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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP

ELAINE APARECIDA PEREIRA

AS RELAÇÕES DE AUTORIDADE NA ESCOLA E NA FAMÍLIA
SEGUNDO OS ADOLESCENTES

MESTRADO EM EDUCAÇÃO: HISTÓRIA, POLÍTICA, SOCIEDADE

SÃO PAULO
2014

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ELAINE APARECIDA PEREIRA

AS RELAÇÕES DE AUTORIDADE NA ESCOLA E NA FAMÍLIA
SEGUNDO OS ADOLESCENTES

Dissertação apresentada à Banca
Examinadora da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, como exigência
parcial para obtenção do título de MESTRE
em Educação: História, Política, Sociedade,
sob a orientação do Prof. Doutor Carlos
Antonio Giovinazzo Jr.

SÃO PAULO
2014

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BANCA EXAMINADORA

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3 Dedico este trabalho a todos os professores. que de alguma forma contribuíram para a minha formação e me ensinaram a olhar para a realidade de forma crítica e ao mesmo tempo esperançosa. . meus amados pais Vera e Márcio. especialmente.

Vera Lúcia Marchiori Pereira e Márcio Elias Pereira. Ao CNPq e a CAPES pela concessão de bolsa de estudos que viabilizou a realização desta pesquisa. ao longo de toda a convivência. secretária do programa EHPS. a delicadeza. comprometimento. A toda a minha família e amigos pelo incentivo e pela compreensão nos momentos em que estive ausente. À Betinha. atenção e paciência dedicadas a mim nos momentos mais difíceis deste trabalho. apoio. ao meu orientador Professor Carlos Antonio Giovinazzo Jr. Sociedade. paciência. especialmente. pela atenção. À minha melhor amiga. pelo incentivo. por acreditar na minha capacidade e por estar ao meu lado em todos os momentos desta jornada. carinho e dedicação. e a minha avó. ao meu amor Fábio Rodrigues que sempre me incentivou a realizar este trabalho. da PUC-SP. que por meio das histórias contadas sobre as experiências incríveis de nossa família com Lampião. dedicação. paciência. Luzia Pereira da Silva. Ao meu avô. por serem exemplos. de consciência crítica e de solidariedade. 4 AGRADECIMENTOS Agradeço. a vida inteira. E. foi fonte de inspiração para que eu me dedicasse aos estudos na área das humanidades. que contribuíram para a minha formação. por expressar na prática. José Elias Pereira. disponibilidade. e principalmente. pela exigência. de luta. Política. Sem ele não teria alcançado meu objetivo. . Getúlio Vargas e a 2ª Guerra Mundial. inicialmente. de perseverança. Aos professores Odair Sass e Marian Ávila de Lima e Dias pelos apontamentos que tanto contribuíram para esta pesquisa. que sempre cuidou de mim. A todos os professores do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História. Aos meus pais. Maria Helena Felipe de Oliveira.

mediante a relação que este estabelece com o conceito de indivíduo livre na filosofia burguesa. ambas situadas em regiões com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Palavras-chave: Autoridade. Formação. de natureza empírica. Escola. a pesquisa foi realizada em duas escolas da rede municipal de ensino de São Paulo. Os escritos de Horkheimer e Marcuse contribuíram no sentido de situar o conceito de autoridade na modernidade. além disso. Teoria Crítica da Sociedade. autoridade esclarecida e autoridade não esclarecida. assim como os tabus que acompanharam o magistério na história. manifestadas nas exigências acríticas de observância e obediência às regras e na indiferença. Para tanto. 5 RESUMO Esta pesquisa. Os resultados da pesquisa indicam que os adolescentes encontram-se numa posição de heteronomia frente à autoridade exercida sobre eles. por parte dos adolescentes. e que valorizam e anseiam pela autoridade mesmo quando esta se manifesta na forma de autoritarismo. A partir desses autores discute-se também a função da família como instituição responsável por desenvolver nos indivíduos certas disposições exigidas pela vida social. Os sujeitos da pesquisa foram 12 alunos – seis meninas e seis meninos – do 9º ano do Ensino Fundamental. porém com pontuações distintas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). diante do que é imposto. além da aplicação de questionário contendo questões abertas e fechadas. mas se limita apenas à adaptação destes a realidade imposta pela estrutura social. tanto na escola como na família. . Utilizou-se como procedimento de coleta de dados o grupo focal. tem por objetivo analisar a relação que adolescentes do 9º ano do Ensino Fundamental desenvolvem com a autoridade exercida sobre eles na escola e na família e a compreensão que expressam sobre autoridade. Com base nas ideias de Adorno discute-se os conceitos de formação. Esta pesquisa tem como referencial teórico as ideias de alguns autores da teoria crítica sobre autoridade. a autoridade presente nas instituições é legitimada pelos adolescentes por ser considerada como um elemento importante para a sua formação e adaptação às exigências sociais. Família. e 2) a autoridade exercida pelos adultos não é capaz de desenvolver a autonomia nos adolescentes. O estudo foi desenvolvido com base em duas hipóteses: 1) a autoridade exercida pelos adultos sobre os adolescentes é reduzida a expressões de autoritarismo.

but is limited to their adapting to the reality imposed on them by the structure of society. moreover. The results of this research work indicate that adolescents are in a position of heteronomy where the authority exerted on them. Family. both located in regions having a low Human Development Index (HDI). ideas taken from authors of the critical theory on authority were used for its theoretical framework. the concepts of training. along with a questionnaire containing open-ended and close-ended questions. both at school and within the family is concerned. and an indifference on the part of adolescents to that which is imposed on them. as well as taboos applying historically to teaching. For the purpose of this research paper.six girls and six boys – in the 9th grade of Elementary School. in school and in their families. . The writings of Horkheimer and Marcuse contributed towards situating the concept of authority in modern days. even though their scores on the Index for Basic Education Development (IDEB) differed. The research was conducted in two local government-run schools in São Paulo.enlightened authority are discussed. and 2) the authority exercised by adults is not able to develop independence in adolescents. the authority exercised on them by institutions is legitimized by adolescents. through the relationship it establishes with the concept of individual freedom in a bourgeois philosophy. since it is considered an important contribution towards their training and adaptation to the requirements of society. Also based on these authors. the role of the family is discussed as an institution responsible for developing certain requirements of social behavior in individuals. Critical Theory of Society. 6 ABSTRACT This research paper. and that they value and crave for authority even when it is manifested in the form of authoritarianism. empirical in nature. The study was developed based on two hypotheses: 1) the authority exercised by adults over adolescents is reduced to an authoritarianism expressed by uncritical demands for observance of rules and obedience. enlightened and non. The subjects under study consisted of twelve students . School. The focus group was used in the data collection procedure. aims to analyze the relationship adolescents in the 9th grade of Elementary School develop towards authority exercised over them. Education. Keywords: Authority. Based on the ideas of Adorno. as well as their understanding of authority.

..2.......... 108 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................. 82 2....................... 18 1 A TENSÃO ENTRE INDIVÍDUO E SOCIEDADE .......................................................A AUTORIDADE SEGUNDO OS ADOLESCENTES .2.................... 21 1.........5.2....................................................5............ 10 CAPÍTULO I ..1 A DIALÉTICA DA AUTORIDADE: O CONCEITO E SUAS CONTRADIÇÕES ............ 35 1................................................................................................................5 Observações sobre a coleta de dados ................................................. 61 2................... 69 2..................................................................................2....................................................2 Caracterização das escolas ......................................................3..................................................................... 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..2 O papel da escola na formação dos indivíduos .....A AUTORIDADE NA SOCIEDADE MODERNA ................. 67 2............................... 47 2............................................................................................................................................. 47 2...............2............................................. 18 1.......4 Coleta de dados ..................3.......... 115 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .2 MÉTODO ......................................3 Experiência ..................3 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ............................5 AUTORIDADE E EDUCAÇÃO ........................................................ 119 ANEXOS ........... 51 2..........................................................3 O INDIVÍDUO NA SOCIEDADE BURGUESA: A DIALÉTICA PRESENTE NA RELAÇÃO ENTRE INDIVÍDUO E SOCIEDADE ...... 30 1....................................1 A importância da autoridade para a formação do indivíduo ..............1 Instrumentos de pesquisa ...1 Autoridade como organização ............................ 39 CAPÍTULO II ..................2 Responsabilização ............................ OBJETIVOS E HIPÓTESES ........................... 122 ................................................................... 26 1........ 59 2......................................................3....................... 47 2.. 35 1..........1 DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA...................3..........2 A AUTORIDADE NA FILOSOFIA BURGUESA E NA PERSPECTIVA CRÍTICA DA SOCIEDADE .......................................................... 54 2........ 18 1.................... 68 2...............................4 A reação dos adolescentes diante da autoridade na escola e na família .................................................. 88 2......................................3 Caracterização dos sujeitos da pesquisa .......................4 AUTORIDADE E LIBERDADE SOB A RACIONALIDADE TECNOLÓGICA .............

..... 70 Tabela 8 Tempo que os adolescentes gastam diariamente ajudando a família no trabalho doméstico ................ 89 Tabela 10 Adulto da família que o adolescente se relaciona melhor ................................................................................................................... 57 Tabela 4 Caracterização dos sujeitos participantes da amostra ............................................................. com maiores e menores valores .......... 56 Tabela 3 Composição do IDH nos distritos da cidade de São Paulo onde se localizam as escolas pesquisadas.......... 89 ...................... 70 Tabela 7 Atividades realizadas pelos adolescentes quando estão em casa ............................................................................. 81 Tabela 9 Adulto da família que o adolescente passa a maior parte do tempo ............................................ 61 Tabela 6 Local onde os adolescentes passam a maior parte do tempo quando não estão na escola ......... 56 Tabela 2 Pontuação média alcançada no IDEB referente ao Ensino Fundamental (ciclo II) ........ 60 Tabela 5 Caracterização das composições familiares dos sujeitos da pesquisa ................ 8 LISTA DE TABELAS Tabela 1 Pontuação média alcançada no IDEB referente ao Ensino Fundamental (ciclo I) ....

............................... 60 ....................................................... 9 LISTA DE QUADROS Quadro 1 Membros da família que moram com os sujeitos da pesquisa..............

a partir dos fatores: grau de desenvolvimento humano. qualidade de vida. tive a oportunidade de lecionar em 16 escolas. a violência. era comum na manifestação dos professores a atribuição de culpa. e da própria estrutura organizacional de atribuição de aulas. segundo o Mapa da Exclusão/Inclusão Social na cidade de São Paulo/20001 coordenado por Sposati (2000). Com exceção de apenas três escolas. situadas no extremo leste da cidade de São Paulo. pelo comportamento dos alunos considerado prejudicial ao trabalho 1 O grau de exclusão/inclusão social é mensurado. a indisciplina mostrava-se como o mais preocupante. Nesse período. de alto grau de exclusão social. o aparente desinteresse do aluno pela escola e outros. 11 delas na rede pública municipal de ensino. o baixo desempenho escolar. Ao se tornar uma questão central. de acordo com o Mapa. equidade. principalmente à família. de sua forma de organização. Nessas reuniões. diante da questão da indisciplina. a falta excessiva de professores. principalmente para o professor iniciante. em decorrência da instabilidade da carreira do magistério. a dificuldade do trabalho pedagógico. 10 INTRODUÇÃO Este estudo incide sobre a relação que os adolescentes – do 9º ano de duas escolas da rede municipal de ensino de São Paulo – desenvolvem com a autoridade exercida sobre eles na escola e na família e tem como referencial teórico a teoria crítica da sociedade. . democracia e cidadania. visto que grande parte do trabalho pedagógico era comprometido em decorrência dela. região considerada. entre todos os problemas citados. O interesse em desenvolver esta pesquisa é decorrente da experiência que tive como professora de História para o Ensino Fundamental II e Ensino Médio em escolas públicas durante uma década: três anos na rede estadual de São Paulo na condição de professora temporária e sete anos na rede pública municipal de ensino de São Paulo como professora efetiva. vivem problemas semelhantes como a indisciplina. tomando o espaço que deveria ser destinado a outras questões pedagógicas importantes para a melhoria do desempenho escolar dos alunos. a depredação de patrimônio público e os conflitos entre alunos e professores ocorriam diariamente. autonomia. resultantes da sua história. A indisciplina apresentava-se como o maior problema nessas escolas. Essas escolas. das peculiaridades do grupo de professores e gestores e do próprio local onde estão situadas. embora apresentassem características distintas umas das outras. Cenas de desrespeito às regras das instituições como as agressões físicas e verbais entre os alunos. a indisciplina passou a ocupar grande parte do tempo das reuniões entre os professores.

para a teoria crítica a autoridade não teria desaparecido no mundo moderno. também indicavam que o problema era visto pelos docentes como algo externo a escola e que. De acordo com estes autores. em parte. assim como os professores. Expressões como essas. na interação destes com a dinâmica da sociedade. mas. muitos alunos também reclamavam da falta de disciplina e se mostravam mais exigentes e severos do que muitos docentes. 2) de que forma a escola estaria contribuindo para propagar a indisciplina entre os alunos?. 11 docente. Horkheimer e Marcuse) sobre a relação entre autoridade e formação. Tais questionamentos. “essa nova geração não quer saber de nada”. portanto. diante de situações de indisciplina envolvendo outros. Nesse sentido. ao mesmo tempo em que demonstravam um profundo sentimento de impotência dos professores frente à realidade. e 4) quais consequências o comportamento indisciplinado dos alunos traria para as suas vidas? Essas questões estiveram presentes durante todo o meu percurso no magistério e. em determinados momentos. sim. mas apenas se despersonalizado. a instituição seria vítima dessa situação. não é possível analisar a chamada “crise da autoridade na educação” considerando apenas a perspectiva dos indivíduos como seres isolados. a escola. “esses alunos não tem limites” e “os alunos fazem o que querem porque o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente – os protege”. o enfraquecimento da autoridade nas instituições responsáveis pela formação dos indivíduos – como a família e a escola – deve ser compreendido a partir da sua relação com a estrutura social. Ao contrário do que sugerem autores como Arendt (2011). eram frequentes algumas frases dos professores como: “esses alunos são assim porque a família não deu educação”. Suas insatisfações eram expressas em frases como: “esse professor é ‘mole’. foram responsáveis pelo meu ingresso no mestrado. os alunos e os professores – por tais comportamentos. O fato de a indisciplina se mostrar generalizada nas escolas. assim como o contato com as ideias de alguns autores da teoria crítica da sociedade (Adorno. foram responsáveis por definir como tema de pesquisa a relação que os alunos adolescentes estabelecem com a autoridade. uma vez que a . As manifestações de professores e alunos diante de situações de indisciplina indicavam que ambos se limitavam a responsabilizar as instituições e os indivíduos – como a família. deixa os alunos fazerem o que querem” ou. 3) qual a responsabilidade da família perante o comportamento indisciplinado de seus filhos?. De outra parte. tomando uma proporção que. envolvia até mesmo aqueles alunos aparentemente mais adaptados às exigências escolares. suscitou uma série de questões como: 1) a indisciplina teria como causa fatores externos ou internos ao ambiente escolar?. Portanto. enfatizavam “não sei porque a escola não expulsa logo esses alunos” e “a escola não deveria deixar esses alunos assistirem aula”.

‘autoridade do professor’. quatro foram desconsiderados visto que o conteúdo baseava-se em pesquisas já identificadas no Banco de Teses da CAPES. dissertações e artigos levantadas nos bancos de dados citados acima. assim como para impedir a barbárie. os autores da teoria crítica. As relações de autoridade na educação escolar são influenciadas ainda. . observou-se. 2) 2 Desde a 23ª reunião em 2000 até a 35ª reunião em 2012. que discutem a autoridade. ao contrário. influenciando também as relações de autoridade nas instituições responsáveis pela formação dos indivíduos. ‘autoridade docente’ e ‘autoridade e educação’. mas. também foram reunidos artigos sobre autoridade e educação escolar a partir da leitura dos resumos dos artigos apresentados nos Grupos de Trabalhos (GTs) da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd)2. nove no site SciELO e seis nos GTs da ANPEd. No total foram encontrados 15 artigos. por meio dos resumos. sendo fundamental para a constituição da sua autonomia e emancipação. foram encontrados 45 trabalhos. contribuiu para a sua reprodução e a perpetuação da miséria. cabe destacar que não foram incluídas pesquisas que analisam a questão da autoridade no Ensino Superior ou Técnico. conforme aponta Adorno (1995d). Dentre os 45 trabalhos encontrados sobre autoridade e educação escolar. no Banco de Teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). consideram a autoridade esclarecida um elemento essencial no processo de formação dos indivíduos. Para a delimitação do problema de pesquisa foi realizado levantamento de estudos. Com base na leitura dos resumos das pesquisas foram selecionados 34 trabalhos que apresentam como objeto de estudo a autoridade do professor ou a autoridade escolar no ensino básico. Tomando como referência as ideias de Freud. afirmada na dependência econômica. A busca foi realizada a partir das palavras-chave: ‘autoridade da escola’. continua sendo determinante nas relações sociais. assim como nos periódicos disponíveis no site Scientific Electronic Library Online (SciELO). Tais questões serão retomadas e aprofundadas na apresentação do referencial teórico no capítulo I. 12 verdadeira autoridade. Nesse sentido. no Ensino Fundamental e Médio. pelo próprio colapso da cultura à medida que esta não cumpriu a promessa de impedir a barbárie entre os homens. Entre teses. Destes. que a maior parte deles concentrava-se em quatro temas principais: 1) a relação de poder entre professor e aluno no processo de ensino e aprendizagem (nove). Além deste levantamento. utilizando as mesmas palavras-chave empregadas na busca de pesquisas no Banco de Teses da CAPES. docente ou escolar.

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as representações ou discursos de professores e alunos acerca da autoridade docente (sete);
3) a relação entre a autoridade do professor (ou escolar) e a indisciplina ou violência na
escola (treze); e 4) a relação entre autoridade e formação3 (quatro). Os outros 12 trabalhos
discutem a autoridade a partir de diferentes abordagens como o prestígio da profissão
docente, a relação entre a autoridade e a crise na educação, a postura do professor, o que é
autoridade, entre outras. Os levantamentos realizados possibilitaram constituir um panorama
geral sobre os trabalhos que envolvem o tema e identificar que o assunto ainda é pouco
explorado, embora se perceba que o interesse dos pesquisadores tem aumentado nos últimos
anos, se comparado à grande quantidade de trabalhos acadêmicos produzidos no país,
principalmente na última década, com a expansão dos cursos de pós-graduação stricto sensu.
Entre todos os trabalhos levantados, tomou-se como foco de interesse,
especificamente, aquelas pesquisas que tratam a questão da autoridade a partir da “visão” de
alunos do Ensino Fundamental e Médio. Apenas três foram identificadas: Rayagnani (2007),
Vieira (2009) e Ohlweiler (2010). O interesse por trabalhos que analisam a perspectiva dos
alunos acerca da autoridade é decorrente da experiência docente, relatada acima, na qual
muitos alunos adolescentes demonstravam ter expectativas quanto ao exercício da autoridade
docente na regulação das suas condutas no espaço escolar. Vale destacar ainda que entre as
três pesquisas, Rayagnani (2007) e Vieira (2009) analisam, paralelamente à concepção de
alunos e também de professores sobre a autoridade.
As pesquisas que discutem a autoridade a partir da “visão” do aluno apresentam
como objeto de estudo problemas diversos, como as representações sociais dos alunos e
professores sobre a autoridade, autonomia e autoritarismo, o desenvolvimento da noção de
autoridade docente nos alunos (RAYAGNANI, 2007), os aspectos que caracterizam o
educador como uma referência de autoridade (VIEIRA, 2009) e a identificação das figuras
de autoridade pelas crianças nas relações de poder na escola e na família (OHLWEILER,
2010). Os autores utilizam referenciais teóricos diversos, mas, principalmente, Hannah
Arendt para tratar da questão da crise da autoridade na modernidade, e Foucault para analisar

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As quatro pesquisas que discutem a relação entre autoridade e formação tem como base o referencial teórico
da teoria crítica da sociedade. Tais pesquisas apresentam objetos de estudo distintos: Roure (2006) analisa se é
possível a uma educação comprometida com a formação de indivíduos autônomos prescindir da autoridade;
Casco (2007) discute se existe relação entre o exercício da autoridade professoral e as relações sociais
constituídas, entre os alunos, na sala de aula e no recreio; Goulart (2008) aborda como a teoria crítica analisa a
temática autoridade e como a educação pode favorecer a autonomia dos indivíduos; e Lima (2012) busca
compreender os conceitos de formação e autoridade na teoria crítica e a importância da última no processo de
formação, além de discutir o movimento histórico de declínio da autoridade no último século. Cabe salientar que,
com exceção do trabalho de Casco (2007), que desenvolve uma pesquisa empírica, com 27 alunos de uma turma
de 4ª série do Ensino Fundamental, por meio de observações em sala de aula e no intervalo, as demais pesquisas
consistem em estudos teóricos sobre o tema.

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as relações de poder na sociedade e no espaço escolar; além de alguns autores da Psicologia,
como Piaget que discute o desenvolvimento moral na criança, e outros. Os dados foram
coletados nessas pesquisas a partir de diferentes procedimentos: questionários, entrevistas,
discussões com os sujeitos, por meio da apresentação de situações-problema envolvendo
casos de indiciplina na escola (RAYAGNANI, 2007), análise de cartas enviadas aos
professores que os alunos mais admiravam (VIEIRA, 2009), de quadrinhos da personagem
Mafalda4 e outros desenhos representando cenas de autoridade (OHLWEILER, 2010).
A questão da autoridade é abordada nas três pesquisas como um aspecto essencial do
processo pedagógico, mas que não se constitui de forma isolada no interior da escola, ao
contrário, está relacionada à própria dinâmica social. O trabalho de Ohlweiler (2010) aponta
para a existência de uma crise da autoridade decorrente do declínio das instituições sociais,
que não resulta numa perda total da autoridade, mas no seu enfraquecimento. De acordo com
o resultado de sua pesquisa, a autoridade hoje se constitui de forma mais sutil do que as
experimentadas em gerações anteriores, assim, as figuras de autoridade, que em outras
décadas se apresentavam fixas, atualmente possuem uma legitimidade que é transitória, uma
vez que o campo do poder está sob constante disputas e negociações, havendo estratégias de
resistência por parte das crianças.
A fragilidade da autoridade, no entanto, parece não excluir o reconhecimento da sua
necessidade por parte dos alunos, conforme aponta Vieira (2009). Segundo o resultado da
pesquisa dessa autora, os alunos valorizam a autoridade à medida que esta oferece segurança
e garante o trabalho pedagógico. Quanto à legitimidade da autoridade docente, a pesquisa de
Vieira (2009) indica que sua sustentação está pautada nas demonstrações de competência,
respeito pelos alunos e imposição da disciplina. Na investigação realizada com crianças,
conforme aponta o resultado do trabalho de Ohlweiler (2010), há uma distinção entre as
figuras de autoridade na família e na escola. Na primeira, a autoridade é relacionada às
funções de cuidado, proteção e sustento e na segunda, como espaço de organização, cuidado
e disciplinamento. Rayagnani (2007), por sua vez, conclui que a noção de autoridade varia
de acordo com a idade. Suas análises sobre as representações da autoridade de professores e
alunos, baseadas em Piaget, mostraram ainda que estas aparecem de forma distinta entre
crianças e adultos, indicando que a noção se submete a um processo psicogenético de
desenvolvimento.

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Personagem de história em quadrinhos criada pelo cartunista argentino Quino (MENDOZA, 1932).

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Os resultados das pesquisas empíricas apresentados acima contribuíram para mostrar
que na perspectiva dos alunos do Ensino Fundamental e Médio, a autoridade é um elemento
da relação professor-aluno considerado necessário como força reguladora do processo de
ensino e aprendizagem. Nesses trabalhos, no entanto, com exceção de Ohlweiler (2010), os
objetivos das pesquisas apresentam-se restritos às relações de autoridade estabelecidas no
âmbito escolar, desvinculadas das relações desenvolvidas em espaços de educação não
escolar, como na família. Portanto, apenas um desses trabalhos analisa concomitantemente
as relações de autoridade no âmbito familiar e no espaço escolar. Tal constatação contribuiu
para que o interesse desta pesquisa se voltasse também para a discussão das relações de
autoridade entre adolescentes e adultos no âmbito familiar, além do espaço escolar.

Problema de pesquisa

A partir das leituras dos estudos descritos acima e com base no referencial da teoria
crítica, delimitou-se como problema de pesquisa a seguinte questão: qual a relação que os
adolescentes, do 9º ano de duas escolas da rede municipal de ensino de São Paulo,
desenvolvem com a autoridade exercida sobre eles na escola e na família e qual a
compreensão que expressam sobre a autoridade?
Dessa questão principal decorrem as seguintes:
1. Como os adolescentes expressam a experiência com a autoridade na escola e na
família?
2. Como os adolescentes reagem diante da autoridade a qual estão submetidos na escola
e na família?

Objetivos

Objetivo geral da pesquisa foi definido nos seguintes termos: analisar a relação que os
adolescentes, do 9º ano de duas escolas da rede municipal de ensino de São Paulo,
desenvolvem com a autoridade exercida sobre eles na escola e na família e a compreensão que
expressam sobre autoridade. Como decorrência, os objetivos específicos são:
1. Descrever e examinar, por meio do que expressam os adolescentes, como se
caracteriza a experiência destes com a autoridade na escola e na família;
2. Analisar o posicionamento dos adolescentes diante da autoridade a qual estão
submetidos na escola e na família;

manifestadas nas exigências acríticas de observância e obediência às regras e na indiferença. Durkheim na sociologia. 4) o método e os instrumentos de pesquisa. No capítulo II. 5) a importância da autoridade na formação do indivíduo. 3) as hipóteses. 2. 4) a relação entre autoridade e liberdade na sociedade moderna. Horkheimer e Marcuse. Os dados coletados foram analisados com base nas contribuições teóricas de Adorno. A presente dissertação está organizada em duas partes: capítulo I e capítulo II. e 6) o papel da escola na formação dos indivíduos. Além dos autores da teoria crítica da sociedade. as discussões teóricas sobre a relação entre autoridade e educação realizadas por autores de diferentes áreas do conhecimento. 16 Hipóteses 1. diante do que é imposto. 5) o campo empírico. organizada sob a racionalidade tecnológica. por parte dos adolescentes. A autoridade exercida pelos adultos não é capaz de desenvolver a autonomia nos adolescentes. 2) a autoridade nas perspectivas da filosofia burguesa e da crítica da sociedade. 2) os objetivos. como Arendt na filosofia. 6) os sujeitos . O grupo focal e a aplicação do questionário foram realizados com 12 alunos do 9º ano do Ensino Fundamental em duas escolas da rede municipal de ensino de São Paulo. será apresentado o referencial teórico da pesquisa a partir das seguintes discussões teóricas: 1) a dialética presente no conceito de autoridade. 3) o conceito de indivíduo na filosofia burguesa e a tensão existente na relação entre indivíduo e sociedade. a pesquisa apresenta. Procedimentos de pesquisa Para realização da coleta de dados optou-se pela utilização de dois instrumentos de pesquisa: grupo focal e questionário. Tais autores foram selecionados por serem considerados como pensadores de referência no que se refere ao tema da autoridade e sua relação com a formação dos indivíduos. ainda. Freud na psicologia. são apresentados: 1) o problema de pesquisa. A autoridade exercida pelos adultos sobre os alunos adolescentes é reduzida a expressões de autoritarismo. mas se limita apenas à adaptação destes a realidade imposta pela estrutura social. No capítulo I. entre outros.

. nas considerações finais é realizada a discussão de alguns dos principais resultados tendo como referência as hipóteses formuladas no desenvolvimento desta pesquisa. 7) o processo de coleta de dados. bem como do lugar da escola e da família no processo de formação dos adolescentes. e 9) a análise destes. 17 investigados. Por fim. 8) os resultados da pesquisa.

Assim. a maioria dos homens. e a autoridade da tradição. Segundo Horkheimer (2008). a dependência dos dominados ao mesmo tempo em que em alguns períodos históricos significou uma piora da existência material e da manutenção das formas de organização social. ou seja. Em todas as formas de sociedade. continua presente na sociedade ainda hoje e contribui para dificultar a compreensão acerca da dialética expressa no conceito de autoridade.1 A DIALÉTICA DA AUTORIDADE: O CONCEITO E SUAS CONTRADIÇÕES Para a filosofia burguesa. como fonte legítima de direito e verdade. quando a sujeição dos homens a uma instância alheia contraria os seus próprios interesses. De acordo com essa filosofia. em outros momentos da história apresentou-se como fator de progresso. estavam subordinados a uma relação de dominação. sempre trabalhou sob a direção e o comando da minoria. Essa concepção. No entanto. Essa concepção deve-se a contraposição que o pensamento liberal burguês estabeleceu entre a razão de cada indivíduo. desde as comunidades primitivas até as formas mais desenvolvidas em termos de forças produtivas. a ação dos homens deve ser orientada apenas pela razão e não por qualquer autoridade uma vez que o uso das próprias faculdades intelectuais garantiria que a autoridade não se apresentasse como uma ameaça à liberdade individual (HORKHEIMER. a autoridade . a definição abstrata do conceito de autoridade contém em si elementos contraditórios adquiridos em consequência de mudanças históricas. 2008). Dessa forma. favorável ao desenvolvimento das forças humanas. de acordo com Horkheimer (2008). entendida como dependência aceita. 18 CAPÍTULO I A AUTORIDADE NA SOCIEDADE MODERNA 1 A TENSÃO ENTRE INDIVÍDUO E SOCIEDADE 1. como também pode significar o atendimento ao interesse real e consciente de indivíduos e grupos. pode tanto significar uma situação de autoritarismo. tornando-se um freio para o desenvolvimento humano em geral. de que autoridade e liberdade se encontram em contraposição. a libertação do homem está diretamente relacionada à luta contra as autoridades. a relação de autoridade.

1972. Desse modo. entendido como “a soma das realizações e instituições que . só ocorre por meio do medo da autoridade. o aparelho psíquico do homem é dominado pelo programa do princípio do prazer que desde o começo da vida demanda a satisfação irrestrita de todas as necessidades instintuais. Para Freud (2011). De acordo com Marcuse (1972). do pensamento e da razão à vontade de Outro. 19 como elemento constitutivo das relações sociais pode fundamentar tanto a submissão cega e servil quanto a disciplina do trabalho necessária em uma sociedade em ascensão. Nesse sentido. 56). a possibilidade da vida em comunidade só foi garantida pelo processo de civilização. e sim que constituem. que colocam em risco a civilização e o próprio homem. para o autor. conforme aponta Horkheimer (2008). “na relação de autoridade. como melhora ou piora das condições materiais para aqueles que se subordinam a ela. normas obrigatórias para a sua razão e vontade (MARCUSE. pois a renúncia das satisfações irrestritas de todas as necessidades instintuais dos indivíduos. a finalidade da vida para os homens constitui-se na busca da felicidade permanente. pautada no reconhecimento e aceitação do portador da autoridade. 1972. 56). tais como são. pelo mundo externo ao homem e pelas relações com outros seres humanos. significa subordinação da própria razão e da própria vontade a conteúdos predeterminados. Segundo esse autor. A contradição presente no conceito de autoridade se expressa. pois não se pode alcançar tudo o que se deseja. a autonomia e a heteronomia são concebidas conjuntamente e unificadas na pessoa única do objeto da autoridade” (MARCUSE. e a submissão da própria vontade. Adorno (1995c) concebe o conceito de autoridade como um conceito essencialmente psicossocial. a relação de autoridade contém dois elementos essenciais: a liberdade de vontade. é irrealizável. a liberdade e a não liberdade. a autoridade é necessária para a civilização. a liberdade não é concebida em contraposição a autoridade. vontade. Assim. no entanto. em que há a presença concomitante da liberdade e da submissão na ação daqueles que se submetem à autoridade ao reconhecer a sua importância social. p. e isso de tal modo que tais conteúdos não constituem apenas “material” para a vontade transformadora do indivíduo. como indica Marcuse (1972). Ainda. que não se baseia na simples coerção. nas próprias condições objetivas em que as relações de autoridade se manifestam. Sendo assim. mas está contida na relação de autoridade. O programa de ser feliz. A felicidade é limitada pela própria constituição do corpo humano. portanto. pois: O reconhecimento da autoridade como uma força essencial da prática social remonta as raízes da liberdade humana: significa (em sentido sempre diferente) a renúncia à autonomia (de pensamento. assim como na própria subjetividade. ação). p. O reconhecimento da autoridade como uma força essencial da prática social também está presente no pensamento de Freud (2011).

. A humanidade. tanto na família como na sociedade em geral. e que servem para dois fins: a proteção do homem contra a natureza e a regulação dos vínculos dos homens entre si” (FREUD. desde então. as relações sociais “estariam sujeitas à arbitrariedade do indivíduo. conforme apontam os autores acima citados. a rejeição à autoridade advém do medo da própria autoridade na medida em que esta passou a ser entendida como uma ameaça à liberdade. antes de qualquer forma de autoridade.. portanto. Segundo Sennett (2012). o autor afirma que: [. exigiu do homem o sacrifício de seus instintos e a restrição de sua liberdade individual. caso contrário. 40). A este respeito não existe nenhum parecer que valha de modo geral (HORKHEIMER. A dialética presente nas relações de autoridade. 34). como as realizações intelectuais. como categoria fundamental para a compreensão da história humana. pois. uma vez que não havia condições para defendê-la.. se depara com a tarefa de achar um equilíbrio adequado entre as exigências do indivíduo e aquelas do grupo. 2008. p. científicas e artísticas. Nesse sentido. portanto. uma definição geral do conceito de autoridade. se refere. isto é. a tensão entre indivíduo e sociedade. constituem a cultura. 2011). embora a liberdade do indivíduo fosse maior antes de qualquer civilização e. 2011. garantindo a sua perpetuação. além disso. 194). 20 afastam a nossa vida daquela de nossos antepassados animais. Para Horkheimer (2008). A autoridade como relação de dependência aceita e legitimada pelos homens. A submissão do indivíduo ao poder da comunidade. como negação dos interesses dos indivíduos.] se a submissão incondicional a um líder político ou a um partido conduz historicamente para frente ou para trás. que possibilitaram ao homem colocar o ambiente em que vive a seu serviço. garantindo a regulação das relações humanas. O autor aponta ainda que ante essas duas tendências – as exigências e necessidades do indivíduo e as do grupo – a autoridade se afirma em defesa tanto dos interesses do indivíduo como dos interesses coletivos da civilização. Essas atividades e valores. também exigiu a renúncia dos instintos (FREUD. aquele fisicamente mais forte as determinaria conforme seus interesses e instintos” (FREUD. 2011. Essa regulação é necessária. no entanto. pois ao mesmo tempo em que garantiu o cultivo das atividades psíquicas mais elevadas. seria vazia na medida em que para compreendê-lo é necessário relacioná-lo com todas as outras definições de sociedade. protegendo-o da violência das forças naturais e. pois. ela ainda não possuía valor. por vezes é associada à ideia de autoritarismo. e para tal precisa se sujeitar a alguma forma de autoridade que acaba por limitar a sua liberdade e autonomia. somente a análise da respectiva situação social em sua totalidade pode responder. uma vez que o homem necessita viver em grupo. cuja responsabilidade é garantir que pela ordem legal ninguém se torne vítima da força bruta. p. p.

Essa contradição entre a liberdade e a não liberdade. p. é resolvida no protestantismo e também na filosofia burguesa. e da realidade objetiva em que se manifestam. o poder central e o feudalismo tradicional. segundo Marcuse (1972). Nesse sentido. ou seja. visto que a ordem social onde reina a não liberdade foi posta por Ele (MARCUSE. a autoridade de uma igreja internacional centralizada. pois como cristão possui o livre-arbítrio. na época moderna a filosofia burguesa colocou a autonomia do indivíduo como centro de sua teoria e empreendeu todos os esforços para justificar as contradições e antagonismos entre a liberdade prática do indivíduo e a sua não liberdade social. em conexão com os outros conceitos gerais e específicos. Para a doutrina cristã da liberdade. 59). só pode ser compreendido a partir da própria teoria em que foi desenvolvido. 1. 1972). O protestantismo luterano e calvinista foi responsável por imprimir à doutrina cristã da liberdade uma tendência antiautoritária na medida em que defendia a libertação do indivíduo em relação à submissão as autoridades vigentes. embora esteja submetido a uma ordem social de não liberdade. uma vez que o homem já é livre antes mesmo da sua história real. Isso ocorreu na medida em que o conceito de liberdade na filosofia burguesa foi diluído na não liberdade. o homem pode estar em situação de não liberdade. pois representaria libertação parcial em relação a Deus. O indivíduo passou a ser entendido como um ser bipartido entre .2 A AUTORIDADE NA FILOSOFIA BURGUESA E NA PERSPECTIVA CRÍTICA DA SOCIEDADE Segundo Marcuse (1972). como contraposição ao conceito de liberdade. além de Kant e Hegel. entendida como contraposição à autoridade. somente porque e na medida em que é livre. A defesa da autonomia do indivíduo. 21 Assim. As antinomias presentes na relação entre indivíduo e sociedade são abordadas por diversos pensadores como os protestantes Lutero e Calvino. a compreensão do conceito de autoridade. Assim. conforme apresentado pela filosofia burguesa. a libertação objetiva significaria algo negativo. Essa atitude antiautoritária defendida pelo protestantismo tinha como objetivo a “libertação da consciência em relação às inúmeras normas religiosas e éticas para assegurar o caminho livre às classes em ascensão” (MARCUSE. resultou na presença de tendências antiautoritárias dentro da doutrina cristã e burguesa da liberdade. especialmente. esta não é possível na realidade objetiva. 1972. por meio da unificação desses polos opostos. entre a autonomia interna e a heteronomia externa. conforme será discutido a seguir.

mas apenas o seu corpo ou aquilo que lhe é externo. ao contrário. operada pelo protestantismo. embora a autoridade terrena jamais possa atingir o ser da pessoa. pois o homem continuou subordinado ao mundo exterior. a autoridade estava ligada à função do seu portador. o primeiro. Assim sendo.]. conforme aponta Marcuse (1972). embora a livre autonomia seja a lei suprema e que qualquer pensamento e ação do homem baseados na autoridade representam . entre outros teóricos da filosofia burguesa. A liberdade. Ainda de acordo com Marcuse (1972).. Assim. 66). se antes. como na Idade Média. pois na sua esfera íntima o homem era livre. mas. é necessário o reconhecimento incondicional das autoridades vigentes para que a ordem terrena não seja destruída. nesse momento a autoridade é fundamentada por meio do recurso a autoridade em geral. portanto. 58): Essa interioridade absoluta da pessoa. como membro do reino natural. se transforma em uma segunda ‘natureza’ contra a qual não existe apelo possível” (MARCUSE. não seria mais necessário lutar pela liberdade exterior. A relação do indivíduo com a autoridade na sociedade burguesa também foi objeto de interesse de Kant. violação ou sublevação em pecado mortal. isso significou na prática a não responsabilidade do indivíduo frente ao mundo exterior. limitado à esfera do mundo exterior. De acordo com Marcuse (1972. transformou qualquer forma de desobediência. a reificação e a independência da autoridade terrena. Para Kant. limitado à esfera íntima da pessoa. Kant. A transcendência da liberdade cristã com relação à autoridade terrena. ao mesmo tempo em que se consagrou sua submissão ao mundo exterior. não significa uma independência no que se refere ao funcionamento das relações de autoridade indecifráveis. torna-se algo eterno fixado por Deus. No entanto. a transcendência da liberdade cristã em relação a qualquer autoridade terrena deve – por mais completa que seja a submissão externa do indivíduo ao poder terreno – representar ao mesmo tempo um enfraquecimento e ruptura (internos) da relação de autoridade. Assim. para a aceitação voluntária da autoridade e do poder estabelecidos. p. assumindo “a forma de uma relação isolada dos contextos sociais factuais [. como membro do reino da razão ou de Deus. foi deslocada da realidade objetiva e transferida para a interioridade dos indivíduos. contudo. A solução encontrada pelo filósofo para a questão pautou-se na conciliação das contradições entre os polos opostos no plano formal do direito. o homem passou a ser orientado não para lutar pela satisfação das suas necessidades. p.. e o segundo. buscou resolver a tensão entre liberdade e coerção ou indivíduo e universalidade. pautada na autossuficiência da liberdade interior. 22 o reino da liberdade e o reino da não liberdade. 1972.

por parte de todos os indivíduos. o homem é livre para fazer uso público de sua razão em todos os terrenos. 92). seria realizada por meio do direito e das leis. na sociedade burguesa. p. Para Hegel. Segundo Marcuse (1972). à lei imposta pela universalidade leva à aceitação da sociedade tal como ela é. 23 menoridade5. uma vez que o indivíduo “só pode ser livre na medida em que retira a liberdade de todos os outros: por meio de uma submissão unilateral recíproca à autoridade da lei” (MARCUSE. para Kant. à medida que a liberdade é pública. Assim. é no direito que ocorre a combinação entre a coerção universal e a liberdade individual. Na universalidade. mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a orientação de outrem” (KANT. 2002. portanto. Tal menoridade é por culpa própria se a sua causa não reside na falta de entendimento. ou seja. entendida como uma forma determinada de organização social em que a validade geral do interesse de todos supera os interesses privados. A necessidade e exigência de respeito. mas é pública e necessária para que o homem supere a sua menoridade. 11). esta só existe sob a coação – tem como consequência a perpetuação da não liberdade. todos devem se submeter a uma vontade geral. uma vez que os interesses de qualquer indivíduo coincidem com os interesses de todos os outros. na sociedade civil. submetendo-se a uma autoridade universal de coação para possibilitar as condições de existência da sociedade burguesa. O indivíduo em decorrência da própria liberdade que a priori já possui. ao mesmo tempo em que o indivíduo deve preservar a sua liberdade. é necessária a existência de alguns mecanismos de controle para o funcionamento dos negócios e o atendimento aos interesses públicos e coletivos. limita a sua liberdade de forma voluntária. a liberdade objetiva só existe segundo a lei moral. ao contrário de Kant. o fato da contradição entre liberdade e coação ser resolvida formalmente por Kant – na própria ideia de liberdade. . A garantia da defesa do interesse geral. Conforme Marcuse (1972). ao mesmo tempo em que todos são delegados e delegantes. essas contradições. O portador da autoridade. Segundo Marcuse (1972). p. a contraposição à autoridade também se faz na esfera pública. é a universalidade. a liberdade para Kant não é interior ou privada. a propriedade privada burguesa. a sociedade civil tem interesse no disciplinamento do homem por meio do comportamento autoritário. a universalidade na sociedade 5 “A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. 1972. conciliando formalmente. Nesse sentido. às normas obrigatórias. para o filósofo. como aquela concebida pelo protestantismo. Hegel não reconhece a universalidade como expressão das liberdades individuais. Assim. A universalidade representa os interesses privados e não coletivos. mas não na realidade objetiva. a auto submissão apresenta certo sentido social na medida em que. uma vez que entra em jogo a sua própria subsistência. Portanto.

pois somente a partir dessa contraposição é que será possível identificar as funções gerais da autoridade. Nesse sentido. ao fazer isso. ele considera que essa autoridade não deva estar presente na sociedade civil. Quanto à relação dos indivíduos com a autoridade. mas no Estado. a autoridade. A relação de autoridade foi tratada pela filosofia burguesa. assim como Kant. segundo Marcuse (1972). apesar da oposição à autoridade. da propriedade privada. Contudo. A crítica a essa universalidade é decorrente da identificação que Hegel faz da dialética presente na sociedade burguesa: o aumento da acumulação de riquezas está diretamente relacionado ao aumento da miséria da classe obrigatoriamente ligada ao trabalho. o processo de trabalho necessita da cooperação de vários trabalhadores assalariados. reafirma que é na submissão à autoridade que se encontra a liberdade. a liberdade para Hegel não é algo dado a priori ou um vir a ser. portanto. Para Marx. 24 burguesa não é uma universalidade verdadeira. como considera Kant. visto que é composta por indivíduos com interesses próprios. para Hegel. Essa concepção é criticada por Marx. é transformado por Hegel no portador incondicional da autoridade social e concebido como esfera independente da sociedade. A universalidade portadora da autoridade é personificada pelo Estado. a autoridade deve ser tratada a partir do seu significado social e não como autoridade em si mesma. negativa. a liberdade do indivíduo. como uma relação de dependência. a filosofia burguesa ao resolver formalmente a contradição entre esses polos opostos. Este. Hegel reconhece as contradições da realidade objetiva e as limitações da liberdade frente à mesma e. conforme aponta Marcuse (1972). deve ser compreendida como tal no processo capitalista de produção. se realiza na obediência as leis do Estado. Assim. reafirmou a necessidade da submissão à ordem social como meio para a sua manutenção. Sendo assim. a autoridade torna-se a personificação do próprio capital. como uma relação de dominação social e. em contraposição a ela. pois ela nada mais é do que a referência recíproca dos indivíduos egoístas para a satisfação das necessidades privadas. a autoridade tem como função a dominação posto que é uma condição para a exploração. segundo Marcuse (1972). que passa a estar acima de todas as condições empíricas. embora Hegel admita a necessidade de uma autoridade universal para a garantia da ordem social e. Nesse processo. por meio da unificação entre liberdade interior e não liberdade exterior. conforme Marcuse (1972). escapando inteiramente ao poder dos indivíduos. para Marx. mas refere-se à própria realidade dos homens. como superior a ordem social e econômica. portanto. o que exige necessariamente uma direção responsável . Marx identifica que no processo capitalista de produção. como forma de liberdade. uma vez que a autoridade foi colocada em contraposição à ideia de liberdade.

coloquem-no sob seu controle social. 1972. tanto a autoridade como a autonomia são situações ou realidades relativas cujos domínios variam nas diferentes fases da evolução social. ao invés de serem por ele dominados como uma força cega. de acordo com Marcuse (1972). como tarefa de organização social consciente. Sendo assim. 134). segundo ele. essa direção acaba por adquirir uma forma despótica enquanto os meios de produção se encontram em propriedade do capitalista. não pode ser compreendido como absolutamente mau ou bom. Para que a liberdade se realize. segundo Marx. e em parte como prática dos grupos dominantes que. Engels também aponta. para Marx não se realiza na liberdade transcendental. a liberdade somente se realiza na propriedade privada. realizem-no com a menor aplicação possível de esforço e sob as condições mais dignas e adequadas à natureza humana (MARX apud MARCUSE. ocorre em parte por si mesma. além daquela manifestada no processo capitalista de produção como forma de exploração e dominação. dado que existe . na existência interior. De acordo com Marcuse (1972). Engels apresenta um conceito positivo de autoridade em contraposição à rejeição antidialética de toda autoridade. o que significa superar o reino das necessidades. independente das pressões exteriores. Portanto. cujo objetivo é aumentar a produção de mais- valia por meio da exploração da força de trabalho. a liberdade do homem em relação a si mesmo se limita à liberdade de vender a sua força de trabalho para poder viver. a liberdade. Quanto à liberdade do indivíduo. por meio das leis. a liberdade possível no reino das necessidades é concebida por Marx como forma de transformação social. na qual está incluída a felicidade terrena dos homens decorrente da superação da servidão e do alcance de condições mais dignas e adequadas à natureza humana. Essa configuração da autoridade. 25 por mediar. o princípio da autoridade. na sociedade burguesa. p. como elemento indispensável do processo de produção capitalista. Por conseguinte. os produtores associados. se apropriando de forma privada da riqueza social. a possibilidade da existência de outras formas de relação de autoridade. Marx aponta que. Todavia. Com relação à autoridade. na qual os indivíduos se apresentam como compradores e vendedores abstratos de mercadorias. regulem racionalmente seu intercâmbio material com a natureza. A dominação autoritária passa a ser uma exigência para a concretização do processo de produção. A forma de liberdade mais superior possível se expressaria no desenvolvimento das potencialidades humanas como objetivo em si mesmo. conseguem preservar a situação existente na qual são dominantes. baseada na produção de mercadorias. Considerando que a relação de autoridade possui um caráter dialético. supervisionar e dirigir as atividades decorrentes da divisão do trabalho. mas na superação dessa situação. Marx identifica a necessidade das seguintes condições: A liberdade nesse terreno só pode consistir em que o homem socializado. Para Engels. estando sujeita as situações de mercado.

