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AUTONOMIA E HIST~RIA

REGIÃO

DAS ILHAS

AUTÓNOMA

DA

MADEIRA

A AUTONOMIA NA HISTÓRIA DA MADEIRA

QUEST~ESE EQUÍVOCOS

O discm histórico é a ossatura fundamental que alicerça a autonomia

politic~dministrativa.Tudo isto porque a história local faz apelo 21 valorização do

passado hist6rico regional e permite refoqar a unidade defmida pelo espaço

geográfico. Uma região sem Histbria dificilmente poderá hr valer as suas legítimas asphç&s autonómicas. TSio pouco uma classe política, alheada ou desconhdora do passado histórico terá possibilidades de fazer passar e vingar o

seu discursopolítico.

A História faz parte da es&n~iado discurso político autonómico e 6 com ela

onde mais se espelhsi a identidade local. Conhecer e valorizar a História regional é

uma atitude necessária ao nascimento e fortaiecimento da autonomia. O apelo à História faz-se, não sii pela busca das condit@es ancestrais que conduziram A rnaterialização do processo autonómico, mas também pelos combates que o mesmo

propiciou. Para os actuais desafios do processo auton6mico o conhecimento das

diversas wnjuntms de combate, as oes e justificações que geram são imprescindíveis. Por outro lado a História deve ser entendida também como a

homenagem aos que nos precederam neste combate e onde se encontram motivos e

alento para novos embates.

A Hist6ria da Autonomia, tal como hoje a entendemos, é recente mas rica

em motivos e situações que fortalecem o actual combate político. Todavia, o sentimento de auto-governo parece ser and e nascido à chegada dos primeiros

povoadores. A barreiira geográfica, as dificuldades e fom tardia da resposta das

autoridades centrais contribuíram para aliceqar o sentimento auton6mico. E certo que ele ganhou a verdadeira dimensão política com a revolução liberal, mas será

injusto ignorar o combate dos que o precederam nas centhias anteriores. A partir de

então a leitura do discurso histórico da autonomia, expresso em jornais e panfletos, confunde-se muitas vezes com a questão financeira, do relacionamento entre a

metrópole e a região, da gestão e aplicaflo da riqueza.

Qumtão I: o Regionalismo

No contexto do debate sobre a questão da autonomia, de formas de auto- -governo ou de estruturas administrativas próximas do cidadão, tivemos a partir de finais do século XIX o debate sob o epígrafe de Regionalismo. O conceito

surgiu

em Franqa a partir de 1874, mas rapidamente se vulgarizou no debate

politico francês a partir de 1892, alargando-se depois a toda a Europa ('1. O regionalismo identifica uma realidade local, marcada mais pela História do que pela Geografia que se afma pela sua cultura, tradição e pela descentralização politico-administrativa. Daí certamente a adesão a este movimento de diversos

sectores da sociedade, Estes ideais irradiaram rapidamente por toda a Europa e ficarama marcar o debate político das diversas regiões continentais ou insulares. Em Espanha afmou-se em oposição ao nacionalismo. A título de exemplo referimos o debate na Catalunha em que se destacam os contributos de Miguel Dels Sants Olivier

(1864-1920)

Maiorca, aproveitou a conjuntura de 1898, marcada pelo desastre colonial, para afirmar o regionalismo insular em "La questib regional" (1899). O debate em Bar-

celona conduzir6 ao aparecimento de um movimento político, a Liga Regiona-

lista(]898- l 904).

nalista (4).

A partir de finais do século XIX regionalismo e a expressão chave do debate político sobre a descentralizaqãogovernamental. Este combate em torno da questão regional manteve-se vivo ate aos anos trinta do século XX,congregando no seu seio políticos e intelectuais. No campo político ficou marcado por uma insistente reclamaçgo contra. o centralismo e o desafio da descentralizaçãocomo a resposta às insistentes reclamaqões. Este combate teve por palco as Cortes, o Parlamento, mas acima de tudo foi nas páginas da imprensa local e, por vezes, nacional que ele ganhou maior folgo. Aquilo que mais sobressai é o carácter

repetitivo das intervenções e uma insistência obsessiva em chavões, como orfan-

dade, abandono, sangria financeira. Na verdade esta produção literária que corporiza o debate regionalista, dis- persa em jornais ou nas actas parlamentares, evidencia muitas vezes a falta de originalidade. E para quem tiver a oportunidade de acompanha-lo na Madeira e Açores e confrontá-lo com o que sucede noutras regiões como as Canárias, Maiorca ou Catalunha, rapidamente se apercebe desta realidade. Tudo isto porque

Lluis Durem I Ventosa (1870-1954) c). O primeiro, desde

e

Tarn&m na Madeira existiu um projecto de uma Liga Regio-

r:sj$&@:t.

(I) .Cf. Carlos Cordeiro, Nacionalismo, Regionalismo e autoritarísmo nos Açores durante a

I República, Lisboa, 1999, p.217e segs.

(2) . nomeadamente nos textos Lu questid Regioml(ld ediç8o em 1899.

