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Signo, base da comunicação

Ruben Cardoso FBAUL, 2006

Sumário

Introdução

1

Desenvolvimento

2

1. Variação do conceito de Signo

2

2. A semiótica e semiologia

4

Conclusão

6

Referências

7

Resumo

É apresentado o conceito de signo segundo a sua evolução na história. Apresenta-se também um desenvolvimento sobre Peirce e Saussure, respectivamente semiótica e semiologia. Muitas vezes serão apresentados exemplos práticos e citações dos autores para um melhor entendimento.

Introdução Vivemos em plena era da comunicação e como tal esta não só se tornou num facto como se tornou um problema, no qual se centraram um conjunto de disciplinas associadas à comunicação. Determinar os princípios formais de entre o todo que é a "comunicação", é a tarefa de uma disciplina específica - a Semiótica. Sendo que etimologicamente “comunicar” significa “pôr em comum”, no processo de comunicação que se entende simplesmente pela troca de uma mensagem entre um Emissor e um Receptor, os signos desempenham um papel fundamental como intermediário. Os signos desempenham um papel bastante importante na Semiótica e como tal esta disciplina costuma ser nomeada “a ciência dos signos”. Será portanto importante definir não só Signo mas também Semiótica e esclarecer melhor esta última por ser bastante abrangente. Sendo precisamente nos estudos de semiótica e semiologia, de Peirce e Saussure respectivamente, que este conceito é devidamente relacionado/distinguido. No entanto, o Signo é um tema de estudo intenso tendo ao longo do tempo sido diversas vezes definido por outros autores que não sendo contraditórias são definições complementares e importantes ao estudo deste termo. Ir-se-á por este motivo apresentar uma breve história do signo na primeira fase do desenvolvimento e a sua concepção segundo diversos autores e numa segunda fase abordar a semiótica e semiologia.

mr_ruben@hotmail.com. O trabalho responde à disciplina semestral Cultura Visual II do primeiro ano da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, leccionada em 2006 por João Paulo Queiroz.

Desenvolvimento 1. Variação do conceito de Signo Para esta fase será importante perceber a origem e percurso deste termo, para depois analisarmos mais profundamente algumas conclusões de alguns autores mais específicos. Segundo Charles Morris é bastante provável

que os signos nunca tivessem sido estudados tão intensamente, por tantas pessoas e de tantos pontos de vista, como nos nossos dias (Morris, 1938: 3)

e o autor de O Signo, Umberto Eco, refere no seu livro vinte acepções diferentes da palavra frisando que

As definições de 'signo' que circulam nos manuais de semiótica corrente são diversas mas não contraditórias e são muitas vezes complementares. (Eco, 1981: 11-51)

É assim normal que ao longo de toda a história que se conhece do termo Signo não haja uma definição única e indiscutível, no entanto se todas forem reunidas ou estudadas poder-se-á chegar a várias conclusões. Derivando directamente do grego semeion (que se poderá traduzir por ‘Sinal’) (Eco, 1981: 11-51) que aparece como termo técnico-filosófico no século V AC, com Parménides e Hipócrates, sendo muitas vezes tomado como sinónimo de tekmerion, que se pode traduzir por ‘prova’, ’indício’ ou ‘sintoma’. A Hipócrates, enquanto médico e homem da ciência, não interessa, no entanto, o signo linguístico. Por outro lado, Parménides refere semeion como princípio de inferência que conduz à via do Ser. Platão e Aristóteles (Eco, 1981: 11-51) vão distinguir, no que se refere às palavras entre significado e significante e sobretudo entre significação e referência. Contudo, Aristóteles não usa, habitualmente, a palavra semeion para se referir às palavras, utilizando por sua vez symbolon. Referidos na retórica deste autor, os signos (semeia) são divididos em dois grupos: ‘signo forte’, governado pela relação de implicação e indo do universal para o particular (tendo-se como exemplo ‘se tem febre, então está doente’) e ‘signo fraco’ governado pela relação de conjunção e indo do particular para o particular (‘se tem a respiração alterada, então tem febre’). Os Estóicos (Eco, 1981: 11-51) também vão abordar o termo Signo e distinguem signos comemorativos (que associam dois eventos observáveis, por exemplo "fumo" e "fogo") e signos indicativos (em que o signo remete para algo não observável, por exemplo "o riso"

que remete para "o contentamento"). Em qualquer um dos casos o signo é uma proposição antecedente que revela um consequente: “Se ali há fumo então há fogo”, “Se o João está a rir então está contente”. Apesar dos Estóicos ainda não reportarem as palavras como signos é, no entanto, referido que todo o signo se revela como uma proposição. Implicando toda a proposição, na sua organização, o uso da sintaxe lógica que regula os signos, só tornando-se assim visível através da sintaxe linguística. Santo Agostinho define signo de dois modos que representam tanto a dimensão comunicacional como a representação semântica:

