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A AGRESSIVIDADE e (A VIOLÊNCIA DO MUNDO

MODERNO)
FRIEDRICH HACKER
COM UM PREFÁCIO DE KONRAd LORENZ
TRADUZIDO DO alemão POR MARIA EMILIA FERROS MOURA

LIVRARIA BERTRAND

APARTADO 37 - AMADORA
Título da edição original da obra: AGGRESSION - DIE BRUTALISIERUNG DER MODERNEN WELT
PREFÁCIO

Pelos meus parcos conhecimentos de psicanálise encontro-me,

na verdade, pouco Preparado para me habilitar a


escrever um prefácio a ser incluído na obra de um
psicanalista. As minhas opiniões apresentarão
certamente um carácter de superficialidade, dado
que apenas focarei . o estudo comparado dos
comportamentos. Este prefácio proporciona-me
porém a oportunidade de fazer uma confissão
culposa: há muitos anos que alimentava uma
pronunciada má vontade contra a psicanálise,
embora ou talvez porque tenha recebido a minha
formação em psicologia na cidade de Viena, onde
me mantive em intenso contacto com
psicanalistas, durante o seminário dirigido pelos
Professores BühIer e Põtzl. o que nessa altura
mais profundamente me desanimou foi a
circunstância de os defensores de Freud não
serem na sua totalidade alunos, mas apenas seus
adeptos. Concordavam inteiramente com ele,
apelidando-o de «Mestre» e referindo-se a todas
as suas teses como se de revelações irrefutáveis
se tratasse. Ora na ciência o primeiro dever do
aluno que nessa altura eu aceitava já como
verdade absoluta é criticar os ensinamentos
recebidos. E é precisamente quando o Professor é
um génio e atingiu novas teorias e conhecimentos
que tem o direito e o privilégio de sobrestimar as
conclusões a que chegou. Pertence Pois ao grupo
dos seus amigos, alunos e colaboradores menos
geniais .s observar os seus voos de génio à luz
de urna visão crítica, a fim de o preservar do
destino de Ícaro. A atitude de adoração que todos
os psicanalistas que até então conheci assumiam
em relação ao seu mestre levou-me, não sem
motivo, a negar à psicanálise o carácter de
exactidão. Esta apreciação tão severa pareceu-me
confirmada pela into-
lerância isenta de bases científicas que o psicanalista
demonstra frente a toda a fonte de conhecimentos
que não seja: o diálogo entre o analista e o
doente.

Só anos mais tarde, quando nos trabalhos de


investigação que efectuei a espontaneidade das
reacções instintivas se tornou o problema central
de toda a minha procura e quando, em
colaboração com Erich von Holst, comecei a
participar na luta contra a teoria generalizada que
considerava o reflexo como princípio único
explicável, é que se me tornou compreensível a
grandeza de Sigmund Freud. Numa época em que
ninguém pensava em levantar a mínima dúvida à
exactidão absoluta do Princípio do reflexo de
Sherrington ou do princípio do reflexo
condicionado de Pavlov, Freud reconheceu
inabalavelmente que os impulsos do
comportamento não são reactivos e que não estão
dependentes, como se fossem máquinas paradas
ou reflexos, de estímulos externos que os ponham
em movimento, necessitando até, pelo contrário,
de um dispêndio activo de energia que pelo menos
de vez em quando refreie a sua acção. Só nesse
momento Pressenti em Sigmund Freud um
inestimável auxiliar e aliado na oposição ao
monopólio, já tornado ideologia, da explicação do
comportamento pelos reflexos e reacções
condicionadas.
Foi, porém, Renê Spitz o primeiro analista cujos
métodos e forma de exposição do problema nos
fizeram compreender, e a outros investigadores
do estudo comparado do comportamento, a
afinidade de bases existentes entre a psicanálise
e a etologia. Investigou o sorriso do bebé
servindo-se de hábeis subterfúgios, quantificou
estatisticamente a produção espontânea dos
movimentos de amamentação através de médias
obtidas pelos movi-
mentos no vácuo e em breve descobria os Processos
essenciais de investigação, bem como os métodos
da etologia, baseando-se na observação objectiva
dos factos. Este homem, que, partindo das suas
experiências pessoais, criticou em parte muitas
das teses de Sigmund Freud, se bem que numa
generalidade as considerasse correctas, tem na
minha opinião pessoal muito mais valor do que
todos os discursos pronunciados por esses jovens
crédulos. Comecei pois a ocupar-me da
Psicanálise.

Nos anos 60161 rectifiquei a tal ponto a minha


opinião sobre esta ciência que aceitei um convite
da Clínica de Menninger, em Topeka, para
colaborar como professor. Tomei tal decisão mais
.s para aprender do que Para ensinar. Entre os
analistas da Clínica de Menninger tive
oportunidade de conhecer toda uma série de
indivíduos que contrariavam os meus antigos
preconceitos e que vim a reconhecer como
eminentes investigadores e profundamente
versados na matéria. Desse grupo fazia parte
Friedrich Hacker, que como eu desempenhava a
função de professor. Sendo os únicos vienenses
no, distante Middle West, em breve entabulámos
relações de amizade e com ele aprendi muito
sobre a psicanálise, a sua essência e percentagem
de verdade, bem como sobre os seus pontos
fracos. Friedrich Hacher estava muito longe de
considerar as palavras do mestre como revelação
irrefutável!
O seu aguçado espírito crítico e sentido de humor, a que sempre se associava algo
de um desenvolto desrespeito, de forma alguma se detinham ante as teorias do
mestre. Era porém precisamente por esse processo que de dia Para dia descobria
mais abertamente a existência da verdade. Nunca anteriormente, por exemplo, eu
atingira tal noção do ego, freudiano e da sua função
de intermediário entre os instintos e o superego como quando Hacker o
comparou com aquela figura da vida oficial da Áustria que veio a tornar-se
lendária: o sempre um tanto triste e digno de pena «conselheiro áulico».

Um dos motivos que me levaram a deslocar a Topeka foi o meu desejo de


discutir a equiparação freudiana entre agressividade e instintos suicidas,
contra a qual eu tinha pesadas objecções, visto que há muito compreendera
que a agressividade é em si um impulso característico do comportamento
animal e humano de tanta importância e tão independente como a fome, o
medo e a sensualidade. Em breve me apercebi de que, com a minha teoria
da agressividade, estava a arrombar portas abertas na Clínica de Mennínger.

A força e o carácter construtivo da crítica que Friedrich Hacker dispensa ao


princípio freudiano dos instintos, e muito Particularmente às opiniões de
Freud no que se refere à agressão, são em Parte devidos à feliz circunstância
de ter explorado outras fontes de conhecimento para além do diálogo
psicanalítico. Hacker é psiquiatra, professor de psiquiatria na University of
Southern California, além de psiquiatra jurídico e especialista em
criminologia juvenil. Em Topeka assisti a um seminário dado por ele em que
tratou precisamente o tema da juventude Contestatária, nessa altura os
chamados beamiks, com um misto de simpatia e crítica inteligente. Friedrich
Hacher conhece a natureza humana sob muitos e variados aspectos e
olha-a com urna benevolência compreensiva, que, lado a lado com a sua
perda de ilusões, soube conservar acrescida de um humor um tanto
satírico, comparável ao que caracteriza Nestroy. É um
conhecedor do comportamento humano, como tive ocasião de verificar num
seminário sobre o instinto em que ambos participámos., bem como Harry
Harlow, Karl Menninger, Margaret Mead e outros. Quem está a par das
opiniões destes famosos investigadores Pode fazer uma ideia de quanto as
discussões foram mais do que acaloradas. Eu e Friedrich Hacker
encontrávamo-nos frequentemente lado a lado no combate de opiniões
antagónicas, especialmente quando o objecto da discussão versava o
comportamento agressivo do homem e dos animais.

Também me encontro bastante familiarizado com as opiniões de Friedrich


Hacker quanto à natureza da agressão e tal facto dá-me direito a escrever
este prefácio. É o seguinte o princípio essencial, a que na minha opinião se
deve grande parte do valor da sua obra: o facto de a agressividade, devido a
várias influências ambientais, poder surgir como reacção não constitui
argumento contra a hipótese apoiada em vasta motivação de que ela, como
todos os outros instintos, também possui um impulso espontâneo que lhe é
peculiar. O argumento de que a agressão, e principalmente a humana, de
modo algum pode possuir um impulso do género, porque surge com a
regularidade de uma lei natural devido ao medo, fadiga, frustração, etc., está
precisamente tão errado como se se quisesse levantar a hipótese de que a
sexualidade no homem não pode ter qualquer impulso de ordem específica e
espontânea, na medida em que surge de um estímulo proveniente do sexo
oposto. O facto de pessoas inteligentes possuírem opiniões obstinadas
relativamente à agressão só se pode explicar devido a preconceitos
profundamente enraizados. Tal como aliás muitos dos nossos eminentes
investigadores reagem
como o Palmstrõm de Christian Morgenstern e «concluem à Ponta de espada que o
que não deve ser não Pode ser». A esta ilógica conclusão final segue-se geralmente
o ataque ideológico; na verdade todos os que defendem o comportamento
agressivo como ele é realmente são logo censurados com petulância moralista por
desculparem a agressividade de forma altamente Perigosa e se tornarem
defensores do genocídio! O que afinal não passa de um aviso, sério e insistente
contra os perigos que ameaçam a humanidade e a natureza humana é pura e
simplesmente deturpado sob acusação de satânica apologia do mal.

Também não serão poupadas censuras do género a este livro, uma vez que ele se
propõe expor a agressividade humana na sua verdade, «como ela realmente é», ou
seja, sem parcialidade nem simplificações. Os desvios Patológicos da agressividade
oferecem uma fonte de documentação que a torna aberta a declarações quanto à
função normal de defesa da espécie, que este instinto desenvolve nas complexas
estruturas dos diversos impulsos humanos. O estudo da motivação humana
demonstra muitas analogias com o das glândulas endócrinas e respectivas funções.
Os efeitos contrários de factores «antagónicos» contrabalançam-se de tal forma que
se consegue um equilíbrio vital indispensável. Nenhum dos efeitos é supérfluo e
nenhum pode ter como resultado um rendimento maior ou menor, a fim de que o
equilíbrio não seja ameaçado. Um excesso de secreção da tiroideia provoca a
doença de Basedow e uma ligeira hipossecreção faz surgir a mixodema, doença
frequente em certos vales dos Alpes. Seria demonstrar um desconhecimento total
quanto à natureza das glândulas
de secreção interna se se fizesse a pergunta de a tiroideia ser «boa ou má» e aliás
ninguém poria um Problema deste género. No que se refere à agressão, também
não viria a propósito pôr * assunto dessa forma e, no entanto, as pessoas teimam
em fazer * pergunta e teimam igualmente numa resposta negativa. Impõe-se
portanto que se agradeça profundamente a Friedrich Hacker ter-se Proposto tratar
na sua obra a análise da múltipla e complexa interacção a que chama «polaridade»
existente entre a agressividade e as motivações do comportamento humano que se
lhe opõem e a contrariam. Friedrich Hacker pretende fazer um estudo preciso e
completo do campo de actuação dos impulsos humanos e referir-se muito
particularmente ao papel desempenhado pela agressividade neste sistema. Para se
correr o risco de um tal empreendimento torna-se necessário ter a coragem de
apresentar novas teorias, mas a ciência não avançará se não se efectuarem
iniciativas do género.
KONRAD LORENZ Altembergue-sobre-o-Danúbick

junho, 1971
AFORISMOS SOBRE A VIOLÊNCIA

1. A violência pretende ser a solução de um problema que só

existe porque ela existe.

2. Os problemas que só se sabem solucionar pela violência de-

vem ser expostos de outra forma.

3. A força bruta é a forma de expressão visível, (divre» e sem

cadeias da agressão. Nem toda a agressão é sinónimo de violência, mas toda


a violência representa agressão.

4. A violência é tão contagiosa como a cólera; deve o seu vírus

ao pretexto da justificação que a torna epidémica.

5. Violência é igualmente tudo o que se considera justo como

contraviolência.

6. A violência-delito, que é proibida por lei, torna-se permitida

e justificável como sanção: mudar o nome à violência significa legitimá-la.

7. A justificação provoca e aumenta desmesuradamente o que

pretende negar e dissimular: a própria violência.

8. A violência sob justificação leva à imitação, tanto da justificação como da


violência.

9. A legitimação da violência apoia-se no seguinte subterfúgio:


uma mudança de rótulos; a nossa própria violência é des-
AGRESSIVIDADE

,’c,rita e sentida como necessidade, direito natural, autodefesa e sacrifício ao


serviço das mais altas causas.

A negação e repressão da nossa agressão projectada sobre o inimigo aumenta a


probabilidade do aparecimento da assim chamada e aceite contraviolência.

11. A violência é simples, mas as suas variantes complexas.

12. O oposto da complexidade é uma simplificação. agressi .va e


não a verdadeira simplicidade. O preço da simplificação chama-se violência.

13. Dissimular e monopolizar a agressão sob Pretexto de refrear


a violência é provocar e justificar a violência.

14. A explosão, de violência no seu máximo está Para a acção planeada a frio, da
mesma forma que o sintoma para a estratégia.

15. A estratégia pode determinar e utilizar os sintomas. Mediante


o emprego da violência sintomática, a manipulação dispõe de uma expressão
espontânea.

16. A razão pode ser um método preferível à violência, sob única

condição de não se tornar sua advogada e cúmplice.

17. Ensinar a violência pela não-violência significa perpetuar a

violência, que se quer evitar: adapta-se o método de ensino e esquece-se o seu


objectivo.

18. Faz-se condição natural de violência a necessidade de violência engendrada


pela violência.
19. As excepções à proibição de violência tornam-se as regras da
sua aplicação.

20. A violência meramente aconselhada ou imposta aos outros

é uma dissimulação da nossa própria agressão e Prepara a aplicação da violência,


justificando-a como contraviolência.
AGRESSIVIDADE 19

21. Somente os respectivos detentores da violência, e não os que

não a podem utilizar, têm possibilidade de impedir a brutalidade mediante


restrições e abstenção do emprego da violência.

22. A violência é a mensagem secreta dos meios de informação;


para resolução dos conflitos que surgem, encoraja-se a utilização justificável
imediata e até mesmo preventiva da violência. O herói não é menos violento
do que o bandido, só que mais rápido e mais bem sucedido.

23. Para tornar legítima a violência Preferem-se ignorar as alternativas que


se poderiam empregar em sua substituição. Ser verdadeiramente adulto não
consiste na recomendação de, mas na renúncia a padrões e lemas falsos,
bem como numa larga tolerância em relação à complexidade do ser humano.

24. Não existe uma linguagem de violência; os que só a ela entendem não
passam de autómatos Pensantes e desconhecem sentimentos.

25. Podem-se tirar ensinamentos da violência sem a imitar nem

lhe ceder.
A MINHA OPINIÃO

não sou contra a agressão, mas sim contra a violência. Esta

minha profissão de fé só tem, no entanto, validade com restrições e


especificações, pois que num mundo de violência todo aquele que, por
princípio e sejam quais forem as circunstâncias, renuncia, a priori, à violência
priva-se, bem como às pessoas e às causas que serve, de toda a verdadeira
influência sobre a evolução da realidade e estrutura do mundo. Tenho
absoluta consciência de que esta restrição comporta traços característicos
que serei levado a apontar ao descrever os laços que unem a violência à
legitimação. O facto de a razão poder ser colocada ao serviço da
racionalização, a simplicidade ao da simplificação e os ideais ao da
idealização não implica que se torne necessário negar a existência à razão,
aos ideais e à simplicidade. É mesmo pelo contrário provável que estes
tenham maiores possibilidades de se defender contra as seduções da
racionalização, da simplificação e da idealização, dado estarem a par da sua
existência.

Considero todas as outras formas de agressão preferíveis à violência. Penso


que a oposição, a desconfiança e até mesmo a hostilidade em relação à
violência não só são justificáveis mas realmente justificadas. Não provêm,
pelo menos exclusivamente, da negligência, do hábito e de um preconceito
arbitrário quanto aos valores ou da preferencia de um voluntarismo
exacerbado. Parece-me, porém, ainda mais necessário insistir no facto de
que em certas e determinadas circunstâncias (muito mais raras na realidade
do que actualmente se considera) a própria violência pode ter um valor
positivo e também que este positivismo que só muito invulgarmente se
verifica e poderia muito mais frequen-
@2 AGRESSIVIDADE

temente evitar-se - serve de modelo a um número enorme de manifestações


violentas, simultaneamente supérfluas, evitáveis e manipuladas.

violência é condenável por razões de ordem moral. Ameaça, maltrata e destrói o


nosso pr6x m que apresenta características semelhantes às nossas e possui
portanto em princípio os mesmos direitos. Privamo-nos a nó s mesmos do nosso
direito à solidariedade humana quando ultrajamos esse direito em relação ao nosso
semelhante. A violência transforma-o em objecto e meio, ofende-o, rebaixa-o e
submete-o a todas as formas de desumanidade, acabando finalmente por o
conduzir ao seu aniquilamento irremediável. Redu-lo numa palavra a esse objecto
chamado cadáver.

A utilização da violência é a longo prazo uma estratégia medíocre. Fascina e


paralisa por intermédio, dos seus primeiros sucessos, chamando as atenções pela
brutalidade e condicionando a opinião pública à repetição. Determina
consequentemente a contraviolência, o aumento da violência e a explosão geral da
brutalidade. O êxito dos primeiros actos não implica o de toda
* estratégia. É uma atitude puramente insensata pretender que
* violência cure as feridas que provoca. A verdade reside precisamente no plano
contrário. A violência encontra-se sujeita à repetição e não pode portanto triunfar
sobre si mesma. Só é possível dominá-la tomando consciência das circunstâncias e
condições que a desencadeiam e evitando-as.

Proporcionalmente à totalidade das manifestações agressivas a violência pode


equiparar-se à entropia no mundo físico. A segunda lei da termodinâmica
demonstra que no seu conjunto os processos físicos têm tendência a um máximo de
desorganização (entropia),,ao desaparecimento das diferenças existentes e para
finalizar à «simples» morte térmica do universo. A entropia diminui no íntimo dos
seres vivos que se conservam a um elevado nível de organização. Os diversos
fenómenos agressivos têm analogamente tendência para a violência, quer dizer,
para o estado mais primitivo e menos organizado. Só se conseguirá evitar o
aniquilamento pela violência se se organizar uma resistência consciente a esta
tendência e se se puser em funcionamento uma verdadeira ordem isenta de
qualquer aparência falsa e ilusória.

A violência constitui um retorno à expressão mais primitiva da agressão. Adquire


vida graças aos processos de polarização,
AGRESSIVIDADE 23

idealização e crítica do adversário, bem como a mecanismos e processos


semelhantes de redução e de simplificação. Este o motivo por que exclui
todas as outras alternativas, elimina todas as possibilidades superiores,
interessantes e originais do homem ou apenas as utiliza rigorosamente como
um instrumento de legitimação. A violência repete-se sob constrangimento
de um impulso sempre ligado à destruição. Só conhece uma dimensão; é una
e monótona. É o sistema de uma desorganização ou a estratégia favorita dos
que não sabem fazer outra coisa, dos que não são capazes de sentir nem de
participar nos sentimentos dos outros. É o produto de uma preguiça
espiritual, de uma pobreza de sentimentos e de uma falta de imaginação.

As diversas teorias, na medida em que até aos nossos dias apenas


consideraram o fenómeno da agressão humana sob aspectos isolados,
dedicaram-se sobretudo à descrição dos impulsos de morte e agressividade
ou das frustrações, das formas de agressão derivadas da patologia cerebral
ou da sociedade, da genética ou da manipulação. Segundo estes diversos
padrões, o homem foi definido como um animal feroz, um boneco
condicionado aos instintos, uma marioneta manipulada pela sociedade, um
actor encarregado de desempenhar um papel, um ser incompleto ou
inteligente. Todas estas metáforas possuem o seu quê de verdade. Não há
dúvida de que para classificar o conjunto existem apenas imagens
aproximadas: a do capitão que governa o seu navio com tanto maior
segurança quanto mais consciente está do perigo e da incerteza da viagem;
a do artista que, conhecedor e amante do material com que trabalha, o
modela segundo a lei adequada e igualmente de acordo com o seu desejo.
As metáforas e os padrões fazem surgir o homem como um ser complexo,
variado, dinâmico e multiforme, dotado da faculdade de conhecer e de se
conhecer; um ser activo, criador e investigador. De forma alguma é retratado
como uma simples caricatura de tirano brutal e dominador, autómato e cego
pelos instintos.

O homem não é mais individual do que colectivamente dono e senhor do seu


destino. É condicionado e governado pelas características biológicas da sua
constituição natural, que lhe permitem e inevitavelmente o conduzem à
transformação, melhoria ou ,destruição simultânea do mundo e de si mesmo.

Só quando se conhece a agressão no seu conjunto, em todos os seus


aspectos e manifestações, é que a mesma nunca mais se
4 AGRESSIVIDADE

poderá dissimular. Só quando forem postos de lado todos os falsos rótulos e


toda a negação da sua existência é que a agressão poderá -preterir os
caminhos que conduzem à morte e à destruição, mediante um recurso
exclusivo à violência, e escolher os que são colocados ao serviço da
felicidade e da vida.
O FUTURO DA DESUMANIDADE

era de barbárie e de insegurança inventou a bomba ica e o cocktail Molotov,


aperfeiçoou a técnica do terror e o terror da técnica e descobriu quase
involuntariamente este novo valor: a relevância do homem. Ao mesmo
tempo que a antiga maneira de ser do homem cedeu lugar à nova, o Homo
sapiens, o rei da criação,, transformou-se no Homo brutalis, a fera sem
restrições. Há 150 anos, no Ocidente civilizad<> a percentagem mínima de
assassínio de um homem pelo semelhante cifrava-se numa unidade em cada
minuto do dia ou da noite, quer em guerras, atentados políticos, conflitos ou
crimes. Nos últimos 50 anos, durante os quais a média de esperança de vida
triplicou, o intervalo entre os assassínios diminuiu para um terço, ou seja
para cerca de vinte segundos.

Estas e outras estatísticas do género há muito que perderam a sua acção, de


choque. A dimensão assustadora que a brutalidade atingiu nos nossos
tempos não reside na explosão continuamente crescente da violência
individual e colectiva (principalmente provocada mediante planos pré-
estabelecidos), mas na sua crescente habituação e regularidade. A violência
tornou-se uma bagatela banal aplicada nos acontecimentos diários
costumados e desfruta nos nossos pensamentos e sentimentos do direito
consuetudinário da tradicional inevitabilidade.

já estamos tão embotados que se tornam necessários actos de brutalidade


extraordinariamente dramáticos para nos sobressaltarem e nos arrancarem à
pretensa impotência e surda indiferença. A regularidade de aplicação da
força é o resultado simplificado dos processos de habituação. A ocorrência
diária da
26 AGRESSIVIDADE

violência deve-se a complicados processos de banalização. A naturalidade da


força é o produto de mecanismos artificiais. O facto, porém, passa-nos
despercebido e não o podemos tomar em consideração porque, se
quiséssemos e pudéssemos observar estes complicados processos ao serviço
da naturalidade e simplificação, ver-nos-íamos obrigados a sentirmo-nos
impotentes e responsáveis.

A criminalidade de índice sempre crescente, a tortura, o rapto de reféns e a


extorsão impiedosa, a liquidação em massa

e o genocídio foram aceites como fazendo parte da ordem do dia (porque a


ordem tem de existir), exactamente com se se tratasse de catástrofe da
natureza tal como as inundações ou terramotos. Dentro da mesma linha de
conhecimento e simultaneamente de desconhecimento dos acontecimentos
apocalípticos destruidores do mundo que não acontecem por si mas são
provocados manifesta-se também o erro crasso da velha recusa e no entanto
ainda aceite nos nossos tempos de considerar a agressividade como factor
consciente,

A existência de todas as formas explosivas de desenvolvimento e que até


ainda há pouco eram consideradas impossíveis (tais como a evolução das
comunicações, explosões demográficas e também as explosões atómicas)
tende ainda a reforçar a analogia entre os acontecimentos sociais e as
erupções vulcânicas. Nada podemos contra eles; são acontecimentos em
relação aos quais não temos o mínimo de responsabilidade ou de culpa. E
por explosões de violência, também não? Por essas de modo algum! É o que
tradicionalmente responde a nossa consciência tranquila. Apenas nos
defendemos; estamos e estaremos sempre numa posição defensiva.
Defendemos o nosso espaço vital, o nosso território, as nossas leis e a nossa
estrutura económica, a nossa verdade e a nossa cultura, a nossa concepção
do mundo, os nossos ideais e acima de tudo o nosso desejo de paz, Quem ou
o que nos ataca, tornando assim necessária a proclamação de defesa, que
nos é económica e psicologicamente tão cara? Será o crescente
desenvolvimento técnico que se tornou autónomo, a burocracia, que pela sua
abstracção se tornou abstracta, o superpovoamento ou o aumento
populacional? Será o facto de tudo ter assumido proporções excessivas
quanto a tamanho e anonimato ou por haver homens em demasia?

Todos estes factores constituem respostas ao moderno problema do aprendiz


de feiticeiro. Os espíritos que tínhamos invocado subtraíram-se ao nosso
controle, tal como na balada de
AGRESSIVIDADE 27

Goethe, os objectos que nos deviam servir adquiriram vida e não querem
voltar à condição que lhes fora atribuída.

Para suscitar a mobilização entusiasta de instintos de defesa é, no entanto,


necessário algo mais do que uma enumeração de ameaças abstractas; o mal
deve ser simplificado, dramatizado e personificado. Deve aparecer com
vivência real, na sua feição de ódio ao próximo, a fim de que desperte e
mantenha o desejo de defesa do bem.

A agressão, injustificada e autêntica, a única «verdadeira», é sempre


considerada como invenção diabólica dos outros. O que lhes dá a categoria
de outros é precisamente o facto de serem capazes desta agressão
destrutiva, destruidora e assassina. Eles são os culpados de tudo, são eles os
responsáveis por todo o mal do mundo, são eles os maus e os dotados de
sentimentos baixos e eles também os que começaram a dominar pela
violência, ou poderiam ter dominado se nós não tivéssemos cuidadosamente
estabelecido de antemão mecanismos preventivos de defesa. Os outros, ou
seja os que a violência caracteriza, defendem por seu lado o seu espaço
vital, o seu território, as suas leis e estrutura económica, o seu direito, a sua
verdade, a sua cultura, a sua concepção do mundo e o seu desejo, de paz.
Para eles somos nós os outros; acusam-nos a nós de violência.

Os campos opostos participam no mesmo, desacordo, como por exemplo os


Americanos e os Norte-Vietnamitas, os Árabes e os Israelitas, os estudantes e
a polícia, os governos e os terroristas. Em cada um deles existe em relação
ao outro, uma mesma e primitiva convicção, da sua própria inocência e
desejo de paz. E a mesma boa fé que os impele à reciprocidade das maiores violências.
Uma vez que o adversário perturba a paz e é o agente e representante da agressão
destrutiva, deve ser exterminado e eliminado. Fazem-no, para que a paz reine sobre o mundo
em nome do bem!

Pode-se demonstrar objectivamente o constante paradoxo desta simetria, que se traduz nos
campos antagónicos pela experiência vivida da consciência absoluta de valores e legitimação
existente em cada um deles.

Um e outro procuram assim legitimar a sua própria agressão mediante complicados sistemas
de justificação que tanto mais se assemelham quanto mais possibilitam e perpetuam a
violência que explicam. Assim foi sempre e talvez sempre assim seja, enquanto ignorarmos
as possibilidades ainda não exploradas do
28 AGRESSIVIDADE

futuro e as submetermos às motivações estereotipadas do passado, para nós


tanto mais dignas de confiança quanto mais poeirentas e deformadas são.

O homem moderno, que procura a liberdade, a independência e o amor,


descobre, com profunda surpresa e desespero, a escravatura, a tirania, a
agressão e finalmente, por detrás de todas as realidades, descobre-se a ele
mesmo.

A nova relevância do homem, que desta forma ascende de criatura a criador,


de necessitado de justificação a justificador, de vítima a carrasco, do que
sofre o mal ao que o comete, reside na descoberta de si mesmo, no
desenvolvimento do ego como estrutura e transformação da realidade.

Não está ainda devidamente esclarecido se o súbito e continua do aumento


de poder e de responsabilidade do homem é para ele uma benção ou uma
praga. Só uma coisa é certa: a violência e a falta de segurança são gerais,
determinam e estruturam a nossa consciência como símbolo, sintoma, como
causa e efeito visível de uma inevitável transformação do mundo.

O que determina em certas circunstâncias a passagem de homens honestos


a carniceiros impiedosos do próximo? Como e por que meio é possível que
até mesmo crimes terríveis sejam, de um momento para o outro,
considerados não como agressivos mas como unia necessidade de legítima
defesa? Como permitimos acções. por parte do Estado que de modo algum
tornaremos como agressivas se a ele pertencermos, mas que assumidas por
um indivíduo o levariam à prisão sob acusação de violência?

Através de uma provisória visão global da agressão, que só mais tarde vai
ser diferenciada pela exposição dos seus diversos aspectos e disfarces, pode-
se desenvolver uma breve teoria conjunta deste fenómeno e que, até nova
informação, nenhuma investigação comprovada anulou. Ela encontra-se
além do mais de acordo com as concepções desenvolvidas a partir da teoria
dos instintos e com as que se baseiam nas teorias da frustração.

A partir da agressão individual, biológica ou organizada e legitimada


socialmente estende-se um longo caminho cheio de etapas. Graças ao seu
monopólio de responsabí1 idades e de justiça a organização social contribui
para um tal fortalecimento da agressão biológica e uma tão grande aquisição
de poder da agressão socialmente organizada, à qual concede liberdade
dentro de
AGRESSIVIDADE 29

determinadas vias, que os resultados agressivos de barbarismo e


violência colectivos vão muito para além do que o indivíduo mais
descontrolado poderia efectuar ao pretender destruir.

A comprovar a nossa tese segue-se uma exposição de diversas


manifestações de violência ocorridas na actualidade e situadas entre
as mais conhecidas e espectaculares. A fim de conseguirmos uma
plausibilidade e simplicidade simultâneas, utilizamos na citada
descrição esta mesma técnica de simplificação, dramatização e
polarização por nós acusada como incitação à violência. Pretendemos,
porém, acima de tudo ser plausíveis, a fim de despertarmos a dúvida
e a desconfiança contra a «plausibilidade». Procuramos a simplicidade
para conferir maior intensidade às palavras que proferimos
relativamente à simplificação. Esperamos que, uma vez despertado o
interesse, não o vejamos recuar ante o esforço de uma análise
aprofundada das relações mais complexas.

A crónica dos últimos meses relata a guerra entre protestantes e católicos da


Irlanda, a tortura de presos políticos no Brasil, rapto de diplomatas, captura
de reféns, terror e contraterror, a crueldade dos panteras-negras e a
brutalidade contra os panteras-negras; refere-se também ao rapto e
assassínio do americano Mitrione pelos tupamaros do Uruguai, bem como ao
do antigo presidente Aramburu da Argentina, ao assassínio do conde Von
Sprati, embaixador da Alemanha na Guatemala, e às assassinas Manson, que
falaram sobre os crimes cometidos sem o mínimo remorso e até, pelo
contrário, com satisfação, como se tivessem participado em qualquer
agradável récita de amadores. A crónica foca igualmente a prolongada
Guerra do Vietname, o enérgico tenente Calley, herói do povo e autor de
uma carnificina, sem esquecer uma referência à crescente criminalidade
universal, especialmente nas camadas da juventude. Crianças cometeram
crimes de assombroso terror. Os polícias organizam grupos de autoridades
que julgam os suspeitos sem necessidade de processo. No Quebeque,
membros do partido separatista francês estrangulam o ministro de gabinete
Laporte com uma corrente de ouro, donde pende um medalhão com um
símbolo religioso, Os padres católicos Barrigan são acusados de urdir uma
conspiração tendo como fim incendiar a Casa Branca e assassinar o
conselheiro do presidente para acabar com a guerra no Vietname.
30 AGRESSIV1DADE

Correm boatos de que se encontra iminente o assassínio do chanceler alemão Willy


Brandt. Explodem bombas todos os dias e ultimamente também na Casa Branca,
em Washington. Em São Rafael, no estado da Califórnia, tenta-se libertar presos
pela força: são mortos quatro homens, incluindo, um juiz. O grupo Meínhoff libertou
o jornalista Baader seguindo os processos dos westerns. Em Burgos, em Moscovo
proferiram-se sentenças de morte.

Profetiza-se um futuro importante à desumanidade, mas os resultados presentes


são já de monta. As pessoas habituam-se a tudo. A própria rotina da violência
tornou-se um hábito bem aceite; as pessoas sentiriam a falta de qualquer coisa, se
os jornais e a TV não referissem diariamente novos e terríveis actos de violência. A
brutalidade do mundo passa insensatamente despercebida, contanto que não nos
afecte pessoalmente. Somente o outro, o adversário directo, nos assusta pela sua
falta de escrúpulos e selvajaria sem barreiras. Nunca a humanidade deu provas de
um tal engenho na formação e aperfeiçoamento de símbolos do inimigo e na
produção e fortalecimento da própria consciência do bem. A maior das sensações
seria um detentor do poder ou um terrorista que não estivesse seguro de lutar por
uma causa justa; não estaria predestinado a um papel de detentor do poder nem
saberia exercer o terror. Todos se encontram, na generalidade, dentro de um
procedimento justificado, quer actuem em palácios, façam parte da Resistência,
ocupem domínios senhoriais ou aquartelamentos miseráveis em todos os
continentes, inclusive o Terceiro Mundo. A realidade vem ao encontro do leader nas
suas múltiplas formas, colocando-o num dilema e obrigando-o a escolher isto ou
aquilo, mas em todas as situações ele acaba impreterivelmente por optar pela
solução mais violenta: a cólera legítima, o desespero legítimo, a necessidade
legítima de afirmação pessoal para a defesa legítima do supremo bem.

A melhor definição do homem moderno é a de um ser complexo autónomo e


perspicaz, mas que procura a simplificação e as certezas morais, que começa
primeiramente por encarar os factos com violência e estende em seguida essa
mesma atitude à percepção dos mesmos e ao que, pelos mesmos motivos,
aplica a violência contra si.
AGRESSIVIDADE 31

Mais importante do que a descoberta da bomba atómica é a do cocktail Molotov, o


acto universalmente acessível de violência explosiva, cujo fabrico, pode ser
aprendido nos livros sobre preparação de bombas, a preço reduzido. Ainda mais
explosiva do que as explosões demográficas ou da ciência é a explosão da
legitimidade. A justificação contínua de tudo e de todos é tão ilimitada como a
violência que preconiza e permite.

Os países democráticos protestam contra a extrema severidade da pena de morte


pronunciada em Espanha contra os separatistas bascos e contra uma justiça fascista
que não permitiu uma verdadeira defesa aos acusados. Em muitas províncias
espanholas verificaram-se manifestações espontâneas em massa. Em Madrid,
Franco é acolhido com júbilo pelo povo e entusiasticamente impelido a medidas
mais rigorosas. As mesmas e outras democracias protestam contra a pena de morte
na Rússia por tentativa de desvio de aviões e contra a justiça comunista, que não
permitiu qualquer defesa aos acusados, na maioria judeus. Mediante aprovação das
massas russas, que exigem «maior severidade contra os assassinos», os Russos
ignoram todos estes protestos e, tal como os Espanhóis, recusam todo e qualquer
género de intervenção (se bem que, como os Espanhóis, transformem a pena de
morte na pena relativamente mais suave de prisão perpétua). Uns efectuaram
contra os bandidos bascos assassinos o que os outros tinham efectuado contra os
bandidos assassinos judeus e o que se pensa fazer contra os bandidos assassinos
inimigos do Estado nos E. U. A., Canadá, Brasil ou onde quer que seja.

O método só descoberto nos últimos anos e universalmente adoptado quanto ao


desvio @de aviões e retenção de reféns é uma prova drástica de que o mundo
moderno se tornou mais vulnerável e fácil de destruir do que antigamente. As
fronteiras e bens nacionais já não constituem um impedimento mas antes uma
atracção. Os modernos piratas do ar e, a fortiori, os autores dos raptos dos
diplomatas transformam-se em intermediários de negociações de Estados
soberanos e copiam-lhes os métodos e justificações de soberania. Só recentemente
é que o uso do terror foi descoberto, não só como propagação de medo e despertar
de atenções pela sua acção destruidora, mas como possibilidade de negociações e
tráfico de homens. A apropriação do monopólio de justificação geralmente ligado
aos direitos de soberania era para os guerrilheiros a única maneira possível de obter
a libertação dos
32 AGRESSIVIDADE

camaradas. A usurpação da força, que não conhece poderes ou limites que


não sejam os seus, permitiu o que nenhum outro apelo à humanidade ou à
justiça conseguira. Também os tupamaros, os guerrilheiros e revolucionários
de todas as raças e nacionalidades. respondem à condenação moral feita
pelos adversários com invectivas contra os críticos e intrometidos e tomam
medidas severas em relação aos que se opõem. Pela imitação a par e passo
da técnica da violência, tomam-se soberanos nos seus próprios domínios. A
usurpação da soberania dá-lhes um sentido crescente de identidade e valor
próprio que por seu lado justifica tudo o que fazem e principalmente o
emprego da violência no seu próprio campo. Os processos de legitimidade
necessitam de justificação; uma vez que todos os povos e Estados e hoje
também até mesmo os pequenos grupos e indivíduos podem Procurar e
encontrar a legitimação que simultaneamente autoriza e absolve a violência,
os métodos de elaboração e aplicação dos nossos juízos devem ser
submetidos a um julgamento crítico.

Em Espanha, como na Rússia, Grécia, Checoslováquia, no Brasil, como nos E.


U. A., os tribunais organizados por lei são detentores da justiça e utilizam a
mesma violência que tinham por missão controlar e limitar. A pretensão de
exercer uma soberania absoluta e ilimitada na própria casa, na família, em
cada grupo e em cada Estado é a tirania do monopólio da violência que não
tolera no seu âmbito outras influências e restrições senão as que ela própria
impõe e força. Cada um é dono e senhor de si mesmo; todos os loucos e
criminosos, cada grupo e cada seita fabricam, tal como os Estados, o seu
próprio esquema justificativo. Os tribunais encontram-se sobrecarregados,
dado o estado de urgência continuamente renovado. Têm por dever
descobrir a justificação do motivo já apresentado pelo Estado. «Antes de o
enforcarmos, ele deve ter um processo justo», disse uma vez um juiz nos
bons velhos tempos do Oeste não civilizado. Hoje em dia existe na verdade a
justiça, mas a espanhola apenas na Rússia

e na Europa Central, a russa em Espanha e na Europa Central e a americana


em todo o mundo menos na América.

Também na Alemanha, em França e na América impera o descontentamento


em relação aos próprios tribunais, mas apenas porque não são
suficientemente severos. Em França 800 juizes protestaram (,pela primeira
vez desde 1785) contra a acusação de excesso de complacência e até
mesmo de cobardia que lhes foi feita por importantes dirigentes gauleses,
que esperavam a justo
AGRESSIVIDADE 33

título uma vitória eleitoral. Nos Estados Unidos, do mesmo modo se imputa
frequentes vezes a responsabilidade do aumento de agitação e do crime à
complacência dos juizes do Supremo Tribunal e à excessiva aceitação da
pressuposta inocência do culpado. Sem que verdadeiramente se dê conta do
que acontece por toda a parte, se reclama mais intolerância e mais
severidade. Como oposição à violência segue-se um contra-ataque e um
sobreataque até não se poder avançar nem descer mais.

A utilização da violência é geralmente o distintivo dês tempos em que


vivemos e que, juntamente com as receitas de preparação de poder
explosivo, coloca a justificação da mesma ao alcance de todos. A violência
sem fronteiras e a sua justificação, como ela ilimitada, encorajam uma nova
técnica de intimidação que se apoia na agressão como fim e estratégia. O
terror moderno descobriu que a sua eficácia aumentaria se se servisse de
indivíduos a um tempo inocentes e não implicados na teia que urde. A
decisão por parte dos poderes máximos elimina todos os graus e
diferenciações que se ligam aos problemas difíceis, através da consciência
da sua própria justificação. A crueldade ilimitada provoca em contrapartida
uma justificação ilimitada, que por seu lado tem como consequência um
novo alargamento cio monopólio da violência. Não é o apelo dos que
possuem a força que será capaz de incitar os outros à renúncia da sua
utilização. A reciprocidade de brutalidade e de violência só poderá talvez
cessar nos outros e em nós mesmos mediante a consciência e o
reconhecimento do oculto desdobrar de um ciclo de agressão e da existência
de uma perigosa tendência ao emprego da violência.
ALGUNS CASOS

1WSHIMA: Suicídio ritual M


Muitos são os que vêem no ressurgir de virtudes tradicionais, tais como o
cumprimento do dever, a têmpera, a dis`ciplina e o patriotismo, forças de
renovação da actualidade. «Não sejam loucosb) Com estas palavras o comandante
da guarnição de Tóquio, manietado na cadeira, tentava demover os cinco intrusos,
vestidos à maneira tradicional, de praticarem um acto tão bárbaro. Estes fanáticos
eram, porém, movidos por uma força que se impunha a toda a razão e até mesmo
ao próprio instinto de conservação, uma sagrada legitimidade vinda de tempos
imemoriais e que não conhece considerações nem mesmo pessoais. O ritual do
harakiri foi consumado com movimentos precisos. Em obediência absoluta às
regras, Yukio Mishima, o conhecido poeta, actor, desportista e comandante de um
exército privado ultranacional, trespassou o seu próprio corpo com um punhal.
Morita, seu confidente e executor, decepou-lhe a cabeça, antes que uma dor
insuportável pudesse provocar uma humilhante perda de moral. O executor
ajoelhou-se seguidamente praticou o harakiri e foi por sua vez decapitado pelo
amigo que se encontrava atrás dele. Os três homens que restavam saudaram os
amigos mortos com lágrimas nos olhos e entregaram-se sem resistência ao militar.
(Acto de loucosb), foi o comentário feito pelo presidente do Conselho japonês ao
bárbaro ritual. «Palhaçada sangrenta dos samuraíse prova de um regresso ao
militarismo», chamaram-lhe os comunistas. Há já muitos anos que Yukio Mishima, o
genial poeta e candidato ao Prêmio Nobel, lutava por palavras e por escrito contra o
materialismo, a decadência de costumes, a pro-
36 AGRESSIVIDADE
*/*
cura desenfreada do prazer, a corrupção, a industrialização e a poluição do
ambiente. As suas armas eram as do actor, panfletista, orador e fundador de um
exército privado, constituído por cem jovens entusiastas e decididos a tudo.
Mishima esperou por um dia luminoso do Outono de 1970. O céu, de um azul forte,
@pres@:ntava uma limpidez extraordinária (um verdadeiro «tempo imperial»).
Mishima fez-se anunciar ao comandante das tropas.
O célebre poeta foi recebido com quatro dos seus seguidores.
O comandante recusou-lhe, no entanto, o pedido insistente que lhe dirigiu de poder
falar às tropas. Tal recusa levou os intrusos a manietar o general e a dominaros
guardas que acorreram em auxílio deste último. Mishima apareceu à varanda e
dirigiu um entusiástico discurso às tropas. Inícitou-as a rejeitar o degradante estado
de paz e a tomar consciência da velha tradição de guerra do exército, em lugar de
se deixarem reduzir à categoria de simples polícias sob o rótulo insultuoso de força
de defesa nacional.
O discurso não resultou. Os poucos que o ouviram tomaram-no por idiota ou bobo.
Ríram-se do homem que gesticulava e gritava, tendo a rodear-lhe a cabeça as fitas
distintivas dos samurais adornadas de crisântemos e agitadas pelo vento. Mishima
em breve se apercebeu da ineficácia do seu apelo; regressou ao gabinete do
comandante, anunciou que selaria o seu protesto com a morte e, gritando (Niva o
imperador!», enterrou a ponta do punhal no lado esquerdo do ventre.

Sacrificou arrebatadamente a vida pelo imperador, como tantas vezes dramatizara


em inúmeras peças e celebrara em poesia lírica. Os seus compatriotas, os milhões
de activos e zelosos japoneses, que se sentiam felizes com a conjuntura económica
e o seu moderno país, consideraram o acto como romantismo incompreensí vel na
era presente, como o gesto inútil e histriónico de um literato e mímico senil que
misturara a realidade com a literatura.

Este jovem talentoso, proveniente de uma distinta e abastada família, publicou o


seu primeiro livro aos dezanove anos; o tema da ânsia da morte transparece nas
suas novelas, poesias e peças teatrais. Era um homem erótico e romanticamente
fascinado pela morte epela violência. Desde muito cedo que submetia o corpo
franzino a uma disciplina de ferro a fim de viver e morrer na beleza C dignidade.
Obrigava-se diariamente durante horas seguidas a exercícios físicos para poder
enfrentar sem receio e Com firmeza tudo o que surgisse. Este homem rico e famoso
des-
AGRESSIVIDADE 37

frutava com a mulher e os filhos de uma vida economicamente desafogada


e, no entanto, nas suas obras literárias e no treino do corpo nunca deixou de
ser asceta, rigoroso e enérgico. Era severo para consigo mesmo, a fim de
poder exigir o mesmo dos outros. Desdenhava a fraqueza do seu país,@ que,
na sua opinião, atraiçoara vergonhosamente o ideal de gloria militar pela
certeza da abastança da sociedade de consumo. A renúncia à guerra como
direito soberano da nação parecia-lhe insuportável; somente a reposição dos
antigos valores e das virtudes tradicionais de cavalheirismo -da étite dos
samurais, ou seja a abnegação absoluta, a alegria no sacrifício, o
incondicional cumprimento do dever e a obediência absoluta, podiam libertar
o país da sua ignomínia. Para o caso de o seu «último apelo» se perder sem
ser -ouvido, preparara o cenário de uma morte heróica, efectuada de acordo
com o antiquíssiffio ritual. Ele próprio dirigiu o acto e foi actor principal.
Seguindo os moldes do harakiri cumpriu a missão intrínseca à sua
personalidade.

O ímpeto pr@veniente da desilusão e da cólera é acalmado pelo ritual da


cerimónia; os homens do grupo de Mishima expressaram com precisão de
máquinas a sua violência fogosa e cheia de ódio desesperado ante a
indiferença cobarde do povo. Tinham em vão tentado tudo antes para
arrancar o povo ao estado vergonhoso de passividade em que este se
encontrava, pretendendo arrastá-lo ao rigorismo e ao alegre cumprimento do
dever. Os panfletos e as ameaças provaram-se inúteis. O exemplo heróico
posto em prática pelo seu espí rito de sacrifício tinha como finalidade a
demonstração de que há valores mais elevados do que o prazer egoísta. Uma
vez que não podiam mover nem arrastar as massas, quiseram pelo menos
envergonhar e acusar. Ao provocarem as consequências da sua própria
derrota e insucesso muda-

ram a passividade que lhes fora imposta na actividade da morte que


escolheram. Protestaram em nome da liberdade contra a submissão. O
avanço ameaçador do eterno pacifismo, o desaparecimento de uma
autoridade incondicional e de uma hierarquia precisa era para eles a crise
que procuravam remediar mediante o restabelecimento da necessidade da
existência da disciplina. Estavam sedentos de compromissos; tinham de
encontrar esses conipromissos através da. agressão. Eles mesmos os
estabeleceriam se preciso fosse com a ajuda da violência. Só pela obrigação
imposta e exigente se sentiam verdadeiramente livres. Os soldados tinham
troçado de Mishima e recusavam-se a seguir as suas
38 AGRESSIVIDADE

ordens, preferindo a passividade. Mishima não podia suportar tal atitude e,


portanto, em obediência às regras de um ritual que há muito perdera todo o
sentido, encontrou na morte o que a vida lhe recusara.

Os monges budistas queimaram-se como protesto contra a guerra; o checo


Jan Palach - tomando o exemplo do herói nacional, Jan Ilus, morto da mesma
forma pela sua crença -fez o mesmo como protesto contra a ocupaçã o
soviética; houve igualmente jovens franceses que se imolarampelo fogo
como protesto contra o vazio da vida... e encontraram seguidores. A
violência é contagiosa. A sua acção epidémica, verifica-se da mesma forma,
quer tenha a finalidade externa do crime ou seja dirigida ao próprio, sob
forma de suicídio. Seguiram-se imitadores do exemplo, que se tornou escola
de moda. Se o acto cometido demonstra a existência de uma convicção deve
arrastar a actos semelhantes como garantia de autenticidade e cada acto
constituirá um enaltecimento -dessa -convicção que legitima de forma
sensata ou insensata, real ou ilusória. Soldados e polícias, guerrilheiros e
-defensores da ordem, todos têm a mesma crença ilimitada e a certeza pura
e inocente de que estão preparados para despertar sentimentos
semelhantes. A rivalidade política ou também apenas a necessidade
universal de paz considera casos psicológicos e de criminalidade os que
cometem casos semelhantes e apelida-os de loucos e criminosos, contra cuja
utilização da violência se devem empregar todas as forças. Os verdadeiros
dementes e criminosos agem, por outro lado, sob a etiqueta de seguidores
de um idealismo. Dão finalidades políticas e ideológicas aos seus crimes,
atribuindo-lhes rótulos de símbolos de protesto e actos
* favor da disciplina, ou contra a pressão e ainda pró ou contra
* tirania.
HEYDip.icH: «A lealdade é a minha honra!»

Reinhard Heydrich, comandante das forças SS, chefe da Polícia de Segurança e da SD, chefe
dos Serviços Secretos alemães e vice-protector dos Boémios e Moravos, foi ferido
gravementenum atentado de que foi vítima em 27 de Maio de 1942,
AGRESSIVIDADE 39

vindo a sucumbir aos ferimentos oito dias mais tarde. A Gestapo. respondeu ao
atentado com uma reacção de superextermínio. Sem esperar pela captura dos
culpados (a intensa busca imediatamente efectuada foi praticamente infrutífera,
embora o preço oferecido como recompensa tivesse ascendido gradualmente a
meio milhão de marcos alemães), as autoridades escolheram arbitrariamente a
povoação de Lidice para servir de exemplo. Lidice não tinha a mínima relação com o
atentado; foi, porém, arrasada. Cento e noventa e nove homens foram mortos a tiro
nos seus postos, as mulheres envia-das para campos de concentração e as crianças
levadas para vários asilos. As autoridades alemãs esforçara,m-se por ocultar o facto
de se terem servido da aldeia como bode expiatório, mediante alegação não
provada de atitudes subversivas demonstradas pela mesma.

O Governo checo no exílio em Londres decidira assassinar Hey,drich, que era


pessoalmente responsável pelos mais significativos actos nazis -desde l933,. uma
vez que, após uma breve fase de terror manifesto, conseguira através de perigosas
manobras psicológicas insinuar-se na confiança, do povo que brutalmente oprimia.
Lisonjeou a consciência nacional checa servindo-se da glorificação do santo
padroeiro boémio, São Venceslau, que teria ordenado aos ;Checos a dependência
sob um país alemão.

Dois jovens exilados ch,ecos, Jan, Kubis e Jose Gabcik, que tinham sido
esp@e@ialmente treinados na Escócia para execução de missões especiais, foram
lançados de pára-quedas nas proximidades de Praga, onde entraram em contacto
com a resistência checa, depois -do que planearam o golpe em to-dos os
pormenores, tendo-o seguidamente executado.

A resistência de Praga previra a carnificina de represália que se seguiria e por isso


informara o Governo checo no exílio em Londres relativamente aos inconvenientes
do atentado. Este tinha igualmente a certeza de que a vingança dos Alemães
significaria a morte ou a prisão para centenas de milhares de homens do seu povo.
Foi apesar de tudo dada ordem de execução.

Curda, um checo exilado que foi enviado para Praga juntamente com Kubis e
Gabcik, mas que mais tarde se escondeu na casa da mãe, numa aldeia do Sul da
Boémia, assistiu horrorizado à liquidação de Lidice. Quando a Gestapo anunciou
mais medidas de represália em massa, no caso de os autores do atentado não
serem descobertos, dirigiu-se a Praga e contou à Polícia Secreta o que sabia sobre o
atentado. Curda não sabia, porém,
o AGRESSIVIDADE

revelar à Gestapo o lugar onde se encontravam os dois bombis @tas’ mas levou-os
até junto de um outro combatente da Resistênlcía, de nome Morawetz, que
recolhera os -dois checos descidos em pára-quedas após a sua chegada a Praga.
Morawetz e o filho foram -Presos; a Sr., Morawetz turtou-se à prisão no último
instante, suicidando-se. Mesmo sob tortura, pai e filho mantiveram um silêncio
obstinado. Quando o pai sucumbiu, no entanto, às torturas infligidas pelos carrascos
em frente do filho, este deixou finalmente escapar o esconderijo dos autores do
atentado, na igreja ortodoxa de Cyril e Methoius, que ficava situada no bairro antigo
de Praga.

Na manhã seguinte as forças da SS tomaram de assalto a construção barroca, que


foi defendida até.ao impossí vel por sete elementos da Resistência escondidos na
cripta e no púlpito. Pouparam as últimas balas para eles mesmos. Curda identificou
os sete -checos mortos, que conhecia do treino recebido em conjunto e efectuado
na Escócia. As perdas sofridas pela SS neste recontro, e que nunca chegaram a ser
verdadeiramente conhecidas, foram tão elevadas que a Gestapo, nas suas actas,
teve de aumentar o número de sete para cento e vinte.

As represálias continuaram. Pelo Conselho de Guerra de Praga foram condenados à


morte e executadas 936 pessoas e
395 pelo Conselho de Guerra de Brünn. O cabo Curda, que denunciara,os
camaradas à Gestapo, foi logrado quanto à recompensa e recebeu apenas um
quarto da quantia prometida, ficando ao serviço da Gestapo. Quando a guerra
terminou Curda, apesar de ter mudado de nome, foi descoberto, preso, julgado,
condenado à morte e executado. De todas as mulheres e crianças de Lidice que
tinham sido enviadas para campos de concentração, apenas uma pequena
percentagem sobreviveu ao fim da guerra.

Em Agosto de 1958, o Quarto Senado do tribunal da polícia do pais decidiu sem


agravo nem a,1?elo que Heydrich encontrara a morte no desenrolar dos
acontecimentos da guerra e que portanto caíra como soldado, pelo que de acordo
com as leis federais de assistência às viúvas de antigos combatentes deveria ser
concedida uma pensão vitalícia à viúva. já em 1953 fora adJudicada esta pensão à
viúva; nas disposições ocorridas posteriormente imperou, porém, o severo parecer
de que Heydrich fora, vítima de um atentado político e que por isso a viúva não
tinha direito a qualquer pensão. O tribunal social eslávico voltou a tornar justificável
esse direito. A Sr.” Heydrich passou a receber a pen-
AGRESSIVIDADE 41

são. Abriu um hotel para estrangeiros, situa-do numa ilha do mar Báltico, e adquiriu
extensas propriedades; o seu hotel servia principalmente de ponto de encontro às
mulheres de antigos comandantes do Serviço Secreto.

O Governo checoslovaco prestou as devidas honras à cidade de Lidice; foi colocada


uma cruz feita de troncos de árvore por desbastar, tendo no cimo uma coroa de
espinhos de arame farpado, sobre a vala comum que servia de s@pultura aos
homens de Lidice. Ergueram-se quiosques com a inscrição internacionalmente
aceite de souvenirs e negociou-se amplamente com a tragédia nacional;
transaccionaram-se devotadamente postais, decalc(>manias, abre-cartas e -todo o
gênero de bugigangas. No grande livro de honra, que inúmeros visitantes e
delegações de todos os países assinaram, relia-se esta frase continuamente:
«Jamais o mesmo!»

Tantoo assassínio -de Heydrich como o extermínio de Lidice, os dois provenientes


de cuidada premeditação, foram actos de agressão brutal e frio cálculo de
mobilização da violência. Os chefes -e responsáveis pelas ordens estavam sentados
em Londres e Berlim e separados dos executantes e da sua longa cadeia de agentes
de ligação e intermediários hierárquicos. O Governo checo de Londres pronunciou a
sentença de morte de Heydrich e, à distância, mandou-a executar por delegados
que enviou ao local. Hitler glorificou «o homem de coração de ferro», concedeu-lhe
a mais alta condecoração a título póstumo (o correio alemão dedicou-lhe um dos
seus selos de maior valor), apelou para o povo alemão no sentido de que não se
poupasse a esforços em sua memória e ordenou o extermínio em massa dos
homens, a expulsão das mulheres e a destruiçã o das casas de Lidice.

Heydrich fora sempre o mestre incontestado da agressão brutal de que acabara por
ser vítima. A sua figura tinha o efeito. «de uma chicotada»; era como o fio de aço.
Com a sua mania fria e racional de criticar qualificava os complexos de fidelidade
condicionados a sentimentos como sinais de fraqueza; foi ele também que, segundo
se diz, após o assassínio de Roelira e de outros chefes da Polícia Secreta,
pronunciou as palavras: « A lealdade é a minha honral» Ele próprio era a
desconfiança em pessoa, w inventor da superdesconfiança», como Hitler lhe
chamava. Sabia tudo sobre todos e fora ao ponto de organizar dossiers sobre
Hininiler e Hitler, bem como um registo volumoso de dados referentes a si mesmo.
42 AGRESSIVIDADE

Oficial da Armada, Heydrich, depois de julgado pelo Tribunal de Honra, foi


obrigado a deixar a Armada por motivos que nunca chegaram a ser
totalmente esclarecidos. Ainda muito mais graves eram, porém, as provas
existentes no seu próprio dossier e que ele podia dissimular mas nunca
apagar, ou seja a mancha da sua descendência, em parte judia. Ele conhecia
a tensão constante, o medo paranóico de que descobrissem a verdade e o
ódio insaciável que a si mesmo votava e que sabia existir por detrás da
fachada de uma sede nunca satisfeita de prestígio e conquista de poder
incomensurável. Foi a cabeça da conspiração contra os generais Blomberg e
Fritsch, preparou a Noite de Cristal, movimentou os fios da aliança com a
Áustria e anexação da Checoslováquia. Planeou e dirigiu o assalto ao emissor
de Gleiwitz, que iria ser o pretexto para o estalar da Segunda Guerra
Mundial, e durante a guerra levou a cabo a tentativa de desvalorizar a
moeda inglesa com a ajuda, de notas de banco falsificadas (segundo E.
Nolte).

Aos olhos dos poderes do Terceiro Reich, das forças executivas da SS e do


Serviço de Segurança, a Operaçã o Lidice surgiu como uma acção -da Polícia
Secreta conduzida dentro de meios legais. Hitler manifestara a sua cólera
pelo sucedido, comparando, a morte de Heydrich a uma batalha perdida. A
derrota só não se torna vergonhosa quando é compensada por actos de
desforra, punição e advertência. O extermínio de uma povoação fora., por
conseguinte, não só oportuno mas pura e simplesmente imprescindível.
Depois de a investida alemã até Moscovo ter fracassado por razões de ordem
pollítica e militar, não se podia usar de benevolência: tornara-se de
importância vital fazer da ChecoslGváquia uma zona absolutamente segura.
Para impedir casos semelhantes noutros países devia ser dado um exemplo
significativo, com vista a uma intimidação geral. As forças defensivas da
autoridade, levadas pela ambiciosa pretensão de criar uma -nova estrutura
europeia, não podiam deixar passar em branco um acto fanático, provocador
e que demonstrara rebeldia e desprezo pelos seus direitos de soberania e
autoridade, pois que tal acarretaria graves e penosas consequências. A
renúncia por parte do Terceiro Reich quanto à apresentação de qualquer
justificação do procedimento adoptado relativamente às acusações contra
Lidice é sintomático -do cinismo e indiferença característicos baseados na
violência e que de modo algum via -necessidade de prestar contas do
mínimo dos seus actos que nã o fosse ante o
AGRESSIVIDADE 43

tribunal da História. Os corpos de delito levam, segundo uma ideologia, à sentença


e castigo dos culpados; mas a praxe quotidiana recorda mais a história do juiz que
profere a sentença antes de instaurar o processo. Arra-njam-se sempre provas,
invertem-se culpabilidades, a sentença fundamenta as culpas, o castigo
incompreensível demonstra a culpabilidade quando, como ,no caso de Kafka, a
força se encontrar inteiramente monopolizada pelo poder e o indivíduo reportado a
um plano ignorado.
O autoritário poder de Hitler, porém, que -nessa altura já não era tão
irresistivelmente vitorioso, não podia deixar de satisfazer a necessidade -de
justificação no mínimo mediante a atitude explicativa da subversão de Lidice. Foi
pela procura de legitimação que a justiça pagou o seu tributo à virtude.

Só existe possibilidade de demonstrar arrogância e orgulho quando já se venceram


todas as batalhas, ainda que por pouco tempo. Os atacantes devem fazer-se passar
por defensores, a fim de poderem atacar, e os governantes por servidores do povo
que mais tarde pretendem dominar. Também há que justificar os actos mais
abomináveis de violência se a querem repetir.. Esta justificação surte sempre -o
efeito desejado. quem pratica cinica- @nente o'acto de violência-quer seja um
criminoso isolado, um estadista ou um governo-e recomenda a política da força
aplicada abertamente não s.e pode furtar à obrigação de dar um carácter de
legitimidade defensiva ou adicional a.uma injustica e de transformar uma vítima
inocente em criminoso culpado, merecedor de castigo.

Também os autores de atentados terroristas (e contraterroristas, pois que Heydrich


era então o mestre mundial do terror) formaram escolas políticas como rebeldes e
típicos opositores das modernas formas de domínio. O opositor é todo aquele
que, ,nas suas acções, se declara do lado da raça, da pátria, da certeza espiritual e
da consciência individual e que representa pois o direito antigo frente a um
usurpador vindo de dentro ou de fora. Diz representar a legitimidade daquilo
que o destruidor do seu universo ou do universo em geral pretende derrubar.
Situando-se acima de todas as leis e para lá das mesmas, o opositor, sempre
preparado para enfrentar a morte, sente-se justificado pelo seu sacrifício
desinteressado e incondicional e pelo apelo a valores tradicionais, ao contrário do
revolucionário, que faz apelo aos valores de uma nova época, que se deveria criar
primeiramente. Tiranos e dominadores, opositores e revolucio-
44 ACRESSIVIDADE

nários, todos se sentem dentro da legitimidade, todos servem as mais elevadas


causas, sendo apenas umas diferentes das outras: quer seja a imposição legítima de
domínio de um povo, a libertação da pátria, a revolta ante atrocidades insensatas, a
democratização e estabelecimento definitivo da paz ou a afirmação de que tal
violência só deixará de ser possível no futuro. O exemplo do horror torna-se
tradição, a apoteose da violência um hábito e o rótulo «Jamais o mesmob)
transforma-se em «Sempre o mesmo!»

Para o mundo, Lidice constitui um record de crueldade que se sobrepôs a todo o


horror da Segunda Guerra Mundial. Se bem que não se pudesse medir
quantitativamente a violência ou apreciar -todas qs consequências, é enorme a
desproporção entre o acto e as represálias; a morte de um indivíduo- ainda que
ocupando.uma posição elevada-não foi unicamente vingada com o aniquilamento e
destruição de uma povoação: o cruel veredicto prescrevia, igualmente que o nome
do lugar fosse banido da lista das povoações checas. Lidice passaria a não ter
categoria de povoação e os seus habitantes tinham como destino a morte ou o resto
da vida em campos de concentração.

Os nacionais-socialistas pouparam pelo menos as mulheres

e as crianças, embora por fim poucas delas conseguissem sobreviver. No massacre


de My Lai anecessidade de uma maior violência de guerra vai servir como
justificação parcial quando comparada com oplaneamento a frio da Operação Lidice.
A aldeia vietríamita dos americanos foi, porém, arrasada. Todo o ser ali vivente foi
reduzido ao silêncio para sempre, porque os habitantes tinham sido considerados
culpados de simpatia e coligação para com o inimigo. My Lai constituiu, todavia, o
símbolo de uma acção política semelhante à de Lidice contra uma resistência activa
de opositores. O exército americano intentou um processo contra os seus oficiais
acusados de abuso de poder na sua missão de matar e de violação do p@in@ípio de
que os crimes de guerra são apanágio exclusivo dos inimigos. A crueldade da
Operação Lidice não teve precedente nem paralelo histórico, mas houve no entanto
o cuidado de poupar pelo menos as mulheres

e as crianças em vez de as matar no próprio local. Em My Lai, pelo contrário, às


mulheres e crianças foram intencionalmente inculcadas responsabilidades de culpa;
a ordem foi a de todas serem mortas sem excepção. Tal atitude suscitou grande
agitação por parte da opinião pública, discutindo-se se tudo não s.e teria passado
de forma completamente diferente e o extermínio de
AGRESSIVIDADE 45

My Lai de facto militarmente permitido, mas acima de tudo se seria necessário


tornar publicamente conhecidos os horríveis acontecimentos, repisá-los e
proporcionar aos inimigos valioso material de propaganda. Teria sido de qualquer
modo mais vantajoso e -em prol da moral manter em segredo o conhecimento deste
facto e foi o que certas camadas do exército americano tentaram. Melhor ainda
seria a possibilidade de acusar os culpados de loucura; é deste modo que a
psiquiatria, tão escarnecida pelo@ representantes de realidade brutal, pode ser
colocada ao serviço da violência. A comprovaçao de doença mental retira toda a
culpabilidade ao que confere a ordem, bem como a todo o povo. Uma vez recebido
o selo de crueldade motivada por fenómenos de ordem psicológica, a regularidade e
habituação do emprego da violência abusiva perde todo o horrível e torna-se
independente da acusação de sangue inocentemente derramado e assassínio em
massa premeditado.

Hoje em dia os opositores operam na mais profunda calma. Punem e raptam


inocentes; seguindo uma cópia fiel dos governos contra os quais lutam, não se
limitam a fazer presos, mas submetem-nos à tortura ou negoceiam-nos por troca. O
facto de ameaçarem exer£er violência e de a poderem aplicar às suas vítimas
inocentes torna-os aceitáveis como intervenientes naquela moderna variante do
acordo por troca que hoje é posto em equação pelos caçadores de homens, como
outrora pelos caçadores de autógrafos: quantos Uwe Seelers por um Kiesinger?
Quantos Picassos por um Franco? - ouvia-se ontem. Hoje as perguntas são
diferentes. Quantos presos políticos por um ministro canadiano, um embaixador
político ou um enviado inglês raptados? Os dominados aprenderam dos
dominadores o que os torna seus iguais.

A evolução da violência nos nossos tempos não principiou com Heydrich e Lidice,
mas apenas alcançou um ponto elevado que a partir daí já foi frequentemente
ultrapassado. A relatividade e arbitrariedade da diferenç@ entre violência ao serviço
do bem e do mal, da justi@a e injustiça, entre uma violência legal e ilegal,
disciplinada e violadora da ordem, construtiva e destrutiva, admitida e proibida
tOTna-se especialmente significativa através da observação da interligação dos
actos de violência. Os conceitos de valor modificam-se, variam e invertem-se
segundo o ponto de vista do observador e a do participante e segundo a posição de
invasor ou invadido. O que a-os olhos dos invasores
46 AGRESSIVIDADE

de então, com o título de protectores, aDarecia como um assassínio


desprezível, pérfido e indigno, ur@a afronta irreparável e uma perda
insubstituível, foi considerado pelos invadidos como urna execução mil vezes
justificável de um verdugo sanguinário e um acto de libertação.

No círculo abrangido pela violência, os actos proibidos (crimes ou loucura)


transformam-se em actos autorizados, comandados pela necessidade ou pela
legítima defesa. Os actos de violência são quase sempre apresentados e
sentidos pelos que os cometem como necessários e legítimos. Na sua opinião
trata-se de uma causa ao serviço de objectivos elevados ou até mesmo um
bem para as vítimas. Ã medida que formos estudando a agressão sob toa-os
os seus aspectos, metamorfoses e disfarces, encontraremos sempre esta
mesma super-hierarquia simplificadora. Esta ideia de que a perda de um
indivíduo considerado particularmente importante pode ser compensada ou
equilibrada por um número elevado de vidas humanas sacrificadas expressa
uma espécie de miragem de números, de pura abstracção. Há anos que as
forças americanas registam, com a ajuda de relatórios oficiais referentes aos
diversos cenários de operações no Sueste Asiático e de uma forma que à
distância soa a falso, o bodycount, ou seja, o número das baixas diárias, quer
dizer, o número dos inimigos mortos diariamente em confronto com o das
próprias baixas sofridas. Nunca aconteceu o partido que faz a estatística
apresentar baixas superiores; a relação, que é publicada nos moldes de um
resultado desportivo (80-12, 230-8, 17-O), reveIa-se sempre a favor do
macabro, autor do cômputo. O triunfo diário e o elevado número de records
atingidos são uma compensação capaz de fazer esquecer que não se avança
e se está a perder terreno. Só a crença e a demonstração da eficácia da
própria agressão, evidentemente apenas utilizada com finalidade defensiva,
levantam o moral e eliminam a dúvida quanto à justiça das causas. Os
Alemães assassinaram alguns milhares de checos como vingança pela morte
de Heydrich, e por cada um dos seus que caem os Americanos matam em
média cerca de 80 norte ou sul-vietnamitas, embora neste caso o facto não
tenha carácter sistemático. No próprio princípio de contagem, segundo o
qual cada um dos mortos contados não americanos é considerado como
inimigo, encontra-se manifesta uma posição do emprego indistinto de
violência para «embelezar» o resultado.
AGRESSIVIDADE 47

NAsH: Assassínios em série e publicidade

Em janeiro de 1957 tivemos ocasião de investigar, na qualidade de perito


jurídico, o acusado, Stephen Nasli, autor de morticínio. A nossa missão era a
de apurar o grau de responsabilidade que lhe cabia. Provara-se já a
culpabilidade de Nash em três mortes. Ele mesmo se vangloriava, mediante
revelações exageradamente dramatizadas, de ter assassinado oito pessoas
mais; na totalidade pesavam sobre Nash onze assassínios cometidos num
espaço de seis meses. Algumas testemunhas não tinham palavras que
chegassem para elogiar a amizade e solicitude que o assassino sempre
demonstrara para com elas. Nash só praticava os seus crimes, de um
sadismo inacreditável, em desconhecidos e inocentes, apenas como
passatempo e na crença fanática e louca de dever vingar-se da sociedade
que o destruíra. Qualificava-se alegremente e mesmo com alívio de ser o
único homem feliz na Terra; sabia que tinha de morrer e era grande a sua
ansiedade em relação a esse momento, iporque só então ficariam saldadas
as suas contas e só então sairia vencedor do duelo que travava com a
sociedade. Da-do que só podia morrer uma vez, o resultado seria de 11 para
1 a seu favor; ainda que avaliasse a sua vida com importância triplicada
relativamente à de qualquer das suas vítimas, a proporção final seria de 11
para 3.

Talvez este caso não venha absolutamente nada a propósito inserido na


crítica feita aos acontecimentos da história mundial
- ou virá?

Em comparação com a perda de vidas humanas, de bens materiais e


espirituais que as organizações sociais provocam em tempo de paz e de
guerra e relativamente ao monopólio de violência na “se legal de Estados
soberanos, cada assassino como o que referimos não passa de um pobre
sapateiro remendão. Na sua guerra de explosão instintiva ou de
premeditação dirigida contra a sociedade repete e reflecte em miniatura e
numa caricatura paradoxal muitos traços decisivos, tendências explosivas,
manobras estratégicas e padrões de justiça do todo. A semelhança não é
igualdade e a analogia não constitui identidade. O Estado não é nenhum
macro-indivíduo, e nenhum criminoso, nem mesmo, o pior dos indivíduos, é
uma instituição criada, mas um ser biológico de carne e osso.

O horrível morticínio que se verificou nos Estados Unidos e


48 AGRESSiVIDADE

cujo autor foi Stepheu Nash é considerado o crime do decênio.


O horror causado pelos terríveis e sádicos assassínios de vítimas escolhidas
arbitrariamente, mas na sua maioria mulheres e crianças, levou o governador
californiano dessa época a opor-se à suspensão da pena de morte, já pronunciada
pelo Parlamento. Servindo-se de uma faca de mato, Nash tinha ao que parece
rasgado as carnes, mutilado cruelmente e só depois morto, pelo que consta
indiscriminadamente, uma série de homens desconhecidos, entre os quais
figuravam homossexuais encontrados casualmente, e também mulheres e crianças.
Antes da prisão, Nash devorara com entusiasmo -os títulos dos jornais que o
designavam como a fera mais desumana 1co mais impiedoso assassino da história
da Califórnia. Durante muito tempo, e apesar da descrição pormenorizada feita por
algumas pessoas, a polícia,não o cons@guiu apanhar, se bem que Nash enquanto
decorria a investigaçao tivesse sido detido por uma infracção de trânsito e lhe
tivessem encontrado entre as suas coisas o instrumento dos crimes. Pelo seu
genuíno e não fabricado sangue-frio, aliado a uma completa indiferença, conseguiu
convencer as autoridades de que nada tinha a ver com o caso; soltaram-no.
Quando, porém, acabou por ser preso confessou solícita e imediatamente os três
assassínios de que era acusado. Descreveu pormenorizadamente e com visível
prazer todos os seus actos, que uma crueldade inacreditável caracterizava e não
demonstrou o mínimo remorso, vangloriando-se ainda de ter assassinado oito
pessoas mais.

Mediante honorários a combinar declarou-se pronto a fornecer os nomes das vítimas


e pormenores ainda desconhecidos dos seus actos às autoridades e imprensa. A
princípio as autoridades não o acreditaram. Em seguida, tanto as autoridades como
a imprensa acabaram por aceitar a oferta do culpado pela qual, através do
pagamento de somas sempre redobradas -que ele apenas podia utilizar livremente
para melhoramento da comida na prisão-, lhes vendeu informações relativas a três
outras vítimas. As indicações foram seg@iidas, -e as vítimas mutiladas
prontamente encontradas nos locais que ele mencionara. Após a descoberta da
sexta vítima as demandas económicas feitas pelo acusado atingiram um ponto
elevadíssimo e além disso as autoridades estavam já convictas de possuírem
material que chegava para a condenação do assassino. Os restantes cinco
assassínios que o acusado dizia ter cometido nunca foram, por conseguinte,
esclarecidos; ainda hoje não se sabe se a sua história era verdadeira.
AGRESSIVIDADE 49

Segundo o que ele contou e não foi provado, nunca conhecera os pais; Nash foi
criado num orfanato e finalmente adoptad(> por um casal de fanáticos religiosos.
Desde a mais tenra idade nascera em si um ódio profundo contra a mentira de
todas as religiões e atribuía culpas aos pais adoptivos e à sociedade por nunca ter
aprendido uma profissão a sério. O seu carácter formou-se -na mentira; viera ao
mundo como filho das autoridades e da assistência e portanto também devia morrer
pela intervenção das autoridades.

Cumprira o seu primeiro tempo de prisão a arquitectar planos de vingança contra a


sociedade e compartilhava-os com os companheiros de prisão e com os guardas. Na
prisão reflectia precisamente no que queria pôr em prática depois de sair em
liberdade; organizou complicados esquemas e planos de como faria descarrilar
comboios em pontes para poder assistir ao afogamento das vítimas. Também
planeou atentados com bombas e cargas de dinamite dentro de um perfeito
conhecimento de que o uso de meios técnicos modernos aumentava o potencial de
extermínio. Após prolongada meditação desistiu, no entanto, de pôr em prática
estas possibilidades de utilização instrumental de armas de fogo e detonadores.
Tais processos pareciam-lhe demasiado frios e impessoais; pretendia gozar
pessoalmente o doce sabor da vingança até ao último instante, olhando as suas
vítimas bem nos olhos; acabou finalmente por se decidir pelo assassínio individual.

Pouco depois de ter sido posto em liberdade, começou a sua lista de assassínios,
que obedeciam numa totalidade a um plano estipulado. Deixava passar um certo
espaço de tempo entre os assassínios, mudava sempre de residência e, no entanto,
deixava a escolha das suas vítimas ao acaso, contanto que estivessem dentro do
tipo de pessoa pretendido. A primeira série de nove pessoas seria constituída por
marinheiros ou por pessoas que lhe lembrassem marinheiros. A segunda série, mais
uma vez de nove pessoas, devia ser constituída por crianças e a terceira por
mulheres. Depois do undécimo assassínio- segundo o seu relatofoi impedido de
cometer mais crimes, por ter sido preso, mas jurou apesar disso que no caso pouco
provável de ser posto em liberdade era sua intenção dedicar-se a completar a sua
série de crimes.

No decorrer dos diversos exames clínicos a que foi submetido mostrou-se


inteiramente consciente da realidade e extremamente
so AGRESSIVIDADE

solícito relativamente a falar de si e dos seus problemas, enquanto não pressentiu o


p@rigo de ser acusado de perturbação mental. Trazia sempre consigo cópias dos
certificados dos psiquiatras da prisão, que já lhe tinham reconhecido inteira
responsabilidade pessoal por. delitos anteriormente cometidos. Durante o tempo em
que estivera preso, adquirira um considerável conhecimento de leis e um extenso
vocabulário polémico, lendo e decorando passagens das três obras que considerava
mais importantes: A Minha Luta., de Hitler, Guerra e Paz, de ToIstoi, e o Código
Penal. Não via qualquer contraste entre as descrições detalhadas da sádica
brutalidade com que assassinou as vítimas e o simultâneo protesto da sua
identidade com a doçura de Jesus. Além de poupar uma inevitável desilusão às suas
vítimas, prestava-lhes um serviço tanto maior quanto mais cheio de esperança fosse
o futuro delas. Ele próprio encontrara nesse momento uma profunda tranquilidade
interior, ao passe, que dantes estivera sempre dominado pela tensão e pelo medo.
Agora era mais poderoso e importante do que o Ministério da Guerra, que não podia
ordenar mortes, ao passo que ele podia matar pessoas à vontade. O único facto que
o assustava era poder ser tomado por -demente e internado numa clínica. Tal como
na sua infância, seria um roubo feito aos seus -direitos como pessoa; ele tinha o
direito a ser morto.

Nash nunca nem em nenhum momento teve dúvidas quanto ao êxito do caso no
sentido pretendido. A sua certeza na vitória, que, depois de a sentença ser
pronunciada, ele expressou por um grito de alegria, nunca sofreu o mínimo abalo,
porque ele sabia que a sua própria narração dos crimes sádicos, a que ainda
acrescentava mais pormenores conferidos pela imaginação, moveria os jurados
contra si e levá-los-ia a pronunciar um veredicto de culpabilidade,
independenteinente do que os psiquiatras tinham a dizer sobre ele. Foi
precisamente isso o que aconteceu depois.

Os três peritos judiciais designados pelo tribunal para exame da sua imputabilidade
classificaram-no como uma personalidade sádica e psicopata «(psicopata fanático»,
no sentido empregue por K. ScImeider). Dois dos psiquiatras afirmaram também
peremptoriamente que o acusado sofria de megalomania, alucinações ocasionais e
de loucura sistemática e classificaram-no como esquizofrénico, paranóico.

Embora o acusado não se cansasse de afirmar que sabia perfeitamente «ter


atentado contra a sociedade e estar plenamente
AGRESSIVIDADE 51

consciente das consequências dos seus actos», devia, em cumprimento do


direito californiano, ser dado como responsável por todos os psiquiatras,
incluindo nós.

Após breve conferência, todos os jurados o consideraram totalmente


responsável, embora um outro psiquiatra e mesmo nós expressássemos
pormenorizadamente o absurdo da aplicação textual do Código Penal neste
caso. Foram unânimes em declarar depois que nenhum duvidara da
demência do acusado. Tinham-se servido do pretexto da lei apenas para
poderem aniquilar uma tal fera humana. As suas esperanças de que ele
pudesse melhorar eram mínimas; para eles seria um absurdo alimentá-lo até
ao fim da vida ou correr o risco de um dia ele se poder escapar ou ser posto
em liberdade por equívoco. Os jurados tinham, no seu próprio dizer,
condenado Nash à -morte sem remorsos, porque ele era um doente mental
incurável.

A feição exibicionista e histriónica do comportamento de Nasli, o seu negócio


com as informações a que chamava «venda de cadáveres» e a sua bizarra e
horrível habilidade relativamente a despertar e explorar o prazer da
sensação nunca se poderiam ter manifestado desta forma sem o toque eficaz
da imprensa e a

solicitude das autoridades quanto a comprarem informações sobre o crime. É


provável que a evolução psicodinâmica de Nash não tivesse sido menor no
plano da loucura, mas não teria sido porém tão perigosa se os diversos
acordos e câmbios das autoridades não tivessem reafirmado em si a
convicção de que a justiça e a moral não passavam de mercadorias
compráveis que se podiam transaccionar. Era esta a sua opinião, que, apesar
do exagero que a loucura lhe conferia, a realidade -em grande parte
confirmava. Foi-lhe permitido e até mesmo o tinham incitado a vender as
informações das suas vítimas por bom preço, relativam-ente ao que ele
frisou continuadamente (e com razão) que a

sua compensação representava, apenas uma pequena parcela do lucro


obtido pelos jornais.

Ainda antes da audiência principal uma grande companhia produtora de


filmes contactou-o para a aquisição de direitos sobre a história da sua vida e
dos seus crimes, que deu depois realmente origem a um êxito do cinema: O
Vagabundo (The Hitchhiker). A elevadíssima quantia destinada a essa
aquisição de direitos não poderia ser paga se o diagnóstico clínico o
considerasse mentalmente perturbado e irresponsável; só poderia cobrar
52
AGRESSIVIDADE

odinheiro sob condição de uma total culpabilidade, o que também


significava, no entanto, a sua condenação à morte.

