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CURSO DE MESTRADO EM ENFERMAGEM COMUNITÁRIA COMPORTAMENTOS DE CONSUMO EM ADOLESCENTES: Estudo sobre comportamentos de

CURSO DE MESTRADO EM ENFERMAGEM COMUNITÁRIA

COMPORTAMENTOS DE CONSUMO EM ADOLESCENTES:

Estudo sobre comportamentos de consumo de álcool, tabaco e outras drogas em adolescentes de escolas de Coimbra

Cidália Maria dos Reis Rodrigues

Orientador: Professor Doutor José Manuel de Matos Pinto. Professor na ESEnfC

Co-orientadora: Professora Doutora Irma da Silva Brito. Professor na ESEnfC

Dissertação apresentada à Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

Para obtenção do grau de Mestre em:

Enfermagem Comunitária

Coimbra, Junho de 2013

Interroga, examina, explora, considera e avalia. Põe em questão as tuas suposições, assume-as ou revela-as; tentando descobrir novas realidades. Dá o melhor de ti. Tem a coragem de assumir novas formas de pensar.

Karen Katafiasz

AGRADECIMENTOS

Ao orientador Professor Doutor José Manuel de Matos Pinto, pela partilha do saber, pela objetividade e orientação nos momentos certos, mediações que impulsionavam o aperfeiçoar da investigação.

À co-orientadora Professora Doutora Irma da Silva Brito, por estimular o gosto pelo

trabalho e conhecimento, pelo profissionalismo demonstrado, pela disponibilidade dispensada e ainda pela amizade.

O meu agradecimento.

Ao Dr. Fernando Mendes, que proporcionou este estudo como parte integrante do projeto “Tu Decides” (UICISA-E, 2011) desenvolvido pelo IREFREA Portugal em parceria com a Escola Superior de Enfermagem de Coimbra.

À comunidade educativa, nomeadamente aos professores que facilitaram a realização

da colheita dos dados nas respetivas escolas e aos alunos que aderiram ao preenchi- mento dos questionários, e que permitiram a realização deste trabalho.

Aos pais dos alunos que autorizaram a aplicação dos questionários, e para os quais estes conhecimentos do fenómeno a eles é dirigida, pois é através da partilha do conhecimento que se podem aprimorar as intervenções na comunidade educativa.

RESUMO

As questões relacionadas com o consumo de Álcool Tabaco e Outras Drogas (ATOD) têm sido tema prioritário em educação para a saúde, em contexto escolar. No entanto constata-se que o início do consumo de substâncias ocorre em idades muito precoces, contrariando a lei que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas espirituosas a menores de 18 anos, e a menores de 16 anos as bebidas não espirituosas. (Decreto-Lei nº 50/2013). Nos produtos do tabaco é proibida a venda a menores de 18 anos (Lei nº 37/2007) e o consumo de outras substâncias proibidas (Decreto-Lei nº 54/2013) Neste contexto pretendeu-se realizar uma investigação, exploratória e analítica, incluída no projeto “Tu Decides”, desenvolvido pelo IREFREA/ESEnfC em cinco escolas de Coimbra, e que visa a prevenção de comportamentos de risco para a saúde nomeadamente o consumo precoce de substâncias ilícitas, entre os adolescentes. Este estudo visou o diagnóstico de situação em que se pretendeu comparar os padrões de consumo nos adolescentes (848 alunos do ensino básico e secundário) e analisar os fatores que influenciam esses mesmos comportamentos. A seleção da amostra foi tipo censos, realizada a todos os alunos presentes no dia da recolha. Foi aplicado um questionário que permitiu caracterizar os consumos dos adolescentes por escolas, e em função dos fatores pessoais, familiares e dos comportamentos de consumo dos pares. Verificou-se que os consumos de ATOD, são mais elevados nas escolas secundárias, destacando-se os maiores consumos na ESDDu e na ESDDi. Os que mais bebem bebidas alcoólicas são os mais velhos, os rapazes bebem mais em relação às raparigas, assim como os filhos do meio e os mestiços. No que se refere ao consumo de tabaco, os que mais fumam são os adolescentes mais velhos, maioritariamente raparigas, predominantemente os filhos do meio e os mestiços. Quanto à diferença de médias de autoestima, entre os que consomem mais álcool e tabaco (AT) e os que não consomem, esta não se revela significativa. Relativamente ao consumo de álcool parecem existir fatores familiares de consumo, pois nas escolas onde os adolescentes mais bebem e fumam os pais também apresentam maiores consumos. Em relação aos consumos de AT, relacionados com os pares, nas escolas onde os adolescentes referem maiores consumos e maior número de embriaguez, há também muitos amigos a beber e a fumar. Nas escolas onde há mais consumo de cannabis, verifica-se também mais amigos a beber álcool e a fumar. Estes dados indicam que as intervenções devem ser centradas nos contextos problemáticos e que há associação entre o consumo de substância licitas AT com as substân- cias ilícitas suscitando a necessidade de intervir precocemente para evitar a experimentação, e incentivar os pais a cessarem os consumos.

ABSTRACT

The questions that are related with consume of alcohol, tobacco and other drugs (ATOD) have been a priority issue in health education, in the school context. However, it appears that the beginning of the substance use occurs at very early ages, contrary to law that prohibits the consumption of spirituous liquors the under 18 and under drinks no spirits(Decree-law nº50/2013). In tobacco products is prohibited for sale to persons under 18(Decree nº 37/2007) and the other substances that are also prohibited (Decree nº 54/2013). In this context we intended to conduct research, exploratory and analytical, that is included in the project «Tu decides», developed by IREFREA/ESEnfC in five schools of Coimbra, and that aims to prevent risk behaviors to health including the early use of illicit substances among adolescents. This study aimed at the diagnosis of the situation in which it was intended to compare the consumption patterns in adolescents (848 students of primary and secondary) and analyze the factors that influence these same behaviors. The sample selection was kind censuses held for all students present on the day of collection. We administered a questionnaire that allowed us to characterize the consumption of adolescents by schools, and depending on personal factors, like family and consumer behaviors of peers. We study that consume of ATOD, are higher in secondary schools, highlighting the higher comsumption in ESDDu and in ESDDi. Those who drink alcohol are oldest, the boys drink more than girls, as well as the children of middle and mongrel. With regard to smoking, those who smoke are older teenagers, mostly girls, mostly the children of the middle and mongrel.

As for the difference of means of self-esteem among those who consume more alcohol and tobacco,(AT) and those who do not consume, this does not appear significant. With regard to alcohol consumption appears to be familiar factors of consumption, as in schools where teens drink and smoke their parents also consume more. Related with the consume of AT, related with their peers, in schools where adolescents have been consume higher, many friends smoke and drink. In schools where adolescents use cannabis, many friends drink and smoke. These information collected shows that we need to do interventions on problematic contexts and that there is an association between the consumption of licit substance AT with illegal substances indicating the need for early intervention to avoid trial, and encourage parents to cease consumption

INDICE

 

INTRODUÇÃO

 

17

PARTE I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

19

1.A ADOLESCÊNCIA

21

 

1.1. O desenvolvimento da identidade na adolescência

23

1.2. O contexto familiar no desenvolvimento

28

1.3. O papel dos grupos na formação da identidade

32

1.4. A comunidade escolar na formação e crescimento

37

2.OS CONSUMOS DE ÁLCOOL, TABACO E OUTRAS DROGAS NA ADOLESCÊNCIA

41

 

2.1. Políticas de diminuição do consumo e o acesso a bebidas alcoólicas

41

 

2.1.1.

Prevalência do consumo de bebidas alcoólicas

44

 

2.2. Políticas de diminuição do consumo e o acesso ao tabaco

45

 

2.2.1.

Prevalência do consumo de tabaco

47

 

2.3. Políticas de diminuição do consumo e o acesso a drogas ilegais

49

 

2.3.1.

Prevalência do consumo de outras drogas

51

3.OS CUIDADOS DE SAÚDE PRIMÁRIOS E A INTERVENÇÃO DA ENFERMAGEM COMUNITÁRIA

53

 

3.1.

Os Planos e Programas de Saúde

55

PARTE II – INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

57

1.

MATERIAL E MÉTODOS

59

1.1. Hipóteses de investigação

60

1.2. Operacionalização das variáveis

60

 

1.2.1. Fatores relacionados com as variáveis pessoais

61

1.2.2. Fatores relacionados com a ocupação dos tempos livres

64

1.2.3. Fatores relacionados com as características e dinâmicas familiares

65

1.2.4. Fatores relacionados com o ambiente em que vive

67

1.2.5. Fatores relacionados com o consumo dos pares

67

1.2.6. Fatores relacionados com o comportamento de consumo de ATOD

68

 

1.3. População e Amostra

70

1.5.

Procedimento de recolha de dados e considerações éticas

71

1.6.

Procedimentos estatísticos

72

2. RESULTADOS

73

2.1. Fatores pessoais

73

2.2. Ocupação dos tempos livres

77

2.3. Fatores familiares

82

2.4. Fatores do contexto em que vive, ambiente

86

2.5. Fatores relacionados com o comportamento dos pares

87

2.6. Fatores relacionados com o consumo de substâncias

89

3. DISCUSSÃO

97

CONCLUSÕES

105

BIBLIOGRAFIA

109

ANEXOS Anexo I – Questionário Adolescentes “European Family Empowerment” Anexo II – Pedido de utilização do questionário Anexo III – Ofício aplicação do questionário Anexo IV – Pedido de autorização dos pais Anexo V – Declaração de consentimento informado

Índice de Quadros

Quadro 1 – Operacionalização dos fatores pessoais

63

Quadro 2 – Operacionalização dos fatores relacionados com a ocupação dos tempos livres

64

Quadro 3 – Operacionalização dos fatores relacionados com as características

e

dinâmicas familiares

66

Quadro 4 – Operacionalização dos fatores relacionados com o contexto, ambiente em que vive

67

Quadro 5 – Operacionalização dos fatores relacionados com o comportamento dos pares

68

Quadro 6 – Operacionalização dos fatores relacionados com o comportamento de consumo de ATOD

69

Índice de Tabelas

Tabela 1 – Caracterização dos jovens por grupo etário e média de idade (anos)

76

Tabela 2 –

Caracterização dos jovens por sexo (%)

74

Tabela 3 – Caracterização dos jovens por fratria (%)

74

Tabela 4 – Caracterização dos jovens por naturalidade (%)

75

Tabela 5 – Caracterização dos jovens por etnia (%)

75

Tabela 6 – Caracterização dos jovens por acontecimentos pessoais (%)

76

Tabela 7 – Caracterização dos jovens por avaliação de autoestima

77

Tabela 8 – Caracterização dos jovens quanto às perspetivas de futuro (%)

77

Tabela 9 – Caracterização dos jovens quanto ao tempo de ecrã (%)

78

Tabela 10 – Caracterização dos jovens por atividades realizadas (%)

79

Tabela 11 – Caracterização dos jovens por entrada em espaços noturnos, onde a entrada é proibida a pessoas da tua idade (%)

80

Tabela 12 – Caracterização dos jovens por entrada em espaços noturnos, nos últimos 4 fins-de-semana (%)

80

Tabela 13 – Caracterização dos jovens por idas a uma discoteca à noite, num fim-de-semana (%)

81

Tabela 14 – Caracterização dos jovens por tipo de voluntariado (%)

81

Tabela 15 – Caracterização dos jovens por horas de voluntariado (%)

82

Tabela 16 – Caracterização dos jovens sobre a vida familiar e regras utilizadas pelos pais/educadores (%)

83

Tabela 17 – Caracterização dos jovens por assuntos de comunicação com os pais/educadores (%)

84

Tabela 18 – Caracterização dos pais por frequência no consumo de álcool (%)

85

Tabela 19 – Caracterização dos pais/irmãos, por frequência no consumo de tabaco (%)

86

Tabela 20 – Caracterização dos jovens acerca do sítio onde vive e relacionamento com a vizinhança (%)

86

Tabela 21 – Caracterização dos jovens quanto ao número de amigos que consomem droga (%)

87

Tabela 22 – Caracterização dos jovens quanto ao número de amigos que bebem álcool (%)

87

Tabela 23 – Caracterização dos jovens quanto ao número de amigos que fumam (%)

88

Tabela 24 – Caracterização dos jovens quanto à facilidade na obtenção das drogas (%)

88

Tabela 25 – Caracterização dos jovens quanto à frequência no consumo de álcool (%)

89

Tabela 26 – Caracterização dos jovens quanto à idade do consumo da primeira bebida alcoólica (anos)

89

Tabela 27 – Caracterização dos jovens quanto ao número de vezes embriagado no último mês (%)

90

Tabela 28 – Caracterização dos jovens quanto ao consumo de bebidas alcoólicas no último mês (%)

91

Tabela 29 – Caracterização dos jovens quanto ao tipo de consumo de tabaco (%)

91

Tabela 30 – Caracterização dos jovens quanto à idade da experimentação de tabaco (Anos)

92

Tabela 31 – Caracterização dos jovens quanto ao consumo de drogas

92

Tabela 32 – Caracterização dos jovens quanto ao risco percecionado sobre o consumo de drogas

93

Siglas

AT

– Álcool e Tabaco

ATOD

– Álcool, Tabaco e Outras Drogas

CS

– Centro de Saúde

CSP

– Cuidados de Saúde Primários

DGS

– Direção Geral de Saúde

CRP

– Constituição da República Portuguesa

EC

– Enfermagem Comunitária

EBEug

– Escola Básica Eugénio de Castro

EBPed

– Escola Básica da Pedrulha

ESDDi

– Escola secundária Dom Dinis

ESDDu

– Escola Secundária Dom Duarte

ESEnfC

– Escola Superior de Enfermagem de Coimbra

ESJFa

– Escola Secundária José Falcão

ESPAD

– European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs

F

– Feminino

IREFREA

– Institut de Recherche Européenne sur les Facteurs de Risque chez l'Enfant et l'Adolescent

M

– Masculino

ME

– Ministério da Educação

MS

– Ministério da Saúde

OMS

– Organização Mundial de Saúde

OTL

– Ocupação dos Tempos Livres

PE

Projeto Educativo

PNS

Plano Nacional de Saúde

PNSE

– Plano Nacional de Saúde Escolar

PNSIJ

– Plano Nacional de Saúde Infantil e Juvenil

PNSJ

– Plano Nacional de Saúde dos Jovens

RCM

– Resolução do Conselho de Ministros

REEPS

– Rede Europeia de Escolas Promotoras de Saúde

RSES

– Rosemberg Self-Esteem Scale

SAM

– Sistema de Apoio Médico

SICAD

– Serviço de Intervenção em Comportamentos Aditivos e nas Dependências

SPSS

– Statistical Package for the Social Sciences

TEIP

– Território Educativo de Intervenção Prioritária

UE

União Europeia

UICISA-E – Unidade de Investigação em Ciências da Saúde – Enfermagem

WHO

– World Health Organization

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento sadio dos adolescentes, nomeadamente a promoção de estilos de

vida saudáveis e o seu bem-estar, constituem uma parte importante dos planos e programas de saúde elaborados pela Direção Geral de Saúde (DGS).

Os Cuidados de Saúde Primários (CSP) têm como objetivo prestar cuidados primor- diais de promoção da saúde, aos indivíduos e às comunidades onde estes estão inseridos. Tendo em consideração tais pressupostos, cumpre então aos profissionais de saúde valorizar os problemas suscitados pelos adolescentes, relacionados com o seu desenvolvimento, nos diferentes contextos, designadamente a família e a comunidade escolar, que se constitui como rede de capital social.

As principais intervenções de enfermagem orientam-se para aumentar ou potenciar os recursos e as capacidades dos adolescentes, bem como as dos seus familiares, para lidarem com as atividades diárias e os desafios que os processos de vida lhes colocam, beneficiando de programas de intervenção a nível escolar.

O programa de intervenção em meio escolar, intitulado “Tu Decides”, desenvolvido para a promoção da saúde do adolescente relacionado com a prevenção do consumo de substâncias, confirma toda a importância nas temáticas desenvolvidas com os adolescentes, as quais se adaptam em diferentes contextos escolares, e que podem tornar-se bons indicadores da eficácia na avaliação de intervenções.

O fenómeno do consumo de substâncias pelos adolescentes, tais como o Álcool,

Tabaco, e Outras Drogas (ATOD), constitui um fator de risco para a saúde, e ainda um risco acrescido para a ocorrência de acidentes de viação.

Partindo de modelos de intervenção já aplicados nas escolas de Coimbra, surge a oportunidade da monitorização dos resultados que permitiram a realização de avaliações comparativas entre as diferentes escolas estudadas. Pretendemos nesta dissertação de Mestrado em Enfermagem Comunitária descrever e analisar a infor- mação recolhida acerca dos padrões de comportamento de consumo de ATOD nos adolescentes dos 12 aos 17 anos de idade, alunos matriculados em cinco escolas, efetuando um estudo epidemiológico exploratório e analítico (Nível II).

17

INTRODUÇÃO

Desta questão decorrem os seguintes objetivos:

Comparar o perfil dos comportamentos de consumo de ATOD nos adolescentes das escolas de Coimbra participantes no projeto “Tu Decides”, segundo a escola.

Analisar alguns fatores (pessoais, familiares, e dos pares) que influenciam os comportamentos de consumo de ATOD nos adolescentes das escolas de Coimbra participantes no projeto “Tu Decides”.

A dissertação encontra-se organizada em três partes. Na primeira é apresentada a revisão da literatura, na qual se faz um enquadramento da adolescência abordando o seu desenvolvimento, e a importância do contexto familiar e da comunidade dos pares. São referidos os comportamentos de risco do adolescente relacionado com os consu- mos de substâncias, e as implicações graves para a saúde. A prevenção e educação para a saúde nos CSP, nomeadamente a intervenção do enfermeiro especialista em enfermagem comunitária.

Na segunda parte é exposta a investigação empírica; onde se faz referência: à metodologia utilizada, incluindo os objetivos e hipóteses de investigação, às variáveis em estudo e à sua operacionalização, à seleção da amostra, à descrição e caracte- rização do instrumento de colheita de dados.

Depois apresentam-se os resultados do estudo e a respetiva análise, no que se refere às características sociodemográficas da amostra, aos comportamentos de consumo e aos resultados para cada uma das hipóteses em estudo, testadas através de estatística inferencial. Neste capítulo encontram-se os resultados principais da análise descritiva dos diferentes grupos de variáveis em estudo relacionadas com a caracterização da amostra. A caracterização visa analisar os diferentes fatores que podem interferir na comparação dos dados obtidos e relaciona-los entre as escolas estudadas. Apresenta-se ainda a análise inferencial na discussão das hipóteses de investigação formuladas. Na discussão são analisados os resultados do estudo, relacionados com outros estudos.

Na conclusão da dissertação apresentam-se os principais resultados do estudo, as suas limitações e ainda algumas notas e sugestões que parecem relevantes para futuras investigações.

18

PARTE I

ENQUADRAMENTO TEÓRICO

1. A ADOLESCÊNCIA

O conceito de adolescência, como período de transição da infância para a idade

adulta, coincide com a industrialização e a urbanização, consequência dos fatores económicos e culturais, a escolarização em massa e o consequente encerramento no núcleo familiar concebido como o lugar privilegiado do afeto e dos laços mais fortes no

sentido de assegurar a promoção social dos filhos e garantir a continuidade do seu sistema de valores (Claes, 1985).

