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Prospecção inicial da cadeia de valor do rádio digital brasileiro Prof. Dr. Antônio Francisco Magnoni 1 Prof. Ms. Marcos Américo 2

Os testes sobre a digitalização do rádio no Brasil ocorrem sem repercussão midiática

significativa, embora tratem de uma extensa remodelagem do mais popular e influente veículo de comunicação nacional. Os principais agentes da radiodifusão sejam eles econômicos, políticos e sociais, preferem concentrar a atenção da “opinião pública” no debate sobre o Sistema Brasileiro de Televisão Digital. Talvez isto represente uma estratégia lobista para ressaltar ainda mais a portentosa cadeia de valor e o poderio político-cultural da comunicação audiovisual no país ou então um ardil para implantar a tecnologia de rádio digital mais conveniente para os donos de emissoras, com a manutenção do modelo de radiodifusão em vigor.

Independente de todos os embates políticos e econômicos que envolvem a exploração

pública e privada dos sistemas de radiodifusão, com a mudança de tecnologia analógica para digital, ocorrerá uma redefinição circunstancial e gradativa dos modelos de funcionamento das emissoras brasileiras de rádio e de televisão.

A mudança virá, em primeiro lugar, porque as novas plataformas digitais

possibilitarão a criação de inúmeros canais com formatos, linguagens e especialidades profissionais com múltiplas possibilidades mercantis e uso social das redes de informação. A disputa entre os fabricantes de terminais de conexão e navegação aumenta a oferta e amplia significativamente a possibilidade de acesso das camadas populares ao ciberespaço.

As mudanças técnico-econômicas, culturais e legais que ocorrerão com a digitalização

da radiodifusão brasileira constituem área fértil para pesquisa em vários campos da Comunicação e outras áreas afins. A convergência das tecnologias para uma única plataforma digital provocará a redefinição circunstancial da cadeia de valor. A implantação do sistema

1 Jornalista e professor de Radiojornalismo do Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista-UNESP/Bauru. (afmagnoni@faac.unesp.br)

2 Radialista e professor de “Técnicas de Animação” e “Sonorização em Audiovisual” do Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista- UNESP/Bauru. Mestre em Comunicação Midiática, pela FAAC/UNESP e doutorando em Educação para a Ciência na FC/UNESP. (tuca@faac.unesp.br)

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digital do rádio brasileiro irá determinar gradativamente um novo ordenamento socioeconômico da radiodifusão no País. Nossa proposta é pesquisar seguidamente os novos suportes e as relações socioeconômicas da cadeia de valor que irá se estruturar com a implantação do sistema digital do rádio brasileiro. Durante o período de sedimentação do sistema digital haverá remodelação das grades horárias, dos formatos e das linguagens dos programas de entretenimento, de notícias e utilidade pública. Deverá ocorrer também significativa mudança na forma de veiculação de publicidade nas emissoras comerciais. Apesar da possível reviravolta que as transmissões binárias poderão causar no padrão consolidado de funcionamento das emissoras, é oportuno observar que não é recente o uso de tecnologias de digitalização nos processos produtivos em todos os veículos de comunicação. A primeira etapa da digitalização teve início nos anos 1980, quando o microcomputador se instalou no ambiente dos meios de comunicação e firmou-se primeiramente nas estruturas dos grandes meios impressos alterando todo o processo de edição e de produção gráfica de jornais e revistas. A televisão, simultânea aos meios impressos, informatizou gradualmente seus caros equipamentos de produção. O rádio ingressou significativamente na era digital com a expansão da internet, em meados da década de 90.

