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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E TECNOLOGIA DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA CIVIL ÁREA DE

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E TECNOLOGIA DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA CIVIL

ÁREA DE GEOTECNIA E ENGENHARIA DE FUNDAÇÕES

Disciplina: FUNDAÇÕES

Código: 101134

Professor: Erinaldo Hilário Cavalcante

Notas de Aula

EMPUXOS DE TERRA E ESTABILIDADE DE MUROS Capítulo 1 – Métodos de Cálculo

Aracaju, dezembro de 2006.

Contato:

Prof. Dr. Erinaldo Hilário Cavalcante Área de Geotecnia e Pavimentação Av. Mal. Rondon, S/N – Cidade Universitária Aracaju – SE CEP 49000-000 Fone: (79) 2105-6736/6701 fax (79) 2105-6684 e-mail: erinaldo@ufs.br; geotecnia.ufs@gmail.com

ÍNDICE

 
  • 1.0 Definição

3

  • 2.0 Tipos de Empuxos

3

  • 3.0 Cálculos dos Coeficientes de Empuxo Ativo e Passivo

5

  • 4.0 Métodos para Cálculo do Empuxo

6

  • 4.1 Método de Rankine

6

  • 4.1.1 O efeito da água

9

  • 4.1.2 Situações possíveis de perfis de tensão horizontal

11

  • 4.1.3 Efeito de uma Sobrecarga

12

4.2

Método de Coulomb

12

4.2.1

Solução analítica do método de Coulomb para solos granulares

13

  • 4.3 Solo Coesivo

15

  • 4.4 Comentários Sobre os Métodos de Rankine e Coulomb

18

  • 4.5 Métodos Gráficos

18

4.5.1

Método gráfico de Poncelet

18

4.5.1.1

Terrenos inclinados e sobrecarga

19

  • 5.0 Estabilidade de Muros de Arrimo

21

  • 5.1 Estruturas de Arrimo

21

  • 5.2 Condições de Estabilidade dos Muros de Arrimo

25

  • 5.2.1 1ª condição: Segurança contra o tombamento

25

  • 5.2.2 2ª condição: Segurança contra o escorregamento

26

  • 5.2.3 3ª condição: Segurança contra deformação excessiva no terreno de fundação

27

  • 5.2.4 4ª condição: Segurança contra ruptura global

28

  • 6.0 Exemplos de Aplicação

31

  • 7.0 Bibliografia Consultada

33

2

1.0

Introdução

Denomina-se Empuxo a ação produzida por um maciço de terra (Empuxo de Terra) ou por uma massa de água (Empuxo de água) sobre as obras em contato com tais maciços, projetadas para suportar os esforços decorrentes desses elementos. Os empuxos de terra, assim como as fundações, também dependem da interação solo – estrutura. Algumas vezes, na engenharia civil, não se dispõe de espaço suficiente para fazer uma transição gradual das elevações do terreno onde se quer implantar uma determinada obra. Nestes casos, os taludes necessários podem ser suficientemente altos ou inclinados, de modo que a estabilidade dos mesmos não é assegurada em longo prazo. As estruturas de contenção são projetadas para prover suporte para estas massas de solo instáveis. O cálculo dos empuxos de terra constitui uma das mais antigas preocupações da engenharia civil, tratando-se de um problema de elevado valor prático, de ocorrência freqüente e de determinação complexa. As teorias clássicas sobre empuxo de terra foram formuladas por Coulomb (1773) e Rankine (1856). Os muros de arrimo, os escoramentos de escavações, os encontros de pontes, os problemas de capacidade de carga de fundações, pressão de grãos sobre as paredes de silos, entre outras, são as obras que exigem, em seus dimensionamentos e análises de estabilidade, o conhecimento das tensões laterais desenvolvidas e, conseqüentemente, dos valores dos empuxos.

  • 2.0 Tipos de Empuxos

Um maciço de terra pode se encontrar na natureza sob três situações de equilíbrio: em repouso, em estado de empuxos ativo ou em estado passivo (ver Figuras 1.1a, b). Empuxo ativo: desenvolve-se quando o maciço age sobre a estrutura de contenção, que resiste, porém, cede com um pequeno deslocamento (ver Figuras 1.1a e 1.2). Neste caso, o maciço sofre uma distensão em virtude do deslocamento relativo que tende a ocorrer. Empuxo passivo: desenvolve-se quando a estrutura de contenção age pressionando o maciço de terra, provocando o seu deslocamento em sentido contrário ao caso ativo (ver Figuras 1.1b e 1.2). É o caso, por exemplo, da ação de tirantes executados para conter o deslocamento de um talude em corte. O tirante “puxa” a face do talude, comprimindo-o. Estado de equilíbrio: existe quando não o maciço se encontra na situação de deslocamento nulo. Por exemplo, se na escavação de uma vala não há necessidade de escoramento, há indicações de que o maciço escavado se encontra em estado de repouso (ver Figura 1.2). As tensões horizontais atuantes são denominadas e tensões de repouso. As três situações descritas acima estão bem ilustradas na Figura 1.2.

3

(a) (b) Figura 1.1 – Condições de deslocamento relativo maciço-muro nos casos (a) ativo e (b)

(a)

(a) (b) Figura 1.1 – Condições de deslocamento relativo maciço-muro nos casos (a) ativo e (b)

(b)

Figura 1.1 – Condições de deslocamento relativo maciço-muro nos casos (a) ativo e (b) passivo.

(a) (b) Figura 1.1 – Condições de deslocamento relativo maciço-muro nos casos (a) ativo e (b)

Figura 1.2 – Estado de repouso e desenvolvimento dos empuxos ativo e passivo.

Em todos os casos apresentados acima existe uma relação entre as tensões horizontais efetivas desenvolvidas (σ´ h ) e as tensões verticais efetivas (σ´ v ) atuantes. A relação entre estas tensões denomina-se coeficiente de empuxo (K). No caso ativo, tem-se o coeficiente de empuxo ativo (K a ). No caso passivo, recebe o nome coeficiente de empuxo passivo (K p ), enquanto que na situação de repouso a denominação é coeficiente de empuxo em repouso (K 0 ).

K =

´

σ

h

´

σ

v

(1)

Na situação de repouso

existe a

conhecida equação de Jaki, professor húngaro, para a

estimativa de K 0 em função apenas do ângulo de atrito interno efetivo do solo (φ): K 0 = (1-sinφ´)

para areias e K 0 = (1-sinφ´)x(OCR) senφ´ para o caso de argilas com história de préadensamento. O empuxo em um ponto é, portanto, calculado em função da tensão vertical naquele ponto multiplicada pelo valor do coeficiente de empuxo específico.

