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1 As mamas de Angelina ou o real da ciência e da psicanálise Redatora: Márcia Rosa Primeiros interlocutores: Carlos Luchina, Felipe Gontijo, Gilson

Iannini, Gustavo Borges, Marcelo Bizotto, Tânia Coelho, Virginia Sanabio.

Ao tratar da ciência em sua relação à verdade, Lacan (1965) sustentou a vocação cientifica da psicanálise, fundou o sujeito da psicanálise no sujeito da ciência e em seu correlato, o cogito cartesiano, e definiu o real como um impossível determinado a partir dos impasses da articulação lógica. Embora tenha formulado o real como impossível para ambos os campos, uma descontinuidade entre o real da ciência e aquele da psicanálise se estabelece na medida em que Lacan (1965) contrapõe o formalismo da ciência (causa formal) ao materialismo da psicanálise (causa material), e mostra que o real forcluído na ciência retorna na clínica, tal como observa Ianinni.1 Aproximadamente dez anos depois, outros termos entram na discussão das relações entre a psicanálise e a ciência. Ao falar pela terceira vez na cidade de Roma, Lacan introduz as questões da religião, do sentido e do gozo. Tanto na “Conferência de Imprensa” (1974) quanto em “A Terceira” (1974), surpreende-nos a diferença do tom em relação àquele dos anos sessenta, nos quais as questões haviam sido tratadas sob um viés predominantemente epistêmico. Ao localizar a ciência entre as posições insustentáveis, impossíveis, Lacan (1974) afirma que, talvez por causa de Freud, ninguém pensou em dizer que resultava tão impossível ter uma ciência que desse resultados, quanto governar e educar. Se a psicanálise permite indicá-lo, ela o faz por ocupar-se especialmente daquilo que não anda bem, que não é senão um outro modo de nomear o real. Esta nova concepção do real —como aquilo que não anda bem— evidencia diferenças entre o real da ciência e aquele da psicanálise. Ao ocupar-se não do mundo, que é aquilo que anda, mas do (i)mundo, os psicanalistas enfrentariam o real muito mais do que os cientistas, alias, eles não se ocupariam senão disso, daí terem que suportar o real, para o qual devem estar protegidos contra a angústia. À diferença do analista, o cientista não teria a menor ideia do que faz. Se chega a esbarrar nisso, ele se angustia tal como aquele biólogo frente ao temor de que alguém pudesse retirar do laboratório as pequenas bactérias convertendo-as em instrumento de destruição da vida, em um verdadeiro flagelo (bastante conhecido atualmente sob a ameaça do uso de armas bacteriológicas) que limparia a face da terra! A típica crise de angústia desencadeia aí uma crise de responsabilidade, no entanto, para Lacan, a ciência no mais das vezes não tem a menor ideia do que faz, senão ao esbarrar nesses pequenos brotos de angústia. Por mais que a ciência não ponha em jogo seu real, no sentido daquilo que no seu campo não anda bem, ela introduz um montão de coisas perturbadoras na vida de cada um e é aí que a religião, a verdadeira (a romana), encontra seu lugar. A religião entra nesse campo perturbado pela ciência, dando-lhe um sentido: um sentido para a vida humana, um sentido para os flagelos (tais como aqueles que angustiam os cientistas), um sentido para perturbações tais como a reprodução

que permanece vivo quando todos os outros morrem. um gene que sobrevive. e com seu ato político. que ele não é uma simples cópia daquilo que foi herdado dos pais. não deixou de anotar também a ironia com a qual Lacan (1971). a extração das mamas para se previnir contra uma alta probabilidade de desenvolver câncer. mencionou a biologia: “existem os avanços da biologia e o Sr. É difícil de escrever. cada organismo é diferente.. A psicanálise também é convocada a secretar sentido e. do fora-de-sentido que faz com que as coisas não andem bem. Tratar-se-á então de saber como cada um se apropriou de sua herança genética. (. afirma Lacan (1974). com François Jacob (1970). se o faz.2 artificial.. supostamente escrita em nosso DNA”. quando afirmou com Kiekegaard que “a herança do pai é (. tal . Caberia a ela liberar o homem disso que lhe devasta. poderíamos também esbarrar em um gene portador da morte. quando ele se encarna tudo começa a andar desastradamente mal. Tal como observa Luchina. Eles foram feitos um para o outro e isso estará escrito.4 Na medida em que o corpo contém um princípio imortal que se transfere a outros corpos vivos.). sob o título “My medical choice”. “a noção de código genético (este possível escritor) nos aproximou de um saber que espera seu deciframento e que impregnou nossa realidade simbólica. a bela atriz que rende milhões aos cofres cinematográficos e que condensa em si.6 ao evocar as formulações de A lógica da Vida: uma história da hereditariedade (1970).5 Ela continua: esbarramos assim na concepção de um gene egoísta. Tampouco Lacan. o DNA. observa Sanábio. Ciência e religião? Que lugar para a psicanálise? Ela sobreviverá? À força de dar sentido. O ato de Jolie ou “aquilo que herdaste. o testemunho no The New