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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ (UFPI) Núcleo de Referência em Ciências Ambien tais do Trópico Ecotonal
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ (UFPI) Núcleo de Referência em Ciências Ambien tais do Trópico Ecotonal
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ (UFPI) Núcleo de Referência em Ciências Ambien tais do Trópico Ecotonal

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ

(UFPI)

Núcleo de Referência em Ciências Ambientais do Trópico Ecotonal do Nordeste (TROPEN)

Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA) Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente

(MDMA)

Imaginário social de semi-árido e o processo de construção de saberes ambientais: o caso do município de Coronel José Dias – Piauí

MARIA SUELI RODRIGUES DE SOUSA

Bolsista Fundação Ford - IFP

TERESINA

2005

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ (UFPI)

Núcleo de Referência em Ciências Ambientais do Trópico Ecotonal do Nordeste (TROPEN)

Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA) Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente (MDMA)

MARIA SUELI RODRIGUES DE SOUSA

Bolsista Fundação Ford - IFP

Imaginário social de semi-árido e o processo de construção de saberes ambientais: o caso do município de Coronel José Dias – Piauí

Dissertação apresentada ao Programa Regional de Pós- Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da

Universidade

(PRODEMA/UFPI/TROPEN), como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Área de concentração: Desenvolvimento do Trópico Ecotonal do Nordeste. Linha de Pesquisa:

Políticas de Desenvolvimento e Meio Ambiente

Piauí

Federal

do

Orientadora: Profª Drª Maria Dione Carvalho de Moraes

TERESINA

2005

1

MARIA SUELI RODRIGUES DE SOUSA Bolsista Fundação Ford - IFP

Imaginário social de semi-árido e o processo de construção de saberes

ambientais: o caso do município de Coronel José Dias – Piauí

Dissertação apresentada ao Programa Regional de Pós- Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da

Universidade

(PRODEMA/UFPI/TROPEN), como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Área de concentração: Desenvolvimento do Trópico Ecotonal do Nordeste. Linha de Pesquisa:

Políticas de Desenvolvimento e Meio Ambiente

Piauí

Federal

do

Teresina, 15 de maio de 2005.

Profa. Dra. Maria Dione Carvalho de Moraes Universidade Federal do Piauí (PRODEMA/UFPI)

Profa. Dra. Emília Pietrafesa de Godoi Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP

Profa. Dra. Cristina Arzabe Universidade Federal do Piauí (PRODEMA/UFPI)

2

FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ

572i

Sousa, Maria Sueli Rodrigues de Imaginário social de semi-árido e o processo de construção

de saberes ambientais: o caso do município de Coronel José Dias – Piauí / Maria Sueli Rodrigues de Sousa. - Teresina,

2005.

193f. : il.

Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente) – Universidade Federal do Piauí. Orientadora: Profa. Dra. Maria Dione Carvalho de Moraes

1. Meio ambiente-Semi-árido

2. Serra da capivara. 3.

imaginário social-campesinato. I. Título.

CDD-577.5

3

À Savina Priscila e Lorena (minhas filhas amadas), razão da minha existência e a minha avó Andrelina (in memorian) que fundou em mim o amor pela natureza e cultura em nome de quem dedico este trabalho a toda à minha família; Ao seu Ferreira (in memorian) e Dona Isabel em nome de quem dedico este trabalho a todas as populações camponesas do semi-árido brasileiro. Aos meus outros laços de afeto: amorosos (Jonas Moraes); de amizade (Antônio Bispo dos Santos, Hortência Mendes, Rosana Evangelista, Rommel, Socorro Soares, Antônia Magna, Auriana, Hildebrando, Zilton, Rosângela, Barbosa, Aires, Sérgio Sauer, Pereira, Prancácio, simbolizando às muitas pessoas com quem teço inestimáveis teias amorosas); feministas (Tânia, Norma Soely e todas as mulheres que se organizam na UMP - União das Mulheres Piauienses) e de convivência com o semi- árido (Harald Schistek, Carlos Humberto, homens e mulheres do IRPAA, Cáritas, CEPAC, Fórum Estadual de Convivência com o Semi-árido e ASA – Articulação do Semi-Árido Brasileiro) em nome de quem dedico este trabalho às lutadoras e aos lutadores socialistas, feministas e por convivência com o semi- árido.

4

AGRADECIMENTOS

Às populações camponesas de Barreirinho, Barreiro Grande e São Pedro, no município de Coronel José Dias, por aceitarem o convite por mim feito para viajar na história de suas vidas e, com isso, forneceram a matéria-prima para este trabalho.

Às minhas filhas Savina Priscila e Lorene pelo amor, compreensão, companheirismo e apoio fundamentais na realização deste trabalho.

À Professora Doutora Maria Dione Carvalho de Moraes que me orientou nesta dissertação e

por, especialmente, ser uma das semeadoras que fez fecundar em mim o amor sócio- antropológico pelas populações camponesas e que me permitiu revisitar o universo das minhas origens.

À Professora Doutora Marta Celina Linhares Sales em nome agradeço as valiosas contribuições de todos professores e de todas professoras do mestrado.

À Fundação Ford, pela bolsa de estudos concedida, que me possibilitou ser, pela primeira vez,

estudante profissional.

A Fundação Carlos Chagas pelas valorosas contribuições no processo de coordenação da

Bolsa da Fundação Ford, especialmente, Profª Fúlvia Rosemberg, em nome de quem agradeço a toda a equipe IFP.

Ao meu amigo Antônio Bispo dos Santos, meu estimado companheiro de tantos sonhos e tantas lutas na peleja para construir um mundo prazeroso, por ter sido meu parceiro incansável nestas viajadas que me permitiram tecer este trabalho: uma sistematização do encontro dos nossos sonhos, afetos, amores, saberes e lutas.

A Harald Shistek por ter, com muito amor, sinalizado para mim quanto à existência de um

imaginário de amor nas vidas semi-áridas.

A Jonas Moraes por ter colorido com vivas tinturas de paixão e amor o universo que concluiu este trabalho.

Aos meus familiares: pai: Sebastião; mãe: Maria, avós: Andrelina (in memorian) e Maria (in memorian); irmãs: Almerinda, Eva, Ivone, Érica; sobrinha: Luísa Neiliane; sobrinhos:

Sebastião Neto, Ramon, Luís Alberto e Renato; tias: Enedina e Ceiça; tio: Balbino (in memorian); primos: Darlon, Raimundo Neto e Élson; primas: Liana, Regina e Rosa; aos meus cunhados: Firmino, Mário e Venvildi, que direta ou indiretamente me fortaleceram na construção deste trabalho.

Às minhas amigas e aos meus amigos: Hortência Mendes, Rosana, Rosângela, Auriana, Hildebrando, Romel, Antônia Magna, Francisca Lisboa, Zilton, Barbosa, Sérgio Sauer, Pereira, Prancácio, Tânia, Norma Soely, Iones, Rakuel, Creuzimar, Sérgio, Maria Aires, Jeanete, Severino, Gilvan Santos, interlocução constante e interações que me permitiram instituir-me pesquisadora sem desvincular-me de todos os outros universos em que interajo.

5

Às famílias de Dona Isabel e seu Gérson, de Gilvoneto, de seu Nigrinho, Raimundo Coelho pela calorosa acolhida e hospedagem, condição fundamental para a realização deste trabalho.

À Filomena, suas crianças, Raimundo Filho, Pedro pelas interações afetivas que fortaleceram

o processo pesquisante.

A Francisco Prancácio, meu estimado amigo, conquistado na caminhada do mestrado que

meu deu inestimável contribuição durante todo o processo de realização deste trabalho.

Às minhas colegas e aos meus colegas de mestrado pelas valorosas interações que contribuíram neste processo pesquisante.

Ao Sérgio e a equipe da Federal Cópias pelas valiosas contribuições nos serviçoes de diagramação e impressão desse trabalho.

À coordenação do mestrado PRODEMA/TROPEN/UFPI que possibilitam a existência do

curso. Especialmente, Maridete, em nome de quem agradeço a toda equipe.

Aos meus novos companheiros de trabalho: Daniel Rech e Edu que sinalizaram a senha para me reconduzir ao mundo profissional.

6

JUÁ

Do juá Vale do Fidalgo Evocarei líricas Ao saudosismo Das tribos acroás dizimadas Por um ódio português Continua Juá Xodó do Sertão Da figueira que sombreia Os feirantes Os transeuntes Os ociosos Os fofoqueiros E principalmente Os fiéis do santo operário Que não cabiam Na capela do glorioso Permanece ancorada Em pilares da memória Como única garantia contra a morte Que homens e mulheres Lutam contra a finitude da história.

Jonas Moraes

7

SUMÁRIO

RESUMO 11

12

INTRODUÇÃO: SOBRE O ESTUDO REALIZADO E SUA METODOLOGIA 13

ABSTRACT

CAPÍTULO I – SOBRE IMAGINÁRIO SOCIAL E CONSTRUÇÃO DE SABERES AMBIENTAIS: DELINEAMENTOS TEÓRICOS

33

1.1 A instituição imaginária do social

33

1.2 Campesinato, desenvolvimento e sustentabilidade

43

CAPÍTULO II - IMAGENS DE LUGAR: SEMI-ÁRIDO E VÁRZEA GRANDE:

REINVENÇÕES DE ESPACIALIDADE?

53

2.1 Prolegômenos: sobre a construção social do Nordeste

53

2.2 Semi-árido – nova invenção ou reinvenção de identidade espacial?

62

2.3 O contexto semi-árido: aspectos físicos

71

2.4 O semi-árido no Piauí, território Várzea Grande

73

2.4.1 Aspectos geomorfológicos e históricos 73

2.4.2 Ordenação territorial

86

2.5

Território: ancestralidade e localismo na construção da identidade sertaneja

91

2.5.1

As conquistas de Vitorino e a relação de parentesco na memória mítica

91

CAPÍTULO III – O SISTEMA DO LUGAR E SUAS INTERLOCUÇÕES NOS LABIRINTOS SEMI-ÁRIDOS DA VIDA SERTANEJA

98

3.1. Habitus e os princípios sistêmicos

98

3.2 A instituição social da cultura camponesa no semi-árido piauiense: inícios

100

3.3 De camponês a peão maniçobeiro

105

3.4 A mundialização do território Várzea Grande – de camponês a preservador ambiental:

a instituição do Parque Nacional da Serra da Capivara 115

CAPÍTULO IV – IMAGINÁRIO SOCIAL DE SEMI-ÁRIDO EM CONSTRUÇÃO:

IDENTIDADES EM DIÁLOGO INTERCULTURAL – O SERTÃO E O NORDESTE

134

4.1

Imaginário social de sertanejo a nordestino: de secas e retiradas

134

4.2 O imaginário social de semi-árido: das retiradas à convivência

143

4.3 Símbolos do processo instituinte do imaginário social de semi-árido: arquitetura de uma nova síntese?

146

4.3.1 Imagens gráficas e sua análise estrutural

147

4.3.2 Análise de papéis e simbologias

154

CONCLUSÃO

164

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

168

ANEXOS

178

8

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

ILUSTRAÇÃO 01 - Nordeste e Semi-Árido

pág. 65

ILUSTRAÇÃO 02 - Semi-árido no Mundo

pág. 67

ILUSTRAÇÃO 03 - Semi-árido piauiense e o município de coronel José Dias

pág.73

ILUSTRAÇÃO 04 - Domínio morfoclimático antes do semi-árido

pág. 75

ILUSTRAÇÃO 05 - Populações do domínio morfoclimático antes do semi-árido

pág. 76

ILUSTRAÇÃO 06 - Urna funerária

pág. 77

ILUSTRAÇÃO 07 – Município de Coronel José Dias

pág. 80

ILUSTRAÇÃO 08 - Planície – localização do sítio da pesquisa – camponês e sua roça

pág. 85

ILUSTRAÇÃO 09 - Processo estrutural instituinte do imaginário social de semi- árido

pág.154

9

LISTA DE TABELAS

TABELA 01 - Canções

pág. 70

TABELA 02 - Balanço hídrico de S. J. Piauí

pág. 83

TABELA 03 - Itinerário das práticas produtivas

pág. 114

TABELA 04 - AT-9 Representação, função e simbolismo

pág. 163

10

LISTA DE QUADROS

QUADRO 01 - Documento

pág. 79

QUADRO 02 - Registro de imagens gráficas

pág. 147

QUADRO 03 - Sujeitos e regimes de imagens

pág. 148

QUADRO 04 - Relatos de regime diurno

pág. 150

QUADRO 05 - Sujeitos e estruturas do imaginário no regime diurno

pág.151

QUADRO 06 - Relatos e imagens do regime noturno

pág. 152

QUADRO 07 - Estruturas do imaginário no regime noturno

pág.153

11

RESUMO

Uma parte do território brasileiro é de clima semi-árido, marcado pela irregularidade no regime de chuvas. Característica esta tomada como referencial para a instituição de um imaginário social estruturante de uma identidade de vítimas das condições climáticas e de uma territorialização que delimitou um Brasil das secas, a que o Estado denominou polígono das secas, incluindo grande parte do Nordeste e o norte de Minas Gerais. Neste espaço, é esboçada uma cultura que se move numa perspectiva de combater as secas e que perdura até final dos anos 90. A partir daí, segmentos populares, movimentos sociais e organizações não governamentais instituem outra toponímia para o referido território, com base nas condições climáticas, denominando-o semi-árido e anunciando mudanças no padrão de relação entre cultura e natureza a que chamam de convivência com o semi-árido. O presente trabalho é o resultado da investigação sobre o imaginário social a partir de expressão oral e gráfica das populações camponesas do semi-árido piauiense, no município de Coronel José Dias, no entorno do Parque Nacional da Serra da Capivara, partindo do pressuposto de que a relação humanidade e natureza é instituída não só pelas práticas, mas também pelo imaginário social, sendo orientado por representações sociais, por sua vez produzidas nessa relação.O problema de pesquisa deu origem às seguintes questões: que imaginário social instituiu uma relação de desequilíbrio ambiental no semi-árido piauiense? Quais as representações sociais apontam para o restabelecimento de uma relação sustentável entre natureza/cultura no referido ecossistema? Em decorrência, o objetivo geral da investigação visava analisar o imaginário social que norteia as relações natureza/cultura, nas suas dimensões éticas, simbólicas e práticas. E para atingir esse objetivo geral, foram traçados os seguintes objetivos específicos:

conhecer o modo de vida camponesa através de seus saberes e práticas culturais; identificar e classificar os saberes de relação predatória e os que apontam para um novo equilíbrio na relação cultura e natureza e, por fim, captar os elementos culturais locais relacionados com a possibilidade de estabelecimento de um novo equilíbrio. O pressuposto básico da metodologia foi a concepção de que o fenômeno social é passível de objetivação, mesmo não sendo guiada por perspectivas objetivistas. Desta forma, o estudo de caso foi conduzido por metodologias qualitativas, visando analisar referências empíricas do imaginário social na perspectiva de descrição densa. Para tanto, foram utilizadas técnicas da entrevista semi-estruturada, observação participante, registro em diário de campo e produção de imagens gráficas, acompanhadas de relatos. Os resultados apontam para um imaginário social em processo de ressignificação de suas representações sociais no contexto de uma crise eco-social. Nesse processo, há uma relação intercultural com duas intencionalidades: a construção ou reinvenção tanto de uma identidade espacial, o semi-árido, quanto de sujeito social, num diálogo que, ao mesmo tempo, nega e reafirma as identidades de nordestino e de sertanejo. A outra intencionalidade é a de agregação à identidade local, seja espacial, seja social, do Parque Nacional da Serra da Capivara, área de preservação arqueológica e ambiental. Os resultados desvelam, assim, um processo de instituição imaginária que poderá ser potencializada no processo de construção de uma proposta de educação ambiental intercultural para o semi- árido.

PALAVRAS-CHAVE: semi-árido; meio ambiente; imaginário social.

