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Ciúme de Você

(After the Loving) Sabrina nº. 478 Carole Mortimer

Publicado originalmente em 1987 pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra Título Original: After the Loving Tradução: William Graham Clark Copyright para a língua portuguesa: 1987 Editora Nova Cultural Ltda

para a língua portuguesa: 1987 Editora Nova Cultural Ltda Que delícia aconchegar-se nos braços de Raff

Que delícia aconchegar-se nos braços de Raff e deixar o mundo girar lá fora!

RESUMO: O desejo empurrou Bryna para os braços de Raff Gallagher, numa noite

de amor que definiu sua vida. A partir de então ela se tornou cativa de seus beijos, na

tortura de saber que ele não aceitava laços nem compromissos

resolveu interferir, criando um triângulo amoroso que iria enlouquecer os dois amantes,

atirando-os num sofrimento insuportável. Agora era tudo ou nada: viver um para o outro o- separar-se para sempre!

O destino traiçoeiro

Digitalização: Márcia Gomes

Revisão: Andresa Bastos

CAPÍTULO I

Com os dedos trêmulos, Bryna Fairchild abotoou rapidamente os botões da blusa e ajeitou os cabelos loiro platinados, logo após o minucioso exame a que o Dr. Frank

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Taplenton a submetera. Ele era o seu médico de confiança e ela o conhecia desde que viera morar em Londres, há muitos anos. Deixando a sala de exame, Bryna retomou ao consultório ao lado. Pegou a bolsa sobre a cadeira e, um tanto apreensiva, sentou-se em frente ao médico, aguardando, silenciosa.

O Dr. Frank, que acabava de passar-lhe uma receita, ergueu imediatamente a

cabeça e a encarou, sorridente.

- Meus parabéns, Bryna! Pelos meus cálculos, você está grávida há dois meses. Ela olhou para o médico incrédula e complemente surpresa. "Grávida! Não é possível", pensou.

- Tem certeza, doutor? Perguntou, ainda aturdida

- Claro! Ele respondeu com a maior naturalidade do mundo. - Tome estas

vitaminas, apos as refeições. É muito importante para o bebê - orientou o médico, estendendo-lhe a receita. - Você vai precisar também fazer alguns exames de rotina. Bryna ouvia o medico procurando não demonstrar a grande ansiedade que sentia. Em qualquer outra ocasião de sua vida aquele diagnóstico a teria deixado felicíssima.

Agora, porém, era uma notícia simplesmente aterradora!

O Dr. Frank deveria estar ciente disso, entretanto o seu sorriso era tranqüilizador.

- Pode crer, Bryna, não há a menor dúvida. É espantoso o número de mulheres

que me perguntam a mesma coisa, sempre que lhes dou a boa nova! Muito embora che- guem ao meu consultório já bastante desconfiadas - disse, num tom de brincadeira.

Mas Bryna não achou graça nenhuma. A verdade era que aquela gravidez era a última coisa que ela podia esperar, pois julgara que os estranhos sintomas que vinha sentindo ultimamente eram apenas resultado da grande tensão emocional!

O médico aconselhou:

- Agora, assim que puder, procure um bom obstetra. - Posso lhe indicar um se

quiser.

- Não há pressa, há?

O médico sorriu ao se sentar na beirada de sua escrivaninha

- Eu não adiaria muito se fosse você, Bryna. Você e o bebê merecem os melhores

cuidados nos próximos sete meses

Grávida! Aquilo ainda lhe parecia tão irreal! Não podia estar acontecendo com ela justamente agora! Contudo não querendo que o médico percebesse que ela não estava nem um pouco feliz, deu um sorriso amarelo e lhe respondeu num tom pouco convincente:

- Ao contrário de suas outras clientes, tenho que admitir que estou um tanto

surpresa. Você compreende, não é?

- Lógico que sim. Ele a olhou compreensivo. - Logo que se recupere do choque,

telefone para conversarmos sobre isso. O importante, agora, é que você está gozando de excelente saúde; e tenho certeza de que vai ter uma gravidez perfeitamente normal. "Nada estivera normal em sua vida nos últimos dois meses e aquela gravidez só poderia piorar as coisas", pensou ela, engolindo em seco. Mas o melhor que tinha a fazer, naquele momento, era ir embora antes que explodir em lágrimas ali mesmo. Ao se retirar

apressadamente, agradeceu:

- Obrigada. Eu

- Compreendo a sua ansiedade. Naturalmente você tem quer comentar logo a boa

eu lhe telefonarei mais tarde.

nova ao futuro papai Ao pensar nisso Bryna estremeceu. Ela, apenas sorriu, concordando.

- Bem, mais uma vez obrigada

- Não me agradeça, Bryna. Você e o pai do bebê conseguiram esse milagre

sozinhos!

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Ao chegar no estacionamento, ela ainda estava tremendo. Automaticamente destrancou a porta do carro, entrou e ficou sentada, com a cabeça debruçada sobre o

volante. Um bebê! Há anos que ela sonhava com ele! Desde que seus pais lhe haviam contado que, devido a uma operação de emergência durante a puberdade, ela provavelmente nunca mais poderia ser mãe. Fora um golpe duro. Durante muito tempo havia chorado, revoltada com o seu destino. Aos poucos, acabara conformada, tentando convencer-se de que, apesar de tudo era uma mulher normal e digna de ser amada Os anos em que se dedicara ao trabalho como modelo fizeram com que ela se esquecesse do problema e recuperasse sua auto-estima. E agora que sua vida transcorria tão certinha ela descobria que estava esperando um filho do último homem com quem gostaria de poder contar naquele momento: Raff Gallagher. Instintivamente, Bryna levou a mão ao ventre, num gesto protetor. Um filho! Pensou

iria perdê-

lo de qualquer jeito. O último pensamento a magoou profundamente mas, era verdade. A cada dia que

passava, Raff saia um pouco mais de sua vida. Naturalmente ele estava esperando um momento oportuno para lhe dizer que estava tudo terminado entre eles. Bryna admirava- se por aquele relacionamento ter durado muito mais tempo do que os outros casos que Raff geralmente tivera. Raff Gallagher! Um homem excêntrico e de grande poder na cidade, tanto monetário quanto pessoal. Desde que o vira pela primeira vez, Bryna havia ficado fascinada por ele, mas certamente jamais poderia supor que se tornaria sua amante em questão de apenas alguns dias. Ela não tinha dúvidas de que Raff não aceitaria aquele filho, pois deixara bem claro, desde o inicio, que não poderia lhe oferecer nada mais do que já oferecera às demais mulheres que tivera em sua vida. Ou seja: belos momentos de paixão e respeito; nada mais! Sendo assim, como revelar-lhe aquele segredo que, em outras circunstâncias, poderia ser tão lindo! Não, era simplesmente impossível! Precisava romper o relacionamento deles antes que a criança começasse a se desenvolver e a gravidez se tornasse evidente. Talvez naquele mesmo dia

- Você conversará com papai sobre o assunto? Bryna pestanejou para a moça

bonita que estava sentada diante de si à mesa do restaurante. Fome era a última coisa

emocionada. Deus! Como o queria! Mesmo sabendo que perderia Raff! Bem

que sentia depois de ter deixado o consultório do médico; mas prometera almoçar com Kate. Já estava ali no restaurante fazia alguns minutos e, agora, olhava sem ver para os seus cabelos pretos volumosos e seus olhos cinzentos ansiosos. Havia neles um brilho de determinação e Bryna procurou dar mais atenção à moça, ou aquele seu desligamento ainda provocaria conseqüências desagradáveis. Kate sabia ser tão dominadora como o pai quando queria alguma coisa! - O que é que você quer que eu diga a seu pai? Bryna perguntou cautelosamente, Kate a olhou com irritação.

- O que há com você hoje, Bryna? Acho que não ouviu uma só palavra do que eu disse desde que cheguei!

Bryna sorriu debilmente diante de outra característica do pai: impaciência. Será que pelo menos Kate não poderia parar de fazê-Ia lembrar-se de Raff a todo instante!

- Desculpe, Kate. Eu

A outra fez uma expressão de censura.

hoje eu tive muito trabalho pela manhã.

- Tudo bem, Bryna, mas gostaria muito que você falasse com papai sobre a minha

idéia de dividir um apartamento com Brenda, no próximo ano letivo.

- Eu achei que este assunto já estava encerrado. Seu pai não concordou, não foi? Lembrou.

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- Mas eu não me conformo com isso, entende? Tenho certeza de que se você tentasse convencê-Io acabaria cedendo.

Bryna compreendia o desejo de Kate de ser independente. Mas não sabia se a moça estava preparada para isso; principalmente em companhia de Brenda Sanders. As duas haviam se tornado amigas ao ingressarem na faculdade, um ano atrás, e Brenda tinha sempre um namorado diferente, cada vez que se encontravam. Certa vez Bryna esteve no apartamento de Kate, e o encontrou bastante desarrumado. Um rapaz de olhos sonolentos e quase despido saiu do quarto de Brenda com a maior naturalidade, como se estivesse em sua própria casa. Quanto a Kate, apesar de parecer muito extrovertida, não passava de uma ingênua. E certamente Raff gostaria que a filha permanecesse assim por mais algum tempo!

- Não acredito que eu possa persuadi-Io - disse Bryna, enquanto bebericava uma água mineral.

Hei, espere um pouco! Você não está querendo dizer

que seu caso com papai está quase terminado, está? A franqueza; cruel ou não, era própria dos Gallagher, inclusive de Paul, o irmão mais velho de Kate. Bryna percebera isso no momento em que Raff lhe apresentara os dois filhos, e ambos sugeriram que morassem juntos, na maior simplicidade. Naquela ocasião, exatamente como Raff, Bryna não queria um compromisso. Ela

apreciava ter seu próprio lar e a independência de que gozava. Por isso os dois se davam muito bem, com grande tranqüilidade A própria Kate rejeitou aquele pensamento absurdo antes que Bryna respondesse.

- Eu não acredito que vocês tenham acabado tudo! Sabe, papai nunca se deu tão

bem com alguém e, depois, vocês estão juntos há mais de seis meses. Para papai isto re-

presenta um recorde

"Kate está certa", pensou Bryna. Só que a garota desconhecia como Raff vinha se comportando ultimamente A irritabilidade dele estava cada vez mais crescente, criando um clima de dúvida e tensão entre ambos. Não havia dúvidas: aquele caso estava na hora de acabar Ate ali, Bryna se sentira grata por cada dia a mais que estivessem juntos; agora

sabia que não tinha outra escolha. Ela mesma terminaria tudo com Raff, se ele não o fizesse logo. - Até que durou bastante, não e, Kate? Bryna murmurou com um sorriso triste.

- Não é verdade! Tanto eu como Paul, estamos certos de que papai vai se casar com você! Bryna lançou-lhe um olhar cheio de ternura.

- Oh, mas eu tenho certeza

!

- Pois vocês dois deviam saber melhor do que eu que isso é impossível.

Os olhos cinzentos

tão parecidos com os do pai, fitaram-na especulativamente.

- Eu nunca pensei que uma mulher fosse rejeitar papai quando ele finalmente resolvesse se casar novamente.

- Seu pai não me pediu em casamento, Kate. Como pode afirmar que ele foi

rejeitado?

- Você é tão linda! Linda e boa. Papai certamente vai pedi-Ia em casamento em

breve. Bryna estava consciente de sua beleza. Tinha que estar, na profissão que escolhera ao terminar os estudos, há oito anos. Seus cabelos loiros platinados e os belos olhos cor de violeta fotografavam muito bem, isso sem mencionar o corpo esbelto e bem- feito. A aparência era seu instrumento de trabalho há seis anos, e continuaria sendo por mais outros tantos. Há dois anos ela criara a sua própria agência de modelos e sua aparência se tornara mais importante ainda. Mas sabia também o quanto tudo isto lhe custara: o cuidado constante com a alimentação, muito exercício, e sessões de auto- análise todos os dias diante do espelho.

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A agência fora seu primeiro passo para o sucesso, e através dela conhecera Raff.

Embora tivesse sido sua beleza o que havia lhe chamado a atenção, Bryna soubera desde o principio que não seria o suficiente para prende-Io por muito tempo, pois

mulheres até mais bonitas do que ela, cedo ou tarde tinham sido abandonadas por ele.

- De qualquer forma eu agradeço muito suas palavras tão gentis, Kate - disse

Bryna, finalmente, olhando a garota com carinho. Como poderia não gostar da filha do homem a quem amava e com o qual se parecia tanto!

Será que a criança que estava esperando também se pareceria com Raff? Que

estranho pensar em seu filho e imaginar nele cada traço de Raff! Refletiu.

- Bryna! Bryna! Agora você me deixou preocupada. Tem certeza de que papai

pretende romper com você?

- Tenho. E estou conformada. Mas que tal pedir o nosso almoço e esquecermos

tudo isso por enquanto? Assim poderemos desfrutar melhor a companhia uma da outra - disse Bryna, pensando que, depois de tudo terminado, não lhe seria mais possível nenhum relacionamento de amizade com Kate e Paul, por mais que gostasse deles. Depois de terem pedido o almoço ao garçom, kate olhou para Bryna com o cenho

franzido.

- Você não me parece muito desiludida. Bryna fez um trejeito tristonho.

- Adiantaria alguma coisa se eu me rebelasse?

- Bem

- Pode crer que não.

Kate a censurou.

- Você é sempre assim tão fria e controlada? Ou não gosta de papai?

Bryna sentiu o coração pesado com a cruel ironia daquela situação.

- Eu não creio que você queira mesmo que eu lhe responda algo que já sabe

- Pois eu quero! Papai sempre me disse que a gente só deve se entregar a alguém

não. Mas talvez fizesse você se sentir melhor

a quem realmente ame, no entanto ele nunca amou as mulheres que possuiu. Bryna beliscou distraidamente um dos frios que fazia parte da entrada.

- Isto não lhe parece muito justo, não é mesmo, Kate? Admitiu Bryna, com o rosto

pálido por baixo da pintura.

- Ele me disse que existe um certo tipo de mulher com a qual um homem jamais

pensaria em se casar Bryna engoliu em seco, reconhecendo naquelas palavras uma acusação, embora tivesse a certeza de que Raff não estaria se referindo a ela. Ele sabia perfeitamente que havia sido o primeiro e único homem em sua vida! Anos atrás, frustrada pela impossibilidade de ter um filho. Bryna satisfazia-se em atrair deliberadamente os homens com os movimentos sensuais de seu corpo, mas sem- pre recuava diante de qualquer contato físico. A verdade era que não se considerava uma mulher completa, e tal complexo criara uma camada de gelo em torno dela, que afastara todo e qualquer pretendente. O gelo só começou a se derreter quando ela conheceu Raff Somente por ele fora capaz de perder sua virgindade e, se ele se surpreendera com o fato, não o demonstrara.

Agora, aquele comentário de Kate soava profundamente desagradável aos seus ouvidos. Não demonstrando a ma impressão Bryna concordou:

- Seu pai tem razão!

Era engraçada a pouca diferença de idade entre as duas moças: apenas seis anos. Contudo Bryna se achava bem mais amadurecida do que a filha de Raff. Por um instante, teve ímpetos de contar-lhe sobre o bebê. Ainda não havia contado aquele segredo a ninguém, mas conteve-se a tempo. Deixaria para dar a notícia aos pais. Certamente ficariam, a princípio, preocupados

e surpreendidos: depois, dariam vazão à alegria. Afinal de contas, Bryna era filha única e

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Valia a

pena ir ate a Escócia, onde eles moravam, aquele fim de semana, e contar-lhes

pessoalmente. A expressão de seus rostos compensaria a longa viagem. Kate a despertou, de repente, de seus pensamentos.

a vinda inesperada de um netinho só poderia lhes causar uma grande emoção

- Bryna, está me ouvindo? Você parecia tão distraída

- Oh, Kate, desculpe! Acho que é sono

Raff casara-se muito cedo, com apenas dezoito anos, e ficara viúvo havia dez.

No que estava pensando?

Não dormi direito esta noite.

Quando se referia a esposa, contudo, ele nunca demonstrara que o seu tinha sido um casamento perfeito. Restaram-lhe os filhos, aos quais adorava, e alguma saudade. Paul e Kate, pelo contrário, adoravam lembrar-se da mãe, e Bryna sentia-se feliz por saber que, mesmo assim ambos não faziam a menor objeção a que ela ocupasse o lugar da primeira mulher do pai. Pensando nisso, Bryna sorriu para Kate ao mesmo tempo em que lhe falou, amável:

- Vamos tratar de terminar logo nosso almoço, pois preciso voltar ao trabalho!

- Está bem

mas prometa-me lutar por papai. Certo?

Bryna não respondeu. Não poderia prometer nada a Kate. Raff tinha trinta e nove anos e uma família adulta. A idéia de um bebê e de começar tudo de novo provavelmente deixaria o arrogante e destemido Raff Gallagher em pânico. Ela própria tinha ficado apavorada! Como poderia imaginar, quando entrara num restaurante igual àquele, seis meses atrás, que agora estaria grávida? Tudo começara numa reunião com Courtney Stevens, com quem Bryna deveria discutir sobre a escolha de seis de suas modelos para promover uma nova linha que ele iria introduzir em sua cadeia de lojas de moda, na Europa e na América, para o inverno Courtney provara ser tão encantador quanto descrevera a moça da agência de propaganda com a qual ela estava negociando. Bryna conhecia Janet Parker, pois haviam trabalhado juntas antes, e sabia que a amiga tinha bom gosto quando se tratava de homem. Courtney Stevens, ou Court, como ele insistira para que o chamasse, era um gigante loiro com um charme diabólico; seus olhos, profundamente azuis, brilhavam na certeza de conseguir seduzir qualquer mulher! Bryna ficara encantada desde o primeiro momento, quase se esquecendo do real motivo de estar ali, diante dele, que habilmente centralizava a atenção em torno dela em vez de falar de negócios.

precisamos resolver sobre as modelos que você vai preferir - ela

protestara, sorrindo.

- Claro! Ele concordara polidamente. - Em primeiro lugar, quero cientificá-Ia de que

e a

vamos trabalhar num solar em Kent, de minha propriedade. Achei o lugar ideal

equipe toda vai ter que pernoitar lá. Que tal se escolhesse a modelo mais alta, de olhos cor de violeta e cabelos platinados? Ele a olhara esperançoso aguardando uma resposta. Bryna sentira se insultada com a intimidade com que Court a estava tratando. Seu riso soara falso e rouco.

- Bem

- Eu sinto muito, mas não trabalho mais como modelo - disse.

- Você não poderia abrir uma exceção? Perguntou cobrindo lhe a mão delicada.

- Eu receio que não. Ele lhe dera a impressão de ter recebido um doloroso golpe.

- Não? Então que tal a gente se encontrar para

- Olá, Court - interrompe-os uma voz máscula.

Court olhara irritado para o recém-chegado. - Olá Raff, respondera de má vontade E sem outra alternativa, fizera as apresentações.

- Bryna, este é Raff Gallagher. Raff, esta é Bryna Fairchild, uma amiga.

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- Prazer em conhecê-Ia, srta. Fairchild - Raff a cumprimentara puxando uma

cadeira e sentando-se a seu lado. Por algum motivo inexplicável Bryna não ousara encará-lo até aquele momento. Quando seus olhos ainda relutantes ergueram-se para ele, algo de extraordinário aconteceu dentro dela. Assim como o eclipse do sol. Ali tão perto dela, dentro do terno azul-marinho impecável, Raff conversava descontraído, senhor de si, esbanjando um incrível fascínio. Seus olhos cinzentos e

penetrantes pareciam atravessar-lhe o corpo e devassar-Ihe a alma. Apesar de não ser exatamente bonito, Raff obscurecia qualquer outro homem que aparecesse por perto. Devia ter a mesma idade de Court, uns trinta e cinco anos, mas os traços firmes do rosto e o grisalho das têmporas faziam no parecer um pouco mais maduro.

- Sr. Gallagher! Bryna se dirigira a ele formalmente.

- Por favor, prefiro que me chame de Raff. E, se não se importa, gostaria de chamá-Ia de Bryna.

pelo contrário. Mas só de

pensar que aquele homem maravilhoso lhe era completamente inatingível ficara triste de

Ele era como o Rei Midas; tudo o que tocava, como suas propriedades e

indústrias, parecia transformar-se em ouro! Court percebera logo que havia sido passado para segundo plano e não conseguira esconder a irritação:

repente

Era claro que ela não se importara nem um pouco

- Raff, será que não poderia nos deixar um instante a sós? Bryna e eu temos

negócios importantes a discutir. Ela dirige a Agência Fairchild - Court concluiu diante do olhar descrente do amigo.

- Ah! Sim, eu já ouvi falar! Peço desculpas pela minha interrupção.

Bryna, porém, se voltara para Court Stevens com um olhar glacial.

- Deixe para outro dia, Court. Eu realmente preciso ir. Me telefone para

combinarmos. "Provavelmente estava dando as costas para um contrato que poderia ser de grande valia para a agência, caso Court Stevens apreciasse seu trabalho", pensara Bryna

ao fazer menção de se retirar. Entretanto não tinha mais condições de permanecer ali, ao lado de um homem que parecia ser o dono do mundo Court voltou os olhos acusadores para Raff.

- Está vendo só o que fez! Murmurou entre dentes. Então, quando Bryna se

levantara, Raff Gallagher fizera o mesmo, pedindo num tom formal.

- Por favor, fique, srta. Fairchild. E, mais uma vez, peço-lhe desculpas. Jogamos golfe amanhã, Court?

- Está bem! Mas você vai me dar uma vantagem.

- Eu não dou sempre?

Após despedir-se cordialmente de Bryna, Raff se afastara caminhando em direção a uma mesa, do outro lado do restaurante, onde estavam sentados dois homens.

- O diabo é que ele sempre ganha! Resmungara Court assim que Raff se foi.

- Mas

por favor, Bryna, sente-se! Temos muito que conversar!

Ela atendera ao convite, virando a cadeira de propósito para não ter que olhar para Raff Gallagher. Referindo-se novamente ao amigo, Court explicou.

- Nós nos conhecemos no colégio interno. Logo de início, ele me desclassificou no

críquete e eu bati nele com meu taco, no vestiário. Foi então que quebrei seu nariz.

Bryna tinha reparado que, realmente, havia uma pequena marca no nariz de Raff, e, naquele momento, não pôde conter o riso descontraído, ao imaginar aqueles dois ga- rotinhos brigando furiosos na escola.

- Que forma mais estranha de começar uma amizade - comentou.

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Court sorrira.

- Na verdade, nossa amizade teve origem depois da briga. Isto porque Raff disse a

todo mundo que havia caído e machucado o nariz. Se ele tivesse contado a verdade, eu teria sido expulso imediatamente do colégio. Aquele acontecimento corriqueiro selara a amizade de dois garotos por uma vida inteira! Isto queria dizer que, apesar de arrogante, Raff Gallagher possuía algumas

qualidades relevantes, afinal

reconhecê-Ias! Durante todo o tempo em que conversava com Court, Bryna evitara a todo custo olhar na direção de Raff Gallagher. Contudo, pressentiu o exato momento em que ele se levantou da mesa em que estava para se aproximar deles, antes de ir embora Os belos olhos cinzentos haviam mergulhado pela segunda vez em sua alma.

Mas seria preciso penetrar bem no fundo de sua alma para

- Espero que nos vejamos novamente, srta. Fairchild - ele se despedira, curvando- se na direção de sua mão tremula, levando-a aos lábios.

- Por favor, Raff não tire a minha chance! Queixou-se Court, gracejando. Seu amigo rira novamente.

- A escolha será de Bryna - disse suavemente, enquanto, mais uma vez, seu olhar encontrava o dela com intensidade. Em seguida se retirara. Court gemeu resignado, ainda brincando.

- Ele não perde o hábito de insistir em competir comigo! Sempre.

