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Moreira Rêgo

Meios de Defesa da Posse no Direito Moçambicano


(ver: http:direitopensado.blogspot.com)

ÍNDICE

Introdução............................................................................................................2
1. Meios de defesa da posse.................................................................................3
1.1. Meios extrajudiciais da defesa da posse.......................................................3
1.1.1. Legítima defesa..........................................................................................3
1.1.1.1. Pressupostos...........................................................................................4
1.1.2.Acção directa...............................................................................................4
1.2. Meios de defesa judiciais...............................................................................5
1.2.1. Acção de prevenção...................................................................................5
1.2.2. Acção de manutenção................................................................................5
1.2.3. Acção de restituição da posse....................................................................6
1.2.4. Acção de restituição provisória da posse...................................................6
1.2.5. Embargos de terceiro.................................................................................7
1.2.6. Posse ou entrega judicial............................................................................7
1.2.7. A defesa da composse................................................................................8
2. Das regras processuais gerais..........................................................................8
2.1. Caducidade....................................................................................................8
2.2. Efeitos............................................................................................................8
Conclusão.............................................................................................................9
Bibliografia.........................................................................................................10

Direitos Reais - Moçambique 1


Moreira Rêgo
INTRODUÇÃO

No presente trabalho abordaremos a temática relacionada com a defesa


da posse que, na linguagem do Prof. Oliveira de Ascensão, constitui uma das
várias manifestações da situação jurídica da posse, visando tutelar o interesse
do possuidor perante terceiros que potencial ou efectivamente ofendam a sua
posse.
O nosso ordenamento jurídico dispôs aos particulares de meios através
dos quais possam defender-se da posse ameaçada ou violada, dentre eles,
extrajudiciais e judicias, em que os primeiros são reflexo da justiça privada e os
segundos da justiça pública.
Esses meios visam que, em tempo útil, os possuidores não percam a
posse adquirida a favor de outros sujeitos, terceiros, conquanto que, aqueles
estejam acobertados de fundamentos jurídicos, bastantes e expressamente
previstos na lei.
Neste trabalho, que não pretende ser investigação acabada, entendemos
conter nele os meios tutelares de que se possa servir o leitor, estudante, para
tomar determinadas providências necessárias à tutela de uma posse turbada,
esbulhada, ou ainda, ofendida por efeito de alguma diligência judicial. Neste
sentido, teremos percorrido pelos meios de tutela judicial da posse, dentre os
quais as acções de prevenção, manutenção, restituição, embargos de terceiro,
entre outras.
Por efeito, apresentaremos neste trabalho, descrevendo antes demais,
em geral, os (1.) meios de tutela da posse, e mais tarde descrevendo,
pormenorizadamente, quais os meios de defesa (1.1.) extrajudiciais e (1.2.)
judiciais, de se pode fazer valer o possuidor, cuja posse foi violada, e,
finalmente, (2.) as regras processuais gerais, ou seja, comuns a todas as acções
possessórias.

IMPORTANTE

Todas as disposições legais contidas, neste texto, sem referência a um


diploma legal específico, entender-se-á, sempre, como se referindo ao Código
Civil vigente, na República de Moçambique.

Direitos Reais - Moçambique 2


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1. MEIOS DE DEFESA DA POSSE

Os meios de defesa da posse são aqueles, pelos quais, uma pretensão do


possuidor se pode fazer valer, assegurando-lhe a protecção da sua posse.
Estes meios podem ser de duas espécies: judiciais e extrajudiciais.
Os meios extrajudiciais são aqueles que se referem à justiça privada,
dentre os quais, a acção directa (art. 336.º) e a legítima defesa (art. 337.º).
Os meios judiciais referem-se à justiça pública, neste caso, as acções
possessórias, que são a acção de prevenção (art. 1276.º); acção de
manutenção (art. 1278.º); acção de restituição (art. 1278.º); acção de
restituição provisória da posse (art. 1279.º e art. 393.º e ss., do C.P.C.);
embargos de terceiro (art. 1285.º e art. 351.º do C.P.C.) e acção de simples
apreciação positiva da mera posse (art. 4.º/2/a) do C.P.C.).
Ora, em face ao que ficou exposto, passamos adiante a distrinçar cada
uma das espécies da defesa da posse, de que nos referimos acima.1