12

ABSTRACT

Great part of the Brazilian territory is characterized by irregularity during raining seasons. This irregularity has been taken as a referential to institutionalize a structuring social imaginary concerning the identity of the victims of the weather conditions, as well as the setting of a territory which defined a kind of Brazil of droughts, the so-called "droughts polygon", including a great part of the Northeast region and the north of the state of “Minas Gerais”. The people who have lived there tried to fight droughts until the end of 1990’s. Since then, popular segments, social movements and non-governmental organizations have conceptionalized a different name to the region, based on weather conditions, naming it “semi-arid,” as well as announcing several changes concerning the relationship patterns between culture and nature, which are expressed in a sense of learning to live in harmony with the semi-arid. The present work is the result of an investigation about that social imaginary from graphical and oral expression of peasant population on the "piauiense" semi- arid, at the city of “Coronel José Dias”, located next to "Serra da Capivara". I began with the assumption that the relationship between humanity and nature is currently instituted not only by the practices, but also by the social imaginary which has been derived from social representations produced in that relationship. The research problem has brought about the following questions: what social imaginary has instituted a relationship of environmental imbalance within the "piauiense" semi-arid? What social representations point out towards reestablishing a sustainable relationship between culture and nature in the present ecosystem? As a consequence, the final objective of the investigation was intended to analyze the social imaginary which directs the culture-nature relationship concerning practical, symbolic and ethic dimensions. In order to get to that general objective, the following specific objectives were plotted: to know the peasant’s way of life through their knowledge and cultural activities; to identify and classify the knowledge of the predatory relationship as well as the ones which point out towards a new balance in the culture-nature relationship; and consequently, identify the local cultural elements which relate to the possibility of creating a new equilibrium. The basic methodological premise was the conception that the social phenomenon is capable of objectivity, even though it is not guided by objectivist perspectives. Thus, the study was conducted by qualitative methodologies, intending to analyze experienced references from the social imaginary expressed in the context of deep description. In order to get to that point, it was used semi-structured interview techniques, participative observation, register on a field diary and the production of graphical images, followed by reports. The results point out to a social imaginary in the process of creating new meaning concerning social representations on the context of an eco-social crisis. Within that process, there is an intercultural relationship characterized by two dimensions. First, there is the making of, or reinvention of a spatial identity , the semi-arid, as well as of the social subject in a dialogue, which at the same time , denies and reaffirms the identities of the people of the Brazilian Northeast and of the local cowboy. The other dimension is of joining the local identity, whether spatial or social, of the National Park of Serra of the Capivara, an environmental and archeological preservation area. In this sense, the results reveal a potential imaginary that can be institutionalized in the process of constructing a proposal of environmental and intercultural education for the semi-arid. Key-words: semi-arid; environment; social imaginary.

13

INTRODUÇÃO: SOBRE O ESTUDO REALIZADO E SUA ABORDAGEM METODOLÓGICA

O indivíduo, ao nascer, é apenas uma possibilidade. E, no processo de vir a ser do indivíduo, emerge o imaginário social como força fundante e instituidora da cultura, através da qual o ser humano dá significado ao mundo por suas experiências, ao fazer história, tecnologia, arte e a si próprio, construir a sociedade, criando imagens e representações (CASTORIADIS, 1982).

Dentre as representações construídas no referido processo de instituição e fundação, estão as que o ser humano faz de si próprio, do outro, dos vínculos sociais, da natureza, de si com a natureza, do outro com a natureza, da relação entre cultura 1 e natureza e das relações sociais no processo de apropriação da natureza, pela simbolização, o que faz com que o mundo sócio-histórico-natural figure indissociavelmente entrelaçado com o simbólico, numa rede de relações na qual não se esgota. Esta rede é tomada como indispensável e fundamental para a existência e expressão do imaginário, através de suas imagens que atuam como memória afetivo-social. Tais imagens possuem uma função simbólica e, inversamente, esta mesma função pressupõe a capacidade imaginária de evocar uma imagem (CASTORIADIS, 1982).

Nesse sentido, a capacidade de simbolizar se expressa pelo estabelecimento de vínculos entre termos, seres, coisas, de forma que um representa o outro em um processo no qual se estabelece um significante, um significado e o vínculo entre os dois, resultando numa relação simbólica, que supõe a função imaginária (CASTORIADIS, 1982). Nesta, a representação e a imagem são a semântica, ou seja, o significado, que reagrupado, condensa a multiplicidade de sentidos que evoca (DURAND, 2002).

Desta forma, a capacidade de simbolizar favorece o estabelecimento dos vínculos que permitem às pessoas o desenvolvimento do sentimento de pertença, numa espécie de

1 Cultura aqui é tomada como a forma própria de um povo viver (MORAIS, 1992) e como sistema simbólico formado pelas interações entre os indivíduos e destes com o conjunto social, considerando condições históricas de sua organização social, o envolvimento afetivo, o papel do indivíduo e suas necessidades básicas, não como o resultado de mecanismos cognitivos internos e sim como produto das relações sociais, por isso não é uma entidade abstrata ou superorgânica, mas algo concreto, dinâmico, mutante, processual, vivo (GEERTZ, 1989).

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continuum inatingível, num tipo de compulsão para tornar-se semelhante às demais e a cada ser que compõe o ambiente 2 em que se encontram: os móveis, os imóveis, as árvores, os animais, num tipo de culturalização da natureza e naturalização da cultura (MAFESOLI,

2000).

No referido processo de pertencimento, dão-se as relações entre as pessoas, as relações sociais e destas com a natureza. Essas relações se encontram em movimento, transformam-se, numa espécie de continuum processo crísico, em que há mais ou menos deslocamentos, cisões e conflitos, o que não se confunde com o binômio equilíbrio/desequilíbrio. Nesse sentido, os momentos de menos conflitos e menos cisões não são necessariamente de equilíbrio. Também uma situação de desequilíbrio não é simplesmente superada pela construção de uma situação de equilíbrio, mas pode sê-lo por uma espécie de estabelecimento de outros lugares sociais no tecido crísico, em que o processo e os sujeitos parecem acomodar-se.

Nesse sentido, o processo crísico é permanente, havendo momentos em que os deslocamentos são mais intensos, numa espécie de pico da crise, e momentos em que os sujeitos sociais se acomodam, encontram ou definem seus lugares no referido processo, revitalizando os laços da relação de pertencimento.

Em termos mais amplos, o tecido social produzido pelo conjunto de relações urdidas no percurso da sociedade industrial e pós-industrial vivencia um desses momentos de pico da crise ou policrise, em que muitas facetas do fenômeno se entrelaçam e se sobrepõem:

crise do desenvolvimento; crise da modernidade; crise de todas as sociedades; uma espécie de agonia planetária, não apenas como a adição de conflitos tradicionais de todos contra todos, mas como crises de diferentes tipos somadas ao surgimento de problemas novos, sem solução, configurando-se num todo que se alimenta de ingredientes conflituosos, crísicos, problemáticos e que os engloba, ultrapassa-os e torna a alimentá-los (MORIN, 2002).

Na atual situação crísica, ganham notoriedade as ameaças produzidas pelo percurso da sociedade industrial, configurando-se a era pós-industrial como sociedade de risco (BECK, 1997), em que se vivencia a possibilidade de perigo com conseqüência de alta

2 Ambiente aqui é tomado como o conjunto, a um momento dado, dos agentes físicos, químicos, biológicos e os

fatores sociais suscetíveis de ter um efeito direto ou indireto, imediato ou a prazo, para os seres vivos e as atividades humanas, ou seja, a sociedade toda: instituições, cultura, natureza, cidades, habitat, economia, técnica

e

artes; resumidamente, qualquer coisa que o ser humano cria, de que se cerca, das quais se recorda, que deseja,

o

que forma a complexidade de suas relações e condições de vida (GROUPES

,

1991).

15

gravidade para cultura e natureza. Tais perigos são gerados pelo desenvolvimento da ciência e da técnica, produzindo os conflitos bads 3 , em que a destruição ecológica é provocada pelo desenvolvimento industrial. Além disto, há os riscos NBC (nuclear [nuclear], biological [biológico], chemical [químico]), as armas nucleares, biológicas e químicas e, especialmente, os riscos relacionados à pobreza, que vinculam habitação, alimentação, perdas de espécies e diversidade genética, energia, indústria e população.

O contexto macro é a sociedade moderna ou semi-moderna, ou seja, a sociedade

industrial impregnada com elementos de contramodernidade, como nazismo, comunismo, opressão das mulheres, guerras, militarização. De fato, trata-se do autoconfronto da sociedade, num processo de auto-destruição criativa e numa reinvenção da política, que não mais prega revoluções, desintegrações ou conspirações. Nesse sentido, a política emerge como se fosse uma renegociação, um redesenho, uma autotransformação, de modo que a macropolítica dá lugar à subpolítica difusa, moldando a sociedade de baixo para cima, o que resulta na perda de poder e de encolhimento da macropolítica, assim como substituição clássica da oposição direita e esquerda por outras como seguro/inseguro, dentro/fora,

político/não político (Beck, 1997, apud GUIVANT, 2001).

Beck (1997), pela idéia de “sociedade de risco”, identifica o contexto em crise no chamado capitalismo avançado ou sociedade industrial, embora reconheça que o processo crísico é anterior ao referido contexto. Vale lembrar com Sauer (2002) que a idéia de sociedade em crise está relacionada à dicotomia urbano/rural, com o urbano sendo associado à modernidade e o rural a atraso ou tradicional, concepção que remonta a tempos antigos, desde pensadores gregos, com os conceitos de cidadania. No entanto, a própria dicotomia vai sendo forçada a diluir-se por processos que empurram o consumo do urbano pelo rural, na medida em que avança a modernização da sociedade (SAUER, 2002). Nesse sentido, ao se instalar o processo de crise, seus efeitos são estendidos ao rural não como outro espaço, mas como continuidade do espaço urbano, a serviço deste, servindo-lhe de suporte, desconsiderando a existência própria dos territórios rurais, com suas peculiaridades, suas populações, seu modo de vida, suas experiências e seus saberes.

O objeto de estudo da presente pesquisa situa-se, no contexto crísico referido, na

especificidade da crise eco-social, que brota da relação entre culturas no processo de

3 Bad quer dizer o que é ruim, qualidade má. No contexto refere-se aos efeitos do buraco na camada de ozônio, efeito estufa e os riscos que traz a engenharia genética para plantas e seres humanos (GUIVANT, 2001).

16

apropriação da natureza, em um espaço rural semi-árido. Neste espaço, há uma área de preservação arqueológica e ambiental, o Parque Nacional da Serra da Capivara, instalado como suporte da vida urbana, com base numa espécie de usurpação de direitos à terra de populações locais, que lá viviam e onde viveram seus antepassados, em um modo de vida distinto do urbano-industrial. De fato, preservar neomitos em áreas protegidas com a exclusão total do ser humano volta-se para o deleite das populações urbanas, com o conseqüente afastamento forçado das populações tradicionais, em benefício de uma conservação ambiental que beneficia os visitantes urbanos, numa negação da tradição de saberes e fazeres (DIEGUES, 1996). Não se nega, aqui, que os problemas ambientais existem e guardam estreita relação com práticas, representações sociais e políticas que estruturam o universo sócio-econômico-cultural e que isto requeira mudanças no padrão de relação entre cultura e natureza, especialmente, no que diz respeito ao processo de apropriação da natureza pela cultura. Mas isso não dispensa o cuidado com a pluralidade cultural, especificamente, a relação entre as diferentes culturas, o que aponta, por sua vez, para as hierarquias sociais e as relações de poder que aí se instituem.

Considerando a importância do caráter intercultural, foquei a crise relacionada ao processo de apropriação da natureza, ou seja, o conflito entre culturas na disputa pela apropriação da natureza, a partir do processo gerador da crise, numa temporalidade cronológica, considerando, no entanto, que ela se funde numa temporalidade intemporal 4 e glacial, em que a relação entre ser humano e natureza é de longo prazo, projetando-se para trás e para frente (CASTELLS, 2002), fazendo cruzar diversas temporalidades. Nesse entrecruzamento, de fato, encontram-se o espaço-tempo mundial, cenário das relações internacionais no emergir da questão ambiental 5 ; o espaço-tempo doméstico, o das relações familiares; o espaço-tempo da produção, o das relações sociais através das quais se produzem bens e serviços que satisfazem as necessidades efetivas; o espaço-tempo da cidadania, constituído pelas relações sociais entre Estado, cidadãos e cidadãs. Neste contexto, configuram-se relações de poder, em que a dominação estabelece a desigualdade entre cidadãos, cidadãs e Estado, e entre grupos de interesses contrastantes e conflitantes, no seio da

4 A referida temporalidade ocorre quando elementos de um determinado contexto, a saber, o paradigma informacional e a sociedade em rede, provocam uma perturbação sistêmica na ordem seqüencial dos fenômenos, acelerando processos (CASTELLS, 2000), por exemplo, a comunicação em rede, a internet, que acelera processos e isso reduz espaços temporais entre os fatos. 5 Por questão ambiental refiro o fenômeno associado aos desequilíbrios sistêmicos ocasionados pela persistência de padrões reducionistas de regulação da dimensão econômico-política da vida social e pela natureza exponencial das curvas globais de crescimento demográfico (FREIRE, 2001).

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comunidade, como conjunto de relações sociais por via das quais se criam identidades coletivas de vizinhança, região, raça, etnia, religião, que vinculam indivíduos a territórios físicos ou simbólicos e a temporalidades partilhadas, passadas, presentes ou futuras (SANTOS, 2001).

Nessa direção, entendo que o processo gerador da crise, no caso em estudo, é marcado pelo encontro entre culturas, nos marcos de uma dada relação entre cultura e natureza já estabelecida. Intervenção esta que não acontece no sentido de potencializar a relação já estabelecida, mas de substituí-la, o que marca o processo por um caráter de violência.

Como estratégia analítica, privilegio determinados momentos históricos, paradigmáticos do referido processo, apreendido em três temporalidades na região estudada: o encontro entre as culturas indígena e colonizadora portuguesa; o encontro entre cultura camponesa e a da exploração da maniçoba [Manihot piauhyensis] 6 e o encontro entre cultura camponesa e a de preservação ambiental. Referir-se a esses eventos usando a palavra “encontro” é eufemizar a violência objetiva e simbólica envolvida no processo.

A primeira temporalidade resultante do encontro intercultural entre nativos e colonizadores, no Brasil colonial, é guiado, dentre outras finalidades, pela de limpeza étnica, de forma a permitir a instalação das fazendas de bovinos, no sertão, atividade empreendida em primeira mão, como suporte para a economia canavieira, desenvolvida no litoral e, depois, como centralidade econômica. A forma de conduzir o intento resultou num obstinado processo de construção de hegemonia cultural, econômica e política, que redundou numa colossal perda demográfica de populações nativas, denominadas indígenas e em uma situação de anomia 7 causada pela desorientação cultural produzida pelo deslocamento da cultura tradicional e pela introdução da cultura colonizadora. O caldo cultural resultante fez-se com muito sangue, numa vertiginosa agonia das populações dominadas, em que a cultura colonizadora muda as regras e o jogo das relações entre cultura e natureza (GRUZINSKI,

2003).

6 Exploração da maniçoba aqui se refere ao contexto de extração e cultivo da maniçoba [Manihot

piauhyensis].

7 A idéia de anomia aqui é utilizada no sentido de indicar uma situação de desregramento social, em que os indivíduos deixam de seguir normas compartilhadas, em que as estruturas sociais locais não conseguem fazer valer sua força, seja por encontrar outras práticas mais fortes ou por incompatibilidade com o meio

(DURKHEIM,1996).

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Às populações nativas que sobreviveram ao processo violento da colonização restou adotar, em certa medida, a cultura hegemônica, até como forma de manter suas identidades ameaçadas. Assim, formas de reinterpretação e ressignificação cultural podem ser vistas, também, como resistência. Historicamente, no entanto, isto implicou, inclusive, em não se reconhecerem como parte da cultura original, cujos vestígios, no entanto, vão ressurgindo, na medida em que se vão consolidando novas identidades culturais, como a camponesa (GRUZINSKI, 2003).

A segunda temporalidade refere o encontro entre cultura camponesa e da exploração da maniçoba, no final do século XIX, com o início da referida exploração, que, no Piauí, surgiu de maneira episódica (MARTINS et al, 2003), com a oportunidade de exportação do produto. De fato, esta exploração teve o seu ponto alto no início do século XX, fase esta que durou algo em torno de vinte a trinta anos, quando acontece a crise internacional do látex de origem vegetal, em função de descoberta do látex sintético e de vários centros fornecedores na Ásia. Mas a exploração no Piauí se estendeu até os anos 60, mesmo em situação de crise.

Com efeito, o desempenho da exploração da maniçoba, no contexto da economia piauiense, provocou uma corrida às regiões produtoras, o que fez ocorrer significativas intervenções na conformação do tecido social, especialmente, na composição das populações locais, que receberam grande número de migrantes, oriundos de Estados vizinhos como Bahia e Pernambuco. De fato, esta dinâmica econômica transformou camponeses em extratores ou comerciantes de látex da maniçoba e permitiu a “entrada de gente de fora” na estrutura de parentesco local, através dos casamentos (OLIVEIRA, 1998) e de outras formas de parentesco ritual. É um período marcado por violência e perturbação no habitus 8 que norteava as relações sociais locais e destas com a natureza, o que gerou uma situação de crise sócio-ecológica, com grande elevação da exploração do ecossistema.

Passado o boom da maniçoba, a atividade permaneceu em pequena escala, integrada ao modo de vida dos camponeses de forma que no período no qual estes não estavam na roça, iam “furar maniçoba”. Assim, a atividade se integrou ao conjunto da cultura

8 Habitus aqui entendido como um sistema de disposições duráveis e transponíveis que integra as experiências passadas e funciona como uma matriz de percepções, de apreciações e de ações, tornando possível a realização de tarefas diferenciadas pela transferência analógica de esquemas, produzindo, desta forma, práticas que tendem a reproduzir as regularidades (BOURDIEU, 1994).