4

3.0 Cálculos dos Coeficientes de Empuxo Ativo e Passivo

Para a determinação dos outros coeficientes de empuxo considere-se um semi-espaço infinito

de solo, constituído por um solo isotrópico, não saturado e de superfície horizontal (ver Figura

1.2). A Figura 1.3 ilustra o que acontece com os elementos de solo A (caso ativo) e B (caso

passivo) à luz do círculo de tensões de Mohr.

3.0 Cálculos dos Coeficient es de Empuxo Ativo e Passivo Para a determinação dos outros coeficientes

Figura 1.3 – Círculos de Mohr inicial e final de tensões para os estados ativo, passivo e em repouso.

Conforme mostrado na Figura 1.3, ambos os elementos partem de um círculo de Mohr

possuindo como tensões principais σ v e K 0 ×σ v . Conforme apresentado nesta figura, no estado

em repouso o solo se encontra afastado da ruptura. Com o deslocamento do muro, as tensões

horizontais no elemento B se tornam maiores que o valor da tensão vertical, sendo seu valor

limite alcançado quando o círculo de Möhr passa a tangenciar a envoltória de resistência do

solo. Neste instante, diz-se que o solo está em um estado de ruptura passiva. Para uma

condição de ruptura, as tensões principais estão relacionadas de acordo com a Equação 2,

apresentada adiante.

σ = σ ⋅ N + 2c ⋅ N 1 3 φ φ em que φ
σ
=
σ
⋅ N
+ 2c ⋅
N
1
3
φ
φ
em que
φ
2
 
 
=
tg
45
° +
2
 
 

(2)

(2A)

No estado ativo, a tensão horizontal, σ ha , corresponde à tensão principal menor, σ 3 . Se o solo

for granular (c=0), pode-se demonstrar que :

K

a

=

´

σ

h

1

2

φ

σ

´

N

2

=

=

tg

45

° −

  • v φ

5

(3)

No estado passivo, a tensão horizontal, σ hp , corresponde à tensão principal maior, σ 1 . Se o solo

for granular (c=0), pode-se facilmente demonstrar também que :

K

p

=

´

σ

h

2

φ

´

σ

v

2

=

N

φ

=

tg

45

° +

(4)

Das Equações 3 e 4 observa-se que os valores de K a são sempre inferiores a 1, ao passo que

os valores de K p , por serem o inverso dos do coeficiente de empuxo ativo, são sempre

superiores à unidade.

  • 4.0 Métodos para Cálculo do Empuxo

  • 4.1 Método de Rankine

Os processos clássicos utilizados para a determinação dos empuxos de terra são métodos de

equilíbrio limite. Nestes métodos admite-se que a cunha de solo situada em contato com a

estrutura de suporte esteja num dos possíveis estados de plastificação, ativo ou passivo. Esta

cunha tenta deslocar-se da parte fixa do maciço e sobre ela são aplicadas as análises de

equilíbrio dos corpos rígidos. A análise de Rankine se apóia nas equações de equilíbrio interno

do maciço. Estas equações são definidas para um elemento infinitesimal do meio e estendida a

toda a massa plastificada através de integração. Esta análise enquadra-se no teorema da

região inferior (TRI) da teoria da plasticidade.

Como filosofia básica, este teorema defende, em primeiro lugar, o equilíbrio de tensões entre

os campos externos e internos que se estabelecem sobre a cunha plastificada. As tensões

externas são despertadas por solicitações aplicadas na superfície do terreno pela ação do peso

próprio da cunha. As solicitações internas são as reações que se desenvolvem na cunha, em

conseqüência das solicitações externas. Para resolução das equações de equilíbrio, todos os

pontos dentro da cunha de ruptura são supostos em estado limite e as tensões se relacionam

pelo critério de ruptura de MÖHR – COULOMB.

A solução de Rankine, estabelecida para solos granulares e estendida por Rèsal para solos

coesivos, constitui a primeira contribuição ao estudo das condições de equilíbrio limite dos

maciços, tendo em conta as equações de equilíbrio interno do solo. Em razão disso, essas

equações são conhecidas como estados de plastificação de Rankine.

O método de Rankine, que consiste na integração, ao longo da altura do elemento de suporte,

das tensões horizontais atuantes, calculadas a partir do sistema de equações estabelecido

para o maciço, fundamenta-se nas seguintes hipóteses:

  • i) Maciço homogêneo de extensão infinita e de superfície plana (horizontal).

6

ii)

O

solo no interior

da cunha de ruptura se encontra nos estados de plastificação

de

Rankine.

 

iii)

A inserção do muro não interfere nos resultados obtidos.

 

Embora teoricamente a solução de Rankine só seja válida para muro de parede vertical,

perfeitamente lisa, que é quando se atingem os estados de plastificação de Rankine (superfície

de escorregamento fazendo um ângulo igual a 45° + φ/2 ou 45° - φ/2 com o plano principal

maior, para as condições ativa e passiva, respectivamente, conforme mostrado na Figura 1.4),

ela é estendida também aos casos em que o tardoz do muro faz um ângulo β com a vertical.

ii) O solo no interior da cunha de ruptura se encontra nos estados de plastificação de

Figura 1.4 – Condições para aplicação da Teoria de Rankine.

Quando a superfície do terreno é inclinada de um ângulo β com a horizontal, há que se

considerar o muro com uma rugosidade suficiente para inclinar as tensões resultantes do

mesmo valor. À medida que se afasta das condições teóricas fundamentais, o método fornece

valores que se distanciam cada vez mais dos valores práticos observados. A presença do atrito

ou de adesão na interface solo–muro gera tensões tangenciais que contribuem para resistir ao

deslocamento da cunha plastificada. Neste caso, a utilização da teoria de Rankine torna

sobrestimado o valor do empuxo ativo e subestimado o do empuxo passivo. Além disso, o atrito

propicia uma redução da componente horizontal do empuxo (menor quanto maior for o valor do

coeficiente de atrito entre o solo e o muro, δ) e provoca o encurvamento das superfícies de

escorregamento. A Figura 1.4 mostra cunhas de ruptura obtidas pelo método de Rankine (onde

não se considera a interação solo-estrutura), enquanto na Figura 1.5 são mostradas as formas

das cunhas de ruptura dos estados ativo e passivo, na consideração da existência do atrito na

interface solo–muro.

7

Figura 1.5 – Efeito do atrito solo–estrutura sobre as direções das cunhas de plastificação. Sobre o

Figura 1.5 – Efeito do atrito solo–estrutura sobre as direções das cunhas de plastificação.

Sobre o procedimento do método de Rankine existe a desvantagem de que a obtenção dos

valores de K a e K p para geometrias complexas e/ou outras formas de carregamento, que não

carregamento extenso, conduz a procedimentos de cálculos bastante árduos.

Para os solos não coesivos, a variação das tensões horizontais é linear com a profundidade. O

diagrama resultante será triangular e o empuxo consistirá na integração das tensões laterais ao

longo da altura. A Figura 1.6 ilustra a obtenção do empuxo ativo sobre uma estrutura de

contenção pelo método de Rankine, para os casos de solos não coesivos e coesivos.