- Posso lhe assegurar que o Sr. Gallagher não tem nenhum interesse por mim -

comentara Bryna espontaneamente. Ao retomar ao escritório, encontrara uma caixa contendo uma única rosa vermelha em cima de sua mesa. Não vinha acompanhada de cartão, mas ela concluíra que só po- deria ser um gesto delicado de Court. Ele era bem o tipo de homem que sabia ser romântico quando queria conquistar uma mulher. Meia hora depois mais duas rosas chegaram; mais meia hora depois disso, outras três; em seguida, mais três, e mais três; até que, por volta das quatro e meia, Bryna recebera mais de uma dúzia. Sua secretária, Gilly, estava curiosíssima para saber quem as enviara. Quando o portador das flores chegou até ali, por volta das cinco horas, Bryna não pôde acreditar! Era Raff! Cortesmente ele a havia convidado para jantar e, eIa aceitara, ofegante. Jamais tinha conhecido alguém como ele! E depois de todo aquele tempo ela sabia, com certeza, que nunca mais conheceria.

CAPÍTULO II

Naquela noite, quando Raff chegou, dentro do terno preto e da camisa branca

impecável, estava mais fascinante do que nunca! Cautelosa, Bryna enfrentou o seu olhar penetrante, quando ele sentou-se no sofá a sua frente e comentou.

- Kate me contou que vocês duas almoçaram juntas hoje.

- É verdade! Confirmou.

Raff inclinou a cabeça, com uma expressão de tristeza estampada no rosto.

- Parece que está um pouco aborrecida com você. Bryna deu de ombros.

- Queria que eu conversasse com você sobre a possibilidade de ela morar com Brenda no próximo ano letivo.

- E o que foi que você lhe disse? Raff quis saber, obviamente contrariado. Bryna manteve a calma diante do tom subitamente ríspido da voz dele.

- O que você acha que eu lhe disse?

Caindo em si, Raff procurou relaxar, esticando-se comodamente na poltrona.

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- Acho que você a de concordar que aquela moça não e a companheira de

apartamento ideal que eu desejo para minha filha. "Invariavelmente, Raff sempre conseguia o que queria", concluiu Bryna consigo mesma. Ela própria era um exemplo disso. No passado, fora capaz de escapar às

armadilhas dos homens mais ardentes; no entanto, com Raff ela se entregara facilmente

a seus carinhos, mal o conhecera! E longe de sofrer qualquer complexo de culpa, como sempre imaginara que aconteceria, Bryna sentira-se nas nuvens e verdadeiramente

mulher, pela primeira vez na vida! Uma sensação maravilhosa que se repetia toda vez que faziam amor.

- Brenda talvez não - Bryna concordou. - Mas acho que Kate esta determinada a

conquistar sua independência, e ela tem mais de dezoito anos Raff se levantou de repente e respondeu, seco.

- Creio que eu sei o que é melhor para os meus filhos. Mas deixemos isso, agora

No momento estamos bastante atrasados e, se não me engano, tínhamos combinado sair - lembrou ele, zangado. Apesar do modo rude como ele falava, Bryna sentiu vontade de lhe pedir para ficar.

Preferia aconchegar-se nos braços dele e deixar o mundo girar lá fora! Há muito tempo deixara de se aborrecer com Raff pelo fato de ele não permitir que ela demonstrasse qualquer interesse pelas atividades dos seus filhos. Não era a primeira vez que isso acontecia, obrigando-a a fazê-Ia perceber o papel transitório e sem importância que desempenhava na vida dele Bryna pensou na criança que carregava no ventre e, sem um pingo de vontade de

ir àquela festa, vestiu o casaco que Raff lhe estendeu.

- Tenho certeza de que Court não vai se importar com nosso atraso - disse,

disfarçando seu desagrado. Queria que ele sorrisse, porque seu rosto ficava ainda mais bonito, e não gostava de vê-Io tão mal-humorado. Em vez de sorrir, porém, ele assentiu seriamente.

- De qualquer forma eu não gostaria de desaponta-Io! Você sabe, somos amigos

há muitos anos Bryna jamais havia visto uma amizade tão duradoura entre dois homens, embora ambos tivessem temperamentos tão diferentes: Raff era o tipo de homem austero e frio, enquanto Court era sempre gentil. Às vezes perguntava-se por que não se apaixonara por Court, naquele fatídico dia. Mas o fato é que só conseguia encará-Io como amigo, nada mais.

- O que o médico lhe disse?

O sorriso dela desapareceu instantaneamente.

- O quê?

Bryna franziu a testa e as mãos tremeram ao fechar melhor o casaco à sua volta

para se proteger do vento frio, enquanto entravam no Jaguar que os esperava. Raff girou

a chave na ignição e uma lufada de ar quente encheu o interior do veículo, mas ela continuou gelada.

- Você disse ontem à noite que o médico lhe daria os resultados dos exames hoje. Você foi à consulta, não foi?

Eu só estou um pouco anêmica. O médico me receitou

algumas vitaminas. Raff lançou-lhe um olhar preocupado.

- Sim, é claro! Ela titubeou

- Realmente você está um pouco pálida

Ah! Se ele soubesse que sua palidez se devia ao choque que lhe causara a notícia

da gravidez e do qual ainda não se recuperara!

O

corpo tão esguio ainda não sofrera os sintomas desagradáveis e comuns de seu estado,

tais como enjôos matinais, tonturas, etc

Agora podia compreender a exata e indescritível sensação do instinto maternal numa

Só que se sentia perturbada emocionalmente.

Nem mesmo o telefonema, avisando os

pais da visita que Ihes faria aquele fim de semana, conseguira reanimá-Ia um pouco

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mulher e seus efeitos intensos sobre a personalidade feminina: o amor profundo e abnegado de um ser humano para outro ser humano, que é parte do primeiro. Raff interrompeu suas divagações.

- Você está com frio anda? Está tremendo!

Ela lhe dirigiu um olhar sonhador e sorriu.

- Um pouco

- Linda!? Raff surpreendeu-se. - Choveu a maior parte do dia e a meteorologia está

prevendo chuva de granizo para esta noite.

Mas a noite está linda apesar do frio, não é?

Bryna corou, embaraçada, e procurou logo consertar.

- Acontece que gosto de chuva, ora!

- De granizo também? Ele ironizou.

Ela se lembrou então de que seria ridículo esperar que de repente Raff Gallagher

se comportasse como um amante deslumbrado. Entretanto, às vezes, gostaria que ele

não fosse tão controlado e cínico

sentimentos e demonstrar-lhe o quanto o amava. Mas aquele era um desejo impossível! Suspirando, ela admitiu pesarosamente:

- Claro que não! Mas esse mau tempo talvez seja o prenúncio de um lindo Natal, com bastante neve, este ano.

Assim, talvez, ela pudesse dar vazão aos seus

- Você pretende passar o Natal com seus pais?

- Acho que não

- Bem, se você não for passar o Natal com eles, poderá passá-Io conosco

Se Raff tivesse falado antes, provavelmente ela teria aceitado o convite; mas até ali, não percebera nenhum interesse por parte dele em passarem os festejos natalinos juntos.

- Obrigada, mas é melhor não O rosto dele se contraiu.

- É, penso que sim.

Afinal, o Natal é uma festa só da família, não é?

O percurso entre a casa de Raff e o apartamento de Court era curto, e Bryna sentiu se aliviada ao deixar a atmosfera subitamente gélida que se formara dentro do carro. Não conseguia compreender por que Raff ficara tão aborrecido por ela ter recusado seu convite diante das circunstâncias, àquela altura; ele estava ciente de seus planos havia vários dias Ao abrir a porta do apartamento, Court saudou os recém-chegados alegremente. Beijou Bryna levemente nos lábios, tomando em seguida o seu casaco. - Minha dama favorita! Como vocês demoraram! Raff deve ser o culpado pelo

atraso,

-.Naturalmente - Raff confirmou, tranqüilo.

- Só porque resolvi dar uma festa hoje e poderei dançar com Bryna e segurá-Ia em meus braços! Ele está com ciúmes. Não é Bryna?

Ela simplesmente riu. Depois, deu uma olhada em volta. A ampla sala de estar estava despida de móveis, e alguns casais moviam-se sensualmente colados, ao som de uma música romântica.

- Você está linda esta noite! Court elogiou Bryna com ar de admiração.

Raff lhe dissera o mesmo antes, mas o elogio de Court era bem mais eloqüente. Ele ainda a olhava extasiado.

- Há um magnetismo irresistível em você

Meio encabulada, Bryna procurou desviar a atenção de Court sobre si

- Você foi multo injusto com Raff, sabe, Court

A culpa do nosso atraso foi

exclusivamente minha! Court balançou a cabeça em sinal de censura.

- Aposto que foi por causa do serviço. Raff ainda não a recriminou por trabalhar demais?

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- Ele já comentou sobre isso. Mas, assim como ele não gosta de que interfiram nos seus negócios, eu também não! Court deu uma risadinha maliciosa.

- Talvez seja por isso que Raff esteja apaixonado; as antigas namoradas dele

costumavam renunciar às próprias vontades para satisfazer-lhe os caprichos bem diferente.

- Às vezes me pergunto se vocês dois se estimam ou se odeiam! Bryna disse em tom de brincadeira.

- Claro que nos estimamos! Declarou Court em voz solene - Mas se cara feia

matasse eu estaria morto neste instante. Ou será que não é comigo que Raff está

zangado?

Disfarçadamente, Bryna deu uma olhada para Raff. Realmente, ele parecia bastante zangado. Mas qual seria o motivo daquela irritação toda? Seria ainda por causa do Natal? Instantes depois, Raff estava em pé ao lado do bar na sala de jantar adjacente, com um copo de bebida intacto na mão, sem reparar que Rosemary Chater, uma ruiva

Você é

tentadora fazia o possível para chamar sua atenção. Ela estava usando um vestido justo, com um decote imenso, e encarando-o com um olhar muito convidativo no rosto bonito, Raff, entretanto, olhava fixamente para Court e Bryna, que dançavam lentamente ao som da musica suave. Sorrindo para Court, ela brincou, descontraída.

- Acho que Raff está zangado é com você! O que fez a ele, hein?

- É mesmo

- Não acredito! Bryna riu.

- Ganhei, sim! Claro que ele não parecia muito concentrado no jogo

!

Eu tinha me esquecido, hoje eu ganhei dele no golfe!

Mas, de

qualquer forma, eu o venci. Será que ele está preocupado com o trabalho?

- Não. Eu não creio que seja isso

murmurou Bryna, bastante intrigada.

O que estaria acontecendo? Meses atrás, Raff contratara um assistente muito capaz: Stuart Hillier. Stuart tinha uma beleza harmoniosa, mas Bryna não simpatizava muito com ele, achara-o um convencido. Não poderia negar, entretanto, as qualidades desse rapaz que amenizara, e muito, as responsabilidades de Raff

- Você sabe de alguma coisa, Court? Ela perguntou, disfarçando a ansiedade.

Court deu de ombros. - Como é que eu vou saber, Bryna? Raff nunca discute sobre seus negócios comigo. Ou talvez nem sejam os negócios que o preocupem, mas certamente deve haver algo errado com ele "Possivelmente Raff queria dar fim ao relacionamento deles e estava sem jeito de

lhe dar a notícia", pensou Bryna. Ou talvez não quisesse magoá-Ia. O que deveria fazer, nesse caso? Romper com ele primeiro, salvaguardando o amor próprio ferido; ou esperar para ver até que ponto Raff chegaria

- Hei, por que você está tão calada? Eu disse alguma coisa que não devia? Court perguntou preocupado. Bryna procurou afastar os pensamentos tristes e sorriu.

sugeriu ela, quando

a música terminou.

Court brincou ao observar o olhar

- Tem razão. É melhor você tomar cuidado guloso de Rosemary para o amigo.

Irritada, Bryna ponderou sobre aquele mundo fútil e um tanto egoísta em que vivia,

e sentiu-se tomada de uma repentina opressão. Se bem que o ambiente que freqüentava

como modelo profissional não ficava muito atrás

A verdade era que as mulheres que

viviam no mundo de Raff o cobiçavam sem o menor disfarce, embora ele não lhes desse

nenhuma atenção. E, mesmo agora, parecia olhar entediado para Rosemary Chater.

- Vamos nos reunir a Raff antes que Rosemary o monopolize

11

Quando Curt e Bryna se aproximaram dos dois, porém, Raff imediatamente conduziu a jovem à pista de danças, parecendo gostar do modo como seu corpo sensual colou-se instantaneamente ao dele. - Não a dúvida alguma de que ela está querendo fisga-lo - Court comentou

baixinho, ao lado de Bryna, que observava o casal dançando com os olhos semicerrados. Bryna voltou-se para ele e respondeu com decisão.

- Pois eu não vou deixar, esta bem?

Court a olhou espantado.

- Eu acredito. Mas como você pode agüentar isso? Não esta com ciúmes?

Ciúmes? Ela estava simplesmente detestando o modo como a outra mulher provocava Raff, mas o que e que poderia fazer se ele estava gostando? Não seria tão tola a ponto de fazer uma cena de ciúmes Afinal, os dois estavam apenas dançando e, se se

descontrolasse, provocando um escândalo, ai sim é que perderia Raff mais depressa! Ele odiava cenas, pois lhe confessara, certa vez, que não suportava o temperamento terrivelmente ciumento da esposa.

realmente - Bryna suspirou magoada. - Mas vamos deixar isso pra Ia e

tratar de comer alguma coisa

- Estou

- Veja! Estão servindo uns salgadinhos deliciosos lá na outra sala

Entretanto, aquela fora uma mera desculpa de Bryna para sair dali e tirar de seus

olhos aquela cena amorosa entre Raff e Rosemary. Sentindo os olhos arderem por prender as lágrimas, ela mordiscou um sanduíche desinteressadamente.

- Está tudo bem entre você e Raff? Court perguntou, notando o semblante triste da

moça. - Claro! Ela respondeu forçando uma expressão mais alegre, ao voltar o olhar para Court.

Ele lhe pareceu muito mais velho quando seu sorriso de menino abandonou-lhe o

rosto.

- Você tem certeza? Insistiu.

Neste instante Bryna não mais conseguiu conter o nó que a sufocava na garganta. As lágrimas começaram a correr lentamente pelas suas faces. E, incoerentemente, ela

tentava pensar numa maneira de morder a coxinha de frango que tinha na mão sem se engasgar!

- Você alguma vez já viu Raff se comportar desse jeito na minha frente? Perguntou,

quando voltavam ao salão de baile vendo que Raff continuava com o rosto colado ao de

Rosemary Seguindo seu olhar, Court praguejou, furioso.

- Droga! Eu vou lá separá-Ios Bryna o deteve.

- Espere! Você não quer simplesmente apanhar meu casaco e chamar um táxi para me levar para casa?

- Eu mesmo a levarei

- Não, Court. Esta festa é sua e o anfitrião não deve abandonar seus convidados.

- Ninguém vai reparar

- Obrigada, Court Mas realmente eu gostaria de ir para casa sozinha.

Além do mais, isso agora não tem a menor importância

Court quis insistir, mas a súplica que havia nos olhos dela o silenciou. Sem olhar para o casal que continuava dançando, ambos dirigiram se até o hall de entrada para apanhar o casaco de Bryna. Raff a humilhara publicamente com aquela mulher, quebrando sua promessa, pois sempre lhe garantira algo que nunca aconteceria Gentilmente, Court ajudou-a a vestir o casaco.

- Se você precisar de um ombro para chorar, ele se ofereceu. Ela sorriu tristemente.

12

Sei que posso contar com você, Court. Eu

- Aonde você pensa que vai, Bryna? Raff perguntou, em tom áspero, enquanto, se aproximava dos dois.

Bryna levou um segundo para recuperar o controle antes de se voltar para ele.

- Eu já estava de saída

Os olhos frios e cinzentos voltaram-se para Court.

- Você também?

Court enfrentou o amigo sem hesitar.

- Eu me ofereci para levar Bryna para casa mas ela insiste em ir sozinha.

- Está me dando o fora, Bryna? Indagou Raff, parecendo furioso.

- Eu

Court explodiu:

- Escute aqui, Raff, o que você esperava que Bryna fizesse? Que interrompesse

seu idílio amoroso com Rosemary e lhe avisasse que ia embora?!

- Não houve idílio algum, droga! Eu estava apenas dançando com Rosemary.

- Pois não é bem isso que observamos há pouco. Court prosseguiu acusando, Raff.

Os olhos cinzentos de Raff brilharam de raiva, enquanto Bryna engoliu em seco, constrangida por ser o motivo de discórdia entre os dois amigos.

- Eu realmente queria ir embora

- Então vou com você - disse Raff. Ela respondeu tolamente.

ela interveio

- Mas é ainda muito cedo! Não, quero estragar a sua noite. Prefiro que você fique. Está bem? Raff segurou-Ihe o braço com força.

- Eu já disse que vou com você!

- Mas talvez Bryna não queira que você a acompanhe! Disse Court asperamente.

Bryna comprimiu os lábios, aflita.

- Ela veio comigo à festa e vai ter que ir embora comigo! Não se meta! Ameaçou Raff, descontrolado. Ela olhou surpresa, não entendendo seu procedimento. Será que Raff não

compreendia que a ocasião era perfeita para um rompimento? Por que então adiar por mais tempo aquela separação? Mas ele parecia tão inflexível que Bryna preferiu não contestá-Io. Por isso, tocando de leve o braço de Court, disse:

- Obrigada, Court, Raff me levara para casa.

- Eu lhe telefonarei amanhã - Raff disse secamente ao amigo

- Acho bom mesmo, e bem cedo. Caso contrário quem vai lhe telefonar sou eu - Court avisou, procurando se controlar.

calados durante todo o

percurso. Quando chegaram, ele a acompanhou até o apartamento. Depois de destrancar a porta, Bryna voltou-se para ele

No

luxuoso

Jaguar de

Raff,

ambos

permaneceram

- Bem

Acho que não há nenhum sentido em convidar você para entrar

- É claro que eu vou entrar, Bryna! A voz de Raff soou rouca, quando seguiu logo atrás dela.

Bryna tremia quando o encarou nervosamente na sala de estar Aproximando-se, ele parou diante dela.

- Rosemary deve ter ficado à sua espera

- Ninguém está esperando por mim. É você quem eu quero, Bryna Descrente, ela balbuciou:

- Não

- Preciso de você esta noite, Bryna! Raff quase implorou

- Mas antes

você não pode estar falando sério

13

- Eu estava zangado há pouco, mas isso já passou. Agora quero sentir a maciez de suas pernas em torno de mim enquanto lhe dou prazer! Raff sabia fazer amor de um jeito diferente. Às vezes era ardente, fogoso,

apressado

Aquela noite Bryna pressentia que Raff a queria com uma paixão louca e desvairada. Queria que ambos se perdessem no estranho labirinto do desejo e se encontrassem finalmente no clímax do prazer. Entretanto, depois de tudo o que

acontecera na festa, ela só poderia dar lhe uma resposta. E essa resposta era não. Aturdida, engoliu em seco.

De outras vezes tão meigo e suave que a deixava quase louca de desejo.

- Raff, eu não sei se posso. Eu não

- Claro que pode! Calou o corpo másculo no dela, movendo-se de maneira provocante.

Sim, Bryna podia, por que não? Esse dia seria a despedida deles. Nem que depois

aquela noite eles seriam felizes

comesse o pão que o diabo amassou! Mas, aquela noite

como nunca e, como nunca, ela o amaria. Depois, lhe diria que estava tudo terminado entre os dois.

Enlaçando o pescoço dele, Bryna sussurrou, calidamente:

- Está bem, Raff, faça amor comigo!

Fazer amor com Raff era o mesmo que perder a razão Raff anuviaria seu cérebro até que ela não pudesse mais raciocinar e nem pensar em nada, exceto nele! Raff, porém, era um homem que raramente perdia o controle, enquanto que ela

logo ficou ofegante no instante em que ele começou a tirar as roupas de ambos no meio

da sala. Geralmente tomavam uma ducha demorada antes, juntos ou separados, e depois

iam para a coma. E, nesse ritual, ela nunca via nele nenhum sinal de impetuosidade. Mas naquele momento reagia de forma diferente, em face ao ato de amor

Ela

também. Era como se a criança em seu ventre tivesse conhecimento daquela despedida desesperada e impulsionasse, a ambos com fúria. Raff tinha um corpo magnífico, forte e flexível! Ao tirar a última peça que o cobria, Bryna pôde ver que ele já estava totalmente estimulado. As mãos fortes se emaranharam

nos seus cabelos macios e ele a beijou profundamente. Ela suspirou de prazer ao senti-Io acariciar e envolver um de seus seios palpitantes. Bryna estranhara a sensibilidade aguçada de seus seios nas últimas semanas; agora sabia que eles estavam se preparando para alimentar o bebê. E, quando a cabeça morena de Raff desceu para sugar um mamilo, o contato de língua foi tão delicioso que

no instante seguinte ela se esqueceu da criança e suas pernas fraquejaram de volúpia.

Pouco depois, os dois escorregaram sobre o carpete, enlouquecidos de desejo.

- Não se mova - pediu Raff, quando ela quis acariciá-lo.

Bryna experimentou então a sensação mais erótica da sua vida. Lentamente, Raff

a beijou como nunca o fizera, descobrindo pontos de prazer que a levaram

repentinamente à beira do orgasmo. Finalmente, quando ela não mais suportava esperar, ele a penetrou e começou a se mover dentro dela, vagarosamente. A principio Bryna correspondeu àquele ritmo lento, mas depois passou a se agitar freneticamente. Excitado

pelo seu desejo, Raff acompanhou seus movimentos com a mesma alucinação. O êxtase que se seguiu foi para ambos a coisa mais maravilhosa desse mundo. Mais tarde, Bryna abriu os olhos e sentiu a escuridão envolvendo-a. Ainda aturdida,

percebeu quando Raff se levantou e carregou-a para o quarto, deitando-a delicadamente entre as cobertas. Deitando-se sobre ela, murmurou:

- Venha, meu amor

vamos, outra vez!

Ela mal havia se recobrado do assalto anterior e Raff começava a excitá-Ia novamente. Talvez quisesse leva-Ia à loucura, pois logo seu corpo se contorcia, úmido de suor, enquanto lhe suplicava que a penetrasse mais uma vez.

14

Ele então parou para olhá-Ia com uma expressão selvagem estampada no rosto.

- Agora acredita que eu quero você?

- Oh, sim. Mas por favor, por favor, Raff. - ela deixou escapar um suspiro ardente

de desejo. Fizeram amor, então, pela segunda vez, e experimentaram a mesma sensação deliciosa e indescritível Raff já estava no banheiro tomando banho e barbeando-se quando Bryna acordou na manhã seguinte, abraçando o travesseiro com um suspiro de satisfação. Lembrou-se, de repente, de que era sábado, dia de sua viagem para a Escócia, que estava programada para algumas horas mais tarde. As lembranças da noite anterior pareciam-lhe muito vivas, tal a intensidade com que Raff a possuíra. E ainda agora seu corpo vibrava as recordações daquelas carícias ardentes. Nunca haviam estado tão próximos um do outro. Bryna estava apreensiva por ter que romper o compromisso com Raff ainda naquela manhã. "Mas que outra alternativa tinha?", questionou-se. Recém barbeado, ele sorriu ao sair do banheiro, usando apenas a calça preta do

terno. Aproximando-se da cama, sentou-se para afagar-lhe os cabelos loiros, derrama dos sobre o travesseiro.

- Pensei que você quisesse dormir o dia inteiro - brincou

Ela ansiava por tocar lhe o rosto cheirando a loção após barba e cobrir a palma de sua mão de beijos, confessado o quanto o amava, contar-lhe sobre o bebê, fruto do amor de ambos. Em vez disso, disse friamente:

- Eu vou hoje para a Escócia para passar o fim de semana com meus pais. Foi com

um esforço enorme que continuou encarando-o e prosseguiu: Acho que depois disso

precisaremos de um tempo para nos acostumarmos com o fato de que tudo esta terminado entre nós.

