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11

fMllf DURI<HflM

Tania Quintaneiro

Asdificuldadesprólicassópodemler definiliva' menteresolvidasatravésdapróticae da experiénciacotidianas.Nãoseróumcanlelhade socióloga,masasprópriasICciedadesque encanlrarãaa salu(ãa.

~~

pI.;'--'t.~1.~~1.'"

"cP~

';PIO o"~':1

~~o1.C~

~o"

1.0

o

Émil,

DUlkh,im

INTRODU

C

Émile

Durkheim

foi um dos pensadores

que mais contribuiu

para a

consolidação da Sociologia como ciência empírica e para sua instauraçJ.o no meio acadêmico, tornando-se o primeiro professor universitário dessa disciplina. Pesquisador metódico e criativo, deixou um considerável número de herdeiros intelectuais. O sociólogo francês viveu numa Europa contur-

bada por guerras e em vias de modernização, e sua

produção

reflete

a

tensão entre valores e instituições

emergentes cujo perfil ainda não se encontrava totalmente configurado.

As referências necessárias para situar seu pensamento são, por um

ma-

nancial de idéias que, sobre esses mesmos acontecimentos, vinha sendo formado por autores como Saint-Simon e Cornte. Entre os pressupostos constitutivos da atmosfem intelectual da qual se,inwregnaria a teoria socio- lógica durkheimiana, cabe salientar a crença de que a humanidade avança no sentido de seu gr.ldual aperfeiçoamento, governada por uma força

lado, a Revolução Fmncesa e a Revolução Industrial e, por outro,

que estavam

sendo corroídos

e formas

o

A

r

;

2

O

~'{f

(.,(

t

\+

inexorável:

a

lei do

progresso,

Esse princípio, herdado d:1 nJosol"i:! ilumi-

dada, apresenl:lIldo uma exist0ncia própria, independente das m:lIlik-s,

nista, foi compartilhado

ror

praticllnente

todos

os :Iutores

do

s0culo

I'),

t:I\'()es indi,'iduais

que

possa

ter",'

:lS "maneiras

áe

agir,

de

pensar

e

de

en1bora assumisse

c0'10taçÔes

pttrticulares

na

ohr:1

de

c:lda

um

ddes,

senlir exteriorl's ao indivíduo, dotadas de um poder de coel\'ão em virtude do

~

Aguç;n'a-se,

ent:l'o, a consci0ncia

dl: que

o repertÓrio

de id('ias

e ,':dores

,i:!

qu:"

se lhe impÔem",'

ou ainda

"maneiras

de f:lZer ou de pensar,

reconhe-

velha ordem socÍ;il, do qu:" ainda sobreviviam alguns elementos,

fora des-

 

cíveis pela IXlrticularidade de serem suscetíveis de exercer influ0ncia coerci-

truído pelo vellli:!val revolucion:írio

de

171'19e que

er:l, port:lnlo,

necess:Írio

tiva

sohre

as consci0ncias

particulares":1

Assim,

pois,

o

fato social

é algo

criar um nm'o sistema científico e moral que se harmonizasse com

a ordem

dotado

de

vida pr()pria, externo

aos

membros

da

sociedade

 

e

que

exerce

industrial emergente, O industrialismo,

com sua incontida força de transfor-

sobre

seus

cora\'<>es e mentes

uma autoridade

que

os leva

a agir,

a pensar

e

mação, impunh:l-se a lodos como a marcI decisi,'a da socini:!de

modnn:1.

a sentir

de

detenninadas

maneiras,

É por

isto

que

o

"reino

social"

está

Por ()lllro i:!do, difundÍ;i-se a concep\'ão de que a ,'ida cokti,'a n:IO er:1

sujeilo

a kis

específicas

e necessita

de um método

prÓprio

para ser conhe-

apenas un1:1 im:lgem :lInpliada da indi,'idual,

m:ls

um

ser

dislinto,

mais

cido,

diferl'ntemente

do que

acontece

psicol()gico"

 

que

pode

ser

compkxo,

c irredutível

:IS partes

que

o forman1.

Esse seria,

precisamenle,

o

el1tendido atr:n'Ó

da

introspel\'ão,

no "reino Da perspectiva

do

aUlor,

:1 sociedade

ohjelo

pn')prio

das ciC'ncias soci:1Ís, e seu estudo

demand:,,'a

a uliliza,':lo

do

n;lo é o resultado de um somatÓrio dos indivíduos

vivos que

a comp(!l'm

ou

m0todo positivo, apoiado na ohsnva\':'lo,

induç'lo e eXlxTiml'nt:l\':'lo, lal

de uma nK'ra justaposiçlo

de

suas

consci0ncias,

A\'Ôes

e

sentimentos

como ,'inham Elzendo os cienlistas naturais, Desse modo, as ciC'ncÍ;is d:l

s, .ciedade deveriam aspirar :1 f,>rmul:I\':'IOde prop' Isi':(!l's nom, )I<\~icls. iSlc'

0,

de

Ids

que

estahelecessem

rei:!\'(ll'S (,(>I1SI:tnlesentre

k-n<>ml'110S,

Durkheim

rl:celw

t:llnb0m

a

influl-ncia

d:l

nJosol'i:i

r:lcion:ilist:l

de

K:lnt, do

dar",inismo,

do

org:tnicismo

:ilem:lo

e

do

soci:dislll0

de

cítnlr:1.