Figura 1.5 – Efeito do atrito solo–estrutura sobre as direções das cunhas de plastificação. Sobre o

Figura 1.6 – Aplicação do método de Rankine para cálculo do empuxo ativo sobre estruturas de

contenção (Machado e Machado, 2002).

Conforme se pode observar, para o caso dos solos coesivos, os valores de empuxo obtidos até

uma profundidade z = z 0 são negativos. A ocorrência de empuxo negativo sobre a estrutura de

contenção é pouco provável, pois neste caso haveria uma tendência do solo se “descolar” do

muro. Além disto, até a profundidade de z = z 0 , é provável a ocorrência de trincas de tração no

solo. Deste modo o empuxo negativo sobre a estrutura de contenção é geralmente

desprezado, calculando-se o empuxo a partir da altura reduzida do muro, h = H – z 0 , conforme

mostrado na Figura 1.6.

8

A integração das tensões horizontais ao longo do muro de arrimo representa o empuxo ativo

atuando sobre a estrutura de contenção, conforme a equação seguinte:

E

a

=

h

K γ

a

0

z

dz

=

1

2

γ

.

.h

2

.K

a

(5)

De maneira análoga, obtém-se para a expressão do empuxo passivo total:

E

p

=

1

2

γ

.

.h

2

.K

p

(5A)

A existência da coesão permite executar um corte vertical em um maciço de terra, sem

necessidade de escoramento, até uma determinada profundidade, denominada crítica (z c ),

onde o empuxo resultante é nulo. Isto acontece quando z = 2z 0 . A Equação 6 permite o cálculo

da altura crítica, z c .

z c

4c´

=

γ

..

tg

 

45

° −

´

φ

2

(6)

O empuxo passivo para solos é calculado através da Equação 7, em que h é considerada a

altura total da estrutura de arrimo.

E

P

=

  • 1 .h

γ
2

  • 2 .K

+

2c´ h

K P
K
P

.

P

(7)

Embora esteja se considerando o caso de estruturas de contenção suportando solos coesivos,

deve-se salientar que quando da execução destas estruturas em campo, sempre que possível,

deve-se utilizar materiais granulares no aterro anterior ao muro. Os materiais granulares, não

coesivos, são sempre preferíveis, pois apresentam maiores valores de φ e geralmente não

apresentam grandes variações volumétricas em processos de secagem/umedecimento. Além

disso, é imprescindível que as estruturas de contenção possuam um bom sistema de

drenagem, de modo a evitar empuxos na estrutura de contenção provocados pela água. Com

base na experiência de Salvador, pode-se afirmar que o efeito da água tem sido decisivo nas

condições de instabilidade de estruturas de contenção (Machado e Machado, 2002).

4.1.1 O Efeito da Água

O efeito da água é ilustrado na Figura 1.7. No caso de o nível do lençol freático interceptar a

estrutura de contenção, existirão dois empuxos sobre a estrutura, um originado pela água e

outro pelo solo. O empuxo da água será aplicado a uma altura (h – h w )/3 da base da

contenção, enquanto que o empuxo resultante do solo aplica-se a uma altura

aproximadamente igual a h/3.

9

Figura 1.7 – Efeito da água no empuxo do solo sobre estruturas de contenção (Machado e

Figura 1.7 – Efeito da água no empuxo do solo sobre estruturas de contenção (Machado e

Machado, 2002).

Neste caso, há uma mudança no peso específico do solo, que passa a γ sat , e que as tensões

neutras devem subtraídas das tensões horizontais

do

solo

sobre

a

estrutura, pois

os

coeficientes de empuxo devem sempre ser utilizados em termos de tensão efetiva. Caso o

nível d’ água se eleve até à superfície do terreno, o que consiste na situação mais

desfavorável, o empuxo ativo sobre a estrutura de contenção será calculado através da

Equação 8:

E

a

=

1

h

2

2

h γ

w

.K

2

sub

.

a

2

γ

.

+

(8)

em que γ sub e γ w são os pesos específicos submerso e da água, respectivamente.

No caso de talude onde exista uma inclinação β do terrapleno com o plano horizontal, os

coeficientes de empuxo ativo e passivo são dados pelas Equações 9 e 10, respectivamente. Os

valores dos empuxos resultantes sobre as estruturas de contenção são obtidos através das

Equações 11 e 12, respectivamente.

2 2 σ ´ cos( β ) − cos ( β ) − cos ( φ
2
2
σ
´
cos(
β
)
cos
(
β
)
cos
(
φ
´)
ha
K
=
=
a
σ
´
2
2
cos(
β
)
+
cos
(
β
)
cos
(
φ
´)
v
2
2
σ
´
cos(
β
)
+
cos
(
β
)
cos
(
φ
´)
ha
K
=
=
p
σ
´
2
2
cos(
β
)
cos
(
β
)
cos
(
φ
´)
v
1
2
E
=
γ
.h
.K
a
a
2
1
2
E
=
γ .h
.K
p
P
2

10

(9)

(10)

(11)

(12)

Os valores de K a e K p se encontram tabelados para facilitar a obtenção, conforme apresentado

nas Tabelas 1.1 e 1.2.

Tabela 1.1 – Valores de K a para o método de Rankine (Bowles, 1988).

Os valores de K e K se encontram tabelados para facilitar a obtenção, conforme apresentado nas

Tabela 1.2 – Valores de K p para o método de Rankine (Bowles, 1988).

Os valores de K e K se encontram tabelados para facilitar a obtenção, conforme apresentado nas

4.1.2 Situações Possíveis de Perfis de Tensão Horizontal

A Figura 1.8 mostra três situações que podem ser encontradas na prática: no caso a, tem-se a

superfície horizontal (β=0°), na qual o valor de E a é a própria componente horizontal; na

situação b, o terreno se apresenta inclinado de um valor β>0, onde a resultante do empuxo

será também inclinada de mesmo ângulo, enquanto que no caso c além da inclinação existe

uma sobrecarga distribuída na superfície do terreno. Os valores das tensões horizontais e suas

respectivas distribuições estão apresentados nas próprias ilustrações.

Os valores de K e K se encontram tabelados para facilitar a obtenção, conforme apresentado nas

Figura 1.8 – Diagramas de tensão horizontal para a teoria de Rankine.

11

4.1.3 Efeito de uma Sobrecarga

Quando sobre a superfície do maciço atua um sobrecarga uniformemente distribuída, q,

conforme mostrado na Figura 1.9, as tensões horizontais podem ser calculadas pela

expressão:

σ

h

=

(

γ

.

z + q

)

K

(13)

onde K é o coeficiente de empuxo ativo ou passivo do solo, conforme o caso que se considere.

