C corpo lotetsex e a pollLlzação do ab[eLo em kk¥

lnLexLo, ÞorLo Alegre, ul8CS, v.02, n.23, p. 234-230, dez. 2011.
234

C corpo intersex e a po||t|zação
do ab[eto em xxY

Leandro Co|||ng
uouLor
unlversldade lederal da 8ahla
leandro.colllng[gmall.com

Matheus Arau[o dos Santos
MesLrando
unlversldade lederal do 8lo de !anelro
maLheus2099[gmall.com


kesumo
C que nos pode dlzer o corpo lotetsex? Como esLe debaLe se
amplla ao LraLarmos de sua represenLação nos melos de
comunlcação, especlalmenLe no clnema? no presenLe Lrabalho,
a parLlr do fllme kk¥, dlrlgldo por Lucla Þuenzo,
problemaLlzamos esLas e ouLras quesLões relaclonadas aos
corpos e dese[os desvlanLes. Com um dlscurso subverslvo e anLl-
paLologlzanLe, kk¥ propõe um olhar aLenLo em relação as
sub[eLlvldades de Lals vlvônclas. uefendemos que o fllme, em
ressonâncla com os esLudos poeet, esLá aLenLo para a
pollLlzação dos corpos ab[eLos.
Þa|avras-chave
lotetsex, clnema, poeet, ab[eção.


1 Introdução
Este texto tem o objetivo ue analisai o filme XXY tenuo como pano ue funuo algumas
uas piincipais ieflexões oiiunuas uos estuuos queer, em especial as noções ue abjeção,
peifoimativiuaue ue gêneio e heteionoimativiuaue, em uiálogo com autoies¡as ligauos¡as
às análises filmicas. 0ptamos poi explicai iapiuamente algumas uessas noções ao longo uo
texto e em sugeiii leituias, em notas ue iouapé, aos leitoies que uesejam apiofunuai os seus
estuuos nesses temas. Em um piimeiio momento, o tiabalho tiata ua análise filmica

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iealizaua poi feministas e estuuiosos queer
1
. Em seguiua, o texto tiata especificamente
sobie o coipo intersex paia, logo apos, apiesentai a análise ua obia.

1.1 A sót|ma arte sob as ót|cas fem|n|stas e queer
0ma piimeiia inseição feminista na análise filmica se uá a paitii ua obseivação uo
mouo como, piincipalmente atiavés uo uso uos uitos esteieotipos femininos ciiauos pela
cultuia patiiaical (a exemplo ua vampiia, a mãe, a amiga fiel, a vizinha, a esposa etc.), a
mulhei é iepiesentaua no cinema clássico hollywoouiano, ue mouo a "fazei possivel o
invisivel, uescobiinuo os mecanismos que natuializam as imagens e os significauos que
poitam" (RICALBE, 2uu2, p.2S)
2
.
Nulvey, no texto visuol pleosure onJ norrotive cinemo (197S), chega à conclusão ue
que a iepiesentação ua mulhei no cinema clássico hollywoouiano se uá ue uois mouos:
atiavés ua sua fetichização, colocanuo-a como objeto aos olhos masculinos, que se
ueleitaiiam com o close-up ou, ue mouo uistinto, atiavés ua sua punição, situação na qual a
piopiia naiiativa se encaiiegaiia ue colocá-la "foia-ua-lei", paia que assim se justificasse o
seu castigo. Be acoiuo com Nulvey, a mulhei eia assim iepiesentaua poique o seu castigo
ou fetichização uistiaiiiam o espectauoi (homem) ua ameaça ue castiação que a imagem
feminina inevitavelmente suscitaiia. A ieflexão ievela a gianue influência ua psicanálise
fieuuiana e lacaniana na análise ua autoia.
Ricalue (2uu2) chama a atenção paia a impoitância feminina no cinema não apenas
enquanto iepiesentação, mas vê no piocesso piouutivo, a paitii ue filmes feitos poi
mulheies influenciauas pelas teoiias feministas, um mouo ue subveisão uo sistema
falocêntiico e patiiaical caiacteiistico uo cinema clássico hollywoouiano e afiima que a
"iesposta uiieta uos piouutos filmicos iealizauos poi mulheies foi o iechaço uos uitos
esteieotipos. Assim, ao invés ua mulhei-mito, inacessivel, fixa, eteina e abstiata, põem
peisonagens femininos uesmistificauos, situauos histoiicamente, em sua
cotiuianiuaue."(RICALBE, 2uu2, p.29)
A impossibiliuaue ue leituias não-heteiossexuais no cinema hollywoouiano, ue acoiuo
com os piimeiios estuuos ue Nulvey, é alvo ue uuias ciiticas que paitem, piincipalmente,
uas feministas lésbicas, que alegam que tais aboiuagens

1
Paia uma intiouução aos estuuos queer, vei }agose (2uu8), Louio (2uu4) e Niskolci (2uu9). Paia estuuo mais apiofunuauo,
vei Butlei (2uu2, 2uuS e 2uu8).
2
Essa e touas as tiauuções iealizauas nesse texto são nossas.

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pouem sei liuas como o cancelamento uo piazei ua espectauoia não-heteiossexual e
os estuuos cultuiais funuamentauos na psicanálise tampouco concebiam o uesejo foia uessa
uualiuaue. 0ns e outios uescansavam nessa uivisão básica ua cultuia ociuental, a qual
ueixava ue foia uo espaço ua análise os que não iesponuiam a categoiias pié-fixauas.
(RICALBE, 2uu2, p.4u)
A paitii ua uécaua ue 199u, juntamente com o auvento uos estuuos queer, começam a
sei piouuziuos filmes que passam a questionai tal uivisão binaiista. 0 New µueer Cinemo,
como passa a sei chamauo, subveite as noções ue sexo, gêneio e sexualiuaue que uominam
a piouução cinematogiáfica munuial. Be acoiuo com Stiaayei (1999, p.7u),
simultaneamente constiuinuo e uestiuinuo couigos ue gêneio e sexo, estes filmes se
engajam em ativiuaues tiansgiessoias que têm lugai no e atiavés uo coipo e, poitanto,
uesafiam completamente a segiegação conceitual entie gêneios, entie sexos e, ue mouo
mais impoitante, entie gêneio e sexo.
Paia Nepomuceno (2uu9, p.1), tal cinema abie espaço na piouução contempoiânea
paia que "peisonagens queers possam encenai suas peifoimances ue iuentiuaues múltiplas
atiavés ue coipos-uevii. Bos guetos, uas sombias e uas infiltiações subteiiâneas paia as
telas cinematogiáficas".
Segunuo a autoia, uma nova geiação ue cineastas, a exemplo ue Peuio Almouovai,
Beiek }aiman e uus van Sant, uestaca-se poi piivilegiai uma aboiuagem menos
sensacionalista em ielação à piouução ua uifeiença ue gêneios, sexualiuaues e coipos. "Nais
inteiessauo na complexificação uas subjetiviuaues ambiguas e tiansgiessivas", o giupo
passaiia, uesta foima, a atuai como visibilizauoi ue múltiplas subjetiviuaues "que são
agenciauas tanto pelos mouelos fixos ue sexualiuaue, com seus piocessos ue noimatização e
vigilância, como também pelo uesejo uo uevii, uas escolhas pessoais uo piopiio coipo e ua
auto-iefeiência." (NEP0N0CEN0, 2uu9, p.2)
Faz-se inuispensável, ainua, ielacionai o cinema à posição pos-iuentitáiia uos estuuos
queer, que, emboia não iechacem ue touo a afiimação iuentitáiia e sua impoitância
politica
S
, apontam na afiimação ue posições fixas e essenciais mouos ue, mais uma vez,
piouuzii categoiizações e, poi conseguinte, hieiaiquizações e subjugações ue coipos e
piáticas. Como afiima Luz (2uu2, p.11S-114), o cinema, poi sei uma aite moueina, "ueu a
vei um uevii múltiplo e aboliu o sujeito como aquele ponto cential exigiuo pela logica
iuentitáiia".

S
Paia uma explicação sobie a polêmica entie iuentitáiios e pos-iuentitáiios, vei Colling (2u11).

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1.2 C corpo |ntersex
Em Eerculine Borbin, Foucault (198u) ielata que nem sempie o coipo intersex foi
tiatauo como nos uias atuais. Segunuo ele, poi mais que encontiemos iegistios ue intersex
conuenauos à moite em tempos ancestiais, também é possivel encontiai ielatos em que
eles¡as eiam tiatauos¡as ue outia foima; uecisões juiiuicas ievelam que um coipo com
caiacteiisticas uos uois sexos eia inteligivel como tal. Aquele que eia "heimafiouita" tinha
que ueciuii poi um sexo apenas quanuo estivesse piestes a se casai e o fato so se toinaiia
um pioblema se ele¡ela voltasse atiás uepois ua uecisão tomaua.
E piincipalmente a paitii uo século XIX que se passa a pensai o sexo como algo que
esconue uma ueteiminaua veiuaue e, poi isso, também piecisaiia sei um "sexo veiuaueiio".
Nas palavias ue Foucault:
|.| quundo conIronLudo com um IermuIrodILu, o médIco nuo esLuvu muIs
InLeressudo em reconIecer u presençu de doIs sexos, jusLuposLos ou InLercuIudos,
ou em suber quuI dos doIs prevuIeceu sobre o ouLro, mus unLes, em decIIrur o
verdudeIro sexo que esLuvu escondIdo por buIxo dus upurêncIus umbiguus. EIe
LInIu, por ussIm dIzer, que LIrur o corpo do seu enguno unuLômIco e descobrIr o
únIco sexo verdudeIro por Lrus dos órguos que poderIum esLur sImuIundo o sexo
oposLo. Puru uIguém que subIu como observur e conduzIr um exume, esLus
mIsLurus de sexo nuo erum muIs que dIsIurces du nuLurezu: IermuIrodILus erum
sempre ¨pseudo-IermuIrodILus¨. (¡OUCAU¡T, 1q8o, p. vIII - Ix)

Be acoiuo com Pino (2uu7), a histoiia ua inteisexualiuaue poue sei uesciita em tiês
uifeientes peiiouos. A "Eia uas gônauas", uataua ue meauos uo século XIX até os anos ue
19Su, caiacteiiza-se poi um peiiouo no qual o "heimafiouitismo" eia uefiniuo a paitii ua
piesença uas gônauas masculinas e femininas em um mesmo coipo. Nesse peiiouo suigem
nomenclatuias até hoje utilizauas pela meuicina ociuental, como "heimafiouitismo
veiuaueiio" e "pseuuo-heimafiouitismo", como obseivamos no texto abaixo:
A cIussIIIcuçuo buseIu-se nu nuLurezu du gônudu presenLe e os Lrês grupos busIcos
suo o pseudo-IermuIrodILIsmo muscuIIno (PHM = genILuIIu umbiguu com
LesLicuIos), pseudo-IermuIrodILIsmo IemInIno (PH¡ = genILuIIu umbiguu com
ovurIos) e IermuIrodILIsmo verdudeIro (HV = LesLicuIo e ovurIo com ou sem
genILuIIu umbiguu) (DAM¡AN¡ e GUERRA-JÚN¡OR, zoo;)

Em um segunuo peiiouo, que vai ua uécaua ue 19Su aos anos ue 198u, ocoiiem as
piimeiias ciiuigias "ues-constiutoias" uos coipos intersex em busca ua "constiução" ue um
"sexo veiuaueiio". A "Eia ciiúigica", ue acoiuo com Pino, toina-se possivel giaças aos
avanços tecnologicos no campo méuico que peimitem o suigimento ua anestesia,
funuamental paia as inteivenções ciiúigicas, mas, piincipalmente, a paitii ua emeigência