rifas seu IX'l1s:lmento n:'IO:lpen:ls Elz eco :IS idl-ias rl'l'l'hid:ls. sen:'lo 'IUl' ;IS reful1de l1um nm'o sistema, cheg:lndo com freqíi0ncia a contl'star ll'ndC'l1ci:l.s

intelectuais domin:lIlIl'S de SeUIl'mpo,

l'mt:d sel1lido, Ii,i ao que Ch:ln1<HIde il1dh'idu:dismo utilitaris(;1 represl'ntado

11m dos a"'os

d:l críticl

durkheimi:lIla,

por

I krlwrt

Spencer,

par:l

qUl'm

a coopnaç:'lo

(,

o

resultad,

I espc 'l1t:il1l'cI

das

:I,:,'les que

os

indh'íduos

ex,'nlt:llll

vis:lIldo

:lIel1der

:I seus

illllTl'SSl'S

p:l riicu i:!res, Durkheim ,'i:1 na ciC'l1cia social uma express:'lo ,i:! consciC'llcÍ;i

Col11 :I

Ilist()ria, :I Econ'>1llia l' a PsicologÍ;i, emhora :lpont:lSSl' os limitl's ele (';I(i:! um:1 ,kssas disciplinas na expliclL::'IO dos f:ltos sociais,

racion:d das sociedades 111<ldern:ls,

m:ls

n:IO excluí:l

o

di:ílogo

partindares,

:10 serem

associados,

comhinados

e fundidos,

fazem

nascer

algo novo l' exterior :Iquelas consci0ncias

manifesta\'()es,

E ainda

o

origem

que

todo

ao

se> se

forme

nascimenlo

de

e :IS suas das não

pelo

agrupamento

que

partes,

fent)menos

provl-m

a associaç:lo

diret;lmente

"d;Í

d:l

naturez:1

dos

ekmentos

associados",'

ent:lo,

mais

do

que

uma soma,

(, uma

síl1tese

c, por

isso,

A sociedade, n:lo se encontr:l

em

c"i:!

um

desses

elementos,

assim

como

os

diferentes

aspectos

da

vida

não

se

acham

decompostos

nos

:Ítomos

contidos

na célula:

a vida

est:Í

no

todo

e n;'lo

nas

partes,

As :lImas

individuais

agregadas

geram

um

fent)meno

SI/i

,QC'I/C'ris,uma "vida psíquica de um novo g0nero", Os sentimentos que

caracteriz:lIll este ser tC'm uma for,:a e uma peculiarid:lde puram('nl,' individuais n:lo possuem, Ele é a sociedade,

que

aqueles

() lJ1ais poderoso

feiXt' de for(as

físicas l' morais

cujo

resultado

:I 1l:lIlIrl'I'.:1

nos Ofl'fl't"l'. Em nenhuma

p:lrlL' t'IH.'OIUra-Sl' 1:11 riqul'Z;J

de

m:IIl'I'i:lis

din'rsos

le\'ado

a

lal

grau

de

conCt'nlra(;~lo.

 

Ntlo

t' sllrpl'eendenh:,

pois.

qut' UI11:1vida

l11ais all:1 se

dt'sprcnda

deI:!

e

qut',

reagindo

~()hrl'

os

t'lt'-

I11l'nlo:"ido:"iquai:-o I'e:"illlra.deve-os (IS Iral,sf"(u'n,e.h

a lIm:! forma

superior

de

exist('nei:.

l'

~ fSPfClfICID~Df DOOBJfTOSOCIOlÓGICO

O grupo

possui,

portanto,

uma

mentalidade

que

não

é id0ntica

:1dos

indivíduos,

e os estados

de consci0ncia

coletiva

são

distinlos

dos

estados

6 8

A Sociologia

pode

S('l' definida,

segundo

f)urkheim,

como

a ciC'J1cia

"das institui()l's, da SU:l g0nese e do seu funcionamento", ou seja, de "toda

crenp, todo comport:lIl1ento instituído pela coletividade",'

vista que marca o início de sua produ\'ão, considera que, para tornar-se uma ciência autÔnoma, ess:l esfera do conhecimento precisava delimitar seu objeto prÓprio: os falos sociais, Tais fen6menos compreendem "toda ma- neira de agir fixa ou não, sllscetível de exercer sobre o indivíduo uma COl'I\';IOexterior; ou entào aind:l, que é ger;1I na extensão de uma sociedade

Na Else positi-

encontrado em todas as

consci0ncias

isso fatos sociais" mas suas encarnações individuais, Os fen6menos que constiluem a sociedade t0m sua origem na coletividade e não em cada um

dos seus participantes, É nela que se deve buscar as explicaçc')es para os

fatos sociais e não nas unidades

não s:1o por

de conscil'ncia

individual.

Assim, "um pensamento

ou um movimento

que

p:lrticulan:s

todos

repetem

que

a compõem,

porque

as consciências particulares, unindo-se, agindo c reagindo lIInas sobre as

oUlras,

fundindo,se,

dào

origem

a uma

realidade

nova

que

é

a consciência

I,

')

I1

da sociedade.

e de sentir, às quais os seus membros

que eles praticariam se fossem abandonados

víduo,

si

(

)

só,

Uma coletividade

poderia

tem as suas formas específicas

o

e

a si mesmos.

quer

aos

que

que

dogmas

Jamais

fosse

de pensar

se sujeitam, mas que diferem daquelas

o indi-

se

à

por

ter constituído

aos mitos

moral etc.'

que

idéia assemelhasse do dever

à idéia dos deuses,

e da disciplina

das religiões,

Os fatos sociais

podem

ser menos

consolidados,

mais tluidos,

são as

maneiras de agir. É o caso das correntes sociais, dos movimentos

coletivos,

das

correr1teS'de

opinião

"que

nos

impelem

com

intensidade

desigual,

segundo

as épocas

e os países,

ao casamento,

por

exemplo,

ao suicídio,

a

uma

natalidade

mais ou

menos

forte etc.".

