P. 1
MALEVAL, Maria Do Amparo Tavres (Org) - Poesia Medieval No Brasil

MALEVAL, Maria Do Amparo Tavres (Org) - Poesia Medieval No Brasil

|Views: 467|Likes:
Publicado porhendrik2

More info:

Published by: hendrik2 on Apr 13, 2012
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

05/09/2013

pdf

text

original

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL

1

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL
AUTORA/ORGANIZADORA

Poesia medieval no Brasil

AROTIDE AHLI AD AROGÁ

2

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

Ficha catalográfica
MALEVAL. Maria do Amparo Tavares / Poesia medieval no Brasil 304 páginas – Rio de Janeiro, junho de 2002. Editora Ágora da Ilha Ensaio em português Poesia em português Poesia galega ISBN 7576 CDD 869.4 CDD 869.1 CDD 869.91

A Editora Ágora da Ilha é filiada ao Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) Copyright: Maria do Amparo Tavares Maleval (autora / organizadora) UERJ - RJ- Tel./Fax (0xx21) 25877701 Esta obra não pode ser copiada ou republicada, no todo ou em parte, sem o consentimento prévio e por escrito da organizadora. Apoio: Dirección Xeral de Política Lingüística, Consellería de Educación e Ordenación Universitária da Xunta de Galicia. CRÉDITOS: Agir Editora Ltda. (por José Martins Fontes); Antonio Manuel Bandeira R. Cardoso, José Cláudio Bandeira R. Cardoso, Carlos Alberto Bandeira R. Cardoso, Maria Helena C. de Sousa Bandeira e Marcos Cordeiro de Sousa Bandeira (por Manuel Bandeira, Poesia completa e prosa, da Editora Nova Aguilar); Celso Dantas da Silveira (por Myriam Coeli); Condomínio indivisível dos proprietários dos direitos de Cecília Meireles – direitos cedidos por Solombra Books (Obra completa e Romanceiro da Inconfidência, da Editora Nova Fronteira S.A.); Edison Moreira (herdeiros); Francisca Nóbrega; Hilda Hilst; José Rodrigues de Paiva; Maria Isabel de Almeida (por Guilherme de Almeida); Marly Vasconcelos; Onestaldo de Pennafort (herdeiros), Paulo Lebéis Bonfim (herdeiros) e Stella Leonardos. PESQUISADORES-COLABORADORES (Alunos-bolsistas de Iniciação Cientifica da UERJ): Caroline Moreira Reis, Daniele R. Laurindo, Denise Nascimento, Geórgia Barbosa Morgado, Giuliano Francesco P. da Rocha e Tatiana Monteiro. REVISÃO: Ana Maria Esteves, Maria do Amparo Tavares Maleval e Simone de Souza Braga. CAPA: Gino Christiam Rodrigues. EDITORA ÁGORA DA ILHA TEL.FAX: 0 XX 21 - 3393-4212 E-mail editoraagoradailha@terra.com.br

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL

3

Nossos agradecimentos à Dirección Xeral de Política Lingüística, Consellería de Educación e Ordenación Universitária da Xunta de Galicia, pelo apoio à publicação deste livro, através do Programa de Estudos Galegos, da UERJ (PROEG).

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL

5

Sumário
Maria do Amparo Tavares Maleval A tradição poética medieval no Brasil.................................9 1
1.1 1.2 1.3 1.4

Do Trovadorismo medieval galaico-português........13
Cantigas de amigo........................................................14 Cantigas de amor .........................................................15 Cantigas de escárnio e maldizer ...................................17 Cantigas de Santa Maria.......... ...................................18

2 3
3.1

Do Romanceiro hispânico........................................19 Atualizações da poesia medieval..............................22
O Neotrovadorismo .....................................................22

4
4.1 4.2

O Modernismo brasileiro e a tradição medieval........27
Mário de Andrade ........................................................28 Augusto Meyer..............................................................34

5
5.1 5.2 5.3 5.4 5.5 5.6 5.7 5.8 5.9 5.10 5.11 5.12 5.13

O Neomedievalismo no Brasil.....................................37
Onestaldo de Pennafort...................................................37 Martins Fontes.............................................................39 Guilherme de Almeida...................................................42 Manuel Bandeira..........................................................45 Cecília Meireles...........................................................48 Paulo Bonfim...............................................................54 Edison Moreira..............................................................55 Hilda Hilst...................................................................57 Stella Leonardos..........................................................59 Myriam Coeli...............................................................64 Francisca Nóbrega.......................................................67 Marly Vasconcelos.......................................................68 José Rodrigues de Paiva...............................................69

6

Conclusão...................................................................71

6

MARIA DO ARIA DO AMPARO TMALEVAL (ORG.) M AMPARO TAVARES AVARES MALEVAL

Antologia
1
1.1

Poesia medieval
Cantigas......................................................................83

Afonso Sanches...............................................................85 Airas Carpancho .............................................................87 Airas Nunez.....................................................................89 Alfonso X, o Sábio..........................................................93 Bernal de Bonaval............................................................99 D.Dinis...........................................................................101 Estevan Coelho ..............................................................107 Fernan Froiaz.................................................................109 Fernan Garcia Esgaravunha............................................111 Fernand’ Esquio................................................................113 Fernão Rodrigues de Calheiros........................................115 Johan Airas de Santiago.................................................117 Johan [de Leon]..............................................................123 Johan Garcia de Guilhade...............................................125 Johan Lobeira.................................................................127 Johan Lopes Ulhoa.........................................................129 Johan Zorro ...................................................................131 Juião Bolseiro.................................................................135 Lourenço [Jogral]...........................................................137 Martin Codax.................................................................139 Martin de Caldas............................................................143 Martin Soares................................................................145 Mendinho ......................................................................147 Nuno Fernandez [Torneol].............................................149 Pai Gomez Charinho .....................................................151 Pai Soares de Taveirós ..................................................153 Pedr’Eanes Solaz...........................................................155 Pero da Ponte.................................................................157 Pero Gonçalves de Porto Carreiro ...................................159 Pero Meogo....................................................................161 Pero Viviaez...................................................................163 Roi Fernandiz de Santiago ............................................165 Sancho I ........................................................................167

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL

7

1.2 Romances............................................................169 Romance de Gerineldo y la Infanta...............................171 La amiga de Bernal Francés..........................................173 Romance de la linda Alba..............................................175 2 Poesia brasileira neomedievalista
Onestaldo de Pennafort ..........................................................179 Martins Fontes .....................................................................191 Guilherme de Almeida ..........................................................195 Manuel Bandeira ..................................................................205 Cecília Meireles ...................................................................211 Paulo Lebéis Bonfim ...........................................................229 Édison Moreira ....................................................................233 Hilda Hilst ...........................................................................241 Stella Leonardos .................................................................247 Myriam Coeli ......................................................................271 Francisca Nóbrega ..............................................................279 Marly Vasconcelos ...............................................................285 José Rodrigues de Paiva .......................................................291

3 4

Glossário...............................................................297 Bibliografia..............................................................301

Primeiramente. (Neide Archanjo) Uma epígrafe pode funcionar como ponto de chegada ou de partida em um texto. Sua tarefa De rei e de poeta Só se completa Haveis de concordar Quando do tronco Brota a nau E outra navegação Então começa. p. 53). o fizemos por vários motivos. notadamente galaico-portuguesa. Ao escolhermos os versos acima. onde poderá ser mote a ser glosado ou tema ou conclusão ou até mesmo adorno. Diniz planta pinhais E em plantando escreve versos.. para iniciarmos as presentes reflexões. pela magnífica síntese poética do que tínhamos em mente ao pretendermos mostrar a presença da poesia medieval ibérica.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 9 A tradição poética medieval no Brasil Maria do Amparo Tavares Maleval (UERJ) Se vistes o meu amado Que me pôs neste cuidado Dizei-me: voltará cedo? Cercando os litorais De verdes vocábulos e gestas D. Isto seria impossível se não fossem as duas navegações a que se refere . etc. 1984. na poesia brasileira do século XX. da poetisa paulista Neide Archanjo (ARCHANJO.

esse cantar. no seguinte poema: D. como um trigo De Império. e a das caravelas portuguesas. ondulam sem se poder ver. Neide Archanjo não deixa de apontar-nos esta nossa origem galaica. O rei-poeta. p. movimento (“ondulam”) . dotadas de cor sugestiva de riqueza (“como um trigo de Império”). ao fazer anteceder a estrofe em que exalta D. É a voz da terra ansiando pelo mar. se verrá cedo!” (CUNHA. O poema remete-nos para a época do rei-trovador. 1978. através de verdes vocábulos iniciando a nossa tradição lírica. p. marulho obscuro. só lamentamos que o faça utilizando-se da tradução para o português moderno feita por Natália Correia (CORREIA. / por que ey gran coydado? / E ay Deus. Dinis. 1972. D. jovem e puro. 73). 1936. que trouxeram para o Brasil não apenas sede de riquezas e de poder.LA T ORAP DO OD AIRA T 10VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. Fernando Pessoa. como a Gallaecia Bracarense onde hoje se situa Braga e arredores. E ouve um silêncio múrmuro consigo: É o rumor dos pinhais que.) a epígrafe: a dos trovadores ancestrais. ao invés do original medievo: “Se vistes meu amado. que. Arroio. E a fala dos pinhais. É o som presente desse mar futuro. 1999. é o maior poeta português ao lado de Camões. Por exemplo. acentuando-lhe os presságios do futuro Império ultramarino em belíssimas imagens (dos pinhais). como sabemos. que no século XIII imortalizara em suas cantigas as oraculares “ondas do mar de Vigo”. Dinis pelos versos do jogral galego Martim Codax. 40). mas este legado magnífico de uma língua e uma cultura nascidas no antigo reino de Galicia. p. ao qual já pertenceram terras portuguesas. já fora por muitos apresentado em poesia. 77). também o representa como “plantador de naus a haver” (PESSOA. DINIS Na noite escreve um seu Cantar de Amigo O plantador de naus a haver. Busca o oceano por achar.

o que fora favorecido pelo fato de seu pai. Mais que nenhum outro soberano português da primeira Dinastia portuguesa.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 11 e som (“rumor”. voltando aos versos de Neide Archanjo. como um mecenas. na busca do oceano desconhecido. que. A corte do Rei Sábio teria proporcionado ao neto. “marulho”). Dinis. Essa concepção. uma profusão de artistas e sábios. e a valorização das iniciativas em prol do desenvolvimento cultural em terras portuguesas. Afonsina ou de Borgonha chamada. como o Foro Real e as Sete Partidas. e tendo por . em substituição ao latim. Portanto. que na Galicia cairia em progressivo desprestígio. dignificou como poucos a língua-romance. Muito mais que isso. demonstrara intuir a vocação marítima de Portugal e a necessidade de madeira para a construção de embarcações futuras. que se fixaria em Coimbra. os concernentes ao vestuário e aos instrumentos musicais. fora um dos mais fecundos trovadores dos Cancioneiros medievos. compondo cantigas nos vários gêneros aí presentes. a modo das histórias em quadrinhos de hoje. que se confundem com o seu cantar de “arroio”. Afonso III. a aquisição de conhecimentos para tal. retomada por Neide Archanjo. reunira na sua corte toledana. por exemplo. etc. representam o teor das cantigas e documentam usos da época. além de ter sido responsável pela produção das mais de 400 cantigas de Santa Maria. após ter sido a língua da poesia usada por todos os poetas ibéricos (e não só). Abrimos aqui um parêntese para lembrar que este avô materno de D. documentadas à época com pauta musical e ricas miniaturas.. cognominado o Sábio. Dinis. da primeira Universidade portuguesa. contribuíra de modo fundamental para a firmação da cultura que nos legaram: além de ter sido o criador dos Estudos Gerais em Lisboa. como. ter como sogro Alfonso X. o aprimoramento da veia poética herdada do avô. como vimos. tem respaldo na História de Portugal: D. D. e ordenar o uso do galego-português em documentos. ao aterrar pântanos e neles plantar pinhais. “fala”. afora textos codificadores e outros. Alfonso X fora também autor de cantigas profanas. Dinis. isto é. Enfim. ficando relegada à oralidade. de Leão e Castela. principalmente praticada por rudes campesinos. traria para o interior do palácio real a escola trovadoresca do noroeste peninsular.

D.. houve ritmos tons das vagas. Dessa forma. e “no hoje / sobrevivências de saga”. Dinis. Houve cantos me contando De maravilhosas plagas. nos séculos XV-XVI. Das idas às terras magas. Dos idos mares-magia. Para terminar com poesia esta introdução com poesia iniciada. refundidos e recriados. da qual foi um dos mais fecundos construtores. E o são ainda hoje. por elas tornada possível. (LEONARDOS.. p. primeiramente. da mesma forma que o rei-poeta. outrora. coletiva. que. que serve de introdução ao seu Romançário (LEONARDOS. enquanto poetisa. e a cultural. das caravelas. mas por poetas “cultos”. já que. teria ele o que exportar para a nossa terra: uma língua que ajudou a firmar e uma tradição lírica. “houve cantos. ..LA T ARIA DO OMPARO T 12VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. pelo canto dos colonizadores pioneiros. um tipo de composição anônima. Stella se inscreve na tradição do Romanceiro hispânico. com “vocábulos e gestas”. após uma longa tradição oral.. não apenas por cantadores nordestinos. uma das grandes cultivadoras do gênero no Brasil. épico-lírica: os romances. como veremos adiante. trabalhando.. Meus ontens marejam no hoje Sobrevivências de saga. 1974): Antes que o de mim errasse Nas vogais vogando vagas E consoantes azuleantes Do litoral que me indaga. invocaremos versos do poema “Alumbrado vaguear”. 3-4). 1974..) base tal formação do rei-poeta. foram documentados pela escrita. pela voz.”. de Stella Leonardos. Antes que eu – ai! – naufragasse Nas contas – como nas fragas De desgostos incontáveis – Houve ritmos tons das vagas. Mas as caravelas trouxeram. ibérica. Comprova a perenidade das duas navegações a que se referiu Neide Archanjo: a material. precedendo-a.

p. como o Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. ao italiano trovare. embora incompleta. compor versos. o mais completo de todos. do greco-latino trorus. terminando a sua documentação por volta de 1350. derivado. Essa produção medieva. nos Cancioneiros da Vaticana e da Biblioteca Nacional de Lisboa (antigo ColocciBrancuti) – este. a produção dos fidalgos trovadores. Delas participaram muitos dos poderosos da época. 5. cantigas de vilão (de origem não fidalga). ao catalão trobar. deduzido de contropare. inclusive Guilherme IX da Aquitânia. Dela divergiam também. regida por normas rígidas coligidas nas Artes de trovar. contendo. do latim vulgar tropare. Ambos são cópias italianas do . denominou-se “cansó” nos territórios localizados ao sul da hoje França e “cantigas” na Península Ibérica. daí. Do final deste século XII datariam os primeiros poemas escritos em galaico-português que se conhece. embora também praticados por nobres. O termo trovar derivou do provençal trobar. geralmente redondilhos. publicado em Portugal em 1516. filho bastardo de D. Tais composições apareciam ao lado dos vilancetes. donde “inventar” e. que tiveram o seu apogeu no século XII. fazer comparações. 1989. Dinis. ou até dançada. de versos curtos. “falar” (MACHADO. Do Trovadorismo medieval galaico-português Iniciaremos lembrando que por Trovadorismo é nomeada. v. figura de retórica. na Idade Média central. correspondendo ao francês trouver.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 13 1. composição de cunho popular. por volta do século XV. ao que tudo indica. proporcionando interações culturais várias. com a acepção de falar figuradamente. A escola trovadoresca ibérica foi certamente favorecida pelas peregrinações a Santiago de Compostela. as “trovas” e “cantigas” que foram documentadas nos cancioneiros ibéricos tardomedievos. Mas infelizmente só muito posteriormente seria feita a recolha da maior parte da produção trovadoresca. Pedro. em fins da Idade Média. uma Arte de trovar. Sua origem procede. com a morte do conde de Barcelos D. 346). por ser a escrita uma prerrogativa das classes altas. feita para ser musicada e cantada. primeiro trovador em langue d’oc. por sua vez. em tudo diversa do que hoje se entende por “trova”.

1.) início do século XVI. As notações musicais. provocada pela sintomatologia amorosa e pela indiferença. Nelas se fazem nítidas as influências do Trovadorismo occitano ou provençal. em 1990. estas reunidas em seu Cancioneiro específico. feitas por iniciativa de Angelo Colocci. Algumas poucas vezes. Dinis. Da época do Trovadorismo são apenas os códices das Cantigas de Santa Maria alfonsinas. esbelta (“delgada”) e clara (“alva”). etc. junto com os menestréis. inaugurando uma longa tradição que até os nossos dias perdura. as apresentavam em feiras. as de amigo e as de escárnio e maldizer. como já lembramos. por Harvey Sharrer.M ORA MA OD AIRA T LA 14VELAM SERAVATARIAPDO AMPARO MAVARES MALEVAL (ORG. e algumas miniaturas. o trovador expressa via de regra a sua renúncia ou sua dor. Apenas recentemente. além de outros gêneros ou sub-gêneros menos explorados e das cantigas de louvor e milagres da Virgem. romarias. masculinas. foram descobertas sete fragmentadas e mal conservadas cantigas de amor de D. anteriores a D. somente se encontram praticamente intactas no Pergaminho Vindel. ricamente iluminados e com pautas musicais.. Compostas pelos nobres trovadores. notadamente a dos cátaros ou . a sua coita. ou pelos jograis que. Após o apogeu alcançado no século XII. do século XIII. na Torre do Tombo de Lisboa. mas sem particularizar-lhe o físico: sabemos que é jovem. contendo este apenas cantigas de amor. Cantigas de amor Nas cantigas de amor. pela falta de mercê da dama. como ficou mais conhecido. praticado no sul da hoje França. da senhor inalcançável. em seis das sete cantigas de amigo de Martim Codax. desta louva as virtudes e a beleza sem par. Dinis com as pautas musicais. e o Cancioneiro da Ajuda. e outras muitas o tema da morte por amor. a poesia em langue d’oc sofreria a perseguição da Igreja. no que concerne à música profana. sendo que o trovador Johan Garcia de Guilhade acrescentaria a esses dados o dos “olhos verdes”. que à época combatia a heresia sob todas as suas formas. tinham como gêneros predominantes as cantigas de amor. cortes senhoriais diversas.1. os trovadores expressarão a sua alegria (a joi provençal) por amar.

delgadas. que muitas vezes conseguiram furtar-se ao uso do refrão. Mas o amor profano continuaria a ser cantado na cantiga de amor galaico-portuguesa que. definidos na Arte de trovar. o dobre (repetição paralela de uma palavra na estrofe). por outro lado.2. e apresentando por vezes uma clara influência da cantiga de amor.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 15 albigenses. ainda que documentando a tradição. Exercendo um papel ativo no processo de sedução. daí o culto à dame sans merci da cansó ter sido canalizado para o culto à Virgem. nos seus adros. exprimiam anseios amorosos. p. Antes. Se “menos variadas do que as provençais”. como a fiinda (remate da cantiga. o amor como um serviço militar. A maestria dos provençais serviu de paradigma para os compositores ibéricos. que hoje conhecemos sob a denominação de amor cortês. o mordobre (repetição de vocábulos através de formas derivadas) e a palavra perduda (verso que não rima com outros na estrofe). a serem objeto do respeitoso culto prestado à mulher incorpórea das cantigas de amor. amigo chamado. Cantigas de amigo As cantigas de amigo se filiam aos cânticos femininos de extração autóctone. mãe de Jesus. típico da poesia popular. muito embora escritos. não se limitavam. de um a quatro versos). alvas. etc. p. 47-61. segundo as regras da fin’amors. as jovens solteiras. a saudade provocada pela sua ausência. também pelos mesmos autores dos demais gêneros. 97-98) . Nelas. bailavam para atrair os jovens com a sua beleza e desenvoltura. alguns deles decorrentes do contágio com a poesia feminina autóctone. essas técnicas “ganham. não-palaciana. o desejo de encontrar ou reencontrar o namorado. dirigiam-se às fontes e ermidas. 1992. embora com matizes ibéricos.. propugnava a vassalagem amorosa. 54). ou sob as avelaneiras frolidas. em poder de concentração”. Em estudos anteriores (MALEVAL. todas igualmente belas. como ressalta Yara Fratescchi Vieira (VIEIRA. principalmente nas paralelísticas. 1999. onde. tinham por interlocutores a mãe ou as irmãs ou o próprio amigo ou algum elemento da natureza ou da religião. As marcas occitanas se fazem presentes em muitos recursos. 1.

constantemente ameaçado por peste.. relacionada com o culto ao deus com chifres de veado. buscada pelo amante sedento. para se transformar em ponto de namoro e símbolo da sexualidade e fecundidade femininas. a fonte deixa de ser exclusivamente lugar que propicia o abastecimento de água doméstico. Portanto. por ser necessária à reprodução e manutenção do grupo.) já destacáramos a antigüidade desses cantos de mulher. as ondas do mar são não apenas oráculos consultados pela jovem desejosa de novas do amigo ausente. isto é. afora esta e outras imagens evocadoras de uma sensualidade que persistira a par da ação coercitiva da Igreja. facilitadoras da memorização – como o leixa-pren e o refrão –. A estrutura paralelística dos dísticos (geralmente seis a oito estrofes. e principalmente. também chamados. o Cernuno dos celtas. não são estranhos à sua composição o céltico alálá e as técnicas do paralelismo. Enfim. Assim. de romaria. também a música e os aspectos formais dessas cantigas dão provas da sua ancianidade. bailadas. que se reduzem à metade. os quais. também.. marinhas.. a magia. apresentam características que os distinguem dos demais – dentre elas. Esses antigos cantos de mulher foram. cantigas de fonte. fomes e guerras. ou onde as roupas são lavadas. barcarolas. acrescentamos. de . literal ou de palavras. Assim.. sua pouca variação interestrófica aproximam a poesia das formas ritualísticas da magia. de significação ou conceito. representada na Bíblia como termo comparante do enamorado. se levada em conta a unidade de sentido de cada par) seguidos de refrão. estrutural ou sintática e rítmica. de acordo com os locais ou circunstâncias que representam. Esta imagem do cervo é típica do paganismo hispânico e. fora. onde cântaros são enchidos. se não foram os únicos praticados na Europa medieval.LA T ARIA DO OMPARO T 16VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. e apontam as suas origens imemoriais. a natureza. mas elementos evocadores/incitadores da libido ou locais do banho de amor preparador do encontro amoroso. por sua vez representado na imagem do cervo nas cantigas de Pero Meogo (AZEVEDO FILHO. a religião e a sexualidade se congregam nesses cânticos. 1995). as imagens através das quais se insinua um sensualismo desconhecedor das noções de pecado ou culpa trazidas pela Igreja cristã. bem como outras formas de repetição. e mental ou semântica.

mas. esta ter-se-ia “diversificado segundo os contextos sócio-culturais: em ‘cantigas de amigo’ no Noroeste. já que considerados de caráter licencioso. além de apresentarem situações e emoções mais variadas que as da cantiga de amigo. a sua ambientação é urbana. principalmente através da aequivocatio.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 17 resto. Serviam-lhes de alvo. atacavam. do duplo sentido). moral ou política. Mas a maioria apresenta um modo bastante rude ou burlesco de caricaturizar ou atacar. em ‘cantigas moçárabes’. Ressalta ainda a especialista o caráter reelaborado de muitas cantigas de amigo. as prostitutas. p. gênero nobre utilizado para a crítica social. tipos sociais e instituições. Scudieri-Ruggieri (1962. Cantigas de escárnio e maldizer As cantigas de escarnho e maldizer. Já Yara Frateschi Vieira opta por “supor como provável a existência na Península Ibérica de uma poesia feminina prétrovadoresca”. Também eram cânticos amorosos expressos em voz de mulher. ainda que baseados na tradição popular (VIEIRA. como as amas de meninos (uma vez que as regras do amor cortês determinavam que a mulher teria de ser hierarquicamente superior ao homem para ser por ele servida). direta (as de maldizer) ou indiretamente (as de escarnho. 1992. muitas vezes sob forma de tenção (desafio ou debate poético). Através de grande . na Espanha muçulmana”. Justamente na sua especificidade simbólica. as cantigas de amigo diferem essencialmente das carjas moçárabes. 1. Algumas poucas se aproximavam do sirventês provençal. que muitos julgavam as suas ancestrais. As carjas eram pequenas composições de caráter popular em língua romance arabizada. pessoas. 7-33) defende a ancianidade dos cantos de mulher galaicos. usadas como remate de poemas (muuaxahas) por poetas hispano-árabes ou hispano-judeus dos séculos XI a XIII. e não rural. p. que teriam sido levados para a Andaluzia por escravos galegos. 48-49).3. os que se dedicavam a cantar/servir mulheres indignas de culto pela sua posição social. também compostas pelos mesmos autores dos demais gêneros. os cavaleiros covardes e desleais. condenados pela Igreja em vários documentos eclesiásticos. por exemplo. feitas por poetas aristocráticos.

ocserielavac e sêtroc od -ep adartlif“ euq omsem . atividade à qual é imprescindível “entendimento” e gosto. e os “miragres” seguem o esquema do zejel ou do virelai. compostas por narrativas de milagres e louvores à Virgem. A autoria das cantigas vem gerando especulações que ora tendem para o reconhecimento de Alfonso X apenas como autor das cantigas autobiográficas. embora incompleta. a modo de epílogo é retomado o objetivo do(s) compositor(es): a recompensa celestial.)7891 . Via de regra.)45 . por exemplo. mesmo que nela tivessem colaborado numerosos poetas que lhe freqüentavam a corte. desiguais quanto ao número de composições. se considerarmos também as cantigas de festas não exclusivamente marianas). foi o Rei Sábio responsável pela maior coletânea medieval de poesias dedicadas à Virgem. no galardão que ela “dá aos que ama”. muito embora por vezes rivalizem com os “miragres” de Santiago. como talvez Airas Nunez. Cantigas de Santa Maria As Cantigas de Santa Maria foram documentadas em quatro pergaminhos de finais do século XIII. por ela abandonando o “trobar” por qualquer outra dona. feita de forma breve e respeitosa.p .NITHKAB( ”ralupop . a narração dos milagres.M ORA MA OD AIRA T LA 18VELAM SERAVATARIAPDO AMPARO MAVARES MALEVAL (ORG. especialmente as latinas. e cantiga-prólogo em que este se assume como seu “trobador”. senão na composição integral das cantigas. Os “loores” apresentam uma rica variedade de formulas métricas.edadinecsbo à odnecsed orar oãn acimôc arutluc“ a moc es-odnanoicaler .levárimda lacixel azeuqir amu ed e samrof e samet ed edadeirav -num od osrever o maicnuned . Alfonso X. é conservadora em relação às fontes.) .2991 . na seleção do tema. que aparece mencionado em uma nota marginal do códice. A coletânea é antecedida por cantiga biográfica de Alfonso X. cantiga que só não aparece na edição mais suntuosa. De qualquer forma. São 420 cantigas (ou 427. Tornado cantor exclusivamente da Virgem.ARIEIV( ”sacitárcotsira seõçnevnoc sal 1. aparece não apenas como sujeito . estes aparecendo de dez a dez cantigas. ora para a aceitação do seu papel fundamental. no modo de o tratar e na revisão do texto. Na “Pitiçon”. mostra-se confiante na sua mercê. apresentado como o cantor devoto de Maria.4. inclusive.ARIEIV .

5. 677-1094). que representou como nenhum outro o século XIX. obviamente. tendo por base a tradição oral.ocirébi omsirodavort 2. derivado de romanicu-) fora de início usado para designar a língua vulgar. como. 1989. sendo que o termo romance (do adv. assumiria o sentido moderno (MACHADO. que não devem ser confundidos com o gênero literário. Sob os ímpetos democrático-nacionalistas do Romantismo. de “romance de aventuras”. No século XV.sarutainim od aeruá acopé ad larutluc-oicós otxetnoc od sotelpmoc . 113). e. Do Romanceiro hispânico Um Romanceiro é. Composições tipicamente espanholas. 1966. a língua derivada da latina. Também não se trata das línguas regionais surgidas na Europa romanizada. embora mais extenso e em prosa. ressurgem no século XIX em coletâneas. não foram originariamente exclusivas da Espanha. II. e.odatlupes áres euq me ajergi à onairam otluc od saus sad e siacisum seõçaton saus sad sévartA . designaria as narrativas de cavalaria em prosa. v. em Portugal. promovendo a contaminação dessa palavra com rima. oposta à língua culta que era o latim. muitos deles em versos. na França. finalmente. A matéria coligida nos Romanceiros são poemas épico-líricos breves. o termo tomou o sentido de “conto”.mif roP . também narrativo. documentados na Península Ibérica. a partir dos séculos XIV (raros) e XV até à segunda metade do século XVII.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 19 . uma coleção de romances. p. como muitas narrativas eram na Idade Média escritas em romance. o Romanceiro de Almeida Garrett (GARRETT. para só citarmos um exemplo.)4821( otnem siam sotnemucod sod mu é onairaM orienoicnaC o .aossep aus à sergalim snugla odnanoicaler avitatroxe ahlocer a anitsed . romântico-burguês-nacionalista. resultando o termo sinônimo rimance.sociríl sotxet me -etroc e serailimaf a . a língua vernácula. depois. uma vez que podem ser considera- . latino romanice. p.soãs -atset ed sévarta .sovitarran sameop me meganosrep omoc sam . quando passam a ser depreciados pela estética neoclássica e relegados à oralidade.sêugutrop-ogelag me osserpxe . Mas.oãçavlas aus à odnasiv . v. no século XVII. também aí.

provençais ou piemontesas. . sea en danzas corales. más ilustres que los de la canción épico-lírica de los otros pueblos” (MENÉNDEZ PIDAL. Originalmente. segundo a competente argumentação de Ramón Menéndez Pidal. 10). como é o caso das que serão aqui coligidas. o poco menos. etc. 1946. E.. Também o caráter ético e tolerante para com o inimigo (judeu. No entanto. 9). sea en reuniones tenidas para recreo simplemente o para el trabajo en común” (MENÉNDEZ PIDAL. por exemplo as dos cantadores nordestinos. documentados também em Portugal e nos países de colonização ibérica. p. italianos. nem mais original. revivem hoje inclusive no Brasil. e se prestavam à divulgação dos acontecimentos histórico-políticos (e outros) da época. 1946. dos franceses.. la versificación épica”. e as canções épicolíricas francesas.LAVELAM SERAVAT ORAPMA AD AIRAM AVARES MALEVAL MARIA DO O MPARO T 20 (ORG. a sua especificidade se observa por “usar exclusivamente.. etc. nenhum país foi “más tenaz. embora também empreguem as monórrimas das gestas. incitador da imaginação do receptor. mas caracterizavamse pelo corte brusco. certos cantos franceses. o acompanhamento musical ainda se perpetua. usam os dísticos. Isto porque. alemães. 18). as baladas inglesas e escocesas. 1946. Mas nas versões “populares”. preferentemente à ausência de divisão em estrofes. lembra ele. versos de dezesseis sílabas com assonância monórrima.) das suas congêneres as viser suecas e dinamarquesas. sérvios. p. etc. ainda. na escrita ou na boca de poetas de diversa formação. gregos. eram cantados “al son de un instrumento. mouro. Evidentemente que hoje esses poemas não mais se subordinam necessariamente à música. más tradicionalista en mantener en actualidad un viejo género literário” (1946. afastando-se das formas estróficas dos velhos poemas germânicos. etc.) distingue-o de outros. na apreciação do erudito especialista que vimos citando. ou de crônicas. pelo menos em suas versões ditas “cultas”. as baladas e viser apresentam estrofes de dois a quatro versos geralmente. p. “revela una vez más las condiciones especiales de sus orígenes. Este fato. por exemplo. finlandeses. Os romances. tercetos. isto é. 26-29). ou ainda de serranilhas. pelo uso do fragmentarismo como procedimento literário (MENÉNDEZ PIDAL. Isto porque os romances hispânicos não apenas se constituíam de fragmentos de canções de gesta. p.

quando saíram do uso. mas não da memória colonial. como para toda a América espanhola. para só citarmos um exemplo de herói guerreiro perpetuado na nossa literatura de cordel. buscando os efeitos da emoção do lirismo do amor. que vão desde a literatura de cordel ou ao registro de pesquisadores com base na oralidade – por exemplo. 133). começam a ser registrados no norte. Os romances vieram para aqui cantados. dentro dos metros e modelos passados. . p. Mas no século XVI a recriação foi um processo de acomodoção ao gênio popular e muitos motivos surgiram.. anônima e coletiva. Na segunda metade do século seguinte. É importante assinalar que a voga do Romanceiro ocorreu em Portugal no século XVI. feita para o povo”. foram originalmente “feitos para o canto nas cortes e salões aristocráticos”. epopéia nacional. etc. ALCOFORADO. de luta e de conquista. Cremos que o folclorista quis acentuar a hegemonia. como os que adiante registraremos. E hoje documentam-se em inúmeras publicações. versificados ao sabor do gosto popular. e o foram até o século XVIII. pela memória do colonizador. temas sempre sensíveis e poderosos no espírito popular. com Walter Scott. e não “poesia democrática e vulgar. cantadas e trazidas para o Brasil.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 21 Segundo a conclusão do mestre folclorista Câmara Cascudo. em relação aos temas bélicos. A gesta militar de outrora. passou ao plano popular. Passaram as assonâncias e tonâncias às rimas simples. e neste caráter o romance teve voga extraordinária. não a exclusividade dos temas amorosos. 1974. LEONARDOS. ou na Inglaterra. já que no Brasil fecunda foi a herança de Carlos Magno no cordel nordestino. o Romanceiro ibérico na Bahia (ALBÁN. alheios aos motivos fidalgos. a exemplo do que ocorria em Portugal através de Almeida Garrett. número e heterogêneo. o poema nacional ao gosto de Laveleye. no Romanceiro popular. 1996) – aos poetas ditos “cultos”. mas fiéis aos tipos antigos. às lutas cavalheirescas do Voto do Pavão e aos sonhos do domínio cristão nas terras onde Cristo nascera (CASCUDO. época também da conquista do Brasil.

p. em 1923-1931. incluído o próprio Mário de Andrade. 1954. reunidos em sua maioria na presen- . tendo já focalizado aspectos das mesmas em estudo anterior (MALEVAL. delimitado por ponto ou ponto-e-vírgula. Stella Leonardos. 259-287). Além do mais. na década de 50. Destacamos que.1. na verdade blocos de tamanho aleatório geralmente compostos por versos de mesma rima. ou setessílabos pela nossa (com uma oitava átona facultativa). Cecília Meireles. renovaria o gênero com o Romanceiro da Inconfidência (1989). Atualizações da poesia medieval Deixaremos de lado maiores cogitações sobre a fortuna do Romanceiro no Brasil. p. estabelece-se de forma alternada. líder do Modernismo brasileiro. 3. 1980. O tipo de rima mais típico é a toante. também chamados de redondilha maior. geralmente duas duplas de versos formam um bloco quaternário. Onestaldo de Pennafort compôs um pequeno Romanceiro. irregulares. p. 3. documentada em numerosas recolhas da tradição oral. como tal denominado (PENNAFORT. 163-203). 2000. vamos nos ater à tendência que Manuel Rodrigues Lapa denominou Neotrovadorismo. uma vez que cada par de versos forma sintaticamente uma só frase. referindo-se a poemas do galego Bouza-Brey (BOUZA BREY. nos anos setenta. mas ocorrem também blocos de dois ou mais versos.MARIA DO OD AIRAM LAVELAM SERAVAT ORAPMA AMPARO TAVARES MALEVAL 22 (ORG. Deixando de lado por ora o gênero e seus outros cultores.) Quanto à forma. publicaria o seu Romançário. e as estrofes são de tamanho variável. 47). O Neotrovadorismo Antes de passarmos aos poetas brasileiros que podem ser incluídos no Neotrovadorismo. Este modo de realização rímico reforça a estruturação binária do verso. Muito raramente apresentam refrão. muito embora em romances mais recentes ocorra a rima consoante. O nosso objetivo é lembrar apenas algumas das recriações de romances por poetas eruditos no século XX. os romances se compõem predominantemente de versos octossílabos pela contagem castelhana. somente nos versos pares (xaxaxa).

dirigida a D. O marquês. além de autóctone. surgiria a par das vanguardas literárias acontecidas no pré-Guerra Civil Espanhola do século XX. p. o Trovadorismo galaico-português ficara por séculos envolto em densas trevas.) co espírito do século XX” (BOUZA BREY. unificada pelos Reis Católicos em fins do século XV.. refrán. na síntese de Xosé Manuel Enríquez. pondo em evidência o cantar das origens. 18-19). tornando-o um fenômeno também original. achamos conveniente observar as peculiaridades do mesmo na Galicia ancestral.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 23 te Antologia. e o da Ajuda em edição crítica de Carolina Michaëlis de Vasconcellos (1904). uma vez que sem manifestos ou outro tipo de doutrinamento – não fora meramente saudosista do esplendor passado. ligado a questões de identidade. de 1936.. Tal movimento neotrovadoresco – se é que podemos assim caracterizá-lo. antes de a Galiza ser submetida a séculos de silenciamento ditado pela centralização do poder na Espanha. em 1745 (ALONSO MONTERO. o de ColocciBrancuti em edição paleográfica de Molteni (1880) e crítica de Braga (1878). quando o galego fora língua literária de prestígio. II. já se referia a esse prestígio lingüístico como coisa do passado (LÓPEZ DE MENDONZA. p. Aí. 30). 218). leixa-pren. pode ser definido como. Embora heterogêneo. dos áureos tempos da hegemonia cultural galega na Península Ibérica. 1995. 1980. E os Cancioneiros medievos somente a partir de fins do século XIX seriam publicados – o da Vaticana em edição paleográfica de Monaci (1875). a referência feita pelo marquês de Santillana ao apogeu trovadoresco. se viu frustrado por motivo da Guerra Civil. Nele se uniriam as audácias metafóricas da poesia moderna com as velhas formas de expressão lírica. em carta-poêmio de meados do século XV. a ponto de causar espanto ao erudito Padre Sarmiento. extremamente propício ao sentimento de nacionalidade. Tomando Franco o poder. Apesar da sua importância. p. de preocupação com a terra que dominava então o contexto sócio-político-cultural galego. a sua política centralizadora sufocou com mãos de ferro as manifestações do . 1992. Condestável de Portugal. Surgira estreitamente ligado ao Partido Galeguista. cujo Estatuto de Autonomía para Galicia. uma “recriación do universo poético medieval (ambiente e recursos formais: paralelismo. Pedro.

Portanto. e Herba aqui e acolá. o catalão Carles Riba (Cantares d’ amor e d’ amigo. até os dias de hoje. já que. Também Johán Vicente Viqueira fora autor de poema datado de 1919. em 1905. p. como um dos primeiros recriadores da poesia medieval.) socialismo e do anarquismo tão profusas na Espanha da época. Deixando de lado outras especificidades do Neotrovadorismo galego. brasileiros. motivado por um namoro com uma jovem de ascendência galega. quando ocorriam movimentos pró-autonomia regionais. Constituem verdadeiros “bolsões de resistência” à descaracterização político-cultural. a par dos avanços tecnológicos que tornam cada vez mais possível a internacionalização da cultura. quando se forjavam as línguas do Ocidente. 36). observados na atualidade. e Seitura.LA T ARIA DO OMPARO T 24VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. fatores por excelência de identidade de cada povo. 1999. 1979) são os representantes mais significativos dessa “fase histórica” do Neotrovadorismo galego (LÓPEZ. apesar de Eduardo Pondal. p. O primeiro seria o seu criador. a Galiza é uma das vozes que buscam firmar a sua diferença essencial. em que são evidentes os traços formais e topológicos das cantigas de amigo paralelelísticas. Lembraríamos ainda. só recentemente divulgada (FERREIRO. escritos em 1911. para essa retomada . 1997. Nesse contexto. 1950. intitulado “Poemeto da vida”. retrocedendo às origens medievais. expostos intensivamente aos perigos da massificação globalizadora. o Neotrovadorismo galego inscreve-se nos movimentos de afirmação das identidades regionais reprimidas em maior ou menor grau desde o advento das Nações. o “movimento” conseguiria sobreviver. que desenvolvemos em lugar próprio (MALEVAL. 1955) e Álvaro Cunqueiro (Cantiga nova que se chama ribeira. 81-103). 1998. Quanto a Cunqueiro. mas que somente seria publicado em 1930. p. 1933. 1933. mas publicados apenas em 1987). 232). através de autores vários. exemplo a ser seguido por nós. Fermín Bouza Brey (Nao senlleira. foi o principal cultor e cânone seguido em fases posteriores. Dona do corpo delgado. lembramos que foram decisivas. fragmentando o que parecia tendente a desaparecer na globalização aludida. mesmo sofrendo um compreensível processo de desgaste. ter escrito uma “Cantiga trobadoresca al estilo de Johan Zorro”.