1.1. MEIOS EXTRAJUDICIAIS DA DEFESA DA POSSE

São meios de tutela jurídica dos direitos decorrentes do fenómeno da


justiça privada, que se consubstancia no uso da força privada/particular para
tutelar os interesses do particular, quando inexista o poder público para repor a
ordem.
Em qualquer das suas formas, o sistema da justiça privada é sempre mau,
pois fica dependente da força para realização da justiça, que pode ou não
efectivar-se, consoante o ofendido tenha ou não força suficiente para se fazer
impôr e/ou minimizar os danos efectivamente causados, gerando lutas
permanentes no seio da comunidade.2
Não obstante, a justiça privada continua sendo um dos princípios do
Direito moderno, cujo fim é assegurar os direitos do possuidor perante o direito
ameaçado ou violado, mas sempre fazendo-o, nos termos e dentro dos limites
estabelecidos pela lei.
Aqui, o interessado arrisca-se, por sua conta, a aplicar uma sanção sem
que o litígio tenha sido dirimido por um órgão competente, imparcial e público –
de jusiça3.
Abaixo, exporemos duas modalidades, que são a legitima defesa e a
acção directa.
1
Cfr. Augusto da Penha Gonçalves, Curso de Direitos Reais, Universidade lusíada, Lisboa, 1993, 2ª Edição, pg. 299;
Rui Pinto, Direitos Reais de Moçambique, Almedina, Coimbra, 2006, pg.569; José de Oliveira Ascensão, Direito Civil.
Reais, Coimbra Editora, Coimbra, 2000, 5ª Edição ampliada, pg. 110-111
2
José de Oliveira Ascensão, O Direito, Introdução e Teoria Geral, Almedina, Coimbra, 2005, 13.ª Ed. difundida, pg. 90-
91
3
Ibidem
Direitos Reais - Moçambique 3
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1.1.1. A LEGÍTIMA DEFESA

É um dos meios da tutela privada dos direitos permitidos por lei4 (art.
337.º). Este meio é produto de imposição de ordem natural indispensável a
todas as sociedades, mesmo nas mais evoluídas, por mais aperfeiçoados que
sejam os seus meios de defesa públicos.
Com isto quer-se dizer que se a alguém é perturbada a sua posse é lhe
permitido reagir contra o agressor, ainda que só o Estado tenha a prerrogativa
de usar da força para impor a ordem ou o direitos ameaçados ou violados.5
A legítima defesa é havida, hoje, como tendo um carácter subsidiário,
apenas admissível, nos casos, em que não seja possível o recurso à força
pública.
Cumpre dizer que este meio de tutela continua em expansão, dado o
elevado índice de insegurança que actualmente se regista em qualquer
sociedades.6

1.1.1.1. PRESSUPOSTOS DA LEGÍTIMA DEFESA

Constituem pressupostos da legítima defesa, afora o, já mencionado, da


impossibilidade de recurso à força pública, também, a agressão ilegal, actual,
injusta e ilícita de outrem à posse alheia.
Será a ilegalidade que justificará que o ofendido na sua posse,
defendendo-se ofenda, por sua vez, o agressor com vista a impedir que o mal
se consuma.
Há-de também a agressão, ou violência ser actual, no sentido de que se
dirija contra o possuidor ou terceiro.
À legítima defesa é essencial que o meio de defesa empregue para obstar
a consumação da agressão seja racional, a fim de garantir que o prejuízo
causado pelo acto não seja manifestamente superior ao que resultaria da
violação. (art. 337.º/1).
Assim não faria sentido que o possuidor em defesa matasse a tiro o
ofensor que se recusasse a lhe restituir o seu imóvel em arrendamento.
Portanto, e neste sentido, a legítima defesa é admissível sempre que
sejam preenchidos os pressupostos a ele atinentes, que são a gressão ilegal,
em execução ou iminente, contra a pessoa ou terceiro, impossibilidade de
recurso à força pública e haja necessidade ou racionalidade da defesa.
Mas, é de concluir, que nos casos em que alguém actuando erroneamente
sobre os pressupostos da legítima defesa tem o dever de indemnizar os
prejuízos causados, a não ser que o seu erro seja desculpável. (337.º/2 e 338.º).

