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RACIONALIDADE, POLÍTICA E A NORMALIDADE DO CRIME EM ÉMILE

DURKHEIM1

JOSÉ LUIZ DE AMORIM RATTON JR2.

I-INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é discutir a noção Durkheimiana de Normalidade do


Crime. Na primeira parte do texto realizarei uma exposição do significado deste conceito
em alguns momentos da obra do autor francês, especialmente em A Divisão do Trabalho
Social (1989b) e em As Regras do Método Sociológico (1987a).

Feito isso demonstrarei como esta noção articula relações com os mais importantes
pressupostos teóricos e metodológicos de Émile Durkheim. Numa terceira parte
apresentarei os problemas teóricos decorrentes da ancoragem do conceito nos pressupostos
referidos acima sem, contudo descartar a potência e a plausibilidade da utilização
sociológica da noção de Normalidade do Crime. Defenderei a idéia de que este último
conceito Durheimiano apresenta grandes possibilidades explicativas desde que seja
recolocado em termos que introduzam algumas variáveis negligenciadas
macrossociológicamente, bem como articule a análise das macro-estruturas sociais com a
elucidação de processos microssociológicos constituidores da Normalidade do Crime.

II-CRIME E CASTIGO NA OBRA DE ÉMILE DURKHEIM

Para Durkheim (1987a, passim e 1989a, passim) o Crime deve ser entendido como
normal no interior de qualquer Sistema Social. A própria noção de Crime deve ser
recolocada: um comportamento não é reprovado porque é criminoso, mas é criminoso
justamente por ser reprovado em um determinado grupo social em uma época dada. O
exemplo de Sócrates é lapidar: aos olhos das sociedades ocidentais do século XX o filósofo

1
Este artigo é uma versão modificada e desenvolvida de artigo anterior “Revisitando a Normalidade do
Crime em Émile Durkheim”, publicado em Rifiotis et alli (orgs.) (1999).
não teria cometido crime algum. Aos olhos de seus contemporâneos rompeu com normas
constituidoras da sociedade de sua época. Não existe, pois uma essencialidade substantiva
a-histórica do comportamento criminoso, mas este último é definido dentro da forma de
ordenamento da sociedade específica a que se vincula.

Esta idéia de Sociedade e de Ordem em Durkheim pressupõe a interiorização de


normas e valores sociais pelos indivíduos (normas, no nosso caso, definidoras da aversão
aos comportamentos classificados como desviantes ou criminosos). Dado que tais normas e
valores não são introjetadas com o mesmo grau e intensidade por todos os indivíduos,
segue-se que comportamentos desviantes ou criminosos adquirem normalidade em
qualquer conjunto social. A normalidade do fenômeno social crime também pode ser dada
pelo fato deste último ser encontrado ser encontrado de forma geral em diferentes fases de
evolução de qualquer sociedade. Normalidade relaciona-se, pois à generalidade do fato
social para a sociedade que se investiga, não assumindo um conteúdo universal e abstrato já
dado a priori.

A punição dos Crimes realizados atua atingindo, sobretudo as pessoas


“honestas”, já que reforça os mecanismos de solidariedade do grupo a que pertencem. A
sanção não elimina o crime (tendo pouca eficácia dissuasória), ou corrige o criminoso,
pois como foi dito, sentimentos de aversão a comportamentos rotulados como
criminosos são vivenciados com intensidades diferentes pelos indivíduos, sendo que
aqueles que os assimilam de forma mais fraca tenderão a continuar realizando atos
delituosos.

No entanto só há crime se existe sanção definida por lei que especifique o


comportamento permitido e o não permitido. Sem especificação - do que se pode ou não
fazer, e de um castigo definido relativo à desobediência da norma prescrita - o crime não
existe, apesar de poder se constituir como um comportamento reprovável.