A sobrecarga ainda pode ser transformada em uma altura equivalente de terra, h 0 , em que:

h

0

=

q

γ

(14)

em que γ é o peso específico do solo. A tensão horizontal, a uma profundidade z, será então:

σ

h

=

(

γ z γ h

.

+

.

0

)

K

(15)

Conforme mostrado na Figura 1.9, o diagrama de tensões horizontais, neste caso, será

trapezoidal, e a resultante estará acima do terço inferior da altura da parede.

4.1.3 Efeito de uma Sobrecarga Quando sobre a superfície do maciço atua um sobrecarga uniformemente distribuída,

Figura 1.9 – Transformação de sobrecarga em altura equivalente de solo.

4.2 Método de Coulomb

O método de C. A. Coulomb é um dos mais antigos para o cálculo do empuxo de terra, tendo

sido enunciado por volta de 1776 (Bowles, 1998). O método de Coulomb é baseado no

Teorema da Região Superior (TRS) da teoria da Plasticidade, a qual estabelece o equilíbrio de

uma massa de solo partindo do pressuposto que, para um deslocamento arbitrário, o trabalho

realizado pelas forças externas é menor que o das forças internas. Do contrário, o maciço

entrará em processo de instabilidade ou de plastificação. Este método admite as seguintes

hipóteses:

  • i) O solo é isotrópico, homogêneo e possui atrito interno e coesão.

ii) A superfície de ruptura é considerada plana

iii)

É atendida a condição de deformação plana ao longo do eixo do muro (bidimensional).

12

iv) Ao longo da superfície de deslizamento o material se encontra em estado de equilíbrio

limite (critério de Mohr-Coulomb).

  • v) Ocorre deslizamento relativo entre o solo e o muro, resultando em tensões cisalhantes na interface, cuja direção depende do movimento relativo solo-estrutura. O coeficiente de atrito é dado por f = tan(φ).

O cálculo do empuxo é efetuado estabelecendo-se as equações de equilíbrio das forças

atuantes sobre uma cunha de deslizamento hipotética. Uma das forças atuantes é o empuxo,

que no estado ativo corresponde à reação da estrutura de suporte sobre a cunha e, no passivo,

à força que a estrutura de arrimo exerce sobre ela. O empuxo ativo será o máximo valor dos

empuxos determinados sobre as cunhas analisadas. O passivo será o valor mínimo. Assim,

nos casos de geometria mais simples, será possível estabelecer uma equação geral para o

problema e encontrar o seu valor máximo, ou mínimo, correspondente às situações ativa e

passiva, respectivamente.

Na mobilização do empuxo ativo, o muro se movimenta de modo que o solo é forçado a

mobilizar a sua resistência ao cisalhamento, até a ruptura iminente. A ativação da resistência

ao cisalhamento do solo pode ser entendida como o fim de um processo de expansão que se

desencadeia no solo a partir de uma posição em repouso. Isto significa que o valor do empuxo

sobre a estrutura de contenção vai diminuindo, com a expansão, até que se atinge um valor

crítico, situado no limiar da ruptura, ou da plastificação.

Quando as análises de equilíbrio são efetuadas para as diversas cunhas hipotéticas, supõe-se

que esse limiar da ruptura tenha sido alcançado em todas elas. Portanto, o maior valor de

empuxo estabelecido na análise destas cunhas será o crítico, pois no processo de ativação ele

será atingido em primeiro lugar, ocasionando o empuxo ativo. Isto significa que o empuxo ativo

é um ponto de máximo dentre os valores determináveis de empuxo. O contrário ao descrito nos

dois últimos parágrafos ocorrerá para o caso passivo.

4.2.1 Solução analítica do método de Coulomb para solos granulares

Empuxo Ativo: A Equação 16 apresenta o valor do coeficiente de empuxo ativo obtido pelo

método de Coulomb. Nas Figuras 1.10 e 1.11 estão apresentadas todas as variáveis contidas

na Equação 16, para o caso de empuxo passivo. No caso de empuxo ativo, a resultante R do

solo atuará desviada também de φ’ da normal à cunha, mas agora em sentido oposto. Do

mesmo modo, devido ao movimento descendente da cunha no caso ativo, E a será inclinada da

normal à contenção também de δ, mas em sentido contrário àquele apresentado na Figura

13

1.10. Deste modo, no uso das Equações 16 e 17, deve-se atentar para a convenção de sinais

adotada nas Figuras 1.10 e 1.11.

2 sen ( α + φ ´) = K a 2  sen ( φ ´
2
sen
(
α
+
φ
´)
=
K a
2
sen
(
φ
´
+
δ
)(
sen
φ
´
β
)
2
sen
(
α
)
sen
(
α
δ
) 1
+
sen
(
α
δ
)(
sen
α
+
β
)

(16)

Figura 1.10 – Empuxo de Coulomb para solos granulares.

1.10. Deste modo, no uso das Equações 16 e 17, deve-se atentar para a convenção de

Figura 1.11 – Empuxo de Coulomb – Superfície e cunha de ruptura.

Empuxo Passivo: A Equação 17 apresenta o valor do coeficiente de empuxo passivo obtido

pelo método de Coulomb. 2 sen ( α − φ ´) = K P 2 
pelo método de Coulomb.
2
sen
(
α
φ
´)
=
K P
2
sen
(
φ
´
+
δ
)(
sen
φ
´
+
β
)
2
sen
(
α
)
sen
(
α
+
δ
) 1
sen
(
α
+
δ
)(
sen
α
+
β
)

14

(17)

É importante lembrar que as componentes horizontal e vertical (E ah , E av ) dos empuxos são

calculadas pelos métodos de Rankine e Coulomb de formas diferentes. No método de Rankine,

as componentes são função do ângulo de inclinação da superfície do terreno (β):

E

AH

E

AV

=

E

a

cos(

β

)

(18)

=

E

a

sen(

β

)

(19)

No caso do método de Coulomb, as componentes horizontal e vertical dependem do ângulo de

atrito solo-estrutura (δ):

E

AH

E

AV

=

E

a

cos(

δ

)

(20)

=

E

a

sen(

δ

)

(21)

De forma análoga são obtidas as componentes do empuxo no caso passivo. O valor de δ é

geralmente tomado como sendo igual a

3
3

2φ

.

Os coeficientes de empuxo de Coulomb se encontram também tabelados para facilidade de

obtenção, conforme mostrado nas Tabelas 1.3 e 1.4.