Com a definição do novo sistema nacional de radiodifusão sonora e de sons e imagens,

o Brasil, e um grande número de países em todo o mundo, ingressam na segunda etapa de

digitalização das estruturas produtivas e difusoras da indústria cultural e da comunicação de

massa. O ciclo em andamento, apesar das disputas mercadológicas e políticas subjacentes, aponta para a possibilidade técnica de se estabelecer a convergência de todos os meios existentes para uma plataforma comum. Nota-se o crescimento progressivo das interfaces

entre os conteúdos, linguagens, serviços e recursos comunicativos, tanto no rádio, na televisão ou dos meios impressos presentes na internet. Há um movimento tecnológico, mercadológico

e social, que estabelece uma diferença fundamental entre as tecnologias analógicas e as

tecnologias digitais: os aparatos e as interfaces binárias estão presentes, de maneira direta e

indireta, em todos os espaços contemporâneos de atuação humana. Mesmo quem não tem computador, usa telefone, terminais bancários e eletrodomésticos, vê televisão ou tem rádio de pilha.

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Castells (1999) observa que a Revolução da Tecnologia da Informação é diferente das

revoluções tecnológicas anteriores porque utiliza para se auto-atualizar, a tecnologia gerada no desenvolvimento contínuo e mundial dos sistemas informacionais. Apesar de ser tecnologia constantemente atualizada, este aspecto não a torna menos seletiva no aspecto funcional e social. Por conta dessa seletividade, muitas áreas, mesmo em países centrais, prosseguem desconectadas. Prevalecem, por enquanto, pólos extremamente digitalizados e conectados, circundados de lugares periféricos sem acesso algum às possibilidades de uso das ferramentas informáticas e das facilidades comunicativas do ciberespaço. Persiste a geografia de poucos espaços luminosos e muitos espaços opacos, conforme a concepção territorial de Milton Santos (1986). É por esse motivo, que mesmo depois da definição das tecnologias de digitalização do sistema nacional de radiodifusão sonora e de sons e imagens, ainda prosseguirão em uso as tecnologias que combinam sistemas de produção, de reprodução e transmissão digital com meios analógicos de recepção, o chamado “simulcasting”. Os radinhos de pilha e os ainda valiosos “sound-systems” e televisores em cores deverão resistir no mercado brasileiro, por razões econômicas e culturais por uma década ou até mais. No Brasil, a projeção do novo mercado da radiodifusão digital, mesmo com o uso pelos pesquisadores, de metodologias mais precisas possíveis, ainda patina em espessas camadas de virtualidade e em grandes doses de futurologia. Até porque a realidade brasileira revela-se sempre complexa e subjetiva por demais, para que as inferências dos pesquisadores possam interpretá-la de modo preciso.

O ponto nevrálgico da discussão sobre o padrão de digitalização da radiodifusão no

Brasil não é técnico e tem mais motivações econômicas que políticas. No entanto, é a conjugação dos planos, econômico e político, que definirão o nível de convergência técnica

que poderá haver entre rádio e televisão digital, internet e operadoras de telecomunicações e telefonia digital fixa e móvel.

A televisão e o rádio, se digitalizados por um padrão com ampla convergência e

mobilidade, passarão a integrar o sistema de telecomunicações e terão capacidade de realizar a um custo até mais acessível que a internet, comunicação polimidiática e multilateral. Os

dois veículos poderão manter com o público, recursos de interação que não dispõem hoje em suas transmissões analógicas.

A inclusão digital dos mais de 160 milhões de brasileiros apartados do acesso ao

ciberespaço poderá ser facilitada pela nova “radiodifusão binária”, e não pelo ciberespaço,