York Times.8 Isso ocorreu não apenas pela escolha médica de Angelina Jolie (2013). mas por que não? É assim que se faz avançar as coisas”. conquista-o para fazê-lo teu” 2 É evidente que quando Freud mencionou o Fausto de Goethe ele não pensava na ciência e nas heranças genéticas. como em certas mutações genéticas. a religião conseguirá curar a humanidade desse sintoma. La Jolie. produzido por ela própria. a distinção entre corpo e vida abre a discussão da biologia molecular. Para Lacan a religião está feita para curar. hoje em dia dificilmente pensaríamos em literatura ou filosofia diante de questões relativas à hereditariedade. é importante lembrar.. alimenta a religião. bem como pelo fato de ela testemunhá-lo no The New York Times. liberá-lo do encontro com esse real? 1.3 No entanto. Borges.) seu pecado”. A psicanálise cuida disso. que é a psicanálise? Se no princípio é o Verbo.7 Passados 40 anos da menção de Lacan à Lógica da Vida de Jacob. tal como postulado por Richard Dawkins. os enxertos e as extrações de órgãos. À propósito. etc. o real da herança genética e as suas letras nos entrou porta adentro através das discussões sobre a mutação no gene BRCA1 e BRCA2. [François] Jacob está aí mesmo.. Se o organismo pode ser concebido como realizando um programa imutável escrito pela hereditariedade. 9 Com sua escolha pelo ato cirúrgico. não é? Talvez um dia não haja mais a menor dúvida quanto ao espermatozoide e ao óvulo. para que os homens não se deem conta do que não anda bem.

o compromisso ou não de La Jolie com a Myriad Genetics.3 como a Irma do sonho de Freud. através da extração dos seios. o fortalecimento de sua posição como mulher. abre várias questões: de início. ao cirurgião estético. na escolha pela mastectomia. Além da própria vida. Veja12. à pornografia. passando por aquela do numero de mulheres que morrem anualmente devido ao BRCA1. cujo custo. antes que as feministas se apossassem dele no final do século passado. às orgias sexuais. muitas cifras. desde aquelas dos riscos estatísticos atestado pelo teste genético. ao homem. o medo que o sujeito tem do próprio corpo. As múltiplas cifras em jogo são o tema dos articulistas da revista Times que.. Frente ao ato de Angelina. Sobre ele.14 articulista do Le Monde lembra que o seio feminino pertenceu sucessivamente à criança. à política. A parceria com o não menos famoso Brad Pitt. detentora da patente do teste genético em questão. há um objeto parcial em jogo. de cobertura ou não nos planos de saúde para a realização do teste e dos procedimentos subsequentes. poupar seus filhos dos seus elevados riscos estatísticos de câncer. da intervenção no real do corpo. presente inicialmente através da angustia. No caso. desde o seio divino da Idade Média ao seio erótico de Agnès Sorel. haja visto aquela das adoções. a voz e o olhar) são separáveis do corpo e têm. estão presentes no testemunho. mas cifras. te nta. No seu testemunho. As mamas. etc. . bastante elevado. etc. e leva à escolha estratégica de se desangustiar através da técnica científica. assim como alguns outros objetos (as fezes. Época13). consolida uma posição materna (6 filhos. do seio comercializado pela indústria do sutiã ao seio roído pelo câncer ou torturado pelo piercing do século XX. é mencionado. Posto isso. Jolie menciona também a dimensão estética do procedimento. do seio doméstico do século XVII ao seio político. decorrentes de sua herança genética. ao indagarem “The Angelina effect”10. várias questões surgem: a psicanálise situar-se-ia do lado da ciência? Contra a ciência? A insondável decisão do ser? Os discursos em jogo: as certezas ou cálculo de probabilidades da ciência? A responsabilidade pela sua posição de sujeito? A transformação da própria vida em um manifesto público? A dimensão política do ato? Um ponto nos interessa preferencialmente: o real da ciência —a genética e o gene BRCA1— e o real da psicanálise. à psicanálise. várias faces do feminino na nossa contemporaneidade. como Anna O. a questão ética implicada na “escolha”. é antecedido pela angústia frente ao real da morte anunciada. Não é sem interesse lembrar que Lacan (1962/1963) fundamenta a função causa de desejo e mais-de-gozar do objeto pequeno a —e cabe lembrar que o seio é uma das versões desse objeto — em uma patologia do corte. é possível traçar-lhe a história com Yalom (1997). à uma relação homossexual pública durante 10 anos. 3 adotivos e 3 biológicos) através da qual ela justifica sua “medical choice”: tendo perdido a mãe para o câncer. enfatizam as questões estatísticas de profilaxia. presente na historia familiar. Não apenas as letras genéticas e escriturais. o lado noir e cult da feminilidade. um certo caráter artificial. até anatomicamente. ganhou bastante destaque. Chassat. às automutilações. defensora de causas humanitárias. o consentimento de Brad. etc. Assim. algo permanece insabido. depois embaixatriz da ONU e. Na midia brasileira (Isto É11. e à polêmica que os avanços da ciência implicados aí suscitaram. a associação às drogas.

