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Constantino Cavalleri

O ANARQUISMO
NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

Insurreccionalismo, informalidade,
metodologia anárquica no início do novo milénio

* Contributo para o debate sobre anarquismo, realizado


no encontro “Festa dei popoli in lotta”, Sardenha, 19-20
de Agosto de 1999
1. CONTEXTUALIZANDO O ANARQUISMO

Podemos falar do anarquismo pelo menos desde duas


perspectivas:
- do ponto de vista da doutrina política;
- do ponto de vista da história do movimento, como
movimento de ideias e práticas revolucionárias na luta das
classes subordinadas, para a libertação de qualquer forma de
servidão.
Se nos ocuparmos da primeira perspectiva podemos
Edição original facilmente entender os fundamentos que dão coerência teórica
ao anarquismo, quer filosófica quer politicamente. No entanto,
L’anarchismo nella societá postindustriale: esta perspectiva apresenta grandes limitações no discurso e no
insurrezionalismo, informalitá, progettualità debate porque se pode deslizar para a abstracção ideológica.
anarchica alle soglie del duemila. Compreender o anarquismo significa entender os ele-
mentos que, para além dos aspectos doutrinários, estão enrai-
Arkiviu-bibrioteka “T. Serra” zados em cada indivíduo em perpétua tensão existencial.
Um dos elementos base do anarquismo é o reconheci-
Ruga M. Melas, n.24
mento da proeminência dos indivíduos, de cada indivíduo, no
09040 Guasila (ca) - Sardennia âmbito do universo humano. Cada pessoa é um ser único
capaz de alegrias e sofrimentos, de acreditar e negar, de concor-
dar e discordar, de ter e não ter vontade própria. As outras
entidades empregues na política, na sociologia, na antropologia
e na história para definir um grupo de indivíduos são conce-
ptualizações que, quanto mais abstractas, mais se distanciam
do ser real.
O conceito de “povo”, como é compreendido pelo
anarquismo, exprime a agregação de seres humanos, das suas
condições materiais e espirituais, e das suas várias
inter-relações. Assim, falar de um povo é referir as condições e
relações dos indivíduos que o constituem. Só a partir desta
perspectiva é possível reconhecer a estratificação social, i.e., a
composição das classes no seio de dada população. Podem-se
então descortinar condições de vida que pertencem exclusiva-
mente a um grupo, e não ao todo da comunidade. Estas dife-
renças explicam frequentemente conflitos internos do corpo
social.
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Seguindo este conceito, afirmar que a nação Sarda é pelas provas crescentes da antropologia - agora que foram
explorada e colonizada não significa que todo o habitante da postas de parte algumas tendências etnocêntricas e historicis-
Sardenha seja explorado e colonizado. A “Nação”, não passa tas-finalistas - qualquer corpo social não passa de uma rede de
de um conceito, útil ao interrogar a universalidade dos indiví- relações inter-individuais que garantem a sua continuidade.
duos que partilham alguns elementos da vida social e algumas Onde haja divisão social, diferenças nas condições de vida entre
experiências históricas; mas é claro que na vida quotidiana há indivíduos e classes, esta rede tende a reproduzir e preservar a
diferenças substanciais entre indivíduos, ditadas pelas suas separação e a estratificação. Pelo contrário, se o corpo social
condições de vida. Evitar a abstracção é então necessário para for coeso, as relações internas reproduzirão a sua união e
iluminar essas diferenças e para agrupar indivíduos da mesma coesão. Assim concebida, a liberdade individual é distante e
nação com base na similaridade das experiências de vida. Então distinta de outras interpretações éticas, sociais, políticas e
será possível discriminar quais estão a ser explorados e coloni- filosóficas. Nenhum movimento ou pensamento anarquista
zados e quais são, de uma maneira ou doutra, opressores ou pode procurar atingir o ideal igualitário, porque a sua primeira
cúmplices da opressão na nação Sarda. causa é justamente a negação de todas as formas de padroniza-
Para o anarquismo, então, reclamar a proeminência dos ção. A igualdade é aceite como ideal de paridade nas condições
indivíduos significa que cada um se deve colocar na luta revolu- de vida para todos os indivíduos como base para o livre desen-
cionária dos oprimidos e desfavorecidos tendo em conta esta volvimento da unicidade dos mesmos.
assunção básica, que se pretende não apenas como fim, mas O combate à padronização tem repercussões no anar-
como método e ética. Lutar pela liberdade absoluta de cada quismo. Ele não é um corpo monolítico válido para toda a
indivíduo implica que nos organizemos e combatamos com gente. Pelo contrário, há tantas formas de anarquismo como há
base em tal liberdade. pessoas. Daqui se pode concluir que o anarquismo é um
Hoje em dia o conceito de liberdade está estafado; conjunto de posições políticas fundadas sobre a autodetermi-
significa tudo e nada ao mesmo tempo. É necessário esclarecer nação individual. Porque o espaço político é o lugar de mani-
a concepção anarquista. Aqui, ela coincide com a autodetermi- festação do poder na sociedade, o anarquismo, negando valida-
nação dos indivíduos. Conseguimos a liberdade quando encon- de ao poder centralizado que subordina os indivíduos, é uma
tramos em nós as motivações, as tensões e as razões da nossa posição política que visa destruir todas as formas de poder.
acção, a força para agir, preenchendo a nossa existência com Neste texto, vou propor a minha acepção de anarquismo,
conteúdo criado por nós. apontando aquilo que é comum a, e aquilo que é diferente de,
Só indivíduos autodeterminados podem constituir uma outras formas de anarquismo.
comunidade autodeterminada. Se isso é negado nem que seja a
um único indivíduo, não é possível falar de uma comunidade
autodeterminada. Somos seres sociais; não escolhemos perten- 2. O MOVIMENTO ANÁRQUICO NA PERSPECTIVA
cer a uma sociedade, nascemos nela. Se as condições e as HISTÓRICA
relações que emergem de um corpo social são baseadas na auto-
determinação, o recém-nascido é colocado num ambiente que O anarquismo nasceu, cresceu e ganhou os seus traços
reproduz a autodeterminação, quer nas condições materiais da - como movimento de luta de classes e como doutrina - no
existência, quer nas espirituais. Tal como foi demonstrado fervilhar de ideias, tensões e lutas que foram o Socialismo na

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segunda metade do séc. XVIII. O socialismo opunha-se ao libe- 3. O MOVIMENTO ANÁRQUICO NA SUA
ralismo (e ao laissez-faire, laissez-passer, que era a face econó- ESPECIFICIDADE
mica do liberalismo político). O liberalismo era uma expressão
dos interesses da burguesia capitalista, numa altura em que se Em meados do século XIX, o anarquismo desenvolveu
erguiam os estados modernos das cinzas da sociedade feudal. O a sua especificidade, distinguindo-se de outras correntes do
liberalismo exigia uma absoluta liberdade de capitais, sendo socialismo e também do recém-chegado marxismo. Este proces-
ignorado o sofrimento de milhões arrancados ao campo e priva- so tinha-se realizado em poucas décadas, talvez em “competi-
dos dos direitos que tinham conquistado durante o feudalismo. ção” com várias atitudes socialistas, mas também na luta de
Na esfera política, o liberalismo exigia que os governos fossem classes que começava a organizar-se, primeiro local e esporadi-
neutros, o que garantiria a liberdade dos capitais e construiria camente, e logo internacionalmente (a Associação Internacional
uma defesa contra os ataques dos proletários. dos Trabalhadores, ou Primeira Internacional, foi constituída
O socialismo punha os interesses de toda a sociedade em 1864).
acima dos de qualquer classe particular; dava ao estado o papel Na década de 1840 emergiu um parêntesis teórico
de regular conflitos e de intervir a favor de classes impossibili- graças a um filósofo da esquerda hegeliana, Max Stirner, perito
tadas de desfrutar da riqueza nacional. Quer liberalismo quer no socialismo elaborado por Feuerbach, Marx e outros. O seu
socialismo partilhavam (e ainda o fazem, até nas novas formas trabalho abriu as perspectivas práticas a partir de 1900,
que adquiriram) algumas noções que são a ideia base da existên- embora na altura da sua elaboração tivesse influência limitada
cia capitalista/ocidental: entre revolucionários (sobretudo Bakunine). O livro de Stirner,
- o historicismo, em todas as suas encarnações, O Único e a sua propriedade, (que ele escreveu para além de
- a ideia de progresso. outras recensões críticas) é uma tomada de posição radical con-
Interpretar os acontecimentos humanos como uma tra certos fundamentos do materialismo presente no socialis-
série de estados sucessivos, cada um ligado ao anterior e ao mo. O que Stirner evidencia é a perda completa do único, ou
seguinte e em que cada um é um melhoramento em relação ao seja, do indivíduo concreto, da real subjectividade humana,
que o precede, conduzindo a melhoramentos inevitáveis, pode específica e irrepetível, na alienação daquilo que lhe é comple-
fazer-nos concluir que o capitalismo é parte não negligenciável tamente estranho. Ao falar da humanidade, de povo, de uma
do caminho histórico da humanidade, uma passagem funda- classe e dos seus interesses, os socialistas põem o problema da
mental que não pode ser discutida na sua essência, mesmo que libertação ao contrário; os indivíduos desaparecem para de-
crie grande sofrimento e contradição nas contingências específi- fender causas que lhes são alheias e até prejudiciais. Se não
cas do seu funcionamento histórico. A concepção historico- reconhecermos a unicidade individual, uma coligação de indiví-
finalista está presente no pensamento de Hegel e Marx, se bem duos com passados semelhantes que lutam em comum para
que modificado. Mesmo tendo o anarquismo sustentado diver- afirmar a sua liberdade, cedo se verão a servir causas que não
sas críticas ao historicismo e à ideia de progresso, continua são as deles. De acordo com Stirner, existe a possibilidade de
preso neles, como numa armadilha, partilha com o socialismo encontrar alguém que se aliste nesse grupo sem que siga um
algumas concepções gerais que derivam do horizonte cultural único estandarte. Ele vislumbrou no trabalho de Feuerbach um
daquela época. novo processo de alienação - que afasta o indivíduo de si
próprio, e essa é a base da posição socialista e marxista - a