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como ocorre nos EUA e Europa. Tal possibilidade poderá ser viável desde que o governo federal não ceda às costumeiras pressões dos radiodifusores monopolistas ou das operadoras transnacionais e aprove uma nova Lei Geral de Comunicação, que permita que a convergência digital ocorra em plena sintonia com os interesses públicos. Se o governo brasileiro conseguir definir um modelo de radiodifusão democrático, tecnicamente competente e economicamente viável, o país estará habilitado para participar de um dos mais complexos e contraditórios momentos da ordem sócio-econômica mundial deste início de século XXI, onde presenciamos o crescimento acelerado das tecnologias informacionais, que constituem a nova plataforma internacional de produção material e simbólica. Consolida-se rápido o predomínio dos sistemas digitais de emissão e recepção multilateral de uma profusão de tipos de dados com destinação individual, coletiva, gratuitas ou pagas. Multiplicam-se os suportes com ampla capacidade de codificação, compressão, fluxo, recuperação e armazenamento de informações de qualquer natureza. Um novo ecossistema se estabelece humano, no qual a existência é ancorada no fluxo imaterial do ciberespaço. Tantas mudanças fulminantes que as tecnologias de informação e comunicação operam no mundo moderno do trabalho e na cultura das diferentes camadas sociais têm que ser interpretadas com parâmetros atualizados. Exigem interface apropriada entre os meios informacionais e o universo social contemporâneo permeado por tantas diversidades e contradições. Em todos os contextos da vida cotidiana, é preciso ter domínio da tecnologia mais recente e do conhecimento técnico-científico mais estratégico e cada vez mais vital para a sobrevivência das sociedades humanas, sejam elas modernas ou não. No contexto brasileiro, a Síntese de Indicadores do PNAD 2005 – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE mostrou que 18,6% dos domicílios possuíam microcomputador e apenas 13,7% deles com acesso à Internet. Há no país, cerca de 32 milhões de pessoas com conexão ao ciberespaço, um público com maioria distribuída pelos grandes centros urbanos. Também os provedores de internet estão concentrados em cerca de 1.500 médias e grandes cidades, dos 5.500 municípios brasileiros (Folha Online, 2004). A abrangência da internet no país ainda está muito distante daquela da televisão e do rádio, que cobrem todo o território nacional. Outro dado importante do PNAD 2005, é que 91,4% dos domicílios brasileiros possuem receptores de televisão e 88%, de rádio. Um registro histórico, pois mostra pela primeira vez, a superação do rádio pela televisão em termos de recepção

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domiciliar, o que revela a popularização definitiva do veículo audiovisual entre os brasileiros. No entanto, não significa que a televisão tenha ultrapassado o rádio em índices absolutos de audiência e influência social. É preciso avaliar que a televisão é um veículo com recepção fixa, mais coletiva e concentrada nos espaços de tempo livre do público, enquanto a audição do rádio é móvel, individualizada e flexível. O receptor de rádio permite que a mensagem do veículo siga o ouvinte em sua rotina cotidiana. Apesar de tantas novidades digitais, o velho rádio continua a ser o veículo com maior capacidade de transmitir informação em primeira mão, a qualquer hora, em qualquer lugar, para qualquer tipo de pessoa. A popularidade da radiodifusão está ancorada na existência de 6.209 emissoras de rádio distribuídas por quase todo o território nacional, segundo dados dos anais do II Seminário de Políticas Públicas e Radiodifusão, ocorrido na Bahia em setembro de 2004 (Santos, 2005). Isto, sem contar as inúmeras emissoras comunitárias autorizadas ou clandestinas, que invadem com seus sinais de curto alcance, todos os intervalos disponíveis no espectro de ondas. Por outro lado, as emissoras de TV se organizam em cinco redes nacionais repartidas em 374 exibidoras regionais (CPqD, 2004). Embora captem a maior fatia do faturamento publicitário geral, as estações de TV não conseguem ao longo do dia, uma audiência tão grande e diversificada quanto à das emissoras de rádio. Há dois motivos principais para menor audiência diurna: além da recepção de tevê não ser prática e acessível durante o período de trabalho, a programação televisual não consegue ser tão segmentada e voltada para as informações, serviços e entretenimento dos públicos segmentados, como ocorre no rádio. Embora haja concentração de emissoras nas regiões sudeste e sul, o rádio é um veículo nacional de comunicação popular, com maior parte dos conteúdos centrados nas informações locais e regionais. Uma característica tão preciosa para o veículo, que os radiodifusores e ouvintes terão que se empenhar para preservar no processo de digitalização.

