Você está na página 1de 40

FUNÇÃO PRAGMÁTICA DA JUSTIÇA NA HERMENÊUTICA JURÍDICA: LÓGICA DO OU NO DIREITO?

1 Tercio Sampaio Ferraz Junior* Juliano Souza de Albuquerque Maranhão** 1. INTRODUÇÃO: INTERPRETAÇÃO JURÍDICA, JUSTIÇA, RAZÃO E LÓGICA Neste trabalho, procura-se examinar a função do valor justiça na interpretação jurídica. A busca de critérios para a identificação do justo e injusto constitui tema central da atividade da interpretação jurídica e a transforma em tarefa bem mais árdua do que a mera identificação do sentido do texto normativo por meio das regras de uso lingüísticas. Não se trata somente de revelar ou parafrasear o sentido da formulação da norma, mas de encontrar ou reconstruir esse sentido de forma a solucionar situações de conflito com justiça. Essa peculiaridade coloca um sério desafio à possibilidade de determinação unívoca do sentido das normas e caracteriza exatamente aquilo que há de específico na interpretação jurídica face à interpretação do discurso ordinário. A interpretação jurídica, como tarefa dogmática, ocorre num amplo espectro de possibilidades. Envolve o direito como um fenômeno complexo, na perspectiva da decidibilidade de conflitos. O jurista não interpreta do mesmo modo em que o faz o ser humano, ordinariamente, quando procura entender a mensagem de alguém numa simples conversa. Nesse caso, o que se busca é entender o que foi comunicado, captando o sentido a partir de um esquema de compreensão próprio de quem ouve, a fim de orientar suas reações e subseqüentes ações. Já o jurista pressupõe que, no discurso normativo, são fornecidas razões para agir de um certo modo e não de outro. Essas razões, portanto, se destinam a uma tomada de posição diante de diferentes possibilidades de ação nem sempre congruentes, ao contrário, em conflito. Pressupõem, assim, que o ser humano age significativamente, isto é, atribui significação à sua ação. Como essa significação conhece variações subjetivas, em termos do que se entende como justo, ou injusto, a possibilidade de conflitos reflexos, isto é, conflito sobre o conflito, pode levar a uma escalada de impasses e intransigências.

1

Artigo publicado originariamente na Revista do Instituto de Hermenêutica Jurídica, 2007.

Doutor em Direito (USP). Doutor em Filosofia (Mainz/Alemanha). Professor dos Programas de Pós-Graduação do Direito da USP e da PUC/SP. Vice-Presidente do Instituto Brasileiro de Filosofia. Advogado (OAB/SP). 1

*

A submissão dos conflitos a regras que sobre ele atuam objetivamente (a norma legal e seus correlatos, o acordo alcançado institucionalmente mediante regras contratuais, a decisão judicial) é uma espécie de exigência da convivência que levou, no passado, à formulação do conhecido aforisma ubi jus ibi societas, ubi societas, ibi jus. A interpretação jurídica pressupõe, tradicionalmente, essas regras e admite até, na sua ausência, o encontro delas mediante procedimentos próprios. Por meio dela, o quadro conflitual ganha contornos e limites, dentro dos quais uma decisão se torna possível. A interpretação jurídica cria, assim, condições para tornar decidível o conflito significativo, ao trabalhá-lo como relação entre regras e situações potencialmente conflitivas2. O que se busca na interpretação jurídica é, pois, alcançar um sentido válido não meramente para o texto normativo mas para a comunicação normativa, que manifesta uma relação de autoridade. Trata-se, portanto, de captar a mensagem normativa, dentro da comunicação, como um dever-ser vinculante para o agir humano. Na identificação ou reconstrução dessa diretiva, desse dever, há sempre a potencialidade de erupção da questão sobre a legitimidade desse sentido (da comunicação e portanto da própria relação de autoridade) como justo, o que leva à questão: o que é o justo? Com isso é possível apreciar o modo como a especulação filosófica ganha relevo dogmático. Trata-se da confluência entre pensar zetético e dogmático3. Questões zetéticas têm uma função especulativa explícita e são infinitas (uma questão sempre abre espaço para uma questão sobre a própria questão e assim por diante). Nesses termos, o problema do que é a justiça é, tipicamente, uma questão zetética que constitui o cerne da reflexão jusfilosófica desde suas origens. Questões dogmáticas têm uma função diretiva explícita e são finitas (possibilitar uma decisão mediante pontos de partida que não são questionáveis, ainda que interpretáveis). Nesses termos, a adequação de uma pena à conduta é uma questão dogmática.
Doutor em Direito (USP). Professor Visitante do Programa PET/CAPES da USP. Membro do Instituto Brasileiro de Filosofia. Advogado (OAB/SP). 2 Aqui é preciso distinguir a atividade argumentativa de advogados, diante de juízes, quando buscam uma decisão favorável ao seu cliente, da tarefa posta ao jurista, quando busca uma significação que possa ser válida para todos os envolvidos no processo comunicativo normativo. É o que se chama de interpretação doutrinária. É nesse contexto que se procura identificar o papel organizador do valor justiça num conjunto normativo a ser interpretado juridicamente. A distinção entre as duas atividades é importante, pois não será objeto de nossa investigação uma lógica da argumentação jurídica no sentido de Toulmin (The uses of argument. Cambridge: Cambridge University Press, 1958) que buscou superar limitações da lógica formal ao interpretar a lógica não como estrutura mas como procedimento regrado de oposição de argumentos e contra-argumentos. Há um esforço de formalização do raciocínio desenvolvido no processo de oposição de argumentos na linha do modelo de Toulmin, que resultou nas chamadas lógicas de argumentação derrotável. Ver PRAKKEN, H.; VREESWIJK, G. Logics for Defeasible Argumentation. In: GABBAY, D.; GUENTHNER, F. (Eds.). Handbook of Philosophical Logic. 2. ed. Dordrecht: Kluwer, 2002. v. 4. p. 218-319. Se a lógica de argumentação jurídica é uma lógica própria, distinta da argumentação ordinária, também é uma questão que não vamos explorar. 3 Cf. FERRAZ JUNIOR, Tercio Sampaio. Introdução ao estudo do direito. São Paulo: Atlas, 2004, ponto 1.3. 2
**

Obviamente, na interpretação dogmática do razoavelmente adequado, está implicada, de forma mais ou menos explícita, a questão do justo, momento em que zetética e dogmática confluem. Nesse sentido, é oportuna a menção a Castanheira Neves, para quem “justa” deve ser toda a “normativo-constitutiva realização do direito. E se a interpretação jurídica concorre para essa realização, então quer isto dizer que também não é cognitiva ou teoreticamente, mas antes normativa e praticamente que essa interpretação se deve intencionalmente compreender e metodicamente definir, de modo que a boa ou válida interpretação não será aquela que numa intenção da verdade (de cognitiva objectividade) se proponha a exegética explicitação ou a compreensiva determinação da significação dos textos-normas como objecto, mas aquela que numa intenção de justiça (de prática justeza normativa) vise a obter do direito positivo ou da global normatividade jurídica as soluções judicativo-decisórias que melhor realizam o sentido axiológico fundamentante que deve ser assumido pelo próprio direito, em todos os seus níveis e em todos os seus momentos”4. Veja-se, por exemplo, no plano da interpretação dogmática, a discussão referente à conseqüência jurídica do dano patrimonial. No dano patrimonial, indeniza-se o patrimônio que foi injustamente lesado (justiça comutativa). Um dano ao patrimônio é, pois, suscetível de avaliação em dinheiro, sendo mais fortemente sujeito à restituição pelo equivalente e plenamente sujeito à avaliação pecuniária. A interpretação, nesse caso, pede razoabilidade, que tem a ver com uma comutatividade quantitativa (princípio da reparação integral). Aí o justo depende de essa comutatividade estar ou não demonstrada (justo como mensuração proporcional). Já a interpretação que conduz à eventual possibilidade de extrapolação da indenização para tomá-la como uma pena tem ver com danos extra-patrimoniais, que tornam indenizáveis prejuízos que violam a esfera existencial da pessoa humana ou a honra objetiva das pessoas jurídicas. É nesse terreno que a questão do valor excessivo da indenização pode admitir a sua transformação em pena. O justo, nesse caso, tem a ver com o senso de razoabilidade do juiz (justo como senso comum). Por isso, afora os parâmetros oferecidos

4

Cf. CASTANHEIRA NEVES, António. O actual problema metodológico da interpretação jurídica – I. Coimbra: Coimbra Editora, 2003, p. 102. 3

pelo Código Civil em certos casos, faz sentido, então, o surgimento de exigência da modicidade da indenização, deixando-se ao arbítrio do juiz a avaliação do dano5. A conexão entre justiça e retribuição deita fundas raízes na cultura ocidental, revelando até traços mitológicos nos seus modelos éticos6. Ora, como as discussões filosóficas sobre a noção de justiça estão implicadas, de algum modo, na questão da retribuição, como é o caso do problema referente ao caráter justo ou injusto de uma indenização que tenha ou não caráter de pena, o que pressupõe alguma noção (zetética) implícita ou explicita de justiça, o estudo dos modelos retributivos elaborados pela hermenêutica dogmática, a contar da famosa regra de Talião, está na base da discussão da própria justiça das retribuições. A concepção aristotélica da justiça como virtude de distribuição e comutação com base na igualdade proporcional tem a ver, sem dúvida, com a questão da retribuição7. A proporcionalidade do valer um pelo outro é, neste sentido, um fator essencial nas discussões sobre a justiça. Mesmo quando o termo deixa o estrito campo de uma ética da virtude e passa, por exemplo, a uma ética de valores, ou ainda quando é tratado em sentido estrutural ou funcional (justiça como instituição, realização social da sociedade justa), o papel da proporcionalidade nas equiparações e diferenciações não deixa de ser relevante. Na busca dessa proporcionalidade entra em discussão o termo razão. Razão (reason, raison, Vernunft, ratio, logos) é um substantivo cuja origem está no verbo reri, que em seu sentido primitivo significava “tomar algo por algo”, portanto ligar “coisas” entre si, donde estabelecer relações e, daí, calcular, pensar. Quando os romanos traduziram por “ratio” a relação matemática pensaram em “logos”, na cultura grega, como uma palavra que originariamente significara “juntar”, “unir”, “por em conjunto”, de onde surgiu a idéia de ”logos” como “palavra”, isto é, como signo que sintetiza, num som (fonema), vários significados. A idéia de razão como relacionar presidiu, no desenvolvimento do pensamento ocidental, o estabelecimento de diversos princípios, como os do pensamento correto (lógica),

Cf. ASSIS, Araken de. Liquidação do dano. Revista dos Tribunais, São Paulo, v. 88, n. 759, p. 11-23, 1999. Aliás, a jurisprudência (ver STJ, RE n. 216.904-DF) fala, nesses casos, de dano moral e de arbitramento da indenização, sendo nesse contexto que aparece a exigência de moderação (razoabilidade como comutatividade qualitativa). Ou como diz Judith Martins Costa: “A rigor, não é possível falar em ‘indenização’ do dano nãopatrimonial. Nestes casos, a entrega de uma soma em dinheiro tem uma função ao mesmo tempo satisfativa à vítima e punitiva do autor do dano”, donde “a denominação do Direito anglo-saxão, ‘punitive dammages’, que vem sendo aceita pela jurisprudência brasileira” (MARTINS-COSTA, Judith; TEIXEIRA, Sálvio de Figueiredo (Coord.). Comentário ao novo Código Civil. Rio de Janeiro: Forense, 2003, v. 5, t. II, p. 350). 6 Cf. EHRENBERG, Victor. Die Rechtsidee im frühen Griechentum, Leipzig, 1921, p. 6 e segs. 4

5

pela “sistematização” e “dedução lógica”. 141 e segs. nasceu como uma tentativa de identificação e sistematização de normas. Laband e do primeiro Jhering. O método de Savigny de identificação dessas regras a partir de “nexos histórico-orgânicos” capazes de se aproximar e revelar “o espírito do povo” (Volksgeist) foi gradualmente cedendo espaço à ordenação e sistematização de regras pela ciência jurídica. São Paulo: Atlas. ligando- Sobre Aristóteles. e já com Puchta. 8 Cf. solucionar casos práticos. ao lado da interpretação sistemática. tomada como núcleo essencial da natureza humana (o ser humano como ser racional). dos quais seria possível extrair de forma unívoca. na esteira de Savigny. Esse passo significou um rompimento na escola histórica. tais normas começaram a adquirir um status independente de suas raízes históricas e sociais. por subsunção. Rechtstheorie bei Hans Kelsen (1881-1973). a partir da obra de Savigny e a escola histórica do direito. O significado da “lógica” e da “dedução” no raciocínio jurídico nessa tradição não pode ser identificado com a lógica dedutiva clássica (aristotélica) disponível à época. a maiore ad minus. que evoluiu para a chamada “jurisprudência dos conceitos” (Begriffsjurisprudenz) de Gerber. da correta justificação de juízos valorativos (retórica). do correto comportamento em face das diversas situações vitais (prudência). Tercio Sampaio. Circunscrevia-se o direito a uma discussão sobre conceitos e institutos jurídicos fundamentais construídos (ou criados) pela ciência. Essa visão guarda raízes numa concepção tradicional que vê a lógica jurídica como “interpretação lógica”. No campo da interpretação jurídica. dentro do “método” interpretativo cunhado pelo pensamento dogmático alemão do século XIX. a razão. não constituindo um meio para obtenção de outros valores. cuja autoridade extraía-se da própria racionalização conferida pela dogmática. mas o valor que dá sentido aos demais. p. Tübingen. chama a atenção para o tema lógica jurídica. 2004. 2003. Neste sentido. DIAS. etc. ver FERRAZ JUNIOR. Estudos de filosofia do direito.da pesquisa correta (metodologia). uma construção de um método capaz de identificar e organizar um ordenamento8. Gabriel Nogueira. a partir do material jurídico disponível. etc. o tema da racionalidade na identificação do justo. acaba por tornar-se para o homem uma espécie de valor em si. teleológica. a contrario. A escola histórica. 5 7 . um valor que incorpora a própria dignidade humana. histórica. as normas gerais a serem utilizadas para. O tema “lógica jurídica” é normalmente associado entre os operadores do direito a cânones interpretativos capazes de revelar a intenção do legislador ou esquemas retóricos de interpretação como os argumentos a simili.