Outros

fatos têm

uma

forma

cristalizada

na

sociedade,

constituem

suas

maneiras

de

sen

as

regras

jurídicas,

morais,

dogmas

religiosos

e sistemas

financeir~entido

das

vias de comunicação,

de

os modos de circulação de pessoas e dI: mercadorias,

vestir-se, dançar, negociar, rir, cantar, convl:rsar ete. que vão sl:ndo estabe-

a maneira como se constroem as casas, as vestimentas

um povo e suas inúmeras formas de expressão. Eles são, por exemplo,

de

comunicar-se,

(if

nas minhas relações comerciais, as práticas seguidas na profissão ete. funcionam independentemente do uso que delas faço.'.

As representações

coletivas

são

uma

das

expressões

do

fato

social.

Elas

compreendem

os

modos

"como

a sociedade

a

si

mesma

e

ao

mundo

que

a rodeia"

como,

por

exemplo,

a massa

de

indivíduos

que

a

compõem,

as coisas

de que

se utilizam

e

o

solo

que

ocupam,

represen-

tando-os

através

de suas

lendas,

mitos,

concepções

religiosas,

ideais

de

bondade

ou de beleza, crenças

morais

etc. Como

se produzem

as repre-

sentações coletivas? Através de

uma imensa l'oopera<J:àoque

se estende

nãu apenas

no

cspa~'o mas no

tempo também; para constituí-Ias, espíritos diversos associaram-sc, mistu.

raram c combinaram suas idéias c sentimentos;

longas

séries

de

gera~'Ües

anllllular;om nelas sua experiência

e sabedoria.

Uma

intelectualidade

muito

particular, infinitamente

mais

rica

e

mais

complexa

do

quc

a

do

individuo

cs(~í

c()l1cc'1Imda."

lecidos pelas sucessivas gerações. Apesar de seu caráter ser mais ou menos

 

Por serem

mais estáveis

do qUI: as representações

individuais,

são

a

cristalizado,

tanto

as maneiras

de ser quanto

de agir são igualmente

impera-

base

em que

se originam

os

conceitus,

traduzidos

I1<ISpalavras

do

voca-

tivas, coagem

os membros

das sociedades

a adotar

determinadas

condutas

bulário

de

uma

comunidade,

de um grupo

ou de

uma

nação.

e formas de sentir. Por enCOntrar-se fora dos indivíduos e possuir ascl:n- dência sobre eles, consistem em uma realidade objetiva, são fatos sociais.

Para

tentar

comprovar

Durkheim

o $!ráter

externo

que

desses

eles

modos

que

de

agir,

dI:

argumenta

zados por meio de um processo educativo. Desde muito pequenas, lembra, as crianças são constl~lngidas (ou I:ducadas) a seguir horários, a dl:senvolver

Elas

passam por uma socia/izaçâo metódica e "é uma ilusão pl:nsar qUI: I:du-

camos nossos filhos como queremos.

belecidas no meio social em que vivemos."9 Com o tempo, as crian~'as v;lo adquirindo os hábitos que Ihes são ensinados e deixando de sentir-Ihes a

Somos forçados a seguir regl~ts I:sta-

pensar

ou de sentir,

têm

tarde,

sl:r intefllali-

certos comportamentos e maneiras de ser

1:, mais

a trabalhar.

coação,

aprendem

comportamentos

e modos

de

sentir

dos

membros

dos

grupos

dos

quais

participam.

Por isso a educação

"cria no homem um ser

novo",

insere-o

em

uma

sociedade,

leva-o

a compartilhar

uma

isso,

certa

nasce

escala

daí um ser superior

de

valores,

sentimentos,

comportamentos.

ãquele

puramente

natural.

com outros de Mais do

que E se as maneiras

7 O

de

meio

agir e sentir

próprias

da aprendizagem

de uma

é porque

sociedade

são externas

precisam

ser

transmitidas

ao indivíduo.

por

o devoto, ao nascer. encontra prontas as crenças e as pr~í[kas da vilhl

rcligiosa; existindo' antes delc, é porque existem fora delc. O SiSlcma de

sinais de que 'Ue sirvo para exprimir pcnsanlentos, () sistcma

quc emprego para pagar as dívidas, os instrumentos dc crédito 'Iuc utilizo

de I1IO,,-,(l:Is

Outro

componente

fundamental

do conjunto

dos

fatos sociais

são os

valores de uma sociedade. Eles também possuem uma realidadl: objetiva, independl:nte do sentimento ou da importância qUI: alguém individual-

mente

Ihes d:"i; não

necessitam

expr<:ssar-se

por

meio

dI: uma

pessoa

em

particular

ou que

esta

esteja

de acordo

com

eles.