Rádio Digital Brasileiro: os desafios para escolher a tecnologia e definir uma nova cadeia de valor Foi a partir de 1930, com o início do Governo de Getúlio Vargas, que a sociedade brasileira encontrou condições objetivas para se desenvolver o modelo de radiodifusão. A educação pública e o rádio passaram a desempenhar papéis decisivos na ordem nacional, nos sentidos econômico, cultural e político. A criação do Ministério da Educação, a autorização

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da radiodifusão comercial e o estímulo à difusão das salas de exibição de cinema sonoro ocorreram em tempos simultâneos e como parte da mesma estratégia do Estado brasileiro. Graças aos novos aparatos culturais e ideológicos, o ideário e os valores do liberalismo puderam ser difundidos até nos recantos mais ermos do país. Havia poucas condições do modelo associativo do rádio cultural e educativo, criado por Roquette Pinto em 1923, sobreviver na era do rádio-empresa. As exigências feitas por Getúlio Vargas no Decreto 2.047, de maio de 1931, para o exercício da radiodifusão, alteraram radicalmente o antigo Decreto 16.657, de 5 de novembro de 1924. A nova lei inviabilizou a existência das rádios associativas sem fins lucrativos. O Decreto n.º 21.111, de 1932, estabeleceu a radiodifusão como serviço público cuja utilização dependia de concessão do governo, que estipulava as condições e o prazo de exploração do canal concedido. “Com o advento da publicidade, as emissoras tratavam de se organizar como empresas para disputarem o mercado. A competição teve, originalmente, três facetas: desenvolvimento técnico, status da emissora e sua popularidade.” (Ortriwano, 1985). Para garantir audiência e faturamento, as emissoras tiveram

que romper, de maneira definitiva, a barreira da linguagem. A mensagem radiofônica, naquela etapa, teve que transpor as barreiras culturais de todas as camadas sociais, utilizando, para isto, um vocabulário resultante da fusão do repertório dos grupos populacionais mais significativos. Nessa fase do rádio, começava a surgir uma programação voltada para o entretenimento musical, aumentava a divulgação das novidades comerciais e culturais urbanas

e a informação jornalística despontava na programação. Assim, o rádio comercial ajudou a

criar consumidores para as mercadorias produzidas pelas novas indústrias subsidiadas com

investimentos do Estado. Além disso, o veículo ajudou a promover a integração cultural e política do País. As novas emissoras privadas conquistavam cada vez mais ouvintes com uma programação sem nenhuma preocupação além do proselitismo ideológico, do entretenimento

e do estímulo ao consumo de mercadorias do crescente mercado nacional. Isso bastava ao

comércio e à indústria, que não economizavam recursos para patrocinar os programas das

rádios mais ouvidas. A concepção getulista de rádio comercial moldou definitivamente a radiodifusão brasileira como serviço e negócio privado. Para os radiodifusores as emissoras são, em primeiro lugar, empreendimentos

comerciais. Como tal, precisam de investimentos em imóveis, em equipamentos, veículos etc.

e têm que gerar receita suficiente para remunerar as pessoas envolvidas em toda a cadeia

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produtiva radiofônica, além de garantir os lucros. Por isto, é fundamental o levantamento da cadeia de valor do rádio analógico no Brasil, para podermos compará-la com uma outra que deverá ser estruturada com a implantação do Sistema Brasileiro de Rádio Digital. Este procedimento permitirá visualizar as formas de como o valor é gerado e multiplicado o capital e a lucratividade no interior da cadeia produtiva. Do mesmo modo, poderemos detectar como são constituídas as diversas fontes de faturamento, os critérios e recursos de remuneração para todos envolvidos no processo produtivo da radiodifusão digital e quais os índices de lucratividade dos “empresários” da comunicação eletrônica. A transmissão digital apresentará uma melhoria sonora significativa na recepção, pois o novo sistema não deverá sofrer interferências atmosféricas e de outros sinais eletromagnéticos. A digitalização multiplicará a capacidade de fluxo dos canais analógicos em posse das emissoras. Se o governo permitir que espaço adicionado permaneça com os atuais concessionários, eles poderão oferecer novos serviços de transmissão de mensagens e dados e agregar ganhos significativos às suas empresas. Este é um fator que aumentará ainda mais a exploração privada dos meios eletrônicos, em detrimento da função pública e cultural que tais veículos deveriam ser obrigados a cumprir. Além disso, os transmissores digitais terão um consumo bem menor de energia elétrica e não precisarão mais de grandes e caras antenas para a emissão de sinais, o que significa redução de custos de instalação e manutenção de equipamentos. Apesar de algumas vantagens prenunciadas pelo novo sistema, o custo da transição digital preocupa bastante os radiodifusores. Muitas emissoras operam com transmissores à anacrônicos que não poderão ser adaptados para difusão informatizada. A aquisição de um novo equipamento representará um investimento quase inacessível para um grande número de emissoras locais, com baixo faturamento, com uma estrutura de gestão pouco profissional e sem muitas perspectivas de ampliação imediata de faturamento. Há ainda, um evidente problema para a digitalização das emissoras comunitárias. Elas não possuem fins lucrativos e suas direções não terão recursos para bancar os custos dos novos equipamentos, sem alguma subvenção pública. Os ouvintes interessados em captar transmissões digitais, também terão que desembolsar, inicialmente, quantias pouco modestas para ter acesso aos novos receptores. O custo de troca de milhões de radinhos de pilha por outros de sintonia digital poderá ser um entrave objetivo para as emissoras interessadas na digitalização imediata. De que adiantará produzir programas com recursos interativos ou criar