Em uma nova forma de organização social. uma mônada absolutamente solitária. como forma de exploração e dominação. será superada quando a sociedade de classes desaparecer. estranho e independente da vontade e da ação dos indivíduos e a autoridade é colocada em contraposição à liberdade. reduzida a si mesmo por Deus” (HORKHEIMER. Essa concepção foi enunciada com clareza. que cresciam desde o final da Idade Média. fechado em si mesmo. Portanto. pela filosofia burguesa. pelo seu destino e sua felicidade. 1. p. na qual a unificação dos indivíduos significa a não liberdade universal. fechado e autossuficiente. foi em oposição à autoridade da tradição. que se definiu o conceito de indivíduo livre como uma . Segundo Horkheimer (2008). essa concepção de indivíduo como um ser independente no pensamento e na ação e orientado pela razão foi defendida. o indivíduo se caracterizaria como “um centro metafísico de força. como a disciplina do trabalho. 198). quis sempre designar algo concreto. Essa concepção também está relacionada ao conceito de indivíduo desenvolvido pela filosofia burguesa. conforme apontam Horkheimer e Adorno (1973). dissociado do resto do mundo. em oposição à autoridade da tradição no contexto em que o regime de produção feudal e a burocracia religiosa e civil se mostravam incapazes de atender as necessidades das massas populares na cidade e no campo. Desse modo. a superação da organização social burguesa significaria a superação de uma universalidade aparente. A filosofia burguesa compreendeu o universal como um poder separado. dependente unicamente da sua própria vontade e da divina. Essa autoridade está baseada em condições racionais. Essa superação possibilitaria a universalidade verdadeira. desde o seu aparecimento. limitando-se as funções administrativas em defesa dos interesses sociais de toda a comunidade. A estrutura da autoridade na sociedade de classes. necessária a qualquer organização social. 2008. segundo Engels. 26 uma autoridade que é inseparável da organização em geral da sociedade. pela primeira vez. as funções políticas perderiam seu caráter político. por Leibniz por meio da teoria das mônadas. De acordo com Marx. De acordo com essa teoria.3 O INDIVÍDUO NA SOCIEDADE BURGUESA: A DIALÉTICA PRESENTE NA RELAÇÃO ENTRE INDIVÍDUO E SOCIEDADE O conceito de indivíduo. aquela em que os indivíduos em associação exigem a sua liberdade e o desenvolvimento livre de cada um passa a ser a condição para o desenvolvimento livre de todos. o indivíduo passou a ser considerado como um ser responsável por si mesmo.

visto que este adquire significado em relação ao contexto social e na relação com a natureza. na relação com outros homens ele é um semelhante. e significou um momento do desenvolvimento histórico do indivíduo encontrando sua expressão social. A concepção defendida pela teoria crítica da sociedade de que o homem antes de ser um indivíduo é um membro pertencente a uma sociedade e. afirma que “a condição desse desenvolvimento não é apenas a convivência como tal. o conceito personalista da pessoa tem suas raízes nos dogmas cristãos. ADORNO. não é possível considerar os indivíduos como seres absolutos em si posto que “a vida humana é. contudo. portanto. primeiramente um semelhante está expressa no conceito de pessoa. considerado isolado e perfeito em si. todavia. essencialmente e não por mera casualidade. “A definição do homem como pessoa implica que. a de uma participação e comunicação necessárias com os outros (HORKHEIMER. mas uma convivência organizada” (HORKHEIMER. no âmbito das condições sociais em que vive e antes de ter consciência de si. convivência” (HORKHEIMER. p. já estava presente no pensamento de Platão e Aristóteles. a crença na independência radical do indivíduo em relação à sociedade e à natureza. defender seus interesses em oposição às imposições do mundo exterior. uma vez que o desenvolvimento de toda a potencialidade natural do homem depende da convivência em sociedade. que são os seus semelhantes. outrossim. p. 1973. não é possível chegar ao indivíduo puro. ADORNO. é criticada. Para o filósofo fazer parte da sociedade civil é uma necessidade humana. 1973. no que se refere à imortalidade da alma. o homem deve sempre representar determinados papeis como semelhante de outros” (HORKHEIMER. ADORNO. considerando a pessoa como uma categoria social. a concepção de que o homem só o é na convivência com outros e. Kant. 50). De acordo com Horkheimer e Adorno (1973). mas. 47). antes mesmo do homem ser um indivíduo. Para os autores frankfurtianos. na Reforma Protestante. Essa ideia foi. tal como defendido pela filosofia burguesa. na própria base de sua existência. p. 48). Assim. com caráter funcional. ADORNO. de que indivíduo e sociedade se relacionam reciprocamente. então a sua definição última não é a de uma indivisibilidade e unicidade primárias. Segundo Horkheimer e Adorno (1973). Embora a teoria crítica da sociedade reconheça a importância do conceito de indivíduo. sobretudo. . portanto. 1973. por meio da razão. Sobre esse aspecto os autores apontam que: Se o homem. como um ser capaz de. 47). 1973. p. retomada por Kant. capaz de tudo por seus próprios meios. e se unicamente por eles é o que é. é para os outros. posteriormente. 27 entidade metafísica fixa e independente das condições existenciais da sociedade. Assim.

foi transformada. p. uma vez que este passou a ser obrigado “a lutar implacavelmente por seus interesses de lucro. tinha de superar todo o sistema de ideias e valores que lhe era imposto pela sociedade. segundo os autores. p. a livre concorrência. no decorrer do processo de desenvolvimento técnico e tecnológico. 52).. em que a sociedade burguesa desenvolveu um dinamismo social baseado nos princípios de concorrência e lucro que afetou diretamente o indivíduo. buscava seu interesse próprio baseado na ideia de que seu interesse era racional e. por meio da sua racionalidade e da liberdade de pensamento. a racionalidade individualista pressupunha um ambiente social adequado em que os indivíduos tivessem a possibilidade de exercer. O indivíduo. Essa transformação ocorreu em . Essa dialética presente na interação entre indivíduo e sociedade. adequadas ao desenvolvimento total de suas faculdades e habilidades. com sua estrutura dotada de leis próprias. as transformações ocorridas na forma de organização da sociedade. nas relações concretas é que o indivíduo adquire seu conteúdo e forma. A interação entre indivíduo e sociedade também é discutida por Marcuse (1999). tanto pessoal como social. por meio do seu trabalho. faz-se substância de si mesmo. o indivíduo estava submetido a uma sociedade caracterizada pelo individualismo e por certa forma de vida em que o indivíduo. ADORNO.]” (MARCUSE. No ápice do liberalismo. os autores apontam que “só é indivíduo aquele que se diferencia a si mesmo dos interesses e pontos de vista do outros. “o princípio desta sociedade era que todos deveriam receber de acordo com seu livre desempenho na divisão social do trabalho. em uma nova forma de racionalidade. estabelece como norma a autopreservação e o desenvolvimento próprio” (HORKHEIMER. denominada por Marcuse (1999) como racionalidade tecnológica. sob a influência da racionalidade individualista.1973. Essa forma de vida foi denominada pelo autor como racionalidade individualista. p. que como forma de vida influenciava a individualidade do homem de sua época. na interação com a sociedade. 55). 28 No que se refere ao processo de individuação.. ADORNO. 1973. 1999. Do ponto de vista econômico. sem se preocupar com o bem da coletividade” (HORKHEIMER. como expressão do desenvolvimento tecnológico e da racionalização no processo de produção capitalista. era considerado capaz de encontrar formas de vida. segundo Marcuse (1999). considerando que no processo de produção capitalista a aquisição e a utilização de riqueza dependem do trabalho competitivo. diante disso. De acordo com o autor. Para o autor. Essa racionalidade individualista. pode ser observada nas transformações sociais ocorridas a partir da revolução técnica na indústria. influenciaram diretamente a individualidade do homem. 120). Esse ambiente propício era a sociedade liberal. Assim. e que a busca pelo interesse próprio deveria ser o princípio motor de todo desempenho [.

que se contrapõem aos seus interesses. 78). dispositivos e invenções que caracterizam a era da máquina. adaptando todos os meios a um fim. economizando tempo e energia. sustentando a calculabilidade e a segurança (MARCUSE. 80). Sob a forma de vida ditada pela racionalidade tecnológica. que se transformou em poder econômico – foi responsável por afetar toda a racionalidade daqueles a quem serve. ao mesmo tempo. sofre transformações na sua forma de individualidade de acordo com as condições socialmente impostas. comportamentos e disposições. derivadas das formas de organização social. como totalidade dos instrumentos. que o indivíduo não poderia fazer nada melhor do que adaptar-se sem reservas” (MARCUSE. 1999. um instrumento de controle e dominação. eliminando o desperdício. 1999. portanto. a sua capacidade de se opor frente às imposições externas. As formas de organização social influenciam diretamente as relações de autoridade e a maneira como os indivíduos se posicionam frente a ela. não desapareceu. antecipando as consequências. p. Para o autor: Não há saída pessoal do aparato que mecanizou e padronizou o mundo. O mesmo ocorre com a autoridade. O indivíduo. portanto. como modo de produção. uma forma de organizar e perpetuar (ou modificar) as relações sociais. 1999. p. É um aparato racional. A racionalidade tecnológica. p. . mas foi submetida a uma organização e coordenação em larga escala. 29 decorrência do processo de mecanização e racionalização do trabalho. Como consequência desse processo o sujeito econômico livre foi abolido e o aparato do poder tecnológico – entendido como as instituições. Na sociedade administrada. como um ser mediado socialmente. uma vez que basta ao homem seguir as instruções ditadas pela racionalidade para ser bem sucedido. Marcuse (1999. conforme aponta Marcuse (1999). p. em que a mecânica da submissão se propaga da ordem tecnológica para a ordem social. dispositivos e organizações da indústria em sua situação social dominante. isso em decorrência da racionalização do aparato que se estendeu a toda a sociedade e acabou por padronizar hábitos. em que os competidores mais fracos foram forçados a se submeterem ao domínio das grandes empresas da indústria mecanizada. combinando a máxima eficiência com a máxima conveniência. é assim. se caracteriza como um modo difundido de pensamento que “estabelece padrões de julgamento e fomenta atitudes que predispõem os homens a aceitar e introjetar os ditames do aparato” (MARCUSE. a individualidade do homem e. segundo o autor. uma manifestação do pensamento e dos padrões de comportamento dominantes. Nesse sentido. 73) aponta ainda que: A tecnologia. 77). a “racionalidade se tornou tal poder social.

como se os homens em nada pudessem modificá-la” (HORKHEIMER. aponta Horkheimer (2008). as autoridades foram derrubadas. um ser que agora deve pensar e aceitar o mundo como princípio eterno. embora os indivíduos acreditem que são independentes e que. Assim. Contudo. assim é justificada. 30 1. que numa sociedade justa se constituiria a partir do esforço. do poder ou de relações capazes de elevar o indivíduo acima de outras pessoas. se caracterizam como relações de dependência pautadas na diferença de propriedade. a ordem hierárquica não é reconhecida como justa. Dessa forma. ao considerar o indivíduo como um ser perfeito em si. Nessa relação. podem agir livremente. não se reconhece na existência da subordinação à verdadeira . dilacerada por contradições e desumana (HORKHEIMER. portanto. A liberdade no âmbito do processo de produção capitalista significou. essa concepção é questionada pela teoria crítica da sociedade na medida em que: Justamente neste fato filosófico. também da natureza. mas como necessária. a autoridade afirmada na dependência econômica aparece como natural e não como resultado da própria ordem social. e. segundo Horkheimer (2008). mas abstratamente e é alçado a um ser puramente espiritual. p. tal como defendido pela filosofia burguesa. mesmo que seja como expressão de sua própria essência verdadeira. ou seja. 205). da sua liberdade por meio da oposição à autoridade. de que o indivíduo não é compreendido na sua interligação com a sociedade e natureza. imposta e mantida pelos homens e mesmo assim apresenta-se como se fosse necessária por natureza. dependente apenas da sua vontade e razão. determinada pelo modo de produção e pela existência das classes sociais. reflete-se a imperfeição de sua liberdade: a impotência do indivíduo numa realidade anárquica. admitiu a possibilidade de realização. apenas aparentemente. pois o lugar do despotismo não foi ocupado pela liberdade. ao se sujeitar à vontade particular do empresário. dissociado das condições de existência na sociedade. e. posto que as condições para entrar nessa relação não são as mesmas. suas relações. mesmo que interior. 2008. No entanto.4 AUTORIDADE E LIBERDADE SOB A RACIONALIDADE TECNOLÓGICA A filosofia burguesa. na sociedade burguesa é alcançada por meio do dinheiro. p. pois a liberdade que ambas as partes da relação trabalhista (patrão e empregado) parecem ter não se confirma. 2008. essa autoridade econômica é mascarada na medida em que a “diferença entre rico e pobre é condicionada socialmente. Segundo Horkheimer (2008). Dessa forma. em primeiro lugar. A autoridade. o trabalhador está admitindo a autoridade dos fatos econômicos. mas pela autoridade econômica. por isso. que os homens foram abandonados aos mecanismos de exploração. 199-200). Nessa sociedade. consequentemente.

mas é sustentada por aspectos religiosos e metafísicos. de acordo com sua situação de classe (HORKHEIMER. antecipa para a criança a estrutura de autoridade presente na realidade externa ao ambiente familiar. a disciplina. é mediada pela família. mas um destino sem sentido. as diferenças que os indivíduos encontram no mundo. baseada em dados econômicos. o comportamento autoritário do qual depende amplamente a sobrevivência da ordem burguesa. segundo os autores da teoria crítica da sociedade. Portanto. as suas possíveis características. “Na consciência da atualidade. a história não parece uma luta conscientemente travada da humanidade com a natureza e o desenvolvimento permanente de todas as suas faculdades e potencialidades. ao demarcar a diferença entre pai e filho. Horkheimer (2008) aponta que no curso da evolução. como instituição mediadora. Nesse sentido. a autoridade também não aparece absolutamente como uma relação. A influência exercida pela família sobre os impulsos e paixões. contribui para naturalizar o comportamento autoritário na sociedade. Assim. a autoridade do pai é preservada. tem influenciado de forma decisiva na formação psíquica da maior parte dos indivíduos e desempenhado a função de reproduzir entre os seus membros os caracteres humanos exigidos pela vida social como. perante o qual o indivíduo pode comportar-se com maior ou menor habilidade. impedindo que as novas gerações questionem e critiquem a estrutura do sistema econômico e social. 2008. entre outras. em que os bens materiais também são transformados em qualidades naturais. 31 autoridade. passam a ser naturalizadas. como o senso de trabalho. 201). a autoridade do pai não está relacionada à realidade concreta. p. identificada como a autoridade pública. Segundo Horkheimer (2008). a família. A autoridade é compreendida como uma qualidade fixa e dessa concepção decorre o fato de que em muitas famílias as condições para a educação e formação dos filhos são miseráveis e mesmo assim. como uma diferença qualitativa” (HORKHEIMER. para o autor: Na era burguesa. O poder e o respeito ao pai na família burguesa deve-se a sua força física natural e a sua qualidade aparentemente inata de provedor. . por exemplo. a família. a perseverança. que força os indivíduos à subordinação ao Estado e lhes tira o poder de decisão. mas apenas que deve haver uma autoridade “qualquer”. A relação que os indivíduos estabelecem com a autoridade na sociedade. o uso da razão. p. 2008. as disposições do caráter e os modos de reação são condicionadas pelas relações de poder que nela se estabelecem e pelas relações com toda a estrutura da sociedade. mas como uma qualidade inevitável do superior. como a pobreza e a riqueza. O autor afirma ainda que a aparente naturalidade do poder patriarcal pautado na força física e na posição econômica. 217).

Na família são refletidas todas as contradições e crises da sociedade. portanto. conforme aponta Horkheimer (2008). em todos os momentos. por exemplo. diferente do que ocorre na vida pública. De acordo com Horkheimer (2008). necessária à adaptação dos homens a condição de assalariados separados do poder de controle dos meios de produção. o princípio do sangue. de autonomia. 32 Todavia. 1973. uma vez que se mostra. Assim. decorre do elemento irracional presente na família. deixando de garantir de forma segura a vida material de seus membros e de proteger suficientemente o indivíduo contra o mundo externo. 140). a família na sociedade burguesa. um espaço de resistência. na família os indivíduos não estão submetidos à lógica do mercado. ela própria foi atingida por essa dinâmica social. 1973. ou na extinção de algumas delas ao longo da história. ela também sofre transformações em decorrência das mudanças sociais. lugar onde se enfrentam como concorrentes. Enquanto a família assegurou proteção e conforto aos seus membros. dependente da dinâmica de toda a sociedade. embora a família como instituição mediadora seja constituída por uma estabilidade relativamente permanente. “a crise da família é de origem social e não é possível negá-la ou liquidá-la como simples sintoma de degeneração ou decadência. se colocando numa posição de antagonismo frente ao ordenamento social. orientada por uma ordem racionalista. Segundo os autores. como instituição anacrônica. Sobre a função da família na sociedade. a função de se constituir como a entidade principal de produção. essas mudanças decorrem da tendência originária da própria economia para a dissolução de valores e instituições culturais que se apresentam em contradição com a estrutura econômica. se. por outro lado. cujo ordenamento total é baseado no sistema de troca e no racionalismo individual dos homens no trabalho. p. os autores apontam que: . também pode atuar como uma espécie de refúgio. Horkheimer (2008) aponta ainda que o desenvolvimento industrial influenciou de forma decisiva a família. do parentesco natural. idealizada como ética do trabalho” (HORKHEIMER. ADORNO. p. por um lado. como a educação. e isso implica na execução cada vez pior de suas funções. dentro de uma sociedade industrial. somente a família foi capaz de cumprir a função de “causar nos indivíduos uma identificação com a autoridade. Horkheimer e Adorno (1973) afirmam ainda que a família está submetida a uma dinâmica de caráter duplamente social. Sua condição. Segundo Horkheimer e Adorno (1973). consideradas em si necessárias. a autoridade familiar encontrou uma justificação” (HORKHEIMER. ADORNO. é anacrônica. em que todas as relações estão baseadas no principio calculista da oferta e da procura. 137). mas podem atuar também como pessoas. como. pois ao mesmo tempo em que integra e adapta o indivíduo à sociedade.

contudo. homens que haviam formado. homens que sabiam manifestar e praticar tanto a liberdade como a autoridade (HORKHEIMER. baseada no poder econômico perpetuado pelas relações de dominação presentes na sociedade. 145-46). quando se fazia acompanhar pela doçura materna. Segundo o autor: . visto que a racionalidade tecnológica. 145). De outra parte. em certas condições. 33 Quando a pressão não era demasiado severa e. segundo os autores. Com a crise na família. portanto. cada vez mais implacável e desumana” (HORKHEIMER. 1973. Em decorrência disso. nessa sociedade. o agir autônomo limitou-se apenas à seleção dos meios mais adequados para alcançar uma meta que ele próprio não determinou. sob a racionalidade tecnológica “o homem não sente esta perda de liberdade como o trabalho de alguma força hostil e externa. 1982. a autoridade paterna foi transferida para autoridades externas. No entanto.. desenvolvida na civilização industrial. a política e a intelectual foram substituídas por novas modalidades de liberdade. não se concretizou na realidade objetiva. ADORNO. p. procurar os defeitos – mesmo neles próprios. portanto. posto que continuou subordinado a verdadeira autoridade. essa sociedade não foi capaz de substituir satisfatoriamente a ação econômica e educativa do pai e tampouco de garantir a liberdade do indivíduo que poderia. 1999. ADORNO. p. por meio da luta contra as autoridades tradicionais. permitiu uma organização racional da vida. p.. um espírito de independência. irracional. 23). Dessa forma. como um obstáculo. sobretudo. a “independência de pensamento. p. Nesse sentido. a autonomia antes valorizada pela racionalidade individualista aparece. desenvolviam-se homens capazes de. de acordo com Marcuse (1999). ele renuncia à sua liberdade sob os ditames da própria razão” (MARCUSE. além de inútil.] mais abstrata e. 1973. é invisível. previsibilidade e segurança de tal forma que protestar contra ela pareceria. de amor à livre escolha e à disciplina interior. a falta de liberdade é confortável. ser cultivada pela família. agora sob a racionalidade tecnológica. segundo Marcuse (1999). “tornou-se [. quando necessário. O homem por meio da própria razão admite que a submissão é voluntária e inerente ao processo da vida social. segundo o modelo paterno. o que contribuiu para a atomização dos indivíduos na sociedade. 82). garantindo padronização. Ao invés de estímulo a ação racional e a liberdade do indivíduo. Assim. autonomia e direito à oposição política estão perdendo sua função crítica básica numa sociedade que parece cada vez mais capaz de atender as necessidades dos indivíduos através da forma pela qual é organizada” (MARCUSE. A busca do indivíduo pela liberdade. correspondendo às possibilidades dessa sociedade. na civilização industrial contemporânea as formas de liberdade tradicionais como a econômica. A autoridade verdadeira. segundo Horkheimer e Adorno (1973).

na civilização industrializada e racionalizada e. por meio do desenvolvimento tecnológico. conforme pode ser observado nas relações de autoridade. p. viciam a autodeterminação (MARCUSE. ao contrário do que defende a filosofia burguesa. liberdade de luta cotidiana pela existência. ainda não foi possível nem mesmo nas mais livres das sociedades existentes. tal como defendida pela filosofia burguesa. ou entre liberdade e lei. Nesse sentido. Assim. a autonomia e. 1973). a independência do indivíduo. entendida como a capacidade do indivíduo de determinar o que fazer ou não. conforme aponta Marcuse (1999). ao mesmo tempo em que a racionalidade possibilitaria aos homens. liberdade econômica significaria liberdade de economia – de ser controlado pelas forças e relações econômicas. Assim. uma vez que toda libertação depende da consciência da não liberdade (MARCUSE. . 1982. No entanto. E a liberdade. assim. desde o início. 34 Essas novas modalidades só podem ser indicadas em termos negativos porque importariam a negação das modalidades comuns. também é responsável por tornar o destino material das massas cada vez mais dependente do funcionamento contínuo e correto da crescente ordem burocrática das organizações capitalistas privadas. o que tolerar ou não. o fim da escassez. entre o bem-estar comum e o privado numa sociedade tradicional. portanto. ora absorvido pela comunicação e doutrinação em massa. 25). contudo. O progresso tecnológico. entre o interesse geral e individual. não seria realizada pelo indivíduo privado. essa aparência acaba por converte-se em realidade na medida em que o indivíduo passou a desconhecer o mundo do qual intimamente depende (HORKHEIMER. 1970. de acordo com Marcuse (1970). abolição da “opinião pública” juntamente com os seus forjadores (MARCUSE. a civilização industrializada contém em sua própria racionalidade a irracionalidade. 92). o livre desenvolvimento das potencialidades humanas. de ganhar a vida. por sua vez. portanto. uma vez que em outra forma de organização social ele seria condição fundamental para a livre realização humana. 1982). Para os autores da teoria crítica da sociedade. No entanto. quanto mais racional. Do mesmo modo. sinaliza o autor: O problema de tornar possível a harmonia entre cada liberdade individual não consiste em encontrar uma acomodação entre concorrentes. mas em conjunto com todos os demais indivíduos. não é em si a dominação das coisas e dos homens sobre os homens. mais difícil torna-se para o indivíduo submetido à administração totalitária romper com a sua servidão. mantém os indivíduos presos à aparência. liberdade intelectual significaria a restauração do pensamento individual. ADORNO. em relação à sociedade é apenas aparência. A autodeterminação e autonomia. administrada. Esse desconhecimento. Para Marcuse (1999). p. produtiva e técnica se torna a administração da sociedade repressiva. Liberdade política significaria a libertação do indivíduo da política sobre a qual ele não tem controle eficaz algum. mas de criar uma sociedade em que o homem não seja mais escravizado pelas instituições que.

reconhecem a autoridade como um elemento essencial na formação do indivíduo. não à autoridade econômica. o que dificulta a discussão acerca da importância da autoridade que. p. mas a outras formas de autoridade. Tal oposição se dirige. para o autor. povos e nações. com base no pensamento de Freud. o reconhecimento da necessidade e das vantagens do trabalho comum. pode atender aos interesses do indivíduo. Nesse processo. no processo de formação. 1972. teria sido contido pelo desenvolvimento de laços libidinosos entre os homens. segundo Marcuse (1970). tanto no que se refere à educação oferecida pela família quanto na educação formal oferecida pela escola. mas por uma . Dessa forma. como aquelas presentes nas relações entre pais e filhos ou entre professores e alunos. etnias. portanto. uma vez que o pendor à agressão. a autoridade e o amor estavam relacionados. a liberdade de fato ainda não se concretizou. como relação de dependência. Eros foi o elemento responsável pela união de indivíduos isolados em famílias. Para Freud (2011). por meio da razão. não seria suficiente para manter os homens unidos. De acordo com Freud (2011). visto que. “só o amor atua como fator civilizador.1 A importância da autoridade para a formação do indivíduo Os autores da teoria crítica da sociedade. no processo civilizatório. no entanto. que possibilitou a vida em comunidade.5 AUTORIDADE E EDUCAÇÃO 1. embora já houvesse condições objetivas para isso.5. a autoridade foi responsável por reprimir a tendência do homem em tentar satisfazer de forma irrestrita todas as suas necessidades instintuais que colocavam em risco a civilização e o próprio homem. conforme será discutido a seguir. é associada à ideia de autoritarismo. posto que. invisível. muitas vezes. 35 Em defesa de uma falsa liberdade. 1. como disposição de instinto original e autônoma do ser humano. 41). no desenvolvimento da humanidade. a definição do que é o bem e o mal não é realizada pelo indivíduo de uma forma “natural” ou pela sensibilidade. Segundo Freud (1972). prevalece a ideia de que é necessária a oposição dos indivíduos a qualquer forma de autoridade. a autoridade. Conforme discutido no início deste trabalho. necessárias para a formação do indivíduo. no sentido de ocasionar a modificação do egoísmo em altruísmo” (FREUD. Essa ideia de contraposição entre a liberdade do indivíduo e a autoridade atingiu também o âmbito privado da vida e está dada.

é externa à criança e é representada pela figura do pai. é responsável pelo desenvolvimento de cada ser humano. 2011). por assim dizer. 2011. sobretudo expõe-se [o indivíduo] ao perigo de que esse alguém tão poderoso lhe demonstre a superioridade em forma de castigo” (FREUD. o chamado ser individual. Para realizar isso. Segundo o autor: Os pais da criança. dando continuidade ao rigor da autoridade externa. de maneira que o ego infantil fortificou-se para a execução da repressão erguendo esse mesmo obstáculo dentro de si próprio. a educação. Nesse sentido. “sua posição social diante da criança implica que cada medida educativa. 2008. portanto. Contudo. ao processo de socialização. Segundo o autor. dele nada se pode esconder. Dessa maneira. cada indivíduo também é um ser social. segundo Freud (2011). além de deixar de “ser protegido contra perigos diversos. 36 influência externa. ao medo da perda do amor. a princípio. ao nascer a criança traz apenas a sua natureza de indivíduo. e este empréstimo constituiu um ato extraordinariamente momentoso (FREUD. o superego. Sendo assim. tomou emprestado. Horkheimer (2008) afirma que a subordinação a uma autoridade pode ser do interesse do próprio subordinado quando ela se apresenta como uma condição para o desenvolvimento das faculdades humanas. A concepção da autoridade como mecanismo essencial da ação educativa também foi defendida por Durkheim (2011). e especialmente o pai. e nesse processo não foi possível prescindir da coerção. é instituído pela identificação com o pai e assume a função de inibir internamente os instintos. com a diferença de que. força ao pai. 2007. por mais racional que ela seja. p. composto de todos os estados mentais e acontecimentos da vida pessoal. Segundo o autor ainda. a submissão da criança a uma boa educação é do próprio interesse dela. é o medo da autoridade e de perda do amor do outro aquilo que impede os indivíduos de se permitirem realizar o mal. uma vez que por mais racional que seja o comportamento subjetivo do pai. 36). A formação é esse processo em que a autoridade é internalizada na criança a partir da repressão do complexo de Édipo e do estabelecimento do superego (Freud. constituído . 70). Sendo externa. p. eram percebidos como obstáculo a uma realização dos desejos edipianos. A autoridade. Essa perda significa que. Assim. cuja função é vigiar os atos e intenções do Eu e de julgar. como um processo civilizatório milenar. desde o homem primitivo. deve lembrar pão doce ou chicote” (HORKHEIMER. A submissão do indivíduo a essa influência está relacionada ao desamparo e à dependência que se tem do outro. 223). p. a criança realiza o mal que lhe parecer agradável se tiver a certeza de que a autoridade não saberá ou não poderá fazer nada contra ela. Essa internalização da autoridade mostra-se necessária à integração da criança a uma ordem social estabelecida e.

o autor afirma que a formação do caráter infantil se constitui muito mais pela própria estrutura da família do que pelas intenções e métodos do pai. p. Segundo o autor. embora a autoridade seja necessária ao processo de formação do indivíduo. sentimentos e hábitos que exprimem o grupo ou diferentes grupos aos quais pertence. na medida em que “eles próprios têm interesse na submissão. por meio da coerção. para o autor. 37 por um sistema de ideias. Para tal. aponta que “faz diferença se esta coerção representa a reprodução cega das contradições sociais vigentes na relação pai-filho. O fato de a sociedade modelar os indivíduos. conforme parece sugerir Durkheim (2011). Ela tem como objetivo suscitar e desenvolver na criança um certo número de estados físicos. 2011. Essa autoridade moral. intelectuais e morais exigidos tantos pelo conjunto da sociedade política quanto pelo meio específico ao qual ela está destinada. não deve ser entendido como uma insuportável tirania. 53) define educação da seguinte maneira: A educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre aquelas que ainda não estão maduras para a vida social. caso contrário. decorrente da consciência do dever. só será aprendido pela criança por meio de seus professores ou pais. Além disso. no entanto. o que há de propriamente humano em nós” (DURKHEIM. p. Para o autor. 2008. não é qualquer forma de autoridade exercida sobre a criança que deve ser aceita tampouco se a finalidade do seu exercício se limitar à adaptação a . p. para substituir o ser individualista e associal (que a criança é ao nascer) por um ser novo. 71). no entanto. O autocontrole necessário. não é possível educarmos nossos filhos da forma que queremos. 224). formar o indivíduo para vida em sociedade. embora não discorde da ideia apresentada por Durkheim (2011) quanto à responsabilidade da família de. pois “é através desta autoridade contida neles que o dever é dever” (DURKHEIM. ou se ela se apresenta no decurso de cada existência individual como relação dominada na sociedade” (HORKHEIMER. Horkheimer (2008). p. pois ela consiste na primazia da moral. Assim. Durkheim (2011. pois existem costumes aos quais todos são obrigados a se conformar. não pode ser entendida como violência ou repressão. é necessário que ela consiga domar o seu egoísmo natural e subordinar-se a fins mais elevados por meio de um exercício de forte repressão sobre si mesma. Esse ser social não se encontra pronto na constituição primitiva do homem. tampouco resulta de um desenvolvimento espontâneo. 2011. A concepção de uma formação voltada apenas para a adaptação social. mas é o objetivo da educação. 58). como a principal qualidade do educador. pois o novo ser que a ação coletiva edifica em cada um de nós através da educação representa o que há de melhor em nós. eles não poderiam viver em meio aos seus contemporâneos. conforme o autor. é necessário que estes personifiquem o dever. também não é compartilhada por Adorno.

se forma o caráter do indivíduo – é necessário o contato da criança com manifestações de uma autoridade esclarecida. não se originam do princípio da violência. de acordo com os conhecimentos da psicologia profunda. mas o desenvolvimento de uma consciência verdadeira que possibilite ao indivíduo superar a heteronomia e a dependência às normas e mandamentos que não são assumidas pela sua própria razão. e para o esclarecimento geral. um impulso de destruição. LUNA. A conquista da autonomia pelo indivíduo. portanto. O objetivo da educação. na medida em que já não são cegas. no entanto. 38 sociedade tal como ela é. estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico. não significa a modelagem de pessoas a partir do exterior. não existe contraposição entre a autonomia e a autoridade. 1991. capaz de produzir um clima intelectual. as pessoas se encontrem atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua própria civilização – e não apenas por não terem em sua arrasadora maioria experimentado a formação nos termos correspondentes ao conceito de civilização. Assim. cuja característica é a reprodução da barbárie. Segundo Adorno (1995a). 69) do indivíduo. mas por se encontrarem tomadas por uma agressividade primitiva. da seguinte forma: Entendo por barbárie algo muito simples. conforme Adorno (1995a). tal contato é necessário enquanto: Determinadas manifestações de autoridade. ou seja. tampouco a mera transmissão de conhecimentos. que assumem um outro significado. Davis e Luna (1991) afirmam que no processo educativo a “autoridade é condição essencial para a formação tanto da autorregulação (comumente chamada de disciplina) como da própria consciência” (DAVIS. na terminologia culta. cultural e social que não permita a barbárie ou o retorno e desenvolvimento do fascismo e do totalitarismo. A formação. ao mesmo tempo em que é indispensável que se dissolva qualquer tipo de autoridade não esclarecida. Sobre isso. 155). Dessa forma. um ódio primitivo ou. p. que tenham um momento de transparência inclusive para a própria criança. deve ser direcionada para a autorreflexão crítica. decorrente da superação da heteronomia. que. quando os pais “dão uma palmada” na criança porque ela arranca as asas de uma mosca. p. para Adorno (1995b). seria educar o indivíduo contra a barbárie. pelo autor. segundo Adorno (1995a). uma vez que a autoridade é condição para a existência de autonomia. para o autor. trata-se de um momento de autoridade que contribui para a desbarbarização. Portanto. 167). 1995a. sobretudo na primeira infância – momento no qual. que desenvolva no indivíduo a capacidade de pensar criticamente sobre si próprio e suas ações. Para Adorno (1995a. para os autores. mas são conscientes e sobretudo. mas depende de uma autoridade esclarecida. não ocorre por meio da ausência da autoridade. que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda esta civilização venha a explodir. a educação. aliás uma tendência imanente que a caracteriza (ADORNO. quando na . mas que lhe são impostas. O conceito de barbárie é definido. p.

Como consequência. p. Considerando que atualmente a possibilidade de mudar os pressupostos objetivos. Para Adorno (1995a). dentre elas. realizada na escola. defende a ideia de que é necessário. conforme anunciado no conceito de cultura. “no âmbito do existente somente ela pode apontar para a “desbarbarização” da humanidade.. de acordo com o autor. 177). A possibilidade de contraposição à barbárie. Ao afirmar que a escola deve atuar em direção a “desbarbarização” da humanidade. por isso. desempenha um papel fundamental uma vez que. pois a instituição ao mesmo tempo em que tem por objetivo a adaptação.5. ou seja. nos EUA. a autonomia não reside no simples protesto contra qualquer tipo de autoridade. também é capaz de educar para a contradição e a resistência. Adorno (1995b) está admitindo as potencialidades da educação para a construção de uma consciência verdadeira em oposição à consciência . na defesa da sua extinção. Adorno (1995a) aponta ainda que. tais como as realizadas por Else Frenkel-Brunswik. a razão objetiva da barbárie é a falência da cultura que não cumpriu o que foi prometido aos homens. ninguém está inteiramente livre de traços da barbárie. de acordo com pesquisas empíricas. portanto. segundo Freud (apud ADORNO. uma vez que esta origina e fortalece progressivamente o que é anticivilizatório. se voltar para a subjetividade dos indivíduos. entre trabalho físico e intelectual. a fim de evitar a desgraça. Adorno (1995b). ao contrário. 1995a. 39 educação se abre mão da autoridade. Ao contrário. mas se voltou contra a própria promessa. a educação formal. 117).]” (ADORNO. A presença desses traços nos indivíduos. 1995e.. 1995b) é decorrente da própria contradição contida na civilização. constatou-se que “as crianças chamadas comportadas tornaram-se pessoas autônomas e com opiniões próprias antes das crianças refratárias [. p. mas. para o fortalecimento do “eu” a fim de que os homens tenham condições de resistir às pressões externas que contrariam seus próprios interesses. políticos e sociais. que geram a barbárie é extremamente limitada. a preparação dos indivíduos para se orientarem no mundo. na medida em que se conscientiza disso” (ADORNO. tem como espaço privilegiado a escola. dividiu os homens de diversas formas.2 O papel da escola na formação dos indivíduos De acordo com Adorno (1995a). 1. torna-se necessário orientá-los contra o próprio princípio da barbárie. Nesse processo de formação. a raiva dos homens não se dirigiu para a exigência de uma situação pacífica. o que para o autor é legítimo e necessário desde que não se limite a isso. para o autor. nega-se aos educandos o apoio e o amparo que requerem para se tornarem autônomos. Nesse sentido.

40 coisificada. entendida como “uma consciência que se defende em relação a qualquer vir-a-ser. 98). Além das motivações materiais. Dessa forma. Adorno (1995e) apresenta também algumas possibilidades de compreensão dessa aversão a partir de motivações subjetivas. um vendedor de conhecimentos. Adorno (1995e) aponta a aversão da sociedade com relação a profissão docente como um dos problemas que acompanham a educação e que. mesmo que não corresponda à realidade. 98). p. o intelecto do professor foi convertido em mero valor de troca. 104). por tratar-se de um poder sobre sujeitos civis não totalmente plenos – as crianças –. por sua vez. Essa aversão é explicada pelo autor como resultado de alguns tabus que pairam sobre o magistério.. E continua: “os tabus. à exceção do professor universitário. A discrepância entre a posição material do docente e a sua exigência de status e poder. 1995e. somente a superação da consciência coisificada. ao . desde o século XIX. mas também de outros. de diferentes linhas teóricas. que vinculam esta profissão como que a uma interdição psíquica que a submete a dificuldades raramente esclarecidas (ADORNO. das próprias crianças. responsável por converter as relações humanas e os próprios homens em “coisas”. enquanto sedimentação coletiva de representações. a imagem do magistério transmitiria um clima de falta de seriedade. p.]” (ADORNO. se conservam como preconceitos psicológicos e sociais que. que é admirado. principalmente. 1995e. desempenha um papel importante. faz com que o poder do professor seja execrado. De acordo com o autor. embora não se apresente de forma explícita na chamada crise de renovação do magistério. A escola. convertendo-se em forças reais” (ADORNO. segundo Adorno (1995e). frente a qualquer apreensão do próprio condicionamento. impondo como sendo absoluto o que existe de um determinado modo” (ADORNO. pode possibilitar a emancipação do indivíduo. 1995e. A imagem que o magistério como uma profissão de fome. relacionadas aos tabus. 132). Os problemas presentes na escola vêm sendo discutidos por diversos autores. “Expressões como ‘tirano da escola’ lembram que o tipo de professor que querem marcar é tão irracionalmente despótico como só poderia sê-lo a caricatura do despotismo [. A repulsa pela profissão de professor. Nesse sentido. e ainda hoje continuam em pauta. sendo o professor visto como socialmente incapaz. pode ser um exemplo. p. apresenta uma série de limitações que dificultam e comprometem a formação para a resistência e emancipação do indivíduo. embora seja reconhecida como um espaço fundamental de formação na modernidade. retroagem sobre a realidade. Para o autor: Tabus significam representações inconscientes ou pré-conscientes dos eventuais candidatos ao magistério. poderia ser explicada a partir das imagens que foram construídas sobre a profissão ao longo da história. que não é levado a sério pela opinião pública. 1995b.. p. na medida em que parodia o poder verdadeiro.

protetora e cheia de afetividade. A civilização que lhes proporciona. podem ser despertadas conforme as necessidades da economia psíquica. os problemas enfrentados pela educação são decorrentes da crise da autoridade na modernidade. na medida em que a criança é retirada da sua comunidade primária. e a resposta a ela é a apreensão negativa da imagem do professor. pela primeira vez. Trata-se de um momento social que condiciona tensões praticamente inevitáveis. à educação e aos professores) baseia-se em estereótipos herdados ou. Nesse sentido. como todas as sobras remanescentes no inconsciente. transmitindo conhecimentos e valores. Assim. ao mesmo tempo. baseados na situação objetiva do professor. nas condições vigentes. Segundo Adorno (1995e. as privações que lhe impõe. O fato de ser detentor de um conjunto de conhecimentos poderia se constituir em vantagem e é o que de fato ocorre. Ao professor é delegada a função da chamada integração civilizatória. Segundo a autora. apenas com o suporte da violência. para Arendt (2011). aquele que executa o que é necessário para tudo funcionar. 41 mesmo tempo em que carrega em si a imagem negativa do homem que castiga. e experimenta. essa violência física é delegada pela sociedade e ao mesmo tempo é negada nos delegados. Tal integração talvez seja a principal finalidade da educação. a imagem que se tem do professor parece ter influência sobre o trabalho de transmissor de conhecimentos que realiza junto aos seus alunos. Portanto. contra a qual se dirige o ego ideal da criança ainda não preparada para vínculos de compromisso. Mas. 112): O agente dessa alienação é a autoridade do professor. a qual lhe confere autoridade e da qual não se abre mão. a função da educação também só pode ser realizada. “Os executantes são bodes expiatórios para os mandantes” (ADORNO. p. mas que. Essa vantagem é indissociável de sua função. enfim. a cultura. porque os próprios mestres constituem produtos da imposição da adequação. p. Nesse sentido. 109 grifos do autor). aquele que é fisicamente mais forte e pune o mais fraco. mobilizam automaticamente nas crianças a imagem do professor que se acumularam no curso da história e que. muitas vezes. na medida em que a sociedade permanece baseada na força física. De outra parte. 106). a resistência das crianças e dos jovens (à escola. por mais remota que seja essa possibilidade. a déformation professionele torna-se praticamente a própria definição da profissão” (ADORNO. A imagem negativa do professor – um imaginário de representações inconscientes efetivas – traz consigo algo do carrasco. p. “na imagem do professor. 1995e. a perda geral da autoridade na vida pública e política encontrou a sua expressão mais radical na esfera pré- . 1995e. recebe desprezo pelo fato de não se admitir em nenhuma hipótese a necessidade da força física para que a formação aconteça. a alienação. conseguindo impor suas determinações quando é necessário somente mediante a violência.

Segundo Arendt (2011). entendido como essência da atividade educacional. Na política. não está pautada apenas na sua qualificação. a ideia de que um mundo novo é construído mediante a educação das crianças. tal atitude conservadora não pode senão levar o mundo à destruição uma vez que para evitar a ruína é necessário que existam seres humanos determinados a intervir. o que exige um respeito extraordinário pelo passado. isso porque a tradição do pensamento político ocidental. considera a autoridade dos pais sobre os filhos e dos professores sobre os alunos como modelo pelo qual se compreendia a autoridade política. o professor é um dos representantes. segundo Arendt (2011). o mundo da criança. a perda da autoridade do professor está relacionada à tendência do país a igualar ou apagar tanto quanto possível as diferenças entre jovens e velhos. segundo a autora. a crise da autoridade na educação está diretamente relacionada à crise da tradição e a maneira como nos relacionamos com o passado. para a autora. não é válido para o âmbito da política onde a relação ocorre entre adultos e com iguais. Os pressupostos apresentados acima – pelo menos o primeiro e o segundo – . pois sua tarefa é abrigar e proteger a criança do mundo e. a criar o novo. o . também. contradiz os próprios objetivos da educação que é ensinar às crianças como o mundo é. 42 política. portanto. segundo Arendt (2011). 2) a Pedagogia ter se transformado em uma ciência do ensino em geral a ponto de se emancipar inteiramente da matéria efetiva a se ensinar. mas na responsabilidade que assume frente às novas gerações: ser o mediador entre o velho e o novo. seria mais aguda. Essa ideia. capaz de instruir os outros acerca deste. crianças e adultos e. a educação precisa ser conservadora. inevitavelmente. A autoridade do professor. A escola. no entanto. nesse processo. particularmente. entre alunos e professores. Para Arendt (2011). pois se. é o espaço no qual a criança é introduzida no mundo e. uma vez que só se pode compreender o que se faz. e 3) defende-se ser necessário substituir a aprendizagem pelo fazer. onde a crise. é também contraditória. pois o mundo a ser apresentado é velho e a sua aprendizagem deve voltar-se. A crise da autoridade é analisada por Arendt a partir da experiência educacional nas escolas americanas. para o passado e não para o futuro. que é indispensável. Nesse sentido. contribuem para a crise da autoridade do professor posto que reforçam a ideia de que se deve respeitar a independência da criança. Assim. desde Platão e Aristóteles. Essa prática se baseia em três pressupostos básicos: 1) considera-se que existe um mundo da criança e uma sociedade formada por crianças autônomas que devem se autogovernar – a função do adulto é de apenas auxiliar esse governo. para a autora. de acordo com a autora. segundo Arendt (2011). Esse conservadorismo. por um lado. mantendo-a artificialmente no seu próprio mundo e a excluindo do mundo dos adultos.

O homem moderno. 43 mundo moderno não está estruturado pela autoridade. dependerá da definição da espécie de sociedade que se pretende alcançar. de fato. a educação. 241). e ambos são modificados. Para o autor. a educação moderna “na medida em que procura estabelecer um mundo de crianças. por sua natureza. como utilização do passado para a preparação de um futuro remoto. que sua recusa a assumir. segundo a autora: A perda geral da autoridade. por intermédio do ambiente. mas estabelece condições que estimulam certas disposições mentais do indivíduo para a ação. Dewey (1979). em relação às crianças. p. e aponta como causa a presença de uma crise ética. sem relacioná-lo com o contexto social. o autor aponta para a necessidade de se criar um ambiente social especial capaz de desenvolver as aptidões dos imaturos. todavia. Ainda. não pode abrir mão de nenhuma delas. e hábitos de espírito que permitam mudanças sociais sem o ocasionamento de desordens” (DEWEY. Dessa forma. para o autor. e tampouco pela tradição. Sendo assim. tomando como referência também a educação na sociedade norte-americana. Aquino (1999) também identifica uma crise da autoridade na educação. Dewey (1979) critica as teorias que concebem a educação de forma retrospectiva. De acordo com o autor ainda. não poderia encontrar expressão mais radical do que sua intrusão na esfera pré-política. sim. há um processo de esfacelamento da . limita-se a discutir o fenômeno apenas do ponto de vista da organização institucional. defende que esta não pode ser conservadora. por outro lado. recusada pelos adultos na medida em que estes se recusam a assumir a responsabilidade pelo mundo ao qual trouxeram as crianças. p. como a sociedade moderna está em constante mudança. destrói as condições necessárias ao desenvolvimento e crescimento vitais” (ARENDT. ou de forma prospectiva. 236). Ao contrário do que sugere Arendt (2011). por outro lado. Nesse sentido. cuja função social é assegurar a direção e o desenvolvimento pessoal dos imaturos. mas progressista e renovadora. p. do processo ativo e construtor. diferentemente da filósofa. não poderia encontrar nenhuma expressão mais clara para a sua insatisfação com o mundo. a responsabilidade por tudo isso (ARENDT. A concepção de educação. como repetição do passado. 2011. Daí a ideia de que jamais se educa diretamente e. Tal concepção compreende que o meio social não implanta diretamente certos desejos e ideias. 106). por isso. em que a autoridade parecia ser ditada pela própria natureza e independer de todas as mudanças históricas e condições políticas. para seu desgosto com o estado de coisas. Assim como Arendt (2011). uma sociedade democrática “deve adotar um tipo de educação que proporcione aos indivíduos um interesse pessoal nas relações e direção sociais. 2011. situação em que ocorre a interação entre o ser e o ambiente. a educação. se distingue destas por pautar-se na ideia de contínua reconstrução da experiência. 1979. o autor propõe que é preciso também educar para a mudança. Segundo Dewey (1979). indiretamente.

Para o autor. essa noção de autoridade. uma vez que a criança não confia em quem hesita. está relacionada à ambiguidade ou inadimplência da parte dos agentes responsáveis frente às regras do “jogo” que garantem o exercício da autoridade na instituição escolar. mas se configura como uma relação de parceiros que deve ser reatualizada a cada instante. O professor. como professores. Nesse sentido. A origem dessa força está em seu interior e não naquilo que lhe é exterior. para o autor. Assim. 2011. ter determinação e confiança. para Aquino (1999). na atualidade adquiriu a condição de oscilação e provisoriedade. Dessa forma. sem dúvida. agressão e violência. segundo. a autoridade dos agentes é dependente da existência de clareza razoável quanto aos propósitos da relação e de uma nítida configuração das atribuições de cada uma das partes envolvidas no processo educacional. o reconhecimento da autoridade do professor por parte dos alunos não é uma reação automática tampouco um dever natural. gestores e funcionários. resultante de uma crise ética que é decorrente das relações estabelecidas entre os seus protagonistas frente à questão da autoridade. portanto. A crise ética na educação. no entanto. desrespeito. só pode manifestar autoridade se ele de fato a possuir. e. alunos. cuja expressão pode ser observada em atos de indisciplina. o que é a mais essencial. não em si mesmo ou nas qualidades superiores de sua inteligência ou coração. A validação da autoridade. 44 instituição escolar na atualidade. limites e possibilidades da relação. para que haja cooperação. depende da confiança que é depositada nela por parte dos alunos. deve-se a noção de autoridade inserida na configuração institucional. Nesse sentido. o professor é entendido . toda relação institucionalizada não pode prescindir de algumas condições fundamentais para o seu funcionamento. 72). Durkheim (2011) também considera a autoridade como um elemento imprescindível no processo de formação do indivíduo. sentir dentro de si a autoridade e transmitir esse sentimento. p. portanto. As discussões apresentadas por Arendt (2011) e Aquino (1999) colocam como questão central da crise da autoridade na educação a posição de negligência dos adultos na formação das novas gerações. defende que a efetivação da autoridade do professor está relacionada a duas condições necessárias: primeiro. é necessário que o lugar da autoridade seja legitimado pelos outros envolvidos na ação. “Ele deve crer. necessária a regulação das relações. portanto. mas sim na sua tarefa e na grandeza da mesma” (DURKHEIM. como o estabelecimento de parâmetros de conduta para as partes envolvidas e a explicitação contínua dos objetivos. embora possua um caráter preexistente e predeterminado historicamente. A regulação das relações entre os atores. delimitados em seus respectivos lugares e funções. segundo Aquino (1999). Segundo Aquino (1999). se contrapondo a noção clássica de autoridade baseada na tradição.

em concordância com os autores acima. Nesse sentido. como a família e a escola. mas apenas o seu enfraquecimento nas instituições responsáveis pela formação. ainda de acordo com Adorno (1995e). não é possível afirmar a existência de uma crise geral da autoridade. Para Adorno (1995b). sobre a necessidade da legitimação constante da autoridade pelos alunos por meio da negociação de regras. mas pela experiência formativa. invisível. no entanto. com uma tendência imanente a se estabelecer como esfera da própria vida e dotada de regulamentação própria. Isso não elimina. Os autores da teoria crítica da sociedade. Adorno (1995b) também parece discordar das concepções apresentas por Aquino (1999). a autoridade econômica. dada as comodidades que oferece ao indivíduo. as transformações decisivas não residem na escola. Ao contrário. Portanto. com o deslocamento para a esfera econômica da vida social. no entanto. a vida em sociedade. que depende do esforço espontâneo. mas na sociedade e em sua relação com a escola. a necessidade de corrigir. embora a escola se constitua como espaço privilegiado para a “desbarbarização” da humanidade. acerca da exigência de que o professor se reconheça como portador da autoridade. o combate à barbárie pela via da educação só é possível se a democracia nas relações sociais e a liberdade se constituírem nos fundamentos de toda e qualquer ação pedagógica. por meio do processo de formação profissional. ela apresenta condições mínimas para resistir à barbárie gerada pela sociedade. responsável por adaptar os indivíduos às exigências sociais e. De qualquer maneira. ser indispensável contextualizar a chamada crise da autoridade em relação a todas as mudanças históricas e condições políticas. Portanto. mas sim a presença incisiva de uma autoridade abstrata. 45 por Durkheim (2011) como o intérprete das grandes ideias morais de sua época. disposição aberta e capacidade de se abrir aos elementos do espírito por parte do indivíduo. discordam da ideia da filósofa sobre o mundo moderno não estar estruturado pela autoridade. a possibilidade de evitar determinados comportamentos do indivíduo considerados destrutivos não seria possível por meio do apelo a vínculos de compromisso. e por Durkheim (2011). para esses autores não há uma crise da autoridade na sociedade moderna. Sendo assim. interesse. as deformações psicológicas que perduram em muitos professores e que se manifestam em condutas autoritárias que prejudicam o objetivo educacional. reconhecem a necessidade de que os adultos se responsabilizem pelas novas gerações e admitem. portanto. como forma de garantia do seu exercício. assim como Arendt (2011). Adorno (1995e) atenta para a importância do esclarecimento como meio necessário para que a escola de fato . contra a qual é difícil lutar ou fazer a crítica na medida em que a racionalidade tecnológica é capaz de tornar razoável a falta de liberdade de modo que essa situação seja até confortável.

do método e dos instrumentos utilizados para coleta de dados bem como dos resultados de pesquisa e da análise do seu conteúdo à luz da teoria crítica da sociedade. p. quero que por meio do sistema educacional as pessoas comecem a ser inteiramente tomadas pela aversão à violência física (ADORNO. 1995a. com a apresentação da delimitação do problema de pesquisa. assim como o papel da autoridade na formação dos indivíduos. 46 se liberte dos tabus que acabam por reproduzir a barbárie. por exemplo. . 165). A concepção de Adorno sobre o que seria uma formação contra a barbárie é resumida na seguinte frase do autor: Com a educação contra a barbárie no fundo não pretendo nada além de que o último adolescente do campo se envergonhe quando. terão sequência no próximo capítulo. agride um colega com rudeza ou se comporta de um modo brutal com uma moça. As discussões acerca dos limites e possibilidades da escola na luta contra a barbárie.

esta não pode ser considerada como uma ilha isolada e independente da dinâmica social e a-histórica. a família constitui-se como uma forma de organização social. tal como sugerem os autores da teoria critica. A família possui um caráter dialético. sob perspectivas sociológicas. as discussões acerca da família apresentadas são limitadas às perspectivas propostas pelo referencial teórico da teoria crítica. antropológicas. e tampouco caberia aqui. é necessário salientar que este trabalho não apresenta como escopo. consciente ou inconsciente. delimitou-se como tema de pesquisa as relações de autoridade exercidas pelos adultos sobre os adolescentes na escola e na família. suas pré-disposições e modos de agir. assim como a sociabilidade. 191). natural da família. codeterminadora de cada passo do indivíduo. podem ser encontradas em Canevacci (1987). pois ao mesmo tempo em que é mediatizada pela sociedade também é necessária 6 Discussões mais aprofundadas acerca da instituição família. p. 47 CAPÍTULO II A AUTORIDADE SEGUNDO OS ADOLESCENTES 2.1 DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA DE PESQUISA. Na concepção de Horkheimer e Adorno (1973). responsável por garantir as condições de desenvolvimento físico e psíquico de seus membros. psicológicas e filosóficas. são responsáveis pela formação das qualidades psíquicas dos homens. em suma a autoridade como uma marca da existência inteira (HORKHEIMER. Contudo. de se adaptar e subordinar. a virtude de responder afirmativamente a situações existentes como tais no pensar e no agir. embora seja inegável o caráter biológico e. A opção por analisar as relações de autoridade nessas esferas decorre da identificação de que tanto a família como a escola são instituições culturais que. segundo Horkheimer (2008). Para os autores. Dessa forma. OBJETIVOS E HIPÓTESE Considerando que a autoridade se constitui como um elemento essencial e indispensável na formação do indivíduo. pautada em laços de dependência afetiva e material. apresentar um estudo aprofundado sobre a família6 visto que o objeto de pesquisa limita-se a discutir as relações de autoridade na escola e na família a partir da experiência narrada pelos adolescentes. 2008. desempenhando um papel fundamental na manutenção ou dissolução do regime social. Tais instituições culturais são definidas pelo autor da seguinte maneira: A elas pertence a capacidade. tampouco totalmente determinada por ela. de viver na dependência de ordens dadas e vontade alheia. . portanto.

mas está presente em todas as relações de dependência. momento decisivo para a afirmação. será possível observar que as relações de autoridade se manifestam também entre os alunos. Os jovens e adolescentes encontram-se submetidos a várias instâncias de dominação e entre elas está. 230). é sempre consideravelmente mais forte e tirânica do que a mais severa autoridade de um indivíduo isolado” (ARENDT. principalmente. A opção por analisar as relações entre os adolescentes e os adultos na escola e na família é resultante da concepção de que os segundos são fundamentais no processo de formação do indivíduo. Considera-se que nessa fase da vida. p. mesmo quando se caracterizam como modelos autoritários. afirma ainda que: Se a organização social e a indústria cultural impedem a liberdade e a autonomia. também. p. da autoridade econômica. portanto. Se tomarmos como referência apenas o espaço escolar. “a autoridade de um grupo. embora não seja possível dissociá-lo da dinâmica social e. as formas de controle são mais rígidas por parte da família devido à intenção de se garantir a inserção de seus membros na lógica da organização social. conforme aponta Giovinazzo Jr. e. afirma que “ao emancipar-se da autoridade dos adultos. 48 como instituição reprodutora da cultura. em que os indivíduos ainda estão em formação e se caracterizam pela imaturidade. conforme apontou Freud (2007). 2011. Ainda segundo a autora. mas também nesta instituição. mesmo que este seja de crianças. é necessário destacar que tanto a definição do tema . Da mesma forma. 230). Cabe destacar ainda que as relações de autoridade não ocorrem de forma exclusiva nas relações entre crianças e adolescente e adultos. (1999). portanto. 19). a criança não foi libertada. e sim sujeita a uma autoridade muito mais terrível e verdadeiramente tirânica que é a tirania da maioria” (ARENDT. Arendt (2011). O autor. 1999. nas econômicas. a escola (GIOVINAZZO JR.. portanto. é quando os indivíduos estão na idade juvenil. p. pais e filhos. a família contém em si tanto elementos repressores destinados à adaptação do indivíduo às necessidades impostas para a reprodução social como apresenta uma autonomia relativa em relação à sociedade sendo capaz de desenvolver no indivíduo a autonomia. 2011. que os adultos se constituem como referência para as novas gerações. que as “castrações” são mais violentadoras. tomando como referência os autores frankfurtianos. a delimitação do adolescente como sujeito da pesquisa não ocorreu de forma aleatória. ao analisar a crise da autoridade na educação. no mundo da produção capitalista. Considera-se. professores e alunos. Assim. Nesse sentido. A concepção de família apresentada pela teoria crítica foi responsável pela perspectiva adotada nesta pesquisa de analisar as relações de autoridade não apenas na escola. Dessa forma. conforme discutido no Capítulo I.