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camponesa, como complemento de renda, até se exaurir totalmente nos anos sessenta por falta de mercado consumidor, embora ainda faça parte da flora local.

O terceiro momento das temporalidades aqui referidas remete ao encontro entre cultura camponesa e cultura de preservação ambiental 9 , nos anos 80 do século XX, com a instituição do Parque Nacional da Serra da Capivara. O referido parque foi criado para proteger a área considerada de interesse arqueológico, em razão da existência de um grande número de sítios pré-históricos, que abrigaram assentamentos humanos, e para proteger flora, fauna e belezas naturais (FUNDHAM, 1998).

Por se tratar de uma área de proteção integral, a criação do parque exigiu a retirada das populações locais daquele espaço, vedando-lhes o acesso para qualquer tipo de produção ou extração, resultando numa violação, de imediato, em caráter material e simbólico de um modo de vida instituído naquele ambiente.

Nesta análise, o processo de intervenção na relação entre natureza e cultura, nas três temporalidades referidas, relaciona-se com o processo histórico da profunda crise ecológica (MORAES, 2000) de populações camponesas em determinados ambientes, no presente. Crise, esta, marcada por conflitos sociais, problemas ecológicos, problemas econômicos, num descompasso entre suporte natural e formas de apropriação de suas potencialidades. Nesse contexto, impõe-se considerar o processo histórico que produziu e mantém a cultura dos flagelados da seca, presente não apenas no local investigado, mas em todo o semi-árido brasileiro, onde prevalece uma visão, historicamente construída, de seca como a grande tragédia que castiga as populações locais do semi-árido, reduzindo-as à condição de indigentes que dependem da cesta básica para minorar a fome e de carro-pipa para o abastecimento de água. Sem dúvida, esta é uma imagem unificadora da diversidade existente no território semi-árido no Brasil e naturalizadora do problema da cultura da seca, mostrando-o como provocado por forças naturais às quais o ser humano não consegue enfrentar. Efetivamente, tal concepção oculta processos provocadores da crise, sendo útil à implementação de políticas assistencialistas que têm servido para manter a histórica

9 Cultura de preservação ambiental aqui se refere ao processo de educação ambiental introduzido com a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara.

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concentração de poder numa estrutura de Estado patrimonialista 10 que agasalha os velhos e novos coronéis do sertão 11 .

De fato, o sertão semi-árido nordestino, desde a colonização, foi tomado como sinônimo de seca (FURTADO, 1998). Esta concepção, embora fundada em severas experiências de longas estiagens, acaba por revelar-se parcial por não permitir que se perceba o ecossistema em sua totalidade, com as estiagens, as cheias, o verde, o cinza, a escassez, a abundância, a fauna e a flora. Além disto, confere uma falsa unidade ao que é rico em diversidade, desconsiderando especificidades dentro do bioma. Esta lente distorcida tem levado os fazedores de políticas públicas a defini-las em forma de receituário generalizado, com a mesma estratégia e tecnologia para todo o semi-árido. E ainda culturaliza o fenômeno da natureza por processos políticos através de discurso que cria uma imagem de natureza impiedosa, com força e vida própria, retirando da órbita política a responsabilidade pelo drama social da seca. Assim, nesse discurso, a irregularidades das chuvas no tempo e no espaço saem da órbita da natureza 12 para a da cultura, ou melhor, como conseqüência desta, criando, assim, as secas como discurso sócio-político-cultural.

Vale lembrar um outro discurso, nesse processo imaginário, no sentido de que, também por um mecanismo cultural, naturaliza-se a seca como força divina e por isso fora do controle humano, demonizando-a, ou melhor, vendo-a como castigo de Deus 13 , idéia originada da visão edênica do colonizador português sobre as terras colonizadas. Nesse imaginário, o Brasil é o Jardim do Éden e o que altera as bases desta percepção é fruto do pecado. Com efeito, a visão edênica pode ser percebida desde a Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, nas imagens do gentio inocente e da terra abundante:

10 Estado patrimonialista entendido como aquele que surge a partir da hipertrofia de um poder patriarcal original, que alarga a sua dominação doméstica sobre territórios, pessoas e coisas extra-patrimoniais, passando a administrá-las como propriedade familiar ou patrimonial, gerando uma estrutura estatal que garante o acúmulo de fortunas privadas, graças aos privilégios auferidos pela elite com a proteção do Estado (WEBER, 1991) 11 Sobre coronelismo no Brasil ver Faoro (1991).

12 No debate sobre a participação humana na alteração dos climas, em se considerando uma temporalidade glacial, é corrente a concepção de que a ação humana interfere na alteração microclimática, mas não interfere na esfera macro. É, também, corrente a concepção de que o ser humano é, de fato, grande poluidor do meio ambiente e destruidor da natureza, mas não determinante das grandes alterações climáticas, que, por exemplo, resultem na constituição de ecossistemas (PÁDUA, 2002). 13 Embora Deus, a religião, enquanto crença, seja da esfera da cultura para a análise socioantropológica, aqui a idéia está calcada na concepção teocêntrica de um deus controlador das forças da natureza, fora da órbita humana, portanto não cultural.

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E, segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, senão entender-nos [grifo meu], porque tomavam aquilo que nos viam fazer, como nós mesmos, por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar, porque já então terão mais conhecimento de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram”. ( ) Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvesse vista, será tamanha que haverá nela vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Tem ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia palma, muito chã e muito fremosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, a entender olhos não podíamos ver sena terra com arvoredos, que nos parecia muito longo. Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muitos bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre-Douro e Minho [grifo meu], porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infindas [grifo meu] E em tal maneira é grandiosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem (CAMINHA, 1994. p. 180-181).

Como se pode ver, especialmente no segundo grifo, o imaginário edênico nasce, etnocentricamente, da comparação, por similitude, com as terras do colonizador, produzindo o equívoco de caracterizar o clima da Bahia, onde primeiro chegaram os portugueses, como temperado, o que redundou no fato de os colonizadores trazerem consigo animais, plantas, sementes, formas de cultivo e de criar, próprias do clima temperado da Europa.

A ocorrência da irregularidade das chuvas no tempo e no espaço, transformada em discurso das secas, nega o imaginário edênico de terra amena e, na ótica popular, aquelas são tomadas como se fizessem parte do pecado original 14 , por isso necessitando serem combatidas por meio de rezas, penitências, promessas, novenas. Já na ótica do Estado e de um corpo técnico científico, o enfrentamento deve se dar com políticas de combate. A meta, em ambos os casos, é extinguir a condição ambiental de seca.

De fato, a idéia de extinguir o fenômeno natural da seca é uma concepção que moveu e move pesquisas tecnológicas como, por exemplo, a que recomenda o

14 A referência ao pecado original é feita em função do estabelecimento de uma relação por similitude com o pecado de Adão e Eva, como marca de nascença: todos os que estão nestas terras, o semi-árido, estão sob a mesma égide, portanto sob os desígnios do pecado original.

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bombardeamento das nuvens com cloreto de sódio para fazer chover, largamente divulgada pelos meios de comunicação social, como estratégia para acabar com as secas no semi-árido. Também foi esta meta que motivou a criação de órgãos de governo como o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS) [grifo meu], ações governamentais, políticas públicas e obras de grande porte, de alto custo, sem sustentabilidade e com pouco retorno social, como as grandes barragens, os poços tubulares, os incontáveis açudes e, atualmente, a proposta de transposição do Rio São Francisco. Essas obras, em grande medida, foram construídas sem levar em conta as características de solo, a oferta de água subterrânea, a população beneficiária, a adequabilidade do empreendimento às condições ambientais. Tal é o caso dos poços tubulares perfurados, geralmente, em períodos eleitorais, a custos altíssimos, em áreas de subsolo cristalino, em que a água existe em pequena quantidade, sendo salobra devido ao longo tempo de contato com sais, resultando em poços que não fornecem água ou a fornecem em qualidade não consumível.

Portanto, a lógica da relação entre humanidade e natureza, trazida para o Brasil pela cultura européia, desdobra-se historicamente e intensifica a relação de exploração intensiva entre natureza e cultura, na medida em que os sistemas de exploração agrícola se foram modernizando. Desse caráter introduzido pelos colonizadores, é parte fundamental a exploração com fins econômicos, o que, cada vez mais, exige a intensificação do processo de exploração insustentada da natureza. Foi assim que o pau-brasil e tantas outras espécies vegetais e animais desapareceram e continuam a desaparecer. Processo semelhante aconteceu e ainda acontece com a cultura tradicional de populações indígenas, camponesas e com o modo de vida dessas populações.

Embora o referido padrão hegemônico de relação entre cultura e natureza tenha sido permeado por processos vários de contradições e conflitos, este é fortalecido na lógica do capitalismo centralizado, que se estrutura numa espécie de constelação em que os países colonizadores, e depois os industrializados, ficam no centro e os países colonizados, mais tarde os não industrializados e, atualmente, os economicamente dependentes, ficam na periferia (PRESBICH, 1981), com o favorecimento do centro, o que faz com que a inserção da periferia tenha um passivo. O centro apresenta-se aí como produtor de manufaturas, responsável pelo desenvolvimento industrial e tecnológico, e a periferia como fornecedora de matérias-primas, em virtude de suas dotações de recursos naturais. Produziu-se, desta forma,

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tanto um desenvolvimento desequilibrado entre centro e periferia quanto entre o modo de produção e o ambiente (YOUNG, LUSTOSA, 2003) 15 .

A chave para compreender este desenvolvimento desequilibrado está nos processos de industrialização e o progresso tecnológico, que produzem excedentes, gerados pelos ganhos de produtividade, que não são distribuídos igualmente e os danos ambientais gerados não representam passivo para nenhuma das partes, nem para o centro nem para a periferia, ou seja, nenhuma das partes da relação paga a conta e as conseqüências dos danos compõem o cenário em que vivem as populações locais.

Sem dúvida, no que tange à questão ambiental, pode-se dizer que, já no século XIX, o mundo ocidental experimentou os primeiros reflexos do modelo desenvolvimentista da sociedade industrial (GIULIANI, 1998), assentado no pressuposto de dois infinitos: a inesgotabilidade da matéria prima e da energia e a ilimitada capacidade da natureza de absorção dos rejeitos (DUARTE, 1983). O referido modelo desconsidera a lógica de existência da natureza e sua diversidade, que, por sua vez, garante a existência do ecossistema.

Como dito por Diegues (2000), a percepção dos primeiros choques entre o modelo industrial e os ecossistemas naturais fez o mundo das artes e das ciências rebuscarem os mitos do bom selvagem e o da natureza intocada, que remetem a Jean Jacques Rousseau e que serviram de base para o surgimento da idéia dos parques nacionais, como áreas de preservação com a exclusão de assentamentos humanos e como representação simbólica que sustenta a existência de áreas naturais intocadas e intocáveis pelo ser humano, pela suposição da incompatibilidade entre ação humana e conservação da natureza.

Com efeito, as raízes desses mitos encontram seu substrato nas grandes religiões, principalmente, a cristã. As marcas dessa concepção povoam obras de arte do estilo denominado Romantismo, nascido na Europa e espalhado para as Américas, com os seus heróis no modelo bom selvagem movendo-se num espaço de natureza idealizada, intocada pela ação humana.

Sem dúvida, este ideário acompanha a crise provocada pelo processo de industrialização que tornou a degradação ambiental muito mais célere e com conseqüências

15 A propósito, Santos (2001) desenvolve raciocínio semelhante, empregando em lugar de centro e periferia, as denominações norte e sul para referir-se às questões das hierarquias entre nações no mundo contemporâneo.

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cada vez mais fora do controle humano. Pode-se considerar com Ferry (1994) que o acirramento da questão veio com a segunda guerra mundial, que serviu de alerta e alarme voltados para os efeitos das chamadas sociedades urbano-industriais modernas, a partir do reaproveitamento dos lixos de guerra na mecanização da agricultura, o que deu impulsão aos movimentos e discursos ambientalistas, que começam a surgir a partir dos anos cinqüenta.

A propósito, vale lembrar que a proliferação desses movimentos e a difusão dos discursos ambientalistas têm despertado a atenção de estudiosos que sobre eles se debruçam. Nesse sentido, Castells (2002) identifica uma pluralidade de movimentos ambientais, em grandes linhas, com os seguintes perfis: o movimento de preservação da natureza (grupo dos dez, EUA), com a identidade de “amantes da natureza”, elegem, como adversário, o desenvolvimento não-controlado, tendo como meta a vida selvagem. Um outro tipo de movimento ambiental é o de defesa do próprio espaço (“não no meu quintal”), que adota a identidade de comunidade local, enfrentando os agentes poluidores em defesa da qualidade de vida e da saúde. Há ainda o movimento Save the planet (Greenpeace), com identidade internacionalista, que luta pela causa ecológica contra o desenvolvimento global desenfreado em busca de sustentabilidade. Por fim, o autor refere-se ao movimento da política verde (Die Grünem), que assume a identidade de cidadãos preocupados com a proteção do meio ambiente e que combate o status quo político, com vistas a fazer oposições ao poder.

Também para Diegues (2000), os movimentos ambientalistas têm como traço característico um universo plural que conta com várias correntes, dentre elas: os preservacionistas, que defendem a separação total entre cultura e natureza, com o fito de preservar esta, dentre estes os adeptos da Ecologia Profunda 16 , cuja proposição principal se materializa nos parques nacionais. Uma outra corrente é formada pelos conservacionistas, cujas idéias serviram de base para o ideário da sustentabilidade, ou seja, conservar a natureza junto com a vida humana. O conservacionismo surge como crítica ao preservacionismo por seu profundo desinteresse pelos problemas sociais. O autor refere-se ainda a uma outra corrente, a do novo ambientalismo, produto de forças internas e externas, cruzadas com fatores sócio-políticos, cuja preocupação básica é com o que se convencionou chamar de qualidade de vida.

16 Ecologia Profunda é uma vertente do movimento ambientalista norte americano que se espalhou pela Europa e prega a defesa do amor à terra, do crescimento zero; aversão ao cosmopolitismo, ao moderno, na luta contra o capitalismo e em defesa dos poderes locais. (FERRY, 1994).

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De fato, o que se observa é que, no caso em questão, entrecruzam-se diversos discursos ambientais. A administração do Parque Nacional da Serra da Capivara, por exemplo, anuncia um discurso mais próximo do preservacionismo.

Por seu turno, organizações não governamentais e governamentais, que atuam na área em projetos que enfrentam a situação de crise eco-social, demonstram, em seus planejamentos, uma preocupação mais centrada no ser humano do que na natureza. Por exemplo, num projeto empreendido numa parceria entre entes governamentais e não governamentais, o “Projeto Fecundação”, as linhas de ação do planejamento são: gestão, iniciativas produtivas, recursos hídricos, divulgação e educação. As linhas estão centradas nas necessidades humanas, embora leve em conta o que a natureza pode ofertar e quais são os seus limites. A meta é atingir melhor qualidade de vida para o ser humano, o que indica um distanciamento entre políticas de desenvolvimento voltadas para as populações e para o meio ambiente.

Com efeito, na análise sobre os movimentos ambientalistas, Castells (2002) argumenta que a questão ambiental encontra dificuldade para se inserir no cotidiano das populações, alegando que, por muito tempo, esteve esta restrita às elites dos países

dominantes, formadas por remanescentes de uma aristocracia esmagada pela industrialização

e por outros que adotavam como núcleo comunal e utópico a associação entre ecologia e

anarquismo, assumindo para si a tarefa de despertar a consciência de indivíduos poderosos, que acabariam promovendo a criação de uma legislação conservacionista ou doando suas fortunas em prol da causa da natureza. Embora havendo pioneiros como Raquel Carson, a

questão ambiental só vai chegar às massas nos anos 60.

Reconhece, ainda o autor, haver conflitos e desavenças no seio do movimento

ambientalista, mas atribui essas ocorrências à discordância quanto às estratégias, e não devido

à idéia básica. Isto significa que, apesar da diversidade dos movimentos ambientalistas, é

possível identificar linhas gerais de um “discurso ambientalista”, tais como: relação estreita e ao mesmo tempo ambígua com a ciência e tecnologia – revolta com a ciência e movimento com base na própria ciência – criticam a ciência e valem-se desta; conflitos sobre a transformação estrutural como sinônimos da luta pela redefinição histórica das duas

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expressões fundamentais e materiais da sociedade: o tempo e o espaço 17 ; a questão do controle sobre o tempo em jogo na sociedade em rede: o movimento ambientalista é, provavelmente, o protagonista do projeto de uma temporalidade nova e revolucionária, com tempo cronológico, intemporal e glacial, que estende as preocupações das populações do presente com as populações do futuro (CASTELLS, 2002).