1.1.2. A ACÇÃO DIRECTA

4
Ana Prata, Dicionário Jurídico, Almedina, Coimbra, 2006, 5ª Edição, pg. 848
5
Cfr. José de Oliveira Ascensão, O Direito, op.cit. pg. 94
6
Ibidem
Direitos Reais - Moçambique 4
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É uma das formas da autotutela dos direitos, que consiste no lícito
recurso à força com o fim de realizar ou assegurar o direito do possuidor
violado, dentro dos limites estabelecidos pela lei7. (arts. 336.º e 1277.º).
Através deste meio, permitem-se actos como a apropriação, destruição
ou deterioração de uma coisa alheia, eliminação de uma resistência
irregularmente oposta ao exercicio da posse pelo possuidor. (art. 336.º/2)
Tal como a legítima defesa, admite-se, também, aqui, que este meio seja
aplicado em caso de impossibilidade de recurso, em tempo útil, aos meios
coercivos normais com vista a evitar a inutilização prática do direito.
Igualmente, aqui, o possuidor não deve exceder os meios empregues
para evitar os prejuízos que decorreriam da ofensa, quer dizer, devem ser
racionais. Por isso, não é lícita a acção directa quando tenham sido sacrificados
interesses superiores aos que o agente pretendia assegurar.(art. 336.º/3)
Assim, a acção directa opera nos casos em que o violador da posse se
recuse a restituir ao seu legítimo possuidor o direito. E, este, usando da força,
apropria-se da coisa.
A acção directa constitui uma causa da exclusão da culpa ainda que
aplicada por convencimento erróneo e desculpável do seu autor8.

1.2. MEIOS DE DEFESA JUDICIAIS

Expostos que foram os meios privados de autotutela da posse, e


conforme ficou acima planeado, passaremos a abordar cada um dos meios de
tutela judicial da posse – as acções possessórias.
Cumpre-nos dizer, nesta sede, que as acções possessórias não se aplicam
às situações de servidões não aparentes, salvo se a referida servidão possa ser
demonstrada por título passado pelo proprietário do prédio ou de quem lho
transmitiu.

1.2.1. ACÇÃO DE PREVENÇÃO

Este meio de tutela previsto no art. art. 1276.º tem por fundamento o
justo receio de turbação ou esbulho da posse9, em virtude de uma ameaça
séria, que pode consistir em actos materiais, judiciais ou administrativos, ou em
palavras10.
Assim, para o êxito desta acção deverão ocorrer actos que,
objectivamente, demonstrem de forma inequívoca a probabilidade de
verificação da ofensa à posse.
Só assim, se confere ao possuidor a faculdade de requerer ao tribunal
contra o ameaçador a fim de que este se abstenha de perturbá-lo na sua posse.
Esta acção, de cunho cautelar, visa impedir, de terceiro, potencial esbulho
ou outro perigo que possa recair sobre o direito do possuidor.

7
Ana Prata, op.cit. pg. 22
8
Ibidem
9
José de Oliveira Ascensão, Direito Civil. Reais, op.cit. pg. 111
10
Luis Duarte Manso e Nuno Teodoso Oliveira, Direitos Reais & Registo e Notariado, Quid Júris Sociedade Editora,
Lda, Lisboa, 2008, 3ª Ed. Revista e Actualizada, pg. 56
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A decisão judicial daqui decorrente obrigará a que o ameaçador se
abstenha de praticar quaisquer actos que violem ou impeçam o exercício desse
direito.
Se, ainda assim, o ameaçador continuar com seus actos, incorrerá em
multas e responsabilidade civil pelo prejuízo que causar, nos termos gerais de
direito (art. 1276.º, in fine)11.
Pressuposto fundamental para a interposição desta acção é a existência
de uma ameaça por terceiro ao possuidor, quanto ao exercício da posse.
Tem legitimidade para interpor esta acção todo aquele que esteja a ser
ameaçado da sua posse contra o ameaçador.
Ora, no caso de ocorrer uma real turbação ou esbulho, poderá o possuidor
recorrer aos meios, que abaixo se expõem.

