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PROPOSTAS DE POLÍTICAS PÚBLICAS

PLANO PAÍS
PARA A INFÂNCIA
E A ADOLESCÊNCIA
Este documento apresenta um conjunto de propostas
de políticas públicas formuladas por meio de processo
participativo que reuniu organizações, redes e coalizões
da sociedade civil. Ao implementar essas políticas, o
Brasil estará construindo uma sociedade mais justa,
próspera, inclusiva e sustentável para as múltiplas
infâncias e adolescências.
PLANO PAÍS
PARA A INFÂNCIA
E A ADOLESCÊNCIA
Este documento apresenta um conjunto de propostas
de políticas públicas formuladas por meio de processo
participativo que reuniu organizações, redes e coalizões
da sociedade civil. Ao implementar essas políticas, o
Brasil estará construindo uma sociedade mais justa,
próspera, inclusiva e sustentável para as múltiplas
infâncias e adolescências.

Por favor, avise a pessoas cegas, analfabetas, com baixa visão, deficiência inte-
lectual ou psicossocial, baixo letramento, dislexia, dificuldades de leitura, pouco
conhecimento do português, impossibilitadas de ler em tinta ou que simples-
mente preferem obter informações de outros modos, que versão acessível deste
documento está disponível por meio do QR Code ao lado.
ÍNDICE

Apresentação 4

Introdução: Mecanismos de gestão federal para a efetiva


garantia dos direitos de crianças e adolescentes 7

Desafio 1: Priorizar a criança e o adolescente no orçamento público 9

Desafio 2: Fortalecer a articulação intersetorial e federativa 15

Desafio 3: Recuperar e ampliar os espaços de participação social 19

Reinvindicações e Propostas das Crianças e dos Adolescentes para o Brasil 23

Desafio 4: Institucionalizar a Agenda 2030 26

Recomendações Adicionais para Qualificar a Gestão da Área Social 29

Quem Foi Ouvido 32

Referências 34
PLANO PAÍS - AS PROPOSTAS DE POLÍTICAS PÚBLICAS 36
Bloco Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

Saúde 39
Nutrição 47

Educação 52

Cultura, Esporte e Lazer 67


Profissionalização e Acesso ao Mundo do Trabalho 73
Convivência Familiar e Comunitária 76
Enfrentamento das Violências 85
Adolescentes a Quem se Atribui Ato Infracional 93
Orfandade e Direitos 102

Bloco das Diversidades, Inclusão e Interseccionalidades

Igualdade Racial 126


Povos Indígenas e Ribeirinhos, Povos Romani,
Povos de Comunidades Tradicionais e Migrantes 115
Igualdade de Gênero 126
Agenda LGBTQIA+ 130

Pessoas com Deficiência 136

Bloco Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

Pobreza, Fome e Desigualdades 142


Saneamento Básico, Recursos Hídricos e Acesso à Energia 147
Cidades e Assentamentos Sustentáveis 153
Mudanças Climáticas e Recursos Terrestres e Marinhos 158
Padrões de Produção e Consumo Sustentáveis 164
Acesso à Justiça 168
Comunicação, Mídia e Inclusão Digital 173
Parcerias Multissetoriais e Cooperação Global 180

Índice Remissivo 185

Organizações integrantes dos Grupos de Trabalho da Agenda 227 187


O PAÍS QUE não QUEREMOS
Acumulam-se evidências de que nosso País enfrenta uma das etapas mais
desafiadoras de sua história recente. É fundamental, nesse momento, priorizar
políticas que garantam os direitos das cerca de 70 milhões de crianças e ado-
lescentes brasileiras. Os números falam por si mesmos.

• 80,35% das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) assu-


midas pelo Estado brasileiro junto à ONU estão em retrocesso, ameaçadas ou
estagnadas em 2022.

• 4.789 km² de floresta foram desmatados na Amazônia nos primeiros seis me-
ses de 2022, o pior índice para o primeiro semestre nos últimos 15 anos.

• 58,7% da população brasileira vive em situação de insegurança alimentar em


2022, patamar equivalente ao da década de 1990.

• 18,1% das famílias com crianças menores de 10 anos sofreram com a fome em
2021, número praticamente duas vezes maior do que em 2020.

• 81,2% das crianças Yanomami com menos de cinco anos apresentavam des-
nutrição crônica entre 2018 e 2019, consequência da insegurança alimentar
provocada pelo garimpo ilegal em seus territórios.

• 40% das crianças e dos adolescentes brasileiras viviam em pobreza monetária


no início de 2020, taxa que era de 20% entre os adultos.

• 65,4% foi a cobertura vacinal para BCG, Penta, Tríplice e Hepatite B alcançada em
2021, enquanto a meta adotada pelo Brasil para essas vacinas varia de 90 a 95% –
o que havia tornado o País referência mundial em imunização infantil.

• 5,1 milhões crianças e adolescentes de 6 a 17 anos não tinham acesso à edu-


cação no Brasil em novembro de 2020.

• 321,99 mortes por cem mil habitantes foram registradas até setembro de 2022
no Brasil devido à covid-19, a segunda maior taxa do mundo entre os 20 países
mais afetados pela doença.

• 130 mil crianças e adolescentes brasileiras, aproximadamente, haviam ficado


órfãs devido à covid-19, até julho de 2021.

• 7 crianças ou adolescentes, em média, foram vítimas de violência letal a cada


dia no Brasil, em 2021.

• 80% das mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes de 10 a 19


anos ocorridas entre 2016 e 2020 foram de negros.

• 35.735 vítimas dos casos de estupro de vulnerável registrados em 2021 eram


meninas com até 13 anos.

Veja as fonte dos dados na página 186

4
APRESENTAÇÃO
Este documento traz a público o Plano País para os direitos de crianças e adolescentes com
a Infância e para a Adolescência – Propostas “absoluta prioridade”.
de políticas públicas, um conjunto de 137 pro-
posições da sociedade civil organizada brasileira É essencial que a nova administração efetiva-
para que nossas crianças e adolescentes pos- mente cumpra o que estabelece a legislação,
sam estar no centro da construção de um país passando a assumir esse paradigma como
mais justo, próspero, inclusivo e sustentável. orientador de todas as suas ações, nas mais
diversas áreas. Ao mesmo tempo, para que
A iniciativa é parte do empenho da Agenda 277 um processo articulador dessa magnitude
em qualificar o debate eleitoral de 2022, pro- produza as transformações esperadas, deve
porcionando às candidaturas à Presidência da mobilizar os diferentes mecanismos da ges-
República, à imprensa e a toda a sociedade tão federal, inclusive incidindo sobre o plane-
brasileira um diagnóstico das urgências da po- jamento e a execução da política orçamentá-
pulação de 0 a 18 anos, apontando caminhos ria – e as oportunidades disponibilizadas pela
para que o atual cenário, tão preocupante, pos- cooperação internacional tampouco podem
sa ser transformado a partir do próximo ano. ficar de fora da equação.

Criado no início de 2022, o movimento Agen- Não faltam motivos para se defender o para-
da 227 reúne hoje cerca de 350 entidades, re- digma de prioridade absoluta. A infância e a
des e coalizões da sociedade civil. Na constru- adolescência são períodos cruciais para o de-
ção das propostas de políticas públicas, seus senvolvimento físico, cognitivo, emocional, so-
grupos de trabalho envolveram a participação cial e cultural de qualquer ser humano. O que
ativa de 146 organizações e centros de pes- vivenciamos nessas etapas nos acompanhará –
quisa vinculados aos direitos da criança e do como bônus ou como ônus – ao longo do res-
adolescente e a outros direitos humanos eco- tante de nossas jornadas. Investir na infância e
nômicos, sociais, culturais e ambientais. na adolescência é, portanto, a escolha humana
e econômica mais racional para qualquer Es-
A amplitude dos números é diretamente pro- tado comprometido com o interesse público.
porcional ao desafio proposto. Como o pró-
prio nome indica, o documento não se limita Além disso, estamos seguros de que um país
a reunir sugestões para que crianças e ado- melhor para crianças e adolescentes é, neces-
lescentes constem num tópico específico dos sariamente, um país melhor para todas e todos,
planos de governo elaborados pelas coliga- pois a garantia de sua proteção e desenvolvi-
ções partidárias. mento integral sempre passará pela valorização
do cuidado com quem cuida, moldando uma
O que se propõe ao País é um plano estru- sociedade mais coesa, pacífica e acolhedora.
turador das políticas para a infância e a ado-
lescência. Nosso documento pressupõe um A implementação das propostas reunidas
esforço de grande amplitude, tomando como neste Plano País também representará um
base o artigo 227 da Constituição Federal, que avanço significativo no processo de resgate da
obriga Estado, sociedade e famílias a garantir dívida que o Brasil acumula com grande par-

5
te de sua população. Crianças e adolescentes tra realidade possível. Ao mesmo tempo, nos
se encontram sobrerrepresentados nos indi- comprometemos a elencar soluções factíveis,
cadores que radiografam a desnutrição, a po- de inegável impacto, capazes de organizar a
breza, o racismo, o capacitismo, os estigmas, ação federal para a realização do bem comum.
as violências e as demais desigualdades que
marcam nossa história. Constituem, também, Nosso documento sistematiza, portanto, o
o segmento que mais sofre as consequências resultado desta iniciativa articuladora, apre-
dos eventos climáticos extremos, resultantes sentando objetivos, ações e metas, além de
do aquecimento global induzido pela ativida- sustentar cada proposta com números e in-
de humana. formações que evidenciam sua relevância, a
fim de apoiar os gestores públicos a de fato
Diante desse cenário crítico, a sociedade civil priorizarem os direitos da infância e da ado-
brasileira decidiu se aglutinar para produzir lescência nos mais diversos setores.
respostas à altura, buscando inspiração nos
movimentos que, pouco mais de três décadas As próprias crianças e adolescentes foram
atrás, levaram à promulgação da Constituição consultadas durante o processo de elabora-
Federal e do Estatuto da Criança e do Adoles- ção deste conteúdo, não apenas manifestan-
cente. Esse esforço englobou um olhar atento do seus desejos e aspirações com relação aos
para 22 áreas temáticas em que o Governo destinos do Brasil, mas também sinalizando,
Federal deve aprimorar e fortalecer programas com sentido de urgência, o que esperam do
e políticas. A inovação proposta pela Agenda novo governo.
227 é que se abordem essas grandes questões
brasileiras a partir de um olhar de priorização Nossa convicção é de que este Plano País –
dos direitos de crianças e adolescentes. embora de natureza eminentemente técnica
– deve nos inspirar, enquanto nação, a perce-
A construção deste Plano País nos exigiu ber o futuro a partir de um olhar infantil – ou
manter o olhar no horizonte e os pés no chão. seja, na perspectiva de quem experiencia o
Enquanto sociedade civil, temos como missão mundo pela primeira vez e, portanto, ainda é
enxergar para além do Estado, expressando capaz de questionar aquilo que, ao senso co-
necessidades, anseios e sonhos de uma ou- mum, pode parecer imutável.

Brasília, 5 de setembro de 2022

Grupo de Coordenação e Articulação


Agenda 227

6
MECANISMOS DE GESTÃO FEDERAL
PARA A EFETIVA GARANTIA DOS
DIREITOS DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Consultas realizadas junto a especialistas e gestores nos ajudaram a mapear os principais


desafios de ordem estrutural que envolvem o processo de implementação de um conjunto
tão amplo e diversificado de políticas públicas, como o proposto pelo Plano País para a
Infância e a Adolescência. Neste capítulo introdutório, além de mapear cenários, elencamos
uma série de recomendações dirigidas à administração federal.

As 137 propostas detalhadas que conformam o Teremos, portanto, que encarar desafios es-
Plano País para a Infância e a Adolescência, truturais, como:
apresentado pela Agenda 227 às candidaturas à
• Priorizar a criança e o adolescente em todo
Presidência da República, têm como referência
o ciclo do orçamento público.
os direitos estabelecidos pela Convenção sobre
os Direitos da Criança, pelo Estatuto da Criança • Fortalecer a articulação intersetorial e fe-
e do Adolescente (ECA), pelo Marco Legal da derativa.
Primeira Infância e por leis correlatas em áreas • Recuperar e ampliar os espaços de parti-
como Educação, Assistência Social, Saúde e In- cipação social.
clusão das Pessoas com Deficiência. Também • Institucionalizar a Agenda 2030.
estão balizadas pelas metas previstas nos Ob-
jetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), Não por acaso, a descrição de cada desafio lis-
das Nações Unidas. tado acima se inicia com verbos de ação: prio-
rizar, fortalecer, recuperar, institucionalizar... Há
No entanto, para que essas propostas possam muito por fazer e não existem fórmulas mági-
de fato sair do papel e ser incorporadas às cas ou receitas prontas à disposição da equipe
prioridades do novo governo, será necessário de governo.
discutir alternativas que permitam atualizar a
estrutura administrativa federal e seus meca-
nismos de gestão.

7
Também sabemos que o cenário do País é de Acreditamos que, apesar dos inúmeros obs-
agudização da crise econômica e dos retro- táculos de ordem política, econômica, social
cessos na área dos direitos das crianças e dos e ambiental a serem enfrentados pelo novo
adolescentes. Segundo o VI Relatório Luz da governo, existem formas de superar os fato-
Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentá- res estruturais de produção de desigualdade
vel1, elaborado pela sociedade civil com base e violação de direitos – o que envolve fazer
em dados oficiais, das 168 metas2 dos ODS cumprir o estabelecido pela Constituição Fe-
analisadas, nada menos que 80,34% estão em deral, assegurando “absoluta prioridade” às
retrocesso, ameaçadas ou estagnadas, en- políticas dirigidas a crianças e adolescentes.
quanto 14,28% tiveram progresso insuficiente.
A busca por soluções, segundo as fontes que
À pobreza, às desigualdades persistentes e consultamos, deve contemplar medidas como
ao racismo estrutural que marcam séculos as apresentadas a seguir. Em sua maioria, es-
da trajetória do País, atualmente somam-se sas medidas têm como foco mecanismos de
novas temáticas também fundamentais para gestão vinculados à garantia dos diretos da
que os direitos da infância e da adolescência população de 0 a 18 anos. Parte delas pode
sejam efetivamente assegurados. São assun- ser adotada diretamente pela administração
tos que surgiram ou ganharam relevância após federal, mesmo em cenários adversos. Outras
a promulgação do ECA, como mudanças cli- exigirão estudos aprofundados e debate am-
máticas, acesso à internet, consumo susten- plo com diferentes setores da sociedade.
tável, mobilidade urbana e impactos da pan-
demia de covid-19, entre tantos outros. Temas Em síntese, a efetivação dessas medidas tende
que, necessariamente, devem ser enfrentados a fortalecer de modo significativo a arquitetura
pelo próximo governo. institucional do País, possibilitando mais efici-
ência e agilidade no processo de implementa-
As reflexões e sugestões apresentadas nas pá- ção de políticas setoriais, como as formuladas
ginas deste capítulo introdutório ao Plano País pelos Grupos de Trabalho da Agenda 227 (as
levam em conta esse contexto de alta com- propostas detalhadas que integram o Plano
plexidade e são fruto de consulta abrangendo País para Infância e Adolescência estão dis-
especialistas e gestores de diferentes perfis poníveis a partir da página 36).
(veja na página 32 a relação completa dos
profissionais ouvidos). Para cada desafio iden-
tificado, apresentamos informações relativas
ao cenário atual, além de recomendações
quanto às respostas que devem ser encami-
nhadas pela administração federal.

8
DESAFIO

1. Priorizar a criança e o adolescente no orçamento público

Para que os direitos das crianças e dos adolescentes sejam garantidos, é preciso que
saiam do discurso político e se transformem em rubricas orçamentárias. Apesar das
determinações legais, os investimentos voltados à população de 0 a 18 anos ainda estão
longe de ser prioridade no orçamento público. Sem que essa priorização de fato aconteça,
é difícil assegurar os recursos necessários à implementação de políticas efetivas.

Cenário Percentual do Gasto Social com Crianças e


Adolescentes no Orçamento Geral da União
De 2016 a 2019, o Brasil destinou, em média, (2016 -2019)
apenas cerca de 3% dos recursos públicos fe-
5
derais para políticas voltadas a crianças e ado-
lescentes, segundo estudo realizado pelo Ipea 4
e pelo Unicef3. A estimativa para 2022 está 3,10 3,24 3,19 3,28
3
abaixo desse patamar (2,4%)4.
2
Em torno de 85% desses gastos se concentra-
1
ram nas principais áreas do sistema de prote-
ção social no Brasil: alívio à pobreza e assistên- 0
cia social (34,22%), saúde (28,75%) e educação 2016 2017 2018 2019
(22,15%). Porém, no que se refere ao alívio à Fonte: SIOP-SOF. Elaboração: IPEA/Unicef
pobreza e à assistência social, menos de um
terço dos recursos foram destinados aos pro-
gramas e ações do Sistema Único de Assistên- A análise mostra ainda que cerca de 70% dos
cia Social (Suas), que incluem a proteção bá- gastos do Governo Federal com a faixa etária
sica – em especial, o Benefício de Prestação de 0 a 18 anos são ampliados, ou seja, con-
Continuada (BPC), o Programa Criança Feliz e o templam essa população, mas não de forma
funcionamento dos conselhos ligados à área. exclusiva, demonstrando a preferência por al-
O restante dos gastos, cerca de 15%, apresen- cançar crianças e adolescentes por meio de
ta uma distribuição mais pulverizada e frag- políticas abrangentes, de caráter universal ou
mentada em setores como administração e voltadas para famílias ou grupos mais amplos.
pessoal ativo, segurança alimentar, habitação,
saneamento e esportes, entre outros. No mesmo período, o Governo Federal gastou
cerca de R$ 4,70 por dia com cada criança e
adolescente. Essa despesa é inferior a 1 dólar/
dia e quase quatro vezes menor que a linha de
pobreza para países com níveis de desenvol-
vimento semelhantes ao do Brasil, segundo o
Banco Mundial5.

9
Primeira infância dos, esses países precisariam aumentar seus
Os dados relativos à primeira infância são ain- investimentos em cerca de 0,9% do PIB para
da mais alarmantes. O gasto estimado com a educação, em 4,7% para a saúde e em 0,6%
as crianças de 0 a 6 anos de idade em 2021 para a proteção social.
representou 1,57% do Orçamento Efetivo da
União, o que equivale a 0,41% do PIB6, a des- O gasto com educação foi um dos mais afe-
peito dos dispositivos legais que determinam tados nos últimos anos. Em países de renda
sua priorização no orçamento. média e baixa, os recursos da área caíram de
15,7%, em 2014, para 14,4% do total do gasto
Gasto com primeira infância em relação ao PIB e público, em 2019. A América Latina foi uma das
ao Orçamento Geral da União (2021) regiões com maior queda na proporção de
gastos em relação ao total. De 2014 a 2019, eles
Total passaram de cerca de 19% para 16%.
%PIB %OGU*
(em bilhões)
GSPI A assistência social também foi uma área bas-
2021 0,41% 1,57% tante impactada. Ainda que a queda tenha se
R$36,09
(R$8,7 tri) (R$2,3 tri) manifestado em âmbito global, os países ri-
cos fazem gastos com proteção social 18 ve-
* Nota: Esta tabela conta com atualização dos dados em relação
zes maiores do que as nações de renda média
ao relatório publicado. Para o cálculo do percentual do Orça- e baixa. Isso significa que se precisaria de um
mento Geral da União, foi considerado o orçamento efetivo da acréscimo de cerca de 188 dólares per capita
União, em que são descontados o refinanciamento da dívida e
a repartição de receitas. nessa área, de forma a alcançar a proporção
de 8,5% do PIB, necessária para atingir um ní-
As áreas que mais receberam recursos desti- vel de proteção social universal.
nados à primeira infância em 2021 foram saú-
de, educação (que se sobressaem devido às De acordo com as previsões do relatório do
características obrigatórias de seus orçamen- Unicef, a partir de dados do Fundo Monetário
tos) e assistência social, representando quase Internacional (FMI), a expectativa até 2025 ain-
94% do total. A maior parte desses recursos foi da é de queda na receita do Estado em paí-
classificada como orçamento ampliado, o que ses de baixa e média renda8. Processos como
significa que beneficia a primeira infância e desaceleração da economia e seus efeitos
outros públicos. As ações específicas voltadas no mercado de trabalho, queda no preço de
para crianças de 0 a 6 anos, como a educação commodities, redução do investimento exter-
infantil e o Programa Criança Feliz, represen- no e uso de políticas de renúncia fiscal, entre
tam pouco mais de 1% do total do gasto social outros, são associados a esse fenômeno.
com a primeira infância.
Só com a renúncia fiscal, estima-se que os
Gasto social pós-covid-19 países mais pobres e em desenvolvimento
O futuro do gasto social no contexto pós- estariam perdendo em torno de 138 bilhões
-covid-19 é incerto e preocupante. Segundo de dólares por ano. Além disso, o crescimento
o relatório Covid-19 and Shrinking Finance da dívida pública nessas nações tem prejudi-
for Social Spending7, do Unicef, a tendência cado a sua capacidade fiscal, de modo que o
para os próximos anos continuará sendo de espaço para investimentos em política social
acirramento das condições de gasto público fica ainda mais constrangido.
e de dificuldade de financiamento da polí-
tica social. Diante desse cenário e das expectativas pou-
co animadoras para os próximos anos, é muito
De forma geral, países de renda média e baixa importante que o Governo Federal encontre
estão com níveis de investimento em políticas formas efetivas de priorizar as políticas vol-
sociais abaixo dos padrões mínimos estima- tadas às crianças e aos adolescentes em seu
dos pelas instituições internacionais. Agrupa- planejamento e execução orçamentária.

10
RECOMENDAÇÕES
Medição e monitoramento dos Avanços na
investimentos em crianças e adolescentes América Latina
A medição e o monitoramento do orçamento público federal são fun-
damentais para a efetivação dos direitos de crianças e adolescentes O Peru mantém, há
mais de 20 anos,
estabelecidos na Constituição e no ECA. Em 2016, o Comitê sobre os
uma política integral
Direitos da Criança, órgão da ONU, em seu Comentário Geral no 19, já de desenvolvimento
havia ressaltado a importância de se adotar esse tipo de mecanismo infantil precoce, que
no processo de formulação e execução dos orçamentos destinados à hoje é referência
população de 0 a 18 anos. internacional. O
Ministério de Economia
Em muitos países, a mensuração e o monitoramento de gastos pú- e Finanças (MEF) do país
blicos para o financiamento de políticas voltadas às populações desempenhou papel
mais vulneráveis – em especial, crianças e adolescentes – têm sido fundamental para o
apontados como requisitos cruciais para que o Estado seja capaz de sucesso da iniciativa,
ao alinhar o orçamento
implementar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS),
com metas específicas
pactuados na Agenda 2030. De forma geral, essas ferramentas repre- ligadas ao planejamento
sentam o primeiro passo para que contemos com um painel geral local para a obtenção de
das finanças públicas que permita, entre outros aspectos: resultados.
O trabalho intersetorial
1. Acessar um panorama nítido das diversas políticas e de seu grau
e intergovernamental
de pertinência. desenvolvido em
2. Saber qual o volume de investimento público necessário para ga- torno desses pilares
rantir a priorização dessas políticas. resultou em progressos
significativos. O
3. Identificar fontes sustentáveis de financiamento, incluindo espa-
mais relevante foi
ço fiscal. a diminuição da
desnutrição crônica
No Brasil, ferramentas com esse fim vêm sendo desenvolvidas e
infantil, de 28%, em
aprimoradas desde meados da década de 1990. Mais recentemente 2005, para 12,2%, em
(2019), o Ipea e o Unicef firmaram um acordo de cooperação com 2019 – um dos maiores
foco na construção da metodologia denominada Gasto Social com graus de redução em
Crianças e Adolescentes (GSC&A), que buscou aprofundar os procedi- nível global26.
mentos de cálculo dos gastos com esse público, visando uma leitura
mais robusta da orçamentação (processo de elaboração dos custos).

Acreditamos que a institucionalização dessa nova ferramenta ajudará


a tomada de decisões pelo Governo Federal e favorecerá o controle
social. Estudos realizados em nações que passaram a adotar a meto-
dologia C-PEM (Child-Focused Public Expenditure Measurement), que
utiliza o mesmo paradigma da GSC&A, demonstram grande avanço,
por exemplo, nos processos de transparência dos gastos com crianças
e adolescentes. Em alguns países latino-americanos – como México
e Peru – inclusive se registrou, nos últimos anos, expansão no investi-
mento público voltado a essa população.

11
Uma radiografia Um dos diferenciais da metodologia é o processo de garimpagem
detalhada realizado na execução financeira do orçamento, com o estudo de-
talhado das ações que contribuem para a concretização dos direitos
Para se ter uma da infância e da adolescência. São analisados tanto os gastos devida-
ideia da abrangência mente rubricados quanto os “diluídos” em políticas mais amplas de
do processo de todos os ministérios – isto é, não apenas daquelas pastas que tradi-
garimpagem que a cionalmente cuidam da área social.
metodologia GSC&A
realizou nos dados da Ao estudar o orçamento público entre 2016 e 2019, o Unicef e o Ipea
execução financeira
observaram um determinado perfil de gasto governamental. Cerca de
do Orçamento Geral
da União, basta saber
30% do total de gastos do orçamento com a faixa de 0 a 18 anos são
que foram analisadas específicos para esse público, enquanto em torno de 70% correspon-
entre 24 mil e 31,5 dem a despesas inseridas em outras políticas, como o SUS ou o Suas,
mil linhas em cada que movimentam grande volume de recursos e possuem extrema
um dos anos da série relevância para crianças e adolescentes, embora atendam à popula-
histórica considerada ção em geral.
(ou seja, 2016, 2017,
2018 e 2019). O objetivo Para identificar esses gastos não específicos – a maior parte de todo o
foi identificar todos montante destinado à área –, a metodologia recorreu a ponderadores
os programas, ações
que oferecem uma boa previsão das despesas em cada programa ou
e POs (identificação
orçamentária de caráter serviço que atende ao público infantil e adolescente.
gerencial) relacionados
à população de 0 a 18 Aprimoramento da capacidade do Governo Federal
anos. de desagregar os dados e marcar o orçamento
Como as ações e os
A inclusão de nomes específicos para alguns serviços de atendimento que
programas podem
ter sido extintos, se encontram em grandes sistemas, como o SUS e o Suas, promove trans-
incorporados ou parência aos números e ajuda o monitoramento da qualidade dos pro-
renomeados nas gramas e o controle social por parte dos conselhos de políticas públicas e
mudanças de um demais representações da sociedade civil.
exercício orçamentário
para outro, uma outra A recomendação dos especialistas e gestores ouvidos pela Agenda
difícil tarefa na aplicação 227 é que sejam incluídos no orçamento marcadores para dar visibi-
da metodologia foi lidade ao grupo em foco – por exemplo, Vacinação infantil, Atenção
realizar, anualmente, a
hospitalar à criança e ao adolescente e UTI neonatal, entre outros. A
compatibilização das
iniciativas que haviam
demarcação de um público-alvo no desenho da política pública tanto
sofrido alterações. indica prioridade como garante visibilidade à população que se pre-
tende alcançar.

12
Não se trata de elaborar rubricas em grande Caminhos para o aumento
quantidade, engessando o orçamento e difi- dos gastos sociais
cultando a gestão. É importante, porém, que Para atingir as metas dos Objetivos de Desen-
algumas especificidades relativas à infância e volvimento Sustentável nos próximos anos e
à adolescência, como as citadas, sejam discri- promover o acesso universal à educação, à
minadas para facilitar o processo de acompa- saúde e à proteção social, o Governo Federal
nhamento dos serviços básicos e essenciais terá que redobrar os esforços para aumentar
oferecidos a esse público. os gastos sociais. Segundo o relatório Covid-19
and Shrinking Finance for Social Spending, do
Um resultado importante nesse campo foi pro- Unicef, em média, o gasto social dos países de
duzido pelo GT do Orçamento para a Primeira renda média e baixa é de 1 dólar para cada 11
Infância9, que identificou um conjunto de mar- dólares investidos por nações mais ricas.
cadores dos gastos com as crianças de 0 a 6
anos, já inserido na Lei de Diretrizes Orçamen- Frente ao cenário de crise econômica e de
tárias (LDO) de 202310. A partir dessa iniciativa, limitação de recursos governamentais, o do-
os ministérios precisarão passar a indicar em cumento apresenta uma análise do contexto
seus orçamentos os programas que atendem a internacional pós-pandemia, apontando uma
primeira infância, segundo três critérios: gastos tributação mais justa como um dos caminhos
específicos, indiretos e ampliados. disponíveis para que os países consigam forta-
lecer o gasto público em políticas de garantia
Acreditamos, portanto, que o próximo gover- dos direitos da infância e da adolescência.
no deve adotar e ampliar esse trabalho no
âmbito do orçamento federal, agora com foco No caso do Brasil, atualmente mais de 60% dos
nos programas que atendem crianças maiores encargos sobre a renda bruta são provenientes
e adolescentes. Não é demais enfatizar que da tributação indireta, principalmente sobre bens
a institucionalização da avaliação dos gastos e serviços. Com isso, pobres e ricos acabam ten-
com essa população nos ciclos orçamentários do praticamente a mesma incidência de impos-
permite ao Estado monitorar o nível de cum- tos. Segundo um estudo elaborado pelo antigo
primento do paradigma da prioridade abso- Ministério da Fazenda11, o quintil mais pobre paga
luta, além de facilitar a identificação das áreas 20,7% da renda bruta em impostos, enquanto a
que merecem maior atenção. proporção para o quarto quintil mais rico é de
21,7%. Além disso, a maior alíquota marginal de
encargos diretos no Brasil é de 27,5%, relativa-
mente baixa em relação às de outros países.

Acreditamos que propostas como a redução da


tributação sobre o consumo e a taxação pro-
gressiva da renda, desonerando os quintis mais
pobres da pirâmide, precisam ganhar priorida-
de no Congresso Nacional, com o envolvimen-
to da bancada governista e do próprio Execu-
tivo. Adicionalmente, recomendamos fortalecer
mecanismos governamentais que combatam
dois problemas históricos do País, que também
comprometem a arrecadação da União: a eva-
são fiscal e os fluxos ilegais de capital.

13
O TETO DE GASTOS E A QUEDA NOS
INVESTIMENTOS SOCIAIS

Em 15 de dezembro de 2016, foi pro- na execução financeira dos órgãos e das


mulgada a emenda constitucional no políticas garantidoras de direitos que o
9527, que estabelece o Novo Regime Inesc acompanha. Boa parte dessa de-
Fiscal – também conhecido como teto sestruturação pode ser explicada pelo
de gastos públicos. Com as regras, em teto de gastos”, assinala o documento.
vigor desde 2017, as despesas do Exe-
cutivo, do Legislativo e do Judiciário A emenda constitucional prevê que a
estão limitadas aos valores do orça- regra do Novo Regime Fiscal tenha va-
mento do ano anterior, corrigidos pela lidade de 20 anos, podendo ser revista
inflação. Ou seja, o mecanismo de teto após dez anos em vigor. Na prática, no
de gastos impede aumentos reais nas entanto, o Governo Federal tem usa-
despesas, com a justificativa de evitar o do diversos mecanismos para poder
descontrole das contas públicas e frear desconsiderar o teto em determina-
o crescimento da dívida. dos gastos. A primeira alteração veio
com a proposta de emenda à Consti-
Trata-se, portanto, de uma agenda que tuição (PEC) no 98/2019, transformada
deverá ser enfrentada pela nova admi- na emenda constitucional no 10229, que
nistração federal e pelos parlamentares autoriza o Governo Federal a não incluir
que tomam posse em 2023: como en- no teto de gastos as transferências a
contrar mecanismos de financiamento estados e municípios ligadas à cessão
dos gastos sociais que sejam capazes onerosa do pré-sal. O teto também foi
de atender às crescentes demandas alterado por outras duas PECs, para o
da população mais desfavorecida e, ao pagamento do auxílio emergencial du-
mesmo tempo, garantir um cenário de rante a pandemia e para a revisão das
contas públicas sob controle? regras de pagamento de precatórios.

Muitos analistas e diferentes forças po- A mais recente mudança nas regras do
líticas entendem que a restrição de gas- teto de gastos – a PEC no 1/2022, do Se-
tos é um fator que penaliza, especial- nado Federal, transformada na emen-
mente, as políticas sociais e a população da constitucional no 12330 –, autorizou
mais desfavorecida. É essa a opinião, a concessão de até R$ 41,2 bilhões em
por exemplo, do Instituto de Estudos benefícios fiscais, às vésperas da eleição
Socioeconômicos (Inesc), que, em seu de 2022. “A PEC no 1/2022 fragiliza ainda
Balanço do Orçamento Geral da União mais a regra do teto de gastos e reduz a
202128, defende o fim do teto de gas- confiança no compromisso com a dis-
tos. “Quando analisamos os gastos en- ciplina fiscal”, analisa um documento da
tre 2019 e 2021, sem levar em conta as Instituição Fiscal Independente31, órgão
despesas com covid-19, observamos, do Senado Federal de acompanha-
com raras exceções, quedas expressivas mento orçamentário.

14
DESAFIO

2. Fortalecer a articulação intersetorial e federativa

A necessidade de ampla articulação entre as ações desenvolvidas nas diversas áreas que
dizem respeito aos direitos da infância e adolescência, associada à complexidade gerada
pela divisão de tarefas entre União, estados e municípios, representa um desafio de
grandes proporções, que precisa ser enfrentado com urgência – seja por meio da criação
de novas estruturas de coordenação, seja pela reformulação das já existentes.

Cenário
O modelo de federalismo adotado pelo Brasil Considerado uma das principais inovações tra-
é bastante complexo, espelhando um país de zidas pelo ECA, o próprio Sistema de Garantia
dimensões continentais, com grande diversi- dos Direitos da Criança e do Adolescente (SGD)
dade regional e uma desigualdade histórica. não vem conseguindo refletir esse modelo ar-
Nesse desenho, as competências são com- ticulador, que deveria integrar os órgãos gover-
partilhadas, o que segue exigindo especial namentais, o sistema de Justiça e a sociedade
atenção – em que pesem os avanços regis- civil na aplicação das leis e na implementação
trados, não raro acontecem indefinições sobre de ações e programas intersetoriais.
quais responsabilidades efetivamente cabem
a municípios, estados e União. Até hoje não Mesmo com a proliferação de iniciativas con-
contamos com um mecanismo encarregado cebidas a partir de uma lógica intersetorial, es-
de operar a coordenação geral das políticas pecialistas e gestores apontam que persiste no
públicas dirigidas às crianças e aos adolescen- Brasil uma abordagem fragmentada em seu
tes entre os níveis nacional e subnacional12. processo de gestão. Um exemplo é o fato de
que as principais políticas sociais não têm sido
Apesar dos progessos conceituais e legais – implementadas em alinhamento com as medi-
Convenção sobre os Direitos da Criança, Esta- das de proteção especial dirigidas a crianças e
tuto da Criança e do Adolescente, Marco Legal adolescentes13. Ilustra o problema a ausência de
da Primeira Infância e legislações correlatas –, políticas com ênfase na prevenção da violência
há um consenso entre os especialistas e gesto- – há um consenso de que não se resolve desa-
res ouvidos pela Agenda 227 de que também fios dessa dimensão focando somente no aten-
falta articulação intersetorial nas políticas diri- dimento às vítimas. Trata-se de um fenômeno
gidas a esse público. Ou seja, o Brasil tem difi- complexo, de cunho sistêmico, cuja solução de-
culdade em coordenar a atuação de sujeitos de pende de uma ação integral e coordenada.
campos diversos, detentores de saberes e po-
deres distintos, a fim de garantir o atendimento
integral à infância e à adolescência.

15
RECOMENDAÇÕES
Criação de uma coordenação interministerial
de políticas para crianças e adolescentes, de modo a articular
atores e ações hoje pulverizadas entre as diversas pastas
Cumprir o que está estabelecido constitucionalmente, assegurando
absoluta prioridade aos direitos da infância e da adolescência, exige
promover uma reorganização das estruturas governamentais existen-
tes, incluindo a identificação do órgão a quem caberia responsabili-
dade primordial por essa agenda e a definição de seu modo de ope-
ração. É a partir dessa instância que deverão se irradiar as diretrizes de
ação para as demais áreas que possuem interface com a garantia dos
direitos da população de 0 a 18 anos.

A estratégia de centralização da gestão deve acontecer por meio de


um órgão que reúna conhecimento técnico, estrutura adequada e
poder decisório, viabilizando uma efetiva articulação entre as políticas
econômicas, sociais e ambientais básicas (setoriais) e as medidas de
proteção especial para crianças e adolescentes em situação de vul-
nerabilidade social.

De acordo com os especialistas e gestores consultados pela Agenda


227, operar a partir de uma perspectiva abrangente permitiria a essa
instância coordenadora evitar a dispersão de programas geridos por
secretarias situadas em um grande número de ministérios, reduzin-
Seminário com do o risco de se criarem medidas que tratam subsidiariamente do
os ministros mesmo assunto, a partir de diretrizes diferentes. Adicionalmente, seria
possível também responder com agilidade a novos desafios e oportu-
Um elemento essencial nidades relativo à proteção e à promoção dos direitos da população
para consolidar a de 0 a 18 anos, que tendem a surgir ao longo do tempo.
mudança de status
da infância e da Durante os diálogos realizados, diferentes possibilidades foram levan-
adolescência no âmbito tadas. Uma delas seria a criação de uma Câmara Interministerial dos
da administração federal
Direitos da Criança e do Adolescente, com participação do alto esca-
seria a realização, logo
no início de 2023,
lão de cada pasta. Além das deliberações internas, esse órgão deveria
de seminário com também manter reuniões periódicas com representantes dos diver-
foco nas questões sos conselhos de políticas públicas e da sociedade civil organizada.
prioritárias para essa
faixa etária, reunindo Para que essa estrutura de governança venha a alcançar o grau espe-
os ministros das rado de efetividade, adicionalmente seriam definidas coordenadorias
diferentes pastas. Um ou áreas da infância e da adolescência em todas as pastas, com vin-
evento com este perfil culação ao gabinete de cada ministro e sob o comando de assessores
aceleraria o processo especiais. Essas instâncias teriam a função de acolher as diretrizes tra-
de disseminação e
çadas e planejar sua implementação no âmbito das várias secretarias,
transversalização da
pauta dos direitos da além de monitorar e avaliar todas as etapas do processo.
criança e do adolescente
junto às diferentes Na percepção dos profissionais ouvidos pela Agenda 227, para que essa
estruturas de governo. Câmara Interministerial consiga verdadeiramente exercer um papel de
coordenação, deveria estar subordinada à Presidência da República.

16
Por sua vez, um caminho alternativo à criação Um avanço necessário nesse sentido envolve
de uma nova instância seria fortalecer signifi- concentrar a coordenação das políticas atre-
cativamente a Secretaria Nacional dos Direitos ladas ao SGD em órgãos que possuam cla-
da Criança e do Adolescente, hoje ligada ao ra afinidade com as questões de maior perfil
Ministério da Mulher, da Família e dos Direi- estratégico. Vale saber que, quando o sistema
tos Humanos. Para que essa opção viesse a foi desenhado, havia a previsão da criação de
produzir os avanços esperados, entre outras um Ministério de Direitos Humanos na esfera
medidas, seria fundamental que o Governo federal e de secretarias dessa mesma área nos
Federal colocasse sob sua responsabilidade a níveis estadual e municipal – projeto que não
coordenação de toda e qualquer ação, progra- saiu do papel. Em consequência, órgãos consti-
ma ou política pública voltada à população de tuídos com a missão de integrar o SGD ficaram
0 a 18 anos. privados de uma estrutura de governança mais
efetiva, em especial no que se refere à articula-
Uma terceira opção mencionada durante as ção das políticas entre os três níveis federativos.
consultas foi a de tornar o Conselho Nacio-
nal dos Direitos da Criança e do Adolescente Exemplo: atualmente o Ministério da Mulher,
(Conanda) de fato um órgão de coordenação da Família e dos Direitos Humanos coordena o
executiva – isto porque já reúne representan- Sistema Nacional de Atendimento Socioedu-
tes governamentais de diversas pastas e tam- cativo (Sinase), porém não detém real coman-
bém lideranças de organizações da sociedade do sobre a implementação dos programas so-
civil. Esse caminho exigiria, entretanto, que o cioeducativos, que atendem os adolescentes
desenho institucional do colegiado fosse am- a quem se atribuiu ato infracional.
plamente reformulado, o que poderia exigir
tramitação de um projeto de lei específico no Quanto às medidas de internação, a execução
Congresso Nacional (ver mais sobre o assunto encontra-se disseminada em diversas secre-
no bloco “Recuperar e ampliar os espaços de tarias estaduais – direitos humanos, assistên-
participação social”). cia social ou desenvolvimento, entre outras. Já
as medidas em meio aberto ficaram sob res-
ponsabilidade das administrações municipais,
Alinhamento das competências
onde também sofrem com a dispersão setorial,
dos atores do SGD e do Sinase
estando ancoradas em diferentes secretarias.
nos três níveis da federação
Diante de várias limitações identificadas pelos
estudos que analisam ao longo do tempo o
desempenho dos mecanismos instituídos pelo
ECA, é de extrema importância que se aprimo-
re o modelo de operação do Sistema de Ga-
rantia dos Direitos da Criança e do Adolescente
(SGD), inclusive estabelecendo recursos admi-
nistrativos capazes de articular suas ações nos
níveis federal, estadual e municipal.

17
OS PLANOS QUE O BRASIL DEVE FORMULAR

Os Grupos de Trabalho da Agenda de um governo específico, o que pode-


227 ressaltaram a importância de o ria comprometer sua continuidade.
País elaborar, por meio de ampla mo-
bilização social e da participação de Elaborado com base no diálogo entre
meninas e meninos, um novo Pla- diferentes atores, o documento com
no Decenal de Direitos Humanos de as diretrizes da estratégia aponta que
Crianças e Adolescentes. a construção de uma sociedade ami-
Ao mesmo tempo, deve-se atualizar ga da infância e da adolescência é uma
o conjunto de planos setoriais que se tarefa que deve ultrapassar as frontei-
referem a esses grupamentos etários, a ras administrativas, sendo fundamental
exemplo do: a intercolaboração entre os diferentes
setores do Estado32.
• Plano Nacional de Enfrentamento da
Violência Sexual. Articulação federativa
• Plano Nacional de Prevenção e Erra- O envolvimento dos três níveis da fe-
dicação do Trabalho Infantil e Prote- deração é outro elemento central para
ção ao Adolescente Trabalhador. o sucesso tanto de um Plano Decenal
• Plano Nacional de Promoção, Prote- de Direitos Humanos de Crianças e
ção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes como dos diversos pla-
Adolescentes à Convivência Familiar nos setoriais. Nesse contexto, o Brasil
e Comunitária (processo já iniciado). pode encontrar referências positivas
• Plano Nacional de Atendimento So- em seu próprio passado.
cioeducativo.
Em outubro de 1991, pouco mais de um
• Plano Nacional pela Primeira Infância
ano após a promulgação do Estatuto da
(neste caso, não se trata de revisar,
Criança e do Adolescente, foi lançado o
mas sim de elaborar indicadores e
Pacto pela Infância, iniciativa de setores
metas temporais).
organizados da sociedade civil apoia-
Facilita bastante essa tarefa, natural- da pelo Unicef. Sete meses depois, a
mente, o fato de ao longo de 2022 a so- articulação promoveu a I Reunião de
ciedade civil organizada haver investido Cúpula dos Governadores pela Crian-
esforços na construção das 137 propos- ça, chamando a atenção do país para a
tas que integram o Plano País para a gravidade da situação vivida pelos seg-
Infância e a Adolescência. mentos mais vulneráveis da popula-
ção e evidenciando a possibilidade de
Uma estratégia de longo prazo efetivamente se enfrentar o problema,
Ao colocar foco na formulação ou apesar das dificuldades experimenta-
atualização de seus planos, o Brasil das pelo País no campo econômico.
pode inspirar-se nos processos desen-
volvidos por outros países para a cons- Os governadores se comprometeram
trução de políticas voltadas à popula- a desenvolver um Plano de Ação Esta-
ção de 0 a 18 anos. dual nas áreas de saúde, educação e
proteção especial à criança – vale no-
Nesse contexto, se destaca uma inicia- tar que o processo de elaboração des-
tiva do governo finlandês, a National ses planos, em grande parte dos casos,
Child Strategy, que tem como diferen- acabou envolvendo a participação de
cial contar com um planejamento de organizações da sociedade civil. Na II
longo prazo, com execução até 2040. Reunião de Cúpula, cada estado tam-
A cada eleição, os novos governantes bém apresentou metas específicas
devem formular o plano de implemen- para as políticas de garantia dos di-
tação da estratégia para seu mandato. reitos da infância e da adolescência, a
Assim, garante-se que a iniciativa seja serem cumpridas até o final dos man-
de fato uma política de Estado – e não datos vigentes.