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tendência para a padronização dos indivíduos (Feuerbach Assim que emergiram, as diferenças mostraram-se irre-
teorizou a “verdadeira humanização” através da vitória sobre a conciliáveis. Marx num golpe-de-mão transferiu para Nova
alienação em Deus, e daí a deificação da humanidade). Iorque o Conselho Geral da Associação, para a afastar da
A posição Stirneriana deve ter tido algumas influências influência dos Bakuninistas. Os anarquistas participaram numa
no crescimento do pensamento de Bakunine, que pôs de lado primeira Conferência em Rimini em 1871 e depois noutros
elementos hegelianos externos e a integrou numa síntese anar- lugares, respeitando os objectivos originais estabelecidos na
quista completa, tendo o cuidado de não esquecer o princípio carta da Associação. Mantiveram-na viva com o nome de Inter-
da proeminência dos indivíduos. nacional Anti-Autoritária, para a distinguir da outra que desa-
Mas será só no final do século dezanove, princípios do pareceria nos Estados Unidos dentro de pouco tempo.
século vinte, que o trabalho de Stirner teve crescente importân-
cia na racionalidade anarquista, privado até aí pela confusão
dos seus detractores. 4. O ANARQUISMO E A QUESTÃO DO PODER
A especial atenção que o anarquismo dedica ao indiví-
duo, resultando daí o seu posicionamento sobre o poder, marca Se a liberdade de cada um e de todos coincide com a
o caminho que leva a uma distinção explícita entre este e outros autodeterminação dos indivíduos, está claro que cada poder,
ramos do socialismo e do marxismo. cada ordem que se situa fora dos indivíduos, é para o anarquis-
O choque crucial ocorreu durante a Primeira Internacio- mo, algo que é necessário destruir. O poder assim entendido
nal. A Associação Internacional dos Trabalhadores fora consti- pode manifestar-se nos vários âmbitos da vida social: na
tuída em Londres nos círculos operários europeus. Obviamente economia, na ideologia, na religião, etc.., mas em qualquer caso
as escolhas organizacionais e as lutas de âmbito europeu reflec- acabará por se concentrar numa única realidade. A manutenção
tiam as muitas variantes do socialismo, à mercê de serem tão do poder concentrado deve-se em parte à imposição brutal e à
vagas. Cada grupo e cada tradução da carta da organização persuasão daqueles que o gerem; e em parte por delegação
interpretava o vago à sua maneira, mesmo que, para dizer a voluntária dos dominados, ou melhor, dos que recusam a auto-
verdade, as próprias cartas reconheciam diferenças. determinação. A escravidão é voluntária, a força bruta e a
Não importa como, o conflito instalou-se porque: persuasão são fundamentos necessários do poder concentrado
- enquanto na opinião dos anarquistas a organização não podia em cada sociedade. Lutar pela sua destruição deve constituir
senão reflectir as necessidades e tensões dos grupos aderentes um ataque a estes elementos. A ligação entre eles aparece
e assim os órgãos institucionais não deviam ter nem funções normalmente como uma unidade demonstrada por várias insti-
administrativas nem substituir a assembleia geral de delegados, tuições, quer físicas, quer psicológicas.
os marxistas, reunidos em particular à volta da componente O processo de libertação tem duas faces: manifesta-se
social-democrata germânica, advogavam o contrário; simultaneamente no choque frontal com as instituições e na
- enquanto para os anarquistas a Associação encontrava pleno luta interior dos indivíduos contra os elementos hetero-deter-
significado na luta económica da classe operária, os seus minantes. É desde esta perspectiva que o anarquismo encara a
opositores acreditavam que ela se devia envolver nas lutas luta contra o poder para a sua destruição.
eleitorais. Em qualquer forma que tenha assumido historicamente,
o Estado é a mais alta expressão do poder sobre os indivíduos.

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De acordo com a sua forma específica, o seu funcionamento é mesmo movimento anárquico não fica alheio às condições
assente ou na brutalidade ou no uso do consenso, sem renun- gerais da sociedade na Segunda metade do século XIX, estreita-
ciar definitivamente a nenhum dos dois. É dentro do Estado mente ligadas à chamada segunda revolução industrial (devida
que os vários campos de domínio (económico, religioso, ideoló- substancialmente à exploração da força motriz não humana –
gico, social, educacional, militar, etc.) se sustentam uns aos vapor, petróleo, energia eléctrica – e à sua aplicação no ciclo
outros numa simbiose única. A participação dos subordinados produtivo industrial).
nos seus mecanismos, institutos e instituições, em vez de A ideologia do progresso indefinido, reforçada pelos
denunciar a essência do poder, reforça-o, já que a oposição descobrimentos, aplicações e exploração da vasta escala de
interna racionaliza e ajusta o poder tornado-o mais facilmente fundamentais conquistas científicas e técnicas; a contemporâ-
aceitável pelos dominados. Daqui deriva a oposição anarquista nea afirmação da teoria evolucionista; o nascimento e o desen-
às eleições, a negação da delegação e do instituto de representa- volvimento das novas disciplinas como a sociologia e a psico-
ção e a recusa completa da concorrência política como meio do logia na sua fase experimental; acabam por monopolizar a
indivíduo reclamar mais liberdade. concepção da existência humana. O enxerto do marxismo em tal
Uma coligação de trabalhadores e de todos os subordi- concepção – na análise específica de Marx e da sua metodolo-
nados (mais à frente falaremos da forma de coligação) torna-se gia, que mesmo revogando em termos materialistas o idealismo
necessária para se opor à organização e à arrogância do poder de Hegel se põe de toda a maneira na continuidade da tal
económico-político - e daí conquistar melhoramentos parciais concepção da luta de classes – remarcam a ideia de progresso
nas condições de vida das massas proletárias para as elevar a na história humana.
uma existência digna - e para enfrentar a grande tarefa de O sindicato representa para o anarquismo, por um
destruir todos os poderes que se sobreponham aos indivíduos. lado, a organização autónoma das classes trabalhadoras para
Uma tal coligação serviria para afinar a consciência, para melhoria parcial das suas condições de vida – não só no interior
preparar material e psicologicamente os explorados na luta da fábrica -, e por outro lado, o caminho propício até à revolu-
contra os exploradores. É assim que a luta por verdadeiros ção social. A organização sindical de natureza especificamente
incrementos nas condições de vida é o ponto forte do anarquis- económica, contrapõe-se à organização de outras correntes do
mo, e não o conflito político e eleitoral que reproduz os limites “socialismo”, que ao contrário dão origem aos actuais partidos
da dominação. Neste ponto os anarquistas entraram em colisão políticos. Se para os anarquistas a luta económica une os traba-
com os autoritários na primeira Internacional. lhadores, a luta política divide-os. Daqui o conceito de sindica-
to como auto-organização proletária sobre a base dos interes-
ses materiais comuns a todos os explorados.
5. A CONSTITUIÇÃO DOS SINDICATOS O sindicato representa também, nesta óptica, uma
estrutura organizadora de massa, não uma organização
Aclarado o porquê da recusa anárquica na participação específica anárquica (ficando esta entendida como uma compo-
política, entendem-se também as razões que levaram os anar- nente política do proletariado). Como tal, une os interesses
quistas a criar os sindicato de classe. Mas para compreender imediatos da classe trabalhadora na perspectiva da libertação
melhor aquelas que identificarei como carências e contradições revolucionária das amarras do capitalismo e do estado.
que o sindicalismo possui, é necessário ter em conta que o

