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O

DECLARAÇÃO POSTERIOR.

MOMENTO

DA

AFERIÇÃO

DE

INELEGIBILIDADE.

EFEITOS

DA

Fernando Gustavo Knoerr*

A elegibilidade é o direito subjetivo público de o cidadão concorrer às eleições para cargos públicos. É assim um direito cívico, não pertencente a todos os nacionais, concedido pelo ordenamento jurídico aos que cumprem determinados pressupostos estabelecidos, sem os quais ela não surgirá na sua esfera jurídica.

Interessa ao presente caso a inelegibilidade cominada, que é uma sanção aplicada para que aquele que pleiteia o registro fique impossibilitado de obter a elegibilidade, ou se já a tendo obtido, venha a perdê-la.

Outrossim, há situações em que a inelegibilidade não é uma sanção apenas para a eleição em que o fato ilícito se deu. De fato, por vezes a inelegibilidade se espraia no tempo, atingindo futuras eleições, com impedimento à concessão do registro de candidatura, ainda que presentes todas as condições de elegibilidade.

*Procurador Federal, Juiz suplente do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná, Bacharel, Mestre e Doutor em Direito do Estado pela Universidade Federal do Paraná. Foi Professor da Universidade Federal do Paraná, Coordenador do Escritório de Prática Jurídica do Curso de Direito e Vice-Procurador-Geral da mesma Universidade, Professor Titular de Direito Eleitoral da Unicuritiba, Titular de Ciência Política da Unibrasil, Titular de Ciência Política da Unifoz. É Professor de Direito Eleitoral da Escola Superior da Advocacia do Conselho Federal da OAB, Professor de Direito Administrativo da Escola da Magistratura do Paraná e da Fundação Escola do Ministério Público do Paraná. É Vice-Presidente da Comissão Eleitoral da OAB, Membro do Instituto Brasileiro de Direito Administrativo, do Instituto Paranaense de Direito Administrativo e do Instituto dos Advogados do Paraná. É Patrono Acadêmico do Instituto Brasileiro de Direito Político e Professor Benemérito da UNIFOZ

Nesses casos, a inelegibilidade não é ausência de elegibilidade mas sim impedimento à sua obtenção, como uma sanção a determinados fatos, não necessariamente de natureza eleitoral.

A inelegibilidade cominada pode ser aplicável na eleição em que o fato ilícito se deu, implicando a perda ou impossibilidade da elegibilidade para essa eleição; ou pode ser para eleições futuras, a ocorrerem dentro do trato de tempo fixado para a sua duração.

Desta forma, a existência precária da capacidade de ser candidato cessa com a decisão que, negando provimento a recurso, restabelece posteriormente sua inelegibilidade que, de fato, nunca deixou de existir.

Nesse sentido:

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A Constituição Federal, em seu artigo 14 2 dispõe sobre o exercício do voto e lista alguns casos de inelegibilidade. Preferiu, no entanto, o constituinte, deixar a cargo do legislador a tarefa de completar o rol de situações de inelegibilidade, o que foi feito, em 1990, por meio da Lei Complementar nº 64.

Naquela lei, houve por bem o legislador incluir entre os diversos casos de inelegibilidade 3 , a rejeição de contas relativas ao exercício de cargos ou funções públicas, desde que em razão de irregularidade insanável e por decisão irrecorrível do órgão competente. É o que consta da alínea “g” do inciso I, do artigo 1º daquela Lei Complementar.

Importante considerar que o órgão competente ali referido vem a ser o órgão de controle externo, que é o Tribunal de Contas, seja da União, seja dos Estados.

Os Tribunais de Contas são órgãos que auxiliam o Poder Legislativo no controle externo da administração pública e que têm uma reconhecida posição de relevo no nosso sistema constitucional. Justamente em face da valorização constitucional das decisões desses Tribunais, embora não se tratando de órgãos do Poder Judiciário, aquela mesma Lei das Inelegibilidades conferiu a suas decisões definitivas (não mais sujeitas a recursos no âmbito da própria Corte de Contas) o efeito de causar inelegibilidade de gestores, se rejeitam contas pela constatação de falhas insanáveis.

É dizer: o trânsito em julgado da decisão do Tribunal de Contas competente basta para que a inelegibilidade seja aplicada àquele

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administrador que, no exercício de suas funções, praticou atos de improbidade administrativa que acabaram gerando desaprovação de contas.

Porém, alguns doutrinadores e parte da jurisprudência (que continua em constante adaptação) entendem que o órgão competente para julgamento final da contas do Executivo seria a Câmara Municipal, que decidiria definitivamente a questão. Pois bem.