Buenos Aires: Eudeba. Luis Recasens. México: Porrúa. Esses mesmos positivistas. ed. Uma oposição entre uma lógica jurídica e a lógica formal foi tratada. por exemplo. Dordrecht: Reidel Publishing Company. A essa opõe-se a “lógica formal”. 11 Cf. já enfatizava que a interpretação dogmática não poderia ser reduzida a nexos meramente lógicos e mesmo Jhering que. Georg Henrik. ou. que pode ser entendida. Mind. Não vamos entrar na discussão nos termos de Siches. que ganhou espaço entre os juristas. Dagfin. Wien: Deuticke. O estudo da lógica formal aplicada ao direito chamou a atenção dos juristas somente mais tarde. Hans. p. Einführung in das juristische Denken. Nueva filosofia de la interpretación del derecho. On Law and Justice. Kelsen e Alf Ross14. 1956. IV. Milano: Giuffrè. On Legal Reasoning. London: Stevens. Turku/Loimaa: Turun Yliopisto. Alf. Deontic Logic: an introduction. em sua primeira fase. ENGISCH. p.). o que veio ao encontro do ressurgimento da lógica deôntica. 13 Ver VON WRIGHT. Savigny. 1977. HILPINEN. 1958. A questão já não era identificar qual o conteúdo correto ou mais justo dos textos normativos. 1960. Sobre el Derecho y La Justicia. tal como a classificação das normas apontando o “genus proximum” e a “differentia specifica”9. Cap. para uma introdução à lógica deôntica. Interpretazione e Logica. em termos da chamada lógica del razonable. 60. 10 6 . a preservação de unidade ou consistência. então. por meio de uma analogia com a lógica modal alética13. em particular. 12 Cf. Alf. 1990. podemos chamar essa lógica jurídica tradicional de “lógica material”. In: HILPINEN. entendida como um conjunto de cânones interpretativos e princípios de argumentação para que se obtenham pautas de comportamento a partir de textos ou comunicações normativas12. ou ainda se normas inconsistentes poderiam ser descritas como normas válidas pertencentes ao mesmo ordenamento. e ROSS. 267. Aulis. SICHES. viam a interpretação como uma atividade desprovida de valor científico e sem fundamento epistemológico. Cf.se mais a intuições sobre sistematização. Deontic Logic: Introductory and Systematic Readings. ROSS. mediante a obra de Recaséns Siches11. Cap. Seguindo Engisch. 1-15. de forma simplificada. n. 1951. Risto. Risto (Ed. ressaltava o caráter criativo desta “lógica”. e. 2. 1964. FOLLESDAL. Reine Rechtslehre. Stuttgart: Kohlhammer. XIII. 1971. FARIAS. como o estudo da forma dos argumentos dedutivos válidos. 14 Ver KELSEN. pelas mãos de von Wright na década de 50. com a tentativa dos positivistas de fornecer uma fundamentação epistemológica de um conhecimento descritivo das normas válidas de qualquer sistema normativo. que não se reduzia à pura lógica formal e a relações de conseqüência10. p. mas sim se as conseqüências normativas de uma norma com conteúdo já fixo poderiam ser consideradas normas válidas. na década de 50 do século XX. ainda. 1994. foi um entusiasta de uma Logik des Rechts. 134-141. 9 Cf. Karl. Deontic Logic. Domenico. AARNIO.

v. Padrões de racionalidade na sistematização de normas.Apesar da importância da dedução e de outros processos formais de inferência para o estudo do direito15. 9. 7 15 . Paul. Será que essa “lógica material” que guia e permite ao jurista a sacar conclusões sobre o conteúdo dos textos normativos é própria do direito. p. 2000. Aliás. 1991. Também não vamos discutir se a lógica jurídica formal seria uma lógica com postulados próprios ou. Para uma defesa da importância da dedução no raciocínio jurídico. In: GRICE. MARANHÃO. In: ZILLES. Juliano Souza de Albuquerque. Urbano (Coord. Studies in the way of words. mas na qual certas inferências são justificadas a partir de certas máximas de interpretação que instituem o compartilhamento de certos padrões de racionalidade entre os comunicantes. tendo em vista que as normas jurídicas são formuladas por meio da linguagem natural. Dordrecht: Kluwer. n. Marcos. Legal Theory. 2.). Henry. se a lógica deôntica (voltada para o discurso moral) deveria ter novos postulados quando aplicada ao discurso jurídico. dando o passo seguinte. 2003. MARANHÃO. Newton da. Cap. p. Paul. baseada em uma estrutura formal (cálculo de predicados clássico) representativa ou reveladora da estrutura necessária do discurso (descritivo) que refletiria a estrutura mais geral da realidade. 16 Cf. Tese de Doutorado. Interpretation and Conversation. Em particular. 2004. jun. ainda. Cambridge: Harvard University Press. 157179. BARBOSA PINTO. Nesse desafio. com Grice16. 22-41. A respeito desse tema ver COSTA. Assim. ou também está presente no discurso ordinário. Porto Alegre: Edipucrs. é desafiada a concepção fregeliana de uma linguagem precisa. Tais máximas aproximam-se bastante dos postulados de competência que guiam a construção interpretativa da conhecida figura do legislador racional. Juliano Souza de Albuquerque. Logical Tools for Modelling Legal Argument: a study of defeasible reasoning in law. Cambridge. Logic and Conversation. ao sustentar que o fato de haver objetividade e possibilidade de entendimento nas conversações ordinárias implicaria que também a interpretação jurídica seria objetiva17. nas nossas conversas do dia a dia nas quais procuramos encontrar o sentido do que os outros nos dizem? Em suma. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. a idéia de que a lógica que guia a interpretação jurídica não passa de uma lógica conversacional usual é uma hipótese bastante plausível. GRICE. São Paulo. 1997. ver PRAKKEN. 17 Cf. Lógica deôntica jurídica. que não se limita à dedução formal. vamos nos ater neste artigo ao exame daquela “lógica material” que o senso comum jurídico costuma identificar com a verdadeira lógica jurídica ou a “lógica” própria dos juristas. Grice procura identificar uma lógica própria da conversação. essa lógica material seria uma lógica do ou no direito? A pergunta ganha relevo quando observamos a evolução da teoria geral da interpretação da filosofia analítica à filosofia da linguagem ordinária e à pragmática da comunicação. há quem defenda justamente essa tese. Miguel Reale – Estudos em homenagem aos seus 90 anos. I.

tem o compromisso de expressar uma escolha capaz de separar o certo do errado. mediando a relação entre agentes comunicantes numa situação de conflito. A tese a ser defendida é que tal “lógica de interpretação jurídica” não se limita à lógica interpretativa da conversação ordinária. tendo em vista as possibilidades de atribuição de intenção. dada pelas possíveis combinações de estados de coisas na realidade. investigamos como a dogmática jurídica pode racionalizar ou domesticar esse problema. desde a semântica de Frege. o uso de termos vagos e ambíguos e a incoerência dentro do conjunto de afirmações no processo de comunicação. A identificação do sentido de uma sentença articulada em determinada linguagem é tomada. mostrando que o antigo problema da indeterminação normativa não pode ser facilmente superado com referência à possibilidade de entendimento na comunicação ordinária.Portanto. Em seguida. Enfrentaremos então a tese de que a interpretação jurídica poderia ser reduzida à interpretação da comunicação em geral. identificando suas analogias com a lógica de conversação. na medida em que é organizada em torno do valor justiça. dentro do objetivo de criar condições para a decidibilidade dos conflitos. diante de tais problemas. Em seguida. É justamente essa “lógica” que os juristas apontam como o traço distintivo da interpretação ou do raciocínio jurídico. é uma questão que será aqui investigada nos marcos do que chamamos. A inserção do tema da justiça na interpretação jurídica problematiza o sentido das normas legais. 2. Visto como uma ação ou comportamento lingüístico do emissor. o justo do injusto. pode trazer alternativas de interpretação para a mensagem transmitida pelo emissor. ou seja. O FALANTE E A LÓGICA DA CONVERSAÇÃO Na conversação ordinária estão presentes diversos problemas de indeterminação. seguindo Engisch. O artigo está organizado da seguinte forma. frente à evidência dada pelo texto no qual o discurso foi articulado. se existe uma lógica jurídica própria. Tal 8 . de “lógica material”. Faremos uma breve discussão da interpretação do discurso ordinário e da lógica de conversação de Grice. como a busca pela intenção do emissor. ou se a lógica jurídica é uma decorrência de padrões de inferência presentes na conversação ordinária. exporemos o modelo de interpretação jurídica baseado na figura do legislador racional. como um problema de identificação das condições de verdade da sentença. A resposta negativa decorre da potencial erupção do problema da justiça na interpretação da comunicação normativa. o ato de fala.

e. ou pode mesmo significar o descarte da mensagem como algo a ser 18 Cf. como guia. DAVIDSON. Ou seja. In: DAVIDSON. p. fornecendo de maneira vaga. A ausência desses padrões mínimos simplesmente mina a capacidade de entendimento20. a questão não é propriamente se é possível o entendimento “verdadeiro”. a partir do compartilhamento de determinados padrões de racionalidade (além das regras semânticas convencionadas na comunidade linguística). que envolve a identificação do que o emissor quis dizer ou no que acredita ao emitir a sentença. pode-se assumir que o entendimento. Davidson18. ainda. a existência ou acessibilidade a fatos. é possível.. p. Inquiries into truth and interpretation. In: DAVIDSON. Nessa perspectiva pragmática. A teoria de interpretação radical de Davidson diz pouco sobre como ir além da semântica da sentença. Oxford: Clarendon Press. Donald. 1984. Making sense of utterances and behaviour of others. dado que. 9 . no que chama de interpretação radical. Donald. Inquiries into truth and interpretation. que possam tornar verdadeiro o sentido atribuído à expressão. 20 Id. 152. 1984. Donald. Donald. 19 Id. por exemplo com afirmações do tipo “Mãe é mãe!” (que certamente não quer comunicar uma tautologia). mas como o entendimento é possível dado que os agentes de fato se comunicam de forma suficiente. requires us to find a great deal of reason and truth in them. vê a interpretação não somente como uma atividade semântica de identificação do sentido de uma sentença mas como um esforço de compreensão da relação de comunicação. Isso envolve uma conceptualização do emissor.. 153: “The point is that widespread agreement is the only possible background against which disputes [about meaning] and mistakes can be interpreted. ibid. os agentes se comunicam e usam a linguagem como um instrumento hábil para suas relações (as pessoas normalmente entendem o que os outros falam e acreditam que os outros entendem o que estão falando). To see to much unreason on the part of others is simply to undermine our ability to understand what it is they are so unreasonable about”.e. buscando-se fazer com o que a fala do outro faça sentido. Oxford: Clarendon Press. A idéia é que o esforço interpretativo resista o quanto possível a uma atribuição de um sem sentido. apesar dessas dificuldades de indeterminação. o que não é suficiente para explicar comunicações bem sucedidas em que o sentido convencionado para a sentença é bastante distinto do que se quis dizer. de fato. o princípio de caridade: escolher condições de verdade que façam o melhor possível para tornar verdadeiras as afirmações do emissor19. Belief and the basis of meaning. ou regras de uso na comunidade linguística. DAVIDSON. ibid.tarefa. diante dos problemas de indeterminação levantados acima pode trazer difíceis questões metafísicas sobre o que é a interpretação e mesmo sobre a sua possibilidade. Para contornar essas questões que fogem ao escopo do presente artigo. Radical Interpretation. ou a um estado mental opaco do falante... even their most aberrant behavior. i. Pressupõese que o sentido da sentença pode ser dado por determinadas regras semânticas convencionadas.

pode-se deduzir que “C tem viajado muito à Argentina”. diante de textos vagos.interpretado ou algo relevante para nossas ações. Nesse caso. ou em engenharia. Incumbe ao intérprete. assumindo o que Grice chama de princípio de cooperação (faça com que sua fala contribua. cit. Essa mudança de foco. p. 41-57. entender o que o agente “quis dizer” (comunicar) muito embora isso não esteja claramente articulado no que ele “disse” (i. ou aparentemente incoerentes ou irrelevantes. o que se exclui por hipótese. In: GRICE. que é um médico (com doutorado ou não) e que pode atender a vítima do acidente. O processo de implicatura nada mais é do que o levantamento de hipóteses ou da melhor hipótese sobre o que o emissor quis dizer. não dedutiva. ou então. suponha que alguém afirme “Sou um doutor”. Logic and Conversation. Logic and Conversation. Paul. GRICE. em particular. tratando-se de um raciocínio ampliativo. Para exemplificar a diferença entre inferência dedutiva e a implicatura.. Cambridge: Harvard University Press. é possível sacar conclusões mais amplas sobre o ato de fala do emissor. que não se limita à Cf.e. não tem tempo para namorar. Assim. que é chamada de implicatura. 10 21 . em um contexto no qual um indivíduo se acidenta. assumimos normalmente que o emissor não quis afirmar que tem um título de doutorado em direito. op. mas sim. passando do que foi dito na sentença para o que o agente quis dizer na comunicação é o ponto de partida para a análise pragmática de Grice sobre o que seria uma lógica da conversação21. 22 Ver GRICE. mas a expressão pode ter implicaturas adicionais. ou em qualquer outra área. no estágio em que ocorrer. a mera afirmação de um título de pós-graduação não é relevante e se supõe que o emissor esteja nela engajado. Paul. Para Grice o acesso ao que se quis dizer a partir do que se disse consiste em um processo de inferência. a partir do contexto comunicativo. cit. contribuindo para o propósito daquela relação comunicativa. de uma forma de abdução. a afirmação feita em resposta à pergunta “há um doutor nesta sala?” nos leva a conclusões adicionais ou mesmo diversas. Studies in the way of words. p. 26: “Make your conversational contribution such as is required at the stage at which it occurs.. e GRICE. A partir dessa premissa pode-se deduzir que o emissor tem um título de pós-graduação. que por conta de suas viagens. Outro exemplo. Isso é assim. op. se A pergunta a B “C tem uma namorada?” e recebe como resposta “C tem viajado muito a Buenos Aires”. Further notes on logic and conversation. 1991. pois no contexto daquela conversação. by the accepted purpose or direction of the talk exchange in which you are engaged”. com o propósito estabelecido para a comunicação no qual voce está engajado)22. pode querer dizer que C tem uma namorada em Buenos Aires. A não ser que B não tenha prestado atenção à pergunta. no significado da sentença). Porém.