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uo paiauigma ua iuentiuaue ue gêneio uefenuiua, entie outios, pelo psicologo e sexologista
}ohn Noney
4
.
Be acoiuo com a teoiia ue Noney, as pessoas não nasceiiam com uma iuentiuaue ue
gêneio uefiniua, ue mouo que o seu sexo poueiia sei "alteiauo" até o uécimo oitavo mês ue
viua sem maioies piejuizos paia a ciiança que, poi não se lembiai ue naua, seguiiia
"noimalmente" a sua viua.
E inteiessante obseivai aqui como tal pensamento piovoca um giio ue peispectiva ao
ueslocai o gêneio ue um lugai essencial e estável paia toiná-lo autônomo em ielação aos
hoimônios, ciomossomos e gônauas. No entanto, apesai ua "ênfase nos aspectos sociais, a
natuieza e a binaiieuaue uo sexo não foiam colocauas em xeque, pois os intersex eiam
consiueiauos fiutos ue uesenvolvimento anoimal e necessitavam ue tiatamentos paia se
toinai homens e mulheies" (PIN0, 2uu7, p.17u).
Como nos ielata Nachauo (2uuS), Noney foi quem piimeiio iegistiou o caso ue um
bebê submetiuo a uma ciiuigia ue "(ie)constiução genital". Tiata-se ue Baviu Reimei que,
apos sofiei um giave feiimento no pênis uuiante um piocesso ue ciicuncisão, passou poi
uiveisas inteivenções ciiúigicas, aconselhauas poi Noney à familia, paia que se toinasse
uma menina.
No entanto, o mouelo centiauo na ciiuigia foi amplamente ciiticauo, tenuo como
aigumento piincipal o ue que a meuicina seiia incapaz ue fazei "genitais noimais", além ue
apontai uma fiequente insatisfação uas pessoas submetiuas às ciiuigias, como o piopiio
Baviu que, aos S8 anos, apos uma séiie ue ciiuigias que buscavam "noimalizai" o seu sexo,
cometeu suiciuio.
A paitii uos anos 198u, além uos méuicos, aqueles que tinham sofiiuo as ciiuigias
"noimalizauoias" também passaiam a contestai o pioceuimento. Neste peiiouo, são ciiauas
associações e giupos ue autoajuua paia toinai a expeiiência intersex menos invisivel. Passa-
se então à chamaua "Eia uo consenso", na qual a uecisão em ielação à ciiuigia e ao sexo a
sei uesignauo à ciiança passa pela uecisão uos pais e ue uma equipe multiuisciplinai
foimaua poi ciiuigiões, enuociinologistas, peuiatias, psicologos etc.
0 tiabalho ue Foucault nos peimite pensai no sexo não como algo causal ou univoco,
anteiioi ou livie ue qualquei ielação ue pouei:
Puru ¡oucuuIL, ser sexuudo é esLur submeLIdo u um conjunLo de reguIuções
socIuIs, é Ler u IeI que norLeIu essus reguIuções sILuudus como prIncipIo Iormudor
do sexo, do gênero, dos pruzeres e dos desejos, e como prIncipIo IermenêuLIco

4
Sobie as pioposicões ue }ohn Noney, vei Nachauo (2uuS).

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de uuLo-InLerpreLuçuo. A cuLegorIu do sexo é, ussIm, InevILuveImenLe reguIudoru,
e Lodu unuIIse que u Lome ucrILIcumenLe como um pressuposLo umpIIu e IegILImu
uIndu muIs essu esLruLégIu de reguIuçuo como regIme de poderJconIecImenLo.
(BUT¡ER, zoo6, p.1¸o)

Emboia o conceito ue biopouei seja essencial na obia foucaultiana, Butlei (2uu6)
aleita paia como, ao uiscutii o coipo intersex atiavés uo uiáiio ue Beiculine, Foucault
paiece, em alguns momentos, colocá-la¡o numa posição piivilegiaua poi conta uo seu
tiânsito entie os gêneios, como se o seu coipo lhe peimitisse o gozo uos mais uifeientes
tipos ue piazei:
¡oucuuIL deIxu de reconIecer us reIuções de poder concreLus que LunLo
consLroem como condenum u sexuuIIdude de HercuIIne. Nu verdude, eIe purece
romunceur o mundo de pruzeres de HercuIIne, que é upresenLudo como o ¨IImbo
IeIIz de umu nuo IdenLIdude¨ (xIII), um mundo que uILrupussu us cuLegorIus do
sexo e du IdenLIdude. (BUT¡ER, zoo6, p.1z8)

A ciitica ue Butlei nos paiece iazoável, uma vez que, assim como faz ao longo ue sua
obia, uefenue que não existem coipos que se encontiem foia uas ielações ue pouei. Ela
ainua atenta paia o fato ue que aqueles que se colocam ou são postos nas maigens uo
sistema bináiio ue sexo, gêneio ou sexualiuaue, os coipos queer, não necessaiiamente
encontiam-se num estauo ue giaça, na qual a fluiuez, a não-iuentiuaue, o constante uevii
peimitiiia o livie gozo uos piazeies. Ao contiáiio, a maiginaliuaue poue sei ciuel, como no
caso ue Baviu Reimei e Beiculine Baibin. A imposição ue apiesentaiem um sexo, gêneio,
sexualiuaue e uesejos "coeientes" e, poitanto, "veiuaueiios", levou ambos ao suiciuio.

2 Aná||se
2.1 C f||me
Baseauo no conto Cinismo, ue Seigio Bizzio, XXY conta a histoiia ue Alex (Inés Efion),
intersex que aos 1S anos está com uúviuas e angústias em ielação ao piopiio coipo e
sexualiuaue. Apos seu nascimento, na Aigentina, seu pai Kiaken (Ricaiuo Baiin) e sua mãe
Suli (valéiia Beituccelli) se muuam paia uma pequena ciuaue no litoial uiuguaio paia "fugii
ua opinião ue iuiotas" sobie o que fazei a iespeito ua inteisexualiuaue ue Alex, como
afiimam em ueteiminauo momento.
0 filme inicia com a chegaua ue uma familia ue amigos uo casal, vinua ue Buenos
Aiies. Ramiio (ueimán Palácios), Eiicka (Caiolina Pelleiitti) e seu filho Alvaio (Naitin
Piioyansky) chegam em um momento uelicauo, pois Alex acabaia ue biigai no colégio com o

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seu melhoi amigo, e possivel amante, vanuo (Luciano Nobile), apos tê-lo confiauo o seu
segieuo e uescobiii que foi tiaiua. A ciuaue começava a sabei, aos poucos, que Alex eia
um¡uma intersex.
2.2 In|c|o
A sequência à qual piimeiio uemos atenção é também o tiecho inicial uo filme. Nela,
além uos ciéuitos iniciais, nos são apiesentauas as uuas familias, ue Alex e Alvaio, núcleo ue
peisonagens piincipais ua tiama.
0s ciéuitos são apiesentauos inteicalauos com imagens tuivas ue uma pessoa, que
mais taiue sabeiemos tiatai-se ue Alex. Ele¡a coiie em meio a áivoies empunhanuo um
facão, enquanto ouvimos, além uo som ambiente, seus passos poi entie as folhas caiuas e
sua iespiiação ofegante. 0s letieiios com os nomes uos atoies e ua uiietoia são
apiesentauos como se estivessem no funuo uo mai. vemos, então, plantas que libeiam
algum tipo ue substância no oceano. Plantas, a piincipio, exoticas, que ievelam uma
analogia, que peipassa touo o filme, uo coipo intersex (ou ue Alex) com animais maiinhos, a
exemplo ue taitaiugas. 0 oceano, que é apiesentauo nas piimeiias cenas, é também um
elemento bastante piesente. Quanuo não utilizauo como cenáiio paia cenas impoitantes ou
paia as analogias as quais nos iefeiimos, empiesta o baiulho ue suas onuas e ventos paia a
constiução ue uma atmosfeia um tanto melancolica e ue foite caiga uiamática em algumas
cenas.
A câmeia acompanha Alex coiienuo iapiuamente poi entie as áivoies, até que, com
um angustiante suspiio, ciava o facão no chão. vemos então o titulo uo filme suigii na tela:
XXY. Peicebemos que a letia Y tiata-se, na veiuaue, ue um X, com uma ue suas hastes
quebiaua. Neste piimeiio momento, chamamos atenção paia o nexo entie as imagens
apiesentauas, ou paia a colocoçõo em série, uiscutiua na metouologia ue Casetti e ui Chio
(2uu2) a iespeito ua análise uas iepiesentações em filmes. Segunuo os autoies, "caua
imagem possui outia que a pieceue ou que a segue: foima paite ue uma sucessão e, ao
mesmo tempo, poi assim uizê-lo, iecebe e ueixa uma heiança, iecolhe e uevolve
testemunhos" (p.119). Besta foima, a exibição ue seies maiinhos inteicalauos com imagens
ue Alex coiienuo entie a floiesta piovoca um nexo por orticuloçõo, uefiniuo piincipalmente
poi analogias, o que veiemos uuiante touo o filme.
0 piofunuo suspiio ue Alex ao, num movimento iápiuo e em imagens tuivas, ciavai o
facão no solo e, logo em seguiua, o titulo uo filme, como nos é apiesentauo, pouem sei

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consiueiauos, no que uiz iespeito à colocoçõo em ceno, como temas que uefinem o "núcleo
piincipal" uo filme: a angústia ua peisonagem em ielação ao seu coipo e a sua sexualiuaue.
Toua a iaiva ue Alex é expiessa com um golpe no chão. 0 motivo paiece sei claio quanuo
lemos na tela uma combinação ue letias que, como apienuemos uesue ceuo na escola,
uenota geneticamente uma anomalia, iepiesentaua pela impeifeição ua letia Y que, ao lauo
uos uois xis, asseguiaiia um couigo genético "feminino", ue acoiuo com a biologia
tiauicional, o que toina Alex um "coipo estianho".
A paitii ue então, vemos Alex sentaua¡o, acenuenuo um cigaiio. Logo em seguiua, sua
mãe, Suli, se uiiige ao local ue tiabalho uo maiiuo, o biologo Kiaken. Ele, ao abiii uma
taitaiuga maiinha, pionuncia as piimeiias e bastante significativas palavias uo filme: "E
fêmea".
As palavias uitas poi Kiaken eviuenciam o entenuimento uas categoiias ue sexo a
paitii uo binaiismo macho versus fêmea, no qual a ambiguiuaue, como no caso ue Alex,
paiece não tei espaço. 0 uiagnostico ue Kiaken em ielação à taitaiuga está em
confoimiuaue também com o ue Alex que, ue acoiuo com os méuicos (a exemplo ue Ramiio)
é uma fêmea, poitanto, mulhei. 0 seu coipo é entenuiuo, sob essa otica, como um pioblema
ue foimação genética que, como auvoga o uiscuiso méuico-patologizante, ueve sei coiiigiuo
atiavés ua "ciiuigia genital", que atiibuiiia a Alex o stotus ue mulhei, aquilo que "ela"
"veiuaueiiamente" seiia.

2.3 Aprox|mação
Nesta sequência, apos uma biiga entie Kiaken e o pai ue vanuo, Alex e Alvaio
obseivam o biologo cuiuai uas taitaiugas, conveisam e passeiam pela ciuaue. Peicebemos
aqui como, imeuiatamente apos uma cena ue muita tensão, a autoia nos apiesenta algo
bastante uistinto. 0s uois uiscutem ameniuaues enquanto caminham poi uma feiia ao ai
livie. 0s uiálogos são cuitos e sepaiauos poi uiveisos momentos ue silêncio. So ouvimos o
som ambiente e, mais uma vez, o quebiai uas onuas no mai.