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conteúdos para difusão diferenciada, se a maioria dos ouvintes continuarem ouvindo suas emissoras preferidas em radinhos antigos? Cabe-nos mapear algumas características imediatas que facilitem compreender o cenário da Radiodifusão Digital no Brasil, tomando como base as informações já levantadas sobre a implantação do Sistema Brasileiro de TV Digital (CPqD, 2004), a saber:

1- Análise do mercado: como está constituído o mercado de rádio brasileiro atual? Quais são suas fontes reais de sustentabilidade financeira? Quem são os atores deste cenário? Como se estabelecem as relações atuais da cadeia de valor? 2- Expectativas em relação à implantação: levantar informações de fontes estabelecidas e realizar pesquisas inéditas para coleta de dados contextuais que identifiquem as perspectivas atuais e futuras dos agentes envolvidos na implantação do Rádio Digital Brasileiro. 3- Elaboração de cenários em função do sistema adotado e da cadeia de valor:

investigar as relações entre todos os agentes envolvidos e identificar as possibilidades e possíveis dificuldades para viabilização de um mercado brasileiro para a radiodifusão digital. 4- Elementos da nova cadeia de valor: identificar e descrever os elementos e antever a ação deles em vários cenários possíveis para o rádio digital brasileiro. Enfim, a análise dos tópicos apontados acima permitirá identificar e interpretar todos os elementos constituintes de uma cadeia de valor transitória. Ela tenderá a manter componentes da atual cadeia dos meios analógicos e agregará, gradativamente, outros fatores específicos da nova plataforma digital de comunicação. Isto porque não há por enquanto condições objetivas para definir previamente um formato técnico, uma nova linha de produtos e serviços e um modelo fechado de negócio. Há apenas, projeções sobre uma nova cadeia. Um problema imediato para monitorar as várias frentes de constituição de uma outra cadeia de radiodifusão reside na baixa disponibilidade de informações oficiais e privadas sobre o assunto. Há uma evidente falta de interesse no debate público sobre o Rádio Digital, enquanto a TV Digital é discutida por vários segmentos sociais organizados e os resultados são frequentemente repercutidos pela mídia. As novas possibilidades da TV Digital são “vendidas” por agentes oficiais e privados e pouca coisa é dita sobre os problemas e potencialidades do rádio analógico ou digital. No atual mercado da Comunicação, o rádio analógico ocupa o quarto lugar em investimento publicitário com 4,43% da receita total. No ranking nacional do mercado de

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comunicação eletrônica aberta, ele é o segundo classificado porque só disputa com a

televisão, que detém sozinha, 59,24% do mercado interno e lidera em todos os segmentos. Os

valores referentes aos quatro primeiros meses de 2006 (fig. 01), demonstram a assimetria

entre a receita do rádio, cerca de R$ 224 milhões, e da televisão: quase R$ 3 bilhões. É

importante notar que houve um crescimento de 21,5% do investimento publicitário em rádio,

em relação ao mesmo período de 2005. (Boletim Inter-Meios, Revista Meio & Mensagem,

Julho de 2006).