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Pondo o progresso como indiscutível, o capitalismo dade entre o presente e o futuro liberto, continuaram sendo
industrial é concebido como a etapa histórica do percurso tem- aquela que para Marx é a única estrutura da sociedade sobre a
poral da humanidade, que libertando ao máximo as forças e as qual se articula, dialecticamente, cada âmbito da existência
capacidades produtivas da espécie, abre a perspectiva para os humana, referindo-se a esta em última instância.
homens da sociedade ideal, do paraíso na terra, desejado pelos Substancialmente, o capitalismo e o industrialismo não
humildes. Para alguns trata-se simplesmente de apressar os são discutidos em si, como um dos eventos historicamente
tempos da sua chegada (e são as componentes revolucionárias), limitados e circunscritos ao itinerário temporal de uma dada
para outros de chegar a isso de forma gradual, utilizando os parte da humanidade; mas são vistos como etapas necessárias
mesmos instrumentos que a sociedade capitalista e o Estado e superáveis da história no seu conjunto, que se encaminha até
oferecem (e são os reformistas). ao sol do paraíso que chegará. Trata-se de socializar os frutos
Em nenhuma das componentes ideológicas da classes do progresso, de socializar – porque todos participam na sua
proletária é substancialmente discutida a ideologia do progres- formação – o proveito, que no regime capitalista é expropriado
so, o historicismo, o finalismo que as caracterizam. As mesmas aos produtores. Na actual etapa de progresso humano, de
doutrinas económicas reforçam-se frente à segunda revolução facto, à socialização da produção não lhe corresponde a
industrial, que aparece como resolução das problemáticas socialização do fruto dessa mesma produção: a contradição de
sublevadas por Malthus, acerca da disparidade crescente entre fundo encontra-se na privatização dos meios de produção,
o aumento geométrico da população e aquele restringido pela açambarcados pela burguesia capitalista, e na socialização do
produção de bens. O livre desenvolvimento das forças produti- trabalho. Socializando os meios de produção, etapa não
vas num regime capitalista, como ordena a ideologia do eliminável do próprio progresso, a contradição de fundo
progresso, encontra na aplicação das novas forças motrizes da encara-se e resolve-se na síntese socialista, ou melhor, comu-
indústria, o adequado aumento geométrico da produção de bens nista, então em anarquia. (estranho modo de entender dialética-
necessários para o crescente aumento da população! mente o social, esta tríade perene que acaba por desaparecer do
O anarquismo, que faz fundadas críticas às concepções todo o paraíso terrestre ansiado como o fim da história –
científicas, finalistas e mecanicistas (pegando nas degenerações dialéctica – e o começo da verdadeira “humanidade”, é dizer do
do marxismo em relação à originalidade do pensamento de homem humanizado que neste ponto se coloca fora da mesma
Marx), não chega a sistematizar de modo coerente o pensamen- dialética triádica e não se sabe bem como acaba).
to anárquico (a-progressivista e a-historicista) e a sua actuação Desse modo, para os trabalhadores sindicalizados, é a
prática no plano da organização e da luta. O sindicalismo será mesma fábrica de hoje que representa a base material da – e de
sempre, para o movimento anárquico maioritário, a estrutura continuidade com a - sociedade futura. As greves, as ocupações
organizativa das massas que – ainda não suficiente para das fábricas que se farão produzir em condições de autogestão
garantir o bom funcionamento da sociedade livre do futuro e operária, são a demonstração prática da continuidade do modo
por isso necessitado das particulares atenções por parte da de produção capitalista na sociedade livre de amanhã, quando
organização específica anárquica, que o acompanha passo-a- tal modo de produção encontrará superada a contradição da
passo – representa uma espécie de substrato, de apoio sobre o privatização de uma parte do fruto colectivo do trabalho.
qual se articulará cada âmbito da organização social à escala A crítica anarquista à presumível auto-suficiência do
planetária. O economicismo de fundo, assim como a continui- sindicalismo emergiu com extrema clareza no congresso de

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Amesterdão, no inicio do século XX. Contudo não chega a município, do município à região, da região à nação, e desta às
incidir sobre a concepção de fundo da própria da civilização federações internacionais – por representar uma verdadeira e
ocidental, a qual não discutida de forma radical, acabará por própria teia de pactos que de forma unânime cobrirão cada
impor-se em cada canto do planeta com as consequências que canto do planeta (antes Proudhon, depois Bakunin).
todos conhecemos. O principio federalista responde a duas específicas
exigências advertidas pelos anarquistas maioritários:
- estabelecer no plano organizativo a continuidade, ainda em
6. O FEDERALISMO COMO PRINCIPIO DA transição revolucionária, da actual sociedade até à futura
ORGANIZAÇÃO MAIORITÁRIA DO MOVIMENTO sociedade livre, assumindo o seu funcionamento pelo menos
nos momentos essenciais (materiais) da existência individual e
Dada a centralidade histórica da plena liberdade de cada colectiva (no sindicato afina-se a capacidade autogestionária
indivíduo e a necessidade de organização, seja no plano social, dos produtores directos, os quais em período insurreccional e
seja na luta contra a autoridade, a própria organização não pós-insurreccional garantiram a produção);
pode asfixiar a liberdade. É necessário encontrar um principio - criar estruturas formais que estejam em directa competição
que, na sua aplicação prática, reconheça plenamente uma e com as organizações das outras correntes e tendências do
outra, e que seja aplicável seja à organização específica anárqui- proletariado; a lógica é aquela, por um lado, de fazer prosélitos
ca, seja à organização sindical de massas. para engrossar as fileiras do anarquismo e, por outro, de chegar
Considerado o privilégio que toma o momento material a radicar-se de qualquer maneira nas massas proletárias, para
da existência humana, é dizer o económico-produtivo, a grande que em período insurreccional a influência anárquica seja
maioria dos anarquistas encontraram no principio federalista o determinante e participe assim de modo consistente na cons-
que procuravam, e aplicaram-no a partir do modelo económico, trução da nova sociedade.
estendendo-o logo a todos os campos da vida social. Substan-
cialmente tal principio funda-se na estipulação de um pacto en- Ainda não acreditando na possibilidade duma revolu-
tre acordantes que o contraem e aceitam. Pois, aparentemente, ção totalmente anárquica, ou preponderantemente anárquica,
na estipulação de pactos voluntários há salvaguarda da integri- prevalece de certo modo o temor quantitativo. Exacerbado
dade do indivíduo no, no que diz respeito à sua auto- provavelmente pela firme repressão que reduzia os anarquistas
determinação; e a mesma organização que se cria - fundada em todos os Estados, pela competência dos adversários que na
sobre o principio federalista - fica em plena possessão dos metodologia reformista, insinuada também nos sindicatos, e
contratantes, mas estendendo a força dos mesmos. aparentemente científica (em harmonia com as concepções
A maioria dos anarquistas aplicam o principio difundidas) ou pela demagogia populista, esterilizavam os
federalista, seja nas próprias organizações específicas ou nos movimentos de classe, ou então canalizavam-nos até posições
sindicatos. O indivíduo estipula pactos com outros indivíduos de pacífica convivência social e institucional.
e assim se constitui uma primeira federação, um grupo Em todos os casos, as organizações federais, específica
federado; diversos grupos estipulam por sua vez um pacto fed- e sindical, na sua influência recíproca (intercâmbio de homens e
eral e criam um segundo nível federativo e assim seguindo, até ideias de uma parte para a outra) adaptam-se perfeitamente às
às federações de federações que acabarão - do indivíduo ao condições gerais e concepções da época, nos séculos XIX e
XX.
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O fim imediato das organizações que se criam é a lismos e metodologias de espera que acabam por paralisar, não
preparação das condições para a revolução proletária. Isso só e não tanto o movimento específico anárquico, senão as
significa propagandear o anarquismo no seio das massas mesmas lutas proletárias nas quais ostenta certa ascendência.
proletárias, participar nas lutas proletárias que surgem espon-
tâneas, e promover outras sobre a base das exigências
imediatas, para que em tais lutas se afinem as consciências e 7. O LIMITE DO FEDERALISMO
apareça uma nova sensibilidade e força que encontre finalmen-
te saída e plena realização do amanhã libertado. Daqui uma O pacto federal mantêm a sua positividade somente
espécie de programação na intervenção social, que é concebida quando o acordo diz respeito a um conteúdo e a um fim especí-
como conquista gradual e penetração no seio das massas ficos a alcançar. No momento em que contempla na generalida-
analfabetas, brutalizadas pela miséria e pela exploração, muitas de conteúdos e fins, é inevitável a degeneração numa instituição
vezes produto – pela ignorância em que eram mantidas – dos formalizada nos seus mecanismos, e então o decair da máquina
demagogos e dos padres, assim como do explorador directo. que absorve energias e tempo, paralisando a actividade dos
De tal programação está excluído, calado, denegrido, afiliados em tentativas de compromissos para manter viva a
envilecido cada acto de revolta individual e colectiva que própria estrutura federal.
segundo o anarquismo federado só gera repressão, afasta as A existência humana não é um conjunto de relações,
massas do anarquismo, prejudica a operacionalidade e a tensões, desejos, momentos materiais e espirituais dados para
imagem das organizações específicas. Desaparecem assim da sempre. E nem todos os âmbitos da existência se podem
história do anarquismo épocas inteiras profundamente marca- reduzir a conteúdos e fins que são objecto de estipulação de
das, no âmbito da luta de classes, pelo radicalismo de posições contractos e pactos. Com base nalgumas exigências específicas,
e acções que se confrontam directamente com o esperancismo interesses específicos, os indivíduos podem livremente unir-se
de salão dos programadores, com as metodologias paralizantes para reforçar a sua própria energia, conseguir o fim comum
das organizações específicas, com as pretensões de alguns que economizando tempo e forças, e em tal caso o pacto federal
querem impor as suas planificações sociais e leituras garante contudo a autodeterminação dos sujeitos. Mas no
“objectivas” e deixam para trás dia-após-dia o ataque concreto momento em que se vai mais adiante, a mesma organização fed-
às estruturas e aos homens do poder. O olho deixado perene- eral deixa de ser instrumento útil para todos os associados,
mente aberto até à gestão da sociedade de amanhã e as pressu- para ser um fim em si mesma, sobrepondo-se aos federados. É
postas condições objectivas óptimas para a transição, fazem o caso, seja dos sindicatos - mesmo que sejam anarco-sindica-
perder de vista ou cair, por serem secundárias, as razões de listas ou revolucionários - seja da organização especifica
luta, de confronto, que são perenes e imediatas, porque anárquica.
perenes e imediatas são as condições determinadas pelo poder Vimos como, dada a centralidade do momento
concentrado se não se opõe a isto uma metodologia adequada económico-productivo na concepção historicista-progressivista
que represente desde já, pelo menos, um válido dique às sua própria do século XIX e chegada até nós, o sindicato represen-
prepotência. ta a continuidade entre o presente e o futuro. Está claro que se
Mas é o mesmo principio federalista que, segundo a entre os trabalhadores, no caso de uma dada indústria ou de um
minha opinião, apresenta grossos limites e determinado forma- dado sector, nos federamos em perspectiva, por exemplo, de