18
DESAFIO

3. Recuperar e ampliar os espaços de participação social

A mobilização da sociedade civil foi responsável por diversos avanços na formulação e na


implementação das políticas públicas ao longo das últimas décadas. Fortalecer os conselhos
setoriais e ampliar os espaços de participação – incluindo crianças e adolescentes nos processos
de escuta – são o caminho para continuar consolidando nosso arcabouço democrático.

Cenário
Muitos dos avanços registrados pelo Brasil na No campo da gestão pública, uma das prin-
área da infância e da adolescência desde a re- cipais inovações trazidas pela Constituição de
democratização do País ocorreram por conta 1988 foi a criação dos conselhos de políticas
de uma intensa mobilização da sociedade ci- setoriais, envolvendo não apenas profissionais
vil. Exemplo dessa capacidade de incidência vinculados a diferentes órgãos do poder Exe-
está na inclusão, na Constituição Federal de cutivo, mas também representantes da socie-
1988, dos conceitos de que a criança e o ado- dade civil organizada. Esses conselhos se des-
lescente são sujeitos de direitos e de que seus tacam como ferramenta fundamental para o
cuidados e sua proteção são responsabilidade exercício da democracia participativa, já que
não apenas da família, mas também do Esta- permitem aos diferentes setores da socieda-
do e da sociedade. Foi a primeira vez que uma de contribuir, diretamente, com o processo de
carta constitucional brasileira assegurou direi- formulação das políticas públicas.
tos específicos a meninas e meninos14.
No caso do ECA e no âmbito da União, essas
Essa participação também foi decisiva na ela- atribuições são dirigidas ao Conselho Nacional
boração e na promulgação do Estatuto da dos Direitos da Criança e do Adolescente (Co-
Criança e do Adolescente (ECA), em 1990, re- nanda). O texto da lei também estabelece que o
gulamentando artigos da nova Constituição e mesmo modelo deve ser replicado nos âmbitos
adequando nosso marco legal aos princípios municipal e estadual. Outra medida de extrema
estabelecidos pela Convenção sobre os Direi- relevância, presente no Estatuto, instituiu os Con-
tos da Criança (CDC), aprovada pelas Nações selhos Tutelares, órgãos formados por represen-
Unidas no ano anterior. O ECA é, de fato, resul- tantes eleitos pela comunidade e que atuam nos
tado de uma construção coletiva, envolvendo municípios para assegurar o cumprimento dos
parlamentares, governo, sistema de Justiça, direitos da criança e do adolescente16.
movimentos sociais, pesquisadores, organiza-
ções de defesa dos direitos da criança e do Na época em que foi instituído (1991), o Conan-
adolescente e diversos outros atores15, com- da destacou-se por sua composição até então
prometidos em substituir o paradigma até inédita, já que o ECA determina uma paridade
então vigente, de caráter majoritariamente democrática entre membros do Executivo e
repressivo, pela doutrina da proteção integral. da sociedade civil – posteriormente o modelo

19
Processos de foi adotado em outras áreas governamentais. Cabe ao colegiado não
aperfeiçoamento apenas deliberar sobre as políticas para a população de 0 a 18 anos,
como também atuar em sua fiscalização, promover a gestão de ban-
Vale notar que qualquer cos de dados com informações sobre esse público e acompanhar o
reforma de grande porte orçamento da União, de modo a garantir a destinação de recursos a
relativa ao modelo de
políticas e programas específicos, além de gerir o Fundo Nacional para
operação do Conanda
deve ser construída a Criança e o Adolescente (FNCA)17.
por um grupo de
trabalho formado Essa estrutura, no entanto, precisa ser aprimorada. Os especialistas e
por representantes gestores ouvidos pela Agenda 227 apontam, por exemplo, a limitada
do Estado brasileiro efetividade das medidas tomadas pelo Conanda – em grande par-
e de organizações te decorrente da reduzida capacidade para fazer valer suas decisões
da sociedade civil, junto aos órgãos da administração federal. A adoção de um planeja-
tendo como referência mento de largo escopo, focando as questões mais estratégicas para
análises aprofundadas
a agenda dos direitos da criança e do adolescente, também poderia
dos méritos e limites
dos mecanismos de
fortalecer a atuação do Conselho. Além disso, a experiência acumu-
deliberação e gestão lada ao longo de mais de três décadas de atuação permite atualizar
vigentes. Já no que se o perfil das representações governamentais e da sociedade civil que
refere à formalização integram o colegiado.
de eventuais medidas
de aperfeiçoamento
do modelo, parte delas
dependerá apenas de
um decreto presidencial.
Mudanças de maior RECOMENDAÇÕES
escopo, entretanto,
exigirão tramitação no
Congresso Nacional. Fortalecimento da representatividade do Conanda
Qualquer que seja o contexto vivido pelo Brasil a partir de 2023, o pri-
meiro passo no campo da participação da sociedade civil deve neces-
sariamente ter como foco a restauração da legitimidade e da autori-
dade do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Ainda no primeiro ano do atual governo, o decreto presidencial no
10.003/201918 tentou alterar a estrutura e o funcionamento do cole-
giado, claramente visando esvaziar sua capacidade de deliberação e
coordenação das políticas públicas.

No modelo de representação até então vigente, os representantes


do Executivo (titulares e suplentes) eram indicados diretamente pe-
los ministros de determinadas pastas. Já os ocupantes dos assentos
reservados à sociedade civil eram escolhidos em assembleia, a cada
dois anos, por um conjunto de entidades do setor com atuação em
âmbito nacional sabidamente voltada para a garantia dos direitos de
crianças e adolescentes.

Entre diversas alterações, o decreto reduzia de 28 para 18 o número


de integrantes do colegiado e eliminava o processo democrático de
escolha dos membros da sociedade civil, cuja seleção passaria a ser
uma atribuição do próprio Governo Federal. Além disso, a escolha da
pessoa responsável por presidir o Conselho ficaria a cargo da Presi-
dência da República.

20
Mobilizadas pelo Fórum Nacional dos Direitos da Criança e do Ado- Conferências nos níveis
lescente (Fórum DCA), mais de 100 organizações da sociedade civil nacional, estadual
protocolaram um apelo público ao Supremo Tribunal Federal, que e municipal
acabou por assegurar a permanência do modelo de participação so-
cial plena para a composição do Conanda. Foram mantidas apenas O ciclo de conferências
três mudanças presentes no texto do decreto: a redução do número coordenado pelo
de conselheiros titulares, a impossibilidade de recondução dos con- Conanda, que culmina
selheiros e o voto de minerva do presidente do Conselho como for- em um evento
ma de resolução de impasses. Essas alterações também precisam ser reunindo centenas de
representantes das
revistas, o que pode ser realizado por iniciativa do Palácio do Planalto
diversas Unidades
ou do Congresso Nacional. da Federação,
representa um espaço
Não se deve perder de vista, entretanto, que o processo de fortaleci- particularmente valioso
mento da atuação do Conanda na construção das políticas voltadas para o debate em torno
as crianças e adolescentes exige que outros aspectos igualmente es- das políticas prioritárias
tratégicos sejam contemplados. No entendimento dos especialistas para a garantia dos
e gestores consultados pela Agenda 227, um ponto que merece ser direitos das novas
revisto com prioridade diz respeito ao perfil de seus integrantes. gerações.
É fundamental, portanto,
No que se refere aos representantes do governo, duas questões me- que o novo governo
recem atenção: federal assegure a
realização da 12ª
• Ampliar a quantidade de ministérios com assento no colegiado, a Conferência Nacional
fim de que novas temáticas, hoje fundamentais para a garantia dos dos Direitos da Criança
direitos da população de 0 a 18 anos, sejam objeto de deliberação e do Adolescente em
qualificada – casos da agenda ambiental, da comunicação/internet novembro de 2023,
e do desenvolvimento urbano, entre outros. oferecendo o necessário
• Assegurar que os representantes governamentais detenham ca- apoio financeiro,
técnico e logístico e
pacidade efetiva de articular e promover medidas em prol dos
se comprometendo
direitos das crianças e dos adolescentes em seus respectivos mi- a implementar as
nistérios. Ou seja, além de elevado grau de conhecimento técnico, diretrizes e ações
é essencial garantir que esses quadros também contem com sufi- aprovadas no evento.
ciente poder político para participar das deliberações do colegia- Também deve apoiar,
do e fazê-las valer. antes da etapa
nacional, a realização
Quanto à participação da sociedade civil, também faz sentido olhar das conferências
inicialmente para dois aspectos: municipais/regionais
e estaduais, de modo
• Assim como no nível governamental, o primeiro ponto se refere à a garantir a ampla
necessidade de incluir representantes de entidades civis ligadas a participação social
diversas dimensões do desenvolvimento inclusivo e sustentável, (incluindo a de crianças
de modo a contemplar pautas hoje extremamente relevantes – e adolescentes) e a
mas que, por diferentes motivos, não possuíam visibilidade su- representação dos vários
ficiente no que se refere à garantia dos direitos da infância e da órgãos governamentais.
adolescência quando a estrutura do colegiado foi formulada.
• Outro elemento relevante diz respeito à qualificação do processo
de escolha dos representantes da sociedade civil com assento no
Conanda. Com base no estudo da experiência acumulada ao lon-
go das últimas décadas, é possível encontrar formas de aperfeiço-
ar o modelo vigente, de modo que o colegiado seja orientado por
uma visão estratégica de maior escopo.

21
Fortalecimento do poder
decisório do Conanda
De acordo com os especialistas e gestores ou-
vidos pela Agenda 227, há tempos o Conanda
vem enfrentando obstáculos para fazer com
que suas decisões efetivamente sejam imple-
mentadas. Grande parte do problema pode
ser atribuída à própria natureza intersetorial
do colegiado, pois as políticas que dizem res-
peito à garantia de direitos da infância e da
adolescência, incluindo a execução orçamen-
tária, estão sob a responsabilidade de um am-
plo grupo de ministérios.

Em síntese, o Conselho deveria contar com


mecanismos que facilitassem a superação das Merece particular atenção o modelo adotado
resistências de ordem técnica ou política que pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), ins-
costumam surgir em órgãos demandados a im- tância que integra a estrutura do Ministério
plementar ações deliberadas por instâncias às da Saúde. Segundo seu regimento, todas as
quais não estão diretamente subordinados. Para deliberações que se transformam em reso-
o Conanda, esse tipo de ferramenta institucional luções aprovadas pelo colegiado devem ser
representaria o fortalecimento de sua capacida- homologadas pelo ministro da pasta em até
de de ver cumpridas resoluções com foco em 30 dias. Se o processo de homologação não
setores tão diversos como educação, saúde, as- ocorrer no prazo previsto, a resolução deve
sistência social, justiça ou meio ambiente. ser devolvida ao plenário do CNS já na reu-
nião seguinte, acompanhada de justificativa e
Vale ter em conta que mesmo os conselhos de proposta alternativa. O plenário então analisa
políticas públicas de áreas temáticas específi- esse material e decide se revoga, modifica ou
cas – ou seja, menos dependentes de articu- mantém a resolução original. Mesmo se não
lações intersetoriais – também precisam lidar for modificado, o texto deve ser encaminhado
com barreiras para ver implementadas suas uma vez mais para homologação ministerial.
decisões. Alguns deles acabaram desenvolven- Também vale registrar que as resoluções do
do medidas que, se não resolvem por comple- CNS só podem ser revogadas por seu plenário.
to o problema, conseguem assegurar ganhos
importantes tanto em agilidade na tramitação A adoção de um mecanismo similar ao do CNS
de suas resoluções no âmbito ministerial como pelo Conanda exigiria que o processo de ho-
em capacidade de conseguir o efetivo cumpri- mologação de suas resoluções encontrasse
mento delas. respaldo não apenas em um, mas em todo o
conjunto de ministérios, na medida em que as
deliberações do Conselho os impactam – sem
dúvida, um desafio de grande magnitude. Mas
na opinião dos especialistas e gestores con-
sultados pela Agenda 227, se forem realizados
os necessários estudos – e havendo suficien-
te vontade política –, será possível formular
o arranjo institucional adequado para que o
Conselho Nacional dos Direitos da Criança e
do Adolescente passe a contar com um instru-
mento capaz de fortalecer as deliberações que
envolvam outros órgãos do Governo Federal.

22
REINVINDICAÇÕES E PROPOSTAS DAS
CRIANÇAS E DOS ADOLESCENTES
PARA O BRASIL

O envolvimento direto de crianças e adoles- Durante os eventos de escuta, foi ainda en-
centes nos assuntos que lhes dizem respeito fatizada a necessidade de que as políticas
é uma conquista importantíssima da Conven- públicas voltadas a essas faixas etárias sejam
ção sobre os Direitos da Criança e do próprio estruturadas de modo participativo e qualifi-
ECA. Em alinhamento com esse princípio, a cado nos processos de consulta. Sinalizou-se,
Agenda 227 articulou um amplo processo de de forma específica, o interesse em contri-
escuta, que contou com a colaboração de vá- buir ativamente na elaboração e no contínuo
rias organizações parceiras e envolveu mais de monitoramento da execução do orçamen-
mil crianças, adolescentes e jovens, entre 2 e to público. Por isso, os adolescentes e jovens
21 anos. cobram a criação de modelos de orçamento
participativo nas cidades, para que cada cida-
Em parceria com instituições como Unicef, dã ou cidadão possa se manifestar sobre as
América Solidária, Instituto Aliança com o ações que considere prioritárias.
Adolescente e Rede Cidadã, foram realiza-
dos 12 eventos on-line, seis presenciais e três Quanto aos desafios mais urgentes para o
em formato híbrido, no total alcançando 588 País, a falta de acesso à educação de quali-
pessoas do gênero feminino, 344 do gênero dade foi mencionada pelo maior número de
masculino e 15 não binárias, na faixa de 15 a participantes. Outras questões relevantes são
21 anos. a evasão escolar, o trabalho infantil e a falta de
moradia digna. Apontaram, além disso, que a
Entre os principais desafios apontados nas escola não prepara para a entrada no mercado
consultas, se destaca precisamente a dificulda- de trabalho. O desemprego também preocu-
de de ser ouvido, pois a sociedade não oferece pa, com destaque para o fato de que as ofer-
espaços qualificados para que essa população tas de emprego sempre exigem experiência
possa opinar sobre questões que a afetam di- anterior. Ressaltaram, ainda, a necessidade de
retamente. Indagados sobre as soluções, indi- programas de inserção no mercado de traba-
caram a necessidade de incluir os adolescentes lho voltados para pessoas negras e minorias,
e jovens em lugares de fala, como comitês e especialmente adolescentes trans.
conselhos, tanto na área da infância e da ado-
lescência como na da juventude – nos níveis
municipal, estadual e federal. Aspectos relati-
vos à garantia de diversidade nessa representa-
ção também tiveram destaque.

Para além da esfera oficial, a valorização e a


promoção de grupos por outros setores da
sociedade, a exemplo do Núcleo de Cidadania
de Adolescentes (NUCA), do Unicef, foram ci-
tadas como uma estratégia importante para a
participação cidadã.

23
Em outro levantamento – realizado no forma- de modo a que suas necessidades, anseios e
to de roda de conversa e enquete on-line pelo interesses sejam efetivamente priorizados.
programa Criativos da Escola, do Instituto Ala-
na, 43 crianças e adolescentes de 11 a 17 anos, Ao contrário do que o senso comum poderia
moradores de 24 municípios de 14 estados e sugerir, essas conversas com adolescentes de
das cinco regiões brasileiras, foram chamados todo o Brasil evidenciam também a percep-
a elencar os temas que mais os preocupam. A ção, muito bem estabelecida, de que não se
área da educação foi a mais lembrada, seguida enxergam apenas como seres do futuro, mas
de questões como fome, pobreza, desigualdade também do agora. São indivíduos que parti-
e saúde. Aspectos ligados à agenda LGBTQIA+, cipam ativamente de ações diretas em suas
cultura, profissionalização e acesso ao merca- escolas e comunidades, mas sem deixar de se
do do trabalho, enfrentamento das violências e envolver com questões econômicas estrutu-
igualdade racial também marcaram presença. rais e de planejamento do País.

De forma geral, o grupo entende que seus di- Já o Portal Lunetas, do Instituto Alana, foi ouvir a
reitos à saúde (física e mental), à cultura, à edu- opinião de 40 crianças de 2 a 12 anos, de diferen-
cação de qualidade e a uma vida com opor- tes perfis socioeconômicos, etnias, com e sem
tunidades para todos estão longe de ser uma deficiência e de diversas regiões do País. Entre
realidade hoje. Garotas e garotos pleiteiam, outros tópicos, meninas e meninos pediram mais
entre outras reivindicações, ter assegurada sua atenção aos problemas sociais, mais empatia em
participação em espaços de discussão e de- relação aos vulneráveis e melhor proteção ao
liberação, para poder influenciar na mudança meio ambiente e aos animais. Também foi ma-
de pautas dos poderes Legislativo e Executivo, nifestada a preocupação com a alta dos preços.

Exemplos internacionais de participação efetiva


No Peru, as opiniões e recomendações de quase duas mil crianças e adolescentes
foram consideradas no Relatório Nacional sobre a Situação dos Direitos de Crianças
e Adolescentes. O documento foi apresentado, em 2020, pelo Coletivo Interinstitu-
cional pelos Direitos das Crianças e Adolescentes e pela Mesa de Concertação para
a Luta Contra a Pobreza, no contexto da comemoração dos 30 anos da Convenção
sobre os Direitos da Criança da ONU.

Crianças e adolescentes foram enfáticos ao manifestar suas necessidades de atenção


em diversos âmbitos, como o familiar, o comunitário e o institucional, assim como
em serviços de saúde, educação e proteção. O resultado levantou um debate público
sobre a importância de revisar e discutir os avanços e desafios relativos à implemen-
tação dos princípios da Convenção, a fim de impulsionar reformas baseadas em uma
política nacional integral de proteção de crianças e adolescentes.

Na Finlândia, todo o processo de construção da iniciativa voltada à garantia dos direitos


da infância e da adolescência (National Child Strategy) contou com a participação qualifi-
cada de crianças e adolescentes. Em outra vertente, meninas e meninos também foram
chamados a se expressar sobre o projeto de reforma do Climate Act, a lei sobre mudan-
ças climáticas do país, por meio de uma consulta pública. Além disso, participaram, ao
lado de ministros e outras autoridades, de uma mesa-redonda sobre a mitigação dos
impactos das mudanças climáticas por meio do aperfeiçoamento da legislação do setor.

24
Quando chamadas a indicar a primeira medida que tomariam, caso Presença qualificada
ocupassem a cadeira presidencial, as crianças priorizaram dar casa, no Conanda
comida e escola para aqueles que precisam, a fim de acabar com a
fome e a desigualdade. Na visão delas, a/o presidente dos sonhos é Caso o Conanda decida
alguém honesto, que efetivamente escute e ajude as pessoas e pense fazer uma avaliação
no futuro do País. aprofundada das
iniciativas que promoveu
A moradia e a alimentação foram apontadas como os problemas nos últimos anos com
mais urgentes a serem enfrentados pelo novo governo, seguidos por a participação de
violência e por preconceito. Além disso, foi mencionada a importân- crianças e adolescentes,
cia de se conter a onda de alta da inflação. Mesmo diante de tantos é possível encontrar
formas de fortalecer
desafios, as crianças não deixaram de apontar que também querem
e qualificar esses
mais diversão em suas vidas. processos, apontam os
especialistas e gestores
A autenticidade e a consistência das ponderações, sugestões e pro- consultados pela
postas obtidas pelos três levantamentos demonstram a importância Agenda 227.
de estimular a participação e o envolvimento real de crianças e ado- Entre outros avanços,
lescentes, de modo permanente, em todas as decisões no âmbito da estariam a garantia
família, da escola e da vida social. da representatividade
e da diversidade do
Para isso, deve-se buscar, no nível nacional, a criação de estruturas e envolvimento de
mecanismos adequados. Investir na qualificação e no fortalecimen- crianças e adolescentes,
to da participação dos adolescentes no contexto do Conanda é uma o fortalecimento de sua
presença em momentos
possibilidade imediata. Mas outros canais de diálogo certamente de-
decisivos (como as
vem ser estruturados pela nova administração federal, em parceria
Conferências Nacionais)
com a sociedade civil. e a promoção de outras
formas de escuta, por
meio de consultas
Ampliando os espaços de participação públicas.
De acordo com os grupos de trabalho que formularam as propostas
de políticas públicas que integram o Plano País da Agenda 227, é ur-
gente fomentar a participação popular nos espaços de formulação,
decisão e controle das políticas públicas, por meio do fortalecimento
de conselhos, conferências e fóruns e de estímulo e apoio à organi-
zação dos diversos grupos de interesse. Do mesmo modo, deve ser
garantida a presença de crianças e adolescentes nesses espaços, com
direito a voz e voto, com equidade e a inclusão de minorias e grupos
historicamente excluídos.

Nesse sentido, também é importante o incentivo, por parte do Exe-


cutivo federal, à instituição de fóruns e esferas permanentes de par-
ticipação e escuta infantil e adolescente nos estados e municípios.
Um caminho promissor nesse sentido seria a criação de comitês re-
presentativos, que tomem em conta as diferentes faixas etárias e ter-
ritórios, a partir de critérios de equidade étnico-racial, de gênero e
relativos às deficiências.

25
DESAFIO

4. Institucionalizar a Agenda 2030

Restando apenas oito anos para que os países cumpram


as metas estabelecidas no âmbito da Agenda 2030, o Brasil
registra desempenho muito abaixo do esperado. Para fazer
valer o compromisso de não deixar ninguém para trás,
firmado junto às Nações Unidas, é urgente que o próximo
governo se comprometa com um modelo social, econômico
e ambiental que priorize de fato as crianças e os adolescentes,
especialmente as mais vulneráveis.

Sucesso com os ODM Cenário

Num passado não Com 17 objetivos e 169 metas, a Agenda 2030 da ONU, aprovada em
muito distante 2015, é um plano de ação fundamental para guiar as políticas de in-
o Brasil obteve fância e adolescência, já que busca acabar com a pobreza e a fome e
sucesso, reconhecido garantir que todos os seres humanos possam realizar o seu potencial
internacionalmente, com dignidade e em igualdade, num ambiente saudável. Seu leque
no cumprimento temático, bastante abrangente, resultou da fusão de pautas econômi-
dos Objetivos de
cas, sociais e ambientais.
Desenvolvimento do
Milênio (ODM), iniciativa
da ONU anterior aos Algumas dessas temáticas se impuseram com mais força na esfera
ODS (período 2001- pública tempos depois da formulação de referenciais legais como a
2015). Foi instituído, Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) e o Estatuto da Criança
por decreto, um grupo e do Adolescente (1990). Mudanças climáticas, acesso à internet de
técnico para subsidiar qualidade e mobilidade urbana, entre várias outras agendas de igual
a elaboração do plano relevância, hoje desempenham papel central na garantia dos direitos
de ação do governo e das novas gerações. Em síntese, vale saber que todos os 17 Objetivos
monitorar o progresso
de Desenvolvimento Sustentável (ODS) mantêm uma interface signi-
do País. Coordenado
pela Casa Civil, o
ficativa com os direitos da população de 0 a 18 anos.
grupo era composto
por representantes de O Brasil participou ativamente da construção dos ODS, em grupos de
ministérios, secretarias trabalho, comitês e eventos organizados no âmbito da ONU, chegan-
e instituições como do inclusive a sediar, em 2012, a Conferência Rio+20, cuja contribuição
o IBGE e o Ipea. O foi decisiva na definição da agenda do desenvolvimento sustentável
balanço final concluiu para as próximas décadas.
que foram alcançadas
praticamente todas as A fim de difundir e dar transparência ao processo de implementação
metas estabelecidas.
da Agenda 2030 no Brasil, foi estabelecida pelo Governo Federal, em
2016, a Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (CNODS). No entanto, esse órgão foi extinto pela atu-

26
al administração, juntamente com outros colegiados, por meio do Apagão de dados
decreto no 9.759, de 2019. Hoje, a governança e a implementação
dos ODS estão sob responsabilidade da Secretaria Especial de Arti- Uma consulta ao
culação Social (SEAS) e da Secretaria de Governo da Presidência da Painel dos Indicadores
República (SEGOV-PR)19. Brasileiros para os ODS,
ferramenta que permite
acompanhar a evolução
Com essas mudanças, ao longo dos últimos anos o desempenho do
da implantação da
País em relação aos ODS sofreu retrocessos significativos. O diag- Agenda 2030 no País,
nóstico é do Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda revela que não havia
2030 (GT Agenda 2030), que monitora esse processo desde o início dados oficiais sobre 140
e atua para divulgar os ODS, mobilizar a sociedade civil e influenciar dos 245 indicadores
politicamente o governo brasileiro para o cumprimento dos com- aplicáveis ao contexto
promissos assumidos. nacional, e apenas sete
estavam atualizados até
O principal recuo aconteceu no contexto do ODS 2 – Fome Zero e 2020. Das 168 metas
originalmente aplicáveis
Agricultura Sustentável (Acabar com a fome, alcançar a segurança
ao País, nada menos
alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura susten- que 110 se encontravam
tável). Em 2022, com 33 milhões de brasileiros sem comida, o Brasil em retrocesso, o
voltou ao Mapa da Fome20, apesar de ser uma potência global na que corresponde a
produção de alimentos21. praticamente 2/3 do
total33.
Como sempre, as famílias com crianças e adolescentes estão entre
as mais impactadas. Dados consolidados pelo GT Agenda 2030 de-
monstram, por exemplo, que a incidência de fome nos lares com
crianças até 10 anos de idade praticamente dobrou ao longo de um
período de dois anos, passando de 9,4% (2020) para 18,1% (2022)22.
Fatores como raça/cor também exacerbam a situação de inseguran-
ça alimentar, conforme evidencia o gráfico abaixo.

Segurança e Insegurança Alimentar


Grave por Raça/Cor Autorreferida
60%
53,2 Brancos
50% 49,7 Pretos/Pardos
41,5
40%
35,0
30%

20% 18,1
10,4 10,6
10% 6,8

2020 2021/2022 2020 2021/2022


Segurança Insegurança

Fonte: VI Relatório Luz da Sociedade Civil Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável.

27
Igualmente grave é o fato de que pelo ter- taxas inflacionárias que o Brasil enfrenta desde
ceiro ano consecutivo nenhuma das metas 2015 e ao encolhimento das políticas públicas
relacionadas à erradicação da pobreza (ODS de assistência social e distribuição de renda, le-
1) alcançou resultado positivo. As projeções, vou ao aumento da miséria e da fome no País.
de acordo com o VI Relatório Luz da Socie-
dade Civil Agenda 2030 de Desenvolvimento Vale ressaltar, além disso, que os dados ana-
Sustentável, são de que houve considerável lisados pelo GT Agenda 2030 evidenciam
aumento da pobreza extrema em 2021 (os a interrupção de políticas, ações e sistemas
dados oficiais devem ser publicados em no- de monitoramento, redução em orçamentos
vembro de 2022, na Síntese dos Indicadores essenciais e extinção de espaços de partici-
Sociais do IBGE)23. pação popular, enquanto aumentou a difi-
culdade para acessar informações. Assim, é
Segundo as análises registradas no documento, imprescindível a reconstrução das estruturas
a baixa empregabilidade, somada às mais altas extintas pela atual administração.

RECOMENDAÇÕES
Recriação da Comissão Nacional para os Compatibilização dos ODS com as políticas
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável públicas e os planos plurianuais (PPA)
Para promover o avanço da implementa- Nesse contexto, é de importância estratégica
ção da Agenda 2030 no País, antes de tudo que o Governo Federal encampe a propos-
é preciso retomar a institucionalidade dessa ta de utilizar os ODS como referências para
pauta no âmbito federal, por meio da recria- formular políticas públicas, além de orientar
ção da Comissão Nacional dos ODS, com a municípios e estados a avançarem na mesma
participação de entidades da sociedade ci- direção. Uma iniciativa nesse sentido, já em
vil e órgãos governamentais das mais diver- andamento, é o projeto de lei no 1.308/2021,
sas áreas – inclusive dos direitos da infância elaborado pela Frente Parlamentar Mista de
e da adolescência (como o Conanda e outras Apoio aos ODS, que propõe a instituição da
instituições). Somente assim os ODS pode- Política de Promoção da Agenda 2030 para o
rão voltar a ocupar posição de destaque no Desenvolvimento Sustentável24.
rol de prioridades do governo, tanto nas dis-
cussões políticas quanto nas orçamentárias. É necessário, adicionalmente, que a Agen-
da 2030 tenha clara repercussão já no Plano
Até 2019, a Comissão Nacional dos ODS fun- Plurianual (PPA) da nova administração federal
cionava por meio de câmaras temáticas e inte- (período 2024-2027). Esse caminho tem sido
grava a estrutura da Presidência da República, adotado por alguns governos estaduais: uma
também contando com o Ipea e o IBGE como análise dos PPA dos 26 estados brasileiros e
órgãos de assessoria técnica. Esse formato foi do Distrito Federal constatou que o desen-
elogiado pelo High-Level Political Forum on volvimento sustentável estava presente como
Sustainable Development (HLPF), plataforma objetivo ou diretriz em uma perspectiva trans-
central das Nações Unidas para o acompanha- versal e integrada em 19 deles, e 14 já haviam
mento e a revisão da Agenda 2030 em nível realizado algum tipo de compatibilização en-
global, e serviu de inspiração para outros países. tre os PPA e as metas dos ODS25.

28
RECOMENDAÇÕES ADICIONAIS PARA QUALIFICAR
A GESTÃO DA ÁREA SOCIAL

Para avançar rumo ao desenvolvimento sustentável e inclusivo, o próximo governo precisa


enfrentar diversas deficiências da máquina pública – em especial as que dificultam a
implementação de políticas capazes de garantir, de forma ampla, os direitos da infância e da
adolescência. Além dos conteúdos apresentados nas páginas anteriores, os especialistas e
gestores consultados pela Agenda 227 elaboraram recomendações adicionais, que devem ser
adotadas pela nova administração federal.

Criação de um Sistema Nacional de


Informação da Infância e da Adolescência Nesse contexto, é essencial levar em conta que
Um dos objetivos dessa iniciativa é possibi- o Sistema de Informação para a Infância e Ado-
litar o monitoramento e a sistematização de lescência (SIPIA), alimentado pelo esforço de
informações concretas sobre os aspectos que sistematização de dados realizado pelos con-
avançaram – ou não – no campo das políticas selhos tutelares, poderia ter suas ferramentas
vinculadas à garantia dos direitos de crianças e fortalecidas e aprimoradas para se tornar uma
adolescentes. Além disso, se busca reunir da- base única nacional, com foco na formulação
dos confiáveis, que permitam planejar e viabi- e no monitoramento das políticas públicas do
lizar os diversos programas e facilitar a adoção setor. O Cadastro Único é outra referência fun-
de uma lógica intersetorial. damental, mas é urgente avançar em sua inter-
ligação com sistemas de grande abrangência
Nesse processo, deve ser contemplado o como o DataSus, o Censo Escolar e o Sistema
aperfeiçoamento de sistemas de cadastro e de Avaliação da Educação Básica (Saeb).
registro administrativo de todos os ministé-
rios e áreas – segurança alimentar, assistên- Um processo de integração eficiente permi-
cia social, educação e segurança pública, por tiria uniformizar as informações que devem
exemplo –, de modo a permitir a produção de subsidiar as políticas públicas. Atualmente, as
dados e indicadores atualizados e confiáveis formas de sistematização dos dados são di-
sobre a população de 0 a 18 anos. Adicional- ferentes em cada uma dessas plataformas, o
mente, a coleta de informações precisa cobrir que dificulta a realização de uma leitura pro-
aspectos como raça/etnia, sexo, orientação funda e conclusiva sobre os diversos vetores
sexual, deficiência, condição socioeconômica que impactam as condições de vida na infân-
e situação de orfandade, entre outros. cia e na adolescência em nosso País.

Sustentado por essas informações, o Co- Ao mesmo tempo, essa articulação entre as
nanda poderia, por exemplo, cobrar pro- bases de dados mais relevantes viabilizaria o
vidências dos órgãos envolvidos na exe- registro e o acompanhamento da trajetória
cução das políticas que têm como alvo de uma determinada criança ou adolescen-
garantir os direitos das novas gerações – inclu- te em todo o conjunto de políticas e serviços
sive apontando medidas capazes de aperfeiço- públicos, efetivamente garantindo o acesso ao
ar o enfrentamento dos desafios identificados. atendimento integrado a que têm direito.

29
Censo e pesquisas Além do esforço de uniformização das informações nas diversas bases
do IBGE de dados e em seus mecanismos de pesquisa, merece destaque a ne-
cessidade de dar total transparência aos dados produzidos e de asse-
É muito importante gurar que sejam consultados segundo desagregação por território e por
que a formulação meio de ferramentas de interface amigável. Por fim, é essencial o respei-
das metodologias to à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e à privacidade de crianças e
e instrumentos de adolescentes na coleta e no tratamento dos dados sistematizados.
coleta de dados do
Censo Demográfico, da
PNAD-C e das demais Criação de uma estrutura institucional
pesquisas realizadas responsável pela coordenação das políticas
pelo IBGE conte com
nacionais de diversidades, inclusão e interseccionalidades
ampla participação
da sociedade Também merece atenção a possibilidade de criar um órgão que, além de
civil, de modo a implementar políticas nacionais relativas à agenda da diversidade, faça a
permitir o correto ponte entre essas iniciativas e as administrações estaduais e municipais,
dimensionamento cumprindo um papel indutor de avanços em aspectos como raça, etnia,
quantitativo e das sexo, orientação sexual e deficiências, em todos os níveis da federação.
condições de vida dos
A essa instância também caberia articular os processos de formação dos
diversos grupamentos
que constituem a
agentes públicos – inclusive de setores como educação, saúde e assis-
população de 0 a 18 tência social – para os temas de inclusão, de forma que os espaços de
anos. atendimento se tornem seguros e acolhedores para a multiplicidade das
Recortes de raça, infâncias e adolescências brasileiras.
etnia, sexo, orientação
sexual, deficiência, Desse modo, os serviços públicos poderiam passar a contar efetivamente
orfandade, condição com profissionais capazes de respeitar as diferenças e combater a discri-
socioeconômica e minação e a exclusão social, especialmente no que se refere a crianças e
faixa etária devem adolescentes negros, indígenas, migrantes e de povos e comunidades tra-
ser detalhados, com dicionais, assim como os LGBTQIA+ e com deficiência, transtornos globais
especial atenção aos do desenvolvimento/ transtornos do espectro do autismo e superdota-
povos originários
ção/ altas habilidades.
e às comunidades
tradicionais, assim
como às situações de Porém, segundo os especialistas e gestores consultados pela Agenda 227,
trabalho infantil, em é importante que o processo de planejamento dessa nova estrutura con-
todas as suas formas, e sidere os modelos testados anteriormente, buscando aprimorar e forta-
de trabalho adolescente lecer suas capacidades de coordenação e articulação. É o caso da extinta
irregular. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão
(Secadi/MEC), cujo foco de atuação se concentrava na área de educação.

Outro elemento a ser considerado na constituição de um órgão


com esse perfil é o fato de que o enfrentamento de vetores decisi-
vos relacionados à discriminação e à desigualdade – caso da pobre-
za –, depende de interfaces com outras políticas, como as de empre-
go, renda e proteção social. Além disso, soluções eficazes exigem que
crianças e adolescentes também sejam olhados no contexto da família.

Para que essa abordagem transversal e sinérgica funcione, entretanto, é


preciso que a nova instância conte com poder efetivo de mobilização dos
diversos ministérios – condição que poderia ser assegurada, por exemplo,
com o status de secretaria especial ligada à Presidência da República.

30
Estabelecimento de parcerias obrigatórias Agenda 227, pois em muitos casos levam em
de ministérios com universidades federais consideração mais os critérios políticos do
O principal objetivo desse tipo de iniciativa se- que os técnicos.
ria aproveitar a capacidade de produção de
conhecimento e inovação das universidades Uma dificuldade adicional é que geralmente
federais para apoiar os ministérios na formula- fazem falta profissionais com capacitação es-
ção, na implementação e na avaliação de pro- pecífica para atuar com as temáticas que im-
gramas voltados à infância e à adolescência. portam a esses segmentos etários. Agrava o ce-
nário o fato de que tampouco costuma haver
Segundo especialistas e gestores ouvidos pela investimento na formação dos servidores – e
Agenda 227, uma possibilidade que merece estu- como as estruturas são muito enxutas, é co-
do seria a determinação de que 10% dos projetos mum que os gestores não liberem suas equi-
de pesquisa e extensão de cada curso oferecido pes para eventuais processos de qualificação.
por essas universidades passassem a focalizar
temáticas da agenda dos direitos de crianças e Paradoxalmente, esse mesmo contexto é um
adolescentes, na perspectiva das políticas públi- impeditivo para a redução dos cargos comissio-
cas. Para a academia, se abriria a oportunidade nados, ressaltam os especialistas e gestores. Isso
de canalizar seu conhecimento mais diretamente porque, embora haja o risco de serem preenchi-
para a promoção de avanços na área social. dos por uma indicação política, é por essa via que
se torna possível incorporar às equipes pessoas
Uma referência importante para a discussão que efetivamente conhecem as temáticas da
desse modelo é o Pacto Universitário pela Pro- agenda da infância e da adolescência.
moção do Respeito à Diversidade, da Cultura
da Paz e dos Direitos Humanos, elaborado pelo A ausência de políticas de gestão estruturadas,
Ministério da Educação. Lançado em 2017, tra- asseguradas por lei, resulta ainda em constan-
tava-se de um incentivo para que as universi- tes mudanças nos quadros das várias secreta-
dades desenvolvessem projetos vinculados a rias no momento em que se dá uma troca de
diferentes áreas dos direitos humanos, incluindo governos. Isso termina também prejudicando
aspectos relativos à infância e à adolescência. a qualificação da gestão, comprometendo sua
continuidade, pois se perde a memória do
Apesar dos resultados promissores alcança- que foi realizado.
dos – nada menos que 333 instituições de en-
sino superior haviam se associado ao Pacto –, Segundo os especialistas e gestores consul-
o Governo Federal atual concluiu o Acordo de tados pela Agenda 227, as soluções para o
Cooperação Técnica (ACT) sobre o Pacto em enfrentamento desses problemas incluem
novembro de 2021. Várias universidades, en- parcerias com as universidades públicas fede-
tretanto, seguem implementando atividades rais, para que contribuam com a melhoria da
relacionadas ao programa. formação dos profissionais que lidam com in-
fância e adolescência, em áreas como direito,
saúde e educação.
A importância de capacitar gestores
Entre as fragilidades estruturais que dificultam O processo de qualificação também poderia
a implementação das políticas voltadas à ga- envolver capacitações presenciais ou on-line na
rantia dos direitos da infância e da adolescên- Escola Nacional de Administração Pública (Enap),
cia, se destaca o mecanismo de nomeação que tem como missão desenvolver competên-
dos cargos relativos à gestão dessas políticas, cias de servidores para aumentar a capacidade
apontam especialistas e gestores ouvidos pela do governo na gestão das políticas públicas.

31
QUEM FOI OUVIDO

O nosso muito obrigado a todas(os) as(os) • Francisco Gaetani – Doutor em administra-


especialistas e gestoras(es) que colaboraram ção pública pela London School of Econo-
com a construção deste capítulo de introdu- mics and Political Science, especialista em
ção ao Plano País, agregando subsídios valio- políticas públicas e gestão governamental
sos para as análises, reflexões e recomenda-
• Gil Castello Branco Neto – Secretário-geral
ções, tanto por meio de consultas individuais
da Associação Contas Abertas
como nas discussões em grupo.
• Halim Girade – Ex-secretário nacional de
Participaram das consultas individuais: Promoção do Desenvolvimento Humano,
ex-oficial do Unicef no Brasil.
• Agop Kayayan – Ex-representante do Unicef
no Brasil e na América Central • Ivânia Ghesti – Especialista em justiça da
infância e juventude pela Universidade de
• Benedito Rodrigues dos Santos – Consultor
Gênova, analista judiciária no Conselho Na-
do Unicef para a área de proteção de crian-
cional de Justiça
ças e adolescentes, integrou o grupo de re-
dação do Estatuto da Criança e do Adoles- • Jeniffer Caroline Luiz – Advogada, especialista
cente (ECA) em fundos especiais e direito administrativo
• Berenice Giannella – Presidente do Con- • José Aparecido Carlos Ribeiro – Técnico de
selho Deliberativo do Fundo Social de São planejamento e pesquisa na Diretoria de Es-
Paulo, ex-secretária nacional dos Direitos da tudos e Políticas Sociais do Ipea
Criança e do Adolescente, ex-presidente da
• Leandre Dal Ponte – Deputada federal (PSD-
Fundação Casa
-PR), presidente da Frente Parlamentar Mista
• Bia Barbosa – Jornalista, integrante da Coa- da Primeira Infância
lizão Direitos na Rede, representante do ter-
• Liliana Chopitea Zaconeta – Chefe de polí-
ceiro setor no Comitê Gestor da Internet no
tica social e monitoramento e avaliação do
Brasil (CGI.br)
Unicef
• Claudia de Freitas Vidigal – Representante
• Marília Sardenberg – Embaixadora aposen-
no Brasil da Fundação Bernard van Leer, ex-
tada, ex-integrante do Comitê sobre os Di-
-secretária nacional dos Direitos da Criança
reitos da Criança da ONU, participou da ela-
e do Adolescente
boração da Convenção sobre os Direitos da
• Ely Harasawa – Ex-secretária nacional de Criança
Atenção à Primeira Infância, ex-gerente-ge-
• Paulo Afonso Garrido de Paula – Procurador
ral da Fundação Abrinq
de Justiça do Ministério Público do Estado
• Enid Rocha – Pesquisadora do Instituto de de São Paulo, integrou o grupo de redação
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) do ECA

32
Participaram das discussões em grupo*: • Letícia Leobet – Assistente de projetos do
Geledés – Instituto da Mulher Negra
• Ana Claudia Cifali – Advogada, coordenado-
ra jurídica do Instituto Alana • Lucas Lopes – Ponto focal da Coalizão Bra-
sileira pelo Fim da Violência contra Crianças
• Cristiane Ribeiro – Pesquisadora em ques-
e Adolescentes
tões raciais e psicanálise, integrante do Co-
legiado de Gestão do Instituto de Estudos • Luiza Andrade Corrêa – Coordenadora de
Socioeconômicos (Inesc) advocacy do Instituto Rodrigo Mendes, Rede
In – Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa
• Dalízia Amaral Cruz – Psicóloga do Espaço
com Deficiência
de Acolhimento de Crianças e Adolescentes
do município de Barcarena (PA), integrante • Maria Mello – Coordenadora de programas
do Movimento Nacional Pró Convivência Fa- do Instituto Alana
miliar e Comunitária
• Mariana Zan – Advogada do Instituto Alana
• Fernanda Firmino – Assessora executiva da
• Maristela Cizeski – Articuladora de direitos
Rede Cidadã
da Pastoral da Criança
• Fernanda Flaviana Martins – Secretária exe-
• Renata Ruggiero Moraes – Diretora-presi-
cutiva do Movimento Nacional Pró Convi-
dente do Instituto Iguá
vência Familiar e Comunitária
• Rodrigo Mindlin Loeb – Superintendente do
• Fernando Alves – Fundador e diretor execu-
Instituto Brasiliana
tivo da Rede Cidadã
• Sofia Guimarães – Analista da consultoria
• Flavio Debique – Gerente de programas e
política Pulso Público
incidência política da Plan International Brasil
• Thaisi Bauer – Secretária executiva da Coali-
• JP Amaral – Coordenador de programa do
zão pela Socioeducação
Instituto Alana e conselheiro do Greenpeace
Brasil • Vital Didonet – Especialista em políticas
para primeira infância, membro da Rede Na-
• Karolyne Ferreira – Pesquisadora assistente
cional Primeira Infância (RNPI), participou da
do Instituto Rodrigo Mendes
construção social e política do artigo 227 da
• Leila D’Arc de Souza – Professora, integrante Constituição Federal
do Coletivo Mães pela Diversidade
• Larissa Margarido – Colaboradora do Pro-
grama Estratégico UnB 2030, pesquisadora
do Núcleo de Justiça Racial e Direito da Fun-
dação Getulio Vargas (FGV Direito SP) *Vale notar que entre especialistas e gestores que
• Laura Borges – Pesquisadora do Programa participaram das discussões coletivas, vários também
Estratégico UnB 2030 integraram os Grupos de Trabalho da Agenda 227.