Nesse sentido, é por meio das lutas por apropriação da ciência, do tempo e do espaço, que os ecologistas inspiram a criação de uma nova identidade, uma identidade biológica e social, que não implica em negação das culturas históricas, mas dificilmente poderá conviver com a identidade do Estado nacional, visto que essa nova identidade estende- se para além de suas fronteiras (CASTELLS, 2002).

Situar, nesse contexto, um estudo sobre imaginário social de semi-árido impõe a necessidade de mergulhar nesta realidade para conhecer os seus processos instituidores, para isso exigindo o descortinar deste território, sua gente, habitus e a ética que conduz a relação dessa gente com a natureza.

Para isso, a pesquisa, realizada em 2004, no semi-árido piauiense, com área de adensamento no município de Coronel José Dias, nas comunidades rurais Barreiro Grande, Barreirinho e São Pedro, metodologicamente, adotou a concepção de que o fenômeno social é passível de objetivação, sem deixar-se guiar, exclusivamente, por metodologias objetivistas ou probabilísticas, por meio de hipóteses estatísticas. Assim, buscaram-se instrumentos de análise compatíveis com o objeto de estudo. Nesse sentido, primou-se pelo contato direto com os sujeitos investigados, com ênfase na observação participante e na produção de narrativas orais, através de entrevistas semi-estruturadas, fundadas nos pressupostos teóricos da história oral (THOMPSON, 1998, FERREIRA, AMADO, 1996, JUCÁ, 2003) e história de vida (BOURDIEU, 1996), empregados num estudo de caso para compreender, descrever e analisar, em termos de uma descrição densa, o imaginário social de semi-árido, na área investigada, com destaque para o papel da memória (BOSI, 2003), com vistas a reconstituir, no ato de relembrar, pela recriação apresentada do passado através da lembrança, o caminho que conduz à representação desse passado. Nesse sentido, memória narrativa foi tomada como

17 O espaço de lugares privilegia a interação social e a organização institucional tendo por base a contigüidade física. O traço distintivo da nova estrutura social, a sociedade em rede, é que a maioria dos processos dominantes, concentrando poder, riqueza e informação, é articulado nos espaços locais (CASTELLS, 2002).

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dimensão cultural, composta de símbolos que demarcam a identidade de um grupo social, nele comportando memória individual e coletiva (TEDESCO, 2002).

Os pressupostos da oralidade como instrumento socializador da memória permitem aproximar num mesmo espaço histórico e cultural, a imagem lembrada do passado e a do presente (BOSI, 2003). Para isso, busquei nos relatos orais, através das entrevistas, as imagens que compõem o imaginário social investigado, por entender que o método da oralidade possibilita um encadeamento de fatos e imagens que foram traduzidos pela memória que os seleciona, interpreta e reinterpreta-os e, com isso, o narrador também interpreta a si próprio pelas lentes do tempo presente, numa espécie de poética da vida social, que resulta em quadros interpretativos da sociedade da qual emergem (LIMA, 2003).

A contribuição teórica do enfoque da história de vida, perspectiva que está na base

da análise das entrevistas, corresponde à construção de relatos de narradores e narradoras sobre sua existência através do tempo, com vistas a reconstituir os acontecimentos vivenciados e transmitir significados. Isto significa que, através desta experiência narrada, delineiam-se as relações sociais com o grupo, profissão, camada social a que pertence na

sociedade global, assim como suas relações com o meio ambiente (SIMPSON, 1988).

Vale lembrar que, embora a técnica da história de vida esteja, teórica e metodologicamente, orientando as entrevistas realizadas, não se trabalhou, até pela escassez do tempo, no mestrado, com a construção de histórias de vida, propriamente, mas, sim, com entrevistas semi-estruturadas. A referência à história de vida, portanto, deve-se aqui à ênfase na narrativa e, nesta, ao mínimo direcionamento e imposição da problemática.

A condução das entrevistas baseou-se nos objetivos e hipótese geral da pesquisa,

numa situação de atenção flutuante, buscando evitar o questionamento forçado, o que contribuiu para que entrevistados e entrevistadas permitissem deixar emergir o seu universo

cultural nas falas (THIOLLENT, 1987).

As entrevistas foram transcritas literalmente e seu conteúdo, posteriormente, organizado nas categorias de análise, juntamente, com o produto da observação participante. As categorias de análise surgiram do roteiro de pesquisa, composto de forma a captar os aspectos do modo de vida camponês do sítio pesquisado, considerando: território, história da ocupação, aspectos da economia, imagens de seca, relação com a política, lazer, relação com

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o parque, organização, relações entre cultura e natureza, saberes ambientais, problemas principais. A pesquisa de campo foi, no seu conjunto, organizada em relatórios sistematizadores de dados para análise e elaboração desta dissertação.

Numa perspectiva multidimensional do sujeito, o trabalho com as narrativas orais foi associado ao trabalho com imagens gráficas tomadas em oficina, com sujeitos selecionados pelo recorte de geração e gênero, num total de nove pessoas. No recorte de geração participaram duas crianças, dois jovens, duas pessoas adultas e três pessoas idosas. E no recorte de gênero, cinco mulheres e quatro homens. Com exceção das duas crianças, todos

já haviam participado do processo de entrevistas.

A referida oficina foi conduzida pela técnica AT – 9, teste arquetipal com nove

elementos, com base em Yves Durand (1988) e Pitta (1995). O teste consiste na produção de um desenho com os arquétipos: personagem, animal, fogo, água, algo circular, uma queda, refúgio, espada e monstro. A referida técnica é assim denominada por trabalhar os nove arquétipos, compostos individualmente e acompanhados de um relato sobre o desenho e de

um questionário sobre o papel e significado de cada arquétipo na narrativa.

O referido método arquetipal foi aqui adotado para analisar os fatos simbólicos

materializados na expressão gráfica, o desenho, a organização dos referidos fatos, no relato, bem como o procedimento de racionalização da simbolização através do questionário. O teste, desta forma, é composto de um estímulo central, o personagem; de dois estímulos da ansiedade, a queda e o monstro; de três estímulos de resolução da ansiedade, a espada, o refúgio e o elemento cíclico e de três estímulos complementares, a água, o animal e o fogo. A análise do desenho, história e respostas ao questionário foram classificadas de acordo com as estruturas do imaginário: heróica, mística e sintética. Também foi realizada a análise das simbologias atribuídas pelos sujeitos a cada elemento do seu relato, com vistas a perceber a coesão do imaginário através da ação desenvolvida pelo personagem e da relação entre os

elementos (PITTA, 1995).

A associação dessas diferentes concepções metodológicas originárias de quadros

de referência (BRUYNE, 1991), como o da compreensão e do estruturalismo, foi assumida nesta pesquisa com base na perspectiva da complexidade do sujeito que aqui se expressa nas dimensões discursivas conscientes e inconscientes e na própria ciência do imaginário que propõe pensar as coisas simultaneamente e não simplesmente por oposição. Nesse sentido,

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com a contribuição da antropologia do imaginário, busca-se a compreensão do objeto pesquisado, a partir das narrativas, que não obedecem a uma linearidade na forma de dedução lógica, mas, sim, através da estruturação simbólica do imaginário, pressupondo o caráter pluridimensional do mundo simbólico, com base na concepção de que, se o mito fundamenta a cultura, cada pessoa vive dentro de várias mitologias como a teoria e o método da pesquisa do imaginário permitem compreender e explicar.

Os sujeitos da pesquisa foram selecionados, inicialmente, pela indicação de técnicos de uma organização não governamental, a Cáritas Brasileira – Regional Piauí, que atua na área, e por mim própria em função de conhecimento prévio da área como técnica da já citada organização. A partir das primeiras indicações, a seleção foi feita espontaneamente ou por auto-seleção. Os únicos critérios observados foram quanto à campesinidade (WOORTMAMM, 1990 e MORAES, 2000) e quanto ao recorte de geração e gênero. O recorte de geração foi adotado com o fim de ir além do universo social do presente e o recorte de gênero, com o fim de chegar aos universos do mundo do trabalho produtivo e reprodutivo já que, na tradição camponesa investigada, o imaginário social de mundo do trabalho aponta para a presença masculina no trabalho produtivo e a feminina no trabalho reprodutivo, em consonância com outros grupos camponeses estudados, como aponta a literatura socioantropológica sobre o tema (MORAES, 2000).

O território de adensamento da pesquisa foi o município de Coronel José Dias no Estado do Piauí, situado no semi-árido e onde se vive um visível conflito eco-social relacionado à presença do Parque. Ali, nos anos de 2001 a 2003, atuei como extensionista rural, o que me proporcionou uma certa intimidade com o lugar. No processo de pesquisa, selecionei, como sítio de adensamento, o território em que se originou a já referida crise eco- social, a antiga sede da Fazenda Várzea Grande, composto por três unidades: bairro São Pedro, comunidade Barreiro Grande e comunidade Barreirinho. Foram entrevistadas vinte e quatro pessoas, num universo de oitenta e duas famílias, sendo sessenta e nove no bairro São Pedro, seis no Barreiro Grande e dezessete no Barreirinho. Do total de pessoas entrevistadas, foram sete homens adultos, três no Bairro São Pedro; dois no Barreiro Grande e dois no Barreirinho; cinco mulheres adultas, sendo três no São Pedro; uma no Barreiro Grande e uma no Barreirinho; três homens idosos, sendo dois no São Pedro e um no Barreirinho; cinco mulheres idosas, sendo quatro no São Pedro e uma no Barreirinho; duas mulheres jovens, sendo uma no São Pedro e uma no Barreirinho; quatro homens jovens, sendo dois no São

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Pedro e dois no Barreirinho. Num recorte de gênero, foram entrevistados treze homens e onze mulheres.

Para viabilizar o estudo sobre imaginário social de semi-árido, construí como objeto de investigação o imaginário social que institui as representações sociais ambientais de semi-árido concernentes às práticas e saberes de populações camponesas locais, orientando- me pelas seguintes questões de pesquisa: qual o imaginário social que embasa a situação de desequilíbrio ambiental no semi-árido piauiense e qual o imaginário social aponta para o restabelecimento de uma relação sustentável entre natureza e cultura, naquele ambiente?

Como hipótese teórica ou pressuposto teórico mais amplo tem-se que a relação entre cultura e natureza é instituída pelo imaginário social e orientada pelas representações sociais, visto que o conhecimento sobre a natureza é empreendido socialmente, compreendido e compartilhado pelas pessoas. A forma como chega aos grupos ganha o significado de sua subjetividade, de sua realidade psicossociológica, afetiva e axiológica, sendo o imaginário social um sistema de interpretações aberto e fechado para a realidade social (SILVA, 2002).

Ancoradas nesta pressuposição, as hipóteses operacionais que orientaram o trabalho de campo podem ser assim anunciadas, embora abertas à reelaboração no ato da pesquisa: as situações de desequilíbrio ecológico, econômico e social, vivenciadas no semi- árido piauiense, contêm estruturas que permitem estabelecer um novo equilíbrio em função da sobrevivência de elementos culturais e estruturais tradicionais, bem como pela mediação de valores culturais de convivência com o semi-árido, via educação popular e de preservação ambiental pela administração do parque. Levou-se em conta que os resíduos de relação predatória com o meio ambiente semi-árido tanto se materializam nas práticas de queimadas, caça, criatório e plantio não apropriado às condições climáticas, quanto subsistem nas formas simbólicas (suave e invisível), que são representadas pelas vias da comunicação, do conhecimento e do sentimento.

Num processo de elaboração e reelaboração, estabeleceu-se como objetivo geral da pesquisa analisar as imagens de semi-árido que norteiam as relações entre natureza e cultura neste ecossistema, em suas dimensões éticas, simbólicas e práticas, através de um estudo de caso no semi-árido piauiense. Como objetivos específicos decorrentes, visou-se conhecer o modo de vida camponesa no semi-árido piauiense a partir das práticas culturais; identificar e classificar os saberes ambientais de relação predatória e os de um novo equilíbrio

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com o meio-ambiente, do ponto de vista do discurso ambientalista, do discurso de desenvolvimento, dos mediadores que atuam na educação popular e do ponto de vista das populações locais camponesas; captar os elementos culturais tradicionais que se relacionam com a possibilidade de estabelecimento de um novo equilíbrio. Numa perspectiva não- positivista do fazer científico, vale lembrar aqui que, assim como as hipóteses, os objetivos traçados inicialmente estiveram abertos ao diálogo com a realidade observada e sujeitos a sofrer modificações.

No que tange à sua estrutura, a presente dissertação está composta de quatro capítulos. O primeiro capítulo analisa os delineamentos teóricos e metodológicos norteadores da presente investigação. O segundo apresenta a discussão do semi-árido brasileiro, como território macro em que está inserido o município pesquisado, com o foco nas comunidades Barreiro Grande, Barreirinho e bairro São Pedro, ligadas por uma mesma tradição oral de fundação (GODOI, 1999) e inseridas num mesmo ambiente natural no que tange a vegetação, fauna e flora, regime de chuvas e clima. O terceiro capítulo apresenta o modo de vida das populações camponesas e o quarto capítulo versa sobre o imaginário social de semi-árido, a partir do diálogo intercultural das identidades sertaneja e nordestina e das imagens gráficas acompanhadas de relatos. Na conclusão, há a retomada do objeto de pesquisa, através do problema investigado, hipóteses e objetivos para relacioná-los ao processo de pesquisa, permitindo aproximar realidade empírica observada e teorias, no processo de interpretação socioantropológica que aponta para os resultados alcançados.

Vale lembrar, ainda, o esforço empreendido na tentativa de uma construção analítica de caráter interdisciplinar, com o concurso de áreas científicas como a sociologia (BECK, 97; CASTELLS, 2002; FOUCAULT, 1986; GIULIANI, 1998; GUIVANT, 2001; ABRAMOVAY, 1992; DIEGUES, 1996 e 2000; BOURDIEU, 1994 e 1996; MENDRAS, 19976; SANTOS, 2001; MORAES, 2000 e 2003; VIEIRA, 2003; VEIGA, 2003; RIBEIRO; 1992; LEIS, 2001), a antropologia (WORTMANN, 1990; SHANIN, 1976; MAFFESOLI, 1984 e 2000; GEERTZ, 1989 e 2003; GODOI, 1998 e 1999; CASTORIADIS, 1982, 1987 e 1999), ecologia (VIOLA, 2001; TUAN, 1980; McCORMICK, 1992; LEFF, 2002), a história (THOMPSON, 1998; BOSI, 2003; QUEIROZ, 1994), a geografia (PELLERIN, 1991; AB’SABER, 2003; LIMA, 2000), direito ambiental (AGRELLI, 2003; SILVA, 2002), a física (PRIGOGINE, 1996), a biologia (EMPERAIRE, 1991), a economia (SACHS, 1986 e 1995; PRESBICH, 1981; FURTADO, 1998) e a psicologia social (MOSCOVICI, 1995; MINAYO,

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1995; ROQUETTE, 2000; SILVA, 2002). Ainda contando com o aporte da filosofia (MORIN, 1998, 2001, 2002; CHAUÍ, 1994) e da arte (TAUNAY, 1986; ROSA, 1986; PAIVA; 1981; IBIAPINA, 1998; DOBAL, 1998; MELO, 1997; ALENCAR, 1992; CUNHA, 1999; GONZAGA, 2004). Nesta perspectiva, a interdisciplinaridade atua como diálogo profícuo, na tentativa da apreensão, compreensão explicação do objeto de estudo em sua complexidade irredutível a uma abordagem monodisciplinar.

Enfim, todo o texto, bem como o trajeto de pesquisa ora apresentado, centrou-se no enfoque do delineamento de imaginário social de semi-árido com vistas a compreender o processo de crise eco-social estabelecido no referido ecossistema por força de dimensões culturais e políticas que delineiam políticas públicas e comportamentos na relação entre natureza e cultura e entre Estado, sociedade e natureza.

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CAPÍTULO I

SOBRE IMAGINÁRIO SOCIAL E CONSTRUÇÃO DE SABERES AMBIENTAIS:

DELINEAMENTOS TEÓRICOS

Este capítulo está organizado em duas seções, focalizando os delineamentos teóricos utilizado na presente abordagem. A primeira seção apresenta os fundamentos teóricos do imaginário social que orienta e dá sustentação à condução da pesquisa, em estreita vinculação com a hipótese teórica que ela desenha. A segunda seção fundamenta teoricamente as categorias campesinato, desenvolvimento e sustentabilidade como parte substantiva da pesquisa.

1.1. A instituição imaginária do social

O mundo sócio-histórico está indissociavelmente entrelaçado com o simbólico. Isto significa que as instituições, suas ações, seus efeitos, os atos reais, individuais e coletivos, assim como os produtos materiais estão dispostos num conjunto de relações simbólicas em rede. O imaginário social faz parte da referida rede, exprimindo-se e existindo a partir do simbólico, sendo composto de imagens e de relações entre estas, que atuam como memória afetivo-social, portadora de significados. Como função que existe devido à capacidade imaginária de evocar imagens, o simbolismo implica a capacidade de estabelecer vínculos de modo a permitir a representação do que se mostra vinculado, numa relação que supõe a função imaginária traduzida pela linguagem em suas múltiplas e variadas expressões (CASTORIADIS, 1982).