Pode-se deduzir assim que as sanções não operam efetivamente sobre os que
praticam crimes, mas levam a cabo um ritual para o benefício da sociedade. Os grupos
sociais são mantidos unidos (entre outros mecanismos) pela repetição de rituais
padronizados de punição daqueles que desrespeitaram normas sociais passíveis de

2
Mestre e Doutor em Sociologia pela UFPE. Professor da Faculdade Marista Recife e AESO.
aplicação de sanções. Tais normas - específicas ou difusas - são expressões da Consciência
Coletiva. Definem comportamentos típicos (que chamaríamos Parsoniamente de Papéis), e
introduzem coesão e regularidade em sua execução. Por detrás deste sistema normativo
encontramos os valores, entidades semelhantes a preferências, mas relacionados a ideais
coletivos, e que se impõem como modelos ou projetos de ação coletiva. De um lado, o
sistema normativo pode ser justificado por referência a tais ideais capazes de tornar as
normas particulares respeitáveis ou atraentes. De outro, os valores, sob pena de
permanecerem irrealizáveis reclamam uma expressão que assegure sua eficácia. A Síntese
concreta e operacional da Díade Valores-Normas é a Representação Coletiva (variante
tardia da noção de Consciência Coletiva) que permite aos indivíduos articular o desejável e
o possível, considerado o estado de uma sociedade ou grupo específico. Esse sub-sistema
Valores - Representações Coletivas - Normas comanda a execução daqueles rituais que
fazem crer ao conjunto de indivíduos que a lei existe. Assim envolvendo intensas emoções,
coletivamente compartilhadas, cria crenças simbólicas que dão aos sujeitos a forte sensação
de pertencimento ao próprio grupo social. O importante aqui é que estas emoções sejam
fortes o suficiente para reforçar os laços grupais.

Neste sentido a sociedade se faz presente pelas ordens que decreta e pelas sanções
que coloca em ação, fundamentando todo o sistema normativo inclusive a norma jurídica.
O Direito repressivo e o Direito cooperativo especificam delitos e aplicam metodicamente
as penas. Quando o Direito se afirma enquanto atividade diferenciada assumindo as funções
repressivas e restituitórias através de órgãos especializados, a sociedade aparece claramente
visível em todo o decorrer do processo, do delito à sua punição ou reparação (mesmo que
nem sempre as ordens sejam obedecidas). O processo enfatiza a crença nas leis e gera elos
emocionais que unem os membros da sociedade a cada execução do ritual.

O criminoso é um mero objeto do ritual, membro suspenso da sociedade. O Sistema


de Justiça Criminal produzirá solidariedade social utilizando o criminoso como matéria-
prima para reafirmar os laços de manutenção da existência do grupo ou da sociedade.
Assim a própria sociedade se convence da validade das leis sem necessariamente convencer
o criminoso a não cometer mais delitos ou mesmo implementar mecanismos que detenham
efetivamente os crimes.
A Sociedade estaria assim envolvida na dinâmica de fabricação de crimes, dos quais
ela mesma necessita, pois sem crime não há punições rituais reforçadoras da ordem
existente. Daí pode-se inferir que se a Sociedade existe enquanto tal deve haver crime.
Mesmo uma sociedade de anjos também necessitaria encontrar alguma dissonância prática
em relação ao cumprimento de regras fundamentais que pudessem ser classificadas como
crimes. Pois tal tipo de sociedade, constituída sobre "normas angelicais", estaria sujeita a
um também plausível desrespeito eventual de algumas delas por "anjos caídos",
deficientemente socializados, gerando a necessidade de punição, promovida através de
algum tipo de dramatização ritual que mantenha unidos os anjos restantes. O conteúdo do
que é definido como crime varia, pois cultural, social e historicamente3; e em cada
sociedade diferente a execução intensiva e visível de tais rituais garantiria a integração
societária em níveis superiores aos das sociedades onde tal fato ocorre de maneira inversa.

Do que foi dito acima podemos concluir que em Durkheim um certo nível de
criminalidade é benéfico, funcional e necessário socialmente (sendo inclusive traço normal
e inevitável de toda vida social) porque:

a) Crime provoca Punição que por sua vez reforça solidariedade nas comunidades.

b) A repressão de crimes auxilia a estabelecer e manter limites comportamentais no


interior de comunidades (em níveis não anômicos).

c) Incrementos excepcionais nas taxas de criminalidade podem alertar ou advertir


autoridades para problemas existentes nos sistemas sociais onde ocorrem tais taxas de
criminalidade.

