Você está na página 1de 71

GeoPlanUM I Edição 2010

ISSN 1647-645X

Revista dos Estudantes de Geografia e Planeamento da


Universidade do Minho

Publicada com o apoio de:

Departamento de Geografia da Universidade do Minho

ICS – Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho

Associação Académica da Universidade do Minho

GeoPlanUM – Associação dos Estudantes de Geografia e


Planeamento da Universidade do Minho
GeoPlanUM I Edição 2010

Direcção Mónica Santos (directora)


Adelina Pereira (directora-adjunta)
Ricardo Martins (director-adjunto)
Admilson Cabral (director-adjunto)

Conselho Ana Francisca de Azevedo Prof. Aux. Dep. Geografia U. Minho


Editorial Geografia Humana
António Bento Gonçalves Prof. Aux. Dep. Geografia U. Minho
Geografia Física

Conselho Ana Francisca de Azevedo Prof. Aux. Dep. Geografia U. Minho


Científico António Bento Gonçalves Prof. Aux. Dep. Geografia U. Minho
António Vieira Prof. Aux. Dep. Geografia U. Minho
Maria José Caldeira Assist. Conv. Dep.Geografia U.Minho
Miguel Sopas Bandeira Prof. Assoc. Dep. Geografia U.Minho
Paula Remoaldo Prof. Assoc. Dep. Geografia U. Minho
Paulo Nossa Prof. Aux. Dep. Geografia U. Minho

Propriedade e Edição:
GeoPlanUM - Associação dos Estudantes de Geografia e Planeamento da Universidade do
Minho

Impressão e Acabamentos:
ISSN 1647-645X

GeoPlanUM - Revista dos Estudantes de Geografia e Planeamento da Universidade do Minho


Departamento de Geografia – Campus de Azurém - 4800-058 Guimarães
Tel. 253 510 560 – Fax. 253 510 569
geoplanum@gmail.com
http://geoplanum.blogspot.com/
PREFÁCIO

A Revista GeoPlanUM - Revista dos Estudantes de Geografia e Planeamento da Universidade

do Minho sucede à Revista “área” que foi publicada pela GeoPlanUM entre os anos de 2001 e

2004, num total de quatro números.

Com a mudança na direcção da “área”, associada à reestruturação do curso de Geografia e

Planeamento, o que implicou o fim dos seminários com relatório de investigação, principal

fonte dos artigos da revista, esta deixou de ser publicada.

Actualmente, cinco anos depois, com um 1º e um 2º ciclos de estudos estabilizados e com

uma direcção da GeoPlanUM dinâmica e competente, estão novamente reunidas as condições

para que um novo projecto editorial dê continuidade ao anterior.

Nasce assim a Revista GeoPlanUM - Revista dos Estudantes de Geografia e Planeamento do

Universidade do Minho que visa divulgar os trabalhos dos alunos dos 1º, 2º e 3º ciclos de

Geografia, incentivando deste modo a investigação e a publicação de artigos de carácter

técnico-científico por parte dos referidos estudantes e dos recém-licenciados.

Este projecto editorial insere-se no âmbito dos objectivos da GeoPlanUM e constitui um

excelente instrumento de divulgação, junto de potenciais empregadores, das diversas

competências adquiridas pelos licenciados, mestres e doutorados em Geografia e de todo o

seu potencial enquanto técnicos altamente qualificados.

Fazemos votos que a revista que agora se (re-)inicia se afirme como uma ferramenta de

grande qualidade e utilidade e que contribua decisivamente para o sucesso do ensino

graduado e pós-graduado em Geografia e Planeamento da Universidade do Minho.

António Bento Gonçalves

Conselho Editorial
INTRODUÇÃO

A GeoPlanUM como a Associação dos Estudantes de Geografia e Planeamento da


Universidade do Minho tem como um dos seus principais objectivos a divulgação das
capacidades de trabalho dos seus estudantes. É nesse âmbito que a Revista GeoPlanUM se
enquadra uma vez que permite a divulgação, sob a forma de artigo, de alguns dos trabalhos
desenvolvidos pelos estudantes.
A ciência geográfica, como área de conhecimento multidisciplinar que estuda os fenómenos
físicos e humanos a nível espacial, tem um papel de crucial importância no alcance de um
desenvolvimento integrado e sustentado. Os cursos de Geografia formam licenciados, mestres
e doutorados habilitados a exercer um vasto número de funções em trabalhos de planeamento
local, regional e nacional em departamentos dos Ministérios, Municípios, Comissões de
Coordenação Regional, Gabinetes de Apoio Técnico, Consultores de Gabinetes privados de
estudo de projectos (Sistemas de Informação Geográfica, Estudos e Impacte Ambiental,
Gestão e Ordenamento do Território) ou Quadros Técnicos Superiores em equipas
pluridisciplinares, na elaboração de instrumentos de Gestão Territorial Municipal (PIOTs e
PMOTs), Regional (PROTs) ou Nacional (PNPOT, PSIT, PEOTs), quer sejam de cariz
regulamentar ou estratégico.
A presente Edição apresenta artigos com temas diversos que permitem dar a conhecer
algumas das potencialidades do conhecimento geográfico: a forma como as ferramentas de
análise geográfica permitem alcançar uma mobilidade urbana mais sustentável; o valioso
apoio à gestão e ao ordenamento florestal através da verificação do padrão da recorrência
anual e definição do ciclo dos fogos florestais; o estudo dos impactos provocados pela
implantação de novas superfícies comerciais nos hábitos dos consumidores e junto da oferta
comercial já existente; o levantamento de questões, numa perspectiva pós-colonialista, de
como novas identidades culturais geram novos espaços e paisagens; a caracterização da
implementação actual e perspectivas futuras da Indústria Têxtil e de Vestuário; a análise do
grau de difusão das Tecnologias de Informação e Comunicação e as principais áreas da sua
utilização no território nacional; o estudo das alterações do uso do solo devido a mudanças
naturais e antrópicas, as quais também podem ser geradoras de outras alterações no meio
físico e no meio social e económico; assim como, o estudo de práticas ancestrais como a
pastorícia que formaram o nosso passado e as nossas raízes e que são parte integrante de uma
cultura típica das zonas serranas para além de que também contribuíam como protecção
natural contra os fogos florestais.
Os temas publicados nesta edição da Revista GeoPlanUM são apenas um pequeno exemplo
da ampla abrangência de aplicabilidade do conhecimento dos estudantes e formados em
Geografia na Universidade do Minho. Outros temas serão abordados nas próximas edições.
Agradecemos a todos aqueles que contribuíram para a realização desta Edição, em particular
aos elementos dos Conselhos Editorial e Científico e às instituições que nos apoiaram
financeiramente.
A Direcção da GeoPlanUM
I Edição Revista GeoPlanUM, Guimarães, 2010, p.3-7

SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA COMO FERRAMENTA DE


ANÁLISE DE DISTÂNCIAS*

Vítor Ribeiro**

Resumo As cidades continuam a exercer um papel importante de atracção da população aumentando os fluxos
diários da população. As políticas de transporte têm primado por um planeamento das infra-estruturas que
potencia o uso do automóvel privado e o seu uso massificado e intenso contribui para o agudizar dos vários
problemas que afectam a qualidade de vida nas cidades. Neste contexto os transportes de uso colectivo,
designadamente os transportes urbanos são a base de uma alternativa conducente a uma mobilidade urbana
que se quer mais sustentável. Porém a ausência de políticas orientadas para o uso dos transportes públicos
têm potenciado a redução do número de utentes, aumento do tempo de viagem e consequentemente o
aumento dos custos. As distâncias que o utente tem de percorrer para aceder a um determinado sistema de
transporte são um dos factores que pode contribuir para retirar atractividade aos transportes públicos.
No presente artigo analisaremos as ferramentas de análise das distâncias lineares (Buffer) e de rede (áreas de
serviço numa análise de rede). Procuraremos ainda avaliar as distâncias tempo do C.B.D da cidade de Braga
relacionando-o com a oferta do serviço dos Transportes Urbanos.
Palavras-chave: S.I.G., Análise de Redes, Transportes Urbanos, Acessibilidades.

1. Introdução modo de transporte. Apesar da dificuldade em


colmatar estas debilidades operacionais devido ao
As cidades continuam a ser um foco de aumento de custos que lhe estão associados urge
oportunidades e um pólo de atracção (RIBEIRO and desenvolver metodologias que permitam uma
TELES, 2004). Porém, devido ao crescimento e ao reestruturação da rede. Esta reestruturação deverá
aumento da procura do espaço urbano acentuou-se a possibilitar a arquitectura da rede para um nível que
necessidade de movimento da população que tem se coadune com as condições da procura actuais.
gerado diversos problemas, como é o caso dos No presente artigo centramo-nos na avaliação
movimentos pendulares, do congestionamento de das medidas das distâncias e na análise da
trânsito, do aumento da poluição atmosférica, sonora acessibilidade pedonal ao (C.B.D.) de Braga.
e visual, do aumento da criminalidade e do acentuar
das desigualdades sociais (RIBEIRO and 2. Metodologia
REMOALDO, 2009b). A cidade actual transformou-
se num espaço descontínuo, disperso e fragmentado O processo de segregação sócio-espacial tem
(PALOMARES and PUEBLA, s.d.). A criação de marcado o desenvolvimento dos territórios. Devido a
novos espaços urbanos tem sido acompanhada pela este facto têm-se produzido diversas abordagens e
implementação de novas infra-estruturas viárias, ou interpretações que se reflectem nas diferentes
pela melhoria das vias existentes contribuindo, desta abordagens metodológicas utilizadas para analisar e
forma, para aumentar a mobilidade da população em explicar os processos associados aos transportes, cuja
transporte privado. A conjuntura económica, representação esquemática se encontra presente na
designadamente a facilidade no acesso ao crédito Figura 1 (DODSON, et al., 2006).
automóvel, aliada às redes viárias estruturadas para o No seio destas abordagens, a baseada na análise
automóvel privado têm contribuído para a hegemonia espacial, com recurso aos Sistemas de Informação
do transporte privado como principal meio de Geográfica (S.I.G.) é a que mais tem evoluído nos
transporte. Esta hegemonia, cada vez mais vincada, últimos anos. De facto, as ferramentas de análise
do automóvel no conjunto das várias opções modais espacial apresentam enormes potencialidades para
de transporte tem potenciado o declínio da avaliar, por exemplo, a acessibilidade, analisar a
atractividade e consequente perda de utentes dos eficiência das redes de transportes e identificar
transportes públicos, designadamente os urbanos. “clusters”. O processo de planeamento em transportes
Contudo e apesar da conjuntura social e procura promover a acessibilidade, a justiça social
económica potenciar o uso do automóvel privado (KNOWLES, et al., 2008) e a inclusão social.
também a desarticulação entre a oferta/procura das
redes de transportes públicos contribui para a falta de
atractividade. Neste contexto também as debilidades
* Artigo baseado nos trabalhos de Investigação que está a ser
operacionais como é o caso das reduzidas frequências desenvolvida no seio do doutoramento
do serviço, fraca flexibilidade e a extensão, ** Vítor Ribeiro, aluno de 3ºciclo Geografia e Planeamento
durabilidade e cobertura geográfica dos percursos, Regional na Universidade do Minho
favorecem a ascensão do automóvel como principal

3
Vítor Patrício Rodrigues Ribeiro

Figura 1 – Esquema conceptual das abordagens arco-nó porque os autocarros não param em todas as
metodológicas utilizadas nas investigações de paragens.
planeamento urbano e de transportes Contudo, os Sistemas de Informação
Geográfica (S.I.G.) possuem um vasto conjunto de
ferramentas que permitem desenvolver análises de
redes mais profícuas, como é o caso da obtenção dos
caminhos mais curtos, das matrizes de
Origem/Destino ou da optimização de percursos.
Os S.I.G. desenvolveram-se fundamentalmente a
partir da década de 60 do século XX estando
intrinsecamente associados à análise territorial dos
sistemas de transportes (MATOS, 2001, PONS and
PÉREZ, 2003). Pelo facto de os S.I.G. permitirem
Fonte: Elaboração própria com base em Dodson et al, armazenar e manipular extensas bases de dados,
2006. georeferenciadas, torna possível conjugar informação
de diferentes dimensões através de modelos
Relativamente ao Central Business District - conceptuais cada vez mais complexos que têm
C.B.D de Braga procura-se avaliar as medidas das proporcionado o aumento exponencial dos estudos
distâncias com base nas ferramentas de buffering e de com recurso a estas ferramentas. Os modelos de
análise de redes e considerando as deslocações a pé. acessibilidade são recentes e as análises espaço-
O cálculo das distâncias é realizado tendo em sociais, recorrem, geralmente a estas ferramentas para
consideração as seguintes oportunidades: o Hospital visualizar, analisar e modelar a informação
de São Marcos, o Terminal Ferroviário e o Terminal geográfica (DODSON, et al., 2006).
de Autocarros inter-urbanos (Central de A análise das distâncias é uma componente
Camionagem). importante para integrar os estudos de planeamento
Para calcular as distâncias recorremos às de transporte uma vez que possibilitam identificar
ferramentas de análise de proximidade baseadas nas que tipos de oportunidades estão acessíveis se
distâncias euclidianas (Buffer) e de análise de rede utilizarmos um determinado modo de transporte, ou
(service area). No cálculo das distâncias euclidianas quais são as áreas de cobertura de uma determinada
utilizou-se a distância de 350 metros que corresponde oportunidade
ao raio do círculo produzido pela ferramenta Buffer.
Por seu turno, no cálculo das distâncias de rede, Figura 2 – Enquadramento geográfico do caso de
utilizámos as isócronas dos 3 e dos 5 minutos estudo
considerando-se uma velocidade média constante de
deslocação a pé de 110 metros por minuto. Pretende-
se, desta forma, produzir uma análise comparativa
dos resultados produzidos com recurso a cada uma
das ferramentas.

3. Os Transportes e a Análise das distâncias em


ambiente S.I.G.

Os transportes têm uma forte componente


espacial e a estruturação de uma rede implica a
integração e manipulação de informação cujas
relações são geralmente complexas. A arquitectura
das redes em S.I.G. relaciona-se com a Teoria dos Fonte: Elaboração própria.
Grafos, resultando um Grafo (G) de um conjunto de
vértices (V) conectados por Linhas (L) onde G=(V,L) 4. Enquadramento do Caso de Estudo
(RODRIGUE, et al., 2006).
A complexidade para representar uma rede de O território seleccionado para aplicar e validar as
Transportes Urbanos aumenta devido ao tipo de metodologias propostas nesta investigação foi a área
relações que se estabelecem entre as entidades. circundante ao C.B.D do Município de Braga que está
Assim, podemos ter num mesmo grafo várias linhas localizado no Noroeste de Portugal Continental
de autocarro com diferentes frequências. A conforme se pode constatar na Figura 2. O município
complexidade aumenta ainda quando procuramos de Braga encontra-se administrativamente integrado
representar o sistema de paragens numa topologia na Nomenclatura das Unidade Territoriais para fins
estatísticos - N.U.T. I de Portugal, na N.U.T. II do

4
Sistemas de Informação Geográfica como ferramenta de análise de distâncias

Norte e na N.U.T. III do Cávado. O Município Figura 4 – Poder de compra per capita e número de
subdivide-se em 62 freguesias, distribuídas pelos empresas nos Municípios do Norte de Portugal em
183,4 Km2 de área, sendo que a cidade é composta 2007
por 23 freguesias.
No contexto Regional é evidente o maior grau
de industrialização presente nos Municípios
localizados a Sul da Região do Minho
comparativamente com os localizados mais a Norte
conforme se pode constatar pela análise da Figura 3.
O município de Braga destaca-se pelo maior peso do
sector terciário que representa 53% no conjunto dos
três sectores de actividade. Refira-se ainda que nesta
Região predominam as microempresas sendo que a
maioria delas não emprega mais de 10 trabalhadores.
(I.N.E., 2007).

Figura 3 – Importância relativa dos Trabalhadores Fonte: Elaboração própria com base nos dados I.N.E.
por Conta de Outrém, por sector de actividade, nos (2007), Anuário Estatístico da Região Norte.
Municípios da Região do Minho em 2007
Figura 5 – Mapa das Isócronas do acesso a pé no
centro urbano de Braga

Fonte: Ribeiro and Remoaldo, 2008.


Fonte: Elaboração própria com base nos dados do
I.N.E. (2007), Anuário Estatístico da Região Norte. 5. Os Sistemas de Informação Geográfica como
ferramenta de análise das Distâncias
Saliente-se ainda que no contexto da Região do
Minho, em 2007, o Município de Braga possuía o 5.1. Análise das Distâncias euclidianas às
maior índice de poder de compra per capita oportunidades localizadas no C.B.D. de Braga
(Figura 4). Tal facto deve-se às características do seu
tecido económico assente no elevado grau de Os S.I.G. possibilitam a análise de distâncias
terciarização das actividades e no vasto número de sendo que frequentemente se recorre à ferramenta de
empresas. Também se verifica alguma especialização buffering que possibilita o cálculo de distâncias
tecnológica/científica das actividades uma vez que euclidanas (PALOMARES, et al., 2008). Porém, esta
9,2% dos trabalhadores por conta de outrem (T.C.O.) abordagem apesar de ser das mais recorrentes revela
são indivíduos com habilitação ao nível da ser pouco realística. De facto, os indivíduos
Licenciatura ou superior. deslocam-se no espaço utilizando uma determinada
A cidade ainda preserva o seu centro compacto rede de transportes pelo que as distâncias euclidianas
onde estão alocadas algumas das mais importantes primam pelo excesso quando analisamos as distâncias
funções urbanas de saúde, educação, lazer, turismo e entre determinadas oportunidades. Assim a análise de
comércio tradicional (RIBEIRO and REMOALDO, redes, designadamente, com recurso às áreas de
2009a). O C.B.D. apresenta uma distância-tempo de serviço (service area) permite obter resultados mais
30 minutos de comprimento por 20 minutos de realístas e fiáveis do que as distâncias euclidianas
Largura conforme se pode constatar pela análise (PALOMARES, et al., 2008).
da Figura 5 (RIBEIRO and REMOALDO, 2008). Considerando que neste artigo se pretende
abordar a análise das distâncias entre ao Hospital de

5
Vítor Patrício Rodrigues Ribeiro

S. Marcos de Braga, os Terminais Rodoviários e obtidos são mais reais e coadunam-se com os
Ferroviário na área que congrega o C.B.D. deste objectivos de um estudo/ análise a grande escala.
centro urbano calculamos as distâncias com recurso
aos dois métodos referidos anteriormente. Figura 7 – Mapa das áreas de serviço do Hospital de
O mapa presente na figura 6 traduz a área S. Marcos e dos Terminais Ferroviário e de
abrangida pelo círculo com um raio (buffer) de 350 Autocarros no C.B.D. de Braga
metros de distância desde as várias oportunidades em
análise. No cálculo das distâncias euclidianas não se
considera o efeito das redes no movimento das
pessoas. Desta forma criamos círculos homogéneos
em torno das diversas oportunidades.

Figura 6 – Mapa das distâncias euclidiana ao Hospital


de S. Marcos e aos Terminais Ferroviário e de
Autocarros no C.B.D. de Braga

Fonte: Elaboração própria.

Podemos observar pela análise da Figura 8 que


ao implementarmos uma análise das distâncias com
recurso às ferramentas de buffering geram-se áreas
homogéneas que se caracterizam por incluir áreas por
excesso nuns casos e a omitir áreas verdadeiramente
acessíveis à população noutros casos. Esta
observação torna-se clarividente se analisarmos a área
acessível a partir do Hospital de S. Marcos de Braga.
Fonte: Elaboração própria. Assim a área localizada a Sul e a Oeste desta
oportunidade caracteriza-se por possuir pouca
5.2. Análise das Distâncias de Rede às densidade de vias, contudo ela é considerada como
oportunidades localizadas no C.B.D. de Braga estando acessível á população num raio de 350
metros. Porém se considerarmos as características da
Porém, as características da rede influenciam o rede viária e a velocidade média de deslocação da
movimento dos indivíduos e consequentemente a população um indivíduo que pretenda aceder a essa
distância a percorrer para aceder a determinada área demorará mais de 5 minutos a alcançá-la.
oportunidade. Assim, numa rede densa com boas
condições de circulação (pedonal) e com limitado Figura 8 – Mapa comparativo das distâncias
número de barreiras físicas (cruzamentos, sinalização euclidianas e das áreas de serviço ao Hospital e aos
luminosa, travessias aéreas) os indivíduos têm Terminais ferroviário e de Autocarros
melhores condições de acessibilidade. Por seu turno
se estivermos perante uma área com fraca densidade
viária e com elevado número de barreiras físicas no
ambiente urbano construído as áreas acessíveis
diminuem.
Com uma análise das distâncias tendo em
consideração as características da rede imputamos à
modelação a capacidade de modelar as várias
características da rede associadas à velocidade dos
utilizadores. Desta forma podemos observar através
do mapa da Figura 7 as áreas que estão acessíveis aos
indivíduos a partir das várias oportunidades em
análise considerando as isócronas dos 3 e dos 5
minutos. Pelo facto de integramos neste tipo de Fonte: Elaboração própria.
análise as características físicas da rede e da
velocidade dos indivíduos. Deste modo os resultados No entanto, na análise das distâncias com recurso
às ferramentas de buffering também produzem

6
Sistemas de Informação Geográfica como ferramenta de análise de distâncias

resultados por excesso. No caso das distâncias ao Agradecimentos


terminal ferroviário da C.P. observa-se que a Este
desta infra-estrutura encontra-se uma área para além Os autores agradecem à Fundação para a Ciência e
dos 350 metros que os indivíduos podem alcançar em Tecnologia - F.C.T. financiadora da Bolsa de
menos de 5 minutos. Tal deve-se às boas Doutoramento com a referência
características da rede viária ocultadas numa análise SFRH/BD/38762/2007.
das distâncias com recurso às ferramentas de
buffering. Referências Bibliográficas

Conclusão DODSON, J., BUCHANAN, N., GLEESON, B. AND SIPE, N. (2006):


"Investigating the Social Dimensions of Transport
Disadvantage-I. Towards New Concepts and Methods",
Os transportes são uma componente fundamental Urban Policy and Research, 24 (4), 433-453.
do planeamento urbano. O novo modelo de I.N.E. (2007): Anuário Estatístico da Região Norte, Instituto
desenvolvimento urbano tende a gerar novos espaços Nacional de Estatística, Lisboa.
KNOWLES, R., SHAW, J. AND DOCHERTY, L. (2008): "Transport
cada vez mais fragmentados e dispersos. O município
Geographies - mobilities, flows and spaces", Blackwell,
de Braga apresenta uma forte terciarização do sector Malden.
de actividade prevalecendo as microempresas com MATOS, J. L. (2001): "Fundamentos de Informação Geográfica",
reduzido número de funcionários. No contexto da Lidel, Lisboa.
PALOMARES, J., CARDOZO, O. and GUTIÉRREZ, P. (2008):
região do Minho este município é o que apresenta
"Sistemas de información geográfica como herramientas en
maior índice de poder de compra per capita e a la estimacíon de las entradas en las estaciones de metro en
cidade de Braga possui um núcleo Urbano onde a Madrid", Tecnologías de la Información Geográfica para el
presença das principais funções urbanas é bastante Desarrollo Territorial, Las Palmas de Gran Canaria, 56-69.
PALOMARES, J. C. G. AND PUEBLA, J. G. (s.d.): "La Ciudad
expressiva.
dispersa: Cambios recientes en los espacios residenciales de
Desta forma, o centro urbano representa um pólo la comunidad de Madrid", Ministerio de Educación y
de atracção/geração de fluxos bastante intenso que Ciencia,(TRA2005-06619/MODAL).
associado às políticas de desenvolvimento orientadas PONS, J. AND PÉREZ, M. (2003): "Geographic information systems
and intelligent transport systems: technologies used to form
para o transporte urbano tendem a comprometer a
new communication networks", Networks and
qualidade de vida urbana. Communication Studies, 17 (1-2), 53-70.
Neste contexto produziu-se uma análise das RIBEIRO, V. AND REMOALDO, P. (2008): "Contributo dos Sistemas
distâncias em ambiente S.I.G. comparando os de Informação Geográfica para o desenvolvimento de um
sistema de transporte urbano sustentável", XI Coloquio
resultados obtidos pelas ferramentas de buffering e de
Ibérico de Geografía - La perspectiva geográfica ante los
áreas de serviço. Da análise desenvolvida sustenta-se nuevos retos de la sociedad y el medio ambiente en el
a ideia que a primeira tende a gerar resultados menos contexto ibérico, Departamento de Geografía Universidad de
realistas e comprometedores de qualquer avaliação Alcalá, Alcala de Henares, Espanha, 1 - 4 de Outubro.
RIBEIRO, V. AND REMOALDO, P. (2009a): "Geographic Information
das condições de acessibilidade. Por seu turno, o
System support to map related transport disadvantage and
recurso à análise das áreas de serviço produz social exclusion", Territorial cohesion of Europe and
resultados mais profícuos uma vez que são integrative planning, Lodz, Poland, E.R.S.A. - European
introduzidos no modelo de simulação as Regional Science Association, 49th annual meeting.
RIBEIRO, V. AND REMOALDO, P. (2009b): "O aumento da
características das redes e das condições de
mobilidade individual e o agravamento da exclusão social
mobilidade e da população. nos territórios periféricos da cidade de Braga", X Congresso
Por último gostaríamos de ressaltar que o centro Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, Universidade do
urbano de Braga apresenta boas condições potenciais Minho, Braga, 4-7 de Fevereiro.
RIBEIRO, V. R. AND TELES, V. (2004): "Cartografia automática de
para a circulação pedonal em virtude das reduzidas
risco de inundações aplicada ao Concelho de Braga", V
distâncias tempo que o compõem. Congresso da Geografia Portuguesa - “Portugal:
Territórios e Protagonistas”, Universidade do Minho,
Guimarães, 14 a 16 de Outubro.
RODRIGUE, J.-P., COMTOIS, C. AND SLACK, B. (2006): "The
Geography of transport Systems", Routledge, Londres.

7
I Edição Revista GeoPlanUM, Guimarães, 2010, p.9-15

A RECORRÊNCIA DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS NA SERRA DA CABREIRA*

Flora Ferreira Leite**

Resumo Nas últimas décadas, com particular importância nos anos 70, assistiu-se a um forte incremento do número de
ocorrências e das áreas ardidas anualmente na serra da Cabreira.
Assistiu-se assim a uma viragem entre um período em que o fogo era parte integrante dos ecossistemas, e a
actualidade, onde o fogo constitui uma séria ameaça ao desenvolvimento e ao ordenamento florestal (BENTO
GONÇALVES, 2006).
A redução do intervalo de tempo médio da repetição de fogos em áreas determinadas (ciclo do fogo), implica que
nessas áreas, as espécies tolerantes ao fogo se tornem dominantes e as modificações de composição provocadas
pelo fogo sejam pequenas.
Partindo de uma caracterização exaustiva dos incêndios florestais, e com base na cartografia das áreas ardidas
entre 1990 e 2006, procedeu-se à verificação do padrão da recorrência anual e à definição do ciclo do fogo na
serra da Cabreira, produzindo-se assim um valioso documento de apoio à gestão e ao ordenamento florestal.
Palavras-chave: Serra da Cabreira, incêndios florestais, recorrência, ciclo do fogo.

1. A evolução dos incêndios florestais na serra da optou-se apenas pelo território dos dois primeiros
Cabreira concelhos1.
As décadas de 70 e 80, do século XX, foram um
A serra da Cabreira (Figura 1), faz parte do período de transição entre a realidade
conjunto montanhoso que divide o “Portugal húmido dendrocaustológica2 que vigorou até aos anos 60, do
do Portugal seco” (RIBEIRO, 1998, 188pp.), ou século passado, e a realidade actual, em que o fogo
como mais vulgarmente se escreve, encontra-se na deixou de ser usado como um instrumento de gestão
separação entre o Minho e Trás-os-Montes. dos espaços silvestres, para constituir a principal
ameaça e entrave à sua sustentabilidade.
Nos anos 70, assistiu-se a um forte incremento do
número de ocorrências e das áreas ardidas anualmente
na serra da Cabreira (Figura 2 e 3), facto que resulta,
em parte, da falta de ordenamento florestal e que

1
A escolha de uma unidade territorial, correspondente a dois
concelhos, ficou a dever-se a quatro principais motivos: 1) Os dois
principais maciços montanhosos (Cabreira e Torrinheiras)
localizam-se dentro dos limites administrativos dos referidos
concelhos; 2) Os Perímetros Florestais da Serra da Cabreira,
localizam-se na totalidade nos referidos concelhos; 3) a maioria dos
dados (estatísticos e cartográficos) existentes, passíveis de análise,
encontram-se desagregados ao nível concelhio; 4) ambos os
concelhos pertencem ao mesmo distrito e NUT III.
2
Figura 1 – A serra da Cabreira no conjunto Em 2004, LOURENÇO propôs o termo dendrocaustologia para
identificar a ciência que se ocupa das múltiplas facetas de que se
montanhoso do Noroeste Português reveste o estudo dos incêndios florestais. A designação, à
semelhança de muitas outras que também identificam ciências, é
Esse conjunto montanhoso, muitas vezes proveniente do grego, concretamente dos termos: dendron – que
designado por “barreira de condensação” é formado significa "árvore"; kaustos - "que arde" (derivado do verbo kaio ou
kao - "incendiar", "fazer queimar", "consumir pelo fogo",
de Norte para Sul pelas serras da Peneda, Amarela, "acender"); logos - palavra, discurso, razão , ciência , tratado .
Gerês, Larouco, Barroso, Cabreira, Alvão e Marão,
podendo mesmo ser alargado à Serra de Montemuro,  Artigo baseado no trabalho de seminário “O Regime de fogo em
a Sul do Douro, tem implicações climáticas regionais, propriedades privadas de espaços silvestres de montanha – o caso
visto condicionar a precipitação, dando origem a do Cabeço da Vaca (Vieira do Minho)”, realizado no ano lectivo
2007/2008 sob a orientação do Prof. Dr. António José Bento
elevados quantitativos no Noroeste Português. Gonçalves. Versão revista do artigo “Alterações no ciclo do fogo
Muito embora a serra da Cabreira se reparta pelos na serra da Cabreira”, apresentado no XI Colóquio Ibérico de
concelhos de Vieira do Minho, Cabeceiras de Basto e Geografia.
Boticas, na primeira parte deste trabalho, as  Licenciada em Geografia e Planeamento, Ramo
Desenvolvimento e Ambiente. Mestranda do 2º ano do Mestrado
mudanças dendrocaustológicas na serra da Cabreira, em Geografia – Planeamento e Gestão do Território.

9
Flora Ferreira Leite

constitui um dos principais estrangulamentos a esse marcar inquestionavelmente a viragem para essa nova
mesmo ordenamento (BENTO GONÇALVES, 2006, realidade (Figura 3), que se foi acentuado até aos
438pp.). anos 90 (Figura 4).

45

40

35

30

25

20

15

10

0
1957

1959

1961

1963

1965

1967

1969

1971

1973

1975

1977

1979

1981

1983

1985

1987
C. Basto V. Minho

(Fonte: Autos de Notícia)

Figura 2 – Número de ocorrências nos concelhos de


Cabeceiras de Basto e Vieira do Minho (1957 – 1987) (Fonte: Instituto do Ambiente)

Na serra da Cabreira, foi o ano de 1975, com áreas Figura 4 – Áreas ardidas nos concelhos de Cabeceiras
ardidas de 937,3 e 2207,2 hectares em Cabeceiras de de Basto e Vieira do Minho (1990 – 2006)
Basto e em Vieira do Minho, respectivamente, que
marcou a grande viragem entre um período em que o 2. O ciclo de fogo no Cabeço da Vaca, serra da
fogo, fazendo parte do ecossistema, convivia quase de Cabreira
forma natural com as populações, e a actualidade,
onde o fogo constitui uma séria ameaça. O fogo tem uma incidência irregular, mas esta
irregularidade é importante para contabilizar e estudar
(ha)

2500
as diferentes variáveis dos efeitos do fogo. O fogo
varia em função da frequência com que ocorre, da
2000 sazonalidade, ou seja quando ocorre e da sua
1500
intensidade3 (BOND E VAN WILGEN, 1996).
A frequência dos fogos, como o próprio nome
1000
indica, é calculada como o intervalo de tempo médio
500
da repetição de fogos em áreas determinadas, também
chamado ciclo de fogo, e está directamente
0
relacionada com a recorrência, entendida como a
1957

1959

1961

1963

1965

1967

1969

1971

1973

1975

1977

1979

1981

1983

1985

1987

C. Basto V. Minho
ocorrência sistemática de incêndios numa dada área.
(Fonte: Autos de Noticia)
Com o objectivo de analisar o ciclo de fogo no
Cabeço da Vaca4, serra da Cabreira, utilizamos a
Figura 3 – Área ardida nos concelhos de Cabeceiras cartografia dos incêndios registados entre os anos de
de Basto e Vieira do Minho (1957 – 1987) 1990 e 2006, e respectivo ano em que ocorreram.
Através do tratamento destes dados pudemos
Assim, quer em Cabeceiras de Basto quer em identificar os incêndios que ocorreram mais do que
Vieira do Minho (Figura 2) verifica-se que a década uma vez na mesma área (grau de recorrência), e o
de oitenta apresentou um crescimento significativo do intervalo de tempo médio (anos) decorrido entre cada
número de incêndios florestais, coincidente com a um deles (frequência) (Figura 5).
alteração das técnicas de combate e também da
responsabilidade que transitou dos Serviços Florestais
para os Corpos de Bombeiros (DECRETO
3
REGULAMENTAR N.º55/81 DE 18 DE DEZEMBRO). A intensidade depende da energia contida nos combustíveis, da
Também no que respeita às áreas ardidas, verifica- massa de combustível consumida e da taxa de propagação do fogo.
Pode ser avaliada em função da largura da frente de fogo.
se igualmente, em ambos os concelhos, uma nova 4
Área correspondente a 9 freguesias do concelho de Vieira do
realidade na década de oitenta, mas com 1975 a Minho (Caniçada, Cantelães, Cova, Eira Vedra, Louredo, Ruivães,
Salamonde, Tabuaças e Ventosa).

