentes pessoas pudessem interagir de forma clara em lugares diferentes. o português caracteriza-se para eles como uma segunda língua. Para ter uma segunda língua se faz necessária a aproximação. no caso. Não é o caso de língua estrangeira porque ele se encontra no Brasil. em sua própria língua. mas é segunda língua. Mesmo fazendo uso do português para se comunicar com seus pais. para o primeiro caso a língua falada está próxima e no caso de língua estrangeira o aprendizado é de outra língua que se fala em outro lugar diferente daquele que se está. deve ser sua primeira língua. p. 84). foi a invenção da escrita que possibilitou que as línguas se estabelecessem e se padronizassem. o contato com aqueles que fazem uso da língua que se quer aprender. já que adquire naturalmente uma língua espaço-visual até. uma segunda língua para a pessoa surda (QUADROS. no máximo. o português. para os surdos. o sujeito surdo poderá iniciar o processo de aprendizagem da segunda língua. considerando a realidade do ensino formal. Sendo assim. 1997. O que difere entre segunda língua e língua estrangeira é que. A Libras é adquirida pelos surdos brasileiros de forma natural mediante contato com sinalizadores.Capítulo 3 Finalmente.

concede abertura para uma aprendizagem mais significativa. sílabas ou frases. anúncios de jornal e outros. Após essa realização. a fim de que haja exploração na leitura. A seguir. deve “pular” o surdo. deve garantir sua formatação e cores. em slide ou transparência. atualmente. o professor precisa ter planejado algumas perguntas para fazer ao aluno surdo (não sendo interpretação de texto). A leitura consiste no primeiro passo e. itálicas. o foco de discussão incide sobre práticas de letramento. cabe ao professor ajudá-lo no aperfeiçoamento da leitura. que informações possui. um exemplo de como realizar esse trabalho. diferenciando o tipo de texto a cada aula. o professor deve passar para o aluno surdo o texto integral.). isto é muito significativo. Após isso. baseado no cartaz ao lado. irá destacar aquilo que mais se evidencia (imagens. Deve também possuir uma cópia ampliada. Antecipadamente. uma orientação para que o aluno seja estimulado a pensar sobre o conteúdo que está sendo abordado naquele texto. Dessa forma. se o professor for reproduzi-lo. isto é. ou seja. pois ela não consegue fazer uma leitura linear – os olhos não percorrem palavra a palavra dentro do texto –. ou seja. como descritivo. Fonte: São Paulo (2007). Deve percorrer visualmente todo o texto e. ou aqueles que tornam evidente a silabação (junção de b + a = ba). cores. sinalizar a temática do texto. evitando escrevê-lo no 148 quadro. em seguida. narrativo. a partir do texto pode tratar de questões diversas quanto à realidade.Língua Brasileira de Sinais – Libras aponta com a régua aquilo que deve ser lido). na íntegra. Tal atitude não significa ser excludente. manifestando um sinal equivalente. pois o respeito fica estabelecido quando a pessoa é tratada com os mesmos direitos e com sua especificidade. Então. etc. significa que. Para a criança surda. panfletos. a leitura procederá conforme o texto. letras negritadas. pois. FAEL . para Quadros (1997). propõe o trabalho em forma de texto e não com palavras. que palavras já conhece e se tais palavras podem ser aplicadas naquele contexto. dissertativo e permeado de função social explícita. O aluno surdo não lerá em voz alta. O letramento possui sua abordagem mais globalizada quanto à língua. Esse aluno deverá realizar a sinalização quanto ao texto. mas visual. Possuir o texto em mãos. contendo elementos visuais. caso o professor proponha este tipo de atividade para a sala. como: cartazes.