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federal operante a partir dos interesses gerais, evidenciou, na
cada renovação contratual, e só por este facto, os momentos
tragédia de 1936-’39, os limites maiores e todas as contradi-
que caracterizam o operar de uma federação se desenvolveram
ções de tal perspectiva. A C.N.T. (Confederação Nacional do
todos no interior do interesse comum: as discussões dar-se-ão
Trabalho, a estrutura anarco-sindicalista espanhola maioritaria-
na base das petições que é necessário formular ao patronato em
mente representativa do proletário sindicado) ainda nas condi-
termos de salário, de tempos de trabalho, de salubridade na
ções revolucionárias emergidas da sublevação proletária contra
fábrica, de medidas preventivas e assim seguindo, como
o golpe do Estado militar que logo será guiado por Francisco
também das lutas por desenvolver e dos métodos a utilizar
Franco – condições que a mesma C.N.T. contribuiu em deter-
para impor ao patronato a aceitação das petições. Os momento
minar, tendo também entre outros objectivos o de construir o
de discussão são definitivamente, estreitamente conexos com o
futuro ou momentos da sociedade livre - , teve que dar a sua
conteúdo do pacto e o alcance específico comum.
própria contribuição à reconstituição do poder estatal que se
Se, ao contrário, a organização federal está constituída
dissolveu no momento insurreccional generalizado. Valoriza-
sobre a base genérica de interesses gerais (a salvaguarda da
ções do tipo político, juntamente com a consideração da estru-
classe trabalhadora; preparar as condições para a revolução so-
tura sindical como momento determinante na construção do fu-
cial; etc.), os momentos que a caracterizam tornam-se mais
turo, logicamente impuseram negociações com as centrais
complexos e, sobretudo, as discussões serão inevitavelmente
sindicais e de partido, e então a participação de diversos
dirigidas às concepções gerais de cada indivíduo e dos grupos,
anarquistas na posição de ministros no governo autónomo da
pelo que se tornaram indispensáveis atenuações e sínteses, até
Catalunha primeiro e depois no governo central de Madrid. O
alcançar um acordo que satisfaça a todos mas insatisfazendo
resultado foi indubitavelmente válido no que concerne às colec-
cada qual pelo facto de que cada um, em vista do mantimento
tivizações das indústrias e dos campos, em curso durante um
da organização e da própria unidade, renuncia a algo próprio
breve período, mas absolutamente negativo no médio e longo
que representa exactamente a especificidade do próprio ser.
prazo aquando da reconstituição do poder centralizado com a
A organização toma assim posse da especificidade de
indispensável contribuição dos anarquistas. Aquelas realiza-
cada sujeito e pretende um itinerário próprio.
ções positivas logo tiveram que fazer contas, fosse na frente na
Isso acontece porque quem se organiza vê o presente
luta anti-franquista, fosse na abertura da retaguarda pelas
como se fosse uma etapa necessária para o futuro, e procede às
forças estadistas que se tinham restabelecido.
lutas e métodos de luta que medeiam as necessidades de hoje
O dito pelo sindicato vale, e com a maior razão, para a
com um futuro já pré-determinado (ou pelo menos concebido
organização específica anárquica baseada no principio
como tal). Daqui o progressivo degenerar das estruturas sindi-
federalista.
cais em instituições de poder, submetidas aos interesses e
Antes de tudo, pela particularidade do anarquismo que
concepções dum partido, ou melhor, do Estado-capital no seu
não sendo um bloco monolítico se adequa às peculiaridades
conjunto. As organizações federais actuam em perspectiva,
individuais, torna-se necessário para a organização federal um
isto é, em função de uma continuidade entre o hoje e o futuro,
primeiro esforço com a intenção de atenuar todas as diferenças
hipotecando assim o amanhã às mesmas exigências de hoje: o
bem existentes e substanciais entre os diferentes anarquismos
mantimento do poder social.
dos associados. De tal maneira o próprio anarquismo acaba
O anarco-sindicalismo espanhol é aquele que, tendo
reduzido numa síntese que todos partilham só por ser bastante
conseguido o ápice das possibilidades inerentes à organização
genérica.

18 19
Em segundo lugar, o momento central da federação, 8. CRÍTICA DA ASSEMBLEIA DELIBERATIVA
isto é, da assembleia geral dos federados, chega a ser necessa-
riamente espaço deliberativo-decisivo onde se estabelecem Contrariamente ao que acreditam muitos, a assembleia
estatutos e considerações; uma concepção do anarquismo decisiva-deliberativa é uma instituição autoritária, que está por
adaptada à própria existência da federação, fins que têm que cima do indivíduo. Um facto, entre os mais curiosos da
ser alcançados no curto, no médio e no longo prazo, baseados história, é que uma consistente parte de anarquistas acreditou
nas suas leituras, já sintetizadas, a partir da mesma visão do que isso correspondesse plenamente aos interesses do
social e da sociedade em geral donde se deduz a operacionalida- anarquismo, e coisa ainda mais curiosa é que hoje em dia um
de e as intervenções que se vão pôr em marcha. boa parte de anarquistas federados, sendo a assembleia delibe-
Uma máquina deste tipo (aparte das considerações que rativa o lugar central da instituição da democracia directa,
se seguem), se tinha muito pouca capacidade de incidência so- acabam por fazer coincidir o anarquismo nesta.
cial na época industrial, quando os ritmos impostos pela tecno- A assembleia, o lugar de encontro, discussão, debate,
logia tinham ainda alguma dimensão humana, não tem nenhuma socialização é indubitavelmente importante, já que condensa e
capacidade no presente histórico, dominado por ritmos ditados reforça conjuntamente a sociabilidade, a riqueza específica de
exclusivamente pelas necessidades tecnológicas. O operar da cada indivíduo que, confrontando-se com os outros avalia
federação anárquica é feito em função das concepções gerais do melhor as suas próprias concepções. Não será a própria vida
anarquismo, sintetizado em momentos comuns a todos, e da uma tensão e confronto contínuos? Não reconhecerá o indiví-
leitura dos factos sociais que em particular ou no geral são a duo a sua especificidade no contraste com os outros? Pois o
sua área de intervenção. Confrontando-se com uma mudança momento assembleário é, na sua pequenez, um aspecto da
social, torna-se necessário retomar novamente por meio de própria vida.
comissões de estudo, congressos específicos e gerais, assem- Mas no momento em que essa realidade decai, por ser
bleias deliberativas, etc.., novas linhas de objectividade e um espaço deliberativo, escapa ao indivíduo e formaliza-se
subjectividade. E é nisto que se evidencia como a formalização acabando por ser espaço autoritário que o asfixia. O porquê é
de uma estrutura organizativa revolucionária requer, se está simples.
baseada no princípio federalista, um gasto de energias conside- Deve-se deliberar, é dizer, tomar decisões acerca de
rável que, obviamente, é subtraído da real luta de classe. Na algo, então haverá que decidir, de dar a tal coisa conteúdos e
sociedade informatizada chega-se facilmente ao absurdo, visto contornos precisos. Considerada a peculiaridade do anarquis-
que o ritmo das inovações e aplicações tecnológicas já levou ao mo não é fácil, as mesmas particularidades aparentemente
paradoxo, as mutações introduzidas num sector específico secundários para uns, têm para outros a máxima importância.
reflectem de imediato todos os outros, provocando adaptações Resulta daí que, ou se procede outra vez por síntese, renun-
em todos os âmbitos do social. ciando às particularidades - mas isso nem sempre é possível -
O outro momento de debilidade da organização federal ou pelo contrário, haverá que eleger entre propostas diferentes
de síntese é o seu momento central: a assembleia. Esse é o que amiúdo não admitem compromissos. As distintas posições
lugar, por antonomásia, no qual o anarquismo prova a si aliam-se por facções, e as distintas facções recorrem a todas as
mesmo a própria validez, não tanto sobre o plano dos conteú- possibilidades da arte política, da demagogia, da capacidade de
dos ideais, mas sobre aqueles organizativos e metodológicos. gestionar e manipular a assembleia: arte oratória, encenação,