10
A recorrência dos incêndios florestais na serra da Cabreira

O mapa de recorrência do fogo indica o número


de vezes que cada área do concelho de Vieira do
Minho, com destaque para o Cabeço da Vaca, foi
percorrida pelo fogo, no período de 1990 a 2006
(Figura 6, Tabela 1 e 2). Foi elaborado a partir da
cartografia das áreas queimadas anualmente,
disponíveis online no site da DGRF, seguindo uma
metodologia semelhante à do Projecto Terrisc
(NICIF, 2006, 35pp.). Esta informação é
Figura 5 – Grau de recorrência dos incêndios e especialmente útil na identificação de áreas onde o
intervalo de tempo médio (1990-2006) fogo tem origem em eventuais conflitos relacionados
com o uso da terra, e onde a elevada frequência do
A médio prazo verifica-se uma tendência para a fogo é limitativa da produção florestal e indutora de
diminuição do tempo necessário para que a mesma degradação da estação (PROF BAIXO MINHO, 2006,
área seja percorrida novamente por um incêndio, o 131pp.).
que é confirmado pela linha de tendência linear onde
existe uma correlação (R2)5 de 94,1% entre o grau de
recorrência e a evolução temporal.
Os incêndios que lavraram pela segunda vez na
mesma área (1ª recorrência) demoraram em média 5
anos para ocorrerem; para aqueles que ocorreram pela
terceira vez (2ª recorrência) o tempo médio foi
ligeiramente menor (4,6 anos); e para as áreas que
registaram uma quarta incidência (3ª recorrência)
verifica-se um agravamento da diminuição do tempo
médio para aproximadamente três anos (2,8). O
tempo necessário para que tenha ocorrido um quinto
incêndio (4ª recorrência) no mesmo local, foi de
apenas 1 ano, não sendo no entanto representativo
visto ainda só se terem verificado dois desses
incêndios (em 2006), não se tratando portanto de uma
amostra significativa, que permita confirmar este Figura 6 – Mapa de recorrência do concelho de Vieira
valor. do Minho (1990-2006)
A mortalidade das espécies é função da
intensidade dos fogos. Com o aumento da TABELA 1 – Área ardida no Cabeço da Vaca (Vieira
intensidade, maiores áreas estão sujeitas à invasão de do Minho) em função do número de vezes que foi
novas espécies. Por outro lado, à medida que o percorrida pelo fogo (1990 – 2006)
intervalo entre fogos aumenta, cresce também a
Área ardida (nº de vezes) Hectares (%)
possibilidade do estabelecimento de espécies não
Percorrida pelo fogo 1 vez 5212 100
adaptadas ao fogo. No entanto, nas áreas que são
Percorrida pelo fogo só 1 vez 3809 73
frequentemente queimadas, como ficou comprovado
Percorrida pelo fogo 2 vezes 1403 27
ser o caso da nossa área de estudo, as espécies
Percorrida pelo fogo só 2 vezes 609 12
tolerantes ao fogo tornam-se dominantes a as
Percorrida pelo fogo 3 vezes 794 15
modificações de composição provocadas pelo fogo Percorrida pelo fogo só 3 vezes 478 9
são pequenas. Percorrida pelo fogo 4 vezes 316 6
Percorrida pelo fogo só 4 vezes 301 5,7
Percorrida pelo fogo 5 vezes 15 0,3
3. A recorrência do fogo em função do relevo do Percorrida pelo fogo só 5 vezes 15 0,3
Cabeço da Vaca
100
5
Quadrado do coeficiente de correlação (R2) - a proporção da
variabilidade de uma série que pode ser explicada pela
variabilidade de outra ou mais séries.

11
Flora Ferreira Leite

TABELA 2 – Relação da área ardida no Cabeço da crescimento junto ao solo, ramos flexíveis, um grande
Vaca (Vieira do Minho) em função do número de desenvolvimento das raízes de suporte e folhas
vezes que foi percorrida pelo fogo com a área total e pequenas, como é o caso do Cabeço da Vaca (ATLAS
com a área ardida total (1990 – 2006) DE FAUNA E FLORA DA SERRA DA CABREIRA, 2000,
219pp.) (Figura 7).
Área Área ardida x Área ardida x
ardida área total área ardida total
(hectares) (%) (%)

não ardida 3049 36,9


só uma vez 3809 46,1 73,1
só duas vezes 609 7,4 11,7
só três vezes 478 5,8 9,2
só quatro vezes 301 3,6 5,8
só cinco vezes 15 0,2 0,3
Área ardida total 5212 63,1% 100%
Área total 8261

Num total de 8261,46 hectares, 5212,66 hectares


já foram percorridos pelo fogo no mínimo uma vez
(63,1% do total da área em estudo), mas desses, 1403
hectares, voltaram a arder mais uma, duas, três ou
quatro vezes. Com efeito, 27% da área ardida total
(1403 hectares), apresenta uma segunda incidência de
incêndios, 15% da área ardida total (794 hectares),
Figura 7 – A vegetação no Cabeço da Vaca
foram percorridos três vezes pelo fogo, 6% da área
ardida total (316 hectares), arderam pelo menos
O declive é particularmente importante, porque
quatro vezes. Temos ainda dois registos, num total de
determina, em grande parte, a possibilidade de
15 hectares, que apresentam uma quinta incidência.
existência ou não de solos profundos. Em encostas de
Assim, apenas 3049 hectares, 36,9% do total da área
grande declive, o solo é particularmente sensível à
de estudo (Cabeço da Vaca), não registaram, entre
erosão, causada pela escorrência da água das chuvas,
1990 e 2006, qualquer incidência de incêndios.
assim, determinados processos de estabelecimento de
A localização das manchas onde a recorrência do
estados de vegetação avançados, como a floresta,
fogo é superior a duas incidências no período em
tornam-se mais demorados do que aqueles que se
análise, não apresenta geralmente risco para as
verificam em locais de menor declive. A remoção da
manchas florestais de maior dimensão, parecendo
cobertura vegetal, independentemente das causas, é
existir um padrão que engloba espaços florestais com
um aspecto muito importante uma vez que pode
características de montanha, e traduz um eventual uso
comprometer, a longo prazo, a recuperação da
do fogo associado a alguma pressão da criação de
vegetação original.
gado e eventuais conflitos de caça (PROF BAIXO
O declive é o parâmetro mais importante do
MINHO, 2006, 131pp.).
relevo no que diz respeito às características de um
O relevo influência, indirectamente, a distribuição
incêndio uma vez que as condiciona fortemente.
das plantas através de características com a altitude, o
Quanto maior for o declive do terreno, maior é a
declive e, naturalmente a orientação das vertentes em
proximidade da chama relativamente aos
relação ao sol.
combustíveis que se situam acima, numa progressão
A altitude tem aqui um papel importante,
do incêndio em sentido ascendente. Esta maior
principalmente pela sua estreita relação com a
facilidade de progressão traduz-se nas características
temperatura e o vento. De facto, as amplitudes
da chama, a qual adquire maiores dimensões, e na
térmicas e o regime de vento que normalmente se
maior velocidade de progressão do fogo (DGF, 2002,
verificam nos locais de maior altitude impedem o
Cadernos).
estabelecimento de espécies com grande
A orientação das encostas em relação ao Sol
desenvolvimento aéreo, como as árvores e algumas
determina, também, a distribuição das espécies, uma
espécies arbustivas. Nestes locais, as espécies mais
vez que estas têm diferentes necessidades desta fonte
típicas apresentam, como características comuns, o

12
A recorrência dos incêndios florestais na serra da Cabreira

vital de energia. Assim, plantas com necessidades de


forte insolação não encontram condições de
crescimento nas encostas orientadas a Norte,
enquanto espécies adaptadas a locais sombrios não
ocupam espaços directamente expostos, durante
longas horas, a raios solares.
É importante referir também o efeito do factor
exposição no tocante às características de um
incêndio uma vez que as exposições a Sul apresentam
normalmente condições mais favoráveis à progressão
deste, na medida em que os combustíveis sofrem
maior dissecação e o ar é também mais seco devido à
maior quantidade de radiação solar incidente (DGF,
2002, Cadernos).
Estes factores ambientais interferem assim com o
desenvolvimento do incêndio e são por sua vez
afectados por ele. A evolução do incêndio no tempo e
no espaço resulta de toda esta complexa interacção
entre o incêndio e os factores ambientais (PEREIRA et
al, 2006, 510pp.), podendo aqui ser acrescentados a
geologia, as formações vegetais, o uso do solo e a
ocupação humana, entre outros.
Atendendo à limitação no número de páginas que
um artigo sempre comporta, e tratando-se este, de um
trabalho ainda em desenvolvimento, optámos aqui por Figura 8 – Reincidência dos incêndios florestais por
apresentar apenas a análise da relação da recorrência classe hipsométrica no Cabeço da Vaca entre 1990 e
do fogo com a hipsometria, tentando perceber a 2006 – primeira incidência
influência que a altitude exerce na frequência dos
incêndios florestais (Figura 8 à 12). Relativamente à área ardida com duas incidências
No período considerado, a área de estudo registou de incêndios, ou seja, com a primeira reincidência,
um total de 2683,37 hectares que arderam apenas uma esta corresponde a um total de 1400 hectares, dos
vez e cuja distribuição se concentrou sobretudo nas quais 87% (1222 hectares) se registaram entre os 400
áreas com altitude superior a 400 metros, sendo que e os 1000 metros de altitude. Os restantes 13% de
os incêndios registados a uma altitude inferior a 200 área ardida distribuem-se irregularmente pelos 200-
metros assumem muito pouca importância, 0,4% da 400 metros (62 hectares) e pelo intervalo oposto dos
área que apenas ardeu uma e uma só vez (0,18% do 1000-1300 metros (120 hectares) (Figura 9).
total da área ardida, que correspondem apenas a 9,4
hectares) e os registados entre os 200 e os 400 metros
correspondem a pouco mais de 8%. É de facto, a
partir dos 400 metros que a área ardida com apenas
uma incidência começa a ganhar expressão, 53,5%
corresponde ao intervalo dos 400-700 metros e 23,5%
registou-se entre os 700 e os 1000 metros, num total
de 4267 hectares. A altitudes superiores regista-se
uma percentagem de apenas 14,5% (11,6% da área
ardida total) (Figura 8).

13
Flora Ferreira Leite

Para as áreas com quatro incidências (terceira


reincidência) o padrão anterior mantém-se,
predominam em altitudes superiores a 700 metros
diminuindo após os 1000 metros (a classe dos
1000/1300 metros representa apenas 7% do total das
áreas ardidas). 41% destas áreas arderam acima dos
400 metros. A altitudes inferiores a 200 metros as
áreas ardidas não são significativas (Figura 11).
Figura 9 – Reincidência dos incêndios florestais por
classe hipsométrica no Cabeço da Vaca entre 1990 e
2006 – primeira reincidência

As áreas que registam uma segunda reincidência


(ardidas 3 vezes) têm uma representação total
significativamente menor que as anteriores (794
hectares) e marcam uma tendência de distribuição em
altitude diferente do que foi observado para as áreas
anteriores.
Predominam agora as áreas ardidas com altitude
entre os 700 e os 1000 metros (47%).
Verificando-se uma diminuição da incidência de
incêndios nas áreas ardidas com altitudes superiores a
400 metros e inferiores a 700 metros (menos 10
pontos percentuais que as referidas anteriormente).
Os restantes 16% distribuem-se pelos 200-400 metros
(7%) e pelos 1000-1300 metros (9%) (Figura 10).

Figura 11 – Reincidência dos incêndios florestais por


classe hipsométrica no Cabeço da Vaca entre 1990 e
2006 – terceira reincidência

As áreas percorridas cinco vezes pelo fogo (quarta


reincidência) não são estatisticamente representativas
uma vez que se trata apenas de 2 registos (ambos em
2006), embora se possa induzir uma continuidade do
padrão identificado anteriormente, ou seja, o
predomínio das áreas ardidas em altitudes cada vez
mais elevadas à medida que a recorrência de
incêndios aumenta (Figura 12).

Figura 10 – Reincidência dos incêndios florestais por


classe hipsométrica no Cabeço da Vaca entre 1990 e
2006 – segunda reincidência

14
A recorrência dos incêndios florestais na serra da Cabreira

incêndio, e parece estar a instalar-se uma tendência


para uma migração dos incêndios para os locais mais
elevados.
Numa fase posterior deste trabalho pretende-se
cruzar esta informação com outra, igualmente
importante na compreensão das alterações no ciclo do
fogo, o que irá permitir obter uma visão mais
completa desta problemática.
No entanto, até pela escassez deste tipo de estudo
em Portugal e pela abordagem científica, pensamos
ser importante o contributo aqui deixado.

Bibliografia
AMADEU SOARES (COORD) (2000) – Atlas de Fauna e Flora da
Serra da Cabreira. CIASC, 219 PP.
BENTO GONÇALVES, A. J. (2006) - "Geografia dos incêndios em
espaços Silvestres de Montanha – o caso da serra da
Cabreira". Tese de Doutoramento, Instituto de Ciências
Sociais da Universidade do Minho, Braga, 438 p. + VI
anexos.
BOND, WILLIAM J.; VAN WILGEN, BRIAN W, (1996) – Fire and
Plants, Chapman&Hall, Londres, UK.
DIRECÇÃO-GERAL DAS FLORESTAS (2002), Manual de Silvicultura
para a Prevenção de Incêndios, (Cadernos) Lisboa.
Figura 12 – Reincidência dos incêndios florestais por DIRECÇÃO REGIONAL DE AGRICULTURA DE ENTRE DOURO E
classe hipsométrica no Cabeço da Vaca entre 1990 e MINHO, DIRECÇÃO GERAL DOS RECURSOS FLORESTAIS E
2006 – quarta reincidência UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO (2006)
– Bases de Ordenamento do Plano Regional de
Ordenamento Florestal do Baixo Minho. Porto, 131 pp.
Notas Conclusivas FERREIRA LEITE, F. (2008) - “O Regime de fogo em propriedades
privadas de espaços silvestres de montanha – o caso do
De acordo com o PROF do Baixo Minho (2006), a Cabeço da Vaca (Vieira do Minho) ”, Guimarães, 95 pp.,
policopiado.
recorrência de fogo nesta região, parece estar FERREIRA LEITE, F. (2008) - “Alterações no ciclo do fogo na serra
associada à pastorícia, nas regiões mais montanhosas, da Cabreira”, Actas XI Colóquio Ibérico de Geografia,
e à pressão demográfica nas regiões mais baixas. No Alcala de Henares, Madrid, 15pp.
cabeço da Vaca, segundo informações obtidas em NICIF (2006) - Projecto Terrisc Recuperação de paisagens de
socalcos e prevenção de riscos naturais nas serras do Açor
conversas com os responsáveis dos baldios, a e Estrela. Núcleo de Investigação Cientifica de Incêndios
recorrência dos incêndios poderá estar associada Florestais (NICIF), Faculdade de Letras da Universidade de
sobretudo à criação dos cavalos, situação essa de Coimbra, 35pp.
conflito latente. PEREIRA, J. S. et al. (2006), Incêndios Florestais em Portugal.
Caracterização, Impactes e Prevenção, ISA Press, Lisboa,
A ocorrência sistemática de incêndios conduz a 510pp.
uma degradação dos solos, impondo-se o RIBEIRO, O. (1986) - Portugal o Mediterrâneo e o Atlântico, João
estabelecimento de medidas de conservação e Sá da Costa, 4ª (1998 - 7ªed.), 188 pp.
protecção, em detrimento de uma exploração
florestal, que se perspectiva não sustentável, ou a
condições de compartimentação efectiva que limitem
a progressão de fogos de grandes dimensões (PROF
BAIXO MINHO, 2006, 131pp.).
O uso de fogo nestas áreas deve ser objecto de um
apertado controlo, aconselhando a regulação da
criação de gado e a racionalização das queimadas,
que poderão, nalguns casos, ser substituídas pelo fogo
controlado.
No Cabeço da Vaca, serra da Cabreira, assistimos
à diminuição do tempo médio necessário para que um
mesmo local seja novamente percorrido por um

15
I Edição Revista GeoPlanUM, Guimarães, 2010, p.17-22

A IMPLANTAÇÃO DE NOVOS CENTROS COMERCIAIS E AS


ALTERAÇÕES NOS HÁBITOS DE COMPRA*
Pedro Porfírio Guimarães**

Resumo O presente texto foi baseado numa investigação mais alargada acerca dos impactos que a
implantação na cidade de Braga de dois novos centros comerciais poderá provocar junto do sistema
comercial da cidade e do seu centro histórico. Tendo sido focados os consumidores da cidade em
análise foram realizados 400 inquéritos. Assim, a decomposição destes permitiu concluir que a
abertura de novos centros comerciais poderá induzir alterações nos hábitos de compra dos
consumidores, induzindo impactos junto da oferta comercial existentes.
Palavras-chave: Comércio, consumo, centros comerciais, centros históricos

1. Introdução comerciais através de uma decomposição dos


consumidores da cidade de Braga,
O presente artigo teve como base a percepcionando qual o seu perfil, hábitos actuais
dissertação de mestrado em Geografia, área de de compra e de que forma este aumento da oferta
especialização em Planeamento e Gestão do comercial poderá influenciar as futuras opções de
Território. compra.
A cidade de Braga é possuidora de um centro De forma geral a investigação centrou-se em
histórico com vitalidade, sendo mesmo cinco vértices fundamentais:
denominada, por parte das entidades competentes,
nas diversas campanhas de promoção, como a - Dinâmicas sociais e económicas
“capital do comércio”. Em breve irão localizar-se - Visão Comercial e urbanística
nesta cidade dois novos centros comerciais com - Consumidores
dimensão bastante relevante para alterar a relativa - Actores locais
estabilidade comercial ao nível da procura e oferta - Cenarização
comercial que se presume que existe actualmente.
Desta forma surgiu a necessidade de De forma mais concreta este artigo foca-se
avaliação dos impactos que a implantação destas em especial no vértice dos consumidores. Tendo
novas estruturas comerciais poderá provocar no sido elaborados ao longo da investigação 400
comércio e serviços existentes na cidade de Braga inquéritos a consumidores na cidade de Braga, foi
e no seu centro histórico. Estes impactos não são exposta uma descrição sintética dos principais
parados no tempo nem será possível estimar uma dados recolhidos, fazendo-se de seguida a
data precisa em que se afirme que os impactos conclusão obtida da investigação.
passarão a produzir efeitos. Pelo contrário é um
processo prolongado no tempo, cuja avaliação 2. O Comércio e a Cidade
deve abranger um conjunto de variáveis não No presente é comum a discussão acerca da
apenas concretas e objectivas mas que abarquem associação dos centros históricos das cidades a um
uma vertente subjectiva. Esta vertente faz ainda estado de declínio e degradação, auxiliado ou
mais sentido quando consideramos que se abrange provocado pelo constante alargamento dos
a componente “consumo”, sendo esta composta de perímetros urbanos, sem que se adivinhem
uma subjectividade sempre difícil de analisar, isto soluções milagrosas para inverter a situação.
é, o consumo não é apenas racional. Existe uma Não sendo as cidades meros espaços físicos
vertente do mesmo cuja explicação é difícil de onde se trabalha e se habita, os espaços comuns,
encontrar na lógica do pensamento racional. O espaços de sociabilização dos seus habitantes
consumidor actual é movido não apenas pelo desde sempre ocuparam um espaço de destaque
concretizar de determinada compra mas por todo dentro das cidades. Segundo ORTEGA Y GASSET
o imaginário que gira à sua volta. Este aspecto é (in GOITIA, 2003:11) “a cidade clássica nasce de
mais trabalhado pelos centros comerciais através um instinto oposto ao doméstico. Edifica-se a casa
da alusão a determinadas temáticas (ex. a colagem para se estar nela; funda-se a cidade para se sair
do centro comercial Colombo aos de casa e reunir-se com outros que também saíram
Descobrimentos) ou mesmo até uma tentativa de de suas casas”. No mesmo sentido MELA
recreação das ruas de uma cidade dentro do (1999:150) afirma que todas as cidades são
próprio centro comercial (ex. Centro Comercial
Via Catarina). *Artigo baseado na dissertação de mestrado em Geografia,
Deste modo no presente artigo vai ser realizada no Departamento de Geografia da Universidade do
Minho, sob orientação do Professor Doutor Miguel Sopas de
privilegiada uma análise tendencial dos impactos Melo Bandeira
provenientes da implantação dos novos centros ** Mestre em Geografia, Gestão e Planeamento do Território

17
Pedro Porfírio Guimarães

largamente constituídas por espaços privados. No adequadas ao tráfego ainda permitem um relativo
entanto admite que aquilo que melhor as fácil estacionamento, isto é, as novas
caracteriza é o seu espaço público, sem o qual não urbanizações levadas a cabo em áreas
passariam de um aglomerado de locais reservados anteriormente consideradas como periferia.
a diversos indivíduos. Ainda segundo o mesmo Assim, na óptica do abastecimento, segundo
autor (1999:150), um simples aglomerado de ASCHER (BARRETA, 2007:19), enquanto o centro
espaços privados permitiria apenas alguns se periferiza, a periferia adquire cada vez mais
encontros e impossibilitaria outros. O espaço atributos de centralidade. Desta forma tem-se
público, pelo menos em princípio, é sempre assistido a um aumento da função comercial fora
acessível a qualquer um – por esse motivo, torna- das áreas centrais da cidade que são assim
se sempre possível qualquer encontro, mesmo o relegadas para um plano inferior em termos de
mais inesperado. acessibilidade. Assim esta função é mais
Os centros históricos das cidades possuindo facilmente obtida nestes novos espaços
em muitos casos, na sua raiz, relações com o sítio construídos fora da malha central da cidade,
de onde a cidade nasce são os locais onde estes proporcionando, por si, a criação de novas
processos de sociabilização se encontram mais centralidades. Por outro lado, a função social, por
enraizados. É em muitos destes espaços que a via da urbanização nestas áreas, também tem
memória da cidade é evocada e onde esta mais assistido a uma transferência do local da sua
fielmente se consegue reproduzir. concretização. No mesmo seguimento o
Verdadeiramente, de acordo com CULLEN aparecimento de novos centros comerciais
(1996:9), “uma cidade é algo mais do que o dotados de boas acessibilidades, com facilidade de
somatório dos seus habitantes: é uma unidade estacionamento tem conseguido atrair
geradora de um excedente de bem-estar e de consumidores para estes estabelecimentos,
facilidades que leva a maioria das pessoas a aparecendo actualmente de forma destacada no
preferirem – independentemente de outras razões imaginário dos consumidores. Este aspecto está
– viver em comunidade a viverem isoladas”. intrinsecamente relacionado para além da função
Assim, não podendo cair no erro de se pensar comercial, com a já referida função social. Os
que as cidades devem ser meros espaços físicos novos centros comerciais constituem-se espaços
ou edificações estagnadas no tempo, é importante, de consumo mas não se resumem a isto. São
no entanto, lembrar que a manutenção dos também espaços de lazer, de recreação, de ócio,
elementos históricos associados a cada cidade lugares onde é possível cumprir as funções
deve ser respeitada. É nesta dupla perspectiva e na comerciais e sociais anteriormente executadas nas
forma de se articularem que reside a dificuldade áreas centrais da cidade. Estas estruturas
do desenvolvimento sustentável e responsável das comerciais pela sua capacidade de atracção de
cidades. Uma correcta conjugação dos factores consumidores têm sido acusadas de serem as
históricos com aqueles mais recentes, necessários principais culpadas pelo declínio do comércio de
para a ajustada adequação às actuais exigências da rua, levando ao posterior declínio dos centros
sociedade moderna, torna-se assim fundamental históricos. No mesmo sentido SALGUEIRO
mas de difícil concretização. (1996:16) afirma que “com a instalação periférica
Assim, tal como nas restantes vertentes de das grandes superfícies rompeu-se a estrutura
análise de uma cidade também no comércio secular do comércio urbano dominada e
importa compreender a sua evolução e qual a sua hegemonizada pelo centro”.
adequabilidade às necessidades actuais por parte
dos consumidores. O comércio, elemento crucial 3. Consumidores
das cidades encontra-se directamente relacionado Para o apuramento das características dos
com a vitalidade dos centros históricos sendo, consumidores da cidade de Braga foram
porventura, o seu maior indicador. De forma realizados, durante os meses de Janeiro e
empírica existe uma associação mental do Fevereiro de 2009, 400 inquéritos em diversos
comércio aos centros históricos. A este facto não locais da cidade sendo a sua recolha repartida ao
estará dissociado o aspecto da centralidade. As longo do dia. Sendo as cidades espaços dinâmicos
áreas centrais da cidade sempre foram espaços que interagem entre si, a escolha de um grupo de
dotados de uma grande centralidade e de fácil possíveis inquiridos tendo por base os dados
acesso permitindo e fomentando o uso comercial e existentes para a população residente na cidade
social. Um dos aspectos fulcrais da cidade actual torna-se desnecessária. Isto porque os
relaciona-se com a acessibilidade. Se as áreas consumidores da cidade de Braga não serão
referidas beneficiavam da fácil acessibilidade por necessariamente de forma exacta os residentes
parte de quem lá se queria deslocar, nos dias de nesta mesma cidade. A amostra de 400 indivíduos
hoje e com uma tendência crescente a permitiu, de acordo com as tabelas de ARKIN e
acessibilidade encontra-se sobretudo naqueles COLTON (1962), a obtenção de um intervalo de
locais que, servidos por vias de comunicação confiança de 95,5%, com uma margem de erro de

18
A implantação de novos centros comerciais e as alterações nos hábitos de compra

5%. A escolha dos inquiridos levou em comercial que melhor lhe correspondesse (Quadro
consideração a idade dos mesmos. Assim foram 1).
excluídos desta investigação os menores de 15 e
limitada a recolha junto dos indivíduos com mais Quadro 1 – Associação, por parte dos inquiridos,
de 60 anos. Isto porque foi considerado que os de determinadas caracteristicas às diferentes
indivíduos localizados entre os 15 e os 60 anos tipologias comerciais, em %.
são aqueles que estão mais propensos para o

Lojas próximas
Supermercados
Estrutura
comercial

Lojas centro
consumo.

Retail Park
comerciais
Centros
cidade
De forma a verificar o inquérito foi realizado

casa
um teste modelo junto de um grupo de 20 pessoas.
A execução deste teste permitiu o ajustamento de
Características
diversos pormenores sobretudo ao nível da
elaboração de algumas perguntas. Qualidade 31 39 18 5 7
Preço 12 17 51 13 6
3.1. Amostra Animação 25 65 4 4 1
No total de consumidores inquiridos destaca- Segurança 13 54 17 10 7
se o predomínio dos indivíduos localizados entre Limpeza 15 47 18 12 8
as faixas etárias 15-24 e 25-34 anos (68% no total Atendimento
39 26 11 6 19
personalizado
das duas faixas etárias), comprovando a
Confiança 27 27 17 6 23
propensão dos indivíduos mais jovens para o
Ambiente / Beleza do
consumo. A elevada escolaridade que se 47 38 5 4 6
local
averiguou estará relacionada com este facto, tendo Passeio 54 30 4 7 5
a maioria dos inquiridos habilitações literárias ao Poupança de tempo 8 38 24 6 23
nível do ensino secundário ou superior. Verificou- Diversidade de produtos 16 43 30 8 3
se ainda que ¼ dos indivíduos se encontrava Conforto 11 66 12 6 5
aquando da realização dos inquéritos a frequentar História 76 9 3 1 11
estabelecimentos de ensino. Convívio com
28 53 5 5 9
No que concerne ao concelho de amigos/familiares
proveniência, 75% dos inquiridos são Facilidade de
4 44 23 20 9
provenientes do concelho de Braga. No entanto é estacionamento
de extrema relevância destacar os 25% de Fonte: Inquéritos realizados pelo autor aos
indivíduos que se deslocam ao concelho em consumidores da cidade de Braga, 2009
análise para efectuar compras. Assim, destacam-
se os concelhos de Amares e Vila Verde, A caracteristica “Qualidade” é associada em
localizados a norte de Braga e com menor 39% dos casos aos centros comerciais. Este
intensidade os consumidores oriundos de resultado será revelador da competência que estas
concelhos como Arcos de Valdevez, Barcelos, estruturas comerciais possuem, conseguindo ir de
Guimarães, Póvoa de Lanhoso e Vila Nova de encontro às necessidades dos consumidores.
Famalicão, entre outros. A distribuição geográfica Dotados de uma unidade de gestão, este aspecto
destes concelhos realça a capacidade atractiva da permite-lhes trabalhar o espaço comum, deixando
cidade de Braga na região onde se situa. transparecer que o consumidor se localiza num
Relativamente às motivações para a espaço público com qualidade. A oferta comercial
deslocação e posterior consumo é possível presente no centro histórico da cidade consegue
destacar as deslocações com os objectivos de ainda 31% do total de resultados.
frequência de estabelecimentos de ensino e No que concerne ao “Preço”, o destaque é
trabalho, sendo que à posterior a concretização dado para os supermercados com 51% do total.
das compras nesta cidade encontra-se mais Este resultado está relacionado com o facto de se
facilitada. Para além destas motivações um ter agrupado nesta tipologia as lojas discount,
conjunto muito significativo dos inquiridos (42%) possuidores de produtos de “marca branca” ou
desloca-se com a intenção de nesta cidade de própria, sendo os mesmos, de acordo com o
passear, recriar-se e efectuar compras. publicitado, mais baixos do que os restantes. É
ainda de realçar o baixo valor alcançado pelo
3.2. Caracteristicas das Tipologias Comerciais centro da cidade, apenas acima das lojas que se
Foi realizada uma questão com o objectivo de localizam nas áreas residenciais, o comércio de
percepcionar qual a imagem mental que os proximidade.
consumidores possuem acerca das diferentes A “animação” é das caracteristicas que maior
tipologias comerciais. Assim foram descritas concenso reuniu, sendo também porventura uma
diversas características tendo sido pedido que das caracteristicas que melhor poderá representar
fizessem a ligação entre as mesmas e a tipologia a capacidade de atracção por parte das estruturas
comerciais. Sendo um aspecto trabalhado ao
pormenor pelas estruturas de gestão dos centros

19
Pedro Porfírio Guimarães

comerciais, o reconhecimento por parte dos seus diferentes corredores, “imitando” a cidade
consumidores deste aspecto permite concluir que exterior.
esta opção tem valorizado os espaços que optam A característica “passeio” possui algumas
pela introdução de animação sistemática e ligações com a anterior, sendo que a constatação
programada. Embora as lojas do centro da cidade do centro da cidade como um local com um bom
ainda obtenham ¼ das associações, as restantes ambiente, dotado de alguma beleza faz com que
estruturas comerciais possuem valores residuais. seja privilegiado aquando da escolha de um local
A “segurança” ou de forma mais a concreta a para passear. Em termos físicos a grande área
falta da mesma é uma questão que se faz sentir de pedonal existente na área favorece a deambulação
forma menos intensa na cidade de Braga por esta área.
comparativamente com outras cidades. No entanto Relativamente à “poupança de tempo”, os
apenas os centros comerciais conseguem obter um cemtros comerciais obtêm destaque com 38% do
valor relevante, possivelmente devido a uma total de opiniões sobretudo atrravés de dois
maior visibilidade de seguranças privados nestes pontos. Um primeiro diz respeito à facilidade de
locais, causando um sentimento superior de estacionamento que existe permitindo o rápido
segurança. acesso aos estabelecimentos. O segundo diz
No que diz respeito à “limpeza”, a respeito ao agrupamento de lojas que existe
distribuição dos valores obtidos dos consumidores próximas umas das outras permitindo efectuar
é semelhante ao verificado na caracteristica compras de produtos de diversas tipologias de
anterior. forma mais rápida.
Quanto ao “atendimento personalizado” a sua A “diversidade de produtos” possui relação
associação às lojas do centro da cidade ficou com a caracteristica anterior. Não será de
comprovada conseguindo obter 39% das estranhar, desta forma que os centros comercias
preferências. No entanto este valor ficou um neste caso também sejam a estrutura comercial
pouco aquém do que seria expectável. O facto de que mais se destaque. O mix comercial presente
os centros comerciais conseguirem colher 26% nestes formatos comerciais não é fruto do acaso,
deixa percepcionar algumas mudanças que sendo uma das preocupações das respectivas
possam estar a suceder. Se por um lado nos administrações o agrupamento de diversos
centros das cidades estão cada vez mais algumas estabelecimentos de tipologias distintas. De
lojas que também estão nos centros comerciais, realçar ainda o valor alcançado pelos
por outro lado, nestas últimas estruturas supermercados (30%) sobretudo em virtude de os
comerciais, as lojas lá localizadas têm dedicado mesmos possuírem actualmente um conjunto
uma atenção especial ao tipo de atendimento muito diversificado de produtos. O centro da
prestado aos clientes, sendo que estes reconhecem cidade devido à especialização em
esta mudança. estabelecimentos da tipologia de artigos pessoais
Relativamente à caracteristica “confiança” é a obtêm um valor reduzido (16%)
que se encontra distribuida de forma mais comparativamente com as estruturas referidas
homogenea, estando o valor de 27% repartido acima.
pelas lojas do centro da cidade e pelos centros No que concerne ao “conforto”, existe um
comerciais, indo de encontro às mudanças claro destaque para os centros comerciais com
descritas na caracteristica anterior. O baixo valor 66% do total de opiniões dos inquiridos. A
alcançado pelo Retail Park deve-se sobretudo ao construção de um “espaço público condicionado”
desconhecimento, por parte dos consumidores, do dentro de um espaço fechado, artificial, permite a
conceito que está inerente e esta estrutura construção de vivências, beneficiando, ao invés
comercial. Relevo nos 23% de opiniões, das ruas, do conforto da circulação num espaço
relativamente às lojas próximas de casa, explicado fechado, climatizado, com locais para descanso
pelo carácter mais local destes estabelecimentos equipados com sofás. Este conjunto de
onde, mais usualmente, tanto o comerciante como características apenas se pode encontrar nestes
o consumidor se conhecem. espaços comerciais. Pelo contrário, nos outros
Quanto ao “ambiente / beleza do local” existe conceitos, embora sejam possuidores de uma ou
um claro destaque das lojas do centro da cidade outra característica, a sua reunião não se verifica.
com 47%. Esta importância estará relacionada O factor “história” é aquele que reúne maior
com o ambiente que se presencia no centro da unanimidade entre os consumidores da cidade de
cidade de Braga. Constituindo a principal Braga com 76% dos mesmos a associarem esta
centralidade social da cidade, esta área beneficia característica ao centro da cidade. Sendo os
ainda da concentração de diversos monumentos. centros das cidades os locais de onde inicialmente
Por outro lado, a associação feita aos centros se desenvolveram, são possuidores de um
comerciais deve-se ao facto de, em muitos casos, conjunto histórico da maior relevância. A cidade
estes criarem espaços artificiais embelezados, de Braga não se constitui como uma excepção,
tentando ainda recriar espaço público, através dos possuindo no seu centro histórico um conjunto de