Sendo assim. a pesquisa foi desenvolvida a partir do seguinte problema : qual a relação que os adolescentes. reflexão e. o ego é resultante de diferenciação progressiva do id. instância esta fonte de toda libido na qual estão contidas as paixões e o princípio do prazer e que foi modificada pela influência direta do mundo externo. portanto. No Complexo de Édipo. Analisar o posicionamento dos adolescentes frente à autoridade a qual estão submetidos na escola e na família. desenvolvem com a autoridade exercida sobre eles na escola e na família e qual a compreensão que expressam sobre a autoridade? Dessa questão principal decorrem as seguintes: 1. Descrever e examinar. segundo a qual. do 9º ano de duas escolas da rede municipal de ensino de São Paulo. esforçando- se para substituir o princípio do prazer pelo princípio da realidade. Como os adolescentes expressam a experiência com a autoridade na escola e na família? 2. a autoridade teria uma importância decisiva na formação do ego. desenvolvem com a autoridade exercida sobre eles na escola e na família e a compreensão que expressam sobre autoridade. do 9º ano de duas escolas da rede municipal de ensino de São Paulo. pela capacidade crítica do indivíduo. Como os adolescentes reagem diante da autoridade a qual estão submetidos na escola e na família? Em decorrência do problema apresentado. o ego sofre uma gradação da qual se forma o superego. processo em que ocorre a identificação da criança com o pai e a internalização da sua autoridade. o ego procura aplicar essa influência do mundo externo sobre o id. como se caracteriza a experiência destes com a autoridade na escola e na família. instância do aparelho psíquico responsável pela razão. definiu-se como objetivo geral da pesquisa: analisar a relação que os adolescentes. Como objetivos específicos foram definidos: 1. 49 como a delimitação do problema de pesquisa tiveram como base teórica a teoria crítica da sociedade. Sendo assim. A formulação das hipóteses tem como referência a apropriação que os autores frankfurtianos fizeram da teoria freudiana. parte da estrutura psíquica . 2. por meio do que expressam os adolescentes. Segundo Freud (2007).

representante das normas e regras sociais. 2. [. enquanto o ego. significa a possibilidade de o indivíduo resistir criticamente às influências exteriores contrárias aos seus interesses. Entretanto. cuja moralidade possui uma qualidade severamente restritiva.. por parte dos adolescentes.. 49).] pode tornar-se mais resistente às influências de tais identificações” (FREUD. 38). o fortalecimento do ego e. “o papel do pai é exercido pelos professores e outras pessoas colocadas em posição de autoridade. Assim. p. portanto. conforme delimitadas abaixo: 1. ao longo do desenvolvimento da criança. Para os autores da teoria crítica. a exercer a censura moral” (FREUD. De acordo com Freud (2007). p. e que se constitui na instância com a principal influência na repressão dos instintos. Segundo o autor. diante do que é imposto. o fortalecimento do ego frente ao superego. tende a garantir progressivo domínio sobre as pulsões. Numa sociedade injusta. Tal concepção está presente nas hipóteses desenvolvidas nesta pesquisa. pautada pela racionalidade tecnológica que submete a individualidade do homem a uma organização social coordenada em grande escala e os predispõe a aceitar e introjetar os ditames do aparato. o superego. 2007. 50 responsável pela auto-observação e pela consciência moral. embora apresente poucas condições para isso devido a forte pressão exercida sobre os indivíduos pela sociedade e as condições oferecidas para a sua formação. . “à medida que o ego fica mais forte. como representante da realidade. A autoridade exercida pelos adultos sobre os adolescentes é reduzida a expressões de autoritarismo. uma vez que remete para a lembrança da antiga fraqueza e dependência do ego. o superego tem como papel algo similar ao de um juiz ou censor. como portador dos preceitos e da coerção do pai. da capacidade crítica perante a realidade social mostra-se extremamente necessária. 2007. manifestadas nas exigências acríticas de observância e obediência às regras e na indiferença. suas injunções e proibições permanecem poderosas no ideal do ego e continuam. mas se limita apenas à adaptação destes a realidade imposta pela estrutura social. sob a forma de consciência. caracteriza-se pela capacidade de se manter a parte do ego e de exercer poder sobre ele. tal como apontado por Marcuse (1999). A autoridade exercida pelos adultos não é capaz de desenvolver a autonomia nos adolescentes.

1 Instrumentos de pesquisa Para coleta de dados utilizou-se dois instrumentos de pesquisa: o grupo focal e a aplicação de questionário. experiências e reações.2 MÉTODO 2. p. A opção por coletar dados a partir do grupo focal é resultante do próprio problema de pesquisa. Grupo focal Foram realizados dois grupos focais com alunos do 9º ano do Ensino Fundamental. selecionadas com base nos critérios de colocação no IDH e pontuação no IDEB. que esta preocupação não esteve presente nesta pesquisa à medida que a escolha do método teve a intenção apenas de incentivar a participação coletiva e não de observar as interações dos membros do grupo. A técnica de grupo focal consiste em reunir um grupo de pessoas. pois se considerou que a dinâmica interacional do grupo poderia incentivar a participação dos membros. em duas escolas da rede municipal de ensino da cidade de São Paulo. fazendo emergir informações. uma em cada escola. a partir das trocas realizadas no grupo. de diferentes turmas do 9º ano do Ensino Fundamental II de cada escola. a entrevista ou questionários. totalizando uma amostra de 12 alunos. 51 2. 9): A pesquisa com grupos focais tem por objetivo captar. conceitos.2. Segundo Morgan e Krueger (1993 apud GATTI. para discutir determinado tema a partir da experiência pessoal dos participantes. sentimentos. 2005. a maior justificativa para a utilização do grupo focal deve-se a preocupação dos pesquisadores em observar as interações em grupo uma vez que a sequência de relatos possibilita compreender o impacto das vivências do grupo sobre as trocas dos participantes. selecionadas pelo pesquisador. conforme será detalhado na caracterização das escolas. Foram realizadas duas sessões. opiniões e impressões sobre a relação que os alunos adolescentes estabelecem com a autoridade na escola e na família com certo detalhamento e profundidade. Segundo Gatti (2005). Vale destacar. Cada grupo foi composto por seis alunos (três meninas e três meninos). como. crenças. . por exemplo. de um modo que não seria possível com outros métodos. a observação. no entanto. com duração de aproximadamente duas horas cada uma. Durante a realização do grupo focal são abordadas questões que estão relacionadas ao objeto de pesquisa. atitudes.

optou-se por detalhar os temas em questões mais direcionadas. No entanto. que embora se identifique divergência entre o método utilizado nesta pesquisa em relação à definição das especificidades que caracterizam um grupo focal para Gatti (2005). (2003). assim como as sanções aplicadas em caso de descumprimento das regras estabelecidas. por exemplo. por meio de questões como. optou-se por adotar formalmente o nome grupo focal para o instrumento utilizado. A princípio seriam apresentados para a discussão em grupo apenas alguns temas ou ideias mais amplas. As discussões entre os membros do grupo foram estimuladas a partir da apresentação de uma série de questões. .  A relação que os adolescentes desenvolvem com os adultos na escola. É importante destacar que embora todas as questões baseadas no roteiro tenham sido apresentadas aos participantes em ambos os grupos focais. 2003. Contudo.. como o domínio do conteúdo. 52 Nesse sentido. p. As questões apresentadas no grupo focal tinham como objetivo coletar. do que do grupo focal tal como caracterizado por Gatti (2005).  As características que os adolescentes consideram necessárias para ser um “bom” professor. “fale sobre a sua relação com os adultos da sua família”. a partir das falas dos alunos adolescentes. após o primeiro contato com os alunos. conforme apresentadas no anexo 3. 7). desenvolvidas com base em roteiro apresentado no Anexo A.  A compreensão dos adolescentes sobre quais seriam os aspectos positivos e negativos da escola. A técnica de dinâmica de grupo utilizada como método de pesquisa pelo autor distingue-se do grupo focal “por não ter como referência o grupo em si. pode-se afirmar que o tipo de instrumento utilizado aproximou-se mais da chamada dinâmica de grupo. a própria dinâmica das discussões contribui para que outras surgissem ao longo da atividade. isso explica algumas diferenças presentes nas discussões desenvolvidas em cada grupo. as seguintes informações: Expressões de autoridade no espaço escolar:  A rotina diária dos adolescentes na escola. a competência didática.  As cobranças e limites impostos pela escola sobre o comportamento dos adolescentes. salientamos ainda. a fim de garantir a coleta de informações necessárias à pesquisa de forma mais precisa. mas os indivíduos” (GIOVINAZZO JR. técnica proposta no trabalho de Giovinazzo Jr.

No entanto. gestos e olhares como uma importante fonte de expressão que pode contribuir para uma maior compreensão sobre a relação que estes estabelecem com a autoridade. conforme aponta Freud (2007). mas é internalizada por ele no processo de formação. As discussões em grupo foram gravadas em áudio e vídeo e.  As expectativas das famílias dos adolescentes em relação à escola. aos estudos e à educação de seus filhos. admite-se que o instrumento apresenta algumas limitações devido as dificuldades de apreensão de dados e da análise do próprio objeto autoridade na realidade objetiva. Essas dificuldades tornam-se ainda mais complexas numa sociedade em que as expressões de autoridade estão reduzidas muitas vezes ao autoritarismo.  As características do clima da escola. transcritas. é importante esclarecer que existem limitações no seu estudo.  A relação dos adolescentes com seus pares.  As cobranças e limites impostos pela família sobre o comportamento dos adolescentes. como formas de manifestações da autoridade contidas nas relações entre os adolescentes e os adultos. posteriormente. além da fala. considerando que a autoridade não se restringe a um elemento externo ao indivíduo.  As expectativas dos adolescentes com relação à escola. 53 afetividade/proximidade com os alunos. A opção por filmar os participantes deveu-se à necessidade de captar. Expressões de autoridade no âmbito familiar:  A rotina diária dos adolescentes em casa. embora a opção tenha sido de coletar informações sobre a presença de regras. a capacidade de impor autoridade. não se pretende afirmar . entre outras. Portanto. É necessário salientar que na construção do roteiro que orientou a coleta de dados houve a preocupação em contemplar todas as informações necessárias para responder o problema de pesquisa.  Os adultos que compõem a rede de relações dos adolescentes no âmbito familiar. Assim. limites e punições existentes na escola e na família. assim como as punições aplicadas em caso de descumprimento das regras estabelecidas.  A relação que os adolescentes desenvolvem com os adultos no âmbito familiar.

em escolas com características distintas. as atividades que estes desenvolvem fora da escola. também é um meio para o controle. contendo. sobre a composição familiar dos adolescentes. alienação e adaptação do indivíduo à sociedade. mas que é apenas a forma possível de expressão da autoridade na sociedade administrada. Questionário Além do grupo focal. O instrumento foi aplicado alguns minutos antes da realização do grupo focal em cada escola. apresentadas no Anexo B. também foi utilizado como instrumento de pesquisa um questionário contendo 10 questões (nove fechadas e uma aberta). não fosse possível coletar informações mais detalhadas sobre os sujeitos da pesquisa. pois temia-se que. devido à quantidade de participantes e a limitação do tempo. portanto. colocação no IDEB e no IDH. porém. inclusive. 2. ambas situadas em localidade com baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e pertencentes à mesma Diretoria de Ensino.2 Caracterização das escolas A fim de compreender a relação que os adolescentes do 9º ano do Ensino Fundamental desenvolvem com a autoridade exercida sobre eles na escola e na família e qual a compreensão que expressam sobre autoridade. questões que foram abordadas nos grupos. a autoridade é dialética e. 54 que esses recursos de controle e cerceamento sobre o comportamento dos indivíduos expressem a autoridade. pois ao mesmo tempo em que é necessária para a formação e é condição para a autonomia.2. sendo uma considerada com índice alto e outra considerada com índice baixo no IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). embora essa adaptação contrarie os seus interesses e necessidades. optou-se pela seleção de duas escolas de Ensino Fundamental da rede municipal de ensino de São Paulo. Considerou-se que na medida em que ambas as escolas estão inseridas em condições . Conforme apresentado no Capítulo I. o envolvimento destes com as atividades domésticas e a relação que estabelecem com os adultos da família. estão relacionados ao interesse desta pesquisa de selecionar alunos adolescentes pertencentes a contextos sociais com características semelhantes. as situações de moradia. Os critérios estabelecidos para a escolha das escolas. O questionário desempenhou a função complementar a do grupo focal. contém em si elementos contraditórios.

com a pontuação de 5. pontuação de 3. é importante salientar que se reconhece as limitações de ambos os índices. mas apenas observar se em diferentes realidades escolares os alunos apresentam diferentes posturas perante a autoridade. todas as unidades escolares e todos os atores envolvidos nesse processo (inclusive o aluno) fossem iguais e sofressem uma mesma interferência no processo de ensino e aprendizagem (BIANCARDI. é alvo de inúmeras críticas de pesquisadores que discutem a avaliação educacional. 55 objetivas de vida muito próximas. p. Não existe por parte dessa avaliação. No entanto. indicadores adotados pelo poder público na formulação de ações e políticas. que atribui uma nota e estabelece uma média para ser alcançada. os resultados obtidos no IDEB podem ser um indicador de que as escolas possuem diferenças significativas no atendimento aos alunos.3 referente ao Ensino Fundamental (ciclo II). que esta pesquisa não teve como objetivo realizar um estudo comparativo entre as escolas selecionadas. tampouco confrontar o desempenho escolar com a relação que os alunos estabelecem com a autoridade. A rede municipal de São Paulo é composta por 532 escolas de Ensino Fundamental (ciclo II). É necessário destacar. que será denominada como Escola A.. É como se toda a população. educação e longevidade. foi selecionada por estar entre as 21 escolas municipais com melhor colocação no IDEB de 2011. por sua vez. denominada Escola B. A primeira escola. podem ser observadas nas Tabelas 1 e 2. Vale ressaltar ainda que os critérios IDEB e IDH foram selecionados pelo seu caráter de dado oficial. isto é. abaixo: . a preocupação em avaliar a realidade local. no entanto.7 referente ao Ensino Fundamental (ciclo II). no que se refere às notas do IDEB. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). As diferenças entre as escolas A e B. A segunda escola. e dados do Censo Escolar sobre a taxa de aprovação e retenção de alunos. conforme apontam as avaliações externas. desconsiderando todos os outros fatores que poderiam incidir sobre o desenvolvimento humano. os problemas específicos e únicos de uma unidade escolar ou de um município. foi selecionada por estar entre as 56 escolas municipais com pior colocação no IDEB de 2011.] o IDEB avalia somente o fluxo e proficiência em Língua Portuguesa e Matemática. De acordo com Biancardi: [. O IDEB. configura-se como um indicador de qualidade da educação brasileira. no entanto. considerado o segmento mais crítico da educação no que se refere ao desempenho escolar. 2010. 59). por sua vez.. que relaciona dados da Prova Brasil e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) – exames padronizados – realizados por alunos do último ano dos Ciclos I e II do Ensino Fundamental e do último ano do Ensino Médio. todos os municípios. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) apresenta limitações ao pautar-se apenas nas variáveis renda.

15% e. A Escola A está localizada no distrito de Iguatemi. com IDH 0.3 Escola B 3.0 4.3 Escola B 3. De acordo com o Atlas do Trabalho e Desenvolvimento da Cidade de São Paulo (2007).1 3. com IDH 0.50 é de 30. pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano.7 3. O Índice de Desenvolvimento Humano é utilizado para aferir o desenvolvimento socioeconômico e social.7 Escolas da rede municipal de São Paulo 4.6 5. Tabela 3 com as variáveis que compõem o IDH – baseadas no Censo Demográfico de 2000.5 3.7 4. como medida padrão para comparar o desenvolvimento dos países.3 3.1 3. educação e longevidade.9 Escolas da rede municipal de São Paulo 4.4 5.1 4.2 3.701.751. .7 Fonte: Portal IDEB. 2013 Ambas as escolas encontram-se situadas na Zona Leste da cidade de São Paulo e localizam-se em regiões com baixo IDH. o percentual de crianças em domicílios com renda per capita menor que R$ 75.4 5. realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – dos distritos onde estão localizadas as escolas estudadas.8 Escolas públicas do Brasil 3.5 3.3 4. a partir de três componentes básicos: renda. estão entre os piores IDH da cidade.3 Escolas públicas do Brasil 3. Pontuação média alcançada no IDEB referente ao Ensino Fundamental (ciclo I) Unidades de análise 2005 2007 2009 2011 Escola A 4.2 3. Segue.6 4. no segundo. e a Escola B no distrito de São Rafael. é de 27.99%.2 4.767.9 4.9 Fonte: Portal IDEB. 56 Tabela 1.9 4. e foi utilizado para aferição do nível de desenvolvimento dos 96 distritos da cidade de São Paulo.2 5.0 4. Pontuação média alcançada no IDEB referente ao Ensino Fundamental (ciclo II) Unidades de análise 2005 2007 2009 2011 Escola A 3.9 4.4 4. No primeiro. desde 1990. Esse indicador foi adotado.961 e 0. 2013 Tabela 2. Portanto.3 3. o IDH dos 96 distritos varia entre 0. além de informações sobre os distritos com melhor e pior IDH como referência.

17 99.04 São Rafael 0. Seu funcionamento está organizado em dois turnos. assim como a posição que ocupam no IDEB. A equipe gestora é composta por diretora. no que se refere a estrutura física.46 65. se constituem como dados oficiais. sala de recuperação . assim como na análise do seu conteúdo.70 66. distribuídos em oito turmas do ciclo I.89 68.767 86º 243. Possui apenas oito salas e atende 542 alunos do Ensino Fundamental. considera-se necessário também apresentar algumas características das instituições. documento contendo os princípios educacionais que orientam as ações das instituições.43 93.29 88.81 92.751 92º 211. consequentemente.12 Fonte: Atlas do Trabalho e Desenvolvimento da Cidade de São Paulo. e. Contudo. no período da manhã. 57 Tabela 3.03 Iguatemi 0. portanto.44 Marsilac 0. conforme será apresentado adiante. e oito turmas do ciclo II. no período da tarde. com maior e com menor valor Distritos IDH Posição Renda per Capita Longevidade Educação (em R$) (em anos) (% alfabetizados) Moema 0. ao número de docentes e discentes e as concepções educacionais e pedagógicas que orientam as práticas dos profissionais.961 1º 2. 13 pertencentes ao ciclo I e 23 ao ciclo II. Escola A A Escola A foi inaugurada em 1989 e sua construção foi resultado de várias reivindicações da comunidade local que não contava com nenhuma escola no Jardim Marilu. na maneira como se desenvolvem as relações entre os sujeitos. é importante destacar que as informações apresentadas abaixo foram disponibilizadas pelas instituições ou retiradas dos Projetos Pedagógicos das escolas. Portanto.826. a escola dispõe de recursos como sala de leitura. 2007 Além de contextualizar as localidades onde as escolas A e B estão inseridas. A unidade possui 36 docentes. essas particularidades que caracterizam as escolas devem ser consideradas no processo de análise dos dados coletados. Composição do IDH nos distritos da cidade de São Paulo onde se localizam as escolas pesquisadas. assistente de direção e duas coordenadoras. Tais dados são importantes para a pesquisa na medida em que são elementos que interferem diretamente nas formas de organização do ambiente escolar e. sendo o primeiro das 7h às 12h e o segundo das 13h30 às 18h30. Quanto à estrutura física.15 78. Outras características das escolas A e B poderão ser identificadas na descrição do processo de coleta de dados.701 96º 146.

consciente. mas também é educado no diálogo com o educando. tarde e noite. Escola B A Escola B possui 18 salas. Nesse sentido. conhecimentos. na promoção da integração . pelo número de salas. portanto. assim como permite ao aluno tomar consciência dos seus avanços e necessidades. crítico. em todas as modalidades de ensino. o Projeto Pedagógico defende ainda que as ações pedagógicas devem pautar-se nos princípios de respeito às diferenças e diversidades. laboratório de informática. defende a construção de uma aprendizagem significativa que permita aos alunos aprenderem por múltiplos caminhos e modos de expressão e considera a avaliação contínua do aluno como um instrumento que possibilita ao docente tomar decisões e rever as suas práticas. letrado. participativo. a fim de interagir e transformar o meio”. Quanto aos objetivos educacionais. solidário. pertencem ao bairro onde elas estão localizadas e. o Projeto Pedagógico da escola apresenta como proposição: “formar os educandos para o pleno exercício da cidadania. No que tange a proposta pedagógica da Escola A. quadra poliesportiva coberta. embora estivesse sendo utilizado para outra finalidade no momento da coleta de informações. além de um palco interno com camarim. os diferentes tempos e modos de aprender dos alunos. pátio externo. distribuídos entre o ciclo I e o ciclo II do Ensino Fundamental e na Educação de Jovens e Adultos. pátio interno. Nesse sentido. a escola destaca a importância de uma organização curricular que atenda os objetivos educacionais. participante da sua realidade local e global. Quanto às práticas pedagógicas. pela ausência de um palco e por possuir um espaço destinado para ser o laboratório de ciências. Os alunos de ambas as escolas. criativo. conhecedor de seus direitos e deveres. sendo muito maior que a primeira. de acordo com o Projeto Pedagógico (PP). bem como sua contextualização cultural e social”. com refeitório e espaço para o Projeto Xadrez. reflexivo. laboratório de informática e outros. mas se diferencia pelo tamanho. A concepção de educação apresentada no Projeto Pedagógico faz referência direta às ideias de Paulo Freire. 28 pertencentes ao ciclo I e 36 ao ciclo II. No que se refere à estrutura física. para quem o educador não é apenas aquele que educa. na sua grande maioria. e está organizada em três períodos: manhã. a instituição dispõe de recursos semelhantes aos da escola A. formas de pensar e agir. como sala de leitura. atende 1. a escola compreende o processo educacional como a possibilidade do desenvolvimento de um conhecimento crítico.271 alunos. educado. são oriundos das chamadas classes populares. 58 paralela. respeitando seus valores. capaz de transformar o mundo. A Escola B possui 64 professores. a instituição apresenta como objetivos educacionais: “formar o aluno cidadão.

em ambas as escolas. especialmente na Escola B. todos os sujeitos serão citados por meio de nomes fictícios. Além disso. A opção por selecionar apenas alunos do último ano do Ensino Fundamental é decorrente do interesse desta pesquisa em analisar a relação dos adolescentes com a autoridade na escola e na família. A princípio pretendia-se utilizar também como critério de seleção o fator tempo de estudo na escola – seriam selecionados apenas aqueles alunos que cursaram todo o Ensino Fundamental nas respectivas escolas. portanto. É importante destacar que todos os alunos participantes da pesquisa. manifestar opiniões contundentes sobre as formas de exercício da autoridade no espaço escolar. pertencentes a diferentes turmas de 9º ano do Ensino Fundamental. No entanto. critério indispensável para a participação na pesquisa. Nesta pesquisa. pertenciam ao mesmo bairro: na Escola A todos são moradores do Jardim Marilu e na Escola B todos são moradores do Jardim Rodolfo Pirani. a fim de se preservar a identidade dos participantes. esse critério precisou ser alterado em função da dificuldade de se conseguir voluntários.3 Caracterização dos sujeitos da pesquisa Os sujeitos selecionados para a pesquisa foram 12 alunos (seis meninas e seis meninos). na construção de um currículo que possibilite o conhecimento significativo e concebem a avaliação. os alunos já estão suficientemente integrados à vida escolar. realizada de forma continua e cumulativa. Segue abaixo. sendo seis de cada escola. Tabela 4. Diante dessa dificuldade. Considerou-se que o tempo de estudo na escola era um fator importante para a seleção dos participantes. pois ele seria a garantia de que o aluno de fato conhecia a escola em que estudava e poderia. ou seja. 2. 59 dos alunos. como um instrumento a serviço da aprendizagem do aluno. Parte-se do pressuposto que no último ano do Ensino Fundamental. a decisão por mesclar alunos de diferentes turmas teve por objetivo delimitar uma amostragem mais heterogênea dentro da escola. que eram alunos da escola desde o 6º ano. algumas características dos sujeitos selecionados: . optou-se por incluir no grupo focal também alunos que cursaram pelo menos todo o ciclo II do Ensino Fundamental.2. por terem vivido muitos anos da escolarização básica.

Observa-se que embora todos os sujeitos selecionados sejam alunos do 9º ano do ensino fundamental. Membros da família que moram com os sujeitos da pesquisa Sujeitos Escola Mãe Pai Pad Avó Tia Prima 1 2 3 irmão irmãos irmãos Paulo A X X X Caio A X X Tomas A X X X Ana A X X X Beatriz A X X X Andréia A X X Felipe B X X X Tiago B X X Pedro B X X X X Camila B X X X Daniela B X X X Flávia B X X X Legenda: Pad – padrasto 7 Compreende-se por composição familiar o grupo de pessoas que convive diariamente na mesma moradia. Na Escola A.9 anos. apesar do dado ser importante para a compreensão de quem são os sujeitos. Além da apresentação dos dados acima.5 Média 14. Caracterização dos sujeitos participantes da amostra Escola A Escola B Nomes Fictícios Sexo Idade Nomes Fictícios Sexo Idade Paulo M 13 Felipe M 14 Caio M 14 Tiago M 14 Tomas M 14 Pedro M 14 Ana F 14 Camila F 15 Beatriz F 13 Daniela F 14 Andréia F 13 Flávia F 15 Média 13. eles apresentam variações quanto à idade. 60 Tabela 4. considerou-se necessário também destacar a composição familiar7 dos alunos.3 Legenda: M – masculino. F – feminino. No entanto. considera-se que essa variação não é significativa para o resultado da pesquisa. chega-se a uma média total de 13. a idade varia entre 13 e 14 anos e na B entre 14 e 15 anos. conforme tabela abaixo: Quadro 1. . Somando as médias de idade dos alunos das duas escolas.

pai e filhos 6 Mãe. composta apenas por pai. além do pai. portanto. Em ambas as escolas. Em novembro de 2012 foi efetuado o primeiro contato com as escolas. a autorização foi concedida. conforme detalhado na Tabela 5. a direção se mostrou bastante solícita e interessada em saber os objetivos da pesquisa e o motivo pelo qual aquela unidade escolar foi escolhida para a sua realização. Considera-se esses dados relevantes para a pesquisa. Após os esclarecimentos necessários quanto aos objetivos da pesquisa. além daquelas em que convivem apenas a mãe e os filhos. mãe e filhos. 61 Analisando o Quadro 1. das relações de autoridade. 2. e também devido às alterações . da mãe e dos irmãos. uma série de paralisações que culminaram em uma greve que durou até o final de maio. Entre as novas formas de arranjos familiares percebe-se a presença de primo. a fim de obter a autorização da direção para a realização da pesquisa e verificar se os alunos de fato pertenciam à localidade onde as escolas estavam inseridas. mas apresenta uma diversidade de novas formas de arranjos familiares. visto que expressam a complexidade das famílias e. em ambas as escolas. Por esse motivo. Essa preocupação ocorreu em função de se garantir que a amostra de todos os alunos participantes da pesquisa pertencesse a realidades socioeconômicas próximas. tia e avós na composição familiar. os professores da rede municipal de ensino de São Paulo realizaram desde o início do mês de abril. conforme indicavam os dados do IDH. padrasto e filhos 1 Mãe e filhos 2 Outros arranjos familiares 3 Total 12 Observando os dados apresentados é possível identificar que apenas metade dos sujeitos convive em uma família nuclear e 1/3 deles com outros membros da família em casa. Caracterização das composições familiares dos sujeitos da pesquisa Composição familiar Frequência Mãe. abaixo: Tabela 5. acima. pode-se notar que a composição familiar dos sujeitos não se restringe a família nuclear. No primeiro semestre de 2013. foi realizada no primeiro semestre de 2013. os critérios para a escolha das escolas e os procedimento de pesquisa.2.4 Coleta de dados A coleta de dados.

e que um dia antes a escola seria comunicada. horário em que estudam as turmas do ciclo II do Ensino Fundamental. No entanto. Escola A Na Escola A. que me acompanhou durante todo o período em que estive no local. portanto. No dia 20 de junho visitei a escola no período da tarde. como conselho de classe. e. e ambas afirmaram que as aulas ocorreriam normalmente até o último dia útil de junho. a coordenadora me apresentou como pesquisadora para professor presente na sala de aula e aos alunos. fui recebida pela diretora e apresentada à coordenadora pedagógica. pois teria um convite a fazer aos alunos. seriam selecionados alunos que estivessem cursando o 9o ano. agendando a visita à escola para o dia seguinte. os procedimentos. Nesse momento. sabendo da existência de um calendário “oficioso”. como procedimento adotado na pesquisa. e foi solicitado a todos que prestassem atenção a minha fala. relembrou aos alunos sobre o campeonato de xadrez que estava ocorrendo na . fechamento de notas. Durante a apresentação da proposta de pesquisa. o grupo focal. foi combinado com as diretoras que a pesquisa seria realizada entre os dias 17 e 28 de junho. que estudassem na escola desde o início do Ensino Fundamental e que apresentassem facilidade para se expressar verbalmente. de caráter informal. os alunos permaneceram quietos e atentos a minha fala. o número de participantes e os critérios para a participação. também exigia que a participação dos alunos fosse voluntária. as aulas deveriam ocorrer até a primeira semana de julho. preenchimento de documentos etc. Diante da informação. Além desses critérios. em ambas as salas. No calendário oficial da Secretaria Municipal de Educação. optou-se por confirmar junto às diretoras qual seria a data limite para a realização da pesquisa. Nas duas turmas de 9º ano. não seria possível garantir a presença de todos os alunos na escola. o procedimento ocorreu tal como combinado. um professor. 62 que o projeto de pesquisa sofreu no mês de abril – após a avaliação do parecerista indicado pela comissão de bolsas do PEPG em Educação: História. Informei os alunos sobre os objetivos da pesquisa. Após o convite para a participação voluntária muitos alunos levantaram a mão indicando o interesse em participar. Sociedade (PUC-SP) – somente na primeira semana de junho foi efetuado um novo contato com as direções das escolas a fim de agendar uma data para a realização da pesquisa. Política. De acordo com os critérios. que coincidentemente estava presente nas duas turmas no momento da apresentação. pois a primeira semana do mês de julho seria dedicada a outras atividades. No dia 19 de junho foi realizado um contato. Ao chegar à escola.

. trouxeram o TCLE assinado. além de se encaixarem nos critérios. pois somente seis alunos. não houve a necessidade de sorteio. haveria sorteio. Diante do fato. sem que ninguém atendesse. O grupo focal foi realizado com tranquilidade e sem intercorrências. aparentando tratar-se de um problema técnico na linha telefônica. e foram orientados a trazer o TCLE no dia seguinte. 11 alunos se candidataram para participar da pesquisa. se todos comparecessem no dia. não estivessem envolvidos no campeonato. data em que seria realizada a pesquisa. Os alunos foram levados para a sala de leitura. e foi solicitado a todos que desligassem seus celulares a fim de garantir uma maior atenção dos participantes durante as discussões. Na data marcada. mas informou que não teria condições de me acompanhar até as salas devido à necessidade da sua participação no conselho de classe que estava ocorrendo na escola naquele momento. 63 escola e os orientou para que se dispusessem a participar apenas aqueles que. A sala de leitura foi disponibilizada pela direção e organizada de maneira que os alunos pudessem sentar em semicírculo. Embora a intenção fosse realizar um grupo focal com apenas seis alunos (três meninas e três meninos). A visita foi realizada no período da manhã. além de receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A direção ainda não havia chegado à escola e. pois se temia que nem todos os alunos comparecessem no dia ou apresentassem o TCLE assinado. por isso. pois três das quatro turmas do 9º ano do Ensino Fundamental estavam distribuídas nesse período. no dia 24 de junho. Antes do início da realização do grupo focal. os participantes preencheram o questionário contendo perguntas relacionadas ao tema de pesquisa e ao perfil dos alunos. disponibilizada pela coordenadora pedagógica. que foi lido e explicado detalhadamente aos alunos para que tivessem condições de explicar também para os seus responsáveis. No total. optou-se por entregar o TCLE para todos aqueles que se mostraram interessados em participar. O primeiro deles foi o fato de não se conseguir entrar em contato com a direção para confirmar a data da realização do grupo focal. Os interessados foram informados que o grupo focal comportaria apenas seis alunos e que. Durante dois dias foram realizadas várias ligações para a escola. Escola B Na Escola B foram enfrentados alguns obstáculos que dificultaram a coleta de dados. que se mostrou favorável. e lá ouviram mais detalhes sobre a pesquisa. optou-se por comparecer à escola sem aviso prévio. foi solicitado autorização junto à coordenação pedagógica. conforme o anexo 2. três meninas e três meninos.

encontrei resistência por parte dos alunos. grande parte se mostrou indiferente. Os professores presentes nas salas se mantiveram indiferentes à minha presença. muitos alunos faziam brincadeiras. conversando em grupos. Também foi comum em todas as salas os alunos oferecerem informações falsas sobre o tempo em que estudavam na escola. estando de costas para a frente da sala ou copiando o que estava na lousa. para que ouvissem o convite de participação na pesquisa. 64 A visita às três turmas do 9º ano foi acompanhada por um inspetor de alunos que. muitos deles permaneceram fazendo o que faziam antes da minha chegada: jogando baralho. mas. Alguns alunos questionaram o que eles ganhariam em troca da participação na pesquisa. Foi enfatizada a . De imediato. A conversa entre os alunos era grande e o barulho impedia que todos ouvissem. O inspetor. Entre todas as turmas. se repetiu nas três turmas. Durante a apresentação dos métodos e objetivos da pesquisa. Mesmo assim. assim como a indiferença dos alunos diante da minha presença. quase gritar. Após o convite. pois se considerou importante esclarecer que não se tratava da fala de uma professora. para que todos percebessem a minha presença na sala. Foi necessário falar muito alto. muitos alunos zombavam dos colegas por meio de vaias ou forçavam outros alunos a participarem. independente da presença dos professores na sala e sem pedir licença. Durante a explicação dos objetivos da pesquisa. para que o TCLE pudesse ser lido e esclarecido e para que os alunos fossem orientados quanto ao preenchimento do documento. que nos recebeu com indiferença. Foi necessário algum tempo para que todos se dispusessem a ouvir. Essa situação. da apresentação de uma proposta de pesquisa por uma pesquisadora. tive novamente dificuldade para ser ouvida. gritava: “A professora quer falar com vocês”. estando em pé na sala. apenas 13 alunos se dispuseram a participar. foi solicitado ao inspetor que disponibilizasse uma sala vazia para que os alunos recebessem mais detalhes sobre a pesquisa. encontrou dificuldades para colocar os alunos de uma das turmas que estavam no pátio dentro da sala. sim. portando uma chave mestra. Diante da resistência dos alunos. Os alunos se juntaram em grupos e muitos ignoravam a minha presença na sala. como preencher o diário ou passar texto na lousa. então. abria a porta das salas por fora e. piadinhas e. era iniciada com a retratação da fala do inspetor. de início. o inspetor sugeriu que o convite fosse realizado primeiramente a outra turma. no momento em que foi solicitado àqueles que estavam interessados em participar da pesquisa que levantassem a mão. alguns aproveitaram para sair da sala enquanto eu conversava com os alunos e outros continuaram as suas atividades. A conversa com os alunos.

após ser informada sobre o agendamento do grupo focal para aquela data e sobre a garantia da presença de alunos pela direção e a coordenação. Diante da desconfiança da aluna. ao serem informados sobre a possibilidade da falta de energia. três alunos levantaram e saíram da sala sem dar satisfação. que esse era apenas o nome da universidade à qual a pesquisa está vinculada e que de forma alguma envolveria religião. e que só participariam do grupo aqueles que trouxessem o TCLE preenchido e assinado. portanto. a diretora (que já havia chegado) e a coordenação foram informadas sobre quais seriam os alunos que participariam do grupo focal no dia seguinte e. A aluna não se mostrou convencida. Os 10 alunos que permaneceram na sala. e leu: “Pontifícia Universidade Católica de São Paulo”. tratava-se de “coisa de religião”. Outra aluna questionou se os alunos participantes da pesquisa seriam dispensados da aula durante todo o período. Essa informação. Quando questionadas sobre a possibilidade de não haver alunos no dia seguinte. A aluna então comentou que estava escrito no TCLE que a pesquisa era relacionada à religião. pois é evangélica. fui informada por uma inspetora que os alunos dos 8º e dos 9º anos haviam sido dispensados. ao chegar à escola. no entanto. que haveria aula normalmente e que os alunos deixariam de assistir as aulas somente durante o tempo em que participassem do grupo focal. resolveram ir embora por conta própria. no entanto. 65 relevância de pesquisas que analisam a relação dos alunos com a escola e a importância de se coletar dados a partir da fala dos alunos. uma delas se disponibilizou a ajudar a contatar os . mas que. insinuou que se tratava de uma tentativa de converter os alunos ao catolicismo e disse que sua mãe não autorizaria a sua participação. mas que eles deveriam entrar na escola no horário normal de aula. ambas afirmaram que haveria aula. Após a leitura do TCLE. A aluna se mostrou decepcionada com a informação e disse que talvez não participaria por esse motivo. levaram o TCLE para ser assinado pelos responsáveis. Foi esclarecido à aluna que se tratava de um mal entendido. data marcada para a realização da pesquisa. No dia seguinte. Além disso. mais uma vez. segundo ela. Foi esclarecido. Os alunos foram informados que o grupo focal começaria às oito horas. afirmou que os alunos não haviam sido dispensados. optei por perguntar o que a teria levado a chegar a essa conclusão. foi questionado se de fato haveria aula normalmente até o final da semana e ambas responderam positivamente. Foi informado que não. Após esse primeiro contato com os discentes. foi negada por outra inspetora que. pois. pois faltaria energia elétrica na escola entre nove e quinze horas. fui surpreendida por uma aluna que disse não querer participar da pesquisa. pois a pesquisa não envolvia religião. incluindo as duas alunas citadas.

os participantes preencheram o questionário . a fim de garantir a presença destes. cogitou-se a possibilidade de estender o convite também aos alunos da única turma de 9º ano do período da tarde. contendo três meninas e três meninos. isso não era verdade. Os dois alunos contatados afirmaram terem desistido de participar da pesquisa. tentavam contatar individualmente alguns alunos. Diante do risco de haver mais desistências entre os alunos que se dispuseram a participar. pois os demais ou não haviam deixado nenhum número para contato no prontuário. Essa possibilidade estava fora de cogitação até o momento devido à dificuldade de reunir alunos de períodos distintos. um inspetor começou a gritar incisivamente que os alunos de 8º e 9º anos estavam dispensados. A assistente de direção autorizou a realização de ligações telefônicas para todos os alunos que haviam se candidatado a participar da pesquisa. orientou para que não fosse comentado sobre a dispensa das aulas. No entanto. que. A sala foi organizada de maneira que os alunos pudessem sentar em semicírculo. foi possível contatar apenas dois. mas que não era utilizada para esse fim. quando o portão de entrada foi aberto. foi possível identificar e reunir apenas seis alunos que anteriormente se dispuseram a participar da pesquisa. Para a realização da pesquisa. Optei por retornar à escola no dia seguinte. pois. No entanto. Antes do início do grupo focal. os três alunos retornaram com o TCLE assinado. caso não faltasse energia elétrica. Após uma nova explicação sobre os objetivos e métodos da pesquisa. Informei a inspetora sobre minhas intenções e a mesma comentou que haveria aula no período da tarde. além da apresentação do TCLE. por volta das 7h00. no horário de entrada. três desses alunos aceitaram participar da pesquisa e se dispuseram a levar imediatamente o documento para o responsável assinar. Foi informado aos alunos que a pesquisa também poderia ser realizada no retorno das aulas. somente três estavam com o TCLE assinado pelo responsável. Retornei ao local por volta das quatorze horas. foi solicitado à direção que disponibilizasse uma sala vazia. caso fosse necessário. Os demais afirmaram que tinham esquecido da pesquisa ou que não queriam mais participar. Diante do tumulto. segundo ela. no entanto. Tempos depois. O grupo ficou completo. A energia elétrica estava funcionando normalmente. ou não atendiam a ligação. 66 alunos para confirmar a realização do grupo focal para o próximo dia. e fui informada por um funcionário que não havia alunos do 9º ano na escola. Com a ajuda dos inspetores. Dentre os 10 alunos. ao me verem no local. todos se mostraram disponíveis para participar naquele momento. No entanto. Foi oferecida uma sala destinada ao Laboratório de Ciências. foi possível reunir mais cinco alunos que haviam faltado no dia do convite para a participação da pesquisa. e observei a presença de muitos alunos do 9º ano.

no entanto. no entanto. foram encontrados muitos obstáculos para a coleta de dados. A realização do grupo focal. e o barulho dificultou a realização do grupo focal na medida em que. uma vez que muitas características da escola. as atividades extracurriculares da escola. a fim de garantir maior atenção dos participantes nas discussões. a relação entre os sujeitos envolvidos no processo educacional. a existência de um calendário informal. entre outras. porém. Diante das solicitações para que as alunas desligassem os celulares. a descrição também pode contribuir para evidenciar as dificuldades que o pesquisador encontra durante a realização da pesquisa e as condições em que tal processo ocorre. visto que foi utilizado o gravador de voz concomitantemente com a filmagem.5 Observações sobre a coleta de dados Considerou-se importante para esta pesquisa descrever de forma detalhada o processo de coleta de dados. A filmadora apresentou problemas durante a primeira parte em que foram realizadas as discussões sobre a relação dos adolescentes com a autoridade na família. era difícil ouvir a voz dos alunos. sendo necessário solicitar que repetissem as suas falas. que insistiam em conversar entre elas. 67 contendo perguntas relacionadas ao tema de pesquisa e ao perfil dos adolescentes e foi solicitado a todos que desligassem seus celulares. podem ser identificadas por meio dele. a presença de informações oficiais e extraoficiais. Os dados coletados foram transcritos e serão apresentados a seguir. houve intercorrências no processo de filmagem. a coleta de dados.2. As informações apresentadas revelam que muitas circunstâncias e imprevistos podem interferir na investigação. alguns minutos depois tornavam a mexer no celular. como a greve dos professores. por vezes. Durante a realização do grupo focal percebeu-se a falta de compromisso das alunas. compartilhando entre elas suas postagens. Além disso. As intercorrências na filmagem não comprometeram. entre outras. Houve um momento em que uma delas chegou a atender uma ligação durante a realização do grupo focal. muitas vezes ficando alheias às questões que estavam sendo discutidas pelos outros alunos. foi dificultada pelo barulho externo e pelo comportamento inapropriado de parte dos participantes da pesquisa. como a organização escolar. Na . Nesta pesquisa. e em permanecer com o celular ligado. 2. Além disso. em particular. simulavam o desligamento do aparelho. As janelas da sala davam para o pátio e para a quadra de esportes.

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Escola B, especificamente, as dificuldades foram ainda maiores como a falta de comunicação
entre os funcionários, gestores, professores e inspetores, a presença de poderes paralelos ao da
direção e interesses divergentes na instituição, a resistência dos alunos em participar da
pesquisa, a ausência de espaços físicos adequados para a realização do grupo focal, entre
outras. Vale destacar que as dificuldades apresentadas acima são relatadas com frequência por
pesquisadores que se propõem a desenvolver pesquisas empíricas na escola.
Contudo, não obstante as condições em que foi realizada a pesquisa na Escola B,
considera-se que as informações coletadas são significativas e podem ser legitimadas à
medida que, apesar das dificuldades, houve a participação voluntária dos alunos, exatamente
no momento em que estes haviam sido dispensados de permanecerem na escola. Além disso,
três dos seis participantes se dispuseram a buscar a autorização dos pais minutos antes da
realização do grupo focal, percorrendo grandes distâncias, o que demonstra o interesse destes
em participar da pesquisa. Quanto ao comportamento inadequado das alunas durante
atividade, avalia-se que tal postura expressa a relação que as adolescentes tem com a própria
instituição, revelando mais um dado a ser analisado, entre outros que serão apresentados a
seguir.

2.3 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

A realização dos grupos focais e a aplicação do questionário possibilitaram coletar
dados relevantes para responder ao problema de pesquisa: qual a relação que os adolescentes
desenvolvem com a autoridade exercida sobre eles na escola e na família e qual a
compreensão que expressam sobre a autoridade? A apresentação dos dados ocorrerá por
meio da descrição de trechos do que os adolescentes disseram no grupo focal, bem como, da
apresentação de tabelas contendo informações mais objetivas, apreendidas no questionário.
Cabe esclarecer que se optou por apresentar os dados respeitando, na maioria das vezes, a
sequência das manifestações dos participantes, uma vez que tal procedimento possibilita
observar a complexidade das informações, assim como contribui para a sua interpretação. É
importante destacar ainda que nem todos os dados coletados nos grupos focais, apresentados
no Anexo C, foram descritos neste trabalho, pois se considerou que deveriam ser
selecionados para a análise apenas aqueles que pudessem contribuir de forma mais direta
para responder ao problema de pesquisa.

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Para melhor compreensão dos resultados da pesquisa optou-se por organizar as
informações coletadas em quatro categorias: autoridade como organização;
responsabilização; experiência; e reação dos adolescentes diante da autoridade na escola e na
família. A categoria ‘autoridade como organização’ refere-se às expectativas da escola e da
família com relação ao comportamento dos adolescentes, expressas nas regras e limites
impostos a estes. A categoria ‘responsabilização’ apresenta como indicativo as atitudes dos
adultos na escola e na família diante do descumprimento das regras pelos adolescentes. Já a
categoria ‘experiência’ expressa as relações estabelecidas entre os adolescentes e os adultos
na família e na escola, assim como as manifestações de autoridade expressas por meio delas.
Por fim, a categoria ‘reação dos adolescentes diante da autoridade na escola e na família’
caracteriza a relação que estes desenvolvem com a autoridade. Considera-se que as
categorias apresentadas para organização e análise dos dados permitem alcançar os objetivos
da pesquisa, assim como confrontar os resultados obtidos com a hipótese proposta, a fim de
verificar a sua confirmação ou refutação.

