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EXCEÇÃO E EXECUÇÃO DE CONTRATO NÃO CUMPRIDO

ORIGEM HISTÓRICA E CONCEITO

A exceção de contrato não cumprido – exceptio non adimpleti contractus – se


acha consagrada pelo art. 476 do atual Código Civil (correspondente ao art. 1092, caput,
1aparte, do Código Civil de 1916): "nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes,
antes de cumprida a sua obrigação, pode exigir o implemento da do outro".

O surgimento histórico dessa exceção é assunto controverso. Frederic Girard (01)


aponta Roma como o seu nascedouro. Diversamente, Cassin (02) afirma que sua origem
se reporta ao direito canônico. Esta última tese recebe a acolhida de Serpa Lopes (03)e
Caio Mário da Silva Pereira (04).

Segundo a proposta da origem canônica, o sinalagma – interdependência


recíproca das prestações – não existia no contrato bilateral dos romanos. Entre eles, um
contrato como a compra e venda era regido pela boa-fé, porquanto era contrário a esse
princípio que um dos contratantes, não tendo adimplido a prestação que lhe cabia,
executasse o outro pelo não cumprimento de uma contraprestação devida. A resolução
dos contratos ocorria apenas em casos de vício oculto ou, se estipulado em contrato, de
não pagamento de preço.

Assim, o direito canônico é que teria precisado que, em certos contratos


bilaterais – os sinalagmáticos –, as prestações se vinculam não apenas no instante de sua
gênese, mas também no de sua execução. Registre-se ainda: os canonistas, ao
desfazerem a distinção entre contrato e pacto nu, deixaram estabelecido que do simples
acordo de vontades promanava o vínculo contratual.

Os contratos celebrados no direito canônico eram revestidos de obrigatoriedade


mediante juramento solene de cumprimento bilateral dos deveres adquiridos. A
eqüidade reforçava esse vínculo, de tal sorte que a reciprocidade subsistia mesmo
quando não houvesse juramento. Foi esse contexto que fez nascer o princípio atribuído
a Hortensius (05): non servanti fidem, non est fides servanda.

Feito um esboço do histórico, é de bom alvitre proceder a um estudo cuidadoso


desse conceito.

Consoante já se observou, a exceção de contrato não cumprido é um fenômeno


particular dos contratos sinalagmáticos. Não é pacífica a discussão doutrinária referente
à relação de dependência recíproca entre prestações derivadas de um mesmo contrato
bilateral, três correntes figuram nesse debate: a que defende ligarem-se as prestações do
contrato sinalagmático em sua origem; a que afirma que tais prestações se ligam no
momento do funcionamento da relação contratual; e, finalmente, a de Gino Gorla (06), de
caráter conciliador, segundo a qual as prestações do contrato sinalagmático se vinculam
genética e funcionalmente.

Serpa Lopes adere à corrente conciliatória, assinalando que a exceptio non


adimpleti contractus "é uma forma de justa recusa ao cumprimento de uma prestação
dependente do concomitante cumprimento da que toca à outra parte contratante,
oriunda, geneticamente, do mesmo contrato e funcionalmente vinculadas as prestações
uma à outra" (07). É um ato passivo, de defesa, pelo qual o excipiente visa a paralisar a
ação do excepto faltoso.

Nos contratos bilaterais, as prestações devem guardar entre si uma relação de


reciprocidade e interdependência, cada uma delas se constituindo na causa jurídica da
outra. Nesse sentido, Colin e Capitant (08): "Nos contratos sinalagmáticos, as obrigações
recíprocas das partes se servem mutuamente de causa, ou seja, de suporte jurídico" (09).
Além disso, para que se lhes possa aplicar a exceção de contrato não cumprido, as
prestações devem ser simultâneas.

Outrossim, cumpre consignar que a exceptio non adimpleti contractus não se


aplica indistintamente a todo e qualquer contrato bilateral, posto que de um mesmo
contrato desse tipo podem emanar prestações diversas que não sejam correspectivas. É o
que diz Pontes de Miranda: "Nem todas as dívidas e obrigações que se originam dos
contratos bilaterais são dívidas e obrigações bilaterais, em sentido estrito, isto é, em
relação de reciprocidade. (...) A bilateralidade – prestação - contraprestação – faz ser
bilateral o contrato; mas o ser bilateral o contrato não implica que todas as dívidas e
obrigações que deles se irradiam sejam bilaterais" (10).