Nash representava de forma quase perfeita o protótipo do criminoso de que


o público se serve como contraste na defesa e afastani,ento das suas
próprias tendências inconscientes à loucura. Ele era, de facto, o diabo em
figura de gente que o público julga reconhecer em todos os criminosos, ou
seja o satanismo puro, a encarnação de to-do o mal. Nele existia tudo o que
de pior e mais condenável há e que muito dificilmente se permite à própria
imaginação, tornado realidade concreta e palpável. No papel do mais odiado
e do maior inimigo, do estado, que ele representava com orgulho, a sua
morte é violentamente reclamada como expiação por ‘ ele e por todos. Era
uma expiação necessária para restabelecimento de um equilíbrio.

As considerações de carácter psicológico têm de se limitar a hipóteses. A


interpreta@ão natural reside no aparecimento de uma agressivida-de
primitiva, arcaica e incontrolada que, na verdade, aliada a erotismo, mas
sem mecanismos ocultos de inibicão, pudesse continuar a finalidade
impulsiva de destruição e ex'terminio. O regresso a uma fase de
desenvolvimento infantil, em que os instintos de destruição encontram
directa e imediata expressão, está de acordo com o diagnóstico clínico que
refere a grande serenidade e alívio com que o assassino relatou fielmente os
seus crimes sem experimentar os mínimos remorsos ou sentimentos de
culpa. Talvez seja por outro lado demasiado simples limitarmo-nos à
explicação da existência de uma função indubitável de escape pela descarga
e libertação de forças agressivas. À luz de uma análise profunda, os crimes
de Nash não são assim tão explosivos e impulsivos, mas obedecem a um
plano preciso, na verdade psicótic.o, premeditado e calculado. No momento
da execução do acto foi dominado por uma excitação enorme que o arrastou
ao sadismo e animalidade izualmente Já incluídos no plano.

As funções do, ego e do superego não foram de forma alguma eliminadas,


mas postas pelo contrário ao serviço do mal (o ego ao serviço da regressão),
pois se assim não fosse o assassino não podia ter permanecido tanto tempo
sem ser descoberto. As suas vítimas não eram, na verdade, pessoas
escolhidas de antemão; enContravam-se divididas em categorias. A maneira
como os crimes foram praticados e o desaparecimento de vestígios indicam
@L aietuação do ego, numa região consciente e conhecedora da rea-
AGRESSIVIDADE 53

lidade. A função do superego esteve sempre presente nas fantasias


pervertidas de expiação e execução e nas tentativas «nioralistas» de
justificação. O sentimento narcísico de excelência não se expressa na
fantasia de unia origem elevada, mas precisamente no pólo contrário. Ele
sentia-se eleito de Satã e comportava-se analogamente a esta imagem; a
sua loucura levava-o a identificar-se simultaneamente com a figura do
Salvador.

A sociedade dota o criminoso de traços projectivos das suas próprias


tendências inconscientes e reprimidas,, para se livrar de sentimentos de
culpa. Ao desempenhar este papel p-rojectivo de super e ultracriminoso,
levado a extremo por pressão consciente, ficou subjectivamente livre de todo
o sentimento de culpabilidade por intermédio destes mesmos mecanismos
projectivos.

MANSON: A «famílía de assassímos»

O crime do século-foi assim que Hcllywood baptizou a série de crimes


instigados e encenados por Charles Manson. Foi um escolher perisado de
superlativos para classificar uma unicidade sem precedentes. O certo é que
no caso presente a costumada fábrica de sonhos não exagerou. O quadro
real situado na zona de Hollywoüd colocava na sombra “os os actos de
violência até aí cometidos e as mais horríveis cenas que pudessem existir na
imaginação de argumentistas e publicistas.

O massacre dos milionários, ao que se diz na sua totalidade pervertidos


sexuais, ajusta-se na perfeição ao falso cliché de Hollywood segundo o qual
os ricos e despreocupados, mas verdadeiramente incapazes de amar e
sempre infelizes, acabam por ser castigados por esse mesmo destino que por
outro lado os favoreceu. É a lei da compensação (co@mplexo de Polícrates).

A dona da casa, a bela actriz de cinema Sharon Tate, estava nessa altura em
adiantado estado de gravidez. Polanski, o marido, e que então se encontrava
em Londres, é especialista em cenas profundamente semelhantes à cena
representada pelas onze horríveis mortes verdadeiras, Encontrou-se num
automóvel ,parado em frente da mansão dos Polanski, situada em Beverly
Hills, o cadáver de um jovem atingido com três tiros e no jardim os corpos de
um homem e de uma mulher mutilados por mais de setenta facadas; no
luxuoso living roam encon-
54 AGRESSIVIDADE

trava-se o corpo sem vida de Sharon Tate e de um dos visitantes, igualmente


mutilados por inúmeras facadas na região do peito, nas castas e do lado de
fora das pernas. O pescoço de Sharon Tate e o do visitante estavam
envolvidospor urna corda de ny1on, cuja extremidade fora presa a uma das
vigas do tecto. Em cima do sofá estava uma bandeira americana enrolada;
traçada com um trapo -embebido no sangue das vítimas via-se uma palavra
na porta da frente da casa: «Pig» (porco). Tudo se assemelhava às cenas de
terror, se bem que por enquanto ainda incompreensíveis, do Grand Guigno-1
e do drama de horror; era a teatralidade de Hollywood na verdadeira
Hollywood.

A morte do jovem do automóvel, executada à maneira dos gaingsters, que


constituiu, ao que parece, urna vitima acidental da carnificina, bem como o
corte das lígações telefónicas no exterior, demonstraram a -existência de um
plano frio, e a mutilação das vítimas dunto, dos homens, para além dos
vestígios das facadas, havia os de tiros) mais do que a embriaguez do
sangue. Depois do estudo feito a mais de 300 fotografias tiradas pela polícia
no local dos crimes concluí que os assassínios teriam sido planeados e
cometidos por mais de duas pessoas, e portanto por um grupo ou bando. As
circunstâncias horríveis em que os crimes tinham sido praticados deixavam
adivinhar que alguns dos implicados agiram num estado de loucura,
provavelmente sob poder de drogas, mas não, todos, devido ao sangue-frio
revelado pelos processos empregues. O Gabinete do Coroner (serviços
públicos do exame de corpos e respectiva autópsia de todos os casos em que
se suspeita de homicídio) tinha-me convidado a que fizesse uni
«psicograrna» dos criminosos implicados; quer dizer, baseado na minha
experiência psiquiátrica eu devia indi-

car os possíveis motivos e fazer de detective. As minhas hipóteses


transformaram-&e em certezas, principalmente a de que os criminosos se
sentiam como vingadores e carrascos e pertenciani a urna seita mais ou
menos restrita de convicções pseudo-religiosas. Não excluí, porém, a
participação de raparigas em crimes de urna violência tão
caracteristicamente masculina.

Na noite seguinte verificou-se um duplo assassínio de igual violência e em


circunstâncias semelhantes em Los Feliz, um outro bairro de Los Angeles. As
vítimas foram o casal La Bianca, donos de vários supermercados. Tinham-
lhes atado as mãos com correias de couro e mutilado os corpos com
sucessivas punhaladas. O corpo de Rosemary La Bianca apresentava mais de
qua-
AGRESSIVIDADE 55

renta punhaladas. No corpo do marido tinham gravado três «X» e a palavra


«War». Do estômago saía-lhe uma faca de trinchar. Escrita a sangue nas
paredes e no frigorífico viam-se as frases «Death to,pigs», «Rise» e (Melter
Skelter» (o título de um dos discos dos Beatles).

A semelhança das circunstâncias em qi@e os crimes foram cometidos


originou imediatamente a suposição de culpabilidade dos mesmos
assassinos, mas a polícia ocultou propositadamente estas informações. O
receio da existência de um bando de criminosos loucos e extremamente
violentos, que prosseguiam os seus actos sangrentos em liberdade, podia ter
transformado em pânico o medo sentido pelo público.

Explicou-se portanto imediatamente o segundo crime como uma cópia do


caso de Sharon Tate. Os crimes particularmente violentose dramáticos
provocam quase sempre imitações e algumas vezes ondas de crimes e
epidemias de violência. Há que contar com a propagação do vírus da
violência.

Nas duas séries de assassínios faltaram os indícios de um motivo «razoável»


e, portanto, foram chamados os psiquiatras na sua qualidade de peritos do
absurdo. Apesar dos esforços despendídos a polícia não conseguiu descobrir
a menor pista quanto à identidade dos criminosos. Toda a nação se
precipitou febrílmente na emocionante operação da caça aos criminosos e
procura de motivos. Foram postos a correr os rumores mais inconcebíveis e
arrepiantes, em que se misturavam a fantasia e o exagero. Os jornais e
revistas noticiavam em letras gordas todos os horríveis pormenores e
deturpavam-nos. Ainda hoie circulam e são acreditadas histórias incríveis de
actos sexuais praticados nos cadáveres mutilados, da violação das vítimas
femininas e da mutilação da criança arrancada, a(> que se diz, do ventre da
mulher grávida. A força comprovatória das fotografias tiradas pela polícia e
que me foram fornecidas não deixa lugar a dúvidas: os cadáveres das vítimas
foram, na verdade, apunhala-dos repetida mente e atingidos por tiros;
verificou-se porém que as zonas genitais e abdominais de Sharon Tate não
tinham sido tocadas. Toda a cena, a que não faltavam bizarros pormenores,
não deixava antever a existência de perversões sexuais. A investigação que
posteriormente s.e efectuou demonstrou, aliás, que os criminosos eram na
verdade feixes de impulsos desenfreados e assassinos desumanos levados
por uma infinidade dos Piores motivos, mas quenão eram criminosos sexuais.
Torna-se imperiosa a pergunta
56
AGRESSIVIDADE

de qual a fantasia mórbida que dotou os crimes de macabras variantes de


perversão sexual.

O começo esclarecedor dos casos aconteceu quatro meses mais tarde e foi
devido a surpreendente traição. Susan Atkins (Sadie Glutz), que se
encontrava detida na prisão de mulherios de Los Angeles por suspeita de
delitos de pouca importância, fez às companheiras de prisão um relato
pormenorizado de como se tinham dado os crimes, que ela dizia cometidos
por dois componentes do grupo a que ela própria pertencia. Sentindo-se
importante por terparticipado activamente num acto de violência conhecido
em todo o mundo, não podia suportar por mais tempo o -encerramento numa
cela, mantendo-se anónima e desconhecida por todos e misturada com
delinquentes vulgares. Repetiu as suas afirmações, sem indício de remorsos,
ante o procurador da República e o Supremo Tribunal. Não se considerava
culpada, uma vez que cgmetera os crimes obedecendo a ordens e sob
influência opressiva de Charles Manson, o chefe do grupo. Depois da
enumicraçã o de todos os pormenores terminou a confissão com o cómico
pedido de um gelado de banana.

O seu relato sensacional foi imediatamente viendido e tornado público. A


Procuradoria da República assegurara a isenção de pena a Sadie pelas suas
declarações. (Pela lei anglo-saxónica pode ser legalmente concedida à
testemunha Kla Coroa e nos E. U. A. pela Procuradoria da República a
redução de pena ou a imu-nidade, como compensação pela confissão, ainda
que tenha havido participação pessoal no crime.) Susan Atkins desmentiu, no
entanto, a sua confissão sob pressão de Mans-on, a quem, algumas semanas
mais tarde, permitiram que visitasse as suas cúmplices como advogado do
seu caso. Mas, uma vez que as testemunhas de acusação podem ser
substituídas, mudou-se simplesmente o. seu papel de testemunha principal.
É agora uma outra participante importante no assassínio, Linda Kasabian,
que «Canta» e descreve pormenores do crime à Procuradoria da República.
Foi, aliás, de entre os acusados a única tratada como «pessoa» pelos
delegados da Procuradoria da República, aio passo que Susan Atkins desceu
novamente à qualidade de «fera disfarçada de pessoa». Com o @

roduto da venda das suas memórias Linda quer recolher ao eserto e dedicar-
se à contemplação e procura do seu próprio eu.

Pela sua integração na família Manson entregara como dote a Manson cinco
mil dólares pertencentes a um amigo do marido. Quando o ainigo, depois de
descobrir o roubo, se apresentou nos
AGRESSIVIDADE 57

alojamentos da comunidade para pedir explicações a Linda, encontrou-se


frente a frente com Manson, que estava -rodeado por meia dúzia dos do seu
bando. Durante o diálogo que se seguiu Manson manteve uma atitude
filosófica em moldes amigáv.eis. Emprimeiro lugar informou o jovem de que
ele, Manson, não acreditava na existência do roubo; como é que alguém
podia roubar, uma vez que tudo pertencia a todos? Em seguida pronunciou
algo mais significativo: «Se fosse da vontade de Deus que tivesses o teu
dinheiro, a rapariga não teria sabido onde ele se encontrava!» Expôs em
seguida uma das suas teorias filosóficas favoritas, segundo a qual não podia
haver uma morte individual, uma vez que cada ser -existente ao cinio da
Terra estava contido em cada um dos seus semelhantes e o seu conjunto
fazia parte de um ser misterioso que os englobava. Não havia, portanto,
mortes, mas apenas uma mutação permanente. Ele estava disposto a
demonstrar-lhe a verdade do que dizia naquele mesmo momento. Afirmou
Manson, ao mesmo tempo que desembainhava a sua enorme faca de mato:
«Toma; pega nessa faca e mata-me!» Como o outro, atónito, não
respondesse ao desafio, Manson continuou no -mesmo tom: «Bom. E que tal,
se eu agora te matasse para provar que a morte não existe?» E com estas
palavras terminou a entrevista. O amigo de Kasabian, tomado de um medo
de morte, afastou-se sem tomar qualquer atitude e o dinheiro ficou na posse
de Manson.

Esta forma de impressionar sem violência não só serviu para a obtenção


imediata do fim pretendido como igualmente aumentou o prestígio do
«Mestre» e com ele a submissão dos seus discípul,os. Pode-se fazer uma
ideia do efeito conseguido em Linda Kasabian ao ouvi-Ia falar da forma
elegante e convincente como o seu chefe aniquilara as consequências de um
roubo de cinco mil dólares, o que se assemelhava a torná,lo legítiino. E tudo
sem utilizar a forçal

Manson não tinha muito a perder. O facto de sobre ele pesar a ameaça de
morte não o assusta. (Má muito que estou morto!», afirmou ante o tribunal,
mas -nunca poré!@ diante do júri. Durante o tempo em que permaneceu na
prisão, onde aliás passou a maior parte da sua vida, nunca se considerou
mais do que um cadáver em pé. Também não tinha a certeza se não seria
realmente Jesus Cristo. Ainda não decidira o que ou quem era na realidade,
mas sabia o que os outros viam nele: na verdade um monstro sádico.
«Querem ver em mim o que na verdade
58 AGRESSIVIDADE

existe em vós. Porque todos me são, completamente indiferentes, se pudesse


arrancaria -este microfone e partiria com ele os vossos crânios. Merecê-lo-iam
bem ... » Discursou depois da forma que -lhe era peculiar, utilizando uma mistura de
padrões existencialistas com uma presunção esotérica e -um toque de misticismo.
Referiu-se aos anjos do abismo, aos reis da vida eterna e à verdade que apenas ele
e os da sua «família» conheciam.

Mainson, filho de uma prostituta dada ao vício da bebida e cedo incurável, era um
homenzinho pequeno de quem ninguém falava e em quem ninguém reparava antes
de o horrível crime cometido ter feito com que a sociedade lhe atribuísse poderes
hipnóticos irresistíveis e o visse como Rasputine ou com a atracção de uni «Che
Guevara de Hollywood». Manson não é um hippy nem um revolucionário, mas um
simples criminoso medíocre não só em essência,mas também no corpo, inculto, se
bem que versado e cheio de todas as imagens fantasistas da astrologia e de um
fascismo elementar e primitivo. O que para os outros corresponde à noção de herói
não passava para ele de palavreado pseudocientífico de Hubbard e do mundo
fantástico de Robert Heinlein (Um Homem Num Mundo Estranho).

Preguiçoso e fanfarrão, Manson sentia-se um artista só porque sabia tocar um pouco


de guitarra e cantar. O seu talento é pouco, mas convence no entanto facilmente os
do seu bando de que é um génio incompreendido e que são apenas a corrupção e a
maldade do mundo que o impedem de conquistar o reconhecimento que lhe é
devido. Nos seus pensamentos infantis misturam-se o sonho e a realidade; a força
do seu ódio indómito e pleno de ressentimento iguala-se à dos loquazes discursos
sobre a redenção do mundo. A mistura do desespero de quem nada mais tem a
perder, aliada à cólera da autocompaixão, provocam -lhe uma maneira de olhar a
que os do seu bando atribuem um carácter sobrenatural.

Na penitenciária, adquiriu a fria insolência pragmática dos presos experimentados.


Conseguia um efeito magnético sobre os jovens sentimentais e indolentes q@i@
procurou na colónia Haight-Ashbury de São Francisco e vivia à custa deles.
Servindo-se de um autocarro d.e escola que trocara por um velho piano roubado e
que as raparigas, obedecendo às suas ordens, haviam pintado de cores
psicadélicas, atravessou a Califórnia, cantando o amor, falando de amor e fazendo
amor.

As mulheres e raparigas da sua «família» tinham-se separado


AGRESSIVIDADE 59

voluntariamente das suas famílias e da sociedade de consumo para seguir


Manson, que lhes falava confusamente de gr@ndes acontecimentos
iminentes. Manson ensinou-as a pedir, a introduzir-se -furtivamente em
casas desconhecidas e industriou-as igualmente na utilização de facas. Dessa
táctica nasceu um ritual de hábitos e uma espécie de religião que se
compunham de aforismos pouco amadurecidos, filosofias orientais, fórmulas
mágicas de alquimia, culto infantil de Satã e fantasias místicas sexuais.
Todos faziam amor uns com os outros e de preferência com os candidatos à
integração no grupo.

O fundador, chefe e guru, o paxá e patrão da «família», induzia as suas


«filhas», como ele lhes chamava, à prostituição. Manson empregava métodos
inteiramente pacíficos; não dominava o seu grupo pela pressão e pela
violência, mas pela dádiva de um elevado objectivo de vida que incluía a
preparação incondicional para matar e ser morto. Discursava sobre o fim do
mundo e anunciava a forma de o evitar proclamando uma verdade que só o
seu grupo possuía.

O seu tema favorito era o levantamento de todas as raças, o que na sua


opinião estava iminente. Os negros assassinariam os brancos até ao último.
Só -ele, Manson, e o seu séquito estavam destinados a sobreviver p.oMue, a
devido tempo, se recolheriam no deserto. Daí, seguiriam o aniquilamento.
Quando tudo terminasse, os negros pediriam ajuda a Manslon e torná-lo~iam
seu chefe, porque -e aqui terminava a filosofia de Mansonnão só o
establishment, como a polícia, a sociedade de consumo dos brancos (e afinal
-os negros), e portanto todos os homens que não pertencessem à sua
«família», que não reconhecessem a sua autoridade e não usassem a cruz
gravada na testa como símbolo de amor e de sofrimento inocente eram
«pigs» e caminhavam para um certo e merecido naufrágio.

Apesar dos preparativos para o iminentee apocalíptico levantamento das


raças, Manson entrou em contacto com Terry Melcher, o filho da célebre
actriz Doris Day, com vista a efectuar um contrato para gravação de um
disco com as suas canções. Uma vez que asnegociações ficaram sem efeito,
Manson sentiu-se enganado e repelido por um representante famoso do
establishment: pertencia-lhe o sabor da vingança. O melindre sentido pelo
apóstolo da paz levou-o a ordenar que se estabelecesse um exemplo sem
sequer conhecer as vítimas ou as querer conhecer. Terry Melcher habitara
outrora na casa que Polanski e Sharon.
60 AGRESSIVIDADE

Tate tinham alugado. Esta casa tornou-se «o objectivo» legítimo do castigo que
Manson queria aplicar. Tudo o que fosse dotado de vida e movimento na casa devia
ser eliminado. Os órgãos executivos concordaram sem hesitações; Manson
descreveu-lhes as futuras vítimas de assassínio como «pigs», sub-homens e
objectos legítimos de agressão. A forma como os apelidou surtiu o efeito pretendido.
Os soldados da morte não tinham que examinar as inspirações legítimas -mas
apenas que as executar. Manson, no papel de representante, porta-voz e general de
causa elevada, ditou as suas ordens do aquartelamento geral. O seu bando, dirigido
à distância, desempenhou-se da sua missão. Apenas Charles Watson, que por
distúrbio mental não pôde até agora ser chamado a depor em tribunal, já tinha
experiência no desempenho de actos de violência; as mulheres, que nunca tinham
cometido assassínios, estavam um tanto inibidas e precisamente por isso, levadas a
um estado de pronunciada histeria por meio de drogas, mostraram-se
particularmente selvagens e de uma violência grotesca. Depois de ter recebido a
notícia da carnificina de Sharon Tate e dos seus convidados, Manson, para quem a
matança fora mal executada, decidiu imediatamente preparar uma segunda, desta
vez exemplar...

O perito em assassínios e que, no entanto, nunca matara pelo próprio punho, queria
que fosse executado melhor trabalho,.que se matasse mais fria e profissionalmente.
Primeiro, introduziu-se sozinho na casa das vítimas, escolhidas inteiramente ao
acaso, e ao fechar o casal La Bianca em quartos separados utilizou o truque de lhes
falar calmamente para evitar a possibilidade de pânico e de histeria. Assegurou-lhes
em tom convicto que na-da de grave lhes sucederia e depois mandou entrar Watson
e mais duas raparigas, que desta vez tinham de efectuar a carnificina de uma forma
mais (diropa». Com o ritual dos assassínios, Manson pretendia demonstrar toda a
sua dureza, frieza e impassibilidade e -Com o sangue derramado pelas vítimas a
alianç a indestrutível da «família».

O pro @esso contra Mansone as cúmplices foi quase tão bizarro e inverosimil como
os actos com que s.e relacionava. Manson nunca foi submetido a um exame
psiquiátrico. A princípio pôde desempenhar o seu papel de advogado de defesa e
levar Susan Atkins a renegar a confissão feita. Em seguida são-lhe negadas
capacidades intelectuais de autodefesa. Ele renuncia a usar da Palavra no debate
em sua defesa; fá-lo depois, no entanto, mas
AGRESSIVIDADE 61

não na presença do júri que tem de pronunciar a sentença. Só numa coisa é


que 1\/Ian&Gn está inteiramente de acordo com o público,que, com ou sem
provas, com ou sem culpabilidade PTOvada, o quer saber neutralizado: o
processo é também para ele uma farsa morosa e supérflua. É preciso levar
Manson a participar. Os advogados de defesa -discutem entre si e impedem
as suas clientes de depor, porque têm medo -de que elas se culpem para
ilibar Manson. Um dos advogados, que contava trinta e cinco anos e se
chamava Ronald Hughes (reprovou três vezes no exame final de advocacia e
não tinha a mínima experiência de processos), foi pacientemente aguentado
por Manson como advogado de defesa de uma das três raparigas, sob
condição de deixar crescer a barba; Hughes deixou crescer a barba. Passado
pouco tempo orém, não regressou de um passeio de fim-de-semana; a

Pri@Cíp

pio pensou--se que ele apenas pretende retardar o processo, que já dura há
seis meses, mas ele desaparece para sempre. Suspeita-se da sua morte;
talvez tivesse sido morto. p@or.um dos membros da «família» Manson ou
um dos seus inimigos. Os jurados e substitutos passaram todo o tempo que
durou o processo sob vigilâ ncia -no Hotel Embaixador (c, mesmo em que
Robert Kermedy foi morto) e eram levados para o tribunal em autocarros
blindados. O compreensível desejo dos jurados de poderem retomar a sua
vida familiar, desorganizada por um tão prolongado período de ausência, foi-
como garantia de uma completa objectividade -recusado a princípio pelo juiz
e.finalmente concedido. Ante a impaciência dos jurados, que insistiam pelo
fim do processo fosse por que preço fosse, tornava-se um perigo atender a
objectividades. Deipois de te-rem ficado detidos durante sete meses e meio
num hotel, os jurados recebem subitamente permissão para regressar a suas
casas. O processo continua.

Na Califórnia, à sentença de homicídio Premeditado, segue-se um processo


quase tão demorado como ela, para decisão da extensão -do castigo a
aplicar pelo júri. Manson está em risco de prisão perpétua ou de condenação
à morte. A sentença de culpabilidade era para toda a gente-e também para
Manson-um facto já assente antes do início do processo. Nixon não tinha
qualquer necessidade de intervir para influenciar a decisão. O presidente
americano, advogado de profissão, sabia no entanto o que fazia quando
interveio na sua qualidade de presidente e acima de tudo como zelador da
paz e da ordem. O veredicto de Nixon,
62 AGRESSIVIDADE

«Manson é culpado», era a voz do povo. O resultado do erro in,volUTitário


que mais tarde se desculpou não poderia ter tidoo niaior popularidade do que
se tivesse sido calculado.

Nixon fez essa declaração durante um comentário filmado, ern que


-expressou um contentamento de ordem estética em relação a um papel
desempenhado por John Wayne como xerife, um xerife extremamente
violento, mas justapondo sempre a justiça a essa violência. Fez
seguidamente observações relativas ao agradável gênero de westerns em
que se adivinha a diferença moral entre o mal e o bem, sendo já ilustrada na
televisão colorida: cavalos brancos para os bons e negros para os maus. A
cadeia de associação é bem clara: os xerifes são bons= inocentes =justos; os
criminosos sao maus =culpados. É justa a violência contra eles. Manson é
mau; Manson é culipado.

Os jurados não tinham, ao que se diz, assistido a esta reportagem de, faux
pas de Nixon. Manson não deixou,,porém, escapar a oportunidade de triunfo
que assim se proporcionava às suas ideias megalómanas mediante a dorava-
nte histórica ligação do nome do presidente americano ao seu: mostrava
orgulhoso aos jurados o jornal obtido clandestinamente e que o considerava
culpado. Tudo se passou como num filme: é o triunfo de HollywGod sobre si
mesma. O esquema torna-se um facto; o chamado cliché de Hollywood na
sua polarização simplificada torna-se urna realidade horrível, brutal,
inverosímil, a única verdade existente.

Neste fundo cinematográfico, Charles Manson, apesar de ou precisamente


devi-do à crueldade irracional que se associa ao seu nome, é para a sua
«família» a visão cada vez mais perfeita de pai, herói e mártir. As raparigas e
rapazes, assassinos sem consciência nem restrições, são o iproduto de um
mundo que pretende a salvação e que pela ruína da sua vida familiar e
concepções erradas de valores ainda sente a paródia familiar do clã Manson
com compaixão e as suas maquinações como legítimas. Até mesmo um
indivíduo tão mau e sem interesse como Charles Man&Qn consegue levar as
consciências boas a praticar actos de uma violência inacreditável, arrastando
tanto honiens corno mulheres.

Na caricatura do excepcional acentuam-se exageradamente as


características do habitual. Apesar de todos os esforços para não se ver nem
pensar, dificilmente sepodem ignorar as muitas anãlogras com o comando à
distância e uma brutalidade permitida e
AGRESSIVIDADE 63

indiscriminada em nome de um objectivo encontrado ou a encontrar.


Também são portanto de julgar os que julgam. Enquanto não vivermos de
facto -num mundo em que os Mansons não possam ser tomados como heróis
ou mártires por ninguém por um momento que seja, eles devem ser
-estigmatizados como satãs, como perigosos, pérfidos e detestáveis diabos,
mas, por amor de Deus, nunca como pobres diabos!
DUNCAN: Uma assassina da sociedade

Urn só voto não tem qualquer influência nas eleições nacionais. Se, de facto, a
maior parte de todos os cidadã os, com base nesta teoria egoísta e racional, fossem
passear em vez de votar, o acontecimento eleitoral e o próprio processo
democrático tornar-se-iam essencialmente falsos, sem valor e irracionais.

Quando a polícia detémclois cúmplices implicados num crime, mantém-nos sob


prisão e interroga-os em separado. No caso de confessarem os dois, podem contar
com uma pena moderada; se forem ambos a negar, escapam com uma pena leve,
rnas se é apenas um que confessa é posto em liberdade (pela lei anglo-saxóni-ca)
como testemunha de acusação. O outro, obstinado em não confessar, recebe apena
máxima. Com base no cálculo matemático das probabilidades, pode-se comprovar
que os cúmplices se saem melhor quando confiam um no outro, ainda que sem
acordo expresso e quando um deles não tenta conseguir o maior número de
vantagens a seu favor sem consideração pelo outro. Neste caso a racionalidade é
evidentemente amoral se apenas a definirmos no pia-no de vantagem para o
criminoso. Na vida real a irracionalidade do autor do delito é muitas vezes a melhor
ajuda para descoberta de crimes que, caso contrário, mediante utilização de uma
imoralidade racional, ficariam ocultos.

No caso do estranho assassínio de Santa Barbara, o criminoso cadastrado Gus


Baldonado, de 26 anos, ficou tão irritado com a injusta acusação de extorsão feita
contra ele pela Sr.@ Elizabeth Dancan que tudo se lhe tornou indiferente, até
mesmo o próprio destino. Metido na prisão por tentativa de extorsão, contou urna
história fantástica às autoridades. Afirmou que, juntamente com o seu cúmplice,
Luís Moja, um jovem de 21 anos, ladrão e escroque igualmente com longo cadastro
e também de origem mexicana, tinha morto e enterrado imediatamente, em 17 de
64 AGRESSIVIDADE

Novembro de 1958, a nora da Sr.@ Duncan, em obediência a ordens desta última.


A mãe Duncan-em parte com conheciniento de testemunhas -contratara os dois
rapazes mexicanos para, mediante pagamento de 6000 dólares, a livrarem da nora,
a quem odiava e Ve estava grávida de sete meses do seu filho, um advogado.
Limitara-se porém a pagar 175 dólares da quantia combinada e estava a tentar
desembaraçar-se dos dois insistentes credores median.te uma queixa de extorsão, o
que fizera com que os dois mexicanos fossem presos.

A bonita esposa do advogado, que contava trinta anos e era uma estiniada e hábil
enfermeira de Vancôver (Canadá), desaparecera -há semanas sem deixar rasto.
Duas das suas amigas, enfermeiras também, ainda a tinham visitado na noite de 17
de Novembro de 1958 e comunicado o desaparecimento, dado que no dia seguinte
Olga Duncan, sempre extraordinariamente pontual, não comparecera no trabalho
nem atendera o telefone. A princípio pôs-se a hipótese do suicídio. Devido às suas
difíceis relações com a sogra, a jovem, nos últimos tempos, parecia
bastantedeprimída. O marido, a quem imediatamente informaram do que se
passava, confirmou conflitos conjugais ocasiona-dos por discussões contínuas -entre
a -mulher e a mãe; dizia ter sempre tomado, o partido da mulher, mas não mostrara
energia suficiente ante a mãe, de quem também gostava e por razões de ordem
pro,@issional que o detinham em Los Angeles tinha de deixar muitas vezes a
mulher sozinha na sua casa comum em Santa Barbara.

Passara um mês desde o misterioso desaparecimento da jovem e as autoridades


não tinham ainda conseguido descobrir qualquer pista de interesse. Fosse como
fosse nem sombra de suspeita pairava sobre a mãe Duncan, cujo papel só mais
tarde se analisou pormenorizadamente quando as declarações de BaldonadG, a
princípio postas em dúvida, foram confirmadas pela descoberta no local indicado do
cadáver de Olga Duncan, já em decomposição. Só -nessa altura se descobriram na
verdade factos surpreendentes em relação à mãe Duncan, que ocupava uma
posição conceituada na vida social das elegantes termas de Santa Barbara! Há
dezenas -de anos que Elizabeth Duncan vivia em Santa Barbara, onde em 7 de
Novembro de 1928 dera à luz o seu filho Frank, que amava acima de tudo e que
mais tarde se viria a tor-

nar um advogado famoso que fizera carreira rapidamente. Nunca se pôde apurar a
data de nascimento da mãe. As suas próprias
AGRESSIVIDADE 65

informações oscilavam entre os anos 1900 e 1913. Elizabeth Duncan, que foi
considerada pelos psiquiatras do tribunal corno mentirosa patológica, dizia ter-se
casado antes de vir para Santa Barbara de 11 a 20 vezes (algumas delas com várias
pessoas ao mesmo tempo). Contradizia-se com frequência e já não se recordava dos
factos com precisão. Esta respeitável senhora recebia os seus re-ndimentos como
interveniente em negócios de prédios. Desde que vivia em Santa Barbara -estivera
sempre sozinha. Sem quaisquer outros recursos além dos que granjeava com o seu
próprio esforço, proporcionara a melhor -e mais dispendiosa educação ao filho ama-
do; tinha por ele um orgulho superior a tudo, desejava mas não podia afastar-se
dele, admirava a sua forma de conduzir os processos no tribunal e durante muito
tempo soube impedir que ele tivesse relações íntimas com mulheres. Um ano e
meio antes do assassínio surgira uma grave discussão entre mãe e filho por causa
de uma transacção comercial. A mãe sentiu-se tão ofendida que castigou o seu filho
«Frankie» (que ao que se diz partilhou a mesma cama com ela) tentando suicidar-se
com narcóticos. No hospital foi tratada pela enfermeira Olga Kupczky, que teve
assim oportunidade de travar conhecimento com Frank. Casaram pouco tempo
depois, apesar dos protestos violentos da convalescente Elizabeth Duncan. Levada
pela idolatria que nutria pelofilho, não conhecia o significado da palavra «barreira»
quando se tratava de tudo o que com ele se relacionasse. A princíPio tentou evitar o
casamento por todos os meios; ameaçou Olga pessoalmente e pelo telefo-ne,
insultou-a e tornou-se sua inimiga declarada. Frank casara com Olga secretamente,
mas não ousava confessá-lo à mãe, a cuja casa regressava obedientemente todas
as noites. Em breve, porém, a astuta e enérgica mãe se encontrava na posse do
segredo. A sogra reforçou a sua campanha de ameaças mediante inúmeros
telefonemas e visitas à nora, sem que o filho a conseguisse impedir. Olga fugiu;
num período de poucas semanas mudou de casa quatro vezes, manteve secreto o
número do telefone, mas acabava sempre por ser descoberta pela sogra. O
advogado, usualmente tão hábil e enérgico, oscilava desamparadamente entre as
duas mulheres. Tentou conciliá-las, pediu-lhes calma, zangou-se e discutiu com a
mãe, mas, no entanto, apesar de todo o amor que dizia ter pela mulher, que
entretanto ficara grávida, abandonou-a ao seu destino.

A mãe Duncan espalhara o boato de que Olga não era casada com o filho e
esperava uma criança de outro homem. Foi mesmo
66 AGRESSIVIDADE

mais além na sua farsa e @hegou ao ponto de conseguir que Ralph Winterstein-um
criminoso defendido em tempos pelo filho -se fizesse passar por Frank Duncan no
tribunal e a sua melhor amiga, a Sr.@ Short, por tia de Olga. Com base em falsas
declarações de testemunhas e identidades forjadas, a mãe Duncan conseguiu de
facto a anulação do casamento do filho. Só alguns meses mais tarde é que Frank
descobriu que alguém requerera em seu nome a anulação do casamento no
tribunal. Quando quis esclarecer o assunto com a mã e, esta afirmou-lhe ter agido
apenas no interesse dele, uma vez que Olga não o merecia e a devia deixar. Frank
recusou indignado separar-se, dada a gravidez da mulher, -mas não foi porém capaz
de cortar relações por completo com a mãe. Continuou a não a tomar totalmente a
sério, via as razões da sua atitude à luz de um excessivo amor maternal e esperou
confiadamente que mais tarde ou mais cedo ela viria a reconciliar-se com a nora
que detestava.

Enquanto isso, porém, a mãe Duncan não ficara inactiva e tentou todos os meios
para contratar assassinos pagos que matassem a nora. Com a ajuda da sua amiga,
a Sna Short, que era conceituada dona de uma pensão e já desempenhara com
êxito no tribunal o papel de falsa tia para a anulação do casamento, a Sr.a Duncan
entrou primeiramente em contacto com uma criada de nome Barbara Reed. A Sr a
Duncan contou-lhe que Olga a ameaçava continuamente e fazia chantagem com
ela, que era uma mulher indigna do filho e a quem, portanto, convinha a todo o
custo eliminar. De acordo com um plano estudado em todos os pormenores, a Sr.a
Reed deveria atingir Olga com ácido, depois do que a mãe Duncan a anestesiaria
com clorofórmio.
O plano prosseguia com um «passeio» de automóvel que terminava numa queda
para o mar do alto duma falésia. Prometeu 500 dólares à Sr.a Reed pela sua ajuda.
Esta pediu-lhe um prazo para pensar; ainda nesse mesmo dia os escrúpulos
sentidos levaram-na a entrar em contacto com Frank Duncan. Contou-lhe a oferta
que a mãe lhe fizera. Mais uma vez o advogado foi falar indignado com a mãe, mas
deixou-se convencer facilmente por ela de que a Sr.” Reed inventara toda a história.

Mediante intervenção da sua amiga dona da pensão, a Sr.” Dun.can fez uma
proposta idêntica a um dos marinheiros, que a primeira conhecia de passagem, mas
ele não pareceu tomá-Ia muito a sério. Recorreu em seguida a Ralph Winterstein, o
antigo cliente do filho, que se fizera passar pelo advogado Dun-
AGRESSIVIDADE 67

can quando do processo da anulação, Winterstein não quis de de modo


algum aceitai@ as propostas da mãe Duncan, mas também não a quis
denunciar, pois receava meter-se em dificuldades. A Sr.a Duncan recorreu
seguidamente à Sna Diana Romero, esposa de um cliente do filho. A princípio
a Sr.a Romero mostrou-se inclinada a aceitar oplano Duncan; comprou luvas
bra-ncas para não deixar impressões digitais e dois pacotes de ácido, mas no
último momento desistiu porque se recordou de que Olga a tratara há alguns
anos atrás. A Sr.a Duncan tentou então tu.do para convencer o -marido da
Sr.a Romero a entrar no plano. Este, porém, nã o se mostrou particularmente
interessado apesar da elevada recompensa. Então a incansável Sr.a ShoTt
PrOPOTCiOnGu-lhe o conhecimento com a Sr.a Diaz, a dona da casa dos Romero,
que se mostrou inteiramente de acordo com o plano do assassínio, mas que
pediu algum tempopara procurar entre os seus conhecimentos alguém que
estivesse disposto a executar o crime.

Já nada menos do que oito pessoas estranhas conheciam nessa altura os


pormenores dos intentos assassinos da Sr.a Duncan, entre outras a Sr-a
Franklin e evidentemente a irrepreensível Sr.a Short, que devotamente se
dedicara a procurar um assassino e presenciara inúmeras negociações.

Quando da posterior inve@tigação do crime foi assegura-da uma total


isenção de pena à Sr.a Short, como compensação pela sua completa
franqueza. Declarou ter agi-do sob completo domínio da Sr.” Duncan, que
aliá s nunca a tinha ameaçado ou obrigado p@Ia força a fazer fosse o que
fosse. A Sr.a Short dissera-se impressionada ante o amor que a Sr.8 Duncan
votava ao filho e convencera-se de que a morte da nora redundaria no
interesse de todos. Por outro lado, o plano da Sr.” Duncan sempre lhe
parecera destinado a ficar apenas em imaginação. No banco das tes-

atemu.nhas a Sr. Short vangloriou~se de sempre se ter recusado a tomar


parte activa no assassínio da nora da Sr.a Duncan. Esta última sugeria-lhe
convi-dar Olga para ir a sua casa e estrangu-lá-Ia na altura do chá com uma
corda preparada para o efeito.
O cadáver deveria ser metido seguidamente, com a ajuda da Sr.& Duncan,
no espaçoso guardafato, onde ficaria até ser noite. Mais tarde seria lançado
ao oceano com uma pedra atada. A Sr.a Short recusara indignada; era-lhe
insuportável a ideia de esconder um cadáver no seu guarda-fato, sempre tão
arrumado.

Apesar de tudo isto auxiliaria a Sna Duncan a procurar um


68 AGRESSIVIDADE

a~i-no e acabou finalmente por encontrar uni contacto apropriado na pessoa da Sna
Esperanza Esquivel, uma mexicana em adiantado estado de tuberculose, dona de
uma taberna miserável e que emigrara ilegalmente, o que a fazia viver num terror
permanente de deportação. A Sr.” Duncan e o seu grupo de damas da alta
burguesia sabiam precisamente qual o grupo a contactar na procura de assassinos
dispostos a executar o seu plano. Nada pergunt@rani à toa, mas apenas dedicaram
atenção aos indivíduos cuja vida sabiam ser pouco limpa ou encontrarem-se numa
situação de degendência em relação ao advogado Duncan; tratava-se
essencialmente de chefes de pequenos grupos. (Santa Barbara não é unicamente
uma estância termal para milionários e artistas junto do oceano Pacífico, dotada de
bosques magníficos, relvados cercados de palmeiras, museus, o imponente edifício
em que se criou o Centro Hutchins «for the study of democratic institutions»; é
também habitada nalguns dos seus bairros por inúmeros mexicanos pobres e outros
agrupamentos miseráveis.) A Sr.a Esquivel era realmente a pessoa desejada.
Conhecia dois rapazes frequentadores da sua taberna e que não tinham trabalho.
Charnavam-se eles Baldonado e Moja. Proporcionou pois um encontro entre os dois
mexicanos, a Sr.’ Duncan e a Sr.a Short. Os -dois mexicanos, que tinham recebido
um pequeno adiantamento, arranjaram um automóvel de um amigo e uma pistola.
Esperaram em frente da casa da nora da Sr.” Duncan até as duas enfermeiras
amigas saírem, pouco antes da meia-noite; com o pretexto de lhe vireni trazer uni
recado do marido conseguiram que Olga lhes abrisse a porta, atordoaram-na com
repetidas pancadas na cabeça, aplicadas com a coronha da pistola, meteram-na no
carro e dirigiram-se para as montanhas. Olga, que nessa altura já recobrara os
sentidos, lutava com todas as forças para se defender. Os dois rapazes, que ao
aplicarem as fortespancadas tinham inutilizado a pistola, estrangularam a vítima,
que continuava a defender-se. Acabaram por enterrar Olga Duncan num sítio
escondido sem terem a certeza de ela estar realmente morta já nessa altura. Depois
de executarem o crime regressaram de manhã cedo cobertos de sangue,
trabalharam ainda durante todo esse dia para limparem as manchas de sangue do
automóvel, comunicaram à Sna Duncan o bom termo da sua missão e esperaram
pacientemente durante alguns dias pelo pagamento da ;soma estipulada. Só
quando a cobrança não correu como foi estabelecido e a Sr.a Duncan ainda acusou
de extorsão os executores
AGRESSIVIDADE 69

das suas ordens é que Baldonado, furioso com a sua atitude, confessou.

Elizabeth Duncan nunca confessou; não manifestou quaisquer remorsos ou pena.


Afinal tudo o que fizera tinha sido por amor do filho. As suas últimas palavras foram
para o filho, que debalde se esforçou para conseguir que o governador prorrogasse
a execução. A inevitável sentença de morte pareceu não afectar grandemente os
dois jovens: a seus olhos fizera-se justiça, uma vez que a sua hipócrita e impostora
cliente morria com eles. A Sr.a Duncan recusou qualquer intervenção psiquiátrica; o
seu comportamento, explicava-se pelo amor de mãee, portanto, ponto final!
(O.advogado de defesa em vão a tentou submeter a tratamento psiquiátrico por
membros da nossa clínica.) Os dois mexicanos não tinham justificação para os seus
actos. O padre Byron Eslielman, que exercia a sua profissão há mais de uma dezena
de anos nas celas de morte de San Quentin, conseguiu finalmente conquistar-lhes a
confiança. Na sua opinião os dois rapazes não eram piores do @que um sem-
número de outros jovens depravados entregues a si mesmos e pertencendo a uma
maioria desprezada pela sociedade. Não se tinham conseguido furtar às ordens
enérgicas de uma senhora distinta e nobre. Apenas se tinham tornado «dois bodes
expiatórios, arrastando o peso da culpabilidade de toda uma sociedade». Foram
estas as palavras do padre da prisão, pronunciadas na luxuosa, alegre e pacífica
Santa Barbara, nove anos antes da sentença Calley.

Em 8 de Agosto de 1962 o trio foi executado na câmara de gás de San Quentin. O


caso recebeu assim ponto final; os juízes, procuradores da República, advogados de
defesa e carrascos tinham cumprido o seu dever. O destino dos dois pT@o@uto5
típicos da subcultura do gueto e da prisão pouca compaixão despertou. A Sr.a
Duncan levara tão longe os seus cuidados de mãe que foi descrita como um caso
estranho e patológico e portanto facilmente esqueci-da. Não fora o desespero do
executor do crime, que desprezou o próprio instinto de conservação, e a assas sina,
frequentadora habitual das -mesas de brídege, nunca teria sido chamada à
responsabilidade. A confissão do miserável mexicano fora «inútil»: nuncalhe tinham
prometido isençã o de pena ou a sua redução. O que perdeu os culpados nada teve
a ver com dúvidas ou escrúpulos morais dos implicados no caso e que por preço
algum desejariam ver-se metidos em complicações. Nem sequer foram sentimentos
de culpabilidade pelo assassínio come-
70 AGRESSIVIDADE

tido, mas a raiva o que provocou a reacção impulsiva da confissão


imprudente e movimentou as máquinas da justiça, que, logo ap@s @
sentença ser pronunciada, voltarani.a parar. Quando os principaís culpados
foram eliminados, os muitos cúmplices -ver gonhosamente muitos-fizeram o
possível para que o acontecimento fosse rapidamente esquecido. É vedada
qualquer intervenção -em assuntos alheios; não ver, não ouvir, não pensar e
não sentir determinam, cada vez mais, a táctica limitada de uma
autoprotecção egoísta que crê ter o direito de se permitir descurar a
estratégia da moral, da razão e da solidariedade humana.

Muitos lamentaram o advogado Frank Duncan, que continua a exercer a sua


profissão. Perdeu as duas pessoas que mais amava: a mulher que esperava
um filho seu e a mãe. As honestas americanas amigas da Sr.,% Duncan
desapareceram de Santa Barbara e continuam provavelmente a sua vida
noutras pequenas cidades americanas, onde dividem o tempo entre clubes
de brídege e outras associações femininas; a sua vida nunca voltará a ser tão
emocionante como durante o episódio da mãe Duncan. Agora provavelmente
mostrar-se-ão revoltadas contra o monstro Manson e emocionar-se-ão com o
pobre Calley.
FANTASIA E REALIDADE

P
OUCA admiração poderá causar o facto de que os criminosos e os loucos, em
esp@cial os criminosos loucos, sejam estranhos, agressivos e violentos. São estas
mesmas características que os tornam criminosos e loucos. Podem-nos desper- ,tar
compaixão ou indignação, benevolência ou um desejo de -vingança, mas reportar-
nos-emos impreterivelmente a um plano superior. Quanto mais baixo eles descem
maior é a nossa certeza de -nos encontrarmos dentro da razão e da moral e mais
acreditamos na diferença fundamental que deles nos distingue. É-nos tanto mais
fácil negar e desconhecer a agressividade em nós existente quanto mais a
apercebemos nos outros de uma forma tão violenta e manifesta,

A moderna psicologia das profundidades expressa algumas .dúvidas relativas à


existência e conservação das barreiras que separam os sãos de espírito (nós) dos
doentes mentais (eles).
O afastamento da tradição e da autoridade abalou igualmente a crença de que os
loucos se encontrariam fechados para (nossa) segurança por detrás das paredes do
manicómio, ao passo que todas as outras pessoas em liberdade seriam «normais».
A justiça tem, aliás, de se agarrar a esta ilusão e considerar no seu per- feito juízo
to-do o que não é expressamente declarado como louco.

Sempre houve e haverá perturbações mentais. Tal com(> a desumanidade é uma


possibilidade e uma forma de expressão do ser humano, também a loucura é uma
possibilidade e forma de expressão do pensamento. Existem relações e pontos de
transição entre a humanidade e a desumanidade, entre os pensamentos normais e
a fantasia patológica, entre a sanidade mental e a loucura.
AGRESSIVIDADE

01ní,nios doespírito de todos os homens são povoados por iitos e fantasias


que ignorarn as leis da lógica, do tempo ealidade. A psica,nális@'designa
como id a esfera de tens e conflitos o-cultos e ocupa-se da dinâmica dos
fenómenos inconscientes, do carácter organizado dos processos primários e
da lógica do ilógico. Os mecanismos que permitem o conhecimento da
realidade e uma adaptação à mesma, bem como os processos secundários
do consciente e da razão (o ego), desenvolvem-se lenta e gradualmente e
numa proporção que varia de indivíduo para indivíduo. Todas as pessoas,
sem excepç@o’ são, porém, influenciadas e motivadas por fenórne-nos
inconscientes que sem-

pre o foTam ou assim se tornaram. As concepções de desejo ligadas ao


princípio do prazer podem ser levadas pela actuação do princípio de
realidade a uma renáncia parcial das suas exigências e a uma modificação
de objectivos; nunca deixarão, no, entanto, de exercer uma certa influência
no comportamento humano, que será tanto maior quanto menor for o
conhecimento da sua acção. A mensagem racional incluída na psicanálise
afirma que o primeiro passo para a cura é a tomada de consciência, o,
conhecimento e mais precisamente a introspecção.

Os processos conscientes representam apenas uma parte da vida psíquica,


que na totalidade se define pela influência e jogo recíprocos dos processos
primários e secundários, lógicos e ilógic,os, racionais e irracionais. O
inconsciente não se encontra numa posição exclusivamente antagónica em
relação ao consciente, mas também dialéctica. As barreiras erguidas pela
censura, a regressão e a.repressão dos impulsos impedem o acesso dos
impulsos inconscientes ao consciente e igualinente a sua realização. Por
outro lado, os processos primários só se podem manifestar sob formac pela
intervenção de fenómenos parcial ou integralmente conscientes. A razão é
dona e senhora, mas em determinadas circunstâncias é igualmente serva
obediente da irracional ida-de.

Os mecanismos do ego de repressão dos impulsos instintivos apenas


permitem, de acordo com as exigências da realidade e o /

O'ff e. Ia Iti o@c

5e

comando do, superego, o ingresso de uma pequena parte das tendências do


id na consciência ou mais precisamente na realização da acção. A maior
parte destas tendências é reprimida, negada, modificada ou camuflada de
qualquer outra forma; é também mantida no inconsciente onde se vê
rejeitada.

A racionalização é a justíficação, inconsciente de uma acção através da


substituição de um motivo verdadeiro e muitas vezes
AGRESSIVIDADE 73

incompreensível que a determina por um motivo confessável, quer dizer,


compreensível. Se este fenómeno for efectuado conscientemente deixa de se
chamar racionalização para ser referido como mentira. O processo de
racionalização comporta sempre uma percentagem -de razão. Da mesma
forma que a justiça aparente se torna necessária para a justificação da
injustiça, também não se pode dar uma feição racional a um desejo sem
recorrer à razão. A racionalização não é pura e simplesmente falsa, mas
apenas unilateral, parcial e sim@plÍficada. De entre a multiplicidade
existente de razões e motivos (esta multiplicidade de motivos e impulsos que
conduzem a uma determinada acção -recebem em psicanálise a designação
de superdeterminação ou multideterminação), a racionalização detém os que
mais se adaptam à estrutura da personalidade, aos conceitos de valor e à
realidade social do indivíduo; estes últimos, que são os únicos com acesso à
consciência, são, na verdade, percepcionados como as únicas motivações
existentes Todas as tormas de autojustifica-

justi ção, tudo o que tende a criaT uma aparencia de ça e de


racionalidade, provêm da -racionalização. Dado o seu carácter
eliminatório e a selecção que opera entre o conjunto das nossas inotivações
em benefício das únicas confessáveis, a racionalização Tevela-se
essencialmente corno uma fonte de ilusões para os outros e para a própria
pessoa. A ideologia está para a colectividade .como a racionalização para o
indivíduo: tal como se encontra a razão na racionalização, também se
observa a presença de ideias na ideologia. A racionalização é uma ideologia
individual; a ideologia é uma racionalização colectiva.

As racionalizações e as ideologias são basicamente inconscientes e


subtraem~se à análise e contrôle do consciente. A tentativa de as tornar
conscientes e de as interpretar, de sacudir padrões rígidos ou anular a sua
acção repressiva encontra uma resistência que por seu lado se serve
naturalmente de um processo racional e ideológico, quer dizer, sabe apenas
apresentar os motivos estritamente confessáveis, ainda que não
correspondam à rea- lidade, para justificar a sua persistência.

A descoherta do poder do inconsciente consolida a desconfiança justificada


contra as cama-das superficiais do psíquico, que simultaneamente reflectem
e ocultam as profundezas do espírito humano. As motivações inconscientes
podem, na verdade, representar a expressão ou dissimulação das
motivações inconscientes. Até mesmo a completa honestidade e
franquezapodem não repro-
74 AGRESSIVIDADE

duzir conscientemente processos que por definição, uma vez que são
inconscientes, devem ficar ocultos. As interpretações que se baseiam -nas
formas de expressão de tendências inconscientes desconhecidas e ocultas
não podem esperar uma confirmação imediata do indivíduo a que se
referem. É este o paradoxo da psicologia das profundidades, cujos doentes
«são os únicos clientes que nunca têm razão». A exactidão e verdade de unia
relação significativa afirmada pela interpretação não se vêem imediatamente
prova-das nem desrilentidas pelo assentimento ou recusa que provocam. É
inteiramente possível que sejam na realidade a exactidão e a verdade da
interpretação as causadoras da resistência e da recusa. Não se
pode,portanto, ter confiança na razão ou na sinceridade. Este facto, uma vez
reconhecido, presta-se mais do que qualquer outro à manipulação, estratégia
do poder e arbitrariedade. Até mesmo só a possibilidade de acusação de
perturbação mental e a hipótes@ -totalmente contrária à psicologia, mas
psicologicamente muito eficaz -da existência de motivações inconscientes
nos outros (semprenos outros) bastam para se depreciar os argumentos do
opositor e votar as suas opiniões à troça e ao desprezo. A recusa de uma
teoria basta portanto para provar a sua exactidão aos olhos do que a
formula; este apenas precisa por sua vez de se convencer que o que a recusa
- tal como o doente mental -nega a sua adesão por motivos inconscientes e
por conseguinte para ele inteiramente desconhecidos. Com base nas suas
interpretações, que encontram na forSa a legitimação dos seus objectivos, os
governantes podem criticar uma falta de objectividade, se bem q e a pessoa
desta forma não seja tornada culpada de qualquer t ição subjectiva e nem
sequer tenha consciência ao ponto de ustificar e racionalizar todas as ilusões
sensoriais e as mais primitivas deturpações da realidade, que a seus olhos se
encontram assim legitimadas. Ninguém acredita mais fanática e
sinceramente na própria razão e justiça do que o doente mental; é
precisairiente na obstinação da sua crença que reside a perturbação do seu
espírito.

u rã i

No âmbito das alucinações sente vozes imaginárias e imagens invisíveis que


adquirem carácter de percepções exteriores: Ninguém mais as ouve ou vê.
Este facto, no entanto, apenas vai servir ao louco de consolidação da sua
ideia de personalidade de eleição. É ele o único que tem acesso especial aos
aspectos ocultos da realidade; os outros não querem ver nem ouvir; estão
aliados contra ele e empregam os seus sorrisos compassivos e sérios esfor-
AGRESSIVIDADE 75

ços para o convencerem da inexactidão e insanidade das suas percepções;


demonstram apenas estar a urdir uma conjura contra ele e que
evidentemente negam.

As representações perturbadas que lhe surgem não implicam


necessariamente a presença de alucinações. Devem-se à projecção exterior
de percepções interiores, q@e assim se encontram confundidas com a
realidade. Os acontecimentos podem ser percebidos como se apresentam na
realidade, mas depois são interpretados -de tal forma que apoiam e
consolidam a distorção causada pela loucura. O encontro casual com um
conhecido é apercebido como uma tentativa de ataque há muito planeada; a
amabilidade que lhe testemunha o criado, com toda a certeza ,es'pião, é um
método particularmente refinado de extorquir informações e a indiferença do
-transeunte um sinal de inimizade ou uma táctica para iludir a sua vigilância;
a sua mente perturbada assume que depois todos falani e riem poT detrás das
suas costas e urdem conspirações para a sua ruína. A realidade do mundo,
tal como é, não o pode convencer. O único mundo em que acredita é o seu
mundo de loucura.

O seu mundo distorcido é em primeiro lugar vincadamente privado, idiossincrásico, apenas


acessível à sua alienação. O mundo que o rodeia acabará, porém, por reagir às suas
alucinações; as pessoas rirá(> e farão comentários em relação aos seus olhares desconfiados
de revés, às suas expressões bizarras e explosões absurdas de cólera. As pessoas passam
realmente a rir e a falar nas suas costas e forjam planos (de como o ajudar ou como dele se
proteger), que tomam cuidado em dissimular. O paranóico tem agora razão para se sentir
plenamente justificado, porque a sua paranóia actuou sobre a realidade e transformou-a. Os
seus vaticínios de conspiração aconteceram realinente e a sua desconfiança produziu a
situação que, a princípio, não passava de imaginação absurda. Quando o delírio não só
justifica as suas representações da realidade, mas também se mostra capaz de a transformar
de acordo com as suas tendências próprias, desaparecem todas as fronteiras entre a loucura
e a realidade, o facto e a sua representação. .

A nossa suposição de que o inimigo que garante a nossa disciplina interior é agressivo,
violento, mau, astuto, traidor e per@ verso parece normal (patriótica e conveniente) por já
estar tão divulgada. Corresponde no entanto a uma projecção espontânea ou dirigida, à
exteríorização de tensões e conflitos internos que
76 AGRESSIVIDADE

quando atingem um determinado gra@i @e intensidade se tornam


«paran'icos». Muitos são, aliás, de opinião que perante o mundo como ele é
na realidade de modo algum poderíamos ser suficientemente paranóicos
para podermos perceber os perigos reais a tempo e deles nos defendermos.
Pois não existem afinal verdadeiros criminosos e doentes mentais perigosos,
bem como conspirações secretas de comunistas e capitalis@as, de
estudantes e da Mafia, de movimentos sionistas e terroristas fascistas?

Torna-se difícil fazer a distinção entre a realidade e a aluci-nação quando o


poder faz desta última uma realidade. Foi a paranóia de Estaline quando a
julgar-se permanentemente rodeado de inimigos que o levou a causar todas
as mortes «muito reais». Foi da idrença nazi quanto à suspeita de uma
conspiração internacional dos judeus que nasceu o 111 Reich, e muitos
outros exemplos se poderiam citar para demonstrar o carácter alucinante
que pode ser capaz de apagar a -realidade palpável.

john Frazier está convencido de que é necessário assassinar cinco pessoas


totalmente desconhecidas e inocentes, a fim de chamar as ateriç5es
relativamente ao perigo da poluição do ambiente. Consideramo-lo louco
porque não seríamos capazes de seguir a sua linha de pensamento. Manson
considera-se corno o salvador do mundo -e não tem até a certeza se não
será Jesus Cristo. Também Nash na sua condição de megalómano descobre
analogias entre si e Jesus. Uma vez que dificilmente poderíamos encontrar
uma relação entre a grotesca violência dos seus actos e esta sua afirmação,
consideramos os dois casos característicos de perturbaçã o mental. O
suicídio de Mishima parece-nos tão ,extremista, que !não podemos evitar
sérias dúvidas quanto ao seu equilíbrio mental.

Heydrich era também um doente mental? E Hitler, e o estado-maior alemão,


e Estaline, Beria e as dezenas de milhares de russos e alemães que foram
seus auxiliares, são loucos também? Os descrentes e cépticos serã o os
únicos com sanidade mental? Os guerrilheiros, os tupamaros, Castro, Che
Guevara, Mão Tsé-Tung, Ho Chi Minh, Franco, Papadopoulos, Nixon, serão
também loucos?

Os seus inimigos descrevem-nos como feras, cães furiosos e psicopatas. São


tarribém loucos todos os que neles acreditam e cumprem as suas,ordc-ns? E
se não o são, porque seguem então os loucos?

A violência é contagiosa. É em si a desordem que pretende


AGRESSIVIDADE 77

curar. Não é só o seu sucesso que atrai, fascina e incita à imitação e ao


respeito. É precisamente porque a violê ncia é a forma bruta, desenfreada e
impudica de agressividade que obtém um êxito tão retumbante. É tomada a
sério porque não admite brincadeiras; porque escarnece de todas as regras
de jogo sociais é admirada como a única certa e verdadeira; porque não se
envergonha -do seu primítivismo é adorada como inocente e pura. É o apelo
à violência que, pelo efeito que produz sobre o mundo, o transforma de
modo a que ele mesmo a pratique. O homem ou o sistema de violência
convencem através da sua autoconvicção.
O carácter extremista do seu delírio reúne as tendências paranóicas isoladas,
que, quando tal acontece, se reforçam mutuamente. Dada a sua aparente
boa fé, autenticidade e -radical independência, o apelo à violência provoca
um entusiasmo que pode conduzir às lutas mais encarniçadas. A violência da
loucura começa por fabricar um mundo deformado que imagina
seguidamente ter necessidade dessa loucura chamada violência.

OS critérios que presidem necessariamente à definição de doenças mentais e


de criminosos são de riatureza social e cultural. Não se pode imaginar a
existência de uma cultura em que as formas mais extremas de perturbação
mental não sejam -reconhecidas corno doenças, dadas as incapacidades
funcionais a elas inerentes. Muitas perturbações, porém, nem sempre são
visíveis através de deficiências funcionais. Casos extremos de
irracÃonalidade podem ocuItaT@se eficazmente por detrás de uma fachada
aparentemente racional. Por outro Ia-do, nem sempre uma excepção à regra
dos valores médios tem carácter patológico. Caso contrário, o gênio seria
louco devido a tudo o que o diferencia da maioria, o mesmo acontecendo ao
não comunista numa sociedade comunista, ao comunista numa sociedade
democrata e aos fascistas nas duas.

Ainda não existe um métodotão imparcial, .neutro, -racional e científico que


se encontre isento de uma utilização, e por vezes uma má utilização, para
determinadas finalidades. A psicologia tornar-se-á fatalmente um
instrumento de difamação e de desvalorização se se considerar a loucura e a
írracionalidade corno sua fonte ú nica de interesses. Na medida em que só se
faz apelo à psicologia (e à psiquia-tria) apenas e só quando todas as
tentativas de explicação pelos sistemas usuais se esgotam, o -resultado só
poderá redundar na transformação da um parecer pré-estabelecido num
diagnóstico psiquiátrico. Hitler, Mussolini, Esta-
78 AGRE S SI VIDA DE

line, Castro, Nasser e Mao Tsé-Tung são seguramente loucos, visto não se
terem cingido às nossas craveiras e imagens racionais.

Assiste-se assim à cxPloração da psicologia para fins polémicos, ideológicos e


agressivos e conversão obstinada e inexplicável dos adversários em sistemas
psicopatológicos. A paranóia, a esquizofrenia, a histeri.a e actos de violência
são diagnósticos de fácil aplicação aO OPOsItOr qUe se defende ao servir-se
dos mesmos ou de diagnósticos semelhantes tornados insultos. A nossa
moderna fábrica de imagens ao Serviço da nossa necessidade de inimigo
criou a caricatura do HOmo psychologicus e do Satã louco, cuja loucura é a
primeira c última razão da sua maldade, perfídia, esperteza e perigo. A
descoberta de doença nos outros pressupoe-por opbsição-a afirmação de
uma sanidade pessoal; a atitudede fazer do adversário um psicopata é o
meio mais seguro de urna colocação pessoal ao abrigo de toda a
interpretação psicológica.

A psicologia granjeia a possibilidade de se tornar o depreciado, escarnecido e


diabólico adversário em algué m para nãO se tomar a sério ou em alguém
que é preciso neutralizar.

As personalidades <autoritárias, os reaccionários e polícias sofrem da


cegueira da autoridade, Devem ser, portanto, esclarecidos, se necessário,
com o emprego da força. Os estudantes revoltam-se devido a um complexo
de Édipo não solucionado. O seu protesto é infantil, neu@rótico ou uma
reacção psicótica contra a figura do pai. Deveriam, se necessário, ser trata-
dos pela força. Os pilotos árabes, que são loucos, porque as pessoas normais
de forma alguma procederiam tão brutal e impiedosamente, devem ser
levados à força a UM psiquiatra e se possível a um psiquiatra sionista?... Em
nome da sua própria defesa, a sociedade sente o direito e o dever
deneutralizar ou de se encarregar de dominar os elementos marginais que,
ao a_fastarem-se das normas estabelecidas, afectem as suas leis escritas ou
não escritas.

A atitude da sociedade para o criminoso a que atribui más intenções ou


agressividade é determinada por considerações ditadas por um desejo de
villgança, de contra-ataque e da sua segurança. Este facto é urna verdade,
se bem que estas medidas de castigo e segurança sc destinem
simultaneamente a corrigir, reformar e racionalizar o criminoso. No caso do
pretenso louco, a necessidade de cura adquire, pelo menos aparentemente,
relevância de primeiro plano, O facto de o privarem dos seus direitos e da
sua liberdade, o que é interpretado pelo doente como
AGRESSIVIDADE 79

uma medida primitiva, é apenas uma consequência secundária do auxílio


que se lhe presta.

Se -não existissem criminosos e loucos (e existem), haveria que os inventar,


a fim de que oferecessem um objecto legítimo aos impulsos agressivos da
colectividade. Como bodes expiatórios e «malhadeiros» da sociedade
desempenham a importante função social de desviarem tendências
agressivas que teriam de ser reprimi-das, se não se pudessem libertar
através deste escape representado pelo recurso à força e ao poder de
castigar. Uma vez que a colectividade, além do monopólio do poder, se vê na
posse do monopólio -da legitimidade, a definição de doentes mentais é,
senão simples, pelo menos incontestada. A situação só se torna difícil na
medida em que existem poderes independentes e portanto sistemas de
legitimidade opostos; uma decisão no interior de cada grupo não produz
assim qualquer eleito. Os polícias não se deixam esclarecer, a nova vaga de
cabelos compridos não quer ser analisada por psicólogos, Nixon, Castro e
Habash não consultam o psiquiatra. Cada um recusa o papel que o sistema
lhes quer atribuir, o que só serve para convencer os incluídos no sistema de
que estes perturbadores merecem realmente o papel que desempenham. .
Os psiquiatras são muitas vezes acusados de tratarem com simpatia os
infractores e criminosos, mas não as vítimas inocentes dos seus crimes. No
seu desejo de quererem compreender são considerados como capazes de
perdoar ou, o que é pior, consolidar nos delinquentes reduzidos à qualidade
de do-entes a opinião de que não há nada a perdoar nem nenhum castigo a
aplicar; a culpa pertence ao inconsciente ou à sociedade e não ao acusado.
Tal teoria convém plenamente aos senhores criminosos; dentro des-ta visão
e com um pouco de dificuldade, acabaria por se encontrar sempre uma
explicação para tudo e também um motivo por que se tornava necessário,
depois de se ter sido vítima destes fora-da-lei, assumir urna atitude de
compreensão e estar à sua disposição. A fraqueza excessiva que se liga à
faculdade de compreensão não é o sentimento popular que pensa provar a
sua sanidade mediante um afastamento dos que se encontram à margem da
lei e a sua sensibilidade ou falta de sentimento para com eles. Essa mesma
população, no entanto, que insiste no castigo quando a culpa pode ser
provada tem logicamente de renunciar à aplicação do castigo se não
existiTem culpas pessoais. Só determinadas formas de psicose, que são,
80 AGRESSIVIDADE

aliás, em número muito restrito e que não excluem a possibilidade de actos


perigosos por parte do doente, o inibem de toda a culpabilidade, porque ele
não pode lutar contra elas da mesma maneira que não poderia impedir a
febre provocada por urna inflamação nos pulmões. A existência, se bem que
pouco frequente, da possibilidade (na Califórnia, menos de 4 % de. casos) de
que um acusado, mediante pare@eres.p@iquiátricos, seja subtraído ao justo
castigo torna o psiquiatra inimigo daquela ordem que se esforça por manter.

A psiquiatria de modo algum segue fielmente as regras e critérios que lhe


são prescritos pelas autoridades, juízes e legisIa-dares, mas tenta
meramente interpretá-los e aplicá-los a casos concretos. Acontece muitas
vezes, no entanto, que o psiquiatra se vê obrigado a adjudicar a etiqueta de
doen@a ao delinquente. Consegue assim o direito a tratamento, que priva a
sociedade do direito de castigar. É por isso que o exercício da função do
psiquiatra é considerado, por e ante o tribunal, como suspeito ou pelo menos
supérfluo. Quanto mais detestado é o acusado mais alto soa o grito de
represália e de vingança. O momento em que a lei deixa de reconhecer à
sociedade o direito de punir é precisamente aqi@ele em que este direito não
lhe deve ser retirado. Nash foi precisamente condenado à morte e executado
não apesar de, mas porque o júri estava convencido de que ele era um do-
ente mental incurável.

Com Manson deu-se um caso diferente. A princípio foi-lhe permitido actuar


como seu próprio advogado de defesa. Oito semanas depois, que de facto
foram suficientes para lhe proporcionar um contacto com Susan Atkins, que
já confessara o crime cometido, e levá-la a retirar essa confissão feita, foi
privado desse direito e nomeou-se um advogado oficial. A sua sanidade
mental e espiritual nunca foi, no entanto, posta em questão ou investigada. A
quem convinha aliás o exame psiquiátrico? Nada fazia estremecer mais o
Ministério Público do que a ideia de furtar Manson ao justo castigo mediante
diagnóstico ou suspeita de perturbação mental. Ao espírito do juiz também
aparentemente não ocorreu a ideia, ta.ntopelas estranhas declarações de
Manson como pelos actos praticados, da possibilidade de uma perturbação
mental. O que existe assim tão de a-normal na ordem de uma carnificina em
massa e no sacrifício de inocentes com vista a urdir um combate entre as
raças? O juiz deveria obrigatoriamente ter ordenado um exame psiquiátrico
se, em qualquer
ACRESSIV1DADE 81

momento, tivesse duvidado da sanidade do comportamento de Manson. Ele porém


não duvidou e tão pouco o público. Evitou-se a intervenção da -psiquiatria e pela
psiquiatria.

Existem, de facto, formas de intervenção totalmente diversas da psiquiatria judicial


e prisional. Sob a etiqueta do termo «tratamentG» -podem ser efectuados castigos
mais sádicos do qu@ sob o termo represália. As penitenciárias ascendem à
categoria de centros de tratamento e exige-se aos detidos não só uma impecável
subordinação, mas também repetição de confissões e protestos da sua necessidade
de -tratamento psicológico; dá-se um certo conforto às celas gradeadas para
poderem ser utilizadas mais tempo como -lugar de detenção preventiva. Tanto na
Europa como na América as pessoas que são consideradas perigosas para os outros
e para si mesmas vêem-se assim, sob pretexto de tratamento, privadas da sua
dignidade humana dentro ou para lá do tempo fixado pela justiça. Na Rússia todos
os rebeldes indesejáveis, que não se pode nem se quer julgar por pTeocupação da
Op o pública, são enviados para centros de TCCI1PCração e de re cação. Correm
boatos de que outros regimes totalitários se terão já inspirado nesta brilhante
técnica administrativa. Tudo se processa de acordo com o clássico sistema de
justificação: os atingidos por estas medidas consíderam-nas como castigo, se bem
que tenham, na verdade, como fim o bem deles. Uma vez, porém, que não o
querem compreender, continuam atomar-se medidas. Entra-se num círculo vicioso.
A vítima não dispõe de qualquer recurso, dado que as autoridades que apTeciam a
oportunidade oferecida pelas medidas terapêuticas e controlam a sua aplicação são
as mesmas que as ordenam e as consideram necessárias. A psiquiatria, que é em
princípio uma ciência crítica, serve de máscara à opressão de que é escrava e abafa
todas as críticas com o protesto de que não priva os detidos da sua liberdade
exterior senão para os levar a obter uma liberdade e esclarecimento interiores.

Quando do processo contra Sirhan Sirhan, o assassino de Robert Kennedy, os


psiquiatras de defesa e de acusação vieram emitir de forma erudita, disciplinada e
cada um por sua vez, os seus juízos contraditórios, que variavam de acordo com a
pessoa para quem trabalhavam. O espectáculo oferecido não era sublime nem de
fácil dedução. Se um psiquiatra, depois do exame ao acusado, não estivesse
disposto a depor no, interesse do seu cliente não -teria muito simplesmente sido
chamado a fazê-lo.
82 AGRESSIVIDADE

A essência do processo penal articricano assenta na suposição de que a


comparação de pontos de vista opostos, por mais extremos e falsificadores
que possam ser, cria as condições mais favoráveis à verdade: tal como a
Fénix da fábula, acaba por ressurgir das cinzas da mentira e do exagero.

No caso do tenente Calley, o herói de My Lai, como foi chamado, a defesa


pretende demonstrar mediante diagnóstico psiquiátrico o que até então
nunca se tinha tentado em processos de criminosos de guerra alemães. A
necessidade de obediência deve representar urna limitação da consciência
psiquiatricamente definível, um estado psíquico que exclui as hipóteses de
insubordinação e consequentertiente toda a responsabilidade pessoa.I. Como
seria de esperar, os,psiquia

so@ tras da acusação consideraram o tenente Calley como não endo de


qualquer perturbação mental e portanto com(> totalmente responsável. .

Poderiam apresentar-se inúrneros exemplos representativos da vergonhosa


degradação de uiiia ciência que se quer pura e pretende demonstrar a sua
neutralidade, mostrando-se igualmente utilizável para os que o pretendem.
Fala-se cada vez mais do pretenso perigo de uma PS'cocratia-o domínio da
sociedade através de métodos psiquiátricos ou psicológicos; o verdadeiro
perigo reside, no entanto, ua tentativa contrária e muitas vezes bem
sucedida da utilização da neutralidade para satisfação de interesses de
forma alguma ricutros.

Um juiz revoltado ante o comportamento agressivo de uni condenado


ordenou urna vez ante um tribunal alemão que fosse feito o exame do
culpado. Este prestou-se de boa vontade, na condição de que o juiz se
submetesse ao mesmo exame. Era, na verdade, um pedido incongruente,
provavelmente formulado numa base de insolência e de provocação; nele se
manifesta algo de uma reivindicação de igualdade em que tanto a justiça
corno a ciência se apDiarn. Espera-se que ambas sejam desinteressadas,
neutras e imparciais. Só assim poderão reivindicar crédito e autoridade. A
ciência que coloca a sua neutralidade ao serviço de um poder ou de um
partido não se torna unicamente auxilíar, mas também cúmplice da
maquinaç@o. Assume a responsabilidade principal, uma vez que permite aos
interesses que representa dissimularem-se sob a capa do desinteresse. Não
há tirania mais injusta e injustificada do que aquela que faz ostentação da
justiça para assegurar o triunfo das suas ambições e lhes dar uma aparência
de legitimidade.
8. AGRESSIVIDADE O

É indubitável que se tornam necessárias certa coragem e decisão para se


estudar sistematicamente o fenómeno da agressão. Significa um
oferecimento voluntário a que a nossa própria agressão seja criticada. A
identificação dos autores com os assuntos de que. tratam fornece à psicologia
vulgar os exemplos de que necessita na sua preocupação de idealização e
difamação dos outros para se furtar a ter de explicar e analisar as suas próprias
motivações. O critico é censurado pela sua inadaptação pessoal e o investigador de
assuntos sexuais por um mórbido interesse em relação à sexualidade. Talvez seja
por esse motivo que tanto se apreciam os temas referentes a esperança,
naturalidade, espontaneidade e amor.

Ao velho conceito de interpretação do mundo veio juntar-se um novo princípio-o


mundo como ideia, ser vivo, fórmula matemática ou teatro; hoje em dia as nações e
as pessoas normais comportam-se como se “sem loucos. A realidade está perto da
ideia do mundo como um gigantesco manicómio. Quer se trate do mundo ilusório da
imaginação, da realidade, da arte ou política, a situação extrema da loucura
aparece- ligada à condiçã o natural do homem. Este facto consolida a autoridade do
psiq"iatra relativamente a proferir pareceres sobre fenómenos sociais e objectivos
q@e a sociedade almeja. A sua familiaridade com anomalias psíquicas faz ascender
o especialista de perturbações mentais, mediante acentuação e alargamento da sua
autoridade, à categoria de perito e crítico da cultura e civilização, uma vez que esta
cultura e civilização apresentam sintomas que se prestam a confusão quando
comparados com os de perturbações mentais.

Uma sociedade não é, no entanto, um macrocosmo comparável ao ser biológico e


como ele equipado com os mesmos instintos e processos de desenvolvimento. Se
bem que a interpreta- @o da realidade colectiva segundo o padrão de
solidariedade .gânica.(em oposição. a uma sociedade apenas «mecânica») seja o
mito a que mais frequentemente se recorre quando se trata de justificar o
constrangimento colectivo, a colectividade não sofre, não fica doente nem é tratada
da mesma forma que o indivíduo. Tal não impede aliás que possa provocar o
sofrimento humano e possa reflectir a doença e loucura indívíduais ou colectivas.

A regularidade e monotonia que presidem ao desenvolvi-


84 AGRESSIVIDADE

mento e utilização, em circunstâncias diferentes, dos mesmos mecanismos


psíquicos representam um fenómeno psicológico especialmente digno de
estudo. A camuflagem.e justificação existentes em cada um, relativamente à
sua própria agressão, são

causa e consequência da descoberta da agressão nos outros.


O ciclo demoníaco que se processa da violência ‘ justificação da violência
forma-se e encerra-se sob a necessidade de carácter essencialmente
psicológico. A psicologia pode (mediante recurso a outras ciências) analisar e
ao fazê-lo quebrar esse ciclo em benefício de outras possibilidades.
O CICLO DA AGRESSÃO

agressão como esta tendência, esta energia inerente ao homem que


EFINimos
originariamente s.e manifesta pela actividade e posteriormente sob as mais
diversas formas individuais e colectivas socialmente aprendidas e difundidas,
desde a simples afirmação pessoal à violência.

A violência não é idêntica à agressão; é a expressão manifesta, «viva» e


principalmente física da agressão.

As primeiras manifestações agressivas expressam-se p?r intermédio do


sistema muscular; a actividade de cada um é inerente ao prazer relacionado
com a função. A criança sente os estímulos de prazer como parte de si
mesma e transfere para o mundo exterior todas as suas acções desprovidas
de prazer. A transferência inconsciente de conflitos internos para o exterior
designa-se como exteTiorização ou projecção. O fenómeno contrário, ou seja
a absorção de fenómenos externos pelo interior, chama-se interiorização ou
ÍntroJecç@ào.

A criança tem tendência a reagir agressivamente ante frustrações exteriores,


inclusive as que representam a pr?jecção das suas angústias e tensões
interiores. Tenta assim suprimir e destruir a fonte de frustração e de
insatisfação.

O contrôle infantil da agessão processa-se através das representações e


prescrições do meio em que vivelprimeiro pela imitação mímica e depois
pelo medo ao castigo ou perda de amor em.relação ao@ gue o rodeia. A
educação, independentemente dos meios que utiliza, consiste em fazer
compreender à criança que só em determinadas circunstâncias pode
expressar e manifestar

a sua agressividade. O contrôle da agressão, absolutamente imposto -e


necessariamente forçado pelas regras de educação e . de
86 AGRESSIVIDADE

cultura da pessoa, efectua-se de duas formas. interior e exteriormente. O


comportamento da criança na sua fase de crescimento de-pressa deixa de
ser meramente determinado pelo receio do castigo ou falta de carinho, A
criança identificou-se tão completamente com os antigos educadores que
interiorizou as suas exígências e conceitos de valor. F«ormou-se em si uma
instância (uma estratifícação do ego, uma consciência) que toma à sua conta
as funções de censura e jugo até aí exercidas pelo ambiente. A pressão
original do exterior é substituída pela interíor. Graças à sua capacidade de
aprendizagem e aptidão simbólica, a criança é, logo de início, integrada nas
estruturas da organização social. As instituições existentes, que com o seu
poder natural e inevitabilidade se impõem à criança, oferecem-lhe facilidade
de participação nos seus privilégios e possíbilídades, desde que cam elas se
submeta às. suas regras e conceitos. Na instância interior que é a
consciência existia já urna percentagem de agressão livre; o cumprimento
das reW-as fixadas pela sociedade, a obediência às regras do, jogo, quer se
trate de lingua, tradições ou hábitos, transformam agora pela segunda vez a
agressão livre em agressão subjugada às instituições. A agressão desaparece
e dissímula-se por detrás das instituições e nelas se flissolve, Fica submetida
à previsão e regras, circunscrita, domi~ I)a,da, dirigída num determinado
sentido. É agora uma agressão latente, controlada e domesticada.

Ao observar e cz@nalízar a agressão livre, que é para o individuo origem de


angústia, a socialização proporciona-lhe a libertação do medo e urna
obrígatoriedade de dever. A ritualização, Social força os impulsos individuais
agressivos a uma acção conitinta que reflecte a existência cultural da
comunidade e perrflite que os indivíduos libertos de sentimento de
culpabilidade se revelem como representantes cumpridores da sociedade a
que Pertencem. A ritualízação torna-se assim irrevogável mediante Ic,ciPToca
identificação dos interesses gerais e índividuais e Rarante o desenvolvimento
de uma identidade “terior e índePQ,ridente (Eríkson). O ideal reside em que o
resultado da sociali@@aÇão seja tão estereotipado como o individual; a
individualidade alcança-se mediante uma ititeríorização. A liberdade resulta

Pressão e está acinia dela. A repressão dos instintos da agressão, livre e


desenfreada é Compensada, pelo menos parcialmente. através da permissão
‘d@> direito à agressão dado pelas instituições. As organizações
AGRESSIVIDADE 87

internas e externas não se limitam a exigir a repressão dos instintos, mas


outorgam igualmente a satisfação dos instintos e a expressão dos mesmos
em seu nome, desde que estejam de acordo com as regras estabelecidas. A
agressão, que é permitida, exigida e legitimada pelas instituições internas e
externas de estruturação e funcionamento agressivo, já não é sentida e
aplicada como tal. Oculta-se sob a sua justificação agressiva e aparece então
sob um rótulo falso, sob bandeiras como autodefesa, legítima defesa e
defesa de objectivos elevados.