33
REFERÊNCIAS
1 Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030, VI Relatório Luz da Sociedade Civil
da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável Brasil. Brasil na Agenda 2030, 2022. Disponí-
vel em: <https://brasilnaagenda2030.files.wordpress.com/2022/07/pt_rl_2022_final_web-1.pdf>.
Acesso em: 16 ago. 2022.
2 Das 169 metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, foram avaliadas as 168 metas
originalmente aplicáveis ao País – inclusive as sete que, a partir de 2021, passaram a ser consi-
deradas no Painel ODS Brasil como “não aplicáveis”. Grande parte dessas metas está diretamen-
te relacionada ao cumprimento dos direitos de crianças e adolescentes.
3 Enid Rocha Andrade da Silva et al., “Gasto social com crianças e adolescentes: descrição meto-
dológica”. Nota Técnica no 101, Unicef, Ipea, maio 2022. Disponível em: <http://repositorio.ipea.gov.
br/bitstream/11058/10979/2/NT_101_Disoc_Gasto_Social.pdf>. Acesso em: 16 ago. 2022.
4 “Unicef e Ipea criam metodologia para avaliar gasto federal com crianças e ado-
lescentes”. Unicef, 13 dez. 2021. Disponível em: <https://www.unicef.org/brazil/comuni-
cados-de-imprensa/unicef-e-ipea-criam-metodologia-para-avaliar-gasto-federal-
-com-criancas-e-adolescentes#:~:text=Bras%C3%ADlia%2C%2013%20de%20dezembro%20
de,in%C3%A9dita%20do%20gasto%20p%C3%BAblico%20federal>. Acesso em: 16 ago. 2022.
5 Enid Rocha Andrade da Silva et al., “Gasto social com crianças e adolescentes”, op. cit.
6 Grupo de Trabalho de Orçamento Público pela Primeira Infância; Comissão Interinstitucio-
nal da Frente Parlamentar Mista da Primeira Infância, “Medição do gasto social com primeira
infância para 2021”. Unicef, 2021. Disponível em: <https://www.unicef.org/brazil/media/19296/file/
medicao-gasto-social-primeira-infancia-2021.pdf>. Acesso em: 16 ago. 2022.
7 “COVID-19 and Shrinking Finance for Social Spending: Shortfalls in Social Spending in Low- and
Middle-income Countries”. Unicef, fev. 2022. Disponível em: <https://www.unicef-irc.org/publica-
tions/pdf/COVID-19-and-Shrinking-Finance-for-Social-Spending.pdf>. Acesso em: 16 ago. 2022.
8 Queda em termos de porcentagem do PIB.
9 O GT do Orçamento para a Primeira Infância é vinculado à Comissão Interinstitucional da
Frente Parlamentar Mista da Primeira Infância e coordenado pelo Unicef.
10 Secretaria Especial do Tesouro e Orçamento, “Financiamento da primeira infância – Orça-
mento Federal”. Ministério da Economia, 2022. Disponível em: <https://www.gov.br/economia/
pt-br/assuntos/planejamento-e-orcamento/plano-plurianual-ppa/arquivos/primeira-infan-
cia-2022.pdf>. Acesso em: 16 ago. 2022.
11 Secretaria de Acompanhamento Econômico, “Efeito redistributivo da política fiscal no Brasil”.
Ministério da Fazenda, dez. 2017. Disponível em: <https://www.gov.br/fazenda/pt-br/centrais-de-
-conteudos/publicacoes/boletim-de-avaliacao-de-politicas-publicas/arquivos/2017/efeito_re-
distributivo_12_2017.pdf>. Acesso em: 16 ago. 2022.
12 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança. Brasília: Unicef, 2019. Disponível em
<https://www.unicef.org/brazil/media/6276/file/30-anos-da-convencao-sobre-os-direitos-da-
-crianca.pdf>. Acesso em: 16 ago. 2022.
13 Ibid.
14 Ibid.
15 30 anos do ECA: As principais mudanças e os desafios para o futuro. ChildFund Brasil, 2020. Dispo-
nível em: <https://www.childfundbrasil.org.br/blog/30-anos-do-eca-2/>. Acesso em: 16 ago. 2022.

34
16 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança. Brasília: Unicef, 2019. Disponível em:
<https://www.unicef.org/brazil/media/6276/file/30-anos-da-convencao-sobre-os-direitos-da-
-crianca.pdf>. Acesso em: 2 set. 2022..
17 “Conanda: O Conselho”. Governo Federal. Disponível em: <https://www.gov.br/participamais-
brasil/o-conanda>. Acesso em: 2 set. 2022..
18 Decreto no 10.003, de 4 de setembro de 2019. Diário Oficial da União, 5 set. 2019. Disponível em:
<https://www.in.gov.br/web/dou/-/decreto-n-10003-de-4-de-setembro-de-2019-214566589>.
Acesso em: 2 set. 2022.
19 “Governança nacional para os ODS”. Secretaria de Governo da Presidência da República, 9 dez.
2019. Disponível em: <http://www4.planalto.gov.br/ods/noticias/governanca-nacional-para-os-
-ods>. Acesso em: 2 set. 2022.
20 A FAO deixou de publicar o Mapa da Fome como ferramenta de divulgação dos dados sobre
a fome no mundo, mas seus indicadores ainda são usados para avaliação, inclusive dos ODS.
21 Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030, VI Relatório Luz da Sociedade
Civil Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável Brasil. Brasil na Agenda 2030, 2022. Disponí-
vel em: <https://brasilnaagenda2030.files.wordpress.com/2022/07/pt_rl_2022_final_web-1.pdf>.
Acesso em: 16 ago. 2022.
22 Ibid.
23 Ibid.
24 Ibid.
25 Ibid.
26 Hugo Brousset e Verónica Díaz Calibán, “A política de desenvolvimento infantil precoce no
Peru e o impacto da Covid-19”. Revista Latinoamericana de Psicología, Bogotá, v. 19, n. 1-2, pp.
224-27, 2021. Disponível em: <http://www.bivipsi.org/wp-content/uploads/2021-fepal-caliban-v-
19-n1-2-26-POR.pdf>. Acesso em: 16 ago. 2022.
27 Emenda constitucional no 95, de 15 de dezembro de 2016. Disponível em: <https://legis.sena-
do.leg.br/norma/540698/publicacao/15655553>. Acesso em: 16 ago. 2022.
28 A conta do desmonte: balanço do Orçamento Geral da União. Inesc, abr. 2022. Disponível em:
<https://www.inesc.org.br/wp-content/uploads/2022/04/BalancoOrcamento2021-Inesc-1.pdf>.
Acesso em: 16 ago. 2022.
29 Emenda constitucional no 102, de 26 de setembro de 2019. Disponível em: <http://www.planal-
to.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc/emc102.htm>. Acesso em: 16 ago. 2022.
30 Emenda constitucional no 123, de 14 de julho de 2022. Disponível em: <https://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc123.htm>. Acesso em: 16 ago. 2022
31 Daniel Couri e Vilma Pinto, “A PEC no 1/2022 e o aumento do risco fiscal”. Instituição Fiscal
Independente, Senado Federal, 16 jul. 2022. Disponível em: <https://www2.senado.leg.br/bdsf/
bitstream/handle/id/598773/CI16_JUL2022.pdf>. Acesso em: 16 ago. 2022.
32 Versão resumida em inglês disponível em: https://bityli.com/WooxfL. Relatório completo em
finlandês disponível em: https://julkaisut.valtioneuvosto.fi/handle/10024/161441.
33 Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030, VI Relatório Luz da Sociedade
Civil Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável Brasil. Brasil na Agenda 2030, 2022. Disponí-
vel em: <https://brasilnaagenda2030.files.wordpress.com/2022/07/pt_rl_2022_final_web-1.pdf>.
Acesso em: 16 ago. 2022.

35
PLANO PAÍS

AS PROPOSTAS
DE POLÍTICAS
PÚBLICAS
PRIORIDADE ABSOLUTA
O paradigma constitucional da “absoluta prioridade”, conferido
aos direitos de crianças e adolescentes (artigo 227), deve ser o
eixo estruturador de todas as políticas, programas e projetos
da administração federal. O mesmo se aplica à elaboração das
propostas orçamentárias anuais e plurianuais, à execução das
compras públicas e às campanhas de comunicação. Especial
atenção deve ser dedicada às ações com foco no combate à
fome e à pobreza.

PRINCÍPIOS
A Agenda 227 tem como princípio fundamental a promoção da
equidade e a superação de desigualdades, preconceitos, barrei-
ras e violências relacionadas a fatores étnico-raciais, de gênero
e de orientação sexual; às pessoas com deficiência, transtornos
globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação;
aos migrantes; aos povos originários e comunidades tradicio-
nais e a qualquer outro fator de produção de desigualdades.

Portanto, no processo de leitura do Plano País, deve-se ter em


mente que todas as propostas formuladas necessariamente
consideram crianças e adolescentes desses segmentos como
prioritários. Mesmo quando não são expressamente menciona-
das em propostas focalizadas, as múltiplas infâncias e adoles-
cências devem ter suas especificidades consideradas nas políti-
cas públicas universais.

37
ESTRUTURA
As 137 propostas que integram o Plano País foram estruturadas segundo
matriz lógica que procura evidenciar os principais elementos a serem to-
mados em consideração pelo Governo Federal, a partir de janeiro de 2023,
nos processos de formulação e implementação das políticas públicas.
Em sua maioria, adotam o seguinte formato:
• Objetivo: o que se pretende alcançar com a proposta;
• Ações: atividades e iniciativas necessárias para atingir o objetivo;
• Metas: formas de avaliar a execução das atividades, incluindo prazo
para seu cumprimento;
• Razões: argumentos e dados que sustentam a importância do objeti-
vo e das atividades propostas;
• ODS: relação da proposta com metas dos Objetivos de Desenvolvi-
mento Sustentável, firmadas pelo Estado brasileiro junto às Nações
Unidas.
No entanto, há também variações a esse modelo, sempre que os Grupos
de Trabalho da Agenda 227 consideraram mais adequada outra forma de
apresentação.
As propostas de políticas públicas estão numeradas sequencialmente de 1
a 137 e agrupadas segundo as temáticas-foco de cada GT.

38
1 SAÚDE
Oferecer o tratamento adequado a gestantes, mães e crianças, principalmente nos
primeiros mil dias de vida, além de contribuir para o bem-estar e para o desenvolvimento
saudável das crianças até a adolescência.

AÇÕES METAS
• Aprimorar e ampliar a oferta dos programas e das es- 1. Programas e estratégias de atenção ao pré-natal,
tratégias de atenção ao pré-natal, ao parto e ao puer- ao parto e ao puerpério na rede de atenção pri-
pério na Rede de Atenção Primária à Saúde (APS). mária à saúde ampliados a partir de 2023.
• Assegurar, por meio do Sistema Único de Saúde 2. Acesso a medicamentos e vacinas essenciais se-
(SUS), o acesso a vacinas e medicamentos essenciais, guros, eficazes e de qualidade que estejam in-
seguros, eficazes e de qualidade que estejam incor- corporados ao rol de produtos oferecidos pelo
porados ao rol de produtos oferecidos pelo SUS. SUS assegurados a partir de 2023.
• Apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de tec- 3. Pesquisa e desenvolvimento de tecnologias e ino-
nologias e inovações em saúde para as doenças vações em saúde para as doenças transmissíveis e
transmissíveis e não transmissíveis, além de pro- não transmissíveis apoiados a partir de 2023.
porcionar o acesso a essas tecnologias e inovações
4. Estratégia de acesso a tecnologias e inovações
incorporadas ao SUS, incluindo medicamentos e
incorporadas ao SUS, incluindo medicamentos
vacinas, para toda a população.
e vacinas, a toda a população definida em 2023.

RAZÕES
A fase mais importante para o desenvolvimen- nitivas. Os desafios para as mulheres gestantes, os
to físico e mental do ser humano compreende os bebês e as crianças brasileiras começam cedo, com
primeiros mil dias de vida – período que reflete a a baixa cobertura da assistência de saúde pré-natal
soma dos 270 dias da gestação com os 730 dias dos e da vacinação infantil agravada pela dificuldade de
dois anos subsequentes. Nesse período, acontece a se ter uma assistência à saúde da mulher (durante
maior evolução do crescimento humano. o parto e o puerpério) e da criança (em especial, da
recém-nascida) articulada com as outras políticas de
A metodologia de contar dos primeiros mil dias a co-
assistência social e educação, a fim de que possam
meçar na gravidez se deve ao fato de que a gestação
garantir a sua proteção e o seu desenvolvimento.
impacta na saúde física e emocional da criança. Sabe-
-se, por exemplo, que a alimentação da mãe durante Nos últimos dez anos, o Brasil atuou significativa-
esse período ajuda a determinar o paladar e o olfato mente para a redução nos indicadores das morta-
do bebê, uma vez que as nuances de sabor passam lidades materna e infantil, contudo, sem ainda, al-
para o líquido amniótico. Além disso, o desenvolvi- cançar os parâmetros estabelecidos pela OMS. Entre
mento neurológico também é muito intenso na vida 2015 e 2017, a razão de mortalidade materna (RMM)
intrauterina e pode sofrer a influência do consumo permaneceu pouco abaixo de 60 mortes por 100 mil
de tabaco, drogas e medicamentos pela mãe. nascidos vivos (NV). É um índice que precisa ser olha-
do de forma associada ao ciclo da gestação, do parto
Metade do crescimento do cérebro da criança ocorre
e do puerpério, uma vez que: 26,4% das mulheres
até o segundo ano de vida. Embora o bebê já nasça
não tiveram acesso ou o acesso foi inadequado ou
com o cérebro desenvolvido nos pontos sensoriais
intermediário ao pré-natal; 55,7% dos nascimentos
(como o tato, a audição e o olfato), é nesse período
foram por cesariana; e a taxa de prematuridade ain-
que o órgão passa pelas maiores modificações cog-
da é superior a 10% dos nascimentos.

ODS
ODS 3
• Meta 3.1 – Até 2030, reduzir a razão de mortalidade materna para no máximo 30 mortes por 100.000 nascidos vivos.
• Meta 3.2 – Até 2030, enfrentar as mortes evitáveis de recém-nascidos e crianças menores de 5 anos, objeti-
vando reduzir a mortalidade neonatal para no máximo 5 por mil nascidos vivos e a mortalidade de crianças
menores de 5 anos para no máximo 8 por mil nascidos vivos.
• Meta 3.8 – Assegurar, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), a cobertura universal de saúde, o acesso a
serviços essenciais de saúde de qualidade em todos os níveis de atenção e o acesso a medicamentos e vacinas
essenciais seguros, eficazes e de qualidade que estejam incorporados ao rol de produtos oferecidos pelo SUS.
• Meta 3.b – Apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias e inovações em saúde para as doenças
transmissíveis e não transmissíveis, proporcionar o acesso a essas tecnologias e inovações incorporadas ao
SUS, incluindo medicamentos e vacinas, a toda a população.

39
2 SAÚDE
Diminuir a incidência de intercorrências neonatais e doenças congênitas preveníveis e evitáveis,
garantindo o atendimento integrado e humanizado a gestantes e crianças.

AÇÕES METAS
• Ampliar e fortalecer as redes de unidades neona- 1. Redes de unidades neonatais e emergências pe-
tais e emergências pediátricas. diátricas ampliadas progressivamente a partir de
2023.
• Realizar uma formação continuada dos profissio-
nais da rede de saúde. 2. Programas de formação continuada dos profis-
sionais da rede de saúde iniciados em 2024.
• Investir em tecnologias, materiais e insumos de
manutenção de unidades neonatais e emergên- 3. Tecnologias, materiais e insumos de manutenção
cias pediátricas. de unidades neonatais e emergências pediátri-
cas com investimento específico a partir de 2024.
• Realizar campanhas voltadas para a amamenta-
ção e a doação de leite humano. 4. Campanhas periódica voltadas para a amamen-
tação e para a doação de leite humano iniciadas
em 2024.

RAZÕES
As unidades neonatais são importantes para o esta- da Criança e Aleitamento Materno (ATSCAM) do Mi-
belecimento de uma rede de atenção voltada para nistério da Saúde, precisa fortalecer ainda mais o
a assistência integral à saúde da criança, em espe- processo, já em curso, de aproximação com os ges-
cial aquela em vulnerabilidade social. A capacitação tores estaduais e municipais, com a agilização da
dos profissionais ajuda a intensificar o processo de troca de informações e o apoio institucional para
qualificação da atenção e da gestão estratégicas reduzir as dificuldades nos processos de habilita-
nas maternidades e redes locorregionais, para ace- ção, qualificação e ampliação dos leitos neonatais.
lerar a redução das mortes maternas e promover a Segundo levantamento realizado em 2018, pela
maternidade segura. Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), faltavam
Para isso, constituem pontos essenciais: (I) a capaci- 3.305 leitos de UTI específicos para crianças que
tação e o treinamento, de forma contínua, dos pro- nasceram antes de 37 semanas e que apresenta-
fissionais de toda a rede de saúde envolvida com os vam quadros clínicos graves ou que necessitam de
cuidados neonatais e pediátricos; (II) o estímulo a observação.
tecnologias para a melhoria do acesso aos serviços De acordo com o cadastro nacional de estabeleci-
de saúde; (III) o investimento em materiais e insu- mento de saúde existem 8.766 leitos desse tipo em
mos necessários para a manutenção das unidades funcionamento no País, ou seja, 2,9 leitos para cada
neonatais e de emergências pediátricas; (IV) o es- mil nascidos vivos, sendo que o ideal seria 4 leitos
tímulo a campanhas de educação em saúde (em para cada mil. Quando analisados somente os lei-
especial, as voltadas para a amamentação, o acesso tos do SUS, a taxa cai para 1,5 leitos para cada mil,
ao leite humano e a doação para bancos de leite). com 4.677 unidades disponíveis.
Com o objetivo de acelerar o processo de qualifica- Hoje no Brasil nascem cerca de 900 prematuros por
ção dos leitos existentes e a criação de novos leitos dia, segundo as informações do Ministério da Saú-
neonatais no país, é importante haver uma força de, que necessitam da infraestrutura de UTIs neo-
tarefa tripartite. Para tal, a Área Técnica de Saúde natal e maior cuidados.

ODS
ODS 3
• Meta 3.1 – Até 2030, reduzir a razão de mortalidade materna para no máximo 30 mortes por 100.000 nascidos vivos.
• Meta 3.2 – Até 2030, enfrentar as mortes evitáveis de recém-nascidos e crianças menores de 5 anos, objeti-
vando reduzir a mortalidade neonatal para no máximo 5 por mil nascidos vivos e a mortalidade de crianças
menores de 5 anos para no máximo 8 por mil nascidos vivos.
• Meta 3.8 – Assegurar, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), a cobertura universal de saúde, o acesso a
serviços essenciais de saúde de qualidade em todos os níveis de atenção e o acesso a medicamentos e vacinas
essenciais seguros, eficazes e de qualidade que estejam incorporados ao rol de produtos oferecidos pelo SUS.
• Meta 3.c – Aumentar substancialmente o financiamento da saúde e o recrutamento, desenvolvimento, forma-
ção e retenção do pessoal de saúde, especialmente nos territórios mais vulneráveis.

40
3 SAÚDE
Garantir o acesso e o acompanhamento do tratamento de doenças raras pelo Sistema Único de Saúde (SUS),
efetivando a implantação do Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN), com equidade regional.

AÇÕES METAS
• Assegurar o acesso e integrar as etapas da tria- 1. Estratégia nacional para assegurar o acesso e integrar as
gem neonatal com foco na pós-detecção. etapas da triagem neonatal, com foco na pós-detecção,
definida em 2023 e implantada a partir de 2024.
• Criar polos regionais para a realização de exa-
mes de triagem e de estratégias para o acesso 2. Polos regionais para realização de exames de triagem
e a aderência ao tratamento. e de estratégias para acesso e aderência ao tratamento
planejados em 2023 e implantados a partir de 2024.
• Definir os protocolos clínicos e as diretrizes
terapêuticas (PCDT) para garantir o acesso aos 3. Protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas (PCDT) para
tratamentos e às linhas de cuidados. garantir o acesso aos tratamentos e linhas de cuidados
implantados até 2024.
• Garantir o fornecimento de vale-transporte para
crianças e adolescentes com doenças raras e 4. Fornecimento de vale-transporte para crianças e ado-
suas famílias, a fim de assegurar a continuidade lescentes com doenças raras e suas famílias assegura-
do acesso e da aderência ao tratamento. do a partir de 2023
• Criar e disponibilizar serviços de telemedici- 5. Planejamento para criação de serviços de telemedicina
na para ampliar o acesso ao tratamento e o para tratamento e acompanhamento de doenças raras
acompanhamento de doenças raras, em virtu- elaborado em 2023 e implantado a partir de 2024.
de da especialização dos serviços. 6. Plano de formação e acompanhamento para busca ati-
• Promover a formação e o acompanhamento va de profissionais da saúde e de outras áreas e políti-
para a busca ativa de profissionais de saúde e de cas públicas transversais elaborado em 2023 e implan-
outras áreas e de políticas públicas transversais. tado a partir de 2024.

RAZÕES
A triagem neonatal é um programa de detecção que levam os indivíduos a internações prolongadas
de doenças tratáveis e de difícil reconhecimento e recorrentes em unidades de terapia intensiva, o
no início da vida (doenças metabólicas, genéticas, que acarreta elevação dos custos em saúde.
infecciosas e raras) que garante o tratamento no As doenças raras atingem de 6% a 8% da população
tempo hábil de prevenção, com estratégias que en- mundial. No Brasil, esse número significa por volta
volvem toda a linha de cuidado, a fim de eliminar de 14 milhões de pessoas, sendo que 75% dos casos
ou diminuir os potenciais danos muitas vezes irre- manifestam-se na infância. Por isso, o diagnóstico
versíveis no ao crescimento e ao desenvolvimento precoce é fundamental para salvar vidas.
das crianças acometidas (deficiências, sequelas e
óbitos), proporcionando melhor qualidade de vida. Alguns estudos comprovam a eficiência da utiliza-
ção do Tandem (MS/MS ou MS2) nos programas de
A testagem é obrigatória e gratuita em todo o terri- triagem neonatal para o diagnóstico de um conjun-
tório brasileiro. Com a Lei nº 14.154/2021, o Progra- to de doenças tratáveis. O Tandem consiste de um
ma Nacional de Triagem Neonatal (PNTN), do SUS, conjunto de exames que utiliza a técnica de espec-
deixa de oferecer um teste simples (que consegue trometria de massa para a detecção de mais de 30
identificar apenas seis doenças) para um teste mais diferentes doenças, a partir do sangue colhido, pre-
completo (o que pode identificar um grupo de mais ferencialmente, após 48 horas e, no máximo, aos 30
de 50 doenças tratáveis). A implantação no SUS em dias de vida da criança.
cinco fases, deveria ter início em maio de 2022, en-
tretanto, já se observa atraso na implantação. Considerando as diversas formas de cálculos, veri-
ficou-se que os benefícios da triagem MS/MS su-
Outro ponto a destacar é que os erros inatos do peram os custos e que os benefícios líquidos eram
metabolismo (EIM), quando não identificados pre- significativos e robustos em vários cenários, com
cocemente, têm consequências graves e crônicas, várias premissas subjacentes e bem conservadoras.

ODS
ODS 3
• Meta 3.2 – Até 2030, enfrentar as mortes evitáveis de recém-nascidos e crianças menores de 5 anos, objeti-
vando reduzir a mortalidade neonatal para no máximo 5 por mil nascidos vivos e a mortalidade de crianças
menores de 5 anos para no máximo 8 por mil nascidos vivos.
• Meta 3.8 – Assegurar, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), a cobertura universal de saúde, o acesso a
serviços essenciais de saúde de qualidade em todos os níveis de atenção e o acesso a medicamentos e vacinas
essenciais seguros, eficazes e de qualidade que estejam incorporados ao rol de produtos oferecidos pelo SUS.

41
4 SAÚDE
Reconquistar as metas de cobertura vacinal, recuperando a efetividade do Programa Nacional de
Imunizações (PNI).

AÇÕES METAS
• Retomar as efetivas estratégias de comunica- 1. Cobertura vacinal de acordo com os índices recomenda-
ção para divulgar e estimular a vacinação em dos pelo próprio Ministério da Saúde (para todas as vaci-
todo o território nacional. nas que fazem parte do calendário do PNI e em todas as
faixas etárias) alcançada até 2025.
• Assegurar o orçamento para a manutenção da
execução do Programa Nacional de Imuniza- 2. Campanhas e estratégias nacionais periódicas de comunica-
ções (PNI) de forma contínua. ção para divulgação e estímulo à vacinação iniciadas em 2023.
• Promover a articulação com os entes subna- 3. Estratégias conjuntas de vacinação entre a União, estados e
cionais (em especial, com as secretarias esta- municípios definidas e acordadas em 2023.
duais e municipais de saúde) para traçar estra-
4. Orçamento para manutenção do PNI assegurado em todas
tégias de vacinação e garantir a efetividade de
as fases orçamentária (PPA, LDO e LOA) a partir de 2024.
execução do PNI.
5. Estratégia intersetorial para sistematização de fluxo de
• Criar o Observatório Nacional sobre Vacinação.
notificação de atrasos na carteira de vacinação por outros
• Sistematizar o fluxo de notificação de atrasos serviços das áreas de educação e assistência social elabo-
na carteira de vacinação por outros serviços rada em 2023 e implantada em 2024.
das áreas de educação e assistência social.
6. Observatório Nacional de Vacinação implantado até 2024.

RAZÕES
O Programa Nacional de Imunizações (PNI), institu- pais e/ou responsáveis. Contudo, a própria pandemia
cionalizado em 1973, coordena as atividades de imu- do novo coronavírus expôs a ausência de campanhas
nização desenvolvidas na rede de serviços de saúde de comunicação e a desarticulação da União em rela-
em todo o país. ção aos estados e municípios.
Ao longo do tempo, a atuação do PNI alcançou con- Entre as políticas de saúde, o Programa Nacional de
sideráveis avanços, ao consolidar a estratégia de Imunizações precisa ser priorizado e receber os inves-
vacinação nacional. As metas do programa contem- timentos necessários para que possamos reconquis-
plam a eliminação do sarampo (que retornou em tar as altas coberturas vacinais estabelecidas como
2018), do tétano materno e neonatal, da rubéola e meta pelo PNI (em geral, entre 90% e 95% nas vacinas
da síndrome da rubéola congênita, além do controle das crianças e 80% nas dos adolescentes), de forma
de outras doenças imunopreveníveis, como difteria, homogênea, em todos os municípios brasileiros.
coqueluche e tétano acidental, hepatite B, meningi- Um dos principais imunizantes do PNI é a vacina trí-
tes, febre amarela, formas graves da tuberculose, ru- plice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola), que
béola e caxumba, bem como a manutenção da eli- registra números de cobertura insuficientes desde
minação da poliomielite (status que atualmente está 2017. Naquele ano, o indicador registrou 86,2%; já em
ameaçado, pelas baixas coberturas vacinais). 2021, a cobertura caiu para 71,4%. Esse decréscimo
Deve-se destacar que a efetividade do PNI envolve a na vacinação vem contribuindo para o surgimento
atuação conjunta das secretarias estaduais de saúde de novos surtos de sarampo, uma doença altamen-
e, em especial, das secretarias municipais de saúde, te contagiosa. Já a procura pela vacina contra polio-
pois são os locais onde acontecem as políticas públi- mielite caiu de 96,5% em 2012 para 67,6% em 2021. A
cas. Sem contar a relevância da intersetorialidade das doença foi considerada eliminada no Brasil em 1989,
políticas públicas para o estímulo à vacinação e a ve- quando ocorreu o último caso, mas a queda na imu-
rificação do cumprimento do calendário vacinal pelos nização coloca em risco esse avanço.

ODS
ODS 3
• Meta 3.3 – Até 2030 acabar, como problema de saúde pública, com as epidemias de AIDS, tuberculose, ma-
lária, hepatites virais, doenças negligenciadas, doenças transmitidas pela água, arboviroses transmitidas pelo
aedes aegypti e outras doenças transmissíveis.
• Meta 3.8 – Assegurar, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), a cobertura universal de saúde, o acesso a
serviços essenciais de saúde de qualidade em todos os níveis de atenção e o acesso a medicamentos e vacinas
essenciais seguros, eficazes e de qualidade que estejam incorporados ao rol de produtos oferecidos pelo SUS.
• Meta 3.b – Apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias e inovações em saúde para as doenças
transmissíveis e não transmissíveis, proporcionar o acesso a essas tecnologias e inovações incorporadas ao
SUS, incluindo medicamentos e vacinas, a toda a população.

42
5 SAÚDE
Fortalecer a Atenção Primária em Saúde, promovendo os atendimentos com foco nas crianças e
nos adolescentes na Atenção Básica, por meio da expansão da Estratégia de Saúde da Família.

AÇÕES METAS
• Expandir a Estratégia de Saúde da Família 1. Núcleos de Atenção à Saúde das Famílias (NASF) rea-
nos municípios, conforme o disposto na tivados e com destinação específica de recursos nas
Portaria GM/MS nº 2.436/2017. transferências fundo a fundo em 2023.
• Investir na Atenção Básica de Saúde de 2. Cobertura de atendimento da Estratégia da Saúde da
forma abrangente, aprimorando o seu fi- Família nos municípios ampliada de acordo com os pa-
nanciamento. râmetros já fixados em normativas e portarias até 2026.
• Ampliar a cobertura de atendimento da
Estratégia de Saúde da Família, observan-
do os parâmetros já fixados nas normati-
ODS
vas e portarias.
• Destinar orçamento, reativar e ampliar ODS 3
os Núcleos de Apoio à Saúde da Família • Meta 3.8 – Assegurar, por meio do Sistema Único de Saú-
(NASF). de (SUS), a cobertura universal de saúde, o acesso a servi-
ços essenciais de saúde de qualidade em todos os níveis
• Investir em tecnologias para aprimorar a de atenção e o acesso a medicamentos e vacinas essen-
integração dos sistemas de informação ciais seguros, eficazes e de qualidade que estejam incor-
de saúde existentes. porados ao rol de produtos oferecidos pelo SUS.
• Valorizar o agente comunitário de saúde • Meta 3.c – Aumentar substancialmente o financiamento
e o agente de combate às endemias. da saúde e o recrutamento, desenvolvimento, formação e
retenção do pessoal de saúde, especialmente nos territó-
rios mais vulneráveis. 

RAZÕES
É importante destinar orçamento, reativar e am- A ESF ainda é a principal modalidade de atendimen-
pliar os Núcleos de Apoio à Saúde da Família to em saúde da Atenção Primária no SUS. Os resul-
(NASF), pois eles foram criados com o objetivo tados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019
de expandir a abrangência e o escopo das ações mostram que, em comparação com a de 2013, hou-
da Atenção Básica. São constituídos por equipes ve um aumento na cobertura, chegando a 62,6% da
compostas por profissionais de diferentes áreas população brasileira. Chama a atenção que, embora
de conhecimento, que devem atuar de maneira no Sudeste esteja a maior concentração populacio-
integrada, apoiando os profissionais das equipes nal cadastrada nos serviços, a cobertura em termos
de Saúde da Família, das equipes da Atenção Bá- percentuais é maior no Nordeste e no Sul do País.
sica para populações específicas (consultórios na Entretanto, mesmo com o aumento da cobertura,
rua, equipes ribeirinhas e fluviais etc.) e do Progra- houve uma redução do número de visitas domici-
ma da Academia da Saúde (PAS). Os NASF fazem liares rotineiras dos Agentes Comunitários de Saúde
parte da Atenção Básica, mas não se constituem (ACS), que caiu de 47,2% em 2013 para 38,4% em 2019.
como serviços com unidades físicas independen- Ademais, deve-se considerar que a formação e a dis-
tes ou especiais e não são de livre acesso para o tribuição dos recursos humanos em saúde constituem
atendimento individual ou coletivo. um tema complexo. No setor público, menos de 5%
Já a Estratégia Saúde da Família (ESF) visa à reorgani- dos médicos especialistas estão atuando no nível se-
zação da Atenção Básica no País, de acordo com os cundário de atenção (com serviços de maior comple-
preceitos do Sistema Único de Saúde. É considerada xidade, como hospitais e clínicas de especialidade). A
como estratégia de expansão, qualificação e consoli- maior parte deles está concentrada em hospitais (nível
dação da Atenção Básica, por favorecer uma reorien- terciário), o que contraria a demanda atual de atendi-
tação do processo de trabalho com maior potencial mento da população. Além disso, a PNS 2019 também
de aprofundar os princípios, as diretrizes e os fun- indica uma tendência de redução na procura das Uni-
damentos da Atenção Básica, de modo a ampliar a dades Básicas de Saúde (UBS) entre os anos de 2013 e
resolutividade e o impacto na situação de saúde das 2019 (respectivamente, de 58,5% para 56,1%) e um au-
pessoas e das coletividades, além de propiciar uma mento na busca por serviços de pronto-atendimento
importante relação de custo-efetividade. nos mesmos anos (de 9,9% para 13,3%).

43
6 SAÚDE
Ampliar a disponibilização de medicamentos no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

AÇÕES METAS
• Fortalecer o Programa Farmácia Popular, com previ- 1. Programa Farmácia Popular ampliado em todo o
são orçamentária para a sua manutenção e amplia- território nacional, com garantia de recursos or-
ção em todo o território nacional. çamentários, a partir de 2024.
• Incluir a medicação de alto custo no SUS, com pro- 2. Medicação de alto custo incluída no SUS, com
grama de acesso para crianças e adolescentes, com programa de acesso para crianças e adolescen-
procedimentos, fluxos e protocolos específicos. tes, com procedimentos, fluxos e protocolos es-
pecíficos, implantado até 2024.

RAZÕES
O acesso a medicamentos é reconhecido pela seja quanto à regulamentação dada pelo conjunto
Organização das Nações Unidas (ONU) como um de leis e por outras normas existentes, seja quanto
elemento essencial do direito de cada indivíduo à formulação e execução das políticas, seja quanto à
de obter o mais alto padrão atingível de sua saú- interpretação legal da extensão da responsabilidade
de física e mental, ou seja, é um componente do do Estado nessa área.
direito à saúde (United Nations, 2009). O Programa Em 2016, 4.556 municípios possuíam estabeleci-
Farmácia Popular do Brasil (PFPB) é uma iniciativa mentos com registros de vendas no âmbito do
do Governo Federal que cumpre uma das princi- Programa Farmácia Popular, o que representa
pais diretrizes da Política Nacional de Assistência aproximadamente 82% de cobertura do território
Farmacêutica (PNAF), que é ampliar o acesso da brasileiro. Em relação ao perfil socioeconômico
população aos medicamentos, permitindo que as dos usuários do Programa Farmácia Popular, des-
farmácias e drogarias cadastradas no PFPB realizem taca-se que os indivíduos com 40 anos ou mais de
a dispensação de medicamentos para as patologias idade representam 90,3% do total dos gastos. En-
de hipertensão, asma e diabetes. tre os mais jovens (com idades inferiores a 15 anos),
Entretanto, existem desafios para a universalização a concentração da demanda é por medicamentos
desse programa, principalmente no tocante à incor- usados no tratamento da asma, enquanto entre os
poração de medicamentos no SUS. Por exemplo: há idosos a maior parte dos recursos é destinada ao
um aumento cada vez maior no número de decisões tratamento da hipertensão arterial.
judiciais que determinam que a Administração Pú- No que tange à dimensão da renda, verifica-se que,
blica compre medicamentos e outras tecnologias independentemente do estrato social, os medica-
para os pacientes que os requeiram por meio do mentos para hipertensão são os produtos mais de-
Poder Judiciário – a chamada judicialização da saú- mandados. É interessante notar que, para o tratamen-
de –, o que causa desorganização no que se refere to da diabetes, há relação direta entre a demanda e a
às responsabilidades negociadas entre os entes da renda dos indivíduos. Enquanto, entre os mais pobres,
Federação. Por um lado, essa situação pode ser con- 19,7% dos recursos destinados a tal estrato são para a
siderada positiva, porque demonstra a proteção dos diabetes, entre os mais ricos o valor é de 26%. Tem-se
cidadãos contra eventuais omissões do Estado. Por que municípios participantes do Programa Farmácia
outro lado, o expressivo volume de ações judiciais Popular reduziram, em média, 64 internações por
é um indicador de que os mecanismos instituídos complicações de asma, diabetes e hipertensão por
para assegurar a assistência terapêutica integral aos 100 mil habitantes, quando comparados a municípios
indivíduos não estão funcionando adequadamente, não cobertos no período de 2004 a 2016.

ODS
ODS 3
• Meta 3.8 – Assegurar, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), a cobertura universal de
saúde, o acesso a serviços essenciais de saúde de qualidade em todos os níveis de atenção e
o acesso a medicamentos e vacinas essenciais seguros, eficazes e de qualidade que estejam
incorporados ao rol de produtos oferecidos pelo SUS.
• Meta 3.c – Aumentar substancialmente o financiamento da saúde e o recrutamento, desen-
volvimento, formação e retenção do pessoal de saúde, especialmente nos territórios mais
vulneráveis.

44
7 SAÚDE
Assegurar a promoção do direito à saúde mental de crianças e adolescentes na rede de ensino.

AÇÕES METAS
• Inserir, de forma efetiva, ações de promoção da 1. Ações de promoção da saúde mental e preven-
saúde mental e prevenção de comportamentos ção de comportamentos autodestrutivos inseri-
autodestrutivos no Programa Saúde na Escola (PSE). dos no Programa Saúde na Escola (PSE) em 2023.
• Viabilizar a implementação da Política Nacional de 2. Política Nacional de Prevenção da Automutilação
Prevenção da Automutilação e do Suicídio (Lei nº e do Suicídio implementada no contexto do PSE
13.819/2019) no contexto do PSE. em 2023.
• Promover, nos municípios, maior articulação entre 3. Articulação nos municípios entre escolas e a
as escolas e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), RAPS (Rede de Atenção Psicossocial que integra
que integra o SUS. o SUS), com fluxos e protocolos definidos, im-
plantadas a partir de 2024.

RAZÕES
Em 2019, a Lei nº 13.819 instituiu a Política Nacional de principalmente a depressão, que já se configurava
Prevenção da Automutilação e do Suicídio (PNPAS), um como uma das principais causas de incapacidade
importante passo em relação à temática da prevenção nos jovens. Dados do Ministério da Saúde indica-
do suicídio, da violência autoprovocada e da automu- ram um aumento de 10% na taxa de mortalidade
tilação no Brasil, apresentando caminhos para a redu- por suicídio no Brasil entre adolescentes de 15 a 19
ção dos índices de suicídio em curto, médio e longo anos entre 2011 e 2017. Pesquisadores da Universi-
prazo, mediante estratégias não apenas no âmbito da dade Federal de São Paulo (Unifesp) constataram
prevenção, mas também da implementação da cultu- ainda que, entre 2006 e 2015, houve um aumento
ra de promoção da saúde, de forma eficaz e segura. de 24% na taxa de suicídios, na mesma faixa etária,
nas cinco maiores cidades brasileiras.
No âmbito da educação, foi instituído, pelo Decreto
nº 6.286/2007, o Programa Saúde na Escola (PSE), que A primeira investigação de base escolar e nacional
resultou na integração entre o Ministério da Saúde e aponta a presença de transtornos mentais comuns
o Ministério da Educação, na perspectiva de ampliar (TMC) – em especial, a depressão e a ansiedade –
as ações específicas de saúde aos alunos da rede pú- em 30% dos adolescentes entre 12 e 17 anos em
blica de ensino, mas que ainda não abarca o tema da municípios de mais de 100 mil habitantes, sendo
saúde mental de forma explícita. Por se tratar de um que a maior prevalência ocorre no sexo feminino e
canal já estabelecido que, a partir de 2011, passou a nos adolescentes mais velhos.
realizar transferências de recursos financeiros e mate- No âmbito escolar, faltam informações confiáveis e
riais para os municípios credenciados ao programa, o orientação especializada para professores identifi-
PSE pôde fazer os benefícios chegarem aos seus des- carem transtornos mentais em crianças e jovens, o
tinos e conseguiu gerar um impacto positivo nas vidas que gera insegurança e distorções, além do cresci-
das comunidades escolares como um todo. mento de agravos à saúde física e mental dos pró-
A saúde mental de crianças, adolescentes e jovens prios profissionais da educação. Estudos apontam
já era uma preocupação antes mesmo da pande- que sintomas relacionados com TMC (como estres-
mia. Em relatório, o Unicef chamou a atenção para se, ansiedade e esgotamento) foram os mais fre-
o tema como um risco emergente e alertou sobre o quentemente observados em pesquisas realizadas
aumento dos índices de suicídio e de diagnósticos com professores entre 2010 e 2015, com a preva-
de doenças mentais entre crianças e adolescentes, lência de cerca de 60% de TMC em educadores.

ODS
ODS 3
• Meta 3.4 – Até 2030, reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não trans-
missíveis via prevenção e tratamento, promover a saúde mental e o bem-estar, a saúde do
trabalhador e da trabalhadora, e prevenir o suicídio, alterando significativamente a tendência
de aumento.
ODS 4
• Meta 4.a – Ofertar infraestrutura física escolar adequada às necessidades da criança, acessí-
vel às pessoas com deficiências e sensível ao gênero, que garanta a existência de ambientes
de aprendizagem seguros, não violentos, inclusivos e eficazes para todos.

45
8 SAÚDE
Reduzir os indicadores de gravidez e infecções sexualmente transmissíveis (IST) na adolescência.

AÇÕES METAS
• Estruturar um programa intersetorial de 1. Programa intersetorial de educação sexual e reprodutiva
educação sexual e reprodutiva. elaborado, com ampla participação social, em 2023 e im-
plantado a partir de 2024.
• Fortalecer o Programa Saúde na Escola, revi-
sitando o conteúdo do tema: “direito sexual 2. Conteúdo do tema “direito sexual e reprodutivo e pre-
e reprodutivo e prevenção de DST/Aids”. venção de DST/Aids” reformulado e fortalecido no Pro-
grama Saúde na Escola (PSE) a partir de 2024.
• Desenvolver materiais de educação que en-
globem as diversidades sexuais, com foco no 3. Materiais de educação englobando as diversidades se-
diálogo com a população LGBTQIA+. xuais, com foco no diálogo com a população LGBTQIA+,
desenvolvido em 2023 e distribuídos a partir de 2024.
• Realizar campanhas de prevenção à vio-
lência sexual (pornografia na internet, tu- 4. Campanhas nacionais periódicas de prevenção à violência
rismo sexual e exploração sexual de crian- sexual (pornografia na internet, turismo sexual e explora-
ças e adolescentes). ção sexual de crianças e adolescentes) iniciadas em 2024.

RAZÕES
O início da atividade sexual entre os adolescentes que o Brasil é responsável por 47% deles. O país foi
tem ocorrido cada vez mais cedo, associado à falta um dos poucos na região a apresentar um aumento
de conhecimento sobre sexualidade e métodos con- significativo no número de novas infecções, com um
traceptivos, além do baixo nível de escolaridade, oca- incremento de 11% em relação ao ano de 2005.
sionando maior frequência de infecções sexualmen- Os jovens na faixa etária entre 15 e 24 anos foram
te transmissíveis (IST) e gravidez indesejada. Uma vez responsáveis por um terço dessas novas infecções,
que os adolescentes são um segmento vulnerável o que os coloca num grupo-chave para ações de
da população (sobretudo, devido à prática de ações combate à síndrome da imunodeficiência adquirida
pouco seguras em relação ao sexo e à sexualidade), é (Aids). Apesar disso, os grupos-chave para a doença
preciso adotar estratégias bem estruturadas em edu- ainda se deparam com alto nível de estigma, discri-
cação e saúde, priorizando, também, projetos inter- minação e violência, o que cria forte obstáculo ao
setoriais voltados às demandas desse grupo. acesso às medidas preventivas, ao tratamento, aos
A Unesco publicou uma edição revisada das “Orienta- cuidados e aos serviços de apoio contra as infecções
ções Técnicas Internacionais de Educação em Sexuali- sexualmente transmissíveis. Na ONU, é consenso
dade”, baseadas nas mais recentes evidências científicas, que aumentar o conhecimento e a conscientização
para apoiar os países na implementação de programas sobre IST entre a população em geral permite que
eficazes de educação em sexualidade. O documento as pessoas se protejam, o que contribui para reduzir
afirma que muitos jovens se aproximam da vida adulta o estigma e a discriminação contra as pessoas que
enfrentando mensagens conflitantes, negativas e con- vivem com tais doenças.
fusas sobre a sexualidade e que, muitas vezes, são agra- É alta a taxa de gestação na adolescência no Brasil,
vadas pelo constrangimento e pelo silêncio por parte com cerca de 400 mil casos por ano. Em 2018, a par-
dos adultos, inclusive de pais e professores. ticipação das adolescentes entre 10 e 19 anos repre-
Em 2013, na América Latina, ocorreram aproxima- sentou 15,5% do total de partos (456.128 bebês). Em
damente dez novos casos de infecção pelo vírus da 2019, observa-se redução para 14,7% do total de par-
imunodeficiência humana (HIV) a cada hora, sendo tos no País (419.252 filhos de adolescentes).