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persuasão subtil, resistência, confusão, faculdades de realiza-
Mas há outro aspecto, igualmente importante, que
ção imediata que não se manifestam da mesma maneira em
evidencia quanta confusão há no anarquismo organizado de
todos os indivíduos nem tampouco nos mesmos tempos. O
maneira federativa e que tem como momento central do seu
voto ratifica a autoridade que emerge do contraste com o fim de
funcionamento a assembleia deliberativa: tal aspecto é o insti-
decidir colectivamente. Os indivíduos, todos os indivíduos,
tuto democrático, essencialmente baseado na votação da
para além da sua própria posição ser aquela adoptada ou não,
proposta, e é por si mesmo uma enorme contradição para o
saem patentemente derrotados, vencidos por um mecanismo
anarquismo, seja nos termos metodológicos, seja naqueles mais
formalizado pela astúcia, encenações, praxis consolidada,
propriamente gnosiológicos.
competição miserável. A assembleia deliberativa impôs o seu
O conteúdo das propostas (seja no que concerne à
próprio poder, alcançando a todos indistintamente.
análise, seja no que concerne a operacionalidade revolucionária)
Já me ocorreu presenciar assembleias deliberativas
constitui-se sobre a base das sensibilidades específicas, das
anarquistas, até uma vez, num dos congressos gerais da Inter-
concepções do anarquismo e da existência em geral, própria
nacional das Federações Anarquistas (I.F.A.), e posso-vos
dos sujeitos que as elaboram. Tem portanto um valor em si,
assegurar que vi de tudo naquelas sedes, em nada diferente do
para além de outros o partilharem ou não. O facto de submeter
que ocorre em cada partido político, se não fosse pelo facto de
a uma votação tal conteúdo, é algo que menospreza de todas as
que estes últimos têm interesses de poder para defender, os
maneiras aquele valor próprio, reduzindo-o a objecto de mera
anarquistas Não! Então qual a razão para os subterfúgios, as
contabilidade numérica, como se alcançando a maioria dos
tretas dialécticas, os jogos psicológicos, o trabalho atrás dos
votos, ou também a unanimidade se encontre uma comprova-
bastidores contra as posições que contradizem a mesma?
ção objectiva da própria validez; e pelo contrário, em caso de
Honestamente, tudo me deu a impressão de um manicómio.
minoria de votos a comprovação democrática negaria a validez
No entanto, tudo está perfeitamente em regra no que
da mesma. Que razões da luta de classe, da insurgência indi-
respeita à formalidade dos mecanismos.
vidual e colectiva contra o poder subjugante fazem parte de
No espaço formal do funcionamento da assembleia
uma simples questão numérica ?
federativa, tudo vem respeitado pela parte de todos: mesa da
O facto de que se conteste tal pergunta afirmando que
presidência do congresso, passagem de consigna, nomeação de
as propostas são submetidas a votação não para avaliar o
comissões, atribuição de cargos, inscrições para falar, propos-
conteúdo em si mas para avaliar perante tudo, a aderência aos
tas que têm que ser votadas, votações, contagem de mãos
próprios princípios da federação, e em segundo lugar para
levantadas, aprovações e desenhos, e assim sucessivamente;
avaliar se reflectem as concepções de todos os aderentes à
tudo transcrito pontualmente, registado para futura memória.
organização, não faz mais do que piorar as coisas. De um lado
Um carácter tímido, uma sensibilidade como a minha
porque quem projecta as propostas impõe limites na análise,
que necessita de tempo para perceber o que se está a passar,
na crítica, na própria operacionalidade, já que estas são elabo-
uma personalidade não inclinada para os panegíricos do politi-
ras em função da aprovação dos outros; do outro lado porque,
quismo e não propícia à demagogia da arte persuasiva, mesmo
uma vez mais, estão excluídos dos propósitos todos aqueles
expondo respostas objectivamente mais válidas do que as
que, por muitos motivos, não tem capacidade de análise nem
outras, estas ficam esmagadas, asfixiadas, anuladas pelo
de síntese para propor e expor de forma sistematizada.
mecanismo assembleário.

22 23
Enfim, o último obstáculo, ou seja uma das considera- cutiva do capitalismo, trata-se de determinar os êxitos com
ções conclusivas que se alegam para sustentar a sua validez. O base em duas pressuposições:
instituto da democracia directa afirma ter valor não no facto da - convencer os explorados da beleza da anarquia, subtraindo o
unanimidade que se procura na assembleia, mas por ser indica- mais possível as forças dos movimentos adversos;
tivo das distintas tensões que animam o anarquismo federado; - engrossar as filas do anarquismo com o fim de ter uma força
até porque aqueles que não compartilham as decisões tomadas determinante no momento insurreccional.
pela maioria, nem por isso estão excluídos - como contraria- A contradição fundamental do capitalismo - socializa-
mente ocorre, a miúdo, no seio dos partidos autoritários - da ção do processo produtivo, privatização do fruto do trabalho -
federação. Continuam a fazer parte dela, operando nas suas deve ser acompanhada pela tomada de consciência proletária
eleições, desde que estas estejam dentro do marco dos princí- que abrange o processo revolucionário. Um mecanismo perfei-
pios e das condições determinadas por estatuto. Desde a minha to que reflecte a lei causa-efeito. O imprevisível, o incerto,
opinião, essa é a questão mais séria, tão séria que em si vislum- desaparecem da história. No fundo, vislumbra-se no anarquis-
bra a inutilidade e quiçá o prejudicial da organização federal de mo assim concebido, o carácter determinista, próprio de uma
síntese e do instituto democrático: em pró de quê, a este época e típico de uma mentalidade “científica”.
ponto, gastar tempo e energias enormes para o mantimento de Mas se abrimos a interpretação do universo e então da
uma máquina formalizada em momentos não indispensáveis? própria existência humana em perspectivas distintas, damo-
nos conta que as nossas certezas são só presumíveis. Na
realidade nem os acontecimentos físicos, nem o percurso
9. A INDETERMINAÇÃO COMO PERSPECTIVA existencial dos indivíduos podem reduzir-se a mecanismos e
formalismos deterministicamente concebidos. A indetermina-
A nossa mentalidade ocidental, com as suas devidas ção, a informalidade, a espontaneidade, são momentos certa-
excepções, tende a conformar o universo à medida da mente mente não marginais na vida do universo, e eu não tenho
humana ou, o que é o mesmo, a conformar a mente humana à nenhuma intenção de dar força a esta perspectiva sustentando-
medida do universo e dos acontecimentos. Ao fim e ao cabo, a com algumas correntes científicas contemporâneas. Simples-
conhecer não significa outra coisa que entender o desenlace mente afirmo que tais correntes redescobrem o universo como
causal dos eventos. um leque de possibilidades abertas, até cada acontecimento e
Organizamos assim a nossa experiência do universo até às interligações recíprocas.
que nos rodeia, segundo uma sequência ininterrupta de causas e Desta perspectiva é possível compreender que entre a
efeitos que reduzimos a um perfeito mecanismo mensurável, e exploração e a rebelião não há uma relação de causa e efeito. A
correspondente a presumíveis leis fundamentais. O mundo própria insurgência dos indivíduos muitas vezes é uma tensão
assim concebido garante-nos, pelo menos, uma certa segurança existencial que contrasta vínculos e obstáculos existentes, que
existencial: conhecimento é domínio, enquanto previsão e por se podem simplesmente entrever. Não só, a aquisição de
conseguinte exclusão de incertezas. consciência da exploração e dos mecanismos de diversa nature-
Esta mesma mentalidade operou no âmbito daquela za através dos quais esta se manifesta, não determinam neces-
parte do movimento anarquista que deu vida à organização fed- sariamente a rebelião, como também, mesmo que a determinas-
eral de síntese. Situada a revolução social como certeza conse- sem, não era provável que esta se manifestasse segundo os

24 25
nossos tópicos e expectativas. Apesar das nossas presumíveis
certezas, fica a indeterminação e a informalidade do vivido. de reconquista individual do próprio poder autodeterminado,
Trata-se simplesmente de tê-lo em conta para, a partir dessas conduz de modo rectilíneo até novas formas de opressão e de
certezas, voltarmos a pensar a organização e os métodos de poder centralizado. Ninguém pode negar isso, mesmo que cada
luta, como também as perspectivas que dessa maneira se um responsabilize - segundo a própria ideologia - os tradicio-
abrem. nalismos ou os revisionismos, ou também aquelas presumíveis
“objectividades” que acabam por ser ao mesmo tempo promo-
toras da revolução social e suas enterradoras.
10. O FIM DE TODO O VANGUARDISMO Abrir um leque de possibilidades concretas até à
destruição do poder, significa vincular a tensão da insurgência
Os anarquistas não entenderam o mundo melhor do individual a todos aqueles momentos que no próprio social,
que os outros (e vice-versa). O anarquismo, para além de ser para além do operar anárquico, tomam expressões de auto-
uma doutrina política, é sobretudo uma concepção do mundo e determinação ou de ruptura com a ordem imposta. Tal vínculo
portanto uma ética, um confronto específico, concreto, do exclui cada instrumentalização, cada vanguardismo. Os anar-
comportamento do indivíduo. Esta ética deveria informar cada quistas não têm nada que ensinar no plano da revolta contra a
anarquista que ao torná-la própria, adequa-a à sua sensibilidade ordem estabelecida. Por isso esse vínculo que se dá entre a
particular, tensão e característica pessoal única. O anarquismo tensão anárquica e as forças sociais rebeldes, materializa-se
assim entendido não coloca razões ou justificações em lugar como estímulo ao radicalismo da luta e da rebelião, acentuando
algum fora de si mesmo, seja mesmo a anarquia, na sua acepção cada elemento da autodeterminação e projectando outros.
de sociedade anárquica a alcançar-construir. A insurgência do Se desaparece a certeza da revolução social, a sua
indivíduo contra tudo o que o oprime justifica-se por si. possibilidade não permanece excluída. No entanto, uma vez
Contudo, excluído cada historicismo, determinismo, desaparecida a certeza, dissolvem-se, porque estão estreita-
finalismo, mecanicismo, cientismo e assim seguindo, está claro mente ligadas a ela, todas a serie de considerações organizativas
que a própria rebelião, mesmo que encontre em si cada justifi- e metodológicas da bagagem das federações anarquistas. Carece
cação, não é suficiente para destruir definitivamente as formas de sentido a competição com os adversários e portanto a
históricas de poder centralizado, subjugante dos indivíduos e propaganda com o fim de ganhar para o anarquismo mais
das classes subalternas. Daqui a necessidade de abrir um leque proletários do que fazem outras forças. Já não faz sentido
de possibilidades reais, materiais e espirituais por uma liberta- organizar-se hoje em função da construção do futuro livre;
ção definitiva. seria hipotecar o amanhã às exigências de hoje. Já não faz
Contrariamente a outras posições políticas, a tensão do sentido que os anarquistas se proponham tarefas históricas,
anarquismo até à destruição total dos poderes constituídos, assumam funções, em pró da revolução social libertadora. Os
não se confia exclusivamente na objectividade do sistema e dos anarquistas, igual a outro movimento, são só um dos infinitos
mecanismos que a sustêm, mas também na autodeterminação centros que fazem parte do universo.
individual. Na realidade, o processo revolucionário, na sua
acepção de mutação radical de um estado de coisas a outro,
mesmo que não esteja baseado no contemporâneo movimento