1.2.2. ACÇÃO DE MANUTENÇÃO

Esta acção é proposta sempre que ocorra um acto material que resulte na
diminuição, alteração e/ou perda do modo de exercício da posse, ou seja,
quando se tenha consumado a perturbação. (art. 1278.º/1).
De especial importância é a noção do acto de perturbação, que significa
“acto voluntário de terceiro que afecte o pleno e normal exercício ou gozo do
possuidor de sua posse, reduzindo-o ou alterando, sem o seu consentimento”12.
Precisamente, temos, nesta acção, a diminuição ou alteração, por
terceiro, do exercício da posse pelo possuidor, que ainda a conserva. Assim,
com esta acção visa-se manter a situação possessória do possuidor,
condenando o perturbador a abster-se dos actos ofensivos à posse.13
Nos termos do art. 1281.º/1, tem legitimidade para interpor esta acção
em juízo, o possuidor perturbado ou seus herdeiros, mas apenas contra o
perturbador, salvo em se tratando de acção de indemnização contra eles
deduzida.
A ofensa à posse poderá não consistir, apenas, em actos de perturbação,
podendo atingir outras proporções, com ênfase para a privação efectiva, ou
total, ou ainda parcial em relação ao possuidor. Neste caso, o meio adequado,
será o que nos debruçaremos abaixo.

1.2.3. ACÇÃO DE RESTITUIÇÃO DA POSSE

É o meio de tutela judicial, cujo fundamento, é a privação da possibilidade


do possuidor exercer a sua posse efectiva. Quer dizer, quando, in concretu,
ocorra o esbulho.
E, o esbulho, in casu, será o acto voluntário e comissivo de terceiro que
vise adquirir a posse, contrariamente à vontade do possuidor. Será o acto,
através e a partir do qual, se desencadea o fenómeno da perda total ou parcial
da posse pelo possuidor. (art. 1278.º/1)14.
11
Neste sentido, Rui Pinto, op.cit. pg. 572
12
Rui Pinto, op.cit. pg. 573 e Augusto da Penha Gonçalves, op.cit. pg. 301
13
Ibidem, Augusto da Penha Gonçalves, pg. 301
14
E, por efeito, disse o Dr. Manuel Rodrigues, citado pelo Dr. Augusto Penha Gonçalves, haverá esbulho “sempre que
alguém for privado do exercício de retenção ou fruição do objecto possuído ou da possibilidade de o continuar”, Penha
Gonçalves, Idem,pg. 302
Direitos Reais - Moçambique 6
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Salienta-se que ocorrendo má qualificação de um acto violador da posse
como turbativo ou de esbulho não afasta a procedência da acção, decidindo-se
pelo pedido que se adequaria, consoante a acção seja de manutenção ou de
restituição. (1033.º/2 do C.P.C.)
A acção de restituição da posse tem como fim a obtenção de condenação
do esbulhador para restiruir ao possuidor o direito esbulhado.
Tem legitimidade para requerer esta acção o possuidor esbulhado contra
o esbulhador, seus herdeiros ou terceiro de má-fé. (1281.º/2)15
Neste caso, significa que, perante terceiro de boa fé, a posse civil do
esbulhado não prevalece.16

1.2.4. ACÇÃO DE RESTITUIÇÃO PROVISÓRIA DA POSSE

Contrariamente ao que se passa na acção de restituição da posse, em


que o esbulho não é violento, esta acção regula os casos em que o esbulho
tenha sido violento.
Ocorrendo violência, o possuidor tem o direito de ser restituído
provisoriamente a posse esbulhada, sem audiência do esbulhador, conforme
dispõe o art. 1279.º.
Esta acção cautelar, cuja acção principal é a da restuituição da posse, é
regulada entre os arts. 393.º a 395.º do C.P.C.
Decorre do art. 393.º do C.P.C. que são fundamentos deste pedido: a
ofensa à posse, derivada de esbulho violento.
Saliente-se, ainda, que nos termos do disposto acima, o esbulhador será
condenado sem citação nem sua audição, o que sacrifica o princípio da
contraditoriedade.
Esta acção visa que, rapidamente, “seja composto provisoriamente o
litígio sem prejuízo da composição definitiva, que resultará do processo
definitivo que a este se tem de seguir.17”. Aliás, como é natureza própria das
providências cautelares, trata-se de uma decisão provisória à qual segue a
acção principal, no prazo de 30 dias.(art. 389.º/1/al. a) do C.P.C.)
Reitera-se que este procedimento cautelar tem aplicação prática para os
casos de esbulho e violência, o que quer dizer que noutros casos, o possuidor,
apenas, poderá recorrer ao procedimento cautelar inominado, previsto no art.
381.º e ss., do C.P.C.