III-A NORMALIDADE DO CRIME NO SISTEMA CONCEITUAL


DURKHEIMIANO

3
Obviamente não se trata de postular uma visão historicista ou mesmo culturalista em Durkheim, mas apenas
indicar que a sua diferenciação de tipos de sociedade pode implicar em variações no tempo e no espaço.
A idéia de Normalidade do Crime (Durkheim, 1987a), discutida no tópico anterior,
não aparece gratuitamente no corpo da obra de Durkheim. Ela funciona como exemplo
empírico do modelo teórico-metodológico do autor. Trabalharei aqui algumas das conexões
do conceito de normalidade do crime com alguns dos principais termos da equação
sociológica de Durkheim:

1) sua concepção de Sociedade e a primazia desta sobre as ações individuais


(1987a)
2) a distinção entre Normal e Patológico (ibidem)
3) a idéia de Anomia (1989b)
4) elementos de sua Sociologia da Religião (1989a)
5) as condições metodológicas para determinação do Fato Social (1987a)

1) A Sociedade para Durkheim tem prioridade sobre os indivíduos. Ela é anterior,


posterior e superior a cada homem. Anterior porque cada um já nasce inserido em um
grupo social determinado com seus valores e normas. Posterior porque permanece enquanto
os indivíduos passam. E superior porque a combinação das representações individuais em
interação produz algo qualitativamente superior a elas - particular, específico e acima de
todos - as representações coletivas, manifestações do tipo psíquico de uma sociedade
qualquer e que condiciona, senão determina, os comportamentos e as ações de seus
membros.

Note-se que esta concepção de Sociedade pressupõe uma entidade com vida própria
em (dentro de) cuja estrutura os crimes são construídos e também respondem pela sua
manutenção. É clara a anterioridade lógica e analítica da consciência coletiva (as
representações coletivas) sobre as escolhas individuais. Não são os indivíduos que
escolhem a carreira criminosa por si só, mas é a sociedade, mais ou menos integrada, que
oferece ou não aos indivíduos possibilidades de desenvolvimento pessoal em acordo ou
desacordo com os objetivos e fins colocados disponíveis pela própria sociedade. Frente ao
arranjo específico do ordenamento social e suas determinações morais partilhadas de
alguma forma por seus membros é que estes responderão comportamentalmente às
virtualidades e exigências do sistema social. A vida social parte diretamente do Ser
Coletivo que tem uma natureza sui generis. A Sociedade em Durkheim tem um status
epistemológico de objetividade com sua própria autonomia e leis de desenvolvimento. Não
há elemento complicador das relações entre consciência individual e consciência social.O
crime, mesmo que dependente da escolha individual, repousa sobre um conjunto de
condições socialmente determinantes (densidade moral e material), adequadas à
manutenção e reprodução de qualquer arranjo social que não esteja vivendo um período
transicional ou anômico. Não seria teoricamente criminoso dizer que em Durkheim como
existem correntes suicidógenas percorrendo as sociedades também existiriam correntes
criminógenas.

2) Outra noção fundamental na concepção societária de Durkheim é a distinção


entre Normal e Patológico. Como já foi dito, a normalidade é definida pela generalidade,
que varia sócio-cultural e historicamente. Um fenômeno social seria normal quando
relacionado às condições gerais da vida coletiva no tipo societário considerado. Para cada
caso de organização social o autor busca determinar as condições fisiológicas de existência
já definidas e apreensíveis na realidade. A condição para se atribuir um caráter normal ou
fisiológico a um fenômeno social qualquer é o grau de benefício que este fenômeno traga
para a integração da sociedade analisada.