Capítulo 3 Inicialmente. há variedade de cores. No cartaz sobre a campanha de vacinação contra a raiva. vermelho verde azul 149 alaranjado amarelo cor-de-rosa marrom preto branco Língua Brasileira de Sinais – Libras . além de despertarem muito a atenção. pois. o que possibilita o desenvolvimento de um trabalho interessante. podem ser exploradas. sobre o objetivo social desse gênero textual. e conversarem sobre o porquê disto. é necessário deixar os alunos discutirem sobre os elementos extralinguísticos (cores e desenhos). Os sinais das cores são demonstrados a seguir. da Prefeitura de São Paulo.

bem como a interação discursiva sobre a temática apresentada (BRASIL. registrando o roteiro no quadro. o professor necessita empreender tempo oportuno em busca desse material. em Libras. Após apontar no texto a palavra “falada” pelo aluno. o professor pode fazer a pergunta. não muito delongado e que tenha um objetivo social específico. O contato intenso com o material abordado nos textos proporciona a aquisição de conhecimento. Nesse link é possível visualizar o alfabeto.youtube. as cores e os dias da semana na Libras. considerando que se destaca como FAEL 150 . o professor atuaria de forma semelhante. 2002a). para seu aluno surdo: “Por que é importante vacinar o cachorro e o gato?” Saiba mais Consulte: <http://www. várias vezes. torna-se muito significativo. em Libras: evitar bravo morder. encaminha-se para a aula propriamente dita. o professor deve apontar no texto onde isso se encontra escrito. Após o trabalho de escolha do texto. seriam: a) Quem pode tomar esta vacina?.Língua Brasileira de Sinais – Libras Em seguida. c) Qual o período de vacinação?. quanto aos surdos. ou seja. Devido a isso. acréscimo de informação e. ele consiga voltar ao caderno e lembrar-se. Quadros (1997) aborda que esse contato. e) O que significa o termo “contra”. mostrar a palavra raiva no panfleto. d) Onde podemos obter maiores informações sobre a vacinação?. Diferentes tipos de perguntas que o professor poderia formular e oferecer ao aluno. o contato do material com o aluno. que é o momento em que o professor deve oportunizar. apreensão do saber. fazendo a ligação daquilo que o aluno diz com o que está escrito no cartaz e. O educador deve oferecer uma leitura de texto que contenha uma imagem condizente com o discurso apresentado. por isso. na frase “Vacinação contra a raiva em cães e gatos”? Frente às respostas em Libras. os números. de real circulação.com/ watch?v=0l3NX__oQAk>. representa aprendizado a todos os alunos e não apenas aos surdos. para que seja algo muito interessante ao aluno surdo. E quando o aluno responder. simultaneamente. b) Precisa pagar?. para quando for necessária nova leitura ou haver esquecimento da palavra. o professor irá registrá-la no quadro para servir de orientação. O desafio de trabalho com a leitura é um momento muito importante na aula de alfabetização.

algo tão importante quanto o processo de leitura é o da elaboração escrita. Língua Brasileira de Sinais – Libras 151 . estabelecendo relações. para Silva (2001). é interessante obter sentenças modelo que possam servir de fonte para outras situações semelhantes. a intertextualidade. segue o exemplo de um trabalho com a temática: materiais escolares. o professor irá propor atividades para que reflitam sobre a língua. é como se pudesse confirmar as hipóteses que ele levanta. No momento da interpretação do texto. Com a possibilidade de o aluno interagir com o a temática do texto. em situações assim. No trabalho com a escrita. a intervenção do professor pode ser decisiva para o aluno. Em seguida. poderão promover grandes discussões. ele pode ser levado pelo professor a refletir sobre o conteúdo apresentado. Essa função do professor. ele sente-se participante no processo de aprendizagem. ao aluno surdo. pois é quando o aluno tem a oportunidade de manifestar o seu entendimento sobre a temática apresentada.Capítulo 3 uma das únicas formas de acesso às atualidades. Após a leitura do texto sugerido. colocaria “o menina”? E assim. A fim de elucidarmos a proposta apresentada. quer dizer. ele procura descobrir o significado de algumas palavras e. com o diferencial de que o canal de comunicação será o espaço e a visão. Depois. pode-se exibir uma parte do texto. se forem apropriados à idade das crianças. a interação se dará por meio da Libras (BRASIL. quando as questões relativas às considerações abordados pelo autor são pontuadas. como: “O menino escreveu com o lápis. como esse aluno ainda está no processo de aquisição da língua escrita e trabalha com dificuldade frente aos códigos da língua portuguesa. é de suma importância para que o aluno obtenha uma referência na leitura e. 2002a). visando traçar paralelos e sugerindo uma conversa intertextos. Em relação a essa proposta. produtivas ao aprendizado. Dessa forma. pois são privados das informações que são veiculadas de forma auditiva na sociedade. o professor poderá propor temas a serem discutidos com todo o grupo. o objetivo principal pode ser o da apropriação das palavras relacionadas ao tema. bem como a elaboração de frases curtas a ele pertinentes. o professor se coloca como um mediador. Isso porque. Temas esses que.” e indagar a colocação do pronome seguido do sujeito da sentença na seguinte situação: se você é uma menina escrevendo. o encaminhamento para a aula de português e a metodologia utilizada para trabalhar o letramento com as crianças surdas serão iguais aos dos alunos ouvintes. Sendo assim. ou seja.