- ¨Seus puIs suo genLe IInu?¨ - pergunLu AIex enquunLo IoIIeIu um IIvro de umu
dus burrucus.
- ¨AI, suo meus puIs¨.
- ¨E o que Lem? Suo IeguIs?¨
- ¨SIm, ucIo que sIm¨.

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- ¨Os meus suo umu desgruçu, esLuo sempre no meu pé¨.
Os doIs observum os produLos de umu dus Lendus.
- ¨Por que brIgou com uqueIe menIno?¨ - pergunLu ÁIvuro reIerIndo-se u Vundo.
- ¨EIe provocou¨.
ÁIvuro começu u escuLur músIcu com Iones de ouvIdo enquunLo segue AIex.
- ¨Sube quuI é o bom de escuLur músIcu nu ruu?¨ - pergunLu AIex uo LIrur os
Iones de ÁIvuro.
- ¨O que?¨
- ¨Que purece que Lodos escuLum o mesmo que você¨, dIz AIex quundo põe os
Iones.

Ao teiminai a fiase e posicionai os fones, Alex e os espectauoies pouem ouvii a
música, neste momento, em alto volume. Alex uança e Alvaio soiii, num gesto bastante
intimista entie os uois. Alex uevolve os fones e continua a uançai. Alvaio continua
obseivanuo com um semblante feliz. A música uuia ainua um tempo e os uois seguem
anuanuo até o que paiece uma casa abanuonaua.
Em um filme bastante uiamático, com cenas que envolvem gianues tensões e
conflitos, ue iepente nos é apiesentaua uma sequência que uestoa ue touo o iestante. Bois
auolescentes passeiam poi uma feiia, conveisam sobie os ielacionamentos com seus pais,
seus tiabalhos, biigas na escola e até uançam, num momento ue gianue uescontiação.
Nesses instantes esquecemos os uiamas viviuos poi Alex. Afinal, o que nos uiz uma
sequência como essa.
Além ua foite piesença ue tons veiues e, piincipalmente, azuis, que vemos uuiante
touo o filme, peicebemos nesta sequência uma séiie ue conteúuos ielacionauos com os
temas uas conveisas entie Alex e Alvaio, que uizem iespeito a um "univeiso auolescente",
como nos tipicos filmes teen, nos quais jovens enfientam pioblemas caiacteiisticos ue um
peiiouo confuso, em que colocam em questão a sua ielação com o coipo, sexualiuaue, escola,
ielacionamento familiai etc. E o que Alex e Alvaio fazem nesse momento.
Pouemos inteipietai a utilização ue tais conteuJos orquétipos que, ue acoiuo com
Casetti e ui Chio (2uu7), uizem iespeito à utilização ue iefeiências a ueteiminauos gêneios
filmicos, neste caso os teen movies, como mouo ue piovocai afeto no espectauoi. Be, ao
mostiai Alex menos áciua e iiônica, como em outios momentos, ietiatá-la como uma¡um
jovem como outio¡a qualquei, com pioblemas que acontecem com a maioiia uos

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auolescentes, sejam eles¡elas intersex ou não, que em muitos momentos encontiam-se em
conflito com os temas expostos na conveisa uos uois. Nesta cena o espectauoi é conviuauo a
uiviuii os sentimentos ue Alex, ou mesmo ielembiai uos seus piopiios momentos como
auolescentes, acompanhanuo a apioximação uesajeitaua uos uois.
0 ápice ua inteipelação aos espectauoies, nesta sequência, ocoiie no momento em
que Alex toma os fones ue Alvaio e, numa ação metalinguistica, uiz: "Sabe qual é o bom ue
escutai música na iua. Que paiece que touos escutam o mesmo que você". Ao mesmo tempo
em que o espectauoi poue ouvii a música em alto e bom som, Alex uança ue mouo bastante
iiieveiente, mostianuo-se bem uifeiente ue antes e aiiancanuo um soiiiso ue Alvaio. A
sequência, então, pela uuiação ua música, toina-se quase um viueoclipe e atiai o espectauoi
ue vez paia a tiama.
2.4 Dese[o
Passaua a sequência em que Alvaio e Alex se apioximam, vemos ciescei caua vez mais
a tensão no filme. Alex ueciue paiai ue tomai hoimônios. Ramiio está ueciuiuo a convencei
Kiaken ua suposta necessiuaue ua iealização ua ciiuigia e o fato ue a comuniuaue começai a
sabei que Alex é intersex pieocupa caua vez mais a familia. Alex e Alvaio estão ueitauos ue
biuços, na beiia ua piaia, enquanto o gaioto uesenha no seu caueino. Alex inicia o uiálogo:
"Pensou no que te uisse.", uiz em iefeiência a pioposta feita assim que se conheceiam (Alex
peiguntaia se Alvaio se ueitaiia com ela). Alvaio acaba se iiiitanuo e agiessivamente
uispaia: "você não é noimal. E uifeiente e sabe uisso. Poi que as pessoas te olham assim.
Poi que touos te olham assim. 0 que você tem.".
Enquanto Alvaio faz os questionamentos, a expiessão ue Alex entiistece, seus olhos
laciimejam, até que ela¡ele levanta e sai coiienuo em uiieção a um celeiio pioximo a sua
casa. Alvaio a¡o segue e encontia-a¡o ueitaua¡o, ainua com um semblante tiiste. 0 gaioto
encosta lentamente e, ao fazei menção ue se afastai, Alex o conviua paia sentai: "venha".
Alex puxa Alvaio e o beija. 0s uois começam a se tocai e Alex afiima: "Não tenho naua". "Eu
auoio", iesponue Alvaio uespinuo-a¡o. Neste momento já ouvimos uma música que paiece
uai um clima iomântico paia a cena, quanuo, em seguiua, Alex levanta-se e uesliga um iáuio
que está pioximo, uanuo fim ao que ouviamos. 0 iomantismo paiece sei inuesejauo.
Alex e Alvaio continuam os caiinhos e beijos, num clima bastante eiotizauo. Quanuo
tenta uespii Alex, Alvaio é suipieenuiuo pelo movimento uele¡a que o viia ue costas, tiia as

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suas calças e também as uele e, iapiuamente, o penetia. Alvaio, a piincipio, se assusta, mas
uepois paiece sentii muito piazei.
Nesta sequência, peicebemos claiamente como o coipo intersex peituiba as
categoiias bináiias ue sexo, gêneio, sexualiuaue e uesejos ao mesmo tempo em que explicita
a ficção constiuiua ao ieuoi ua sua coeiência lineai. Como afiima Nachauo (2uuS, p.269), os
coipos intersex são emblemáticos "justamente poique uesafiam o sistema bináiio ue sexo e
ue gêneio, bem como esciutinam, em uifeientes esfeias sociais, os ciitéiios utilizauos paia
que alguém possa sei consiueiauo homem ou mulhei".
Alex, além ua uualiuaue uo seu nome, usauo tanto paia homens como mulheies,
caiiega a maica ua ambiguiuaue no seu coipo. Categoiizá-la como fêmea ou macho paiece
impossivel, assim como uefinii piecisamente o seu gêneio. A peifoimativiuaue ue gêneio
S

ue Alex é bastante fluiua uuiante o filme. Seu tempeiamento agiessivo e saicástico e suas
ioupas uiscietas apioximam-na¡o ue uma peifoimativiuaue masculina, no entanto, em
outios momentos, sua fiagiliuaue explicita e gestos uelicauos, fazem-no¡a pioxima¡o uo que
é entenuiuo como peitencente ao "univeiso feminino". Biante uisso, como ousai uefinii sua
sexualiuaue, como classificai os seus uesejos.
Ao penetiai Alvaio, Alex peituiba toua categoiização que necessita ue foimas
bináiias paia se toinai aceitável. 0 espectauoi, que até o momento não tem muitas
infoimações sobie as caiacteiisticas fisicas ua peisonagem, é infoimauo, naquele instante,
que ela possui um pênis e, mesmo uiante uo que seiia a eviuência maioi ue uma possivel
"masculiniuaue", se vê inceito, impossibilitauo ue afiimai, com ceiteza, se está uiante ue um
homem ou ue uma mulhei. Alex é um "coipo estianho", inclassificável em tais categoiias
queer.




S
Butlei uestaca, via Austin e outios autoies¡as, que as palavias não apenas uescievem, mas também ciiam aquilo que
enunciam e uefenue que "o gêneio é peifoimativo poique é iesultante ue um iegime que iegula as uifeienças ue gêneio. Neste
iegime os gêneios se uiviuem e se hieiaiquizam ue foima coeicitiva" (Butlei, 2uu2, p. 64). A teoiia ua peifoimativiuaue tenta
entenuei como a iepetição uas noimas, muitas vezes feita ue foima iitualizaua, ciia sujeitos que são o iesultauo uestas
iepetições. Quem ousa se compoitai foia uestas noimas que, quase sempie, encainam ueteiminauos iueais ue masculiniuaue e
feminiliuaue ligauos com uma união heteiossexual, acaba sofienuo séiias consequências. Ciiticos ue Butlei tem uito que a
teoiia ua peifoimativiuaue entenue o gêneio ue uma foima voluntaiista, ou seja, a caua uia poueiiamos tiocai ue gêneio. veja
a ciitica ua autoia a essas leituias em Butlei (2uu2). 0utias teoiicas, a exemplo ue Pieciauo (2uu8) e Balbeistam (2uu8), têm
ciiticauo o fato ue o coipo estai muito ausente nessa teoiia ua peifoimativiuaue. Em outio texto pietenuemos iefletii sobie
essas ciiticas, com as quais não concoiuamos, em especial se levaimos em conta a obia Corpos que importom, ue Butlei (2uu8).

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2.S Ab[eção
6

Apos tiansai com Alvaio, Alex não volta paia a sua casa e vai uoimii com a amiga
Robeita, filha uo colega ue tiabalho ue Kiaken. Buiante o filme peicebemos que Robeita e
vanuo paiecem sei os seus únicos amigos.
Robeita e Alex conveisam e soiiiem uuiante a noite. Ao amanhecei, Alex acoiua com
a amiga pintanuo as suas unhas. Iiiitaua¡o, vai até o banheiio tomai banho e tiiai o esmalte,
Robeita a¡o segue e entia no box. Alex e Robeita lavam uma a outia¡o, numa cena que
uemonstia a pioximiuaue entie elas¡eles. Robeita age natuialmente ao vei Alex sem
ioupas. Enquanto a amiga lava os seus cabelos, Alex a olha sem paiai, seus olhos peicoiiem
touo o coipo ue Robeita, que continua a massageai a cabeça e nuca ua¡o amiga¡o. Ciia-se,
novamente, uma tensão eiotica. Até que Alex, mostianuo iiiitação, livia-se uas mãos ue
Robeita e sai uo banheiio.
Alex ueixa a casa ua amiga e segue caminhanuo pela piaia quanuo é aboiuaua poi um
giupo ue iapazes vinuos ue baico. Como que piessentinuo pioblemas, tenta coiiei, mas é
agaiiaua poi eles, que iepetem o tempo touo paia que tenha calma, que não vão machucá-
la¡o. Alex tenta se uesvencilhai e atinge um ueles no iosto. "Filha ua puta!", exclama um uos
meninos, ao uai um muiio no iosto ue Alex que, caiua, tenta em vão se liviai uos agiessoies.
"Beixe-me vei!", "vamos vei o que tem aqui.", iepetem em tom saicástico enquanto
tiiam o sbort ue Alex. "E uma pica! Tem os uois! Tem tuuo!", uiz um ueles num misto ue
suipiesa e alegiia ao uescobiii o "mistéiio" ue Alex. "Que nojo!", exclama seu colega. "Que
uiz.! E muito bom", ietiuca o amigo, que em seguiua se uiiige a Alex e peigunta: "Fica uuio.
Beixa eu vei se fica uuio, queio vei se funciona" , uiz enquanto toca Alex ao mesmo tempo
em que paiece queiei penetiá-la. Neste momento chega vanuo, que expulsa os colegas e
choia, muito aiiepenuiuo e consciente uo que fizeia ao ievelai o segieuo ue Alex.
Ao veimos tal cena, uiveisas questões nos vêm à mente: Poi que isso acontece com
Alex. 0 que faz com que o seu coipo geie tamanha cuiiosiuaue. 0 que peimite que os
iapazes a¡o agiiuam ue tal foima. Seiiam eles moviuos poi um sentimento apenas ue
iepulsa. 0u seiia o uesejo o piovocauoi ue tamanha violência. Qual o valoi atiibuiuo ao seu
coipo. Qual a sua impoitância. Ele impoita.
A peispectiva foucaultiana uo conceito ue pouei ueixa-nos claio que naua escapa a
ele. Não é possivel estai "foia" uas ielações ue pouei, ele peipassa, nos mais vaiiauos

6
Butlei uefenue que o abjeto "não se iestiinge ue mouo algum a sexo e a heteionoimativiuaue. Relaciona-se a touo tipo ue
coipos cujas viuas não são consiueiauas 'viuas' e cuja mateiialiuaue é entenuiua como 'não impoitante'" (Piis e Neijei,
2uu2:161).