o jurista enfrenta uma série de problemas de indeterminação: problemas de indeterminação semântica. com base em certos parâmetros de coerência23. 2004. Handbook of the History of Logic. ou sabe o local preciso e quer dizer que não é desejável que A visite C. que constitui um instrumento interpretativo à disposição da dogmática jurídica. ver HILPINEN. e. Peirce and 11 23 . Risto. (d) é organizado ou sistemático na fala. (b) evita a ambiguidade. das possibilidades de atribuição de intenções ou propósitos de uma Cf. tendo em vista o propósito da comunicação. A noção de uma lógica ou relação de implicatura a partir de uma conceptualização do agente interpretado guarda paralelos próximos com a atividade de interpretação jurídica. mas que busca novas informações a partir das premissas. In: GABBAY.preservação da verdade das premissas na conclusão (dedução).. como veremos a seguir. (c) é conciso. outros fatores permitem ao intérprete concluir que B não sabe o local preciso e não quer deixar de informar o quanto sabe. decorrente da dificuldade de atribuição de sentido a termos vagos e ambíguos empregados na lei.e. máximas de qualidade (o emissor é sincero): (a) não diz o que acredita ser falso. 3. 1931-1958. máximas de forma (o emissor é perspicaz): (a) evita obscuridade. nos moldes da dogmática alemã do séc. (b) a contribuição não é mais informativa do que se requer. máxima de relação: o emissor afirma algo relevante para a discussão. p. XIX. KAPITAN. (b) não afirma algo do qual não tenha evidência suficiente. ainda. 611-658. The Roise of Modern Logic: From Leibniz to Frege. WOODS. John. Cambridge: Harvard University Press. HARTSHORNE.. porém pode tê-lo feito para preservar a máxima de qualidade. M. as máximas devem ser ponderadas e permitem que se levantem hipóteses acerca do comportamento do agente interpretado. A pergunta a B “onde C mora?” e recebe como resposta “em algum lugar no sul de São Paulo”. pois desconhece o local com exatidão. Para competentes análises da lógica abdutiva de Peirce. como forma de se ampliar a base de informações disponíveis acerca do sentido da lei. Collected Papers of Charles Sanders Peirce. Charles. WEIS. Paul (Eds. Amsterdam: Elsevier. O emissor B não foi suficientemente informativo. i. v. Máximas de quantidade: (a) a contribuição não é menos informativa do que se requer na conversação. Tais máximas podem colapsar. Peirce’s Logic. formulados em linguagem ordinária. Assim. A melhor hipótese depende do contexto. Por exemplo. Grice propõe que o princípio de cooperação que guia essa busca desdobra-se e caracteriza-se a partir de certas máximas atribuídas ao emissor. 3. D.). A estipulação de determiadas máximas de competência do emissor faz lembrar a figura do legislador racional. Tomis. O LEGISLADOR RACIONAL E A LÓGICA JURÍDICA MATERIAL No processo interpretativo dos textos legais.

ver MARANHÃO. A questão. Amsterdam: IOS Press. como a apreciação das possíveis conseqüências. Isso leva o intérprete doutrinário a uma reconstrução de um sistema normativo com soluções coerentes para casos hipotéticos relevantes. de determinadas atribuições de sentido. superada. Juliano Souza de Albuquerque. com determinada propriedade. N. ALCHOURRÓN. Bart. tendo em vista a decidibilidade de conflitos. Normative Systems. a interpretação é levada a cabo a partir da the Structure of Abductive Inference. Risto (Ed. BULYGIN. problemas de indeterminação pragmática. Some operators for Refinement of Normative Systems. V. para a dogmática. Eugenio. ou ainda. Assim. diante das evidências dadas pelos textos normativos cujos sentidos estão inter-relacionados.. deve ser coerente com a solução encontrada para aquela mesma ação na hipótese de ausência daquela propriedade. não é propriamente a possibilidade de uma interpretação correta ou objetivamente verdadeira. a existência de comandos conflitantes para um mesmo caso relevante (inconsistências). a resposta sobre uma ação particular para um caso. LOUI. Eugenio. então. coerente com a solução encontrada para outras ações análogas ou relacionadas com aquela primeira ação considerada. Uma questão jurídica doutrinária diz respeito a uma solução normativa (dever. Evidentemente. Para a lógica de refinamento de sistemas normativos. permissão ou proibição) de uma determinada conduta em um caso hipotético. como as leis são de fato originadas de fontes diversas e não necessariamente orientadas para um mesmo e consistente propósito. Studies in the Logic of Charles Peirce.. Buenos Aires: Astrea. justas ou injustas. Arno R. BULYGIN. trazem uma dificuldade prática para a interpretação doutrinária a ser. Antoinette J. Ronald P. 2001. 103-115. 25 Cf. 1975. 1981. das propriedades consideradas relevantes dentro de um caso hipotético a ser solucionado. D. Introducción a la Metodologia de las Ciencias Juridicas y Sociales.regulação (com o sentido preliminarmente identificado). ROBERTS. A exigência de sistematização e coerência das soluções identificadas pelo intérprete impõe uma racionalização do material normativo nesse processo construtivo de interpretação. de alguma forma. Tal solução é identificada com respeito à presença ou ausência de determinadas propriedades ou condições consideradas relevantes25. Tais problemas.). Dordrecht: Reidel. 24 Para uma análise formal da operação de revisão de sistemas normativos ver ALCHOURRÓN. como a ausência de uma solução para determinado caso considerado relevante (lacunas). EVRA. Carlos. ou. Frontiers in Artificial Intelligence and Applications. Carlos. 12 . LODDER.). Legal Knowledge and Information Systems. Hierarchies of regulation and their logic. 1971. MAKINSON. p. (Eds. ou ainda a escolha de resultados possíveis de um processo de revisão ou refinamento do sistema normativo24. D. embora possam levar a uma postura cética no âmbito da especulação filosófica.. New Studies in deontic logic. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press. In HILPINEN. Carlos. In: HOUSER. 477-496. 1997. e problemas de indeterminação sintática. J. In: VERHEIJ. Wien: Springer. David. p. MUNTJEWERFF. p 125-148. ALCHOURRÓN.. mas sim qual aquela que está melhor ou suficientemente justificada.

65-86. Assim. o que lhe permite definir sentidos dentre várias atribuições possíveis e sistematizar o conjunto de normas em um todo coerente. HILPINEN. daí por que não se pode desejar que alguém realize e deixe de realizar o mesmo ato. Privatrechtsgeschichte der Neuzeit. Two Concepts of Rationality in Legislation. (f) o legislador é rigorosamente preciso e não cria normas inócuas ou redundantes27. se não for possível um método que nos permita apontar um sentido correto ou verdadeiro para as normas. n. In: ARNAUD. 175-187. Zygmunt. Paris. Rationality and Irrationality in Law. Rationalität und Irrationalität im Recht / Juristic logic. e ZIEMBINSKI. consutar WIEACKER. p. Archives de philosophie du Droit: Formes de rationalité en droit. Não obstante tratar-se de um instrumental retórico a serviço da ideologia de separação de poderes (ver próxima seção). XXIII. 1969. Risto. WRÓBLEWSKI Jerzy (Hrsg. na linha de autores céticos como Kelsen e Alf Ross. n. Zygmunt. Rechtstheorie – Juristische logik. Logique et Analyse.ficção de unidade na vontade do legislador. 12. (d) a vontade do legislador é unitária. 8. (e) a vontade do legislador é completa. XIX: (a) o legislador não cria normas impossíveis de serem executadas. L. Franz. a figura do legislador racional fornece a base para a fundamentação da atividade de interpretação dogmática. Ao reconstruir o ordenamento. ZIEMBINSKI. ao menos seria possível identificar interpretações justificadas ou não justificadas a partir de certos postulados de competência ou máximas de racionalidade retiradas da própria finalidade da atividade de legislação e de resolução de conflitos por meio do direito. Bruxelles. 27 Para a elaboração histórica desses postulados. Observando a conceptualização do Cf. 1967. o intérprete pressupõe determinados padrões de racionalidade e postulados acerca do comportamento do legislador. os seguintes postulados de competência. A partir desses postulados. (b) o legislador não cria normas sem algum propósito (c) as condutas exigidas ou permitidas nas normas são aptas a levar os sujeitos normativos à consecução dos propósitos da regulação (coerência entre meios e fins). dentre seus atributos. André-Jean. então. no sentido de que soluciona todos os casos por ele reputados como relevantes. p. 13 26 . 139-150. 1985. p. conforme apontam Nowak e Ziembinski26. Berlin. Nessa conceptualização de uma vontade unitária e racional por detrás dos textos legais ressalte-se. desenvolvidos pela dogmática alemã do séc. n. 1978.). o intérprete realiza inferências acerca dos propósitos por trás das normas legais. De la rationalité du législateur comme élément de l’interprétation juridique. La notion de rationalité du législateur. NOWAK. que é. de forma que as regras estão sistematicamente relacionadas. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht. que organizam e lhe permitem conceptualizar o conjunto de normas como decorrente de um sistema unitário e racional de conhecimentos e preferências. idealmente conceptualizado na figura do chamado “legislador racional”.

legislador racional como a de um emissor comunicativo em geral. é plausível levantar a hipótese de que a interpretação jurídica e a “lógica material” da dogmática interpretativa nada mais seriam do que aplicações particulares da interpretação da conversação ordinária e da lógica de implicatura. então a interpretação jurídica não deveria trazer dificuldades adicionais quanto ao sentido das normas. os problemas de indeterminação das normas não seriam mais graves do que os problemas de indeterminação em uma conversação ordinária e poderiam ser superados pelos mesmos mecanismos linguísticos aplicados a esta última. i. nota-se uma correspondência com a lógica de conversação de Grice. OBJETIVIDADE LEGISLADOR? A hipótese levantada no final da seção anterior. Por fim. O postulado “b” tem a ver com a máxima de sinceridade na conversação. Dada essa correspondência. enquanto a máxima da forma liga-se ao caráter sistemático e ordenado do legislador do qual fala o item “d”. para atingir seu ideal político e moral vislumbrado. assim como em uma conversação espera-se que se fale a verdade. de consistência. o item “c” constitui a tradução normativa da máxima de relevância de Grice.e. toca diretamente no problema da objetividade da interpretação jurídica. uma conduta e permitir a sua omissão. Dado que. espera-se do legislador que não seja leviano. então esse também seria perfeitamente possível na interpretação das normas para a resolução dos conflitos jurídicos. que vê a norma como uma espécie de conversação ordinária. o propósito da comunicação entre legislador e sujeito normativo seria guiar a conduta dos últimos para a consecução de determinadas políticas públicas ou de satisfação de determinadas pautas morais prevalecentes na comunidade. que não dite normas despropositadas. o legislador não pode exigir dos sujeitos normativos. Se esse for o caso. ao mesmo tempo e na mesma circunstância. o postulado “a”. Da mesma forma. Tomada como uma relação de conversação. fundamental dentro da teoria do direito e tomado como ponto central do recente DO FALANTE IMPLICA OBJETIVIDADE DO 14 . Se é possível o entendimento na comunicação ordinária de forma suficiente para nossas relações. pois ditar normas consistentes contribui ao propósito dessa conversação. 4. Os postulados de quantidade se aproximam das máximas “e” e “f” de completude e não redundância. retira o seu conteúdo do próprio princípio de cooperação.