2 - FUNDAMENTO JURÍDICO DA "EXCEPTIO"

O argumento mais utilizado pelos operadores do direito para justificar e


fundamentar a exceptio non adimpleti contractus é a equidade. No entanto, parece ser
segundo alguns juristas, dentre eles CAPITANT, que tal argumento é insuficiente para
fundamentar juridicamente a "exceptio".

Na visão do autor supracitado a "exceptio"tem fundamento no ato de vontade das partes.


Não bastando, tal ato tem como objetivo um fim determinado, sendo tal manifestação de
vontade una e indivisível. Desta forma não há que se falar em "exceptio"no sentido que
a espelha DECKER, afirmando serem as obrigações, em um contrato sinalagmático, e
não as prestações o seu correspondente.

Em sua obra monumental vertida para o espanhol, Ennecerus T. Kipp & Wolff lembram
que "el contrato o la ley pueden determinar quien tiene que hacer primero la prestación
en un contrato bilateral" (11). Na mesma esteira do primeiro SALEILLES, defende que as
obrigações nestes contratos devem ser uma em razão da outra.

Deve ser essa a razão pela qual os civilistas aconselham que os contratos consignem
com a maior clareza a cronologia das respectivas prestações, pois sem simultaneidade
das prestações não há que se falar em exceptio non adimpleti contractus.
3 - CONDIÇÕES DE APLICAÇÃO

3.1 - CONTRATOS UNILATERAL E BILATERAL

Os unilaterais são aqueles que em sua constituição, são geradas obrigações para apenas
uma das partes. Além do que "o peso" nos contratos unilaterais, no dizer de Venosa,
"onera só uma das partes". Não há reciprocidade de prestações, como ocorre nos
contratos bilaterais, nos quais, existem obrigações para ambas as partes.

Com efeito, o contrato bilateral para fins de aplicação da exceptio são aqueles "que
exigem, para sua caracterização, a presença de prestações e contraprestações
interligadas genética e funcionalmente" (12).

Já para alguns autores, a maior utilidade da distinção entre contratos unilaterais e


bilaterais existe na possibilidade de aplicar a exceção do contrato não cumprido, pois
esta somente pode ser aplicada aos bilaterais (13).

3.2 - CONTRATOS SINALAGMÁTICOS

São contratos com obrigações correlatas, sendo a interdependência recíproca das


prestações, contendo necessariamente prestação e contraprestação, tendo ambas as
partes deveres e direitos. Não há impedimento de que uma das partes tenha maior
número de direito que a outra, pois tal fato não retira a bilateralidade contratual
permitindo a aplicação da exceptio.

De acordo com o artigo 476 do Código Civil apenas aos contratos bilaterais pode ser
aplicada a exceção do contrato não cumprido. Logo, fica excluída a aplicação aos
contratos unilaterais, tendo como justificativa de que nestes não há contraprestação para
uma das partes.

Cabe salientar que a reciprocidade não se confunde com a multiplicidade ocasional de


vários débitos e créditos entre as mesmas pessoas.

4 - ORDEM NORMAL DE EXECUÇÃO DAS PRESTAÇÕES NÃO


MODIFICADAS

Em caso de não ocorrência de simultaneidade entre as prestações, também não existe


espaço para o exercício da exceptio non adimpleti contractus.Não pode, desse modo, ser
meio de defesa para prestação futura, como no caso do consórcio ou financiamento de
veículo automotor.

Assim sendo, a exceção de contrato não cumprido somente poderá ser exercida quando
a legislação ou o contrato não dispuser sobre a quem cabe cumprir primeiro a obrigação.
Pacificado é tal entendimento, pois cada um dos contraente é simultaneamente credor e
devedor um do outro, uma vez que as respectivas obrigações têm por causa as do seu
co-contratante, e, assim, a existência de uma é subordinada a da outra parte" (14).
5 - A EXCEÇÃO DE INEXECUÇÃO DEVE SER UTILIZADA DE ACORDO
COM AS REGRAS DA BOA-FÉ

Segundo alguns autores a exceção do contrato não cumprido é "instituto animado de um


sopro de equidade" (15), além do que sua aplicação tem como pressuposto indispensável o
princípio da boa-fé.