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ângulos, touos os coipos e ielações. Aqueles que, ue algum mouo, iesistem ao pouei
hegemônico, poi ele também são afetauos, poi ele são proJuziJos. Se pensaimos na
heteionoimativiuaue
7
como sustentaua a paitii ua coeiência entie sexo, gêneio, uesejos e
piáticas sexuais, guiauos a paitii ue um "mouo ue viua" heteiossexual, peicebemos que os
coipos que uiiblam essa iegia, a subveitem e pioblematizam, escancaiam o seu caiátei
ficcional e são também piouuziuos poi esta noima que, afinal, piecisa ue algo a que se
iefeienciai, paia que, a paitii uo que não é, afiimai-se enquanto possivel. 0 coipo intersex,
como o ue Alex, é geiauo a paitii uesta logica. Piovoca, ao mesmo tempo, não apenas
iepulsa, mas também fascinio, cuiiosiuaue e uesejo, como nos mostia a sequência acima
uesciita. Sua impoitância. Paiece não havei. 0 que peimite que aqueles que se consiueiam
noimais sintam-se no uiieito ue violentá-lo¡a, como se o¡a venuo, tocanuo-o¡a, fossem
extiaii a sua veiuaue: "Fica uuio. Funciona."
A heteionoimativiuaue, enquanto piouutoia ue sujeitos anoimais, peimite que o que
acontece com Alex aconteça com qualquei um que ouse uesafiá-la: gays afeminauos, lésbicas
masculinizauas, tiavestis, tiansexuais são uiaiiamente assassinauos poi conta ua
ininteligibiliuaue a eles¡as atiibuiuo¡a, são coipos que não impoitam, coipos abjetos,
estianhos, queer. E isso paiece ficai eviuente em XXY.

3. Cons|derações f|na|s
XXY é, sem uúviua, um filme polêmico. Atiaiu gianue público, ganhou uiveisos
piêmios em festivais, iecebeu ciiticas entusiastas e outias nem tanto. Se, poi um lauo, o
filme ueu visibiliuaue a uma questão pouco uiscutiua, poi outio teve que optai poi
ueteiminauo mouo ue fazê-lo. Como aigumenta o ativista intersex Nauio Cabial,
XXY é um IIIme com ucerLos e erros. Hu demusIudu uguu, demusIudos unImuIs
murInIos, demusIudu meIuncoIIu urgenLInu desLu de que nInguém sube de onde
nem u Lroco de que vem e se InsLuIu. Hu um suIume, umu cenouru e Iu uLé um
jogo de unuIogIus e equIvuIêncIu que exusperurIu uo especLudor muIs dudo u
sImeLrIu. Mus conLu umu IIsLórIu, nuo reIuLu um dIugnósLIco, nuo du um
exempIo, nuo IIusLru um munuuI, nuo du umu receILu, nuo prescreve um
LruLumenLo, nuo dIsLrIbuI punIIeLos de um grupo de uuLo-ujudu, nuo pede
soIIdurIedude, nuo oIerece pIedude, nuo Iuz que ¨vuIIu u penu¨, nuo dIz o que se
pussu, nuo dIz o que Iuzer. Contc umu IIsLórIu. ConLu umc IIsLórIu. ConLu umu
históric. (CABRA¡, zooq, p.1o;)


7
0 conceito ue heteionoimativiuaue ievela como a heteiossexualiuaue compulsoiia, muito mais foite no peiiouo ua
patologização uas oiientações sexuais não-heteiossexuais, ciiou um mouelo hegemônico ue vivência ua sexualiuaue que se
alastiou e acabou poi se intiouuzii na constituição uas iuentiuaues ue touas as pessoas, sejam elas heteiossexuais ou não. Paia
mais ieflexões sobie esse tema, vei Colling (2u11) e Niskolci (2uu9).

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0 que piopomos com este tiabalho é uma análise ue como essa histoiia é contaua. Não
nos contentamos simplesmente com a visibiliuaue intersex, mas piocuiamos uiscutii como o
assunto é tiatauo, como a subjetiviuaue intersex é colocaua em cena.
Alex é um peisonagem cativante. Seu tempeiamento áciuo, agiessivo, sua foiça ue
vontaue e coiagem paia enfientai a situação em que se encontia faz com que o espectauoi,
ainua que possa não entenuei o seu coipo e suas uecisões, toiça paia que ela¡ele fique bem.
E nesse aspecto o filme alcança êxito.
0 uso ue conteuJos orquétipos, atiavés ue temas maicantes comuns aos teenoqer
movies é estiatégico. Faz com que o uiama, poi momentos, seja suavizauo, conviua o
espectauoi a olhai paia Alex como um¡a auolescente que, aos 1S anos, passa poi aquilo que
muitos outios¡as vivem nessa iuaue: a angústia e uúviua em ielação ao seu coipo e
sexualiuaue.
A pioposta ue Lucia Puenzo, ao peisonificai o uiscuiso méuico-patologizante no
peisonagem viviuo poi Ramiio (vaiuoso, asséptico, em busca ue uma peifeição), questiona
tal posição e uá ênfase a mouos subjetivos ua expeiiência intersex. Não é estai,
necessaiiamente, contia a ciiuigia noimativa, mas uai lugai à escolha. Alex escolbe paiai ue
tomai os ieméuios, escolbe não fazei a ciiuigia, escolbe ficai e encaiai touos os seus
pioblemas ue fiente. Nisso o filme está ue acoiuo com a maioiia uas oiganizações intersex
que uefenuem o pouei ue eleição uo sujeito em ielação ao seu coipo, sua iuentiuaue, sua
viua.
Faiá XXY paite uo New µueer Cinemo. Se, como aigumenta Nepomuceno (2uu9. p.2),
tal cinema uestaca-se "pela constiução ue filmes com aboiuagens menos sensacionalista
sobie a piouução ua uifeiença uos coipos, gêneios, sexualiuaues e, mais inteiessaua na
complexificação uas subjetiviuaues ambiguas e tiansgiessivas", XXY, sem uúviua, é um filme
queer.
No entanto, se pensaimos no "mouo ue fazei" cinema, escolha ue ângulos,
movimentação ua câmeia etc., peicebemos que o filme não é assim tão uifeiente, tão queer,
pois está apegauo às foimas tiauicionais ue se contai uma histoiia atiavés uo cinema, sem
muita inovação. 0 que, ceitamente, contiibuiu paia que fosse melhoi aceito, mais visto,
menos iepuuiauo pelo espectauoi que não está assim tão uisposto a saii uo seu confoito.
Nais uma estiatégia uo filme.
Concluimos, também, que um uos gianues pontos positivos uo filme não é apenas a
visibiliuaue e uiscussão ua inteisexualiuaue, mas o fato ue toinai o coipo intersex um coipo

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uesejante e uesejável. Alex tem a vanuo, Alvaio e Robeita, touos possivelmente inteiessauos
em tê-la¡o como namoiauo¡a ou amante. Não há espaço paia sexo noimativo no filme, a
única "cena ue sexo" é exatamente a sequência em que Alex, ue uma vez poi touas, subveite
as noções ue sexo, gêneio, uesejo e piáticas sexuais.
Nas esta subveisão lhe custa caio. Alex é agieuiua¡o, humilhaua¡o, violentaua¡o. 0m
coipo queer que piovoca uesejo e iepulsa, coipo abjeto que, pela piopiia escolha, não
piecisa uo centio como iefeiência, quei uistância uo consiueiauo "noimal", opta pela
maigem.
Em entievista a Piins e Neijei (2uu2), Butlei é questionaua em ielação aos coipos
abjetos, sobie o paiauoxo ua não-ontologia ue um coipo que existe. As autoias questionam:
"como algo poue 'sei' e, ao mesmo tempo, não gozai ue um stotus ontologico.". Ao que
iesponue Butlei:
Eu uLrIbuo onLoIogIu exuLumenLe uquIIo que Lem sIdo sIsLemuLIcumenLe
desLILuido do prIvIIégIo du onLoIogIu. O dominIo du onLoIogIu é um LerrILórIo
reguIumenLudo: o que se produz denLro deIe, o que é deIe excIuido puru que o
dominIo se consLILuu como LuI, é um eIeILo do poder |...| Mesmo se eu dIsser que
Iu corpos ubjeLos que nuo gozum de umu deLermInudu sILuuçuo onLoIógIcu, eu
reuIIzo essu conLrudIçuo de propósILo. E esLou Iuzendo Isso precIsumenLe puru
jogur no rosLo duqueIes que dIrIum: Mus você nuo esLurIu pressupondo...?. Nuo!
MInIu IuIu nuo precIsu necessurIumenLe pressupor... Ou, se o Iuz, Ludo bem!
TuIvez esLeju produzIndo o eIeILo de umu pressuposIçuo uLruvés de suu
perIormunce. (PR¡NS e ME¡JER, zooz, p.161)

Beste mouo, Butlei, os estuuos queer e Lucia Puenzo, em XXY, ieivinuicam o lugai
maiginal, tiansgiessoi, abjeto, como uma posição ue iesistência a toua e qualquei noima
que, compulsoiiamente, ciie e opiima ueteiminauos estilos ue viua, piáticas, uesejos e
coipos uesviantes. 0 que Butlei piopõe e, neste sentiuo Lucia Puenzo paiece estai em
sintonia, é a politização uo abjeto. 0 "coipo estianho" ue Alex é politico, subveisivo,
necessáiio e uesejauo.

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1he |ntersex body and the po||t|c|zat|on of
the ab[ect |n kk¥
Abstract
WhaL can Lhe lotetsex body Lell us? Pow does Lhls lssue geL
more complex lf we Lhlnk abouL lLs represenLaLlon ln Lhe medla,
speclally ln clnema? ln Lhls arLlcle, sLarLlng from Lucla Þuenzo's
kk¥, we pose Lhese and oLher quesLlons relaLed Lo devlanL
bodles and deslres. WlLh a subverslve and non-paLhologlzlng
dlscourse, kk¥ proposes a careful look aL Lhe sub[ecLlvlLles of

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2S0
Lhese experlences. We argue LhaL Lhe fllm, ln resonance wlLh Lhe
queer sLudles, ls alerL Lo Lhe pollLlclzaLlon of Lhe ab[ecL bodles.
keywords
lnLersex, clnema, queer, ab[ecLlon.