fazemos do sexual um uso que é sempre. de algo que passa por baixo de qualquer representação e sobre o qual sabemos muito pouco. Com isso. Através dela captamos o mais vivo e o mais morto que há na linguagem. A cada um seu latim. apenas através dela. pela mamadeira ou por qualquer outro objeto. Lacan menciona a dimensão sacrificial que a “caducidade” de um objeto pode comportar. além disso. Teríamos aí uma versão contemporânea da Madona Sistina. podemos ter um acesso ao real pela letra. mas de que modo? 2. e. na medida em que toda alíngua é uma língua morta. o campo de discussão se abre para a ciência e os seus avanços. petrificações. de uma imagem de nó. Lacan (1962-1963) sugere que nesta cessão entra em jogo exatamente a possibilidade de que o objeto seja colocado em reserva. em estoque. e. aluviões. No testemunho de Angelina Jolie. Embora demonstre as raízes corporais do objeto pequeno a. observa Miller (2005). em circulação no comércio. a vida. no registro do Real.4 À caducidade desses objetos. principalmente ao considerarmos com Lacan (1972).20 Forcluídas.17 A propósito. até mesmo. se os objetos naturais são equivalentes. Lacan (1974) localiza “o mais vivo”. captamos uma espécie de lalação através da qual o gozo oxida. de algum modo. etc. não há nenhum naturalismo aí. diríamos! Na alíngua captamos um uso da letra no qual a sonoridade não fez a sua retirada. A expressão neologística . na vida mesma. Santa Ágata. as coisas do amor e o sujeito retornam no real. fazendo aí seus depósitos. etc. Lacan confere o estatuto de real. enferruja a letra. perguntamos. por uma espécie de recalcamento originário. Depois disto. isto. retratada pelo pintor Caravaggio entregando seus seios na bandeja. objeto da contemplação de tantas Doras na busca de um saber (transcendente no sentido da técnica) sobre a feminilidade? No caso.16 No entanto. de um real mais além de qualquer referência biológica. haveria algo de sacrificial no ato de Angelina? Estaria certa essa concepção de que “apenas as mulheres são capazes de se sacrificar por nada”?18 Testemunhado como um ato de amor. Assim. dedicado aos filhos. enxertos de órgãos. temos acesso ao real. ainda no mesmo seminário. por serem destacáveis do corpo. embora esteja em uso.15 uma vez que Lacan (1962-1963) insiste em que esse objeto pode ser substituído por um objeto mecânico. Ele insiste em que não há nada mais Real. não temos nenhuma outra imagem ou representação natural de um nó. dado ser impossível escrever uma fórmula que nos prescrevesse o seu modo de uso. off label! No entanto. serve apenas ao gozo do um. extrações. mais impossível de se imaginar do que o modo como teve início a construção química de uma molécula do DNA. a decisão de Jolie não deixa de evocar algo religioso. nesse caso. Ao se referir à cessão do objeto. “algo no real. o discurso ideológico da ciência suprime o sujeito. a busca se localizaria em uma figura de mulher sustentada na aliança entre o capitalismo e o discurso da ciência: uma figura d’A Mulher? Com que consequências. estrutura-se a partir de um nó”. a cunhagem de uma expressão “mommy’s mommy” diz bem da sonoridade da alíngua.A ciência e o gozo do Outro Estamos para sempre separados do real sexual. que o discurso do capitalismo forclui as coisas do amor19 e que. Com a alíngua (lalangue) a letra capta o “mais morto” que há na linguagem. Em vista disso. A referência é à mártir cristã. e. intercambiáveis pelos artificiais.