2.3.1 Autoridade como organização

Apesar de a autoridade possuir caráter contraditório, uma vez que pode se manifestar
na forma de autoritarismo, contrariando os interesses e necessidades dos indivíduos, segundo
os autores da teoria crítica, a formação do indivíduo e a possibilidade de autonomia destes
não podem prescindir da autoridade. Nesse sentido, Engels (apud MARCUSE, 1972) aponta
que existe na sociedade uma ‘autoridade-coisa’ necessária em qualquer organização social.
Adorno (1995c) admite também a existência de uma autoridade técnica que deve ser
considerada, baseada no fato de que um homem entende mais de algum assunto do que
outro.
Dessa forma, compreende-se que o exercício da autoridade, como forma de
organização social e como elemento essencial na formação do indivíduo, não pode renunciar
ao emprego de regras e limites. Sendo assim, na categoria autoridade como organização são
descritos e analisados os dados referentes à maneira como as regras e limites se manifestam
nas relações de autoridade sob as quais os adolescentes estão submetidos na família e na
escola. A apresentação dos dados será iniciada pela descrição da rotina dos adolescentes na
família.

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a) Família

Com o objetivo de compreender como é a rotina dos sujeitos da pesquisa em suas
casas e, portanto, na família, foi apresentada no questionário a seguinte questão: “Quando
você não está na escola onde passa a maior parte do tempo?” Para tal pergunta, se obteve as
respostas abaixo:

Tabela 6. Local onde os adolescentes passam a maior parte do tempo quando não estão na
escola
Local Frequência
Em casa 11
Na rua 1
Na casa de amigos -*
Na casa de parentes -
Total 12
-* Indica valor nulo.

Na sequência, ainda no questionário, foi perguntado aos adolescentes: “O que você
faz quando está em casa?”. Para essa pergunta foi possível aos adolescentes indicar mais de
uma resposta, conforme Tabela 7, abaixo:

Tabela 7. Atividades realizadas pelos adolescentes quando estão em casa
Atividades Frequência
Acessar a Internet 10
Assistir TV 9
Ajudar no trabalho doméstico 8
Ler livros, gibis ou revistas 7
Estudar 6
Ajudar a cuidar dos irmãos 4
Conversar com os pais 4
Brincar 3
Desenhar 2
Jogar vídeo game 2

Quando questionados sobre quais atividades domésticas realizavam em casa. Apenas dois adolescentes afirmaram não participar de nenhuma atividade doméstica. faz parte também da rotina dos meninos. a questão sobre a participação dos alunos nas atividades domésticas foi retomada. brincar. 71 Observando a Tabela 6. visto que apresentavam alternativas delimitadas. é possível identificar que parte da ocupação do tempo livre dos adolescentes é gasto com atividades de lazer como acessar a Internet. pode-se verificar que dez dos doze adolescentes participantes ajudam a família no trabalho doméstico. com exceção de um adolescente apenas. no grupo focal. Com relação aos dados apresentados na Tabela 7. É importante destacar que as questões apresentadas acima constavam no questionário como perguntas fechadas. Sobre a participação dos adolescentes nas atividades domésticas foi perguntado no questionário: “Quanto tempo você gasta diariamente ajudando a sua família no trabalho doméstico?” Diante de tal questão. um menino e uma menina. mas. nota-se que. foram constatadas as seguintes respostas: Tabela 8. ao contrário. assistir TV. desenhar ou jogar videogame. Cerca de metade dos adolescentes afirmou destinar certo tempo para estudar quando estão em casa. Porém. conforme anexo 2. ler livros. A pesquisa mostrou que o tempo de participação no trabalho doméstico está distribuído de forma igualitária entre meninos e meninas. sendo que metade deles gasta duas horas ou mais por dia se dedicando a estas atividades. apareceram as seguintes respostas: . gibis ou revistas. Nota-se também que a maioria dos adolescentes assume responsabilidade pelas atividades domésticas. sendo que 1/3 dos participantes ajudam a cuidar dos irmãos. Tempo que os adolescentes gastam diariamente ajudando a família no trabalho doméstico Tempo gasto diariamente Meninos Meninas Frequência 1 hora ou menos 2 2 4 2 horas ou mais 3 3 6 Não realiza trabalhos domésticos 1 1 2 Total 6 6 12 Observando a Tabela 8. Os dados coletados apontam ainda que a responsabilidade pelas tarefas da casa não se restringe somente às meninas. todos os demais passam a maior parte do tempo em casa quando estão fora da escola.

Daniela (escola B): Lavar louça.. limpar a casa. Eu não faço nada. de uma forma geral. eu lavo louça.. foi possível identificar que estes se dedicam a diferentes atividades domésticas como lavar louça e roupa. Ana (escola A): Arrumar a casa. 72 Escola A: Mediadora: E. e olhe lá. Desligar a TV. Beatriz (escola A): Minha mãe pede pra desligar o computador. quando sair ter cuidado. Tomas (escola A): Lavar o cachorro. Paulo (escola A): Escovar os dentes. ela não gosta que chegue tarde... Ana (escola A): No máximo.. Diante dessas informações.... Mediadora: Quais as obrigações que vocês têm em casa? Paulo (escola A): Lavar banheiro. Ana (escola A): Eu faço tudo... essas coisas. Escola B: Felipe (escola B): Eu limpo a casa. . fazer comida.. Beatriz (escola A): Eu arrumo minha cama e algumas coisas.. Só não faço comida e lavar roupa. o que os adultos da família cobram de vocês? Tomas. faço comida e lavo a minha roupa. de manhã. à noite. Arrumo meu quarto. havia também a imposição de limites sobre o comportamento dos adolescentes e quais eram esses limites... arrumo minha cama. Andréia (escola A): Também.. Com base nas falas dos adolescentes.. Caio (escola A): Eu lavo mais é a louça . depois tenho que dormir. Meia noite tenho que desligar o computador. só.. tem uma pilha. ajudo minha mãe a fazer janta.. Caio (escola A): Quando chego tarde. eu tenho que desligar a TV. Chego em casa. até às oito ficar na rua. Quando eu saio. lavar roupa. eu varro a casa. E. ela fala um pouquinho. foi questionado nos grupos focais se. além dessas obrigações com as atividades domésticas. Andréia e Caio (escola A): O estudo... Depois das dez eu não posso sair.. Três da manhã.. Tiago (escola B): Eu cozinho e lavo a louça. As respostas foram as seguintes: Escola A: Paulo (escola A): Não ficar até tarde no computador. limpo o banheiro. lavo a louça. tem que lavar ..! Porque minha mãe já deixa tudo arrumado.. Andréia (escola A): Eu. limpo os móveis. cuido do cachorro. entre outras. no máximo.

.. normal. senão já viu.. não fazer coisas meio conflitantes.? Ah.. Não ficar até tarde na rua. pra eu falar direito. Beatriz (escola A): Minha mãe não fala nada. é isso aí. mas nada demais.. Porque tem vez que eu desabafo.. que meu pai tá mexendo com ela... Mediadora: E quanto ao comportamento de vocês. Mais nada. Ana (escola A): É o que todo mundo fala pra você: que horas você vai voltar? Que horas você vai embora? Com quem você vai? Aonde você vai? Tomas (escola A): É. Ah. de mim mesmo. como vocês devem se comportar na escola? Caio (escola A): Respeitar os mais velhos. assim. eu sou tranquila.. não arrumar brigas.. Ah.. assim.. aí.. 73 Andréia (escola A): Toma cuidado com quem você tá andando.. Andréia (escola A): Eu. E meu pai vem com umas coisas sobre mim. Andréia (escola A): Meu pai briga comigo às vezes porque eu sou um pouco ignorante.. pra não ficar nervoso. o que a família exige? Caio (escola A): Eu sou muito nervosinho. Camila (escola B): Ah! Fala pra ter educação e saber o que está fazendo. assim... Minha mãe não me conhece muito.... que eu fico falando mentira.. as mesmas coisas. Ana (escola A): Eu. Porque.. Flávia (escola B): Eles falam que tem que ter educação com as outras pessoas. Escola B: Camila escola B): Ir pra escola e fazer as coisas em casa. Mediadora: E sobre o comportamento de vocês fora de casa? Vamos dar o exemplo da escola.. Felipe (escola B): Desde a minha infância.. quase igual.. E é isso.. o que você tá fazendo.. mas ela fica falando mesmo sem me conhecer. essas coisas assim. Fala pra eu não desrespeitar os adultos.. Aí tem isso.. a minha mãe fala para eu ter educação. não tem nada. Pedro (escola B): Eles falam que você tem que fazer tudo da escola em primeiro lugar. respeitar os professores. Segundo eles. falar pouco... ele briga um pouco comigo. Tomas (escola A): Ela fala pra mim respeitar o próximo.... minha mãe fala porque eu sou ignorante. Não ficar até muito tarde no computador. Tomas (escola A): Ah... E minha mãe fala. Aí minha mãe fica brigando comigo. Porque ela já sabe como eu sou... bem. ela sabe como eu sou.... mas nada que ela me exija muito.. assim. Flávia (escola B): Fazer comida.. Caio (escola A): É. Pra mim falar baixo. porque eu já me comporto de um jeito normal. fica de castigo. . desde os sete anos.. ela não fala muito. Ela não reclama muito de mim... (Paulo e Tomas concordam) Ana (escola A): Parar de falar. Andréia (escola A): A minha.. sou nervoso demais... ir pra escola.. eu só sou um pouco estressada.

Beatriz (escola A): ETEC.. Mediadora: E a Ana? Ana (escola A): Quem me aceitar. que a gente tá saindo da escola. meus pais cobravam mesmo a educação.... 9 Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial. Tiago (escola B): Eu nunca tive problema... mas acho que mais a ETEC..8 Mediadora: Vocês vão prestar? Tomas (escola A): SENAI.... é o mais importante. ter respeito. Daniela (escola B): Ter respeito.9 Paulo (escola A): ETEC...... Andréia (escola A): Eu também estou em dúvida. Beatriz (escola A): Prestar ETEC. Ana (escola A): Faz os dois..... 74 Pedro (escola B): Eu nunca fui assim.. ter educação com as pessoas... Mediadora: E o Tomas? Tomas (escola A): Minha mãe quer que eu faça ETEC.. com relação aos estudos? Paulo (escola A): Principalmente esse ano.. Respeitar as pessoas é a primeira coisa que você tem que saber. Essas questões estão presentes nos seguintes trechos: Escola A: Mediadora: Há preocupação... Nos grupos focais discutiu-se também a preocupação dos pais ou responsáveis com os estudos dos adolescentes. meu pai quer que eu faça SENAI. É. Andréia (escola A): Mas eles (os pais) não podem escolher. né? Muda bastante. ter respeito. Mas ainda preciso ver o quê. Muitas provas por aí. mas acho que ETEC e SENAI.... é o mais importante. Felipe (escola B): É. respeitar ao próximo como a si mesmo... Tomas (escola A): Tá acabando um ciclo da nossa vida. Pedro (escola B): Respeitar as pessoas é a primeira coisa que você tem que saber.. (ela e o grupo riem) Mediadora: Você vai tentar algum? Ana (escola A): Vou tentar os dois. (grupo concorda) 8 Escola Técnica Estadual.. Mediadora: E a escolha de vocês tem a ver com a família de vocês? Ana (escola A): Não. ...... eu nunca tive problemas nessa parte que você falou.. Caio (escola A): Estou em dúvida. por parte das pessoas responsáveis por vocês..

Felipe (escola B): Meu pai se preocupa muito mesmo e minha mãe também. com a educação de vocês? (sim geral) Flávia (escola B): Sim. Você tentou. porque na época dela não tinha isso. ele me cobra bastante. Mediadora: Como que a família cobra de vocês os estudos? Flávia (escola B): É.) Mediadora: E o que os pais ou responsáveis de vocês esperam da escola? Eles dizem para vocês frequentarem a escola por quê? O que eles esperam? Tomas (escola A): Um futuro melhor pra gente.. porque no futuro.. (grupo concorda) Mediadora: E o que eles esperam? Andréia (escola A): Que a gente aproveite a escola boa. 75 Mediadora: Não houve nenhuma cobrança da família? Andréia (escola A): Só um pouco do meu pai... Caio (escola A): Porque essa é a única chance da gente estudar. Flávia (escola B): Também. Pedro (escola B): No caso. Caio (escola A): Mas eu acho que é verdade. Ana (escola A): Minha mãe sempre fica falando pra gente aproveitar o que tem aqui... Ela nem sabia que tinha ETEC. a família. se preocupam com os estudos. Tiago (escola B): É. Ela diz que eu tenho que deixar tudo em ordem e diz que eu tenho que ter educação com os meus professores e pelos outros professores. eu acho. eles já estavam pensando em faculdade: “O que você quer fazer quando você crescer.” Ana (escola A): Minha mãe não falou nada.. foi assim também. é melhor você começar a pensar logo para você não ter problemas quando você estiver mais velho”. a gente não vai poder estudar de novo.. que eu devo estudar pra ser uma pessoa na vida e ela vem na escola. Ana (escola A): Eles sabem que aqui a gente aprende muita coisa boa. tudo bem... porque nem todas as escolas são assim.. Minha mãe fala mais. Sempre foi assim.. (Todos concordam) Escola B: Mediadora: Agora eu gostaria de conversar um pouquinho sobre a preocupação dos pais de vocês com a escola.. Mediadora: Ela fica vindo aqui? .. (.... que é uma escola bem conceituada na região... desde que eu tinha oito anos.. Os pais de vocês. os responsáveis. quando a gente estiver mais velho. Paulo (escola A): Minha mãe falou: “Se você não passar.

às vezes não vem não. Daniela (escola B): A minha. para todos os participantes. . No ano passado ela vinha todo dia pra saber de mim. a rotina na família é permeada por uma série de exigências e expectativas com relação aos seus comportamentos. Daniela (escola B): Minha mãe olha. e expressam a preocupação que as famílias apresentam com relação à segurança dos filhos. aos estudos e também com as relações que estabelecem com as demais pessoas. Tiago (escola B): Nem a minha. Ela vê as notas. (silêncio) Mediadora: E. além de falar. Daniela (escola B): Ela fala para eu me dedicar mais ao estudo. expressas em regras e limites. Além disso. como na escola. não havendo ambiguidade. Ela fala para eu estudar pra ter futuro. Mediadora: E a Camila? Camila (escola B): Também. Felipe (escola B): Olha bastante. Tiago (escola B): Ela olha a minha letra para ver se está boa. Pedro (escola B): Toda vez que eu tiro uma nota boa ele fala assim: “Você está no caminho certo para ser alguém na vida”. Felipe (escola B): Minha mãe vem bastante nas reuniões. as regras estipuladas pela família para regular os seus comportamentos são claras. eles cobram? Eles olham as notas de vocês? (sim geral) Mediadora: E acompanha as notas? Flávia (escola B): Acompanha. Mediadora: E eles são presentes aqui na escola? Os pais de vocês participam de reunião? Flávia (escola B): Sim. Daniela (escola B): Sim. Daniela (escola B): Só quando é grave mesmo. 76 Flávia (escola B): É. Ela olha meu caderno também. Essas regras são destinadas a regular suas condutas não apenas no âmbito familiar. E minha mãe fala pra eu olhar o caderno do meu irmão pra corrigir o caderno dele. o que eu estava fazendo. De acordo com os adolescentes. Flávia (escola B): Todo dia minha mãe olha. aí ela vem. Pedro (escola B): Bastante. aí dá a opinião dela. mas em outros espaços. pra ter um futuro melhor do que eles teve. Camila (escola B): Minha mãe olha.

Caio (escola A): Sem celular. Tal preocupação é expressa nas exigências das famílias no que se refere às notas. de acordo com as manifestações dos participantes. b) Escola Com o objetivo de compreender as formas de exercício da autoridade no espaço escolar. 77 Identificou-se também..... Nesse sentido. A gente vai pra diretoria. participação nas aulas. (o grupo concorda). Eles não dizem “não faz assim”. completo. E eles cobram bastante.. mas as tias da limpeza. quais são essas regras e se existe clareza quanto à definição do que é aceito ou não pela escola com relação ao comportamento dos alunos... (... Mediadora: Então tem que vir de uniforme. não pode usar boné. obedece as regras... não pode blusa com gorro. Beatriz (escola A): E respeitar bem as regras. fazem ocorrência. Nada...) Mediadora: Quais são as regras? Paulo (escola A): Vir de uniforme.. assim. Percebeu-se.. discutiu-se se existem ou não regras que regulam a conduta dos alunos na escola. observadas por meio das atividades desenvolvidas nos cadernos. possivelmente.. colocou-se para discussão nos grupos focais quais são as cobranças feitas aos adolescentes pela escola. Beatriz (escola A): O professor já conhece o aluno.. Deixa eu ver. Não usar boné.. ainda.. Paulo (escola A): Nem de blusa com touca não pode.... assim como na presença dos responsáveis na escola.. . os responsáveis não tenham muita clareza quanto ao que se esperar da educação escolar. (. que as expectativas dos responsáveis com relação à educação escolar dos adolescentes aparecem de forma muito genérica na fala dos participantes. Tais questões podem ser observadas nos seguintes excertos dos grupos focais: Escola A: Mediadora: O que a escola cobra de vocês? Ana (escola A): Que a gente tem que respeitar não só os professores.. assim. Beatriz (escola A): Nem touca. Os objetivos apontados para os estudos são explicitados em frases como: “ser alguém na vida” ou “ter um futuro melhor” indicando que.) Caio (escola A): Dentro da escola todo mundo respeita. que todas as famílias demonstram ter preocupação com os estudos dos adolescentes.

... Pedro (escola B): A regra do celular. ele entra na sala e mexe bastante no facebook.. Mediadora: E vocês usam. Mas elas pegam.... 78 Beatriz (escola A): Não. na sala. Daniela (escola B): Mas só eles podem usar e nós não pode? Eles são melhores? Camila (escola B): Tem um professor que substitui. brincadeira de mão.. inspetor ou direção descubra que você está usando. Flávia (escola B): É mesmo. Felipe (escola B): O próprio professor fica usando... têm algumas que funcionam e as outras não porque os alunos e os professores não obedecem. Não pode..... Caio (escola A): Senão elas vão falar “tá com dor de ouvido? Não? Então tira”. ficam batendo. os professores falam que você pode mexer no celular na sala desde que ninguém da. aí. se você não faz toma convocação. no face(book)... mas vocês não precisam cumprir.. passa a lição e fica mexendo no face(book).. aí você pode usar livremente lá.. mexem no celular? Felipe (escola B): Eu só uso o celular em casa.. Mediadora: Então tem a regra.. Tomas (escola A): Tem mais uma: mascar chiclete.... Mediadora: Não mascar chiclete? O que mais? Beatriz (escola A): Não comer na sala. (Todos concordam gesticulando positivamente a cabeça) Flávia (escola B): É mesmo.. que o professor vai dar.. Usar blusa pode.. Caio (escola A): Tem os cards (jogos de figurinhas) com os pequenos... Camila (escola B): O professor tem celular e fica com o celular lá na frente. Desde que você esteja com fone de ouvido escutando música sem barulho você pode usar... ajudam. escondido embaixo da blusa.. Escola B: Mediadora: A escola tem regras? Daniela (escola B): Tem. e nem passa lição. .. Pedro (escola B): Vários professores falam isso. exceto a Flávia. Mediadora: Que mais? Quais outras regras? Paulo (escola A): Não pode correr. gesticulam positivamente a cabeça) Felipe (escola B): É como se fosse um código de trapaça. É isso? (todos. fica entrando no facebook. Pedro (escola B): (a regra do celular) que não pode ter celular aqui.... Daniela (escola B): Eu uso na cara da diretora. Felipe (escola B): Sim.. Só se tiver alguma coisa. só não pode por a touca. Felipe (escola B): Você pode usar o celular escondido.. Aí eles ficam com raiva.. Camila (escola B): Ele vai lá....

Mediadora: Quais? Vão me falando. só que está na bolsa. a regra de não usar o celular. Mediadora: Certo. né gente? (os alunos gesticulam com a cabeça que não) Flávia (escola B): É porque hoje eu sabia que não iria ter aula.. então eu fui em casa vesti essa roupa e vim.. Felipe (escola B): (comportamento) Certo. Mediadora: Vocês estão falando da regra do celular. Tiago (escola B): No ano passado teve guerra de mexerica. (Daniela. Tem regra para o uso do uniforme? (todos gesticulam positivamente com a cabeça) Daniela (escola B): Essa é a mais foda.que respeita essa regra do celular. Ela é a única que tem um comportamento. Felipe (escola B): E tem uma regra aqui também que é a do próprio aluno ficar na sua sala e tem aluno que fica entrando na sala do outro e fica na sala que não é sua e fica a aula inteira e não volta para a sala dele. “guarda esse celular. E quais as outras regras? Tiago (escola B): Não jogar comida no chão. Então basta a camiseta da escola. quando o pessoal está mexendo no celular.. todo dia eu estou com o uniforme. Felipe.) Mediadora: Então. Eu estava vindo com ela só que eu fiquei sabendo que não ia ter aula. Tem gente que come e deixa o prato em cima da mesa. Mediadora: O quê? Guerra de mexerica? . Tiago (escola B): Aí só vai entrar se estiver com todo o uniforme. (.. Pedro e Tiago mostraram um pedaço da camiseta debaixo da blusa para confirmar que estavam uniformizados) Camila (escola B): Eu tenho. Pedro (escola B): ... a regra de permanecer na sala de aula... Daniela (escola B): Uniforme. Eu estou vendo que nem todos vocês estão com o uniforme.. Você tem que usar pelo menos a camiseta branca. se você não tiver você não entra na escola.. mas quais outras regras existem aqui na escola? Flávia (escola B): Muitas. Pedro (escola B): Isso mesmo. ela fala... Flávia (escola B): Eu tenho... 79 Pedro (escola B): A minha professora de História.. Daniela (escola B): Tem que usar a camiseta da escola. se eu ver você mexendo de novo eu vou pegar esse celular e vou levar para a direção”. Mediadora: Não jogar comida no chão? Pedro (escola B): E levar o prato para onde eles ficam. vocês têm a regra do uniforme.. Felipe (escola B): Tem. ela fala.

Porque todo mundo sabe o que pode e o que não pode aqui. ela alerta você... só que a gente nem liga. mas a gente não sabe por quê. todo mundo sabe que é mentira.. Caio (escola A): Quando você entra. te avisa. Daniela (escola B): É. eles vem brigar com a gente. Escola B: Mediadora: As regras da escola são claras? (Pedro gesticula negativamente com a cabeça) Felipe (escola B): Mais ou menos. Porque nos intervalos. Mediadora: Ela quem? Caio (escola A): A Dona Rosa (assistente de direção). apareceram expressões como: Escola A: Mediadora: Há clareza quanto às regras da escola? Vocês sabem o que pode ser feito e o que não pode ser feito dentro da escola? (todos afirmam que sim) Ana (escola A): Quando diz que não sabia.. não sabe. Mediadora: E como vocês ficam sabendo das regras? Ana (escola A): Eles avisam. Depois eles falam que tem a regra tal que não pode desrespeitar isso. o que deve e o que não deve. E o que mais que tem de regras? Daniela (escola B): Só isso... Flávia (escola B): E de goiaba. Felipe (escola B): É isso que acontece. (.) Pedro (escola B): Tem professor que no começo do ano coloca a regra dele que só vai valer na aula dele só. Mediadora: Certo. 80 Tiago (escola B): É. Sobre essa questão. ela passa em todas as salas falando. . Durante os grupos focais questionou-se ainda junto aos alunos adolescentes se as regras cobradas pelas escolas eram claras e se eles tinham conhecimento prévio sobre a existência delas. na entrada da escola ela fica observando os alunos muitas vezes... Mediadora: Ah! Como assim? Felipe (escola B): É.. é tudo regra antiga. Pedro (escola B): Quase a gente não sabe as regras.. E não é regra nova. Andréia (escola A): Se tem alguma coisa errada. eles falam pra gente.. ele não deixa claro as regras da escola.. Pedro (escola B): Toda vez.

a relação dos adolescentes com a autoridade não ocorre de forma imediata. Para os alunos da Escola B.. Verificou-se. Além disso. Além disso. como respeitar os funcionários. no entanto. o docente não oferece o exemplo sobre aquilo que ele mesmo exige dos alunos. tampouco duradouras. Na Escola B. assim como quanto à comunicação destas. Essa forma de exercício da autoridade sobre os adolescentes. condição necessária para o desenvolvimento do trabalho pedagógico.) Mediadora: Certo. e afirmaram ainda que muitas vezes são surpreendidos por regras desconhecidas. Mediadora: E os alunos ficavam? Pedro (escola B): Quando ela saía da sala. todo mundo voltava pro lugar. uma vez que os adultos parecem não conseguir estabelecer regras e limites capazes de regular a conduta dos alunos. Segundo os alunos da Escola A. Pode-se afirmar que apenas a Escola A se aproxima do tipo de autoridade exercido na maioria das famílias dos participantes. sendo que ele acabou de chegar. Mediadora: E quando o professor coloca regra dentro da sala dele. Mediadora: Por que não? Pedro (escola B): Eles têm sempre que estar punindo aqueles que não cumprem as regras. muitas vezes. são conhecidas por eles desde que entraram na escola e são respeitadas por todos. indicando que.. Tiago (escola B): A professora desse ano e do ano passado colocava os alunos em ordem alfabética. não ocorre da mesma maneira nas duas escolas.. dificultando a compreensão dos alunos sobre o que se espera do seu comportamento. quanto à sua clareza. as regras não são claras. as regras são antigas. os alunos da Escola B relataram a coexistência de regras oficiais e não oficiais na escola que expressam a divergência de opiniões e condutas entre os próprios professores e a direção. É importante notar ainda que todas as regras descritas pelos alunos referem-se a normas de controle de conduta. (. portanto. funciona? Flávia (escola B): Não.. É isso mesmo? (todos gesticulam positivamente com a cabeça) Observou-se. ou seja. não se alimentar na sala de . com o apresentado até agora. que existe nas famílias um esforço para regular o comportamento dos adolescentes por meio do estabelecimento de regras e da imposição de limites. que as escolas se distinguem quanto à objetividade das regras. Vocês me disseram que não sabem ao certo quais são as regras que tem na escola. 81 Felipe (escola B): Ele chega na escola e ele quer aplicar a regra. os alunos da Escola B afirmaram que as regras não são respeitadas pelos alunos e também por alguns professores.

mas indica a presença de uma preocupação maior por parte das instituições em garantir determinados comportamentos dos alunos do que com a aprendizagem e. mas se desenvolve na experiência. portanto. . principalmente. 2. impor aos indivíduos determinadas privações. não citarem como regras as exigências dos professores para que estes se dediquem aos estudos. embora os alunos da Escola A. em outros momentos da discussão. Talvez. fazer uso do uniforme na escola. não portar ou não utilizar objetos que não sejam destinados ao trabalho pedagógico. não significa que as escolas não façam esse tipo de cobrança. conforme aponta Adorno (1995b). Segundo o autor. Sendo assim. como figurinhas e celulares. Essa concepção também está presente nas ideias de Freud (2011). tanto da Escola A como da Escola B. Assim.3. no entanto. não ocorre por meio do apelo aos vínculos de compromisso. O fato dos alunos. segundo o autor. mas também a sociedade. é exigido dos agentes socializadores oferecer uma formação que possibilite aos indivíduos o esclarecimento quanto aos riscos gerados por determinados comportamentos que são prejudiciais não apenas o indivíduo. se os adolescentes estão ou não sujeitos as consequências de seus atos. portanto. com desempenho escolar. observou-se que os alunos não citaram como regra nenhuma exigência feita pela escola para que estes se dediquem aos estudos ou participem mais das atividades propostas pelos docentes.2 Responsabilização A família e a escola são as principais instituições capazes de garantir a socialização das novas gerações. 82 aula. faz parte do processo civilizatório. São analisados. A tomada de consciência. para que os homens possam viver coletivamente é necessário a renúncia da satisfação das necessidades instintuais. proporcionado por estas instituições. De acordo com Adorno (1995e). No processo civilizatório. conforme será mostrado adiante. portanto. na categoria ‘responsabilização’ são descritos os dados coletados referentes às ações dos adultos na escola e na família perante determinados comportamentos manifestados pelos adolescentes que contrariam as expectativas dessas instituições. ao que parece. na Escola B. entre outros. a ênfase dada pelas escolas nas exigências disciplinares seja decorrente dos problemas disciplinares enfrentados pela instituição. comentaram que são cobrados pelos professores e pela direção para que se dediquem aos estudos. visando o processo de adaptação.

Ana (escola A): É assim: (imitando a mãe) Deixa.... Escola B: Mediadora: Caso vocês não cumpram as exigências da família há punições? Flávia (escola B): Fica de castigo.. Beatriz (escola A): Sem bicicleta. se vier uma visita..... Beatriz (escola A): Minha mãe só briga. Ana (escola A): (imitando a mãe) E essa casa.. ela já fala: não vem me pedir dinheiro pra sair... você vai ver. mas quando passa um pouco do limite. não tem ninguém pra cuidar.. assistir TV. fica sem celular.) Andréia (escola A): É. que eu não vou deixar.) Mediadora: Vocês costumam ser responsabilizados pela postura de vocês? (todos dizem que sim.. não responderem à expectativa da família. quando vocês não se comportam da maneira como a família exige? Há consequências? Paulo (escola A): Ô! Castigo.. Andréia (escola A): Ela fala que eu tenho que aprender a ter responsabilidade de fazer as coisas..... blá. Paulo (escola A): Ela só fala pra ser mais responsável da próxima vez. ficar sem Internet.. que quando você precisar de mim.. vai acontecer aquilo? (todos dizem sim) Mediadora: Acontece de vocês aprontarem alguma coisa. os adolescentes apresentaram as seguintes respostas: Escola A: Mediadora: E quando vocês descumprem esses comportamentos previstos... 83 a) Família Quando questionado nos grupos focais se o descumprimento de determinadas regras estipuladas pela família acarretavam consequências. não faz nada. e se vocês não cumprem o combinado. De resto.... o que acontece? Ana (escola A): Fica sem Internet por alguns meses. Tomas (escola A): Sem skate.. Daniela (escola B): Me deixa sem o celular.. sem sair de casa. e blá..? Mediadora: Mas. Mediadora: As regras são claras na casa de vocês? Vocês sabem que se não fizer isso. . Tomas (escola A): Sem pipa.. sem jogar futebol.. Andréia (escola A): Ela fala que eu só lembro dela quando quero alguma coisa. não. ela não tira nada. e não acontecer nada? (todos dizem que é raro. blá. Andréia (escola A): A minha mãe só não deixa sair.

Pedro (escola B): Uma vez ou outra. não pode sair na rua. Flávia (escola B): Eu fico sem o celular. Felipe (escola B): Normalmente já tem a ameaça. Camila (escola B): Não. mas também na presença de diálogos que apelam para o compromisso. Mediadora: E é frequente isso? Se vocês descumprem o combinado há punições? Felipe (escola B): Já aconteceu de um ficar de um a dois meses. portanto.... Diante dessa questão apareceram os seguintes comentários: . que os dados coletados contrariam o discurso recorrente no “senso comum” de que as famílias são negligentes ou permissivas com relação ao comportamento dos adolescentes. não deixa eu desenhar. Tiago (escola B): Não posso assistir televisão. não deixa sair de casa. como privá-los de objetos de lazer e prazer como celular. não deixa eu ficar na rua nem no videogame. Daniela (escola B): Eu fico uma semana. a minha mãe já me deixa ciente das regras que eu tenho que cumprir. A responsabilização se expressa na aplicação de punições... né? Mediadora: E acontece de vocês não serem responsabilizados pelos atos de vocês? Tiago (escola B): Não. pode acontecer.. computador. Mediadora: Ah! Já sabem. Mediadora: E as regras são claras? Vocês já sabem o que vocês têm que fazer? Felipe (escola B): É. fica sem o celular. skate. ela briga. de assistir TV ou da convivência com amigos. 84 Camila (escola B): Fica de castigo. As informações apresentadas apontam que a família tende a responsabilizar os adolescentes por seus atos e que estes possuem um conhecimento prévio sobre quais serão as possíveis consequências decorrentes de tais atitudes. quando eu faço coisas assim. b) Escola Nas discussões realizadas nos grupos focais os adolescentes também foram questionados se eles são responsabilizados pelos seus atos também na escola e de que forma isso ocorre. E a Flávia e a Daniela? (as alunas gesticulam que sim) Camila (escola B): Ah! Um dia ela fala e no outro dia ela já esquece. Flávia (escola B): É. Felipe (escola B): Minha mãe me deixa sem meus gibis. Verificou-se. Mediadora: Ela não cobra depois? Camila (escola B): Não.

.. ocorrência... Andréia (escola A): Ah. Mediadora: Mas chega a expulsar? Paulo (escola A): O primeiro nível seria convocação. e outras “cositas” mais. eu já. ... Ana (escola A): Ah.. e eles chamam o Conselho Tutelar também. te expulsam. Aí o Professor Cláudio.. Não. se tiver três convocações.. aí tem a convocação. aí chama os pais. Aí chamam os pais. 85 Escola A: Mediadora: E como é que funciona? Como são as punições aqui na escola. Caio (escola A): Expulsar.... Ela era muito barraqueira. Mediadora: Chamam o Conselho Tutelar? Ana (escola A): Assim. Paulo (escola A): Eles falam que. (todos os outros concordam).... Ana (escola A): Tem gente que tem duas folhas. eles chamam o pai.. Ocorrência. Caio (escola A): Mas.. ocorrência..... Mas faz tempo. ele é expulso mesmo... é. que manda na escola praticamente... Mediadora: E o que aconteceu? Ana (escola A): Não sei.. se não fosse ele na escola. Mediadora: Tem o livro de ocorrência? Beatriz (escola A): Tem! Caio (escola A): Quando completa a folha. não podia ir pra escola.. ele foi lá falar com a minha tia. se não resolve... A mãe sempre comparece. Ana (escola A): E se o pai não puder ir na escola. Aí a mãe dela tinha problema de hérnia de disco. até tomar jeito. como é que é? Paulo (escola A): Então. aí é tipo um alerta. Aí. advertência. Tem professor que vai na casa. Se não tomar jeito. Se não der certo. não seria assim.. Ana (escola A): Nunca ouvi falar de ninguém que foi expulso na escola. os professores vão. convocação.. ficava brigando com as meninas na escola.. Se a pessoa for muito zoeira... chama a mãe. Ana (escola A): Se tem algum problema (na escola). e se ele não for muito quietinho. que está perto.. Caio (escola A): Vida louca.. Mediadora: E então. já foram na casa da minha prima. se há desrespeito com as regras? Caio (escola A): Eles vão pegando no pé. Mediadora: E já aconteceu isso aqui? (todos dizem que já) Mediadora: Os professores vão nas casas dos alunos aqui? Ana (escola A): Sim. e.

o Caique e o Diego. se você entrar sem o uniforme. Daniela (escola B): Mas eu acho que eles têm que pagar.. eles continuam se estranhando.. eles deveriam ter uma punição maior pra que eles não voltassem a brigar. Camila (escola B): Nada. ele tem que ser expulso. (rindo) Mediadora: O Pedro falou: “agora eles estão cobrando o uniforme”. Camila (escola B): No máximo uma convocaçãozinha e chama a mãe e pronto.) Mediadora: E se vem sem o uniforme o que acontece? Entra sem o uniforme? Flávia (escola B): Não. Felipe (escola B): Eles quebram e eles fogem. eles dizem que há punição. na segunda vez eles vão chamar o seu responsável. eles vão te dar suspensão. Felipe (escola B): Nada acontece. Flávia (escola B): É mesmo. Mediadora: O aluno tem que pagar? Flávia (escola B): É.. quebram carteiras. Camila (escola B): Tem que voltar para a casa. vidros. (Tiago gesticula negativamente com a cabeça) Pedro (escola B): Punição? Punição existe. 86 Escola B: Mediadora: Vocês me disseram que há regras. só que eu nunca vi a punição ser aplicada nesse caso. Camila (escola B): É... (rindo) Camila (escola B): Na quarta vai ser expulso da escola. Mediadora: E no caso de briga? Tem que tipo de punição? Daniela (escola B): Dar convocação e chamar a mãe dos dois adolescentes. O que acontece? Daniela (escola B): Tem que pagar. (rindo) Daniela (escola B): Na quarta tem que vir vestido com todo o uniforme. Mediadora: Eles pagam? Flávia (escola B): Não... algumas coisas que eles destroem eles tem que pagar. Pedro (escola B): Agora.. eles estão dando um aviso. Felipe (escola B): E na terceira vez. não acontece nada. Daniela (escola B): Se você entra sem o uniforme você leva convocação. mas o que acontece quando elas são descumpridas? Há punição? Daniela (escola B): Sim. eu também nunca vi. Mas a escola não cobrava? (todos responderam que não) . Leva convocação. (. Mediadora: E quando destroem o patrimônio.. na primeira vez eles vão anotar o seu nome... Pedro (escola B): E eles ficam. quase a menina me bateu no rosto..

e aí que eles perceberam isso. visitar a casa dos alunos. ficaram o tempo da aula todo e saíram como alunos. 87 Pedro (escola B): Eles começaram cobrar no ano passado.. do que a Escola B. a instituição utiliza vários recursos como meio para responsabilizá-los por seus atos. os dados sugerem que a Escola A assume posturas que se aproximam das expressões de autoridade presentes nas famílias. Constatou-se que a responsabilização dos alunos adolescentes ocorre de forma distinta nas escolas A e B. limitam-se a apelar para os vínculos de compromisso. Felipe (escola B): Eles entraram na escola. Esse fato chama a atenção não porque se defenda neste trabalho a necessidade de condutas autoritárias . registrar o problema formalmente em livro oficial. se envolvem em brigas ou praticam a destruição do patrimônio os responsáveis são convocados. Mediadora: E ninguém percebeu? (todos responderam: “ninguém percebeu”) Pedro (escola B): Depois foi duas semanas.. apresentando maior coerência no que se refere à responsabilização e. a comunicar a família quanto aos comportamentos considerados inadequados ou até mesmo a recorrer à instâncias alheias a formação do indivíduo como o Conselho Tutelar. indicando que esta apenas ameaça. Nesse sentido. Conforme apresentado anteriormente. mas não são da escola. para evitar ou garantir que os alunos ajam de determinada maneira. conforme apontado pelos participantes. os alunos consideram que a instituição não os responsabiliza pelos seus atos. A fala dos alunos da Escola B expressa descrédito quanto à possibilidade de haver consequências diante de determinados comportamentos que contrariem as expectativas da instituição. porque dois indivíduos do bairro entraram na escola. No que se refere à Escola B... que ambas as escolas. os alunos tampouco parecem ter clareza sobre o comportamento exigido pela escola. mas não cumpre o que foi prometido. É importante observar. uma vez que. convocar os responsáveis. embora afirmem que nas situações em que estes comparecem à escola sem uniforme. segundo os participantes. caso os responsáveis não compareçam à escola para discutir o ocorrido e até mesmo comunicar o Conselho Tutelar sobre a questão. O critério para o uso de um ou outro recurso pauta-se na gravidade da transgressão tal como considerada pela escola. consequentemente. as regras não são permanentes ou legitimadas por todos os adultos. Segundo os alunos da Escola A. os alunos da Escola A demonstram confiar na existência de consequências aplicadas pela escola diante das transgressões das regras impostas... ainda. à formação dos adolescentes. Além disso. como reprimi-los verbalmente.

uma vez que “o potencial individual é. a primeira é necessária. negativo. Para que isso ocorra. Nesse sentido. na sociedade industrial. 1970. porque percebe-se que a escola apresenta poucas condições para oferecer uma formação que possibilite aos indivíduos a consciência sobre os riscos sociais de determinados comportamentos. de acordo com Adorno (1995e). é necessária a presença de manifestações de uma autoridade esclarecida que garanta a autorreflexão crítica do indivíduo e promova a luta contra a barbárie. se é que não destroem. p. 117). agora de acordo com Adorno (1995a).3. afirma o autor ainda que “se queremos que a identidade do ego seja mais do que a realização imediata desse potencial (indesejável para o indivíduo como ser humano) é preciso repressão. 1970. estas prejudicam o objetivo educacional. mas. as oportunidades de criação de uma vida sem medo e sem miséria” (MARCUSE. Marcuse (1970). a tolerância como prática libertadora e humanizadora foi substituída pela tolerância repressiva. crueldade que lhe viciam todos os instintos vitais” (MARCUSE. à constante preocupação psicológica com os problemas pessoais do estudante. 1970. 2. afasta-se para o lado a questão de que deve ser reprimido antes que o homem possa tornar-se um ser. conforme Marcuse (1970). sim. uma vez que poucos possuem condições objetivas e subjetivas para que surja a responsabilidade. tendo como referência o pensamento de Freud. que é obstáculo à pacificação da existência e a própria liberdade e felicidade dos homens. p. 88). aponta para a necessidade de se distinguir a repressão libertadora da repressão destrutiva. Além disso. condições e modos de conduta que não deviam ser admitidos porque impedem. p. 117). de início. p. uma vez que. 88 por parte da escola. Para o autor. Horkheimer e Adorno (1979) afirmam ainda ser difícil aplicar o conceito de responsabilidade aos jovens estudantes. um ego (MARCUSE. o esclarecimento meramente intelectual não é suficiente para garantir que os indivíduos assumam compromissos com determinados . Sendo assim. Essa forma de tolerância. transformação consciente” (MARCUSE. sublimação. parte do potencial da sociedade: agressão. sentimentos de culpa. De outra parte. ressentimentos. Frequentemente. 117). 1970. também está presente na educação e influencia as práticas dessa instituição. ignorância.3 Experiência De acordo com Adorno (1995e). está em andamento um movimento em grande escala contra os males da repressão e a necessidade de ser o indivíduo ele mesmo. expressa na admissão “de políticas. conforme aponta o autor: A partir da permissividade de todos os tipos à criança.

proporciona a estes. mediante as relações estabelecidas entre professores e alunos e entre gestores. na própria experiência. 89 comportamentos. assim como quais são as experiências que a escola. Adulto da família que o adolescente passa a maior parte do tempo Adulto Frequência Mãe 9 Avó 2 Pai 1 Total 12 Tabela 10. podem ser observadas nos seguintes trechos: . Nesse sentido. Os resultados apresentados podem ser observados nas Tabelas 9 e 10 abaixo: Tabela 9. com qual adulto da família eles passavam a maior parte do tempo e com qual adulto se relacionavam melhor. Adulto da família que o adolescente se relaciona melhor Adulto Frequência Mãe 6 Avó 3 Irmão ou Irmã 2 Pai 1 Total 12 As explicações apresentadas pelos adolescentes para justificar ter um melhor relacionamento com determinados membros da família do que com outros. a) Família Para identificar aspectos da relação dos adolescentes com a família optou-se por perguntar no questionário. Considera-se que seja possível identificar por meio da experiência como a autoridade se expressa nessas relações e como ela se legitima. é necessário que o esclarecimento aconteça no contato com o exterior. funcionário e alunos. é importante observar como se relacionam os adolescentes e os adultos da família. e também nos grupos focais.

E só.. de quando ele era pequeno. né. Mas quando ela está trabalhando. Caio (escola A): Ah. quando eu chego em casa. A gente até discute. é mais com a minha irmã. Andréia (escola A): Eu passo a maior parte do tempo com a minha mãe.. porque. Eu fico mais com a minha mãe.. É como se ela me sustentasse (sentido figurado). Paulo (escola A): Eu também. com a minha tia.) Ana (escola A): Com a minha avó.. (sorrindo) tira com a minha cara. com a minha mãe. porque ele é santista. É com a minha avó que eu faço as tarefas.. E o meu pai.. Flávia (escola B): Eu me dou bem com meu pai... sempre quando eu chego em casa. E ele faz coisas gostosas pra mim comer... aí eu converso com ela e com a minha irmã. com a minha irmã e com as minhas primas e com meu cachorro.. Beatriz (escola A): Eu tenho mais com o meu pai. Ele gosta das mesmas coisas que eu.. gosta de brincar comigo também... a gente fica acordado até a noite assistindo filme. um monte de coisa .. 90 Escola A: Mediadora: Quais são os adultos com os quais vocês se relacionam na família? Quais vocês têm mais contato? Quais são os adultos? Tomas (escola A): Meu irmão. Ela é minha prima..... porque ela trabalha.. É com a minha mãe porque eu passo mais tempo com ela.. reclamando do Neymar. Ah! Minha mãe... com a minha mãe.... né? Flávia (escola B): Não.. mais à noite.. ela trabalha o dia inteiro e só volta de noite. Conta da história dele.. ele já tá dormindo já. (apontando para a Camila).. Ela conversa bastante comigo. Felipe (escola B): A pessoa que eu mais me dou bem lá de casa é a minha avó.. (. como ela e meu pai se separaram. Com a minha mãe e meu pai.. né? Por que com a mãe? .) Mediadora: E você Camila? Você falou com a mãe. aí só fica minha mãe acordada.. Porque eu me identifico muito com ele.. Mediadora: Mas ela não mora com você. (.. É isso....... porque. e eu falo que ele só quer cair. Tiago (escola B): Com a minha avó porque ela é a única que me compreende. porque ele está a maior parte do tempo lá e ele conversa muito comigo. (..) Felipe (escola B): Ah! Ela (avó) é essencial. Mediadora: Quantos anos tem sua irmã? Andréia (escola A): Vinte e três. Escola B: Daniela (escola B): Com a minha mãe. só que o meu pai. Eu... Mas eu me relaciono bem com a minha irmã. é porque ele é separado da minha mãe e ele mora em outro estado.. Camila (escola B): Com a minha mãe.. aí ele mora longe.

bem pequenininha.. Escola B: Mediadora: E em casa que tipo de assunto vocês tem com a família? Flávia (escola B): Tudo. alguma coisa que tá acontecendo. Apenas dois alunos da escola A retrataram que não há muito diálogo entre eles e a família.. meu irmão e minha irmã. Jornal. Aí ele começou a trabalhar à noite. não sou muito íntima. ela pergunta como foi a escola. Eu vejo ele de noite. porque minha mãe pega muito no meu pé. aí ele chega cinco da tarde. Tem gente que é aberta com a família. Converso sobre a escola... A maioria afirmou haver diálogo e que os assuntos discutidos em família são variados.. ela pegou o vício de ficar mexendo no tablet. que ela é assim. conforme apontam os trechos abaixo: Escola A: Andreia (escola A): Ah... quando chego em casa...... E é isso.. converso sobre a minha irmã.. essas coisas. porque eu fico ajudando ela a fazer as coisas em casa etc. Essas coisas só.... Tem três harrypottistas em casa: eu. mas eu não tenho intimidade pra falar com a minha mãe. porque meu irmão foi... de vez em quando. Eu não converso muito. Beatriz (escola A): Eu converso mais sobre Harry Potter. fala muito disso.. sei lá. quando ele vai pra sala ver futebol... sobre o dia a dia. Ana (escola A): Antes eu falava bastante com o meu irmão. ele tá só pronto pra ir pra igreja. Eu converso com a minha mãe. né? Tudo (risada). não.. Caio (escola A): Ah.. ele trabalha de dia. 91 Camila (escola B): Por causa que eu fico mais tempo com ela. ele vai dormir direto. Converso sobre filme. Fico trancado no meu quarto o dia todo praticamente. quando eu chego... as manifestações [de junho].. eu. Aí ele chega em casa. sobre a escola também. Eu converso mais sobre música. Ah.. Antes eu tinha o costume de ouvir música alto.. quando a gente assiste um filme. conforme segue abaixo: Escola A: Tomas (escola A): Ah. se eu fiz lição.... Aí todo dia a gente fica conversando sobre isso.. Paulo (escola A): Eu também. .. Meu pai. assim. Nos grupos focais os adolescentes foram questionados ainda sobre a existência ou não de diálogo na família. eu converso sobre a escola. sobre o curso. agora não posso. Daniela (escola B): Com a minha mãe. sobre o dia a dia. essas coisas.

discutindo assuntos variados como esporte. entretenimento. Tiago (escola B): A minha avó não quer saber (rindo). escola e outros. É importante observar que metade dos sujeitos da pesquisa destacou que a mãe é a pessoa da família com quem se relacionam melhor. Além disso. 92 Felipe (escola B): Tudo. Tal dado indica que a experiência é importante no processo de formação dos indivíduos.. Pedro (escola B): Sobre tudo. (A aluna Daniela não se manifestou sobre essa questão durante a discussão) A partir dos dados apresentados. só que faz tempo que eu não levo convocação.. E também sobre entretenimento (. as informações coletadas indicam que os adolescentes apresentam um bom relacionamento com suas famílias e que... Pedro (escola B): Eu falo sobre o que aconteceu. Mediadora: Sobre tudo também? E sobre a escola vocês conversam? (todos gesticularam que sim) Camila (escola B): Se tem briga. Eu só não conto tudo. se dá lição.. tal como apontado por Adorno (1995a). Tiago (escola B): Sobre tudo também.) Flávia (escola B): Eu falo. na maioria dos casos. uma vez que adultos com os quais os adolescentes passam a maior parte do tempo parecem ser referência para estes. em cada escola.. dois os irmãos e somente um participante citou o pai. três citaram a avó. (... b) Escola: A experiência proporcionada pela relação entre professores e alunos. pode ser identificada nos seguintes excertos: . Felipe (escola B): Falo.. Eu falo sobre a escola com a minha mãe e sobre os outros. (.) Mediadora: E quando vocês aprontam na escola ou acontece algum problema vocês falam? Flávia (escola B): Falo.) Flávia (escola B): Sobre tudo. se relacionam melhor com os familiares que passam mais tempo em casa. observou-se que a maioria dos participantes estabelece diálogo com a família.. Evidenciou-se também que a mãe é o adulto da família com o qual nove dos 12 adolescentes passam a maior parte do tempo.

. Ana (escola A): A escola é relativamente pequena.. vai pra fora.. ele bota pra fora e depois conversa...) Ana (escola A): Eu conheço um menino que mora ali no Tiradentes.. Beatriz (escola A): E a gente não fica com raiva do professor! Ana (escola A): E o professor que dá o aviso.. mas não. mas ele é o professor mais experiente. Caio (escola A): Já foi o tempo que acontecia isso aí.. gesticulando com a cabeça que não)..) Ana (escola A): Os professores são bem conceituados. fora do horário da escola... vocês falaram que ele é velho. o que vocês acham do relacionamento entre os alunos? (Todos afirmam que bom. legal.... ele prefere estudar aqui. Caio (escola A): Por exemplo.. como os projetos pra gente. (..) . Se você prestar atenção nos professores. Ele podia ir pro CEU... e ele volta.... (. não são chatos.) Beatriz (escola A): E eles são legais. estudar.. Os professores.. não....) (.. (. mas. mas os professores fazem de tudo pra ensinar pra gente o que a gente pode e o que a gente não pode. Primeiramente ele dá os avisos. (todos continuam concordando. o aluno só não sai aprendendo as coisas se não quiser. Beatriz (escola A): É muito difícil um conflito. Raramente o aluno vai pra fora e fica lá fora. Dão muita lição. Paulo (escola A): Não.. Que nem o Sebastião (professor).. Não é com qualquer faculdadezinha que passa por aqui.) Mediadora: Mas.. Eles viajam para o exterior..... no geral.. e isso é uma maravilha. Mediadora: E muda muito de professor aqui na escola? (todos concordam que não) (.. Andréia (escola A): Não tem conflito com professor.) Tomas (escola A): A estrutura (da escola) é muito boa. (. eles fazem projeto para.. Porque os professores sabem o que fazer fora da escola e dentro da escola. conversa com o aluno. (pra gente) vir para cá. Beatriz (escola A): Aqui. raramente ele coloca pra fora. Agora.. quando um professor quer dar aula e o aluno não quer. se aprende muito... 93 Escola A: Mediadora: Como é a relação dos alunos com os professores aqui na escola? (todos dizem que é boa).