). por sua vez. 157. if language were indeterminate at all times. Jules. 8. p. como tomar em consideração a última ponderação feita pelo emissor. como observa o autor. que podem e são também empregadas na interpretação jurídica. Em defesa da metodologia juridical tradicional. então. 1. But we do have conversations. Joseph William. Recentemente. 94. Law and Interpretation. our language seem to be determinate enough for the purposes of most of our daily conversations […] It seems to me that if we knew for sure that law was as determinate as our ordinary conversations. em particular de orientação analítica. Andrei (Ed. v. 30 Ver KELSEN. 29 Cf. In fact. ver COLEMAN. 1-70. the question of objectivity would be settled for all practical purposes”29. Internationale Zeitschrift für Theorie des Rechts. Yale Law Journal. Zur Theorie der Interpretation. por Kelsen. superior. op. como estipulações ou definições. v. 204-277. Hans. Marcos Barbosa Pinto buscou refutar a tese da herança exatamente com a hipótese da norma como conversação: “If language were always indeterminate. Jahrgang. p. Uma posição frequentemente combatida nesse debate. you would not be able to understand me if I told you loud and clear right now to stop reading this article. refletem-se em princípios dogmáticos como lex posterior. que seria necessariamente indeterminada.ataque pelo movimento de Critical Legal Studies à teoria do direito tradicional. Objectivity and Authority” In: MARMOR. (ii) complexidade do sistema normativo e (iii) intenção do legislador. Offizielles Organ des “Institut international de Philosophie du Droit et de Sociologie juridique”. A complexidade. atacando três problemas da interpretação jurídicas usualmente tomados como críticos30: (i) vagueza dos termos normativos. defendida entre outros. cit. 1997. assume que a objetividade no direito não é possível na medida em que as normas são formuladas em linguagem natural. n. and you would understand what I meant if I had told you to stop reading. New Haven. BARBOSA PINTO. dado que a lei não é o SINGER. Oxford: Oxford University Press. LEITER. Barbosa Pinto esforça-se. regras para resolução de inconsistências aparentes. traz uma diferença. p. 15 28 . Assim. para demonstrar que o direito é tão determinado quanto a linguagem ordinária. não é característica de termos normativos. A vagueza. e a conversação ordinária dispõe de mecanismos para superá-la. que podemos chamar de tese da herança. 1984 é um bom exemplo do movimento de Critical Legal Studies que mistura um radical ceticismo quanto à determinação das regras e decisionismo com uma ideologia política de esquerda. specialis. de orientação analítica28. we would not be able to have a conversation. The Player and the Cards: Nihilism and legal Theory. assim entendida a necessidade de coerência do sistema normativo encontra paralelo na exigência de coerência do discurso em uma conversação ordinária. A intenção. “Determinacy. Brian.

que altera completamente o sentido e as reações admissíveis de B. ou matar-lhe a sede com o que for necessário assim como saciei a sede em sua casa no dia anterior?”. também disponíveis para a comunicação normativa. então. que imputa a B também uma valoração. 10. 1990. terei água suficiente?”. seria correto concluir que a interpretação jurídica é objetiva. colocando questões do tipo “sou obrigado a entregar a B o copo de água?”. com base na objetividade da linguagem ordinária? A nosso ver. p. 127-135. “Água!” ou ainda que faça o mesmo pedido nos seguintes termos “retribua-me o copo de água que lhe servi ontem em minha casa”. essa é mitigada na medida em que a interpretação da intenção na conversação ordinária não exige o acesso a um estado mental particular e opaco. Em tais situações comunicativas. já analisamos esse paralelo quando comparamos as máximas de Grice e os postulados interpretativos da dogmática jurídica). Legal Studies. Afinal.resultado de uma comunicação de um emissor unívoco. “devo entregar a mesma quantidade de água que recebi. “devo dar toda a água suficiente para matar a sede do moribundo?”. ou. Suponha agora que A esteja prestes a morrer e suplique a B. mas é desenvolvida a partir do contexto. Entretanto. com relação à indeterminação na comunicação. 16 . KELSEN. um fator específico é introduzido. a pergunta relevante é: a determinação alcançada usualmente na comunicação ordinária é suficiente para satisfazer a exigência de objetividade e determinação presente na comunicação normativa? Será que a exigência de determinação é a mesma para todos os domínios no qual se desenrola a comunicação? Considere um exemplo simples em que A afirme a B “Quero um copo de água”. Trad. v. 9-17. A comunicação é perfeitamente compreensível e A pode recusar-se a fornecer ou fornecer uma quantia de água que entender suficiente. Trata-se da valoração moral da sentença do emissor. 1934. “qual quantidade seria correto lhe entregar?”. Oxford. 2. On the Theory of Interpretation. n. Porém. as premissas assumidas apenas mostram o fato trivial de que as normas são formuladas em linguagem ordinária. Bonnie Litschewski Paulson e Stanley L. o mesmo valendo para a busca do legislador conceptualizado como racional (aliás. Hans. p. B é instado a se perguntar o que exatamente A implica ou quer dizer com a súplica ou com retribuição e ademais se tal ato de fala é moralmente aceitável. Assumindo que os problemas de interpretação contidos na linguagem ordinária estão presentes na interpretação jurídica e que é possível o entendimento na conversação comum com base em técnicas de redução da indeterminação. “e se outro moribundo aparecer. Paulson. assunções e de regras de comunicação compartilhadas.

porém uma forma peculiar de conversação cujos atos de fala são respostas a potenciais dissensos. Todavia. o tema da justiça inserido traz uma carga maior de exigência de adequação e precisão. justamente porque diferentes concepções subjetivas de justiça podem trazer respostas diametralmente opostas. fornecer ou não fornecer a água e quanto). vale dizer.g. É possível. dentre as preferências e valorações possíveis para os conflitos. aparece o apelo a regras gerais e abstratas. é obrigatório ao outro retribuir o favor ao primeiro”. John. Cap. A Theory of Justice. Complexidade 31 Para a noção de concepção de justiça. Porém. pela natureza dos problemas levantados. supostamente imparcial. muito embora não afaste o princípio cooperativo. que instauram uma conversação com o intérprete jurídico. o apelo ao direito. 17 . nessa linha. as quais ambos os agentes comunicantes aceitam como imparciais. Assim. Nessas hipóteses. a comunicação é pautada pelo dissenso. abre-se espaço para casos de penumbra. estabelecidas em decisões passadas. o problema da justiça do conteúdo do ato do emissor e da reação demandada ao receptor. A escolha manifestada no ato comunicativo que resultou na formulação da norma é clara e capaz de resolver uma série de situações nas quais A solicita a B um copo de água.1. pensar as normas jurídicas como comunicações. Note que o conteúdo comunicado é o mesmo na situação ordinária e na situação de conflito moral e as técnicas lingüísticas para a determinação são as mesmas. dado que ambos os agentes comunicantes passam a contribuir (e. como forma de superar ou reduzir o dissenso subjetivo. Cambridge: Harvard University Press. A exigência de adequação moral e precisão do conteúdo dizem respeito à pertinência e razoabilidade do que foi comunicado dentro de determinada concepção de justiça31. lacunas ou conflitos com outras normas. o direito aparece como um terceiro elemento na comunicação. No exemplo considerado. Exatamente nesse ponto. que têm por base questões de justiça. via argumentação) para resolução da questão (no caso. nos quais as valorações que estão na base dessa escolha podem vir novamente à tona e exigir posicionamentos ideológicos pelo intérprete que suscitarão questões de justiça aparentemente adormecidas. ver RAWLS. imaginemos que há normas estabelecendo que “é facultado a todos fornecer água a quem solicitar” e “caso alguém forneça água ao outro. I. Porém. 1999. um terceiro agente mediador que manifesta uma determinada escolha. o dissenso é potencialmente indecidível. em seu bojo.As questões surgidas trazem. 4.

reflexa na separação e autonomia e material em termos de direitos fundamentais ou o senso do justo). dogmaticamente. 151 do Código de Águas seria lex specialis. Dogmaticamente. a não ser que se considere a vontade implícita do legislador que. que o art. Todavia. um viés utilitarista do justo na linha da proporcionalidade na distribuição dos benefícios). que não pode ser violado. que haveria uma lacuna na formulação da norma que não considera o caso de um moribundo. ao qual as concessionárias não podem se opor (não podem proibir). no balanço total. pode-se também interpretar. Sustenta-se assim. pode ser suscitada como um caso relevante. nesse caso. Outra possível construção dogmática vê. têm o direito de usar terrenos de domínio público para suas instalações. na discussão dogmática acerca do uso remunerado das margens de rodovias. 151 do Código de Águas. dentro de determinada concepção sobre a organização da produção e distribuição de bens na comunidade. a hipótese de um moribundo sedento. o conflito. Tal norma conflita com a mera faculdade de se fornecer água para o moribundo. prevalecendo sobre o art. Uma concessionária de rodovias pode cobrar de todos pelo uso das margens de rodovias? A resposta dada pelo art. em nome do direito fundamental de todos à vida. por exemplo. pode-se interpretar que a intenção do legislador (racional) ao estipular a faculdade em fornecer. Problema semelhante pode ser visto. por um antigo Decreto da União garantindo antigos privilégios. por força do art. 11 da Lei de Concessões nesse caso. não mencionada explicitamente pela regulação sugerida acima. pois confere às concessionárias o direito de explorar receitas alternativas à tarifa de pedágio. aqui. 18 . levantando uma questão de coerência. Uma possível construção vê aqui um problema de articulação de políticas públicas e busca demonstrar que. surgindo a indeterminação. afinal não poderia cada um ser obrigado a satisfazer todas as necessidades dos outros. garantiu o direito de propriedade. mas não um direito de uso gratuito. as concessionárias de energia elétrica. em nome do legislador racional. O intérprete pode apontar para uma terceira norma do sistema que estabelece que “todos têm a obrigação de ajudar os necessitados”. A partir de então. seria mais vantajoso ao usuário desses serviços. impõe que a água deve ser fornecida. portanto. formal.Assim. ou se interpreta o direito das concessionárias de energia elétrica como um direito de uso. um direito fundamental de propriedade dos estados da Federação. No caso das concessionárias de energia elétrica surge. Em oposição. em nome do federalismo. para tomar um exemplo mais realista. o uso gratuito de forma a viabilizar tarifas mais moderadas na média em ambos os serviços (claramente. incompatíveis com a concepção de serviço público na CF 88 e seu reforçado princípio de federalismo (já aqui uma outra concepção de justiça. 11 da Lei de Concessões é afirmativa. para evitar o conflito.

1995. deve ser tomada com certa cautela. no caso.. Belo Horizonte. RUGGIERO. MARANHÃO. 2007. pela própria CF 88 (lex superior) em sua nova concepção da Administração pautada pelo princípio de eficiência e gestão empresarial do serviço público32. 6. por outro lado. ver FERRAZ JUNIOR. Nesse impasse. 19 32 .ou ainda. Revista de Direito Público da Economia – RDPE. Para fazer afirmações mais precisas nesse campo. 1999. no caso.] Essa regra. como afirma Serpa Lopes. haja vista a possibilidade de conflitos entre os próprios critérios de resolução. Nesse exemplo. Juliano Souza de Albuquerque. quando praticamente se retorna à estaca zero. e que. citando De Ruggiero e Ennecerus-Kipp-Wolf que nesse caso de conflito entre critérios “a solução deve ser buscada na pesquisa dos objetivos da lei Para aprofundar essa discussão. n. ver o artigo de Floriano Marques Neto a ser publicado no mesmo volume. 1. portanto. dentre os civilistas. a sua vitória sobre a lex posterior é mais contrastada. Dir-se-ia que a lex specialis é menos forte que a lex superior. Tentativamente. Instituições de direito civil. 36 Cf. Campinas: Bookseller. ênfase nossa. que descarta a aplicação do critério como se absoluto fosse.. p. abr. 34 Id. Entretanto um meta-critério como esse não é isento de polêmica. cit. Ferraz Junior. verifica-se a incompatibilidade. Contra. 108. ibid. Na clássica abordagem de Norberto Bobbio. FERRAZ JUNIOR. aparecem meta-critérios como lex posterior generalis non derrogat lex speciali. entende-se que esse foi derrogado pela lex posterior (Art. Essa hesitação é também percebida no campo dogmático. Norberto. Roberto de Ruggiero chega a afirmar que o brocardo lex posterior generalis vs lex priori specialis “é falso pelo seu absolutismo”36. O princípio de eficiência e a gestão empresarial na prestação de serviços públicos: a exploração econômica das margens de rodovias. destaca que o referido meta-critério tem “aplicação restrita à experiência” e é “de difícil generalização”35. v. Teoria do ordenamento jurídico.. ao se afirmar que só há a derrogação quando de fato. ed. está em jogo a dificuldade em se estabelecer critérios dogmáticos para a resolução definitiva de conflitos normativos. pois se trata de matéria interpretativa. ou o que estaria mais de acordo com “a vontade do legislador”. 33 Cf. 35 Cf. BOBBIO. Roberto de. 211. lê-se: “Também foi aqui transmitida uma regra geral que soa assim: Lex posterior generalis non derrogat priori speciali: a lei geral sucessiva não tira do caminho a lei especial precedente [. 168. Ou ainda. p. Tercio Sampaio. Brasília: UnB. por sua vez.. 17. e tem um valor menos decisivo que o da regra anterior. Introdução ao estudo do direito. caso se atribua um direito de uso gratuito. op.. Assim.33 por exemplo. 11 da Lei de Concessões) e ou ainda. seria necessário dispor de uma ampla casuística”34. retorna-se à verificação do que seria mais justo.