Como

demonstraçào

dI:

que

os fatos

sociais

são

coercitivos

e externos

aos

indivíduos,

e

de

que

exercem

sobre

todos

uma

autoridade

específica,

Durkheim

refl:re-sl: aos

obstáculos

que

deverá

enfrentar

quem

se aventura

a não

at<:nder

a uma

conven\'ão mundana,

usar o idioma

a resistir

a uma

ou a moeda

que

nacional.

impedi-Io,

tentarão

lei, a violar

convencê-lo

d:1 censura,

do riso, do opróbrio

uma

regra

moral,

:1 não

Ele tropeçarÚ

com os demais

membros

da sociedade

usarão de punições,

ou

restringir e de outras

sua

ação,

sanções,

incluindo

a violência,

adverlindo-o

de

que

estÚ diante

de

algo

que

não

depende

dde.

Quando

optamos

pda

não-submissão,

"as

forç:ls

morais

contra

as quais

nos insurgimos

re;lgl:m

contra

nÓs e é difícil,

I:m virtude

de

sua supl:rioridade,

que

não

sejamos

vencidos.

e

)

Estamos

mergulhados

de idéias e sentimentos

coletivos

que

não

podemos

modi-

numa atmosfera ficar à vontade.")!

Mas isso

não

significa

que

a única

alternativa

para

o

indivíduo seja prostrar-se

impotente

diante

das

regras

sociais

ou

viver

permanentemente

consciente

da pressão

dos

fatos sociais.

Apesar

da exis-

tência de dificuldades

impostas

por

um

poder

contrário

de

origem

social,

apresentam-se compott:unentos inovadores, e as instituições são passíveis de

mudança desde que "vários indivíduos

sua ação

tenham,

pelo

menos,

combinado

a

e que

desta

combinação

se tenha

desprendido

um produto

novo"

I

I

que vem a constituirum fato social.'.1 Assim, por exemplo,

uma proposta

pe.Clagógicaque esteja cm conflitÇ1com a conccpção de educação de seu tempo por conter "tendências dó futuro, aspiraçÔes de um novo ideal",

pode vencer os obstáculos e impor-se, tomando o lugar das idéias aceitas.

A ação transformadora é tanto mais difícil quanto maior o peso ou a centra-

lidade que a regra, a crença ou a prática social que se quer modificar possuam para a coesão social. Enquanto nas sociedades modernas, até mesmo os valores relativos à vida - o aborto, a clonagem humana, a pena de morte ou a cutanásia - podem ser postos em questão, em sociedades tl~ldicionais,os inovadores enfrentam maiores e :ISvezes insuperáveis resis- tências. Por isso é que até mesmo "os atos qualificados de crimes não são os mesmos em toda parte", como se pode ver no exemplo a seguir:

Segundo

deixou

pensamcnto, não foi lItil apenas ;1 hUlllanidadl' como também :1 sua p:ítria. pois servia para preparar lima moral c uma fé novas de que os arcnicnsl's

tinham necessidade então,

() direílo

de

ser

;ltl'nicnsc,

S()cratcs

em

criminoso

isto é,

c

sua

condcna<.;ào

de

vivido

não

St'U

:1Ic:

justa. Todavia

:->ClIcrimc,

a

indcJ1cndl'nda

porquc

as tradi\'{)cs nas quais tinham

aquela época

0;10 e:.aavam

maisem harmonia

com suas condil;.'Ôcsde cxis~

lênda.

na

Ora,

histc\ria.

S()cralCs

n:io

é

isolado;

rcpr()duz-

~c

periodicamente

() ct.<.;o de A lihcrdadc

dc

pcnsamcnto

 

dc

quc

gozamos

atualmcnlc

jamais

tcria

podido

scr

proclamada

sc

as

rcgras

quc

a proihiam

n~o

tivcsscm

sido

violadas

antes

de

serem

solenemente

repudiadas.

Naqudc

momento,

porém,

a viola~'fio constituía

crime,

pois

Iratava.se

de

ofensa

contra st'nlimentos

ainda

muito

vivos

na

gcncralkl:ldc

das

consciências.

L.)

A lihcrdade

filos(\-

fica leve

por prt'cursort's toda

espécie

de

heréricos que

o hra<.,"osecular

justamente

castigou

durante

todo

o curso

da

Idade

Média,

:lIé a v('spera

dos

tempos

contt'mporf'aneos.11

 

o MÉTODO DE ESTUDODA

SOCIOLOGIASEGUNDODURI(HEIM

No cstudo da vida social, uma das preocupações de Ourkheim cra

avaliar qual método permitiria fazê-Io de maneira científica, superando

as

ao adotado pelas ciências naturais, mas nem por isso ser o seu decalque, porque os fatos que a Sociologia examina pertencem ao reino social e têm

peculiaridades que os distinguem dos fenômenos da natureza. Tal método

deficiências

do senso

comum. Conclui que ele deveria assemclhar-se

deveria ser estritamente sociológico. Com base Qelc, os cientistas sociais

efeito é regularidades C0111vistas

:1descoberta de leis e mesmo de "regras de ação para o futuro", observando

investigariam possíveis rclaçÔes de causa e

fenÔmenos rigorosamente definidos.

