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SOBRE EDUCAR, ENSINAR E APRENDER ARTE

No momento em que é publicada uma alteração da LDB tornando obrigatório o ensino de arte
na educação básica no Brasil, sinto-me compelido a tocar num problema que já há algum
tempo circula entre arte-educadores com quem converso.
O ensino de arte na maioria das escolas pelo que tenho observado, tanto nos cursos de
formação continuada de professores ou no relato das práticas dos estudantes de pedagogia que
já atuam na educação básica com quem mantenho contato, tem oscilado entre dois pólos: ou
adota-se as concepções chamadas idealistas, da livre expressão às suas extensões tecnicistas,
ou adota-se a tendência mais recente de valorização da cultura chic, todas elas centradas na
figura do professor, sem que se valorize o aspecto relacional entre adultos e jovens e que leve
em consideração, nesta relação, as dimensões subjetivas e a experiência cultural vivida tanto
dos estudantes como dos professores de arte.
As concepções de arte na educação de que falamos, genericamente, produziram práticas que
alojam uma dicotomia entre o educar e o ensinar, entre o ensinar e o aprender, abrigando
fissuras, muitas vezes abismos, entre a expressão artística pessoal, o estudo de referências
culturais e o estudo das linguagens. Ainda vemos em sala de aula de muitas escolas, no
trabalho com artes visuais práticas que fazem uso mecânico da cópia, sem que se saiba o quê
e para quê está se copiando; a livre expressão sem que haja a interlocução professor-estudante
no processo de trabalho; e a pesquisa sobre elementos da cultura visual, sem que
minimamente se leve em consideração a identificação individual do estudante com os
conteúdos visuais pesquisados para não dizer dos fatos da própria experiência pessoal. O
triângulo está fendido, três pontos de apoio sem conexão.
Até as nomenclaturas que conceituam as diferentes abordagens de arte na educação, traduzem
os diversos compartimentos que pouco se comunicam e, por vezes, se antagonizam: Educação
através da arte, Arte-educação, Ensino de arte. Opto por não tentar definir cada uma dessas
concepções, tarefa para historiadores da educação, mas tentar refletir sobre os conceitos mais
gerais de educação e ensino no âmbito da arte, justamente para pensar as suas inter-relações e
implicações para o adolescente e o jovem.
Com estas observações até aqui fico a imaginar por que em muitas salas de aula os adultos
não estão reconhecendo o papel de sua geração em relação às novas que vem chegando. Há
mais de dez anos, os Parâmetros Curriculares Nacionais já apontavam o grande descompasso
entre o conhecimento disponível sobre a criação artística da criança e do adolescente, sobre o
ensino em Artes Visuais e o que realmente se pratica nas escolas. O ensino das artes visuais é
o que historicamente está mais que todas as outras linguagens da arte, há mais tempo nos
currículos oficiais e, apesar disso, não temos sido capazes praticá-lo ultrapassando velhas
idéias e concepções arcaicas.
Um dos tópicos que pode ser levado em consideração para estas reflexões, está na própria
natureza da arte e na forma como ela é compreendida na escola. Embora a arte seja algo de
difícil definição, por que seu significado varia em função das características de diferentes
épocas e grupos sociais, ela esta localizada no espaço de intersecção entre o indivíduo e o
grupo, entre o que é particular e que é comum: a arte engloba e articula de maneira complexa
o aspecto subjetivo e o cultural. O problema é que, quando a arte torna-se uma disciplina
escolar, a cisão entre estas duas dimensões fica evidente, refletindo, de resto, a dicotomia da
sociedade contemporânea entre corpo e mente, razão e sensibilidade, educação e cultura.
Educar a sensibilidade, ensinar a cultura e dar voz ao cidadão são faces que se completam.
Urge renovar para não reproduzir.
O termo renovar tem o sentido tanto de fazer novamente como de fazer diferente, ou seja,
possibilitar ao estudante construir significados para a sua experiência a partir do
conhecimento acumulado pelas gerações anteriores, mas com a possibilidade de fazer-se
outro, mesmo que isso não signifique transformar a sociedade ou reformar a humanidade, mas
como exercício do seu direito de fazer escolhas dentro dos limites da sua própria vida. Esta
tarefa exigirá, certamente, coragem do jovem e generosidade do adulto.

SOBRE CORAGEM E GENEROSIDADE

Há uma sequência cinematográfica, parte da obra Andrei Rublev do cineasta russo Andrei
Tarkovski, que já foi objeto de diversas interpretações nas discussões sobre o significado da
arte , mas interessa-me aqui como metáfora para me ajudar a refletir. Segue a história:
Numa terra arrasada pela guerra, na Rússia do século XV, um jovem é convidado pelo senhor
do reino a realizar a fundição de um sino, pois era este o ofício de seu pai que então jazia
morto pela peste. O jovem dizendo saber todos os segredos da fundição, aceita a empreitada
cujo risco, no caso de fracasso e não fazer soar a enorme peça é pagar com a sua própria vida.
Um estado de tensão se apossa do jovem deixando-nos a dúvida se o que estamos assistindo é
ousadia ou loucura. A tarefa é árdua para o jovem, que sofre em todas as etapas do processo:
encontrar o barro adequado para o molde, juntar o metal necessário, modelar o sino, fundir o
metal e preencher o molde. Em todas estas passagens é observado pelo personagem-título da
obra, um monge e pintor em crise com o seu processo criativo. Ao final da sequência, em
meio ao regozijo do povo pelas badaladas, o nosso personagem sucumbe à tensão e cai em
prantos. Amparado por Rublev, Boriska, o filho do sineiro, diz assim: “Meu pai, nunca
passou-me o segredo. Morreu sem me contar, levou-o para a cova, aquele patife tratante.”
Esta é uma imagem de coragem: construir por si mesmo o próprio percurso e descobrir os
segredos do caminho é coisa que uma pessoa só pode realizar por si mesma. O pai do
personagem não contou a ele o segredo por que este só pode ser descoberto no caminho.
Entretanto é importante observar que a coragem do adolescente prescinde da educação para
existir, ou acaso não necessitará de coragem aquele que se envolve na delinqüência? Os
recentes índices de morte por assassinato de adolescentes no Brasil atestam a dramática falta
de alternativas para os atos de coragem. Por outro lado, “a experiência de vida” do adulto,
transformada em ímpeto pedagógico, só levará ao conformismo, estéril de novas
possibilidades de vida, pois “o indivíduo insensível à experiência é carente de sentido e
imaginação” como nos diz Walter Benjamin.
Para que a educação e o ensino sejam felizes em alguma medida, será necessário aos adultos
abrir espaços para que as novas gerações exercitem a própria fala, façam suas próprias
escolhas exercendo uma pedagogia que possibilite o desenvolvimento da sensibilidade e a
construção de conhecimentos, unindo algo que se aprende mas não se ensina, com o que se
ensina mas não se escolhe pelo outro. A coragem do jovem tem muita a lucrar com a
generosidade do adulto.
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O jovem vivenciará o espírito, e quanto mais difícil lhe seja conquistar algo grandioso,
mais facilmente encontrará o espírito em sua caminhada e em todos os homens.
Walter Benjamin