4.3 Solo Coesivo

Segundo Bowles (1988), nem no método de Rankine nem no de Coulomb foi introduzida a

coesão como um parâmetro de entrada em suas equações de empuxo. Bell (1915) foi o

primeiro autor a publicar a solução para este problema, partindo de uma aplicação direta do

círculo de Möhr. Neste caso, a coesão atua favoravelmente à estabilidade do maciço,

reduzindo o valor da tensão horizontal ativa, numa espécie de empuxo passivo, conforme a

Equação 19:

σ

ha

= γzK

a

2c

K a
K
a

(22)

A tensão horizontal se anula a uma profundidade z, dada pela seguinte expressão:

0

=

zK

γ

a

2c

2c K a K ⇒ z = a γ K a
2c
K
a
K
z
=
a
γ
K
a

Para o caso de argilas moles, onde φ = 0°, tem-se:

E

a

=

1 γ h
1
γ
h

2

  • 2 z c =

c

2

e

4c

γ

15

(23)

(24)

Tabela 1.3 – Valores de K A para aplicação do método de Coulomb (Bowles, 1988).

Tabela 1.3 – Valores de K para aplicação do método de Coulomb (Bowles, 1988). 16

16

Tabela 1.4 – Valores de K P para aplicação do método de Coulomb (Bowles, 1988).

Tabela 1.4 – Valores de K para aplicação do método de Coulomb (Bowles, 1988). 17

17

4.4

Comentários Sobre os Métodos de Rankine e Coulomb

Tanto a equação de Rankine quanto a de Coulomb são amplamente usadas para problemas

envolvendo empuxos de terra. A solução de Rankine é, talvez, a mais empregada por causa da

sua simplicidade e por ser mais conservativa que a de Coulomb (por exemplo, Rankine

despreza o atrito solo-muro). Todavia, padece de algumas limitações. De acordo com Bowles

(1988), não é recomendável a aplicação da equação de Rankine no cálculo de E P quando β >

0, visto que na Tabela 1.2 se observa que o valor de K P diminui com o aumento da inclinação

da superfície do terreno, o que não está correto, ao contrário do que ocorre com os valores de

K A .

Já as equações de Coulomb podem ser usadas tanto para valores de β positivos quanto para

valores negativos.

Finalmente, ressalta-se em relação que o método de Rankine, que desconsidera o atrito entre

o solo e o muro, fornece soluções do lado da segurança. Entretanto, o método de Coulomb

considera o atrito e fornece soluções mais realistas. O emprego de uma ou de outra teoria está

associado, inclusive, à geometria do problema. As obras dimensionadas pelo método de

Rankine tendem a ser mais caras em razão deste método fornecer valores mais conservativos

do empuxo.

  • 4.5 Métodos Gráficos

São procedimentos gráficos baseados na hipótese de Coulomb, na qual o plano em que ocorre

o deslizamento é aquele que limita um prisma de empuxo máximo sobre o suporte. Nesses

métodos encontra-se uma relação geométrica entre a área da seção do prisma deslizante e a

área de um triângulo definido por três retas traçadas no problema, cujas direções dependem da

inclinação do terreno, da existência de sobrecarga, da inclinação do tardoz, de φ e δ. Os

métodos mais comuns são os de Poncelet e o de Culmann. Como ambos são muito

semelhantes, neste trabalho será abordado apenas o primeiro. O leitor deverá recorrer à

bibliografia indicada para consultar outros métodos.

4.5.1 Método Gráfico de Poncelet

Para um terreno de superfície plana, o processo gráfico de Poncelet permite a determinação de

maneira muito simples do empuxo. O método segue o roteiro apresentado a seguir, que deverá

ser acompanhado com a interpretação da Figura 1.12.

18

  • i) traçar BT fazendo um ângulo φ com a horizontal;

ii)

iii)

iv)

traçar AS paralela a BO, fazendo o ângulo φ + δ com a linha AB;

tendo BT com diâmetro, traçar uma semicircunferência;

traçar por S a reta perpendicular SL a BT;

  • v) rebater L em D, com centro em B e raio BL;

vi)

finalmente, traçar DC paralela a AS e rebater o ponto C, assim obtido, em G.

A superfície de ruptura será BC e o valor do empuxo será:

E

a

= γ

(área do triângulo CDG)

ou

1 ____ ____ E = γ ⋅ ⋅ CD CN ⋅ (25) a 2
1
____
____
E
= γ ⋅
CD CN
(25)
a
2

Figura 1.12 – Processo gráfico de Poncelet para superfície horizontal.

4.5.1.1 Terrenos inclinados e sobrecarga

Para casos envolvendo pequenos valores de φ ou grandes inclinações do terreno torna-se mais

adequada a construção gráfica descrita a seguir (ver Figura 1.13):

  • i) traçar BT fazendo um ângulo φ com a horizontal;

ii)

iii)

iv)

traçar AS formando o ângulo φ + δ com AB;

pelo ponto S traçar SS 0 paralela à superfície livre do terreno;

por S 0 traçar a perpendicular S 0 L 0 a AB, até encontrar a circunferência de diâmetro

AB;

  • v) rebater BL 0 sobre AB e marcar o ponto D 0 ;

vi)

traçar por D 0 uma paralela a SS 0 , obtendo-se assim o ponto D;

vii)

finalmente, traçar por D uma paralela a AS até encontrar a superfície do terreno, em

C, que é o ponto procurado.

19

Figura 1.13 – Solução gráfica de Poncelet para casos de φ muito pequeno. Ocorrendo sobrecarga q

Figura 1.13 – Solução gráfica de Poncelet para casos de φ muito pequeno.

Ocorrendo sobrecarga q sobre a superfície do terreno, a construção de Poncelet é a mesma,

sendo que o ângulo φ + δ é marcado a partir do ponto A´ e a semicircunferência é traçada

sobre o diâmetro BT´, sendo T´ o ponto de encontro da reta de talude natural BT´ com a

superfície fictícia A´C´T´, obtida através do acréscimo da altura equivalente h 0 à superfície do

terreno natural (ver Figura 1.14).

Figura 1.13 – Solução gráfica de Poncelet para casos de φ muito pequeno. Ocorrendo sobrecarga q

Figura 1.14 – Solução gráfica de Poncelet para casos de superfície inclinada com sobrecarga.

Empuxo Passivo: para determinação gráfica do empuxo passivo o procedimento está descrtio a

seguir, de acordo com a Figura 1.15.

20

i)

traçar BT fazendo um ângulo φ com a horizontal;

ii)

prolongar a superfície livre AC até interceptar em E o prolongamento da reta BT;

iii)

traçar por A a reta AF formando com AB o ângulo φ + δ;

iv)

sobre BE como diâmetro obter a semicircunferência de círculo BHE;

v)

pelo ponto F traçar a perpendicular a FH até o ponto H sobre a semicircunferência;

vi)

rebater o ponto H em D, com centro em B;

vii)

por D traçar a paralela DC a AF até cortar a superfície livre em C;

viii)

a reta BC representa a superfície de ruptura mais crítica;

ix)

rebatendo-se C em G, com centro em D, obtém-se o triângulo CDG, de área S;

x)

finalmente, o valor do empuxo passivo, E p , será igual a γS.

i) traçar BT fazendo um ângulo φ com a horizontal; ii) prolongar a superfície livre AC

Figura 1.15 – Solução gráfica de Poncelet para empuxo passivo.