O esvaziamento. “um novo estatuto do humano elemesmo”. cifrações do gozo que geram nomina ções singulares.5 surge exatamente ao entrar no horizonte a conversa com os filhos pequenos sobre a morte da avó. na lúnula na qual também escreve o gozo do Outro. aquele das letras BRCA1 e BRCA2? Como goza o lógico matemático. Formulado não no sentido subjetivo (o gozo que o Outro tem de mim. Ao tomar este Outro da ciência referindo-o à letra. mas objetivo. Tal como observa Milner (1995).. a limpeza. observa Lacan (1974). indagamos: como goza o biólogo geneticista. etc.) Outro não barrado. na qual encontram um campo de sonoridade: “mommy’s mommy”.22 Esta identidade de si a si não se produz no nível do Outro. no discurso em que se situa. com Leguil (2011). com a (de)cifração do real. Ao localizar a ciência no nó de Borromeu.Aceder ao real pela letra ou um galileismo do vivo? Na psicanálise. Lacan (1974) evoca aqui as relações de letra a letra. ao traçar uma seta orientando a ciência para um campo que passa por baixo de qualquer representação (PCS) e escrever no Real a palavra vida. Sergei Petrovski. não tem um si a que uma identidade possa ligá-lo. com a biotecnologia. é idêntica a si mesma. Com isso. a literalidade funciona como um encadeamento de letras que. à literalidade em jogo na sua produção. diríamos. inscrição da hora do coito parental.. 3. mas assinala também que a ciência pode nos dar um saber sobre esse enigma que é a vida. por exemplo. escreve as inicias do S. Reduzido o sentido. modos de se adequar aos imperativos da técnica. (JA. nem sempre —acaba retornando como sintoma! No entanto. ela própria. o V romano. graças aos métodos de aprendizagem e de avaliação. mas da lógica. Cifras. trazidas por Galileu e pela ciência moderna. com a extração do saber-no-real? Penso que ao localizar um gozo do Outro no horizonte da ciência. programado. à condição de não faltar qualquer uma.P. As letras também se encadeiam na lalangue. aquele do x=x? Não será que gozam com a letra.21 Desde então. se o significante não é idêntico a si. Assim. abre a possibilidade de um retorno disso no real através de parcerias inhumanas. Lacan (1974) a escreve entre os registros do Imaginário e do Real. e encontra no cognitivismo-comportamental. torna-se possível encontrar um princípio de identidade.23 Ele “retorna”. as letras surgem em sua identidade a si mesmas. que castrada do seu W. a letra. este gozo do Outro é apresentado como fora-da-linguagem. Lacan (1974) mostra que a ciência estaria comprometida não apenas com a produção de objetos que nos consomem —e aqui a nossa parceria inhumana com os gadgets—. se encadeia e se desdobra na Wespe (vespa). entre outros. . Lacan não deixa de sugerir a presença neste campo de um certo fetichismo da letra! Acredito que a forclusão de qualquer amor à língua e aos seus equívocos no discurso da ciência. E isso funciona? Se alguma vez. fora-do-simbólico e como para-sexuado. desemboca-se em uma “sublime” (!) fórmula matemática da identidade que se escreve X=X. ainda no seu nó Borromeu. com uma linha no intervalo. Homem dos Lobos. seja com o capitalismo. da “mommy’s mommy”. introduz-se o que poderíamos designar. indica o modo como se inscreveu o encontro do sujeito com o gozo ou o encontro do gozo com o corpo. Outro gozador da neurose). a desoxidação do gozo infiltrado nas letras da alíngua nos introduz ao campo da ciência.