20
A implantação de novos centros comerciais e as alterações nos hábitos de compra

monumentos e património edificado da maior constatação que 24% dos consumidores admite
relevância. Apesar de serem recentes, os centros também deslocar-se a centros comerciais
comerciais ainda conseguiram obter 9% das localizados em outros concelhos. Esta “fuga” de
opiniões, possivelmente devido à tentativa, por um número tão elevado de consumidores é da
parte destes espaços, de recriarem parte do extrema relevância e verifica-se que os centros
sentimento histórico da cidade, dentro do seu comerciais com maior capacidade de atracção são
espaço físico privado. aqueles que estão localizados na Área
O “convívio com amigos / familiares”, Metropolitana do Porto, como o Arrábida
evidencia que 53% dos consumidores optam por Shopping, Dolce Vita Porto, El Corte Inglês, Mar
frequentar os centros comerciais, quando Shopping, Norte Shopping, Via Catarina, entre
pretendem conviver. No seguimento do outros.
reconhecimento destes espaços como possuindo Analisando a motivação de frequência, mais
uma relação forte com o “conforto”, a opção de de 70% dos inquiridos afirmou que se desloca a
conviverem nestes espaços surge de forma centros comerciais para efectuar compras. No
natural. entanto, tal como já foi possível depreender da
Por último no que diz respeito à “facilidade análise da associação das diversas características
de estacionamento” verifica-se uma distribuição analisadas, os centros comerciais são mais do que
relativamente homogénea entre as diferentes meros espaços de compras. Tem-se assistido, ao
estruturas comerciais. Apesar de tal, os centros nível do consumo, a uma alteração do consumo de
comerciais voltam a possuir o valor mais elevado produtos para um consumo não só de produtos
com 44% do total de opiniões recolhidas devido mas também de sensações e vivências. Não será
ao elevado número de lugares de estacionamento então de estranhar que 35,5% 23,8% dos
que possuem de forma gratuita, em parte dos inquiridos se desloque aos centros comerciais para
casos. O valor alcançado pelos supermercados passear e conviver com os amigos
deve-se ao facto de parte deles possuírem parques respectivamente, sendo que posteriormente
de estacionamento para os seus clientes. Em efectuam, nestes espaços, as suas compras. Não se
outros casos, existem protocolos com parques de pode ainda descurar a existência de
estacionamento privados onde os supermercados estabelecimentos âncoras como os cinemas ou os
oferecem aos seus clientes, após a elaboração das hipermercados, cada um deles capazes de por si só
compras, a totalidade ou parte do valor do atrair um conjunto muito significativo de
estacionamento. No caso do Retail Park este consumidores.
possui parque de estacionamento próprio. A A componente do lazer cada vez mais
diminuta associação desta característica com o associada ao consumo faz com que o acto de
centro da cidade não será reflexo da comprar se misture com o acto de conviver, sendo
disponibilidade de estacionamento nesta área. por isso que a maioria se desloca aos centros
Pelo contrário, embora exista estacionamento comerciais acompanhado, seja com namorado(a),
relativamente abundante, na quase sua totalidade é amigos ou família.
pago, não sendo esta opção bem recebida pelos
consumidores. 3.4. Potenciais Opções Futuras de Compra
Tendo em vista os impactos que a
3.3. Frequência de Centros Comerciais implantação de novos centros comerciais na
Estando os centros comerciais totalmente cidade de Braga poderá provocar junto da oferta
enraizados na imagem mental dos consumidores, comercial existente actualmente foi necessário
a sua frequência banalizou-se. Desta forma questionar os consumidores acerca da sua
tomando em consideração os inquéritos realizados predisposição para alteração dos hábitos de
junto dos consumidores da cidade de Braga consumo e de frequência de espaços comerciais.
verifica-se que apenas 1% do total não tem por Relativamente à frequência dos novos centros
hábito frequentar centros comerciais, sendo 30% o comerciais apenas 11% dos inquiridos afirmou
total de consumidores que os frequenta várias não ter qualquer intenção de os visitar, sendo que
vezes por semana. 45% admitiu desde já que os irá visitar. Os
Embora a principal altura de frequência seja restantes consumidores não conseguiram dar uma
ao fim-de-semana, mais de 1/3 admite frequentá- resposta concreta. No entanto, tomando em
los também durante a semana, sendo este aspecto consideração que os centros comerciais ainda não
bastante valioso porque permite aos comerciantes estão concluídos e ainda não são visíveis
lá localizados a transacção mais homogénea dos campanhas publicitárias alusivas aos mesmos é de
seus produtos. prever que o número de consumidores que venha
Relativamente aos concelhos onde a frequentar estes espaços seja superior.
frequentam centros comerciais a quase totalidade Quanto às motivações para a frequência dos
admite frequentar aqueles que se localizam no novos espaços comerciais são semelhantes às já
concelho de Braga. No entanto foi crucial a existentes para os actuais centros comerciais, com

21
Pedro Porfírio Guimarães

destaque para o concretizar de compras, passeio, obtida dos inquéritos realizados é possível
cinema, hipermercado, entre outros. Fica visível concluir que a abertura dos novos centros
neste ponto uma sobreposição de motivações de comerciais irá introduzir alguns impactos junto
frequência entre as existentes e as novas estruturas dos hábitos de compra dos consumidores,
comerciais, o que poderá indiciar uma provocando alterações no sistema comercial
concorrência entre as mesmas. vigente na cidade de Braga. O consumo
Analisando a satisfação que os consumidores actualmente não é apenas um simples acto de
possuem acerca dos locais onde efectuam as compra de produtos mas faz parte de um processo
compras foi possível constatar qual a vontade de que abrange também um consumo de
transferência das compras (figura 1) que experiências. Deste modo, com a abertura das
actualmente executam nas diversas estruturas novas estruturas comerciais, os consumidores
comerciais1. poderão frequentá-los com o objectivo de
experienciar novos ambientes, diminuindo o fluxo
Figura 1 - Potencial de transferência de compras de consumidores que se desloca às estruturas
para os novos centros comerciais, em % comerciais existentes actualmente.
No entanto nem todos os formatos comerciais irão
Lojas próximas de casa 5 sentir de igual forma os impactos. Assim, estes,
embora possam afectar de forma intensa o
Centro da cidade 11
comércio existente no centro da cidade, irão
Centros comerciais de outras afectar de forma mais violenta os centros
12
cidades comerciais já existentes na cidade. Isto porque
actualmente, com a grande disseminação de
Centros comerciais de Braga 23
centros comerciais, a concorrência fará sentir-se
mais entre os mesmos do que entre estes e o
Não transfere compras 54
comércio de rua.
0 10 20 30 40 50 60

Fonte: Inquéritos realizados pelo autor aos


consumidores da cidade de Braga, 2009 Referências Bibliográficas
ALVES, P. (2007), Planeamento estratégico e marketing de
Desta forma verifica-se que cerca de 5% dos cidades, Lisboa, CCP
consumidores admitem transferir as compras que ARKIN, H.; COLTON, R. (1962), Tables for Statisticians, Nova
actualmente efectuam nas lojas próximas de casa. Iorque, Barnes & Noble
BALSAS, C. (1999), Urbanismo comercial em Portugal e a
Relativamente ao centro da cidade é expectável
revitalização do centro das cidades, Lisboa, GEPE
que possa perder cerca de 11% dos consumidores, BARRETA, J. (2007), Comércio e Ordenamento urbano,
o que poderá diminuir a capacidade atractiva. Lisboa, CCP
Quanto à transferência de compras dos actuais BEAUJEU-GARNIER, J. (1980), Geografia Urbana, Lisboa,
centros comerciais, embora aqueles que estão Fundação Calouste Gulbenkian
CACHINHO, H. (2000), Centros comerciais em Portugal,
localizados em outros concelhos possam sofrer conceitos, tipologias e dinâmicas de evolução, Lisboa,
influência, serão os que se encontram na cidade de Observatório do comércio. Recuperado em 7 de Outubro
Braga que irão sofrer de forma mais significativa de 2008, de <www.dgcc.pt>
CACHINHO, H. (2006), “Consumactor: Da condição do
os impactos provenientes da abertura dos novos
indivíduo na cidade pós-moderna”, Finisterra, volume
centros comerciais. XLI, número 81, Lisboa, pp. 33-56
Apesar de 54% dos consumidores admitir não CHICO, F. F. (2008), Boas práticas em gestão de centros
transferir as suas compras, a possível alteração urbanos, Lisboa, CCP
dos hábitos de compra de quase metade dos CULLEN, G. (1996), Paisagem urbana, Lisboa, Edições 70
FARHANGMEHR, M. (1996), Comportamento do consumidor
consumidores existentes irá, com certeza, produzir relativamente ao comércio retalhista, Braga, Associação
alterações no sistema comercial da cidade de Comercial de Braga
Braga, não estando o seu centro histórico imune a GECIC (2005), Avaliação dos impactos dos centros comerciais
estas alterações. na cidade de Leiria, Lisboa, GECIC
GOITIA, F. (2003), Breve história do urbanismo, 5ª edição,
Lisboa, Editorial Presença
Conclusão GUIMARÃES, P. (2009), O comércio no centro da cidade de
Após a análise dos dados recolhidos e de forma Braga face aos impactos provenientes da implantação de
mais concreta na decomposição da informação dois novos centros comerciais, Dissertação de mestrado
em Geografia, Braga, Instituto de Ciências Sociais,
Universidade do Minho
1 MELA, A. (1999), A sociologia das cidades, Lisboa, Editorial
Considerando que os consumidores podem efectuar Estampa
compras em mais do que um local, a transferência SALGUEIRO, T. B. (1996), Do comércio à distribuição –
também se pode verificar de mais que uma estrutura roteiro de uma mudança, Oeiras, Celta editora
SALGUEIRO, T. B. (1998), “Comércio e cidade”, Revista
comercial, pelo que o total não terá que ser
Economia e Prospectiva, Lisboa, Gabinete de Estudos e
necessariamente 100% Prospectiva Económica, pp. 69-84

22
I Edição Revista GeoPlanUM, Guimarães, 2010, p.23-28

GEOGRAFIAS PÓS-COLONIAIS: UMA APROXIMAÇÃO A ALGUMAS


PROBLEMÁTICAS TEÓRICAS CENTRAIS *

Marta Rodrigues**

Resumo A intersecção entre Geografia e Estudos Pós-coloniais gera sérias oportunidades para o estudo das
espacialidades do discurso colonial, das políticas espaciais e de representação, bem como dos efeitos
materiais do colonialismo em diferentes espaços. De acordo com Ashcroft et al. (1998:10) “cada
encontro colonial ou „zona de contacto‟ é diferente, e cada ocasião pós-colonial necessita de ser
localizada com precisão e analisada pelos seus efeitos recíprocos“, levando a que a ciência geográfica
se debruce sobre as problemáticas emergentes da crítica pós-colonial. Ao tentar dar visibilidade às
questões da diferença “os desenvolvimentos do pós-colonialismo pela Geografia contemporânea
convergem para os mais diversos aspectos do transnacionalismo e da globalização explorando as
formações discursivas e as manifestações materiais do imperialismo, tanto nas potências colonizadoras
como nas colonizadas. Como salienta Derek Gregory (2000), analisando os legados de um passado
recente, o pós-colonialismo mostra-nos as marcas deixadas pelo colonialismo na paisagem e na
sociedade, nas quais as teorias e práticas geográficas ajudaram a articular diferentes experiências de
imperialismo.
Palavras-Chave: Espaços do Orientalismo, Lugares do Subalterno, Paisagens de Domesticação

1. Introdução abertura radical onde se articulam as possibilidades


de resistência” (AZEVEDO, 2007:59). Neste
Nas últimas décadas, geógrafos e geógrafas sentido a emergência do “sujeito da diferença”, está
têm manifestado interesse crescente na genealogia relacionada com o esforço de desconstrução de um
imperial da sua disciplina, nas espacialidades do mapa político moderno legitimado por uma meta-
imperialismo e nacionalismo e no modo como geografia global. Tal meta-geografia foi sendo
devemos revisitar as geografias colonialistas a “naturalizada” como verdade absoluta e universal.
partir de perspectivas pós-coloniais. Não obstante, Neste processo é de salientar o papel das
grande parte do trabalho de revisão e análise crítica investigações que focam as políticas de negociação
dos discursos e práticas imperiais encontra-se ainda dos “espaços das margens”, o indagar da formação
por fazer, surgindo como um emocionante campo dos lugares de marginalidade a partir de onde novas
de estudos. identidades tomam lugar e fracturam a ordem
O que as Geografias Pós-Coloniais estabelecida. É a partir destas “culturas da
conseguiram alcançar até ao momento reflecte a deslocação” de sujeitos e identidades que se
vitalidade da Geografia contemporânea, bem como estabelecem as políticas do Encontro, como ponto
a abertura às correntes pós-estruturalistas e a de partida para a afirmação das novas geografias
estudos transdisciplinares. Efectivamente, em plurais. Assim, novas identidades culturais geram
diversos países e centros de investigação, geógrafos novos espaços e paisagens que rompem com as
e geógrafas apresentam hoje propostas alternativas hierarquias de pertença e do sujeito do
orientadas para a reafirmação das geografias da conhecimento. Ao longo deste artigo tentarei
diferença, da desigualdade, da violencia e da apresentar estas questões, apontando algumas das
opressão. A este propósito a centralidade da ideia problemáticas centrais que delas decorrem.
de Terceiro-Espaço, avançada na teoria cultural
desenvolvida por Homi Bhabha (2004), é de 2. Orientalismo e a Produção dos Espaços
sublinhar. O estudo de espaços alternativos, “os de Conhecimento
espaços-entre” (entre culturas, identidades, enfim,
espaços de fronteira) é objectivo fundamental nas O projecto da crítica pós-colonial é
agendas destes investigadores e investigadoras. extremamente alargado, pois implica investigar até
Outro conceito eminentemente geográfico e alvo de que ponto não só a história europeia mas também o
séria revisão, o conceito de fronteira é apresentado conhecimento europeu foi instrumento da prática de
mais do que como uma linha de divisão ou zona de colonização. A obra de Edward Said
tensão surgindo agora como uma das áreas de “Orientalismo” (1978), ao iniciar a análise do
contacto potencialmente mais fértil. A geógrafa discurso colonial como uma sub-disciplina
Ana Francisca de Azevedo desenvolve este tema académica dentro da órbita geral da teoria cultural e
referindo que a fronteira emerge como arena de
enunciação de múltiplas e competitivas * Artigo baseado no Estudo de Seminário em Geografias Pós-
Coloniais realizado na Licenciatura em Geografia e Planeamento
subjectividades (corporizadas). Isto porque, da Universidade do Minho.
segundo a autora, “o espaço social incorpora as ** mestranda no Curso de 2º Ciclo de Geografia da
dimensões do Terceiro-Espaço, um espaço de Universidade do Minho.

23
Marta Rodrigues

literária, transferiu a investigação do colonialismo para com a económica1. Uma segunda implicação,
entre os críticos culturais, demonstrando a ligação podendo parecer de algum modo contraditória em
intíma entre a linguagem e as formas de relação à primeira implicação teórica, é de que a
conhecimento desenvolvidas para o estudo de outras construção discursiva do orientalismo era auto-
culturas, e a história do colonialismo e imperialismo. geradora e não tinha nenhuma relação com a
Para Said, o Orientalismo é sobretudo uma realidade do seu sujeito putativo, o Oriente2.
disciplina académica: o conhecimento académico É importante realçar que o conhecimento
supostamente sem juízo de valor, que inclui todo o ocidental do Outro pode ver-se construído como
tipo de escrita sobre o Oriente (académica, parte do sistema total do discurso orientalista: “tais
imaginativa ou administrativa) podendo discutir-se e textos podem criar não só conhecimento como
analisar-se o Orientalismo como o discurso também a própria realidade que parecem
oficialmente instituído para opinar sobre o Oriente, descrever”(SAID, 1978:94). Para Said e segundo
descrevendo-o, ensinando-o, situando-o e Gregory (1998) o Orientalismo é apenas um tipo de
governando-o. Nesta perspectiva, o Orientalismo é projecção e desejo ocidental de governar sobre o
visto como um estilo ocidental de domínio, Oriente, “é apenas um processo de representação
reestruturação e sustentação de autoridade ocidental construído (...) que resulta em „algo feito‟, uma
sobre o Oriente. Said usa a noção de discurso de ficção no verdadeiro sentido da palavra”
Michael Foucault para sustentar a sua tese de que, (Gregory,1998:8)3. Se o discurso orientalista é uma
sem examinar o Orientalismo como um discurso é forma de fantasia que não pode dizer nada sobre a
impossível entender a disciplina sistemática através realidade, exercendo ao mesmo tempo uma pressão
da qual a cultura europeia conseguiu produzir e cultural, o mundo ocidental nada mais pode fazer a
controlar o oriente politicamente, militarmente e não ser usá-lo, significando então que qualquer
cientificamente. Said sugere que a cultura e a obrigação de interesse pelas condições reais do
literatura estavam determinadas pela maneira como colonialismo podem ser postas de parte, defende o
representam o Oriente, e esta representação contínua autor.
contribuiu para estabelecer um marco de referência O discurso pós-colonial indica uma nova
das formas políticas do colonialismo. maneira de conceptualizar a interacção do processo
Falar de Orientalismo, é falar principalmente de cultural, intelectual, económico ou político na
um projecto político-ideológico cujas dimensões formação, perpetuação e deconstrução do
cobrem campos tão díspares como a imaginação colonialismo. Neste sentido, indaga a formação
geográfica, os exércitos coloniais, um corpo docente espacial destas interacções. Procura-se ampliar o
oriental, uma complexa série de ideias, filosofias e alcance do estudo do colonialismo, examinar a
sabedorias domesticadas para uso europeu (SAID, interacção de ideias e instituições, conhecimento e
1978:4). O Orientalismo é uma relação de poder de poder, oferecer o íntimo da análise de epistemologias
domínio cultural, o equivalente cultural do coloniais ligando-as à história e geografia das
colonialismo que o acompanha. É um sistema de instituições coloniais. O discurso pós-colonial
conhecimento aparente sobre o Oriente, onde ao assenta em grande medida na análise e revisão crítica
Outro que forma essa ideia de Oriente nunca lhe é do discurso colonial.
permitido falar; o Outro oriental é mais um objecto De acordo com Robert Young, “a análise do
da fantasia e da construção eurocêntrica do discurso colonial, forma o modo de questionar as
conhecimento. categorias e pressupostos do conhecimento
A questão de como o Ocidente constrói e tem ocidental” (Young, 1990; 11). Analisar o discurso
construído o conhecimento do Outro, forma a base colonial também significa que aprendemos sobre as
para o que se tem denominado de “Teoria do “assombrações” do discurso colonial, um discurso
Discurso Colonial”, cujo objectivo é examinar o que não nos deixou conhecer as circunstâncias reais
modo através do qual se desenvolveu um tipo das culturas descritas que se supunha que tal discurso
especial de discurso para descrever e administrar o descreveria, analisaria e controlaria. Não obstante,
território colonial. Homi Bhabha é contra a posição totalizadora do
A enfâse foucouldiana de Said sobre a maneira argumento de Said, defendendo que Said presumiu
como o Orientalismo se afirma como construção facilmente uma intenção inequívoca por parte do
discursiva, tem duas implicações teóricas principais: Ocidente: a de governar sobre o Oriente, em grande
primeiramente, demonstrou que uma construção medida, através de produções discursivas.
cultural podia ser determinada historicamente, e de
que modo oferecia uma alternativa à auto-
desvalorização da crítica marxista na sua deferência 1
Consultar ensaio de Young, Robert J.C. “Postcolonial
Critique”, 1998
2
Idem
3
Gregory, Derek (1998) – Geographical Imaginations –
Oxford, Blackwell Publishers

24
Geografias Pós-Coloniais: uma aproximação a algumas problemáticas teóricas centrais

Ao constituir uma das mais informadas teorias Através da análise do discurso colonial,
culturais da década de 90, uma das grandes podemos perceber como a difusão de textos e
contribuições de Bhabha consistiu em demonstrar representações coloniais veiculando discursos do
que o discurso colonial funcionava não só como uma Outro, veio reforçar a identidade do Eu. A análise
construção instrumental de conhecimento, mas discursiva e de conteúdo, de documentos escritos,
também segundo protocolos ambivalentes da fantasia imagens e audiovisuais permite compreender como
e do desejo. Actualmente, o desejo dos as formações discursivas trabalham “para a criação
investigadores e investigadoras da crítica colonial de um complexo campo de valores, significados e
consiste em recuperar as histórias e geografias práticas através dos quais o sujeito europeu é
subalternas que reescrevem o relato recebido de posicionado como superior e os não-europeus são
académicos colonizadores e da elite nativa posicionados necessariamente como um outro
governante, histórias de excluídos, dos que não têm inferior para a constituição desse sujeito” (Jacobs, J.,
voz, daqueles que anteriormente eram apenas objecto 2000:192). Apesar de algumas críticas sustentadas à
de conhecimento e desejo colonial. O mesmo se obra de Said, este autor deu uma contribuição
passa em relação à Geografia, quando inúmeros fundamental à crítica pós-colonial, ao analisar a
geógrafos e geógrafas lutam pela releitura e reescrita construção do Outro oriental em relação à produção
dos modernos sistemas de signos geográficos. de conhecimento do Eu ocidental dentro de uma rede
Usando todos estes factores, Gayatri Spivak propõe- de relações políticas, sociais e culturais.
se a analisar os efeitos da violência colonial, a O Oriente como discurso, permite a análise das
negação da subjectividade pela objectividade e a formas culturais das ideologias coloniais e imperiais
inclusão nos modernos sistemas de conhecimento. e mostra que a articulação do poder e do
conhecimento conduz à construção e manipulação de
2. A Problemática do “eu” e do “outro” e a uma ideia específica do Oriente: “um self
Construção de um Imaginário Geográfico subterrâneo do Ocidente” (Said, 1978:27). A relação
Dominante complexa entre o Ocidente e o Oriente é revelada por
uma imaginação geografica imbutida no discurso
O conceito do Outro e o discurso científico orientalista, que nos mostra as representações
sobre o Outro são pontos centrais das teorias pós- ambíguas do Eu e do Outro fundadas sobre histórias
coloniais. A dicotomia Eu/Outro resulta de um de proximidade e distância relativamente a territórios
processo de negação de subjectividades, servindo e culturas que ocupavam o lado oriental do mapa
para construir a identidade e subjectividade do (Azevedo, 2007: 34). E isto é particularmente
sujeito branco, burguês, masculino e heterossexual. importante para a Geografia.
Partindo do pressuposto de que o sujeito (o Eu A figura do Outro oriental, perspectivada como
ocidental) é autónomo e tem controle de si mesmo, e objecto, caracteriza-se como uma figura contrastante
que o objecto (o Outro não-ocidental) depende em e autónoma do Eu ocidental (o Eu hiper-racional)
tudo do sujeito, pois não tem capacidade para tomar através da qual se enaltecia o fascínio e o desejo
a direcção da sua própria vida, podemos afirmar que relativamente à ideia de uma sexualidade
o problema em relação ao Outro consiste na incontrolada do Outro. Neste contexto, é de realçar a
recuperação do seu lugar como sujeito, dono das importância que as geografias imaginárias4
suas acções e com voz própria. assumem, por representarem “outros” lugares e
Thomas Bonnici (2000:53) observa que o paisagens que difundem estereótipos particulares
desenvolvimento da teoria do sujeito na sobre os indivíduos, a natureza e a cultura,
modernidade, limita-se à construção do Outro como frequentemente tidos como verdades absolutas.
um ser inferior e diferente, estando a objectificação Associadas à construção de uma superfície de
sempre implicada numa relação de hierarquia. Como observação, estas geografias imaginárias são
referem Bill Ashcroft et al. (1998:36): “o animadas pela fantasia e pelo jogo do desejo de
estabelecimento gradual de um império, depende à
partida, do estabelecimento de uma relação
4
hierárquica na qual o colonizado existe como um As geografias imaginárias são feitas de operações e de gestos
Outro da cultura colonizadora. Deste modo, o em função dos efeitos de sentido e das relações sociais. O estudo
das geografias imaginárias não se detém nos hábitos, nos
conceito de selvagem apenas pode ocorrer se existir estereótipos e nos preconceitos como padrões criados e
um contra-conceito de civilizado, ao qual se opõe. recriados, mas na permeabilidade entre memória, fantasia e
Construíu-se, assim, uma Geografia da Diferença, na linguagem. A geografia imaginária considera a memória que se
qual as diferenças foram mapeadas e esboçadas constitui por vivências sensíveis e inteligíveis. Também são
baseadas na distinção das pessoas quando identificam um espaço
numa paisagem metafórica que representava não familiar como “nosso espaço” e um espaço desconhecido como
apenas a imutabilidade geográfica, mas a “nosso espaço”.
imutabilidade de poder. Said designa geografia imaginária a configuração de entidades
produzidas dentro de um sistema de representação cultural (Said,
1990).

25
Marta Rodrigues

sujeito do Humanismo de modo a emprestar aos críticas se voltassem contra os mecanismos


lugares um valor figurativo. dominantes de representação, de modo a
As geografias imaginárias revelam uma autonomizar a irredutível alteridade e
sensibilidade invulgar no que respeita à captação de heterogeneidade dos sujeitos que habitam as novas
aspectos culturais e naturais, por parte dos sujeitos “geografias de contacto”5. Este paradigma tem
ocidentais, ao estabelecerem-se com base num como objectivo principal mostrar como a
imaginário dominante do Eu colonizador. De acordo “hegemonia ocidental se baseia em visões parciais
com Said, esta sensibilidade tem subjacente o “medo do resto do mundo, frequentemente promovidas por
do Outro”, de se envolver, de se relacionar com o razões políticas” (Sharp, 1993:17) e eliminar essa
Outro o que conduz a uma distância e a um desejo de mesma parcialidade com vista à emancipação.
dominar para conseguir manter essa distância. Estando associadas à propagação de um espaço
A imaginação geográfica imperial está absoluto, as representações unidimensionais são
alicerçada em processos de formação identitária, vistas como instrumentos de uma missão
afectados por imagens distorcidas que reflectem o universalizante, que pretendia construir um
modo como as “outras” culturas foram absorvidas e imaginário cultural susceptível de conter o poder
importadas para o mundo ocidental. Ao tentar colonial e gerar uma rede complexa de relações,
compreender como as representações da diferença posições e representações que marcaram o encontro
integram a constituição da subjectividade e moderno entre ocidentais e não-ocidentais. Este
interferem na definição dos lugares, David Sibley projecto de construção moderna do Eu e do Outro,
desenvolveu na sua obra sobre os processos de nega o papel de “outros” grupos na produção do
construção de fronteiras entre o “Eu” e o “Outro”, a espaço, apenas pela distinção de raça, classe e
teoria da abjecção, onde demonstra como a género. Neste contexto organizam-se os discursos
percepção e as “recolecções” de lugares representam críticos pós-coloniais, com o intuíto de superar a
uma parte substancial na construção de fronteiras por dicotomia entre identidades consideradas
parte do sujeito. privilegiadas ou subalternas.
Ligada às instâncias da abjecção encontramos a Na tradição moderna ocidental, o sujeito e o
moderna história colonial, definida sobre uma base objecto integram uma hierarquia em que o oprimido
política e cultural preocupada com tudo o que possa é fixado pela pretensa superioridade moral do
constituir uma ameaça para as fronteiras do sujeito opressor. Neste segmento de ideias, “não é o Eu
colonizador. Esta política colonial potenciou a colonialista nem o Outro colonizado, mas a
exclusão através da desumanização do sujeito perturbadora distância entre os dois que constitui a
colonizado e da ameaça que esta constituía às figura da alteridade colonial” (Bhabha, 1998:76).
fronteiras do corpo. Aliás, a análise do discurso Para diluir esta distância e hierarquia é preciso que o
colonial como “um sistema de conhecimento e de sujeito reconheça o Outro como sujeito, para que
crenças sobre o mundo dentro do qual os actos de assim seja (re)conhecido pelo outro.
colonização tiveram lugar” (Ashcroft et al, 1998:42),
reporta-nos para construções complexas de 3. O Feminino como Sujeito Subalterno e as
identidade e alteridade que potenciaram a construção Paisagens de Domesticação
das fronteiras entre o Eu e o Outro colonial. A tentativa de dar voz ao Outro também abarca
Objectivados como um modo de lidar com um as mulheres, um Outro feminino e subalterno cuja
Outro inacessível, os discursos espaciais foram condição tenta suplantar-se através do
usados como uma forma de obter controlo sobre o desenvolvimento de teorias e práticas sociais e
ser humano e os recursos físicos, recodificando-se culturais que permitam aumentar o leque de métodos
por meio de representações a carga simbólica das susceptiveis de denunciar a exclusão e
geografias imaginárias, que difundiam as ideias de marginalização da mulher.
natureza selvagem e que careciam de uma urgente Orientada para a revisão de aspectos como a
domesticação. Por isso, a afirmação de domesticidade e a maternidade, e desenvolvendo
subjectividades revolucionárias, empenhadas na projectos para a formação de uma teoria social crítica
descolonização das paisagens interiores e que preocupada com as questões de género e
provêm de um passado imperial, está ligada à sexualidade, a luta proposta pelas abordagens
necessidade de detonar a reprodução das relações de feministas envolve a redefinição das práticas e
poder e significado que no presente activam os seus narrativas culturais que dominam, tendo em vista
mecanismos de controlo (Pile, 2000), provenientes “compreender as estruturas de vida em termos
das hegemonias imperiais e coloniais que feministas, colocar novas questões e adoptar
estruturaram a moderna visão do mundo baseada na
superioridade cultural dos ocidentais. Esta visão do
5
mundo é desafiada pelo paradigma pós-colonial que, Interacção entre culturas diferentes, onde as caracteríticas
num quadro de redimensionamento, fez com que as culturais, políticas e sociais significam diferenças e distinguem
áreas espaciais.