(')

Regionalismo i Federalismo, Barcelona, 1993(1° ediçgo de 1905)

(4) Cf. Texto de Emanuel Janes neste volume.

o regionalismo foi uma corrente do debate político que varreu toda a Europa e que o dominou entre finais do século XIX e princípios da centúria seguinte. Na Madeira o movimento colheu inúmeros adeptos e foi h sua sombra que a ilha viveu em princípios do seculo um momento de grande fulgor cultural e de

combate políticoa Foi sob o

apresentou em Dezembro de 1922 aquele que é considerado o primeiro projecto de autonomia para a Madeira. Foi ainda sob a égide deste espirito que se apostou na divulgação e estudo da História, através da publicação do Elucidário Madeireme e outros mais estudos que ainda hoje continuam a merecer a atenqão dos interessados. Nestes anos vinte surgiu também a ideia de um partido regional. Mas cedo todos estes ideais perderam vigor face ao deslumbramento do golpe militar de 1926. A Madeira não se afastou do debate europeu em torno do regionalismo. Aliás, este movimento foi o élan necessário para juntar madeirenses de diversos quadrantes políticos na luta em favor dos interesses da sua ilha e de prornoqão da cultura e acima de tudo da História, porque afinal o regionalismo não foi palavra vã para os madeirenses. O fenomeno da autonomia da Madeira não pode ser reti- rado deste enquadramentoeuropeu. Falta-nos e saber qual a relaqão possivel entre

epígrafe "Regionalismo" que Manuel Pestana Reis

estas formas de anhlise e combate político.

Qudo IZ as abas - Províncias ou Colónias

O debate sobre a autonomia está ligado à definiçâio do sistema de relaqões estabelecido desde os inícios do povoamento entre a ilha e a metrópole. Aqui a ideia de colónia nunca é entendida de acordo com o sentido m~pologico,mas sim pelas questões de ordem política e financeira. Na definição da ideia do colonialismo a dominar as relaw com o continente está a espolia@o financeira, com o envio para Lisboa de toda a riqueza gerada, sem que se aplique na valorização local. Os poucos investimentos acontecem nos sectores capazes de gerar mais benefícios ao Estado e

não no bem estar das populações. Isto resultam no consequente prmsso de

subdesenvolvimentoe pobreza. A economia colonial foi motivo & estudo mais acentuado a partir de Adam Smith, mas foi com Marx que ganhou maior evidência. Aliás, para a escola marxista a valorização da teia de relações entre a metrópole e as colbnias foi e continua a ser

um dos motivos mais destamdos de interesse. Este tipo de relações tem expressão na

pilhagem da riqueza coloniaI em favor do desenvolvimento da metrópole. A isto junta-se a dependência mercantil e a política financeira com o estabelecimento da moeda fixa nas colónias e forte na metrópole. Qualquer das situações não se afasta do percurso económico madeirense nos últimos cinco séculos. A definição de uma economia colonial assenta na sangria quase total das despesas e num reduzido ou quase nulo investimento que não seja vocacionado para apoiar a extracção da

riqueza.

A ideia de colonialismo adcluiriu vários significados ao longo do processo histórico, ficando todavia a expressar uma relação de dependência e expIoração de uma determinada região ou colónia com o centrolmetr6pole. Ora isso n3o implica

a clássica visão de um espaqo já ocupado que é alvo da usurpaqão europeia. É neste quadro que devemos encarar a situação da Madeira. E um facto indesmentivel que a Madeira se enquadra no processo de

expansão colonial portuguesa, sendo o primeiro passo desta estratégia e como tal

irá manter-se por muito tempo. A sua separação em termos politicos e admi- nistrativos foi apenas resultado da revolução liberal. E deste modo aquilo que a atd então era colónia, adquire num lapso de tempo o titulo de ilha adjacentes, sem que se tenha alterado o relacionamentotípico. O debate político cola-se por vezes a História na busca das razões que fun- damentem tal relacionamento institucional. E neste caso mantém actualidade o relacionamento da ilha com o continente europeu, uma relação colonial que poder dos liberais viu acabar em completa ruptura com o passado. Na verdade, até então a Madeira merecia um tratamento idêntico ao demais espaço colonial. Aliás,

estava sob a mesma alçada do Conselho Ulrtrornarino (1643-1 833). Note-se que

nas páginas do Patriota Funcblense, o bastião da liberdade de opinião, recla- mava-se contra o tratamento de colónia feito pelos "mandões de Lisboa". Desde I832 a ilha deixou de ser uma colónia, passando a província administrativa, igual