A justificativa deste princípio esta no justo equilíbrio dos contratantes no cumprimento


das prestações. Assim os romanos mesmo não sabendo a regra "non servanti findem non
est fides servanda, criaram a exceptio dol, cuja base era a boa-fé.

Esse princípio está cristalino no Código Civil em seu artigo 477, dando autorização ao
devedor para que este peça uma garantia ao outro contratante do cumprimento da
prestação. Para ilustrar o instituto temos o exemplo de Venosa, no qual um contratante
entra com o capital e materiais para o fim de uma empreitada e vem a ter conhecimento
de que o empreiteiro tem costume de envolver-se em operações arriscadas, que colocam
em risco sua credibilidade. Adimplir com o capital nesta ocasião seria correr um enorme
risco de não ver completada a obrigação.

Porém, deve ser lembrado que o exercício indiscriminado da exceptiotambém é


contrário ao princípio da boa-fé. Assim como no dizer de SERPA LOPES que é
contrário ao instituto àquele que dele se beneficia, por sua culpa anterior, deu causa a
inexecução por parte contrária.

No caso de cumprimento parcial, defeituoso ou incompleto da prestação, aplica-se a


regra geral devido a conseqüência ser a mesma, ou seja, o inadimplemento. Logo, para
que a obrigação seja tida como adimplida esta deve ser cumprida na forma contratada,
no lugar e no tempo convencionado.

É necessário ainda que ocorra a proporcionalidade à luz do princípio da boa-fé. Isto se


deve ao fato de "não ser justo suspender prestações de vulto por contraprestações
inexpressivas ou de escassa relevância" (16). Com efeito, deve haver uma tolerância
mínima entre os contratantes, uma vez que o defeito de execução da prestação são de
escassa importância se olhado no conjunto.

Outra condição a ser observada é o objetivo da exceptio, ou seja, tem esta eficácia
apenas dilatória. Tem o demandado conquista o direito de não cumprimento da sua
prestação até o adimplemento da contraprestação pela parte contrária.
6 - A POSIÇÃO " EXCEÇÃO DE CONTRATO NÃO CUMPRIDO" EM FACE A
OUTROS INSTITUTOS A ELE SIMILARES POR CERTO ASPECTO.

6.1 - O DIREITO DE RETENÇÃO E A EXCEÇÃO DE CONTRATO NÃO CUMPRIDO

No direito de retenção, o credor de uma prestação ligada à coisa objeto, ao mesmo


tempo de uma obrigação de restituição de sua parte, dispõe deste meio de garantia,
enquanto estiver o objeto em sua posse, Segundo a lição de CLÓVIS BEVILACQUA: "
Em principio, salvo estipulação em contrário, o pagamento de preço e a entrega do
objeto vendido devem ser atos simultâneos, donde resulta que cada uma das partes tem
direito de retenção sobre o que deve dar, sendo aliás o vendedor quem deve iniciar o
cumprimento da obrigação."

Na exceção de contrato não cumprido, o credor retém o pagamento da sua prestação até
que o outro contratante realize a que lhe incumbe; enquanto no direito de retenção
decorre exclusivamente de um credito originário da própria coisa a restituir, a exceção
do contrato não cumprido pressupõe um vínculo bilateral entre duas obrigações que
podem ser realizadas ao mesmo tempo, sendo dessa maneira uma solução preparatória
para o contrato; já no direito de retenção é uma garantia específica determinadas
relações indicadas pela lei.

6.2 - A COMPENSAÇÃO E A EXCEÇÃO DE CONTRATO NÃO CUMPRIDO

Ambas representam formas de execução, sendo que a compensação extingue a


obrigação e a exceção do contrato não cumprido paralisa a ação de um dos contratantes.