26 27
Segundo um raciocínio lógico, o anarquismo enquanto
11. INSURREICIONALISMO negação do poder centralizado, é um momento essencialmente
destrutivo, não também construtivo.
Mesmo como possibilidade única, o processo revolu- No evento insurreccional generalizado o anarquismo concreti-
cionário têm que se catalisar numa ruptura com o existente. Tal za-se a grande escala na indivisibilidade da sua ética e doutrina.
ruptura é a insurreição generalizada que destrói o poder consti- Tal evento é o que acaba por ser assinalado em relação aos
tuído nos seus elementos substanciais: instituições várias, outros. Ora, a insurreição generalizada é uma possibilidade não
socialização do grandes meios de produção, etc.. directamente ligada à pura actividade propagandistica, no
Na nossa perspectiva, o momento insurreccional chega entanto, não há que excluir um eventual benefício que a propa-
a ser central, e isso devido a diversos motivos: ganda anarquista traz ao social subalternizado. A possibilidade
- pela sua essência destrutora, e não construtora; mais concreta reside nas exigências dos explorados, nas neces-
- pela ausência total, no seu ápice, de motivos mediadores ou sidades que o sistema de exploração e de opressão deixa insa-
de tendências moderadoras; tisfeitas nas amplas massas de proletários. Há sempre a possi-
- pela emancipação do indivíduo das alienações materiais, bilidade que de um protesto, mesmo iniciado por motivos
morais, psicológicas impostas pelo sistema de servidão; aparentemente fúteis ou de ordem reformista, expluda o
- pela impossibilidade da sua instrumentalização, no imediato, momento insurreccional; mais ainda se é utilizada uma metodo-
por parte das forças do poder. logia de luta que seja prelúdio da autodeterminação: autogestão
É portanto no imediato do evento insurreccional que é possí- da própria luta, ataque sem exclusão de golpes à parte contrá-
vel, para os anarquistas, destruir e estimular a destruição de ria, recusa de mediações e de mediadores, determinação no
todos os âmbitos do poder centralizado. Qualquer avaliação conseguir da tentativa.
acerca da continuidade, entre o social velho e aquele por cons- O insurreccionalismo anárquico é, mais precisamente, a
truir, demonstrou-se catastrófica pela própria revolução social. intervenção nas lutas emergentes do social, segundo a metodo-
No entanto o momento regozijado da destruição é muito breve logia que defende a insurreição generalizada e que se materializa
e em tal espaço de tempo é indispensável golpear. Uma vez no imediato como praxis da acção directa, da autogestão das
acabado o momento, as forças de poder que escaparam da próprias lutas, sem pôr vínculos às tensões específicas e sensi-
destruição, terão milhares de ocasiões e motivos para se bilidades dos indivíduos e grupos, estimulando assim a multi-
proporem como indispensáveis na construção do novo, fazen- plicidade de formas de intervenção. O que caracteriza o insur-
do persistir o cansaço e as necessidades materiais dos insurgen- reccionalismo anárquico é o método posto em marcha, não o
tes. Não será contudo na competição directa com tais forças conteúdo de cada luta.
que o anarquismo terá possibilidade de radicar-se nos indiví- O método justifica-se por si, pelo qual exclui cada
duos, mas sim no facto de haver conseguido destruir as condi- valorização de tipo quantitativo: não se actua em função do
ções materiais, institucionalizadas e formalizadas do poder aumento do numero de anarquistas, mas sim dos estímulos que
antecedente - exército, tribunais, municípios, parlamentos, o método chega a difundir no social ou nas lutas específicas.
arquivos, armamento e homens - e no prosseguimento por Que importância pode ter, definir-se anarquistas ou não, no
força da luta radical contra tudo o que enquanto velho ou novo momento em que a prática da acção directa, do confronto com
quer subjugar os indivíduos. o poder constituído, da negação da subjugação avança?

28 29
12. METODOLOGIA INSURRECCIONALISTA melhor - como já vimos no caso das organizações anarquistas
de síntese - na estrutura federal que, se bem privada de instin-
Na minha opinião, os anarquistas distinguem-se dos tos burocrático-hierárquicos, se move na base de momentos
outros revolucionários e dos restantes proletários, não pelo formalizados (comissões, assembleia deliberativa, votos, etc..).
radicalismo da sua intervenção, não porque são mais “humanis- Num caso como no outro a vitalidade e a riqueza obtidas pelo
tas” e sensíveis do que os outros, não porque defendem uma contraste, a diversidade, a especificidade dos sujeitos são
sociedade idílica ou outros centralismos e amenidades pareci- negadas ou acabam esterilizadas por via das sínteses neces-
das. Distinguem-se mais simplesmente pelo método com o qual sárias e do mesmo formalismo imposto pela organização.
se relacionam com as coisas, as pessoas, as situações. Mas o Mas a organização também é possível de uma forma
método não chega a manifestar todas as possibilidades se não totalmente diferente, sem forçar - mas sim dando-lhes a justa
se pretende alcançar, em consequência, pelo menos os mais funcionalidade - com mecanismos e institutos formais a especi-
importantes aspectos do nosso actuar. O método produz o ficidade dos indivíduos e a articulada variedade de formas de
máximo da sua potencialidade se é acompanhado e sustentado existência. Essa é a maneira de se relacionar com os homens e
por um planeamento, por outras palavras, se se actua em com as coisas na própria informalidade, por conseguinte no
perspectiva. próprio fluir das relações, tensões, particularidades, exigências,
É no actuar planeado que cada acção, cada intervenção, afectos, necessidades de luta, de sobrevivência de cada um e
encadeadas umas nas outras sob uma perspectiva de fundo - no dos outros.
nosso caso, a possibilidade da insurreição generalizada - adqui- A própria vida flui graças à informalidade, é dizer, por
rem um sentido e uma razão global, resultando assim mais meio daqueles momentos que o poder constituído não conse-
contundentes no confronto contra o poder constituído. gue asfixiar, formalizando-os no interior da sua própria ordem.
E é nessa informalidade que emergem os desafios de actos de
rebelião que discutem a ordem do Estado-capital. Da indeter-
13. A ORGANIZAÇÃO INSURRECCIONAL INFORMAL minação e multiplicidade do universo, do ponto de vista da sua
informalidade, não surgem revolucionários que programam o
Deveria resultar evidente nesta altura, que a momento construtivo da revolução social, enclausurando-a
organização, desde a nossa perspectiva, não é um fim senão um dentro do limites e percursos da sua própria mente; emergem
simples meio, um instrumento que, sustentado por uma meto- sim indivíduos insurgentes contra as presentes condições de
dologia precisa permita aos indivíduos reforçarem-se sem poder e ao mesmo tempo contra cada hipótese e tentativa de
acabarem súbditos da própria organização, que comece da construir outras novas, deixando assim ao futuro indetermina-
autodeterminação e reproduza autodeterminação. do cada momento construtivo.
A organização expressa as relações entre os homens, Esta é a organização anárquica informal, que é prelúdio
entre estes e as coisas e os acontecimentos. de uma organização – igualmente informal – das lutas que se
Tais relações podem fixar-se em momentos estabeleci- iniciam ou daquelas em que participamos.
dos, que constituem verdadeiras e próprias instituições formais A união dos Anarquistas Sardos (U.A.S.) é um lugar
dentro das quais se estruturam. Esse é o caso da organização em que a informalidade das relações é cultivada mediante a
formal que se concretiza na estrutura burocrático-vertical, ou prática insurreccionalista. Não é um lugar em que se cultivam