às demais do continente. A reforma administrativa de Mouzinho da Silveira foi o corte radical com o passado pelo menos em termos jurídicos, o que não implica que no plano real esse tipo de relacionamento se tenha mantido até 1974. O estatuto de colónia não resulta do facto de um espaço estar habitado a chegada do europeu, pois se isso fosse condição Cabo Verde nunca teria mantido

esse estatuto, pois como quase todas as ilhas Atlânticas estava deserta h chegada

dos Portugueses, excepção apenas para as Canárias. A sua definição resulta fun- damentalmente do relacionamento que se estabelece entre a metrópole e a região. Ao nível político o estatuto colonial caracteriza-se por uma profunda distância em relação aos centros de poder. São os governadores e capitães generais que se comportam de forma altiva do interior da fortaleza do poder, As ordens despóti- cas, a subserviência dos ilhéus, que reclamam em Lisboa através dos seus pro- curadores e políticos à mesa da coroa e do orçamento umas magras migaihas da riqueza que remetem anualmente. E o sentimento de orfandade perante uma auto- ridade paternalista e despótica. O regionalismo como constatqão dos desequili- brios regionais e do esbanjamento dos seus recursos por um poder estranho e dis- tante, 6 revelador deste estatuto. Desta forma podemos afirmar que o despontar do movimento autonomista resulta desta constatação do colonialismo que define as relações institucionais. Ao nivel económico e financeiro esta relação revelava-se na entrega de toda

a riqueza. As culturas são impostas para servir os caprichos da metrópole e todo o lucro situa-se no sector da circulação fora da ilha. Sucedeu assim com a cana de

açúcar que se transformou na galinha dos ovos de ouro para a Coroa portuguesa entre finais do século XV e princípios do seguinte. Alihs, toda a riqueza resultante desta exploração económica, impostos incluídos, era orientada para fora do espaço que a criava. Tão pouco sucede um investimento na valorização do seu interesse. O pouco que retomava surge sob a forma de caridade da própria Coroa, sob a forma de oferta.

O Rei D. Manuel foi de todos o mais caridoso para com os madeirenses mas tambkm o que mais feriu das riquezas da ilha. Distribuiu benesses e obras de arte aos madeirenses. Mas a dívida da dádiva madeirense era maior e ao que parece ainda esíA por saldar (5). A situaçao da Madeira, desde o século XV, não se diferencia das demais possessões portuguesas no espaço atlântico. A ilha estabe- lecia vínculos de subordinação institucional idênticos aos de Angola, Cabo Verde ou Brasil, estando a partir de 1642 sob a alçada do conselho ultramarino. Esta situação perdurou até 1736, altura em que foi criada a Secretaria de Estado da Marinha e Ultramar. Em 1808 com a saída da coroa para o Brasil estabelecem-se algumas alterações na administraçgodajustipa, passando a Madeira a depender da

Casa da Suplicaqão do Brasil.

A ideia de colónia estava entranhada nas relações institucionais como na linguagem dos funcionários do reino que assiduamente visitavam a ilha em mis-

são, Em I8 15 o inspector geral de Agricultura, José Maria de Fonseca, refere a

ilha como colónia. Por outro lado a forma de intervenção do reino é de cariz colo- nial entregando as missões referentes ao arquipélago a agentes estranhos. Em 1810 foi criada a Junta de Melhoramentos da Agricultura das ilhas com o objec- tivo de estudar as soIuções para a crise. Estes no parecer de Paulo Dias de

(7 A tarefa de reconstituir o movimento das finanps da região não t &il.

As infomaç8es

estatistias s6 permitm seriaçiíes a partir do século XIX e mesmo nesta centúria os dados s8o muiias

vezes escassos. Para os skmlos anteriores os dados são avulsos e não o permitem. Faltam os livros dos contdms da Provedoria da Fazenda, os registos completos da alfândega No caso da despesa t de significativa importancia a existhcia dos oqamentos do Estado a partir de 1836. A quase total disponibilidade destes livros, pois falta-nos apenas encontrar os dos anos de 1839-40,1849-50, permite

urna leitura correcta da despesa da Estado a partir de 1836. Já no que se refere a receita para estas duas centúrias os dados são muito lacunares. O carácter avulso das estatlçticasoficiais revela o pouco cuidado na arrecadação nos impostos, pois parem que o desleixo em muitas ocasiaes era total. A ideia foi

por Ferreira Loh, mas tão pouco dgo de novo se fez nos anos seguintes e para

um investigador que se dedica ao estudo da História financeira e orçamental o panorama e identico. Nos últimos dois anos, o pouco tempo disponivel, foi utilizado para proceder a recolha incidindo-a nos séculos XXX e XX, momentos em que as exigencias da Estatística facilitam a nossa tarefa. Os dados agora disponibilizados são o primeiro resultado desta árdua tarefa e contemplam apenas uma ínfima parte dos anos em estudo. O quadro que se segue d revelador do actual estádio de desenvolvimento dos nossos trabalhos e, diga-se, tudo o que depois se afirma tem por base isto. Mais uma vez recorda-se que o texto que aqui se apresenta não é um trabalho acabado mas sim a primeira etapa de um projecto que esperamos a seu tempo concluir. A tentativa & reconstituir até a exaustão ser4 a cruz que acompanhará o nosso actual e próximo percurso na investigação histórica

testemunhada em 1871

Almeida (6) {{ são inteiramente alheios do conhecimento do local da ilha » pelo que nada terá resuItado da sua acção acabando extinta em 1821.