Este o motivo por que toda a atitude, por mais agressiva e violenta
que,possa ser, nunca éconsiderada nem entendida como tal desde que
este3a em conformidade com as instituições, as razões de Estado, as
tradições e a voz da consciência.

Os indivíduos e os grupos somente podem suportar urna certa quantidade


de. agr@ssão livre sem risco da pr'pria vida. Servindo-se da sua imaginação
e capacidade criadora têrn de criar instituições que interceptem, absorvam,
regulem e dirijam a agressão livre dentro de certos limites. Todas as
instituições, e as «boas» também, são desde o princípio e na sua essência
praticamente agressivas muito antes talvez de se tornarem agressivas na
prática. As regras institucionais são o único método de contrôle colectivo da
agressão que possibilita a vida em comum;’ quer voluntário ou imposto, este
contrôle responde pela protecção e segurança e garante a prevenção e
continuidade. As instituições são as garantias estáveis e estabilizadoras de
uma disciplina continuada, a agressão que lhes é inerente tem urna fun~ ção
de. fortalecimento e de apoio. O contrôle da agressão, que nos animais é
feito pela repressão dos instintos, é feito no homem @por intermédio da
razão ou mais exactamente pelas instituições baseadas nessa mesma razão,
O ritual de formação de grupos resume-se a um conjupto de compromissos,
laços e vínculos com um significativo sentimento de identidade e é por esse
meio que o homem se diferencia dos animais e adquire um carácter de
particularidade. As criações humanas individuais dos grupos com uma
mesma origem, língua ou história comportam-se como entidades à parte.
São as pseudoespécies (Erikson) que desde sempre se sentem predestinadas
às mais elevadas finalidades, se entrincheiTam contra os outros por detrás
de preconceitos e os qualificam de estranhos à espécie e opositoTes em
relação às verdadeiras aspirações humanas. A identificação e integração em
tais grupos confere o sentimento de felicidade superindi-
88 AGRESSIVIDADE

vidual sublime sob a aura da abnegação. O desaparecimento ou a decadência do


ritual produz não só uma indiferença mas igualmente uni vácuo a que está inerente
o perigo de explosão, de uma agressão livre de peias. @k agressão colectiva
regulada. por instituições subordina o indivíduo isolado, organiza-o e exige-lhe em
nome do colectivo todos os actos e crimes que lhe proíbe para sua satisfação
pessoal. São as próprias instituições que tornam manifesta a agressão que nelas se
conserva latente e controlada. O potencial de agressão do indivíduo, que estava
consideravelmente controlado pela sociedade, vê-se agora socialmente organizado
e em parte igualmente liberto, mobilizado e justificado por essa mesma sociedade.

Os princí@ios que servem para legitiniar o poder, e são a longo prazo


imprescindíveis para a sua conservaçã o, acabam por entrar em conflito com as
reivindicações do poder da organização. Os indivíduos emancipados com a ajuda da
organizaçac, e que levam a sério as. justificações e promessas institucionais
descobrem a discrep^ncia entre a praxe do poder institucional, que s.e fundamenta
na força, e os princípios por ela proclamados nos quais se apoia. Em breve de nada
serve a afirmação de que esta discrepância é apenas o resultado de um lento
desenvolvimento necessário, que diminuirá pela aproximação da justiça prometida;
nem mesmo resulta a referência a outros sistemas, em que ainda é maior o abismo
entre a praxe e a promessa, entre o facto e a retórica. O con.traste entre poder e
princípios é concebido como malquerença internacional; a tentativa de o ocultar é
denunciada como hipocrisia. Os que estão sob contrôle interpretam a agressão
contida na organização, e até aí considerada fidedigna,, legítima e desconhecida,
repentinamente como obrigação, perigo, ameaça e mesmo violência. Esta tomada
de consciência fá-los fugir ao contrôle e liberta a sua própria agressão contra a
organização.

A consciência individual, que, cunhada pelas instituições, as servia porque por elas
sc sabia legitiniada e utilizava as mesmas legitimações frente ao eu, dirige-se então
desiludida e revoltada contra essas mesmas instituições. As reivindicações
individuais, que até aí eram dissimuladas, reprimidas e ocultas em nome, a favor e
com a ajuda das instituições, voltam-se agora indignadamente contra a hipocrisia
das mesmas. De acordo com este novo esquema de legitimação, a consciência
individual (ou
AGRESSIVIDADE 89

muito mais frequentemente uma nova instância colectiva) torna-se fonte de


legitimação, Toda a agressão, inclusive a violência, reveste-se da consciência de
-ama nova legitimação, de um novo conceito de honestidade e de uma melhor
moral, em oposição às velhas e malditas instituições. Em breve, -porém, é
novamente inserida, controlada -e ritualizada por meio, de novas organizações. A
revolta contra as intituições vê-se por seu turno necessitada de uma organização e
-reivindica a mesma ou ainda uma mais cega obediência do que a instituição
recusada, que fizera surgir a@insuTrCição.
Hoje em dia encontramo-nos nesta mesma situação de crise. As antigas tradições
e instituições perderam a sua aceitação precisamente devido à emancipação que
elas mesmas introduziram e utilizaram para sua legitimação.

As primeiras causas e os últimos objectivos identificaram-se durante muito tempo


com instâncias sobre-humanas; a violência mais aviltante era justificada por uni
ideal. O conceito do ser divino, a sabedoria da escolha e a conservação das
tradições eram simultaneamente a razão e o fim e constituíam as fontes inabaláveis
de legitimação. Tudo seprocessou de acordo com a ordem humana enquanto esta
pareceu regulada por um conjunto de causas, finalidades e justificações sobre-
humanas e a autoridade Teguladora da -razão e legitimação permaneceu
essencialmente (e misteriosamente) diferente -do que legitímava. Log? que a
humanidade se tornou capaz.de subjugar a natureza, inventar e controlar os mais
diversos sistemas r vencer a necessidade e a pobreza perdeu, devido à sua
emancipação, a ingénua mas firme consciência dos seus objectivos e direitos de
existência. A tradição e a crença to-rnaram-se discutíveis; os rochedos inabaláveis
Ida Igreja, Estado, Família e Moral começaram a oscilar. Tudo o que era absoluto
tornou-se relativo, -tudo o que era inabalável adquiriu mobilidade, porque o homem
acabou por se descobrir finalm,ente a si mesmo como im"tante criador e
planificador, centro de força e legitimação e símultaneamente como ser
potencialmente emancipado, íntegro e responsável.

A pretensão louca e audaciosa de que a -realidade-e o homem também-se pode


modificar infinitamente pertence, em presença dos factos, ao reino das fábulas e
ficção científica. Igualmente insustentável e irresponsável é a concepção, que
afirma a total fraqueza do homem e se iguala a um álibi há muito comprovado como
falso. O homem exerce urna permanente influên-
90 AGRESSIVIDADE

Cia no Inundo que o rodeia, Da sociedade e suas instituições, na consciência,


no seu consciente e na sua pró pria natureza; tal não corresponde a uma
possibilidade utópica ou a uma profecia, mas é um tacto que corresponde à
realidade pelo menos desde que o homem foi expulso do paraíso terrestre.

O actual estado de desenvolvimento da técnica e da ciência ,permite, e até


mesmo implica, a nova tomada de consciência dos antigos factos que
deveria levar ao aumento da dimensão da acção e responsabilidade
humanas. Hoje em dia torna-se impossível ignorar que os homens não são
apenas sujeitos, mas obj@ctos da História, e que, diferentemente dos
animais, não têm unicamente de se sujeitar ao seu nicho ecológico, mas
podem também escolher e formar o seu ambiente, deixando de ser válida a
antiga desculpa de que não somos responsáveis pelo nosso destino e
história, pela nossa sociedade, ambiente e por nós mesmos. Não somos,
porém, seres com igual responsabílídade, Com o fundamento de quetambém
eles obedecem à força inevitável da necessidade, os que detêm o poder e
influência de

exercer uma acção eficaz conseguem privar os outros da sua liberdade de


acção sob ipretexto, de lha conceder. É evidentemente impossível prever
todas as consequências do comportamento humano a longo prazo (na
maioria das vezes nem sequer a curto prazo); este facto devería
precisamente encorajar um planeainento e um contrÔle críticos em cada um
e não justificar a passividade e uma confiança cega nas autoridades
superiores.

A honestidade e integridade pessoais são hoje em dia tão importantes (e


raras) corno sempre o foram, só que agora não conseguem por si fazer
justiça às reinvindicações modernas de acção e de responsabilidade. Desde
que se aprendeu a camuflar a ordem sob a capa da obediência a elevados
fins, à tradição e à ideologia, a obediência só ipor si já não chega para servir
de critério a uma acção responsável. A substituir o imperativo categórico da
moral encontra-se muitas vezes a expressão categórica de uma ordem que
justifica a imoralidade e obriga à adesão interior do que a recebe.

Nem mesmo se pode ter confiança na voz da consciência; também ela


reflecte e oculta o poder e a força que foram os padrinhos do seu
desenvolvimento. Não pretendemos com uma tal apreciação reduzir ou
tornar relativa a significação da consciência e da moral, mas apenas insistir
na necessidade de uma consciência rnais elaborada e de uma moral mais
rica que se
AGRESSIVIDADE 91

tornem conscientes das condições em que se processam a sua origem e


desenvolvimento. Esses mesmos «reflexos moTais» que adq@iirimos e a que
nos habituámos, urna vez que nos forçaram e orientaram nesse sentido,
revelani-nos com uma rapidez instintiva e um intenso poder de convicção
que nós, numa generalidade, não somos agressivos ou apenas o somos
quando se torna necessário ou justificável, mas sempre com as melhores
intenções, em defesa própria ou ao serviço dos mais elevados objectivos. Os
outros (o indivíduo, o grupo, a nação), que consideramos «Verdadeiramente
agressivos», são igualmente instruídos pelos seus reflexos morais. Vêem em
nós tudo o que vemos neles e, principalmente, a ameaça, o perigo e a
agressão que -tornam inevitáveis as medidas de contra-ataque. O expediente
mais eficaz do Diabo foi sempre o de fazer acreditar que não existia ou que,
se existia, era sempre nos outros e nunca em nós.

Os -povos colonizados libertam-se violentamente do jugo dos senhores


coloniais e, possuídos de uma indignação moral ante as mentiras, traição e
exploração, acusam-nos de urna opressão violenta ao longodos séculos.
Aplicando e modificando a violência liberta de todo e qualquer domínio, os
oprimidos sentem-se finalmente como indivíduos, como pessoas, livres de
um anonimato a que até então tinham estado condenados pornã o lhes ser
permitida a agressão.

Todos os oprimidos ou os que assim se consideram dão provãs da mesma


dinâmica. Embora a revolta dos guetos negros nos Estados Unidos fosse
sangrentamente abafada, o bem-estar psíquico dos negros insurrectos
recebeu um impulso enorme. Deixaram, de súbito, de se sentir como vítimas;
lembravam-se, com orgulho, de que eram capazes de contra-atacar. O
mundo ‘que os rodeava víu-se obrigado a tomá-los em consideração.
Emergiram do anonimato das massas sem rosto e sem nome para a
identidade histórica de um grupo capaz de chaniar a atenção sobre si e digno
dessa mesma atenção. Se bem que os objectivos da agressão não fossem
atingidos, a luta contribuiu para lhes dar um sentimento mais forte de
dignidade e orientar esta comuni~ dade que até aí permanecera mergulhada
na apatia e no anonimato no sentido de unia tomada de consciê ncia de si
mesma.

Para os judeus do mundo inteiro, igualmente a Guerra dos Seis Dias


contribuiu, no plano psicológico, no sentido de uni aumento considerável de
dignidade, que encontrou expressão no carácter particularmente agressivo
dos objectivos nacionais da
92 AGRESSIVIDADE

comunidade. Apesar da tradição secular da não aplicação da violência, o


batalhão vitorioso alcançou sem esforço o que diversos Prêmios Nobel não
conseguiram: a solidificação e, consolidação da identidade colectiva graças à
afirmação agressiva desta identidade, ao prestígio. monetário e à
demonstração de uma atitude de forç a.

O conceito ideologicamente falso e propagandista de que pela violêncianada


se modifica verdadeiramente contradiz tudo o que se pode coinbater à luz da
História, da psicologia e da política. A violência não só transforma a realidade
eficazmente, como também cunha em medida crescente as caina-das
profundas e superficiais da realidade. Mediante as técnicas da chamada
p@larização_há. apenas. aliados ou inimigos; quem não é por mim é contra
mim -cria-se a simplificação, uma das condições prévias da violência. Cada
decisão fiumar,@ assenta num processo de simplificação, uma polarização
que, tal corno na técnica dos nossos computadores, se adapta exactamente
a esquemas mecânícos. O mesmo princípio está igualmente implicado nos
nossos sistemas de justiça e educação. Nas situações importantes não
existem, frequentemente, outras alternativas que nã o sejam a inocência ou
a culpabilidade, a vitória ou a derrota. Esta afinidade da polarização com a
acção prática representa, precisamente,na sua eficaz simplificação, um
convite implícito e secreto à violência.

Da violência nasce a inquietação; a agressão faz-se acompanhar de indícios


peculiares. O desejo de atrair a atenção, de acentuar um estado de coisas
considera-do insuportável e injustificado desempenha um papel importante
nas marchas de protesto, violentas ou não, nos atentados terroristas, nos
desvios de aviões e pedidos de resgate. Também o japonês Míshima, que foi
candidato ao Prémic, Nobel, não pretendeu unicamente, através do suicídio,
que ele servisse de protesto, mas ao assumir o papel de vítima quis também
atrair as atenções para uma situação que lhe parecia intolerável.

A mesma posição é válida para os que, os tens ivamente, se transformam


em tochas vivas.

A violência, aplicada ao inundo exteTior, pode, tal como a agressão pessoal


do suicídio e da mutilação, representar um grito de socorro e urna expressão
de desespero. Quando se trata de
AGRESSIVIDADE 93

motins, rebeliões e revoltas, a agressão ameaçadora mas ainda latente ou a


violência casual ou planeada constituem um sinal de esperança; apenas os
parcía-Imente emancipados podem sacudir a apatia paralisante da docilidade
e provar ao mundo e a eles mesmos que já não tencionam suportar as
realidades até aí existentes.

A exteriorização da agressão, principalmente quando assume h forma, de


violência manifesta, tem uma função de escape. Èacilita a descarga afectiva
e favorece a catarse. Aplica-se pois desde sempre como tentativa de uma
nova orientação. Nos períodos de agitação, os detentores do pod5r desviam
a agressão latente ou explosivap@ra inimigo@ exteriores e através deles
encobrem os defeitos existentes no interior do seu próprio campo, que se
une e forma um bloco ante a ameaça exterior. O facto .explica que.a
proclamação do estado de emergência, a descoberta de um perigo ou de um
inimigo comum sejam de uma tão grande eficácia na manipulação destes
grupos, cuja agressividade poria.em perigo a coesão interna se a mesma não
encontTasse no inimigo uma alternativa e um escape,

A regressão e a recaída na violência verificam-se sempre que não existam


mais alternativas que (possam absorver os efeitos resultantes -dessa
violência. A violência constitui a ultima ratio, o último argumento, a que só
se faz apelo quando e porque mais na-da -resta. A violência, através da
simplificação e da polarização, cria aquela situação -em que se apresenta
como única saída possível.

Em todas estas funções e em muitas mais, a forma manifesta de agressão e


a violência podem perfeitamente constituir objecto de uma planificação
funcional, nacional (ou pelo menos considerada como tal) e, muitas vezes,
ser olha-da como um fim. O facto de se considerar exclusivamente a
violência (e até mesnio a agre---ssão) segundo o p@drão da perda de
contrÔle, explosão e sintoma patológico permite urna verdadeira
falsific@ção. Prejudica-se, assim, o meio de designar outras formas muito
mais perigosas -de agressão e de violência. Por detrás da agressão
sintomática oculta-se a estratégia da agressão. Até hoje, o ciclo da agressão
nunca foi descrito de forma sistemática. Parece-nos, pois, necessário resumir
uma vez mais o seu desenvolvimento. A agressão livre, que se expressa pela
força bruta e sem peias, ‘ a violência e está condicionada por instituiçõ es
interiores (consciência e carácter) e instituições exteriores (regras, normas,
grupos e orga-
94 AGRESSIVIDADE

nizações). Assim, é dírígída, controlada e intensificada por estes factores.


Transforma-se em agressão dissimulada, oculta e frequentes vezes
inconsciente, que apenas é mobilizada por circunstâncias bem determinadas
em nome da necessidade, do dever e da autodefesa; quer dizer, de um todo
superior que não necessita ser legitimado.

A agressão contida nas instituições resulta, pois, inicialmente, do processo


de ligação da agressão humana (biológica). O seu poder superior reside na
apropriação e colocação da violência individual numa posição de reserva; são
os indivíduos que, livremente ou a tal obrigados, renunciaram à utilização da
violência em benefício das instituições. O poder do todo é para o indívíduo
isolado, qualquer coisa de inacessível, quase inconcebível. Um simples acto
de consciência -não pode, s’ por si, reduzir imediatamente a violência
contida -nas instituições. Não se ousa enfrentar o todo «bem nos olhos», pois
se verifica imediatamente * desespero de não o poder transformar. Continua-
se, Portanto, * obedecer e a seguir cegamente, e cada um cumpre o seu
dever de acordo com os moldes impostos pelas instituições. O fanático faz
-do dever um instrumento de brutalidade impiedosa e inimiga da vida, o que
o pode levar mesmo à autodestruíção. O índiferente u-tíliza, pelo contrário, a
rotina do cumprimento do dever ao serviço de um Titual cuja monotonia não
é menos prejudicial ao homem. Se bem que a agressão institucional reprima
a agressão individual, na qual estabelece uma ligação, as instituições
legitimam, por outro lado, certas formas de agressão, sobretudo as que se
submetem às suas -exigências e servem os seus interesses. Libertam assim
a agressão ,que de outro modo estaria reprimída sob efeito da angústia e
consciência moral. A autonomia do ser humano, que engloba igualmente a
consciência e desenvolvíraento do seu potencial de agressão, é apenas
permitida em determinadas condições que negam esta autonomia.

A libertação do homern, quer dizer, o contrôle humano sobre as instituições


em vez do contrôle do homem pelas instituições, talvez possa começar por
uma libertação da agressão, mas só se poderá atingí-la se esta agressão se
encontrar estruturada e controlada: portanto, seexistirem novamente
organizações e instituiçõ,es. Estas são, por um lado, um produto e forma de
expressao da agressão colectiva e individual e, por outro lado, contribuem
para a moldar e canalizar graças à sua influência retroactiva. Somente o
reconhecimento dos disfarces e transformações da
AGRESSIVIDADE 95

agressãopossibilita a saída do homem do círculo víciosc, que perpetua a


eterna atribuição da responsabilidade dos homens à sociedade que criaram e
da sociedade aos homens que ela manipula.

Nem o equilíbrio interior nem a convivência humana são compatíveis com a


violência. Quer seja um sintoma ou uma estratégia, a violência arrasta, por
seu lado, o aparecimento e consolidação de autoridades destinadas a
controlar e a canalizar a agressão livre, a unificá-la e dirigi-Ia -num
determinado sentido. É este o ciclo da agressão.

O nosso -propósito não consiste em lamentar e censurar a espiral diabólica


do aumento de violência e brutalidade, mas sim em descrever e talvez
explicar de uma outra forma as condições que regem o pluTalismo, da agressão.
Esperamos, assim, descobrir em muitos fenómenos sociais e psicológicos da
realidade leis até aqui ignoradas ou a que não foi atribuído o devido valor.

A mitologia realça o que a experiência profana confirma. De forma sempre nova, os


velhos temas dramáticos são modificados, metamorfoscados, desempenhados e
ultrapassa-dos: Édipo e Sísifo, com as suas tentativas e fracassos sempre
renovados; Polícrates, cu@as vítimas os deuses desprezam e cuja perda provocam
por lhe invejarem a felicidade, e, finalmente, Prometeu, o ladrão criminoso e o
libertador heróico, o libertador através do crime.
AS TEORIAS

O estudo da agressão

s factores hereditários específicos, natos e genéticos, as

influências psicológicas -e culturais, as estruturas do sistema nervoso


principal, bem como as hormonas e os padrões sociais, constituem, na sua
reciprocidade e ínterligação, o fenómeno -denominado agressão. Para mencionar
apenas o caso inglês, foram publicados nestes últimos cinco anos seis mil livros
versando o tema da agressão e da violência, não incluindo as dezenas demilhares
de artigos inseridos em jornais e revistas. As opiniões sobre a agressão são quase
tão diversas como os autores que se dedicam a este tema: somente um número
limitado se atreve, no entanto, à elaboração da síntese dos diversos factores em
benefício de uma concepção global do fenómeno. A teoria mais popularizada
defende que não há necessidade de uma teoria para a descrição de fenômenos
agressivos.; não se consegue uma compreensão completa do todo, mediante a
observação isolada. O brilho das diversas partes des-lumbra, como se se tratasse de
-mosaicos, e impede a percepção da totalidade do fenómeno.

Dada a multiplicidade quase infinita das origens e dos efeitos da agressão, esta
possui um efeito vital para os âmbitos da investigação referentes à biologia,
genética, ciência comparada do comportamento, medicina, farmacologia, química,
psicologia, psj_ quiatria, sociologia, antropologia e, con"uentemente, a filosofia, a
teologia -moral, a política, a ciência das comunicações, pedagogia, etnologia,
religião e portanto quase todos os -ramos de investigação, ciências físicas, naturais
e do espírito. A restrição a apenas um ou a Aguns destes âmbitos, com exclusão ou
com uma menção ocasional dos outros, torna mais precisos os resultados
98 AGRESSIVIDADE

da investigação, mas pouca informação fornece no que se refere à


iruportância da totalidade do problema.

A investigação da agressão reflecte, assim, a confusão que pretende


esclarecer. A tentativa de uma análise dos resultados existentes demonstra,
acima de tudo, que a investigação suscita um interesse real que aumentou
quase inacreditavelmente nestes últimos tempos, mas também que os
conhecimentos obtidos são confusos, contraditórios e caóticos. Os ecléctícos
que se orgulham da sua independência não queirem aderir a qualquer
sistema particular; fazem uma escolha entre os diversos sistemas, sem
sistematização, sem fornecerem uma razão especial para essa escolha ou
eliminação e sem tentarem estruturar urna compreensão uniforme..A não
adesão a princípios estabelecidos e reconhecidos como essenciais, a recusa
de teorias por razões teó ricas -em nome da precisão quantitativa -dividem e
fragmentam o fenômeno total numa multiplicidade de elementos que são
válidos em si, mas que, longe de estabelecerem a relação que os une ao
conjunto, são a negação desta relação. A mesma ciência que sacrifica a
relevância do entendimento à precisão mensurável dos seus métodos
ocasiona os mitos populares que denuncia.

O bom senso humano é, pois, levado a pedir ajuda à inteligibilidade para


adiar o, fracasso, a tendência à inércia e à repetição. O conhecimento de
cada um -quer dizer, o que lhe pareceu plausível e o que aceitou -representa
o conhecimento em si, tantomais que se trata de um conhecimento relativo à
totalidade, à sua complexidade e ipossibilidade de transformação.

e em dia as mitologias têm, no entanto, de recorrer ao prepu091o da ciência


para serem dignas de crédito. É extremamente difícil, em particular no
domínio da agressão, dístinguir entre o conhecimento científico e a sua
lenda, a verificaç@Ó experimental da verdade e a sua utilização com
objectivos poléMicos, porque a necessidade de plausibilidade causa,
frequentemente, na demonstração, aquela simplificação e dramatização que
constituem uma deformação da realidade.

O homem, agressor instintívo

Basta consultar a História e olhar em volta para se tornar imediatamente claro que o
homem é um agressor instintivo. De acordo com a sua verdadeira essência é e
permaneceu uma fera
AGRESSIVIDADE 99

que, graça@ tanto à sua inteligência e poder criador como à falta dos
mecanismos de inibição existentes em todos os animais, se torna
particularmente perigosa e rápida. De acordo com esta teoria, -a violência e
a agressão são a verdadeira essência do homem, a sua caracterização
original, o instinto e princípio básico de toda a vida. Por detrás da fachada
pouco segura da civilização e através do verniz que lhe é dado pela cultura, o
homem esconde, por cobardia e comodidade, a sua verdadeira natureza
agressiva: a violência.

A agressividade natural do homem tem, pois, um carácter inato e


hereditário, uma realidade que nada poderia, portanto, modificar. A
investigação da agressão é recente, mas a agressão é antiga, tão antiga
como o homem. A tendência recentemente visível neste último para se
tornar ele próprio objecto de reflexão, para se dedicar ao estudo e domínio
dos seus instintos, não poderia modificar os instintos em si. Quem não
acredita na natureza bestial e inalterável do homem é demasiado comodista,
cobarde, ignorante, ou demasiado preso a esta moral de escravos que é a
moral da igualdade para reconhecer a única verdade natural e evidente:
sempre e em qualquer lugar o mais forte venceu o mais fraco. A lei da selva
é a lei da vida e a selvagem natureza humana só poderá ser domada
temporária e limitadamente. A explosão,dos instintos inergulhados nas
trevas é tanto mais de esperar quanto mais fortemente se encontram
reprimidose negados pelas fronteiras antinaturais que lhes são impostas. A
popularidade desta opinião, que os ‘jornais propagaram, dotando-a de um
cunho de convicção, é em si um fenõmeno digno de investigação.

Pretende-,se atribuir um importante valor de adaptação ao instinto de morte


do homem historicamente programado. A verificação inevitável da agressão
como adaptação à sobrevivência em breve se torna num elogio da agressão
e, simultaneamente, numa glorificação dos meios radicais da agressão que
constituem a sua forma mais pura: a violência.

Robert Ardrey defende a teoria de que não foi o homem quem descobriu as
armas, mas as armas que criaram o homem, quando a jovem espécie
humana triunfou do seu Concorrente, o Australopithecus afficanus. A
descoberta e aperfeiçoamento das armas e a sua utilização nunia luta contra
os opositores constituem mecanismos genéticos, programados de antemão.
Da mesma forma que a ave constrói o ninho, também o homem obedece a
100 AGRESSIVIDADE um imperativo territoríal. Devido a uma obrigatoriedade
biológi,ca natural existenteno seu ser, o homem luta pela posse, bem corno pelo
maior prestígio possível. A obtenção do respeito dos seus companheiros de raça,
que ele apenas pode conq@iistaT por luta violenta, é para si uma necessidade
fortemente instintiva. A violência rege o mundo. Foi ela que gerou o homem e lhe
concedeu a sua preponderância sobre os animais. O homem só pode sobreviver
através da violência. O perigo de morte que o ameaça consiste em (poder esquecer
este princípio natural e biológico para se deixar embalar pela ilusão da eliminação
da violência e

pela crença na possibilidade de aprendizagem e educação.

Nenhuma investigação comprovada da Pré-Hístóría indica que o bípede carnívoro


denomina-do Australopithecus africanus tenha vivido na mesma época que o Homo
sapiens. Este último não teve, pois, ocasião de o exterminar, e muito menos com
armas qu@ apenas inventou para se defender dos seus semelhantes ou aniquilá-los
e que utilizou, quase exclusivamente, para esse fim.

Desmond Morris profetiza que a nossa sociedade, cada vez mais monótona, verá
aumentar a necessidade de violência inerente à natureza biológica do homem. O
homem moderno, saturado de bem-estar, evadir-se-ia pela violência, de acordo com
esta ,teoria, da existência anónima destes zoos humanos que são as nossas
cidades, destas gaiolas que nós mesmos edificámos. A violêncía permitir-lhe-ia
afirmar-se e encontrar-se a ele mesmo.

F. Meyer distinguia seis espécies de agressão, obedecendo a diversas formas de


eclosão e biologicamente organizadas em ,determinadas partes do cérebro,
designadas como centros límbicos: a agressão depredadora, a agressão por
rivalidade, a agressão por medo, a agressão por irritabilidade, a agressão territorial
e a agressão maternal. Falta ainda acrescentar a agressão ínstrumental, pela qual
se reconhece que o comportamento agressivo é, também, um -comportamento
aprendido e que se revelará, provavelmente, em todas as situações que lembrem a
fase priraítiva de aprendizagem.

Graças à feliz combinação de um dom artístico relativo à percepção das formas e


relações, de uma exactidão científica e de um poder de descrição a que confere
feição literária, Konrad Lorenz tornou-se o pai da moderna ciência do
comportamento, na qual as suas descobertas exerceram influência decisiva.

No decurso de experiências particularmente inventivas, Lorenz demonstrou que,


quando submetido a estímulos apro-
AGRESSIVIDADE 101

priados e a objectos correspondentes, o comportamento instintivo revela-se


marcado (geprãgt) de forma definitiva e decisiva.

As experiências de sensibilização (Prãgungsexperimente) confirmam a ênfase


que na psicanálise se atribui à importância decisiva, se bem que
nãoexclusiva, das impressões e experiências precoces que influenciam a
forma como as impressões posteriores são filtradas, enriquecidas,
organizadas e assimiladas. Lorenz recusou o instintode morte freudiano
como uma hipótese inútil, e estranha à biologia, para afirmar, inversamente,
a função produtora do instinto de agressão e a sua utilidade para a
conservação da espécie. Sob o termo «agressão» englobou o instinto que
leva cada um a lutar contra os membros da sua própria espécie.

A.po@sibilidade de aprendizagem individual é assegurada pelos instintos que


fazem parte da herança da -espécie, mediante instruções programadas que
lhes são inerentes; esta possibilidade acontece quando se verifica uma fálta
ou unia falha no interior ,do centro informativo filogénico. A maleabilidade do
instinto é a condição que possibilita a aprendizagem individual. O homem
possui somente um pequeno número de programas herdados dentro de uma
absoluta rigidez e que respondem por reacções sempre semelhantes a
estímulos definidos. A plasticidade das suas reacções instintivas confere-lhe
uma capacidade de aprendizagem quase ilimitada (,mas de forma alguma
integral).

Segundo a teoria de Konrad Lorenz, os mecanismos de inibição que no


animal se traduzem por «comportamentos análogos à morab) são tão inatos
e instintivos como os impulsos inibidos por um vasto reportório de gestos de
-calma e submissão. A natureza é racion’al; utiliza o instinto de agressão do
animal sem permitir que o mesmo degenere. A agressão destruidora é uma
falha no funcionamento do instinto, mas não o próprio instinto, que, sob a
-etiqueta de um opretenso» negativismo, tem todo o gênero de utilidades:
aquisição e ritualização de hábitos, debates comba,tivos mas limitados que
modelam e conservam a hierarquia social, a formação de uma comunidade
de combate amigável dirigida contra o inimigo exterior e útil à conservação
da espécie.

Konrad Lorenz defende que as relações individualizadas, o «elo do amor


pessoab), nasceram da ritualizaçã o da ameaça e do ataque, que se vêem
orientados numa nova direcção. A amizade, o amor, a camaradagem e o
verdadeiro entusiasmo são sentimentos calorosos originários da união e
comunica@ão e que não existiriam sem a agressão. A tendência do
entusiasmo combativo con-
102 AGRESSIVIDADE

diciona largamente a organização social e política da humanidade. Esta não é


comb&tiva nem agressiva pelo facto de se encontrar dividida em partes que
se defrontam hostilmente; a sua estrutura deve-se, pelo contrário, à
possibilidade de desencadeamento da agressão social. «É esta a dupla face
do homem: é o único ser capaz de se consagrar aos mais elevados valores
morais e éticos, mas que tem necessidade, para atingir os seus fins, de um
mecanismo de comportamento filogenicamente adaptado: as características
animais deste -mecanismo contêm em si, no entanto, o risco de o levar a
matar o irmão, convencido de que ao fazê-lo age no interesse destes
mesmos valores. Ecce homo.»

Na sua «posição de optimismo» Konrad Lorenz depõe grandes esperanças


num alargamento da ritualização, num enfraquecimento dos conflitos
humanos e no e£lodir da agressão subordinada aos moldes do desporto,
concorrência pacífica, tal como se -verifica na conquista do. espaço, do
conhecimento pessoal e utilização a-política dos conhecimentos científicos e
do humor. Tal como aconteceu com Fretid, foi criticado por especulação e
fabulação, porque tudo o que provém da imaginação,.e ultrapassa as
fronteiras estabelecidas parece de antemão suspeito aos estudiosos do
conhecimento. O medo, quase pânico, de que se possa confundir o homem e
o animal faz com que se ponha em dúvida o direito de aplicar analogamente
ao homem as conclusõ es tiradas a partir do comportamento animal. O
conceito do instinto como modelo de comportamento inato, programa-do e
filogenicamente herdado, apenas poderia, ao que se diz, ser limitadamente
ou mesmo nada aplicável ao homem.

Os comportamentos humanos, particularmente os comportamentos


agressivos, não seriam determinados por estas condições instintivas, mas “
condições sociais e psicológicas. Não haveria no homem o instinto
especificado ligado a um enraizamento impulsivo de agressão como tal, mas
unicamente tendências agressivas adquiridas e provocadas sob o efeito da
frustração. Lorenz é continuamente acusado de desculpar e justificar a
agressão: a psicanálise, por seu lado, também não conseguiu eliminar
totalmente a suspeita de ter, senão inventado, pelo menos proposto como
modelo a imitação de diferentes formas de s-exuaIidade que descrevia pela
primeira vez. O facto de Lorenz afirmar que a agressão não é um
comportamento adquirido, mas uma realidade instintiva inata, não significa a
aceitação da imutabilidade e inevitabilidade dos efeitos destruidores da
agressão. Tenta, pelo con-
AGRESSIVIDADE 103

trário, descobrir a analogia com os processos evolutivos do rei-no animal, bem


como novas possibilidades de ritualização e de estruturação da agressão, ao mesmo
tempo que acentua o carácter específico do homem e o incita a usar mais larga e
criadoramente o seu humor e a razão. A continuidade de evolução, biológica que se
processa desde o animal até ao homem ou -para empregar uma linguagem mais
objectiva-à natureza animal do homem aparece imbuída de um cunho tão relevante
como a descontinuidade desta evolução, quer dizer, o facto de o homem ser
diferente do animal: melhor ou pior, digno de mais amor ou ódio, mas de qualquer
modo radicalmente diferente.

Este omotivopor que as analogias retiradas do reino animal, se bem.que


indispensáveis, são igualmente insuficientes e podem conduzir a erros perigosos
quando se lhes pretende atribuir uma feição de fonte única de -explicação. Toda a
conclusão analógica fundamenta-da na observação deveria ser acompanhada pelo,
reconhecimento explícito da não analogia resultante do carácter específico que
define a natureza humana.

Gloríficação da violêncía

Os partidários e defensores da violência podem ir buscar afinidades teóricas a uma


longa história e testemunhos ilustres. Georges Sorel, típico representante do
movimento antiliberal e antidemocrático originário de França e significativamente
em ligação com as obscuras maquinações do escândalo do Panamá e do caso
Dreyfus, afirma: (A violência existe desde o princípio -da vida e não precisa de
aprovação do direito e de ideais.»
O apelo à violência tem por fim agitar a burguesia, que, demasiado preocupada com
o seu conforto, se transforma numa classe degenerada pronta a comprometer-se
seja de que forma for. Sorel apregoa e deseja a violência para pôr fim ao
capitalismo bancário e a outras decadências e corrupções da burguesia; pers@gue e
inventa o mito. A força proletária ou se tomará vitoriosa mediante greve geral ou,
apelando por sua vez ao contra-ataque, fará vir à superfície as energias da
burguesia, que, em vez de p@Gcurar civilizar o proletariado uma vez mais, se
tornará consciente da sua missão e cumpri-la-á através da força. A violência,
segundo Sorel, representa a única função criadora da His~ tória. Para ele, que
reconhece a vitalidade irracional de Bergson.
104 AGRESSIVIDADE

comoreacção ao positivismo científico, a violência constitui a paixão suprema, a


energia mítica interior e o poder criador. Irracional por definição, é por esse mesmo
motivo autêntica e pura.

Karl Marx. ap@lidou a violência de parteira da nova sociedade e designou os


motivos sangrentos como uma necessidade por vezes indispensável de
-desenvolvimento, desde que sejam postos ao serviço do movimento racionalmente
determinávei da História.

Sendo a violência o indício e expressão de qualquer soberania, os anárquicos


(anarchea: ausência de domínio), que recusam todo o ipoder e soberania
apelidando-os de desumanos, são radicalmente desumanos, são radicalmente
contra a violência e praticam-na radicalmente. Protestam contra a violência e
utilizam-na de forma ilimitada em todos os lugares e sem escolhas. A teoria de
Bakunine, segundo a qual o prazer de destruiçã o poderia ser talvez igualmente um
desejo criador, pretende reivindicar o -direito de determinação do homem na sua
relação com a realida,de, mas perde simultaneamente esse direito pele, seu aipelo
a uma violência irracional que não tem outra justificação do que ela mesma e coloca
a política e o crime em planos idênticos.

Não se. poderia dizer mais a favor do statu quo. Uma vez que as anarquias explicam
todo o acto criminoso como feito político, torna-se fácil -paira o establishment punir
uma oposição política como crime. A provocação permanente não desmascara a
violência latente, obrigando-a a concretizar-se, mas desencadeia-a e m,obiliza-a. Ela
fornece-lhe umanova justificação, permitindo-lhe apresentar-se não só como atitude
legítima, mas como necessidade absoluta. A fuga à realidade é uma atitude
apolítica e antipolítica. Leva à troca das possibilidades realizáveis, que são
necessariamente de ordem política pela justificação da sua indignação. Cai assim
inesta violência e na cegueira que teoricamente condena, mas que, precisamente,
devido à radicalidade da sua (degíti,ma» indignação, IpratiZindiscriminadamente ao
mesmo tempo que as provoca e egiti por parte do adversário.

Wilfredo Pareto, nascido em Gênova no ano de 1848, declarou que o poder, o sinal
mais manifesto de superioridade, é o que define as élites. Todo o poder é alcançado
pela violência e conservado pela astúcia. A única forma. de organização natural
assenta nas diferenças e desigualdades e exclui as classes domina-
AGRESSIVIDADE 105

das de qualquer participação no poder; esta só existe nas promessas e


«derivações», (hoje denominadas racionalizações) falsas e enganadoras de
democracia. Cada modific@ção no regime não passa de substituição do
domínio de uma minoria pelo domínio de uma outra. É esta uma lei tanto da
vida biológica como da social e pode-se demonstrar -matematicamente.
(Pareto e Sorel eram engenheiros civis.) Os indivíduos ou grupos « com
cérebros destruídos pela praga de sentimentos humanitários» estão
destinados a morrer. A violência desempenha uma função positiva como
-reacção vital histórica que manifesta a capacidade de expansão e o pod@r
de sobrevivência da colectividade. A violência constitui o meio e a realidade
da História. «O direito das pessoas (dos regidos) tem o mesmo valor de um
pedaço de papel. Os poderosos fazem o que querem com ele.» Pareto
considera a violência como o clima natural da vida em sociedade. É alheia a
valores, uma vez que não necessita de valores nem de legitimação econstitui
em si um valor. Rege os homens ao mesmo tempo q@e os eleva acima dela
elhes permite exercer a sua vocação irracional, que está de acordo com o
mais íntimo da sua natureza.

No capítulo intitulado «Da guerra e dos guerreiros», que faz parte da obra
Assim Falou Zaratrusta., Nietzsche escreve: «Pro-

curam um inimigo? Façam uma guerra com o vosso pensamento... Dizem-me


que a boa causa é o que santifica a guerra? Eu afirmo que é a verdadeira
guerra que santifica todas as causas. A guerra e a audácia fizerammaiores
coisas do que o amor ao próximo... Um bom guerreiro gosta mais de ouvir
---Deves” do que “Eu quero”. Mesmo que prefiram fazer o que é melhor
cumpram as ordens recebidas... Levem uma vida de obediência e de guerra.
Que importa uma vida longa! Qual o gueTreiro que deseja ser poupado?»

J. P. Sartre elogia Franz Farion, que aprova sem hesitação todas as


atrocidades cometidas em nome da violência legítima contra os senhores
coloniais, e atesta que nem um sangue demasiado ardente nem uma infância
infeliz tinham conferido a Fanon uma predilecção especial pelo crime.
Interpreta a situação meramente como ela é na realidade. Para Fanon, «esta
violência descontrolada não representa um temporal absurdo nem o irromper
dos instintos selvagens nem sequer o resultado de qualquer ressentimento: é
o homem a reorganizar-se.»

Sartre acrescenta: «É preciso ficar aterrorizado ou tornar-se terrível, quer


dizer, abandonar-se aos processos de solução de uma
106 AGRESSIVIDADE

vida falsa ou conquistar a unidade original»... Sartre acredita na santificação


da violência pela violência. «Sim, a violência p?de, tal como a lança de
Aquiles, cicatrizar as feridas que produziu.»

Elogío da víolêncía «legítíma»

É inúmero o grupo de seguidores deste aspecto particular de violência - a sua , na


verdade a única ao serviço de uma causa superior. A literatura comunista, fascista,
da esquerda, da direita, revolucionária ou contra-revolucionária de todas as épocas
justifica a violência da sua própria causa em todas as línguas e dialectos mundiais,
glorifica-a e celebra-a como princípio de criação, como essência do homem e o
único meio de que dispõ e para desempenho da sua missão como auxiliar e
executante da História, liberdade, humanidade, justiça, bondade, -paz, igualdade e
fraternidade. A violência é designada como sinónimo de valentia, coragem, decisão,
força e virilidade. É celebrada como o único meio que o homem possui de alcançar a
verdade e autenticidade do seu ser, bem como o sentimento e afirmação de
identidade; é igualmente vista como bem de consumo, uma vez que permite
combater o tédio.

A defesa do espaço vital e a da s@grada integridade territorial apresenta-se como


argumento convincente para o que gosta de cães ou o que uti-liza o caminho de
ferro: o cão fiel afugenta de forma agressiva todo o intruso, tal como para os
ocupantes de uma carruagem de comboio cada recém-chegado é recebido como
acréscimo indesejável e repelido agressivamente. O intruso representa
primeiramente o exterior, mas depois torna-se igualmente parte do grupo e trata o
próximo passageiro da -mesma forma como foi tratado. Cada indivíduo e cada
cultura possuem o seu próprio espaço vital, que consideram sagrado, e a sua
invasão parece-lhes um atentado à sua independência e dignidade; a agressão que
é posta em movimento para a defesa deste território sagrado é elamesma sagrada e
santificadora. Vários animais possuem um duplo espaço vital: um, mais pequeno,
destinado ao ataque e defesa e outro, maior, que utilizam como espaço de fuga.

Também em muitos animais, porém, as necessidades do espaço vital estão


condicionadas ao treino e ao hábito. O cão bem adestrado defende o extenso
parque do seu dono com a mesma veemência que a pequena casota que constitui o
seu território.
AGRESSIVIDADE 107

O espaço vital dos animais domésticos e de grande parte dos selvagens


(quer dizer, aqueles que os homens mantêm selvagens dentro de certos
limites territoriais) depende das complexas leis sociais que regem as
concepções de propriedade entre os homens. Muitos consideram uma
carruagem de comboio cheia quando leva quatro pessoas, enquanto outros
se satisfazem quanto às suas exigências de integridade territorial com uma
lotação de oito pessoas. Os particularmente cor@plexos pretendem mesmo
evitar a ameaça de uma lotaçã o excessiva mediante comboios ou vagões
suplementares ou expulsão pela violência dos que chegam atrasados.

A delimitação do espaço vital encontra-se condicionada a regras de


propriedade arbitrárias que pretendem ser naturais. Onde termina pois o
meu território e onde começa a invasão do território alheio? Os Ingleses
defendem o seu direito de posse na fndia e Singapura, os Alemães o
seuespaço vital em Estalinegrado e Dünkirchen, os Franceses na Indochina e
no Norte de África e os Americanos no Sudoeste Asiático e na Europa. As
possessões espalhadas pelo mundo inteiro e pertencentes a milionários,
industriais e grandes potências são suas legitimamente. Têm o direito e até
mesmo o. dever da sua defesa. Os citados elementos têm igualmente o
direito de alargar o seu poder e pode este direito recorrer à autoridade do
imperativo territorial?

Sartre, Fanon, EldrigeCleaver, Che Guevara, Ho Chi Minh, Mão Tsé-Tung elogiam,
celebram e fazem um ritual da sua própria violência; apresentam-se como
instrumento de libertação, como fonte de união e de abnegação. O egoísmo das
suas ideologias, que nada tem de sagrado, santifica a violência como contra@
violência e celebra a destruição do homem como triunfo da humanidade.

Os apóstolos da violência afirmam que esta não passa para eles de um instrumento
destinado a instaurar uma melhoria da ordem, que desejam seja por que preço for-
este preço é precisamente o da violência. Cegos e fascinados pela atracção que
sobre eles exerce esse processo que glorificam, acabam por ver no meio um fim
absoluto, se bem que tal como os românticos e anarquistas sejam
«fundamentalmente conta ela».
108 AGRESSIVIDADE

Nícolau Maquiavei não sentia a paixão da violência, mas sabia no entanto


acordá-la nos outros e utilizá-la para os seus intentos. Não era um profeta
mas um tecnocrata do poder. Demonstrou que, embora as convicções
nasçam das palavras, não é necessário tomá-las à letra e que a lógica e a
razão apenas representam uma parcela relativamente pequena dos
acontecimentos políticos e sociais. Não pretendia glorificar a irracionalidade
da violência, mas podê-la usar racionalmente ao serviço do seu príncipe.

Maliatma Gandlii, violenta e tragicamente assassinado, pregava e utilizava as


armas da desobediência civil e do confronto pacífico. A Satyqgraha, de
Gandlii, relata a experiência purificadora do pacifismo, que pouco mal inflige
ao inimigo ou se limita mesmo à ameaça. A não utilização da violência
acentua a comunhão final de interesses dos dois parti-dos e mantém em
aberto a possibilidade -da sua evolução recíproca numa atitude de respeito
mútuo. Esta estratégia do pacifismo, que se apoia no respeito e consideração
mútuos, implica uma compreensão anterior dos adversários no sentido de
-evitar o emprego da violência, sejam quais forem as circunstâncias. - a
pressuposição de uma situação ainda não inteiramente polarizada em que o
adversário nunca é verdadeiramente destruído. É altamente discutível s.e o
princípio do pacifismo seria eficaz no caso da não existência de uma
personalidade dirigente carismática e acima de tudo quando o conflito não
tem logo de início feição «cavalheiresca». Um Estado totalitário não teria
suponado os sacrifícios voluntários de um Gandlii, nem os teria tornado
públicos. Nenhuma crónica fornece informações sobre a tentativa de
resistência infrutífera, que a violência impiedosa aniquila, abafa e reduz ao
silêncio.

O homem como experíência frustrada

Niko Tinbergen, o pioneiro da etologia, apelida o homem de assassino sem freio.


Quer ele dizer com esta afirmação que ao homem faltam os instintos natos inibitivos
que impedem os ani-mais de matar os da sua espécie. Pela razão e pelas regras que
lhe dão a possibilidade de viver em sociedade o homem deveria primeiramente criar
em si as inibições que o animal recebeu instintivamente. Tinhergen refere o curioso
paradoxo pelo qual
AGRESSIVIDADE 109

o próprio desenvolvimento e perfeição do cérebro humano, que representam


a mais elevada forma de adaptação realizada pela evolução natural,
arrastam uma discrepância entre as funções intelectuais do córtex cerebra,1
e os aspectos emotivos do sistema límbico: a razão e o sentimento
encontram-se em luta constante.
O homem criou uma vida interior e um ambiente (é ele o único dos animais
capaz de o fazer), que serão talvez o motivo da sua perda. O cérebro é
ameaçado. pelo inimigo que ele próprio criou. É ele o inimigo implacável de
si mesmo.

A,rthur Koestler defende a teoria de que o indivíduo s.e encontra de facto no


cume de uma hierarquia orgânica, «mas está no ponto mais baixo de uma
hiera@quia sociab). Nem todas as formas de agressividade são
necessariamente prejudiciais, porque nunca haveria progresso sem a
existência do descontentamento como estímulo para a originalidade. A
agressividade quando utilizada em pequenas doses é umestímulo, e é um
veneno se empregueem grandes doses. Acrueldade e a violência não nascem
do egoísmo individual. As tendências integracionais do indivíduo são
iucomparavelmente mais perigosas do que as de auto-afirmação. Utilizando
um processo de exposição análogo ao de Tinbergen, Koestler refere-se ao
extraordinário desenvolvimento do córtex cerebral humano, com todos os
seus milhares de células nervosas que «possibilitaram a evolução desde o
machado de pedra ao avião e à bomba atómica e da mitologia primitiva à
teoria quântica. No âmbito dos nossos instintos não s.e verifica, porém,
idêntica evo-lução tendente a um aperfeiçoamento moral do homem».

A redescoberta das antigas estruturas cerebrais (que regem os sentimentos


e emoções) através de uma nova estrutura, mas sem um contrôle defin ido.
sobre as antigas, provoca forçosamente confusão e conflitos. Nada poderá
impedir que a raça humana se aniquile a ela mesma, a não ser que se
consiga descobrir, sob ,forma de -medicamento., um meio terapêutico para
contrôle da actividade contraditória e destruidora do espírito humano. O que
se.deve então procurar reside (meste estado de equilíbrio dinâmico que
concilia a razão e a emoção e volta a instaurar uma ordem hierárquica».

Nenhuma descrição por mais simples que seja pode permitir que se ignore.a
complexa constituição do homem. Este é apresentado sucessivamente como
ser político (zoon Politicon), um ser com inteligência e capacidade criadora,
apto a uma auto-reflexão (selbst reflexion) e poder de representação. Dada a
sua feição
110 AGRESSIVIDADE

ti-racional e antidemocrática, bem como a glorifica p


id@o dos sentimentos do inconsciente instintivo e da irracional de, várias
destas teorias dão provas de um curioso sentimento de inveja em relação ao
animal, de um por assim dizer desejo nostálgico de brutalidade. Lamentam a
falta de certeza do instinto no homem

e a sua capacidade de aprendizageme formação. Para eles o


desenvolvíniento do intelecto é a compensação de uma falta, um expediente
da natureza transformado em virtude. Somente o homem necessita de
inteligê ncia e de auto-reflexão porque lhe falta a

rurança do instinto. A razão humana é a tentação que, de ilusegsão em


ilusão, o induz em erro e o expõe às subtilezas e perigosos enigmas do
espírito. A sua continuamente enaltecida capacidade de simbolização. não
passa da expressão de dotes naturais inferiores e pobreza de instinto. O
homem é o único ser que, graças à inteligência, é capaz de cometer suicídio
individual ou colectivo.

As opiniões contrárias consideram o desenvolvimento do espírito humano


como a maior conquista da evoluçã o. A seus olhos o perigo não reside na
falta, mas no excesso de semelhança entre o homem e o animal, no facto de
apesar de -racional se deixar dominar por impulsos e necessidades
animalescas. A sua patologia encontra-se pois num contrôle insuficiente da
razão pelos instintos.

Para uns o perigo reside na razão demasiada ou na capacidade de raciocinar


e para outros num mínimo de í ntelectualização, na escravatura -do espírito
às emoções que inconscientemente o dominam. Para Koestler e muitos
outros, as predisposições psicofísicas do homem são em si uma construção
faltosa. O homem visto por tal prisma assume características de ser doentio
e patológico, constituindo uma experiência falhada, um passo em falso, um
capricho da natureza.

O homem: uma maríoneta condicionada aos impulsos

Segundo uma concepção popularizada e vulgarmente aceite, o homem,


regido por impulsos inconscientes, não passa de uma simples marioneta
sujeita aos seus impulsos e instintos.

A psicologia das profundidades teria desprovido o homem de toda a


responsabilidade pessoal; uma vez na impossibilidade de .conhecimento dos
impulsos inconscientes, que, no entanto, o
AGRESSIVIDADE 111

controlam, não lhe poderia ser imputada responsabilidade pelos actos


praticados. Da mesma forma que o conceito de agressão como instinto, ao
realçar a inevitabilidade da agressão, serviria para j@stificar as estruturas do
pode-r, a psicologia das profundidades seria um convite canalizado (de bom
grado aceite), ainda que talvez inconsciente à fuga de responsabilidade;
seria uma desculpa gigantesca para a fraqueza pessoal e a passividade
social.

Siginund Freud insistiu sempre numa concepção de impulsos estritamente


dualista. A rígida separação originá ria entre os impulsos do eu e os impulsos
sexuais foi substituída pela diferenciação posterior, igualmente radical, entre
impulso de moirte e de vida. Freud definiu o impulso como «uma tendência
inerente ao organismo vivo, que o impele à reprodução e restabelecimento
de uma situação anterior». Realçou «o instinto de conservação do ser vivo» e
acentuou que «todos os instintos orgânicos são factores de conservação
adquiridos historicamente e que tendem para a regressão e reprodução de
situações anteriores».

«Podemos tomar como facto incontestável», continua, «que tudo o que tem
vida morre e regressa ao estado anorgânico; morre por razões internas.»
Declara que «a finalidade de toda a vida é a morte e inversamente: oquenão
tem vida é anterior ao ser vivo».

A defesa do carácter regressivo do instinto assenta na observação do


fenômeno da obrigatoriedade de repetição. O princípio do iprazer «parece
precisamente encontrar-se ao serviço do instinto de morte». Siginund Freud
apelidava a doutrina psicanalítica dos instintos «por assim dizer como a
nossa mitologia» e via no instinto um «conceito fronteiriço entre o psíquico e
o somático». Antes de se resolver a aventar a hipótese de um impulso de
morte primário, teve muitas dificuldades a ultrapassar. Sabia que qualquer
descrição relativa a este assunto deveria necessariamente produzir «uma
impressão quase mítica»; modificou porém a sua opiniã o anterior apesar das
oposições exteriores e interiores e realçou a natureza primária do
masochismo e a transposição do instinto agressivo contra o próprio ego.
Nesta perspectiva o instinto de morte é originariamente dirigido contra o
próprio organismo, e só pela sua mistura com o líbido se orienta paira o
objecto externo. É esta a diferença teórica decisiva em relação, ao instinto de
agressão referido por Alfred Adlers, que considera a necessidade humana de
prestígio e ambição do poder como compensação de uma suposta ou real
desigualdade, como
112 AGRESSIV1DADE

expressão de uma agressividade dirigida desde a origem para o exterior.

Na sua obra Man against Hímself, escrita há mais de dez anos, Karl Merminger
descreve as formas manifestas ou ocultas do suicídio (autodestruição inconsciente
pelo álcool, tabaco, acidentes, doença psicossomática, etc.). Acontece, no entanto,
frequentes vezes que a agressão dirigida para o interior se torna paranóica
mediante o mecanismo defensivo da projecção. As necessidades interiores
agressivas que ameaçam envolver o indivíd,uo em conflito com a sociedade, a
suamoral e a sua própria consciência projectam-se em grupos que lhe são estranhos
e que assim se transfwinam automaticamente em inimigos.

Paula Heimann afirma que -entre as atitudes que caracterizam o reportório psíquico
do homem faz parte a procura de objectivos nobres, corri a ajuda dos quaís realiza e
dissimula o seu desejo de destruição: «Na experiência subjectiva o impulso de
destruição, essa energia que impele o homem à crueldade contra si mesmo e contra
os objectos, encontra-se em ligação com a representação da morte, como medo e
simultaneamente desejo da mesma.»

Alexander Misterlich considera a agressão corno faculdade vital essencial; defende


que a agressão étão inerente à existência humana como os órgãos que a
constituerri. De forma semelhante à diversidade existente entre a sexualidade pré-
genital e genital, ele,pretende diversificar a agressão incontrolável e a controlável.
A última representa a actividade adaptada a um fim ou à realidade. Os actos
regressivos característicos da primeira -a regressão é, na verdade, possível tanto no
domínio da agressividade como no da sexualidade - podem nesse caso ser
imaginados como actos não diferenciados, não adaptados a um objectivo nem à
realidade e que outrora representaram uma fonte de prazer ao permitir o fim da
tensão.

René Spitz atribui à agressão um papel que se assemelha às ondas de uma emisão
de rádio. «O desenvolvimento do indivíduo e do seu mecanísmopsíquíco, bem como
a demonstração das suas capacidades, seriam impossíveis sem a agressão.»

Até mesmo os psicanalistas mais conhecidos (com as excepções citadas e


algumasoutras) recusam, no entanto, as afirmações freudianasno que se refere às
suas últimas -teorias da agressão. Dentro
AGRESSIVIDADE 113

e fora do âmbito da psicaná-lise foi feita a objecção de que a experiência


clínica não pende mais paíra uma demonstração do que para uma refutação
da hipótese do instinto de morte, o que a torna supérflua. Com a sua
Trietafisica do instinto de morte Freud ter-se-ia desviado para o campo da
especulação.

Otto Fenichel rejeita pura e simplesmente a hipótese do instinto de morte e


outros psicanalistas (como Hartinann, Lõwenstein e Kris) estabelecem
diferenças entre os aspectos de adaptação e organização da agressão,
enquanto Sierling eleva a agressão ao plano de momento central. A agressão
permite ao homem um «consolidar do ego e o desenvolvimento do
sentimento de valorização de si e da vida. A tensão acumulada desaparece,
produzindo-lhe um sentimento de bem-estar e de satisfação».

Alois Becker define como agressão todos os fenómenos internos e externos


que implicam uma destruição dos objectos aos quais a agressão se dirige,
quer esta,destruição seja fantasista ou s.e mantenha num plano de ameaça
ou de realização. «Chamamos agressividade à predisposição de
comportamento agressivo que em muitos indivíduos se exteriorizapor
tendências de particular intensidade e temporariamente por uma predilecção
por modalidades particularmente activas.»

B. Lantos estabelece uma diferenciação entre «as energias agressivas que


servem a conservação do eu e as agressões que visam o homem como
objecto; agressão subjectiva e agressão objectiva, entre as quais é difícil
estabelecer diferenças».

A teoria oposta, que assegura ser a ausência de teoria a melhor posição,


levanta o argumento de que a pressuposição cientificamente insustentável e
supérflua de impulsos e instintos representa a mitologia e a utilização
imprudente de energias originárias do animismo. As representações
concretas e sugestivas permitem ao leitor menos especializado «esta falsa
consciência» de um pseud,o-entendimento. Satisfá-lo de tal forma que nã o
levanta perguntas quanto à exactidão das representações básicas. Não é por
acaso que as teorias relativas à predisposição inata e instintiva no homem no
sentido da brutalidade alcançaram uma tal divulgação e popularidade nos
nossos tempos. Uma vez que a agressão e a brutalidade fazem parte
integrante, essencial e constitutiva da natureza humana, não terá qualquer
sentido uma revolta contra estas tendências inatas e programadas; tal
significa que sempre haverá guerras e conflitos sangrentos.
114 AGRESSIVIDADE

O homem «erudíto»

A opinião inversa apresenta as mesmas certezas no que se refere ao assunto.

Afirma que todo o comportamento humano é o resultado de uma aprendizagem; as


atitudes e as reacções emocionais que o acompanham podem ser reforçadas ou
reprimidas. «Todo o comportamento não é herdado, mas formou-se sob influência
de vários factores, entre os quais estão presentes os de ordem genética e
ambientais; a anarquia social representa uma das principais causas de
violência,destrutiva.»

É verdade que o cérebro, um complicado sistema impeditivo e simultaneamente


impulsionador, representa a fonte interior mais importante do comportamento
agressivo, não existindo, porém, um enraízamento específico da agressão no
instinto, nem umaparte determinada do cérebro, que possa ser responsável pela
agressão como tal.

J. P. Scott introduz o conceito do comportamento agnóstico, que, a corresponder a


umaconduta inata não aprendida, não constitui um instinto especificamente
agressivo, mas sim um aspecto colectivo de fuga, ameaça e agressão. Trata-se de
um sistema de comportamentos interligados, que desempenham uma função geral
de adaptação a situações de conflito. O aparecimento da agressão, quer dizer, de
um comportamento abertamente combativo, depende de uma multiplícidade de
factores ecológicos, sociais, orgânicos, fisiológicos e moleculares, de acordo com
díversos graus de organização. Toda a explicação do fenómeno agressivo torna-se,
Dortanto, necessariamente complexa e multifactorial. O compoAaniento agnóstico
do homem neste campo é geneticamente diferente do, apresentado para outras
espécies, sendo. pois de valor muito limitado as analogias básicas com o
comportamento do animal. Na medida em que o homem é o único ser capaz de
tradição e de comunicação, só ele pode transmitir os conhecimentos adquiridos de
geração, para geração,. As experiências anteriores e o treino podem fazer surgir
quase sempre o resultado desejado. Um insucesso nas primeiras experiências em
sociedade pode ligar-se a uma falta ou excesso de agressão, a um excesso de
contrô le ou de agressividade incontrolada.

O comportamento agressivo não é tão fundamental como a r~rdação, a reprodução


e a educação, mas serve como compo-
AGRESSIVIDADE 115

nente de outras formas de comportamento, principalmente a função de aviso


do perigo. As causas originárias de um comportamento agressivo residem na
frustração e na ameaça do perigo.

A imipossibilidade de uma actividade atingir o fim a que se destina


transforma-se em agressão; o ataque verifica-se sobre a fonte verdadeira ou
fictícia de frustração. 1@ certo que nem todo o género de frustrações
desencadeia necessariamente uma reacção agressiva, mas esta pode
diminuir a pressão exercida pela agressão e provocar um sentimento de
satisfação que destruirá a origem da frustração. Um acontecimento que
ponha a vida em perigo, a não satisfação de uma necessidade fundamental,
bem como uma ofensa pessoal, um conflito. a propósito da personalidade
social, uma esperança desfeita ou uma promessa quebrada, podem
representar frustrações.

Para Leonard Berkowitz a fonte mais importante da agressão é a ameaça, a


espera da agressão, que assume a forma de medo. A violência impõe-se,
portarito, como a solução mais oportuna, pelo menos à primeira vista,
quando nada mais resta e no caso de o recurso à violência até aí utilizado ter
sido sempre coroado de êxito. As experiências passadas determinam as
futuras. Nos casos de medo e desespero extremos, todas as estratégias são
postas de lado. A violência faz então o seu aparecimento como sistema e
perda de contrôle e como força indiferenciada dirigida contra todos, ao passo
que a violênciaestratégica significa, inversamente, mais uma tentativa de
adaptação.

Talcott Parsons considera que se recorre à violência coffi um objectivo de


dissuasão e de castigo ou para se provar a capacidade de acção. Mediante
uma insuficiência de adaptação e interiorização de valores aumentam-se as
probabilidades de reacções =,vãs C Iprincipalmente violentas. A falta de
objectos interio-

s e pensamentos definidos evita a formação de inibições e a canalização de


impulsos agr-e@sivos. O conjunto de experiências anteriores, no decurso das
quais a violência se revela fonte de satisfação e resolução -de conflitos, bem
como de tensões insuportáveis, tais como a cólera, a angústia e a irritação,
engendra a agressão. A simples procura de excitação dentro de um esquema
de distracção e estimulação pode, no entanto, igualmente favorecer o
aparecimento da agressão. As dificuldades de identificação com pais e
professores ou a imitação dos pais que -também se encontram -perturbados
constituem igualmente uma força motriz Aviolência; verifica-se a interacção
de mecanismos internos e acon-
116 AGRESSIVIDADE

tecimentos externos, bem como de experiências ligadas à aprendizagem.


social. A cólera, a angústia ou a raiva não acarretam necessariamente
manifestações agressivas, mas aumentam, todavia,

as suas probabilidades de existência; a cólera aumenta sobretudo mediante


o sentimento de injustiça que nasce da frustração, quer dizer, da tensão,
entre uma esperança que se encontra justificada e a satisfação injustamente
negada da mesma. A intensidade da cólera depende -do grau de
discordância entre a esperança e as suas possibilidades efectivas de
realização, da intensidade desta esperancae da existência ou inexistência de
alternativas de satisfação.

A concepção, levada a extremo quepretende que a frustração e a ameaça


sejam as causas únicas da agressão conduz à percepção do homem como
uma marioneta social; tudo se passa como se «tivesse sido. cria-do no
sétimo. dia da existência do mundo». Os iconoclastas mais -ousados, que
chegaram mesmo a desmascarar e a destruir o mito arreigado de instinto,
impulso e hereditariedade, mitologizam a sociedade. Partindo do princípio,
de que o homem se pode, na verdade, modificar e é capaz de aprender,
defendem a hipótese absurda da sua total iplasticidade. A negação da
importância decisiva de factores biológicos inatosnão significa de facto o fim
da biologia, mas o começo, de uma tentativa de uma manipulação, social
sem fronteiras por parte da sociedade baseada na crença de que é possível
moldar o homem ilimitadamente. O descontentamento provocado, pelas
limitações humanas leva os indivíduos particularmente impacientes a exigir
de forma imperativa a transformação imediata e total do homem em
qualquer coisa inteiramente nova e incomparavelmente superior.

O realce dado unicamente aos impulsos biológicos conduz a uma


simplificação brutal e sacrifica as possibilidades de transformação do homem
na concepção que o torna um ser feroz que nada será capaz de modificar. O
realce dadc, unicamente à acção orienta,doTa da sociedade reduz o homem
a uma simples marioneta social, um ser moldável até ao infinito e cuja
constituição biológica não se encontra submetida a um processo de
transformação, mas negligenciada e por esse, mesmo facto explorada. Na
simplificação polarizada do dilema entre a biologia ou a sociedade, entre a
criação individual ou a afirmação colectiva, entre a inteligência ou o
sentimento, surge esta mesma violência que se trata de evitar mediante
consideração de todos os factores que se condicionam
AGRESSIVIDADE 117

reciprocamente e por uma atitude de aceitação tolerante quanto à


complexidade, bem como mediante a -reflexão, sobre o fenómeno da
agressão no conjuntó.

Teoria do pluralismo da agressão

A agressão é esta tendência e energia inerentes ao honiem que completam


os impulsos sexuais; com eles s.e combina ou se lhes opoe e expressa-se nas
-mais variadas formas individuais e colectivas aprendidas ou transmitidas
socialmente. O assim chamado espectro da agressão abrange desde a
actividade à destruição, desde a agressão sintomática como perda de
contrôle em todos os acontecimentos conscientes e inconscientes até à
agressão como estratégia planeada, desde a estrutura planeada até à
violência, ou seja, a forma de expressão manifesta da agressão.

As impressões -recebidas na infância, e sobretudo a educação, constituem


um entrave e urna repressão da agressão livre; encoTaiam, impoem e
organizam a ligação (Bindung) da agressão. É normal-mente de forma
agressiva que se ensinam as crianças a não serem agressivas; mediante
recurso a exemplos, padrões pessoais e culturais, alémde métodos
educacionais como promessas, recomf enas, ameaças e punições, realça-se
a feição negativa da maniestação da agressão, o que constitui um perigo
para a criança e o que a rodeia.

Há determinadas excepções à proibição da agressão: a agressão livre é


permitida e até mesnio fomentada como autodefesa ou defesa de objectivos
elevados. A proibição da agressão transforma-se assim num incitamento da
mesma. A agressão não se encontra, porém, geralmente «livre», mas é
absorvida e dirigida por -estruturas internas e externas. Os valores
dominantes, conceitos culturais, interpretações da realidade e padrões de
resolução de conflitos, que para a crian@a se encontram encarnados nas
pessoas que a rodeiam na infância, são sistematicamente interiorizados
graças aos métodos de educação e comportamento. Os pri- ,ineiros conflitos
da criança. com o ambiente que a rodeia contribuem assim para o
aparecimento de uma consciência uniforme queexerce no interior do
indivíduo o contrôle até aí imposto sob efeito de pressões exteriores. Há uma
outra percentagem de agressão codificada pelas instituições cujas
estruturas, de princípio pouco rígidas, se, vão gradualmente complicando. A
ordem
118 AGRESSIVIDADE

social é a obra do homem. As ~as sociais foram pois produzidas; são


transformáveis, mas aparecem à criança como princípios naturais e
imutáveis nos quais ela participa de acordo com o papel qi@.e lhe é atribuído.
Mal começa a exercer as actividades determinadaspelo seu desenvolvimento
biológico e as normas culturais da sociedade, a criança desempenha o papel que
dela se espera. Apreunde a andar, a falar, adquire hábitos e o «saber viver». Cada
vez compreende melhor as regras do código social.
As instituições sociais -formais e informais, a educação, a família, a profissão, o
-direito, a Igreja e o Estado são conceitos e regras destinados ao contrôle da
agressão. São instituições cujo objectivo é o de captar e dirigir a agressão
individual, que desta forma fica reprimida e presa a uma estrutura. As instituições
recebem toda a sua energia e justificação mediante a percentagem de agressão que
retiram aos indivíduos sob o seu contrôle. A sua função consiste -na absorção e
canalização da agressão individual com o objectivo de a submeter ao contrôle da
colectividade e de a utilizar de forma produtiva, racional, altruísta e se possível sem
violência.

As instituições transformam a agressão livre em agressão condicionada e a


individual em colectiva.

O condicionamento institucional interno ou externo exerce assim um contrd1e sobre


o indivíduo, que se vê obrigado a renunciar obrigatória ou voluntariamente os
impulsos da agressão livre. Em contrapartida, a organização satisfaz a necessidade
de segurança e identidade do indivíduo pela continuidade, solidarieda-de e
estabilidade. Garante o futuro e assegura protecção e assistência na vida prática.

Entre as várias instituições existem diferenças importantes de qualidade e de valor.


Nada é mais fácil e confortável do que a acepção de que uma organização é tão boa
como qualquer outra e que podem ser substituídas entre si. Ainda mais essenciais
do que as semelhanças são as diferenças existentes entre as instituiÇ5Cs; estas
medem-se pela afeição moderada ou abusiva de coacção que exercem, pela
qualidade de agressão que legitimam e pela quantidade de agressão que permitem,
bem como pelos objectivos e estruturas que servem ou fingem servir.

A transformação organizada de agressão livre em agressão controlada (permite a


existência da agressão nas regras de organiZaÇão e legitima-a enquanto ao serviço
da organização. A organizaÇão não controla a totalidade da agressão livre. Detém
uma
AGRESSIVIDADE 119

parte íntima em reserva, a fim de a ostentar ante o indivíduo, mediante


recurso a atitudes ameaçadoras.

A existência da agressão estruturada numa organização, é fonte de


legitimidade. A agressão inerente à consciência interior ou instituições
exteriores encontra-se justificada; apenas muda de forma e de função. O
elemento agressivo foi renegado e acaba por -desaparecer completamente
da consciência. A agressão permitida assume uma feição de virtude: a
obediência (levada a extremo sob forma de obediência cega, totalmente
autornatizada e inconsciente), cumprimento do dever (levado a extremo
como suicídio) e -defesa dos mais elevados valores (levada a extremo pela
dádiva total de si mesmo).

As -organizações detentoras do poder só através da autoridade que lhes é


dada pela legitimidade conseguem suscitar a adesão voluntária por parte dos
indivíduose grupos que dirigem. A legitimação institucional permite ao
indivíduo considerar como justificada a agressão imposta e exercida ao
serviço da organização, mesmo quando degenera em violência, e igualmente
dissimulá-la. A agressão assim justificada recebe o rótulo de necessidade,
inevitabilidade e dever. Evita-se assim o aparecimento de críticas, mas a
incapacidade de ipercepção da agressão como tal não é de modo algum
considerada como aspecto negativo: a «cegueira» e o preconceito tornaram-
se condições de funcionamento.

A legitimação serviu, por outro lado, para transformar ideologicamente,


racionalizar, dissimular e dar feição natural à agressão utilizada ao serviço da
organização; pretendia-se por este meio eliminar todas as inibições
individuais e acalmar o medo e os sentimentos de culpa, a fim de se
conseguir um equilíbrio interior. A legitimação tem além disso uma fun@ão
de apoio. Graças à agressão legitimada e permitida pela organização, os
indivíduos perderam a consciência da agressão sancionada como tal. Em
troca da perda da sua independência e capacidade crítica recebem a
garantia de uma boa consciência que, ao serviço da orgranização, lhes
permite cometer actos agressivos sem sentimentos de culpa ou medo. Nem
mesmo se apercebem do carácter agressivo das suas acções. Brutalizaram-
se não Por coa ‘cção, mas por um sistema eficaz de legitimação, e possuem
o direito e até mesmo o dever de exteriorizar a sua violência e
contraviolência «justificadas» contra os objectos de.agressão «.legítimos»: os
inimigos, os outros, os criminosos, as minorias, o establishment, etc.

Apesar de todas as suas tendências de expansão, a organização


120 AGRESSIVIDADE

necessita de um inimigo, externo, representado o -mais dramaticamente possível e


transformado em símbolo, a fim de justificar incessante e renovadamente a sua
existência. Este facto permite-lhe utilizar e libertar parcialmente a agressão
individual na medida em que lhe dá uma aplicação. Um perigo, real ou pressuposto
reforça a legitimação e com ela a unidade da agressão individual. As ameaças
reforçam as antigas e criam novas organizações. O indivíduo descobre ou imagina
inimigos sobre os quais projecta as tendências agressivas q?e se viu obrigado a
reprimir, negar e dissimular em si; tal perm-ite-lhe consequentemente legitimar o,
seu próprio contra-ataque.

As organizações internas e externas tendem simultaneamente para a simplificação


e expansão. Um monopólio governamental permite um contrôle mais eficaz. As
grandes organizações modernas e tecnicamente aperfeiçoadas tendem de forma
particularmente manifesta a apropriar-se do monopólio do poder e sobretudo da
totalidade da violência disp?nível. Aspiram igualmente ao monopólio da
legitimação. As instituições estabelecem as diferenças entre a justiça e a injustiça e
decidem o que é proibido e permitido. A sanção institucional, que tanto pode ser a
santificação de um comportamento considerado positivo como o castigo de uma
conduta repreensível, autoriza a expressão individual e colectiva da agressividade e
até -mesmo da violência quando ao serviço da organização ou dos seus elevados
objectivos.

O condicionamento da agressão anteriormente desenfreada significa sempre


também um arrefecimento parcial da violência sentimental e apaixonada. Ao
retardar a satisfação dos impulsos, as instituições acalmam a emoção pessoal que
pode levar ao ódio e à explosão. Obtêm assim uma eficácia de contrôle e
canalização. Só o afastamento antecipado da cólera e do ódio possibilita a análise
fria e pormenorizada da situação. A qualidade de não actuar impulsivamente mas
de utilizar o raciocínio é não só respeitada pela organização, mas por ela elevada à
qualidade de princípio.

As emoções -fortes e os sentimentos pessoais intensos perturbam os processos


automáticos. A organização aspira pois a condicionar os indivíduos que dirige a um
conjunto de regras, em vez de os abandonar a emoçõ es individuais. Os sentimentos
são impeditivos das funções. Um funcionamento perfeito depende do apoio em
indivíduos com o maior grau de insensibilidade possível e com capacidade de
obediência automática. A racionalidade funcional (,Mannheim) dos meios
necessários para realização de um determi-
AGRE8S1V1DADE 121

nado objectivo não deve tomar em consideração a racionalidade substancial


ou a qualidade do objectivo. Entre o responsável pela ordem e os
subordinados à organização existem muitos intermediários, que são tanto
mais numerosos quanto maior e mais bem estruturada -ela é. Cada um deles
cumpre, pois, apenas uma parte diminuta de uma missão que não conhece
nem compreende a fundo e cujo verdadeiro objectivo também não lhe deve
ser revelado se ele manifestar curiosidade em relação ao, mesmo. Qualquer
que seja a posição do indivíduo na estrutura hierárquica, a estreita divisão de
trabalho significa a fragmentação de responsabilidades. O indivíduo que
ocupa a posição de maior responsabilidade também se encontra ao serviço
de poderes por as-sim dizer anónimos, de símbolos abstractos ou dos que o
servem. Qualquer que seja a posição do indivíduo no interior da organização,
esta responsabilidade assim desmultiplicada tornou-se tão suave que lhe
aparece como inconcebível e nem mesmo dela se apercebe.

A violência fria e organizada reparte as responsabilidades de tal modo que a


ninguém se podem imputar. O chefe está muito afastado no tempo e no
espaço da realização das suas decisões; não vê as consequências das suas
ordens e é apenas informado pelo -processo frio das estatísticas. As
entidades que se encontram abaixo dele limitam-se a obedecer e a
desempenhar a pawte que lhes compete na acção. Transmitem as ordens,
cumprem coni satisfação o seu dever e vigiam os executantes, que por seu
turno também executam as ordens à letra. Até mesmo quando a realização
dos seus actos é destrutiva no mais elevado grau não são violentos ou
odiosos, mas apenas leais e obedientes. A violência fria permanece «fria até
ao mais íntimo das entranhas» e racional desde o princípio ao fim. A
agressão tecnicamente perfeita, Tacionalmente organizada e planeada,
isenta de toda e qualquer rêsponsabilida,de de premeditação pode
transformar-se em violência através de manipulação, propaganda e
sublevação. É este o seu maior triunfo: a obtenção do irracional por meios
racionais, a mobilização de -emoções inconscientes mediante uma vontade
consciente e dirigida e o despertar de sentimentos verdadeiros ao serviço da
insensibilidade. A organização protege-se das ameaças que sobre ela pesam
pela limitação da agressão anteriormente condicionada. As provocações
fazem surgir a violência por pane da organização. As estratégias da guerra fria
(c"stituídas por ameaças e negociações) são evidentemente agressivas, mas
não
122 AGRESSIV1DADE

abertamente violentas. A rivalidade entre as in;stituições arrasta a


mobilização e recurso à violência quando estas estratégias não conseguem
atenuar - pelo menos para um dos adversários - o carácter insuportável da
si-tuação.

Por outro lado, os indivíduos e grupos desorganizados transformam a sua


agressão livre e sem peias em violência declarada todas as vezes que as
outras alternativas nada resolveram. A cólera e o ódio, que não se detêm
ante quaisquer barreiras, mas acima de tudo o desespero e a indiferença de
cada um frente à própria vida, bem como os ideais frustrados, conduzem à
explosão da violência. A ausência de podernão oferece oportunidades ao,
con~ dicionamento da agressão e favorece a violência. Nesse sentido, mas
também unicamente nele, existe uma contradição entre o poder (os disfarces
de uma agressão condicionada e oTganizada) e a violência (a agressão
declarada e desenfreada).

O exemplo mais perfeito de agressão sem peias é a tirania que se impõe


pela ameaça e terror, não suporta qualquer agressão livrenem a mínima
liberdade que não seja por ela ditada e ao seu serviço. Frente à tirania, a
libertação e «desbIoqueio» da agressão significam oenfraquecimento da
rigidez do poder, a libertação, e

o progresso.

O tipo ideal de agressão livre e individual é a anarquia, a recusa de todo o


condicionamento da agressão, bem como a luta violenta e ilimitada de todos
contra todos. Frente à anarquia, o condicionamento da agressão em
estruturas e organizações é sínónimo de: a ordem, o fim do -caos e da
escravatura e o progresso.

A relação, da polaridade entre a agressão livi-e e condicionada pode-se


verificar não de forma abstracta, mas de forma muito concreta através de
experiência e conhecimentos. A concretização e manutenção de um
equilíbrio verdadei*Lro são, em princípio, i@nteiramente possíveis. As
situações em que a violência não está presente não constituem uma utopia,
mas foram inúmeras vezes alca.nçadas neste mundo sem tirania ou caos, se
bem que nunca se ,tivessem mantido durante muito -tempo. O equilíbrio
encontra-se entre o desejo de condicionamento, -que, em nome das
agressões colectivas, conduz à violência, e a necessidade irre-primível de
acção, que se vai opor ao condicionamento e também se traduz pela
violência. O contexto mais favorável à manifestação dos efeitos produtivos
da agressão livre é um sólido e ritualizado enquadramento sem feíticismo
nem pressão excessiva. Estes efeitos
AGRESSIVIDADE 123

chamam-se: curiosidade, exploração, descoherta, originalidade e eliminação


da acção previsível a favor da novidade.

O desejo de criar a novidade deve poder apoiar-se nos hábitos e sólidas


estruturas da tradição interíorizada, caso pretenda transformá-los de forma
eficaz. Heinz Hartmann disse uma vez: «O eu não deve apenas poder, mas
também poder dever.» Só os vínculos duradouros, foTtes e sólidos
possibilitam a verdadeira liberdade de acção e pensamento. A fim de
concretizar a esperança humana de liberdade e impedir a destruição da
liberdade através da violência, a agressão deve poder transformar-se par-
cialmente em agi essão condicionada e ser capaz de, e mesmo desejar,
assim permanecer.

O impulso à repetição da violência ocasiona a violência destrutiva a que se


encontram ligados os mesmos mecanismos monótonos da legitimação.
Polariza-se e excomunga-se para se acalmar a necessidade de inimizade;
entra-se numa rotina para se ir ao encontro do, hábito e tTivializa-se pelo
mesmo motivo; idealiza-se para se dax superioridade às coisas e naturaliza-
se para se simular uma verdade natural; para se conseguir uma fachada de
racionalidade e compreensão racionaliza-se, e simplifica-se para se atingir a
simplicidade.

9s múltiplos e complexos problemas da realidade exigem multas vezes


soluções igualmente múltiplas e complexas. Só se pode recorrer a tais
soluções se a tensão conflituosa for provisoriamente suporta-da, se ficarem
em aberto perguntas complicadas e se se puserem à prova diversas
alternativas.