Onestaldo de Pennafort (In Espelho d’água. e Francisca Nóbrega. da UERJ. 1922. Lira paulistana 1944-1945). mantendo-lhes as diferenças. 1946. que as tornara acessíveis a um público mais vasto. 1985). da UFPE –. . o presente com o passado. Sabe-se que. 1954). as publicações de matéria trovadoresca. 1945. que possibilitam a universalização da cultura. Myriam Coeli (Cantigas de amigo. principalmente as Cantigas d’amigo e de amor editadas por José Joaquim Nunes. ou pela demanda das origens e do exótico. da UFRJ (MALEVAL. como – além dos já citados Marly Vasconcelos. Jorge de Sena (In O físico prodigioso. e José Rodrigues de Paiva (Cantigas de amigo e amor. 1974). 1981).POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 25 poética do medievo. Onde a terra se acaba e o mar começa. Citemos alguns nomes (e obras). 1911. e José Rodrigues de Paiva. 1951). também portugueses e brasileiros poetaram ou buscaram poetar sobre temas e/ou à moda dos cantares medievais galaico-portugueses – ou por experimentalismo. 1933). O jogral e a rosa. 1984). Hilda Hilst (Trovas de muito amor para um amado senhor. Nadiá Paulo Ferreira. ex-professora da UFC. 1987-1988). 1944-1947). in Poesia vária. sem ser iletrado. 1944. Marly Vasconcelos (Cãtygua proençal. 1941. respectivamente. Mário de Andrade (In Remate de males. silêncio e sonho. 1954-1958). Martins Fontes (In Sombra. sem levar em conta o grau maior ou menor de mimetismo por eles estabelecido na recriação de tópicos e/ou técnicas do Trovadorismo medievo: Afonso Lopes Vieira (In Canções do vento e do sol. 1948). Cantiga do desencontro. 1917. 1951. 1967). Ilhas de bruma. 1964). 1940). para não falar de alguns professores universitários brasileiros que vêm experimentando fazer poesias-leituras dos cantares arcaicos. Edison Moreira (In Cais da eternidade. Mafuá do Malungo. Augusto Meyer (In Poemas de Bilu. p. mesmo antes das atuais conquistas da tecnologia. 1960). Cecília Meireles (In Mar absoluto.157-165). 1929). Stella Leonardos (Amanhecência. Amor em Leonoreta. 1922-1931). Fiama Hasse Pais Brandão (Barcas novas. em 1928 e 1932. Paulo Bonfim (In Antônio Triste. Manuel Bandeira (In Lira dos cinqüent’ anos. via de regra movidos por uma auto-consciente intertextualidade que faz dialogar. Ou ainda as ressonâncias do Trovadorismo em poemas de Neide Archanjo (As marinhas. Guilherme de Almeida (Cancioneirinho. 1996. País Lilás.

con estudio biográfico. mas restringindo-se ao Neotrovadorismo galego. Apesar de não ser ainda a esperada edição crítica da matéria dos Cancioneiros medievos. destacando o papel da literatura medieval no ideário nacionalista. este igualmente explorado pelo “desafio” gaúcho (ARMANDO. que assinala a questão da influência de trovadores ou cantigas sobre poemas neotrovadorescos. e que. intitulada New-troubadourism in Galicia. p. frisamos que a reflexão sobre o diálogo estabelecido do presente com o passado. Esta encara o fenômeno numa perspectiva historicizante. posteriores. levada a termo por uma equipe de pesquisadores do Centro de Investigacións Lingüísticas e Literárias “Ramón Piñeiro” da Xunta de Galicia. coordenada por Mercedes Brea (1996). deixa de lado autores importantes e mais atuais. sob o esclarecedor título de Antología crítica de la Poesía Neotrovadoresca Gallega. intitulada A recuperación da tradición lírica medieval en Galicia: o Neotrobadorismo. como a de Pilar Castro. no tocante ao Trovadorismo medieval. na Universidade da Coruña.. Lembraria ainda que.) ou Teresa Cristina Meireles de Oliveira. por serem tão afetos a certos temas medievos e ao recurso do leixa-pren. fornece boas notícias dos . também se debruçaram sobre o assunto. até pela época já distante em que foi elaborada. 1998. 1995. análise retórica e bibliografia específica. foi recentemente publicada uma monumental edição da Lírica profana galego-portuguesa – corpus completo das cantigas medievais. 265-267). tem sido valorizada pela Academia da forma mais relevante. Antes de nos atermos às peculiaridades das obras/autores brasileiros. embora se baseie em edições preferentemente críticas de alguns trovadores. etc. da PUC e da UFRJ (MALEVAL. através de teses de Doutoramento. Outras teses. 106). na Universidade Complutense de Madrid. defendida em 1989. e apesar de não apresentar uma desejável uniformização ortográfica. p. pela via do Neotrovadorismo. Portugal and Brazil. Ou a de María Teresa López Fernández. Tal é o caso da tese de William Myron Davis. defendida em 1993. efetivadas por professores universitários de vários países. defendida em 1969. além de muitos estudos e edições críticas parciais de trovadores. na New York University.LA T ORAP DO OD AIRA T 26VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. Também poderiam ser arrolados os repentistas nordestinos.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 27 trovadores e textos. p. 1981.. proclamando-se uma nova concepção da arte e uma nova consciência da realidade nacional. em relação aos modelos portugueses e o combate aos extenuados valores europocentristas. realizada de 13 a 17 de fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo. p. É importante esta observação. acompanhados de exposições de escultura. sem dúvida. através de autores ligados ao Saudosismo lusitano. Martins Fontes. dada a circulação e receptividade da sua obra e das suas idéias nos principais círculos culturais e nacionalistas de Galiza à volta dos anos vinte (LÓPEZ. fundamental importância nos seus primórdios. lembraríamos que muitos dos primeiros “neomedievalistas” brasileiros são contemporâneos ou participantes do movimento modernista. que o português Afonso Lopes Vieira (1878-1946) teve. pintura e arquitetura. 132) que ele fora o primeiro autor português a usar “de maneira sistemática”. além dos mais famosos Guilherme de Almeida e Manuel Bandeira. 132). p. como pioneiros. nessas preliminares. na recriação do poema medieval. que no Brasil se firmou com a Semana de Arte Moderna. como Guilherme de Almeida. Augusto Meyer (ARMANDO. etc. bem como no Brasil. Paulo Bonfim (COELHO. p. 1997. 106). através de sessões ou festivais literato-musicais. Já observara Teresa López (1997. embora não possamos determinar com precisão quem teria sido o seu primeiro realizador. Voltando à nossa reflexão sobre o Neotrovadorismo. 4. além de ser a mais completa edição da lírica profana até hoje publicada. 19-26). observaríamos ainda. mesmo que antes dele João de Deus compusesse o “Desalento”. Onestaldo de Pennafort. citamos. Quanto ao Brasil. publicado em 1919 na Galiza (LÓPEZ. 1997. 123). os “recursos e temas do cancioneiro medieval”. da nossa língua. “Retoque da lírica 505 do Cancioneiro da Vaticana”. 1995. Mas a poesia . dado que dentre os postulados básicos do nosso Modernismo se encontravam justamente a luta pela emancipação da nossa literatura. p. O Modernismo brasileiro e a tradição medieval Antes de destacarmos algumas particularidades individuais.

83). Quanto à poesia épico-lírica do Romanceiro hispânico. p. 1987. Aliás. 232).) lírica medieval galaico-portuguesa.LAVELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL T ARIA DO O MPARO T 28 (ORG. Mário de Andrade O próprio Mário de Andrade (1893-1945). Que vou-me daqui sem saber pra onde vou! Eu cheirei um dia um aroma de flor E vai. mais precisamente no seu “Prefácio interessantíssimo”. retomou o Trovadorismo medieval em alguns poemas. Tal retomada da lírica medieval se observa no poema “Cantiga do ai” (ANDRADE. ou uma forma de subserviência a modelos estrangeiros. p. apresentava-se no início do século XX como novidade redescoberta. evidentemente que renovando-lhe o ideário e a linguagem. que foi um dos principais manifestos modernistas no Brasil. sem poder ser considerada uma “receita”. ele próprio se autodefiniria em Paulicea desvairada. uma ingrata tão fria me olhou. fiquei doendo de penas de amor! Foi minha ingrata que por mim passou! Ai. malvada ingrata que escolhi vem! Eu sofro e não posso queixar de ninguém! . obra composta de 1920 a 1922. pois. 1987. Remate de males.1. os Cancioneiros medievais só a partir do final do século XIX passaram a ser divulgados através de publicações integrais. 4. eu padeço de penas de amor. gentes! Eu parto! Não sei pra onde vou! Ai. nos seguintes termos: “Sou um tupi tangendo um alaúde” (ANDRADE. publicado em “Tempo de Maria”. 1941: CANTIGA DO AI Ai. como vimos. tendo em vista o seu caráter de oralidade. que foi o principal líder do Modernismo brasileiro. raramente revisitada nos séculos da nossa colonização. Meu peito está cheio de luz e de dor! Ai. integrara-se ao imaginário do nosso povo.

Em “Lira paulistana”. É a boca-da-noite virada mulher! Ai. decorrente da indiferença da mulher amada. relacionando o poeta a mulher amada à “bocada-noite”. escritas entre 1944 e 1945. Oh.. menestréis etc. A esta tradição vêm se juntar as audácias metafóricas e metonímicas ou sinedóquicas do modernismo. já que as violas ou fístulas eram instrumentos usados pelos jograis. Em “Minha viola bonita. pena tamanha que me quebrou! Adeus! Vou-me embora! Não sei pra onde vou! Lastimem o poeta que vai partir. mas também pelo uso da técnica do paralelismo. boca de carmim! Ingrata malvada que não pensa em mim! Ai. além do título (“Cantiga”) e da estrutura binária das estrofes. 351) reminiscências medievas são evocadas não apenas pelo termo “viola”. olhos riscados para não me enxergar! Ai. A utilização reiterada da interjeição “Ai” também se inscreve na tradição lírica medieval. segréis. temos revisitadas principalmente as paralelísticas do jogral galego do século XIII. ela é rosicler. cujas virtudes são causa de orgulho do trovador por amá-la. é retomado o motivo da “coita” amorosa. unhas de vidro para me encantar! Ai. É linda a malvada que fui escolher! Tem a mansidão dos portos de mar Mas porém é arisca que nem pomba-do-ar! Ela é quieta e clara. amantes se amando no imenso Brasil! … 29 Neste poema. 1987. etc. mais precisamente do paralelismo sintático – deslocação dos termos na frase – objetivando a variação do verso: “Minha viola bonita / bonita viola minha”: .. peito liso. longo poema composto de peças variadas..POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Sofro mas me orgulho de meu sofrer. p.” (ANDRADE. comum nas cantigas de amigo paralelísticas. Martin Codax. representando-a pelas suas “unhas de vidro”. o que é uma tópica comum nas cantigas de amor medievas.

1987.M ORA MA OD AIRA T LA 30VELAM SERAVATARIAPDO AMPARO MAVARES MALEVAL (ORG. sendo substituído o bailado da jovem pelo do “espírito” do sujeito da poesia: São Paulo pela noite..”. O coração alçado Se expande em luz sinfônica.. Namorada viola minha. lutas. Meu espírito alerta Baila em festa a metrópole. cresceste comigo Nas Arábias. Cresci. Minha viola quebrada Raiva.. Ferida viola minha. O espírito cansado Se arrasta em marchas fúnebres. cantaste comigo Em Granada. São Paulo pela noite.. “Eno sagrado en Vigo. São Paulo noite e dia … .) Minha viola bonita. Em “São Paulo pela noite. vida.” (ANDRADE. São Paulo na manhã. 352) temos a evocação da bailia de Martin Codax. Meu coração aberto Dilui-se em corpos flácidos. Bonita viola minha. Miséria. tudo passou-se Em São Paulo. Minha viola ferida. Minha viola namorada. p. anseios. O amor fugiu para leste Na borrasca. São Paulo na manhã. Cantei.

desumano na grande metrópole. Tal se consubstancializa na “fiinda”. recurso medieval que remata a cantiga. em contraposição à luminosidade feérica da noite que nela se observa é. com a explicação final de que “a forma do futuro / define as alvoradas”: o amor como motivo essencial é substituído por preocupações pautadas na desumanidade da existência no mundo industrializado. e o dia a sua separação. Onde está? Caminhos da cidade. p. cansativo. O labor diário. Onde está o amor vivo. constituindo agora a síntese da sua dialética.”. p. complementada pela oposição romântica do poeta ao mundo: “Sou bom. substituindo-se em cada estrofe a euforia de “São Paulo pela noite” pelo estado contrário de “São Paulo na manhã”. E tudo é cólera”. 353) e. “baila em festa a metrópole” e o seu “coração alçado / se expande em luz sinfônica”. 31 Neste poema é utilizada a técnica do paralelismo. ao passo que pela manhã o seu “coração aberto / dilui-se em corpos flácidos” e seu “espírito cansado / se arrasta em marchas fúnebres”. Em “Garoa do meu São Paulo” (ANDRADE. Numa evocação também das antigas albas provençais.. o contraponto que se estabelece. levando-se em conta os elementos formais (refrão e paralelismo). O crime do presente Enoitece o arvoredo: Sou bom. se bem que não já por motivo de esta proporcionar a união dos amantes.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL A forma do futuro Define as alvoradas: Sou bom. ainda mais claramente. em “Ruas do meu São Paulo” (ANDRADE. desde o ritmo dos versos hexassílabos: Ruas do meu São Paulo. de forma dialética. E tudo é cólera. ocorre a preferência pela noite.. 1987. 1987. Onde está? . pois. E tudo é glória. Corro em busca do amigo. 355) podemos observar um diálogo com “Ondas do mar de Vigo. na noite paulistana de Mário.

Abre-te boca e certeira. 197). Onde está? Caminhos da cidade. trocadas por Mário pela cidade (de São Paulo) e sua garoa. Cala-te boca.) Ruas do meu São Paulo Amor maior que o cibo. é pelo sujeito da poesia introjetada: “Garoa. uma das últimas compostas pelo poeta. Mas já nas suas primeiras obras tal se observa. a “amiga”. Esta primavera louca. na “fiinda” deste poema. 1987. Aí está. no poema “Garoa do meu São Paulo. Abre-te a boca e proclama Em plena praça da Sé. podemos comprovar a sua herança em peças como a da “triste história de Pedro” em Lira paulistana. sai dos meus olhos”. Nos séculos malditos. Onde está? Há de estar no passado. em 1927: .LA T ORAP DO OD AIRA T 32VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. por exemplo em “Coco do major” (ANDRADE. publicado na época do Primeiro Modernismo. Mas as preocupações com a injustiça social e o Nazismo substituem agora as indagações que outrora a donzela. O horror que o Nazismo infame É. Conta os crimes que o estrangeiro tem. Com relação aos poemas de cunho primacialmente narrativos do Romanceiro. Os tico-tico mimosos. Mas exalta as nossas rosas. A culpa do insofrido. fazia às oraculares ondas do mar. Resposta ao meu pedido. p. Onde está? Ruas do meu São Paulo. Sem piedade por ninguém. Garoa que.

Dois negrões agarram o afoito. Beba. – Esta é minha filha mais velha. Bate alguém na sede do engenho .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL COCO DO MAJOR a Antonio Bento de Araújo Lima (Rio Grande do Norte) O major Venâncio da Silva Guarda as filhas com olho e ferrolho. Por favor me dê um copo de água … – seu mano – Pois não. ando morto de sede. um mocetão paroara Destorcido porém sem cabeça Apostou num coco da praia – seu mano – Que daria uma espiada nas moças. Vêm três moças lindas chorando – seu mano – Com quartinhas de barro cinzento. 33 . – Seu major. Que vidinha mais caningada – seu mano – Elas levam no engenho do velho! Nem bem a arraiada sonora Vem tangendo as juremas da estrada Já as três se botam na renda – seu mano – Trequetreque de bilros. Vai. moço! Se apeie da égua. Pois a fala do lambanceiro Foi parar direitinho no ouvido Do major Venâncio da Silva – seu mano – Que afinal nem se deu por achado. O major assobia pra dentro. moço que essa água é de sanga. mais nada. E os negrões obrigam o pobre – seu mano – A engulir a primeira moringa.

2. Beba. 1996. foi também poeta. que essa água é de fonte. “coco”. já vesgo. 4. Dessa forma. E os negrões afogam o pobre – seu mano – que adubou os faxineiros do monte.”.. p. sem voz. porque me metestes / en tal prison e porque mi tolhestes / que non possa meu amigo veer?” (BREA. 736). e temáticos amalgamados. o desejo. que essa água é do corgo.. 1996. O major Venâncio da Silva Tem as filhas mais lindas do norte Mas ninguém não viu as meninas – seu mano – Que ele as guarda com água de pote. 67-75) que Mário de Andrade procedeu à assimilação de temas da literatura medieval pela via da cultura popular: o pai. “cantiga”. aos quais extermina: “O major Venâncio da Silva / guarda as filhas com olho e ferrolho. não apenas no que concerne a elementos formais – inclusive o uso do refrão e o paralelismo –. moço. madre. já expressa desde o título das composições: “lira”. beba. além de jornalis- . nascido em Porto Alegre. sem direito a namorados. as tradições épica e lírica medievas são reaproveitadas por Mário. 1970. Augusto Meyer Augusto Meyer. MALEVAL. A propósito. e falecido no Rio de Janeiro. embora mais conhecido pelos seus excelentes ensaios. moço. 1902.LA T ARIA DO OMPARO T 34VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. E os negrões obrigam o pobre – seu mano – a engulir a moringa. p. etc. guardião da honra das filhas. – Esta é minha filha mais nova. já observara Sonia Inez Gonçalves Fernández (FERNÁNDEZ. mas à união da poesia com a música. ao passo que a prisão das donzelas pela mãe no Trovadorismo medieval ibérico não lhes inibe a voz.) – Esta é minha filha do meio. como podemos ver na cantiga-tenção de Pero Amigo de Sevilha “Dizede. tem-nas prisioneiras.

fez algumas incursões neotrovadorescas de forma lúdica. publicadas em 1929 na obra Poemas de Bilu. p. s. O non trobemos. Enquanto poeta.. já não serás bom jogral. 1957. bailemos ao menos No ritornelo destas retornadas! (MEYER. Ai Bilu. menestrel – pelo “desenxabido” e “desenganado” Bilu “de corincho caído / quebrado” (“corincho” significa topete ou arrogância. na “Canção do chus”: Amigo. com conotações inclusive obscenas. segrel. 1957. trobemos clus. Quem te vê tão desenganado. 147). daí a expressão “quebrar o corinxo” no Rio Grande do Sul): Ai Bilu de corincho caído. mentr’al non fazemos. nem segrel. Nem cantarás. isto é. Mas a estrofe-verso final corrói a aura de seriedade dessa reflexão. 371). ai! qual menestrel! Mas bailemos. p. lá vai perdida. humorística. bailadas.. e sus! Que malmaridada é a alma E a vida. cantigas. bailemos A dança d’ombros. Bailemos poemas. sem chus nem bus. ai Bilu. com o jogo verbal estabelecido através dos termos “chus” e “bus”. jogral. Bailemos. é a “alma”. o poetar hermético da arte de trovar occitana. Por exemplo. outro termo ligado ao Trovadorismo. Deixá-la. na qual a malmaridada. p. 158). basófia. Já não serás nem jogral. Quem te viu tão desenxabido.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 35 ta. memorialista e folclorista. Aí se observa uma brincadeira a partir da expressão trobar clus. Meyer substitui a imagem. (MEYER. Em outra “Bailada”. Recria-se uma nova bailia. Ai Bilu de corincho quebrado. composta nos anos 1928-1929 (ARMANDO.. as qualidades do artista medievo – trovador. Nem trovarás. ai! como proençal. .d. como tal denominada.

haveredes De avelenar coraçom. quo vadis? Que me enchedes de soidades. A esta façon me feredes Deperecer por mi fé De vossas blandas beldades.. sinônimo de irrealização ou de indiferença. como já observara Maria Luiza Armando (ARMANDO. 1996. a nota cômica é dada pelo descompasso entre a erudição demonstrada no uso de termos e expressões em latim (quo vadis) ou do galegoportuguês (várias) e a estrofe-verso final. A esta façon me deixades? Senhora minha. e também uma alusão paródica à cantiga de D. Nesta mesma cantiga é feita uma referência expícita. 162). p. o abuso do sufixo verbal -des contribui para a “brincadeira” de Meyer. tão caro à iconoclastia modernista. Dinis “Proençaes soen mui bem trobar (BREA. ai amigas. 374). à bailia de Airas Nunez de Santiago – “Bailemos nós já todas três. 217). que apresenta o popular “mardades”. ou as pelejas nordestinas e desafios gaúchos. um dos mais importantes críticos literários do Brasil: Senhora minha. bem como às retornadas.) A Bilu só resta a dança de ombros. 122) –.” (BREA. y ay quão cuitado deixades a quem tão mal atendedes! Deixaredes de mardades (MEYER. 1996. nos casos apresentados dialogando com a nossa lírica ancestral occitanogalaico-portuguesa. o poema-piada. Já na composição denominada “Rimance”. cantigas que se mantiveram no folclore português e das quais se aproximam as desgarradas e os desafios. p.. p.LA T ARIA DO OMPARO T 36VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. p. Portanto. . s.d. no primeiro verso da terceira estrofe.. 1957. teve em Mayer um dos seus cultores.

O Neomedievalismo no Brasil Na Antologia apresentada na segunda parte desta obra. e ainda dos portugueses Bernardim Ribeiro e Eugênio de Castro. Além de tradutor. a retomar claramente as cantigas dos trovadores medievos. 1996. Onestaldo de Pennafort A poesia do carioca Onestaldo de Pennafort (1902-1987) recebeu a influência dos mestres parnasianos e simbolistas franceses. Alguns poetas. optamos por reunir poetas famosos ao lado de outros menos conhecidos que. o das professoras Nadiá Paulo Ferreira e Teresa Cristina Meireles). na obra Espelho d’água. Certamente que estas atividades facilitaram-lhe tornar-se um dos primeiros poetas. abordaremos os autores de poemas coligidos na Antologia. p. senão o primeiro. 606). Poucos são os que retomam. Os critérios de exclusão variaram desde a dificuldade de conseguirmos autorização para publicação (como foi o caso de Mário de Andrade e Augusto Meyer) ao número muito escasso de experiências neomedievalistas (por exemplo. mesmo intitulando os seus poemas por gêneros medievais. que retomam a Idade Média.1. de Verlaine (Fêtes galantes)” (BANDEIRA. A seguir. Esta é a competente avaliação de Manuel Bandeira. 5. Observamos que esse Neomedievalismo brasileiro é uma prática muito heterogênea. apenas se restringiram a manter-lhes alguns vocábulos específicos. outras vezes a parafrasear um texto arcaico. Principalmente nos poemas “Cantar de . tomá-lo como mote a ser glosado ou com ele dialogar literalmente. através do Trovadorismo. que recolhe poemas escritos de 1922 a 1931. Nesta podem ser lidos na íntegra os poemas a que nos referirmos. foi ensaísta e memorialista. sobretudo à volta de universidades. praticaram as suas incursões poéticas no medievo. Certamente que não recolhemos todos os autores e poemas encontrados. mas não só. as estruturas medievas. principalmente. que destaca ter sido ele “exímio tradutor de Shakespeare (Romeo and Juliet).POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 37 5. completamente ou quase. trazendo-o para o interior do novo poema.

e a estrofe é única. pelo título. 117) e “Cantar de amiga” (PENNAFORT. sem apresentar-lhes o costumeiro diálogo. a evocação das pastorelas. O “Romance do Conde aragonês” reapresenta uma tradição que deita raízes no Romanceiro ibérico. oposta à atitude cortês do amante. Dedicou-se sobretudo à revitalização da tradição tardomedieva. constituindo um quadro desmaiado e melancólico da natureza ao entardecer. como nos romances viejos. seios / frutos. e faz uso da rima consonântica. p. a epígrafe remete para o contexto das cantigas descarnho dos trovadores galaico-portugueses. Pennafort transforma o tema da filha transgressora no da esposa adúltera. o “Romance da rosa”. v. 1954. que não apenas desmascara o embusteiro. mas conservando a unicidade estrófica do antigo Romanceiro hispânico. mais especificamente carioca. Destes. com composições elaboradas de 1923 a 1931. 823-826). remetendo. “Dona Ausenda”. Dentre os primeiros. p. 121) tal se observa. Guarda certo parentesco com o romance “La amiga de Bernal . e à forma de dístico e a voz feminina. p. Este se divide em “Romances d’alémmar”.LA T ORAP DO OD AIRA T 38VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. E o tema é o da mulher virtuosa e esperta. 1954. que dão continuidade ao gênero.) amigo” (PENNAFORT. p. No “Romance do vilão”. publicada por Almeida Garrett (GARRETT. no segundo. para o conhecido romance da erva que engravida. encontram-se o “Romance dos sete cavaleiros”. o “Romance do Conde aragonês” e o “Romance das três irmãs ou Miramar”. glosada no poema através dos comparantes boca / vinho. os que mais claramente se reportam à tradição ibérica. 1966. são o do Conde aragonês e o do vilão. em versão que não conseguimos identificar. ao invés da assonância. que recriam temas da Idade Média. com temas já da sua mundividência brasileira. através das epígrafes. compondo um Romanceiro. através da epígrafe. mas que teve uma variante. ou da Infanta prenhada. mas a falta de gentileza do esposo. 1954. nos versos pares. no primeiro. mas. delas se afasta. e “Romances d’aquémmar”. desde o título à epígrafe. No entanto. Em “Pastoral” (PENNAFORT. o “Romance do vilão”. reino da aequivocatio realizada na dupla acepção do verbo “comer” (alimentar-se / copular). II. 123) sugere. A rima consoante estabelece-se agora entre palavras oxítonas.

Já Pennafort faz o vilão. 1954. // O vento dá-lhes pancada / com suas maneiras brutas. p.. / levantou-s’alva. que trata também de um embuste: o marido que se faz passar pelo amante para desvelar o adultério da esposa. 186). “Romance do menino no jardim”. paulista de Santos (1884-1937). mesmo sendo esse movimento uma reação à tradição literária (e não só). Apesar de médico. “Romance da Rua Constante Jardim”. No entanto. 5. O primeiro deles ainda evoca-nos a cantiga de D. pelas epígrafes. passar-se pelo marido. 196-197): “Roupas secando na corda / ao rijo vento de agosto. / tanto mais ficam enxutas ” (PENNAFORT. (. Martins Fontes Martins Fontes. assim. Dinis “Levantou-s’a velida. “Romance do ignorante” e “Romance dos sobrados da Rua das Laranjeiras”. assim”) e “Romance do transeunte antigo” (“Se estas ruas fossem minhas / eu mandava ladrilhar”). / e vai lavar camisas / e-no alto.2. “Romance dos olhos no espelho”. “Romance do Passeio Público”. destacaríamos dois.) O vento lh’as desvia.” (BREA. p. de . sendo no entanto descoberto o estratagema pela esposa fiel. mantinha estreito contato com escritores. um dos mais antigos. Os demais romances pelos próprios títulos desvelam o caráter intimista ou de atualidade ou de circunstancialidade que apresentam: “Romance da fonte e da lua ou o artista”. embora o faça em poucos exemplos. / Quanto mais forte a lambada. ajudando Oswaldo Cruz na profilaxia urbana do Rio de Janeiro. Além de jornalista. então Distrito Federal.. no início da década de 10. nunca se afastou das Letras. / Vai-las lavar alva.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 39 Francés”. remetem à tradição das cantigas de roda: “Romance da lavadeira das encostas de Santa Teresa” (“As lavadeiras fazem assim. “Romance do vento de cismas”.. “Romance da Praça Gonçalves Dias”. candidato a amante. que. “Romance do Largo do Capim”. 1996. foi um dos pioneiros na recriação de cantigas trovadorescas.. “Romance do emparedado”. / desde que a manhã acorda / até que seja sol posto. Quanto aos demais “Romances d’aquém-mar”. participando da eclosão do Modernismo no Brasil.

no séquito do presidente eleito Júlio Prestes. paradigma ao qual não obedece integralmente. não exemplificado nos Cancioneiros. Lembramos que o gênero. e a viagem à Europa em 1930. personagem de Menina e moça. em 1325. já citada acima. Em outro poema. que tão bem a louvara em “liras no son”. solau. Embora usando o refrão medieval. vossa mãe me está lembrando. no entanto a forma é também outra. Apenas sabemos que era um gênero poético-musical tardo-medievo. derivado do provençal planh. denominado “Solau”. que no vosso nascimento vos houve a fortuna inveja. retoma a cantiga de amigo do jogral galego Juião Bolseiro. lamentar a morte do “Dom Lavrador” e tecer-lhe o panegírico. Dinis. em 1924. entre mágoa.) cunho extremadamente nacionalista.LA T ARIA DO OMPARO T 40VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. sobretudo da sua feição de “Rey Trobador”. Morto era o contentamento nenhuma alegria ouvistes: . um “cantar à maneira de solam” ou solau: Pensando-vos estou. Nascestes. enchem-se-me os olhos d’água nela vos estou lavando. parafraseando o elogio nela estabelecido pela jovem ao trovador. Este último põe na boca da ama de Arima. A sua eleição para a Academia das Ciências de Lisboa. e na de Johan de Leon. certamente que teriam contribuído para o estreitamento de laços com a cultura avoenga. de “troveiro das velhas Tenções” “do tempo da frôl”. ao qual aludem escritores quinhentistas como Sá de Miranda. filha. que o aproximara do sirventês moral. através de quadras. para bem inda vos seja. não impediu que o poeta fizesse as suas já mencionadas experiências neotrovadorescas. filha. Jorge F. Num dos seus poemas. apresentava-se em galego-português nas raras realizações de Pero da Ponte (quatro). considerando-o superior aos provençais. de Vasconcelos e Bernardim Ribeiro. Limita-se a. Abrimos um parêntese para lembrar que a Arte de Trovar do Cancioneiro da Biblioteca Nacional não registra nenhuma composição com tal título. retoma o pranto do jogral leonês Johan sobre a morte de D.

Mas não pode ser. que vi dias e anos nenhuma cousa duvido como ela é causa de danos. senhora. Não era esta graça vossa para nascer em desterro.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 41 vossa mãe era finada. em ambas há i cuidado! (RIBEIRO. nós outras éramos tristes. razão nem se consente rogar. Conforto mais duvidoso me é este que tomo assim. De vosso pai hei mor dó. em dor crescida. Eu vos ouvi a vos só primeiro que outrem ninguém. cos olhos verdes crescer. Que a dita e a formosura. não sei onde isto há-de ir ter! Vejo-vos. dizem patranhas antigas que pelejaram um dia sendo dantes muito amigas. Não fôreis vós. se eu não fora. e a mágoa nós. formosa. em fados. filha. Muitos hão que é fantasia.104-105) . Eu. Deus vos dê melhor ventura que a que tivestes té qui. que de si se há de queixar. E na crença e na esperança em ambas há i mudança. p. Nada em dor. para mal nenhum nascerdes com este riso gracioso que tendes sobre olhos verdes. para morrerem por vós! Não houve. Mal haja a desaventura que pôs mais nisto que o erro! Tinha aqui a sepultura vossa mãe. não. Mas nenhum mal não é crido. não sei se fiz mal se bem. O bem só é esperado. [1985]. Não éreis vós. filha.

aproximando-se. o que nos interessa. p. seria o solau uma adaptação da terça-rima italiana à quadra. quanto na repetição de alguns versos. E. com pequena variação: “Fex ¢a cantiga d’amor” / “Fez umas trovas de amor”. que também por vezes lança mão do encadeamento. Este livro era o predileto do poeta. sempre variadas (XABA-BCDC-DEFE-FGHG). Aí. Martins Fontes aproximou o seu poema muito mais da cantiga medieval de Juião Bolseiro. do trovador. para quem esta obra seria “um ato de criação que encarna o amor num ser feminino pra lhe dar . v. o Livro de Horas de Sóror Dolorosa. Guilherme de Almeida O paulista de Campinas Guilherme de Almeida (1890-1969) publicara. considerando-o mais plangente e lírico: o solau será sempre cantar triste como indica Bernardim Ribeiro? Narrativo é ele também pelo que tão claro nos diz Sá de Miranda. apresenta-a também agradecida. nele já se registra a referência a um gênero literário medieval. “o parnasianismo cede lugar ao simbolismo”. do que para os contar ponto por ponto (GARRETT.. mas pelo trovar que lhe traduziu o sofrimento. retomado em aspectos gráficos (capa. 2. analisando os gêneros narrativos populares em verso. ao invés de apresentar a amiga agradecida e seduzida pelo canto elogioso. vinhetas e letras capitulares tardo-medievas ou renascentistas). Eu inclino-me a crer que o solau é um canto épico ornado. 5. mais para gemer e chorar sobre eles. o livro de horas. na opinião da crítica (COELHO. 1973. em 1920. do fado. tanto no esquema rímico.M ORA MA OD AIRA T LA 42VELAM SERAVATARIAPDO AMPARO MAVARES MALEVAL (ORG. segundo o testemunho de Odylo Costa Filho (COSTA FILHO. p. Ao que tudo indica. Mas uma coisa não exclui a outra. 1972).3. que só rompe por acrescentar mais um verso a cada estrofe (ABBA+A). apresenta as seguintes características: inicia-se por um verso octonário branco e segue com rimas cruzadas. Almeida Garrett. Só que. em que as efusões líricas acompanham a narrativa de tristes sucessos. cortês. 1966.) Como se pode observar. 780). pelo tom de tristeza. 40). etc. distingue-o do romance e da xácara.

constituida pelo seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. que adiante comentaremos. A saudade que nele se observa não é mais tão somente a da amiga pelo namorado.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 43 ‘toda’ a dimensão humana”. 1006). 1952) que o poeta mergulharia ainda mais na Idade Média. como se percebe nos versos de “Envoi”: “El-rei dom Ideal / versos mandou . os seus mais característicos aspectos formais. ora como trabalho. uma vez que o ideário saudosista se desvela na distinção entre a “saudade” enquanto estado sentimental correntemente reconhecido e a “Saudade”. por ser um dos primeiros doutrinadores do idealismo/nacionalismo tradicionalista (COELHO. mas em perquirições existenciais que via de regra descambam na angústia existencial. p. Apresenta. embora de feição idealística. em poemas indicativos da sua concepção poética. 1999. conforme demonstramos em estudo anterior (MALEVAL. ora a poesia aparece ligada à inspiração. das cantigas de amigo paralelísticas. como a “realidade essencial”. senão a Saudade maiusculada – aliás. na nostalgia de um tempo perdido. tida pelo mentor do movimento. ao qual era tão caro o nosso poeta. 1973. desde as origens occitano-galaico-portuguesas. no poema “Senhora Saudade” percebe-se claramente o diálogo com a Renascença Portuguesa. em 1932. No entanto coloca. como no poema “Destino” (“e cercaram-me as ondas da inspiração”). faz sempre uso de epígrafes compostas por versos dos trovadores galaico-portugueses. elaborou uma belíssima lição sobre o percurso lírico da nossa poesia brasileira. em visível sintonia com o Saudosismo português. Não bastassem essas evidências. mais especificamente cantigas de amigo. Acrescente-se que. o mais nítido paralelismo. o “sangue espiritual da Raça” galaico-portuguesa. 121-130). Teixeira de Pascoaes (1912). Por exemplo. em perfeita obediência ao modelo medieval. com S maiúsculo. em quase todos os vinte poemas que compõem o citado Cancioneirinho. retomando. de um passado feliz irrecuperável. p. Mas seria no posterior Cancioneirinho (Poesia vária. questões que não se esgotam nos temas do sofrimento por amor. 1944-1947. Entre estas duas experiências. diferentemente dos paradigmas evocados. acompanhando-os de refrão.

longa. do cheiro de amor das suas flores de laranjeira.. No seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.. são expressão de um segredo: “e lá vai. meu segredo”. Versos que. estorninhos. e cantava as “ondas do mar salido” e as “ondas do mar levado”. . nenhum outro poeta novecentista conseguiu ser tão versado no paralelismo medieval como Guilherme de Almeida. à qual se uniria a canção occitana para gerar novos rebentos: Ora. tomar fôlego e subir no ar em planta nova e forte (ALMEIDA. hermanas.. muito embora veiculando através dele outras preocupações que não a dos trovadores. / cheio de medo. 1937. pela monotonia plangente e repetida do verso “paralelístico”. independente. solo verde frolido ramo”. um lirismo próprio. varando as terras eriçadas de Espanha. remonta a sua gênese à Provença. madres e amigos. que em Espanha se chamou “cossante”: cantava “solo ramo verde frolido. dessa Provença capitosa. desceu daí uma fina e perfurante raiz da árvore sonora e alastrou-se. subterrânea. Mas já reconhecia também a existência da escola poética autóctone desse noroeste da Península Ibérica. ao qual já nos referimos. p.. verrumante. bodas. demonstrou profundo conhecimento e apreço pela lírica ancestral. Cantava. do beijo de boca pintada das suas amoras quentes. ribeiras. juntas e trançadas. em meus versos.. 243-244). ademais. furando a rocha funda dos Pirineus. estirou-se. com avelaneiras.. para rebentar o solo simples e laborioso da Galiza e aí respirar. as suas serranilhas soluçadas de alalalas. verdes pinos. quando pelo seu caule se enroscou a árvore moça e estimada de Provença.. Compondo o que ele chamou de “árvore genealógica da nossa poesia”. E. já aí cantava pelo ritmo mais velho dessa língua. original. planta agreste de serras.. Cantava..LA T ORAP DO OD AIRA T 44VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. do mosto fresco das suas uvas acres pisadas nas tinas. Era a Galiza. do sabor aperitivo das suas olivas. Ia cantando sozinha. Era a Arcádia Católica: terra de romarias e lavras.. em 1932.) lavrar”.. pastoras louçanas. estabelecendo o seu percurso até as terras galaicas: Desceu daí. Enfim.

publicado na Lira dos cinqüent’anos em 1944. Só mesmo a tristura dulçurosa de Portugal e a doçura triste do português seriam capazes de dar o que faltava – sentimento e alma – à bravura e gentileza da canção de Provença (ALMEIDA. o próprio autor revela o caráter cir- . como Guilherme de Almeida. a melhor poesia e o maior lirismo de todas as línguas. Verdade! Dom Denis descobria. muito embora as suas primeiras poesias denunciem traços parnasianos e simbolistas. “Cantiga de amor” e “Cossante”.4. um dos mais conhecidos poetas do Modernismo brasileiro. intitulados “Cantar de amor”. engenho e arte concorreram para que fosse um dos mais fecundos recriadores da forma paralelística. Com relação ao “Cantar de amor”. A lei era a poesia. definia e fundava. a corte poética d’El Rei Dom Denis. porque sentia que “os proençais soem muy bem trobar” mas “non an tal coyta qual eu ey sem par”. mesmo que para expressar a sua angústia e a sua nostalgia de um passado idílico não mais recuperável. o lirismo mais lírico. 5. na voz e na sombra da árvore dupla. sendo suplantados os provençais pela “sinceridade” portuguesa: Já então reinava. 244-245). Saber. metrificando a vida. 1937. a poesia mais poética. Mas o Rei Trovador não invejava o provençal. restringindo-se a três.. estrangeiro dos “troubadours” (ALMEIDA. radicado no Rio de Janeiro. Portanto. 244). p. começou a bailar o ritmo novo. assim. bem como românticos. Na sua vasta obra os poemas neotrovadorescos não são muito numerosos. A canção era a fala do trono. Guilherme de Almeida conhecia como poucos a lírica galaico-portuguesa em seus vários aspectos. Daí para o apogeu trovadoresco na corte portuguesa de D. professor e historiador da literatura. E. Manuel Bandeira O pernambucano do Recife Manuel Bandeira (1886-1968).. foi. intuitivamente. Dinis seria um pulo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 45 cresceram no céu pastoril. p. além de ensaísta. 1937.

por cortes diversas. elogiadas pelos paradigmas medievais. igualmente estabelecera o elogio da mais “fremosa”. professor de literatura do Colégio Pedro II. Em outro poema. – cuja visão detonaria a paixão e o sofrimento. sim. Também o lado andarilho do amante evoca os antigos trovadores. 1996. também por alguns aspectos formais – como o refrão e as três estrofes de seis versos rematadas pela fiinda. senhor. a partir de 1938. Leon e Castela” (MALEVAL.LA T ORA DO OD AIRA T 46VELAM SERAVAMARIAPMAAMPARO MAVARES MALEVAL (ORG. senhor. p. publicado na Lira dos cinquent’anos (1944).107-110). buscaria recriar uma cantiga de amigo paralelística.) cunstancial da sua elaboração: tornando-se. Ao invés de elogiar as qualidades morais e a beleza inigualável da senhor. p. como Johan Airas de Santiago. Mas sem mencionar as (outras) virtudes. O único jeito de me livrar da obsessão era fazer uma cantiga (a obsessão era sintoma de poema em estado larvar). Confessa-nos ele que aos 52 anos ainda “ignorava a admirável forma lírica da canção paralelística”. en cas d’el-rey” e “ Andey. pela . muito embora o tenha feito através de uma cantiga de refrão. A estes. sonhava com as ondas do mar de Vigo e com as romarias a San Servando. transitando por reinos diversos. estabeleceria o elogio da amada. ou chorar a coita amorosa. E que o “Cantar de Amor” fora “fruto de meses de leitura dos cancioneiros”: Li tanto e tão seguidamente aquelas deliciosas cantigas que fiquei com a cabeça cheia de ‘velidas’e ‘mha senhor’ e ‘nula ren’. vista como mulher incomparável pela beleza apenas. Escrevi o ‘Cantar de amor’ no vão propósito de fazer um poema cem por cento trecentista (BANDEIRA. apenas na forma conseguiria esse objetivo – “fazer um poema cem por cento trecentista” –. além do título. somos remetidos. 1999. outro lugar-comum retomado dos trovadores. No “Cossante”. Bandeira expressará a dor de existir. por sua vez indicativa do modelo provençal: “Quer’eu en maneyra de proençal / fazer agora hum cantar d’amor”. foi levado a ler os Cancioneiros galaico-portugueses. que. No entanto. intitulado “Cantiga de amor”. sem reduplicar a cantiga de mestria do rei-trovador evocada na epígrafe. 91). que. nas cantigas “Vy eu donas.

conforme demonstramos em estudo anterior (MALEVAL. Mas Bandeira. à “estrela-d’alva”. é também utilizado. p. o que foi considerado um equívoco por alguns especialistas1 . e a amada lembra os perigos do mar para o poeta brasileiro. uma vez que cossante fora o termo adotado por Aubrey Bell. Desde o título já tal se indicia. Voltando ao diálogo com os cantores do passado. Já o trovador Joam Garcia de Guilhade. em 1922. dele constando o neologismo “Avatlântica”. Ambos confessam o sofrimento provocado pelo desejo. o mar lembra a amada para o trovador galego medieval. pelo visto tão sedutores e impiedosos quanto os que atormentaram o neotrovador. para designar as paralelísticas. Assim. da mesma forma que as ondas e as “muit’altas ribas” a despertavam no cantar de Rui Fernandes de Santiago. lembramos que não apenas o faz. através do motivo das ondas ligadas ao erotismo. que. p. se inscreve no campo das marinhas. como também a estrutura estrófica paralelística. 1999. 116). 93). non poss’eu negar”. atribuía a sua coita a uns olhos verdes. na cantiga “Amigos. 1995. Valeria ainda lembrar que a expressão “olhos verdes” se repete a modo de dobre. 1996. p. na total desesperança do amante. o mesmo se percebe em outra sua “Cantiga” (1983. De imediato se impõe o confronto com o cânone mais óbvio – a paralelística de Martin Codax. despertam a libido do novo trovador. Não apenas o motivo das ondas é comum aos dois poemas. Para concluir. 230) que. lembraríamos que Bandeira ainda teve de co- . embora não tão rigorosamente seguida pelo poeta modernista. tão corrente no lirismo medievo ibérico. Além do mais. emanações sedutoras dos olhos verdes. as ondas.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 47 temática. Para Dalma Braune Portugal do Nascimento. apresenta como solução o esquecimento. p. anterior à confessada “febre” trovadoresca. no poema em questão. 900). Aliás. interpretado de maneiras diversas pela crítica. e o refrão-suspiro. Avatlântica seria “formado pola unión de Av – abreviatura de Avenida. mas dirigindo-o a algo inalcançável. abrindo o poema à “polissemia de sentido” (MALEVAL. tamén lembra o saúdo latino Ave. polo son. salve – con Atlântica”. “Ondas do mar de Vigo”. já articulava o desejo de felicidade às “ondas da praia/do mar”. “Quand’eu vejo las ondas” (BREA.