1.2.5. EMBARGOS DE TERCEIRO

Relembre-se que até agora falámos, acima, de acções que tinham como
base de sustentação a ofensa à posse, fosse ela potencial ou efectiva, por actos
de vontade privada.
Mas, nesta acção, o que sucede é que a privação da posse ocorre por
ordem judicial, através de processos, que podem ser de arrolamento, arresto,
penhora, despejo, entre outros, em relação aos quais o possuidor é terceiro
(1279.º).

15
Neste sentido, rui pinto. Pg 574
16
Idem, pg. 575
17
José de Oliveira Ascensão, Direito Civil. Reais, op.cit. pg. 112
Direitos Reais - Moçambique 7
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Exceptuam-se, deste processo, quando se está perante a apreensão de
bens em processo de falência ou insolvência. Nesta situação, ao possuidor é
conferido o direito de reclamar com recurso ao processo especial disposto no
art. 1237.º/1/al. a) e 1315.º, ambos do C.P.C.18
Ocorrendo este facto, o possuidor tem, consoante o disposto nos arts.
1285.º do C.C. e 1037.º a 1043.º do C.P.C., a faculdade de defender a sua posse
com recurso a esta acção.
É fim desta acção, manter a posse do embargante em face de um acto
judicial que a ofenda. Refira-se aqui, que o possuidor mantém a sua posse,
ficando, apenas, o tribunal como detentor. Pelos vistos, aqui não há verdadeiro
esbulho.

1.2.6. POSSE OU ENTREGA JUDICIAL

Esta acção encontra-se regulada nos arts. 1044.º e ss., do C.P.C.


Constitui um processo executivo especial em que alguém, que tenha a
seu favor título que lhe transmita a propriedade de uma coisa, requeira que
esta lhe seja conferida a posse ou lhe entregue, judicialmente.
Para o efeito, é suficiente que quem alega o direito junte à acção o título
translativo de propriedade ou de outro direito real de gozo.
Quando o acto seja susceptível de registo, juntar-se-á o documento que
comprove a efectivação do registo, ou que este está em condições de ser feito.
(1044.º, in fine do C.P.C.).
Aqui, o requerente já é possuidor, não obstante, não tenha recebido a
coisa.
Esta acção visa efectivar uma posse já transmitida contratualmente,
funcionando a favor de quem ainda não tem a coisa em seu poder, mas, que, já
adquiriu a posse civil19.
A esta acção só pode lançar mão aquele que adquiriu a posse por
constituto possessório, sendo para outros casos, aplicável a acção de
reivindicação ou a de condenação no cumprimento da obrigação de entrega da
coisa, sempre que não se tenha estabelecido contratualmente o deferimento da
entrega da coisa.20

1.2.7. A DEFESA DA COMPOSSE

Nas situações de composse – quando um ou mais direitos estejam na


posse de dois ou mais sujeitos – cada um dos compossuidores, pessoalmente,
é-lhe conferida a faculdade de defender tanto a parte que lhe cabe na posse
comum, ou por inteiro. (1286.º/1)
Este meio de defesa conferido ao compossuidor é aplicável a todas as
espécies de meios de tutela judicial da posse, acima descritas.
Confere-se, igualmente, poder ao compossuidor de defender, nas relações
com terceiros, a posse por inteiro, sem que ao terceiro seja lícito opor-lhe que
ela não lhe pertence por inteiro.21

18
Augusto da Penha Gonçalves, Augusto da Penha Gonçalves, op.cit. pgs. 303 e 304
19
Cfr. Rui Pinto, op.cit., pg. 582, e no mesmo sentido, Menezes Cordeiro e Oliveira de Ascensão, por ele citados.
20
Ibidem,
21
Idem, pg.583
Direitos Reais - Moçambique 8
Moreira Rêgo
Nas relações entre compossuidores não é permitida a acção de
manutenção, por, em nosso entender, tendo esta, por fundamento, a
perturbação, não faz sentido que se requeira (1286.º/2). Mas, admite-se, que a
elas se aplique, todas as regras aplicáveis às acções possessórias, sejam as
referentes aos seus pressupostos, legitimidade, tramitação, efeitos e
prescrição. (1286.º/3).22

2. DAS REGRAS PROCESSUAIS GERAIS

Aplica-se a todas as formas de tutela judicial da posse as seguintes regras


que abixo se discriminam.