Como o crime e a reação a ele - por despertar e reforçar mecanismos grupais de


solidariedade - indiretamente traz benefícios (dentro de certos níveis) para a sociedade,
Durkheim deriva deste fato a idéia de que ele é um traço constituinte e normal da vida
social. Em outros termos, o crime pode ser considerado um sub-produto de padrões normais
de estruturação e intercâmbio social. O Crime será considerado patológico caso provoque,
através da elevação excepcional de seus índices, padrões de desestruturação social que
resultem em processos societários anômicos.

3) Aqui introduzimos a noção de Anomia (Durkheim, 1989b) elemento central do


Teorema Durkheimiano da Integração Social. Entidade observável através de
manifestações as mais diversas, significa essencialmente desregramento fundamental das
relações entre ator individual e sociedade. Cabe ressaltar que a Anomia não é detectável
apenas através de conflito de classes (em termos Durkheimianos, desajuste entre Capital e
Trabalho), mas de outras disfunções societais tais como aumento de suicídios, divórcios,
etc.

A ruptura da Solidariedade orgânica (Solidariedade por cooperação de indivíduos


conscientes de sua diferenciação) - fruto dos malogros de uma implantação forçada e rápida
de um sistema de divisão do trabalho complexo e superespecificado nas sociedades
industriais - teria conduzido a esta situação (a Anomia) em que as normas a que estão
sujeitos os atores sociais lhes deixam larga margem de autonomia (por falta de clareza e
definição), resultando coletivamente em ruptura da solidariedade orgânica e
individualmente em exposição a riscos e à incerteza, com o estabelecimento de objetivos
dificilmente atingíveis.

A exposição do conceito de Anomia feita acima nos permite inferir que estados
anômicos podem estar associados a níveis patológicos de criminalidade, que além de não
reforçarem mecanismos de solidariedade grupal da parte dos indivíduos membros não
praticantes de Crimes, contribuem pelo contrário, para o esgarçamento do Tecido Social.
Inclusive deslocando as arenas integradoras de punição de criminosos para arenas
desintegradoras, as quais competem com as primeiras - espaços já consagrados de
reafirmação das leis e da ordem social subjacente a um conjunto social qualquer.

4) A Sociologia da Religião Durkheimiana também reúne alguns componentes


importantes na explicação da normalidade do crime. Aqui, voltamos à dimensão ritualística
da atuação das agências de controle social (cortes, júris, julgamentos, etc) demonstrando
procedimentos que mais servem para sustentar sensações de solidariedade grupal ou
societária do que alcançar efeito real sobre os criminosos e as taxas de criminalidade.

Por outro lado a transgressão individual de normas coletivas especificadoras de


sanções equivale à profanação de objetos ou dimensões sagradas. E na medida que em
Durkheim (1989a) a religião (e a dicotomia sagrado-profano) é a transfiguração da
organização social (cuja matriz básica é a oposição sociedade-indivíduo), tal transgressão
significa ofensa ao corpo social e acarreta a punição do todo sobre a parte recalcitrante.

5) Finalmente vale mencionar o método Durkheimiano e sua aplicação ao caso do


Crime. Em primeiro lugar é preciso elucidar como se dá, para o autor, um processo pelo
qual um fenômeno se converte em objeto de análise sociológica. Para Durkheim, condutas
individuais só têm importância sociológica enquanto encarnadas em estados coletivos
qualitativamente diferentes e ontologicamente superiores às primeiras. Além disso, estes
estados coletivos necessitam ser estudados de forma independente das representações que
as pessoas fazem deles. Devem ser definidos, pois, objetivamente. Existem marcas-sinais-
índices de tais estados que independem das variações que as perspectivas de cada
observador podem introduzir e possibilitam que se alcance a objetividade. Sua correta
utilização metodológica relaciona-se a uma adequada captação de sinais externos para uma
definição científica do fenômeno como fato social. Agora temos uma premissa
metodológica que nos orienta a converter um fenômeno social em objeto de análise: a
identificação de seus sinais exteriores. Feita a definição objetiva do fenômeno, cabe no
momento seguinte a classificação de suas espécies, a busca (indutiva) das causas em função
das quais varia, a comparação de resultados e a busca de uma formulação geral.