1967. A par disso. tendo ainda feito estudos de música. embora não tendo explorado o Neotrovadorismo de forma sistemática em sua obra. através das revistas Árvore Nova. 5. Lorenzo Fernandez. Cantar. Jaime Ovalle.. “Miraclara desposada”. MEIRELES.. etc. alguns deles constituíam letras de músicas. surge para a poesia brasileira em 1922.LA T ORAP DO OD AIRA T 48VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG.. pelo fato de ser um dos poetas mais lidos no Brasil contribuiu decisivamente para a divulgação dessa tendência poética entre nós. o seu interesse pelos estudos orientais. Radamés Gnattali. ou a algumas situações que remetem para quadros por eles pintados. defendiam a renovação de nossas letras na base do equilíbrio e do pensamento filosófico. restringindo-se a alguns sintagmas e versos evocativos da lírica dos antigos trovadores. p. a “lavar camisas / . Além do mais. apresentando a lavadeira a lavar o seu “antigo enxoval”. também dedicou-se ao magistério.) mum com os trovadores medievos o fato de alguns de seus poemas – dentre eles a Cantiga – terem sido musicados. Poetisa premiada. Denis. que abandona para concentrar-se na sua produção literária. Terra de Sol e Festa. acompanhá-la-ia por toda a vida. do qual pretenderam aqueles escritores representar uma tendência. malgrado a diversidade de pontos de vista no enfocamento do fenômeno literário por parte dos grupos concorrentes (DAMACENO. ao folclorismo. na apresentação de Darcy Damaceno. sugere-nos certo parentesco com a lavadeira “alva” da cantiga de D. Seu aparecimento coincide com a eclosão do movimento modernista. com incursões pelo teatro. como Villa Lobos. Por exemplo. determinados ou não por qualificativos. A presença do Trovadorismo medieval em sua obra já se indicia pelos títulos de diversos poemas: Canção. E. uma das maiores glórias da poesia brasileira. Mignone.5 Cecília Meireles A carioca Cecília Meireles (1901-1964). Mas é uma presença formalmente muito tênue. 13). nascido na adolescência. Camargo Guarnieri. Cantiga. apresentada pelo grupo de escritores católicos que entre 1919 e 1927. ao jornalismo. e por famosos compositores coevos.

anel) e da forma estrófica (dísticos). Em “Cantar guaiado” as reminiscências das “flores do verde pino” de D.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 49 e-no alto”. do destino. . que está “sendo levada” e que outra não é senão “a cantiga da tua Amada. sofrido. como acordes de uma música fugidia. da busca. Também em “Canção” (MEIRELES. Em “Confessor medieval” rememora as bailias medievais através de sintagmas (bailia. só através da (precária) memória aparecendo “a estrada antiga”. os mesmos fonemas aparecerão nas palavras rimantes. descuidadas”. isto é. Em “Cantar de vero amor”. descuidadosas”.. 1693-1694) é retomado o mesmo motivo medieval. no entanto. finamente evocadas também pelas rimas em /a/ e /i/. essa cantata põe em evidência a festa da natureza: “a luz da alvorada” que “brilhou nas palmeiras / que eram pura esmeralda”. podem ser observadas reminiscências das pastorelas. a pastora que aí se apresenta tem como gado as “estrelas da madrugada / pelas campinas do vento”. 2001. etc. “Acorrei. apresentando inclusive vestígios do paralelismo medieval. é estabelecida uma reflexão sobre o tema-título. a cantarem o abandono. na repetição. que retoma o tradicional diálogo com o eco (“antigo”). verde terra! ai. em que os amantes lamentavam o nascer do dia por terem que se separar. mas. (MEIRELES. p. Também impossível é a visualização desta no plano físico. 602-603). “Cantata matinal” mostra um certo parentesco com as albas e pastorelas. sirgo. por retratar um amanhecer pastoril. senão a certeza da incompletude. nas cantigas chamadas de amigo. da dor existencial. para acentuar a precariedade da existência diante do imponderável. Em “A amiga deixada”. p. mas enfatizando-se não já a saudade do amigo distante. que “levaria à Amiga. a saudade do amado. da tua Amiga”. que tornam o canto “guaiado”. à Amada”. verde mar!” –. uma vez que “de sombra a estrada”. do verso inicial “Acordai. etc. 2001. diversamente do gênero provençal. Também em “A pastora descrida”. Dinis e das “ondas do mar de Vigo” de Martin Codax se fazem presentes no verso-refrão – “ai. com pequenas variações. lutando contra o “vento” que “as desvia”. que nos remete à existência passada das amigas.

Levad’.. . já sem teu amigo.. 688)... p.. que assim se inicia: Levad’. e a noite vem mais cedo e há tempestades entre nuvens... trovador-cavaleiro do século XIII. E agora na verdade são os dias inumeráveis e cada um com sua angústia... Todalas aves do mundo d’amor cantavan: Leda m’and’eu. amigo..... Nesta cantiga.. que dormide’-las frias manhãas....” mas grandes mares se abriram para passagens belas como ritos........ contrapondo a ele o presente – um mundo (e não apenas um amante.... e os dias se tornaram tão numerosos e densos e duros como essas pedras das fortalezas em montanhas antigas... p. ligado à corte de Alfonso X.... (BREA.” a presença do trovadorismo medievo é ainda mais explícita.... 2001..” e os grandes horizontes se estendiam multicores e os dias da vida eram tão raros ainda que se podiam enumerar... e todos eles se entrechocam... amigo. Já no poema “Todas as aves do mundo de amor cantavam.. 1996.. divergindo das albas provençais que apresentam a maldição dos amantes pelo nascer do dia..... apresenta-se o desencanto da mulher em relação ao seu insensível amigo.. que os separará..) questionando a (im)possibilidade de sua ocorrência na falta do amor: “Irias à bailia com teu amigo... só por lembranças..) / Irias à bailia. ao mesmo tempo em que é evocado o passado em que as “aves do mundo d’amor cantavan”.. . todalas aves do mundo d’amor dizian: leda m’and’eu. e sem nenhum suspiro?” (MEIRELES..... Este passado idílico será igualmente desejado por Cecília Meireles.. como na cantiga medieval) povoado pela angústia... que dormides as manhãs frias.LA T ORAP DO OD AIRA T 50VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. / se ele não te dera saia de sirgo? / (.. uma vez que retoma o verso da célebre alba de Nuno Fernandes (Torneol). “Todas as aves do mundo de amor cantavam. por “amargos corações”: “Todas as aves do mundo de amor cantavam. 1883-1884)..

da aparência ilusória que vela e faz ignorar a realidade.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 51 E eu queria que todas as aves do mundo de amor cantassem. p. tal como no poema anterior a Amiga. No entanto. p. no capítulo XVII. amada de Amadis. em estrofe não encontrável no texto de Lobeira. enfim. Leonoreta. que outra era a destinatária do poema (na verdade. dos “desacertos humanos”. ao invés de “blanca (sobre toda flor)”. intitulada Romance de Amadis (VIEIRA. esclarecendo Montalvo. publicada em 1508 na versão de Garcí Rodríguez de Montalvo. presente na edição de Montalvo. Mas o termo “bela (sobre toda fror)”. não deixa dúvida quanto à fonte primária (Lobeira). / que se engana e desengana / em redor do Paraíso” (MEIRELES. 2001. a Leonoreta de agora. Portanto. em sintonia com os temas fundamentais da poesia de Cecília. ganhara deste o poema. “A canção de Leonoreta”. em meio às brincadeiras na corte do rei seu pai. pois. p. a Amada. Tem por epígrafe o lais atribuído a João Lobeira. do “véu de Maia” para os hindus. gravitando em torno do sentimento de ilusão da existência. mas um vasto silêncio. Colocam-se. esses poemas (e não são os únicos a evocarem a mundividência trovadoresca da Meia Idade). mas cuja “sombra resiste” e “eterna” vive no Plano das Idéias (“Mas para que eterna vivas / que é preciso? / Que pensem meus pensamentos”). céus escuros sobre amargos corações. que a poetisa diz ter recolhido da novela Amadis de Gaula. uma vigília de morte estende céus frios. 2001. era uma declaração de amor a Oriana. como os da “humana insuficiência”. p. Possivelmente Cecília Meireles conheceu o lais do trovador na versão de Amadis de Gaula feita por Afonso Lopes Vieira. já que . a irmã de Oriana-a-sem-par. / entre equívocos momentos. 689-701) é explicitado o mote medieval. a roda reincarnacionista propugnada pelos orientais e o pensamento de Platão se encontram nesta “reinvenção” ceciliana. que o namorava às escondidas dos pais). 2001. (MEIRELES. 131-132) onde é registrada. / vem e volta a vida humana. Na novela. é apenas um “vulto amado” que “longe vai”. 1832-1833) Também no poema “Amor em Leonoreta” (MEIRELES. Isto porque “entre pólos inviolados. 411-412).

no que concerne à revitalização da tradição poética medieva. 1989. a segunda. de uma narrativa rimada. 700). arrastado no seu mecanismo de símbolos. No entanto. p. 233-258). 1967. como diria a poetisa no poema “Reinvenção”. 22). Essa conferência é um primor de reflexão sobre o processo da elaboração e da natureza da poesia. nos seguintes termos: O primeiro fixa determinadas verdades que servem à explicação dos fatos. em Ouro Preto. não se ateve a “normas preestabelecidas”: há nele “metros curtos e longos. . da minha alma. Cai a cinza do meu corpo. ou com rima assoante – o que permite maior fluidez à narrativa” (MEIRELES. isto é. anima essas verdades de uma força emocional que não apenas comunica fatos. Tal destacara também Lênia Márcia de Medeiros Mongelli (MONGELLI. p. Daí a consciência de que “a vida só é possível reinventada”. de Vaga música (MEIRELES. como ela própria declara em conferência sobre a obra. sobretudo pela composição do Romanceiro da Inconfidência. para o qual remetemos os interessados. 21).) Pela celeste ampulheta. 2000. com as mais inesperadas repercussões (MEIRELES. um romance. De qualquer modo. p. 1955.LA T ORAP DO OD AIRA T 52VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. 1989. adianta a tão em voga discussão acerca dos limites entre o “registro histórico” e a “invenção poética”. p. 230-231). p. trata-se “de um ‘Romanceiro’. cai a cinza dos meus dias. e o tempo é um límpido sopro que liberta de alegrias e de queixas (MEIRELES. mas obriga o leitor a participar intensamente deles. 2001. Leonoreta. p. Por exemplo. poemas rimados e sem rima. não é um ‘Cancioneiro’ – o que implicaria o sentido mais lírico da composição cantada” (MEIRELES. em excelente estudo que constitui a mais completa análise dessa enigmática “Leonoreta” ceciliana. porém. 22). MALEVAL. 1989. Mas Cecília se notabilizara aos olhos da crítica.

p. e não “que foi sendo composto”. cotejando-o com romance da tradição hispânica. 1989. que trata do degredo de Tomás Antônio Gonzaga. Enfim. 1989. Serão transformadas em refrão no belo “Romance LXXIII ou da inconformada Marília” (MEIRELES. já metrificadas” (MEIRELES. em que condensa. o Tiradentes. 23).. que trata da perseguição a Tiradentes. na observação da autora. Outro exemplo são as palavras do alferes-mártir. p. 1989. sua sonoridade. liberdade. traições. vinham muitas vezes. como o das maias. 1989. p. transcrito à direita. no “Romance LXVIII ou de outro maio fatal”. incorporadas ao “Romance LXIII ou do silêncio do alferes” (MEIRELES. não deixa de utilizá-la muitas vezes. observando “a maneira por que um tema encontra sozinho ou sozinho impõe seu ritmo. mesmo sem subordinar-se à forma do Cancioneiro tradicional. a história do nosso herói máximo. ou na memória tradicional. e inesperadamente. prestando-se generosamente de matéria para a poesia. amor. sua medida” (MEIRELES.” (MEIRELES. Essa história da luta pela nossa independência fora feita.. à busca do “essencial expressivo” que “constitui o trabalho do artista”. não mais festivas. p. lançando mão daqueles elementos essenciais sobre os quais teorizara acima. na reconstituição de Menéndez Pidal: . Vejamos o LXVIII (início). 209-210). O “outro maio” fora o referido no “Romance XXXVII ou de maio de 1789”. Joaquim José da Silva Xavier. ao lhe falarem sobre o casamento de Gonzaga em Moçambique: “Só se estivesse alienado”. p. 20). Nessas pesquisas a poetisa pôde observar como “as palavras registradas nos depoimentos do processo. 240-241). “de coisas eternas e irredutíveis: ouro. registra o modo como “ele se foi compondo”. seu desenvolvimento.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 53 Partindo de minuciosa pesquisa. 1989. 21). Um dos exemplos que arrola são as palavras de “Marília”. bem como incorporar-lhe motivos. “Ah! se eu me apanhasse em Minas”.

No poema “Onde andará”. 176).rolf ne sopmac sol nátse y airdnalac al atnac odnauc .it a odnauQ .p .LA T ORAP DO OD AIRA T 54VELAM SERAVAMARIA MAAMPAROMAVARES MALEVAL (ORG. mas fica patente que a leitura da tradição medieva ou tardo-medieva na obra da grande poetisa é um rico veio a ser melhor explorado em estudos futuros.oiam me iof . e nelas se torna evidente a apropriação de cantigas de amigo de D. 1996. .robla la abatnac em euQ .los o ebos osoragaV . e até mesmo o verso inicial. e u é?” (BREA.odatiuc .oiam me arE .LADIP ZEDNÉNEM( )812-712 .roc a amserauq axor aD sairf sahnatnom sargen sà E .roma la rivres a naV . da obra Antônio Triste (1946).) . os campos.lonixuor uo ardnahlac meS sopmac son abaca es odnauQ . ( z o v e t . além de poeta dedicou-se ao jornalismo.oiam rop iof .o d n a d o ã s i r p eD Destacamos em negrito alguns aspectos da tradição retomados por Cecília Meireles: o tema da prisão. / se sabedes novas do meu amigo! / Ai Deus. Dinis.oretsellab nu alemótaM .6491 .asac a racrec mareiv eT ) . ai flores do verde pino. a métrica (redondilha maior) e outros elementos (o advérbio “quando”.oyam rop are oyam rop euQ .anif aovén me odaçubmE . as aves típicas do imaginário europeu (calhandra e rouxinol). numa ambiência já sem o viço da natureza verdejante evocada pelo rei-trovador. a referência ao maio. Paulo Bonfim O paulistano Paulo Bonfim. nascido em 1926.nos sehcon sal odnáuc in alliceva anu rop onis .loberra ed oigítsev mes . etc. usado reiteradas vezes.etsirt .6.oiam me arE . 5. . indaga às “árvores desfolhadas” e às “folhas soltas dos ramos” sobre a amada. As suas incursões neotrovadorescas não são muitas. . p. Não iremos adiante.nóisirp atse ne oviv euq aíd ed se odnáuc és in euq .roñesiur le ednopser y sodaromane sol odnauc .oy onis .). o sujeito da poesia.nódralag lam soiD eléD . principalmente da que se inicia com a copla (estrofe) “Ai flores.rotsap erbop . agora masculino.rolac al ecah odnauc n a ñ a c n e s o g i r t s o l odnauc .

pelas “noites sem luar”. jogral em claros burgos da senhora. e “em especial os belos sonetos” da primeira parte da obra. Nem é por outro caminho que se chega ao verdadeiro lirismo” (GUIMARAENS F. Dinis” (RIBEIRO. de quem é o pajem. 173). situado no pretérito. como o romance. 1999. 172). dizendo-se. E no “Canto VIII” da Cantiga do desencontro (1954). para além dos sonetos. Aliás. Ao publicar o livro Cais da eternidade. além de poeta foi jornalista e editor. tal como se apresenta na “Cantiga I”. Dinis. apesar dessa proposta. todo o poema. o paralelismo. essas mesmas “flores do verde pino” são tranformadas em “flores do verde tempo”. 5. bem como a poesia como serviço prestado à amada. percorrendo. Mas. MOREIRA. estabelecido por associações. formado em Letras. p. recebeu de Alphonsus de Guimaraens Filho elogio pela pesquisa demonstrada. retomara gêneros medievais líricos. pelas “manhãs cor de cinza”. não possui apenas função oracular.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 55 substituída pelo “crepúsculo triste”. p. já desde o título nos remete ao mundo trovadoresco. sem os rígidos esquemas rímicos da lírica medieval. já à época dizia Antônio Brant Ribeiro que “com rara felicidade” ele o transportara “pela simples manipulação de algumas locuções brandamente arcaicas e pela oportuna incorporação à sua lírica da temática do ‘morro-me de amor’. “Pesquisa de quem procura. Mas. Portanto. às épocas remotas de El-Rei D. através de uma sondagem no mistério. Esse “verde tempo”. a modo de refrão inicial de quadras. também a função de “enfeitar o sorriso / quando murchar a esperança”. pela via da memória. reunindo poemas escritos de 1945 a 1951. 1999. pelas “auroras sem cor”. ou épico-líricos. e o leixapren também são reutilizados a seu modo.7. como a cantiga. assume a vassalagem amorosa típica do amor cortês. no poema “Oferenda”. como em D. No entanto. MOREIRA. Além do refrão. Edison Moreira O mineiro Edison Moreira (1919-1989). não obe- . atingir a substância mesma da vida.. embora os versos sejam quase sempre brancos. Em O jogral e a rosa (1954-1958).

inserta no seu Romanceiro do desencanto. 124127). através da rima dos fonemas /i/ e /a/. apesar de apresentar como epígrafes versos de D. Mas de romances medievais. de Pennafort. Dinis. . como por exemplo indicar D.”. como o “Romance de Gerineldo y la Infanta” ou “La amiga de Bernal Francés” (MENÉNDEZ PIDAL. 1989. 112-115). p. Notadamente na composição denominada “Rimance” (MOREIRA. ao invés de “cavaleiresca”. “o bom do. 66-68). fazendo parte da sua “gramática”. p. Não tanto do modelo evocado pela epígrafe. que teve poucos seguidores entre os trovadores galego-portugueses. retirada do Romanceiro gitano de Federico García Lorca. 1999. Conforme já observamos. Dinis. se não realizou cabalmente uma cantiga nos moldes dos trovadores-cavaleiros. embora sem utilizar a rima assoante e o final inconcluso dos espanhóis.. publicado em 1516. evocando o gênero provençal pastorela. Numa outra sua “Cantiga de amor”. clara. do refrão e do panegírico da “mais fremosa”. 1946. além de palavras ou expressões iguais. Quando muito. como “mai-la sua companhia”. como cantor das “ondas do mar de Vigo”. em “Evocação a D. vai aproximar-se do Romanceiro hispânico.) dece à poética medieval. 1999. guarda muitos pontos de contato com o “Romance do Conde aragonês” e com o “Romance do vilão”. Dinis”. Desde o tema da transgressão sexual feminina do primeiro às imagens que relacionam o corpo da amada a frutos do segundo. que sabemos ser do galego Martin Codax. conseguiu recriar quase que totalmente dentro dos paradigmas originais específicos um romance. 58-61. p. Assim. uma vez que de Idade Média se trata.. p. “casa da estudaria” – o que é comum nos romances de um modo geral. apresentada como a pastora. leve e fresca. ou o emprego do termo “cavalheiresca”. dela se aproxima no “Cantar de amor”. seguindo a estrutura do mote constituído pela primeira estrofe e das voltas que o desenvolvem na(s) estrofe(s) subseqüente(s). Mas. no entanto desenvolverá uma cantiga dentro dos moldes do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. publicado em 1928 (LORCA. 81).M ORA MA OD AIRAM LA 56 VELAM SERAVATARIAPDO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. / como as do tempo d’el-rei” (MOREIRA. E o faz apesar de algumas confusões. o que se comprova em sua obra é o desejo de compor a “Cantiga cavalheiresca”. “simples.

o mesmo acontecendo com o “Romance da dama desprotegida”. senão pelo número de versos e estrofes.118). 1960. bem como a inspiração em poetas quatrocentistas e quinhentistas. já remete para a herança do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. esses versos camonianos são o respaldo para os curtos versos e poemas que a seguir virão. ao invés de cantigas. Tal observação já a estabelecera José Carlos Barcellos (MALEVAL. Na impossibilidade de os . tornando-a abstração ao “fiar. que trabalha com alguns elementos medievais. p.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 57 As demais peças do seu Romanceiro do desencanto são: “Romance da renúncia da noite”. A própria escolha do termo trovas. naquilo que têm de “mais íntimo e vinculante – a própria concepção do texto poético”.8. confissão ou desnudamento”. sem no entanto remontar ao Romanceiro. aos trovadores do passado – Trovas de muito amor para um amado senhor (HILST. e também aos renascentistas. “em contraste com a concepção romântica. seguiu-os. E das quadrinhas da tradição popular se aproxima. “Rimancete”. e se teus versos / À pena vêm pequenos. Funcionando a modo de poética. 105). p. foi a primeira mulher a escrever um livro de clara referência. Hilda Hilst Hilda Hilst. Mas não buscou nos cânones medievos a estrutura para os seus poemas. como Bernardim Ribeiro e Camões. 1995. da mesma forma que “Romance de minha morte”. sem maiores ligações com a tradição. paulista de Jaú (1930). 1999. Antes. que dirás menos”. / Não queiram de ti mais. “Romance da que me negou a mão”. em sua obra são evidentes as apropriações de lugares-comuns trovadorescos no nível temático. para quem tal concepção se apresenta como “apreensão e substância do vivido”. / no estranho fuso do tempo / os dias do meu penar” (MOREIRA. Do genial Camões é a própria epígrafe que encabeça a obra: “Canção. pela delicadeza que expressam e pela dominância da arte-menor. não digas mais. 1980). que retoma a imagem da fiandeira. autora de significativa e premiada obra. 5. a partir do título. “jogral” oposto a “vilão”. A par disso. que o vê como expressão. como “senhora casta e serena”.

p. 77-88). pela via de autores renascentistas. 1966.. chamado posteriormente cortês.. p.) rastrearmos mais detidamente. de criarem as jovens oportunidade para o namoro. ou na mesura de cantar da rival “a cintura e a valia”. menos livre que no passado das bailias. Johan Zorro ou Airas Nunez –. Na esteira de tantas novelas do ciclo bretão. p. mesmo que retomados alguns indiretamente. senhora. / Por serdes vós casado / (E bem por isso mesmo) / É que sereis amado? / Ai sim seria. é Bernardim Ribeiro. como o do Capelão André (1985. 1980. Postar-se às janelas seria o novo meio. com os versos: “Não sou casado. 1980. serviço de amor. senhor meu. 1980. p. transformada.” (HILST. por sua vez herdeira dessa tradição. ou de tratados medievais sobre o amor. 23).LA T ARIA DO OMPARO T 58VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. ou de calar-se para não magoar o amado (HILST. p. a mesma abnegação dos antigos trovadores se apresenta como proposta amatória: “Nave / Ave / Moinho / E tudo mais serei / Para que seja leve / Meu passo / Em vosso caminho” (HILST. ou de canções de amor trovadorescas. Ressonâncias das bailadas sob as avelaneiras pelas velidas ansiosas por namorado – por exemplo nas cantigas de Nuno Fernandez Torneol.) Se forem belas / Ficam melhor à tarde / Ai. p. p. p. mas pelo entendimento do fazer poético como experiência vital. é a condição adulterina do amor que se observa nos versos “Seria menos eu / Dizer-vos. citado em epígrafe. Mas esses versos também indicam uma proposta poética. são nítidas nos versos “Moças donzelas / Querem cantar o amor / (. 1980. 232).. 49). A fonte. A poetisa assume o papel de representante dos anseios femininos nas estrofes monósticas. urbano.. 233). a mesma doação. 227). 234). enfatizando a nova amante: “. Logo no primeiro poema. mas ainda assim mal-visto pela moralidade reinante na década de 1960. observaremos a seguir alguns aspectos revitalizadores da tradição lírica medieval. se não morro de amores / morro de delicadezas” (HILST. 1980. Também a delicadeza da fin’amors se reconhece na “fineza” de “repetir um amor já confessado” (HILST. Mas esse amor refinado se reapresenta não já como meio de alcance do Bem. nas janelas” (HILST. 240). / Que ainda que dei a mão / Não casei o coração”. ligando-se ao trovar antigo não pela forma. o que já fizemos em estudo anterior (MALEVAL. 1980. a modo .

mas apontando para a condição daquela abadessa “sabedor de todo bem” do escarnho de Afonso Eanes de Coton (LAPA. 228). 1970. 11-61).. p.. 228). entender. apresenta a questão da sinceridade poética. assume Hilda Hilst a posição de “Mulher / Vate / Trovador”. 148): “Não sei dizer-vos / Amor. retoma a lição das jovens sequiosas de amor nas cantigas de mulher (de amigo). com a obra Amanhecência (1972). crítico dos provençais por trovarem apenas “no tempo da flor” (NUNES. 1980. mesura e correlatos. Fico. Saio . O tópico arcaico do merecimento apresenta-se relacionado a novos valores ou prerrogativas da mulher. Dinis. 229). E na linguagem / Desta canção / Sei que não minto” (HILST. p. Em outro poema as ações de conhecer. p. 5.. 1972. Portanto. Retornamos aqui àquela relação sinonímica entre o amar e o trovar. o prêmio do Insti- .” (HILST. destacada por trovadores como Martín Moxa (MALEVAL. como beleza. uma vez que não a cerceiam cancelas como às moças donzelas. / Eis porque sou amante / E vos mereço. 1980.. saber definiriam a superior condição da nova amante-trovadora: “Amo e conheço. p.. Isto porque possui o dom da poesia e a liberdade.9. amigo // Mas é nos versos / Que mais vos sinto. 69). // De entendimento / Vivo e padeço.. p. por elas”. // Vossas carências / Sei-as de cor. Tal se percebe nos versos: “Tendes comigo / Tais dependências / Mas eu convosco / Tantas ardências // Que só me resta / O amar antigo”. 1980. desprezando os aspectos formais dos cantos primeiros. A nova mulher não é mais aquele ser incorpóreo das canções masculinas galaico-portuguesas. fazendo eco a trovadores como D.. p.. pondo em questionamento prerrogativas androcêntricas dos primórdios do Ocidente. como se auto-denominaria em outro poema (HILST.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 59 de refrão: “Canto. Em continuidade. 1995. Stella Leonardos A premiadíssima escritora carioca Stella Leonardos (1923) conseguiu. Antes. uma vez que o conhecimento substitui agora as qualidades (retóricas) que tornavam a senhor de outrora digna de ser louvada.

p. moçárabe. 35). p. e ao semprelirismo brasileiro”.. que “acaba onde o Brasil começa” (da segunda parte diria: “não acaba porque o Brasil é semprenovo e semprelírico”). Muitos são os poemas de “Códice ancestral” que retomam cantares dos trovadores galaico-portugueses. Mas também são feitas. catalão. bem como dos Romanceiros e lendas brasileiras. Esta obra compõe-se de duas partes intituladas “Códice ancestral” e “Reamanhecer”. 1974. O procedimento.LA T ARIA DO OMPARO T 60VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. que à primeira vista seria o do mote a ser . p. de que a obra é pródiga.. Adianta igualmente a motivação da obra: “obra de amor às líricas raízes de nossa língua. Bem como destaca o ano em que foi escrita. à matéria de crônicas. de conselhos e regimentos. 35). de livros de falcoaria e alveitaria. históricas ou literárias.) tuto Nacional do Livro. e escrevemos os poemas do modo que nos pareceu melhor condizer com as sucessivas fontes documentais – em prosa e verso. 13-31) – é uma reflexão sobre o uso da epígrafe. Daí a variedade da ortografia (LEONARDOS. e onde são revisitados textos ancestres dos séculos XII a XVI. sendo que a primeira nos interessa mais de perto por retomar o trovadorismo galaico-português. 1974. Como esclarece em Prefácio a própria autora (LEONARDOS. bem como a composições do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende e a estudos sobre a época. 1974. correspondente ao Sesquicentenário da Independência do Brasil e ao 50º Aniversário da Semana de Arte Moderna. prescindimos propositadamente da ‘medida velha’ dos trovadores. nesta parte. remissões às carjas moçárabes. O estudo introdutório de Gilberto Mendonça Teles – “O código do códice: a estella de Stella” (LEONARDOS. em outras muitas. já indicados a partir das epígrafes em trinta e uma composições. acentua ao final que a autora tem feito mais “pela moderna filologia românica no Brasil do que muitos professores e membros de academia”. que o publicou em parceria com a Aguilar (1974).). E não apenas neste mas em muitos outros textos retoma a escritora a tradição dos Cancioneiros (romeno.

Na impossibilidade de examinarmos por ora os seus muitos poemas... a indagar sobre os avós portugueses dos quais herdara uma “face. “cigano ária nômade”. às vezes”. das “antorchas que se consomem”. Só que as mais das vezes busca completar o sentido da cantiga a que pertencem. Sancho I. e de ser “coda de ancestres canções. a senhor retratada será a própria poetisa. A sua certeza é a de que “existe o códex / de uma facies portuguesa”. por exemplo trágicos. Num processo reiterativo dessa herança poética que traz “nas veias”. claro códice”. 1974. “vivência moçárabe”. que “traz tinta negra e vermelha” – não já a guarvaia do cantar de outrora. 131-140). é o da apropriação de versos medievais. termina por legar “ao vento o lírico manuscrito” que a “inscreve” e “transcende – dom de códice ancestral”. “invasão de godo”.”. a assumida intertextualidade por vezes reveste-se de acentos outros. “ares cristãos-novos”. “nostálgico mouro”. a que já nos referimos).. 39). Dita apresentação será continuada no poema seguinte. como podemos perceber no poema intitulado “Plang”. E conclui por evocar traços procedentes da mistura de raças e de culturas das origens: “coração de celta”. “In finibus Galleciae” (LEONARDOS. ampliando-lhe o aspecto narrativo. . 40-41). “Ai eu. relacionada à sua amante. atribuídos a Paay Soares de Taveiroos: “Mia senhor branca e vermelha! / Queredes que vos retraya?. no corpo da nova cantiga. intitulado “Ancestre canção” (LEONARDOS.. “altivez ibera”. 1999.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 61 glosado. p. Aí. que analisamos mais detidamente em estudo anterior (MALEVAL. etc. o manto vermelho da realeza ganho pela cortesã. p. isto é. Dessa forma.” Mas. o lamento medieval da amada pela ausência do amigo é transformado em dolorido pranto pela sua morte. 1974. divergindo do modelo e sua musa (a mesma Ribeirinha amante de Sancho I. coitada. Este é construído a partir de epígrafe composta por verso de cantiga atribuída a D. reportando-se aos celtas e a Viriato. composto a partir de citação de Oliveira Martins. p. Tem como epígrafe os versos.. gostaríamos de nos reportar ao que lhes serve de Prólogo. e refletirmos sobre o processo de intertextualização neles operado. indiciada através da atmosfera lúgubre. sobre as origens lendárias de Portugal. literalmente ou não. como vivo.

através da voz grave do avô. Dessa forma. através de notas que remetem para as fontes bibliográficas (LEONARDOS. que significativamente retoma outra citação de Oliveira Martins. Aí. 1974. da Secretaria de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro. No mesmo ano em que foi publicado Amanhecência também o seria o Romançário (1974). o Mondego. mas com uma participação mais explícita da autora. de uma tradição recebida dos seus ancestrais. monótonas como o ruído do mar. Por exemplo. da maior seriedade. As pesquisas efetivadas na sua elaboração se documentam em Apêndice. encontram-se desde a definição de romance feita por Câmara Cascudo à distinção efetivada por Almeida Garrett para as três espécies do gênero narrativo popular – romance (mais épico e narrativo). explicativa da interpretação e indagações suscitadas na autora pelos velhos cantares: essas cantigas. preenchendo-lhes as lacunas com emoção e imaginação. 1972. A moura cativa. 1974. Esta obra recebeu o prêmio Casimiro de Abreu. p. sobre a memória. Stella Leonardos recria romances muito conhecidos do Romanceiro hispano-moçárabeluso-brasileiro: Nau Catarineta. Roberto do Diabo. tristes como a vida dos nautas. sobre a participação da poetisa nesse processo de recriação das mesmas. Nestas. 9-22).) “Códice ancestral” apresenta. Dona Leonor. o poema “Na guitarra”. O cego andante. as citações do Romanceiro são antecedidas e/ou sucedidas por versos que meditam sobre a tradição. p. que leva em conta os receptores. Mas o Romançário de Stella é fruto também de trabalho intelectual. a modo de Epílogo. p.LA T ARIA DO OMPARO T 62VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. Capitão-daarmada. e que a navega. provocando-lhe tremores (LEONARDOS. traduzirão lembranças de alguma antiga raça? (LEONARDOS. 133138). que se coloca enquanto repositária e transmissora. desferidas à noite sobre o Vouga. 1974. xácara (mais dramático) e solau (mais plan- . em “Nau catarineta” fala da “nave” que lhe acena da infância. Conde Lindo. sobre o Tejo e sobre o Sado. O processo é semelhante ao que já observáramos na poesia lírica neotrovadoresca. Donzela Teodora. 107).

em Grande sertão. Diadorim. 1974. Como indica o especialista. o episódio trágico da nau Santo Antônio. guerreira disfarçada na Índia. passando à Espanha. na qual Jorge de Albuquerque Coelho se dirigira de Olinda a Lisboa em 1565. p. Também o histórico de cada peça é observado. e da portuguesa Dona Antônia Rodrigues. 134). da mesma forma procedendo com a música das variantes em confronto. sendo que no Brasil estaria na base também da personagem travestida de Guimarães Rosa (1908-1967). p. como as “Mil e uma noites”. Assim. 1974. Em Portugal. que coteja minuciosamente com os versos em que se baseou para a recriação de cada novo poema. Inglaterra e Alemanha. fornecendo “pistas” importantíssimas para a observação da intertextualidade e interdisciplinariedade em sua obra. p. misturar-se-ia a este último episódio. isto é. na Espanha e em Portugal. mas entronca-se em tradição corrente na França. O “Romance de Dona Leonor”. assunto da novela A senhora de Pangim. firmando. o romance. 135). na África. que igualmente disfarçada de homem teria lutado em Mazagão. da donzela que vai à guerra. 1974. teria origem árabe. onde propiciou numerosas versões e edições no século XVI. o tipo da moça astuta e sábia. é citada por Tirso de Molina e Lope de Vega e incluída no Índice Expurgatório da Santa Inquisição (relação de 1624). como também referências a versões brasileiras dos romances. 134): da espanhola Dona Catarina de Erausto (“La monja alferes”). teve larga fortuna nos países de cultura neolatina. de Gustavo Barroso. além de figurar em várias coleções. veredas. a “xácara” denominada “Nau catarineta” teria como uma das hipóteses mais plausíveis para a sua gênese. e daí a Portugal e ao . Já o “Romance da Donzela Teodora”. da brasileira Dona Úrsula de Abreu Lencastre. surgido na Idade Média.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 63 gente e lírico) –. dando origem à narrativa de Bento Teixeira Pinto e projetando-se na memória coletiva. na lição de Câmara Cascudo (LEONARDOS. sendo os “campos de Mazagão” referidos em várias versões lusas. Teria por base os seguintes casos históricos. segundo Câmara Cascudo (LEONARDOS. referidos por Théo Brandão e retomados por Fernando de Castro Pires de Lima (LEONARDOS. O “Romance de Roberto do Diabo” não possui fundamentação histórica.

interessa-nos o que se . remontando às origens européias ou orientais dos romances. 1926 – Natal. p. pernambucanas. aprendido com o auxílio da genitora da poetisa. de amor e luta” (LEONARDOS. 1974. O “Conde Lindo” (ou Lindes. de Portugal. aqui a partir de 1840. Stella Leonardos mostra a fecundidade do gênero no Brasil. Dentre os seus cinco livros publicados. enfim. amigo de disfarçar-se em mendigo e correr aventuras noturnas. baianas. p. 1974. lá. Enfim. 136). de “temática das baladas escocesas do rei Jaime V. falecido a 13 de dezembro de 1542 com trinta e três anos e homem divertido. Myriam Coeli Myriam Coeli (Manaus. 5. “estaria ligado a tradições referentes a um castelo mourisco de Tavira”.) Brasil. teria vindo de Vinhais e do Algarve. originar-se-ia. ou Niño. “Dão Laurindo”. que se basearia no romance conhecido como “Conde de Torres”. “A moura cativa” (ou “encantada”).) teria sido visto por Menéndez Pidal “muito estropiado. 1974. por ela recriado com saber e sabor. 137). aproxima-se de versão colhida por Dulce Martins Lamas em Parati. além de escritora. capixabas. de larga repercussão em terras brasileiras. Liga-se à matéria de Bretanha. professora e jornalista. por sua vez guardando traços do folclore pernambucano (LEONARDOS. 1954) e a enfrentar o “masculino” universo noturno da redação de jornais. maranhenses.LA T ARIA DO OMPARO T 64VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. O “Capitão-da-armada” (ou “A bela Infanta”). p. segundo o folclorista Antonio Lopes (LEONARDOS. 1982) foi.10. num cancioneiro espanhol do século XV” (LEONARDOS.. postumamente. Foi recentemente. segundo Almeida Garrett. 1974. sergipanas. fluminenses. e apontando as versões gaúchas. 136). paulistas. 137).. riograndenortenses. eleita Mulher do Século do Rio Grande do Norte. O “Cego andante”. para o Brasil. aos amores de Tristão e Isolda. alagoanas. p. etc. sendo a primeira mulher norte-riograndense a obter diploma de curso superior de jornalismo no exterior (Madrid.

remetendo-nos mais para os Romanceiros que para os Cancioneiros. como uma introdução. o trovar de “cantigas eternas”.). Neste. às coitas de mulheres moçárabes ou cristãs: pastoras que “entre ovelhas no prado / (. e o “Cantar amigo”. 1981): o “Canto arcaico”. apresentada na UFRGN. às gestas a que deram motivo. 1981. p. preconizando que as suas “cantigas florindas / hão de estrelar chão e céus”. Dinis. 1981. Cantigas de ontem e de hoje (1999). Prêmio Othoniel Menezes de poesia. um poema narrativo. mas às do presente. o “sereno cantar na tarde”. Na cantiga XXII. Essas mulheres ora são “filhas dalgo” (COELI. a estudiosa observou o diálogo estabelecido por Myriam Coeli com os trovadores medievais. especificamente com D. Funciona. trata-se também de cantigas de mulher. com versos redondilhos. 7). O livro compõe-se de vinte e três “cantigas” sem título. E. como as de Cecília Meireles. apenas numeradas. / cantavam com voz sentida”. 1981. 1). antecedidas por um poema significamente intitulado “Fundamentos” (COELI. ela na verdade compõe um romance. jograis e segréis. à medida em que os poemas se sucedem. a que dará seqüência nos poemas subseqüentes. referindo-se ainda ao Cântico dos cânticos de Salomão enquanto presença fundadora no palimpsesto desenvolvido pela poetisa. Na verdade. / no céu. poucas vezes estruturalmente fiéis ao gênero cantigas de amigo. Remonta aos tempos das lutas entre cristãos e mouros. pois.. ovelhas. estrelas” (COELI.. aos amores expressos nas canções dos trovadores.) entretinham seus cismares / (. isto é. ora pastoras que apascentam “na terra. Mereceu de Stella Leonardos duas homenagens em poesia (COELI. E foi assunto da Dissertação de Mestrado de Diva Sueli Silva Tavares. vemos o estado eufórico da donzela cortejada ser substituído pelo sofrimento proveniente da desilusão amorosa que atingia não apenas às mulheres do passado.) com cantigas de amigo / que elas mesmas inventavam / com donaire provençal / que as ousanças alongavam”.. fiandeiras que “doces cantigas de amigo / com os fios que trançavam. s/p. nas quais por vezes o caráter épico sobrepuja o lírico. castelãs que “em castelos esperavam” o retorno do amado.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 65 intitula Cantigas de amigo publicado em 1981. p. destacando-lhe a “voz de leda cotovia”. que encerra a modo de epílogo a obra.. o . rimas e assunto que em tudo nos remetem para a tradição ibérica. Nesta.