26
Geografias Pós-Coloniais: uma aproximação a algumas problemáticas teóricas centrais

posições políticas passíveis de provocar a opressão da mulher, consoante esta se encontra em


transformação“ (Peet, 1998: 250). Como salienta território público ou privado. Tendo em conta estes
Ashcroft “o feminismo trouxe para a ribalta um sem postulados, a crítica feminista vira-se para o modo de
número de suposições que não foram revistas com o produção e reprodução da ciência moderna e para o
discurso pós-colonial, tal como as interrogações pós- sistema de legitimação da estrutura político-social,
coloniais sobre a escola feminista ocidental decalcados por marcas de género e por uma cultura
providenciou atempadamente informações e de favorecimento de políticas masculinistas.
conduziu a novas direcções “ (Ashcroft et al, 1995: Os estudos desenvolvidos por Linda McDowell,
249). Gill Valentine ou Maria Dolors García Ràmon,
Transpostas para a geografia académica, as mostram enfaticamente como as identidades são
práticas feministas proporcionam uma crítica modeladas e assumidas através da construção
substantiva a todo um conjunto de aspectos que cultural do espaço, desferindo severas críticas a
compõem a teoria e tradição geográfica, enquanto obras canónicas como a de Said, pelo modo como
instâncias culturais. A articulação da Geografia com descoram aos mecanismos de domesticação da
o feminismo, conduz a uma tentativa de mulher. Ao analisar os variados mecanismos da
compreensão sobre como as relações de género e construção da identidade feminina e assentando no
identidade são modeladas e assumidas no espaço, e pressuposto de que todo o conhecimento é situado e
através deste, com as suas particularidades em parcial estas abordagens visam, através do enfatizar
diferentes grupos e culturas. De facto, ao estudar a das percepções das mulheres, a reconstrução do
problemática do espaço e das relações de género, sistema social e da realidade no seu conjunto. Neste
Gillian Rose e Geraldine Pratt demonstram como a sentido, o projecto político-intelectual implícito nas
construção do Outro feminino tem marginalizado as abordagens feministas, encontra-se intimamente
narrativas e experiências femininas de espaços e ligado à integração de concepções plurais e
lugares. Rose (1993) chega mesmo a salientar que a complexamente construídas de identidade social,
perspectiva feminina, por ser historicamente acarretando geografias particulares e alternativas
dominado por homens, ficou culturalmente (Fraser, Nicholson,1990:35), sendo portanto um
erradicada do projecto geográfico da modernidade. projecto inerentemente espacial.
Esta crítica à posição do sujeito e à exploração Quando conjugado com o desenvolvimento de
de políticas identitárias pretende expôr a subversão um pensamento relacional e virado para a construção
das “hierarquias congeladas da diferença cultural” de epistemologias feministas debruçadas sobre a
(Kobayashy & Peake, 1997:436) que, segundo Derek revisão das categorias de género, este projecto
Gregory e Trevor Barnes, se encontram tão origina teorias implicadas com os desafios cognitivos
sedimentadas que levou a que se pensasse que tanto da produção de um conhecimento diferencial e de
o poderio como a posicionalidade masculina não carácter situado. Donna Haraway7 contribuiu
terminariam nem mudariam de posto. Isto porque os decisivamente para o desenvolvimento das políticas
homens sempre foram considerados como e epistemologias de colocação do sujeito ao reclamar
representantes do universal, de uma verdade uma parcialidade para se ser ouvido e ao apelar à
descorporizada, sendo que as mulheres eram ciência do “sujeito múltiplo” que habita “num espaço
encaradas como exemplos do particular, social generificado e não homogéneo” (Haraway, D.,
corporizadas, sexuadas e socialmente diferenciadas. 1991:195). Em associação a estas políticas
Deste modo, Audrey Kobayashy e Linda Peake encontramos o movimento de corporização do
apelam à desnaturalização dos discursos geográficos, sujeito que funciona como um paradigma alternativo
para puderem demonstrar de que maneira estes para a produção do conhecimento que integra o
enfatizam a invisibilidade social das mulheres tendo sentido de vulnerabilidade identitária e que resiste à
como base de sustentação postulados6 ideológicos fixação, dando lugar às redes de posicionamento.
que obscurecem a compreensão das relações de Haraway refuta o conhecimento descorporizado
género, e tentam mostrá-las como relações produzido pela ciência moderna, defendendo a
complexas de poder. perspectiva de um conhecimento alicerçado sobre a
Commumente utilizado é o postulado da ideia de “vista do corpo”, com a sua posição
diferença sexual e a definição de atributos de género específica. Esta complexa teoria implica a aceitação
que ao ter lugar num contexto de naturalização do do acto de “corporização do conhecimento”, onde o
Outro, relegou a mulher para o domínio doméstico, corpo proporciona um conhecimento-chave sobre o
criando um dualismo que abarca a subalternização e trabalho da subjectividade, e mostra como o sexo

7
Donna Haraway é Professora de História da Consciência na
6
Postulados são dados considerados importantes, para que se Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. O seu trabalho
possa compreender a exclusão e inferioridade que a mulher influenciou os Estudos Culturais e os Estudos de Mulheres,
sofreu e tem vindo a sofrer. Os postulados dominantes conduzem sendo um dos mais representativos do movimento político-
à subalternização da mulher. intelectual feminista da época contemporânea.

27
Marta Rodrigues

feminino tem vindo a ser alvo de práticas decorrentes hegemónicas do conhecimento e do poder imperial
de aparatos ideológicos que as tornam sujeitos nos num contexto alegadamente pós-masculinista.
termos desse aparato.
Crucial para a compreensão das geografias
contemporâneas e pós-coloniais é a teoria feminista
do conhecimento situado, que promove a construção Bibliografia
dos discursos alternativos de “humanidade”,
discursos passíveis de superar as tendências de ASHCROFT, B. (1995), Post-colonial Studies Reader, London:
Routledge
apropriação, totalização e integração que ASHCROFT, B. (1998), Key Concepts in Post-colonial Studies,
subentendem o conhecimento moderno. Nestes London: Routledge
termos, a prática feminista contemporânea passa pela ASHCROFT, B. (2001), Post-colonial Transformation, London:
construção e desenvolvimento de uma teoria do Routledge
AZEVEDO, A. F. (2008), Geografia e Cinema. Representações
conhecimento íntimo, que promova a relevância da culturais de espaço, lugar e paisagem na cinematografia
experiência feminina e de “outros” sujeitos. Por esta portuguesa, UM
razão, MacKinnon considera importante não deixar AZEVEDO, A F. (2008), Geografias Pós-Coloniais:
cair por terra as relações generativas sexo/género, contestação e renegociação dos mundos culturais num
presente pós-colonial, In J.R. Pimenta, A. F. Azevedo; e
como modo de detonar a apropriação masculina da J. Sarmento (org.) Geografias Pós-Coloniais; Porto:
sexualidade feminina. Deste modo, a teoria feminista Figueirinhas
remete-nos para a necessidade de suplantar o quadro BHABHA, H. (2004), The Location of Culture, London:
de objectificação – apropriação sexual com base Routledge
BLUNT, A., McEWAN, C. (2002), Postcolonial Geographies,
numa doutrina da experiência feminina e leva a que a London: Continuum
crítica feminina se dedique à explanação parcial BONNICI, T. (2000), O Pós-colonialismo e a Literatura:
como forma de indagar a construção da categoria estratégias de leitura, Maringá: Eduem
cultural “mulher” e do género social “feminino”, FRASER, N., NICHOLSON, L. (1990), Social Criticism without
Philosophy: An Encounter between Feminism and
apostando na tentativa de demolir lógicas, Postmodernism, In Nicholson, L. Feminism /
linguagens e práticas existentes de modo a tentar Postmodernism, New York: Routledge
alcançar os seus objectivos. A reformulação destas GREGORY, D. (1998), Geographical Imaginations, Oxford:
lógicas, linguagens e práticas deveria ser Blackwell Publishers
HARAWAY, D. (1991), Situated knowledges : The science
preocupação central da Geografia contemporânea. question in feminism and the privilege of partial
perspective, In Haraway, D.; Simians, Cyborgs and
Conclusão Women. London : Free Association Press
As questões políticas e analíticas aqui Jacobs, J. M. (2002), (Post)Colonial Spaces, In Dear, M. e S.
Flusty (eds.), The spaces of postmodernity, Oxford:
levantadas endereçam as problemáticas decorrentes Blackwell
das práticas de deslocalização entre fronteiras de Kobayashi, A., L. Peake (1997), Unnatural Discourse: “Race”
identidades e comunidades sócio-sexuais, através da and Gender in Geography, In T. Barnes e D. Gregory,
intercepção de questões epistemológicas e das eds., Reading Human Geography, The Poetics and Politics
of Inquiry. London: Arnold
dinâmicas de formação do sujeito. A intersecção McDOWELL, L. (1997), Undoing Place? A Geographical
entre pós-colonialismo e feminismo é por isso tida Reader. London, Arnold
como muita positiva, na medida em que ambos se Peet, R. (1998), Modern geographical thought, Oxford:
debruçam sobre questões potencialmente Blackwell
Pile, S. (2000), The troubled spaces of Frantz Fanon In M.
negligenciadas. Crang e N. Thrift (eds.). Thinking space. London e New
A importância das práticas científicas do York: Routledge
conhecimento situado é um dos elementos centrais Rose, G. (1993), Feminism and Geography, Cambridge: Polity
sobre os quais geógrafas e geógrafos se tem debatido Press
para a afirmação dos espaços do sujeito corporizado SAID, E. (1978), Orientalism, London: Penguin
da diferença. Neste sentido, o próprio acto de SAID, E. (2004), Orientalismo, Lisboa: Edições Cotovia
investigação integra a formação e luta política por Sharp, J. (1993), Publishing American identity, Political
Geography, 12
dar voz aos sujeitos vistos tradicionalmente como SPIVAK, G. C. (2003), A Critique of Postcolonial Reason,
subalternos e marginalizados; “(d)ecorrendo de Harvard: Harvard University Press
complexas políticas da diferença que tomam lugar Young, R. (1990), White Mythologies, London: Routledge
num presente pós-colonial, o trabalho de recolocação
de subjectividades a que também a Geografia deitou
mão, enuncia a urgência de autorização das
diferentes vozes no que respeita à codificação das
inúmeras dimensões espaciais e a produção de
„outras‟ espacialidades” (Azevedo, 2007:58). Assim
se tem vindo a dar visibilidade a “outros” lugares e
paisagens por forma a desmontar as políticas

28
I Edição Revista GeoPlanUM, Guimarães, 2010, p.23-28

GEOGRAFIAS PÓS-COLONIAIS: UMA APROXIMAÇÃO A ALGUMAS


PROBLEMÁTICAS TEÓRICAS CENTRAIS *

Marta Rodrigues**

Resumo A intersecção entre Geografia e Estudos Pós-coloniais gera sérias oportunidades para o estudo das
espacialidades do discurso colonial, das políticas espaciais e de representação, bem como dos efeitos
materiais do colonialismo em diferentes espaços. De acordo com Ashcroft et al. (1998:10) “cada
encontro colonial ou „zona de contacto‟ é diferente, e cada ocasião pós-colonial necessita de ser
localizada com precisão e analisada pelos seus efeitos recíprocos“, levando a que a ciência geográfica
se debruce sobre as problemáticas emergentes da crítica pós-colonial. Ao tentar dar visibilidade às
questões da diferença “os desenvolvimentos do pós-colonialismo pela Geografia contemporânea
convergem para os mais diversos aspectos do transnacionalismo e da globalização explorando as
formações discursivas e as manifestações materiais do imperialismo, tanto nas potências colonizadoras
como nas colonizadas. Como salienta Derek Gregory (2000), analisando os legados de um passado
recente, o pós-colonialismo mostra-nos as marcas deixadas pelo colonialismo na paisagem e na
sociedade, nas quais as teorias e práticas geográficas ajudaram a articular diferentes experiências de
imperialismo.
Palavras-Chave: Espaços do Orientalismo, Lugares do Subalterno, Paisagens de Domesticação

1. Introdução abertura radical onde se articulam as possibilidades


de resistência” (AZEVEDO, 2007:59). Neste
Nas últimas décadas, geógrafos e geógrafas sentido a emergência do “sujeito da diferença”, está
têm manifestado interesse crescente na genealogia relacionada com o esforço de desconstrução de um
imperial da sua disciplina, nas espacialidades do mapa político moderno legitimado por uma meta-
imperialismo e nacionalismo e no modo como geografia global. Tal meta-geografia foi sendo
devemos revisitar as geografias colonialistas a “naturalizada” como verdade absoluta e universal.
partir de perspectivas pós-coloniais. Não obstante, Neste processo é de salientar o papel das
grande parte do trabalho de revisão e análise crítica investigações que focam as políticas de negociação
dos discursos e práticas imperiais encontra-se ainda dos “espaços das margens”, o indagar da formação
por fazer, surgindo como um emocionante campo dos lugares de marginalidade a partir de onde novas
de estudos. identidades tomam lugar e fracturam a ordem
O que as Geografias Pós-Coloniais estabelecida. É a partir destas “culturas da
conseguiram alcançar até ao momento reflecte a deslocação” de sujeitos e identidades que se
vitalidade da Geografia contemporânea, bem como estabelecem as políticas do Encontro, como ponto
a abertura às correntes pós-estruturalistas e a de partida para a afirmação das novas geografias
estudos transdisciplinares. Efectivamente, em plurais. Assim, novas identidades culturais geram
diversos países e centros de investigação, geógrafos novos espaços e paisagens que rompem com as
e geógrafas apresentam hoje propostas alternativas hierarquias de pertença e do sujeito do
orientadas para a reafirmação das geografias da conhecimento. Ao longo deste artigo tentarei
diferença, da desigualdade, da violencia e da apresentar estas questões, apontando algumas das
opressão. A este propósito a centralidade da ideia problemáticas centrais que delas decorrem.
de Terceiro-Espaço, avançada na teoria cultural
desenvolvida por Homi Bhabha (2004), é de 2. Orientalismo e a Produção dos Espaços
sublinhar. O estudo de espaços alternativos, “os de Conhecimento
espaços-entre” (entre culturas, identidades, enfim,
espaços de fronteira) é objectivo fundamental nas O projecto da crítica pós-colonial é
agendas destes investigadores e investigadoras. extremamente alargado, pois implica investigar até
Outro conceito eminentemente geográfico e alvo de que ponto não só a história europeia mas também o
séria revisão, o conceito de fronteira é apresentado conhecimento europeu foi instrumento da prática de
mais do que como uma linha de divisão ou zona de colonização. A obra de Edward Said
tensão surgindo agora como uma das áreas de “Orientalismo” (1978), ao iniciar a análise do
contacto potencialmente mais fértil. A geógrafa discurso colonial como uma sub-disciplina
Ana Francisca de Azevedo desenvolve este tema académica dentro da órbita geral da teoria cultural e
referindo que a fronteira emerge como arena de
enunciação de múltiplas e competitivas * Artigo baseado no Estudo de Seminário em Geografias Pós-
Coloniais realizado na Licenciatura em Geografia e Planeamento
subjectividades (corporizadas). Isto porque, da Universidade do Minho.
segundo a autora, “o espaço social incorpora as ** mestranda no Curso de 2º Ciclo de Geografia da
dimensões do Terceiro-Espaço, um espaço de Universidade do Minho.

23
Marta Rodrigues

literária, transferiu a investigação do colonialismo para com a económica1. Uma segunda implicação,
entre os críticos culturais, demonstrando a ligação podendo parecer de algum modo contraditória em
intíma entre a linguagem e as formas de relação à primeira implicação teórica, é de que a
conhecimento desenvolvidas para o estudo de outras construção discursiva do orientalismo era auto-
culturas, e a história do colonialismo e imperialismo. geradora e não tinha nenhuma relação com a
Para Said, o Orientalismo é sobretudo uma realidade do seu sujeito putativo, o Oriente2.
disciplina académica: o conhecimento académico É importante realçar que o conhecimento
supostamente sem juízo de valor, que inclui todo o ocidental do Outro pode ver-se construído como
tipo de escrita sobre o Oriente (académica, parte do sistema total do discurso orientalista: “tais
imaginativa ou administrativa) podendo discutir-se e textos podem criar não só conhecimento como
analisar-se o Orientalismo como o discurso também a própria realidade que parecem
oficialmente instituído para opinar sobre o Oriente, descrever”(SAID, 1978:94). Para Said e segundo
descrevendo-o, ensinando-o, situando-o e Gregory (1998) o Orientalismo é apenas um tipo de
governando-o. Nesta perspectiva, o Orientalismo é projecção e desejo ocidental de governar sobre o
visto como um estilo ocidental de domínio, Oriente, “é apenas um processo de representação
reestruturação e sustentação de autoridade ocidental construído (...) que resulta em „algo feito‟, uma
sobre o Oriente. Said usa a noção de discurso de ficção no verdadeiro sentido da palavra”
Michael Foucault para sustentar a sua tese de que, (Gregory,1998:8)3. Se o discurso orientalista é uma
sem examinar o Orientalismo como um discurso é forma de fantasia que não pode dizer nada sobre a
impossível entender a disciplina sistemática através realidade, exercendo ao mesmo tempo uma pressão
da qual a cultura europeia conseguiu produzir e cultural, o mundo ocidental nada mais pode fazer a
controlar o oriente politicamente, militarmente e não ser usá-lo, significando então que qualquer
cientificamente. Said sugere que a cultura e a obrigação de interesse pelas condições reais do
literatura estavam determinadas pela maneira como colonialismo podem ser postas de parte, defende o
representam o Oriente, e esta representação contínua autor.
contribuiu para estabelecer um marco de referência O discurso pós-colonial indica uma nova
das formas políticas do colonialismo. maneira de conceptualizar a interacção do processo
Falar de Orientalismo, é falar principalmente de cultural, intelectual, económico ou político na
um projecto político-ideológico cujas dimensões formação, perpetuação e deconstrução do
cobrem campos tão díspares como a imaginação colonialismo. Neste sentido, indaga a formação
geográfica, os exércitos coloniais, um corpo docente espacial destas interacções. Procura-se ampliar o
oriental, uma complexa série de ideias, filosofias e alcance do estudo do colonialismo, examinar a
sabedorias domesticadas para uso europeu (SAID, interacção de ideias e instituições, conhecimento e
1978:4). O Orientalismo é uma relação de poder de poder, oferecer o íntimo da análise de epistemologias
domínio cultural, o equivalente cultural do coloniais ligando-as à história e geografia das
colonialismo que o acompanha. É um sistema de instituições coloniais. O discurso pós-colonial
conhecimento aparente sobre o Oriente, onde ao assenta em grande medida na análise e revisão crítica
Outro que forma essa ideia de Oriente nunca lhe é do discurso colonial.
permitido falar; o Outro oriental é mais um objecto De acordo com Robert Young, “a análise do
da fantasia e da construção eurocêntrica do discurso colonial, forma o modo de questionar as
conhecimento. categorias e pressupostos do conhecimento
A questão de como o Ocidente constrói e tem ocidental” (Young, 1990; 11). Analisar o discurso
construído o conhecimento do Outro, forma a base colonial também significa que aprendemos sobre as
para o que se tem denominado de “Teoria do “assombrações” do discurso colonial, um discurso
Discurso Colonial”, cujo objectivo é examinar o que não nos deixou conhecer as circunstâncias reais
modo através do qual se desenvolveu um tipo das culturas descritas que se supunha que tal discurso
especial de discurso para descrever e administrar o descreveria, analisaria e controlaria. Não obstante,
território colonial. Homi Bhabha é contra a posição totalizadora do
A enfâse foucouldiana de Said sobre a maneira argumento de Said, defendendo que Said presumiu
como o Orientalismo se afirma como construção facilmente uma intenção inequívoca por parte do
discursiva, tem duas implicações teóricas principais: Ocidente: a de governar sobre o Oriente, em grande
primeiramente, demonstrou que uma construção medida, através de produções discursivas.
cultural podia ser determinada historicamente, e de
que modo oferecia uma alternativa à auto-
desvalorização da crítica marxista na sua deferência 1
Consultar ensaio de Young, Robert J.C. “Postcolonial
Critique”, 1998
2
Idem
3
Gregory, Derek (1998) – Geographical Imaginations –
Oxford, Blackwell Publishers

24
Geografias Pós-Coloniais: uma aproximação a algumas problemáticas teóricas centrais

Ao constituir uma das mais informadas teorias Através da análise do discurso colonial,
culturais da década de 90, uma das grandes podemos perceber como a difusão de textos e
contribuições de Bhabha consistiu em demonstrar representações coloniais veiculando discursos do
que o discurso colonial funcionava não só como uma Outro, veio reforçar a identidade do Eu. A análise
construção instrumental de conhecimento, mas discursiva e de conteúdo, de documentos escritos,
também segundo protocolos ambivalentes da fantasia imagens e audiovisuais permite compreender como
e do desejo. Actualmente, o desejo dos as formações discursivas trabalham “para a criação
investigadores e investigadoras da crítica colonial de um complexo campo de valores, significados e
consiste em recuperar as histórias e geografias práticas através dos quais o sujeito europeu é
subalternas que reescrevem o relato recebido de posicionado como superior e os não-europeus são
académicos colonizadores e da elite nativa posicionados necessariamente como um outro
governante, histórias de excluídos, dos que não têm inferior para a constituição desse sujeito” (Jacobs, J.,
voz, daqueles que anteriormente eram apenas objecto 2000:192). Apesar de algumas críticas sustentadas à
de conhecimento e desejo colonial. O mesmo se obra de Said, este autor deu uma contribuição
passa em relação à Geografia, quando inúmeros fundamental à crítica pós-colonial, ao analisar a
geógrafos e geógrafas lutam pela releitura e reescrita construção do Outro oriental em relação à produção
dos modernos sistemas de signos geográficos. de conhecimento do Eu ocidental dentro de uma rede
Usando todos estes factores, Gayatri Spivak propõe- de relações políticas, sociais e culturais.
se a analisar os efeitos da violência colonial, a O Oriente como discurso, permite a análise das
negação da subjectividade pela objectividade e a formas culturais das ideologias coloniais e imperiais
inclusão nos modernos sistemas de conhecimento. e mostra que a articulação do poder e do
conhecimento conduz à construção e manipulação de
2. A Problemática do “eu” e do “outro” e a uma ideia específica do Oriente: “um self
Construção de um Imaginário Geográfico subterrâneo do Ocidente” (Said, 1978:27). A relação
Dominante complexa entre o Ocidente e o Oriente é revelada por
uma imaginação geografica imbutida no discurso
O conceito do Outro e o discurso científico orientalista, que nos mostra as representações
sobre o Outro são pontos centrais das teorias pós- ambíguas do Eu e do Outro fundadas sobre histórias
coloniais. A dicotomia Eu/Outro resulta de um de proximidade e distância relativamente a territórios
processo de negação de subjectividades, servindo e culturas que ocupavam o lado oriental do mapa
para construir a identidade e subjectividade do (Azevedo, 2007: 34). E isto é particularmente
sujeito branco, burguês, masculino e heterossexual. importante para a Geografia.
Partindo do pressuposto de que o sujeito (o Eu A figura do Outro oriental, perspectivada como
ocidental) é autónomo e tem controle de si mesmo, e objecto, caracteriza-se como uma figura contrastante
que o objecto (o Outro não-ocidental) depende em e autónoma do Eu ocidental (o Eu hiper-racional)
tudo do sujeito, pois não tem capacidade para tomar através da qual se enaltecia o fascínio e o desejo
a direcção da sua própria vida, podemos afirmar que relativamente à ideia de uma sexualidade
o problema em relação ao Outro consiste na incontrolada do Outro. Neste contexto, é de realçar a
recuperação do seu lugar como sujeito, dono das importância que as geografias imaginárias4
suas acções e com voz própria. assumem, por representarem “outros” lugares e
Thomas Bonnici (2000:53) observa que o paisagens que difundem estereótipos particulares
desenvolvimento da teoria do sujeito na sobre os indivíduos, a natureza e a cultura,
modernidade, limita-se à construção do Outro como frequentemente tidos como verdades absolutas.
um ser inferior e diferente, estando a objectificação Associadas à construção de uma superfície de
sempre implicada numa relação de hierarquia. Como observação, estas geografias imaginárias são
referem Bill Ashcroft et al. (1998:36): “o animadas pela fantasia e pelo jogo do desejo de
estabelecimento gradual de um império, depende à
partida, do estabelecimento de uma relação
4
hierárquica na qual o colonizado existe como um As geografias imaginárias são feitas de operações e de gestos
Outro da cultura colonizadora. Deste modo, o em função dos efeitos de sentido e das relações sociais. O estudo
das geografias imaginárias não se detém nos hábitos, nos
conceito de selvagem apenas pode ocorrer se existir estereótipos e nos preconceitos como padrões criados e
um contra-conceito de civilizado, ao qual se opõe. recriados, mas na permeabilidade entre memória, fantasia e
Construíu-se, assim, uma Geografia da Diferença, na linguagem. A geografia imaginária considera a memória que se
qual as diferenças foram mapeadas e esboçadas constitui por vivências sensíveis e inteligíveis. Também são
baseadas na distinção das pessoas quando identificam um espaço
numa paisagem metafórica que representava não familiar como “nosso espaço” e um espaço desconhecido como
apenas a imutabilidade geográfica, mas a “nosso espaço”.
imutabilidade de poder. Said designa geografia imaginária a configuração de entidades
produzidas dentro de um sistema de representação cultural (Said,
1990).

25
Marta Rodrigues

sujeito do Humanismo de modo a emprestar aos críticas se voltassem contra os mecanismos


lugares um valor figurativo. dominantes de representação, de modo a
As geografias imaginárias revelam uma autonomizar a irredutível alteridade e
sensibilidade invulgar no que respeita à captação de heterogeneidade dos sujeitos que habitam as novas
aspectos culturais e naturais, por parte dos sujeitos “geografias de contacto”5. Este paradigma tem
ocidentais, ao estabelecerem-se com base num como objectivo principal mostrar como a
imaginário dominante do Eu colonizador. De acordo “hegemonia ocidental se baseia em visões parciais
com Said, esta sensibilidade tem subjacente o “medo do resto do mundo, frequentemente promovidas por
do Outro”, de se envolver, de se relacionar com o razões políticas” (Sharp, 1993:17) e eliminar essa
Outro o que conduz a uma distância e a um desejo de mesma parcialidade com vista à emancipação.
dominar para conseguir manter essa distância. Estando associadas à propagação de um espaço
A imaginação geográfica imperial está absoluto, as representações unidimensionais são
alicerçada em processos de formação identitária, vistas como instrumentos de uma missão
afectados por imagens distorcidas que reflectem o universalizante, que pretendia construir um
modo como as “outras” culturas foram absorvidas e imaginário cultural susceptível de conter o poder
importadas para o mundo ocidental. Ao tentar colonial e gerar uma rede complexa de relações,
compreender como as representações da diferença posições e representações que marcaram o encontro
integram a constituição da subjectividade e moderno entre ocidentais e não-ocidentais. Este
interferem na definição dos lugares, David Sibley projecto de construção moderna do Eu e do Outro,
desenvolveu na sua obra sobre os processos de nega o papel de “outros” grupos na produção do
construção de fronteiras entre o “Eu” e o “Outro”, a espaço, apenas pela distinção de raça, classe e
teoria da abjecção, onde demonstra como a género. Neste contexto organizam-se os discursos
percepção e as “recolecções” de lugares representam críticos pós-coloniais, com o intuíto de superar a
uma parte substancial na construção de fronteiras por dicotomia entre identidades consideradas
parte do sujeito. privilegiadas ou subalternas.
Ligada às instâncias da abjecção encontramos a Na tradição moderna ocidental, o sujeito e o
moderna história colonial, definida sobre uma base objecto integram uma hierarquia em que o oprimido
política e cultural preocupada com tudo o que possa é fixado pela pretensa superioridade moral do
constituir uma ameaça para as fronteiras do sujeito opressor. Neste segmento de ideias, “não é o Eu
colonizador. Esta política colonial potenciou a colonialista nem o Outro colonizado, mas a
exclusão através da desumanização do sujeito perturbadora distância entre os dois que constitui a
colonizado e da ameaça que esta constituía às figura da alteridade colonial” (Bhabha, 1998:76).
fronteiras do corpo. Aliás, a análise do discurso Para diluir esta distância e hierarquia é preciso que o
colonial como “um sistema de conhecimento e de sujeito reconheça o Outro como sujeito, para que
crenças sobre o mundo dentro do qual os actos de assim seja (re)conhecido pelo outro.
colonização tiveram lugar” (Ashcroft et al, 1998:42),
reporta-nos para construções complexas de 3. O Feminino como Sujeito Subalterno e as
identidade e alteridade que potenciaram a construção Paisagens de Domesticação
das fronteiras entre o Eu e o Outro colonial. A tentativa de dar voz ao Outro também abarca
Objectivados como um modo de lidar com um as mulheres, um Outro feminino e subalterno cuja
Outro inacessível, os discursos espaciais foram condição tenta suplantar-se através do
usados como uma forma de obter controlo sobre o desenvolvimento de teorias e práticas sociais e
ser humano e os recursos físicos, recodificando-se culturais que permitam aumentar o leque de métodos
por meio de representações a carga simbólica das susceptiveis de denunciar a exclusão e
geografias imaginárias, que difundiam as ideias de marginalização da mulher.
natureza selvagem e que careciam de uma urgente Orientada para a revisão de aspectos como a
domesticação. Por isso, a afirmação de domesticidade e a maternidade, e desenvolvendo
subjectividades revolucionárias, empenhadas na projectos para a formação de uma teoria social crítica
descolonização das paisagens interiores e que preocupada com as questões de género e
provêm de um passado imperial, está ligada à sexualidade, a luta proposta pelas abordagens
necessidade de detonar a reprodução das relações de feministas envolve a redefinição das práticas e
poder e significado que no presente activam os seus narrativas culturais que dominam, tendo em vista
mecanismos de controlo (Pile, 2000), provenientes “compreender as estruturas de vida em termos
das hegemonias imperiais e coloniais que feministas, colocar novas questões e adoptar
estruturaram a moderna visão do mundo baseada na
superioridade cultural dos ocidentais. Esta visão do
5
mundo é desafiada pelo paradigma pós-colonial que, Interacção entre culturas diferentes, onde as caracteríticas
num quadro de redimensionamento, fez com que as culturais, políticas e sociais significam diferenças e distinguem
áreas espaciais.

26
Geografias Pós-Coloniais: uma aproximação a algumas problemáticas teóricas centrais

posições políticas passíveis de provocar a opressão da mulher, consoante esta se encontra em


transformação“ (Peet, 1998: 250). Como salienta território público ou privado. Tendo em conta estes
Ashcroft “o feminismo trouxe para a ribalta um sem postulados, a crítica feminista vira-se para o modo de
número de suposições que não foram revistas com o produção e reprodução da ciência moderna e para o
discurso pós-colonial, tal como as interrogações pós- sistema de legitimação da estrutura político-social,
coloniais sobre a escola feminista ocidental decalcados por marcas de género e por uma cultura
providenciou atempadamente informações e de favorecimento de políticas masculinistas.
conduziu a novas direcções “ (Ashcroft et al, 1995: Os estudos desenvolvidos por Linda McDowell,
249). Gill Valentine ou Maria Dolors García Ràmon,
Transpostas para a geografia académica, as mostram enfaticamente como as identidades são
práticas feministas proporcionam uma crítica modeladas e assumidas através da construção
substantiva a todo um conjunto de aspectos que cultural do espaço, desferindo severas críticas a
compõem a teoria e tradição geográfica, enquanto obras canónicas como a de Said, pelo modo como
instâncias culturais. A articulação da Geografia com descoram aos mecanismos de domesticação da
o feminismo, conduz a uma tentativa de mulher. Ao analisar os variados mecanismos da
compreensão sobre como as relações de género e construção da identidade feminina e assentando no
identidade são modeladas e assumidas no espaço, e pressuposto de que todo o conhecimento é situado e
através deste, com as suas particularidades em parcial estas abordagens visam, através do enfatizar
diferentes grupos e culturas. De facto, ao estudar a das percepções das mulheres, a reconstrução do
problemática do espaço e das relações de género, sistema social e da realidade no seu conjunto. Neste
Gillian Rose e Geraldine Pratt demonstram como a sentido, o projecto político-intelectual implícito nas
construção do Outro feminino tem marginalizado as abordagens feministas, encontra-se intimamente
narrativas e experiências femininas de espaços e ligado à integração de concepções plurais e
lugares. Rose (1993) chega mesmo a salientar que a complexamente construídas de identidade social,
perspectiva feminina, por ser historicamente acarretando geografias particulares e alternativas
dominado por homens, ficou culturalmente (Fraser, Nicholson,1990:35), sendo portanto um
erradicada do projecto geográfico da modernidade. projecto inerentemente espacial.
Esta crítica à posição do sujeito e à exploração Quando conjugado com o desenvolvimento de
de políticas identitárias pretende expôr a subversão um pensamento relacional e virado para a construção
das “hierarquias congeladas da diferença cultural” de epistemologias feministas debruçadas sobre a
(Kobayashy & Peake, 1997:436) que, segundo Derek revisão das categorias de género, este projecto
Gregory e Trevor Barnes, se encontram tão origina teorias implicadas com os desafios cognitivos
sedimentadas que levou a que se pensasse que tanto da produção de um conhecimento diferencial e de
o poderio como a posicionalidade masculina não carácter situado. Donna Haraway7 contribuiu
terminariam nem mudariam de posto. Isto porque os decisivamente para o desenvolvimento das políticas
homens sempre foram considerados como e epistemologias de colocação do sujeito ao reclamar
representantes do universal, de uma verdade uma parcialidade para se ser ouvido e ao apelar à
descorporizada, sendo que as mulheres eram ciência do “sujeito múltiplo” que habita “num espaço
encaradas como exemplos do particular, social generificado e não homogéneo” (Haraway, D.,
corporizadas, sexuadas e socialmente diferenciadas. 1991:195). Em associação a estas políticas
Deste modo, Audrey Kobayashy e Linda Peake encontramos o movimento de corporização do
apelam à desnaturalização dos discursos geográficos, sujeito que funciona como um paradigma alternativo
para puderem demonstrar de que maneira estes para a produção do conhecimento que integra o
enfatizam a invisibilidade social das mulheres tendo sentido de vulnerabilidade identitária e que resiste à
como base de sustentação postulados6 ideológicos fixação, dando lugar às redes de posicionamento.
que obscurecem a compreensão das relações de Haraway refuta o conhecimento descorporizado
género, e tentam mostrá-las como relações produzido pela ciência moderna, defendendo a
complexas de poder. perspectiva de um conhecimento alicerçado sobre a
Commumente utilizado é o postulado da ideia de “vista do corpo”, com a sua posição
diferença sexual e a definição de atributos de género específica. Esta complexa teoria implica a aceitação
que ao ter lugar num contexto de naturalização do do acto de “corporização do conhecimento”, onde o
Outro, relegou a mulher para o domínio doméstico, corpo proporciona um conhecimento-chave sobre o
criando um dualismo que abarca a subalternização e trabalho da subjectividade, e mostra como o sexo

7
Donna Haraway é Professora de História da Consciência na
6
Postulados são dados considerados importantes, para que se Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. O seu trabalho
possa compreender a exclusão e inferioridade que a mulher influenciou os Estudos Culturais e os Estudos de Mulheres,
sofreu e tem vindo a sofrer. Os postulados dominantes conduzem sendo um dos mais representativos do movimento político-
à subalternização da mulher. intelectual feminista da época contemporânea.