Na compensação para que se opere é necessário que as duas dívidas recíprocas sejam
fungíveis entre si; na exceção de contrato não cumprido nada mais se exige senão que se
trate de uma relação bilateral com as prestações já exigíveis " trait pour trait", enquanto
a compensação opera "sine facto hominis".

Automaticamente pelo simples fato do vencimento dos dois débitos recíprocos, a


exceção do contrato não cumprido, necessita ser alegada pelo devedor, como exceção à
exigência ao cumprimento da obrigação assumida; por outro lado a compensação tem
uma eficácia suspensiva e total, pois ela não paralisa proporcionalmente, mas detém a
exigibilidade da prestação do excipiente ao mesmo tempo que compete a exceção a
realizar a que lhe incumbe.

6.3 - A "EXCEÇÃO DO CONTRATO NÃO CUMPRIDO " E A CLÁUSULA "SOLVE ET


REPETE"

A cláusula "solve et repete", significa "pague e depois reclame", é a que se estabelece


num, contrato, com o objetivo de tornar a exigibilidade de sua prestação a qualquer
intenção contrária do devedor, sendo que o mesmo só poderá reclamar desta em outra
ação, visando assim o pagamento ao credor sem outra oposição.
A jurisprudência italiana durante algum tempo dividiu-se em torno da "solve et repete,
considerando essa como cláusula leonina, restando a ela alguma restrição no que tange a
questão dos limites a ela imposta".

Esses limites consistem em determinar se a cláusula e valida de todos os modos em sua


extensão, ou se precisaria impor algumas exceções quando fosse alegada na demanda
nulidade. Sua validade ficou afirmada desde que seja consignada no contrato, partindo
assim do principio da autonomia da vontade, e sua eficácia consiste precisamente no
seguinte: uma das partes não pode eximir-se da prestação, nem retarda-la em razão de
exceções subordinadas ao comportamento da outra contraparte.

Essa cláusula age em sentido contrário a exceção do contrato não cumprido, pois a
exceção age no sentido de paralisar a ação do autor condicionando o pagamento da
outra prestação devida ao réu, sendo que a "solve et repete" paralisa qualquer oposição
do réu, que nessas condições não outra saída terá de solver o debito, com a possibilidade
de que em outra ação possa reaver o que indevidamente pagou.

A "solve et repete" foi uma modalidade contratual nascida da jurisprudência, que foi
introduzida na pratica de assegurar ao contraente, que se desapossa da coisa, que
executa de imediato a sua prestação a possibilidade de receber seguramente a
contraprestação em determinado lapso de tempo.

Dessa maneira a "solve et repete" convencionadas pelos contratantes representa uma


renúncia a exceção de contrato não cumprido e consente numa voluntária mudança da
ordem normal da execução.

7 - ÔNUS DA PROVA NA EXCEÇÃO DE CONTRATO NÃO CUMPRIDO

A questão do ônus da prova, na exceção de contrato não cumprido, não é consensual.

De acordo com Giorgi, compete ao réu provar que o autor não cumpriu sua obrigação,
ou a cumpriu imperfeitamente.

M. I. Carvalho de Mendonça adota uma opção intermediária, entendendo que o autor


deve provar o adimplemento da sua prestação – que não é presumível -, enquanto ao réu
cumpre provar a existência do seu direito de crédito.

Enneccerus, sustenta que não é dever do réu provar o seu direito de exceção, que,
segundo ele, se funda por si mesmo na medida em que seu nascimento se dá com o
surgimento mesmo do contrato bilateral alegado pelo autor, restando a este a
incumbência de se contrapor à exceção, por meio de contra-exceção. Esta é a posição
adotada por Serpa Lopes.

Orlando Gomes entende que, quando o inadimplemento for total, compete ao contraente
que não cumpriu a prestação provar o contrário, ao passo que, quando a execução for
incompleta o dever de sua prova recai sobre quem invoca a exceção. Conclui, portanto,
que, não obstante a exceptio non rite adimpleti contractus seja, essencialmente, uma
exceptio non adimpleti contractus – pois cumprimento parcial, inexato ou defeituoso
equivale a inadimplemento -, os efeitos gerados por elas são diferentes.

