15/06/2015

A alternância e seus consensos

A alternância e seus consensos
por Daniel Vaz de Carvalho
Matamo­nos a cantar os hinos do progresso
ao compasso do batuque da agiotagem, 
Oliveira Martins, "Portugal Contemporâneo". 
 

O conservadorismo moderno está
comprometido num dos exercícios intelectuais
mais antigos que se conhecem:   a procura de
uma justificação moral para o egoísmo. 
John Kenneth Galbraith

1  –  AS

POLITICAS RESPONSÁVEIS 
O  capitalismo  é  a  legalização  da  avareza  e  do  egoísmo  de  que  falava
Galbraith.  PS,  PSD,  CDS,  os  partidos  do  "arco  da  governação",  a  troika
interna, proclamaram estas práticas como "políticas responsáveis". 
Mas  responsáveis  em  quê  e  de  quê?!  Responsáveis  pelo  aumento  da
pobreza, do desemprego, da estagnação económica que já vai em década e
meia,  pelo  crescimento  das  desigualdades,  pela  desindustrialização,  pela
assinatura  de  um  "memorando"  assumido  como  "ajuda",  certamente  à
finança, mas consistindo num claro pacto de agressão à nossa soberania e
http://resistir.info/v_carvalho/alternancia_abr15.html

1/8

 As MPME vivem em permanente risco de falência devido à perda do poder de compra  da  população;  o  investimento  em  termos  líquidos  (descontando  as amortizações)  é  negativo. as suas taxas de lucro aumentaram em termos monopolistas e pela "flexibilidade laboral".  a  dívida  pública  e  privada  (famílias  e empresas) ao estrangeiro ascendia no final de 2014 a 300 % do PIB.  O  país  tornou­se  um  fornecedor  líquido  de capitais:  desde  a  criação  da  Zona  Euro  foram  transferidos  do  país  em  15 anos (2000 a 2014) 62 536 M€.  Nenhum  destes  partidos  defende  políticas  de intervenção  do  Estado  no  campo  económico:  defendem  a  "economia  de mercado".  [1]  Os  partidos  da  alternância  fingem ignorar este facto e assentam a sua estratégia nas verbas que hão de vir da UE… fazem por ignorar o que sai. PS os substitui mantendo políticas  idênticas.info/v_carvalho/alternancia_abr15.  É  a  alternância.  o  neoliberalismo.  Com as "políticas responsáveis" de privatizações e "flexibilidade laboral" os défices.  Quando  o  PS  se  afunda.  Quando o PSD e CDS se afundam no descrédito.  a  redução  de  custos  é  feita  não  de investimento.  http://resistir.  para  aumentar  os  lucros  e  a saída de capitais.  As  "políticas  responsáveis"  tornaram  Portugal  num  dos países  mais  endividados  da  OCDE. Os serviços pioraram.  A  prática  do  PS  com  variantes  de  estilo  é também uma política de direita. o endividamento. a pobreza nunca deixaram de crescer.15/06/2015 A alternância e seus consensos ao  nosso  povo.  o  PSD­CDS  substituem­no aprofundando as mesmas políticas "responsáveis" de obediência "às regras da  UE".  As grandes empresas apoderam­se dos serviços públicos.html 2/8 .  mas  à  custa  dos  trabalhadores.  os  preços  aumentaram. Note­se que no mesmo período a Alemanha absorveu  um  total  de  608  456  M€.