É fundamental destacar que grande parte da receita publicitária dos meios de

comunicação brasileiros vem do Governo Federal. Na tabela de investimentos em mídia

durante os anos 2002 a 2005, divulgada pelo Poder Executivo, as emissoras de rádio ocupam

o quarto lugar entre todos os veículos, em volume de arrecadação de recursos públicos da

União. Somente em 2005 foram investidos, segundo dados do Ministério das Comunicações,

mais de R$ 81 milhões em divulgação oficial.

mais de R$ 81 milhões em divulgação oficial. Fig 01 – Investimento publicitário por setor –

Fig 01 – Investimento publicitário por setor – 1º. Quadrimestre de 2006. Fonte: Boletim Inter- Meios, Revista Meio & Mensagem, Julho de 2006

Se projetarmos estes índices proporcionais aos investimentos publicitários em rádio

para 2006, teremos mais de um quarto do faturamento total das emissoras financiado pelo

Governo Federal (Fig. 02). Seria estratégico o desenvolvimento de um sistema unificado de

coleta de dados, que permitisse identificar o montante das receitas públicas injetadas pelos

governos federal, estaduais e prefeituras, em emissoras de rádio espalhadas pelo território

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nacional. Aliás, cabe lembrar que o poder executivo não é a única instância pública que patrocina os donos da comunicação no Brasil.

pública que patrocina os donos da comunicação no Brasil. Fig. 02 - Investimento em mídia –

Fig. 02 - Investimento em mídia – Governo Federal. Fonte: www.mc.gov.br

Uma identificação confiável do volume desses recursos seria vital para mensurar qual é a porcentagem de dinheiro público e de dinheiro privado que constitui a economia da mídia brasileira. O esclarecimento do tamanho da participação econômica de cada fonte ajudaria a coibir desvios e permitiria objetivar melhor o debate sobre a legislação da radiodifusão digital.

Para mensurar o tamanho real da cadeia de valor atual do rádio brasileiro, é preciso ir além dos dados declarados publicamente pelas emissoras, como faturamento publicitário regular ou com verbas federais para divulgação das ações governamentais em cada tipo de veículo do mercado da comunicação. Seria preciso descobrir todos os componentes, formais e informais, dos quase 5% anuais de receita total do rádio. Há vários estudos demonstrando que muitas emissoras,“alugam” ou vendem inserções e horários inteiros para políticos, grupos partidários ou religiosos interessados em manter canais eficazes de proselitismo com suas “bases” e “fiéis”. Tais arranjos paralelos tornam-se fontes de receita de origem não publicitária, que usualmente não são declaradas e dificultam a mensuração dos índices reais de faturamento de grande parte das emissoras, sobretudo as locais. A arrecadação paralela contribui para a elaboração subestimada, de uma cadeia de valor que poderá prejudicar o veículo durante a transição tecnológica e o período de modelagem de outros tipos de programação.

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A figura 3 (SECOM, 2004) reafirma a forte dependência de verbas publicitárias

governamentais, pelas emissoras de rádio. Tomemos como exemplo o ano de 2002: enquanto

a TV recebia da União, 6.8% de seu faturamento publicitário, o rádio apresentava uma receita

equivalente a 13,1%, em valores relativos, mais que o dobro da TV. Então, uma redução do

investimento publicitário governamental no rádio poderá debilitar num curto prazo, a

estabilidade financeira das emissoras.

num curto prazo, a estabilidade financeira das emissoras. Figura 03 – Participação de recu rsos públicos

Figura 03 – Participação de recursos públicos no faturamento publicitário de diversas mídias – Fonte: SECOM, 2004

No atual mercado de publicidade e marketing há outras formas de comunicação, que

são utilizadas por usuários públicos e privados. Muitas formas de mensagens publicitárias não

se restringem mais aos meios de comunicação de massa. Nos últimos anos, o bolo dos

recursos publicitários passou a ser dividido com outras atividades de comunicação dirigida

como marketing direto, ações em ponto de venda, etc. A figura 04 demonstra que os veículos

convencionais de comunicação captam apenas 63% deste montante. (Revista Meio e

Mensagem, 2001).