27
Marta Rodrigues

feminino tem vindo a ser alvo de práticas decorrentes hegemónicas do conhecimento e do poder imperial
de aparatos ideológicos que as tornam sujeitos nos num contexto alegadamente pós-masculinista.
termos desse aparato.
Crucial para a compreensão das geografias
contemporâneas e pós-coloniais é a teoria feminista
do conhecimento situado, que promove a construção Bibliografia
dos discursos alternativos de “humanidade”,
discursos passíveis de superar as tendências de ASHCROFT, B. (1995), Post-colonial Studies Reader, London:
Routledge
apropriação, totalização e integração que ASHCROFT, B. (1998), Key Concepts in Post-colonial Studies,
subentendem o conhecimento moderno. Nestes London: Routledge
termos, a prática feminista contemporânea passa pela ASHCROFT, B. (2001), Post-colonial Transformation, London:
construção e desenvolvimento de uma teoria do Routledge
AZEVEDO, A. F. (2008), Geografia e Cinema. Representações
conhecimento íntimo, que promova a relevância da culturais de espaço, lugar e paisagem na cinematografia
experiência feminina e de “outros” sujeitos. Por esta portuguesa, UM
razão, MacKinnon considera importante não deixar AZEVEDO, A F. (2008), Geografias Pós-Coloniais:
cair por terra as relações generativas sexo/género, contestação e renegociação dos mundos culturais num
presente pós-colonial, In J.R. Pimenta, A. F. Azevedo; e
como modo de detonar a apropriação masculina da J. Sarmento (org.) Geografias Pós-Coloniais; Porto:
sexualidade feminina. Deste modo, a teoria feminista Figueirinhas
remete-nos para a necessidade de suplantar o quadro BHABHA, H. (2004), The Location of Culture, London:
de objectificação – apropriação sexual com base Routledge
BLUNT, A., McEWAN, C. (2002), Postcolonial Geographies,
numa doutrina da experiência feminina e leva a que a London: Continuum
crítica feminina se dedique à explanação parcial BONNICI, T. (2000), O Pós-colonialismo e a Literatura:
como forma de indagar a construção da categoria estratégias de leitura, Maringá: Eduem
cultural “mulher” e do género social “feminino”, FRASER, N., NICHOLSON, L. (1990), Social Criticism without
Philosophy: An Encounter between Feminism and
apostando na tentativa de demolir lógicas, Postmodernism, In Nicholson, L. Feminism /
linguagens e práticas existentes de modo a tentar Postmodernism, New York: Routledge
alcançar os seus objectivos. A reformulação destas GREGORY, D. (1998), Geographical Imaginations, Oxford:
lógicas, linguagens e práticas deveria ser Blackwell Publishers
HARAWAY, D. (1991), Situated knowledges : The science
preocupação central da Geografia contemporânea. question in feminism and the privilege of partial
perspective, In Haraway, D.; Simians, Cyborgs and
Conclusão Women. London : Free Association Press
As questões políticas e analíticas aqui Jacobs, J. M. (2002), (Post)Colonial Spaces, In Dear, M. e S.
Flusty (eds.), The spaces of postmodernity, Oxford:
levantadas endereçam as problemáticas decorrentes Blackwell
das práticas de deslocalização entre fronteiras de Kobayashi, A., L. Peake (1997), Unnatural Discourse: “Race”
identidades e comunidades sócio-sexuais, através da and Gender in Geography, In T. Barnes e D. Gregory,
intercepção de questões epistemológicas e das eds., Reading Human Geography, The Poetics and Politics
of Inquiry. London: Arnold
dinâmicas de formação do sujeito. A intersecção McDOWELL, L. (1997), Undoing Place? A Geographical
entre pós-colonialismo e feminismo é por isso tida Reader. London, Arnold
como muita positiva, na medida em que ambos se Peet, R. (1998), Modern geographical thought, Oxford:
debruçam sobre questões potencialmente Blackwell
Pile, S. (2000), The troubled spaces of Frantz Fanon In M.
negligenciadas. Crang e N. Thrift (eds.). Thinking space. London e New
A importância das práticas científicas do York: Routledge
conhecimento situado é um dos elementos centrais Rose, G. (1993), Feminism and Geography, Cambridge: Polity
sobre os quais geógrafas e geógrafos se tem debatido Press
para a afirmação dos espaços do sujeito corporizado SAID, E. (1978), Orientalism, London: Penguin
da diferença. Neste sentido, o próprio acto de SAID, E. (2004), Orientalismo, Lisboa: Edições Cotovia
investigação integra a formação e luta política por Sharp, J. (1993), Publishing American identity, Political
Geography, 12
dar voz aos sujeitos vistos tradicionalmente como SPIVAK, G. C. (2003), A Critique of Postcolonial Reason,
subalternos e marginalizados; “(d)ecorrendo de Harvard: Harvard University Press
complexas políticas da diferença que tomam lugar Young, R. (1990), White Mythologies, London: Routledge
num presente pós-colonial, o trabalho de recolocação
de subjectividades a que também a Geografia deitou
mão, enuncia a urgência de autorização das
diferentes vozes no que respeita à codificação das
inúmeras dimensões espaciais e a produção de
„outras‟ espacialidades” (Azevedo, 2007:58). Assim
se tem vindo a dar visibilidade a “outros” lugares e
paisagens por forma a desmontar as políticas

28
I Edição Revista GeoPlanUM I, Guimarães, 2010, p.29-36

INOVAÇÃO E DESENVOLVIMENTO NO SECTOR TÊXTIL E VESTUÁRIO*


Catarina Pinheiro, Emily Lange, Patrícia Gomes, Teresa Costa**
Resumo As inovações tecnológicas que surgiram após a Revolução Industrial contribuíram para a melhoria da
qualidade de vida das populações. No caso de Portugal, um país com forte tradição na indústria,
particularmente na indústria têxtil e vestuário, a inovação e o desenvolvimento são o futuro deste sector.
Neste contexto, é pertinente analisar a indústria têxtil e de vestuário e qual a importância que tem sido
atribuída à investigação e desenvolvimento (I&D) neste sector.
Para melhor compreensão do tema em análise, apresentamos, inicialmente, a evolução e caracterização da
Indústria Têxtil e Vestuário em Portugal, de modo a fazer um ponto de situação desta. A investigação e o
desenvolvimento é o futuro da ITV. Como tal, caracterizamos a sua implementação actual e quais as
perspectivas futuras.
Conceitos-chave: Indústria Têxtil e Vestuário (ITV); Investigação e Desenvolvimento; Competitividade.

1. Evolução da Indústria Têxtil e Vestuário em taxas aduaneiras. Aliado a esta situação, deu-se a
Portugal conquista dos mercados coloniais, embora precários
Apesar da tardia industrialização portuguesa mas inicialmente prometedores.
(finais do século XVIII), Portugal sempre teve uma De acordo Alves (2004), neste período, as
forte tradição no têxtil (“Historial do Têxtil em exportações portuguesas tinham pouca importância, a
Portugal”, Departamento de Engenharia Têxtil da não ser em momentos de conflito externo – como a 1ª
Universidade do Minho; 2009). Guerra Mundial (1914/1918), a Guerra Civil de
De um modo geral, com a Revolução Industrial Espanha (1936/1939) e a 2ª Guerra Mundial (1939-
Inglesa apareceram novos produtos, como o algodão, 1944). Esta situação levou à expansão da indústria
e houve uma redução dos preços. Estes produtos têxtil de algodão, no entanto, esta diminuía após o
fizeram concorrência directa com os têxteis término dos conflitos.
portugueses, o que inviabilizou a produção interna, Em 1931, foi instituído o regime de
uma vez que, se por um lado, a importação de têxteis condicionamento industrial, incluindo a indústria
inviabilizava a produção manufactureira, por outro, a têxtil algodoeira, com o decreto nº19354, com o
incapacidade desta em concorrer com a qualidade e objectivo de disciplinar, coordenar e proteger a
preços do estrangeiro estimulava a importação. indústria (o diploma encontrava-se adaptado ao clima
Neste período, em Portugal predominavam autoritário e ditatorial do Estado Novo). O algodão
pequenas oficinas e o trabalho era mal remunerado. A para as indústrias provinha das colónias, mas a sua
indústria têxtil estabelece-se e progride em Portugal produção era insuficiente e a importação era
no fim das lutas liberais (1836), devido a dificultada, o que obrigava as indústrias a trabalhar
investimentos particulares, que permitiram adquirir abaixo da sua capacidade (Alves; 2004). Esta
máquinas a vapor e acentuar a divisão técnica do situação só foi ultrapassada com o aparecimento das
trabalho. Estas alterações verificaram-se, fibras sintéticas, nos anos 50/60.
essencialmente, na indústria algodoeira e de Em 1960, a adesão de Portugal à EFTA permite
lanifícios. Entre 1840 a 1860 verifica-se um avanço abertura ao exterior, tornando Portugal num dos
na indústria têxtil, no entanto, a maior parte da maiores exportadores mundiais de têxteis e de
produção era ainda obtida de forma artesanal, vestuário, reconhecido pela sua excelente relação
resistindo à inovação (Portal Empresarial da Maia; preço-qualidade. A alteração dos mercados coloniais
2006). pelos europeus consolida-se após a Revolução 25 de
No século XIX, assistimos a um Abril de 1974.
desenvolvimento da indústria têxtil, particularmente Os anos 80/90 ficam marcados pela adesão de
no Vale do Ave fomentado pela protecção pautal de Portugal à CEE (1986) e pela modernização do
18921 e pelo reconhecimento das vantagens da sector, através de apoios do Estado e da União
localização das indústrias nas áreas rurais. Pelo que,
no final do século tínhamos uma produção
satisfatória, mas apenas viável se protegida pelas * Baseado no trabalho prático realizado no âmbito da Unidade
Curricular de Geografia das Actividades Económicas, no 2º
semestre do ano lectivo de 2008/2009
1 ** Catarina Pinheiro, Emily Lange, Patrícia Gomes e Teresa Costa,
Protecção pautal é a introdução de taxas aduaneiras de modo a
estudantes de 3º ano na Licenciatura em Geografia e Planeamento,
encarecer os produtos importados, salvaguardando os produtos Universidade do Minho.
internos.

29
Catarina Pinheiro, Emily Lange, Patrícia Gomes e Teresa Costa

Figura 1 – Exportações e Importações da indústria têxtil e vestuário (em toneladas)

Exportações

Designação 2006 2007 Evolução

Fibras sintéticas ou artificiais descontínuas 78.513 75.716 -3,60%

Pastas, feltros, artigos de cordoaria, etc 68.222 72.210 5,80%

Artigos de algodão 32.980 32.159 -2,50%

Importações

Designação 2006 2007 Evolução

Artigos de algodão 204.483 204.819 0,20%

Fibras sintéticas ou artificiais descontínuas 72.550 75.893 4,60%

Filamentos sintéticos ou artificiais 65.980 72.211 9,40%

Fonte: Estatísticas 2006/2007 da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (baseada em dados


do EUROSTAT).

Europeia, como o PEDIP2, RETEX3 e IMIT4, mais elevados de competitividade e qualidade de


que permitiram aumentar as exportações. emprego.
Assim, segundo Vasconcelos (2006), a ITV
portuguesa atravessa um período de reconversão e
de reestruturação, devido à queda das barreiras 2. Caracterização da Indústria Têxtil e do
alfandegárias, ou seja, o fim das restrições Vestuário Portuguesa
quantitativas à entrada de têxteis em Portugal, e
com a emergência de novos países produtores de Segundo Vasconcelos (2006), no contexto da
artigos têxteis com recurso a mão-de-obra barata, estrutura industrial portuguesa, a ITV assume-se
como o caso da China. Estas alterações na ITV como uma das indústrias com maior
permitem responder as necessidades actuais do representatividade, sendo fundamental para
mercado consumo, nomeadamente maior economia, empregando uma porção significativa da
flexibilidade nos produtos e consequentemente nos mão-de-obra industrial. “Trata-se de um sector
processos produtivos e estruturas de gestão. maduro, fragmentado e sujeito a desajustamentos
No futuro, a ITV portuguesa deve prosseguir periódicos entre a oferta e a procura, cujo
esta estratégia e acrescentar novas formas de desempenho se encontra fortemente condicionado
desenvolvimento que coloquem o sector em níveis pelas flutuações da actividade económica mundial”
(VASCONCELOS; 2006; pp.4).
De acordo com a caracterização do sector
apresentada pela a Associação Têxtil e Vestuário
2
O PEDIP (Programa Específico de Desenvolvimento da de Portugal, a Indústria Têxtil e de Vestuário é uma
Indústria Portuguesa), é composto por sete programas e das mais importantes indústrias para a economia
respectivos subprogramas agrupados nas seguintes áreas: infra- portuguesa. Esta representa:
estruturas de apoio à indústria; formação profissional;
financiamento do investimento produtivo; missões de  12% do total das exportações portuguesas;
produtividade e qualidade industrial.  23% do emprego da indústria transformadora;
 9% do volume de negócios da indústria
3
O RETEX é o Programa para as Regiões Fortemente
Dependentes das Indústrias Têxteis e do Vestuário. Este teve
início em 1993, tendo por objectivo a modernização do tecido
transformadora e 8% da produção da indústria
das empresas nas regiões particularmente afectadas pelo transformadora.
processo de reestruturação (VASCONCELOS; 2006). Atendendo à Figura 1, podemos observar quais
4
O IMIT (Iniciativa à Modernização da Indústria Têxtil) é co- as principais importações e exportações da indústria
financiado pelo Estado Português e pela União Europeia, resulta
da necessidade de adaptar as indústrias têxteis portuguesas às
têxtil e do vestuário portuguesa. No que diz respeito
novas exigências da situação internacional, devido ao aumento às exportações, os principais produtos exportados
da concorrência, decorrente do estabelecimento dos acordos do são: as fibras sintéticas ou artificiais; as pastas,
GATT (VASCONCELOS; 2006).
30
Inovação e Desenvolvimento no Sector Têxtil e Vestuário

feltros e artigos de cordoaria; artigos de algodão. No que se refere às exportações, os principais


Contudo, quando nos debruçamos sobre a evolução produtos exportados por Portugal foram os artigos
das exportações verificamos que destes três em algodão, as fibras e os filamentos. Destes três
produtos, apenas as pastas, feltros e artigos de produtos, atendendo à sua evolução verificamos
cordoaria registam uma evolução positiva (+ 5,8%), que embora, num dos casos, esta seja pouco
passando de 68.222 toneladas em 2006 para 72.210 significativa (artigos de algodão), todos eles
toneladas em 2007. Os produtos com maior queda tiveram uma evolução positiva, sendo esta mais
foram as fibras (-3,6%), passando de 78.513 significativa nos filamentos sintéticos ou artificiais
toneladas em 2006 para 75.716 toneladas em 2007. com um crescimento de 9,4 %, passando de 65.980
toneladas em 2006 para 72.211 toneladas em 2007.

Figura 2 – Principais fornecedores (em toneladas)


Espanha Paquistão Alemanha Índia Itália

2006 97.854 38.915 33.316 30.557 26.785

2007 112.124 44.255 30.432 40.926 27.800

Evolução 14,60% 13,70% -8,70% 33,90% 3,80%

Fonte: Estatísticas 2006/2007 da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal


(baseada em dados do EUROSTAT).

Com base na Figura 2, podemos concluir que com uma quebra de 8,7%, passando de 33.316
os principais fornecedores de Portugal, no que diz toneladas em 2006, para 30.342 toneladas em 2007.
respeito aos produtos da ITV, são a Espanha, De todos estes países o que regista um maior
Paquistão e a Alemanha. Entre 2006 e 2007, quase aumento, extremamente significativo, é a Índia com
todos estes países aumentaram os produtos mais 33,9%, fornecendo, aproximadamente, mais
fornecidos a Portugal, com excepção da Alemanha, 10 mil toneladas em 2007, relativamente a 2006.

Figura 3 – Principais Clientes (em toneladas)

Espanha França Alemanha EUA Reino Unido

2006 92.411 39.352 35.236 34.001 28.948

2007 94.291 37.917 30.979 30.938 27.834

Evolução 2,00% -3,60% -12,10% -9,00% -3,80%

Fonte: Estatísticas 2006/2007 da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal


(baseada em dados do EUROSTAT).

Os principais clientes dos produtos da ITV negativa, sendo mais significativa na Alemanha,
portuguesa são a Espanha, a França e a Alemanha com um decréscimo de 12,10%. Esta queda está
(Figura 3). No que diz respeito a este indicador, claramente relacionada com o facto de terem
verificamos que quase todos estes países, com entrado na “cena” mundial novos países com preços
excepção da Espanha, registam uma evolução muito mais baixos, o que os torna mais aliciantes.

31
Catarina Pinheiro, Emily Lange, Patrícia Gomes e Teresa Costa

Figura 4 – Distribuição (nº) das empresas da Indústria têxtil em Portugal, por NUTS II
Ano Norte Centro Lisboa e Vale Alentejo Algarve Açores Madeira
do Tejo

2003 3.283 669 439 117 32 15 55

Fonte: Associação Têxtil e Vestuário Portuguesa (com base nas Estatísticas das Empresas, de 1999
a 2003, INE).

A Figura 4 confirma uma tendência conhecida 72%. Segue-se Lisboa e Vale do Tejo, contudo com
por muitos de nós, que é o facto de a maior parte uma percentagem muito mais modesta (10%). Na
das indústrias têxteis portuguesas se localizarem no cauda da lista encontra-se a Região Autónoma dos
Norte de Portugal, representando em 2003 cerca de Açores com apenas 0,3%.

Figura 5 – Estrutura das Empresas da Indústria Têxtil (nº) e da Indústria do Vestuário (nº)
2003 10 a 19 20 ou mais
Até 9 trabalhadores trabalhadores trabalhadores
Indústria Têxtil 3299 507 804
Indústria do 9546 1341 1509
Vestuário
Fonte: Associação Têxtil e Vestuário Portuguesa (com base nas Estatísticas das Empresas, de
1999 a 2003, INE).

A indústria têxtil e de vestuário portuguesa é  Reforço da componente do emprego


essencialmente de pequena dimensão (até 9 industrial em valor absoluto;
trabalhadores). De acordo com a comunicação de  Aumento do seu peso na estrutura
Guerreiro, et al (2008) no VI Congresso Português sectorial;
de Sociologia, numa análise do sector têxtil (sendo  Incremento da sua importância no
o período de análise de 1994-2004), ao mesmo conjunto das nossas exportações;
tempo que há um aumento de empresas de pequena  Redireccionamento das exportações
dimensão na estrutura empresarial, assiste-se a um portuguesas para o mercado europeu e americano.
aumento ligeiro de empresas de grande dimensão Contudo, na actualidade o sector têxtil enfrenta
(com mais de 500 trabalhadores). No entanto, neste várias dificuldades. Segundo a Comissão das
sector, predominam as pequenas e médias Comunidades Europeias, os factores que têm
empresas. Esta estrutura, que se tem vindo a contribuído para aumentar as dificuldades do sector
acentuar com a liberalização mundial do mercado têxtil são, sobretudo três: abrandamento económico
dos têxteis, também constitui um dos principais da UE e dos seus principais mercados de
problemas do sector. exportação; a evolução da taxa de câmbio do dólar
Visto que a ITV representa algum peso no norte-americano e do euro que continua a afectar
emprego da indústria transformadora, contribuindo negativamente a competitividade de vários tipos de
para total das exportações portuguesas, para o produtos e a abertura da OMC a países como a
volume de negócios da indústria transformadora, e China e a Índia, cuja competitividade assenta nos
para a produção da desta, este sector é fulcral para a baixos custos da sua mão-de-obra.
economia portuguesa. Este sector tem constituído o
sustento de muitos agregados familiares, tendo 3. Investigação e Desenvolvimento em Portugal
proporcionado estabilidade ao longo de várias
décadas, o que permitiu a aquisição de novas e O investimento em I&D na ITV, em Portugal
diferentes oportunidades. Por sua vez, ocorreu a tem crescido. De acordo com o Inquérito ao
adaptação de algumas empresas ao mercado, tendo Potencial Científico e Tecnológico Nacional de
havido especialização em produção de fio, malhas e 2007, as actividades de I&D em Portugal tiveram o
confecção de tecidos. maior crescimento dos países da UE. De facto,
O crescimento da ITV consolidou a houve um crescimento de 15,3% da percentagem de
especialização sectorial que se veio a delinear ao despesas em I&D em relação ao PIB de 2004 a
longo das últimas décadas. Esta especialização 2007. Este crescimento foi o mais elevado da UE, e
traduziu-se a vários níveis, nomeadamente: muito acima da média comunitária (0,2%) (UMIC;
2009).
32
Inovação e Desenvolvimento no Sector Têxtil e Vestuário

Segundo o Estudo Sectorial realizado pelo UE, sendo que a maioria das parcerias existentes
CITEVE (2004), o investimento em I&D na ITV são entre empresas e o meio académico. As
cresceu em 2002 – houve um aumento médio em empresas são apenas responsáveis por 21,4% da
15% relativamente ao ano anterior, mostrando que despesa em I&D, contrastando, novamente com a
as empresas começam a atribuir mais importância à realidade comunitária, em que estas são as
inovação no sector. protagonistas do investimento nesta área (Fórum
Apesar das reduções nos postos de trabalho, a empresarial; 2009).
produtividade cresceu significativamente através da No âmbito do Novo PRIME6, o governo
inovação e adaptação (empresas e trabalhadores). desencadeou um conjunto muito diversificado de
Para estes resultados, contribuiu, sem dúvida, o acções. Desde 2005 e até ao final da aplicação deste
enorme investimento de recursos públicos em programa, proporcionaram-se 249 projectos nas
programas de apoio à modernização e ITV, com um incentivo público de perto de 65
reestruturação do sector: nos três Quadros milhões de euros que, por sua vez, alavancaram um
Comunitários de Apoio, foram concedidos investimento de 145 milhões de euros.
incentivos públicos de 1,3 mil milhões de euros, Em complemento, este programa apoiou a
que induziram um investimento de modernização criação e a expansão de novas actividades em
de cerca de 3,5 mil milhões de euros (GUERRA; regiões têxteis ou próximas delas, ou seja,
2007). Estes incentivos e investimentos são contributos decisivos para a diversificação de um
aplicados e distribuídos através de vários programas perfil excessivamente polarizado em torno das ITV.
(Figura 6), principalmente a partir do Ministério da Nas regiões do Ave, Minho Lima e ainda do
Economia e Inovação (MEI). Tâmega, o Novo PRIME (2005/06) apoiou
investimento fora da actividade têxtil que atingiu
Figura 6 – Projectos aprovados por programa no 750 milhões de euros, beneficiando de um incentivo
sector têxtil e vestuário total de 124 milhões de euros (GUERRA; 2007).
Programas Nº Investimento Incentivo O Governo analisou o Programa Dínamo,
PEDIP 1.265 139.368.896 36.851.904 concordou com a estratégia nele apresentada e
(1988-1992) incentivou a sua aplicação. Portanto, como
PEDIP II 346 92.864.255 31.802.548 estratégia do MEI para as ITV, importa salientar os
(1994-1999) três eixos de intervenção do Dínamo: Imagem e
PEDIP 21 3.455.596 1.105.247 Internacionalização; Qualificação dos Recursos
Transição Humanos e Empreendedorismo; Investimento em
(1999-2000) Inovação e Desenvolvimento.
IMIT 1.155 265.664.821 115.747.283 Este Programa Dínamo não é apenas um
(1995-1999) sistema de incentivos, mas também uma forma de
Form. - 6.696.568 4.471.266 intervenção que articula o Estado, as empresas, bem
Profissional como toda a sua envolvente para a criação da visão
IMIT (med. estratégica. Encontra-se, também, em linha com o
5.6B PEDIP Plano Tecnológico, apostando nas três linhas de
II) força – Inovar, Qualificar e Internacionalizar
RETEX 938 46.860.907 15.690.113 (GUERRA; 2007).
(1994-1999) Quanto à ajuda do Novo PRIME na promoção
PAIEP5 56 4.106.424 1.563.560 da inovação e da I&D nas Indústria do Têxtil e
(1994-1999) Calçado, assistiu-se a um alargamento do número
TOTAL 4.124 3 1 de empresas que desenvolvem I&D, sendo de
(euros) 224.687.302 187.873.361 destacar a constituição de oito Nitec (Núcleos de
TOTAL 4.124 4.429.211 1.579.102 I&D em empresas), bem como de 8 projectos de
corrigido registo de patentes e de modelos industriais no
(milhares de sector, só em resultado da actividade de apoio do
euros) GAPI7, localizado no CITEVE. Projecta-se, ainda, a
Fonte: Programa Dínamo, 2004. criação de um Centro de Desenvolvimento de
No entanto, em comparação com outros países Nanotecnologias aplicadas ao sector têxtil no
da UE, este investimento ainda é reduzido. para CITEVE (GUERRA; 2007).
além disso, a maior parte do investimento em I&D
é feito pelo Estado (através dos vários programas),
ao contrário do que acontece em vários países da
6
PRIME – Programa de Incentivos à Modernização da
Economia.
7
GAPI – Gabinete de Apoio à Promoção da Propriedade
5
PAIEP – Programa de Apoio à Internacionalização das Industrial.
Empresas Portuguesas.
33
Catarina Pinheiro, Emily Lange, Patrícia Gomes e Teresa Costa

No entanto, apesar do investimento feito, O Estudo Sectorial feito pelo CITEVE


segundo Fernandes (2004), no contexto da indústria comprova esta ideia, afirmando que existem ainda
nacional, os ramos ligados à indústria do vestuário muitas empresas, nomeadamente empresas de
apresentam índices de intensidade de I&D vestuário de pequena dimensão, que não fizeram
reduzidos, denotando uma maior aposta em factores qualquer aposta nesta área. Em Portugal existe, de
de inovação materiais. Isto poderá mostrar a pouca facto, um predomínio das empresas de pequena
importância que os investimentos em actividades de dimensão. À medida que aumenta a dimensão das
I&D tem tido nestes ramos, traduzindo-se, assim, empresas, sejam têxteis ou de vestuário, verifica-se
em baixos níveis de intensidade tecnológica. um maior investimento em actividades de I&D
(Estudo Sectorial; 2004).

4. ANÁLISE SWOT DA INDÚSTRIA TÊXTIL E VESTUÁRIO


Pontes Fortes
- A proximidade dos grandes mercados europeus, permitindo deste modo o acesso privilegiado às
últimas tendências de moda e design e, por outro lado diminui o tempo de chegada a esses mercados;
- A flexibilidade da maioria das nossas estruturas, permitindo assim responder à constante renovação da
oferta que o mercado exige, proporcionando prazos de entrega muito curtos;
- O elevado Know-how técnico (o “saber-fazer”) que a ITV nacional possui (grande conhecimento forte
da produção, processos, produtos e mercados);
- Grande tradição no sector têxtil;
- Os produtos têxteis nacionais destacam-se pela qualidade que apresentam;
- As empresas têxteis começam a desenvolver esforços na modernização da sua estrutura produtiva;
- Verifica-se uma forte aposta na qualificação da mão-de-obra e na formação profissional dos
trabalhadores da ITV;
- Concentração da ITV, sobretudo no Norte, permite o estabelecimento de dinâmicas inter-empresariais,
facilitando a transmissão do conhecimento tácito;
- Percentagem de despesas em I&D está a crescer;
- Empresas começam a atribuir maior importância à inovação no sector, com um alargamento do número
de empresas que desenvolvem I&D;
-Produtividade cresceu significativamente através da inovação e adaptação;
- Estes programas não são apenas de incentivo, mas procuram articular o Estado, as empresas e toda a
sua envolvente para uma melhor visão estratégica;
- Estes programas têm fortes linhas orientadoras muito relevantes às necessidades actuais: Inovar,
Qualificar e Internacionalizar.
Pontos Fracos
- A viabilidade da ITV esteve durante muito tempo protegido por medidas proteccionistas;
- A modernização dos anos 80 e 90 e efectuou-se à custa de subsídios e apoios do Estado e da União
Europeia, que demonstra uma falta de iniciativa das empresas, levando a que actualmente as empresas
continuem muito dependentes destes apoios;
- Custo de mão-de-obra claramente superior àquele que encontramos nos países emergentes (China,
Índia, Paquistão), sendo que estes mercados são também emergentes em termos de procura. Os mercados
tornam-se em terrenos muito apetecíveis para as empresas têxteis, daí a sua deslocalização para estes
países;
- Mão-de-obra pouco qualificada;
- Diminuição na produção do sector têxtil entre 2003 e 2006;
- Diminuição de cerca de 14,5% do volume de negócios entre 2003 e 2006;
- Elevado peso da indústria têxtil e do vestuário na economia portuguesa, o que em tempos de crise no
sector, como a actual, leva a um aumento significativo da taxa de desemprego;
- Entre 2006 e 2007 quase todas as exportações do sector tiveram um crescimento negativo;
- Diminuição das exportações para os principais clientes dos produtos têxteis portugueses;
- Excessiva concentração da ITV em actividades de baixo valor acrescentado;
- Predominância das pequenas e médias empresas e dificuldade de acesso a crédito destas;
- Poucos projectos de investimento privado e constantes apelos ao intervencionismo do Estado;
- Fraca aposta na criação de marcas próprias. A maioria das empresas do sector limitam-se a produzir
encomendas de marcas, sendo esta uma actividade pouco lucrativa, pois quem mais ganha é a empresa
34
Inovação e Desenvolvimento no Sector Têxtil e Vestuário

que possui a marca;


- A nível nacional, os ramos ligados à indústria de vestuário mostra índices de I&D reduzidos – baixos
níveis de intensidade tecnológica;
- Existem ainda muitas empresas de vestuário de pequena dimensão que não fazem qualquer aposta nesta
área;
- Grande parte do investimento em I&D é feita pelo Estado (contrário de muitos países da UE).
Oportunidades
- Controlar outros elementos da cadeia de valor, nomeadamente, o design, a inovação, a distribuição e
redefinição do modelo de negócio e gestão;
- Desenvolvimento de novas aplicações para produtos têxteis, os chamados têxteis do futuro. Estas
aplicações vão desde o desenvolvimento de têxteis com protecção contra os raios UV, à concepção de
têxteis com cheiro e anti-ácaros, têxteis com propriedades específicas para a prática de determinados
desportos, entre outros;
- Começa a surgir um certo interesse pelos produtos têxteis com valor acrescentado, quer a nível interno,
mas sobretudo a nível externo, sendo que este pode ser um dos ramos por onde as empresas têxteis
podem tentar enveredar;
- Apostar em novas tecnologias para a concepção, produção e distribuição dos produtos têxteis, de modo
a melhorar a sua qualidade e optimizar a sua produtividade;
- Tirar partido das suas relações históricas, nomeadamente, com as suas ex-colónias, que se afirmam
actualmente como economias emergentes, aproveitando-as para vender os seus produtos têxteis;
- A emergência de novos mercados com baixos custos de produção (Índia, China, Paquistão, etc) poderá
constituir um incentivo à ITV portuguesa para reforçar os seus factores de competitividade;
- Promover a investigação de novos produtos têxteis de elevado valor acrescentado, nas empresas, de
modo a que esta não seja um acto exclusivo das universidades.
Ameaças
- Elevado peso da indústria têxtil e do vestuário na economia portuguesa, o que em tempos de crise no
sector, como a actual, leva a um aumento significativo da taxa de desemprego;
- A principal vantagem competitiva da ITV portuguesa tem sido o baixo custo de mão-de-obra. Contudo
verifica-se a emergência de países com custos de mão-de-obra ainda mais baixos, como tal este pode ser
um dos motivos que pode levar (e leva) à deslocalização das empresas;
- A concentração da ITV portuguesa no Norte do país, sobretudo, pode apresentar-se como uma ameaça
pois quando o sector entra em crise afectará fortemente a região, uma vez que esta está fortemente
dependente deste sector;
- O sector atrai pouca população jovem.

