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O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE HUMANA COMO LOCUS

HERMENÊUTICO DA NOVA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL

Maria Thereza Tosta Camillo


Pós-Graduanda em Direito Constitucional
Trabalho apresentado como exigência para a disciplina
Interpretação Constitucional.

1. INTRODUÇÃO

O ordenamento jurídico está escalonado em diferentes patamares,


estando no topo a Constituição Federal, cujas normas e princípios regem a
aplicação das demais normas jurídicas, de acordo com o princípio da supremacia
da constituição.
Sendo o princípio da dignidade da pessoa humana um dos
fundamentos da Republica Federativa do Brasil - constituída em um Estado
democrático de direito - importante investigar se esse princípio tem prevalência
entre os demais, diante da ausência de hierarquia entre os princípios, cujos
conflitos são solucionados através da técnica da ponderação.
O presente trabalho pretende verificar a relevância desse princípio
diante da busca por uma nova hermenêutica constitucional que se adapte ao
modelo pós-positivista proposto, que apresenta os princípios como regras auto-
aplicáveis.
Com essa finalidade, será empreendida pesquisa bibliográfica, com
destaque para o material estudado durante a disciplina de Interpretação
Constitucional, a fim de se efetuar uma análise crítica do tema.
2. O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE HUMANA COMO LOCUS
HERMENÊUTICO DA NOVA INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL

Embora a hermenêutica seja comumente conceituada como a “teoria


ou a arte da interpretação”1, é importante ressaltar a diferença entre as duas
atividades. Enquanto a intepretação é a prática concreta, a hermenêutica visa à
definição de métodos ou critérios de interpretação, podendo atuar nos diversos
ramos do saber (hermenêutica filosófica, hermenêutica jurídica, hermenêutica
lingüística).
No Direito, após um longo período de predominância da visão
juspositivista – “dedutiva, silogística, subsuntiva e fechada”2 – esta tem se
mostrado cada vez mais insuficiente para solucionar os casos concretos de acordo
com uma leitura moral3 da Constituição, exigência da pós-modernidade, que
pretende satisfazer os anseios da sociedade por justiça.
Em especial no âmbito do Direito Constitucional, tal perspectiva pós-
positivista tem como propósito dar plena efetividade aos princípios e aos direitos
fundamentais, colocando-os no mesmo patamar das regras jurídicas, e como
características a valorização da dimensão retórico-argumentativa das decisões
judiciais e a reaproximação entre o direito e a ética 4, cujo divórcio havia sido
promovido pelo juspositivismo.

1
O QUE É HERMENÊUTICA. Artigo Científico. Disponível, pela diretoria de educação a distância da
Universidade Estádio de Sá, da disciplina Interpretação Constitucional, do Curso de Pós-Graduação em
Direito Constitucional, acesso em 22.08.2009.
2
O POSITIVISMO JURÍDICO E SUAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS. Artigo Científico.
Disponível, pela diretoria de educação a distância da Universidade Estádio de Sá, da disciplina
Interpretação Constitucional, do Curso de Pós-Graduação em Direito Constitucional, acesso em
22.08.2009.
3
A RECONSTRUÇÃO NEOCONSTITUCIONALISTA DO DIREITO E A LEITURA MORAL DA
CONSTITUIÇÃO. Artigo Científico. Disponível, pela diretoria de educação a distância da Universidade
Estádio de Sá, da disciplina Interpretação Constitucional, do Curso de Pós-Graduação em Direito
Constitucional, acesso em 29.08.2009.
4
A RUPTURA EXEGÉTICA E AS CARACTERÍSTICAS DA NOVA DOGMÁTICA
POSPOSITIVISTA. Artigo Científico. Disponível, pela diretoria de educação a distância da Universidade
Estádio de Sá, da disciplina Interpretação Constitucional, do Curso de Pós-Graduação em Direito
Constitucional, acesso em 29.08.2009.
Tal dogmática traz, entretanto, em seu bojo, o risco de se transformar
em mero decisionismo judicial5, daí a importância do estudo da hermenêutica, a
fim de estabelecer os princípios de Interpretação Constitucional.
Da filosofia Heideiggeriana, aprendemos que a possibilidade de
questionar e a compreensão fazem parte da condição essencial do ser humano,
sendo designados por aquele filósofo como pre-sença, ou Dasein (ser-aí)6. Disso
decorre que a tarefa hermenêutica tem como ponto de partida o homem, ser
histórico e social, e, portanto, não pode estar dissociada dos preconceitos,
preferências e valores do homem de nossa sociedade 7, assim como a tarefa
cognitiva não pode estar dissociada dos esquemas8 (schemata) do aprendiz.
Inegavelmente, a dignidade da pessoa humana é um valor que sempre
ocupou um lugar central no pensamento filosófico, político, e jurídico, inclusive
tendo sido positivado como valor fundamental da ordem jurídica por parte de um
expressivo número de constituições9.
A idéia de dignidade humana já era encontrada na época clássica,
embora então significasse a posição social então ocupada pelo indivíduo e o seu
grau de reconhecimento pelos demais membros da comunidade, sendo possível a
gradação e a existência de maior ou menor dignidade. Por outro lado, já era então
reconhecida como uma qualidade inerente ao ser humano10.
Antes disso, no entanto, já se encontra raízes do valor da dignidade
humana no ideário judaico-cristão. A partir da informação contida no Antigo