Tomemos como exemplo o Crime enquanto Fato Social (Durkheim, 1987a). Por si
só ele já tem legitimidade para ser considerado um fato social dada a sua exterioridade,
generalidade e coerção (critérios durkheimianos sine qua non o objeto não pode ser
estudado sociologicamente) que exerce sobre os indivíduos, sejam eles criminosos ou não.
Sua Generalidade é demonstrada pela sua observância em qualquer sociedade que tenha
existido. A exterioridade pode ser visualizada nas penas para cada tipo de Crime, passíveis
de conhecimento por todos os membros da Sociedade. A Coerção se manifesta pela
existência real (quase material) de uma concepção partilhada de Crime, que quer seja
internalizada pelos indivíduos em maior ou menor grau, se impõe a eles como fato objetivo
de suas existências.

Já estamos agora, prontos para:


a) classificar suas espécies (homicídios, crimes expropriativos, etc).
b) buscar causalidades (fraqueza institucional, ausência do Estado, pobreza etc),
e variações(regionais, culturais etc),
c) comparar resultados (que não se aplicam aqui já que não estamos investigando o
crime em uma sociedade específica ou outra)
d) construir formulações gerais (explicações genéticas, funcionais, etc a respeito do
Crime em um determinado espaço social).

Não era meu intento aqui explorar exaustivamente os principais traços da obra
Durkheimiana, mas tão somente realçar alguns aspectos de seu arcabouço conceitual que
integrados de forma absolutamente coerente podem ser aplicados in totum a fenômenos
sociais diversos, inclusive ao crime, de alguma forma tematizado na obra do autor francês.
A Normalidade do Crime pode ser entendida assim relacionalmente no network teórico-
metodológico de Durkheim permitindo que agora a coloquemos sob teste, ou seja, a
submetamos à crítica, apontando os elementos que mantém seu poder explicativo, aqueles
que necessitam de um redimensionamento e outros que nos parecem carecer de deficiências
graves, comprometedoras, portanto de sua corroboração científica de uma perspectiva
estritamente sociológica.

IV-NORMALIZANDO A NORMALIDADE DO CRIME

Apresentarei agora algumas críticas à concepção de Normalidade do Crime em


nosso autor a partir de releituras contemporâneas de sua obra.

Se aceitarmos como satisfatória a afirmação de que a sociedade produz a


criminalidade, que de certa forma lhe é funcional, falta, contudo especificar as condições
internas de produção da normalidade e da funcionalidade do crime. A idéia de sociedade
como um Todo acaba por omitir a existência de indivíduos e grupos não menos reais do
que a própria sociedade e com interesses diversos articulados no interior da mesma. São
tais indivíduos em grupos que implementarão os rituais punitivos formadores e
reforçadores de solidariedade, mas não necessariamente uma solidariedade partilhada da
mesma forma por todos, mas diretamente identificados com solidariedades grupais
particulares que funcional e normalmente servem para o exercício da dominação de grupos
sobre outros e indivíduos sobre outros (Collins, 1982).

Em outros termos, qualquer sociedade apresenta divisões sociais as quais auxiliam a


explicar seus mecanismos de funcionamento. Se as divisões sociais estão relacionadas a
grupos com interesses distintos disputando recursos materiais e simbólicos escassos,
porque não pensar que os mecanismos de punição de criminosos também não estão
relacionados à divisão da sociedade e à competição entre os grupos?

Os rituais de punição não seriam uma forma de exercício da Política? O crime não
daria aos grupos dominantes a possibilidade de atualização da dominação através de
práticas cerimoniais conformadoras de um sentido comum e partilhado de Ordem
(sustentada, no entanto, em sentidos particulares, legitimados na coletividade exatamente
por estes ritos integradores que promovem a vivência de interesses e particulares em
sensação de comunalidade ou partilhamento dos mesmos interesses)? Ou seja, se o que é
criminoso é definido socialmente e a sociedade que define o crime apresenta divisões e
interesses, porque tais divisões e interesses não estariam presentes na própria conformação
do Crime? A Ordem Social não seria o resultado final da cooperação antagonística entre
indivíduos e grupos com preferências e interesses diferenciados, sendo o Crime um fato
social revelador deste tipo de mecanismo societário?