Já passaram provão. às vezes.. Caio (escola A): Se a gente reclamar de alguma coisa.. assim. “Vocês estão entendendo? Falta alguma coisa?” Ana (escola A): (imitando a Professora Cibele) “Eu não sei. Mediadora: E isso é com todos os professores? Vocês se sentem à vontade para fazer perguntas ou. Caio (escola A): Eles vão fazer. algum método. Andréia (escola A): A única coisa ruim é que aqui não tem espaço para fazer um grupo... ele volta desde o começo. o professor dá um questionário perguntando o que a gente está achando da aula de matemática... né... que tem as questões da ETEC. Mediadora: Treinar pra ETEC..? (todos concordam) Tomas (escola A): A Professora Antonia até comentou de fazer um grupo fora das aulas pra estudar pra ETEC. algum material? Ana (escola A): Às vezes... assim.. eu estou dando. conversa com a sala e arruma.. vocês têm espaço pra tirar dúvidas com o professor? (todos dizem que sim) Beatriz (escola A): O Sebastião (professor) volta tudo.. um calendário de provas pra gente. Beatriz (escola A): Já passaram simulado. Pra mim. o que pode melhorar. Paulo (escola A): É...... coisa do ano passado pra relembrar. o que a gente acha que precisa mudar..” Andréia (escola A): Mas ela sempre explica de novo. Beatriz (escola A): Para os professores que têm duas escolas não dá.... . eu chego antes da aula começar e tiro dúvida com eles. mas não sei se vocês entendem. ele vai lá.... pra ajudar eles.. praticamente.. Beatriz (escola A): A Cibele já perguntou. Às vezes. 94 Mediadora: E quando os professores explicam a matéria durante as aulas aqui na escola. pra gente treinar. Ana (escola A): Fazer grupinho de estudo. Mediadora: E vocês têm espaço para questionar o trabalho do professor. até questionar alguma forma ou metodologia que ele está usando? Ana (escola A): Sim. Caio (escola A): Eles pedem até pra gente opinar. apaga tudo e explica de novo. Tomas (escola A): Se você não entendeu. porque vai terminar a aula dele.. Aí a gente tem que ir sempre nós mesmos. Mediadora: E há essa preocupação com a ETEC? Andréia (escola A): Sempre. ele apaga tudo e volta. Se a gente quer alguma coisa na aula dele. Paulo (escola A): Já passaram provão. tem espaço pra falar com o professor. principalmente porque a gente vai fazer ETEC. A gente pode chegar mais cedo e o professor estar aqui. Beatriz (escola A): É. Ana (escola A): Dá raiva às vezes... a gente vai terminar isso”.. e ele diz: “Não.

. mas que substituem professores regentes quando necessário.. Camila e Pedro gesticulam que sim com a cabeça) Camila (escola B): E ele não fala nada. os alunos podem até quebrar a janela.. Felipe (escola B): Nossa. picham as portas e quebram as mesas. mas. Mediadora: Agride como? Flávia (escola B): Batendo. Camila (escola B): Ah! Eles (os professores) entram na sala e ficam sentados. pichar a porta e quebrar as mesas e as cadeiras. Felipe (escola B): Quando não tem professor.. Ele chama o aluno e diz: “Você não fez isso porque você é isso. você é aquilo. você não colabora em nada”. xingando. Pedro (escola B): Solange. Flávia (escola B): A Solange e o André. Tiago (escola B): É mesmo.. .. então ele não tem tanta obrigação de passar a lição. fica aula vaga. que eu esqueci o nome dela. Camila (escola B): Eu fiquei duas aulas de fora sem fazer nada só porque eu cheguei atrasada na aula dele.. O aluno não faz alguma coisa. quem quiser copiar copia. fica dormindo.. Camila (escola B): Ele fala palavrão. Escola B: Mediadora: Como é que é a relação dos alunos com os professores? Tiago (escola B): Os alunos fazem quando quer. eles ficam sentado lá mexendo no celular. Felipe (escola B): Tem uns alunos que até agride uns professores. mas também tem vezes que o professor (falando de forma geral e não de um especificamente) não está na sala e os alunos quebram até o vidro da janela.. ele xinga o aluno. Mediadora: E com o professor na sala tudo o que o Felipe falou acontece? (Tiago. aí eu fiquei lá fora. Pedro (escola B): O André é professor de projeto10. Felipe (escola B): É como se ele fosse um velho rabugento.. Camila (escola B): Mas pode ter professor na sala e tudo isso acontece. ele só quer ser o pai. Tiago (escola B): Alguns professores fazem isso. Felipe (escola B): É. Ele é o típico professor que se irrita com o aluno facilmente.. 95 (todos concordam) Ana (escola A): Tem que fazer em casa. Pedro (escola B): É uma meia dúzia que faz isso. Flávia (escola B): A professora de português. Eles fazem a lição.. é. 10 Professores efetivos da rede municipal de ensino de São Paulo que não possuem aulas atribuídas. Camila (escola B): Mas eles fazem isso com os professores na sala mesmo.

Flávia. a professora chegou na sala chamando uma menina da sala de vagabunda. ele (professor) pegou ele (aluno) pela cabeça.. que a gente tava estudando. fica na sala na primeira aula. Felipe (escola B): Teve um professor. ele (aluno) estava em cima de uma mesa e (o professor) jogou ele (aluno) no chão e deu um soco na cabeça dele (aluno). na segunda aula. Camila (escola B): O (professor) de Educação Física só desce a gente lá pra baixo. sua tiriça. sendo que a gente não é. Flávia (escola B): Já me chamou de baiana. Ele fala um monte de palavrão. caralho”. . sei lá. a gente desce e fica lá até.. de matemática. Daniela (escola B): Ele fica me chamando de tiriça e o Fernando (inspetor) vê e não fala nada. Flávia (escola B): Ele só dá a bola pra gente brincar. tem um professor aqui de manhã que fica chamando os alunos de “tiriça”. Felipe (escola B): É. Tiago (escola B): Teve um dia que a professora chegou na sala toda nervosa e falou “cadê a vadia?” Mediadora: Vocês estão me falando de alguns professores. uma vez.. Pedro. Pedro (escola B): Tem dia que a gente entra aqui. Pedro (escola B): Bastante. Eles falam. Camila (escola B): A gente nem aprende por causa que eles (professores) faltam tanto. no ano passado teve um caso de uma professora que foi agredida aqui. o final do período. 96 Felipe (escola B): Soco no estomago. que ele (professor) teve duas aulas. depois eles não querem saber das consequências. Felipe (escola B): É. Tiago (escola B): Ela chamava as meninas de “vaca”. fazem a chamada. só sei que teve uma hora.. na quinta série. Daniela (escola B): É. Pedro (escola B): Às vezes. Mediadora: E muda muito de professor aqui? (Camila. mais nada. mas no geral é esse tipo de relacionamento que professor e aluno tem aqui na escola? Pedro (escola B): Não. Camila (escola B): Ele fala: “é. Daniela (escola B): O Fernando (inspetor) também fala (palavrão) às vezes.. ele se chamava Luiz. Felipe e Tiago gesticulam com a cabeça que sim) Flávia (escola B): Muda muito. Camila (escola B): Na quinta série. (. Com alguns professores é assim. mas tem alguns professores que levam por merecer. aí tem um aluno que é meio que bagunceiro. chute. ela tomou um chute nas costas e pediu afastamento e até hoje ela não apareceu mais aqui.) Daniela (escola B): Não vou falar que ela (a escola) é boa porque boa ela não é. Tipo. Aula de Educação Física a gente não tem. Camila (escola B): O Fernando (inspetor) vê e fica dando risada. não sei se é o Caique ou o Diego.. não.

.. os professores estão tendo essa opção de reter ou deixar passar.) Mediadora: Vocês tocaram nesse assunto. Mediadora: Mas o Tiago falou que o pai tem a escolha. os pais têm a escolha de deixar o aluno passar sem aprender nada ou deixar ele no ano. Flávia (escola B): É mesmo. e pra você. Camila (escola B): Aí o menino vai pro terceiro ano e não sabe ler? Tem que saber... Mediadora: Flávia? Flávia (escola B): Nada. na oitava série. saber das coisas.... Felipe (escola B): Têm uns professores que são bem legais. Mediadora: Daniela... porque um menino da minha sala está na oitava série e não sabe ler. Pedro (escola B): Agora. né? Flávia (escola B): Sim... Pedro (escola B): Têm professores que são bons. 97 Felipe (escola B): Tem dia que a gente fica o dia inteiro no pátio ou na quadra.... ele já tinha aprendido a ler há muito tempo.. Flávia (escola B): A gente só fica lá embaixo.. O que essa escola tem de bom? Daniela (escola B): Nada. nada. Daniela (escola B): Não sei o que falar. Daniela sinalizou que não)... Daniela (escola B): Minha mãe pediu pra professora não deixar meu irmão passar. era a prefeitura que passava eles de ano. Mediadora: Não tem nada de bom? Vocês estão aqui há bastante tempo.. Tiago (escola B): Porque os pais têm que ter a escolha de deixar o aluno passar sem estudar. Pra mim. Mediadora: Vocês não conseguem ver nada de positivo? Daniela (escola B): Não. Tiago (escola B): É... Camila (escola B): Porque tem gente que passa sem saber ler. (. Daniela (escola B): É os professores... Daniela (escola B): Tem dois casos assim.... Camila (escola B): Sem fazer lição nem nada. O pai tem a escolha? (Tiago e Pedro sinalizam que sim. o que tem de bom aqui na escola? Daniela (escola B): Nada.. que não eram eles que passavam. só fica no pátio.. Se essa escola fosse boa. Mediadora: Então não são os pais que decidem? ... ou... Tiago (escola B): Os inspetores são bons também. Daniela (escola B): É igual quando o professor falou pra minha mãe quando meu irmão não sabia ler. Eu gostaria que vocês me dissessem quais os pontos positivos e negativos da escola? Vamos começar pelos positivos. e ela falou que não podia fazer nada.

... Teve uma vez que uma aluna chamada Conceição. outros não. e ele fala “se vira nos trinta!”.. uma determinada metodologia. eles falam pra calar a boca.. Pedro (escola B): A maioria dos professores passa muito pouco tempo na sala (todos demonstram concordar)... Passam três meses... aí eles . foi que ela estava conversando com ele.. a professora dá uma cortada. Tiago (escola B): Se fala alguma coisa.. Mediadora: Mas vocês têm liberdade para tirar dúvida? Pedro (escola B): Alguns professores deixam.. Mediadora: Certo... Tiago (escola B): É mesmo. aí vaza da sala.. Aí. (... Pedro (escola B): A Daniela tem uma briga com a professora de Matemática. A cada cinco minutos os professores saem da sala... mas a gente não pode falar nada deles. que ele já sai xingando você.) Mediadora: Vocês têm espaço aqui na escola pra questionar os professores? Camila (escola B): Se questionar o professor. aí o pai pode opinar? Pedro (escola B): O pai pode opinar. foi entrar na conversa e disse “o que vocês estão dizendo?”. Começa a brigar com a gente. foi que outro aluno lá.. a maneira dele dar aula? Vocês têm esse espaço para questionar. Eles passam alguma coisa e saem.... Tudo o que a Daniela fala. Flávia (escola B): Não pode falar nada deles. Passa lição. o Tito. Aí o texto fica incompleto.. Eles falam as coisas.. não sabem fazer uma conta de menos na oitava série.. (... durante a aula. Aí o professor disse “não é da sua conta”. chamado Pedro.. O aluno pede ajuda pra ele. (. fazer alguma crítica ou sugestão aos professores? Camila (escola B): Não. Felipe (escola B): Tem um professor do ano passado. Têm alunos que não sabem ler na 8ª C. de Ciências.... (.. Tem professor que você não pode perguntar nada. Aí..) Felipe (escola B): Tem professor que fica dando patada no aluno. vocês têm a liberdade? Flávia (escola B): Eles ameaçam. ele começa a falar.... Mediadora: Falam pra calar a boca? Pedro (escola B): É um absurdo... 98 (Daniela e Flávia sinalizam que não) Pedro (escola B): Teve caso aqui que o pai decidiu também.) Mediadora: Vocês podem questionar o uso de determinado material pelo professor. Mediadora: Na sala de aula.) Felipe (escola B): Tem professor que passa o texto na sala.. aí ele senta...

limitando-se a passar textos na lousa. destacam que há espaço para o diálogo e que os docentes oferecem possibilidades para que os discentes opinem sobre a qualidade das aulas. Há bastante conflito? (todos. os professores parecem se mostrar incapazes de garantir que os alunos participem das atividades propostas. De cinco em cinco minutos eles estão saindo pra fazer alguma coisa. Os alunos da Escola B expressam a existência de relações conflituosas entre professores e alunos na instituição. é importante observar que os alunos da Escola B destacaram também a presença de bons professores na escola. Pedro (escola B): Bastante conflito.. O relatado pelos participantes mostra que as relações entre professores e alunos são bastante diferentes nas escolas A e B. sugerindo que alguns docentes não cumprem o seu trabalho da forma esperada. Os alunos manifestaram também insatisfação quanto ao comportamento e a qualidade das aulas dos professores. mostrando-se dispostos a explicar diversas vezes a mesma atividade ou conteúdo. sendo muito difícil a existência de conflitos..) Mediadora: Certo.. foi questionado durante os grupos focais quais características os alunos julgavam ser necessárias para um professor ser . gesticularam positivamente com a cabeça) Felipe (escola B): Há bastante. Na Escola A. discutir os métodos utilizados pelos docentes ou questionar a forma como a aula é conduzida.. vocês estão me dizendo que existe uma relação um pouco complicada entre professores e alunos aqui na escola.. Então. Porque eles não terminam um texto que eles estão passando. Os alunos consideram seus professores bem conceituados. os alunos afirmam que a relação com os professores é boa. Ainda sobre a questão da relação entre professores e alunos. estes apontam ainda que há preocupação por parte dos professores em garantir a aprendizagem. Os discentes relatam ainda que não há espaço para tirar dúvidas. No entanto. Felipe (escola B): E depois o professor quer dizer que ele está certo. (. exceto a Flávia. Além disso. Segundo eles. como agressões físicas e verbais de ambas as partes. 99 falam que você é quem está atrasado na matéria. em tais relações estão presentes situações de desrespeito. assim como a desenvolver projetos fora do horário de aula. o que indica que as situações apresentadas acima não podem ser generalizadas.. assim como de evitar que uma parte destes deprede o patrimônio da instituição durante as aulas. Mediadora: Isso é comum? Pedro (escola B): Bastante comum. uma vez que são expressões das relações entre professores e alunos que ocorrem com parte dos docentes e não com todos.

Aí eles já sabem como tem que organizar a sala.. 100 considerado bom. Quem são os mais bagunceiros. num tom que dá pra todo mundo ouvir.” (sinal de braços cruzados). Mediadora: Mas é necessário gritar? Beatriz (escola A): Não gritar tanto. (todos concordam).... A gente tem mais afinidade com eles. Às vezes tem professor que a gente conhece até antes.. mas com outros tenho bastante... Mediadora: Nunca é como os titulares? (todos concordam que não) Mediadora: Por que vocês acham que o professor de projeto é menos respeitado? Ana (escola A): A gente tem mais afinidade com o professor titular porque é muito difícil mudar de professor aqui na escola. Mediadora: Mas nenhum professor de projeto é respeitado aqui? Tomas (escola A): É. Os professores entram na sala. A gente tem os mesmos professores desde a quinta série. Mediadora: Mas isso é importante? (todos acenam que sim) Mediadora: Por que vocês acham que é importante? . né? Beatriz (escola A): Eles já sabem como que é o aluno. eles não sabem controlar os alunos. Mais com uns do que com outros... Não é igual ao titular (todos concordam). Ele entra na sala e fica dizendo “gente. Não tenho amizade com alguns professores. A concepção dos alunos sobre quais seriam as características de um bom professor foram expressas da seguinte maneira: Escola A: Mediadora: E quais as características que vocês julgam necessárias para um professor ser um bom professor? Ana (escola A): Ele tem que saber botar ordem na sala. A gente sabe da história deles.. ninguém respeita ele. A gente tem o que conversar. Ele não põe ordem... presta atenção.. e eles da nossa. Ana (escola A): Ele não põe ordem (todos concordam). Beatriz (escola A): Ele deveria gritar “gente. tô aqui.. Andréia (escola A): Ele fica esperando as pessoas se tocarem que ele está na sala. mas falar alto. Paulo (escola A): Acho que ninguém respeita ele porque ele é um professor de projetos (professor substituto).. Andréia (escola A): Mas o Denis. Mediadora: E existe uma relação afetiva entre vocês e os professores? Ana (escola A): Tem (todos concordam). Paulo (escola A): Igual ao Denis. os mais quietos.. é sério!”. Tomas (escola A): O jeito que se respeita o professor titular é bem diferente.

Felipe (escola B): Respeito tem que ter tanto pro aluno quanto pro professor. mais paciência... se a gente não entende a matéria.. Ana (escola A): É mais difícil de dar a matéria. Daniela (escola B): Educação e tem que ter mais responsabilidade. (todos concordam). Beatriz (escola A): Mas talvez... (..... querendo ou não os alunos não vão respeitar o professor dentro da sala de aula. não adianta.. Ele entende a nossa brincadeira.. (.. bagunçando. pela rigidez. Deixa todo mundo lá. Beatriz (escola A): Depende. como a gente vai respeitar eles. . tem que respeitar a gente. (. não fica uma aula tão séria. Beatriz (escola A): Saber dar ordem e dar aula é “O” professor. O aluno fica brincando... e sai da sala. ele explica de novo na aula.. todo mundo vai perceber e prestar atenção. porque. Escola B: Mediadora: Quais características um professor tem que ter para ser um bom professor? Flávia (escola B): Tem que ter educação. Se a gente tiver respeito e o professor não tiver... brinca. Ana (escola A): Isso ajuda. sem matéria. Só se ele for legal... Pedro (escola B): Primeiramente. Andréia (escola A): O mais importante é ele saber dar aula..) Andréia (escola A): Não. Caio (escola A): Tem que saber dar ordem... fica fazendo por obrigação..) Paulo (escola A): Se ele for muito rígido. mas não é tudo. Caio (escola A): É verdade. não. Camila (escola B): Tem que ter educação. 101 Ana (escola A): Deixa o clima da escola bem melhor (todos concordam). Ana (escola A): A gente brinca. Paulo (escola A): Tem que saber explicar. Camila (escola B): Tem que respeitar a gente também. Pedro (escola B): Respeito tem que ter em ambas as partes. a pessoa não tenha vontade de aprender aquela matéria.. Andréia (escola A): Quando você tem “intimidade” com um professor... na aula fica melhor de conversar.) Mediadora: Mas é possível um professor ser um bom professor mesmo não tendo afinidade com os alunos? Andréia (escola A): É. senão. mas tem professor que entra na sala. Caio (escola A): Por exemplo. Andréia (escola A): Depende do professor.

ele é um bom professor por quê? Camila (escola B): Eu acho que tem que ter..) Mediadora: Certo. (.. o professor agrediu até o aluno. que ele não conseguir copiar uma tarefa.. porque o professor vai chegar na sala... porque se a gente tiver uma dúvida. uma vez. só eles que podem fazer o que quiser.. Tiago (escola B): Sim. ele vai ver o professor como um amigo e não como um carrasco que vai encher a lousa duas vezes. Pedro (escola B): Sim. que vai xingar ele como aconteceu na sala do Felipe. os alunos estavam conversando. Tipo. Se ele não tiver paciência. Mediadora: Sim? Se não há uma relação afetiva. Pedro (escola B): É muito importante isso. Pedro (escola B): Tem que ter paciência pra ensinar a gente.. que vai brigar com ele cada vez que ele fizer. (. Camila (escola B): Tem que ensinar bem. Mediadora: Por quê? Pedro (escola B): É muito importante porque o aluno tem alguém em quem confiar. ela perdeu a paciência e mandou a gente copiar três páginas porque ninguém estava escutando o que ela estava falando. Você tem uma relação de confiança com o professor.. Daniela (escola B): Alguns. gesticularam a cabeça indicando que sim) Pedro (escola B): Alguns. você não tem vergonha de perguntar.. pra saber. vai passar lição e ficar sentado? Tem que conversar também! Mediadora: Ah! Então.. vocês têm uma proximidade afetiva com os professores aqui na escola? (todos. exceto a Flávia. ela foi explicar sobre um texto. gesticularam a cabeça indicando que sim) Camila (escola B): Sim. Mediadora: Certo. saber explicar as coisas.. Felipe (escola B): Pode. Vocês acham quer o professor pode ser um bom professor sem ter essa relação afetiva com o aluno? (Camila gesticula com a cabeça que não e Daniela não se manifesta) Flávia (escola B): Sim. exceto a Flávia.. senão já é problema pra nós. você acha que tem que ter? . 102 Camila (escola B): Eles podem fazer tudo o que eles quiser com nós e a gente não pode nada com eles. Mediadora: Quais outras características um professor tem que ter para ser um bom professor? Daniela (escola B): Ter educação.. E.. tem o caso de uma professora aqui que.) Mediadora: E vocês acham importante essa relação afetiva. essa proximidade com os professores? (todos.

esses aí não tem capacidade pra dar a matéria. ter conhecimento do conteúdo com o qual ele está trabalhando e manter um bom relacionamento com os alunos. No entanto. Felipe (escola B): É.. os alunos de ambas as escolas afirmaram que é necessário saber ensinar. 103 Camila (escola B): Sim. aí ela fala “tá no dicionário”. (Daniela gesticula a cabeça concordando com a Camila) Felipe (escola B): Porque ele tem que ser paciente com os alunos e. Pedro (escola B): Se ele tiver paciência para ensinar os alunos. a questão da afetividade também foi bastante destacada pelos alunos das duas escolas.) Mediadora: E de forma geral. removendo os obstáculos para que possam expressar suas dúvidas com relação ao conteúdo e as atividades. Mediadora: É? Como é que vocês percebem que o professor é bem capacitado. exceto a Flávia. a gente pergunta alguma coisa pra ela. pois facilita a comunicação. (Daniela está mostrando o celular para Camila e Flávia) Mediadora: Daniela? Vocês consideram os professores bem capacitados? Daniela (escola B): Alguns. Tem professores que vai lá no fundo e não consegue achar nada. que domina conteúdo? Pedro (escola B): Quando a gente faz alguma pergunta e ele tem paciência pra ter a resposta. Vocês acham que é importante o professor ter um bom conhecimento da matéria que ele leciona? (todos. os alunos destacaram ainda que os professores titulares são mais respeitados do que os substitutos devido à existência de maiores vínculos com os primeiros em consequência do longo tempo de convivência. foi .. Segundo eles.... (os demais permaneceram em silêncio) Ao serem questionados sobre quais seriam as características necessárias para um professor ser considerado como um bom profissional. Mediadora: Certo... Pedro (escola B): Tem alguns alunos que sabem mais inglês do que ela. ter uma relação próxima com os professores pode contribuir para a aprendizagem. Camila (escola B): Alguns. Tiago (escola B): Como a professora de inglês. gesticularam positivamente com a cabeça. Nesse sentido.. aí vai lá no livro didático tenta... como são os professores aqui. ele vai ser um bom professor. tem que explicar algumas coisas pra ele. Vocês consideram os professores bem capacitados? Pedro (escola B): São capacitados. Na Escola A. (.

um jeito legal. portanto. se ela encontra com a gente. Caio (escola A): Antes ela (diretora) observava todo mundo. Mediadora: E ela é rígida mesmo? Beatriz (escola A): É. de outra parte. disseram também que os professores devem ter educação. os alunos foram indagados ainda sobre a relação que estabelecem com outros segmentos da escola... não? (pede confirmação dos colegas. porque a gente não conhece muito a Carla (diretora).. Aspectos como controlar a indisciplina na sala de aula.. Paulo (escola A): Mas ela é rígida de um jeito bom. Andréia (escola A): Ela é bem rígida. 104 enfatizado pelos participantes que apenas ter um bom relacionamento com o professor não basta. pois a sua principal característica deve ser saber ensinar. A valorização da formação foi explicitada pelos alunos da Escola A e. a necessidade dos professores demonstrarem respeito pelos alunos. além dos professores. A gente não conhece muito ela porque ela é nova. Agora é pra botar ordem.. Mas no ano passado ela ficou só vendo como era a escola. os alunos emitiram as seguintes opiniões: Escola A: Mediadora: E com a direção. só. provavelmente em decorrência da experiência vivida por eles. (todos acenam concordando). passou só uma vez.. Acho que ela chegou esse ano.. .. que dizem que foi o ano passado).. impor ordem e ter uma boa formação foram apontados como características necessárias para ser um bom professor pelos alunos da Escola A. eu já ouvi falar dela. Muitos alunos. assim como paciência para esclarecerem as suas dúvidas durante as aulas. Beatriz (escola A): Foi o ano passado. Ana (escola A): Os professores dizem que tem que ser tudo do jeito dela. Durante a realização dos grupos focais. Sobre essa questão. da Escola B. como é a relação de vocês com a direção da escola? Paulo (escola A): É boa. que ela quer tudo certinho. Tipo. no sentido do tratamento dispensado aos alunos. como a direção e os inspetores. Aí ela passou nas salas. porque não tem tanta confusão pra entrar na diretoria.. né? Tomas (escola A): A diretora é nova também.. gosta de tudo do jeito certo. foi bastante enfatizado pelos alunos da Escola B. fala com a gente. Os alunos da Escola B também se mostraram bastante preocupados com a questão da assiduidade dos professores e. Andréia (escola A): E também a gente não se relaciona. Caio (escola A): A gente tem mais intimidade com a Rosa (assistente de direção). Ela falou que é rígida. ela cumprimenta. toda vez.. né. valorizam aqueles que não faltam.

(. como é a relação? Pedro (escola B): Ninguém sabe quem é o verdadeiro diretor desta escola.. Daniela (escola B): Aí. que tinha que reformar. Tiago (escola B): O Fernando (inspetor) só passa para dar recado. só que as pessoas não querem escutar ele. né? Pedro (escola B): Todo ano muda. e eles não falam nada. (todos concordam) Mediadora: Vocês não sabem quem é o diretor ou a diretora? (todos sinalizam que não) Mediadora: Mas vocês estudam aqui há bastante tempo? (todos sinalizam que sim) Daniela (escola B): Mas muda. Foi pra reclamar que eu vi ele. cadeiras que estavam quebradas.. E a Érica (coordenadora) fica gritando muito com a gente. Principalmente. depois tem que ficar repondo aula. como é a relação? Ana (escola A): As tias da cozinha são legais.. Escola B: Mediadora: Eu observei aqui na escola que tem bastante inspetor. Mediadora: Vocês sabem qual é a função deles? Camila (escola B): Não. O diretor do ano passado. ele deveria ter o apoio da direção para ele dar ordem aqui... Mediadora: E com os outros funcionários da escola. Camila (escola B): Entra gente nessa escola na hora que quiser e sai. Tinha duzentas carteiras e duzentas mesas. Algumas inspetoras só sabem brigar. Camila (escola B): O Fernando (inspetor) até tenta colocar ordem. então? Andréia (escola A): É.. comparado a outras escolas.... A única vez que eu vi ele foi quando ele estava reclamando daqui. Os professores começam a faltar aí fica difícil pra gente... no segundo semestre. Mediadora: Os alunos respeitam os inspetores aqui na escola? (todos concordam que sim) Mediadora: E com a direção.. faltam demais até. mesmo sem conhecer muito. 105 Mediadora: Ela é próxima de vocês.) Pedro (escola B): Os professores faltam muito. Como é a relação dos alunos com os inspetores aqui na escola? Pedro (escola B): É boa. (Tiago concorda). e não sei o quê. Pedro (escola B): Até professor substituto falta. Pedro (escola B): Ele só passa mais para dar recado. . Flávia (escola B): É mesmo. Flávia (escola B): É.

embora relatem em outros momentos da discussão que um dos inspetores xinga os alunos. O depoimento dos participantes da Escola B indica a presença de manifestações autoritárias na relação com uma parte dos professores. a relação destes com a direção e os inspetores da escola é boa. portanto. 106 De acordo com os alunos da Escola A. no momento em que reclamam do número de faltas dos docentes ou se queixam de não ter espaço para esclarecer dúvidas com os professores. Tal fato indica que há um distanciamento entre a direção da escola e os alunos. Na Escola B. sem nenhum controle da direção. Tal insatisfação está presente no relato de alguns participantes. cultural e social favorável à formação e capaz de evitar a barbárie. quando questionam o fato de haver alunos do 9º ano que não sabem ler ou escrever. portanto. bem como na recusa destes em dialogar com os alunos acerca da eficiência dos métodos utilizados ou da legitimidade dos conteúdos discutidos. comportamento valorizado por eles. e por isso expressam hostilidade frente a . a relação com os inspetores também é boa. conforme aponta Adorno (1995b). a relação dos alunos com o conhecimento também parece ocorrer de forma distinta da Escola A. indicando que a escola não oferece segurança a eles. na primeira os alunos demonstram um ressentimento diante da formação proporcionada pela escola. que para os adolescentes a escola não cumpre o que promete. A atual diretora. Enquanto nesta última os alunos se mostram satisfeitos com a qualidade do ensino oferecido. são bastante diferentes nas escolas A e B. que é relativamente nova na escola. os alunos parecem responsabilizar a direção pelas faltas dos professores e pela possibilidade da entrada de pessoas estranhas na escola a qualquer momento. isso pode ser evidenciado nas situações de agressões físicas ou verbais. os alunos da Escola B afirmaram que ninguém sabe quem é o diretor. foi possível identificar. Os dados coletados sugerem que a autoridade expressa na forma de autoritarismo. as pessoas se ressentem ao serem privadas da formação. é bastante presente na escola e mostra-se rígida. Além disso. utilizadas unicamente durante as aulas de determinados docentes. De acordo com Adorno (1995d). não tem contribuído para evitar a manifestação de comportamentos contrários aos próprios interesses dos indivíduos e que tais comportamentos dificultam a construção de um clima intelectual. uma vez que há muita rotatividade de pessoas na direção. As falas indicam. conforme observado na Escola B. segundo os alunos. que as relações entre professores e alunos. na imposição de regras não oficiais. Com base no relato dos alunos. Para os alunos da Escola B. assim como entre a direção e os alunos. embora relatem que possuem mais contato com a assistente de direção do que com a própria diretora. Quanto à relação destes com a direção da escola.

] que a escola não constitui um fim em si mesma. observa-se que.1995e). 115). também contribui para a existência e persistência da barbárie. mas se manifestam também nele. que embora – tanto a Escola A como a maioria das famílias – expressem uma preocupação com a formação dos adolescentes.. Verifica-se. assim como na dificuldade em lidar e na impotência frente às situações que extrapolam o ambiente escolar. nas condições de trabalho e formação. Nesse sentido.]” (ADORNO. por parte dos docentes e da direção. provavelmente. a explicação está contida – para além da própria estrutura social – no processo de organização do ensino. Não cabe neste trabalho. 107 ela. Por outro lado. 1995e. que o fato de ser fechada constitui uma necessidade e não uma virtude [. na medida em que está pronta para contemplar o horror e se omitir no momento decisivo” (ADORNO. p. discutir os motivos pelos quais os professores são ou se tornam indiferentes às manifestações de barbárie na escola. afirma também que a escola possui uma tendência imanente a se estabelecer como esfera isolada da vida e dotada de legislação própria. Essa ideia do autor pode explicar em parte os conflitos existentes entre alunos e professores na escola. Outras situações descritas pelos participantes da Escola B. “Esta passividade inofensiva constitui ela própria. 164). contudo. o debate dos fins educacionais deveria levar em consideração “[. esta se limita a adaptação do indivíduo a realidade social e não desenvolvem a sua autonomia. p. embora os professores tendam agir de forma menos autoritária. 1995a. Segundo o autor. cujas expressões de autoridade se aproximam mais do que ocorre na Escola A do que da Escola B. o constante controle das condutas. ignorando a sua relação com a estrutura social (ADORNO. visto que na atual sociedade a autoridade tende a limitar-se a ele.. também se revela como traços de autoritarismo. Adorno (1995d) aponta para a necessidade de se discutir a questão dos objetivos educacionais. Provavelmente. portanto.. Nesse sentido.. como a indiferença manifestada por alguns professores diante da destruição do patrimônio da escola ou diante de outros comportamentos considerados impróprios para o ambiente escolar. pode-se inferir que o mesmo ocorre também na maioria das famílias dos participantes. A busca destas instituições por adaptar os adolescentes à estrutura social pode ser observada nas preocupações que as famílias manifestam quando afirmam que desejam aos . Na experiência dos alunos da Escola A com relação à autoridade. apenas uma forma de barbárie. Nesse sentido. aponta Adorno (1995e) que a frieza é um aspecto presente na sociedade e se caracteriza pela indiferença profunda em relação ao que ocorre com as outras pessoas – essa situação certamente também adentra os muros da escola. como a barbárie.

123). A capacidade de realizar a crítica e romper com a autoridade externa. que os indivíduos sejam capazes de ser autônomos em relação à autoridade. em diálogo com Adorno (1995c).. p. uma vez que parece não oferecer condições adequadas à formação dos alunos. Andréia (escola A): E também mantém a escola limpa. . 1995b11) tomando como referência as ideias de Freud. Porém ela seria igualmente questionável se ficasse nisto.. o que poderia proporcionar a autodeterminação. assim como no esforço da Escola A e seus professores em preparar os alunos para os exames seletivos da ETEC e do SENAI. 143) apresenta a seguinte reflexão: A educação seria impotente e ideológica se ignorasse o objetivo de adaptação e não preparasse os homens para se orientarem no mundo. produzindo nada além de well adjusted people. tendo como referência o advento do fascismo. Elas não se revelaram à altura da liberdade com que foram presenteadas de repente” (ADORNO. para ocorrer a formação. É fundamental. 11 Adorno afirma que.. Tal postura pode ser identificada nos seguintes trechos dos grupos focais: Escola A: Mediadora: E o que vocês pensam dessas regras que têm na escola? Andréia (escola A): Eu acho certo (todos concordam). “[. não é possível afirmar que esta não tenha como objetivo a formação dos indivíduos. Os dados indicam justamente que a educação oferecida pelas duas escolas não permite muitas oportunidades para que seus alunos sejam mais do que pessoas bem ajustadas. embora a descoberta da identidade não seja possível sem o encontro com a autoridade. Adorno (1995d. 108 seus filhos “um futuro melhor” ou que “sejam alguém na vida”. Paulo (escola A): Faz a escola ser o que ela é hoje. p.3. conforme apontam os autores da teoria crítica (ADORNO. afirma que o processo de rompimento com a autoridade é necessário.. pessoas bem ajustadas.4 A reação dos adolescentes frente à autoridade na escola e na família Becker . os dados indicam que esta apresenta limitações para garantir até mesmo a adaptação. Quanto à Escola B.] as pessoas não se encontravam psicologicamente preparadas para a autodeterminação. Nesse sentido. Sobre a preocupação da educação em adaptar os indivíduos a sociedade. contudo. 1995b. tampouco a preocupação em adaptá-los a realidade social. em consequência do que a situação existente se impõe precisamente no que tem de pior. 2. está relacionada às possibilidades de fortalecimento do ego do indivíduo. é importante observar como os adolescentes reagem diante da autoridade exercida sobre eles na escola e na família.

É só ligar a TV e ver.”. e chega o Sr. que deu aula pra ele: “Olha. assim. pra não deixar tudo pra si mesmo. Vocês concordam com essa cobrança que é feita em cima de vocês. no Brasil inteiro. não tem respeito. tanto da escola quanto da família? (todos acenam positivamente) Tomas (escola A): Sim.. o professor vai dizer: “Eu ensinei aquele garoto. meu irmão está seguindo a carreira de jornalista. eles sabem muito bem o que as pessoas já fazem. aí.. que tem ótimos professores. Ana (escola A): E também eles vêem o jornal. e não querem que isso aconteça com a gente. aí rouba um celular. né? Fazendo a faculdade e tudo. que a gente vá longe. 109 Beatriz (escola A): Pra não virar uma baderna. Beatriz (escola A): Como minha irmã disse. porque eles só querem nosso bem.. Heloísa. não ficam em casa.. eles vão ter orgulho da gente. Paulo (escola A): Eu acho importante essa cobrança porque. né? Ana (escola A): Não é só isso... você não fazer uma coisa errada..... eu acho. é bom as crianças passarem desde o começo no psicólogo. Mediadora: E a Beatriz? Estou perguntando o que vocês acham dessa rigidez? Vocês acham importante ou não? Concordam ou discordam da forma como a família impõe um determinado comportamento ou cobrança. ele está no jornal. vai virar ajudante de pedreiro. eu ensinei ele!”. Caio (escola A): Os pais ausentes. É o que a família espera. quando a gente estiver passando aqui. tá tudo uma zona... né? Ana (escola A): Mas é um tiro de 38. E vai vivendo assim. Ana (escola A): Todo mundo diz que a escola A é assim graças a isso. Ana (escola A): Teve uma menina. Depois é solto.. um dia. Aí vai preso porque quer um celular.. Estão dando conta mesmo.... e tiver passado na ETEC. no SENAI. Imagina.. . a lei deles é péssima..... Lúcio (professor). o que leva a pessoa a roubar é como a família é com ele.. Cada um faz o que quer... É que eles vêem o que acontece com as pessoas fora da escola. né? Caio (escola A): Eles querem o melhor pro nosso futuro. né? Tipo..) Mediadora: Vamos pensar na escola e na família também. de que eles querem o nosso bem. Tipo assim.. ter orgulho da gente. porque o Brasil... Tomas (escola A): Mas. (. “Coleguinha de 13 anos mata a de 14 por namorado. rouba de novo. Ela passou em primeiro lugar na ETEC. Vai ver o que acontece com a pessoa que não tem estudo....” Andréia (escola A): Verdade.. se você ver nas escolas da região.. Andréia (escola A): Mas também eu acho que.. Porque..... já é outra coisa..? Beatriz (escola A): É importante você não sair daquilo. Beatriz (escola A): Tipo.

. Flávia e Felipe respondem sim. Mediadora: E da família? Acho que o Caio não falou ainda da família. mas tem diferença entre pilastras e grades.. porque não tem.. Ninguém acha isso. Camila (escola B): Pra escola é melhor. Porque. a gente não vai ter outra chance. Por exemplo. Mediadora: Por quê? Felipe (escola B): Porque.) Flávia (escola B): Aqui tinha que ter muitas regras.. pensa que lá dentro é tudo tampado. porque a rigidez é boa pra gente. No Iguatemi (escola). Pedro (escola B): É um exemplo bom porque as regras deles são claras. ir melhor? Daniela (escola B): É... As pessoas aqui não usam uniforme.. É. . pra ir melhor.. Felipe (escola B): Seria como aqueles colégios do Japão. não usam uniforme. 110 (Beatriz concorda) Caio (escola A): Tem alunos de outra escola que falam que aqui é uma cadeia. (.. ganhando a vida. Onde você mora. só que têm que ser mais claras. Concorda ou não com a rigidez da família? Caio (escola A): Concordo.. meu pai parou na quarta série. os demais aparentam distração) Pedro (escola B): É preciso ter regras pra.. no futuro... porque eles querem que a gente aprenda.) Daniela (escola B): É importante pra escola ir melhor. Tiago (escola B): Ficaria mais organizado. da cor do uniforme. tem que ser azul. Lá não pode entrar de calça jeans... quem vê por fora.. você já é acostumado com essas coisas. aí... que não pode ter a vida própria. assim.. o uniforme é obrigatório. Aí você chega em um lugar onde tudo é privado... está aí... Essa é a única chance... Mediadora: Como assim.. (. Camila (escola B): Regras têm. (todos falam ao mesmo tempo) Pedro (escola B): Você se envolve. é bem mais calmo e. Beatriz (escola A): É porque a gente estuda aqui desde pequeno. a gente ficaria bem mais calmo.. Ana (escola A): Aqui tem esse murinho. aí vai sentir muito estranho. mas os alunos não obedecem. Aí... Caio (escola A): Minha irmã estuda lá. Escola B: Mediadora: Mas. e quanto às regras? Vocês acham que é necessário ter regras? (Pedro.. começou a trabalhar muito cedo... Andréia (escola A): Eu não acho... mas tem regra. ninguém respeita ninguém. porque. Pedro (escola B): Para uma sociedade organizada é necessário regras.

a gente não vai ser nada.. Felipe (escola B): Precisava ter não só um. mais punição. Flávia (escola B): Mas. Felipe (escola B): Porque a gente cansa.. Flávia (escola B): É porque eles ficam de licença. (todos sinalizam concordando) Pedro (escola B): Se não ficar em cima. e tem vez que a gente fica com bastante preguiça.. O que vocês acham dessa cobrança que a família tem sobre vocês? Vocês acham isso importante ou não? (todos sinalizam que sim). Mediadora: Mas tem alguma coisa que vocês discordam quanto à cobrança que a família faz sobre vocês? (todos sinalizam que não) Mediadora: E a escola? Vocês concordam com a cobrança que a escola faz sobre vocês? (silêncio) . Flávia (escola B): Sim.. ninguém sabe qual é..) Mediadora: Vamos voltar na última questão.... eu acho que sim. os professores. mas eu queria ouvir mais. (.. brigando com a gente pra fazer o certo.. aí vão lá “você tem que fazer isso!”. Mediadora: Vocês acham que se as regras fossem mais claras aqui na escola. Mediadora: E a Camila? Camila (escola B): O quê? (demonstra dispersão) Mediadora: A gente está falando aqui se vocês concordam ou não com a cobrança que a família faz sobre vocês. que vocês já falaram um pouquinho. 111 Pedro (escola B): As regras têm que ser mais claras. Pedro (escola B): Tem hora que a gente não quer fazer nada.. tem que mostrar. mas dois professores por aula pra poder coordenar o aluno.. e não pegar no nosso pé...... Por quê? Camila (escola B): É bom pra poder incentivar mais a gente.. os alunos respeitariam mais? (todos os alunos gesticularam positivamente com a cabeça) Pedro (escola B): Respeitariam.. Tiago (escola B): A gente aprende errando.. Um pra fazer a lição e outro pra ajudar e coordenar.. Tiago (escola B): Se os professores tivessem mais paciência pra falar sobre o assunto. Mediadora: Por quê? Felipe (escola B): Porque se deixar a gente fazer o que quiser. os alunos respeitariam mais? (todos os alunos gesticularam positivamente com a cabeça) Pedro (escola B): Sim.. Mediadora: É? Se houvesse mais controle.

. No que se refere à cobrança imposta a eles pela família. Os dados coletados indicam.. os adolescentes concordam com tais atitudes dos adultos. apenas um aluno se manifestou verbalmente afirmando não considerar que a escola exerça cobrança sobre eles. todos afirmam que também são favoráveis a ela. portanto. que os adolescentes de ambas as escolas demonstram valorizar a autoridade ainda que esta se manifeste na forma de autoritarismo. Quanto à cobrança exercida pela família sobre eles. os participantes permaneceram em silêncio apresentando expressões não verbais que indicavam dúvidas quanto a existência de cobrança por parte da escola. um aluno sugere. Os alunos concordam ainda com a necessidade de haver mais controle e punição na escola como garantia de respeito às regras. exclusivamente. Entre os participantes. assim como os da Escola A. consideram-nas como condição para que estes se comportem da maneira adequada no espaço escolar. As falas sugerem ainda que os alunos consideram a escola como um meio para a ascensão social. que haja a presença de dois professores na sala. para orientar o comportamento dos alunos. demonstrando acreditar nas possibilidades de ascensão social.. Nunca vi uma cobrança. concordam com as regras impostas a eles pela escola e também relacionam as regras e o cumprimento delas à qualidade do ensino oferecido pela escola. (os alunos demonstram impaciência e a discussão foi encerrada) A partir desses relatos foi possível identificar que todos os alunos adolescentes da Escola A concordam com as regras que são impostas a eles pela escola. por considerar que necessitam de cobranças para assumir determinados comportamentos esperados por eles. A autoridade presente nas instituições escola e família parece ser legitimada pelos adolescentes . indicando que valorizam a preocupação da instituição em tentar adaptá-los às exigências sociais. sendo que um deveria ser destinado. caracterizando-se. Os alunos da Escola B. na visão deles. Uma aluna defendeu a ideia da necessidade do apoio profissional de psicólogos para a adaptação dos indivíduos. consideradas ruins.. Alguns alunos da Escola A reproduziram também opiniões expressadas pelos meios de comunicação e pelo “senso comum” em defesa da meritocracia. Quando questionados sobre se concordam ou não com a cobrança exercida pela escola sobre eles. Nesse sentido. mas aqui eu não vejo cobrança. por meio do esforço individual. exclusivamente. como um fator que a diferencia de outras escolas da região. Além disso. assim como afirmam que tais regras são responsáveis por garantir a qualidade do ensino oferecido pela escola. 112 Pedro (escola B): Tem que ter uma certa cobrança. uma vez consideram que tal postura dos adultos expressa a preocupação que possuem quanto ao futuro dos adolescentes. inclusive.

embora os alunos da Escola B tenham manifestado insatisfação quanto à qualidade do ensino oferecido pela escola. Adorno (1995c) apresenta a seguinte reflexão: O motivo evidente é a contradição social. p. a sociedade forma as pessoas mediante inúmeros canais e instâncias mediadoras. indicando que consideram a instituição como um meio para a ascensão social. da universidade teria neste momento de conformismo onipresente muito mais a tarefa . ainda. Tal dependência parece indicar que a autoridade externa não foi internalizada por eles. por meio da escola. A imposição de regras. é que a organização social em que vivemos continua sendo heterônoma. 1995c. assim como pelas relações que estabelecem com parte dos professores. indicando que possuem poucas condições para exercer a autonomia. isto é. como expressão da autoridade. que “a educação por meio da família. enquanto isto ocorre. Foi possível observar ainda que os adolescentes admitem ser dependentes de uma autoridade externa para assumir determinados compromissos. afirma ainda o autor. observou-se. mas apenas àquela escola específica. contudo. 1995d. A postura de submissão dos adolescentes perante a autoridade exercida sobre eles na escola e na família expressa as limitações das instituições em garantir formação aos indivíduos que os torne capazes de desenvolver a crítica à estrutura social. Sendo assim. de forma que este processo de adaptação seria realizado hoje de um modo antes automático” (ADORNO. a cobrança para o seu cumprimento. assim como não questionaram as relações de autoridade as quais estão submetidos. de um modo tal que tudo absorvem e aceitam nos termos desta configuração heterônoma que se desviou de si mesma em sua consciência (ADORNO. assim como a responsabilização dos adolescentes feita pelas instituições. que. Dessa forma. também são valorizadas por eles e parecem ser entendidas como uma forma de segurança. Nesse sentido. nenhuma pessoa pode existir na sociedade atual realmente conforme suas próprias determinações. na medida em que é consciente. conforme apontado por Freud (2007). Dessa forma. o autor aponta que “a realidade se tornou tão poderosa que se impõe desde o início aos homens. 144). a autoridade parece ser reconhecida pelos adolescentes como algo necessário para a sua própria formação. não foi observado na manifestação deles – nem na dos alunos da Escola A – críticas com relação à instituição escolar de forma geral. Além disso. 113 pela função que desempenha na relação de dependência. caracterizadas por situações de desrespeito mútuo. a tendência parece ser a de defenderem a necessidade de se adaptar a ela. p. também não manifestaram críticas ou questionamentos frente à estrutura social. 181). Sobre os motivos que impedem as instituições de desenvolver a emancipação dos indivíduos. tampouco que os adolescentes tenham desenvolvido um ego forte capaz de resistir às influências externas.

O autor considera. para o autor “a única concretização efetiva da emancipação consiste em que aquelas poucas pessoas interessadas nesta direção orientem toda a sua energia para que a educação seja uma educação para a contradição e para a resistência” (ADORNO. p. portanto. 183). . que a possibilidade de concretização efetiva da emancipação está em se tomar a sério o projeto da formação por meio da educação. 1995d. p. Nesse sentido. 114 de fortalecer a resistência do que de fortalecer a adaptação” (ADORNO. 144). 1995c.

No que se refere aos resultados da pesquisa constatou-se que os adolescentes encontram-se numa posição de heteronomia perante a autoridade exercida sobre eles tanto na escola como na família e que valorizam e anseiam pela autoridade mesmo quando esta se manifesta na forma de autoritarismo. O estudo foi desenvolvido com base em duas hipóteses: 1) a autoridade exercida pelos adultos sobre os adolescentes é reduzida a expressões de autoritarismo. como se caracteriza sua experiência com a autoridade na escola e na família. foi possível identificar elementos importantes para responder ao problema de pesquisa. do 9º ano de duas escolas da rede municipal de ensino de São Paulo. assim como analisar o seu posicionamento diante da autoridade a qual estão submetidos nas instituições. Conforme apresentado nos capítulos anteriores. e 2) a autoridade exercida pelos adultos não é capaz de desenvolver a autonomia nos adolescentes. pretendeu-se também descrever e examinar. manifestadas nas exigências acríticas de observância e obediência às regras e na indiferença. de que a autoridade é um elemento fundamental para o processo de formação do indivíduo. assim como para a sua emancipação. limitam-se a conduzir os adolescentes. em ambas as instituições (escola e família). pautada no referencial teórico da teoria crítica. 115 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta pesquisa teve por objetivo analisar a relação que os adolescentes. por parte dos adolescentes. de acordo com as análises desenvolvidas por meio das categorias autoridade como organização e responsabilização. uma vez que se constatou que as regras e limites impostos aos adolescentes pela escola e pela família. registradas nas discussões do grupo focal e no questionário. o interesse pelo tema é decorrente da concepção. por meio do que expressam os adolescentes. A autoridade presente nas instituições é legitimada pelos adolescentes por ser considerada como um elemento importante para a sua formação e adaptação às exigências sociais. A pesquisa mostrou que a autoridade exercida pelos adultos sobre os adolescentes. à aceitação e ao . Além destes. O estudo revela que as hipóteses apresentadas foram confirmadas. permitindo alcançar os objetivos deste trabalho. mas se limita apenas à adaptação destes a realidade imposta pela estrutura social. de forma acrítica. está pautada nas exigências e expectativas para que assumam determinados comportamentos considerados necessários à adaptação social. diante do que é imposto. Com base nas manifestações dos adolescentes sobre as relações de autoridade na escola e na família. e se expressa por meio da imposição de regras e limites. desenvolvem com a autoridade exercida sobre eles na escola e na família e a compreensão que expressam sobre autoridade.