O olhar de Raff endureceu imediatamente

- Como assim, está terminado?

Bryna suspirou - Nos dois sabemos disso já faz algum tempo, Raff. Portanto não a razão para

continuarmos nos enganando

Ele se levantou da cama de um salto, os olhos cinzentos fuzilando.

- Quando você decidiu isso? Perguntou.

Ela deu de ombros, recostando se nos travesseiros.

- Quando eu decidi isso? Você quer dizer

- Estou me referindo a visita a seus pais.

- Eu lhes telefonei ontem à tarde e tomei as providencias.

- Então você já havia resolvido tudo quando nos encontramos ontem à noite?

- Sim. Não

A voz dele se alterou.

- Isso quer dizer que tudo que aconteceu esta noite não passou de uma

representação! Bryna engoliu seco.

- Não, isso não, Raff! Foi uma despedida.

Raff agarrou-a repentinamente pelos braços e puxou-a para si.

- Despedida? Olhe bem nos meus olhos e me diga que não me quer mais! Ordenou

asperamente. Por um instante ela quase fraquejou, mas lembrou-se de seu amor-próprio. Nunca

se perdoaria se fizesse do filho um instrumento para salvar aquela relação. Decidida, enfrentou o olhar austero de Raff.

- Eu não quero mais você!

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- Maldita seja! Ele praguejou, fora de si, soltando a tão abruptamente que ela caiu sobre os travesseiros. Depois, ela o observou estarrecida, enquanto ele acabava de se vestir. Antes de deixar o apartamento, ainda repetiu:

- Maldita! E saiu, batendo a porta.

Abraçada aos travesseiros, Bryna chorou desesperadamente.

CAPÍTULO III

Assim que Bryna chegou à casa dos pais, na Escócia, deu-lhes a grande notícia, com os olhos brilhando de contentamento. Estava tão excitada que não poderia guardar aquele segredo nem mais um minuto.

- Você tem certeza, querida? Perguntou sua mãe entre lágrimas, mal conseguindo acreditar em tanta felicidade.

- Sim, mamãe. Eu estou realmente grávida ela respondeu.

Como Bryna já esperava, a reação dos pais diante da expectativa de um neto era

de pura alegria. E era uma delícia receber sorrisos e abraços, poder finalmente compar- tilhar sua felicidade com

- É simplesmente incrível! Exclamou seu pai, emocionado. Ele era alto e forte, de

cabelos grisalhos e olhos azuis.

- Eu entendo, papai. Também custei a acreditar. O Dr. Frank, porém, está ciente de

todo o relatório médico anterior, que constatou minha esterilidade, e garantiu-me que o quadro clínico mudou totalmente e que estou mesmo grávida.

não é, minha filha? A mãe de Bryna balançou a cabeça abismada.

- Quem diria

Pequena, morena e roliça, ela chorava de emoção.

- E pensar que você sofreu tanto pensando que jamais poderia ter filhos!

- Bem, meu médico disse também que agora eu não me preocupasse mais com

isso e fosse escolhendo alguns nomes. Bryna costumava visitar os pais regularmente. A casa em que nascera ficava num

local montanhoso, onde seu pai possuía e dirigia uma escola de esquiagem.

- Agora chega de lágrimas! Vamos tratar de jantar que estou morrendo de fome - sugeriu Bryna, antes de levar a pequena maleta de viagem até seu quarto,

- Excelente idéia! Aprovou seu pai. - E vamos tomar vinho para comemorar. Você pode tomar vinho?

- Claro que sim! Ela assentiu, sorrindo.

então não há ocasião mais apropriada do que esta! E foi cuidando de

escolher uma garrafa. Quando estavam na metade da refeição, James Fairchild já discutia sobre as

escolas que seu neto poderia freqüentar! Bryna apenas sorria com indulgência, permitindo-lhe curtir a vontade o papel de avô. A esposa porém o censurou:

- Que exagero, James! Não acha que é cedo demais para falar em escola? Além do mais, compete à Bryna e ao Sr. GalIagher decidirem sobre o assunto. Uma sombra de tristeza anuviou os olhos de Bryna.

- Bem

- Raff e eu não estamos mais juntos - anunciou simplesmente

Ela havia contado tudo sobre Raff aos pais, não Ihes omitindo nada; inclusive que não tinha com ele nenhum compromisso sério. Como respeitavam suas decisões, eles nunca interferiram em sua vida particular. Naquele instante, contudo, o Sr. James ficou sério.

- Eu não sou um homem antiquado, por isso não penso que vocês dois devam se

casar por causa da criança Certo? Mas acho que, pelo menos, ele vai se interessar pela

educação do próprio filho, não concorda?

- O filho e meu, papai

Raff nem sequer sabe que estou grávida.

16

- Você não lhe contou nada? O Sr. James a olhou surpreso. - Não acha essa atitude bastante egoísta, menina? Bryna corou.

- Bem, ele já tem dois filhos. Por que vai querer se preocupar com o meu?

- Por que

A mãe interveio com determinação:

- Vamos, James, este não é o momento certo para discussões. Afinal de contas,

estamos fazendo uma comemoração. Esqueceu? Tenho certeza de que Bryna sabe o que está fazendo.

- Mas, Mary

- Por favor, James! Hoje não!

Apesar da constituição pequena e franzina a Sra. Fairchild tinha um temperamento

forte e decidido. E Bryna sorriu com tristeza quando seu pai, quase duas vezes maior que

a mãe, fechou-se em silêncio. Ela não pretendia criar nenhum atrito entre os dois e muito menos, falar de Raff naquele fim de semana. De qualquer forma, a noite foi muito agradável para todos. Divertiram-se fazendo planos para o bebê e sugerindo os nomes mais excêntricos que conseguiam imaginar. A verdade era que Bryna já tinha um nome de menino em mente: Raffety James, em homenagem ao pai e ao avô. Só estava difícil escolher um nome de menina. O instinto materno, porém, dizia-lhe que ela carregava um filho homem. Uma vez sozinha no quarto, na cama de solteira, Bryna não conseguia deixar de pensar em Raff. Permitiu então que lágrimas abundantes de tristeza lhe corressem livremente pelas faces. No dia seguinte, ao caminhar com o pai pela neve espessa até o pavilhão de esqui, Bryna compreendeu que seu lar seria sempre a Escócia. Durante o passeio, ambos saudavam os instrutores de esqui. A maioria deles trabalhava com o Sr. James Fairchild havia anos. Bryna aprendera a esquiar desde que começara a andar, e agora ansiava por se juntar aos esquiadores nas encostas brancas. Lembrou-se, porem, de que não podia ser tão egoísta a ponto de arriscar a segurança da criança em seu ventre. Contudo, não esquecera a sensação de liberdade que os esquis lhe davam. Era quase tão delicioso

como fazer amor com Raff. Mas quase

- Espero que você não esteja pretendendo cometer essa loucura! Uma voz, áspera

e fria como a neve à sua volta, soou atrás dela. Bryna voltou-se tão depressa que o chão pareceu girar em torno dela. Viu, num relance, a imagem de Raff e então mergulhou na mais absoluta escuridão. Quando recobrou a consciência, Bryna percebeu que estava deitada no sofá do escritório do pai. Seu olhar apreensivo deparou com o vulto do homem em pé, de costas para ela, olhando a paisagem das montanhas através da janela. Ele se vestia de modo usual: suéter preto e calça jeans. Mas não era pela roupa que o identificava naquele mo- mento. Ela reconheceria aquela silhueta em qualquer lugar: cabelos pretos, ombros largos, quadris estreitos, pernas longas. Raff estava realmente ali! Não era uma ilusão nascida da sua ansiedade louca!

quase

Não, não era imaginação.

Bryna sentou-se de repente, e o movimento brusco atraiu a atenção de Raff, que se voltou rápido para ela. Enfrentando aquele olhar de censura, ela perguntou:

- Onde está meu pai?

- Ele precisou sair para orientar alguns instrutores de esqui. Uma vez que

constatamos que você sofreu um simples desmaio, ele ficou mais tranqüilo e deixou você aos meus cuidados.

17

Sem dúvida o pai encarava a presença de Raff como uma possibilidade de ambos

conciliarem melhor aquela situação, por causa do bebê reconciliação naquelas condições.

- Vocês já se apresentaram? Perguntou Bryna, referindo-se aos pais, enquanto se acomodava melhor no sofá. Raff aproximou-se dela com as mãos enfiadas nos bolsos da calça.

- É claro! Seu pai encontrou-a inconsciente em meus braços. - Esperei que você me contasse, Bryna. Mas, em vez disso, você preferiu fugir de mim.

Só que ela não aceitaria uma

- E que importância tem para você a minha gravidez?

- É meu filho, não é?

Ela moveu a cabeça jogando os cabelos para trás, em desafio.

- Talvez o bebê não seja seu!

Bryna não se importava com o fato de estar admitindo a gravidez, mesmo porque

Céus, nem

seria inútil continuar negando. O médico já havia confirmado tudo e depois lhe ocorrera que Raff fosse capaz de reconhecer os sintomas. Raff não perdeu o controle e disse calmamente:

- Eu sei que ele é meu

Engolindo em seco, ela perguntou:

- Nesse caso, o que você pretende fazer a respeito?

- E você? O que é que pretende fazer? Ele quis saber primeiro.

- Eu? Bryna titubeou, olhando-o assustada. Então uma raiva súbita sombreou a

expressão do seu rosto ao perceber o que ele queria dizer. - Como ousa pensar que eu Nesse momento o Sr. James irrompeu dentro da sala, ansioso.

- Bryna! Graças a Deus você está bem!

Ela lhe sorriu e apertou de leve seu braço, controlando o ódio que sentia de Raff naquele momento.

- Eu estou bem, papai. Não se preocupe!

Raff interveio suavemente:

- Bryna tem trabalhado demais, Sr. James. Vou leva-Ia para um passeio ao ar livre.

- Talvez ela ainda não esteja disposta

- É uma boa idéia, papai. Bryna o tranqüilizou com um sorriso largo. Mas seu coração disparou quando Raff a ajudou a vestir o casaco.

- Eu a trarei de volta depois.

Novamente, Bryna tocou o braço do pai quando este a olhou, demonstrando

incerteza, e disse:

- Eu o verei na hora do almoço.

- Seu pai já sabe, não, Bryna? Raff perguntou enquanto caminhavam no sopé da montanha, vendo vários esquiadores divertindo-se pelas encostas.

- Sim, meus pais sabem.

- No entanto ambos foram bastante polidos para comigo quando cheguei em sua

casa. Eu daria uma surra no homem que deixasse Kate grávida sem que estivessem

casados.

- Meus pais me amam tanto quanto você ama Kate. Só que eles sabem que sou bastante madura para me cuidar sozinha.

- Bem

Bryna parou para encará-lo.

mas você ainda não me respondeu o que pensa sobre tudo isso.

- Escute só uma coisa, Raff. Por que eu deveria discutir com você sobre o assunto?

Não havia nenhum compromisso entre nós, esqueceu? E ontem de manhã eu falei sério:

não quero mais saber de você! Ele segurou firmemente seus braços.

- Você não pensa em nosso filho?

- Você já tem dois filhos, Raff. Não precisa do meu!

18

Furioso, ele a sacudiu com força.

- Afinal, você quer essa criança?

- Sim! Gritou ela, com as lágrimas já saltando dos seus olhos.

- Pois eu também.

Ela se desvencilhou dele, agressiva.

- Mas por quê? Isto é injusto! Você pode ter os filhos que quiser com qualquer mulher, enquanto eu

- Você o quê? Ele quis saber.

Respirando fundo para se acalmar, eIa desconversou:

- Eu, bem, eu quero este bebê. Ele é só meu!

- Ele é nosso. É também um irmão ou irmã de Kate e Paul.

Bryna nunca havia pensado no bebê sob esse ângulo. Concluiu que dessa forma

Raff tinha suas razões. Mesmo assim falou:

- E dai? Eles poderão visitar o bebê, se quiserem.

- E quanto a mim? Quando eu poderia ver meu filho? Uma vez por mês, duas

semanas durante o verão, ou em Natais alternados, se tiver sorte?

- Nossos advogados poderão achar uma solução conveniente para nós dois

- Nenhum advogado vai achar uma solução para nós, coisa nenhuma! Você vai se casar comigo e está acabado! Ele gritou, exasperado.

Bryna sabia que Raff era arrogante, autoritário e às vezes até irracional; mas nunca o vira perder o controle. Completamente surpresa, ela se encolheu, assustada.

- Raff, você já errou uma vez, lembra-se? Não vai querer errar outra vez, não é?

Um casamento nestas condições não pode dar certo

Raff lhe contara certa vez que ele e Josey haviam se casado muito cedo porque ela

estava grávida. Naquela época, ambos estavam apaixonados e assumiram os riscos de um casamento prematuro. Eram adolescentes e achavam que podiam ser donos do mundo, se quisessem. Entretanto logo se decepcionaram.

Parece que é meu destino me casar nessas circunstâncias. Meu Deus,

Bryna! Não tem nem comparação! Eu agora tenho trinta e nove anos, e não dezoito. E

você também não é nenhuma adolescente!

Bryna suspirou, aturdida ante todos aqueles acontecimentos. Depois falou com decisão:

ponderou, calmamente.

É

-

!

- Eu não quero me casar com você, Raff. Será que não entende? Ele a olhou fixamente.

- Você não quer mais fazer amor comigo?

- Não. Não quero! Ela respondeu sem hesitar. A expressão do rosto dele

endureceu subitamente. - Bem em você. Está bem assim?

Bryna olhou-o espantada. Teria Raff enlouquecido? "Isso pode ser resolvido "

facilmente sexo com ela

filho que estava para nascer tinha importância. Pela criança, ele estava disposto a fazer qualquer coisa, até se casar sem amor. E, se tentasse contrariar-lhe os planos, nem

mesmo seus pais poderiam ajudá-Ia a desafiar um dos homens mais ricos da Inglaterra. Para onde fugiria, caso quisesse se esconder dele? Com voz trêmula ela disse:

isso pode ser resolvido facilmente, prometo não tocar

E, pela expressão do rosto dele, falara a sério, pouco importava não fazer Era exatamente isto que ela suspeitava já fazia algum tempo. Apenas o

- Não posso dar-lhe uma resposta agora, Raff. Preciso de tempo para pensar. Raff baixou o olhar para o ventre que logo começaria a crescer.

- O tempo voa, Bryna. Portanto não se demore muito.

- Não se preocupe. Quero apenas alguns dias para refletir.

- Está bem - ele concordou. - Você terá alguns dias.

19

Raff sabia ser encantador quando queria, e foi exatamente o que fez durante o almoço com os pais de Bryna. Descontraído e alegre, comentou sobre a vida em Londres, respondendo livremente às perguntas a respeito de Kate e Paul. Bryna sabia que seus pais julgavam que cabia a ela resolver sobre seu futuro e o da criança. Naquele momento, porém, vendo Raff tão solícito e gentil durante a refeição, os dois certamente se perguntavam por que ela hesitava em se decidir pelo casamento. Afinal, o comportamento de Raff deixava óbvio que não fora ele quem rompera o rela- cionamento. E eles sabiam muito bem o quanto à filha o amava. Bryna lembrou-se da primeira noite em que ela e Raff saíram juntos. Ele se propusera deliberadamente a seduzi-Ia com um jantar caro, saboreado à luz de velas e com deliciosas músicas românticas tocando suavemente ao fundo. Sentado à sua frente, Raff olhava-a fixamente com seus olhos cinzentos e sensuais. Ela fez o possível para não se deixar seduzir. Afinal, mal o conhecia! Contudo, a enorme atração que sentia por ele era inevitável. Depois do jantar, ele sugeriu que caminhassem um pouco a pé pelo parque, antes de levá-Ia para casa. A idéia lhe pareceu encantadora, pois o perfume das primeiras flores do verão era tão inebriante quanto à companhia dele. E o vinho que ambos haviam tomado durante o jantar a deixara leve e descontraída. À porta de casa, ela o convidou para entrar no apartamento a fim de tomarem um café, mas, para sua grande surpresa, ele se recusou. E, com um inocente beijo de boa - noite, despediu-se e foi embora. Esse único beijo foi o suficiente para deixá-Ia apaixonada. Court lhe telefonou logo no dia seguinte, convidando-a para jantar, e ela imediatamente recusou. Esperou que Raff ligasse, eufórica como uma adolescente, mas ele não a procurou. Cansada de esperar, acabou dormindo com raiva e censurando-se por ter recusado o convite de um homem bonito e simpático como Court Stevens, por causa de Raff.

No dia seguinte, ainda estava zangada consigo mesma por ter sido tão ingênua, acreditando que Raff Gallagher poderia corresponder aos seus sentimentos! Aquele homem vivia cercado de belas mulheres e não se apegava a nenhuma. Afinal, concluiu

que, na noite anterior, havia sido tão tola quanto às outras. Estava pensando exatamente nisso, quando ergueu de repente os olhos e deparou com Raff Gallagher parado à porta do escritório, sem sequer ter-se feito anunciar.

- Você está nervosa? Ele perguntou com um ar espantado, entrando na sala e

fechando a porta devagar. Surpresa, ela percebeu que havia quebrado o lápis em sua mão. Profundamente envergonhada, jogou as duas metades no cesto de papéis.

- Não, não estou. Eu não me lembro de que tenhamos marcado uma entrevista, Sr.

Gallagher. Calmamente ele se sentou numa cadeira à sua frente. - Você tem um pouco de café? Ainda não acordei direito, hoje. Os olhos de Bryna fuzilaram de raiva. Como ele se atrevia a ir lhe pedir café depois

de ter passado uma bela noitada com uma de suas mulheres!

- Por que não ficou dormindo mais um pouco? Ele inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos sonolentos, ignorando por completo a agressividade dela.

- Eu não estava dormindo .

Bryna não compreendeu.

- Acho que estou ficando velho. Há uns dois anos, eu era capaz de voar para os

Estados Unidos, trabalhar a noite toda e depois voltar para a Inglaterra, sem nenhum problema. No entanto agora me sinto simplesmente exausto! Explicou ele, levantando a cabeça e abrindo os olhos.

20

murmurou Bryna, sem saber o que dizer Depois, abismada, ouviu-o

relatar a exaustiva jornada nas últimas vinte e quatro horas. Ficou claro o motivo pelo qual ele não lhe telefonara. Simplesmente não houvera

tempo! Além disso, ela sabia como as viagens contra os fusos horários podiam ser cansativas. Apressou-se em lhe servir um café.

- Entendo

- Não acha que está trabalhando demais?

- Eu não quis dar a Court a chance de conquistar a mulher que eu quero tanto!

Percebe? Ele engoliu um gole de café e a olhou significativamente. Apesar de estar acostumada a toda sorte de elogios masculinos dirigidos a sua

beleza durante sua carreira de modelo, nesse instante ela corou como uma colegial.

- Bem

Ele a olhou, preocupado.

- Isto quer dizer que eu cheguei tarde demais? Court já lhe telefonou?

- Acho melhor você ir para casa descansar e

- Então venha comigo! Ele suplicou roucamente, como se seu cansaço de repente

você devia ter me ligado antes de dar-se ao trabalho de vir até aqui.

houvesse se dissipado. Bryna engoliu em seco diante da objetividade do pedido dele.

- Não posso! E, se você quiser me ver novamente, mais tarde pode me telefonar!

Disse com firmeza, esforçando-se para resistir à tentação de ir para a casa dele naquele

mesmo instante.

- Está bem. Eu lhe telefonarei mais tarde - ele concordou, levantando-se. De

repente, tomou-a em seus braços fortes e a beijou na boca. - Da próxima vez que eu tiver que viajar inesperadamente a negócios, avisarei - prometeu, depois. "Da próxima vez?" Bryna ponderou sobre aquela observação a tarde toda. Então o relacionamento deles seria mais duradouro do que ela pudera imaginar! E, conhecendo-o como o conhecia, sabia que, nesse caso, Raff Gallagher não se contentaria muito tempo com despedidas ingênuas à porta de casa. Portanto, antes de aceitar um novo convite para sair, ela deveria pensar bem no assunto. Se o jantar romântico e o passeio pelo parque à luz do luar, em companhia de Raff, fora uma surpresa para ela, passar a noite na casa dele com seus dois filhos foi uma

surpresa ainda maior. Quando entraram de carro no imenso jardim da casa, Raff sorriu ao perceber seu olhar acusador.

- Eu não consegui dormir esta tarde. E a idéia de levar para jantar uma linda jovem

e talvez acabar adormecendo em frente a ela, no restaurante, não me atraiu nem um

pouco! - É, realmente não seria uma atitude muito cavalheiresca! Bryna reconheceu, sorrindo. - Já pensou como ficaria sua reputação?

- Não acredite em tudo que você ouvir ou ler a meu respeito - disse ele secamente, abrindo a porta do carro para ela. Bryna contemplou maravilhada a casa em estilo georgiano, situada no Royal Berkshire, antes de lhe perguntar:

- Quer dizer que não é verdade que você toma champanhe no café da manhã e usa pijamas de seda?

Raff deu uma sonora risada, lembrando-se de um artigo recentemente publicado sobre ele.

- Não, eu não tomo champanhe no café da manhã, e não uso pijamas de espécie

alguma. Mas estou pensando em reconsiderar o primeiro caso se você acordar comigo

em alguma manhã - sugeriu ele ironicamente ao tomar-lhe o braço, seguindo em direção

à casa.

Um rubor instantâneo tomou conta das faces dela.

- Você tem uma bela mansão! - desconversou.

21

- É covardia mudar de assunto! Declarou ele, brincando, enquanto entravam. Na sala de estar, Bryna surpreendeu-se ao deparar com uma bonita moça de cabelos escuros e um rapaz tão alto e moreno quanto Raff.

- Estes são meus filhos: Paul e Kate - Raff os apresentou.

Ela julgara que Raff a havia trazido ali com o único propósito de seduzi-Ia mas, obviamente, Kate e Paul pretendiam passar a noite em casa e não estranhavam que o pai estivesse acompanhado.

Visivelmente encabulada, Bryna sentou-se no sofá enquanto Raff providenciava um drinque. Ao lhe entregar o cálice de xerez, Raff aconselhou:

- Fique tranqüila! Meus filhos não mordem!

Eles não mordiam, de fato, mas eram tão francos e diretos que a deixavam consternada diante da objetividade de suas perguntas. Paul tinha vinte anos e Raff devia ter sido parecido com ele, quando jovem: bastante galanteador, o rapaz não lhe poupou elogios. Alegres e descontraídos, conversaram com Bryna sobre os mais variados assuntos. Mas

quando Paul finalmente se retirou para voltar a seu apartamento na cidade e Kate subiu para seu quarto, ela respirou aliviada.

- O que você achou deles, Bryna? Raff lhe perguntou.

Ela levou algum tempo para responder. A franqueza de Kate era um tanto enervante, e Paul flertara com ela descaradamente. Os dois pareciam amorosos, mas

carentes de afeição. Certamente o pai, com toda a sua riqueza, não pudera substituir o carinho da mãe e o sentimento protetor que nutria pelos filhos era mais do que retribuído. Também não devia ter sido nada fácil para Raff criá-Ios sozinho. Raff sorriu perante o silêncio dela.

- Pelo que eu sei, meus filhos não têm o poder de deixar as pessoas amuadas. As

únicas reclamações que recebi a respeito de Paul e Kate alguns anos atrás foram de que ambos eram muitos mimados.

CAPÍTULO IV

A caminho de Londres, no jato de luxo de Raff, Bryna abriu os olhos depois de um

rápido cochilo. Ele insistira para que voltassem juntos e ela acabara concordando.

- Você está muito quieta, Bryna - observou Raff

- Eu só estou um pouco cansada.

Era verdade. Mas o cansaço não era apenas físico; era também mental. Durante

todo aquele dia travara consigo mesma uma batalha. Estava tremendamente difícil decidir se devia casar-se com Raff ou não; e, até aquele momento não tomara uma resolução.