“masmorra que amortalha / com capuz de asfalto e medo”. 1981. Sancho I. A torre que lhe “dá triste degredo” é um “vigésimo segundo andar” de um edifício. em que um cavaleiro de passagem requesta a “grácil donzela”. como também o paralelismo. como em Stella.. como Guilherme de Almeida. não de sofrimento. vemos que diálogos semelhantes aos das pastorelas são reapresentados. Mas. . certamente” (COELI. atribuindo-lhe acentos lúgubres. as novas do amado são solicitadas aos jograis. se bem que não inteiramente utilizado. observamos reminiscências do paralelismo e uso de refrão. a Deus. na qual a sua amante. p. 13).) sujeito feminino da poesia se coloca ainda como “senhora de mui castelos”. 1981. Florinda. por exemplo na cantiga I. Na XII. 1981. Na cantiga XIII.. até porque desnecessária. mas estes agora se apresentam “flutuando no ar / ou inconstantes nas areias”. apesar do refrão e da manutenção de um certo paralelismo. a Ribeirinha.LA T ARIA DO OMPARO T 66VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. p. sem a discrição propugnada pelas regras da cortesia. aos “amores de amargos anos” (COELI. Quanto à forma. etc.” (COELI. pela forma e pelo sentido. se lamentaria do amigo (o rei) que “tarda / na Guarda”. ocorre uma recriação paralelística da cantiga atribuída a D. agora nomeada. Os dísticos seguidos de refrão aí se apresentam. é estabelecido um evidente diálogo com a cantiga de D. Na XI. mas de desejo: “Porque tarda / morte amiga? . ainda o refrão em dístico nos remete ao Trovadorismo. 21). como no passado. além de ressonâncias da estrutura paralelística.. remete aos paradigmas: “Meu amigo / por quem morro” (ou “por quem vivo”). Na cantiga XV. p. ou a de Martin Codax “Ai ondas que eu vim veer”. Na cantiga X (COELI.. as perguntas dirigem-se agora a entidades abstratas. etc. Também Stella Leonardos a recriara como vimos. não já à natureza. em poema que retoma tópica muito corrente nos Cancioneiros. o refrão. que é a indagação por novas do amigo ausente. Só que a morte em Myriam Coeli é motivo. Na cantiga VIII. 1981. já que o sujeito principal da poesia é feminino. Dinis “Ai flores do verde pino”. Com humor (negro) a saída através do suicídio é a possibilidade que se apresenta não de solução mas de compensação: “E se me seduz um salto / convosco não vou ficar / mas manchete. a tenção em dísticos retoma moldes arcaicos. 35). embora sobrepujando o lírico pelo épico. às amigas. 16). p. Na cantiga V.

Ocorreu-me. e a compreensão da falta existencial imprimem novo sentido ao poema. estudar com os alunos algumas Cantigas trovadorescas. além de poetisa quase inédita e autora de livros infantis. então. O sucesso do trabalho me estimulou a organizar com eles uma Antologia de Novos Trovadores. 1966. que retrata. por exemplo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 67 Nas demais cantigas. é ensaísta e professora (aposentada) de Letras (Teoria da Literatura). 161). cantigas de maldizer. de hoje.11. 161). etc. Na “Cantiga 71”... bailias. Francisca Nóbrega Francisca Nóbrega. as suas cantigas neotrovadorescas “foram escritas como se fossem um recurso didático incentivador para a criação” dos seus alunos de oitava série no Colégio de Aplicação da UFRJ. somos remetidos ao Trovadorismo pelos dísticos seguidos de um refrão com pequenas variantes. fluminense de Macaé (1925). nos anos 70 (MALEVAL. as incertezas próprias do nosso século. de ponta a ponta. e também através do entrecruzamento de vários motivos correntes nas cantigas de amigo: os “prados” presentes nas pastorelas. ele é evocado muito mais por sintagmas ou temas que por recursos versificatórios. as águas sem espuma e as romarias menos costumeiras. que infelizmente se perdeu. O que causava espanto aos meus alunos era a precisão com que um poeta como Chico Buarque de Holanda. p. as “águas” das barcarolas e as “romarias” aí estão. exercia um discurso atravessado. as muitas variedades de composições (barcarolas. os verdes ausentes. 5. p. mostrar-lhes a estrutura paralelística como a fala do coração que diz sempre e só a mesma coisa. Guardo apenas as Cantigas que eu mesma escrevi (MALEVAL. com uma farta criação poética muito parecida com a dos trovadores medievais. acrescenta ela: A música popular brasileira contava. a técnica do leixa-pren. 1996. expressas no refrão. Isto porque. o refrão invariável. Mas as inquietações. Acrescente-se que os . no momento.). Como ela própria esclarece. por sentimentos tão femininos como se viam na sua canção “Olhos nos olhos”.

formada em Letras e Direito. romaria. de escárnio. recurso provençal. ao invés do provençal cansó (embora utilize o termo. as formas trovadorescas são evocadas também através de alguns recursos. retomando os motivos da “coita” amorosa. feminino. Mas a bem talhada e lembrada amiga – a expressão era uma tópica particularmente cara às cantigas de amor – de outrora é substituída pela sua negação. estabelece o (desen)canto do “senhor arredio”. se coloca no espaço da exclusão e do desencanto. são retomadas as características formais do gênero. Assim. marinha. pastorela). apesar da clara referência à cantiga de Martin Codax. que dessa forma se junta à herança das paralelísticas.12. também provençal. do “morrer de amor”. Na “Bailia”. o Índice já indica que ela retomaria também os gêneros mais típicos do Trovadorismo galaico-português. mas urbanos. bailada. não mais oráculo ao qual a amiga do passado interrogava confiante. No entanto. como a fiinda e o refrão-suspiro. assumindo o lugar do trovador. Desde o título somos remetidos à lírica medieval em langue d’oc. onde se viam a esperançada amiga ou a cortejada pastorinha. alva. dando inclusive preferência ao termo cantiga (de amigo.) “prados” a que se refere o poema não são rurais. cortados por “rios de óleo e lama”. de maldizer). E o sujeito da poesia. já que “de asfalto”. com refrão variável e paralelismo só quebrado na estrofe final. xácara). Mesmo no interior dos poemas as duas tradições . a modo de finda. E na “Cantiga como se fosse de mal-dizer ou canção de amante” a poetisa. no entanto é outro o “mar de Vigo” da poetisa. misturam-se no seu (re)fazer elementos occitanos e ibéricos. Marly Vasconcelos A cearense Marly Vasconcelos (1955). Na “Barcarola”. bem como gêneros líricos de outras regiões (canção de gesta. publicou em 1985 um livrinho de poemas intitulado Cãtygua proençal. Aí.LA T ARIA DO OMPARO T 68VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. de amor. Poluição e degradação nos afastam dos límpidos cenários de outrora. 5. praticada nos territórios ao sul da hoje França. balada) e posteriores (acalanto.

é. onde o choro das donzelas se confunde com o das “ondas que vogam”. formado em Direito e Professor de Literatura Portuguesa. e outras. mas sem ater-se aos recursos formais típicos do gênero.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 69 trovadorescas. amalgamando a tradição lírica medieval. ensaísta e editor. E também assume por inteiro o lugar. se confundem. como na “Marinha” dedicada a Roberto Pontes. o vate latino.. do trovador ibérico. Na “Pastorela” apresenta. fontes). sem buscar ater-se aos seus rígidos esquemas formais. na “Cantiga de amigo”. etc. Inicialmente. com o subtítulo explicativo: “Dez exercícios de canto segundo a maneira antiga seguidos de uma poética fragmentária”. o bardo celta e o poeta moderno. José Rodrigues de Paiva O português coimbrão José Rodrigues de Paiva (1945). madre. o mesmo que outrora não apenas louvava a senhor fremosa nas cantigas de amor. mas o guerreiro mouro que anseia por uma lusitana. úteis para a reflexão sobre o Neotrovadorismo. Desta poética. 5. dos seus quadros mais típicos e até do som dos lamentos dos amantes. Por exemplo.. prado. Enfim. a poetisa nos coloca diante do passado medieval. Na “Bailada” insere a pastora. além de poeta. trata de resgatar a importância do Trovadorismo na gênese da tradição lírica do Ocidente: Entre o aedo e o rapsodo gregos.13. Na “Cantiga de amor” coloca em cena não o nobre trovador. embora seja um canto de voz feminina e nele retome os seus componentes ibéricos habituais (amigo. antes masculino. que a nossa poética remonta e se desenvolve . antes de se pensar nos gregos e latinos. Publicou em 1987 Cantigas de amigo e amor. radicado no Recife (1951). proençal. não o diálogo do cavaleiro com a pastora. mas as suas indagações aos elementos da natureza sobre o paradeiro da amada. está o trovador provençal. a amiga expressa o desejo de cantar em.. extraímos alguns trechos. É sobretudo a ele. principalmente desvelado na “Cantiga de maldizer” contra o “filho dalgo desprezível”. mas ridicularizava e reificava sem piedade as feias e soldadeiras. contista. o que vimos ser recurso típico das cantigas de amigo paralelísticas galaicas.

31-37). A ele e ao seu caminho francês. em busca da própria identidade. às águas de Vigo (etc. (PAIVA. com a consciência da razão solar. inconsciente ou consciente: Inconscientemente. trovadores. Inconscientemente. a refazer os passos da História e da Tradição a que não pode estar indiferente. de castelo em castelo. algumas medidas. A eles. E conclui pela dupla feição deste resgate. a falar dos modos de resgate da tradição medieval. de feira em feira. o poeta dá preferência às cantigas de amigo. p. esfumados artistas que no tempo se diluem como o fumo das fogueiras dos acampamentos que animaram com a sua arte nômade ou como os perdidos brilhos das cortes e paços da nobreza antiga que abriram as suas portas à poesia. ouvir no correr dessas águas alguns fios melódicos que se vão revelar. o Poeta poderá caminhar. e aos segréis. algumas formas.. Aprendizagem iniciática que se impõe indispensavelmente num tempo de algumas tão inconseqüentemente vazias vanguardas falsamente poéticas . poderá tomar. de vila em vila.) no tempo a partir de velhas e primitivas raízes. Mas poderá também. Nos poemas.. então. depois. até San Leuter. Passa. menestréis. até San Clemenço. em certos poemas seus.). assinalando a necessária busca de identidade como seu motor: Modernidade e tradição neste ato de resgate para dar continuidade a formas vivas. é que regressa o poeta moderno. jograis. 1988. a unir modernidade e tradição. e dar-lhes outra música.. desta fonte de séculos. ao encontro da ribeira do seu rio. E o faz de forma consciente.. pelo caminho lírico do retorno ao passado. por esta verde Galiza mítica. até Santiago.LA T ARIA DO OMPARO T 70VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. até San Servando. dado o trabalho de reconstrução das . Necessário regresso às origens. como vimos o mais autóctone dos gêneros trovadorescos. retornar à primitiva pureza de certas formas simples e dar-lhes outra voz.

a modo de epílogo. não repudiou a nossa lírica ancestral. sem refrão ou variação – como ele próprio as nomeia. só lhe resta o acordar do sonho. entre o primeiro verso da última estrofe e o verso anterior: “uma canção de atafinda. decorrentes do contexto industralizado e do nazismo. canalizou para o poema-piada a sua retomada do medievo. cabeça do Modernismo no Brasil. concluindo pela necessidade do canto para distrair o sofrimento. com as suas desumanidades e ilusões. a peregrinação a Santiago de Compostela.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 71 formas arcaicas a que procede. inclusive variação do leixa-pren – por exemplo. se nessas e em outras cantigas de amigo conseguiu reproduzir até mesmo o som de versos e estrofes. Já na “Cantiga de amigo”. no caso. lançando mão novamente de recursos paralelísticos. antes. das experiências aqui retratadas. constituídos por oito a dezesseis versos redondilhos. Outros caminhos Para concluir. retoma a tradição dos bailados sob as avelaneiras frolidas e durante as romarias. embora sem segui-lo rigidamente como na “Cantiga do mar de Vigo”. de tom melancólico. Martins Fontes teve estimulado o seu interesse pela revalidação do nosso passado luso-galaico por motivo da sua ligação com Portugal. Conclusão. substituiu as preocupações amorosas arcaicas por preocupações de cunho político-sociológico. Enfim. Já Pennafort procederia mais de acordo com as suas realizações no campo do memorialismo. // Uma canção sobre o mar”. pela distinção de ter sido . Usa aí recursos do paralelismo. 6. Também a rima utilizada faz eco à do paradigma. encerra o pequeno cancioneiro. apenas nasalisando a rima em /i/ e mantendo a rima em /a/. estabelece um diálogo com o gênero como tal considerado. que na verdade são duas “quase esparsas” – as esparsas são poemas curtos do século XV. Em “À sombra florida das avelaneiras”. “Em Lisboa sobre o mar” constitui desenvolvimento da barcarola de Johan Zorro. tal não o fez nas de amor. na cantiga sobre a “noite do poema” que. Depois. vimos que Mário de Andrade. voz sulista da iconoclastia modernista. da tradução e do ensaísmo. Augusto Mayer.

que percebemos também ser a mola-mestra de Marly Vasconcelos. uma doutrina ou sistema que justifique o termo Neotrovadorismo em sua acepção mais rígida. sem ser a determinante principal. Muito embora . sem estar ausente em todos os demais.) eleito para a Academia das Ciências de Lisboa. sendo-lhe o conhecimento facilitado pela sua dedicação ao magistério e ao folclorismo. Também a circunstância docente se ligam os poemas de José Rodrigues de Paiva e Francisca Nóbrega. tornando-se. ele próprio desvelara o caráter circunstancial de seus poemas ditos medievais. Merece destaque Stella Leonardos. motivados pela impressão que lhe provocara a descoberta dos Cancioneiros ao preparar aulas. pela via do processo poético íbero-brasileiro. também Francisca Nóbrega. Nesta perspectivação feminista se inclui Miriam Coeli e. a história pátria e aspectos do imaginário popular expressos no Romanceiro. em numerosos poemas que aliam o delectare ao docere proposto pelos antigos. o que se torna ainda mais claro nos poemas que se antecedem de epígrafes remissivas aos modelos poéticos (e são muitos). assumindo um particular feminismo ao ocupar o lugar outrora atribuído aos homenstrovadores no contexto ibérico.LA T ARIA DO OMPARO T 72VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. fica claro que não tivemos. Bandeira. sem dúvida. interagindo com os seus escritores e ideólogos. inclusive os jornalistas Paulo Bonfim e Edison Moreira. Já Stella Leonardos comporia guiada pelo seu confessado amor às nossas raízes líricas. expressa em poesia. Mas os poemas apresentam uma constante inquestionável: terem sido construídos a partir das cantigas dos trovadores galego-portugueses. que reconstitui. vinculara-se muito provavelmente ao Saudosismo lusitano. Por essas amostras de poemas de autores e épocas diversas. e algumas vezes dos occitanos. Cecília Meireles certamente que valorizara o medievalismo por sua tendência filosóficoespiritualista. Hilda Hilst retomaria dos mestres as lições de brevidade do poema e a relação sinonímica amar/trovar. certamente que incutindo-lhes a dor da precariedade existencial. mas acentuando a angústia por um tempo existencial não mais recuperável. no Brasil. a grande especialista e mais fecunda cantora das nossas tradições. escritor mais assumido. Ao passo que Guilherme de Almeida.

Este também retomou. de forma admirável. por exemplo. pode-se constatar a sua floração também em alguns dos nossos poetas eruditos. através de obras que documentam uma tendência na História da Literatura Brasileira – o Neomedievalismo. O próprio poeta revelou. que a partir de 1947. as sementes poéticas trazidas nas caravelas em nossos primórdios histórico-culturais continuam até hoje vivificadas pelos poetas. mesclando-o ao auto medieval. A injustiça social no Brasil. Dinis é figura de destaque nesse processo. não pode ser deixado de lado pelos especialistas e professores. já que se apresenta em poetas canônicos ou não canônicos. bem como à literatura “popular” brasileira. ao pranto e à tenção trovadorescos. Mesmo nos atendo à literatura considerada “culta” ou erudita. como é o caso de Onestaldo de Pennafort. de diversas regiões brasileiras. documentada embora pela escrita. apaixonou-se pela literatura tradicional ibérica. se levada em conta a extensa demografia do nosso Brasil. em entrevista publicada em 1985. polarizada no drama do retirante nordestino. Mário de Andrade e Cecília Meireles. Com relação aos romances.. o romance ibérico. como o faz Stella Leonardos. por demais fecundo na literatura de cordel e na literatura oral. Este. João Cabral de Melo Neto. dando frutos de novo sabor. voltando à epígrafe inicial. Evidentemente que não esgotamos o rico veio do Neomedievalismo brasileiro. E. vemos que D.. qual seria outro melhor termo para denominarmos ditas incursões?. ora dialogam com ela. ora criam novos romances a partir de dados da realidade brasileira. tem nessas formas mescladas um meio de expressão altamente impressivo. em peças admiráveis como Morte e vida severina. mas que não é por ora nosso objeto de estudo. deixamos de lado.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 73 a sua relação com esse modelo seja extremamente variável. assimilando e recriando-lhe as formas arcaicas e . Ora seguem a tradição oral. Enfim. um dos grandes poetas do século XX no Brasil. embora não tanto significativo em termos numéricos. como Onestaldo de Pennafort e Edison Moreira. quando foi residir na Espanha em decorrência de cargo diplomático. revivendo como tema ou como mestre na poesia brasileira do século XX.

O diálogo do Retirante com o Mestre Carpina segue os processos da tenção galega. p. Publi- . As ciganas estão nos autos antigos (. 141). nela se percebem a ausência de refrão e a irregularidade na extensão das estrofes. (.) (OLIVEIRA. bem como para com as tenções dos trovadores galaico-portugueses e autos. nunca mais abandonando a rima toante: Com Morte e vida severina quis prestar uma homenagem a todas as literaturas ibéricas. destacara o medievalismo desta obra. principalmente a sua dívida para com o Romanceiro Ibérico através de algumas cenas e do uso dos versos heptassílabos e da rima assonante. Os monólogos do retirante provêm do romance castelhano.). 18). Também Marly de Oliveira... 1994. Diz ela: os monólogos do Retirante têm em comum com o romanceiro ibérico o uso do heptassílabo e a assonância. Através da competente análise de Maurice van Woensel (1998. épico e dramático.. na contagem espanhola) e pela rima toante entre os versos pares. p. “constituem as primeiras obras ostentando a técnica e o estilo que se tornariam a marca registrada do poeta” (WOENSEL. vemos que a obra é rica destes e de outros recursos medievos. (. poetisa e esposa do poeta. p. SECCHIN.. 1985.. Observou o especialista que a peça juntamente com o poema “O rio”. A cena do enterro na rede é do folclore catalão. que redunda em um esquema binário. Não me lembro se a mulher da janela é de origem galega ou se está em Pereira da Costa. 303-304). principalmente do Romanceiro hispânico: além da preferência pelo verso de sete sílabas (ou de oito.. 1998. de 1953. A conversa com Severino antes de o menino nascer obedece ao modelo da tenção galega (MELO NETO.) a da mulher na janela é um poema narrativo em português arcaico incorporado ao folclore pernambucano (. O encontro com os cantores de incelenças é típico do Nordeste.LA T ORAP DO OMPARO T 74VELAM SERAVAMARIA MAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. p.) temas. 115-143). a cena do Irmão das almas homenageia o romance catalão do conde Arnaut. bem como a mistura dos gêneros lírico. MELO NETO..)..

).)141 .agitna oãçidart aleuqad aterid oãçaun -ajopsed odot ed e laro olitse olep omoc . 47 (1) Para Massaud Moisés (1978.p .( amrof .oriegassap omsidom muhnen mare oãn“ -alimissa e marirbocsed euq edadilanosrep aus ed e ocitéop oinêg .8991 .8991 .somerolpxe -anoxiapa mu e XX olucés od lisarB on satsilaveidem sodacided .larbaC odnauq .lisarB on omsilaveidem od oiev ocir ortuo é etse saM nav eciruaM ed etivnoc o aciF . que não apresenta qualquer vínculo com os cantares paralelísticos”.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 75 o . originário do francês coursault. que preferiu a denominação cantigas paralelísticas puras ou bailadas.1002 ed soicíni me odicelaf etnemzilefni .ahnapsE an otrebocsed ret uossefnoc euq . Tal designação.edarf od otua O sioped sona atnirt odnac ”agitna acirébi acitéop a moc sedadinifa saus“ euq uovorp ateop ues ed oxelfer o sam . Parallelistic songs e serranas (Henri Lang). tradutor da Literatura Portuguesa de Aubrey Bell. Segismundo Spina (1991.arartne áj .orenêg -iam meb otcapmi mu ahnit arief ed serodatnac sod ed latipac an omsem e roiretni on aroga euq od ro . paralelísticas (puras). tem conseguido mais larga aceitação.LESNEOW( ”siaveidem samet e soledom mar ralupop arutaretil ad lepap o odnatlasser iulcnoc lesneoV . 386) o termo cossante “mostrou-se inadequado para designar tal espécie de cantiga de amigo.)931 .mifnE oveidem od oãçalimissa ed ossecorp essed oãçaidem an anitsedron :onacubmanrep ateop ednarg olep o e anilarbac acitéop a ertne oiráidemretni ole mU -op arutaretil a adivúd mes é lanoicidart oriecnamor -itnoc amu etnemlevageni é atsE .p .rotudes etnemamertxe euq etnem o euq arap .anitsedron ralup alep otnat .ateop od aicnâfni ad acopé an . p..ocirébi oriecnamor o .p . ou Manuel Rodrigues Lapa.áj otluda eleuqad anredom oãsrev a moc otatnoc me .LESNEOW( ocubmanreP -atrec . como retornadas (Leite de Vasconcelos). ou ainda.orielisarb etsedroN od arutluc alep od Nota p. . 369-370) também ressalta a inaceitabilidade do termo por parte de especialistas como Agostinho de Campos. Jeanroy chansons à répétitions. serranilhas (Teófilo Braga).)731 . ou corsaute.sezov arap ameop .sáilA . apesar de outras terem sido criadas.ele a meganemoh asson a E . anteriormente..lesneoW siam sod mu iof euq . p.8991 . ou da tradução alemã verkettungslieder.oninem etra a .LESNEOW( od . uma vez que resultou de uma falha de leitura: entendeu-se cos(s)ante em vez de cosaute. além da adaptação de A.

São Paulo: Martins.. ALMEIDA. Rio de Janeiro: Salamandra. Salvador: Livraria Universitária. bil. São Paulo: Livraria Martins Ed. 1996. de. Belo Horizonte: Itatiaia. 1994). p. esp. Poesia completa e prosa. Santiago de Compostela: Laiovento. Vol. José Jacome. p. Leodegário A. São Paulo: Martins. Trad. Língua e literatura galega na Galicia emigrante. São Paulo: USP/UNICAMP/ UNESP. Atas do I Encontro Internacional de Estudos medievais. et alii. As cantigas de Pero Meogo. (Napoli. Por Maria Luisa Cusati. de Yara Frateschi Vieira. Mikhail. Actas das II Xornadas UFF de Cultura Galega (Niterói. “Raíces galegas e portuguesas da poesía brasileira contemporânea”. ALONSO MONTERO.. de Inés Creixell Vidal-Quadras. 1952. Poesias completas. Maria del Rosário Suárez. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia. Natal: Clima. Manuel. António Triste. “A tradição lírica amorosa galaicoportuguesa na produção poético-lírica posterior de Portugal”. ARCHANJO. Guilherme. crítica de Diléa Zanotto Manfio. p. Napoli: Liguori Editore [sd]. Fermín. ANDREAS CAPELLANUS. ARMANDO. Vigo: Galaxia. ———. São Paulo: EDUSP. 103-114. trad. 1977. 1980. Obra literária completa. In: Atas do Congresso Internazionale Il Portogallo e i mare: un encontro tra culture. Mário de. . Maria do Amparo Tavares (Org. Org. 1995. BONFIM. 371 – 377. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais. Rio de Janeiro: Empresa Editora ABC Ltda. São Paulo: HUCITEC. Doralice Fernandes Xavier. ANDRADE. “A tradição da lírica amorosa galaico-portuguesa na poesia modernista do extremo sul brasileiro”. Santiago de Compostela: Edicións do Cerne.LA T ORAP DO OMPARO T 76VELAM SERAVAMARIA MAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. BAKHTIN. José Carlos. Cancioneiro de Monfero.). 1952.) Referências bibliográficas ALBÁN. 1995. 98 -107. Barcelona: El Festín de Esopo. BOUZA BREY. Escolma de poesía galega I. As marinhas. VII. ______ . BANDEIRA. Toda a poesia. Xosé Maria. 1995. ——— et alii. 15-17 dicembre 1994). Neide. Ed. De amore. Discursos acadêmicos (1927-1932). ______. 1987. 1937. 1984. 1995. BARCELLOS. Vigo: Edicións Monterrey. 1978. São Paulo: Círculo do Livro. ALCOFORADO. BARRETO. 1988. 1985. MALEVAL. Paulo Lebéis. A arte poética de Myriam Coeli. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia. 1947. Poemas escolhidos. ALVAREZ BLÁZQUEZ. AZEVEDO FILHO.. Ed. 1996. 1953. Romanceiro Ibérico na Bahia. Xesús. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. Maria Luiza de Carvalho. 1987.

Antoloxía crítica da poesía neotrovadoresca. Ed. Cabalgadas en Salnés. Martins. GARRETT.d. Figueirinhas.. 1989. Vol. BRAGA. 2 vols. 1989. vol. Odylo. p. Nely Novaes. “Romanceiro”. Obras. Vol I: Poesia. Santiago de Compostela: Centro de Investigacións Lingüísticas e Literarias Ramón Pinheiro.]. Introducción a BOUZA BREY. crít. Lisboa: IN-CM. BREA. “A poesia brasileira contemporânea e suas raízes portuguesas”. 1988. Discursos acadêmicos (1970-1971). 1988. 7. Dicionário de literatura (Brasileira. de gloss. COELI. Celso. Separata de Cadernos de literatura n. 1991. sobre o texto diplomático de Halle. Lírica profana galego-portuguesa. Xosé. 1928. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira de Letras. Tese de Doutoramento. cit. Almeida. Vigo: Edicións Xerais de Galicia. 39-40 e 1005-1008. Op. n . 1878. FERREIRO. Poética do Saudosismo. II. ed. Porto: Lello & Irmão Editores. COELHO. Fermín. Portuguesa. Cancioneiro portuguez da Vaticana. William Myron. Cancioneiros dos trovadores do mar. 1992. Yerma. 1941. Vigo: Galaxia. CASTRO. 1973. 1990. Álvaro. Poesias completas. Xosé Manuel. . Alborg (Cuadernos de poesía). Ed. Myriam. 677-1064.). Jacinto do Prado. 2 vols. Cantigas de amigo. Lisboa: Presença. 1996.0“Seis canciones de mar in modo antiquo”. Porto. 1811-1944. I. ed. Eduardo Pondal ‘ao estilo’ de Johan Zorro (A primeira cantiga neotrobadoresca galega).). GARCÍA LORCA. New York University. p. Ed. FILGUEIRA VALVERDE. Teatro. Federico. Romancero gitano. CUNQUEIRO. Discurso de posse na ABL. Galega e estilística literária). Fiama Hasse Pais. 30. preparada por Elsa Gonçalves. Natal: Clima. Tese de Doutoramento. Seitura. COUTINHO. Afrânio (Org. COELHO. p. “Almeida. 1993. acomp. Nao senlleira. 1966. Manuel. Mercedes (Org. Lisboa: Imprensa Nacional. e introd. ENRÍQUEZ. Publicada em parte com o título Antoloxía da poesía neotrobadoresca. 1999. Fernando. Pamplona. DAVIS. [s. Obra en galego completa. CUNHA. Neo-troubadourism in Galicia. Xosé Manuel Enríquez. Portugal and Brazil. rest. 1980. O texto de João Zorro. 1972. 5º volume.. BRANDÃO. GUIMARÃES. Teophilo. 8. Verb. 1969. 2. Guilherme de” e “Saudosismo”. 213-234. O mar das cantigas. COSTA FILHO. p. 1981. Porto: Inova. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia. Rio de Janeiro: Oficina Literária Afrânio Coutinho / MEC (Fundação de Assistência ao Estudante). Madrid. 3. Pilar. FONTES.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 77 ———. Santos: Bazar Americano. Madrid: Libresa. Enciclopédia de Literatura Brasileira. Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa da Universidade. p. Vigo: Galaxia.

6. MALEVAL. Brasília: INL. Cantigas d’ escarnho e de mal dizer dos Cancioneiros medievais galego-portugueses. Maria do Amparo Tavares. São Paulo: Cultrix. ———. 1970. Poesia completa. 1957. LEONARDOS. ———. Estudos Galegos I. Org. 2. Poesías completas. 1967. 5. 2. Tempo de poesia. Rio de Janeiro: Ed. Org. MOLTENI. Massaud. Vigo: A Nosa Terra. José Pedro. Luiz Correa de. 2000. e acresc. Org. MELO. 1980. São Paulo: Comissão do 4o centenário da cidade de São Paulo. Dicionário etimológico da língua portuguesa. ———. Lênia Márcia de Medeiros Mongelli. 1974. Cecília. Ramón. 259-287. Dicionário de termos literários. 1996. ______. Il Canzoniere portoghese Colocci-Brancuti. Brasília: Instituto Nacional do Livro / MEC. A recuperación da tradición lírica medieval en Galicia: o neotrobadorismo. Cómaros verdes. 1996. ______. Rio de Janeiro: Liv. Vilagarcia: Ediciós Celta. Hilda. leitora dos trovadores galego-portugueses”. Estudos Galegos 2. p. 1997. IGLESIA ALVARIÑO. p. 1989. Poesias (1922-1956). LÓPEZ DE MENDONZA. Amanhecência. 1994. p. Madrid: Castalia. 11-64. 1954. M. Obra completa. Ágora da Ilha. LÓPEZ. Lisboa: Livros Horizonte. 1978. Tese de Doutoramento. Flor nueva de romances viejos. Stella. Ed. Romanceiro da Inconfidência. Poesia. 5 volumes. “Hilda Hilst. Rio de Janeiro: EdUERJ. São Paulo: Quíron. Universidade da Coruña. ed. Rio de Janeiro: Aguilar. MACHADO. Rio de Janeiro: Nova Aguilar.LA T ARIA DO OMPARO T 78VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. Edição organizada por Antonio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Niterói: EDUFF. 1974. Edison. Niterói: EDUFF. MEYER.. 2001. ______. Publicato . 1993. 1989. O neotrobadorismo. Obra poética. 1998. João Cabral de. MOREIRA. Rodrigues. Aquilino. Niterói: EDUFF. Buenos Aires: Espasa-Calpe. “O Romanceiro ibérico na poesia brasileira”. Peregrinação e poesia. MELO NETO. Rio de Janeiro: José Aguilar. 1999. 1947. Romançário. Íbis. 1980.) HILST. “Martín Moya: amar/trovar/pregar”. Rio de Janeiro / Belo Horizonte: Livraria Garnier. ed. Vozes do trovadorismo galego-português. Estudos Galegos 1. 77-88. Rio de Janeiro: José Olympio. ed. LAPA. Teresa. Rio de Janeiro: Ágora da Ilha. Augusto. ———. 1946. 2. MEIRELES. 1999. São Paulo: Ed. MOISÉS. Iñigo (Marqués de Santillana). ed. de Manuel Durán. Edição organizada por Marly de Oliveira com assistência do autor. Dicionário de autores paulistas. ______. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. ed. rev. 1995. Coimbra. ———. 9. ed. 2 vols. Enrico. São José Ed. MENÉNDEZ PIDAL. Atualizações da Idade Média.

de Maria de Lourdes Saraiva. p. ed. Maria do Amparo Tavares (Org. 1999. 1986. FFLCH-USP. Lênia Márcia de Medeiros.. SPINA.. Natal: Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFRGN. 1981. Ed. . Brasília: INL / Fundação Nacional Pró Memória. Il Canzoniere portoghese della Biblioteca Vaticana. Ernesto. Dalma. Lisboa: Edições 70. Lisboa: Centro do Livro Brasileiro. Riflessioni su kharge e cantigas de amigo. Francisca. Cantigas. 1991. PONDAL. Gilberto Mendonça. 2. Maria do Amparo Tavares (Org. Actas das II Xornadas UFF de Cultura Galega (Niterói. J. Fernando. Cantares d’amor e d’amigo. 161-165. Antonio Carlos. TELES. 4. 2 . Cantigas de ontem e de hoje. José Rodrigues de. Quem é a Leonoreta de Cecília Meireles? MALEVAL. Menina e moça. Dinis. introd. Halle. 1974. NÓBREGA. 1995. ed. 1954. 7-33. José Joaquim. Recife: GPL/ AEPJE. SECCHIN. 16. Lisboa: Europa-América. SCUDIERI-RUGGIERI. Obra poética. ed. 1880. Eduardo. NASCIMENTO. a Vol. Cantigas d’amigo dos trovadores galego-portugueses. a . A memoria da Galicia no neotrobadorismo brasileiro. Atualizações da Idade Média. 1987). Amanhecência. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia. PESSOA. Carles. São Paulo: o o Boletim n . da Organização Simões. 300 – Cadeira de Literatura Portuguesa n . Dissertação de Mestrado. 1966. p. Rio de Janeiro: Ed. p. Mensagem. Rio de Janeiro: Aguilar. ———. TAVARES. MONACI. Do formalismo estético trovadoresco. A lírica trovadoresca. In LEONARDOS. 91-101. Cantigas de amigo dos trovadores galego-portugueses. 1875. 1994). ———. Jorge de. Ed. 1985. Vigo: Galáxia. 1973. Niterói: EDUFF. I. XII (1962). Sueli Silva. crít. s. p. 1912. 369-370. 2000. 1990. 1972. variantes e glossário. MONGELLI. PAIVA. PASCOAES. São Paulo: Duas Cidades.). Estudos galegos 1. 1966. Bernardim. In MALEVAL. 3 volumes. [1985]. Um estudo comparativo entre Cantigas de amigo. Onestaldo de. Novos poemas.. Ed. coment. O físico prodigioso. A águia — órgão da Renascença Portuguesa. NUNES. de Xosé Lois Garcia. Poesias. Segismundo. p. 1973.). RIBA. João Cabral: a poesia do menos. SENA. Halle. e as cantigas medievais de D. 233-258. de Amado Ricón. São Paulo: EDUSP. Ed.. A Corunha: Edicións do Castro. 1988 (1. Cantigas de amigo e amor. Porto. Stella. Lisboa: Centro do Livro Brasileiro. Teixeira de.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 79 nelle parti che completano il Códice Vaticano 4830. PENNAFORT. de Myriam Coeli. RIBEIRO. Rio de Janeiro: José Aguilar. “O códice do códice: a estella de Stella”. série. Rio de Janeiro: Ágora da Ilha. CN.