Observou-se. quanto às relações entre adolescentes e adultos expressas na organização escolar e. reajam de maneira contrária ao que se espera deles. Assim. e os professores que permanecem durante anos na escola. uma vez que tendem a tomar como referência os modelos oferecidos pelos adultos. e é incapaz de desenvolver a autonomia. não questionam as relações de autoridade. os impede de viverem eles próprios as suas experiências e indicam a presença de um ego fraco e incapaz de se opor a pressões externas. mas demonstram ter desenvolvido certa indiferença diante de determinações impostas sobre eles tanto na escola como na família. como a mãe. 116 cumprimento de determinados comportamentos considerados adequados e ordeiros. Além disso. na família. é importante observar que as relações de autoridade se expressam também na organização escolar. diante da imposição de compromissos pelos adultos e do controle de seus comportamentos. que os adolescentes possuem maior identificação com os adultos com os quais passam a maior parte do tempo. Isso pode ser observado na forma como os adolescentes reproduzem as ideias transmitidas pelos adultos. o que parece se tornar em obstáculo para os indivíduos na busca pela autonomia. por meio das categorias experiência e reação dos adolescentes frente à autoridade na escola e na família. identificou-se que embora os adolescentes. Essa submissão ativa dos adolescentes. Constatou-se. Identificou-se. também. não dispõem da presença de modelos de autoridade esclarecida no ambiente escolar e que tampouco possuem oportunidades para participar neste espaço. foi possível perceber ainda que. que os adolescentes expressam incapacidade de refletir de forma independente e crítica sobre seus atos. Além disso. Tal constatação corrobora a ideia de Adorno (1995e) sobre a importância da experiência no processo de esclarecimento. embora estejam inseridas em contextos socioeconômicos semelhantes. principalmente. as relações de autoridade em que estão presentes traços de autoritarismo tendem a contribuir para a sua reprodução. principalmente na escola. constatou-se diferenças significativas entre as escolas investigadas. ainda. em determinadas situações. embora em maior ou menor grau em cada escola ou família. assim como o comportamento destes. indicam que a experiência dos adolescentes na relação com a autoridade é fundamental para a sua formação. limitando-se a adaptá-los a estrutura social. além de produzir a obediência e a submissão. os adolescentes da Escola B. ainda. Os dados analisados. no atendimento aos . Embora esta pesquisa não tenha como pretensão comparar as escolas A e B. portanto. Nesse sentido. assim como de dependerem excessivamente de imposições externas para assumirem determinados comportamentos considerados favoráveis a sua formação. que a autoridade exercida pelos adultos sobre os adolescentes é reduzida a expressões de autoritarismo.

se aproximando das formas de autoridade presentes na Escola A. por meio do esforço em garantir que os adolescentes não desenvolvam comportamentos inadequados ao âmbito escolar. Essa passividade diante do que ocorre com os outros. tanto dos adolescentes da Escola A como da Escola B. se identificou um ambiente propício e favorável ao desenvolvimento do trabalho pedagógico e. Verificou- se. se constitui ela própria. pode proporcionar aos indivíduos. que parte dos docentes e funcionários da Escola B mostram-se indiferentes à formação dos adolescentes. É importante salientar que nestas considerações finais buscou-se destacar apenas alguns aspectos levantados na análise dos dados coletados. observou-se que as expectativas dos responsáveis. Nesse sentido. como uma forma de barbárie. com a formação dos adolescentes. com relação à sua educação não são claras e precisas (ou os adolescentes não as percebem com clareza e precisão). Nota-se também. 117 alunos. o mesmo não ocorre com a Escola B. Assim. considera-se que os resultados da pesquisa não são definitivos e que as possibilidades de investigação. principalmente em decorrência das relações estabelecidas entre professores e alunos. até mesmo para garantir a adaptação dos indivíduos às imposições da estrutura social. podem suscitar outras discussões e pesquisas. Cabe destacar. que. expressos por meio de exigências e expectativas com relação ao comportamento destes. uma vez que esta parece apresentar poucas condições. a Escola B parece não contribuir para o desenvolvimento de um clima intelectual. estabelecendo relações que se caracterizam pela frieza. ambas apresentam traços de autoritarismo nas relações de autoridade e se limitam a adaptá-los à realidade objetiva de forma acrítica. não se esgotam no que foi apresentado até o momento. Contudo. o que indica a dificuldade de definição de objetivos educacionais afinados com aquilo que a formação. portanto. que se reconhece os limites deste estudo. assim . conforme aponta Horkheimer (2008). Além disso. cultural e social favorável à formação e capaz de evitar a barbárie. ao contrário. à formação – ainda que prevaleça sua dimensão adaptativa. segundo Adorno (1995e). a partir do que foi exposto pelos adolescentes. mas. Quanto às relações de autoridade nas famílias. portanto. de acordo com os dados coletados. foi possível perceber que enquanto na Escola A. mas genéricas. independente do tipo de arranjo familiar no qual estão inseridos. nos termos indicados neste trabalho. conforme aponta Adorno (1995b). embora a escola e a família demonstrem preocupação com a formação dos adolescentes. mesmo que estas se caracterizem como espaços capazes de desenvolver a autonomia dos indivíduos. dentre outros tantos discutidos ao longo do texto. ainda. o que revela forte influência da dinâmica social sobre tais instituições. provavelmente. os dados coletados revelam que existe uma preocupação e empenho por parte dos adultos.

conforme aponta Freud (2007). assim como pelo caráter dialético da autoridade que contém em si elementos contraditórios. . bem como condição para a formação e emancipação dos indivíduos. uma vez que a autoridade não se restringe a um elemento externo ao indivíduo. sendo ao mesmo tempo instrumento de controle. aquelas que se proponham a analisar as relações de autoridade na família. devido as dificuldades impostas pelo próprio objeto de estudo. de acordo com os autores da teoria crítica. 118 como a necessidade de novas investigações sobre o tema. dominação e adaptação. especialmente. mas é internalizada no processo de formação.

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122

ANEXOS

ANEXO A - ROTEIRO PARA AS DISCUSSÕES NO GRUPO FOCAL

Após a apresentação da pesquisa e dos objetivos do grupo focal pelo mediador, os
alunos serão estimulados a se expressarem a partir da introdução dos seguintes tópicos:
 Apresentação dos participantes (nome; idade; série e bairro onde mora).
 A rotina diária dos adolescentes em casa;
 Os adultos que compoem a rede de relações dos adolescentes no âmbito familiar;
 A relação que os adolescentes desenvolvem com os adultos no âmbito familiar;
 As cobranças e limites impostos pela família sobre o comportamento dos adolescentes,
assim como as sanções aplicadas em caso de descumprimento das regras
estabelecidas;
 As expectativas das famílias dos adolescentes em relação à escola, aos estudos e a
educação de seus filhos.
 A rotina diária dos adolescentes na escola;
 A relação que os adolescentes desenvolvem com os adultos na escola;
 As cobranças e limites impostos pela escola sobre o comportamento dos adolescentes,
assim como as sanções aplicadas em caso de descumprimento das regras
estabelecidas;
 A compreensão dos adolescentes sobre quais seriam os aspectos positivos e negativos
da escola;
 As características que os adolescentes consideram necessárias para ser um “bom”
professor como o domínio do conteúdo, a competência didática,
afetividade/proximidade com os alunos, a capacidade de impor autoridade, entre
outras;
 As características do clima da escola;
 A relação dos adolescentes com seus pares;
 As expectativas dos adolescentes com relação à escola.

Os dados coletados serão utilizados unicamente para fins acadêmicos conforme especificado no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.QUESTIONÁRIO Este questionário tem como objetivo conhecer o perfil dos participantes da pesquisa “Autoridade e formação: a relação de alunos do ensino fundamental II com a autoridade na escola e na família”. Nome do aluno (a) ________________________________________Idade: _________ Nome da escola: _________________________________________________________ 1) Composição familiar (preencher do mais velho ao mais novo) Nº Nome Grau de Idade Profissão Está empregado? parentesco Sim ou Não 2) Situação de moradia: ( ) Imóvel próprio ( ) Imóvel de aluguel ( ) Imóvel cedido ( ) Imóvel em área de ocupação/invasão 3) Quantos cômodos têm sua casa? R:________________ 4) Quantos banheiros têm sua casa? R: ___________________ 5) Sua casa possui água e esgoto encanado? ( ) Sim ( ) Não 6) Quando você não está na escola onde você passa a maior parte do tempo? . 123 ANEXO B .

124 ( ) Em casa ( ) Na rua ( ) Na casa de amigos ( ) Na casa de parentes 7) O que você faz quando está em casa? ( ) Assisto TV ( ) Acesso a Internet ( ) Brinco ( ) Estudo ( ) Ajudo no trabalho doméstico ( ) Leio livros. gibis ou revistas ( ) Ajudo a cuidar dos meus irmãos ( ) Converso com meus pais ou responsáveis ( ) Outros _________________ 8) Quanto tempo você gasta diariamente ajudando a sua família no trabalho doméstico? ( ) 1 hora ou menos ( ) 2 ou mais horas ( ) Não faço trabalhos domésticos. 9) Com qual adulto da sua família você passa a maior parte do tempo? R: __________________________________________________________ 10) Com qual adulto da família você se relaciona melhor? Por quê? R:_________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ Obrigada pela participação! .

.. porque ela trabalha. Mas eu me relaciono bem com a minha irmã. Andréia (escola A): Sou Andréia. Paulo (escola A): Empinar pipa. Então. qual é o adulto que você tem mais contato? Que você se identifica? Ana (escola A): Com a minha avó.. nós estamos aqui com um grupo de alunos da Escola A. Ah. gosta de brincar comigo também. Mediadora: Quantos anos tem sua irmã? Andréia (escola A): 23. Mediadora: Certo. computador. Não saio muito... A gente conversa por telefone. Minha irmã tem 29... ou no Facebook... Beatriz (escola A): Sou Beatriz.. Mediadora: A Ana.... tenho 14 anos e moro no Jardim Marilu.. Beatriz (escola A): É. Paulo (escola A): Sou Paulo... Tomas (escola A): É.. vou pro Shopping.. Andréia (escola A): Eu passo a maior parte do tempo com a minha mãe. Porque eu me identifico muito com ele. tenho 13 anos e moro no Jardim Marilu.. e jogo vídeo game.. a primeira pergunta é: o que vocês fazem em casa? (Beatriz e Caio falam ao mesmo tempo.. tenho 14 anos e moro no Jardim Marilu.. Mediadora: Quantos anos tem seu irmão? Tomas (escola A): Tem 18..... porque ele é santista. (sorrindo) tira com a minha cara. na família de vocês.... tenho 13 anos e moro no Jardim Marilu. básico.. de quando ele era pequeno..... Ana (escola A): Com a minha avó. assistindo “nime”.. Conta da história dele... Andréia (escola A): Eu fico no computador... Ela não mora aqui. Tomas (escola A): Eu saio. Vai fazer 18. a Beatriz. as perguntas..) Beatriz (escola A): Computador! Caio (escola A): Jogar bola.. eu gostaria que vocês se apresentassem. faço as coisas em casa. o bairro onde moram e a idade. dizendo o nome.. Com a minha tia.. Mediadora: Mas. Ficar no computador.. Beatriz (escola A): Eu tenho mais com o meu pai. tenho 13 anos e moro no Jardim Marilu. tenho 14 anos e moro no Jardim Marilu.. porque ela mora no Paraná. É. E.. antes de eu começar a fazer as provocações.. vamos fazer uma discussão sobre a maneira como vocês se relacionam. minha vizinha.. Paulo (escola A): Eu leio. Empinar pipa! (todos sorriem) Mediadora: Quais são os adultos com os quais vocês se relacionam na família? Quais vocês têm mais contato? Quais são os adultos? Tomas (escola A): Meu irmão. como vocês vivem na escola e na casa de vocês. ãh.. Então. Ana (escola A): Sou Ana. Faço as coisas de casa. de tentar gerar uma discussão para saber a opinião de vocês.. Ele gosta das mesmas coisas que eu. fico no computador.... mora no Parque São Rafael. o que vocês estão fazendo em casa. porque ele está a maior parte do tempo lá e ele conversa muito comigo. A gente até discute. mais à noite.. Caio (escola A): Sou Caio.TRANSCRIÇÃO DOS GRUPOS FOCAIS Escola A Mediadora: Bom. 125 ANEXO C ....... E ele faz coisa gostosa pra mim comer.. meninos e meninas. Mediadora: Andréia.... Com meu irmão e com minha irmã. reclamando do Neymar... saio na rua às vezes... Quando vocês não estão na escola. e eu falo que ele só quer cair. É isso. jogo vídeo game. Mediadora: Com a avó. . só. leio. Tomas (escola A): Sou Tomas. Ana (escola A): Eu assisto “nime”. e só. eu gostaria de começar a discutir com vocês um pouquinho sobre como é que é a rotina de vocês na casa de vocês. são as coisas.

Paulo (escola A): Eu também. agora não posso. Tomas (escola A): Não gosto de comentar. porque. E eu queria saber o seguinte: o que vocês conversam com a família de vocês em casa? Tem conversa? E o que vocês conversam? Tomas (escola A): Ah... Aí todo dia a gente fica conversando sobre isso.... Aí ele chega em casa. os problemas que vocês vivem... Ela conversa bastante comigo. as manifestações. porque minha mãe pega muito no meu pé.... Né? Tudo (risada). Mas quando ela está trabalhando.. um monte de coisa .. quando eu chego ele tá só pronto pra ir pra igreja. Porque. Eu.... fala muito disso.. Tem coisas que não dá pra contar pros pais. Mediadora: Sobre o Harry Potter? Beatriz (escola A): Tem três harrypottista em casa: eu.. ele vai dormir direto... assim... alguma coisa que passa no jornal. eu converso sobre a escola. eu... Caio (escola A): Eu sou com a minha irmã.. E.... Mas. depende das coisas. assim. Mediadora: E a sua avó? Ana (escola A): Quando eu vou pra lá. vocês costumam conversar em casa? (Beatriz dá risada e cochicha com Ana . sei lá. E é isso.. Converso sobre a escola. quando é uma coisa feliz. Aí ele começou a trabalhar à noite. Mediadora: E com quem você fala? Ana (escola A): Com ninguém. Eu converso com a minha mãe..... aí eu guardo. Ana (escola A): Eu não tenho intimidade nenhuma com a minha mãe. Andréia (escola A): E sempre tem uma opinião diferente sobre a manifestação. quando a gente assiste um filme.. Mediadora: Ninguém da sua casa? Ana (escola A): Ninguém. assim... Andréia (escola A): Eu também. Ana (escola A): Antes eu falava bastante com o meu irmão. Mediadora: Ãh. quando eu chego em casa. de vez em quando. aí ele mora longe.. né.. sobre o dia-a-dia. aí eu falo pra todo mundo. Antes eu tinha o costume de ouvir música alto. não. porque. com a minha família.. Andréia (escola A): Ah. Eu fico mais com a minha mãe.. assim.. ele já ta dormindo já. sobre o dia-a-dia. converso sobre a minha irmã. só que o meu pai. ele trabalha de dia. os dilemas da adolescência. E só. Mediadora: Ãh.. Tomas (escola A): Mais ou menos. Paulo (escola A): Eu também. Com a minha mãe e meu pai. só.. né.. sobre a escola também. ela pegou o vício de ficar mexendo no tablet..... Às vezes eu ando de bicicleta.. .. Eu vejo ele de noite. a gente fica acordado até a noite assistindo filme.... porque meu irmão foi. e aí?. E coisas que também nem dá pra contar pra eles. Eu converso mais sobre música.. se é uma coisa triste.. só pros amigos. Beatriz (escola A): Converso sobre filme.... Caio (escola A): Pra mim. é mais com a minha irmã. Jornal... sobre o curso. depende. Ah.. se eu fiz lição. aí só fica minha mãe acordada. Meu pai. Porque tem coisa que eu prefiro guardar pra mim mesmo. alguma coisa que ta acontecendo.. quando ele vai pra sala ver futebol. sempre quando eu chego em casa.. aí eu converso com ela e com a minha irmã. com a minha mãe. essas coisas.. ela pergunta como foi a escola.. Essas coisas só. entendi. Mediadora: Então. Eu não converso muito. não sou muito íntima.. Agora ela ta viajando.. Beatriz (escola A): Eu converso mais Harry Potter. tem assunto que não dá pra falar com a família? É isso? Andréia (escola A): Mas eu sou bem aberta com a minha mãe. Caio (escola A): Ah. aí ele chega cinco da tarde. eu falo com ela. bem pequenininha. que eu não quero me abrir. Mediadora: Ah..... 126 Caio (escola A): Ah.. Mediadora: A sua irmã tem quantos anos: Caio (escola A): 15. essas coisas. que ela é assim. assim. Então. meu irmão e minha irmã.. As duas riem). como ela e meu pai se separaram. Fico trancado no meu quarto o dia todo praticamente.. Beatriz (escola A): É.. quando chego em casa. Mediadora: E sobre vocês.

. 127 Ana (escola A): Tem gente que é aberta com a família. olhe lá. quase igual. assim. até falo. arrumo minha cama.. Andréia (escola A): Toma cuidado com quem você tá andando. lavar louça... Mediadora: E. tem que lavar. assim.. de manhã.. Paulo (escola A): Escovar os dentes. Mediadora: E a Ana? Ana (escola A): Eu faço tudo. Beatriz (escola A): Também não tenho. Ana (escola A): Três da manhã. Mediadora: Até às três. já.. limpar banheiro. Quem mais pode falar? Paulo. quais são os limites que a família impõe pra vocês? (todos falam ao mesmo tempo) Andréia (escola A): Quando vai sair.. eu tenho que desligar a TV. (todos começam a falar ao mesmo tempo) Andréia (escola A): Quando eu saio. Mas é. Mediadora: Que mais? Caio (escola A): Eu lavo mais é a louça. só.. algumas coisas. de uma forma geral.. no máximo? Ana (escola A): É. Tomas (escola A): Lavar o cachorro. mas eu não tenho intimidade pra falar com a minha mãe.! Porque minha mãe já deixa tudo arrumado.. essas coisas. o que os adultos da família cobram de vocês? Tomas. Beatriz (escola A): Minha mãe pede pra desligar o computador. quando é uma coisa... aí eu não falo não. Caio (escola A): Chega em casa.... meu pai tá trabalhando essas horas.. no máximo. muito pessoal.? Paulo (escola A): É isso aí mesmo .. ajudo minha mãe a fazer janta.. ter cuidado. Andréia (escola A): Nossa! Escovar os dentes. Ana (escola A): É o que todo mundo fala pra você: que horas você vai voltar? Que horas você vai embora? Com quem você vai? Aonde você vai? Mediadora: E o Tomas? Tomas (escola A): É. as mesmas coisas.. Arrumo meu quarto. Paulo (escola A): Desligar a TV.. Eu não faço nada.... depois minha mãe grita: Desliga essa merda! Mediadora: Ãh. Mediadora: O que o Paulo falou? Paulo (escola A): Escovar os dentes (todos riem). Caio (escola A): Quando chega tarde.. até às oito ficar na rua... Depois das dez eu não posso sair. Mediadora: Certo. Quando é uma coisa boa. tem uma pilha.. mas só a Ana falou quais os limites que ela tem.. E...... quanto às atividades de casa. eu lavo louça. fora as cobranças. o que mais. mas quando é uma coisa. Tomas (escola A): Arrumar a cama.. Mediadora: Quais as obrigações que vocês têm em casa? Paulo (escola A): Lavar banheiro. Ana (escola A): No máximo. como o Caio falou.. o que você tá fazendo. Mediadora: E.. . Ana (escola A): Isso aí é cotidiano já.. Andréia e Caio (escola A): O estudo. e. Mediadora: E o Paulo? Paulo (escola A): Ah. eu varro a casa. que mais? Andréia (escola A): Também quando sair. Meia noite tenho que desligar o computador.. isso aí já tá automático.. Eu não lavo roupa. vamos ver se tem alguma coisa igual. ela fala um pouquinho. ela não gosta que chegue tarde.. Mediadora: E a Andréia? O que a Andréia faz? Andréia (escola A): Eu. à noite. Só não faço comida e lavar roupa. Ana (escola A): Menos comida. Paulo (escola A): Eu também. Beatriz (escola A): Eu arrumo minha cama. Mediadora: O que? Fala. eu não falo.. Paulo (escola A): Não ficar até tarde no computador. lavar roupa. depois tenho que dormir. Ana (escola A): Arrumar a casa.

é. (Paulo e Tomas concordam) Ana (escola A): Parar de falar. Caio (escola A): Porque a gente... Porque ela já sabe como eu sou. seis anos. mas nada demais. mas nada que ela me exija muito... tipo.. Ana (escola A): Eu brigava com o meu irmão quando eu era pequena. Meu irmão fala muito alto e.. não tem nada. nem discutimos. eu só sou um pouco estressada. Mediadora: E a Andréia? Andréia (escola A): A minha.. falar pouco. ela não fala muito.. Mais nada.. Mediadora: Quem fala mais: o pai ou a mãe? (todos falam ao mesmo tempo) Tomas (escola A): Ah. eu sou tranqüila.? Ah. né. assim. Não ficar até tarde na rua. Mediadora: E a Andréia? Andréia (escola A): Eu. Aí.. E meu pai vem com umas coisas sobre mim. Andréia (escola A): É.. Meu pai vai dormir.. Mediadora: E o Tomas... agora. principalmente porque ele não deixava eu ficar vendo ele brincando de bonequinha. quando eu era mais novinha . Porque tem vez que eu desabafo. Ah.. Mediadora: E o Tomas? Tomas (escola A): Ah... que ele vai acordar cedo pra trabalhar. sou nervoso demais. como é que a família exige? Como é que ela exige que vocês se comportem? Caio (escola A): Eu sou muito nervosinho. Aí eu não gosto.? Tem briga com os irmãos? Tomas (escola A): Quando eu era menor.. porque eu já me comporto de um jeito normal. Meu irmão e eu nunca brigamos... aí.... pra eu falar direito. a gente vai aumentando cada vez mais o tom de voz. porque eu queria ver Soribela... assim. mais briga com o irmão. Mediadora: E a Ana? Ana (escola A): Eu. à noite chega meu irmão. E é isso. e eu fico falando mentira. às vezes quando chega alguém em casa.. Mas. ele briga um pouco comigo. eles vão dormir na minha cama.. assim. pra não ficar nervoso. assim.. Aí minha mãe briga pra caramba por isso. minha mãe. aí eu tenho que dormir no sofá. ela sabe como eu sou.. Mediadora: E o Paulo? Paulo (escola A): Ah. E é isso. Mediadora: Ah. Pra mim falar baixo... respeitar os professores.. Caio (escola A): Mãe! Paulo (escola A): Mãe! ... assim.. Porque..... e ele não deixava.. minha mãe fala porque eu sou ignorante. tipo... de mim mesmo.. Beatriz (escola A): Minha mãe só reclama do barulho... Andréia (escola A): Meu pai briga comigo às vezes porque eu sou um pouco ignorante. Ana (escola A): Eu nunca briguei com o meu irmão. 128 Tomas (escola A): Não ficar até muito tarde no computador.. Mediadora: Mas porque ela não fala? Beatriz (escola A): Ah... Beatriz (escola A): Minha mãe não fala nada.. como vocês devem se comportar na escola? Caio (escola A): Respeitar os mais velhos.. eu brigava muito com o meu irmão. Aí minha mãe fica brigando comigo. Beatriz (escola A): Quando eu era pequena.... Ela não reclama muito de mim.. que meu pai tá mexendo com ela. Minha mãe não me conhece muito. Aí tem isso. Eu tinha acho que cinco. não. mas ela fica falando mesmo sem me conhecer.. E minha mãe fala.. eles falam pra eu ficar de boa no sofá lá.. quando a gente começa a falar. Fica de castigo. era bem mais. Mediadora: E sobre o comportamento de vocês fora de casa? Vamos dar o exemplo da escola. se não já viu. Minha irmã se mudou de casa quando ela se casou. Andréia (escola A): Mãe sempre fala mais.. Caio (escola A): É... normal. Mediadora: E do comportamento de vocês.? Tomas (escola A): Ela fala pra mim respeitar o próximo........ bem.. é isso aí. essas coisas assim. Segundo eles.

. não faz nada. Caio (escola A): Os que dão a ordem.. Beatriz (escola A): Sem bicicleta... alguém que é mais respeitado do que os outros? (todos dizem: o pai. a pessoa que manda. Tomas (escola A): Acho que meu tio. qual dos dois? Beatriz (escola A): Acho que mais o pai.. para o Caio é a mãe. Andréia (escola A): O mais velho. sem jogar futebol. ou a mãe”? Porque que essa pessoa é a mais respeitada na família de vocês? O que vocês acham? A que se deve esse respeito que ela recebe dos demais? Caio (escola A): Eu acho que é a que mais convive. e se vocês não cumprem o combinado... Andréia (escola A): A minha mãe só não deixa sair.) Mediadora: Para o Paulo é o pai. não responderem à expectativa da família. e blá.... que responderam “o pai... que eu não vou deixar. sem sair de casa.. que quando você precisar de mim... vai acontecer aquilo? (todos dizem sim) Mediadora: Acontece de vocês aprontarem alguma coisa.. Andréia (escola A): Ela fala que eu só lembro dela quando quero alguma coisa. De resto. blá. Beatriz (escola A): Minha mãe só briga..? Mediadora: Mas.. Tomas (escola A): Sem skate. muito esperto... (grupo concorda) Mediadora: E a Beatriz? Beatriz (escola A): É.. Mediadora: Mas.. Mediadora: E a Ana ? Ana (escola A): O pai. e não acontecer nada? (todos dizem que é raro.. Mediadora: Seu tio? Ele mora com você? Tomas (escola A): Não.”. Ana (escola A): (imitando a mãe) E essa casa.. ela não tira nada. fez três faculdades. assistir TV. Andréia (escola A): Ela fala que eu tenho que aprender a ter responsabilidade de fazer as coisas... Muito mente aberta. o que acontece? Ana (escola A): Fica sem Internet por alguns meses..... né... essas pessoas que são mais respeitadas. não tem ninguém pra cuidar. Mediadora: E tem algum adulto na família de vocês.. Muito tranquilo. Acho que ele é mais respeitado porque. tudo isso também.) Andréia (escola A): É. assim.. Tomas (escola A): Sem pipa.. deixa pra ver com o pai... tipo. Mediadora: E por que vocês..... fale à noite com seu pai.) Mediadora: Vocês costumam ser responsabilizados pela postura de vocês? (todos dizem que sim. que bota ordem na casa... ela já fala: não vem me pedir dinheiro pra sair... fica sem celular. Por isso eu acho que ele é o mais respeitado da família.. Andréia (escola A): Também é a mãe.... Ana (escola A): É assim: (imitando a mãe) Deixa.. mas quando passa um pouco do limite. não. Mediadora: As regras são claras na casa de vocês? Vocês sabem: Se não fizer isso.. o pai e a mãe. quando vocês não se comportam da maneira como a família exige? Há consequências? Paulo (escola A): Ô! Castigo.. 129 Mediadora: E quando vocês descumprem esses comportamentos previstos.. Sempre tem o “fala com seu pai.... Paulo (escola A): Ela só fala pra ser mais responsável da próxima vez. Beatriz (escola A): É. Andréia (escola A): Falo mais com a minha mãe porque ela é separada.. blá.. Ana (escola A): Na maioria das casas é o pai. você vai ver.. se vier uma visita. elas impõem mais autoridade porque elas punem caso vocês não correspondam às expectativas? (grupo responde “sim”) ...... não mora. ficar sem Internet.. Mediadora: E no caso..

Caio (escola A): Mas tem também minha irmã.. já que vocês tocaram nesse assunto. Ela vai prestar também. 130 Mediadora: Tem alguém aqui que tem o pai ou a mãe como autoridade.. porque na época dela não tinha isso.. né. Caio (escola A): Estou em dúvida... Mas também.? Andréia (escola A): Só um pouco do meu pai. porque senão ninguém buscava.” Ana (escola A): Minha mãe não falou nada...... numa próxima. em casa eu posso estudar com ela... meu pai fica de boa. Mediadora: E a escolha de vocês tem a ver com a família de vocês? Ana (escola A): Não.. Você tentou. se preocupam com os estudos de vocês? Paulo (escola A): Principalmente esse ano. Caio (escola A): Com a minha mãe. ou pelo que você fez.. como que é a escola que vocês estudam? Eu gostaria que vocês explicassem. (Todos concordam) Aquela frase.. Paulo (escola A): Minha mãe falou: “Se você não passar... ele me cobra bastante. que a gente tá saindo da escola. Beatriz (escola A): Prestar ETEC. com relação aos estudos.. Caio (escola A): Porque essa é a única chance da gente estudar. Muda bastante. na visão de cada um..... mas acho que mais a ETEC. Muitas provas por aí. tem que pagar! “Faz isso agora. Ana (escola A): Eles sabem que aqui a gente aprende muita coisa boa... Ela nem sabia que tinha ETEC. Mediadora: E o Tomas? Tomas (escola A): Minha mãe quer que eu faça ETEC.. cada um falasse um pouquinho.... Eu gostaria que vocês me falassem..... Caio (escola A): Mas eu acho que é verdade (grupo concorda) Mediadora: E o que eles esperam? Andréia (escola A): Que a gente aproveite a escola boa. os responsáveis..... Beatriz (escola A): ETEC.. meu pai quer que eu faça SENAI. Ana (escola A): Minha mãe sempre fica falando pra gente aproveitar o que tem aqui.. quando a gente estiver mais velho... a gente não vai poder estudar de novo.. Mediadora: Vocês vão prestar? Tomas (escola A): SENAI Mediadora: O que você vai prestar? (pergunta para o Paulo) Paulo (escola A): ETEC.. tudo bem. Mediadora: E a Ana? Ana (escola A): Quem me aceitar... (ela e o grupo riem) Mediadora: Você vai tentar algum? Ana (escola A): Vou tentar os dois. porque no futuro. de que não podia ficar sem copiar lição. ele já sabe que. Ana (escola A): Faz os dois.. Mediadora: E o que os pais ou responsáveis de vocês esperam da escola? Eles dizem para vocês frequentarem a escola por que? O que eles esperam? Tomas (escola A): Um futuro melhor pra gente. Aí. Meu pai não. mas acho que ETEC e SENAI. né. (o grupo concorda) Mediadora: Não houve nenhuma cobrança da família. Mas ainda preciso ver o quê.. porque nem todas as escolas são assim.. Ou é porque derrubou comida na cama. vamos falar um pouquinho agora da escola.. Tomas (escola A): Tá acabando um ciclo da nossa vida.... que é uma escola bem conceituada na região.. Parte II (escola) Mediadora: Bom. Andréia (escola A): Eu também estou em dúvida. Mediadora: E. mas que não pune caso não haja o cumprimento de alguma regra? Andréia (escola A): Sempre você tem pagar pelo que não fez. ... os pais de vocês....”. ou faz aquilo. à escola. Andréia (escola A): Mas eles não podem escolher..

Mediadora: Não mascar chiclete? Que mais? Beatriz (escola A): Não comer na sala... mas era boa.. Dão muita lição.. Ameaçaram ela. Deixa eu ver. Mediadora: Que mais? Quais outras regras? Caio e Paulo (escola A): Não pode correr.. obedece as regras.... Caio (escola A): Sem celular.. Era a.. Beatriz (escola A): Nem touca. Mediadora: Então tem que vir de uniforme.. Não pode. Mediadora: Ah.. de Inglês. Sueli.. Era chata porque eu era bagunceiro.. com os pequenos. Caio (escola A): Era chata.. Paulo (escola A): Faz a escola ser o que ela é hoje..... mas. Então. Mediadora: E o que a Escola cobra de vocês? Ana (escola A): Que a gente tem que respeitar não só os professores.. 131 Tomas (escola A): A estrutura da escola A é muito boa.. tem que sair das duas escolas. Ana (escola A): A escola é relativamente pequena. como os projetos pra gente. Ela pegou licença. Os professores. Ensinava bem. Beatriz (escola A): A escola é pequena.. Mas elas pegam. (todos concordam). Mediadora: E muda muito de professor aqui na escola? (todos concordam que não) Beatriz (escola A): Só de Inglês (todos concordam que sim) Mediadora: Fala Paulo.. Porque os professores sabem o que fazer fora da escola e dentro da escola. Tipo.. eles fazem projeto para.. Beatriz (escola A): O professor já conhece o aluno. . mas as tias da limpeza. Desde o ano passado.. eles cobram? (todos concordam que sim) Beatriz (escola A): E eles são legais.. Mediadora: Os alunos daqui ameaçaram ela? Caio (escola A): Não. Só se tiver alguma coisa. estudar. assim.. Eles não dizem “não faz assim”. e isso é uma maravilha. mas esse ano não está dando pra gente ter Inglês.. (pra gente) vir para cá.... Beatriz (escola A): E respeitar bem as regras. Caio (escola A): Dentro da escola todo mundo respeita... fazem ocorrência. Beatriz (escola A): Eu aprendi mais em duas aulas com a Profª Sueli. ajudam.. Não usar boné. A mãe sempre comparece. que o professor vai dar.. Não serve pra nada o Inglês.. não são chatos. mas os professores fazem de tudo pra ensinar pra gente o que a gente pode e o que a gente não pode... E eles cobram bastante... (o grupo concorda). Paulo (escola A): Nem de blusa com touca não pode.. Aí eles ficam com raiva... aí ficam batendo..... Aí. o ensino fundamental não é pra ensinar pra gente Inglês. que está perto.. a gente já devia sair daqui sabendo ler. não pode usar boné. A gente vai pra diretoria... ela teve que sair daqui.... Tomas (escola A): Tem mais uma: mascar chiclete. Nada. Esse ano a gente já teve uns quatro professores de Inglês.. os da outra escola. Aí. Caio (escola A): Senão elas vão falar “tá com dor de ouvido? Não? Então tira”. Andréia (escola A): A Cátia (professora) era boa. ela foi.. se conhece. fora do horário da escola.. Andréia (escola A): E também mantém a escola limpa..... brincadeira de mão.. Nós ficamos com umas três aulas de Inglês..... Trabalhava aqui e na outra escola.. Paulo (escola A): Porque Inglês. Ana (escola A): Se tem algum problema... chama a mãe.. Beatriz (escola A): Não. Mediadora: Quais são as regras? Paulo (escola A): Vim de uniforme. para mudar. todo mundo conversa.... só não pode por a touca.. completo. mas tudo que a gente tem que fazer é dentro da sala. Não transferida.. Mediadora: E o que vocês pensam dessas regras que têm na escola? Andréia (escola A): Eu acho certo. Caio (escola A): Tinha uma professora que era boa. Usar blusa pode.. não pode blusa com gorro. Não é uma escola difícil de lidar com os alunos. Ana (escola A): Querendo ou não. assim. Mas quando ameaçam. Caio (escola A): Tem os cards (jogos de figurinhas). do que dois anos com a Cátia .

Beatriz (escola A): A Dona Arlinda e o Cláudio (professor). Caio (escola A): Mas. tá tudo uma zona.. Mediadora: E o que aconteceu? Ana (escola A): Não sei.. Não.. Caio (escola A): Vida louca. como é que é? Paulo (escola A): Então.. Estão dando conta mesmo.. Aí chamam os pais.... (todos riem e concordam – tom de brincadeira). convocação.. ele foi lá falar com a minha tia. Ana (escola A): Nunca ouvi falar de ninguém que foi expulso na escola.. (todos concordam) Tomas (escola A): O tamanho do Cláudio (professor) também.. aí tem a convocação. Mediadora: Tem o livro de ocorrência? Beatriz (escola A): Tem! Caio (escola A): Quando completa a folha.. e outras “cositas” mais..... Ana (escola A): Ela é vice-diretora. Ana (escola A): Tem gente que tem duas folhas. Mediadora: Mas chega a expulsar? Paulo (escola A): O primeiro nível seria convocação. Mediadora: E o que a Dona Rosa (assistente de direção) e o Prof. ficava brigando com as meninas na escola. Mediadora: São temidos? Todos: São. os professores vão. se não resolve... ocorrência... aí chama os pais. Mas faz tempo. Mediadora: E como é que funciona? Como são as punições aqui na escola se há desrespeito com as regras? Caio (escola A): Expulsar. Aí o Prof. Porque.. Mediadora: E já aconteceu isso aqui? (todos dizem que já) Mediadora: Os professores vão nas casas dos alunos aqui? Ana (escola A): Sim. não seria assim... que manda na escola praticamente.. Mediadora: Chamam o Conselho Tutelar? Ana (escola A): Assim. ele é expulso mesmo. se não fosse ele na escola. Tem professor que vai na casa. que tem ótimos professores.. e veio a Carla (diretora).. Ocorrência. Cada um faz o que quer... Paulo (escola A): Eles falam que. 132 Beatriz (escola A): Pra não virar uma baderna. mas foi diretora por vários anos. E depois veio a Rosa. e depois foi diretora por vários anos. (todos concordam).... Aí depois ela virou vice. Cláudio. eles chamam o pai. (todos concordam).. Ela era muito barraqueira. Ela era professora de Ciências... te expulsam. advertência... primeiro veio a Rosa. Mediadora: Aqui na escola? Paulo (escola A): É.. já foram na casa da minha prima.. Os dois.. Ana (escola A): E se o pai não puder ir na escola. e se ele não for muito quietinho... Ana (escola A): Ah. não podia ir pra escola. Aí a mãe dela tinha problema de hérnia de disco. aí é tipo um alerta. se você ver nas escolas da região. Se não tomar jeito. é ocorrência. Se não der certo. e eles chamam o Conselho Tutelar também. Se a pessoa for muito zoeira ... Aí.. Mediadora: E eles são respeitados? Todos: São. Cláudio têm que faz com que sejam autoridades aqui na escola? Ana (escola A): A rigidez deles. Não.. e depois a Carla (diretora). não tem respeito. Mediadora: E então.. Ana (escola A): Todo mundo diz que a escola A é assim graças a isso. Caio (escola A): Eles vão pegando no pé. . e. (todos concordam). até tomar jeito. eu já. São bem rigorosos. Andréia (escola A): Ah.. se tiver três convocações..

.. Porque nos intervalos..? .. mas repensam).. vamos lá.. todo mundo sabe que é mentira. Mediadora: Há clareza quanto às regras da escola? Vocês sabem o que pode ser feito e o que não pode ser feito dentro da escola? (todos concordam que há) Ana (escola A): Quando diz que não sabia.. ter um conhecimento. diretores.. e quais os pontos negativos da escola? Ana (escola A): É difícil ponto negativo. Eles viajam para o exterior. não sabe. fica mais fácil. como é perto. Ana (escola A): Muitas pessoas que moraram aqui e se mudaram continuam estudando na escola A. e eu moro aqui em cima. Ana (escola A): Muito raro ver alguém que não mora aqui na entrada. Tomas (escola A): Tem pessoas que vêm de outras escolas. Não é com qualquer faculdadezinha que passa por aqui. (todos concordam). outros dizem “mais ou menos”) Ana (escola A): Eu gosto por mim. Ele podia ir pro CEU. Caio (escola A): Tirando algumas coisas...... eu quero ouvir com mais clareza. Aí a gente fala: “me coloca ali embaixo”. Muita gente diz que é uma escola boa. Caio (escola A): As duas coisas.. que essa escola já tem fama de ser uma escola boa na região.. Então eu gostaria de saber o seguinte: Vocês vieram aqui para a escola A por opção ou pela proximidade da escola? Andréia (escola A): Proximidade. Beatriz (escola A): Você já vê eles. Por que é na hora. Porque todo mundo sabe o que pode e o que não pode aqui. o que faz com que vocês estudem aqui é a proximidade. Paulo (escola A): A gente podia ficar o dia inteiro falando dos pontos positivos. te avisa. O que tem de pontos positivos na escola? Andréia (escola A): Os professores.. Mediadora: Então... Mediadora: E vocês disseram que essas regras são antigas. Paulo (escola A): Tem muitos alunos antigos daqui que já falaram que a escola era boa. mas isso é normal . Caio (escola A): Quando você entra. meu tio. o que deve e o que não deve... minha irmã. Mediadora: E como vocês ficam sabendo das regras? Ana (escola A): Eles avisam. Andréia (escola A): Eu gosto dos dois. Aí ela me colocou... Andréia (escola A): Se tem alguma coisa errada. Ana (escola A): Os professores são bem conceituados. Já era perto. Caio (escola A): Meu tio e minha irmã. falam que é boa. É relativamente pequeno. na entrada da escola ela fica observando os alunos muitas vezes... ele prefere estudar aqui. Mediadora: E vocês têm alguém na família que já estudou aqui antes? Paulo (escola A): Meu primo. de eles pegarem no pé.. um saber. E... já tem que estar atento. Aí a gente se matriculou. Mediadora: Então.. gostam da escola... é tudo regra antiga. 133 Mediadora: São amados? (alguns dizem que sim. ela passa em todas as salas falando.. Ana (escola A): Eu conheço um menino que mora ali no Tiradentes... E o que vocês me diriam de pontos positivos e pontos negativos da escola? Gostaria de ouvir isso de vocês. (Inicialmente todos concordam... ela alerta você. Beatriz (escola A): Acho que negativo é o espaço (todos concordam). mas não. do professor ser bem conceituado... não tem o que falar.. Mediadora: Então todo mundo já teve alguém na família que estudou aqui... O que faz a escola ser boa.. (todos dizem que sim). Mediadora: Ela quem? Caio (escola A): A Dona Rosa (assistente de direção). já que vocês concordam que a escola é boa. E não é regra nova. Só tem uma parte meio chata. Beatriz (escola A): Também.. não. e não tanto o fato da escola ser considerada boa. Mediadora: E vocês acham que isso que a Ana está falando é importante.

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Beatriz (escola A): Aqui, o aluno só não sai aprendendo as coisas se não quiser... Se você prestar
atenção nos professores, se aprende muito. Que nem o Sebastião (professor), vocês falaram que ele é
velho, mas ele é o professor mais experiente.
Caio (escola A): Isso é verdade, né...
Tomas (escola A): Mas ele já está pra se aposentar...
Mediadora: E ele é respeitado pelos alunos?
Beatriz (escola A): Muito.
(todos concordam)
Mediadora: E como é que vocês percebem que um professor é bem capacitado?
Andréia (escola A): Pelo modo como ele dá aula...
Caio (escola A): Pela forma como ele trata a gente...
Paulo (escola A): Ah, ele já ganhou vários troféus de xadrez... Tem vários troféus lá embaixo, e foi
tudo ele quem ganhou...
Mediadora: E quem é o professor que já ganhou no xadrez?
Andréia (escola A): O Sebastião (professor).
Mediadora: O Prof. Sebastião ... É ele quem está pra se aposentar?
Andréia (escola A): É. Ele dá aula de matemática, mas também dá aula de xadrez.
Paulo (escola A): E fala inglês, francês, italiano...
Mediadora: E quais as características que vocês julgam necessárias para um professor ser um bom
professor?
Ana (escola A): Ele tem que saber botar ordem na sala. Os professores entram na sala, eles não sabem
controlar os alunos...
Paulo (escola A): Igual ao Denis... (todos concordam).
Andréia (escola A): Mas o Denis, ninguém respeita ele...
Ana (escola A): Ele não impõe ordem na sala.
Mediadora: Por que ninguém respeita?
Ana (escola A): Ele não põe ordem (todos concordam). Ele entra na sala e fica dizendo “gente, tô
aqui...” (sinal de braços cruzados). Ela não põe ordem.
Andréia (escola A): Ele fica esperando as pessoas se tocarem que ele está na sala...
Beatriz (escola A): Ele deveria gritar “gente, presta atenção, é sério!”.
Mediadora: Mas é necessário gritar?
Beatriz (escola A): Não gritar tanto, mas falar alto, num tom que dá pra todo mundo ouvir
Paulo (escola A): Acho que ninguém respeita ele porque ele é um professor de projeto (professor
substituto).
Tomas (escola A): O jeito que se respeita o professor titular é bem diferente.
Mediadora: Mas nenhum professor de projeto é respeitado aqui?
Tomas (escola A): É... Não é igual ao titular (todos concordam).
Mediadora: Nunca é como os titulares?
(todos concordam que não)
Mediadora: Por que vocês acham que o professor de projeto é menos respeitado?
Ana (escola A): A gente tem mais afinidade com o professor titular porque é muito difícil mudar de
professor aqui na escola A. A gente tem os mesmos professores desde a quinta série. Às vezes tem
professor que a gente conhece até antes. A gente tem mais afinidade com eles. A gente sabe da história
deles, e eles da nossa. A gente tem o que conversar, né...
Beatriz (escola A): Eles já sabem como que é o aluno. Quem são os mais bagunceiros, os mais
quietos... Aí eles já sabem como tem que organizar a sala...
Mediadora: E existe uma relação afetiva entre vocês e os professores?
Ana (escola A): Tem (todos concordam). Mais com uns do que com outros. Não tenho amizade com
alguns professores, mas com outros tenho bastante.
Mediadora: Mas isso é importante?
(todos acenam que sim)
Mediadora: Por que vocês acham que é importante?
Ana (escola A): Deixa o clima da escola bem melhor.
(todos concordam).

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Andréia (escola A): Quando você tem “intimidade” com um professor, na aula fica melhor de
conversar...
Ana (escola A): A gente brinca, não fica uma aula tão séria... Ele entende a nossa brincadeira.
Caio (escola A): Por exemplo, se a gente não entende a matéria, ele explica de novo na aula...
Mediadora: Mas, e se o professor for somente um professor legal, com o qual vocês tenham uma
relação mais afetiva, mesmo assim ele é um bom professor?
Ana (escola A): Sim.
Andréia (escola A): Não. Só se ele for legal, não...
Beatriz (escola A): Depende.
Paulo (escola A): Tem que saber explicar.
Ana (escola A): Isso ajuda, mas não é tudo.
Caio (escola A): Tem que saber dar ordem.
Andréia (escola A): O mais importante é ele saber dar aula.
Beatriz (escola A): Saber dar ordem e dar aula, é “O” professor...
Paulo (escola A): A gente tem um professor de artes que entra na sala e... O que você diria de ter uma
aula de artes só escrevendo? A gente só escreve na aula.
Beatriz (escola A): É que ele passa sobre os jeitos de artes...
Tomas (escola A): Ele relata a história da arte, né...
Ana (escola A): Mas é tudo parte própria, assim... Tudo da mão dele. A gente só faz algum trabalho,
assim, quando está em datas especiais, dia das mães, natal... A gente faz um desenho, uma pintura, e
só... O ano inteiro... E a gente fica com dó, sabe... Dois anos seguidos que eu fechei com “S” (nota que
corresponde a 5 ou C) no fim do ano, e eu nem tinha caderno de artes.
Paulo (escola A): A gente nem usa caderno de artes. A gente faz até uma brincadeira com o professor:
“Professor, porque meu caderno de artes não veio com linha?” Porque o senhor só passa texto... (todos
concordam rindo).
Beatriz (escola A): Ele tinha que passar, assim, algum jeito diferente de desenhar...
Ana (escola A): A única coisa que eu lembro que ele passou foi na quinta série, mas eu já esqueci
tudo... (todos demonstram concordar).
Caio (escola A): Mas também é a maior correria. Professor de artes faz projeto, é professor de teatro...
Aí é muito corrido pra ele...
Mediadora: E se a gente fosse pensar o contrário? Quais são as características de um mau professor,
um professor ruim?
Andréia (escola A): Não saber dar aula, não saber botar ordem...
Paulo (escola A): Só escrever, não explicar nada...
Caio (escola A): Só manda fazer lição, sai da sala...
Ana (escola A): “Da página tal à página tal”, e vai sair pra conversar...
Beatriz (escola A): Vai tomar um cafezinho, uma coca-cola...
Andréia (escola A): Nossa, gente... Eu não acho isso...
Caio (escola A): É claro, nós estamos no horário de aula, e não no horário de intervalo...
Beatriz (escola A): A professora Vivian é uma professora que nunca gostei, nunca, muito má...
Tomas (escola A): A Mariana.
Beatriz (escola A): É... Ela era muito chata. Ela separava os burros dos inteligentes...
Ana (escola A): É, ela me deixava do lado dos burros. Se um burro tinha uma dúvida, ela não ia pro
lado dos burros.
Beatriz (escola A): É, tipo assim, ela tentava explicar só pros mais inteligentes. Pros burros ela não
ligava, e mandava os mais inteligentes explicar pros burros. E ela nem tchum... Tipo, tinha afinidade
com três pessoas, as patricinhas, ficava comendo...
Ana (escola A): É... Neiva, Sabrina, e não lembro quem mais...
Mediadora: E o Tomas, não falou nada ainda a esse respeito... Quais são as características, pra você,
num professor ruim?
Tomas (escola A): Ah... um professor que não se estressa...
Beatriz (escola A): E tem que ter afinidade não só com uma pessoa...
Caio (escola A): É, porque tem professores que têm mais afinidade com uns do que com outros...
Beatriz (escola A): Tipo a Mariana, assim, que só ficava com as patricinhas...