- Procure relaxar, Bryna. Ninguém vai força Ia a fazer o que não quer.

Realmente Raff nunca a obrigara a nada Nem mesmo quando tinham feito amor pela primeira vez e ela perdera a virgindade. Entregara-se a ele de livre e espontânea vontade. Naquela noite, Raff insistira em subir até o apartamento dela, depois de deixa-Ia

em casa. No momento em que ele estacionara o carro em frente ao prédio, Bryna dissera lhe:

- Raff, não vou convidá-lo para entrar por que

- Por favor, Bryna, deixe me entrar

- Não. Você esta cansado e

- Mais do que qualquer outra coisa, querida. Ela deu de ombros.

- Está bem. Se você insiste

- É tudo o que eu quero!

ele pedira

Você quer mesmo entrar.

22

Dentro do elevador Bryna olhara-o apreensiva enquanto subiam até o seu andar. Estava ciente do que aconteceria nos minutos seguintes e sabia também que era inevitável.

- Em que você está pensando?

A voz de Raff interrompeu suas lembranças, e ela voltou a abrir os olhos para fitá-

Io.

- O que você acha? Ela não pôde conter a irritação. Ele respondeu com paciência, levando em consideração o seu estado .

- Pare d€ se preocupar, Bryna! Case-se comigo e ponto final.

- É realmente esse o tipo de casamento que você quer? Duas pessoas que não se

amam ligam-se uma à outra por causa de um bebê que conceberam acidentalmente! O fracasso de seu primeiro casamento não bastou para lhe ensinar que isso não dá certo?

- Meu primeiro casamento não foi um fracasso! Josey e eu éramos jovens demais

para suportarmos o peso da responsabilidade que envolve um casamento. Não con- seguimos sobreviver a todas as pressões que se colocaram sobre nós, mas nós nos respeitávamos mutuamente.

- Isso não foi o bastante, não é mesmo?

- Mas desta vez vai ter que bastar. Você fala como se estivesse grávida por minha culpa. Penso que a responsabilidade é sua também. Não acha? Bryna sentiu as faces empalidecerem.

- Eu já estava esperando por isso Ele suspirou.

- Eu não a estou culpando por nada! Mas você havia me dito que estava tomando

os devidos cuidados

A verdade, porém, é que Bryna não tomara nenhum tipo de anticoncepcional por

ter certeza de que era estéril.

que você começasse a me culpar

Por isso não me preocupei.

Entretanto, havia ocultado esse fato de Raff.

- Houve um dia em que eu me descuidei - ela se des culpou, sem graça. Raff deu de ombros.

Certo? Ele

soltou o cinto de segurança, levantou-se e agachou-se em frente a ela. - Bryna, nós nos conhecemos há seis meses; não somos dois estranhos que, de repente, foram para a cama. Casar-se comigo seria para você tão terrível assim? E segurou-lhe delicadamente as mãos.

Surpresa, Bryna o encarou, querendo acreditar que a idéia daquele casamento não constituía, para ele, um fardo tão pesado quanto o que imaginara. Mas não! Ela não podia

ter ilusões

tanto o amor dele. Entretanto, conviver com Raff diariamente, sabendo que isso acontecia

apenas por ser a mãe do filho dele, seria o purgatório! Nessas condições, quando ambos fizessem amor, ela nunca saberia se era realmente desejada pelo marido, ou se ele apenas cumpria um dever! "Não!" tornou a pensar, repudiando aquela idéia infeliz. Se Raff a tivesse pedido em casamento antes de saber sobre a criança, aí sim, tudo seria diferente.

Se fossem estranhos, talvez desse certo porque, pelo menos, não desejaria

- Então é porque tinha que acontecer

Não foi culpa de ninguém

-

Será melhor para nós e para a criança se vivermos separados - disse Bryna com

firmeza.

A

expressão do rosto dele tornou-se sombria. Soltando as mãos de Bryna, Raff

sentou-se na poltrona ao lado.

- Podemos dormir em camas separadas, Bryna; mas não quero um casamento no qual cada parceiro tenha um amante. Bryna empalideceu.

23

- Não foi isto que eu quis dizer, Raff - ela afirmou, imaginando como seria terrível

saber que ele possuía outras mulheres. - Mas eu

você ter uma amante - mentiu.

- Eu, porém, não aceitaria que você tivesse outro homem, Bryna. E, se algum dia

descobrisse que você me traiu, nosso casamento estaria terminado e eu faria tudo que estivesse ao meu alcance para tomar a custódia de meu filho! Bryna não duvidou, nem por um instante, de suas palavras. Ele seria bem capaz de

cumprir aquela ameaça.

- E, se não quiser se casar comigo, Bryna poderá continuar a trabalhar, contratar

Mas não permitirei que

você dê a outro homem o direito que está me negando agora. Raff parecia um menino mimado que não emprestava o seu brinquedo a ninguém, mesmo que o deixasse de lado. Porque era só isso que ela seria na casa dele: um enfeite

uma babá para cuidar da criança, fazer o que bem entender

eu acho que poderia aceitar o fato de

- Será que não percebe que nosso casamento não daria certo, Raff?

- Eu cuidaria para que desse certo - ele teimou, arrogante.

Bryna insistiu.

- Ouça, Raff, eu sou gente, sabe. Tenho sentimentos; não sou uma peça de jogo que você pode manobrar!

- Não estou menosprezando seus sentimentos, Bryna. E é por esse motivo que quero me casar com você.

- Esta gravidez é problema meu, Raff. Por que não deixa que eu mesma o resolva?

- Porque a criança também é minha. E eu a quero!

- E como acha que Kate e Paul vão reagir quanto ao bebê?

A expressão de Raff tornou-se preocupada.

- Esse bebê será tão meu filho quanto eles. Portanto, nada terão a reclamar!

Não ocorreram a Bryna outros argumentos para continuar a contestá-Io. Naquele momento a única coisa que pensava era que amava Raff, o pai de seu filho, o qual, certamente, saberia ser bom e amoroso com a criança. Sem forças para prosseguir resistindo, ela fechou os olhos e suspirou. Por fim,

concordou:

- Está bem, Raff. Eu me casarei com você, mas com uma condição: quero ter um

quarto só para mim, onde você nunca tentará entrar - acrescentou rapidamente, ao ver um brilho de triunfo nos olhos dele.

- Concordo - Raff assentiu calmamente. E, no seu rosto impassível, Bryna não conseguiu decifrar nenhum dos seus pensamentos.

- Ótimo! Então estamos combinados! - exclamou ela, procurando também ocultar suas emoções.

lembrou ele, seco. - Eu falei sério quando me referi a outros

homens. Se quiser fazer amor, me procure! Não terá outra opção. Ela sentiu as faces afogueadas.

- Não será preciso - respondeu friamente. Seria preferível sofrer a agonia da insatisfação pelo resto da vida a lhe pedir para fazer amor.

- Só tem uma coisa

Raff comprimiu os lábios nervosamente.

- Você acha então que pode viver sem sexo?

- Acho! Ele deu de ombros.

- Bem

Afinal, nós

nunca chegamos a tomar champanhe juntos no café da manhã, não é mesmo? Mas

talvez você tenha razão

As lembranças daquela primeira noite de amor voltaram a povoar a mente conturbada de Bryna. Tudo lhe parecia tão recente

você é quem sabe. Eu fiz uma oferta. Se mudar de idéia

Isso não Importa, realmente - concluiu, virando-lhe as costas.

24

A porta do apartamento se fechara e, naquele instante, ela sabia exatamente o que

queria. Queria Raff, tanto quanto ele a queria. No entanto, a sua inexperiência a deixava

encabulada. Seria ela capaz de satisfazer um homem? Seria mulher para Raff? Ele era experiente, maduro, e já fizera amor com muitas outras. Não. Ela não suportaria a humilhação de um fracasso! Entretanto não queria demonstrar a ele seus temores. Respirando fundo, procurava demonstrar exatamente o contrário.

Raff murmurava enfiando as mãos

pelos seus cabelos enquanto se curvava para reclamar seus lábios. Fora um beijo sensual, entorpecente e enlouquecedor. Todo o seu corpo tremia ao contato do corpo másculo, quente, arrebatador

Todos

os pensamentos fugiram-lhe da mente para se dedicar ao instante sublime que estava

vivendo! E Bryna gemeu baixinho quando os lábios dele acariciaram o seu pescoço, suave e deliciosamente.

- Está tudo bem com você esta noite, Bryna? Ele perguntara ao seu ouvido, mansamente. Assustada, ela respondeu, corando.

- Eu esperei tanto por este momento, Bryna

- Tudo bem? Mas

por quê? Oh, sim, eu

estou bem

.

- Então podemos passar a noite aqui? Eu pretendia convidá-Ia para ficar na minha casa, mas com meus filhos lá

- Eu

compreendo.

Bryna era uma iniciante em matéria de amor, mas não pretendia passar por tola perante Raff. Aquela noite teria que ser especial; queria ama-Io tão bem, ou até melhor, quanto qualquer outra mulher experiente que ele já possuíra.

não há nenhum inconveniente em passarmos a noite aqui no meu

apartamento - dissera, descontraída e jogando displicentemente a bolsa sobre a poltrona.

A partir daquele momento ela passara a agir de maneira um pouco mais

sofisticada. Caminhara alguns passos, mexendo os quadris discreta mas propositalmente.

- O banheiro fica ali - dissera, apontando para a porta cor-de-rosa. - Talvez você

queira usá-Io antes de

Raff parecera-lhe de repente confuso e surpreendido, como um garoto

tímido, ali, parado no meio da sala. Ela, porém, fingira ignorar.

- Eu usarei o banheiro depois, se não se importa. Quero remover a maquilagem e

trocar de roupa antes de preparar a nossa cama. - E sorrira, maliciosa. - Não quero que

sinta falta dos seus amores do passado esta noite.

- Esta noite é só nossa. - Ele a interrompera abruptamente com um beijo

arrebatador. - Esta noite só existimos eu e você. "Sua tola!" Bryna censurara-se interiormente. Que importava, naquele momento,

relembrar mulheres que pertenciam ao passado na vida de Raff. O importante era que dali

a instantes ele faria dela uma mulher!

- Pode demorar no banheiro o tempo que você quiser - dissera, agitada, fugindo

apressada para o quarto. Céus! Ela tinha feito tudo para que Raff não percebesse o quanto era inexperiente

e desastrada. Nunca soubera se realmente conseguira enganá-lo, naquela noite

- Bem

Bem, fique à vontade!

-

Bryna

!

Se ele percebera alguma coisa não demonstrara nada.

Quando Bryna saiu do banheiro, depois de um banho demorado, encontrou-o sentado na cama, com as costas apoiadas nos travesseiros e coberto com o lençol. Percebera, porém, que, por debaixo do tecido fino, ele estava completamente nu. Abotoada até o pescoço dentro de um robe atoalhado e sem maquilagem, ela se sentia como uma adolescente tola e desajeitada. Raff, completamente desinibido e seguro de si, olhava-a com os cabelos pretos caídos sobre a testa.

25

De repente Bryna viu-se dominada por um medo atroz e perguntara-se se havia

enlouquecido ao decidir fazer amor com aquele estranho

empurrava o lençol sem o menor constrangimento e levantava-se da cama. Ao vê-Io tão magnífico em sua nudez, Bryna ficara tão deslumbrada que nem reparou quando ele habilmente desabotoara seu robe, deixando-o cair no chão. Beijaram-se e acariciaram-se instintivamente e experimentaram o mesmo louco desejo, ardente, difuso e abrasador. Depois, fizeram amor lentamente. Quando Raff abrira suas pernas, Bryna fora tomada pelos mais contraditórios sentimentos de ansiedade, medo e paixão. Ao penetrá- Ia, suavemente, ela sentira um breve instante de dor, seguido pela mais deliciosa sensação de prazer que já experimentara em toda a sua vida. Sem se dar conta do que estava fazendo, correspondera aos movimentos cada vez mais rápidos de Raff em busca de um orgasmo amplo, maravilhoso e total. Quando terminara, Bryna sentira-se livre e leve como um pássaro. Uma onda imensa de paz a envolvera, mas, ao deparar com os olhos cinzentos de Raff, ali, deitado a seu lado, parte daquela felicidade desvanecera-se. Naquele instante ela percebera que,

Nesse instante, porém, Raff

para ele, aquele fora apenas mais um encontro amoroso e casual.

- Eu esqueci de lhe avisar que sou um tanto inexperiente em matéria de amor Bryna disse, meio sem jeito.

- lnexperiente? Você se esqueceu de me avisar que era virgem tentando me dizer? Raff sorrira.

É isto que está

- Bem

eu estou feliz por ter sido você o meu primeiro amante. E posso não ser

experiente, mas estou certa de que ambos conhecemos bem as regras

- Regras?! Que regras?

Ela rira de forma displicente, mas sem coragem de olhá-lo de frente.

- Oh! Você sabe

Nada de vínculos, nada de compromissos! Vamos apenas

desfrutar tranqüilamente do prazer de estarmos juntos!

- Claro! Claro

!

Concordara ele, afastando-se repentinamente.

Em silêncio, Bryna tentara adivinhar os pensamentos dele. Fora talvez precipitada demais, portando-se como uma garota volúvel. "E ele? Teria sentido realmente prazer no

ato de amor?" questionou-se.

Ela havia mencionado sobre o fato de uma possível relação entre os dois sem ao menos saber se Raff desejaria vê-Ia de novo!

- Ou será que você me queria apenas por uma noite? Arriscara-se a perguntar, por

fim.

- Não! Ele protestara. - Eu tenho fome de você! E não vou satisfazer essa fome

numa só noite

Será preciso uma infinidade delas!

Ele a beijara com ardor, e logo depois começaram a fazer amor pela segunda vez

CAPÍTULO V

A véspera de Natal era um dia romântico para um casamento. Emocionada, Bryna entrou na igreja dentro do seu lindo vestido branco de seda e renda. Quatro graciosas da- mas de honra a acompanhavam: uma delas era a filha do noivo e as outras três, amigas suas. O noivo também estava muito bonito e elegante no seu fraque cinzento. Na igreja, repleta de convidados, o pai de Bryna, orgulhoso, entregou a filha a seu futuro marido. Assim, diante de Deus e sob a bênção do pároco, Bryna Fairchild e Raff Gallagher tornaram-se marido e mulher. Apesar de organizado às pressas, o casamento transcorreu na mais perfeita ordem, e Bryna teve a impressão de estar vivendo um maravilhoso conto de fadas. Muito eficiente, Raff cuidara de todos os detalhes, e fora por insistência sua que a noiva usara um vestido branco para a cerimônia e se cercara de gentis damas de honra.

26

Ele havia convidado tanta gente para a recepção, em seu hotel de luxo, que, apesar de recebê-Ios à medida que iam chegando, Bryna duvidava que conseguisse reconhecer a todos depois da festa. Todos concordavam que a cerimônia de casamento fora linda e que a recepção estava muito concorrida. Comentava-se entre os convidados que a noiva estava muito bonita, mas um pouco pálida. Mas que mulher não empalideceria ao se tornar a esposa de um homem riquíssimo e tão bonito como Raff Gallagher? Raff não negou nem confirmou os boatos que circulavam havia duas semanas de que o motivo do casamento apressado era a chegada próxima do "terceiro herdeiro Gallagher", conforme um jornal anunciara. Entretanto, aos , filhos, Kate e Paul, Raff contara a verdade sobre o bebê assim que voltaram da Escócia. Para surpresa de Bryna, ambos receberam a notícia com sincera alegria, muito embora Paul estranhasse a idéia

de ter outro irmão a essa altura da vida. O importante, porém, era que nenhum dos dois rejeitara o bebê, e isso era mais do que Bryna podia esperar naquelas circunstâncias.

- Gostaria de dançar, Sra. Gallagher?

Bryna teve um leve sobressalto ao ouvir seu nome e voltou-se na direção da voz

com um leve sorriso. Era Court, sorridente e jovial. Entretanto, a expressão dele anuviara- se, ao perceber como Bryna estava cansada. Ela parecia prestes a desmaiar.

- Talvez seja melhor sentar-se um pouco enquanto vou buscar alguma coisa para você comer. Está tão branca!

- É por causa dó véu e da grinalda - ela suspirou, tentando disfarçar.

A tiara de brilhantes, que sustentava o véu, pesava-lhe no alto da cabeça. Era um belo presente de Raff, que combinava perfeitamente com o colar e os brincos, guardados no cofre da família. Court sugeriu:

Deixe que eu a ajude! Ele sorriu e

estendeu a mão para soltar os grampos ocultos que prendiam a tiara.

- Não! Ela o interrompeu, olhando ansiosamente em volta para certificar-se de que Raff não a estava observando. Do outro lado do salão, repleto de convidados, Raff conversava com Penny e

Janine, duas das damas de honra, e seus respectivos acompanhantes. Seu olhar, contudo, estava fixo na noiva.

- Tire isso! Deve estar incomodando muito

- Raff não iria gostar - ela explicou a Court, preocupada.

- Ora! Não seja boba! Raff compreenderá o seu desconforto

- Por favor, deixe! Não fica bem uma noiva andar por aí sem o véu.

- Não vejo mal algum nisso

- Esqueça, Court. Vamos dançar?

- Mas

Afinal, a cerimônia já terminou!

- Você não queria dançar comigo agora há pouco? Ou será que mudou de idéia? Satisfeito, Court a conduziu até a pista de danças. - Pelo menos comigo você não corre perigo. Sou um solteirão inveterado, e pretendo continuar assim. Bryna lançou-lhe um olhar sarcástico.

- Nesse caso, deixe uma certa dama de honra em paz!

- Você se refere a Alyson? Bem

Bryna riu, descontraída.

confesso que ela é bastante estimulante!

- É mesmo? Então foi por isso que você pediu para reservar um quarto aqui para vocês passarem a noite?

- Eu só estava sendo gentil, não querendo que ela tivesse que voltar para casa sozinha tarde da noite - ele se defendeu, com um ar inocente.

- Mas ela mora a apenas uns quinhentos metros daqui! Exclamou Bryna, rindo.

- Tudo bem! Pode caçoar da minha generosidade. Ah!,

27

- A as mulheres

- Bem

Court suspirou profundamente.

- É justamente esse o meu problema! As mulheres ficam sempre no quase

- Não é o que Raff me contou de você - ela o surpreendeu. Court deu uma risada gostosa.

- Bem

!

Não sabem guardar segredo!

se lhe servir de consolo, saiba que Alyson estava bem tentada a aceitar!

nós, pobres homens solitários, de vez em quando também temos

companhia, não é? Pelo menos isso Bryna meneou a cabeça, censurando-o.

- Não é de se admirar que você e Raff sejam tão bons amigos!

Ele ficou, então, subitamente sério.

- Não seja injusta! Raff nunca mais olhou para outra mulher desde que conheceu

você! Com exceção de Rosemary, naquele dia. Mas isso não conta.

- Não? Perguntou, irônica, imaginando se Court saberia alguma coisa que ela

ignorava.

- Bem, claro que Raff se excedeu um pouco naquela noite, mas seu interesse por

Rosemary era estritamente comercial

- Foi isso que ele lhe contou? Ela perguntou, incrédula.

Nunca chegara a cobrar de Raff uma explicação pelo seu comportamento daquela

noite, e ele também não lhe dissera nada. "Mas por que não fora sincero, pelo menos com o amigo contando-lhe a verdade, ou seja, que estava cansado dela e procurara ter uma aventura?", pensou. Court franziu a testa.

- Bryna, você não está desconfiando de Raff está? Ela o encarou atentamente.

- Será que Raff também não lhe contou que só nos casamos por causa do bebê?

- Bebê! Que bebê? Você está grávida? Ele perguntou, perplexo. Desta vez foi Bryna quem ficou intrigada

- Então é verdade? Ele não lhe contou?

Court parou de dançar e ficou olhando-a ainda segurando-a pela cintura.

- Você quer dizer que está mesmo esperando um bebê?

- Sim - ela confirmou simplesmente, com lágrimas nos olhos.

- Na verdade, eu ouvi alguns boatos com relação ao casamento tão repentino. Mas,

como Raff não me falou nada, não dei importância às fofocas. Meu Deus, eu devia ter

adivinhado

Nunca supus que Raff fosse tão irresponsável!

- Oh, não! Raff não teve culpa. Eu é que me descuidei.

- E pelo jeito ele deve ter magoado muito você por causa disso. Como é possível ser tão insensível! Percebendo que estavam chamando a atenção das pessoas, ali parados no meio da pista, Bryna disse:

- Court, por favor! Vamos a algum lugar onde possamos conversar. Eu

Neste

instante

Raff

aproximou-se,

de

cara

fechada,

acompanhado

assistente de trabalho.

de

seu

- Stuart quer dançar com você, Bryna - avisou ele. E depois, voltando-se para

Court, disse-lhe secamente:

- Acho que você já dançou bastante com minha esposa, não é, Court?

Court fez menção de discutir com Raff, mas Bryna evitou uma cena aceitando

alegremente

observou quando Raff e Court afastaram-se dali e entraram no escritório, fechando a

porta. Sobre o que estariam falando?

- Seus pais parecem muito satisfeitos com seu casamento Veja como estão se divertindo!

o convite de Stuart Hillier. Mas, enquanto dançava mecanicamente,

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A súbita observação de Stuart Hillier forçou Bryna a voltar sua atenção para o outro

lado do salão, onde viu os dois dançando animadamente. Ambos compartilhavam a mesma mesa com os pais de Raff e, nos intervalos entre uma dança e outra, trocavam de par.

Realmente os pais da noiva pareciam muito felizes! Raff os enfeitiçara com seu charme, fazendo-os acreditar que tinha todas as qualidades para fazer Bryna feliz. E, evidentemente, eles sequer imaginavam o quanto à filha estava aflita naquele mesmo momento

- Espero que você também esteja se divertindo, Stuart - respondeu Bryna, finalmente.

Stuart Hillier comportava-se de

maneira gentil, amistosa; mas, sem saber por que, Bryna antipatizava com aquele homem. Ele era razoavelmente alto, tinha cabelos e olhos castanhos e a fazia sentir-se sempre apreensiva com a sua presença, apesar dos seus modos polidos. Entretanto, Bryna deu-lhe um sorriso radiante quando a música terminou. Quando quis afastar-se, porém, ele a segurou pelo braço. Ela o encarou intrigada.

- Raff pediu-me para tomar conta de você até ele voltar - explicou Stuart num tom de desafio.

- É mesmo? Não creio que eu precise de um guarda costas na minha festa de casamento. De qualquer forma, obrigada! Ela o dispensou com desdém.

- Claro! A festa está ótima! Estou adorando

- Mesmo assim

eu insisto!

- Sr. Hillier, se me dá licença, agora quero conversar um pouco com minhas primas

e, certamente, sua companhia seria um tanto indiscreta Como Raff ousava impor-lhe a presença de seu assistente? Era como se a julgasse incapaz de escolher suas próprias companhias! Antes ele nunca agira de maneira tão autoritária e nem lhe dera a impressão de não confiar nela. Bryna já estava conversando distraidamente com as primas quando Raff e Court voltaram ao salão. Assim que os viu, ela pediu licença às moças e saiu em direção aos dois. Ficou perplexa quando Court voltou-lhe as costas e se retirou dali, com o semblante carregado. Estranhando o fato, ela se apressou em ir ao seu encalço.

- Court

- Não faça isso! Imediatamente Raff a impediu de ir adiante. Segurou-lhe o pulso firmemente a ponto de machucá-Ia. Mas Bryna não se importou com isso porque a dor que tomou conta de seu

coração ao ver ódio nos olhos de Raff foi muito, muito, maior! Ele nem parecia seu marido, e sim um estranho Trêmula, ela perguntou:

- O que houve com Court?

- Ele teve que sair inesperadamente. Desconcertada e incrédula, Bryna voltou-se para o marido e perguntou-lhe:

- Você expulsou seu melhor amigo da nossa festa de casamento?!

- Não. Foi Court quem quis ir embora.