O século XIX é um marco na plena afirmação do debate político que para

muitos madeirenses foi alicerçado nos combates pela defesa do torr5o natal. A 2 de Julho de 1821 publicou-se no Funchal o primeiro jornal, o Patriota

Funchaletzse, que foi a principal tribuna de debate. E aqui que encontrámos as primeiras e mais evidentes expressões do estatuto colonial e do sentimento de orfandade política. Assim, em 17 de Novembro o director do nove1 jornal,

Nicolau Caetano Pitta constata que "ficiunos elevados a categoria de província no nome, mas que de facto somos tratados como colónia", para se concluir em 1 de Dezembro que "a sorte da infeliz Madeira he a de enteados". Esta rela~ãoé

melhor evidenciada em outra opini50 do ano seguinte: "A escravidão consiste em viver algum sujeito absolutamente a vontade de outrem; uma provincia, que deve

' sujeitar seus interesses aos da metrdpole, que a seu termo a não interessa, deixa de ser provincia, 6 de facto colónia e vive escrava." As mudanças políticas tão pouco solucionaram as ancestrais questões pelo que em 1847 o então governador José Silvestre Ribeiro ao debater-se com uma grave crise económica vê-se impotente para a solucionar, pois "he mister ponderar que este governo civil he um governo subalterno a quem falta aquela latitude de resoluqão que compete ao governo da nação." A crise económica de 1882 levou alguém a reclamar da atitude colonial do governo: "Quem sabe se o governo central ainda continuará a olhar para a Madeira como se fora o Congo ou qualquer

possessão africana

".

O combate político de finais do século XUI e princípios do seguinte avivou os

ideais rtutonórnicos e conduziu a uma mudança com a atribuição da autonomia adrninishtiva por carta de lei de 12 de Junho de 1901. Mas esta evolugão do quadro

político não fez esmorecer o debate político. A 1 de Novembro de 1921 escrevia-se no Dilaio de Notkim que "a nossa completa e absoluta autonomia devendo a bandeira ser a única ligação com a mãe pátria" e em 20 de Setembro de 1924

voltava-se a afirmar no mesmo diário que preciso que os madeirenses unidos pelo mesmo pensamento, façam ver de um modo irrecusável aos governos de

O povo da

Madeira é um povo livre, ( não é escravo, nem burro de carga". Por lei de 9 de Março de 1821 a Madeira deixou de estar dependente da

repartição das colónias, passando a ser considerada uma província do continente. Nicolau Caetano Pitta continuava a considerar que a situação real da ilha era de

nome, mas que de

uma colónia: « ficámos elevados à categoria de província no

facto somos tratados como colónia ». A verdadeira mudança ocorre a partir dos , anos trinta com a reforma de Mouzinho da Silveira, iniciada nos Açores e que se

Lisboa, que são mais alguma coisa de que matéria colectável. (

)

)

(6jRui Carita, Paulo Dias de Aimeida e a Descrição da Ilh da Madeira, Funchai, 1982,

pp.54-5s.

estendeu A Madeira em 1834. A partir desta data os governadores deixam de corresponder-se directamente com a correspondente repartição colonial para passarem a depender das diversas repartições governamentais. O chamado arquivo da Marinha e Ultramar é disso exemplo deixando de existir documen- tação madeirense a partir de 1833. O debate das questões da autonomia, manifestamente partidarizado, tem conduzido a alguns equivocos e conduzido a que muitas das questTies pertinentes do debate seja tabu. É, na verdade, a primeira vez que tal sucede, pois no período que decorre desde a Revolução Liberal (1820) até ao golpe militar de 28 de Maio de 1926, eram comuns entre os diversos sectores politicos da sociedade madei- rense. Hoje parece que «não é politicamente coir~cto»,falar de colonialismo, colónias, sangria ou espoliaçgo financeira. Será que o discurso da auton*

mia perdeu autonomia ?

geridos ao qual

A palavra colonialismo parece ser um dos tabus mais bem

se pretende apresentar apenas o significado antropológico restrito, ignorandese as

componentes económica e politica Sem pretende polemizar os entendidos na maté- ria apenas deixamos aqui alguns dados soltos, hto paciente leitura da documen- tação e da valorização das mensagens que a mesma tem para nos transmitir, Esta ideia da ilha como colónia está presente de igual forma no debate que ocorreu logo após o vinte e cinco de Abril. Assim o MAIA, grupo anterior ao 25 de Abril, chefiado por Carlos Lklis, José Maria da silva, entre outros, em comunicado publicado na imprensa a 5 de Janeiro afirma a pretensão de "liquida- ção imediata da situação de colónia(eshtuto de colónia) existente nas mlaqões entre Portugal continental e as ilhas da Madeira e Porto Santo", definido o colo- nialismo como a "exploração de uma comunidade de homens por outra comuni- dade". O RUMA, um outro movimento de esquerda defendia em comunicado de 22 de Outubro de 1974 que "as ilhas adjacentes não podiam ser excluídas do processo de descolonização.". ao mesmo tempo a UPM (União do Povo da Madeira), donde surgiu a actual UDP-Madeira, afirmava na convocatória para o Comício que realizou no Pavilhão Girnndesportivo do Funchal a 29 de Junho de 1974, que a Madeira '?em sido, desde sempre, uma colónia dos interesses capita- listas continentais e estrangeiros.". Os diversos grupos, que no período do 'Verão Quente" arvoraram a ban- deira da independência, apresentaram no seu discurso de reivindicação da inde- pendência a ideia de col6nia para o sistema de relações estabelecidas pelo Governo na Madeira. O RUMA (Movimento de Trabalhadores Rurais e Maríti- mos, um movimento esquerdista reclamava em comunicado de 22 de Outubro de 1974 que "as ilhas adjacentes não paiiam ser excluídas do prmesso de descoloni- zaçh". A 18 de Novembro, um grupo que se auto intitula "um grupo de madei- renses que não é dos caseiros nem dos senhorios", em manifesto reclama a des-