Castoriadis (1982) chama de imaginário radical a parte fundamental, o âmago do ser e do modo de ser da psique do ser humano tanto singular quanto social-histórico. Nesse sentido, o imaginário radical, individual e social, cria o mundo em que se estabelecem.

Há uma vasta literatura sobre simbolismo e imaginário social, que emerge no processo de maturação de estudos sobre estrutura, vista por Bobbio (1993) como o conjunto simbólico de elementos, dotado de propriedades que lhes garantem coesão, com a possibilidade de se converter em outro conjunto de elementos.

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A propósito, Marcel Mauss (1979) desenvolve a concepção de um princípio estruturante de trocas que apresenta uma interdependência entre morfologia e fisiologia social, que constrói um sistema orientado através de estruturas hierarquizadas. Para o autor, trata-se de uma totalidade com um sentido aparente e um velado, cabendo ao princípio estruturante revelar o sentido velado da totalidade. O sentido velado é o que aparece em forma de símbolo, no qual há uma coincidência entre significante e significado, em que sua definição acontece pelo gesto e sua eficácia reside na capacidade de fazer o fenômeno social reproduzir-se.

Já para Lévi-Strauss (1970), a noção de estrutura refere-se aos modelos construídos em conformidade com o empírico, visão que permite separar duas noções parecidas e facilmente confundidas: o modelo construído e a estrutura social. O modelo é dotado das condições de manifestar a estrutura em forma de sistema. Além disto, as propriedades anteriores devem provar a reação do modelo em caso de alteração e sua construção deve explicar os fatos observados. Sendo, assim, o modelo remete à estrutura, e está na realidade que o estrutura, mas não corresponde a esta. E, portanto, em conseqüência da observação, o modelo coincide com o fenômeno e é capaz de reduzir realidades diferentes a algo comum. Nesse sentido, o referido modelo sistematiza as representações coletivas e contém a totalidade da estrutura social. Esta estrutura não se encontra no comportamento, mas no pensamento, sendo encontrável no modelo, como invenção puramente simbólica.

Nesse sentido, o imaginário visto como “o conjunto de imagens e de relações de imagens que formam o capital pensado do homo sapiens” (DURAND, 2002, p. 18) é instituído pelas práticas sociais, ao tempo em que institui práticas sociais, sendo, portanto, uma norma fundamental, ainda que o pensamento ocidental, especialmente, a filosofia francesa, tenha a tradição de desvalorizar ontologicamente a imagem e psicologicamente a função da imaginação. Entretanto, é o imaginário um tipo de denominador comum a todas as criações do pensamento humano, numa espécie de encruzilhada antropológica que permite esclarecer um aspecto por um outro aspecto, tendo como força estruturante materiais axiomáticos (DURAND, 2002).

Nesse contexto, a imagem é portadora de um sentido que não deve ser procurado fora da significação imaginária por haver homogeneidade de significante e significado no seio de seu dinamismo organizador. Este dinamismo faz a imaginação ser fonte de libertação para além da formação de imagens. Como potência dinâmica, na verdade, a imaginação simbólica

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deforma e reforma as cópias pragmáticas fornecidas pela percepção. Processo este em que as leis da representação são homogêneas e metafóricas e provocam uma coerência entre o sentido e o símbolo numa dialética, em que o símbolo situa-se no domínio de uma semântica especial, com um essencial e espontâneo poder de repercussão (DURAND, 2002).

Gilbert Durand (2002) vê, como conseqüência dessa visão de símbolo, a

anterioridade tanto ontológica quanto cronológica do simbolismo, sendo o símbolo imaginário

o vínculo afetivo-representativo que liga um locutor a um alocutário num plano locutório, o

do símbolo, que assegura uma certa universalidade nas intenções de linguagem e que coloca a estruturação simbólica na raiz de qualquer pensamento, produzindo um semantismo do

imaginário que é a matriz original, a partir da qual todo o pensamento racionalizado e o seu cortejo semiológico se desenvolvem. Uma outra conseqüência da já referida visão de símbolo

é a quebra da linearidade significante, ou seja, da explicação linear na forma de dedução lógica ou narrativa introspectiva, num determinismo do tipo causal, o que faz emergir a necessidade de um método compreensivo das motivações e do caráter pluridimensional e espacial do mundo simbólico.

Classificar pode ser um dos caminhos da busca dessa compreensão, porém a classificação dos grandes símbolos da imaginação em categorias de forma a fugir da linearidade e a cobrir o semantismo das imagens é um caminho tortuoso, segundo Durand (2002). Nessa busca, é importante considerar que os dados sociológicos fornecem quadros primordiais para os símbolos, situando o imaginário no trajeto antropológico, visto este como “a incessante troca que existe ao nível do imaginário entre as pulsões subjetivas e assimiladoras e as intimações objetivas que emanam do meio cósmico e social” (DURAND, 2002. p. 41). É na emoção da criação das imagens que se vai construir o conhecimento.

Nesse sentido, o imaginário é visto como “esse trajeto no qual a representação do objeto se deixa assimilar e modelar pelos imperativos pulsionais do sujeito e no qual, reciprocamente, as representações subjetivas se explicam pelas acomodações anteriores do sujeito ao meio objetivo” (DURAND, 2002, p. 41). Nesse sentido, a relação que o ser humano estabelece com a natureza pode ser apreendida através do simbolismo.

Na busca de compreender esse caráter pluridimensional e espacial do mundo simbólico, Durand (2002) elege o método pragmático e relativista de convergência, que agrupa constelações de imagens organizadas por um certo isomorfismo dos símbolos

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convergentes. Sendo convergência aqui diferenciada de analogia e aproximada de homologia, visto que não se constelam grupos análogos (A é para B o que C é para D), mas grupos homólogos (A é para B o que A’ é para B’), em que há um caráter semântico que se localiza na base de todo o símbolo, fazendo com que a convergência se exerça, sobretudo, na materialidade de elementos semelhantes, resultando numa equivalência estrutural, em que os símbolos constelam por serem variações sobre um arquétipo 18 , desenvolvido a partir de um mesmo tema arquetipal, o que permite classificar o método como microcomparativo. Isso evidencia dois aspectos do método comparativo: o aspecto estático e o dinâmico, que resultam numa organização de constelações ao mesmo tempo em torno de imagens de gestos, de esquemas transitivos e em torno de pontos de condensação simbólica, em que se cristalizam os símbolos.

A análise das constelações exige o uso do discurso, o que conduz o método ao risco de cair numa linearidade evolucionista, visto que o discurso tem um fio condutor, que pressupõe início, meio e fim. Durand (2002) anuncia esse risco e, para fugir dele, adota a concepção de que, se é forçado a começar de um princípio, esse princípio será apenas metodológico e não ontologicamente o primeiro. Para isso, vai buscar o princípio de sua classificação no estudo dos reflexos ou reflexologia, que evidencia a trama metodológica sobre a qual a experiência de vida, a adaptação positiva ou negativa ao meio virão inscrever os seus motivos e especificar o polimorfismo pulsional e social da infância, a partir de duas dominantes: a dominante de posição, que coordena e inibe todos os outros reflexos e a dominante da nutrição, que se manifesta por reflexos de sucção labial e de orientação correspondente à posição da cabeça, nas crianças, ao alimentar-se.

Durand (2002) acrescenta uma terceira dominante, supondo ser esta de origem interna, desencadeada por secreções hormonais e só aparecendo em período de cio. É esta a dominante cíclica e sexual. Enfim, Durand (2002) opta pelas três dominantes como matrizes sensório-motoras nas quais as representações se integram, especialmente, se esquemas (schémas) perceptivos enquadram-se e assimilam-se aos esquemas (schémas) motores

18 “Arquétipo é o ponto de junção entre o imaginário e os processos racionais, de forma universal e sem ambivalências. É a força da coesão compreensiva comum a vários símbolos, é a substantivação dos esquemas (schémas), que é a generalização dinâmica e afetiva da imagem, formando o esqueleto dinâmico e funcional da imaginação” (DURAND, 2002, p. 59-60). Convém lembrar que a noção de arquétipo foi trabalhado por Karl Jung e que Mircea Eliade (1995) a emprega em sua obra sobre a história das religiões, quando estuda imagens por tema e as agrupa. Para este autor, os arquétipos estão presentes nas mais diversas culturas o que não ocorre por difusionismo, o que é aprofundado por Gilbert Durand (2002) cujo método permite refletir sobre as imagens nas diversas culturas, numa perspectiva que abrange, simultaneamente, as dimensões universal/particular.

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primitivos, caso as três dominantes estejam em concordância com os dados de certas experiências perceptivas. Importante destacar que os objetos simbólicos nunca estarão numa dominante pura, mas constituem tecidos com a imbricação de várias dominantes e que estas fornecem os três grandes gestos que desenrolam e orientam a representação simbólica e, com isso, fornecem as três estruturas do imaginário. Uma tripartição que pode ser vista na perspectiva de uma bipartição: dois universos de classificação, já que a segunda e a terceira estrutura estão apenas em um dos universos da classificação, em função da proximidade entre

o alimentar-se e o reproduzir-se (DURAND, 2002).

E com base na reflexologia, Durand (2002) anuncia o princípio do seu plano de análise do imaginário: ao mesmo tempo bipartida e tripartida. A bipartição se dá nos regimes diurno e noturno e a tripartição, oriunda da reflexologia, resulta nas estruturas heróica, mística

e sintética.

Os regimes noturno e diurno são tomados em oposição. O regime diurno está estruturado na dominante postural de elevação e estrutura heróica, com suas implicações manuais e visuais de agressividade, tendo relação com os rituais da elevação e da purificação, com a tecnologia das armas e a sociologia do soberano, mago e guerreiro. Este regime funda- se na oposição: para ver o diferente necessita-se de luz. Já o regime noturno subdivide-se nas dominantes digestiva e cíclica (sexual), respectivamente, relacionando-se com as estruturas mística e sintética. A primeira, agrupando as técnicas do continente e do habitat, os valores alimentares e digestivos, a sociologia matriarcal e alimentadora. A segunda, por sua vez, agrega as técnicas de ciclo, do calendário agrícola e da indústria têxtil, os símbolos naturais ou artificiais do retorno, os mitos 19 e os dramas astrobiológicos (DURAND, 2002). Neste regime, diferentemente do que ocorre no diurno, vê-se o mundo por complementaridade.

As estruturas, vistas não como formas vazias, e sim como portadora de um rico semantismo, além da tripartição em heróica, mística e sintética, subdividem-se em quatro aspectos distintos, cada uma delas.

As estruturas heróicas ou esquizomorfas, pertencentes ao regime diurno de imagens, são portadoras de constelações que se organizam em torno de dois grandes schémas:

19 Mito é um sistema dinâmico de arquétipos, símbolos e esquemas que sob o impulso de um esquema tende a compor-se em narrativa (DURAND, 2002. p 62-63). Antropologicamente, o mito é tido como fundamento da cultura, inclusive, das sociedades modernas.

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o

ascensional, da dominante postural e o diairético que consiste em separar, discernir e impor

o

poder, ligado às imagens da espada e do gládio (PITTA, 1995).

A subdivisão das estruturas heróicas consiste em quatro aspectos: a idealização ou recuo autístico, que é uma espécie de distanciamento da realidade, em que o pensamento é tomado como um significado restrito ao subjetivo pelo sujeito que se coloca fora do mundo; a spaltung consiste na separação generalizada em que o eu está cindido do mundo e o mundo, em si, também se encontra cindido; o geometrismo, espécie de esquematização do universo numa geometria simétrica, o que provoca uma gigantização dos objetos e, finalmente, o pensamento por antítese, que é a manifestação do conflito entre o sujeito e o mundo, provocando uma lógica organizativa por antítese (DURAND, 2002). Nesse sentido, as estruturas heróicas do imaginário falam do combate ao outro, ao diferente. Impõem a competição, a perspectiva de vencer, de passar à frente.

Por seu turno, as estruturas místicas do imaginário têm como núcleo organizador

o schéma da fusão com a intenção de construir uma harmonia, em que se conjugam uma

vontade secreta de união e um certo gosto pela intimidade, distanciados do sentido religioso da palavra e estando subdivididas em quatro aspectos: redobramento e perseverança, em que os símbolos relacionam-se à inversão e à intimidade, com tendência à simetria no sentido de similitude; viscosidade e adesividade, percebida no apego a certas imagens ou a determinadas relações entre estas imagens; realismo sensorial, pela união de cor e movimento, baseada na intuição e sensibilidade e, por último, a guliverização, pela miniaturização fundada na concepção de quanto menor o objeto, mais concentrada a sua essência (DURAND, 1969 apud

PITTA, 1995).

Já a estrutura sintética busca reconciliar as antinomias, procurando dominar o tempo através da repetição, por isso é cíclica e também sexual, ligada às concepções de tempo e progresso, de modo a assegurar a continuidade da vida. Organiza-se nas seguintes subestruturas: harmonização dos contrários, composição pelo diálogo harmônico entre elementos opostos; dialética ou contraste, pela composição a partir de contrários em que estes mantêm sua composição original; subestrutura historiadora, construída a partir de uma sucessão de fases de tese e antítese, de forma dialética com um esforço de síntese e, finalmente, a subestrutura progressista, que consiste em acelerar a história para aperfeiçoar a história e o tempo (Durand, 1969 apud PITTA, 1995).

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Na verdade, Gilbert Durand (2002) fala de três formas de tratar o diferente:

destruir, fundir, dialogar. Essas três formas representam atitudes culturais a que o autor denomina “trajeto antropológico”, ou seja, o percurso cultural que rodeia e envolve o indivíduo. Nesse sentido, a teoria do imaginário permite apreender a dinâmica cultural, no caso, as relações entre cultura e natureza.

Interessa reter, para fins da presente análise, que o imaginário social foi tomado como uma produção coletiva, depositária da memória que os grupos sociais recolhem dos seus contatos cotidianos. Por meio do imaginário, podem-se atingir as aspirações, os medos e as esperanças de um povo. Efetivamente, tanto as criações dos indivíduos quanto eles próprios, como criações sócio-históricas, compõem o conjunto das significações imaginárias e da sua instituição na sociedade, que se desenvolvem sempre em duas dimensões, a lógica e a propriamente imaginária. A primeira é a dimensão objetiva e a segunda é a da significação, definição que pode ser demarcada, mas não determinada, visto que ambas as dimensões se conectam uma a outra como uma cadeia infinita e não previsível, portanto fluida. Ressalte-se então que tanto as criações quanto os indivíduos são elementos culturais, por que são criados pelas significações imaginárias sociais e por que são instituídos socialmente (CASTORIADIS, 1982).

Nesse sentido, tanto as representações sociais quanto o interfluxo entre as duas dimensões referidas, a objetiva e a subjetiva, são parte do imaginário social. O fluxo representativo (afetivo e intencional) não é um conjunto de elementos distintos, também não é puro e simples caos, faz-se como alteração do sujeito por ele mesmo pela aposição de imagens ou figuras. As representações são figuras, esquemas de imagens, de palavras, não sendo acidental, nem exterior, nem apoio, mas o próprio do pensamento. Não há pensamento sem representação. Como alude Cornelius Castoriadis:

A representação não é um quadro preso no interior do sujeito (

representação é a apresentação perpétua, o fluxo incessante no e pelo que quer que seja se dá. Ela não pertence ao sujeito, ela é, pra começar, o sujeito.

A representação não é decalque do espetáculo do mundo; ela é aquilo em que e porque se ergue, a partir de um momento, o mundo (CASTORIADIS, 1982, p. 375).

(

A

).

)

Em consonância com o exposto, as representações sociais são tomadas, nesta pesquisa, como suporte para compreender as práticas e saberes técnicos, científicos,

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populares, tomando-as como modalidade de conhecimento que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos (MOSCOVICI, 1995).

Vale lembrar que a teoria das representações sociais foi desenvolvida a partir da crítica ao conceito de representações coletivas de Durkheim (MINAYO, 1995). Os elementos fundantes da crítica assentam-se na consideração de caráter geral, abrangente e pouco dinâmico da teoria durkheimiana das representações coletivas, o que dificulta a análise da produção do pensamento, como forma de ação no tecido social. Para Moscovici (1995), portanto, as representações sociais referem-se ao posicionamento individual nos espaços sociais na formação do tecido social através do processo que se dá pelo encadeamento de fenômenos interativos. O termo social assume uma dimensão dupla no conceito de representação: a forma como o conhecimento é socialmente empreendido, constituído e compartilhado pelas pessoas e a dimensão subjetiva, psicosociológica, afetiva e axiológica relacionada com o conhecimento.