quando Lacan (1965) concebeu a noção de sujeito da ciência. Todas essas considerações nos colocam diante de um debate: teríamos com a genética. (2) a emergência eventual de um novo paradigma científico modifica ou não a referência da psicanálise à ciência moderna? A propósito. na linguagem da ciência contemporânea essa homologia se estabelece entre a letra e o DNA. Assim. interroga o autor de Clarté de tout. intraçavel. Milner27 observa que se o paradigma da ciência sofre um deslocamento. ou seja. ela é incorporada. mostrando que ela ultrapassa a distinção freudiana entre o germoplasma e o somatoplasma. de modo geral. ele começa a escapar de seu código. não haveria aí “uma claudicação do negócio”. independentemente de sua posição. uma vez escritas. Para ele. Em segundo lugar. variável. com riscos de transmissão à geração seguinte matematicamente cifráveis. embora desloque o seu paradigma. o que permitem as letrinhas do código genético. Há. Com Miller. Assim. as propriedades de uma letra não são inteiramente determinadas por sua posição. podemos compreender essa analogia. estima-se que apenas algo em torno de 2. mas. tornando-se equivocas? E as letras BRCA1 e BRCA2? Qual real elas (de)cifram e como o (de)cifram? A propósito. do significante se inscreve no corpo. finalmente. 24 na medida em que. interrogam o determinismo genético como tal e. a sua duração se estende além da vida. isso ainda se mantém? Caso contrário. um novo paradigma de ciência? Se a física-matemática era o paradigma da ciência em meados dos anos 1960. isso não tem necessariamente consequências para a psicanálise. heterogênea.6 É bastante conhecido o comentário de Lacan (1973) sobre a idealização da formalização matemática na medida em que ela poderia transmitir integralmente. perderiam a sua integralidade. assim.28 Em que pese isso. complexa e. mas gera questões a serem examinadas por ela de modo aberto e sem preconceitos: (1) as novas informações produzidas pela genética modificam ou não a teoria e a prática da psicanálise. continua ela. portanto um deslocamento de uma concepção ligada a mutações conhecidas e identificáveis. primeiro no sentido daquilo que. a genética passa a uma concepção ‘poligênica’. por último.26 Na sua conversação epistemológica com Luchelli.000 genes constituindo o genoma humano. essa letra não seria o soma e. os elementos têm sempre um mínimo de propriedades intrínsecas. Face a isso. No entanto. a importância do inconstante. para uma outra na qual a incerteza ocupa a cena e forja a noção de predisposição genética complexa. difícil de definir. senão uma ordenação generalizada do vivo?”29. Ansermet e Giacobino (2012) nos informam que dentre os 24. implicando vários genes. a genética pertenceria à ciência moderna. . Milner mostra como na literalidade genética existem elementos que recebem propriedades das posições que ocupam. polimorfo. Coelho dos Santos25 evoca a homologia estabelecida por Lacan entre a letra e o gérmen.000 estejam implicados nas doenças ditas ‘monogênicas’—isto é. quais as consequências para a psicanálise? Questões interessantíssimas formuladas por Juan Pablo Luchelli a Jean-Claude Milner (2011). introduzindo aí um galileismo do vivo: “no fundo. doenças imputáveis a mutação de um único gene. essas letras necessitam da língua para serem apresentadas e. O papel do ambiente. enquanto ciência literal e não quantitativa. neste ato mesmo.

i. Sergé Cottet (2013) observa que na atualidade o sintagma “sujeito da ciência” parece ter perdido sua respeitabilidade. se o saber inscrito em algumas moléculas do DNA pode ser lido através de testes genéticos e abrir cálculos de riscos e probabilidades. pergunta ele? A psicanálise é apresentada como uma prática que gira em torno do impossível a dizer. uma vez que há escritura no inconsciente.32 Utilidade e eficácia são. embora não seja uma ciência. a ciência encontra sua “futilidade”. ele não cessa de se escrever no sentido em que o que há de mais Real é o escrito. é sempre atravessada por um mal-entendido fundamental. ela “progride pela via do tapar buracos”. provocativamente. ela não é outra coisa senão um fantasma. uma tolice. . portanto é exatamente aí que Lacan intervém ao. ele a define como uma prática da tagarelice (bavardage). sem-lei? Haveria saber nessas moléculas. Não há relação sexual. Que o digam as Danaîdes! Portanto. insignificante. se nos reportamos ao seminário dos anos 1977-78. aos outros seres e a todo tipo de conceitos. tagarelice que comporta riscos e implica consequências. Lacan (1977-78) insiste sobre o escrito. de um real desordenado. Conclui-se. Inserida no campo da linguagem. prática que necessita do equivoco. à reboque das ideologias contemporâneas da avaliação 33. Ao pretender nivelar o ser vivo. tratar-se-ia. bem como entre sujeito e objeto. o escape do tonel deve ser sempre reaberto.7 Enfim. “é uma futi lidade que não tem peso na vida de ninguém. principalmente por ter ganho uma espessura política. atributos do discurso da ciência e daquilo que ela produz.30 Afirmando. ele não define uma relação. Isso se lê e é nisso que consiste o saber. porque ele está orientado em direção ao sexo. Esses efeitos não sustentam nada mais do que os fantasmas de quem crê nisso. que no começo da ciência e no seu desenvolvimento estaria a presença de um fantasma totalmente manifesto. salvo entre fantasmas.O tonel das Danaídes ou a futilidade da ciência Podemos ter uma ideia das últimas formulações de Lacan sobre as relações entre a psicanálise e a ciência. i. para ele. que a psicanálise deve ser levada a sério. nas suas últimas formulações sobre o real da ciência e o real da psicanálise. O Momento de Concluir. A ‘futilidade’ refere-se a algo sem valor.