A literatura portuguesa em perspectiva (Org. Fortaleza: Nação Cariri Ed. São Paulo: Atlas. VIEIRA. Xoán Vicente. A poesia lírica galego-portuguesa. [1901]. 1990. ———. Canções do vento e do sol. Cancioneiro da Ajuda. Xestión do Plan Xacobeo (Xunta de Galicia). VÁZQUEZ VÁZQUEZ. Lisboa: Bertrand. O poeta saudade. 1974. 25-54). . VIANA. Ilhas de bruma. 1985. WOENSEL. Antologia poética. Ed. [1966]. França AM editor. Lisboa: Ulmeiro. Santiago de Compostela: Hércules de Ediciones / S. Romance de Amadis. João Pessoa: CCHLA / Editora Universitária da UFPB.) p. 1904. 226. Primeiro Certame Xacobeo de Poesía. ———. cit. Ensaios e poesias. VASCONCELOS. Reimp. Paulino et alii. Poesia medieval ontem e hoje. 1911. ———... Lisboa: Ulmeiro. 1983. ed. Chico. 2 volumes. 1998. Halle: Max Niemeyer. p. Onde a terra se acaba e o mar começa. VIQUEIRA. 13-31. 1940. Lisboa: Guimarães Ed. VIEIRA. Afonso Lopes. 1992. Coimbra: F. crítica e com. ______. País lilás. Marly. ———. p. Lisboa: IN/ CM. VASCONCELOS. Massaud MOISÉS).LA T ARIA DO OMPARO T 80VELAM SERAVAMORAPMAAD AIRAMAVARES MALEVAL (ORG. Antologia poética. Cãtigua proençal. 1993. Vigo: Galáxia. Murice van. A. Yara Frateschi. Carolina Michaëlis de.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 81 Antologia .

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 83 1. Poesia medieval: 1.1 Cantigas .

Sua produção poética possui traços dos mais singulares e consta de oito cantigas de amor. val! Com’ estou d’ amor ferida!” . Deus.Dinis e de Dona Aldonça Rodrigues de Pilha. Gozou de um importante estatuto na corte de seu pai. duas cantigas de amigo. Deus. val! Non ven o que ben queria! ai. Deus. val! Com’ estou d’amor ferida!” Dizia la ben talhada: “ai. val! Com’ estou d’amor ferida! ai. val! Com’estou d’amor coitada! ai. Morreu por volta de 1328 no cerco de Escalana. Afonso. nasceu pouco antes de 1289. herdeiro legítimo do rei.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 85 Afonso Sanches Filho de D. Foi exilado em Castela após 1325 pelo Infante D. Deus. Deus. DIZIA LA FREMOSINHA Dizia la fremosinha: “ai. contudo só mais tarde seu corpo foi levado para o Mosteiro da Vila do Conde. Deus. val! Com’estou d’amor ferida!” “Com’ estou d’ amor ferida! ai. uma tenção de amor (com Vasco Martinz de Resende) e quatro cantigas de escárnio.

Deus.86 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Deus. val! Com’ estou d’ amor ferida!” .) “Com’ estou d’ amor coitada! ai. val! Non ven o que muit’ amava! ai.

possivelmente no segundo terço do século. se al dizer quiser! Mays. logo dirá ca lhi digo pesar. COM’ANDO CUYTADO D’AMOR! Ay. com’ando cuytado d’amor! E. AY. Deus. quando a vir. . pesar. DEUS. logo dirá que lhi digo pesar. Pero m’eu moyro querendo-lhi ben. se lhi disser a coita ‘n que me ten. ativo em meados do século XIII. pesar]. logo dirá c[a lhi] d[igo] p[esar]. e quero-mh-ante mha coyta ‘ndurar ca lhi dizer. se o for dizer à mha senhor. pesar. e quero-mh-ante mha coita ‘ndurar ca lhi dizer. É muito arriscado estabelecer conjecturas sobre um autor do qual nem sequer o apelido (Carpancho ou Corpancho) está claro.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 87 Airas Carpancho Trovador galego. quando a vir. quando a vir. se lhi ren de mha coyta disser. Ao certo sabemos que seu cancioneiro é constituído de cinco cantigas de amor e oito cantigas de amigo. Ben m’oyrá. e q[uero]-m[h-ante] m[ha] c[oyta ‘n]d[urar] c[a lhi] d[izer.

E sse fezer tenpo. pug’ en meu coraçon. e parecer melhor. PUG’EN MEU CORAÇON Por fazer romaria.) POR FAZER ROMARIA. por fazer oraçon e por veer meu amigo logu’i. querrey andar mui leda.88 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. . e por veer meu amigo logu’i. con gran coita que ey. un dia. e por veer meu amigo logu’i. e mha madre non for. Quer’eu ora mui cedo provar se poderey hir queymar mhas candeas. a Santiag’.

verrá bailar. uma pastorela e quatro de escárnio e maldizer. se amigo amar. se amigo amar. dono de uma respeitável técnica. ai irmanas so aqueste ramo d’estas avelanas. sol que nós bailemos. so aquestas avelaneiras frolidas. so aqueste ramo d’estas avelanas verrá bailar. ai amigas. mentr’al non fazemos so aqueste ramo frolido bailemos. no período entre 1284 e 1289. so aqueste ramo. e quen ben parecer como nós parecemos. Por Deus.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 89 Airas Nunez Foi um clérigo. e quen for louçana como nós. BAILEMOS NÓS JA TODAS TRES. três de amigo. provavelmente galego. . velidas. Bailemos nós ja todas tres. e quen for velida como nós. ai amigas. Compôs as suas cantigas na corte de Sancho IV. louçanas. Suas cantigas constam no Cancioneiro da Biblioteca Nacional e no Cancioneiro da Vaticana. São cerca de sete cantigas de amor. Airas Nunez parece ter sido um homem culto. AI AMIGAS Bailemos nós ja todas tres. se amigo amar. Atribui-se a ele co-autoria em algumas das Cantigas de Santa Maria. so aquestas avelaneiras frolidas verrá bailar.

.. mais aver mal.........) AMOR FAZ A MIN AMAR TAL SEÑOR Amor faz a min amar tal señor que é mais fremosa de quantas sei.... Ca per amor cuid’ eu mais a valer e os que d’ el desasperados son nunca poderán ne¢u ben aver. mais pero que sei lealment’ amar.. e é cousida sen dultança.. Pois min amor [non quer leixar e da-m’ esforç’ e asperança.90 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.. e faz-m’ alegr’ e faz-me trobador....... mal veñ’ a quen se d’el desasperar]. de pran. ca trob’ e canto por señor... mal veñ’ a quen se d’el desasperar... Pois min amor [non quer leixar e da-m’ esforç’ e asperança mal veñ’ a quen se d’el desasperar].. e faz-me todavia en ben cuidar... ¡vedes que mal!........ ....... e non per antollança......[-ar] faz-me viver en alegrança. [-ar] trob’ eu.. Cousecen min os que amor non han e non cousecen si.... E por esta razon .. Pois min amor non quer leixar e da-m’ esforç’ e asperança. que sobre quantas oj’ eu sei mais val de beldad’ e de ben falar. cuidand’ en ben sempr’... Atal am’ eu. e por seu quer’ andar.. e mais vos direi: .

e tornei-m’ eu logo a meu cam{o. des i chorava mui de coraçon e dizia este cantar enton: “¡Que coita ei tan grande de sofrer. e ascondi-me pola escuitar. indo-ss’ én manseliño. amar amigu’ e non ousar veer! E pousarei solo avelanal!” Pois que a guirlanda fez a pastor foi-se cantando. e moir’ eu e pen’ e d’ amores ei mal!” E eu oí-a sospirar enton e queixava-sse estando con amores e fazia guirlanda de flores. e dizia este cantar mui ben: “¡Ai estorniño do avelanedo. e a pastor estava senlleira. ¿quen amores á como dormirá. e dizia este cantar ben a pastor: “Pela ribeira do río cantando ía la virgo d’amor. bela frol?” .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 91 OÍ OG’ EU ¢A PASTOR CANTAR Oí og’ eu ¢a pastor cantar du cavalgaba per ¢a ribeira. ¡choran ollos d’ amor!” E a pastor parecia mui ben. e eu mui passo fui-mi achegando pola oír. e chorava e estava cantando. cantades vós. ca de a nojar non ouve sabor. e dizia mui ben este cantar: “Solo ramo verd’ e frolido vodas fazen a meu amigo. [a]i. e sol non falei ren.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL

93

Alfonso X, o Sábio

Filho de Fernando III, o Santo, e de Beatriz de Suábia, nasceu em Toledo em 1221. É sem dúvida o protagonista da organização do Estado Medieval da Península Ibérica. Sendo infante e em posse dos cargos de alferes-mor (1242) e de tenente de Salamanca e Leão (1243 a 1246), leva a cabo a conquista de Murcia em 1243 e de Jaen em 1246. Foi coroado rei de Leão e Castela em 1252, tendo exercido o poder por vinte anos. Seu reinado coincidiu com a fase áurea da lírica galaico-portuguesa. Trovador prolífico, compôs quarenta e quatro poesias profanas, sendo trinta e sete escárnios, três tenções, três de amor e uma de amigo. Foi autor e/ou responsável pela publicação das 427 Cantigas de Santa Maria. Sua corte converteuse em ponto de encontro para trovadores, tanto galego-portugueses como provençais, além de outros intelectuais, artistas e sábios diversos. Por essas atividades foi conhecido como O Sábio. Morreu em Sevilha, em 1284.
Como Santa Maria feze estar o monge trezentos anos ao canto da passarynna, porque lle pedia que lle mostrasse qual era o vem que auían os que eran en Paraíso. Quen a Uirgen ben servirá a Paraýso irá. E d’aquest’ un gran miragre uos quer’ eu ora contar que fezo Santa Maria por un monge que rogar lh’ ía sempre que lle mostrasse qual ben en Paraís’á, Quen a Uirgen ben servirá…

94

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)
E que o uiss’ en ssa uida, ante que fosse morrer. Et porend’ a Grorïosa uedes que lhe foi fazer: fez-lo entrar en h¢a orta, en que muitas vezes ia, Quen a Uirgen ben servirá… Entrarára; mais aquel dia fez que h¢a font’ achou mui crara et mui fremosa, et cab ela s’ assentou; et pois lauou mui bem sas mãos, diss’: − ¡Ay Uírgen! ¿Que será? Quen a Uirgen ben servirá… ¡Sei uerei do Paraýso, o que ch’ eu muito pidí, algun pouco de seu uiço ánte que saýa d’aquí, et que sábia do que ben obra qué galardon auerá! Quen a Uirgen ben servirá… Tan toste que acabada ouu’ o mong’ a oraçon, oyú h¢a passarinna cantar log’ eu tan bon son que ss’ escaeceu seendo e catando sempr’ alá. Quen a Uírgen ben seruirá.. . Atan gran sabor auía d’aquel cant’ e d’ aquel lais, que grandes trezentos anos esteuo assí, ou máys, cuidando que non esteuera senon pouco, com’ está Quen a Uírgen ben seruirá...

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL
Mong’ alg¢a uez no ano, quando sal ao uergeu; des í foiss’ a passarynna, de que foi a él mui greu, et diz’: − Eu d’aquí ir-me quero, ca oy máis comer querrá. Quen a Uírgen ben seruirá... O convent’. – E foi-sse logo, et achou un gran portal que nunca uíra, et disse: − ! Ai, Santa Maria, ual! Non é est’ o meu mõesteiro; Pois de mi? qué se fará?Quen a Uírgen ben seruirá... Des í entrou na eigreia, et ouueron gran pauor os monges quando o uíron et demandou-ll’ o prior, dizend’: − Amigo, ¿uós quén sodes ou qué buscades acá¿ – Quen a Uírgen ben seruirá... Diss’él: − Busco meu abade, que agor’ aqui leixey, et o prior et os frades de que mi agora quitey quando fui a aquela orta; ú séen? quén mi o dirá? − Quen a Uírgen ben seruirá... Quand’ est’ oyú o abade, téue-o por de mal sen, et outrossí o conuento; mais desque souberon ben de como fora este feyto, disseron: − !Quén öyrá Quen a Uírgen ben seruirá...

95

96

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)
Nunca tan gran marauilla como Deus por éste fez pólo rogo de ssa Madre, Uírgen santa de gran prez! Et por aquesto a loemos; mais ¿quén a non loará Quen a Uírgen ben seruirá... Máis d’aoutra cousa que seia? ca, par Deus, gran dereit’ é, pois quanto nós lle pedimos nos dá seu Fill’ a la ffe por ela, et aqui nos mostra o que nos depois dará. Quen a Uírgen ben seruirá, a Paraýso irá.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL

97

ESTA É DE LOOR DE SANTA MARIA.
Dized’ ¡ai, trovadores! a Sennor das Sennores ¿por qué a non loades? Se uós trobar sabedes, a porque Deus auedes ¿por qué a non loades? A Sennor que dá uida et é de bem comprida, ¿por qué a non loades? A que nunca nos mente et nossa coita sente, ¿por qué a non loades? A que é máis que boa et por que Deus perdõa, ¿por qué a non loades? A que nos dá conorte na uida et na morte, ¿por qué a non loades? A que faz o que morre uiu’, e que nos acorre, ¿por qué a non loades?

98

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

ESTA É DE LOOR DE SANTA MARÍA, COM’ É FREMOSA ET BOA, ET Á GRAN PODER.
Rosa das rosas et Fror das frores, Dona das donas, Sennor das Sennores Rosa de beldad e de parecer, et Fror d’ alegria et de prazer; Dona en mui piadosa seer, Sennor en toller coitas et doores. Rosa das rosas et fror das frores..... Atal Sennor deu’ ome muit’amar que de todo mal o pode guardar, et pode-ll’ os peccados perdõar que faz no mundo per máos sabores. Rosa das rosas et fror das frores..... Deuémol-a muit’ amar et seruir, ca punna de nos guardar de falir; des í dos erros nos faz repentir que nós fazemos come pecadores. Rosa das rosas et fror das frores..... Esta Dona que tenno por Sennor et de que quero seer trobador, se eu per ren poss’ auer seu amor, dou ao demo os outros amores. Rosa das rosas et Fror das frores, Dona das donas, Sennor das Sennores.

“Vin atender meu amigo’’.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 99 Bernal de Bonaval Provavelmente natural do sudoeste da Galiza. “Direy-vo-l’ eu. segundo alguns estudiosos. “Longi de vila quen asperades?”. “Vin atender [meu amigo]”. “Ay. oito de amigo e uma tenção. seria um jogral ligado. SE BEN AJADES! “Ay. “Longi de vila quen atendedes?” “Direy-vo-l’ eu. AY. se gradoedes! Longi de vila quen atendedes?”. fremosinha. poys me preguntades: vin atender [meu amigo]”. se ben ajades! Longi de vila quen asperades?”. poi-lo non sabedes: vin atender meu [amigo]”. à poderosa corte senhorial dos Sousas. fremosinha. Sua atividade poética parece estar situada na primeira metade do século XIII. FREMOSINHA. Seu cancioneiro compõe-se de dez cantigas de amor. .

Deus e u é? Se sabedes novas do meu amigo. Produziu 137 cantigas (72 de amor. portanto. se sabedes novas do meu amigo! Ai Deus. AI FLORES DO VERDE PINO. e u é? . e u é? Se sabedes novas do meu amado. nasceu em 1261. Continuou a linha iniciada por seu pai. Reinou de 1279 a 1325.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 101 D. AI FLORES. aquel que mentiu do que pos commigo? Ai Deus. e u é? Vós preguntades polo voss’ amigo? E eu bem vos digo que é san’ e vivo. aquel que mentiu do que mh a jurado. se sabedes novas do meu amado! Ai. o que o torna o trovador mais fecundo da lírica galaico-portuguesa. Ai Deus.. ai flores do verde pino. ai flores do verde ramo. Dinis Filho de Afonso III de Portugal e de Dona Beatriz de Castela e. convertendo sua corte em local para muitos trovadores e no núcleo de sobrevivência da tradição lírica galaico-portuguesa. 51 de amigo. Empreendeu uma política cultural que desembocou no surgimento de novos gêneros na literatura portuguesa (os Livros de Linhagens e a historiografia) e na criação da Universidade. e u é? Ai flores. Ai flores. 11 escárnios e 3 pastorelas). em 1290. data de sua morte.. neto de Afonso X. Ai Deus.

) Vós preguntades polo voss’ amado? E eu bem vos digo que é viv’ e sano. Ai Deus. Ai Deus.102 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. e será vosc’ ant’ o prazo saido. e será vosc’ ant’ o prazo passado. e u é? E eu bem vos digo que é san’ e vivo. e u é? . e u é? E eu bem vos digo que é viv’ e sano. Ai Deus.

mha dona. Um tal ome sei [eu] que perto sente de si [a] morte [chegada] certamente. aquest’oide. mha dona. AI BEM TALHADA Um tal ome sei eu. mha dona. que por vós tem a sa morte chegada. nom xe vos obride: eu. veedes quem é. vo-lo [em] partide. veedes quem é. Um tal ome sei [eu]. veedes quem é. . venha-vos em mente: eu. seed’em nembrada: eu. ai bem talhada. que por vós morre.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 103 UM TAL OME SEI EU.

mais os que trobam no tempo da flor e nom em outro. Pero que trobam e sabem loar sas senhores o mais e o melhor que eles pódem.) PROENÇAES SOEN MUI BEM TROBAR Proençaes soen mui bem trobar e dizem eles que é com amor. e nom ante. . Ca os que trobam e que s’alegrar vam e-no tempo que tem a color a frol comsigu’ e tanto que se fôr aquel tempo. sei eu bem que nom am tam gram coita no seu coraçom qual m’eu por mha senhor vejo levar.104 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. nem vivem em qual perdiçom oj’eu vivo. logu’ em trobar razom nom am. sõo sabedor que os que trobam quand’a frol sazom a. se Deus mi perdom. nom am tal coita qual eu ei sem par. que pois m’a de matar.

levantou-s’ alva. levantou-s’ alva. levantou-s’ alva. Levantou-s’ alva. e vai lavar delgadas e-no alto. O vento lh’as levava. E vai lavar delgadas. .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 105 LEVANTOU-S’ A VELIDA Levantou-s’ a velida. levantou-s’ alva. meteu-s’alva em ira e-no alto Vai-las lavar alva. e vai lavar camisas e-no alto. levantou-s’ alva. Meteu-s’ alva em sanha. Vai-las lavar alva. o vento ih’ass desvia e-no alto. Vai-las lavar alva. O vento lh’as desvia. o vento lh’as levava e-no alto. Levantou-s’ a louçana. [E] vai lavar camisas. Vai-las lavar alva. e-no alto. Vai-las lavar alva. Vai-las lavar alva.

106 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. coitado pecador. muit’a. de vós amercear de mi. mais nom merecedor. sempr’ o melhor que nunca [eu] pudi fazer. fui sofredor. moir’eu. tam grave. SENHOR Mesura seria. des que vos vi. e em mui grave voss’amor. e m’el nom fôr ajudador contra vós que el fez valer mais de quantas fezo nacer. nom vos vej’ i prez nem loor. porem querede vos doer de mim.) MESURA SERIA. que vós em grave dia vi. me queira poer conselh’i. ca se meu feito vai assi. que nom ei poder d’aquesta coita mais sofrer de que. mais sabe bem que vós servi. Pero se eu ei de morrer sem vo-lo nunca merecer. senhor. Pero sabe nostro senhor que nunca vo-l’ eu mereci. Mais Deus que de tod’ é senhor. .

aproximadamente. onde teria realizado composições entre 1300 e 1325. Compôs duas cantigas de amigo. Sedia la fremosa seu sirgo lavrando. – Par Deus de Cruz. sa voz manselinha fremoso dizendo cantigas d’ amigo. Há problemas para sua identificação. sei eu que avedes amor mui coitado que tan ben dizedes cantigas d’ amigo. pois existem duas personagens com esse nome. ambas descendentes de Johan Soares Coelho. sei [eu] que andades d’ amor mui coitada que tan ben cantades cantigas d’ amigo. que adevinhades. A hipótese mais provável sugere a sua participação na corte de D. SEDIA LA FREMOSA SEU SIRGO TORCENDO Sedia la fremosa seu sirgo torcendo. nasceu no último terço do século XIII. Dinis. dona. . sa voz manselinha fremoso cantando cantigas d’ amigo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 107 Estevan Coelho Trovador português. – Avuitor comestes. Par Deus de Cruz. dona.

Nuno de Lara e deve ter vivido na segunda metade do referido período. Compôs quatro cantigas de amigo. i-lo-i’ ante veer ca bem sei d’esta vegada nunca já ledo será e. . nunca já ledo será e. QUE TRIST’ ANDA MEU AMIGO Que trist’ anda meu amigo. u non jaz al. e. guarido seria logo por en. se m’ el non vir. que pod’ e val.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 109 Fernan Froiaz O sobrenome Froiaz tornou-se um apelido utilizado por famílias nobres portuguesas e galegas. o Froiaz ao qual nos referimos é. por que me querem levar d’aqui. nunca já ledo será e. morrerá. E. se m’ el non vir. morrerá. morrerá. o que dificulta a identificação de pessoas assim chamadas durante o século XIII. morrerá. um dos descendentes do conde D. se m’el visse. morrerá. Se soubess’ i á morrer. E. provavelmente. Que trist’ oje que eu sejo! e. Contudo. par Deus. se el falar non poder ante comigo. se me’ el non vir. se m’eu for e o non vejo nunca já ledo será e. mais quite será de ben. pero sôo guardada. pois el fôr de min partido. se m’ el non vir.

des quando m’eu de vos parti. após janeiro de 1251. Garcia Mendiz D’Eixo e irmão do conde D. SE DEUS ME LEIXE DE VOS BEN AVER Se Deus me leixe de vos ben aver. E fez mi-o voss’amor tan muito mal. da linhagem dos Sousas. A partir deste ano. Era tenente de Celorico da Beira em 1230. a linhagem perdeu grande parte de sua importância política. Ouv’eu tal coita no meu coraçon que nunca vi prazer. des quando m’eu de vos parti. se ora non. Teria sido um dos primeiros a ter contato com a cultura provençal e difundi-la na lírica galaico-portuguesa. que nunca vi prazer de min. senhor fremosa! Nunca vi prazer des quando m’eu de vos parti. nen d’al. provavelmente. . Morreu. filho do também poeta D. Entre 1248 e 1251 casou-se com Urraca Abril de Lumiares. Compôs dezoito cantigas de amor e duas de escárnio.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 111 Fernan Garcia Esgaravunha Nasceu no princípio do século XIII. o que pode explicar o silêncio documental sobre o autor entre 1230 e 1247. Gonçalo Garcia.

meu [amigo]. Se assim consideramos. a las aves. hu eu vi andar a las aves. A linhagem manteve uma estreita relação com o Mosteiro de São Martinho de Júbia. hu eu vi andar. Por sua colocação nos cancioneiros. sua obra é composta de duas cantigas de amor. Enas rribas do lago. irmana. vayamos dormir nas rrybas do lago. meu amigo. Enas rribas do lago. a las aves. da pequena nobreza galega. Seu arco na mano as aves ferir. hu eu andar vi. Vaiamos. VAYAMOS. hu eu andar vy a las aves. cinco de amigo e três de escárnio. VAYAMOS DORMIR Vayamos. e las que cantavam non-nas quer matar. hirmana. meu amigo. m[eu amigo]. a las aves. a las aves. Certos indícios textuais fazem supor que freqüentou a corte de Dom Dinis. Seu arco na mano a las aves tyrar. meu amigo. . esteve ativo poeticamente no final do século XIII e início do XIV. membro dos Esquio. seu arco na mano a las aves tirar.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 113 Fernand’ Esquio Trovador galego. vaiamos folgar nas rribas do lago. seu arco na maão as aves ferir. Supõe-se que ele fosse reconhecido por Fernando do Lago. IRMANA. e las que cantavan leixa-las guarir. meu [ amigo].

PASSOU PER AQUI UN CAVALEIRO Madre. oito de amigo e três de escárnio MADRE. madre. outros me lhe dei. ai. Sua obra constitui-se de vinte e uma cantigas de amor. filhos de Rodrigo Fernandes. . Madre. os seus amores ei. se me los ei. outros me lhe dei.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 115 Fernão Rodrigues de Calheiros Cavaleiro de provável origem portuguesa e que seria irmão de Paio Rodrigues e de Pero Rodrigues de Calheiros. os seus amores ei. ai. Do trovador. madre. os seus amores ei. madre. se me los ei. madre. com’ eu ando: ai. época de sua atividade poética. só podemos conjecturar que esteve com seu irmão Paio na corte senhorial dos Sousas no início da segunda década do século XIII. Madre. outros me lhe dei. mais leixasse: ai madre. madr’. ca mi-os busquei. ca mi-os busquei. ca mi-os busquei. passou per aqui un cavaleiro e leixou-me namorad’ e com marteiro: ai. os seus amores ei. ai. passou per aqui un filho d’ algo e leixou-m’ assi penada. passou per aqui quen non passasse e leixou-m’ assi penada. os seus amores ei. se me los ei. os seus amores ei.

) QUE FAREI AGOR’. se mi-o dizedes que vós ren sen mi podedes viver. En gran coita me leixades. se vós alhur ir cuidades viver. Matar-m’ ei. amigo? pois que non queredes migo viver. . ca non poss’ eu al ben querer. ca non poss’ eu al ben querer. AMIGO? Que farei agor’. ca non poss’ eu al ben querer. Se aquesta ida vossa fôr.116 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. non sei eu como possa viver. ca non poss’ eu al ben querer.

além da tenção iniciada por Johan Vasquez). É considerado um dos autores mais significativos da lírica galaico-portuguesa. – Joan Vaasquiz.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 117 Johan Airas de Santiago Foi um trovador galego. originário de Santiago de Compostela e pertencente a uma das famílias burguesas da vila jacobéia. ora vej’ eu que á Deus mui gran sabor de vos destroir. com oitenta e uma poesias (47 de amigo. Dinis. o que o torna. e non soubestes entender o mui gran mal que vos sempr’ én verra. porque eu foi end’ ¢a servir. o mais provável é que sua produção esteja situada após 1270. 22 de amor. casou-s’ ora. no que diz respeito ao volume de sua produção poética. 11 escárnios e uma tenção. sempr’ eu direi ja de molheres moito mal. de todas. inferior apenas a D. u as vir. sempre mi gran mal quis e querra ja. Quanto a sua cronologia. de quantas molheres no mund’ á. por mi pesar fazer. ca. não há como garantir nada. por gran ben que lh’ eu sabia querer. vós gran mal fostes dizer. pois que vós tal cousa fostes comedir. cativ’. porém. ORA VEJ’ EU QUE Á – Joan Airas. JOAN AIRAS. con quena nunca amou nen amará. que. .

errades vós. pois viren que non amades al senon elas. e quen lhis d’ esto ben disser. mais pera vós non. atal prazer veja da ren que máis amar no seu coraçon. ca enas molheres sempr’ ouvo ben e avera ja. todas taes son que. ca Deulo sabe que é sen razon. . ca todos se queixan d’ elas poren. senon vós. assi Deus mi pardon.) – Joan Airas. logo vos faran tal qual fez a min ¢a. – Joan Airas. vós perdestes o sén. – Joan Vaasquiz.118 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. – Joan Vaasquiz. por end’ a vós ¢a tolher o sén e dizerdes das outras mal por én. non dizedes ren. e todas son aleivosas. que filhastes por én don. non tenh’ eu por razon d’ as molheres todas caeren mal por end’ ¢a soo que a vós fal.

por Santa Maria. nas ribas do Sar. pois que vos aqui acharen. se mi ascuitardes. mais non sei tal qu’ i ‘stevesse. e ir-m’ ei quando mandardes. apertando-se na saia. alçando voz a cantar. – Senhor. mais ide-vos vossa via. . máis aqui non [e]starei. quando saía l’ alvor. quando saía la raia do sol. falar-vos-ei un pouco. todas d’ amores cantavan pelos ramos d’ arredor. que en al cuidar podesse senon todo en amor. non estedes máis aqui. E as aves que voavan. empero dix’ a gran medo: – Mia senhor.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 119 PELO SOUTO DE CRECENTE Pelo souto de Crecente ¢a pastor vi andar muit’ alongada de gente. ca os que aqui chegaren. Ali ‘stivi eu mui quedo. quis falar e non ousei. ben diran que máis ouv’ i. faredes mesura i.

. e. en cas d’ el-rei. senhor. E. senhor. long’ estava de parecer assi Come vós. Eu muitas vezes provei se ac[h]aria de tal parecer alg¢a dona. a máis fremosa de quan[tas eu vi. pois mi as foron mostrar. fremosas e que parecian ben. mia senhor. long’ estava de parecer assi]. direi-vos ¢a ren: a máis fremosa de quantas eu vi. mia senhor. [long’ estava de parecer assi] Come vós. quero-vos al dizer: a máis fremosa de quantas eu vi. preguntei por donas muitas. e. u andei. e. mia senhor. e vi donzelas muitas u andei. mia senhor.120 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. que oi loar de parecer nas terras u andei. SENHOR. EN CAS D’ EL-REI Vi eu donas.) VI EU DONAS.

e máis vos én direi: quantas máis donas. . pero. quero-vos al dizer: quantas máis do[nas. tanto vos eu mui máis precei des i]. quantas máis donas.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 121 ANDEI. [E] quantas donas eu vi. senhor. des quando me foi d’ aqui. estive cuidando en vós. e poilas vi. e cousi-as. senhor. ala vi. e por vos non mentir. punhei de as cousir. LEON E CASTELA Andei. senhor. todalas fui veer. e ben parecian. SENHOR. senhor. senhor. Leon e Castela despois que m’ eu d’ esta terra quitei. E as que ala maior prez avian en todo ben. e non foi i dona nen donzela que eu non viss’. ala vi. [tanto vos eu mui máis precei des i]. senhor. tanto vos eu mui máis precei des i. ala vi.

É autor. de que posso eu bem dizer sem pavor que nom ficou d’al nos cristãos. por que perderam tam boo senhor como el rei dom Denis de Portugal. Contudo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 123 Johan [de Leon] Jogral. Afonso IV de Portugal e o conde de Barcelos. também. nunca pois de sa morte trobarom. [e] no d’Aragom. pero seja posfazador. desenvolveu sua atividade em Portugal. E dos jograres vos quero dizer: nunca cobrarom panos nem aver e o seu bem muito desejarom. de uma cantiga que homenageia D. OS NAMORADOS QUE TROBAM D’AMOR Os namorados que trobam d’amor todos deviam gram doo fazer e nom tomar em si nem ¢u prazer. Dinis. Os cavaleiros e cidadãos que d’este rei aviam dinheiros e outrossi donas e scudeiros matar se deviam com sas mãos. provavelmente leonês. no de Castela. a quem dedicou um pranto após a sua morte em 1325. por que perderom a tam bõo senhor. . de que nom pode dizer nem ¢u mal homem. composta por volta de 1355. Os trobadores que pois ficarom eno seu regno e no de Leom. na corte de D.

124 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. per quant’eu vi e sei.) E mais vos quero dizer d’este rei e dos que d’el aviam bem fazer: deviam-se d’este mundo a perder quand’el morreu. . que o vai semelhar em fazer feitos de muito bõo rei. ca el foi rei atam mui prestador e saboroso e d’amor trobador: tod’o seu bem dizer nom poderei! Mais tanto me quero confortar em seu neto.

AMIGOS. e d’ est’ alguen se queyxará. perto de Barcelos.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 125 Johan Garcia de Guilhade Natural de Guilhade. Pero non devia a perder ome que ja o sen non á de con sandece ren dizer. também é muito considerado por sua individualidade e originalidade. mays eu ja quer moyra quer non: os olhos verdes que eu vi me fazen ora andar assí. Além de um dos mais fecundos poetas do período. ca me vejo sandeu andar. . com mais de cinqüenta composições (14 cantigas de amor. e con sandece digu’ eu ja: os olhos verdes que eu vi me fazen ora andar assí. non poss’ eu negar a gran coyta que d’amor ey. 21 de escárnio e de maldizer e duas tenções). viveu na segunda metade do século XIII. Pero quen quer x’ entenderá aquestes olhos quaes son. Provavelmente foi cavaleiro a serviço da linhagem dos Sousas e manteve contato também com outros membros da nobreza portuguesa. 17 de amigo. e con sandece o direy: os olhos verdes que eu vi me fazen ora andar assí. NON POSS’ EU NEGAR Amigos.

mays esto. já çafou! E d’essa folia toda ja çafou! Já çafou de pan de voda. Joan Garcia. e en sem e en loucura.) PER BÕA FE. meu amigo. nunca lhi cima fezemos como Brancafrol e Flores.126 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. quanto durava o dia. mays tempo de jogadores já çafou. MEU AMIGO Per bõa fe. muy ben sey eu que m’ouvestes grand’amor e estevestes muy gran sazon bem con migo. que mí e vós sempr’ouvemos. Já çafou! . Já eu faley en folia com vosq’[e] en gran cordura. mays vede-lo que vos digo: já çafou! Os grandes nossos amores.

Morreu em 1304. aproximadamente. Mas atualmente isso tem sido contestado por vários estudiosos. SENHOR GENTA Senhor genta. mays la vossa m’ é mortal! Leonoreta. fin roseta. Carolina Michaëlis de Vasconcelos. bela sobre toda fror. non me meta en tal coi[ta] voss’amor! Das que vejo non desejo outra senhor se vós non. Exerceu sua atividade poética entre 1258 e 1304 (na corte de Afonso III a partir de 1261). Compôs mais cinco cantigas de amor e um escárnio. e desejo. como a douta filóloga D. meio-irmão do trovador Martin Perez Alvin e sobrinho de Men Soarez de Melo. que tormenta que eu senta outra non m’ é ben nen mal. fin roseta. mi tormenta voss’ amor em guisa tal. tan sobejo mataria h¢u leom. conselheiro do rei Afonso III. .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 127 Johan Lobeira Trovador português. A autoria da cantiga a seguir lhe é atribuída por alguns especialistas.

[bela sobre toda fror. [bela sobre toda fror. fin roseta. fin roseta. non me meta en tal coita voss’amor!] Mha ventura en loucura me meteu de vos amar. É loucura que me dura que me non posso én quitar. non me meta en tal coita voss’amor!] .128 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. fin roseta.) senhor do meu coraçon! Leonoreta. fin roseta. Ay fremusura sem par! Leonoreta.

. ergo se fosse mal treito de morte. senão toda. que se veesse o mais cedo que podesse. U É MEU AMIGO Ai Deus. que nunca lhi ben quisesse. Quase todos os cancioneiros que chegaram até nós conservaram. AI DEUS. u é meu amigo que non m’envia mandado? Ca preit’ avia comigo. E. Esta compõe-se de onze cantigas de amor e sete de amigo. que se veesse o mais cedo que podesse. E já o praz’ é passado que m’el disse que verria e que mi avia jurado. viveu entre Santiago e Lugo entre os anos de 1238 e 1286. se eu end’al soubesse. ao menos parte de sua obra. que se veesse o mais cedo que podesse. ergo se fosse coitado de morte. sen gran coita todavia de morte. chorando. fez-mi tal preito e disse quand’ e qual dia. Alguns registros fazem supor que mudou-se para Portugal junto com um nobre castelhano (ou talvez galego) e lá permaneceu até o fim da vida.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 129 Johan Lopes de Ulhoa Trovador originário da Galiza. Quando s’el de mi partia.

situa-se durante o reinado de Dom Dinis (1279-1325). e lá iran nas barcas migo mya filha e noss’ amigo. Barcas mandou fazere e no mar as metere. El-rey Portugueese barcas mandou fazere. pelas freqüentes referências a Lisboa e ao rei de Portugal. e lá iran nas barcas migo mya filha e noss’ amigo. Compôs dez cantigas de amigo e uma de amor. o que tira a certeza de qualquer fato em sua trajetória. EL REY DE PORTUGALE El-rey de Portugale barcas mandou lavrare. De qualquer maneira. sua atividade poética. e lá iran nas barcas migo mya filha e noss’ amigo. e lá iran nas barcas migo mya filha e noss’ amigo. . Barcas mandou lavrare e no mar as deyatare.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 131 Johan Zorro Há poucos documentos confiáveis sobre sua pessoa.

ay mya senhor velida! . ay mya senhor velida! Barcas novas mandey lavrar e no mar as mandey deytar. ay mya senhor velida! Barcas novas mandey fazer e no mar as mandei meter. ay mya senhor velida! En Lixboa sôbre lo lez barcas novas mandey fazer.132 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) EN LIXBOA SÔBRE O MAR En Lixboa sôbre lo mar barcas novas mandey lavrar.

s’ amig’ amar. sô aquestas avelaneyras frolidas verrá baylar! Baylemos agora. ay velidas. sô aquestas avelaneyras frolidas e quen fôr velida. como nós loadas. sô aquestas avelaneyras granadas verrá baylar! . por Deus. s’ amig’ amar.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 133 BAYLEMOS AGORA. POR DEUS. por Deus. AY VELIDAS Baylemos agora. como nós velidas. ay loadas. sô aquestas avelaneyras granadas e quen fôr loada.

Per bõa fé ben baratou De a por mi bõa fazer E muito lho sei gradecer. como x’ é mui trobador. mais. é difícil situarmos a existência de Juião Bolseiro. . que nunca melhor feita vi. fez ¢as lirias no son que mi sacan o coraçon. por xe mi matar. fez ¢as lirias no son que mi sacan o coraçon. que trata-se de um jogral de origem galega e que viveu em meados do século XIII. Muito bem se soube buscar. mais de pran.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 135 Juião Bolseiro Como ocorre com quase todos os trovadores. no entanto. FEX ¢A CANTIGA D’ AMOR Fex ¢a cantiga d’ amor ora meu amigo por mi. en loar-mi muit’ e meu prez. fez ¢as lirias no son que mi sacan o coraçon. por mi ali quando a fez. Sabemos. Mais vedes de que me matou.

Não há muitas certezas no que diz respeito à sua biografia. HUNHA MOÇA NAMORADA Hunha moça namorada dizia hun cantar d’amor. oj’ eu foss’ aventurada que oyss’ o meu amigo com’ eu este cantar digo!” A moça ben parecia. seis de amigo. e disse. em que responde a poetas satíricos. Rodrigu’Eanes Redondo e João Vasquez de Talaveira) e mais outras cinco. quando cantava: “ Peç’ eu a Deus por pediçon que oyss’ o meu amigo [com’ eu este cantar digo!”] . uma cantiga de escárnio. e en ssa voz manssel{a cantou e diss’ a men{a: “ Prouguess’ a Santa Maria que oyss’ o meu amigo [com’ eu este cantar digo!”] Cantava mui de coraçon e mui fremosa estava. e diss’ ela: – “ Nostro Senhor. Sabe-se que exerceu sua atividade poética em meados do século XIII e que se relacionou com trovadores portugueses – como Johan Soares Coelho e Johan Garcia de Guilhade – e com trovadores castelhanos como Pero Garcia Burgalês.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 137 Lourenço [Jogral] Jogral considerado de origem portuguesa pela maioria dos estudiosos. São atribuídas a esse jogral três cantigas de amor. três tenções (com Pero Garcia.

se vistes meu amigo? E ay Deus. se verrá cedo! Se vistes meu amigo. por que ey gran coydado? E ay Deus. um pergaminho encontrado por Pedro Vindel contém a melodia de seis dessas suas cantigas. presentes nos Cancioneiros da Vaticana e da Biblioteca Nacional de Lisboa. como também do centro geográfico de sua atividade poética. Sua obra consiste em sete cantigas de amigo. Suas composições demonstram uma educação ligada a ambientes clericais ou aristocráticos e está situada na segunda metade do século XIII. Além disso. o por que eu sospiro? E ay Deus. ONDAS DO MAR DE VIGO Ondas do mar de Vigo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 139 Martin Codax Jogral ou segrel. se verrá cedo! Ondas do mar levado. se verrá cedo! Se vistes meu amado. Tais alusões podem servir não só como prova de sua naturalidade plausível. se aceitarmos as constantes referências a Vigo contidas em suas cantigas. se verrá cedo! . se vistes meu amado? E ay Deus. cuja origem é possivelmente galega.

se me saberedes dizer porque tarda meu amigo sen min? Ay ondas. que eu vin veer. Ay ondas.) AY ONDAS. QUE EU VIN VEER.140 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. que eu vin mirar. se me saberedes contar porque tarda meu amigo sen min? .

Que nunca ouver’ amado: Amor ey! Que nunca ouver’ amigo. Ergas en Vigo. EN VIGO Eno sagrado. baylava corpo velido: Amor ey! En Vigo. en Vigo: Amor ey! Que nunca ouver’ amado. en Vigo. no sagrado.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 141 ENO SAGRADO. Ergas no sagrad’. baylava corpo delgado: Amor ey! Baylava corpo velido. que nunca ouver’ amigo: Amor ey! Baylava corpo delgado. no sagrado: Amor ey! .