ODS
ODS 3
• Meta 3.3 – Até 2030 acabar, como problema de saúde pública, com as epidemias de AIDS,
tuberculose, malária, hepatites virais, doenças negligenciadas, doenças transmitidas pela
água, arboviroses transmitidas pelo aedes aegypti e outras doenças transmissíveis.
• Meta 3.7 – Até 2030, assegurar o acesso universal aos serviços e insumos de saúde sexual e
reprodutiva, incluindo o planejamento reprodutivo, à informação e educação, bem como a
integração da saúde reprodutiva em estratégias e programas nacionais.
ODS 5
• Meta 5.6 – Promover, proteger e garantir a saúde sexual e reprodutiva, os direitos sexuais e direitos
reprodutivos, em consonância com o Programa de Ação da Conferência Internacional sobre Popu-
lação e Desenvolvimento e com a Plataforma de Ação de Pequim e os documentos resultantes de
suas conferências de revisão, considerando as intersecções de gênero com raça, etnia, idade, defici-
ência, orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em
especial para as mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.

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9 NUTRIÇÃO
Deter o crescimento da prevalência do sobrepeso e a obesidade infantojuvenil e contribuir com a
melhoria da saúde de crianças e adolescentes.

AÇÕES METAS
1. Critério de porte populacional inferior a 30 mil habitantes para
• Ampliar a Estratégia de Preven-
inclusão dos municípios na Estratégia de Prevenção e Atenção à
ção e Atenção à Obesidade In-
Obesidade Infantil (Proteja) excluído em 2023.
fantil (Proteja), com a inclusão
de municípios de qualquer por- 2. Diminuição progressiva dos índices de sobrepeso e obesidade
te populacional entre crianças de zero a nove anos acompanhadas pelo Sisvan,
a partir de 2024.

RAZÕES
A Estratégia de Prevenção e Atenção à Obesidade In- não devendo, portanto, ser reduzida ao resultado
fantil (Proteja), instituída em 2021, pelo Ministério da de escolhas voluntárias individuais, especialmente
Saúde, é um programa fundamental, pois a obesidade, por parte da criança ou do adolescente e da sua fa-
principalmente quando relacionada ao público infan- mília (ST. GEORGE et al, 2020; SMITH et al., 2018).
tojuvenil, constitui um dos principais desafios para a Tal condição pode ocasionar doenças cardiovascu-
saúde, tanto no Brasil quanto em âmbito globalmente lares e respiratórias, diabetes, hipertensão, distúr-
e no Brasil. Atualmente, no entanto, só podem aderir bios gastrointestinais, câncer etc., além de piorar as
ao Proteja municípios com menos de 30 mil habitan- condições de vida, tanto na infância quanto na vida
tes, o que está limitando o alcance do programa. adulta (WHO, 2020). De qual modo, esse urgente
O Proteja é constituído por cinco grandes linhas de problema de saúde pública impacta diretamente
ação, apresentadas a seguir. os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS), com os
altos custos relacionados ao tratamento do agravo
1. Vigilância alimentar e nutricional, promoção da
e de suas complicações.
saúde e de prevenção do ganho excessivo de
peso, diagnóstico precoce e cuidado adequado O elemento que contribui de maneira mais impor-
a crianças, adolescentes e gestantes, no âmbito tante para o aumento da prevalência da obesidade
da Atenção Primária à Saúde (APS). é a conformação de um ambiente promotor ou fa-
2. Promoção da saúde nas escolas para torná-las cilitador de escolhas alimentares não saudáveis e
espaços que promovam o consumo de alimen- de comportamentos sedentários, os quais dificul-
tos adequados e saudáveis e a prática regular tam a adoção e a manutenção de hábitos alimen-
de atividade física. tares saudáveis e a prática regular de atividade físi-
3. Educação, comunicação e informação para pro- ca (SWINBURN et al., 2019).
mover a alimentação saudável e a prática de No Brasil, dados do Ministério da Saúde sobre as
atividade física para toda a população brasileira. crianças acompanhadas na Atenção Primária à Saú-
4. Formação e educação permanente dos profis- de (APS), do Sistema Único de Saúde (SUS) apon-
sionais envolvidos no cuidado às crianças. tam que, em 2020, 15,9% dos menores de 5 anos e
5. Articulações intersetoriais e de caráter comu- 31,8% das crianças entre 5 e 9 anos tinham exces-
nitário que promovam ambientes saudáveis e so de peso. Destas, 7,4% e 15,8%, respectivamente,
apoiem a alimentação saudável e a prática de apresentavam obesidade.
atividade física no âmbito das cidades. Segundo recente relatório divulgado pelo Estudo
Destaca-se que a obesidade infantojuvenil se ca- Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI),
racteriza como um fenômeno complexo e multidi- uma em cada dez crianças brasileiras de até 5 anos
mensional, sendo influenciada por fatores genéti- apresenta excesso de peso e quase um quinto (18,6%)
cos, metabólicos, comportamentais e ambientais, está em uma faixa de risco de sobrepeso (UFRJ, 2022).

ODS
ODS 2
• Meta 2.1 – Até 2030, erradicar a fome e garantir o acesso de todas as pessoas, em particular os pobres e pes-
soas em situações vulneráveis, incluindo crianças e idosos, a alimentos seguros, culturalmente adequados,
saudáveis e suficientes durante todo o ano.
• Meta 2.2 – Até 2030, erradicar as formas de má-nutrição relacionadas à desnutrição, reduzir as formas de
má-nutrição relacionadas ao sobrepeso ou à obesidade, prevendo o alcance até 2025 das metas acordadas
internacionalmente sobre desnutrição crônica e desnutrição aguda em crianças menores de cinco anos de
idade, e garantir a segurança alimentar e nutricional de meninas adolescentes, mulheres grávidas e lactan-
tes, pessoas idosas e povos e comunidades tradicionais.

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10 NUTRIÇÃO
Fortalecer e aumentar a cobertura da vigilância e o monitoramento alimentar e nutricional de
crianças e adolescentes na Atenção Primária à Saúde (APS)

AÇÕES METAS
• Aprimorar o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricio- 1. Versão aprimorada do Sistema de Vigilância
nal (SISVAN), tornando-o mais amigável para o gestor Alimentar e Nutricional (SISVAN), tanto na in-
público municipal, com capacidade para gerar relatórios terface de alimentação de dados como nas
detalhados em tempo real e disponíveis à sociedade. consultas a informações e relatórios, disponi-
• Realizar a capacitação do gestor municipal e profis- bilizada até 2024.
sional da APS para a coleta de informações (dados 2. Programa nacional de capacitação para coleta
antropométricos e da avaliação do consumo ali- de dados e alimentação do SISVAN implanta-
mentar), bem como para a inclusão correta no siste- do até 2024, incluindo plataforma e-learning.
ma e na Caderneta da Criança.
3. Cobertura do SISVAN elevada para 50% nas
• Aumentar a cobertura da Vigilância Alimentar e Nu- faixas etárias correspondentes a crianças, ado-
tricional (VAN) na Atenção Primária à Saúde (APS). lescentes e para mulheres grávidas até 2026.
• Fortalecer a participação de programas como Saúde 4. Programas Saúde na Escola e Criança Feliz
na Escola e Criança Feliz no sistema de vigilância e integrados ao sistema de vigilância e moni-
monitoramento alimentar e nutricional das crianças toramento alimentar e nutricional das crian-
e adolescentes. ças e adolescentes até 2026.

RAZÕES
A avaliação contínua do perfil alimentar e nutricional tros de dados de antropometria e dos marcadores
da criança e do adolescente e de seus fatores determi- de consumo alimentar, acesso à internet para a di-
nantes compõem a Vigilância Alimentar e Nutricional gitação dos dados nos sistemas de informação e,
(VAN). Essa ferramenta de promoção de práticas ali- principalmente, profissionais capacitados para re-
mentares adequadas e saudáveis pode ser agregada alizar todas as atividades preconizadas no Ciclo de
a serviços de saúde, como por exemplo, com a ava- Gestão e Produção do Cuidado.
liação do consumo alimentar e do estado nutricional
Os registros da avaliação antropométrica (peso e
das pessoas, em todas as fases da vida, em especial de
altura, por exemplo) e dos marcadores do consu-
crianças e adolescentes na Atenção Primária à Saúde.
mo alimentar das pessoas atendidas na Atenção
A Vigilância Alimentar e Nutricional na infância de- Primária à Saúde, desde que inseridos no Sistema
manda a adoção de diferentes estratégias de vigilân- de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), no
cia epidemiológica com ênfase nos acompanhamen- Sistema de Gestão do Programa Bolsa Família na
tos feitos nos serviços de saúde. Quando aplicada de Saúde ou no e-SUS Atenção Primária, compõem os
forma ampliada, com base em inquéritos populacio- relatórios do SISVAN e revelam a situação alimentar
nais, em chamadas nutricionais e em produção cien- e nutricional da população atendida, permitindo a
tífica, a VAN tem o potencial de produzir um conjun- orientação de ações, políticas e estratégias para a
to de indicadores de saúde e nutrição que deverão atenção integral à saúde.
orientar a gestão na formulação de políticas públicas
Entretanto, é possível observar fragilidade durante a
e as ações locais de atenção nutricional.
realização das medidas antropométricas em parte
Nesse sentido, é muito importante investir em re- da rede, uma vez que por vezes as medidas não são
cursos que garantam o exercício das ações de Vigi- registradas adequadamente no sistema e na cader-
lância Alimentar e Nutricional na Atenção Primária neta da criança, de modo que o estado nutricional
à Saúde, como a disponibilidade de balanças, an- da criança não é avaliado. Observa-se também que
tropômetros, fita métrica, formulários para regis- as famílias não são orientadas adequadamente.

ODS
ODS 2
• Meta 2.1 – Até 2030, erradicar a fome e garantir o acesso de todas as pessoas, em particular os pobres
e pessoas em situações vulneráveis, incluindo crianças e idosos, a alimentos seguros, culturalmente
adequados, saudáveis e suficientes durante todo o ano.
• Meta 2.2 – Até 2030, erradicar as formas de má-nutrição relacionadas à desnutrição, reduzir as for-
mas de má-nutrição relacionadas ao sobrepeso ou à obesidade, prevendo o alcance até 2025 das
metas acordadas internacionalmente sobre desnutrição crônica e desnutrição aguda em crianças
menores de cinco anos de idade, e garantir a segurança alimentar e nutricional de meninas adoles-
centes, mulheres grávidas e lactantes, pessoas idosas e povos e comunidades tradicionais.

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11 NUTRIÇÃO
Aumentar os índices de aleitamento materno exclusivo e fomentar a alimentação
complementar adequada.

AÇÕES METAS
• Fortalecer e ampliar a Estratégia Nacional para 1. Índice de 60% de prevalência no aleitamento mater-
Promoção do Aleitamento Materno e Alimenta- no exclusivo até os seis meses atingido até 2026.
ção Complementar Saudável no SUS e a Estratégia
2. Licença-maternidade de 180 dias implantada até 2024.
Amamenta e Alimenta Brasil (EAAB).
• Estabelecer licença-maternidade de 180 dias. 3. Campanhas periódicas de informação e orien-
tação sobre aleitamento materno e alimentação
• Fortalecer a fiscalização sobre a propaganda e o complementar adequada iniciadas em 2024.
marketing dos substitutos do leite materno.
4. Fiscalização sobre propaganda e marketing de
• Realizar campanhas periódicas de informação e substitutos do leite materno intensificada, incluin-
orientação sobre aleitamento materno e alimen- do internet e pontos de venda, a partir de 2023.
tação complementar adequada.

RAZÕES
O aleitamento materno é uma estratégia natural de uma criança que não é seu filho, um compartilha-
vínculo, afeto, proteção e nutrição para a criança e mento informal entre mães, não remunerado, poden-
constitui a mais sensível, econômica e eficaz inter- do ser recíproco) apesar de ser contraindicada pelo
venção para redução da morbimortalidade infantil. Ministério da Saúde, apresentou frequência relativa-
Igualmente importante é a introdução de alimentos mente elevada, e a doação de leite humano para Ban-
seguros, acessíveis e culturalmente aceitos na dieta da cos de Leite Humano foi baixa no Brasil.
criança, em época oportuna e de forma adequada. Com isso, muitas crianças estão consumindo substi-
O aleitamento materno previne diarreias, infecções tutos do leito materno e/ou alimentos inadequados,
respiratórias, obesidade e doenças crônicas não como ultraprocessados, para substituir ou comple-
transmissíveis na idade adulta, e aumenta o desen- mentar o aleitamento. Muitas mães, ao fazerem isso,
volvimento intelectual da criança. Entre as mães pre- acreditam equivocadamente estar fornecendo uma
vine o câncer de mama e a obesidade pós-parto. O alimentação mais saudável do que o aleitamento.
Aleitamento Materno Exclusivo (AME) até seis meses Isso requer campanhas de informação continuadas,
de vida, como recomendado pela OMS, seguido do para o esclarecimento das mães a respeito do alei-
aleitamento materno complementado com outros tamento, e forte fiscalização sobre os substitutos do
alimentos, permitiria salvar a vida de mais de 800 leite materno (leites em pó) e o marketing desses
mil crianças e 20 mil mulheres por ano no mundo. produtos. Relatório recente (2022) do Unicef com a
Segundo dados do ENANI-2019, com base em pesqui- Organização Mundial de Saúde mostrou que a pan-
sa domiciliar, a prevalência de AME em menores de 6 demia de covid-19 criou novas oportunidades para
meses de idade foi de 45,8% no Brasil, sem diferenças os fabricantes de substitutos do leite materno ex-
significativas entre as regiões. A prevalência do Aleita- plorarem o medo de contaminação e promover seus
mento Materno Continuado (AMC) no primeiro ano de produtos e marcas. Isso foi verificado também em
vida (entre crianças de 12 a 23 meses) no Brasil foi de pesquisa no Brasil.
43,6%, sendo maior na região Nordeste (51,8%), seguida Além disso, a falta de condições e de apoio para as
das regiões Norte (49,1%), Centro-Oeste (43,9%), Sudes- mulheres, principalmente as trabalhadoras, pode im-
te (38%) e Sul (37,8%). pedir o aleitamento e levá-las ao uso do substituto do
As prevalências de AME e AMC no primeiro ano de leite materno como única opção. Por tal razão, a ex-
vida, embora expressivas, ainda estão aquém do pre- tensão da licença-maternidade e a criação de formas
conizado pela OMS. A prática do aleitamento mater- de apoio às mães são imprescindíveis para garantir o
no cruzado (prática em que uma mulher amamenta direito das crianças ao aleitamento materno.

ODS
ODS 2
• Meta 2.2 – Até 2030, erradicar as formas de má-nutrição relacionadas à desnutrição, reduzir as formas de
má-nutrição relacionadas ao sobrepeso ou à obesidade, prevendo o alcance até 2025 das metas acordadas
internacionalmente sobre desnutrição crônica e desnutrição aguda em crianças menores de cinco anos de
idade, e garantir a segurança alimentar e nutricional de meninas adolescentes, mulheres grávidas e lactan-
tes, pessoas idosas e povos e comunidades tradicionais.
ODS 3
• Meta 3.2 – Até 2030, enfrentar as mortes evitáveis de recém-nascidos e crianças menores de 5 anos, objeti-
vando reduzir a mortalidade neonatal para no máximo 5 por mil nascidos vivos e a mortalidade de crianças
menores de 5 anos para no máximo 8 por mil nascidos vivos.

49
12 NUTRIÇÃO
Promover a proteção e o apoio à amamentação e à alimentação adequada e saudável nas
escolas, de acordo com os guias alimentares brasileiros para a promoção da saúde dos
estudantes e a prevenção da obesidade e das doenças associadas.

AÇÕES METAS
• Definir e implementar estratégias de monitora- 1. Estratégias de monitoramento e avaliação do
mento e avaliação do Programa Nacional de Ali- Programa Nacional de Alimentação Escolar defi-
mentação Escolar (PNAE), nos termos da Resolu- nidas e implantadas até 2024.
ção CD/FNDE nº 6/2020.
2. Capacitação dos gestores para operacionalizar o
• Ofertar capacitação aos gestores para que pos- Programa Nacional de Alimentação Escolar em
sam operacionalizar o Programa Nacional de Ali- âmbito local iniciada em 2024.
mentação Escolar em âmbito local.

RAZÕES
A alimentação escolar é um direito garantido por lescentes, a refeição que se faz na escola é a única
meio da Lei nº 11.947/2009. O Programa Nacional ou a principal do dia. De acordo com o II VIGISAN,
de Alimentação Escolar (PNAE), considerado como durante o ano de 2021, com a permanência das es-
uma das mais relevantes políticas voltadas à ga- colas em ensino remoto devido à pandemia, houve
rantia do direito humano à alimentação adequada, uma tentativa de reorganização do PNAE (mediante
tem como objetivo regular a alimentação escolar a entrega de alimentos ou cartões de alimentação),
no País, sendo responsável por garantir o acesso a que não foi exitosa, pois resultou em prejuízos im-
uma alimentação adequada e saudável a mais de portantes para a segurança alimentar.
40 milhões de estudantes. Mas não é somente a insegurança escolar que afli-
Atualmente, a normatização que rege o programa ge crianças e adolescentes em idade escolar. A pre-
é a Resolução 6, de 8 de maio de 2020, que consi- valência da obesidade tem aumentado de maneira
dera as orientações do Guia Alimentar para a Popu- epidêmica entre crianças e adolescentes nas últimas
lação Brasileira e do Guia Alimentar para Crianças décadas e, atualmente, representa um grande pro-
Brasileiras Menores de 2 anos. A resolução restringe blema de saúde pública no mundo. Estima-se que,
a compra de produtos processados e ultraproces- no Brasil, entre as crianças menores de 10 anos, 6,4
sados a no máximo 20% do repasse financeiro fe- milhões tenham excesso de peso e 3,1 milhões te-
deral e exige que no mínimo 75% do recurso seja nham obesidade. Já entre os adolescentes, estima-
destinado à aquisição de alimentos in natura ou -se que cerca de 11,0 milhões tenham excesso de
minimamente processados. Estabelece, ainda, um peso, e 4,1 milhões, obesidade. O excesso de peso
quantitativo mínimo per capita de frutas, verduras compreende o sobrepeso e a obesidade.
e legumes nos cardápios escolares e a proibição da Estudos demonstram que crianças e adolescentes
oferta de alimentos ultraprocessados em creches e que usufruem da alimentação escolar servida pelo
para crianças menores de 3 anos. PNAE apresentam menor risco de obesidade, o que
O PNAE atende diariamente cerca de 40 milhões de reflete a relevância da alimentação escolar e a im-
estudantes e, para a maioria de tais crianças e ado- portância de que ela seja adequada e saudável.

ODS
ODS 2
• Meta 2.1 – Até 2030, erradicar a fome e garantir o acesso de todas as pessoas, em particular os
pobres e pessoas em situações vulneráveis, incluindo crianças e idosos, a alimentos seguros,
culturalmente adequados, saudáveis e suficientes durante todo o ano.
• Meta 2.2 – Até 2030, erradicar as formas de má-nutrição relacionadas à desnutrição, reduzir
as formas de má-nutrição relacionadas ao sobrepeso ou à obesidade, prevendo o alcance
até 2025 das metas acordadas internacionalmente sobre desnutrição crônica e desnutrição
aguda em crianças menores de cinco anos de idade, e garantir a segurança alimentar e nu-
tricional de meninas adolescentes, mulheres grávidas e lactantes, pessoas idosas e povos e
comunidades tradicionais.

50
13 NUTRIÇÃO
Diminuir o consumo de alimentos ultraprocessados por crianças e adolescentes e suas famílias.

AÇÕES METAS
• Elevar a tributação de alimentos ultraprocessados. 1. Aumento dos impostos ou sobretaxas de alimentos
ultraprocessados adotado em 2023.
• Conceder subsídio a alimentos in natura e minima-
mente processados. 2. Subsídios a alimentos in natura e minimamente pro-
cessados concedidos a partir de 2024.
• Realizar campanhas de comunicação para o esclare-
cimento da população a respeito dos malefícios dos 3. Campanhas de comunicação sobre malefícios de ul-
alimentos ultraprocessados. traprocessados iniciadas em 2023.

RAZÕES
As políticas fiscais, quando em conjunto com ou- no preço de alimentos ultraprocessados reduziria em
tras ações políticas, se tornam ferramentas bas- 6,6% a prevalência de excesso de peso e em 11,8% a
tante promissoras para a promoção da alimenta- prevalência de obesidade (Passos et al., 2020).
ção adequada e saudável e a promoção da saúde. Um estudo realizado pelo Unicef, que analisou os há-
Tornar bebidas e alimentos não saudáveis menos bitos alimentares de famílias com crianças menores de
acessíveis, com políticas tributárias de majoração 6 anos apoiadas pelo Bolsa Família/Auxílio Brasil, cons-
dos preços desses itens, já faz parte da agenda glo- tatou que cerca de 80% das famílias relataram o con-
bal da promoção da alimentação saudável. sumo de alimentos ultraprocessados pelas crianças no
A tributação para a promoção da alimentação ade- dia anterior à entrevista. Os alimentos mais consumi-
quada e saudável, sobretudo de bebidas açucaradas, dos foram biscoitos salgados ou recheados e bebidas
é recomendada internacionalmente por organismos açucaradas, como bebidas lácteas e achocolatados.
como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Or- No estudo, 24% citaram que a maior frequência
ganização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e o Banco para a compra de alimentos e bebidas ultraproces-
Mundial (WHO, 2016a; World Bank, 2020; PAHO, 2020). sados se deve ao preço, e 17%, à praticidade. Outro
Aumentar os tributos sobre bebidas e alimentos não fator importante foi o acesso a estabelecimentos
saudáveis, com a finalidade extrafiscal de promoção que comercializam esses produtos: 64% moram
da saúde, objetiva elevar seus preços de forma a des- perto de locais com refeições prontas, e 54%, próxi-
locar as compras e o consumo para itens mais saudá- mo de lojas de conveniência, enquanto o acesso a
veis e monetariamente mais acessíveis, além de cons- hortas perto de casa é de apenas 15%.
cientizar a população sobre seus malefícios (WCRF, A desinformação também preocupa, já que menos
2018; Teng et al., 2019). Também é capaz de mobilizar da metade (48%) das famílias não se sente confian-
a indústria do setor regulado, de modo a reformular te para interpretar os rótulos dos alimentos, cerca
seus produtos, por meio da diminuição de teores de de um quarto da amostra relaciona erroneamente
nutrientes como açúcar, gordura saturada e sódio. os alimentos ultraprocessados a fontes de vitami-
No Brasil, uma pesquisa observou uma relação inver- nas e minerais para seus filhos e 47% associam pelo
sa entre os preços de alimentos ultraprocessados e menos um alimento ultraprocessado como parte
o excesso de peso. Por exemplo, o aumento de 20% de uma alimentação saudável.

ODS
ODS 2
• Meta 2.1 – Até 2030, erradicar a fome e garantir o acesso de todas as pessoas, em particular os
pobres e pessoas em situações vulneráveis, incluindo crianças e idosos, a alimentos seguros, cultu-
ralmente adequados, saudáveis e suficientes durante todo o ano.
• Meta 2.2 – Até 2030, erradicar as formas de má-nutrição relacionadas à desnutrição, reduzir as for-
mas de má-nutrição relacionadas ao sobrepeso ou à obesidade, prevendo o alcance até 2025 das
metas acordadas internacionalmente sobre desnutrição crônica e desnutrição aguda em crianças
menores de cinco anos de idade, e garantir a segurança alimentar e nutricional de meninas adoles-
centes, mulheres grávidas e lactantes, pessoas idosas e povos e comunidades tradicionais.

51
EDUCAÇÃO

14
PROPOSTA 1
PACTO FEDERATIVO

Instituir e regulamentar o Sistema Nacional de plementação e da avaliação de políticas, programas


Educação (SNE) com o objetivo de fortalecer o e ações das diferentes esferas governamentais.
regime de colaboração e o pacto federativo e 4. Garantir a alocação de recursos e a definição de
garantir o direito à educação de todos os bebês, políticas públicas na área educacional de modo que
crianças e adolescentes. O SNE deve ter um ca- visem à superação das desigualdades educacionais,
ráter democrático e participativo, com o envolvi- do racismo, do sexismo, do capacitismo e do anal-
mento da sociedade civil, da comunidade escolar fabetismo, com ênfase na promoção da cidadania
e do poder público em todos os níveis de governo e no combate a todas as formas de discriminação.
(União, estados, municípios e Distrito Federal).
5. Garantir a integração do planejamento pela via
A execução da proposta deve envolver os gesto- dos planos decenais de educação dos estados, do
res públicos de todas as esferas de governo e tem Distrito Federal e dos municípios, em consonância
como metas: com o Plano Nacional de Educação (PNE) e com as
1. Garantir a regulamentação, pelo Congresso Na- conferências de educação, por meio do fortaleci-
cional, do Custo Aluno-Qualidade (CAQ), conforme mento dos fóruns de educação.
a legislação vigente e com a garantia dos respecti- 6. Garantir o aprimoramento da gestão democráti-
vos insumos, no âmbito do Fundo de Manutenção ca em âmbito nacional por meio do fortalecimento
e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), dos conselhos de educação (nacional, estaduais e
com vinculação ao SNE, assim como a sua respecti- municipais) e dos fóruns de educação como instân-
va implementação. cias autônomas e plurais e por meio da elaboração,
2. Garantir a regulamentação e implementação do da implementação e do monitoramento dos pla-
Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica nos decenais de educação em todos os níveis da
(Sinaeb). Federação, assim como pela garantia da realização
das conferências nacionais e em todos os Estados,
3. Garantir a participação social no SNE, no controle
no DF e nos municípios.
social e na articulação dos sistemas de ensino da
União, dos estados, do Distrito Federal e dos mu- 7. Garantir a participação e a gestão democrática
nicípios, sob a coordenação da União, com vistas à nas instituições de ensino, com o fortalecimento
integração do planejamento, da formulação, da im- dos conselhos escolares e dos grêmios estudantis.

JUSTIFICATIVA
Em consonância com o parágrafo único do Art. 23 cionais1. Ademais, em comparação com os países
e com o Art. 211 da Constituição Federal de 1988, o da Organização para a Cooperação e o Desenvolvi-
Plano Nacional de Educação previu, como uma das mento Econômico (OCDE) e com outros países em
metas, a regulamentação – por lei complementar desenvolvimento, os países que apresentam uma
– das normas de cooperação entre a União, os es- educação de qualidade gastam de três a quatro ve-
tados, o Distrito Federal e os municípios e de articu- zes mais o valor atualmente aplicado, por aluno, na
lação do Sistema Nacional de Educação em regime rede pública do Brasil2. Portanto, é urgente o cum-
de colaboração, com o equilíbrio na repartição das primento da estratégia 20.9 do PNE, com um Siste-
responsabilidades e dos recursos e o efetivo cum- ma Nacional de Educação que objetive a garantia
primento das funções redistributiva e supletiva da do direito à educação a todos os bebês, crianças,
União no combate às desigualdades educacionais adolescentes e jovens, por meio do fortalecimento
regionais, com especial atenção às Regiões Norte do regime de colaboração, do pacto federativo e da
e Nordeste. A falta de uma lei específica que esta- garantia efetiva da participação social e comunitária.
beleça um Sistema Nacional de Educação contri-
bui para as frequentes reduções, bloqueios e vetos DIAGNÓSTICO
orçamentários. São exemplos disso o impacto da
Emenda Constitucional nº 95/2016 nas verbas da Pelo monitoramento da execução do Plano Nacional
educação e os recorrentes cortes realizados anu- de Educação, ainda não foi cumprida a meta 20.9, que
almente nas Leis Orçamentárias Anuais quanto à se refere à regulamentação do Sistema Nacional de
educação, bem como os bloqueios e os vetos pre- Educação, prevista para ser executada em dois anos,
sidenciais aos gastos com políticas públicas educa- a partir da publicação do PNE, ou seja, 2016. Ademais,

1 Ver Balanço do PNE 2021. Disponível em: <https://media.campanha.org.br/acervo/documentos/Balanco_PNE2021_RelatorioCompleto_VF.pdf>


2 Ver Manual da SAM 2021. Disponível em: <https://media.campanha.org.br/semanadeacaomundial/2021/materiais/SAM_2021_Manual.pdf>

52
o PNE previa que, até 2024, 10% do PIB seria investido boração em matéria educativa e articule as diferentes
na educação; contudo, esse valor não ultrapassou 5% demandas dos municípios, dos estados e da União.
nos últimos anos. A política de austeridade em vigor é Além disso, o SNE deve ser pautado pela implemen-
contrária à efetivação das metas e estratégias do PNE, tação do Custo Aluno-Qualidade Inicial (CAQi) e pelo
tornando inviável a sua implementação, uma vez que Custo Aluno-Qualidade (CAQ). É importante destacar
não garante o financiamento público adequado. É im- que não é possível desvincular o financiamento dos
portante lembrar que, dos 41 dispositivos analisados parâmetros de qualidade para a educação e, conse-
no balanço de 6 anos do PNE, somente 6 têm alguma quentemente, do SNE. Dessa maneira, os cortes orça-
perspectiva de sucesso, considerando os prazos es- mentários recorrentes na educação nos últimos anos,
tabelecidos. O Artigo 211 da Constituição Federal diz o impacto da EC 95/2016 (Teto de Gastos) e o baixo
que “A União, os Estados, o Distrito Federal e os Mu- investimento que o País faz por aluno, em compara-
nicípios organizarão em regime de colaboração seus ção com os países da Organização para a Coopera-
sistemas de ensino”. Portanto, a partir das prioridades ção e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e com
de atendimento, das responsabilidades e funções, outros países em desenvolvimento, impactam o en-
cabe a esses entes organizar seus sistemas de ensi- frentamento aos desafios educacionais existentes em
no, definindo formas de colaboração, a fim de asse- todas as etapas e modalidades de ensino, bem como
gurar a universalização, a qualidade e a equidade do na oferta de uma educação de qualidade para todas
ensino obrigatório, sendo que os municípios podem e todos, aprofundando e ampliando as desigualdades
optar por instituir um sistema próprio de ensino ou se educacionais e sociais.
integrar ao sistema estadual de ensino. No Brasil, há
5.568 municípios, com um total de 46,7 milhões de
matrículas nas 178,4 mil escolas de Educação Básica,
conforme o Resumo Técnico do Censo Escolar 2021. ODS
Desse total, 377.147 (0,8%) matrículas estão na rede fe-
Esta proposta está diretamente relacionada a todas
deral; 15.019.116 (32,2%), nas redes estaduais; 23.135.793
as metas do Objetivo 4: assegurar a educação in-
(49,6%), nas redes municipais; e 8.136.345 (17,4%), na
clusiva e equitativa de qualidade e promover opor-
rede privada. Segundo dados da Uncme (União Nacio-
tunidades de aprendizagem ao longo da vida para
nal dos Conselhos Municipais de Educação), em 2020,
todas e todos. O alcance do Objetivo 4 do Objetivo
4.771 cidades brasileiras tinham conselhos munici-
de Desenvolvimento Sustentável (ODS) está direta-
pais de educação. Desse total, 2.535 (46%) municípios
mente vinculado à implementação efetiva do Plano
possuíam sistema próprio, 2.754 (49%) compunham
Nacional de Educação (PNE), que, por sua vez, está
os sistemas estaduais de ensino e 281 (5%) estavam
inviabilizado pela Emenda 95/2016, que impacta
sem essa informação. Assim, a organização da oferta
diretamente o financiamento da educação pública,
da Educação Básica, quanto às responsabilidades e
laica, inclusiva e de qualidade, o que afasta cada vez
funções (assistência técnico-financeira e ações suple-
mais o País do alcance do ODS 4 da Agenda 2030,
tivas e redistributivas), depende da instituição de um
da qual o Brasil é signatário.
Sistema Nacional de Educação (SNE), de forma que
promova a cooperação federativa e o regime de cola-

15
PROPOSTA 2
DIREITO À EDUCAÇÃO E AO
DESENVOLVIMENTO PLENO

Implementar políticas educacionais de formação 2. Promover políticas para a equidade e a supera-


inicial e continuada dos profissionais da educação, ção do racismo, das desigualdades de gênero, clas-
gestão e infraestrutura, com financiamento adequa- se social, territórios e deficiências, em consonância
do, com o objetivo de garantir o direito à educação com a Lei nº 9.394/1996, a Lei nº 10.639/2003, a Lei
e ao desenvolvimento pleno de todas as crianças nº 11.645/2008 e a Lei nº 13.146/2015.
e os adolescentes, desde a creche, com equidade 3. Garantir a formação inicial e continuada dos
racial, territorial e de gênero para com pessoas com profissionais da educação básica, por meio de po-
deficiência, transtornos globais do desenvolvimen- líticas de formação construídas com tais profissio-
to e altas habilidades/superdotação. nais, em parceria com as entidades formadoras.
A execução da proposta deve envolver os gestores 4. Regular e fiscalizar parâmetros mínimos de
públicos de todas as esferas do Poder Executivo e o formação de educadores que garantam a qua-
Congresso Nacional e tem como metas: lidade da formação inicial e continuada dos
1. Regulamentar e implementar o Custo Aluno- profissionais da educação básica, bem como ga-
-Qualidade (CAQ) e o Custo Aluno-Qualidade rantir programas e políticas de formação cons-
Inicial (CAQi) no âmbito do Fundeb, de acordo truídas com a colaboração de tais profissionais,
com o PNE. em parceria com as entidades formadoras.

53
EDUCAÇÃO
5. Garantir, nas redes públicas, a admissão dos ção, adotando-se os recursos educacionais aber-
trabalhadores da educação pela via dos concur- tos e acessíveis e em consonância com a legisla-
sos públicos. ção de proteção de dados, conforme o previsto
6. Garantir o cumprimento do piso salarial do na Lei nº 13.709/2018 e na Lei nº 12.965/2014.
magistério com o estabelecimento de planos de 11. Estabelecer um cadastro nacional para arma-
carreira e condições adequadas de trabalho e zenar e integrar as informações dos estudantes da
assegurar a instituição de um piso nacional para educação básica, de modo que sejam garantidos
todos os funcionários da educação. o sigilo das informações e o uso dos dados exclu-
7. Garantir uma estrutura adequada às escolas sivamente para fins do estabelecimento das polí-
públicas desde a creche, considerando, dentre ticas públicas, observando-se a Lei nº 13.709/2018
outros, os seguintes insumos indispensáveis: nú- (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais).
mero adequado de crianças e alunos por turma, 12. Assegurar a regulamentação, regulação e
parques, berçário, biblioteca ou sala de leitura avaliação da qualidade do ensino privado e o
com acervo adequado, laboratórios de ciência e controle social da educação nacional.
informática, internet de banda larga, quadra po- 13. Fortalecer as instâncias de participação, como
liesportiva coberta, acessibilidade, saneamento o conselho do Fundeb, o conselho da alimenta-
básico e acesso à luz elétrica e à água potável. ção escolar e os conselhos com função normativa,
8. Adotar estratégias intersetoriais urgentes e como os conselhos de educação estaduais e muni-
imediatas para o enfrentamento da exclusão cipais, os grêmios estudantis e o conselho escolar.
escolar, por meio de ações, programas e políti- 14. Garantir a regularidade na coleta e na dis-
cas com foco na busca ativa de bebês, crianças e ponibilização de dados atualizados e desagre-
adolescentes que estão fora da escola, com es- gados, das séries históricas, das informações e
pecial atenção para aquelas(es) mais vulneráveis de outros documentos orientadores produzidos
aos homicídios, ao trabalho infantil e às situa- pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educa-
ções de abusos e violências (institucional, sexu- ção Básica (Sinaeb), garantindo contínua aferição
al, doméstica, de gênero, racial e contra pessoas dos procedimentos avaliativos, com vistas ao
com deficiência). aprimoramento das políticas educacionais das
9. Adotar ações específicas para o atendimento diferentes esferas de governo.
de adolescentes em cumprimento de medidas 15. Promover políticas de apoio ao levantamen-
socioeducativas e das necessidades das escolas to da demanda por vagas em creche e de busca
localizadas em unidades de privação de liberdade. ativa escolar para a inclusão na pré-escola.
10. Garantir a utilização das tecnologias digitais 16. Adotar ações para o atendimento das especi-
de informação e comunicação (TDIC) na educa- ficidades da educação infantil.

JUSTIFICATIVA DIAGNÓSTICO
A aprovação do Fundeb em 2020 surge como um A análise dos dados do Sistema de Avaliação da
sinal de esperança para a educação. Sua consti- Educação Básica (Saeb) em 2019, feito pelo insti-
tucionalização traz segurança em relação à con- tuto Interdisciplinaridade e Evidências no Debate
tinuidade das políticas educacionais. Contudo, é Educacional (Iede), a pedido da Fundação Lemann,
insuficiente para garantir o direito à educação e mostra que, em todos os estados brasileiros, in-
ao desenvolvimento pleno de todas as crianças e dependentemente da disciplina avaliada (língua
adolescentes desde a creche, com equidade racial, portuguesa ou matemática), entre os alunos do 5°
territorial e de gênero para com pessoas com defi- ano e do 9° ano do ensino fundamental, há uma
ciência, transtornos globais do desenvolvimento e diferença expressiva no percentual de estudantes
altas habilidades/superdotação. As políticas educa- brancos e de estudantes pretos com aprendizado
cionais devem respeitar os marcos legais instituí- adequado. No 5° ano, são cerca de 65% de estu-
dos e os estudos científicos fartamente desenvol- dantes brancos com aprendizado adequado, contra
vidos no meio acadêmico nacional e internacional aproximadamente 40% de estudantes pretos. No 9°
em relação à educação, à infância, à juventude e ano, há 46% de estudantes brancos com aprendi-
aos processos educacionais necessários para o zado adequado, contra 27% de estudantes pretos.
desenvolvimento pleno. Nesse sentido, a escola Deve-se destacar que – embora a proporção de
ocupa uma função social na vida biopsicossocial aprendizado adequado em matemática seja menor
de bebês, crianças e adolescentes, em especial en- – apresenta-se uma proporcionalidade em relação
quanto espaço de interação e socialização, que se aos percentuais para língua portuguesa. A pesquisa
contrapõe, por exemplo, ao homeschooling. Pensar aponta que há diferenças importantes quando os
no direito à educação e ao desenvolvimento pleno alunos são do mesmo grupo socioeconômico, seja
implica a concepção de políticas educacionais que entre os brancos e pretos do mesmo nível socioe-
considerem as características regionais, territoriais conômico, seja entre níveis diferentes.
e comunitárias, reconheçam as diferenças (de raça,
gênero, classe e deficiência, transtornos globais do Embora os dados de matrículas dos estudantes que
desenvolvimento e altas habilidades/superdota- são público-alvo da educação especial indiquem
ção) e tratem todos e todas com equidade. um avanço progressivo em relação à inclusão dos

54
estudantes nas classes comuns – visto que, segun- ODS
do os dados do Censo Escolar (MEC/INEP, 2021) 92%
estão nas classes comuns –, esse público apresenta O alcance do Objetivo 4 do Objetivo de Desenvolvi-
altas taxas de evasão e exclusão escolar. Dentre as mento Sustentável (ODS) (assegurar a educação inclu-
escolas brasileiras, 60% não têm qualquer medida siva e equitativa de qualidade e promover oportuni-
de acessibilidade arquitetônica (INEP/MEC, 2020), dades de aprendizagem ao longo da vida para todas e
sem mencionar as barreiras comunicacionais, me- todos) está diretamente vinculado à implementação
todológicas e atitudinais. A partir disso, é possível efetiva do Plano Nacional de Educação (PNE), que, por
constatar que as desigualdades existentes na edu- sua vez, está inviabilizado pela Emenda 95/2016, que
cação brasileira não são apenas por nível socioeco- impacta diretamente o financiamento da educação
nômico, mas também por raça, deficiência, gênero, pública, laica, inclusiva e de qualidade, o que afasta
território, transtornos globais do desenvolvimento cada vez mais o País do alcance do ODS 4 da Agenda
e altas habilidades/superdotação. 2030, da qual o Brasil é signatário.

16 PROPOSTA 3
OFERTA DE MATRÍCULAS, ACESSO E PERMANÊNCIA

Implementar políticas de oferta de matrículas, acesso pectiva da garantia do direito constitucional.


e permanência com o objetivo de garantir o acesso 5. Identificar e atender toda a demanda de va-
à educação, o enfrentamento à exclusão e à cultura gas em creches, com equidade de raça, gênero,
de naturalização do fracasso escolar com equidade território e em relação a estudantes com defici-
racial, territorial, de gênero e em relação às pessoas ência, transtornos globais do desenvolvimento e
com deficiência, transtornos globais do desenvolvi- altas habilidades/superdotação, em contraposi-
mento e altas habilidades/superdotação, com aten- ção às políticas de vouchers.
ção especial aos territórios mais vulneráveis. 6. Implementar políticas que assegurem o direito
A execução da proposta deve envolver os gestores à educação aos adolescentes que estão em situ-
públicos de todas as esferas do Poder Executivo e o ação de atraso escolar, deixaram a escola e/ou
Congresso Nacional e tem como metas: não tiveram acesso aos estudos na idade própria.
1. Desenvolver políticas educacionais que promo- 7. Construção de políticas intersetoriais que en-
vam o acesso, a permanência, a aprendizagem e o derecem respostas aos desafios do acesso, da
desenvolvimento pleno de bebês, crianças e ado- permanência e do fracasso escolar com finan-
lescentes, com a equidade de raça e gênero e em ciamento adequado.
relação a estudantes com deficiências, transtornos 8. Por meio de uma gestão democrática e da escu-
globais do desenvolvimento e altas habilidades/ ta ativa da comunidade e do território escolar, de-
superdotação matriculados em escolas comuns. senvolver estratégias de combate e enfrentamen-
2. Implementar políticas de busca ativa escolar to à exclusão e à naturalização do fracasso escolar.
e de gestão intersetorial, com equidade de raça, 9. Implementar políticas de ações afirmativas
gênero, território e em relação a estudantes com que objetivem combater os efeitos do racis-
deficiências, transtornos globais do desenvolvi- mo, do sexismo, do classismo, do capacitismo,
mento e altas habilidades/superdotação. da LGBTfobia e das demais discriminações, com
3. Atualizar, recompor e assegurar o acesso pú- especial atenção aos territórios mais vulneráveis.
blico aos dados para a pesquisa e o desenvolvi- 10. Implementar políticas que assegurem estra-
mento de políticas públicas e o monitoramento tégias voltadas para o enfrentamento dos im-
dos indicadores referentes ao acesso, à perma- pactos da pandemia da covid-19, com atenção
nência e ao fluxo escolar (taxa de abandono, re- ao acolhimento no ambiente escolar, à amplia-
provação e distorção idade-série). ção e à diversificação das oportunidades para a
4. Garantir o acesso e a permanência de 100% de aprendizagem e o desenvolvimento pleno de
crianças e adolescentes de 4 a 17 anos, na pers- todos os bebês, crianças e adolescentes.

JUSTIFICATIVA
A educação é um direito de todo bebê, criança e seus ciclos de formação com integridade e digni-
jovem brasileiro e deve promover o “pleno desen- dade, maiores possibilidades de trabalho e renda
volvimento da pessoa, seu preparo para o exercí- no futuro, bem como previne enfermidades e des-
cio da cidadania e sua qualificação para o trabalho” nutrição. Os indicadores nacionais de fluxo escolar
(Art. 205 da Constituição Federal). Isso implica os demonstram altas taxas de exclusão, abandono,
direitos de acesso, permanência e aprendizagem. reprovação e distorção idade-série. Fatores como
As pesquisas comprovam que promover trajetórias raça, renda, território e deficiência têm um impacto
de sucesso escolar permite ao educando vivenciar direto nas situações de exclusão.