é. sua universalidade e deslizado na direção da “expertise”. a letra e a impossibilidade de se escrever a relação sexual. fútil. não há adequação entre sujeito e objeto. Lacan (1977-78) diz se servir da escritura para equivocar. a relação entre os sexos. uma vez que não há relação sexual. nesses casos. de saída. embora tenha efeitos”31.é. distinto por habitar a linguagem. dar à ciência o estatuto de algo sem valor. acrescenta Lacan (1977-78) e. embora em não-todas elas? 4. Se o sexo é um dizer. a ciência está tecida de fantasmas.34 progresso fútil dada a impossibilidade de encher um tonel furado. saber ler! O Real não aparece mais do que por um artifício que é a escritura. ‘Futilitário’ é aquele que descrê na utilidade ou eficácia dos esforços e atos humanos. sem dúvida. isto é. De que modo o Real apareceria se não se escrevesse. então. de tonéis. À propósito. todos fúteis. Para Lacan (1973). aquele da relação sexual.

no entanto a partir da formalização dos quatro discursos. Ele observa que em um momento inaugural de seu ensino Lacan se serviu da linguística e da lógica. como um saber comparável àquele que decifra a ciência. um real que ultrapassa o campo do sensível e do imaginário e se estrutura. conduzindo-a a sua ‘futilidade’.37 Concluiríamos. ao tratar do sinthoma com Joyce. resiste à formulação da relação regular. a psicanálise. E. de desestruturação. continua Zenoni. um real fora do saber inconsciente. como o nomeia Zenoni. No entanto. um real sem lei.S. o que faz com a psicanálise seja orientada por um real além do sujeito suposto saber. a não-relação caracteriza não apenas a sexualidade. feito de elementos sem sentido. quando. continua Zenoni (2011). não se liga a qualquer sentido. articulado à linguística e fundado na ciência moderna. Lacan estende a ausência de relação. então. mas também de desordem. quando se trata da sexualidade. de ordenação do real. Alguma coisa. . nesta medida. aproxima-se da arte. principalmente quando se trata das relações homem-mulher. de lei ou de fórmula. a noção científica do real. orientada pela contingência. elaborando a partir delas uma definição do inconsciente como um saber inscrito no real. observa ele. Portanto. irredutível. ou seja. definem o real como impossível.A psicanálise e um real pós-cientifico Zenoni (2011). O sintoma surge reduzido. em função disso. de acontecimentos ao acaso. no final do percurso. a prática da psicanálise leva a um real que não responde a uma ratio.. de algum modo. como a característica daquilo que escapa— [ao]tonel ou [ao]discurso”. típica entre os parceiros. Posteriormente. Lacan (1975-1976) aborda o real em exterioridade ao simbólico. o encontro com pontos de impossibilidade lógica. é “a escutar em oposição à sua utilidade (. que não se deduz de nada e. modo de gozo além da decifração. Lacan (1956-1957) já o indicava desde meados dos anos 50. surge uma modalidade de gozo própria a cada um. Neste contexto. em seu texto “O real pós-cientifico”. sem-lei e que não cessa de não se escrever. ele opera uma desvalorização da ciência. Assim.36 Se o real da época estruturalista. Através da aproximação a esse modo de gozo do sinthoma em sua singularidade. do savoir-y-faire.35 é bastante exemplar das discussões contemporâneas sobre psicanálise e ciência. se matematiza tal como aquele da ciência. mas sobretudo. sobre o sinthoma. Essa futilidade. observa que o simbólico tem não apenas efeitos de estruturação. se decifra. trata-se de uma conclusão frente a um impasse na formalização. em diante) Lacan caminha na direção do estabelecimento da psicanálise enquanto uma prática fundada em um real sem-saber. este real é resultado de uma demonstração lógica. as leis do significante e da lógica. no lugar de uma fórmula universal. da desvalorização da verdade (desde O Seminário XVII. aproximado inicialmente ao sexual. é indiscernível da escritura das pequenas letras matemáticas. que seria nas formulações do seminário 23. finaliza Zenoni (2011).8 5. ao discutir as relações de objeto. não responde a um determinismo significante. que fogem à combinatória significante. ao real como tal. a um resíduo. a um logos. Reafirmase assim a constatação de que o sexual viola.I. até mesmo de unidade. ele permitiu à Lacan aproximar a psicanálise da ciência. O avesso da psicanálise) e do recurso cada vez maior à topologia (desde O Seminário XXII.). que encontraríamos atualmente os nossos operadores clínicos maiores? Este “real pós-cientifíco”38. Ao disjuntar simbólico e real. mas o real como tal. não um real bruto mas um real inseparável de suas leis. nada que seja subsumivel a uma lei. a ideia de que há saber no real.. R. a um caroço de gozo que não se liga ao inconsciente e.