A simplificação reduz a multiplicidade de causas e motivos a uma causa


única em que unifica o verdadeiro e ú nico motivo; os outros não passam de
elementos insignificantes da superstrutura e possuem carácter secundário e
não essencial. As explicações monocausais funcionam como prefácio que
trabalha para a sua realização: a ideologia. A ideologia que pretende
unicamente reconhecer motivos económicos acaba por fazer surgir um valow
unicamente material. O nacionalismo fanático produz finalmente a realidade
de outras nações que se combatem amargamente. Os que acreditam que
somente a linguagem daforça é viável criam um mundo violento e
brutalizado, que nada -mais quer ou pode compreender do que a violência.

A monomania de repetição de uma e da mesma explicaça? age sobre os


sentimentos com a máxima intensidade ao dramati-

zar os problemas e se possível personalizá-los. Tudo o que de mau


124 AGRESSIVIDADE

existe no, mundo, “as as dificuldades e problemas, todas as insatisfações e


tensões são originadas pelo capitalismo ou comunisino, quer organizadas no
Krenilin ou em Wall Strect, e são causadas pelos poderes anónimos, -por um
establishment criminoso ou por Mão Tsé-Tung (ou Ho Chi Minh, Castro,
Nixon, Hitler, Mussolini, et,c.). A solução é simples:

«Ceterum Censeo», diz Cato: «Cartago deve ser destruida ... »


O capitalismo, bem como o comunismo, o Kremlin ou Wall Strect, o
establishment, Mão Tsé-Tung (ou Ho Chi Minh, Castro, Nixon, Hitler,
Mussolini, Estaline, etc.) deveriam ser destruídos ou eliminados por qualquer
preço. A hipótese de e@Qplicação torna-se conceito de esperança; somente
um acontecimento catastrófico, dramático ou violento pode trazer a
libertação e a paz. Tudo o, mais s.e resume a imperfeição, hesitação e
conformação. A nova era deve começar ao som dos tambores como um acto
dramático elibertador visível aos olhos do mundo inteiro. Uma vez que todos
os motivos poderão ser reduzidos a um único, bastará a expulsão radical
deste único para seprocessar um novo milénio.
O problema da simplificação, mediante a expulsão de todos os outros
motivos, considerações e alternativas, apenas deixa lugar para a violência,
naturalmente a violência defensiva ou preventiva, mas também a violência
que se, defende preventivamente ainda antes de se ter processado o ataque.
A simplificação violenta constituí uma preparação, consequência, condição
preliminar e auxiliar da violência. A simplificação que possibilita e impõe a
violência conduz através da violência a uma pura e simples destruição. @)
pluralismo significa a aceitação (Tealista) da existência de muitas causas,
influências e princípios diferentes que não se reduzem -necessariamente uns
aos outros, -nem têm uma origem recíproca, mas se encontram numa
relação de mútua interacção e antagonismo. A polarização representa o
aparecimento, afirmação e reforço de contradições irredutivelmente opostas
que mutuamente se excluem e tendem a -um confronto brutal. Inswnsciente
ou propositadamente, todos os conflitos existentes ou consequentes são
levados a uma situação de dilema que nenhuma outra escolha conhece além
da vitória ou derrota, do triunfo ou do aniquilamento. A partir de um certo
grau de polarização rápida e conscientemente atingi@o,todas as outras
alternativas são excluídas. «Quem não é por mim, é contra mim» e não
existe uma terceira hipótese, dado que o perdão também não existe. A
solida-
AGRESSIVIDADE 125

riedade de grupo existente em cada um dos partidos encontra-se reforçada


pela projecção, individual e colectiva da agressivídade sobre o adversário,
que, através de uma simplificação dramática, se torna perigosa e
ameaçadora fonte de agressão que é preciso eliminar a qualquer preço. A
polarização traduz-se por uma acumulação e selecção de valores; cada um
vê a represen:taçãI@ do bem e da justiça no seu partido, que aliás se limita
a uma posição de defesa. À volta deste círculo de valorres reúnem-se e
hipertro~ fiam-se todos os valores pos,itivos imagináveis: «Nunca anterior~
mente existiu uma causa tão justa, nobre, elevada, bela, pura e sublime
como a minha.» Um -movimento estritamente paralelo, ou seja a proliferação
dos valores negativos, é: «Nunca antes houve um inimigo tão mau, perverso,
odioso, manhoso e baixo como o que me ataca.» As autojustificações tomam
forma e transforinam-se em sólidos padrões que se expressam por clichés e
slogans. A acumulação de -valores positivose negativos confere a cada um a
certeza dada pela legitimaçã,@; a tentação do «curto-circuito» de violência
acaba por se tornar irresistível. A imagem do inimigo, enquadrada pela
polarização, actua como um centro de cristalização, à volta do qual se
agrupam outras imagens semelhantes ou ,mais fortemente polarizadas.
Desempenha igualmente a função de filtro perceptivo, que, por escolha
consciente, apenas permite a passagem das observações que reforcem a
polarização. A recusa que cada um faz da sua própria agressividade e a sua
exteriorização sobre outrem traduz-se por uma sensibilidade particularmente
desenvolvida em relação à agressão do inimigo. A projecção imaginária
mistura-se assim com a realidade e a exterioTização com o aspecto do
mundo exterior. Vê-se o argueiro no olho do vizinho porque não se consegue
ver a trave no próprio olhaT.

As personalidades e grupos de tendência autoritária projectam a sua


hostilidade controlada relativa aos representantes da autoridade sobre os
objectos de agressão (degitimados», os outros, os estranhos, os inimigos, os
grupos que vivem foTa das regras estabelecida.s e a-os quais atribuem um
comportamento imoral susceptível de provocar a destruição dos costumes.
Quer tenham ou não provas, encontram-se persuadidos e como que
possuídos desta convicção. A limitação simplificada da concepção e
percepção de um adversário único como origem de todo o mal desenvolve-se
-em ritmo crescente, o que significa mais ameaças e justi-
126 AGRESSIVIDADE

ficações, maior polarização, mais forte percepção do -perigo ou, por outras
palavras, um estado que comporta riscos crescentes de contraviolência até à
explosão. A influência mútua da revolta e da ameaça traduz-se por uma
situação explosiva e um equilíbrio -instável que ameaça acabar de um
momento para o outro. A imagem que fazemos do inimigo assemelha-se
extraordinariamente àquilo que somos na realidade. O inimigo atribui-nos
exactamente os inesmiDs vícios que lhe condenamos e julga-se na posse das
mesmas virtudes que pensamos ser os únicos a possuir.

O antropólogo Bironson Brownen mostrou fotografias de uma avenida a


crianças entre os dez e os onze anos e perguntou-lhes qual pensavam ser o
significado e o objectivo das árvores que ali s.e viam. quando a fotografia
representava uma avenida americana as crianças consideravam as árvores
como oferecendo sombras acolhedoras e impedindo a acumulação de poeira,
mas se a fotografia mostrava uma avenida russa, as crianças diziam que as
árvores tinham sido plantadas para ocupar os presos ou para servirem de
esconderijo.

Os elementos formais necessários à designação do inimigo são


estranhamente duráveis e inalteráveis. Apenas o conteúdo do símbolo muda
com uma rapidez que a bem dizer nada tem de surpreendente. Em 1942, a
esmagadora maioria dos americanos utilizavam as palavras: agressivos,
violentos etraiçoeiros em reiação,aos Alemães e japoneses, e em 1966 aos
Russos, a quem não. se aplicavam estas características em 1942. Os
«violentos, odiosos e simíescos japoneses» de 1942 tornaram-se os
«eruditos, trabalhadores, encantadores e atraentes» japoneses de hoje.

Tanto russos como americanos explicam reciprocamente as suas diversas


-estratégias, quer como um processo de expansão ou tomada de poder, quer
como defesa contra ataques não provocados ou uma táctica de eliminação
de conspirações tendentes a pôr emrisco, a sua segurança. Os comunicados
oficiais de americanos e russos após a ocupação da República Dominicana e
da Checoslováquia poderiam trocar-se s.e se mudassem os nomes. Nos dois
casos, a agressão foi justificada como contraviolência em nome de um todo
que transcendia a própria soberania nacional e de uma solidariedade
totalmente americanizada ou comunista.

Cada um dos lados estava sempre convencido de que o adversário pretendia


unicamente reforçar a sua posição no poder e que se servia das justificações
como pretexto. Até os próprios gestos de conciliação que deve-riam tornar a
situação menos tensa são
AGRESSIVIDADE 127

muitas vezes falsamente interpretados como sinais de fraqueza. Num grau


avançado de polarização, os factos reais já não desempenham qualquer
papel. Os Americanos vêem a política externa russa como uma conjura
magistralmente organizada, cujo perigo aumenta pela forma imprevisível do
poder dos dirigentes. Os Russos consideram a política externa americana
como uma conspiração magistralmente fomentada em todo o mundo pela C.
1. A. e que vem agravar as reacções imprevisíveis dos militaristas dementes
do Pentágono. Ambos acreditani que o sistema do outro acabará por se
arruinar devido às contradições e fraquezas internas. A população do país
contrário é para eles honesta e amigável, mas corrompida ou explorada por
um pequeno grupo de tiranos sedentos de poder e de vantagens materiais.
As entidades máximas do opoKsitor servem de alvos perfeitos de
agressividade; os malvados para um partido são os heróis e idealistas para o
outro.

A imagem do inimigo tem tendência a concretizar-se em verdadeira


animosidade. Acorrida para os armamentos, que há muito atingiu um
potencial suficiente, permitindo a destruição do inimigo aos que os possuem,
assegurou até este momento «a paz pelo medo» (H. Púrtisch), -mas fez
aumentar de forma irracional os investimentos em armamentos de cada um
dos lados a fíni de manterem a posição -de ameaça e para protecção do
poder interno. As dificuldades de comunicação contríbueni para o processo
de consolidação da imagem do inimigo. Depois de se ter alcançado um
determinado limite de valor já não se,pode fugir à polarização, mas rola-se
automaticamente até ao fim violento.

Num catripo de férias, M. 8cherif provocou uma polarização artificial de dois


grupos de jovens mediante várias situações de competição. Depressa os dois
grupos se comportavam como duas nações inimigas. Os esforços exercidos
em conjunto para desvio de um «perigo,» (trabalhos; de reparação numa
conduta de água) diminuíram a desconfiança que afastava os dois grupos e
acabaram finalmente por restaurar a camaradagem inicial. É, no entanto,
muito, duvidosa a questão de até que ponto se pode aplicar este exemplo a
uma necessidade de inimizade profundamente radicada nos hábitos e
sentimentos. Os habitantes de Marte, que estabeleceram. uma unidade entre
os homens relativamente a uma ameaça sentida por todos, ainda são, por
enquanto, fruto de uma fantasia. Uma vez que a polarização permite que o
indivíduo eXteriorize as suas angústias de forma habitual e automática,
128 AGRESSIVIDADE

serve de tubo de escape à agressividade; este o motivo por que se torna


irresistível e encarna essa mesma violência que prepara e cuja explosão
provoca.

Para que os complicados -processos de desenvolvimento e acontecimentos


possam -mobilizar intensas reacçõ es sentimentais têm de se poder encarnar
e representar -numa pessoa ou num facto, graças à polarização. Quanto
:mais obscuras são as forças reais, mais claramente devem ser dramatizadas
através de exemplos facilmente compreensíveis e explícitos para provocar a
acção. Cada um glorifica e celebra os seus actos agressivos do passado, que
foram coroados de êxito como vitória do bem, tiriunfo do herói sobre os
dragões e o mal.

A agressão sofrida também cria, no entanto, um condicionamento. O


suportar do próprio sofrimento justifica o sofrimento que se inflige.
Organizaram-@se guerras sangrentas e a Inquisição em nome da Cruz e da
Paixão de Cristo. O assassínio do. príncipe herdeiro do trono austríaco, Franz
Ferdinand, desencadeou a
1 Guerra Mundial; o martírio e morte de Hoirst Wessel, Engelbert Dollfuss e
Martin Luther King (a desigualdade de valor moral dos exemplos aqui cita-
dos é,intencional) levaram à violência e contraviolência e ambas serviram de
justificação.

Em todo -o processo criminal assiste-se a uma draniatização do antagonismo


e a um agravamento da polarização. Tal como num palco de teatro,
encontram-se -representados complexos contraditórios e conflitos sociais,
mas o ritual da repetição simplifica-os e “refor'a_os ‘em lugar de os resolver
e diminuir. Nem o coronel francês Dre@fus nem o tenente americano Calley
se encontravam particularmente dispostos a representar o papel, que lhes foi
por todos atribuído, de heróis e mártires; o mesmo foi-lhes iniposto pela
colectividade, que tinha necessidade de um exemplo representativo. Uma
polarização agressiva inantém a opinião pública dividida em dois campos
inimigos durante anos seguidos e impede-a de se,interessar por qualquer
outra coisa. Apesar de ou em virtude da sua função de desencadeamento,
esta polarização nunca permitiu que se resolvessem ou se submetessem a
uma análise realmente crítica nem as causas nem as consequências do anti-
semitismo francês, da gu=. a do Vietriame ou do clima de antagonismo
contra a guerra nos Esta-dos Unidos. A realidade espectacular dos pr@ces”
em Moscovo, provam simplesMente o poder quase ilimitado da manipulação,
que arranca às suas vítinias um assentimento interior quanto à sua própria
AGRESSIVIDADE 129

destruição. Os processos de Nuremberga contra os criminosos de guerra confirmam


os direitos dos vencedores, que adoptaram os princípios injustos dos vencidos e
reivindicaram para o castigo do adversário um direito superior -não escrito que
traduz os sentimentos do povo e da humanidade.

Os pr@cesso,s de concretização, materialização e personificação constituem um


sinal: chamain a atenção. Ao fim de um

certo tempo provocam, no entanto, a indiferença e depois retomam a feição banal e


monótona que a princípio tinham modifica-do. A polarização moral apoia-se numa
idealização pessoal e no satanismo do adversário. A acumulação de valores
positivos em relação a um provoca uma aglutinação negativa do outro. A agressão,
muito antes de se tornar manifesta, começa com as más palavras, a crítica
despreziva e a acusação de heresia inerentes à necessidade de existência do,
inimigo. A agressão utiliza um vocabulário ordinário e obsceno, quando provoca e
insulta. A regressão à violência é introduzida e seguida por um retrocesso de
linguagem, por u” @@1lização de termos provenientes de um nível linguístico
primitivo. As tiradas de insultos em que o adversário é acusado de perfídia,
imoralidade e preguiça apõem como certeza a existência do emprego da violência.
É acusado de instintos perversos, designado como porco, bruto, escroque, fera
humana e aborto. Recusa-se-lhe toda a qualidade de homem. A invasão da política
pela obscenidade (política pornográfica ou pornografia política) é um indício seguro
da subida de temperatura da agressão, que se aproxima do ponto de ebulição.

Os atributos idealizados de valores pessoais são crescentemente elevados, tornados


abstractos e incompreensíveis. Começa-se por autodefesa e chega-se -normalmente
à qualidade de representantes de todos os interesses bons e verdadeiros da
humanidade. O adversário deixa de ser considerado digno de confiança; -também
não mais se poderá entrar em diálogo de negociações e, graças à sua maldade
progressivamente satânica, presta-se apenas ao papel de objecto legítimo de
aniquilamento.
O inimigo desencadeia esta atitude devido ao satanis-mo que lhe é atribuído. Ao
acusar-se o adversário criou-se uma imagem de Satã surgida da necessidade de
uma idealização p@ssoal e de uma fuga à suspeita de se ser possuído pelo
demónio.

A violência propaga-se com a mesma intensidade da cólera, só que ainda se


desconhece qualquer vacina contra a mesma.
130
AGRESSIVIDADE

Graças ao Seu p@d melhor @ roi a @4 @,r ascinante e virulento, a violência é a sua
demons rogi, Ista. A organização técnica da força fria

43 @@’ . P @@iVa @mento a 1 lê C,. ente a banalidade -do mal. Este


aconteciconsciênci .- Ia 7eZ oduz um princípio destina-do a acalmar as a
agressã c CI,@C-SC e, ial é banal, o que é banal é mau e de surpree ,
et@ estilo de vida habitual que nada tem meios de ‘ or vi lê cia ‘
que é igualmente descrita pelo3 hábito. Passa-se t i i 1, anal e quotidiana,
tornou-se um factos pouco i er 1 iolência mesmo quando se trata de
que dão provas “tarites. (Estamos a pensar na agressividade de festa por um
Vo condutores de automóveis e na que se mani- ‘%Iário grosseiro e gritos contra os
subordinados.) Cria-se 2t.s@ ferença que prep,1'I1 urna rotinada agressão, um
estado de indi-

As ..talil a brutalidade e a violência generalizadas.

analogias 11 são e da violênci I`Istram e simplificam as justificações da


agreshistórico e 21 nece&, O ríliiagre da vontade divina, o imperativo lização -e
ideol,O @’dade natural constituem exemplos de racio(na- . . @Jk * guerras sociais
legítima, «A natural ização» de organizações * procura d adquirem feição
de dádiva natural que poupa

e mai,, 1 . - * construção artifi . egitimação. A aparência da natureza oculta


meno,nalural, PaT cIal; o que se faz pode-se justificar como fenoçadas como
circu@ liada ter de se justificar. As acções são disfar- ,I, Stâncias ou se ter
responsabi simples acontecimentos para não no homem COMO !
dade sobre as mesmas. O que é gerado e existe influência e co 14 ‘-1 e
lheio, está para lá do âmbito da sua @ce tal como a sua sa e.torna-se,
portanto, destino inevitável,

ndo, a Yez ri itiva. uc - I Ia ao é abertamente utilizada


chama-,se-lhe%da ação, ro Quando a ma,n, @ a, a, ersuasão,
reclamo ou publicidade. as situações que ÇaO é dissimulada, provoca, pelo
contrário,

c1CIVem servir à motivação e explicação das acÇões que s.e prop, apagar os sei
()c. A verdadeira manipulação sabe, de facto, ,I'S vest As suas manifesta , ‘os e
ermanece irreconhecida e Ilimitada. simples acon ci o,
e então surgire ser entendidas como

Ç te M aparece simula a ,, tos. anipulação, a agressão estratégica, feição


de condi ão a arência de inevitabilidade; é-lhe dada Ção força a o e
iQ',,a.tural , o mundo, e mediante essa justificaofuscado pelo desi@ Cia e a
concordância íntima do indivíduo,

Toda a proble Ilibramento. simplificada atraZlática da agressão é resolvida,


polarizada e @’C1C, Problema da violência. A agressão maleá-
AGRESS1V1DADE 131

vel e multiforme é tão complexa, dinâmica e mutável como, a violência é fixa,


rotineira, imutável e simples. Uma vez que exclui e abafa todas as outras
alternativas de agressão, a violência é o problema que pretende resolver.

Se se persistir na ideia de que tudo tem de ser necessariamente simples, tudo, se


poderá processar dentro da maior brutalida,de e crueldade.

História natural e cultural da violência

A descrição -da história natural da violência e condições do seu aparecimento


-condições naturais ou reduzidas a esse estado através -da polarização,
simplificação, ideologia, racionalização, etc-deve contribuir para explicar, esclarecer
e -desmascarar a agressão, antes que esta execute a sua obra destrutiva,
eliminando todos os disfarces.

A supressão do fenómeno da agressão -na realidade apenas idealizável como


hipótese-teria de significax a recusa de toda a vida, pois que esta é determinada e
estruturada pela agressão. A recusa da agressão existente em cada um, mediante a
repressão e @projecção, possui o efeito agressivo que pretende evitar. A completa
condenação da agressão, quando @não é demagógica, resulta da limitação
arbitrária do conceito de agressão, que se procura tornar maléfico para legitimar a
luta contra uma determinada forma de agressão.

Para se reconhecer a agressão nos seus vários disfarces e aspectos, é preciso


representá-la quer por fenómenos importantes e famosos, quer pelos pouco
importantes e desconhecidos. A localização da agressão nos seus esconderijos não
só acentua a heterogencidade moral, sociológica e psicológica das formas de
agressão, como revela simultaneamente os mecanismos e manobras de que a
agressão se serve para as transformaçõ es que opera.

Esta obra não pretende ser uma Bíblia e muito menos um ABC da forca, nem mesmo
uma directiva para o seu emprego ou um incit@mento. Não s.e pretendeu fazer um
tratado moral

nem uma justificação do, «mal» e do «bem»; o objectivo pretendido resume-se a


uma descrição -de factos, acompanhada de comentários e observações socio-
psicológicas que ascendem a dife- ,Tentes domínios científicos. Entre a resignação
existente num reconhecimento pragmático,.da realidade como ela pode ser pre-
132 AGRESSIVIDADE

cisamente e um certo tom quixotesco de uma melhoria irreal, existem


muitos caminhos que nem sempre vão dar ao mesmo fim, sob efeito de uma
contínua repetição.

A ocupação profissional que engloba seres perturbados, métodos ou


instituições que que= ajudar e pretendem curar (e algumas vezes fazem
sofrer) permanece a base e ponto de partida para o estudo aprofundado da
agressão. A observação clínica demonstrou que o fenómeno universal da
agressão se subtrai a uma observação exclusivamente desse tipo. Para a sua
apreensão total torna-se necessário examiná-lo sob as mais diversas
perspectivas, diferentes níveis e diversas fases de cristalização.
O carácter mutável, sedutor, fascinante e assustador da agressão só se pode
abranger se se seguir a agressão para onde quer que esta vá e se oculte.

Todos os gregos são homens, mas nem todos os homens são areeos. Toda a
violência é agressão, mas -nem toda a agressão é @ioi'ància. A agressão e a
violência confundem-se muito faciln-wnte, porque a violência pretende ser a única
forma eficaz de agressão. Impõe-se uma diferenciação rigorosa entre as duas.
Todas as formas de agressão podem afinal levar à violência.
O grau e a profundidade do conhecimento minoram o perigo de uma regressão à
vio-lência. Uma persipectiva concreta das manipulações e manobras, que, à força
de decretarem que a violência é inevitável, acabam por a criar, é imprescindível
como parte desse conhecimento. A forma manifesta, crua, desenfreada e primitiva
da agressão, na verdade a violência, que, além disso, de forma alguma é tão
espontânea, natural, necessária e eficaz como pretende ser, quer constituir a
solução que exclui todas as outras. Torna-se assim um perigo que aplicatodas a-s
outras alternativas como necessidade de sobrevivência.
AS FONTES DA AGRESSÃO

Mos os p@nsamentos ou sentimentos alienados provêm da

desorganização de um conjunto de células? O próprio Freud dizia.que, num


futuro distante, todos os fenómenos psíquicos iriam -ser atribuídos a uma
origem físico-química. À medida que se vão tomando em maior consideração
as interacções do espírito -e do corpo, mais evidente se torna que as
características biológicas, a acumulação de conhecimentos primáxios, a
fonte de experiência e desenvolvimento e os órgãos executivos determinam
de forma decisiva o comportamento humano.

Pré-programação biológica e aprendizagem social

O comportamento agressivo do homem e do animal tem múlàplas causas e


efeitos. A agressão desempenha em vários aspectos uma função de
adaptação individual e colectiva, na medida em que conserva a integridade
do indivíduo e do grupo. Os mecanismos nervosos do sistema nervoso
central, que podem ser postos.em funcionamento mediante influências
hormonais e psicossociais, expressam as coordenadas genéticas e
hereditárias. Os dez a cem bili&s de células existentes no organismo humano
obedecem todos, ao mesmo padrão de fabrico e a sua complexidadeestá
contida num código de extrema simplicidade que apenas se compõe de
quatro elementos-base: adenina, guanina, citosina e timina.

Toda a estrutura é uma espécie de gramática. As quatro (detras» programam


a intervenção dos vinte ácidos que são as
134 ACRESSIVIDADE

«palavras»; estas transformam-se por sua vezem «frases» e «£apítulos», cuja


sintaxe determina os processos de metabolismo no interior da célula. O código
genético segue os mesmos princípios -de formação em todas as células; a função
específica de cada célula resulta do bloqueio parcial (diferente segundo. as céluIas)
do programa genético.

As bases químicas de hereditariedade são o ácido dexobonucleico (A. D. N.) do


núcleo celular, que é constituído por duas longas cadeias de elementos interligados.
Nas moléculas deste ácido estão contidos todos os planos, pr@,granias de
desenvolviniento e directivas de produção do organismo; são elas que presidem a-
os fenômenos vitais segundo o esquema de hélice dupla, quer dizer, urna -escada
de corda formada em espiral (como se fossem duas espirais enroladas uma na outra
em que as voltas reunissem duas moléculas vizinhas). Se as cadeias que formam o
A. D. N. se desenrolassem teriam um comprimento de milhares de quilómetros e,
-no -entanto, estas cadeias, que contêm o programa genético, de to-dos os seres
humanos, -ocupam o espaço de um dedal.

Oorganismo contém um relógio químico que determina antecipadamente a duração


aproximada da vi-da. O envelhecimento @e a morte não são qualidades, mas
consequências de reacções químicasde moléculasde albumina; as regras da
senilidade e, finalmente, da morte são deterininadas com exactidão por proteínas
instáveis (asparagi,na e gluta,mi,na). Quanto mais instável é uma moléculade
proteína, mais fraca a sua esperança de vida. A tendência ao envelhecimento e
morte está contida no pTograma da célula: a morte faz parte do programa da vi-da.

O sexo masculino é em regra determinado geneticamente por unicromossoma Xe


um Y e o feminino por dois cromossomas X. A existência ocasional -de um segundo
cromossoma Y e, powtanto, a duplicação, de inasculinidade foi durante algum
tempo considerada responsá 1 por um excesso, de agressão anormal em certos
indivíduos. A guns criminosos são absolvidos por

ve
1 suspeita de uma superagressividade genética, fundamentada na existência desta
«dupla masculinidade». As investigações recentemente efectuadas por KessIer e
Moos contestam, no entanto, qualquer relação, entre os cromossomas XYY e a
tensão, agressiva.

No decurso da evolução humana, as reacções de defesa e sobrevivência tornam-se


reflexos neuromotores que fazem parte do @programa genético. O cérebro trabalha
de acordo com um
AGRESS1V1DADE 135

complexo sistema regulador de travagem e aceleração. As regiões principais que


determinam a agressão encontram-se -nas camadas mais profundas do
inconsciente e nas estruturas subcorticais, formando o sistema límbico. Este sistema
estende-se desde a parte anterior do cérebro ao tronco cerebral e é constituído pelo
hipotálamo e partes do tálamo.

Os centros superiores do c<STtex inibem a agressão e quando são afectados


conduzem a um comportamento violento e desenfreado que, segundo Mark e Ervin,
se expressa por brutalidade absurda, embriaguez patológica, ataques sexuais e
graves acidentes de automóvel. O mesmo comportamento pode ser provocado por
afectação (@u su,perestimulação) do sistema límbico e cama- ,das -do inconsciente
(por exemplo, depois de uma encefalite). A afectação das partes límbicas do
cérebro, pelas diversas formas de epilepsia determina por vezes uma diminuição do
contrôle dos impulsos e actos violentos. O desaparecimento desta inibição cortical
desinibe as zonas mais profundas do cérebro; pode ser devida a lesões cranianas,
estados de senilidade e embriaguez causada pelo álcool ou drogas. O álcool
enfraquece o poder ínibi,tivo@ do cérebro. A Icb.o.tomia da região parafrontal nos
doentes mentais afectados por agressividade crónica neutraliza os centros cerebrais
que estimulam a agressão.

Não existem, porém, partes específicas do cérebro que provoquem ou libertem a


agressão. As modificações do comportamento agressivo são determinadas pela
destruição do equilíbrio das influências de estímulo e contrôle, inibição e
desi@nibição que partem dos diversos centros.

Os infinitamente complexos mecanismos -do cérebro, que reciprocamente se


influenciam, são -determinados pela estrutura psicoquímica, do, cérebro, estímulos
recebidos do exterior e interior do corpo, a informação retida no cérebro pelas
experiências anteriores e relações que se estabelecem entre o conhecimento actual
e o anterior. As hormonas, os produtos das glândulas de secreção, interna,
protegem pelo seu funcionamento conjugado o balanço neural entre a inibição e
desinibição agressiva; quando, as glândulas endócrinas são afectadas, pode
verificar-se a agressividade.ou a apatia. Nos períodos em que a actividade hormonal
é mais intensa, como, por exemplo, durante a puber dade, que intensifica a
secreção das hormonas sexuais, observa-se temporariamente um aumento de
agressividade. A expressão exagerada ou a falta de expressão (que oculta muitas
vezes uma
136 AGRESSIVIDADE

,repressão excessiva) de agressão são sempre um indício de urna aberração


mórbida, que tanto pode ser endógena. (provocada por causas internas)
corno exógena (provocada pelo meio ambiente), e, na rnaior parte dos casos,
de uma combinação dos dois factores.

Para compreensão do fenômeno, da agressão humana tornam-se


indispensáveis as experiências com animais, se bem que os investigadores
científicos declarem sempre que os fenómenos observados, nos animais não
se podem transferir automaticamente para o plano humano. Investigações
recentes demonstram, no entanto, de modo significativo que também nos
animais, e surpreendentemente, a influência psicossocial tem um papel
absoititamente decisivo. As estimulações do cérebro ou os estímulos
dolorosos só provocam um comportamento agressivo no macaco @

uando é utilizado como objecto de agressão um companheiro


ierarquicaniente inferior. A agressão é reprimida frente a ani-mais cuja
posição hierárquica lhes é superior.

H.arry e M. Hairlow demonstraram em experiências clássicas que o


isolamento à nascença do macaco conduz normalmente a violentos ataques
agressivos quando.o animal é adulto. Os seres criados isoladamente tornam-
se animais de uma agressividade brutal Ou apáticos e passivos que os
companheiros atacam. o iniedo é um sentimento dominante quando os
macacos são educados no isolamento. Afastam-se do grupo; mais tarde só
podeni contactar com animais que tenham sido criados sozinhos. Algumas
vezes acontece que, passados meses de uma apatia total, irrompe um,a
c@ise de agressividade que se expressa mediante desprezo do perigo e,
quandoem extremo, mediante uma temeridade suicida contra fortes e fracos.
Verificam-se, na generalidad,e, profundas perturbações do comportamento
lúdico sexual ou social. Os contactos a,fectívos -precoces com a mãe ou
companheiros de idade levam o animal à aprendizagem e assimilação de
formas ritualizadas de comportamento agressivo e regressivo. Os camaradas
podem substituir a mãe e a mãe os camaradas. Os macacos bebés que têm a
infelicidade de ser -tratados de forma brutal por uma niãe educada
isoladamente (o mesmo se passa em relação às crianças mártires)
encontram compensação nos companheiros mais velhos. ;Contrariamente ao
conceito simplificado de que a aprendizagem individual apenas modela. e
influencia as formas de comportamento biológicas inatas, deve-se assumir
hoje em dia que os
AGRESSIVIDADE 137

padrões de comportamento sociais aprendidos constituem uma inibição de


valor positivo e podem impedir completamente o desenvolvimento e
manifestação de formas de comp?rtamento «naturais» e biológicas, mas
também de valor -negativo, como no caso da agressão destrutiva.

O rato isolado que é submetido a um choque eléctrico doloToso tenta fugir


ou fica paralisado pelo terror. Quando o mesmo choque doloroso é aplicado
simultaneamente a vários ratos, estes atacam-se uns aos outros. A dor torna-
os indiscriminadamente agressivos. Também se pode fazer a mesma
afirmação relativamente a outras espécies de animais, como por exemplo
cangurus, pombos e macacos. A intensidade da dor é o elemento que desen-
cadeia a agressão: a acção agressiva dirige-se indiscríminadamente a
objectos vivos ou sem vida. A agressão provocada por dor física ou
psíquica.não s.e processa, no entanto, de acordo com um esquema
estereotipado, mas pode ser orientada e educada segundo padrões
aprendidos.

Calhoun demonstrou experimentalmente os efeitos agressivos das massas


sobre a agressividade: no centro superlotado do recinto os ratos aglom-
eravam-se, atacando-se e ferindo-se uns aos outros de forma brutal, vio-
lavain. as fêmeas, não respeitavam hierarquias e comportavam-se
desenfreada e agressivamente segundo os moldes de uma cidade
superpovoada. Na periferia do recinto a quantidade de ratos existentes era
muito menor; aí reinavam a paz, a ordem e a calma; criavam-se e
conservavam-se as costumadas hierarquias e respeitavam-se as- mesmas.
Foi interessante, no entanto, a observação de que os ratos «disciplinados» se
sentiam atraídos pela agitação caótica do centro (ou talvez precisamente por
esse mútivo) e passavam voluntariamente para o mesmo, provavelmente
para trocarem a monotonia da vida calma pela excitante variedade que o
caos lhes oferecia.

J. P. Scotte Zuckermann forram capazes de demonstrar numa experiência


efectuada com macacos que o fenómeno, das massas pode estar na origem
de uma agressão destrutiva e violenta, mas que esta pode ser igualmente
provocada por todo o género de desorganização social.

A agressão é uma forma básica de comportamento que pode ser provocada,


reforçada ou reduzida pela dor, medo, cólera, provocação, ameaça quanto a
posição hierárquica, repleção e outros estímulos internos e externos; ipode
ser influenciada de forma decisiva por experiências de aprendizagem.
138 A GRE S SI VI DAD E

A suspensão de um plano de acção provoca os sentimentos agressivos de raiva e de


cólera. Estes sentimentos afirmam ou modificam o propósito primitivo na relação de
iniportância dada ao objectivo a atingir pela acçã o e à consideração das
possibilida,des de o conseguir. A -cólera, a raiva e o medo também funcionam como
a angústia enquanto sinais subjectivos que indicamo perigo e o fracasso, inas
também são reacções à interrupção do projecto OU frustração do, objectivo. As
esperanças desenganadas e frustradas aumentam a probabilidade de agressão, se
bem que Bei---kowitz e Lazarus tenham deirionstrado que nem to-das as frustrações
conduzem necessariamente a explosões de ,cólera ou a actos violentos. Ignoramos
frequentes vezes o que inos atormenta; o nervosismo e a agitação são os sinais
visíveis de urna agressão controlada. (As variações atmosféricas têrn um efeito
semelhante; o siroco e os ventos do deserto provocam a apatia; o vento quente das
múntanhas aumenta a irritação e a agressividade). Os pensamentos de vingança
encontram a sua justificação na raiva; a esperança que se colocou num
determinado objectivo para o qual se trabalhou e em que se investiu tempo e
relativamente ao qual se receberam promessas ou se acha que há muito se tem
direito transforma-se, quando frustrada, mediante os sentimentos de cólera, raiva e
ódio ante a injustiça, no motivo mais importan,te da agressão.

A sensação subjectiva de pressão, de não se ter sido compreendido ou de se ter


sido alvo de injustiça provoca a raiva e a cólera, que, por sua vez, conduzem a um
comportamento agressivo. Nem ;mesmo a cólera mais intensa s.e expressa
obrigatoriame,nte em agressão declarada. Na maioria esmagadora dos casos a
reacçã o de cólera-na opinião de McKellar -apenas se expressa por ofensas ou
insultos ou é desviada para um objecto sem vida. («Parte qualquer coisa barata,
minha querida!» -aconselha o marido à mulher enfurecida.)

Neir. a cólera nem a raiva arrastam necessariamente a violência. Na inaior parte das
vezes esfumam-se rapidamente e cedem lugar à razão@ e ao contrôle. O ódio,
porém, que se dirige sempre contra alguma coisa ou alguém tem, como o amor,
feição de compromisso; permanece-semuitas vezes fiel durante toda a vida ao
objecto que provoca o ódio. Estes sentimentos são muitas vezes reprimidos de
forma agressiva, mas não declaradamerite violenta. Transferem-se, ritualizam-se e
projectam-se sobre uma imagein do inimigo sem se atingir o plano de agressividade
AGRESSIVIDADE 139

manifesta. Muitas neuroses são devidas a esta repressão e podem em


seguida exprêssar-se em agressão dirigida para o interior, apatia e depressafl.

Dentro do esquema humano, de decisão, os hábitos ritualiza-dos, e acima de


tudo a consideração das probabilidades de contra-ataque, actuam muitas
vezes como factores de repressão. Este processo de apreciação parte-se pela
base, quando apenas são, consideradas as necessidades -momentâneas e
pessoais e a acção se torna em si mesma um fim.

Este facto confirma a nossa própria teoria da agressão. Existe violência


quando da eliminação das complexas possibilidades de escolha que exigiriam
reflexão, ponderação e alternativas. O acto agressivo. só se torna a ú nica
possibilidade de resolução, de um conflito se se tomar apenas em
consideração o instante presente, bem como- a pessoa e o grupo em causa.

O álcool e as drogas

O álcool, mesmo quando. ingerido em pequenas doses, aumenta o potencial de


violência, perturba a mente e enfraquece o contrôle. Quando tomado em doses
maiores afecta os centros superiores do cérebroe suprime o contrôle dos instintos
sem aumentar a força destes instintos, apesar da impressão subjectiva. Todas as
estatísticas criminais demonstram a inegável correlação positiva entre o abuso do
álcool e a multiplicação de crimes e acidentes.

A acção farmacológicado, álcool em certas partes do cérebro no sentido da falta de


contrôle desempenha neste processo apenas um papel de agente secundário e não
decisivo. O álcool aumenta o sentimente, de valor próprio e autoconfiança, se bem
que os bêbedos se tornem muitas vezes hipersensíveis e desconfia-dos quanto a
promessas quebradas, esperanças frustradas e sentimentos de ciúme. O álcool
aniquila a recordação do passado, bem como a imagem de possibilidades futuras e
reduz acima de tudo. o significado destas considerações. A restrição exclusiva do
indivíduo, ao momento presente pode levá-lo a cometer um acto de violência caso
s.e -proporcione (se tem uma

arma ao alcance). A diminuição do sentimento, do medo pelo prazer do álcool só


está cientificamente comprovada quando
140 AGRESSIVIDADE

ingerido em doses muito elevadas. De início, o álcool quase sempre aumenta


o sentimento de força e de independência.
O desejo de afirmação pessoal, -prestígio e de triunfos fáceis no campo
sexual adquire relevância de primeiro plano, havendo neutralização de todos
os factores de contrôle. Afirmou-se que o álcool provoca a revelaçã o do
superego.

As sociedades onde se bebe mais distinguem-se <Ias que bebem menos


mediante um aumento de actividades agressivas, como a caça, uso regular
de instrumentos cortantes e recurso à violência. A temeridade, a gabarolice e
a vaidade, que geralmente são acompanhadas de um desejo acentuado de
conquista de objectos de prestígio, tais como jóias, armas ou um carro, são
apanágios do bebedor. Os indivíduos frustrados no seu desejo de posição e
de poder têm tendência a beber e por outro lado o álcool leva o bebedor a
imaginar-se poderoso apesar das realidades. O círculo infernal termina com o
processo de consolo e compensação no álcool.

O álcool significa o tubo de escape da agressão e segurança que proporciona


um consolo catártico e uma ilusã o de intimidade com os companheiros de
bebida. O efeito do álcool não é apenas farmacológico, mas igualmente
condicionado por esiperanças de realizações sociais. Os Americanos bebem
«porque o álcooldiminui a terisão», os Franceses «Porque faz bem ao fígado
e auxilia a digestão»; muitos vienenses são de opinião que o vinho poupa
despesas -com o psiquiatra, porque o prazer da bebida numa atmosfera de
amizade satisfaz de forma mais económica e agradável do que uma consulta
psiquiátrica a necessidade de expansão e a expressão inocente de uma
agressividade verbal. A descarga directa de agressão é, na verdade, um
efeito indiscutível do álcool.

O efeito catalisador do álcool no que se refere à violência só é ultrapassado


pelo de uma outra categoria de drogas: as anfetaminas, que se utilizam em
pequenas doses como estimula@ntes e para emagrecimento. Quebrani o
ritmo do sono e produzem um desarranjo motor que é acompanhado de
concentração exclusiva no próprio eu, indiferen@a em relação às
consequências futuras e desconfiança paranóica.

Os Americanos falam de speed kills e querem com isso dizer que a


combinação extremamente forte de anfetaminas chamada metradina é tão
mortal para os outros como para nós mesmos.
AGRESSIV1DADE 141

O despertar de sentimentos acentuadamente eufóricos e multas -vezes


místicos mediante a ministração intervenosa da droga em breve se transforma
numa tensão insuportável que conduz a uma procura de excitantes, seja em que
aspecto for, acompanhada de completa indiferença pelas consequências.

Muitos alcoólicos e todos os que se drogam com anfetaminas desenvolvem um


sentimento de exasperaçao quanto aos seus direitos que muitas vezes chega a
atingir a aberração e a loucura. Processa-se uma paranóia que os leva a sentiT-se
troçados, escarneci-do,s, postos de parte, feridos na sua dignidade, lesados na
posiçã o que lhes compete, desiludidos devido a promessas por cumprir e
atraiçoados por amigos falsos. Muitas vezes são cometidos crimes por drogados que
se sentem pTejudica@dos quando da compra ou venda de drogas. O
restabelecimento do equilíbrio de justiça «(pa,,ra colocar as coisas no seu -devido
lugar»), a vingança e o castigo são uma necessidade vital para o seu rígido código
moral. O uso da droga comporta um risco de explosão, não só porque a droga excita
e aumenta as tensões ou porque suprime os contrôles cerebrais, mas também
porquerealça a 1,egitimidade da violência como justo castigo do suposto culpado.

As outras -drogas hoje ingeridas com uso e abuso, e contrariamente às esperanças


da opinião pública, não têm qualquer correlação manifestamente di,,recta com a
violência. Quando muito teriam um efeito negativo. Todos -os calmantes e
soporíferos favorecem um -estado de descontracção física e diminuem também
consequentemente a tendência à violência. Alguns sopoTíferos, principalmente os
barbitúricos, podeninaturalmente e POT vezes ocasionar actos -de viGlência contra a
própria pessoa mediante tentativas de suicídio ou suicídio.

Os narcóticos, em particular os derivados do ópio, como a heroína, etc., provocam


uni estado de dependência e são pyejudiciais à saúde, bem como muito perigosos
em relação à sociedade. Os estados eufóricos e de embriaguez experimentados
pelos drogados não favorecem por si a agressividade, mas os drogados cometem
muitas vezes crimes brutais, quando o seu desejo de obtenção da droga só pode ser
satisfeito por esse meio. O meTcado internacional e nacional de drogas continua
sob contrôle de elementos criminosos. Não é a heroína, mas o comércio da heroína,
que actua no sentido de um aumento da agressividade, se bem que o crime
comercial, graças a uma organização excep-
142 AGRESSIVIDADE

cional que garante uma enorme margem de lucro, só raramente recorra à violência.
Um quilo de ópio vendido ilegalmente pelos camponeses turcos custa cerca de vinte
dólares; depois de os cristais pardacentos terem sido purificados por vários
processos e dis-tribuídos aos consumidoTes de Nova lorque, o quilo passa a custar
cerca de 10 000 dólares. O lucro redunda em cerca de cinquenta mil por cento.

O haxixe e a maríjuana, que provêm do cânhamo indiano, provocam uma


modificação de percepção do tempo, espaço, cores e sons, acompanhada de uma
leve perturbação da memória e muitas vezes da fala. A disposição adquirida é
geralmente eufórica e agradável; depois de a droga ser ingerida verifica-se um
decréscimo da actividade física e uma fraqueza de concentração.
O haxixe conduz à apatia, falta de mo,tivação e uma diminuição significativa das
tendências violentas.

Algumas drogas provocam alucinações; são elas a mescalina e o LSD, descoberto


por uma experiência acidental. Produzem estados de -embriaguez acompanhados
de ilusões visuais, impressão de despersonalização e modificações das fronteiras do
eu que fazem crer num alargamento de consciência. O aplanar de fronteiras entre o,
interior e o exterior ocasiona frequentemente um sentimento de participação num
todo ou numa vasta comunidade humana; o sentimento subjectivo de exaltação da
actividade, de onde se poderia esperar um -efeito terapêutico e aumento de
aptidões artísticas, é infelizmente muitas vezes acompanhado de um notável
decréscimo das reais capacidades.

A embriaguez da droga significa uma fuga e evasão para lá da prisão cultural e


pessoal do real e possibilita a visão de uma realidade expandida e de um eu que
não é o verdadeiro eu que a pessoa espera encontrar. A habituação às drogas
provoca geralmente estados psicóticos em que os drogados particularmente
influenciáveis ficam indiferentes aos actos de violência que cometem e sofrem. Sob
influência das drogas, o perigo nã o é habitualmente levado a sério. Os drogados
saltam despreocupadam-ente de janelas de andares altos ou passeiam indiferentes
ao tráfego de automóveis. Até mesmo, no entanto, nas «viagens difíceis», em que
estão presentes a tensão do medo e uma desconfiança paranóica, quase nunca
acontecem actos de violência. Em resumo, tanto -o haxixe como a marijuana e
também as drogas alucinogéneas diminuem geralmente os impulsos violentos.
AGRESSIVIDADE 143

O medo

O medo teve um processamento, s-emelhante ao da agressão:


primeiramente consi-derou-se como pato,lógico, depois apenas quando
numa percentagem quantitativamente elevada, até que poT fim se tornou
um fenó ,rneno humano universalizado. O medo é unidos fundamentos da
existência; pensa-se que desde sempre @existiu com os outros instintos,
sendo semelhante a estes em muitos aspectos e fazendo parte da primitiva
constituição do ser humano. Muitos filósofos e investigadores tiveram esta
concepção, desde sempre. O medo é a percepção de uni perigo, interior ou
exterior, real, imaginário ou antecipado. O medo é um sinal ,que mobiliza e
coloca o úrganismo num estado de alerta, o predispõe à força, à defesa ou
ao ataque. (9 medo nas suas características gerais não se distingue do
receio, enibora se considere basicamente que o receio tem causas
totalmente determinadas e o me-do, causas gerais e indetexmínadas. A
transformação do medo em receio através da localização r dramatização das
causas arneaçadoras aparece-nos como resultado de um mecanismo de
simplificação.) O medo é unia emoção primitiva que, segundo M. Schuy,
constituí a expressão de uma reacção biológica no homem e rio animal e
cuja origem filogenética poissui carácter hereditário. Talvez o medo da
sepaxação provocado pelo nascimento seja o primeiro padrão e o primeiro
motivo de medo. Segundo a teoria de MéIanie Klein, o medo primário é a
reacção quase instintiva ao perigo da autodestruição. A projecção da nossa
agressividade para o -exterior é a primeira tentativa de superar o medo dos
outros. Pretende-se destruir para não se ser destruído -e matar para não se
ser morto. Esta regressão como ponto, de partida e esta motivação da
agressivida,de por medo de destruição pessoal desempenharão um papel
importante. Observam-se recursos semelhantes à violência criminal ou
política, perda de contrôle individual e explosões colectivas da mesma
natureza. O medo sem contrôle apresenta perigos; quando o medo tem um
carácter vago e geral, os perigos enco@ntram-se sempre presentes em todo
o lado. Também o organismo procura concretizar o medo em sintomas e
limitá-lo a determinadas situações.

O inedG primitivo, corresponde a urna agressividade que não se pode


expressar e encontra-se localizado no id, nas camadas
146 AGRESSIVIDADE

temente, ao mecanismo de defesa da transferência que, aliás, se assemelha ao


da.inibição.

Frente aos mais fracos, manifesta-se a agressão que não se ousa apresentar ante os
mais fortes. O pai pode gritar com os filhos Porque foi repreendido por um superior a
quem não ousou responder. A agressividade reprimida e armazenada vai-se
acumulando, muitas vezes, até poder ser descarregada em grupos de adversários
que o permitam. Só muito raramente e em casos patológicos é que a tensão se
torna tão insuportável que a agressão tem de ser descarregada em qualquer
objecto. As agressões são às vezes reprimidas com aenergia do desespero, até
aparecer um objecto que, permita a sua explosão sem risco. Todas as minorias e
maiorias oprimidas, as mulheres, as crianças, os negros e os subordinados, se
prestam a este objectivo.

Uma repressão excessiva da agressividade por medo (ou para eliminação do medo)
ou também um rigorismo excessivo da coinsciência (sob efeito, do medo) provocam
um contrôle conformista do comportamento, mas também uma maior predisposição
ao medo,. A consciência de agressão pode ser eliminada, mas a repressão não.
pode.

A regressão das tendências agressivas aumenta, por contTário, a agressividade, a


brutalidade e a predisposiçã o agressiva.
O medo,do perigo exterior, que comporta também o perigo interior exteriorizado,
mobiliza a agressão, que defenderá o indivíduo e o conduzirá a uma auto-afirmação
e à eliminação do inimigo externo. Neste aspecto, o medo, é a causa mais
frequente, se bem que algumas vezes dissimulada, da agressão; é também,
simultaneamente, um pretexto. Todavia, a espera da reacção violenta de um
inimigo superior pode, por outro lado, retardar e impedir a agressividade ou mantê-
la no subconsciente.

O excesso de uma agressão, reprimida inconscientemente con-duz, por seu lado,


novamente ao medo e provoca um desencadear de -descargas explosivas e
regressivas. Uma exagerada disponibilidade ao medo, quer -dizer, diminuição das
ondas de medo, mediante experiências traumatizantes, provoca um comportamento
impulsivo e agressivo que põe fora de combate as funções inibitivas do ego.

O contrôle intencional da agressividade através da manipulação do medo, por meio


de castigos e ameaças, pode levar o indi-
AGRESSIVIDADE 147

víduo a recorrer, precisamente, à agressão por medo. O medo

roduz a repressão; uma repressão excessiva produz um medo incontrolável


que se -expressa em apatia, agressão, explosiva, numa combinação de
letargia e tensão ou num estado permanente de ressentimento e sintomas
neuróticos.

O medo pode, portanto, ser motivo e estímulo, bem como inibição e


substituto da agressão. Neste último caso, em que a agressão é reprimida, a
disponibilidade à agressão aumenta paralelamente à paralisia da actividade.
A passividade é inteiramente compatível com a :tendência à agressão
explosiva e estes dois elementos resultam do medo. O medo incontrolado,
tal como o supercontrolado, transforma-se em pânico, pressente ameaças e
perigos em to-da a parte -e recorre, de bom grado, à fo,r@a desenfreada. A
imposiçào@ e.intimidação, de outrem são muitas vezes -defesa contra o
proprio medo, um desejo de compensação de complexos de inferichridade
(Alfred Adl.er), bem como renegação e reacção contra esse medo.

O medo é em diversas circunstâncias fonte de agressão ou meio, de contrôle


da agressividade. As agressões inconscientemente reprimidas sob essemedo
não se expressam, na generalidade, directamente, porque tal poderia dar a
conhecer instintos destruidores ocultos, provocar reacções violentas e dar
origem a um -medo @exasperado.. Inúmeras expressões de agressão
permanecem inconscientes. Mais numerosos ainda são os mecanismos de
dissimulação, através dos quais a agressão, para os outros visível,
permanece oculta para o agressivo.

Uma ou outra observação ofensiva não eram intencionais: talvez nos


-escapassem muito, simplesmente. Não existiu realmente nenhuma intenção
consciente ofensiva, uma vez que a observação partiu de uma agressividade
reprimida. A irritação teve, na verdade, uma origem totalmente diversa, mas
ofendemos, no -entanto, o nosso interlocutor. Atingiu-se o efeito certo talvez
poirque não se pretendesse consegui-lo.

Quando a nossa agressão inconsciente obtém como resposta uma contra-


agressão, há toda uma sensação de ser atacado e ferido sem razão. Há os
«agressivos mimosos»: são hipersensíveis porque são inconscientemente
agressivos e atribuem as suas próprias agressões aos outros e, por outro
lado, superagressivos porque, por ausência de projecção da sua agressão
vivida sobre os outros, julgam-se permanentemente atacados.
148 AGRESSIVIDADE

Espíríto e humor

O espírito desencadeia-se e expressa a agressividade. O riso franco do


ouvinte é um escape de agressividade. Uma vez que adere e participa na
graça, sempre inesperada e inesperadamente agressiva, pode libertar-se
despreocupadamente das suas próprias tensões agressivas. O alvo do
gracejo sente-se agredido, atingido no seu amor-próprío através da troça e
do sarcasmo. Nada cria, frequentes vezes, tão facilmente inimizades
profundas como um gracejo a propósito.

O gracejo comporta uma simplificação, uma concretização e dra-matização


-do real (ulma boa piada deve ser concisa, curta e de fácil apreensão).
Contém os mecanismos de -polarização que derivam da agTessividade e a
favorecem. São particularmente visiveis nas imagens cómicas e caricaturas.
As particularidades fisionómicas ou as características da pessoa que é alvo
de troça são particularmente- e algumas vezes exclusivamente- acentuadas
e exageradas. A acção agressiva intencional do carícaturista vai mobilizar
publicamente as agressões latentes e não pronunciadas contra o objecto
caricaturado. O prazer sentido pelo observador em relação à caricatura, que
é um meio de expressão da sua agressão, é tanto maior quanto o
caricaturado é um seu rival político. Não ri com tanto prazer ante a
depreciação do amigo político; se bem que por vezes tenha humor suficiente
para reconhecer a semelhança, considera a caricatuxa grosseira e
exagerada. Na figura ambivalente do palhaço, simultaneamente alegre e
suscitando a Co@mpaixao, encontra-se esquematizado o antagonismo do
dilema da agressão. O palhaçopode, na verdade, quebrar o tabo da
agressividade e expressar agressivamente na sua liberdade de louco o que
ninguém ousaria dizer, mas não é, porém, leva-do a sério. As suas
apreciações inteligentes de nada lhe servem, porque ninguém o teme.
Diverte o público e permanece, no entanto, desamparado e triste. Mediante a
imagem do cómico desamparado, o palhaço torna-se um objecto legítimo de
agressão. Pode-se rir impune e malignamente do pateta simplório e provocá-
lo, porque se sabe, de antemão, que dele não advirá qualquer represália.

O humor é muito apreciado e considerado como aptidão de reconhecer as


nossas fraquezas e defeitos pessoais, submetendo-se a uma autocrítica
agressiva e s@em uma fuga ao papel de alvo de
AGRESSIVIDADE 149

apreciações trocistas. Diferenciando-se do «bom ponto», o humorista troça


de si mesmo e interiormente sente-se com a segurança e liberdade
suficientes para oportunamente se tornar alvo da agressão para si mesmo.
As publicações satíricas e os gags políticos têm o seu apogeu durante os
períodos de opressão; cabe-lh,es a função de escape de agressividade e é-
lhes permitido uma crítica agressiva vedada à opinião pública.

As piadas políticas e as caricaturas mobilizam a agressão e ,polarizam-se


sobre um objecto concreto. Resta saber se satisfazem verdadeiramente a
intenção agressiva dos outros ou se desviam o público de actos agressivos
mais eficazes mediante esta libertação inocente da sua agressividade. Em
todo o caso, e ao que se diz, hábeis sistemas de manipulação dos espíritos e
políticos argutos divertem-se a inventar e a espalhar piadas contra si
mesmos, a fim -de evitar manifestações agressivas mais perigosas.

Depressões e paranóia

A depressão é o nome generalizado para a diminuição da autoconfiança, que


é sempre sentida com desagrado e, algumas vezes, se torna dolorosa,
aflitiva e insuportável. Quase todas as pessoas experimentaram,
ocasionalmente, depressões ligeiTas, desgostos e desânimos. São reacções
normais a desilusões, fracassos e perdas. A diminuição da autoconfiança, o
sentimento de desamparo edesespero, bemcomo as inibições de actividade e
ausência de impulsos, podem ser uma resposta a estímulos exteriores
(depressões exógenas reactivais), mas também terem oirigem em causas
internas bastante obscuras (depressões endógenas). Estas causas podem,
em casos patológicos, conduzir à loucura, desespero, sentimento de
impotência, auto-acusação ou uma completa letargia.

A psicologia das profundidades acentua o papel decisivo representado pelo


superego no caso das depressõ es. Uma consciência severa, impiedosa,
algumas vezes insensata e mesmo estupidamente inexorável sobrecarrega o
ego de censuras e ameaças, priva-o de afecto e de consideração. O ego,
quando ameaçado e torturado, multiiplica as censuras contra si mesmo,
acusa-se de defeitos e negligência, dá largas a manifestações de doir e de
tristeza, desejando pôr fim ao seu -tormento eventualmente através do
suicídio.
150 A GRE S SI VIDA DE

A depressão é uma agressão voltada para o interior, como, aliás, o fenómeno


normal da -tristeza. A perda de uma pessoa amada leva à libertação e manifestação
da agressão, à inistura corn impulsos eróticos até aí liga-dos à pessoa. Esta
agressívidade é acompanhada de trísteza e, ao expressar-se, algumas vezes em
sentimentos violentos e de culpabilidade, volta-se, muitas vezes, contra a própria
pessoa. Nas observações de casos de psicoses depressivas torna-se particularmente
visível a ambivalêncía e reversibilidade da agressão. Na fase maníaca o doente
apresenta sintomas de urna alegria sem limites, optimismo indestrutível, excitação
e também de uma agressividade desínibida e ilimitada acompanhada de um
sentimento patologicamente exagerado de valor e eficiência pessoais. Nafase
posterior do desenvolvimento da doença, -e sem qualquer causa ex-terna, o mesmo
indivíduo mostra-se des,encoraiadG” abatido e inibido; sente-se indigno,
desprezado, e abandonado, O quadro clínico é dominado por pensamentos de
suicídio, que têm como objectivo permanente a elirflínação de UM Cil detestado,
desprezado e indigno. Neste estado de agressão completarnente dirigi-da para o
interior, o eu do indivíduo toma-se o único objecto de agressão. A tentativa de
efectuar o acto agressivo contra si mesmo verifica-se na PeTigosa fase de
transformação do doente, em que as fantasias depressívas e autodesti-utivas são
acompanhadas por uma activação geral do indivíduoseguidamente à -recaída na
fasemaníaca, Em situações íntermédias, verifica-s-e uma combinação de agressão
dirigida para o interior e de atitude depressíva com urna projecção símultânea de
agressividade em pessoasesituações vista sob um ângulo paranóico. Ás vezes o
superego também s.e torna objecto de ódio mediante um mecanismo de
interiorização de uma agressão primeiramente, Proicctada e que è muito vulgar -na
criança de tenra idade. Na tentativa de suicídio, o infeliz doente.pretende destruir o
seu ego indigno ouo carrasco agressivo que vive no seu íntimo, o superego, e cujas
exigências ele não consegue satisfazer.

O suicídio -ou a tentativa de :s@uicíd-io são agressões que não têm a


autodestruição como fini único. Muitos suicidas preteridem, através do seu acto,
chamar a atenção dos que os rodeiam para si e para os seus problemas. Servem-se
deste nicio extremo para abalar os que não lhes prestaram a atenção devida nem os
arna,ram suficientemente. Utilizam a agressão para levantar o alarme. Estão
impacientes; não querem nem podem esperar mais nem experimentar outras
alternativas, Escolhem o meio de vio-
AGRESSIVIDADE 151

lência dirigida contra eles mesmos como ultima ratio, uma vez que,
destruídas todas as possibilidades, nada mais lhes resta.
O acto do suicídio destina-se a por fim à tensão insuportável (e dadas as
circunstâncias também ao sofrimento insuportável). A maioria dos suicídios
que se concretizam não obedecem, no

entanto, a planos, mas representam reacções primitivas para chamar as


atenções. As tentativas de suicídio são, também naturalmente dramáticos
pedidos de auxílio, gritos de socorro e sinais de desespero. A agr@ssão
suicida possui também, algumas vezes, uma função, cognitiva; comporta
uma esperança de obter um novo e extraordinário conhecimento, conferido
por uma situação nova. Mais frequentemente é ainda o motivo de, através do
sacrifício da vida, atingir os impiedosos que causaram o seu próprio
sofrimento, mostrando-lhes sentimentos de culpa, e levá-los, talvez, a uma
modificação inteTior. Em muitas sociedades primitivas o
des.esperado.suicída-se, normalmente, em frente da casa da pessoa que
considera responsável pelo seu sofrimento. Esta pessoa será desterra-da
pela sociedade. A acção agressiva contra nós mesmos encontra-se, portanto,
visivelmente ao serviço de uma agressão violenta contra a violência sofrida.

Emuitas vezesquestãodo acaso o facto de a agressàoprimítiva e primitivada


da força desenfr<,-a<la se exercer contra o próprio ou contra os outros.
Muitos assassinos acabam suicidando-se ou têm de ser impedidos pela foTça.
de se suicidarem. O que, a princípio, se queria suicidar acaba muitas vezes
por matar os outros. Pelo que -nos é,dado deduzir do. -material clínico que
temos em nosso poder, vinte e oito assassinos afirmaram convietamente que
apenas tinham cometido crimes paraeles mesmos serem executados. Klaus
Hoppe fornece-nos excelentes exemplos relativos à transfoTmação e
conversão,da agressão. Analisou criticamente e descreveu os casos -de
cento, e noventa doentes antigos detidos em campos de concentração e
perseguidos. Estes indivíduos durante longo tempo, e mediante situações
extremas, tinham aguentado desesperadamente um sofrimento indevido e
terrível. Decorridas dezenas de anos, ainda deram provas de graves
perturbaçõ es psíquícas e frequentes depressões crónicas reactivas, com
siritornas de medo, sonhos de perseguições e sentimentos de culpa por
terem sobrevivido aos companheiros de infortúnio. Eram também frequentes
os casos de perturbações psicossomáticas, perda de sentimento, de
autoconfiança, apatia e falta de reflexos. Em muitos doentes verificava-se,
em contrapaxtida, um esquema
152 AGRESSIVIDADE

quase díametraliriente oposto ao descrito por Hoppe, como agressão reactíva


crónica. Consiste numa espécie de obsessão feita de ódio que foytalece,
Yitualiza e repete a antiga posição de defesa contra um ambiente hostil.

As tendências depressivase as suas causas, quer tenham fundamento «real»


ou existam unicamente na irnaginaç@o, são normalmente compensadas e
aliviadas, mediante ‘uma vi-Tagem para o exterior da agressão dirigida para
o interior e através de um condiciona,mento da agressão. Se se conseguir
provocar reacções agressivas nos doentes depressivos, está-se no caminho
da cura. A mobilização e a expressão verbal de uma agressão anteriormente
dominada, reprimida e dirigida para o próprio indívíduo, que são afinal os
acessos de cólera e raiva, são consideradas como sinal terapêutico de valia.

Acima de tudo, no entanto, há que entusiasmar o doente, por exemplo,


mediante terapia de ocupação e de trabalho, a uma viragem de agressão
para o mundo exterior. A reconquista de uma velha rotina ou o esta
belecimento de uma nova rotina rítualizada acalmam a -necessidade de um
condicioriamento à agressão e desviam a agressão dirigida ao próprio eu,
através de urna ocupação pessoal. Dentro desta teoria, todo o género de
trabalho tem também um efeito «tcrapêutíco,» como escape de a"são,
legitimada, portanto relativamente isenta de todo o sentimento de
culpabilidade ou angústia. Crê-se, geralmente, que, se não existisse urna
rotina de trabalho, @a ociosidade é o começ@ de todos os vícios), haveria
indubitavelmente um tédio ainda maior e urna mais vincada dísposição@ a
explosões agTessivas violentas. Uma vez na presença de laços criadores por
obrigações familiares e profissionais e da integração dos indivíduos na
sociedade através dos mesmos, os revolucionários, ique têm necessidade de
dispor de um potencial de agressividade livre e maleável, têm muito maiores
dificuldades. Por outro lado, a geraçãowais antiga utíliza-se do trabalho em
relação aos jovens como castigo ou como terapia, a fim de que eles possam
tomar consciência de como é difícil ganhar a vida e para poderem ter outro6
peusamentos ou mais precisamente para os desviar de certos pensamentos. O
trabalho cumprido e decretado, unicamente como terapia falha, no entanto,
geralmente no seu objectivo terapêutico. Tem de Ser * ustificado por um
objectivo com sentido (pelo menos o do dinheliro), a fim de produzir o
condiciona-mento e a legitimidade da agressão.
O trabalho tornado ppetensa ou efectivamente sem sentido, -pelo
AGRESS1V1DADE 153

menos para o indívíduo, actua como obrigação desumana e desumanizada;


tem um efeito deprimente e provoca, contrariamente, motivos de depressão.

O excesso de exteriorização projectiva das fontes de perigo interiores,


acompanhado da crescente sensibilidade e agressividade, é considerado
paranóico a partir de um certo grau de intensidade. A adulteração paranóica
e a adveniente falsa percepção, da realidade podem atingir o estado de
loucura permanente e sistematizada, em que, por exemplo, o inimigo
aparece como perigo participante ou organizador de uma conspiraçã o,
justificando, portanto, naturalmente toda a agressão que lhe seja dirigida. As
perturbações paranóicas de menor gravidade, que deformam e falsificam a
realidade por meio de mecanismos simplificadores de projecçã o dramática,
mas com menos íntensidade, levantam paradoxalmente problemas mais
delicados; em nada diferem da habitual estrutura da imagem inimiga.

A necessidade de um inimigo implica uma certa. polarização; a


exteriorização paranóica de impulsos agressivos íntensifica e satisfaz esta
necessidade, Uma vez que a percepção da realidade exterior e exteriorizada
se torna um e o mesmo facto para o indivíduo, a deturpação paranóica fá-lo,
imaginar um perigo iminente que o alerta e mobiliza a sua agressívidade. A
agressão oculta e dissimulada presta-se à exteri'OTiza o’ paranó ica. A
paranóía mobiliza a agressividade. O indivídC sente um desejo insaciável de
poder paTa se defender contra os perigos imaginados que cria. Para sercapaz
de se afirmar, o doente necessita de utilizar inconscientemente ou
intencionalmente Mecanismos Paranóicos. O poder absoluto provoca uma
corrupção absoluta porque as suas caracteristicas paranóicas facilmente se
intensificam.
O poder deturpa e nega a realidade e, finalmente, acaba por a -reger
segundo e mediante a fantasia paranóica. A paranóia do poder absoluto
significa a percepção de um perigo, primeiro imagináyioe depois «tornado
realidade», que pTovoca o que ela acaba Por legitimar: a violência.
PRIMEIRA EXPERIÊNCIA: PRIVAÇÃO DE ESTíMULOS

homem resiste a muita coisa, mas não a tudo. Nem só de pão vive o homeni; a
excitação e os estímulos não são uma necessidade de luxo, mas uma necessidade
vital.
O homem precisa do mundo que o rodeia para poder manter o seu equilíbrio interior
e capacidade funcional.

Os estudantes canadianos esperavam em longas filas para poderem tomar parte


nesta experiência. Tudo o que havia a fazer ,era não fazer nada. Tratava-sc de estar
deitado numa cama confortável -e a visão eradirigida por binóculos, numa
determina-da direcção; calçavam luvasc as mãos eram presas, mas de forma a não
impossibilitar totalmente -os movimentos. Podia-se comer e beber, quando e tanto
quanto se quisesse. A participação na experiência, que também se podia
interromper logo que se desejasse, era generosamente paga. Este repouso dentro
das maiores como- ,didades, altamente remuneradas e sem obrigaç5es, era o que
de melhor se podia desejar.

Pouco -depois do começo da experiência, quase todos os participantes


adormeceram. Decorridas algumas horas, a maioria acordou e começou a dar
mostras de crescente aborrecimento. Muitos cantavam, assobiavam, falavam
consigo e tentavam tirar o'm(-lhor partido do mínimo de movimentos que lhes era
permitido. Por fim o tédio dificilmente se tornava suportável; os participantes na
experiência mostravam-se incapazes de coordenar ideias. Decorridas mais algumas
horas todos davam sinais de impaciência e consideravam a situação como tortura.
Sentiam-se mal naquele estado de passividade obrigatória e, apesar da elevada
156 AGRESSIVIDADE

remuneração, muitos desistiram da experiência. Pela utilização de teses


simples, corno problemas aritméticos, anagramas e cubos, verificou-se em todos os
testados, à medida que a experiência ia ava,nçai@do, urna diminuição das
capacidades intelectuais. As pessoas mais teimosas, que aguentarani mais de vinte
e quatro horas, começaram sem excepção a sofrer de alucinações. As alucinações,
predominantemente visuais, iam de simples figuras geométricas a complexas cenas
semelhantes a sonhos. A principio as pessoas aguentavam as alucinações, que
consideravam um substituto do mundo que habitualmente as rodeava. Em breve a
diversão cedeu, porém, lugar ao receio e à apatia angustiosa; passou-lhes o prazer
de procurar significados e a capacidade de interpretação das visões que os
assaltavam.

Os experímentadores viram-se finalmente obrigados a pôr termo à experiência, urna


vez que os testados, agora completamente controlados pelas suas alucinações, não
eram capazes de aguentar mais.

A repetição desta experiência, realizada em 1954 por Dexton, Herron e Scott,


veríficou-se em 1956, por Lillie. A ausência de estímulos, ainda mais completa,
mediante encerramento dos testados numa c6u1a subinarína, demonstra iguais
resultados.

As conclusões são significativas. Os efeitos permanentes da privação de estí,rnulos


são o tédio, per.turbações motoras e sentimento. de mal-estar, que se tornam
insuportáveis e que, com a continuaçâo, da experiência, provocam a
desorganização inevitável das funções superiores, sintéticas e de selecção
intelectual, acompanhada de enfraquecimerito, por falsa percepção e alucinaçoes
estranhas à realidade.

A princípio as pessoas @estadas ocupavam-&e a pensar nos estudos, nos amigos,


na família e nos acontecimentos felizes do passado. Tentavam recordar em
pormenor um.filme que tivessem visto recentemente ou lembrar-se de unia viagem
que tivessem feito. Depois começavam a contar até mil, acabavam por desistir e
diziam: «O meu cérebro está completamente vazio; não consigo pensar -em mais
nada.» Nesta altura da expcrí 'ncia, as pessoas tornavam-se irritáveis e
crescentemente infantis; inuitas chegavam mesmo ao estado do balbuciar infantil.
Não há dúvida: a monotoniatorna as pessoas estúpidas, ar-aba por as enlouquecer
e, de qualquer forma, fá-las sempre infelizes.

A teowía neurofisiológica para esta descoberta atribui grande inipoTtância ao


-tecido reticular actívante do cérebro. Esta parte
AGRESSIVIDADE 157

do cérebro só consegue ter actividade satisfatória mediante peTmanente


bombardeamento. dos estímulos e só depois estimula as outras regiões do
cérebro. A monotonia provocada por condiciona-mento de estímulos ou
repetição dos mesmos, devido a um ambiente imutável, suscita um
funcionamento anormal do cérebro, que por seu lado faz surgir um
comportamento anormal. A mudança não é a essência da vida, mas a sua
substância.

O que há muito se sabia, já pelos relatórios das expedições polares, pelos


operadores de -radares, q@e são obrigados a olhar continuamente para o
mesmo ponto, e ainda pelos condutores de camiões, que têm de conduzir os
seus veículos por estradas monótonas, é agora afirmado experimentalinente.
A ausência de estímulos provoca- como consequência quebras na
coordenação do -pensamento, nervosismo e melancolia, bem como
alucinações. Os estímulos dados pelo mundo exterior correspondentes ao
estado de desenvolvimento, do indivíduo, mediante riqueza de variedade e
complexidade, toyna-m-se necessários para garantir o equilíbrio e a
capacidade do pensamento. Os estímulos simples e uniformes só durante
pouco tempo e insatisfatoriamente conseguem desemipenhar esta função.
No caso de o mundo exterior não fornecer estímulos suficientes, a pessoa vê-
se obrigada a recorrer a falsas percepções.

É evidente que fenómenos semelhantes desempenhem um papel essencial,


quando se trata delonga ausência de estímulos, viagens especiais e também
na higiene psíquica das crianças. Spitz descreve casos de depressão
verificados em crianças criadas em orfanatos e asilos, o que confirma em
muitos aspectos a experiência da ausência de estímulos,. A inteTpretação
psicanalítica explica que a apatia e o nervosismo existentes na criança
abandonada pela mãe resultam da falta de amor materno. As demonstrações
de afecto devem ser tãoconstantes como variadas, a fim de podeTem Ser
apredadas como tal. Todas as boas mães o sabem e por isso procuram
encontrar companheiros de brincadeiras para os filhos; a privação de
estímulos nos primeiros meses de vida e na infância conduz normalmente às
mais graves perturbações psiquicas, que permanecem vinculadas para
sempre. A -privação Mais tardia de estímulos tem também consequências
igualmente nefastas, que, no entanto, podem ser vencídas imediante
regresso a condições satisfatórias.

Quera controla a nossa corrente de estímulos controla igualmente os nossos


pensamentos e sentimentos mais profundos. Os
1581 AGRESSIVIDADE

anúncios, a publicidade e finalmente as lavagens ao cérebro são as formas


escalonadas de influênciana opiniã o, mediante manipulaçã@ e selecção de
estímulos que, em quantidade suficiente, respectivo requinte de escolha e
intensidade suficiente, provocam, ,normalmente as consequêncías desejadas. A
aplicação prática de todas estas técnicas, através de padrões de venda, demagogos
e poderes soberanos, precedem a utilização científica destes fenómenos.

Impressionados pelo efeito irresistível da mainipulação dos estímulos, os cientistas


reflectem na forma de criar um processo contra a lavagem ao cérebro.

Os estímulos de informação são normalmente oferecidos dentro de uma


possibilidade suficiente de escolha. Cada indivíduo -escolhe de preferência os que
confirmam as suas opiniões e preconceitos e evita os que possam entrar em conflito
com as suas noções e tomadas de posição anteriores. O indivíduo deseja preservar
as suas convicções, o que o leva a p@ocuraT criar à sua volta um ambiente «isento
de bacilos», no seio do qual não corre o riscode ser contrariado. Só este sistema de
informação, ciosamente preservado é verdadeiro---e sólido, ao, passo que as
contradições do ambiente permanecem num plano discreto. Quando a situação
muda, o sistema revela-se surpreendentemente frágil e instável. A resistência do
indivíduo às influ6ncias exteriores pode consolidar-se graças a estímulos que
mobilizam os seus reflexos de defesa sem que, no entanto, se imponham com a
foirça suficiente para os vencer e paralisar,

Estas -deduções nem sempre são, todavia, regular e inteiramente confirmadas ?ela
realidade: há muitos homens que, para quebra de monotortia, curiosidade ou
necessidade de mudança, procuram -situações de estimulos de carácter um tanto
perigoso para o seu equilíbrio, ,mas que os entusiasmajrn e excitam. Interrogaram-
se vários indivíduos sobre máximas banais universalmente aceitesque pertencem à
esfera da medicina e estã o libertas de feição moral (a penicilína é um bom
processo de cura, a limpeza frequente dos dentes é saudável, torna-se aconselhável
um ,exame médico anual, @etc.). As respostas demonstraram que estas ideias
resistiam melhor aos hábeis esforços persuasivos dos interlocutores, quando
anteriormente submetidas a uma análise e discussãGeríticas. O indivíduo que adere
a uma opinião desde sempre aceite e nunca posta em dúvida re,negá-la-á com
facilidade.
O indivíduo julga~se na posse de uma verdade sólida, inas se a
AGRESSIVIDADE 159

vir seriamente posta,em dúvida acabará por a abandonar, muitas vezes sem se dar
conta da viragem que em si s.e processa. Em co-ntrapartida, o indivíduo imunizado
por uma crítica anterior na base da moderação e objectividade resistirá à tentação
de mudar de parecer, -mesmo frente a promessas aliciantes ou ameaças de castigo.

Existe uma diferença enorme entre a mudança de opinião e a mudança do


comportamento. Todos os inquéritos feitos quanto à acção psicológica sobre as
massas demonstram que as estruturas do pensamento, motivação e
comportamento se encontram em estreita correlação e que, devido ao estado de
desenvolvimento que atingiram, só admitem uma modificação numa base de
paralelismo em determinadas circunstâncias. As primitivas categorias de selecção,
-de estímulos servem como, padrão e escolha para as futuras. A princípio, os
estímulos na base da confirmação são preferi-dos aos contestatários. Toda a
informação é primeiramente analisada no sentido de estar ou não de acordo com as
opiniões anteriores. No caso de não existir esse acordo, é posta de lado, recusada,
modificada ou falseada até se adaptar à ordem existente, a não ser que toda a
estruturado, pensamento, até aí existente se modifique por completo no senti-do da
nova verdade. Quanto mais claramente sedefine uma acção com um determinado
objectivo (ódio ou amor concreto) e quanto mais o tempo a vai afir- ,mando, maior é
a probabilidade -de que venha a adquirir contrôle sobre as estruturas que motivam
o comportamento, acompanhado da adesão do pensamento e sentimentos.

Tudo isto nos parece conhecimento de longa data. A ciência porém impõe como
ponto de honra não ceder aos manipuladores da opinião pública, aspirando a
desenvolver métodos que dificultem essas manipulações. O autor da experiência de
imunização neste domínio, William Mcguire, declara que um dia recebeu um
telefonema de um conhecido publicitário que ouvira falar das suas conhecidas
experiências. O director oferecia-lhe um lugar na firma. O investigador recusou, com
o fundamento de que ,estava nomoniento a trabalhar para descobrir o processo de
ata- ,que aos anúncios e persuasão e não a forma de os tornar mais eficientes, o
que devia ser o objectivo da agência. «Talvez ainda possamos usar o seu ponto de
vista contra a concorrência», foi a resposta do homem de negócios.

Será,(> as descobertas científicas wertfrei? (isentas de objectivos desinteressados).


SEGUNDA EXPERIÊNCIA:
O DILEMA DA DECISÃO

diferenciação de valores chama-se.a. independência das descobertas científicas,


quanto a opiniões preconcebidas e decis5es emocionais; é o mesmo que liberdade
de valores. Sob a designação de livre arbítrio, encontra-se a possibilidade de o
homem escolher autónoma e livremente: liberdade de vontade. Por ess-e motivo a
escolha dentro da moral é elogiada e a imoral castigada. A tensão, o medo, a
-perturbação e a doença limitam a vontade, que também é decisivamente
influenciada por factores inconscientes. A influência sobre a formação do «livre»
arbítrio utiliza-s-e de factores inconscientes: muitas vezes cedemos às próprias
manobras inconscientes de ilusão.

O cigarro é prejudicial à saúde. O fumador que ouve finalmente a razão


apercebe-se deste facto. A dissonância verificada entre o medo e a falta de vontade
resulta da sua convicção de que o cigarro lhe faz mal e a incapacidade de resistir ao
hábito enraizado. A fim de abrandar o medo ante o cancro do pulmão, o infeliz
fumador prefere ,ler ominimo possível sobre as consequências do funioe evitará
contacto com conhecedores do assunto .e que o poderiam instruir devidamente;
pode ir mesmo ao extremo de arranjar literatura que ponha em dúvida a correlação,
do cancro de pulmão com o fumo. Pode igualmente servir-se de
artifícios,conscientes -e inconscientes, ainda muito mais requinta,dos: pode tentar
convencer-se a si e aos outros que os automóveis representam a maior fon-te de
perigo da nossa civilização
162 A G R E S S1VID A DE

emuito pior que o fumo. E quem estaria disposto a desistir do. automóvel,
porcausa do perigo -de acidentes? Na vida nada se faz sem risco; e, ao
aceitar-se o perigo imensamente maior de se andar de automóvel, pode-se
continuar calmamente a fumar. É evidente que também se p(?de fazer a
experiência de se deixar de fumar. De qualquer maneira, porém, a pessoa
tentará atenuar o sentimento desagradável de desarmonia entre dois
factores opostos e que podem ser acções, opiniões ou sentimentos. Quem,
após longa reflexão, acabar por comprar um Mercedes em vez de um jaguar
procurará confirmar a esperteza da sua decisão mediante informações
recolhidas posteriormente; acreditará piamente nos comentários elogiosos
feitos pelos donos do Mercedes e não,ouvirá as críticas. P@ode-se ser levado
a cometer qualquer acto com uma razão determinada, mas, uma vez o
mesmo realizado, surgirá a procura de motivos válidos e a utilidade do
mesmo. A tendência pronunciada a uma justificação racionalizada no sentido
-de uma consequência lógica é visível em todos os campos.

Quando umacriança apenas pode conservar um de dois brinquedos


praticamente do mesmo valor, há grande probabilidade que dê maior valor
àquele com que ficou. O que acontece, porém, quando alguém pretende
qualquer coisa e descobre que em nenhumas -circunstâncias a poderá
alcançair? O objecto impossível de obter é subjectivamente desvalorizado
como consolo pessoal. O que não se pode possuir, talvez não valha a pena
ser possuído: por exemplo, urna posição, dinheiro, uma carreira, satisfação,
mulheres... A diminuição, da dissonância entre o desejo e a -sua satisfação
nem sempre é conseguido mediante modificações de opinião, e de
esperança. A racionalização, que leva ao pensamento de que afinal não se
queriam as uvas demaSiado altas, porque estavam muito verdes, não precisa
ser utilizada nos casos em que o desejo é demasiado fraco ou as ameaças .e
sanções pela satisfação do desejo são proibitivas. A impossibilida-de de
realização do objectivo serve -de base à recusa pessoal. Só quando os
factores da intimidação são ultrapassáveis e, portanto, 9 objectivo desejado
se encontra ao alcance da mão, é que o (denômeno das uvas verdes» se
processa e, de vez em quando, também o seu oposto, ou seja, a ídealização,
do objecto inatingível.

Os -partidários de um sistema falam da pressão exercida pelo sistema


político inimigo e exageram, a fim de poderem justificar
AGRESSIVIDADE 163

o seu comportamento pessoal. Só se faz o que se deverá fazer. Se, no entanto, a


ameaça de castigo for suportável e incerta, verifica-se urna dissonância enorme
entre a tentação da -raciú- @nalização e a possibilidade de aguentar o risco do
castigo. A dissonância é a porta de saída para urna profunda modificação da
maneira de sentir e que é tanto mais provável quanto menor for a pressão. A
tendência -de raciorialização, leva a uma modificação real de atitude e de
comportamento, uma vez que já não se pode recorrer à tensão como motivo
dominante.

