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O Solitário:

A obra de Franz Krajcberg


Jaqueline Ferreira dos Santos
Estudante do 4° semestre do curso de Museologia da UFBA

Artista singular que apesar de não ter nascido no seio brasileiro, se


tornou um dos seus filhos mais ilustres, Franz Krajcberg, é o modelo vivo de
um solitário que busca a todo custo salvar a menina dos seus olhos, a mãe do
mundo, A Natureza. Em sua tentativa incansável utiliza toda a impureza e
escárnio que o ser humano pode proporcionar para deixar a beleza fruir.
Polonês de nascimento e vítima de um do pior massacre do século XX
que foi a Segunda guerra Mundial, Krajacberg após ter toda sua família
assassinada pelo grande holocausto, vê Brasil um refúgio onde começa a
expressar suas angústias por meio da arte, primeiramente se estabelece no
eixo Rio- São Paulo, depois passa pela a Amazônia e no ano de 1967,
apaixonado pela Bahia se transfere para a pequena e pacata cidade de Nova
Viçosa extremo sul do estado, onde vive até hoje aos 89 anos de idade, sendo
um dos poucos artistas da chamada produtores da chamada eco arte.
É em Nova Viçosa onde mora a 37 anos que ele confeccionou a maior
parte de suas obras, e onde está o seu ateliê e sua tão famosa casa da árvore,
que foi construída em parceria com o arquiteto Valter Zanini. O espaço é
primoroso e encantador chamando a atenção de todos que passam pela cidade
e servindo até como um dos cartões postais do local. Nela Franz pretende
abrigar o primeiro museu ecológico do mundo. O museu além de ter sua
estrutura toda feita com madeira apreendida, fruto do desmatamento, abrigará
obras que refletem a atual situação das florestas nacionais, são esculturas com
madeira calcinadas.
Suas obras são tensas, fortes e chocantes e não passam despercebidas
pelo público e podendo causar sensações tanto de admiração, perplexidade
como também repulsa. Elas nos mostram a capacidade destrutiva do homem
que em busca de um maior “conforto” acaba destruindo boa parte das coisas
que estão a sua volta.
As obras de Franz sofrem forte influência indígena, já que serve de culto
a natureza e pode ser até comparada com as obras gregas, é claro que com
algumas ressalvas. Em ambas o ideal de beleza é notável, no entanto elas
percorrem caminhos muito distintos para a transição deste. Enquanto que as
obras gregas eram minuciosamente calculadas para serem proporcionais, para
alcançarem à perfeição as obras de Krajcberg se apóiam no feio para alcançar
o belo, é do hediondo que surge o belo, daquilo que não tinha vida do
legitimamente morto.
As duas têm o ser humano como base, porém enquanto os gregos
cultuavam o homem em suas obras Franz o transforma em criminoso,
marginal, suas obras põem o homem numa situação nada confortável, e nos
faz refletir até que preço nós iremos pagar para manter a “supremacia da
espécie”.
Toda a indiferença humana com a natureza é transmitida de forma crua
e pura. Todas as obras são feitas com troncos retirados de queimadas mais
pigmentos naturais utilizados para tingir as obras predominantemente nas
cores vermelho, marrom e preto. O vermelho, por exemplo, nos remete sangue,
a natureza sangrando pedindo socorro, a visualização dessa tonalidade é
impactante, surtindo um grande efeito visual.
A arte de Krajcberg apesar de retratar a realidade das florestas
brasileiras rompe com qualquer barreira regionalista, já que seu trabalho é o
espelho de uma problemática mundial, tem um cunho intelectual também
sendo endossado por alguns manifestos como o manifesto do Rio Negro, é
uma arte tem como meta ultrapassar as barreiras territoriais, se assemelhando
ao que pregava o modernista Oswald de Andrade no século passado.
O fino contraste entre a vida e a morte que nos é apresentado pelo
artista marginal nos faz muitas vezes refletir sobre a atual condição humana na
sociedade, as mudanças causadas por um acelerado processo de globalização
onde o conforto, a tecnologia e a impessoalidade são marcantes, desgastando
todos os tipos de relações afetivas existentes outrora é um dos principais
responsáveis pela atual situação da constante degradação das áreas verdes
não só no Brasil, mas em todo o mundo.
Krajcberb é assim uma fortaleza solitária nesse atual contexto de
civilização. É aquele que caminha sem mais tantas expectativas somente
desejos, desejo de um mundo melhor e bastante confiante, pois caminha com a
certeza de que está fazendo sua parte, que é diga-se de passagem, muito bem
feita.

Anexos:

Imagem de uma de suas obras sem título, a interação que uma obra como
está, pode ter com o público faz com que ela não passa despercebida aos
nossos olhos. Fonte: www.usp.br
Imagem de uma das exposições do artista em São Paulo. Fonte: www.wikipedia.com.br

Referências Bibliográficas:

REVISTA MUITO. Salvador:Jornal A Tarde, 2006. Semanal.


In: SAMPA ART. Disponível em www.sampa.art.br. Acessado em 13 de
junho de 2009.
In: PLANETA SUSTENTAVEL. Disponível em
www.planetasustentavel.abril.com.br. Acessado em 13 de junho de 2009.

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