O mais provável. se m’el non ven. nen veerei ja mais. chorou muito dos seus olhos enton e foi coitado no seu coraçon. fremosa. porém. non vi depois prazer de nulha ren nen veerei já mais. Conservam-se deste autor apenas sete cantigas de amigo. FOI-S’ UN DIA MEU AMIGO D’AQUI Foi-s’ un dia meu amigo d’aqui trist’e cuitad’e muit’a seu pesar. por que me quis d’el mia madre guardar. é que seja um jogral de origem galega. Quando s’el ouve de mi a partir. fremosa. por vos non mentir. des que o non vi. o que dificulta a identificação do trovador. non vi depois prazer de nulha ren. se m’el non ven.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 143 Martin de Caldas O sobrenome Caldas é comum à Galiza e a Portugal. Sua produção cultural parece estar situada entre o segundo e o terceiro quarto do século XIII. mais eu. . mais eu.

São-lhe atribuídas perto de 40 cantigas (22 de amor. pero non perderei gran coita sem seu ben fazer. 16 de escárnio e uma tenção. no Minho.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 145 Martim Soares Trovador português originário de Riba de Lima. Vedes que coyta de sofrer! Por gran coita per-tenho tal d’amar a quen nunca meu mal nen mha coita ei a dizer. além de outras de origem duvidosa). Vedes que coyta de sofrer: d’amar a quen non ousarei falar. Irmão do também trovador Garcia Soares. Morreu por volta de 1260. NON OUSO DIZER NULHA REN Non ouso dizer nulha ren a mha senhor e sen seu ben non ei mui gram coyt’ a perder. os trovadores Pero da Ponte e Pai Soares de Taveirós. também trovador. na corte castelhana de Fernando III. entre outros. Vedes que coyta de sofrer! . casou-se com Maria. é considerado grande trovador. Nasceu por volta de 1200 e conheceu. com quem teve a Johan Martins. Vedes que coita de sofrer! E vejo que moyro d’ amor E pero vej’ a mha ssenhor Nunca o per min á a ssaber.

cercaron-mi-as ondas grandes do mar. considerada pelos especialistas como uma das mais belas cantigas de amigo documentadas.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 147 Mendinho A documentação sobre esse trovador é escassa. Dele nos chegou uma única cantiga. Eu aten[dend’ o meu amigu’! E verrá?] Non ei i barqueiro nen remador: morrerei [eu]. fremosa. Eu atenden[d’ o meu amigu’! E verrá?] E cercaron-mi-as ondas que grandes son: non ei [i] barqueiro nen remador. Eu atendend’ o meu amigu’! E verrá? Estando na ermida. Eu [atendend’ o meu amigu’! E verrá?] . acredita-se que seja galego da região de Vigo. Eu aten[dend’ o meu amigu’! E verrá?] Non ei [i] barqueiro nen sei remar: morrerei eu. no mar maior. Por referências nela contidas. Eu [atendend’ o meu amigu’! E verrá?] E cercaron-mi-as ondas do alto mar: non ei [i] barqueiro nen sei remar. SEDIA-M’ EU NA ERMIDA DE SAN SIMIÓN Sedia-m’ eu na ermida de San Simión e cercaron-mi-as ondas que grandes son. no alto mar. ant’ o altar. fremosa.

. vós lhi tolhestes os ramos en que siian: leda m’ and’ eu. De acordo com referências contidas em suas composições satíricas. que dormide’-las frias manhãas. de condição cavaleiro. Alguns especialistas o identificam com Nuno Fernandez de Mirapeixe. QUE DORMIDES AS MANHÃAS FRIAS Levad’. exerceu sua atividade poética durante o segundo terço do século XIII. Toda-las aves do mundo d’ amor dizian. como uma alteração de tornello (refrão). do meu amor e do voss’ i enmentavan: leda m’ and’ eu. Do meu amor e do voss’ en ment’ avian. e explicam o termo Torneol. todalas aves do mundo d’ amor dizian: leda m’ and’ eu. pode-se deduzir que esteve ligado à corte castelã de Alfonso X. amigo. que dormides as manhãas frias. do meu amor e do voss’ en ment’ avian: leda m’ and’ eu. que aparece por vezes como se fosse sua alcunha. Levad’. amigo. LEVAD’.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 149 Nuno Fernandez [Torneol?] Trovador de origem provavelmente galega. que figura em nota collociana. doze de amor e uma de escárnio. Compôs nove cantigas de amigo (a que se transcreve a seguir é uma variante galaica da pastorela provençal). Toda-las aves do mundo d’ amor cantavan. AMIGO. todalas aves do mundo d’ amor cantavan: leda m’ and’ eu.

) Do meu amor e do voss’ i enmentavan. Vós lhi tolhestes os ramos en que pousavan e lhis secastes as fontes u se banhavan: leda m’ and’ eu. Vós lhi tolhestes os ramos en que siian e lhis secastes as fontes en que bevian: leda m’ and’ eu.150 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. . vos lhi tolhestes os ramos en que pousavan: leda m’ and’ eu.

E vanss’as frores d’ aquí ben con meus amores. idas som as frores d’ aquí ben con meus amores. A partir de 1284.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 151 Pai Gomez Charinho Trovador galego. Anterior a esta data. E vanss’ as frores d’ aquí ben con meus amores. AS FFROLES DO MEU AMIGO As ffroles do meu amigo briosas van no navyo. em 1295. em 1248. Supõe-se que exerceu sua atividade poética entre 1248 e 1295. e de sua relação com a corte de Alfonso X. São atribuídas a Pai Gomez Charinho vinte e oito composições. Morreu assassinado por Rui Perez Tenório. Briosas van eno navío para chegar ao ferido. sabemos de sua participação na conquista de Sevilha. idas som as frores d’ aquí ben con meus amores. E vanss’ as frores d’aquí ben con meus amores. descende de uma linhagem assentada na província de Pontevedra. . As ffrores do meu amado briosas van no barco. a quem acompanhou em peregrinação a Santiago. idas som as frores d’ aquí ben con meus amores. duas de escárnio (uma tenção) e 19 de amor. em 1284. sendo seis cantigas de amigo. Nasceu por volta de 1225. tornou-se uma figura de importância para o rei Sancho IV. mas somente alcançou projeção ao ser nomeado Almirante do Mar.

152 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Pera chegar ao fossado (de) servirmi. idas som as frores d’ aquí ben con meus amores. Pera chegar ao ferido servirmi. idas som as frores d’ aquí ben con meus amores. E vanss’as frores d’ aquí ben con meus amores. . idas som as frores d’aquí ben con meus amores. E vanss’as frores d’ aquí ben con meus amores. corpo velido. E vanss’as frores d’ aquí ben con meus amores.) Briosas van eno barco pera chegar ao fossado. corpo loado.

Provavelmente esteve na corte portuguesa de Sancho I. e ben vus semella d’aver eu por vós guarvaya? pois eu. d’ alfaya nunca de vós ouve nen ei valia d’ ¢a correa. uma tenção. queredes que vus retraya quando vus eu vi en saya? Mao dia me levantei que vus enton non vi fea! E. . São-lhe atribuídas oito cantigas de amor. pertenceu à pequena nobreza de seu país. filla de don Paay Moniz. é possível concluir que exerceu sua atividade poética na primeira metade do século XIII. mia sennor. ca ja moiro por vós e. com ele.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 153 Pai Soares de Taveirós Trovador de origem galega. des aquel[la] me foi a mi mui mal di’ ay! E vus. Através de algumas referências cronológicas. mais precisamente no segundo quarto. onde teria se relacionado com Martim Soares e produzido. na galega do Conde de Trastámara e na castelhana de Fernando III. três de amigo e dois escárnios. mia sennor. ay! mia sennor branca e vermella. NO MUNDO NON ME SEI PARELLA No mundo non me sei parella mentre me for como me vay.

e d’ amor tan ben cantava. e meu amigo venia. lelia doura. Atribui-se a este poeta quatro cantigas de amigo. podemos concluir que foi um trovador galego. E meu amigo chegava. lelia doura. edoi lelia doura. e d’ amor tan ben dizia edoi lelia doura. e meu amigo chegava. e que teria exercido sua atividade poética em meados do século XIII. edoi lelia doura. Muito desejei amigo. duas cantigas de amor e um escárnio. lelia doura.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 155 Pedr’ Eanes Solaz Unindo todas as informações possíveis. lelia doura que vos tevesse comigo. edoi lelia doura. nascido provavelmente em Pontevedra. lelia doura. . E meu amigo venia. EU VELIDA NON DORMIA Eu velida non dormia. edoi lelia doura. Non dormia e cuidava. que revelam alguma originalidade e capacidades formais dignas de atenção.

edoi lelia doura. par Deus.) Muito desejei amado. Leli leli. lelia doura. edoi lelia doura. Ben sei eu que[n] non diz leli. demo x’ é quen non diz lelia. leli. edoi lelia doura. lelia doura.156 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. lelia doura. . ben sei eu que[n] non diz leli. que vos tevesse a meu lado.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 157 Pero da Ponte Segrel galego. exercendo sua atividade poética entre 1235 e 1275. senhor. Atribui-se a este trovador 53 cantigas. um jogo-partido. uma tenção. de condição escudeiro. sendo sete de amigo. des que vus vi. quatro prantos. en forte pont’ eu fui nado! Que vus amo sen meu grado e faç ‘a vos pesar hy. cativ’ e coitado. por vos e por mi! . en forte pont’ eu fui nado! Que servi sempr’ endonado ond’ un ben nunca prendi. senhor. esteve assentado nas cortes reais de Fernando III e de Alfonso X. Neste tempo. En forte pont’ eu fui nado. dedicou a vida à arte de trovar. senhor. foi um dos autores mais fecundos da lírica galaico-portuguesa. en forte pont’ eu fuy nado! Que nunca perdi coydado nen afan. SENHOR DO CORPO DELGADO Senhor do corpo delgado. dois elogios e uma sátira. por vos e por mi! Con est’ affan tan longado. por vos e por mi! Ay eu. En forte pont’ eu fui nado. En forte pont’ eu fui nado. De acordo com suas próprias palavras. sete de amor. ainda que fossem freqüentes suas viagens pelas cortes senhoriais.

por en chor’eu. segundo consta nos Livros de Linhagens. dona d’algo. e chor’eu. e chor’eu. e de Sancha Perez.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 159 Pero Gonçalves de Porto Carreiro Trovador português. bela! O anel do meu amado perdi-o so lo verde ramo e chor’eu. filho de Gonçalo Viegas. o Alfeirão. bela! Perdi-o so lo verde pino. bela! Perdi-o so lo verde ramo. por en chor’eu. O ANEL DO MEU AMIGO O anel do meu amigo perdi-o so lo verde pino e chor’eu. dona-virgo. sendo-lhe atribuídas quatro cantigas de amigo. É membro da família dos Porto Carreiro. que se caracterizou por participação turbulenta em certos acontecimentos fundamentais da vida portuguesa medieval e por sua relação com a corte portuguesa e de Castela. Desenvolveu sua atividade poética no último quarto do século XIII. bela! .

vai lavar cabelos na fontana fría. De sua obra constam apenas nove cantigas de amigo. determinar quais eram seus círculos de relação. leda dos amores. dos amores leda. Vai lavar cabelos na fontana fría. dos amores leda. LEVÓUS’ A LOUÇANA. passa seu amigo que muit’a amava. sem que possamos. leda dos amores. passou seu amigo que lhi ben quería. levóus’a louçana. leda dos amores.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 161 Pero Meogo Provavelmente foi um jogral galego. leda dos amores. LEVÓUS’ A VELIDA Levóus’ a louçana. do qual se formulam diversas propostas de identificação. . dos amores leda. leda dos amores. contudo. o cervo do monte a augua volvía. dos amores leda. A sua colocação no hipotético Cancioneiro dos Jograres Galegos reforça a idéia da sua naturalidade galega. sendo uma delas dialogada entre duas personagens e outra escrita em terceira pessoa. Passa seu amigo que lhi ben quería. que juntas apresentam uma espécie de enredo. vai lavar cabelos na fría fontana. Levóus’ a velida. Leda dos amores. levóus’ a velida. dos amores leda. Passa seu amigo que a muito amava o cervo do monte volvía a augua. Vai lavar cabelos na fría fontana. dos amores leda. Atuou durante a segunda metade do século XIII.

Cervos do monte volvían a augua. MIA FILHA VELIDA – “Digades. mia filha velida. nunca vi cervo que volvess’ o rio”. – “Mentis. – “Os amores ei”. mentis por amado. mia madre. – Tardei. mía madre.162 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.”. mia filha louçana. mía filha. filha. – “Os amores ei”. – “Tardei. – Os amores ei. cervos do monte a augua volvían. FILHA. mía filha. . na fria Fontana. filha. – “Os amores ei”. – “Os amores ei”. mentis por amigo. porque tardastes na fría Fontana?”.) DIGADES. – “Digades. – Os amores ei. nunca vi cervo que volvess’ o alto”. – “Mentis. porque tardastes na fontana fría?”. na fontana fria.

Nossus amigus hiran por cousir como baylamus. porém. fremosas. bon parecer. queymen candeas por nos e por ssy. nos. O mais provável. duas de amigo e quatro de escárnio e de maldizer. e nos meninhas baylaremus hy. e elas enton queymen candeas por nos e por sy. e nos meninhas [baylaremus hy].. e poderan veer baylar moças de . e nos meninhas [baylaremus hy]. e nossas madres. queymen candeas por nos e por ssy. poys lá queren hir. POYS NOSSAS MADRES VAN A SAN SIMON Poys nossas madres van a San Simon de Val de Prados candeas queymar.. Nossus amigus todus lá hiran por nos veer. é que fosse galego e que tenha exercido sua atividade poética no terceiro quartel do século XIII. punhemus d’ andar con nossas madres. as meninhas.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 163 Pero Viviaez Encontram-se registros deste nome em Portugal e na Galiza. e nossas madres. en cos. e andaremus nos bayland’ant’eles. sendo duas de amor.. As cantigas de sua autoria que chegaram até nós são em número de oito. . pois que alá van.

Se vejo las ondas e vejo las costeyras. Como muitos dos demais trovadores. teria vivido e/ou produzido no segundo terço do século XIII.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 165 Roi Fernandiz de Santiago É o possível autor de sete cantigas de amigo e dezoito de amor. pola velyda: maldito se[j]a ‘l mare que mi faz tanto male! Nunca ve[j]o las ondas nen as altas debrocas que mi non venham ondas al cor. logo mi veen ondas al cor. no entanto. Algumas hipóteses afirmam que se tratava de um clérigotrovador galego. outras o relacionam com Mendinho e Martin Codax por algumas alusões textuais. QUAND’ EU VEJO LAS ONDAS Quand’ eu vejo las ondas e las muyt’ altas ribas. é difícil estabelecer a sua origem e realizações durante a vida. pola ben feyta: maldito se[j]a ‘l mare [que mi faz tanto male!]. logo mi veen ondas al cor. pola fremosa: maldito se[j]a ‘l mare [que mi faz tanto male!]. .

nasceu em 1154. ligando-se a artistas. Apreciava a prática de exercícios físicos. sendo ele próprio compositor de algumas cantigas. Envolveu-se em disputas com a igreja que lhes grangearam a excomunhão. Era ligado a instituições como as Ordens dos Templários e dos Hospitalários. dedicando-se a diversos esportes. Para isso trabalhou no povoamento de terras. e morreu em 1211 na mesma cidade.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 167 Sancho I Segundo rei de Portugal. atribuída a Alfonso X por alguns especialistas. AI EU COITADA! COMO VIVO EN GRAM CUIDADO Ai eu coitada! Como vivo en gram cuidado por meu amigo que ei alongado! Muito me tarda o meu amigo na Guarda! Ai eu coitada! Como vivo en gram desejo por meu amigo que tarda e non vejo! Muito me tarda o meu amigo na Guarda! . Procurou em seu governo incentivar a cultura. em Coimbra. a cantiga que aqui lhe é atribuída é de autoria duvidosa. só sendo perdoado na proximidade de sua morte. No entanto. Subiu ao trono em dezembro de 1185 e ajudou a firmar a autonomia do Estado Português.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 169 1.2 Romances Nota: Os romances a seguir coligidos foram reconstituídos por Ramón Menéndez Pidal (Flor nueva de romances viejos.Poesia medieval: 1. . p. Buenos Aires – México: Espasa Calpe Argentina. 58-61 e 122-126). 1946.

y allá hacia el amanecer los dos se duermen vencidos.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 171 ROMANCE DE GERINELDO Y LA INFANTA – Gerineldo. Media noche ya es pasada. que de veras te lo digo. paje del rey más querido. malhaya. Despertado había el rey de un sueño despavorido. “O me roban a la infanta o traicionan el castillo. ninguna le ha respondido. Gerineldo. que el rey estará dormido. burláis conmigo. “¡Oh. entre juegos y deleites la noche se les ha ido. Gerineldo. Gerineldo. – No me burlo.” Aprisa llama a su paje pidiéndole los vestidos: “¡Gerineldo. Tomáralo por la mano y en el lecho lo ha metido. señora. – ¿Y cuándo. – Como soy vuestro criado. Gerineldo. Válgame Dios. Gerineldo. señora mía. quien amor puso contigo!” – Abráisme. . señora mía. cumpliréis lo prometido? – Entre las doce y la una. que soy vuestro dulce amigo. – Quién a mi estancia se atreve. la mi señora. abráisme. Gerineldo no ha venido. el mi paje más querido!” Tres veces le había llamado. cuerpo que tienes tan lindo. cuerpo garrido. quién te tuviera esta noche en mi jardín florecido. quién llama así a mi postigo? – No os turbéis.

buen rey. tan mustio y descolorido? – Vengo del jardín. bien lo tengo merecido. con el frior de la espada la dama se ha estremecido. que del rey no sea visto? – Vete por ese jardín cogiendo rosas y lirios. adonde la infanta ha ido. matadme. – ¿Dónde vienes. no le mates. pesares que te vinieren yo los partiré contigo. dueño mío. la fragancia de una rosa la color me ha desvaído.172 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. “Mataré yo a Gerineldo. Rebullíase la infanta tres horas ya el sol salido. – De esa rosa que has cortado mi espada será testigo. la espada del rey mi padre entre los dos ha dormido. Ellos en estas razones la infanta a su padre vino: – Rey y señor.” Y salióse hacia el jardín sin ser de nadie sentido. – ¿Y adónde iré. O si lo quieres matar la muerte será conmigo. vió a su paje como mujer y marido. vió a su hija. .) Puso la espada en la cinta. Gerineldo levántate. señor. a quien crié desde niño? Pues si matare a la infanta mi reino queda perdido. – Levántate. mi señora. mas dámelo por marido. – Matadme. Gerineldo. por ver cómo ha florecido. Pondré mi espada por medio que me sirva de testigo.

hízole cama de rosa. el que te suele servir de noche para la cama. ni me quieras descubrir. cabecera de alhelí. Alzó sábanas de Holanda. cubrióse de um mantellín. Le ha cogido de la mano y le ha entrado al camarín. . ni menos temo criados que duermen su buen dormir.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 173 LA AMIGA DE BERNAL FRANCÉS – Sola me estoy en mi cama namorando mi cojín. – ¿Qué tienes. – ¡Válgame Nuestra Señora. Al entreabrir de la puerta el dió un soplo en el candil. Bernal Francés? que estás triste a par de mí? ¿Tienes miedo a la justicia? No entrará aquí el alguacil. que la busco para mí. ¿ quién será ese caballero que a mi puerta dice: “Abrid”? – Soy Bernal Francés. – No te espantes. señora. sentóle en silla de plata con respaldo de marfil. que a un hombre he muerto en la calle. la justicia va tras mí. Catalina. válgame el senõr San Gil! Quien apagó mi candela puede apagar mi vivir. ¿Tienes miedo a mis criados? Están al mejor dormir. tomó candil de oro en mano y la puerta bajó a abrir. de día para el jardín. bañole todo su cuerpo con agua de toronjil. – No temo yo a la justicia.

señora. Bernal Francés? ¡No solías ser así! Otro amor dejaste en Francia o te han dicho mal de mí. y tu marido. muy lejos está de aquí. vestido de fina grana forrado de carmesí. que outro amor nunca serví.174 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Nuevas irán al francés que arrastre luto por ti. y gargantilla encarnada como en damas nunca vi. – No dejo amores en Francia. Por regalo de mi vuelta te he de dar rico vestir. gargantilha de mi espada. – Lo muy lejo se hace cerca para quien quiere venir. lo tienes a par de ti. que tu cuello va a ceñir. . – Si temes a mi marido.) – ¿Qué tienes.

– ¿Cúyo es aquel caballo que allá abajo relinchó? . lanzada de moro izquierdo le traspase el corazón. – Apead. que siete años había. señora mía. Alba. porque hace muy gran calor. que me dejáis aquí sola y a los montes os vais vos. conde! ¡Ay. que no me desarmo. Ellos en aquesto estando. – Si a caza es ido. Alberto es ido a caza A los montes de León. mi vida. señora? ¡Mudada estáis de color! – Señor. cúan linda que eres. dormidla. Albertos toca el portón: – ¿Qué es lo que tenéis. y por bien que pene y muera no alcanzo ningún favor. señora. blanca sois.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 175 ROMANCE DE LA LINDA ALBA – ¡Ay. en mi lindo mirador. cáigale mi maldición: rabia le mate los perros y aguilillas el falcón. que muero por vuestro amor. conde dos Grifos. – Hoy lo alcanzaréis. no! – Dormidla. desarmado y sin pavor. más que los rayos del sol! ¡Quién la durmiese esta noche desarmado y sin temor. señor! – No os maravilléis. señor. don Grifos. mala vida paso. siete. más linda que no la flor. – Esas palabras. ¡Lindas manos tenéis. no eran sino traición. pásola con gran dolor. la niña. cuán flaco estáis.

tomadla.176 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Albertos. y agora os las envió. era de mi padre. – ¿Cúya es aquella lanza que tiene tal resplandor? – Tomadla. – ¿Cúyas son aquellas armas que están en el corredor? – Señor. eran de mi hermano. bien os la merezco yo. que aquesta muerte.) – Señor. buen conde. . matadme con ella vos. y envíalo para vos.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 177 2. Poesia brasileira neomedievalista .

Que o coração de uma dama só deve ter um lugar. Vinham sete cavaleiros sua dama disputar. Raimundo de Pennafort Caldas e Maria Luísa da Rocha Caldas. no Instituto Nacional de Previdência e no Banco do Brasil. entre outras obras. iniciou o curso de Direito.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 179 Onestaldo de Pennafort Poeta e tradutor. Sua obra poética é normalmente classificada como simbolista. uma história de pasmar. que não concluiu. Morreu no Rio de Janeiro em 18 de abril de 1987. Já adulto. ROMANCE DOS SETE CAVALEIROS Ouvide agora. esta classificação é questionável. porém. Assim pensam cavaleiros . Colaborou nas revistas Fon-Fon. Nem a sete cavaleiros uma só podia amar. O festim. por onde nem mesmo a morte. senhores. Perfume & outros poemas (1924). uma vez ele tomado. Ilustração do Brasil e na Revista do Brasil. filho do Dr. Escombros floridos (1921). Careta. Interior e outros poemas (1924). nasceu no Rio de Janeiro em 25 de junho de 1902. a porta se há de fechar. Nuvens da tarde (1954). Espelho d’água – Jogo da noite (1931). Que ela sendo uma e eles sete não lhes podia bastar. Traduziu Shakespeare e Verlaine. a dança e a degolação (1960) e Romanceiro (1981). Poesia (1954). Publicou. Trabalhou nos Ministérios da Agricultura e da Justiça. nem a morte pode entrar.

começam logo a lutar. quantos hajam de sobrar. o quinto e o sexto. Se for um. correi. o sétimo cavaleiro . vinde a peleja encetar. Os mais valentes dos pares que vencerem o seu par. que mostre que o seu desejo não pára em só desejar. Antes. suspira por entregar sua mão e sua vida ao que as souber conquistar. vinde a peleja encetar. põem-se logo a batalhar. o quinto e o sexto. cavaleiros.) que assentam de disputar a ver quem vence a peleja e com a dama há de ficar. em seguida. o terceiro com o seu par. Correi. O primeiro com o segundo. Correi. Tombando mortos os seis ao mesmo tempo e lugar. que o coração de uma dama não é de muito esperar. Ei-la na torre suspira. o terceiro com o seu par. Mas por igual que eram bravos. todos podem-se igualar. que é forte em querer quanto é forte em pelejar. Armaram-se os cavaleiros. começam logo a lutar. Armaram-se os cavaleiros. com o sétimo cavaleiro hão de em seguida lutar. correi. se forem mais. põem-se logo a batalhar. Todos tombam mortos juntos ao mesmo tempo e lugar. cavaleiros.180 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. O primeiro com o segundo. em seguida. o sétimo cavaleiro com eles há de brigar. O mais valente de todos com a dama há de ficar.

O cavaleiro era um anjo que o demo estava a atentar. – Se sois tão valente assim e provas me quereis dar. – Ai de mim. arrancai com este punhal o coração do lugar. Que se ele for amante. Palavras não eram ditas. Não vô-los iria eu dar. – Ai de mim. que sou valente e não o posso amostrar! Daqueles com quem brigara nem um me poude sobrar! Sem disputar minha dama. Sem honras. É a dama dos vossos sonhos que convosco quer falar. escurecia-se o ar. um cavaleiro Como a pode desposar? Ai de mim. suspira por se casar. nem as sereias do mar. que sou valente e não o posso amostrar! Sem o coração que tenho. que sou valente e não o posso amostrar! Venham vinte cavaleiros.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL não tinha com quem brigar. E nunca mais ninguém poude a torre e a dama avistar. cavaleiro. Nem são os anjos do céu. salvou-o o modo de amar. Aos outros vencer pudera. correi. correi a escutar. 181 . Melhor há de me falar. com eles posso lutar! – Alvíssaras. como a hei de desejar? Ei-la na torre suspira. Guardá-los-ia comigo para melhor vos amar. Mas o último cavaleiro. que se deram a matar. Como vos podia amar? Mil corações que tivera.

dized’ ora con quen comedes? Era uma vez uma dama. adeuses aos que se vão. não fora. que sede senti na separação! A vossa boca. um cavaleiro e um vilão. que é vossa. que estranho tanta consideração! Tomai a boca.182 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. – A mão. Novas à terra chegaram Dos mouros contra o cristão. É o vosso esposo que volta. A cavalgada que o segue ainda se escuta no chão. que estranho tanta consideração! Tomai a mão. primeiro. não. O cavaleiro partira montado em seu alazão. Senhora. à dor não resistiu. Altas horas. – Senhora minha. – Senhora minha. não! – Esposo amado. – Esposo amado. que fome senti na separação! . no castelo estranhas cousas se dão. não. que o vinho tão fresco assim não é.) ROMANCE DO VILÃO Escudeyro. A castelã no castelo ficara. Grandes luzes no castelo. como outras cousas o são. Um vilão por lá passava com feia e porca tenção. dái que eu beije a vossa mão. pois armas queredes. como outras cousas o são. que ela é vossa.

que estranho tanta consideração! Tomai os peitos. como outras cousas o são. que noite de tão má escuridão! Guiai-me neste caminho. bem que enxergaria através da escuridão. Julgava que eram excessos depois da separação. frutos verdes na sazão! – Esposo amado. – Senhora minha. não. Nos modos que me falava notava transformação. salvai-me de mau vilão! Meteu-se de meu esposo. os meus vassalos. Mas quando me acometia.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Os vossos peitos são frutos. logo vi que era vilão. comigo teve tenção. – Vassalos. que eu por mim não vejo. 183 . são vossos. Senão.

– Boca mais fresca que um fruto que está dizendo “mordei”. doce como o mel. – Lindos olhos tem a bela de enlouquecer o seu rei. não sei. E a donzela ria. mas porque ria. E a donzela ria. – Belas mãozinhas de fada. com o mar os compararei.) ROMANCE DA ROSA La rose que voicy ressemble à ceste rose. E a donzela ria. com a seda as compararei. mas porque ria. cada fio é ouro de lei.184 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. com o mel a compararei. Verdes. O cavaleiro jurava pela lei e pela grei. . Doce. não sei. não sei. pela lei e pela grei. ria. com o sol os compararei. – Cabelos da cor do ouro. ria. mas porque ria. verdes como o mar. tão brancas nunca avistei! Mais macias do que a seda. O cavaleiro jurava. O cavaleiro jurava pela lei e pela grei. ria. São como raios de sol.

rosa do jardim do rei. abrirei. ora. 185 . E eis que uma rosa ali perto. no jardim abriu-se a rosa... tão corada. o que não vos direi.. – Linda rosa. Como a folha leva-a o vento. eu bem sei. mas porque abria. não sei. não sei. E a donzela ria. tão medrosa. parecendo. com outra a compararei. tímida abriu. O cavaleiro jurava pela lei e pela grei. ria. ria. mas porque ria. esta rosinha. como a guerra leva o rei. mas por que ria. não abrirei..POESIA MEDIEVAL NO BRASIL O cavaleiro jurava pela lei e pela grei. E a donzela ria.

Maior. na casa da estudaria. – Esperai o bom do conde. Volta da caça contente (mas para que voltaria!) para ver sua condessa nos braços (quem tal diria!) nos braços do seu vassalo. a condessa Muito enxuta lhe dizia: – Esperai o bom do Conde. Torna-lhe o conde raivoso: – Esperar esperaria. que eu aqui esperaria para ver o seu amor até onde chegaria! . Ao vê-lo entrar. capitão de cortesia. Volta da caça contente com a caçada que fazia.186 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. para ver a minha espada até onde chegaria! Deu-lhe três golpes tão fortes que a casa toda tremia. do que tudo vinha a ser sua alegria de tornar ao seu castelo onde a condessa estaria. Deu-lhe uma morte tão triste que em noite tornou-se o dia. porém. o bom Conde Aragonês. Qualquier mujer que la come luego se siente preñada. Volta da caça contente mai-la a sua companhia. que eu aqui esperaria a ver até onde chega deste vassalo a ousadia.) ROMANCE DO CONDE ARAGONÊS Alli nace un arboledo que azucena se llamaba.

quem m’os dera a abraçar! A mais formosa de todas. Tanto espiou. Montou logo na garupa.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 187 ROMANCE DAS TRÊS IRMÃS OU MIRAMAR C’erano tre zitelle e tutti tre d’amore. A primeira era Marfida. tinha os olhos cor do mar. A terceira por desgraça Miramar se foi chamar. que algum dia um deles que ia a apear. que remira. A segunda tinha uns braços. oh. Nós éramos três irmãs. passa os dias a mirar as ondas que vão e vêm nas águas verdes do mar. a segunda Guiomar. Logo por desgraça dela Miramar se foi chamar! Mira. puseram-se a galopar. mira. Passava mais de ano e dia . Marfida que ia a espiar. tão bem que a mão lh’a pedia. Cavaleiros que passavam. que ela a não soube negar. Nós éramos três irmãs num castelo ao pé do mar. todas las três por casar! A primeira tinha um colo para um punhal se cravar. Nós éramos três irmãs num castelo ao pé do mar! Cavaleiros que passavam no seu lindo galopar.

ali mesmo muito bem que os vai juntar. a saia não n’a podem consertar. que o remédio era casar. Miramar. O trovador que trovava. A voz que entrava no ouvido. Tão cheinha que ela estava das trovas de aquel trovar! Chamam um frade. a mal fadada. em derredor do castelo se escuta um belo cantar. estava mirando o mar. Miramar. a mal fadada.188 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Guiomar que ia a escutar. Só um frade é que o podia. passam noites. Passam dias. A saia de lhe apertar! Chamam dois xastres. estava mirando o mar! . passam anos de contar.) que tinham ido a casar. Arde o castelo com o fogo que o demo foi a atear. estava mirando o mar. Miramar. a mal fadada.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 189 CANTAR DE AMIGO Et todolos que me veem preguntar qual est a dona que eu quero bem. Fiz esta canção para a minha amiga bem simplesmente como o oleiro faz o seu vaso de cera nova ou de argila antiga. Se alguém vier perguntar-me por acaso para quem fiz esta cantiga. eu o olharei nos olhos tranqüïlamente e em meus olhos ele há de ler o nome da minha amiga! .

poeta e médico brasileiro. A flauta encantada. Juliano Moreira no Hospital dos Alienados. com Olavo Bilac. Volúpia. como médico. uma Agência Americana. Arlequinada (de cuja representação toma parte. E acompanha Júlio Prestes em viagem que este. E em 1910 é designado chefe da Assistência Escolar da Prefeitura Carioca. Em 1924 é eleito para a Academia das Ciências de Lisboa. nasceu em Santos. silêncio e sonho e Sol das almas. n’O País. médico. contam-se: Verão. Sombra. Concluídos os estudos em escolas ginasianas. em 1901 matricula-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Durante os anos de estudante. então eleito Presidente da República. Em 1º de maio de 1892. As cidades eternas. estréia como orador lendo. Entre seus livros. . Vulcão. Enquanto menino. auxiliar de Osvaldo Cruz na profilaxia urbana do Distrito Federal. Rosicler. Silvério Fontes. em 1906. onde em 1917 se casa com Dona Nicota Neto. sob a direção de Bueno de Andrade. inicia sua carreira como interno na Clínica Dr. Em 1908 toma parte. trabalhou na Gazeta de notícias. um hino a Castro Alves. Funda. Volta a residir em Santos em 1915. na revista Careta e em outros periódicos. Estado de São Paulo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 191 Martins Fontes José Martins Fontes. fez à Europa e aos Estados Unidos em 1930. Hamburgo e Nova Iorque. Dr. Doutorando-se. em 23 de junho de 1884. Havre. no “Centro Socialista”. fez os estudos primários com a mãe. sociólogo e jornalista. em 1914. para serviço de propaganda dos produtos brasileiros em Paris. onde faleceu em 25 de junho de 1937. na Comissão de Obras do Acre. Dona Isabel Martins. em 1922). e o pai.

Agenor. certo. o meu amigo. Fez umas liras no son Que sacon mi caraçon. Que. O consolo que me deste Loando o meu padecer. Que eu.) SOLAU Fez umas trovas de amor Para mim. melhor não pinto. A dor que me faz chorar. Que me dá mágua e prazer. Com as liras que no teu son Mi sacon o coraçon. folgo em dizer O bem que tu me fizeste.192 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. . Muito bem soube trovar As desventuras que sinto. vos digo Que não sei de trovador Capaz de maior primor! Fez umas liras no son Que sacon mi coraçon. com franqueza. Com as tintas do meu pesar.

heróico. a pender do talabarte. clara Senhor! Irman de Iseu e de Isarte. Sonho que sou Lisuarte! Sinto que sou Galaor! O tristor de Dom Duarte. Mas a paz.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 193 DON GALAOR (A Jaime Franco) Sonho que sou Lisuarte! Sinto que sou Galaor! Um Gran Cavalleiro da Arte E Gran Príncipe do Amor! A glória do meu bravor Pelo mundo se reparte! Sonho que sou Lisuarte! Sinto que sou Galaor! Flammeja o meu estandarte! Fulge a minha Escalibor! Que. Meu olhar consegue impor! E. Sonho que sou Lisuarte! Sinto que sou Galaor! Offerta Brancaflor! para adorar-te E servir-te. Lembra um raio furta-cor! E. Brancaflor! Sonho que sou Lisuarte! Sinto que sou Galaor! . em toda a parte. por Vós. Chantando a Cruz-Baluarte. Se espelha no meu tristor. seja onde for.

De quem ninguém poude dizer nenhum mal. Cantares d’Amigo. – Balleta. Donaires. Canções. sabendo o que diz. Descordo. Cantando as soidades do Dom Lavrador. do agora morrer. que trobam de amor – Gran dó e gran coita deviam haver – Por terem perdido seu Rey Trobador. Mansobres. eu morro de Amor” – – “Ay. Que acaba. fazer o louvor Do pai piadoso do meu Portugal. flores! dos pinos gentis!” – Assim celebrastes a Terra Gensor! Assim vós trovaveis. Genevra. fremosas. Embora digades que são sem rivaes. El Rey Dom Denis! Os metros galantes dos bons provençaes.) PLANH POR EL REY DON DENIS Os mil trobadores. Guimar. Sirventês. louçanas. flores! Ay. Brancafrôl! Em prantos e rimas soltai vosso guay: E’morto o Troveiro do tempo da frôl! – “Amigos. chorai! – Oriana. pranteie o Sem-Par. Rimances do Grande Amadis! E’ morto o Troveiro das velhas Tenções! Em planh vo-lo eu conto: morreu Dom Denis! Garridas. Aquelle que troba. –El Rey Dom Denis! . Melhor os fazedes em bom português! Devemos. Amigos. sabendo trobar. De todolos homens. trobando. Aquelle que troba. A planh tôe agora. carpindo. Rondel.194 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

terminando o curso em 1912. Pequeno romanceiro (1957) e Rua (1961). Meu / Raça (1925). e Entre quatro paredes. foi tradutor de obras como: Eu e você. Também foi membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. entre outros. um dos mais conhecidos dos nossos poetas. em 11 de julho de 1969. escrevendo em vários jornais de seu Estado.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 195 Guilherme de Almeida Guilherme de Andrade e Almeida. de Jean-Paul Sartre (1950). Foi também ensaísta. Guilherme de Almeida possuía o seu próprio critério e suas próprias normas. Escreveu obras em prosa como: O meu Portugal (1933). A dança das horas (1919). Messidor / Era uma vez (1920). Carta à minha noiva / Você (1931). Foi agraciado. Foi o autor. . Iniciou-se no jornalismo. Além de poeta. Em 1930 passou a ocupar a cadeira de número 15 da Academia Brasileira de Letras. A frauta que eu perdi (1924). nasceu em Campinas. Estudou na Faculdade de Direito em São Paulo. em 1890 e faleceu em São Paulo. Simplicidade (1929). singularizadoras de sua técnica do verso livre. de: Nós (1917). sua obra se caracteriza por inegável inspiração romântica. de Charles Baudelaire (1944). com o título de “ Príncipe dos Poetas Brasileiros”. pela habilidade na elaboração de rimas e ritmos poéticos e pelo preciosismo verbal. em 1959. Embora tenha participado da Semana de Arte Moderna de 1922. colaborando com Oswald de Andrade em Théâtre brésilien (1916) e em Do sentimento nacionalista na poesia brasileira (1926). de Paul Géraldy (1932). A casa (1935) e Histórias talvez (1948). São Paulo. Flores das flores do mal.

lembranças. que passais pelas tardes claras. todalas aves do mundo d’ amor dizian: leda m’ and’ eu.196 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. . dos restos todos de dor das suas saudades só fiquei eu.) PASSAI. “Levad’ amigo. lembranças. que passais pelas claras tardes: das tardes todas de amor de que vos lembrardes só fiquei eu. Passai.. todas as tardes de amor por mim já passaram: só fiquei eu.. Das tardes todas de amor de que vos lembrardes. Todas as tardes de amor por mim já passaram: das sombras todas que então na sombra deixaram só fiquei eu. que dormides as manhãas frias.” (Nuno Fernandez Torneol) Passai.