Primciro,

h:í quc

cSludar

a sociedadc

soh

esta perspectiva,

ela surge como

no

seu

que

aspccto

exterior.

constituída

por

Considerada

uma

massa de

p0j1ula(:10. dc uma certa densidade, disposta de dctcrminada mancira num Icrrit'->rio, dispersa nos campos Oll conccnlrada nas cidadc.< cle: ocupa um tt'rrit6rio mais Otl menos extenso, situado de determinada maneira em rela~;flo aos mares e aos territÓrios dos povos vizinhos, mais ou menos atravessado

por cursos de :ígua e por diferl'nlcs vias de comunica~'fI() que estahclecem conlato, mais Otl menos íntimo, cOlre os hahilantes. Este tcrrilÔrio. as suas

dimens()cs, a sua confjgura~;flo c a c()mposi~'à() da p()pula~'fi() que se movi- menta na sua superHcie sào naluralmcnle fatores importantes na vida sodal; é o seu suhstrato e, assim como no indivíduo a vida psíquka varia consoante a composi(,'tlo anatÔmica do cérehro que lhe cst:í na hase, assim os fent)- menos coletivos variam segundo a constituição do suhstrato sociaLI"

Ourkheim estabelece rcgras que os sociólogos dcvcm seguir na observa~'ão dos fatos sociais. 11,A primcira delas c a mais fundamental é consider;I-los como coisas. Daí seguem-sc alguns corolários: afastar siste- maticamente as preno~"()cs;dcfinir previamcnte os fenÔmenos tratados a partir dos caracteres exteriores quc Ihes são comuns; e considerá-Ios, indepcndentemente de suas manifestaçÔcs individuais, da mancira mais objetiva possível. Ele coloca em qucstão a conduta do investigador quc, mcsmo cncontrando-se diante de uma realidade externa desconhecida, parece mover-se como se estivessc "entre coisas imediatamente transpa- rentes ao cspírito, tão grande é a facilidade com que o vemos resolver questÔes obscuras" Y Com isso, o estudioso não faz mais do quc cxpressar suas prenoçÔes, as quais acabam tornando-se como um véu interposto entre as coisas e elc próprio. As proposições do autor, cxpostas cm scu livro As regras do II/étodo sociológico acarretaram acaloradas discussões na época, obrigando-o a escrcvcr um longo prefácio à segunda cdição tendo em vista esclarccer sua posição inicial e em quc reafirma:

A coisa

se op'-'e

" idéia.

L

)

É coisa

todo

ohielo

do conhecimcnto

que

a

inleligência

n~o penetra

de maneira

natural

L

)

tudo

o quc

o espírito

n~o

pode

por mcio da observaç~o e da experimenraç~o, passando progres.<ivamente dos ('araclcres mais exteriores e mais imedimamenlc ace.<.<íveis para os mcnos visívcis c profundos.'.

chegar

a compreender

sen~o

sob

a condiç~o

de .<air de si mesmo,

(I

A

coisa pode ser reconhecida

pelo sintoma de nào poder ser modificada por intermédio de um simples decreto da vontade. Nào que seja refratária a qualquer modificação. Mas não é suficiente exercer a vontade para produzir uma mudança, é preciso além disso um esforço mais ou menos laborioso, devido à resistência que nos opõe e que, outrossim, nem sempre pode ser vencida."

o

sociólogo deve, portanto, ter a atitude mental e comportar-se diante

dos fatos da mesma maneira que o faria qualquer cientista: considerar que se acha diante de objetos ignorados porque "as representações que podem ser formuladas no decorrer da vida, tendo sido efetuadas sem método nem

crítica, estão destituídas de valor científico e devem ser afastadas"

que deve assumir que desconhece

!!' Ele

completamente

o que são os fatos sociais, já

os homens não esperaram o advento da ciência sodal

sobre o direiro, a moral, a família, o Estado e a pf()pria sodedadej

para formular idéias

pois não

podi'"H passar sem elas em suaexistência.Ora, é sobretudo na Sociologia

que as prenoções, para retomar a express,;o de Uacon, est,;o em eSlado

de dominar

sociais

os espíritos

e de se substituir

através

dos

homens;

,'S coisas.

são

um

Com efeito,

produto

d"

as coisas

atividade

só se realizam

humana. Não parecem,

idéhls, in;ltas ou não, que trazemos cm nõsj não passam da aplic.:;u.;ào

dessas idéias às diversas circunstâncias

dos homens entre si. A organização da família, do contrato, da repressão, do Estado, da sociedade aparecem assim como um simples desenvolvi~

idéias que formulamos a respeito da sociedade, do Estado, da

mento das

justic;aete

pois, constituir outra coisa senão a realiza\'ão de

que acompanham

as relaçÔl's

Por tOlmseguime,tais fatos c outros análogos pareceu1n:~loter

realidade senão nas idéias e pelas id.:ias; e como estas parecem o germl'

A

dos fatos, ehls é que Se tornam, entào,

dificuldade

que

o

sociólogo

enfrenta

a matéria peculiar :1Sociologia !'

para

libertar-se

das

falsas

evidências,

fonnad:ls

fora do

campo

d:t ciência,

deve-se

a que

influi

sobre

ele seu sentimento,

sua

paixão

pelos

objetos

morais

que

examina.

Mas,

mesmo

que

tenha

preferências,

quando

investiga,

o sábio

 

se

desinteressa

pdas

conseqÜências

práticas.

Ele diz

o

que

L';verifica

o que são as coisas e fica nessa verificação. Não se pre;,ocupaem saber se as verdades que descubra são agradáveis ou desconcertantes, se um- vém ,'S rela\'ões que estabeleça fiquem como foram descobertas, ou se

valeria a pena que fossem não o de julgá-Ia."

outras.