5
Ibidem.
6
TEOREMAS DA DIFERENÇA ONTOLÓGICA E DO CÍRCULO HERMENÊUTICO. Artigo
Científico. Disponível, pela diretoria de educação a distância da Universidade Estádio de Sá, da disciplina
Interpretação Constitucional, do Curso de Pós-Graduação em Direito Constitucional, acesso em
22.08.2009.
7
DO PROBLEMA METODOLÓGICO AO PROBLEMA ONTOLÓGICO – A IMPORTÂNCIA DA
HERMENÊUTICA FILOSÓFICA. Artigo Científico. Disponível, pela diretoria de educação a distância
da Universidade Estádio de Sá, da disciplina Interpretação Constitucional, do Curso de Pós-Graduação
em Direito Constitucional, acesso em 22.08.2009.
8
Termo cunhado por Piaget para designar as estruturas mentais ou cognitivas pelas quais os indivíduos
intelectualmente se adaptam e organizam o meio.
9
SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. Uma Teoria Geral dos Direitos
Fundamentais na Perspectiva Constitucional. 10ed. Porto Alegre: Do Advogado, 2009, p. 99.
10
Idem, p.98
Testamento de que o homem foi criado “à imagem e semelhança” de Deus
(Gênesis 1,26), o Cristianismo extraiu o corolário de que o ser humano é dotado
de um valor próprio, que lhe é intrínseco, não podendo ser transformado em
objeto ou instrumento, ou tratado como tal11. Mais tarde, seria Santo Tomás de
Aquino o pioneiro no uso do termo “dignitas humana”.
Na Renascença e na Idade Moderna, com o resgate dos clássicos,
retornou a vinculação da dignidade com a liberdade pessoal de cada indivíduo,
senhor e responsável por seus atos e seu destino, formulada pela filosofia estóica.
A partir daí, o conceito de dignidade se funda na capacidade de autodeterminação
e na autonomia ética (Kant) do ser humano12.
A concepção consagrada pela maioria das constituições, no entanto,
funda-se no pressuposto jusnaturalista de que “o homem, em virtude tão somente
de sua condição biológica humana, e independentemente de qualquer outra
circunstância, é titular de direitos que devem ser reconhecidos e respeitados pelos
seus semelhantes e pelo Estado”. Como algo inerente à sua natureza, a dignidade
da pessoa humana é irrenunciável e inalienável 13.
Segundo José Afonso da Silva, a dignidade da pessoa humana é um
valor supremo que atrai o conteúdo de todos os direitos fundamentais do homem,
tendo sido concebido como referência constitucional unificadora de todos os
direitos fundamentais14.
Na lição de Alexandre de Moraes, o princípio da dignidade da pessoa
humana concede unidade aos direitos e garantias fundamentais, sendo inerente às
personalidades humanas e constituindo-se um mínimo invulnerável que todo
estatuto jurídico deve considerar15.
Na constante tarefa de interpretação do texto constitucional o jurista
irá trabalhar com regras que não tem hierarquia, mas sim graus de abrangência