A dissonância cognitiva pode ser considera-da como motivo e causa de acções


destinadas a unia diminuição de dissonância, tal como a fome origina actos que se
destinam a acalmá-la. A dissonância é a variação sentida num equilíbrio harmónico
e é -definida como um sentimento de confusa adaptação e ajustamento. A
consonância expressa o princípio da peTseveran@a; torna-se importante cima de
tudo efectuar sempre a tentativa de adaptar e ajustar cada nova experiência ao
esquema do pensaImento, sentimento e experiência da anterior. A dissonância,
através dos sentimentos de medo e de desgosto que provoca, constitui um motivo
para modificações. A originalidade é quase sempre uma característica da
dissonância; a novidade perturba o equilíbrio,; a crítica é a iprodução de ou a
referência à dissonancia e a originalidade é a técnica de construir a dúvida
dissonante a partir do que é naturalmente co-nsonante. As teorias da dissonância
de Festinger e outros são, na verdade, teorias de motivação, ao passo que os
padrões consonantes do equilíbrio se aproximam da ordem homoestática e
automática dos estímulos que se verifica no corpo humano, -onde, através de
mecanismos reguladores, se podem conservar, de forma relativamente constante, a
temperatura, a percentagem de açúcar no sangue, a respiração e outras funções
vitais.

A tendência natural de reduzir as -dissonâncías e, assim, estruturar -desejos


impulsivos no equilíbrio existente até esse momento é visível, se bem que não
inevitável. Em determinadas circulistâncias (boas ou mãs, favorá veis ou
desfavoráveis) pode levar a

urna nova adaptação ou uma visão diferente dos acontecimentos.


O desenvolvimento psicossexual e a maturidade psíquica efectuam-se de forma
gradual ou descontínua, antes de poderem novamente alcançar um estado de
equilíbrio temporário, mediante modificação do cenário interior. Nas decisões entre
duas alterna,tivas em que se tem de escolher entre dois objectos ou
16,t AGRESSIVIDADE

acções aproximadamente domesmo valor, pode-se observar uma fase


transitória em que a tortura da escolha se caracteriza pela colecta de
informações e consideração das soluções. Neste sentido, a meditação,preliminar da
acção -tem pequenas quantidades de energia. Se se escolher a altemativa que nem
sempre corresponde à primeira impressão, a situação psicológica modifica-se com
uma reviravolta. Termina a fase de procura, relativamente objectiva, desinteressada
e arbitrária; a objectividade anterior é substituída por nítida parcialidade no sentido
de um encontrar de decisão. Se a decisão tem em vista determinar acontecimentos
seguintes, a modificação t=, a-se particularmente significativa. Em condições de
compromisso, surgem sempre.as modificações da teoria da dissonância: o, material
informativo apresentado para co.nhecimento liniita-se às informações que
confirmam a tese e ignorará, rejeitará, diminuirá o significado, bem como
depreciará o inaterial dissonante. Nem todas as decisões são, porém, irrevogáveis,
mas existe nelas a tendência de falsificar informaçõ es futuras e seleccionar e
valorizar de acordo com um determinado padrão.

No caso de existência de considerável tensão de decisão ou de diminuição de


tolerância para as falhas do processo de decisão prévia, as decisões itornam-se
frequentemente impulsivas, sem serem submetidas a uma análise prévia e
objectiva, e tomadas, portanto, arbitrariamente; a adesão subjectiva, fundamentad
em decisões anteriores, pode reduzir ou eliminar totalmente -os períodos de
consideração da decisão. As perturbações neuróticas influenciam a liberdade de
decisão. Os doentes incuráveis prolongam indefinidamente o período de decisão e
algumas vezes nunca a chegam a tomar. Os impulsos levam muitas vezes a uma
decisão, às cegas e arbitrária. Muitas vezes as decisões também podem conduzir a
um compromisso e até mesmo ao fanatismo; o acaso desempenha, tanto no campo
pessoal como na história mundial, um papel frequentemente menosprezado. A
decisão às cegas, arbítráría e impulsiva, que no fundo não é decisão mas apenas
uma obediência cega ou um deslizar para uma situação, é frequentemente
racionalizada e,idealizada, bem Como a chamada decisão verdadeira, e tem muitas
vezes as mesmas consequências.

É certo que estes resultados são muito esquemáticos e, por assim dizer, não
psicológicos, urna vez que deles dificilmente se colhe o esperado comportamento
individual. Um elemento de
AGRESSIVIDADE 165

percepção pode ser dissonante com um e consonante com muitos outros ou


ser-lhes irrelevante. Nã -tanto, qualquer

o CxIstC, F« defini “- -precisa de dissonância. Além disso, a amplitude das


variáveis da.personalidade é em qualquer dos casos.tão grande que as
previsões que assentam, meramente, nas teorias da solução por dissonância
têm necessariamente de falhar. A teoria oferece, porém, craveiras seguras
para d í@ação e previsão

ou m%@@ da -probabilidade de continuidade fica O.

Lembremos, para nos defender do seu aspecto prejudicial, as tentativas que


têm precisamente como objectivo -poupar ao homem todas as dissonâncias
cognitivas. Estas tentativas consistem em pintar a preto e branco um
universo em que os fenómenos pretos e brancos são precisamente raros.
EDUCAÇÃO, CASTIGO E OBEDIÊNCIA
E

m casa podemos, dar largas à nossa verdadeira personalidade.

O que se faz dentro das quatro paredes não diz respeito a ninguém. No pequeno
espaço ocupado pela família moderna, que cada vez tende a tornar-se mais
pequeno, reina esta liberdade ilimitada qxie é interdita ao indivíduo nos âmbibitos
mais vastos que dominam a sua existência.

Meios de educação.- a violência Objectivo da educação: renúncia à violência

As crianças são castigadas para aprenderem a não, castigar. A criança que


bate no irmão mais novo recebe do, pai uma lição (Wanios ensinar-te a
perder esse hábito!»), para se desacostumar de o fazer, Volta-se o feitiço
contra o feiticeiro. E então a criança é ensinada, de forma agressiva, que
não, pode ser agressiva.

O pai ama o filho e queT-1he bem; sente-se, portanto, no ,dever de lhe dar
uma educação enérgica o mais cedo possível. É,eviden,te que não tem a
sensação de se comportar como agressor. É para bem da criança e no, seu
interesse pessoal que têm de se lhe ensinar boas maneiras e fazer-lhe perder
o gosto pelo mal. O educador recorre, assim, ocasionalmente, a métodos de
força, quando nada mais resulta.

Freud apelidava o recém-nascido do polimorfo perverso (ofensa que -nunca


se lhe perdo,ou). Nas suas -primeiras fases, a sexualidade não tem ainda
estrutura nem objectivo, presta-se a todo o género de expressães e
disposições de todas as virtualida-
168 AGRESSIVIDADE

des, inclusive aquelas que mais tarde, quando do aparecimento da


sexualidade genital, serão qualificadas de perversas, e dentro desta mesma
visão o recém-nascido é dotado de uma agressivida,de polimorfa. As suas
tendências, predisposições e instintos agressivos encontram-se ainda,
provisoriamente, sem contrôle. Tal como os diversos instintos, a
agressão também evolui, segue as fases de desenrvolvíniento, adapta-se aos
objectos que encontra e é remodelada pelos conflitos que tem de enfrentar.
A sociedade procura retardar a manifestação da sexualidade, dirigi-Ia e
organizá-la dentro, de linhas bem definidas no que se refere à propagaçao e
conservação da espécie humana. Nas sociedades civilízadas, a agressão,
considerada como su ‘rflua, é recusada e, por

PC fira, utilizada com urna designação diferente.

A -eliminação total da agressão satisfaria um desejo universal enatural de


paz. Este ideal tem de ser vincadamente inculcado nos pequenos bárbaros. A
educação fará com.que a criança comece a aprender o medo. Para se evitar
o perigo, o melhor é conhecê-lo. O mundo exterior está cheio de perigos: o
fogão queima, e o corpo magoa-se ao cair do berço; tem de se ser
cuidadoso. Os adultos e os irmãos irritam-se, algunias vezes ficam mesmo
furiosos, quando são incomodados e interrompidos per-inanentemente. Ás
vezes, a criança quer tudo ao mesmo tempo, o que é impossível. A criança
;também tem medo, mesmo sem -motivo aparente. O perigo situa-se
também no íntimo, dentro de si; tem de conseguir dorniná-lo. Para prevenir a
criança contra o pefrigo e para.se ensinar a evitá-lo, utiliza-se o ensino, a
recompensa e o castigo,. Como aprenderia, caso contrário, a disciplina e a
consciência? Se a criança tivesse conhecimento de como o mundo é na
realidade, ficaria agradecida aos pais -tão agradecidacomo estes, por sua
vez, aos seus -por lhe ensinarem tão cedo o que mais tarde seria muitomais
difícil aprender no, curso da vida. A criança quer, em princípio, ser boa, mas
não U.m qualquer noção de como, o fazer ou pelo menos simulá-lo. A
princípio, a criança não sabe o que quer « verdadeiramente», uma vez que
pretende tudo ao mesmo tempo. Os pai”’ dir-lhe-ão o que ela deseja e
proporcionarão a forma de a aj udar a desenvolver as suas próprias
necessidades. O melhor será seguir as palavras e ordens dos pais; deve-se
ser obediente! Os pais todo-poderosos constituem uma protecção contra
operigo e nada há que recear. Imitem o seu exemplo! A questão só
apresenta dificuldades quando as palavras e os actos dos educadores não
estão
AGRESSIVIDADE 169

de acordo. A criança que bate no irmãozinho que estava a chorar é, por seu lado,
castigada pelos pais, embora estes quando estão nervosos -também dêem algumas
vezes uma palmada ao recém-nascido. É evidente que, muitas vezes, os pais podem
fazer o que proíbem à criança. Não são maiores, mais crescidos e mais fortes? É até
mesmo um estímulo para a criança poder vir a ser colmo os Pais. Quando for adulto
-poderá ficar a pé o tempo que quiser e fazer o que lhe apetecer. Também não
haverá necessidade de apresentação de um motivo para todos os desejos. Poderá
manda-r, em vez de obedecer. Os pais sabem que a criança tende para o bem mas
ignora o que é o «bem». Há, portanto, que lhe mostrar a diferença entre o bem e o
mal, de uma vez para sempre. A criança por si não quer prejudicar nem magoar
ninguém. A sua agressividade é inocente e não obedece a premeditação; cresceTá,
no entanto, em força e poder. Mesmo assim, nunca é demasiado cedo para lhe
mostrar que não s.e castigam os outros sem razão e que não se podem impor pela
força todos os desejos, pois que este princípio é basicamente falso, mau, perigoso e
proibido. O seu seguimento implica ser-se abandonado pelos outros; fica-se só e
não se é protegido por ninguém.

Estas consequências da agressão -infantil não só serão mostradas à.criança, mas


serão mesmo confirmadas através da agressão @xperimen.tada. Quando faz mal
também sofrerá. A agressão inocente é transformada pelo, educador em culposa,
mediante uma estratégia bem organizada de recompensa e castigo, visando a
socialização do---indivíduo. A agressão oiriginalmente desconhecida é, por meio de
proibições, reduzida à dissimulação, reprimida e recusada e torna-se uma
agressãoreal amplificada. A experiência do acentuar da dor pelo castigo e privação
do. amor ainda continua comprovada como o melhor, mais rápido e, na verdade,
o único método para desencorajar e evitar o mal.

Uma pequena -palmada, aplicada na ocasião -própria, é um bom método, ainda que
a criança sensível e mimalha se ofenda. A criança tem de se habituar a uma certa
dureza, que mais tarde não lhe será poupada; esperamos que a criança aprenda a
dominar-se e não será necessário educá-la e dominá-la pelo castigo ou ameaça de
castigo. A palmada como castigo tem, aliás, apenas a qualidade de gesto simbólico
ou talvez mais a concessã o de uma oportun-idade -para que não se verifique a
sova. Será uma espécie de avivamento da memória em relação a acontecimentos
seme-
170 AGRESSIVIDADE

lhantes, ocorridos anteriormente. Se a criança bateu numa outra mais fraca e -mais,
pequena, infelizmente nada mais resta do que lhe dar uma sova, o que quase custa
mais ao educador consciente do que à própria criança, A. sova tem como fim
diminuir a freq@ência futura dos acontecimentos que a provocaxam. já não vive-
mos no estado paradisíaco do recém-nascido ao qual nada se exige, masno
universo real do adulto ao qual já se podem impor tarefas -e pedir
responsabilidades. A criança sentir-se-á culpada quando protestac contraria os
desejos do educador. No caso de a criança ser castigada, sabe que pelo menos não
está a ser alvo de uma injustiça. A agressão positiva é legítima, porque a causa que
a provocou foi uma desobediência injustificada e impertinente.

O recém-nascido ainda não sabe distinguir entre si e o mundo que o rodeia;


relaciona com o bem tudo o que lhe dá praz

-er e identifica-o como parte de si, e tudo o que não lhe dá prazer é sentido como
-mau e atribuído ao mundo que o rodeia. A nossa defesa natural contra os perigos
exteriores está melhor desenvolvida do que contra os perigo@ interiores; ao
conseguirmos a projecção (que, tal como a interiorização, é sempre inconsciente e
assim permanece) dos perigos para o exterior, podemos defender-nos melhor dos
perigos que apenas são exteriores aparentemente, e esta nossa atitude é
perfeitamente inocente e objectiva. Temos necessidade de um inimigo e gostamos
de assumir o papel de vítima; é este o esquema normal da agressão, que começa
desde a primeira infância e se conserva como uma folha estereotipada até à idade
mais avançada. Nós nunca somos agressivos, mas sim os outros. E s.e temos de ser
agressivos é unicamente para nos defendeirmos e porque os outros a tal nos
obrigam.

Uma das poucas dádivas indubitáveis e imutáveis da vida humana é a incapacidade


biológica em que a criança se encontra antes -e no começo de cada fenómeno
educacional. A duração relativamente prolongada da inadaptabilidade da criança à
vida humana fundamenta, simultaneamente, a fraqueza e a força, a riqueza -e a
miséria do ser instintivo e simbólico que o homem representa. O homem, à primeira
vista, não possui os mecanismos regula-dores do animal. Esta lacuna será mais do
que compensada mediante a aprendizagem de ritos sociais de que a civilização o
incumbe, à custa, no entanto, de uma longa dependência dos educadores e
métodos educacionais. Pode-se
AGRESSIVIDADE 171

fazer com e a partir do ser humano. muito mais do que de qualquer animal;
o animal possui uma programaçã o imutável dos seus instintos e repressões,
cujo equilíbrio se deve a estímulos determinados, e para sobreviver necessita
de um determinado ambiente. O homem encontra-se programado de uma
forma muito menos definida; os seus instintos são malcáveis e mutáveis.
Não está tão exclusivamente programado, desde o princípio e, portanto,
-possui mais possibilidades de selecção e muito mais liberdade no que se
refere à estruturação do seu próprio mundo e do que o rodeia. A espécie
humana é, potencialmente, mais livre do que todas as -espécies de animais
e, portanto, muitG mais apta a ser educada, dirigida e governada. O mesmo
se passa com a criança em particular, que sofre inteiramente todas as
possíveis influências do meiocultural em que nasceu; este meio é
determinado por todo o gênero de influências e impõe-se-lhe.

Cada sistema educacional opera, por assim dizer, púT via dupla; por uni
ladomolda e forma o aluno através da persuasão ,exterior e da
obrigatoriedade interior, e por outro esti-mula-o no sentido de uma
inteTiorização, e automatização dos esquemas e processos de acção
impostos. Só os conceitos de valor que se adequam a uma interiorização,
graças à sua utilidade prática e justificação moral, são de molde a inserir-@s-
e na educaçã o tradicional.

Falsos rótulos

Os educadores designados pela sociedade inspiram-se na sua primitiva


agressividade. Esta agressividade manifesta-se num longo processo que se
baseianas recompensas, castigos, e ameaças e tem como objectivo domar a
vontade e submeter os impulsos instintivos. Continua a actuar interiormente,
invisível e secretamente, sob a forma da voz interior. Esta voz admoestá-la-á, de
futuro, como o faziam os pais, se bem que não se recorde das lições recebidas. O
facto implica uma maior necessidade de pressão exterior, dado que a consciência
reivindica para si a função da direcção, contrôle e j@istificação da agressão.

É absoluta a antinomia entre ocontexto educacional e o método educacional; o fim


justifica, -Porém, os meios utilizados, o que implica a resolução da contradição e a
sua ascendência a um nível superior. Quem usa -e abusa da violência terá de ser
172. AGRESSIVIDADE

submetido a uma violência maior. Há, todavia, uma excepção a abrir no caso
dos que são violentos com razão e que têm de deserripenhax funções de chefia
porque, como os pais, são mais poderosos e mais fortes e só utilizam a violência ao
serviço de objectivos superiores, para estabelecer a ordem e a disciplina e para
educação da vítima sobre a qual ela recai. A proibição do emprego da violência -não
é manifestamente absoluta, pois, caso contrário, nem os pais nem os estadistas
poderiam utilizá-la fossem quais fossem as circunstâncias. Estes aplicam-na,no
entanto, e, a acreditar nas suas palavras, bemcontra a vontade e até demasiado
tarde, pois que uma dose menor de violência aplicada na devi-da altura teria
evitado um remédio mais tardio, mais forte emais violento. A consciência que têm
da sua responsabilidade leva-os a coagirem. Os pais e os -estadistas nã o poderiam
actuar de outro modo, uma vez que querem resolver as dificuldades
experimentadas pelas crianças e indivíduos.

A parede-tabo que protege e defende a violência está tão cheia de buracos como
um queijo gruyère. As regras de abolição da violência são confirmadas por
excepções que se tornam fatalmente regras, impondo e preconizando a violência.
Somente são compactas e impenetráveis as partes da parede por detrás da qualse
encontram os poderosos. A moral sistematicamente proclamada impõe-nos como
dever nunca tomarmos em relação aos outros atitudes que não gostaríamos de ver
praticadas contra nós. Nesta lição encontTa-se englobado um factor que não está
sistematícamente proclamado, mas é muito prático: em certas condições
excepcionais pode-se fazer o que é proibido. Não fazemos uso da violência, nem
temos esse direito, salvo, em caso de legítima defesa, da defesa dos mais fracos,
incapazes de se defenderem a si mesmos, ou da defesa de princípios. Os pais são
pais e os es-tadistas são estadistas, porque delimitam, definem e deterininam, com
uma lógica irrefutável, as condições excepcionais que justificam estas medidas
excepcionais. As crianças são crianças e os indivíduos são indivíduos, porque para
eles não existem, ainda que raramente, excepções que possam invocar e justificar.
A criança é posta frente a todo o género de experiências incessantemente
confirmadas que demonstram que a violência, em determinadas situações que
fazem parte de um vasto rol de excepções, pode ser um meio admitido, necessário
e insubs,tituível na condição de não ser declarada como tal, mas rotulada de forma
diversa como, obra moral, tomada de respon-
AGRESSIVIDADE 173

sabilidade e dever do educador. O recurso a rótulos falsos que autorizam a


agressão e a imposição de a suportar constitui uma das primeiras e mais
frequentes experiências da infância. A -criança aprende que a agressão, em
-todos os seus aspectos e ,em particular nas formas de ameaça, ofensa,
humilhação e privação de ternura, pode ser um meio de acção e que todos
estes :métodos dolorosos causadores de angústia e de culpabilidade são sari-
tificados -pelos objectivos que se propõe. A desigualdade de forças entre
adultos e crianças, que é, em principio, um facto biológico, torna-se
opressivo e aterrorizador, não tanto por os educadores disporem de
conhecimentos e meios superiores, mas, essencialmente, porque
monopolizam todais as prerrogativas de uma consciência.

A criançasente, desde muito cedo, todos os perigos contidos nos seus


próprios impulsos instintivos e receia os perigos confusos, que o futuro lhe
reserva. A sua angústia só se acalmará frente a um bom procedimento. Nem
sempre o consegue, porém, apesar de todos os seus esforços, dada a sua
ignorância de como o fazer. É muitas vezes rebelde, má, hostil, apanhada em
falta, repreendida e algumas vezes castigada. Foi justo mas, doloroso. Os
pais explicam-lhe como ou porquê ela mereceu que lhe batessem ou a
mandassem deitar. Algumas vezes não dão explicações e ficam convencidos
de que a criança tem consciência de que o que fez ou quis fazer foi mal. .

Se nomomento em.que castigam não há justificação para o fazerem,


reforçam o princípio dos princípios, ou seja a autorida-de. O castigo aplicado,
mesmo sem motivo, relembra uma falta cometida anteriomente e pune,
portanto, justamente. Desde que um reflexo condicionado seja uma in-
terligação de falta, culpabilidade e expiação-a ordem dos factores pode-se
inver~ ter-o castigo põe em foco a culpabilidade e chega a criar a falta que
deseja impedir ou punir.

As crianças aspiiram, frequentemente, tornar-@se adultos para poderem


legitimamente praticar a agressão, em lugar de serem sempre vítimas da
mesma. Na esfera que as separa desse estádio, identificam-se com os
adultos, imitam-nos. epretendem ser iguais a eles. As crianças anotam as
lições recebidas e as mensagens que as mesmas contêm, mensagens
manifestas e secretas, voluntárias ou involuntárias. Quanto. menor é a
licença de manifestarem a sua agressividade menor é a permissão de
expressarem por sua conta e risco os sentimentos, de irritação e de repulsa,
174 AGRESSIVJDADE

4e ódio e desejo de destruir, e maÍs se esforçarão por adquirir as técnicas


dos adultos e as suas subtilezas de exercerem a agres- :qo, negando-a-

O sentimento de não violência é inculcado pela violência; a Ogressão paga


assim o seu tributo w pacifismo; o pacifismo ]’a
7ião é pregado e ensinado apesar d@ prática de agressão, mas a fqvor dessa
Prática. O desejo de nãoviolência é, primeiramente, Vm Pretexto e, depois,
uma razão deser. Quando a criança atinge a idade devida vigiará e
dísciplímrá os mais novos com uma extrema severidade e mais tarde juI@ar-
se-á no dever de castigar o@ seus filhos em nome dos imperativos da
obediência e discip@ína, de que se apodera sem se aperceber e dissimula
sem as
4ssímular.

A princíp@o a violência impõe a renúncia, -mas a vítima idenúfica-se com o


agressor, utilizando, efectivamente ou em imaginação, a violência que ela
própria suportou. Perpetua-se desta fGr.ma a violência que faz apelo à
imitação, a única resposta pos-
8í@el. São só os papéis que mudam, pGis que o drama permanece
O mesmo: os novos actores são protagonistas reais que colocam as
máscaras antigas para represen,tar -ao eterno cenário da violêiicia e da
ficção do pacifismo. A vi olência inelhora e desenvolve requintadamente
estes pretextos para uma maior afirmação da s.uk legitimidade. Se a
violência não @n-ipusesse a convicção desta legitimidade apenas imporia a
submissão e não a obediência que implica um reconhecimento da sua
necessidade legítima. A violência do poderoso só se torna fonte segura de
violência, força de ordem e organização de forças quando é legitimada. A
hierarquia do alto e do baixo, do forte e do fraco, do que cOrnanda e do que
obedece constitui o esquema universal de toda a ordem e o modele, de
normas que preside às relações entre os s-eres humanos. A classificação dos
valores e das pess,0a8 c01ei,cadas nos diversos níveis não constitui um
sistema, mas o Sistema dos sistemas, o, princípio natural absoluto. A
hierarquia linDôs-se logo de inicio como autoridade sagrada e consagrada,
determinada peT uma responsabilidade suprema e não por uma necessidade
profana. Toda a ordem existe por referência a esta sacltalização e instaura-
se como norma absoluta, que cunha com esta feição de sagrado todas as
norma-s inferiores que engendra. Nasceu do próprio Deus, ou do povo
soberano, da família, da hist@ría da natureza. A ordem sagrada resulta da
subordinação Sagrada ao superior. A autoridade e a obediência condicionam-
se
AGRESSIVIDADE 175

e apelam-se mutuamente. Quem aprendeu a obedecerpode esperar chefiar um dia,


e esta é a condição indispensável da sua abdicação voluntária absoluta. O que
comanda tem tão pouca liberdade de independência como -o que obedece.
Submete-se a ,este mesmo princípio de ordem que proclama e em nome do qual
dirige o indivíduo que obedece. A legitimidade confere fundamento à autoridade e
um carácter sagrado à violência.
O automatismo que rege a ordem e a obediência só se torna possível ante a
existência duma inteira aceitação da autoridade e do seu reconhecimento como
necessária, justac sagrada. A violência suportada gera na vítima um potencial de
agressividade que se traduzirá, ocasionalmente, em explosões, ataques de cólera e
outras reacções nervosas. A violência só se mostra a nu nos seus aspectos mais
primitivos. Quando é preciso, a violência dísfarça-se sob as vestes da necessidade
ou da sumptuosidade de objectivos elevados e sagrados. Deste modo, a agressão
disfarçada ou dissimulada é recebida sem resistência, admitida, compreendida e
aceite como natuTal, inevitável e -átil. O indivíduo que vê a -satisfação dos seus
desejos frustrada por uma ordem recebida de cima reverte a sua cólera e desespero
não contra os superiores na ordem riatural necessária a que adere, mas contra

os seus iguais e subalternos e, finalmente, contra ele mesmo. A insu ortável


docilidade a que o homem se vê obriga-do indu-lo ,o,à,ar@ a se, a despTezar-se,
a refugiar-se na depressão ou nas nevro@ses ou ainda a imitar e a reproduzir,
activamente, o esquema autori,tárío, que suporta passivamente. A violência
legitimada incita a uma cópia não só de legitimidade mas de violência. E os
resultados não podem ser piores. A acção da família, enquanto instItuição e tendo
como objectivo a máxima protecção individual e a socialização perfeita da criança,
não comporta, obrigatoriamente, maus tratos; nem sempre implica o uso manifesto,
repetido e colectivo da violência.

Paraíso e obrigatoriedade

Todos os processos que têm como objectivo refrear a violência apresentam uma
feição agressiva. A educação não dispensa um certo número de obrigações. Toda a
teri-tativa de suprimir a agressão edu@catíva, consíderando-a como prejudicial e
negativa, está logicamente condenada a falhar. A supressão da obrigato-
176 AGRESSIVIDADE

riedade levaria a uma libeTtação da agressividade que ela refreia e ao


desencadear de uma violência maior nunca imposta pela obrigatoriedade.
Acreditar, de boa fé, que assim s.e evitaria a frustração do indivíduo significa
um engano perigoso e uma demonstração de fuga à realidade. A tentativa de
transformação do quarto de brinquedos numa ilha paradisíaca não resulta,
na medida em que a mesma implica esforços febris no sentido da negação
da realidade, e também porque a criança, enganada pela imagem de um
inundo sem ameaças-bem diferente do mundo real-, perderá a oportunidade
de dar largas não à sua violência mas a uma agressividade que lhe permitirá,
graças à sua própria afirmação e {realização, modificar um dia,
efectivamente, os dados reais.

A criança desmistifica o seu paraíso infantil ao reconhecer que os direitos são


adquiridos e merecidos -pelo preço dos deveres. No seu campo de
consciência desenvolve-se um sentido, do dever nascido da interiorização da
obrigatoriedade exterior que delimita e fixa o espaço vital, que pertence, por
direito, ao indivíduo. O dever leva a criança a renunciar à satisfação do
instinto, na medida em que perde a sua ilusão de omnipotência. Este dever é
imposto e.legitimado pelo sistema social da família’ mas o mesmo traz,
igualmente, benefícios e compensações, A criança identifica-se com uma
família que sente todo-poderosa’ o que a indemniza da perda da sua
omnipotência. A instituição social oferece a possibilidade da satisfação dos
impulsos instintivos que recusa ao indivíduo. O mesmo sistema levará o
indivíduo a subme-ter-se a regras e a seguir as normas prescritas pelo seu
administrador, a firma, o seu grupo organizado e o seu chefe de Estado,
ainda que estas regras e normas. exijam sacrifícios da sua parte, por vezes
mesmo um sacrifício supremo, dado que, identificando-se com o poder do
conjun,to de que faz parte, participa da força colectiva que o domina e da
imortalidade de uma instituição que ultrapassa o indivíduo. O ser humano
suporta o seu próprio desejo de poder ilimitado em relação aos pais, aos
professores e autoridades dirigentes. Dado que ele próprio não pode ser
omnipotente, a solução de substituição reside em ter personalidades
poderosas e sólidas instituições que o -protejam, o apoiem. e lhe permitam
continuar os sonhos de autoridade que alimentava em criança. O facto de
conservar ou de constituir uma relação de íntima simbiose com um todo
maior, protector e legitimado significa evitar a maldição da solidão, do
isolamento
AGRESSIVIDADE 177

da responsabilidade de uma agressividade pessoal; esta agressivida,de é


absorvida e orientada graças à ins,tituição, e é por esta autorizada e
legitimada em determinadas ocasiões. A identificação, a imitação e a
adopção das leis religiosas, civis e morais dos pais e a sua expressão
mediante rituais são,na sua essência, uma forma de contrôle da
agressividade pessoal.

Algumas vezes a violência física é totalmente excluída pelas famílias,das


nossas sociedades ocidentais como meio de educação.
O próprio padrão da família ainda evoluiu mais do que os métodos
-educacionais. Iniciou-se a era da criança, da criança tirana, já anunciada por
Sócrates, e os pais autoritários vêem neste facto aprova de que as crianças
não receberam o justo, castigo a tempo. A missão principal da criança é
encontrar-se a si mesma e definir-se. Se a família não lhe oferecer um apoio
e não tiver padrões culturais que lhe sirvam de apoio, a criança nunca se
tornará psicologicamente adulta. Desde muito cedo, a criança tem
necessidade de resistência, de coisas que se lhe oponham, de limites a que
se possa agarrar,mas também em relação aos quais possa medir forças. A
criança encontra-se incessanternente na orla destas fronteiras traçadas
pelos. adultos que ama e experimenta a solidez das mesmas não sem correr
riscos. Assim, colocada entre a brincadeira e a seriedade, -prepara as tarefas
futuras e o trabalho no sentido da sua própria emancipação, que, segundo
Mitscherlich, consiste, simultaneamente, numa imersão na sociedade e num
trabalho de imunização contra essa mesma sociedade. A criança é
continuamente posta à prova nas suas relações com os outros,, nos
falguedos e no trabalho. Aprende, assim, a conhecer e a ter consciência do
seu próprio valor. Os pais que querem, a todo o preço, evitar que os filhos
sejam atingidos pelo mínimo mal físico ou de outro gênero impedem-nos de
conhecer e reconhecer as verdadeiras relações da força; fazem surgir ilusões
sobre a vida, que a realidade não confirmará. Este
9@énero de pais faz apelo aos seus próprios sentimentos e instintos para
que a criança de -forma alguma seja lesada. Compram o amor dos filhos
oferecendo-lhes dinheiro, presentes e doces; dissimulam os seus próprios
sentimenitos pessoais, muitas vezes justificados, de cólera ou decepção e
reprimem qualquer agressividade em frente dos filhos. Tornam-se, desta
forma, culpados de uma dupla hipocrisia. Negam. a sua própria negação.
Destituem as crianças de todo o apoio a que poderiam ater-se ou contra o
qual se poderiam insurgir. São abandonadas e lesadas
178 AGRESSIVIDADE

p@ico,logica1nente de uma outra forma, mas, não com menos gravidade -do
que as crianças a quem os pais batem e que podem -precisamente ver neste
castigo um testemunho de interesse e afectividade.

A rápida evolução tecnológica reduziu ao mínimo o agrega-do familiar,


relegando-o para um segundo plano frente a determina-dos factos. Este
agrega-do familiar reduz-se, hoje emdia, quase sempre aos pais e filhos. A
sociedade moderna exige que o adulto procure adaptaT-se a -duas formas
decomportamento opostas. No trabalho espera-se que adopte uma fria
racionalização. Em casa é necessário que -espalhe calor e ternura à sua
volta. Os pais modernos passam, no entanto, muito -pouco tempo em casa.
As crianças são abandonadas a si mesmas ou a cuidados de uma baby-sitter
sempre presente chamada televisão. As crianças necessitam, afinal, do
nosso, tempo e não do nosso dinheiro ou presentes. E o tempo é
precisamente o que mais falta à nossa moderna sociedade de consumo.

O tempo representa dinheiro, mas o dinheiro não poderia comprar o tempo,


nem a presença, a paciência ou a segurança do adulto; para a criança que
começa a dar os primeiros passos na vida, essa presença e segurança são
um facto de estabilidade pessoal e uma garantia de continuidade. Os
«pobres» pais ricos, sobrecarregados de trabalho e continuamente
solicitados por novas ocupações, ignoram o ponto em que falham. Caem das
nuvens quando a criança mimada atinge a puberdade e os relega para um
plano secundário sem qualquer explicação. A criança sente-se decepcionada
pela realidade que descobre bruscamente e para a qual não se encontra
preparada. Irrita-se por não se sentir capaz de dominar, ou mesmo de
compreender, esta nova situação. O medo, tornado pânico da consciência do
nada ser, determina em si uma explosão de agressivida-de. O indivíduo sofre
de todos os lados uma agressão para que não está preparado e respondecom
uma agressão dirigida contra si mesmo sob feição de apatia e depressão ou
ainda com actos de protesto sem razão nem objectivo. Se a educação lhe
forneceu uma imagem do mundo perigosamente fabricada e adulterada,
quer dizer, isenta de toda a agressão, os adultos perderam assim toda a
confiança de que -desfrutavam, dada a fraqueza da criança. O facto de terem
escondido à criança a força e a eficácia da agressão, retira-lhes todo o
crédito e prestígio. já não se pode confiar neles e nada se lhes deve. Por
outro lado, é certo, que a valorização excessiva
AGRESSIVIDADE 179

de que a agressão desfruta na nossa sociedade de concorrência não deve


invadir o domínio do quartode brinquedos. Se a calma e a ordem consti,tuem
a primeira obrigação do cidadão, as cria-nças devem começar por sentir a
calma necessária à sua maturida@de. É preciso encontrar um meio termo de
equilíbrio entre o sonho -de uma idade de ouro reservado à criança e a
preparação antecipada relativa à competição febrilde uma impiedosa
sociedade de consumo. É neste ponto que reside a arte tão profundamente
humana e, ao mesmo tempo, tão delicada do educador, a arte que a
pedagogia pode ajudar, mas nunca substituir.

Os pais querem, acima de tudo, que os deixem sossegados no


enquadramento da actual célula familiar. Imaginam, assim, que também as
crianças têm necessidade de calma e tranquilidade. Dedicam-se a imaginar
um paraíso infantil de inocência e não agressividade. Ao fazê-lo, privam -os
filhos de tomarem consciência das suas próprias tendências agressivas, de
começarem a expressar eficazmente, mas sem violência, a sua raiva,
decepção, reacções de frustração e tensões interiores.

No decurso dos decênios anteriores a Freud, as pessoas eram insensíveis às


numerosas manifestações de sexualidade; a criança ,era considerada pura e
inocente e, portanto, desligada de toda a sexualidade. Se bem que
manifestasse provas reais de sexualidade, fechavam-se os olhos -e
escolhíam-se denominações mais decentes para as classificar. A sexualidade
da criança era um assunto-tabo que se negava, repelia e de que se troçava.
Tudo o que poderia dar lugar a uma associação de pensamento com os
órgãos genitais ou a sua evocaçãe, era reduzido à escala de interdito. Hoje
em dia, a humanidade entrega-se a uma orgia agressiva de destruição de
todos os tabos e de nada mais se fala do que destes assuntos outrora
proibidos. As crianças têm, indubitavelmente, uma actividade sexual até
mesmo nos seus primeiros actos e reacções aparentemente anó dinos; a
testemunhá-lo existem numerosas experiências elementares. E, no entanto,
esta descoberta de Freud foi durante muito tempo considerada como pura
invenção de um espírito perverso.

A ideologia e a observação encontram-seem permanente conflito e a


observação quase sempre perde. Afirma-se, frequentemente, que tudo o que
os psicólogos interpretam através dos gestos e atitudes das crianças não
passa de transposição e proJecção deles mesmos. Das suas observações
poderiam tirar-se
180 AGRESSIVIDADE

Conclusões sobre a sua própria personalidade, mas não urna imagem da


criança.

Darwin e Copérnico, revelaram o resultado das suas experiências, que


contradiziam os tabos ideológicos do seu tempo, bem como os esquemas
religiosos acusados de se entregarem a experiências irracionais e de
prejudicar a civilização. Galileu pareceu abalar a ordem -do, mundo ao
declarar: «E, no entanto, ele gira.» Afirmação dinâmica que desacreditava e
ofendia gravemente e&ta ordein: Signiund Freud foi durante muito tempo
alvo dos ataques mais violentos pela sua revelação da actividade sexual
inconsciente. O mesmo, se passa, hoje em dia, com a definição e a nova
valorização, do fenómeno complexo da agressão, apenas com a -diferença de
que a pluralidade de ideologias origina ataques de vários lados. O facto, de
se admitir que a criança tem uma sexualidade activa não afasta, no entan,to,
apressuposição da sua inocência, dada uma ausência inata de agressividade.
A criança só aprenderia a agressão através do mundo negativo e da
sociedade esmagadora que a rodeia. Quem declarar que a agressão resulta
de instintos biológicos fortemente enraizados vê -se sob suspeita de -ser um
reaccionário pernicioso, um fascista e um revolucionário. Quem afirmar que a
agressividade se pode expressar sob formas compatíveis com a vida social
passa por sonhador, romântico incuxável e -um espírito fraco de coração
terno.

Quem, porém, é arrastado a dissecar a agressão até aos seus aspectos


ocultos, da mesina forma que o psicanalista desmascara a sexualidade em
todos os seus aspectos, acaba por descobrir as suas manifestações sob os
mais -estranhos disfarces e onde menos o espera, desde o crime horrível à
mais alta moralidade.

A nossa educação é o nosso destino

A tentativa de diagnosticar e estTuturar a agressão não tem como objectivo um


trabalho lexícológico e a descoberta de urna nova classificação. O verdadeiro perigo
não reside, de facto, na violência manifestamente declarada, que faz apelo à
reacção víolen@ta, desperta sentimentos de culpabilidade e angústia e movimentos
de defesa e de solidariedade, mas na violência clandestina, arvorada sob um falso
estandarte e um falso ró tulo, -na violência latente e fria, que, não estando
identificada, se torna bem mais
AGRESSIVIDADE 181

impiedosa e ameaçadora. Para dissecar eficazmente a agressão, torna-se


necessário desmitificar as manobras de dissimulação e as falsas
denominações utilizadas pelos que a praticam com a consciência tranquila,
Torna-se necessário obrigar a agressão a mostra,r o seu verdadeiro rosto,
para se tornar possível a sua orientação e utilização em vez de se lhe dar
livre curso. Toda a cultura, independentemente da sua filosofia política,
religiosa e económica, -deve formar indivíduos a um tempo. independentes e
dóceis. Necessita de cidadãos que respeitem as normas de comportamento
que prescreve e, por outro lado, as considerem como verdadeiramente suas.
Deve, pois, elaborar e ensinar não só regras para resolução de conflitos e
normalização do comportamento individual, mas igualmente regras que
permitem que cada indivíduo as torne suas e lhes adira completamente.

Se se partir do princípio de que a nossa anatomia é a imagem do nosso


destino, a nossa,educação é,o certamente e com existência de uma
possibilidade posterior de modificação do mesmo. Se tudo corresse de
acordo com o desejo dos educadores, a educação geral do comportamento
sistemático seria inelutável, o que feliz- ,mente não acontece com
frequência. As possibilidades de escolha seriam praticamente nulas, mas as
denominações perversase falsas de «liberdade» e de decisão dissimulariam
tão perfeitamente esta cega submissão que ninguém tomaxia consciência do
facto. A -criança depende totalmente das pessoas que a rodeiam. A sua
sobrevivência material e a sua estruturação fís-ica só podem ser asseguradas
pelo meio em que vive. A realidade aparece-lhe como os pais a mostram.
Para a criança, esta realidade torna-se Um princípio imutável, tal como as
montanhas e os lagos, as fábricas e os prédios, os irmãos, as irmãs e o lar
onde vive. Todas as escalas de valor da infância são antecipada-mente
determinadas, e defini-das sem que seja posto em causa o livre arbítrio da
criança, O livre arbítrio não pode ser concedido ainda nesta idade. Tudo o
que se faz por ela é sem seu prévio assentimento, como aliás s.e lhe diz.
Terá de ser assim provisoriamente. As regras da vida prática e morais
seleccionadas e pretendidas são igualmente inculcadas e impostas à criança
mediante os meios educacionais de que se dispõe.

Todo o sistema educacional é, simultaneamente, a aplicação de uma filosofia


e a prática de uma teoria política. É considerado, ;portanto, a priori como
natural, melhor do que todos os outros e até mesmo o único possível. Quem
suportou uma atitude
182 AGRESSIVIDADE

dura por parte de outrem fica por esse preçG autorizado a utilizar a
mesma atitude. Vínga-se inconscien temente dos sofrimentos de que
não, se pôde queixar com receio de aumentar os maus tratos. «É
assim e está tudo di,to», são estas as palavras do que nega os direitos
de imaginação, (forma desenvolvida da agressão). Acrescenta logo em
seguida: «Cala-te!» , «Não faças tantas perguntas», (Taz o que te
dizem, não compreendes nada!» As perguntas são de facto inúteis
quando não existe escapatória possível; a discussão torna-se
supérflua, uma vez que todas as decisões são tomadas, de antemão,
pela tradição e moral, os primeiros rituais determinados e os
costumes defini-dos, o que constitui as Primeiras premissas da
violência. A criança não deve ser inserída de repente na comunidade,
mas ajudada pela a@utodisciplina e auto,-suges,tã.o colectiva
ritualizada, O seu primeiro dever é conservar-se calma, não, se
preocupar com nada, não ,olhar à direita ou à esquerda (se se lhe
colocou antolhos, não deve tirá-los), não fazer perguntas (deve
manter durante toda a vida um espírito de criança dócil),

Seria perda de tempo aplicar na prática a lei essencial da pedagogia


que pretende que o educador ouça a criança, -reaja às suas perguntas
e desejos, sem que nem sempre lhes ceda, mas esforçando-se por os
compreender e por encontrar respostas convenientes. Esta economia
de tempo é perniciosa. Dizer sempre que não é tão prejudicial como
dizer sempre que sim, pondo -de lado as responsabilidades do
educador. É preciso fazer uma -distinção exacta entre sentimentos
agressivos e actos agressivos. A cólera, a raiva e até mesmo o ódio
devem expressar-se dentro, da maior liberdade possível. Os actos
agressivos devem, pelo contrário, ser limitados mediante princípios
bem claros, definidos e enunciados. A limitação pelo constrangimento
não convence e nada explica. O importante é explicar e dar o
exemplo.
O pedagogo demons,trará que existe um processo mais eficaz, a longo
prazo, de expressar as tensões agressivas e solucionar os conflitos do
que o repetido recurso à força, quer o mesmo estívess-e justificado
aos olhos da criança pelo seu furor destrutivo e o seudesejo de
represálias, ou aos olhos dos pais pelo seu sentido do dever e
consciência de responsabilidades que lhes são atribuídos.

Hoje em dia, reina a confusão entre os pais, falta-lhes tempo,


encontram-se abafados pelas formalidades técnico-adrninistra,tivas e
sobrecarrega-dos pelas incumbências profissionais e de outra
A GR E S S1 VIDA DE 183

ordem. Muitos estão convencidos da parte da responsabilidade que lhes cabe no


trágico desencontro entre as gerações, hoje em dia uma realidade. Ignoram, porém,
o porquê da decepção que despertaram nos filhos, apesar de todos os esforços
leais, não explicam como tão mal corresponderam à esperança destas crianças que,
entusiasmadas pelas promessas da sociedade de abundância, esperavam tudo
deles. Os pais, tomados de desespero, desde muito cedo se tornam alvo de
manifestações agressivas por parte da criança, o que inteiramente os desconcerta.
Os pais demasiado severos não são os únicos a afectar irremediavelmente o
equilíbrio dos filhos, pois que os demasiado benevolentes fazem ou)tro tanto. Hoje
em dia, muitos pais têm medo de defrontar esta tarefa de educador, que se lhes
afigura tão complexa. Recusam-se a rever nos próprios filhos uma prova cruel de
fracasso.

Os especialistas em matéria de educação só estão de acordo num ponto: já não


existe uma única receita, pois todos os métodos são praticados, tanto os liberais
como os autoritários. Tudo era, aliás, Inuito mais fácil quando ainda se podia
acreditar que uma criança era mais ou menos dotada proporcionalmente à
quantidade e qualidade das suas células ganglionares e hereditárias. Actualmente,
os entendidos afirmam, pelo contrário, que tudo se pode ensinar e ser aprendido
mediante um método apropriado e que se pode alcançar todo o gênero de aptidões
e de caracteres mediante uma organização adequada do ambiente. A criança
começa a aprender no próprio dia em que nasce. Logo de início tornam-se
necessárias estratégias para despertar a atenção, mobilizar o esforço e resolver os
problemas. Os grandes princípios básicos de valores e ideias directrizes de cultura
muito cedo deveriam ser incluídos no processo metódico educacional, a fim de se
tornar-em uma presença permanente entre as crianças. O sucesso do ensino não se
deve a imagens directrizes fixas que s.e gostaria de confundir com inocência e
natureza, mas a estímulos que acordem e façam surgir a aptidão de aprendizagem
e a vontade crítica. Nos nossos tempos a educação não pode contentar-se em
moldar os seres humanos inserindo-os Tium esquema orientador pré-estabelecido,
adaptando-os a uma norma; também pão pode limitar-se única e simplesmente a
transmitir -um ensinamento. As crianças deveriam muito mais cedo do que dantes
aprender a aprender. já não se trata de saber caminhar mas de caminhar direito.
Uma atmosfera familiar neu-
184 AGRESSIVIDADE

tra não é suficiente, pois que não arrasta o estímulo educacional necessário. Um
ambiente caloroso, afectívo e culto tornará a criança apenas um consumidor
passivo, quando ela necessita afinal de aprender a participar activamente e a
assumir responsabilida-des.

Muitos pais lamentam uma época volvida em que a segurança e autoridade eram
impostas por normas rígidas. Não existia então o problema de emancipar uma
humanidade colocada em segundo plano por culpa própria. É verdade que
Enimanuel Kant já reclamava esta emancipação e acusava o homem de pecar
gravem-ente ao renunciar a utilizar plenamente as suas aptidões intelectuais
autónomas. É possível que os princípios modernos educacionais, que renegam a sua
qualidade deprincípios e pretendem ser apenas simples formas de creacção
espontâneas e maleáveis, não sejam assim tão novos e modepnos. Reprovaram-se
incessantemente os pensamentos, e sentimentos revolucionários tanto por.
afectarem negativamente o espírito e ignorarem os dados reais como por nada
trazerem de novo, não passando de um bater sem interesse na mesma tecla. A
atitude de se refugiar no pass@do ou permanecer numa obstinação utópica implica
um negativismo por parte do educador, mas mais prejudicial ainda é a contínua
hesitação, uma permanência na indecisão ou a mistura de mimo e severidade,
tolerância e intolerância, porque a realidade da educação é a única realidade de
posse da criança. O mundo aparecer-lhe-á necessariamente à luz das explicações e
dados que lhe são fornecidos.

Muitos homens são adultos apenas na idade e não ultrapassam a fase de uma
imitação e docilidade convencionais. Permanecem eternamente aprendizes
c'subordinados obedientes que retiram as suas, escalas de valores e consciência de
si mesmos da sua inclusão num grupo e dos juízos de valores de autoridades
superiores. A instituição adquire toda a liberdade de que o índivíduo abdica a seu
favor outalvez se dê mesimo o caso de o indivíduo nunca ter possuído
verdadeiramente essa liberdade. Em troca, a instituição assume todas as
responsabilidades e, em prol do elevado objectivo que se propoe, está autorizada
a aplicar directa ou indirectamente todo opoder de que dispõe. Ameaça o indivíduo
de isolamento e incomunicabilidade no caso de este lhe recusar obedecer. Incute-
lhe, pois, um sentimento de culpabilidade e de angústia e ele sente-se despojado de
toda a legitimidade e de ilusão de omnipotência. O indivíduo adquire uma
A GR E S SI VI DAD E 185

certa independência num âmbito muito limitado pelo preço de admitir não ter
qualquer poder sobTe os outros. É, porém, indispensável ao ser humano que
pretenda comportar-se como indivíduO independente e ficar responsável -pela sua
própria agressivida-de ter adquirido verdadeira maturidade e plena consciência de
si mesmo, o que só s.e torna -possível graças a um esforço permanente. A
emancipação não é urna dádiva do céu, mas o resultado de um trabalho lúcido,
consciente e constante para não seguir na esteira da facilidade, para escapar à
corrente da colectividade e não ceder aos atractivos de valorização a que está
ligada a destruição. É preciso dissecar e trazer à luz a tentação de fuga ante as
responsabilidades oferecidas pela inclusão real ou ilusória numa família, nação ou
raça que confere a superioridade e existência legítima dos seus membros. Quem se
afirma agride, ainda que G faça sem violência. Para suprir a violência é preciso
resistir agressiva-mente, se necessário, frente aos monopólios de violência e às,
legitimidades que as mesmas conferem.

Pobres crianças espancadas

Só iporque as crianças choramingavam, foram atingidas com água a ferver,


colocadas na chapa a escaldar do fogão, apertou-se-lhes o pescoço até ao
estertor e foram espancadas até o sangue ‘r e a pele cair. corre adro nada
tera de uma retrospecção dos métodos de tor-

lie is ,tuTa = vã nem da reportagem sensacional sobre os actos de sádicos


loucos. A descrição exacta destes, factos figura nos relatórios apresentados
às autoridades americanas e que se referem a processos de educação
actuais,. Tudo isto se passou nestes últimos anos nos centros educacionais
mais importantes, ou seja, nas duas grandes cidades dos Estados Unidos
Nova lorque e Los Angeles. Em Los Angeles registaram-se por cada milhão de
habitantes cerca de cento e vinte casos de crianças gTavemente
maltratadas, de entre as quais vinte por cento morreram. Em Nova 1,orque o
número cifrou-se em setecentos casos no ano de 1967 e dois mil e
quinhentos em 1970.

Em -todo o lado em que estes factos determinaram estatísticas, o nú;mero,


de casos de tortura física e psíquica infligido a crianças indefesas e que
foram comunicados às autoridades teve uma
AGRESSIVIDADE

repercussao Imensa na América, assim como, em Inglaterra e na Europa Central.

As estatísticas sobre o assunto pouco significado tiveram, na verdade. Todos os


-especialistas são unânimes em afirmar que a verdadeira percentagem de crianças
mártires nas cidades é de dez a quinze vezes superior à in@dicada pelas
estatísticas. Nos distritos dos arredores das cidades a apreciação deficiente dos
factos orç aria de cem a duzentos,. Nenhuma estatística criminal comporta uma tal
margem de erro.

Os actos de crueldade revelados pelos resultados das investigaçks e agrupados


estatisticamente parecem inacreditáveis, Os relatórios e testemunhos são votados,
à descrença. As pessoas falam em exagero, fecham os olhos à realidade dos factos
de agressão. Desviam -o rostoda cabeça da Medusa e da brutalidade, e ao fazê-lo,
perpetuam a força do mal.

Um estudo, efectuado sobre Los Angeles revelou que setenta e cinco por cento das
crianças não tinham ainda quatro anos e vinte e cinco por cento, nem um ano
sequer. Em cem dos casos, as crueldades verificaram-se logo, na primeira semana
de vida do recém-nascido. Nove por cento dos carrascos examinados (contra sete
por cento da população total) tinham cultura universitaria, cerca de sessenta por
cento possuíam nível superior à média equarenta porcento, um nível inferior. Menos
de um por cento. apresentavam indícios de perturbação mental e somente um e
meio por cento poderiam ser classificados como sádicos, mesmo no sentido latoda
palavra. Não foi possível estabelecer a mínima relação, com validade estatística,
entre os maus tratos infligidos às crianças e o nível cultural, a profissão, a cor, a
religião ou sexo do culpado. Os maridos agem, frequentemente, como agentes
executivos da disciplina familiar e quase sempre sob direcção da mãe; os casos -de
mulheres implicadas neste gênero de tortura são menos frequentes, mas quando se
verificam a malvadez é mais requintada. Dezoito por cento dos pais em questão
consomem regularmente bebi-das alcoólicas, catorze por cento fumam
tranquilizantes ou excitantes. O meio familiar é em geral estável e o número dos
-divórcios não ultrapassa a média. Uma percentagem normal de casais, cerca de
vinte e oito por cento, queixam-se de desentendimentos conjugais. A média das
idades dos culpados oscila entre os vinte e trinta anos. Entre eles conta-se uma
percentagem, um pouco acima da média mas de forma alguma esmagadora, de
indiví duos condenados anteriormente
A G R E S S IN IDADE 187

por actos, de violência ou delitos sexuais, cometidos contra crianças.

Noventa por cento dos culpados declaram que a causa determinante da


-orgia de violência estava no choro e nos gritos con- ;tínuos da criança.
Tinham, muito simplesmente, perdido a paciência por não conseguirem
acalmar a crian@a, apesar de todos os esforços e tentativas Para a distrair.
Depois de esgotado este reportório, evidentemente Uniftado, de
manifestações de ,ternura e tentativas para acalmar a criança, não
divisavam possibilidades de resolver a situação. O soluçar ininterrupto
enervara-os e fizera-os perder todo o contrôle. Só metade dos culpados
confirma ter -cedido a um acesso de raiva. Depois de começarem a bater, a
estrangular, a escaldar, não tinham conseguido pai-ar até a criança secalar.
Pouco menos de metade dos algozes declaram francamente que tinham
deseja-do dar uma boa lição à criança para lhe demons,trar, de uma vez para
sempre e com um castigo exemplar, que tinha de obedecer. As crueldades
foram sempre precedidas de gritos de cólera, cada vez mais pronunciados,
até ao f im da crise. Ralhavam à criança pela maldade e ingratidão por tudo,
o que os pais tinham feito por ela.

O relatório de Los Angeles declara que na niaiDria dos casos a criança


queimada ou espan-cada era a que os pais preferiam em relação aos irmãos
e irmãs. Os pais tinham-se privado de um viagem de férias, de comprar um
automóvel ou algum mobiliário, a fim de preparar a vinda da criança
desejada. Agora, ela decepcionava-os, chorava, sujava -o apartamento
arranjado com amor e não dava mostras de estima,de consideração nem de
respeito. Os pais afirmavam, de forma convincente, ter amado e mimado
particularmente a criança no princípio. Nunca teriam si-do arrastados a tal
atitude por um filho de quem não esperavam tanto. Todos os pais que
espancam os filhos também receberam inaus tratos na infância; -uma
esmagadora maioria destes pais considerava este método de educação
inteiramente normal e uma pequena percentagem admitia a possibilidade da
existência de outros processos educacionais eficazes. Quase iodos os
indivíduos examinados expressavam- pelo menos frente ao inves-tigador-
certo arrependimento ante as horríveis consequências das crueldades
cometidas, mas estavam convencidos da necessidade de aplicar a disciplina
à criança desde o berço.

Quase to-dos os culpados pertencem a pequenos agregados familiares que


cultivam uma certa desconfiança em relação aos
188 AGRESSIVIDADE

outros. Os, pais encontram-se quase e,xclusivamente voltados para si


mesmose os filhos têm poucos amigos, poucos meios de expan são para lá
do trabalho e da televisão e são pouco racionais. Afastam-se de tudo o que
acontece para lá dos meios em que vivem, consideram a ordem e a
propriedade corno valores supremos e orgulham-se de uma íntima maneira
de ser, a que dispensarri, todos os cuidados. Detestam a atitude de «deixar
correr»

e a negligência. Neste meio familiar (opreservado», são surpreendentemente


raros os casos de crianças que ingerem remédios ou detergentes
acidentalmente. E-stes casais, consideram o lar como uma praça forte e um
domínio privado onde desfrutam de ilimi-tados direitos de soberania.
Ninguém tem o direito de se meter na sua vida. O que passa no seu círculo
familiar diz-lhes exclusivamente respeito.

Os únicos grupos em relação aos quais as estatísticas revelam um índice


particularmente baixo de crianças mártires são os de camponeses nómadas,
hippies e mães adolescentes. Nesses grupo@, sempre que -o pai ou a mae
esgotam os processos educacioliais@ dispõem de meios adicionais para lidar
corri a criança. Na maior parte das vezes nem sequer têm necessidade de
recorrer a esta solução porque podem discutir os problemas levantados. pela
criança rebelde com outras pessoas, geralmente com mais experiência. A
grande promiscuidade dos habitats impede o recurso à violência,na medida
em que cada um dispõe sempre de outras pessoas a que pode recorrer em
caso de necessidade, o que constitui um -tubo de escape. As famílias das
vítimas infantis não têm, na maioria das vezes, soluções de substituição
relativamente a um objecto de agressão. Os pais -preocupam-se
principalmente em causar boa impressão e em manifestar a sua
independên.cia e autonomia. Preocupam-se e cuidam de si mesmos, des-
,prezam os outros e vivem, portanto, no isolamento. Caem, por esse motivo,
na violência a que os vota a irecordação da sua própria infância.

É de surpreender o facto de que a criança maltratada quase sempre niostra


sentimentos de afecto para com os pais apesar do sofrimento e das dores
que estes lhe inflingem. As vítimas enviam, por vezes, a-os culpados
sentenciados cartas comoventes em que expressam a esperança de os voltar
a ver rapidamente.

A família moderna das grandes cidades atingiu um estado de crise. A


sobrecarga de trabalho dos pais e o agregado familiar acarretam um excesso
de responsabilidade e dão origem a uma
AGRESSIVIDADE 189

hípersensibilidade à menor perturbação no desenrolar aut<)mático dos


acontecimentos previ@tos, à mínima tentativa de independência, ao barulho e
manifestações de indisciplina. Os pais trocam os papéis: esperam que os filhos
tenham atitudes de submissão, respeito e -obediência apesax de não terem
antecipadamente estabelecido com eles relações de afecto recíproco. Admiram a
existência de um sentimento inato do dever e acreditam numa harmonia pré-
estabelecida, sem -faltas nem problemas, entre o interesse individual da criança e o
interesse geral da família. Estes pais, que, enquanto crianças, foram tratados de pau
na mão, irritam-se por não verificarem uma tal harmonia e indignaim-se ao ver= as
suas esperanças frustradas -por crianças ingratas. Em muitos centros de -pediatria
também se observa um verdadeiro afluxo de crianças mártires por ocasiã o do,
Natal.
O ambiente de solidariedade -e de ternura mostra-se particularmente intolerante
ante toda a perturbação da harmonia familiar, fruto de um equilíbrio autoritário.
Todos os.pais criminos consideram a forma familiar da sua existência como uma
insti,tuição natural e eterna, que representa e expressa os valores morais e
tradicionais. Muitas famílias, tal como os indivíduos que as constituem’ não passam
de uma espécie de encruzilhadas nos caminhos onde circula a tendência da
colectividade (Horkheimer e Adorno) e transmitem cegamente e sem crítica as
regras em vigor, que adoptam automaticamente. Por um processo crescente de
«anonimato» , a @legiti,mação é transferida do objectivo superior de uma moral
santificante para os meios de ordem, automatismo e submissão às regras. Os pais
que foram espancados na infância aderem tão completa e cegamente a-os
esquemas-base da sociedade, caracteriza-dos por uma união indissolúvel ,entre
direitos e deveres, que batem de boa fé e com a consciência -tranquila. Os direitos
constituem o salário do cumprimento do dever. Se a criança não cumpre o dever
(que aliás desconhece), os pais encontram-se frustrados nos seus direitos sagrados.
Também eles têm de cumprir o seu dever, aderindo a estas regras impessoais e
anónimas que lhes foram inculcadas. O supremo objectivo educacional que lhes foi
imposto leva-os da mesma forma a acharem-se no direito de aplicar uma táctica e
uma ,estratégia, um sistema inetódico de violência fria, sem cunho de hostilidade
passional mas simplesmente realista. As crianças pretensamente desejadas e
amadas são as vítimas escolhidas para os maus tratos. Quanto maior é a esperança
que os pais depositam
190 AGRESSIVIDADE

nos filhos maior é a probabilidade de recurso, à violência agressiva quer por perda
de contrôle, quer voluntariamente através de umareacção a que é da-do o cunho
superior de dever objectivo.

E o recurso à violência como única saída em breve se torna no recurso à violência


como meio exclusivo e primordial. Na mente dos pais existe o esquema simplificado
que lhes foi imposto pela pancada: todo o mal e sobretudc> a perturbação do
repouso e da ordem (por exemplo o choro ou gritos sem razão) é o resultado de
uma maldade intencional e de um deseJo de agressão. A f(ynite de perturbação
deve ser ata-cada e eliminada e torna-se legitimamente objecto -de agressão e
vítima. Os pais são meros executantes de uma vontade alheia ao adaptarem-se sem
restrições a uma sábia natureza social que se lhes impõe. Todo o saber provém de
um nível mais eleva-do e do passado. Os pais têm a consciência tranquila porque
não cometem a ac cão -de moto próprio, mas por ordem de poderes superiores e
experientes. Têm a consciência imbui-da de imagens e regras autoritárias que
consideramexcelentes. A confiança original concedida à família e a-os hábitos
próprios corresponde à primitiva desconfiança contra tudo o que é estranho e
divergente.

Aproximadamente meta-de dos culpados buscavam consolação e tentavam


consolar os interlocutores fazendo o paralelo com os acidentes de rotina: não se faz
uma ornoleta sem se partirem os ovos; não se anda de carro sem que haja mortos e
feridos. É um facto de lamentar, mas inevitável. Constituem o preço e os incidentes
ligados ao funcionamento de uma sociedade.

Em princípio,, parece confirmar-se o que es-tes pedagogos autoritários sempre


-declararam. Eles afirmam que na comunidade familiar não existe antagonismo
entre os indivíduos, dado -que a solicitude dos pais e o respeito dos filhos são os
dois aspectos e expressão da moral comuns. Somente urna minoria corrupta
considera um constrangimento este hábito da espécie, todavia óbvio, existente no
ser humano muito antes do uso da palavra e que constitui uma tradição niffica que
se reporta a tempos imemoriais. Realinente não, há dúvida de que este hábito
inerente à consciência moral estabelece uma estrutura autoritária, mas não exige
uma organização consciente, dado que a sua origem -se reporta à ternura e
responsabilídade para com uma posterida-de que compreende e aprecia a presença
reconfortante dos seus protectores. E a maioria das crianças submetidas a maus
-tratos reconhece, na verdade, ter merecido o cas,tigo. As crianças
AGRESS1VIDADE 1,91

aceitam sem reacção ou com fatalismo as crueldades inelutáveis,


interpretam-nas comotestemunhos de afecto e de interesse e que só por
acaso ultrapassaram o quadro da normalidade. O resultado do sistema
educacional torna-se justificação do mesmo. À crueldade impiedosa -da
cólera do adulto, à sua fria indiferença -pelos desejos dacriança, corresponde
a ausência de reivindícações por parte desta última; dado que apenas
conhece a violência, nada mais pede, e sob as pancadas que a atingem
reconhe,ce e aprecia a terna afeição dos pais -e declara, como a
rapaTiguinha de Liliom, que -o facto Dão tem importância.

Este modo de comportamento, legitimado pela tradição, o hábito e a


indiferença, acaba por lesar a parte psíquica da criança. Um número
surpreendentemente elevado de crianças educadas pela pancada apresenta
todos os maus sintomas de uma,mã consciência. Unia vez que lhes
ensinaram, pela pancada, que os pais só castigaria quando os filhos são
maus, o castigo significa que eles são culpados de desobediência e
pensamentos rebeldes, se bem que não se recordem de os possuírem. O
sentimento de culpabilidade inseridonoespiritG da criança pelo pai e pela
mãe é utilizado para reabilitar e legitimar os pais, que por seu lado atribuem
toda a responsabilidade aos costumes e à tradição anónima. Dado que to-dos
os pais culpados sofreram o -mesmo tratamento quando eramcrianças,
nunca discutiram conscientemente o -problema da educação e acreditam
que nada se poderia passar de forma diferente.

Os vizinhos ouviram soluçar, ralhos, pancadas surdas e gemidos a que se


seguiu o silêncio. Tranquilizam-se: é impossível (o que não deve ser, não
pode ser). Talvez tudo não passasse de um acidente. Seres humanos não
podem agir dessa maneira contra a sua,própria carne eo seu próprio
sangue... As próprias dimensões da crueldade são uma protecção eficaz.
justamente porque ela é tão grotescamente terrível e antínatural provoca a
descrença e, ao dissimular a violência, torna-se sua cúmplice. As
pressuposições optimistas, a indiferença e a preguiça da maioria tolera e
favorece os horrores praticados precisamente dentro do optimismo, da
indiferença e da preguiça.

Todos os pais criminosos são casos patológicos. A sua perturbação encontra-


se interligada ao facto de não poderem suportar * perturbação da calma no
lar. São anormais porque exageram * normal e -o habitual até um plano do
absurdo. Do ponto de vista psiquiátrico sofrem de peTturbações,muito graves
de perso-
192 AGRESSIV1DADE

nalidade, ou mais exactamente: não sofrem, -mas fazem sofrer os seus


próprios filhos. Na sua mente não existe a incerteza, até muito pelo
-contrário. julgam saber distinguir imediata e indistintamente entre o bem e
o mal, a justiça e a injus,tiça. AfA

té mesmo quando se processa o crime, apenas se consideram alvo ,de


críticas por não terem toma-do precauções, a fim de evitar as feridas
demasiado graves, e por terem depositado uma confiança excessiva
naqueles a quem fizeram confidências e os denunciarram.

São estes os resultados paradoxais de uma mania de legitimação, que na nossa


sociedade jus-tifica o uso obrigatório e regular da violência contra os inembros do
agregado familiar, um uso subordinado a excepções mas de acordo com o si,&tema.
A maior parte dos pais apenas lamenta o exagero das medidas disciplinares e
excesso de normas, bem como o abuso do poder dos pais, mas não o uso da
violência para imposição da disciplina e da obediência.

O que é afinal a nossa agressão? Os pais criminosos, os criminos-os de guerra, as


torturas nas prisões, os campos de concentração-tudo isso existiu, tudo isso existe
verdadeiramente? Não, não passam de histórias para meter medo, de invenções
malignas, exageros desmesurados e casos raros, isolados. São crimes abomináveis,
desvarios de sádicos cometidos por animais ferozes de Cérebro humano,
perturbações mentais; um ser normal que se nos assemelha nunca poderia cometer
actos parecidos ou sequer imaginá-los. Esteomotivo por que nos recusamos a
acreditar em primeira impressão. Esses actos pelo menos não nos dizem respeito.
Aliás, tudo isso jánão existe hoje em dia e quem afirma o contrário está apenas a
espalhar contos de terror.

As crianças encontram-se, na verdade, privadas de direitos. A convenção


internaciornal relativa aos direitos da criança em na-da modifica a situação,
pois queninguém controla nem impõe o respeito por essa convençã o, onde
se encontram designadas a segurança do lar e a protecção contra os maus
tratos. Quando

âIIII,
AGRESSIVIDADE 193

um adulto é vítima de um crime que poderia ter sido evitado com a


intervenção dos vizinhos, a opinião pública comove-se com o que no local do
acidente não despertou emoção capaz de provocar uma atitude. Em Nova lorque
trinta e duas famílias ouvi-

ram no prédio que habitavam gritos desesper@dos de socorro sem que, apesar
disso, se decidissem a intervir. Estava a ser assassinada uma mulher que todos
conheciam. Na luxuosa residência de Santa Barbara uma dúzia -de pessoas
respeitáveis conhecia os esforcos da Sr.a Duncan para descobrir um assassino que
aceitasse mat@r a nora eninouém se deu ao trabalho de fazer uma denúncia às
autoridades. A nora acabou por ser estrangulada por assassinos pagos para matar.

Todos se encontravam unidos numa decisão de não intervirem e por ela levados a
qualificar os crimes diurnos e nocturnos cometidos contra as crianças como
ninharias, excessos disciplinares e delitos de -menor importância. Enquanto não se
concluir judicialmente que assim não é, existe o acordo comum de que os vizinhos
são tão amáveis, amistosos e razoáveis como aparentam; cuidam dos filhos e não
se parecem com os indivíduos revolucionários ou os jovens de cabelos compridos
que renegam o pai e a mãe. Sabem certamente o que fazem e porque o fazem.
Todos somos ciosos do que se passano lar erepelimos qualquer intervenção alheia.
Um dia, o segredo da criança mártir não pode continuar a ser preservado do
conhecimento público. E a partir desse mesmo instante toda a atitude discreta dos
vizinhos, que não passava de cruel cumplicidade, pois que durante anos fecharam
os olhos ao escândalo, abandonando as pequenas vítimas às piores torturas,
transforma-se em expressões de cólera, indignação e sede de vinganca contra os
pais culpados. Estas mesmas pessoas que ainda ontem aprovavam e autoTizavam
as crueldades mediante o seu silêncio, exigem que os maus sejam severamente
punidos. O castigo draconiano dos culpados absolvirá as testemunhas tornadas cú
mplices à forçade fechar os olhos e os ouvidos à realidade.

A abstenção é um princípio sagrado tanto para os Estados soberanos como para os


pais criminosos. Não se envolvem nos assuntos dos outros e pretendem que estes
tenham a mesma atitude em relação a eles. Muitas pessoas, tais como os
burocratas, psiquiatras, assistentes sociais e outros intrusos, não têm nada melhor
com que se ocupar senão com os assuntos dos outros? A ideia de umaescola para
os pais ede uma vigilância dos pais
194 AGRESSIVIDADE

só pode ser lançada par indivíduos tarados ou por intelectuais -que pouca diferença
fazem.

Quem estuda a agressão dispõe de um laboratório natural na sua forma mais


violenta. Pode-se perfeitamente delimitar socio-psicologicamente o grupo de
pessoas autoritárias, sedentas de tradição e desconfiadas quase num plano de
paranóia em relação a tudo que lhes é estranho. MaItratar as crianças não é,
natural,mente, uma prática vulgar nem um comportarnento aprovado no interior
-deste grupo. Apesar da surpreendente frequência com que estes factos se
verificam, repres entam apenas uma percentageni mínima das situações
excepcionais. Estas excepções confirmam, no entanto,, a regra e, o que ainda é
mais, representam uma continuidade exacta do caminho escolhid<>. Nenhum dos
pais culpados sujeitos a interrogatório duvidava dos seus direitos morais,
,relativamente a educar e integrar os filhos na sociedade, mediante utilização dos
mesmos processos que presidiram à sua própria educação e socialização. Os
traumatismos s,c>fridos no decurso da primeira infâ@ncia engendram a reprodução
automática, a identificação com a geração anterior e a crueldade contra todos os
jovens. O sonho -de uma libertação da humanidade através da educação não pode
ser posto em prática, dada a obsessão da repetição do traumatismo: se sofremos
temos também, por nossa vez, de fazer sofrer os outros.

Stangl, um carrasco encarregado das execuções num campo de concentração,


declarou, após o veredicto fatal, que se sentia inocente, pois obedecera às leis em
vigor quando exterminara centenas de !milhares de seres humanos. Pelo exame de
consciência chegara exactamente à mesma conclusão da sua inocência.
O tenente Calley também sentia da -mesma maneira. Obedecera às normas
cruéis,da guerra e a -ordens superiores. No decurso da experiência Abraharade
Milgram os indivíduos manejavam sem sombra de escrúpulo as alavancas que
originavam descargas eléctricas cada vez mais dolorosas, indiferentes aos gritos
lancinantes das vítimas. Apesar das dezenas de anos que passaram já sobre os
factos, Stang1 e os companheiros não encontram mo,tivo de censura. Os pais
criminosos lamentam mais a descober,ta dos actos de que os próprios actos, cujas
motivações de ordem alguma renegam. Foram eles os atingidos pela infelicidade e
não os filhos. As provas oferecidas pelas terríveis consequências não lhes abala a
consciência tranquila.

É possível que os impulsos destrutivos de agressividade incons-


AGRESSIVIDADE 195

ciente contra as crianças tenham influenciado o comportamento dos pais


culpados. A criança é arrastada pelo complexo de Édipo, que cria e expressa
a ambivalência em relação aos pais. Este mesmo complexo corresponde nos
pais indubita-velmente a um impulso totalmente inconsciente de
agressividade contra os filhos

e ao desejo secreto de infanticíd.io. Por detrás do amor natural afirmado e


ordenado que os pais manifestam pode esconder-se também um ciúme
natural ambivalente provocado pelo futuro que os filhos têm à sua frente.
Este impulso infanticida foi interpretado como factor responsável pelas
guerras, pois que são geralmente os estadistas de idade que enviam a
juventude do país para a morte, sem nunca a acompanhar. (A origem do
vocábulo «infantaria» não vem de infante, portanto de criança, ou, melhor,
infantílizado?) A infantaria obedece! As crianças realízam. o prodígio
sentimental de ver nas cadeias que as prendem e nos golpes que as mutilam
testemunhos da solicitude que se lhes vota e da afeição que selhes oferece.
A pior crueldade pode ser erotizada por uma ambiguidade libidinosa e tomar-
se assim uma prova de amor.

As vítimas encontram-se afectivamente ligadas aos culpados e por abdicação


da sua personalidade consideram legítima a mutílação -do corpo. A violência
engendra a necessidade de violência e faz desta necessidade uma condição
natural do exercício da violência. Um dito espirituoso, muito em voga
classifica de sádico o que trata um masochista com brandura. A agressão
tornada princípio marca os homens, transforma-os em massas irracionais
5

ue se prestam de livre vontade ao, contrôle racional das forças e agressão. A


agressão transforma as crianças em vítimas que se comportam com
passividade e na sua ignorância nada mais conhecem do que a brutalidade;
estas vítimas, vêem nos processos cerimoniosos de penalização a que são
submetidas a consagração de uma coniunidade protectora que respeitam.

Os pais obedecem às normas sociais que lhes impõem como dever aplicar
um castigo exemplar na devida altura e que regulamentam o ritual do
processo primitivo destinado a cunhar na criança as escalas de valores dos
pais e nela des,envolver o sentido de disciplina. Por estranho que pareça, o
objectivo educacional visa-do é frequente e conipletamente atingido. Quanto
mais cedo e de forma mais vigorosa são aplicados os métodos empregues
melhor se consegue dominar a vontade infantil, desencorajar as,tendências
antagónicas, minar o potencial de rebelião
196 AGRESSIVIDADE

e impor uma obediência cega. E nesta obediência está contido o futurotendente à


crueldade. Se se começar a tempo, não vem à superfície a menor veleidade de
agressão infantil contra o verdugo. A criança só mais tarde se vingará nos irmãos e
irmãs, nos próprios filhos, nos inferi»es e nos fracos dos sofrimentos recebidos e da
dor suportada. A agressão esmagadora a que nos encontramos entregues sem
defesaprovoca primeiramente a letargia, a apatia, a completa passividade e a
obediência automática que não se opõe nem põe sombra de dúvida à legitimidade
da agressão. A relação opressiva de força entre -o agressor e o agredido é já uma
legitimação; basta-se a simesma.

A partir do momento em que é aplicada exi-ste necessidade de investigar e explicar


o objectivo do -processo agressivo. A justificação é feita por referência do fim em
relação aos processos utilizados. Pouco importa se estes são eficazes, uma vez que
se desconhece quais os critérios para mais esta eficácia. A legitimação- confirma e
perpetua uma relação de forças antiga e talvez outrora aconselhável, muito
tempodepois de as suas bases terem desaparecido. Pode ainda apoiar-se na
profunda adesão das vítimas. O método é considerado válido não só pelos
poderosos (na família, os pais) mas também pelos dominados (as crianças,
escolhidas para vítimas), que não participam no exercício da violência.

Todos desempenham afinal o papel de vítimas: as crianças que apenas conhecem o


castigo através -da violência, os pais que na infância também não conheceram
outro valor, que os dotou ,de antolhos, graças à pancada, e cujos pensamentos e
sentimentos assim estruturados não.puderam ceder a uma experiência mais vasta.
Estes mesmos pais foram assim -condicionados a uma tradição que elevou a norma
e ideal os imperativos provenientes de autoridades superiores e reconhecidos pelo
grupo pré-estabelecido. To-do o sentimento de responsabilidade individual foi
abafado ou transferido a favor da comunidade, para culminar numa abdicação to,tal
tornada suprema finalidade colectiva. O homem sofre a nostalgia infantil de um
estado imaginário de inconsciência e total submissão. Este sonho torna-se realidade
por meio de um sistema anónimo de hábitos e costumes regulares que o indivíduo
adopta incondicionalmente e sem reservas. Só uma organização poderosa (por
exemplo, a família) consegue conciliar a crueldade do verdugo e a sua consciência
tranquila, que o faz santificar e legitimar o acto que pratica. Quando a
AGRESSIVIDADE 197

ocasião se proporciona, uma sábia burocratização transforma a violência


desenfreada, descontrolada e explosiva da cólera e do ódio na violência fria,
organizada e disciplinada do terrorismo «educativo» autoritário e brutal.

A tentativa de melhoria docomportamento, da célula familiar fechada e


encerrada na prática da violência é tão difícil como impedir os excessos do
Es-tado soberano delimitado pelas suas pretensões etnocêntricas. Uma vez
estabelecido o regime de violência, não mais se tolera qualquer intrusão; o
estranho torna-se indesejável e o crítico um inimigo; por mais que se declare
amigo e se coloque à disposição para auxiliar no que for necessário, nada
consegue. A investig ~ relativa aos incidentes traumatizantes é
prejudicial em t=o os seus aspectos e p?dc @tornar-se mais prejudicial ainda
do que os próprios acontecimentos (servem de exemplo os actos sexuais
contra a natureza cometidos no seio do grupo familiar: o interrogatório e. a
descrição dos factos desencadeiam frequentemente os traumatismos
psicológicos que a investigação pretendia esclarecer e evitar). Quais os
sentimentos que se deseja despertar na consciência das crianças frente aos
que as torturani? Como encorajar a sua expressão se a criança irá cair nesse
mesmo meio? Deve deixar-se tudo na mesma, uma vez que nada se pode
contra a situação?

Até este momento as autoridades não encontraram processo melhor do que


registar -com vergonha e indignação os casos raros de que tinham
conhecimento, ocorridos aqui e ali, e prender os -delinquentes condenados,
para -os reintegrar na mesma situação, decorrido ummaior -ou menor espaço
de,tempo. Nos casos particularmente revoltantes, as crianças são confiadas
aos cuidados de -instituiçõ@s ou pais adoptivos. O resultado destas medidas
é raramente satisfatório; as instituições originam frequentemente uma
situação análoga. Vítima de uma vez para sempre, a criança assim continua,
pelo menos se não for tomado em consideração o complexo psíquico com
que a cunharam à força de pancada. Só existe um meio eficiente: uni
programa obrigatório de intervenções estranhas. A família vê-se coagida a
tolerar com regularidade a presença de um membro da assistência social ou,
melhor ainda, de alguém que se predisponha a auxiliar e tenha o direito
198 AGRESSIVIDADE

de entrar em casa sem se fazer anunciar. Este indivíduo encontra-se autorizado a


falar com todos os, membros da família tantas vezes e tão prolongadamente quanto
necessário, a fim de se resolver os problemas que se apresentam. Todos os,
membros podem, qu.ando lhes apetecer e seja em que altura for, entrar em
comunicação com este auxiliar. Conseguiu-se, por este processo, reduzir ao mínimo
e mesmo, anular o número de reinci~ dências e novos recursos à violência,
normalmente muito frequentes. Há organizações privadas e oficiais à disposição de
todos os que -necessitarem de auxílio. São, muitas vezes, estudantes inteligentes
dos. dois sexos e algumas vezes pessoas sem qualificações especiais, bem como,
surpreendentemente, pessoas que atingiram a idade de ter filhos, os que
conseguem pôr termo à situação e eliminar hábitos tornados rotineiros. Servem de
válvula de escape à agressão e desenvolvem as possibilidades de recurso a outros
métodos. Uma vez que eles mesmos não se encontram totalmente integrados na
situação em questão, podem descobrir e apresentar soluções ou represen@tar um
recurso mediante intervenção quando necessária. É evidente que -tudo isto tem um
carácter de superficialidade; não se podem -transformar completamente as
condições económicas e sociais, nem modificar em absoluto as tomadas de posição
ou as formas de reacção recíproca dos, membros da família; mas esta intervenção
de um intruso basta muitas vezes, e após breve resistência, para trazer, senão a
salvação, pelo menos o consolo; graças ao esclarecimento crítico por ele
apresentado TClativamente à anterior situação de equilíbrio, este intruso consegue
abalar as normas ancilosadas; as estruturas perdem a rigidez que as caracteriza.
Depois de se ,terem aberto as portas do lar a um estranho quando este o deseja,
passa-se igualmente a aceitar outros estranhos, que deixam de ser trata-dos como
inimigos. Mediante a obrigação de se escutar as propostas de outrem, acaba-se
finalmente por se adoptar as que consideram boas. Não há dúvida de que a vida
familiar se complica mas também se enriquece. As situações insuportáveis
raramente se verificam, pois que a todo o momento se pode teilefonar ao assistente
e chamá-lo, caso a criança não pare de chorar durante muito tempo. Encontram-se,
de repente, soluções em que nunca se tinha pensado. Nem sequer se pensa na
correcção pela violência. Todas estas recordações não passam de um pesadelo
votado ao esquecimento.
AGRESSIVIDADE 199
GARLAND: Viva a loucura!