em que os alunos deverão revisar aquilo que foi trabalhado no texto. poderão surgir caça-palavras. No caso dos surdos. ______________ escreveram com o lápis. o uso do s como identificador de plural para o complemento caneta e sua inexistência no caso de lápis. a concordância nominal para evidenciar o número de pessoas. está em processo. em que o nome do lugar FAEL 152 . as canetas – a caneta – os meninos – as meninas O menino escreveu com o lápis. A essa mistura chamamos interlíngua. porque para os surdos que não ouvem e nem falam o português. atividades de ligar gravuras a palavras. Quando esse processo se estabelece. permitindo espaços para que os alunos. quando estão tentando elaborar mentalmente uma frase em português.Língua Brasileira de Sinais – Libras ir promovendo a aula. a mesma situação acontece. É necessário que o professor sempre retorne às frases escolhidas para aprofundar a reflexão em aula. é natural recorrer a primeira língua ao se deparar com uma determinada insegurança. inclusive o surdo. frases para serem completadas. no caso. Nota-se que. pois é diferente da língua de sinais. Assim. O menino escreveu com ______________. as palavras discutidas na reflexão linguística feita coletivamente. etc. o professor poderá desenvolver exercícios de fixação. abordem possíveis comutações com outras palavras: Insira as palavras a seguir nos seus devidos lugares. vimos a questão da flexão verbal apontando as pessoas no discurso. No caso anteriormente apresentado. mas em ambas. Essa frase representa seu aprendizado no português. cruzadinhas. Isso porque esse momento é de tamanha riqueza para os surdos. a frase escrita não será nem em uma língua nem em outra. ou seja. 1997). significa a aquisição de uma segunda língua (QUADROS. muitas vezes. em relação ao surdo. Após essa explanação. o processo de escrita é muito mais difícil do que para os ouvintes. o que significa que o aluno não se apropriou do português completamente e não se distanciou da Libras. O menino escreveu com ______________. há interferência da Libras e. ______________ escreveram com o lápis. Uma frase típica de interlíngua escrita por surdos é: casa ir.

existe uma grande propensão de que o erro seja internalizado por quem produz. então. com o sujeito da frase que. a pessoa surda ainda não aprendeu que. Na Libras. e assim sucessivamente. Além disso. É necessário ir além. se esse aluno surdo se encontra na segunda etapa do Ensino Fundamental. e mais uma vez o professor fará a marcação sobre o erro e não dará explicações a respeito. é importante que os professores das variadas disciplinas entendam a especificidade da forma como o surdo escreve para poder estabelecer critérios diferenciados de avaliação. até que. Tanto o uso de preposição quanto a conjugação do verbo são questões gramaticais que não seriam omitidas pelas crianças ouvintes. quando o verbo ir é sinalizado. ou seja. Isso pode se tornar algo costumeiro e. nesse caso. mas não explica a razão do erro. Sabemos que o ato avaliativo é de suma importância no contexto pedagógico e que não deve ser de caráter punitivo. o erro é apreendido. As crianças surdas. ele desconhece a necessidade de conjugar o verbo para que haja concordância com a pessoa. pois estas já possuem total domínio na hora de escrever. ele fará novamente. diferentemente. o aluno sempre comete o mesmo equívoco e o professor sempre o evidencia (com caneta vermelha). de imediato se indica a direção do deslocamento (percurso) e aponta-se quem vai (pessoa) a determinado lugar. nesta língua. pois. No entanto. Quando o professor avalia qualitativamente. deve entender que a simples disposição de valor a uma atividade não será significativa. se está no Ensino Médio.Capítulo 3 onde moramos é casa e em que usamos o verbo ir quando anunciamos que haverá deslocamento de um lugar para outro. seria: eu irei. que é o que permeia todas as áreas do conhecimento. devido a isso. depois do verbo ir. mas construtivo e reflexivo. Língua Brasileira de Sinais – Libras 153 . a preposição e a conjunção são implícitas ao sinal (BRASIL. Caso contrário. é necessário o uso da preposição para. porque após tantas repetições daquilo que é errado o aluno entenderá o que é certo. ou então. está contribuindo para o desenvolvimento e crescimento intelectual e pessoal do seu aluno e. já que estão habituadas a ouvir os adultos se comunicando. decoram os nomes dos sinais que produzem em Libras. 2002a). O professor precisa destacar claramente a atuação incorreta do aluno e mostrar a ele qual a maneira correta de fazer. enfim. Porém.