As hierarquias sociais muito nos têm a dizer sobre a modalidade do crime


prevalente em cada tipo social especificamente organizado. Sociedades tribais, feudais,
capitalistas, socialistas, etc permanecerão divididas em grupos com interesses diferentes,
compostos ou opostos coordenamente em arranjos sociais onde a normalidade do crime
será também um indicador da forma de organização social. O Crime e os criminosos seriam
assim apenas uma parte de um Sistema que abarcaria toda a sociedade.

As formulações acima nos remetem a um problema sociológico bastante importante:


Como propriedades emergentes de um Sistema Social contribuem para a ocorrência de
comportamentos individuais? Ou como as propriedades gerais de uma ou outra sociedade
concorrem para a incidência de crimes nestas sociedades? Collins aponta, como foi
mostrado acima, que as hierarquias sociais herdadas e construídas pelos indivíduos são
elementos relevantes para o entendimento mais complexo das propriedades macro-
estruturais e sua relação de mão dupla com a dinâmica das micro-interações, mas não
especifica suficientemente os padrões de atividade individual continuamente criados,
reproduzidos, transformados e fixados nos espaços sociais.

Cohen e Machalek (1994) apresentam uma alternativa interessante para a


especificação do problema, sem abrir mão da idéia de Normalidade do Crime. Como
Collins, concordam que a visão reificada de sociedade proposta por Durkheim, encobre os
conflitos de interesse entre os indivíduos do mesmo grupo social e entre indivíduos de
grupos sociais distintos. Advertem, no entanto que o autor francês hipostasia os benefícios
coletivos auferidos pela sociedade, desprezando os múltiplos custos individuais sofridos
pelas vítimas de crimes às expensas de ganhos individuais (simbólicos ou materiais)
daqueles que praticaram delitos. A equação mertoniana dos efeitos não antecipados da ação
social funciona em Durkheim através da compulsoriedade de ganhos societários indiretos a
partir de perdas individuais ritualisticamente punidas para reforço e sustentação da ordem,
compatíveis coletivamente com uma ocorrência saudável e necessária de crimes.

Analisando especialmente os crimes expropriativos, Cohen e Machaleck (idem,


ibidem) propõem que atores desenvolvem estratégias expropriativas criminosas competindo
com atores que desenvolvem estratégias produtivas no interior de uma sociedade4. A
prevalência das estratégias produtivas - com seus respectivos payoffs já definidos em
função da estrutura do mercado de possibilidades diferenciadas de execução dessas
estratégias - favorece o surgimento de estratégias alternativas - no nosso caso
expropriativas - que competirão com as primeiras na tentativa de obtenção de payoffs
superiores. No entanto a disseminação, mesmo que limitada, das estratégias alternativas
expropriativas, ocasiona um declínio de seus payoffs inicialmente altamente atrativos, seja
pela competição entre os seus praticantes, seja por constrangimentos externos tais como
atuação de agências de controle social que aumentam os custos e restringem os benefícios
das estratégias alternativas criminosas. Além disso, indivíduos diferem em habilidades e
capacidades bem como na atribuição de valor aos recursos em disputa, seja no interior de
cada estratégia ou no confronto entre elas.

Vale ressaltar aqui que a ocorrência de estratégias diferenciadas está relacionada a


processos evolutivos sócio-culturais em que algumas estratégias eliminam ou convivem
mais ou menos simetricamente com outras estratégias. Daqui também não se deriva que

4
As noções utilizadas por Cohen e Machalek vinculam-se claramente aos conceitos formulados no interior da
corrente sociológica entendida como Rational Choice. Assim, Payoff e Função de Utilidade Máxima devem
ser entendidos sinonimicamente como o benefício máximo que um ator pode obter adotando uma
determinada estratégia .Quando se fala em estratégia produtiva, se associa este conceito de forma bastante
geral a qualquer tipo de trabalho individual socialmente legítimo no interior de uma sociedade. Por outro
toda estratégia é sempre orientada em direção à função de utilidade máxima em uma
perspectiva individual, mas coabitam com comportamentos não racionais.