matar a sede. tende a aceitar concentrações mais elevadas. aqui. pautada em uma concepção de raiz utilitarista. etc. o que novamente traz o caso para uma discussão do senso material do justo (em particular uma concepção de justiça de raízes católicas que enfatiza a solidariedade e o amor ao próximo). deve-se saciar a sede e fornecer o quanto A exigir para tanto. para retribuir o favor. como um axioma. i.. aumento de produtividade. realizar um bem. uma caridade no caso. 37 Cf. para enfrentar a questão com relação ao quantum. Vagueza Olhando para o caso de vagueza semântica. 4. Novamente. condutas abusivas que reduzem a eficiência alocativa de recursos na economia. tomada no sentido de equidade. na medida em que possam trazer eficiências econômicas.ou da vontade do legislador.2. aptas a solucionar a questão. Assim retribuir o favor significa. no caso. sem se ater. Assim. a chamada “escola de Chicago”. por uma concepção voltada para a garantia de liberdades mínimas fundamentais. Dificuldades como essa surgem. De um lado pode-se considerar que a igualdade na retribuição refere-se à quantidade fornecida (justiça no sentido de justeza). em valor. O mesmo parâmetro é empregado na análise de concentrações econômicas. A regra estipulada é vaga e não deixa claro se. ou se deve fornecer exatamente a mesma quantia de água anteriormente recebida. a garantia de livre iniciativa empresarial (portanto. voltemos ao exemplo ingênuo do copo de água. SERPA LOPES. de justiça como senso do justo). porém A está sedento. Qual parcela exatamente deve ser considerada substancial? Na discussão dogmática aparecem soluções conflitantes a partir de concepções diversas de justiça. Porém. por exemplo. nas normas de defesa da concorrência.e. Já a chamada “escola de Harvard” tende a aceitar índices menos elevados de concentração. podem ser construídas duas teorias interpretativas conflitantes. Miguel Maria. a retribuição exata pode ser vista como injusta se anteriormente B recebeu uma pequena quantia (mas suficiente na ocasião) de água. materialmente. que sejam revertidos em benefícios aos consumidores (maior qualidade e menores preços). por sua racionalidade econômica. na qual A pede a B uma retribuição do favor anteriormente prestado. aos pressupostos exarados nos brocardos em foco”37. quando são punidas condutas que possam trazer o efeito de “eliminação de parcela substancial da concorrência”. entre perdas decorrentes da redução de concorrência e ganhos econômicos. em termos de ganhos de escala. Rio de Janeiro: Freitas 20 . Comentários à Lei de Introdução ao Código Civil. com a tese de que estruturas concentradas definem. um saldo positivo. em nome do legislador racional. Pauta-se.

para indicar quando uma concentração reduz substancialmente a competição.A podem se aplicar à realidade do mercado nacional. Precocemente amadurecidas. no direito penal. ou cujos “benefícios sejam compartilhados entre o empresário e os consumidores”. mas moças de doze anos. pessoa física? O questionamento a definições estipulativas para solução de vagueza pode aparecer mesmo em campos jurídicos de maior rigor e exigência de literalidade. 57. Assim. ou índices mais sofisticados. ou internacional? Ou ainda quando se questiona se índices desenvolvidos pela doutrina dos E. v. o Supremo Tribunal Federal no Hábeas Corpus HC 73. nos seguintes termos do Ministro Relator: “Nos nossos dias não há crianças. Todavia. “não reduzam substancialmente a concorrência”. como por exemplo. A lei de concorrência brasileira contém ditames para que as eficiências econômicas sejam consideradas para aprovação da concentração. Há aqui uma indefinição sobre o que se considera violência ou grave ameaça. Qual seria o patamar substancial de redução de concorrência que chega a impedir uma análise de eficiências? Como deve ser medido o compartilhamento? A divisão deve ser meio a meio? O consumidor considerado precisa ser o consumidor final. tais definições sucumbem e são problematizados pela jurisprudência. ou somente de bebidas não alcoólicas? Mercado nacional. novamente. Todavia. 21 .U. como a concentração das 4 maiores empresas. mediante violência ou grave ameaça”. desde que. o esforço de resolução da vagueza por definições. 54 da Lei 8884/94) e aparecem índices. 1. 214) nos seguintes termos “Constranger mulher à conjunção carnal. traz novos problemas que ressuscitam as mesmas concepções rivais de justiça na base das normas antitruste. 224): “Presume-se a violência. quando se questiona: 20% de qual mercado relevante de produto? Mercado de bebidas em geral. quando um ato de concentração traz riscos e deve ser notificada à autoridade concorrencial (concentrações que alcancem 20% do mercado. como Herfindal-Hirshman. p. 1959. com precisão numérica (art.A técnica de definição estipulativa surge então para demarcar. Por exemplo. O Código Penal Brasileiro pune o estupro (art. porém. a maioria delas já conta com Bastos. Não obstante o aparente nível de determinação alcançado a partir dos recursos disponíveis na linguagem ordinária na qual a norma foi formulada “sexo com mulheres menos de 14 anos é punido com reclusão”. art.662-9 MG. garantiu a liberdade a réu que havia mantido relação com menina de 12 anos. se a vítima não é maior de 14 (catorze) anos”. com relação a crianças é estipulada uma presunção absoluta.

manifestando uma concepção de justiça calcada no senso do justo e expressa pela garantia do direito fundamental à vida.discernimento bastante para reagir ante eventuais adversidades.. adequado e oportuno”. Embora haja aqui praticamente um descarte do texto normativo. categoricamente ou em determina condição. enrijecida a legislação – que. Aqui. Aqui. na atividade de interpretação que se instaura na relação comunicativa normativa. sob o ângulo literal. que possuem sentidos distintos. Isto é.. dessa forma protegendo-a – cabe ao intérprete da lei o papel de arrefecer tanta austeridade. Voltando ao exemplo ingênuo do copo de água. o Supremo. flexibilizando. aparecem por ser a regra necessariamente sobre. portanto o fundamento da norma. presente no sempre latente conflito entre o sentido da norma (texto normativo) e o propósito do (ou melhor. tornando-o. tenta mostrar que há crianças que. o mesmo é apresentado como uma interpretação mais flexível do que a literal. destarte. Promover esse bem (proteção à vida) constitui o objetivo e. 4. que Schauer chama de justificação da regra. deveria acompanhá-la. Intenção Com relação à busca da intenção. a generalização que a fundamenta pode incluir casos nos quais a ação em questão impede o objetivo desejado ou pode deixar de 22 . nesse momento. As prescrições teriam por base generalizações acerca de um mal ou um bem que a ação regulada. a opção do legislador foi proteger a vida do necessitado. ao interpretar a presunção legal absoluta acerca do momento em que crianças não podem consentir.3. mas moças capazes de consentir. Conflitos entre a regra (água para os moribundos sedentos) e sua justificação (proteção da vida). imagine uma norma determinando que “é obrigatório fornecer água ao moribundo sedento”. ao invés de obnubilar a evolução dos costumes. necessária para tornar a norma adequada ao senso de justiça do tribunal.ou sub-inclusiva com relação a sua justificação. o texto normativo. Frederick Schauer38 traz uma abordagem esclarecedora desse tipo de conflito. ainda que não possuam escala de valores definida a ponto de vislumbrarem toda a sorte de conseqüências que lhes pode advir [.] Ora. não são crianças. pode causar. o intérprete jurídico enfrenta também uma tensão entre a concepção de justiça formal e justiça material envolvido no próprio propósito da comunicação. atribuído pelo intérprete ao) legislador.

qualquer aquisição de empresa que possa “reduzir substancialmente a competição” ou “tender a criar um monopólio”. vai contra o próprio propósito do legislador. Some operators for Refinement of Normative Systems. cit. Para nos aproximarmos da prática jurídica. Frederick. há uma sobreinclusão. entretanto. o Clayton Act. “a não ser que a água esteja contaminada. casos nos quais. Suponha então que exista um mercado com apenas dois agentes que pretendem se fundir e que a firma a ser adquirida está em processo de falência. também deveria estar obrigado a fornecê-los. uma decisão sobre ser ou não a cor da pele do moribundo relevante para a justificação da obrigação de fornecer água é complexa e envolve uma série de valorações e tomadas de posição ideológica do intérprete que vão depender de suas preferências. serve propósitos ulteriores com eficiência produtiva e o bem estar dos consumidores. Se o objetivo é proteger a vida. proíbe. então atender o sentido do texto normativo. Um estatuto posterior. Oxford: Clarendon Press. SCHAUER. Esses conflitos entre regra e sua justificação. por exemplo.incluir casos relevantes. Tais qualificações. Por exemplo. têm limites. que. B deve ser responsável? Por outro lado. podem ser resolvidos por meio de novas generalizações que especificam melhor as condições de aplicação das regras. chamados por Schauer de “experiências recalcitrantes”. crenças e seu senso do que é justo. de forma que encerrará suas Cf. O propósito ou motivo dessa regulação é proteger a competição no mercado. é obrigatório oferece-la ao moribundo sedento”. quando B não dispõe de água. por sua vez. mas dispõe de suco ou comida. no qual está incluído o caso de contaminação. por exemplo. nos quais a ação promove aquele objetivo. 23 38 . mas a causa mortis foi a contaminação. op. A qualificação de uma propriedade ou condição como relevante. o direito antitruste norte-americano contém um ilustrativo exemplo de conflito entre regra e justificação39. a regra pode ser sub-inclusiva. 39 O exemplo é tratado com mais detalhe como aplicação da lógica de refinamento de sistemas normativos para solução de conflitos entre regra e justificação da regra em um modelo de inteligência artificial para o direito em MARANHÃO. na Seção 7. Playing by the Rules: A Philosophical Examination of Rule Based DecisionMaking in Law and in Life. No caso em que A pede água a B. A nova condição introduzida deve ser relevante com relação à justificação da regra. 1991. Questões sobre a reação mais justa ou injusta de B reaparecem como: a contaminação realmente põe a vida do sedento em risco? A contaminação pode ser curada? Se o sedento já iria morrer de qualquer forma. mas B tem razões para acreditar que a água está contaminada. pela justificação da regra. A Seção 2 do Sherman Act proíbe qualquer ato que constitua uma “tentativa de monopolização”.

Antitrust Law Developments 4th ed. versus FTC40. Esse conflito entre leis e política antitruste de fato ocorreu e foi solucionado pelas cortes norte-americanas pelo que ficou conhecido como a doutrina da firma falida (failing firm doctrine). o que significa que “se a firma adquirida está em falência. ABA.291. 24 .. Então. Essa interpretação seguida pelas cortes motivou a emenda Celler-Kefauver. pois o legislador não o considerou relevante para a proibição do monopólio. uma aquisição que tenda a criar monopólio é permitida”. Posteriormente. pelo contrário. 1930. A questão é que a regra é vista como injusta. de 1950. 131. tais como “a habilidade da firma em falência de se reorganizar com sucesso” e “a existência de um comprador alternativo viável com menos risco anticompetitivo”. que não há propriamente uma dificuldade com relação à linguagem na qual a regra foi formulada.S. Essa aquisição pode ou não pode ser levada a cabo de acordo com a regulação acima? Nos termos da regra se a aquisição leva ao monopólio então é proibida e não é relevante se a firma adquirida está em falência ou não. independentemente da precisão em que a linguagem é formulada ou do grau de determinação da solução normativa oferecida. mantendo ativos produtivos que. Nota-se. novas propriedades ou condições relevantes foram adicionadas pela jurisprudência. o intérprete enfrenta um conflito entre preferir a ação que é necessária para satisfazer explicitamente o estatuto. A primeira decisão inovadora foi exarada no caso International Shoe Co.302-303. porque também é vista como inadequada para determinados casos. mas que frustra o propósito da lei antitruste (omitir a aquisição) e a ação que parece atender aos propósitos da legislação antitruste (adquirir a firma falida). O caso de falência está claramente solucionado.. caso contrário. 40 41 280 U. Todavia. Em seguida. 138-139. beneficia a eficiência produtiva do mercado.338. Tais hipóteses não podem ser eliminadas. seriam perdidos. seguindo a interpretação da Suprema Corte no caso Citizen Publishing Co. sua aquisição não prejudica a concorrência. que agora são exceções à solução fornecida pela doutrina da firma falida. 1969.atividades se não for adquirida. para uma determinada atribuição de intenção ao legislador e para uma determinada análise econômica das conseqüências da aquisição. 42 394 U. versus United States42. quando a Suprema Corte norte-americana sustentou que a aquisição de uma firma em falência não viola a Seção 7 do Clayton Act41. p.S. nesses casos de conflito entre regra e sua justificação. a teoria econômica mostra que se a firma está falindo. 1997. a própria generalização que reforma a regra na emenda Celler-Kefauver sofre exceções.

mas ao propósito da comunicação. Ou seja. solucionado normativamente e a lacuna somente apareceria em uma descrição de qual deveria ser a solução mais justa e não em uma descrição de qual foi. a solução estipulada pelo legislador43. mas é. de fato. mesmo que se empreguem recursos lingüísticos para reduzir a indeterminação. Não Os exemplos analisados acima trazem casos de complexidade. Ou seja. com uma avaliação do intérprete sobre a justiça da solução normativa oferecida pela rega. Isso porque a fonte de indeterminação não é propriamente uma insuficiência da linguagem no qual a regra é articulada. aquilo que no discurso ordinário poderia ser considerado uma comunicação objetiva. mas o dissenso (insolúvel do ponto de vista zetético. A indeterminação surge em função de uma apreciação da justiça da norma jurídica. antes. a indeterminação tem a ver. Por essa razão.ainda que se faça um elenco com dezenas de condições consideradas relevantes. a situação de ausência de uma solução a partir do conjunto de normas vigentes e lacuna espúria (unechte). mas tratável do ponto de vista dogmático) sobre o que é certo ou errado. Porém o que significa uma solução satisfatória para uma questão de justiça? O problema não diz respeito ao conteúdo do ato de fala. as experiências recalcitrantes não podem ser superadas. de fato. Essa noção foi refinada em ALCHOURRÓN. vagueza e adequação à intenção com relação à comunicação normativa. que lhe permite realizar inferências (não dedutivas) sobre o que seria mais coerente admitir como propóstio da lei. 1903). uma criação ou reconstrução do interprete a partir de regras de uso e pautas morais ou de políticas públicas compartilhadas na comunidade. pois o caso está. mas que pode vir novamente à tona em A distinção entre lacuna autêntica (echte). op. Zitelman chama de lacunas espúrias os casos em que o intérprete aponta uma condição supostamente relevante que não teria sido prevista expressamente pelo legislador. Da mesma forma. presença de uma solução normativa considerada falsa ou insatisfatória foi introduzida por Zitelman (Lücken im Recht. Leipzig.e. i. como vimos no caso de definição estipulativa para eliminar vagueza e no caso de conflito entre sentença e intenção. 25 43 . Exemplos semelhantes de indeterminação lingüística também são encontrados na comunicação ordinária e são satisfatoriamente resolvidos. justo ou injusto que o ato de comunicação normativa busca resolver. BULYGIN. 4. cit. chamam tais lacunas de axiológicas. é potencialmente indeterminada em uma comunicação normativa. Exatamente porque a intenção do legislador não é um estado mental particular que possa ser investigado objetivamente. i.4. Alchourrón e Bulygin. antes.e.