FAEL 154 . pois. É necessário que o professor se coloque na posição de interlocutor e faça interação com o texto. o professor deve participar em língua de sinais e compreender que a dificuldade destacada em relação a esse aluno ocorre devido a ele escrever em uma língua que não fala e. o professor deverá estimular o diálogo com seu aluno. devido aos conectivos inexistirem na Libras. surgem frases como: “Casa é a bonita”. sempre pensarem que é difícil e que nada sabem. Frente à tamanha dificuldade de lidar com artigos. não melhor. a correção será mais uma forma de interação. se relaciona com o português como uma segunda língua. o normal é que os alunos. O texto deverá servir como elemento de comunicação entre o professor e o aluno. preposições. ligações e conjunções necessárias na língua portuguesa. Ao olhar para a produção textual de um aluno surdo. O próximo passo requer ensino dos elementos coesivos. passem a ter aversão à língua portuguesa. tornar importante aquilo que foi produzido por ele mediante incentivo e fazer com que ele perceba que sua comunicação poderia ter acontecido de outra maneira. é preciso que ele tenha em mente o significado social da escrita. Dessa forma. devido a tantas sinalizações sem qualquer explicação. Tais pontuações é que devem ser avaliadas com frequência nas correções textuais. Normalmente. assim. já que o aprendizado acontece mediante interações sociais. pois. o aluno tenha uma expressividade fluente com clareza e objetividade. o professor deve considerar a organização do pensamento e. poderá atentar para a separação das ideias em parágrafos e para a coesão. Porém. para que se obtenha sucesso no propósito pedagógico de ensino do português para surdos. mas de acordo com as regras gramaticais normativas. tornando a escrita relevante. assim. os alunos surdos costumam decorar a ortografia destas palavras e confundir sua ordem sintática. ao final de um processo pedagógico de ensino da língua portuguesa. O mesmo objetivo que se aplica ao aluno ouvinte deve ser aplicado ao aluno surdo. Sendo assim. É importante saber que tal trabalho será contínuo e constante. os alunos surdos os esquecem com frequência.Língua Brasileira de Sinais – Libras Em casos de correção de textos. os surdos alteram a ordem da frase por não se lembrarem do local exato em que se deve empregar os constituintes da língua. desta forma. O propósito pelo qual o professor deve corrigir o texto do aluno é de que. Quando o professor fizer a correção dos textos elaborados pelos alunos.