11
Ibidem.
12
Idem p. 99.
13
Idem p. 100.
14
DA SILVA, José Afonso; Curso de Direito Constitucional Positivo. 31ed. São Paulo: Malheiros,
07.2008, p. 105.
15
MORAES, Alexandre de; Direito Constitucional. 16ed. São Paulo: Atlas, 2004, p.52.
diferentes, devendo atentar para a harmonização entre as normas, o chamado
princípio da concordância prática.
Tal princípio estabelece que deva haver harmonização entre as normas
ou valores do texto constitucional. A desarmonia implicaria na negativa de
aplicação de uma norma, o que precisa a todo custo ser evitado. Mais do que
possibilitar a máxima efetividade possível, o postulado ou princípio da
harmonização relaciona-se com o da unidade, na medida em que não se podem
admitir contradições.
No dizer de Canotilho:

“[...] o princípio da concordância prática impõe a coordenação e


combinação dos bens jurídicos em conflito ou em concorrência de
forma a evitar o sacrifício (total) de uns em relação aos outros. O
campo de eleição do princípio da concordância prática tem sido até
agora o dos direitos fundamentais (colisão entre direitos fundamentais
ou entre direitos fundamentais e bens jurídicos constitucionalmente
protegidos). Subjacente a este princípio está a idéia do igual valor dos
bens constitucionais [...]”16

Assim, ainda que confrontado com a não hierarquização dos bens


constitucionalmente protegidos, o intérprete não deverá fazer sacrifícios de uns
em relação aos outros, utilizando a ponderação para criar certa limitação recíproca
entre eles, de forma que haja a harmonização ou concordância prática entre estes
bens.
O locus hermenêutico é a sede do sentido, ou seja, eixo a partir do
qual se conformam possibilidades de sentido de todas as normas "inferiores". No
caso da constituição de 1988 o princípio da dignidade humana irradia-se para todo
o texto, no que se convencionou chamar de “constitucionalização” do direito.
Resulta, portanto, que a dignidade humana é o ponto de partida de
toda e qualquer ação do ente estatal, paradigma avaliativo de cada ação do Poder
Público17, bem como fundamento de validade da ordem jurídica, sendo princípio
norteador de toda interpretação constitucional.

16
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional. 5. ed. Coimbra: Livraria Almedina, 1992,
p. 234.
17
MACIEL, Álvaro dos Santos. A dignidade da pessoa humana como fonte garantidora do progresso
social. Boletim Jurídico, Uberaba/MG, a. 5, no 259. Disponível em:<http://www.boletimjuridico.com.br/
doutrina/texto.asp?id=1925> Acesso em: 26 set. 2009.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Desde sempre, o homem buscou conceituar a dignidade humana como


limitadora das relações entre Estado-Indivíduo. O constitucionalismo trouxe essa
preocupação para as constituições escritas, o que resultou na positivação da ampla
gama de direitos fundamentais.
No caso da República Federativa do Brasil, tal princípio foi positivado
em si mesmo, alçado à condição de fundamento do Estado Brasileiro, ao lado de
valores como a soberania, cidadania, os valores sociais do trabalho e da livre
iniciativa e pluralismo político.
Disso resulta que não há como negar que todos os demais direitos
fundamentais – individuais, sociais ou transindividuais – derivam do princípio da
dignidade da pessoa humana, devendo toda interpretação, quer seja das normas da
própria constituição ou das normas infraconstitucionais, observar e respeitar o
aludido princípio. Tal princípio adquire, assim, característica de relevância,
constituindo locus hermenêutico da nova interpretação constitucional, embora não
se possa dizer que seja, em si mesmo, superior aos demais princípios, uma vez
que estes não são hierarquizados.
Com a transição do positivismo para o neoconstitucionalismo, faz-se
necessário atentar para o risco de subjetivismos interpretativos, em face da
relevância adquirida pela hermenêutica na aplicação do direito. Em se tratando da
aplicação da lei a conflitos concretos, há, de um lado, o perigo de um casuísmo
irracional, e de outro, a crença em uma única decisão correta.
Contra esses riscos milita a necessidade de se interpretar a
constituição a partir do princípio da dignidade da pessoa humana, diminuindo-se a
discricionariedade, bem como a necessidade de motivação das decisões judiciais,
que permite que estas sejam submetidas a controle.
Por fim, pode-se dizer que a fixação do princípio da dignidade da
pessoa humana como locus hermenêutico da interpretação constitucional é uma
das estratégias à disposição dos aplicadores do direito para se evitar o ativismo
judicial e ao mesmo tempo resgatar a força moral da constituição.
4. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Livros e Textos:

CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional. 5. ed. Coimbra:


Livraria Almedina, 1992.

DA SILVA, José Afonso; Curso de Direito Constitucional Positivo. 31ed. São


Paulo: Malheiros, 07.2008.

MACIEL, Álvaro dos Santos. A dignidade da pessoa humana como fonte


garantidora do progresso social. Boletim Jurídico, Uberaba/MG, a. 5, no 259.
Disponível em: <http://www.boletimjuridico.com.br/ doutrina/texto.asp?id=1925>
Acesso em: 26 set. 2009.

MORAES, Alexandre de; Direito Constitucional. 16ed. São Paulo: Atlas, 2004.

SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. Uma Teoria


Geral dos Direitos Fundamentais na Perspectiva Constitucional. 10ed. Porto
Alegre: Do Advogado, 2009.

Material Disponibilizado pelo Campus Virtual:

APOSTILA DE INTERPRETAÇÃO CONSTITUCIONAL. Artigo Científico.


Disponível, pela diretoria de educação a distância da Universidade Estádio de Sá,
da disciplina Teoria Constitucional Contemporânea, do Curso de Pós-Graduação
em Direito Constitucional, acesso em 22.08.2009.
O QUE É HERMENÊUTICA. Artigo Científico. Disponível, pela diretoria de
educação a distância da Universidade Estádio de Sá, da disciplina Interpretação
Constitucional, do Curso de Pós-Graduação em Direito Constitucional, acesso em
22.08.2009.
O POSITIVISMO JURÍDICO E SUAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS.
Artigo Científico. Disponível, pela diretoria de educação a distância da
Universidade Estádio de Sá, da disciplina Interpretação Constitucional, do Curso
de Pós-Graduação em Direito Constitucional, acesso em 22.08.2009.
A RECONSTRUÇÃO NEOCONSTITUCIONALISTA DO DIREITO E A
LEITURA MORAL DA CONSTITUIÇÃO. Artigo Científico. Disponível, pela
diretoria de educação a distância da Universidade Estádio de Sá, da disciplina
Interpretação Constitucional, do Curso de Pós-Graduação em Direito
Constitucional, acesso em 29.08.2009.
A RUPTURA EXEGÉTICA E AS CARACTERÍSTICAS DA NOVA
DOGMÁTICA POSPOSITIVISTA. Artigo Científico. Disponível, pela diretoria
de educação a distância da Universidade Estádio de Sá, da disciplina Interpretação
Constitucional, do Curso de Pós-Graduação em Direito Constitucional, acesso em
29.08.2009.
TEOREMAS DA DIFERENÇA ONTOLÓGICA E DO CÍRCULO
HERMENÊUTICO. Artigo Científico. Disponível, pela diretoria de educação a
distância da Universidade Estádio de Sá, da disciplina Interpretação
Constitucional, do Curso de Pós-Graduação em Direito Constitucional, acesso em
22.08.2009.
DO PROBLEMA METODOLÓGICO AO PROBLEMA ONTOLÓGICO – A
IMPORTÂNCIA DA HERMENÊUTICA FILOSÓFICA. Artigo Científico.
Disponível, pela diretoria de educação a distância da Universidade Estádio de Sá,
da disciplina Interpretação Constitucional, do Curso de Pós-Graduação em Direito
Constitucional, acesso em 22.08.2009.