colonização e, a propósito da manifestação do dia novo colonialismo intelectual e dialéctico".

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do mesmo mês, refere "o

Para além desta exposição da realidade, e da forma com ela dominou o discurso politico autonomista até a década de setenta do seculo XX, poderá avançar-se com um confronto teorico e do evoluir do ocidente europeu a partir do século XV. Mas nada disso merece agora a nossa atenção. Com ou sem tabus, o tipo de relações entre a Madeira e a metrópole está evidenciado, através do debate político que provocou, que não era tão linear como uma primeira leitura o possa revelar.Na verdade, a Histbria, o sistema de relações que o seu devir provoca, não resulta daquilo que hoje seja possivel pensar-se ou querer-se induzir aos demais. Entre aquilo que na realidade queremos que tenha acontecido, o que realmente aconteceu existe por norma uma grande distância.

Quatão IIk as Finanças da Madeira

Durante largos anos a Madeira foi despojada de quase totalidade

dos seus re~ldimeatosenviando milhres de contos, e não recebendo o mais

bondoso e trabalhador foi

insignoficante melhoramento. Aquele povo

objecto da mais mrpe exploração.Assim, privado de escolas, sem estradas,

uma vida

miserável de trabalho e sacrificio. Sem orientaçiio, sem plano, sem a

menor provisão a economia da Madeira foi abandonada aos acasos da

sorte c

terra mais linda, nem clima mais benigno; tudo quanto dependia da natureza ali está na sua expressão mais sublime; r& o mal que ali existe 6

obra de homens. [Visconde da Ribeira Bruvcr, in O Liberol, 5 de Junho

de 1913].

sem águas de irrigação, sem a menor comodidade, tem caprassado

)

e não há solo mais produtivo nem produtos mais preciosos, nem

O debate político-institucional da autonomia ao longo do século XX está em relaflo directa com os problemas financeiros. As primeiras vozes na luta pela

autonomia politica insular partiram da wnstatação da realidade financeira pautada

pela sangria da riqueza arrecadada. O subdesenvolvimento regional, em contiaste

do debate

e fervor autonomista.A ideia de sangria financeira e patente no debate qpe teve lugar nas páginas dos jornais e repercutiu-se na voz dos deputados da Madeira à

AssembleiaNacional.

O problema financeiro pesou de forma clara no debate político sobre a autonomia. E, para a maioria dos intervenientes é evidente o contraste entre uma ilha que alimentava permanentemente os cofres de Lisboa e o abandono a que estava votada. Em plena crise dos anos quarenta do século XiX a Associaqão

Comercial do Funchal reclamava medidas para esta "ilha da Madeira, sem dúvida

a mais importante e rica das possessões portuguesas fora do continente." (') Esta

com as cada vez maiores receitas conduzidas à metrópole, está na origem

voz ecoa com frequência nos jornais e levou alguém a erguer o dedo acusatd-

rio: "Fostes a Madeira e retirastes de o dinheiro que havia em cofre." (8) Em

1883, Manuel Jost Vieira, era contumaz: "fazemos parte do reino de Portugal única e exclusivamente para quinhoar-nos nos encargos que se renovam ou baptizam com nomes diferentes, mas que sempre se acrescentam" enquanto são "exíguas verbas que anualmente nos concedem por esmola." c) E em 1887 dizia-

no Diúrio de Notícias que: "Os governos, e não nos referimos s6 ao actual, nb ligam a Madeira a consideraç30 que ela merece,não obstante ser uma das províncias portuguesas que mais contribui para as despesas do Estado." Entretanto Quirino de Jesus, aquele que foi a eminência parda de Salazar, considerava que o problema da autonomia era em primeiro lugar de "carácter financeiro e económico,antes de poder apresentar-se com força pelos fins superiores de ordem social e política," Também Manuel Pestana Reis no projezto de autonomia que apresentou em 1922 atribui espia1 atengão a questao fmanceira, estabelecendo que o Estado terá direito apenas a uma percentagem fica das receitas,pois "o produto do nosso trabalho, das nossas riquezas, deve ser aplicado em nosso proveito", não fazendo sentido que a Madeira esteja "a contribuir para as obras do porto de Leixões, para o sorvedoiro dos bairros sociaes e de todas as Revoluções que a irrequieta gente da Capital queira fazer e alimentar." (I0) E por fim o veredicto de que a ilha é capaz de suprir a sua despesa: A Madeira nada tem custado ao Tesouro da Metrópole, nem mesmo nas mais extraordinárias ocasiões de calamidades, como em 1803, ( Ella paga todosos seus empregados públicos; tem sustentado mais mpa do que é precisa para a sua defesa, e policia interna". (' ')