Conclusão da Universidade do Minho (2009), para que o sector


têxtil português alcance um desenvolvimento
A Investigação e Desenvolvimento é uma área da sustentável, deve enquadrar-se na estratégia de
Indústria Têxtil e Vestuário que ainda tem um longo desenvolvimento europeu através da formação de
caminho a percorrer. Como não acompanhou o parcerias e agrupamentos de empresas transnacionais.
progresso que aconteceu em outros países, Segundo a fonte anterior, o desenvolvimento do
actualmente, a ITV portuguesa apresenta uma fraca design e da inovação em termos de novos produtos e
aposta em I&D. processos, as tecnologias mais limpas, o
No entanto, assiste-se a uma evolução desta desenvolvimento do marketing e a orientação para
situação. A aposta na I&D tem aumentado, bem como segmentos de mercado de elevado valor acrescentado,
a aposta na qualificação da mão-de-obra e na deverão ser acompanhados por estratégias de redução
formação profissional. Começam a surgir novos dos custos, baseadas num aumento da eficácia e não
mercados, muito associados a produtos com alto valor numa redução de salários.
acrescentado. Esta procura incentiva a criação de Portanto, a solução para ultrapassar os problemas
novos produtos têxteis, os chamados “têxteis do da ITV tem, obrigatoriamente, de passar por um
futuro”, produtos que se destacam pela elevada maior enfoque na I&D neste sector, sendo essencial
criatividade e inovação que incorporam, sendo uma que este deixe de ser apenas levado a cabo pelo
forma de responder às novas necessidades do Estado, muitas vezes através das universidades, e
mercado. passando a existir mais iniciativas privadas.
De acordo com as perspectivas futuras
apresentadas pelo Departamento de Engenharia Têxtil

35
Catarina Pinheiro, Emily Lange, Patrícia Gomes e Teresa Costa

Bibliografia Programa Dínamo, Dinamização dos Sectores Têxtil, Vestuário e


Calçado, Ministério da Economia, (2004); (72 pp.), acedido
ALVES, Jorge Fernandes (2004) – Cruzar os fios - a Fábrica em http://www.cedintec.pt/images/programadinamo.pdf -
Têxtil Riopele no contexto empresarial do Vale do Ave, in consultado a 29 de Abril de 2009
Estudos do Século XX, nº 4; (p. 437-468), acedido em
http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/1185.pdf - consultado a
20 de Março de 2009
GUERRA, António Castro – Situação na Indústria Têxtil,
Intervenção do Secretário de Estado Adjunto da Indústria e da
Inovação na Comissão dos Assuntos Económicos, Inovação e
Desenvolvimento Regional da Assembleia da República,
acerca do Relatório sobre a Indústria Têxtil, Portal do
Governo, 10 de Abril de 2007, acedido em
www.portugal.gov.pt – consultado a 26 de Abril de 2009
GUERREIRO, Ana; KOLAROVA, Marina; LIMA, Marinús Pires
de; NUNES, Cristina (2008) – Globalização e Relações
Laborais: Análise dos sectores Têxtil, Automóvel, Bancário,
Telecomunicações e Hotelaria e Restauração, Número de
série 168, Comunicação no VI Congresso Português de
Sociologia, Mundos Sociais: Saberes e Práticas, Faculdade de
Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 25
a 28 de Junho de 2008, Lisboa, acedido em
http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/168.pdf - consultado a 17
de Março de 2010
FERNANDES, Rui Gama (2004) – Indústria, inovação e política
industrial: o caso português, I Jornadas de Geografia
Económica, Instituto/Centro de Estudos Geográficos,
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra,
Comunicaciones, Coimbra; (16 pp.), acedido em
http://age.ieg.csic.es/geconomica/IJornadasGGEValladolid/06
Gama2004.PDF - consultado a 27 de Abril de 2009
VASCONCELOS, Eva (2006) – Análise da Indústria Têxtil e do
Vestuário, Estudo EDIT VALUE Empresa Júnior Nº02,
Spinoff Académico, Universidade do Minho, Braga; (43 pp.),
acedido em http://foreigners.textovirtual.com/edit-
value/analise-da-industria-textil-do-vestuario.pdf - consultado
a 16 de Março de 2009

“Caracterização. Sector”, Associação Têxtil e Vestuário de


Portugal, acedido em http://www.atp.pt/gca/index.php?id=18 –
consultado a 06 de Abril de 2009
“Estudo Sectorial”, CITEVE, Vila Nova de Famalicão, Julho de
2004; (27 pp.), acedido em
http://www.iapmei.pt/resources/download/bbp-
estudo_sectorial_textil.pdf?PHPSESSID=5e9f8dfc0aff65bf36b
fb125ba4db683 – consultado a 27 de Abril de 2009
“Historial do Têxtil em Portugal”, Departamento de Engenharia
Têxtil da Universidade do Minho (2010), acedido em
http://www.det.uminho.pt/pt-PT/geral/historia/, consultado a
15 de Março de 2010
“Indústria têxtil em Portugal”, Portal Empresarial da Maia (2006),
acedido em
http://negocios.maiadigital.pt/hst/sector_actividade/textil_vest
uario/caracterizacao/esboco - consultado a 05 de Maio de 2009
“Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional”,
(2007), Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e
Relações Internacionais, Ministério da Ciência, Tecnologia e
Ensino Superior, acedido em
www.gpeari.mctes.pt/?idc=131&idi=50708 – consultado a 27
de Abril de 2009
“Investimento em I&D aquém da média europeia”, in Fórum
Empresarial, acedido em http://www.forum-
empresarial.pt/92_investimento.htm - consultado a 30 de
Março de 2009
“Portugal Adopta o Maior Nível de Incentivos Fiscais na Europa
para I&D nas Empresas”, UMIC (Unidade de Missão de
Inovação e Conhecimento, Agência para a Sociedade do
Conhecimento), Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino
Superior, 2 de Abril de 2009, acedido em
http://www.umic.pt/index.php?option=com_content&task=vie
w&id=3214&Itemid=211 – consultado a 14 de Abril de 2009

36
I Edição Revista GeoPlanUM I, Guimarães, 2010, p.37-43

E-GOVERNMENT*

António Mendes, Miguel Moura, Maria José Vieira, Pedro Pereira**

Resumo O e-government é um programa da administração pública suportado pelas tecnologias de informação e


comunicação (TIC), sendo premente que a sua divulgação e utilização constitua uma realidade no nosso
país. As TIC são cada vez mais uma interface entre cidadãos, empresas e autarquias e, desta forma, o e-
government veio alterar as relações entre o Estado, o cidadão e as empresas, uma vez que permitiu uma
maior proximidade entre os serviços públicos e os seus potenciais utilizadores.
A forte aposta por parte das autarquias e empresas nas TIC aumentará a produtividade e eficiência
necessária para o alcance de uma maior competitividade do nosso país.
Palavras-chave: e-government, administração pública, tecnologias de informação e comunicação

1. Introdução tecnologias de informação, que coloca o cidadão e


as empresas no centro das atenções, melhora a
No momento presente, as tecnologias de qualidade e a comodidade dos serviços e reforça os
informação e comunicação (TIC) não podem e não meios de participação activa no exercício da
devem ser encaradas como algo distante da grande cidadania. Simultaneamente, aumenta a eficiência,
maioria dos cidadãos. A Sociedade de Informação reduz os custos e contribui para a modernização do
tem de ser cada vez mais uma realidade e não um Estado” (Portal do Governo, 2009). A utilização
mero objectivo de desenvolvimento, pois as TIC desta ferramenta alterou significativamente as
permitem ganhos de tempo e eficácia no relações entre o Estado, o cidadão e as empresas, já
processamento de uma grande quantidade de dados, que há, cada vez mais, uma maior proximidade
bem como uma maior proximidade entre os entre os serviços e os seus utilizadores. Estas
serviços e cidadãos, ou entre clientes e empresas, relações já não necessitam do contacto directo
factores estes necessários para aumentar a realizado em gabinetes oficiais; podem facilmente
eficiência e produtividade da administração pública ser efectuadas a partir de casa ou do local de
e empresas. Só desta forma é que se pode alcançar trabalho, através de suporte informático, para
uma maior competitividade. centros oficiais de informação e comunicação
É importante conhecer qual o grau de difusão (GIDDENS, 2007:33).
das TIC, assim como as principais áreas da sua Desde a década de 1990 que os governos têm
utilização no território nacional. Com o forte vindo a promover projectos de e-government, para
incremento destas tecnologias por parte das que assim possa ser fornecida informação e
autarquias e serviços de administração central, prestados serviços aos cidadãos e às empresas, de
através do e-government, um novo tipo de relações uma forma cada vez mais rápida e simples.
foi estabelecido com os cidadãos. Deste modo, a Na Agenda de Lisboa, em Março de 2000, a
actual eficiência da administração pública implica União Europeia estabeleceu um conjunto de
uma análise da respectiva utilização das TIC ao estratégias a adoptar, de forma a tornar os Estados-
nível do funcionamento interno dos serviços, da Membros mais competitivos face ao fenómeno da
interacção destes com os cidadãos, com a globalização. Tendo por base GIDDENS (2007:33),
identificação dos principais problemas, bem como estas estratégias têm como objectivo tornar a
dos seus sistemas mais eficazes. “economia baseada nos conhecimentos, mais
Com um estudo de caso, feito ao nível local, dinâmica e mais competitiva no mundo, capaz de
envolvendo as autarquias de Guimarães e Póvoa de um desenvolvimento económico sustentável, com
Lanhoso, foram analisados os parâmetros atrás respeito pelo ambiente”. No entanto, em Março de
descritos, sendo estabelecida a comparação entre 2005, a Agenda de Lisboa foi revista pelo Conselho
elas relativamente ao seu funcionamento e grau de Europeu, o seu programa simplificado e clarificado,
satisfação dos seus utilizadores. dando maior ênfase ao crescimento e ao emprego
Devido à rápida evolução das TIC, tem sido (GIDDENS, 2007:36).
cada vez maior a utilização da internet e da Por outro lado, o comportamento da
ferramenta e-government por parte dos cidadãos, administração pública (AP) influencia a
sendo necessário reflectir acerca dos seus impactes competitividade global da economia, dinamizando-
ao nível social.
* Baseado no Trabalho Prático da Unidade Curricular de
2. Enquadramento teórico Geografia das Actividades Económicas, ano lectivo de
2008/2009
Segundo o Portal do Governo, o conceito de e- ** António Mendes, Miguel Moura, Maria José Vieira, Pedro
government (Governo electrónico) é o de “ um Pereira, alunos do 3º ano da Licenciatura em Geografia e
processo suportado no desenvolvimento das Planeamento

37
António Mendes, Miguel Moura, Maria José Vieira e Pedro Pereira

a: “longe vão os tempos em que se julgava que a governação” (SCHEDLER e PROELLER 2002;
administração pública não tinha qualquer influência BELLANY e TAYLOR, 1998; SNELLEN e VAN
no desenvolvimento da economia de um país e em de DONK 1998; cit SANTOS, AMARAL
particular no comportamento dos agentes 2002:25). Assim sendo, a criação pela Sociedade da
económicos (PEREIRA, 1999:67)”; mas, para isso, informação de novas oportunidades, impõem “á AP
“é necessário tornar a administração pública mais a adopção dos novos paradigmas, novas estratégias
acessível, mais rápida e mais transparente aos olhos e novas visões quanto ao futuro cívico […], sendo
dos cidadãos e através da gestão e valorização de certo que esse futuro passará cada vez mais pela
um dos seus recursos mais estratégicos – A partilha de soluções e plataformas tecnológicas,
informação”( PEREIRA, 1999:67). visando a criação de janelas únicas e o
A Europa enfrenta desafios ao nível da criação desenvolvimento de centros de formalidades
de mais e melhor emprego, sendo necessária a capazes de resolver de imediato problemas
reestruturação das organizações e a qualificação do concretos dos cidadãos e agentes económicos (one
capital humano, no que se refere à utilização das – stop –shops; (Infocid, 2009, cit; PEREIRA,
TIC. Tendo em conta a importância de uma 1999:68), deixando a distância de ser relevante ou
administração pública que incentive as dinâmicas impedimento na obtenção de produtos e/ou
de mercado, torna-se essencial o sucesso do seu serviços.
processo de modernização e da implementação de Desde 2003 que a situação da AP é motivo de
melhores práticas de gestão. De facto, “as debate na agenda política e social. Como refere
tecnologias vieram proporcionar o acesso mais PEDROSO (2008:3), neste debate o Governo
rápido e atempado aos diversos produtos de electrónico “está vivo” relativamente á dimensão
informação e permitiram viabilizar novos serviços e tempo bem como a discussão sobre o que será o seu
novas formas de cooperação intra e inter- futuro. No entanto, de acordo com Anabela
organizacionais inimagináveis há alguns anos atrás, Pedroso, a análise da OCDE aponta para uma
podendo-se hoje questionar muitas formas de desilusão quanto aos benefícios prometidos, no
organização de trabalho que tanto tempo legitimou sector privado e no público. Esta organização
o paradigma burocrático”( PEREIRA, 1999:65). considera ser mais útil, que para além da colocação
Por outro lado, as TIC assumem também um dos serviços on-line, seja feita uma mudança
papel crucial na transformação das relações entre a gradual de paradigma – ou seja, “ de centrado na
AP e o sector económico privado, tornando-as mais Administração para centrado no cidadão; de
próximas, através do e-government. Segundo organizações isoladas para mega comunidades; de
SANTOS e AMARAL (2002:25), esta ferramenta é focado na oferta para focado na procura,
actualmente utilizada pelos organismos públicos necessidade e satisfação” (PEDROSO, 2008:3).
centrais, regionais ou locais, e tem a capacidade de Neste contexto torna-se essencial atenuar as
transformar as relações da AP com o cidadão e as assimetrias globais, tendo a UIT (União
empresas. Assim, para além da prestação de Internacional das Nações) desenvolvido parcerias
informação e do aperfeiçoamento da gestão, o com empresas da área das telecomunicações
recente desenvolvimento destas relações trouxe (Alcatel) e internet (Microsoft e Intel), para a
benefícios como uma maior transparência e elaboração de um projecto, tendo em vista a
comodidade, a redução de custos e o crescimento diminuição das assimetrias no acesso às TIC (e-
das receitas (SANTOS e AMARAL, 2002:25). ciência, 2005:16). O projecto “Connect the World”
Porém, segundo o estudo de SANTOS e tem como finalidade garantir o acesso às
AMARAL (2002:25), o uso da internet não tecnologias, sendo para isso necessário, tornar as
inverterá a tendência para o abstencionismo por si TIC infra-estruturas indispensáveis ao
só, ou seja, não é através desta ferramenta que desenvolvimento económico e social, como defende
haverá maior proximidade entre cidadãos e classes o presidente da UIT (e-ciência, 2005:16).
políticas, nem se alterará a confiança destes para Todo este processo de mudança de paradigma
com as instituições públicas. Haverá, sim, uma implica, uma eficaz desburocratização, tendo a
redução de relações de autoridade, substituindo-as comissão europeia adoptado uma estratégia,
pelas relações de informação, de forma a criar “uma aprovada em Junho de 2005, com programa i2010,
dinâmica e uma cadeia virtual entre vários parceiros – Information space innovation&investment in
da AP num ambiente de liberdade, diversidade e R&D inclusion, que substituirá o e – europe. Este
igualdade, aumentando a acessibilidade, a programa propõe essencialmente, a convergência de
receptividade e a confiança entre o Estado e os políticas, o aumento de investimento nas TIC, e a
cidadãos” (PEREIRA, 1999:68). Contudo, os promoção de uma sociedade mais informada. Esta
“novos paradigmas de gestão para o sector público, Estratégia terá o do CIP (programa de
bem como os novos desafios e inovações têm competitividade e inovação) (e-ciência, 2005:15),
surgido com a utilização inteligente das TIC na

38
e-Government

que quanto a nós poderá representar uma Ao nível municipal existem alguns problemas
importante mais-valia. na implementação das TIC, principalmente nos
Nesta fase de globalização a economia em rede municípios de menor dimensão pela menor
(network economy) em conjunto com as capacidade de fixar quadros especializados em TIC
tecnologias de informação, revolucionam a forma o que dificulta o processo de adaptação do espaço
de trabalhar e comunicar, que se alargadas ao sector físico e das metodologias de trabalho a estas novas
público possibilitam a sua melhoria em termos de ferramentas. No entanto, no contexto global
eficácia e eficiência. A prestação de serviços PEREIRA (1999:71) refere que “ A situação
públicos vai sofrer uma redução nos custos de Portuguesa está a evoluir muito favoravelmente e
operação., criando um valor na economia, levando resulta sobretudo dos bons resultados já alcançados
igualmente à obtenção de melhorias substanciais na com projectos como o Infocid (http://infocid.pt), os
prestação dos serviços públicos (VECTOR 21, s.d.). impostos (http://www.dgci.min-finanças.pt), o
A avaliação da OCDE quanto à simplificação Diário da Republica (http://www.dr.incm.pt), o
administrativa do Governo electrónico para Parlamento (http://parlamento.pt), etc.” (PEREIRA,
Portugal, constata-se que conforme PEDROSO 1999:71).
(2008:4), desta implementação advirá “ Estimular o O estudo realizado pelos professores Leonel
crescimento económico e a criação de emprego; SANTOS e Luís AMARAL do Departamento de
tornar mais eficiente e eficaz a prestação de Sistemas de Informação da Universidade do Minho,
serviços públicos; garantir que as iniciativas de relativo ao Impacto do Governo Electrónico nas
simplificação se mantêm no centro da atenção e Autarquias Locais (MARTINS, s.d.:8), constatou
objecto de prioridade; melhorar e sistematizar a que “ em Portugal já existem Autarquias locais que
colaboração em todo o sector público; melhorar o dispõem de um elevado nível de sofisticação em
desempenho e utilizar de forma sistémica o termos de governação electrónica, com especial
controlo e avaliação. Em poucos anos, Portugal relevo para a disponibilização de determinados
ultrapassou o desenvolvimento da maioria dos formulários e requisições, mas convenhamos que
países da OCDE na colocação online de serviços esta realidade não tem reflexo expressivo no
públicos. Actualmente Portugal situa-se na terceira panorama geral das nossas Autarquias”, que quando
posição (Dn.sapo.pt, 2009,) no que toca ao comparadas com o Governo Central, verifica-se que
fornecimento online deste tipo de serviços; a OCDE tem uma menor sofisticação.
recomenda ainda que o Simplex seja mais Os benefícios que advém da implementação no
abrangente e promova a interoperabilidade entre âmbito local das TIC situam-se sobretudo ao nível
serviços públicos, bem como a normalização do do relacionamento entre autarquias, munícipes e
tratamento de dados”. empresas, tendo-se melhorado o acesso, a qualidade
Com todas as problemáticas expostas e a prestação de serviços. Na qualidade procura-se
consideramos essencial enfatizar o impacte do uma maior eficácia dos serviços, e na prestação de
Governo electrónico nas Autarquias locais, tendo serviços procura-se uma maior proximidade
como base os cadernos inter face (AMARAL, (MARTINS, s.d.:8).
SANTOS, 2002:8). As estratégias governamentais Em síntese, as autarquias enfrentam hoje
implementadas que já referimos, deixaram de ser desafios de modernização, que proporcionem aos
apenas simples adopções das TIC convertendo-se “ cidadãos e empresas bem-estar social, e ao mesmo
numa peça fundamental no garante da satisfação tempo sejam um motor da economia, quer ao nível
dos cidadãos e da competitividade da nossa global, regional ou local.
economia (AMARAL, SANTOS, 2002:8), no Além do espaço de comunicação com o exterior
entanto, a sua implementação é complexa, existe ainda o espaço que serve de “ligação dos
abrangendo áreas que vão desde as organizações, processos externos e de interface com os processos
tecnologia, processos e pessoas, necessitando de internos da autarquia, que as grandes oportunidades
uma coordenação de âmbito nacional. Iniciativas (e desafios) da modernização das autarquias se
geograficamente dispersas, tem de acatar princípios encontram. Este é o espaço onde o novo mundo da
comuns para permitir a total interoperabilidade. internet entra em confronto com os processos e
(AMARAL, SANTOS, 2002:8) poderes instituídos dentro das autarquias. Este é
O sucesso do e-government não provém espaço onde as exigências dos novos munícipes tem
somente da quantidade e qualidade dos serviços de ser satisfeitas pelas velhas estruturas e processos,
públicos prestados, mas também do uso e este é o espaço onde têm de ser resolvidos os
aproveitamento que os cidadãos lhe conferem problemas de articulação do front- Office com o
(AMARAL, SANTOS, 2002:8), sendo por nós back – Office”(SANTOS e AMARAL, 2002:17).
considerado, que o sucesso desta(s) iniciativa(s) Neste contexto, relativamente ao back- Office a
terá de passar pela adequada exploração desta Comissão Europeia está a desenvolver um projecto
oportunidade. com o information society Technologies, que

39
António Mendes, Miguel Moura, Maria José Vieira e Pedro Pereira

pretende ser uma ferramenta que ajudará nos como as políticas horizontais dirigidas à inovação
serviços electrónicos das AP e dos Estados visando a competitividade e internacionalização das
membros, quanto a back – offices (e-ciência, empresas, as políticas dirigidas à defesa dos direitos
2005:15). dos consumidores e as políticas de regulação dos
Por fim, depois da exposição aqui apresentada, é mercados”.
notório a importância do governo electrónico para o Na modernização administrativa (e-ciência
desenvolvimento do País, pois se os actores 2005:5): a “Agência para a Modernização
envolvidos neste processo retirarem o máximo Administrativa, abreviadamente designada por
partido deste, poderão ser esbatidas disparidades AMA, I. P., tem por missão identificar, desenvolver
existentes ao longo do território. e avaliar programas, projectos e acções de
modernização e de simplificação administrativa e
3. O governo electrónico em Portugal regulatória e promover, coordenar, gerir e avaliar o
Na aldeia global em que vivemos actualmente, a sistema de distribuição de serviços públicos, no
inovação é um dos principais factores de quadro das políticas definidas pelo Governo”, no
competitividade, por isso torna-se essencial inovar número dois deste mesmo artigo na alínea a)
ao nível dos processos, da tecnologia e dos serviços podemos verificar como a AMA, I.P. prevê a
e produtos. O acesso às tecnologias de informação é “Contribuir para a definição das linhas estratégicas
uma forte aposta do governo português para o e das políticas gerais relacionadas com a
desenvolvimento da sociedade portuguesa. Uma administração electrónica, a simplificação
maior aposta nas tecnologias de informação permite administrativa e a distribuição de serviços públicos;
a Portugal a aproximação tecnológica aos restantes b) Propor a criação e dirigir equipas de projecto, de
países, mais desenvolvidos na utilização desta natureza transitória e interdepartamental, para
tecnologia, já que o nosso atraso penaliza o nosso concretização, desenvolvimento e avaliação de
índice de competitividade geral. acções de modernização da Administração Pública,
É desta forma que “O Programa de Governo de simplificação administrativa e regulatória e de
consagra a modernização da Administração Pública avaliação de encargos administrativos da
como um dos instrumentos essenciais da estratégia legislação; e) Mobilizar o potencial das tecnologias
de desenvolvimento do País. Com esse objectivo, de informação e comunicação para apoiar a
no domínio da reorganização estrutural da modernização da Administração Pública,
Administração, o Governo aprovou, através da promovendo a articulação aos níveis central,
Resolução do Conselho de Ministros nº.124/2005, regional e local”. Um país com atraso tecnológico
de 4 de Agosto, o Programa de Reestruturação da penaliza negativamente o seu índice de
Administração Central do Estado, abreviadamente competitividade e deste modo o Programa do
designado por PRACE, tendo como objectivo a Governo para as novas tecnologias pretende
promoção da cidadania, do desenvolvimento desencadear o desenvolvimento económico,
económico e da qualidade dos serviços públicos, generalizando o acesso à Internet e às Tecnologias
com ganhos de eficiência pela simplificação, da Informação e da Comunicação. O objectivo é o
racionalização e automatização, que permitam a uso efectivo da Internet nas actividades educativas,
diminuição do número de serviços e dos recursos a a expansão e acesso da banda larga em todo o
eles afectos. Na sequência da aprovação do território a preços semelhantes aos dos países União
PRACE, a Resolução do Conselho de Ministros Europeia, o lançamento do cartão comum do
n.º.39/2006, de 30 de Março, veio definir as cidadão e a introdução do balcão único nas relações
orientações, gerais e especiais, para a reestruturação do Estado com os cidadãos e as empresas, surgindo
dos ministérios”(Diário da República, 2006), com a assim, os serviços públicos à distância de um clique
reestruturação da Administração Central do Estado como: a Loja do Cidadão, as declarações
pretende-se extinguir a duplicação ou redundância Electrónicas, o Programa Nacional de Compras
de funções, detectar omissões, e formas de Electrónicas, o Passaporte Electrónico Português, o
ineficiência, o que permitirá melhorar a qualidade Portal da Empresa, o Voto Electrónico, o Cartão do
dos serviços prestados. E além disto visa Cidadão e o sistema de certificação electrónica do
desconcentrar serviços pelos níveis regionais e local Estado.
(www.estrategiadelisboa.pt, 2009). O desenvolvimento da Web e a disponibilização
Relativamente á economia e inovação (Diário de serviços on-line nas autarquias são avaliados
da República, 2006):“o Ministério da Economia e segundo 4 níveis de maturidade. Seguindo o
da Inovação é o departamento governamental que modelo de análise eEurope, o nível 1 é o de menor
tem por missão conceber, executar e avaliar as maturidade e o nível 4 de maior maturidade, como
políticas dirigidas às actividades económicas, assim podemos ver na figura seguinte.

40
e-Government

Figura – 1 Níveis de maturidade


Fonte: www.dsi.uminho.pt/gavea

4. O e-government nas autarquias de Guimarães respostas diferem; a autarquia de Guimarães refere:


e da Póvoa de Lanhoso “Acessibilidade, rapidez, transparência,
Com base nas entrevistas realizadas nos proximidade com os cidadãos onde estes podem
municípios de Guimarães e da Póvoa de Lanhoso, intervir”, a autarquia da Póvoa de Lanhoso refere:
podemos constatar pelas respostas, que os níveis de “Que com a visitação regular do site por parte dos
maturidade diferem de concelho para concelho. emigrantes, pretendem transmitir em tempo real,
Neste sentido, perante os níveis de maturidade imagens da vila aos cidadãos. Torna-se notório o
referidos neste trabalho, verificamos que a câmara objectivo de uma maior proximidade entre o
municipal de Guimarães se encontra no nível 3 de cidadão e as autarquias concretizando o desafio de
maturidade, já que permite a interacção entre o desenvolvimento que o programa e-government nos
cidadão e a autarquia, colocando online, serviços e coloca.
formulários e, meios de comunicação nos dois Relativamente às preocupações com a Web
sentidos. Permite ainda a consulta online (para site, Guimarães pretende a disponibilidade desta
cidadãos com password) de processos e licenças. 24h por dia nos 365 dias por ano, enquanto a Povoa
Relativamente á câmara da Póvoa de Lanhoso esta de Lanhoso refere a colocação em funcionamento
encontra-se no nível 2 de maturidade, porque da nova página, já que a actual se encontra inactiva.
disponibiliza formulários na Web da Câmara para Com uma verificação posterior à entrevista, à data
os cidadãos descarregarem, no entanto não permite de 6 de Junho de 2009, verifica-se que já se
a entrega dos mesmos via online, assim como não encontra em funcionamento, no entanto apenas
permite a consulta de processos online (Segundo permite descarregar formulários mantendo desta
consultas efectuadas aos Web sites dos municípios). forma o nível 2 de maturidade. Quanto à recepção
Segundo os dados obtidos, aferimos que de correio electrónico proveniente dos cidadãos, a
Guimarães aderiu mais cedo que a Póvoa de autarquia de Guimarães recebe cerca de 20000
Lanhoso ao governo electrónico, e que enquanto mensagens por mês, onde é feito o seu tratamento e
Guimarães refere modernização a Póvoa de posterior reenvio para o munícipe. Na autarquia da
Lanhoso refere a necessidade de aproximação ao Povoa de Lanhoso foi referida a recepção de correio
cidadão, no entanto a sua colocação no nível 2 de electrónico por parte dos funcionários não existindo
maturidade, indica uma deficiente interacção entre uma contabilização das mensagens recebidas, nem
o cidadão e a autarquia através do e-government, já um tratamento institucional por parte da autarquia
que a autarquia só fornece formulários não os por serem mensagens direccionadas a cada
recebendo por via on-line. Em ambas as autarquias funcionário.
as dificuldades financeiras e a falta de
financiamento por parte do estado têm dificultado a 5. Proposta para nova utilização de e-
infra-estruturação das tecnologias de suporte do government ao nível autárquico
sistema. Perante as vantagens regista-se o mesmo Após o estudo do programa e-government e do
tipo de resposta, maior proximidade ao cidadão, consequente entendimento das suas principais
mas apesar das vantagens o cidadão não usa a Web vantagens, pretendemos realizar uma proposta que
conforme o esperado, a autarquia da Póvoa de possa ser implementada pelas autarquias locais,
Lanhoso refere que as pessoas continuam a preferir devendo ser tido em conta que a proposta terá de
a deslocação a um balcão. Relativamente aos ser ajustada às possibilidades informáticas
objectivos pretendidos criação da Web site as existentes. Só com uma equipa de trabalho com

41
António Mendes, Miguel Moura, Maria José Vieira e Pedro Pereira

especialistas em informática é que esta proposta se suficientemente flexível para servir os interesses
pode tornar exequível, dentro de parâmetros de específicos, e diferenciados, de cada cidadão ou
qualidade e eficácia satisfatórios. Também deverão empresa.
ser considerados os efeitos sociais desta proposta. O grosso da população ainda não está preparado
Esta é, assim, uma proposta genérica que pretende para a utilização corrente das TIC, por isso
constituir apenas uma base inicial de trabalho, a ser achamos que deverão ser implementadas duas
adaptadas às especificidades locais por equipas de medidas essenciais. A primeira consiste na criação
técnicos multidisciplinares. de postos de ligação à central de comunicação,
É objectivo do e-government que a relação sendo que as juntas de freguesia poderão
munícipe–município seja cada vez mais rápida, desempenhar aqui um excelente papel na
transparente e segura. Deste modo, e como ponto de descentralização dos postos, por estarem difundidas
partida, pretendemos que as autarquias deixem de por todo o município e mais próximas dos cidadãos.
prestar serviços de atendimento ao balcão. Toda a Deverá ser um objectivo autárquico a progressiva
comunicação deverá ser feita via internet. Para isso, extinção destes postos de ligação, à medida que a
torna-se necessário que cada autarquia tenha uma população se for adaptando às novas tecnologias. A
central de comunicação de forma a poder receber a segunda medida que consideramos ser
informação, proceder a um primeiro tratamento indispensável é a aposta em formação, voltada para
desta e, finalmente, reencaminhá-la para os serviços uma correcta utilização deste programa. Esta deverá
autárquicos competentes. ser feita nas escolas, tendo como público-alvo as
Todos os serviços municipalizados terão de ser gerações mais novas, assim como em novos cursos
informatizados e estar conectados à central de de formação profissional e nos já existentes.
comunicação, tornando assim desnecessário o Ao nível empresarial, e atendendo aos actuais
relacionamento directo com o utente, mas padrões de gestão exigidos, a comunicação com os
possibilitando-lhe uma resposta rápida, completa e serviços autárquicos deverá passar exclusivamente
transparente. Cada um destes organismos poderá pelas TIC. No entanto, deverá ser tido em conta que
ser autónomo no que respeita aos respectivos em muitos casos as empresas funcionam também
serviços de informação. Por exemplo, o organismo como postos de ligação entre os cidadãos e a
cultural poderá ter a agenda cultural publicada na autarquia, porque ao tratarem de processos dos
internet; no entanto, a compra de bilhetes para clientes estão a estabelecer a ligação
eventos deverá ser efectuada através da central de município/cidadão. Como exemplo desta situação,
comunicação. tem-se o caso de um cidadão que pretende efectuar
Com este tipo de funcionamento, os cidadãos o pagamento de um serviço ao município. Este terá
poderão aceder aos serviços municipais a partir de de comunicar com a central de comunicação, em
qualquer local e a qualquer hora do dia. De facto, seguida a central contacta o departamento de
tendo em conta factores como a dimensão espacial contabilidade que, por sua vez, emite para a central
do município, a dispersão dos aglomerados o valor do custo do serviço, e esta reencaminha a
populacionais, as actividades económicas que nele informação para o utente. Este, através da internet,
se desenvolvam e os horários rígidos de trabalho contacta a sua entidade bancária a fim de dar ordem
poderá ser útil o funcionamento permanente da de pagamento, recebendo, posteriormente, o
central de comunicação. Esta proposta pretende, respectivo comprovativo da autarquia.
assim, desenvolver um sistema de comunicação

Juntas de
Empresas
Freguesia

Entidade
Cidadão
Bancária

Serviços Centrais das Câmaras Municipais

Organismos municipais Contabilidade

Figura 2 – Proposta de comunicação entre cidadão/empresa e autarquia.


Fonte: Elaboração própria.