136

Ana (escola A): A Cibele (professora) era assim, ela só tinha afinidade com o Anderson. Ela um dia
perguntou: “Gente, vocês acham que eu trato algum aluno melhor que outro?”. A gente disse sim. Ela
respondeu “Quem”. A gente disse “o Anderson”. Ela disse “Ah, gente, sério? Desculpa”.
Mediadora: Mas é possível um professor ser um bom professor mesmo não tendo afinidade com os
alunos?
Andréia (escola A): É
(todos concordam).
Ana (escola A): É mais difícil de dar a matéria, porque, querendo ou não, os alunos não vão respeitar
o professor dentro da sala de aula.
Andréia (escola A): Depende do professor...
Paulo (escola A): Se ele for muito rígido, todo mundo vai perceber e prestar atenção.
Caio (escola A): É verdade, mas tem professor que entra na sala, brinca, e sai da sala... Deixa todo
mundo lá, sem matéria... O aluno fica brincando, bagunçando...
Beatriz (escola A): Mas talvez, pela rigidez, a pessoa não tenha vontade de aprender aquela matéria,
fica fazendo por obrigação...
Caio (escola A): Por exemplo, o Cláudio (professor). Ele entra na sala, é um silêncio total. E todo
mundo sabe que ele é o professor que quer dar a aula dele... Porque, se não respeitar...
Paulo (escola A): E ele não tem muita afinidade com aluno...
Caio (escola A): Todo mundo gosta do Cláudio (professor)... Eu gosto do Cláudio, das aulas dele...
Andréia (escola A): Eu também gosto...
Tomas (escola A): Ele é o professor que mais se expressa bem, que explica melhor...
Caio (escola A): Ele pega no pé, mas pra ajudar...
Ana (escola A): Agora ele ensina a matéria, mas antes ele não ensinava... (Beatriz concorda). A única
que eu lembro da quinta série foi fazer a maquete do meu quarto...
Beatriz (escola A): Primeira semana, trinta páginas...
Mediadora: Ele é professor de...
Todos: Geografia.
Andréia (escola A): Ah, eu acho ele um bom professor.
Tomas (escola A): É, mas na quinta série ele passava trinta páginas...
Ana (escola A): Ele quase nem ficava na sala... (todos concordam, menos a Andréia). Ele colocava
aquele estojão dele na mesa, pedia “da página tal à página tal” de resumo, e saía... A gente escutava a
voz dele conversando no corredor...
Caio (escola A): E os carimbinhos: Fez, não fez e incompleto...
Mediadora: Isso foi na quinta série. Agora mudou?
(todos concordam que sim. “ele explica melhor”)
Paulo (escola A): A gente ainda faz resumo, mas ele explica tudo.
Mediadora: E, pensando na escola de uma forma geral, como é a relação dos alunos com os
professores aqui na escola?
(todos concordam que é boa).
Mediadora: É? Pelo que vocês conversam, observam...
Andréia (escola A): Não tem conflito com professor.
(todos continuam concordando).
Beatriz (escola A): É muito difícil um conflito...
Caio (escola A): Por exemplo, quando um professor quer dar aula, e o aluno não quer, ele bota pra
fora e depois conversa...
Paulo (escola A): Não... raramente ele coloca pra fora. Primeiramente ele dá os avisos.
Beatriz (escola A): E a gente não fica com raiva do professor!
Ana (escola A): E o professor que dá o aviso, vai pra fora, conversa com o aluno, e ele volta.
Raramente o aluno vai pra fora e fica lá fora...
Caio (escola A): Já foi o tempo que acontecia isso aí. Agora...
Mediadora: E com a direção, como é a relação de vocês com a direção da escola?
Paulo (escola A): É boa, né... (todos acenam concordando), porque a gente não conhece muito a
Carla (diretora) ...
Caio (escola A): Eles ficam isolados...

.... a gente não sabe.. gosta de tudo do jeito certo. e sétima e sexta. Aí as tiazinhas colocavam no prato da gente. Caio (escola A): Tem vez que nem fica comida. Andréia (escola A): E também a gente não se relaciona. Ana (escola A): É.. Ana (escola A): Os tios eram rígidos no começo. Caio (escola A): Eles pegam oitava e quinta. Paulo (escola A): Mas ela é rígida de um jeito bom. então.. pra acostumar de novo. Mediadora: E por que tem a balança? Vocês pesam? Ana (escola A): Não.. pra saber qual a porção que vai fazer. a gente ganhava por peso. Tipo. Ela falou que é rígida... Ana (escola A): Teve um abaixo-assinado.. Caio (escola A): Agora os tios vão na sala.. se ela encontra com a gente. A gente tinha colocado.. Tomas (escola A): Agora você só pega o que vai comer. Caio (escola A): Só que aí tinha muito desperdício. né. como é a relação? Ana (escola A): As tias da cozinha são legais.. não? (pede confirmação dos colegas. que ela quer tudo certinho.... né.... um jeito legal.. A gente só vê a Rosa (assistente de direção) e o Cláudio (professor) tomando conta da escola.. Mediadora: E ela é rígida mesmo? Beatriz (escola A): É. mesmo sem conhecer muito.. Caio (escola A): Antes ela observava todo mundo.? Andréia (escola A): É.... Mediadora: E como é que funciona o intervalo? Eu observei que tem self service aqui. Caio (escola A): Aí teve uma votação.... o tio não deixa. Paulo (escola A): Antigamente era self service também. .. O quanto tinha e o quanto ficou de comida. Eles pesam a comida inteira. só. Ana (escola A): Tinha um balde grande que era jogado fora todo dia. 137 Ana (escola A): A gente conhece mais a Maria (inspetora). Se for jogar fora. a gente não sabe se fazem alguma coisa ou deixam de fazer. porque é pra pegar só o que vai comer. Mediadora: Ela é próxima de vocês. Mediadora: (rindo) Vocês não vão lá tomar cafezinho? (todos riem confirmando que não) Tomas (escola A): A diretora é nova também. Se eles fazem ou não fazem. aí jogava fora. Acho que ela chegou esse ano. tem o tiozinho do Guns’n’Roses. Aí ela passou nas salas.. Mas aí a Prefeitura mandou a comida terceirizada... Mediadora: Quem organizou o abaixo-assinado? Andréia (escola A): Foi a Rosa (assistente de direção).. por causa do desperdício de comida. fala com a gente.... né. e a gente comia.. toda vez. Andréia (escola A): Ela é bem rígida. Ana (escola A): Os professores dizem que tem que ser tudo do jeito dela.! Beatriz (escola A): E o tiozinho do Guns’n’Roses. a Carla (diretora). A gente. A gente não conhece muito ela porque ela é nova. Tinha a balança. Ela que ensinou a gente a dançar funk. Como é que funciona? Ana (escola A): Antes a gente se servia assim. Mas no ano passado ela ficou só vendo como era a escola. Agora é um balde pequeno. Aí eles dividem e pesam.. Agora é por quantidade de prato. Tomas (escola A): No começo até pesava.. fica limpo. Mediadora: E com os outros funcionários da escola. passou só uma vez.. só. Ana (escola A): É. ela cumprimenta. Agora o pote é pequeno.. Caio (escola A): A gente tem mais intimidade com a Rosa (assistente de direção). só comia o que tinha no prato.. a Fátima (coordenadora). que dizem que foi o ano passado). Tomas (escola A): Tem uma tia que dança funk! (todos riem e concordam) Ana (escola A): É a tiazinha do funk. aí tinha criancinha que ficava chorando lá... muita gente jogava fora. Mas o pote (onde o resto de comida era jogado) era grande. eu já ouvi falar dela. perguntam quantos alunos tem... Por exemplo..... Beatriz (escola A): Foi o ano passado. normal.. porque não tem tanta confusão pra entrar na diretoria. Tomas (escola A): Porque tinha coisa que você não gostava. Agora é pra botar ordem.

Andréia (escola A): Nossa. era muito estressada.. assim. garfo e faca.? Caio (escola A): Parece que no ano que vem vão mudar.. É que a gente mora na mesma rua. todo mundo fala com todo mundo. todo mundo se conhece (todos concordam). os professores têm que mostrar tudo. Caio e Paulo (escola A): As meninas. Paulo (escola A): A gente só não conhece muito as quintas séries. O Tomas também? ... depois foi pra laranja. professora.. todo mundo das quintas séries sai correndo pro intervalo. Aí veio um menino com uma garrafa de dois litros na bolsa. Agora pouco a gente conseguiu prato de vidro. ele bota medo na gente: “Nossa. e as quintas séries vão ser de manhã também. (imitando a professora) “Não..”. Tomas (escola A): Tinha um outro aluno. legal. menino!”... voltando à questão dos alunos.”. quando ele colocou na mesa. desde a primeira série.. você vai guardar esse negócio aí. as meninas barraqueiras. assim. (os entrevistados falam ao mesmo tempo) Paulo (escola A): E um dia. Mediadora: Então vocês estão se conhecendo? É isso.. Paulo (escola A): E vai ser melhor. você vai se ferrar! Agora na quinta série é um monte de lição!” Beatriz (escola A): Eu lembro a professora Isabela falando: “É.. Ana (escola A): E porque também no outro ano eles estavam na quarta série.. tava todo mundo querendo beber água. Imagina quando vocês saírem daqui. Ela me bateu! Andréia (escola A): Ela era muito chata. 138 Mediadora: E todas as séries.... E na quarta série não é muito rígido as coisas.. Ana (escola A): O pessoal que sai da escola.. Quero ver vocês conseguirem copiar tudo isso!” Ana (escola A): E ela dizia: “Vocês acham que isso aqui é ruim? A gente passou o dia inteiro juntos.. tem.. Estava uma época de calor.. Beatriz (escola A): É. conflitos na porta da escola. fica com aquelas brincadeiras de bater. Beatriz (escola A): É porque vai até os nove anos. Tomas (escola A): Não é só porque a escola é pequena.. no período da manhã.. eles têm que mostrar... muito chata. Mediadora: E a relação entre os alunos aqui na escola? Como os alunos se relacionam? Caio (escola A): Como é pequena a escola.. se servem no self service? Ana (escola A): Sim (todos concordam).. O dedão estava desse tamanho.. a Rebeca.. Beatriz (escola A): Na quinta... ela quebrou o dedo. Beatriz (escola A): Pior foi com a Profª Mariana.. Aí. não tinha nenhuma relação com a gente. Mediadora: Como ela te bateu? De verdade? Ana (escola A): De verdade.. Mediadora: Então. Ela pegou a bolsa do Júnior e jogou pra fora. um do lado do outro (todos concordam).. muito ignorante. são 45 minutos... Aí ele pegou e guardou. Aí.. E a professora não deixou ela descer. Ana (escola A): Aí eu lembro que.. aí a professora falou: “amanhã eu quero todo mundo com garrafinha! Coloca no congelador e traz”.. pegou o caderno dele e jogou lá embaixo. a professora disse: “O que é isso!?”. no geral.... Aí a professora mandava ele soltar aquilo. o Júnior. eu trouxe minha garrafinha. quando bate o sinal... Como vai ser no período da tarde. e desceu... porque... sétima. Caio (escola A): É. Mediadora: Mas.. Mediadora: Mas de qual série? Caio (escola A): Da sexta. tinha que pegar água na mochila. porque o pessoal chega da quarta série.? (todos falam ao mesmo tempo.) Mediadora: Eu estou vendo que todos vocês estão de uniforme. Antes era azul. Aí a Rebeca disse “eu vou descer”.. ele: “Ah.. às vezes.. não há problema entre os alunos nesta escola? (todos concordam que não há problemas) Mediadora: Não tem brigas. quando ele ficava com sede. Ana (escola A): Uma vez. (todos riem muito).. porque antes era colher e o prato de plástico (Paulo concorda). muito chata....) Ana (escola A): É só as quintas séries.. insinuando que. (mostra com as mãos). o que vocês acham do relacionamento entre os alunos? (Todos concordam que bom...

.. . Já pensou se chega alguém aqui. 139 Tomas (escola A): Só a camisa que não.. ela sempre encaminha a gente pra alguma coisa. Beatriz (escola A): Sempre pode ficar bem melhor. Caio (escola A): Quando não tem nada pra fazer.. igual. assim. Caio (escola A): Porque caso aconteça alguma coisa fora da escola. Tomas (escola A): Eu sou a favor só da camisa... Ana (escola A): Eu lembro que uma vez ela disse: “Não existe aula livre... tem a da prefeitura. à escola. Ana (escola A): Só fuçar um pouquinho... Caio (escola A): Vem de chinelo às vezes.. Beatriz (escola A): Também é bom nos passeios. sei lá.. A Rosa (assistente de direção) pediu pra parar. Paulo (escola A): Aí.... só a camisa. (todos reclamam da lentidão) Paulo (escola A): Mas não tem nada a ver com informática. Aí umas meninas começaram a usar camiseta curta. e na outra semana estavam todas as meninas de calça jeans. Ana (escola A): Muita gente diz: “Ah. Ana (escola A): E é uma coisa que a gente fica dois meses pra fazer.. tinham me reconhecido sim. essas coisas. é a única da região. faz um trabalhinho assim.?” Andréia (escola A): Verdade.. aí ela dá aula livre. Paulo (escola A): Principalmente o laboratório de informática. (todos concordam) Ana (escola A): A gente. Ana (escola A): E mesmo assim......... e alguém diz que a professora está dando aula livre pro alunos.... não vai me levar pro Simão. Se você achasse uma menina com calça normal.... se está faltando uma vírgula no vídeo.... Andréia (escola A): E pode ficar melhor ainda. mas é raro ela dar aula livre. Que a Carla (diretora) foi pra Madri. Mediadora: É exigido o uniforme aqui? (todos respondem que sim) Mediadora: E o que vocês acham do uso do uniforme? (entrevistados se entreolham e riem um pouco) Caio (escola A): É certo. vai refazer. vestido assim.”.? Beatriz (escola A): Melhorar cada vez mais. Andréia (escola A): Ah... a municipal. Caio (escola A): A gente aprende isso em casa.... Ana (escola A): É. Os computadores são mais lentos que. Eu sou pequeno... uma época. e tem gente que não tem condições de comprar... e uma pessoas usando Hot Wheels.. se eu tivesse ido sem uniforme. uma vez por mês. dá pra identificar. só vídeo. ou o ano passado.. a estadual.. era raro.. Foi esse ano.. não me lembro.. Mas aula livre não existe. Paulo (escola A): Aí teve um dia. Paulo (escola A): Só que é bom. atalhos do teclado. caso se perca. mas.. no computador.. pra identificar. de vez em quando. Beatriz (escola A): Shortinho. programas. Beatriz (escola A): Pra identificar a escola. Tipo.. Caio (escola A): Era a maior moda (todos falam do chinelo). sabem que sou da escola A. Uma menina veio de calça jeans. O que está acontecendo? As revoltas... O ano todo! Mediadora: Vocês fazem vídeo então? Tomas (escola A): É.. Uma coisa que tem que usar o Movie Maker.. você aprende... e todo mundo começou a vir de camiseta curta.. Vai me levar pro Maria Lúcia.... A professora deveria ensinar uns truques básicos do Word. É bom todo mundo assim. nada a ver. que nem. Ela é boa. tinha a época que tinha uns meninos funkeiros com camiseta hard. Mediadora: Então vocês são a favor ou contra o uso do uniforme? (todos demonstram ser a favor) Andréia (escola A): Eu sou a favor. Se eu tiver com uma camisa da prefeitura.. Existe aula onde eu deixo vocês mexerem nas coisas que vocês quiserem.. Aí faz um vídeo das revoltas.. Mediadora: E o que vocês esperam da escola? Quais as expectativas de vocês com relação aos estudos.. Tomas (escola A): Mas é o ano todo fazer vídeo. e começou a moda...

. Ana (escola A): Fazer grupinho de estudo. o que pode melhorar.. algum método. pra não trazer peso nas costas também. Caio (escola A): Eles pedem até pra gente opinar. porque agora vai vir tudo Netbook pros alunos... às vezes. Ana (escola A): Dá raiva às vezes. E se a pessoa fala que não entende. Mediadora: E há essa preocupação com a ETEC? Andréia (escola A): Sempre.. Paulo (escola A): E a gente tem um pouquinho de azar. um calendário de provas pra gente. Vai ser mais portátil e mais rápido... Mediadora: E vocês têm espaço para questionar o trabalho do professor.. Já passaram provão. a gente conseguir o que quer. a profissão que a gente quer. Mediadora: E quando os professores explicam a matéria durante as aulas aqui na escola. até questionar alguma forma ou metodologia que ele está usando..... ele apaga tudo e volta. Beatriz (escola A): Pros professores que têm duas escolas não dá.? Ana (escola A): Sim. Andréia (escola A): A única coisa ruim é que aqui perto não tem espaço para fazer um grupo.. Mas.. Mediadora: Treinar pra ETEC... na verdade. Beatriz (escola A): Já passaram simulado.. principalmente porque a gente vai fazer ETEC.. o que a gente acha que precisa mudar. assim.. vai ser um laboratório de ciências ali. ele apaga tudo.. Pra mim. e tiro dúvida com eles.. Paulo (escola A): É. Beatriz (escola A): A Cibele (professora) já perguntou. Paulo (escola A): E parece que a professora vai montar. e ele diz: “Não.. Tomas (escola A): Se você não entendeu. coisa do ano passado pra relembrar... (Tomas sai da sala para entregar uma chave para a mãe) Mediadora: Eu fiz uma pergunta para vocês em que talvez eu tenha me expressado mal.... A gente pode chegar mais cedo e o professor estar aqui.. apaga tudo e explica de novo. mas ele fala: “Vou segurar um pouquinho vocês”.. quando tirarem aqueles computadores de lá. que tem as questões da ETEC.. Aí bate o sinal... conversa com a sala e arruma. ... não sei ainda. 140 Ana (escola A): Você lembra. assim. netbook.... que era “qual a expectativa de vocês. Paulo (escola A): Já passaram provão. vocês têm espaço pra tirar dúvidas com o professor? (todos dizem que sim) Beatriz (escola A): O Sebastião (professor) volta tudo. ele volta desde o começo....” Andréia (escola A): Mas ela sempre explica de novo. tem espaço pra falar com o professor. (todos concordam) Ana (escola A): Tem que fazer em casa. o que vocês esperam da escola?”.. porque a gente tem a última aula com ele. praticamente. O que vocês esperam dos estudos. né.. pra gente treinar.. né. Caio (escola A): Vai ser tablet. Aí a gente tem que ir sempre nós mesmos. algum material? Ana (escola A): Às vezes o professor dá um questionário perguntando o que a gente está achando da aula de matemática. Caio (escola A): Se a gente reclamar de alguma coisa.. É sobre os estudos. Beatriz (escola A): É. Às vezes eu chego antes da aula começar. mas não sei se vocês entendem. “Vocês estão entendendo? Falta alguma coisa?” Ana (escola A): (imitando a Professora Cibele) “Eu não sei. de freqüentar a escola? Andréia (escola A): Um futuro melhor pra gente. eu estou dando. Se a gente quer alguma coisa na aula dele.. Mediadora: E isso é com todos os professores? Vocês se sentem à vontade para fazer perguntas ou. eu vou melhorar. pra ajudar eles... porque vai terminar a aula dele. né. ele vai lá. Caio (escola A): Eles vão fazer.? (todos concordam) Tomas (escola A): A professora Antonia até comentou de fazer um grupo fora das aulas pra estudar pra ETEC.. a gente vai terminar isso”...

pra não deixar tudo pra si mesmo. É que eles vêem o que acontece com as pessoas fora da escola. um dia.. você não fazer uma coisa errada. Aprende mesmo.. Depois é solto. ver aquilo.. Beatriz (escola A): E os professores falam muito bem dessa escola. Você pode passear.. oito horas.. Tipo. aí rouba um celular. e tiver passado na ETEC. Ana (escola A): Não é só isso de que eles querem o nosso bem. vai virar ajudante de pedreiro.... Aí vai preso porque quer um celular. eles sabem muito bem o que as pessoas já fazem. que estão vindo agora com a gente.. Caio (escola A): E é a mesma coisa pros mais novos. Paulo (escola A): É.. Vocês acham que na casa de vocês também é assim? (todos acenam positivamente) Caio (escola A): Sim...... A pessoa vai querer admitir uma pessoa que estudou na escola A. Ana (escola A): E também eles vêem o jornal.”... Mediadora: A Andréia já comentou. É o que a família espera.. bateu o sinal. o professor vai dizer: “Eu ensinei aquele garoto. assim..... 141 Ana (escola A): E eu gostaria que fosse como muitas escolas já são. já é outra coisa. essa escola já é bem conceituada.. Beatriz (escola A): Como minha irmã disse. né. Mediadora: Vocês acham que a escola atendem às expectativas das famílias de vocês? (todos dizem que sim) Mediadora: Tem reclamações da escola? (todos dizem que não) Mediadora: Vocês comentaram que a escola tem uma rigidez. Seria muito bom... é bom as crianças passarem desde o começo no psicólogo.” Andréia (escola A): Verdade. não ficam em casa. a lei deles é péssima. porque o Brasil. pois sabe que essa pessoa tem educação... Sempre tem um pouquinho.. porque aumentaria o horário das aulas. mas o que vocês esperam do estudo.. ir em outra sala. Mediadora: E a Beatriz? Estou perguntando o que vocês acham dessa rigidez? Vocês acham importante ou não? Concordam ou discordam da forma como a família impõe um determinado comportamento ou cobrança.. e não querem que isso aconteça com a gente. Tomas (escola A): Mas... Já estudou bastante. né. e a gente tem que trazer essa fama com a gente.. (todos concordam) Beatriz (escola A): Não ficaria só naquela sala... Todos já sabem que é bom. rouba de novo. Ana (escola A): Mas é um tiro de 38.... É só ligar a TV e ver. uma sala pra cada matéria. você ia pra sala.... E vai vivendo assim... aí.. pra vida de vocês? Ana (escola A): Aqui. eles vão ter orgulho da gente. no SENAI.. porque eles só querem nosso bem.. prestou atenção na aula.. Porque você vai ver diferença entre uma pessoa que estudou na escola A e uma pessoa que estudou no Simão. que a gente vá longe. integral. Caio (escola A): Eles querem o melhor pro nosso futuro. Paulo (escola A): Eu acho importante essa cobrança porque. o que leva a pessoa a roubar é como a família é com ele. né. né. E a Ana? Ana (escola A): Ah. Vai ver o que acontece com a pessoa que não tem estudo. sabe se comportar bem em público. pra pegar mais pesado com eles. Vocês concordam com essa cobrança que é feita encima de vocês. ver isso. Ana (escola A): A escola tem fama. e aqui a gente vai crescer. né.? Que é exigente com o comportamento de vocês.. Na minha é. Mediadora: Vamos pensar na escola e na família também. Andréia (escola A): Mais ou menos... “Coleguinha de 13 anos mata a de 14 por namorado. e as pessoas já sabem. Beatriz (escola A): Já é a fama da escola.. tanto da escola quanto da família? (todos acenam positivamente) Tomas (escola A): Sim. . Aí..? Beatriz (escola A): É importante você não sair daquilo. seria uma boa. Mediadora: Mais ou menos. Andréia (escola A): Mas também eu acho que. Caio (escola A): Os pais ausentes. quando a gente estiver passando aqui. pra pegar o ritmo.

Tipo assim. Imagina.. Camila (escola B): Meu nome é Camila. Caio (escola A): Minha irmã estuda lá.. porque eles querem que a gente aprenda. Lá não pode entrar de calça jeans. meu pai parou na quarta série. porque a rigidez é boa pra gente. no futuro. mas não tem problema. Fazendo a faculdade e tudo.. Ana (escola A): Aqui tem esse murinho. tenho 15 anos e moro no Rodolfo Pirani. 142 Beatriz (escola A): Tipo. Ana (escola A): Teve uma menina.. Aí. Essa é a única chance. desenho . Pedro (escola B): Meu nome é Pedro.? (todos dizem que não) Mediadora: Então agradeço a participação de vocês. e o nome do bairro onde moram. eu acho. tenho 15 e moro no Rodolfo Pirani. que não pode ter a vida própria. Tiago (escola B): Tiago. a gente não vai ter outra chance. alcancem os objetivos de vocês... Então.. meninos e meninas. Ninguém acha isso. Ela passou em primeiro lugar na ETEC. Meu nome é Flávia. aí vai sentir muito estranho. vamos lá.. Mediadora: Então é isso. quais são as atividades que vocês realizam? Tiago (escola B): Eu desenho Mangá . e desejo que vocês realmente passem na ETEC. Pedro (escola B): O que eu faço em casa é jogar videogame. está aí. qualquer um.... ( a aluna começa a rir e consegue concluir a fala). (Flávia fala baixo e ri) Mediadora: Não estou ouvindo nada. quem vê por fora.. Por exemplo. começou a trabalhar muito cedo. Felipe (escola B): O que eu faço é fico na Internet. Mediadora: Certo. Jogo videogame e .. que deu aula pra ele: “Olha.. tenho 14 anos e moro no Rodolfo Pirani. mas tem diferença entre pilastras e grades. Concorda ou não com a rigidez da família? Caio (escola A): Concordo.. mas o som está ruim por causa do barulho externo.. e chega o Sr. opinar. pra começar a nossa conversa eu gostaria primeiro que vocês falassem o nome.. você já é acostumado com essas coisas... Aí você chega em um lugar onde tudo é privado. Felipe (escola B): Felipe. Flávia (escola B): Quando eu estou em casa eu fico no facebook .. Beatriz (escola A): É porque a gente estuda aqui desde pequeno.. ele está no jornal.. Lúcio (professor). da cor do uniforme. tenho 14 anos e moro no Jardim Rodolfo Pirani.. Mediadora: O que você faz em casa? . ganhando a vida. Mediadora: E .. ter orgulho da gente. Flávia (escola B): Flávia . Começando pela Daniela. é tenho 15 anos (a aluna começa a rir e não consegue concluir a frase). Pessoal. (Beatriz concorda) Caio (escola A): Tem alunos de outra escola que falam que aqui é uma cadeia.. eu ensinei ele!”... A primeira coisa que eu gostaria que vocês me falassem. Flávia (escola B): Flávia. tem que ser azul.. Heloísa. Estamos aqui com os alunos da Escola B que vão participar da pesquisa. Muito obrigada! Escola B Mediadora: Bom dia. 15 anos e moro no Rodolfo Pirani.. No Iguatemi. pensa que lá dentro é tudo tampado. no Brasil inteiro. a idade. Daniela (escola B): Eu tenho 14 anos e moro no Jardim Rodolfo Pirani. Mediadora: Tudo bem.. Mediadora: E da família? Acho que o Caio não falou ainda da família. É a seguinte: Como é a rotina de vocês em casa? O que vocês fazem em casa? (os alunos se olham) Mediadora: Quando vocês estão em casa.. meu irmão está seguindo a carreira de jornalista. Porque. (silêncio. os alunos se olham) Mediadora: Tanto faz. Alguém quer falar mais alguma coisa.. assim. Você quer que eu pare a filmagem pra você se acalmar? Flávia (escola B): Não. meninos.. Onde você mora. né. Andréia (escola A): Eu não acho.

Tiago (escola B): Com a minha avó porque ela é a única que me compreende. aí eu vou pra rua brincar com os amigos. Mediadora: Mas ela não mora com você. Felipe (escola B): A pessoa que eu mais me dou bem lá de casa é a minha avó. eu vou pedir para que vocês desliguem o celular. 143 Flávia (escola B): Eu chego em casa. Todo dia? Camila (escola B): É. Pedro (escola B): Eu ajudo. Vocês ajudam? Tiago (escola B): Eu ajudo. riem e pedem para a Daniela falar) Daniela (escola B): Eu ajudo minha mãe e depois fico na Internet. aí depois eu mexo no face. (aponta para Flávia). (apontando para a Camila).. Mediadora: Ela mora com você? Felipe (escola B): É.. Ela é minha prima. Essa filmadora só está filmando imagens em movimento. Mediadora: Ah! Ela faz você fazer as tarefas querendo ou não. Daniela (escola B): Com a minha mãe. Camila (escola B): Eu ajudo em casa. Mediadora: Ah! Uma vai pra casa da outra. Mediadora: Os meninos não comentaram ainda se eles ajudam em casa ou não. Mediadora: O que você faz? Felipe (escola B): A minha mãe faz eu fazer as tarefas. Mediadora: Bom. Mediadora: Ah é? Com a sua avó? Você mora com a sua avó? Tiago (escola B): Sim. .. então vamos lá. Pedro (escola B): Eu ajudo a minha mãe com as tarefas .. O que mais? Flávia (escola B): Eu me dou bem com meu pai. A Daniela falou que se relaciona melhor com a mãe.. com a minha irmã e com as minhas primas e com meu cachorro. tem mais contato e por quê? Da casa de vocês ou da família em geral se não tiver ninguém da casa.. Camila (escola B): Com a minha mãe. senão. (as meninas se olham. né? (Daniela e Camila concordam em desligar o celular) Mediadora: Deixa eu ver se está gravando.)12 Mediadora: E o Tiago? Se relaciona mais com a avó por quê? 12 Devido à interferência do barulho externo no momento da realização do grupo focal. Mediadora: Você cozinha? Mas é a sua tarefa de casa todo dia? Tiago (escola B): É e lavo a louça. Mediadora: Tenha mais alguma coisa que vocês fazem em casa? Camila (escola B): A gente cai uma pra casa da outra. (silêncio) Mediadora: Eu gostaria de saber como vocês se relacionam com o mundo adulto. com a minha tia. Felipe (escola B): Eu ajudo. A questão que eu queria discutir com vocês é: quais são os adultos da família que vocês se relacionam melhor. (silêncio) Mediadora: Ah! Podem falando . né? Flávia (escola B): Não. Felipe (escola B): A minha mãe faz eu . Mediadora: Tem mais alguma coisa que vocês queiram falar? Flávia (escola B): Eu escuto música. ajudo a minha mãe com as coisas de casa eu mexo no face e só. (Daniela e Camila ficam mexendo no celular) Mediadora: Então. por isso que eu estou preocupada. E o Tiago? Tiago (escola B): Eu cozinho. com a minha mãe. (. vocês não conseguem se concentrar aqui. o Tiago falou que é com a avó. em alguns momentos da gravação do áudio não foi possível identificar a fala dos participantes... (a mediadora se aproxima da filmadora) Mediadora: Está. É com a minha mãe porque eu passo mais tempo com ela. querendo ou não.

Mediadora: E você Camila? Você falou com a mãe. Mediadora: Fica mais tempo? Camila (escola B): É. se vocês não quiserem abrir mão do celular. Pedro (escola B): Sim. Mediadora: Nos dois lugares tem bastante diálogo. foi feito um convite. Mediadora: E a Camila? Camila (escola B): Aqui. E o meu pai é porque ele é separado da minha mãe e ele mora em outro estado. Mediadora: Mais em casa do que na escola? E o Pedro? Pedro (escola B): Eu converso bastante nos dois lugares. Porque a participação de vocês tem que ser voluntária e se o celular for mais importante pra vocês não tem problema. se dispuseram. Mediadora: Então. Daniela (escola B): Não professora. mas se vocês não quiserem não tem problema.. conversa bastante? . Não tem problema. Felipe (escola B): Ah! Minha mãe. ela trabalha o dia inteiro e só volta de noite. Mediadora: Mais na escola quando está estressada? Flávia (escola B): Quando eu estou estressada eu não falo em casa. se vocês se propuseram a participar. eu vou pedir pra vocês desligarem o celular. Mediadora: Você também conversa mais aqui do que em casa? (Camila gesticula com a cabeça que sim) (. 144 Mediadora: Você se relaciona melhor com a avó por quê? O que ela tem de diferente dos outros? Felipe (escola B): Ah! Ela é essencial. Mediadora: E a Daniela? Daniela (escola B): Por que eu fico ajudando ela a fazer as coisas em casa. Felipe (escola B): Sim.. Mediadora: Por que você se dá melhor com ela do que com seu pai e sua mãe. etc. E a Flávia? Flávia (escola B): Mais na escola quando eu estou estressada.. Mediadora: E tudo que você conversa com a sua mãe você conversa com o seu pai? Flávia (escola B): É as mesmas coisas. né? Por que com a mãe? Camila (escola B): Por causa que eu fico mais tempo com ela. Por quê? Flávia (escola B): Porque ela tá em casa e meu pai só no final de semana.) Mediadora: E a Daniela? (as alunas Daniela e Camila estão mexendo no celular sem prestar atenção na conversa) Mediadora: E a Daniela ? (as alunas continuam mexendo no celular) Mediadora: Meninas. É com a minha avó que eu faço as tarefas. Mediadora: Ah! Entendi é porque a sua avó é mais presente. nóis qué. mas você tem tanto contanto com a mãe quanto com o pai? Flávia (escola B): Mais com a mãe.. Então vocês falaram (olhando para a Camila e o Tiago) que conversam mais na escola do que em casa. (. vocês aceitaram. Vocês conversam bastante em casa? Tem diálogo em casa com os adultos? Flávia (escola B): Sim. É como se ela me sustentasse (sentido figurado). da família inteira. a gente pode parar por aqui também. E o Felipe? Felipe (escola B): Mais em casa do que na escola. E a Flávia? Você falou do pai da mãe do cachorro. Mediadora: E a relação de vocês é boa? Flávia (escola B): É. Mediadora: Mais com a mãe. Vocês não estão sendo obrigadas a participar. (silêncio) Mediadora: Certo. porque eu converso mais com a minha mãe. Pode ser? (as meninas desligaram o celular) Mediadora: Obrigada. Tiago (escola B): Eu converso mais aqui. se pra vocês for difícil.) Mediadora: E a Camila.

) Flávia (escola B): Eu falo. Mediadora: Sobre tudo também? E sobre a escola vocês conversam? Pedro (escola B): Sim. Vocês costumam falar sobre o que estão sentindo com os adultos da família? (Camila gesticula que não). Mediadora: E o Felipe? Fala? Felipe (escola B): Falo. Mediadora: Entretenimento .. falo. (..) Mediadora: Esses são os motivos das convocações? Flávia (escola B): É. e porque uma menina me bateu.. Flávia (escola B): Na escola nós somos as piores. E também porque eu briguei com o professor e porque a menina jogou a caneta na minha testa. Então qual é o assunto? Flávia (escola B): Tudo. (. se fosse pra eu falar pra alguém eu teria um diário.. (. se dá lição.) Pedro (escola B): Sobre tudo..) Mediadora: Então você foi vítima.. E também sobre entretenimento... Mediadora: A sua avó não quer saber? Tiago (escola B): Não.. Felipe? Felipe (escola B): Falo. Flávia (escola B): É. (.. Mediadora: E quando vocês aprontam na escola ou acontece algum problema... mas mais na escola.. Mediadora: Faz tempo o quê? Flávia (escola B): Que eu não levo convocação. Mediadora: Não? E você Camila.... só que faz tempo que eu não levo convocação. vocês falam? Flávia (escola B): Falo.. (.. os dilemas da adolescência. Pra mim . Mediadora: E sobre os problemas da adolescência. Flávia (escola B): Eu falo sobre a escola com a minha mãe e sobre os outros... não fala também sobre essas coisas? Camila (escola B): Não.. (risadas) Flávia (escola B): É.. Tiago (escola B): Não (rindo).) Camila (escola B): Se tem briga. Felipe? Felipe (escola B): Não. Pedro (escola B): Eu falo sobre o que aconteceu . Mediadora: É. Mediadora: A Camila não. Tiago (escola B): A minha avó não quer saber (rindo).. 145 Camila (escola B): Nossa!!! Mediadora: E em casa? Também conversa? Camila (escola B): Em casa também. Pedro (escola B): (se referindo a Flávia) É por causa de uniforme. Mediadora: Um diário? Por que você teria um diário? Felipe (escola B): Porque eu prefiro guardar pra mim .) Pedro (escola B): Eu sou muito reservado pra essas coisas. Felipe (escola B): Tudo. Mediadora: Você já levou seis convocações? Flávia (escola B): É. Eu já levei seis.) Mediadora: E em casa que tipo de assunto vocês tem com a família? Vocês conversam sobre o quê? O Felipe falou que fofoca com a avó dele .. . Tiago (escola B): Sobre tudo também. Eu só não conto tudo. (. (.

.) Felipe (escola B): Tem coisa que deve ficar na sua própria cabeça. Felipe (escola B): Tem coisa que é minha e de mais ninguém..) Felipe (escola B): É respeitar os outros. ter respeito .... limpo os móveis.. vocês costumam conversar com alguém ou preferem guardar? Daniela (escola B): Às vezes. desde os sete anos... essas coisas. Camila (escola B): Ah! Fala pra ter educação e saber o que está fazendo... lavo a louça. Pedro (escola B): Eu nunca fui assim . ir pra escola .. Pedro (escola B): Respeitar as pessoas é a primeira coisa que você tem que saber . Mediadora: E quanto ao comportamento de vocês .. faço comida e lavo a minha roupa.. Mediadora: Caso vocês não cumpram as exigências da família há punições? . Mediadora: E na casa de vocês . eu guardo pra mim mesma. Mediadora: E a Flávia? Flávia (escola B): Ah! Eu? Pra ter educação . Mediadora: fala um pouquinho mais alto. Tiago (escola B): Respeitando...) Mediadora: E quando a gente fala “Ah! Meus pais falam para eu ter educação” O que é isso. Daniela (escola B): Eu não tenho irmã. ter educação? Daniela (escola B): Ter respeito .. Mediadora: Qual é o dever de casa? Daniela (escola B): Lavar louça e ... Pedro (escola B): É respeitar as pessoas . Mediadora: Tudo isso? Pedro (escola B): Eles falam que você tem que fazer tudo da escola em primeiro lugar. (. o que os adultos cobram de vocês? Quais são as obrigações que vocês tem que cumprir? Daniela (escola B): Fazer o dever de casa.. não fazer coisas meio conflitantes. Camila (escola B): Qual que é a pergunta mesmo? Mediadora: Então.. (. Felipe (escola B): Desde a minha infância. a minha mãe fala para eu ter educação..... 146 (. Mediadora: E aí quando vocês não conversam em casa.. Felipe (escola B): Eu limpo a casa. eu perguntei se a família exige que vocês se comportem de determinadas maneiras ou não. Felipe (escola B): É ter educação com as pessoas. Tem cobrança sobre o comportamento? É exigido uma determinada maneira de se comportar? O que os pais cobram? Flávia (escola B): Eles falam que tem que ter educação com as outras pessoas.. Mediadora: E a Daniela ? Fala? (.. não atrapalhar ninguém e fazer . Mediadora: E a Camila ? Camila (escola B): Ir pra escola e fazer as coisas em casa. meus pais cobravam mesmo a educação. Fala pra eu não desrespeitar os adultos. Mediadora: E o Tiago? Tiago (escola B): Eu nunca tive problema.. é o mais importante... eu nunca tive problemas nessa parte que você falou.) Tiago (escola B): Eu lavo a louça . não arrumar brigas.. (. É respeitar ao próximo como a si mesmo...) Mediadora: Vocês falam com quem então? Flávia (escola B): Com as minhas irmãs e com minhas primas. limpo o banheiro.... Mediadora: A Flávia concorda? Flávia (escola B): Sim.. cuido do cachorro. Flávia (escola B): Fazer comida..

Pedro (escola B): Uma vez ou outra. Felipe (escola B): Minha mãe me deixa sem meus gibis. Mediadora: Ela não cobra depois? Camila (escola B): Não.. a avó. fica sem o celular. (. já minha mãe me dá bastante coisa. Pedro (escola B): O meu pai e a minha mãe costumam ser durão. ela briga.) Camila (escola B): Ah! Um dia ela fala e no outro dia ela já esquece. praticamente. Camila (escola B): Não.) Mediadora: E as regras são claras? Vocês já sabem o que vocês fazer? Felipe (escola B): É a minha mãe já me deixa ciente das regras que eu tenho que cumprir. Mediadora: E a Flávia? Flávia (escola B): É quando eu faço as coisas assim . eu respeito ela por causa que ela que me criou . não deixa sair de casa... Mediadora: Nossa. né. (. Pedro (escola B): Minha avó.. quem é mais rígido? Felipe (escola B): O meu pai. Camila (escola B): Fica de castigo. (. Mediadora: E é frequente isso? Se vocês descumprem o combinado há punições? Felipe (escola B): Já aconteceu de um ficar de um a dois meses. Tiago (escola B): Não posso assistir televisão. 147 Flávia (escola B): Fica de castigo. Eles combinam as coisas e quando eu vejo.. pode acontecer. Mediadora: Sua mãe é mais rígida? Tiago (escola B): É. Mediadora: Ah! Já sabem.. eles dão os mesmos castigos...) Mediadora: E acontece de vocês não serem responsabilizados pelos atos de vocês? Tiago (escola B): Não.. não pode sair na rua. Mediadora: E o Tiago? Tiago (escola B): Minha mãe.. E o que essas pessoas tem que faz com que as outras as respeitem? Daniela (escola B): Ah! A minha avó. Daniela (escola B): Eu fico uma semana. não deixa eu ficar na rua nem no videogame. ele é bem durão. essa pessoa é respeitada por todos? (todo gesticulam que sim) Mediadora: Por que. Mediadora: E com o comportamento. (... Me deixa sem o celular. Mediadora: O que isso significa? Felipe (escola B): Que não é fácil dele soltar dinheiro. Felipe (escola B): Normalmente já tem a ameaça. E a Flávia? E a Daniela? (aparentemente gesticularam que sim) Mediadora: Vocês consideram que os pais de vocês são rígidos? Daniela (escola B): O meu é. não deixa eu desenhar. Mediadora: Mas. Felipe (escola B): Minha avó. Mediadora: Tem alguém na família que é mais respeitado por todos os outros? Camila (escola B): Minha avó. Mediadora: E a Flávia? Flávia (escola B): Minha avó. Daniela (escola B). Daniela (escola B): Minha avó. Tiago (escola B): A minha avó. Mediadora: E a Flávia? Flávia (escola B): Eu fico sem o celular.) Felipe (escola B): Meu pai é como se fosse um mão de vaca. Daniela? .

Mediadora: O Pedro falou que a avó dele é rígida. que eu devo estudar pra ser uma pessoa na vida e ela vem na escola. a gente tem sempre que respeitar o mais velho. Camila (escola B): Ela é preocupada com todo mundo. Pedro (escola B): No caso. a família. Mediadora: Certo. Ela fala para eu estudar pra ter futuro. igualzinho.. além de falar. com a educação de vocês? (sim geral) Flávia (escola B): Sim. as avós de vocês não são rígidas e mesmo assim vocês as respeitam? (todos gesticulam com a cabeça que sim) Mediadora: Agora eu gostaria de conversar um pouquinho sobre a preocupação dos pais de vocês com a escola. só que com a gente não dá. ela é uma boa avó. ela ensina até receitas. (rindo) Mediadora: O que foi Tiago? Tiago (escola B): É comigo foi assim também. pra minha mãe poder me punir. Mediadora: E. (olhando para a Camila) Mediadora: Vocês são parente? Flávia (escola B): Duas vezes. Mediadora: Como que é. Tiago (escola B): É foi assim também. Pedro (escola B): A nossa matriarca é bastante rígida também. eles cobram? Eles olham as notas de vocês? (sim geral) Felipe (escola B): Olha bastante. ela fala bastante de religião. é melhor você começar a pensar logo para você não ter problemas quando você estiver mais velho”. E por causa da geração. Sempre foi assim. Flávia (escola B): É verdade. se preocupam com os estudos. Mediadora: Do quê? Felipe (escola B): Ela já fez bolos que deram errado na cozinha dos outros. Tiago (escola B): Por que ela é a dona da casa e ela manda em todo mundo. A minha vai contar pra minha mãe. Ela diz que eu tenho que deixar tudo em ordem e diz que eu tenho que ter educação com os meus professores e pelos outros professores. dedicada aos filhos e aos netos. Por que ela tem mais respeito. a sua família cobra que você estude? Como funciona? Flávia (escola B): É. as avós de vocês também são pessoas rígidas que costumam punir no caso de não cumprir o que não foi combinado? Daniela (escola B): Não. desde que eu tinha oito anos eu acho eles já estavam pensando em faculdade: “O que você quer fazer quando você crescer. Camila (escola B): Não. Mediadora: Ela fica vindo aqui? Flávia (escola B): É. o que eu estava fazendo. Mediadora: Como é que ela é? Quais características ela tem? Daniela (escola B): Ela é dedicada né. Minha mãe fala mais .. Mediadora: Ah! Entendi. Mediadora: E a Flávia? Flávia (escola B): Também. Mediadora: Ah! A ela olha seu caderno. Meu pai é irmão do pai dela e minha mãe é irmã da mãe dela. Os pais de vocês. No ano passado ela vinha todo dia pra saber de mim. Flávia (escola B): Não. 148 Daniela (escola B): Ah! Não sei professora. Felipe (escola B): Meu pai se preocupa muito mesmo e minha mãe também. os responsáveis. Flávia (escola B): Minha avó não fala nada. Mediadora: E a Camila? Camila (escola B): Também. Ela é bastante legal também. E o Felipe? Felipe (escola B): Minha avó é porque ela é a mais velha. Então. Felipe (escola B): Minha avó não. dá tudo certinho. (silêncio) . E minha mãe fala pra eu olhar o caderno do meu irmão pra corrigir o caderno dele. Daniela (escola B): Ela fala para eu me dedicar mais ao estudo pra ter um futuro melhor do que eles teve. Ela olha meu caderno também.

Flávia (escola B): Matemática ela não viu. Me falem as características da escola . como é a escola que vocês estudam. Daniela (escola B): A minha. fica na sala na primeira aula. se olha caderno. Daniela (escola B): Não vou falar que ela é boa porque boa ela não é. E a Érica fica gritando muito com a gente.. Mediadora: Eu vou dar uma olhadinha na câmera para ver se está filmando . Camila (escola B): Entra gente nessa escola na hora que quiser saí. tem pátio.. Pedro (escola B): Principalmente. Felipe (escola B): As características . a gente já falou um pouco da família né? Das cobranças da família. Flávia (escola B): Todo dia minha mãe olha.. aí ela vem. Pedro (escola B): Os professores faltam muito. fazem a chamada. como é a escola que você estuda. (a filmadora não havia filmado a discussão até o momento) II Parte: Escola Mediadora: (após religar o gravador e pedir para que o aluno Pedro o coloque sobre a mesa uma vez que a Mediadora está segurando a filmadora que está ligada na tomada) Deixa pertinho de vocês pra ver se capta bem a voz. que cada um explicasse... se olha notas. Camila aponta para Tiago ) Camila (escola B): Fala . Aula de Educação Física a gente não tem não. Felipe (escola B): Minha mãe vem bastante nas reuniões.. Daniela (escola B): Só quando é grave mesmo. Felipe (escola B): Tem dia que a gente fica o dia inteiro no pátio ou na quadra. Pedro (escola B): Tem dia que a gente entra aqui.. Daniela (escola B): Sim.. tem escadas. Flávia (escola B): Ele só dá a bola pra gente brincar.. porque tem o barulho externo que dificulta bastante. Ela vê as notas. Os professores começam a faltar aí fica difícil pra gente. Também tem alguns professores meio irritantes. Camila (escola B): A gente nem aprende por causa que eles faltam tanto... (Os alunos se olham .. Flávia (escola B): Minha mãe fala isso também. Pedro (escola B): Bastante. Mediadora: E acompanha as notas? Flávia (escola B): Acompanha. Flávia (escola B): A gente só fica lá embaixo. não vem não. parque para os primeiros do Fundamental I. Camila (escola B): Minha mãe olha. (os alunos se olham e começam a rir) Mediadora: Me descrevam: “Ah! Essa escola é assim . 149 Mediadora: Eles olham também os cadernos de vocês? Pedro (escola B): Toda vez que .”. Flávia (escola B): É. Pedro (escola B): Até professor substituto falta.. às vezes. se a família acompanha o desempenho de vocês na escola. a gente desce e fica lá até. depois tem que ficar repondo aula. Pedro (escola B): Toda vez que eu tiro uma nota boa ele fala assim: “Você está no caminho certo para ser alguém na vida”. Se vocês puderem falar um pouquinho mais alto . Camila (escola B): O (professor) de Educação Física só desce a gente lá pra baixo.... mais nada. dois andares. Tiago (escola B): Nem a minha. se cobra comportamento. e eles não falam nada. Daniela aponta para Camila . aí dá a opinião dela.. Daniela (escola B): Aí. ela tem elevador. Então vamos lá. só fica no pátio... Camila (escola B): Sem fazer lição nem nada. Mediadora: Quem é a Érica? . Daniela (escola B): Minha mãe olha. Então. Mediadora: E eles são presentes aqui na escola? Os pais de vocês participam de reunião? Flávia (escola B): Sim. quadra.. Eu gostaria que vocês falassem. faltam demais até. Tiago (escola B): Ela olha a minha letra para ver se está boa. agora a gente vai falar um pouquinho da escola de vocês. no segundo semestre. sei lá o final do período.

meu Deus do céu. Mediadora: Parece que as pessoas . Ela não se intimida com eles não. Camila (escola B): O Fernando (inspetor) até tenta colocar ordem só que as pessoas não querem escutar ele. Felipe (escola B): Uma de cabelo ruivo curtinho que fica na coordenação. cada um faz o que quer aqui. ele deveria ter o apoio da direção para ele dar ordem aqui. mas tem vezes que ela é legal. Felipe (escola B): E se eu não me engano é a coordenadora Vivian (assistente de direção) que dá ordem aqui. Camila (escola B): É porque ela não tem medo dos alunos. os moleque. ela é super rígida. (todos os colegas olham para Felipe desaprovando a sua fala) Flávia (escola B): Quem? A Érica? Pedro (escola B): A Érica? Camila (escola B): Larga de ser falso menino. 150 Flávia (escola B): A Ériquinha. Mediadora: E o que a Érica tem que faz com que ela consiga o respeito? Flávia (escola B): Ela tem cara de brava. Felipe (escola B): E ela é a única que coloca ordem e ela foi a coordenadora mais divertida. Mediadora: Os alunos fazem o que querem? Felipe (escola B): Os mais que se acham. Mediadora: A Camila falou que a Érica é a única que parece não ter medo dos alunos aqui. Flávia (escola B): Uma de cabelo ruivo. Mediadora: Quem faz o que quer? Daniela (escola B): Os alunos. Daniela (escola B): Telma. Mediadora: Então. Mediadora: Mas vocês estudam no período da manhã. Tiago (escola B): Muito rígida mesmo. Pedro (escola B): Ela enfrenta os alunos. Felipe (escola B): Tem vezes. Felipe (escola B): Ela vai na casa dos alunos. Daniela (escola B): Mas ela é da tarde. .. Pedro (escola B): Iria virar uma baderna. Porque aqui parece que as pessoas tem medo deles. Pedro (escola B): Ela é coordenadora da tarde. De manhã é a Telma. só que quase a maior parte ela fica andando e fica na diretoria resolvendo as coisas. Pedro (escola B): As pessoas se intimidam com a presença dela no lugar.. que a Érica é rígida ao extremo. Mediadora: Ela é coordenadora? Daniela (escola B): Da tarde. quem coloca ordem no período da manhã. vocês estão dizendo que a única que coloca ordem aqui é a Érica? Tiago (escola B): Se não fosse a Érica aqui. Flávia (escola B): Uma outra mulher que eu não sei o nome. Tiago (escola B): O Fernando só passa para dar recado. Mediadora: Ah? Pedro (escola B): Ele só passa mais para dar recado. Camila (escola B): Ela é a única que dá ordem aqui na escola. quem? Camila (escola B): É. O jeito que ela fala. então. Mediadora: Ah! É? E ela costuma punir caso vocês desrespeitem as regras? (todos gesticulam que sim com a cabeça) Tiago (escola B): Ela já desceu com uma sala inteira para dar convocação. Camila (escola B): Os meninos. Pedro (escola B): Ela é muito rígida. Flávia (escola B): Ela é uma pessoas especial (ironiza) Pedro (escola B): Ela tem umas mudanças de personalidade que é difícil de explicar. (os alunos gesticulam que sim) Camila (escola B): Porque sei lá.