55
EDUCAÇÃO
DIAGNÓSTICO
Segundo o relatório “Enfrentamento da Cultura do falta de equipamentos, a ausência de infraestrutu-
Fracasso Escolar”, 2,1 milhões de estudantes foram ra para acesso à internet, a falta de acessibilidade
reprovados em 2019 no Brasil (ou seja, 8% do total comunicacional e o despreparo de docentes e dis-
de matriculados), mais de 620 mil abandonaram a centes para o ensino remoto fizeram com que mui-
escola e mais de 6 milhões estavam em distorção tos estudantes deixassem as escolas, bem como
idade-série (Unicef, 2021). A situação é ainda mais causaram perdas significativas às aprendizagens. É
grave para crianças e jovens em situação de vulne- urgente enfrentar o círculo vicioso de reprovação,
rabilidade social ou de acordo com fatores como abandono, atraso escolar, distorção idade-série e
raça, deficiência, territórios, entre outros. Estudan- fracasso. São necessárias estratégias que possibi-
tes indígenas e pretos, seguidos de pardos, são os litem o acompanhamento, o monitoramento e a
mais reprovados. Eles somam 1.053.855 estudan- avaliação das políticas e das ações implementadas,
tes ou 49,8% do total de reprovados em 2019. A re- tanto na gestão das redes municipais e estaduais,
provação de estudantes com deficiência também quanto na gestão escolar e na organização do tra-
é expressiva em relação à média nacional. De um balho da sala de aula. No site <https://trajetoriaes-
total de 859.942 matrículas, foram 98.701 reprova- colar.org.br> é possível ter acesso a dados e infor-
ções entre as(os) estudantes com deficiência (Uni- mações sobre o tema.
cef, 2021). Cerca de 80% dos estudantes com defi-
ciência matriculados em instituições especializadas
estão em distorção idade-série (MEC/INEP, 2020). ODS
“O aumento nas taxas de reprovação está associa- O alcance do Objetivo 4 do Objetivo de Desenvolvi-
do às mais elevadas taxas de distorção idade-série, mento Sustentável (ODS) está diretamente vinculado
ao aumento do nível socioeconômico dos estudan- à implementação efetiva do Plano Nacional de Edu-
tes e ao aumento do IDHM dos municípios, tanto cação (PNE), que, por sua vez, está inviabilizado pela
para os anos finais do ensino fundamental quanto Emenda 95/2016, que impacta diretamente o financia-
para o ensino médio” (Unicef, 2021, p. 43). A pande- mento da educação pública, laica, inclusiva e de quali-
mia da covid-19 aumentou ainda mais a situação dade, o que afasta cada vez mais o País do alcance do
de abandono e exclusão escolar. Fatores como a ODS 4 da Agenda 2030, da qual o Brasil é signatário.

17 PROPOSTA 4
FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO

Definir critérios objetivos e transparentes para for- 3. Garantir o aporte orçamentário para a am-
mulação e aplicação do orçamento público em pliação da capacidade física das instituições de
educação nos três níveis de gestão (União, estados, ensino, a valorização dos profissionais e a garan-
municípios e Distrito Federal) com o objetivo de as- tia de uma educação pública, laica, inclusiva, de
segurar a consignação de dotações orçamentárias qualidade e universal, para o cumprimento da
adequadas às diretrizes, metas e estratégias do Pla- responsabilidade do Estado brasileiro em ga-
no Nacional de Educação (PNE) (Artigo 10). rantir o acesso, a permanência e os padrões de
qualidade nas escolas públicas brasileiras.
A execução da proposta deve envolver o Poder Le-
gislativo e gestores públicos de todas as esferas de 4. Ampliar o financiamento de ações e progra-
governo e tem como metas: mas educacionais complementares de assis-
tência financeira da União aos estados e muni-
1. Financiar adequadamente a educação com cípios na Educação Básica, com prioridade para
transparência, detalhamento das ações orça- o Programa Nacional de Alimentação Escolar, o
mentárias e controle social para garantir uma Programa Nacional de Apoio ao Transporte do
educação de qualidade, tendo como parâmetro Escolar e o Programa Dinheiro Direto na Escola.
o Custo Aluno-Qualidade e o cumprimento do
PNE, aplicando um volume adequado de recur- 5. Promover a Reforma Tributária, de modo que
sos em educação, conforme a Meta 20 do PNE. favoreça o aumento dos recursos públicos a se-
rem destinados para a educação, por meio de
2. Garantir a vinculação dos recursos destinados um sistema tributário progressivo.
constitucionalmente especificamente para a
educação e o cumprimento da meta de 18% de 6. Apoiar e fortalecer sistemas públicos que ga-
investimento mínimo anual em educação para a rantam a equidade e a inclusão, cobrindo todas
União e 25% para estados, municípios e o Distri- as etapas e modalidades de ensino e combaten-
to Federal, conforme o Artigo 212 da Constitui- do discriminações de classe, raça e etnia, gênero,
ção Federal de 1988. etárias, de deficiência, geográficas e regionais.

56
7. Fornecer educação pública gratuita e de quali- 10. Garantir um financiamento público, com cará-
dade para todas as pessoas, enfrentando a ten- ter redistributivo, que priorize a cobertura de ma-
dência de privatização, mercantilização e finan- trículas e as condições de oferta adequadas para a
ceirização da educação. garantia de uma educação pública de qualidade.
8. Melhorar as condições de trabalho, de carreira, 11. Equalizar os fatores de ponderação do Fun-
de valorização e formação inicial e continuada deb, de forma a garantir a equidade e uma qua-
de trabalhadoras e trabalhadores da educação lidade que atenda às especificidades de todas
como dimensões fundamentais para a efetiva as etapas da Educação Básica, com priorização
qualidade da educação. da Educação Infantil.
9. Garantir espaços de participação e protago- 12. Revogar a EC 95/2016, que institui o regime
nismo da comunidade escolar nas decisões so- fiscal de Teto de Gastos e fere o orçamento da
bre o financiamento da educação. Educação.

JUSTIFICATIVA
significativos nos últimos anos no que diz respeito
Segundo art. 10 do PNE, as peças orçamentárias da ao financiamento da educação.
União, dos estados, do Distrito Federal e dos muni-
cípios deverão assegurar a plena execução do PNE O regime fiscal instituído pela Emenda Constitucio-
e dos respectivos planos de educação, com desti- nal 95/2016 impactou gravemente o financiamento
nação de recursos compatíveis com suas diretrizes, da educação e acentuou as desigualdades educa-
metas e estratégias. A complexidade regional, os cionais e sociais brasileiras. Ademais, são recorrentes
desafios existentes na prática educacional existen- cortes orçamentários na educação, por exemplo na
tes em todas as etapas de ensino e os parâmetros LOA 2021 a educação sofreu uma redução de 27%
de qualidade da educação não podem ser des- dos recursos em relação ao ano anterior, seguidos do
vinculados do financiamento das políticas educa- bloqueio de R$ 2,7 bilhões pelo Governo Federal. As-
cionais. Em regra, a política de austeridade fiscal e sim, as metas do Plano Nacional de Educação (PNE),
orçamentária é contrária à efetivação das metas e previstas para serem alcançadas até 2024, foram in-
estratégias do PNE, haja vista que em sete anos de viabilizadas de serem devidamente implementadas.
existência cerca de apenas 25% das metas foram Segundo Balanço do PNE de 20213, realizado pela
parcialmente cumpridas. Campanha Nacional pelo Direito à Educação, das
20 metas apenas 5 tiveram seu cumprimento par-
Neste cenário, a aprovação do FUNDEB em 2020 cial nos seis anos de vigência do Plano. Além disso, a
surge como um sinal de esperança para a Educa- aprovação da PEC 13/2021 que anistiou estados, mu-
ção, sua constitucionalização traz segurança em nicípios e agentes públicos de serem responsabiliza-
relação à continuidade das políticas educacionais, dos administrativa, civil ou criminalmente pelo des-
que não tem mais prazo de vigência, embora pos- cumprimento, em 2020 e 2021, do mínimo de 25%
sa ser revisto decenalmente. Além da distribuição da receita resultante dos impostos na manutenção
do fundo entre entes federativos, o novo FUNDEB e desenvolvimento do ensino, contraria o artigo 212
abriu espaço para a regulamentação do piso sa- da CF que estipula meta de 18% de investimento mí-
larial do magistério e do Custo Aluno Qualidade nimo anual em educação para a União e 25% para
(CAQ). É necessário que os governos nas diferentes estados, municípios e o Distrito Federal. A proposta
esferas de poder atuem para garantir o orçamento aprovada coloca em risco o mínimo constitucional
necessário para efetivação da Educação em todos previsto para a educação.
os municípios brasileiros.

DIAGNÓSTICO ODS
O investimento que o Brasil faz por aluno é inferior O alcance do Objetivo 4 do Objetivo de Desenvol-
em comparação com os países que fazem parte da vimento Sustentável (ODS) está diretamente vincu-
Organização para a Cooperação e Desenvolvimen- lado à implementação efetiva do Plano Nacional de
to Econômico (OCDE) e outros países em desen- Educação (PNE), que por sua vez, está inviabilizado
volvimento. Estudos internacionais mostram que pela Emenda 95/2016 que impacta diretamente no
países que apresentam uma educação de qualida- financiamento da educação pública, laica, inclusiva
de gastam de três a quatro vezes mais o valor atual- e de qualidade, o que afasta cada vez mais o país
mente aplicado por aluno na rede pública do Brasil. do alcance do ODS 4 da Agenda 2030 do qual o
A despeito dessa realidade, o País viveu retrocessos país é signatário.

3 Ver Balanço do PNE 2021, Disponível em: <https://media.campanha.org.br/acervo/documentos/Balanco_PNE2021_RelatorioComple-


to_VF.pdf>. 

57
EDUCAÇÃO

18 PROPOSTA 5
VALORIZAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO

Garantir a implementação de políticas nacionais 2. Garantir a aplicação do Piso Salarial Nacional


de valorização dos profissionais de educação, com do Magistério nas redes de ensino estaduais, dis-
o objetivo de assegurar condições necessárias ao trital e municipais, com base nos critérios de atu-
cumprimento do Piso Salarial Profissional Nacio- alização estabelecidos na legislação vigente para
nal para os Profissionais do Magistério Público da atingir o indicado na Meta 17 do PNE.
Educação Básica, à definição de planos de carreira, 3. Assegurar nos planos de carreira dos profis-
e à oferta de formação inicial e continuada, a fim sionais do magistério uma jornada de trabalho
de efetivar as metas 15, 16, 17 e 18 do Plano Nacio- compatível com a proporção mínima de 1/3 para
nal de Educação. atividades de preparação de aulas, correção de
O público-alvo são os profissionais de educação (do- provas e trabalhos, reuniões pedagógicas e com
centes, profissionais no exercício de funções de su- os pais, formação continuada no local de traba-
porte pedagógico direto à docência, de direção ou lho ou em instituições credenciadas, entre outras
formas apontadas no Parecer da Câmara de Edu-
administração escolar, planejamento, inspeção, su-
cação Básica do Conselho Nacional de Educação
pervisão, orientação educacional, coordenação e as-
CEB/CNE nº 18/2012.
sessoramento pedagógico, e profissionais de funções
de apoio técnico, administrativo ou operacional). 4. Valorizar os profissionais de educação por meio
da instituição de carreiras nas redes de ensino e de
A execução da proposta deve envolver gestores pú- sua formação por meio de programa específico;
blicos das esferas federal, estadual, distrital e muni-
5. Assegurar, nas redes de ensino de todo o país,
cipal, tendo por metas:
a contratação de profissionais efetivos (concursa-
1. Assegurar que os planos decenais de educa- dos) em pelo menos 90% dos postos de traba-
ção (nacional e subnacionais) orientem a insti- lho no magistério público e 50% entre os demais
tuição de planos de carreira para os profissionais profissionais que atuam nas escolas públicas, a
da educação em todos os entes da federação. fim de cumprir a estratégia 18.1 do PNE.

JUSTIFICATIVA
Já é consenso que, para se atingirem melhores re- Quanto ao cumprimento da Meta 16 do PNE, segun-
sultados na garantia do direito à educação, é neces- do o Resumo Técnico, os percentuais de docentes
sário promover uma efetiva política de valorização da educação básica com pós-graduação e formação
dos seus profissionais, com carreira e formação. continuada aumentaram no período de 2017 a 2021.
A relevância de tal política também se reflete na O percentual de docentes com pós-graduação su-
Constituição Federal, na Lei de Diretrizes e Bases biu de 36,2% para 44,7%. Já o percentual de docen-
da Educação Nacional (LDB) e no Fundeb, entre tes com formação continuada subiu de 35,1% para
outras legislações. Entretanto, a categoria é uma 40,0%. Entretanto, resta muito ainda a ser alcançado.
das primeiras a ser atingida pelos reflexos da crise Segundo o Relatório do 3º Ciclo de Monitoramento
econômica e por propostas de limitação de gastos das Metas do PNE, o indicador da Meta 17 trata da
públicos. Mais do que nunca, neste momento pós- relação percentual entre o rendimento bruto mé-
-pandemia – durante a qual os professores tive- dio mensal dos profissionais do magistério das re-
ram uma atuação estratégica para manter os laços des públicas da educação básica com nível superior
entre a escola, os estudantes e a comunidade –, é completo e o rendimento bruto médio mensal dos
primordial melhorar e fortalecer as condições de demais profissionais assalariados com o mesmo ní-
trabalho dos profissionais da educação, bem como vel de escolaridade. Pelas análises feitas no relató-
a sua relevância para o desenvolvimento pleno de rio, houve um aumento no período de 2012 a 2019,
bebês, crianças, adolescentes e jovens. passando de 65,3% em 2012 para 78,1% em 2019.
Pelo estudo, para ter alcançado a Meta 17, essa rela-
ção percentual deveria ter atingido 100% em 2020.
DIAGNÓSTICO
Por fim, com relação à Meta 18, o 3º Ciclo de Monito-
Pelo Resumo Técnico do Censo Escolar 2021, há ramento apresenta as seguintes conclusões: a) plano
2.190.943 docentes na educação básica brasileira, de carreira e remuneração dos profissionais do ma-
cuja grande maioria é composta pelo sexo femini- gistério: todos os estados, o Distrito Federal e 95,7%
no, está concentrada na faixa etária de 30 a 49 anos dos municípios possuem planos; b) piso salarial na-
e conta com atuação no ensino fundamental. Com cional profissional: 74,2% dos municípios e 70,4% dos
referência ao nível de formação dos professores, estados e do DF cumprem; c) limite máximo de ⅔
78,1% dos docentes da educação infantil, 83,4% dos da carga horária dos profissionais do magistério para
anos iniciais, 89,6% dos anos finais do ensino funda- atividades de interação com os educandos: 85,2%
mental e 91,6% do ensino médio têm ensino supe- dos estados e do DF e 74,2% dos municípios pos-
rior completo com licenciatura. suem legislações que preveem esse limite.

58
ODS
O alcance do Objetivo 4 do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) está diretamente vinculado à
implementação efetiva do PNE, que, por sua vez, está inviabilizado pela Emenda 95/2016, que impacta direta-
mente o financiamento da educação pública, laica, inclusiva e de qualidade, o que afasta cada vez mais o País
do alcance do ODS 4 da Agenda 2030, da qual o Brasil é signatário.

19 PROPOSTA 6
GESTÃO DEMOCRÁTICA E PARTICIPATIVA

Fortalecer as instâncias de participação da sociedade exemplo, pela organização da Conferência Nacio-


civil – organizações, profissionais da educação, famí- nal de Educação em suas diferentes etapas.
lias, estudantes e comunidades – na formulação e 4. Promover campanhas de conscientização que
implementação de políticas públicas de educação mobilizem nacionalmente crianças e adoles-
com o objetivo de aumentar a representatividade centes para que participem, de forma ativa, da
nos espaços de decisões e incentivar a participação construção de políticas públicas, seja por meio
desde a primeira infância. da participação em espaços formais (como os
fóruns e conselhos de educação), seja por meio
A execução da proposta deve envolver o Ministério
de consultas públicas e atividades a serem reali-
da Educação, em diálogo com as secretarias estadu- zadas por escolas, conselhos de escola, grêmios
ais e municipais de educação, e tem como metas: e coletivos estudantis.
1. Criar uma estrutura de governança e meca- 5. Fortalecer a participação de profissionais da
nismos de controle social que garantam a par- educação e da comunidade escolar na elabora-
ticipação de crianças desde a primeira infância ção do projeto político-pedagógico da institui-
e de adolescentes no monitoramento, na revi- ção educacional.
são e na atualização das metas dos Planos Na- 6. Coordenar campanhas, juntamente com os
cionais de Educação (2014-2024 e 2025-2035), estados e os municípios, para incluir a comu-
além da regulamentação do Sistema Nacional nidade escolar e local em conselhos da escola,
de Educação. principalmente em conselhos de classe.
2. Proporcionar condições para a realização 7. Implementar ações de escuta e participação das
da Conferência Nacional de Educação (Conae) crianças da educação infantil na construção de
entre 2023 e 2024, com o objetivo de garan- políticas públicas para essa etapa da educação.
tir, também, a participação ativa de crianças e
adolescentes em suas diferentes etapas (esco- 8. Realizar a formação dos conselheiros dos
las, regionais, municipais, estaduais, distrital e conselhos de acompanhamento e controle so-
nacional). cial do Fundeb, dos conselhos de alimentação
escolar, dos conselhos regionais, dentre outros,
3. Garantir a representação de crianças e ado- e de representantes educacionais nos demais
lescentes no Fórum Nacional de Educação e conselhos de acompanhamento das políticas
promover essa participação também nos fóruns públicas, com a finalidade de promover o moni-
municipais, distrital e estaduais, responsáveis, por toramento e o controle social qualificado.

JUSTIFICATIVA
A Constituição Federal de 1988 prevê, em seu Artigo especificamente no Artigo 16 do ECA, Capítulo II,
206, os princípios básicos para o oferecimento do nos parágrafos II e VI respectivamente, está previs-
ensino no País. Entre eles estão os seguintes: a) a to que a criança e o adolescente têm o direito à li-
liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divul- vre expressão e opinião, bem como de participar da
gar o pensamento, a arte e o saber; b) o pluralismo vida política, na forma da lei. Cabe mencionar que
de ideias e de concepções pedagógicas; c) a valori- a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
zação dos profissionais da educação escolar; e d) a (LDB) prevê que os sistemas de ensino devem de-
gestão democrática do ensino público. finir as normas para a gestão democrática na edu-
cação básica de acordo com as suas peculiaridades,
O direito à participação cidadã e política de crian- considerando como princípios a participação dos
ças e adolescentes, em específico, está previsto no profissionais da educação na elaboração do proje-
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que, to pedagógico da escola e a participação das co-
em seu Artigo 15 (Capítulo II), dispõe que a criança munidades escolar e local em conselhos escolares
tem o direito à liberdade, ao respeito e à dignidade ou equivalentes. Além disso, a LDB também prevê
como pessoas humanas em processo de desenvol- o direito à participação de crianças e adolescentes
vimento e como sujeitos de direitos civis, humanos na construção de uma educação democrática, ten-
e sociais, garantidos na Constituição e nas leis. Mais do em vista que a “formação para a cidadania está

59
EDUCAÇÃO
vinculada à construção de uma escola democrática conectados com os seus cotidianos, os fariam retor-
e aberta à participação e ao diálogo em diferentes nar à escola. Apesar dos desafios e do acirramen-
âmbitos: dentro da sala de aula, no conselho es- to das desigualdades para crianças e adolescentes
colar, nos espaços formalizados de participação, no seguirem suas trajetórias escolares, o estudo “Liga
projeto político-pedagógico, entre outros”. Criativos da Escola”, feito a partir de mais de 6 mil
projetos da educação básica realizados por crianças
e adolescentes das cinco regiões brasileiras, entre
DIAGNÓSTICO 2015 e 2020, revela que meninos e meninas estão,
A última edição da pesquisa “Juventudes e a Pande- sim, comprometidos com a melhoria de suas es-
mia”, realizada pela organização Rede de Conheci- colas e comunidades. Como resultado do estudo,
mento Social, escutou, em março de 2021, mais de observa-se, por exemplo, que cerca de 32% dos
68 mil jovens para criar e ampliar espaços de diálogo projetos feitos por estudantes propõem melhorias
para definir prioridades e caminhos na ação com e para a sua própria educação. Logo, é transformador
para as juventudes do Brasil. De acordo com a pes- criar espaços e incentivar a participação qualificada e
quisa, há um aumento da proporção de jovens que consciente de crianças e adolescentes nas decisões
não estudam e não trabalham, passando de 10% sobre a sua própria educação.
em 2020 para 16% em 2021. Segundo dados do es-
tudo, 18% dos jovens pesquisados (de 15 a 17 anos)
ODS
deixaram de estudar porque não estavam apren-
dendo ou não gostavam dos conteúdos e 20% de O ODS 4 defende uma educação inclusiva, de qua-
jovens da mesma faixa etária não conseguiram se lidade e equitativa e que possa promover oportu-
adaptar ao ensino remoto. Além disso, 27% dos jo- nidades de aprendizagem ao longo da vida para
vens que deixaram os estudos durante a pandemia todos. Sabemos que uma maior participação de
relataram que melhorias nos conteúdos curriculares crianças e adolescentes é fundamental para alcan-
e materiais didáticos, de forma que se tornem mais çarmos o ODS 4.

20 PROPOSTA 7
EDUCAÇÃO INCLUSIVA

Desenvolver e implementar medidas de enfrentamen- 3. Implantar programas de formação continuada


to à cultura de segregação escolar dos estudantes com em Educação Inclusiva de professores regentes
deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e das salas comuns, de professores do Atendi-
superdotação/altas habilidades, com o objetivo de ga- mento Educacional Especializado (AEE) e traba-
rantir sua inclusão em classes comuns com qualidade lhadores da educação.
e condições de permanência. As ações devem envol- 4. Regulamentar a formação inicial com a necessi-
ver investimento público em formação de professores, dade de disciplinas obrigatórias de Educação Espe-
recursos de acessibilidade e tecnologia assistiva, pro- cial na perspectiva inclusiva nos currículos de ensino
fissionais de apoio e oferta de atendimento educacio- superior dos cursos de Pedagogia e de licenciaturas.
nal especializado complementar. 5. Incentivar, por meio de políticas públicas, as re-
A execução da proposta deve envolver o Ministério da des de ensino a destinar horas ao trabalho colabo-
rativo entre professores especialistas e professores
Educação, em diálogo com os estados, o Distrito Fede-
regentes das salas regulares para planejamento pe-
ral e os municípios, e tem como metas:
dagógico inclusivo, elaboração de materiais didá-
1. Garantir o acesso e a permanência dos estudan- ticos acessíveis e estratégicas metodológicas para
tes com deficiência, transtornos globais do desen- todos os bebês, as crianças e os adolescentes.
volvimento e altas habilidades/superdotação nas
6. Garantir que as salas de recursos sejam multifun-
escolas comuns desde a creche, com equidade de
cionais, por meio de repasses para a redução pro-
raça, gênero e territórios (quilombolas, indígenas,
gressiva das salas de recurso por área de deficiência,
educação do campo e territórios vulneráveis).
bem como investir em equipamentos para os res-
2. Atualizar, recompor e assegurar o acesso público pectivos ambientes.
a dados para pesquisa e monitoramento dos indi-
7. Garantir a oferta do Atendimento Educacional
cadores referentes ao acesso, à permanência e ao
Especializado, pedagógico e complementar, na
fluxo escolar (taxa de abandono, reprovação e dis-
própria escola ou em instituições de educação
torção idade-série) dos estudantes que sejam pú-
infantil, no contraturno escolar.
blico-alvo da educação especial, garantindo o cru-
zamento dos diferentes bancos de dados, por meio 8. Criar programa de desenvolvimento e distri-
de uma avaliação unificada da deficiência e da in- buição de materiais didáticos acessíveis em to-
clusão da variável de deficiência na PNAD (no per- das as etapas de ensino.
fil do aluno) e em quaisquer outras pesquisas que 9. Criar programa de formação de profissionais de
possam subsidiar políticas públicas de educação. apoio, de forma que os estados, o Distrito Federal

60
e os municípios disponibilizem esses profissionais 14. Revogar o Decreto nº 10.502/2020, impedir
sempre que necessário, conforme o Estatuto da a autorização e a regulamentação do homes-
Pessoa com Deficiência, no turno da escolarização chooling (ensino domiciliar) e garantir o direito
e no contraturno, quando é ofertado o AEE. a um sistema educacional inclusivo, conforme a
10. Destinar repasses do Programa Dinheiro Direto Convenção sobre os Direitos das Pessoas com
na Escola (PDDE) para a adequação e a construção Deficiência.
de prédios escolares com infraestrutura acessível 15. Reduzir progressivamente os repasses de re-
(arquitetônica e comunicacional). cursos do Fundeb para a escolarização em insti-
11. Destinar repasses do PDDE para a aquisição tuições privadas, comunitárias, confessionais ou
de brinquedos e mobiliários acessíveis para a filantrópicas de educação especial segregada,
Educação Infantil. especialmente no que diz respeito à primeira
matrícula.
12. Criar um programa de incentivo para que as
redes estaduais disponibilizem transporte esco- 16. Enfrentar o quadro de exclusão escolar de
lar acessível de ida e volta da escola, incluindo os estudantes que são público-alvo da Educação
horários de oferta do AEE. Especial por meio da remoção de barreiras (ar-
quitetônicas, comunicacionais, metodológicas,
13. Condicionar os repasses públicos federais
instrumentais, programáticas e atitudinais) que
para o investimento em acesso e permanência
impeçam a permanência desses sujeitos em
dos estudantes que são público-alvo da educa-
condições de igualdade com os demais.
ção especial nas escolas comuns.

JUSTIFICATIVA DIAGNÓSTICO
A educação inclusiva é um direito garantido pela Os dados de matrículas dos estudantes que são
Constituição Federal. A Carta Magna, no Artigo 3º, público-alvo da Educação Especial indicam um
incisos I e IV, estabelece como objetivo fundamen- avanço progressivo em relação à inclusão dos es-
tal construir uma sociedade livre, justa e solidária, tudantes nas classes comuns. Segundo os dados
bem como promover o bem de todos, sem pre- do Censo Escolar (MEC/INEP, 2021), 92% estão
conceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quais- nas classes comuns. Porém, no ano de 2021, hou-
quer outras formas de discriminação. Também está ve pela primeira vez, em muitos anos, aumento
previsto que toda criança tem o direito de estudar também das matrículas em instituições especia-
na rede regular de ensino, sendo que os estudan- lizadas segregadas. Além dos dados relacionados
tes que são público-alvo da Educação Especial têm ao número de matrículas, esse público apresenta
o direito de receber o Atendimento Educacional altas taxas de evasão e exclusão escolar. Ademais,
Especializado (AEE) de maneira complementar e a pandemia da covid-19 afetou-os de maneira
nunca substitutiva à sala de aula comum, priorita- significativa e desproporcional, gerando perda de
riamente nas salas de recursos das escolas comuns. aprendizagem e a significativa piora do cenário de
Além disso, o Brasil assinou e ratificou a Convenção exclusão. Porém, há pouquíssimas pesquisas e da-
Internacional sobre os Direitos das Pessoas com De- dos para amparar medidas eficientes de políticas
ficiência (CDPD), da ONU, pelo Decreto nº 6.949/2009, públicas baseadas em evidências. A futura gestão
com status de emenda constitucional, asseguran- deverá desempenhar maiores esforços para in-
do um sistemático avanço da inclusão, tendo hoje vestir recursos públicos nas escolas públicas co-
92% dos estudantes em classes comuns (MEC/INEP, muns e criar políticas públicas intersetoriais na
2021). Porém, o último ano mostrou, pela primeira área. Dentre as escolas brasileiras, 60% não têm
vez em muito tempo, um aumento das matrículas qualquer medida de acessibilidade arquitetônica
também no educacional inclusivo em todos os ní- (INEP/MEC, 2020), além das barreiras comunica-
veis, bem como o aprendizado ao longo de toda a cionais, metodológicas e atitudinais.
vida, devendo remover todas as barreiras existentes
para uma melhor inclusão dos estudantes.
ODS
A meta 4 do Plano Nacional de Educação (PNE) (Lei
nº 13.005/2014) e a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº O direito à educação inclusiva está também pre-
13.146/2015) determinam que o Estado deve assegu- visto como um dos Objetivos de Desenvolvimento
rar um sistema educacional inclusivo e garantir con- Sustentável. Além da Meta 4, mais diretamente li-
dições de acesso, permanência, participação e apren- gada à proposta aqui apresentada, o direito à edu-
dizagem, por meio da oferta de serviços e de recursos cação de qualidade nas escolas comuns também
de acessibilidade que eliminem as barreiras e pro- se relaciona com os ODS 8 (trabalho decente e
movam a inclusão plena. Para além de todo o aparato desenvolvimento sustentável) (já que a educação
normativo já existente no Brasil, a convivência com a é premissa para uma boa inclusão no mercado
diversidade nas escolas é condição sine qua non para de trabalho), ODS 10 (redução das desigualdades)
formar cidadãos, um dos objetivos da educação bra- (uma vez que a educação é uma das ferramentas
sileira. A inclusão social e a possibilidade de uma vida capazes de reduzir as desigualdades com relação
independente posterior dos indivíduos que são pú- às pessoas com deficiência), ODS 11 (cidades e co-
blico-alvo da educação passam necessariamente por munidades sustentáveis) e ODS 16 (paz, justiça e
um percurso educacional inclusivo. instituições eficazes).

61
EDUCAÇÃO

21 PROPOSTA 8
EDUCAÇÃO COM EQUIDADE ÉTNICO RACIAL

Implementar mecanismos permanentes e políticas 4. Induzir ações junto às secretarias de educação


públicas de equidade racial e de gênero na educação para o enfrentamento das desigualdades em
de todos os bebês, crianças e adolescentes desde a uma perspectiva interseccional, com especial
creche, especialmente para a população negra e qui- atenção aos marcadores de raça, gênero, terri-
lombola e dos povos indígenas, com o objetivo de re- tórios e pessoas com deficiência, transtornos
duzir as desigualdades étnico-raciais na educação. globais do desenvolvimento e altas habilidades/
superdotação, além de estimular a elaboração
A execução da proposta deve envolver o Ministério da de programas e políticas públicas intersetoriais.
Educação, em diálogo com os estados, o Distrito Fede-
5. Elaborar, de forma permanente, a produção
ral e os municípios, tendo como metas: de indicadores educacionais e de diagnósticos
1. Desenvolver políticas educacionais que pro- sobre as desigualdades na educação, com re-
movam o acesso, a permanência, a aprendi- cortes de raça, gênero, território e pessoas com
zagem e o desenvolvimento pleno de bebês, deficiências, transtornos globais do desenvolvi-
crianças e adolescentes negros, indígenas e qui- mento e altas habilidades/superdotação, com
lombolas e em relação a pessoas com deficiên- foco em crianças e adolescentes.
cia, transtornos globais do desenvolvimento e 6. Garantir estrutura adequada às escolas públi-
altas habilidades/superdotação. cas desde a creche, considerando, dentre outros,
2. Implementar políticas de busca ativa esco- os seguintes insumos indispensáveis: número
lar e gestão intersetorial voltadas para bebês, adequado de bebês, crianças e alunos por turma,
crianças e adolescentes desde a creche, com parques, berçário, biblioteca ou sala de leitura
equidade de raça, gênero, território e em re- com acervo adequado, laboratórios de ciência e
lação às pessoas com deficiência, transtornos informática, internet de banda larga, quadra po-
globais do desenvolvimento e altas habilida- liesportiva coberta, acessibilidade, saneamento
des/superdotação. básico, acesso à luz elétrica e à água potável, para
3. Implementar políticas voltadas para a quali- áreas urbanas e rurais, mas com especial atenção
dade da educação básica em todas as etapas e aos territórios indígenas e quilombolas.
modalidades, com melhoria do fluxo escolar e 7. Promover, de modo permanente, a formação
da aprendizagem de bebês, crianças e adoles- inicial (graduação e licenciaturas) e continuada em
centes negros, indígenas, quilombolas e pessoas educação das relações étnico-raciais, com especial
com deficiência, transtornos globais do desen- atenção à Lei nº 10.639/2003 e à Lei nº 11.645/2008.
volvimento e altas habilidades/superdotação, 8. Fomentar ações para a educação das relações
de forma a equiparar a escolaridade média en- étnico-raciais a partir dos parâmetros curricula-
tre os grupos raciais. res vigentes.

JUSTIFICATIVA DIAGNÓSTICO
A escola segue sendo um grande reflexo do racis- De acordo com o Boletim sobre Desigualdades de
mo estrutural em nossa sociedade, sendo um dos Gênero e Raça4, produzido por Geledés em 2022, é
ambientes mais desiguais entre brancos e negros, importante reconhecer os avanços no campo da edu-
devido ao silenciamento e à manutenção de prá- cação, a partir da implementação de mecanismos que
ticas racistas. Os efeitos desse cenário de exclusão barram a ampliação das desigualdades, como, por
vão desde a oportunidade de acesso até a quali- exemplo, a incidência que alterou os marcos legais da
dade do ensino, de modo que seus impactos se Educação Básica a partir da alteração da LDB e da Lei
refletem nos índices de evasão, situação que se de Cotas. No entanto, ainda há muito o que avançar no
agrava com o recorte de gênero. É necessário re- que diz respeito à Educação Básica em todos os níveis.
conhecer também, conforme o Movimento Negro Atualmente, a taxa de inserção de crianças de 6 a 10
afirma historicamente, que a escola é uma das anos é muito próxima, sendo 96,5% para as crianças
ferramentas mais estratégicas para a transforma- brancas e 95,8% para as negras, mas a desigualdade
ção deste cenário de iniquidade racial, a partir da está nas condições inóspitas de frequência e perma-
implementação e efetivação de políticas educa- nência, nas interações sociais das crianças negras e, a
cionais antirracistas. É necessário que sejam mo- partir daí, o grande gargalo vai se formando, à medida
bilizados todos os atores envolvidos no processo que se avança no nível educacional. As informações
educacional de maneira comprometida com o en- do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Bási-
frentamento ao racismo, para que se consiga ins- ca (Saeb) de 2019 demonstram que, em todos os es-
titucionalizar uma educação com equidade racial. tados brasileiros, tanto no 5° ano como no 9° ano do

4 Ver https://www.scielo.br/j/ea/a/jH5FJCNrpWJqdtSwJPFQLDH/?format=pdf&lang=pt.

62
ensino fundamental, há uma diferença expressiva no
percentual de estudantes brancos e de estudantes ne- ODS
gros com aprendizado adequado. No 5° ano, em lín-
gua portuguesa, são 65,1% de estudantes brancos com O alcance do Objetivo 4 do Objetivo de Desen-
aprendizado adequado, contra 40,3% de estudantes volvimento Sustentável (ODS) está diretamente
negros em matemática. Além disso, 55,8% dos estu- vinculado à implementação efetiva do Plano Na-
dantes brancos têm um aprendizado adequado. Já cional de Educação (PNE), que, por sua vez, está
entre estudantes negros, o percentual cai para 31,2%. A inviabilizado pela EC 95/2016, que impacta dire-
partir do 9º ano, a diferença fica ainda maior, e isso se tamente o financiamento da educação pública,
dá mesmo quando os alunos brancos e negros são do laica, inclusiva e de qualidade.
mesmo grupo socioeconômico, o que evidencia que
se trata de uma desigualdade racial.

22 PROPOSTA 9
EDUCAÇÃO DO CAMPO

Elaborar, implementar e fortalecer políticas públicas 4. Criar programas junto às redes e aos sistemas
de educação do campo, desde a creche, para as po- de ensino para a melhoria das condições estru-
pulações campesinas, das florestas e das águas, com turais das escolas que acolhem crianças e ado-
a garantia de dotação orçamentária, em todos os ní- lescentes dos territórios rurais (do campo, das
veis da Federação (União, estados, Distrito Federal e áreas úmidas, das florestas, das áreas periurba-
municípios), com o objetivo de reduzir as desigual- nas e dos municípios com características rurais).
dades territoriais no acesso e na qualidade da oferta 5. Criar programas que apoiem iniciativas das
da Educação Básica no País. redes e dos sistemas de ensino na formação de
profissionais para as especificidades da docên-
A execução da proposta deve envolver os gesto- cia e da gestão em escolas do campo, das áreas
res públicos de todas as esferas de governo e tem úmidas e das florestas.
como metas:
6. Assegurar, com a contrapartida dos estados,
1. Garantir os investimentos necessários à am- do DF e dos municípios, uma política de finan-
pliação do Programa Nacional de Educação na ciamento das redes e dos sistemas de ensino
Reforma Agrária (Pronera) para a qualificação de para a garantia do acesso dos estudantes e dos
jovens que atuem no fortalecimento dos territó- profissionais de educação às tecnologias da in-
rios rurais em suas múltiplas dimensões (econô- formação e da comunicação (infraestrutura e
micas, sociais, ambientais). acesso à internet, computadores etc.) em todas
2. Ampliar e garantir as condições adequadas as escolas públicas dos territórios rurais.
para a implantação das Licenciaturas em Edu- 7. Rever critérios de enturmação e aportes finan-
cação do Campo (Ledocs), por meio de progra- ceiros adequados, de forma a evitar práticas de
mas de incentivo às universidades públicas for- fechamento de escolas do campo.
madoras de professores e do fortalecimento e
financiamento adequado do Programa de Apoio 8. Garantir a oferta educacional da educação bá-
à Formação Superior em Licenciatura em Edu- sica de crianças e adolescentes no próprio terri-
cação do Campo (Procampo). tório.
3. Apoiar financeira, técnica e pedagogicamente 9. Garantir programas de transporte escolar in-
os sistemas de ensino na promoção de adequa- tracampo.
ções necessárias para a efetiva implementação 10. Garantir que nenhuma escola do campo
da educação no campo, conforme preconizam o seja fechada sem que haja a manifestação da
Artigo 28 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação comunidade escolar, conforme prevê a Lei nº
Nacional (LDBEN) e regulamentações posteriores. 12.960/2014.

JUSTIFICATIVA
Segundo estudos de José Eli da Veiga5, o Brasil é me- e políticas públicas. A falta de acesso à educação do
nos urbano do que parece, considerando os critérios campo afeta a produção agropecuária (em especial, a
de atividade econômica e densidade demográfica. Por familiar) e impede a melhoria das condições de vida
isso, é importante considerar as populações do cam- da classe trabalhadora. A função social das escolas nos
po, da floresta e das águas em ações governamentais territórios rurais ganha outras dimensões, tendo em

5 Fonte: https://ctb.org.br/noticias/rurais/educacao-e-essencial-para-melhorar-a-vida-de-quem-trabalha-no-campo/

63
EDUCAÇÃO
vista a enorme desigualdade do acesso de crianças e remanescentes ou quilombolas, 14,7% têm materiais
adolescentes de áreas rurais à educação e a precarie- pedagógicos para as relações étnico-raciais. Tais dados
dade das condições de oferta do ensino público de reforçam a falta de práticas pedagógicas condizentes
qualidade. A educação do campo necessita de inves- com os pertencimentos culturais de crianças e adoles-
timentos para a formação de profissionais para lidar centes no campo, nos quilombos e nas áreas indígenas.
com as especificidades territoriais e pedagógicas e a
O Censo Escolar de 20196 mostra uma redução de
singularidade brasileira da dinâmica cidade-campo.
cerca de 145 mil estudantes matriculados em esco-
Também é fundamental a garantia legal de equidade las do campo no País, em relação ao ano de 2018.
de condições para o acesso e a permanência dos estu- Segundo dados divulgados em 20207, o ensino mé-
dantes do campo, por meio das Diretrizes Operacionais dio atende apenas 18% dos jovens entre 15 e 17 anos
(2002) (que instituem um conjunto de princípios que nos territórios do campo, que incluem indígenas,
garantem a universalização do acesso da população do extrativistas e quilombolas. Deve-se ainda ressal-
campo à Educação Básica e à Educação Profissional de tar que 43% das escolas do campo não têm acesso
Nível Técnico) e das Diretrizes Complementares (2008) à internet e, durante o período de pandemia, uma
(que explicitam as relações entre a Educação Básica parte dos estudantes do campo foi prejudicada pela
em todas as suas etapas e o atendimento às popula- exclusão digital em que vivem. Por fim, nos últimos
ções do campo em suas variadas formas de produção anos, ocorreu um fechamento sistemático de tur-
da vida). Em relação à Educação Infantil, as Diretrizes mas, turnos de ensino e escolas em áreas rurais, pro-
Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (2009) movendo o deslocamento de centenas de alunos de
são um importante instrumento legal no que diz res- suas comunidades para escolas-núcleos e escolas
peito à garantia de práticas pedagógicas condizentes das cidades, desconsiderando o direito de crianças,
com os pertencimentos culturais das crianças. jovens e adultos de estudar em suas comunidades.

DIAGNÓSTICO
Em relação ao contexto da educação do campo, exis-
ODS
tem no Brasil cerca de 54.403 escolas na zona rural, O alcance do Objetivo 4 do Objetivo de Desenvolvi-
sendo que somente 7.992 utilizam materiais pedagó- mento Sustentável (ODS) está diretamente vinculado
gicos específicos para a educação no campo, o que re- à implementação efetiva do Plano Nacional de Edu-
presenta 15% desse total. Na educação indígena, 36,1% cação (PNE), que, por sua vez, está inviabilizado pela
das escolas em áreas indígenas têm materiais para a EC 95/2016, que impacta diretamente o financiamen-
educação indígena. Além disso, nas escolas em áreas to da educação pública, laica, inclusiva e de qualidade.

23 PROPOSTA 10
EDUCAÇÃO INTEGRAL

Definir diretrizes orçamentárias e de gestão para a senvolvimento integral de crianças e adolescentes,


implementação da Educação Integral e a amplia- em colaboração com os estados, o Distrito Federal
ção da jornada escolar em toda a Educação Bási- e os municípios, e tem como metas:
ca, com especial atenção à educação infantil e ao
1. Oferecer educação em tempo integral em, no
ensino fundamental, com o objetivo de assegurar mínimo, 50% das escolas públicas, de forma a
o alinhamento curricular e das políticas de avalia- atender, pelo menos, 25% dos(as) alunos(as) da
ção e formação dos profissionais e de ampliar e Educação Básica.
diversificar as oportunidades educativas de bebês,
2. Institucionalizar e implementar a Política Nacio-
crianças e adolescentes em jornada ampliada, com
nal de Educação Integral, com a definição de dire-
prioridade para aqueles em situação de maior vul- trizes e de um modelo de gestão e de orçamento
nerabilidade social. que oriente as políticas de currículo, avaliação, for-
A execução da proposta deve envolver o Ministério mação de profissionais e de ampliação da jornada
da Educação, em diálogo com pastas afins ao de- escolar, em colaboração com estados e municípios.

6 Fonte: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2022/04/22/com-apenas-18percent-dos-jovens-do -campo-no-ensino-medio-governo-


-volta-a-articular-aulas-a-distancia-no-pa-mpf-e-160-entidades-sao-contra.ghtml
7 https://deolhonosplanos.org.br/metas-regressao-pne/

64
3. Formular e implementar políticas de currículo, jornada escolar prioritariamente para os estu-
avaliação e formação dos profissionais de edu- dantes em situação de menor nível socioeconô-
cação alinhadas à concepção da Educação Inte- mico, com equidade racial, de gênero, território
gral, abrangendo todas as escolas de Educação e, no caso das pessoas com deficiência, conco-
Básica, em colaboração com os estados, o Dis- mitantemente à oferta do AEE.
trito Federal e os municípios. 8. Fortalecer as instâncias e os mecanismos de
4. Formular e implementar, em colaboração participação da sociedade civil na formulação e
com os estados e os municípios, políticas curri- na implementação da Política Nacional de Edu-
culares que respeitem a autonomia das escolas cação Integral, para garantir a qualidade e a con-
na construção de seus projetos político-peda- tinuidade dos programas.
gógicos e a organização de tempos e espaços, 9. Promover uma gestão intersetorial que articu-
de acordo com os contextos e a participação das le as Políticas de Educação Integral às Políticas
comunidades escolares. de Assistência Social, Saúde, Cultura e demais
5. Formular políticas de avaliação que monito- pastas, para a garantia do direito à educação.
rem constantemente os processos de aprendi- 10. Fomentar políticas que efetivem a articula-
zagem e desenvolvimento integral, a fim de que ção intersetorial das escolas com equipamentos
não apenas estejam associados ao desempenho públicos e organizações sociais na perspectiva
escolar, mas também incluam outros indicado- do compartilhamento do processo de formação
res, como sociabilidade, convivência, partici- de crianças, adolescentes e jovens com diferen-
pação na vida pública, respeito à diversidade e tes atores e espaços dos territórios.
protagonismo dos estudantes.
11. Definir diretrizes orçamentárias e de gestão
6. Formular e implementar, em colaboração com para atingir as coberturas previstas no Plano Na-
os estados e os municípios, políticas de formação cional de Educação (Meta 1) e para o aumento de
inicial e continuada que reconheçam o profissiona- oferta de vagas, em tempo integral, na educa-
lismo dos trabalhadores da educação como produ- ção infantil, com prioridade para as populações
tores de conhecimento e agentes na formulação e vulneráveis, com o objetivo de garantir o acesso
implementação das políticas e práticas educativas. pleno à alimentação, aos cuidados e à educação
7. Implementar uma política de ampliação da para as crianças de zero a quatro anos.