 segundo o seu consenso o que as provoca são salários altos e prestações sociais. o PSD e CDS diziam o mesmo na oposição. Mas os mercados não são  as  abstrações  da  "mão  invisível".  para  a  extração  juros  e  de  rendas  monopolistas.  além  de  uma arma do imperialismo para dominar os povos. pois. Quando no governo. mas não critica "os mercados" nem a troika. sem fim à vista.  são  instituições  politicamente determinadas  no  sentido  de  favorecer  a  finança  e  o  grande  capital. com crises a serem pagas pelos trabalhadores. O PS diz agora que é necessário aumentar a procura para reduzir o desemprego.  A teologia neoliberal impõe o dogma dos mercados.15/06/2015 A alternância e seus consensos 2 – CONSENSO SOBRE OS "MERCADOS"  A  ideologia  do  mercado  é  uma  dominante  do  consenso  do  "arco  da governação".  A ideologia da economia de mercado à qual tudo se tem se subordinar levou os países a uma crise que se prolonga há sete anos.  http://resistir.  Os "mercados"  são  o  eufemismo  para  a  especulação  financeira  e  sobre  bens essenciais.info/v_carvalho/alternancia_abr15. que existe sempre que  haja  produção  mercantil  e  portanto  também  em  socialismo  dada  a existência de cooperativas e mesmo MPME privadas. O PS critica o governo PSD­CDS por ser fundamentalista e por ir mais longe que a troika.  O  jogo  de  palavras  mostra  uma  tática  de  deflexão  para  fugir  ao essencial:  uma  coisa  são  "os  mercados"  na  assumida  versão  neoliberal  – monopólios e finança especuladora – e outra o mercado. o PS argumentava contra partidos à sua esquerda  acusando  com  indisfarçável  arrogância  o  PCP  de  ser  contra  o mercado.html 3/8 .

  que  com  impressionante  frequência  vêm  a público.8 M€.  O Banco de Portugal não passa na realidade de uma delegação do BCE.  porém  a  dívida  aumentou  58  700  M€ desde  final  de  2010!  Os  excedentes  orçamentais  ficam  hipotecados  aos juros.  levando  os  países  a  intermináveis crises  em  prejuízo  dos  trabalhadores  e  da  sociedade  em  geral.  Esta traficância foi alcançada com a cumplicidade de partidos ditos "socialistas".2 M€ de  défice  orçamental  acumulado. que se mostrou mais preocupado na flexibilização laboral do que em fazer o que lhe competia no caso BES.  A  dívida  pública  veiculada  pelos  critérios  neoliberais  tornou­se  a  mais descarada  forma  de  espoliação  dos  povos. a "regulação"  é  semelhante  quer  o  governador  seja  do  PS.  pois  isso  pode "traumatizar  os  mercados"  (espantosos  estes  eufemismos!)  o  PS  também não.  PSD  e  CDS  não  querem  falar  em  renegociação  da  dívida.  A  ineficiência  do  Estado  não chega  a  merecer  o  nome  de  dogma.15/06/2015 A alternância e seus consensos A tese da "eficiência do mercado" permitiu às oligarquias apoderarem­se de partes  crescentes  da  riqueza  produzida.646. E como é possível colocar à frente de um órgão de regulação (o que quer que isto queira dizer) gente que convictamente é pela desregulação dos "mercados"?!  http://resistir. um banqueiro escolhido em consenso. envolvendo o país num círculo vicioso. debate sobre as consequências da permanência no euro e sobre a saída da moeda única e controlo público da banca.  mas  de  reles  mentira  atendendo  aos atos  de  má  gestão  e  fraude. face a 34.  De 2011 a 2014 Portugal pagou de juros 28.  como  Vítor Constâncio ou Carlos Costa. Esta convergência manifestou­se claramente no voto dos três partidos contra uma proposta do PCP para a renegociação da dívida .html 4/8 .info/v_carvalho/alternancia_abr15. com as instituições de regulação e fiscalização a nada verem.528.

  Defesa  justificada  com  argumentos  que  as  políticas  em  curso  totalmente negam:  promover  os  Direitos  Humanos  (ex.  de  reforço  do Parlamento Europeu e de dotar a Zona Euro de capacidade de governação própria ao nível legislativo e executivo.  uma mundialização  sustentável  e  com  regras  (as  da  finança  predadora!).  fiscalização financeira.  Ucrânia…).  (livre  transferência  de  capitais  e  "competitividade fiscal").15/06/2015 A alternância e seus consensos 3 ­ CONSENSOS SOBRE A UE  Quando o PS diz que  os problemas  do país  se  têm  que resolver na UE.  PSD e CDS entregam o país aos interesses monopolistas e aos predadores financeiros  com  o  argumento  de  "deixar  a  economia  funcionar"  (TAP.  mesmo  tímidas  medidas  como  a intervenção  pública  na  economia.html 5/8 .  Como  na  história  do  Pinóquio. choca com as imposições dos tratados europeus. http://resistir.  a  festa  dos  meninos  foi  só  para  os levar a transformarem­se em animais de trabalho. O consenso da troika  interna  está  patente  nas  profissões  de  fé  europeístas  e  de "continuarmos a honrar os nossos compromissos".info/v_carvalho/alternancia_abr15. o  PS  pede  meças  com  os  seus  impulsos  federalistas.  Se o primeiro­ministro "passa por ser na UE o campeão da união bancária".  Tudo  o  que  poderia  beneficiar  Portugal. escudando­se em  promessas totalmente infundadas  e falsas.  o  fim dos  paraísos  fiscais.  Líbia. a conclusão  está inserida  nas próprias premissas  da questão:  os nossos problemas radicam  na  UE  e nos  absurdos tratados  que pressurosamente assinaram.  Síria.  o  controlo  da  banca.  PT.