E, não ser8 por acaso que uma das questões mais usuais na voz dos

se

)

detwtores das autonomias insulares seja o dedo acusador aquilo que consideram uma inversão de marcha do processo. Afirma-se de forma despicienda que as despesas foram alimentadas pelas receitas do continente português, ignorando-se a receitaquilo que a região deu, dispõe e continuaráa gerar. Ao debate da actual conjuntura deverájuntar-se, sob pena de falsear a verdade do relacionamento financeiro da região com a metrópole, a perspectiva histhrica.

O passado hist6rico reafirma que ao longo dos iiltimos cinco séculos os madeirenses

deram todo o esforço de trabalho e riqueza para a valorização do espaqo nacional.

Isto demonstra que o arquipélago foi compulsivamente soliditrio. Uma visão histórica do deve e haver das contas e relacionamento financeiro entre a Madeira e o reino evidência que o passado foi pautado por uma forte participqão financeira da iha nas finançasdo Estado.

Foram os nossos avós que financiaram as exorbitâncias da Coroa, as viagens a

hdia e as elevadas despesas de manuten@o e defesa das praias africanas. A grande

(R) A Ordem. N.' 160, pp- 1-2. Cf. CALISTO, Luis, Achas na Autonomia, Funchal, 1995, p. 101. ("7 Quinto Ce~odenuriodo Descobrimento da Madeira, FunchaPal, 1922. (I1)Fumkaleme Liberal, n.' 9.

aventura das deswbertas dos séculos XV e XVI seria possível sem a existência de espaps, como a Madeira, geradores de elevados excedentes? E perante esta posição solidária da Madeira do passado legítimo seria de esperar por idêntica atitude da mãe-p4tria no presente para a recupera+ do subdesenvolvimento a que nos sujeitaram. Em certa medida poderemos afirmar que hoje, somos nósque recorremos ao velho continente a reivindicar a cobrança dos "empréstimos", mas no passado a coroa recorria as receitas madeirenses para colrnatar o incessante de$cif das finanças públicas. As finanças do reino foram demarcadas por um permanente dejcit pelo que a coroa teve necessidade de se socorrer a diversas meios para saldar a difmnça. Desde o século XTV que a forma mais usual de o solucionar era o recurso a pedidos e ernpdstimos. Era com estas formas de financiamento que a coroa cobria o deJcir e cobria as despesas bélicas, a boda dos príncipes. Ficou célebw o empréstimo de ses- senta milhões lançado em 1478 para as despesas da guerra com Castela. Destes, um milhão e duzentos mil reais foram lanpados sobre os madeirenses, isto k, 2% do valor (valor altamente significativo setivermos em conta a capitação media e o facto de a ocupação da iha ter-se iniciado a pouco mais de cinquenta anos), mas os madei- renses moaaram-se renitentes acr pagamento do imposto, argumentando a dificil

situação em termos do abastecimento de cereais e o facto de terem já feito um

empréstimo a coroa de 400 arrobaç. O desfecho final da questão saldou-se numa redução do referido empréstimopara metade. Assim os madeirenses manifestavam o repúdio face 5is exorbitantes despesas do reino e faziam valer os seus interesses e as franquias que corpofizaram o inicial processo de ocupagão. Este episódio revela o vigor demonstrado pelos madeirenses na defesa dos seus interesses tem e pode ser reafírmado no papel do senado da câmara do Funchal. Na verdade, a Madeira era desde 1433 um espaqo fora do controle da coroa, dependendo do Mestrado da Ordem de Cristo e tendo o Infante D. Henrique como senhor. O infante D. Henrique, como senhor da ilha recebia um tributo de 1.500.000 reais, isto e 40,54% do total dos réúitos da sua casa senhorial. João de Barros refere que o mesb.ado da Ordem de Cristo auferia da ilha anualmente mais de sessenta mil arrobas de aqúcar. Todavia, esta riqueza estava na mira da coroa pelo

que D. Manuel, que também foi senhor da ilha, deu a machadada final no processo de auto governo dos madeirenses ao proceder em 1497 a 'Lnacionalização"da

Madeira. A carta régia que faz a ilha realenga, revertendo toda a riqueza para a

coroa, é clara quanto ao peço económico nas finanças do reino: "he huma das principaes e proveitozas couzas que noz, e real coroa de nosso reynos temos para

ajudar, e soportamento de estado real, e encargos de nossos reynos".Esta ideia da ilha perdurou por muito tempo de modo que em 1836 ainda continuava a dmnar-se "que é uma das mais preciosas jóias da coma de Vossa Majestade". A partir de finais do século XV toda a riqueza gerada na ilha deixou de pertencer ao senhorio e passou para o usufruto da coma, indo a tempo de financiar as grandes viagens oceânicas e a despa excessiva da Casa Real. Também, a partir

daqui é evidente que a Madeira perdeu a capacidade reivindicativa perante a coroa.