Seu papel

é

o

de

exprimir

a realidade,

Por isso é que uma das bases da objetividade de uma ciência da

74 sociedade teria que ser, necessariamente, a disposição do cientista social a

colocar-se "num estado de espírito semelhante ao dos físicos, químicos e fisiologistas quando se aventuram numa região ainda inexplorada de seu domínio científico" assumindo, desse modo, sua ignorância, livrando-se de suas prenoçôes ou noções vulgares (já combatidas por Bacon) e adotando, enfim, a prática cartesiana da dúvida metódica. Essa atitude leva apenas à convicção de que

no estado

que

comunismo

enquanto

são

atual dos nossos

soberania,

o Inc:touo

Estado,

ele.

c

conhecimentos,

não SabCJlI0S<

'0111certeza

liberdade

cstatuiria

política,

a imcnJi\.'ào

democracia,

do

uso

destes

socialismo,

conceitos

o

nãu

cstivcssl"1ll

cientificamente

constituídos.

E todavia

os

lermos

quc

os exprimem

figuranl sem cessar nas discussões

e com

scguran~'a,

quando

d~

vagas,

(,.'omo se

dos

sociólogos.

São

a

empregados

hem

111isturas indistimas

coisas

l"(>rrcIUcmcnlc

conhecidas

de

cOfrcspondcsscln

c definidas,

impr~ssõcs

nào despertam

pr~conceitos

em nÔs St'n;to

e

de

paixÜcsol.\

A DUAlIDADf DOS fATOS MORAIS

As regras morais são fatos sociais e apresentam, conseqÜentemente, as

características já mencionadas.

Inegavelmente

coativas, elas, no entanto,

mostram uma outra face, ao se apresentaremcomo "coisasagradáveisde

que gostamos e que desejamos espontaneamente". Estamos ligados a elas "com todas as fÓrças de nossa alma". A sociedade é nossa protetora e "tudo o que aumenta sua vitalidade eleva a nossa", por isso apreciamos tudo o que ela preza. A coação deixa, então, de ser sentida graças ao respeito que os membros de uma sociedade experimentam pelos ideais coletivos. O prestígio de que estão investidas certas representaçÔes deve-se a que

somente uma sociedade

constituída

goza

da supremacia

1110ral e In;Hcrhd

indispensável para fazer

a

lei

para

os

indivíduos;

pois

a

personalidade;,

moral

que

esteja

acima

das

personalidades

particulares

é

que

forma

a

tOoletividade. Somente assiln ela tem a continuidade e Inesmo a pereni-

dade nel'essárias

para

manter

a regra

acima

das

relações

efêmeras

que

a

encarnam

diariamente !"

 

Em suma, as regras morais possuem uma autoridade que implica a noção de dever e, em segundo lugar, aparecem-nos como desejáveis, embora seu cumprimento se dê com um esforço que nos arrasta para fora de nós mesmos, e que por isso mesmo eleva-nos acima de nossa própria natureza, mesmo sob constrangimcnto. As "crenças e práticas sociais agem / ~

r

Jo

sohre nÓs a partir do exterior",

por

isso, sua

ascendência

I:unhém

é distinta

daquela de que desfrutam

nossos

hábitos,

os quais

se encontram

dentro

de

'ilÓs. O fato moral apresenta,

p0is,

a mesma

dualidade

violar;

do

mas

sagrado

é tamhém

que

é,

. num

sentido,

')0 ser proibido,

que

.não se alisa

o

ser

hom, amado, procurado".

Por

isso,

ao nH:Sl11o(cmpo que as inslituiçôcs

ebs

comandam

c n()s as qucremos;

se impÔen1 a n<')s,adc

elas nos

('oJ1

ar:lI1gel11,

c

'rimos

:t elas:

IHJSCIlt.:OIl-

tramos vantagem

em scu

funcionamento

e

no

pr6prio

c0l1str;mgirnl'1110.

 

(

)

T;lIvc7.

nfio

t'xistam

pr:íficas

('ok'(Í\'as

que

deixem

de

'

exercer

sohre

nÓs eSTa a<.;;io dupla, :1 qual. além do aparl'ncia !~

mais,

 

n:io

(. cOI1'radilc'H"jascn:io

l1a

Embora

a coação

seja

necessária

para

que

o ser humano

acrescente

à

sua

natureza

física, ultrapassando-a,

uma outra

e superior

natureza

_isto

é,

a soei:tI

-

ele tem

tamhém

o prazer

de

partilhar

interesses

com

outros

memhros

da sociedade,

de

levar

com

eles

uma

mesma

vida

moral.

Nessas

passagens,

Durkheim

faz lembrar

as consideraçÔes

feitas

por

Rousseau

no

COll/mlo

estado

.meial

de natureza.

sohre

as

Vemos

vantagens

que,

que

ao explicitar

o

ser

humano

obtém

ao

sair

do

sua

concepç:10

de sociedade,

fiéis,

antes

dispersos

 

e

isolados,

para

fazer

re.nascer

e

alentar

neles

as

crenças

comuns.

A sociedade

refaz-se

morah'Ílente,

reafirma

os

senti-

mentos

a coesão,

memhros.

e idéias que

constituem

sua

unidade

e personalidade.