JUSTIFICATIVA
A Meta 6 do PNE estabelece que, até 2024, o Bra- jornada no País é um dispositivo estruturante do
sil deve oferecer educação em tempo integral em enfrentamento das desigualdades sociais e educa-
no mínimo 50% das escolas públicas, de forma a cionais em âmbito nacional. Diante do impacto da
atender ao menos 25% dos estudantes da Educa- pandemia nas condições de vida e nas trajetórias
ção Básica. No entanto, entre 2014 e 2020, o nú- escolares de crianças e adolescentes, é urgente a
mero de escolas com jornadas em tempo integral retomada dos investimentos em políticas de Edu-
caiu de 42.655 para 27.969 – que representam 29% cação Integral em jornada ampliada, com ênfase no
e 20,5% das escolas públicas – e as matrículas ca- ensino fundamental.
íram de 6,5 milhões para 4,8 milhões8. No mesmo
período, os principais programas em nível federal
para a meta foram descontinuados, assim como a DIAGNÓSTICO
Educação Integral pelo Governo Federal. Em um
contexto de corte de gastos e de Emenda Consti- O Brasil é um país marcado por graves violações
tucional 95, cumprir a Meta 6 fica completamen- de direitos, que atingem de forma desigual crian-
te inviável, uma vez que a Educação Integral exige ças e adolescentes pobres, negros e indígenas,
mais recursos e investimentos. meninas e pertencentes a territórios periféricos
e a comunidades tradicionais. Tais violações pio-
O Resumo Técnico do Censo Escolar9, produzido
raram muito com a pandemia, o que representou
pelo INEP, aponta que o ensino fundamental so-
um grave impacto nesse cenário.
freu grave redução no percentual de matrículas
em tempo integral, de 2015 a 2019. Em 2015, eram Segundo dados de pesquisa10 conduzida por Mar-
19,4% dos estudantes no ensino fundamental que celo Neri, da Fundação Getulio Vargas (FGV), a pan-
permaneciam em atividades escolares por sete ho- demia representou um agravamento das desigual-
ras diárias ou mais. Em 2019, esse percentual caiu dades educacionais – quanto mais pobre, menor a
para 10,9%. O PNE reconheceu que a ampliação da frequência, menor a quantidade de atividades reali-

8 Disponível em: <https://deolhonosplanos.org.br/metas-regressao-pne/>


9 Disponível em: <https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/estatisticas_e_indicadores/resumo_tecnico_censo_escolar_2021.pdf>

65
zadas e de tempo dedicado aos estudos. Além disso,
houve uma piora importante nos índices relaciona-
dos à violação de direitos, como o trabalho infantil ODS
e a exclusão escolar. Segundo relatório do Unicef de O alcance do Objetivo 4 do Objetivo de
202111, nos últimos anos, o Brasil vinha avançando, Desenvolvimento Sustentável (ODS) – as-
lentamente, na garantia do acesso de cada criança segurar a educação inclusiva e equitativa
e adolescente à educação. De 2016 a 2019, o percen- de qualidade e promover oportunidades
tual de meninas e meninos de 4 a 17 anos na esco- de aprendizagem ao longo da vida para to-
la vinha crescendo no País. Em 2019, havia quase 1,1 das e todos – está diretamente vinculado à
milhão de crianças e adolescentes em idade escolar implementação efetiva do Plano Nacional
obrigatória fora da escola no Brasil. Em novembro de de Educação (PNE), que está inviabilizado
2020, mais de 5 milhões de meninas e meninos de pela EC 95/2016, que impacta diretamente
6 a 17 anos não tinham acesso à educação no Brasil. o financiamento da educação pública, lai-
Destes, mais de 40% eram crianças de 6 a 10 anos, ca, inclusiva e de qualidade.
faixa etária em que a educação estava praticamente
universalizada antes da pandemia.

10 https://www.cps.fgv.br/cps/TempoParaEscola/
11 https://www.unicef.org/brazil/media/14026/file/cenario-da-exclusao-escolar-no-brasil.pdf

66
24 CULTURA, ESPORTE E LAZER
Assegurar o acesso a atividades corporais, ao desenvolvimento do autocuidado e a hábitos
saudáveis, propiciar o fortalecimento das relações interpessoais e a compreensão da
diversidade e das diferenças nas aulas de educação física das escolas da educação básica.

AÇÕES METAS
• Fortalecer as bases legais e programáticas para ga- 1. Carga horária mínima de duas aulas semanais de
rantir a oferta de educação física na Educação Básica educação física adotada como obrigatória em todas
a todas as crianças, aos adolescentes e aos jovens. as redes de ensino na Educação Básica até 2024.
• Fortalecer a educação física como disciplina inclusi- 2. Programas multissetoriais de estímulo e capacitação
va, voltada para o desenvolvimento integral e para a para uma perspectiva ampla e inclusiva da educação
cultura do movimento, em lugar da valorização do física para professores e escolas instituídos até 2024.
desempenho e da eficiência.
3. Espaços de esporte, lazer e recreação disponíveis em
• Aumentar a disponibilidade de áreas de esporte, la- pelo menos 70% das escolas públicas até 2026.
zer e recreação nas escolas públicas.

RAZÕES
A Constituição determina que o Estado garantirá o Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para o
direito de todos à cultura, ao esporte e ao lazer. O Es- ensino fundamental, por exemplo, têm como pri-
tatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, no art. 4°, meiro princípio norteador a inclusão e afirmam:
assegura de forma absoluta a educação, esporte, la- “Busca-se reverter o quadro histórico da área [de
zer e cultura, dentre outros direitos. Em alinhamento educação física] de seleção entre indivíduos aptos e
com as demais normativas, a Lei de Diretrizes e Bases inaptos para as práticas corporais, resultante da valo-
da Educação (LDB), Lei nº 9.394/1996, estabelece no rização exacerbada do desempenho e da eficiência”.
art. 26, § 2º e 3º, que a educação física é componente É preciso, ainda garantir que as escolas disponham
curricular obrigatório da Educação Básica. de espaços adequados para a realização das ativi-
As aulas de educação física na escola estão para além dades, de maneira prazerosa e acolhedora, o que
dos momentos de recreação, lazer e entretenimen- nem sempre se verifica. O Censo Escolar de 2019
to: por meio de atividades coletivas ou individuais, os mostra que apenas 12,7% das escolas estaduais e
estudantes praticam jogos, brincadeiras e práticas es- 16,2% das municipais dispõem de parque infantil
portivas que promovem o desenvolvimento de estilo para os alunos dos anos iniciais. Quadras de espor-
de vida saudável, consciência corporal, solidariedade e te estão disponíveis, por sua vez, em 66,7% das es-
cooperação. Além disso, contribuem para a promoção, taduais e 31,4% das municipais.
a prevenção e reabilitação da saúde física e mental. Além das atividades corporais, a educação física
A educação física na escola fica frequentemente li- deve oferecer aos estudantes informações e co-
mitada ao aprendizado ou à prática de esportes, nhecimentos sobre o autocuidado, estilos de vida
como futebol, vôlei, handebol, entre outros. Essa é e formas de alimentação, entre outros temas im-
uma concepção que acaba por tornar suas ativida- portantes para o desenvolvimento, o bem-estar, a
des pouco inclusivas. Embora a prática de esportes saúde e a qualidade de vida de crianças e adoles-
possa fazer parte da disciplina, sua perspectiva edu- centes. A adoção dessa visão inclusiva e ampliada
cacional e inclusiva exige a proposição de atividades da educação física deve ser disseminada por ações
muito mais variadas, que permitam a participação conjuntas dos Ministério da Educação, do Minis-
de todos os alunos e as alunas, sem causar constran- tério da Saúde e do Ministério dos Esportes, com
gimentos ou dificuldades para aqueles que têm me- programas de estímulo e capacitação para os edu-
nor aptidão ou interesse por esportes competitivos. cadores da área em todo o País.

ODS
ODS 4
• Meta 4.7 – Até 2030, garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades necessá-
rias para promover o desenvolvimento sustentável, inclusive, entre outros, por meio da educação
para o desenvolvimento sustentável e estilos de vida sustentáveis, direitos humanos, igualdade de
gênero, promoção de uma cultura de paz e não violência, cidadania global e valorização da diversi-
dade cultural e da contribuição da cultura para o desenvolvimento sustentável.
• Meta 4.a – Ofertar infraestrutura física escolar adequada às necessidades da criança, acessível às
pessoas com deficiências e sensível ao gênero, que garanta a existência de ambientes de aprendi-
zagem seguros, não violentos, inclusivos e eficazes para todos.

67
25 CULTURA, ESPORTE E LAZER
Definir atribuições e responsabilidades dos entes federativos na elaboração e execução de
políticas, programas e ações para o atendimento de toda a população em atividades de esporte,
atividade física e lazer ativo.

AÇÕES METAS
• Regulamentar e implementar a Lei 1. Lei Geral do Esporte regulamentada em até seis meses após
Geral do Esporte. sua aprovação no Congresso Nacional.
• Criar o Fundo Nacional do Esporte. 2. Fundo Nacional do Esporte implantado em até um ano após a
aprovação da Lei Geral do Esporte pelo Congresso Nacional.
• Estruturar o Sistema Nacional do Es-
porte (Sinesp). 3. Sistema Nacional do Esporte (Sinesp) articulado e implanta-
do em até um ano após a aprovação da Lei Geral do Esporte
pelo Congresso Nacional.

RAZÕES
A Lei nº 9.615/1998, conhecida como Lei Pelé, é a le- blicos e privados que dependem de incentivo, tais
gislação em vigor que normatiza as práticas espor- como clubes, federações, confederações e comitês
tivas. O desporto, segundo a norma, corresponde a esportivos, além de algumas escolas e iniciativas
quatro manifestações: a) desporto educacional; b) particulares. Salvo alguns picos de aumento de re-
desporto de participação; c) desporto de rendimen- cursos provocados por eventos de grande expressão,
to; d) desporto de formação. Em 2006, foi promul- fica nítida a falta de incentivo e estímulo ao esporte.
gada a Lei nº 11.438, que dispõe sobre incentivos e
benefícios para fomentar as atividades de caráter Iniciativas legislativas para mudar esse quadro es-
desportivo, com validade até dezembro de 2022. tão em tramitação. Várias iniciativas para uma nova
Lei Geral do Esporte foram consolidadas no Projeto
O fim dos incentivos e benefícios da Lei 11.438 e a de Lei nº 1.153, que foi aprovado pela Câmara dos
própria desatualização da Lei Pelé vão tornar ainda Deputados em 6 de julho de 2022 e seguiu para
mais crítica a situação do financiamento da área. A apreciação do Senado Federal.
evolução histórica da execução de despesas federais
na área do desporto e lazer indica uma tendência de O projeto prevê a estruturação do Sistema Nacional
queda entre 2014 e 2016. Em 2017, houve uma re- do Esporte (Sinesp), articulando todas as esferas de
governo, bem como a criação do Fundo Nacional
dução mais drástica dos recursos, que passaram de
do Esporte e dos fundos nos estados e municípios,
aproximadamente R$ 504 milhões, no ano anterior,
com controle por parte dos conselhos de esporte,
para R$ 314 milhões.
órgãos de composição paritária entre o governo e a
Os desportos de rendimento tiveram a maior redu- sociedade civil, além de diversas outras medidas. A
ção: em 2016, foram gastos cerca de R$ 312,5 milhões concepção de esporte no projeto é ampla, de ma-
e, em 2017, foram R$ 60,4 milhões. Nos últimos qua- neira a considerar as linhas de formação esportiva,
tro anos, as despesas na área ficaram em torno de a excelência esportiva e o esporte para toda a vida.
R$ 230 milhões, com exceção de 2020, quando fo-
Assim que aprovado pelo Senado, o projeto vai para
ram apenas R$ 98,7 milhões.
sanção do presidente da República e necessitará
A constante redução do orçamento para o esporte de uma série de regulamentações e ações práticas
no Brasil impacta os atletas e equipamentos pú- para a sua aplicação.

ODS
ODS 16
• Meta 16.6 – Ampliar a transparência, a accountability e a efetividade das instituições, em
todos os níveis.

68
26 CULTURA, ESPORTE E LAZER
Assegurar o direito ao acesso e à fruição de espaços de convivência e lazer a crianças e
adolescentes de áreas periféricas e a construção de ambientes urbanos democráticos.

AÇÕES ODS
• Elaborar de forma participativa (entre o governo, a ODS 1
sociedade civil e especialistas) uma política nacional • Meta 1.4 – Até 2030, garantir que todos os ho-
para o financiamento, a construção e a melhoria de mens e mulheres, particularmente os pobres e as
espaços públicos para o lazer, os esportes e a cultura pessoas em situação de vulnerabilidade, tenham
nas periferias das grandes cidades. acesso a serviços sociais, infraestrutura básica,
novas tecnologias e meios para produção, tec-
nologias de informação e comunicação, serviços
financeiros e segurança no acesso equitativo à
terra e aos recursos naturais.
METAS ODS 10
• Meta 10.3 – Garantir a igualdade de oportunida-
1. Grupo de trabalho reunindo representantes governa- des e reduzir as desigualdades de resultados, in-
mentais, da sociedade civil e especialistas constituído clusive por meio da eliminação de leis, políticas e
até outubro de 2023. práticas discriminatórias e da promoção de legis-
2. Plano Nacional para financiamento e melhoria de lação, políticas e ações adequadas a este respeito.
espaços públicos para lazer, esportes e cultura nas ODS 11
periferias das grandes cidades elaborado até o final • Meta 11.7 – Até 2030, proporcionar o acesso uni-
de 2024. versal a espaços públicos seguros, inclusivos,
acessíveis e verdes, em particular para as mu-
3. Ações de implantação de espaços públicos para lazer,
lheres, crianças e adolescentes, pessoas idosas
esportes e cultura nas periferias das grandes cidades
e pessoas com deficiência, e demais grupos em
iniciadas em 2025.
situação de vulnerabilidade.

RAZÕES
A grande desigualdade social presente no Brasil veis ao questionário proposto. A amostra apresen-
não é geradora apenas de assimetrias em relação tou diferenças significativas quanto à densidade
à renda, à educação e ao acesso a bens e serviços: populacional e às assimetrias na distribuição de
ela também regula e, por vezes, determina o aces- recursos, o que impacta a capacidade de gestão e
so à cidade e às estruturas públicas disponíveis ao investimento dos municípios. A despeito dos cortes
cidadão comum. Fatores como violência urbana, orçamentários vividos pelo programa, a maior parte
precarização da infraestrutura pública e organiza- dos recursos é direcionada à infraestrutura, contu-
ção não equitativa do transporte público em todas do, inexistem iniciativas voltadas para o uso e a ma-
as regiões das cidades, por exemplo, são variáveis nutenção desses equipamentos. Ademais, Ungheri
importantes para o acesso dos moradores das peri- e Isayama (2021) mostram que, nos municípios in-
ferias a espaços de esporte, lazer e cultura, que são vestigados, havia um predomínio dos espaços para
elementos fundamentais para a construção de am- atividades físicas.
bientes urbanos democráticos. As grandes cidades, Nas regiões periféricas das grandes cidades, há in-
pelo que representam e pelas dificuldades de con- tensos movimentos (culturais, esportivos e musicais)
vivência que carregam, têm um papel importante de adolescentes e jovens, por meio de grupos de
como símbolos de um país solidário que precisa- teatro, slams de poesia, bandas e eventos musicais,
mos e queremos construir. prática de skate, entre diversas outras manifesta-
Os autores Ungheri e Isayama (2021) investigaram ções. O apoio a essas atividades, com a implantação
o cenário institucional dos equipamentos públi- de espaços adequados e de infraestrutura, fortale-
cos de lazer e esporte nos municípios que imple- cerá essas formas de organização, manifestação e
mentaram o Programa Esporte e Lazer da Cidade produção cultural e esportiva de adolescentes e jo-
(PELC), entre os anos de 2013 e 2017. Eles apontam vens, além de gerar um impacto positivo nas comu-
um baixo nível de resposta dos municípios elegí- nidades em que forem instaladas.

69
27 CULTURA, ESPORTE E LAZER
Integrar e fortalecer o esporte e a cultura como elementos protagonistas das políticas públicas
de saúde, com destaque para a saúde mental de crianças, adolescentes e jovens.

AÇÕES METAS
• Formular um programa intersetorial vol- 1. Atividades físicas, esportivas e culturais ampliadas no âm-
tado a crianças e adolescentes, de forma bito do Programa Saúde nas Escolas (PSR) a partir de 2024.
que considere as atividades de esporte
2. Obrigatoriedade de atividades físicas, esportivas e cultu-
e lazer como medidas de saúde preven-
rais nos atendimentos de atenção básica da Assistência
tivas e profiláticas e que contemple ins-
Social voltados a crianças e adolescentes regulamentada
tâncias de participação social.
a partir de 2024.
• Fortalecer as estratégias de atividades fí-
3. Programa intersetorial voltado à saúde de crianças e
sicas, esportivas e culturais do Programa
adolescentes, tendo esporte e cultura como elementos
Saúde nas Escolas (PSE).
centrais, elaborado até 2023.
• Inserir as atividades físicas, esportivas e
4. Programa intersetorial voltado à saúde de crianças e
culturais como elementos obrigatórios
adolescentes, tendo esporte e cultura como elementos
nas ações da Assistência Social voltadas
centrais, implantado a partir de 2024.
a crianças e adolescentes.

RAZÕES
A pandemia de covid-19 gerou alto nível de tensão tre eles, o impacto positivo dessas atividades para o
no mundo todo. A suspensão das atividades físicas, desenvolvimento escolar.
esportivas, culturais e de lazer alterou a rotina de A Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS), com
crianças, adolescentes e jovens de forma drástica um conceito multissetorial de atuação, já inclui – entre
– o que potencializou as angústias, as ansiedades e as suas estratégias e formas de produzir saúde – as ati-
outros sofrimentos mentais. vidades esportivas e culturais, ao propor a “divulgação
No relatório Situação Mundial da Infância (2021), o de práticas corporais e atividades físicas, incentivando
Unicef aponta que, em 2019 (antes da pandemia, a melhoria das condições dos espaços públicos, con-
portanto), aproximadamente um em cada seis indi- siderando a cultura local e incorporando brincadeiras,
víduos entre 10 e 19 anos de idade, no Brasil, apre- jogos, danças populares, dentre outras práticas”.
sentava algum transtorno e/ou sofrimento mental. Nessa perspectiva, as atividades físicas, culturais e
Como medidas para enfrentar esse problema, o esportivas devem ser tomadas como linhas estrutu-
documento sugere, além de fortalecer os serviços rais das políticas públicas, principalmente daquelas
de saúde mental, integrá-los a outras políticas pú- voltadas a crianças e adolescentes. Isso pode se dar
blicas que promovam o bem-estar. imediatamente com o fortalecimento de tais ativi-
As práticas físicas, os esportes e as atividades ar- dades no Programa Saúde na Escola (PSE), estimu-
tísticas e culturais são elementos que promovem lando a articulação efetiva de escolas, centros de
a saúde de uma forma geral e podem ter impac- saúde, áreas de lazer (como praças e ginásios espor-
tos muito positivos sobre a saúde mental, especi- tivos), entre outros. Além disso, pode ocorrer, ainda, a
ficamente. Em um estudo realizado entre março e partir da inclusão programática dessas atividades na
agosto de 2020, por pesquisadores do Brasil, da Es- atenção básica da Assistência Social, seja nos centros
panha e do Chile, constatou-se que baixos níveis de de referência, seja nas organizações sociais conve-
atividade física durante as medidas de isolamento niadas que prestam serviços socioassistenciais.
social contra a covid-19 estavam associados à pre- É preciso, ao mesmo tempo, desenvolver um pro-
valência de depressão. Por sua vez, a adoção dessas grama intersetorial permanente, com um pla-
atividades pode atuar como fator de proteção fren- nejamento que leve em conta a necessidade de
te aos distúrbios de saúde mental. ampliação dos espaços adequados, de disponibi-
Em estudo lançado em 2019, a Organização Mun- lidade de profissionais qualificados e de materiais
dial da Saúde (OMS), por sua vez, mostra que as artísticos e esportivos, definindo ainda as fontes de
atividades artísticas podem trazer benefícios para a financiamento e as formas de articulação entre as
saúde mental e física em qualquer faixa etária, den- diferentes políticas públicas.

ODS
ODS 3
• Meta 3.4 – Até 2030, reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissí-
veis via prevenção e tratamento, promover a saúde mental e o bem-estar, a saúde do trabalhador
e da trabalhadora, e prevenir o suicídio, alterando significativamente a tendência de aumento.

70
28 CULTURA, ESPORTE E LAZER
Assegurar o acesso ao fazer artístico e à compreensão da própria cultura e da diversidade da produção
artística em outras culturas, bem como das relações da arte com as sociedades, as economias, os
valores e os momentos históricos distintos nas aulas de artes das escolas da educação básica.

AÇÕES METAS

• Garantir o oferecimento da disciplina de artes em to- 1. 100% das escolas públicas de educação básica
das as escolas públicas de educação básica no país. com a disciplina arte no currículo, para todas as
turmas, até 2025.
• Disponibilizar material pedagógico adequado
para aulas e atividades artísticas em todas as es- 2. Programa nacional de material pedagógico ar-
colas públicas de educação básica do País. tístico para as escolas públicas, nos moldes do
Programa Nacional do Livro Didático, instituído
• Desenvolver, em parceria com estados e municí- até 2025.
pios, programa para a disponibilização de sala de
artes e cultura em todas as escolas públicas de 3. Programa de parceria com estados e municípios
educação básica do País. para a instalação de sala de artes e cultura em
todas as escolas públicas instituído até 2025.

RAZÕES
A disciplina de educação artística é oferecida para educação artística e somente 3% tinham uma sala
aproximadamente 70% das turmas de educação específica para isso.
básica em escolas públicas no Brasil. É o mesmo De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), a
percentual de 2011, quando foram elaboradas as disciplina de educação artística nas escolas deve
metas do Plano Nacional de Cultura, o que revela ser orientada pelos eixos de produzir, apreciar e
que não houve nenhum avanço nessa área. A meta contextualizar. Além do conhecimento teórico, é
adotada pelo plano era de 100% das escolas públi- constituída por práticas e atividades que requerem,
cas de educação básica com a disciplina de edu- necessariamente, material e espaço adequados.
cação artística no currículo escolar regular, com São consideradas quatro modalidades principais
ênfase em cultura brasileira, linguagens artísticas como componentes da educação artística na esco-
e patrimônio cultural. la: artes visuais, música, teatro e dança.
A garantia de oferecimento da disciplina de educa- É preciso considerar, ainda, que a referida disciplina
ção artística, no entanto, não é suficiente para ga- é central para o cumprimento da obrigatoriedade
rantir o acesso aos conhecimentos, às habilidades do ensino de história e cultura afro-brasileiras e in-
e aos saberes esperados. É necessário haver infra- dígenas, de acordo com as alterações inseridas na
estrutura adequada, com materiais para estudo e LDB pelas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008.
atividades, bem como salas adequadas para o de-
O Governo Federal deve retomar a meta proposta
senvolvimento da disciplina.
pelo Plano Nacional de Cultura para abarcar 100%
Nesse ponto, a situação é bem pior do que o índi- das escolas com a disciplina de educação artística
ce de oferecimento da disciplina. Em 2020, apenas e, ao mesmo tempo, garantir a expansão da oferta
30% das escolas públicas de educação básica dis- de materiais e a instalação de salas adequadas em
punham de material pedagógico específico para a todas as escolas públicas do Brasil.

ODS
ODS 4
• Meta 4.7 – Até 2030, garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades necessá-
rias para promover o desenvolvimento sustentável, inclusive, entre outros, por meio da educação
para o desenvolvimento sustentável e estilos de vida sustentáveis, direitos humanos, igualdade de
gênero, promoção de uma cultura de paz e não violência, cidadania global e valorização da diversi-
dade cultural e da contribuição da cultura para o desenvolvimento sustentável.
• Meta 4.a – Ofertar infraestrutura física escolar adequada às necessidades da criança, acessível às
pessoas com deficiências e sensível ao gênero, que garanta a existência de ambientes de aprendi-
zagem seguros, não violentos, inclusivos e eficazes para todos.

71
29 CULTURA, ESPORTE E LAZER
Ampliar e qualificar a oferta de produtos audiovisuais adequados a crianças e adolescentes nas
diferentes faixas etárias, atendendo aos seus direitos de proteção, acesso e participação.

AÇÕES METAS
• Destinar percentuais de recursos de fomento das 1. Percentual de recursos de fomento de institui-
instituições e diferentes setores governamentais ções e diferentes órgãos governamentais desti-
para editais específicos com foco na produção de nados a editais específicos com foco na produção
conteúdos audiovisuais de qualidade destinados de conteúdos audiovisuais destinados a crianças
a crianças e adolescentes, considerando os as- e adolescentes, incluindo adaptações de literatura
pectos da diversidade regional, étnico-racial, de infantojuvenil nacional, estabelecido em 2023.
gênero, inclusão e acessibilidade.
2. Metodologia e material de apoio para educadores
• Incentivar a produção de filmes para crianças e atuarem com exibição, formação e crítica de audio-
adolescentes a partir de adaptações da literatura visuais nas escolas, cumprindo a Lei 13.006/2014,
infantojuvenil nacional. elaborados em 2023 e disponibilizados a partir de
2024.
• Criar metodologias e materiais de apoio aos
educadores para o cumprimento da Lei nº 3. Financiamento e apoio específico para dubla-
13.006/2014, a fim de promover a formação de gem em português de audiovisuais internacio-
crianças, adolescentes e professores em relação nais instituído em 2024.
ao audiovisual brasileiro, a partir de uma perspec-
tiva crítica e criativa em relação às diversas for-
ODS
mas de apropriação da cultura (fruição, reflexão
e produção). ODS 5
• Criar mecanismos de apoio para a dublagem de • Meta 5.b.1 – Garantir a igualdade de gênero no
filmes infantis de distintas nacionalidades para o acesso, habilidades de uso e produção das tec-
idioma português, garantindo o acesso à diversi- nologias de informação e comunicação, conside-
dade audiovisual internacional. rando as intersecções com raça, etnia, idade, de-
ficiência, orientação sexual, identidade de gênero,
territorialidade, cultura, religião e nacionalidade,
em especial para as mulheres do campo, da flo-
RAZÕES resta, das águas e das periferias urbanas.
O audiovisual está presente no cotidiano de crianças ODS 10
e adolescentes de forma intensa, pela televisão e, • Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a
principalmente, via internet. Esse acesso, no entanto, inclusão social, econômica e política de todos, de
se dá de forma não reflexiva, sem crítica, na forma forma a reduzir as desigualdades, independente-
de mero consumo de produtos da indústria cultural mente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, na-
nacional e internacional. Além disso, os mecanismos cionalidade, religião, condição econômica ou outra.
de proteção de crianças e adolescentes em relação ODS 16
a conteúdos inapropriados têm pouca efetividade. • Meta 16.b – Promover e fazer cumprir leis e políticas
não discriminatórias e afirmativas.
Por isso, é urgente assegurar espaços que garantam
a formação, a compreensão e a capacidade crítica
de crianças e adolescentes, em uma perspectiva
educativa, social e cultural. Ao mesmo tempo, é in- A apropriação crítica e reflexiva dessa produção
dispensável promover a produção de audiovisuais deve se converter em linha permanente do proces-
de qualidade destinados a crianças e adolescentes, so educacional, como já prevê a Lei nº 13.006/2014,
com a valorização e a compreensão da cultura bra- que estabelece a exibição de filmes nacionais nas
sileira, incluindo a diversidade étnico-racial e cultu- escolas, determinando a inclusão das obras audio-
ral da nossa sociedade (em particular, das culturas visuais no currículo da educação básica, de forma
indígenas e afro-brasileiras) e a diversidade regional integrada à proposta pedagógica da escola.
e de gênero, com inclusão e acessibilidade.
Essa ação educacional, muito mais do que uma “ses-
Do ponto de vista da produção, é necessário definir são de vídeo”, precisa ser desenvolvida com metodo-
linhas específicas de financiamento e lançar editais logia de discussão e crítica, em um espaço de com-
para a produção de audiovisuais com essas carac- partilhamento de percepções e de formação ética e
terísticas. É estratégica, do ponto de vista cultural estética. O desenvolvimento de tal metodologia, bem
e social, nesta linha, a produção de adaptações da como a produção de material de apoio para os edu-
literatura infantojuvenil nacional. É igualmente im- cadores e as escolas, é fundamental para a efetivida-
portante garantir o acesso a filmes infantojuvenis de dessa ação. Além da formação, o conhecimento e
de diferentes nacionalidades, por meio do fomento a capacidade crítica permitirão que crianças e adoles-
à dublagem, abrindo as portas à diversidade audio- centes desenvolvam uma postura de autoproteção
visual internacional. frente às diferentes fontes de conteúdo audiovisual.

72
30 PROFISSIONALIZAÇÃO E ACESSO AO MUNDO DO TRABALHO
Promover a transição positiva da escola para o mundo do trabalho para adolescentes e jovens
em situação de vulnerabilidade.

AÇÕES METAS
• Reconhecer e consolidar a Aprendizagem Profissional como 1. Critérios de vulnerabilidade social (como
principal política pública de transição positiva da educação renda per capita familiar ou inclusão no
para o mundo do trabalho e o primeiro emprego. CadÚnico) dos candidatos para contra-
tações na modalidade aprendiz torna-
• Aprofundar o caráter de inclusão social do Programa Jovem
dos obrigatórios até 2024.
Aprendiz, por meio da definição de critérios obrigatórios de
vulnerabilidade a serem considerados na contratação. 2. Formas de incentivo e de garantia ao
cumprimento da Lei de Aprendiza-
• Debater e pactuar com o empresariado formas de incentivo
gem pactuadas com o setor empre-
e de garantia ao cumprimento da Lei de Aprendizagem.
sarial até 2024.

RAZÕES
O Programa Jovem Aprendiz, nos termos da lei oportunidades anteriores de formação pessoal e de
10.097/2000, constitui uma forma estrutural de in- desenvolvimento de suas habilidades, barrando os
clusão social e produtiva, devendo ser reconhecido e de maior vulnerabilidade. O problema é que a legis-
fortalecido como a principal política pública de tran- lação define como “prioridades”, mas não especifica
sição positiva da educação para o mundo do traba- nenhuma obrigatoriedade de contratação de ado-
lho e o primeiro emprego. As empresas – excetuando lescentes e jovens em situação de vulnerabilidade.
microempresas e empresas de pequeno porte – têm De acordo com a lei, o aprendiz é formado e acom-
a obrigação legal de manter adolescentes e jovens panhado por uma entidade certificadora. Elas podem
aprendizes em número equivalente de 5% a 15% do ser de base comunitária ou grandes organizações na-
total de funcionários, com prioridade, por lei, a ado- cionais. As organizações de base comunitária, exata-
lescentes e jovens em situação de vulnerabilidade. mente por atuarem em territórios de vulnerabilidade,
Ao ser contratado como aprendiz, o adolescente ou jo- têm maiores dificuldades de viabilizar a contratação
vem tem, além do salário, a garantia da formação pro- dos adolescentes e jovens que atendem.
fissional e da permanência na escola.Além do impacto No dia 4 de maio de 2022 o Governo Federal editou
pessoal, a vaga de aprendiz gera repercussão positiva uma nova Reforma Trabalhista, por meio da publi-
na renda das famílias desses jovens e adolescentes. A cação da Medida Provisória (MP) nº 1.116/2022 e do
condição de aprendiz evita também a ida desses jo- Decreto nº 11.061/2022, com alterações que atingem
vens e adolescentes para o mercado informal. cerca de 80% das normas que regulamentavam o
As empresas têm resistência a esse tipo de contra- programa, em paralelo à tramitação que já ocorria
tação e procuram, pelo menos, destinar as vagas no Congresso do Estatuto da Aprendizagem.
obrigatórias para adolescentes e jovens que tenham As alterações promovidas pela MP e pelo decreto,
formação escolar de bom nível e capacidades já de- bem como as propostas em discussão no Estatuto
senvolvidas - o que impede de fato, a inserção de da Aprendizagem, enfraquecem o caráter de inclusão
adolescentes e jovens em situação de vulnerabilida- e de transição positiva para o mundo do trabalho de
de, optando por candidatos que já tiveram acesso a adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade.

ODS
ODS 4
• Meta 4.4 – Até 2030, aumentar substancialmente o número de jovens e adultos que tenham as competências
necessárias, sobretudo técnicas e profissionais, para o emprego, o trabalho decente e o empreendedorismo.
ODS 8
• Meta 8.6 – Alcançar uma redução de 3 pontos percentuais até 2020 e de 10 pontos percentuais até 2030 na pro-
porção de jovens que não estejam ocupados, nem estudando ou em formação profissional.
ODS 10
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, de forma a
reduzir as desigualdades, independentemente da idade, do gênero, da deficiência, da raça, da etnia, da na-
cionalidade, da religião, da condição econômica ou de outra condição.
• Meta 10.3 – Garantir a igualdade de oportunidades e reduzir as desigualdades de resultados, inclusive por
meio da eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias e da promoção de legislação, políticas e
ações adequadas a este respeito.

73
31 PROFISSIONALIZAÇÃO E ACESSO AO MUNDO DO TRABALHO
Promover o ingresso mais célere ao mundo do trabalho decente por meio de acesso à Educação
Profissional e Tecnológica de nível médio para adolescentes e jovens.

AÇÕES METAS
• Ampliar oferta de cursos nos Institutos Federais. 1. 20% dos concluintes do Ensino Médio no Brasil
formados na modalidade Educação Profissional e
• Identificar, com metodologia participativa, deman-
Tecnológica de nível médio até 2026.
das e necessidades dos jovens e dos empregadores
para aprimorar e fortalecer a Educação Profissional 2. Programa de apoio financeiro para aumento da oferta
e Tecnológica como caminho válido e eficaz para de vagas nas redes estaduais de Educação Profissio-
uma transição positiva de adolescentes e jovens nal e Tecnológica de nível médio instituído em 2024.
para o mundo do trabalho decente e protegido. 3. Demandas e necessidades dos jovens e dos em-
• Criar programa de apoio financeiro para as redes pregadores para aprimorar e fortalecer a Educa-
estaduais de Educação Profissional e Tecnológica ção Profissional e Tecnológica identificadas, com
aumentarem sua oferta de vagas. metodologia participativa, em 2023.

RAZÕES
Uma das principais causas que leva o Brasil à reprodu- diferentes campos de atividade para a inclusão
ção de um ciclo contínuo de atraso e exclusão esco- qualificada no mundo do trabalho, articulando as
lares é o imperativo da geração de renda pelos ado- possibilidades de formação profissional com a ne-
lescentes e jovens a partir do segundo ciclo do ensino cessidade de geração de renda.
fundamental e no ensino médio. Hoje o País tem mais Segundo os dados do Education at Glance 2021, re-
de 6 milhões de crianças e adolescentes com dois ou latório sobre educação global publicado pela Or-
mais anos de atraso escolar (Censo Escolar) e, durante ganização para Cooperação e Desenvolvimento
a pandemia de covid-19, mais de 5 milhões não partici- Econômico (OCDE), apenas 9% dos concluintes de
param de nenhuma atividade escolar (Unicef). Ensino Médio no Brasil estão em cursos técnicos e
O que se perpetua, ano após ano, é a entrada de profissionais – contra 38%, em média, nos países
milhões de adolescentes e jovens no trabalho pre- desenvolvidos. Além disso, processos de escuta de
cário, em ocupações sem garantia de direitos ou no jovens realizados no âmbito da iniciativa Um Milhão
empreendedorismo de necessidade. O que acaba de Oportunidades (1MiO) do Fundo das Nações Uni-
fazendo com que não consigam retomar suas tra- das pela Infância (Unicef) no Brasil, mostram que, so-
jetórias escolares e, com isso, estejam sujeitos em bretudo os jovens mais vulneráveis, não enxergam
longo prazo à precariedade, ao desemprego, à in- na EPT uma alternativa válida para seu processo de
formalidade e à baixa renda. transição para o mundo do trabalho.

A superação desse ciclo está relacionada a diversos A EPT enfrenta, portanto, o desafio de se colocar
fatores, como a garantia ampla do direito à educação como uma possibilidade a esses adolescentes e
de qualidade, à proteção contra violações e violên- jovens, principalmente quando articulada com a
cias, à oferta de oportunidades de trabalho e empre- aprendizagem profissional. Da mesma forma, a EPT
endedorismo decentes, à inclusão digital e à forma- deve ser estruturada para que o jovem que preten-
ção profissional. Nesse último âmbito é que se insere de ingressar no ensino superior a entenda como
o debate sobre a Educação Profissional e Tecnológica um caminho possível e facilitador para esta traje-
tória. É preciso realizar esse resgate da proposta
(EPT), previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Edu-
de valorização da EPT por meio de escuta e debate
cação (LDB) como alternativa de qualificação para o
com adolescentes, jovens e empregadores sobre
mundo do trabalho na perspectiva de curto prazo.
suas demandas e necessidades, consolidando um
A EPT permite que o adolescente e o jovem aces- caminho válido e eficaz para uma transição positiva
sem habilidades e competências específicas de para o mundo do trabalho decente e protegido.

ODS
ODS 4
• Meta 4.3 – Até 2030, assegurar a equidade (de gênero, raça, renda, território e outros) de acesso e perma-
nência à educação profissional e à educação superior de qualidade, de forma gratuita ou a preços acessíveis.
• Meta 4.4 – Até 2030, aumentar substancialmente o número de jovens e adultos que tenham as competências
necessárias, sobretudo técnicas e profissionais, para o emprego, o trabalho decente e o empreendedorismo.
ODS 8
• Meta 8.6 – Alcançar uma redução de 3 pontos percentuais até 2020 e de 10 pontos percentuais até 2030 na propor-
ção de jovens que não estejam ocupados, nem estudando ou em formação profissional.

74
32 PROFISSIONALIZAÇÃO E ACESSO AO MUNDO DO TRABALHO
Assegurar o ingresso e a permanência de adolescentes e jovens de baixa renda no ensino superior.

AÇÕES METAS
• Aumentar a oferta de Bolsas-Permanência do Prouni de 1. 33% dos jovens de 18 a 24 anos matricu-
modo a atender 100% dos estudantes elegíveis e pleitean- lados no ensino superior até 2026.
tes ao auxílio.
2. 100% dos estudantes elegíveis que plei-
• Aumentar o número de vagas para o Fundo de Financiamen- tearam o auxílio permanência do Prouni
to ao Ensino Superior (FIES), contemplando as cotas raciais. atendidos em 2024.
• Ampliar e garantir o cumprimento das políticas de cotas raciais.

RAZÕES
A formação continuada ao longo da vida vem se tor- vulneráveis, por meio de políticas de cotas, am-
nando uma exigência fundamental para acessar, per- pliação do financiamento estudantil para o ensino
manecer e avançar no mundo do trabalho. A velocida- superior privado e, principalmente, das bolsas de
de das transformações tecnológicas e das inovações permanência no ensino superior.
em todos os campos do desenvolvimento exigem
A transição demográfica pela qual o país passa deve
competências, saberes e conhecimento em constan-
ser aproveitada de forma estratégica pois o Brasil
te atualização. Ao se propor uma transição positiva
não terá mais, em poucas décadas, um percentual
dos adolescentes e jovens mais vulneráveis da edu-
tão significativo de jovens na sua população total.
cação para o mundo do trabalho é preciso assegurar
que a transição facilite, para aqueles que assim esco- A meta do Plano Nacional de Educação (PNE) para
lherem, também, o acesso ao ensino superior. 2024, é a de que 33% dos jovens entre 18 e 24 anos
de idade estejam no ensino superior. No Brasil, se-
Para assegurar que adolescentes e jovens tenham
gundo o Instituto Semesp, com dados da 11ª edição
seus direitos assegurados é preciso aumentar o
do Mapa do Ensino Superior, no Brasil, em 2021, 18,1%
investimento público para garantir que a popula-
dos jovens de 18 a 24 anos estão matriculados no en-
ção juvenil realize todo o seu potencial sob o risco
sino superior. Na Argentina, são 30%; no Chile, 40%;
de que o Brasil perca esta oportunidade única, de
nos EUA e nos países da OCDE, a média é de 43%.
uma população jovem contribuir para o desenvol-
vimento do País a partir do seu próprio desenvol- Os dados do ENEM de 2021 revelaram que mais de
vimento. Isso requer facilitar o acesso ao ensino 3 milhões de jovens fizeram o exame, mas somente
superior público, principalmente para grupos mais 1,8 milhão acessaram o ensino superior.

ODS
ODS 4
• Meta 4.3 – Até 2030, assegurar a equidade (gênero, raça, renda, território e outros) de acesso
e permanência à educação profissional e à educação superior de qualidade, de forma gra-
tuita ou a preços acessíveis.
• Meta 4.5 – Até 2030, eliminar as desigualdades de gênero e raça na educação e garantir a
equidade de acesso, permanência e êxito em todos os níveis, etapas e modalidades de en-
sino para os grupos em situação de vulnerabilidade, sobretudo as pessoas com deficiência,
populações do campo, populações itinerantes, comunidades indígenas e tradicionais, ado-
lescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas e população em situação
de rua ou em privação de liberdade.
ODS 10
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de to-
dos, de forma a reduzir as desigualdades, independentemente da idade, gênero, deficiência,
raça, etnia, nacionalidade, religião, condição econômica ou outra.
• Meta 10.3 – Garantir a igualdade de oportunidades e reduzir as desigualdades de resultados,
inclusive por meio da eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias e da promoção
de legislação, políticas e ações adequadas a este respeito.

75
33 CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA
Prevenir a ruptura dos vínculos sociofamiliares e empoderar lideranças locais.

AÇÕES METAS
• Aumentar os recursos federais destinados à proteção 1. Receita destinada à Assistência Social ele-
social básica e à proteção social especial de média com- vada progressivamente a partir de 2023
plexidade no Sistema Único de Assistência Social (SUAS). para atingir em 2026 o equivalente a 200%
da receita de 2022.
• Fortalecer o trabalho social com as famílias na prote-
ção social básica e na proteção social especial de média 2. Revisão metodológica e operacional do
complexidade no SUAS. funcionamento dos CRAS com centralida-
de para o trabalho dentro das comunida-
• Aprimorar as metodologias e as estruturas de atendi-
des elaborada até 2024.
mento às famílias e às comunidades.

RAZÕES
Garantir a ampliação do orçamento da rede do País, especialmente no cenário em que entra a co-
SUAS é fundamental para a proteção social de vid-19. De acordo com a FGV Social, quase 28 mi-
crianças e adolescentes. Sua rede de programas e lhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza
serviços é a principal ferramenta de atuação social no Brasil. Em 2019, antes da pandemia, eram pouco
junto às famílias em situação de vulnerabilidade. mais de 23 milhões de indivíduos em tal situação.
O sistema vem sofrendo com o atraso nos repasses O referido contexto aumentou ainda mais a deman-
de verbas desde 2016. De 2019 a 2021, houve uma da pelos serviços da Assistência Social, agravando a
diminuição de 70% nas transferências dos recursos. situação de carência de recursos e direcionando os
Em 2022, o orçamento do SUAS foi estimado em R$ esforços da área para atendimentos emergenciais.
910 milhões, contra cerca de R$ 3 bilhões em 2014 Com isso, ficou ainda mais enfraquecida sua atu-
(valor atualizado pelo IPCA). ação continuada junto às comunidades e famílias,
em uma perspectiva preventiva e de apoio para a
O Centro de Referência Especializado de Assistên-
superação das vulnerabilidades, para o fortaleci-
cia Social (CREAS) e o Centro de Referência de Assis-
mento da organização territorial e das lideranças
tência Social (CRAS) são as estruturas fundamentais
locais. Essa linha de atuação, fundamental para a
da Assistência Social, cofinanciadas pela União, pe-
política de Assistência Social, precisa de recursos e
los estados e municípios. O CREAS atende famílias
de novos impulsos metodológicos.
e indivíduos em situação de ameaça e violação de
direitos, enquanto o CRAS faz o atendimento social Mesmo antes da pandemia, a Assistência Social já
básico em mais de 8 mil locais do País. Juntos, refe- enfrentava dificuldades metodológicas e orçamen-
renciam mais de 30 milhões de famílias. tárias para realizar ações dentro das comunidades
atendidas, ficando muitas vezes no papel passivo
O SUAS também é responsável pelo Cadastro Úni-
de aguardar as demandas chegarem aos CRAS e
co e pelo pagamento do Auxílio Brasil. Sendo assim,
aos CREAS. A priorização do trabalho em campo
sua ação ajuda a conter a evasão escolar e a eva-
nas próprias comunidades, com visitas domicilia-
são vacinal, já que as famílias só se tornam aptas
res, apoio à organização dos moradores, a coope-
ao recebimento dos benefícios se comprovarem a
rativas e coletivos, entre outras ações, precisa se
vacinação completa e a matrícula escolar dos filhos.
tornar uma das linhas centrais da atuação da Assis-
A pobreza das famílias e a violência doméstica con- tência Social, com recursos financeiros e humanos
tra crianças e adolescentes vêm aumentando no suficientes para isso.