em conformidade com o qual. A existência de uma solução correta para a indeterminação é uma outra questão. e que não será objeto da presente discussão. Sobre a discussão. Oxford: Oxford University Press. MARMOR. The Oxford Handbook of Jurisprudence and Philosophy of Law. In: COLEMAN. naqueles casos em que questões de justiça são suscitadas ou ressuscitadas. Oxford: Oxford University Press. a interpretação jurídica não pode ser considerada objetiva. diante de problemas como vagueza. Jules. Scott. Examinemos a seguir como essa dificuldade. 2002. Andrei. In: COLEMAN. The Practice of Principle: in defence of a pragmatist approach to legal theory. a determinação. The Oxford Handbook of Jurisprudence and Philosophy of Law. John. Nesse quadro. é um instrumento para a comunicação entre os homens. In: COLEMAN. que propostas de interpretação podem estar mais ou menos justificadas e ser racionalmente avaliadas em termos de sua coerência ou estrutura de argumentação44. SHAPIRO. Oxford: Oxford University Press. 2002. 26 44 . a justiça costuma ser tratada nos termos seguintes. O conceito de justiça formal. Scott. dominantes na atualidade. A conformidade ou desconformidade com os critérios para determinar aquilo que é devido e a quem é problema que se refere ao aspecto material da justiça. complexidade e conflito entre regra expressa e a intenção do legislador.determinados casos. Nas teorias jurídicas e políticas. ou como exercício de discricionariedade do intérprete (positivismo exclusivista). Inclusive Legal Positivism. é concebida como um valor ético-social positivo. Pode-se assumir. porém. e HIMMA. o qual permite que os problemas do relacionamento social sejam discutidos racionalmente. é racionalizada e tratada pela dogmática jurídica. um conteúdo concreto. 2002. que pressupõe a ausência de objetividade. Jules. 5. Também não se assume aqui qualquer postura sobre a concepção do que é o direito: as pautas morais podem ser consideradas parte necessária (jusnaturalismo). mas que são potencialmente indeterminadas. assim. Exclusive Legal Positivism. se atribui à uma pessoa aquilo que lhe é devido. The Oxford Handbook of Jurisprudence and Philosophy of Law. Por essa razão. Natural Law: The Classical Tradition. Kenneth Eimar. daquilo que é devido. ou contingente (positivismo inclusivista) do sistema normativo. No seu aspecto formal. ver COLEMAN. 2001. através de critérios. Oxford: Oxford University Press. a não ser que se resolva com objetividade a questão sobre o que é a justiça. em situações bilaterais normativamente reguladas. Jules. Trata-se da idéia clássica do suum cuique tribuere que exige. Scott. SHAPIRO. tendo em vista a decidibilidade de conflitos. A RACIONALIZAÇÃO DA NOÇÃO DE JUSTIÇA NA INTERPRETAÇÃO Vimos acima como a especulação sobre o justo e o injusto irrompem na atividade de interpretação dogmática. SHAPIRO. e os ensaios de FINNIS. não defendemos que as normas jurídicas são sempre indeterminadas (tese difícil de sustentar tendo em vista que o direito em grande parte dos casos cumpre com sucesso sua função de regular a conduta humana). que pode induzir uma especulação filosófica interminável. todavia. Jules.

A razão é para a justiça o seu princípio regulador (e não constitutivo. a noção de justiça é tratada conforme a proporção aritmética e geométrica. Interessa-nos o papel. nestes termos. 1. As disputas em torno dos conteúdos − quem e o que deve ser igual a quem e a que − não diminuem jamais esta crença inabalável no equilíbrio proporcional como um princípio de racionalização dos conflitos. pela justiça material e de seus critérios em face da justiça formal.Os critérios. Esta relação entre justiça e racionalidade é importante. Sendo a virtude da proporcionalidade. nas discussões sobre a justiça. desde a antiguidade. embora acreditasse na possibilidade de esclarecer o que era a justiça. Ora. Na tradição da cultura ocidental. no Ocidente. a partir de premissas gerais. com o valor positivo da justiça (e. com o valor negativo da injustiça). a um exame daqueles critérios e das suas diversas formulações. conjuga-se. o caminho que desejamos seguir. ARISTÓTELES. Não é este. considerados como encarnações da razão. em oposição ao valor negativo da irracionalidade. Como valor positivo. Afinal. 27 . de acordo com os quais é decidido sobre aquilo que é devido a alguém. observa-se. Trad. mais ou menos relevante. provocando o desalento dos relativismos e o desencontro das disputas infindáveis. conseqüentemente. ele cuida da justiça. o cerne da justiça. mas de que pode e deve agir desta maneira. via de regra. Tricot. o justo concreto45. uma disposição em reconhecer-se que os conteúdos justos são difíceis de serem determinados. ressaltando seus aspectos formais. foram. Éthique à Nicomaque. isto nos conduziria. Aristóteles. senão único. na tradição cultural do Ocidente. Assim. J. a distinção divulgada pela escolástica entre justiça comutativa e distributiva fez escola e marcou profundamente as concepções posteriores. Paris: Vrin. tanto formais quanto materiais. Assim. porém. ao menos determinante dos demais. I. a racionalidade. Nestes termos. 1950. pois o homem é assumido como um ser racional não no sentido de que aja racionalmente com justiça. No livro V da Ética a Nicômaco. os princípios de justiça. ao tratarmos da questão da justiça material. 1094 b 20-23. é inegável que. A igualdade parecer ser. são freqüentemente formulados com base em concepções metafísicas. para usar a terminologia kantiana). desempenhado. por exemplo. Os princípios de justiça material no chamado direito natural racional (jusnaturalismo) são uma explicitação patente desta idéia. do mesmo modo que os princípios da razão ora presidem a forma de justificar corretamente o juízo avaliativo ora o 45 Cf. bem como da pretensão de se encontrar um critério. na comunicação normativa. não negava a grande dificuldade que sentia em determinar.

de outro. conforme os princípios da justiça admite duas possibilidades tipológicas que podemos denominar sistema formal e sistema material. ao interpretar a justa retribuição. que se afirma de modo precedente ao que caiba a cada um ou ao que possa vir a ser determinado como algo que deva ser repartido. “a cada qual conforme suas necessidades”. analogicamente. 944. Isso significa que. o princípio da igualdade – nuclear para a justiça formal – oferece uma medida racional para a repartição do que cabe a cada um nas relações bilaterais. em sede de direito civil. 324). Num primeiro momento. Já os diversos princípios da justiça material. é importante o aspecto formal da igualdade (proporção). 402). mas algo que mantenha a dignidade humana. art. de um lado. na correta distribuição dos bens. presumidamente. a organização do universo jurídico. constituem determinações que nos dão. trata-se de recolocar a vítima na situação em que se encontraria se o prejuízo não tivesse sido produzido. cit.. o dano deve ser integralmente indenizado. cit. e racionalidade material e justiça material. um verdadeiro benefício47. na mencionada fixação de perdas e danos (Código Civil/2002. ainda que à custa da mera remuneração do capital. isto é – não deve ser indenizado a mais nem a menos” (MARTINS-COSTA. Por exemplo.. podemos. em regra. Para recorrer a um aforismo clássico. o pagamento de perdas e danos é efeito da obrigação de indenizar. ou “seu papel social”. É o caso das exigências de justiça social. p. a Ver CASTANEHIRA NEVES. o reconhecimento da dignidade da pessoa humana como sentido nuclear da justiça. conforme graus de generalidade. Trata-se da percepção da justiça como uma questão de justeza. 47 46 28 . prudência). para além do dano sofrido. Veja-se. É a percepção da justiça como senso do justo. op. por exemplo. nem numa reparação excessiva que atribuirá. Assim. Por isso a remissão ao art. a partir do qual se entendem (e aí se relativizam) os demais valores: por exemplo. ou “a contribuição do seu trabalho para o bem de todos” etc. o juiz. como um valor padrão. O primeiro é um tipo que organiza o conjunto das normas vigentes como uma relação que vai do genérico ao particular. que indica: “em linha de princípio. o salário não há de ser mera retribuição pelo equivalente trabalho. por exemplo. a premissa racional para a identificação daquilo que deva ser repartido proporcionalmente e a quem. em racionalidade formal e justiça formal. Tomando-se o direito como imposição normativa de uma ordem de distribuição. que nasce com um inadimplemento imputável. falar. em que. op.conteúdo do agir corretamente (retórica. se encontra diante da tarefa delicada: não recair nem numa reparação insuficiente que não indeniza totalmente a vítima. Essa recolocação da vítima tem a ver com a justeza da medida correspondente46.

proporcionalmente.São Leopoldo: Unisinos. Na verdade. 29 . A justiça desta ordem está na razão da delimitação dos conteúdos normativos a partir de um critério de supremacia. implícita na atividade hermenêutica. primariamente. limitada ao caso concreto. Já a sentença é norma individual. a hipótese do legislador racional não é isenta de uma tomada de posição ideológica. diversos posicionamentos. ou como desígnio divino etc. sendo universal a norma que abarca. ora em necessidades vitais. centrada e fundamentada na percepção da justiça como tema nuclear do direito. igualdade) e nele se baseia. repercute na atividade hermenêutica jurídica e se manifesta na reconstrução do ordenamento em nome do legislador racional. na sua abstração. as correspondentes competências da autoridade jurídica. conforme o princípio da igualdade. 48 Cf. Universalidade significa intensão normativa. A justiça da ordem está na razão da delimitação da competência da autoridade como condição da autonomia dos sujeitos e de sua igualdade perante a lei. a previsibilidade e a estabilidade do conjunto normativo. segurança. Essa ideologia. pode ser estática ou dinâmica48. Donde o reconhecimento como justa de uma ordem que se organiza mediante um elenco de direitos e valores fundamentais materiais (vida. a ordem é justa na medida em que consegue delimitar os conteúdos normativos.relação entre lei e sentença. O segundo tipo organiza o conjunto das normas vigentes como uma relação uniforme que vai do universal ao específico. ou como cidadania. Esta ordem é justa na medida em que consegue delimitar. 2006. ao maior número de sujeitos: a justiça como igualdade de todos perante a lei. não importa a competência da autoridade ou o grau da autonomia de ação de um sujeito em face de outro. a maior amplitude de conteúdo. ora em respeito à dignidade do homem. Generalidade significa extensão normativa. Aqui a eleição de um princípio gera. ora como o senso do justo. Ela é estática. 375. não importa. Interpretação e compreensão. que se baseia no modo como se atribui relevância aos valores principais do sistema normativo (ideologia como valoração e hierarquização de valores). conforme graus de universalidade. conforme um princípio material abrangente de inclusão ou exclusão. conhecidamente. a operacionalidade das prescrições normativas. quando a hipótese do legislador racional favorece valores como a certeza. propriedade. ora enfocando a justiça como justeza. a segurança. Assim. liberdade. Ela é dinâmica. sendo geral a norma que se dirige. quais sejam os seus conteúdos. p. Marcelo. DASCAL. Essa dupla possibilidade de sistematização. ora falandose em bem comum. quando favorece a adaptação das normas.

Rechtstheorie – Vernunft und Erfahrung im Rechtsdenken der Gegenwart / Reason and Experience in Contemporary Legal Thought. cabe a determinação das soluções prévias para os conflitos dentro de uma comunidade. Oxford: Oxford University Press. 1986. Torstein. 1963. mas como se estas decorressem de um esforço “científico” de identificação do seu sentido “real” e.). decidido pelo intérprete. a interpretação dogmática reduz a indeterminação inerente do sistema normativo. Jyrki (Hrsg. p. Berlin. VERNENGO. William David. Como ressalta. n. 6. então. 51 Cf. no próprio recurso ao legislador racional reside uma determinada ideologia política segundo a qual somente ao poder legislativo. Oxford: Oxford University Press.Esse dilema. BULYGIN. como representante do povo. FERRAZ JUNIOR. Introdução ao estudo do direito. Lawrence. 50 Cf. Introdução ao estudo do direito. 10. 193-210. dessa forma. op. a dogmática jurídica exerce um astuto poder paralelo. 283. nas quais as idéias de dever e correção (justiça formal) são os temas centrais. cit. Berlin. 30 49 . relevando outras como “objetivas” e imediatamente decorrentes da vontade do legislador. não sendo dado nem ao juiz. As teorias éticas teleológicas correspondem ao ideal grego de vida humana. 53 Cf. Legal Dogmatics and the Systematization of Law. The Right and the good. 204. Rechtstheorie – Vernunft und Erfahrung im Rechtsdenken der Gegenwart / Reason and Experience in Contemporary Legal Thought. 1930. Buenos Aires: Eudeba. UUSITALO.). No exercício desse para-poder. William David. atua com o único propósito prático de restringir os critérios de decisão e eliminar soluções normativas possíveis52. A PRAGMÁTICA DA JUSTIÇA: CÓDIGOS FORTES E FRACOS Ver ROSS. Lawrence. por meio de valorações próprias. p. Fundamentos de Ética.e. 307-308. e ROSS. p. Por meio desse instrumental. a dogmática afasta possíveis justificações para ações como meramente “subjetivas”. Vale dizer. nas quais a idéia de bem (justiça material) constitui o tema central49. UUSITALO. Torstein. verdadeiro “poder de violência simbólica”. que dentro da filosofia moral se expressa na divisão entre teorias deontológicas e teleológicas. Jyrki (Hrsg. 10. In: ECKHOFF. cit. Systematization in Legal Dogmatics and Judicial Decisions. consistente na tentativa de satisfação de determinados fins considerados bons. aliás. Eugênio. 230239. 52 Cf. 235. i. ou. Roberto José. In: ECKHOFF. muito menos ao jurista (com uma função meramente teórica) modificá-las50. 1939. p. As teorias éticas deontológicas correspondem ao ideal hebreu de vida humana consistente em agir corretamente segundo as leis e princípios morais. 1986. FRIEDMAN. p. através do qual controla e uniformiza o ordenamento51. cumpre sua função de “domesticar” o sentido das normas53. Bulygin. Foundations of Ethics. p. como aponta Vernengo. FRIEDMAN. William David. ROSS. FERRAZ JUNIOR. n. op. traduz uma escolha ética dentro de um conflito fundamental entre fazer aquilo que é correto e aquilo que é bom.