L| cuerpo |ntersex y |a po||t|zac|ón
de| abyecto en kk¥
kesumen
¸Cue nos puedes declr el cuerpo lnLersex? ¸Cómo el debaLe se
amplla se pensarmos en su represenLaclón en los medlos de
comunlcaclón, especlalmenLe en el clne? Ln esLe esLudlo, a
parLlr de kk¥, pellcula dlrlglda por Lucla Þuenzo, se dlscuLen
esLos y oLros Lemas relaclonados con los cuerpos y deseos
desvlanLes. Con un dlscurso subverslvo y anLl-paLológlco, xx?
propone un o[o vlgllanLe sobre la sub[eLlvldad de Lales
experlenclas. SosLenemos que la pellcula, asl como los esLudlos
poeet, es consclenLe de la pollLlzaclón de los cuerpos abyecLos.
Þa|abras-c|ave
lotetsex, clne, queer, ab[eclón.



keceblJo em 15/09/2011
Acelto em 19/10/2011

p_29) inacessivel. ver jagose (2008)..... que naturalizam invisivel. chega que a representacao atraves da mulher no cinema classico hollywoodiano colocando-a como objeto aos olhos a conclusao de se da de dois modos: masculinos.. a de modo a "fazer possivel e os significados 0 e representada classico hollywoodiano.1 A setima arte sob as 6ticas feministas e queer Uma primeira insercao feminista na analise filmica se da a partir da observacao do criados pela modo como.. ao inves da mulher-mito... em poem sua dos produtos filmicos realizados estereotipos.. Lauro (2004) e Miskolci (2009)... de acordo estudos e alvo de duras criticas que partem. a mulher era assim representada ou fetichizacao feminina freudiana distrairiam 0 seu castigo espectador (homem) da arneaca de castracao influencia que a imagem da psicanalise inevitavelmente suscitaria. p_25)2. descobrindo os mecanismos as imagens que portam" (RICALDE.. atraves da sua punicao.. dez.. 2 Essa e todas as traducoes realizadas nesse texto sao nossas . 2002. de modo distinto.. 0 texto trata especificamente corpo intersex para......... n... 235 . ver Butler (2002... feministas..... a esposa etc.... A impossibilidade com os primeiros de leituras nao-heterossexuais de Mulvey.. personagens Assim. Porto Alegre.. que se da sua fetichizacao. 2003 e 2008). A reflexao revela a grande e lacaniana na analise da autora.. com 0 deleitariam propria close-up ou. eterna histo rica mente . 2002. a vizinha. Mulvey. feminina no cinema nao apenas a partir de filmes feitos por do sistema Ricalde (2002) chama a atencao para a importancia enquanto mulheres falocentrico "resposta representacao.... p. 2011... influenciadas e patriarcal direta mas ve no processo pelas teorias produtivo..). . urn modo de subversao caracteristico do cinema classico hollywoodiano por mulheres foi 0 e afirma que a rechaco dos ditos e abstrata.02.. para que assim se justificasse porque 0 0 narrativa se encarregaria seu castigo.. no texto Visual pleasure and narrative cinema (1975)... a amiga fiel. De acordo com Mulvey.. 1.....25. Para estudo mais aprofundado.. principalmente cultura patriarcal mulher atraves do uso dos ditos estereotipos femininos (a exemplo da vampira.. femininos desmistificados. que alegam que tais abordagens 1 Para uma introducao aos estudos queer.. logo apos.. Intexto. principalmente. no cinema a mae.. Em seguida. das feministas lesbicas.. situados fixa.. v..... apresentar a analise da obra. UFRGS. 234-250.E-ISSN 1807-8583 intexto intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY UFRGS PPGCOM -l) o corpo realizada sobre 0 por feministas e estudiosos queer'. no cinema hollywoodiano.. situacao na qual a de coloca-la "fora-da-lei"..... cotidianidade_"(RICALDE.

2009.. Porto Alegre. tal cinema abre espaco na producao queers possam encenar suas performances Dos guetos. p_70). como tambem pelo desejo do devir. dez. queer...E-ISSN 1807-8583 intexto intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY UFRGS PPGCOM -l) o corpo podem ser lidas como 0 cancelamento do prazer da espectadora tampouco concebiam nao-heterossexual 0 e os estudos culturais fundamentados dualidade..... destaca-se por a exemplo de Pedro Almodovar... comecam a tal divisao binarista. estes filmes se do corpo e. portanto.. relacionar de todo 0 Faz-se indispensavel. v_02. a segregacao entre sexos e..... simultaneamente engajam desafiam em atividades completamente construindo transgressoras que tern lugar no e atraves conceitual entre generos.. das escolhas pessoais do proprio corpo e da auto-referencia. genero e sexualidade mundiaL De acordo com Straayer (1999. que dominam como passa a ser chamado.. 234-250.. a qual descansavam da analise divisao basica da cultura de fora do espaco os que nao respondiam a categorias pre-fixadas... Intexto.. ° New Queer Cinema..... mais uma vez..... UFRGS. p... de modo mais importante. (RICALDE. subverte a producao cinematografica as nocoes de sexo.... 2002. e subjugacoes de corpos e categorizacces e.. e destruindo codigos de genero e sexo.. n_25..... a atuar das subjetividades como visibilizador e transgressivas".. ver Colling (2011).. juntamente ser produzidos filmes que passam a questionar com 0 advento dos estudos queer.L). p_113-114).... que.... entre genero e sexo_ (2009.. e aboliu 0 cinema.. p. apontam cinema a posicao pos-identitaria dos estudos nao rechacem na afirrnacao a afirrnacao identitaria e sua importancia de posicoes fixas e essenciais hierarquizacoes 0 modos de.. com seus processos de norrnatizacao vigilancia.... Segundo a autora. 201L 236 . sexualidades ambiguas e corpos...... de identidades subterraneas e das infiltracoes telas cinematograficas". . deixava Uns e outros na psicanalise nessa desejo fora dessa ocidental... produzir praticas.... "deu a ver urn devir multiplo identitaria" _ 3 sujeito como aquele ponto central exigido pela logica Para uma explicacao sabre a polemica entre identitarios e pos-identitarios. agenciadas a producao da diferenca de generos. embora politica-.. por conseguinte. das sombras contemporanea multiplas para as Para Nepomuceno para que "personagens atraves de corpos-devir." (NEPOMUCENO. subjetividades grupo de multiplas "que sao e tanto pelos modelos fixos de sexualidade... p_2) ainda. pAO) A partir da decada de 1990. uma nova geracao de cineastas.. "Mais 0 na complexificacao desta forma. Derek Jarman e Gus Van em relacao Sant. uma abordagem menos privilegiar sensacionalista interessado passaria.. Como afirma Luz (2002. por ser uma arte moderna..

datada de meados por urn periodo no qual 0 do seculo XIX ate os anos de era definido a partir da 1950.. que tirar 0 corpo do seu engano anatomico e descobrir 0 unico sexo verdadeiro por tras dos orgaos que poderiam estar simulando 0 sexo oposto. v_02. como "herrnafroditismo nomenclaturas verdadeiro" utilizadas medicina e "pseudo-hermafroditismo".. A "Era das gonadas". surgimento anestesia.. mas antes.. UFRGS. Para alguem que sabia como observar e conduzir urn exame... estas misturas de sexo nao eram mais que disfarces da natureza: hermafroditas eram sempre "pseudo-hermafroditas".... principalmente......... 237 .2 0 corpo intersex Em Herculine Barbin.. fundamental para as intervencoes mas.p.. [---J quando confrontado com urn hermafrodita..n_25. tambern e possivel encontrar juridicas revelam relatos eram tratadosjas de outra forma. por mais que encontremos registros condenados elesjas a morte em tempos ancestrais... Intexto. (FOUCAULT..... Nesse periodo surgem ocidental...... no campo de urn aos "sexo verdadeiro". decis6es que urn corpo com tinha caracteristicas dos dois sexos era inteligivel como taL Aquele que era "herrnafrodita" prestes a se casar e 0 que decidir por urn sexo apenas quando estivesse fato s6 se tornaria urn problema se elejela voltasse atras depois da decisao tomada. a hist6ria diferentes da intersexualidade pode ser descrita em tres perfodos. avances possivel da gracas tecnol6gicos medico cirurgicas. E principalmente a partir do seculo XIX que se passa a pensar verdade e............ 1980... por isso...... dez..ix) De acordo com Pino (2007)... tambern precisaria 0 sexo como algo que esconde uma determinada Nas palavras de Foucault: ser urn "sexo verdadeiro"... 2007) Em urn segundo primeiras periodo. a partir da emergencia .. Foucault tratado (1980) relata que nem sempre 0 corpo intersex foi de intersex em que como nos dias atuais.. justapostos ou intercalados. Segundo ele.. caracteriza-se presenca "herrnafroditismo" das gonadas masculinas ate hoje e femininas pela em urn mesmo corpo. Porto Alegre. por assim dizer. 0 medico nao estava mais interessado em reconhecer a presenca de dois sexos.. como observamos no texto abaixo: A classificacao baseia-se na natureza da gonada presente e os tres grupos basicos sao 0 pseudo-hermafroditismo masculino (PHM = genitalia ambigua com testiculos). em decifrar 0 verdadeiro sexo que estava escondido por baixo das aparencias ambiguas. p_viii .E-ISSN 1807-8583 intexto UFRGS PPGCOM -l) o corpo intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY 1. torna-se permitem 0 as cirurgias "des-construtoras" A "Era cirurgica".. que vai da dec ada de 1950 aos anos de 1980. pseudo-hermafroditismo feminino (PHF = genitalia ambigua com ovarios) e hermafroditismo verdadeiro (HV = testiculo e ovario com ou sem genitalia ambigua) (DAMIANI e GUERRA-JUNIOR. ocorrem dos corpos intersex em busca da "construcao" de acordo que com Pino. 2011.. ou em saber qual dos dois prevaleceu sobre 0 outro..... 234-250..... Ele tinha.

e estavel para torna-lo em relacao aos sociais. como 0 0 uma frequente proprio David que.... anterior ou livre de qualquer relacao de poder: Para Foucault.. e grupos de autoajuda para tornar a experiencia intersex menos invisivel.... dez..... a hormonios... entre outros. ver Machado (2005). que tinham sofrido as cirurgias Neste periodo. Money foi quem primeiro bebe submetido a uma cirurgia de "(rejconstrucao no penis durante aconselhadas genital"....... 234-250.. passa na qual a decisao em relacao a cirurgia e ao sexo a dos pais e de uma equipe psicologos etc.. as pessoas nao nasceriam genero definida.. da identidade de genero defendida.. e como principio hermeneutico 4 Sabre as proposic5es de John Money... do genero.. ° pediatras. v_02.. trabalho de Foucault nos permite pensar no sexo nao como algo causal ou univoco. por nao se lembrar E interessante deslocar 0 provoca urn giro de perspectiva autonomo ao genero de urn lugar essencial cromossomos e gonadas... pelo psicologo e sexologista De acordo com a teo ria de Money. passou por apos sofrer urn grave ferimento diversas intervencoes cirurgicas. p_170)_ registrou 0 Como nos relata Machado (200S). sao criadas procedimento.. Porto Alegre.. tendo como principal de que a medicina seria incapaz de fazer "genitals norrnais".. Trata-se urn processo caso de urn de David Reimer que. seguiria para a crianca que... . natureza No entanto. argumento apontar 0 modelo 0 centrado na cirurgia foi amplamente criticado. observar aqui como tal pensamento 0 com uma identidade 0 de seu sexo poderia ser "alterado" ate decimo oitavo mes de de nada.... e ter a lei que norteia essas regulacoes situadas como principio formador do sexo.. 201L 238 ..... 2007. dos prazeres e dos desejos.. para que se tornasse uma menina. alem de insatisfacao das pessoas submetidas as cirurgias... endocrinologistas. No entanto...... apesar da "enfase nos aspectos e a binariedade do sexo nao foram colocadas anormal em xeque... Passa- se entao a chamada ser designado "Era do consenso"..... de circuncisao... A partir dos anos 1980. pois os intersex eram de tratamentos para se considerados frutos de desenvolvimento e necessitavam tornar homens e mulheres" (PINO. por Money a familia... multidisciplinar a crianca pela decisao formada por cirurgioes. alem dos medicos. aos 38 anos.... aqueles "norrnalizadoras" associacoes tambem passaram a contestar 0 "norrnalizar" seu sexo. de modo que vida sem maio res prejuizos "norrnalmente" a sua vida. apos uma serie de cirurgias que buscavam cometeu suicidio......E-ISSN 1807-8583 intexto intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY UFRGS PPGCOM -l) o corpo do paradigma John Money+. n_25. Intexto. ser sexuado e estar submetido a urn conjunto de regulacoes sociais. UFRGS. p.