ANÁLISE DE JULGADOS – CASOS DE EXECUÇÃO DO CONTRATO NÃO


CUMPRIDO

8.1 - RECURSO ESPECIAL Nº 257.064 – MG (2000/0041576-6) (STJ)

Esse primeiro caso relata os problemas havidos entre promitente vendedora (ENCOL) e
promitente compradora (BRANCA LUIZA), com relação a um imóvel em que a
primeira era a incorporadora e construtora do empreendimento e a segunda adquirente
de uma das unidades do referido empreendimento.

A construtora, tendo entregue o imóvel considerou que sua obrigação principal, qual
seja, a de entregar o imóvel em condições de habitabilidade, estava cumprida, motivo
pelo qual pleiteava o recebimento do valor devido.

A promitente compradora, pelo contrário, tendo em vista a situação falimentar da


construtora, achava que não receberia a escritura definitiva do imóvel, tida como
obrigação final. Por este fato deixou de pagar as prestações por ela assumidas,
referentes ao financiamento.

Ocorridos estes motivos, à construtora restou apenas a proposição de uma ação de


cobrança em face da compromissária, com o intuito de receber o valor devido, a
respeito das prestações atrasadas.

O que se seguiu foi o argumento, pela compromissária, da EXCEÇÃO DO


CONTRATO NÃO CUMPRIDO, ou seja, deixou de pagar suas prestações, tendo em
vista a possibilidade de não receber, ao final, a escritura definitiva, bem como o imóvel
livre das hipotecas referentes à incorporação.

Embora a exceção tenha como pressuposto a BILATERALIDADE do contrato, o que é


verificado no presente caso, não há pagamento a VISTA, como é percebido na doutrina
como condição de aplicabilidade, uma vez que a relação se dá através de um
financiamento da compromissária diretamente com a construtora.

Não há também, SIMULTANEIDADE das obrigações, o que não enseja na exceção do


contrato não cumprido. Encontra-se na verdade um receio, uma expectativa da
adquirente de não receber a escritura definitiva e o imóvel livre e desembaraçado.

Pelo entendimento do E. Superior Tribunal de Justiça, na verdade o inadimplemento da


compromissária realmente existe, uma vez que já se encontra na posse do bem (na
verdade morando nele desde que imitida na posse).

Dessa forma só poderia a adquirente recorrer à exceção de contrato não cumprido como
forma de defesa, após o cumprimento de sua parte na obrigação, com relação ao valor
contratado.
No caso, entretanto, não se deve ater apenas à exceptio non adimpleti contractus, mas
também a outros institutos da teoria geral dos contratos e das obrigações. A exceção do
contrato não cumprido deve ser situada, também, com relação aos princípios gerais dos
contratos.

É claro no caso, a presença de requisitos como: o acordo de vontades na assinatura e na


contratação da construção, agentes capazes, e um contrato que tem como objeto um
imóvel (lícito), seguindo as formas previstas em lei.

A liberdade de contratar das partes é percebida na estipulação da forma de pagamento,


lugar para pagamento, etc. Podem elas estipular livremente, padecendo de obediência
somente diante da ordem pública (supremacia do Estado), que limita esta autonomia de
vontades.

Entretanto, a pacta sunt servandasofre uma restrição. Embora signifique a criação de


um contrato com força de lei entre as partes, e que determine que o que foi contratado
deve ser cumprido, é restringida quando da aplicação da exceptio, pois a parte que não
cumprir sua parte no contrato, alegando a defesa deste instituto, fica inadimplente sem
que a ela possa ser aplicada uma sanção pelo seu descumprimento.

Por fim, deve-se lembrar que no julgamento do caso, ainda foi mencionada a
EQÜIDADE das obrigações entre as partes. O desequilíbrio pode causar diminuição no
patrimônio de uma das partes – agora previsto no art. 477, CC – e o enriquecimento
ilícito da outra (também previsto com a entrada em vigor do novo código).

8.2 - APELAÇÃO CÍVEL Nº 121.282-4/3-00 (TJSP)

O segundo caso relata os problemas existentes no cumprimento de um contrato de


compromisso de compra e venda de um imóvel que apresentava graves defeitos.