O centralismo régio está patente

todos os regimentos e decretos régios. O arquipélago foi uma fonte importante de receita para travar o endividarnentodo reino e manter a opulência da casa senhoriale real. Nos séculos XV e XVI o principal sorvedouro de dinheiro dos novos espaqos rech descobertos e ocupados era a Casa Real, a carreira da índia e as praças marroquinas. Apenas entre 1445 e 1481 os gastos da coroa em dotes e casamentos suplantaram as 812.500 dobras, enquanto que nas guerras com Castela se

despenderarn 334.000 e na defesa das prqas marroquinas o valor atingiu as 378.000

dobras. Entretanto, no período de 1522 a 1551, as despesas com a perda das naus da carreira da Índia, por naufiagio ou corso, atingiram 352.150 dobras. Este elevado encargo poderia ser coberto com as receitas arrecadadas nas ilhas e novos espaços coloniais. E evidente que durante o século XV e primeiro quartel do seguinte a principal fonte de receita do mundo português estava no açúcar madeirense. As receitas advinham dos direitos lançados, como o quarto e o quinto, e do comércio do açricar apurado. No entanto os dados financeiros disponíveis não evidenciam de forma clara esta situação. Perderam-se os livros de contas, mas os poucos disponíveis não nos atraiçoam quanto ao volume de negócios em favor da coroa. Primeiro, o senhorio e depois orei oneraram o produto com diversas tributações que conduziram a que amealhassem elevadas quantias que usavam em beneficio próprio, no pagamento de tenças, esmolas, empréstimos e dívidas. No primeiro registo das receitas do reino e possessões, datado de 1506, a Madeira surgia com o valor mais elevado das comparticipações dos novos espaços insulares. Esta situação manteve-se até 1518 mas em 1588 era já evidente a valorização do mercado aqoriano. Até a década de trinta do século XVI os reditos fiscais resultantes da produção e comercio do qucar asseguravam parte importante das fontes de financiamento do reino e projectos expansionistas. Este rendimento em finais do século XV e principias da centiiria seguinte era superior a cem mil arrobas, atingindo em 1512 as 144.065 arrobas, o que corresponde a 45.380.475reais. Este qúcar, depois de

retirada a redizima, isto é, a décima parte que era propriedade do capitão do

na submiss30 e pronto acatamento pela vereação de

donatário, era utilizado pela coroa de formas diversas, como meio de pagamentos dos salários, esmolas aos conventos (Santa Maria de Guadalupe, Jesus de Aveiro, Conceição de Braga) e misericórdias (Funchal, Lisboa, Ponta Delgada), benesses a príncipes e infantes da Casa Real e despesa aduaneira da ilha, enquanto a parte sobmte era vendida, directamente em Flandres pelos feitores do rei, ou por mercadores, por vezes, a troco de pimenta. A sua aplicação na ilha era eventual, resumindo-se As despesas eventuais como a constni@o da e alfândega do Funchal, que receberam, respectivamente, 1.000 e 3.000 arrobas de aqucar. Neste ppo, mas com um carácter quase permanente, poder-se-&incluir o pagamento dos inúmeros pedidos de socorro e abastecimento das praqas marroquinas, o provimento

das armaalas da índia, por nom, em vinho. Sobre as assíduas despesas com o socorro k praças africanas podemos citar, a titulo de exemplo, o concedido entre

1508 e 1514 a Safm. Neste período gastaram-se mil arrobas de ayucar e 83.8 15

reais, enquanto em 1531 o provimento de vinhos as armadas da Índia orçou em

124.490reais.

Em 1529 com o Tratado de Saragoqa foi encontrada uma solução provisória que a curto prazo parecia agradar a ambas as partes. D. João I11 viu-se forçado a pagar 350.000 ducados para assegurar a posse das Molucas que afinal se encon- travam dentro da área de influência de Portugal, Mais uma vez é possível assina- lar uma ligavão à Madeira, pois terh sido, segundo alguns, o rnadeirense António de Abreu o primeiro explorador. Por outro lado os rnadeirenses contribuíram com avultada quantia de empréstimo para o pagamento do referido contrato. Manuel de Noronha ficou com o encargo de arrecadar a contribuição madeirense, João Rodrigues Casteihano é referenciado também como recebsdor do referido empréstimo, tendo desembolsado da sua fazenda 300.000 reais. A este juntaram- -se Fernão Teixeira com 150.000 reais e Gonçalo Fernandes com 200.000 reais.