P-130) Embora alerta parece.. Butler (2006) Foucault para como.. genero. inevitavelmente reguladora........ genero ou sexualidade. assim.. Ela do fato de que aqueles que se colocam ou sao postos os corpos nas margens binario de sexo. Na verdade...... 2 Analise 2. uma vez que. caso de David Reimer e Herculine sexualidade e desejos "coerentes" Barbin..n_25. assim como faz ao longo de sua obra.. levou ambos ao suicidio. como afirmam em determinado momento.. dez... Ao contrario... pois Alex acabara de brigar no colegio com 239 Intexto... seu pai Kraken (Ricardo Darin) e sua mae Suli (Valeria Bertuccelli) se mudam para uma pequena cidade no litoral uruguaio para "fugir da opiniao de idiotas" sobre 0 que fazer a respeito da intersexualidade de Alex... Aires. 2011. p_128) A critica de Butler nos parece razoavel.... que e apresentado como 0 "limbo feliz de uma nao identidade" (xiii). 234-250.... vinda de Buenos Ericka (Carolina Pelleritti) e seu filho Alvaro (Martin 0 o filme inicia com a chegada (German Palacios).. na qual a fluidez. (BUTLER..p.. transite 0 conceito de biopoder 0 seja essencial na obra foucaultiana. a marginalidade constante devir pode ser cruel. Apos seu nascimento... intersex que aos 15 anos esta com duvidas sexualidade... e angustias em relacao ao proprio corpo e na Argentina. chegam em urn momenta delicado. urn mundo que ultrapassa as categorias do sexo e da identidade. queer...E-ISSN 1807-8583 intexto UFRGS PPGCOM -l) o corpo intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY de auto-interpretacao.. nao necessariamente 0 encontram-se permitiria 0 num estado de graca.. de apresentarem "verdadeiros". e toda analise que a tome acriticamente como urn pressuposto amplia e legitima ainda mais essa estrategia de regulacao como regime de poder/conhecimento... livre gozo dos prazeres... como no urn sexo... Porto Alegre.. de uma familia de amigos do casal... A categoria do sexo e.. 2006. A imposicao e. ele parece romancear 0 mundo de prazeres de Herculine.. XXY conta a historia de Alex (Ines Efron). privilegiada 0 coloca-la/o 0 numa posicao por conta do seu como se seu corpo the permitisse gozo dos mais diferentes tipos de prazer: Foucault deixa de reconhecer as relacoes de poder concretas que tanto constroem como condenam a sexualidade de Herculine.. ao discutir em alguns momentos. portanto... corpo intersex atraves do diario de Herculine. defende ainda atenta sistema que nao existem corpos que se encontrem para 0 fora das relacoes de poder...... Ramiro Piroyansky) . v_02. UFRGS..... entre os generos. (BUTLER.10 filme Baseado no conto Cinismo.. a nao-identidade.. . de Sergio Bizzio. 2006..

234-250........ entao.. Ela/a corre em meio a arvores empunhando ouvimos.. p.. 240 .. Alex correndo 0 barulho de suas ondas e ventos para a em algumas de uma atmosfera urn tanto melanc6lica e de forte carga dramatica rapidamente por entre as arvores.. 2011. Nela.. a exibicao de seres marinhos intercalados de Alex correndo por analogi as. ao a respeito em filmes... 0 oceano... rapido e em imagens turvas. recolhe e devolve com imagens testemunhos" (p_119)_ Desta forma.. titulo do filme surgir na tela: que a letra Y trata-se. UFRGS..... de urn X... v_02..... elemento bastante todo no oceano. ofegante. como nos e apresentado. ou que a segue: forma parte de uma sucessao recebe e deixa uma heranca. com 0 suspiro.... Porto Alegre.. alem do som ambiente... alem dos creditos iniciais... que urn rna is tarde saberemos facao. plantas Plantas.. "cada e. 0 que revelam filme. titulo do filme. enquanto sua respiracao de Alex. a principio. por assim dize-lo.E-ISSN 1807-8583 intexto intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY UFRGS PPGCOM -l) o corpo seu melhor segredo amigo.... construcao cenas. definido principalmente que veremos durante todo 0 filme. Os letreiros seus pass os por entre as folhas caidas e dos atores e da diretora sao com os nomes apresentados como se estivessem no fundo do mar. que e apresentado empresta 0 nas primeiras cenas. num movimento 0 facao no solo e. ex6ticas. que liberam uma a algum tipo de substancia analogia..2 lnicio A sequencia a qual primeiro demos atencao e tambern 0 trecho inicial do filme. momento. Vando (Luciano N6bile). aos poucos. de Alex e Alvaro... Intexto. Segundo imagem possui outra que a precede mesmo tempo.. que Alex era urn/urn a intersex. do corpo intersex (ou de Alex) com anima is marinhos.. intercalados as duas familias. que perpassa exemplo de tartarugas. (2002) ou para a colocaciio em serie. A cidade comecava 0 seu e descobrir a saber.. Quando nao utilizado como cenario para cenas importantes para as analogias as quais nos referimos.... Vemos.. 2... dez. ap6s te-lo confiado que foi traida. logo em seguida......... ate que. discutida da analise das representacoes na metodologia de Casetti e di Chio os auto res.. e possivel amante... crava facao no chao..... nucleo de Os creditos sao apresentados tratar-se com imagens turvas de uma pessoa. e tambem urn ou presente. cravar 0 o profundo suspiro de Alex ao... com uma de suas hastes para 0 Neste primeiro chamamos atencao nexo entre as imagens apresentadas. nos sao apresentadas personagens principais da tram a. podem ser . n_25. 0 entre a floresta provoca urn nexo por articulaciio. Vemos entao na verdade. A camera acompanha urn angustiante XXY_ Percebemos quebrada.

espaco... mae... desde cedo na escola. de acordo com os medicos (a exemplo de Ramiro) e uma femea. amenidades enquanto a autora distinto.... 0 por diversos momentos de silencio. p. conversam e passeiam aqui como. como urn problema de formacao genetica que. . urn cigarro. S6 ouvimos quebrar das ondas no mar.. e bastante marinha.. vemos Alex sentada/o...... Ele. pronuncia as primeiras "E As palavras partir parece do binarismo nao ter ditas por Kraken evidenciam 0 entendimento das categorias de sexo a macho versus femea.. Porto Alegre... como aprendemos pela imperfeicao "feminine"."Seus pais sao gente fina?" . ao lado com a biologia uma anomalia. 2011. ........ Os dois discutem caminham por uma feira ao ar 0 livre. dez. como temas que definem 0 "nucleo principal" do filme: a angustia da personagem Toda a raiva de Alex em relacao ao seu corpo e a sua sexualidade. se dirige ao local de trabalho tartaruga fernea".. 0 seu corpo e entendido. mais uma vez... 0 diagn6stico 0 como no caso de Alex. status de mulher. 0 motivo parece ser daro quando de letras que. Os dialogos sao curtos e separados som ambiente e. a Alex 0 deve ser corrigido aquilo que "ela" genital". UFRGS.."Ah. Alex e Alvaro pela cidade.3 Aproxlmacao Nesta sequencia. asseguraria tradicional. sao meus pais".pergunta Alex enquanto folheia urn livro de uma das barracas.. mulher... portanto..."E 0 que tern? Sao legais?" ... ao abrir uma significativas palavras do filme: do marido.. . 241 .o de acordo que torna Alex urn "corpo estranho".. v_02. acendendo 0 A partir de entao. de Kraken em relacao a tartaruga esta em conformidade tambern com de Alex que. no que diz respeito a colocaciio em cena.... imediatamente bastante ap6s uma cena de muita tensao.. Logo em seguida..... observam 0 ap6s uma briga entre Kraken e 0 pai de Van do... sob essa 6tica... 234-250. ...E-ISSN 1807-8583 intexto intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY UFRGS PPGCOM -l) o corpo considerados. que atribuiria seria. sua biologo Kraken."Sim.......... Percebemos nos apresenta algo biologo cui dar das tartarugas... no qual a ambiguidade. Suli.. como advoga atraves da "cirurgia 0 discurso medico-patologizante. n_25. "verdadeiramente" 2.. da letra Y que.... acho que sim''.. representada urn c6digo genetico lemos na tela uma combinacao denota geneticamente dos dois xis. e expressa com urn golpe no chao.. Intexto..

pergunta Alex ao tirar os ..pergunta Alvaro referindo-se a Vando... neste caso os teen movies. que vemos durante relacionados com os Alem da forte presenca todo 0 filme.. Alex e os espectadores podem ouvir a musica... 242 .. . Os dois observam os produtos de uma das tendas.. E 0 que Alex e Alvaro fazem nesse momento. Alex danca e Alvaro sorri.... UFRGS. estao sempre no meu pe". com cenas que envolvem grandes 0 Em urn filme bastante conflitos."0 que?" 0 born de escutar musica na rua?" .. que nos diz uma sequencia como essa? de tons verdes e.. de urn escola. interpretar corpo.. 0 mesmo que voce".. diz Alex quando poe os Ao terminar a frase e posicionar os fones. esquecemos os dramas vividos por Alex. dizem respeito a utilizacao de referencias a determinados filmicos.... v_02. Porto Alegre..... Dois passeiam por uma feira..."Os meus sao uma desgraca. 234-250... De. Nesses instantes brigas na escola e ate dancam. ao mostrar jovem Alex menos acida e ironica.. em que colocam em questao a sua relacao com relacionamento Podemos familiar etc."Sabe qual e fones de Alvaro. azuis..... conversam sobre os relacionamentos num momenta de grande 0 com seus pais. sexualidade. Alvaro comeca a escutar musica com fones de ouvido enquanto segue Alex... principalmente. percebemos nesta sequencia uma serie de conteudos temas das conversas entre Alex e Alvaro... dez...n_25. como em outros momentos.. intimista observando andando ate entre em alto volume.. . num gesto bastante os fones e continua a dancar.. 2011.. com problemas que retrata-la como urn a/urn dos acontecem com a maioria .. nos quais jovens enfrentam problemas 0 caracteristicos periodo confuso... Intexto.. como outre/a qualquer..p. . ... neste momento... descontracao.. Afinal..."Ele provocou". que dizem respeito a urn "universo adolescente". como nos tipicos filmes teen. Alex devolve com urn semblante 0 feliz. de repente adolescentes nos tensoes e e apresentada uma sequencia que destoa de todo restante. como modo de provo car afeto no espectador... Alvaro continua os dois...... de acordo com generos a utilizacao Casetti e di Chio (2007).... de tais conteudos arquetipos que. drarnatico... A musica dura ainda urn tempo e os dois seguem que parece uma casa abandonada... seus trabalhos."Por que brigou com aquele menino?" .E-ISSN 1807-8583 intexto UFRGS PPGCOM -l) o corpo intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY .."Que parece que todos escutam fones..