Inédito. Virginia. 8 Nosso organismo possui mecanismos de defesa contra o surgimento de tumores. Martha & BUSCATO. sofrendo uma mutação. isso explica a história de famílias com câncer de mama ou ovário em vários de seus membros. 11 MESTRE. cuja existência presumida é de apenas 0. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Jacques. dá lugar às mamas artificiais do Tirésias surrealista. (1913) “Totem e Tabu”. 9 JOLIE. 10 KLUGER. em uma época em que as mulheres não eram mais prodigas em procriar. si”. já nos idos de 1917 o escritor surrealista convidava à discussão sobre o real e sua relação aos semblantes. 6 BORGES. 22 de maio 2013. Sigmund. Natalia. um rapaz com bigode e barba. Jacques-Alain. 38.39 Tirésias. nº 2322. Lacan seguiu-lhe as trilhas! 1 2 IANINNI.XIII. depois de protestar contra a falta de crianças. Opção Lacaniana. nº 2270. FREUD.1%. Embora seja uma opção radical. (1971) O Seminário. 1974. “Introdução à leitura e referências do Seminário 10 da angústia de Lacan”. Não sem indagar até aonde nos levariam as variações sobre o real ou as desordens no real. pp. abriu espaço para uma interessante interlocução entre psicanálise e ciência: “o analista. com isso. p. 5 SANABIO. diminui em mais de 90% os riscos de câncer de mama. 2013. Teresa era uma feminista que se rebelava contra a dominação masculina a ponto de se transformar em Tirésias. Ano 46. Ao sair do caráter asfixiante da realidade pela via da ciência-ficcão. nº 782. 78-79. sem mulher. Seu marido. Angelina. fixados ao corpo. Jacques. 14 CHASSAT. 2009. 4 LUCHINA. “The Angelina effect”. Ano 37. Natalia. Appolinaire (1917) construiu uma fábula baseada na ficção-científica cuja situação principal era a de um homem que dava a luz. 14. 21 mai 2013. “As opções de Angelina”. É preciso ainda. Rio de Janeiro:JZE. a maioria daquelas cujos testes acusam a mutação. Jacques. 2013. como diz Apollinaire. Anotações pessoais. que caiam como sinal da libertação feminina. Na fábula. 77-78. fazia sozinho 40. entre eles o gen BRCA1. O Seminário. P. O Seminário. Dizendo que a maior riqueza de uma nação são seus filhos. Le Monde. Revista Época. 1979. 22 mai/2013. Alice. 20 maio 2013. livro 18. Como o gen BRCA1 mutante pode ser transmitido de uma geração a outra. Marcela. le sein. Em vista disso. n. Gustavo. uma progenitura!”. 7 LACAN. o vidente andarilho do Édipo. a angústia. Anotações pessoais. Gilson. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. deixa o organismo mais exposto aos cânceres. “My medical choice”. Maio de 2005. “La barbe ne fait pas le philosophe. “O escritor e o corpo parasitado pela linguagem”. ou mastectomia. 2005. Anotações pessoais. livro 10. Lacan (1964) convocou os analistas a levarem as questões mais além do Édipo e. In:-------. p. Sophie. In: ----.049 delas em um só dia —“ a mãe natura lhe dá. a ciência genética desenvolveu um teste que identifica precocemente essas mutações. “A influência de Angelina”. 188. In: The New York Times. Devido a isso. Carlos. “O valor maior de Angelina”. Revista Veja. que ele tenha mamas”. anti-oncogene que. Revista Isto É. as mamas de Tirésias eram dois balões de borracha. 15 MILLER. 3 LACAN. Rio de Janeiro:Imago.9 Conclusão Com um comentário bastante provocativo. não basta que ele suporte a função de Tirésias. desenvolve um câncer. entre eles a extração das mamas. 12 CUMINALE. 13 MENDONÇA. v. Jeffrey & PARK. Rio de Janeiro: JZE.40 Na peça. De um discurso que não seria do semblante . 16 LACAN. Rio de Janeiro: JZE. May 27.340. Time Magazine. May. livro XI. decifrador de enigmas e revelador das verdades do gozo.43. fazem-se trabalhos preventivos. . Embora a maioria dos cânceres de mama ocorra em mulheres sem uma mutação genética. p.