O objeto da obrigação, embora lícito, fôra entregue aos compromissários compradores


com gravíssimos defeitos de construção, defeitos estes de tal monta que havia
comprometimento estrutural do empreendimento, embora não apresentasse riscos
imediatos de desabamento.

Os adquirentes, por este motivo, deixaram de pagar as prestações do financiamento,


tendo em vista o estado do imóvel. Os vendedores propuseram uma ação de cobrança
em face dos compradores, que alegaram em sua defesa, a exceção do contrato não
cumprido.

A exceção no caso só é admitida, em virtude dos graves defeitos, que tornam o


cumprimento da obrigação dos vendedores defeituosa, incompleta, como adiante se
verá. Assim, configura-se estarem os adquirentes em dia com as suas obrigações, uma
vez que não foi designado a quem deveria cumprir primeiro a obrigação.

É assegurado aos compradores, em virtude das obras e serviços – na verdade


benfeitorias necessárias – dos quais necessitava o imóvel, o direito de RETENÇÃO até
que fossem devolvidos o valor das prestações pagas e a indenização pelos gastos com as
referidas benfeitorias.

Pelo relator, durante o julgamento do caso, é apresentada uma linha de pensamento com
origem no direito germânico, acerca das obrigações. Acredita, não existir uma
hierarquia entre obrigações dentro de um mesmo contrato, mas sim uma lateralidade,
uma linha, na qual após o cumprimento de uma obrigação passa-se a outra, não
existindo, portanto, obrigações secundárias ou principais.

Tomando por verdadeira a afirmação de que existe lateralidade das obrigações e não
hierarquia, chega-se à conclusão que estas devem ser entendidas como um "ente
unitário".

Sendo graves os defeitos na construção e composição estrutural da unidade, a primeira


obrigação da construtora, qual seja, a de entregar o imóvel em condições de
habitabilidade não foi cumprida, o que deixou a construtora e os incorporadores
inadimplentes primeiro.

Quando se fala em simultaneidade das obrigações, fala-se do momento em que a


obrigação se torna exigível. No caso, tomando a linha acima exposta, o comprador
ainda estava em dia com a sua obrigação, ou seja, quando foi imitido na posse, todas as
suas prestações estavam pagas e em correspondência a obrigação da construtora de
entregar o imóvel, não.

Não fosse pelo reconhecimento da falta de cumprimento de obrigação por parte da


vendedora, poderiam os compradores terem alegado VÍCIOS REDIBITÓRIOS.
Constata-se isto através dos sérios problemas de construção, com riscos de
desabamento, defeitos de difícil constatação (só verificados após perícia), anteriores ao
contrato, com origem em um contrato comutativo (compra e venda).

O relator traz à tona a BOA-FÉ OBJETIVA dos adquirentes, pois tiveram um


comportamento (padrão de conduta) que qualquer pessoa no convívio social teria.
Acreditaram, acima de tudo, na entrega de um imóvel – destinado ao domicílio da
família – em perfeito estado.

Assim é procedida a exclusão da mora, e a conseqüente rescisão do compromisso, com


imposição à vendedora de restituição das parcelas já pagas em sua integralidade e o
ressarcimento do valor das benfeitorias feitas pelos compradores, que tiveram como
intenção a correção dos defeitos atinentes à construção.

Até que fossem efetuados a restituição e o ressarcimento poderiam os adquirentes


exercerem o DIREITO DE RETENÇÃO, como forma de assegurar o que foi
manifestado pelo judiciário, pois este direito como citado pelo próprio julgador no
Acórdão, "é remédio defensivo do possuidor, que inibe a deslocação do bem do
possuidor para o reivindicante, antes que este satisfaça a obrigação de indenizar"
(MARCO AURÉLIO S. VIANA, "Teoria e Prática do Direito das Coisas, ed. Saraiva,
São Paulo, 1983, nº 38, p. 38).
BIBLIOGRAFIA

ABRANTES, José João. A exceção de não cumprimento do contrato no Direito Civil


Português – Conceito e Fundamento. 1a ed. Coimbra: Livraria Almedina, 1986.

ALVES, Geraldo Magela; MILHOMENS, Jônatas. Manual Prático dos Contratos. 5a


ed. Rio de Janeiro: Forense, 2000.