- O que você lhe fez para ele sair daquele jeito, sem ao menos se despedir? - Eu estou tentando evitar uma cena desagradável. Será que não está

percebendo? Venha comigo! E apontou para o escritório onde havia se fechado com o amigo momentos antes. Bryna o seguiu voluntariamente. O ambiente era aconchegante devido ao fogo aceso na lareira.

- Por que você está sendo tão arrogante e irracional? Ela desabafou, assim que Raff fechou a porta.

- Quem estava sendo irracional era você, tentando se exibir daquela forma! Respondeu Raff entre dentes.

29

As faces dela coraram diante da acusação.

- O que foi que eu fiz? Só estava dançando com Court

.

Raff começou a caminhar de um lado para outro, nervoso. Por fim voltou-se para ela, agressivo.

- Vocês não estavam dançando, quando me aproximei. Simplesmente estavam

parados no meio do salão, chamando a atenção de todos. E vi muito bem quando ele acariciou seus cabelos

 

-

Ele não estava acariciando meus cabelos! Estava apenas tentando tirar o meu

véu!

 

-

Tirar o seu véu! Por quê?

Lágrimas brilhavam nos olhos cor de violeta.

- Porque ele é gentil. Porque o véu estava me machucando

- Se o véu a estava machucando, por que você mesma não o tirou?

Só isso!

Porque tivera medo de desagradar o noivo. Oh, Deus, no espaço de apenas duas semanas ela se tornara desprezível: medrosa e submissa! Deixara de ser a mulher segura e independente que sempre fora! Céus! O que estava acontecendo com ela? E a

sua vontade própria?

- Eu achei que não iria ficar bem tirar o véu antes de terminar a festa - disse,

soltando a grinalda, sem importar-se mais. Depois, depositou-a sobre a escrivaninha, balançando a cabeça, aliviada. - Agora pretendo aproveitar o que resta da festa! Quanto a você, pode continuar a agir como um cão de guarda, se quiser! E virou-lhe as costas para sair.

- O que quer dizer com isso?

Bryna virou-se.

- Você pensa que sou boba, Raff? Sei que está me vigiando desde que concordei

em me casar com você. Só acho um absurdo você imaginar que eu cometeria uma traição

bem no dia do meu casamento!

latejar.

- Seu comportamento com Court foi bastante leviano

- Que comportamento? Eu só dancei com ele!

- E lhe contou sobre o bebê.

- Court é seu melhor amigo, pensei que você já tivesse contado para ele! -E por que eu o faria?

- Por que

- Isso não é da conta dele!

Cansada de discutir com Raff, Bryna suspirou profundamente, sentindo a cabeça

ora, por que

- Escute, eu não quero ser a causa de um atrito entre você e Court

- Tem certeza? Pensei que todas as mulheres ficassem envaidecidas numa situação dessas

- Você e Court não têm motivos para discutir por minha causa. É ridículo, e eu não gosto disso

- Pior para você! Porque eu tenho a impressão de que isso é algo com que você vai ter de se acostumar!

- Mas por quê? Court está apenas momentaneamente aborrecido por você não lhe

ter confidenciado sobre o bebê. Ele superará isso

- Mas eu não! Agora vamos nos reunir a nossos convidados. Logo eles começarão

a se retirar e você poderá descansar um pouco. Realmente Bryna sentia-se muito cansada, mas precisava continuar mantendo as aparências. Felizmente alguns convidados começaram a se despedir, dando exemplo aos demais. Raff, ao lado de Bryna, acompanhou um a um polidamente até a porta. Sendo recém-casados, eles poderiam ter abandonado a festa havia horas, mas, como era véspera de Natal, haviam decidido adiar a viagem para festejar a data com seus

30

respectivos pais, todos reunidos ali, inclusive os filhos, a convite de Raff. Aquela seria portanto uma noite de núpcias bastante estranha! Já passava da meia-noite quando o último convidado foi embora. Finalmente a sós, Raff tomou Bryna nos braços e subiu as escadas com ela no colo. Bryna se contorceu nos braços dele.

- Ponha-me no chão, por favor!

- Calma! Já estamos quase chegando - ele disse friamente, segurando-a com

força.

Apesar de terem se casado naquele dia, o abismo entre eles aumentava a cada

minuto. Se quisessem ser pelo menos razoavelmente felizes, não podiam permitir que isso continuasse.

- Raff, eu não sabia que você não havia contado a Court sobre o bebê. E quando

eu

- Você lhe contou, de qualquer forma - retrucou Raff, irritado, abrindo a porta do quarto com o

- Ele é seu melhor amigo

- E o bebê que você carrega é nosso. Qualquer decisão a respeito dele deve ser resolvida por nós, em comum acordo!

este é o seu quarto! Ela percebeu alarmada. A decoração discreta, na cor

creme, não se parecia nem um pouco com a alegre tonalidade cor-de-rosa do quarto destinado a ela. Lentamente Raff a depositou no chão, colando seu corpo ao dela até que Bryna se afastou bruscamente. Ele desfez o laço da gravata e começou a desabotoar o colarinho engomado da camisa branca. Sentou-se na cama para tirar os sapatos.

- Eu sei muito bem que este não é o seu quarto, Bryna. Tivemos um dia cansativo,

Use o banheiro à vontade e vamos para a

e não é hora para discutirmos sobre isso cama!

- Mas

Bryna umedeceu os lábios secos.

- Você me disse que íamos ter quartos separados a se despir, calmamente.

- Mas nós temos quartos separados

- Então

por que me trouxe para cá?

Levantando-se, Raff continuou

- Bryna, nós temos hóspedes em casa. Os meus filhos também estão aqui. O que

você acha que eles vão pensar, se dormirmos em quartos separados na nossa suposta "noite de núpcias"? Os olhos dela fuzilaram de raiva.

- Pensei que você não se importasse com a opinião dos outros.

- Seus pais acreditam que você queria este casamento, e não acho justo deixá-Ios

ir embora preocupados. Os sentimentos de meus filhos também são importantes para mim, e, como seus pais, eles deixarão esta casa dentro de três dias. Portanto, acho que não custa nada darmos a eles a impressão de que somos felizes. Se mais tarde descobrirem que dormimos em quartos separados, inventaremos uma desculpa qualquer.

Que é mais cômodo para você e o bebê, por exemplo Bryna também não queria magoar seus pais, por isso aceitou a decisão de Raff. Ela agora compreendia por que subitamente ele consentia na mudança de Kate para o

apartamento de sua amiga. Se a garota continuasse morando ali, fatalmente descobriria que o casamento do pai fora motivado por pura conveniência e obrigação.

- Raff, ouça. Não tome nenhuma decisão apressada com relação ao futuro de Kate.

Você pode arrepender-se depois. Tenho certeza de que podemos encontrar uma solução

se você

-

Kate tem dezoito anos, e já é hora de ela enfrentar o mundo lá fora.

31

Bryna meneou a cabeça, consciente de que não era isso que Raff pensava realmente.

- Você vai se arrepender se acontecer alguma coisa com sua filha.

- O que poderá lhe acontecer? Ela olhou intencionalmente para o próprio corpo.

- Eu também já fui virgem um dia, lembra-se? Raff olhou-a com uma expressão sombria.

- Você está querendo dizer que, afastando-se de casa, minha filha está correndo o risco de ficar grávida?

Oh! Bryna fechou os olhos, sentindo uma súbita

vertigem, e teria caído no chão se os braços de Raff não a tivessem amparado. Eu sinto muito! Ela se desculpou reabrindo os olhos, ainda bastante pálida.

Preocupado, Raff colocou-a sobre a cama e começou a desabotoar a fileira de botões de pérolas do seu vestido.

Você está exausta! Também não se preocupe, não vou

tocar em você. Só estou querendo ajudar

Bryna quis protestar e dizer que aquela cama não era sua, mas estava cansada demais para discutir. Docilmente, deixou que ele despisse seu vestido e a fizesse relaxar com uma suave massagem. Só estranhou tanta solicitude por parte de um homem que, durante o dia todo, a tratara com tanta frieza e mantivera-se tão distante Também não protestou quando ele massageou levemente os seus seios e, depois, desceu as mãos hábeis até suas coxas.

- Não, claro que não! Eu só

- Não vamos discutir mais

tranqüilizou-a com doçura.

- Está melhor, agora? Perguntou ele, disfarçando a respiração entrecortada.

- Sim, eu estou bem

ela murmurou, lânguida e feliz.

De repente, Raff endireitou o corpo e levantou-se da cama para apanhar a camisola sobre a cadeira. Em seguida, ajudou-a a vestir-se, ajeitou-a sobre os travesseiros e a cobriu. Bryna percebia os movimentos de Raff através de uma névoa, pois suas pálpebras se recusavam a manter-se abertas. Mesmo assim, pressentiu-o tirando as próprias roupas. Depois, ouvindo o barulho do chuveiro, presumiu que ele estava tomando banho.

Logo após, Bryna adormeceu. Acordou, porém, ao ser acariciada por Raff. A

princípio ela pensou que fosse um sonho; um sonho delicioso do qual não queria despertar por nada deste mundo! Mas seu corpo conhecia aquelas carícias, e despertou excitado. Ao abrir os olhos, Bryna deparou com Raff a seu lado na cama, suavemente

perfumado e inteiramente nu. Era um hábito dele dormir assim

O braço forte e másculo

repousava em seu quadril, enquanto a mão experiente e atrevida alisava seu ventre. Era uma tortura deliciosa deixá-lo continuar, e um desespero fazê-lo interromper

seus carinhos

bruscamente. Com os olhos acostumados à escuridão, Bryna voltou-se para olhar o rosto dele.

De súbito, porém, a luz da razão falou mais forte e ela se afastou

- Raff, você prometeu

Os olhos de Raff brilhavam como prata.

- Estou cumprindo minha promessa, Bryna.

- Mas

- Eu não estava tocando em você.

- Senti suas mãos em meu corpo!

- Eu estava acarinhando meu filho. Nós não fizemos nenhuma restrição quanto a

isso!

Bryna encarou-o perplexa. Era verdade! A mão dele só tocara na discreta curva de seu corpo onde a criança se abrigava. Mas mesmo assim

- Fizemos? Insistiu ele.

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"Realmente", Bryna refletiu, ela não tinha o direito de negar-lhe o direito de acariciar o filho em seu ventre. Raff remexeu-se, ansioso.

- Vá se acostumando com a idéia, Bryna. Eu pretendo ficar tão próximo dessa

criança quanto você e quero tocar nela quando bem entender! Ele concluiu. Depois, fechou os olhos e dormiu

CAPITULO VI

O Natal foi um dia de alegria para todos. Depois de uma rápida visita a igreja, pela manhã, as mulheres foram para a cozinha preparar um almoço caprichado. Logo após a suntuosa refeição, a família se reuniu na sala, junto ao calor gostoso que emanava da lareira, onde o fogo trepidava. Era a primeira vez que Bryna passava o Natal com Raff e seus familiares, e não podia deixar de sentir-se um tanto inibida. Por outro lado, estava contente por ver o marido envolvido pelo clima de festa. Kate os acordara logo cedo, ainda de camisola.

- É hora de levantar! Anunciara, abrindo a porta do quarto deles, animada. Sem

pintura e de cabelos soltos ela parecia ainda mais jovem. Raff contemplara a filha sonolento. - Você não acha que está sendo um tanto inconveniente nos acordando a esta hora

da manhã, quando estamos em plena lua de mel? E, pior, sem ao menos bater à porta antes de entrar? Sentando-se nos pés da cama, a moça respondera:

- Eu bati. Vocês é que não responderam

- Obviamente porque ainda estávamos dormindo. Resmungara, recostando-se

preguiçosamente na cabeceira da cama. - E, se estávamos dormindo, certamente não queríamos ser interrompidos! Um rubor repentino coloriu as faces de Kate quando ela se levantou.

- Desculpe, papai, mas hoje é Natal e está um belo dia lá fora! Além disso, estou louca para abrir os meus presentes! Raff sorriu para a filha, condescendente.

- Está bem

Kate dera um rápido beijo na fronte do pai e, antes de sair do quarto, recomendara:

- Não se demorem, está bem?

Bryna sorrira indulgente, sentindo-se mais próxima de Raff quando ele retribuiu o

está bem. Está desculpada!

seu sorriso, balançando a cabeça com ar compreensivo.

- E essa menina teima comigo dizendo que já é adulta

criança!

Agora mesmo parecia uma

- Acho que todos nós estamos ansiosos para abrir os presentes - ela disse

sorridente e bem relaxada, depois de uma boa noite de sono.

- É mesmo? Mas você sempre me proibiu de lhe dar presentes!

- Porque eu era sua amante, não sua esposa.

- Eu não a considerava minha amante,e sim minha namorada. E não teria feito

objeções se você me desse algum presente. Pelo contrário, teria ficado feliz e bastante

lisonjeado

Mas você sempre quis me manter a distância, não é?

- Raff, por favor, não vamos discutir

- Tem razão! Feliz Natal, Sra. Gallagher! Exclamou ele, curvando-se sobre ela.

- Feliz Natal! Ela mal tivera tempo de responder lhe antes que os lábios dele se unissem aos seus.

33

Depois de tantos dias de falsa indiferença, Bryna correspondera ao beijo de Raff, carinhosa e sensualmente. Seu desejo desabrochara como uma flor que se abre ao sol e enlaçando-lhe o pescoço, puxara-o para si, ansiosa e ardente de paixão! Naquele exato momento alguém bateu à porta. Desta vez era Paul.

- Vocês não vão descer? Perguntou ele do lado de fora. - Kate e eu vamos

começar abrir os presentes agora

Raff e Bryna entreolharam-se desanimados. A hora do amor estava mais uma vez

adiada Ao observar Kate e Paul, entretidos abrindo os presentes sob a árvore de Natal de três metros de altura, Bryna imaginara como seria maravilhoso quando seu bebê esti- vesse ali no meio deles! Eles ficaram tão entusiasmados com os presentes mais simples quanto com os mais requintados e mais caros, escolhidos por Raff e Bryna e os avós. Bryna mantivera-se deliberadamente afastada enquanto observava a harmonia existente na sua nova família. Estava feliz e aliviada pelo fato de seus pais terem se entrosado tão bem com os pais de Raff. De repente, surpreendera-se com a pilha de pacotes que Paul e Kate haviam colocado sobre seu colo. Ficara tão entretida observando os demais que até se esquecera dos próprios presentes. Agradecida, Bryna sorriu ao desembrulhar seu perfume predileto, além dos livros de seus autores prediletos, presentes de seus pais, Paul e Kate.

- Nós lhe compramos também este aqui! Exclamou Paul, meio encabulado ao lhe

oferecer uma grande caixa colorida. Ela compreendeu o embaraço do rapaz assim que abriu a caixa: era uma camisola de gestante. Comovida, sorriu.

!

- Kate me ajudou a escolher - Paul apressou-se a explicar.

- Ele me pediu para eu comprar - contou Kate.

Paul lançou um olhar fuzilante para a irmã fofoqueira. E, antes que os irmãos brigassem, Bryna beijou os dois.

- Eu adorei meus presentes! Muito obrigada!

- E, agora, o meu! Raff pôs um pequeno pacote na palma de sua mão. Ela olhou-o espantada.

- Mas você já me deu tantos presentes

o colar, a tiara, e

- Aqueles foram presentes de casamento. Além disso, você também me comprou

um belo presente de Natal disse Raff, que apreciara muitíssimo a escultura que ela lhe

dera, obra de um escultor inglês bastante talentoso, mas ainda relativamente desconhecido.

Os dedos de Bryna tremiam ligeiramente quando ela desembrulhou o delicado pacote. Na pequena caixa havia uma linda aliança de brilhantes! Surpresa e encantada, ergueu os olhos para Raff, mal conseguindo acreditar no que via. A expressão do rosto dele nada revelava de suas emoções.

- E linda, papai! Kate exclamou entusiasmada.

De fato, era uma jóia maravilhosa e servia perfeitamente no dedo de Bryna. Ainda atônita, ela não conseguia entender o significado do presente.

- É magnífica, Raff Obrigada!

- Alegro-me por você ter gostado. Bem, agora é melhor subirmos para nos vestir e

depois tomar o café da manhã. Senão, chegaremos atrasados à igreja. Ao voltar da igreja, Bryna e sua mãe se prontificaram a ajudar na cozinha para o almoço de Natal. Enquanto as mulheres se ocuparam com os quitutes, os homens ficaram conversando na sala, na maior camaradagem. O resto do dia transcorreu igual a todos os outros natais passados na casa dos pais de Bryna, com almoço tardio à base de peru regado a vinho branco.

34

Mais tarde, quando todos estavam aconchegados na sala, conversando diante do calor da lareira, Raff pediu para que os filhos preparassem uma ceia, o que foi feito com alegria. Após a refeição, porém, algo ofuscou um pouco a paz daquele dia agradável. Foi quando Kate, subitamente, lembrou-se:

- Por que Court não veio passar o Natal conosco? Todo ano ele vem! Os olhos de Raff brilharam de raiva e sua resposta foi seca.

- Ele tinha outros compromissos.

Kate não se deu por satisfeita.

- Mas ele nunca deixou de passar o Natal conosco, papai. O que houve?

- Ora! Este ano resolveu mudar

- Mas, papai

O que tem isso?

- Kate, nós não somos seus únicos amigos - interrompeu Raff, num tom agressivo

e cortante. O assunto encerrou-se aí, mas Bryna sentiu-se intimamente culpada, achando que, sem querer, fora a causa do atrito entre os dois homens. Court deixara de ser bem-vindo

na casa de seu melhor amigo. Não podia compreender por que Raff ficara tão zangado só porque ela contara a Court sobre o bebê. Também não podia aceitar que o motivo fosse o fato de ter dançado com ele na festa de casamento. Dançara com ele dezenas de vezes em outras festas, e Raff nunca demonstrara ciúmes. Seu marido estava se comportando de maneira irracional. Logo depois, a mãe de Raff decidiu subir.

- Eu não me lembro de ter passado um Natal mais divertido! Disse, beijando Bryna

na face. Era uma mulher esguia, imponente como o filho, e tinha olhos azuis que pareciam sorrir. Raff, por sua vez, havia herdado os olhos cinzentos do pai. Aproximando-se da mãe, ele a beijou.

- Nós passamos um dia agradabilíssimo, meu filho disse a gentil senhora, sorrindo.

Michael Gallagher também se despediu. Ao observar pai e filho se abraçarem, Bryna não pôde deixar de admirar seu marido. Raff estava tão bonito! Usava camisa creme e calça escura. Na mão esquerda, a aliança de ouro brilhava, assim como o relógio de pulso. Ninguém havia percebido o clima de tensão existente entre os recém-casados. Durante o dia todo Raff fora gentil e agradável para com a esposa. E, agora, sob a ducha refrescante, antes de dormir, Bryna se perguntava se o marido a tratava tão bem em consideração a ela ou à criança que estava para nascer. Entretanto procurou não pensar muito no assunto, pois a resposta a esta pergunta poderia ser dolorosa demais. Já deitada, Bryna virou-se para o outro lado da cama e fingiu estar dormindo, assim que ouviu Raff sair do banheiro e ajeitar-se a seu lado. Do mesmo modo que fizera na noite anterior, ele acariciou a barriga que abrigava o bebê, como se quisesse senti-lo em suas mãos fortes e protetoras. Depois, apoiou suavemente o ouvido sobre o ventre materno, como que para escutar os movimentos do filho.

Ao contato carinhoso das mãos de Raff, Bryna estremeceu.

- Está sentindo frio? Ele perguntou.

"Frio?!" pensou. Ela se sentia em chamas! Tentou controlar-se, mas o tremor aumentava e a respiração tornava-se ofegante. Seu corpo não obedecia ao comando do cérebro, que pedia que ela se acalmasse. Mas como isto seria possível se o desejava tanto?

- Você me quer, Bryna? Raff perguntou. Responder que sim seria renunciar ao seu

orgulho, aceitando a humilhação das migalhas do amor que ele lhe oferecia. "Não! Não

podia fazer uma coisa dessas!", concluiu.

35

- Você é um homem experiente e, claro, deve saber que, durante a gestação, as

Bryna desculpou-se, voltando-lhe as

mulheres ficam muito susceptíveis e emotivas

costas.

-

Altamente estimuladas, você quer dizer. Eu já lhe disse, Bryna, você só tem que

pedir.

Ela fechou os olhos, cerrando os dentes num esforço para resistir ao impulso de se virar para ele e suplicar-lhe o seu amor. Em vez disso, mentiu:

- Por favor, Raff, não estou com a menor disposição para isso! A propósito, você pediu a Court para não vir aqui hoje? Perguntou, mudando de assunto. A mão que deslizava em seu ventre parou subitamente.

- Não, a decisão foi dele.

- Por causa do que aconteceu ontem?

- Também.

- Também? Quais foram os outros motivos? Ela quis saber, intrigada.

- Eu não quero falar sobre isso agora. Raff retirou a mão e deitou-se de costas.

Bryna virou-se para ele.

- Responda, Raff! É muito importante para mim.

- Sei disso.

.

- Kate e Paul ficarão magoados comigo se você romper a amizade com Court por minha causa

- Eu sinto muito! Disse ele, indiferente.

- É só isto que você tem a me dizer? Não se importa nem um pouco que eu fique

em má situação perante seus

filhos, não é?

Irritado, Raff sentou-se de repente na cama.

- E o que você queria? Não ficou flertando com Court de forma vergonhosa na

festa? Por acaso esperava que eu aceitasse isso passivamente? Bryna não conseguia acreditar. Ela flertando com Court, como uma leviana qualquer? Não era possível! Raff não podia estar falando sério! Mas, quando ele acendeu a luz do abajur, Bryna percebeu, pela expressão furiosa do seu rosto, que Raff estava falando sério. "Mas por que, se ela nunca lhe dera motivos

para tais desconfianças?", refletiu.

- Escute, Raff! Como eu poderia flertar com Court na minha festa de casamento?

- Um casamento que você não queria! Esbravejou ele.

- Mesmo assim! Eu seria incapaz de fazer uma coisa dessas!

- Chega, Bryna! Eu tenho provas Aquilo só podia ser um pesadelo.

- Provas! Que provas?

- Vocês almoçaram várias vezes juntos, saíram para jantares românticos a dois

- Mas eu mesma lhe contei sobre esses encontros.

- Nem todos.

- A maioria das vezes foram reuniões de negócios.

- Seu contrato com Court terminou há muito tempo!

- Eu estava propondo a ele minhas novas modelos para propagandas

-

- Mas é verdade! Eu

- Sim. E naturalmente ele nega que vocês dois têm um caso.

- Está vendo

.

Claro

!

Ele suspirou com ar irônico.

Você falou com Court sobre isso?

- Ora! É claro que ele só podia negar! Mas agora você está casada comigo, esperando um filho meu, e eu não vou admitir essa traição.

- Se você acredita que eu realmente o trai, como pode ter certeza de que essa criança é sua? Ele a encarou friamente e se levantou da cama.

36

- Disso eu posso ter certeza. Se você não sabe, Court é estéril!

Bryna empalideceu e teve pena de Court. Havia sentido na própria pele a agonia

de ser incapaz de gerar um filho. Só não compreendia como Raff podia ser tão irônico e cruel! Fora apenas a certeza da paternidade que o levara a fazer ameaças, obrigando-a àquele casamento sem amor. Provavelmente Court se anteciparia e a pediria em casamento quando soubesse de sua gravidez, ficando feliz em assumir o papel de pai

E era pelo Desde aquela

mesmo motivo que ele flertara tão descaradamente com Rosemary

ocasião, desconfiava de um romance entre ela e Court. Nesse caso, ainda havia esperanças em reconquistar o marido, pois não fora a indiferença que o levara para os braços de outra mulher, e sim o ciúme

Surpresa, Bryna reparou de repente que o marido estava se vestindo. Não podia deixá-lo sair sem discutir sobre o assunto.

