APRESENTAÇÃO DA EXPOSIÇÃO MORANDUGERA – 1997 - CAUA

A Arte guarda as respostas para todos os questionamentos da vida. A exposição é o
resultado de uma prospecção. Sempre. Turenko apresenta uma coleção de obras onde aborda
através de interessantes construções narrativas, velhas histórias de tribos distantes. Não se
tratam de ilustrações, e sim invenções dramáticas com seleção das passagens mais
interessantes de cada lenda amazônica escolhida pelo artista: a origem da criação do mundo
pelos Dessâna, a Cobra Surucucu e o Sapo Tarô-Bequê, a Cobra Grande, o mito da criação do
sol e da lua, a Maloca dos Mortos, a Velha que chora; o Mapinguari; o Curupira e outros de sua
predileção inicial; pois acredito que este trabalho deverá ter continuidade futura. Lendas são
verdades contemporâneas. Turenko apresenta no conjunto sua visão sobre os traços do
grafismo e da abordagem aborígene sobre as formas geométricas. Rupestre metropolitano.
Telas são paredes de pedra e terra. O que moveu o jovem artista a buscar estas indagações? A
origem das origens? Talvez. A exposição é muito bonita, e Turenko mantém a unidade do
conjunto em exibição. Ele tem direção e muito trabalho pela frente. Pratica antropologia
subjetiva. Exercita o poeta. Realiza o pintor. Turenko Beça é um outro Aníbal propriamente
dito. Original. Sua esperança na arte me comove.
Sérgio Cardoso
APRESENTAÇÃO DA EXPO TOCKÁ – 1996
Tocká, pronuncia-se tasca. Em russo, isto quer dizer nostalgia, saudade, melancolia,
banzo, ou um mix de tudo isso. Turenko visita sua ancestralidade. E como toda viagem às
raízes, o sentimento nostálgico – sombrio – roxo – cinzento, predomina. Mas, há de se contar,
que o simples desejo de uma viagem no tempo, requer fôlego, coragem e maturidade. E
Turenko a faz com maestria de um artista que sabe das suas rotas, é ciente do peso do seu
lastro. Sua aventura é no mar alto, bravio, de onde é possível somar o experimental com altas
ondas poderosas.
Em dado momento da viagem, escuta-se um grito terrível. É Turenko revisitando E.
Munch, numa homenagem digna e inteligente. Provavelmente ao pintar O Grito, o artista
norueguês tenha impresso na tela toda a angústia humana. Turenko confere ao desespero
uma figura diabólica como que desvalendo sua gênese. Algo como soltar os diabos e exorcizá-
los.
Admiro ver Turenko atravessar esse momento, provavelmente imprescindível para o
seguimento da nave em busca de novos mundos. Artista de uma verve fantástica, um dos mais
profícuos entre todos nós sob a linha equatorial, seria maravilhoso que essa série fosse
contemplada e refletida ao som de Adágio para Cordas de Barber. Sairíamos com nossos
sentimentos a flor-da-pele, cheios de misericórdia por nós mesmos.

Roberto Evangelista

Apresentação da Exposição NADAMAO – 1994
Aníbal com seus grandes formatos, coloca grande poder de síntese, seus símbolos,
grafismos e imagens. Alguns referentes a nossa terra. Escreve sua caligrafia que é a “invenção”
de sua pintura. Por sinal, completamente contemporânea.
As cores estão codificadas em cores quentes e frias. Áreas em azul, branco, lilás e áreas
em vermelho, amarelo, branco, tudo com grafismos escuros. Seria um mural, um muro, ou
ainda uma ilusão de uma pintura das cavernas, só que no sentido anárquico-esquematizado,
Pós-Neoexpressionismo?
Bom, ai está um audacioso, sem medo de errar, mas com vontade de inventar e
investigar. A arte é de artistas nestas condições.
Manaus, 03 de fevereiro de 1994
Jair Jacqmont

A pintura abstrata inicia a liberdade de expressão e a nova leitura da pintura, a procura
de novas formas, rompendo com todo ranço que dominara a pintura decorativa no século
passado.
Como grande inventor, o artista tem como obrigação primária a honestidade em sua
(re)criação. Na verdade, são múltiplas as formas e as cores que essa corrente de expressão
traduziu a partir de 1910, que marca a sua interferência na História da pintura através de seu
criador Kandinsky. Daí nós encontrarmos o abstrato expressionista, abstrato geométrico,
abstrato gestual, etc...
Bem, mas não fui convidado para explicar a evolução do abstracionismo e sim para
afirmar nesse momento, que é impressionante o conjunto de obras dessa nova fase do
Turenko Beça. Pela unidade e transparência das cores e das formas esteticamente compostas.
Uma pintura que traduz o crescimento de um artista que tem uma proposta, um compromisso
com o novo. Que se nega a repetir a paisagem atrofiada nos olhos turvos de tanta paisagem,
para compor sua visão nos dando o prazer da leitura.
Turenko, sinceramente acho que não tá “NADAMAO”, tá bom a Beça.
Manaus, 06 de fevereiro de 1994
Arnaldo Garcez