ODS
ODS 1
• Meta 1.3 – Assegurar para todos, em nível nacional, até 2030, o acesso ao sistema de proteção social, garan-
tindo a cobertura integral dos pobres e das pessoas em situação de vulnerabilidade.
• Meta 1.4 – Até 2030, garantir que todos os homens e mulheres, particularmente os pobres e as pessoas em
situação de vulnerabilidade, tenham acesso a serviços sociais, infraestrutura básica, novas tecnologias e
meios para produção, tecnologias de informação e comunicação, serviços financeiros e segurança no acesso
equitativo à terra e aos recursos naturais.
ODS 3
• Meta 3.8 – Assegurar, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), a cobertura universal de saúde, o acesso a
serviços essenciais de saúde de qualidade em todos os níveis de atenção e o acesso a medicamentos e vacinas
essenciais seguros, eficazes e de qualidade que estejam incorporados ao rol de produtos oferecidos pelo SUS.

76
34 CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA
Garantir, com total prioridade, a proteção e os direitos de crianças e adolescentes em situação de rua.

AÇÕES METAS
• Criar mutirão nacional de abordagem social, pro- 1. Mutirão nacional de abordagem social, com par-
teção e cuidado a crianças e adolescentes em si- ticipação da União, estados e municípios, para
tuação de rua e a suas famílias. atendimento, proteção e garantia dos direitos de
• Criar protocolo de atendimento e garantia dos di- crianças e adolescentes em situação de rua, ini-
reitos de mulheres grávidas em situação de rua. ciado em 2023.

• Fortalecer a abordagem social e o trabalho de 2. Protocolo de atendimento e apoio a mulheres


acesso a políticas públicas e recomposição de grávidas em situação de rua, garantindo as con-
vínculos familiares e comunitários para crianças e dições de cuidado e proteção do recém-nascido,
adolescentes em situação de rua, com foco peda- sem perda de guarda, adotado em 2023.
gógico e educativo, no âmbito do SUAS. 3. Abordagem social de crianças e adolescentes em
• Criar metodologia para acompanhamento e re- situação de rua, com foco pedagógico e inclusivo,
gistro permanente de crianças e adolescentes em por meio da atuação de educadores sociais, com
situação de rua. recursos específicos do SUAS para os municípios,
fortalecido a partir de 2023.
4. Metodologia permanente de identificação, re-
RAZÕES gistro e acompanhamento de crianças e adoles-
centes em situação de rua, envolvendo todas as
A definição de crianças e adolescentes em situação políticas públicas e órgãos do Sistema de Garantia
de rua inclui diferentes contextos e características, de Direitos, desenvolvida em 2023 e implantada a
entre os quais: (I) moradores de rua sem qualquer partir de 2024.
vínculo familiar, geralmente excluídos de qualquer
acesso às políticas públicas; (II) membros de famí-
lias que, em razão da pobreza extrema, passaram
à situação de rua; e (III) vendedores, guardadores ODS
de carro ou pedintes vítimas de exploração ou que
colaboram com o sustento das famílias. Em qual- ODS 1
quer dos casos, tais crianças e adolescentes estão • Meta 1.3 – Assegurar para todos, em nível nacional,
submetidos a um alto grau de vulnerabilidade e de até 2030, o acesso ao sistema de proteção social, ga-
violação de seus direitos fundamentais. rantindo a cobertura integral dos pobres e das pes-
soas em situação de vulnerabilidade.
A crise econômica e os efeitos da pandemia fizeram ODS 10
aumentar significativamente o número de crianças • Meta 10.3 – Garantir a igualdade de oportunidades e
e adolescentes nessa situação. Na cidade de São reduzir as desigualdades de resultados, inclusive por
Paulo (SP), o Censo de Crianças e Adolescentes em meio da eliminação de leis, políticas e práticas discri-
Situação de Rua, realizado pela prefeitura, em 2022,
minatórias e da promoção de legislação, políticas e
identificou 3.759 casos, mais do que o dobro do
ações adequadas a este respeito.
que foi verificado na contagem anterior (1.842, em
2007). A maioria (73,1%) utiliza as ruas como forma
de sobrevivência e um número significativo (10,7%
ou 401 casos) pernoita nas ruas. de seus filhos à escola e à assistência em saúde. Se
Não há pesquisas, censos ou contagens referentes toda a família estiver em situação de rua, será neces-
a tais crianças e adolescentes na grande maioria sário garantir moradia (aluguel social ou gratuito). Para
das cidades brasileiras. São casos “invisíveis” para as crianças e adolescentes com vínculos familiares rom-
estatísticas de vulnerabilidade social. Em consequ- pidos, é preciso adotar a metodologia de abordagem
ência disso, também não há políticas públicas foca- e pedagogia, por meio da atuação de educadores so-
das na resolução de tão grave problema. ciais, evitando por todos os meios qualquer tipo de
abrigamento obrigatório ou medidas higienistas.
O agravamento da situação verificada na cidade de São
Paulo é apenas um indício de um problema de pro- No caso de mulheres grávidas em situação de rua, é
porções nacionais. É indispensável, de forma urgente indispensável disponibilizar consultórios de rua ou
e emergencial, desenvolver ações para a proteção e a acesso seguro ao sistema de saúde, além de con-
garantia dos direitos de tais crianças e adolescentes, dições de garantir o cuidado com o recém-nasci-
adotando abordagens específicas para as diferentes do, sem risco de perda de guarda da criança, com
situações que geram a permanência nas ruas. acesso a moradia e transferência de renda. Muitas
dessas mulheres não vão a unidades de saúde ou
No caso de famílias com crianças e adolescentes, tra- maternidades, pois optam por arriscados partos na
ta-se de garantir uma transferência de renda, junta- rua, uma vez que têm medo de perder a guarda do
mente com o acompanhamento social para o acesso filho, devido à situação de miséria.

77
35 CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA
Fortalecer a autoproteção de crianças e adolescentes contra situações abusivas.

AÇÕES METAS
• Desenvolver campanhas nacionais 1. Campanhas periódica sobre autoproteção de crianças e
de comunicação sobre formas de a adolescentes frente a situações de abuso, exploração e
vítima e/ou sua família identificar e violência, mobilizando veículos de comunicação e mídias
reagir a situações de abuso, explora- sociais, realizadas a partir de 2023.
ção e violência.
2. Educação para autoproteção de crianças e adolescentes
• Criar e distribuir, no Programa Nacio- frente a situações de abuso, exploração e violência inserida
nal do Livro Escolar, cartilhas de auto- no currículo escolar da Educação Básica a partir de 2024.
cuidado para crianças e adolescentes.
3. Cartilhas de autoproteção para crianças e adolescentes inse-
• Inserir a educação para o autocuida- ridas no Programa Nacional do Livro Escolar a partir de 2024.
do nas escolas, serviços de saúde e
4. Educação para autoproteção de crianças e adolescentes
de assistência social sobre situações
frente a situações de abuso, exploração e violência inseri-
de abuso, exploração e violência e
das nas atividades e atendimentos da Assistência Social e
formas de reconhecer, denunciar e
da Saúde até 2024.
reagir frente a elas.

RAZÕES
O autocuidado é a capacidade que uma criança ou ciente ou inconsciente com o agressor ou, ainda,
um adolescente tem de reconhecer as situações porque também são vítimas de violência e inti-
(de abuso, exploração ou violência) das quais está midação. Fora do ambiente doméstico, a mesma
sendo vítima e saber como reagir a isso e quais são dinâmica protetor/agressor pode ser reproduzida
as possibilidades de pedir ajuda e se proteger. com adultos que tenham alguma ascendência so-
bre a criança ou o adolescente.
Por isso, o autocuidado depende tanto do (re)co-
nhecimento das situações de abuso, exploração ou O ciclo de abuso, violência ou exploração é rompi-
violência, quanto da confiança nas instituições ou do quando a criança ou o adolescente – ou mes-
nas pessoas a quem se possa recorrer nos casos em mo a família – reconhece sua situação de vítima
que a criança ou o adolescente se sinta ameaçado e tem a segurança de que será ouvido e acolhido
ou esteja, de fato, sendo vítima. quando denunciar o que está acontecendo ou o
A violência, principalmente contra crianças, muitas que ele percebe como ameaça. Para isso, é preciso
vezes é cometida por pessoas próximas e/ou no que todos os profissionais que têm contato com
ambiente domiciliar. O agressor ou abusador con- crianças e adolescentes (na educação, na saúde,
ta com o silêncio da vítima, que fica confusa e inti- na assistência social etc.) e as pessoas da própria
midada pela ambiguidade da figura de um adulto comunidade (vizinhos e amigos) tenham informa-
“protetor” que age de uma forma que ela não com- ções suficientes para saber como agir quando re-
preende. E é comum que, nos casos em que ela conhecerem os sinais de violência, abuso ou ex-
tenta expressar o que acontece, outros membros ploração ou quando ouvirem relatos e pedidos de
da família a repreendam, em cumplicidade cons- ajuda das vítimas.

ODS

ODS 16
• Meta 16.1 – Reduzir significativamente todas as formas de violência e as taxas de mortalidade rela-
cionadas, em todos os lugares, inclusive com a redução de 1/3 das taxas de feminicídio e de homi-
cídios de crianças, adolescentes, jovens, negros, indígenas, mulheres e LGBT.
• Meta 16.2 – Proteger todas as crianças e adolescentes do abuso, exploração, tráfico, tortura e todas
as outras formas de violência.

78
36 CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA
Garantir o direito de crianças e adolescentes a serem cuidados sem o uso de castigos físicos e
de qualquer forma de violência.

AÇÕES METAS
• Consolidar metodologias adequadas para ações 1. Metodologias adequadas para ações preventivas
preventivas às violências contra crianças e ado- às violências contra crianças e adolescentes no
lescentes no âmbito familiar e comunitário, com âmbito familiar e comunitário, com participação
participação da sociedade civil e especialistas. da sociedade civil e especialistas, desenvolvidas
até 2024.
• Instituir programa federal voltado ao combate à
violência intrafamiliar e comunitária contra crian- 2. Programa específico de combate à violência fami-
ças e adolescentes, incluindo fortalecimento do liar e comunitária contra crianças e adolescentes,
trabalho com famílias, capacitação de técnicos e incluindo fortalecimento do trabalho com famí-
ações educativas e de comunicação. lias, capacitação de técnicos e ações educativas e
de comunicação, instituído em 2025.

RAZÕES
A violência contra crianças e adolescentes se dá, em É necessário desenvolver e fortalecer metodolo-
grande medida, dentro do ambiente familiar e comu- gias adequadas tanto para a identificação das si-
nitário, como parte da violência estrutural da socieda- tuações de violência quanto para pôr fim ao para-
de contra esse grupo. A prevenção e o atendimento digma de “normalização” dos castigos físicos e de
desses casos são complexos, pois eles tendem a fi- outras formas de violação de direitos. Estão envol-
car “invisíveis” dentro de casa, como componente de vidas aqui ações de educação (tanto das famílias e
uma cultura familiar e comunitária que banaliza a vio- comunidades quanto de crianças e adolescentes,
lência em relação a crianças e adolescentes. Cultura, para se protegerem) e de trabalho familiar e co-
aliás, que precisa ser urgentemente mudada. munitário voltadas especificamente para a ques-
tão da violência e a capacitação de técnicos de
Segundo os dados do Disque 100, serviço ligado ao
diferentes políticas públicas.
Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Hu-
manos, entre janeiro e maio de 2022, foram reali- Trata-se de um conjunto de ações que precisa ter
zadas 50.753 denúncias de violação de direitos de fundamentação em conhecimentos, pesquisas e
crianças e adolescentes de zero a 18 anos, sendo que práticas exitosas para consolidar um modelo de
cada denúncia pode conter mais de uma violação. atuação que consiga, de fato, atuar nas raízes fa-
miliares, comunitárias e sociais da violência contra
A faixa etária com o maior número de denúncias foi
crianças e adolescentes.
a de sete a nove anos (9.066 denúncias e 41.915 vio-
lações de direitos), sendo que, entre essas, 74% das A construção coletiva dessa metodologia, que
denúncias e 81% das violações ocorreram em casa, tem sido feita por setores da sociedade civil e pe-
pela família nuclear ou extensa. Considerando-se que las organizações que combatem a violência, deve
nos casos de violência há uma enorme subnotifica- também se tornar prioridade e ponto central das
ção, percebe-se o quanto a violência dentro de casa é políticas públicas, com investimentos, estruturas e
uma violação de direitos de grande proporção. equipes dedicadas ao tema.

ODS
ODS 16
• Meta 16.1 – Reduzir significativamente todas as formas de violência e as taxas de mortalidade
relacionadas, em todos os lugares, inclusive com a redução de 1/3 das taxas de feminicídio e
de homicídios de crianças, adolescentes, jovens, negros, indígenas, mulheres e LGBT.
• Meta 16.2 – Proteger todas as crianças e adolescentes do abuso, exploração, tráfico, tortura e
todas as outras formas de violência.

79
37 CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA
Diminuir o número de crianças e adolescentes em acolhimento institucional por meio da
ampliação do Serviço Família Acolhedora.

AÇÕES METAS
• Aumentar destinação de recursos 1. Pelo menos 40% de crianças e adolescentes que neces-
para o Serviço Família Acolhedora. sitem de medida de acolhimento atendidos pelo Serviço
Família Acolhedora até 2026.
• Realizar campanhas nacionais de
divulgação do Serviço Família Aco- 2. Campanhas nacionais de divulgação e estímulo à adesão
lhedora, para fomentar a implanta- de famílias realizadas continuamente a partir de 2024.
ção e execução desse serviço nos
3. Apoio financeiro específico para os municípios adotarem ou
municípios.
ampliarem o Serviço Família Acolhedora, com abertura anual
• Oferecer cursos presenciais e de de termos de aceite para pactuação com estados e municí-
EAD para formação continuada dos pios que garantam a implantação, instituído até 2024.
profissionais dos serviços de acolhi-
4. Programa de capacitação para os técnicos que atuam
mento em família acolhedora.
no Serviço Família Acolhedora, com aulas presenciais e à
distância, implantado em 2024.

RAZÕES
Nos casos em que crianças ou adolescentes preci- pela equipe técnica do SFA. Isso garante à criança ou
sam ser afastados de suas famílias de origem, por ao adolescente atendido a inserção em um ambien-
medida de proteção definida judicialmente, eles são te familiar real, com cuidados e atenções individuali-
encaminhados para serviços de acolhimento – ge- zadas, com relações de afeto e confiança.
ralmente, para o acolhimento institucional, conheci- Apesar das inúmeras vantagens em relação ao aco-
do como abrigo. lhimento institucional para a garantia dos direitos
O acolhimento institucional faz com que a criança dos acolhidos, existem atualmente cerca de 27,8 mil
ou o adolescente se veja afastado de uma vida fa- crianças e adolescentes em abrigos institucionais e
miliar cotidiana, convivendo com outras crianças ou apenas 1,4 mil em famílias acolhedoras em todo o
adolescentes na mesma situação de afastamento País. O SFA só existe em aproximadamente 330 mu-
familiar e recebendo cuidados de técnicos e gesto- nicípios brasileiros.
res de uma instituição. Geralmente, o ambiente das Por isso, é necessário ampliar a abrangência do SFA,
instituições de acolhimento é muito diferente de para que ele se torne a forma preferencial de abriga-
uma casa e de uma vida familiar. mento. Isso exige aumentar a destinação de recursos
O Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora (SFA), do SUAS aos municípios para essa finalidade, bem
que foi iniciado na Assistência Social em 2004 e inseri- como para a divulgação dos serviços e para fomen-
do no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em tar a adesão de famílias dispostas a receber crianças
2009, é uma alternativa muito superior ao acolhimento e adolescentes, além da capacitação de equipes téc-
institucional para a garantia da convivência familiar e nicas para a preparação e o acompanhamento das
comunitária de crianças e adolescentes. famílias e dos acolhidos.
No SFA, famílias voluntárias da comunidade se ca- É muito importante levar em conta que o acolhi-
dastram para receber e cuidar de crianças e adoles- mento familiar não se confunde com a adoção, nem
centes durante o período em que estiverem afas- pode ser considerada uma etapa anterior a ela. É um
tados de suas famílias de origem. Elas passam por serviço de acolhimento que tem como meta o retor-
processos de seleção e capacitação antes de acolher no da criança e do adolescente às suas famílias de
uma criança ou um adolescente e, durante o perío- origem ou, se isso não for possível, para os mecanis-
do de acolhimento, são acompanhadas e apoiadas mos formais de adoção.

ODS
ODS 1
• Meta 1.3 – Assegurar para todos, em nível nacional, até 2030, o acesso ao sistema de pro-
teção social, garantindo a cobertura integral dos pobres e das pessoas em situação de
vulnerabilidade.

80
38 CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA
Promover a autonomia, a sustentação social e econômica e o exercício da cidadania plena para
adolescentes e jovens egressos do serviço de acolhimento institucional.

AÇÕES METAS
• Instituir programa de apoio para jovens 1. Programa de Apoio para Egressos de Serviço de Acolhi-
egressos do sistema protetivo, oferecendo, mento elaborado com ampla participação da sociedade
entre outros, segurança de moradia e auxí- civil até 2023.
lio econômico para alcançar autoconfian-
2. Programa de Apoio para Egressos de Serviço de Acolhi-
ça, autossustentação e autonomia.
mento instituído e em funcionamento, em parceira com
• Implementar Programa de Profissionaliza- estados e municípios, em 2024.
ção para adolescentes e jovens egressos
3. Programa de Profissionalização para Egressos de Serviço
do serviço de acolhimento institucional.
de Acolhimento instituído e em funcionamento, em par-
• Oferecer programa de capacitação para ceira com estados e municípios, em 2024.
técnicos de serviços de acolhimento para
4. Programa de capacitação para técnicos de serviços de aco-
que promovam a autonomia e a cons-
lhimento para que promovam a autonomia e a construção
trução de projeto de vida de crianças e
de projeto de vida de crianças e adolescentes, considerando
adolescentes, considerando as especifi-
as especificidades de cada faixa etária, instituído em 2024.
cidades de cada faixa etária.

RAZÕES
Em 2017, a Lei nº 13.509 alterou o Estatuto da Criança e lhimento institucional relataram que se sentiam
do Adolescente (ECA), para determinar que “a perma- “presos” quando estavam em acolhimento, sem in-
nência da criança e do adolescente em programa de teração com a realidade fora dos serviços, além de
acolhimento institucional não se prolongará por mais terem recebido pouca preparação para a aquisição
de 18 (dezoito meses), salvo comprovada necessidade gradual da autonomia.
que atenda ao seu superior interesse, devidamente A situação requer a estruturação de serviços de
fundamentada pela autoridade judiciária”. apoio efetivo a esses jovens como segurança de
Mesmo com essa determinação, na realidade, há moradia e auxílio econômico para alcançar auto-
inúmeros casos de adolescentes que permane- confiança, autossustentação e autonomia. Além
cem longos períodos em acolhimento, chegando a disso, necessitam de programas de capacitação
completar 18 anos nessa situação. Nesse momen- profissional e de colocação no mercado de traba-
to, eles têm de deixar o acolhimento institucional e lho, para sua real inserção social e produtiva.
iniciar suas vidas por conta própria, estando ou não Observe-se, no entanto, que a construção de auto-
preparados para isso. nomia e projeto de vida não pode começar somente
Em alguns municípios, existem Repúblicas desti- após a saída do acolhimento institucional. Isso deve ser
nadas a esses jovens, mas elas sofrem com a defi- uma linha de atuação permanente das instituições de
ciência de apoio técnico e financeiro, além de não acolhimento, em todas as faixas etárias, considerando
garantirem a preparação necessária para a vida au- as especificidades de cada momento de vida. Para isso,
tônoma, conforme mostrou a pesquisa intitulada os profissionais que atuam no acolhimento institucio-
“Minha Vida Fora Dali”, realizada pelo Movimento nal precisam receber capacitação e formação, que os
Nacional Pró-Convivência Familiar e Comunitária. torne aptos a desenvolver, com cada criança e adoles-
Na pesquisa, os jovens egressos de serviços de aco- cente acolhido, projetos de vida e autonomia.

ODS
ODS 1
• Meta 1.4 – Até 2030, garantir que todos os homens e mulheres, particularmente os pobres e as pes-
soas em situação de vulnerabilidade, tenham acesso a serviços sociais, infraestrutura básica, novas
tecnologias e meios para produção, tecnologias de informação e comunicação, serviços financeiros e
segurança no acesso equitativo à terra e aos recursos naturais.
ODS 4
• Meta 4.4 – Até 2030, aumentar substancialmente o número de jovens e adultos que tenham as competên-
cias necessárias, sobretudo técnicas e profissionais, para o emprego, trabalho decente e empreendedorismo.
ODS 10
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, de for-
ma a reduzir as desigualdades, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, naciona-
lidade, religião, condição econômica ou outra.

81
39 CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA
Assegurar que a adoção seja, como previsto no ECA, medida excepcional aplicada
exclusivamente por situação de orfandade ou de violação de direitos não superada,
considerando sempre a opinião da criança ou adolescente quanto ao seu melhor interesse.

AÇÕES METAS
• Instituir a escuta qualificada de crianças e 1. Protocolo nacional firmado intersetorialmente para
adolescentes em todos os processos de escuta qualificada de crianças e adolescentes como
adoção. etapa do processo judicial de adoção legal, incorpo-
rado aos Planos nacional, estaduais e municipais de
• Tornar obrigatória a elaboração de relatório
Convivência Familiar e Comunitária a partir de 2023.
técnico que demonstre a total inviabilidade da
reintegração à família natural ou família exten- 2. Relatório técnico que demonstre a total inviabilidade
sa, nos casos de adoção, com base em proto- da reintegração à família natural ou família extensa
colo intersetorial a ser firmado entre as instân- tornado obrigatório antes de qualquer criança ou ado-
cias do Legislativo, Executivo e Judiciário. lescente ser passível de adoção até 2024.

RAZÕES
É preciso garantir que crianças e adolescentes te- vivência Familiar e Comunitária (PNCFC) (BRASIL,
nham o seu direito fundamental assegurado de 2006) como centrada no melhor interesse da crian-
participação na efetivação da convivência familiar ça e do adolescente. Entretanto, o mesmo interesse
e comunitária. Para isso, é necessário estabelecer, tem sido definido judicialmente, sem que eles se-
a partir de 2023, um protocolo nacional, firmado jam necessariamente ouvidos e sem que sua opi-
intersetorialmente, para a escuta qualificada de nião seja considerada.
crianças e adolescentes, como etapa do processo As trajetórias de crianças e adolescentes acolhidos
judicial de adoção legal, de modo que esteja incor- e suas perspectivas de que sejam reintegrados às
porado aos planos estaduais e municipais de con- suas famílias de origem ou inseridos em famílias
vivência familiar e comunitária, bem como ao plano substitutas por adoção são o foco do Plano Indi-
nacional. O protocolo deve envolver o Poder Judi- vidual de Atendimento (PIA), que é realizado pelos
ciário, o Ministério Público, a Defensoria Pública, o serviços de acolhimento de forma articulada com
Sistema Único de Assistência Social (SUAS), o Siste- a rede intersetorial. Ele prevê a participação ati-
ma de Garantia de Direitos (SGD), os ministérios se- va dos acolhidos para a definição de objetivos e
toriais, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança metas que lhes permitam traçar seus projetos de
e do Adolescente (Conanda), o Conselho Nacional vida. Entretanto, inexiste um protocolo similar ao
de Assistência Social (CNAS), o Conselho Nacional do PIA que oriente as estratégias de escuta e parti-
de Justiça (CNJ) e o Conselho Nacional das Defen- cipação de crianças e adolescentes na tomada de
soras e Defensores Públicos-Gerais (Condege). decisão pela adoção.
O direito de que a criança seja ouvida em processos ju- Considerando que 55,4% dos acolhidos no Brasil
diciais, conforme o previsto na Convenção Internacio- hoje são crianças de 0 a 12 anos de idade e que
nal sobre os Direitos da Criança (ONU, 1989), foi incor- 44,6% são adolescentes, os procedimentos para a
porado aos postulados básicos do ECA (BRASIL, 1990), realização de uma escuta ativa e cuidadosa exigem
que, no capítulo II, dispõe sobre o direito da criança à parâmetros para que os profissionais do sistema
liberdade, ao respeito e à dignidade. No artigo 16, a re- de Justiça e do SUAS possam ouvi-los, levando em
ferida legislação expõe aspectos que compreendem o conta suas singularidades e os contextos nos quais
direito à liberdade, como a opinião e a expressão. estão inseridos para que possam usufruir do seu
A medida protetiva de adoção é definida e regula- direito de participar ativa e efetivamente das deci-
mentada pelo ECA e pelo Plano Nacional de Con- sões que lhes dizem respeito.

ODS
ODS 16
• Meta 16.3 – Fortalecer o Estado de Direito e garantir acesso à justiça a todos, especialmente aos que se en-
contram em situação de vulnerabilidade.
• Meta 16.7 – Garantir a tomada de decisão responsiva, inclusiva, participativa e representativa em todos os
níveis.

82
40 CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA
Prevenir a vitimização de crianças e adolescentes por adoções malsucedidas e evitar que elas
revivam experiências de rejeição, abandono e sofrimento, com possíveis reflexos em sua saúde
mental e emocional

AÇÕES METAS
• Implantar equipes técnicas de 1. Repasse de recursos do SUAS fundo a fundo para municípios
apoio à adoção, para prepa- com mais de 10 mil habitantes para implementação de equipes
ração e acompanhamento de técnicas de apoio à adoção definido em 2024.
adotantes e adotados, com
2. Criação e manutenção de equipes técnicas de apoio à adoção,
recursos do SUAS transferidos
para preparação e acompanhamento de adotantes e adotados,
fundo a fundo especificamente
em funcionamento em pelo menos todos os municípios com
para essa finalidade.
mais de 10 mil habitantes, até 2026.

RAZÕES
O êxito da adoção está na concretização do vínculo mento (SNA) contribui para a indesejada ocorrência
afetivo entre a família e a criança ou o adolescente: de adoções malsucedidas e torna clara a importân-
para que este seja devidamente acolhido, precisa cia de atuações e de subsídios técnicos sobre a per-
ser aceito em sua singularidade. Por isso, existe um tinência, a viabilidade e as reais possibilidades de
estágio de convivência, por meio do qual se busca a que a medida possa responder ao melhor interesse
compatibilização das expectativas e das capacida- das crianças e dos adolescentes acolhidos.
des da família adotante com as necessidades e pe- Somente equipe técnicas qualificadas podem imple-
culiaridades do adotado. Após o cumprimento das mentar ações, estratégias e metodologias de trabalho
exigências legais e da experiência de convivência é que garantam o direto – previsto no ECA – da escu-
que a adoção se efetiva. ta qualificada e da preparação de todas as crianças
O trânsito em julgado da sentença que configura e adolescentes, bem como dos pais adotantes. Man-
o novo vínculo familiar seria o resultado do suces- ter essas equipes qualificadas é, por excelência, uma
so desse período preparatório. Porém, embora a condição para que o Estado e a sociedade cumpram
adoção seja irrevogável em nossa legislação, é ob- o que dispõe o ECA, com o objetivo do êxito de ado-
servado um aumento dos casos de “devolução” de ções cada vez mais seguras e bem-sucedidas.
crianças e adolescentes ao Sistema de Garantia de
Apesar da previsão de equipes interdisciplinares nas
Direitos, o que representa um novo abandono.
normas vigentes da Assistência Social, a exemplo da
Entre 2020 e junho de 2022, ocorreram 1.578 de- NOB/RH/SUAS/2006, há dificuldades em manter
voluções de crianças e adolescentes adotados me- equipes em toda a rede socioassistencial nas quan-
diante o Cadastro Nacional de Adoção (CNA) e por tidades e nas especialidades necessárias, além do
adoção intuitu personae (quando a mãe biológica enfrentamento da alta rotatividade dos profissio-
manifesta o interesse de entregar a criança a uma nais, o que exige um investimento mais contínuo e
pessoa conhecida, sem que esta conste no CNA). frequente na qualificação das equipes. É preciso in-
O desencontro estabelecido entre as expectativas vestir especificamente nessas equipes, garantindo a
dos pretendentes à adoção (e das crianças e dos sua existência em todos os municípios com mais de
adolescentes disponíveis) e a ocorrência de ado- 10 mil habitantes e referenciando os municípios de
ções fora do Sistema Nacional de Adoção e Acolhi- menor porte a equipes de municípios vizinhos.

ODS
ODS 3
• Meta 3.4 – Até 2030, reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis
via prevenção e tratamento, promover a saúde mental e o bem-estar, a saúde do trabalhador e da
trabalhadora, e prevenir o suicídio, alterando significativamente a tendência de aumento.
ODS 16
• Meta 16.2 – Proteger todas as crianças e adolescentes do abuso, exploração, tráfico, tortura e todas
as outras formas de violência.

83
41 CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA
Garantir o cuidado integral desde a primeira infância para crianças de 0 a 6 anos em
situação de vulnerabilidade.

AÇÕES METAS
• Expandir programas de visita domiciliar para famílias com 1. Criar programa de apoio a estados e
crianças de zero a seis anos em situação de vulnerabilida- municípios para estruturação de seus
de, utilizando critérios socioeconômicos para a priorização próprios programas de visitação domi-
do atendimento (renda, composição familiar, cor ou raça, ciliar para famílias com crianças de zero
gênero e territorialidade). a seis anos até 2024.

• Apoiar estados e municípios na estruturação de programas 2. Atingir cobertura de 100% dos muni-
locais de visita domiciliar para famílias com crianças de cípios brasileiros com programas de
zero a seis anos em situação de vulnerabilidade. visitação domiciliar para famílias com
crianças de zero a seis anos até 2026.

RAZÕES
As políticas públicas de visita domiciliar têm o obje- a aprendizagem de habilidades, de aptidões e de
tivo de promover o desenvolvimento infantil de for- competências ocorre com maior desenvoltura.
ma integral, considerando as necessidades básicas da O principal programa de visitação domiciliar do
criança nos aspectos físico, emocional e social, consi- Brasil é o Programa Criança Feliz (PCF), implemen-
derando-se que são políticas que devem estar inte- tado em 2016 e coordenado pela Secretaria Nacio-
gradas ao Sistema Único de Assistência Social (SUAS), nal de Atenção à Primeira Infância, do Ministério da
cuja previsão legal se encontra no Art. 14, §§ 4º e 5º, do Cidadania. Tornou-se o maior programa de visita-
Marco Legal da Primeira Infância (Lei nº 13.257/2016). ção domiciliar para a primeira infância no mundo,
As evidências internacionais indicam que os pro- após superar a marca de 57 milhões de visitas em
gramas de visita domiciliar de qualidade têm o po- 3.028 municípios, de acordo com dados oficiais de
tencial para melhorar a responsividade dos pais e 2021. A iniciativa contempla famílias inscritas no Ca-
o desenvolvimento cognitivo e socioemocional das dastro Único do Governo Federal e está alinhada ao
crianças. Além disso, ainda auxiliam na identificação Marco Legal da Primeira Infância.
dos primeiros sinais de sofrimento psíquico e au- Há outros programas, de âmbito municipal e esta-
mentam os indicadores das habilidades acadêmicas. dual, como o Mãe Curitibana e o Primeira Infância
As visitas também favorecem o aumento da taxa de Melhor. Os estados e os municípios possuem auto-
vacinação das crianças e possuem o potencial de in- nomia para instituir programas próprios, desenhan-
fluenciar positivamente o desenvolvimento da sua do suas metodologias e sua implementação.
linguagem e a qualidade do ambiente de estimula- Programas semelhantes no cenário internacional
ção domiciliar. Outro fator importante é a capacida- incentivam o trabalho intersetorial e em rede e uti-
de de prevenção do abuso infantil e da negligência. lizam estratégias integradas que resultam em bene-
Portanto, entende-se que as visitas suprem as ne- fícios aos adultos durante o processo, bem como em
cessidades essenciais da criança e da sua rede, o mudança de postura no cuidado com as crianças,
que se refletirá por toda a sua vida, trazendo im- fortalecendo os vínculos de confiança e o desenvol-
pactos positivos e melhorando seus indicadores vimento socioemocional. Assim, observa-se que as
de bem-estar, tornando-se indispensável como intervenções realizadas durante as visitas promo-
ação política em uma fase que é tida como “jane- vem a redução dos problemas de comportamento,
la de oportunidades”, por ser um período em que ao passo que trazem a regulação emocional.

ODS
ODS 1
• Meta 1.2 – Até 2030, reduzir à metade a proporção de homens, mulheres e crianças, de todas as
idades, que vivem na pobreza monetária e não monetária, de acordo com as definições nacionais.
• Meta 1.a – Garantir recursos para implementar programas e políticas para erradicar a pobreza ex-
trema e combater a pobreza.
ODS 4
• Meta 4.2 – Até 2030, assegurar a todas as meninas e meninos o desenvolvimento integral na pri-
meira infância, acesso a cuidados e à educação infantil de qualidade, de modo que estejam prepa-
rados para o ensino fundamental.

84
42 ENFRENTAMENTO DAS VIOLÊNCIAS
Produzir e sistematizar informações e dados confiáveis e detalhados para apoiar a formulação,
a implementação e a avaliação das políticas públicas de combate e prevenção à violência contra
crianças e adolescentes.

AÇÕES METAS
• Criar Banco de Dados Nacional sobre Vio- 1. Plano de trabalho para a criação com ampla participação
lências contra Crianças e Adolescentes. social do Banco de Dados Nacional sobre Violências contra
Crianças e Adolescentes apresentado até dezembro de 2023.
• Padronizar para todos os sistemas de
informação e para os órgãos e serviços 2. Primeira etapa do Banco de Dados Nacional sobre Violências
as formas de registro de dados de ví- contra Crianças e Adolescentes, com as informações hoje já
timas e de autores de violência contra existentes como DATASUS e Disque 100, disponibilizada até
crianças e adolescentes, com o perfil dezembro de 2024.
regional, de gênero, de sexualidade, de 3. Segunda etapa do Banco de Dados Nacional sobre Violências
deficiência, racial e socioeconômico. contra Crianças e Adolescentes, com informações de todas as
fontes relevantes, disponibilizada até dezembro de 2026.

RAZÕES
Depois de passados mais de 30 anos de vigência do Para um planejamento e uma ação efetivos, é pre-
ECA, o País ainda não possui dados produzidos de ciso saber: (i) onde essas violações ocorrem; (ii) quais
forma consolidada e em séries históricas capazes são os autores dessa violência; (iii) quais mecanis-
de afirmar se a violência contra crianças e adoles- mos são mais eficazes para a realização da denúncia;
centes está aumentando ou diminuindo. e (iv) quem são as principais crianças afetadas.
Temos basicamente duas bases de dados: o Dis- É necessário, por isso, construir um banco de dados
que 100 e o Sistema SINAN Viva. O primeiro registra nacional, reunindo, além dos sistemas já menciona-
dados de denúncias, que não foram averiguados dos, dados de diversos órgãos do Governo Federal e,
e comprovados. O segundo traz dados de atendi- se necessário, de estados e municípios, nos diferentes
mentos nas unidades de saúde. Ambas as fontes, setores (saúde, segurança, assistência social, justiça,
embora importantes, possuem suas limitações.
entre outros que gerem informações relevantes).
Além disso, existem estimativas de que apenas 10%
da violência perpetrada contra crianças e adoles- Tal base de dados deve ser concebida com ampla
centes chega ao conhecimento das autoridades. participação social e em formato que permita a dis-
ponibilização e divulgação desses dados de forma
Outra fonte que possui potencial informativo é o Sis-
acessível, permitindo que diversos setores sociais e
tema de Informação para a Infância e Adolescência
governamentais, em todos os níveis da federação,
(SIPIA), que é alimentado pelos conselhos tutelares.
possam utilizá-los no combate à violência contra
Contudo, o SIPIA conta com a adesão de apenas 20%
crianças e adolescentes. Sua estrutura deve ter a
dos conselhos tutelares, aproximadamente.
preocupação central da garantia do sigilo e da prote-
Essa falta de dados confiáveis é, em larga medida, ção à privacidade individual na coleta, no tratamen-
responsável pela pouca efetividade das políticas de to e na apresentação de todos os dados. Deve, ainda,
enfrentamento da violência contra crianças e ado- conter fatores interacionais na coleta e na análise dos
lescentes. Sem essa base, o ciclo da política pública dados das vítimas e dos autores da violência, assim
fica muito prejudicado tanto na formação da agenda como o perfil regional, de gênero, de sexualidade, de
de ações quanto na avaliação e no monitoramento. deficiência, racial e socioeconômico.

ODS
ODS 5
• Meta 5.2 – Eliminar todas as formas de violência de gênero nas esferas pública e privada, destacando a violência
sexual, o tráfico de pessoas e os homicídios, nas suas intersecções com raça, etnia, idade, deficiência, orientação
sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em especial para as mulheres do
campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.
ODS 16
• Meta 16.4 – Até 2030, reduzir significativamente os fluxos financeiros e de armas ilegais, reforçar a recuperação e
devolução de recursos roubados e combater todas as formas de crime organizado.
• Meta 16.6 – Ampliar a transparência, a accountability e a efetividade das instituições, em todos os níveis.
• Meta 16.10 – Assegurar o acesso público à informação e proteger as liberdades fundamentais, em conformi-
dade com a legislação nacional e os acordos internacionais.

85
43 ENFRENTAMENTO DAS VIOLÊNCIAS
Ampliar investimentos e criar parâmetros para a apuração e leitura dos recursos efetivamente
alocados em ações para prevenção às violências contra crianças e adolescentes.

AÇÕES METAS
• Inserir Diretriz e Programa Finalístico de pre- 1. Diretriz de prevenção à violência contra crianças e
venção à violência contra crianças e adoles- adolescentes inserida no Plano Plurianual da União
centes no Plano Plurianual da União (PPA). (PPA) 2024 - 2027.
• Inserir diretriz específica para destinação orça- 2. Diretriz específica para destinação orçamentária à
mentária para a prevenção às violências contra prevenção às violências contra crianças e adolescen-
crianças e adolescentes na Lei de Diretrizes Or- tes inserida na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO),
çamentárias (LDO). em todos os anos a partir de 2023.
• Inserir rubrica específica para a prevenção às 3. Rubrica específica à prevenção às violências contra
violências contra crianças e adolescentes na crianças e adolescentes inserida na Lei Orçamentária
Lei Orçamentária Anual (LOA). Anual (LOA), em todos os anos a partir de 2023.

RAZÕES
A necessidade de ampliação dos investimentos em prevenção às violências de forma articulada, intermi-
prevenção às violências no País é acompanhada pela nisterial e intersetorial e incluir uma diretriz para in-
ausência de prioridade para a criança e o adolescen- vestimento continuado em prevenção no Plano Plu-
te no orçamento público. A falta de investimento em rianual (PPA). Defender no orçamento uma dotação
prevenção aumenta a exposição dessa população à específica permitirá criar uma cultura de prevenção
violência e a outras violações de direitos, eleva gas- das violências, priorizando o direito de crianças e ado-
tos em políticas compensatórias e tem impactos ne- lescentes a um desenvolvimento natural e saudável.
gativos no desenvolvimento econômico. Nos últimos 5 anos, 35 mil crianças e adolescentes
No entanto, a ausência de parametrizações orça- foram mortas de forma violenta no Brasil, alerta o
mentárias no âmbito do orçamento da União difi- Unicef. Em 2021, no primeiro semestre, 81% dos ca-
culta a apuração e a leitura do quanto efetivamente sos de violência dessa população ocorreram dentro
é investido em ações interministeriais para a pre- de casa. O total de denúncias registrado pelo Dis-
venção contra a violência. Quanto o Brasil investe que 100 no período foi de 50,1 mil.
na prevenção às violências contra crianças e ado- A cada ano que passa, as vítimas de estupro no Bra-
lescentes? Qual é a proporção entre o investido sil são mais jovens. O percentual de vítimas de 0 a
e a redução observável dos casos notificados de 9 anos que era de 37,5% (das vítimas de 0 a 19) em
violência? Qual é o montante das dotações orça- 2019 passou a ser de 40%, segundo o Fórum Bra-
mentárias para o financiamento de intervenções sileiro de Segurança Pública, que também aponta
preventivas na assistência social, na saúde, na edu- que, em 2020, 787 mortes de crianças e adolescen-
cação e na segurança pública? tes de 10 a 19 anos foram identificadas como mor-
Infelizmente, por diversas razões (como a falta de tes decorrentes de intervenção policial.
transparência de dados, a estrutura do orçamen- Diante desse quadro, a resposta em termos orça-
to público federal e a ausência de parametrização mentários continua insuficiente. Não há diretriz ou
orçamentária, entre outras características técnicas), dotação orçamentária específica para a prevenção
ainda não conseguimos responder às questões às violências contra crianças e adolescentes na le-
apresentadas e outras que são indispensáveis para gislação orçamentária da União, o que acarreta uma
um bom manejo do investimento em prevenção às dispersão do investimento em diversas pastas, sem
violências contra crianças e adolescentes. microdados e parametrizações que permitam uma
É necessário, por isso, criar uma dotação orçamentária visão do montante investido em cada política para
exclusiva para o financiamento de intervenções em o financiamento de intervenções preventivas.

ODS
ODS 16
• Meta 16.1 – Reduzir significativamente todas as formas de violência e as taxas de mortalidade
relacionadas, em todos os lugares, inclusive com a redução de 1/3 das taxas de feminicídio e
de homicídios de crianças, adolescentes, jovens, negros, indígenas, mulheres e LGBT.
• Meta 16.2 – Proteger todas as crianças e adolescentes do abuso, exploração, tráfico, tortura e
todas as outras formas de violência.
• Meta 16.6 – Ampliar a transparência, a accountability e a efetividade das instituições, em
todos os níveis.

86
44 ENFRENTAMENTO DAS VIOLÊNCIAS
Evitar a revitimização e conferir maior celeridade no atendimento de crianças e adolescentes
vítimas ou testemunhas de violência.

AÇÕES METAS
• Elaborar orientação, fluxos e protocolos para im- 1. Programa de apoio técnico aos municípios para a im-
plantação do Sistema de Garantia de Direitos para plantação do Sistema de Garantia de Direitos para
Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência e para Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência e Comi-
instituição dos Comitês de Gestão Colegiada. tês de Gestão Colegiada com plano de trabalho apre-
sentado em 2023 e implantado em 2024.
• Definir repasse de recursos fundo a fundo para os
municípios, nas diferentes políticas públicas envol- 2. Repasse de recursos fundo a fundo com destina-
vidas, com destinação específica para esse Sistema. ção específica para esse Sistema, nas diferentes
políticas pública envolvidas, instituído em 2024.
• Apoiar os estados na especialização de unidades
policiais e na capacitação de agentes para atuar 3. Programa de apoio aos estados para especialização
de acordo com esse Sistema. de unidades policiais e capacitação de agentes para
atuar de acordo com esse Sistema, com plano de tra-
• Apoiar o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) na
balho apresentado em 2023 e implantado em 2024.
universalização do depoimento especial judicial.
4. Plano conjunto com o Conselho Nacional de Justi-
• Fortalecer o Pacto Nacional pela Implementação
ça na universalização do depoimento especial ju-
da Lei nº 13.431/2017 constituído em 2019.
dicial apresentado até dezembro de 2023.

RAZÕES
A Lei nº 13.431/2017, regulamentada pelo Decreto nº vítima apenas como um meio de produção de pro-
9.603/2018, institui o Sistema de Garantia de Direitos va, tomando seu depoimento especial somente
para Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência, quando for comprovadamente indispensável, com
definindo a articulação entres os diferentes órgãos especial atenção à obrigatoriedade da produção an-
envolvidos e maior celeridade ao atendimento das tecipada de prova nos casos em que há tal previsão.
vítimas. O objetivo é evitar a revitimização, devido à Nos cinco anos desde a promulgação da Lei nº 13.431/2017,
demora e repetição de procedimentos, exposição a os municípios ainda enfrentam grandes dificuldades na
repetidas perguntas ou depoimentos e necessidade efetivação do atendimento adequado, relacionadas à
de comparecimento a vários lugares diferentes. criação dos comitês de gestão colegiada e à participação
Devem ser observadas duas questões centrais: a das instituições do sistema de segurança e justiça; à falta
instituição de um “comitê de gestão colegiada” (art de capacidade institucional para o desenho de fluxos e
9º do Decreto nº 9.603/2018) e o cumprimento das protocolos; à ausência de capacidade técnica da Polícia
três etapas do atendimento: Civil para a condução apropriada de investigações; e à
• Identificação e acolhida das situações de vio- implantação de depoimento especial.
lência, considerando a necessária preparação Assim, é preciso planejar e estruturar uma política in-
de atores do SGD e a implementação de prá- terministerial que ofereça subsídios técnicos e finan-
ticas não revitimizantes, sobretudo para a aco- ceiros específicos, além de ferramentas para o traba-
lhida da revelação espontânea; lho integrado. Os investimentos necessários devem
• Encaminhamentos para a proteção social da ser garantidos com a corresponsabilidade de repasses
vítima ou testemunha de violência e sua famí- fundo a fundo para cada uma das políticas em âmbi-
lia, observados os aspectos para a realização da to municipal, destinando recursos especificamente a
escuta especializada; essa finalidade, bem como para o processo de educa-
• Responsabilização do agressor sem considerar a ção permanente dos profissionais.