Agora ela entendia por que Raff não contara a Court sobre o bebê

- Aonde você vai? Perguntou, aflita.

- Vou sair

- Mas há essa hora

- Não se preocupe Bryna! Voltarei antes do amanhecer, e arranjarei uma boa

?!

desculpa para você dormir no seu quarto amanhã!

- Ouça, Raff, nós precisamos conversar!

- É tarde demais para isso! Já era tarde demais quando você se interessou por

Court

- Mas eu não

não é, Bryna? Só que não

permitirei que meu filho chame outro homem de pai! Nem mesmo o meu melhor amigo

- Raff! Raff, isso não é verdade! Exclamou ela horrorizada, enquanto ele abria a porta do quarto.

- Não minta, Bryna! Você mudou muito comigo na cama. E quando isso acontece com uma mulher é porque ela está apaixonada por outro homem.

- Ele é mais bonito do que eu, mais carinhoso

- Eu mudei, de fato. Mas foi apenas por que

- Por quê?

Ela se levantou agitada.

- Porque você mudou primeiro. Sim, foi isso mesmo. - Que bela desculpa para se atirar nos braços de outro homem! Lamentou-se ele com escárnio.

- Pare de distorcer o que eu digo! Você entendeu tudo errado. Nunca houve nada entre mim e Court!

- Eu não posso ter certeza em relação ao passado, mas, quanto ao futuro, estou

certo de que nenhum homem a possuirá. E tem mais uma coisa: você ainda vai me supli- car para fazer amor, e não vai demorar muito tempo. Dito isto, saiu batendo a porta diante dos olhos estupefatos de Bryna.

CAPÍTULO VII

Depois das festas de fim de ano, Bryna retomou ao trabalho. Pelo menos assim podia distrair-se um pouco e ficar distante do clima opressivo que pairava na sua vida com Raff. Conforme havia prometido, ele a deixara acomodar-se em seus aposentos. Entretanto, por uma questão de orgulho, Bryna não explicara a ninguém o motivo pelo qual ambos estavam dormindo em quartos separados. Pouco a pouco tudo voltou a sua rotina normal, seus pais voltaram para a Escócia, Paul retornou ao seu apartamento e Kate foi morar definitivamente com a amiga Brenda.

37

A saída da enteada deixara Bryna um tanto preocupada; mas Raff recusou-se terminantemente discutir este ou qualquer outro assunto com ela. Os dois viviam como

estranhos, passados apenas dez dias do casamento. Nem mesmo durante as refeições Raff se preocupava em manter uma conversa polida com Bryna. Na verdade, a tensão à mesa se tornou tão intensa que Bryna resolveu pedir que lhe levassem a comida no quarto. Mas, pelo que soube depois, Raff não deu mostras de perceber sua falta!

- Chame o Sr. Stevens ao telefone, Gilly - Bryna pediu à secretária assim que

chegou ao escritório. Depois, examinou distraidamente a correspondência deixada sobre sua mesa, enquanto Gilly completava a ligação. Estava ansiosa para falar com Court, saber o que ele achava a respeito das ridículas acusações de Raff. Não havia telefonado de casa com

receio de que Raff descobrisse! Afinal, bastava de atritos entre eles! Levantou o fone do gancho ao primeiro sinal.

 

-

Court? Perguntou, ofegante.

-

Bryna? Ele parecia surpreso em ouvi-Ia.

-

Court, precisamos conversar - disse ela sem mais preâmbulos.

-

Meu Deus! Espero que você e Raff não tenham brigado. Ainda mais no seu

estado

- Não consigo convencê-Io de que não houve nada entre nós, Court - confessou ela, com vontade de chorar.

- Bryna, ele

- Não! Claro que não! Estou apenas precisando desabafar com alguém.

- Ainda bem que é só isso, Bryna. Que tal almoçarmos juntos?

ele não machucou você, machucou?

Após ter marcado um encontro com Court. Bryna desligou o telefone e começou a trabalhar; tinha muito serviço acumulado por causa do feriado prolongado. O ritmo de trabalho contínuo fez com que ela relaxasse um pouco e esquecesse os problemas. Desde que brigara com Raff, estava tensa e completamente descontrolada. Quando Bryna chegou ao restaurante simples, mas acolhedor, Court a recebeu com um olhar penetrante.

- Você não me parece nada bem, Bryna.

- É por causa de Raff! Ele está certo de que eu e você tivemos um caso.

- Quando foi que ele fez essa acusação?

Ela suspirou profundamente antes de responder:

- No dia de Natal, depois da festa

- Logo depois de sua noite de núpcias! Ele tinha que estragar tudo! Que grande

idiota!

 

- Mas não houve noite de núpcias! Nós não

Bem, nós fizemos um acordo

Court ficou perplexo.

-

Que tipo de acordo? Ele quis saber, ainda incrédulo.

Bryna baixou os olhos, envergonhada.

-

Um acordo em que Raff terá apenas que cumprir suas obrigações para com o

filho.

- Foi só por esse motivo que ele se casou com você? Os olhos cor de violeta tornaram-se ainda mais tristes.

- Esse foi o único motivo.

Court bateu o punho da mão fechada sobre a mesa, num gesto de irritação.

- Nesse caso você deveria ter lutado pela custódia da criança num tribunal!

- Acho essa atitude terrivelmente constrangedora. Além disso, não podia imaginar que Raff tivesse esse conceito de mim.

- É um maluco

- Raff disse que nós dois fomos vistos várias vezes juntos - contou Bryna.

!

Por que diabos ele está destruindo o casamento de vocês?

38

- Ora! Em reuniões de negócios

- Foi o que eu lhe disse, mas

- Mas Raff não acreditou, não é? Ele devia envergonhar-se de levantar suspeitas

sobre sua esposa no dia do casamento! Se eu soubesse disso, teria ido à festa mesmo contra a sua vontade.

- Ele seria capaz de expulsá-Io

- Eu estive com ela.

- Esteve? Quando?

Kate, entretanto, sentiu sua falta

- Ontem à noite ela me telefonou e nós jantamos juntos. Sabe, Bryna, Raff rompeu

a nossa amizade, mas os garotos ainda gostam de mim Conheço-os desde pequenos, e para eles sou como um tio.

- De fato, eles gostam muito de você.

Court deu um sorriso orgulhoso.

- Kate está gostando de morar fora de casa.

- Mas Raff não. Ele só concordou em deixá-Ia sair para que ela não percebesse a nossa situação.

- É mesmo? O que será que deu nele?

- Não sei. Mas parece que o seu comportamento estranho está ligado ao fato de sentir-se traído.

- É incrível, mas acho que Raff está com ciúmes de você

Bryna riu nervosamente.

- Não diga bobagem, Court, Raff não sente ciúmes de ninguém! Se não fosse pelo

bebê, eu já estaria fora de sua vida há muito tempo!

- De certa forma você tem razão. Raff só não se divorciou de Josey por causa de

Kate e Paul.

- E, agora, ele pretende o mesmo destino para mim, um casamento sem emoções,

sem ternura

Por simples obrigação!

- Não me parece que você lhe seja tão indiferente assim, Bryna Um lampejo de esperança brilhou nos olhos dela.

- O que você sabe sobre o relacionamento dele com Josey?

- Os dois tinham seus respectivos amantes. Todos, exceto Kate e Paul, sabiam, por isso achei inacreditável quando Raff decidiu se casar novamente. - Na verdade, ele não optou por um novo casamento. Apenas quer o filho. Acontece que eu também quero! Court tomou a mão dela entre as suas e olhou a detidamente nos olhos.

- Você o ama, não e mesmo?

Bryna meneou negativamente a cabeça, mentindo.

- Acredite, Court, se eu tivesse escolha, nunca teria me casado com Raff ameaçou tirar meu filho se eu não concordasse.

- Você

Nesse instante, Brvna ouviu a voz do marido, suave e controlada

- Olá, querida!

Court interrompeu-se, erguendo o olhar.

Mas ele

Ela levantou a cabeça e encontrou o olhar frio e furioso de Raff "Oh, Deus", pensou, "até que ponto ele ouvira sua conversa com Court?" - Por que não se junta a nós? Convidou Court, polidamente, parecendo calmo e seguro de si.

- Infelizmente estou em companhia de alguns empresários. Do contrário, acredite,

nada me daria mais prazer do que me sentar com vocês e ouvir um pouco mais dessa

conversa fascinante! Bryna engoliu em seco.

Não agora, aqui, na

- Por favor, Raff, não nos interprete mal! Não faça uma cena frente de todos

39

Antes de responder a Bryna, Raff olhou irônico para Court.

- Não se preocupe. Se eu quisesse fazer uma cena, já teria dado um soco na cara

deste "meu grande amigo" e tomado minha esposa assim que entrei no restaurante e vi vocês juntos! Court sorriu zombeteiramente para o outro.

- Não pensei que você tivesse um gênio tão ruim! Raff ignorou a observação.

- Nós todos sabemos que Bryna está esperando um filho meu. E eu a avisei do que lhe aconteceria se os encontrasse juntos outra vez!

- E só um almoço, Raff

ela explicou, empalidecendo diante da ameaça velada.

- Em plena lua-de-mel, minha esposa resolve almoçar com meu suposto "amigo".

Muito natural! Ironizou Raff - Pelo que sei, a lua-de-mel nem começou - desafiou Court, irritado. Então se voltou para Bryna com um olhar suplicante. - Sinto muito, Bryna, mas

- Isso pode ser remediado facilmente! A partir desta noite! Raff exclamou, decidido e autoritário. Bryna olhou assustada para o marido.

- Raff, você não pode estar falando sério!

- Não?! Pois isso é o que veremos mais tarde! Respondeu Raff, furioso, antes de se afastar.

Pasma, Bryna observou-o reunir-se à mesa com os empresários e Stuart Hillier. Court também parecia incrédulo.

- Nunca vi Raff agir assim antes. Parece que ele perdeu o juízo!

- Você viu, Court? E agora? O que vou fazer? Ele tomou-lhe as mãos, transmitindo-lhe solidariedade.

- Não volte para casa, Bryna. Tenho um quarto vago no meu apartamento. Nós poderíamos

- Não, Court! Eu não posso ficar com você! Zangado como está, Raff seria capaz de nos matar!

- É exatamente por isso que você não deve voltar para ele!

- Não se preocupe, Court! Raff seria incapaz de me machucar.

- Não foi essa a impressão que ele deu agora há pouco!

- Ele já terá se acalmado até eu chegar em casa. Então conversarei com ele. Court não se deixou convencer e insistiu:

- Você não deve se arriscar

Pense na criança

Qualquer contrariedade mais

séria poderá Ihe fazer mal.

- Eu me cuidarei, Court. Pode deixar!

- Tudo bem. Agora vamos comer. Você e o bebê precisam se alimentar - disse ele,

chamando o garçom. Era difícil conseguir engolir alguma coisa sabendo que Raff estava a poucos passos dali, certamente observando-a. Court, porém, a persuadiu. Os cinco homens ainda estavam sentados à outra mesa quando Bryna e Court se retiraram. Terrivelmente encabulada, ela desviou o rosto ao pressentir Raff olhando-a. E, uma vez fora do restaurante, respirou mais tranqüila.

- Sinto muito por envolvê-Io nesta situação tão ridícula, Court. Ainda não consigo entender o procedimento absurdo de Raff. Ele a olhou pensativo.

- Humm

- Um homem ciumento não olha para sua mulher com esse ódio!

Só tem uma explicação: é ciúme. Sabe, ele

- Talvez não, Mas, se ele não sente nada por você, por que a nossa amizade o aflige tanto?

40

- Raff não sabe que nossos encontros estão relacionados ao meu trabalho. Há

muito tempo que eu e ele não temos o menor diálogo. E, se ele não quer conversar co-

migo, eu também não pretendo suplicar-lhe a atenção. Court balançou levemente a cabeça em sinal de censura.

- Meu Deus! Que distância enorme o orgulho consegue interpor entre duas

pessoas!

- É verdade

- Bem, se precisar de um ombro amigo outra vez, basta me telefonar, Bryna.

- Obrigada, Court. E, você sabe, vou precisar

Raff não jantou em casa e também não telefonou. Preocupada, Bryna fez mil

conjecturas, todas bastante desagradáveis, pois, diante das circunstâncias, não podia

Vinha-lhe a lembrança a expressão zangada do seu

rosto e o brilho ameaçador dos olhos cinzentos que ela tanto amava! "Por que tudo tinha

Ah! Como gostaria de poder se atirar em seus braços fortes e confessar-

lhe o quanto o amava! Mas, nesse momento, ele devia estar abraçando outra mulher. Provavelmente Rosemary. Que ódio! Certamente aquela mulher horrorosa, agora, devia

estar se vangloriando!", refletiu irritada. Sabendo que não conseguiria dormir, Bryna ficou sentada na sala de estar, esperando por Raff. Sentimentos de raiva e desespero se alternavam em seu coração Já era de madrugada quando ela desistiu de esperar e resolveu ir para a cama. Pelo visto, ele não iria voltar para casa esta noite.

Estava em seu quarto há apenas alguns minutos quando ouviu a porta da frente abrir-se e fechar-se, e, então, o som de passos na escada. Indignação e apreensão refletiu-se em seus olhos quando Raff entrou no quarto bruscamente, pegando-a seminua na frente do espelho. Com um estranho brilho no olhar ele fechou a porta.

deixar de pensar de outra forma

que ser assim

- Ótimo! Exclamou roucamente, fitando-a cheio de desejo. - Cheguei bem na hora! Bryna cruzou os braços sobre os seios, subitamente envergonhada.

- Se quiser ver uma mulher nua, vá a uma boate assistir a um strip-tease!

- Não é uma mulher qualquer que eu quero ver nua, mas a minha mulher! Onde você passou à tarde? Perguntou, arrogante.

- No meu escritório, ora!

- É!? Pois telefonei várias vezes para Iá e ninguém atendeu Ela o encarou, desafiando-o.

- Pois eu estava lá sim! Só não atendi ao telefone por que estava muito ocupada. Vagarosamente ele foi se aproximando.

- Ocupada só para mim, tenho certeza. Porque você mal pôde esperar para se

encontrar com o seu amante e lhe contar sobre o fiasco de nosso casamento, não é

mesmo?

-

Não foi bem assim

Eu me encontrei com Court por que

-

Para discutir sobre negócios?

-

Não. Desta vez, não. Mas antes, sim. Hoje eu

eu só precisava conversar com

alguém!

-

E ninguém melhor que seu amante não é? Mas agora é comigo que você vai

conversar - ele disse, demonstrando no olhar, quais eram suas verdadeiras intenções. Apavorado, Bryna pegou rapidamente sua camisola e correu para o banheiro,

trancando a porta. Um silêncio total se seguiu à sua fuga, e ela encostou o ouvido na porta para escutar.

- Nós teremos todas as noites pelo resto de nossas vidas. - disse Raff com ironia, do lado de fora. Depois, saiu do quarto batendo a porta.

41

CAPÍTULO VIII

Nas semanas seguintes àqueles desentendimentos, Raff passou a evitar Bryna mais do que nunca. Todas as manhãs, ele saía para o escritório bem cedo, e raramente vinha jantar. E, quando o fazia, pedia que lhe levassem a refeição no estúdio. A única hora em que os dois ficavam juntos era quando Bryna tinha consulta marcada com o obstetra. Raff fazia questão de acompanhá-Ia, pois queria estar a par de todos os aspectos da gravidez, fazendo ao médico uma série de perguntas que a deixavam embaraçada. Quando Bryna completou seis meses de gravidez, Raff foi com ela ao hospital para fazer o ultra-som. Fascinados, ambos observaram o bebê movimentando-se no útero. Depois de terem compartilhado aquela experiência tão maravilhosa, a fria distância que havia entre eles pareceu atenuar-se um pouco. Ao voltarem de carro para casa, Raff comentou:

- Eu estava observando a expressão do seu rosto. Você quer muito essa criança,

não é?

- Claro que sim!

Ele suspirou ao vê-Ia colocar-se na defensiva.

- Não tive a intenção de ser desagradável. Fiquei apenas emocionado com a sua

expressão de orgulho.

- Você, emocionado? Isto é um verdadeiro milagre!

Após fazer uma pausa, Raff perguntou:

- Bryna, você acha que é tarde demais para nós dois?

- O que quer dizer?

- Bem, nós agora estamos casados e logo vamos ter nosso filho. Não acha que poderíamos tentar fazer este casamento dar certo?

Bryna não queria outra coisa na vida! "Mas como isso seria possível se ele estava tão certo de que ela o traíra com seu melhor amigo?", questionou-se.

- E quanto a Court? Perguntou.

Ele comprimiu os lábios, numa expressão de tristeza.

- Eu realmente ainda estou muito magoado com vocês dois, mas reconheço que

você está se esforçando para afastar-se dele. Desde aquele dia no restaurante, você nunca mais o viu

- Você falou com Court, Raff?

- Não.

- Então como é que sabe? Oh, não! Você não contratou um detetive, contratou?

- De que outra forma eu poderia saber o que minha esposa estava fazendo ultimamente?

- Muito simples! Você poderia ter me perguntado. Coitado desse detetive! Há esta

hora deve estar morrendo de tédio. Porque vigiar uma mulher indo de casa para o tra- balho e do trabalho para casa deve ser terrivelmente maçante! Raff estendeu a mão para fazer-lhe um carinho.

- Bryna

- Por favor, não toque em mim! Leve-me o mais depressa possível ao escritório,

porque tenho muito trabalho hoje.

- Mas já são cinco horas!

- Vou seguir o seu exemplo e "trabalhar até tarde". Avise isso ao seu detetive

- Eu não tenho um detetive! E pretendi vigiá-Ia apenas por alguns dias

- Mas por quê? Por que você não confia em mim?

- Bryna, eu vi vocês juntos no restaurante várias vezes! O que você queria que eu pensasse? Ela balançou a cabeça, desanimada

42

- Eu não entendo você! Juro que não entendo.

- Bryna, no meu primeiro casamento minha esposa tinha um amante

- Vocês dois tinham amantes!

- É verdade! Porem, os meus casos eram eventuais; nunca me envolvi com uma

mulher seriamente. Josey, entretanto, tinha um amante fixo, e não me deixou para assumir um compromisso com ele por causa das crianças Bryna teve pena.

- Como vocês dois deviam sentir-se infelizes!

- Você compreende agora, Bryna? Não quero passar por tudo isso novamente.

Conosco pode ser bem diferente Ainda podemos ser felizes! Como podemos ser felizes se você não tem confiança em mim e me deixa sempre

só?

- Bryna, tenho chegado tarde em casa todos os dias por falta de motivação. Mas podemos recomeçar nossas vidas hoje mesmo! Que seja desde o principio: como estranhos.

- Não exagere! Quase como estranhos - ela retrucou, bem-humorada. Ambos riram.

- Sabe que você fica muito bonita grávida?

O rubor de prazer pelo elogio de Raff embelezou as faces de Bryna e seus olhos

brilharam. Intimamente ela sabia que chegaria o dia em que seu marido aprenderia a confiar nela. Depois daquele dia, Raff e Bryna não formavam exatamente um casal feliz, mas o relacionamento de ambos melhorou consideravelmente. Agora eles almoçavam juntos algumas vezes, e Raff já não voltava tão tarde para casa, à noite. Estando mais amigos, descobriram que tinham, surpreendentemente, muita coisa em comum; passaram, então, a trocar idéias, inclusive sobre assuntos de trabalho.

A gostosa camaradagem que nasceu entre eles aproximou-os pouco a pouco,

fazendo com que percebessem que, independentemente da vontade de cada um, sentiam-se atraídos e desejavam-se. Mais confusa do que nunca, Bryna aguardava os acontecimentos sem ter idéia de

como tudo terminaria. De qualquer forma, sentia-se feliz.

Certa noite, Kate convidou-os para jantar, a fim de comemorar a decoração do apartamento, sua nova moradia. Quando estavam no carro, a caminho do apartamento, Raff comentou bem humorado:

- Só espero que Kate tenha aprendido a cozinhar! Uma vez colocou sal no arroz doce, imagine! Bryna riu com espontaneidade.

- Que idade ela tinha quando isso aconteceu?

- Nove anos. Ela só estava querendo ajudar, pois Josey tinha morrido. Paul e eu comemos tudo para não magoá-la.

- Bem, acho que ela tem mais jeito agora. Pelo menos no Natal, ajudou muito na

preparação do almoço.

- Esperemos que sim! Ele sorriu e voltou-se para ela. Depois, tomando-lhe a mão,

elogiou-a: - Você está linda esta noite! Feliz, Bryna também sorriu. Sua cintura aumentara consideravelmente, e ela estava usando um gracioso vestido azul de gestante, que o próprio Raff escolhera. Nos seus olhos, havia um brilho diferente, próprio de seu estado, embelezando-Ihe o rosto. Quando chegaram ao apartamento, Brenda recebeu-os a porta, usando um vestido preto muito bonito, mas com um decote um tanto exagerado para seus dezoito anos. Kate surgiu logo depois, abraçou o pai e beijou Bryna no rosto. Em seguida, serviu- Ihes uma bebida. Ao ver a expressão preocupada do pai, ela explicou:

43

- Comprei especialmente para a ocasião.

- Ah, bom! - Raff exclamou. Depois se dirigiu para a amiga de Kate:

- Você está muito elegante, Brenda.

Bryna sentiu ciúmes quando a garota interpretou a gentileza dele como um flerte e lhe sorriu, insinuante. Ao perceber o ar guloso da moça para seu pai, Kate olhou-a com ar de reprovação. Bryna se ofereceu para ajudar na cozinha, sabendo que Raff jamais se interessaria

pela colega de escola da filha! Para disfarçar seu constrangimento, Kate foi logo se desculpando com a madrasta. Aquele pequeno período em que estava morando com Brenda servira para lhe mostrar o caráter um tanto duvidoso da amiga.

- Não ligue para Brenda, Bryna Ela é uma tola! Não perde a oportunidade de jogar seu charme para o lado de um homem mais velho!

- Fique tranqüila, Kate, não estou nem um pouco preocupada

- Eu sei, querida! Mas Brenda precisa aprender a se comportar

- E vocês? Estão se dando bem? Bryna perguntou casualmente. Kate mexeu a comida na panela antes de responder.

Nós sempre nos demos bem. Bryna teve dúvidas quanto à

afirmação da enteada mas preferiu guardar suas desconfianças. Quando ambas retornaram à sala de estar, Paul e sua namorada, Lynn, haviam chegado. Logo depois chegaram também Roger, amigo de Kate, e Flip, amigo de Brenda. Imediatamente Bryna percebeu que Raff sentia-se um tanto deslocado em companhia daquele grupo de jovens alegres e expansivos. Reconheceu que também estava. Nisso, a compainha tocou novamente e Kate levantou-se de um salto para atender. - Eu já sei quem é! Agora vocês não poderão reclamar que este jantar só tem adolescentes! Ela disse com euforia olhando significativamente para Raff e Bryna. Antes que a enteada abrisse a porta, Bryna pressentiu que ela se referia a Court. Ao entrar, Court dirigiu um olhar súplice para Raff, como se lhe pedisse compreensão. Raff encarou o amigo e em seguida olhou para Bryna, cuja expressão preocupada transmitia mensagem igual.

A expressão excitada de Kate diante da presença de Court acabou por convencê-

Io. Ele não podia estragar a alegria da filha obrigando-a a expulsar Court dali, nem tampouco fazer-lhe a desfeita de abandonar a casa. Sob o olhar complacente do pai, Kate riu, dando-lhe o braço carinhosamente.

- Oh, você sabe

- Entre, titio! Não fique aí parado!

- Minha namorada não pôde vir porque está com uma terrível enxaqueca!

Comentou Court. Raff zombou:

- E você não foi capaz de arranjar outra companhia, Court? Você me desaponta! Ofendido, Court encarou o outro, desafiando-o.

Com as moças bonitas aqui presentes, acho que os cavalheiros não vão

se importar em dividir a atenção delas comigo. Bryna encolheu-se ante a insinuação. Court estava zangado e com justa razão.