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ideologias ou momentos de assembleia deliberativa. É um lugar mentes dos organizadores sociais, têm relevância própria já que
onde se socializam análises, projectos de luta, momentos de introduzem tensões que favorecem a insurreição generalizada.
luta; cada um dá e colhe desse lugar, dá só sobre a base das Como já vimos, a perspectiva anárquica insurreccional
afinidades e interesses encontrados nos outros - que podem ser e informal coloca no primeiro plano a insurreição generalizada,
todos ou somente uma parte dos que constituem a U.A.S. - o não pretende, como nega decididamente, ter papeis constru-
que mais lhe pertence. Quem considere oportuno faz também tivos. O momento predominante da perspectiva é a autodeter-
propaganda simples, mas o que caracteriza a U.A.S. é que não minação pela autodeterminação, então essencialmente
actua para fazer proselitismos, mas sim para estender ao social destrutivo-negativo.
- particularmente nas lutas específicas - o método insurreccio- Mas não acredito que exista alguma possibilidade, pelo
nal na informalidade das relações. indivíduo singular, mesmo sendo anarquista insurreccionalista,
Com esse espírito estivemos presentes em algumas das de destruir o poder que o oprime. Esta possibilidade abre-se só
lutas e situações mais significativas da última década; por mediante sintonia com quanto emerge do destrutivo e negativo
exemplo contra a primeira operação político-colonial denomi- do próprio social, não para ser instrumentalizado, mas para
nada “Força Paris”. Com o mesmo espírito nos introduzimos difundir e estender as contradições, a desordem, a revolta.
na luta contra os parques tecnológicos ou naturistas que Quanto mais esses actos se manifestem descompostos e desor-
sejam, porque por meio de uns e dos outros, aparentemente denados, sem nenhum centro, fazendo referência a milhares de
sem ligação, o Estado-capital, que já se reestruturou passando centros, cada um autodeterminado, então mais irrecuperáveis e
do industrialismo ao pós-industrialismo, inicia-se para dominar irredutíveis serão a uma formalização por parte dos opositores
a nossa terra reduzindo-a a centros de investigação e a uma da desordem social.
imagem da realidade virtual que reproduz lucro e sistema. O poder na realidade, ainda na aparente desordem que
cria, só pode afirmar-se e perpetuar-se numa qualquer forma de
ordem. Os revolucionários, também os anarquistas que querem
14. A DESORDEM DA REVOLTA cobrir o papel de construir o futuro, e não só de destruir o
presente, recompuseram inevitavelmente a ordem social,
Então informalidade nas relações, informalidade na afogando assim a desordem da insurreição generalizada,
participação nas lutas, informalidade, na sua acepção de entregando de tal maneira o corpo social inteiro nas mãos dos
indeterminação, na acção insurreccionalista e no próprio novos poderes que, naquela ordem recomposta encontraram a
momento insurreccional. ocasião onde lançar novas formas de exploração e de opressão.
Também o actuar planeado não renega à informalidade, É por isso que nós reivindicamos e actuamos em
é sim produto dela e nela se resolve. A própria organização é função da revolta descomposta, difundida por todos os lados,
totalmente outra coisa que uma estrutura: é sim um lugar de sem cabeça nem cauda: melhor dito, somos pela desordem so-
socialização e de sintonia das lutas e das tensões, não de cial permanente, condição indispensável para criar a impos-
unificação das mesmas. sibilidade de que se manifeste o poder centralizado.
Da mesma maneira, as lutas emergentes do social, os
actos de revolta individual ou colectiva, longe de serem instru-
mentalizados por fins de qualquer revolução que descansa nas

32 33
15. A ACTUALIDADE DO ANARQUISMO
No presente, a reestruturação do capitalismo, devido à
INSURRECCIONALISTA
utilização sistemática de novas tecnologias em cada âmbito do
social, da produção de mercadorias ao seu consumo, da comu-
Acredito que a organização anarquista de síntese,
nicação ao controlo difundido no território do civil ao militar,
apesar de tudo, teve grande importância no passado. A
modificou substancialmente o mundo. A realidade está com-
sociedade industrial, essencialmente baseada na concentração
posta por momentos, estímulos, tensões verdadeiras que são
produtiva, muitas vezes até à verticalização do ciclo inteiro de
afogadas e misturadas nos momentos virtuais. A realidade vir-
produção de mercadorias que determinava a presença em
tual das necessidades induzidas, da produção de mercadorias
espaços limitados de milhares de trabalhadores, tinha ainda
virtuais e de consumo virtual já se impôs. A fabrica tradicional
como consequência a constituição de uma maneira de entender
desapareceu ou está para desaparecer definitivamente, para dar
em comum, e evidenciava os próprios explorados como produ-
lugar a uma quantidade de pequenos e pequeníssimos centros
tores da riqueza social que, pelo contrário, o capitalismo
produtivos altamente informatizados, com possibilidades de
privatiza em benefício exclusivo da burguesia. Os mesmos bens
conversões produtivas impensáveis no seu tempo. Os interes-
produzidos eram de utilidade comum e seriam também no
ses do proletariado, quebrados em milhares de pedaços,
hipotético futuro libertado. A revolução social, actuando a
perdem-se nas teias da realidade virtual. O consenso generali-
expropriação dos grandes meios de produção, teria levado não
zado encontra na democracia o mecanismo que o reproduz:
só à socialização da produção, como também dos bens produ-
chegamos às consultas populares teledirigidas para estabelecer
zidos, de utilidade social enquanto ligados à satisfação das
qual mercadoria virtual satisfaz melhor as necessidades virtuais
necessidades reais.
dos consumidores virtualizados!
O que representou o grosso limite da organização anar-
A mesma democracia já é uma das realidades virtuais,
quista de síntese foi o ter pretendido a exclusividade, de ter
como todas as outras. Eu encontro ainda mais carentes de
sempre demonizado as tendências anárquicas minoritárias que,
sentido as considerações pontuais sustentadas por algumas
no plano da organização e da metodologia, praticam interven-
publicações anarquistas durante cada eleição política, em que
ções distintas que esquivam as contradições e os limites do
se afirma que a alta percentagem das abstenções, dos votos
federalismo, da democracia directa e do anarquismo de síntese.
nulos ou anulados, confirmara a perda de confiança na política
Não é de negar que as organizações de síntese são, à
e na democracia representativa. Afirmações sem sentido algum!
sua maneira, insurreccionalistas. Com efeito, o anarquismo,
A verdade pelo contrário, é que a sobrevivência do
negando qualquer forma de democracia representativa, necessa-
Estado-capital tecnológico, pulverizado no território, só é
riamente tem de colocar no processo revolucionário e na insur-
possível através do consenso generalizado. Enquanto a fábrica
reição generalizada, como a possa entender, o momento de
tradicional se podia defender de uma qualquer força militar, por
ruptura com o presente histórico. Só que a insurreição generali-
estar localizada num lugar bem preciso, a informatização da
zada está metida num futuro, as suas condições objectivas e
produção determinou a divisão numa quantidade de pequenos
subjectivas é necessário construi-las passo a passo, contanto
centros produtivos em cada canto do planeta; a informática
com a força numérica da organização anarco-sindicalista, as
sozinha permite que seja possível a produção desde as
condições materiais do momento e qualquer outro acidente
próprias habitações, basta um computador pessoal. Agora é
imaginado por mentes e estruturas mentais encerradas no círcu-
evidente que um sistema deste tipo nunca poderá ser defendido
lo da continuidade histórica e de outras valorizações.

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senão na transformação em polícias do sistema das mesmas reccionalista, isto é, na acção directa e na autogestão da própria
pessoas que vivem no território: nenhum dispositivo repres- luta, nos momentos essenciais de ruptura com a praxis da
sivo sería capaz de garantir a segurança de tal sistema pulveri- mediação e da aceitação passiva dos mecanismos próprios de
zado. Que importância pode ter, pois, o facto das urnas serem delegação.
abandonadas se, contemporaneamente não se ataca o Estado- Providos desse método, e da metodologia necessária
-capital pós-industrial? para oferecer à luta perspectivas de ligação com outras lutas e
No entanto não se pode afirmar que o consenso ao ac- de entendimento mais amplo da especificidade que reflecte,
tual estado de coisas seja total. Os excluídos pelo sistema, os ficam abertas largas possibilidades de um resultado insur-
marginalizados, os insubordinados são o fruto natural de uma reccional.
sociedade dividida em privilegiados por um lado e subalternos Nesta perspectiva, o anarquismo não é uma doutrina,
por outro. A rebelião é um facto também natural, que certa- senão uma maneira concreta de enfrentar o existente, de lutar
mente não foi descoberto pelos anarquistas nem pelos outros contra este pela sua definitiva e total destruição.
revolucionários. Mas essa rebelião não é imediatamente recon-
duzida aos velhos programas revolucionários que olham a
destruição do presente para reconstruir contemporaneamente 16. PÓS-INDUSTRIALISMO, ESTADO, LUTAS DE
um futuro libertado. A rebelião actual é caótica, desordenada, LIBERTAÇÃO NACIONAL
justifica-se por si mesma. Para os rebeldes sociais, a insurgên-
cia é uma recusa total das ideologias de qualquer tipo, por O estado moderno surgiu das exigências das burguesias
serem consideradas, em boa parte com razão, os pilares que locais, em raivosa luta entre elas, durante o período de acumu-
sustentam o sistema que os oprime. A sua rebelião é aquela lação originária do capital, do seu enraizamento e expansão em
que estala de maneira destrutiva, contra tudo e contra todos. territórios circunscritos. Protecção e garantia do capital da
Não é compreensível em nenhum esquema preconcebido. A competição estrangeira, dos ataques das massas proletarizadas
origem da rebelião pode ser uma reivindicação específica, a e da resistência cultural e material dos povos e etnias históri-
contestação de um acto considerado ofensivo, em resumo, cas, hostis à penetração e ao domínio Estatal-capitalista. Etno-
qualquer momento particular que por inúmeros motivos as- cídio e genocídio acompanharam o Estado moderno desde as
sume uma situação específica em função detonante. suas origens até ao surgir do terceiro milénio. Não é por acaso
Não se trata portanto de questões gerais ou generaliza- que o Estado se
das, mas sim de motivações específicas. Esse facto é de mostrou historicamente não só inimigo das massas proletárias,
máxima importância na consistência do nosso discurso. como também das forças sociais e políticas dos povos
Com efeito, cada tentativa de indução do facto especí- oprimidos.
fico que origina a luta, em condições e considerações de A aplicação das novas tecnologias aos processos
natureza político-social, imediatamente se realiza como instru- produtivos de mercadorias (e na sociedade tecnológica qualquer
mentalização de fins alheios à própria luta; a realidade do facto coisa, material ou espiritual, real ou fictícia, é mercadoria),
passa a ser essa instrumentalização. juntamente com a sabia utilização dos media na criação de
Mas são sempre essas lutas que abrem a possibilidade de realidades virtuais e na manipulação das consciências, modifi-
uma intervenção específica que se encontra no método insur- caram radicalmente o quotidiano.