A palavra é o signo de uma coisa que pode ser compreendida pelo auditor quando é proferida pelo locutor (S. Agostinho, cit. por Eco, 1981: 11-51)

e

Um signo é o que se mostra a si mesmo ao sentido, e que, para além de si, mostra ainda alguma coisa ao espírito. (S. Agostinho, cit. por Eco, 1981: 11-51)

Este autor indica quatro elementos constitutivos: a palavra (verbum), o exprimível (dicibilis), a expressão (dictio) e a coisa (res). A esta concepção de signo, profundamente imposta na tradição filosófica, vai opor-se claramente Saussure.

O

signo é assim definido por Saussure:

O signo (linguístico) une não uma coisa e um nome, mas um conceito e uma imagem acústica. Esta última não é o som material, coisa puramente física, mas a marca psíquica desse som, a representação que dela nos dá o testemunho dos nossos sentidos; ela é sensorial, e se nos acontece chamar-lhe "material", é apenas neste sentido e por oposição ao outro termo da associação, o conceito, geralmente mais abstracto. (Saussure, 1978: 98)

O

signo une assim um conceito (significado) e uma imagem acústica (significante).

Aqui, a imagem acústica é de leitura sensorial, não sendo o som material e puramente físico mas sim a sua representação fornecida pelo testemunho dos sentidos. É então diferente, e deve ser distinguido da palavra pronunciada em si, dos sons e das sílabas que a compõem, já que a palavra existe também mentalmente, mesmo sem qualquer manifestação a nível físico. Em oposição à outra parte do signo, o conceito, é geralmente mais abstracto. Signo significa então o total resultante da ligação entre o significado e o significante. A termo de exemplo

podemos referir que estes dois elementos estão intimamente ligados um ao outro, sendo que tanto o conceito subjacente à palavra “árvore” quanto a sua imagem acústica que designa o

conceito de árvore (portanto, a palavra “árvore” propriamente dita) nos aparecem de tal forma integradas na realidade que nos parecesse impossível ligar um determinado conceito a uma determinada imagem acústica.

A concepção Peirceana do signo é claramente herdeira da tradição lógico-filosófica

(estóica e agostiniana) do signo e ultrapassa, claramente, a concepção Saussuriana do mesmo. Para este, (Peirce, 1977) o signo apresenta-se como "processo de mediação" que abre para a "infinitude", um significante remetendo sempre para outro significante, numa cadeia interminável. Ou de outro modo, o signo (ou representamen) é algo que sob certo aspecto ou modo representa algo para alguém, isto é, cria na mente dessa pessoa um signo equivalente ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo criado designa-se interpretante. O signo representa um objecto, mas não em todos os seus aspectos mas com referência a um tipo de ideia designado de fundamento do representamen. Ainda após Peirce, Charles Morris e Umberto Eco vieram a criar concepções de signo bastante idênticas. Veja-se a seguinte citação de Morris:

Uma coisa é um signo somente por ser interpretada como signo de algo por algum intérprete; assim, a semiótica não tem nada a ver com o estudo de um tipo particular de objectos, mas com objectos comuns na medida em que (e só na medida em que) participem da semiose (Morris, 1938)

A diferença da concepção de Eco em relação à de Morris reside no conceito de

intérprete, característica de signo para Morris, para interpretação possível por parte de um intérprete possível. Para Eco, (1981) o destinatário humano é a garantia metodológica (e não empírica) da existência de significação, ou seja, da existência de uma função sígnica

estabelecida por um código.

2. A semiótica e semiologia Apesar de já desde o principio do século XX, em Saussure e Peirce, existir a necessidade de construção de uma “ciência dos signos” é só em meados deste século que surge efectivamente esta ciência. Segundo Todorov, a semiótica remonta ao séc IV por Santo Agostinho (Todorov, 1979: 15 e seguintes) e mais tarde no séc. XVIII John Locke propõe a

substituição da palavra lógica pelo neologismo Semiótica (do grego semeion, “signo” ou “sinal”):

O terceiro ramo (da ciência, sendo os outros dois a Física e a "Prática" ou Ética) pode ser designado de semiótica, ou a doutrina dos signos; e sendo as palavras os mais vulgares, é também adequado designá-lo por lógica: o seu objectivo é considerar a natureza dos signos que a mente utiliza para a compreensão das coisas, ou para transmitir o conhecimento a outrem (Locke, cit. por Trabant, 1706/1980: 4)