Além do intérprete. Para tanto. Esse profissional é aquele que. há outro sujeito. Tal regra não existe no português. pode vincular a interação entre pessoas que as desconheçam. Ou ainda. o que consiste num trabalho sistemático para ele.Capítulo 3 Essa frase demonstra que o seu responsável já tem ciência da necessidade de nomes femininos virem acompanhados da vogal “a” e. podendo. o que ocasiona uma sentença agramatical. apreendem o seu sentido geral e. pois. por desconhecer onde deve colocá-la. há que se destacar que os sistemas de ensino têm garantido a presença de um profissional muito importante para acompanhar o aluno surdo. Eventuais situações exigirão do professor que esclareça as exceções. por se tratar de uma situação muito específica do português. figura esta que também faz parte da comunidade surda e é responsável pela mediação entre surdos e ouvintes: o intérprete. a vogal “a” deve ser inserida antes do sujeito (casa). os tradutores leem e estudam o texto original. permitindo que pessoas que escrevem e falam em línguas diferentes possam se comunicar entre si. Quadros (1997) diz que. tais como: “O moto”. em seguida. Dessa feita. o intérprete com discursos orais. neste caso. Ainda no contexto dos anos finais do Ensino Fundamental ou de Ensino Médio. A principal diferença entre a atuação desses profissionais está no fato de que o tradutor trabalha com textos escritos. O que será altamente compreensível. mas que desempenha um trabalhado diferenciado. também envolvido na comunidade surda e com o mesmo domínio linguístico. procedem à sua tradução. construir sentenças erradas. Por isso. o tradutor. podem ser intérpretes quando veem uma língua sinalizada de um país em específico e a transpõe para a língua de sinais de outro país. em conformidade com as regras gramaticais. pessoas surdas podem atuar como tradutores quando leem textos em português e os transpõem para Libras. procurando Língua Brasileira de Sinais – Libras 155 . escolhe aleatoriamente um lugar próximo ao adjetivo. um vocabulário masculino solicita o acompanhamento de um artigo do mesmo gênero. o professor precisa intervir a esse respeito e mostrar para o aluno que há uma dependência estrutural (organização obrigatória da frase) que rege o local do nome e o local do artigo e. por dominar a Libras e o português. O trabalho do intérprete consiste em transpor textos ou discursos de uma língua para outra. assim. o aluno adota o hábito de decorar a regra e utilizá-la de maneira genérica em qualquer caso.

conferências. o intérprete sinaliza para o surdo. interpreta integralmente em outra língua o discurso feito. o intérprete encontra-se junto ao orador. como se este fosse seu (isto é. congressos. interpreta em ambos os sentidos os diálogos que esta estabelece com interlocutores que se comunicam em outra língua. Quando o intérprete está mediando uma relação entre surdos e ouvintes de ordem formal. interpretação de conferência – é realizada em reuniões multilíngues formais. a fim de que os participantes surdos possam acompanhar o evento. encontros ou jornadas. A interpretação consecutiva é mais adequada para as conversações que envolvem um número reduzido de participantes. seminários. Já a interpretação simultânea é mais adequada para encontros que envolvem muitos participantes.Língua Brasileira de Sinais – Libras respeitar as ideias e os pensamentos nele presentes. ● 156 ● Essa última forma de atuação é bastante comum em relação à Libras. tais como pequenas reuniões técnicas entre especialistas. ele pode optar por desempenhar seu trabalho de forma consecutiva ou simultânea. mesas-redondas. aplicando a terminologia mais correta. quando o ouvinte fala. o profissional intérprete pode escolher entre uma das principais modalidades de interpretação existentes: ● interpretação de acompanhamento – é o profissional que. e funcionam como elo entre pessoas que se comunicam verbalmente em idiomas diferentes. a fim de que o interlocutor o entenda e. acompanhando determinada pessoa. interpretação judicial – é a interpretação realizada no âmbito de um julgamento. Nesses casos. FAEL . Já as pessoas ouvintes que atuam profissionalmente como intérpretes. transpõem um discurso oral emitido em uma língua para outra língua. designadamente. em seguida. quando o surdo fala. na primeira pessoa do singular). é solicitada a presença do profissional intérprete. ouvindo a sua intervenção e tirando apontamentos. Para desempenhar bem esse trabalho. pois em situações formais de palestras e simpósios. ou seja. garantindo a transposição quase imediata dos discursos orais. normalmente. o intérprete passa a Libras para o português.