O importante é perceber que todos os elementos introduzidos acima - adoção


individual de estratégias competitivas fundadas em capacidades diferenciadas e valorações
personalizadas - se localizam num espaço social abrangente em que a incidência de crimes
expropriativos é um subproduto das oportunidades criadas pela evolução dos padrões de
atividades produtivas. A Normalidade do Crime ganha agora uma especificação de seus
mecanismos microssociológicos, sem excluir suas dimensões macroestruturais de
generalidade e de afirmação de padrões integradores resultantes de disputas entre grupos
legitimadas socialmente como padrões de interesse de toda a Sociedade.

Um elemento adicional ainda pode ser introduzido. Ações consideradas criminosas


dependem da evolução geral dos costumes, como nos mostra Durkheim. Mas Selin (apud
Boudon, 1993) destaca que a lei, se depende dos costumes, está submetida à influência dos
grupos sociais. Ao mesmo tempo, o sentimento de reprovação despertado por um ato
criminoso pode ser muito fraco em sujeitos que não imaginam claramente as conseqüências
individuais de seus atos e cujas experiências e posições sociais não permitem que se
ponham no lugar do autor de quem comete o crime. A relação entre costume, lei e crime
seria mais complexa do que aquela pretendida por Durkheim.

V-CONCLUSÃO

Durkheim tem o mérito de reformular a questão hobbesiana indagando por quais


mecanismos os indivíduos integram-se à sociedade e sob que condições suas atividades são
compatíveis com a manutenção de uma ordem social coerente na qual se mantenham mais
ou menos solidários No entanto sua concepção de sociedade possível, concebida orgânica,

lado, quando se fala em estratégia expropriativa deve-se relacionar este conceito, também de forma geral, à
idéia de roubo, furto etc.
holística e harmonicamente acaba por contaminar seu modelo levando-o a omitir a
fundamental dimensão de Conflito e Poder presente onde há vida social. A noção de
Normalidade do Crime não escapa deste problema.

Por outro lado a ênfase na primazia teórico-metodológica da Sociedade sobre os


indivíduos, do todo sobre as partes, impede que ele desvende microssociologicamente seus
macro-mecanismos societários e a funcionalidade das partes da Sociedade acaba por
justificar-se em termos tautológicos e teleológicos. O Crime existe porque a sociedade
necessita de mecanismos de integração que reforcem os laços dos que foram
convenientemente socializados e segreguem ritualmente os que não internalizaram
adequadamente as normas. Portanto o Crime é socialmente benéfico e é benéfico porque
auxilia a manter a sociedade integrada. Apesar da sofisticação do argumento durkheimiano,
ele não demonstra, dentro da circularidade causal obrigatória dos termos acima colocados,
em que condições sociedades podem ser definidas com maior ou menor normalidade (a não
ser pela referência a um estado anômico extremo), nem responde se sociedades com menos
crimes são menos integradas. A solução será sempre a de que a taxa de crimes normal é
aquela que mantém integrada a sociedade e evita a anomia. A Explicação não pode ser
assim falsificada porque a mútua determinação restritiva das variáveis responsáveis pela
Normalidade do Crime funcionará sempre como profecia auto-realizada.
Acredito que a intuição sociológica do autor francês em relação à Normalidade do
Crime permanece atual. Necessita, contudo, enfrentar os desafios que as formulações de
Collins apresentam no nível macro – evitando também as tautologias e circularidades
causais – bem como fornecer uma fundamentação microssociológica, ao modo de Cohen e
Machaleck, ou mesmo para além de teorias aparentadas à Teoria da Escolha Racional. A
tentativa de abordar, explicar, especificar e criticar a Normalidade do Crime em Durkheim,
deve, pois, ser localizada no interior de um esforço desta natureza.

VI-BIBLIOGRAFIA

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