mas também a desconfirmação.Na racionalização dos conflitos. com dubiedade para as suas determinações. Assim. com um só sentido para as suas prescrições. Códigos fracos. se a mensagem diz: ninguém está obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. o código forte predomina. de tal modo que a prescrição perde sentido. da proporcionalidade aritmética e geométrica. o código fraco admitirá que lei é qualquer norma emanada da vontade popular. nem oposta nem divergente. o qual passa a prevalecer sobre aquele. justiça é o amor caridoso pelos que nada têm. o código fraco tende a ver limitado seu próprio grau de vagueza e ambigüidade. na medida em que o código forte é re-codificado por um código fraco. um curioso processo de desconfirmação pode ser instaurado. a prescrição da crença em um Deus único e em seus mandamentos pode ser negada. constituem articulações vagas e ambíguas. em oposição aos critérios materiais. Assim. Assim. Isto nos permite dizer que. eles se relacionam com os códigos fracos. Ao contrário. quando nos revelamos agnósticos (não se pode saber se Deus existe ou não). em tese. justiça é o respeito à ordem social criada por Deus. entendendo-se por ambigüidade a imprecisão conotativa (imprecisão do conceito) e por vagueza a imprecisão denotativa (quais os objetos alcançados pelo conceito). não admitam desconfirmação − perante a prescrição da igualdade. a prescrição da igualdade proporcional é violada na medida em que se estabeleça uma desproporção (ou há igualdade ou há desigualdade). quando se age de outra forma. quando no jogo da comunicação. sendo excluído um terceiro − na medida em que. ou há igualdade ou há desigualdade. codificadas por meio de um código forte. a forma de violá-los pode ser a negação. Por exemplo. Desconfirma-se. as idéias do suum cuique tribuere. prescrições normativas. apenas indiferente. Embora códigos fortes. genericamente. em princípio. um código forte: isto é. como um sistema articulado de símbolos. isto é. Nega-se uma prescrição quando se age em desconformidade com ela. se considerarmos um código. Por exemplo. idéias como o justo é o que serve à vida. os critérios materiais da justiça representam um código fraco. A forma de violá-los é. os critérios formais da justiça representam. assumindo 31 . ao contrário. do tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais. na prática comunicacional. poderão ser desconfirmadas. permitem sentidos ambíguos e vagos de orientação. Códigos fortes permitem um sentido unívoco de orientação. quando se age no sentido oposto ou divergente ao que ela prescreve. negá-los. justiça é o que satisfaz aos interesses da classe proletária. constituem articulações relativamente unívocas. quando nos comportamos como ateus (Deus não existe). o código forte codificará lei como norma votada pelo Congresso. ou desconfirmada.

em geral. mesmo que a realidade apresente outros traços até mais significativos para a apreensão do modo como a sociedade vivencia aquela relação. os critérios da justiça material. em nome da igualdade. I). uma reformulação. o sentido da igualdade no contexto real se altera. do princípio da igualdade é importante. mais espaçosas. as regras do próprio código forte tornam-se mais livres. porque introduz nas codificações um limite à imprecisão conotativa e denotativa da justiça material. Estas observações têm implicação para a relação entre justiça formal e material. pois. mediante equidade. a igualdade entre homens e mulheres ainda pressupõe a desigualdade dos sexos e. políticas. socialmente. conferindo importância significativa maior à capacidade de homens e mulheres em desempenhar as mesmas funções (sociais. estamos pensando numa relação entre ambos. Em conseqüência. econômicas. em termos de um código fraco. de tal modo que. A inclusão. admitem. por exemplo. os princípios da justiça formal (justeza) constituem. art. Ao contrário. em termos de justeza (prevalência do código forte sobre o fraco). Com isso. mas porque são neutralizadas pela relevância conferida às semelhanças. se o comando constitucional determina que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. vai buscar no contexto real aqueles traços que tornam significativa a igualdade. assumindo suas regras relativa imprecisão. ao legitimarem-se certos traços comportamentais. Enquanto o primeiro constitui uma regra unívoca. Por exemplo. 5º.princípios cuja desconfirmação é de possibilidade mais restrita. Veja-se o papel do princípio da igualdade enquanto princípio do código forte da justiça formal em face da eqüidade. imprecisão que possibilita formas casuísticas de eqüidade. máximas como “a cada um conforme suas necessidades” ou “a cada um conforme o seu trabalho” sejam codificadas em termos de “a cada um de acordo com as iguais necessidades de todos” ou “a cada um igualmente. a segunda já admite imprecisões. a interpretação dará menos relevância significativa às diferenças de sexo. não porque as diferenças sexuais sejam ignoradas. desde que trabalhe”. ainda trata desigualmente os desiguais. em situações em que prevalece o código forte da justiça formal. um ponto de exigência tanto para quem as recebe quanto para quem as 32 . sujeitas a menos restrições (veja-se a contraposição entre dura lex sed lex e summum jus summa injuria). familiares etc. Quando falamos em prevalência do código forte da justiça formal ou do código fraco da justiça material. profissionais. quando predomina o código fraco. na reformulação. nos termos da Constituição (CF. Assim.). Assim. nas relações jurídicas. a interpretação. se. Sendo um código forte. o código forte pode ser parcialmente desconfirmado. em que o segundo passa a ser função do primeiro.

p. 196 da CF para o caso de fornecimento de medicamento de alto custo. prevalecendo o código da justiça material. a expressão haveria de referir-se apenas ao ser humano. Coimbra: Almedina. com relativa nitidez. sua dignidade. do princípio “a cada um conforme suas necessidades” torna possível. nas comunicações humanas reguladas pela igualdade. contudo. na interpretação do art.emite. a prevalência. art. podendo haver titularidade de direitos fundamentais e capacidade de exercício por parte de pessoas não identificadas com cidadãos de carne e osso”54. CANOTILHO. todavia a dogmática apresenta essa clara extensão como algo implícito na norma e que sua revelação decorre de “pesquisa no texto constitucional”55. Tomada literalmente. Gomes. para atingir um espectro maior de proteção. alínea 3. em face do formal. 2. por exemplo. Outro exemplo é o tratamento interpretativo que se dá à expressão: direitos do homem. J. Curso de direito constitucional positivo. Já a predominância do código fraco da justiça material. em detrimento de outros fatores como a desigualdade social. dá-lhe uma interpretação extensiva (código fraco: justiça como senso do justo). em sentido psicofísico (código forte: justiça como justeza). dentro de uma interpretação do sentido da garantia constitucional de acesso universal e igualitário às ações e serviços para a promoção da saúde (CF. da Lei Fundamental alemã (Grundgesetz für die Bundesrepublik Deutschland): “Os direitos fundamentais valem igualmente para pessoas jurídicas nacionais. comparação com o atendimento da massa de usuários do sistema público de saúde. São Paulo: Malheiros. ed. 195. 1998. ao menos formalmente. não obstante a falta de justeza (proporcionalidade). em outros países. codificar a justiça como igualdade proporcional. a economia nacional. introduzindo. J. 55 Cf. Por exemplo. Ou seja. a exigência da previdência para todos etc. por interpretação especificadora. fórmulas de flexível eqüidade. SILVA. na medida em Cf. para quem está sendo prescrito e em que medida se está fazendo a prescrição. pois. mediante fornecimento de medicamento importado de alto custo. p. Por exemplo. mais espaçosamente. A doutrina. a noção de necessidade conferirá ao seu valor a exigência de levar-se em conta a pessoa do doente. sabemos. 33 54 . Por exemplo o atendimento de um cidadão que reclama do Estado a prestação de um serviço de saúde. como no artigo 19. 384. pode ser apreciado segundo um padrão racional de justeza. Essa prevalência exigirá cálculos de utilidade. 1999. o risco de sua vida. Canotillo sustenta que “a extensão dos direitos e deveres fundamentais às pessoas colectivas (pessoas jurídicas) significa que alguns direitos não são direitos do homem. José Afonso da. faz do próprio princípio da igualdade proporcional uma função derivada. Tal extensão doutrinária já foi levada expressamente ao texto normativo. Direito constitucional e teoria da Constituição. 196).

como acontece no mundo anglosaxônico. a liberdade de expressão prevista no artigo 5º. como ocorre no mundo de direito românico. Georg (Hrsg. que já flexibiliza a noção de direitos do homem. em face da ambigüidade e da vagueza dos códigos fracos da justiça material. 19. a presença predominante de um ou de outro código afeta também o exercício da interpretação jurídica. op. Na interpretação jurídica da expressão. a primeira hipótese leva à exigência de parâmetros quantitativos (standards). Sustentamos que. que afetam o seu sentido semântico57. em suma. Já a segunda. GRÖSCHNER. como acontece no mundo anglo-saxônico. Nesses termos. Cf. Por exemplo. a primeira hipótese leva à exigência de parâmetros quantitativos (standards). A distinção entre justiça formal e material em termos de código forte e fraco permitenos. lhes sejam aplicáveis”. não define quais seriam os direitos fundamentais das pessoas jurídicas. seja qual for a quantidade. Se acentuamos enriquecimento. Grundgesetz: Kommentar. se acentuamos: sem causa. Abs. o que leva novamente a um código forte. cit. alínea 1 da Lei Fundamental Alemã. o aspecto quantitativo se torna relevante (uma quantidade desprezível será ignorada). seja qual for a quantidade. O mesmo ocorre com a expressão “onerosidade excessiva”. DREIER. Band I. importante. 57 Ver FERRAZ JUNIOR.que. a expressão “enriquecimento sem causa” pode receber diferentes interpretações. Rolf. por exemplo. é o aspecto qualitativo (enriquecimento injustificado). que enumera uma série de liberdades asseguradas também às pessoas jurídicas. a diversidade dos seus princípios e da hierarquia entre eles depende da prevalência. dentre os quais. como em Dreier56. 1996. é o aspecto qualitativo (enriquecimento injustificado). do código forte ou do código fraco. numa determinada organização social. Na interpretação jurídica da expressão. se acentuamos: sem causa.1. importante. se acentuamos enriquecimento. a exigência de razoabilidade qualitativa prevalece. 11. a exigência de razoabilidade qualitativa prevalece. examinar qual a repercussão da prevalência de um e de outro na determinação dos critérios da própria justiça material. HERMES. pela natureza. Introdução ao estudo do direito. A lei alemã. como ocorre no mundo de direito românico. o aspecto quantitativo se torna relevante (uma quantidade desprezível será ignorada). se signos lingüísticos admitem usos pragmáticos diferentes. Já a segunda. III.1.). Art. No âmbito do direito privado. item 5. abrindo espaço para a construção dogmática da “natureza” desses direitos. apesar reconhecer a extensão. 34 56 . Horst. na expressão enriquecimento sem causa. Tübingen: Mohr Siebeck.

em bases razoáveis. não repousa apenas nas dificuldades semânticas de se obter uma denotação e uma conotação mais precisas. 478 do Código Civil/2002). p.. 25 ed. sem embargo dos requisitos mencionados. dificultando extremamente o cumprimento de obrigação de um dos contraentes. A posição de Orlando Gomes é ilustrativa58. mas que a onerosidade tenha sido determinada por acontecimentos extraordinários e imprevisíveis (exclui-se a negligência do contratante. ibid. Em outras palavras. sobrevenha. em sede hermenêutica. em algumas legislações. (b) que a onerosidade seja objetivamente excessiva. O civilista admite que. em virtude de acontecimento extraordinário e imprevisível. dado que não há critério objetivo para definir os casos de onerosidade excessiva”59. para reajustá-lo. Para obter-se a resolução com base nessa causa. Id. ou das bases do negócio jurídico (Larenz) ou da teoria da imprevisão (caso do art. mas a toda e qualquer pessoa que se encontrasse em sua posição. assumir-se-ia que a alteração radical das condições econômicas. a excessiva onerosidade é causa de resolução dos contratos comutativos de execução diferida. p. Orlando. no momento em que surgiu. prevalece a interpretação mediante standards quantitativos (prevalência do código forte). (c) não basta que tenha sido agravada exageradamente. com o concurso de outras circunstâncias. podem determinar a sua resolução. ao concorrer para o agravamento). Seja tomando como base o caráter implícito da cláusula rebus sic standibus. “é inevitável o arbítrio o arbítrio judicial. entre nós a prevalência do código fraco conduz a uma hermenêutica mais qualitativa. continuada ou periódica. ser notavelmente mais gravosa do que era. mas no uso pragmático que os códigos (forte e fraco) venham a conhecer no intercâmbio humano. 180. Por isso. no momento de sua execução. mas o juiz pode intervir na economia do contrato. é uma das causas que. isto é. 2002. 35 . nas quais o contrato foi celebrado. Note-se que Orlando Gomes sustenta que o devedor pode pedir a resolução. a prestação não deve ser excessivamente onerosa apenas em relação ao devedor. a eventual variabilidade dogmática dos princípios da justiça material. Rio de Janeiro: Forense. devendo a prestação. 58 59 Cf. Contratos. são os seguintes os requisitos apontados pelo autor: (a) em primeiro lugar que seja excessiva a diferença de valor do objeto da prestação entre o momento de sua perfeição e o de sua execução. (d) deve-se levar em conta o sacrifício do devedor com a execução. onerosidade essa que..Enquanto no mundo anglo-saxônico. 179. GOMES.