O estudo científico da adolescência teve a sua origem no início no séc. XX, com o

primeiro livro, “Adolescence”, dedicado ao estudo psicológico do adolescente, realiza- do pelo Americano Stanley Hall em 1904, o mais importante investigador que se interessou pela adolescência e que a considerou como um estádio especial no desen-

volvimento humano, considerado pelo autor o segundo nascimento. As diferentes fases de desenvolvimento na adolescência, foram consideradas como uma recapitula- ção dos diferentes estádios já experienciados anteriormente, sendo que, o novo desenvolvimento atinge um nível mais complexo (Sprinthall & Collins, 1999).

Na linha de pensamento de Stanley Hall, passando pela psicanalise entre outros estudos realizados no âmbito da psiquiatria e saúde mental, o período da adoles-

cência, foi continuamente considerada como um período de conflito, doença e desequilíbrio, patológico e com necessidade de intervenção. Só a partir dos anos 80

se

iniciou uma visão mais abrangente do adolescente, alargada ao contexto onde este

se

encontra. Nesta linha de pensamento, o adolescente foi percebido como detentor

de capacidades de participação em várias situações envolventes e sobre as quais é chamado a participar (Sampaio, 2006).

Na etimiologia da palavra, adolescente, vem do latim “ad” que significa “para” e “adolescere” que significa crescer para a idade adulta (Becker, 1994; Sudbrack, 2005), nomeadamente crescimento físico e mental, maturação e desenvolvimento (Sampaio 2006, p. 17).

A Organização Mundial de Saúde (OMS), define os limites cronológicos da adoles-

cência, os jovens com idade entre os 10 e os 19 anos. (Prazeres, 1998), considera “adolescent” a idade compreendida entre os 10 e os 19 anos, e a juventude entre os 15 e os 24 anos de idade.

21

PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

As bases fisiológicas associadas ao desenvolvimento pubertário que transformam crianças em adolescentes parecem estar relacionadas com o início das secreções hipotalâmicas desencadeando a produção hormonal, que produzem alterações no desenvolvimento biológico. Em média este desenvolvimento acontece por volta dos 10 anos e meio e os 11 anos nas raparigas, 12 anos e meio e os 13 anos no rapaz (Marcelli & Braconnier, 2005).

A adolescência enquanto período de transição entre a infância e a vida adulta, é

caracterizado por mudanças físicas, mentais, emocionais, sexuais e sociais, que apelam a esforços do individuo para conseguir os objetivos relacionados com as expetativas culturais da sociedade em que vive articulando-as com os seus próprios desejos e anseios (Tanner, 1962; Eisenstein, 2005).

O processo da adolescência (Gutton, 1991; 1997; Pinto, 2006) foi delimitado em duas

fases, o pubertário que decorre entre os 12 e os 15 anos, e o “adolescens” que caminha até aos 18 anos. Na primeira fase, os investimentos realizados são pulsionais

amorosos e também agressivos, ao encontro do seu fim, mas ainda sem o objeto de

encontro definido. Mais tarde dos 15 aos 18 anos, o “adolescens” já estabeleceu com

o meio um envolvimento e um compromisso ideológico que lhe vai permitir o vínculo com o mundo e ele próprio.

De acordo com Pinto (2006), o desenvolvimento da adolescência pode ser descrito em três fases, a primeira, associada a transformações pubertárias do corpo, à emergência de novas capacidades de pensar e à necessidade de integrar o grupo de pares, assumindo este a função de “continente” relacionada com os assuntos perturbadores nesta fase do desenvolvimento. A segunda fase que corresponde ao tempo adoles-

cencial, marcada por uma completa imersão no seio do grupo, de uma vivência coleti- va que permite traçar os limites entre o individual e o coletivo, um ensaio para lidar com os contextos socias dos adultos e investirem neles. A terceira fase na qual já se manifesta um certo grau de intimidade relacional, orientação sexual e uma preocupa- ção de investimento em projetos profissionais. (Blos, 1985; 1996; Braconnier & Marcelli, 2000), consideram a existência de cinco fases de desenvolvimento. A primei-

ra considerada a fase da pré-adolescência, associada a instintos e pulsões libidinais e

a todos os movimentos afetivos. A “adolescência inicial”, através da imersão no grupo,

na procura de amizades íntimas idealizadas e que são projetadas no amigo, visto como um ensaio relacional na construção de uma identidade própria. Uma terceira fase considerada a adolescência assumida, afasta-se da relação parental e vai ao encontro de um investimento assumido de envolvimento afetivo e da sexualidade,

22

1. A ADOLESCÊNCIA

através de uma relação de confirmação de competências ainda em desenvolvimento. Uma quarta fase no final da adolescência na qual o adolescente apresenta uma estabilização da autoestima, assume escolhas afetivas e profissionais, e apresenta o seu caracter. A quinta fase a “pós adolescência” na passagem para a idade adulta e durante a qual afirma a sua personalidade, num equilíbrio entre “o que é” e o que “investe no outro”.

De acordo com o descrito pelos diferentes autores, consideramos que o tempo da transformação corporal que acontece entre os 10 e os 13 anos, transporta o adoles- cente para novas fases de adaptação a uma identidade diferente daquela que sempre conheceu. O contexto familiar que serviu de suporte durante o tempo de crescimento passa a ser objeto de menor investimento pelo adolescente, sendo o grupo de pares o espaço de ensaio do contexto social, existindo neste uma diversidade de experiências que o colocam à prova numa troca mutua. A sua identidade vai sendo construída dentro de uma matriz conjunta de tudo o que levam para o grupo e ainda de todas as influências e pressões que se vão construindo dentro dele. O adolescente forma a sua identidade e autonomia e apresenta capacidades afetivas de envolvimento relacional e de intervenção no meio social que o envolve. As fases de desenvolvimento não são estanques, pois a passagem não é automática, é feita de avanços e recuos, diferente para cada individuo, e não está imune a desafios mais ou menos ameaçadores.

Entrar no mundo dos adultos, desejado e temido significa para o adolescente a perda definitiva da sua condição infantil, é um momento crucial na vida do “Homem” e constitui a etapa decisiva de um processo de desprendimento que começou com o nascimento (Aberastury, s/d; Nunes, 1997; Sudbrack, 2005). A adolescência termina quando o individuo atinge a maturidade social e emocional e adquire a experiência, a habilidade e a vontade requeridas para assumir, de maneira consistente o papel de um adulto, e que é definido pela cultura em que vive” (Horrocks, 1978; Claes, 1985, p. 48).

1.1. O desenvolvimento da identidade na adolescência

Os primeiros estudos sobre a teoria da personalidade foram elaborados através da psicanálise de Sigmund Freud, no final do século XIX. Este autor descreveu cinco fases psicossociais no processo de desenvolvimento, que foram delimitadas em função das zonas erógenas, nomeadamente a gratificação dos instintos do “Id” que dependem da estimulação das áreas correspondentes do corpo. As mudanças físicas da puberdade aumentam os seus desejos sexuais, sentindo necessidade de encontrar

23

PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

o objeto apropriado, denominada a “Fase genital” marcada pelo início da identidade do papel sexual e das relações sociais. Considerou os instintos como elementos básicos, funcionando como forças motivadoras que impulsionam o comportamento. A necessi- dade fisiológica impele a mente a transformar os impulsos em ação de satisfação da necessidade (Schultz, 2002). Os aspetos psicológicos ajudam à obtenção do objetivo biológico final que é a reprodução, criando-se estabilidade e segurança (Hall, 2000).

Erik Erikson (1968), aperfeiçoou a teoria freudiana, e descreveu o desenvolvimento psicossocial da personalidade em oito estádios. O período da adolescência foi intitu- lado de”5ª idade”, que corresponde às idades entre os 12 e os 18 anos e é a fase na qual se forma a “Identidade do ego”, que leva à coesão ou à confusão de papéis, designada, “Crise de identidade” versus “Confusão de identidade”. O esforço para dar sentido ao “Eu” faz parte de um processo saudável (Sprinthall &Collins, 1999). Uma das características da “Confusão de identidade” é a incapacidade de se investir de maneira autêntica nos outros, e de estabelecer uma intimidade agradável, traduzida num sentimento de continuidade e de identidade. Nesta fase ainda se observa uma dificuldade de concentração em tarefas, resultando daí uma desorganização na realização de trabalhos (Marcelli & Braconnier, 2005). O desenvolvimento da perso- nalidade termina com a “Identidade do ego”. Nesta fase a autoimagem fica formada bem como a aceitação de si próprio, integra as ideias quanto ao “que é” e ao que “quer ser” e assume a capacidade de funcionar em sociedade. Cada fase permite o desenvolvimento de forças básicas que permitem uma forma bem adaptada de lidar com os conflitos, como sejam a esperança, a fidelidade, o amor, a sabedoria entre outros (Schultz, 2002).

O adolescente vê-se confrontado com o paradoxo de viver os seus próprios conflitos antes de encontrar uma solução para os mesmos, associado a uma incerteza identificatória. Este rejeita as bases de identidade da infância mas ainda não chegou à descoberta da sua identidade adulta, que só é atingida através da inserção deste no seio da linha familiar (Marcelli & Braconnier, 2005).

Marcia (1966) operacionalizou o conceito de identidade fundamentada em duas dimensões, através da avaliação do grau de exploração, também associado a uma crise, e ainda da presença ou ausência de compromisso. Descreveu quatro estados de identidade, designados como “Identity Achievement”, “Moratorium”, “Identity Foreclo- sure” e “Diffusion”, significados por Farias & Schoen (2007), em “Identidade estabelecida” na qual os indivíduos ensaiam um período de exploração e algum compromisso, e lutam pelos seus objetivos de identidade. A “Moratória” que

24

1. A ADOLESCÊNCIA

representa por sua vez, os indivíduos que estão a viver um período de crise e de intensa exploração das questões de identidade, e ainda manifestam dificuldade na escolha por uma determinada opção ou por um certo curso de ação. O “Pré fechamento” que caracteriza os indivíduos que já estabeleceram um compromisso firme e com opções de identidade, embora estas tenham sido escolhidas pelos pais ou outros significativos, revela a existência de pouco ou nenhum envolvimento na exploração e que implica uma tomada de decisão sem reflexão. A Difusão de identidade” qualifica os indivíduos que ainda não definiram uma orientação da sua identidade e que no entretanto já iniciaram alguma atividade exploratória no sentido do estabelecimento de uma identidade própria.

Num estudo recente acerca dos padrões de desenvolvimento do “estado da identi- dade”, conceptualizado por “Marcia”, estudados por Kroger, Martinussen & Marcia (2010), provaram que a proporção média de “Moratórias” está a aumentar constantemente com a idade e prolonga-se até aos 19 anos, seguindo-se uma diminui- ção subsequentemente. Analogamente a “aquisição identitária”, aumenta no final da adolescência e na idade adulta jovem. No entanto acontece que alguns adolescentes tardios e adultos jovens, não completaram ainda a formação do processo de identidade.

No modelo de desenvolvimento cognitivo de Jean Piaget (1970), a maturidade cognitiva está relacionada com influências neurológicas e ambientais, é no ambiente social que se proporcionam as oportunidades e experiências de crescimento cognitivo. Os adolescentes passam ao nível mais elevado do desenvolvimento cognitivo denominado por Operações formais” adquirindo a capacidade de pensamento abstrato, ou seja passam a estar habilitados a desenvolver hipóteses e testá-las, utilizando o raciocínio hipotético-dedutivo. As operações de ordem formal surgem por volta dos onze ou doze anos de idade e o pensamento abrange o real e o possível (Gleitman, 1993). O processo de transformação das estruturas psicológicas está relacionado com o pensamento e o raciocínio de todos os estádios anteriores, as estruturas mentais mais complexas passam por um processo cognitivo de “Assimila- ção”, na incorporação de novas experiências do meio externo, na “Acomodação” através da criação ou modificação de uma nova estrutura que permita encaixar os novos estímulos, um processo denominado de “Adaptação” ao ambiente, que facilita o processamento da “Equilibração” ou seja a passagem de uma situação de menor equilíbrio para uma de maior equilíbrio (Sprinthall & Collins, 1999).

25

PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

De acordo com os diferentes processos de pensamento moral, Kohlberg (1984), indica três níveis de desenvolvimento moral e a consequente formação de valores, os quais estão relacionados com diferentes graus de maturidade de pensamento, relacionados com o modo como a pessoa se situa em relação às normas morais e sociais. O pri- meiro nível é o “Pré convencional” na qual as normas são consideradas exteriores à pessoa, o segundo nível o “Convencional”, no qual já foram interiorizadas as normas, e o ultimo nível, designado de “Pós convencional”, o mais elevado, com as normas já adotadas e sentidas pelo individuo, e fazendo parte dos direitos individuais fundamentais, e assumindo princípios éticos que os protegem (Lourenço, 2002).

Este processo de pensamento moral no adolescente está relacionado com a justifi- cação da escolha de uma determinada solução ou decisão do próprio. A perceção da ética e da justiça é influenciada pelo modo como os adolescentes se percecionam e a forma como se compreendem e ocorre da interação do adolescente com o meio envolvente. Deste modo os contextos e experiências podem favorecer o desenvol- vimento positivo de valores, enquanto noutras situações, pode não oferecer qualquer mudança, nomeadamente impedir o desenvolvimento ou ainda a regressão para estádios anteriores. O “Estádio convencional” caracteriza o individuo com os valores morais já assumidos, associados ao desempenho de bons ou maus papeis e ainda, às expectativas dos outros em relação ao seu desempenho. Este tipo de raciocínio é mais frequente por volta dos 16-18 anos no ensino secundário (Sprinthall & Collins,

1999).

As vivências na adolescência e a complexidade da época atual envolvem um entrecru- zamento de diferentes níveis temporais, considerados por (Oliveira, 2006), o “tempo retrospetivo” da infância, o “tempo prospectivo” da vida adulta, ainda o “não-tempo” no imediatismo do prazer e da passagem ao ato, o “tempo ambíguo” da “falta de tempo” para aprender e para a conquista de formas responsáveis de autonomia.

Os estudos mais recentes sobre a adolescência focalizam o processo de desenvol- vimento na subjetividade e nas relações estabelecidas, através da análise psicológica da narrativa e do “self” dialógico, sobre a qual toda a ideia racional tem o seu contexto afetivo, e todo o sentimento está intrinsecamente ligado a alguma forma de pensa- mento sobre a pessoa ou sobre o mundo (Valsiner, 1989; Oliveira, 2006). O “self” conceituado como um sistema integrado da cultura pessoal, é construída segundo as inspirações sociais, e que se vão refletir sobre o estilo pessoal. Um sentido de identidade que se expressa sob a forma de histórias vividas, recontadas e intersubje- tivamente transformadas. Este caráter “historiado” da identidade permite refletir sobre

26

1. A ADOLESCÊNCIA

a identidade narrativa (Windershoven, 1994; Oliveira, 2006). O “self” do adolescente é um arranjo que se produz na internalização e externalização ativa de experiências capitalizadas em diferentes esferas da vida cultural e que é expressa nas práticas narrativas do próprio.

As relações entre identidade narrativa e bem-estar desenvolvidas dentro de contextos sociais e relacionais (McLean, Breen & Fournier, 2010), mostra que a construção de uma identidade na adolescência envolve a integração do “self”” através da reflexão sobre o próprio passado. A “narrativa de significado”, desenvolve uma compreensão de nós mesmos em relação aos outros e no mundo que nos rodeia. O processo de relato de uma história de vida, usado para encontrar conexões entre a experiencia vivida e o “self”, na construção de significados. O “auto entendimento” compreende alterações cognitivas relacionadas com a idade e a probabilidade de fazer conexões entre o passado e o presente, aumentam com a idade, e podem influenciar no significado narrativo. É na adolescência média entre os 15-16 anos, que a conquista de significado é crescente. A “Vinculação”, é realizada através da narrativa que os indivíduos fazem através das interações de concordância e discordância, que mais tarde são incorporadas na sua identidade.

Relativamente aos contextos de desenvolvimento do adolescente, Willems & Bosma (2009), refere o contexto escolar como sendo relevante, sobre o qual existe um elevado índice de exploração e compromisso, que são facilitadores na construção de uma identidade. Este conceito vai ao encontro do estudo de Kaplan & Flum (2010), que refere também o contexto como sendo facilitador. Ao longo da escolarização o jovem aprende a explorar e a experimentar papéis sociais, e a realizar a sua própria formação pessoal. Pelo contrário os resultados da não exploração e ausência de compromisso por parte dos adolescentes, pode estar relacionados com o não envolvimento com a escola, considerada por estes como um “mundo à parte”, uma esfera de vida considerada como “não apropriada” para si próprio.

Na sociedade atual (Idem, 2009), refere que se perceciona, estar criada uma prolon- gada e potencial “alienação na adolescência” a instituir-se, uma “geração em espera”,

o que pode acentuar uma falta de exploração e ausência de compromisso e que

dificulta o desenvolvimento do adolescente. O adolescente da sociedade atual necessita de mais “capital de identidade”, ou seja de aumentar os seus recursos pessoais para fomentar o desenvolvimento da sua identidade.

Num estudo realizado pelo autor (idem, 2009), verificou-se que nas escolas com um nível socioeconómico mais baixo parecem existir mais jovens com uma identidade

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PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

alienada ao contrário dos adolescentes em escolas com nível socioeconómico mais elevado, onde predomina a moratória. Os pais de nível sócio-económico mais elevado estreitam relações de proximidade com a escola e com os filhos que facilita a esfera de exploração dos alunos, acresce o fato de a escola reproduzir, diferenças e expectativas de realizações dos seus alunos de acordo com o seu nível socioeco- nómico. O processo de adaptação é mútuo, envolvendo a escola e o adolescente num processo de interconhecimento que facilita a par da família o processo de envolvimento e exploração do jovem.

Num estudo sobre a relação entre o “self-identity”, e a qualidade de vida relacionada com a saúde na adolescência, verificou-se que os compromissos adotados evoluem ao longo do tempo e são assumidos tendo por base os objetivos escolhidos por estes. Os valores e crenças são julgados dignos de dar uma direção propósito e significado à vida. Ficou demonstrado que os aspetos da firmeza de identidade foram todos significativamente correlacionadas com os índices de Qualidade de Vida Relacionada com a Saúde (QVRS), considerado o melhor preditor no adolescente. A firmeza da identidade na adolescência pode contribuir principalmente para o seu bem-estar psicológico e satisfação social, uma construção adicional de resiliência na saúde mental de adolescentes (Chen & Yao, 2009).

1.2. O contexto familiar no desenvolvimento

No início do séc. XX até meados dos anos 60, o modelo familiar dominante era a “família tradicional”, no qual homens e mulheres possuíam papéis específicos, social e culturalmente pré estabelecidos. A mulher era responsável pelo trabalho doméstico, e encontrava-se envolvida diretamente com a vida familiar, dedicando-se ao cuidado dos filhos e do marido, caraterizadas como atividades da vida privada. O homem era considerado o chefe da casa, e responsável pelo trabalho remunerado, o seu espaço de atuação estava ligado ao mundo exterior e manifestava autoridade sobre os restantes elementos da família (Pimenta, 2008).

A partir da segunda metade do séc. XX, a família entra num processo de intensas transformações económicas e sociais, e a industrialização é considerada como um marco histórico de mudanças na família, obrigadas a migrarem para os centros mais urbanos e a encerarem-se dentro dos seus próprios limites, estas ficaram reduzidas à composição nuclear e passam a ser mais pequenas. Também o aumento da escola-

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1. A ADOLESCÊNCIA

ridade gerou um maior investimento nos jovens, reforçando o centralismo nas preocupações nucleares e preparação do futuro destes (Alarcão, 2006).