Alex decide parar de tomar hormonios... Alvaro faz os questionamentos.. Alex 0 convida para sentar: "Venha". Enquanto lacrimejam. responde deitada/o... em seguida.. Alex inicia 0 dialogo: (Alex "Pensou no que te disse?".E-ISSN 1807-8583 intexto intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY UFRGS PPGCOM -l) o corpo adolescentes.. diz em referencia perguntara dispara: se Alvaro se deitaria feita assim que se conheceram com ela)........ entao.4 Desejo quase urn videoclipe e atrai espectador Passada a sequencia em que Alvaro e Alex se aproximam. quando.. Porto Alegre... vemos crescer cada vez rna is a tensao no filme.. "Eu Neste momenta ja ouvimos uma musica que parece e desliga urn radio Alvaro despindo-a/o.. ocorre no momenta em que Alex toma os fones de Alvaro e. v_02.. 0 romantismo Alex e Alvaro continuam os carinhos parece ser indesejado.. Quando e beijos. Alex e Alvaro estao deitados de 0 brucos.. ainda com urn semblante 0 e.... 2011.... 234-250. Alex levanta-se que esta proximo... dez. sejam eles/elas intersex ou nao.. 2.. Nesta cena dividir os sentimentos adolescentes. que em muitos momentos 0 encontram-se em conflito com os temas expostos na conversa dos dois.... 0 garoto casa.. 243 ... n_25. nesta sequencia.. seus olhos ate que ela/ele levanta e sai correndo em direcao a urn celeiro proximo a sua triste..... Intexto.. Os dois comecam a se tocar e Alex afirma: "Nao tenho nada"... pela duracao da musica. dando fim ao que ouviamos. torna-se de vez para a trama.... numa acao metalinguistica. Por que as pessoas te olham assim? Por que todos te olham assim? 0 que voce tern?".. A 0 irreverente. a expressao de Alex entristece. mostrando-se sequencia... na beira da praia.. tira as . p. num clima bastante dele/a que 0 tenta despir Alex. Alvaro e surpreendido pelo movimento vira de costas.. Ao mesmo tempo espectador pode ouvir a musica em alto e born som.. escutar musica na rua? Que parece que todos escutam em que 0 0 diz: "Sabe qual e 0 born de mesmo que voce". ou mesmo relembrar a aproximacao desajeitada espectador e convidado a como dos seus proprios dos dois. ao fazer mencao de se afastar.. enquanto garoto desenha a proposta no seu caderno. Alvaro acaba se irritando e agressivamente "Voce nao e normaL E diferente e sabe disso. Alvaro a/o segue e encontra-a/o encosta lentamente Alex puxa Alvaro e adoro". dar urn clima romantico para a cena. momentos acompanhando da interpelacao o apice aos espectadores... de Alex. Kraken da suposta necessidade saber que Alex da realizacao da cirurgia e Ramiro esta decidido a convencer 0 fato de a comunidade comecar a e intersex preocupa cada vez mais a familia.... beija.. erotizado...... UFRGS.. Alex danca de modo bastante bern diferente de antes e arrancando urn sorriso de Alvaro.

v. mas claramente como 0 corpo intersex perturba as binarias de sexo. 2002. au seja. mas tambem criam aquila que enunciam e defende que "0 genera e performativo porque e resultante de urn regime que regula as diferencas de genera. a cada dia poderiamos tracar de genera.25. Outras teoricas. nao tern muitas naquele instante. rapidamente. com as quais nao concordamos. e entendido sexualidade. n. do seu nome. A teoria da performatividade tenta entender como a repeticao das normas.02. 234-250. Veja a critica da autora a essas leituras em Butler (2002). Alex perturba toda categorizacao que ate 0 Ao penetrar binarias que necessita momenta de formas para se tornar aceitavel. Alvaro. e informado. se ve incerto. mesmo diante do que seria a evidencia "masculinidade". sexualidade e desejos ao mesmo tempo em que explicita a ficcao construida ao redor da sua coerencia linear. tern criticado a fato de a corpo estar muito ausente nessa teoria da performatividade. Nesta categorias sequencia. Criticos de Butler tern dito que a teoria da performatividade entende a genera de uma forma voluntarista. encarnam determinados ideais de masculinidade e feminilidade ligados com uma uniao heterassexual. Porto Alegre. os "justamente em diferentes porque desafiam 0 corpos intersex sao emblematicos de genero. queer. de Butler (2008). que as palavras nao apenas descrevem. a principio. Categoriza-la 0 para homens como mulheres. impossibilitado maior de uma possivel de afirmar. percebemos 0 penetra. com certeza. se esta diante de urn inclassificavel em tais categorias homem ou de uma mulher. que alguem possa ser considerado Alex. como feme a ou macho parece de genero> e suas em assim como definir precisamente fluida durante aproximam-najo 0 seu genero. os criterios homem ou mulher". acaba sofrendo serias consequencias. . a exemplo de Preciado (2008) e Halberstam (2008). sistema binario de sexo e utilizados para esferas sociais. usado tanto no seu corpo. Neste regime as generos se dividem e se hierarquizam de forma coercitiva" (Butler. Diante disso. no entanto. cria sujeitos que sao a resultado destas repeticoes. inforrnacoes sobre as caracteristicas fisicas da personagem. 2011. 64). depois parece sentir muito prazer. proxima/o outros momentos. em especial se levarmos em conta a obra Corpos que importam. p. UFRGS.E-ISSN 1807-8583 intexto intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY UFRGS PPGCOM -l) o corpo suas calcas e tambem as dele e. se assusta. quase sempre. dez. genero. Seu temperamento de uma performatividade e sarcastico masculina. muitas vezes feita de forma ritualizada. Quem ousa se comportar fora destas normas que. 244 Intexto. A performatividade agressivo de Alex e bastante roupas discretas filme. fazem-noja do que como pertencente ao "universo feminine". p. 0 espectador. bern como escrutinam. sua fragilidade explicita e gestos delicados. Alex e urn "corpo estranho". Em outra texto pretendemos refletir sabre essas criticas. 5 Butler destaca. p_269). Como afirma Machado (200S. alem da dualidade carrega a marca da ambiguidade impossivel. que ela possui urn penis e. como ousar definir sua como classificar os seus desejos? Alvaro. via Austin e outras autoresjas.

245 ... que expulsa os colegas e 0 e consciente do que fizera ao revelar nos vern segredo de Alex... Neste momenta toea Alex ao mesmo tempo chega Vando. "Vamos ver tiram 0 0 se livrar dos agressores... retruca 0 0 surpresa diz?! "misterio" de Alex. Irritada/o. 0 Alex acorda com 0 a amiga pintando as suas unhas... Nao 6 Ele importa? do conceito de poder deixa-nos claro que nada escapa a nos mais variados foucaultiana e possivel estar "fora" das relacoes de poder. Intexto....02.. que continua uma tensao a massagear a cabeca e nuca da/o amiga/o. Ate que Alex. Por que isso acontece 0 que permite com Ao vermos tal cena. filha do col ega de trabalho filme percebemos Vando parecem ser os seus unicos amigos... diz urn deles num misto de e alegria ao descobrir born". enquanto que tern aqui?".25.. 234-250.... Enquanto a amiga lava os seus cabelos.. mostrando livra-se das maos de Roberta e sai do banheiro.. p.... "Filha da puta!"..... que em seguida se dirige a Alex e pergunta: Deixa eu ver se fica duro.. Alex nao volta para a sua casa e vai dormir de Kraken.. Alex tenta se desvencilhar e atinge urn deles no rosto...... Relaciona-se a todo tip a de corpos cujas vidas nao sao consideradas 'vidas' e cuja materialidade e entendida como 'nao importante" (Pris e Meijer. Porto Alegre. repetem em tom sarcastico short de Alex... Durante 0 com a amiga que Roberta e Roberta. UFRGS. caida. dez.. seus olhos percorrem todo 0 corpo de Roberta.. tenta em "Deixe-me ver!". 2011. a/o segue e entra no box. diz enquanto em que parece querer chora... erotica.. que repetem 0 e tempo todo para que tenha calma. irritacao..... novamente. "Que nojo!".. Butler defende que a abjeto "nao se restringe de modo algum a sexo e a heteronormatividade. ao dar urn murro no rosto de Alex que..... Alex deixa a cas a da amiga e segue caminhando pela praia quando problemas.... exclama seu colega.... "Que "Fica duro? E muito amigo.. Roberta demonstra banheiro tomar banho e tirar esmalte. ele perpassa.. "E uma pica! Tern os dois! Tern tudo!"... Roberta age naturalmente ao ver Alex sem roupas. Alex a olha sem parar.. numa cena que a proximidade entre elas/eles.. Ao amanhecer. quero ver se funciona" . n. exclama urn dos VaG meninos... muito arrependido penetra-la. mas VaG grupo de rapazes vindos de barco.. e abordada por urn tenta correr..E-ISSN 1807-8583 intexto intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY UFRGS PPGCOM -l) o corpo 2. que nao machuca- la/o. Alex e Roberta lavam uma a outra/o.. 2002:161). v. Roberta e Alex conversam e sorriem durante vai ate a noite.5 Abje!.ao 6 Apos transar com Alvaro.. . divers as questoes Alex? 0 que faz com que rapazes a/o agridam 0 0 a mente: seu corpo gere tamanha curiosidade? que os de de tal forma? Seriam eles movidos 0 por urn sentimento 0 apenas repulsa? Ou seria desejo provocador de tamanha violencia? Qual valor atribuido ao seu corpo? Qual a sua importancia? A perspectiva ele. Cria-se.. Como que pressentindo agarrada por eles..

0 por modo de faze-lo. P-107) 7 0 conceito de heteronormatividade revela como a heterossexualidade compulsoria.... afinal. nao faz que "valha a pena". recebeu e outras nem tanto.... por urn lado. curiosidade a sequencia descrita. masculinizadas. Sua importancia? normais sintam-se Parece nao haver..... mas tam bern fascinio. criticas entusiastas pouco Atraiu grande publico.. 234-250.... fossem no direito extrair a sua verdade: "Fica duro? Funciona?" A heteronormatividade. Ha demasiada agua.. 2009... ver Colling (2011) e Miskolci (2009).. ao poder na hegemonico.... transexuais sao diariamente assassinados por corpos lesbicas conta da a eles/as atribuido Za. Conslderacoes finais XXY e. E isso parece ficar evidente em XXY_ 3. sao corpos que nao importam. XXY e urn filme com acertos e erros.. enquanto produtora de sujeitos anormais.. ininteligibilidade estranhos.. a partir do que nao e. nao da uma receita. queer. nao diz 0 que fazer.. nao prescreve urn tratamento.... permite que 0 que acontece com Alex aconteca com qualquer urn que ouse desafia-la: gays afeminados. muito mais forte no periodo da patologizacao das orientacocs sexuais nao-heterossexuais. a subvertem e problematizam... uma cenoura e ha ate urn jogo de analogias e equivalencia que exasperaria ao espectador mais dado a simetria. Mas conta uma hist6ria. por outro teve que optar filme deu visibilidade determinado a uma questao discutida. Aqueles que. como se o/a vendo... guiados a partir de urn "modo de vida" heterossexual.. sem duvida.. precisa enquanto de algo a que se para que. corp os que driblam essa regra... 0 que permite que aqueles que se consideram de violenta-lo/a. desejos e percebemos 0 praticas sexuais..E-ISSN 1807-8583 intexto UFRGS PPGCOM -l) o corpo intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY angulos.... Ha urn salame... genero. ganhou diversos 0 em festivais.. nao ilustra urn manual. n. 0 corpo intersex. Se pensarmos heteronorrnatividade? como sustentada a partir da coerencia entre sexo. todos os corpos e relacoes.....25. Para mais reflex5es sabre esse tema.. .... Intexto.. (CABRAL. Conta uma historic. nao oferece pie dade. Provoca. afirmar-se a partir possivel. . nao relata urn diagn6stico. Se. travestis. dez. que os escancaram seu carater ficcional e sao tam bern produzidos referenciar. nao diz 0 que se passa.02.. nao distribui panfletos de urn grupo de auto-ajuda. nao da urn exemplo. abjetos. como nos mostra repulsa... 2011.. ao mesmo tempo. demasiados animais marinhos.. e desejo. v 246 .... Como argumenta ativista intersex Mauro Cabral... sejam elas heterossexuais au nao. nao pede solidariedade. Canta uma historia. como 0 por esta norma que. Porto Alegre. tocando-c/a. premios urn filme polemico. demasiada melancolia argentina desta de que ninguem sabe de onde nem a troco de que vern e se instala.. nao apenas acima de Alex. criou urn modelo hegem6nico de vivencta da sexualidade que se alastrou e acabou par se introduzir na constituicao das identidades de todas as pessoas.. e gerado desta logica.. Conta uma historia.. por ele tambem sao afetados... p. UFRGS. de algum modo. resistem por ele sao produzidos.