Consoante com este quadro teórico, a abordagem do imaginário social de semi- árido, neste estudo, procura focar os elementos subjetivos, afetivos e axiológicos nas duas dimensões acima referidas: dimensão subjetiva e objetiva. Sendo esta última, também, referente à forma como o conhecimento é socialmente empreendido, numa perspectiva sociológica, com base em Castoriadis (1982, 1999) e Durand (2002). Isto significa que os elementos subjetivos, afetivos e axiológicos foram tomados como imaginário social na análise da relação entre indivíduo e sociedade e, especialmente, entre indivíduo, sociedade e natureza, ou seja, entre natureza e cultura. Isto equivale a considerar esta relação como portadora de uma ética, inscrita num habitus (BOURDIEU, 1994), este, tomado como uma espécie de matriz que transpõe a vivência social e integra as experiências passadas, informando ao processo de instituição imaginária suas percepções, apreciações e ações, o que possibilita a realização de tarefas diferentes pela transferência analógica de esquemas, produzindo, desta forma, práticas que tendem a reproduzir as regularidades.

Vale lembrar que, nesse processo, os indivíduos ocupam no espaço social, uma posição determinada pela sua origem de classe ou grupo social. É a partir da sua posição social que elaboram suas representações e agem pelo habitus que permite aos seus portadores operar um senso prático da vida, como um esquema de percepção e de apreciação. Com efeito, o sujeito social se expõe e é exposto, num processo em que se encontram um habitus e uma situação, circunstância ou campo social, que orienta as suas ações e representações.

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Campo social é aqui entendido como campo de forças e campo de lutas, que visa transformar o campo de forças, que se particulariza como espaço em que se manifestam as relações de poder e que se estrutura a partir de uma distribuição desigual de um quantum social (BOURDIEU, 1994).

Nesse sentido, é importante destacar que Moscovici (1995) aponta para as conversações dentro das quais se elaboram os saberes populares e o senso comum, como fenômeno social que permite identificar de forma mais concreta as representações sociais e de trabalhar sobre elas, embora não se limite a esta forma, pois, de fato, as representações sociais também se manifestam nas ciências, nas religiões, nas ideologias e em circunstâncias diversas.

A referida teoria apresenta duas faces interligadas para o fenômeno das

representações sociais: o figurativo (a imagem) e o simbólico, engendradas em processos da comunicação e das práticas sociais: diálogo, discurso, rituais, padrões de produção, arte, a

cultura em geral (MOSCOVICI, 1995).

Convém lembrar, ainda, que as relações entre ser humano e natureza são mediadas pelas representações sociais de meio ambiente, indicadoras das diferenças culturais entre regiões e populações, nos diferentes espaços históricos, como uma imagem mental, composta de elementos centrais e secundários que é referencial porque retorna a outras imagens conotativas e que se organiza como um sistema de relações onde cada elemento tira o seu

significado do conjunto dos outros elementos (GROUPES

,

1991).

As representações sociais identificadas e analisadas, neste estudo, referem-se às

práticas e saberes relacionados ao modo de vida camponês, no ecossistema semi-árido. Nesse sentido, saberes são concebidos como conjunto de conhecimentos adquiridos no entrelaçamento dos elos sociais de seres humanos entre si e com a natureza não-humana, mais ou menos sistematicamente organizados e suscetíveis de serem transmitidos de geração a geração (JAPIASSU, 1997). Já as práticas são tomadas como fenômenos que abrangem dois aspectos, quais sejam: a realização de uma ação (conduta efetiva) e a freqüência dessa realização. Analiticamente, a prática pode ser decomposta em duas vertentes: a maneira de fazer e as conseqüências percebidas desse fazer, o que faz emergir outros aspectos, tais como:

a prática como passagem ao ato, recorrência, maneira de fazer e como cálculo (ROQUETTE,

2000), a partir de um habitus (BOURDIEU, 1994), no caso, o modo de vida camponês.

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Acrescente-se a isto que a produção e reprodução da cultura se realizam através da informação, sendo, portanto, as práticas sociais, também, práticas informacionais, em que significados, símbolos e signos culturais são assimilados, rejeitados e transmitidos através das representações e ações dos indivíduos, como sujeitos sociais, na construção de suas identidades. Assim é que no dizer de Mendes (2002) os processos de construção das identidades são relacionais e múltiplos, situacionais e históricos, baseados no reconhecimento por outros atores sociais e, na diferença.

A construção da identidade, então, tem o suporte de que necessita para encontrar- se na memória coletiva, que funciona como auxiliar na definição dos laços de identidade dos sujeitos, ou seja, é na inter-relação entre presente e passado feita pela memória coletiva que a identidade vai-se compondo. A memória coletiva compõe-se da memória individual, familiar, linguagem, nome, moradia, território, posição social, aspirações, valores sociais, visões de mundo, comportamentos, parentescos, que se expressam nas representações sociais, nas imagens e discursos, no imaginário social. Envolve memórias individuais, porém não se confunde com elas, visto que estas são reconstruções psíquica, intelectual e seletiva de um indivíduo, inserido num contexto familiar e social, com dupla característica (TEDESCO, 2002): as lembranças/imagens e as representações.

No processo de construção identitária, dá-se também a construção e desconstrução de saberes que orientam as práticas sociais. Construção do latim construere quer dizer dar estrutura, e desconstrução tem o sentido de desestruturação (FERREIRA, 1986). Porém, construção e desconstrução não são tomadas como processos diferentes ou etapas diversas de um mesmo processo, mas como aspectos simultâneos deste, como percebido por Prigogine (1996) na sua análise de sistemas dinâmicos instáveis, em que equilíbrio e desequilíbrio não constituem exclusão, mas complementaridade entre fenômenos desordenados e fenômenos organizadores. A situação de equilíbrio representa a nova organização, ou seja, a nova ordem que se instaura após o desequilíbrio:

( ) equivalência entre o que se faz e o que se desfaz, entre uma planta que nasce, floresce e morre e uma planta que ressuscita, rejuvenesce e retorna para sua semente primitiva, entre um homem que amadurece e aprende e um homem que se torna progressivamente criança, depois embrião, depois célula (PRIGOGINE, 1996: 158).

Para Prigogine (1996), o fenômeno refere-se à existência de relações entre estrutura e ordem, de um lado e, dissipação, do outro. As novas estruturas formadas são

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chamadas de estruturas dissipativas, sendo que, em sistemas abertos (os que interagem com o meio), a dissipação torna-se uma fonte de ordem. Isso é o mesmo que dizer que estruturas dissipativas representam sistemas, os quais, após passarem por desequilíbrios, são bem sucedidos no estabelecimento de uma outra ordem ou, como diz Neves (1996), no estabelecimento de relações de homeostase 20 .

A respeito da percepção de sociedade em equilíbrio, Neves (1996) chama atenção para o fato de não ser apropriado investigar bases materiais de sustentação das sociedades locais como sistema fechado, em equilíbrio com meio ambiente circunjacente, em função da existência de relação de absorção das sociedades tradicionais pelas sociedades circundantes, fazendo com que aquelas façam parte do cenário regional ou mesmo mundial.

Tudo isso implica em que as inferências empíricas foram analisadas como um sistema, ao mesmo tempo aberto e fechado, em que as pessoas se situam em reciprocidade, consideradas as situações de conflitos e crises, sendo que suas relações e interações guardam obediência às instituições, às normas também fruto de tais relações e interações.

1.2. Campesinato, desenvolvimento e sustentabilidade

Como exposto na seção anterior, a teoria do imaginário é a ancoragem teórica que permite tratar o conjunto da vida social camponesa, para efeitos desta investigação, tomado como um sistema em rede simbólica. Esta rede remete à busca de compreensão da escolha dos símbolos, das suas significações e à compreensão de como e por que consegue, como dito por Castoriadis (1982), autonomizar-se, alienar-se da instituição do social, no indivíduo, numa espécie de socialização da psique e psicologização do social, em que sociedade e psique são inseparáveis e irredutíveis uma à outra, numa indissociação dos mundos social e privado.

Com isto, trazemos à tona mais uma dimensão do modo de vida camponês, lembrando, ainda, que este ganha relevância analítica ante o fato de a categoria campesinato não encontrar espaço nas teorias explicativas das sociedades capitalistas, não se enquadrando na estrutura lógica dessas teorias. Isto se deve, em grande medida, ao fato de que a atividade produtiva, que garante a reprodução do campesinato, não ter o estatuto de trabalho social, como acontece na estrutura capitalista, não possuindo, portanto, a universalidade teórica das classes sociais (ABRAMOVAY, 1992).

20 Homeostase foi utilizado no sentido de “manutenção de um estado por alguma capacidade de auto-regulação” (NEVES, 1996, p. 76).

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Essa temática remete a Alexander Chayanov (apud ABRAMOVAY, 1992), um dos primeiros teóricos a buscar compreender o campesinato em sua lógica econômica interna,

e não a partir da lógica do sistema social, fundamentando sua concepção a partir de uma teoria

dos sistemas econômicos não capitalistas, que lhe permitiu analisar as leis de reprodução do campesinato e o seu desenvolvimento, tomando o camponês como sujeito que cria sua própria existência. Na perspectiva chayanoviana, os camponeses são vistos movendo-se pela lei básica do balanço entre trabalho e consumo, com o trabalho tendo como meta fundamental a satisfação das necessidades familiares que definem a intensidade com a qual a família tem que trabalhar. Trabalho este que crescerá conforme o tamanho da família e de suas necessidades

de reprodução (ABRAMOVAY, 1992) 21 .

Vale lembrar com Martins (1981) que campesinato, como conceito, ganha força sob influência da revolução russa, como forma de relacionar trabalhadores e trabalhadoras do campo no contexto da luta de classes, expressando homogeneidade onde havia diversidade. O referido conceito passou por uma espécie de exportação política, levando consigo as dificuldades inerentes ao processo de homogeneização de diversidades e devido às transformações culturais que alteraram as condições e características dos referidos sujeitos, não se enquadrando, desta forma, nas concepções de nenhuma sociedade contemporânea em função do seu caráter histórico, nem mesmo nas sociedades em que o conceito foi construído, em função de sua heterogeneidade, forçosamente homogeneizada, o que justifica a utilização da categoria como generalização combinada com especificação. Mas, embora correndo o risco de extrapolação das semelhanças, é importante utilizá-la, especialmente, por permitir a utilização de métodos de pesquisa já testados, como por exemplo, a possibilidade de desenhar um campo de análise (SHANIN, 1976).

Nesse sentido, Shanin (1976) indica que há pelo menos seis categorias de

características identificadoras de camponês. Na primeira caracterização, campesinato é visto como economia em formas de ocupação extensiva pelo trabalho familiar, com controle dos próprios meios de produção, uma economia de subsistência com qualificação profissional multidimensional e padrão de organização, incluindo, por exemplo, planejamento da produção

e cálculo do desempenho diverso da empresa capitalista. Uma segunda categoria consiste nos

21 Ainda nos marcos da compreensão da economia camponesa, porém distanciando-se de Chayanov no que concerne a auto-exploração como limite, autoras como Godoi (1999) e Moraes (2000) apóiam-se em Shalins para referir uma agricultura de aprovisionamento como atividade agrícola em que nem a produção doméstica se define exatamente como voltada estritamente para o consumo direto da família nem esta é auto-suficiente, sendo a troca um meio de conseguir aquilo de que a família necessita e não produz.

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padrões e tendências de organização política dos camponeses, incluindo os sistemas de intermediação e apadrinhamento, a tendência à segmentação vertical e ao faccionismo como lugar do banditismo e guerrilha.

A terceira categorização consiste nas normas e cognições típicas, em que se destaca a racionalização tradicional e conformista 22 , o papel da tradição oral, mapas cognitivos específicos, por exemplo. Em quarto lugar, há a organização social com suas unidades básicas, em que se destaca a posição subserviente das populações camponesas, no interior de rede mais ampla de dominação política, econômica e cultural e características da organização social, o que aponta, como lembrado por Moraes (2000), para a idéia redfeldiana de part-society [parte da sociedade]. A quinta categorização conta com a dinâmica social específica da sociedade camponesa pelos padrões de produção em função das necessidades materiais, de reprodução dos atores humanos e do sistema de relações sociais. Finalmente, a categorização a partir das causas e padrões fundamentais de mudança estrutural, que pode ser percebido, por exemplo, pelos padrões diferenciais de produção no espaço doméstico em oposição à área coletiva e seu impacto sobre as demais dimensões sociais da agricultura (SHANIN, 1976).

A análise conduz Teodor Shanin a indicar o campesinato como:

um processo e necessariamente parte de uma história social mais ampla, trata-se da questão da extensão da especificidade dos padrões de seu desenvolvimento, das épocas significativas e das rupturas estratégicas que dizem respeito aos camponeses (SHANIN, 1976, p. 75).

Nesse sentido, é importante considerar a caracterização que Mendras (1976) faz de campesinato, como um grupo que possui autonomia, ainda que relativa, frente à sociedade global; em que os grupos domésticos, as famílias têm importância estrutural; um sistema econômico relativamente autosuficente; uma sociedade de interconhecimentos, com a função decisiva de mediadores entre a sociedade local e a global.

22 Chauí (1994) utiliza as categorias conformismo e resistência no contexto da cultura popular para analisar os vínculos de dependência e submissão de grupos sociais populares no âmbito em que se processa a luta para quebrar tais vínculos. A autora vê a cultura popular “como um conjunto disperso de práticas, representações e formas de consciência que possuem lógica própria (o jogo interno do conformismo, do inconformismo e da resistência), distinguindo-se da cultura dominante exatamente por essa lógica de práticas, representações e formas de consciência.” (CHAUÍ, 1994, p. 25). Por essa ótica, as categorias conformismo e resistência são vistas como a marca da ambigüidade na cultura popular, não como falha, defeito, carência, mas como “forma de

também, ambíguas, constituídas não de elementos ou de

existência dos objetos da percepção e da cultura (

partes separáveis, mas de dimensões simultâneas” (CHAUÍ, 1994, p. 123). É possível, portanto, uma mesma ação ser revestida do duplo caráter: uma resistência como manutenção do conformismo ou um conformismo para manter a resistência.

)

46

O paradigma funcionalista da Antropologia analisa a construção da identidade

social do campesinato como um modo de vida, reproduzido material e culturalmente, sendo que a lógica econômica se adequa a padrões culturais específicos, portanto uma sociedade incrustada numa formação social, ou seja, uma sociedade parcial, atuando em mercados incompletos, tendo as seguintes particularidades: os laços comunitários locais, o caráter extra- econômico das relações de dependência social e vínculos de natureza personalizada

(ABRAMOVAY, 1992).

O camponês em que se centra o presente trabalho é o do semi-árido piauiense,

identificado como sertanejo, camponês do sertão, aqui tomado como um modo de vida, analisado a partir do seu imaginário, apreendido pelas representações sociais nos saberes e práticas cotidianas, considerando-as permeadas pelo universo simbólico, pelas categorias e regras pelas quais pensam e vivem sua existência. É aqui, portanto, considerado, teoricamente, como um modo vida que se orienta a partir de “um conjunto de normas e obrigações recíprocas, idéias de justiça e bem estar social, enfim uma ética a orientar as condutas, uma economia moral a orientar os direitos relativos à ocupação da terra” (GODOI,

1998, p. 120).

Nessa economia moral, no caso em estudo, há os imperativos de ordem ética expressos na terra de comum, que encontram sua efetivação prática nas terras de conjunto, terra de ausentes e terra do padroeiro, como estudado por Godoi (1998) nessa região. De fato, o camponês não é dono das terras de conjunto, visto que a apropriação individual, pelas famílias, se dá pela realização das roças e, desde que respeite os limites das roças dos demais, pode fazer quantas roças quiser. Também fazem parte desta economia moral os direitos de sucessão, ou seja, os serviços e benfeitorias, condição para a manutenção da condição camponesa, que são transferidos aos herdeiros e podem ser vendidos, não as terras, mas o direito aos serviços e benfeitorias. As terras de ausentes se localizam nas chapadas, a fonte dos recursos naturais e nas terras do padroeiro, também se dá a apropriação comum:

Gérson: tinha boa parte, essa aqui pertencia a ele. Aqui existia as terras de ausentes e tinha as terras de conjunto, as pessoas era posseiro e quando queriam trabalhar tinham direito, tinha as posses, podiam localizar uma roça onde dava melhor, eles eram posseiros. Então as pessoas iam adquirindo

aquelas posses e iam tirando daquelas terras de ausentes. (

também os posseiros, né, naquelas terras devolutas, de ausente, as pessoas

ainda existe

),

47

tem a posse, aí faz a roça naquela posse garante aquela terra que ele tira, né. Todo mundo é dono de terra. Sueli: e quem era o ausente.

tem a

fazenda então pertence a quem tem posse. Aquela terra não está sendo

Gérson: era justamente aquele foi embora, mas a família ficou

beneficiada, mas não tem posse eu vou tirar lá na fazenda. O posseiro só pode mandar naquele pedaço de terra se ele fosse demarcar. Ele demarca, aí

ele pode mandar. A posse garante quem trabalha. Mas antes de demarcar não

conta como dele (comunicação oral) 23 .