O modelo nuclear de família do séc. XXI, na qual a descendência passa a ser a

principal preocupação, assim os pais projetam nos descendentes os seus desejos muitas vezes não realizados e que pretendem vir a atingir através dos filhos. Contras- tando com este modelo, o desenvolvimento da adolescência opõe-se a este conceito idílico de crescimento, provocado em parte pela carga de irreverência e transgressão, que se transfigura muitas vezes em disfuncionamento familiar (Pinto, 2006).

A família revela-se como um dos lugares privilegiados de construção social da reali-

dade percecionada a partir da construção social dos acontecimentos e das relações, e

é dentro das relações familiares que os acontecimentos de vida recebem o seu

significado, através destes que são entregues à experiência individual (Saraceno,

1995).

A Constituição da República Portuguesa no seu art.º 67, considera a família um

elemento basilar da sociedade, estando sob proteção da sociedade e do Estado, e deve, por isso, reunir condições que permitam a vinculação dos seus elementos, nomeadamente a educação, a realização profissional e a participação na vida cívica (Portugal, 2005).

A família constitui o espaço de realização da pessoa, através da transmissão de valo-

res e interinfluências e do reforço da solidariedade entre gerações. Promover o desen- volvimento e a estabilidade do ciclo familiar constitui-se como um objetivo. O desenvol- vimento futuro da sociedade impõe que o desenvolvimento do individuo, seja concretizado no respeito pela autonomia das famílias e dos seus membros, em especial pelo respeito dos direitos da criança (RCM nº 50/2004).

Relativamente aos conceitos de família, estes podem ser diversos, desde a família nuclear à mais alargada, e ainda as estruturas “pós modernas” que incluem as famílias monoparentais, reconstruidas, do mesmo género, ou famílias constituídas por amigos (Stanhope & Lencaster, 2008). De acordo com Oliveira (2006), o conceito de família não pode ser limitado a laços de sangue, casamento, parceiro sexual, ou de adoção. Qualquer grupo cujas ligações estejam baseadas na confiança, suporte mútuo, e com um destino comum, devem ser encaradas como uma família.

Nos CSP a constituição da família é caracterizada de acordo com a sua estrutura, e o número dos seus elementos, especificamente com as seguintes predefinições. “Unitária” quando constituída por um só elemento, “Monoparental”, constituída por pai

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PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

ou mãe e filhos, “Alargada” quando reúne avós, pais e filhos, uma “Nova união” que

resultado da reformulação de uma anterior união, “Nuclear”, constituída por um casal

com ou sem filhos, entre outras.

Quanto às ligações vividas entre os diferentes elementos, Relvas (2006) descreve a família como uma rede complexa de relações e emoções na qual se transmitem sentimentos e comportamentos. Na interação entre os vários membros da família, refere a existência de subsistemas, nomeadamente o subsistema individual, constituído pelo individuo que para além do seu papel no seio familiar ainda interage com outros sistemas com papéis e funções que interagem com o seu desenvolvimento pessoal. O subsistema “parental” constituído pelos pais com as funções de proteção e

de educação dos seus filhos, o “conjugal” constituído pelo casal, e ainda o “fraternal”

constituído pelos irmãos com funções específicas de treino entre iguais.

O ciclo de vida da família é percebido através da sua própria história, a sua evolução e

transformação no tempo. Nesta narrativa importa adotar uma visão processual da mesma, tanto do ponto de vista da sua estrutura bem como nas posições assumidas pelos seus membros (Alarcão, 2006; Relvas, 2006). Quanto à posição dos seus

membros, são ciclos de vida percebidos na sua forma individual, acrescidos aos ciclos

de desenvolvimento da estrutura familiar e que são interdependentes (Saraceno,

1995).

O ciclo vital da família de Duvall, é geralmente utilizado nos CSP, e caracteriza o

estadio de desenvolvimento familiar, dependendo da evolução do filho mais velho.

O

estadio I – Família sem filhos; desde o casamento ao nascimento do primeiro filho.

II

– Família com filhos pequenos; do nascimento do primeiro filho até à idade de 3

anos, o pré-escolar. III – Família com filhos em idade pré-escolar; da idade pré-escolar

até à entrada na escola, até à idade de 6 anos. IV – Família com filhos em idade

escolar; da entrada na escola até à adolescência; até à idade de 13 anos. V – Família

com filhos adolescentes; saída da escola até ao início de estudos superiores.

VI

– Família com filhos adultos jovens; os filhos saem de casa (Taunching family).

VII

– Família de meia-idade; entre a saída do último filho e a reforma (Ninho vazio).

VIII

– Família idosa da reforma à viuvez.

As

mudanças na família e as novas dinâmicas na sua construção, podem ser notadas

no

recente relatório do observatório das famílias e das políticas da família em Portugal,

dados relativos ao ano de 2009. Nos resultados apresentados verifica-se que a dimensão média da família está a diminuir cada vez mais, as pessoas vivem em agregados domésticos mais pequenos, e o número de pessoas que vivem sós,

30

1. A ADOLESCÊNCIA

representa 18% do total. As famílias monoparentais aumentaram para 8.5%. Constata- se o aumento de casais a viver em situação de coabitação conjugal, e a existência da composição da família constituída apenas por um núcleo conjugal ou monoparental, e

a descida e adiamento da fecundidade, bem como o aumento do divórcio, que atingiu

a taxa bruta de 2.5%. Nas famílias recompostas, existe a junção de “os meus” filhos, “os teus” e “os nossos”, e passa a ser uma realidade comum, com o valor de 2.7% do total de casais com filhos. Quanto à idade média para o primeiro casamento, este acontecimento é cada vez mais uma transição adiada, prolongado para uma média de idade que corresponde aos 30 anos, quer para homens quer para mulheres (Wall et al., 2012).

Peixoto (2004) num estudo que incidiu sobre 265 adolescentes que frequentavam o 7º, 9º e 11º anos, com idades compreendidas entre os 11 e os 19 anos, pesquisou a relação entre a perceção da qualidade das dinâmicas relacionais no seio familiar, e o autoconceito/autoestima relacionado com o rendimento académico, e confirmou resul- tados, nomeadamente que a qualidade do relacionamento com a família percecionada pelos jovens está relacionada com as variáveis autoconceito e autoestima. O suporte familiar nas tarefas da escola parece contribuir para o ajustamento académico do adolescente, no entanto, os alunos com insucesso no seu passado escolar, conse- guem mesmo assim proteger a sua autoestima.

No que se refere à forma como os pais se relacionam com os filhos, caracterizado através dos diferentes estilos parentais observados, estes constituem um grande contributo para a compreensão da evolução do processo educativo dos filhos, e revela um contexto, um clima emocional, no qual vão sendo aplicadas as práticas de parentalidade. Diana Baumrind (1971), refere quatro dimensões de funcionamento familiar que favorecem o desenvolvimento de uma boa autoestima e de comporta- mentos pró-sociais. Um enquadramento atencioso e caloroso e a disciplina firme e coerente, associado a expectativas elevadas em termos de maturidade, e ainda a qualidade na comunicação entre pais e filhos são dimensões que determinam os estilos educativos. O estilo democrático combina um nível de exigência elevado com uma proximidade afetiva entre pais e filhos, aqui os limites educativos são claros e a discussão é utilizada e está associado a boas capacidades de adaptação psicossocial na criança (Macobby & Martin, 1983; Michel & Purper, 2009).

Num estudo de Magalhães & Fonte (2007) realizado a 188 alunos com idades compreendidas entre os 15 e os 20, numa escola Secundária do Concelho de Vila Nova de Famalicão, através de uma caracterização entre o consumo de substâncias

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PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

licitas e ilícitas relacionadas com as práticas educativas parentais, mostra que os estilos educativos mais representados são o autorizado e o negligente. O estilo autori- zado é aquele que na literatura é o considerado mais adequado, mas por outro lado, o estilo negligenciado é aquele que é referido como desajustado ao desenvolvimento saudável do adolescente, uma vez que estes pais não estão envolvidos na paren- talidade, a baixa exigência e responsabilidade, no que se reflete aos comportamentos dos adolescentes, torna-os agressivos, inseguros, frustrados e com dificuldades de integração social. Os resultados evidenciaram também a importância dos estilos parentais adequados na prevenção de comportamentos de risco e na promoção do desenvolvimento saudável do adolescente. A abordagem dos programas de preven- ção, deve ser ecológica e centrada nos contextos de vida dos jovens, sendo a família

o contexto de socialização mais importante.

Lundel et al. (2008), destaca a importância do modelo de preocupação pelos senti- mentos dos outros, e a capacidade de explicar a sua posição ao adolescente como características adicionais que reduzem os aspetos negativos. A intervenção materna na capacidade reflexiva, pode reduzir os elementos hostis em adolescentes com cognições em conflito, reduzindo a sua intensidade, e ainda uma melhoria saudável na resolução de problemas na família. Vai ao encontro de Bella & Bellb, (2009) que apoia

o modelo de vínculo, associado a um clima de calor familiar, em que as necessidades

de dependência estão satisfeitas com o desenvolvimento de autoestima e confiança. Associa a existência de limites interpessoais numa família e a validação da individua- lidade e o desenvolvimento da autonomia. Reforça ainda a ideia da importância do ambiente familiar ao longo da vida, com o sistema familiar vivido na adolescência, a ter implicações para o bem-estar ao longo de toda a vida.

O processo de individualização dos rapazes parece ser mais turbulento, e a defesa da

intrusão emocional dos pais é mais presente, em comparação com as raparigas. No caso de relações menos satisfatórios com os pais, os adolescentes podem compensar

a privação das suas necessidades de dependência, por um maior apoio nas suas relações com os amigos (Levpuscek, 2006; Pinto, 2006).

1.3. O papel dos grupos na formação da identidade

O sentimento de pertença a um grupo e a qualidade das relações que são consegui-

das são fatores importantes para um bom desenvolvimento do adolescente. A influên- cia normativa dos colegas exerce uma pressão social sobre os elementos constituintes

32

1. A ADOLESCÊNCIA

do grupo, no sentido de todos se comportarem de acordo com os padrões revelados

pelo grupo e no meio onde estão inseridos. O grupo assume as condições para o

adolescente realizar a comparação social, ou seja relacionar o seu comportamento e

as suas capacidades com os outros elementos do grupo e fazer a sua autoavaliação.

A comparação social é um processo sociopsicológico que permite tomar consciência

do “Eu”, dos outros e do meio social, no qual as implicações podem ser positivas, nomeadamente quando a autoestima e a autoconfiança é melhorada, ou pelo contrá- rio, esta comparação pode ter consequências negativas quando ocorrem mudanças radicais de comportamento no sentido de assumir comportamentos de grupo que se manifestam desadaptados ao próprio (Sprinthall e Collins, 1994).

O grupo auxilia a reestruturação identitária na adolescência, permite a recuperação da

história de vida e ainda ajuda na abertura nas perspetivas das escolhas para a vida futura, que representam uma intenção de vida. Na busca da realização dessa exigên- cia pessoal e psicossocial, os adolescentes recebem influências dos seus grupos de pertença, que podem representar tanto contribuições positivas como fatores de maior indecisão (Locatelli & Guimarães, 2000; Bueno, Strelhow & Câmara, 2010). A repre- sentação social que o adolescente tem de si mesmo está relacionada com o autocon- ceito e a autoestima, estas são atribuições individuais aperfeiçoadas nas relações quotidianas desde a infância e que operam como fatores decisivos na relação do

indivíduo consigo mesmo e com os outros (Sánchez & Escribano, 1999; Bueno, Strelhow & Câmara, 2010). Na adolescência, a satisfação com a vida está relacionada com aspetos comunitários e económicos, relações familiares, experiências escolares e relações com os pares (Barros et al., 2008; Bueno, Strelhow & Câmara, 2010).

O grupo operativo age como um instrumento de desenvolvimento de fatores de

prevenção, como por exemplo a autoestima, criatividade, planos de vida e juízo crítico.

A partilha de informação é transformada em atitudes de proteção para a saúde, os

adolescentes passam a ser protagonistas das suas histórias inseridos na comunidade (Abduch Chafi, s/d).

Deste modo o conceito de “grupo” aparece linguisticamente associado à palavra provençal grop significando “nó ou ligação”, que faz refletir sobre o estudo da ligação grupal, e para a reunião de pessoas (Anzieu, 1995 citado por Pinto, 2006).

Relativamente ao funcionamento do grupo, este é considerado uma entidade tripartida, nomeadamente pela história que vai tecendo, através da interação dos membros constituintes, pelo espaço vivo de desejos, necessidades, cumplicidades e compro- missos, e também pelas relações que se vão estabelecendo entre os seus membros.

33

PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

Um lugar de formação, satisfação ou frustração de desejos fantasias e medos, mas assumido como um espaço onde os seus elementos se projetam num lugar-comum.

A relação com o grupo torna-se num incontornável corpo expressivo que contém,

transforma e atua nos aspetos mentais dos seus membros e da própria história grupal,

espaço que vai sendo constituído pelo cruzamento de histórias individuais. Através da função “continente” o grupo dá abrigo ao adolescente durante o tempo necessário para que ele se possa organizar com um sentido para si e para os seus projetos, um espaço ancoradouro, da atitude assumida pelo adolescente, autodestrutiva sobre o meio ou sobre si próprio. O “Ego auxiliar” do adolescente no qual, o individuo assume

de forma hipnótica a mentalidade do grupo e só mais tarde assume o seu pensamento

individual (Pinto, 2006). Este involucro psíquico é uma rede que unifica os pensa- mentos, as palavras e as ações e que permite ao grupo constituir-se como um espaço e uma temporalidade próprios (Anzieu, 1995, citado por Pinto, 2006).

Numa fase inicial da formação do grupo consideram-se os elementos mais reunidos que agrupados. Só através da passagem do tempo, se conseguem estabelecer vínculos e trocas de experiências, surgem as transferências, e deste modo teremos um grupo que desenvolverá uma linguagem própria, para além de uma forma peculiar de enfrentar os problemas e os conflitos (Castelar, 1978; Verzignasse, 2008). O grupo na adolescência funciona como um espelho sobre o qual, o sujeito vê-se refletido nas suas próprias dificuldades, e é inserido no grupo, que as suas dúvidas podem ser trabalhadas, testando novos papéis, elaborando os seus lutos, sentindo maior segu- rança para formar a sua própria identidade.

A escola é um espaço relevante na formação do grupo de pares, por ser o espaço

onde os adolescentes passam a maioria do tempo, é o contexto que proporciona uma dinâmica na formação dos grupos, e é determinada por esse mesmo espaço e pelos valores a ele associados, nomeadamente o valor relacionado com o sucesso escolar.

Num estudo de Pereira et al. (2000), concluiu que a grande maioria dos grupos é constituído no contexto escolar, em particular dentro das turmas, realçando assim a forte influência da dinâmica escolar e da formação de turmas. Nas dinâmicas grupais, os adolescentes do 7º, em termos de locais de encontro, estão mais confinados ao espaço da escola, reunindo-se fora da escola em festas de aniversários ou no caminho para a escola, o grupo tem uma função mais lúdica, enquanto nos mais velhos, os adolescentes do 9º, já exploram mais o espaço fora da escola, o cinema e os cafés. Nos mais velhos as atividades são mais variadas, e envolvem a partilha de assuntos pessoais, da família e da escola. As relações estabelecidas na formação dos

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1. A ADOLESCÊNCIA

grupos no 7º ano, está mais relacionada com a idade, o género sexual e com o modo de vestir, enquanto nos mais velhos a associação a grupos aparece relacionada com os comportamentos, especialmente com o tabaco, gostos pessoais e formas de estar. Os grupos são caracterizados pelos próprios, pelo tipo de formação e também relacio- nados com os seus comportamentos. São denominados os grupos de fumadores, surfers, blacks, queques, entre outros. Este estudo vai ao encontro do pensamento de Matos (2009), quando afirma que as relações grupais na infância estão relacionadas com os colegas de escola, os filhos dos amigos dos pais e estão associadas a gostos comuns de diversão. Nos adolescentes, por seu lado, estão relacionados com a partilha de sentimentos e tentativa de compreensão do mundo, a confidência e interajuda, com o objetivo de apoio às dificuldades sentidas.

Sprinthall & Collins (1999) considera que os grupos dos adolescentes são mais bem definidos e mais bem estruturados que os grupos informais de infância, tendo em consideração os objetivos da existência do grupo e as funções nelas definidas. Estes revelam uma identidade própria, e de aceitação de todos os elementos, e com mais significado nas experiências sociais, contrastando com o grupo de infância no qual o objetivo é mais lúdico.

Num estudo exploratório desenvolvido com adolescentes entre os 12 e 18 anos de um colégio brasileiro, tendo como objetivo conhecer a perceção dos adolescentes acerca dos relacionamentos e interações no processo de adolescer saudável, Araújo (2010), concluiu que os adolescentes referem como importante a proximidade dos seus pais e as suas relações com os amigos. Estes resultados vão no mesmo sentido do estudo quantitativo com uma amostra de 2100 sujeitos feito por Pinto (2006), no sentido de avaliar a relação satisfatória entre o grupo familiar e o grupo de pares, pode constatar- -se que a variável de suporte familiar constitui o fator mais relevante para o envolvimento no grupo de pares e que revela ser um fator de melhoramento da relação entre contexto familiar e grupal. Os adolescentes vão avaliando as posições dos pais e dos amigos construindo a par e passo a sua autonomia.

A frequência da casa dos amigos pelos adolescentes é uma oportunidade positiva para estes e para a família, pois demostra uma boa aceitação mutua dos familiares e dos amigos, revelando alguma proteção conjunta (Araújo, 2010). A comunicação entre os elementos da família é importante para potenciar relações saudáveis e regulares. Neste estudo foi referida também a importância de uma mãe respeitadora da liberdade, e por facilitar a partilha das dúvidas nas situações mais difíceis, sendo a mãe, nestes casos, considerada como a pessoa apropriada para compreender, criticar

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PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

e orientar a sua filha. Constatou-se que alguns adolescentes quando não dispõem de

um familiar para partilhar os seus anseios, vão procurar resposta no seu grupo de amigos. Ficou evidente o modo com os adolescentes se relacionam, formando grupos onde interagem com os pares, revelando interesses comuns, amizades reciprocas e com influências mútuas. Os adolescentes contêm o poder de passar informação importante relacionada com a promoção da saúde e que seria uma ajuda para diminuir os riscos sociais como seja por exemplo o uso de substâncias, relacionadas com a partilha de bons hábitos de vida.

Sampaio (2009), faz referência à “segunda família”, constituída pelos amigos, colegas

e ainda os contactos na internet, por serem estes os elementos que mais mobilizam os

adolescentes. Estes vivem para a sua roupa e música favorita, e são membros da sua rede relacional, delegando para segundo plano a família mais próxima. Os pais e os amigos revelam papéis diferentes para os adolescentes, e garantem disponibilidades complementares no que diz respeito a assuntos do seu crescimento emocional, na autonomia de agir com segurança.

Sprinthall & Collins (1999) considera que a escola, a família e o relacionamento com os colegas são muito importantes para o desenvolvimento das características pessoais

e sociais do adolescente, e de extrema importância para a formação do jovem adulto.

Embora seja reconhecida a influência dos grupos de pares no desenvolvimento do adolescente, frequentemente, é manifestado o desagrado dos pais, que pensam que os adolescentes rejeitam os valores dos pais a favor dos comportamentos apreendidos pelos colegas de grupo.