Ainda que se analise o caso em tela pela ótica da Câmara Municipal como órgão competente para decisão final acerca da desaprovação de contas, não se altera a lógica do caso concreto se também. desaprovadas pela Câmara Municipal. Nesse sentido:

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a) Da aplicabilidade da norma

a.1) Do sistema decisório

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A decisão expressamente prevista pelo legislador é do órgão administrativo, no caso o Tribunal de Contas, que proferem efetivo julgamento terminativo e não apenas parecer prévio.

Essa forma de julgamento não é estabelecida pela legislação infraconstitucional, mas pela própria Constituição Federal. Os chamados pareceres prévios, que vieram a se tornar decisões de mérito, são posteriormente submetidos ao crivo do Poder Legislativo, em julgamento de caráter político-administrativo. Dessa decisão que se infere ou não a inelegibilidade.

No presente caso, deve-se considerar inelegibilidade confirmada tanto por decisão do Tribunal de Contas quanto por Decreto Legislativo da Câmara Municipal.

a.2) Da insanabilidade das contas

As

decisões

de

rejeição

das

contas devem

ser

fundamentadas pelo fato das mesmas conterem nota de improbidade e/ou vícios insanáveis. 5

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Segundo

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Evidenciam a insanabilidade, por exemplo, a fraude em licitações 6 , a dispensa indevida de licitações, o superfaturamento de preços ou outros atos de dano ao Erário decorrente de ato de gestão ilegítimo e antieconômico que podem - em tese - configurar improbidade administrativa.

Ressalte-se que o reembolso obrigatório, a devolução voluntária dos valores ou a quitação de multa administrativa não afastam a causa de inelegibilidade prevista na alínea “g”, do art. 1 o . 7 Isso decorre de uma “natureza moral” da norma,, no apropriado comento de Joel José Cândido.

O Poder Judiciário não pode rever as decisões técnicas do Tribunal de Contas, mas pode se ater à análise da legalidade dos aspectos formais, procedimentais do ato administrativo, não podendo se imiscuir em matéria interna corporis do Legislativo, como o de questionar a motivação da rejeição das contas, já que, como já dito, a natureza do julgamento das Contas pelo Legislativo é político-administrativa.

Assim, se a liminar concedida no trâmite do Registro de Candidatura foi concedida com base em premissa falsa ou posteriormente inacatada, mais robusta se torna a necessidade de suspensão da diplomação do candidato mencionado.

b) Da Súmula n.º 1 do TSE

Até muito pouco tempo, para o Judiciário Eleitoral bastava que o Administrador ajuizasse a competente ação desconstitutiva da decisão do Legislativo ou da corte de contas para que evitasse a inelegibilidade prevista por 05 anos, até o seu trânsito julgado. Tal entendimento, porém, veio sendo alterado pelas inúmeras discussões apresentadas pelos doutrinadores e aplicadores do direito, posto que permitiam ao administrador ímprobo a continuidade de suas ilegalidades.

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O advogado Valmor Giavarina, no seu conhecido Manual Eleitoral criticava abertamente tal situação:

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Das diversas críticas conhecidas, mais eloqüente é a de outro ex-Ministro do TSE, desta vez Torquato Jardim, no seu festejado “Direito Eleitoral Positivo”:

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Porém, mais recentemente, o Tribunal Superior Eleitoral vem entendendo que a ação proposta deve ser idônea, ou seja, deve possuir elementos plausíveis e robustos para a discussão do fato na justiça comum:

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Dessa forma pode-se concluir que a Súmula nº 01 foi reinterpretada para fortalecer as instituições, moralizando-se o processo eleitoral, através da cognição judicial, que verificará se merece o Administrador Público a concessão de liminar, permitindo sua participação no pleito, através da propositura de ações ou procedimentos que pelo menos tenham fundamento, causa petendi razoavelmente fundamentada, com a fumaça do bom direito ao lado do autor.

sucede no

As eleições configuram um procedimento que se

um marco final.

tempo e, portanto, tem um marco

inicial e

Pacificaram-se doutrina e jurisprudência no sentido de que o termo final das eleições coincide com a diplomação dos candidatos. 8

declaração de

inelegibilidade do candidato, por vícios insanáveis e atos de improbidade, é, nestes casos, tornada pública muito antes da eleição, tendo ficado suspensa pela decisão liminar precária concedida pelo Tribunal de Justiça e, posteriormente, cassada.

Deve-se

ressaltar

que

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Veja-se decisão acerca do tema, do Egrégio Tribunal

Superior Eleitoral:

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de ordem pública –

inelegibilidade - contra a qual não ocorre a preclusão. O fundamento do

presente pedido encontra-se pacificado nas decisões dos Tribunais, especialmente do TSE:

Ainda. Trata-se de matéria

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Nesta medida, a revogação posterior da liminar que permitiu o registro da candidatura, desde que antes da diplomação, tem efeito retroativo, pois declara situação pré-existente ao próprio ato do registro, qual seja, a inelegibilidade do pretenso candidato.