  • 5.0 Estabilidade de Muros de Arrimo

  • 5.1 Estruturas de Arrimo Temporárias e Definitivas

As estruturas de arrimo de obras temporárias são utilizadas, principalmente, em abertura de

valas para implantação de condutos e metrôs. Nestes casos, geralmente, introduzem-se os

elementos da estrutura anteriormente à escavação, e à medida que se processa a escavação,

complementa-se a estrutura com os elementos adicionais: pranchões de madeira, estroncas,

tirantes, etc. Completada a obra, providencia-se ao reaterro da escavação e os elementos

utilizados no escoramento podem ser retirados e reaproveitados.

21

Em obras definitivas, como no caso dos muros de arrimo, é normal proceder-se à escavação,

deixar um espaço livre atrás de onde será implantada a estrutura, para facilidade de trabalho,

e, uma vez completada a estrutura, procede-se ao reaterro do espaço deixado livre. Deve-se

observar, entretanto, que estas não são regras gerais para estruturas temporárias e definitivas,

havendo comumente exceções.

As estruturas de contenção são basicamente divididas em flexíveis e rígidas. Estas podem ser

de vários tipos e proporcionam estabilidade de diversas maneiras. Existem os muros de arrimo

de gravidade, de gravidade aliviada, muros de flexão, muros de contraforte, cortinas de estacas

prancha, cortinas de estacas secantes ou justapostas, cortinas de perfis metálicos combinados

com pranchões de madeira, paredes diafragma e eventualmente partes de estruturas

projetadas para outro fim, que têm por finalidade retenção, como por exemplo, os subsolos dos

edifícios e os encontros de pontes. A Figura 1.16 mostra três casos típicos onde se justifica a

necessidade da execução de estruturas de contenção.

Em obras definitivas , como no caso dos muros de arrimo, é normal proceder-se à escavação,

Figura 1.16 – Exemplos típicos de necessidade de execução de estrutura de contenção.

Os muros de arrimo podem ser construídos de alvenaria ou de concreto simples ou ciclópico

(muros de gravidade). Podem ser de concreto armado (flexão ou de contraforte) ou ainda muro

de fogueira (formado por peças de madeira, de aço ou de peças premoldadas de concreto).

Em obras definitivas , como no caso dos muros de arrimo, é normal proceder-se à escavação,

Figura 1.17 – Estruturas de contenção comuns.

22

A Figura 1.18 mostra a foto de um muro de arrimo em concreto armado, servindo de apoio no

encontro entre um viaduto e o aterro. Percebem-se na foto, três linhas de drenos, denominados

barbacâns, usados para aliviar as poropressões. Na Figura e 1.19 é mostrado um detalhe do

muro sofrendo um processo de deslocamento lateral, característica de início de tombamento.

A Figura 1.18 mostra a foto de um muro de arrimo em concreto armado , servindo

Figura 1.18 – Muro de arrimo em concreto armado.

A Figura 1.18 mostra a foto de um muro de arrimo em concreto armado , servindo

Figura 1.19 – Muro de arrimo em concreto armado sofrendo deslocamento horizontal.

23

Os muros de gravidade, os mais comuns, podem ser de seção trapezoidal ou escalonado,

conforme mostrado na Figura 1.20.

Os muros de gravidade, os mais comuns, podem ser de seção trapezoidal ou escalonado, conforme mostrado

Figura 1.20 – Seções típicas de muros de arrimo, de gravidade.

Com o progresso dos métodos construtivos, tem se empregado cada vez mais a construção de

estruturas de contenção utilizando-se geotêxteis (Figura 1.21 ou outros elementos estruturais.

Este é o caso dos muros de arrimo construídos utilizando-se as técnicas de terra armada ou

solo “envelopado”. Embora esteja fora do propósito deste trabalho a apresentação detalhada

dos princípios de funcionamento destas estruturas, pode-se dizer que, nestes casos, há a

incorporação de elementos estruturais ao solo no sentido de conferir a este resistência à

tração. Em ambos os casos, trabalha-se com o atrito entre o solo e os elementos estruturais,

de modo que o uso de solos granulares é sempre preferível. No caso destas estruturas e

mesmo no caso dos muros de arrimo em gabiões (Figura 1.21), além das verificações de

estabilidade normalmente realizadas, deve-se também realizar análises no sentido de verificar

a estabilidade interna da estrutura de contenção.

Os muros de gravidade, os mais comuns, podem ser de seção trapezoidal ou escalonado, conforme mostrado

Figura 1.21 – Muro de gabião com uso de geotêxtil e muro de contraforte (Machado e Machado, 2002).

24

5.2 Condições de Estabilidade dos Muros de Arrimo

Na verificação da estabilidade de um muro de arrimo há que se atentar para a possibilidade de

deslizamento e tombamento. Além disso, deve-se considerar a possibilidade de ruptura do

talude formado (análise de estabilidade global), bem como verificar as tensões aplicadas ao

solo de fundação e os recalques (segurança a ruptura do solo de fundação). Para alguns tipos

de estruturas de contenção devem ser feitas verificações de sua estabilidade interna (gabiões,

contenções em terra armada, solo envelopado, etc).

Cabe ressaltar que a execução de um sistema de drenagem, por mais rústico que seja, pode

proporcionar significativos benefícios a um muro de arrimo, com redução de esforços sobre ele,

resultante do alívio das poropressões geradas.

Resumindo, os critérios exigidos para um projeto satisfatório de uma seção de um muro de

arrimo são os seguintes:

i)

O muro deve ser seguro quanto ao tombamento, ou seja, o fator de segurança ao

tombamento deve ser adequado;

ii)

O muro deve ser seguro contra o deslizamento, ou seja, o fator de segurança ao

deslizamento deve ser adequado;

iii)

A base do muro deve ser tal que a máxima tensão exercida no solo de fundação não

exceda a sua tensão admissível;

iv) Não devem se desenvolver tensões de tração expressivas em nenhuma parte do muro;

v)

Deve haver segurança à ruptura do conjunto solo/muro (ruptura global).

Para melhor entendimento, são apresentados na Figura 1.22 os principais esforços atuando

sobre um muro de arrimo. Os critérios de estabilidade serão analisados individualmente:

5.2.1 1ª condição: Segurança contra o tombamento

A condição para que o muro não tombe em torno da extremidade externa “A” da base, é que o

momento gerado pelo peso do muro seja maior que o momento gerado pelo empuxo

resultante, ambos tomados em relação ao ponto A, mostrado na Figura 1.23. Ou seja:

F

=

  • M res

  • M atua

F

mín

=

1,5

(26)

em que M res é o momento devido ao peso do muro e M atua é o momento gerado pelo empuxo

resultante.

25

Figura 1.22 – Esforços sobre um muro de arrimo (Machado e Machado, 2002). Aconselha-se que a

Figura 1.22 – Esforços sobre um muro de arrimo (Machado e Machado, 2002).