 mas mostra bem o nível de decadência da UE.  Schauble.  a  Irlanda.  ao  descalabro  e  –  estão  a  levar  a  França  e  a Bélgica. que não  existe  como  tal. O PS afirma querer na UE o primado da política sobre os interesses financeiros. Os comentários sobre "ir mais longe que a troika" tendo  em  vista  os  resultados  e  as  sucessivas  revisões  não  passam  de "diálogos do absurdo".  Basta  escutar  o  ministro  das Finanças  alemão. António Costa.). mas concretamente quase nenhumas sobre medidas para Portugal.  07/janeiro/2015). mas de se ir "para além da troika". etc.  "finalmente  o  mito  da  austeridade http://resistir. como caixa­de­ressonância da oligarquia  alemã. mas também  do  alcance  da  social­democracia  (mesmo  a  do  Syriza)  acerca  da sua  capacidade  e  determinação  quanto  a  "transformações"  a  favor  dos povos na UE. Esta linguagem da direita troglodita foi depois objeto de ajustes. Pelos vistos o PS tem muitas ideias sobre a política europeia.  submetido  ao  imperialismo  alemão.  o  que  existe  é  um  espaço  neocolonial  de  repressão social.15/06/2015 A alternância e seus consensos Estaleiros de Viana.  pois  foram  estas  "regras"  que  levaram  Portugal.  mas  chantageia  miseravelmente  o  povo  grego.  A posição relativamente à Grécia mostra outro consenso apenas mascarado com palavras diferentes.  no  dizer  do  eurodeputado  Carlos Zorrinho  (Z­News.  Tudo  indica  que  depois  de  uma  série  de  quiméricas  promessas  como  no passado. mais comedido disse que apoiava  as  negociações  da  Grécia  "dentro  das  regras  europeias".  As  suas  propostas  do  PS  radicam. Ficariam bem em Ionesco.  para  compreendermos  o  que  há  a  esperar  da dita UE.  a  Itália. mas que o povo português dispensaria. Não quer entender que a UE.  vai  mais  longe  que  o  suserano  alemão  e  disse  que  a posição  do  governo  grego  era  "uma  criancice"  (o  PR  não  lhe  ficou  a  trás). está tudo dito acerca das ilusões do PS sobre a UE e suas instituições.info/v_carvalho/alternancia_abr15.  a Grécia. meu capitão…  4 – OUTROS CONSENSOS  As divergências entre PS e PSD­CDS não são as políticas da troika.  o  PS  vai  fazer  como  na  rábula  da  "Ida  à  guerra"  do  ator  Raul Solnado. Pergunta­lhe o comandante:  — Então onde está o prisioneiro?  — Ele não quis vir.  Espalha­se  a  ilusão  de  que  na  UE.html 6/8 . O primeiro­ministro.  Puro oximoro!  Um  absurdo.  na  ilusão  de  que  "ter  uma  voz"  na "Europa" (a sua) irá mudar alguma coisa.  Quando  o  BCE  tem  60  000  M€  por  mês  (!)  para  a  finança  predadora prosseguir  a  especulação.