No entanto, a “ciência dos signos” moderna tem origem em dois diferentes contextos, que podem ser simplesmente resumidos a dois nomes: Semiologia iniciada por Saussure na Europa e a Semiótica de Peirce correspondente à tradição anglo-saxónica. Tendo o mesmo radical (semeion, que se pode traduzir por “signo” ou “sinal”), estas palavras traduzem, no entanto, dois modos distintos de entender a “ciência dos signos”. Para Saussure, a Semiologia:

Pode portanto conceber-se uma ciência que estuda a vida dos signos no seio

da vida social; ela constituiria uma parte da psicologia social e, por conseguinte, da psicologia geral; nós chamá-la-emos semiologia (do grego semeion, signo). Ela

A linguística não é

senão uma parte desta ciência geral (

ensinar-nos-ia em que consistem os signos, que leis os regem. (

).

(Saussure, 1978: 33)

)

Em relação à Semiótica, Peirce define-a como:

Em seu sentido geral, a lógica é, como acredito ter mostrado, apenas um outro nome para semiótica, a quase-necessária, ou formal, doutrina dos signos. (Peirce, 1977: 45)

Será ainda importante referir o seguinte argumento de Roland Barthes relativamente à semiologia de Saussure, mais concretamente à sua ligação com a linguística, uma das bases da comunicação:

Em suma é necessário admitir a partir de agora a possibilidade de inverter um dia a proposição de Saussure: a linguística não é uma parte, mesmo privilegiada, da ciência geral dos signos, é a semiologia que é uma parte da linguística ( ) (Barthes, 1977: 87)

Note-se que esta ideia de Barthes já está, de certa maneira, presente no próprio Saussure, quando este afirma que:

a língua, o mais complexo e difundido dos sistemas de expressão, é também o mais característico de todos; neste sentido a linguística pode tornar-se o padrão geral de toda a semiologia, ainda que a língua não seja senão um sistema particular (Saussure, 1978: 101)

Em suma poder-se-á dizer que a semiótica de Peirce comparativamente à semiologia

de Saussure é mais filosófica enquanto que a segunda está associada à linguagem. A verdade

é que por finais dos anos 70 já se chegou à conclusão, mais precisamente por Pierre Guiraud que:

as palavras semiologia e semiótica recobrem hoje a mesma disciplina, sendo o primeiro termo utilizado pelos europeus e o segundo pelos anglo-saxões (Guiraud, 1978: 9)

sendo essa disciplina actualmente nomeada por Semiótica, podemos por isso dizer que

a semiologia linguística foi absorvida pela semiótica filosófica englobando ambos os ramos.

Conclusão Apesar das diversas concepções de signo ao longo da história, a verdade é que já desde os primórdios se prenunciavam como os conectores da comunicação apesar de não se assumirem como tal. É evidente a importância de Saussure e Peirce na definição de signo, tanto que outros autores posteriores partiram das suas concepções e discutiram-nas. Estes dois autores lançaram o mote para a semiótica actual. Embora a língua seja considerada o caso paradigmático do sistema de signos, grande parte da pesquisa semiótica concentrou-se na análise de domínios tão variados como a publicidade, o cinema e os mitos. Concluímos assim que a semiótica e mais propriamente os signos estão presentes em todos os modos de comunicação. Senão veja-se o panorama actual da semiótica que ao analisar filmes, música ou programas de televisão que sendo encarados como textos que comunicam significados, sendo esses significados tomados como derivações da interacção ordenada de elementos portadores de sentido, os signos, que estão eles mesmos encaixados num sistema estruturado, de maneira parcialmente análoga aos elementos portadores de significado numa língua.

Referências

Barthes, R. (1977), Elementos de Semiologia. Lisboa: Ed. 70. Barthes, R. (1987), Mitologias. Círculo de Leitores. Buchler, J. (1955). Philosophical writings of Peirce. New York: Dover Ducrot, O., Todorov, T. (1978), Dicionário das Ciências da Linguagem. Lisboa: D. Quixote. Eco, U. (1981), O Signo. Lisboa: Presença. Lavrador, F. G. (1984), Estudos de Semiótica Fílmica. Porto, Afrontamento. Moran, J. M. (1991), Como Ver Televisão. Leitura Crítica dos Meios de Comunicação. São Paulo: Paulinas. Morris, C. (1976), Fundamentos da Teoria dos Signos. Rio de Janeiro: Eldorado. Peirce, C. S. (1977), Semiótica. São Paulo: Perspectiva. Rodrigues, A. D. (1991), Introdução à Semiótica, Lisboa: Presença. Saussure, F. de (1978), Cours de Linguistique Générale. Paris: Payot, Todorov, T. (1979), Teorias do Símbolo. Lisboa: Ed. 70 Trabant, J. (1980) Elementos De Semiótica. Lisboa: Presença.