Um ferroviário de Detroit, de nome Garland, foi encontrar a sua filha Sandra,


que abandonara o lar, na casa s@ia e descuidada do amante, um
delinquente de 18 anos. O pai, tomado de indignação, corno ele mesirio
confessou, espancou com a coronha do revólver o rapaz, que se encontrava
deitado e despido ao lado da filha. A arma descarregou-se por acaso e matou
a filha. O pai teve, então, um ataque incontrolável de raiva destruidora.
Como um possesso, preso de uma loucura sanguinária semelhante à
provocada pela droga,matou não só o amante da filha, mas mais três
rapazes que moravam na mesma casa. O infeliz pai, que, de forma alguma,
se deixou abater pelos acontecimentos, foi condenado, por homicídio não
premeditado, a cumprir uma pena de * ‘ de dez a quarerita anos, uma
condenação que se pode prisão qualificar de extrema benevolência,em
comparação com as penas aplicadas pelos tribunais em 1970, dado as quatro
mortes verificadas e em particular as das vítimas inocentes, que nada tinham
a ver com o assunto. O destino de Gafland despertara visivel- ,mente a
compreensão e sinipatia entre os jurados; existiam, sem dúvida, alguns
destes que viam os seus (próprios filhos abandonar incompreensivelmente a
existência burguesa e disciplinada do lar familiar para procurar refúgio na
desordem, fugindo a todas as normas sexuais e renegando toda a ambição.
Fosse como fosse, Garland recebeu centenas de cartas, após pronunciado o
veredicto. Nenhuma delas o criticava; a maioria das cartas expressava
calorosas felicitações. Algumas tinham dinheiro. O pai de uma adolescente
escrevia: «A justiça que praticou por suas mãos também nós praticámosnG
coração.» (O coração é, corno se sabe, o fulcro dos sentimentos de ternura.
Pascal: «O coração tem razões que a razão desconhece.»)

A violência é o último refúgio da decepção sem apelo e da indignação


revoltada a partir dorriomeirto em que não existern outras alternativas
possíveis para expressar a reacção agressiva.

A energia agressiva há muito que vinha a ser retida e consagrada ao esforço,


para imposição de obediência e ritual de castigos. Explodiu bruscamente
num acesso libertador, quando o objecto a castigar se furtou ao ritual
imposto mediante uma renegação total e a fuga. Os golpes partem do
coraç@Ío e são aplicados com as mãos. Pouco importa que alguns inocentes
também
200 AGRESSIVIDADE

tenham sido atingidos; o assassino é promovido a herói e executor da vontade


geral, consagrada pelo ritual tradicional.

Os jornais de 9 de Fevereiro -de 1971 avaliaram em 100,00 o número de cartas


enviadas ao tenente William Calley desde o começo do processo, se bem que
omesmo fosse culpado da morte ,de 102 civis sul-vie,tnamitas. Entre os milhares de
declarações de amor e pedi-dos de casamento figura o convite da companhia de
aviação Delta que -declara ter continuamente à sua disposição um bilhete de
primeira classe em todas as carreiras. Um negociante -de vinhos oferece-lhe
bebidas a preços módicos e o presi- ,dente de um banco propõ e-lhe emprés,timo de
dinheiro. Até Março de 1971 o número, de cartas negativas límitava-se a sete.

AUTRY: Antes quebrar que torcer

Bruce Sedgewick Autry não recebeu cartas -de amor ou de outro génerG. É
um homem entre dezenas de milhares; constitui um caso banal. A própria
banalidadedo seucaso confere-lhe ínteresse. Pretendiam dominá 4o e ele
torna-se delinquente e criminoso. Autry conta a sua história numa carta de
dezasseis páginas e desculpa-se antecipadamente da sua fraqueza. Não
espera resultados práticos, a sua carta não tem qualquer fim em vista e nada
exige da pessoa a quem a dirige. Sabe-se perdido e afirma que o facto lhe é
indiferente. Penso que os seus pensamentos e ideias ,me podem interessar e
que o compreendo, mas tem consciência ,de que isso nada serve. Gastou
tempo a escrever esta longa carta porque -também eu o gastei a examinar o
seuprocesso e a testemunhar.

Autry,nas,ceu,há vinte e três anos e é natural de Connecticut. Era o segundo


dos três filhos da família. Os pais bebiam, batiam-se, batiam nos filhos e
acabaram por se separar quando Aut,ry tinha 10 anos. A mãe voltou a casar-
se e o padrasto era um alcoólico ainda pior do que o pai. Quando estava
embriagado, espancava impiedosamente as crianças e ia arrancá-las a meio
da noite da cama para as obrigar a trabalhos duros, ao mesmo tempo que as
insultava. A família, prati---camente, nada tinha que comer. Amãe -deixara
de poder proteger os filhos, pois estava minada pelo álcool -e condenada a
uma letargia vegetativa. Autry nunca se insurgira contra as sovas do
verdadeiro pai,
AGRESSIVIDADE 201

uma vez que era do seu sangue, mas achava que o padrasto, ria sua qualidade de
estranho à família, não tinha o direitc, de o fazer. Desprezava-o e detestava-o. As
tarcias recebidas cada vez o tornavam mais consciente da injustiça que se via
obrigado a suportar. Acabou por fugir e foi diversas vezes apanhado pela policia a
dormir num vão,de escada ou dentro deum automóvel estacionado. Levavani--no à
força para casa, onde era severamente ca&tigado. Por fim, meteram-no, numa casa
de correcção, assegurando-lhe que o faziam para seu próprio bem. Autry achou a
atitude injusta. Fez a sua apreciação dentro das normas relativas à diferença entre
justiça e injustiça e bem e -mal, que desde a infância lhe tinham imposto (de facto,
à força de pancada). A forma como o tratavam assumia proporções de injustiça
revoltante. Autry não dava -mo,tivos para castigo ao seu verdugo e não admitia que
este estranho estivesse em posição de lhe impor a sua vontade. Fosse como fosse, o
envio, para uma casa de correcção parecia-lhe um castigo de forma alguma
conipatível com a sua conduta plenamente justifica-da. Ouviu repetir vezes sem
conta que a sua presença era indesejável, que o estavam a sustentar e podiam
passar perfeitamente sem um hóspede tão importuno. Queriam desembaraçar-se
dele e ele também queria partir. Pois bem, tinha partido. Porque o castigavam
então?

Na casa -de correcção aprendeu muita coisa. Pôde confirmar pela sua experiência o
que a maior parte dos sociólogos, psicólogos e especialistas afirmam: as iprisões-e
sobretudo as que se apresentam camufla-das sob a designação de casa de
correcção, -são as escolas primárias, os liceus e as universidades do crime. Autry
adaptou-s-e às suas condições de vida. Uma vez que tinham exercido a violência
contra ele, formou-se ein violê ncia e aplicou-a.

Foi elemesmo quem escreveu: «Eu era pequeno e, portanto, necessitava ser duas
vezes mais duro e mau do que os outros. Lutava diariamente. Batia quando algum
dos companheiros me queria roubar qualquer coisa, para me defender contra as
tentativas homossexuais ou batia simplesmente por bater. Servia-me de,tudo o
queme vinha àmão. Todos osmeios eram bons para vencer. Pouco me importava o
fair-play; era urna questão de sobrevivência. Nunca me esquivava nem nunca cedia.
Punha sempre uma expressão feroz. Se algum dia tivesse mostrado a minha
fraqueza, estaria perdido. Acabaram por me respeitar (refere-se aos companheiros):
era o respeito conferido pelo medo.
202 AGRESSIVIDADE

Na casa de correcção é o melhor método. Os companheiros obedeciam-me.


Tinha-me tornado uma “imagem” : era a melhor atitude a tomar e a partirde
então tinha de defender essa imagem.

o certo é que os directores viam o problema de forma diferente. Para eles eu


não passava de um rebelde. Encontrava-me continuamente envolvido em
rixas. Se me interrogavam, nunca confessava, não denunciava nem nunca
acusava ninguém. Consideravam-me um instigador. Os directores
ju@Igavam-se sempre dentro da razão, que nunca concediam ao pensionista.
Serviam-se de filim para dar o “exemplo” (batiam-me diante de todos os
companheiros reunidos, a fim de que cada um visse o que o esperava se se
decidisse a seguir-me). Além disso mantiveram-ine na casa de correcção não
os nove meses habituais mas durante três anos, @tendo-me seguidamente
confiado a outra casa de correcÇã(>.»

Autry tinha exactamente dezoito anos quando o libertaram, depois de ter


passado mais um ano numa casa de correcção. Autry atribui o
acontecimento ao facto de fazer parte do agrupam-ento de boxe do centro
correccional; podia assim descarregar p@Xte das suas tensões no ringue e
não mais se envolver em rixas, o que lhe adjudicara bom comportamento.

Autry tinha atrás de si cinco anos de encarceramento educativo. Nunca


cometera, todavia, o -menor delito, nunca fizera qualquer mal a quem quer
que fosse (antes da sua entrada na casa de correcção). Frequentara a escola
com regularidade e entusiasmo porque era esse o único lugar onde podia
sentir-se em segurança.

Por aprendizagem e imitação tornara-se um jovem diferente. Tal como


qualquer outra forma de comportamento, a agressividade também se
aprende. Autry fora sempre um bom aluno. Na casa de correcção aprende a
servir-se da violência numa imposição ante os companheiros e nunca mais a
abandona. . Sabia agora que o critério que distingue o acto de violência
justificado do acto de violência injustificado não depende do conteúdo ou
natureza dos actos cometidos, mas unícamente da pessoa que os comete. A
violência como delito é proibida, o mesmo não acontecendo quando é posta
ao serviço da sanção. A definição -dos conceitos de sançã o e de delito é
dada pelas autoridades e organismos que decidem em seu nome. Os
representantes da ordem e da segurança (os professores e guardas da casa
de correcção) podem e devem, a fim de evitar as infracçõ es às
AGRESSIVIDADE 203

regras que os J@vens poderiam cometer, reprimir tais infracções atra@vés


de castigos exagerados aplicados com uma crueldade espectacular;
alimentam assim a esperança de que o carácter de terror de um castigo
exagerado exerça uma influência preventiva durável tanto ri<> culpado
conio nos companheiros. Uma tal contribuição para consolidar e confirmar o
sistema de autoridade, bem como facilitar o trabalho disciplinar, significa
proceder a uma terapia e conjugar esforços no, sentido de uma melhoria dos
alunos, levados a reflectir e compreender por este processo.

Autry descobrira a hipocrisia da autoridade e constatara através da


experi^ncia que uma acumulação de brutalidade endurece tanto as vítimas
comoos, agressores e faz surgir nuns e noutros o desejo de exercer
brutalidade sobre os semelhantes. Na casa de correcção os educadores
cometiam incessantemente actos de violê ncia. Gerou-se rapidamente um
hábito aos mesmos. A violência passou a fazer parte do quotidiano.

A dureza do hábito e o hábito à dureza implica perda de eficácia -de


violência: a percepção, da violência aumenta tanto para o que sofre como
para o que a aplica. Torna-se necessário castigar cada vez mais duramente,
a fim de se produzir sempre o mesmo efeito positivo; é exactamente o
mesmo o caso do droga-do, que tem de tomar doses aumentadas para sentir
os mesmos efeitos. O aumento, progressivo da violência gera um aumento
dissimulado de brutalidade. O Teinado da brutalidade em breve começa a
passar despercebido, bem como a própria implicação pessoal no mesmo. A
atmosfera de agressão desculpa o indivíduo, a agressão a todos oprime e
subjuga; estabelece-se o clima de violência, que adquire feição de
normalidade e abafa o indivíduo.

A princípio, porém, e quando o gosto pela violência não o contaminara ainda,


quando Autry julgava somente defender-se, com todas as forças, a sua
percepção de violência não era ainda elevada.

«Descobri nessa altura», afirma, «que precisava de me tornar mais duro, pior
e mais astuto. Encontrava-me sozinho frente à brutalidade e hipocrisia dos
professores e, s.e queria sobreviver, tinha de me tomar forte e insensível e
pensar apenas na melhor maneira de me livrar de dificuldades. Troçaram de
mim por ter medo, mas depressa deixaram de o fazer.»

Apesar de ser de fraca constituição, Autry aprendera boxe durante o tempo


em que estivera na casa de correcção. Conta
204 AGRESSIVIDADE

como o boxe, que a princípio era uma válvula de escape e uma forma de
afirmação agressiva, em breve se torna uma forma de actividade desportiva.
Consegue aprender a joga@ bem; para si, o boxe era, nessa altura, uma
expressão de agressividade e a transferência agressiva ou a sublimação da
agressão. Foi também graç as ao boxe que conseguiu a libertação.

A sociedade que encontrou mostrou-se, utilizando as suas próprias palavras,


«indiferente e ligeiramente hostil». A família voltou-lhe as costas. O
irmão,mais velho, o único a que se sentia intimamente ligado, foi morto na
guerra no Extremo Oriente. Uma rapariga de quem gostava, e que poderia
ter dado nova orientação à sua vida, morreu num acidente de automóvel.
Furioso e irritado, Autry abandonou o seu trabalho regular. já não
tínhaninguém a quem se dirigir e a quem se confiar. Caiu no desespero e,
segundo as suas próprias palavras, na alienação «paranóica». Talvez fosse a
fatalidade que nunca o deixava ganhar. A vida seria uma eterna frustração;
sentia-se só no mu-n-do, ninguém se preocupava com ele e todos o
desprezavam. Até então Autry nunca se sentira culpado de nada, salvo ter
fugido do lar onde o adiavam. Começou a beber e a vadiar, deixou de
procurar trabalho e foi, final-mente, apanhado num automóvel

com uma garrafa na mão. Acusaram-no. de ter roubado o automóvel e,


apesar de somente se ter recolhido no mesmo, declarou-se culpado. «Era-me
indiferente o que me pudesse acontecer. Nada tinha a perder e nã(> me
podiam fazer pior do que o que me haviam feitom Meteram-no na prisão.

Passou sete ineses na prisão acusado, de diversas faltas disciplinares (na


maioria insolências e ofensas aos guardas). Declarou não querer nem ter
podido refrear as suas crises de revolta. Era para ele o único meio possível
de afirmação de personalidade, a ;sua salvaguarda contra a loucura. A sua
personal idade possuía a seus olhos um valor enorme. Era o seu único bem,
tudo o que tinha adquirido no decurso de anos de reeducação,. Estava
relacionada com a sua imagem e prestígio entre os reclusos.

Enquanto estava preso tornou-se meio louco e dominado por um único


receio; perder totalmente a razão. Tinha visões e alucinações; não podia
suportar mais a solidão, mas sabia que não havia a mínima esperança de
poder ser posto em liberdade nos tempos mais próximos (sair não tinha para
ele o significado de sair fora -dos muros da prisão, mas ter acesso à relativa
liberdade dos acusados de delitos nienores). Interrogava-se dia e noite sobre
AGRESSIVIDADE 205

a forma de provar a si mesmo que ainda vivia e que era ainda um homem. Fabricou
uma faca em segredo e fez de um guarda seu refém. Defendido pela reputação
adquirida na casa de correcção incitou os outros presos à resistência. Não, exigiu a
liberdade

mas a possibilidade de expor as suas queixas ao director da prisão e aos jornalistas.


Acalmaram-no, ao mesmo, tempo que habilmente o convenciam de que o seu
desejo seria atendido, e desarmaram-,no. Foi julgado com mais três companheiros
sob acusação de ter provocado uma revolta na penitenciária. Não havia contestação
contra o facto de ter agido no pleno uso das suas faculdades mentais. Ninguém
duvidava de que ele sabia exactamente o que fazia e foi considerado totalmente
responsável. Os resultados da experiênciada privação de estimulante não tiveram
naturalmente qualquer influência ante os juízes. Foi condenado com uma pena de
dez a trinta anos.

Autry sabia-o: desta vez caíra nas malhas da lei. A duração da pena pouco importa,
pois está convencido de que, seja como for, não conseguirá sobreviver mais do que
semanas ou meses de prisão. O relato dos seus actos e as referências do seu
passado rebelde segui-lo-ão para qualquer prisão onde seja metido. Em todo olado
serátorturado e vítima de susipeitas. Não pode jurar que não as provocará, ou não
reagirá. É a lei da selva: matar ou ser morto. Ele escreveu: «Todo, o homem acaba
por atingir o ponto crítico ou afunda-se. O homem só pode aguentar uma
determinada quantidade de pressão e de tensão. Quando atinge um determinado
grau, afunda-se. Estou pronto a ceder bruscamente ao impulso interior, ou seja, a
matar quem quer que me detenha ou a fazer com que os outros me matem. Nada
mais me interessa, nem sequer a vida.»

já não resta qualquer solução. Foi utilizada a violência, a princípio uriginada pela
indiferença da sociedade e depois promovida a métodos educativos por esta mesma
sociedade. A violência eliminou assim todas as outras vastas possibilidades de
opção. Ainda que o -desejasse, a sociedade não podia libertar este homem que
nada mais detém. «A vidanão lhe interessa». Matará quem quer que seja ou será
morto. Atingiu um ponto em que já não pode voltar atrás.

A probabilidade de existência de tendências para actos manifes,tos de agressão,


nas pessoas ou grupos pode, tal como o quociente de inteligência, ser avaliada e
definida como um quociente de agressão.
206 AGRESSIVIDADE

Este quociente corresponde, em linhas gerais, à relação entre a quantidade de


violência disponível e a força dos mecanismos de contrôle exteriores e interiores,
tomando em consideração as possibilidades de transferência e de sublimação. Os
mecanismos de contrôle exteriores são as instituições sociais policiais e judiciárias
que ameaçam a aplicação de penalizações e a aniquilamento de todos os
infractores à lei estabelecida; os contrôles inteíriores são os autoinatismos
rítualizados da consciência e da voz interior. O -trabalho, o, desgosto e as relações
humanas permitem a expressão não explosiva dos impulsos agressivos, actuando
como válvulas de escape. Para Autry o boxe representara uma válvula de escape;
talvez com a ajuda.do irmão e danamorada, que perdera um a seguir ao outro,
tivesse podido fundir os seus sentimentos explosivos de ódio em emoções eróticas,
afectivas e amístosas e destruir assim a ameaça que os mesmos representavam.

A tendência à violência é tão es,timulada por grandes frustrações como por choques
eléctricos. É reforçada pela eliminação do contrôle dos centros nervosos. Para
desenvolvimento dos mecanismos dos centros de repressão no indivíduo, utilizam-
se os exemplos e as palavras e não os trau-ma,tismos psíquicos, drogas ou choques
eléctricos. Este contrôle pode ser desautorrizado pelos exemplos de crueldade e o
exercício de violência. Existem indubita(velmente diferenças quantitativas de
predisposições individuais à violência, mas a impcK@tâucia decisiva não reside no
facto de se ser violento mas de se vir a ser. A agressão, como todas as outras
qualidades, não se desenvolve no vazio mas proporcionalmente ao meio ambiente.
Toda a verdadeira agressão é uma aquisição social, ao passo que a predisposição
agressiva biológica tem carácter de generalidade.

Os juízes, os psiquiatras e toda a sociedade estão de acordo na atribuição da total


responsabilidade a Autry e outros protagonistas décasos parecidos. Outros homens
saídos de meios semelhantes tornaram-se seres capazes ou pelo menos pacíficos.
O mesmo não se passa, iporém, em relação a dezenas, centenas de milhares e
milhões. A sua agressividade normal transformou-se em anormal devido à ausência
de possibilidades de transferência e de expressão, da-do que as pessoas
responsáveis e as instituições sociais não refrearam mas reforçaram as tendências
agressivas ncles existentes. O seu quociente agressivo desenvolve-se, portanto,
acaba por atingir -o ponto de explosã o e arrisca-se a todo
O InGinento a transpô-lo. Como opção possível apenas lhes resta
AGRESSIVIDADE 207

o seu aniquilamento: matar ou ser morto ou uma e outra coisa para não
voltar a matar. Eles são os responsáveis. Eles, e mais ninguém?

ímperatívo que a ordem reíne

Uma vez que a ordem é uma necessidade, as punições também o são. As


punições existem para a manutenção e consolidação da ordem. E
precisamente a mesma agressão que se proíbe ao malfeitor delinquente é a
sanção justa e indicada contra ele, dado que restaura o equilíbrio. Procede-se
para com o infractor da mesma forma que ele procedeu para com os outros.
Uma vez que assassinou, perde o direito à vida; por ter rouba-do, será
despojado da sua liberdade; em virtude de ter prejudicado os outros por não
se saber controlarr, esses mesmos outros decidem prejudicá-lo e controlá-IG.
O equilíbrio perturba-do e igualmente violadG pela agressão será
restabelecido por este último. Penalizar significa aplicar voluntariamente o
mal, a -dor, a renúncia, apresentando-os como consequências necessárias,
naturais e, se possível, automáticas do acto cometido. O mal realizado dá
origem à acção, que é a sua causa directa Poena quia peccatum. A diferença
entre a puniçã o e a vingança, as represálias e a arbitrariedade, reside no
facto de que a autoridade humana ou a pessoa que decide ou executa o
castigo está habilitada, autoriza-da e encarregada de o fazer.

Uma crença primitiva e anterior à era da ciência i,nterpTeta a existência


domundo como a expressão de uma vontade superior que representa um
objectivo e uma incumbência do homem: um dever. O dever social é assim
ligado a uma existência superior que. não poderá ser discutida. A
penalização do culpado faz do castigo, tal como da «recomperisa», uma
necessidade natural e automática, uma cofisequência directa do atentado
contra elemeritos naturais. Não se trata da simples transposição de uma
vontade suprema, mas da consagração autoritária de leis indiscutíveis. Na
base de que a natureza é simples e clara, não necessitando pois de
expli.cações, a mesma é elevada à categoria de modelo e pretensa origem
destes sistemas humanos, que exigem justificação sem que haja
possibilidade de o fazer.

Do seu domínio sobre a -natureza o homem retira possibilidades materiais; é


também graças a ela que não dispõe unica-
208 AGRESSIVIDADE

mente de matérias-primas, fontes de energia e alimento. O seu benefício é muito


maior: serve-se da natureza para confirmar os seus métodos e justificar a sua
conduta. Pela observação e interpretação da natureza, aprendeu a conhecê-la.
Serve-se -dela como base de domínio mediante um desvio, de interpretação que lhe
confere. Esta mesma interpretação da natureza que lhe permitiu o domínio é
utilizada pelo homem para justificar as suas pretensões (maturais». Vangloria-se de
tomar a natureza como modelo para dirigir a sociedade e julga--se no pleno direito
de o fazer. O indivíduo é chamado a responder pelos seus actos e considerado
responsável pelos mesmos, quer na base da acção se encon- @t,re um desejo
concreto ou exista a convicção arbitrária de que assim foi. As causas do
seucomportamento pertencem ao domínio do privado, mas as consequências que
se seguem aos actos tornam-se públicas. Uma vez que se admite que seja ele a
determinar os seus actos, é lícito que assuma responsabilidades. O homem não é,
porém, responsável pelos acontecimentos. A responsabilida@de cabe
principalmente à divina providência, natureza, história, acaso ou outros poderes
exteriores ao homem ou que ele transformou em mitos. E se estes -poderes são
influenciáveís, o homem só os pode influenciar indirectamente; outrora, niediante
sacrifícios, orações e magia; na era científica, pelo conhecimento das leis que regem
os fenómenos.

Outrora, o rei Xerxes ordenou que o mar fosse atacado por ,ter tragado a frota dos
Persas. Hoje, esta ordem parece-nos uma explosão de cólera infantil. Se nessa
altura a ciência da metereologia estivesse tão desenvolvida comona nossa era, teria
sido possível prever a tempestade. Esta ter-se-ia desencadeado, na mesma, inas os
naviosteriam esperado um vento favorável. Oo,ceano foi, pois, atacado e a punição
parece-nos estúpida. O oceano era insensível aos golpes recebidos. É precisamente
porque a natureza (mada sente» que to-das as ati,tudes contra ela nos parecem
supérfluas e que não temos o menor escrúpulo em a subjugar e explorar para nosso
benefício ou prazer.

Nem o indivíduo nem o grupo conseguem infelizmente distinguir com facilidade


uma argumentação difícil e tendenciosa destinada à mera satisfação de uma
necessidade de justificação e uma argumentação verdadeira fundamentada numa
relação real de causa e efeito. A tempestade que se segue às respostas insolentes
da criança ante a reprimenda da mãe nada têm a ver
AGRESSIVIDADE 209

com a falta cometida. E, no, entanto, a criança, consciente da sua culpabilidade e


arrependida por ter irritado a mãe, pode estabelecer uma relação,de causa e efeito
entre a falta cometida e os fenómenos; atmosféricos. Essa relação verificar-se-á
tanto mais quanto a mãe, para apoiar os seus esforços pedagógicos, lhe chamar a
atenção. dizendo: «Vês o que acontece quando te portas mal?»

O silogismo assim criado não desaparece facilmente. Quando da próxima


tempestade, a criança perguntará aterrorizada: «O que fiz de mal?» Encontrará
certamente uma resposta, pois que se comete sempre mal, ainda que em
pensamento ou por intenção.

A punição segue-se imediatamente à falta. O nosso caso-padrão revela um


acontecimento que se seguiu imediatamente a um acto e que a partir desse
momento é -entendido e senti-do como punição.. A indução em erro é fácil;
estabeleceu-se uma relação temporal e causal e a ela se voltará. A consciência de
uma culpabilidade surgida por castigos anteriores desencadeia a espera de uma
punição justa, «salário, do cri@me», dado que ingenuamente se confia numa justiça
da natureza.

Ponios assim em causa um único dos motivos possíveis por que esta relação,
-confirma uma aquisição anterior, uma convicção de uma relação lógica (entre falta
e castigo,, dentro do contexto citado). Este é o tipo de uma explicação por sedução
que acentua um motivo único tornado exclusivo ou dominante e põe de lado, ou
retira a importância a todos os actos. A acção culposa implica o castigo, que por sua
vez arrasta a consciência da falta cometida. Es,ta operação por sedução delimi-ta
arbitrariamente o que é importante, único e decisivo; a demonstração é plausível e
convincente, ignora todos os outros motivos possíveis, sendo, portanto, parcial e, a
partir desse momento, errónea,

Explicam-se factos complexos e pouco claros limitando as causas a uma única ou a


um número reduzido e colocando de lado todas as outras. Evitam-se assim
complicações e consegue-se obter um esquema dramático e simples do
encadeamento lógico, mas a realidade dos factos é falseada e amputada.

Os acontecimentos públicos, visíveis e patentes, que de facto s.e consideram de


boni grado como não tendo consequências sobre os actos humanos privados,
influenciam as acções relativamente às quais o indivíduo é chamado a responder; e
os seus actos desencadeiam, vice-versa, acontecimentos exteriores. Evita-se o
210 AGRESSIVIDADE

perigo pela fuga e leva-,se. a cabo um contrôle que. tem como fim a
libertação. Uma teoria primitiva imagina o universo como plano da vida e vê nos
acontecimentos as acções de autoridades sobrenaturais. O pensainento moderno
atingiu, pelo contrário, um -piano de interpretação das acções humanas e
consequências como se se tratasse de acontecimentos relativamente aos quais
ninguém é responsável ou pelo menos verdadeiramente responsável. A sociedade,
o governo e a técnica constituem símbolos deste gênero de acontecimentos, pelos
quais ninguém é responsável. O determinismo histórico, os fenômenos do
inconsciente e as convicções sociais são complexos largamente influenciados e
coordenados pelo homem; dependem portanto dele e são assimilados por
acontecimentos exteriores a que o homem atribui responsabilidade.

Os acontecimentos naturais não são, em princípio, desejados nem premedita-dos,


se bem que, graças à regularidade com que se processam e às leis naturais que os
regem, possam muitas vezes ser pirevistos e por esse -mesmo facto se encontrarem
sob contrôle do homem.

Uma boa conduta baseada em encadeamentos naturais é sempre recompensada e


em seguida encorajada pela experiência; uma conduta negativa é punida e a
recordação do castigo sofrido leva-nos a tomar um caminho diferente. A
recompensa e o castigo são simples consequências, nada -mais. A educação e a
justiça dos. homens baseiam-se neste determinismo lógico e perfeitamente
inteligível; mas não abandonam a recompensa e o castigo ao acaso, à
arbitrariedade ou à justiça imanente. O indivíduo estará condicionado
a uma boa conduta social em pretensa conformidade com o -esquema
natural, graças ao emprego e hábil manipulação de recompensas e
castigos que já perderam o carácter natural e foram elevados a
promoções e penalizações sociais. Determina-se assim o
comportamento deseja-do de acordo com as escalas de valores
oficiais, além de que o modo natural passa a ser uma norma. A
penalização aparece a partir desse momento como auxiliar
determinante e destina-se a submeter os ,comportamentos humanos
aos. imperativos das autoridades.
O sofrimento passivo do indivíduo penalizado pelo seu mau
comportamento é, através de hábil manipulação, transfoirmado em
condicionamento activo de comportamento; o indivíduo é submetido a
uma atitude, o ac.to indesejável considerado falso e a partir desse
momento punido.
AGRESSIVIDADE 211

Não é por acaso que o mesmo vocábulo jurídico designa o encadeamento


observável de causas e consequências que o homem verifica, sem possuir
qualquer influência sobre o mesmo, e não são um acaso também as normas
sociais impostas ao, homem para -determinar e orientar formas de
comportamento de carácter particular, consideradas como úteis ante a
civilização. O que se estabelece sem qualquer colaboração do homem é
promovido a fundamento de regras de conduta estruturadas pelos homens.
Estes discutem as leis naturais e servem-se das imagens da natureza para
ilustrar as suas concepções a fim de as dotar de um carácter de necessidade
científica e de exigir uma cega submissão. O direi-to e o dever são definidos,
explicados e impostos como esquema indestrutível: -causa e consequência.
Os grupos humanos são esmagados por uma organização natural que, aliás,
se formou parcialmente pela projecção de -necessidades e formas de
pensamento humano. A definição torna-se a base do conceito e os ideais
sociais são apresentados e representados colmo exigências do real, até
mesmo da natureza.

Todos os sistemas governamentais e todos os sistemas contestatários


passados, presentes e futuros resultam desta pretensão de imitação da lei
na-tural. O direi-to -natural legitima os objectivos humanos. As hierarquias,
assim chamadas naturais e equilibradas, declaram-se imutáveis, se bem
quenão passem de aspectos de uma ordem mutável, pretendida, imposta ou
desejada num determinado momento. As p@na-lizações não passam, de
facto, da falsa imitação de uma justiça natural imanente, de assimilação, que
é mero fruto da imaginação. Elas são afinal um complicado conjunto de
motivações agressivas concretas contra o delinquente (vingança, represálias,
ódio e raiva) e de diversas representações abstractas, que têm como
objectivo o reencontro de uma harmonia natural. ,@ penalização inflige
propositada-mente uma dor.ao culpado, inspirando-se na justiça natural e
aspirando possuir a mesma infalibilidade; na sua qualidade de natural,
encontra-se no direito de se declarar como justa e razoável. Uma vez que a
justiça natural é.caracterizada por uma sucessão de factos interliga-dos,
influenciou, em certa medida, os comportamentos humanos. A penalização
humana, manipulada por autoridades humaTias, toma-a colmo exemplo e é
utilizada para condicionar os comportamentos humanos. Este
condicionamento declara-se autorizado, por objectivos superiores e invoca
autoridades incontes-
212 AGRESSIVIDADE

táveis ou, mais simplesmente, fundainenta-se no direito natural

e na própria natureza -do homem. A penalização, deve pois manter uma


relação visível, se possível incontestável, e até mesmo espectacular, com o
acto culposo. O carácter rápido e inelutável da aplicação docastigo contribui,
em mais vasta me-dida, para a sua eficácia do que a duração ou gravidade
do mesmo.

Certos teóricos atribuem valor absoluto ao castigo: é moral e consequência


de uma acção. São de opinião que o mal praticado deve ser anulado pela
pena de talião e portanto vingado. Outros teóricos atribuem um valor relativo
ao, castigo e acentuam a necessidade de desviar os indivíduos da
reincidência no mal pelo exemplo do, castigo aplica-do. TTata-se, pelo
chamado castigo. preventivo, de fazercom que o culpado sofra e impedir que
reincida. O indivíduo castigado 1,embrar-se-á da penalização sofrida no
passado, evitará o mal futuramente e seguirá, portanto, o coniportamento
desejado,dado, que não afastará do pensamento as consequê ncías
inevitáveis de um eventual mau comportamento. O uso da penalização cria
assim reflexos condicionados que levarão o delinquente a ingressar no
caminho do bem. Por outro lado, a comunidade, graças a este mesmo
castigo especial preventivo, encontra-se protegida contra a reincidência no
caso de as medidas tomadas não conseguirem melhorar o delinquente e
afastá-lo do mal. As medidas violentas e radicais são as mais eficazes; dentro
desta ordem de ideias, deve-se mesino preferir a pena.de morte à prisão.
perpétua. É, sem dúvida, a medida preventiva mais eficaz, pois que elimina,
de uma vez para sempre, todo o perígode reincidência e a ameaça que
pesava sobre a sociedade.

Dá-se assim e, exemplo, infligindo um castigo o mais severo possível; o


castigo visa não só o infractormas todos os culpados potenciais; alerta-os,
chama-os à ordem, ameaça-os e assusta-os. Nu,rna época em que a
insegurança geral progride, os argumentos tendentes à p@otecção, de uma
comunidade e sociedade angustiadas assumem iniportância primordial e
pouca inquietação se sente ante a prática de urna injustiça casual ou a
utilização de um inocente como bode expiaiório que s,e -castiga. Foi
proclarnado o estado de urgência e a partir de então todos os conceitos de
direito individual, garantias de procedimento e simples justiça cedemno aos
interesses príoritários da protecção da cornunidade. O es,tado, de urgência é
anunciado de bom grado para se legitimaT a privação dos direitos naturais e
a suspensão dos pro-
AGRESSIVIDADE 213

cessosnoyrnais. Nas situações de urgência generalizam-se a insegurança e a


ameaça. A autoridade critica uma agressividade metódica e pratica
abertamente a violência contra os indivíduos. A partir desse momento a
penalização, quer se refira ao indivíduo. delinquente que pretende assustar,
ou ante a comunidade que quer, por exemplo, instruir e encorajar, ÍT@spira-
se unicaMente nos objectivos dos que proclamam os castigos. A penalização-
expressa a agressividade da autoridade punitiva. Legitima esta autoridade e
consegue, algumas vezes-tal corno deseja-. inipgr as suas escalas de valores
e ser aprovada pelo indivíduo castigado.

Em case, de ameaça a autoridadetende a monopolizar a violência, a legitimá-


la e a levá-la à qualidade de princípio natural, simples e absoluto,. O po,dtr
autoritário deve afirmar-se como jus,tiça natural; -deve, por esse motivo, em
-campos estreitamente delimitados ceder aos indivíduos uma pequena parte
dos seus plenos poderes. Os sistemas totalitários confiam assim, a
numerosos indivíduos, ,Poderes arbitrários e ilimitados privilégios
disciplinares em campos muito restritos. Cada um deles é levado à posição
de chefede grupo. Estes poderes ilimitados dos pequenos têm, aliás,
tendência a aumentar e a alargar-se. Não criam um espírito de cooperação
solitário, mas levam a pequenas querelas Provocadas pela inveja, querelas
que reforçam afinal a autoridade central, em lugar de a enfraquecer, graças
à técnica do divide et impera (reparte e reina). Ao favorecer-se os pequenos
interesses rivais estabelece-se nos diversos níveis um equilíbrio de poder em
que se apoia a pirâmide da autoridade suprema.

As -relações de poder, posse e contrôle têm a sua origem na relação


biológica natural que se -reporta ao padrão criança-adulto, inexperiente-
experiente. Oprofessor distingue-se a priorí do aluno pela superioridade da
sua erudição, o chefe distingue-se dos subordinados pela superioridade de
aptidões e de vontade e o Estado distingue-se das massas pela sua recusa
de valores hedonistas egoístas e pela sua aptidão de agir de modo
responsável, altruísta e desinteressado.

Esta selecção natural, que quase sempre, senão sempre, provém do próprio
estudo das coisas, transformou-se em esquema justificativo de agressões
objectivamente injustas, de fundamento e es,truturação deficiente e que são
os próprios instrumentos de ,manutenção da autoridade. A autoridade serve-
se da sua própria autoridade, da maturidade das suas certezas -e do seu
sentido de
214 AGRESSIVIDADE

responsabilidade para reduzir os indivíduos, que são, todavia, maiores,


experimentad<>s e prontos a assumir resporisabilidades, à condição de
crianças subordinadas e menore@ irresponsáveis, tratando-os corno tal.
Dirigir alguém era primitivamente uma necessidade, que hoje se tornou uma
pretensão arbitrária e se disfarça sempreda mesma forma @tomando como
base a pretensa natureza das coisas, as exigências de ordem a impor, a
simpli-cidade e o método. A tentação de poder baseia-se não só no fascinío
que a agressão permite e concede, mas também na experiêncía: o homem
entregue a si mesmo parece ter necessidade de direcção e de disciplina;
mostra-se afectivo e dócil ante a agressão, não apesar de, mas devido aos
contrôles agressivos que lhe são im postos, agressivamente.

O poder é adorado e respeitado. O apelo do podertem carácter erótico, a


sede dos poderosos envolve-se na embriaguez do contr&e agressívo que
exercem sobre a agressão dos outros e o respei.to dos que controlam. Aos
contrMes agressivos interiorizados está inerente a liberdade da agressão, se
bem que em potência. As aspiraçóes libidinosas orientam-se no sentido do
que ajudou os indivíduos a conter a sua própria liberdade de agressão, a
inanté-1a. sob contrôle e a eliminar a angús.tia desta forma.
O governante é amado não só porque nos confere sucessos e prestígio, mas
porque fez su uma disciplina interna dentro de nós, O bem-amado
Führerrfoiirna verdade, momentaneamente, o psicoterapeuta da nação
devido ao facto de assurnir todas as responsabilidades e também porque,
graças a regras de comportamento legítimadas pelos @.rgurnen,tos étnicos
@ pretensões de uma raça de eleitos, reprimiu a agressividade índividual,
canalizou-a e deu-lhe nova orientação, autorizando a sua expressão sobre
determinados objectos de agressão.

Pretende-se que -toda a penalização seja eficaz e moralmente justificada e


estes dois factores são igualmente indispensáveis. A eficácia deve ser -total
e automátíca, sendo este o objectivo e esforço sistemático visados pelo
regime -totalitário. A pefialização volta a fazer su-rgir uma situação vivida na
infância, no seio da qual a diferença de forças disperisa a autoridade de toda
a legitimidade. Todas as funções de direito legislativas, executivas e jurídicas
encontram-se globalmente reunidas nas mãos de um poder único. A
autoridade absoluta somente é responsável para consigo mesma e apenas se
encontra sujeita ao seu próprio contrõle.
AGRESSIVIDADE 215

A possibilidade de jus,tificação do castigo @ignifica uma larga contribuição


para o tornar eficaz. A verdadeira eficácia de um castigo pode-se avaliar com
bastante exactidão, não,pelas motivações mas através de estatísticas e
investigações científicas. Os actuais contrôles de agressão representam um
fracasso cata&trófico. Aplicam@se medidas ipenais draconianas como
combate frente a frente ao aumento de insegurança e de incerteza. O seu
Tesultado cifra-se numa subida geral de brutalidade e num visível progresso
de violência. É esta, pelo menos, a conclusão a que nos levam os factos, sem
que, todavia, exista uma prova científica. O pormenor dos factos
testemunha, porém, incontestavelmente, o resultado da brutalidade dos
homens, o incitamento à violência pelas íns@títuíções representativas da
autGridade, o, cíxculo, fechado cons:tituído pelas famílias que fazem dos
filhos mártires, as prisões e os Estados totalitários.

Os processos -mais vulgares destinados a intimidar os culpados em potência


só actuam, na generalidade, sobre os que não têm necessidade de
intimidação. Excluindo urna minoria de masochistas, que transformam o
castigo sofrido em prazer erótico, pode proceder-se, em princípio, à
classificação de diversos grupos humanos que se mostram sensíveis ou não,
ao efeito de intimidação provocado pelo castigo. A estes últimos grupos
pertencem:

1) As pessoas incultas ou sem experiência; os idiotas; os espíritos fracos; as


personalidades infantis,. Este grupo é assaz numeroso, mas não desempenha
um papel decisivo na sociedade.

2) As personalidades patológicas, que, quer por constituição, quer adquiridas


poT educação, são, pela própria estTutura da sua individualidade, incapazes
de urna identificação própria e de uma interiorização da experiência vivida. A
este grupo per- ,tencem os indivíduos que qualificamos de doentes mentais,
irracío,nais, sociopatas ou criminosos em potência. Verifica-se que este
género, de pessoas se mostra completamente indiferente a ,processos de
intimidação anteriormente repetidos, não os tomando, de forma alguma, em
consideração. Após a apreciação das autoridades, jurídicas, estes indivíduos
são, por vezes, submetidos a um ínternamento ou tratamento. Os casos têm
sempre um fim desastroso se, por rotina e falta de reflexão, -na-da mais se
fizer do que ceder à pressão social que arrasta castigos cada vez mais
graves, urna intimidação cada vez mais severa, devido à
216 AGRESS1V1DADE

ineficácia demonstrada por toda a intimidação e apesar da mesma.

3) Os indivíduos e grupospertencentes a sistemas de valores culturais ou


subculturais divergentes e que, por esse motivo, não reconhecem a
autoridade penalizadora -e lhes negam todo e qualquer privilégio. Reagem
ao castigo como a uma agressão injusta e demonstram uma resistência que
consideram justa, mediante um contra-ataque. Fazem parte desta categoria
os jovens deliquentes por convicção, bem como os membros das ,minorias e
outros grupos que se consideram oprilmidcs. Para eles, a penalização tornou-
se uma necessidade-tabo de castigar os infractOTes e cedo se dedicaram,
por sua vez, a utilizar a necessidade de penalização, para castigar os que a
aplicam.

4) O grupo -dos que tão cedo e tão intensamente se encontram expostos aos
castigos que ficam imunizados contra os mesmos. Passaram à brutalidade
activa ou estão de tal forma convencidos do seu papel irremediável de
vítimas que mais nada os preocupa. No seu desespero reagem com
indiferença, apatia ou violência às crueldades que lhes infligem para os
castigarem.

Punir é, principalmente, utilizar a intimidação a fim de evitar as


reincidências. A tentativa de recuperação do equilíbrio e o auxílio no, sentido
de se pretender recuperar o que infringiu -ou infringe as regras significa,
primordialmente, legitímar a punição aos olhos de -todos. Torna-se
necessário que a agressão que existe no castigo seja vista como contra-
agressão, uma agressão des-tinada a intimidar, recuperar e educar. A
legitimaçã o, é o único meio de fazer com que a agressão se tOTne um
verdadeiro castigo e, portanto, uma agressão permitida, necessária e
utilizada sem criar novo sentimento de angústia. O processo jurídico
enobrece, santifica e ritualiza o mal feito. A comunidade e a autoridade que
aplicam o castigo são absolvidas pelo mesmo processo que culpabilizou o
acusado. Uma vez que a penalização é legítima, o agressor que a aplica não
possui, subjectivamente, a consciência de agressão; não é agressivo, pois é o
infractor que mereceu o castigo e cometeu a agressão. Quem castiga sabe
sempre demonstrar que quem é punidotinha necessidade de sê-lo para que
não reincidisse, pagando o seu erro e compensando a falta ou sendo
encaminhado para o bem. O que aplica o castigo dispõe, assim, de contínuas
ocasiões de satisfazer as suas próprias tendências agressivas, ao mesmo
tempo que as nega. É o criminoso que comete a agressão, mesmo a que nós
AGRESSIVIDADE 217

transferimos e projectamos, parcialmente, sobre ele e, portanto, lhe


aplicamos e praticamos. É nele que, por transferência, des-Cobrimos e
revelamos as nossas próprias tendências. Transformamos omal que existe
em nósnum mal que lhe atribuímos e sobre ele descarregamos, com a
consciência tranquila, todos os nossos impulsos agressivos, quer ele
represente um verdadeiro perigo ou seja apenas um bode expiatório, quer
seja culpado ou inocente. O objecto a punir torna-se um alvo legitimo e
oferece-se à autoridade punitiva, corno imeio, de libertação dos seus
impulsos agressivos e violentos, que, no entanto, nega e repele sem
deixarde os expressar e reivindicar. O indivíduo e a colectividade ascendem
de bom grado ao papel de agente de repressão.

Outrora, o homem podia áplicar a sua agressividade em activida,des


inofensivas, como por -exemplo rachando lenha, dando largas ao esforço
físico no trabalho, em competições des,port'vas, rixas ou duelos, Estas
possibilidades vão-se reduzindo, no entanlo, progressivamente, na medida
em que o Estado deseja e consegue obter o monopólio da violência, graças a
processos técnicos cada vez mais perfeitos. O indivíduo civilizado Só
raramente dispõe de oportunidade para empregar a agressividade ou do
direito de uma manifestação agressiva (fora do meio familiar), pois que o
Estado reivindica todos os meios de violência e toT-

na-os seu privilégio absoluto. Só é autorizada a agressão que comporta a


designação de castigo.

Esta é, pois, uma das raras, válvulas de escape à disposição, da


agressívidade sentida pelo mundo civilizado, pois que este se vê,
progressivamente, privado de todo o direito de reagir de outra forma aos
seus impulsos agressivos, acumulados e reprimidos. A humanidade não quer,
portanto, deixar escapar a possibilidade de descarregar a agressão sobre o
seu semelhante, embora negue, continuamente, o facto. Esta liberdade de
«escape» parece-lhemais ipreciosa do que a liberdade de pensamento.
Exige-s-e um maior alargamento do direito de punir e um aumento dos
delitos puníveis, como se não os houvesse já em quantidade suficiente. A
corrida para a violência, a sua multiplicação e provocação processam-se em
nome da antiviolência.

O castigo possui, indubitavelmente, limites, dado que pretende a sua


continuidade dentro de uma legitimidade e aceitação. A pena de talião
---olho por olho, dente por dente -surgiu, originariamente, dentro de certos
limites. Uma vez que se pretende manter a contraviolência dentro de um
clima de justifi-
218, AGRESSIVIDADE

Cação, não se devem ultrapassar as dimensões da violência, contra a qual ela


representa uina reacção. Caso contrário, deixaria de ser aceite. O castigo deve ser
aplicado na mesma medida e dentro das conveniências referentes à infracç@O
cometida.

Se se lhe desse o nome de represália ou vingança, o castigo acarretaria o recibo de


contra-represália ou despertaria sentimentos de culpabilidade nos responsáveis.
Uma vez que lhe é atribuída a designação de penalização, conforme com o direito

tem permiss Pal, ão absoluta de se realizar. A agressão não

e, todavia, ser elevada ao plano de sanção e desculpar-se, assim, de uma acusação


de farisaísmo senão ao preço de alguns sacrifícios e algumas limitações que a ela
mesma impoe. O castígo deve, portanto, satísfazer uma dupla condição de
pressupos,ta eficácia e legitimidade; deve -poder vangloriar-se de provocar os
comportamentos desejados e desencorajar os comportainentos índesejados, além
de que se deve manter dentro de uma justificação, sendo, portanto, determinado
pelas leis do direito.

As bitolas utilizadas têm, aliás, um carácter de relatividade; a sociedade não tem o


mínimo escrúpulo em aplicar à letra os processos que selecciona. Em princípio, a lei
protege o indivíduo e a sociedade contra os infractores, mas também contra os
defensores da lei; visa, teoricamente, todo o que infringe os direitos de outrem, mas
controla, igualmente, o que os protege. Só concede a es,te úl,timo o privilégio da
sua função protectora dentro de determinadas condições. As usurpações militares e
policíais, se bem que denuncíadas, são sempre toleradas na prática. Depois da
sangrenta vitória quando das revoltas de Watt, o antigo chefe da polícia de Los
Angeles William Parker vangloriou-se, utilizando urna fórmula que quase se toTnou
clássica, de ter metido as bestas humanas negras revoltadas (mas gaiolas dos
guetos que lhes competiam» e de ter feito com que a polícia ocupasse o lugar
cimeiro, que lhe pertencia. Este severo representante de uma ordem hierárquica
estabelecida declarou num discurso público que a polícia não estaria -em condições
de garantir a aplicaçã o das leis se não lhe fosse concedi-da autorização para
transgredir essas mesmas leis frente aos indivíduos culpados de infracções. Os
tribunais não admitiram o facto e são, Mtanto, muitas vezes, tornados responsáveis
pelo aumento da criinínalidade e, apesar da sua elevada dignidade, sofreram
acusações de cumplicidade criminosa.

Uma vez que o respeito rígido das leis e das normas preju-
AGRESSIVIDADE @19

dica a sua aplicação, estabelecem-se grupos de salvaguarda para remediar a


situação. Fomos informados ce que na América do Sul os polícias empregam
os tempos livres a pôr fora de combate, sem existência de processo, os
elementos que Consideram culpados mas contra os quais não,têrn,,pTovas
suficientes ou possibilida-de de investigação. É desta forma que actua,
frequentemente, o detective privado dos romances ou filmes policiais.
Defende o direito e a moral, ataca o mal e a imoralidade e mostra-se mais
eficaz do que as autoridades policiais, porque não se preocupa em submeter
os seus actos agressivos, inspirados directamente por objectivos -nobres e
morais, à complexa buroctaciadas regras legais e disposições,
administrativas. Consegue obter êxito nos pontos em que, no romance
policial, -o processo pertence ao burocrata, muitas vezes apelidado de
-estúpido e incompetente, que se coíbe de cometer actos agressivos que
infringem a@s regras estabelecidas, ainda que as mesmas possam contribuir
para a luta contra o crime e deten ~ do culpado. O leitor ou o espectador
de bom grado se identrfílocam. com os «duros» que, ilegalmente, castigam
pela violência o indivíduo culpado de violência. O herói de uma famosa série
policial, violento e cavalheiresco, conquistando o agrado de homens e
mulheres e abandonando sempre o local do crime sob urna aparência de
prática do bein, aparece como o vingador predestinado, pois que, com ironia
e, mais frequentemente, a sério, se declara santo e se chega a sentir como
tal. James Bond e -os seus semelhantes são a imagem encaTnada -da
agressão com todos os requintes Imagináveis de crueldade. A sua infalível
perspicácia na distinção entre o bem e o mal e a sua qualificação natural de
homem habilitado a agir livreniente, porque visa um objectivo superior,
conferem o prestígio da eficácia benéfica ao seu usufruto de brutalidade. A
violência sem peias, justificada logo de início pela nobreza de intenções,
encontra-se ainda justificada e aplaudida pelo sucesso obtido, o que -não
impede o respeito das regras estabelecidas. Todo o que liquidao criminoso,
porque não tem outra forma de proceder, em breve se habitua a esta forma
de comportamento, conten,tando-se em executar o seu próprio veredicto e
afastando as preocupações -e dúvidas inerentes à descoberta da verdade e à
avaliação -do castigo justo a aplicar. A linchagem não é um acto de justiça,
mas precisamente o contrário dessa justiça cujos direitos usurpa.
220 AGRESSIVIDADE

Ainda não morreu a esperança enquanto as brutalidades dos defensores da


lei se limitarem à eliminação ocasional de subor-dinados e vingadores
improvisados demasiado zelosos ou ao ,esmagamento excepcional de um
grupo de revoltosos. A tirania verifica-se não @Iuando os policias se arvoram
em justiceiros, mas quando os justiceiros improvisados se arvoram em
polícias e se podem entregar sem barreiras à violência, com a cumplicidade
do grupo nacional ou Estado a que pertencem.
TERCEIRA EXPERIÊNCIA:
O TESTE DE ABRAÃO

crueldade nem sempre é o resultado de uma opressão tirânica. Obedece-se


às autoridades ainda que estas nã o -empreguem a força nem se façam valer
dos seus direitos e prestígio. «Pare, por favor. Não aguento mais. Não é
possível. Pare. Quero ir-me emborab) Estas súplicas transformam-se em
gritos de -dor e depois terminam subitamente. Num cumprimento das
,ordens recebidas as vítimas gemem, gritam e acabam por emudecer de dor
sob a aplicação de choques eléctricos. A autoridade que aplica os castigos é
levada a ver um novo testemunho de obs-tinação no silêncioda vítima e,
iportanto, aumenta as doses sem se comover. Cumpre o seu dever.

A analogia entre a descrição de uma experiência e os factos da vidarealnão


tem,carácter de casualidade, mas é um cálculo e um objectivo. O sociólogo e
psicólogo Stanley Milgram, de New Haven, que, em 1961, deu início às suas
experiências sobre a docilidade humana, tem vindo a repeti-las
sucessivamente em diversos países e actualmente são largamente
conhecidas. Ele pretendia determinaro, númerode pessoas que estariam na
disposição de cas,tigarduramente e mesmo cruelmente vítimas escolhidas ao
acaso que nunca tivessem participado em experiências e a quem era
imputada a acusação de falhas de memória. Foram convidados a participar
na experiência habitantes de New Have,n e de Bridgeport (Connecticut) do
sexo masculino, idade entre vinte e cinquenta anos e escolhidos entre as
mais diversas categorias profissionais.

O experimentador começa por pagar aos participantes uma quantiamínima,


que tem porobjectivo indemnizá-los pela perda
222 AGRESSIVIDADE

de tempo. Explica, em seguida, que está a proceder a uma investigação.


importante sobre a eficácia do castigo no âmbito da memorização. Proceder-
se-á à organização de dois grupos: um representará o (@professor» e o outro
o «aluno». O experimentador torna disposições para que o indivíduo sem
prática seja sempre escolhido como «professon) e o auxiliar do
experimentador desempenhe o papel de «aluno». Este senta-se numa
espécie de cadeira eléctrica. e responde a uma série de :perguntas, já
elaboradas, que constituem testes de memória. O professor tem como
missão purrir cada resposta falsa com um choque eléctrico de intensidade
crescente. O aparelho eléctrico que produz as descargas tem uma voltagem
que vai de 15 a 450 volts. Está preparado para uma descarga suave no inicio
da experiência e para uma forte no fim. O próprio professor recebe uma
descarga de
45 volts, a título de informação, antes de s.e dar início às experiências, que o
convence da eficácia dos mecanismos de que dispõe.

O aluno multiplica as respostas falsas. O professor obedece à ordem


recebidac aumenta a intensidade da descarga. A partir de 75 volts o aluno
começa a gemer e a lamentar-se, quando chega a 180 volts implora
misericórdia e aos 300 volts os gritos emudecem por completo. O director da
-experiência ordena que se continue: «É preciso prosseguir, não há outra
possibilidade.»
O professor continua. Sessenta e cinco por cento dos indivíduos de New
Haven e quarenta e oito por cento dos de Bridgeport obedecem ao director,
que, no entanto, para eles é um desconhecido, e mantêm~se surdos aos
gritos e protestos das vítimas, que não,p"Q am, na realidade’ de gravações
feitas numa fita inagnética. Se bem que não duvidem da veracidade do que
escutam, Prosseguem até à aplicação da voltagem máxima.

A experiência de Bridgeport efectuou-se num imóvel de escritórios


pertencentes a uma firma respeitável, mas pouco conhecida. A experiência
de New Haven,teve lugar nos laboratórios científicos da famosa Universidade
de Yal.e. O grande prestígio de que desfruta esta universidade proporcionou
à experiência um resultado ainda mais retumbante (65 % contra 48 %.). Os
outros factores foram idên,ti-cos: participação de grupos socio-profissionais,
pessoal de experinientadores e disposições gerais.

A princípio, os experimentadores sentiram dificuldade em recompor-se do


choque sofrido ante estes resultados. Em pleno século xx, em plena era
progressiva -e esclarecida dos anos 60,
AGRESSIVIDADE 223

eis que na costa oriental da livre e democrática América uni grupo de


pessoas respeitadas em todos os aspectos se mostram, numa percen,tagem
assustadora, dispostas a infligir as dores mais insuportáveis a outros homens
que nunca viram na sua vida e que nenhum mal lhes -tinham feito; tudo com
vis-ta, a uma exp5@ência científica.

mesmas experiências foram repetidas em locais diversos. Desta vez, tínha-se


pedido aos quarenta psiquiatras universitários qu@ fizessem uma previsão
de resultados. Na sua opinião, a maioria dos indivíduos não ultrapassaria o
nível de 150 volts, que corresponde aos primeiros gritos de dorr sentidos
pelas vítimas. Só quatro por cento iriam aos 200 volts e apenas O,1 por
cento obedeceriam até ao fim da experiência. O resultado final f(>i uma
obediência to-tal, até ao fim, em sessenta e dois por cento dos indivíduos.

Seria uma ideia totalmente errada pensar que estes Participantes na


experiência tinham predisposições particulares ao sadismo. Mediante
interrogatórios pormenorizados e diversos testes psicológicos, chegowse à
conclusão de que os testados eram cidadãos pacíficos, bons, respeitadores
das regras e que nunca tinham feito mal a quem quer que fosse. A partir do
momento porém em que transpuseram a IPOTta do laboratório sentiram-se
isentos de toda a responsabilidade e, emocionalmente, desligados da
situação,: a autoridade devia saber o que estava a ordenar, caso contrário
não seria autoridade.

A proximidade concreta e psicológica entre o professor e o aluno aumentou


aspossibilidades de recusa da obediência. Se no decurso da experiência o
profes&oTto-casse no aluno, mostrar-se-ia duas vezes mais inclinado, à
-recusa de continuar do que estando separado da vítima por uma divisória. O
indivíduo testado sentia-se essencialmente determinado, pela sua
subordinação, ao director da -experiência. O «professon) encontrava-se num
ambiente que lhe era inteiramente estranho e novo, onde não conhecia
ninguém, queria causar boa impressão e não criar qualquer dificuldade.
Verificando-se a experiência num laboratório, o indivíduo, chamado a
participar na mesma encontrava-se convencido, a priori e sem qualquer
reserva, da competência dos dirigentes e da legitimidade da experiência. O
carácter científico do ambiente era unia garantia da autoridade do director
da experiência. Bastava4he, portanto, ordenar para obter uma obediência
cega (e surda).
224 AGRESSIVIDADE

Se, porém, o director da experiência comunicasse as suas ,ordens por


telefone e não conduzisse pessoalmente a experiêncía, a percentagem de
obediência diminuía rapidamente para a terça parte. A ausência do director
ocasionava, além disso, que cerca de metade dos professores falseassem a
experiência. Produziam -descargas eléctricas mais fracas do que as
calculadas com a previsão: «Temos coração e sentimentos.» Os indiví duos,
Porém, que falseavam na ausência do director e mostravam mais compaixão
eram os mais dóceis quando ele estava presente.

Quando as vítimas começavam a gritar, os professores enervavam-se,


agitavam-se, faziam caretas, torciam-se, transpiravam, gaguejavam,
tremiam, mordiam os lábios, gemiam, mas prosseguiam a experiência. O
sofrimento das vítimas @tornava-se-lhes insuportável. Muitos desviavam os
-olhos, sem, no entanto, pararem as -descargas. Os indivíduos
particularmente obedientes deram provas de um maior mal-estar do que os
que não obedeciam e que acabavam por interromper a experiência. A
consciência de uma profunda dissonância em si existente e que era
provocada pela co,exis,tência de duas tendências antagónicas resolvia-se,
em alguns -dos testados, ao decidirem deixar de colabor@r na experiência
(por vezes sentiam vergonha em dar uma tal indicação de fraqueza). A
maioria, porém, optou pela crueldade.e Ror uma.cega obediência. Todos
tinham conflitos de consciência e muitos protestavam, mas sem, no entanto,
deixar de obedecer. Um dos indivíduos testados criticou severamente os fins
desumanos do director e a insuportável crueldade e estupidez da
experiência, o que, porém, não o impediu de continuar. As suas acções eram
inteiramente determinadas pelas ordens do director, apesar das suas
palavras de protesto.

O Dr. Milgram chegou à conclusão de que, por vezes, certos indivíduos


pretendem revoltar-se, mas não encontram as palavras necessárias para
reduzir ao silêncio o director da experiência. Talvez a nossa -civilização
ofereça ao ho-íriem poucos padrões de recusa da obediência em que se
possa inspirar.

A interpretação dos resultados foi contestada por diversos lados. Acusaram-


se de parcialidade estas experiências, que visavam demonstrar a existência
de um «profundo Eichmann» em cada um denós. Teriam uma feição pouco
científica. A ciência tem de se manter fiel à verdade. Ora, o experimentador
prejudicava a verdade na -medida em que enganava os indivíduos sujeitos à
experiência. Além disso, estes indivíduos não eram

msÁ,4 ‘IN-I
AGRESSIVIDADE 225

com certeza estúpidos e tinham, provavelmente, desmascarado quem os


enganava, não,podendo, admitir que um sábio eminente pudesse provocar
ou tolerar semelhan-tes torturas. Estas afirmações foram no entanto
refutadas por um inquérito pormenorizado feíto, aos participantes. De facto,
nenhum deles tinha qualquer dú vida quanto à seriedadeda experiência. Se
tivessem, aliás, susp@itado de que não era o aluno que estava a ser testado,
como previsto, mas sim o professor, cessariam de prestar a sua colaboração.
Um «professor» posto, assim, de sobreaviso deveria concluir que o director
da experiência desejaria que a mesma cessasse e não que continuasse. O
crítico Massermann expressa as suas dúvidas quanto às manifestações de
inquietação e nervosismo que o director dizia ter observado, sem, no
entanto, submeter estas observações e verificações científicas por medição
da tensão, temperatura e outras características precisas. Muitos
«suipercientíficos» -consideram aparentemente irreais as emoçoes
sentimentais experimentadas subjectivamente ou observadas
objectivamente, -desde que não, sejam expressas por números. Tudo isto
confirma as previsões e os pró prios resultados da experiência. Os
investigadores não reagem de maneira diferente dos membros da
comunidade a que pertencem.

Os alemães também afirmavam que -com eles não, se poderiam verificar


factos semelhantes. Os “’bios do Instituto Max Planck,calcularam que, na
Alemanha, trinta Por cento da população responderia afirmativamente (ou
melhor, negativamente) a este teste de obediência cega. Pensava-se que
depois da vivência de todo o horror de Auschwitz, dos campos de
concentração
5 dos processos -dos criminosos de guerra, se estaria exorcizado, imunizado
contra a obediência automática. Ora, as séries de experiências que foram
realizadas de acordo com o padrão de Milgram, graças à colaboraçã o da
televisão da Baviera e do Instítuto Max Planck, demonstraram que oitenta e
cin@o por cento das pessoas -testa-das se mos-travam obedientes e
continuavam até ao fim. Em Outubro de 1970, a televisão da Baviera
transmitiu extractos da experiência. O indivíduo escolhi-do como aluno disse
nunca ter imaginado, que exis-tisse tanta insensibilidade e submissão por
parte das pessoas examinadas. A -experiência vivida parecia-lhe monstruosa,
quase irreal; atribuiu a responsabil idade a uma sociedade que enaltece a
autoridade.

O patriarca Abraão teria sabido, de antemão, que Deus interviria no último


momento e impediria o acto que -lhe impusera,
226 AGRESSIVIDADE

que deteria o assassínio do filho em que ele consentia? Seja como for, a
humanidade civilizada falhou rotundamente quando submetida ao teste de
Abraão. É preciso começa@r pelo conhecimento deste facto, por o confessar,
por se recusar a negar, se se pretende esperar fazer progredir a espécie
humana e dar-lhe um objectivo.

_âÊã
CALLEY: «TU MATARÁS»
N

o mesmo dia em que em Los Angeles Manson e os seus

amigos foram condenados à morte, um júri constituído por seis oficiais do exército
dos Estados Unidos, reunidos no, Forte Benning, declarou o tenente William (R,usty)
Calley culpado do assassínio premeditado de vinte e dois civis vietnamitas e
condenou-o a prisão perpétua.

Depois de escutar a sentença -e ainda antes de ser levado, o tenente Calley


conseguiu ainda ter coragem para fazer a saudação militar. Nesse momento,
desencadeou-se uma tempestade de indignação entre as pessoas que assistiam,
uma indignação não contra os actos do tenente, mas contra a conde-nação que o
atingia. No dia posterior ao do julgamento chegaram cem mil telegramas à Casa
Branca: eram cem contra um a favor de Calley. Colocaram-se bandeiras americanas
a meia haste em sinal de luto e de vergonha. O governador do estado de Indiana,
Edgar Witco,mb, veterano da Segunda Guerra Mundial, decretou luto público. Lester
Maddox, vice-governador da Jórgia, assumiu um tom patético no decurso de uma
conferência em que se recla-

mou a libertação de Calley em grandes gritos: «Deus abençoe o tenenteCalley, que


lutou pela causa da naçã o.» George Wallace, ex-candidato à presidência e actual
governador do Alabaina, declarou que considerava uma honra ter apertado a mão
ao tenente Calley, a quem fizera unia visita espectacular. Tudo porque as vítimas do
Viemame, inclusive civis, mulheres e crianças, tinham sido mortas para destruir o
comunismo. Foi composto um hino guerreiro sobre o caso, cuja primeira estrofe é a
seguinte: «O meu -nome é William Calley, sou um soldado deste país que jurei
cumprir o meu dever e vencer, mas chamaram-me um
228 AGRESSIVIDADE

canalha ... » Em três dias venderam-se cem mil discos e numa semana um
milhão,. As associaçp@s de veteranos recolheram somas enormes para
Calley e transmitiram-lhe mensagens de simpatia. As antenas dos carros
ostentavam folhetos que pediam a libertação de Calley. Milhares de homens
foram apresentar-se às autoridades militares -e acusaram-se de ter cometido
crimes análogos.
O «Diabo Verde», Robert Marasko, comovido pela condenação de Calley,
decidiu anunciar na televisão que matara recentemente um espião do
Viettiame do Sul por ordem da C. 1. A. Era assim e não podia fazer nada mais
do que confessar. Os jornais declararam luto. O reverendo Michael Lord viu o
reviver da paixão de Cristo no caso Calley. Declarou publicamente: «Há dois
mil anos crucificaram um homem chamado Jesus Cristo; não acho, que
tenham necessidade de uma nova crucificaçã(m) Uma indagação junto do
público revelou que oito em cada nove americanos, consideravam a
condenação de Calley injusta.

O presidente dos Estados Unidos passou uma noite em claro ,e, depois,
decidiu fazer sair Calley da prisão e maridá-lo para casa sob vigia. Declarou
que, na sua qualidade de chefe supremo do exército, se reservava a última
decisão sobre o assunto, -dado que -to-dos -os meios judiciais estavam
esgotados. Os militares responsáveis -não falo -dos acusados, mas dos seus
juizesviram--se objecto de insultos sistemáticos. As famílias foram alvo de
calúnias e ameaças e a polícia teve de as tomar à sua guarda. Depois de
subtraídos à reclusão imposta ao júri, os dignos oficiais não entendiam a
emoção geral.

Há anos a jurisdição militar tinha condenado, sem que por isso se tornasse
-objecto da atenção pública, algumas dezenas de soldados e oficiais por
crimes análogos, se bem que não de tanta carnificina, cometidos em
operações no Vietname. O facto não despertara interesse nem causara
objecções.

No decurso do processo Calley, que durara longos meses, os jurados oficiais


tinham-se limitado a examinar, de acordo com a lei, as provas que as
testemunhas, a defesa e o Ministério Público lhes apresentavam. Tinham-se
mantido fiéis ao seu juramento e nada mais efectuado do que o cumprimento
do dever. Estava para lá do âmbito da sua competência examinar o porquê
que fizera recair a acusação sobre os ombros de Calley e não de outros, ou
estudar os actos de outros soldados nesta ou noutras guerras. O tenente
Calley era acusado do assassínio
AGRESSIVIDADE 229

premeditado de cento e dois civis, velhos, mulheres e crianças, cometido em


duas horas diferentes do mesmo dia, em My Lay. Ele mesmo admitiu ter
-disparado a curta dis.tância ~os de um -metro e meio) contra um fosso
onde se encontravam dezenas de prisioneiros vietnamitas. Não verificara os
resultados do seu procedimento. Mais de cem declarações de testemunhas
afirmaram que Calley -tinha atirado contra crianças indefesas que iam a
fugir, que abatera prisioneiros desarmados e que, a pontapé, forçara os
subordinados a atirar contra os civis presos no fosso. Quando Calley solicitou
a benevolência do júri e pediu aos jurados que, pelo menos, lhe
concedessem a vida, já que lhe tinham tirado a honra, o procurador-geral
gritou que a desonra de Calley não se encontrava no veredicto, mas nos
actos que cometera. Durante -os dias que durou o debate, os jurados
tentaram tudo para considerar Calley inocente, mas o processo demonstrara
a cada um que os actos de Calley eram indiscutivelmente criminosos. Os
jurados não concordaram porém num ponto: os crimes cometidos eram
assassínios prenieditados ou poderiam, ser considerados num âmbito de
menor gravidade? Foi pronun~ ciada a acusação de assassínio premeditado
numa maioria de dois terços.

As autoridades militares ficaram surpreendidas, chocadas e perturbadas pela


reacção dopúblico e do presidente. A princípio, e mercê de um espontâneo
reflexo bur<)cráticG, tinham -tentado proteger os direitos institucionais
arquivando os múltiplos relatórios referentes aos massacres de My Lay entre
os numerosos dossiers sobre assuntos análogos. O exército não desejava,
evidentemente, chamar a atenção do públicopara acontecimentos
semelhantes. Como as acusações, solidamente fundamentadas e reunidas
por um corajoso jornalista, foram, no entanto, difundi,das por todos, não s,e
pôde evitar um processo sensacional. GTandes fracç6es da opinião pública
não conseguiram acreditar que os soldados americanos fossem capazes de
cometer tais hoTrores e consideraram as acusações como infames calúnias,
cuja mentira se tornava necessário demonstrar publicamente; outros
pensaram que se,tratavade um caso isolado e que erane£essário dar o
exemplo atTavés deste -criminoso de uniforme. De qualquer modo, as
autoridades civis mais elevadas, inclusive o presidente, ,não só exigiam o
processo contra o acusado mas igualmente contra os oficiais de patente
superior e generais que, a princípio, tinham tentado ocultar e falsear todo o
caso.
230 AGRESSIVIDADE

As ‘primeiras investigações do Estado-Maior relativamente às suas próprias


manobras para ressalvar o assunto não foram longe.
O facto não surpreendeu ninguém. Não foi apresentada queixa contra o
general Koster, que, na manhã do massacre de My Lay, inspeccionara o local
de helicóptero, nessa altura ainda em paz, .nem contra qualquer outro
coronel ou general. Apenas Calley e os seus subordinados, bem como o seu
superior imediato, o capi- .tãó Medina, foram chamados a responder pelos
seus actos ante a justiça. Não vem a propósito discutir aqui se ao exército
não restava outra hipótese -para além de uma queixa contra Calley, uma vez
divulgados os horríveis acontecimentos, ou se obedeceu, de vontade ou pela
força, a autoridades civis superiores. A verdade é que o processo se iniciou e,
a fim de restaurar a honra do exército amerilcano,prosseguiu publicamente
segundo as boas e incompreensíveis regras do direito jurídico.

Antes do mais, o resultado revelou-se catastrófico. para o exército, a


democracia e o direito. Numa noite o acusado foi promovido a herói nacional
precisamente devido ao massacre queele mesmo confessava ter cometido. O
povo mostrou-se solidário em não aceitar a sua condenação, mas apenas
nisso. Cada um acusava por um processo de generalização simplista. Em
primeiro lugar, nada se passara. Em segundo -lugar, os factos tinham sido
larga-mente exagerados. Em terceiro lugar, o que acontecera processara-se
ao serviço de uma boa causa. Em quarto lugar, as vítimas tinham merecido o
justo castigo, uma vez que eram comunistas, simpatizantes dos comunistas,
deles não se diferençando, ou viviam num país simpatizante do comunismo.
Em quinto lugar, tudo acontecera no ardor do combate. Em sexto lugar,
foram os outros a começar ou podiam tê-lo feito. Com a condenação de
Calley, que escarneceu de todo o espírito de camaradagem e lealdade, o
exército ficou manchado. Também, talvez, os oficiais superiores de carreira
tivessem querido descarregar as suas próprias culpas sobre o seu infeliz
subalterno, o tenente Calley. O general Westmoreland, que era, na altura,
comandante-chefe americano no Vietname, defendeu-se irritadamente de
toda e qualquer atribuição de culpa e de comparações com o general japonês
Yamashita, executado após a Segunda Guerra Mundial e que fora
considerado responsável por todos os actos do exército sob as suas ordens,
mesmo que as ignorasse e não as (tivesse podido impedir. As mais altas
entidades do exército criticaram a intervenção do
AGRESSIVIDADE 231

presidente, que tornara supérfluos e ridículos os penosos e fatigantes


processos jurídicos e trouxera a liberdade a Calley.
O exército apressou-se a declarar que Calley,niesmo sem a intervenção do
presidente, nunca fora mantido sob detenção. até recurso à sentença. Por
outro lado, ignora-se o que acontecerá doravante às centenas de soldados
que-não por -massacre mas por embriaguez, faltas ao serviço ou roubo-têm
de esperar meses seguidos na prisão a decisão ao seu apelo. O exército
ignora porque se viu obrigado, contra sua vontade, a instaurar um processo
criminal contra Calley e também o motivo pelo qual, seguidamente, foi
humilhado, insultado, desprezado pela população, desautorizado e
ridicularizado pelo seu chefe supremo, simplesmente por ter cumprido o seu
dever ao seguir as ordens do presidente e ao obedecer ao desejo da opinião
pública. Em que reside a honra do exército? Na dissimulação incondicional
dos actos de todo o indivíduo que usa um uniforme, que age, cre agir ou
declara agir ao serviço (estando incluído o massacre premeditado de civis e
prisioneiros indefesos), ou na afirmação do princípio geral, que autoriza e
incita mesmo à violên@cia na guerra, se bem que dentro de determinados
limites?

O corajoso advogado geral militar Aubry Daniel III, descendente de uma


família aristocrática do Sul, escreveu ao, presidente dos Estados Unidos uma
carta, respeitosa mas firme, tendo enviado uma cópia a seis senadores
pertencentes aos partidos republicano edemocrático. Nela acusa a
intervenção, sem precedentes, do presidente no processo em curso. Aos
olhos do advogado geral, o apoio que a opinião pública e o presidente
conferem a Calley é revoltante, dado, que nenhum põe em dúvida a
culpabilidade de Calley e é, portanto, exigido um veredicto de não
culpabilidade. Esta 1.egiti.^rnação de Calley não era compatível com a
pretensão dos Estados Unidos a serem uma nação civilizada. Daniei
qualificou My Lay como uma data -trágica na história da nação. Para ele, o
aspecto datragédia reside no facto de que «considerações de ordem poaítica
vieram comproimeter princípios éticos tão fundamentais como a implíci-ta
ilegalidade do assassínio de inocentes». Quanto às declarações do presidente
americano, poderiam reunir-se num grito: (Tora o árbitro!»
O vice-presidente, Spiro Agnew comparou My Lay, e todo o processo jurídico,
a uma competição desportiva e aos comentári-os trocados, em seguida, à
volta de uma garrafa. Nessa altura é
232 AGRESSIVIDADE

fácil, mas bastante in2justo, o que se possa dizer relativamente ao que


fizer----- - - , - g ores. Ora o exército, ao condenar o tenente Calley, aderira à
estrita aplicação das normas de guerra que ele mesmo fixara. O presidente e
a maioria da oF!inião pIblica acusaram-no, a partir de então, de agredir e
martirizar o violador das regras que agira em legítima defesa e ao serviço de
uma causa justa. Os testemunhos, provas e confissões nã o impediram que
este esquema superficial se sobrepus-esse à verdade.

O exército pouco se preocupa, na generalidade, com a auto- ,crítica. Dado


que a sua -missão é a luta, a justiça. não constitui a sua maior preocupação.
Neste ponto de vista o vice-presidente tinha, indubítavelmente, razã o. É
difícil pedir ao exército que sirva de áxbitro à sua própria -causa. Cabe-lhe
formar os civis dentro de uma obediência e execução das acções de combate
que lhe estão implícitas e, evidenteniente, também lhe compete a utilização
da violência. Todo o exército luta pela civilização com a ajuda de meios por
vezes bárbaros, sem o confessar abertamente, e até mesmo dissimulando o
facto. Desde sempre que os -exércitos cometeram crueldades, mas só as do
adversário são cúmunicadas ao público. Dado que o exército, como o
establishment, fora decretado como inimigo anónimo de @todo o sentimento
humano, cabia-lhe prescrever uma estratégia de violências contra a
pop@lação civil e encobrir, por espírito de camaradagem, ocasionais
transgressões às regras estabelecidas ou a simples e estrita aplícação -das
prescrições; era seu dever impedir que tais processos fossem divulgados.
Que outra coisa se poderia esperar? Porquê a imposição ao exércitode julgar
o caso Calley?

Actualmente, a nação americana demonstra uma surpreendente


unanimidade de recusa em relação ao veredicto que condena Calley, mas
não consegue deglutir o problema da sua responsabilidade. Para não sufocar,
-necessita de substituir esta ou aquela imagem de Épinal.

Aos olhos dos que se consideram cem por cento patriotas, Calley é um herói
e um mártir, um corajoso combatente que arriscou a sua vidapara preservar
a da nação; foi escolhido para porta-bandeira por uma camarilha de oficiais
ambiciosos. Na guerra tudo é permitido, dizem eles; no ardor do combate
não pode nem deve existir um regulamento pormenorizado; tanto a nossa
boa causa como a causa negativa do adversário desculpam, de antemão,
toda e qualquer forma de comportamento. Ninguém deveria dar-se ao luxo
de criticar a acção de conibaten-
AGRESSIVIDADE 233

tes traumatizados pela morte de um camarada. Deixar a cada indivíduo a


liberdade de decidir se deve ou nã o obedecer às ordens significa o mesmo
que matar o exército. Todos os soldados cometem, sem hesitação nem
arrependimento, actos semelhantes aos de Calley ou ainda piores. Se o
tenente é culpado, todos os combatentes, desde a mais ínfima das patentes
ao comandante-chefe, o são igualmente, o mesmo se aplicando aos
detentores de poder civis, quer dizer: o povo americano, que -tão
energicamente se decidiu a defender e apoiar Calley.

Aos olhos dos -pacifistas liberais, Calley não passa de um sintoma e de um


símbolo. O seu caso é apenas uma prova retumbante dos homens de guerra
e, sobretudo, desta guerra infernal do Viemame, -dirigida contra uma
população civil praticamente indefesa. Por razões directamente inversas, os
opositores da guerra concordam com os patriotas ao declarar que os
massacres de My Lay não constituem actos isolados de oficiais criminosos e
loucos, mas factos vulgares na guerra. É também aos dirigentes, à
autoridade suprema, que cabe pronunciar-se sobre o assunto. Nem Calley
neinqualquer outro subalterno são culpados. A culpabilidade deve atribuir-se
a todos os que ordenam, perpetuam e toleram o derramamento de sangue. É
assim que uns acusam os que fazem a guerra e a condenam, enquanto
outros condenam os que acusam a guerra: só se demonstram solidários na
compaixão que revelam por este massacre.

A verdade é qu@e os factos existem e enquanto não forem reduzido-, ao


esquecimento, ou transformados em esquemas siniplistas, os dois partidos
vão ver-se em sérias dificuidades para conciliar, de forma convincente, os
seus pontos de vista com a lógica e a moral, se é que, aliás, se preocupam
com isso. Eles pouco ligam à verdade objectiva e só lhes inipGrta o triunfo de
uma causa que consideram indiscutivelmente justa e verdadeira: a sua.
Pareceter-se esquecido bem depressa que Calley não teve de responder
pelos seus actos ante hippies cabeludos. Existe urna :propaganda
desenfreada que agracia o júri de Caliley com ofensas geralmente
-reservadas a essa categoria de pessoas. Os que tiraram conclusões sobre o
assassínio prem-editado nem sequer eram simples cidadãos e juízes
vulgares, mas seis experimentados oficiais de carreira, de entre os quais
cinco tinham combatido no Viettiame -e aí recebido ferimentos de gravidade.
Só o sexto oficial, o coronel a quem cabia a presidência do júri, não possuía a
experiência da guerra do Vietname, mas era um comba-
234 AGRESSIVIDADE

tente da Segunda Guerra Mundial e regressara da CoTeia coberto de


condecorações. Ainda que, no decurso do processo, a defesa não tivesse
continuamente invocado as ordens recebidas e a legíti,ma defesa frente a
uma população civil hostil, bem como a ,psicologia de uma guerra como
aquela, estes experimentados juizes militares não podiam ignorar que Calley
estivera no Vietname, não por sua decisão voluntária, mas por obediência a
ordens, e que era detentor do uniforme americano. Calley não foi acusado
nem condenado por ter cumprido o seu dever, mas por ter transgredido e
violado: no caso de Calley não estava em causa uma acusação de ter faltado
ao dever, proclamado como princípio solen’e quando do processo de
Nuremberga, que s-e refere ao dever individual de revolta -contra uma
ordem desumana. Calley foi cons.ide@ad? culpado por ter abatido sem ter
recebido ordens, por iniciativa pessoal e sem necessidade militar, vinte e
dois civis desarmados, quer por suas próprias mãos querpor intermédiodos
seus subalternos, agindo por sua expressa ordem. Um tal coniportamento é
há muitotempo estritamente proibido segundo as regras internacionais de
guerra. já o era muito antes do processo de Nuremberga. Calley violou
princípios universais, ele -mesmo o confessou, e ainda que lhe sejam
concedidas atenuantes, só uma designação se lhe adequa: a de criminoso.