Revue Internationale de Psychanalyse.436 . LACAN. François & GIACOBINO.67-68.18. Alfred. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Anotações pessoais. Jean-Claude. Verbetes: “futilidade.1977. Jacques. 104-105. livro 25. 35 ZENONI..01.1977 e 10. 20.1978.. In: --------. 32 HOUAISS. futilizar”. Paris: École de la Cause Freudienne. 105-114. “o fato de a morte não poder ser pensada é o fundamento do real. 62-3). Jacques. p. respectivamente. Jacques. a filosofia . (1970) “Radiofonia”. p. Mental. 1996. Lições de 15. 34 LACAN.11. 2007. 24 LACAN.1977..1972. Cit. RJ:JZE.. 18-19. 16-17. 1988. O seminário. ainda.121). Jacques. mais. p. 36 Op. O Seminário. In: ------. Belo Horizonte: Autêntica. Max Limonad LTDA. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 84. 1985. 19 LACAN. “o real é sem lei (.12. livro 11. Ágata foi considerada fora-da-lei e condenada a torturas. Autisme. 2003.) não tem ordem. La science est votre vérité. 2004.01. p.12. In:--------. 40 APOLLINAIRE. Pauline. Serge. Outros Escritos. 22 MILNER. 31 Op. du mensonge hédoniste à l’experience éthique”. à chacun son génome. 23 LEGUIL. tais como: “o real se funda por não ter sentido” (p.133). “Un réel post scientifique”. O momento de concluir. inclusive a ter os seis arrancados. Paris:Verdier. 2012. 26 MILNER. Cit. Ariane. o verdadeiro real implica a ausência de lei” (p. Jacques. Lição de 20. “En ligne avec Serge Cottet”.10 17 Consagrada como a protetora dos seios. Rio de Janeiro:JZE. cit. p. G.105. p. In: ----------. 2011. p. 37. 2003. p. São Paulo: Ed. Rio de Janeiro:JZE. 21 Lacan observa que a ciência “decape la lalangue em isolant la lettre”.cit. 2011. RJ:JZE. pp. 20 LACAN. O saber do analista. “Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos”. p. 255. 28 ANSERMET. Rio de Janeiro. Lição de 06... 29 Op. P. livro 23. 30 LACAN. O Sinthoma. Nouvelle revue de psychanalyse. Tânia. N. Antônio. 2011. 38 39 Op. p. Inédito. . (1977-1978) . d’Aristote à Mao . depois de ter escapado virgem de um bordel aonde fora colocada por um senador com quem se recusara a se casar! 18 ZIZEK. n. o “real não se liga a nada” (p. “L’amour et le malaise dans la civilization au XXIº siècle . Jean-Claude.. Clotilde. La cause du désir. 27 Ibid. livro 20. podemos extrair afirmações de Lacan. p. O Seminário. p. A obra clara: Lacan. 551.67. Outros Escritos. O amor impiedoso (ou: Sobre a crença). do real como impossível” (p. 1409 33 COTTET. futilitário. Inédito. 1982.119). p. 161 e 150. Rio de Janeiro: JZE. As mamas de Tirésias. “pedaços de real” (119). RJ:Objetiva. Les noeuds d’amour. Jacques.105 37 Ao percorrermos O seminário. Clartés de tout: de Lacan à Marx. In: -------. In: Prost.121). Slavoj. “a pulsão de morte é o real na medida em que ele só pode ser pensado como impossível” (p. 25 COELHO dos SANTOS. Paris:Navarin Editeur.25. a ciência. Paris:Navarin/Le champ freudien. Mars 2011..