A referida ordem ética indica campesinato como categoria construída socialmente,

o que remete à discussão de cultura dentro de uma análise interpretativa, como dito por Geertz

(1989):

é essencialmente semiótico.

Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo como sendo essas teias e sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura de significado. É justamente uma explicação que eu procuro, ao construir expressões enigmáticas na sua

superfície (GEERTZ, 1989, p. 4)

O conceito de cultura que eu defendo (

)

Geertz (1989) compreende a cultura como uma teia de significados e suas

interpretações, na qual os símbolos e significados são partilhados pelos sujeitos sociais, parte

do

sistema cultural. A cultura é concebida não como poder, mas como um contexto, dentro

do

qual os sujeitos são inscritos, não sendo dado, posto, mas algo composto, investido de

novos significados na dinâmica de produção cultural, sendo, portanto, passível de mudanças

e transformações, devendo ser compreendida no seu contexto de significação e ressignificação

O presente processo de investigação, ao realizar o estudo do imaginário social a

partir da cultura camponesa, procurou expressar o saber popular do campesinato, suas representações, formas de pensar, agir e falar, ou seja, a construção e percepção de sua própria realidade, seus saberes associados à sua prática social expressa nas relações de trabalho, na prática política e na apropriação dos saberes através dos agentes educativos.

Essas práticas referidas incidem no modo de vida camponês e faz-se necessário refletir a respeito da identidade camponesa, constituída a partir de suas relações sociais e

48

expressões culturais, num processo que consiste na maneira de recriar, combinar e utilizar símbolos e valores de cultura, que resulta na instituição das representações analisadas pelo ângulo da sustentabilidade, concepção que emergiu como qualificação de um tipo de desenvolvimento e que ganha força no debate contemporâneo sobre meio ambiente. No caso em questão, o tema da sustentabilidade é axial, visto que, nas regiões semi-áridas, questões relacionadas à viabilidade econômica e à reprodução camponesa, estão na ordem do dia 24 .

De fato, o tema desenvolvimento em tempo algum se constituiu terreno firme, de acepção única, para o cenário social, uma vez que são os interesses sócio-políticos que delineiam os modelos de sociedade e suas dinâmicas. Com efeito, é na correlação de forças desses interesses que se definem o interesse ou interesses hegemônicos e, com isso, o sistema sócio-político hegemônico. Desenvolvimento, portanto, está associado a processo histórico, a questões estruturais, institucionais e culturais.

Como dito por Ribeiro (1992), há dois aspectos macro integrativos da noção de desenvolvimento: um como hierarquia funcional que alimenta a crença de que há um ponto que pode ser alcançado por uma receita seguida e guardada pelos países que lideram a corrida pelo desenvolvimento; outro como uma noção, universalmente, desejada, rotulada de neutralidade para se referir ao processo de acumulação em escala global. Os dois aspectos estão imbuídos da idéia de progresso fundada na crença de que o futuro será melhor do que o presente e o passado, por melhoramentos, invenções e inovações dos seres humanos. Nesse sentido, segundo o mesmo autor, desenvolvimento tem notável poder, como ideologia/utopia, na organização das sociedades e o reflexo desse poder emerge do discurso das duas importantes concepções de organização da sociedade: a capitalista liberal e a socialista.

24 Importante destacar que a acepção de viabilidade econômica baseia-se em Moraes e Vilela (2003, p. 118), que

vêem a referida categoria como “dimensão relativa à constituição da renda da família, formada pelo conjunto das atividades agrícolas e não agrícolas, incluindo transferências, encargos públicos e produção para auto-consumo.

Com acúmulo suficiente de recursos num “ano bom” para as possíveis dificuldades num “ano ruim”,

capacidade de manutenção do patrimônio (sem sofrer perdas irreparáveis); manutenção da capacidade produtiva; manutenção das condições de vida digna da família, com os resultados obtidos pela produção agropecuária e atividades complementares afins, como extração vegetal, artesanato, indústria rural, etc. (sem excluir a pluriatividade), que, como se sabe, contribui para a atividade agrícola”. A referida categoria faz parte do que Moraes e Vilela (2003, p. 117) categorizam como sustentabilidade, correspondendo à “reprodução ampla das diversas unidades de produção (família, terras e patrimônio), garantindo a integração econômica, social e cultural das novas gerações e a manutenção dos agroecossistemas, devendo ser encarada mediante quatro vertentes: viabilidade econômica, viabilidade social ou vivabilidade, transmissibilidade do patrimônio e reprodutibilidade ambiental ou agroecológica dos ecossistemas cultivados”, havendo entre estas categorias uma relação de interdependência entre os domínios econômico, social, cultural e político.

) (

49

No discurso capitalista, desenvolvimento está centrado nas forças de mercado, que tem poderes corretivos e regularizadores, portanto é algo a ser atingido com menor intervenção do Estado. No discurso socialista, o mercado é uma ilusão, visto que a sociedade é dividida em classes com diferentes condições de acesso a ele, devendo, portanto, as forças do mercado ser reguladas pelo Estado para atingir justiça social. As duas percepções apresentam visão economicista de sociedade, em que desenvolvimento implica em crescimento, inovação tecnológica, modernização e uma suposta relação com o bem-estar humano (RIBEIRO, 1992, GIULIANNI, 1998). Em sua essência, nenhuma destas concepções engloba preocupações ambientais. Ambas, como muito bem acentuou Giulianni (1998), concretizam-se, historicamente, no modelo urbano-industrial.

Com efeito, o ambientalismo surge relacionado a modelos alternativos de desenvolvimento e recentemente conquistou grande visibilidade entre os principais agentes do campo do desenvolvimento face aos graves problemas ambientais que emergem de todos os cantos do mundo.

De fato, no século dezenove, o mundo ocidental experimentou os primeiros reflexos do modelo desenvolvimentista da sociedade industrial, assentado no pressuposto de dois infinitos: a inesgotabilidade da matéria prima e da energia e a ilimitada capacidade da natureza de absorção dos rejeitos (DUARTE, 1983). Um modelo antropocêntrico que desconsiderava a lógica de existência da natureza, sua diversidade e suas exigências para permanecer viva.

Convém lembrar que, nesse contexto, emerge a proposição de preservar ecossistemas naturais para deleite das sociedades industriais, estressadas pelo caos urbano, como forma de amenizar os graves problemas provocados pelo modelo industrial moderno, fundado na perspectiva de ruptura entre cultura e natureza. No entanto, a instituição desses espaços de preservação orientada por esta concepção e com este compromisso, na verdade, tanto deixam intocadas as estruturas provocadoras dos desequilíbrios ambientais quanto provocam outros desequilíbrios entre natureza e culturas locais. Embora as justificativas preservacionistas sejam biocêntricas, de igualdade de direitos humanos e naturais, elas, de fato, centram-se nos interesses humanos, essencialmente, nos urbanos, desconsiderando outras formas de percepção e de relação com a natureza, inclusive aquelas desenvolvidas por populações rurais locais.

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As conseqüências da perspectiva ocidental de desenvolvimento instituída, historicamente, apresentam, portanto, suas seqüelas. Diante disto, as visões biocêntricas do ambientalismo e a antropocêntrica do desenvolvimento convergem para uma nova proposta, a de desenvolvimento sustentável, buscando conciliar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental e o fim da pobreza no mundo, ou seja, procurando desenvolver-se em harmonia com as limitações ecológicas do planeta, o que quer dizer, sem destruir o meio ambiente, inclusive para que as gerações futuras alcancem melhoria da qualidade de vida e das condições de sobrevivência (DUARTE, 1983).

Este ideário de desenvolvimento, portanto, pressupõe uma relação equilibrada entre tecnologia e meio ambiente, em consideração e respeito às diversidades e a busca de equidade e justiça social, sendo possível, com base em Sachs (1995) identificar pelo menos seis aspectos prioritários na proposição: a satisfação das necessidades básicas da população (educação, alimentação, saúde, lazer, etc); a solidariedade para com as gerações futuras (preservar o ambiente de modo que elas tenham chance de viver); gestão participativa da população envolvida (todos devem se conscientizar da necessidade de conservar o ambiente e fazer cada um a parte que lhe cabe para tal); a preservação dos recursos naturais (água, oxigênio, etc); a elaboração de um sistema social garantindo emprego, segurança social e respeito a outras culturas (erradicação da miséria, do preconceito e do massacre de populações oprimidas, como, por exemplo, os índios) e a efetivação dos programas educativos. Importante destacar que as citadas proposições permanecem, em grande parte, no campo do devir.

De fato, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável surgiram como preocupação mundial, na publicação do relatório Nosso Futuro Comum (CMMAD, 1991). Na visão de Sachs (1995), são aspectos do discurso de desenvolvimento sustentável: a dependência humana em relação ao ambiente natural; a preocupação com a existência de limites naturais externos sobre a atividade econômica humana; a consideração dos efeitos perniciosos de certas atividades industriais sobre ambientes locais e globais; a consideração da fragilidade desses ambientes locais e globais frente à ação humana coletiva; o reconhecimento de que iniciativas de desenvolvimento devem ser ligadas às suas próprias precondições ambientais e a tentativa de considerar, nas decisões, sobre o desenvolvimento as conseqüências para as gerações futuras e para aqueles que vivem em outras partes do planeta.

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Como se pode notar, as definições de desenvolvimento sustentável tendem a eliminar posições conflitivas dos processos econômicos, sociais e políticos, aproximando-se de uma perspectiva harmônica, não conflitiva. Nesse sentido, a economia política em que se assenta a discussão de desenvolvimento sustentável, é “muito pouco elaborada, para não dizer ingênua e omissa” (Ribeiro, 1992, p. 28). Como exemplifica o autor em passagem sobre o cenário provável de uma sociedade sustentável, em 2030:

Devido à extenuante pressão que exerce sobre os recursos, o materialismo simplesmente não conseguirá sobreviver à transição para um mundo

À medida que o acúmulo de riquezas nacionais venha a se

tornar um objetivo pessoal e menos importante, a lacuna entre ter e não ter gradualmente se fechará, eliminando muitas tensões sociais. Diferenças ideológicas também poderão desaparecer pouco a pouco, à medida que as nações forem adotando a sustentabilidade como uma causa comum ( Com as tarefas cooperativas envolvidas na restauração da Terra, de tantos modos e tão amplamente, a idéia de travar uma guerra poderá se tornar um anacronismo (RIBEIRO, 1992: p. 28).

sustentável. (

)

Para Ribeiro (1992), portanto, esta percepção além de revelar-se excessivamente romântica, desconsidera as contradições do sistema capitalista e homogeneíza o que é diverso, por desconsiderar as peculiaridades, as especificidades de cada povo, de cada cultura, uniformizando as identidades e subjetividades culturais num mesmo anseio de padrão de produção e de consumo e de acesso a determinados bens. De fato, considera desenvolvido, sustentavelmente, o país que estiver num determinado padrão de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), tiver renda per capita e crescimento equiparado aos países ricos, desconsiderando que um povo pode desenvolver-se com padrão de produção e consumo diferente do adotado pelos países ricos 25 .

Nesse rastro e ampliando o debate, a concepção de sustentabilidade, com base na Declaração de Manila sobre Participação Popular e Desenvolvimento Sustentável (1990),

25 Redcliff (2002) faz uma abordagem sobre os novos discursos de sustentabilidade no contexto que o autor considera como pós-sustentabilidade. Identifica que a força do conceito está mais nos discursos os quais o cercam do que qualquer valor heurístico, destacando que o conceito foi se desgarrando do de meio ambiente e foi se confundindo com justiça social, eqüidade, governabilidade, como uma espécie de sufixo para todas as coisas julgadas boas e desejáveis, tornando as ligações entre meio ambiente, justiça social e governabilidade vagas no discurso de sustentabilidade O autor reconhece que os discursos de sustentabilidade atingiram o centro da política ambiental internacional. E aponta duas questões específicas como evidência dos novos discursos, em torno da sustentabilidade e da tentativa de incorporar nas preocupações ambientais as questões maiores da justiça social, da governabilidade e da equidade: a primeira questão está ligada ao mantra da globalização e a segunda questão se refere à maneira pela qual a ciência vem sendo utilizada para conferir legitimidade ao nosso conhecimento sobre o que está acontecendo com o meio ambiente.

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adota o modelo de desenvolvimento alternativo como forma de alcançar sustentabilidade. Desenvolvimento entendido, então, como processo de mudança econômica, política e social, não necessariamente envolvendo crescimento, estando centrado nas populações que controlam os recursos, conforme as condições e possibilidades ambientais, para serem utilizados na satisfação de suas próprias necessidades a partir do seu próprio padrão de produção e consumo.

Tomando como base a concepção de Manila para pensar o semi-árido, o presente delineamento teórico foi adotado como suporte de análise do modo de vida das populações camponesas do semi-árido piauiense, apreendido pelo seu imaginário social, através das representações sociais, com vistas a compreender a crise eco-social vivenciada no sítio de pesquisa, o que será desenvolvido nos capítulos seguintes, iniciando-se pelo tema da construção social da espacialidade, no capítulo II.

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CAPÍTULO II

IMAGENS DE LUGAR: SEMI-ÁRIDO E VÁRZEA GRANDE - REINVENÇÕES DE ESPACIALIDADE?

Neste capítulo, serão abordados os processos de instituições territoriais, partindo da construção social do Nordeste, passando pelo semi-árido e afunilando para o semi-árido piauiense. Com isto, desnaturaliza-se o processo territorial, fazendo emergir o processo de instituição social dos territórios e os símbolos que correspondem ao conjunto de imagens presentes nessa construção.

2.1. Prolegômenos: sobre a construção social do nordeste

Medir tempo e delimitar espaço faz parte do processo instituidor e fundante do ser humano, na busca de dar sentido ao universo construído (CASTORIADIS, 1982). Desta forma, o ser humano inventa temporalidades e espacialidades, em diferentes contextos históricos, produzindo uma dimensão multiforme, que permite vê-las econômica, política, jurídica e culturalmente, num feixe de imagens e discursos, que formulam um arquivo de uma dizibilidade e de uma visibilidade, que as sustentam como produto de uma rede de relações entre agentes que se reproduzem e agem em diferentes dimensões (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001).

A delimitação de um espaço ou criação de uma espacialidade, como concepções

e percepções que habitam o campo da linguagem e se relacionam diretamente com um campo de forças que as institui, é o processo de construção de uma identidade espacial junto com uma identidade temporal. O agrupamento de conceitos e experiências cotidianas representa e, principalmente, institui realidades, dispostas em tramas, redes e falas tecidas

nas relações sociais (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001).

A identidade espacial esboçada sobre uma área é vista por Stroh (2003) como

categoria analítica, definida pela presença do Estado, correspondendo a uma categorização

de lugar que define seus limites físicos a partir de uma deliberação externa pelo Estado, como forma de intervenção política e econômica.

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Entretanto, apesar da intervenção oficial, a instituição de identidades espaciais não se esgota no campo da oficialidade e as regiões são criadas como um legado que existe em função das relações estabelecidas a partir da mediação do trabalho e das relações sociais, com as marcas do afeto e do trabalho investido (STROH, 2003). Como um grupo de enunciados, símbolos e imagens, as representações sociais, que, com certa regularidade, repetem-se nos mais diversos discursos, nos seus diferentes estilos, em períodos diferentes, ligados diretamente às relações de poder e sua espacialização, expõem uma política de saber, que apresenta regiões não como uma homogeneidade contendo uma diversidade, mas como produto de uma operação de homogeneização. Convém lembrar que a referida operação se dá na luta com as forças que dominam outros espaços regionais, com fronteiras móveis, atravessadas por diferentes relações de poder (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001).

Com efeito, o regionalismo brasileiro que resultou na criação do Nordeste, como região, é fruto da crise da espacialização norte e sul que dividiu o Brasil e que usava, como critério de classificação regional, as diferenças como reflexo imediato da natureza, do meio e da raça, num determinismo que atribuía as diferenças de hábitos, costumes, práticas sociais e políticas, às variações de clima, vegetação e composição racial da população (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001). A crise da concepção naturalista se deu junto com a crise da primeira guerra mundial, que provocou profundas alterações no tecido social mundial e brasileiro. Especialmente, São Paulo recebeu migração em massa e teve acelerado o processo de urbanização, complexificando-o, profundamente, a ponto de as lentes deterministas do naturalismo não darem conta de explicar a nova história e geografia surgidas.

O referido contexto desfocou o pólo de desenvolvimento do Nordeste, que era,

então, chamado de Norte. Esse tinha como centralidade um modelo econômico delineado pela monocultura agro-exportadora, fornecedora de matérias-primas que alimentava um

mercado forjado pelas grandes navegações (FURTADO, 1998).