Relativamente às funções do grupo Pinto (2006), concluiu que os adolescentes têm predominantemente, dois a três grupos, e usam os mesmos para execução de determinadas funções, nomeadamente para companhia de tempos livres, suporte e apoio emocional, resolução de problemas e aventura e risco. Relativamente aos padrões de vinculação aos grupos, verificou a existência de três funções descritas, padrão de vinculação simples que é descrito como tão-somente pela pertença ao grupo sem qualquer fim discriminado, um padrão de vinculação específica atribuído a cada grupo de pertença, uma exposição funcional especifica do adolescente, uma função de complementaridade e um padrão de vinculação múltipla, verificou ainda que

a procura do vivido grupal é variável tanto no número de grupos como no papel ou

função atribuído pelo adolescente. Os papéis e funções do grupo são múltiplos, podendo ser depositária ou transformacional. Estes resultados vão ao encontro do estudo de Bueno, Strelhow & Câmara (2010), que concluiu que a participação dos

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1. A ADOLESCÊNCIA

adolescentes em grupos está associada à qualidade de vida, sendo os objetivos de vida um dos fatores mais relevantes para sua formação. Os grupos formais funcionam mais para os jovens como fonte de suporte social. Em relação à satisfação com a vida em geral, o estudo aponta para melhores índices nos jovens que participam de grupos formais, representando um fator de qualidade de vida. A autoestima afigurou-se como um construto explicativo positivo para a diferença entre quem pertence e quem não pertence a grupos. De realçar que o estudo veio demonstrar a importância de incluir no trabalho de promoção e prevenção à saúde adolescente os grupos formais como fatores protetores (Bueno, Strelhow & Câmara, 2010).

Para Matos (2009), os amigos mais próximos estão relacionados com o bem-estar físico e psicológico dos adolescentes e podem evitar sintomas de tristeza, solidão, e baixa autoestima. Conhecer o grupo de amigos mais chegados é uma forma de identificar também os comportamentos dos filhos no contexto do grupo, e assegurar uma boa comunicação entre os adolescentes e os pais. A melhor maneira de promover o bem-estar do adolescente, é ouvir e ser ouvido pelos filhos, pois promove relações positivas com os adolescentes, e estabelecem-se relações promotoras de bem-estar.

1.4. A comunidade escolar na formação e crescimento

A democratização das sociedades trouxe importantes desafios de convivência relacio- nados com a diversidade étnica, cultural, social e geracional. Esta evolução trouxe consequências na vida das escolas, outrora habituadas a lidar com alunos que já tinham sobrevivido a processos de seleção e exclusão, por consequência mais homogéneas do ponto de vista sociocultural. A educação desempenha neste contexto um papel muito importante no processo de integração social e de formação para a cidadania. A escola inclusiva mobiliza a comunidade educativa e famílias na resolução das dificuldades apresentadas pelos alunos, nomeadamente, abandono escolar, violência, necessidades educativas especiais, entre outras (Sampaio, 2000).

Sampaio (2009), considera a escola uma organização constituída por um determinado grupo de pessoas que apresentam um conjunto de objetivos comuns. Cada escola apresenta uma personalidade própria, criada através de características especificas na sua estrutura, no seu processo organizacional, e ainda por variáveis comportamentais individuais e de grupo diversas. Para um conhecimento do clima escolar torna-se necessário ter um entendimento profundo dos três elementos referenciados, para

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PARTE I · – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

fortalecer um sentimento de pertença. Em primeiro lugar importa compreender os jovens e suas famílias, e que são o objeto de tanta preocupação, para nos conhecer- mos melhor e descobrir a consciência coletiva para desenvolver um contexto onde se formem pessoas com sensibilidade na descoberta de questões e na procura de soluções partilhadas. A escola é um território crucial para a socialização e educação dos jovens, onde as questões de educação para a saúde ocupam um lugar importante, neste contexto podem ser os professores os primeiros a detetar os comportamentos de risco, porque ouvem os alunos devido à proximidade que criam com eles.

Matos (2009), considera a escola como um recetáculo e também um espelho de todas as dificuldades de socialização de uma sociedade democrática e em mudança, o que obriga a constantes reflexões e reformas na rede educativa. Esta é responsável pela transmissão de normas e padrões comportamentais, e com um papel determinante na socialização, no espaço e tempo de aprendizagem das competências pessoais e sociais. Quando a relação do aluno com o professor é marcada por uma comunicação aberta de apoio e envolvimento, promove o desenvolvimento de segurança, do bem- -estar emocional e social acrescido de melhorias académicas. A atitude do professor influencia o aluno na perceção que este tem das suas capacidades, e uma perceção positiva do ambiente escolar influencia no sentido positivo o comportamento do jovem contribuindo para o bem-estar e para a qualidade de vida.

Na reconfiguração do papel da escola decretada através da Lei nº 46/86, Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE), é integrada pela primeira vez, a educação para a saúde nos planos curriculares, e expressa uma visão de escola, como uma instituição promotora de uma educação mais abrangente. O sistema de ensino deve responder às necessidades da realidade social, contribuindo para o desenvolvimento harmonioso do individuo, na formação de cidadãos responsáveis e autónomos, uma formação adequada ao seu desenvolvimento pessoal e social, através dos planos curriculares, incluindo o apoio da saúde escolar através do acompanhamento do crescimento e desenvolvimento saudável.

A escola assume a responsabilidade no desenvolvimento de competências dos seus

jovens, e com capacidade adquirida de sustentar a aprendizagem ao longo da vida.

O currículo do ensino básico integra a educação para a cidadania, a educação para os

afetos, visa a promoção da saúde física, psicológica e social e reafirma os princípios orientadores do modelo de educação para a promoção da saúde. A autonomia do projeto educativo estruturado com a família, comunidade, e centros de saúde, através da abordagem das diferentes áreas temáticas. A escola enquanto entidade autónoma,

38

1. A ADOLESCÊNCIA

faz um diagnóstico da situação da comunidade em que se insere, numa cultura de responsabilidade partilhada por toda a comunidade educativa e pode gerir estas áreas por forma a trabalhar temas previamente identificados e incluídos quer no Projeto Educativo da Escola quer no Plano Curricular de Turma (Despacho nº 25 995/2005).

A conceção da escola como uma instituição promotora de uma formação global,

abrangendo a educação para a saúde, é consolidada através do Despacho nº 19308/2008, que regulamenta as atividades a desenvolver nas Áreas Curriculares Não Disciplinares (ACND). Este diploma estabelece que ao longo do ensino básico, em

área de projeto e em formação cívica, devem ser desenvolvidas competências nos domínios de desenvolvimento, nomeadamente educação ambiental e cidadania. Este despacho clarifica o conceito de que o currículo escolar vai muito para além dos saberes disciplinares e consolida a escola como um organismo formador.

Um conceito atual de educação para a saúde, através da partilha de informação que permite identificar comportamentos de risco e reconhecer os benefícios dos comporta- mentos adequados e ainda suscitar comportamentos de prevenção, no sentido de consciencializar cada jovem para preservar a sua própria saúde e a aquisição de competências que a habilitem para uma progressiva autorresponsabilização. Este conceito veio estimular o estabelecimento de parcerias, nomeadamente com entidades credenciadas na área da educação para a saúde, bem como o apoio da Unidade de Saúde Pública (USP) do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES), e da comuni- dade escolar. O conceito de saúde da OMS deve ser aplicado, e eleger a escola como

a grande promotora da saúde dos jovens e das suas famílias, reforçando a necessi- dade de trabalhar em rede Rede Nacional de Escolas Promotoras de Saúde (RNEPS) (Portaria nº 196-A/2010).

Uma intervenção preventiva, protetora e promocional, requer uma visão integrada do ajustamento psicossocial da criança e do adolescente e da capacidade de descobrir e valorizar as aptidões pessoais demonstradas, incluindo aqui, os fatores pessoais, familiares, escolares e relativos ao grupo de pares, centralizar preferencialmente em fatores positivos e em comportamentos alternativos. Combater o efeito cumulativo dos fatores de risco, em termos do seu impacto para a saúde das crianças e dos adolescentes, atuando de modo articulado e integrado (Sampaio, 2007).

O modelo organizado e estruturado de implementação da Promoção e Educação para

a Saúde (PES) em meio escolar, está associado à RNEPS e desenvolve-se com uma

parceria entre o Ministério a Educação (ME) e o Ministério da Saúde (MS), e veicula

um projeto comum do Conselho da Europa. Desta forma procura-se dar respostas às

39

PARTE I · – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

escolas e centros de saúde, que planeiam a mudança de práticas e de procedimentos com vista a capacitar as populações escolares, para a completa realização do seu potencial de saúde.

Uma Escola Promotora de Saúde (EPS), rege-se por princípios considerados essen- ciais para promover a saúde em meio escolar, nomeadamente fomentar o bem-estar dos alunos, defender os princípios de justiça social e equidade, proporcionar um ambiente seguro e de apoio, desenvolver as competências dos alunos através da sua participação, desenvolvendo as questões relacionadas com o sistema de educação e de ensino, abordando a saúde e bem-estar de toda a comunidade educativa e integrar as atividades de saúde no programa escolar, com a aplicação de critérios de avaliação baseados em objetivos realistas e baseados em evidências científicas, aplicando uma melhoria continua dos processos e dos resultados escolares (IUHPE, s/d).

O protocolo entre o Ministério da Educação e o Ministério da Saúde (PMEMS, 2006), veio clarificar os papéis e responsabilidades entre os profissionais da saúde e os professores na área de educação para a saúde, no contexto da comunidade educativa. Este processo contribui para a aquisição de competências pelos alunos no sentido de realizarem escolhas conscientes e responsáveis em matéria de saúde e cidadania, através da promoção dos fatores de proteção implícitos aos estilos de vida relacionados com a saúde, tais como saúde mental, consumo de substâncias lícitas e ilícitas e outras de acordo com os programas integrados no Plano Nacional de Saúde (PNS) (Portugal, 2012).

40

2. OS

CONSUMOS

ADOLESCÊNCIA

DE

ÁLCOOL,

TABACO

E

OUTRAS

DROGAS

NA

O contexto escolar nomeadamente o grupo de pares e o ambiente social no qual o

adolescente está envolvido, são considerados os maiores e mais fortes preditores do consumo de substâncias na adolescência. Na escola identificam-se fatores que podem favorecer comportamentos de risco, nomeadamente a falta de motivação associado ao fraco rendimento académico, assim como a vontade de independência, mas fraco interesse na realização pessoal (Matos, 2009).

Frágola (2009), refere-se à psicopatologia das adições no adolescente, como um fenómeno multideterminado por vários fatores quer de ordem biológica, psicológica e sociocultural, refere-se a uma complexidade desenhada através de “constelações aditivas”. O adolescente encontra-se em contexto de vulnerabilidades, especialmente um “self desequilibrado” designado de precário, associado também à estrutura da personalidade subjacente, nomeadamente a resistência narcisista, manipulação e sentimentos inconscientemente defensivos e destrutivos.

2.1. Políticas de diminuição do consumo e o acesso a bebidas alcoólicas

A Carta Europeia sobre o Álcool, elaborada na Conferência Europeia sobre a Saúde

Sociedade e o Álcool, realizado em Paris no ano de 1995 pela OMS, veio solicitar a todos os estados membros, a elaboração de políticas de luta contra o alcoolismo e a execução de programas, tendo em conta a situação social, jurídica, económica e de contexto cultural de cada país. Esta carta descreve vários princípios e objetivos éticos, dos quais destacamos que, “todas as crianças e adolescentes têm o direito de crescer num ambiente protegido, ao abrigo das consequências negativas do consumo de álcool, relativamente à publicidade e promoção de bebidas alcoólicas”. O direito a uma informação e educação fiáveis sobre os efeitos do álcool e suas consequências para a saúde, e para a família. Veio reforçar o dever de proteger as pessoas que não desejam consumir, as mesmas devem ser apoiadas de pressões ou incitamentos para o consumo, e ainda protegidas nos comportamentos abstencionistas.

41

PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

A OMS na sua estratégia para a satisfação do objetivo “Saúde para todos no ano

2015” através da META 12, definiu o objetivo de “diminuir o consumo de álcool a 6

litros “per capita” por ano para a população de 15 ou mais anos, e ainda reduzir o consumo de álcool na população de 15 ou menos anos até ao limiar de 0%, associado

à implementação de programas no sentido de atingir os objetivos traçados (OMS,

2002).

Na continuidade destas políticas, a Resolução da Assembleia da República (RAR nº 76/2000), veio recomendar ao Governo, a adotar um programa alcoológico nacional de prevenção e combate ao alcoolismo, e no desenvolvimento de um projeto de

informação a nível nacional, com enfoque nas escolas e nas famílias, com o objetivo

de

alertar a população para os riscos e prejuízos da excessiva ingestão de álcool.

As

estratégias de promoção da saúde e de luta contra o álcool passam por diferentes

abordagens, principalmente no código da publicidade ao álcool, (Dec. Lei n.º 332/2001), que aprovou as medidas que têm como objetivo assegurar a proteção dos

consumidores mais jovens, através da proibição do patrocínio de marcas de bebidas alcoólicas em atividades desportivas, culturais ou recreativas praticadas pelos menores e pelo alargamento do período de proibição de transmissão de publicidade

na

rádio e na televisão.

O

Plano de Ação Contra o Alcoolismo, publicado na Resolução de Conselho de

Ministro (RCM nº 116/2000), veio instituir na prática o objetivo de lutar contra o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, através da promoção e educação para a saúde, e ainda fomentar a caracterização do fenómeno, através de estudos de investi- gação sobre os consumos. O Decreto-Lei nº 9/2002, veio regulamentar a restrição à venda e consumo de bebidas alcoólicas, com o objetivo de diminuir o consumo nos adolescentes, legislando a proibição de venda de bebidas alcoólicas a jovens com menos de 16 anos, o consumo em bares e estabelecimentos de restauração e de saúde e a venda nas máquinas automáticas. Esta legislação veio defender o consumidor, bem como a aplicação de sansões aos que comercializam e vendem estas bebidas sem qualquer controlo.

No Plano Nacional para a Redução dos Problemas Ligados ao Álcool (PNRPLA 2010/2012), constam os programas de ação e os objetivos específicos a atingir, nomeadamente de realçar, a diminuição dos padrões nocivos de consumos e as suas consequências na população juvenil através de programas de educação para a saúde, fomentando a redução da oferta de bebidas alcoólicas a crianças e jovens, com vista

42

2. OS CONSUMOS DE ALCOOL, TABACO E OUTRAS DROGAS NA ADOLESCÊNCIA

ao adiamento do início de consumo, nomeadamente a não comercialização de bebidas alcoólicas a estes grupos etários (Portugal, 2010).

O Decreto-Lei nº 50/2013, veio legislar de forma a colocar impedimentos ao consumo

de bebidas alcoólicas pelos adolescentes, tendo em conta as graves consequências a nível do sistema nervoso central provocando défices cognitivos, dificultando a aprendi- zagem e desempenho profissional. As bebidas alcoólicas foram classificadas em espirituosas, de acordo com os regulamentos de classificação em vigor, e não espiri- tuosas, como a cerveja e o vinho, ficando proibidos os consumos das bebidas

espirituosas até aos 18 anos e os 16 anos para as bebidas não espirituosas, incluindo

a proibida à venda de bebidas alcoólicas entre as 0 horas e as 8horas, com exceção de alguns estabelecimentos, indo ao encontro das orientações da OMS e de alguns países da Europa.

Bebida alcoólica é toda a bebida que através de fermentação, destilação ou adição, contenha um título alcoométrico superior a 0.5 graus (Portaria nº 390/2002). Na bebida denominada “Alcopops”, o etanol aparece diluído em leite ou sumos fortemente adocicados de modo a neutralizar o sabor do álcool (RCM nº 166/2000).

A ingestão de bebidas alcoólicas contém associada, uma dualidade de represen-

tações, a primeira associa o consumo à participação em atividades desportivas e recreativas e faz passar a informação que a bebida traz aventura, sedução, afirmação pessoal e emoções fortes e facilitadora da socialização, mas o consumo em idades

precoces traz implicações negativas para a saúde física, psíquica e social do indivíduo

e

ainda situações de risco na condução de veículos.

O

consumo de álcool pelos adolescentes, traz danos à saúde física, ficando também

expostos às mais variadas situações de risco, uma vez que a substância tem como efeito a diminuição do limiar de censura que, somada à omnipotência pubertária e ao sentimento de indestrutibilidade e invulnerabilidade nessa fase, faz com que muitas

vezes as vidas sejam interrompidas ou prejudicadas pelo uso dessa substância

(Freitas, et al. 2007). Nos jovens, a imaturidade orgânica para uma eficaz e completa metabolização persiste, pelo menos, até aos 18 anos. No sexo feminino, para além de uma menor capacidade para a sua metabolização hepática, o organismo apresenta menor concentração de água, de 10% a 15%, e ainda menor superfície corporal (RCM

nº 166/2000).

Os valores considerados de baixo risco indicam o consumo para o adulto saudável, que não deve exceder por dia e repartidos pelas duas principais refeições, no homem,

43

PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

24g de álcool, o que equivale a 25 cl de vinho a 12 graus, ou três copos de cerveja, e na mulher, 16g de álcool, o que equivale a 15 cl de vinho ou dois copos de cerveja (RCM nº 166/2000). Relativamente ao consumo nocivo é definido como um padrão de consumo que provoca danos à saúde tanto física como mental mas que não é considerada como dependência.

2.1.1. Prevalência do consumo de bebidas alcoólicas

De acordo com os dados do último Inquérito Nacional de Saúde (INS, 2005/2006, relativo ao ano de 2006, verificou-se que 53.2% dos residentes tinha bebido pelo menos uma bebida alcoólica ao longo do ano anterior, esta percentagem era mais elevada nos homens 65.4% do que nas mulheres 41.8%. Por grupos etários pode-se verificar que na faixa etária dos 15-24 anos 5.7% no total refere ter tomado bebidas alcoólicas todos os dias na semana anterior à entrevista. No conjunto dos homens 9.8%, valor mais baixo nas mulheres, 1.4%. Relativamente à evolução desde 1999 a 2006, verificou-se uma diminuição do consumo em todos os dias na semana anterior à entrevista, de 26.8% para 24.5%, dados em relação aos homens diminui de 41.3% para 37.6%, e nas mulheres de 13.4% para 12.3% (Portugal, 2009).

De acordo com a avaliação dos indicadores de saúde relativos ao PNS 2004-2010, pode-se verificar que no que se refere ao indicador de consumo de álcool nos últimos 12 meses (15-24 anos) na região centro, o valor verificado é de 50.6% para o sexo masculino e que relativamente ao continente está 0.5 acima do seu valor, para o sexo feminino apresenta o valor 38.1% e que relativamente ao continente está 2.9 acima do

valor. Relativamente ao indicador, mortalidade por doenças atribuíveis ao álcool antes dos 65 anos por 100 000 indivíduos, dados relativos ao ano de 2008, apresenta o valor

de 15.8, acima do valor do continente de 2.8 (Portugal, 2010).

No Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoactivas, entre os anos de 2001 e 2007, realizado no continente e ilhas, aos indivíduos de idades compreendidas entre os 15 e os 64 anos de idade, numa amostra de 15 000 indivíduos, constatou-se a prevalência do consumo de bebidas alcoólicas, a aumentar em 3.5%, de 75.6% para 79.1% (Balsa et al., 2008).