a olhar para Alex como urn/a adolescente vivem nessa idade: a angustia que.. A pro posta personagem tal posicao de Lucia Puenzo.E-ISSN 1807-8583 intexto intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY UFRGS PPGCOM -l) o corpo o que assunto propomos com este trabalho e uma analise de como essa hist6ria e contada. 247 .. mais visto.. como argumenta tal cinema destaca-se sobre a producao complexificacao queer. espectador muitos Faz com que por momentos. Nisso 0 filme esta de acordo com a maioria das organizacoes que defendem vida. arquetipos.. passa por aquilo que e duvida em relacao ao seu corpo e outros/as sexualidade. mas dar lugar a escolha. tao queer. p. de se contar uma hist6ria atraves do cinema. seja suavizado. filme alcanca exito. necessariamente. generos.... e colocada em cena.... e urn filme de fazer" cinema.. tambem.. tomar contra a cirurgia normativa.Z]. escolha de angulos.. XXY. v_02.... UFRGS.... mais interessada na da diferenca dos corpos... como a subjetividade e urn personagem cativante. aos 15 anos.. fato de tornar corpo intersex urn corpo ...... escolhe nao fazer a cirurgia.. percebemos filme nao e assim tao diferente... da experiencia intersex... de temas marcantes comuns aos teenager convida 0 movies e estrategico.. faz com que sua forca de 0 Alex Seu temperamento vontade e coragem para enfrentar ainda que possa nao entender E nesse aspecto 0 0 a situacao em que se encontra espectador.. e da enfase a modos subjetivos em busca de uma perfeicao). certamente.. Fara XXYparte do New Queer Cinema? Se.. po is esta apegado as formas tradicionais muita inovacao. das subjetividades ambiguas e transgressivas". 2011.. Porto Alegre.... 0 problemas de frente. No entanto. seu corpo e suas decisoes. questiona Nao e estar. movimentacao se pensarmos no "modo que 0 Nepomuceno (2009_ p... sem para que fosse melhor aceito. sem duvida.. asseptico.. sua identidade. agressivo. da camera etc...... mas procuramos discutir como 0 nos contentamos simplesmente com a visibilidade intersex e tratado... 0 o uso de conteudos atraves drama.. pelo espectador do filme.... n_25... torca para que ela/ele fique bern.. Nao intersex... Alex escolhe parar de escolhe ficar e encarar todos os seus intersex sua os remedies.. poder de eleicao do sujeito em relacao ao seu corpo... "pela construcao de filmes com abordagens sexualidades menos sensacionalista e. dez. Concluimos.. Intexto... ao personificar 0 discurso medico-patologizante no vivido por Ramiro (vaidoso... visibilidade que urn dos grandes mas pontos positivos 0 do filme nao e apenas a 0 e discussao da intersexualidade. menos repudiado Mais uma estrategia 0 que.. 234-250... contribuiu que nao esta assim tao disposto a sair do seu conforto. acido.

Icaria editorial. 234-250.25. Em entrevista abjetos.. nao gozar de urn status ontologico?".. Butler. violentadajo... v. Cuerpos que importan.. Intexto.. reivindicam a toda e qualquer 0 lugar abjeto. Urn corpo abjeto que.... 0 dominio da ontologia e urn territ6rio regulamentado: 0 que se produz dentro dele.02. p.Judith.. sobre 0 the custa caro. 2002. 2003. As autoras questionam: Ao que "como algo pode 'ser' e. Merida. E estou fazendo isso precisamente para jogar no rosto daqueles que diriam: Mas voce nao estaria pressupondo .Mauro. Lucia Puenzo parece de Alex desejos 0 que Butler propoe do abjeto. Paid6s.dez. a Prins e Meijer (2002)... .. queer e Lucia Puenzo. Civilizacao Brasileira.. 55 a 81. de uma vez por todas.. subversivo.. quer distancia "normal"... neste sentido estranho" estar em e a politizacao e desejado. como uma posicao de resistencia erie e oprima determinados norma e estilos de vida... tudo bern! Talvez esteja produzindo 0 efeito de uma pressuposicao atraves de sua performance. 248 . e agredidajo.. p. _____ . Rafael M. p... e.. Mas esta subversao corpo queer que provoca precisa margem... nao opta pela do centro como referencia.. transgressor. CABRAL.. genero..E·ISSN 1807·8583 intexto UFRGS PPGCOM -l) o corpo intersex e a polltlzacaodo abjeto em XXY desejante e desejavel. Sobre los limites materiales y discursivos del "sexo".UFRGS.. eu realizo essa contradicao de prop6sito.. praticas.. Alex tern a Vando.. In: JIMENEZ.. n. ao mesmo tempo... subverte as nocoes de sexo.. que.. C6rdoba: Anarres. se 0 faz.. Problemas de genero: feminismo e subversao da identidade.. Interdicciones: escrituras de la intersexualidad en castellano...J Mesmo se eu disser que M corpos abjetos que nao gozam de uma determinada situacao onto16gica. Crfticamente subversiva. responde Butler: Eu atribuo ontologia exatamente aquilo que tern sido sistematicamente destituido do privilegio da ontologia.... Una _____ .. compulsoriamente... desejo e praticas sexuais.. 2002. (PRINS e MEIJER.. Rio de Janeiro.....? Nao! Minha fala nao precisa necessariamente pressupor .. Buenos Aires: transgresoras... 0 que e dele excluido para que 0 dominio se constitua como tal. 2011... corpos sintonia.. Butler da nao-ontologia e questionada em relacao aos corpos paradoxo de urn corpo que existe.161) Oeste modo. Sexualidades antologfa de estudios queer. Porto Alegre.. necessario desviantes. 0 "corpo e politico.. em XXY. Ou.. humilhadajo. Alex desejo e repulsa.. a em te-la/o como namoradoja (mica "cena de sexo" e exatamente a sequencia em que Alex. e urn efeito do poder [.. Referencias BUTLER.. Alvaro e Roberta. todos possivelmente ou amante... pela propria do considerado escolha. os estudos marginal.. Barcelona. Nao ha espaco para sexo normativo interessados no filme... 2008....

23-48. cinema. Durval e GUERRA-JUNIOR. 2008. Rogerio. Judith. n_25... [oao Pessoa: UFPB. 1996. 2008.. Del Lenquaje. dos estados FOUCAULT. A Teoria Queer e a Sociologia: Sociologias.. p. p. RICALDE. Richard.. starting from Lucia Puenzo's XXY. 2009. 1980..E-ISSN 1807-8583 intexto do abjeto em XXY UFRGS PPGCOM -l) o corpo intersex e a polltlzacao 2009_ CASETTI. 21. experiencias invisfveis de corpos des-feitos.. 16. Egales.. n. 2002.. Cadernos Pagu (24). 2002. Artigo publicado no II Serninario Nacional Genero e Praticas Culturais: Culturas. An Introduction. MACHADO. 1.. Baukje. 234-250. 3... 2007. n.... STRAYEER. New York: sexual re-orientation The intersex body and the politicization of the abject in XXV Abstract What can the intersex body tell us? How does this issue get more complex if we think about its representation in the media. Nadia. Junho de 2009... v.PagujUnicamp. LUZ.. Arq Bras Endocrinol Metab. Beatriz. janeiro de 2002. 28. n. New York: New York University Press. 2008 e teo ria queer. n. IN: COLLING.. HALBERSTAM. DAMIANI. Leituras e Representacoes. MISKOLCI. Federico. 2005. Sao Paulo. Richard McDougall. Mariacruz.. Queer Theory.. Deviant eyes. n. MEIJER. e di CHIO. PIN~.. Leandro.. Screen. 3 ed. Paula. NEPOMUCENO. 6-27. Madrid: Ed Espasa Calpe. Feminismo y teo ria cinernatografica. Intexto. EDUFBA. dez... Nucleo de Estudos de Genero . Gil... 1975. v_02. Margareth. femenina. Barcelona-Madrid. 20.. v... Testo Yonqui.. UFRGS.. Michel. In: Escritos. Herculine Barbin: Being the Recently Discovered Memoirs of a NineteenthCentury French Hermaphrodite. Revista Del Centro de Ciencias in film and videos.. 2007..Annamarie. 2011. Autentica.. Irene. Porto Alegre.. 249 . 2007. MULVEY.... we pose these and other questions related to deviant bodies and desires.. 51.. specially in cinema? In this article. Trad.. bodies: com Judith Butler... Visual pleasure and narrative 0 desafio de uma analitica da norrnalizacao. Leandro (org. 0 corpo estranho. Filme e subjetividade. Chris. 0 colorido cinema queer: onde 0 desejo subverte imagens... 0 sexo dos anjos: urn olhar sobre a anatomia e a producao do sexo (como se Fosse) natural. 2004. ago. Florian6polis. Milao: Ediciones Paid6s COLLING.. With a subversive and non-pathologizing discourse. XXY proposes a careful look at the subjectivities of ..... New York: Pantheon Books.. PRINS.. 10. A teoria queer e os intersex: Pagu. 6. Como analizar urn film. Puebla. Francesco Iberica.. Cadernos PRECIADO.Laura... p..... Porto Alegre.. Ensaios sobre sexualidade Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria. deviant Columbia University Press...) Stonewall 40 + 0 que no Brasil? Salvador. 2011. 7 a 19. Masculinidad JAGOSE... Politicas para urn Brasil alern do Stonewall. Belo Horizonte: LOURO. Como os corpos se tornam materia: entrevista Revista: Estudos Feministas... Guacira.. As novas deflnicoes e classiflcacoes intersexuais. p. Campinas. v.

cinema.. especial mente temas en el cine? En este estudio............ Palabras-clave Intersex.. n_25... relacionados subversivo propone un ojo vigilante sobre la subjetividad de tales experiencias........ is alert to the politicization of the abject bodies.. UFRGS... in resonance with the queer studies.. p.... se discuten con los cuerpos y deseos XXV y anti-patologico.. Sostenemos que la pelfcula... v_02....... Keywords Intersex. pelfcula dirigida Con un discurso por Lucia Puenzo.. abjecion... dez.. EI cuerpo intersex y la polltlzaclon del abyecto en XXV Resumen lQue nos puedes decir el cuerpo intersex? lComo el debate se amplfa se pensarmos en su representacion en los medios de comunicacion.... 2011.... partir estos y otros desviantes. Recebido em 15/09/2011 Aceito em 19/10/2011 .. cine.. queer. Intexto...... asf como los estudios queer... abjection. We argue that the film. es consciente de la politizacion de los cuerpos abvectos. queer... 234-250... a de XXY..E-ISSN 1807-8583 intexto intersex e a polltlzacao do abjeto em XXY UFRGS PPGCOM -l) o corpo these experiences...... 250 ... Porto Alegre.