É indubitável que os motivos que habitualmente condicionam os assassinos


não são suficientes para explicar as suas atitudes. Não agiu por perversão
pessoal, a menos que se catalogue como perversa a autorização do direito
colectivo de matar em tempo de guerra para derramamento de sangue sem
respeito por quaisquer regras. O exército elevara-o à posição de poder ani-
quilar todo o ser humano que não usasse o mesmo uniforme que ele e de
não se preocupar com as conse-quências da opinião pública, que, durante
anos seguidos, nunca levantou a questão de se no Viemame se abatiam não
só soldados mas também civis. Tinham-lhe, todavia, inculcado regras
selectivas em relação aos homens a abater e foram estas mesmas regras
que ele visivelmente infringira; se tivesse morto um camarada ou um
superior, não se iria desculpar -com o pretexto de que a guerra era uma
escola de brutalidade e de -desprezo pela vida humana.

É certo que -ele não foi total nem plenamente responsável pelos seus actos
e, -principalmente, não foi o único responsável; outros que não foram
acusados >também são culpados e partilham
AGRESSIVIDADE 235

a sua responsabilidade sem que, todavia, o declarem inocente por esse motivo.

O caso Calley tornou-se um dos grandes processos criminais, como, por -exemplo,,
ode Manson. Os dois veredictos foram a-ci-denta,lmente pro,nunciados no mesmo
dia e acusa-se a imaginação deformada e pretensamente antiamericana dos
jornalistas americanos de terem ligado os dois julgamentos. As analogias não se
limitam, porém, às aparências, podendo citar-se, entre outros, a estatura
extraordinariamente pequena dos dois acusados. Manson e Calley eram, em todos
os aspectos, pequenas personagens consideradas pouco dotadas e que passaram
despercebidas no meio a que pertenciam, até que as suas ignomínias chamaram a
atenção da opinião pública mundial. Os dois reclamaram para si o papel de
demiurgos e arrogaram-se o direito de vida ou de morte sobre outrem entregando-
se a carnificinas. Após vários meses de processos, os dois foram declarados
culpados de massacres, mas as suas motivações e acções eram completamente
diferentes (Manson nunca particip@u na execução dos assassínios). O presidente
americano interveio nos dois processos num sentido diametralmente oposto, mas
numa base igual. A raiva popular desencadeia-se contra os actos de Manson como
contra a condenação de Calley. A mesma raiva -popular que nunca pôde tolerar
outro veredicto que não fosse a pena capital para o processo Manson exige a
libertação de Calley (que se dispõe a publicar as suas memórias por algunias
centenas de milhares de dólares). O presidente dos Estados Unidos não agiu, de
forma alguma, -com propósitos de ordem -política ao aceder à ,opin.ião popular.
Pode-se dizer que agiu sincera-mente e obedecendo ao que lhe ditava a
consciência. O presidente só conhecia a separação de bem emaltal como
apresentados num bom filme. Devia, portanto, declaraT Manson culpado,
antesmesmo que os juízes decidissem. Foram os mesmos esquemas dos filmes do
Oeste que o levaram a acudir em auxílio de Calley, o xerife, o bravo soldado que o
seu uniforme americano designava como o carapeão da boa causa, da causa justa,
da (mossa» causa. Era preciso livrá-lo, a partir do momento em que o júri o
considerou culpado.

Todos os anos se realiza a distribuição do Oscar de ouro para o melhor actor, a


melhor encenacão, etc. Em Abril de 1971 é ga-lard.oado um filme de guerra >com
oito primeiros prêmios.
O herói era Patton, o general da Segunda Guerra Mundial, bem
236 AGRESSIVIDADE

conhecido pela sua dureza e brutalidade, que mata publicament,e um soldado que
desobedece às suas ordens. Numa cena memorável do filme, Patton grita, Por entre
o ruído das bombas, das explosões e de horríveis destruições: «Que Deus me ajude;
gosto deste espectáculob)

No decurso do processo Manson, Susan Atkins, um dos membros da «família»,


inicialmente testemunha principal e, mais tarde, co-ré do mesmo processo, foi
acusada pelo procurador-geral -devido à irónica indiferença que manifestou para
com as sete vítimas do massacre, o que revelou a sua insensibilidade moral. Ela
retorquiu que ele próprio e a sociedade americana pouco se preocupavam com o
milhão de vítimas vietriamitas.
O facto não fazia, no entanto, parte do processo de Manson nem do de Calley.
Susan foi severamente repreendida e, depois, levada para fora da sala. Os mortos
de guerra não são mortos civis e os -mortos de cor nã o são mortos brancos. Só os
parentes e, sobretudo, as mulheres nada compreendem dessa distin@ão, da mesma
forma que pouco se preocupam em saber o motivo por que amam os que são
massacrados; a única coisa que lhes interessa é que se mata e que -não se pára de
matar.

Para os patriotas e fanáticos, pelo contrário, sobretudo quando usam uniforme e


desfilam em para-das, tudo é diferente, excepto as motivações em relação às quais
se sentem plenamente convencidos. Não amam a violência em si, -mas só porque
através dela esperam conseguir a vitória, o aniquilamento -to-tal do adversário e,
simultaneamente, a supressão do mal universal, a afirmação dos seus propósitos
morais e a sua afirmação pelo sucesso que os dispensa de toda a autocrítica e
acarretará, naturalmente, outros sucessos. Só uma propaganda inimiga, pensam
eles, denuncia os bravos americanos, que se tornariam, de súbito, os responsáveis
por todos os horrores, ao passo que eles mesmos sabem que são pessoas dignas e
bons cidadãos, respeitadores da pátria e da honra, preocupados com a protecção
das mães e dos filhos, mas obrigados, -por isso mesmo, a matar cega-mente as
mães e os filhos dos outros.

Os Americanos, como todos os outros povos, desejam acima de tudo a proclamação


de legitimação muito mais que da violência- Só a violência é a consequência
necessária e previsível de legitimação anterior ou simultânea de todos os meios em
nome da -defesa de bens supremos e ao serviço de objectivos superiores que tudo
santificam.
AGRESSIVIDADE 237

É mais temido o reconhecimento da derrota militar de, que a própria derrota


em si. Perder é desagradável, mas -mais desagradável é, ainda, analisar as
causas do fracasso e a questão de se o empreendimento era legítimo, se as
autoridades que o planificaram eram legítimas e se os responsáveis também
se encontravam,na posse de uma legitimidade. Não são os desejos bélicos da
nação nem motivos de ordem económica os obstáculos ao regresso imediato
dos americanos do Vietname; o verdadeiro impedimento reside no -me-do
das consequências que poderia ter uma brusca revisão dos conceitos morais
americanos, estabelecidos segundo os hábitos de ordem económica,
ideológica e cultural. Não iestamos interessados numa imagem imponente
aos olhos -do mundo, mas nos nossos sentimentos, na nossa identidade
pessoal, nos nossos métodos -de -legitimidade, que dentro de uma
simplificação imaginam sempre a razão do lado do vencedor, exigindo,
portanto, uma vitória para vincar bem essa razão. No longínquo Victriaine, os
americanos não combatem, não matam nem morrem para ganhar terreno,
para aniquilar inimigos ou conquistar a glória, mas para preservarem a sua
imagem no mundo e a legitimidade aos seus próprios olhos.
O tenente Calley aparece como um bravo e obediente guerreiro. Portanto,
todos lhe manifestam o seu sentimento de solidarieda-de. Ele torna-se o
símbolo da unidade nacional. Esta unidade procura e encontra, aliás, bodes
expiatórios num sentido diame- ,tral-mente -oposto e sabe-se de acordo com
esta polarização mental.

A simplificação e violência internacionaisprosseguem, assim, como tantas


vezes no passado, a quimera de uma precária união nacional; falta-lhe,
talvez, a ocasião de discutir as causas nacionais e internacionais dos
conflitos, a fim de evitar outros conflitos futuros. Em troca do insignificante
«!prato de lentilhas» da nossa legitimação, não nos preocupamos com o
direito da nossa autode terminação, que assenta na autocrítica. Recusamo-
nos a lutar pela emancipação. Falamos de fatalidade em lugar de atribuir
culpas à nossa presunção.

Poucos dias após o julgamento de Calley, o presidente Nixon expressou num


discurso, televisionado a sua convicção inabalável de que os Americanos só
lutam por objectivos idealistas. Uma vez mais, prometeu à naçã o acabar
com a guerra do Vietna,me -de acordo com o programa previsto.
Seguidamente, contou um episódio comovedor ocorrido na atribuição de uma
medalha póstuma. Quando, a viúva de um herói do Vietriame, morto no
238 AGRESSIVIDADE

campo de batalha, recebeu a condecoração do valente militar, o filho deste,


uma criança de quatro anos, fizera a continência militar. Eis o que comoveu
opresidente e a nação, para quem a continência militar é algo de intocável. O
facto nada tem de exclusivamente militar, pois que nos países condicionados
pela brutalídade-túdos o são-saudar constantemente alguém ou alguma
coisa é uma ocupação essencial dos habitantes, que primeíro foi imposta,
para depois adquirir feição de regularidade. Pelo gesto de submissão que a
saudação militar representa, o oprimido vai até ao -ponto de mostrar a sua
solidariedade para com os opressores, sentíndo-se habilitado, por sua vez, a
oprimir outros em nome dele. Sente uma mistura característica de
brutalidade e emoção que afasta todo o sentimento de culpabilidade ou
responsabilidade individuais.

O que depois aconteceu ao tenente Calley pouco importa agora. Foi em vã(>
que se tentou transformar a personagem, à maneira dos filmes simplistas -e
segundo as escalas morais e tra~ dicionais, mas ela não se coaduna ao
papel. Teria sido necessário um herói transbordante de virilidade, inas a sua
figura é demasiad,o insignificante.

O debate continua, apesar de tudo ficar em aberto e a resoluçã,o imbuída de


incertezas. Como compreender e aceitar a maior nação democrática do
mundo de um ponto de vista psicológico e moral? Os defensores de Calley
tinham afirmado que fora a guerra a causadora da transformação do tenente
num robot hierárquico, executor de ordens desumanas que não tinham sido
dadas expressamente, mas que podiam ser logicamente deduzidas da
estratégia da guerra. Ele apenas se limitara a executar, à queima-roupa e
servindo-se de uma pistola-metralha-dora, o que, por métodos permitidos e
oficiais e de forma consciente e sistemática, constituía o objectivo dos
bombardeamentos quotidianos da artilharia e da aviação, ou seja, o
aniquilamento da população civil, virtual e concretamente hostil. Não podia
ser fei,ta qualquer comparação com base noutras guerras entre povos cujos
-meios de defesa se equiparavam. Nesta guerra civil do Vietname opunham-
se, por um lado, a nação mais industrializada do mundo, com todos os meios
motorizados e químicos de aniquilamento, e, por outro lado, a selva e os
seus habitantes. Por uma táctica adversa à da guerrilha, que, segundo a
fórmula de Mão, está para os indígenas na mesma ambientação de que o
peixe na água, seria necessário exterminar este oceano de

- Â--
AGRESSIVIDADE 239

população indígena. As opiniões políticas e militares concordavam neste


ponto: o objectivo militar a atingir reside na população civil. O reconhecimento de
que «o inimigo tem de perder o apoiopopulan) mediante infindos
bombardeamentos de vastas zonas, incluindo todas as aldeias, alvas civis e
hospitais, é a fórmula citada por um dos generais mais categorizados e
nunca ninguém a contestou.

O tribunal militar terá sido injusto para com Calley, que, dentro de uma
violência ilimitadaperfeitamente aceite, praticou uma carnificina de civis
indefesos, uma vez que a ocasião se oferecia e até mesmo se impunha? A
confissão de Calley, ao declarar que antes de ser considerado culpado
pensava que o massacre de My Lay fora uma coisa sem grande importância
(no big deal), seria assim tão horrivelmente incompreensível e tão
incompreensivelmente horrível, quando desde há anos os boletins oficiais
enumeravam, quotidianamente e com orgulho, os inimigos abatidos sem
diferenciar civis ou militares?

Quem obrigou a chefia do exército, envergonhada com os insucessos@


desacreditada e traumatizada pela realidade dos factos que contradiziam as
suas profecias optimistas, a anunciar vitórias estupidamente exageradas, a
fim de compensar as suas verdadeiras decepções? Numa democracia em que
os representantes do povo são livremente escolhidos, e podem ser
livreinente demitidos, também a responsabilidade da opinião pública é muito
maior do que sob uma ditadura em que os detentores do poder dispensam a
aprovação daqueles em nome dos quais agem. Os delegados do povo
escolhidos democraticamente reivindicam, assim, uma imunidade que
recusaram aos chefes alemães e japoneses em Nuremberga. Mas se nem os
governantes, o exército, e a população que protesta contra uma guerra que a
irrita e não deseja são os responsáveis, a quem atribuir então
responsabilidades? Quais as culpas que cabem ao establishment? O seu erro
reside em ter determinado e tolerado a guerra ou em não ter conseguido
uma vitória rápida? Ou em ter induzido o povo a aceitar o combate nesse
longínquo Sudeste Asiático como uma operação indispensável de defesa
nacional, prodigalizando-lhe apenas informações parciais da verdade dos
acontecimentos? Ou o seu erro reside na sua própria existência, dado que o
establishment prepara a guerra, que ocasiona actos bélicos e policiais mais
perigosos do que -todos, porque se baseiam no crime? Pode-se citar, como
testemunho de defesa, que existem outros
240 AGRESSIVIDADE

sistemas, contemporaneos ou anteriores, que actuam de forma não menos


cruel, impiedosa, brutal e hipócrita. Devemos concluir que, mais cedoou mais
tarde, todas as organizações governamentais exigem guerras e massacres,
camuflados durante mais ou menos tempo mas admi@tidos? O que há a
condenar e a reformar? Trata-se da táctica oficial da mentira e da hipocrisia,
que acaba por desacreditar não só determinado governo, mas todos os
governos afinal? Ou será antes a mentalidade de um povo intoxicado que
pretende ver os seus preconceitos confirmados pelos representantes que
elege e não protesta contra os actos imorais a não ser quando estes não lhes
acarretam o rápido sucesso que esperavam? Para analisar estas questões
extremamente complexas, tornam-se necessários métodos novos: é preciso
examinar os factos de um ponto de vista social e revolucionário, é preciso
debater agressivamente, mas não violentamente, em lugar de tudo basear
na justiça que condena à prisão ou à morte de acordo com as leis vigentes.

As nossas democracias ocidentais encontrar-se-iam numa posição difícil,


senão fatal, se não tivessem uma desculpa melhor a apresentar do que a sua
relativa superioridade moral sobre o regime total i tário nazi. Não, basta
focar os erros de um indivíduo tomado isoladamente, erros fáceis de
determinar através de um ,processo jurídico, dado a sua limitação a actos
isolados. Esse facto não absolve a sociedade pelo seu crime de cumplicidade
nem absolve, de modo algum, o culpado. Não há nenhuma sala de tribunal
em que o banco dos réus seja suficien temente grande para conter todos os
culpados. É demasiado pedir à justiça, e esperar damesma, uma decisão
quanto a problemas que dizem respeito a toda a sociedade. É certo que todo
o processo jurídico serve para determinar, oficialmente, a extensão, da falta
e do castigo & acusado, mas serve, também, sem que tal se confesse, para
ilibar os que não, podem ser acusados mas que contribuem para o crime pela
sua indiferença, insensibilidade, provocações, incitamentos ou uma discreta
aprovação.

Ao longo da história moderna, nunca uma nação bélica, em plena guerra,


empregou a justiça ou condenou por crimes de guerra-termo até aqui
exclusivamente reservado às atitudes do inimigo-os seus -próprios oficiais e
combatentes. É nesse ponto que reside o mérito incontestável do duro
acontecimento chamado «processo Calley». Desmascarou e estigmatizou as
tendências dissimuladas e inconscientes da nação relativamente a
AGRESSIVIDADE 241

uma afirmação de direitos mesmo pelo preço de uma carnificina.


O facto de este processo ter sido possível, apesar de todas as resistências, o
facto de se ter verificado, o facto de a nação americana achar que não só
podia mas devia impô-lo, constitui uma esperança de que as obscuras forças
de adoração da violência, protegidas por pretensões morais adoptadas sem
discussão, talvez não acabem por triunfar.
VIOLÊNCIA COLECTIVA

justificação em cadeia
O

choque de Auschwitz abalou o inundo inteiro. Um povo de elevada cultura e


civilização massacra seres humanos ‘de -modo frioe cruel, utilizando-se de todos os
modernos métodGs da técnica -e da organização. E tudo isto em pleno coração da
Europa e sem que os milhares de homens, desde o@ mais baixos aos mais elevados
lugares hierárquicos, que dirigiam esta operação de extermínio, as dezenas de
milhares de homens que a executaram e as centenas de milhares que dela, decerto,
tiveram conhecimento abandonassem uma posição de impassibilidade. As
explicações dadas são já bem conhecidas.
O povo alemão, sob influência satânica de um hipnotizador knático, teria sido
acometido de megalomania; a omnipotência do sistema totalitário e terrorista teria,
de antemão, destruído -toda a validade da resistência, o que determinara, como
único recurso po@sível, a ignorância -dos terríveis acontecimentos, contra os quais
o povo era impotente.

Só se conseguiu camuflar o massacre de milhões de seres humanos, um massacre


programado e burocraticamente organizado, com uma tal precisão que ultrapassou
todas as fronteiras da imaginação, porque cleera literalmente inacreditável. Os
indivíduos que se acharam inocentes apresentaram diversos pretextos: a
declaração de obediência ou de ignorância, o dever patriótico ou absoluto,
constrangimento. Uns pensavam: «O Führer sabe, com certeza, o que está a fazer.»
Enquanto outros: «Se o Führer soubesse!» Quando a guerra acabou, poucos foram
os alemães que se acusaram de ter participado no genocí.dio. Os que foram
acusados de participação disseram não ver diferenças essenciais entre o campo de
concentração ou qualquer outro campo de
244 AGRESS1VIDAbE

batalha. Não sabiam o que faziam. Os que o sabiam pensavam que todos estavam
ao corrente dos factos e que a execução das ordens recebidas estava de acordo
com os desejos da nação. O pequeno nárnero de honiens que tinha c<),ns,ciência
de todo o hor-ror que praticava viu nesta orgia de violência, minuciosarnerite
orga,nizada, um a£to de legítima defesa da pátria,

Houve esseri£ialmente um culpado pelo acto mais vergonhoso de todos os tempos:


o Führer e os cúmplices que o rodeavam, ou seja, os que consentiram e aprovaram
o seu procedimento e, portanto, os Alemães e, com eles, os Ingleses, Franceses,
Russos, Americanos. Numa palavra, todos os que se colocaram ao lado do Führer
em lugar de o combater. Também se aventa uma hípótese de culpabilidade do
espírito alemão, dosmétodos de educaÇão e de discíplina alemães e dos próprios
Alemães, cujo porte e desenvolvimento eram admirados por todo o mundo. Se
todos, @

Ols, são responsáveis, ninguém o é. A vida contínua, não apesar e Auschwitz mas
com Auschwitz.

Os principios nacionais de direito que decorreram dos processos de criminosos de


guerraperderam crédito. Os vencedores, que os determinaram, não os respeitam.
Mesmo as importantes firmas industriais que aceitaram e apoiarani a política hitle-
“ríana participam agora, impunemente, na competíção internacifflal no sentido da
paz.

Escreveram-se poemas, pintaram-se quadros e encenaram-se peças de teatro


depois de Auschwitz e a propó sito de Auschwitz. Este acontecimento hístóríco, sem
precedentes, foi espiritualmente absorvido pela opinião pública e fez escola. Os
nacionais-socialistas foram vencidos, mas os seus métodos são imitados em todo o
lado. Os campos de concentração, as lavagens de cérebro, as torturas ínfligidas aos
prisioneiros e o terrorismo autoritário fazem parte do dia-a-dia, do mesmo iríodo que
as consequências e a cotitinuidade das pretensõ es racistas, se bem que há muito
Se tt'nha provado a sua ausênciade fundamento e o seu carácter mitico.

O choque de Hiroxima abalou verdadeiramente o inundo muito depois de se -ter


verificado. Na qualidade de chefe supremo de todas as tropas americanas, o
presidente dos Estados Unidos decidira, com pleno conhecimento das
consequêncías previstas, o bombardeamento atómico de Hiroxima -e o de
Nagasáqui, três dias -depois. O medo de sofrer outro hombardeamento do mesmo
género bastou para levar o Japão. a capitular, sem condições,
AGRESSIVIDADE 245

dado que os Estados Unidos possuíam, nessa altura, omonopólío da bomba


atómica. O entusiasmo dos vencedores abafou escrúpulos e remorsos. O
preço do triunfo foi esquecido. O tempo decorreu após uma guerra
encarniçada, em que a imagem do pérfido -e criminoso inimigo japonês, para
quem nenhum meio constituía obstáculo, estava tão solidamente arreigada à
mente americana que o emprego de todos os meios, e de preferê ncia os
mais cruéis, com vista à aniquilação dos (Japos», esses sub-homens,
pareciam-lhe justos, para rápida obtenção de uma vitória definitiva.

Só mais tarde se tomou consciência de um facto que era, no entanto,


evidente: a bomba atórníca não é, simplesmente, uma bomba mais potente
e de uma maior eficácia. A sua natureza é outra. A diferença quantitativa
entre as armas atómicas e os ins,trumentos bélicos convencionais é tão
vincada que equivale a uma mudança de qualidade. A utilização potencial e
efectiva da energia atómica marcou o começo de uma nova era. Este
acontecimento, de importância decisiva na história da humanidade, também
correspondeu a uma perfeita integração espiritual, A indignação sentida ante
o emprego, da bomba atómica, cuja responsabilidade nãocabía
verdadeiramente a ninguém, ou melhor, era de todo o mundo, e que era
legitimada por um ,objectivo superior, conduziu ao desenvolvimento e
multiplicação desta bomba atómica.

O horror suscitado pela instituição de campos de concentTação e pelo


emprego da destruição atómica ocasionou, por outro lado, a indignação e a
irritação. Os símbolos de desumanidade tornaram-se urna possessão
invejada e uramétodo da autoridade que fez escola.

As grandes potências não recuaram ante qualquer despesa na corrida para


os armamentos atómicos. A segurança e o prestígío da nação dependiam do
poder e extensão do seu arsenal atómico. Os alia-dos da Segunda Guerra
Mundial tinham atingido plenamente os seus objectivos políticos e militares.
O inimigo estava esmagado, mas deixava um vazio: a necessidade de se ter
um inimigo via-se agora insatisfeita. Os aliados de há pouco, e uma vez que
se pusera fim ao estado de guerra, uniram-se nu-ma recíproca e declarada
hostilidade; cada um projecta a sua própria agressão, que continua a colorir
agradavelmente, a idealizar e a negar. Cada um representa para o outro
246 AGRESSIVIDADE o perigo externo, que constitui o cimento
necessário para consolidar a sua coesão interna. O equilíbrio instável da
guerra fria tornou-se o nosso padrão de vida habitual, mas exige a
permanente ameaça da destruição total por um adversário, destruição que
implica a simultânea destruição deste adversário. Os pequenos poderes
invejam os grandes, que possuem um potencial enorme de destruição,
desejam ser admitidos ri<) clube atómico, que tem um carácter de
exclusividade demasiada, e a admissão 6lhes recusada por meio de
argumentos apresentados pelos possui-dores frente aos que não possuem. A
vida continua com a bomba atómica e Tião apesar da bomba atómica.

A juventude do pós-guerra já -não queria ouvir falar de fanatismo. Parecia


estar farta de uma vez para sempre; parecia-lhe estúpido utilizar a violência
em nome de uma religião, de uma nação ou de unia causa. Os jovens
queriam trabalhar, constituir família, viver em paz. «Sern mim», era o lema
de uma geração céptica, ocupada em fazer frente às enormes necessidades
do pós-guerra e a resolver problemas concretos e imediatos. A geração dos
pais, cri-ticou a apatia e a indiferença política dos joveris, a sua recusa de se
envolver ou participar na aventura.

Anunciou-se o começo da era pós-ideológica. Pensava-se que as obrigações


concretas impostas pelos meios técnicos e sistemas administrativos,
adoptados por todos, fariam desaparecer progressivamente as divergências
ideológicas e nacionais. A tecnologia era um grande factor de convergência.
A técnica e a auto- matização imporiamuma exigência de atenção total e
deserivolveriam constantemente o nível de vida, reduzindo as tensões ainda
existentes e levando as nações a concorrer pacificamente no sentido de uma
preparação de vastos sistemas tendentes a um bem-estar colectivo. É certo
que na periferia do pensamento e sensibilidade ocidentais se tinha
consciência de acontecimentos um pouco inquietantes, nus estes sintomas
anunciadores de terripestades depressa caíam no esquecimento ou era-lhes
atribuída pouca importância, quer tTatando-se das ameaças de uma China
misteriosa, das guerras da libertação dos povos colonizados, dos violentos
desencontros do Extremo Oriente, revoltas frequentes ou súbitos golpes de
Estado das repúblicas sul-americanas. Em to-dos os centros vitais do mundo
ocidental, tanto na Europa corno na América, reinavam a calma e a ordem, a
paz e a razão, a aplicação e a prosperidade.
AGRESSIVIDADE 247

Na Irlanda do Norte, no começo dos anos 70, as guerras religiosas entre


católicos e protestantes assumem feição de unia tal intensidade que as
crianças irlandesa's constroem barricadas na escola. Nos Estados Unidos, as
-revoltas dos negros são cada vez mais graves e, sob pressão dos
extremistas sanguinários dos dois partidos, nota-se a ameaça premente de
uma verdadeira guerra racial. Os estudantes intransigentes são a favor do
emprego da violência sem peias. Os casos de tortura, rapto de reféns,
assassínios e ameaças de assassínio multiplicam-se desde a Espa,nha ao
Canadá, à India, Uruguai, Brasil, Grécia, Uganda ou Paquistão. O secretário-
geral das Nações Unidas lamenta que nestes últimos anos a percentagem de
crimes tenha sofrido um aumento de 60 %. Declara que este (eproblema
internacional só se pode resolver com a colaboração de todos». Os Estados,
por mais poderosos que sejam, não se podem defender contra o desvio de
aviões, são obrigados a inclinar-se ante a chantagem de grupos muito
pequenos e a abdicar frequentes vezes do princípio absoluto da sua
soberania. As grandes cidades americanas são, campos de batalha. Todas as
noites são postas em execução centenas de ameaças. Fascinados pela
violência, os guerrilheiros citadinos atacam em todo o lado sem
diferenciações nem consideração por ninguém. A população americana
mune-se de armas, já que a autoridade não lhe pode garantir urna protecção
suficiente. As cidades assemelham-se a locais sitiados. A única diferença
reside no facto de os inimigos se enfrentarem dentro dos própriosmuros da
cidade.

A humanidade avança de surpresa em surpresa. Começa por se admirar, em


seguida recolhe-se surpreendentemente depressa dessa admiração, renega e
adopta simultaneamente o que a surpreendeu. A repetição da violência a que
hoje em dia assistimos talvez resulte da surpreendente aptidão dos nossos
sistemas relativamente a aceitar os choques sem dificuldade aparente. Os
terroristas, os guerrilheiros e os revolucionários, bem como os defensores de
urna nova estrutura, possuem uma convicção comum, apesar de todas as
suas antinomias radicais: pensam que o sistema indesejável (comunismo ou
fascismo, democracia ou ditaduramilitar) não é susceptível nem. desejoso de
evolução e que a agressividade autoritária da indústria, da polícia, das
prisões e dos exércitos somente pode ser combatida pela violência. O que
248 AGRESSIVIDADE

não pode ser reformado deve ser destruído. Afirma-se que é neste aspecto
que reside a possibilidade criadora da destruição.

As enérgicas lições de Auschwitz e de Hiroxíma constituíram um bom


ensinamento. Os pequenos grupos insignificantes e, até mesmo, os
indivíduos pretendem imitar os Estados soberanos. Estabelecem os seus
próprios campos de concentração e a política priva-da para os indesejáveis
ou inofensivos e utilizam os presos como meio de chantagem. As armas.de
fácil aq@isição e o cocktail Moloto-v, que todos podem fabricar e constitui o
poder explosivo dos pobres, transformam o grupomais miserável num perigo
extremo, autárquico e consciente da sua força como só o Estado o podia ser
antigamente. Aprática da violência torna-se, assim, ‘generalizada e
uníversalizada e à disposição de quem a queira utilizar. A legiti-mação da
violência torna-se, paralelamente, um produto de consumo da sociedade.
Desencadeou-se uma verdadeira inflação da legitimação e as explosões, bem
como as estratégias. da violência, tornaram-se cada vez mais brutais.
Dentrode uma base de semelhança e conformidade ao mesmo esquema,
-todas se encontram igualmente e completamente justificadas. É nesse
-ponto que reside o fenómeno universal e característico da nossa época: a
violência ilimitada, a sua justificação sem reservas manifestada por uma
indiferença desumana e inabalável pela vida dos outros e pela nossa.

As legitimações -podem ser fabricadas em cadeia, de acordo com o grau de


hipocrisia do detentor do poder; encontrarão sempre clientes atentos.
Outrora, eram propriedade exclusiva dos privilegiados e agora -tornaram-se
bens de consumo dos que usurpam os privilégios. A legitimação não provém,
como outrora, do passado, da razão ou da lei; pode surgir por um processo
vulgar. Desde que se tornou corrente a acepção de que todas as
legitimações são válidas desde que englohem. a aceitação do sacrifício,
nenhum grupo e nenhum indivíduo é demasiadamente pequeno para
recorrer, por sua vez e segundo as ocasiões, a instrumentos de violência,
certos das boas intenções dos seus gestos.

Os justos e os injustos

A violência é proibida como delito mas recomendada e aprovada como sanção. A


sanção tem um significado duplo. Por um
AGRESSIVIDADE 249

lado, resume-se à confirmação solene de uma lei e, por outro, constitui uma
ameaça de punição e método de constrangimento no caso de infração à lei. A
sanção santifica e ameaça, autoriza e pune; legitima a agressão legal que lhe
é inerente desde que esta agressão vise a agressão ilegal do delito. A
autoridade que aplica a sanção pode ser uma autoridade extralegal, não
declarada, informal: o costume, o hábito, a indiferença.

Os pais recompensam com gestos de ternura o que desaprovam com


palavras. Os superiores repreendem quando as suas ordens não são
cumpridas. Se um espião é apanhado no cumprimento das funções de que foi
incumbido, as -mesmas autoridades que lhe forneceram instruções recusam-
lhe ajuda. As autoridades @que hoje se admiram de já,não serem
cons.ideradas como tal apoiam. os crimes cometidos contra um opositor. A
U. R. S. S. sente-se satisfeita com as revoltas do Ocidente, mesmo quando
finge reprová-las. Ao Ocidente agrada-lhe imenso, a revolta dos satélites da
Rússia. Os actos ilegais de brutalidade contra inimigos políticos ou suspeitos
e, @p@r outro lado, as, violências contra funcionários inocentes e
conscientes recebem, automaticamente, a aprovaçao discreta ou explícita de
vastos círculos da população. Existe um tipo de delinquente muito vulgar: o
subordinado que age, mesmo sem ordem expressa, levado pela certeza de
que, em breve, os seus actos serão aprovados, secretamente admirados, e
que -está plenamente convencido que cumpre uma missão que lhe foi
adjudicada pelos superiores embora não tenha recebido ordens. Encontra-se
ao serviço de uma causa superior e, já que é necessário, igualmente ao
serviço de uma meta que a si mesmo se propõe atingir.

Para J@an-Paul Sartre a limitação e o contrôle da violência não constituem


problema. Para ele, a legitimação da violência obedece a um padrão clássico.
Para ele, toda a violência ao serviço de uma boa causa é autorizada,
necessária, sagrada, urna vez que se trata de -outro ataque. Uma adesão a
uma ideologia significa, evidentemente, o reconhecimento da realidade,
masnão de forma essencial ou decisiva. Todo o que a ela adere deve manter-
se obstinadamente preso a uma visão dos acontecimentos dentro de uma
determinada linha, uma vez que sacrificou, de antemão, a sua liberdade de
percepção, de decisão e reconheceu um grupo superior com poder para
legitimar os seus actos. A linha depensamento de Sartre afasta-se da do seu
velho amigo Albert Camus, que, na sua peça Os justos, tinha apresentado o
caso de
250 AGRESSIVIDADE

consciência da violência em termos dramáticos, recusando uma


obrigatoriedade proveniente desta ou d,aquela convicção.

Nestapeça, os revolucionários organizam a resistência contra a violência


i@j*usta e opressiva do grão-duque. Stepan, o violento revolucionário, e
Yanek, o poeta de tendências humanitárias, são,membros da organizaçã o e
acham que o uso da violência é indicado e justificado. Dora é amante de
Yanck.

Stepan -A organização tinha ordenado que matasses o grão-duque.

Yan,ek-Ê verdade, mas não me tinha dito que assassinasse crianças (os
sobrinhos do grão-duque, que iam sentados a seu lado -na carruagem@ -e
cuja presença impediu que Yanek lançasse a bomba).

Dora-Ya,nck tem razão. Não tinham previsto isso. Stepan-O dever dele era
obedecer. Dora (para Stepan)-E,ras capaz, Stepan, de disparar, à queima-
roupa, contra duas crianças?

Stepan-Era, se estivesse a cumprir ordens da-das pela organização.

O homem condicionado a uma estrutura acha que a obedíência é total e


incondicional. O indivíduo abdica da sua liberdade de agressão -e coloca~se
à disposição do grupo a que pertence. A sua força agressiva será, de bom ou
de mau grado, posta ao serviço de ordens vindas -de quem lhe é
hierarquicamente suPerior. A organização monopoliza o poder e o direito de
legitimação: o indivíduo deve saber obedecer.

Dora-Abre -os olhos e pensa que a organização perderia todo o seu poder e
influência se, por um momento, apenas, tolerasse que as nossas bombas
atingissem crianças.

A personagem relativamente objectiva de Dora contrapõe o argumento.de


que a própria organização deve manter-se firme aos princípios que enuncia e
que legitimam a sua acção, a fim de podermanter o seu crédito e, portanto, o
seu poder.

Stepan-Não me preocupo com essas ninharias. No dia em que« -nos


decidirmos a esquecer as crianças seremos donos do mundo e a revolução
triunfará.
AGRESSIVIDADE 251

O homem condicionado a um mecanismo considerará a atitude de Dora um


sentimentalismo piegas. Só a violência, que não sofre o entrave de hesitações ou
considerações de espécie alguma, pode transformar efic@zmente o real.

Dora-Nesse dia a revolução será odiada portoda a humanidade.

Stepan - Que importa, se a amamos o suf iciente para a impor a toda a humanidade
e a salvar dela mesma e da sua escravatura?

Dora-E se a humanidade em peso rejeitar a revolução? E se todo o povo por quem


lutas recusar que os seus filhos sejam mortos, também deveremos ir contra o
povo? ,

Stepan - Sim, se for preciso e até que ele o compreenda.

As pessoas talvez ainda não estejam suficientemente esclarecidas. Ainda não


atingiram o grau de consciência suficiente para conhecer e desejar a sua felicidade.
Se a ignoram e a recusam é. preciso -obrigá-las, pela força, a atingir essa felicidade.

Annenkoú-Trata-se de decidir se deitaremos bombas que irão atingir as duas


crianças.

Stepan -Crianças 1 É essa a palavra que vos ocorre permanentemen,te. Não


compreendem então? O facto de Yanek não ter morto as duas crianças fará com que
milhares de crianças russasmorram de fome durante anos a fio. já viram alguma vez
crianças morrerem de fome? Eu já. E a morte provocada por uma bomba é um
paraíso em comparação com isso. Para vocês é só o momento presente que conta?
Então escolham a caridade e limitem-se a solucionar o mal quotidiano e a renegar a
revolução que pretende resodver osniales presentes e futuros.

Dora - Yanck aceita matar o grão-duque, uma vez que a sua ,morte pode fazer com
que as crianças russas não morram de fome. O acto não é fácil, mas a morte dos
sobrinhos do grão-duque não imipedirá nenhuma criança de.morrer de fome. Até
mesmo a destruição obedece a uma ordem e limites.

Esta teoria domal reduzido a ínfima escala autoriza o assassínio de inocentes


(crianças), se assim se evitar a morte de um maior número de inocentes que seriam
vítimas da fome e da injustiça. Recusar a crueldade para com alguns indivíduos cor-
252 AGRESSIVIDADE responde a aceitar a morte de numerosos
inocentes que perecerão porque o acto de libertação foi adiado para mais
tarde.

Stepan-Não existem limites. A verdade é que vocês não acredi-ta-m na


revolução. Não acreditam. Se acreditassem verdadeiramente, se estivessem
certos de que com os nossos sacrifícios e vitórias conseguiremos edificar
uma Rússia isenta de despotismo, uma terrade liberdade que se acabará por
alargar a todo o mundo, se não duvidassem de que, nessa altura, o homem
liberto -de poderes e preconceitos erguerá para o céu o rosto dos
verdadeiros deuses, que importância teria a morte de duas crianças? Vocês
adquiririam todos os direitos, ouçam bem, todos os -direitos. E se uma morte
é suficiente para vos deter é porque não têm uma certeza de direitos nem fé
na revolução.

O porta-voz do humanítarismo proclama a necessidade de -limites e de


regras. O fanático, desejoso de agir, vê na acção, quaisquer que sejam as
consequências, a prova e a confirmação de uma crença pura e
desinteressada. Hesitar, duvidar, equilibraT, querer humanizar a acção,
significa falta de convicção.

Yanck-Envergonho-me de mim mesmo,, Stepan, e não permi,tírei que


continues a falar. Aceitei matar para destruir o despotismo. Por detrás das
tuas. palavras leio, no entanto, o prenúncio de um despotismo que, sc
alguma vez se erguer, me tornará um assassino, quando quero ser apenas
justo.

Dentro do poeta arde a chama do desejo de justiça humana e inquieta-se ao


ver tais actos de violência e contraviolência. ,Só se acha no direito de usar a
contraviolência quando esta não se identificar com a violência que combate.

Stepan-Qt@e importa que não sejas justo, quando até mesmo os assassinos
fazem justiça. Tu e eu nada somos!

Yanek-A justiça é a vida dos homens. Stepan-Quando se lhes rouba o pão, de


que havíam de viver senão de justiça?

Yanek-De justi@a e de inocência. Stepan - Inocência? Sim, talvez saiba o que


isso é, mas escolhi ignorá-la e fazer com que milhares de homens a ignorem,
AGRESSIVIDADE 253

para que, um dia, ela venha a adquirir um significado mais elevado.

O indivíduo é um nada dentro do todo que se chama organização. A justiça


abstracta pode ser concretizada pela injustiça concreta. O cínico defensor da
força troça do interlocutor: só o que não tem pão nem força considera a
j@stiça como único alimento. Para se atingir um objectivo superior,teni-se o
direito de matar ou de manipular informações.

Yanek -É preciso ter-se a certeza da chegada desse dia paTa negar tudo o
que leva um homem a viver.

Stepan -Eu tenho essa certeza. Yanek - Não a podes ter. Para saber qual de
nós dois tem -razão talvez se torne necessário o sacrifício de três gerações,
várias guerras e revoluções terríveis. Quando esta chuva de sangue parar já
há muito que tu e eu nos teremos transformado em pó.

Stepan-Nessa altura virão outros que... Yanek - Não é justo que vá atingir os
meus irmãos por unia cidade longínqua em rel@ção à qual não possuo
certezas. Não quero, aderir à injustiça viva por uma justiça morta. Vou falar-
vos francaniente, irmãos, e dizer pelo menos o que poderia ser dito ao mais
simples dos nossos camponeses: matar crianças é contrário à honra e se,
enquanto eufor vivo, a revolução vier a afastar-se da honra, desligay-me-ei...

Stepan-A honra é um luxo reservado aos que têm carruagens.

Yanck-Não. É a última riqueza do pobre. Sabes isso perfeitamente e sabes,


também, que a revolução, s.e baseia na honra.

A moral não é um luxo, uma parte da superstTutuya, um preconceito ideológ-


ico. O (poeta humanitário está convencido de que a violência, mesmo
quando inevitável e justificada, tem os seus limites. A honra e a justiça serão
reconhecidas e reinarão num mundo novo e melhor. Se a sociedade nova e
melhor só se puder constituir através do menosprezo da honra e da 3ustiça,
não é digna de existir, porque seria uma -mera repetição do que pretende
abolir. «Porque quem controlaTá os controladoTes e legitimará os
legitimadores?»
254 AGRESSIVIDADE

Autorídade, governo, poder, servíço

_Quem aplica as sanções? Tudo o que é objecto de fé e admiração pode


aplicar sanções’ (Merriam apelida este facto de «crenda» e «miranda» da
doutrina política). De acordo com a teoríade Hannali Arendt, a autoridade de
uma pessoa, de uma instituição ou de uma coisa é função da legítimação
incontestada que lhe conferem os que lhe devem obediência. Arendt declara,
igualmente, que a autoridade (mão tem necessidade de c@oacção nem de
persuasão»; esta é urna afirmação menos real, dado que as autoridades não
são nada avaras em matéria de persuasão e Coacção. Afirma Plutarco: «O
simp@es aceno de cabeça do homem que detém o -poder e se respeita tem
mais força do que mil argumentos que todos os outros possam apresentar.»
A autoridade é a posse antecipada, aceite e legítima do poder. Baseia-se na
aceitação, identificação e submissão.

Estes factores podem, -no entanto, ser consequências da coacção,


propaganda ou violência suportadas de antemão.

A autoridade política é um princípio inacessível; Todeia-se de pompa e


cerimonial e mantém todos os outros à distância, a fini de se fazer cumprir. É
uma feição importante e autêntica dopodeT, se bem que não a única. Quer
adquirir autoridade ou exercer um poder eficaz sobre as autoridades e o
poder não cede ao, simples facto de não estar autorizado. O exercício do
poder sem autorização tenta primeiramente, e pelo contrário, atribuir-se esta
autorização, transformando ou dando nova interpretação à fórmula política.
Mui,tos marxistas acreditam no que foi expresso por Laski: «As estruturas
políticas foram sempre másca-ras por detrás das quaís se ocultava a
autoridade conferida pela propriedade; quando as estruturas políticas
ameaçam os direitos de propriedade, a classe prepotente tenta sempre
adaptá-las às suas necessidades.» Seja como for, todo o condicionamento de
carácter social, e mesmo científico, das realidades engloba importantes
interesses materiais e ideológicos de indivíduos ou grupos,

Bem diferentes são os governos que se servem do poder para exercer a


força, a autoridade, a coacção ou a violência (neste Ponto estamos de acordo
com Hannah Arendt: o emprego correcto destes termos não é uma simples
questão gramatical, mas de perspectiva histórica). Não basta, porém, definir
concreta-
AGRESSIVIDADE 255

tamente formas de governo para saber quem governa quem e definir o grau
de objectividade, razão, eficácia e @ injustiça de um governo. Opoder é unia
capacidade de determinar os resultados -desejados, uma capacidade de
influenciar, num certo sentido, o comportamento dos outros ou de «,se unir a
ele»; pode apoiar-se na riqueza ou forças militares, na autoridade legal ou no
contrôle da opinião; pode utilizar, igualmente, a persuasão, a pressão, a
intimidação, a ameaça ou a violência. O poder tem tendência a expandir-se;
procura aumentar e alargar-se até embater noutras esferas de poder. Não há
possibilidade de in@terligação entre as diversas formas de poder; estas são
indep@ndentes. Todo o poder tenta apoderar-se dos outros. Quem possui o
poder também é, por seu lado, possuído. Para Arendt, «a monopolização do
poder tende para o aniquilamento ou enfraquecimento de todas as fontes de
poder do -país e depois, portanto, a uma perda do próprio poder». Afirania
acaba por redundarnuma impotência que permite, seguidamente, o
-totalitarismo. O terror é uma continuidade c intensificação do
enfraquecimento do poder pela atomização, da sociedade.

O poder, da mesma forma que o dinheiro, circula no seio da sociedade;


frente ao poder, o prestígio está na mesma proporção que ocrédito em
relação ao dinheiro apronto. Os camiões carregados de ouro que é preciso
fazer desfilar para convencer os credores inquietos a colocarem os seus
haveres nos bancos podem comparar-se aos tanques que se mobilizam
quando o poder governamental se encontra ameaçado.

O poder tradicional apoia a sua legitimidade na estrutura antiga, na ordem


de sempre. O chefe do poder patriarcal é obedecido porque a sua autoridade
se encontra consagrada por tradição. A burocracia constitui a forma nuis
pura do poder legal. Não s.e obedece a esta ou àquela pessoa, mas a regras
estabelecidas que determinam a quem se deve obediência e até que ponto.
Obedece-se ao superior cujo poder se encontra condicionado por regras que
definem, precisamente, o que lhe compete. No que se refere a rendimento
de trabalho, a burocracia possui uma enorme vantagem sobre todos -os
outros géneros de organizações e delas difere da mesma forma que a
indústria mecanizada difere do artesanato. A burocracia tem a cargo serviços
administrativos e especializados, com objectividade, de acordo com
directrizes precisas sem considerações individuais e de forma rápida,
minuciosa
256 AGRESSIVIDADE

eprecisa. Os processos substituem as necessidades humanas.


O estilo burocrático assentana divisão e fragmentação da função da decisão
e também na obediência anónima e impessoal à regra: daí resulta um poder
que não é o poder de ninguém e faz desaparecer toda a responsabil idade
individual através do sistema complexo e obscuro dos serviços oficiais. Este
processo desenvolve-se automaticamente. Libertos de todos os problemas de
consciência, -pelos superiores e regras estabelecidas, os administradores
burocráticos transformam-se em mecanismos minúsculos de uma máquina
monstruosa e os administrados, desumanizados, tornam-se números
impessoais que se colocam nas máquinas.

A posse d ‘e qualidades extraordinárias e o carísma sobrenaturais que os


adeptos atribuem ao seu chefe conferem-lhe um poder que rejeita e renega o
poder tradicional e legal. O chefe que, deste modo, se encontra na posse de
dotes especiais deixa de estar ligado a regras ou tradições. Para se legitimar
basta que os seus discípulos o reconheçam. Em comparação com a oTdem
tradicional e legal o governo do Führer é, por essência, irracional. Tem por
base uma estrutura puramente pessoal e especial e concepções não escritas.
Tem como característica dotar o chefe com um futuro herdeiro e definir as
regras de admissão para os novos discípulos; a partir desse momento
procura uma estruturação, de uma estabilidade durável, através de métodos
de legitimação que ele combateu. O que não era quotidiano torna-s-e
quotidiano e o que era irreal torna-se real. A agressão pessoal do chefe
transforma-se em agressão anónima das regras
9"e.firma e das leis que promulga; perde força por sua própria iniciativa ao
querer tornar-se eterno.

Em 1970, no decurso de uma manifestação pacífica dos estudantes na


Universidade do Estado de Kent (Ohio), a polícia naci-onal enfureceu-se, de súbito, e
disparou contra a muftidão, sem motivo aparente, tendo morto quatro estudantes.
Seguiu-se um

inquérito e os polícias foram rapidamente postos em liberdade por uma comissão


-do estado de Offio; os estudantes, que, a princí.pio, não -tinham sido declarados
culpados, acabaram por sofrer tal acusação. O F. B. I. afirmou, no entanto, que os
guardas tinham agido irreflectidamente e, por outro lado, combinado
AGRESSIVIDADE 257

entre eles uma versão dos factos apresentados como melhor lhes
convinha. Um júri federal pediu que fosse organizadG um processo
judicial contra os polícias, dado que o tiroteio fora «inútil e injustificado». O
Ministério da justiça concluiu, porém, que não havia motivo para
apresentação de queixa.

A -camaradagem, a solidariedade de grupo e a conivência por parte das


autoridades supremas impedem, assim, a distinção entre o emprego e o
abuso da violência legítima e encorajam a brutalidade, que recebe aplausos
a todos os níveis.

Através do monopólio da violência, o Estado impõe a todo o indivíduo (que


não esteja devidamente habilitado a fazê-lo ou não use uniforme) a renúncia
à agressão e impõe-lhe, igualmente, outros sacrifícios em prejuízo dos seus
impulsos naturais. Pelo monopólio burocrático, o indivíduo, em vez de
participar na política, é condenado a impotência política, ainda que se julgue
livre; tem possibilidade de assumir duas atitudes: curvar-se a tudo ou
dedicar-se a um activismo e deitar tudo a perder. Se não houver
interferência a tempo ou não se tentarem reformas radicais, a humanidade
acabará por se entregar à violência do desespero, que se julga violência
criadora, e multiplicará as violências. A violência resolve os @problemas
cortando o mal pela raiz. Os exemplos -desta estratégia inultiplicam-se
continuamente, a violência aumenta, e com ela a ameaça da autodestruição.

Diz um velho provérbio militar: «Quando estou de serviço sou um animal


e,estGu sempre de serviço.» O serviço executado sob cumprimento de
ordens constitui desculpa -e pretexto de brutalidade. O carácter sDbre-
humano da instituição legitima- dora dissimula a inaptidão pessoal, bem
como a ausência de personalidade eo sentido do humano. «Quando estou de
serviço sou um animal e tenho direito a sê-lo.» A autoridade deve legitimar a
violência, sempre Grientada num sentido, dos seus subordinados. A
identidade do uniforme també m confere, a quem o usa, a incógnita do
anonimato. O uniforme constitui, assim, uma tentação a que só se poderão
opor, com eficácia, um auto-contrôle particularmente atento e, sobretudo,
um contrdIe exterior independente. Sob o boné militar dissimula-se e afirma-
se a agressão burocrática. O uniforme habilita, quem o use, a servir-se da
violência e leva inconscientemente a uma afirmação de necessidade de
violência e à aplicação do rótulo de legitimação às violências exercidas.
258 AGRESSIVIDADE

Homícídí0 legítímo

à guerra tudo é permitido. È assim na realidade? O general Pfulil, um estratega


prussiano ao serviço do estado-maior russo, já caiu, hoje em dia, no
esquecimento.'A maior parte das campanhas que organizou constituíram um
fracasso. O facto não foi, porém, suficiente para lhe abalar a fé nos infalíveis
métodos estratégicos que estabelecera: o facto de se terem provado ineficazes
devia-se à acção demaus executantes. Karl von Clausewitz,

o seu ajudante-de-campo, atingiu famamundial. Adquirira consciência da


transformação dos -exércitos ao longo de, século xix, em que o exército -de
mercenários cedera lugar ao exército popular em massa. A partir desse momento a
guerra tornara-se, para -ele, um acto político de natureza muito especial, a coroação
de uma política legítima. Os Estados nacionais esperam da guerra a realização das
suas aspirações e objectivos razoáveis, a partir do -momento em que todos os
outros meios falharam. Segundo o esquema de Clausewitz, o Estado, nacional é um
grande organísmo racional (análogo ao jogador raciona,1 na teoria do jogo) que se
esforç a por, mediainte uma hábil estratégia, conseguir vencer um adversário que
age igualmente de acordo com métodos racionais por meio de alianças, contra-
alianças, manobras militares e diplomáticas e, finalmente, acções bélicas.

O escritor Leão Tolstol, bem como o físico e meteorólogo Lewis F. Richardson, foram,
no século xix, os defensores de uma teoria -dinâmica e «cataclísmi,ca» da guerra.
De acordo com esta concepção, as guerras são. inevitavelmente determinadas por
forças históricas irresistíveis e abatem-se sobre a humanidade como acori-tecimento
de ordem natural ou epidemias, encontrando-se para lá de toda a influência da
vontade ou estratégias dos generais. Somente a loucura de um narcisismo ilusório
tenta raciona- lizar e -orientar a explosão incoercível da guerra. A teoria de ToIstoi e
Richardson vê na agressão sintomática (explosiva, irracional, determinada por
causas naturais, patológica e incontrolável) a única agressão verdadeira.

As teoríasde GlausewItz ede Hermann Khan servem de base às planificações do


Instituto Raud e dos modernos centros de estratégia militar que estudam a agressão
estratégica (a agressão coordenada à vontade, razoável, dirigida, manipulada). A
guerra é urna situação decidida e proclamada por uma autoridade supe-
AGRESSIVIDADE 259

rior (quase sempre, e por tradição, um Estado, uma dinastia ou uma Igreja) e esta
situação aplica sanções ante o uso da violência declarada e de qualquer outra forma
de agressão contra um inimigo determinado, nacional, dinástico ou religioso. O
partido inimigo, e as pessoas que dele fazem parte, assim como os seus bens, nã o
se encontram ao abrigo das leis condicionadas à honra.
O que costuma ser rigorosamente proibido é preconizado e ordenado frente ao
inimigo. Outrora, a declaraçã o de guerraera precedida de gestos agressivos mas
não declaradamente violentos, tais como as negociações diplomáticas e os
ultimatos. Estes gestos eram apenas ameaças precisas que deixavam adivinhar o
recurso à violência declarada mas ofereciam, simultaneamente, uma porta de saída
para a evitar. Os preparativos da guerra e os ulti- ,matos serviam, entre outras
coisas, para uma idealização e legitimação moralda causa em -questão e para uma
denúncia e rebaixame,nto do adversário. A declaração de guerra deixava, pois,
antevQr que não existia outro recurso para além da violência, dado que todas as
tentativas para resolver o conflito tinham fracassado. Segundo uma vulgar técnica
dramática de polarização, o inimigo é tornado responsável pela explosão do
conflito, pelo fracasso das negociações e, portanto, pela necessidade de
utilização,da violência. Amesma técnica acentua a não culpabilidade, a indulgência,
a boa vontade e a compreensão do partido que representa.

Até há pouco, havia uma declaração de guerra; esta começava num -determinado
momento e podia-se prever que o conflito armado terminaria pela assinatura de um
tratado de paz, dado que, de parte a parte, eram respeitadas convenções e regras
bem precisas. Os Estados neutros, bem como as mulheres e crianças dos Estados
em guerra, eram poupados a hostilidades. Por tradição as guerras nunca eram
totais, pois que, à excepçã o daJuventude masculina mobilizada, o conjunto da
nação não participava activamente. Todos respeitavam convenções, que eram,
evidentemente, diversas das regras estabelecidas para tempo depaz, e a função de
árbitro cabia a um terceiro elemento neutro (Cruz Vermelha, Estados neutros,etc.).
Até mesmo no decurso dos combates mais encarniçados, o respeito por regras
comuns implica o reconhecimento da -dignidade humana do adversário. A conduta
de hostilidade só adquiriu um carácter criminoso e totalitário a partir do momento
em que se efectuaram acções de extermínio sob rótulo de acções de polícia ou de
«limpeza». Nesse caso ne-
260 AGRESSIVIDADE

ga-@e toda a dignidade ao adversário; daí para a frente não há mais peias à
violência lícita nem mais considerações pelo inimigo.

Estado nacional e soberania

Os processos de modernização que transformaram a sociedade agrária tradicional


em sociedade urbana industrial determinara,m na França pré-revolucionária, antes
de 1789, toda uma desvalorização de símbolos de autoridade e a necessidade de
uma nova estrutura social. Os camponeses, a burguesia e os aristocratas, por
pertencerem a uma classe, sentiam-se cada vez mais tipicaniente franceses;
identificavam-se com a unidade global monopolítica do povo, da nação e da pátria.
As derrotas militares ameaçavam a existência da comunidade. A sociedade dividiu-
se e F@olarizou-se em patriotas e antipatriotas. Os presos políticos antipatriotas
tornaram-se legalmente objectos de agressão pública e alvos de massacre.

Na Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial, os proprietários de grandes


-domínios senhores provinciais, sofreram analoganiente uma perda de p@estígio
surg ida da derrota militar e abolição da !monarquia; em breve se manifestaram no
seio das classes alemãs dirigentes sinais inegáveis de desorganiz@çao e perda de
identidade, o que veio agravar ainda mais a crise da inflação e do desemprego.
Nenhum dos partidos políticos da República -de Weimar foi capaz, alguma vez, de
dotar a comunida,de, a não ser aparentemente, com uma orientação e um sólido
sistema de legitimidade. O pessimismo cultural e o caos ideológico ocuparam os
primeiros lugares, a crise de identidade tornou-se grave e sobreveio a necessidade
de um sistema de identificação sólida e bem estruturado. Para os nacionais-
socialistas, a Alemanha, o espírito alemão e a missão alemã eram conceitos
essenciais; é em redor dos mesmos que se podem organizar todos os outros
valores, que fornecem, sobretudo, imagens dramáticas do tipo oposto, de anti-
imagem. Nesta imagem do não-alemão erani englobados os inimigos internos, os
comunistas, os liberais, os judeus e também os inimigos externos, bem como os
judeus unidos pela sua conjura mundial, mas também os Franceses, os Checos, os
Polacos, os Russos e todos os outros «sub-homens».

O impeTalismo russo (sob um novo rótuIG) vai analogamente buscar a sua força
sentimental messiânica mais à tradicional
AGRESSIVIDADE 261

identidade nacional do que a convicções de ordem política. As convicções


servem unicamente para alimentar falsas ilusões e disfarçar as realidades
sob pretexto de desmascarar e combater as ideologias rivais.

Vivemos na era da santificação do egoísmo, que atribui a cada um dos


nossos semelhantes os mesmos motivos racionais de comportamento, que o
incitam a ter como objectivo um lucro máximo em troca de um mínimo de
trabalho, uma expansão, máxima e um máximo de agressão dentro de uma
competição limitada a certas regras. É certo que os Estados nacionais
exigem aos cidadãos que renunciem aos seus impulsos instintivos e lhes
sobreponham uma vontade própria; os Estados velam pela não agressividade
dos cidadãos, graças à agressão concreta das leis, institui- @cess e
regulamentos; mas eles mesmos conduzem-se como indiví-

uo egoístas. Lançam-se em concorrência com outros Estados tão


importantes como eles e também no sentido de uma expansão económíca. A
partir de um determinado nível de força tornam-se imperialistas. Reivindicam
o direito soberano de tomar decisões quanto aos seus próprios interesses
sem tolerar pareceres alheios.
O imperador Carlos V, adversário de Francisco 1, rei de França, disse-lhe um
dia. «O senhor meu irmão e eu queríamos exacta- ,mente a mesma coisa, ou
seja a cidade de Milão.» Cedo ou tarde, os Estados soberanos e os grupos de
Estado, precisamente devido à missão que assumem, acabam fatalmente por
cheiar a situações de conflito, uma vez que são gula-dos por motivações tão
imperialistas como as dos adversários. As autoridades internacionais
(Sociedade das Nações, O. N. U., Tribunal de Haia, etc.) devem, em princípio,
regulamentar as relações entre os Estados através da conciliação e acordo,
tal como os tribunais intervêm nas discórdias entre os indivíduos. Apesar do
poder e prestígio de que desfrutam, estas autoridades são impotentes, dado
que, na faltade meios eficazes, não -podem notificar judicialmente os
partidos adversos nem impedir as acçõ es directas que deles partem. A
agressão individual dos cidadãos é refreada pela autoridade estadual e as
instituições do Estado revertem-na, falsa ou efectivamente em benefício da
comunidade. Até hoje, -nunca os Estados consentiram, por seu lado, ceder ou
abandonar uma parte apreciável da agressão que controlam e de que
dispõem ,livremente, embora exijam esta renúncia aos indivíduos como um
sacrifício natural inerente à civilização. Com base neste princípio, os litígios
de que resultam acções bélicas e a regressão pro-
262 AGRESSIVIDADE

gressiva ou repentina à violência declarada e brutal da guerra são tão


inevitáveis como o seriam as violências individuais no seio do Estado se não
existisse polícia, tribunais e autoridades vigila,ntes com força suficiente para
defender os interesses da cúmunidade contra o indivíduo.

A soberania fundamenta-se na acção da mão invisível do destino que vela no


sentido de que a satisfação dos interesses parciculares, por uma justiça
misteriosa, favoreça o bem-estar geral. E até mesmo os conflitos violentos
têm um carácter benéfico, se bem que esta violência positiva passe
despercebida aos olhos dos poderes em Juta e dos indivíduos implicados. A
razão utilizaria assim sub-repticiamente as mo,tivações egoístas particulares
(dos indivíduos e do Estado) para atingir os seus objectivos altruístas.

As guerras resolveriam o problema do excesso populacional. Graças ao


extermínio de um número elevado depessoas; teriam o mesmo objectivo que
a pílula, uma invenção muito mais recente, que impede o aumento,
dapopulação. As guerras equilibrariam, por outro lado, as injustiças
ecológicas, dado que os países superpovoados teriam tendência a expandir-
se na direcção de territórios de escassa densidade populacional. Concluiu-se,
no entanto, estatisticamente que o efeito genético e demográfico das
guerras foi sempre mínimo, compara-do com medidas de ordem política e
não bélicas, se bem que agressivamente racionalistas, como, por exemplo, a
discriminação racial, a exploração, o contrôle selectivo da emigração, etc.,
que exercem uma influência bem mais durável do que as guerras no âmbito
da composição e estrutura de uma população.

A máxima que pretende que se -esteja preparado para a guerra quando, se


deseja a paz não ofereceu quaisquer dúvidas durante muito tempo. A
fraqueza, a falta de armamentos e de forças pareciam constituir um convite
a que as potências estrangeiras se mos,trassem impunemente agressivas. A
confiança inocente e exagerada, demonstrada pela vítima, impeliria o
agressor a agir. A nova ciência da «vitimologia» estuda as relaçõ es subtis
existentes entre o criminoso e a vítima do cri-me. Demonstra a cumplicidade,
quase sempre inconsciente, da vítima, parcialmente responsável pela própria
destruição, a que a leva a negligência, a falta de precauções ou mesmo a
provocação. O culpado não, é o assassino mas o assassinado, muitas vezes,
pelo facto da sua demasiada inocência e credulidade.
AGRESSIVIDADE 263

Metade da população mundial encontra-se, actualmente ` distribuída


-por quatro Estados (India, China, União Soviética e Estados Unidos) e a outra
metade distribui-se por 129 Estados. A pretensão quanto à igualdade de
direitos soberanos é, por razões de política interna, cada vez mais
largamente proclamada apesar de, no mundo real, constituir uma
impossibilidade. A paz relativa foi até hoje mantida pelo equilíbrio atómico
dos mais poderosos, de que todos os outros, ainda que se vangloriem da
mais completa neutralidade, dependem tanto num plano económico como
político. A existência das armas atómicas, que atingiram uma fase de
acentuada evolução, impediu uma explosão de violência pelos mesmos
-Motivos que há pouco justificaram o seu emprego, quer -dizer, por motivos
de defesa e de sobrevivência. Com a ajuda dos Estados, aliados, próximos ou
subjugados, e também,de espantalhos políticos a quem pagam, as grandes
potências prosseguem os seus objectivos de expansão, que nada trazem de
novo -sob os rótulos novos que apresentam. O imperialismo, o colúnialismo,
o messianismo e a missão do homem branco são más-caras demasiado
transparentes para servirem de denominações valiosas. Essas novas
etiquetas são: ajuda às nações em vias de desenvolvimento, acção
libertadora, restabelecimento da ordem e a polícia.

A teoria cataclísmica faz da guerra um estado patológico de crise periódica,


uma epidemia de violência semelhante à peste. Esta definição @obriga~nos
a examinar as causas históricas e sociais da guerra. É desta forma que s.e
reduzirão a importância e a intensidade da polarização imposta pelos
potentados e políticos emprol do desenvolvimento do clima de compreensão,
que per mitirá o estudo das formas -e processos de impedir estas destruições
humanas. A teoria dinâmica global em nada contribui para a definição de
soluções específicas. Comporta uma tendência fatalista análoga à das teorias
de agressão-ins tinto.

A concepção estratégica assume a realidade tal como ela é ou como


apresenta ser, sem sentimentalismo nem partidos; exístem especialistas
estritamente objectivos que programam os mais hábeis golpes tácticos,
como se o antagonismo expresso pelos conflitos fosse um dado, um ponto de
partida, e não um resultado. O eventual inimigo é encarado dentro dessa
feição. Todos os meios com possibilidade eventual de sucesso são bons para
o
264 AGRESSIVIDADE

enganar, para o surpreender e alcançar a vitória. Esta teoria comporta uma


boa parte de um cálculo isento de humanidade q@e avilta o homem, em
quem não vê mais do que o meio de a-tingir o objectivo. Avalia friamente as
perdas humanas como se se tratasse de perdas materiais em operações.

A forma de organização social que é a guerra não é nunca uma consequência


inevitável da constituição biológica do homein. Não exis-te um único
objectivo individual que não possa ser obtido por outros meios que nã o a
violência individual ou a guerra. Com excepção de um número ínfimo de
casos de natureza patológica, a mais sedenta febre de conquista poderia ser
satisfeita sem a presença da guerra caso as suas reivindicações fossem
aceites sem resistência.

A guerra é multifactorial e multifuncional; -tem numerosas causas concretas


e a seu cargo encontram-se múltiplas missões, mas, acima de -tudo,
restabelece e reforça a unida-de interna pelo sentimento geral de perigo do
exterior; desvia os espíritos dos problemas internos. A racionalização
colectiva da ideologia dissi-mula, por detrás da motivação, ideal proclamada
e reconhecida, os verdadeiros fins impuIsionadores: a necessidade de
mercados, o desejo de matérias-primas e colónias subjugadas. Muitos re-

cusam a interpretação marxista que explica as guerras pelas ambições


materiais da classe preponderante. Acham que a verdadeira razão da
hostilidade declarada entre os povos é mais profunda: reside na necessidade
sentida poy todos os grandes. gupos nacionais ou étnicos de acreditar na
existência de um inimigo a fim de se manterem e afirmarem como grupo.

Quanto mais complexa é a estrutura da organização e quanto maior é o seu


ap51o para que os indivíduos lhe sacrifiquem a sua própria agressividade,
mais violenta se torna esta n’ecessidade de um inimigo, porque ter um
inimigo significa esperar poder destruir legitimamente e verter contra ele
toda a agressividade condicionada pelas ceracções da paz social. A guerra
proporciona a possibilidade de demonstração da valentia e da coragem, ante
as qu@is se apagam to-dos os interesses e escrúpulos egoístas e
mesquinhos. Os indivíduos, tal como o aço temperado, saem da guerra
purifica-dos, unidos, num estado, de êxtase e «transcendência» por terem
participado na empolgante abnegação dos patriotas, para quern conta
unicamente o imperativo guerreiro. É preciso contar com estes emuitos
outros -efeitos da guerra sobre a psicologia dasmassas: eles proporcionam-
lhes a fuga ao quoti-
AGRESSIVIDADE 265

diano, a fuga às responsabilidades, as férias da família, a quebra do tédio, a


satisfação do seu desejo de aventura. As causas determinantes de uma
guerra sãoquase sempre uma mistura de manipulações conscientes e
dirigidas, bem como de cumplicidades. e negligências inconscientes.

Se a guerra é a continuação de uma determinada política por meios


diferentes, a paz pode considerar-se a continuação e o reforço da agressão
sob outras formas. Sob o regulamento de paz imposto ao vencido, a violê
ncia bélica, até aí sem peias, continua sem uma feição latente; a agressão
limitou-se a mudar de aparência e a adoptar um disfarce, mas o efeito
agressivo e a propagação da agressão continuam presentes. Os tratados de
paz põem termo à última guerra e colocam as primeiras pedras da seguinte.
Surge um novo ressentimento originado pela injustiça de uma repartição
autoritária impostapela violência. Mediante a coacção de uma soberania
intocável, as esperanças mais acarinhadas são frustradas e multiplicam-se
novos sentimentos de injustiça. A guerra liberta e reverte contra o inimigo,
promovido a objecto de uma agressão legítima, toda a agressividade latente
e condicionada pela organização social do Estado. A paz leva o vencedor a
atingiros seus objectivos graças a uma agressão oculta e sancionada por
meios educacionais e económicos opressivos ou por leis e tratados
humilhantes.

Apesar do cep@icism,o quemuitos demonstram frente ao fanatismo e a um


nacionalismo arrebatado que redunda em brutalidade, só as vastas
organizações nacionais parecem bastante sólidas, bastante fortes e
apreciadas pelo indivíduo a elas agremiado no sentido de pedirem e exigirem
os sacrifícios necessários à civilizaçã o. Até aqui, as veleidades de
identificação com grupos situados para lá das fronteiras constituídas -pelas
línguas e territórios nacionais ficaram no âmbito de desejos utópicos e
declamações de oratória. A identidade que tem como base a nacionalidade é
exclusiva e intolerante; encontra-se reforçada pela imagem antitética de um
inimigo, encorajada a polarização, a legitimidade de um objectivo elevado
pretendido pela comunidade, e sã o-lhe inerentes as ameaças e
probabilidades de violência. A soberania absoluta arroga-se aplenitude de
contrôle, -recusando submeter-se a qualquer outro poder, compra a coesão
interna e a certeza de identidade através da limitação e perda das liberdades
individuais no seu interior e pela multiplicação de ameaças da violência. O
nacionalismo constitui um elo de unificação, mas,
266 AGRESSIVIDADE

pelas suas pretensões soberanas, prepara o recurso a uma violência


repressiva. Encontrar e descobrir outras formas de unidade superior,
igualmente capazes de conferir ao homem uma identidade e um ?bjec@tivo,
constitui a inissão mais importante que se oferece à imaginação humana se
quisermos obter um verda-deiro espírito de solidariedade entre os homens.

O críme organízado

O crime organizado constitui um vasto empreendimento que não tem como fim
combater o establishment, mas concluir alianças e acordos que definem a tolerância
mútua da «integridade territoriab) de cada um. As diversas organizações criminais
concorrem entre si; são empresas gigantescas que, como as grandes empresas que
imitam e as imitam, satisfazem a -necessidade de determinados bens de consumo.
Apenas recorrem à violência como instrumento estratégico, comomeio de atingir o
objectivo desejado, mas preferem alcançá-lo pela persuasão, os presentes as
relações ou pela ameaça da violência, que substitui efícazmenté, a violência.
Negoceiam com jogos de azar, a prostituição e a droga, da mesma forma que outras
com o açúcar ou os cigarros. Existe uma grande procura destes meios de prazer que
eles colocam nomercado; os lucros deste gênero de negócio são elevadíssimos.
Podem permitir-se ter ao serviço os melhores peritos em todos os campos:
publicis,tas, conselheiros fiscais, vende-dores de ,nível, advogados, funcionários da
polícia, especialistas em cirurgia plástica e assassinos escolhidos. A organização
constitui uma comunidade que se sente convencionalment@ legitimada pela
solidariedade dos seus membros e pela satisfação das necessidades sociais
violentas e ilegais que proporciona.

Ainda antes do despertar da juventude, a organização do crime descobriu a


hipocrisia do establishment, não para o des- ,mascarar, mas para o imitar e o utilizar
com vista aos seus fins. Os diversos grupos não pretendem reduzir ou suprimir a
hipocrisia, que lhes traz lucros e lhesproporciona um meio de subsistência.
Preconizam a proibição de bebidas alcoólicas, apoiam as organizações femininas
cujo objectivo é a defesa do casamento e colocam-se ao lado da polícia quando a
mesma exige que se coloquem sérios entraves ao comércio da droga. Toda e
qualquer causa moral pode contar como seu apoio, uma vez que a repres-
AGRESSIVIDADE 267

são das tendências instintivas, em nome da Tnoral, aumenta o consumo dos


seus artigos imorais e com ele o preço. As organizações ilegais destinam
somas elevadas à obtenção de uma certeza de proibição dos jogos de azar
nos E. U. A., com ex£epção do estado de Nevada, onde controlam to-das as
casas de jogo. A única interdição aos casinos do Reno e de Las Vegas
consiste em lesar os grupos. Um engenhoso sistema de contrôle garante a
honestidade dos empregados; os clientes nunca são vítimas de burlas
pessoais. Nada perturba a marcha impecável dos negócios. As estatísticas de
crimes, em Las Vegas, apresentam um índice baixo porque ao primeiro sinal
de dificuldades eventuais o culpado é afastado e recebe ordem de partida,
acompanhado de medidas mais ou menos rigorosas. Como fenômeno local, o
crime encontra-se quase eliminado nos pontos em que é combatido pelos
elementos ilegais da população.

Os dirigentes da Mafia são mestres na estratégia do sucesso rápido.


Assumem a realidade -como ela é e como eles a fazem, ou seja com todas as
fraquezas humanas da vaidade, hipocrisia, avidez e corrupção, fraquezas que
eles encorajam para das mes-mas tirarem partido. Para lá dos conflitos
internos entre os diversos poderes, que são, aliás, raros, urna vez que a
hierarquia do meio é rigorosa, o uso brutal ou psicopático da violência é
severamente interdito. A violência é substituída pela atitude arrogante e a
imagem cuidadosamente burilada de uma organização omnipotente e
irresistível. Os efeitos de intimidação desejados são obtidos através das
ameaças, exemplos de terror e, sobretudo, através da publicidade terrorista
em que colaboram os corruptores e, também, por submissão «voluntária», as
vítimas. A vio- ,lência é, efectivamente, o último recurso do crime
organizado, o último meiot@uaasndo todos os outros falharam. Programado
a frio pelos estra eg do sucesso, pelos peritos do assassínio, que não
conhecem sequer a vítima, morta com requintes de pormenor, o atentado
quase sempre permanece impune. Os tecn<)cratas preparam
minuciosamente o assassínio, que não é executado numa base de raiva e de
ódio, mas de um cálculo estratégico. Os chefes, graças à perfeita
organização existente, nunca s.e envolvem pessoalmente e os executantes
limítam-se a obedecer e não sabeni, nem querem saber, o que se encontra
em jogo.

As aparências de legalidade são de um valor incalculável para as


organizações ilegais do cri-me. Têm interesses em enipresas que desfrutam
de boa reputação e compram a respeitabili-
268 AGRESSIVIDADE

dade pelo suborno. Só uma aparência de perfeita legitimidade possibilita a


continuidade das suas actividades ilegítimas. Sem o apoio de personalidades
respeitáveis, a «honrosa sociedade» não poderia obter êxito nem lucros
provenientes das suas manobras e operações. A causa nostra só se torna um
risco para a comunidade nacionalpela cumplicidade activa na corrupção que
esta lhe proporciona. Uma minoria de polícias deixa-se subornar e algumas
empresas legais fecham os olhos quando s.e geram suspeitas sobre
determinado indivíduo. O Governo dos Estados Unidos, que lança uma
campanha diplomática contra o tráfico de heroína, autoriza as vendas de
ópio da tribo dos Meos, no Norte do Laos, porque ela é anticomunísta.

Sem a permanente corrupção e a clandestina cumplicidade dos cidadãos


honestos, os cidadãos desonestos não usufruiriam, por um mês @n@@s que
fosse, o lucro proveniente da sua desonestidade. A opinião pública mostra-se
presa de indiferenças ou movida por um secreto fascínio ante os jogos
perversos destes bandidos românticos. Estes utilizam o ro-mantismo como
trunfo de continuidade. A estrutura implacavelmente calculada da sua
organização permite conter e refrear a agressão. Graças à organização, a
agressão exprime-se geralmente sem violência manifesta. Este hábil contrôle
da agressão serve para obtenção, pelo seguro, de objectivos agressivos,
tanto legais como ilegais. No que se refere à indiferença moral que reina,
nada mais conta do que o sucesso, que tudo justifica. Se a salvação do
mundo se chama sucesso, ele acabará pGr se assemelhar a uma imensa
Mafia.

Os grupos de jovens criminosos encontram-se actualmente num estado de


guerra permanente entre eles e, sobretudo, contra a sociedade. Eles são
membros da selva constituída pelas grandes cidades, rebeldes sem objectivo
definido, «personalidades autoritárias», em lu-ta contra a autoridade e
adeptos do mito da violência pela violência. Até há pouco, os bandos
clássicos das grandes cidades -eram organizações bem estruturadas que
tinham como objectivo conseguir bens convencionais por meios ilegais.
Organizavam roubos, assaltos, chantagens, assassínios, dentro de um
esquema claro e definido que tinha por fim a obtenção de lucros e prazer,
inacessíveis por outros meios. Tratava-se -de Mafias em ponto pequeno,
sindicatos miniaturais que empregavam a violência, mas só em caso de
necessidade, com
AGRESS1VIDADE 269

vista a um objectivo concreto; copiavam os métodos dos grandes, ao serviço. dos


quais acabam por se colocar.

Os grupos da actualidade também condicionam a agressividade potencial dos seus


membros a uma disciplina impiedosa e a -um contrôle hierárquico despótico, mas o
seu fim é de não ter objectivo, ou melhor, de só pretenderem esse
condicionamento. São instituições feitas para o serem. A posição e a glória dentro
de um grupo são atingidas por uma lealdade absoluta, ausência de todo e qualquer
sentimento de consideração humana e emprego ilimitado da força. O acto de
violência não motivado aumenta o prestígio social. Observa-se acombinação de um
rig@roso contrôle de grupo de feição sádica com um total consentimento de
agressão colectiva dirigida a inocentes ou desconhecidos escolhidos ao acaso. Os
chefes de grupo não são escolhidos por aptidões -especiais. São eles, pelo contrário,
que necessitam do -grupo. São psicologicamente mais fracos do que os outros e só
desempenham um paipel relevante através de uma concentração exclusiva na
violência, abstraindo toda e qualquer outra possibilidade.

A força da organização de combate é incessantemente mantida pelo apoio


constante de novos símbolos inimigos: o establishment, a polícia, os brancos, os
negros, os mestiços. Os objectivos que visam com fanatismo permanecem na
obscuridade. O seu maior segredo éo de não o terem. Cada grupo en,contra-s-e
numa mobilidade constante. Por vezes, adere momentaneamente a um outro grupo,
ingressa nas suas fileiras e desmaintela-o.

Todos os meios de contestação actuais sofrem a invasão da ,criminalidade, dado o


afluxo indesejável de indivíduos desenraizados que procuram uma comunidade. Os
poderes não encaram com desagrado esta infiltração de psicopatas e de violentos
que desconsideram as boas causas, pois que, a partir desse momento, encontram-
se em condições favoráveis par@ absorver idealistas e criminosos. Os jovens
criminosos sem motivaçã o constituem apenas uma pequena percentagem, que se
exagera com agrado. Tal como os assassinos de crianças, constituem casos
excepcionais, cuj? número aumenta, no entanto, perigosamente. A organização
primordial de grupo constitui a -satisfação de uma necessidade cultural: cada um
quer e deve acreditar em qualquer coisa, não importa em quê, O grupo representa a
caricatura de um ideal de cultura que engloba a obediência absoluta, a lealdade
total e a recusa de prever perigos a longo prazo e detomar em linha de
270 AGRESSIVIDADE

conta os sacrifícios a consentir ou a impor. Os grupos acabam p.or legitimar


uma violência sem motivo, a violê ncia pela violência, sem peias nem
arrependimento. Eis umponto a evitar: bem perigosa é a legitimidade
absoluta. Acompanha e provoca a violência absoluta.

um díque retém a socíedade

A guerra civil divide o povo em facções opostas. Irmãos e irmãs,


pertencentes à mesma nação, encontram-se separados pela diferençade rã
ças,,class-es e condições e o elo de pertença comum a urna colectividade
confere a-os conflitos uma feição ainda mais grave e mais violenta. Quando
os membros de uma família deixanide se amar, o ódio que sobrevém torna-
se muito mais intenso negativamente.

«Se se lhes dá a mão, agarram logo o pé.» Antes da guerra civil, há


poucomais de cem anos, os negros americanos ter-se-iam facilmente
contentado com algumas atenuações no sistema da escravatura. Durante
decénios aspiraram, apenas, a metade (ou a um quarto) da igualdade de
direitos em relação aos brancos. Hoje@ encontram-se numa situação -muito
mais favorável do que a primitiva em todos os campos; exigem o poder
negro, um Estado negro, completa independência -e, até mesmo, uma
espécie de supremacia, arrogando-se um direito de compensação por séculos
de injustiça.

A guerra civil terminou em 1865 pela unificação de todos os estados da


América e proibição de um sistema de escravatura até aí,consideradoco,rno
uma lei sagrada. A partir desse momento deveriam ser reconhecidos os
mesmos direitos a todos os cidadãos, sem distinção de origem, raça, classe
ou cor.

Afirma-se que não existe problema que não seja proveniente de excesso
populacional e que a educação nã o resolve. As crianças negras poderiam ter
beneficiado da mesnia educação do que as brancas em escolas separadas.
Os estados do Sul nunca se resignaram à derrota militar sofrida. Orgulhosos
das suas tradições feudais, passaram a tratar os negros não propriamente
mal, mas como se fossem animais domésticos. Apesar de todas as
proclarnações de igualdade, os negros não estavam autorizados a utilizar os
mesmos transportes, os mesmos hotéis e restaurantes. Davam passagem
aos, brancos quando se cruzavam com eles na
AGRESSIVIDADE 271

rua. A lei perinitia relações sexuais entre homens brancos e mulheres negras.
Porém, todo o negro, simplesmente acusado de relações íntimas com uma
branca, oumeras tentativas nesse seritido, era condenado a anos de prisão
ou à morte. Todos os pretextos serviam para proibir aos negros o acesso às
listas de eleitores ou de jurados.

As escolas -do Norte, Este -e Oeste dos Estados Unidos ficaram superlotadas.
Os negros do Sul emigraram para as grandes cida- ,des industriais, onde, em
breve, se criaram guetos negros em pleno centro, o que levou a população
branca a retirar-se para os subúrbios. A mortalidade infantil e materna é
quatro vezes superior à,dos brancos. Praticamente metade das famílias
negras não têm pai-é a mãe que assegura a subsístência-e mais de metade
dos negros nem sequer tem um mínimo de sobrevivência. Os relatórios das
comissões elaborados em 1968, 1969 e 1970 concluíram que a segregação e
a miséria produzem uma atmosfera de ódio e de desespero nos guetos que
o, americano branco ignora e nem mesmo seria capaz de imaginar.