Fora Raff quem o agredira primeiro, mas agora a situação estava ficando delicada. Kate apressou-se em aliviar a atmosfera tensa.

- Bem

- Você pode sentar-se a meu lado, tio Court.

Mais descontraído, ele sorriu.

- Se você vai ser a minha dama, acho bom parar de me chamar de tio.

Roger Delaney colocou o braço em volta dos ombros de Kate, numa atitude de

posse.

- Ela só permitiu que sentasse ao lado dela - disse, brincando.

44

Kate corou e olhou sem jeito para o pai, notando que a expressão dele era bem- humorada. Raff era um pai zeloso e ciumento, mas estava evidente que aprovara a esco-

lha da filha: um rapaz alto, moreno e de olhos azuis, que estudava História e pretendia tornar-se professor. Tranqüilamente, Raff aproximou-se de Bryna, sentando-se a seu lado, e envolveu-a pelo ombro com seu braço. Em seguida, dirigiu-se novamente a Court com cara de pou- cos amigos:

- Está vendo como eu tinha razão, Court? Você devia ter arranjado uma companhia, pois aqui ninguém está disposto a dividir a sua.

- Flip não se importa! Brenda se ofereceu, olhando significantemente para Court.

E nem adiantava Flip se importar. Aquele rapaz quieto, meio tímido, parecia não ter o menor poder sobre a moça que, volúvel, agia a seu bel-prazer. Com as pupilas brilhantes de excitação e ignorando completamente a presença do namorado, Brenda simplesmente monopolizou Court. Com pena de Flip, Bryna fez o possível para incluí-Io na conversa, enquanto Raff permanecia calado. Por outro lado, ela sabia que o marido devia estar zangado com a

aparição súbita do rival naquela reunião, e rezava para que ele pelo menos acreditasse que ela não sabia de nada.

- Com licença!

Surpresa, Bryna olhou para Court, que acabara de sentar-se a seu lado no sofá, no lugar de Raff, que fora buscar uma bebida. Com um suspiro desanimado, Court se queixou:

- Eu não devia ter vindo a este jantar! Sabia que você e Raff também viriam, mas Kate foi

tão insistente

!

- Como você tem passado Court? Bryna perguntou, atenciosa.

- Muito bem! Obrigado. E você? Parece uma rosa desabrochando!

- Você é muito gentil, Court!

Depois de uma pausa, ele perguntou:

- Está realmente bem, Bryna? Fiquei preocupado com você desde aquele dia no

restaurante

você não me telefonou mais!

- Não foi preciso.

- Isto quer dizer que você e Raff agora estão se dando bem?

- Pode-se dizer que sim.

- Você está feliz?

Sim, ela estava feliz e tranqüila. Seu olhar procurou instintivamente por Raff, que estava demorando para voltar. Viu-o conversando com Roger Delaney, completamente

alheio aos dois, ali sentados juntos no sofá. Ela, porem, sabia que por detrás daquela indiferença aparente Raff estava atento.

- Sim, Court. Eu estou feliz!

- Bem, nesse caso talvez seja melhor não lhe contar nada.

Parte da alegria que havia em seus olhos desapareceu e ela se voltou para Court,

intrigada.

- Contar o quê? Por favor, diga-me

- Bem, é que eu me lembrei de ter visto uma pessoa próxima de nós, nas várias vezes em que saímos juntos

- E quem é essa pessoa?

- É o assistente de Raff O nome dele é

Hillier. Isto mesmo! A princípio pensei que

E quando você me

contou que Raff sabia dos nossos encontros, lembrei desse sujeito. Só pode ter sido ele o espião!

fosse coincidência, mas depois comecei a achar muito estranho

- Mas por que Hillier faria isso?

- Sei lá

Mas, que eu me lembre, é a única pessoa que nos viu juntos.

45

"Stuart Hillier! Então era ele quem estava fazendo o papel de detetive", pensou, furiosa.

Agora entendo o porquê - disse ela, tentando

conter as lágrimas.

- Bryna, por favor, não quero que fique triste! Agora estou me sentindo culpado Você estava tão feliz! Bryna não respondeu. Doía-Ihe saber que o relacionamento amistoso que surgira

entre ela e o marido tinha sido uma farsa. "Raff mandara o próprio assistente espioná-los! Que vergonha!" concluiu Court segurou-lhe as mãos, solidário.

- Jamais gostei desse homem

- Sinto muito, Bryna. Mas achei que era algo que de via saber. Nesse instante, Raff aproximou-se trazendo uma bebida.

- Aqui está, Bryna. Querida, você está tão pálida! ele acrescentou, preocupado. "Querida! A preocupação! Tudo falso", ela pensou.

- Raff, eu gostaria de ir para casa agora, se não se importa.

Ele encarou Court, procurando uma explicação.

- Claro! Vou avisar Kate e vamos embora.

A sós com Bryna, Court procurou animá-Ia.

- Posso estar enganado a respeito de Hillier, Bryna. Não se precipite sofrendo à

toa!

Bryna despediu-se rapidamente de todos e agradeceu a Kate pelo convite. E, quando saiu acompanhada de Raff, percebeu olhos curiosos estranhando a partida súbita.

A gostosa camaradagem que nascera entre Bryna e Raff praticamente

desaparecera. Ela estava envolta num mar de tristeza, e ele também estava bastante sombrio.

- Kate agora aprendeu realmente a cozinhar - comentou Raff, tentando romper o

silêncio. - Os camarões e o frango assado regado a vinho branco estavam deliciosos!

- É verdade! O jantar foi ótimo!

- O que você achou de Roger Delaney? Pareceu-me um bom rapaz!

- Também achei.

Ainda tensa, Bryna esperou pacientemente pela pergunta de Raff com relação à conversa que ela tivera com Court. Mas ele nada mencionou a respeito. Certa noite, ela se recolheu mais cedo do que de costume. Raff trancou a casa e subiu em seguida. Minutos depois, bateu de leve à porta dos aposentos dela. Bryna havia começado a se despir, mas foi atendê-Io.

- Deixe-me ajudá-Ia - pediu ele, começando a abrir o zíper de seu vestido.

Ela não ofereceu resistência quando Raff removeu suas sedosas roupas de baixo,

olhando-a de modo penetrante. Súbito, ele fez a pergunta a muito esperada:

- O que foi que Court lhe disse naquele jantar que a deixou tão transtornada?

- Nada! Ela respondeu simplesmente.

- Eu não sou nenhum tolo, Bryna! Você mudou depois de ter conversado com ele.

- Mudei mesmo?

- Mudou, sim, droga! Bryna, olhe para mim! Exclamou ele, segurando-lhe os

braços. Bryna cerrou as pálpebras, que de repente lhe pareceram pesadas demais. Raff a sacudiu, impaciente.

- Bryna! Eu quero você! Eu quero você! Será que não entende?

Ela nem sequer respondeu

- Meu Deus! Bryna? Não vê que está me deixando louco? Ele sussurrou inclinando

a cabeça para reclamar seus lábios.

46

A princípio, ela não teve a menor reação, mas, à medida que o beijo se tornava

mais exigente e as mãos fortes acariciavam desesperadamente seu corpo, foi pouco a

pouco se entregando. Odiou-se pela própria fraqueza enquanto se deliciava com os carinhos dele. Não faziam amor há tanto tempo que seu corpo clamava pela satisfação que só esse homem lhe podia dar. Pensou que fosse desmaiar de prazer ao sentir a mão de Raff em seu ventre. Se ele queria fazer amor, ela também queria.

O corpo de Raff estava quente e convidativo ao inclinar-se sobre ela. Assim que se

deitaram na cama, completamente despidos, Bryna gemeu de prazer quando ele a penetrou com cuidado por causa do bebê. Instintivamente começou a mover os quadris ao encontro dele, ansiosa por tê-Io todinho dentro de si. O desejo há muito contido agora

se extravazava com sofreguidão. Em questão de segundos chegaram ao prazer imenso e total.

No momento seguinte, Raff deitou-se, tranqüilo, a seu lado

- Agora me diga o que Court falou que a deixou tão preocupada?

Bryna sabia que depois do amor essa resposta lhe seria cobrada Encarou-o com firmeza e perguntou-lhe sem preâmbulos:

- Foi Stuart Hillier quem lhe contou sobre meus encontros com Court?

Raff franziu o cenho.

- Que importância tem quem me contou?

- Para mim é importante saber. Foi ele? Ela tornou a perguntar, sentando se na

cama

- Eu

De repente Bryna sentiu uma vertigem ao ver uma mancha vermelha no lençol.

- Raff! Eu estou sangrando! Olhou-o em pânico! Estou perdendo o bebê!

CAPÍTULO IX No leito do hospital, Bryna olhou para o marido sem uma palavra de queixa. A expressão do rosto dele estava séria e muito preocupada.

- O médico recomendou-lhe completo repouso. Você precisará ficar aqui uma

semana, mais ou menos. Depois, talvez possa ir para casa. Bryna balançou a cabeça afirmativamente, conformada. Raff não perdera tempo ao perceber o risco que ela estava correndo. Vestira-se apressadamente. Em seguida,

envolvera-a num cobertor e a carregara até o carro, indo direto para o hospital. Estavam lá há mais de duas horas e ele permanecera o tempo todo ao seu lado. Imediatamente os médicos haviam estancado o fluxo do sangue e, através de remédios, evitado um parto prematuro. A hemorragia cessara, pelo menos por enquanto.

- Bryna, querida, eu sinto muito!

Ela olhou-o, espantada por vê-Io tão angustiado.

- Agora tudo já passou, respondeu-lhe com ternura. Raff tomou-lhe a mão carinhosamente.

- Oh, Deus! Tomara que sim! Eu nunca deveria ter feito amor com você.

Ela corou embaraçada ao se lembrar das perguntas que o médico lhe fizera.

- Não foi isso

Raff meneou a cabeça.

O médico mesmo disse. Foi por causa de minha pressão.

- Não creio que o motivo tenha sido só este. Talvez tenha sido algo que Court lhe

disse

Bryna voltou-se para ele, irritada. Tivera tempo de ler a verdade nos seus olhos, apesar dos instantes de perigo que passara. O espião era realmente Stuart Hillier.

47

- Quer saber mesmo o que foi? Pois bem, foi o fato de saber que você preferiu

acreditar nas mentiras de um homem que mal conhecia em vez de acreditar na sua

esposa!

- Oh, não vamos discutir isso agora

- Acho que não devemos discutir sobre isso nunca mais. Você jamais acreditará em

Acho que o

mim, mas saiba que está redondamente enganado. Agora é melhor você ir médico disse para eu descansar As faces de Raff se afoguearam ao ser repudiado tão friamente.

- Se você me deixasse explicar

- Por favor! Deixe-me descansar! Ele suspirou, desanimado.

-

eu gosto de você! Não me perdoaria se alguma coisa lhe

acontecesse.

- Você está se referindo ao bebê, não é? Mas não se preocupe Raff. Quero esse

bebê mais que você!

- Nós dois o queremos! Mas agora trate de dormir, está bem? Ele fez menção de

beijar-lhe a testa, mas desistiu imediatamente quando ela se encolheu. - às vezes penso

se não teria sido melhor você não ter engravidado

- Acredite, seu eu soubesse que não era estéril, jamais teria escolhido você como

pai do meu filho! Raff ficou imóvel.

Bryna,

eu

concluiu com tristeza.

- O que você quer dizer com isso?

- Deixe pra lá

- Não, não deixo

Bryna engoliu em seco e enfrentou-o

Agora eu quero saber!

Eu precisei fazer uma operação quando ainda era adolescente e os

médicos disseram que não poderia mais ser mãe. Portanto, se não me preveni com algum tipo de anticoncepcional, Raff, é porque pensava que nunca ficaria grávida! Ele sentou-se na cadeira, ao lado da cama.

- Bem

-

Céus! Eu pensei que você não gostasse de criança, e tivesse medo de ficar

grávida

Por outro lado, sabia que Court era estéril.

-

Por isso achou que nós fazíamos um par perfeito - ironizou ela com amargura.

-

Então foi por isso?

-

Por isso, o quê, Raff?

-

Foi por isso que quando nos conhecemos você me escolheu em vez de ficar com

Court?

Bryna empalideceu.

- Não o escolhi, Raff. A escolha foi mútua. Eu não sabia que Court era estéril e

também não tinha a menor esperança de algum dia ser mãe.

- Claro que não! Eu não sei o que está havendo comigo, Bryna.

- Pois eu sei! Você resolveu pensar o pior, acreditando que houvesse algum motivo

obscuro que me levou ao casamento. Bem, isto talvez o ajude, eu nunca teria me casado com você se não tivesse ameaçado tomar o bebê de mim! - Ela desabafou visivelmente

agitada.

Raff olhou-a, assustado. Nesse instante uma enfermeira entrou no quarto e avisou:

- Eu sinto muito, Sr. Gallagher, mas sua esposa precisa descansar agora. E o

senhor também. Já são duas horas da madrugada e o perigo já passou. Não se preocupe! “O perigo já havia passado e o casamento deles também", pensou Bryna. Havia sido um erro casar-se por causa da criança. Deveria ter enfrentado Raff num tribunal para defender seu filho. Mas agora era tarde para arrependimentos. Tinha que resolver o problema de alguma outra forma. Conversaria com Raff sobre isso no momento oportuno

48

Kate e Paul visitaram Bryna nos dias seguintes, mostrando-se muito atenciosos com ela e com o futuro irmãozinho. O susto os aproximara ainda mais do bebê. Bryna

recebeu também a visita dos pais, que, preocupados, vieram da Escócia, e de várias das modelos e amigas com quem trabalhava. Court apareceu uma única vez, um pouco antes do horário regular de visitas. Obviamente para evitar um encontro com Raff. Ele trazia um ramo de violetas na mão.

- São para você! As violetas me lembram a cor dos seus olhos. Bryna acariciou as delicadas pétalas, comovida.

- Obrigada!

Puxando uma cadeira, ele sentou-se ao lado da cama.

- E então? Como tem passado?

- Estou bem. Como soube que eu estava aqui?

- Kate me contou. Foi um grande susto, não é?

- De fato! Mas agora está tudo bem.

De repente Court pareceu-lhe mais velho, cansado

- Eu não me perdoaria nunca se você tivesse perdido o bebê.

- Não foi nada disso, Court! Sabe, quando o bebê nascer, eu gostaria que você fosse o padrinho! Ele ficou surpreso.

- Já pensou como Raff reagiria?

- Isso não é da conta dele!

- Você o deixou? Court perguntou, intrigado. Bryna respirou profundamente.

- Não

ainda não. Estou aguardando uma oportunidade para conversar com Raff

Independentemente disso, quero que você seja o padrinho do bebê. Os olhos de Court ficaram sombrios.

ir

- Então ele lhe contou sobre mim, não foi?

- Court

Ele se levantou, com o rosto estranhamente inexpressivo.

- Já imagino em que circunstância Raff lhe contou. Mas tudo bem

ela sussurrou, arrependida por ter magoado o amigo.

Bryna estendeu as mãos para ele.

Agora preciso

-

Oh, Court, não! Não vá assim! A última coisa que quero no mundo e magoá-Io.

-

Você não me magoou. Sou estéril e já me conformei com isso há anos

-

Muitas mulheres não se importariam de dotar um bebê, desde que você fosse o

marido .

-

Muitas mulheres! Acho que você está super estimando a maioria delas, Bryna.

-

Mas por que esta tão preocupado? Você resolveu se casar?

-

Ainda não tomei essa decisão. Mas acho que isso não seria possível.

-

Por que não, Court? Hoje em dia existem mulheres que não querem ter filhos

- São criaturas insensíveis, desprovidas de instinto maternal. Eu não quero uma esposa assim. Bryna balançou a cabeça, censurando-o.

- Você esta sendo rigoroso demais.

Bryna interrompeu-se ao ver sua amiga Alyson hesitante parada a porta. Sem olhos verdes brilharam ao reconhecer o homem fascinante com quem flertara no casamento de Bryna

- Posso entrar? Perguntou ela, sem tirar os olhos de cima de Court.

- Claro! Ele sorriu para a recém chegada.

- Como vai, Bryna?

- Estou bem, obrigada. Alyson voltou-se para Court com voz sedutora

49

- Você não me telefonou depois daquela festa. Desistiu de sair comigo?

- Bem, que tal esta noite? Ele sugeriu.

- Ótimo! Respondeu Alyson, entusiasmada.

- Cuide se bem, Bryna e do bebê também recomendou ao se despedir.

- Você já vai embora, Court?

- Acho melhor ir andando antes que Raff chegue.

- Que pena!

- Adeus, Bryna. Seja feliz! Court curvou se para beijar lhe a face. Aquela separação parecia ser definitiva

- Por que está falando assim, Court?

- Eu realmente preciso ir, Bryna. Não se preocupe comigo; ficarei bem. - Ele voltou se para Alyson. - Até logo mais Bryna recostou-se sobre os travesseiros. Estava triste por ter magoado o amigo.

- Eu interrompi alguma coisa? Alyson perguntou preocupada, sentando-se próximo

à cama após ter colocado as revistas que trouxera sobre a mesinha. Bryna sorriu-lhe.

- Claro que não!

- Court parecia tão aborrecido! O que houve com ele? Bryna riu condescendente para a outra.

- Você gostou mesmo dele, não é?

Alyson deu-lhe um sorriso maroto. Ela e Bryna haviam começado juntas a carreira

de modelo, oito anos atrás, e durante todo esse tempo ela nunca tivera sorte no amor. Agora estava quase descrente.

- Gostei. Acha que ele vai me telefonar?

- Claro! Pode dar certo com Court!

- Você podia ter me prevenido a respeito de Stuart Hillier

- Você chegou a sair com ele? Bryna perguntou, curiosa

- Sim, infelizmente.

- Infelizmente por quê?

- Ele falou muito sobre Raff.

- E sobre mim? Falou alguma coisa? Alyson procurou se lembrar.

Alyson se queixou.

acho que umas duas vezes, e fez muitas perguntas, coisa que estranhei

bastante. Então eu lhe disse que, se estava tão interessado em você, que fosse perguntar

a Raff. Isto fez com que ele fechasse a boca!

"Claro que Stuart não poderia perguntar nada a Raff, pois fora o próprio Raff quem lhe pedira para fazer as investigações", pensou Bryna. Desta vez seu marido fora longe

demais!

- Agora esqueça Stuart Hillier! Disse Bryna, dando um sorriso. - Court é muito mais agradável, pode acreditar Alyson também sorriu.

- Bem

- Tenho certeza de que sim!

Quando Raff chegou, alguns minutos depois, Bryna não procurou reter Alyson. Apenas agradeceu-lhe a visita e as revistas.

Raff pôs alguns livros e uma caixa de bombons na mesa.

- Alyson foi muito gentil - comentou, depois que a moça saiu.

Bryna olhou-o com indiferença. Mesmo assim, reparou que ele estava mais magro

e um tanto abatido. Mas, certamente, não era de remorso. Ele era um homem muito frio, incapaz de tal sentimento.

- Kate e Paul virão mais tarde; eles foram lhe comprar um presente - Raff disse, meio sem jeito, procurando acomodar-se perto dela.

- Eles não deviam se incomodar com presentes - ela respondeu num tom de

censura.

50

- Mas este é especial. É uma homenagem à sua volta ao lar. O médico vai lhe dar alta amanhã - Raff contou, com os olhos brilhando de alegria.

- Sim, eu sei - ela confirmou sem entusiasmo. Raff franziu o cenho diante do seu desânimo.

- Você não parece muito feliz

- Estou preocupada com o bebê. Aqui, pelo menos, sinto-me mais segura.

- Mas agora o bebê está completamente fora de perigo. É só continuar o repouso.

Por quê?

Além disso, lá em casa você terá mais conforto - ressaltou ele. Bryna respirou fundo antes de comunicar ao marido sua decisão.

- Eu não vou voltar para casa, Raff.

Ele a olhou, incrédulo.

- Mas o médico já autorizou, Bryna! Não estou entendendo

- Concordo plenamente com o médico. O que eu quis dizer é que não vou voltar

para a sua casa - ela esclareceu, enfrentando-o quando ele se ergueu da cadeira para protestar.

-

A casa é nossa, droga! Para onde mais você iria? Ela deu de ombros.

-

Estou pensando em voltar para a Escócia e ficar na casa de meus pais

-

Você não está em condições de viajar.

-

Mamãe poderá ficar aqui comigo, num apartamento, até que eu me recupere

-

E

seu

pai? Já pensou

como seria difícil para ele se sua mãe o deixasse lá

sozinho? Principalmente agora, nesta época do ano

apartamento. Bryna sentiu as faces corarem ao reconhecer que Raff tinha razão. Mas não podia desistir.

Por outro lado, você não tem mais

- Vou alugar um

- Você está muito fraca para se preocupar com isso agora. Teria que comprar móveis, providenciar uma série de coisas

- Não faz mal

- Acalme-se! Cuidado com sua pressão

- Não! Só quero que entenda que nosso casamento está terminado, Raff. Eu não

quero ter mais nada em comum com você!

Alugarei um apartamento mobiliado, mas não vou viver com você!

Quer piorar de novo?

Furioso, Raff cerrou os dentes.

- Você não precisa mudar de casa por causa disto! Podemos viver separados na mesma casa! Já deu certo uma vez, lembra-se? Bryna meneou a cabeça.

- Mas eu não sei se conseguirei suportar esta situação outra vez.

- Por que não?

- Porque não confio mais em você! Raff comprimiu a boca num gesto nervoso.

- Não vou permitir que você coloque em risco a vida do meu filho novamente! Bradou ele perdendo a paciência.

- Nós nos casamos só por causa do bebê, e você prometeu não me tocar. Mas

quebrou a promessa logo apos o casamento. Não posso mais confiar em você!

- Pode, sim! Eu lhe dou a minha palavra de que não a tocarei mais. Só quero cuidar de você. Por favor, Bryna, deixe-me cuidar de você!

- Você já me enganou uma vez

- Agora será diferente! Eu prometo! Tenho criados que poderão cuidar para que

você

preocupados! - Está bem, Raff - ela concordou, afinal. - Mas depois que o bebê nascer vou procurar outro lugar para morar.

esforço. Chamar sua mãe agora só deixaria seus pais

não

faça

nenhum

51

A expressão de Raff tornou-se ainda mais sombria, porém ele não contestou. Simplesmente concordou, acenando a cabeça, silenciosamente.

CAPÍTULO X

Recostada no sofá da sala, Bryna baixou o livro que estava lendo para olhar a enteada que acabara de chegar com uma mala na mão. Depois de colocar a bagagem no chão, a garota correu ao seu encontro, soluçando. Preocupada, Bryna abriu-lhe os braços e afagou-lhe os cabelos. Esperou pacientemente que Kate se acalmasse para saber o que acontecera. Ela parecia tão jovem e tão vulnerável que seu coração se apiedou.

- O que houve, querida?

Kate enxugou as lágrimas com a palma da mão.

- Eu não devia lhe trazer preocupação no seu estado

- Meu "estado" agora é o de substituir sua mãe, Kate. Eu gosto de você, sabia?

A moça sorriu, mas seus olhos continuaram cheios de lágrimas.

- Também gosto de você, Bryna. E a considero muito! Mas Paul e eu achamos que você é jovem demais para que a chamemos de mãe

Não se preocupe com isso! Conte-me agora o que a aflige.

Talvez eu possa ajudá-Ia.

- Entendo! Bem

- É Brenda! - disse Kate com ressentimento.

- O que foi que ela fez?

Kate levantou-se agitada.

- Pensei que ela fosse minha amiga, mas não é! Brenda nem sequer sabe o

significado da palavra amizade!

- Bem, ela é uma garota estranha, mas sempre pensei que fosse sua amiga

- Olhe, eu lhe perdoei tudo; o desleixo, o egoísmo. Mas o que não posso aceitar de jeito nenhum e que Brenda tente seduzir Roger!