O resultado do inquérito HBSC (Matos et al., 2010) realizado no âmbito da OMS,

aplicado aos alunos do 6.º, 8.º, e 10.º ano de escolaridade, verificou-se, no que diz

respeito à idade de experimentação de álcool, que cerca de 40% dos adolescentes

44

2. OS CONSUMOS DE ALCOOL, TABACO E OUTRAS DROGAS NA ADOLESCÊNCIA

refere ter bebido álcool pela primeira vez aos 12-13 anos. No entanto, as raparigas referem mais frequentemente a idade de 14 anos ou mais. Cerca de 60% refere ter ficado embriagado pela primeira vez aos 14 anos ou mais, não existindo aqui, diferenças significativas entre os dois sexos. Relativamente ao consumo de bebidas alcoólicas, a bebida mais consumida todos os dias é a cerveja, ainda que a maioria

refira que raramente ou nunca consome as bebidas enunciadas. São as raparigas e os mais novos que menos dizem beber bebidas alcoólicas. Relativamente à embriaguez a grande maioria dos inquiridos diz nunca ter estado embriagado, sendo os rapazes e os mais velhos, que mais referem ter estado embriagado 4 vezes ou mais, enquanto as raparigas referem em maior número, nunca ter acontecido. Relativamente ao período

do dia em que os adolescentes costumam beber, cerca de metade refere não beber, e

mais de um terço diz fazê-lo durante o fim-de-semana à noite. Os rapazes referem, mais frequentemente, beber todos os dias e a qualquer hora, enquanto as raparigas referem maior consumo durante o fim-de-semana à noite. Por anos de escolaridade os rapazes do 10º ano reportam um maior consumo durante o fim-de-semana e à noite. Relativamente aos motivos para o consumo os rapazes apresentam média superior

para otimização pessoal, otimização social e de lidar com dificuldades. Os alunos do

8º ano têm médias superiores no fator de conformidade e de lidar com dificuldades.

No estudo, (ECATD ESPAD, 2011) sobre o consumo de álcool, tabaco e drogas, realizado a alunos do ensino público do 7º ao 12º ano de escolaridade, numa amostra de 13000 alunos, pode verificar-se que relativamente ao consumo de álcool, se verificou a diminuição do número de consumidores em todos os grupos etários, no entanto existiu um aumento da frequência nos consumos mais intensivos, a embria- guez, com maior quantidade de bebidas consumidas, e com maior teor alcoólico, denominadas bebidas destiladas, estando atribuído um maior consumo às raparigas. No que se refere à iniciação dos consumos manteve-se nos 13-15 anos (Feijão, Lavado & Calado, 2011).

2.2. Políticas de diminuição do consumo e o acesso ao tabaco

A legislação recente denominada, a Lei do Tabaco (Lei nº 37/2007), aprovou as

normas para a proteção dos indivíduos da exposição involuntária ao fumo do tabaco, bem como as medidas de redução da procura e a cessação do seu consumo, e que entrou em vigor a 1 de Janeiro de 2008. No seu artigo 4º faz referência à proibição de fumar em determinados locais, nomeadamente nos estabelecimentos de ensino,

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PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

dentro de todo o espaço das escolas incluindo espaços de recreio. Relativamente à informação veiculada sobre os malefícios do tabaco, na rotulagem das unidades de embalagem de tabaco, aparecem as advertências que «Fumar Mata» e «Fumar prejudica gravemente a sua saúde e a dos que o rodeiam». Advertindo para as consequências graves para a saúde, entre as quais que: «Os fumadores morrem

prematuramente», «Fumar bloqueia as artérias e provoca ataques cardíacos e enfar- tes», «Fumar provoca o cancro pulmonar mortal». A legislação indica que é proibida a venda de produtos do tabaco através de máquinas de venda automática, e que estas estejam munidas de um dispositivo eletrónico ou outro sistema bloqueador que impeça

o seu acesso a menores de 18 anos. Refere ainda que os serviços de saúde, devem

promover e apoiar a informação e a educação para a saúde dos cidadãos relativa- mente aos malefícios decorrentes do consumo de tabaco e à importância da cessação tabágica, através de campanhas, programas e iniciativas destinadas à população em geral ou a grupos específicos, designadamente crianças e jovens, entre outros.

Com o objetivo de chamar a atenção para os danos para a saúde, no ano de 1987 a OMS, institui o dia mundial sem tabaco, que se realiza no dia 31 de maio, organizando campanhas preventivas para os malefícios do tabaco, principalmente junto das camadas mais jovens.

O consumo de tabaco constitui atualmente um dos principais problemas de saúde, sendo a principal causa de mortes evitáveis na União Europeia, representando 700 000 mortes prematuras. Quanto à idade de inicio do consumo, 70% dos fuma- dores ou ex-fumadores adquiriram o hábito de fumar antes dos 18 anos (Comissão Europeia). De acordo com os dados do Eurobarómetro referentes ao ano de 2006,

a prevalência de fumadores com mais de 15 anos nos Países Europeus (EU25) era de 32% sendo 37% nos homens e 27% nas mulheres (Precioso et al., 2009).

De acordo com a Lei nº 37/2007, é considerado tabaco, as folhas ou parte das folhas e nervuras das plantas Nicotiana tabacum L. e Nicotiana rustica L., que seja comer- cializada sob a forma de cigarro, cigarrilha ou charutos quer picadas para cachimbo ou para a feitura manual de cigarros, na forma de rolo, barra, lâmina, cubo ou placa ou reduzidas a pó ou grãos.

A Comissão Europeia através do Comissário Europeu de defesa para a saúde, refere

que a maioria dos europeus começa a fumar antes de completar os 18 anos, o que é preocupante sendo importante garantir os compromissos internacionais em matéria de regulamentação de produtos de tabaco, nomeadamente a redução do carácter apela- tivo dos cigarros para os jovens, e indica ainda a importância da aplicação da legisla-

46

2. OS CONSUMOS DE ALCOOL, TABACO E OUTRAS DROGAS NA ADOLESCÊNCIA

ção sobre a exposição ao fumo do tabaco, especialmente o consumo de tabaco em locais públicos (Europa, 2012).

A adolescência é uma etapa particularmente vulnerável no que se refere ao consumo

de drogas, entre elas o tabaco, uma vez que representa um período de socialização, onde o jovem adquire os valores, atitudes e hábitos (Pérez, 1999; Nunes, 2004). A necessidade de ganhar aceitação social pelos amigos, que exercem pressão e influência, promove o início do consumo, associado ao desejo de estabelecer a auto- nomia e a identidade que é próprio da adolescência. Fumar está associado a um símbolo de independência e personalidade (Zhang, 2000; Nunes 2004).

2.2.1. Prevalência do consumo de tabaco

Segundo dados do último Inquérito Nacional de Saúde (INS, 2005/2006), relativos ao ano de 2006, 20.8% da população residente em Portugal continental era fumadora. Entre os fumadores, cerca de 10.6% fumava ocasionalmente e 89.4% fumava diaria- mente. A proporção de fumadores atuais era mais elevada nos homens 30.5% contra 11.8% das mulheres. A prevalência de fumadores em Portugal relativamente à média de cinco países europeus com o melhor valor, é de 20.8% superior ao valor europeu de 19.5% (Portugal, 2009). Relativamente aos valores na Região centro são os mais baixos em relação ás outras zonas do país com o valor de 17% no total de ambos os sexos, 26.6% relativamente aos homens e 8.2% para as mulheres. Dados compara- tivos entre 1999 e 2006, mostram que o número de fumadores diminuiu de 22% para 20.8%. No entanto, na população masculina e no grupo dos 15 aos 24 anos a preva- lência de fumadores aumentou de 20.7% para 31.4% (Portugal, 2010). Quanto à idade do início do consumo, foi referida a idade entre os 15 e os 19 anos. A quantidade de cigarros consumidos diariamente, 21 cigarros ou mais por dia, foi mais elevada no sexo masculino, 23.4% contrastando com 4.7% no sexo feminino (Portugal, 2009).

De acordo com a avaliação dos indicadores de saúde avaliados relativos ao (PNS 2004-2010), podemos verificar no que se refere à juventude, no indicador, consumo de tabaco diário (15-24 anos) na Região Centro o valor é de 27.4%para o sexo masculino

e

14.5% para o sexo feminino, relativamente à Meta 2010 que refere o valor 13% para

o

homem e 5% para a mulher (Portugal, 2010).

Nunes (2004), num estudo realizado sobre os fatores associados ao consumo de tabaco no 3º ciclo, numa amostra de 173 alunos, de três escolas dos distritos de

47

PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

Castelo Branco e Guarda, pode salientar que 46.2% do total de alunos já tinham fumado tabaco, pelo menos um cigarro, e verificou que a experimentação é maior no género masculino, 53%, comparado com as raparigas, com o valor de 40%. A idade média de experimentação é de 11.79 anos, menor no sexo masculino 11,6 anos, quando comparado com o sexo feminino 12.03 anos. A idade média de experimen- tação é menor no sexo masculino, 11.6 anos, em relação ao sexo feminino, 12.03 anos. A percentagem de rapazes que mantêm o consumo é superior ás das raparigas.

A prevalência do consumo de tabaco foi de 22% no total da amostra. No que se refere

à frequência do consumo, 81.6% dos jovens fumadores inquiridos eram fumadores

regulares, (consumiram tabaco nos últimos 7 dias). De salientar que o consumo de tabaco dentro do espaço escolar é referido por 13.2% O consumo de tabaco apareceu associado ao consumo de álcool do melhor amigo, referido por 71.1%, e ainda por pessoas importantes e irmãos a acharem bem os jovens fumarem, e considerarem inútil as aulas ou atividades de prevenção do tabagismo. Verificou o consumo asso- ciado ao absentismo escolar, ás idas a cafés ou discotecas nos tempos livres, ter muitos amigos fumadores, e ainda à observação de fumadores na biblioteca ou sala de estudo da escola.

No inquérito HBSC-OMS (Matos et al., 2010) realizado em Portugal, aos alunos do 6.º, 8.º e 10.º ano de escolaridade, verificou que a maioria dos adolescentes refere nunca ter experimentado tabaco, não havendo diferenças quanto à experimentação entre o género. Relativamente aos que já experimentaram fumar o valor foi de 30%, sendo a maior percentagem no grupo dos mais velhos. Na frequência de consumo de tabaco nos últimos 30 dias, a grande maioria não fumou, apesar de a minoria ter fumado três vezes ou mais. A idade de experimentação referida com mais frequência, foi aos 14 anos ou mais, e os rapazes reportam frequentemente uma idade inferior.

No relatório da primeira avaliação sobre a Lei do Tabaco, relativamente ao período de 2008/2010, que visava reduzir a exposição ao fumo do tabaco, com alteração de comportamentos de proteção e de não exposição, evidenciou de que a prevalência do consumo de tabaco diminuiu cerca de 5% neste período de dois anos. A percentagem de adolescentes escolarizados com 11, 13 e 15 anos que responde que fuma todos os dias tem vindo a diminuir 5% em 2006 e 4.5% em 2010 (Portugal, 2010).

No estudo realizado pelo Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT) (ECATD/ESPAD 2011) (Feijão, Lavado & Calado, 2011), aplicado a alunos das escolas do ensino público do 7º ao 12º ano, numa amostra de cerca de 13000 alunos, constatou-se que relativamente ao consumo de tabaco, houve um ligeiro decréscimo

48

2. OS CONSUMOS DE ALCOOL, TABACO E OUTRAS DROGAS NA ADOLESCÊNCIA

na percentagem de experimentação, mas existiu um aumento relevante nos consu- mos, nos últimos 30 dias, a partir de 15 anos, e ligeiramente maiores nas raparigas. Quanto a iniciação aos consumos este, faz-se ligeiramente mais tarde em relação ao estudo de 2007, quando comparado com a média de 7% dos estudantes terem fumado cigarros diariamente com 13 anos de idade ou menos, no estudo de 2007.

2.3. Políticas de diminuição do consumo e o acesso a drogas ilegais

A Estratégia Nacional de Luta contra a Droga, aprovada pela Resolução de Conselho

de Ministros (RCM nº 46/99), divulga os princípios de intervenção da política pública contra as drogas e toxicodependências. Estão delineados os princípios orientadores,

dos quais destacamos o princípio de prevenção do consumo, traduzido em interven- ções preventivas no combate à procura de droga e em ações formativas e informativas, nomeadamente dentro e fora da escola, nos espaços frequentados por adolescentes e jovens, selecionando os grupos alvo e identificando as diferentes características, traduzidas em fatores de risco e de proteção. Esta prevenção tem como objetivo, intervir sobre as causas das doenças, prevenindo-as e adiando o seu aparecimento. Deve ainda ser garantida a informação sobre a maneira de promover uma boa saúde, a capacidade de tomada de decisões e na resolução de problemas, o reforço de resistência à pressão negativa do grupo, pela formação e autoestima.

De acordo com a Estratégia de Luta contra a Droga, foram identificados os fatores de risco e os fatores de proteção caraterizados em função da condição individual, familiar

e de escola. Os fatores de risco a nível individual podem ser reconhecidos como o

insucesso e abandono escolar, comportamentos violentos e antissociais, experimen- tação de droga em idade precoce, pouca resistência à pressão do grupo e abuso no consumo de substâncias. Na família são a precaridade económica, as ruturas nos elementos que a constituem, as dificuldades de comunicação, a ausência de suporte emocional dos adultos em relação às crianças deste muito cedo, ou expetativas irrealistas do desempenho dos mais novos. A nível escolar, identificados os estabelecimentos com más instalações, a ausência de espaços de lazer, a existência de um mau ambiente escolar com falta de regras e conflitos permanentes e a ausência de participação da população estudantil. Os fatores protetores para o adolescente, relacionam-se com uma boa autoestima, capacidade na resolução de problemas, competência de relacionamento interpessoal e expetativas de sucesso realistas. Nas famílias um bom envolvimento afetivo, capacidade de comunicação e fronteiras nítidas de envolvimento e distanciamento, favorecem o bom ambiente familiar. Em

49

PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

relação às escolas, devem facilitar e promover o envolvimento dos alunos nas atividades, valorizando as suas capacidades e com comunidades ativas capazes de fomentar a discussão de problemas e a utilização de estratégias para os resolverem (RCM nº 46/99).

A Resolução do Conselho de Ministros (RCM nº 115/2006), aprovou o Plano Nacional

Contra a Droga e as Toxicodependências, dividido em áreas de missão, com o objeti- vo de reduzir o consumo de drogas entre a população e diminuir os efeitos prejudiciais para a saúde, na continuidade das políticas anteriormente iniciadas e agora reforça- das, de acordo com as estratégias da União Europeia (UE).

O Plano de Ação Contra as Drogas e as Toxicodependências 2009/2012, do IDT, está

estruturado por áreas transversais, que vão desde a coordenação, investigação, formação e avaliação, e por áreas de missão na redução da procura, da oferta, redução de risco, e tratamento. Os três grandes objetivos a implementar na UE são:

Atingir um nível elevado de proteção da saúde, de bem-estar e de coesão social, em

todos os estados membros através de ações em matéria de prevenção e redução do

consumo de droga, da dependência e das consequências nefastas da droga em termos sociais e de saúde, garantindo um elevado nível de segurança adotando medidas contra a produção de droga, e o tráfico internacional, reforçando a eficácia da política em matéria de droga dentro da UE e nas suas relações com outros parceiros internacionais. Os grandes objetivos do Serviço de Intervenção em Comportamentos Aditivos e nas Dependências, (SICAD), são de aumentar o conhecimento sobre o fenómeno do consumo de substâncias psicoativas, melhorar a qualidade da interven- ção preventiva, a abrangência, a acessibilidade, a eficácia e a eficiência dos programas de prevenção. No que diz respeito à prevenção, o SICAD tem por missão promover atividades relacionadas com a sua área de intervenção direta, de educação para a cidadania, ocupação dos tempos livres, atividades de desenvolvimento pessoal

e social para crianças e jovens, contribuindo com mais-valias, na construção de

fatores de proteção em relação ao uso de drogas. Os serviços devem constitui-se como gestores do capital de saúde dos indivíduos, mas cabe a estes procurar os serviços prestadores e promotores de cuidados de saúde, no sentido da definição e procura de um projeto de vida.

50

2. OS CONSUMOS DE ALCOOL, TABACO E OUTRAS DROGAS NA ADOLESCÊNCIA

2.3.1. Prevalência do consumo de outras drogas

Os dados relativos ao consumo de droga em Portugal têm vindo a ser apresentados através de resultados do estudo epidemiológico, no inquérito HBSC/OMS realizado em 2010 (Matos et al., 2010) aos alunos do 6.º, 8.º e 10.º anos de escolaridade, mostram que ao nível da experimentação de droga a substância mais referida é o haxixe/erva,

8.8% diz já ter experimentado. São os rapazes que mais referem ter experimentado haxixe, 10.7% dos rapazes e 7% das raparigas. O consumo regular de drogas ilícitas no mês anterior à entrevista foi referido por 1.4% dos adolescentes, 2.2% nos rapazes

e 0.7% nas raparigas. Através da comparação dos resultados com anos anteriores,

desde o ano de 1998, constatou-se que o número de jovens que experimentou haxixe,

aumentou até 2002 de 3.8% para 9.2%, mas tem-se mantido abaixo dos 9% desde o último resultado. No que se refere ao consumo de cannabis, ao longo da vida, verifica- -se que a proporção de adolescentes de 15 anos, que referiu ter consumido cannabis

é superior à média europeia com o valor de 15% relativamente aos homens e 7%

relativamente às mulheres, comparado com a média europeia de 12% para os homens

e 7% para as mulheres. Os consumos referidos ao último mês são de 7% para os homens e 4% para as mulheres, comparado com a média europeia de 5% para os homens e 2% para as mulheres (Portugal, 2010).

O estudo de Feijão, Lavado & Calado (2011) (ECATD/ESPAD, 2011), realizado numa

amostra de 13.000 alunos de ambos os sexos, a grupos etários dos 13 aos 18 anos, sobre a prevalência dos consumos, permitiu comparar os dados dos estudos reali- zados anteriormente. Quanto ao consumo de cannabis, verificou-se uma diminuição na experimentação entre os mais novos e aumentou entre mais velhos, mas um aumento da percentagem de consumidores recentes relativos aos últimos 12meses,

e dos consumidores atuais, nos últimos 30 dias. Na frequência do consumo constatou-

-se serem irrelevantes os consumos até aos 15 anos e ligeiro aumento depois dos 15 anos, uma a cinco vezes mais. Quanto à idade de iniciação dos consumos manteve-se nos 15 anos. Relativamente a outras drogas, anfetaminas, ecstasy, cocaína, LSD, cogumelos alucinogénios, etc., houve um aumento da experimentação de anfetaminas em todos os grupos etários, e do LSD, ligeiro aumento a partir dos 15 anos. Na droga em geral existiu um aumento da experimentação em todos os grupos etários, até aos 15 anos, a experimentação de “outras drogas” é superior à de cannabis, depois dos 15 anos a situação inverte-se. Constatou-se ainda um aumento do número de alunos que experimentaram cannabis e outras drogas.

51

3. OS

CUIDADOS

DE

SAÚDE

PRIMÁRIOS

ENFERMAGEM COMUNITÁRIA

E

A

INTERVENÇÃO

DA

Os Cuidados de Saúde Primários (CPS), foram definidos no documento da Declaração de Alma Ata (1978) como cuidados essenciais de saúde, com práticas cientificamente bem fundamentadas e socialmente aceitáveis, colocadas ao alcance universal do indivíduo, família e da comunidade, mediante a sua plena participação (Portugal,

1978).