Isso garante

vitalidade

e continuidade

 

do grupo,

e assegura

energia

a seus

A França

instituiu

"todo

um

ciclo

de

festas

 

para

manter

em

estado de juventude

 

perpétua"

os

princípios

nos

quais

se

inspirara

a

HevoluS;ão.!"

Mas

o

que

faz

com

que

os

homens

mantenham-se

em

sociedade,

ou

seja,

por

que

os

agrupamentos

humanos

não

costumam

dest;lzer-se

facilmente

 

e,

ao

contdrio,

desenvolvem

meclI1ismos

para

lutar

contr:1

ame:lç:ts

 

de

desintegra~':lo?

 

COESÃO, SOLlD~RIED~DE E OS DOIS TIPOS DE CONSCIÊNCI~

o

socicílogo

francês

mostra-nos

uma

realidade

que

tem

vida

prcípria,

(,

Conquanto

não

tenha

sido

o primeiro

a apresentar

explica~'ão

para

como

um ente

superior,

mais

perfeito

e que,

afinal,

antecede

e sucede

os

o prohlL'm:l, Durkhl'Ím elahorou o conceito de solidariedade

 

social,

pro-

indivíduos; independe

deles

e

possui

sobre

eles

uma

autoridade

que,

curou mostrar como se constitui e se torna respons:ível

pela

coesão

entre

embora constrangendo-os,

eles

amam.

Enfim,

é

ela

que

Ihes

concede

os mL'mhros

dos

grupos,

e

de

que

maneira

varia

segundo

o

modelo

de

 

organiz:t~':-Io social. Para tanlo,

levou

em

conta

a existência

de

maior

ou

humanidade e "não poderíamos pretender sair da sociedade sem querermos deixar de ser homens".!"

Contudo,

os

ideais

que

congregam

os

membros

dos

grupos

sociais

mL'nor divisÜo do trabalho. Segundo o autor, possuímos

"Um:1 to comum

duas

o nosso

grupo

e,

por

conseguinte,

consciências:

não

repre-

devem

ser

periodicamente

revi ficados

a

fim

de

que

não

se

dehilitem.

senta

com a ncís mesmos,

todo mas a sociedade

agindo

e vivendo

em ncís. A outra,

ao

Isso

acontece

nas

ocasiÔes

que

aproximam

as

pessoas,

tornando

mais

contr:írio, s(> nos represL'nta

no que

temos

de pessoal

e distinto,

nisso

é que

freqÜentes

e intensas

as relaçÔcs

entre

elas,

como

ocorre

durante

movi-

faz de ncís um

indivíduo."2')

Em outras

p:rlavras,

existem

em

ncís dois

seres:

mentos coletivos,

por

meio

do

reforço

exu bera nte

da vida

socia

I, e

ta I

um, individual,

"constituído

de

todos

os estados

mentais

que

não

se rela-

J"l'l'Ol1stiIUi\';iomoral 11;10pode ser ohtida sel1~lo por meio de rcuniÚes, de

:Issl'mhléias, de cOl1grcgaf.r'Ôcsondc os indivíduos,

daí as

CI:rimÚnh,s que, por seu ohjeto, pelos resultados qu", produzem, pelos proccdimcnlos que empregam, n;i() diferem em naIUrC7.:1das ccrimt>nias

uns dos

estreir:lI)ll't1ICpr<'Jximo

comuns,

outros,

reafirmam cm comum

seus

sentimentos

;

propriam",ntc rdigiosas. Qual é a dif",rença ",ssencia' entre uma assem- hléia de cristãos celdmll1do as datas principais da vida de Cristo, ou de

judeus celehrando a saída do Egito ou a promulgação do dedlogo, e uma

reunião

de cidadãos

comemomndo

a instituição

de uma

nova

conSlituicão

moral

ou

algum

grand", acontecim",nto

da vida nacional?"

 

Ourkheim

refere-se

a essa necessidade

de revigorar os ideais cole-

7 6

tivos como a razão de muitos dos ritos religiosos que voltam a reunir os

cionam

senão

conosco

mesmo

e com

os

acontecimentos

 

de

nossa

vida

pessoal",

e outro

que

revela

em

nós

a mais alta realidade,

"um

sistema

de

idéias,

sentimenlos

e de hábitos

que

exprimem

em

ncís (

J

o grupo

ou

os

grupos

diferentes

de que

fazemos

parte;

tais são

as crenças

religiosas,

as

cren~:as

L' as

pr:íticas

morais,

as

tradiçÔes

nacionais

ou

as

opiniC>es colet ivas de

na medida

em

que

o

toda

espécie.

indivíduo

profissionais, o SL'r social. ".) a

supera-se

Seu conjunto

participa

forma

social,

ela vida

E,

si

mesmo,

O

ohjetivo

da

instrução

pública,

por

exemplo,

 

é

constituir

a

consciência

comum,

formar

cidadãos

para

a sociedade

e

não

operários

para

as fábricas

ou contabilistas

para

o comércio,

"o ensino

deve

portanto

ser essencialmente

moralizador;

libertar

os espíritos

das

visÔes

egoístas

e

dos

interesses

materiais;

substituir

a piedade

religiosa

por

uma

espécie

de

piedade

social".'"