Em 1954, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos anunciou o


estabelecimento de um novo regulamento escolar mais de acordo com a
Constituição. A partir desse momento, a palavra liberdade passou a significar
acesso aos mesmos estabelecimentos de ensino. Os parlamentos e
governadores dos estados do Sul, se bem que tendo prestado juramento, de
respeitar as leis comuns, juraram resistir até ao fim. Durante meses seguidos
observaram-se cenas comovedoras nos écrans da televisão: sob protecção
da -polícia federal, as crianças negras iam para a escola, onde lhes -Cuspiam
no rosto e onde as bombardeavam, e às mães, com garrafas e efensas.
Todos os dias rebentavam dezenas de bombas. Várias vezes o presidente
Eisenhower teve de enviar o exército federal para fazer respeitar a lei. Os
brancos do Sul sempre declararam que só eles sabiam tratar os seus
«negros». Apesar da preguiça e da notória inferioridade dos negros, tinham-
lhes ínculcado ideias a que eles por si nunca chegariam. Não é de
surpreender, portanto, que os agitadores negros, os panteras-negras e -os
guerrilheiros se multipliquem por todo o lado, à excepção do Sul, e que as
revoltas de negros rebentem exclusivamente nas cidades do Leste do Centro
e do Oeste.

No decurso da Segunda Guerra Mundial e da guerra da Coreia, brancos e


negros tinham combatido, lado a ladG, tinham
272 AGRESSIVIDADE

sido mortos e assassinado, por sua vez, inimigos brancos até aí sagrados
para os negros. Quando regressavam da guerra, os jovens negros viram-se
aglomerados nos velhos guetos. Participaram no desenvolvimento, geral
donível de vi-da, se bem que o seu apenas duplicasse, ao passo que o dos
brancos quintuplicou. Os meios de comunicação apregoaram a emancipação
das nacionalidades africanas, cujos governantes foram acolhidos pelos
brancos com grande cerimonial.

Uma semana decorrida sobre o fim da guerra civil, o presidente vitorioso-,


Abraham LincoIn, foi abatido pela actor Bo-oth no camarote onde assistia a uma
peça de teatro. O assassino, um novo Guilherme TelI, correu para o palco e gritou:
Sic Semper Tyrannis, depois do que fugiu. Alguns dias inais tarde encontrou-se o
corpo de Booth, que fora abatido. Dizia-se que ele era louco e membro de um bando
de conspira-dores.

No mesmo ano, seis habitantes do estado meridional de Tennessee fundaram uma


espécie de associação de estudantes a que chamaram Cyclos e que se transformou
rapidamente em Ku Klux. Os membros adoptaram títulos retirados,da magia:
«grande cielope», «encantador» e «fantasma» e cavalgavam através da noite
vestidos de branco. Foram os membros do Ku Klux Klan. Durante a-nos seguidos
efectuaram guerrilhas contra o uilegítinio» poder federal: linchagens de negros,
mutilações, assassínios clandestinos e actos de terrorismo espectaculares.

Esta organização de combate, que lutou seguidamente contra os anarquistas, os


judeus, os católicos e os sindicatos, foi perdendo importância. Metida a ridículo,
Iiinitava-se a vegetar, tornada recordação do delírio colectivo de um passado
confuso. Em 1954, no entanto, o Ku Klux Klan recebeu um sopro de renovação,
dadas as decisões em matéria escolar. As cruzes de fogo voltaram a brilhar, os
tribunais secretos reuniram-se e realizavam-se julgamentos secretos. Surgiram,
uma vez mais, os cavaleiros nocturnos que semeavam o pânico e o terror em seu
redor.

Em 1964 (cem anos após a vitória da igualdade e dez anos depois da decisão
federal), o chefe do Ku Klux Klan, Sam Bowers Junior, o ufeiticeiro-mor imp@riab),
de 39 anos, ordena a mobilizacão do Klan, da-do que o «inimigo» (o Estado federal)
projec-
AGRESSIVIDADE 273

tava uma invasão do Mississípi para colocar os negros no poder e pôr em


prática a sua doutrina comunista.

Na mesma altura, o governo federal enviou estudantes brancos ao


Mississípipara assegurar o direito de voto dos negros. Dos
400 000 eleitores negros apenas 24 000 foram recenseados. O estudante
Michael Schwerner e a mulher deslocaram-se voluntariamente a Washington,
se bem que sob vigilância. Recomendaram-se as maiores precauçõ es aos
jovens.

O Klan considerou Schwerner como «judeu católico ateu» e a vanguarda da


temida «invasão». Um dia, um grupo de membros da seita julgou que o
«intruso» estava a incitar os negros à revolta na igreja de Neshoba. Não o
encontrando, porque nessa tarde ele estava no Mississípi, os «cavaleiros
brancos do Cristo» atacaram os negros que se encontravam a rezar,
esmagaram--nos e reduziram a igreja a cinzas. Quando Schwerner regressou,
decidiu, de acordo com a missão que lhe incumbia, fazer um inquérito no
local com os seus colegas brancos Goodinan e Chamey. Mandou avisar as
autoridades para o caso -de não regressar nesse dia. Não voltou: os três
estudanites tinham desaparecido sem deixar ras-to. As buscas imediatas das
autoridades locais foram misteriosamente infrutíferas. O meio estudantil não
se resignou. Conseguiu obter audiência na Casa Branca. Com a autorização
do presidente, o ministro da justiça Robert Kennedy enviou cento e trinta
membros do F. B. L, dirigidos por Edgar Hoover, a fim de procederem a
investigações em Neshoba.

Bastaram algumas horas para encontrarem o carro dos estudantes


incendiado. Averiguou-se, facilmente, que os estudantes tinham sido detidos
durante algumas horas, porexcesso de velocidade, e, em seguida, libertos
após paga uma caução. Teriam partido de novo e nunca mais foram vistos.
Não se conseguiu esclarecer porque não se tinham contentado em prender
unicamente o motorista, e as investigações continuaram durante semanas. O
chefe do Ku Klux Klan declara guerra aos agentes do F. B. L, que constituíram
objecto de ameaças contínuas. Deitavam pregos enferruja-dos nas estradas
por onde eles tinham de passar, furavam-lhes os pneus dos carros,
misturavam açúcar na gasolina, lançavam cães furiosos ao seu encontro,
bombas de cheiro pestilento ou metiam,lhes serpentes dentro dos carros.

Em 1964, todo o estado do Mississípi se encontrava sob o regime terrorista


dos «cavaleiros brancos», um estado dentro do Estado, mantido pelos
guardas da ordem local. Nem brancos
274 AGRESSIVIDADE

nem negros se atreviam a mostrar-se do lado do F. B. I. porque a vingança


do Man era rápida e brutal.

A ipaciência dos homens do F. B. 1. acabou, finalmente, por ser


recompensada. Um informador da polícia federal indicou uma pista segura.
Pouco depois, os dois cadáveres, já em estado de decomposição, foram
retirados de um díquepGr meio de um bulidozer. Ante as provas
esmagadoras alguns membros do Man confessaram. Foi fácil recons,ti,tuir o
crime.

O chefe da polícia inventara a acusação de excesso de velocidade para


prender os estudantes. A detenção dos mesmos permitira que os membros
da seita, informados pela polícia, se reunissem e fizessem os seus
preparativos,. Sob instrução, do subchefe da polícia, os estudantes tinham
seguido e, mais tarde, foram detidos pelo carro da polícia junto de um dique
em construção. Após breve troca de palavras os três rapazes, foram abatidos
e enterrados por debaixo do betão.

Um júri federal apresentou queixa contra os dezoito implicados; o júri local só


consentiu citá-los judicialmente por um delito com consequências máximas
de um ano de prisão e mil dólares de indemnização. Fez-se apelo ao
Supremo Tribunal e instaurou-se novo processo três anos e doismeses depois
da descoberta dos cadáveres em Meridian (Mississípi). Os jurados eram, na
sua totalidade, brancos. Os acusados ficaram, evidentemente, em liberdade
durante o, tempo, que durou o processo. Entretanto, o Man prosperava.
Foram incendiadas vinte e sete igrejas de negros sem que os culpados
fossem descobertos. O número de niembros da seita do Klan subiu de 300
para 5000.
O «feiticeiro-mor imperiab) mandou queimar vivo um proprietário branco que
se tornara indesejável porque auxiliara a inclusão dos negros nas listas
eleitorais. O chefe fez um elogio público dos vingadores anónimos que
«tiinham feito um bom trabalho e que, contrariamente aos assassinos dos
estudantes, se sabiam calar».

Os jurados demoraram muito tempo a tomar decisões. Sob pressão do juiz,


acabaram por condenar dez dos participantes a vários anos de prisão e os
oito restantes, entre eles o chefe da polícia, foram postos em liberdade. Por
toda a parte se celebrou o importante acontecimento, à excepção do Sul.
Nunca, até então, se tinha conseguido que um júri branco dos estados do Sul
condenasse brancos à prisão, quaisquer que fossem os seus
AGRESSIVIDADE 275

crimes, sob pretexto de defesa de honra das mulheres brancas ou


continuidade da discriminação racial.

Em 1968, doze milhões de americanos votaram pela candidatura de George


Wallace à presidência. O programa prometido por este racista fanático,
governador do estado meridional do Alabama, incluía medidas policiais
rigorosas com vista ao domínio -dos negros preguiçosos e insolentes, bem
como à manutenção do equilíbrio e da calma: impor o respeito da lei,
afirmava ele, é a missão essencial do Governo.

Ci perigo branco e o perigo negro

Nodecurso do movimentado mês de Agosto de 1965 rebentou uma revolta dos


negros em Watts, gueto negro de Los Angeles. Os agentes da polícia brancos
tinham detido um jovem negro que conduzia em estado de embriaguez. A mãe do
preso tentou libertar o filho ou levá-lo a reconhecer a falta cometida. O caso nunca
foi completamente esclarecido. Uma multidão hos-til subiu de dezenas para
cen.tenas e finalmente para milhares. Fizeram-se correr boatos relativamente a
violências cometidas pelos polícias e quebraram-se vidros. Os polícias retiraram-se
para evitar provocações. Em breve se desencadearam pilhagens e incêndios. Es,tas
cenas de revolta desfilaram durante alguns minutos nos écrans. Os negros punham
fogos e gritavam histericamente: «Burn, baby! Burn!» A cidade entrou em estado de
alerta e foram mobilizados 13 500 homens da Guarda Nacional. Durante quatro dias
de selváticos motins foram reduzidas a cinzas inámeras casas e mesmo bairros
inteiros. Antes que a calma reinasse uma vez mais, tinham sido assassinadas trinta
e quatro pessoas, de entre as quais trinta e um negros. Alguns meses mais tarde, a
comissão de investigação nacional, imediatamente organizada, publicou um
relatório de 1350páginas. Esta comissão deplorava o crescente recurso geral à
violência, a falta de respeito pela lei e seus defensores, sublinhava a decepção,
cada vez mais pronunciada, dos negros ante o progresso demas-iado lento dos
diversos programas de auxílio, chamava a atenção para o facto de que a crise de
desempregoe subemprego dos adultos masculinos negros representava um
problema social e observava que o extremo potencial de agressividade da
população dos guetos poderia, de um momento para o outro, ocasionar uma
revolta. O relatório
276 AGRESSIVIDADE

definia, finalmente, «a rebelião» como um acto confuso de protesto,


totalmente -destituído de razão e desesperado, como uma vaga criminosa
que inspirou, igualmente, um sentimento de horror entre todos os cidadã os
respeitadores da lei, independentemente da-raça e posição. Os participantes
nos motins (mão passava,m -de uma minoria que precipitava todos os
membros da comunidade numa situação desgostosa».

Depois de anos de colaboração, a nossa clinica agremiara colahoradores que


se ocupavam de uma organização social a favor dos negros de WaLts.
Também já conhecíamos alguns dos amotinadores. Os primeiros feridos
brancos e negros foram, por outro lado, conduzidos para o Hospital de S.
Francisco, em Lyswood, cujo serviço de psiquiatria dirigimos. Concluímos,
pelas análises feitas, que os actores destes acontecimentos dramáticos não
viam

a sua acção de protesto na base de loucura -e do desespero. Consideravam-


na, pelo contrário, o fundamento de uma identidade, um orgulho e uma
arrogância. Eram unânimes em pensar que a nação deveria, finalmente,
tomar consciência do grau de raiva e de revolta a que uma discriminação
sistemática e a violência da polícia tinham levado urna população pacífica.
Através dos seus actos tinham atraído a a-tenção da opinião pública mundial
e mostrado à humanidade inteira que eram homens. As chamas dos
incêndios tinham, finalmente, torna-do clara e manifesta a situação
insuportável dos guetos, até aí dissimulada e negada.

Muitos temiam as consequências das acções de represália: redução do


programa de solidariedade, acréscimo do desemprego e intensificação da
brutalidade da polícia. O chefe da polícia, o presidente da Câmara Municipal
e outras notáveis individualidades tinham feito ameaças nesse sentido. A
maioria dos não participantes estava, no entanto, de acordo quanto à crença
de que a revolta, não premeditada e subitamente desencadeada por um
mero acaso, tinha atingido o seu objectivo, ainda que em nada melhorasse a
situação: a acção era, por si só, uma justificacão suficiente porque constituía
um esclarecimento. A partir desse momento a situação de Watts tornara-se
clara para todos. Passara-se qualquer coisa em Watts, que até aí
permanecera num esta-do de decadência e de apatia. De uma vez para
sempre, ninguém Ignoraria que os negros não se encontravam dispostos a
servir de bodes expiatórios indefesos ante as doutrinas racistas e ilegais de
uma sociedade cruel, irreflectida, surda e cega.

Alguns participantes admitiram ter-se divertido imenso com


AGRESSIVIDADE 277

os saques e incêndios,; e efectivamente, no decurso do motim, à raiva da


-des,truição viera juntar-se uma, vincada fei@ã,o de festa popular. Na
atmosfera geralde Carnaval, em que velo à supeyiície uma agressivida-de há
muito reprimi-da, os rebeldes, electrizados pela sua actividade, não
roubavam para enriquecer, mas para conquistar troféus.

Os gestos de uma libertação. simbólica substituíram, assim, os verdadeiros


actos de independência. Não houve qualquer tentativa de transportar a
revolta para lá dos limites do gueto. Os negros contentaram-se em atacar os
seus próprios casebres miseráveis e as suas pobres lojas. Não se
preocupavam com a obtenção do poder. Queriam provar a vontade de
transformar a sua passivida-de de vítimas em activismo de agressores.
Tornava-se necessário que os tomassem a sério em vez de serem ignorados
e postos de parte. Queriam Limporo medo em vez de ter sempre medo. já
nada mais tinham, aliás, a temer. Quanto mais se comportavam como
selvagens, mais em si se reforçava a convicção de que nada tinham a perder
e arites tudo a ganhar. As acçõ es destruidoras eram acompanhadas de
sentimentos religiosos ou pseudo-religiosos de renovação e de renascimento.

As autoridades exigiram a punição rigorosa de todos os rebeldes. O inquérito


que a comissão desejara fazer quanto ao comportamento e atitudes dos
polícias foi considerado supérfluo. Pouco depois, estalaram revoltas nos
bairros negros de Detroit, Clevela,nd e Newark.

Os acontecimentos de Watts causaram sensação. Todos nos sentimos


envolvidos, uma vez que aprovávamos e desculpávamos a violência
colectiva: não reconhecíamos, afinal, a função de sinal e alarme da violência
e não era à violência que deviam a tomada de consciência do seu valor e
identidade? As opiniões que representamos tornaram-se, entretanto, bem
generalizadas entre a opinião pública. Cinco comissões presidenciais,
inumeráveis grupos de investigação e centenas de especialistas em todas as
matérias tiravam conclusões idênticas: a pobreza e o racismo, o racismo

e a pobreza são as causas essenciais da desordem. Em 1968, uma comissão


instituída pelo presidente declarou: «É o racismo branco o principal
responsável pela mistura explosiva que se acumulou nas nossas cidades
desde o fim da Segunda Guerra Mundial, Constatamos que anossa nação se
dirige no senti-do de uma sociedade dupla: uma sociedade n`eg@a e uma
sociedade branca completamente separadas e desiguais.»
278 AGR£SSIVIDADE

os mo«tins raciais foram, no decurso -dos últimos cinco anos, * fenómeno


mais estudado pelos sociólogos, psicólogos, políticos * economistas. Todas as
comissões temem. o uso da força. Renegam utoda a violência, que nunca
poderia originar uma sociedade melhor. As revoltas e as desordens
aumentam a opressão, mas não a justiça. A colectividade não pode nem quer
tolerar o terror e o poder da rua». As comissões dirigidas por políticos e juris-
tas acabaram por concluir, como a maioria dos sociólogos e psicólogos, que
os negros não se encontram unicamente afectados p@J@ desemprego e
subemprego, pela falta de instrução e pela miseria. Sofrem, acima de tudo,
por serem injustamente tratados. Ressentem-se do seu exílio no gueto e das
condiçõ es sociais ai reinantes como resultado directo do racismo e da
hipocrisia branca. A camada jovem negra parece, igualmente, ter perdido
toda a confiança no sistema actual. já não esperam que esta democracia
vigente, que dita leis e utiliza todas as forças policiaís e do exército, para
oprimir a população negra, alguma vez possa esquecer as diferenças de -cor
e promover a justiça.

Contrariamente às ideias vigentese à propaganda, os participantes não são


criminosos nem psicopatas, Não pertencem aos mais miseráveis, mais
ignoraintes, mais estúpidos índividuos do gueto; são membros da camada
média do gueto. Trata-se, muitas vezes, de jovens desempregados e
ambiciosos, particularmente sensíveis à injusta segregação e aviltantes
discriminaçóes sociais arbitrárias. Os negros vêem no comportamento dos
polícias a atitude geral tomada pelo sistema em relação a eles. Apenas uma
pequena percentagem (toda-via 4 % superior à dos brancos) foi sujeita a
brutalidade por parte das autoridades policiais, mas quase todos têm a
impressão de serem tratados com desprezo. A maioria dos negr?s (com
inclusão dos não participantes) eram de opinão que a origem dos mo,tins
tinha como base os excessos da policia, Por seu lado, a polícia suspeitava de
que os agitadores eram profissionais, militantes estranhos à localidade. Três
quintos da população negra consideraram a rebelião como legítima. Setenta
e cinco por cento dos negros declararam preferir não recorrer à violência e
viver na esperança, alongo prazo, do sucesso de meios não violentos, tais
como a educação e lenta modificação das leis. Seis por cento não
esperavam, todavia, qualquer resultado das negociações, devido a uma total
desconfiança em relação aos brancos. Exigiam ter um estado para eles e
uma nação negra que lhes pertencesse.
AGRESSIVIDADE 279

O Centro Lemberg, centro de consulta oficial do presidente, do Senado e dos


dirigentes nacionais e locais, examinou até ao momento presente 200 casos
de motins de maior ou menor iraportân.cia. Os resultados são sempre os
mesmos.

O ponto de partida é, na generalidade, um incidente insigificante que os


-negros consideram como <),f@-,nsivo ou injusto. Este acontecimento
propaga-se com a velocidade do vento e sofre um acréscimo de pormenor de
pessoa para pessoa. Segue-se uma fase em que se -reúne umamultidão
furiosa que não sabe o que quer. Encontra-se numa posição vacilante e pode
ser ínfluenciada tanto por agitadores como por elementos que preferem a
moderação. Um terceiro estádio constitui, geralmente, obra dos jovens, que
para se divertir e para divertir os outros partem vidros, atiram garrafas e
provocam a polícia.

Até esta fase, existe a Mssibilidade de chamar as massas à razão, quer


mediante negociações com as autoridades, quer por uma demonstração da
polícia. Faz-se, no entanto, geralmente o apelo à pior das estratégias, quer
dizer, a todas e a nenhuma. A polícia, tomada de indecisão, vacila entre uma
atitude de imparcialidade ou actuação exagerada; muitas vezes é ela a ceder
terreno para evitar pTovocações, mas sente-se desesperada por -receio de
perder o contrôle. Quando os adultos começam. a saquear e a lançar pedras
é quase sempre demasiado @tarde. A vio- lência atrai a violência.

Numa quarta fase, verifica-se a polarização das forças: os dois partidos


encontram-se, a partir de então, em guerra declarada.
O aumento de violência é fatal, até culminar na derrota sangrenta ou no total
aniquilamento dos rebeldes. Não se negoceia com rebeldes que passaram ao
estado activo e, no entanto, eles passaram à rebelião para @que se
negociasse com eles e porque nunca se efectuaram negociações com eles.

Os políticos, polícias e burocratas desconfiam da espontaneidade quando a


encontram e, todavia, invocam-se continuamente. Suspeitam sempre da
existência de uma organização por detrás de uma manifestação; dado eles
mesmo estarem organizados, os outros, no seu entender, também o estão.
Confundem as primeirãs fases da revolta com a última e julgam-se no direito
de -recorrer à força que imediatamente desencadeia a quarta fase, que a
partir desse momento é incontrolável.

Em todos os ajuritamentos há jovens extraviados que representam e


exageram os aspectos irracionais do espírito colectivo,
280 AGRESSIVIDADE

Omesmo encontra-se, igualmente, presente nos defensores da ordem sob o


anon,imato do uniforme que tudo legitima, sob forma de homens e oficiais
nervosos, impacientes e apavorados que muitas vezes desencadeiam a explosão do
conflito no moinento menos indicado. julgam-se sempre naposse dos seus plenos
direitos. Granjeiam, normalmeme, o apoio da opinião pública, quaisquer que
possam ser as consequências tácticas dos seus gestos irreflectidos.

No Vietriame, todo e qualquer indivíduo que não use o uniforme pretendido, torna-
se um inimigo.. 9luando, se verificam desordens todas as pessoas presentes,
participantes, espectadores, representantes da imprensa, tornam-se
automaticamente perturbadores perigosos e, portanto, ameaçados: terão de sofrer
as consequê ncias.

Justifica-se muita coisa pela solidariedade. A camaradagem transforma as acções


em reacções e os actos de violência em actos de legítima defesa. Existem sempre
personalidades responsáveis para justificar de antemão ou retroactivamente todos
os actos dos defensores da ordem, negando aos adversários o direito de serem
tratados como seres humanos. O chefe da polícia Parker qualificou os negros de
«bíped,es humanos». A expressão corresponde à de Franz Josef Strauss, que apelida
os esquerdistas de animais. Os extremistas servem-se de expressões análogas para
justificar as suas violências: para eles os polícias são indistintamente canalhas,
bestas humanas e idiotas mal intencionados. O cenário é o mesmo em to-do o lado,
nos guetos, nas universidades americanas

ou nas curopeias.

Os esquemas de comportamento dos autores de desordens e dos defensores da lei


são em todo o lado perfeitamente semelhantes. A anatomia e a fisiologia da
violência colectiva -não organizada assemelham-se onde quer que seja, dado que as
suas causas são as mesmas. Os mesmos factores estão sempre presentes com uma
monotonia que é quase tédio, mas não se age em função deles.

A polícia dos países democráticos, muitas vezes mal remunera-da, mal organizada e
sobrecarregada de trabalho, recebe uma formação ambígua quanto aos -direitos do
homem. Ã sua semelha,nça, as massas populacionais recebem e transmitem
ínformaçoes confusas e contraditórias. Pretendem visar a objectividade e a
educação, mas têm -necessidade de se distrair e ganhar audiência abusando do
sexo e da violência.
AGRESSIVIDADE 281

O todo da colectividade não pode abstrair-se da alternativa: no futuro, deve-


se trabalhar com os adversários para a resolução dos problemas, ou é
preferível eliminá-los? O fenómeno da polarização continua. Os extremistas
dos dois lados cada vez se assem,elham mais no combate que travam; tanto
uns como outros repelem, com desdém, as sugestões de colahoraç@o,
pacífica que rotulam de fraqueza e cobardia. Para eles só existe uma única
saída: o aniquilamento total do adversário. Arrastam pela lama as pessoas
sensatas que pregam. a moderação. E é, no entanto, esta situação explosiva
de desespero e espera frustrada que cri-1 o fracasso e a recusa de
negociações, bem como a demora das reformas necessárias que permita o
desenvolvimento explosivo da rebelião. A mínima centelha inflama os
espíritos e cada um vê-se arrastado, para a tormenta. A imediata informação
pelas massas populacionais serve de caixa de ressonância. Nesta macabra
miscelânea de Carnaval e Apocalipse, de voragem emancipadora e de
carnificina, asmassas são assaltadas por um entusiasmo altamente
contagioso e todos rivalizam em coragem, intrepidez e virilidade.

As investígações feitas posteriormente revelam sempre as mesmas


circunstâncias determinantes: esperança frustrada, sistema de pensamento
sempre mais estereotipado e desconfiança ante as leis e a sua aplicação.

Nos Esta-dos Unidos, a concessão das mesmas possibilidades de trabalho e


de desenvolvímenito e os mesmos direitos de acesso aos postos de trabalho,
tanto por -negros como por brancos, não se torna logicamente possível, dada
a desigualdade de educação, e cultura que os separam. Não se pode esperar
dos negros que confiem na bondade e equidade dos brancos e esqueçam o
des-prezo e a humilhação resultante de séculos de passividade.

São claras as causas dasdesordens. É urna mentira a afirmação de que não


existe paralelo nem precedente histórico que nos possa demonstrar o que
temos a fazer. Quase todos nós conhecemos os imperativos do momento que
vivemos: não é por ignorância nem por maldade que não agimos. Para uma
sociedade de consumo e desenvolvimento, vincadamente orientada para
reali- dades concretas, a renúncia a padrões queconferem uma identi- ,dade
nacional e um afastamento dos clichés esquemáticos de um inimigo, comum
só se tornará possível mediante consentimento relativo a uma transformação
psicológica interior total. O sacri-
282 AGRE8S1V1DADE

fício é grande; exiLyi-lo é, sem dúvida, uma utopia. A verdade, porém, é que
hoje @m dia não podemos permitirnos renunciar a certas decisões utópicas.

O professor depsicologia Kenneth B. Clark, cidadão negro e famoso


especialista de psicologia dos guetos, considera os preconceitos raciais e
suas consequências como parte de um conjunto de problemas existentes na
nossa sociedade. Estes problemas são visíveis na adoração geral do sucesso
e bens materiais existentes na sociedade em que vívemos, na procura de
uma melhoria, na discrepância existente entre os generosos orçamentos
aplicados em despesas de ordem militar, ex,periências espaciais e as
pequenas quantias destinadas às necessidades humanas essenciais. Clark
está de acordo com os racistas num único ponto: a promessa de@ igualdade
democrática de Jefferson fez surgir nos ,negros americanos esperanças cujo
fracasso constituiu um factor primordial da desordem. Clark compreende, na
perfeição, os seus colegas psíquiatras, sociólogos e psicólogos, que s.e
contentam em analisar e tratar os indivíduos e se limitam a trabalhos
,científicos anódinos, sem tocar nos grandes problemas sociais ou nos tabos
colectivos. Pensa que também assumiria a mesma atitude, se ainda lhe fosse
dado escolher a sua vida, que considera arruinada, apesar da fama de que
desfruta. Escreveu quatro volumosas obras, colaborou em dezenas de
comissões e redigiu inumeráveis documentos e memórias.

Qualquer pessoa de boa fé não poderá contestar as conclusões quase gerais


dos peritos: a solução não está em melhorar os guetos, tornando-os mais
suportáveis, mas em suprimi-los. Não é necessária uma reforma das leis
vigentes; apenas se pretende a sua aplicação. A polícia não deve ser
substituída, mas instruída e compelida a -não tratar os cidadãos negros como
se estes fossem sub-homens, ou inimigos nacionais. Bastaria menos de um
terço do orçamento destinado à guerra do Vietname para realizar os mais
ambiciosos projectas de educação e realojamento. Até mesmo chegariam as
somas pagas às inumeráveis comissões e equipas de investigação para se
dar início a um bom trabalho e reduzir os excessos escandalosos do
superpovoamento urbano e dadeficiência de equípamento escolar. Políticos,
sábios e cidadãos esclarecidos de toda a nação partilham essas ideias e não
passam à acção. O essencial é que a calnia e a ordem sejam uma vez mais
es-tabelecídas. Até à próxima...
AGRE8S1V1DADE 283

Make love not ivar

Mantém-se o statu quo pela posse da autoridade e pela autoTidade da posse.

Conhece-se o podere reconhece-se a autoridade. O poder, por vezes


conquistado pela violêricia, só ascende à qualidade de autoridade
reconhecida, à qual se obedece sem pressões nem coacções externas,
quando as suas leis são interio-rizadas pelo indivíduo. Nenhuma prescrição
da violência tem eficiência a longo prazo sem que pelo menos -noventa por
cento da população a siga poy profunda convicção e sem coacção. Esta
adesão individual exige uma legitimação satisfatória. Uma.exígência só
setransforma em verdade, rito e automatismo quando se considera como
justificada.

É uma cultura o que confere a consagração de legitimidade às normas de


comportamento e esquemas de representa@ào que lhe são inerentes. O
indivíduo que sofre de traumas «socio-Patológicos» não pode nem pretende
identificar-se e, consequentemente, não sabe interiorizar os valores desta
cultura. Toda e qualquer alteração das normas culturais nem sempre tern, no
entanto, um carácter obrigatoriamente patológico. O grupo possui,
porém,uma, tendência para considerar o indivíduo marginal co,mo diferente
e, portanto, inferior. A atitude de adopção de escalas de valores de uma
concepção diferente do mundo, a aderência a uma convicçã o diversa mais
elevada ou mais profunda, significa contrariar os princípios da maioria, mas,
de mocto algum, possui urna fe,íção mórbida.

As subculturas são sístemas mais ou menos rígidos de normas de conduta e


pensamento que reivindicam uma afinidade corri uma nação ou raça, grupo
profissional ou convicção política. Constituem comunidades que conferem
urna identidade ao indivíduo e fazem surgir uma solidariedade normativa
que, no seio do grupo, leva a cabo as mesmas missões e determinam os
mesmos efeitos que as culturas dominantes das grandes comunidades.
Osesquemas das subculturas afastam-se dos esquemas habi-tuais vigentes,
sem.que por tal motivo se lhes oponham inteiramente ou lhes sejam
incompatíveis. Referem-se à faceta de agressividade individual que a cultura
geral não sabe conter, regularizar e estruturar.

As subculturas aplicam sanções. Os preconceitos racistas pato@


284 AGRESSIVIDADE lógicos, o fanatismoe a agressividade sem peias não
devem ser considerados, exclusivamente, como sintomas individuais; são, muitas
vezes, partilhados e aprovados por um grupo subcultural importante. É, -muitas
vezes, a anoimalia em relação à cultura geral o que constitui o fundamento das
normas e das sanções subculturais.

A desconfiança em relação aos mais velhos e o desprezo por tudo o que é


pervertido (por se referir ao establishment) são os imperativos generalizados da
cultura contestatária dos jovens. Esta defende o uniforme que adüpta: reforma de
tradições, embora numa conformidade com o sistema, e fá-lo com o mesmo
entusiasmo com que o faz o combatente que luta pela sua bandeíra.

No decurso dos últimos vinte anos o Ocidente inventou, desenvolveu e exportou a


cultura dos jovens; e mais do que tudo isso fez a descoberta da juventude. Noutros
tempos, O jovem escapava a uma obrigatoriedade escolar e, após uma crise
pubretária de rebelião geralmente simbólica, era inseridonas estruturas impostas
pelos adultos: família, profissão e Estado, e ascendia, desta forma, aomundo adulto,
responsável, privilegiado e assim chamado real.

Era obrigação absolutada sociedade pobre integrar, logo que possível, toda a mão-
de-obra disponível no processo de produção e atribuir a cada um o seu papel social.
O bem-estar e o aproveitamento, máximo só muito recentemente reduziram a
necessídade desta pressão. A superabundância de disponibilidade de bens permitiu
aos jovens de todas as classes retardar a sua entra-da na sociedade e, algumas
vezes, retardá-la tempos infindos. Foi assim que a nossa sociedade industrial
ocidental do pós-guerra criou condições para a formação de uma nova pseudo-
espécie: a juventude. A j@ventude tornou-se -um grupo solitário que se considera,
por si so, verdadeiramente humano, que despreza, repele e denuncia os outros, tal
como os outros o desprezam, o repelem e denunciam. É esta mesma sociedade que
a juventude desmascara, critica, ridiculariza e repudia, a sociedade que permitiu e
«fez» a ji@ventude actual.

A princípio os beatnzks, os hoolígans e essa «juventude de flores», que hoje em dia


são os hippies e os @ippies, apenas desejavam viver em paz e no isolamento, longe
as exigências paternas, da solicitude materna, das proibições e iprivilégios sociais.
Estes jovens, intencionalmente sujos e de aparência pouco cui-
A GR E S SI VI DAD E 285

dada, vagi@eavam pelas ruas das grandes cidades, procurando ligações


casuais e uma -satisfação sexual sem consequências. O isolamente,
fortificava em,cada um -deles anecessidade de simbolizar a pertença a um
mesmo grupo, mediante uma forma de vestir semelhante, um vocabulário
primitivo comum e estados detranse provocados pelas drogas, que lhes
proporcionavam a ilusão de ultrapassar a fronteira do individual. A sua ética
do respeito absoluto por todo o indivíduo, sentimento e instante, redobrava
de indiferença ante os valores tradicionais do passado e as exigências do
futuro. A inspiração do momento substituía todos os programas e ideologias.

Estes jovens não se limitavam a desprezar os bens materiais idolatrados


pelos pais; recusavam pura e simplesmente sacrificar o que quer que fosse
para os obter. Aceitavam de boa vontade e sem qualquer reconhecimento o
que lhes davam, mas não se deixavam nem influenciar nem comprar por
presentes ou promessas. Entendiam por bem deixar ficar para trás a
tradição, a cultura

e a civilização; abandonaro barco da sociedade, mas não pretendiam


reformar ou revolucionar o mundo.

O abandono de uma rigidez no campo da moral sexual proporciona uma


imensa oferta de prazer. Porquê recusar qualquer prazer, uma vez que a
sombra da bomba atómica paira sobre o futuro? Todas as experiências dos
pais são postas de parte, todos os indivíduos se encontram legitimados pelo
simples facto de existirem e todos são intrinsecamente iguais. Os esforços,
méritos e resultados não contam. Não há qualquer autoridade ou instituição
que tenha o direito de pedir a alguém qualquer coisa contra sua vontade.
Recusa-se todo o programa que tenha um carácter naturalmente obrigatório
e a nova. juventude recusa igual-mente to-das as coacções, a técnica, o
racionalismo e, sobretudo, a violência. Fazer amor e não a guerra - eis o seu
lema.

Era clara a atitude desta juventude frente à sociedade. Pretendia abandoná-


la. Foram precisos muitos acontecimentos para que esta tentativa pacífica de
afastamento se transformasse numa embriaguez activa de destruição e de
terror.

Os vários establishments não estavam prepara-dos para o eco mundial com


que foi recebido o protesto da sensibilidade juvenil contra os excessos da
competição, avidez e coacção. A princí,pio consideraram esta recusa
obstinada dos jovens como a continui,dade nevrótica de uma crise de
puberdade, mas em breve se aperceberam da ameaça e do perigo que a
mesma constituía.
286 AGRESSIVIDADE

Os jovens de todo o mundo protestavam solidariamente contra o fenômeno


mundial do totalitarismo burocrático e técnico. Os establishments
considerarani esta atitude como sintoma de decadência moral. Adoptaram,
igualmente, um comportamento de defesa.

Estes jovens impertinentes, estes desmancha-prazeres conspiradores e


-estes indolentes exploradores tornarani-se revolucionários barbudos. Ã
sociedade agra-da-lhe ter um objecto de agressividade sobre o qual
descarregue da consciência tranquila os impulsos reprimidos. Os jovens iriam
ser esse objecto. Esta nova minoria da subcultura juvenil, uma pequena
parcela dos jovens, enquadrava-se ,particularmente neste papel de bode
explatório. Os jovens distinguiam-se com facilidade graças aos cabelos
compridos, às barbas e, alguns, devido ao cheiro. Eram, por outro lado,
desorganizados, passivos, indefesos e a sua desejada superiorida,de moral
fazia-os obstinados e rebeldes atoda e qualquer influência. Em breve
tornaram-se o alvo da agressão oficial e da polícia. Todos os establishments,
quaisquer que fossem as suas crenças políticas, reagiram ao desafio moral
da juventude com ,nervosismo, incompreensão e brutalidade no meio dos
aplausos da maioria.

Gerou-se um clima de perseguições que deu uma nova existência à unidade


nacional. As classes -menos favorecidas, que nada têm e, portanto, aspiram
a estes bens materiais despreza-dos pela juventude, consideram estes
adolescentes como estragados pelo mimo -e parasitas arrogantes que lutam
pelo ascetismo, porque ,desconhecem a miséria. A classe média sen,te-se,
igualmente, PTOvocada e ridicularizada. O trabalho é para ela unia necessidade e
uma lei ética. Se os jovens tivessem razão, os elementos da classe média,
patriotas e trabalhadores, ter-lhes-iam estragado a vida.

Na Alemanha tratavam-se os jovens como macacos cabeludos e filhos de


prostitutas. Queriam ex,pulsá-los e desinfectar o mau cheiro que deixavam
com bombas incendiárias. Cada vez era mais evocado o trabalho. Tudo se
passou, igualmente, em França, Inglaterra e Itália. Na América foi pior.
Durante -meses seguidos metralharam com cartas os pais de uma infeliz
rapariguinha de Catorze anos cujo único crime consistia em se ajoelhar,
desfeita .em lágrimas, diante do cadáver de um estudante abatido pela
polícia. Alguns queriam arrancar as unhas dos culpados, condená-los à prisão
perpétua e submetê-los a torturas monstruosas.

A nova minoria não punha em questão simplesmente um


AGRESSIVIDADE 287

determinado sistema social, mas todas as sociedades e todos os sistemas. A


sua crítica patética era moral e total e não política e planificada. É esta
dimensão moral da contestação juvenil que lhe permite alargar-se a todo o
planeta, mas que ao mesmo tempo a condena em todo o lado, pelomenús a
curto prazo, à ineficácia. Teve apenas o efeito de um boomerang, certamente
não o pretendido, que provocou na Alemanha, nos Estados Unidos, em
Frainça e na América do Sul a coligação e o reforço das forças tradicionais da
ordem. Os poderosos só se encontram, porém, de acordc, para exercer actos
de violência e combater os jovens contestatários no. seu próprio. campo. Os
estudantes rebeldes de Praga e de Varsóvia são aclamados como heróis da
liberdade no Ocidente, enquanto -os de Berkeley e de Berlim. são criticados
e acusados de crime. No Leste, o processo é o mesmo no contexto
coln,trário,.

No Leste, as desordens universitárias foram reprimidas por meio dos


vulgares métodos totalitários. No Ocidente, os jovens foram, a princípio,
castigados por infracções a normas de disciplina e utilização de drogase,
seguidamente, encontraram aliados nas minorias oprimidas do seu país e,
sobretudo, no estrangeiro junto dos inimigos do regime. Retratos de Mão, Ho
Chi Minh e Che Guevara ornamentavam as miseráveis instalações
comunítárias do novo proletariado estudantil, que, no entanto, nada possuía
do que, material e humanamente, permitiria a nascença de um verdadeiro
movimento revolucionário.

As demonstrações, por mais desordenadas e acesas que sejam, podem,


decerto, causar inquietação e prejuízo se os partidários e os opositores
juntam os grandes discursos a actos perigosos. Um facto é, no entanto,
indiscutível: -nunca resultam transformações revolucionárias. O efeito é até
-contrário: pela reacção, que suscita-m, reforçam e perpetuam instituições
em decadência.

Gaudeamus...

Como em quase to-da a parte, aliás, os estudantes franceses tGmaram


consciência de estarem pTivados de todo o direito à palavra nos assuntos da
Universidade. Os «acontecimentos de Maio» cncontTam-se ainda presentes na
memória de todos. Operários e estudantes reuniram-se na luta pela mesma causa.
O país ficou paralisado durante semanas. Foi um princípio de agressão
288 AGRESSIVIDADE

organizada, cujos sangrentos combates nocturnos entre polícias e estudantes


sublinharam o carácter de generalização. A violên-cia arrastava novos actos
de violência repressiva. Á agitação reinavaem todo o lado; tudo eraposto em
questão e debatido. Em França, tal como anteriormente, os estudantes não
conseguiram, em Maio-junho de 1,968, conquistar a simpatia de gande parte
da opulação, nemprovocar o apoio e uma verdadeira colaboração %a sua
parte. O resulta-do conservador das eleições que se seguiram foi
essencialmente motivado pelo medo da anarquia que assaltara o país. Na
Alemanha, na Escandinávia e na América, as eleições traduziram, de forma
confusa e preventiva, a hostilidade geral contra os jovens, devido ao receio
de ameaças no plano económico e do caos.

A acção da juventude tinha,em todo o lado, como objectivo acelerar as


reformas em matéria -de educação, reformas que se considerava terem
permanecido em suspenso tempo demasiado. Na Alemanha os estudantes
rebeldes proclamavam o direito de participação, definição clara do processo
de exames e licenciaturas, bem como diminuição dos privilégios dos
professores. Em Berkeley e outras universidades americanas os estudantes
reivindicaram, como factor primordial, a liberdade de palavra nos círculos
universitários e insurgiram-se contra o contrôle das universidades por corpos
estranhos ao meio, como industriais e os representantes da aliança da
indústria e do exército. Os estudantes uniram-se, de perto ou de longe, a
todos os inimigos do sistema em todo o lado onde os conseguiram encontrar:
na Alemanha, aos activistas da Nova Esquerda; em França, aos comunistas,
para os abandonar dias mais tarde, e nos Estados Unidos a pessoas de cor e
explorados -de todas as categorias.

A cultura -da juventude, que até aí se conservara passivamente afastada, só


nessa altura se transformou em contracultura e adaptou-se exactamente a
estes esquemas de polarização que tinha desprezado e de que pretendia
libertar-se.

Os jovens julgavam possuir todos os direitos porque tornavam a geração


anterior responsável por todos os males que assolavam o mundo:
responsável por Auschwitz, Hiroxima, Viemame e perseguições raciais; pela
pobreza, utilização da violência manifesta na guerra e dissimulada, secreta e
inconfessada nas instituições coercivas da sociedade. Acreditavam que a sua
juventude os fazia saber tudo melhore com antecipação; interpretavam todos
os acontecimentos antes de se terem verificado e sempre dentro
AGRESSIVIDADE 289

,do mesmo esquema. Em breve a revolta veemente, espontânea, mas não


violenta, contra a injustiça e a violência deu lugar a uma imitação calculada e
a um culto de violência. A grande recusa da aceitação de um comportamento
alienante estereotipado e fonte de ódios cedeu lugar a uma atitude
pretensiosa e uma má utilização de liberdade.

Os hippies inofensivos e pacíficos viram-se.ligados aos desesperados de


todos os lugares, terroristas encarniçados, criminosos e loucos que s.e
infiltravam -na cultura da juventude e utilizavam

o seu prestígio moral, a fim de se servir da violência terrorista ,como


contraviolência legítima. Sob a influência geradora da agressividade do
establishment de um lado e a população burguesa do outro e, em seguida,
devido à infiltração de elementos estrangeiros e agressivos ainda de outro,
os jov ens foram arras-tados no turbilhão dapolarização agressiva.
Desenvolveram o activismo sem discernimento, a acção pela acção, que
sempre degenera em terror manipuladoe arrogância da élite, que, à margem
de todas as leis e de todas as normas, reserva para si os julgamentos de
valor e justifica automaticamente tudo o que prejudique o partido adverso e,
principalmente, o emprego da violência. A ênfase dada exclusivamente à
individualidade, a recusa de submissão a qualquer obrigatoriedade e a
ausência de compromisso moral tornaram a cultura dos jovens
primeiramente como alvo legítimo de agressão e, finalmente, no plano
contrário, como fonte de agressão.

Actualmente, a polarização entre cultura e contracultura intensificou-se a tal


pon@o que ou se amaldiçoam os jovens tratando-os como loucos, crimi-
nosos. amorais e nevróticos ou se faz

a sua idealização, como a última tábua de salvação do Ocidente. Para uns, a


-cultura dos jovens é uma aberraçã o perigosa, a revolta de psicopatas que
se devem combater com os habituais métodos policiais e psiquiátricos. O
público é indiferente aos -motivos de uma violência destruidora. Não se
discute com os autores da violência; há que encerrálos sem ter em -conta se
se trata de criminosos habituais ou políticos, racistas militantes ou panteras-
negras, estudantes ou loucos. Os admiradores da juventude elogia,m, pelo
contrário, o idealismo, o espírito de sacrifício e a sensibilidade da nova
contracultura, que, pela sua mera existência, fornece as respostas às
perguntas que o próprio sistema em vigor não ousa fazer.

Na crise central da sociedade industrial ocidental, os jovens

10
290 AGRESSIVIDADE

-que ninguém tomava a sério enquanto não utilizavam a violência - tinham


desmascarado e revelado, à luz do dia, a viGlência.inerente aos sistemas de
domínio e sua manutenção,. Ao experimentar novos estilos de vi-da, as
«contra-instituições» e uma consciência não alienada, a nova cultura pareceu
indicar um caminho para lá de um presente dominado pela violência e
baseado em valores materiais, tecnocrático e abandonado por Deuse
tendendo para uni futuro pacífico, humano e crente. Kenneth Ketiniston, um
dos cronistas mais esclareci-dos da nova cultura actual, afirma que nos
nossos dias a influência recíproca das culturas divergentes representa
unipoderoso impulso a favor do desenvalvimento moral. A revelação das
contradições entre os gandes princípios e as acções vulgares teria, segundo
a sua teoria, ipermitido aos jovens de todo o mundo compreender
claramente até que ponto. as concepções etnocêntricas egoístas eram
relativas e insatisfatórias e também adquiriu uma nova ética e uma -cultura
comum. Lawrence Kohlberg esquematizou à maneira dos graus de Piaget
umatipologia do desenvolvimento Moral. Chama ao primeiro grau estado pré-
convencional, ao segundo estado convencional e ao terceiro estado pós-
convencional.

O desenvolvimento moral passa do egoísmo ilimitado, apenas moderado pelo


receio de punições -externas, ao conformismo e, finalmente, ao,
desenvolvimento de valores próprios que seriam afirmados até contra a
resistência do meio ambiente. Estas fases morais -de desenvolvimento
seguir-se-iam umas às outras sempre namesma ordem e, apesar das
diferenças individuais e culturais de duração, seriam independentes de
-quaisquer classes, raças ou religiões; num conjunto seriam idênticas em
todo o lado. De acordo com as capacidades básicas humanas, todas as
sociedades desenvolveram, enquanto sistemas, instituições complementares
comuns bastante semelhantes entre si, tais como a família, a economia -e o
governo, que provocam, igualmente, esperanças comuns e por assim dizer
universais. Uma vez que os princípios de toda a estrutura social são,
osmesmos, Sócrates, LincoIn e Gandlii compreender-se-iam -entre si ao
enunciarem -princípios gerais que se poderiam -resumir, da melhor forma
possível, sob a designação de «j*us,tiça».

Não se pode evitar já o contrôle moral. Entre os estudantes Contestatários


encontrar-se-iam, antes do mais, representantes da nioral pós-convencional
e, de facto, igualmente um bom número que -nunca teria ultrapassado o
estado pré-convencional onde
AGRESSIVIDADE 291

caíra. O tipo convencional poderia, ao -tentar a passagem difícil à fase pós-


convencional, recair na fase pré-convencional. Agiria, então, de forma
egoísta como dantes e veria em si mesmo o único critério de valor -das suas
acções. Kohlberg designa esta frequente regressão como o «síndroma de
RaskoInikov».

Talvez chegue a uma plenitude -de cultura, o que acontece à maior parte
-dos -seus indivíduos. Na verdade, a jovem cultura ,moderna falhou por
aderir aos seus próprios valores. Em nenhum lado alcançou os seus próprios
objectivos, não alargou a consciência colectiva enem sequer climinou ou
atenuou o poder dos monopólios, da técnica e da burocracia. Em nenhum
lado alargouo campo de liberdade para si ou para osoutros e acabou por ,cair
na po-larização. da violência, que anteriormente pusera a descoberto. A
orientação exclusiva para o momento presente e o abandono sem
compromisso de programas políticos baseados na lógica em benefício, de
instituições morais, confusas e individualistas só poderiam conduzir à
liquidação, à violência ou às duas coisas.

O primeiro sucesso sensacional da violência (aqui sofrida e e não exercida)


precipitou o fim da embriaguez da unidade e da solidariedade. O
establishment reagiu a este conformismo de não-conformismo, que
desprezava todos os valores tradicionais e se dizianão violento, primeiro com
incredulidade, espanto e surpresa e -depois, muito rapidamente, com
brutalidade e violência. Desenvolveu-se assim ummovimento entusiástico
através da possibilidade do martírio. O establishinent viu, simultaneamente,
na contracultura um mercado lucrativo que organizou e ma-nipulou. Simulou-
se, então, a música espontânea e sincera nos écrans do cinema e da
televisão. Em centenas de armazéns vendia,m-se vestuário e ornamentos
hippies fabricados em série e garantidos como únicos no género. As grandes
organizações internacionais do crime apoderaram-se do novo mercado e
inundaram ,Os hippies das drogas mais nefastas, tais como a metedrina e a
heroína. Dois heróis da nova cultura, Jimi Hendrix e Janis Joplin, bem como
milhares de outros jovens, morreram após ,terem ingerido doses excessivas
da droga. Enquanto nas cidades os criminosos de pequena e grande
envergadura se imiscuíam no movimento em massa, os actos inexplicáveis
de brutalidade tornaram-se cada vez (mais frequentes e insensatos. Deste
movimento colectivo apenas restou uma massa desorganizada, sem
direcção, sem programa e sem entusiasmo.
292
AGRESSIVIDADE

Neste mesmomomento em que os filósofos e os sociólogos julga,111


Plessentir, na transformação da consciência da nova cultura,
a,tra:nsformação universal de todos os males institucionais de um sistem2t
coercivo, os establishments triunfam em toda a linha e, graças sua organização
lógica, tomaram simplesmente o movimento seu cargo, explorando-o no sentido,
das suas conveíniências. . Os restos da contra-cultura desintegraram-se do interior
para cair n@i confusão e na desordem. A tentativa de libertação por uma
Misformação de consciência constitui um triste e miserável fraca180 baseado numa
resignação.

Os jovens unidos na sua oposição a toda a violência, deram, todavia, uma'lição, ao


mundo, até mesmo no seu fracasso, antes que a,klarização e o emprego abusivo, da
violência viessem imP'cdi-r tMo, o ganho colectivo da experiência e toda a profunda
renGvaÇ@o social. A exclusiva insistência nopresente e a exigência de u.m.@
solução total e imediata, bem como de uma acção libertadora, constituem
preparativos de violência que provocam, nec-essa,iamente, a própria violência,
ainda que pareçam negá-la e combatê-la. A recusa desta nova cultura como solução
valiosa no, que se refere às estruturas actualmente em vigor não assegura, no
Cnt@IitoI a sobrevivência destas estruturas.

S Progressos da técnica moderna, da burocracia e da ciência col % omundo,


ocidental ante uma escolha: será de desejar o avan@,3 cada vez mais pronunciado
do processo com os meios cada vez mais importantes de que dispomos? Konrad
Lorenz analisa a hostilidade cultural da juventude, perigosamente contrária às leis
42,biologia, e chama a atenção para o, facto de que a nos@a ‘cultura, sob sete
formas diferentes pelo -menos, de entre as quais a Pior `kria a instrução,
-parecetender para o suicídio. Os problemas do contrôle, absolutamente necessário,
da agressão (e do contrôle dos próprios controladores) continuam -por resolver,
ainda qUe a nova cultura tenha demonstrado, com o seu exemPlo, que a agressão
que quer permanecer livre não conduz à liberda,@C nias a uma forma primitiva de
agressão, quer dizer, à violênci;@-’

A nrjva cultura não inventou a moral, o direito e a rejeição da h'Pocrisia A impressão


de uma quebra total com o passado provém do facto de que a -nova cultura
transformou os temas secundários em;temas primários. Tornou a realidade mais
variada, mai@ entusiástica, mais ardente, mais atraente e revelou as
AGRESSIVIDADE 293

possibilidades ocultas do prazer lúdico, da alegria e da felici dade. Como


espaço de um momento histórico, representou a mnidimensionalidade» do
homem, vítima da febre do ganho e do poder, até que, por decepção e raiva
à persistência da irracionalidade e da crueldade, ela inesma caiu na irracio-
nalidade e na violência.

Não se pode, no entanto, considerar a nova cultura culpada do grande mal


do nosso século. Não é responsável pelas guerras -contínuas, pelo problema
da fome no meio da abundância, pelo ódio racial, pela poluição atmosférica,
pelo superpovoamento, pela desumanização através da burocracia e da
técnica e, sobretudo, pela obsessão do poder e da posse. A urgente
humanização dos métodos administrativos, a lealdade livre de todos os
meios de informação, o acesso efectivo aopoder, bem como uma nova
repa,r@Íção da propriedade e do poder, permitindo uma autêntica
participação no processo social, são, de facto, hoje em dia, possibilidades a
um tempo concretas e realizáveis. A sua realização só será impedida pela
ilusão da miséria permanente e paralisação de afectividade.

Na aspiração geral dos homens em relação à justiça, e que ainda se expressa


em termos de racionalização e justificação, ressoa a redescoberta, da
confiança de que o mundo pode conseguir, senão a perfeição, pelo menos
tornar-se melhor.

Nenhum esforço humano atinge a perfeição, mas também nenhum fracasso


s.e assemelha a outro. Ainda está para acontecer a emancipação, não para lá
de, mas no sentido de uma situação humana.
N Ã
A MENSAGEM OCULTA DOS MEIOS

DE COMUNICAÇÃO

o e importes», diz o marido à mulher, que não assistiu à transmissão,


pela televisão, da morte de Oswald -

o assassino de Kermedy-por Ruby. «Dentro de alguns minutos vão


repetir a transmissão.» Este momento dramático da história da
televisão, referente ao assassínio do presidente, foi assim repetido
continuamente até ficar bem retido na consciência do públi@co, como
se se tratasse de uma imagem a acompanhar uma frase publicitária
ou uma cena de um apreciado filme de série.

O mundo faz a sua aparição na casa, na sala de jantar, no quarto, de


dormir e, sobretudo,, no quarto das crianças. A realida,de -e os seus
slogans são,convidados que se podem comandar à vontade pelo
simples rodar de um botão. No país paradisíaco que é a televisão, a
realidade é muitas vezes refundida, pouco importa como. Pode-s-e
repetir, estilizar e dramatizar a realidade

como se quiser. As video-cassettes aindamais facilitarão essas


possibili-dades. Não há, no entanto, hipótese de se lhe fugir. A
televisão é umaespécie de produto maleável que se pode adaptar ao
gosto e ouvido -de cada um e condimentar de violência. Pode-se
mastigar sem ter necessariamente de se digerir, pode-se estar
ocupado sem ter de se fazer nada. A atenção encontra-se presa sem
se concentrar em qualquer coisa de particular. É uma droga a que nos
habituamos sem dar por isso.

O prazer dos adultos constitui material de ins,trução para as crianças.


O professor electrónico, para pequenos e grandes, ensina às crianças
como é o mundo e informa, simultaneamente, os adultos sobre o que
sepassa. Às vezes falta-se à escola mas nunca à -emissão
televisionada. A paciente baby-sitter, a estimada peda-
296 AGRESSIVIDADE

9 Ya de todas as horas, tornou-Se a fonte de informação, explica-

publicidade e influência do comportamento mais importante da nossa época.


O facto de se gostar de ver as crianças não implica, obrigatoriamente, que se
goste de as ouvir. Hoje, porém, esse problema não existe. Elas ficam
absorvidas pelo pequeno écran, como que petrificadas; não têm perguntas a
fazer, nada a dizer nem a contestar. Para a criança o -pior castigo é a
proibição de satisfazer esta suanecessidade que não lhe exige esforço e lhe
dá prazer. Os últimos restos da autoridade dos pais em breve passarão a
expressar-se mediante privação de uma emissão de ,televisão, privação que
poderia, no entanto, forçar a criança, actualmente condicionada pelos clichés
televisivos, a desenvolver e experimentar os seus sentimentos próprios e
autónomos.

Nos programas americanos televisionados, são transmitidos actos de


violência extremade 16,3 -em 16,3 minutos, sem contar comos desenhos
animados que lançam para o ar os nossos bonecos favoritos, que se tornam
heróis de verdadeiras orgias de crueldade. As apreciadas criaturinhas
disparam unias sobre as outras e espezinham-se de dois em dois segundos.
O rato, o gato, o crocodilo e o monstro são fulminados, destruídos,
pulverizados, e tudo continua alegremente, como se nada se tivesse
passado. A violência, até quando levada a extremo, aparece como inofensiva
e mesmo imbuída de um tom cómico. Não se fazem comentários ao
sofrimento das vítimas e à tragédia da sua morte. As crianças,
constantemente bombardeadas com estes exemplos, apegam-se-lhes com
zelo e, mais tarde, virão a utilizar a violência contra os seus adversários
humanos, a quem descerão ao nível de cães capitalistas ou -porcos
comunistas, fazendo-os sair projectados dos aviões e obtendo, assim,
frequentemente uni prazer divinal.

Desde os cinco aos quinze anos a criança americana assiste à aniquilação


total de cerca de 13 400 -pessoas. As emissões televisionadas e os
programas cómicos convidam à imitação. Mobilizam e dão forma ao modo
infantil, ípermitindo ao receio cristalizar-se sob forma desse monstro inimigo
que se poderá aniquilar impunemente.

Os pais, fatigados e sobrecarregados de trabalho, dificilmente podem entrar


em concorrência com os progranias televisionados de diversão, sempre
movimentados, excitantes e fantasistas. Deixaram-se de aprender as boas
maneiras à mesa com a família para se passar, frequentemente, à -repetição
do que se vê na televisão.
O infatigável convidado fantasma definirá o prato favorito, a
AGRESSIVIDADE 297

alimentação. mais sã, o presente que se deseja e o vestuário que se deve


usar. Ao exortarem aberta ou implicitamente a que os imitem, as
personagens da televisão tornam-se modelos: esquemas de comportamento,
de conflitos, de solução de conflitos e de moral. Não passam,
frequentemente, de modelos ou manequins de violência.

As revistas, os livros cómicos de quadradinhos e a televisão aju@am a passar


o tempo e fazem-no com uma eficácia tanto maior quanto mais os roubos, os
incêndios e os assassínios -sem falar de sexo-são focados. O efeito de
imitação é o mesmo, quer as cenas de violência sejam focadas num estúdio
ou provenham da vida real, até mesmo nos casos em que esta diferença é
-pouco, perceptível. Graças a experiências em grupos de crianças de idades
diferentes, Bandura e, mais tarde, Bei-kowi-tz puderam provar que a
incitação à violência originada por exemplos de agressão é o mesmo, quer
estas cenas de violência, que se prestem à imitação, ocorram na vida real,
em filmes ou em bandas desenhadas.

O comportamento agressivo, tal como muitas outras formas de


comportamento, tende a alargar-se e a generalizar-se. Uma vez aprendido e
praticado será aplicado e empregue noutras situações. A afirmação é válida
paratodas as crianças e amaioria dos adultos, e não só para os anormais,
que, postos de antemão antI(@ exemplos de agressão, deram provas de uma
acentuada predisposição em relação à mesma.

Nos nossos dias, a televisão americana produz, tanto nas crianças comonos
jovens, -e ao longo das suas fases de desenvolvimento, um efeito
semelhante ao de três a cinco horas de interrogatório feito pela polícia,
torturas e lavagens ao cérebro.

Os primeiros e mais importantes meios de comunicação foram os livros. No


entanto, apenas se @tornarani acessíveis a um meio bem específico,
delimitado por barreiras de linguagem e de educação. A maioria dos homens
dessa época eram e permaneceram analfabetos. Após os livros, jornais,
revistas e pujblicações populares, surgiu a segunda vã” de meios de
comunicação: o disco, que se pode conservar e ouvir sempre que se quiser, o
filme mudo e a T. S. F.; logo a seguir, o filme sonoro, que integrou,
simultaneamente, os sentidos da vista e do ouvido. A televisão, no entanto,
ou seja a quarta vaga, conseguiu dirigir-se aos sentidos mais importantes,
graças à interacção do som, da palavra e da imagem. Este meio de
comunicação não tem necessidade, por
298 AGRESSIVIDADE

outro lado, de um lugar especial, -não precisa de bilhete de entrada nem de


preparação ou esforço individual, experiência ou formação preliminar. A
representação multissensorial e fiel da realidade produz uma influê ncia
enorme sobre grandes e pequenos, qualquer que seja o seu nível de
inteligência e situação social.

Na ausência deuma preparação activa atinge-se a passividade indiferente da


escravatura, inferioridade e infantilidade em relação à vida. A televisão não
representa o ponto de encontro da comunidade, mas o ponto comum -de
evasão da família, considerada, enquanto público, em miniatura. Hámuito
tempo que os gostos -do público são interpretados de uma tal maneira que o
nível das emissões assume uma feição primitiva e violenta.

A necessidade de conceitos e ideologias popularizadas é tanto maior quanto


mais isolada seencontra a comunidade de espectadores e mais alienada ela
é.

Damesma maneira que os polícias não superam, na generalidade, o


ambiente de brutalidade em que vivem e que pelo emprego da violência
combatem e, consequentemente, favorecem’ osmeios -de comunicação não
são, na sua essência, mais sanguinários do que a necessidade -de crueldade
existente no público, necessidade que tendem a satisfazer e,
cGnsequen,te,mente, reforçam. O -objectivo dos meios de comunicação
deve, obrigatoriamente, ser o sucesso, tal como o da polícia é a ordem.
Devem impor-se à atenção do público pela livre concorrência e uma
competição impiedosa. Pouco lhes importa a violência desde que, através da
publicidade, a sua acção faça do público um consumidor atento. Este o
motivo -da -crença de que tal objectivo só poderá ser alcançado por meio de
uma vioJência espectacular e excitante.

A violência emprega o ardil da dialéctica a fim de se fazer passar por legítima


defesa de fins mais elevados. A violência actua, pelo contrário, nos meios de
comunicação. como um artifício para incitar o público a um maior consumo.
A necessidade de consumo assim criada activa a produção dos bens
necessários e dos bens inúteis, que, por seu lado, criam à sua volta
necessidades sãs -e outras pernici-osas com iguais pretensões a serem
satisfeitas. Por meio de uma imagem simplista da violência, a espiral do
consumo e da produção (incrementada por estimulantes que não -trazem
satisfação mas um estado de tensão orientado para novas necessidades)
sobe sempre mais alto.
AGRESSIVIDADE 299

A utilização da violência aumenta a necessidade e o consumo da violência.

Em todo o lado os meios de comunicação influenciam decisivamente a


consciência geral e indirectamente o inconsciente, as

opiniões, as atitudes e os actos do público. Graças à escolha, estilização e


reforço de excitações, os meios de comunicação são jornalistas, cronistas e
simultaneamente produtores de uma realidade representada e, em parte,
criadapela sua retransmissão selectiva. Todo o juízo depende da informação
a que se apoia. Os meios que transmitem ou seleccionam as notícias
sãotambém os mestres desta faculdade de julgamento que parecem servir.

Dado o poder de penetração, até aqui inigualado, dos seus conceitos e


sistemas de valores a que foi dado expressão, os meios de comunicação são
no Leste e no Ocidente, quer o queiram ou não, importantes instrumentos de
poder e factores políticos extreniamente influentes. As nossas investigações
-relativas à influência dos meios de comunicação no aumento gradual da
violência demonstraram empiricamente, tal como outros estudos, que a
faculdade decisiva não reside nas exigências dos mesmos em si, mas no seu
contrÔle e conduta.

O contrôle ilimitado dos meios de comunicação é consequência e causa da


formação de Estados totalitários. O Poder não poderia permitir a cedência a
outros do contrôle dos esquemas de valo-rem que assenta o seu monopólio
de poder. O sistema de livre concorrência ainda é, no entanto, a melhor
protecção do consumidor e a garantia de qualidade das preduções. A
sobrevivênciadas democracias poderia depender deste facto: é possível gerar
o instrumento de poder -e domínio dos meios de comunicação de uma forma
objectiva, profissional e independente, pondo à prova a imaginação? Os
meios de comunicação utilizados para propaganda ou diversões acabam por
convi-dar ou incitar à utilização da violência. Os detentores do Poder, e os
que o ambicionam, encontram-se pouco predispostos a reconhecê-lo.

É, porém, precisamente a faltade reconhecimento deste facto

e a indiferença face às suas consequências o que impede os meios de


comunicação de ajudar a maioria da comunidade a atingir decisões
respons@v@is e soluções pacíficas. Nos Estados Unidos, as firmas comerciais
financiam quase todos os programas e interrompem-nos continuamente
mediante sloganse imagens publicicitárias.

Torna-se muitas vezes difícil estabelecer a distinção entre o


300 AGRESSIVIDADE

interiúdio e a iprópria emissão. Quando o -tom de voz do locutor soa a


veracidade trata-se, com certeza, de um anúnciopublicitárío e não de
notícias. Os partidos políticos pedem uniformidade quanto à organização dos
programas de televisão. Ronald Reagan, governadordo maior estado
americano, a Califórnia, foi grandemente ajudado na sua campanha graças à
sua carreira de actor, que o tornou conhecido do público no papel de herói de
inúmeros westems. O público -que assistiu aos filmes habituou-se à ideia de
que o próprio Ronald Reagan sabia seguramente distinguir o bem do mal.
Nas sessões de filmes antigos pode ouvir-se Ronald Reagan, jovem e
entusiasta defensor da ordem e da paz, expressar as.suas. opiniões e juízos
de valor do realizador dos seus filmes, opiniões que o governador, ainda
apesar dos anos, adopta nos discursos políticos como os seus mais antigos
princípios pessGais. O Senado dos Estados Unidos é, a seguir à Presidên£ia,
o órgão executivo mais importaínte do mais poderoso país do mundo. O
senador da Califórnia.G. Murphy, que representou o seu estado no Senado
durante seis anos, tornara-se conhecido do seu público, enquanto actore
amador de opereta. Em 1970, foi substituído pelo filho do antigo campeão
mundial Turney. Só as vedetas de cinema (e naturalmente também só os
presidentes, vice-presidentes e alguns seriadores eminentes, bem como os
astronautas e desportistas famosos) ipossuíam, graças aos -meios de
comunicaçao, uma irnagern de renome que deve ser o primeiro objectivo a
conseguir pelos aspirantes a presidentes, vice-presidentes ou senadores.
Para lá deste grupo, quase ninguém tem esperança de ser escolhido para
urna função elevada na dernocracia telecomandada pela televisão.

Ao, que parece, foi a negligência de um barbeiro ou de um caracterizador o


que atrasou oito anos a entrada de Nixon na Casa Branca. Quando do debate
transmitido, em 1,960, pela televisão, John F. Kennedy, c” um aspecto
radioso e impecavel-mente barbeado, conseguiu triunfar sobre o rival, que
ganhou descrédito devido à barba demasiado visível. O presidente Nixon,
admirador e entusiasta de westems (e de futebol americano), ordenou, em
1970, uma aventurosa tentativa de salvamento dos ,prisioneiros de guerra
no Vietriame do Norte. Há muito que os prisioneiros tinharn sido evacuados;
os libertadores regressaram, como tinham i-do, sem se ter verificado
qualquer baixa. A maioria, noutros casos silenciosa, celebrou o
acontecimento qualificando-o de grande sucesso e aquisição de prestígio.
Uma vez mais,
AGRESSIVIDADE 301

o espírito heróico triunfara sobre a -matéria. A demonstração não podia


deixar de causar efeito, apesar de a astúcia do adversário e a insuficiência de
espiões ter itupedido um sucesso palpável.

A realidade televisionada ou filmada assenta, assim, em úlich@s que os


meios de comunicaçãotransformam em realidade. Os meios de comunicação
criam, na verdade e definitivamente, a realidade que dizem representar.

Gr@ças à voracidade, quase incomensurável, dos meios de comunicação que


reina nos Estados Unidos, existem mais de 800 cadeias televisivas, de entre
as quais algumas centenas transmitenide noite e de dia ininterruptamente, e
a necessidade de sensações ultrapassa, de longe, a oferta. A violência é o
meio menos ,dis,pendioso para se obter e estimular a atenção, da média dos
leitores, auditores e telespectadores, mesmo que não sejam cultos, e para
proporcionar tensão, surpresa e choque ao seu espírito fa-tigado, sedento
dedistracção. A -crueldade e as situações de violência leva-da a extremo são
excitantes e provocam adesão ou repulsa.

juntamente com todos os outros,meios decomercialização, as cenas de


violência são também justifi,cadas por questões de ordem comercial que têm
por -objectivo o aumento, da venda. Reforçam-sle “ estímulos ópticos e
acústicos por sensações, já que eles são e continuam a ser o primeirotrunfo,
de venda dos meios de informação. Devem ser procurados, encontrados e
muitas vezes inventados, seja por que preço for. O aumento das sensações
significa sempre, porém, um reforço de violência e um aumento do nível de
agressão. Sempre com um mesmo tom de autenticidade, a televisão encurta
distâncias e transforma o irreal em real, tornando-o,mesmo um pouco mais
-real do que a realidade. A representação filmada dos acontecimentos da
ffuerra do Vietname é preferível às reportagens desconcertantes e
fragmentadas -realizadas no. próprio local onde se desenvoilveram. os
verdadeiros acontecimentos desta guerra. Nada parece mais próximo da
realidade do que a -realidade transformada, à qual uma dramatização
polarizante, uma idealização e efeitos espectaculares conseguiram trazer
uma melhoria. A complexa e fragmentada confusão da realidade é, ipois,
simplificada e moldada em formas estereotipadas fáceis de compreender,
concretas e manejáveis. Os esquemas simples produzidos, deste modo, por
estes mecanismos complexos têm por objectivo uma visão clara das coisas e
tornam possíveis juízos de valor manifestos. A realidade deve esforçar-se por
se encontrar de acordo com os vulgares clichés adoptados
302 AGRESSIVIDADE

pelos meios informativos, o que nem sempre se consegue. Algumas vezes a


realidade não é provada através da imagem: os turístas que não vieram para
verificar se o filme que viram é autên- ,ti,co, mas para verificar a
verosimilhança com a realidade, quer dizer, saber se ela está de acordo com
o filme, encontram em Roma, tal como prometido, a Fonte de Trévi onde se
deitam as moedas; debalde procuram, no entanto, a fronteira entre
SaIzburgo e a Suíça (cenário das últimas cenas triunfais -da epopeia da
família Trapp, epopeia que suscita inúmeras viagens ao estrangeiro). Os
autênticos castelos só adquirem vida quando se reconhecem como, décor de
um filme. As relações entre a realidade e a sua representação, entre o ser e
o parecer, tornaram-se reversíveis graças `is possibilidades ilimitadas do
jogo da aparência. Graças ao aperfeiçoamento técnico, a verosimilhança
consegue ser -mais real do que a própria realidade.

Numa primeira fase de inocência, os meios de comunicação focavam acon


teci mentos importantes e personalidades notórias. Hoje em -dia pode-se
criar o, acontecimento importante e já não é necessário esperar-se pelo seu
aparecimento espontâneo. Engendra-se o pseudo-acontecimento com vista à
sua verificação. Não há necessidade de -Converter um castelo em cenário,
quando existe possibilidade de utilizar c@omo. castelo um cenário fabricado,
menos dispendioso, e -mais confortável. Graças às disposições mais
convenientes, os acontecimentos apresentados podem e devem camuflar a
sua intenção ou.a sua deformação. São impermeáveis às contrariedades e
aos irritantes acasos da vida. No estúdio há sempre a escolher entre um sol
radioso ou o sopro violento de um furacão. Os ps eudo-acontecimen tos
explicam e relegam para -segundo plano -os acontecimentos reais, que são
mais dramáticos, explícitos e ex-pressivos, e tornam-se, eles mesmos, a
própria realidade. O original regula-se pela sua capacidade de reprodução ou
reconversão. No, caso de muitos acontecimentos de antemão organiza-dos
para serem transmitidos, há mais jornalistas do que participantes entre a
assistência. Muitas das personalidades domundo da ínformação apenas se
preocupam com a fama. Os ps eudo-acon tecim,en tos destinados à
reprodução da realidade são testemunho de outros pseudo-acontecimentos,
e des,te culto da realidade irreal desprende-se, finalmente, a subcultura da
irrealidade real.

As imagens ideais das epopeias, romances do, Far West e do amor vitorioso
de dois seres belos e leais fazem surgir um mundo
AGRESSIVIDADE 303

são e intacto oupelo menos sugerem que se pode chegar a qualquer destes dois
estados por meio de virtudes simples ou processos acessíveis a todos. Com a ajuda
de uma interpretação realista foge-se da complexa realidade -do mundo de hoje no
sentido de uma ilusão simples, inocente, harmoniosa e de um passado
desaparecido. O herói forte, duroe frio age de forma de£idida, independente e
autónoma; é G homem violento e primitivo sem escrúpulos nem barreiras ou ainda
o grupo ou Estado dotado dessas mesmas qualidades e que se encontram sempre
plenamente justificados. O estereótipo que manipula e é manipulado constitui já
uma violência à realidade quando simula situações de equilíbrio puramente idílicas.

Mesmo nos momentos em que não aparece visível em plena luz do dia, a violência é
o misterioso mensageiro dos meios de comunicação. Ao legitimar-se, a
violênciatorna-se virulenta, contagiosa e irresistível. A boa causa ganha sempre. O
herói ganha; o sucesso justifica todas as vitórias e faz do vencedor um herói.
O vencedor torna-se e permanece aquele que utiliza a violência primitiva -e sem
escrúpulos antes dos outros e inais fortemente do que eles. Quem triunfa é o mais
rápido a desembainhar a espada ou a puxar o gatilho. O fim justifica os meios e, por
outro Ia-do, a ulterior possibilidade de justificação pelo. sucesso poderá servir de
afirmação -de inocência absoluta e deforma toda a apreciação de realidade e tipos
de juízos de valor que sobre ele assentam. E, finalmente, se todos os problemas
importantes, desde a política ao amor, só se conseguem resolver pela violência, é
tão realista como vantajoso fazer actuar a violência de forma eficaz, quer dizer,
pronta e maciçamente. . Porque -esperar que o rival real ou potencial (portanto, pra-
,ticamente, todas as pessoas) adquira força e se torne desconfiado? Mais vale
atacar imediatamente, antes que o rival se possa tornar perigo@o. A agressão
primitiva e a repressão de todo o embrião de resistência aparecem, assim, como
uma leidaprudência e da organização. A guerra-relâmpago preventiva é, em caso de
sucesso, a solução mais humana, porque tudo termina rapidamente.

Quanto à -necessidade -de imagens por parte do espectador, realiza-se a -escolha,


corta-se, redige-se e dramatiza-se segundo os preconceitos e imagens já aceites. As
novas imagens reforçam e dão -mais firmeza às antigas e criam o ritual do hábito
com a ajuda da familiaridade. Na situação polarizada de uma concretização
dramática, o aumento da violência em breve se tornará
304 AGRESSIVIDADE

em violenta solução do conflito, a única considerada com valor, preconizada,


glorificada e capaz de tornar desnecessárias as outras alternativas de
violência (discussões, conferências e conflitos). Entre os deveres sociais que
urgentemente se impõem, surge na ,primeira linha o desenvolvimento do
contrMe eficaz dos próprios órgãos de contrôle e das autoridades de contrôle
dos meios de comunicação. A fim de que osprocessos sociais de apreciação
não degenerem numa afirmação estereotipada do poder e em certeza da
legitimidade, as possibilidades de manipulação dos meios de comunicação
não devem ser contestadas nem dissimuladas, mas torna-se necessário
analisar e determinar as condições,mais apropriadas p@ra que os meios de
comunicação ponham em evidência e concretizem os problemas sociais. Os
espectadores e auditores, que, pela alienação da sua própria vontade,
contribuem através da sua passividadepara a aj@ada dos meios de
comunicaçã o, devem tornar-se particípantes activos e responsáveis
voluntários pelos acontecimentos sociais a fim de que os peritos de
influência nos @ncios de comunicação não sejam os únicos a determinar as
nossas imagens e anossa realidade como uma nova classe de mandarins de
informação através da imagem. As manobras e mecanismos que
desencadeiam a violência não podem ser postos em movimento sem o
exame pormenorizado e vasto conhecimento dos processos de simplificação,
polarização e dramatização e sem a sua definição exacta. A acção de voltar a
rotular a realidade dos factos significa a preparação e o começo de uma
sociedade livre que não se deixará mais conduzir a admirar, invejar ou
preconizar a violência e utilizá-la com crescente brutalidade.
DISPOSIÇõES E ESQUEMAS QUE PERMITEM EVITAR A VIOLÊNCIA

Instítuíções e transformação da consciêncía

í"N
1k4'J
s indivíduos são conhecidos e cunhados ipelas instituições que criaram. Os
indivíduos devem abandonar uma parte da sua autonomia à colectividade e
viver em sociedade a fim de se poderem assenhorear, verdadeiramente,
desta autonomia. A exigência e o desejo de liberdade pessoal ultrapassam as
instituições, ainda que só &e -possam realizar nas e através das instituições.
O homem é mais do que aquilo que pode realizar. Graças ao contrôle de
agressão através das instituições, que a princípio foram as suas próprias,
pode atingir r@ais do que seria capaz sozinho. Graças a uma acção
comunitária, consegue erguer o que a ele, como indivíduo, lhe estava
interdito.

Os sistemas culturais são capazes de realizar o que o indivíduo só pode


esperar ou desejar. Todo o que desdenha laços de solidariedade e se
mantém numa -posição incondicional de outside terá de se contentar com
prazeres retóricos ou satisfáçõ@s imaginativas. É a sua relativa vivência e o
desejo de continuidade que fazem das instituições órgãos e instrumentos de
transformação e mudança radical. Uma vez que toda a organizaçã o social
imaginável deve ser organizada e administrada para poder durar, o problema
relativo à existência ou não existência da organização e da administração
não está bem posto. Enquanto existirem homens deverão existir instituições
e administrações.
O problema decisivo, o problema a atacar, reside no que elas realizam, no
que controlam e nos objectivos que~se devem propor. O oposto do plano
casualnão é a organização, mas a arbitrariedade. As instituições
aparentemente abandonadas a elas mesmas, e que nenhuma autoridade
social controla, não são, por
306 AGRESSIVIDADE

isso, mais livres, mas apenas desfrutam de menos entraves ao seu egoísmo,
que usam sem peias dentro do seu poder ilimitado. Tal como as
administrações públicas, as administrações privadas das grandes firmas dão.
provas da mesma tendência para os argumentos de uma segurança sem
risco, ausência de responsabilidade que desumaniza e irracionalidade de
objectivos que inclui o aperfeiçoamento de meios racionais.

Dado que o to-do da sociedade não se fia em si mesmo para organizar um


futuro incerto e, por assim dizer, absolutamente imprevisível, são os
generais, os industriais e políticos que, nos seus campos respectivos, se
ocupam dos mesmos. Por detrás da aparente ausência de plano, oculta-se
um princípio de organização estraté gica que, no establishment, produz a
unificação da élite, escolhida dos homens de poder e organizadores,
condenando -todos os outros à mera qualidade de massa populacional,
desorganização e incerteza conscientemente provocada. A manipulação
elogia e dispensa os benefícios da obediência cega de que tem necessidade
para poder dirigir com perspicácia. Ela acusa e qualifica de agressivo todo o
indivíduo que dê o verdadeiro nonie à agressão do lucro e da repressão
forçada e apresenta a insensatez dos interesses privados como fundamento
único do bem público.

A tomada de consciência destes factos não traz ainda qualquer modificação.


Frente ao autoconhecimento e auto,transformação voluntária, dá-se às
instituições tanto privadas como públicas um carácter institucional. O estado
actual e o futuro do conhecimentode novos métodos de contrôle apenas
define o alargamento da lista das possibilidades de escolha, -mas não a
escolhe de, que efectivamente se fará. O facto de as disposições de uma
sociedade pouco desenvolvida queengendraram o medo, a inveja e a avidez
se poderem ter tornado supérfluas e inúteis não impede que a sociedade
continue a existir e a agir. O facto de as condições técnicas e psicológicas de
um trabalho comum e humano serem hoje uma presença (porque foram
«cria-das») em nada prova que a cooperação e a solidariedade existam
também e se encontrem verdadeiramente institucionaliza-das. As
organizações com pouca estabilidade utilizam, pelo contrário, um poder
ilimitado de agressão, até aqui contido, -para proteger as antigas estruturas
niediante renovações e fachadas e, igualmente, manter objectivos
decadentes, rotulando-os de novo.

Por outro Ia-do, desejos românticos e simplistas pretendem


AGRESSIVIDADE 307

conseguir, hoje ou amanhã,,transpor o domínio danecessidade e acabar por


atingir a liberdade. Os establishments rivalizam em ideias novas para afinal
redundarem numa ausência de ideias. Representam convincentemente as
vantagens da ausência de L,,>nvic'ã'>- Servindo-se de uma propaganda
delirante e de novas motivações básicas, vendem esquemas terrivelmente
simplificados de ausência de imaginação. Em primeiro lugar a novidade e a
renovaçãonão seriam necessárias; em segundo não seriam possíveis; em
terceiro não precisariam de qualquer esforço, pois, fosse como fosse,
seguiriam automaticamente o seu caminho: pas- sado muito, tempo
acabariam, no entanto, por ser introduzidos.

Continuar como dantes é o lema; era condição. necessária para qualquer


exame de realidade.

Em alguns jogos, como porexemplo o, póquer e o brídege, há um grupo de


parceiros -que ganha e outro que perde. No fim do jogo nada resta e os
cálculos acabam em zero. É o. jogo em que os ganhos e perdas se
equilibram. Existem, no entanto, casos em que todosperdem, como por
exemplo no da bomba atómica, e situações em que todos ganham, como
quando s.e trata de diferentes técnicas de financiament