O pagamento fez-se nos anos de 1530-3 1 h custa dos proventos resultantes dos

direitos da wroa sobre o qúcar. Os dados fiscais de 1531 permitem uma ideia da evolução da receita e despesa da ilha. Os réditos sobre as rendas do açúcar foram de 6.990.573 reais de que se gastaram 10% nos vencimentos do clero da capitania do Funchal e 7% no

pagamento do empréstimo que João Rodrigues Castelhano a Coroa para pagar o contrato das Molucas. Mais de cinquenta por cento das receitas iam directamente para o reino a enpossar os cofres da Fazenda Real. A pariir desta informação, ainda que avulsa, conclui-se que os madeirenses foram activos protagonistas da expansão lusiada dos séculos XV e XVi emprestando a própria vi& e reditos, arrecadados com a safra do qúcar, no financiamento deste projecto e das exorbi~ciase caprichos quotidianos da Casa Real. O primeiro monarca a definir as regras rudimentares do orçamento foi D. Manuel, pelo que o primeiro e mais rudimentar oymento que se conhece data de 1526. De acordo com os dados disponíveis as receitas fiscais orçaram em 166.347.611 reais, sendo 12.000.000 (= 7,2%) referentes apenas a Madeira, que conjuntamente com as demais possessk fora da Europa totalizavam 37.630.000 (= 23%)).A cidade de Lisboa, que apenas arrecadava 5% das receitas, absorvia 17% das despesas, o que implicava o financiamento externo com o recurso aos réditos arrecadados noutras provincias nomeadamente na Madeira, Açores e Costa da

Guine.

Evoluç2ío Receitas. 1506-1588 (em milhares de Reais)

A Madeira, na primeira metade do século XVII, enfrentou dificuldades económicas que se reflectiram nas fianpas públicas. Deste modo a fonte de receitas transferiu-se para as demais possessões e mesmo os Açores atingem valores mais elevados que a Madeira. A situação vinha evoluído neste sentido desde o ano de 1588. O quadro financeiro do ano de 1607 revela a precária situvão das finanças madeirenses conduzindo a que a despesa representasse 94% da receita, o que correspondeu ao valor mais elevado. Mesmo assim a despesa não suplanta 1,5% do total. Já em 1619 é evidente a recuperação económica da ilha

subindo o saldo para os cofres do reino a 5,9%.

Um dado abonador desta nova situação está no facto de Francisco Rodrigues Vitória ter contratado em 1602 a arrecadação da receita da ilha por 21.400$ reis, 1072 arrobas de açúcar e 2 arrobas de cera. No quadro das ilhas a

Madeira continuava a apresentar uma posição destacada mas os Açores assumem

a posição cimeira no quadro das ilhas. Por outro lado nas terras ultramarinas

afirmam-se em definitivo como a principal fonte de receita. Aqui, a

índia assume

uma posição cimeira. Assinala-se de novo que, em qualquer dos casos, a des- pesa 6 muito diminuta, porque tambtm a estrutura administrativa não era muito

pesada. Se atendermos apenas i participaçb madeirense na receita da coroa no

somos confrontados com uma forte intervenqão,

decurso dos séculos XVI e XW

tendo em conta a superfície, que se articula de forma directa com as condições económicas da ilha. Assim, o wúcm foi o principal gerador de um forte excedente de

riqueza que diminuiu de forma espectacular com a crise do século XVII.

Evoluçao das receitas nas Ilhas. 1607-1681 (em milhares de Reis)

O Madeira H Açores H C. Verde

RECEITA DA MADEiRA: percentagem em reloiflo ao total do reino

Perante este quadro somos forçados a afirmar que a partir do século XVI os

dados estatísticos revelam-nos que Portugal tinha a principal fonte de riqueza nas

ilhas e possessões ultramarinas. Apenas a conjuntura resultante da união dinástica na

década de oitenta conduziu a uma quebra acentuada da receita das colónias. Em

qualquer das circunstâncias os novos espaços gerados com os descobrimentos

revelam-se em todos os momentos dos séculos XVI e XVII como a mais valia

principal fonte de financiamento.

e

EvoluçBo percentual da receita do Reino e Possessóes

colonias

A Madeira, como centro gerador da riqueza do reino e a forma colonial da administração, não passou despercebida aos lwis e visitantes. No skculo XVIII a

promoqão do comércio do vinho veio a gerar de novo elevada riqueza e a ilha

parecia querer regressar aos velhos tempos da opulência açucareira. É dentro desta

mbiência que James Cook refere em 1768 que a coroa arrecadava na ilha 20.000

libras por ano, mas poderia dar o dobro se estivesse nas mãos de outro povo. Outro

súbdito inglês em 1827 apontava o destino desta receita: "o rei pagava todas as despesas das legações no ewgeiro [isto antes de 18201 com o excedente dos seus rendimentos da Madeira. Todos os anos era transferida para Londres com esse fim uma quantia de 50 a 80.000 Libras." (I2) O contraste entre esta crescente riqueza que

todos os anos enchia os cofres do reino e as condições cada vez mais precários da populqão madeirense é evidente. Paulo Dias de Almeida, enviado a ilha para

proceder ao estudo da defesa e rede viiria, foi confrontado com esta triste realidade e

não hesitou em exclamar: "Esta colónia, que já em quatro sécuios, e tanto avulta nos reais cofres (quem o diria ?)

".

(I3)

A revolução liberal condicionou a transformação das firianças públicas.

Aboliram-se os encargos senhoriais e em contrapartida criaram-se novos impostos.

De acordo com o texto constitucional de