42
e-Government

Bibliografia
Conclusões
A competitividade económica está cada vez Diário de República (2006) – Modernização da administração
mais dependente das vantagens tecnológicas que pública; Lei nº 201/2006 de 27 de Outubro, DR, 1.ª Série,
cada país poderá deter, e as vantagens de hoje n.º208, pp.7423-7426
E-ciência, (2005) - a revista da ciência, tecnologia e inovação em
amanha podem não ser as mesmas. A
Portugal, pp15
competitividade é cada vez maior, obrigando os GIDDENS, A. (2007) - A Europa na Era Global; Edições
territórios a manterem-se atractivos e actualizados, Presença, pp33-37
necessitando por isso de uma administração pública MARTINS, J., Account manager cap gemini Ernst & Young,
Impacto do governo electrónico na Autarquias Locais,
mais eficiente na rapidez e na qualidade dos
pp8
serviços prestados. Ao longo deste trabalho PEREIRA, L., (s.d.) - A revolução das administrações Públicas
destacamos a importância do e-government como em Portugal e a Nível mundial nos próximos anos, O
uma ferramenta que permite estabelecer novas futuro da Internet, Tilgráfica S.A, pp71
SANTOS. L, e AMARAL, L., (2002), “O e-government local
relações entre a administração pública o cidadão e
em Portugal”, Cadernos inter.face, pp25
as empresas. SANTOS, L., AMARAL, L., (2002),“o e-government local em
É com o sucesso da implementação do Portugal”, Impacto do Governo electrónico nas
programa relativo ao programa tecnológico que a Autarquias locais, pp8
AMARAL, L.(2002), O e-government nos municípios, Cadernos
estratégia de Lisboa pode ser cumprida, colocando
de Economia, pp25
Portugal no mapa tecnológico europeu e mundial. PEDROSO, A., (20008) A Integração de Processos end – to –
Ao longo do trabalho destacamos a importância end, disponível em www.apdsi.pt, (consultado a 10 de
do e-government para o desenvolvimento Maio de 2009, 11:00)
económico e social do país, pretendendo deste
Dn.sapo.pt/2007/09/20/nacional/portugal_tops_egovernment_eur
modo a sua divulgação como forma de potenciar a opeu.html, (consultado a 26 de Março de 2009, 15:30)
sua maior difusão. http://www.estrategiadelisboa.pt/InnerPage.aspx?idCat=581&id
MasterCat=576&idLang=1&idContent=789&idLayout=4
&site=estrategiadelisboa, (consultado a 6 de Maio de
2009, 19:00)
http://infocid.pt (consultado em 5 Maio de 2009, 17:00)
http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Governos/Governos_Cons
titucionais/GC15/Ministerios/PCM/MAPM/Comunicacao/
Outros_Documentos/20030626_MAPM_Doc_Governo_E
lectronico.htm, consulta a 13 de Março de 2008.
http://www.vector21.com/docs/ficheiros/wp – gov. pdf, “o
futuro do serviço público na sociedade de informação”,
consulta a 7 de Maio de 2009

43
I Edição Revista GeoPlanUM, Guimarães, 2010, p.45-53

ALTERAÇÕES DO USO DO SOLO NA SERRA DA CABREIRA, CONCELHO DE


VIEIRA DO MINHO*
Carla Martins**

Resumo Os factores naturais e antrópicos são dinâmicos. Os antrópicos, devido às sucessivas mudanças
políticas, económicas e sócio-culturais do país nas últimas décadas, vão-se alterando a ritmos velozes.
Quanto aos factores naturais, como a dinâmica climática, as características do solo, a tipologia da fauna
e flora, etc., estes têm vindo também a alterar-se, embora a uma escala temporal diferente, bem mais
lenta quando comparada com a escala temporal da mudanças antrópicas anteriormente referidas.
Todas estas dinâmicas podem levar entre outros, a alterações do uso do solo, o que cria novos padrões
de dinâmicas erosivas ao longo do território.
A área de estudo é a serra da Cabreira em Vieira do Minho, localizada a Sul da serra do Gerês com
1262 metros de altitude máxima.
Para um estudo mais eficiente, baseamo-nos na análise das características hipsométrica, demográfica,
climatológica, hidrológica, pedológica, geomorfológica e da ocupação do solo, esta última efectuada
através da análise e comparação de ortofotomapas e Cartas de Ocupação do Solo (COS) (1990 e 2001)
recorrendo para tal à aplicação de Sistemas de Informação Geográfica (SIG), com base na informação
apurada.
Assim, cartografámos e quantificámos as alterações no uso do solo nesse período, as quais podem ser
geradoras de outras alterações no meio físico e no meio social e económico.
Palavras-chave: Serra da Cabreira, uso do solo, evolução, degradação do solo, SIG.

1. Introdução corresponde grosso modo ao sector da Cabreira


O solo é uma componente fundamental da localizado dentro do concelho de Vieira do Minho
biosfera, condicionador de vários agentes e que, tal como a maioria dos concelhos do interior
dinâmicas, como o ciclo hidrológico e funcionando (em comparação com os do litoral de Portugal),
como receptor e redistribuidor de energia solar. É contêm baixos índices de evolução demográfica
suporte da actividade agrícola, origem dos (poucos jovens e muitos idosos, baixos níveis de
indispensáveis recursos alimentares do homem e de natalidade e elevados níveis de mortalidade, etc.),
todos os seres vivos existentes. Assim, dentro desta fraco desenvolvimento infra-estrutural, sócio-
temática, o solo pode ser designado um recurso económico, etc.. Esta realidade conduziu a uma
natural finito, sujeito não só à degradação física, diminuta diversidade e oferta de postos de trabalho,
química e biológica, em resultado de práticas de para além de muitos outros factores relacionados
exploração impróprias, da erosão acelerada e da com os padrões de planeamento e ordenamento do
poluição, como também à devastação definitiva território, conduzindo a uma elevada diversidade
devida à expansão urbana, rodoviária e de outras de usos do solo.
infra-estruturas (Partidário, 1999). Os processos Para melhor percebermos a localização geográfica
erosivos constituem um problema natural, da área de estudo, a Serra da Cabreira integra o
potenciado pelo Homem (devido a desflorestação, conjunto montanhoso do Noroeste de Portugal
práticas agrícolas incorrectas, etc.). Algumas continental, que constitui uma barreira de
antigas civilizações declinaram devido ao condensação às massas de ar húmido vindas de
esgotamento do “seu” solo. Hoje em dia, as Oeste, provocando nesta serra, como consequência,
práticas antrópicas incorrectas continuam totais anuais médios de precipitação superiores a
progressivamente a levar à exaustão do solo, 2500mm, valores estes bastante elevados quando
consciente ou inconscientemente, portanto, e como comparados ao resto do território nacional.
o Homem necessita do solo para a sua Quanto à sua altimetria, este sector conta com
sobrevivência, não conseguindo viver sem um solo cerca de 100m de altitude no seu sector inferior,
fértil, assim, ele deve conservar o mesmo e utiliza- atingindo os 1262m no seu sector culminante,
lo de forma sustentável, utilizando técnicas e apresentando um relevo bastante declivoso (ver
práticas ambientalmente correctas. figura 1).

2. Localização Geográfica da Área de Estudo *Artigo baseado no trabalho (Alterações no uso do


Segundo Pereira (2000) e Bento Gonçalves solo e processos erosivos na Serra da Cabreira,
(2006), podem considerar-se três os sectores nomeadamente no concelho de Vieira do Minho)
pertencentes à Serra da Cabreira: a Cabreira, as realizado na unidade curricular Seminário com
Torrinheiras e a Lomba da Seixa. Repartem-se Relatório de Investigação e orientado pelo Prof.
pelos concelhos de Vieira do Minho, Cabeceiras de Doutor António Vieira.
Basto e Boticas, sendo as suas águas drenadas por **Licenciada em Geografia e Planeamento, Ramo
três bacias hidrográficas diferentes: Cávado, Ave e Desenvolvimento e Ambiente, Mestranda do 2º ano
Douro (por intermédio do Rio Tâmega, seu do Mestrado em Geografia – Planeamento e Gestão
afluente). A área de estudo seleccionada do Território, da Universidade do Minho.

45
Carla Martins

Fig. 1 – Serra da Cabreira especificamente vegetação mista de pinheiro bravo


(Pinus pinaster Aiton.), eucalipto (Eucalyptus
globulus Labill), alguns carvalhos espontâneos e
outras espécies correspondentes à fagossilva
climácia (que é uma grande área biogeográfica
demarcada) (Bento Gonçalves, 2006). Ainda
segundo o mesmo autor, os ritmos de arborização,
na Serra da Cabreira acompanharam ao longo das
últimas décadas, os da evolução nacional. As áreas
com maior concentração de espécies vegetais
espontâneas são as zonas demarcadas por
Perímetros Florestais (analisar figura 2).

Fig. 2 – Carta de Perímetros Florestais localizados


nas imediações e na área de estudo (Serra da
Cabreira dentro do perímetro do concelho de Vieira
do Minho)

Fonte: Instituto do Ambiente

3. Ocupação do Solo
O Noroeste nacional é predominantemente
constituído por rochas graníticas, encontrando-se Fonte: Autoridade Florestal Nacional
progressivamente enrugadas em direcção ao
interior. Apresenta um bioclima temperado hiper- Assim, com base na carta de ocupação do solo
oceânico ou oceânico, maioritariamente (CLC) podemos identificar os principais tipos de
posicionado nos andares termotemperado e ocupação vegetal presente na área em estudo, como
mesotemperado, de ombroclima húmido a hiper- se pode observar na figura 3.
húmido. (J. C. Costa et al., 1998; cit. por Bento
Gonçalves, 2006). A acção do Oceano Atlântico é Fig. 3 – Carta do coberto vegetal da área de estudo
portanto, aqui particularmente importante, pois com base no Corine Land Cover 2000
contribui para a atenuação do calor e secura
estivais e contribui significativamente para a
ocorrência de chuvas abundantes, condições estas
que contribuem para o desenvolvimento das
espécies vegetais autóctones existentes nesta área.
Do ponto de vista geográfico, a área de estudo,
essencialmente as zonas com menor altitude,
caracteriza-se por um povoamento concentrado, em
que as habitações se encontram em estreita relação
com a terra cultivada, imperando a pequena
propriedade, com os campos existentes cercados
por sebes arbóreas ou vinha em ramada. Entre as
espécies vegetais presentes, existem espécies
Fonte: Agência Portuguesa do Ambiente
cultivadas, como o milho, a batata, a couve, o
feijão, a videira, a laranjeira, a macieira, entre
A influência que o clima, o relevo e o tipo de
outras.
solo, exercem nos aspectos do meio físico estende-
Nas encostas, onde os solos são mais pobres e
se igualmente às unidades básicas dos sistemas
menos irrigados, cresce floresta constituída por
paisagísticos, como as florestas e as zonas
folhosas, resinosas, etc., ou seja, mais
agrícolas.

46
Alterações do uso do solo na Serra da Cabreira, Concelho de Vieira do Minho

Segundo a Direcção Geral de Florestas (que existentes, tanto em termos ambientais, acima ou
actualmente corresponde à Autoridade Florestal sob a superfície, como em termos da superfície, ou
Nacional), em 1995 Portugal continental (com seja, as dinâmicas existentes ligadas a estas infra-
cerca de 8 879 000ha) possuía 38% de área estruturas, podem causar instabilidade nos solos
preenchida por floresta, 23% por terrenos incultos, que as rodeiam, provocando por vezes o
2% terrenos improdutivos, 33% agricultura, 3% desencadeamento ou o acelerar de processos
social e 1% preenchida pelas denominadas águas erosivos.
interiores.
No que diz respeito à vegetação, sabe-se que Fig. 4 – Carta de distribuição das vias de
em Portugal as áreas de influência Atlântica são as comunicação (estradas) na área de estudo (2000)
de maior produtividade florestal, determinada
principalmente pela menor duração e intensidade
do período de secura estival. É nestas áreas que
ocorrem as espécies arbóreas mais nobres, como o
Carvalho Alvarinho, e onde, actualmente o
Pinheiro Bravo e o Eucalipto encontram as
melhores condições de crescimento.
O Noroeste português, inserido
estrategicamente no vasto e diversificado território
da Península Ibérica, apresenta condições naturais
excelentes para a arborização, apenas condicionada
em altitude, onde a topografia desfavorável e as
elevadas amplitudes térmicas podem impor
algumas restrições. A vegetação é o elemento Fonte: Instituto do Ambiente
principal da paisagem, sendo um excelente
testemunho das condições orográficas (altitude, 4. Incêndios Florestais
relevo, etc.), hidrográficas e climáticas (amplitude Os incêndios florestais nas últimas décadas na
térmica média, precipitação média, humidade do Serra da Cabreira, tendem para o aumento do
ar, etc.), geológicas (características minerais, do número de ocorrências, embora exista uma grande
solo, etc.) e antrópicas de uma dada região (Bento variabilidade na evolução das áreas ardidas (ver
Gonçalves, 2006). figura 5), tal como em todo o território português
Relativamente à forma de exploração florestal (ver gráfico 1) infelizmente, quer devido a causas
na área em estudo, tal como em todo o país, não naturais, quer, essencialmente a antrópicas (tal
será a mais adequada. No entanto, devido ao como podemos constatar no gráfico 2). Embora
regime de propriedade florestal português ser existam picos de maior e menor intensidade de
essencialmente privado, torna-se complicado ocorrências e de dimensão de área ardida anual, ao
aplicar medidas positivas de exploração florestal. longo das últimas décadas, principalmente nos anos
Assim, o território fica à mercê de utilizações 70, estes poderiam ser muito menos expressivos se
menos apropriadas, que podem levar ao desgaste e fossem tomadas medidas de consciencialização da
ruptura do solo, tornando-o árido. população e se os interesses sócio-económicos não
O facto de este ser um território se sobrepusessem ao interesse de preservar um bem
abundantemente florestado e bastante rico no que tão importante para todos como é a floresta.
toca à porção de linhas de água, deve-se fortemente Assistiu-se assim a uma viragem entre um período
à exposição a agentes geomorfológicos, em que o fogo era parte integrante dos
geográficos e climáticos propícios a tal. ecossistemas, e a actualidade, onde o fogo constitui
Relativamente ao seu reduzido grau de uma séria ameaça ao desenvolvimento e ao
urbanização, deve-se ao facto de pertencer a um ordenamento florestal (Bento Gonçalves, 2006).
concelho distante dos principais centros urbanos. Assim, urge tomar medidas para atenuar os
Em relação às vias de comunicação (ver figura elevados valores de recorrência de incêndios
4), apesar de não serem muito desenvolvidas, estas florestais, ou seja, medidas que diminuam a
são, ainda assim, essenciais para o ocorrência sistemática de incêndios não só na Serra
desenvolvimento da região, sendo o único meio de da Cabreira como em todo o país.
ligação entre esta área e áreas contíguas a esta.
Assim, e tal como referem vários autores, a
dinâmica existente nas estradas, a forma e material
com que é construída, o traçado da mesma no
terreno, entre muitos outros factores, influenciam o
meio natural que as rodeia e as dinâmicas aí

47
Carla Martins

Fig. 5 – Incêndios florestais na área de estudo


(1990 a 2007)

Fig. 6 – Número de ocorrências dos incêndios


florestais na área de estudo
Fonte: Autoridade Florestal Nacional (1996 a 2006)
Fonte: Autoridade Florestal Nacional
Gráfico 1 – Evolução do número de ocorrências de
incêndios florestais (1990-2008), em Portugal Assim, é necessário promover a sensibilização
continental. das populações para esta causa, pois a grande
maioria dos incêndios são causados pelo Homem,
iniciando-se por exemplo em zonas de lazer ou
próximas de vias de comunicação. É também
fundamental tomar medidas de restauração e
reabilitação ecológicas, pois apesar da nossa área
de estudo ser dotada de uma vasta diversidade de
espécies, facto este, favorável à existência de
reduzidos valores de erosão, o número de
espécimes tem vindo a diminuir, não só no
concelho de Vieira do Minho como em todo o
Fonte: Autoridade Florestal Nacional território português, poderá gerar condições para
um aumento do número de ocorrências e
Gráfico 2 – Distribuição percentual das causas intensidade de fenómenos erosivos que levam à
determinadas de ignições (investigadas pelo Corpo degradação dos solos.
Nacional da Guarda Florestal) em Portugal
continental (1993-2003). 5.
Alterações na ocupação do solo (1990-2001)
Assim, dado que na área de estudo existe uma
vasta diversidade de tipos de usos do solo, desde
áreas agrícolas, espaço edificado, floresta, linhas de
água, entre muitos outros, é interessante analisar
mais detalhadamente os usos do solo nesta área,
para melhor percebermos a evolução destes ao
longo dos 11 anos (1990-2001)1.
Com base na Carta de Ocupação do Solo de
1990 (revista em 1995) (ver figura 7), podemos
concluir que este seria então território
Fonte: Bento Gonçalves (2006) maioritariamente constituído por áreas incultas,
que se poderá dever essencialmente a factores
Apesar de existirem consequências positivas na climáticos e a alguns factores antrópicos. Podemos
sequência dos incêndios florestais, imperam as também verificar que existe uma extensa área
consequências negativas, sobretudo quando, como agricultada, na sua grande maioria próximos das
no caso da área em estudo, a recorrência dos linhas da água. Isto dever-se-á ao facto de os
incêndios florestais é muito intensa (ver figura 6). declives contribuírem para a rega naturalmente
disseminada provinda das águas dos cursos de água
e de os solos nestas áreas serem bastante férteis. A

1
Estes possuem datas de execução diferentes, para podermos
executar uma análise comparativa.

48
Alterações do uso do solo na Serra da Cabreira, Concelho de Vieira do Minho

agricultura é, tal como neste caso, habitualmente e solo, ao abandono de áreas agro-pastoris, etc., o
sempre que possível, praticada nas vertentes com que provocou um enorme aumento de áreas
declives mais suaves. incultas, sendo estas as que passam a predominar
Já nesta época (1990) a vegetação arbórea não na área de estudo. Em relação à área edificada, esta
abundava, muito em parte devido aos sucessivos é bastante reduzida, embora, seja ligeiramente
incêndios florestais que eliminam a vegetação superior à existente no passado (em 1990).
arbórea, dando posteriormente lugar Em relação às linhas de água e infra-estrutura
essencialmente a áreas incultas (constituídas viárias (estradas/caminhos), apesar de estas serem
principalmente por solo nu e por vegetação rasteira também factores de ocupação do solo, devido à
(como por exemplo matos)), já que a vegetação fraca informação disponível (por exemplo por
arbórea demora bem mais anos a crescer. Para além imprecisão das datas de execução das vias de
disso, o fogo promove a degradação do solo, facto comunicação), não nos foi possível identificar a
que inibe a manifestação/ desenvolvimento de evolução dos mesmos durante a década em análise,
várias espécies como por exemplo as espécies no entanto sabemos que as alterações são
arbóreas. reduzidas, tanto num caso como noutro.
Relativamente à área edificada, esta tem
proporções bastante reduzidas, facto que se Fig. 8 - Carta de ocupação do solo da área em
justifica por vários motivos: a elevada distância aos estudo (2001)
centros urbanos mais próximos, tratando-se esta de
uma área considerada rural; a baixa densidade
populacional; a fraca industrialização deste
concelho e dos concelhos vizinhos; a morfologia
do terreno, que é bastante acidentada e por isso de
complicada edificabilidade; a existência de uma
vasta área concelhia pertencente a domínios
protegidos à edificabilidade, como por exemplo
áreas de Reserva Ecológica Nacional, Reserva
Agrícola Nacional, Parques Florestais, entre outros,
nos quais a edificabilidade é bastante limitada ou
mesmo inexecutável.

Fig. 7 - Carta de ocupação do solo da área em Fonte: Google Earth


estudo (1990)
No entanto, apesar de alguns dados serem
incompatíveis e de existirem diversas lacunas na
informação, tanto digital como no que respeita à
documentação, durante a execução deste trabalho
tentámos sempre basear-nos na informação que
pensamos ser a mais credível e adequada possível,
assim, apesar de todos estes factos, sabemos que a
ocupação do solo, tanto devido aos incêndios
florestais, como às alterações nos modos de vida e
ao envelhecimento da população, entre outros
factores que levaram ao intenso abandono da
actividade agrícola, pastorícia e silvícola, entre
muitas outras alterações essencialmente antrópicas,
Fonte: Instituto Geográfico Português grande parte do uso e ocupação do solo da área de
estudo, foi alterada entre estes 11 anos em estudo.
No que diz respeito à carta de ocupação do solo É essencial perceber o espaço físico, para um
da área de estudo em 2001 (baseada na observação adequado uso do mesmo, por forma não só a
de ortofotomapas) (ver figura 8), esta, tal como em usufruir plenamente do mesmo, como a não o
1990, possui também uma série de linhas de água, degradar, pensando na sustentabilidade ecológica
rodeada de áreas agrícolas. No entanto, as áreas do mesmo para as gerações vindouras. Assim, a
incultas aumentaram e as de floresta reduziram susceptibilidade e qualidade ambientais estão
substancialmente, muito em parte, devido à acção dependentes de um adequado Ordenamento do
antrópica, através de incêndios florestais Território e utilização dos sistemas produtivos que
provocados consciente ou inconscientemente pelo estruturam a paisagem de uma dada região. Como
Homem, motivado pelos inapropriados usos do tal, o conhecimento dos padrões evolutivos e das

49
Carla Martins

mudanças da ocupação do solo no passado recente Gráfico 3 - Ocupação do solo na área de estudo
são elementos fundamentais no esforço de (1990)
conservação e gestão dos territórios, pois permitem
contextualizar, espacial e cronologicamente, as
interdependências que se estabelecem no presente
entre vários elementos da paisagem. Além disso,
esta dimensão retrospectiva é fundamental para
enquadrar uma análise da biodiversidade e das
heranças culturais presentes que devem ser
preservadas para o futuro. (crf. H. Skanes, 1996; J.
I. B. González, 2002; P. S. Ruiz, 2002; E. Gauché,
2005; cit. por Rui Figueiredo, 2007).
Algumas das causas da mudança dos traços
físicos da paisagem da área de estudo, devem-se
por exemplo, às alterações da estrutura etária da
população, sendo cada vez mais acentuado o
envelhecimento da população, bem como as
profundas alterações nos sectores de actividade,
Fonte: Instituto Geográfico Português
com uma drástica redução do sector primário
(Bento Gonçalves, 2006) sendo cada vez mais
Gráfico 4 - Ocupação do solo na área de estudo,
procuradas as ocupações associadas ao sector de
segundo a informação obtida através da
actividade terciário, deixando o sector primário, ao
vectorização dos elementos presentes nos
abandono (uma das actividades correspondentes a
ortofotomapas (2001)
este sector é a agricultura), facto este que prenuncia
o abandono das áreas agrícolas, o que contribui
para uma mais fácil actuação dos agentes que
levam à degradação dos solos. Tal como podemos
apurar através da análise dos gráficos 3 e 4,
relativos à variação dos tipos de ocupação do solo
na área de estudo, na última década (entre 1990 e
2001), a ocupação agrícola diminuiu cerca de 5%.
No entanto, os tipos de ocupação de solo que
mais diminuíram foram as áreas florestais, com
cerca de 10% menos que em 1990 e, com valores
extremamente elevados, as áreas incultas, com
cerca de mais 13% da área que ocupavam 11 anos
antes. Este facto deve-se em parte à elevada
recorrência dos incêndios florestais nesta área (ver
figura 6), principalmente nos últimos anos. Este
facto merece por isso uma especial atenção pois o Fonte: Google Earth
solo desta área poderá tornar-se bastante vulnerável
e propício à ocorrência de processos erosivos. Este No entanto, para uma melhor interpretação dos
aumento dever-se-á em grande parte ao facto de, dados, analisemos o gráfico 5, no qual podemos
devido à elevada recorrência dos incêndios observar que nos cerca de 160km2 de área de
florestais, o solo perder consecutivamente estudo, as áreas incultas passaram a ocupar mas
nutrientes e qualidades indispensáveis à vegetação cerca de mais 20km2 do total, e as áreas florestais
que naturalmente ocupa estes solos, inibindo-a de reduziram a sua ocupação em cerca de 16km2, pois
voltar a desenvolver-se nestas áreas. Assim, o solo muita desta área passou, devido a factores como os
poderá ficar pobre em nutrientes, fisicamente frágil incêndios florestais, a ser inculta.
e desprotegido, factores que contribuem fortemente
para uma maior propensão à erosão do mesmo.
Quanto à área edificada, apesar de a quantidade
de população residente no concelho de Vieira do
Minho estar a baixar, esta aumentou (ver gráficos 3
e 4), podendo este facto indicar que a propensão à
degradação dos solos também terá aumentado, em
resultado de uma maior intervenção antrópica
sobre o meio.

50
Alterações do uso do solo na Serra da Cabreira, Concelho de Vieira do Minho

Gráfico 5 - Ganhos e perdas de cada um dos tipos de áreas agrícolas, facto que se deve à tipologia do
ocupação do solo na área de estudo (em km2) (de cultivo agrícola, ou seja, como a maioria da
1990 a 2001) culturas são minifúndios (culturas de vários tipos
em parcelas com pequenas dimensões (de 2 a 5ha)
de área cultivada por cada agricultor, existindo
troca sazonal de tipos de cultivo para um melhor
proveito agrícola sem levar o solo à exaustão), a
área agrícola abandonada total não é muito extensa.
No entanto não podemos deixar por isso de dar
valor ao abandono dos campos agrícolas, pois,
apesar de ocorrer em áreas específicas, este facto
continua a ocorrer e continua a contribuir para a
fragilização do solo.
Devemos ter em conta que a área em estudo é
Relativamente à tipologia das alterações dos muito vasta e que as perdas de solo ocorrem de
usos do solo (ver figura 7) e à dimensão das forma difusa e disseminada. Além disso, não
alterações observadas ao longo do período em devemos esquecer que os fenómenos naturais são
estudo, os factos mais relevantes situam-se ao nível contínuos no tempo e no espaço, sendo por isso
da alteração da ocupação florestal para áreas necessário conhecer o passado para, de certa forma,
incultas. poder antever ocorrências futuras.

Fig. 6 - Carta tipologia das alterações dos usos do 6. Degradação do solo


solo entre os anos de 1990 a 2001 na área de estudo A inter-relação entre a degradação do solo e a
alteração do uso do mesmo (em especial no que diz
respeito à intensidade da cobertura vegetal), a
recorrência dos incêndios florestais, as estruturas
antrópicas (edificado, vias de comunicação), entre
muitos outros, é muito intensa, estando uns factos
dependentes de outros.
Em relação ao nível de degradação do solo na
área de estudo, baseados nos vários critérios
apurados e apesar da enorme dificuldade em definir
valores referentes ao grau de fragilização de cada
condicionante física, pois as mesmas não actuam
de forma isolada no meio, interagem umas com as
outras, podendo assim desencadear fenómenos de
erosão do solo. Tentamos, com base em estudos de
Fig. 7 – Transferências entre os cinco tipos de variados autores, escolher as variáveis que nos
ocupação do solo na área de estudo, entre os anos pareceram mais apropriadas ao caso em análise,
de 1990 e 2001 (valores em ha) para assim determinar o nível de degradação
provável para toda a área em estudo. Assim, as
condicionantes físicas tidas em consideração
foram: as infra-estruturas viárias (estradas), os
declives e as exposições, a litologia, a recorrência
dos incêndios florestais e a tipologia da ocupação
do solo.
Apuramos então que as áreas a Norte são
aquelas em que existe maior propensão de
ocorrência de degradação dos solos, por estarem
mais expostas a factores de risco, pois as vertentes
possuem acentuados declives, estando sobretudo
voltadas a Norte e Oeste e assim mais expostas a
ventos fortes, elevados níveis de humidade e por
serem zonas sombrias consequentemente solos
Podemos portanto referir que 314ha (dos cerca mais profundos, factos que estão também ligados à
de 15987ha de área total) de área agrícola passaram elevada recorrência de incêndios florestais. As
a ser áreas incultas, portanto, as populações zonas de cumeada (muitas vezes ocupadas por
Vieirenses não abandonam grandes dimensões de estradões, aceiros, corta-fogos, …) possuem

51
Carla Martins

também elevado risco de ocorrência de degradação tipos de solo imprescindíveis e culturas que nele
dos solos, por estarem intensamente expostas às existem.
condições atmosféricas e por possuírem níveis de O desinteresse dos proprietários sobre a mais
cobertura vegetal muito reduzida (ver figura 9). correcta gestão dos solos, escassez de formação e
É de salientar que as áreas com cobertura informação da maioria dos cidadãos que trabalham
vegetal do tipo arbóreo correspondem com os solos, e a ausência de incentivos à procura
maioritariamente a áreas com reduzida e execução das mesmas (informação e formação),
probabilidade de ocorrência de fenómenos de conduziram lamentavelmente à actual degradação
degradação do solo. dos solos privados e públicos.
Até aos dias de hoje, devido à falta de
Fig. 9 – Carta das áreas com diferentes níveis de legislação específica, utilizou-se a legislação
probabilidade de degradação do solo na área de relativa à REN para tentar minimizar os riscos
estudo naturais de todo o tipo, incluindo riscos de erosão.
Portanto, a erosão e a degradação dos solos é
considerada um problema natural potenciado pelo
Homem, e devemos ter sempre em consideração
que o solo é um recurso natural finito, sujeito não
só à degradação física como química e biológica,
em resultado de práticas de exploração impróprias,
da erosão acelerada, etc. Devendo a gestão do solo
visar a satisfação das necessidades actuais e futuras
da sociedade (agricultura, silvicultura, urbanização,
indústria, turismo e recreio), sem descurar o papel
que os solos desempenham na conservação da
paisagem e da vegetação com interesse científico,
estético, cultural, entre outros. A degradação do
solo pode então originar consequências
Assim, pode concluir-se que é necessário económicas, sociais e ecológicas negativas, logo, é
preservar as áreas com maior cobertura vegetal, necessário conhecer o meio físico e os riscos
promovendo por exemplo a diminuição da existentes para poder prever e prevenir danos
recorrência dos incêndios florestais. É também futuros, diminuindo assim as vulnerabilidades que
necessário promover a reflorestação de áreas com colocam em questão a protecção civil e o ambiente.
risco de degradação do solo mais intenso, e evitar Relativamente às condições sociais, devido à
as alterações de usos do solo, principalmente se a evolução dos hábitos de vida, têm-se vindo a
alteração corresponder ao abandono de áreas verificar desequilíbrios, rupturas e consequentes
agrícolas ou à eliminação/deterioração do coberto problemas ambientais ao longo dos tempos, pois as
vegetal natural. dinâmicas nos meios naturais devidas ao progresso
humano foram moldando os tipos de organização e
7. Conclusão formas de utilização dos solos.
Hoje e cada vez mais, as bases físicas de um Portanto, relativamente às características da
território devem ser potenciadas com vista à área de estudo como pudemos verificar ao longo
procura de resolução das necessidades das deste trabalho, a inter-relação entre a degradação
populações que o habitam. Num momento em que do solo e a alteração do uso do mesmo (em
na montanha portuguesa se observa uma especial no que diz respeito à intensidade da
desagregação dos espaços vividos associada ao cobertura vegetal), a recorrência dos incêndios
envelhecimento e despovoamento dos pequenos florestais, os declives, a exposição das vertentes, o
aglomerados, muito do repensar do tipo de litologia, as infra-estruturas antrópicas
desenvolvimento sustentado para estes sectores (como o edificado e as vias de comunicação), entre
periféricos deve passar pelo seu potencial muitos outros, é intensa.
endógeno (Cordeiro, 1998; cit. por Bento Assim, apesar das debilidades metodológicas
Gonçalves, 2006). deste trabalho, concluímos que no território em
Assim, as marcas da evolução da população ao estudo as áreas a Norte e as áreas de cumeada são
longo dos anos são notáveis e as alterações dos as mais propícias à degradação do solo. Isto dever-
sistemas sociais, económicos e culturais acarretam se-á essencialmente à conjugação de vários
efeitos marcantes nos traços físicos do território, factores condicionantes como declives acentuados,
sendo urgente adequar os usos às potencialidades vertentes voltadas a Norte, facto que as torna mais
do solo, para se evitar a contínua perda de alguns expostas a condições atmosféricas que colaboram
intensamente no processo de deterioração do solo,

52
Alterações do uso do solo na Serra da Cabreira, Concelho de Vieira do Minho

como ventos fortes, elevados níveis de humidade e INSTITUTO DE METEOROLOGIA, “Normais


climatológicas”, Posto Agrário - Braga (1961-1990),
sombra, condicionando assim, também de forma
Lisboa.
negativa o crescimento de vegetação, que por isso e PARTIDÁRIO, M. R. (1999), “Introdução ao Ordenamento do
devido à elevada recorrência de incêndios florestais Território”, Universidade Aberta, Manual nº 177, Lisboa,
nesta zona, é intenso mas com reduzida densidade, 210pp.
PEREIRA, PAULO JORGE SILVA (2000), “Aspectos
deixando o solo desprotegido e mais vulnerável à
Geomorfológicos da vertente Norte do sector culminante
acção dos anteriormente referidos fenómenos da Serra da Cabreira”, Seminário de investigação em
atmosférico que condicionam perniciosamente os Planeamento e Recursos Naturais, Instituto de Ciências
fenómenos erosivos. Relativamente às áreas onde Sociais, Universidade do Minho.
existiram insignificantes alterações dos usos do
Sítios da internet e fontes cartográficas digitais
solo, às áreas com uma cobertura vegetal mais
acentuada e às áreas com menor declividade e com http://www.iambiente.pt/atlas/est/index.jsp?zona=continente&g
vertentes mais soalheiras, podemos referir que são rupo=&tema=c_hipso (acesso em Novembro de 2007)
http://www.igeo.pt/produtos/CEGIG/COS.htm (acesso em
aquelas em que é menos propícia a ocorrência de
Novembro de 2007)
fenómenos de erosão do solo. No entanto, o http://www.igeo.pt/produtos/Inf_cadastral.htm (acesso em
território em estudo é maioritariamente constituído Novembro de 2007)
por áreas com moderado risco de degradação do http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_base_d
ados (acesso em Outubro de 2007)
solo, o que significa que esta é uma área onde
http://www.afn.min-
devem ser tidas em consideração medidas de agricultura.pt/portal/dudf/informacoes/cartografia/
preservação e protecção dos solos, para que estes (acesso em Outubro de 2007)
não percam a qualidade que possuem actualmente. http://www.afn.min-agricultura.pt/portal/gestao-
florestal/regime-florestal/perimetros-florestais (acesso em
Porém, não deve ser esquecido que as formas
Outubro de 2007)
actuais não correspondem a mais do que imagens www.apambiente.pt/divulgacao/informacaogeografica/cartograf
momentâneas, alteradas a todo o instante por ia (acesso em Novembro de 2007)
transformações inevitáveis que muitas vezes se Google Earth (acesso em Novembro de 2007)
apresentam praticamente imperceptíveis à visão
humana.
Em suma, não devemos permitir que a
inteligência humana e o seu avanço tecnológico
levem a interesses que colidam com a harmonia
entre Homem e Natureza, pois o domínio da
Natureza pelo Homem é tentador mas, ela é e
sempre será suprema. Já no século passado Francis
Bacon dizia: “A Natureza para ser comandada deve
ser obedecida! Mas, para ser obedecida, tem que
ser compreendida.”