que os veículos convencionais de comunicação captam apenas 63% deste montante. (Revista Meio e Mensagem, 2001).
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Fig. 04 - Divisão do composto de Comunicação em 2001. Fonte: Revista Meio e Mensagem, 2001

O que os dados mostram é a ocorrência de “uma migração significativa dos

investimentos em mídia para ferramentas de comunicação não-mídia” (CPqD, 2004). Para o

rádio, necessariamente, esta não é uma notícia ruim. A versatilidade do veículo e o baixo

custo de suas inserções o tornam uma mídia adequada para a veiculação e realização de

promoções com sorteios, coleções e brindes e eventos. A digitalização poderá aumentar o

faturamento porque trará ao meio, mais recursos para produção e veiculação de conteúdos

diferenciados, além obter mais possibilidades de interação com seus ouvintes.

A cadeia de valor do rádio, assim como a da TV, é classicamente composta de quatro

etapas distintas e seqüenciais, conforme gráfico da figura 05.

distintas e se qüenciais, conforme gráfico da figura 05. Fig.05 – Cadeia de valor atual do

Fig.05 – Cadeia de valor atual do rádio

Na fase de produção de conteúdo, uma idéia é transformada em um produto. Na

programação há a organização da grade horária de uma emissora, com a pré-definição das

inserções de programas e de intervalos para publicidade, serviços, utilidade pública, etc. É na

grade que se define o perfil ou segmento de mercado no qual a emissora vai atuar. Na

distribuição é feita a entrega da programação para as emissoras afiliadas, no caso de rede ou

de radiodifusão para as emissoras independentes. Quem distribui permite aos ouvintes o

consumo e a fruição da programação. No interior desta cadeia estão identificados os

envolvidos em cada etapa do processo: os roteiristas, locutores, programadores, técnicos,

produtores artísticos etc. Algumas funções profissionais foram alteradas e até extintas, desde

o início da informatização da produção de rádio e televisão. A digitalização integral poderá

acelerar o processo de automatização ou terceirização da programação e reduzir ainda mais o

número de funções e postos de trabalho nos dois veículos, abrindo outros mercados

produtores “não-mídia”.

Parece que os radiodifusores brasileiros ainda hesitam em investir na digitalização da

transmissão do rádio. Contudo, a demora para a conclusão de todo o ciclo tecnológico não

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impediu que ocorresse, em escala significativa, a digitalização dos processos de produção, com a automação do gerenciamento da grade de programação e do fluxo de transmissão. O ciclo só poderá ser finalizado com a escolha do padrão nacional de digitalização das emissoras. Vários testes com os padrões IBOC (In-Band-On-Channel) dos EUA, e o DRM (Digital Radio Mondiale) europeu, estão em andamento e os resultados deles são divulgados de modo restrito e pouco conclusivo. Existe uma previsão do Ministério das Comunicações (Duvoisin, 2006) que cada emissora deverá investir entre R$ 150.000,00 e R$ 200.000,00, para aquisição do sistema de transmissão digital, uma quantia impagável para muitas emissoras pequenas e de gestão familiar espalhadas pelo interior do país. O fato de ainda não existir produção nacionalizada

de receptores digitais também colabora para dificultar a conclusão do cenário do rádio digital brasileiro. Os analistas mais animados com a implantação plena do sistema especulam um tempo mínimo de dez anos para sua conclusão. Dos 17 testes em andamento ou realizados até setembro de 2006, 15 são do padrão IBOC, o sistema preferido pelos radiodifusores. Os dois testes feitos com o padrão RDM foram patrocinados pela Faculdade de Tecnologia da Universidade de Brasília e pela Radiobrás. (www.teleco.com.br). A receita do rádio digital deverá sair de três principais fontes distintas e complementares:

Subsídio direto ou indireto de empresas públicas ou privadas;