este ou aquele é o dominante. da figura fictícia do legislador racional que lhe permite reconstruir racionalmente o conteúdo do ordenamento em um sistema de soluções gerais e abstratas para hipóteses relevantes. em cada comunidade. como algo que já estava lá. se. de forma que a predominância deste ou daquele afeta a interpretação da comunicação normativa. Diante desse problema. vagueza e busca de intenção do emissor da comunicação normativa jurídica. com o estabelecimento de novas distinções. enrijecer aqueles cuja vagueza e ambigüidade dificulte a decisão. a dogmática realiza escolhas. esquemas de interpretação ou mesmo regras. portanto. constitui uma forma de pensar e interpretar que não pode ser reduzido ao raciocínio 36 . que refletem escolhas do legislador a partir de um conjunto de crenças e preferências. CONCLUSÃO O jurista não interpreta do mesmo modo em que o faz o ser humano em suas conversações ordinárias. sua função interpretativa dos sistemas normativos. assim. Por meio dessas técnicas. Isto é. 7. O jurista pressupõe que. por outro lado. a problemática da justiça pode vir novamente à tona. busca racionalizar e domesticar o sentido das normas através de recursos pragmáticos de reconstrução do ordenamento. em nome. definições. em determinados casos relevantes (de potencial conflito). permitindo flexibilizar aqueles comandos cuja precisão possa criar dificuldades de adequação em determinados casos e. valorações e tomadas de posição ideológica acerca da justiça material (justeza ou senso do justo) subjacente às normas. no discurso normativo. implícito no que o legislador (racional) quis dizer. Essas razões. Esse raciocínio desenvolvido pelo jurista. o que tornaria a interpretação virtualmente indecidível se tomada como uma especulação zetética sobre o significado ou a definição de critérios últimos de justiça. isto afeta o sentido da justiça material e. que lhe permite sacar conclusões do material normativo. são fornecidas razões para agir de um certo modo e não de outro. a partir da relação entre código forte e código fraco.A dogmática interpretativa opera e busca racionalizar a oposição entre justiça formal e material e domesticar a variabilidade dos critérios de justiça material. porém. na relação entre código forte e código fraco. Assim. se destinam a uma tomada de posição acerca do que é justo ou injusto. capazes de jogar com os códigos lingüísticos (fortes e fracos) das normas. a dogmática interpretativa. nos casos de complexidade. dentro de sua missão prática de criar condições para a decidibilidade dos conflitos.

Oxford: Oxford University Press. ALCHOURRÓN. 1999. p. Do mesmo modo. v. abre-se espaço para falarmos em uma filosofia do e não no direito. 37 . p 125-148. n. J. 2003. implicando uma forma específica de pensar que não se reduz à filosofia em geral. Marcos. BARBOSA PINTO. CASTANHEIRA NEVES. p. v. 193-210. Berlin. Turku/Loimaa: Turun Yliopisto. Norberto. Risto (Ed. Aqui. ______. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AARNIO. Paris: Vrin. as questões de justiça suscitadas na atividade de interpretação jurídica não são tratadas pelo jurista como questões zetéticas. 88. Buenos Aires: Astrea. New Studies in deontic logic. Law and Interpretation. Wien: Springer. UUSITALO. n.). Araken de. 759. 204-277. Rechtstheorie – Vernunft und Erfahrung im Rechtsdenken der Gegenwart / Reason and Experience in Contemporary Legal Thought. Dordrecht: Reidel. COLEMAN. 1975. Tricot. The Practice of Principle: in defence of a pragmatist approach to legal theory. ______. FRIEDMAN. 1950. LEITER. Teoria do ordenamento jurídico. tal como. 1977. n. 1981. On Legal Reasoning. 1995. 2. 1998. Carlos. 2. Brasília: UnB. Revista dos Tribunais. BULYGIN. Liquidação do dano. ed. 2001. O actual problema metodológico da interpretação jurídica – I. Introducción a la Metodologia de las Ciencias Juridicas y Sociales. ed. MAKINSON. ______. Andrei (Ed. J. em uma especulação filosófica sobre o sentido ou critérios de justiça. 9. Lawrence. 10. 2003. mas como problemas dogmáticos. Eugenio. Trad. 1986. David. Eugênio.interpretativo ordinário. ARISTÓTELES.). António. Objectivity and Authority” In: MARMOR. Jules. podendo-se falar efetivamente de uma “lógica material” do e não no direito. Cambridge. Legal Dogmatics and the Systematization of Law. Éthique à Nicomaque. Oxford: Oxford University Press. Direito constitucional e teoria da Constituição. 1971. também. Interpretation and Conversation. jun. BULYGIN. In: ECKHOFF. BOBBIO. ______. por exemplo. Hierarchies of regulation and their logic. 1997. p. Gomes. Brian. Jyrki (Hrsg. In HILPINEN. 6. Legal Theory. “Determinacy. 11-23. São Paulo. ASSIS. Aulis. Torstein. J.). Normative Systems. p. Coimbra: Almedina. 157-179. CANOTILHO. Coimbra: Coimbra Editora.

2003. Cambridge: Harvard University Press. Horst. ENGISCH. WEIS. Further notes on logic and conversation. M. 38 . v. John. 41-57. ______. 1990. Band I. In: GRICE. Leipzig. Die Rechtsidee im frühen Griechentum. Handbook of the History of Logic. In: DAVIDSON. 2000. SHAPIRO. Natural Law: The Classical Tradition. Cambridge: Harvard University Press. Paul. 2007. p. Juliano Souza de Albuquerque. Porto Alegre: Edipucrs. Tübingen. Grundgesetz: Kommentar. Victor.). 2004. DREIER. Studies in the way of words. Urbano (Coord. Georg (Hrsg. The Roise of Modern Logic: From Leibniz to Frege. WOODS. The Oxford Handbook of Jurisprudence and Philosophy of Law. Tübingen: Mohr Siebeck. 1921. In: GABBAY. III. Estudos de filosofia do direito. DAVIDSON. Domenico. 1984. Charles. 1984. 17. Inquiries into truth and interpretation. Belo Horizonte. Abs. Rechtstheorie bei Hans Kelsen (1881-1973). DIAS. HARTSHORNE. ______. Paul. Oxford: Clarendon Press. Studies in the way of words. 19. Peirce’s Logic. Karl. 2006. Revista de Direito Público da Economia – RDPE. FINNIS. Risto. 1991. Rio de Janeiro: Forense.). Paul. São Paulo: Atlas. DASCAL. EHRENBERG. 1996. Scott. Jules. 2004. HERMES. 11. São Leopoldo: Unisinos. O princípio de eficiência e a gestão empresarial na prestação de serviços públicos: a exploração econômica das margens de rodovias. 3. Donald. Einführung in das juristische Denken. Oxford: Clarendon Press. GRÖSCHNER. FARIAS. 1964. Cambridge: Harvard University Press. Radical Interpretation. Contratos. São Paulo: Atlas. D. MARANHÃO. ______. GOMES. abr. Donald. Milano: Giuffrè. 22-41. Tercio Sampaio. Collected Papers of Charles Sanders Peirce. n. 25 ed. 611-658. 2002. Oxford: Oxford University Press. Orlando. John. Rolf. In: DAVIDSON. 1931-1958. p. Lógica deôntica jurídica. Stuttgart: Kohlhammer. Juliano Souza de Albuquerque. Art. ______. 1991. Logic and Conversation. Miguel Reale – Estudos em homenagem aos seus 90 anos. Paul (Eds. HILPINEN. p. 2002. Marcelo.. GRICE.). Belief and the basis of meaning. Gabriel Nogueira. In: COLEMAN. In: GRICE.COSTA. 2004. Amsterdam: Elsevier. Introdução ao estudo do direito. Inquiries into truth and interpretation. Interpretazione e Logica. FERRAZ JUNIOR. Newton da. Donald. MARANHÃO. In: ZILLES. Interpretação e compreensão.

p. VREESWIJK. Dordrecht: Reidel Publishing Company.). J. Tese de Doutorado. Jules. FOLLESDAL. The Oxford Handbook of Jurisprudence and Philosophy of Law. v. 2. v. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. 9-17. p. Zur Theorie der Interpretation. ______. 2004. 1934. n. p. 477-496.. Studies in the Logic of Charles Peirce. F. Bruxelles. Antoinette J. Andrei. MARANHÃO. ______. Oxford: Oxford University Press. 2002.. n. PRAKKEN. ______. ed. (Eds.. KELSEN. Logics for Defeasible Argumentation. MARMOR. 1990. ed. 1969. p.. 12. In: HILPINEN. v. D.). D. Legal Studies. Scott. (Eds. Judith. MUNTJEWERFF. v.). Some operators for Refinement of Normative Systems. 2. HIMMA. Internationale Zeitschrift für Theorie des Rechts. Deontic Logic: Introductory and Systematic Readings. KAPITAN. Logique et Analyse. NOWAK. V. II. In: COLEMAN. 218-319. In: GABBAY. SHAPIRO. Padrões de racionalidade na sistematização de normas. 2001. Peirce and the Structure of Abductive Inference. Jules. ROBERTS. 10. Jahrgang. In: COLEMAN. Frontiers in Artificial Intelligence and Applications. Oxford. Deontic Logic: an introduction. Bart. Paulson. São Paulo. 2. Bonnie Litschewski Paulson e Stanley L. Exclusive Legal Positivism. p. De la rationalité du législateur comme élément de l’interprétation juridique. N. 1960. Offizielles Organ des “Institut international de Philosophie du Droit et de Sociologie juridique”. LOUI. H. Dagfin. Risto (Ed. 1997. Rio de Janeiro: Forense. On the Theory of Interpretation. SHAPIRO. ______. LODDER. 2002. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press. Comentário ao novo Código Civil. Wien: Deuticke. 1997. EVRA. Trad.. 5. Oxford: Oxford University Press.______. 8. Legal Knowledge and Information Systems. Tomis. 2002. Dordrecht: Kluwer. TEIXEIRA.. 39 . 1971. 2003. Handbook of Philosophical Logic. Amsterdam: IOS Press. Hans. G. D. 103-115. MARTINS-COSTA. Logical Tools for Modelling Legal Argument: a study of defeasible reasoning in law. Ronald P. The Oxford Handbook of Jurisprudence and Philosophy of Law. Inclusive Legal Positivism. t.). In: VERHEIJ. 4. Kenneth Eimar. 127-135. Scott. p. In: HOUSER. Juliano Souza de Albuquerque. GUENTHNER. Sálvio de Figueiredo (Coord. L. 65-86. Reine Rechtslehre. Dordrecht: Kluwer. Arno R.

London: Stevens. 230-239. 175-187. ZIEMBINSKI. Playing by the Rules: A Philosophical Examination of Rule Based Decision-Making in Law and in Life. In: ECKHOFF. 1991. On Law and Justice. 1939. 1951. Rationalität und Irrationalität im Recht / Juristic logic. Roberto de. n. Luis Recasens. n. 1999. ______. Georg Henrik.RAWLS. 1986. 1999. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. n. Sobre el Derecho y La Justicia. 1-70. v. ROSS. 1. Campinas: Bookseller. Instituições de direito civil. Alf. Miguel Maria. México: Porrúa. Mind. 1967. 8. VERNENGO. 1963. Frederick. The uses of argument. n. Rechtstheorie – Juristische logik. Lawrence. Berlin. XXIII. VON WRIGHT. TOULMIN. 10. 1959. Torstein. The Right and the good. 1-15. ______. Systematization in Legal Dogmatics and Judicial Decisions. Rationality and Irrationality in Law. SERPA LOPES. André-Jean. 1958. John. p. Joseph William. Cambridge: Harvard University Press. 1999. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht. Buenos Aires: Eudeba. Zygmunt. 1958. FRIEDMAN. 1978. SICHES. Oxford: Clarendon Press. 1. Lücken im Recht. Rechtstheorie – Vernunft und Erfahrung im Rechtsdenken der Gegenwart / Reason and Experience in Contemporary Legal Thought. Stephen. 1956. 1984. HILPINEN. Oxford: Oxford University Press. São Paulo: Malheiros. Jyrki (Hrsg. SINGER. The Player and the Cards: Nihilism and legal Theory. ROSS. A Theory of Justice. v. p. 60. ______. Comentários à Lei de Introdução ao Código Civil. Leipzig. p. In: ARNAUD. Nueva filosofia de la interpretación del derecho. 139-150. ______. n. Risto. Two Concepts of Rationality in Legislation. La notion de rationalité du législateur. New Haven. William David. v. 1903. Buenos Aires: Eudeba. Archives de philosophie du Droit: Formes de rationalité en droit. WIEACKER. Roberto José. ZITELMAN. Oxford: Oxford University Press.). 40 . 1930. Berlin.). 1985. Ernst. SILVA. Franz. Paris. p. UUSITALO. Cambridge: Cambridge University Press. 1. WRÓBLEWSKI Jerzy (Hrsg. Privatrechtsgeschichte der Neuzeit. Curso de direito constitucional positivo. SCHAUER. 94. José Afonso da. Fundamentos de Ética. 1994. p. RUGGIERO. Yale Law Journal. Foundations of Ethics. Deontic Logic.