html 7/8 . leva à  inviabilidade da  democracia.  PS  e  PSD­CDS  competiram  em  "flexibilizar"  as  leis  laborais. apenas 97 convenções abrangendo 186 mil trabalhadores (CGTP).  Os três partidos estão também unidos na defesa de um inconcebível tratado em  termos  de  soberania  e  desenvolvimento. É preciso que os recursos sejam colocados  ao  serviço  da  economia  real  e  não  da  especulação  financeira. Abriu­se um novo ciclo. colocando os países na situação de colónia das transnacionais.  revisões  atrás de revisões para satisfazer os "mercados" e ser atrativo para o capital." Tudo isto sem pôr em causa "as regras da UE".  sem  crescimento  económico.info/v_carvalho/alternancia_abr15.  que  contraria  tudo  o  que  o  PS  diz  defender. levaram a uma queda brutal da contratação coletiva.  As políticas conjuntas da "troika interna" de que faz parte no campo laboral a direção da UGT. Há 15 anos  realizavam­se  entre  350  a  400  convenções  por  ano  abrangendo  2 milhões de trabalhadores. mas que  para  o  FMI  e  UE  –  nunca  são  suficientes  –  mostram  uma  completa distorção  quanto  aos  interesses  nacionais:  não  é  o  capital  que  tem  de  se tornar vantajoso para o país é o país que tem de se tornar vantajoso para o capital. A cartilha das regras da UE torna­nos um país de baixos  salários. O ministro Poiares Maduro deixa claro aquilo com o que o  PS  pode  contar:  "os  portugueses  já  não  aceitam  facilmente  políticos  que mudam  o  comportamento  devido  à  proximidade  das  eleições. em 2013.  anulando  a  vontade  e  os  interesses  populares  pela intimidação e pela chantagem. temos é de pensar para além de 2015".  precariedade.  a  Parceria  Transatlântica  de Comércio  e  Investimento  [2]  .  Na  interpelação  ao  ministro  Pires  de  Lima. A perda de soberania de que estes três partidos são responsáveis.  vergado  à escravidão do endividamento.  O  Portugal 2020 nunca pode ser planeado em função das eleições" [3]  É este discurso fascizante – e dentro das regras europeias… – que o PR de forma melíflua também faz para garantir a alternância neoliberal com o PS.15/06/2015 A alternância e seus consensos regeneradora caiu.  um  deputado  do  PS  diz:  "é necessário que o PSD e CDS deixem de falar em 2011. mascarando a  realidade  com  promessas  de  diminuir  o  ritmo  da  austeridade  e interpretações "inteligentes" e "flexíveis" de tratados iníquos e estúpidos (por impraticáveis democraticamente) confiando na boa vontade dos oligarcas.  Não adiantam vagas intenções que nada de essencial mudam.  Para  o  PSD­CDS  a  doutrina  não  difere  da  defendida  por  Mussolini  "a http://resistir.  Dirigentes  e  deputados  do  PS  não  se  afastam  deste  "paradigma"  e defendem um consenso com PSD após as eleições.

) há que abolir o Estado coletivista.  ou  seja  disciplinamento da  força  de  trabalho  e  liberdade  total  para  os  capitalistas. Eugénio Rosa.  Isto  explica  a tendência do liberalismo a derivar rumo ao fascismo.  a  corrupção  (os  crimes  ignoram­se).15/06/2015 A alternância e seus consensos verdadeira história do capitalismo começa agora (. o "bloco central".  "de  rosto  humano".  E  a  alquimia  –  como  se  sabe  –  era  um  misto  de superstição e escroqueria. 20/Abr/15 http://resistir. Diário Económico.html 8/8 .  as  crises. [4] O que não impede largos  sectores  responsáveis  no  PS  de  abertamente  defenderem  um governo ligado ao PSD.  Querer  mudar comportamentos  sem  alterar  as  causas  que  os  motivam  não  passa  de alquimia  política. 18/02/2015  [4] Origem e declínio do capitalismo . em suma.info/v_carvalho/alternancia_abr15.info/ .  Este artigo encontra­se em http://resistir.  A  alternância  comprometeu  o  futuro  do  país. O tratado de comércio livre EUA­UE: a grande golpada .  [3] Poiares Maduro. Notas  [1] A União Europeia e o Euro serviram para enriquecer a Alemanha .  Romper  com  estas  políticas implica  que  seja  posta  em  prática  uma  política  de  esquerda  e  a  patriótica defesa da nossa soberania.  O  objetivo  do  PS  é  instituir  "um  capitalismo  bom". que o socialismo tenha lugar. Jorge Beinstein..  Os erros.  tal  como  a  guerra  nos  transmitiu  pela  necessidade  das circunstâncias  e  voltar  ao  estado  manchesteriano".  são  devidos  a comportamentos  inadequados  e  incompetência.  [2] TTIP. Vaz de Carvalho..

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