Um Centro de Saúde (CS) é considerado um estabelecimento público de saúde, que visa a promoção da saúde, prevenção da doença e a prestação de cuidados, e dirige a sua ação tanto à saúde individual e familiar como à saúde de grupos e da comuni- dade, através dos cuidados que, ao seu nível, sejam apropriados, tendo em conta as práticas recomendadas pelas orientações técnicas em vigor, o diagnóstico e o tratamento da doença, dirigindo globalmente a sua ação (Decreto-Lei nº 157/99).

De acordo com a Carta de Ottawa (1986), a promoção de saúde é um processo que visa aumentar a capacidade dos indivíduos e das comunidades para controlarem a sua saúde, no sentido de a melhorar, deste modo entendida como um recurso para a vida, e com o objetivo de alcançar um estado de completo bem-estar físico, mental e social. O indivíduo ou o grupo deve esta apto a identificar e a realizar as suas aspirações, a satisfazer as suas necessidades e a modificar ou adaptar-se ao meio (Portugal, 1986).

Os Centros de Saúde constituem o primeiro acesso dos cidadãos à prestação de cuidados de saúde, assumindo importantes funções de promoção da saúde e prevenção da doença, prestação de cuidados na doença e ligação a outros serviços para a continuidade dos cuidados (Decreto-Lei nº 28/2008). Estes funcionam em unidades operativas com missões complementares, quebrando intervenções individualizadas pelos profissionais, seguindo o caminho de trabalho de equipas multiprofissionais, constituídas em diversas unidades funcionais, designadas como Unidades de Saúde Familiar (USF), Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP), Unidades de Cuidados na Comunidade (UCC), Unidades de Saúde Pública (USP) entre outras.

53

PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

A estrutura organizativa do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES), tem como

missão, garantir a prestação de cuidados de saúde primários à população da sua área geográfica, procurando manter os princípios de equidade e solidariedade, de modo a que todos os grupos populacionais partilhem de igual modo dos avanços científicos e tecnológicos, aplicados ao serviço da saúde e do bem-estar. A organização opera- cional de prestação de cuidados de saúde, designada de, Unidade de Cuidados de Saúde Personalizada (UCSP) presta cuidados de saúde à população inscrita nessa unidade (Portugal, 2012).

Nos ACES, funciona a Unidade de Saúde Pública (USP), que opera com equipas técnicas multidisciplinares, também elas ajustadas à dimensão populacional da sua área de intervenção, e a na sua composição deve integrar, nomeadamente, médicos especialista em saúde pública, enfermeiros de saúde pública ou saúde comunitária e ainda por técnicos de saúde ambiental, ou outros necessários ao seu bom desem- penho. Esta unidade funciona como observatório de saúde da área geodemográfica do agrupamento, competindo-lhe elaborar informação traduzidos em planos de domínios da saúde pública, vigilância epidemiológica, gerir programas de intervenção no âmbito da prevenção, promoção e proteção da saúde da população em geral ou de grupos específicos e colaborar de acordo com a legislação respectiva no exercício das funções de autoridade de saúde (Decreto-Lei nº 28/2008).

A enfermagem comunitária e de saúde pública desenvolvem uma prática centrada na

comunidade, identificando as necessidades dos indivíduos, famílias e grupos de determinada área geográfica, desenvolvendo uma prática de complementaridade com outros profissionais de saúde e parceiros comunitários. As competências específicas vão desde a avaliação do estado de saúde de uma comunidade, a promoção e a capacitação de grupos e comunidades, até à participação na implementação dos programas de saúde e na vigilância epidemiológica (Regulamento nº 128/2011).

O Enfermeiro especialista em enfermagem comunitária e de saúde pública, assume

um entendimento profundo sobre as respostas humanas aos processos de vida e aos problemas de saúde e uma elevada capacidade para responder de forma adequada às necessidades dos diferentes clientes, pessoas, grupos ou comunidades, proporcio- nando efetivos ganhos em saúde (Regulamento Nº128/2011). Sendo um ganho em saúde, “um enunciado positivo de um desejo, sempre presente, de melhorar o nível de todos os indicadores de saúde” (Portugal, MCSP, 2012).

54

3. OS CUIDADOS DE SAÚDE PRIMÁRIOS E A INTERVENÇÃO DA ENFERMAGEM COMUNITÁRIA

3.1. Os Planos e Programas de Saúde

O planeamento em promoção da saúde inicia-se com a identificação de necessi- dades que exigem intervenção, através da definição dos problemas existentes (Loureiro, 2010). O planeamento consiste na elaboração de um curso de ação face a necessidades previamente identificadas, desta forma, tem um carácter de futuro, assente na fundamentação das decisões e tem como objetivo alterar o estado de saúde das populações e comunidades, tendo em vista obter ganhos em saúde (Portugal, 2012).

Um plano de saúde refere-se a um conjunto de programas e ou projetos que devem

contribuir para os objetivos da instituição (Tavares, 1990). Através de um programa de

saúde pode ser definido um conjunto de atividades necessárias à execução de uma

determinada estratégia, e requer a utilização de recursos humanos, materiais e finan-

ceiros geridos por um mesmo organismo (Imperatori, 1986). Pode ser caraterizado por

um conjunto de projetos que decorrem num período de tempo limitado e visa obter um

resultado específico, e contribuir para a execução do plano (Tavares, 1990).

O Plano Nacional de Saúde (2004/2010), define as orientações estratégicas em

saúde, equilibrando os recursos humanos e técnicos às políticas, tendo como objetivo

obter ganhos em saúde, através da promoção da saúde e prevenção da doença.

A concretização deste plano contempla vários programas específicos em diferentes

áreas de intervenções que incentivem estilos de vida e comportamentos que favore-

cem um futuro saudável (Portugal, 2004).

A abordagem de saúde assente no ciclo de vida, desse modo, permite uma visua-

lização integrada dos problemas de saúde priorizados por diferentes grupos etários e

nos diferentes papéis sociais assumidos ao longo da vida a diferentes “Settings”.

O “Setting” prioritário, refere-se à juventude, dentro do seu espaço escolar, incenti-

vando a adoção de estilos de vida saudáveis e comportamentos que condicionam

favoravelmente a saúde (Idem, 2004). Vai ao encontro à Lei de Bases da Saúde, Lei

nº 48/90, que tem como princípio geral a proteção da saúde, considerada um direito

dos indivíduos e da comunidade, com a corresponsabilidade conjunta dos cidadãos,

da sociedade e do Estado e atribui particular relevo às crianças e adolescentes, ao

considera-los como grupos sujeitos a maiores riscos.

O objetivo dos profissionais de saúde é fazer o acompanhamento do crescimento e

desenvolvimento psicomotor e psicossocial, favorecendo os comportamentos

saudáveis, e detetar e encaminhar precocemente situações que ponham em risco a

qualidade de vida das crianças e jovens, através das consultas de vigilância nas ida-

55

PARTE I ·– ENQUADRAMENTO TEÓRICO

des dos 10-13 anos, e dos 15 anos e dos 18 anos. Assim devem ser efetuados os cuidados antecipatórios referentes ao estádio de puberdade (Portugal, 2002).

O Programa Nacional de Saúde Escolar (PNSE, 2006), refere as estratégias direta-

mente relacionadas com a melhoria da saúde das crianças e dos jovens e de toda a comunidade educativa, nomeadamente na vigilância e proteção da saúde e na aquisição de conhecimentos, capacidades e competências na promoção da saúde. As atividades de saúde escolar desenvolvidas pela equipa de saúde escolar do centro de saúde devem constar no plano de atividades da escola, bem como as ações de promoção da saúde relacionadas com o PE da escola. As estratégias de implemen- tação do programa nacional incidem sobre os fatores determinantes da saúde, relacionados com os estilos de vida, com o objetivo de reduzir os fatores de risco e aumentar os fatores de proteção (Portugal, 2006).

De acordo com o PNSJ (2006), uma escola promotora de saúde é aquela que asse- gura a todas as crianças e jovens que a frequentam a oportunidade de adquirirem

competências pessoais e sociais que os habilitem a melhorar a gestão da sua saúde e

a agir sobre os fatores que a influenciam. No contexto da intervenção em saúde

escolar, uma das áreas prioritárias da prevenção são os consumos nocivos e de comportamentos de risco, relacionado com substâncias lícitas, tabaco e álcool e outras substâncias (Portugal, 2006).

No âmbito da promoção da saúde e integrado na rede IREFREA, o Programa “Tu

Decides” é um programa de prevenção de dependências e comportamentos de risco em meio escolar que se debruça sobre a etapa crítica de vida para a experimentação

e consumo de substâncias psicoativas e desenvolvimento de outras dependências.

A adolescência, nas faixas etárias dos 13/14 aos 16/17 anos, baseado nas influências

sociais, contemplando ao mesmo tempo as influências do grupo de pares e os fatores afetivos e cognitivos que intervêm no momento da tomada de decisão e

resolução de problemas. Este programa pretende envolver alunos, professores/ /psicólogos e pais/encarregados de educação, e abrange toda a comunidade envol- vente à dinâmica escolar na abordagem das temáticas. O principal objeto é aumentar

a participação das famílias no processo de discussão sobre as drogas, através da criação de um maior espaço de diálogo e comunicação familiar.

Na abordagem destas temáticas em contexto escolar, surgiu a oportunidade da realização de um trabalho de investigação que contextualiza-se as diferentes comuni- dades educativas através da aplicação de um questionário na colheita de dados relevantes para a questão de investigação e objetivos delineados. Nesta continuidade segue-se a exposição do trabalho de investigação.

56

PARTE II

INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

1. MATERIAL E MÉTODOS

Este estudo faz parte do projeto “Tu Decides” (UICISA-E, 2011) desenvolvido pelo IREFREA Portugal em parceria com a Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC), em cinco escolas de Coimbra. Este programa de intervenção em meio escolar tem por objetivo o desenvolvimento de estratégias que visem a promoção da saúde do adolescente, especialmente relacionado com a prevenção do consumo de substâncias psicoactivas como álcool, tabaco e outras drogas (ATOD). Consiste num conjunto de materiais pedagógicos que facilitam a tarefa dos professores na aborda- gem destes assuntos. Após a primeira parte, através da formação e capacitação dos professores, tornou-se premente definir indicadores da eficácia e da eficiência para avaliação dessas intervenções educativas, ou seja, descrever os comportamentos de consumo de ATOD, antes do início da aplicação do programa, um diagnóstico inicial. Verificou-se a adesão ao projeto por parte de várias escolas de Coimbra, o que permitiu a realização de avaliações comparativas entre as diferentes escolas estudadas. Desta necessidade levanta-se uma questão que nos orienta no presente estudo: “Quais são os padrões de comportamento de consumo de ATOD nos adolescentes das escolas de Coimbra participantes no projeto “Tu Decides”?

Pretendemos nesta dissertação de Mestrado em Enfermagem Comunitária descrever e analisar a informação recolhida acerca dos padrões de comportamento de consumo de ATOD nos adolescentes dos 12 aos 17 anos de idade de cinco escolas.

Desta questão decorrem os seguintes objetivos.

Comparar o perfil dos comportamentos de consumo de ATOD nos adolescentes das escolas de Coimbra participantes no projeto “Tu Decides”, segundo a escola.

Analisar alguns fatores (pessoais, familiares, e dos pares) que influenciam os comportamentos de consumo de ATOD nos adolescentes das escolas de Coimbra participantes no projeto “Tu Decides”.

Trata-se de um estudo epidemiológico, exploratório e analítico (nível II), segundo Fortin (1999), com o objetivo de compreender o fenómeno do consumo e descrever os fatores que condicionam positivamente ou negativamente o estado de saúde dos adolescentes através da descoberta de relações entre as variáveis. A metodologia

59

PARTE II – INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

utilizada neste estudo é quantitativa, e a colheita de dados foi realizada através do “Questionário Adolescentes” European Family Empowerment (IREFREA, 2012).

A população-alvo do estudo é constituída por jovens dos 12 aos 17 anos do universo

das turmas do 7º ano ao 11º ano de cinco escolas de Coimbra. A EBEug; Escola Básica Eugénio de Castro, EBPed; Escola Básica da Pedrulha, ESDDu; Escola Secundária Dom Duarte, ESDDi; Escola Secundária Dom Dinis, ESJFa; Escola Secundária José Falcão. Procedeu-se a uma amostragem do tipo censos, a todos os alunos presentes no dia de recolha de dados.

Esta parte do relatório da investigação é iniciada com a descrição das hipóteses de investigação, no seguimento são definidas as variáveis e a sua operacionalização, o instrumento de colheita de dados bem como os procedimentos efetuados no que se refere à colheita de dados e ao seu tratamento estatístico.

1.1. Hipóteses de investigação

A questão de investigação orienta para a definição dos objetivos deste estudo que, por

sua vez, orienta a definição das hipóteses: desta forma foram constituídas as seguin- tes hipóteses de investigação

H1 – Os comportamentos de consumo de ATOD diferem em função da escola.

H2 – Os comportamentos de consumo de ATOD relacionam-se com os fatores pessoais.

H3 – Os comportamentos de consumo de ATOD relacionam-se com os fatores familiares.

H4 – Os comportamentos de consumo de ATOD relacionam-se com os comporta- mentos de risco dos pares.

1.2. Operacionalização das variáveis

A operacionalização consiste na atribuição de números às variáveis, para que essa

variável seja representada por determinado valor. O objetivo é diferenciar as pessoas

ou os objetos seguindo a quantidade, o grau de características ou do atributo medido que elas possuem (Fortin, 1999).

60

1. MATERIAL E MÉTODOS

Para clarificação dos termos utilizados, nomeadamente, estilos de vida, fatores de risco e de proteção, apresenta-se uma definição dos mesmos.

Estilos de vida – São um conjunto de hábitos e comportamentos de resposta às situações do dia-a-dia, apreendidos através do processo de socialização e constan- temente reinterpretados e testados ao longo do ciclo de vida” (PORTUGAL, PNSE, 2006, p. 15).

Fatores de risco – São condições ou variáveis que estão associados à alta probabi- lidade da ocorrência de resultados negativos ou indesejáveis, nomeadamente os comportamentos que podem comprometer a saúde, o bem-estar e o desempenho social do individuo em causa (Webster, 1998; Gallo, 2008).

Fatores de proteção – São os que modificam ou alteram a resposta pessoal para algum risco do ambiente que predispõe a um resultado mal adaptado (Rutter, 1985; Gallo, 2008). Os fatores de proteção no domínio escolar estão relacionados com uma boa comunicação, através da negociação e definição de normas, regras e limites, coerência e congruência na aplicação de todos os elementos da comunidade educativa, relações de respeito cooperação e compromisso. Promoção de práticas escolares estimulantes e criativas, valorização e expetativas positivas de desempenho em relação aos alunos (Macedo, 2004; Gallo, 2008).

1.2.1. Fatores relacionados com as variáveis pessoais

São os fatores intrínsecos ao indivíduo, tais como a idade o sexo a naturalidade o nível de instrução a etnia e a autoestima. Estes fatores condicionam a forma de estar na vida e influenciam o grau de incapacidade do indivíduo (PORTUGAL, 2012)

Idade – É considerado o “intervalo de tempo que decorre entre a data do nascimento (dia, mês e ano) e as 0 horas da data de referência, e é expressa em anos completos”. (Portugal, 2012). O estudo desta variável permite caracterizar os adolescentes de acordo com a idade apresentada à data da aplicação dos questionários.

Sexo – É uma variável dicotómica considerada do Masculino (M) e Feminino (F). O estudo desta variável possibilita a avaliação do género relacionada com os compor- tamentos de consumo.

61

PARTE II – INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

Fratria – O conjunto de irmãos e sua posição na família, como elemento único ou fazendo parte de um conjunto de irmãos, e a colocação quanto à ordem de nascimento.

Naturalidade – O vínculo que liga a pessoa ao local de nascimento. É considerado o lugar em que o nascimento ocorreu, e da residência habitual da mãe à data do nascimento (Portugal, 2012).

Etnia – Relacionada com a mudança brusca de ambiente, as barreiras linguísticas e a discriminação são fatores de pressão e de risco entre os adolescentes (Neto, 2003; Matos & Gaspar, 2007). Esta variável permite avaliar o número de adolescentes que apresentam barreiras culturais.

Acontecimentos pessoais – São consideradas as situações ocorridas em diferentes momentos, sobre as quais o adolescente tem uma participação ativa na construção da sua história de vida. A forma como é percebido determinado acontecimento parece determinante quanto à forma como o resolvemos. O número de fatores stressantes pode estar associado a um risco acumulado de fatores de risco que pode ter um peso no ajustamento psicossocial do individuo, associado ao desgaste de recursos e exigência crescente, e não precisamente o tipo de problema (Matos, 2009).

Autoestima – Refere-se à avaliação que a pessoa efetua, e geralmente mantêm em relação a si própria, a qual implica um sentimento de valor, que engloba uma componente predominantemente afetiva, e expressa uma atitude de aprovação ou desaprovação em relação a si mesma. (Rosemberg 1965, citado Romano et al., 2007). Para avaliar a autoestima utilizou-se a “ Rosemberg Self-Esteem Scale” (RSES) de 1965. A atribuição da pontuação é realizada de acordo com as respostas do inquirido, e que em função do total da pontuação do teste é denominada autoestima elevada, e considerada normal, quando a pontuação se situa ente 30 a 40 pontos, autoestima média entre 26 a 29 pontos e autoestima baixa, com pontuação inferior a 25 pontos a qual revela a existência de problemas significativos de autoestima.

Perspectiva de futuro – Refere-se à aquisição da capacidade de projeção no futuro, estabelecendo planos de vida a curto, médio e a longo prazo e ainda a de produzir ações visando a respectiva consecução. O individuo passa a ser o principal condutor da sua vida e dos acontecimentos com que se confronta, e é desenvolvida uma capacidade de seleção e adaptação nos seus envolvimentos. Manter um papel ativo na construção de vida, traçando objetivos e desenvolvendo ações para os atingir, fazer

62

1. MATERIAL E MÉTODOS

escolhas, associadas a vantagens e desvantagens, empenhar-se para atingir os objetivos e resistir aos obstáculos (Matos, 2009).

As variáveis em estudo são operacionalizadas de acordo com o grupo de fatores que podem influenciar positiva ou negativamente o comportamento de consumo de ATOD. Estas variáveis estão percebidas nas características pessoais, ocupação de tempos livres, dinâmicas familiares, do contexto em que vive, comportamento dos pares, e dos comportamentos de consumo. Para facilitar a apresentação dos vários indicadores para cada uma das dimensões, apresenta-se um quadro síntese em cada uma.

Quadro 1 – Operacionalização dos fatores pessoais

 

1.2.1 - Fatores pessoais

Variáveis

Medida

Indicadores

1.1 - Idade

Número de anos completos

Média de idades dos jovens por escola. Média de idades dos jovens por grupo etário por escola

1.2 - Sexo

 

Jovens do sexo masculino por escola. Jovens do sexo feminino por escola.

Masculino/Feminino

(%) e (Nº)

1.4, 1.5; 1.6 - Fratria

Filhos únicos Com irmãos (%) e (Nº)

Jovens filhos únicos por escola. Jovens com irmãos por escola.

1.7 - Naturalidade

Portuguesa/Outra (%) e (Nº)

Jovens com naturalidade portuguesa por escola. Jovens com outra naturalidade por escola.

1.8

- Etnia

Caucasiana/Outra (%) e (Nº)

Jovens com etnia caucasiana por escola Jovens com outra etnia por escola.

7.1 - Acontecimentos pessoais

   

1) Parei de fazer desporto ou outra atividade

2) Fiquei lesionado depois de ter bebido

3) Tive problemas com a polícia

4) Consumi drogas ilegais

5) Tive pouco dinheiro

Sim/Não

1 - Percentagem de respostas afirmativas por escola, para cada acontecimento.