2.1. CADUCIDADE

Nos termos do art. 1282.º, as acções de manutenção e de restituição


caducam decorrido um ano a contar da data do facto da perturbação ou
esbulho, ou do seu conhecimento, quando praticado às ocultas.
Para o início da contagem de um ano releva a natureza da posse,
consoante, tivesse sido pacífica ou violenta, caso em que começa a contar,
cessando a violência.

2.2. EFEITOS

A improcedência da acção manterá a posse na situação em que estava,


caso contrário, conforme dispõe o art. 1283.º, esta será mantida ou entregue
judicialmente, havendo-se como nunca perturbada ou esbulhada.

CONCLUSÃO

Neste trabalho, apresentamos de uma maneira geral os meios de defesa da


posse, trazendo as modalidades, pelas quais ela se manifesta, tendo-nos
referido dos meios extrajudiciais e judiciais.
Daí, descrevemos a defesa como sendo o recurso aos meios privados e,
finalmente, como recurso aos meios judiciais.
Na primeira modalidade de meios, fizemos menção à legítima defesa e à
acção directa, que são os meios que achamos conveniente apresentar, não
significando, com isto, que sejam os únicos.
A seguir falámos dos meios de tutela judicial, tendo ali, descrito todos os
meios que envolvem a intervenção da força pública maxime o poder judicial,
consoante o modus de violação da posse.
E, por assim dizer, fizemos referência à acção de prevenção, de manutenção,
restituição, a providência cautelar de restituição provisória da posse, embargos
de terceiro, a posse ou entrega judicial e a defesa da composse, que mais não

22
Ibidem.
Direitos Reais - Moçambique 9
Moreira Rêgo
é, em si mesmo o uso pelo compossuidor das acções possessórias, com
excepção da acção de manutenção.
Numa parte final, em atenção aos requisitos comuns e gerais a todas as
acções possessórias, não deixamos de abordar o que era comum a todas as
acções, no que tange à caducidade e efeitos.
Na verdade, importa referir que o presente trabalho, para além de ter-nos
enriquecido em termos teóricos também contribuiu para a nossa praxis jurídica,
isto é, compreendendo, de uma forma mais aprofundada as espécies de acção,
situação que mais interessa para o nosso curso, não descurando claro, da
importância dos meios extrajudiciais, que na sociedade em que vivemos,
ajudam, sobremaneira, os cidadãos, que não tendo força pública, por perto,
deles se fazem valer para tutelar os seus direitos ameaçados ou violados.
Não menos importante, é a referência que sempre se faz, quando se fala dos
meios de tutela judicial da posse, aos prazos de caducidade, situação delicada e
de que se deve sempre ter atenção, nas acções possessórias, sob pena de
perda da posse.
Atenção especial se dê também aos requisitos que devem servir de base a
cada acção que se pretenda propor em juízo, pois não é conveniente e nem de
saudar que o jurista não conheça os caminhos por onde deva trilhar, ainda que
fosse para efeitos de simples aconselhamento jurídico.
Por fim, concluímos agradecendo ao grupo de docentes pela louvável
iniciativa, que nos proporcionou, facto que contribuiu bastante para que todos
os estudantes se dedicassem a uma leitura atenta e acurada desta temática, a
fim de que reproduzindo, pela escrita, tivessem adquirido mais conhecimento. É
de louvar.

BIBLIOGRAFIA

1. Ana Prata, Dicionário Jurídico, Almedina, Coimbra, 2006, 5ª Edição;

2. António Meneses Cordeiro, A Posse: perspectivas dogmáticas actuais,


Almedina, Coimbra, 1999, 2ª Edição actualizada.

3. Augusto da Penha Gonçalves, Curso de Direitos Reais, Lisboa,


Universidade Lusíada, 1993, 2ª Ed.

4. José de Oliveira Ascensão, Direito Civil. Reais, Coimbra, Coimbra


Editora, 2000, 5ª Ed. Ampliada.

Direitos Reais - Moçambique 10


Moreira Rêgo
5. Luis Duarte Manso e Nuno Teodoso Oliveira, Direitos Reais & Registo e
Notariado, Quid Júris Sociedade Editora, Lda, Lisboa, 2008, 3ª Edição,
Revista e Actualizada.

6. Rui Pinto, Direitos Reais de Moçambique, Almedina, Coimbra, 2006.

INTERNET

1. www.iusnavigandi.com

2. vlex.pt/tags/reivindica-o-da-posse

Direitos Reais - Moçambique 11