A perda de status de região pólo de desenvolvimento e a correspondente perda

de poder econômico dos coronéis do sertão, bem como as especificidades climáticas diferenciadas da Amazônia, fizeram emergir a necessidade de diferenciação entre Norte e Nordeste, especialmente, após a seca de 1877, uma hecatombe com meio milhão de mortos que tratou, pela primeira vez, o referido fenômeno da natureza como provocador de calamidades sociais (FURTADO, 1998). Tomou-se, com isto, a seca como tema central de

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mobilização, que provoca emoção e serve de alimento principal para o discurso de políticos que exigem verbas, obras, cargos e criação de estruturas oficiais. Estava lançada, assim, a base para a indústria da seca e a necessidade de um redesenho regional, de forma a diferençar o Norte das secas do Norte da Amazônia.

Nesse itinerário, a seca de 1877 foi erigida como marco da derrota do Norte diante do Sul, ou seja, da economia centrada na produção canavieira e do algodão do atual Nordeste para o mercado emergente no Sul do país. Configurou-se assim, como o marco zero da instituição do Nordeste, num momento de transferência de poder do Norte para o Sul. O instrumento utilizado pela solidariedade escravista para enfrentar o seu desfalque fatal de poder foi tomar a seca como lente de interpretação para todas as questões que abalaram os poderes instituídos: as manifestações de descontentamento dos dominados (banditismo e revoltas messiânicas) e o atraso econômico e social. Essa criação imagético- discursiva delineou um quadro de horrores que mobilizou sentimentos de piedade e verbas, transformando-se na atividade mais lucrativa do Norte/Nordeste, depois da decadência de sua base econômica (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001).

Com a referida demanda, somada à crise do naturalismo que norteava a antiga geografia regional, à substituição da matriz de desenvolvimento da agropecuária para a indústria e, especialmente, o antagonismo entre progresso do Sul (São Paulo) e atraso do Norte (Nordeste), estavam dadas as tinturas para o redesenho da espacialidade no Brasil. Na região das secas, é urdida uma identidade espacial, mais centrada nas relações sociais de poder e saber do que naturais. Por isso, é que o redesenho, embora leve em conta a existência das secas, não se limita à espacialidade destas. Por exemplo, inclui o Estado do Maranhão, em que não há secas, e não inclui o norte do Estado de Minas Gerais, que é acometido por freqüentes estiagens. Desta forma, nasceu o Nordeste como região.

Esta identidade espacial de Nordeste resulta do encontro de interesses, constituindo muito mais uma zona de solidariedade de populações marginalizadas pelos poderes públicos, do que propriamente uma zona sujeita ao fenômeno climático das secas. Como se fosse uma espécie de aliança, ante a exigência de ser bem forte para pleitear tratamento igual dado ao Sul pelo governo federal, adotando, como instrumento de pressão, o discurso da seca.

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A nova identidade, o Nordeste, portanto, desponta como totalidade político-

cultural que reage à sensação de perda de poder na correlação de forças com outras identidades espaciais, especialmente, o Sul, por parte dos agentes movedores do pólo econômico centrado no açúcar e no algodão, bem como de intelectuais e comerciantes a eles

ligados, com vistas a dar visibilidade e dizibilidade como códigos de leitura, que permitissem ordenar olhares, que demarcassem contornos, tonalidades e sombreados (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001).

A exigência de visibilidade e dizibilidade da identidade espacial de Nordeste se

dá no sentido de construir um estereótipo que forjasse uma unidade, para isso, envolvendo, nessa construção, os mais diversos segmentos: política, literatura, intelectualidade, música, de forma a construir uma identidade una para o espaço e para a gente do Nordeste, como retratada por Euclides da Cunha, no início do século XX, produzindo uma imagem que viria a fazer parte desse repertório de símbolos identitários:

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos

mestiços neurastênicos do litoral.

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário.

Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto

a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase

gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo – cai é o termo - de cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável (CUNHA, 1999, p. 95 ).

De fato, a literatura, a música, a pintura, as artes em geral, os meios de comunicação e a política evocam a caracterização euclidiana como estereótipo das pessoas que vivem na espacialidade oeste do Norte do Brasil. A identidade da gente é o sertanejo e a do lugar é o Nordeste, este descrito como sertão das secas.

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Nesse processo de construção identitária, o estereótipo mescla concepções de identidade como fonte de significados para o próprio ator, construída por meio de processo de individuação (CASTELLS, 2002), bem como a concepção de processualidade em que se constrói a identidade, que, no dizer de Mendes (2002) é relacional e múltipla, situacional e

histórica, baseada no reconhecimento por outros atores sociais e na diferença. Nesse sentido,

o

estereótipo se projeta no processo de autoprodução identitária, numa tentativa de reificação

e

de fixação de identidades e numa produção constante de novas realidades, produzidas num

diálogo multivocal e na intersecção de forças centrípetas (de fora para dentro) e centrífugas (de dentro para fora), marcadas por tensões e contradições tanto na auto-representação quanto

na ação social.

A análise do referido processo que constituiu/constitui este estereótipo aponta para intencionalidades no sentido de uma construção política, social e econômica de significados com base no atributo cultural ou conjunto de atributos culturais inter- relacionados que prevalecem sobre outras fontes de significados (CASTELLS, 2002). Um processo delineador da consciência ou alheamento de cada indivíduo quanto à sua autoprodução identitária. Geralmente, mais consciente para segmentos hegemônicos e menos para segmentos subalternos que, no entanto, sentem-se aí, também, representados e identificados, muitas vezes, como disse Cuche (1976), até como estratégia identitária.

Os primeiros registros, no campo da literatura, de elementos que compõem o referido estereótipo, foram feitos pelo grupo regionalista, formado por escritores românticos como: Franklin Távora, Visconde Taunay e Bernardo Guimarães, no período literário denominado Romantismo, na primeira metade do século dezenove, como contraposição ao tipo sertanejo descrito no mesmo estilo de época pelo escritor cearense José de Alencar, que se assemelhava ao modelo de herói europeu. Como, por exemplo, o romance “Inocência”, escrito em 1872 por Visconde Taunay (1986), que sistematiza elementos, os quais serão depois tomados como matriz para a constituição do estereótipo de identidade sertaneja, como

a definição do que seja o sertanejo:

O legítimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem, em geral, família. Enquanto moço, seu fim único é devassar terras, pisar campos onde ninguém antes pusera pé, vadear rios desconhecidos, despontar cabeceiras e furar matas, que descobridor algum até então haja varado (TAUNAY, 1986, p.5).

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Constitui sua fala:

— Vassuncê não credita! protesta então com calor. Pois encilhe o seu bicho

e caminhe como eu lhe disser. Mas assunte bem, que no terceiro dia de

viagem ficará decidido quem é cavouqueiro e embromador. Uma coisa é mapiar à toa, outra andar com tento por estes mundos de Cristo (TAUNAY,

1986, p. 5).

A construção dessa identidade sertaneja prossegue no período literário seguinte, identificado como Realismo-Naturalismo, na segunda metade do século dezenove, ou seja, sob influência da simbologia da seca de 1877, pelo acréscimo do elemento ambiental das secas. O início da construção do protótipo de identidade do sertanejo do semi-árido ganha, assim, uma marca, que permanece, até os dias atuais, muito forte: o seu caráter migratório em função das secas, tema recorrentemente trabalhado por muitos e diversos autores :

Entre os retirantes passou um da Serra do Martins, Rio Grande do Norte,

com a mulher, seis filhos e dois cunhados, cada um destes com quatro filhos

e mulher. Tipo acabralhado, alto, corpulento, de topete caído sobre a testa

como crista de peru. Já vinha muito roto o seu chapéu de couro. A camisa e a

ceroula já não tinham mais cor.

Ao cair da tarde, arranchado ele com a sua gente em uma casa abandonada, ao pé do alto, perto da trempe de pedras onde fervia o feijão com arroz, recortava de uns tampos de couro cru umas palmilhas para as alpercatas; pois, coitado, as suas estavam roídas e sem correias.

A apregata, aos sertanejos, lhes é tão indispensável como o cachimbo e a faca no quarto (PAIVA, 1981, p. 18).

Mas foi com a obra de Euclides da Cunha, “Os Sertões”, que a idéia de sertanejo ganhou um formato mais nítido, servindo de fonte para tantos outros escritores, roteiristas e dramaturgos do teatro e das telenovelas da atualidade, que focalizam o processo de criação para além do sujeito: uma identidade sertaneja para uma identidade de lugar – o Nordeste.

Posterior a Euclides da Cunha, o movimento intitulado “Romance de 30” ou regionalismo, a obra de Gilberto Freyre e a música de Luiz Gonzaga alçaram vôos para além do espaço artístico e intervieram na política, fornecendo ao processo de instituição de identidade, já referido, elementos necessários para o delineamento da regionalização do Brasil, no caso, pela associação da região Nordeste à seca.

Sem dúvida, a idéia de Nordeste é recente e forjada no mundo político, intelectual e das artes como forma de realçar a auto-estima e, especialmente, constituir identidade

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diferenciada da do Sul/Sudeste, embora mantendo a dominação das elites locais. Nesse processo, a região é institucionalizada com a proposição do Conselho Nacional de Geografia, em 1941, através do geógrafo Fábio de Macedo Soares de Guimarães (ANDRADE, 1998). Se a proposição oficializou-se, porém nunca se consolidou consenso sobre sua delimitação, inclusive no que toca a atuação de órgãos governamentais, como a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE, criada por pressão da conjunção de forças formadas na zona de solidariedade, e que estendeu a sua área de atuação regional do Maranhão a Minas Gerais, portanto, fora do desenho de Nordeste. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE contribuiu fortemente para a consolidação da atual conformação do Nordeste ao utilizá-la, a partir de 1968, como referência para suas pesquisas.

A zona de solidariedade não só conseguiu institucionalizar a região Nordeste, como conseguiu fazer com que a “questão Nordeste” passasse a ser do Brasil. Teve intervenção tão decisiva que emplacou política assistencialista de combate à seca até mesmo na Constituição Federal de 1891 que, no artigo 5º, obrigava a União a destinar verbas especiais para o socorro de áreas vítimas de flagelos naturais, incluindo, aí, as secas (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001).

O Departamento Nacional de Obras contra a seca – DNOCS e a SUDENE, dentre outros, são frutos da atuação na zona de solidariedade. A SUDENE surgiu com uma proposta reformista, não incorrendo no risco de mudanças estruturais, ameaçadas por governos estaduais, como o de Pernambuco. Assim, com o ideário de reformar para não transformar, o DNOCS, a SUDENE e assemelhados, na verdade, configuraram-se como um braço do governo federal intervindo nas estruturas do poder estatal, o que foi profundamente capitalizado pelo regime autoritário (BACELAR, 2003).

De fato, o regime autoritário, dos anos setenta até meados dos anos oitenta, sob o comando do Estado, promoveu um processo de desconcentração produtiva, através do movimento do capital produtivo dinâmico para outras áreas, atingindo o Nordeste, principalmente, através das políticas da SUDENE. No entanto, nesse período, o Nordeste foi atingido pela crise da dívida, o que interrompeu o processo e desacelerou o crescimento econômico da região.

As políticas regionais de desenvolvimento dos anos sessenta, setenta e meados de oitenta, centradas nos instrumentos financeiros e fiscais voltados para o desenvolvimento,

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produziram resultados positivos no quesito crescimento, especialmente, da renda, de forma a reduzir a pobreza absoluta no país, principalmente, no Nordeste, possibilitando que a região se atrelasse ao desenvolvimento do país, diminuindo a distância entre seus indicadores econômicos e sociais das médias nacionais.

Nas três últimas décadas no século vinte, o Nordeste cresceu, em alguns aspectos, a taxas, às vezes, superiores às nacionais, o que não eliminou a existência de vastos redutos de pobreza e atraso econômico convivendo, na atualidade, com modernos pólos de desenvolvimento, o que fortalece as desigualdades entre as regiões e intra-regional e torna mais saliente a existência não de um, mas de vários nordestes (BACELAR, 2003).

Nos anos oitenta e noventa, a economia brasileira cresceu pouco. Primeiro, em função do processo de hiper-inflação e depois devido às políticas de controle para a estabilização. A crise também assola a SUDENE, acirrada pelo desvelamento de processos de corrupção no interior do órgão, o que resulta na sua fragilização e esvaziamento da proposta de planejamento regional e seu fechamento em década posterior, deixando a região à deriva, ou melhor, a zona de solidariedade, que adotava a SUDENE como sua institucionalização, ou seja, a institucionalização da indústria da seca.

Nesse contexto, os estados nordestinos, em concorrência entre si, passam a adotar mecanismos de atração de grandes empresas, conseguindo alocar alguns empreendimentos com comprometedoras isenções fiscais, que promovem a modernização da agricultura, a fruticultura irrigada, a implantação de indústrias que exigem muita mão de obra, como calçados, roupas e outras, aproveitando as isenções, a mão de obra barata, a fragilizada organização de classe trabalhadora e o pouco controle por parte das autoridades ambientais (ZAIDAN FILHO, 2001). Isso não implica o fim da referida zona de solidariedade, muito menos da indústria da seca, mas uma crise numa de suas formas de institucionalização que, aliás, começa a ser rearticulada, num indício de que persistem interesses em manter a articulação, a invenção.

Teoricamente, interessa reter que o desenho das regiões brasileiras deu-se por força de processo sociais, embora a questão natural tenha sido utilizada como instrumento de pressão e como símbolo. Nesse processo, a preocupação em definir e reificar o que é o Nordeste produziu uma imagem da região que nega sua diversidade, tanto natural quanto social, substituindo-a por paisagens típicas, personagens como o sertanejo, que são vistos

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ambiguamente tanto pela beleza de sua peculiaridade quanto pelos problemas sociais. Com isto, a reificação imaginária escamoteia que as identidades produzidas são dinâmicas, relativamente estáveis, socialmente distribuídas, construídas e reconstruídas nas relações sociais por forças internas e externas, num processo contínuo de atividade social (MENDES,

2002).

Efetivamente, a identidade una de Nordeste favorece interesses de controle por parte dos indivíduos e grupos do espaço social e físico circundante, porquanto o imenso e diverso espaço físico e as múltiplas identidades, nos nove estados nordestinos da federação brasileira, dificultam o exercício do controle cuja necessidade é atendida com a construção da identidade espacial de Nordeste e de uma identidade pessoal de nordestino. Ambas, na verdade, contêm uma multiplicidade de identidades, originadas nos acidentes, fricções, erros, caos, ou seja, no ruído social dos conflitos entre os diferentes agentes e lugares de socialização e não na mera reprodução (MENDES, 2002).

Entretanto, o processo de criação desta identidade una para o Nordeste e sua gente não é exercício de mera ficção. É uma invenção sim, mas parte de matéria-prima fornecida por unidades espaciais que compõem o todo constituído, através de sua história, geografia, biologia, instituições produtivas e reprodutivas e memória (BOSI, 2003) e por fantasias pessoais, pelos aparatos de poder e revelações de cunho religioso, adotando o suporte local, capaz de dar a legitimidade de que necessita para o encontrar-se na memória coletiva. No caso do Nordeste, esse suporte veio da cana-de-açúcar, das secas, do cangaço, dos aspectos rurais, do falar de pronúncia demorada, arrastada, cantada. E, desta forma, inventam uma tradição pela escolha de imagens, lembranças, experiências, que funcionam como auxiliares na definição dos laços de identidade dos sujeitos, ou seja, é na inter-relação entre presente e passado, feita pela memória coletiva, que essa identidade, em diálogo com teorizações de Tedesco (2002), vai-se compondo através da memória individual, familiar, da linguagem, do nome, da moradia, do território, da posição social, das aspirações, dos valores sociais, das visões de mundo, dos comportamentos, dos parentescos, com suas lembranças/imagens e representações.

Na análise da identidade nordestina, pode-se perceber que a referida construção é fruto de uma tentativa de generalização das especificidades, ou seja, unificação dos diversos nordestes e da diversidade de sujeitos que ali vivem. Enfim, trata-se de uma espécie de

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generalização com a intenção de firmar uma identidade regional 26 . A cultura nordestina é, de fato, uma interseção entre os localismos e o universal, entre o Nordeste da cana-de-açúcar, do cacau, do semi-árido, do litoral, da pecuária, da abundância e da fome, da miséria e da riqueza, em jogo de opostos que se casam ou não. Nesse sentido, o sertanejo de Euclides da Cunha pode até existir localmente, mas nem de longe consegue sintetizar a multiplicidade que comportaria as identidades nordestinas ou das secas, ou do semi-árido, ou do cacau, ou da cana-de-açúcar 27 .

2.2. Semi-árido – nova invenção ou reinvenção de identidade espacial?

Como exposto, o amplo acordo tácito que resultou na criação do Nordeste, como região, incluiu interesses de diversos segmentos, muitas vezes antagônicos, como por exemplo, os dos antigos coroné