Tiago (escola B): É mesmo.. Camila e Pedro gesticulam que sim com a cabeça) .. Felipe (escola B) : É. O aluno não faz alguma coisa ele xinga o aluno.O. por favor. pichar a porta e quebrar as mesas e as cadeiras. Pedro (escola B): Todo mundo para o que está fazendo para escutar ela. quem quiser copiar copia . mas também tem vezes que o professor não está na sala e os alunos quebram até o vidro da janela. Mediadora: Com o professor na sala tudo o que o Felipe fala acontece? (Tiago. Felipe (escola B): É como se ele fosse um velho rabugento. Ele é o típico professor que se irrita com o aluno facilmente. aí ficou investigando aluno por aluno.. Camila (escola B): Eu fiquei duas aulas de fora sem fazer nada só porque eu cheguei atrasada na aula dele. Felipe (escola B): “Vou dar ocorrência pra todo mundo” e ia ficar todo mundo de suspensão por um mês. Camila (escola B): Mas eles fazem isso com os professores na sala mesmo. teve um dia que sumiu o celular de uma professora aí a gente ficou o maior tempão na sala. mas . é . você não colabora em nada. Ele chama o aluno e diz você não fez isso porque você é isso... o Felipe estava falando que . (os alunos olham para a Daniela) Flávia (escola B): Se expressa Daniela! Mediadora: Fala Daniela. aí eu fiquei lá fora. aí a gente não soube quem era. Camila (escola B): Mas pode ter professor na sala e tudo isso acontece. Pedro (escola B): Solange. Camila (escola B): Ele fala palavrão. André.. os alunos pode até quebrar a janela.. Eles fazem a lição. Flávia (escola B): A professora de português que eu esqueci o nome dela. (Camila está mexendo no celular) Mediadora: Camila. 151 Pedro (escola B): Tem uma meia dúzia aqui que só falta botar fogo na escola. André.. Então. ele só quer só ser o pai Pedro (escola B): O André é professor de projeto (não possui aulas atribuídas. Tiago (escola B): E ela falou “Vou dar B. Flávia (escola B): A Solange e o André. eles ficam sentado lá mexendo no celular. fica aula vaga. quando não tem professor? Felipe (escola B): Quando não tem professor . Camila (escola B): Ah! Eles (os professores) entram na sala e ficam sentados. eu vou pedir para você guardar o celular e tentar olhar um pouquinho mais porque às vezes você está falando e aí você abaixa o rosto e eu não consigo entender direito.. Aí vai o tio Fernando e ficou lá “Foi você quem pegou?” “Você sabe quem pegou?” Diga-me. Felipe (escola B): Era um celular de mais ou menos cinquenta reais (rindo) Mediadora: Isso com a Érica? (todos: É) Mediadora: E com os outros professores? Como é que é a relação dos alunos com os outros professores? Tiago (escola B): Os alunos fazem quando quer. Felipe (escola B): Nossa. substitui quando necessário) então ele não tem tanta obrigação de passar a lição. picham as portas e quebram as mesas.O. Tiago (escola B): Alguns professores fazem isso. (Flávia fala ao mesmo tempo que Camila) Flávia (escola B): O Prof. Tiago (escola B): Quando a Érica entra na sala todo mundo fica quieto. você é aquilo. mas na verdade o celular estava no carro da professora. Mediadora: Vou dar o quê? Tiago (escola B): B. Mediadora: Quem? (sem entender se tratava-se do comportamento de alunos ou de professores) Flávia (escola B): O Prof. (a aluna permanece quieta) Felipe (escola B): Nossa.. (Boletim de Ocorrência) para todo mundo”. Pedro (escola B): É uma meia dúzia que faz isso.

Mediadora: Quem que era? Camila (escola B): É pra falar o nome da professora? Mediadora: Não. Flávia (escola B): Já me chamou de baiana. chute. E o que mais? E tem bons professores? Pedro (escola B): Tem. Daniela (escola B): Tem. ele estava em cima de uma mesa e jogou ele no chão e deu um soco na cabeça dele. Pedro. Mediadora: Certo. xingando.. a Rita.... 152 Camila (escola B): E ele não fala nada . fica dormindo. Eu estou perguntando se quem foi chamada de vadia era aluno. ele se chamava Luiz. não sei quem e falou o nome. Camila (escola B): Ela ensina bem também. Tiago (escola B): Eita. Camila (escola B): O Fernando (inspetor) vê e fica dando risada. Daniela (escola B): O Fernando (inspetor) também às vezes. só sei que teve uma hora na segunda aula. depois eles não querem saber das consequências. Felipe (escola B): É são os melhores. Camila (escola B): Era. no ano passado teve um caso de uma professora que foi agredida aqui. Ela é chata. Tiago (escola B): Os professores de ciências são os melhores. Mediadora: E muda muito de professor aqui? (Camila. Felipe e Tiago gesticulam com a cabeça que sim) Flávia (escola B): Muda muito.. ela tomou um chute nas costas e pediu afastamento e até hoje ela não apareceu mais aqui. de matemática. para todos os nomes ditos aqui usarei nomes fictícios. mas tem alguns professores que levam por merecer. Mediadora: E o que mais? Flávia (escola B): A professora Patrícia. Com alguns professores é assim. Daniela (escola B): É. Camila (escola B): É o André. caralho. ai tem um aluno que é meio que bagunceiro. Pedro (escola B): A professora Patrícia. ele pegou ele pela cabeça. ops falei (colocando a mão na boca). Mediadora: Quem? Camila (escola B): A professora chegou na sala chamando a menina de vagabunda. Felipe (escola B): Tem uns alunos que até agride uns professores. Tipo tem um professor aqui de manhã que fica chamando os alunos de tiriça. Mediadora: Não tem problema. Tem bons professores. Tiago (escola B): Teve um dia que a professora chegou na sala toda nervosa e falou: “cadê a vadia?” Mediadora: Procurando quem? Camila (escola B): Ela falou cadê a vadia da . Mediadora: Vocês estão me falando de alguns professores. Felipe (escola B): Teve um professor na quinta série que a gente tava estudando. Tiago (escola B): Ela chamava as meninas de vaca. Pedro (escola B): Bastante. Camila (escola B): O professor de ciências. mas no geral é esse tipo de relacionamento que professor e aluno tem aqui na escola? Pedro (escola B): Não. Mediadora: E sempre tem professor novo? Camila (escola B): Na quinta série uma vez a professora chegou na sala chamando uma menina da sala de vagabunda. Flávia (escola B): É a Rita. Felipe (escola B): Soco no estomago. ele fala um monte de palavrão. . o de ciências. Flávia (escola B): É e a de inglês também do ano passado. Felipe (escola B): É. Flávia. Daniela (escola B): Ele fica me chamando de tiriça e o Fernando (inspetor) vê e não fala nada. Pedro (escola B): Às vezes. não sei se é o Caíque ou o Diego. ela ensina bem. Eles falam sendo que a gente não é. Mediadora: Agride como? Flávia (escola B): Batendo. que ele teve duas aulas. Camila (escola B): Ele fala é sua tiriça. mas ela ensina bem. ela é de projeto. Felipe (escola B): É.

. Flávia (escola B): Ele nem tem conhecimento. E . Felipe (escola B): Teve uma vez que faltou muito professor e vieram bastante alunos. Pedro (escola B): Primeiramente. Pedro (escola B): É muito importante isso. 153 Mediadora: Quais características um professor tem que ter para ser um bom professor? Flávia (escola B): Tem que ter educação. tem um bom relacionamento com os professores? Flávia (escola B): Sim.. exceto a Flávia.. com o Freitas que é o professor de Ciências.. pra saber. vocês têm uma proximidade afetiva com os professores aqui na escola? (todos. aí os inspetores não queriam deixar os alunos irem embora e juntou tudo numa sala ai foi um professor que mandou a gente copiar um texto que deu mais de três páginas.. E o que mais que caracteriza um bom professor? Camila (escola B): E o professor de História . Parece que ele está indo também nos protestos da Paulista. você não tem vergonha de perguntar.. Flávia (escola B): Ele só falta. Mediadora: Quais outras características um professor tem que ter para ser um bom professor? Daniela (escola B): Ter educação. tem que respeitar a gente. Mediadora: E vocês acham importante essa relação afetiva. Pedro (escola B): Respeito tem que ter em ambas as partes.. tem o caso de uma professora aqui que uma vez ela foi explicar sobre um texto. Camila (escola B): Tem que ter educação. Camila (escola B): Com a professora de Matemática Rita. Mediadora: Por quê? Pedro (escola B): É muito importante porque o aluno tem alguém em quem confiar. que vai xingar ele como . com a Rita. Se ele não tiver paciência .. Mediadora: Certo. o professor de Ciências. só eles que podem fazer o que quiser. no ano passado ele vinha bastante .. Daniela (escola B): Educação e tem que ter mais responsabilidade. saber explicar as coisas. ele vai ver o professor como um amigo e não como um carrasco que vai encher a lousa duas vezes. gesticularam a cabeça indicando que sim) Camila (escola B): Sim. gesticularam a cabeça indicando que sim) Pedro (escola B): Alguns. (Tiago gesticula concordando com Felipe) Mediadora: Flávia? Você tem afinidade. com letra bem pequena. mais paciência. só que agora eu não sei por quê. que ele não conseguir copiar uma tarefa.. porque se a gente tiver uma dúvida.. Daniela (escola B): Alguns. Camila (escola B): Tem que ensinar bem. Pedro (escola B): Tem que ter paciência pra ensinar a gente. que vai brigar com ele cada vez que ele fizer . Tiago (escola B): E quando ele vem ele quer passar a lousa inteira. Eu não sei é alguma coisa que ele tem. Felipe (escola B): Respeito tem que ter tanto pro aluno quanto pro professor. Camila (escola B): Eu não sei por que ele falta. Mediadora: Certo. Camila (escola B): E quando tem prova de História a gente nem sabe de nada e ele quer que a gente tire nota boa. não adianta. Pedro (escola B): Com o professor de Ciências eu tenho mais afinidade. Se a gente tiver respeito e o professor não tiver. Felipe (escola B): O professor de História ele vive agora .. Tipo. ela perdeu a paciência e mandou a gente copiar três páginas porque ninguém estava escutando o que ela estava falando. senão. Daniela (escola B): Com a Patrícia. os alunos estavam conversando. mas ele só falta.. Camila (escola B): Tem que respeitar a gente também.. essa proximidade com os professores? (todos. aí depois cada um que fizesse o texto poderia ir embora. Felipe (escola B): É o mais legal. exceto a Flávia. Camila (escola B): Eles podem fazer tudo o que eles quiser com nóis e a gente não pode nada com eles senão já é problema pra nóis. como a gente vai respeitar eles. quer dizer .

Felipe (escola B): Pode. gesticularam positivamente com a cabeça) Mediadora: É? Como é que vocês percebem que o professor é bem capacitado que domina conteúdo? Pedro (escola B): Quando a gente faz alguma pergunta e ele tem paciência pra ter a resposta.. Tiago (escola B): Como a professora de inglês . Você tem uma relação de confiança com o professor. vai passar lição e ficar sentado? Tem que conversar também! Mediadora: Ah! Então. tem algumas que funcionam e as outras (não) porque os alunos e os professores não obedece. (Daniela está mostrando o celular para Camila e Flávia) Mediadora: Daniela? Vocês consideram os professores bem capacitados? Daniela (escola B): Alguns. ensina melhor. Felipe (escola B): É. Pedro (escola B): Bastante conflito.. . você acha que tem que ter? Camila (escola B): Sim... aí ela fala tá no dicionário.. tem que explicar algumas coisas pra ele. Pedro (escola B): Se ele tiver paciência para ensinar os alunos ele vai ser um bom professor... Tem professores que vai lá no fundo e não consegue achar nada. exceto a Flávia.. Felipe (escola B): Sim. (Daniela gesticula a cabeça concordando com a Camila) Felipe (escola B): Porque ele tem que ser paciente com os alunos e .. Vocês estão me dizendo que existe uma relação um pouco complicada entre professores e alunos aqui na escola. esses aí não tem capacidade pra dar a matéria. se você não faz toma convocação. Vocês acham quer o professor pode ser um bom professor sem ter essa relação afetiva com o aluno? (Camila gesticula com a cabeça que não e Daniela não se manifesta) Flávia (escola B): Sim. Pedro (escola B): Sim. Camila (escola B): É eles são casados. mas quem falta mais é o professor de História e a professora de Português.. gesticularam positivamente com a cabeça) Felipe (escola B): Há bastante. Pedro (escola B): Tem alguns alunos que sabem mais inglês do que ela. Mediadora: E de forma geral. Vocês acham que é importante o professor ter um bom conhecimento da matéria que ele leciona? (todos. 154 aconteceu na sala do Felipe .. Felipe (escola B): Ela falta um pouco também. Mediadora: Certo. o professor agrediu até o aluno. Tiago (escola B): Sim.. Vocês consideram eles professores bem capacitados? Pedro (escola B): São capacitados.. Mediadora: Sim? Se não há uma relação afetiva. Há bastante conflito? (todos. exceto a Flávia. porque o professor vai chegar na sala.. (os demais ficam quietos) Mediadora: Como é que vocês percebem? Daniela (escola B): Eles tem mais paciência com nóis. Flávia (escola B): Eles são casados.. deixa eu ver . aí vai lá no livro didático tenta . Camila (escola B): Alguns. Flávia (escola B): É mesmo. Flávia (escola B): Mas eu estava escutando né . Mediadora: Certo. ele é um bom professor por quê? Camila (escola B): Eu acho que tem que ter. Mediadora: Flávia? Você não falou nada ainda sobre isso. como são os professores aqui. ai eu não sei (rindo) Mediadora: Certo. Mediadora: A escola tem regras? Daniela (escola B): Tem. a gente pergunta alguma coisa pra ela ..

mexem no celular? Felipe (escola B): Eu só uso o celular em casa. Flávia (escola B): Eu tenho. se você entrar sem o uniforme na primeira vez eles vão anotar o seu nome. na segunda vez eles vão chamar o seu responsável . Felipe (escola B): E na terceira vez.. os professores falam que você pode mexer no celular na sala desde que ninguém da ... que respeita essa regra do celular... exceto a Flávia. Tiago (escola B): Aí só vai entrar se estiver com todo o uniforme.. Daniela (escola B): Eu uso na cara da diretora. Camila (escola B): Tem que voltar para a casa... Tem regra para o uso do uniforme? (todos gesticulam positivamente com a cabeça) Daniela (escola B): Essa é a mais forte (foda?) Felipe (escola B): Tem. escondido embaixo da blusa . Felipe (escola B): O próprio professor fica usando.. gesticulam positivamente a cabeça) Felipe (escola B): É como se fosse um código de trapaça... Eu estava vindo com ela só que eu fiquei sabendo que não ia ter aula. eles vão te dar suspensão. Pedro (escola B): Vários professores falam isso. Camila (escola B): O professor tem celular e fica com o celular lá na frente. então eu fui em casa vesti essa roupa e vim. na sala. Mediadora: Certo. mas quais outras regras existem aqui na escola? Flávia (escola B): Muitas.... Daniela (escola B): Tem que usar a camiseta da escola. Pedro (escola B): A minha professora de História ela fala .. Desde que você esteja com fone de ouvido escutando música sem barulho você pode usar. passa a lição e fica mexendo no face. fica entrando no facebook . Pedro (escola B): Agora. 155 Pedro (escola B): A regra do celular . eles estão dando um aviso. Mediadora: Então tem a regra. Daniela (escola B): Uniforme. Camila (escola B): Ele vai lá .. Mediadora: E se vem sem o uniforme o que acontece? Entra sem o uniforme? Flávia (escola B): Não. Mediadora: E vocês usam . Pedro (escola B): Isso mesmo. Daniela (escola B): Mas só ele podem usar e nóis não pode? Eles são melhores? Camila (escola B): Tem um professor que substitui .. Então basta a camiseta da escola. Camila (escola B): Na quarta vai ser expulso da escola... todo dia eu estou com o uniforme. (Todos concordam gesticulando positivamente a cabeça) Flávia (escola B): É mesmo.. Você tem que usar pelo menos a camiseta branca. (rindo) Daniela (escola B): Na quarta tem que vir vestido com todo o uniforme. ele entra na sala e mexe bastante no facebook . Pedro e Tiago mostraram um pedaço da camiseta para confirmar que estavam uniformizados) Camila (escola B): Eu tenho só que está na bolsa... (rindo) .... Pedro (escola B): . Felipe. É isso? (todos.. né gente? (os alunos gesticulam com a cabeça que não) Flávia (escola B): É porque hoje eu sabia que não iria ter aula. inspetor ou direção descubra que você está usando. Felipe (escola B): (comportamento) Certo. aí você pode usar livremente lá.. no face . Leva convocação.. (Daniela. Mediadora: Vocês estão falando da regra do celular. mas vocês não precisam cumprir. e nem passar lição.. Eu estou vendo que nem todos vocês estão com o uniforme.. Ela é a única que tem um comportamento..... Daniela (escola B): Se você entra sem o uniforme você leva convocação. “guarda esse celular se eu ver você mexendo de novo eu vou pegar esse celular e vou levar para a direção” . quando o pessoal está mexendo no celular ela fala . Mediadora: Quais? Vão me falando . Pedro (escola B): (a regra do celular) que não pode ter celular aqui . Felipe (escola B): Você pode usar o celular escondido .. se você não tiver você não entra na escola..

.. Tiago (escola B): É Mediadora: Do intervalo de todos os alunos? Pedro (escola B): É de todos os alunos. Flávia (escola B): É mesmo.. Mediadora: Ah! Entendi.. (gesticula como se estivesse espirrando água) Felipe (escola B): Tem aluno que fica mexendo na caixa de luz e fica apagando a luz. Mediadora: Aí vocês pegam o prato . a regra de permanecer na sala de aula. Mediadora: E ninguém percebeu? (todos responderam: ninguém percebeu) Pedro (escola B): Depois foi duas semanas e aí que eles perceberam isso.. de caqui parece. Mediadora: Isso que vocês estão narrando . Pedro (escola B): Eu fiquei lá pra não ser alvo e no outro dia era o José que estava de inspetor e ele tirou cinco minutos do nosso intervalo por causa da guerra que teve. Jogavam caqui nos outros e todo mundo parece que ficou vermelho. Felipe (escola B): É parece que parou. Pedro (escola B): Na caixa de força. Várias vezes isso... parece que parou. parece que levou tiro.. porque dois indivíduos do bairro entraram na escola. . Felipe (escola B): Tem alguns alunos bem “desperdiçantes”. Felipe (escola B): Eles entraram na escola. Daniela (escola B): E come. isso é comum na escola? (todos os alunos disseram sim) Mediadora: E na hora do intervalo como é que funciona? Eles montam o prato de vocês? Felipe (escola B): Eles montam. Agora eles começaram uma que eles pegam as bolas da prática de esporte e ficam jogando nos alunos. Tiago (escola B): No ano passado teve guerra de mexirica. E quais as outras regras? Tiago (escola B): Não jogar comida no chão. a regra de não usar o celular. Pedro (escola B): E levar o prato para onde eles ficam. ficaram o tempo da aula todo e saíram como alunos. Felipe (escola B): E tem uma regra aqui também que é a do próprio aluno ficar na sua sala e tem aluno que fica entrando na sala do outro e fica na sala que não é sua e fica a aula inteira e não volta para a sala dele. Camila (escola B): Tem aluno que fica no elevador sendo que o elevador é só para deficiente e eles usam... Daniela (escola B): E também eles jogam nas pessoas. Pedro (escola B): Ainda eles estão jogando maça que eles pegam no intervalo. Mediadora: Não jogar comida no chão. eles pegam o prato de comida e em vez de comer. Tiago (escola B): O chão estava inteiro de mexirica. Mediadora: Então vocês tem a regra do uniforme. não eles pegam o prato que está todo cheio de comida e ele vai e joga no lixo todo. 156 Mediadora: O Pedro falou: “agora eles estão cobrando o uniforme”.. se eu me lembro. eles ficam chutando bolas de basquete nos alunos. Felipe (escola B): É. mas não são da escola. Mediadora: O quê? Guerra de mexirica? Tiago (escola B): É Flávia (escola B): E de goiaba. Mas eles sempre cobraram? (todos responderam não) Pedro (escola B): Eles começaram cobrar no ano passado . Pedro (escola B): Tem meia dúzia que jogaram até no poço que fica atrás da escola bola de basquete. mas antigamente estava comum guerra. Tiago (escola B): Tem aluno que mexe no extintor aí fica . Mediadora: E é comum acontecer isso? Pedro (escola B): Agora. Mediadora: Aí vocês pegam o prato e a fruta . Tem gente que come e deixa o prato em cima da mesa..

. Mediadora: E as brigas acontecem quando? Em que momento? Flávia (escola B): Na saída da escola. Pedro (escola B): Tem bastante briga aqui. No banheiro daqui de cima. mas chega a agressão? Daniela (escola B): Sim..... Flávia (escola B): É mesmo.. Pedro (escola B): Tem vez que acontece a briga e . Todo mundo pode falar . Aí a menina pegou o extintor que estava na parede e jogou na mãe dela. (os alunos tiram par ou impar para ver quem fala primeiro) Camila (escola B): Professora. qual foi a consequência? ... (todos falam ao mesmo tempo) Mediadora: Vamos tentar ouvir a Daniela. Mediadora: E a relação entre os alunos da escola? Como é que os alunos se relacionam? Há uma relação tranquila entre os alunos? (todos disseram que não) Daniela (escola B): Às vezes não. há bastante desperdício de alimento? (todos gesticularam com a cabeça que sim) Felipe (escola B): Tem bastante desperdício. Flávia (escola B): E no banheiro. você sabe né? Felipe (escola B): Eles fizeram sexo!! Flávia (escola B): A Marília e o Caique... e é proibido comer fora do pátio interno daqui .. não vem falar que eu estou mentindo não... Daniela (escola B): Ele (Felipe) levou o maior pau da menina. que estava com um prato de comida . Mediadora: Então. E o que mais que tem de regras? Daniela (escola B): Só isso. Eles jogam nas pessoas. Felipe (escola B): Alguns que sim.. Tiago (escola B): Às vezes acontece uma discussão aí eles (alunos) falam “te pego na hora da saída”. Mediadora: E no banheiro? Daniela (escola B): No banheiro não. Camila (escola B): Não pode falar não.. Flávia (escola B): Nossa! Eu não sabia disso não. Felipe (escola B): Tem vez que . Pedro (escola B): Uma vez eu vi um aluno . só isso .. 157 Flávia (escola B): Não. Mediadora: Fala.. Na semana passada jogaram em mim. Pedro (escola B): E no intervalo também. ano passado . A única coisa que fizeram foi isso. Flávia (escola B): Pode falar sim. só pra jogar no chão só. Mediadora: Mas não gosta . Mediadora: A aluna jogou na própria mãe? Felipe (escola B): É. ele foi lá pra fora pegou um prato cheio não comeu nada e jogou no chão .. Pedro (escola B): Na hora da saída é mais comum. Daniela (escola B): Algumas na saída ou no intervalo. Camila (escola B): Tinha uma menina e um menino lá no banheiro fazendo .. Flávia (escola B): No banheiro sim. vamos falar um de cada vez. Tiago (escola B): Eles jogam na cabeça. Mediadora: Certo.. Daniela (escola B): Mas tem pessoa que não gosta de você e você também às vezes não gosta das pessoas. Mediadora: A Camila estava falando que dois alunos tiveram relação sexual no banheiro aqui em cima. E o que aconteceu .. Daniela (escola B): (apontando para Felipe) Esse aqui não pode falar nada porque na quinta série .. Camila (escola B): Agora por causa disso a gente não pode nem subir lá.. fala a Camila depois o Felipe. Felipe (escola B): No começo desse ano tinha uma menina que se chamava Janaína e outra que se chamava Paula aí ela brigou com outra menina que era aqui da escola e foi brigando até que a mãe dela chegou...

Pedro (escola B): Aqui também tem bastante destruição do patrimônio... algumas coisas que eles destroem eles tem que pagar. Felipe (escola B): Nada acontece.. Mediadora: E as câmeras funcionam? Pedro (escola B): Ninguém sabe ainda. O que acontece? Daniela (escola B): Tem que pagar. Camila (escola B): É e aqui tem muito roubo.. quebram carteiras.... ele pegou uma cadeira.. Camila (escola B): Nada não acontece nada .. aí foi que sujou a cortina e a gente teve que lavar. só que eu nunca vi a punição ser aplicada nesse caso.. Daniela (escola B): Mas eu acho que eles tem que pagar . Mediadora: O aluno tem que pagar? Flávia (escola B): É. vidros . Teve uma vez que . mas o que acontece quando elas são descumpridas? Há punição? Daniela (escola B): Sim... Mediadora: Ah! Como assim? ... Daniela (escola B): Dar convocação e chamar a mãe dos dois adolescentes. 158 Flávia (escola B): Foi proibido subir no banheiro. Pedro (escola B): O inspetor descobriu que ele estavam .. E aí vocês disseram que tem brigas no intervalo. No começo do ano eu vi um aluno. Mediadora: E quem rouba? Camila (escola B): Aluno. aí eles disseram que viram pelas câmeras que os dois alunos entraram juntos no banheiro. Mediadora: Eles pagam? Flávia (escola B): Não. Camila (escola B): É. Celular .. Mediadora: Que tipo de prejuízo tem ao patrimônio aqui na escola? Felipe (escola B): Quebram vidro da janela. no final do ano passado . mesa . virou as duas câmeras para a parede. e até agora todo mundo sabe que as câmeras funcionam. Mediadora: E no caso de briga? Tem que tipo de punição. Flávia (escola B): É mesmo. Felipe (escola B): É. subiu e virou ela. ele tem que ser expulso. Pedro (escola B): E eles ficam . Flávia (escola B): E levaram o espelho também da escola. deixa eu falar. Mediadora: E quando destroem o patrimônio. Camila (escola B): No máximo uma convocaçãozinha e chama a mãe e pronto. Mediadora: Vocês me disseram que há regras. Felipe (escola B): Em 2009. Flávia (escola B): Cartão de memória . Todo mundo sabe que não pode usar o banheiro.. Eles falaram uma vez que talvez iriam colocar câmera na sala só que pararam de falar nisso. Camila (escola B): Só foi proibido subir só.. Mediadora: Certo. eles continuam se estranhando eles deveria ter uma punição maior pra que eles não voltassem a brigar.. Flávia (escola B): Ontem mesmo roubaram. Ai o grupo foi lavar cada pedaço da cortina. Mediadora: As regras da escola são claras? (Pedro gesticula negativamente com a cabeça) Felipe (escola B): Mais ou menos.. brigas na saída . Felipe (escola B): Nossa. Felipe (escola B): Eles quebram e eles fogem. eu também nunca vi. o Caíque e o Diego . eles dizem que há punição. Daniela (escola B): Carteira.. e aí era um mito que as câmeras que tinha aqui funcionavam ou não. colocaram outro tipo de filtro (de água) aqui e não durou dois meses e daí dois alunos quebraram o filtro e levaram ele em pedacinho. Pedro (escola B): Quebram as carteiras. (Tiago gesticula negativamente com a cabeça) Pedro (escola B): Punição? Punição existe. a gente foi fazer uma festa na nossa sala aí foi que a gente pegou a cortina como se fosse forro da mesa.. quase a menina me bateu no rosto.

pelo menos a maioria. (todos falam ao mesmo tempo) ... Mediadora: Por quê? Felipe (escola B): Porque . Depois eles falam que tem a regra tal que não pode desrespeitar isso. Felipe (escola B): É isso que acontece.. mas ele nunca tinha visto nada aqui. 159 Felipe (escola B): É eles falam pra gente. Daniela (escola B): É. (nesse momento foi solicitado ao Pedro que trouxesse o gravado até a Mediadora para observação da gravação) Mediadora: Certo. Felipe (escola B): É uma semi-reforma.. Mediadora: Até livro didático? (os alunos gesticulam que sim com a cabeça) Flávia (escola B): Não tem livro pra gente estudar.. Flávia (escola B): A gente ia fazer lição e tomava choque.. primeira série. Felipe (escola B): Na primeira ou na segunda série a escola era de lata daí foi que . Pode falar. Felipe (escola B): Ele estava com um monte de saquinho de suco e o Caique roubou dele os saquinhos de suco e saiu correndo. Tiago (escola B): Eu acho que ele tem medo de vir aqui. (risadas) Flávia (escola B): Tinha rato. ele deixa a escola aqui desleixada. fala Pedro. Não tem caneta para os professores.. Mediadora: Vocês me disseram que vocês não sabem ao certo quais são as regras que tem na escola.. Pedro (escola B): Aí ele voltou aqui pra ver como que estava depois da reforma..... É isso mesmo? (todos gesticulam positivamente com a cabeça) Felipe (escola B): É. parece que tá caindo aos pedaços.. e quanto às regras? Vocês acham que é necessário ter regras? (Pedro. Flávia e Felipe respondem sim. só que a gente nem liga. Flávia (escola B): Ele veio aqui e ficou olhando as meninas. Pedro (escola B): O Marcos Canuto veio aqui pra ... os demais aparentam distração) Pedro (escola B): É preciso ter regras pra . (risadas) Mediadora: Vamos ouvir o Pedro . a gente ficaria bem mais calmo. (risadas) Mediadora: Por quê? Flávia (escola B): Porque chovia dentro da sala. só isso.. tem medo dos alunos. Mediadora: Quem é o Marcos Canuto? Pedro (escola B): É aquele cara que fica gritando . Mediadora: E vocês estudam aqui.. Pedro (escola B): Toda vez eles vem brigar com a gente. O Kassab colocou uma plaquinha escrito que ele tinha feito a escola. mas já é a reforma já .. (risadas) Camila (escola B): Professora.. essa aqui é a reforma (apontando para o espaço). que a escola estava caindo aos pedaços literalmente. Ele nem quer saber. desde a quarta série.. Até livro didático está faltando aqui. Ele (prefeito?) fez a escola só que ele não cuida.. Camila (escola B): Pra escola é melhor... antigamente aqui na escola tinha que fazer lição com o guarda-chuva. Mediadora: Ah! Pedro (escola B): Aí passou uns anos e eles reformaram a escola. Mediadora: Mas . Felipe (escola B): É o cara da rede globo.. Mediadora: Por quê? Não tinha material na escola? Camila (escola B): Tinha um monte de rato nessa escola. mas a gente não sabe por que. Pedro (escola B): Ele veio a primeira vez e fez a denuncia . Camila (escola B): Sabe o que era a nossa bola? A nossa bola era um rato... Estão aqui há pelo menos cinco anos. Pedro (escola B): Quase a gente não sabe as regras.

eu acho que sim. Aí a tia até separou... Tiago (escola B): Ficaria mais organizado . Felipe (escola B): Ele chega na escola e ele quer aplicar a regra. Flávia (escola B): Sim.. Mediadora: Certo.. Como é a relação dos alunos com os inspetores aqui na escola? Pedro (escola B): É boa. ir melhor? Daniela (escola B): É. Camila (escola B): Regras tem.. O que mais? (silêncio) Mediadora: Eu observei aqui na escola que tem bastante inspetor. Tiago (escola B): A professora desse ano e do ano passado colocava os alunos em ordem alfabética... o uniforme é obrigatório.. Mediadora: Então... porque não tem.. É.. Daniela (escola B): É importante pra escola ir melhor. tem que mostrar. As pessoas aqui não usam uniforme . Pedro (escola B): As regras tem que ser mais claras. Pedro (escola B): Tem professor que no começo do ano coloca a regra dele que só vai valer na aula dele só. Mediadora: E os alunos ficavam? Pedro (escola B): Quando ela saía da sala. os professores. Mediadora: Como assim. Flávia (escola B): Mas. Se houvesse mais controle mais punição. ele não deixa claro as regras da escola... todo mundo voltava pro lugar.. Flávia (escola B): É mesmo... porque não usam uniforme.. mas dois professores por aula pra poder coordenar o aluno.... é bem mais calmo e . Um pra fazer a lição e outro pra ajudar e coordenar. meninas .. Mediadora: É. sendo que ele acabou de chegar... 160 Pedro (escola B): Você se envolve . os alunos respeitariam mais? (todos os alunos gesticularam positivamente com a cabeça) Pedro (escola B): Sim. pra ir melhor.. eu tô abrindo a boca. aí ninguém respeita ninguém. Mediadora: E quando o professor coloca regra dentro da sala dele... ninguém sabe qual é. Flávia (escola B): O uniforme é feio. Tiago (escola B): Se os professores tivessem mais paciência pra falar sobre o assunto . Felipe (escola B): Seria como aqueles colégios do Japão . Mediadora: Vocês sabem qual é a função deles? Camila (escola B): Não. Mediadora: Por causa de quê? Camila (escola B): Por causa de briga. Algumas inspetoras só sabem brigar. Camila (escola B): O ano passado um menino foi para o hospital. Mediadora: Os alunos respeitam os inspetores aqui na escola? . comparado a outras escolas. só que tem que ser mais claras. Mediadora: Por que não? Pedro (escola B): Eles têm sempre que estar punindo aqueles que não cumprem as regras.. vocês acham importante ou não ter regras. (Tiago concorda). os alunos respeitariam mais? (todos os alunos gesticularam positivamente com a cabeça) Pedro (escola B): Respeitariam. Pedro (escola B): É um exemplo bom porque as regras deles são claras.. Pedro (escola B): Para uma sociedade organizada é necessário regras. Mediadora: Flávia? E você? O que você acha? Flávia (escola B): Aqui tinha que ter muitas regras. Flávia (escola B): É porque eles ficam de licença . mas os alunos não obedecem. Felipe (escola B): Precisava ter não só um. Eu vou dar pra você (se referindo ao Pedro) o uniforme daquelas véias. mas tem regra. (as alunas Daniela e Camila continuam mexendo no celular) Mediadora: E a Daniela e a Camila? Camila (escola B): Eu tô falando... Mediadora: Vocês acham que se as regras fossem mais claras aqui na escola. funciona? Flávia (escola B): Não..

. Felipe (escola B): É.. porque um menino da minha sala está na oitava série e não sabe ler. só que o laboratório de Ciências não está funcionando... Pedro (escola B): Todo ano muda.. Flávia (escola B): É mesmo. Pedro (escola B): Tênis de mesa. 161 (todos concordam que sim) Mediadora: E com a direção. que tinha que reformar. Tiago (escola B): Porque os pais têm que ter a escolha de deixar o aluno passar sem estudar... Tinha duzentas carteiras e duzentas mesas..... e até hoje a gente não tem.. Felipe (escola B): Teve uma vez que esse diretor aí comprou dois jogos pra gente: uma mesa de pebolim e outro jogo lá.. Foi pra reclamar que eu vi ele.. essa parte (indica o assento) sai.. era a prefeitura que passava eles de ano.? (todos sinalizam que sim) Daniela (escola B): Mas muda. Tem também o laboratório de Ciências. Pra mim.... Tiago? Você estava falando de aprender ler. escrever... o que tem de bom aqui na escola? Daniela (escola B): Nada.. só que não funciona. Felipe (escola B): Prometeram pra gente em 2008.. nada. Flávia (escola B): Nada. A única vez que eu vi ele foi quando ele estava reclamando daqui. Mediadora: O que você estava comentando agora...... O pai tem a escolha? . Mediadora: Vocês não conseguem ver nada de positivo. Mediadora: Não tem nada de bom? Vocês estão aqui há bastante tempo. Camila (escola B): Porque tem gente que passa sem saber ler.. Pedro (escola B): Duas coisas boas que tem aqui. (todos concordam) Mediadora: Vocês não sabem quem é o diretor ou diretora? (todos sinalizam que não) Mediadora: Mas vocês estudam aqui há bastante tempo... Daniela (escola B): Não... né... Flávia (escola B): Jogaram comida. Eu gostaria que vocês me dissessem quais os pontos positivos e negativos da escola? Vamos começar pelos positivos. tênis de mesa.. Pedro (escola B): Já prometeram isso pra gente.. cadeiras que estavam quebradas... Mediadora: Flávia . O que essa escola tem de bom? Daniela (escola B): Nada. Veio. Se essa escola fosse boa.. Mediadora: Vocês tocaram nesse assunto. que não eram eles que passavam... Aí não durou cinco meses. que eu acho. Camila (escola B): As cadeiras estavam tudo quebrada. Daniela (escola B): É igual quando o professor falou pra minha mãe quando meu irmão não sabia ler. Daniela (escola B): Tem dois casos assim. e não sei o quê. Mediadora: O quê? Pedro (escola B): O laboratório de Ciências.. e pra você. Pedro (escola B): A gente senta na cadeira. os pais têm a escolha de deixar o aluno passar sem aprender nada ou deixar ele no ano. e quando a gente senta..... Flávia (escola B): Não sei o que falar. Tiago (escola B): É.. Mediadora: Mas o Tiago falou que o pai tem a escolha.. Mediadora: Daniela. Pedro (escola B): Têm professores que são bons. saber das coisas. ele já tinha aprendido a ler há muito tempo.? Tem que saber.... Tiago (escola B): Os inspetores são bons também. Camila (escola B): Aí o menino vai pro terceiro ano e não sabe ler....... O diretor do ano passado. como é a relação? Pedro (escola B): Ninguém sabe quem é o verdadeiro diretor desta escola. ou.. os alunos destruíram tudo. né? Flávia (escola B): Sim. Felipe (escola B): Têm uns professores que são bem legais. são o laboratório de informática e a sala de leitura. Flávia (escola B): É mesmo.

. Daniela (escola B): É conselho de professor e aluno. na oitava série. pra quê ir se ninguém escuta nóis. E sobre os pontos negativos da escola. Camila (escola B): Se quiser sair.? Daniela (escola B): Sempre. Mediadora: Quê mais? Vocês já falaram vários... Mediadora: Mas sempre teve conselho. e ela falou que não podia fazer nada... 162 (Tiago e Pedro sinalizam que sim.... ou não.... Senão vocês não interagem. Felipe (escola B): No ano passado alguns alunos ficaram cuspindo na cara de outros alunos.. Daniela... Camila (escola B): Mas a gente até saiu. Se quiser ir pra casa.... aí o pai pode opinar. Mediadora: Então não são os pais que decidem. Camila (escola B): A escola tem um negócio de conselho que os alunos também participam.. né. Tiago e Pedro sinalizam que não) Camila (escola B): É... Têm alunos que não sabem ler na 8ª C. Daniela... Daniela (escola B): Minha mãe pediu pra professora não deixar meu irmão passar.. Mediadora: E os pais participam do conselho? (Flávia e Camila sinalizam que sim.. Se quiser dar opinião.) Pedro (escola B): Teve caso aqui que o pai decidiu também.. mesmo... Então..... não sabem fazer uma conta de menos na oitava série. que não). Tiago (escola B): O bullying.. Camila (escola B): A gente até saiu... (as meninas conversam entre si) Mediadora: Meninas. Mediadora: Sobre a participação dos pais na escola..? Só pra ir... é novo.... Mediadora: Sempre teve. vocês observam se tem bastante pais aqui? (todos sinalizam que sim) Mediadora: E eles influenciam nas decisões aqui da escola? Participam dos conselhos? Pedro (escola B): Eles tentam dar opinião.. que não adianta... mesas quebradas. Mediadora: Passa pelo portão e ninguém vê? . Acho que sim... Camila (escola B): Mas é desde o ano passado.... porque eles não escutam o que estamos falando. mas tem pai. Pedro (escola B): O pai pode opinar. os professores estão tendo essa opção de reter ou deixar passar.. vai.. Pedro (escola B): Professores sem paciência. Porque....? (Daniela e Flávia sinalizam que não. Felipe (escola B): Bullying e o vandalismo é um ponto chave negativo. Mediadora: Vocês não se sentem seguros aqui na escola? (todos sinalizam que não) Pedro (escola B): A GCM (Guarda Civil Metropolitana) só vem aqui quando tem uma briga.. Daniela (escola B): Mas sempre teve. pra quê a gente vai. Mediadora: Quando tem reunião de pais.... Pedro (escola B): Agora.? Tiago (escola B): Não vi nenhuma diferença entre antes do conselho e depois do conselho. Pedro (escola B): Bullying também.. Tiago (escola B): Sem segurança aqui. por gentileza..... Daniela (escola B): É os professores. sai. vou pedir... Pedro (escola B): Acho que esqueci..? Pedro (escola B): Esqueci. Mediadora: E como é a participação dos pais aqui na escola? Os pais participam bastante? Flávia (escola B): Sim. Mediadora: Certo... (todos sinalizam que sim – tem pais que vão) Mediadora: O que você estava falando Pedro. o que vocês têm pra me dizer? Quais são os pontos negativos? Felipe (escola B): Cadeiras quebradas. aí a Camila ... Você começou a falar alguma coisa..

ele tem que explicar.. aí ele senta. tipo assim.. 163 (todos sinalizam que sim) Felipe (escola B): Só os inspetores. Mediadora: Vocês disseram que não é seguro. Camila (escola B): Se vier um indivíduo aqui....... O aluno pede ajuda pra ele. Passam três meses. os alunos ficam jogando no teto (referindo-se ao papel higiênico).. o que acontece? Flávia (escola B): Tinham uns policiais lá na frente. Mediadora: Vocês me falaram as características pra ser um bom professor.. Felipe (escola B): Teve um dia que fui comer a comida da escola e ela estava toda salgada.. Mediadora: O que mais de pontos negativos? A Daniela. Você tem que aprender sozinho.. Felipe (escola B): Tem professor que passa o texto na sala... Samyres: É.. Já passei mal...... Flávia (escola B): Mas tem. Vamos voltar a essa questão do professor.. Pedro (escola B): Passa na lousa e...... você tem que se virar lá. Felipe (escola B): A escola deveria ter... Pedro (escola B): É. Pedro (escola B): Muita gente prefere trazer lanche de casa do que comer a comida daqui.. Daniela (escola B): Falta de segurança e o ensino... Samyres: A Talita..... e a comida não tem gosto nenhum.. não olha na nossa cara.. Pedro (escola B): Eu nunca vi isso aqui...... mas é ruim demais. mas eles foram embora.. O Tiago falou do problema da segurança. eu odeio a comida daqui. Camila (escola B): Entre na sala... aí vaza da sala... Pedro (escola B): Muitas vezes eles fazem o papel de “segurança” da escola. Mediadora: O que mais de pontos negativos? (todos pensam) Flávia (escola B): O banheiro não tem papel higiênico. que não domina a disciplina que ele dá na escola.. Pedro (escola B): A maioria dos professores passa muito pouco tempo na sala (todos demonstram concordar). Eles falam que a comida daqui tem que ser saudável. Eles passam alguma coisa e saem.. que tem deficiência. E ficam cuspindo no teto. Mas vocês têm medo do quê? Felipe (escola B): Ah.. É ali embaixo. Nunca vi papel higiênico naquele banheiro. Pedro (escola B): Eu nunca vi um dia que teve papel higiênico no banheiro. passa lição e senta.. uma cantina. o Gustavo e a prima da Íris... Tiago (escola B): Que não sabe ensinar... No outro dia não tinha um pingo de sal. Flávia (escola B): É mesmo. Mediadora: E quando eles vêm. Passa lição. Felipe (escola B): Pra gente comprar o que a gente quer... Mediadora: E é sempre assim? Flavia (escola B): Eu queria comer. eles praticaram bullying com os deficientes.. Tiago (escola B): Têm uns meninos que mexem com extintor. Flávia (escola B): É mesmo.... Camila (escola B): É mesmo. Camila (escola B): É. se vier um bandido aqui buscar a gente... Por exemplo.... não como de jeito nenhum. Tiago (escola B): Mas é fora da escola... Pedro (escola B): É verdade.. pelo menos. e ele fala “se vira nos trinta!”. aí eles .. Felipe (escola B): Parece até comida de hospital.. E quais as características que um professor tem para ser um mau professor? Como é um mau professor na visão de vocês? Pedro (escola B): Um professor impaciente.. Tiago (escola B): É mesmo.... A cada cinco minutos os professores saem da sala. Aí o texto fica incompleto. Mediadora: Tem espelho no banheiro? Daniela (escola B): E quando tem. Se jogar alguma coisa no olho de um aluno.. Jogaram na Talita. que não falou ainda... Não conversa com ninguém...

. Camila (escola B): Pra não ter amizade com os de outra religião. uma determinada metodologia. é verdade.. Começa a brigar com a gente. Felipe (escola B): E depois o professor quer dizer que ele está certo..... Mediadora: Mas vocês tem a liberdade para tirar dúvida? Pedro (escola B): Alguns professores deixam. Mediadora: Na sala de aula. Tiago (escola B): Claro.. Mediadora: Pra não ter amizade com pessoas de outra religião a não ser evangélico? É isso? Felipe (escola B): É. Mediadora: Isso é comum? Pedro (escola B): Bastante comum.. de Ciências. Mediadora: Não ter amizade com pessoas de outra religião? Felipe (escola B): É. 164 falam que você é quem está atrasado na matéria. Daniela (escola B): Não entendi... eles falam pra calar a boca.... Camila (escola B): Quem falou isso? Felipe (escola B): Uma professora. e ficam pedido pra gente não ter amizade com aqueles que praticam da outra religião. mas da escola não... mas a gente não pode falar nada deles. já está quase no fim. .. Tem professor que você não pode perguntar nada.... Eles falam as coisas.. o Tito. fazer alguma crítica ou sugestão aos professores? Tiago (escola B): Não entendi.. Felipe (escola B): Da escola eu não gosto. Aí foi que ela estava conversando com ele.. que fica falando que alguns alunos aqui são da religião evangélica. Mediadora: Daniela. Daniela (escola B): Mais ou menos. De cinco em cinco minutos eles estão saindo pra fazer alguma coisa.. Mediadora: Sim.”? Camila (escola B): Não. Felipe (escola B): Tem professor que é tão entrão na vida da gente. Tiago (escola B): Se fala alguma coisa.. Felipe (escola B): Tem professor que fica dando patada no aluno. a professora dá uma cortada...... Aí foi que outro aluno lá chamado Wellington foi entrar na conversa e disse “o que vocês estão dizendo?”. Gostam da escola? (os meninos olham para baixo e pensam).. A gente está falando quais são as características negativas de um professor.? Ah... Teve uma vez que uma aluna chamada Conceição. (Daniela demonstra não estar prestando atenção) Mediadora: Então... que ele já sai xingando você...... vocês têm a liberdade? Flávia (escola B): Eles ameaçam.. Mediadora: Vocês gostam da escola? Flávia (escola B): Sim.. Mediadora: Vocês têm espaço aqui na escola para questionar a forma de um professor dar aula? Vocês têm esse espaço para questionar ou dizer: “A maneira que você está dando aula é ruim... Mediadora: Vocês podem questionar o uso de determinado material pelo professor... (Daniela demonstra impaciência. Pedro (escola B): A Flávia tem uma briga com a professora de Matemática.. as características que um professor pode ter a ponto de ser considerado um mau professor. você não falou ainda. a maneira dele dar aula? Vocês têm esse espaço para questionar. ele começa a falar.. Aí o professor disse “não é da sua conta”. durante a aula. Felipe (escola B): Tem um professor do ano passado... Porque eles não terminam um texto que eles estão passando.. outros não. Vocês têm espaço aqui na escola pra questionar os professores? Camila (escola B): Se questionar o professor. Mediadora: Falam pra calar a boca? Pedro (escola B): É um absurdo. e pergunta se já está acabando).. Pedro (escola B): Mais ou menos. Que não! Mediadora: Os meninos. Flávia (escola B): Não pode falar nada deles.. Tiago (escola B): Gosto de alguns dos professores. Tudo o que a Flávia fala.

. Felipe (escola B): Eu quero ser alguém na vida. (É interpelada por Camila que Pede para falar mas diz: “me enrolei toda. Flávia (escola B): Nessa escola. demonstrando impaciência) . para mim... ensinam na quarta série. e tem vez que a gente fica com bastante preguiça........”) (as alunas riem) Camila (escola B): Eu ia me transferir pra outra escola. Mediadora: Mas tem alguma coisa que vocês discordam quanto à cobrança que a família faz sobre vocês? (todos sinalizam que não.. Mediadora: Meninos. mas não tem como ir.. a gente não vai ser nada. Pedro (escola B): No atual momento... Mediadora: Por quê? Felipe (escola B): Porque se deixar a gente fazer o que quiser. Felipe (escola B): É.... eu prefiro o Ramiro Coelho. Por quê? Camila (escola B): É bom pra poder incentivar mais a gente.. que vocês já falaram um pouquinho.. eu prefiro aqui.... mas também essa escola é melhor do que outras. fala. (todos sinalizam que não) Mediadora: E o que os pais de vocês pensam sobre essa escola? Flávia (escola B): Minha mãe não gosta. isso que vocês esperam? Flávia (escola B): Não... aí vão lá “você tem que fazer isso!”. O Osaka.. as pessoas saem e nem sabem as coisas. Flávia (escola B): Eu preferiria ir para outra escola. Mediadora: E vocês acham que essa escola podem oferecer isso pra vocês.. brigando com a gente pra fazer o certo... (silêncio) Mediadora: O que vocês esperam da escola? Vocês vêm para a escola por quê? Flávia (escola B): A gente espera ser uma pessoa melhor na vida.. sei lá.. aqui.. Mediadora: Vamos voltar na última questão.. Ter uma boa profissão.. Tiago (escola B): Minha mãe prefere essa escola do que o Isaac. não.. Pedro (escola B): Eu quero estudar pra ser alguém na vida. (todos sinalizam concordando) Pedro (escola B): Se não ficar em cima. Não dá pra estudar aqui... Pedro (escola B): Minha mãe não vê a hora de eu ir para o primeiro ano. e eu tenho que estar na escola. Felipe (escola B): Tem escola que está ensinando na primeira série coisas que. 165 Tiago (escola B): Tem alguns andares que eu gosto daqui.... e não pegar no nosso pé. mais tarde..... ter um futuro melhor. O que vocês acham dessa cobrança que a família tem sobre vocês? Vocês acham isso importante ou não? (todos sinalizam que sim). tenho que seguir o que meus pais dizem pra eu ter uma boa vida. Mediadora: E a Camila? Camila (escola B): Do que? (demonstra dispersão) Mediadora: A gente está falando aqui se vocês concordam ou não com a cobrança que a família faz sobre vocês. Daniela (escola B): Eu acho que escola da prefeitura é tudo igual. Flávia (escola B): Ah. Mediadora: E o Tiago? Tiago (escola B): Quero ser alguém na vida e não ficar sem fazer nada. Mediadora: O que vocês esperam dos estudos? O que vocês esperam da escola? Daniela (escola B): Estudar mais pra um dia... Mediadora: E a Camila? Camila (escola B): Eu prefiro outra escola.. Pedro (escola B): Tem hora que a gente não quer fazer nada. Daniela (escola B): Ah. uma boa situação financeira... Tiago (escola B): A gente aprende errando.. mas eu queria ouvir mais. Felipe (escola B): Porque a gente cansa.. para poder sair daqui...

166 Mediadora: E a escola? Vocês concordam com a cobrança que a escola faz sobre vocês? Pedro (escola B): Tem que ter uma certa cobrança. Nunca vi uma cobrança. Mediadora: Então é isso. Vocês gostariam de falar mais alguma coisa sobre a escola ou sobre a família? (todos sinalizam que não) (Mediadora agradece a participação de todos e finaliza) ...... meninos. mas aqui eu não vejo cobrança..