Receita publicitária;

Serviço de Valor Adicionado (SVA). Em relação ao subsídio direto ou indireto de empresas públicas ou privadas, vimos anteriormente o grau de dependência do rádio comercial dos investimentos publicitários do Estado. As rádios universitárias e educativas, que por serem na imensa maioria públicas, são obrigadas a veicular sem remuneração a divulgação oficial, tentam complementar suas mirradas verbas de custeio com subsídios de empresas privadas. O “apoio cultural” é uma forma “maquiada” de publicidade, um artifício para burlar a legislação que impede veiculação de comerciais nas emissoras públicas. As rádios comunitárias, subsidiadas por pequenas atividades produtivas, grupos de interesse social e organizações não governamentais utilizam táticas semelhantes para arrecadar patrocínio para continuarem em funcionamento. No caso do subsídio direto ou

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indireto de empresas públicas ou privadas, o volume dos investimentos em rádio digital não deverão sofrer mudanças paradigmáticas em relação ao rádio analógico.

O aumento da receita publicitária brasileira poderá ser contínuo graças ao crescimento

do mercado nacional, em decorrência das condições macroeconômicas favoráveis e de uma distribuição mais uniforme de renda e da geração de mais empregos. O “calcanhar de Aquiles” da “nova economia” do rádio digital poderá ser as agências de publicidade e os anunciantes. Estes dois pólos vitais do mercado da comunicação só costumam definir o

destino das verbas em comunicação a partir de certezas antecipadas. Ou seja, deverão esperar

o sistema ser implantado para verificar se há novas formas de divulgação e possibilidades de

melhor retorno para seus investimentos publicitários. A implantação do Sistema Brasileiro de Rádio Digital não interfere no processo de criação da mensagem publicitária neste momento. Contudo, publicidade em rádio digital só será realidade para as agências quando realmente existir trasmissão-recepção binária e mais possibilidades de interação e disponibilidade de outros canais de comunicação com público-alvo definido para a divulgação publicitária.

O Serviço de Valor Adicionado (SVA) Serviço de Valor Adicionado, “serviço que

acrescenta a uma rede preexistente de um serviço de telecomunicações, meios ou recursos que criam novas utilidades específicas, ou novas atividades produtivas, relacionadas com o acesso, armazenamento, movimentação e recuperação de informações” (www.anatel.gov.br), será possível com a codificação e transmissão digital de mensagens. Isto permitirá ao ouvinte receber num display de seu novo receptor informações escritas sobre o trânsito, pequenas notícias, condições meteorológicas, localização e transmissão de dados em geral. Serão novas formas de arrecadar recursos financeiros para as emissoras. Porém, uma pequena tela ou

display no aparelho receptor pode gerar conflitos de interesses entre os diversos participantes do enorme e promissor mercado da radiodifusão e das telecomunicações.

A convergência das mídias pode transformar um aparelho portátil de rádio em um

terminal multimídia para telefonia móvel e internet, etc. Um “rádio que recebe e envia textos

e imagens” pode estabelecer um paradoxo que tornará ainda mais imperiosa a regulamentação específica de todas as atividades de comunicação digital.

O rádio digital terá que criar novos conteúdos ou adequar os atuais às características e

particularidades de uma linguagem radiofônica, que pressionada pela nova tecnologia, terá que incorporar novos elementos de comunicação e de construção de interfaces com seu público. Para que isto aconteça, a produção de conteúdo deverá ser assumida por um ou vários

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atores do processo de radiodifusão. O embate sobre o processo e os efeitos da digitalização do rádio e da televisão, como pudemos perceber em vários momentos do texto, não será ameno e deverá prosseguir por vários anos seguidos. Somente uma conclusão é possível: a necessidade urgente de pesquisas e debates públicos sobre o assunto.

REFERÊNCIAS BIBLIGRÁFICAS

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http://www.anatel.gov.br/index.asp?link=/biblioteca/Normas/Normas_MC/norma_004_95.htm?Cod=3

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http://www.ufrgs.br/estudiodeaudio/conteudo_leituras/radio_digital.pdf

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