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Os privados

Alberto Castro, Professor universitário

Recentemente, o primeiro-ministro anunciou a não


renovação de uma parceria "público-privada" (PPP), no
domínio da saúde, com o pretexto de que a vigilância
do cumprimento do contrato imporia custos
desproporcionados ao Estado. Avaliados os seus
custos e benefícios, em comparação com os da
alternativa da gestão pública directa, aquele modelo
ficaria a perder.

O PM não revelou o que motivou a sua decisão.


Afirmou-o. Ao proceder assim, permitiu que
subsistissem dúvidas e equívocos. Foi uma opção
estritamente política? Os custos das PPP são mais
altos, por natureza, ou tão-só por inadequado desenho
dos contratos subjacentes às que, actualmente,
existem? No segundo caso, não é possível ter
contratos mais completos e mecanismos de
acompanhamento mais eficazes? No caso da gestão
pública, fez-se alguma estimativa de quanto custa
controlar os "agentes" públicos? Como nada disse de
mais concreto, o PM permitiu que ressurgisse a
retórica que confunde serviço público com estatização
e se voltasse a diabolizar a iniciativa privada. Como se
lucro e eficiência fossem categorias antagónicas.
Como se o lucro só se pudesse conseguir à custa do
interesse público. Como se os interesses privados
fossem, por definição, piores que os interesses,
particulares ou de grupo, dos eventuais gestores
públicos que o Governo venha a nomear para gerir os
referidos hospitais. Ou como se os interesses deste
grupo fossem, necessariamente, coincidentes com o
interesse público. Sócrates sabe, certamente, que
existe abundante evidência, teórica e empírica, da
extensão dessa assimetria de interesses. A
preocupação do Governo em desenhar novos
sistemas de remuneração, com um peso significativo
de incentivos variáveis, é disso prova.

Ao não ser claro, ao permitir uma leitura ambígua do


papel que atribui à iniciativa e gestão privadas na
consecução de objectivos públicos, o Governo
arrisca-se a ter, agora, de fazer intervenções
casuísticas de questionável coerência. Por exemplo,
no domínio da gestão dos aeroportos, o que podemos
esperar? Com argumentos mais ou menos
sofisticados, lá surgiram os habituais guardiães do
templo público. Os mais hipócritas, sugerem que a
exploração do aeroporto é deficitária e que, por isso,
tem de ser assegurada pelo Estado. Mas, se assim
fosse, por que se oporiam à privatização da gestão?
Se os privados apenas visam o lucro, então estariam a
ser irracionais? Querem protegê-los? O facto de quem
tal insinua estar instalado numa empresa pública, que
não revela os resultados da referida exploração, é, por
si só, esclarecedor. Ao mesmo tempo, remete-nos
para o que acima se disse de interesses particulares
de clientelas específicas em risco de serem
desalojadas.

Outros argumentos são mais primários, revelando uma


total incompreensão do que são os mecanismos de
mercado. Entre esses estão os que se mostraram
preocupados com a possibilidade de uma gestão

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privada, eventualmente confrontada com uma quebra


da procura, poder ser tentada a subir os preços para
manter receitas! Não é preciso ter feito nenhum curso
de economia para se saber ser esse um erro que, em
circunstâncias normais, apenas agravaria o problema.

Merecedor de outra discussão é o argumento,


apresentado no estudo encomendado pela Junta
Metropolitana do Porto, de que uma gestão privada
não estaria alinhada com as eventuais prioridades da
política regional. Pessoalmente, acho esse raciocínio
tributário de uma concepção de política regional
datada, dependente de centros de poder
administrativo, feita de cima para baixo, paternalista e
que ignora, ou desconfia, das motivações dos agentes
privados. Vejamos o caso do porto de Leixões.
Quando é que o mesmo foi mais útil ao
desenvolvimento da região? Quando se acumulava a
propriedade das infra-estruturas e a sua exploração ou
quando se concessionou a exploração dos cais e se
concentrou a gestão pública no exercício das funções
de autoridade portuária?

O Norte e o país precisam de se libertar da tutela


asfixiante do Estado. Estamos todos de acordo. Nas
palavras. Nos actos, é o que se vê. Persistir em
ignorar o papel motor que a iniciativa privada sempre
teve quando a região esteve na mó de cima pode
ajudar ao protagonismo de alguns, mas não é um
modelo sustentável e não radica na tradição que fez do
Norte uma região ganhadora. E, neste caso, a tradição
é o futuro.

Alberto Castro escreve no JN, semanalmente, às


terças-feiras.

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