ESQUECIDO .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 197 EU.. esquecido! Como vivo só chorando por um passado que vou recordando! Muito esta vida me custa a mim ser vivida! Eu.. esquecido! Como vivo só morrendo por um passado que vou revivendo! Muito esta vida me custa a mim ser vivida! . “Aí eu coitada! Como vivo em gram cuidado por meu amigo que hei alongado! Muito me tarda o meu amigo na Guarda!” (El-rei Dom Sancho I) Eu.

que novas trazeis do meu pensamento? (Meu Deus. e u é?” (El-rei Dom Denis) Ó sombras.Deus.198 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. ó sombras do esquecimento. onde estás?) .) Ó SOMBRAS. daquele que andou nas asas do vento? (Meu Deus. (Meu Deus. ó sombras do amor vivido.. flores. onde estás?) As novas que trago? O tempo perdido é o único que não foi esquecido. onde estás?) Ó sombras. se sabedes novas do meu amigo? Ai. daquele por quem sou tão perseguido? (Meu Deus. ai. (Meu Deus. onde estás?) Que novas trazeis do tempo perdido. onde estás?) Que novas trazeis do meu pensamento. “Ai. flores do verde pino. onde estás?) – As novas que trago? O teu pensamento já nada mais é que arrependimento.. que novas trazeis do tempo perdido? (Meu Deus.

por isso tu não és minha e vou à toa. O fio do meu passado partiu-se na tua estrada e vou à toa. bela!” (Pedro Gonçalves Porto Carreiro) O fio do meu destino partiu-se no teu caminho e vou à toa. por isso vou desnorteado e vou à toa.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 199 À TOA “O anel do meu amigo perdi-o so lo verde pino e chor’eu. . Partiu-se no teu caminho. Partiu-se na tua estrada.

moir-eu. . sempre um só. eu sou eu. quando eu não sou mais que um ponto final. e o bem que deixais é o meu mal. que o bem que trazeis é o meu mal. fico eu. Ai andorinhas do meu beiral! Vindes fazer o ninho onde eu enterro o meu tédio mortal! Ai andorinhas do meu beiral! Enquanto sois sempre outras. Ai andorinhas do meu beiral! Sois reticências no ar.) AS ANDORINHAS “Ai estorninho do avelanal! Quando cantades vós. clérigo) Ai andorinhas do meu beiral! Quando chegais aqui sofro eu. Ai andorinhas do meu beiral! Quando partis daqui.200 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. (Ayras Nunes. sempre igual. e pen’ e d’amores ei mal”.

mas era um gesto de adeus. sua luz foi sombra que acolhe. (Ayras Nunes. mas era um gesto de adeus. mas era um gesto de adeus. parecia céu e horizonte. e atirei as mãos para o alto. mas era um gesto de adeus. E pensei poder alcançá-lo. E baixaram as mãos vazias sob o gesto que prometia. clérigo) Houve um gesto de mão amiga na paisagem da minha vida. mas era um gesto de adeus. . Fez cantar ao mesmo compasso do meu coração o meu passo. Acenando no alto e de longe. Sua sombra foi luz que envolve. mas era um gesto de adeus. mas era um gesto de adeus.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 201 O GESTO “So lo ramo verde frolido vodas fazem a meu amigo e choran olhos d’amor”. Ele fez florir o caminho desolado do meu destino.

) SENHORA SAUDADE “Sedia la fremosa seu sirgo torcendo. no livro da minha feliz mocidade palavras de outrora.202 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. e tendes saudade! . – Tão pouco vivestes. Estava a Saudade seu livro folheando. bem sei eu que vedes meus olhos chorando no livro em que ledes palavras de outrora. sa voz manselinha fremoso dizendo cantigas d’amigo”. (Estevam Coelho) Estava a Saudade seu livro relendo. a voz de mansinho saudosa dizendo palavras de outrora. – Senhora Saudade. Bem sei eu que ledes. a voz de mansinho saudosa lembrando palavras de outrora. Senhora Saudade.

.. Cercaram-me os sonhos que são sem fim.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 203 DESTINO “Sedia-m’eu na ermida de San Simon e cercaram-m’as ondas que grandes son: e eu attendendo o meu amigo. morrerei feliz por morrer assim: E eu entendo o meu destino. e eu attendendo o meu amigo. e eu entendo o meu destino.. e não sei sair de dentro de mim: E eu entendo o meu destino. Estando fechado dentro de mim....... cercaram-me os sonhos que são sem fim: e eu entendo o meu destino. . e eu entendo o meu destino... (Meendinho) Fechei-me na paz do meu coração e cercaram-me as ondas da inspiração: e eu entendo o meu destino. e eu entendo o meu destino. e eu entendo o meu destino. eu entendo o meu destino.”.. E não sei sair do meu coração: morrerei sozinho de solidão: E eu entendo o meu destino. e eu entendo o meu destino. E não sei sair de dentro de mim... E cercaram-me as ondas da inspiração: e não sei sair do meu coração: e eu entendo o meu destino.

Versos mandou lavrar e no mundo os deixar: e lá vai. o voss’amigo”. cheio de medo. era uma vez.) “ENVOI” “El-rei de Portugale barcas mandou lavrare … e lá irá nas barcas migo. meu segredo. meu segredo. versos mandou fazer: e lá vai. em meus versos. jogral d’el-rei) El-rei dom Ideal versos mandou lavrar: e lá vai. El-rei. Versos mandou fazer e no mundo os perder: e lá vai. . cheio de medo. cheio de medo. mia filha. (João Zorro. em meus versos. meu segredo. cheio de medo.204 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. meu segredo. em meus versos. em meus versos.

Suas primeiras poesias apresentam-se impregnadas de traços parnasianos e simbolistas. de 1924). mas por muitos anos. por exemplo. que via na sua poesia um percurso que partiria “da vida inteira que poderia ter sido e não foi” para outra vida que fora ficando “cada vez mais cheia de tudo”. destacando. com a sombra da morte iminente a suscitar-lhe desânimo e tristeza. dando a lume Estrela da manhã (1936). bem como românticos.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 205 Manuel Bandeira Manuel Bandeira. e até pelo egocentrismo. natural do Recife (1886) mas radicado no Rio de Janeiro. a intenção demolidora dos modernistas com relação aos aspectos . à sua obra. além de ter sido ensaísta e historiador da literatura. após a manifestação da doença. Lira dos cinqüent’anos (na 3a ed. mesmo ao enfocar aspectos do social. transfigurados embora. não faltando críticos biografistas que perceberam nos seus poemas reflexos. de 1958). e até mesmo da lição dos trovadores medievais galaico-portugueses. Enfim. Fazendo um balanço da sua vida nesta obra memorialista. das Poesias completas. de 1944). como também pela auto-reflexibilidade. Carnaval (1919) e Ritmo dissoluto (publicado na primeira edição das Poesias completas.. onde viria a falecer em 1968. conclui por lembrar o crítico Otto Maria Carpeaux. imprimiria feições iconoclastas. onde diz ter vivido “sempre provisoriamente”. foi um dos mais conhecidos poetas do Modernismo brasileiro. Os principais temas por ele explorados ligam-se à nostalgia da infância e à condição solitária. A partir de Libertinagem (1930). Ele próprio o testemunha no autobiográfico Itinerário de Pasárgada. como se percebe em A cinza das horas (1917). e Mafuá do Malungo (1948). a obra do poeta caracteriza-se pelo individualismo. Mas o que nos interessa ressaltar no momento é que a sua obra apresenta a assimilação de várias tendências estéticas. modernistas. universal e nacional. Belobelo (na 3a ed. Opus 10 (1952). da experiência da tuberculose e suas seqüelas.

dominando os meios e processos expressivos tradicionais.) da lírica consagrados pela tradição. Quero ser feliz Nas ondas do mar Quero esquecer tudo Quero descansar. CANTIGA Nas ondas da praia Nas ondas do mar Quero ser feliz Quero me afogar. recriar a tradição e assegurar para si um destacado lugar na história da poesia brasileira. Como professor. .206 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Nas ondas da praia Quem vem me beijar? Quero a estrela-d’alva Rainha do mar. crítico e historiador da literatura. brasileira e galego-portuguesa. Assim é que. tornando-se-lhe inclusive. como veremos. possuía fecundo conhecimento das literaturas portuguesa. bem como as conquistas da poesia modernista. através do seu talento e virtuosismo. soube. familiares as cantigas dos Cancioneiros arcaicos.

Ai Avatlântica! Olhos verdes. de ondas sem dó.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 207 COSSANTE Ondas da praia onde vos vi. Por quem me rompo. Olhos verdes intersexuais. Ai Avatlântica! Olhos verdes sem lei nem rei. Ai Avatlântica! Olhos verdes. Ai Avatlântica! Ondas da praia onde morais. Por quem jurei de vos possuir. exausto e só. Ai Avatlântica! . de ondas sem fim. de ondas sem fim. Por quem juro vos esquecer. Ai Avatlântica! Olhos verdes sem dó de mim. Olhos verdes. Olhos verdes sem dó de mim.

ai meu lum’e meu ben. D.. . Mha senhor.208 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. ai rezade por mi. Meu coraçon non sei o que ten. Moir’eu logo. Ca non dormho á mui gran sazon. ai meu lum’e meu ben. E pois tal coita non mereci. ai meu lum’e meu ben. Mha senhor.. Des oimais o viver m’é prison: Grave di’aquel en que naci! Mha senhor. Meu coraçon non sei o que ten. com’oje dia son. Dinis Mha senhor. Noit’e dia no meu coraçon Nulha ren se non a morte vi. se Deus mi perdon.) CANTAR DE AMOR Quer’eu en maneyra de proençal. Meu coraçon non sei o que ten. Fazer agora hum cantar d’amor. Ca per’ço sen e perç’a razon. Mha senhor. Atan cuitad’e sen cor assi! E par Deus non sei que farei i.

ai de mim. De muito olhar de mulher já sofri! Mas em parte alguma vi.. Basiléia e nos Grisões. Lugano. Gênova por derradeiro. Minas.. Nenhuma que fosse bonita assim! Atravessei o mar e. Bahia. tão bonita assim! . onde nasci). castanhas. Belém do Pará. ai de mim. Nenhuma que fosse bonita assim! Andei por São Paulo e pelo Ceará (Não falo em Pernambuco. Ruivas. E amei-as. ai de mim. pequenas. por mal dos pecados meus! Mas em parte alguma vi. no estrangeiro. Em Paris. brancas e morenas. Nenhuma que fosse bonita assim! Mulher bonita não falta. Vi mulheres de todas as nações. Mas em parte alguma vi.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 209 CANTIGA DE AMOR Mulheres neste mundo de meu Deus Tenho visto muitas – grandes. ai de mim! Nenhuma porém.

Retrato natural (1949). Lírica e intimista. em 1919. Poetisa conhecida internacionalmente. Trabalhou também como jornalista no Observador econômico e financeiro. até transferir-se para os Estados Unidos. Mar absoluto (1945). da morte. do amor. giroflá (1956). aproximou-se do grupo tradicionalista e católico que tinha na revista Festa seu principal veículo de expressão. onde lecionou literatura e folclore na Universidade do Texas. Em 1994 foi publicada uma nova edição de sua obra. 12 noturnos da Holanda (1952). Em 1934 criou uma biblioteca infantil. seus livros foram traduzidos em várias línguas. Estudou Filosofia e Literatura. Yerma). No ano seguinte. Viagem. Em 1930 começou a dirigir a página de educação do Diário de notícias. No início da década de 20. estudou violino. canto. . Traduziu autores como García Lorca (Bodas de sangue. fez uma série de viagens pela América Latina. Seu primeiro grande livro. Poesia completa. Índia (onde escreveu o poema Elegia a Gandhi) e Israel. de 2001. Romanceiro da Inconfidência (1953). da precariedade das coisas. De 1935 a 1938 lecionou literatura luso-brasileira e técnica e crítica literária na recém-criada Universidade do Distrito Federal. nasceu no Rio de Janeiro. Publicou seu primeiro livro. em 1901. pioneira no país. Virginia Woolf (Orlando) e Ibsen (Peer Gynt).POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 211 Cecília Meireles Uma das maiores glórias da poesia brasileira. Professora primária aos 16 anos. abordou em sua poesia os temas da fugacidade do tempo. Seus principais livros de poesia são: Vaga música (1942). livros infantis: Giroflê. chegando a ingressar no Conservatório Nacional de Música. foi publicado em 1938. premiado pela Academia Brasileira de Letras. aí falecendo em 1964. Poemas escritos na Índia (1961) e Solombra (1963). e crônicas: Escolha seu sonho (1964). Escreveu também memórias: Olhinhos de gato (1940). Canções (1956). da eternidade. Espectros. revista na edição comemorativa do centenário de nascimento.

“Levai bem pólvora e chumbo!” – disse a voz aos da boiada. não repercutiam nada … “Bebamos. leva uma estrela no sonho.) ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA ROMANCE LXIII OU DO SILÊNCIO DO ALFERES “Vou trabalhar para todos!” – disse a voz no alto da estrada. e os homens riam-se dela. Mas largo é o rio na serra! “Quem tivesse uma canoa …” (Não servira para nada …) . que estavam perto. todos estavam de acordo. Mas o rosilho passava. sem lhe responderem nada. Mas o traidor escondido e as sentinelas esquivas não lhe esclarecem mais nada. e uma tristeza sem nada. E agora não sabem nada. ao futuro!” – exclamara na pousada. pois. Já se afastam os amigos. (“Ah se eu me apanahasse em Minas…”) – suspira a voz fatigada. Todos beberam com ele.212 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Leva uma dobla no bolso. e já não tem mais amada. “Quem me segue? Que me querem?” – pergunta a voz espantada. Mas o eco andava tão longe! E os homens.

com duros passos na escada. quem sofria. por quem não fazia nada! Dizem que por sua língua anda a terra emaranhada… Pois quem quiser faça agora perguntas sobre perguntas. Já sem lembrançade nada. No bacamarte que empunha. repartido aos quatro ventos. Tanto tempo na masmorra! Tanta coisa mal contada! Os outros têm privilégios. – que já não responde nada. amigos. Já tem a vida tirada.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL (Já vão subindo os algozes. Já lhe vão tirando a vida. há quatro dedos de chumbo. parentes… Só ele é que não tem nada. estrada. porém não dispara nada. quem servia. Agora é puro silêncio.) 213 . ó Vilas. ouro. E vós bem sabeis. e tu bem sabes. quem galopava essa terra.

de cada lado.) INCONFORMADA ROMANCE LXXIII OU DA MARÍLIA Pungia a Marília. a antiga fala do amado. por alheio prado. em tão lamentoso estado?’ A bela.214 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. que teu pastor não se lembra de nenhum tempo passado…” E ela. gemia: “Só se estivesse alienado!” Entre lágrimas se erguia seu claro rosto acordado. porém. por esse amor acabado: que esperavas que fizesse o teu pastor desgraçado. Volvia os olhos em roda. volta. Mas o oráculo dos sonhos dizia a seu corpo alado: “Ah. a bela. dormindo. Procurava o amor perdido. tão sozinho. piedosas vozes discretas davam-lhe o mesmo recado: “Não chores tanto. longe. e logo. gemia: “Só se estivesse alienado!” . negro sonho atormentado: voava seu corpo longe. volta Marília tira-te desse cuidado. Marília. tão distante.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL
E a névoa da tarde vinha com seu véu tão delicado envolver a torre, o monte, o chafariz, o telhado… Ah, quanta névoa de tempo longamente acumulado… Mas os versos! Mas as juras! Mas o vestido bordado! Bem que o coração dizia – coração desventurado – “Talvez se tenha esquecido …” “Talvez se tenha cansado …” Seu lábio, porém, gemia: “Só se estivesse alienado!” envolver a torre, o monte, o chafariz, o telhado … Ah quanta névoa de tempo longamente acumulado … mas os versos! mas as juras! Mas o vestido bordado! Bem que o coração dizia – coração deventurado – “talvez se tenha esquecido…” “talvez se tenha cansado…” Seu lábio, porém, gemia: “só se estivesse alienado!”

215

216

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

MIRACLARA DESPOSADA
Mãos de coral dentro da água, na tina, entre o sol e o sal, Miraclara vai lavando o seu antigo enxoval. Ai, doce mágoa ver o futuro passar! Libélulas de esmeralda vêem Miraclara lavar. Mãos de coral dentro da água, na tina, entre o sal e o sol, Miraclara torce a nuvem cintilante do lençol. O azul que dorme redondo numa bacia de prata é do anil do próprio céu que ali dentro se retrata. Miraclara, sal e sol, Miraclara, sol e sal, canta e lava, lava e canta com uma dourada garganta, defronte à minha janela. E à luz da manhã levanta a sua colcha amarela nas destras mãos de coral. Quem viu colcha igual àquela, como um grande girassol num canteiro de cristal! Em redor de Miraclara dançam borboletas: brancas, e encarnadas com riscas pretas.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL

217

CANTAR DE VERO AMOR
Assim aos poucos vai sendo levada a tua Amiga, a tua Amada! E assim de longe ouvirás a cantiga da tua Amada, da tua Amiga. Abrem-se os olhos – e é de sombra a estrada para chegar-se à Amiga, à Amada! Fechem-se os olhos – e eis a estrada antiga, a que levaria à Amada, à Amiga. (Se me encontrares novamente, nada te faça esquecer a Amiga, a Amada!) Se te encontrar, pode ser que eu consiga ser para sempre a Amada Amiga. II E assim aos poucos vai sendo levada a tua Amiga, a tua Amada! E talvez apenas uma estrelinha siga a tua Amada, a tua Amiga. Para muito longe vai sendo levada, desfigurada e transfigurada. sem que ela mesma já não consiga dizer que era a tua profunda Amiga, sem que possa ouvir o que tua alma brada: que era tua Amiga e que era tua Amada. Ah! do que disse nada mais se diga! Vai-se a tua Amada – vai-se a tua Amiga! Ah! do que era tanto, não resta mais nada... Mas houve essa Amiga! mas houve essa Amada!

218

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

CANTAR GUAIADO
Também cantarei guaiado – ai, verde terra! ai, verde mar! – por haver buscado tanto e ter tão pouco que amar! Morrerei sem ter contado – ai, verde terra! ai, verde mar! – quantas bagas do meu pranto ficam no mundo a rolar. Mas em meu lábio cerrado – ai, verde terra! ai, verde mar! – fica o vestígio do canto, ai! do grande canto guaiado para quem o interpretar...

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL

219

A AMIGA DEIXADA
Antiga cantiga da amiga deixada. Musgo da piscina, de uma água tão fina, sôbre a qual se inclina a lua exilada. Antiga cantiga da amiga chamada. Chegara tão perto! Mas tinha, decerto, seu rosto encoberto... Cantava – mais nada. Antiga cantiga da amiga chegada. Pérola caída na praia da vida: primeiro, perdida e depois – quebrada. Antiga cantiga da amiga calada. Partiu como vinha,

220

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)
leve, alta, sòzinha, – giro de andorinha na mão da alvorada. Antiga cantiga da amiga deixada.

sejas viva. Que a chamar não me aventuro. Leonoreta. puro amor é minha vida. encontrarás meu amor. apesar de sofrer tanto. Bela sobre toda fror. fez-se de sal a espineta que me acompanhava o canto. nom me meta En tal coita vosso amor! (do “Amadis de Gaula”) I Pela noite nemorosa. Leonoreta! Leva a seta um rumo claro. não te meta en gran coita a minha dor! . branca sobre toda flor. Fin’ roseta. ai. fin’roseta. Com três séculos de pranto. só por alma te procuro. Rondo em sonho a tua porta. fin’roseta. Ai. fin’ roseta. sem desgosto e sem favor. por silêncios esvaída. desgraçado mas jucundo. desfechada no ar escuro … O licorne beija a rosa. Leonoreta. nos bosques atrás do mundo. Leonoreta. ai. por mais que eu não to prometa. canta a fênix do alto muro: mas é tal meu desamparo. Leonoreta. sejas morta.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 221 AMOR EM LEONORETA Leonoreta. Leonoreta.

mais leve que borboleta. sofriam de indiferença. “Leonoreta!”– exclamaria. tornam-se os picos das eras vales rasos de violeta … Não me digas que me esperas! Não me acenes com o futuro … Eu sou das sortes severas. algum dia. recordo o estremecimento: era a tua voz que me trazia o vento. ricos de amor. ou que planeta. fin’roseta. Leonoreta. antes de a amar. Ai. Pela noite nemorosa. Fin’roseta! Esta. que. canta a fênix do alto muro … Ai. mas buscava tua face. Leonoreta. se de ti me aproximasse. se pensa. nada insinua … esta é a voz de Leonoreta! . é nascida a branca flor em que. ou que mundo.222 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. que apenas flutua.) O licorne beija a rosa. longe. mesmo sem precisar vê-la …? Das varandas da alta lua. Leonoreta. fin’roseta. Leonoreta. De que estrela. e só do sonho inseguro. Leonoreta. Meus olhos. E. II Do teu nome não sabia. salamandras e quimeras vêm saber o que procuro.

E comecei a cantar-te. se vi que me não queres. que doçura. se te vi mas não me viste: que foste a mais derrotada … Pois. Leonoreta. que. nada reclamo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Podia morrer de pena. Leonoreta. noutras eras. tu não viste como te amo … Leonoreta. Nem te meta en gran coita. A adorada ausência não me põe triste. Se como te ouvi me ouviras. viverás por esse encanto. só terei do que me deres. que não se ama. fin’roseta! Por alheia não me feres: sei teu nome e não te chamo. fin’roseta. Mas a vida é tão pequena. bela sobre toda flor! – tão pequena para amar-te … E em toda parte causa espanto o meu amor. Leonoreta. andar por onde estiveste! 223 . por mim. Sei que é tanto meu amor que. Mas é tão de outras esferas. Meu amor é flor sem ramo. por enquanto… Nem de ti desejo nada senão saber que exististe. Amor é arte. mais feliz não me fizeras.

longe vai teu vulto amado. Leonoreta. não sofria… III Leonoreta. Leonoreta. Guardo por altas varandas tua fala em meus ouvidos. é minha humana aventura. fin’roseta. Sem fogo que o lírio creste. fin’ roseta. não te meta en gran coita a minha dor: se te amava. quem eras. Porém resiste ao meu lado o espaço que ocuparias. sem que o sangue comprometa o sonho. Tu. . se a tua sombra resiste e tu não resistirias? Leonoreta. Leonoreta. se te visses debuxada pelo meu poder de amor. não mais penso por onde andas. branca sobre toda flor? Teu semblante choraria de alegria. fin’ roseta. pela criatura… Ai Leonoreta. que me não deste nada! Que nem viste quem te via! Leonoreta. como poderei ser triste.) A mais pura imagem do amor celeste.. entre esfinges e quimeras.224 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.. fin’ roseta.

que eu nunca fui por onde ias! Não venhas. não te meta en gran coita a minha dor. Leonoreta. porém. como os puros amadores. fin’ roseta. se eu te vejo sobre os mares... ai! outras são as companhias. não me vês. Não te quero nem desejo: morrerei. se és o meu grande bem. 225 . feliz da barca e da vela. se suspirares. que és o meu bem. quando tudo é tão de além. eu vivo a bordar de flores a sombra dos teus vestidos. Pois. mas eu te vejo. Não venhas por onde eu for. do vento que leva a bela mão sobre saudosos mares. se também por mim visse que sofrias.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Leonoreta. fin’ roseta. bela sobre toda flor (que todos os meus pesares são por saudade do amor). IV Morrerei. Leonoreta.. Leonoreta. sofrendo por te afastares. Leonoreta. se suspirares. Leonoreta.. fin’ roseta.. fin’ roseta. se mais ninguém para mim valia tem..

226

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)
Leonoreta, fin’ roseta: olha os sonhos singulares que existem porque não vêm... V Pela celeste ampulheta, flui-me a vida em cinza breve, sem que eu saiba aonde me leve, Leonoreta, O enlevo – que foi tão raro, O sonho – que era tão certo, O amor – que, apesar de claro, nem foi visto, de encoberto. Desconheço a quem remeta a experiência a que me entrego: todos querem amor cego, Leonoreta, e o meu é clarividente. Amor cego, fiel, cativo, todos querem. E eu, somente, sei do isento e sem motivo… Grave amor que não submeta asas próprias nem alheias, amor de límpidas veias, Leonoreta, onde o tempo é eternidade, e alegrias e tristezas são igual felicidade, indelevelmente acesas. Que meteoro, que cometa conhece campo florente em que prospere a semente, Leonoreta, deste amor que te proponho? Amor que apenas contemplo, em que sou meu próprio sonho, flor de meu silêncio e exemplo?

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL
VI Leonoreta, fin’ roseta, deixo meus olhos fechados sobre os acontecimentos. Não te meta en gran coita o meu amor: podem, por todos os lados, duros, tenebrosos ventos quebrar muitas tentativas. Mas, para que eterna vivas, que é preciso? Que pensem meus pensamentos. E entre pólos inviolados, entre equívocos momentos, vem e volta a vida humana, que se engana e desengana em redor do Paraíso. Branca sobre toda flor, a Verônica levanto, num transparente estandarte: celebro por toda parte a alegria de adorar-te com o meu pranto. VII Pela celeste ampulheta, cai a cinza dos meus dias. Cai a cinza do meu corpo, da minha alma, Leonoreta, e o tempo é um límpido sopro que liberta de alegrias e de queixas... Leonoreta, fin’ roseta, alta estrela, a minha sorte!

227

228

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)
Pela celeste ampulheta, vai-se a luz da primavera... A ventura que se aprende nos adeuses, Leonoreta, vale o que neles se perde... Tudo quanto sou te espera, e me deixas... Leonoreta, não te meta en gran coita a minha dor. Puro sonho, a minha morte, pura morte, o meu amor.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL

229

Paulo Lebéis Bonfim

Nasceu em São Paulo, em 30 de setembro de 1926. Além de poeta, foi jornalista e relações públicas. Foi Membro da Academia Paulista de Letras e do Pen Clube. Recebeu o prêmio Olavo Bilac, da ABL, e o troféu Juca Pato, da UBE (1981). Suas obras são: Antônio Triste (1946), Transfiguração (1951), Relógio de sol (1952), Cantiga do desencontro (1954), Poema do silêncio (1955), Sinfonia branca (1955), Armorial (1956), Quinze anos de poesia (1957), Poema da descoberta (1957), Sonetos (1959), O colecionador de minutos (1956), Ramos de rumos (1961), Antologia poética (1962), Sonetos da vida e da morte (1963), Tempo reverso (1964), Canções (1966), Calendário (1968), Poemas escolhidos (1973), Praia de sonetos (1981) e Sonetos do caminho (1983).

CANTIGA DO DESENCONTRO
Canto VIII Ai flores do verde tempo, Cheias de sol e distância... Em que canteiro deixastes O aroma de minha infância? Ai flores do verde tempo, Alvas luas que semeei... Em que camada da terra Mora o pranto que chorei? Ai flores do verde tempo, Perfume que o vento traz... Em que silêncio repassam Os dias do nunca mais?

230

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)
Ai flores do verde tempo, Que refloris na lembrança Enfeitai o meu sorriso. Quando murchar a esperança!

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL

231

ANTÔNIO TRISTE
Onde andará Onde andará minha amada Neste crepúsculo triste Nestas noites sem luar? Ó árvores desfolhadas, Falai-me de meu amor! Onde andará minha amada Nestas manhãs cor de cinza, Nestas auroras sem cor? Ó folhas soltas dos ramos, Falai-me de meu amor! Ó árvores desfolhadas, Ó folhas soltas dos ramos, Peregrinos ventania, Daime-me notícias de alguém, Falai-me de meu amor!

232 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. . – És o oceano.) POEMAS ESPARSOS Serenata Em meu silêncio De rua antiga. Em minha angústia De cais deserto. – És serenata. – És o destino. Em meu lirismo De tarde triste.

Colaborou em periódicos e participou de antologias poéticas. Minas Gerais. Suas principais obras são: Cais da eternidade (1951). . trovador mui afamado. que à côrte estava em visita de amizade e cortesia. Poemas existenciais e Tempo de poesia (todos de 1962). Certo dia. exerceu as profissões de jornalista e editor. em 27 de janeiro de 1919. Garcia Lorca A formosa Infanta Ausenda bem que já correspondia.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 233 Edison Moreira Edison Crisóstomo Moreira nasceu em São Francisco da Glória.. Diplomado em Letras. além de sua atividade poética. O jogral e a rosa. o bom do Rei ao Conde d’Albergaria roga ir consigo à caça se tal cousa lhe aprazia. Este de tenção formada pelo pagem respondia que disposto não estava. pela qual foi laureado com o Prêmio Oton Bezerra de Melo. ficava a estudar os livros na casa da estudaria. RIMANCE . não estava nesse dia. senhor de cavalaria.pero tenia marido. Em vão não foram os cantares do Conde d’Albergaria..

“trigais louros”. os mordia. o vosso trovar dizia. o Conde. Cabelos da Infanta. o vosso trovar dizia. que ventura não seria! Peitos tão alvos. amado. quantas vezes fossem meus tantas eu vô-los daria: sempre a tomásseis nos lábios que vindima não teria! Lábios tão doces.) Recado não era dado e o bom do Rei se partia levando toda a matilha mail-a sua companhia. – Minha boca. mais que os beijava. – Meus peitos. já o Conde para os braços da bela Infanta corria. quantas vezes fossem meus tantas eu vô-los daria: quando os beijásseis. “como a vinha”. mais que os beijava. os bebia. nos nobres dedos colhia. quantas vezes fossem meus tantas eu vo-los daria: sempre os colhêsseis nos dedos que ventura não seria. o vosso trovar dizia.234 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. o Conde. “dois frutos verdes”. Mal na curva do caminho o Rei desaparecia. o Conde. . e esta por sua vez mui enxuta lhe dizia: – Meus cabelos.

Abraçai tão belo corpo que vos tanto apetecia. eis que o Rei ali surgia. abraçaria. deste modo o nobre Conde de um Rei não se queixaria por faltar a um visitante com as normas da cortesia. que logo voltou trazendo punhal de oiro que luzia. 235 . arma de mui grande estima que em sua panóplia havia. Tal qual um vilão o Conde sem querer obedecia. um servo o Rei despedia. que fora à caça fingia a ver se a formosa Ausenda em sua ausência o traía e a feia tenção do Conde até onde chegaria. Voltara a meio caminho. – Tão belo corpo da Infanta (cruel o Rei prosseguia) em mãos tão nobres vos juro. nunca o veria. vos juro. abraçando a Infanta Ausenda que de terrores tremia. me fora dado abraçar.. – Alvíssaras. sem que preciso fizésseis tudo à minha revelia.. Tendo-os assim abraçados.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Palavras não eram ditas. ai de mim que não sabia! Se tivesse adivinhado vô-la dado já teria. meu nobre Conde (diz o Rei com ironia) que amáveis a minha Infanta. Quanto a mim.

com crueldade tão fria.236 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. deu sete golpes profundos com toda sua mestria. .) Tomando o punhal o Rei. traspassando sete vezes. a formosa Infanta Ausenda e o Conde d’Albergaria. sua mão sequer tremia.

Dinis.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 237 EVOCAÇÃO DE D. DINIS As tuas canções de amigo: ondas do mar de Vigo D. as tuas canções de amigo me fizeram mais feliz. Desde que as levo comigo. .

Dinis Senhora.) CANTIGA DE AMOR Um tal ome sei eu. pois nunca mostrei meu pranto à vossa gentil ciência. D’el-rei D. . guardais um’alma de neve. sem vossa correspondência. Meu mal vem de amar-vos tanto. Dizer-vos meu quebranto meu coração não se atreve: dentro de um corpo de fogo guardais um’alma de neve. causais a mágoa que a vida me faz tão breve dentro de um corpo de fogo. que por vós ten a sa morte chegada. ai ben-talhada.238 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG...

pola ribeira frolida: é minha amada. a bem talhada. a louçãa.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 239 CANTAR DE AMOR Se na campina frolida vires por todos loada uma pastora velida: é minha amada. A mais fremosa e querida. .

noviciado da paixão (1974). que terminaria em 1969. Em 1982 participou do Programa do Artista Residente. Poemas malditos. Com dezoito anos de idade. Em 1967 iniciou a produção de peças teatrais. Estado de São Paulo. Em 1966 construiu. SP) foi publicado em 1970. tema de teses universitárias em nível de pós-graduação. Dois anos depois publicou seu primeiro livro de poesia (Presságio – Revista dos tribunais. O caderno rosa de Lori Lamby (1990). Cursou o primário e o ginasial como aluna interna do Colégio Santa Marcelina. Júbilo. Odes mínimas e Tu não te moves de ti (1980). e o curso secundário (Clássico e Científico) no Instituto Presbiteriano Mackenzie. tem chamado a atenção da crítica internacional. com a tradução de poemas e textos seus para o francês. gozosos e devotos (1984). na Universidade São Francisco. memória. inglês e italiano. Em 1963 mudou-se para a fazenda São José. Poetisa. Poesia (1959/1979). Seu primeiro livro de ficção (Fluxo-floema – Ed. dramaturga e ficcionista. Da morte. Formou-se bacharel em Direito em 1952. Perspectiva. alemão. em Campinas. Em 1935 iniciou a vida escolar fazendo o jardim de infãncia no Instituto Brás Cubas. freqüentemente. na cidade de Santos. Seu trabalho tem sido. Estado de São Paulo. no dia 21 de abril de 1930. subsidiado pela Universidade de Campinas (UNICAMP). . a casa que denominou “Casa do Sol”. e. do qual faz parte até hoje. Ficções (1977).POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 241 Hilda Hilst Filha de Bedecilda Vaz Cardoso e de Apolônio de Almeida Prado Hilst. Hilda Hilst vem obtendo com a sua obra alguns dos mais significativos prêmios literários brasileiros. Outras obras: O verdugo (1970). onde reside até hoje. Hilda Hilst nasceu na cidade de Jaú. Sobre a tua grande face e Com meus olhos de cão e outras novelas (1986). mais recentemente. de propriedade de sua mãe. SP). em São Paulo. iniciou a faculdade de Direito. próxima à fazenda São José.

. Dois anos depois teve sua dramaturgia publicada pela Nankim Editorial. Em 1997 publicou o livro Estar sendo. Vossas carências Sei-as de cor. e está aberto a pesquisadores do mundo inteiro. Ter sido.) Seu arquivo pessoal. em 1995. amigo Mas é nos versos Que mais vos sinto. foi comprado. contendo registros de sua criação artística acumulados ao longo de quase meio século. De entendimento Vivo e padeço. da UNICAMP. TROVAS DE MUITO AMOR PARA UM AMADO SENHOR Poema II Amo e conheço. de São Paulo. E na linguagem Desta canção Sei que não minto. pelo “Centro de Documentação Alexandre Eulálio”. E o desvario Na vossa ausência Sei-o melhor.242 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. e anunciou seu afastamento do trabalho literário. Tendes comigo Tais dependências Mas eu convosco Tantas ardências Que só me resta O amar antigo: Não sei dizer-vos Amor. Eis porque sou amante E vos mereço.

Porque ai senhor A vida é pouca: Um bater de asa Um só caminho Da minha à vossa Casa. .. E depois. Convém amar Ainda que seja Por um momento: Brisa leve a Princípio e seu Breve momento Também é jeito De ser.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 243 Poema IV Convém amar O amor e a rosa E a mim que sou Moça e formosa Aos vossos olhos E poderosa Porque vos amo Mais do que a mim. do tempo. nada..

E é pois o que venho tendo.244 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. É o muito vos repetir Um amor já confessado. senhor. Fineza é que não seria.) Mas hoje vos conhecendo E tendo sido afligida Por males próprios do amor.) POEMA VII Fineza minha. Não é fineza tão grande Fazer-vos tal juramento? Ai é sim meu senhor. . Porque se acaso depois Passado tanto tormento Eu nunca mais vos lembrasse Do amor o encantamento. (A princípio sem cuidado Porque não vos conhecendo À força de repetir O que não é acaba sendo.

. Canto eu por elas.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 245 POEMA XVII Moças donzelas Querem cantar amor Sem mais aquelas. Mas ai daquela Que em vós deitar o olhar. Se forem belas Ficam melhor à tarde Ai. cuidam delas Saio eu por elas. E em sendo belas Pretendam conseguir Grinalda e perlas Velo eu por elas. E se as cancelas Das casas onde vivem Ai.. nas janelas. Fico eu por elas. Solteira e bela Ao. pobre dela. .

Espanha). “Odorico Mendes” por O século das luzes. tradutora. é composta por mais de duzentos títulos entre poesia. como o “Prêmio Nacional de Literatura Infantil” (Fundação Nacional de Brasília) por Macaquezas do macaco Malaquias (1971). teatro e livros infantis. No mesmo ano foram publicados mais dois livros: E assim se formou a nossa raça e A grande visão. É também integrante da Academia Carioca de Letras. “João Ribeiro” por De líricas românicas e outras líricas (1980). ficção. onde se destaca como Secretária Geral. nasceu no Rio de Janeiro. Batista i Roca” 2001. Recebeu diversos prêmios no Brasil e no exterior. da SBAT e da União Brasileira de Escritores. Os mais recentes são: Mítica e Cancioneiro capixaba.M. entre eles o “J. ensaísta e teatróloga. (1978). sendo a primeira autora brasileira a recebê-lo. “Roquete Pinto” por Memorial de Rondon (1986). Stella Leonardos é membro do Instituto Brasileiro de Cultura Hispânica. Recebeu ainda outras distinções. Suas peças infantis já foram traduzidas em vários idiomas e encenadas em muitos países. do Instituto Histórico Geográfico do Rio de Janeiro e da . do Institut de Projecció Exterior de la Cultura Catalana (Barcelona. “Júlia Lopes de Almeida” por Estátua de sal (1960). e nove láureas da Academia Brasileira de Letras: “Coelho Neto” (teatro em verso) por Trilogia biográfica (1945). hoje.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 247 Stella Leonardos Poetisa. “Olavo Bilac” por Poesia em três tempos (1957). do PEN Clube do Brasil. Iniciou-se na carreira literária em 1941 com o livro de poesias Passos na areia. em 1 de agosto de 1923. “Monteiro Lobato” por Macaquezas do macaco Malaquias (1979). Sua obra. publicados em 2000. romancista. “Arthur Azevedo” por Auto dos Reis e seus camelos reais (1987) e “Coelho Neto” por Água brava (1994). pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. Foi também condecorada com a Medalha “Estácio de Sá”. de Alejo Carpentier.

248 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. ROMANCE DA NAU CATARINETA De que ondes vêm estas ondas de música em meu vagar? De que vagas Submarinhos? De que búzios beira-mar? Eis que acenam lenços brancos de uma nave em meu lembrar. Quanto tempo quanto tempo a nave me navegando? Ao litoral pervagado .U. Uma história de pasmar”.A. Eis que voga nau de azares no mistério secular. Ohio. E minha infância estremece – ai vento estranho harpejar! “Lá vem a Nau Catarineta. Uma das vertentes de seu trabalho em poesia é justamente a inspiração na lírica medieval neolatina e no romanceiro hispano-brasileiro. Ouvide agora.) International Writens and Artists Association (IWA) do Bluffton College. que tem muito que contar. E. senhores.

“Passava mais de um ano e dia que a nau andava no mar . De meu medo solitário a só nau de sol e dó fadada a insolaz fadário. de busca ao casco da nau – de quando? Entre bússolas insones a insônia de um memorando. Já não tinham que tomar. 249 . Já não tinham que comer.” De sol a sol.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL vaga vou. Solo de Sol inclemência. marujos inconsoláveis curtindo viver contrário. refluindo de um cais. Na memória paira a nave sólita no mar invário. Marasmo de itinerário. calmaria . vago indagando – horas a fio nas rocas fluidas dúvidas confiando.

Ah impiedosa quiromância! Um rei de ouros – de ouro ou sangue? cai no convés à distancia. Inda tremo. Rola o trágico baralho. Mas a sola era tão rija Que a não puderam tragar”. me cega. Terror que assola. Uma nuvem muito escura cresce mais que o sol.) “Deitaram sola de molho para o outro dia jantar. sinto até que desfigura meu ouvinte rosto pálido. Arregalo olhos infantes. minha cândida figura de criança de expectativa pupilas de noite pura.250 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. E surdem súbitas ondas de inquieta significância. Vivo pânica tremura. “Deitaram sorte à ventura: matar a qual deles? Qual? Logo foi cair a sorte no Capitão-general”. .

“Sobe sobe. De sete mares aflitos sete pássaros viageiros seteiam nuvens obscuras nos sete dardos certeiros. pesam sete anos inteiros. Sete instantes sustam vôo. sobe àquele mastro real! Vê se vês terras de Espanha. areias de Portugal. Sete gumes no ar fatal”. De sete mastros afiados poreja suor marinheiro. Mas sobre a ronda se eleva aquela voz de antes e ânsia. . meu gajeiro. areias de Portugal!”. E na setêmplice angústia retine a voz do gajeiro: “Não vejo as terras de Espanha.Aqui-d’ el-rei. Capitão! 251 .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL E rondam rostos ferozes de faminta concordância. Vejo sete espadas nuas.

Sete vezes sete olhares de clepsidras e ampulhetas acompanham mastro acima o gajeiro veste preta. Bravura em riste. dedilham sete maretas.) Combate. acima gajeiro. Sim. Empunhando o inquebrantável da esperança. afirma de encontro ao não.252 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. resiste. Areias de Portugal!” Mãos de brisa tocam velas. desafia o que há de triste. sob a gávea que me assiste. E encoraja minha infância. acima até o tope real! Olha se avistas Espanha. – “Acima. . E seu canto – timbre de aço boa têmpera – subsiste. Canta o gajeiro do luto – ardis talvez do Capeta? – ao som de uma viola etérea.