Aconselha-se que a resultante das forças atuantes, R, passe dentro do núcleo central (terço

médio, da base AB), e o mais próximo quanto possível do ponto médio “O” quando o muro se

apóia sobre terreno muito compressível.

Figura 1.22 – Esforços sobre um muro de arrimo (Machado e Machado, 2002). Aconselha-se que a

Figura 1.23 – Cálculo dos momentos em um muro de arrimo.

5.2.2 2ª condição: Segurança contra o escorregamento

Esta condição de estabilidade do muro não permite que o mesmo sofra uma transladação

motivada pela resultante dos esforços horizontais atuantes,

H

atua

. Dessa forma, tem-se:

F =

H

res

H

atua

F

mín

=

1,5

(27)

26

onde

H

res

é a resultante das forças horizontais resistentes. De acordo com a Figura 1.22,

tem-se a condição mínima de estabilidade é:

1,5 H V µ´

(28)

em que µ varia de 0,67tgφ´ a tgφ´ (coeficiente de atrito solo-muro), sendo φ´ o ângulo de atrito

interno do solo. Na falta de dados medidos podem ser adotados os valores indicados a seguir.

φ´ 30° para areia grossa pura

φ´ 25° para areia grossa argilosa ou siltosa

φ´ 35° solo de alteração de rocha

φ´ 25° para solo arenoso

5.2.3 3ª condição: Segurança contra deformação excessiva no terreno de fundação

Esta condição possibilita comparar a tensão aplicada pela base do muro (σ 1 ou σ 2 ) com a

tensão admissível do solo que o serve de apoio (σ adm ), conforme mostrado na Figura 1.23.

Para o cálculo das tensões atuantes no solo de fundação, primeiramente é preciso calcular o

ponto de aplicação da força normal V, usada na verificação do deslizamento. Para este cálculo

é feito o equilíbrio dos momentos resistente (M RES ) e ativo (M At ) em relação ao ponto A,

resultando em:

 

_

M

Res

x =

 

V

Da

Equação

 

B

_

 

e =

x

 

2

M

at

29,

se

obtém

excentricidade, e, ou seja:

(29)

facilmente

a

(29A)

onde H res é a resultante das forças horizontais resistentes. De acordo com a Figura 1.22,

Figura 1.24 – Esforços na base da fundação.

Os valores de σ 1 e σ 2 dependerão da posição da resultante das forças (R) em relação ao

núcleo central da base. Neste caso, duas situações são importantes na análise:

i) Força R caindo dentro do núcleo central da base (situação da Figura 1.23): o diagrama de

tensões na base será um trapézio, pois o terreno está submetido apenas a compressão. As

equações de equilíbrio são:

σ

1

=

V

1

+

6e

B

B

27

(30)

σ

2

=

V

1

6e

B

B

(31)

onde B é a largura da base do muro e “e” a excentricidade, obtida da Equação 29A.

Essa condição é satisfatória quando a maior das tensões (σ 1 ) seja, no máximo, igual à σ adm do

solo, para e B/6.

ii) Força R caindo fora do núcleo central da base, ou seja, e > B/6: o diagrama de tensões na

base terá uma distribuição triangular, mas limitada à parte que gera compressão (ver Figura

1.25). O valor da tensão máxima será:

σ

1

=

2V

3e´

(32)

σ 2 = V    1 6e   − B B  (31)

Figura 1.25 – Resultante caindo fora do terço médio da base do muro.

A situação (ii) deve ser evitada sempre que possível, visto que o aparecimento de tensões de

tração na base do muro poderá causar trincamento na sua estrutura, o que não é desejável.

Para a estimativa da tensão admissível (σ adm ) do terreno onde se apóia o muro, diversos

métodos são disponíveis na literatura, a exemplo da equação de capacidade de carga de

Terzaghi, para sapatas corridas (ver Capítulo 4).

5.2.4 4ª condição: Segurança contra ruptura global

Deve ser investigada sempre que se achar necessário a estabilidade do conjunto formado pelo

maciço e o muro projetado. Há diversos métodos na literatura que permitem este tipo de

análise, dentre eles o método de Bishop Simplificado, muito empregado em análises de

estabilidade de barragens de terra. Superfícies circulares de ruptura típicas são mostradas na

Figura 1.26 (superfície ABC).

28

(a) (b) Figura 1.26 – Forma típica de uma superfície de ruptura global do conjunto maciço

(a)

(a) (b) Figura 1.26 – Forma típica de uma superfície de ruptura global do conjunto maciço

(b)

Figura 1.26 – Forma típica de uma superfície de ruptura global do conjunto maciço de terra e muro: a – gravidade comum; b – gravidade escalonado.

O método de Bishop adota superfícies de ruptura cilíndricas, conforme mostrado nas Figuras

1.26(a e b). Dessa forma, são verificados possíveis arcos de ruptura que cruzam o terrapleno e

o solo de fundação, contornando todo o muro de arrimo.

Para aplicar o método, a parte do maciço delimitada por cada um desses arcos é dividida em

fatias ou lamelas, do que se calcula o coeficiente de segurança contra a ruptura ao longo dessa

superfície. Inicialmente é admitida uma superfície de ruptura cilíndrica aleatória e o material

delimitado por esta superfície é dividido em lamelas, conforme mostrado na Figura 1.26b. As

forças que agem sobre cada uma dessas fatias são mostradas na Figura 1.27, as quais são

listadas a seguir:

P = peso da lamela

b = largura

α = inclinação da superfície de ruptura de cada uma das lamelas

N = força normal agindo na superfície de ruptura

T = força tangencial que age na superfície de ruptura

H 1 , H 2 = forças horizontais agindo nas faces laterais das lamelas

V 1 , V 2 = forças verticais agindo nas faces laterais das lamelas

29

Figura 1.27 – Forças agindo em cada lamela (a); parâmetros de uma superfície de ruptura cilíndrica
Figura 1.27 – Forças agindo em cada lamela (a); parâmetros de uma superfície de ruptura cilíndrica

Figura 1.27 – Forças agindo em cada lamela (a); parâmetros de uma superfície de ruptura cilíndrica (b)

A partir do equilíbrio das forças agindo nas lamelas, obtém-se o coeficiente de segurança

contra a ruptura global do sistema solo-muro, a partir da seguinte equação:

FS

=

c

b

+

P

tan

φ

sen tan α cos α +
sen
tan
α
cos
α
+

α

FS

(

P

sen

α

)

(33)

onde c e φ são a coesão e o ângulo de atrito interno do solo, respectivamente.

Caso o nível d´água passe no interior da lamela, o peso desta é calculado utilizando-se o peso

específico saturado para a parte abaixo dele e também é determinada a poropressão (u) que

age na superfície de ruptura.

