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Corpos idosos e eróticos

por Contardo Calligaris *

publicado em 12/3/2008.

Não é mais ridículo, aos 60 ou mais, querer uma companhia
de vida, um amor ou só uma transa

SE ME lembro direito, 20 anos atrás era freqüente participar
de conversas animadas em que se discutia a questão
seguinte: devemos ou não deixar nossos filhos e nossas filhas
adolescentes dormir em casa com suas namoradas ou seus
namorados?

Aparentemente, o partido do sim ganhou. Em geral, a razão
que ele invocava (e ainda invoca) era a segurança: é melhor
que minha filha esteja no seu quarto com o namorado do que
em baladas perigosas ou, pior ainda, "brincando" no carro
numa rua deserta. Também contava o fato, comprovado, de
que um namoro é quase sempre uma experiência mais rica e
mais "madura" do que a agitação das turminhas.

o partido do sim ganhou sobretudo por uma . na cama. primeiro. Freqüentemente.Naquelas conversas dos anos 80. de leve. Seja como for. Achava problemático que os adolescentes tivessem uma espécie de vida conjugal sem ter conquistado sua autonomia: para juntar-se com um parceiro ou uma parceira (a ponto de dormir na mesma cama com ele ou com ela a cada noite ou quase) seria melhor. a filmes alugados do que em sair juntos pelo mundo ou mesmo em praticar a arte difícil de se descobrir mutuamente. pelo partido do não. os inúmeros casamentos em que um dos membros do casal se queixa de que o outro continua sendo mais filho ou filha do que marido ou mulher. Mais um detalhe. eu ficava em cima do muro e torcia. não precisar mais se definir como filho ou filha. a conjugalidade precoce e protegida de dois adolescentes na casa dos pais é uma caricatura da conjugalidade adulta menos interessante: consiste mais em assistir. Continuo pensando que eu tinha um pouco de razão: prova disso.

O segundo efeito aparece agora. a bem dizer. a metade dos jovens viveram sua adolescência em companhia de apenas um de seus pais. 20 anos depois: à força de conviver com os namoros. nas últimas décadas. os namoricos e as decepções. Acontece que.razão que não se confunde com as justificações habitualmente propostas. com que moral o pai ou a mãe divorciados proibiriam o filho ou a filha de levar seus amores para casa se eles mesmos não fazem diferente? Essa grande mudança na vida familiar teve dois efeitos significativos e. claro. até confidentes) do folhetim das aventuras e dos namoros de sua mãe ou de seu pai. tem namorado?") acabaram ou quase. em . E. pela freqüência dos divórcios. O primeiro é que os adultos começaram a levar mais a sério a vida amorosa de seus filhos adolescentes: as brincadeiras condescendentes (o detestável "e aí. positivos. E muitos desse jovens foram espectadores assíduos (e. às vezes.

claro. ou melhor ainda. que ela não corresponde a nenhuma "maturidade" das paixões: os "idosos" amam e desejam com o mesmo transporte e a mesma ingenuidade dos adolescentes (e. . os filhos. não é ridículo ter 60 anos ou mais e propor um perfil num site de encontros amorosos na internet. os adolescentes abandonaram a idéia (freqüente em minha geração) de que a vida amorosa e sexual dos adultos seria uma mesmice comportada -que. dos ditos adultos). um amor ou mesmo apenas uma transa.suma. Apesar da valorização cultural do corpo jovem e sarado como se fosse o único desejável e capaz de desejar. teria acabado de vez depois da troca mínima que foi necessária para que eles. não é ridículo. é lógico que esses jovens adultos estejam dispostos a reconhecer que a terceira idade não corresponde a nenhuma aposentadoria do amor e do sexo. no caso dos pais. Os adolescentes que tiveram essa experiência são agora jovens adultos. aliás. fossem concebidos. hoje. e seus pais são idosos. aos 60 ou mais. com as alegrias e as tristezas das paixões de seus pais divorciados. querer uma companhia para o resto da vida. De repente.

Mas não é apenas por isso que o filme é tocante: é porque no baile. "Chega de Saudade". . em que homens e mulheres da terceira idade se procuram e dançam a cada semana. nos leva para um baile. na pista de dança. são corpos bonitos. o enlace do parceiro ou da parceira revela que estes corpos. que estreou na semana passada. pelo país afora.O bonito filme de Laís Bodanzky. Estamos aprendendo. vivos. aos poucos: a grandeza (e a mesquinhez) do amor e do desejo não têm estação. que talvez tenham chegado mancando. endurecidos pela idade e de pés inchados. eróticos. Há muitos assim.

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