Diante de tantas exigências para atuação. esse profissional precisa ter clareza do que ouve para interpretar adequadamente o sentido. a saber: de conhecimento profundo sobre as línguas envolvidos. nosso respeito e consideração pelo grande trabalho desempenhado junto às pessoas surdas. treino auditivo e rápida compreensão dos discursos orais. Para isso. já que ele sentirá que não produz na mesma proporção que os demais alunos. de conhecimento sobre as culturas envolvidas – de surdos e de ouvintes. preservando a continuidade e o sentido dos discursos orais. sons dos instrumentos) pelo professor denotará preconceito. precisa ter grande capacidade de concentração e de memória. Além disso. consiga manter o ritmo da intervenção sem perder informações. Isso é importante porque os intérpretes nunca têm a possibilidade de voltar a ouvir o que foi dito. econômica e social. Por isso. Aos intérpretes de Libras. o estilo e o espírito que o discurso apresenta.Capítulo 3 Ao mediador de relações entre surdos e ouvintes são outorgadas pelo menos três grandes responsabilidades. a melhor atitude a ser tomada seria: ● Poupá-lo da aula. neste caso. 157 Da teoria para a prática Agora que o profissional da educação já entende. como se dão as relações sociais da surdez. e deixá-lo junto às atividades desenvolvidas (coral. de forma a não perder nenhuma informação. de forma que. Nesse caso. sua constituição intelectual. coloca-se uma questão: a relação do direito assegurado e do julgamento de valor. Língua Brasileira de Sinais – Libras . afinal. Libras e português. pessoal e subjetiva é construída a partir da visão. Nesse sentido. e de conhecimento sobre atualidade política. é essencial que o intérprete também tenha excelentes faculdades de análise e de síntese. cabe à coordenação pedagógica gerir qual o melhor procedimento diante de uma disciplina de música a ser trabalha em uma sala de aula em que estejam incluídas pessoas surdas. vemos o quão árdua é a profissão de intérprete e o quão importante ela é para que a interação social entre falantes de línguas diferentes seja bem-sucedida.

sugere-se uma questão ao professor regente de sala de aula: diante da proposta de assistir um filme e fazer um relatório. Diante disso. Ainda levando em conta a tomada de decisão no contexto escolar. Além disso. ele deverá realizar todas as demandas apresentadas em sala. ao passo que quando os filhos são ouvintes (Codas) haverá uma dupla constituição psicológica. ele não entende e não consegue escrever no nível exigido. pois não há janela e. Ao invés de assistir ao filme – dada a ausência de legenda –. para ter uma comunicação facilitada. por isso. 158 ● Síntese Neste capítulo. já que o português é sua segunda língua). injusto. vimos que o surdo prefere se casar com outro surdo. como aluno. Adaptar a atividade. a melhor atitude seria: ● Insistir na cobrança da atividade. devido ao fato das dificuldades inerentes à sua história de vida (não adianta assistir ao filme. pois o filme tem um conteúdo extremamente importante para a disciplina. o aluno surdo comparece à aula sem a atividade executada e argumenta que não deve ficar sem a nota. O aluno deverá procurar uma forma de assistir ao filme e compreendê-lo. já que a condição auditiva não poderá ser alterada. o que poderá acarretar em algumas dificuldades de relacionamento. vimos que a vida de uma pessoa surda tem peculiaridades que não se encontram na organização de uma pessoa ouvinte. ele explique em Libras o que entendeu da leitura. o professor passa o relatório de um dos alunos para que o surdo leia e o dispensa da entrega do relatório. Apenas solicita que. Privá-lo dessa participação implica em reserva de cultura e isso é. que quando têm filhos surdos a relação é amena. se possível. ainda que existam critérios diferenciados para avaliação. humanamente falando. salvaguardando suas especificidades e tentando adaptar os sons para os gestos e/ou movimentos dos sinais. Destacamos que a aquisição da linguagem da criança surda acontece nos mesmos moldes da criança ouvinte. afinal.Língua Brasileira de Sinais – Libras ● Integrá-lo à aula. FAEL .

a questão de que as relações sociais se mostram como espaço constituidor de identidade e de desenvolvimento cultural e apresentamos as disseminações políticas consideradas no caso da surdez (closed claption e Lei n. Quanto à inclusão dos surdos. já que estas pessoas não ouvem e não falam a língua que devem escrever e ler. escola inclusiva e centro de apoio ao surdo) e defendemos que. 159 Língua Brasileira de Sinais – Libras .Capítulo 3 Abordamos. a Libras deve ser assegurada como língua de instrução. indiferente do espaço. Dessa forma. apresentamos a importância do seu registro por meio do SignWriting (escrita de sinais) e de metodologia específica para o ensino do português.078/2007). pois este se apresenta como segunda língua e por isto vem carregado de dificuldades para ser aprendido. também. trouxemos os tipos possíveis de escolarização (escola especial. 1.

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