6) Tive um problema familiar

7) Arrependi-me de uma relação sexual

   

8) Apanhei uma Infeção Transmitida Sexualmente

9) Perdi/Mudei de amigos

10) Ganhei/Perdi peso anormalmente (+/- 5kg)

7.2 - Autoestima

Somatório de 10 itens e vária entre 10 e 40 pontos

Média de autoestima dos jovens por escola.

6.2 - Perspectivas de futuro

   

1) Vou continuar a estudar (continuar o E. Básico ou secundário)

2) Vou para a Universidade

3) Não vou ser desempregado

Sim/Não

1 - Percentagem de respostas afirmativas, por escola para cada item.

4) Não vou deixar os estudos e vou arranjar um emprego (sem um estudo mais aprofundado

5) Vou abrir um negócio próprio

63

PARTE II – INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

1.2.2. Fatores relacionados com a ocupação dos tempos livres

A ocupação dos tempos livres constitui um contributo inequívoco para a formação e

desenvolvimento dos jovens e ainda uma das medidas mais eficazes na prevenção de comportamentos de risco. Através dos programas de Ocupação de Tempos Livres (OTL) criados no ano de 2001, podemos reconhecer a sua importância,

nomeadamente o de estimular o contacto direto dos jovens com a natureza e melhorar

o conhecimento da realidade onde se inserem, designadamente nas suas vertentes

históricas, cultural e social, e ainda incutir nos jovens os valores de entreajuda e

disponibilidade para com os outros, criando além disso condições para minorar os riscos a que os jovens estão normalmente sujeitos. O objetivo do programa visa promover a ocupação saudável dos tempos livres dos jovens, orientando-os para o desempenho de atividades ocupacionais que proporcionem a conquista de hábitos de voluntariado, que permitam o contacto experimental com algumas atividades

profissionais e que potenciem a capacidade de intervenção e participação social e cívica dos jovens, contribuindo para o processo de educação não formal (Portaria

nº 201/2001).

Quadro 2 – Operacionalização dos fatores relacionados com a ocupação dos tempos livres

Variável: 1.2.2 - Ocupação dos tempos livres

Dimensões e nº da questão

Medida

Indicadores

9.3 - Atividades realizadas

1) Jogo jogos de computador

2) Pratico desporto, atletismo, atividade física

3) Leio livros por gosto (sem contar com livros escolares

4) Nunca saio à noite (para uma discoteca, festa, café, etc)

5) Saio à noite (para uma discoteca, festa, café, etc) quase todos os dias

6) Outros passatempos (toco instrumentos, canto, escrevo, etc.)

7) Saio com amigos para o shopping, parques, ruas, só para me divertir

8) Uso internet para atividades de lazer (chats, procurar música, jogar, etc)

Sim/Não

1 - Percentagem de respostas afirmativas por escola, sobre a realização das diferentes atividade

8.3, 8.4 - Tempo de ecrã

Aproximadamente 0 a 5 horas na internet EM CASA por semana

Aproximadamente 6 a 20 horas na internet EM CASA por semana

Mais de 20 horas na internet EM CASA por semana

Aproximadamente 0 a 5 horas na internet FORA DE CASA por semana

Aproximadamente 6 a 20 horas na internet FORA DE CASA por semana

Mais de 20 horas na internet FORA DE CASA por semana

Nº de horas

Percentagem de respostas afirmativas por escola, sobre o número de horas na internet em casa e fora de casa.

64

1. MATERIAL E MÉTODOS

Variável: 1.2.2 - Ocupação dos tempos livres

Dimensões e nº da questão

Medida

Indicadores

9) Nunca jogo em slot machines (naquelas máquinas onde podes ganhar dinheiro)

   

10) Jogo em slot machines (naquelas máquinas onde podes ganhar dinheiro) quase todos os dias

9.4 - Entrada em espaços noturnos, onde a entrada é proibida a pessoas para a idade

Sim/Não

Percentagem de respostas afirmativas, por escola sobre a entrada ou não em espaços noturnos onde a entra é proibida

9.5 - Entrada em espaços noturnos, nos últimos 4 fins-de-semana

Sim/Não

Percentagem de respostas por escola sobre a entrada em espaços noturnos nos últimos quatro fins-de-semana.

9.6 - Idas a uma discoteca à noite, num

Zero vezes, uma vez, duas vezes, três vezes.

Percentagem de respostas por escola, sobre nunca ter ido/ ter ido uma vez/ ter ido duas vezes/ ter ido três vezes, a uma discoteca no fim de semana

fim-de-semana, incluindo Sexta-Feira, Sábado e Domingo

9.9 - Tipo de voluntariado, durante os últimos 12 meses

   

1) Eventos escolares (por ex.: fundos para a escola)

2) Grupos políticos (por ex.: atividades de campanha eleitoral

Sim/Não

Percentagem de respostas afirmativas por escola sobre a participação nos diferentes eventos

3) Grupos de igreja (por ex.: bazares; vendas de natal, etc.)

4) Grupos de jovens (por ex.: escuteiros)

 

5) Clubes desportivos (por ex.: angariação de fundos para equipamento desportivo

9.9 - Horas de Voluntariado

Não faz/faz 1 a 2 horas/faz mais de 3 horas Sim/Não

Percentagem de respostas afirmativas sobre o número de horas ocupado em voluntariado.

1.2.3. Fatores relacionados com as características e dinâmicas familiares

A análise das características familiares é essencial para a compreensão das suas

próprias dinâmicas, nomeadamente no que diz respeito ao número de elementos que

a compõem e ao ambiente que é criado por estes. O sistema familiar vivido na

adolescência vai ter implicações para o bem-estar no presente e refletindo-se ainda no tempo futuro.

Podemos caraterizar a família composta por dois ou mais indivíduos, pertencentes ao mesmo ou a diferentes grupos de parentesco, que estão implicados numa adaptação continua à vida, residindo habitualmente na mesma casa, experimentando laços emocionais comuns e partilhando entre si e com algumas obrigações. É ainda um estado dinâmico de bem-estar relativo que inclui os fatores biológicos, sociológicos, culturais e espirituais do sistema familiar (Stanhope & Lencaster, 2008).

65

PARTE II – INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

Quadro 3 – Operacionalização dos fatores relacionados com as características e dinâmicas familiares

Variável: 1.2.3 - Fatores familiares

Dimensões e nº da questão

Medida

Indicadores

5.1 - Vida familiar e Regras familiares Muitas vezes ou sempre/ Nunca ou às vezes

1) Os meus pais/educadores perguntam se faço os meus trabalhos de casa

2) Os meus pais/educadores querem que telefone se chegar mais tarde a casa

3) As regras na minha família são muito claras

4) Quando estou fora de casa, um dos meus pais/educadores sabe onde eu estou e com quem estou

5) É-me permitido fumar

6) É-me permitido beber álcool em casa

7) É-me permitido beber álcool fora de casa

8) Existe álcool em minha casa mas não me é permitido beber

9) Os meus pais/educadores falam comigo sobre álcool e os riscos associados

10) Os meus pais/educadores falam comigo sobre drogas e os riscos associados

11) Os meus pais/educadores falam comigo sobre tabaco e os riscos associados

12) Os meus pais/educadores conhecem os amigos com quem normalmente saio

13) Os meus pais estão em contacto com os pais dos meus amigos

14) Os meus pais discutem

Nunca ou ás vezes; Muitas vezes ou sempre.

1 - Percentagem de respostas afirmativas por escola, sobre cada um dos itens da vida familiar.

5.4 - Assuntos de comunicação com os pais

1) Rendimento Escolar (notas, trabalhos)

2) O tipo de amigos que tens

3) Chegar mais tarde a casa do que é suposto

4) A maneira como te vestes (roupas que escolhes usar)

5) A tua utilização de internet

6) A tua utilização de televisão

7) A quantidade de trabalhos de casa que tens para fazer

8) Os teus consumos de álcool

9) Os teus consumos de tabaco

10) Os teus consumos de cannabis

11) A tua utilização do telemóvel

12) Os teus comportamentos sexuais

13) A quantidade de dinheiro que gastas

Muitas vezes ou sempre/ Nunca ou às vezes

1 - Percentagem de respostas afirmativas por escola acerca de cada assunto de conversação com os pais.

2.8 - Frequência no consumo de álcool dos pais. Pai e Mãe.

Nunca. Menos de uma vez por mês. Mensalmente

e

Semanalmente

Percentagem de respostas por escola que afirmam sobre o consumo da mãe e do pai.

3.4 - Frequência no consumo de tabaco dos pais e irmãos

Sim/Não

Percentagem de respostas por escola que afirmam que a mãe /pai/irmão/irmã, fuma.

66

1. MATERIAL E MÉTODOS

1.2.4. Fatores relacionados com o ambiente em que vive

O ambiente é o local onde as pessoas vivem e se desenvolvem e é constituído por

elementos humanos, físicos, políticos, económicos, culturais e organizacionais e que condicionam e influenciam os estilos de vida e se refletem no conceito de saúde.

O ambiente é parte essencial na qualidade de vida do individuo, por apresentar, ( )

todas as condições externas que podem influenciar o estado de saúde do indivíduo ou da população, e subdivide-se em ambiente físico, social, cultural, natural, artificial, entre outros (Portugal, MCSP, 2012). Na prática dos cuidados de saúde, os enfermeiros necessitam de focalizar a sua intervenção na complexa interdependência pessoa e ambiente (OE, Padrões qualidade, 2012).

Quadro 4 – Operacionalização dos fatores relacionados com o contexto, ambiente em que vive

Variável: 1.2.4 - Fatores do ambiente em que vive

Dimensões e nº da questão

Medida

Indicadores

9.10 - Sítio onde vive e relacionamento com a vizinhança

   

5) As pessoas na minha vizinhança tentam ajudar-se mutuamente

6) As pessoas na minha vizinhança tentam cuidar umas das outras.

7) As pessoas na minha vizinhança são de confiança

Muito e um pouco/ Nada e não muito

Percentagem de respostas por escola que afirmativas acerca do tipo de vizinhança caraterizado em cada item.

8) Onde moro as pessoas são próximas (relacionam-se entre si)

9) Onde moro, as pessoas estão dispostas a ajudar os seus vizinhos

   

10) Onde moro as pessoas não se relacionam entre si

11) No sítio onde moro as pessoas não partilham os mesmos valores (Ex. valores de vida)

1.2.5. Fatores relacionados com o consumo dos pares

Conhecer o grupo de amigos é uma forma de identificar também os comportamentos de todos os elementos do grupo. Os membros do grupo de pares estabelecem comparações entre si e o resultado poderá influenciar o adolescente na alteração dos seus próprios comportamentos. A qualidade das relações e as características promo- toras de saúde são aspetos positivos que favorecem os comportamentos de proteção.

67

PARTE II – INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

Quadro 5 – Operacionalização dos fatores relacionados com o comportamento dos pares

 

Variável: 1.2.5 - Fatores relacionados com o comportamento dos pares

 

Dimensões e nº da questão

 

Medida

Indicadores

 

Nenhum dos

 
 

amigos/

4.3

- Número de amigos que consomem droga

Alguns dos

Percentagem de amigos que consome drogas por escola

 

amigos/

 

A

maioria dos

 

amigos

 

Nenhum dos

 
 

amigos/

2.7 - Número de amigos que bebem álcool

Alguns dos

Percentagem de respostas sobre o consumo de álcool dos amigos por escola

 

amigos/

 

A

maioria dos

 

amigos

 

Nenhum dos

 
 

amigos/

3.3 - Número de amigos que fumam

Alguns dos

Percentagem de amigos com consumo de tabaco por escola

 

amigos/

 

A

maioria dos

 

amigos

4.2

- Facilidade na obtenção das drogas.

   

1) Cannabis (Marijuana/haxixe

2) (Cocaína)

3) (Ecstasy)

 

É fácil

Percentagem de respostas que afirma ser fácil obter cada uma das substâncias indicadas, por escola.

4) Anfetaminas

5) Semeron

   

6) Heroína

7) Mefedrona

1.2.6. Fatores relacionados com o comportamento de consumo de ATOD

Neste estudo este comportamento está diretamente relacionado com os consumos das substâncias, álcool, tabaco e outras drogas, bem como acontecimentos/proble- mas, associados ao consumo destes, e inclui vários descritores como a idade de início do consumo da substância.

O consumo de risco, corresponde a um tipo ou padrão de consumo que provoca dano

se o consumo persistir, e aumenta a probabilidade de sofrer doenças acidentes, lesões, transtornos mentais ou de comportamento (Portugal, 2010).

O consumo esporádico excessivo, ou “binge drinking”, é o consumo que excede 5 a 6

bebidas no homem e 4 a 5 bebidas na mulher, numa só ocasião, e num espaço de tempo limitado, associado a consequências adversas. A intoxicação aguda, chamada de embriaguez, produz um efeito na capacidade de raciocínio, na toma de decisões e na capacidade de autocontrolo do comportamento. Estes valores excessivos têm como termo de comparação os valores de “baixo risco” no adulto saudável que não devem exceder, por dia e repartidos pelas duas principais refeições, no homem, 24g de álcool, o que equivale a 25 cl de vinho a 12º ou três imperiais, e na mulher, 16g de álcool, o que equivale a 15 cl de vinho ou duas imperiais (Portugal, 2010).

68

1. MATERIAL E MÉTODOS

A idade de início de consumo da substância, corresponde à idade em que o adolescente refere ter consumido pela primeira vez. O estudo desta variável permite avaliar o consumo precoce associado ao risco.

Quadro 6 – Operacionalização dos fatores relacionados com o comportamento de consumo de ATOD

 

Variável: 1.2.6 - Comportamentos de consumo de ATOD

 

Dimensões

Medida

Indicadores

 

Nunca bebeu álcool/ Menos de uma

 

2.1

- Frequência no consumo de Álcool

vez por mês ou mensalmente/ Semanalmente/ Diariamente ou quase

Percentagem de respostas que indicam o tipo de consumo de bebidas alcoólicas, por escola.

2.2 - Idade do consumo da primeira bebida alcoólica.

Média em anos

Média de idade por do início de consumo de bebidas alcoólicas por escola.

2.8

- Número de vezes embriagado no último mês

Nunca Uma vez Duas ou mais vezes

Percentagem de respostas que afirma acerca do número de vezes embriagado, por escola.

2.4

- Consumo de bebidas alcoólicas no último mês

   

1) Cerveja (não inclui cerveja sem álcool)

 

2) Cidra (não incluí cidra sem álcool

Nunca/Uma vez / Duas ou mais vezes

Percentagem de respostas acerca da frequência de consumo de bebidas alcoólicas, por tipo de bebida, por escola.

3) Alcopops (martini metz, Smirnoff ice, sangria, etc)

 

4) Vinho

   

5) Bebidas Espirituosas (whisky, cognac, shots, etc) (inclui bebidas brancas com sumos)

 

- Nunca fumou 2 - Só experimentou fumar uma vez, mas agora não fumo

1

 

3.1

- Tipo de consumo de tabaco

3

- Fumo entre 1

Percentagem de respostas afirmativas sobre a quantidade de tabaco que fuma, por escola.

 

a 6 cigarros por semana

- Normalmente fumo mais de seis cigarros por semana

4

 

3.2

- Idade da experimentação de tabaco

Média em anos

Média de idade da experimentação de tabaco por escola.

4.4

- Risco percecionado sobre o consumo de drogas.

   

1) Fumarem marijuana ou haxixe (cannabis) ocasionalmente

2) Fumarem marijuana ou haxixe (cannabis) regularmente

3) Experimentar ecstasy uma ou duas vezes

Média do risco

Percentagem de respostas acerca da média de risco percecionada, por cada substância inumerada, por escola.

4) Tomar ecstasy regularmente

5) Experimentar anfetaminas (speeds, estimulantes) uma ou duas vezes

6) Tomar anfetaminas (speeds, estimulantes) regularmente

69

PARTE II – INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

1.3. População e Amostra

A população alvo é constituída pelos elementos que satisfazem os critérios da seleção

definidos e para os quais o investigador deseja fazer generalizações. A população acessível é limitada a uma região ou cidade, e apresenta diferenças numa ou várias características (Fortin, 1999).

A população alvo do estudo é constituída por jovens dos 12 aos 17 anos do universo

das turmas do 7º ano ao 11º ano de cinco escolas de Coimbra, distribuídos por alunos da EBEug, Escola Básica Eugénio de Castro; da EBPed, Escola Básica da Pedrulha; da ESDDu, Escola Secundária Dom Duarte; da ESDDi, Escola Secundária Dom Dinis; da ESJFa, Escola Secundária José Falcão.

A amostra considerada como um subconjunto da população alvo deve ter as mesmas

características e ser representativa. Procedeu-se a uma amostragem do tipo censos, ou seja, a todos os alunos presentes no dia de recolha de dados, que preencheram os questionários, derem a preencher aos pais e devolveram ao professor, obtiveram-se 848 questionários válidos, que corresponde à amostra do estudo, constituída 848 jovens, distribuídos por 124 alunos da EBEug, 88 alunos da EBPed, 210 alunos da ESDDu; 167 alunos da ESDDi, 259 alunos da ESJFa. Foram excluídos os questionários mal preenchidos, ou cujos pais não preencheram.

1.4. Instrumento de colheita de dados

O instrumento escolhido para a colheita de dados foi o questionário tendo em conta a

natureza das variáveis em estudo, o anonimato e a confidencialidade e ainda a necessidade de respostas escritas para ajudar a normalizar e organizar os dados para que a informação procurada possibilitasse o rigor (Fortin, 1999). Foi aplicado o

“Questionário Adolescentes” European Family Empowerment, programa de prevenção ao nível do meio escolar, da European Institute of Studies on Prevention, (IREFREA). O questionário é constituído por 9 secções. A primeira secção corresponde à infor- mação “Sobre Ti” referente aos dados biográficos do adolescente, como seja a idade o sexo o número de elementos do agregado familiar e sua caracterização, a fratria, nacionalidade e etnia. A segunda secção corresponde ao consumo de álcool, frequência do consumo, idade do primeiro consumo, número de vezes embriagado, como obteve a bebida, onde consome habitualmente, consumo dos amigos, do pai e da mãe. A terceira secção diz respeito ao consumo de tabaco, idade de consumo,

70

1. MATERIAL E MÉTODOS

consumo dos amigos do pai da mãe e irmãos. A quarta secção refere-se ao consumo

de drogas ilegais, como as obtêm para consumo, consumo dos amigos, e ainda avalia

o grau de risco para a saúde entendido pelo adolescente. A quinta secção é relativa à

vida familiar, nomeadamente às atitudes e comportamentos dos pais no consumo e nas regras. A sexta secção questiona atitudes e comportamentos do adolescente relativo à escola e perspetivas futuras. A sétima secção é relativa ao adolescente, aos problemas vividos por estes, respeitantes a acontecimentos e sentimentos. A oitava secção é dedicada à utilização da internet, nomeadamente, local onde faz utilização, tempo dispensado, bem como o tipo de utilização e programas acedidos, e controle dos pais no acesso. A nona secção diz respeito aos amigos, família, tempos livres e o local onde vive, nomeadamente os contactos sociais, atividades de lazer, espaços noturnos como bares, cafés ou discotecas, dinheiro dispensado nas saídas. Ainda acerca dos contactos sociais, a confiança que deposita nas pessoas dos contactos sociais e ainda da sociedade em geral, envolvimento em trabalho voluntário, fatores cognitivos e afetivos, que influenciam na tomada de posição destes adolescentes.