APRESENTAÇÃO DA EXPOSIÇÃO PROCURA-SE – 1995

Pra quem curte o chamado Zap comix, a exposição é u preto cheio. De biscoitos finos,
claro. Numa leitura antropofágica, absolutamente pessoal, o artista plástico Turenko Beça
mixou Robert Crumb, frank Miller, Crepax, Moebiues, Uderzo, Mazzuchelli, Neal Adams,
Steramko, will eisner e outros quadrinhistas que a gente não percebe tão facilmente mas que
causam o efeito desejado. O resultado final é uma explosão de cores brilhantes, pinceladas
livres e contornos exagerados, como um pote de tinta guache jogado na cara do distinto
público. O grande lance da exposição é identificar as personas ocultas nos próprios quadros. Se
você ficar olhando um tempão para qualquer tela vai acabar descobrindo Fernando pessoa,
Sting, Drummond, Orson Wlles, Yoko Ono, Madonna, Dee Dee Ramone, Maguila, Sid Vicious,
Oscar Wilde, Snoopy Doggy Dog, Andy Warhol, Frank Sinatra, Mike Tyson, Malcom X, Henri
Cartier-Bresson, Eric Burdon, Calvin Klein, Marilyn Monroe, Jean Paul Sartre, Carmem Miranda,
Flavor Flay e, se bobear, até mesmo o cego Aderaldo. É evidente que a percepção das
personas está diretamente ligada à sua bagagem cultural: quanto mais ícones da cultura pop
você tiver armazenado nos neurônios, mais facilmente executará a travessia que o levará à
grande planície branca conhecida como insight. É ou não é chocante! Se não for, meu nego,
experimente enfiar o dedo molhado numa tomada de 220 volts...
Simão Pessoa

Arte Marginal
Lilian Fraiji · Manaus, AM
19/7/2008
Situando a produção artística amazonense em um contexto internacional, podemos considerar
que somos totalmente marginalizados. Dentro do contexto nacional, também somos
periféricos. Separados dos grandes centros que dominam a cultura, não participamos de
nenhum estágio do mercado cultural brasileiro ou internacional, o que criamos não sai daqui e
o que é pior, é pouco consumido pelos que estão aqui.
Muito já se foi visto e dito sobre o Amazonas. As belezas naturais do Estado servem de
inspiração para muitos artistas, que recriam e reinventam nossas paisagens. Porém, a leitura
de nossas paisagens pelos artistas forasteiros é especialmente diferente da nossa e são esses
artistas que nos representam fora de nossos domínios. Quantos filmes, livros, obras de arte ou
bens culturais sobre o Amazonas já vimos no mercado internacional e quantos deles foram
produzidos por autores de nossa região?
Poderia justificar parte das mazelas culturais evidenciando a dominação e o poder que a arte
tem em segregar culturas, mas muito já se foi dito a esse respeito, por isso esse discurso para
mim não mais agrega. Proponho aqui, uma análise crítica coletiva da produção artística de
nosso Estado.
Atiro então a primeira pedra... Parto do princípio que arte é também uma forma de
comunicação, onde o artista expressa sua interpretação da realidade. E a comunicação tem
por concepção a compreensão da mensagem por quem a recebe, sendo assim, para um artista
comunicar sua obra o espectador deve compreendê-la.
Quando o artista amazonense resgata as crenças e valores tão complexos de sua terra, está
expondo uma realidade muito particular e misteriosa, pouco compreendida pelos estrangeiros.
Grande parte das manifestações regionalistas que tantos artistas trabalham no Amazonas, só
pode ser apreciada pelos que são daqui e convivem no mesmo universo.
Um paulista não consegue entender o conceito das obras do artista plástico Turenko Beça, que
usa o piracuí de peixe como base para suas “Mantas de Acrílico”, já que não conhece o valor
da farinha de peixe no Amazonas. Assim como um inglês não consegue apreciar a letra “Acari-
Bodó” do grupo musical Tucumanos, porque não conhece o peixe ou sua relação com a cultura
amazonense.
Em um mundo globalizado, onde a criação e produção artística estão cada vez mais
dependentes de um conceito forte, não existe espaço para manifestações regionalistas que
não estejam inseridas em um contexto transnacional. É claro que o artista deve representar a
realidade que o cerca, seus valores, crenças e cultura, porém existem maneiras distintas de
expressar-se.

Acredito que falte no Amazonas uma produção artística que tenha uma linguagem
mundializada, para que pessoas de qualquer origem, cultura ou etnia, consiga compreender
nossa arte e se sinta parte integrante de nossa realidade. Existe uma identidade que
transcende culturas, pessoas que criam artes similares em distintas partes do mundo e pessoas
que criam coletivamente com diferentes partes do mundo. Porque então não criamos vínculos,
buscamos cooperações e tentamos explorar também as afinidades de nossa cultura com
outras?
http://www.overmundo.com.br/overblog/arte-marginal

O artista tem um trabalho expressivo sobre Amazônia, urbanidade, arqueologia e
mitologia indígena. Essas redes temáticas, segundo o artista, foram concatenadas pela
influência poética do pai e, por vários artistas amazonenses a exemplo Bernadete Mafra, que
possuía um trabalho voltado para a mitologia dessana, Manoel Santiago, que o presenteou,
ainda na mocidade, com livros sobre mitos e lendas amazônicas.

Em novembro do mesmo ano (1995), durante a exposição Grav Duo (ver anexo 02), o
artista plástico expõe pela primeira vez seus trabalhos relacionados ao meio digital. Beça
enveredou pela arte cibernética apresentando onze gravuras feitas em computador, então
batizadas pelo próprio artista como “tecnogravuras”. Contudo, a descoberta pelas mídias
digitais se deu em 1991. O artista relatou que ficou fascinado quando conseguiu desenhar
com o mouse e depois imprimir cópias, em seguida modificar a idéia original e reimprimi-las,
pintando sobre as impressões e descobrindo novas possibilidades.

Denise Bezerra Rodrigues

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