E a outra na roca a fiar. meninas vagas que vão.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Ou de uma clara espineta? – “Alvíssaras. meninas vagas que vêm. a chorar”. Uma sentada a coser. e a mais formosa de todas entre as duas. três imagens de soidão. meu Capitão-general! Já vejo terras de Espanha. – “Mais avisto três meninas debaixo de um laranjal. areias de Portugal!” E vagas-meninas vêm e vagas-meninas vão – meninas verdes e azuis e tão de encanto. Uma cose fina espuma numas anáguas – pra quem? – 253 . Capitão. ninguém. de tão. que marujos encantados – cativos de encantação? – vêem meninas de olhos d’água. Debaixo de um sol laranja como ninguém viu.

Sete vezes sete olhares ardem presos de cobiça. – Dou-te pois tanto dinheiro que o não poderás contar! – Não quero vosso dinheiro que vos custou a ganhar”. iça. Sete vezes sete juízos . Oh! Quem m’as dera abraçar! A mais formosa de todas Contigo a hei de casar”.) Outra fia numa roca mais de cem mágoas – de cem? – A terceira conta às águas saudades do pai. O gajeiro veste preta a resposta. Por excesso de justiça? – “A vossa filha não quero que vos custou a educar. Um gajeiro de desdém. Sete vezes sete vidas que a imagem da bela atiça. além. prestes. – “Todas três são minhas filhas.254 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

De que praias que se escondem fluem presságios devagar? A que aondes vagam medos de marujo segredar? De que roteiros perdidos? A que funduras do mar? 255 . Sete vezes sete peitos sonando árdegos corcéis. Sete vezes sete corpos tensos da cabeça aos pés. E o gajeiro lá da gávea? Gajeiro de olás e olés? – “Dou-te meu cavalo branco o meu cavalo sem par! – Guardai a vosso cavalo que vos custou a ensinar”.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL reprimidos no convés. Sete vezes sete bocas ávidas por mil tonéis.

Sete vezes sete pasmos na tripulação silente. meu gajeiro? Que alvíssaras te hei de dar? – Capitão. E a nau como que encravada num rochedo de repente.256 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Sete vezes sete sopros do vento com ar de gente. . E o gajeiro veste preta? Lá do alto do recusar? – “Dou-te a Nau Catarineta para ser teu navegar. Sete vezes sete vagas de surpresa face enchente.) O vento arrepia as velas da nave de singular. quero tua alma para comigo a levar”. – Não a Nau Catarineta que não a sei governar”. E o Capitãogeneral perplexidade crescente: – “Que queres tu.

Irremovível rochedo se parte por sob a nave. domônio.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Das cordas de uma garganta a crença criança dá grito. que me estavas a tentar! A minhalma é só de Deus: Meu corpo darei ao mar”. E corre na correnteza o veleiro jeito de ave. O Capitãogeneral olha impávido o Maldito. E lá da gávea o gajeiro minha infância fita e o fito. rezando a estória. E ouço e vejo meu avô cabeça branca. 257 . É o Capitãogeneral? É meu avô! vivo mito. olhar suave – almo avô levando a estória. – “Renego de ti. E o romance oral da nave singra sendas de infinito.

Houve estouro do demônio! Acalmaram vento e mar.) voz grave: “Tomou-o um anjo nos braços. E eis a Nau Catarineta de noite em terra a tocar”. não no deixou se afogar. .258 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

oyu h¢a passarinha cantar log’en tan bon son”… “Dized’.. “Dized’. “Rosa de beldad e de parecer”… D. . “Tan toste que acabada ouu’ o mong’ a oraçon.... escutade que canto o miragre lindo da passarinha d’arcanos en cantar celeste. o Sábio (A Frei Ludovico Gomes de Castro) Eu trobador acá viindo sõo vindo de muyto longe. Senhor das Senhores’’. “Se vos trobar sabedes a por que Deus avedes por que a non loades?’’ Con migo cantade oo alas d’alvores: “Dona das donas.. e o monge do extase trezentos anos gran sabor d’eternidade. ai trobadores! a senhor das senhores.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 259 AA SOMBRA DAS “CANTIGAS DE SANTA MARIA” . ai trobadores!”.... Trobadores. Afonso X. loores: “Rosa das rosas et Fror das Frores’’. por que a non loades?’’ Con migo cantade oo aves.

pero Pero non voltou. “ en forte pont’ eu fui nado!” “Poys uoss’ amor en tal coyta me trage. ponte vedra. lavandeiras so la ponte. Ay eu!” Pero da Ponte (So la ponte.. baten áuguas contr’ as pedras. Pero da Ponte cantou: – “Ay eu!’’ Vedra ponte.) O SEGREL E A LAVADEIRA . ponte vedra..260 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. tristes pedras. en forte pont’ eu fui nado!’’) Lavandeiras so la ponte. – Ay eu! . saluçan áuguas nas pedras: – “Senhor do corpo delgado. per la ponte. Pero da Ponte passou: – “Ay eu!’’ Per la ponte d’ altas pedras.

.) Tarde. Antorchas que se consomem como vidas comovidas: ai que ¢a vida se some! Du surde la fontainha? Sobolas sombras. (“Ai eu..” El – Rei Dom Sancho (A Cleonice Berardinelli) Sobolas sombras do paaço del-rei D. coitada. coitada. como vivo en gran desejo por meu amigo que tarda e non veio!’’. como vivo en gran cuidado por meu amigo que ei alongado! Muito me tarda o meu amigo na Guarda!’’) Guarda-moor: passo passinho leixaredes quen aguarda aiar doilo que desviva? (“Ai eu.. De lagrymas.Sancho I plange dona en doilo negro. coitada. .. como vivo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 261 PLANG “Ai eu.

Seed’en nembrada. senhor: posso vender meu cantar. podedes ben vos nembrar: por vos sõo nobre d’honor.262 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.’’ . senhor.’’ Se algo nobre tenho dalgo como por vilaão me teen? Seed’en nembrada. Non aqueste vero amor “d’amar a quen non ousarei falar. “d’amar a quen non ousarei falar.) DO SEGREL AA DONA-D’ALGO “D’amar a quen non ousarei falar”… Martin Soares Sõo nascido filho dalgo pero por vilaão me teen.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 263 MARINHA “As ffrolles do meu amigo. Ay frores! E vagas frores amigas. aa fror das vagas que vagan. e alvas e altas velas vagan a velar vago navyo d’amores. sospyran.. “briosas van eno barco pera chegar ao fossado’’ as frores do meu amigo. E frores vagas sospyran aa fror das vagas. Van. “briosas van no navyo’’.” Pai Gomes Charinho (A Natércia Freire) “As frores do meu amigo ” van. van altos alvores. E alá per azures altos van barcos alvos. . Ay frores! “As frores do meu amado’’ van. as frores do meu amado. “briosas van eno barco’’..

vi. meninhas d’olhos que vi. meninhas. Meninhas da romaria. h¢s olhos.264 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Con olhos romeiros vaiamos ligeyro candeas queimar.) CANTIGA DE ROMARIA …“queymen candeas por nos e por sy”… Pero Vyvyães Amigos romeiros. e nos. por nos e por sy. meninhas. “Baylen. vaiamos ligeyro candeas levar. baylaremos hy. h¢s olhos almas candeas a queimar lumes infiindos. vossos olhos son candeas a queimar ardor de riiso: “Queymen candeas por nos e por sy.’’ Meninhas da romaria. meninhas. .’’ Eu e a meninha quedaremos hy.

val! Com’ estou d’amor coytada. meu caçador! Caçador d’ afoito passo: ay que moyro.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 265 LA FREMOSINHA “Dizia la fremosinha”… D. caçador. val!” Caçador. ay deus. ca me teen presa no laço! “Dizia la ben talhada: ay deus. ay deus. . val! Com’estou d’amor ferida. val!” Caçador qu’ides aa caça caçador d’afoito passo: ay que moyro. Afonso Sanches “Dizia la fremosinha: ay deus. caçador. aa mingua de voss’ abraço.

amada Dona Amavide.) NO VIRGEU “Se Deus me leixe de vos ben aver”. dona-virgo fror das vides. “E fez-mi o voss’amor tan mui mal. nem d’al.. Dona Amavide. . que o vento que ven aas vinhas non vos vee viinda entre vides.266 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.. “Se Deus me leixe de vos ben aver. Dona Amavide. mais de viço do que as vides. que nunca vi prazer de min.” No virgeu das vinhas virgens em vivo amor me desvivo. No virgeu dos amavios amei-vos. des quando m’eu de vos parti. Senhor fremosa. Fernan Garcia Esgaravunha No virgeu das vinhas virgens vi-vos eu. nunca vi prazer des quando m’eu de vos parti”.

e chor’eu. senhor mia. Achado ei lumbroso anel mui belo e de moor valia: vosso cuidar. e cant’eu. Aque so lo verde pinho meu coraçon. Lumbroso anel achado ei na vossa voz. bela! Non chorade aquel anel que de coraçon vos sei. anel d’oiro fin amor. bela! . mia senhor. dona virgo”… Pero Gonçalves de Porto Carreiro – O anel do meu amigo perdi-o so lo verde pinho.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 267 A DONA-VIRGO DO ANEL …“por en chor’eu. dona-virgo.

dos amores leda.)” Levou-se. con alva ja venho. louçana.268 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. levou-s’ a velida”… Pero Meogo Levou-se. . Ja tanjo minh’alva. “(Levou-s’a louçana.) Por ve-la louçana tan d’alva nas áuguas alvoro tan ledo. velida cor d’alva. leda dos amores dos amores leda. levou-s’a velida: vai lavar cabelos na fontana fria.) ALVA “(Levou-s’ a louçana). con alva ja chego. (Levou-s’ a ben viinda. dos olhos de cervo dos montes sen magoa. louçana. leda dos amores. Ja canto minh’alva.

se verra cedo!” Capelinha aa beira-mar: Que reza a dona de doairo aas ondas do aire sagredo? – “Ondas do mar levado: se vistes meu amado! E ay Deus. cantar amaro. navega. vago cantar. Mareja.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 269 BARCAROLA . ¢s olhos de ben amar. se vistes meu amigo! E ay Deus. cantar d’amigo.“Ondas do mar de Vigo”… Martin Codax (A Naumim Aizen) Capelinha aa beira-mar: que canta a dona atristada tornando trist’o rochedo? – “Ondas do mar de Vigo.. . Navega.. se verra cedo!” Navega en ondas de Vigo.

a las aues meu amigo. Nas ribas do lago vi Fernando Esguio acenar: – Cantade.270 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. irmãas. alou-se de cotovias vozes d’amavioso afago) . Cantava ¢a cotovia con apenado cantar: – Vaiamos. u eu vi andar a las aves meu amigo. irmãas. E cantavam cotovias que a seu lado ian pousar: – “Vaiamos. pequena amiga que vos non quero apenar! E ouvi nas ribas do lago Fernando Esguio cantar. vaiamos fugir das ribas do lago. amável Fernando Esguio.” (E vosso trovar no lago.) O TROVADOR E A COTOVIA “Seu arco na mano a la aues tirar: a las que cantauan nõ nas que’ ( r ) er matar. u eu andar vi a las aves meu imigo. vaiamos folgar nas ribas do lago.” Fernando Esguio Nas ribas do lago ouvi Fernando Esguio passar.

graduou-se em jornalismo. cartas e contos. todos catalogados pela Biblioteca Pública do Estado e pela Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. poemas. Myriam Coeli foi professora do Atheneu durante 25 anos. onde cursou a Faculdade de Filosofia e Letras. Estudou no Atheneu Norte-rio-grandense e no Colégio São José (Recife). Redigiu mais de mil artigos. Suas obras individuais são: Vivência sobre vivência (1980). a Mulher do Século / Rio Grande do Norte. em Manaus (AM). . espanhol. Também lecionou história da língua portuguesa na já extinta Faculdade de Filosofia de Natal. seu colega de redação em A República de quem teve dois filhos e com ele publicou a obra Imagem virtual (1961). Foi indicada. Foi criada pelas tias paternas. onde ensinou português. todas com uma rígida formação religiosa. Inventário (1981) e Catarse. que deixou inédita ao falecer no ano de 1982. Em Madri. para onde foi com dois meses de idade devido ao falecimento de seu pai. Cantigas de amigo (1981). Trabalhou ainda na Tribuna do Norte e no Diário de Natal. Espanha. Além disso.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 271 Myriam Coeli Myriam Coeli nasceu em 1926. mas foi criada em São José de Mipibu (RN). reportagens. atual CEFET) e de francês em escolas da Prefeitura de Natal. tornando-se a primeira mulher norte-rio-grandense a obter diploma estrangeiro e a primeira de seu estado a trabalhar na redação de um jornal (A República). italiano e francês. deu aulas de História da Imprensa na Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza. Era casada com Celso da Silveira. Foi membro da Associação Norte-rio-grandense de Jornalistas e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RGN. de português na Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (ETFRN. vítima de câncer generalizado. numa lista de dez nomes.

Vermelhos rios vermelhos Que os campos alagavam. Naqueles tempos de antanho Paixões a todos bruxavam. Velhos castelos distantes Cavaleiros visitavam Cantando gestas de amor Que poetas lhes legavam. Que os dias espetavam.) FUNDAMENTOS Naqueles campos distantes Cristãos e mouros lutavam. cristãs ou moçárabes Agonias castigavam. Pela Fé e pela Espada Suas honras adestravam. . Só nascia flor vermelha De corpos que arrebentavam. com esperança e o sonho Nas vias e águas que andavam Tinham no peito cantares. Outros. pelas águas Aventura aventuravam. Todos tinham na lembrança As mulheres que sonhavam – Flores morenas ou alvas – Nos campos que se alagavam. Desejos que despontavam Da lonjura ser presente Daquelas por quem tristavam. Distantes mulheres mouras De altas torres ais soltavam Mui sós. outros.272 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. E os delgados cavaleiros Pelas vias inda andavam. Longe. Os segréis tanta tristeza Em violas cantigavam O amor. alfinete em peito.

Suspirando em solidão Duas fontes derramavam. 273 .POESIA MEDIEVAL NO BRASIL Rios de Portugal e Espanha Buscando o mar soluçavam. Ou entre ovelhas no prado Que sozinhas pastoravam. Os jograis essa tristeza Em violas cantigavam. E as mulheres recolhiam Toda dor que desatavam. Malferidas as mulheres Em teares que teavam Doces cantigas de amigo Com os fios que trançavam. Naquele tempo as mulheres Em castelos esperavam. E entretinham seus cismares Que as distâncias já cansavam Com cantigas de amigo Que elas mesmas inventavam Com donaire provençal Que as ousanças alongavam. Ou entre ovelhas no prado Que sozinhas pastoravam. Cantavam com voz sentida Saudades que descantavam.

fui talhada. Que ai. . Cuidai bem prejuízos de quem de amor ferida. os gaios amores dos verdes anos. Guardam-se somente os danos. Ai amores. por destino só. Quando encontrardes amores bem mais sentidos. Não me pergunteis. como eu maldigo amores de grande lida. ai amores de amargos anos.274 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. ai amores. Se sabeis para onde fugiram as esperanças Ai. dizei-me onde estão. de mim partidos. Oh! fazei prazo comigo. Mal está sem seu senhor. Ai. por Deus. Ai.) POEMA VIII Ai amores. Oh! bem sabeis. aquele que sabeis a quem muito amava E para quem. que já tendo passado o prazo.

que pastora tão bela Em vãs tristuras entretendo ovelhas Na paz do prado tem canção cativa De quem amando sente dasamada. Reparai bem. Dizei-lhe já. por meu amigo Apartado. Que tarda. ó meu amigo. . meu amigo. jograis. vilão. Sem azul cantar. dizei onde o encontrardes Dos ousados desejos desvividos Sob penas de quem penada está Pois tem punhal silêncio amaro dentro. ó meu amigo. ó jograis. Eu formosa – Fenecida. Sem avisamento a saudade arma Meu coração-ponte. mata. visão errante. ó meu amigo. Que o meu peito é chama.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 275 POEMA XII Se avistardes. ó meu amigo. No peito jaz guardado Na saudade minha. Ai. ó meu amigo. Que tarda. Jograis. ó meu amigo. eu esquivo fogo E duas candeias meus olhos lagrimam. ardendo por quem ardo. Dizei. Ai. jograis. Ai. chorai. Trazei alegres novas. Ai. Negro suspiro por presença amém Sem valia. o amor. Que tarda. perdido em vias. bem asinhas Pois minha lembrança nele se aninha E este vero amor castiço de antanho Bem guardado está em guarda guarida. Ai. Que tarda. Ai. Que tarda. Que tarda.

Onde está ele. Deus de gran valia. onde andará meu doce amigo? Se sabeis. Se está bem. dizei-me por Deus. céus. tapai-lhe o pranto. cravado espinho? Ai. Prazo passado. Onde comportar a minha mágoa? Ai. e o seu encanto? Meu sonhado amigo era o pastor Que flautas em mim tocava amor. Deus. Ai. espelhos dágua. dizei-lhe por Deus. Como louvar amigo alongado Se peito é punhal azinhavrado? Ai. ais.276 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Trazei quem me queria. buscai-o por Deus. Valados. Onde estará quem me prometeu Pôr-me na terra o eterno céu? Ai. Ai. flores do pinho.) POEMA XIX Se sabeis novas de meu amigo. . que o praza tanto? Deus. Deus. se inda sonha comigo. por que morte comigo? Ai. Deus.

Uns bizarros. Com as traves destravadas Destravo traves que envergam Duras portas envergadas – Palavras ensangüentadas Celas que da língua selam Pelo espanto fustigadas. Nem drama urdido em um átimo Ou o progresso que é o elo Monstro de nossa des / graça. Artefatos coloridos De plásticos. Só pássaros. . meu senhor!). aço e isopor. Tudo aquém de minha janela Só traz solidão e dor. Mais belos que o de Almançor. flores. Ventos uns a velejar.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 277 POEMA XXII Senhora de mui castelos Não de pedras ou de ameias. Já no tempo arrebatados Com anjos. outros belos. Castelos flutuando no ar Ou inconstantes nas areias. dividir pudera! Que outros castelos sonhados (Que castelos. escumas. Que me preservem os átomos Na construção dos castelos E inventos não os desfaçam. Senhor. plumas. Edifício que me rasga Do almo a alma o almar E me dá triste degredo Vigésimo segundo andar Masmorra que amortalha Com capuz de asfalto e medo. Pesam fardos sem sentido. nuvens.

278 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. . certamente.) Vigésimo segundo andar É castelo muito alto Jaz entre Oriente e Ocidente E se me seduz um salto Convosco não vou ficar Mas manchete.

é Professora Mestra e Doutora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Suas cantigas foram escritas como se fossem um recurso didático incentivador para a criação dos seus alunos de oitava série no Colégio de Aplicação da UFRJ. Obteve grande sucesso com seu trabalho.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 279 Francisca Nóbrega Nascida em Macaé. a música popular brasileira contava com uma vasta criação poética muito parecida com a dos trovadores medievais. a idéia de estudar com os alunos algumas cantigas trovadorescas. a técnica do leixa-pren e as muitas variedades de composições (as barcarolas. . nos anos 70. com as quais adquiriu o hábito de olhar longamente as mudanças dos ambientes. mostrando-lhes a estrutura paralelística “como a fala do coração que diz sempre e só a mesma coisa”. no Estado do Rio de Janeiro. que infelizmente foi perdida. Francisca Nóbrega guarda somente as cantigas escritas por ela. o refrão invariável. aqui reproduzidas a seguir. autora quase bissexta e estudiosa permanente de Literaturas. as bailias e as cantigas de maldizer. fato que a estimulou a organizar com seus alunos uma “Antologia de novos trovadores”. Francisca Nóbrega teve. Cresceu. em companhia da natureza e de pessoas simples. até os seis anos de idade. inclusive os modos de falar. Naquele momento. O “vício” de ver e ouvir adquirido em Macaé a guiou pelos caminhos um tanto parodísticos que segue em suas canções. por exemplo). então.

nada sabes de mim. E se nada sabes. que te olhar e ver-te. Ai onda. é que não te acresço do chorado pranto cheio da história do meu belo amigo. quanto mais do meu amigo.) BARCAROLA Onda do meu Mar de Vigo. E se não te acresço é porque não sei de outra serventia para meus dois olhos. . onda do meu Mar de Vigo.280 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

Eu não sou a bem amada nem sei s’inda sou pensada por meu senhor. Eu não sou a bem talhada. Bailai. irmãs. que podeis. Que faço agora da vida. eu. meu senhor! . que podeis. Eu sou a bem esquecida. Bailai. irmãs. irmãs. que podeis. de quem se ocultou Amor. nem mesmo sou bem lembrada do meu senhor.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 281 BAILIA Bailai.

águas sem espumas. Ausentes verdes. – Saberá de mim? Prados de asfalto. rios de óleo e lama. – Saberá de mim? . Discreto traço na palavra rara. – Quem será por mim? Sem romarias. sigo-me às ermidas. na Fonte dos Tempos. Quero uma nova do meu belo amigo. Que achei à tarde.) CANTIGA D’AMIGO 71 Figura recortada em meu silêncio.282 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Buscando lá o que não vejo aqui: – O senhor de mi(m).

Enganei-me quanto ao preço que valia a vosso apreço. senhor. meu senhor arredio! Leve-me a morte a encontrar-me convosco. Ai meu senhor arredio! . É que esse dia. – ai meu senhor arredio! Mal dia o em que vos olhei e vi vossa luz guardada na pupila que hoje sei não quer ser luz desvelada. muito e mui gran mal me fez. – ai.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 283 CANTIGA COMO SE FOSSE DE MALDIZER OU CANÇÃO DE AMANTE Como se eu fosse um trovador igual a tantos que ouvi trovar. – ai. no vosso frio. já que me morro por voss’amor. ai. por oposto o tamanho do desgosto que tenho por vos amar. meu senhor arredio. vos diria. meu senhor arredio.

. – Passarinhos e passantes não vistes entre os peregrinos a donzela que eu amo? – Nestes prados. Ocupa a cadeira número sete da Academia Cearense de Letras. em 1989. cavaleyro da donzela que procuras com tanto empenho e zelo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 285 Marly Vasconcelos Marly Vasconcelos nasceu no Ceará. em 1944. nestes montes não passou donzela alguma cristalina como a fonte. PASTORELA Dizei-me lírios e gerânios de uma formosa donzela vestida de sedas brancas. Cursou as faculdades de Direito e de Letras na Universidade Federal do Ceará. Recebeu Menção Honrosa do Prêmio Graciliano Ramos da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro. pela obra Coração de areia (romance). – Vento que sopra nos ramos que é da minha donzela de tez macia e branca? – Com seu coração que sangra chorará em algum lugar toda a sua mal-andança. – Não sabemos. Cãtygua proençal (1985). Coração de areia (1992) e Sala de retratos (1998). Publicou: Água insone (1973).

286 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. – Fico soprando nos ramos cavaleyro. – Adeus. – Dizei-me vento andarilho onde posso encontrá-la e tornar-me seu marido? – No primeiro rio manso estará tua donzela alvejando as lembranças. . coberta de brancas sedas. meu amigo cavaleyrinho de honra. vento brando que a branca noiva espera o meu trobar e constância. adeus.) – Que terra esconderia minha formosa donzela devota de Santa Iria? – Não te aflijas. cavaleyro que acharás a tua noiva.

E porque vai ver o amado sob o trobador pinheiro baila. baila a pastorzinha. baila em suas mãos a doirada pucarinha. Ben talhada e prazerosa nas mãos leva a pucarinha. . Miram as frores con alegria seus olhos grandes. Baila.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 287 BAILADA No bosque calmo e frolido con a sua louçania uma pastora caminha. Enquanto as mãos sem tormentos levam leve a pucarinha. sem companhia. atentos sempre sós.

288 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Filho dalgo desprezível! Molher nenhuma cantou cantiga de maldizer mas imenso é meu ódio raiva que queima recintos e aos poucos apaga o tempo em que louvei teu sorriso a palavra mentirosa.) CANTIGA DE MALDIZER Nenhuma molher cantou cantiga de maldizer mas meu ódio é tan grande tan feroz e assassino que maldigo sempre o dia em que amei teu sorriso o teu falso juramento. Filho dalgo desprezível! Cantar ninguém me escuta cantiga de maldizer mas o ódio tem o brilho do ferro que esgota o sangue e se foste meu amado se sonhei com teu sorriso hoje já não és mais nada. Filho dalgo desprezível! .

Ondas. Sossegai. vêm e vão bailando com suas flores. Ondas. minhas donzelas de Portucale e Bragança lembrarei os vossos lábios embora ame a inconstância. ondas vogam e vogam vogam e vogam ondas douro vão e vêm. . ondas vogam e vogam vogam e vogam ondas douro vão e vêm. vêm e vão bailando com suas flores.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 289 MARINHA A Roberto Pontes Choram tanto as donzelas que tornam meu sono inquieto as águas vagam sozinhas cheias de dores secretas. As donzelas ainda choram e atravessando distâncias no meu corpo caem gotas lágrimas cheias de pranto.

obtendo com este ensaio. Tem colaboração publicada em jornais culturais e revistas especializadas editados no Brasil e no exterior. Portugal. e diretor da revista Estudos portugueses. que dirigiu até 1987. diplomou-se em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco em 1969. em 1983. As surpresas do mágico & outros ensaios (1985) e Reflexos do signo (1988). pela Universidade Federal de Pernambuco. No Departamento de Letras da mesma universidade. Memórias do navegante (1976). em 1981. publicou a coletânea de contos Três noites no sobrado (1969) e os livros de poemas O círculo do tempo (1972). contista e ensaísta. Poeta. leciona a disciplina Literatura Portuguesa. Com a dissertação intitulada Mudança: romance-limite realizou estudo crítico do conjunto da obra romanesca de Vergílio Ferreira. editada pela entidade. . da Universidade Federal de Pernambuco. os seguintes volumes de ensaios teóricos e de crítica literária: O espaço-limite no romance de Vergílio Ferreira (1984). Os frutos do silêncio (1980). Vozes da infância (1979). onde criou. o título de Mestre em Teoria Literária. Publicou. Organizou e editou o volume Estudos sobre Florbela Espanca (1995). É presidente da Associação de Estudos Portugueses Jordão Emerenciano. também. Radicado em Recife desde 1951. a revista Encontro. a 30 de outubro de 1945. Foi diretor cultural do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 291 José Rodrigues de Paiva Nasceu em Coimbra. Eros no verão (1983) e Cantigas de amigo e amor (1987).

Senhor. Mas a noite antiga. no tempo veio embalar o senhor do trovador. como um canto de ninar. amor. Senhor. .) O SONHO DO TROVADOR Na noite antiga. qual Dom Dinis quis cantar um cantar de amigo ou amor. E a noite antiga. eram sombras de embalar um cantar de amigo e amor.292 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

Cantigas de amigo queria saber por que é triste o canto deste meu viver. Perguntais porquê é triste esse canto e o vosso viver? Nós vos respondemos: bailemos. cantemos para não chorar! . – Perguntais se vimos voss’ canto louvar o amor das airosas? Nós vos respondemos que a cantar bailemos enquanto formosas. amigo.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 293 CANTIGA DE AMIGO – Cantigas de amigo vim vos perguntar se ouvistes meu canto seu amor louvar. Perguntais. bailemos. onde pode o canto viver a sonhar? Nós vos respondemos: cantemos. mais val não saber. Cantigas de amigo vim vos perguntar onde pode o canto viver a sonhar.

bailemos até nosso corpo agüentar e amanhã. amigos. a Santiago iremos depressa a rezar. amigas. amigos. amigas. tocam cordas secas. ai vamos rezar. vibram pandeiretas. amigos. amigas. A Santiago vamos. tocam flautas doces. amigos. à sombra florida das avelaneiras. vamos bailar.294 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. ai vamos rezar. soam alaúdes. Mas depois das rezas. amigos. amigos. . bailemos. amigas. amigas. à sombra florida das avelaneiras. amigas. ao som de alaúdes. ao som dos pandeiros.) Á SOMBRA FLORIDA DAS AVELANEIRAS Amigas e amigos. depois de rezar. ai. A Santiago vamos o santo louvar. ai. amigas. vamos rezar. amigas. À sombra florida das avelaneiras. ai vamos rezar. homenagear. mais santos louvemos do que há no altar. mal o dia nasça.

POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 295 EM LISBOA SOBRE O MAR (Cantiga à maneira de Joan Zorro) Em Lisboa. Barcas novas vou levar. e nessas águas cantar em teu louvor. Senhora. barcas novas vou lavrar e dentro delas cantar uma canção que não finda. sobre o mar. Senhora minha. minha Senhora tão linda. sobre o mar. minha Senhora tão linda. Em Lisboa vou cantar apenas por te louvar meu coração pulsa ainda. uma canção de atafinda. Uma canção sobre o mar. tão linda. por te louvar queria uma vida infinda. Nessas barcas. esta cantiga tão linda em Lisboa vou cantar. . sobre o mar.

Ai. Ai. Ai. em Leiria há pinheiros a plantar.) AS FLORES DO VERDE PINHO As flores do verde pinho nos navios se vão ao mar. em Leiria os pinheiros chamam o mar. Dom Dinis. Dom Dinis. em Leiria há pinhos a semear. em Leiria há pinheiros a cortar. As flores do verde pinho vão ao leme a comandar. . As flores do verde pinho os mastros vão a enfeitar.296 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. Ai. As flores do verde pinho nos barcos vão navegar. Dom Dinis. Dom Dinis.

ANTORCHA – tocha. CANDEA – candeia. AIAR – gemer. AZUR – azul. AO PEE – ao pé. pena. vela. COYDADO – cuidado. APENADO – triste.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 297 Glossário AA – à. AL – outra coisa. felicidade. brancura. AMAVIOS – gorjeios ou filtro de amor (duplo sentido). ACÁ – aqui. . BRIOSO – orgulhoso. ATAN – tão. ATRISTADO – entristecido. ALVORES – clarões da madrugada. haver. AQUESTE – este. AMARO – amargo. AFAN – trabalho. BEN AVER – ser amado. AFAGO – agrado. ANTOLLANÇA – semelhança. ALA – asa. CHORAR – lamentar. CANDURA – pureza. CA – pois. AMAVIOSO – feiticeiro. inquietação. Ai. ANHO – carneiro. ARCANO – mistério. ASPERAR – esperar. APENAR – entristecer. AM – tem. ALONGADO – distante. AIRE – ar. porque. ALEIVOSO – desleal. ALOU-SE – voou. hão. cá. AVER – ter. AI – interjeição. AVELANEYRAS – árvores frutíferas cujos frutos são as avelãs. ÁUGUA – água. AQUESTA – esta.

EI – v. coberta de grãos. perfeição. seguramente. DONA-D’ALGO – fidalga. END’– daí. HU – onde. senhora nobre. EY – tenho. FEZO – fez.) COYTADO – angustiado. êxtase. DOAIRO – donaire. agrado. . ou botões. COUSIR – olhar. DES – desde. DIX’ – disse. pássaro. EMPERO – porém. CUIDADO – espera. GRADOER – agradar. examinar. FOSSADO – lugar da batalha. DE PRAN – certamente. GRANADA – vermelha. DESVIVER – matar. FONTAINHA – fontezinha. preocupação. GUARIDO – curado. ERMIDA – capela. EN FORTE PONT’ EU FUI NADO – em má hora nasci. FROLIDO – florido. D’HONOR – de honra. GREU – difícil. FIN – morte. formoso. HUNHA – uma. FONTANA – fonte. considerar. FROR – flor. FILHO-D’ALGO – fidalgo. fim. DOILO – dor. EXTASE – elevação espiritual. DELGADO – esbelto. COUSIDO – visto. COUSENCE – censura. DULTANÇA – dúvida. belo. DOO – dor. sofrimento. fossado. delicado. DU – de onde. Ey. FERIDO – lugar onde ocorria a guerra. GRADO – gosto. admirado. hunha. custoso.298 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. H%A – v. FREMOSO – formoso. elegância. quando. ESTORNINO – estorninho. ENO – no. DONA-VIRGO – donzela.

QUEDAR – sossegar. jovens de boa família. IMIGO – inimigo. pessoa. LOUÇANA – vistosa. maneira. PODEDES – podeis. MESURA – medida. acordou. MENINHAS – donzelas. LAVRAR – construir. REBANHO – fila. LEVADO – bravo. 299 . MIRAGRE – milagre. PERO – porém. LOADO – louvado. LOAR – louvar. PER – através. trabalhar. OME – homem. MANSSELIA – suave. cultivar. MOYRO – morro. cortesia. PEL – pele. MAGOA – mácula. NULHA – nenhuma. LEVOU-SE – levantou-se. PERA – para. OO – ó. LEIXAR – deixar. PINO – pinheiro. QUITAR – livrar. NOJAR – prejudicar. REN – coisa. PREZ – honra. POER – pôr.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL H%S – uns. RAZOM – argumentação. PASSO PASSINHO – devagar e sem ruído. PLANGER – chorar. LILIO – lírio. LONGI – longe. LEDA – alegre. MARTEIRO – martírio. QUEDO – quieto. NEMBRAR – lembrar. OYMAIS – de hoje em diante. PASSARINHA – passarinho. LUMBROSO – luminoso. HY – ali. LOOR – louvor. colocar.

300 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. SO LO – sob o. UOS – vos. TALHADO – proporcionado. roubar. VEGADA – vez. SURDE – surge. VAL – valei-me! VEDRA – velha. VERRA CEDO – virá cedo. depressa. prazer. U – onde. logo. TAN – tanto. TROBAR – produção trovadoresca. VERO – verdadeiro. SALUÇAR – soluçar. SY – si. SIRGO – seda. SENLLEIRO – sozinho. entendimento.) RIBA – margem. VIÇO – gozo. antiga. VIRGEU – bosque. SOUTO – bosque de castanheiras. critério. U% – um. VELIDA – formosa. SE BEN AIADES – se fazeis favor SEDIA – estava SEED’ EN NEMBRADA – lembrai-vos SÉN – juízo. SA – sua. TRIGUENHA – cor de trigo. TOSTE – cedo. SOBOLAS – sobre as. SOO – só. típica dos latinos. disciplina trovadoresca. VIDES – videiras. VILA – cidade. SO LA – sob a. . RÍVOLO – rio. VILAÃO – plebeu. TOLHER – tirar. SANDEU – louco. TANJO – toco.

Rio de Janeiro: Empresa Editora ABC Ltda. e CARVALHAL. Eduardo F.. leitora dos trovadores . COUTINHO. de Clara Crabbé Rocha. 1970. FONTES. 2 vols. Paulo Lebéis. BONFIM. 1974. Poemas escolhidos. ANDRADE. Brasília: Instituto Nacional do Livro / MEC. Toda a poesia. Cantigas de amigo. Guilherme. São Paulo: Círculo do Livro. Afrânio. Brasília: INL. Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. 1994. Poesias completas. Nelly Novaes.1996. Romançário. s/d . LEONARDOS. JENNY. HILST. 1978. 2 vols. 2ª ed. Intertextualidades.). Lisboa. nº 8: 19-26. 1978.. Tânia Franco. Hilda. COELI. Marques (pref.. 1928. 1937. António Triste. Rio de Janeiro: Rocco. Belo Horizonte: Itatiaia. 1987. 1981. ______. Mário de. 1947. Enciclopédia de Literatura Brasileira. Cancioneiro da Ajuda – vol. Myriam. Ed. Livraria Sá da Costa. Trad. 1945. 1. Amanhecência.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 301 Bibliografia utilizada na pesquisa pelos alunos ALMEIDA. Literatura comparada. Manuel. Centro de Investigacións Lingüísticas e Literárias Ramón Piñeiro. ——— et alii. Vol. Poesia. Maria do Amparo Tavares. ______. Natália. BRAGA. crítica de Diléa Zanotto Manfio. Manuel Rodrigues. Discursos acadêmicos (1927-1932). MALEVAL. textos fundadores. VII. São Paulo: Livraria Martins Ed. Rio de Janeiro: José Olympio. São Paulo: Martins. COELHO. 1996. 2ª ed. COUTINHO. LAPA. Coimbra: Almedina. 1977. Lírica profana galego-portuguesa. Natal: Clima. 1980. CORREIA. 1974. Stella. 1980. 5º volume. Poesia completa e prosa. BREA. Coimbra: Editorial Galáxia. Laurent et alii. Mercedes (coord. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia. Santos: Bazar Americano. São Paulo: Martins. Rio de Janeiro: OLAC-FAE. Lisboa: Estampa. “Hilda Hilst. e notas).. São Paulo: EDUSP. Martins. 1990. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. Cantigas d’escarnho e de maldizer dos cancioneiros medievais galego-portugueses. 1952. São Paulo: Quíron. “A poesia brasileira contemporânea e suas raízes portuguesas”. Cantares dos trovadores galego-portugueses. In: Cadernos de Literatura. Rio de Janeiro: Aguilar. BANDEIRA. Poesias completas.

da Organização Simões. Augusto. Livro do seminário interdiciplinar realizado no Instituto de Letras da Uerj (23 a 24 de outubro de 2000). 2ª. Yara Frateschi. A Literatura Portuguesa em perspectiva. Dir: Massaud Moisés. Antônio José. Cãtigua proençal. 7ª ed. 1987). São Paulo: Global. ed. “Fundamentos lendários e míticos dos símbolos galegos”. Obra poética. In Estudos galegos 1. Rio de Janeiro: Ed. p. Edição organizada por Antonio Carlos Secchin. 1987.. Francisca.. ______. Poesias (1922-1956). MEIRELES. Romanceiro da Inconfidência. ______ (org. 1996. 1984. MOREIRA.302 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG. PENNAFORT. Marly. Rio de Janeiro: Ágora da Ilha. e LOPES.). Revista Galaico-Portuguesa de Sócio-Pedagogia e SócioLingüística. Cantigas de amigo e amor. . p. ed. Tempo de poesia.) Estudos galegos 1. 1. 1998. ed. Fortaleza: Nação Cariri Ed. Cecília.. 1989. Atualizações da Idade Média. ______(org.) galego-portugueses”. ______. 63-77. 2ª. MEYER. História da Literatura Portuguesa. Niterói: EDUFF. 1999. São José Ed. Lênia Márcia de Medeiros et alli. VIEIRA. Rio de Janeiro / Belo Horizonte: Livraria Garnier. Niterói: EDUFF. Porto: Porto Editora Ltda. Rio de Janeiro: José Aguilar. São Paulo: Atlas S/A. “Cantigas”. In: MALEVAL. 2001. MONGELLI. José Rodrigues de. Poesia medieval: Literatura Portuguesa. Rio de Janeiro: Ágora da Ilha. Maria do Amparo Tavares (org. Série Raízes. Poesia completa. Rio de Janeiro: Liv. Vol. 1957. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. ed. 1996. 1999. NÓBREGA. Prontuário ortográfico da Língua Galego-Portuguesa das Irmandades da Fala. Niterói: EDUFF. 9ª. 1967. 2001. 2000. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. SARAIVA. 2 vols. PAIVA.) Atas do III Encontro Internacional de Estudos Medievais da ABREM. ______. Poesias. Oscar. Rio de Janeiro: EDUERJ. Recife: GPL/AEPJE. Édison. s/d. 1985. 1988 (1ª. 77-88. Rio de Janeiro: Ágora da Ilha. 1992. 1954. Onestaldo de. ______ Peregrinação e poesia. In: Estudos galegos 2. Trovadorismo / Humanismo. VASCONCELOS.

.Maria do Amparo Tavares Maleval.Diversos.POESIA MEDIEVAL NO BRASIL 303 OBRAS DA SÉRIE RAÍZES 1) Peregrinação e poesia (1999) .Nádia Paulo Ferreira.Reynaldo Valinho Alvarez. 3) Atualizações da Idade Média (2000) . 4) Das rias ao mar oceano (2000) . 2) Poesia barroca (2000) .

) EDITORA ÁGORA DA ILHA .304 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

) .4 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

) .8 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

82 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) .

) .84 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

92 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) .

) .100 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

108 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) .

) .110 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

) .112 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

) .114 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

122 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) .

130 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) .

134 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) .

136 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) .

138 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) .

) .142 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

) .144 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

146 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) .

) .148 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

) .154 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

) .158 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

) .160 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

164

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

166

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

168

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

170

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

178

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

190

MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.)

210 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) .

240 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.) .

) .246 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

) .284 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

) .290 MARIA DO AMPARO TAVARES MALEVAL (ORG.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->