As questões utilizadas neste estudo dizem respeito aos objetivos delineados, bem como às hipóteses de investigação formuladas.

1.5. Procedimento de recolha de dados e considerações éticas

Quando os investigadores fazem investigação planificam-na e conduzem-na de acordo com as leis e regras em vigor, e com as regras que regulam a prática da profissão particularmente as que regulam a investigação com pessoas (Ribeiro, 1999, p. 70).

O consentimento informado é imprescindível numa investigação, a pessoa é convi-

dada a participar num projeto de investigação, e depois deve ser bem informada

acerca dos objetivos, consequências, ónus, tempo, risco, etc. À pessoa deve ser dada

a possibilidade de não participar, se for esse o seu desejo, sem prejuízo dos procedi- mentos que está a receber (Portugal, MCSP, 2012).

Neste trabalho de investigação, pretendeu-se salvaguardar os participantes no processo de recolha de dados, tendo sido informados os jovens sobre os objetivos do estudo em causa e ainda acerca da participação voluntária no preenchimento dos mesmos. Foi também garantida a confidencialidade e o anonimato da informação recolhida, e solicitada a autorização dos pais ou encarregados de educação para aplicação do instrumento de colheita de dados.

71

PARTE II – INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

1.6. Procedimentos estatísticos

Para a análise dos resultados utilizaram-se técnicas de estatística descritiva e inferen- cial. Os dados recolhidos foram analisados quantitativamente com recurso ao Software Package for Social Sciences (SPSS®), versão 19.0 para Microsoft Windows®. Na análise descritiva dos dados determinámos as contagens e frequências das variáveis nominais, tendo-se obtido as medidas de tendência central (média, mediana e moda), de dispersão (desvio padrão) e de amplitude de variação (mínimo e máximo) das variáveis numéricas (Aguiar, 2007). Esta análise descritiva tem como objetivo final apresentar um retrato global da amostra, seguindo-se o estudo da ligação entre duas variáveis, através da descrição dos fatos observáveis, numa análise descritiva correla- cional.

Para a verificação das hipóteses formuladas procedeu-se a uma análise estatística inferencial, recorreu-se ao teste paramétrico t-Student com um nível de significância de 0.05 (5%). O teste não paramétrico do Qui-Quadrado que compara as frequências dos valores observados de cada grupo de sujeitos com as frequências dos valores esperadas e verifica se essas diferenças são devido ao acaso. O teste de ANOVA para verificar o efeito de uma variável independente (fator), de natureza qualitativa numa variável dependente de natureza quantitativa. (Pestana e Gageiro, 2003).

72

2. RESULTADOS

No presente capítulo encontram-se os resultados referentes à caraterização dos jovens, distribuídos de acordo com os fatores pessoais, ocupação de tempos livres, fatores familiares, ambiente em que vive, comportamento dos pares, e fatores de consumo de substâncias, dados obtidos através de 848 questionários válidos, distribuídos por cinco escolas de Coimbra, especificamente a EBEug – Escola Básica Eugénio de Castro. EBPed – Escola Básica da Pedrulha, ESDDi – Escola Secundária Dom Dinis, ESDDu – Escola Secundária Dom Duarte e ESJFa – Escola Secundária José Falcão. A análise dos dados será produzida em função da escola que frequenta, sendo por isso a separação dos dados recolhidos, por escola onde o adolescente se encontra matriculado. Apresenta-se a análise descritiva das variáveis, seguindo-se a análise inferencial das hipóteses de investigação formuladas, e ainda a discussão dos resultados que mais contribuíram para a importância do estudo.

2.1. Fatores pessoais

Nesta primeira parte, a análise é sobre o adolescente, no que diz respeito ao grupo etário, média de idades, sexo, fratria, naturalidade, etnia, acontecimentos pessoais, avaliação de autoestima, e perspetivas de futuro.

Neste ponto, foi realizada uma distribuição dos respondentes por grupo etário do 7º ao 9º ano e do 10º ao 12º ano, por média de idades e distribuído pela escola que frequenta.

Grupo etário e Média de idades (

)
)

Através da análise dos dados pode-se verificar que em relação à média de idade por grupo etário, no grupo dos anos de escolaridade do 7º ao 9º ano, a média de idade mais alta é na ESDDi, com o valor de 13.79 anos. No que se refere ao grupo etário do 10º ao 12º ano de escolaridade, a média de idades mais alta, é na ESDDu com o valor de 16.76 anos.

73

PARTE II – INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

Tabela 1 – Caracterização dos jovens por grupo etário e média de idade (anos)

1.1. Grupo etário

 

EBEug

EBPed

ESDDu

ESDDi

ESJFa

Total

Grupo etário 7º ao 9º ano

Média (

)
)

13.08

13.01

-

13.79

13.74

13.27

Desvio padrão (S)

1.64

1.22

-

1.10

0.97

1.14

Grupo etário 10º ao 12º ano

Média (

)
)

16.76

16.33

16.04

16.40

Desvio padrão (S)

1.38

1.28

0.86

1.23

No seguimento foi realizada uma caracterização do total de respondentes por sexo, referente à totalidade de questionários validados em todas as escolas.

Sexo por escola

Da análise por sexo, pode-se verificar que dos 848 jovens que responderam à questão, 40.8% (n=346) são do sexo masculino e 50.2% (n=502) do sexo feminino.

Verifica-se uma percentagem superior de jovens do sexo feminino, em relação ao sexo masculino em todas as escolas, exceto na EBEug, onde a percentagem entre os sexos é igual. É na ESDDu onde a diferença entre sexo é maior, 66.19% (n=139) do sexo feminino e 33.81% (n=71) do sexo masculino.

Tabela 2 – Caracterização dos jovens por sexo (%)

1.2 - Sexo

EBEug

EBPed

ESDDu

ESDDi

ESJFa

Total

Masculino

50.00

38.64

33.81

43.71

40.93

40.80

Feminino

50.00

61.36

66.19

56.29

59.07

59.20

Relativamente à caracterização, em relação ao número de irmãos, as respostas estão distribuídas por média de adolescentes, filhos únicos, e ainda em relação aos que referem ter irmãos.

Filhos únicos em Média (X) / Ter irmãos em Média (

)
)

Através da análise dos dados pode-se verificar que dos 670 jovens que responderam

à questão, a maioria dos jovens tem irmão, 48% (n=407).

A maior percentagem de adolescentes que têm irmãos verifica-se na ESDDu (53.81%)

seguido da ESDDI (47.90%). A maior percentagem de filhos únicos verifica-se na

EBPed (35.23%) seguida da ESJFa (33.20%).

Tabela 3 – Caracterização dos jovens por fratria (%)

X

(Média)

EBEug

EBPed

ESDDu

ESDDi

ESJFa

Total

1.4; 1.5; 1.6 Fratria

Filho único

30.65

35.23

26.67

31.14

33.20

31.01

Tem irmãos

45.97

40.91

53.81

47.90

46.72

48.00

74

2. RESULTADOS

No que diz respeito à naturalidade a questão relaciona-se com o vínculo ao local de nascimento, que pode ser portuguesa ou outra.

Naturalidade

Através da análise dos dados pode-se verificar que, dos 848 jovens que responderam à questão, a maior percentagem é Portuguesa, com 94.81% (n=804) no total das escolas. Relativamente a outa naturalidade é na ESDDu que existe a maior percentagem, 9.52%, seguido da EBPed com 7.95%.

Tabela 4 – Caracterização dos jovens por naturalidade (%)

1.7 - Naturalidade

EBEug

EBPed

ESDDu

ESDDi

ESJFa

Total

Portuguesa

97.58

92.05

90.48

95.21

97.68

94.81

Outra

2.42

7.95

9.52

4.79

2.32

5.19

Na continuidade dos dados anteriores foi questionada a etnia, relacionada com os aspetos culturais do adolescente, nomeadamente se é caucasiana ou outra, englo- bando esta última, todas as outras nomeadas.

Etnia

Através da análise dos dados pode-se verificar que, dos jovens que responderam à questão, a etnia com maior percentagem é o caucasiano que corresponde a 95.17% (n= 807) do total de escolas. Na ESDDu existe o valor mais elevado de jovens de outra etnia, com 4.76%, seguida da EBPed com 4.55%. A escola com percentagem mais baixa de outa etnia é a EBEug com 0.81%.

Tabela 5 – Caracterização dos jovens por etnia (%)

1.8 - Etnia

EBEug

EBPed

ESDDu

ESDDi

ESJFa

Total

Caucasiano

97.58

94.32

93.81

94.61

95.75

95.17

Outra

0.81

4.55

4.76

4.19

3.47

3.66

Em relação aos eventos de vida, os mais frequentes são relativos a comportamentos de consumo, e acontecimentos familiares, evidenciando-se os que se apresentaram mais relevantes.

Acontecimentos pessoais

Através da análise dos dados pode-se verificar que o consumo de drogas ilegais tem o valor mais elevado na ESDDu com 9.05% (n=19), seguido da ESJFa com 6.95% (n=18) e da ESDDi com 4.19% e da EBPed com 3.41%.

75

PARTE II – INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

No acontecimento “tive um problema familiar” o valor mais elevado verifica-se na ESDDu com 36.19%, seguido da ESDDi com 35.93%, da ESJFa com 26.25%, da EBPed com 22.73% e da EBEug com 20.97%.

No acontecimento “ tive pouco dinheiro” o valor mais elevado verifica-se na ESDDu com 37.14%, seguido da ESDDi com 36.53%, da ESJFa com 23.94%, da EBPed com 18.18% e da EBEug com 13.71%.

Tabela 6 – Caracterização dos jovens por acontecimentos pessoais (%)

7.1 - Acontecimentos pessoais (nos últimos 6 meses)

EBEug

EBPed

ESDDu

ESDDi

ESJFa

Total

1) Parei de fazer desporto ou outra actividade

16.13

23.86

27.14

25.75

20.85

23.00

2) Fiquei lesionado depois de ter bebido

0.00

3.41

0.95

0.00

0.39

0.71

3) Tive problemas com a polícia

1.61

3.41

3.81

1.80

1.54

2.36

4) Consumi drogas ilegais

0.00

3.41

9.05

4.19

6.95

5.54

5) Tive pouco dinheiro

13.71

18.18

37.14

36.53

23.94

27.59

6) Tive um problema familiar

20.97

22.73

36.19

35.93

26.25

29.48

7) Arrependi-me de uma relação sexual

0.81

3.41

6.19

4.19

3.86

4.01

8) Apanhei uma Infeção Transmitida Sexualmente

0.81

3.41

0.00

1.20

0.39

0.83

9) Perdi/Mudei de amigos

26.61

34.09

35.71

40.72

28.96

33.14

10) Ganhei/Perdi peso anormalmente (+/- 5kg)

20.16

27.27

23.81

27.54

22.78

24.06

Para avaliar a autoestima utilizou-se a “ Rosemberg Self-Esteem Scale” (RSES) de 1965 e os resultados podem ser avaliados segundo os níveis, baixo, médio e alto.

A baixa autoestima caracteriza-se pelo sentimento de incompetência, de inadequação

à vida e incapacidade de superação de desafios. A alta autoestima expressa um

sentimento de confiança e competência. Na diferença entre os diferentes níveis, o sentimento de adequação ou inadequação, manifesta essa inconsistência no

comportamento.

Média de autoestima

Através da análise dos dados pode-se verificar que a média de autoestima por grupo

etário, no total de todas as escolas é de 27.03 (±) A média de autoestima mais elevada

é na EBPed com o valor de 28.29. seguido da ESDDu com 27.11. Este valor encon-

trado, relacionado com o valor em relação ao sentimento afetivo sobre si próprio, está associado a uma autoestima média, não reveladora de problemas sobre o autocon- ceito.

76

2. RESULTADOS

Tabela 7 – Caracterização dos jovens por avaliação de autoestima

7.2 - Autoestima

EBEug

EBPed

ESDDu

ESDDi

ESJF

Total

Média (X)

26.59

28.29

27.11

26.97

26.79

27.03

Desvio padrão (S)

3.44

3.30

2.75

2.58

2.39

2.82

As perspectivas para o futuro estão aqui relacionadas com a continuidade dos estudos ou a intenção de iniciar uma atividade profissional mais precoce, ou ainda não apresentar qualquer propósito de trabalho, implicando desta forma a tomada de decisão de um projeto de vida.

Perspetivas de futuro

Através da análise dos dados pode-se verificar que é na ESJFa que o desejo de conti- nuar estudos até à universidade é mais manifesto e corresponde a 89.96%, seguido da EBEug com 83.87%, da EBPed com 69.32%, da ESDDi com 68.26% e por último da ESDDu, com 57.14%, o valor mais baixo de todas as escolas.

Tabela 8 – Caracterização dos jovens quanto às perspetivas de futuro (%)

6.2 - Perspectivas de futuro

EBEug

EBPed

ESDDu

ESDDi

ESJF

Total

1) Vou continuar a estudar (continuar o E. Básico ou secundário)

87.10

92.05

79.05

82.04

92.66

86.32

2) Vou para a Universidade

83.87

69.32

57.14

68.26

89.96

74.53

3) Não vou ser desempregado

0.81

4.55

2.86

2.40

1.93

2.36

4) Não vou deixar os estudos e vou arranjar um emprego (sem um estudo mais aprofundado)

2.42

6.82

10.48

2.99

1.54

4.72

5) Vou abrir um negócio próprio

11.29

12.50

9.05

10.18

8.49

9.79

A ocupação dos tempos livres contribui para o processo de desenvolvimento do adolescente, facilitando um melhor conhecimento sobre a realidade do meio envol- vente e minorando os riscos a que os adolescentes estão expostos.

2.2. Ocupação dos tempos livres

Nesta primeira parte fazemos a análise sobre o adolescente, relativamente ao tempo de exposição ao ecrã, atividades realizadas, entrada em espaços noturnos onde a entrada é proibida, entrada em espaços noturnos nos últimos 4 fins-de-semana, idas a uma discoteca à noite num fim-de-semana, tipo de voluntariado e horas de volunta- riado.

77

PARTE II – INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

Podemos constatar que o adolescente ocupa muito do seu tempo na internet, quer em casa quer fora de casa, tendo, por isso, sido contabilizado o tempo dedicado a esta atividade.

Tempo de ecrã

Através da análise dos dados pode-se verificar que no total de todas as escolas, no item, passar entre 0 a 5 horas na internet em casa, o valor corresponde a 50.12%, (n=425). É na EBEug que a percentagem é maior e corresponde a 58.06%, seguido da EBPed com 55.68%.

No total de escolas, 39.27% (n=333), refere passar 6 a 20 horas em casa. A ESDDi apresenta o maior valor com 46.71%. Verifica-se que são menos os que passam mais de 20h na internet em casa, no total de todas as escolas, 7.67% (n=65) A ESDDi apresenta a maior percentagem com 10.18%.

Fora de casa, o número de horas na internet é mais reduzido, só vai até às 5 horas, corresponde a 93.51% (n=793). É na ESJFa que mais referem passar entre 0 a 5 horas na internet fora de casa, corresponde a 96.53% seguido da ESDDu com

92.86%.

São os alunos das escolas secundárias que passam mais tempo na internet. Os jovens da ESJFa são os que referem passar mais horas na internet, quando compa- rados com os alunos das escolas básicas que passam menos tempo na internet.

Tabela 9 – Caracterização dos jovens quanto ao tempo de ecrã (%)

8.3; 8.4 - Tempo de ecrã

EBEug

EBPed

ESDDu

ESDDi

ESJFa

Total

Aproximadamente 0 a 5 horas na internet EM CASA por semana

58.06

55.68

50.48

40.72

50.19

50.12

Aproximadamente 6 a 20 horas na internet EM CASA por semana

24.19

31.82

42.38

46.71

41.70

39.27

Mais de 20 horas na internet EM CASA por semana

7.26

9.09

5.71

10.18

7.34

7.67

Aproximadamente 0 a 5 horas na internet FORA DE CASA por semana

92.74

89.77

92.86

92.22

96.53

93.51

Aproximadamente 6 a 20 horas na internet FORA DE CASA por semana

5.65

5.68

4.76

4.19

2.32

4.13

Mais de 20 horas na internet FORA DE CASA por semana

0.00

2.27

1.43

0.00

0.39

0.71

Os adolescentes ocupam os seus tempos livres participando em diversas atividades que podem ir desde a ocupação na internet, à prática de desporto, leitura, música, saídas à noite com o seu grupo de amigos para festas, cafés ou discotecas. Através

78

2. RESULTADOS

da descrição das atividades realizadas passamos a analisar aquelas que mais são referenciadas por estes.

Atividades realizadas

Através da análise dos dados pode-se verificar que o tipo de atividade mais referen- ciada no total de todas as escolas, é o uso de internet, com 45.40% (n=385), seguido da prática desportiva, 39.5% (n=335), dos jogos de computador, 22.17% (n=188) e de outros passatempos, 20.17% (n=171). O uso de internet 48.26% (n=125) e a prática de desporto, 45.17% (n=117), é mais referenciado na ESJFa.

Tabela 10 – Caracterização dos jovens por atividades realizadas (%)

9.3 - Atividades realizadas (quase todos os dias)

EBEug

EBPed

ESDDu

ESDDi

ESJFa

Total

1) Jogo jogos de computador

21.77

30.68

25.24

22.75

16.60

22.17

2) Pratico deporto, atletismo, actividade física

45.97

38.64

26.19

43.11

45.17

39.50

3) Leio livros por gosto (sem contar com livros escolares)

23.39

19.32

14.29

11.38

18.92

16.98

4) Nunca saio à noite (para uma discoteca, festa, café, etc)

37.10

37.50

11.90

10.18

14.67

18.75

5) Saio à noite (para uma discoteca, festa, café, etc) quase todos os dias

2.42

1.14

2.38

1.20

0.77

1.53

6) Outros passatempos (toco instrumentos, canto, escrevo, etc.)

19.35

18.18

18.10

15.57

25.87

20.17

7) Saio com amigos para o shopping, parques, ruas, só para me divertir

13.71

6.82

8.57

3.59

9.65

8.49

8) Uso internet para actividades de lazer (chats, procurar música, jogar, etc)

41.94

44.32

44.29

45.51

48.26

45.40

9) Nunca jogo em slot machines (naquelas máquinas onde podes ganhar dinheiro)

84.68

80.68

88.57

91.62

90.35

88.33

10) Jogo em “slot machines” (naquelas máquinas onde podes ganhar dinheiro) quase todos os dias

0.81

2.27

0.48

0.00

1.16

0.83

Os adolescentes e o seu grupo de pares são frequentadores de espaços noturnos de diversão, estando incluídos espaços onde a entrada não é permitida para a idade. No entanto verifica-se que existe a permissão do acesso por parte dos que exploram esses espaços, ou seja há facilidade no acesso a estes locais de divertimento. Através da análise das respostas afirmativas podemos caracterizar os jovens por escola.

Entrada em espaços noturnos proibidos

Através da análise dos dados pode-se verificar que a frequência de entrada em espa- ços noturnos onde é proibida a entrada, é mais referenciado pelos jovens mais velhos.

79

PARTE II – INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA

A percentagem é maior na ESDDI com 28.74%, seguida da ESJFa com 28.57% e da ESDDu, com 27.14%. Verifica-se também que existem alunos das escolas básicas que referem entrar nestes espaços noturnos: (EBPed 17.05%, e na EBEug 9.6%).

Tabela 11 – Caracterização dos jovens por entrada em espaços noturnos, onde a entrada é proibida a pessoas da tua idade (%)

9.4

- Entrada em espaços noturnos,