Como o coeficiente de segurança (FS) aparece nos dois lados da Equação 33, sua

determinação é iterativa. Para cada muro, devem ser pesquisadas várias superfícies de ruptura

até se encontrar a mais crítica, ou seja, aquela com o menor coeficiente de segurança. Como

para identificação de uma superfície de ruptura são necessários três parâmetros (coordenadas

horizontal e vertical do ponto “O” e um valor do raio do círculo), essa pesquisa é bastante

trabalhosa quando é feita manualmente. Por sorte, com as facilidades da informática, essa

tarefa se torna muito prática e rápida, através de algoritmos devidamente programados.

Diversos programas estão disponíveis no mercado para atender a essa necessidade.

30

6.0

Exemplos de Aplicação

  • 6.1 Determinar o valor do empuxo ativo e seu ponto de aplicação para o caso apresentado na

figura a seguir.

6.0 Exemplos de Aplicação 6.1 Determinar o valor do empuxo ativo e seu ponto de aplicação

Solução usando Rankine:

6.0 Exemplos de Aplicação 6.1 Determinar o valor do empuxo ativo e seu ponto de aplicação
  • a) Ka = tg 2 ( 45 - φ/2 ) = tg 2 ( 45 – 25/2 ) = 0,406

b) para z=0

, σh = γ z Ka = 0

para z= 3 m , σh = (19-10)(3)(0,406) = 11 kPa

para z= 3 m , σ hágua = (10)(3) = 30 kPa

  • c) Ea 1 = ½. (11)(3) = 16,5 kN/m Ea 2 = ½. (30)(3) = 45 kN/m

Ea = Ea 1 + Ea 2 = 16,5 + 45 = 61,5 kN/m

  • d) ponto de aplicação

y =

(

) [

16,5 .

1 3
1
3

.(3)

]

+

( 45)

[ 1 3
[
1
3

.(3)

]

61,5

y = 1,0 m

= 1,0 m

  • 6.2 Determinar o valor do empuxo ativo e seu ponto de aplicação para o caso apresentado na

figura a seguir.

6.0 Exemplos de Aplicação 6.1 Determinar o valor do empuxo ativo e seu ponto de aplicação

Solução usando Rankine:

6.0 Exemplos de Aplicação 6.1 Determinar o valor do empuxo ativo e seu ponto de aplicação
  • a) Ka = tg 2 ( 45 - φ /2 ) = tg 2 ( 45 – 32/2 ) = 0,307

  • b) para z=0

, σh = (γ z + q)Ka = (0 + 20) (0,307) = 6,1 kPa

para z= 3 m , σh = [ (16,8)(3) + (20) ] 0,307

= 21,6 kPa

31

  • c) Ea1 = (6,1)(3) = 18,3 kN/m Ea2 = ½. (21,6 – 6,1)(3) = 23,3 kN/m Ea = Ea 1 + Ea 2

= 18,3 + 23,3 = 41,6 kN/m

  • d) ponto de aplicação

y =

(18,3)[ 1/2 . (3)] +

(23,3) [ 1/3 .( 3)]

=

1,22 m

 

41,6

6.3 Verificar a estabilidade do muro de arrimo a seguir apresentado. A tensão admissível do terreno onde

o muro se apóia é igual a 200kPa.

c) Ea1 = (6,1)(3) = 18,3 kN/m Ea2 = ½. (21,6 – 6,1)(3) = 23,3 kN/m

Solução usando Coulomb:

  • a) Cálculo do empuxo ativo

2 sen ( α + φ ) Ka = = 0, 278 2  sen (
2
sen
(
α
+
φ
)
Ka =
= 0, 278
2
sen
(
φ
+
δ
)
sen
(
φ
β
)
2
sen
α
.
sen
(
α
δ
) 1
+
sen
(
α
δ
)
sen
(
α
+
β
)

Ea = ½. γ z 2 Ka = ½. (19)(5) 2 (0,278) = 66 kPa

Ea v = Ea.senδ = (66)(sen30 0 ) = 33 kPa

Ea h = Ea.cosδ = (66)(cos30 0 ) = 57,2 kPa

y = 1/3 .(H) = (1/3).(5) = 1,67 m

  • b) Cálculo do momento resistente, Mr

c) Ea1 = (6,1)(3) = 18,3 kN/m Ea2 = ½. (21,6 – 6,1)(3) = 23,3 kN/m

32

c) Ea1 = (6,1)(3) = 18,3 kN/m Ea2 = ½. (21,6 – 6,1)(3) = 23,3 kN/m

c) cálculo do momento atuante, Ma

Ma = ΣH . y = Ea h . y a = (57,2).(1,67) = 95,5 kN.m/m

d) verificação da segurança ao tombamento

F.S. = Mr / Ma = (273,6) / (95,5) = 2,9 > 1,5

OK

e)verificação da segurança ao deslizamento

F.S. = (ΣV)tgδ / ΣH = [(203)(tg30)] / 57,2 = 2,0 > 1,5

OK

f) Verificação da segurança quanto ao terreno de fundação ponto de aplicação da resultante:

Mr − Ma 273,6 − 95,5 x = = Σ V 203 B 2 e =
Mr
Ma
273,6
95,5
x =
=
Σ V
203
B
2
e =
x
=
0,88
=
0,12
m
2
2

0,88 m

Se e B/6, a resultante passa no terço médio, B/6 = 2/6 = 0,33 > e, logo, a resultante passa no terço

médio, portanto:

⇒ OK! Portanto, o muro está estável quanto aos fatores analisados.
OK!
Portanto, o muro está estável quanto aos fatores analisados.

6.0 Bibliografia Consultada

1)

Almeida, M.S.S. (1996), Aterros Sobre Solos Moles: da Concepção à Avaliação do

Desempenho, Editora da UFRJ, 216p.

2)

Alonso, U. R. (1983), Exercícios de Fundações, Editor Edgard Blücher Ltda., São Paulo.

3)

Alonso, U.R. (1989), Dimensionamento de Fundações Profundas, Ed. Edgar

Blücher Ltda.

4)

Alonso, U.R. (1991), Previsão e Controle das Fundações, Ed. Edgar Blücher

Ltda.

5)

Barata, F.E. (1984), Propriedades Mecânicas dos Solos. Uma Introdução ao Projeto

de Fundações, Livros Técnicos e Científicos Editora S.A.

6)

Caputo, H.P. (1988 e 1987), Mecânica dos Solos e suas Aplicações, Velo 1 e 2, 6a

Edição, Livros Técnicos e Científicos Editora S.A.

7)

Das, B.M. (2000), Fundamentals of Geotechnical Engineering, Brooks/Cole.

8)

Fang, H.-Y. (1991), Foundation Engineering Handbook, Van Nostrand Reinhold.

9)

Gaioto, N. (1983), Maciços e Obras de Terra, Notas de Aula, EESC/USP.

33

10)

Hachich,

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Falconi,

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