 

(I

A

coisa pode ser reconhecida

 

pelo

sintoma

de não

poder

ser modificada

por

intermédio

de um simples

decreto da vontade. Não que seja refratária a qualquer modificação. Mas

não é suficiente exercer a vontade par.! produzir uma mudança, é preciso além disso um esforço mais ou menos laborioso, devido " resistência que nos opõe e que, outrossim, nem sempre pode ser vencida."

o

sociólogo deve, portanto, ter a atitude mental e compol1ar-se diante

dos fatos da mesma maneira que o faria qualquer cientista: considerar que se acha diante de objetos ignorados porque "as representações que podem ser formuladas no decorrer da vida, tendo sido efetua das sem método nem

crítica, estão destituídas de valor científico e devem ser afastadas"

completamente o que são os fatos sociais, já

!!' Ele

deve assumir que desconhece que

os

homens

n~io csperaranl

() atlvelUo

da ciência

social para formular

idéias

sobre o direito,

a moral,

a família,

o Estado c a própria

so\:iedadc; pois n:h,

podi:1I1I

passar

sem

elas

em

sua

existência.

Ora,

é

sohretudo

na

Sociologia

que

as

prenoções,

para

retomar

a expressão

de

(jacon,

estão

em

eSlado

de dominar os espíritos

e de se substitu ir ~IScoisas.

Com

efeito,

as coisas

soci:lis

se

realizam

através

 

dos

homens;

são

um

produto

da

atividade

humana.

Não

parecem,

pois,

constituir

outra

coisa

senão

a

realiza~'ão

de

idéias,

inatas

uu

não,

que

trazemos

em

nós;

não

passanl

da

aplic.:;u.;fto

dessas idéias às diversas

dr{"ul1stâncias que

;lcomp;lnham

 

as rcla\"Üt'S

dos homens

entre

si.

A organização

da

família,

do

contraio,

da

rep",:ss;I(.,

do

Estado,

da sociedade

aparccem

assim contu

um

simples

desenvolvi-

mento

das

idéias

que

formulamos

a

respeitu

da

sociedade,

do

Estado,

da

justi~'a

ctl'.

Por (."onseguintc, tais fatos c outros

an~logos

parcct:m

não ter

rcalidade

dos fatos, elas é que se tornam,

senão

nas idéias e pehls idéias; c l'onl0

então,

a matéria

l'stas parecem

o gt:nne

peculiar

:1 Sodologia.11

A dificuldade que o sociólogo enfrenta para libertar-se das falsas evidências, formadas fora do campo da ciência, deve-se a que influi sobre ele seu sentimento, sua paixão pelos objetos morais que examina. Mas, mesmo que tenha preferências, quando investiga, o sábio

se desinteressa pelas cunseqÜências

práticas.

 

Ele diz

o que

é; \"l:rilka

O que

são

as coisas

e fica nessa

verifica~'ão.

Não se preocupa

uu

em saher

se

as verdades

que

uescubra

são

agradáveis

desconcertantes,

se con-

7 4

vém :" rehl~'ões que eSlahele\'a

valeria a pena que fossem não o de julgá-Ia."

outras.

fiquem

como

é

Seu papel

foram

de

descohertas,

exprimir

ou

se

o

a realidade,

Por isso é que uma das bases da objetividade

de uma ciência da

sociedade

teria que ser, necessariamente,

a disposição do cientista social ;1

colocar-se "num estado de espírito semelhante ao dos físicos, químicos e fisiologistas quando se aventuram numa região ainda inexplorada de seu domínio científico" assumindo, desse modo, sua ignorância, livrando-se de suas prenoçàes ou noções vulgares (já combatidas por Bacon) e adotando, enfim, a prática cartesiana da dúvida metódica. Essa atitude leva apenas à convicção de que

no e~tado atual dos nossos conhecimentos, não saben10s com certeza o

que são Estado, soberania, liberdade política, democracia, socialismo, comunismo etc. c () método estatuiria a interdi~'ão do uso destesconl'citos enquanto não estivessl'm dcntificllucnte constituídos. E todavia os termos

que os exprimem figllmmsem cessar nas discussões dos sociólogos. São empregadoscorrentementee com scguran\'a,como se correspondesscma

coisas hem conhecidas c definidas, quando nflo despertam em nÚs senão misturas indistintas de impressões vagas, de prcl'onceitos e de paixÜcs.1.\

A DUALlDADf

DOS fATOS MORAIS

 

As regt~ts morais

são fatos sociais

e apresentam,

conseqÜentemente,

as

características

já mencionadas.

Inegavelmente

coativas,

elas,

no

ent;mto,

mostram

uma

outra

face,

ao se apresentarem

como

"coisas

agradáveis

de

que

gostamos

e que

desejamos

espontaneamente".

Estamos

ligados

a elas

"com

todas

as

forças

de

nossa

alma".

A sociedade

é nossa

protetora

e

"tudo

o

que

aumenta

sua

vitalidade

eleva

a nossa",

por

isso

apreciamos

tudo

o

que

ela

preza.

A coação

deixa,

então,

de

ser

sentida

graças

ao

respeito

que

os

membros

de

uma

sociedade

experimentam

pelos

ideais

coletivos.

O prestígio

de que

estão

investidas

certas

representaçÔes

deve-se

a que

sOluente um~1socied~lde constituída goza da ~upreluada

1110ral c material

inuispensável

para

fazer

a

lei

para

os

indivíduos;

pois

a

personalidade

 

moral

que

esteja

acima

das

person:llidades

particulares

é

que

forma

a

l'oletividade.

Somente

assim

ela

tem

a

continuidade

 

e

mesmu

a

pereni-

dade

nel'ess"rias

para

manter