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A pulverização da indústria no território requer o no imediato e adiar a questão nacional para amanhã. A inde-
máximo consenso por parte de quem habita esse mesmo pendência estatal, no pós-industrialismo, significa fazer
território: um Estado não aceitado, a miúdo directamente imediatamente os interesses do Estado-capital e das multina-
confrontado e objecto de ataques contínuos por parte das cionais, e não se necessitas muito para entender que a indepen-
populações, é um poder político incapaz de garantir a estabili- dência real, a autodeterminação dos indivíduos e dos povos não
dade e os interesses do capitalismo pós-industrial. Por isso, em pode existir se está debaixo do jugo material do capital autóc-
muitas situações – velha Europa, América Latina, ex-império tone, varias vezes confundido com o estrangeiro.
bolchevique, Médio Oriente e Extremo Oriente – assistimos Hoje, mais do que nunca, a luta pela autodeterminação
não só ao nascimento de novos Estados, mas também à tem que ser ao mesmo tempo a luta contra o capital e contra o
transformação de Estados ditatoriais em regimes democráticos, Estado, mesmo e sobretudo contra o local, já que se vislumbra
e noutros tradicionalmente centralistas (como o italiano, o nas administrações periféricas e nas regionais, com todos os
espanhol, o francês, etc.) em regimes democráticos de ampla aspectos de autoctonia. Luta que tem que manifestar-se com
descentralização administrativa, com reais tendências até novas novas formas de organização, adequadas ao ataque real à
formas de poder estatal federalista. sociedade tecnológica: não em estruturas político-militares e
Ao mesmo tempo a mundialização do mercado permite interclassistas, porque continuariam a produzir o martírio dos
e induz o desmantelamento da indústria tradicional que se indivíduos e a racionalização do Estado-capital. Não mais
encontra em áreas ainda não pacificadas. O objectivo é con- exércitos de libertação nacional que com o pretexto da auto-
verter estas últimas, homologando-as aos mesmos processos determinação futura, na realidade constróem o Estado local
produtivos pós-industriais, em gigantescas realidades mais adequado à sociedade do domínio pós-industrial, e por
ecológico-turísticas fictícias e, como tal, objecto das massas isso, liderando a nova opressão e homologação à mercadoria.
aculturadas, que consumando esse virtualismo, levam a cabo o Não mais a luta contra um único Estado, historicamente
processo de desculturalização que o Estado e o capital indus- opressor das situações geo-humanas específicas, mas sim con-
trial não tinham chegado a fazer. tra todos os Estados que representam um interesse único e um
O desmantelamento industrial nas Astúrias e em inimigo único que há que golpear.
muitos lugares do País Vasco, o encerramento das minas da Hoje, mais do que ontem, os exércitos revolucionários
Cerdenha, etc., até à contemporânea imposição dos parque não têm nenhuma razão de ser: o inimigo está difundido em
naturais e áreas protegidas, são melhor compreendidos se todo o território, para golpeá-lo bastam pequenos instrumen-
forem analisados por esta perspectiva. Ao Estado-capital ac- tos, um pouco de vontade e muita criatividade. Mas é evidente
tual interessa a ganância, não as maluquices ecologistas, que que golpear o inimigo num só ponto, num só território, não lhe
sabiamente sabe utilizar para fazer uma verdadeira e própria constitui uma ameaça de todo. Para colocá-lo seriamente em
indústria capaz de transformar uma realidade fictícia numa discussão, há que toma-lo na sua real extensão e ramificação,
ganância real. que vai para além das marcas nacionais e culturais dos povos e
Aclaram-se assim também aquelas posições inter- dos Estados, dando-lhe o assalto de maneira sintonizada, cada
classistas, próprias da burguesia compradora, e do capital qual segundo os seus próprios instrumentos, métodos e
local das áreas geo-humanas oprimidas culturalmente. Com sensibilidades.
efeito, não se pode jogar mais ao enredo da libertação nacional

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17. PROPOSTA DE UMA INTERNACIONAL tem que ser atacado em Chiapas e noutros lugares de forma
ANTI-AUTORITÁRIA INSURRECCIONALISTA: sintonizada. Paralisar o lucro do Estado-capital, é a verdadeira
A SOLIDARIEDADE REVOLUCIONÁRIA COMO solidariedade revolucionária que, dessa maneira, não é mais
CUMPLICIDADE NA LUTA. dávida de sentimentalismos e paternalismos, mas sim cumplici-
dade na luta pela autodeterminação dos indivíduos e dos
A perspectiva internacional permite-nos localizar a povos.
presença das multinacionais na nossa região, e ao mesmo É nessa óptica que, juntamente com companheiros
tempo, identificar o capital local noutras regiões em coligações doutros lugares, lançamos a proposta de uma Internacional
de interesses que são as multinacionais. Antiautoritária Insurreccionalista (I.A.I.) desde 1992. Proposta
De tal modo descobrimos que o pecorino Sardo (queijo que não passou inobservada pelos guardiões e diligentes do
de leite de ovelha), por exemplo, pode desembarcar no Canadá Estado-capital – certamente não dotados para entender as no-
e nos E.U., porque se traduz numa mercadoria da multinacional vas formas radicais da rebelião social e da insurgência fora das
Barilla. Por sua vez esta multinacional é constituída por condutas das organizações políticas tradicionais (partido arma-
capitais de outras multinacionais que operam noutros lugares do, organização vertical, etc..).
do planeta. E descobrimos ainda, que também os aforros dos A Internacional Antiautoritária Insurreccionalista não é
mais míseros proletários Sardos, entregues nas caixas do Banco uma estrutura, não é uma máquina, nem sequer um mecanismo
da Sardenha, misturado com capitais de outros bancos e multi- que se reproduz a si mesmo. Nem tampouco é uma entidade
nacionais, acabam por ser uma das realidades opressoras de formalizada, mas simplesmente um momento, um espaço, uma
povos, etnias e proletários em cada canto do planeta. Com possibilidade de socialização das tensões e dos projectos de
estas constatações estamos em posição de entender quanto indivíduos e grupos que desde já se estão a confrontar realmen-
inócuas e miseráveis são as formas de “protesto e solidarieda- te contra a sociedade do Estado-capital informatizado, segundo
de” que muitas vezes se expressam em desfiles igualmente a metodologia insurreccionalista, a informalidade nas relações e
inócuos nas ruas de algumas cidades; “em solidariedade” com o repúdio de qualquer ideologia, que na abstracção e no
as forças revolucionárias e os povos combatentes. Gritar con- purismo religioso desviam energias do confronto contra o
tra as multinacionais e o Estado que no México, por exemplo, inimigo de sempre, mas desta vez dissimulado com a informa-
continuam tranquilamente a exterminar os povos de Chiapas, tização.
chega a ser uma forma folclórica que alimenta o regime demo- Também neste caso, a perspectiva de libertação
crático da sociedade pós-industrial, porque este se fortalece nacional e de solidariedade material, o anarquismo insurreccio-
pela estéril forma de divergência apresentada apresentada em nalista e a informalidade organizativa, têm algo a dizer.
praças e nos territórios que realmente domina por outros Obrigado pela Atenção e paciência.
meios.
Para se sair dos folclóricos e inúteis protestos em Guasilha, 27 de Julho de 1999
desfiles ordeiros, é necessário encontrar na nossa terra a
materialização do inimigo real - em termos de instituições, Constantino Cavalleri
sedes e homens - que opera em Chiapas, mas mais tranquila-
mente em nossa casa. O Estado-capital assim localizado pode e

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Para encontrar material, documentação, fazer críticas, debater
ideias, colocar propostas relacionadas com a I.A.I.
(Internacional Antiautoritária Insurreccionalista)
escrever para uma destas moradas:

Circolo Kaos,
Cas. Post. Aperta - 08026 Orani (NU) Itália

Constantino Cavalleri,
Via Melas n.24 - 09040 Guasila (CA) Itália

Discórdia,
apartado 2409, 4700 Braga, Portugal