Bibliografia
BENTO GONÇALVES, A. J. (2006), “Geografia dos incêndios
em espaços silvestres de montanha”, tese de
Doutoramento em Geografia, Braga, Instituto de Ciências
Sociais, Universidade do Minho, 500pp.
CAMPOS, ANTÓNIO JOSÉ TEIXEIRA (1996), “Plano de
Gestão da Área do Perímetro Florestal da Serra da
Cabreira”, Relatório Final do Estágio, Universidade de
Évora, 158pp.
CIASC (2000), “Atlas de Fauna e Flora da Serra da
Cabreira”, Centro de Interpretação e Animação da Serra
da Cabreira, 219 pp.
DAVEAU, SUZANNE (2004), “O relevo de Portugal. Grandes
Unidades Regionais”, Portugal geográfico.
DEVY-VARETA, NICOLE (1993), “A Floresta no Espaço e
no Tempo em Portugal - A arborização da Serra da
Cabreira (1919 - 1975) ”, Dissertação de Doutoramento
em Geografia Humana, Faculdade de Letras da
Universidade do Porto, 459pp.
FIGUEIREDO, RUI FERREIRA (2007), "Integração das
questões geoambientais nos processos de ordenamento
sustentado dos territórios", Territórios e Culturas
Ibéricas II, Iberografias 10, CEI, Campo de Letras, pp.
19-69.

53
I Edição Revista GeoPlanUM, Guimarães, 2010, p.55-62

A VEZEIRA DA RIBEIRA*

Américo Castro, André Lima, José Salgado e Pedro Pereira**

Resumo A pastorícia constitui, nas áreas de montanha, uma prática secular e a Vezeira da Ribeira não é uma
excepção à regra, pois realiza-se há mais de dois séculos na região do Parque Natural da Peneda-Gerês.
Estas tradições rurais tendem a desaparecer, quer devido ao abandono das áreas rurais por parte das
populações mais jovens, quer pelo facto de a criação de gado em regime livre ser um negócio cada vez
menos lucrativo. Apenas sobrevivem graças ao esforço de algumas pessoas que se sentem realizadas pelo
facto de continuarem a fazer com que o costume não seja ultrapassado nem esquecido lutando para manter
um hábito que muitos teimam em ver extinto.
A Vezeira da Ribeira viu-se envolvida, nos últimos anos, numa “batalha” que a opôs à direcção do Parque
Nacional Peneda-Gerês. Este passou a integrar a rede europeia PAN-Parks, e para tal necessitava de cumprir
um conjunto de requisitos obrigatórios, nomeadamente possuir uma área virgem de 10.000 hectares
completamente desprovida de acção humana. A única área possível era a ocupada por esta e outras Vezeiras
da região.
Neste artigo pretendemos expor alguns conceitos necessários à compreensão desta temática, bem como
apresentar a Vezeira da Ribeira, o seu percurso e as suas principais problemáticas.
Palavras-chave: Vezeira, Parque Nacional Peneda-Gerês, Pastorícia.

1. Pastoreio em Áreas de Montanha Geralmente estes permaneciam no interior das


Desde os tempos mais remotos que as brandas, que são a implantação de núcleos
populações das áreas rurais dependem dos habitacionais localizados no cimo da serra para
recursos que o solo lhes dá. O Homem foi-se onde as populações se deslocavam no Verão
adaptando e ultrapassando as dificuldades levando consigo os seus animais para pastarem
apresentadas pelo relevo, recorrendo a diversas durante toda a época estival, realizando, também,
técnicas e sempre a um grande espírito de entre- algumas tarefas agrícolas adaptadas à altitude e ao
ajuda e cooperação. Desta forma, conseguiu clima aí existente nessa época do ano. No restante
elaborar estratégias para a resolução dos seus período do ano para contornar os Invernos
problemas agrícolas e de pastoreio. Este equilíbrio rigorosos as populações desciam com o gado para
foi alcançado com base na sustentabilidade e núcleos habitacionais situados nos vales, local
conservação dos sistemas produtivos que onde passavam toda a época fria. Esta prática é
compunham todo o território serrano. designada de Inverneiras.
As aldeias destas áreas têm uma forte ligação Um outro tipo de movimento do gado em área
com a montanha e, ao longo dos séculos, os seus serrana é a chamada Vezeira, que consiste numa
habitantes foram aprendendo a tirar proveito desta prática comunitária de pastoreio do gado, em que
localização. Assim sendo, a principal actividade cada pastor guarda “à vez” o rebanho de toda a
das aldeias serranas, na maioria dos casos única, aldeia. De acordo com o número de cabeças de
assentava numa agricultura de subsistência gado pertencente a cada agricultor, são-lhe
baseada na produção animal em regime extensivo atribuídos dias de vigilância ao rebanho
e em práticas comunitárias muito fortes. Desta comunitário. Terminados esses dias a tarefa
forma, a complementaridade entre as áreas transita para outro pastor e assim sucessivamente
agrícolas e as áreas serranas são fundamentais até que todos os pastores pertencentes à Vezeira
para a produtividade dos sistemas agrários e para cumpram a sua obrigação de guardar a manada.
a sobrevivência da população. A criação de gado
dependia, fundamentalmente, da produtividade 2. As Vezeiras
das pastagens serranas, visto que o alimento Desde tempos remotos, e ainda na actualidade, a
disponível para o gado nas áreas agrícolas era, na posse de terra e de gado servia de base para a
maioria dos casos, insuficiente para a sua diferenciação social, assim, possuir uma junta de
alimentação ao longo do ano. vacas era um símbolo de riqueza. Considerava-se
As pastagens serranas são compostas
*
sobretudo por áreas de matos e prados naturais ou Artigo baseado no trabalho “A Vezeira da
semi-naturais de montanha e ainda de sub- Ribeira” realizado na Unidade Curricular de
bosques. As que estão localizadas a menor Geografia Física de Portugal II e orientado pelo
altitude suportavam o gado na maior parte do ano, Doutor Bento Gonçalves
sendo que de Maio a meados de Outubro o gado **
Alunos do 3º Ano de Geografia da Universidade
permanecia na serra sob vigilância de pastores. do Minho no ano lectivo de 2008/09

55
Américo Castro, André Lima, José Salgado e Pedro Pereira

que quem possuísse vacas tinha que ter, durante todo o ano, ou então, serem sazonais, isto
obrigatoriamente, recursos para as sustentar. é, realizadas durante um determinado período do
Assim sendo, teria de ser proprietário de um ano, que poderia corresponder a determinada
considerável património, que garantisse a estação do ano ou a épocas de maior trabalho.
pastagem e a produção de feno suficiente para Este método de pastoreio está a desaparecer
alimentar o gado durante o Inverno. Neste aos poucos. Esta situação deve-se,
sentido, e tendo em conta que nem todos fundamentalmente, à desertificação populacional
conseguiam ter gado, as comunidades viam-se destas áreas, provocada pelo aumento da
obrigadas a rentabilizar ao máximo os recursos emigração e imigração, bem como à florestação
disponíveis e a criar estratégias de cooperação de extensas áreas de baldios que tem levado a uma
para aceder aos recursos essenciais, com custos redução drástica das áreas de pastagem. De forma
mínimos, de modo a tornar sustentável a posse de a preservar o crescimento das árvores, passou a
gado mesmo por aqueles que tinham poucos ser proibida a pastorícia, principalmente de
recursos. cabras, nas áreas florestadas.
Em regiões onde existiam imensos Situações como estas têm vindo a fomentar a
constrangimentos, nomeadamente características venda dos animais, tornando progressivamente
físicas do terreno adversas e condições sócio- inviável a realização de vezeiras.
económicas débeis, as populações locais tiveram a
necessidade de responder a estas adversidades de 3. A Vezeira da Ribeira
modo a minimizar os seus esforços e a rentabilizar As freguesias da Vezeira da Ribeira pertencem
a sua actividade. Para tal, entre outras acções, a Vieira do Minho, no entanto, as suas pastagens
organizou o pastoreio de acordo com: o tipo de encontram-se já no concelho vizinho, ou seja, em
animais, a natureza dos pastos, e as condições Terras de Bouro. Esta, em outros tempos, permitia
específicas de cada comunidade. Estas, embora o atravessamento do rio Cávado por parte de
sejam diferentes nos diversos locais, centenas de cabeças de gado, este número, na
correspondem a uma diversidade de esquemas de actualidade, reduziu para dezenas de unidades.
vigilância, que por sua vez correspondem a um Vieira do Minho é um concelho do Norte de
modo de vida que é o silvo pastoril comum. Portugal, em termos administrativos este insere-se
Foi neste âmbito, que apareceram diversas na NUT II – Norte, mais concretamente na NUT
estratégias tais como o “Boi do Povo” e a vezeira. III – Ave. Este concelho é constituído por vinte e
A primeira, o Boi do Povo, consistia na uma freguesias, sendo que, a Vezeira em estudo,
associação dos vários lavradores de uma aldeia serve as freguesias de Louredo, Ventosa e São
para a compra, manutenção e sustento de um ou João da Cova.
mais touros reprodutores. A quantidade destes Como já foi referido, este concelho situa-se na
animais dependia do número de vacas existente na proximidade da serra do Gerês, o que faz com que
povoação. Deste modo, aqueles eram propriedade em termos físicos, herde bastantes características
comum dos diversos lavradores e tinham como deste maciço. É, deste modo, um concelho que
principal função a reprodução. Por norma, a ainda apresenta algum relevo granítico.
manutenção do Boi estava a cargo do conjunto de Trata-se de um concelho bastante rural, que
lavradores, utilizando, entre eles, um sistema de apresenta uma população muito tradicional e algo
rotatividade, em que cada um ficava com o animal dependente da agricultura. Em tempos, a
por um período de tempo proporcional à agricultura constituía fonte de rendimento e era
quantidade de vacas que possuía. indispensável para a sobrevivência destas
A segunda estratégia, a vezeira, é uma velha populações. Assim, as actividades agro-pastoris
prática comunitária de pastoreio em que num só eram parte integrante do dia-a-dia das populações
rebanho, ou manada, se juntam as cabeças de locais. Deste modo, grande parte das famílias
gado de 10, 15, 20 ou mais proprietários (Santos destas freguesias viviam dependendo da terra e do
Júnior, 1980:422). Estas manadas comuns eram gado, que constituía, em simultâneo, fonte de
levadas para as pastagens pelos diversos riqueza e de alimento. Estes estabelecem os dois
proprietários, num sistema rotativo sempre de pilares que garantem a reprodução socio-
acordo com o número de cabeças que cada um económica da população local (Taborda,
possuía. Assim sendo, o número de dias 1932:131). Assim, a criação de gado assumiu um
atribuídos a cada proprietário variava de aldeia papel preponderante nas regiões de montanha,
para aldeia, dependendo, principalmente, do terras onde as condições extremas,
tamanho e da quantidade de manadas existentes. nomeadamente, o rigor do clima e os solos muito
Deste modo, poderia ser estabelecido que cada fracos tornaram difícil a vida da população. Neste
proprietário teria de efectuar um dia de vezeira, sentido, podemos dizer que, desde tempos
por cada cabeça de gado, ou então, um dia por remotos, a agricultura tem andado de mãos dadas
cada cinco ou dez animais. Estas Vezeiras podiam com a pastorícia.
ser permanentes, ou seja efectuadas diariamente

56
A Vezeira da Ribeira

Será, ainda, pertinente referir que nesta área vai estimular o turismo local, atraindo
predomina o gado bovino, nomeadamente de raça provavelmente turistas estrangeiros para a região,
Barrosã, no entanto, também se verifica a por outro pode-se perder uma tradição ancestral,
presença de algumas espécies caprinas e, muito que representa a cultura agrícola local e que
raramente, ovinos Bordaleira. Uma outra espécie poderá ser considerada uma perda da identidade
que se tornara uma importante fonte de regional.
rendimentos para os agricultores locais é o
Garrano (equinos). Este encontra-se no Gerês, no Figura 1 – Enquadramento Geográfico da área em
entanto, já fora da área em estudo. Estes animais estudo.
são muito importantes, quer pelo seu desempenho
em trabalhos agrícolas, pela adubação e
fertilização dos solos, quer enquanto produtores
de carne para consumo próprio ou para venda.
Como é evidente, um factor muito importante
para a criação destas espécies é a existência de
pastos naturais muito ricos, denominados de
lameiros.
A Vezeira da Ribeira pode ser observada no
concelho de Vieira do Minho, e em tempos, servia
a população de cinco freguesias, no entanto, e
como já foi referido anteriormente, actualmente
limita-se às freguesias de Louredo, Ventosa e São
João da Cova. Estas são freguesias ribeirinhas do
rio Cávado, encontrando-se, todas elas, na
margem esquerda do mesmo. Têm uma densidade
populacional muito baixa (Louredo, Cova e
Ventosa com respectivamente 0,63; 0,76 e 0,94
hab/ha), tal como as restantes freguesias do
Concelho de Vieira do Minho, que varia dos 0,17
(Campos) aos 3,18 (Vieira do Minho) hab/ha. Fonte: Worldwide shaded relief by ESRI using
Neste caso concreto, a vezeira consiste na GTOPO30, SRTM, and NED elevation data from
travessia e subida do gado para a Serra do Gerês. the USGS
Esta é uma tradição que integra a vida
comunitária da região há mais de duzentos anos. Ao longo do percurso desta vezeira existem
Esta vezeira consiste na passagem do gado pela pequenas “cabanas”, apelidadas de Fornos, que
barragem da Caniçada, através de uma barcaça, estão disponíveis para os vezeiros pernoitarem
saindo da freguesia de Louredo, do concelho de enquanto acompanham o gado na subida. Podem
Vieira do Minho, para o lugar da Ermida no integrar esta vezeira homens ou mulheres com
concelho de Terras de Bouro. Depois da travessia idade superior a dezasseis anos.
da albufeira, o gado sobe para a Serra do Gerês As vezeiras nas últimas décadas têm sido
onde vai pastar durante os três meses seguintes. bastante afectadas com o êxodo rural, as
A Vezeira da Ribeira e outras existentes no populações em busca de melhores condições de
Parque Nacional da Peneda-Gerês, encontram-se vida têm sido forçadas a abandonar estas
envoltas numa problemática, pois os responsáveis freguesias mais remotas. A indústria é
pelo parque pretendem acabar com tudo o que praticamente inexistente nestes locais e a
seja brandas e vezeiras, isto porque pretende agricultura apenas é utilizada na sua vertente de
aderir à rede PAN-Parks, uma rede que junta os subsistência. Os poucos habitantes que continuam
principais parques naturais europeus. Para a viver nesta zona têm os seus empregos nas
alcançar este objectivo aquele parque tem de cidades mais próximas, Braga, Póvoa de Lanhoso
possuir no mínimo 10.000 ha de área sem e Vieira do Minho e por isso encaram a
qualquer intervenção humana, ou seja, uma área agricultura como uma segunda actividade. Para
completamente virgem em que não se verifique além de serem menos os habitantes, os actuais
qualquer actividade humana. Nesta questão reside proprietários de gado possuem menos cabeças que
a maior preocupação, pois dentro desta área de noutras décadas, dada a dificuldade que existe em
protecção total existem terrenos comunitários que tratar dos animais.
pertencem aos baldios e às vezeiras de gado. Actualmente a Vezeiras da Ribeira conta com
Pelo exposto, podemos dizer que esta 16 sócios proprietários e um total de 23 cabeças
problemática se apresenta como um pau de dois de bovinos, na sua maioria de raça Barrosã e
bicos. Pois, se por um lado se pode perder a Galega. Em Junho e em Setembro, desde há
oportunidade de aderir a uma rede europeia que longos anos, acontece o ritual da vezeira, o gado é

57
Américo Castro, André Lima, José Salgado e Pedro Pereira

então transportado de canoa (Barcaça) para a contagiar outros animais, ou impossibilite o seu
outra margem da barragem (a barragem foi desempenho neste período de pasto livre.
construída em meados do séc. XX, antes disso o Como já foi referido o pastor da vezeira
gado atravessava o rio a pé ou a nado) e de assume o cargo de forma rotativa, tendo de ser
seguida é levado até ao topo da montanha onde avisado com uma antecedência de três dias para ir
vai passar três meses no pastoreio. Neste período guardar a vezeira. Uma vez ao serviço não pode
estival, os proprietários, cada um pela sua vez, abandonar o gado sem justa causa. Este deve
terão de vigiar o gado e garantir a sua segurança e pernoitar junto do local onde está o gado, pois
pasto. caso falte algum bovino será da sua inteira
Nas zonas mais elevadas encontram-se alguns responsabilidade. Se por ventura algum animal
prados que conservam o alimento durante o adoeça, o pastor tem o dever de avisar o juiz, pois
período de maior calor e seca, graças à riqueza do fica ao encargo da sociedade as despesas de
seu solo e abundância de água. Na sua passagem e transporte, veterinário e medicamentos.
estadia pela Serra o gado alimenta-se, Devido ao desconhecimento, por parte de
essencialmente, de fenos e ervas dos prados, autarquias e entidades, da existência da vezeira,
assim como, matos como a urze que se encontram esta não tem qualquer tipo de ajuda por parte de
entre as rochas das encostas. Os prados, para além alguma delas. Assim, já há anos que se tenta
do alimento, disponibilizam as poucas sombras angariar fundos para o restauro dos Fornos, de
para os dias mais quentes e abrigos nas noites modo a permitir melhores condições de pernoita,
mais frias, assim como a água. Depois da potenciando, de certa forma, este acto como uma
passagem para as zonas altas da Serra do Gerês, possível rota turística. No entanto, existe um
os bovinos de diferentes proprietários pastam, em entrave ao turismo que é o facto de alguns destes
conjunto, entre Junho e Setembro, altura em que Fornos estarem em áreas protegidas.
descem novamente as montanhas e regressam ao Todos os anos a vezeira parte com grandes
concelho de Vieira do Minho. festejos e juntam grandes multidões que se
A Vezeira da Ribeira é regida por normas que deslocam aquele local para assistir a uma tradição
ditam direitos e obrigações dos sócios, esta é que já é rara e está cada vez mais em perigo de
chefiada por um Juiz, na actualidade pelo Sr. extinção. No dia da subida da vezeira há convívio
António Campos, cujo cargo é renovado entre a população em geral, que sobe juntamente
anualmente através de eleições que são realizadas com aquela, levando couves, feijões e carne,
no dia do chamado. Como nos foi explicado pelo essencialmente de porco, para confeccionar o
Juiz, (…) em tempos, era tudo muito mais rígido e típico prato desta vezeira “Feijões com couves”.
seguido. Hoje em dia o cargo de Juiz já não é
tanto uma honra, mas mais um encargo de Foto 1: Barcaça da Vezeira da Ribeira
grandes responsabilidades e que não dá qualquer
lucro (…).
Todos os anos, há dois “chamados”, um antes
da subida da vezeira, no penúltimo domingo de
Maio, e a outra antes da descida da vezeira, no
penúltimo domingo de Agosto. Nesse momento
todos os sócios devem estar presentes, pelas 14
horas no lugar de Costarela (local de chamada),
ou fazer-se representar por uma pessoa maior de
idade. Como já foi referido, embora já tivessem
tido um maior número, actualmente, esta
sociedade tem cerca de 16 sócios que pagam uma
cota de 25€ por ano. O “chamado”, que se realiza
junto a um carvalho monumental, ainda se efectua Fonte: Própria
como antigamente. Neste “chamado” ainda existe
a tradição oral, ou seja, as questões são resolvidas Após a partida, a Vezeira da Ribeira terá
na base da palavra, que funciona como uma pastagens em comum com outras vezeiras, no
espécie de escritura. É neste encontro que, entre entanto, duas vezeiras nunca podem estar no
outras coisas, se realiza a eleição de um novo Juiz mesmo lugar e ao mesmo tempo. Em tempos idos,
e de dois Vogais. antes da construção da Barragem da Caniçada, os
Esta sociedade pode levar o gado, para a Serra animais conseguiam atravessar o rio a pé ou a
do Gerês, a partir de 1 de Junho a 8 de Setembro. nado. Com a sua construção, em meados do
Cada sócio é livre de levar as cabeças de gado que Século XX, para realizar esta passagem, foi
quiser, no entanto, estas são previamente disponibilizada uma Barcaça que leva entre 8 e 10
examinados para ver se estão bem de saúde e não cabeças de gado. Actualmente, com o número de
têm qualquer tipo de doença com que possam

58
A Vezeira da Ribeira

espécimes que a vezeira possui, não é necessário centenas para, na actualidade, possuir apenas duas
realizar-se mais do que duas travessias. dezenas. No que diz respeito à alimentação do
A vezeira parte cerca das 7 horas da freguesia gado, este ingere essencialmente erva, no entanto,
de Louredo para o lugar da Ermida em Terras do quando esta escasseia, alimenta-se também de
Bouro, acompanhada dos seus proprietários. Urzes. Não obstante este facto, e ao contrário das
Geralmente, entre as cabeças de gado, apenas cabras e das ovelhas, as vacas são mais selectivas
sobe um boi reprodutor, qualquer outro macho no que diz respeito à alimentação determinando e
que acompanhe a manada é castrado, deste modo limitando assim a escolha dos pastos.
evitam-se conflitos entre eles. É de salientar que A Vezeira da Ribeira estende-se numa área de
este é então o chamado “Boi do Povo”, que cerca de 1100 hectares e cujo perímetro é de,
quando a vezeira se encontra nos baixos pastos, aproximadamente, 12 km. Actualmente, 23
nos estábulos dos respectivos donos, vai cabeças de gado compõe esta vezeira, sendo que,
circulando de forma rotativa por cada casa. O no decorrente ano, subiram, numa fase inicial, 21,
número de dias que permanece em cada e posteriormente juntaram-se-lhes mais duas. No
proprietário é proporcional ao número de vacas entanto, segundo o juiz António Campos, a
que cada um possui. dimensão da manada subiu este ano em
Esta tradição permanece viva muito graças à comparação com o ano anterior. No entanto nada
vontade e empenho dos donos dos animais, que que se compare com o passado em que o número
continuam a fazer valer o direito ancestral do uso era muito superior. Este ano a Vezeira da Ribeira
das zonas de pasto na serra. Ao mesmo tempo, é a aumentou o seu número de sócios, tendo
prova que estas localidades ainda mantêm em uso actualmente um total de dezasseis associados.
algumas das actividades do sector primário, Antes de apresentarmos o percurso desta
actividades que são forte expressão da ruralidade vezeira consideramos pertinente a exposição de
e tipicidade desta região minhota. determinados conceitos relativos a esta temática e
que podem ajudar na compreensão da mesma.
4. Percurso da Vezeira da Ribeira Assim, podemos dizer que um Forno é um
O percurso que é realizado pelos pastores e abrigo, muitas vezes rudimentar, que permite a
respectivo gado, quando efectuam a subida da pernoita do pastor no local, junto ao curral.
vezeira, como é evidente, é realizado em várias
etapas, nas quais os pastores vão deixando o gado
nas diferentes pastagens do percurso, Foto 2: Forno da Giesteira
denominadas de Currais. Quando o pasto deixa de
ter alimento, o pastor desloca consecutivamente a
manada para a pastagem seguinte durante toda a
época estival, até que, no fim desta, voltam a
descer o gado dos pastos em altitude para
permanecerem durante o Inverno nos pastos mais
baixos, junto às aldeias. Como já foi referido,
actualmente, nesta vezeira cada pastor guarda a
manada por um número de dias correspondente ao
dobro do número de cabeças de gado que possui.
Quando termina o seu período de guarda, este
entrega a manada ao pastor seguinte, no curral
correspondente à sua posição. Neste momento o
pastor tem de, obrigatoriamente, ter reunido todas
as cabeças de gado no respectivo curral para que
se realize, na presença dos dois pastores, a
contagem dos animais. A referida troca de pastor,
é sempre realizada ao pôr-do-sol. Ao passar o
testemunho, o novo pastor encarregue pelo gado
conta-o, verifica-o e, consequentemente, torna-se
responsável por ele até à próxima troca.
Nesta vezeira encontramos, essencialmente,
gado bovinos da raça Barrosã, e embora em
menor proporção, bovinos da raça Minhota ou
Galega, verifica-se ainda a existência de alguns
caprinos.
Fonte: Própria
Nas últimas décadas, o número de cabeças de
gado desta vezeira tem vindo a diminuir
drasticamente, passando de números da ordem das

59
Américo Castro, André Lima, José Salgado e Pedro Pereira

Foto 3: Interior do Forno da Giesteira casos infiltram água. Facto que se deve,
essencialmente, a uma inexistente manutenção dos
mesmos nos últimos tempos.

Foto5: Mariola

Fonte: Própria

Um Curral é uma área de pasto, mais ou menos


plana, que permite o agrupamento da manada.

Foto 4: Curral da Giesteira

Fonte: Própria

Fonte: Própria Podemos, ainda, referir que se verifica a


existência de dois tipos de Currais, os principais
Uma mariola é um pequeno amontoado de em que se observa sempre a presença de um
pedras sobrepostas, que têm por finalidade pequeno abrigo, denominado de Forno, para o
sinalizar o caminho pelo meio da serra, assim, nos pastor passar a noite e de um ponto de água. As
dias de nevoeiro os pastores guiam-se por estas de restantes são apenas locais de pastagem, em que o
modo a não se perderem, na imagem que se segue pastor deixa o gado e vai passar a noite no forno
podemos observar uma destas mariolas. mais próximo do curral.
Relativamente ao percurso, antigamente os Consideramos que é notória uma certa
primeiros pontos de paragem eram na Ermida, no rivalidade entre determinadas vezeiras, no sentido
entanto, devido ao menor uso e número reduzido que, foram notadas diversas atitudes, por parte dos
de cabeças de gado que a vezeira apresenta seus protagonistas, que denunciavam aquilo que
actualmente, estes já não são utilizados. Assim poderíamos considerar um certo bairrismo. A
sendo, o primeiro ponto a ser utilizado título de exemplo, observamos em determinados
presentemente é a Giesteira, que se encontra um locais gravações que ostentavam o nome da
pouco acima da cascata do Arado. Assim, vezeira junto aos abrigos, e quando tal acontecia
verifica-se que na actualidade determinados estavam sempre gravados ambos os nomes, como
pontos, ou por terem menor interesse, ou por se defendessem a posse do local.
serem de mais difícil ou perigoso acesso, são Segundo o Sr. António Campos, actual Juiz da
abandonados em detrimento de outros que, pelos vezeira, a Vezeira da Ribeira é mais antiga do que
motivos anteriormente referidos, vão sendo a vizinha Vezeira da Ermida e por isso, sempre
suficientes para as necessidades actuais. que estas tenham pastos comuns, à chegada da
Não esquecendo o declínio que esta prática Vezeira da Ribeira a Vezeira da Ermida tem de
vive actualmente, é de destacar, a existência de abandonar o local, prevalecendo, assim, um
pastores que passam a noite em altitude com o princípio de antiguidade.
rebanho. Acto, cada vez mais digno de respeito, No que diz respeito às diferentes paragens,
quando se tem em consideração que as condições este percurso divide-se em vários currais, cada um
de albergue não são as melhores, pois actualmente deles possui um forno, ou seja, um espaço com
a maioria dos Fornos onde os pastores pernoitam mais ou menos condições que permite aos
apresentam-se num estado degradado, em certos pastores pernoitarem nos altos pastos, e um ponto

60
A Vezeira da Ribeira

de água. Este percurso serve as freguesias


anteriormente referidas e inicia a sua subida para
os altos pastos num local, a que chamamos de
Barcaça, pelo facto de se efectuar a travessia do
rio numa barcaça, cedida pela EDP quando se
efectuou a construção da barragem, como já foi Figura 2: Enquadramento e percurso da Vezeira
referido nos capítulos anteriores.
Na Figura 2 podemos observar os diferentes
percursos existentes, a linha amarela repesenta o
trajecto aproximado entre a Barcaça e o início dos
percurso de altitude. Representamos esta parte do
percurso de cor diferente porque não foi realizada
pelo grupo. A vermelho temos os percursos de
altitude que foram registados atraves de marcação
GPS. Podemos, deste modo, ter uma percepção
das distâncias percorridas pelos pastores e pelas
suas manadas, deslocamento que é realizado a pé
por zonas que, em certos casos, oferencem
precárias condições de progressão.
Assim, como é possivel observar, o gado
pertence as freguesias da margem Sul do rio. No
dia da subida os diferentes proprietários reunem-
se junto à Barcaça para a travessia do rio. De
seguida inicia-se a ascensão para os pastos de
altitude, numa caminhada de cerca de quatro
horas até chegar a uma zona central, denominado
de Tribela, em que os percursos se dividem. A
partir deste ponto existe varias opções possíveis,
que podemos apresentar em três percursos
alternativos. Um primeiro que junta os pastos da
Tribela à Giesteira e Malhadoura. Um segundo
que parte da Tribela para Pinhô, seguindo para
Entre Águas e Conho. Por último, um terceiro que
parte na mesma de Pinhô, mas desta vez em
direcção a Pousada e Bicos Altos. Existem ainda
mais dois pequenos percursos que ligam a Tribela
ao pasto da Corriscada e outro à pastagem de
Viseu. Em tempos passados, em que as manadas
eram de maiores dimensões, os pastos faziam-se
poucos e, por isso, os pastores eram obrigados a
percorrer a totalidade dos percursos durante a
epoca estival. Actualmente, tendo em conta o
número reduzido de cabeças de gado que formam
as manadas estes percursos são usados de forma
alternada de ano para ano.
Na Figura 3 podemos observar os diferentes
percursos e os diferentes currais anteriormente
referidos. É possivel também verificar uma
orientação generalizada para Norte em direcção às Fonte: Worldwide shaded relief by ESRI using
cotas mais elevadas e uma progressão dos GTOPO30, SRTM, and NED elevation data
percursos da Vezeira da Ribeira ao longo dos from the USGS; Google Earth.
vales de altitude que apresentam entre si um certo
paralelismo, talvés devido à existência de
fracturas presentes neste maciço granítico. A
deslocação da Vezeira é sempre realizada num
sentido ascendente e circundados pelos cimos
deste Maciço.

61
Américo Castro, André Lima, José Salgado e Pedro Pereira

Figura 3: Localização dos Fornos e percursos de para fins turísticos que poderia tornar rentável
altitude uma prática centenária que já há muito deixou de
o ser.

Bibliografia

CARVALHO, E. (2006). Lima Internacional: Paisagens e


Espaços de Fronteira, Vol. 1; Tese de Doutoramento em
Geografia, Ramo de Geografia Humana. Universidade
do Minho.
GONÇALVES, A. BENTO (2006). Geografia dos Incêndios em
Espaços Silvestres de Montanha – Caso da Serra da
Cabreira. Tese de Doutoramento em Geografia, Ramo
de Geografia Física e Estudos Ambientais. Faculdades
de Letras, Universidade de Coimbra.
MEDEIROS, A. C. (2000). Geografia de Portugal, Ambiente
Fonte: Google Earth Natural e Ocupação Humana, Uma Introdução. (5.ª
edição). Lisboa: Editorial Estampa.
Notas conclusivas VIEIRA, L. J., (2004). Raça Bovina Cachena, Associação de
Criadores da Raça Cachena. II Jornadas Técnicas de
Em termos de conclusão podemos dizer que a Raças Bovinas Autóctones, 5 e 6 de Maio de 2004.
vezeira ou “pastoreio à vez” é uma forma de Escola Superior Agrária – Castelo Branco
criação de gado, assente em fortes ligações CASTRO et al (2009). A Vezeira da Ribeira. Departamento de
comunitárias que persistem na região, rompendo o Geografia. Universidade do Minho., Guimarães.
Gravações Áudio efectuadas pelo Grupo na entrevista com o
individualismo reinante nas sociedades de Juiz da Vezeira.
consumo cosmopolitas. Estas representam Jornal de Noticias; 2 de Janeiro de 2009. Novo plano do Gerês
tradições agrícolas cuja dimensão cultural poderia restringe pastorícia.
ser comparada a outras práticas como por Jornal de Noticias; 19 de Janeiro de 2009. Residentes recusam
fim de pastagens e da caça.
exemplo o Boi do Povo, as Inverneiras, as
Brandas e outras. São práticas que estão a entrar
em desuso quer pelo facto de se verificar nas
últimas décadas uma grande desertificação
populacional das áreas rurais levando, deste
modo, à diminuição da mão de obra disponível e
por isso ao abandono das práticas agrícolas.
Também podemos referir como causa a falta de
rentabilidade económica que está ligada à
agricultura tradicional dos nossos dias. Assim,
podemos dizer que estas práticas sobrevivem pela
insistência de um punhado de Homens que lutam,
com o seu arduo trabalho, pela sobrevivência
destas práticas ancestrais que forgam o nosso
passado e as nossas raízes e que são parte
integrante de uma cultura típica das zonas
serranas.
Este abandono conduz a uma outra
problemática que se discute muito na actualidade
e que se relaciona com o desenvolvimento de
diversos problemas das nossas áreas montanhosas,
nomeadamente, os incêndios florestais. Assim,
podemos dizer que o abandono destas práticas
leva também a uma redução da protecção e da
vigilância natural, pois, as serras “habitadas”
tinham uma vigilância permanente realizada pelos
locais. Já sem referir a questão das limpezas das
matas realizadas pelos gado durante a pastagem e,
também, pelos pastores que as efectuavam para
permitir uma mais fácil utilização dos espaços.
É evidente que estas problemáticas não
afectam apenas a Vezeira da Ribeira mas sim todo
tipo de práticas agrícolas similares. Consideramos
que talvez fosse pertinente um maior apoio por
parte das autarquias e até o seu aproveitamento

62