- E ela teve algum sucesso?

- Claro que não! Roger não esta interessado nela, ele me ama

bem, é de mim que

ele gosta! Está tão indignado com o comportamento dela quanto eu!

- O que aconteceu exatamente?

- Demorei para chegar esta noite e Roger, pensando que eu já estava Ia, foi direto

para o apartamento. Cheguei no momento exato em que Brenda tentava beija-lo en- quanto ele procurava afastá-Ia! Assim que Brenda me viu, jurou que Roger é que pretendia conquistá-Ia, mas acontece que eu vi os dois! Arrumei minha mala e vim

embora. O resto dos meus pertences pegarei depois. Na hora, só pensei em sair dali o mais depressa possível.

- E onde esta Roger, agora?

Kate pareceu sem jeito.

- Ele queria vir para casa comigo, mas eu lhe disse que o veria mais tarde. Achei

melhor enfrentar papai sozinha. - acrescentou relutante. Bryna adivinhou que a relutância de kate devia-se ao temor de ouvir do pai aquela

frase inevitável: “Bem que eu avisei”. Sentiu-se então na obrigação de não deixar a moça enfrentar Raff sozinha Ambas tiveram um sobressalto quando a porta da frente se abriu e fechou. Kate voltou-se para Bryna suplicante:

- Acho que é o papai! Oh! Bryna por favor, me ajude! Bryna sorriu tentando tranqüiliza-la.

- Não se preocupe! Estou com você!

52

As duas permaneceram sentadas no sofá enquanto Raff atravessou a sala de estar e dirigiu-se ao estúdio, como geralmente fazia. Desde que Bryna deixara o hospital, há uma semana, ao voltar para casa, ele passava direto sem ao menos olhar para ela. Desta vez, porem, Kate o chamou:

- Papai!

Ele se voltou lentamente, arregalando os olhos de surpresa.

- O que aconteceu, Kate? Perguntou de ao ver a mala ao lado da filha

Kate fez menção de chorar outra vez, então Bryna se adiantou.

- Kate resolveu ficar aqui em casa por algum tempo.

Raff respirou aliviado e aproximou-se dela

deixando sua valise sobre a cadeira

- Ótimo! Quanto tempo você pretende ficar; querida? Perguntou, oferecendo-lhe uma bebida

Desesperada, Katz olhou para Bryna, sem saber o que responder, esta lhe sorriu de modo tranqüilizador.

- A verdade, Raff, e que Kate resolveu mudar-se definitivamente para cá a fim de me fazer companhia até que o bebê nasça. Foi um gesto muito gentil. Não acha?

- Realmente! Estou certo de que Bryna apreciara muitíssimo a sua companhia, minha filha. Kate corou

- Bem, eu acho que vou levar minhas coisas para o quarto e me trocar para o jantar. Abraçou Bryna, agradecida, antes de sair apressadamente da sala.

Quando a porta se fechou atrás dela Raff suspirou mostrando se preocupado

- O que aconteceu realmente? Quis saber.

Bryna hesitou um instante, mas depois respondeu:

- Brenda tentou paquerar alguém que já era comprometido! Roger.

- O que?

- Estou certa de que Kate lhe contara tudo, mais tarde. No momento ela está terrivelmente desiludida! É melhor deixar que se acalme!

- Por causa de Roger?

- Por causa da amiga. Roger não deu a menor confiança a Brenda. Raff se aproximou da lareira.

- Graças a Deus! Tenho a impressão de que Kate esta apaixonada por ele, você não acha?

- Acho que só Kate poderá lhe responder.

- É verdade. Bem

Obrigado por conversar com minha filha quando ela precisou

desabafar com alguém.

- Não precisa me agradecer, Raff. Eu gosto muito de seus filhos. Sempre gostei.

- É apenas o pai deles que você não suporta. Não é? Entretanto, com a presença de Kate nesta casa, a coisas terão que mudar

- Como assim?

- Não poderemos continuar agindo como dois estranhos na frente dela

- Estou disposta a acompanhá-Ia nas refeições, se isto ajudar

- Você faria isso por Kate, mas não por mim!

- Você não é tão vulnerável quanto ela!

.

- Não sou? Então por que acha que eu me prendo a uma pessoa que só está esperando meu filho nascer para retornar ao homem que realmente ama?

- Por favor, não me venha com acusações novamente! Eu não vejo Court desde

- Há uma semana. Eu o vi quando foi visitá-la no hospital. Foi por isso que cheguei mais tarde.

- Você disse que tinha ido falar com o médico.

- Eu falei, de fato. Mas foi antes!

- Se sabia que Court estava lá comigo, no quarto, por que não entrou?

53

- Porque não queria ver vocês dois juntos! Já bastava ouvi-Ia dizer que ia me abandonar

- Mas esta decisão nada tem a ver com Court. Resolvi isso por que

- Você não vai se trocar, papai? Perguntou Kate, voltando para a sala, quase

recuperada da desilusão. Eu telefonei para Roger e o convidei para o jantar. Ele estará aqui dentro de alguns minutos. Raff olhou pesaroso para Bryna antes de sorrir para a filha e brincar.

- E quando é que ele vai pedir a mão de minha filha em casamento?

- Nós já decidimos que só vamos nos casar daqui a dois anos - Kate explicou, sem

jeito.

- Obrigado por ter me contado - disse Raff, bem-humorado.

Kate sorriu.

- Bem, que tal se fosse se aprontar agora? Eu estou com fome, papai!

- Ótima idéia! Eu também estou com fome - concordou Raff - Me apronto em um

minuto. Kate aproximou-se de Bryna para agradecer-lhe.

- Muito obrigada por ter me socorrido há pouco.

- Querida, seu pai sabia que eu não estava dizendo a verdade.

- Sim, foi o que pensei. Falarei com ele sobre esse assunto mais tarde.

A refeição transcorreu tranqüila e agradável. Roger e Raff pareciam dar-se muito bem e Bryna concluiu que Kate não teria a menor dificuldade para que seu pai aceitasse o casamento, quando chegasse o momento oportuno. Mais tarde, na sala de estar, Bryna serviu o café enquanto os demais continuavam a alegre conversa iniciada ao jantar. Feliz, Kate comentou com o pai.

- Estou tão contente por você e o tio Court terem feito as pazes! Não sei por que brigaram, mas o importante é que agora vocês voltaram a ser bons amigos Raff olhou de modo sério para Kate.

- Não faça essa cara de espanto, papai

- Não, minha filha. Você é uma moça muito inteligente, mas desta vez se enganou.

A alegria desapareceu do rosto de Kate.

- Quer dizer que vocês dois ainda estão brigados?

Agora está tudo bem, não está?

- Eu lamento muito, mas a verdade é essa! Enfim, não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, não é mesmo?

- Eu sei! Entretanto pensei que

- Não sei o que você pensou, mas saiba que eu não vejo Court há um bom

- Você, não, mas Stuart, sim. Pensei que ele estivesse tratando de negócios com

tio Court. Por isso achei que vocês tinham feito as pazes

explicou Kate, ainda incrédula.

Raff encarou a filha, pensativo.

- Quando foi que você viu Stuart e Court juntos? Kate procurou lembrar.

- Acho que já faz umas duas semanas

Bryna ficou intrigada. "Court e Stuart Hillier juntos?” “Por que aqueles dois homens se encontrariam senão por questões de trabalho, ligadas a Raff?” Questionou.-se. A única

resposta que lhe ocorreu deixou-a subitamente pálida.

Raff ia dizer qualquer coisa à filha mas assustou-se ao ver a palidez de Bryna. Agachando-se rapidamente, perguntou-lhe, segurando-lhe as mãos:

- Querida, o que foi?

Mas o pensamento de Bryna estava longe

homem errado?

Seria possível que ela confiara no

- Raff, quem lhe disse que eu estava tendo um caso com Court?

- Bryna

- Raff, por favor, responda. É muito importante para mim! Para o nosso futuro!

54

- Nosso futuro? Bryna, por favor, não brinque comigo!

- Não sou eu quem está brincando com você. Ou melhor, conosco. E trata-se de uma brincadeira de mau gosto!

- De que você está falando?

- Raff, você deu ordens para Stuart Hillier me espionar?

O rosto dele encheu-se de indignação.

- Claro que não! Admito que foi ele quem me contou que viu você e Court juntos;

mas nunca lhe pedi para espionar você!

- Então quem foi?

- Ninguém. Ora!

- Então por que ele me seguiu?

- Você deve estar enganada! Stuart viu vocês dois juntos no restaurante e

comentou o fato comigo

- Raff, quantos restaurantes existem em Londres? Ele franziu o cenho e deu de

ombros.

- Não sei, talvez centenas.

- Então como é que Stuart e você me viram com Court quando nos encontrávamos.

Eu pensei que fosse você quem o

mandava

Bryna engoliu em seco. A desilusão era grande demais. Ela gostava realmente de Court e considerava-o um verdadeiro amigo. No entanto, ele quase destruíra o seu futuro; assim como o futuro de seu filho. Raff sentou-se na cama.

Londres é uma cidade grande demais para isso

Mas agora sei que você é inocente. A idéia partiu de Court.

- Como você sabe? Perguntou, intrigado e carrancudo.

Ela enxugou uma lágrima.

- Eu sei. Por enquanto é o que posso dizer. Você acredita em mim?

- Querida, eu jamais duvidei de você. - Raff tomou-lhe as mãos com ternura. -

Agora procure relaxar! Embalada pelo carinho de Raff, Bryna fechou os olhos. Agora tudo estava tão claro como à luz do sol. Quando conhecera Raff, julgara que ele fosse um homem frio e calculista e mesmo apaixonada por ele, ficara na defensiva. Confiara em Court que era

justamente tudo aquilo que pensava de Raff. “Céus, como fora cega e injusta!”, concluiu. Abriu os olhos, fitou Raff. Pela primeira vez o via como ele era: um homem bom, justo, responsável e apaixonado!

- Eu o amo - confessou em voz embargada.

- Você

você me ama? Ele perguntou, emocionado.

- Sempre o amei. Apaixonei-me desde aquela primeira noite em que saímos juntos. Jamais teria me entregado a você se não o amasse. Ele apertou-lhe as mãos.

- Oh! Bryna! Por que não me contou antes. Nós já estaríamos casados há muito tempo se eu soubesse disso Bryna olhou-o sem entender.

- Como assim? Sempre pensei que você não quisesse casar-se outra vez

Ele meneou a cabeça, negando.

- se não casei antes com você, a culpa foi sua

- Mas

- Lembra-se da primeira vez em que nós fizemos amor? Naquela noite eu queria

dizer-lhe o quanto a amava e pedi-Ia em casamento. Mas você foi logo esclarecendo seu

ponto de vista: nada de regras

Naquele

relacionamento nós apenas desfrutaríamos um do outro. Então eu me calei. Era a

primeira vez que me apaixonava desde o meu casamento prematuro com Josey. Mas

nada de laços e nem compromissos

55

essa mulher me dizia estar apenas interessada no meu corpo

imaginar como me senti!

Você não pode nem

- E eu só disse aquilo tudo porque achava que era o que você desejava ouvir.

Pensei que você não quisesse nada com o casamento e queria prendê-Io a meu lado enquanto pudesse

- Se pensasse assim, não a teria levado para minha casa e nem apresentado você a meus filhos. Ela beijou-lhe a mão forte e morena.

- Eu não sabia que você me amava, Raff. Mas "ele" sabia - disse, pousando a mão dele sobre a sua barriga. Raff sorriu.

 

-

Bryna, você me ama realmente?

-

Muito!

-

Então deve ter passado pelo mesmo inferno que eu! Bryna, querida, eu te amo

tanto!

 

-

Raff meu bem, faça amor comigo.

-

Agora? ele perguntou feliz.

-

você não quer?

- querida, é o que mais desejo no mundo! Mas temo machucar você ou o bebê. Nós já passamos um grande susto, esqueceu?

 

-

Aquilo aconteceu por problemas emocionais

não físicos. O médico garantiu

-

Mas você quase desmaiou lá embaixo, agora há pouco

-

Não se preocupe

tanto eu como o bebê queremos ter você bem perto

-

Nunca poderei negar nada a esse bebê! Ele gemeu e roçou o rosto nos cabelos

dela.

Bryna tomou-lhe o rosto entre as mãos, amorosamente. Pela primeira vez sentiu o prazer de amar e saber-se amada.

- Espero que seja um menino, bem parecido com o pai

Raff fez amor com Bryna vagarosamente, tocando delicadamente em cada centímetro de seu corpo. Afagou-lhe a barriga com ternura, beijou-lhe os seios com

paixão.

Quando seus corpos fundiram-se rum só, ambos estavam tão excitados que nem precisaram se mexer. Permaneceram juntinhos, deitados, perdidos em ondas de intenso prazer. Chegaram ao clímax, momentos depois. Raff deixou-se então cair para o lado, sedado de amor. A seu lado, Bryna nunca se sentira tão feliz e sossegada

- Eu te amo, Raff - repetiu. - E me orgulho de carregar o teu filho em meu ventre.

- Não pode se orgulhar mais do que eu! No entanto, nos dissemos coisas terríveis! Tudo isso para ocultar nosso amor

- Esqueça, Raff! O pesadelo já passou

Ele tomou-lhe a mão esquerda e beijou a aliança de ouro, símbolo do amor eterno.

- Quero-a a meu lado para sempre

- Nunca me perderá, Raff. Eu lhe prometo! Você me proporcionou a felicidade de

conceber um filho, o que, para mim, é um milagre!

disse Raff,

amoroso.

- Você se importaria se depois desse bebê eu quisesse ter um outro? Ela se

animou.

Não suportaria se algum dia a perdesse!

- Amo esse bebê principalmente porque é o fruto do nosso amor

- Se eu me importaria? Que pergunta Bryna! Que venham todos os bebês que

agora que sou um homem maduro, estou curtindo ainda mais a

Deus nos mandar alegria de ser pai!

56

- Oh! Raff, nunca imaginei que você me amasse apenas com o nosso filho

- Porque o nosso filho era o laço mais forte que nos unia e, pelo menos por ele, você aceitaria se casar comigo. Só Deus sabe o quanto eu precisava de você Bryna suspirou, inconformada com tantas incompreensões passadas, que os mantiveram afastados por tanto tempo.

- Quando você concordou tão prontamente com a condição de que dormíssemos em quartos separados, pensei que não me quisesse

Eu só concordei com essa condição porque tinha medo de que você

desistisse do casamento. Intimamente, porém, alimentava a esperança de algum dia

conquistar o seu coração tão frio

você parecia preocupado

- Oh! Não

e ter você para sempre em meus braços.

- Lembra-se daquela noite em que me disse que só queria acariciar o bebê?

Ele sorriu.

- E a você também. Nunca lhe disse isso porque achei que você amava Court. Eu estava cego de ciúmes. E quando ele a visitou no hospital

- Naquela noite Alyson também veio me visitar. Ela me contou sobre seus

encontros com Stuart Hillier; e que ele fez muitas perguntas a meu respeito. Então pensei que

- Que era eu! Pois pensou errado! Só pode ter sido Court.

- Raff, nós precisamos conversar sobre Court. Antes, porém, temos que confiar um

no outro e nos conscientizarmos do nosso amor. Até agora não entendi por que ele tentou

nos separar

quebrou o seu nariz com um taco de críquete! Agora é um adulto!

Afinal, Court não é mais aquele garotinho traquina e impertinente que

- Como é que você sabe que ele me quebrou o nariz quando criança?

- Court me contou logo que nos conhecemos. E, pelo visto, agora ele queria

quebrar o seu coração

- Bryna, querida, juro que nunca mais duvidarei de você. Se soubesse como me

arrependo das acusações injustas que lhe fiz e do modo agressivo com que a tratei Naquela noite, jurei tomá-Ia à força em meus braços, mas não tive coragem de voltar para

casa

- Meu pobre querido! Como deve ter sofrido! Exclamou Bryna, enternecida e,

depois de uma pausa, pediu:

Tive tanto medo de que você me abandonasse!

- Telefone para Court e chame-o aqui. Vamos esclarecer tudo isso de uma vez!

- Há esta hora?

- Não é tão tarde assim, e, depois, acho que não agüentaria esperar até amanhã Rapidamente, Raff levantou-se da cama e vestiu a roupa. Nisso alguém bateu à porta e ele foi atender. Era Kate, com um sorriso malicioso nos lábios.

- Eu vim dizer boa-noite. Isto é, se não for atrapalhar

Ao que parece, a lua-de-mel ainda não terminou, não é?

- Kate! O pai a repreendeu.

- Tudo bem! Não precisa ficar bravo, papai. Eu já vou indo está bem?

Raff sorriu depois de ter fechado a porta.

- Mas que garota insolente!

Vejo vocês amanhã,

Os olhos de Bryna brilhavam de felicidade ao contemplar o marido belo e másculo

que se encaminhava para ela novamente. Court havia acabado de chegar em casa quando Raff lhe telefonou, mas atendeu prontamente ao seu pedido.

- Mas por que diabos eu haveria de saber?

57

- Bem, vocês têm-se esbarrado muitas vezes nos mais variados restaurantes de

Londres, e recentemente foram vistos juntos conversando. Você chama isso de

coincidência? Perguntou Raff, irônico. Nos seus olhos perspicazes havia um brilho glacial. Court observou a expressão séria de Bryna e, depois, o ar acusador de Raff. Então, deixou-se cair numa poltrona, arrasado.

- Vocês já sabem, não é? Lamentou-se, escondendo o rosto entre as mãos, como

se estivesse prestes a chorar. Bryna olhou perplexa para Raff. A última coisa que esperava era ver Court chorar

ou admitir seu erro. Na verdade o casal tinha esperanças de que tudo não tivesse pas- sado de um grande equívoco!

- Por que, Court? Perguntou Raff.

As lágrimas começaram a escorrer soltas pelas faces de Court.

- Porque eu amava sua mulher e ela não queria abandoná-Io. Eu servia para ir para a cama com ela, mas era só isso Bryna teve um choque.

- Mentiroso! Nunca fui para a cama com você! Court meneou a cabeça, explicando:

- Eu estou me referindo a Josey! Nós fomos amantes durante cinco anos, antes

que ela morresse. Eu queria casar-me com ela mas não consegui convencê-Ia.

Raff estava abismado com aquela confissão! Claro que ele sempre soubera que Josey tinha outro homem, mas ja mais poderia imaginar que esse homem fosse Court! Indiferente à reação do amigo, Court prosseguiu:

- Josey sabia que eu era estéril e que você jamais lhe daria a guarda de Kate e

Paul. Vivi, assim, das migalhas que me sobravam de amor até que

Implorei para que ela o deixasse Raff,

até que ela morreu.

Eu o odiei, Raff, por ter sido o grande intruso na minha vida, por ter impedido a minha felicidade. Então, jurei me vingar. Trêmulo e incrédulo, Raff suspirou.

- Então você armou toda esta intriga entre mim e Bryna?

- Era isso que eu queria! Que você sofresse por amor a uma mulher, como eu sofri pelo amor de Josey. Eu não queria magoar Bryna porque realmente lhe quero bem.

Quando ela quase perdeu o bebê, percebi que precisava parar

mal a uma criança que nem sequer nascera. Jamais seria capaz de fazer mal a criança alguma Raff franziu a testa, atônito.

Não seria capaz de fazer

- E quanto a Hillier? Como foi que ele se prestou a isso?

Os lábios de Court esboçaram um sorriso amargo.

- Dinheiro, Raff. Ele foi comprado.

- E pensar que eu o considerava um irmão, Court, murmurou Raff, inconformado.

- Eu também, Raff. Mas, quando conheci Josey, me apaixonei por ela, lembra-se

da primeira vez em que a vimos? Foi numa festa em minha casa. Ela era a mulher mais linda que eu já havia visto! Mas Josey só tinha olhos para você.

- Eu não tinha a menor idéia de seus sentimentos por ela!

- E para quê? As mulheres sempre o preferiam a mim, lembra-se? Eu não me

importava com as outras, mas com Josey foi diferente. Esperei que vocês rompessem

para me aproximar. Em vez disso, ela ficou grávida e vocês se casaram, enquanto eu tive que me conformar em ser apenas o amigo. Quando vocês começaram a se desentender, achei que finalmente havia chegado a minha chance. Só que eu não podia lhe dar os filhos que ela queria tão desesperadamente!

disse

- Se vocês tivessem me procurado, conversado comigo sobre Kate e Paul Raff, sinceramente penalizado. - O que aconteceria? Você os entregaria? Ele respirou fundo. - Talvez

58

- Eu o conheço, Raff! Você nunca teria concordado!

- Pode ser. Mas, se tivesse ciência do problema de vocês, talvez cedesse. Court olhou-o com raiva.

- Você não consegue me odiar nem agora, não e mesmo!

- Eu poderia tentar, se você quisesse.

- Quase separei você de Bryna. Ela quase perdeu o bebê!

- Se você tivesse conseguido o seu objetivo, eu provavelmente o odiaria. Mas

sempre estimei você como a um irmão e não saberia odiá-Io por muito tempo Nesse momento, Bryna olhou para Raff enternecida e o amou mais do que nunca!

Aproximou-se e segurou-lhe a mão com força, num gesto de carinho e solidariedade. Court levantou-se, impaciente.

- Estou de mudança para Nova York. Vou trabalhar Ia, agora. Mas, antes de partir,

pretendia lhes contar tudo! Raff enlaçou a cintura de Bryna, puxando-a para perto de si enquanto falava com

Court.

- Desejo-lhe felicidades, apesar de tudo

Court suspirou.

- Adeus, Raff. Dificilmente nos veremos de novo. Olhou arrependido para Bryna. Lamento realmente o sofrimento que lhe causei.

- Eu acredito, Court - respondeu ela.

Assim que Court saiu apressadamente, fechando a porta atrás de si, Raff abraçou

Bryna. Ela então acariciou-lhe as costas ternamente enquanto ele chorava em seus braços. Bryna entrou sutilmente no quarto do bebê, surpreendendo Raff. Ele se virou com uma expressão de culpa, com o bebê aninhado nos braços.

- Você vai deixá-Io mal acostumado! Bryna censurou o com brandura, tomando o

bebê com firmeza e recolocando o no berço. - Ele precisa dormir, falou severamente. James Rafferty Gallagher, como fora batizado, estava com dois meses de idade, mas já era o senhor da casa. Com os cabelos pretos de Raff e lindos olhos azuis, ele encantava a todos com seu sorriso meigo!

Raff justificou-se:

- Ele estava chorando

- Ele já está limpo, já mamou, brincou bastante, e agora deve descansar.

pobrezinho!

- Com você, Kate e Paul por perto, eu quase não tenho chance de pegar James no

colo queixou-se Raff, na verdade muito feliz. Kate e Paul vinham sempre visitar o bebê. E quando o casal saía a noite, Os dois cuidavam do irmãozinho com o maior prazer. Raff agora tinha um outro assistente e Kate mudara de apartamento. Tudo estava

dando certo

jovens tristes. Bryna sabia que Raff preocupava-se com o amigo de infância, mas, pelas notícias que recebera dele, Court estava indo bem. Talvez algum dia ele também pudesse reencontrar o amor e, então, ser feliz.

Apenas a partida do "tio" Court para os Estados Unidos deixara os dois

O bebê chorou novamente e Bryna tomou-o rapidamente em seus braços, fazendo- lhe mimos.

- Quem foi que me disse agora a pouco que o bebê esta mal acostumado? Ela deu de ombros, sorrindo, enquanto acalentava o filho. Raff fingiu estar zangado.

- Será que agora pode arranjar um tempinho para mim? Ela o olhou, com carinho.

- Todo tempo do mundo! Eu te amo!

- Eu também te amo!

59

James adormeceu e Bryna o recolocou no berço, devagarzinho. Depois ambos saíram abraçados do quarto, recolhendo-se aos seus aposentos. Também pretendiam dormir, mas antes, fariam amor. De agora em diante seria sempre assim.

FIM

60

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