ODS
ODS 5
• Meta 5.3 – Eliminar todas as práticas nocivas, como os casamentos e uniões precoces, força-
dos e de crianças e jovens, nas suas intersecções com raça, etnia, idade, deficiência, orienta-
ção sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em espe-
cial para as mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.
ODS 16
• Meta 16.1 – Reduzir significativamente todas as formas de violência e as taxas de mortalidade
relacionadas, em todos os lugares, inclusive com a redução de 1/3 das taxas de feminicídio e
de homicídios de crianças, adolescentes, jovens, negros, indígenas, mulheres e LGBT.
• Meta 16.2 – Proteger todas as crianças e adolescentes do abuso, exploração, tráfico, tortura e
todas as outras formas de violência.

87
45 ENFRENTAMENTO DAS VIOLÊNCIAS
Garantir tratamento adequado na atuação das forças de segurança pública junto a crianças e
adolescentes e combater a violência institucional.

AÇÕES METAS
• Estabelecer diretrizes e normas para os procedimen- 1. Diretrizes e normas para procedimentos de agentes
tos de agentes de segurança pública nas abordagens, de segurança pública nas abordagens, ocorrências,
nas ocorrências, nas conduções e em qualquer tipo conduções e qualquer tipo de interação com crian-
de interação com crianças e adolescentes, garantin- ças e adolescentes, garantindo a excepcionalidade
do a excepcionalidade da utilização de armas. da utilização de armas, estabelecidas até 2023.
• Oferecer apoio técnico aos estados para a capa- 2. Programa de apoio técnico aos estados para a ca-
citação de policiais civis, militares e outros mem- pacitação de policiais civis, militares e outros mem-
bros das forças de segurança para sua atuação bros das forças de segurança para atuação junto a
junto a crianças e adolescentes. crianças e adolescentes instituído em 2024.
• Formular protocolos operacionais e procedimen- 3. Protocolos operacionais e procedimentais para ope-
tais para as operações policiais em áreas sensíveis rações policiais em áreas sensíveis com a presença
com a presença de crianças e adolescentes. de crianças e adolescentes estabelecidos até 2023.

RAZÕES
O Brasil enfrenta uma questão sistêmica de vio- a crianças e adolescentes envolvidos direta ou indi-
lência armada contra crianças e adolescentes. retamente em conflitos armados. Os referidos textos
Entre 2017 e 2021, 35 mil crianças e adolescentes formais determinam expressamente que as partes
foram vítimas de mortes violenta, sendo que 86% envolvidas em tais conflitos: (I) cessem imediatamen-
desses óbitos, ocorreram por armas de fogo e na te práticas que impeçam o acesso de crianças a hos-
faixa etária de 10 e 19 anos. Os homicídios nessa pitais e escolas ou que violem seus direitos de alguma
parcela da população aumentaram 113,7% no Bra- forma; (II) adotem medidas especiais para a proteção
sil nos últimos 20 anos. de crianças e adolescentes; (III) implementem pro-
gramas de desarmamento efetivo e de recuperação
A atuação policial tem colaborado para esse qua-
e reintegração para crianças e adolescentes; e (IV)
dro de violência letal. Segundo dados do Fórum
desmobilizem os atores envolvidos nos conflitos. Os
Brasileiro de Segurança Pública sobre a Violência
textos ainda estabelecem que os órgãos públicos res-
contra Crianças e Adolescentes, de 2017 a 2020 as
ponsáveis devem elaborar planos de ação, com prazo
forças de segurança pública foram responsáveis
determinado, para proteger as crianças envolvidas di-
pelo equivalente a duas mortes de crianças e ado-
reta ou indiretamente em conflitos armados, além de
lescentes por dia no Brasil.
produzir relatórios periódicos sobre as violações de
No caso dos agentes de segurança pública, é ne- direitos de crianças nessas situações, possibilitando a
cessário que haja protocolos específicos sobre o adoção de ações mais efetivas.
emprego de armas em situações que envolvam
Cabe, ainda, destacar o caso emblemático dos
crianças ou adolescentes, direta ou indiretamente.
agentes socioeducativos, que atuam no atendi-
Por exemplo: áreas com grande circulação de civis
mento a adolescentes em privação de liberdade.
não devem ser cenários para a deflagração de ope-
São profissionais que possuem a função pedagógi-
rações policiais, que também devem ser proibidas
ca no exercício de suas funções. Nos últimos anos,
em estabelecimentos de ensino e em horários es-
no entanto, a categoria foi objeto de diversas pro-
pecíficos de circulação de estudantes.
posições legislativas que objetivam equipará-la a
O mesmo entendimento é apontado nas Resoluções agentes de segurança, abrindo a possibilidade para
nº 1.998/2011 e nº 2.143/2014 do Conselho de Segu- a posse e o porte de armas de fogo, contrariando o
rança da Organização das Nações Unidas (ONU), que próprio sentido da medida socioeducativa e levan-
estabelecem medidas a serem adotadas em relação do armas para um ambiente de adolescentes.

ODS
ODS 16
• Meta 16.1 – Reduzir significativamente todas as formas de violência e as taxas de mortalidade
relacionadas, em todos os lugares, inclusive com a redução de 1/3 das taxas de feminicídio e
de homicídios de crianças, adolescentes, jovens, negros, indígenas, mulheres e LGBT.
• Meta 16.2 – Proteger todas as crianças e adolescentes do abuso, exploração, tráfico, tortura e
todas as outras formas de violência.

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46 ENFRENTAMENTO DAS VIOLÊNCIAS
Fortalecer as capacidades dos Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente (nos âmbitos
nacional, estadual, distrital e municipal) para a elaboração e o controle de planos, ações e
programas de prevenção e enfrentamento das violências contra crianças e adolescentes.

AÇÕES METAS
• Realizar programa nacional de forma- 1. Conteúdo, plano de trabalho e estratégias do Programa Na-
ção e capacitação de conselheiros de cional de Capacitação de Conselheiros de Direitos da Criança
direitos da criança e do adolescente, e do Adolescente elaborados até dezembro de 2023.
em todas as esferas de governo, para
2. Programa Nacional de Capacitação de Conselheiros de Direi-
a formulação, o monitoramento e a
tos da Criança e do Adolescente iniciado em 2024.
avaliação de políticas preventivas con-
tra todas as formas de violência contra 3. 75% dos conselheiros de direitos da criança e do adolescente
crianças e adolescentes. do País capacitados até dezembro de 2025.

RAZÕES
A importância dos Conselhos de Direitos da Criança ros nacionais, dos estados e dos 5.489 municípios
e do Adolescente, como órgãos deliberativos e con- que possuem Conselhos de Direitos. Tal articulação
troladores das políticas públicas de atendimento aos objetiva garantir que os planos setoriais abarquem
direitos da criança e do adolescente, nas três esferas a execução integral das diretrizes, das ações e dos
de governo, está garantida na Constituição Federal programas de prevenção e enfrentamento das vio-
e reafirmada pelo Estatuto da Criança e do Adoles- lências contra crianças e adolescentes definidos ou
cente, que institui suas atribuições como conselho aprovados pelo Conselho de Direitos.
gestor de políticas públicas intersetoriais e geracio- Os conselheiros de direito precisam, por isso, ter co-
nais. Os regimentos internos e as leis de criação nos nhecimentos tanto a respeito de seu papel delibe-
estados e municípios estabelecem competências e rativo, propositivo e de controle, quanto das formas
atribuições adicionais relacionadas ao acompanha- de atuação, das ações e dos programas das dife-
mento e à participação no processo de elaboração rentes políticas públicas. É no âmbito do Conselho
de legislações relativas à infância, à deliberação so- de Direitos, em todas as esferas governamentais,
bre políticas dos direitos da criança e do adolescente que poderão ocorrer a articulação das ações seto-
e ao financiamento das políticas sociais públicas. riais e sua consolidação em estratégias de atuação
Além disso, o Conselho de Direitos da Criança e do eficientes e efetivas na prevenção e no combate às
Adolescente tem um diferencial perante os demais violências contra crianças e adolescentes.
Conselhos: suas competências não são restritas a Espera-se que as ações interministeriais promovidas
uma política setorial, mas dizem respeito a qual- pelo Ministério da Cidadania e pelo Ministério da Mu-
quer política que, de algum modo, se direcione a lher, da Família e dos Direitos Humanos, em articula-
crianças e adolescentes. ção com o Conanda, o CNJ e os Conselhos Setoriais
Nessa perspectiva, a articulação dos Conselhos entre de Assistência Social, Saúde e Educação, possam as-
as esferas governamentais e a sociedade civil precisa segurar a formação permanente dos conselheiros de
ser fortalecida e assegurada pelo Governo Federal, direitos para a necessária integração de suas ações de
incluindo a formação permanente dos conselhei- controle social das políticas sociais no País.

ODS
ODS 16
• Meta 16.2 – Proteger todas as crianças e adolescentes do abuso, exploração, tráfico, tortura e
todas as outras formas de violência.
• Meta 16.a – Fortalecer as instituições relevantes, inclusive por meio da cooperação interna-
cional, para a construção de capacidades em todos os níveis, em particular nos países em
desenvolvimento, para a prevenção da violência, do crime e da violação dos direitos humanos.

89
47 ENFRENTAMENTO DAS VIOLÊNCIAS
Fortalecer a atuação dos Conselhos Tutelares.

AÇÕES METAS
• Produzir manual de procedimentos para os 1. Manual de procedimentos para os Conselhos Tutela-
Conselhos Tutelares. res, elaborado com ampla participação da sociedade
civil e dos próprios conselheiros tutelares, aprovado
• Atualizar e aperfeiçoar o Sistema de Infor- pelo Conanda e adotado nacionalmente até 2024.
mação para a Infância e Adolescência (SIPIA).
2. Obrigatoriedade de uso do SIPIA estabelecida até 2023.
• Criar serviço de help desk em horário comer-
cial para apoiar o uso do SIPIA pelos Conselhos 3. Projeto de atualização e aperfeiçoamento do SIPIA,
Tutelares. com plano e cronogramas de implantação, elaborado
até dezembro de 2023.
• Tornar obrigatório o uso do SIPIA pelo Con-
selho Tutelar. 4. Atualização e aperfeiçoamento do SIPIA implantada
até dezembro de 2024.
• Desenhar e implementar, juntamente com
os Conselhos Tutelares, uma política nacio- 5. Política nacional de formação continuada e capacita-
nal de formação continuada. ção a partir do manual de procedimentos desenhada,
juntamente com os CTs, e implantada a partir de 2024.

RAZÕES
O fortalecimento dos Conselhos Tutelares é funda- medidas de proteção pelo Conselho Tutelar. O ma-
mental para a melhoria do funcionamento do Sistema nual deve estar associado ao SIPIA, que serve para
de Garantia de Direitos (SGD). Há 5.906 conselhos no que sejam registrados os processos e casos em que
País, que atuam em âmbito municipal, onde são res- atuam os conselheiros.
ponsáveis por articular os equipamentos do SGD no De acordo com o Manual do Usuário do SIPIA (2019),
enfrentamento da negligência, da exploração sexual e “muito além de funcionar como repositório de dados,
à violência física e psicológica, entre outras violações. o SIPIA é entendido como uma plataforma de gestão
Embora suas atribuições estejam descritas no ECA e na e monitoramento voltada para conselheiros tutelares,
Resolução nº 170 do Conanda, não é do entendimento conselheiros de direitos, gestores e técnicos de políti-
de todos as responsabilidades que lhes são conferidas, cas públicas, atores do sistema de Justiça, dentre ou-
tampouco quais são as possíveis medidas de proteção tros relacionados à garantia, promoção, proteção e de-
que podem ser aplicadas nos casos em que atuam. fesa dos direitos humanos de crianças e adolescentes”.
Se utilizado por todos, o SIPIA pode compor uma base
Uma questão de fundo, que tem interpretações di-
única nacional para formulação de políticas públicas.
ferentes, diz respeito à própria natureza da atuação
do Conselho Tutelar. Por um lado, há o argumento Por se tratar de um software utilizado conjunta-
de que o Conselho Tutelar é um órgão de proteção e mente por cerca de 30 mil profissionais, é primor-
garantia de direitos das crianças e adolescentes, por dial garantir a constante atualização do SIPIA e seu
meio de serviços e atendimentos a serem prestados aperfeiçoamento tecnológico, bem como disponi-
por outros órgãos públicos por ele requisitados, sob bilizar um serviço de help desk em horário comer-
seu acompanhamento. Por outro lado, há a interpre- cial para apoiar a utilização do sistema.
tação de que o Conselho Tutelar não deve apenas Como o SIPIA atua como ferramenta de integração
requisitar e acompanhar serviços, mas também fazer de informações, é fundamental ainda que a sua uti-
diligências e atender diretamente crianças e adoles- lização seja obrigatória e prevista em lei federal. A
centes quando seus direitos forem violados. Resolução nº 178 do Conanda, que estabelece pa-
Um manual de procedimentos poderá pacificar esta râmetros e recomendações para a implementação
e outras questões, sobre a atuação e a aplicação de e o monitoramento do SIPIA.

ODS
ODS 16
• Meta 16.6 – Ampliar a transparência, a accountability e a efetividade das instituições, em todos os níveis.
• Meta 16.a – Fortalecer as instituições relevantes, inclusive por meio da cooperação internacional,
para a construção de capacidades em todos os níveis, em particular nos países em desenvolvimento,
para a prevenção da violência, do crime e da violação dos direitos humanos.

90
48 ENFRENTAMENTO DAS VIOLÊNCIAS
Combater todas as formas de violência contra crianças e adolescentes baseadas em etnia, raça
e gênero, modificando padrões sexistas e machistas e construindo valores antirracistas, de paz,
não violência e valorização da diversidade.

AÇÕES ODS
• Criar programa interministerial para a proposi- ODS 5
ção e o desenvolvimento de ações de enfrenta- • Meta 5.1 – Eliminar todas as formas de discriminação
mento a todas as formas de violência baseada de gênero, nas suas intersecções com raça, etnia, ida-
em etnia, raça e gênero, com ampla participação de, deficiência, orientação sexual, identidade de gê-
popular e do Conselho Nacional de Direitos da nero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade,
Criança e do Adolescente (Conanda). em especial para as meninas e mulheres do campo, da
floresta, das águas e das periferias urbanas.
• Criar programa de formação continuada para
• Meta 5.2 – Eliminar todas as formas de violência de
professores da educação básica em educação
gênero nas esferas pública e privada, destacando
sobre gênero, sexualidade e violência.
a violência sexual, o tráfico de pessoas e os homi-
cídios, nas suas intersecções com raça, etnia, idade,
deficiência, orientação sexual, identidade de gênero,
METAS territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em
1. Programa interministerial para a proposição e especial para as mulheres do campo, da floresta, das
desenvolvimento de ações de enfrentamento a águas e das periferias urbanas.
todas as formas de violência baseada em etnia, ODS 8
raça e gênero elaborado com ampla participa- • Meta 8.7 – Até 2025 erradicar o trabalho em condições
ção popular e do Conselho Nacional de Direi- análogas às de escravo, o tráfico de pessoas e o traba-
tos da Criança, até dezembro de 2023. lho infantil, principalmente nas suas piores formas.
2. Programa interministerial para a proposição e ODS 16
desenvolvimento de ações de enfrentamento a • Meta 16.1 – Reduzir significativamente todas as formas
todas as formas de violência baseada em etnia, de violência e as taxas de mortalidade relacionadas, em
raça e gênero implantado a partir de 2024. todos os lugares, inclusive com a redução de 1/3 das ta-
xas de feminicídio e de homicídios de crianças, adoles-
3. Programa de formação continuada para pro- centes, jovens, negros, indígenas, mulheres e LGBT.
fessores da educação básica em educação so- • Meta 16.2 – Proteger todas as crianças e adolescentes
bre gênero, sexualidade, violência implantado do abuso, exploração, tráfico, tortura e todas as outras
em 2024. formas de violência.

RAZÕES
Para o enfrentamento de todas as formas de violên- cia doméstica, sexual, moral, psicológica, institucio-
cia contra crianças e adolescentes baseadas em et- nal e patrimonial.
nia, raça e gênero, é imperativo que o Poder Execu- Quando levada ao extremo, tal violência também
tivo assegure, no âmbito das políticas intersetoriais, gera alto índice de homicídios, em especial entre
de forma articulada com os demais poderes, progra- adolescentes e jovens negros. Nesse sentido, é pri-
mas que se pautem no princípio da equidade e da mordial considerar, na elaboração dessas políticas,
interseccionalidade de etnias, raça e gênero. as especificidades de gênero, raça e etnia de crian-
É importante que o Poder Executivo restabeleça e ças e adolescentes, que forjam suas identidades,
fortaleça as instâncias de participação social nos mas também a forma como são vitimizados.
espaços de formulação de políticas e de controle Portanto, é preciso levar em conta o enfrentamen-
social e aplique o princípio da equidade e da in- to ao racismo como uma estratégia de combate ao
terseccionalidade de raça e gênero no desenho de trabalho infantil, uma vez que tal fenômeno social
programas e políticas, com o objetivo de reduzir teve início no Brasil quando crianças de origem in-
desigualdades, combater a discriminação de gêne- dígena e africana foram submetidas à escravidão,
ro, interferir e modificar padrões sexistas/machis- junto com suas famílias.
tas, construir valores antirracistas, de paz e não vio-
lência, respeito, reconhecimento e valorização da A complexidade desses fenômenos requer não
diversidade de gênero. apenas a responsabilização dos agressores, mas
uma atuação coletiva e intersetorial de erradicação
Estruturar uma política de enfrentamento às vio- e prevenção com foco não só nas crianças e ado-
lências de raça e gênero significa considerar crimes lescentes, mas também em suas famílias, uma vez
que vitimizam crianças e adolescentes motivados que muitas estão em situação de vulnerabilidade
por uma cultura de raízes racistas, preconceituosas, social - cenário agravado pelos efeitos da pande-
misóginas e homofóbicas, reprodutoras da violên- mia, em especial entre negros e negras.

91
49 ENFRENTAMENTO DAS VIOLÊNCIAS
Qualificar a Assistência Social como agente estratégico da prevenção a qualquer tipo de violência
contra crianças e adolescentes.

AÇÕES METAS
• Definir um modelo de programas intersetoriais de 1. Modelo de atenção integral intersetorial para
atenção integral a crianças e adolescentes vítimas prevenção e atendimento de casos de violência
ou testemunhas de violência em todos os níveis de contra crianças e adolescentes definido no SUAS
proteção do Sistema Único de Assistência Social até 2023 e implantado nos municípios a partir
(SUAS), em ações conjuntas que envolvam o diag- de 2024.
nóstico, o planejamento, a atuação em rede, as prá-
2. Diretrizes e ações específicas para a preven-
ticas comunitárias e as campanhas.
ção da violência contra crianças e adolescen-
• Inserir, nas orientações técnicas e na tipificação tes e atendimento inseridas nas orientações
dos serviços socioassistenciais do SUAS, diretrizes e técnicas e na tipificação dos serviços socioas-
ações específicas para a prevenção da violência con- sistenciais do SUAS em 2023.
tra crianças e adolescentes e para seu atendimento.
3. Programa de capacitação para os profissionais
• Realizar, para os profissionais do SUAS, programa de do SUAS em escuta especializada e metodo-
capacitação em escuta especializada e metodolo- logias de prevenção e de atendimento a crian-
gias de prevenção e de atendimento a crianças e ças e adolescentes vítimas ou testemunhas de
adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. violência implantado em 2024.

RAZÕES
A Assistência Social tem como objetivo garantir a efetiva), no atendimento protetivo e no encami-
proteção social por meio do Sistema Único de As- nhamento adequado do caso.
sistência Social (SUAS), organizado em dois níveis: Isso requer a atenção específica do SUAS para as
proteções básica (promoção de direitos e pre- questões de violência, com a aplicação de ferra-
venção de situações de risco) e proteção especial mentas e metodologias de diagnóstico, planeja-
(atendimento a indivíduos e famílias em situação mento, atuação em rede, atividades comunitárias,
de risco pessoal e social, incluindo crianças e ado- campanhas, dentre outras. Além disso, os profissio-
lescentes vítimas de qualquer tipo de violência). nais precisam ser continuamente capacitados na
Assim, entende-se que as ofertas do SUAS poten- identificação dos riscos de violência e nas formas
cializam os recursos individuais, familiares e comu- de atendimento e encaminhamento de crianças e
nitários para a superação de vulnerabilidades, situ- adolescentes vítimas ou testemunhas de violência,
ações de risco pessoal e social, bem como atuam entre elas a escuta especializada.
na prevenção da reincidência e no agravamento Embora a violência seja uma grave violação de
das violências e das demais violações de direitos. direito e, por isso, já inserida no campo de aten-
Devem, ainda, primar pela garantia de acesso e dimento do SUAS, é necessário adotar um olhar
qualificação do atendimento às especificidades da específico para esse tema, planejando e normati-
população e do território. zação as ações e atendimentos socioassistenciais.
Nessa atuação comunitária, familiar e individual, Isso deve se dar por meio de orientações técnicas
os serviços socioassistenciais podem ter a capa- específicas, voltadas tanto para a proteção básica
cidade de identificar riscos e situações efetivas de como para a proteção especial, como por meio da
violência contra crianças e adolescentes. No pri- inserção explícita na Tipificação Nacional de Servi-
meiro caso, de risco, devem estar preparados para ços Socioassistenciais do atendimento a crianças e
agir preventivamente; no segundo caso (situação adolescentes vítimas ou testemunhas de violência.

ODS
ODS 5
• Meta 5.2 – Eliminar todas as formas de violência de gênero nas esferas pública e privada, destacan-
do a violência sexual, o tráfico de pessoas e os homicídios, nas suas intersecções com raça, etnia,
idade, deficiência, orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacio-
nalidade, em especial para as mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.
ODS 8
• Meta 8.7 – Até 2025 erradicar o trabalho em condições análogas às de escravo, o tráfico de pessoas
e o trabalho infantil, principalmente nas suas piores formas.
ODS 16
• Meta 16.2 – Proteger todas as crianças e adolescentes do abuso, exploração, tráfico, tortura e todas
as outras formas de violência.

92
50 ADOLESCENTES A QUEM SE ATRIBUI ATO INFRACIONAL
Impedir a superlotação das unidades socioeducativas e garantir a convivência familiar e
comunitária de adolescentes e jovens em privação e restrição de liberdade.

AÇÕES METAS
• Definir padrões, critérios e cronograma nacionais 1. Padrões, critérios e cronograma nacionais para a
para a implantação e funcionamento da Central implantação e funcionamento da Central de Va-
de Vagas do Sistema Socioeducativo, em conjun- gas estabelecidos até dezembro de 2023.
to com Conanda e com estados.
2. Central de Vagas do Sistema Socioeducativo im-
• Implementar a Central de Vagas do Sistema So- plantada nos 26 estados e no Distrito Federal até
cioeducativo em todas as Unidades da Federação. 2024.

RAZÕES
A adoção da Central de Vagas do Sistema Socio- São necessários um esforço nacional e o apoio do
educativo pelas unidades federativas é uma fer- Governo Federal para que esse importante instru-
ramenta essencial para um atendimento inicial a mento e marco histórico para a garantia dos direi-
adolescentes a quem são atribuídas práticas de ato tos dos(as) adolescentes privados(as) de liberdade
infracional baseado nas diretrizes e normativas es- alcance todo o País.
tabelecidas pelo Estatuto da Criança e do Adoles- Embora não haja dados atualizados da gestão na-
cente, bem como pela lei do Sistema Nacional de cional do Sinase sobre o Sistema Socioeducativo,
Atendimento Socioeducativo (Sinase). Mesmo nos outras fontes indicam que, em 2019, no Brasil, havia
estados da Federação onde não há superlotação, 18.086 adolescentes e jovens em privação de liber-
a adoção da Central de Vagas é extremamente re- dade, mas 16.161 vagas, o que representa um déficit
levante, uma vez que se trata de uma importante de vagas de quase 5 mil (superlotação).
estratégia para a melhoria e a qualificação do aten-
dimento socioeducativo brasileiro. Como consequência da superlotação, as unidades
de atendimento socioeducativo passam por proble-
A Central de Vagas do Sistema Socioeducativo é um mas que acarretam violações de direitos, tais como:
sistema de coordenação e gestão de vagas das uni- (I) limitações de estrutura física do espaço; (II) insufi-
dades socioeducativas de internação, internação ciência de objetos e equipamentos de primeira ne-
provisória e semiliberdade, de acordo com o limite cessidade; (III) inadequação do número de profissio-
máximo de ocupação de vagas em cada unidade. nais; (IV) dificuldade de organização para a garantia
A Central de Vagas possui regulamentação pelo Con- de direitos básicos como educação, cultura, visita fa-
selho Nacional de Justiça (CNJ), sendo também tema miliar e lazer; (V) inexistência de condições sanitárias
de discussão no âmbito do Conselho Nacional dos adequadas; e (VI) generalização da sensação de inse-
Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). No gurança nas unidades, fazendo com que o medo (e
entanto, ainda existem algumas dificuldades e limita- não os direitos de adolescentes) seja utilizado como
ções, que podem ser superadas com o comprometi- ferramenta preventiva de trabalho.
mento da próxima liderança do Poder Executivo. Nesse sentido, a estipulação de prazos, assim como a
Até agora, a medida foi adotada por apenas dez estados padronização de critérios que assegurem os direitos
brasileiros. A inércia dos outros estados contraria a Re- de adolescentes, garantindo que tal instrumento es-
solução nº 367 do CNJ, que estabeleceu o prazo de um teja presente em todo o Brasil, é uma tarefa que pode
ano, a contar de maio de 2021, para que todas as uni- ser pensada e executada no bojo do Poder Executivo,
dades federativas implementassem Centrais de Vagas. em conjunto com outros órgãos competentes.

ODS
ODS 10
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de to-
dos, de forma a reduzir as desigualdades, independentemente da idade, gênero, deficiência,
raça, etnia, nacionalidade, religião, condição econômica ou outra.
ODS 16
• Meta 16.3 – Fortalecer o Estado de Direito e garantir acesso à justiça a todos, especialmente
aos que se encontram em situação de vulnerabilidade.
• Meta 16.6 – Ampliar a transparência, a accountability e a efetividade das instituições, em
todos os níveis.

93
51 ADOLESCENTES A QUEM SE ATRIBUI ATO INFRACIONAL
Assegurar o direito à vida e à liberdade e o acesso a serviços e políticas públicas para
adolescentes e jovens que sofrem ameaças de morte, em cumprimento de medidas
socioeducativas ou após o cumprimento de medida socioeducativa.

AÇÕES METAS
• Expandir o Programa de Proteção a Crianças e 1. PPCAM implantado em todos os estados até 2024.
Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM)
2. Fluxos e protocolos obrigatórios de atendimento
para todas as Unidades da Federação.
nas políticas públicas e instituições de acolhimen-
• Normatizar o funcionamento do PPCAAM para to para adolescentes e jovens incluídos no PPCAM
adolescentes e jovens em cumprimento ou instituídos até 2024.
após cumprimento de medida socioeducativa.
3. Normas de atenção específica a adolescentes e jovens
• Definir fluxos e protocolos obrigatórios de aten- em cumprimento ou após cumprimento de medida
dimento nas políticas públicas e entidades de socioeducativa, incluindo adolescentes em restrição
acolhimento para crianças, adolescentes e jo- ou privação de liberdade, instituída até 2024.
vens inseridos no PPCAAM.

RAZÕES
O Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes da medida de internação, não são garantidos todos
Ameaçados de Morte (PPCAAM) garante a proteção os outros instrumentos de proteção previstos no
de adolescentes ameaçados de morte, colocando-os programa. Há estados que definem, explicitamen-
em local protegido e sigiloso (novo endereço junto te, que adolescentes e jovens em cumprimento de
com a família, acolhimento institucional ou moradia privação ou mesmo restrição de liberdade não po-
independente). Além disso, garante o acesso a serviços dem ser atendidos pelo PPCAAM.
públicos e o apoio socioassistencial, com a proteção Mesmo nos casos de medida em meio aberto ou após
policial, se necessária, para os seus deslocamentos. o cumprimento da medida socioeducativa, mesmo
O PPCAAM foi criado pelo Governo Federal e é im- com o adolescente ou jovem inserido no programa,
plantado nas Unidades da Federação por meio de são verificadas limitações no acesso às políticas públi-
convênios ou outras formas de ajuste de coopera- cas e, muitas vezes, dificuldades de viabilização de va-
ção; porém, ainda não foi estabelecido em todas as gas em acolhimento institucional, que é usado nos ca-
Unidades da Federação. sos em que a família não o acompanha. As instituições
de acolhimento e as políticas públicas (como unidades
O programa é de extrema importância estratégica para
de saúde e educação) oferecem resistência ao atendi-
adolescentes e jovens em cumprimento ou após o
mento, alegando diretamente razões de “insegurança”
cumprimento de medidas socioeducativas por envol-
ou com o uso de pretextos de diversas ordens.
vimento com ato infracional, principalmente pelo con-
texto de violência em que geralmente estavam inseri- O fortalecimento do PPCAAM e a garantia dos direi-
dos e que os torna mais vulneráveis a riscos de morte. tos do grupo extremamente vulnerabilizado que ele
atende requerem a expansão do programa para todos
De acordo com a legislação, para adolescentes em cum-
os estados brasileiros, além da formulação de regras
primento de medidas em meio aberto, é feita a mudan-
e protocolos de atendimento nas diferentes políticas
ça do local de residência e de cumprimento da medida
públicas e instituições de acolhimento, para evitar que
e são assegurados também todos os mecanismos de
os adolescentes e jovens fiquem privados de seus di-
proteção e acesso às políticas públicas. O programa é
reitos fundamentais. Além dessas necessidades, é pre-
integralmente aplicável para casos após o cumprimen-
ciso que seja regulamentada a forma de atendimento
to de medida socioeducativa de qualquer tipo.
específica a adolescentes e jovens em cumprimento
Durante o cumprimento da medida socioeduca- ou após o cumprimento da medida socioeducativa,
tiva em regime de privação de liberdade, embora garantindo a atenção necessária aos casos de adoles-
possa haver a mudança da localidade de execução centes em restrição ou privação de liberdade.

ODS
ODS 1
• Meta 1.3 – Assegurar para todos, em nível nacional, até 2030, o acesso ao sistema de proteção social,
garantindo a cobertura integral dos pobres e das pessoas em situação de vulnerabilidade.
ODS 16
• Meta 16.2 – Proteger todas as crianças e adolescentes do abuso, exploração, tráfico, tortura e todas as
outras formas de violência.
• Meta 16.3 – Fortalecer o Estado de Direito e garantir acesso à justiça a todos, especialmente aos que se
encontram em situação de vulnerabilidade.

94
52 ADOLESCENTES A QUEM SE ATRIBUI ATO INFRACIONAL
Garantir que o período de internação provisória de adolescentes a quem se atribui ato
infracional obedeça aos princípios de excepcionalidade, brevidade e respeito à condição peculiar
de pessoa em desenvolvimento.

AÇÕES METAS
• Instituir e qualificar os Núcleos ou Centros de Aten-
1. Núcleo ou Centro de Atendimento Inicial implan-
dimento Iniciais em todas as Unidades da Federação.
tado nos 26 estados e no Distrito Federal até 2024.

RAZÕES
O Atendimento Inicial Integrado é política públi- O desenvolvimento de políticas públicas que fomen-
ca fundamental para garantir eficiência às medi- tem a criação de Centros Iniciais de Atendimentos busca
das socioeducativas e do sistema como um todo. acabar com um ciclo de violência ao qual adolescentes
A proposta está disposta no Artigo 80, inciso V, são expostos de maneira cotidiana nas suas realidades.
do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e O investimento nesses centros se justifica pela neces-
prevê o atendimento em rede dos órgãos do Ju- sidade imediata de quebrar ciclos de violências institu-
diciário, do Ministério Público, da Defensoria, da cionais promovidos pelas instituições policiais desde o
Segurança Pública e da Assistência Social, prefe- momento da abordagem até a transferência de adoles-
rencialmente no mesmo local, por meio de Nú- centes ao centro socioeducativo ou a sua liberação para
cleos ou Centros de Atendimento Integrado. os responsáveis, uma vez que são inúmeras as situações
em que adolescentes são tratados como pessoas adul-
A medida visa à garantia dos princípios de excep-
tas nas delegacias, sem qualquer reconhecimento ao
cionalidade e brevidade da internação provisória.
seu peculiar estágio de desenvolvimento.
Sendo assim, deve ser reconhecida e fortalecida
como a forma mais adequada para a qualifica- Segundo dados mais recentes do Levantamento Anual
ção e a agilidade do atendimento a adolescentes do Sinase, verifica-se a ausência de atendimento ini-
a quem se atribui ato infracional já no primeiro cial integrado na maior parte das unidades federativas,
contato com o Sistema Socioeducativo, garantin- além da insuficiência de pessoal e de instituições, ór-
do, assim, agilidade e respostas qualificadas, além gãos e serviços integrados existentes, em desconformi-
do fortalecimento do caráter pedagógico das dade com o Artigo 88, inciso V, do ECA, bem como a
medidas. Assegurar a existência de um Núcleo escassez na destinação de recursos orçamentários para
ou Centro de Atendimento Inicial é mais uma das a política de atendimento socioeducativo (cabe ressal-
estratégias que se somam à qualificação, o que tar que, embora a execução do atendimento inicial seja
vai ao encontro das diretrizes e normas previstas realizada pelos estados e municípios, o orçamento para
no Estatuto da Criança e do Adolescente. tanto também é de responsabilidade da União).

ODS
ODS 10
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de to-
dos, de forma a reduzir as desigualdades, independentemente da idade, gênero, deficiência,
raça, etnia, nacionalidade, religião, condição econômica ou outra.
ODS 16
• Meta 16.3 – Fortalecer o Estado de Direito e garantir acesso à justiça a todos, especialmente
aos que se encontram em situação de vulnerabilidade.
• Meta 16.6 – Ampliar a transparência, a accountability e a efetividade das instituições, em
todos os níveis.
• Meta 16.a – Fortalecer as instituições relevantes, inclusive por meio da cooperação interna-
cional, para a construção de capacidades em todos os níveis, em particular nos países em
desenvolvimento, para a prevenção da violência, do crime e da violação dos direitos humanos.

95
53 ADOLESCENTES A QUEM SE ATRIBUI ATO INFRACIONAL
Ampliar as oportunidades para o desenvolvimento educacional de adolescentes em
atendimento socioeducativo, a partir dos seus interesses, e qualificar e tornar seguro seu
ingresso no mercado de trabalho.

AÇÕES METAS
• Criar Programa Nacional de Forta- 1. Programa Nacional de Educação e Aprendizagem para o Siste-
lecimento da Educação e Aprendi- ma Socioeducativo elaborado, com ampla participação da so-
zagem Profissional de Adolescentes ciedade civil, incluindo Conanda, estados e municípios, até 2024.
em Cumprimento de Medida So-
2. Programa Nacional de Educação e Aprendizagem para o Sis-
cioeducativa, envolvendo o SUAS,
tema Socioeducativo implantado em todas as unidades de
Educação, estados e os municípios.
atendimento até 2026.

RAZÕES
A educação e a aprendizagem profissional devem No caso da inserção no mercado de trabalho, em-
ser consideradas como estratégias fundamentais bora haja previsão legal de prioridade desse grupo
para que o atendimento socioeducativo cumpra nas contratações de aprendizes, a prioridade não
sua função ressocializadora. O perfil predominante é cumprida. São muito raros os casos de contra-
dos adolescentes em cumprimento de medida so- tação de adolescentes e jovens em cumprimento
cioeducativa (de defasagem escolar ou abandono ou após o cumprimento de medida socioeducativa
e sem habilidades profissionais) pode se constituir em vagas de aprendizes.
em uma barreira para a construção de projetos de
vida e a sua inserção social e produtiva. É preciso desenvolver uma ação integrada, na forma
de um Programa Nacional de Educação e Aprendi-
Os programas de atendimento socioeducativo, zagem para o Sistema Socioeducativo aplicável a
tanto em meio aberto quanto de restrição e pri- todos os estados e municípios para resolver essas
vação de liberdade, têm contribuído pouco para a
questões, levando em conta:
elevação do nível de escolaridade e profissionaliza-
ção de seus atendidos. É preciso haver um esforço • A obrigatoriedade de frequência à escola e a
sistemático e planejado para que a educação e a existência de unidade educacional em todas as
aprendizagem profissional se tornem alternativas unidades de privação de liberdade, conjugada
reais para esses adolescentes e jovens. com o apoio ou o reforço escolar suplementar;
A frequência à escola enfrenta barreiras tanto pe- • O apoio técnico às escolas e a capacitação de
las dificuldades de aprendizado geradas pela de- educadores para a efetiva inclusão de adoles-
fasagem e pelo histórico dos adolescentes, como centes em cumprimento ou após o cumpri-
pela incapacidade das escolas de integrar e aten- mento da medida socioeducativa;
der adequadamente esses adolescentes e jovens,
quando não pela inexistência de escola dentro das • Os cursos de capacitação profissional ou profis-
unidades de privação de liberdade. sionalização em áreas com a possibilidade de
ingresso no mercado formal;
No caso de capacitação profissional ou profissiona-
lização, as ações ficam em geral restritas a trabalhos • A formação de parcerias com empresas para
manuais de pouca possibilidade de inserção real efetivar a prioridade de contratação de apren-
no mercado, partindo-se do pressuposto de que as dizes entre adolescentes e jovens em cumpri-
limitações educacionais não permitem outros tipos mento ou após o cumprimento de medidas
de capacitação ou profissionalização. socioeducativas.

ODS
ODS 04
• Meta 4.3 – Até 2030, assegurar a equidade (gênero, raça, renda, território e outros) de acesso e
permanência à educação profissional e à educação superior de qualidade, de forma gratuita ou a
preços acessíveis.
• Meta 4.4 – Até 2030, aumentar substancialmente o número de jovens e adultos que tenham as
competências necessárias, sobretudo técnicas e profissionais, para o emprego, trabalho decente e
empreendedorismo.
ODS 8
• Meta 8.6 – Alcançar uma redução de 3 pontos percentuais até 2020 e de 10 pontos percentuais até 2030
na proporção de jovens que não estejam ocupados, nem estudando ou em formação profissional.

96
54 ADOLESCENTES A QUEM SE ATRIBUI ATO INFRACIONAL
Superar as desigualdades e violências de gênero impostas a meninas cisgênero e transgênero, a quem se
atribui a prática de ato infracional, e garantir sua liberdade e sua autodeterminação de gênero e sexualidade.

AÇÕES METAS
• Garantir que adolescentes transgênero em cum- 1. Obrigatoriedade de que adolescentes transgênero em
primento de medida socioeducativa de privação cumprimento de medida socioeducativa de privação de
de liberdade tenham a internação realizada em liberdade tenham a internação realizada em unidades
unidades correspondentes ao seu gênero. correspondentes a seu gênero adotada em 2023.
• Tornar obrigatória a aceitação do uso do nome so- 2. Obrigatoriedade de aceitação do uso do nome social
cial por adolescentes transgênero que assim o qui- por adolescentes transgênero que assim o quiserem nas
serem nas unidades do Sistema Socioeducativo. unidades do Sistema Socioeducativo adotada em 2023.
• Tornar obrigatório que unidades socioeducativas 3. Obrigatoriedade de que unidades socioeducativas de
de atendimento feminino tenham a gestão e o atendimento feminino tenham a gestão e o conjunto
conjunto de profissionais envolvidos no atendi- de profissionais envolvidos no atendimento formados
mento formados exclusivamente por mulheres. exclusivamente por mulheres adotada em 2023.
• Garantir atendimento e acompanhamento mé- 4. Atendimento e acompanhamento médico e psicológico
dico e psicológico adequado e especializado, adequado e especializado, quando necessário, para to-
quando necessário, para todas as meninas cisgê- das as meninas cisgênero e transgênero no Sistema So-
nero e transgênero no Sistema Socioeducativo. cioeducativo tornados obrigatórios em 2023.

RAZÕES
É essencial a garantia de um ambiente seguro e aco- riando instrumentos internacionais de direitos huma-
lhedor para adolescentes, meninas e pessoas trans a nos que determinam que as unidades de privação de
quem se atribui a prática de atos infracionais. A exe- liberdade de meninas e mulheres devem ter dirigen-
cução do atendimento demonstra a invisibilidade a tes, técnicos e profissionais também mulheres.
que elas são submetidas em um Sistema Socioedu-
No caso de adolescentes transgêneros, a violação
cativo organizado para meninos, desde a apreensão, a
de direitos já começa na dificuldade ou na impossi-
entrada no núcleo ou no centro de atendimento inte-
bilidade de ser internado(a) em unidade correspon-
gralizado, quando há, até as unidades de internação.
dente ao seu gênero, além de ser negado o direito
No caso das meninas em privação de liberdade, há de usar seu nome social. Falta ainda acompanha-
direta violação a seus direitos sexuais e reproduti- mento médico especializado, necessário por exem-
vos. Elas não têm direito à visita íntima, inexistin- plo na hormonioterapia para transição de gênero.
do permissão ou espaço para essas visitas. Sofrem
Estruturalmente, os profissionais do Sistema Socio-
também violação de direitos em questões de saú-
educativo não estão capacitados para lidar de forma
de, como a falta de absorventes e produtos de hi-
adequada com questões de gênero e diversidade
giene e ausência de atendimento adequado quan-
sexual, o que ocasiona atos de transfobia, homo-
do relatam mal-estar durante a menstruação.
fobia e machismo que são manifestados por meio
Elas são vítimas, ainda, nas unidades de privação de de discriminação direta (violência e xingamentos),
liberdade, de práticas de abuso e intimidação reali- abuso, desrespeito ao nome social e aos pronomes
zadas por profissionais do gênero masculino, contra- de adolescentes transgêneros, dentre outros.

ODS
ODS 05
• Meta 5.1 – Eliminar todas as formas de discriminação de gênero, nas suas intersecções com raça, etnia, ida-
de, deficiência, orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade,
em especial para as meninas e mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.
• Meta 5.2 – Eliminar todas as formas de violência de gênero nas esferas pública e privada, destacando a vio-
lência sexual, o tráfico de pessoas e os homicídios, nas suas intersecções com raça, etnia, idade, deficiência,
orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em especial para
as mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.
• Meta 5.c – Adotar e fortalecer políticas públicas e legislação que visem à promoção da igualdade de gênero
e ao empoderamento de todas as mulheres e meninas, bem como promover mecanismos para sua efe-
tivação – em todos os níveis federativos – nas suas intersecções com raça, etnia, idade, deficiência, orien-
tação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em especial para as
mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.

97
55 ADOLESCENTES A QUEM SE ATRIBUI ATO INFRACIONAL
Garantir que a atuação dos profissionais no Sistema Socioeducativo seja baseada em
práticas pedagógicas, cuidadoras e ressocializadoras, sem qualquer vinculação à área
da segurança pública.

AÇÕES METAS
• Regulamentar a carreira de agente so- 1. Carreira de agente socioeducativo regulamentada com
cioeducativo com funções pedagógicas, atribuições pedagógicas e de apoio aos adolescentes, ex-
cuidadoras e ressocializadoras, sem vín- pressamente sem características de funções de segurança
culo com atividades de segurança. pública ou segurança penitenciária, até dezembro de 2023.

RAZÕES
Os agentes socioeducativos, que atuam nos locais Essa decisão do STF reforça a necessidade de que
de internação de adolescentes que receberam me- haja uma regulamentação nacional da atuação do
dida de privação de liberdade por envolvimento agente socioeducativo, definindo claramente suas
com ato infracional, têm uma atuação pedagógica e funções e atribuições, bem como a formação ne-
ressocializadora, que não pode se confundir com a cessária, com uma perspectiva pedagógica e de
atuação de agentes de segurança. É certo que as ati- apoio aos adolescentes.
vidades socioeducativas coabitam com práticas de Além disso, a regulamentação deve dar atenção
segurança e disciplina, mas estas últimas deveriam específica às condições de trabalho dos agentes
ser utilizadas como meio para a realização do pro- socioeducativos, definindo parâmetros mínimos
cesso socioeducativo e não o contrário. Os locais de a serem seguidos pelos estados. Essa categoria
internação recebem explicitamente no ECA a deno- profissional precisa ser valorizada, em função da
minação de “estabelecimentos educacionais”. complexidade e da importância do trabalho que
Em direção inversa, diversos estados chegaram a desenvolve, evitando a falsa concepção de que o
aprovar a permissão para que os agentes socio- seu enquadramento como segurança pública seria
educativos portem armas. Além disso, tramitam vantajoso, por implicar elevação salarial.
no Congresso Nacional projetos de lei com essa
De acordo com a Classificação Brasileira de Ocu-
mesma permissão. No ano passado, no entanto, o
pações (CBO), do Ministério do Trabalho, a função
Supremo Tribunal Federal (STF) se pronunciou cla-
do agente de segurança socioeducativa consiste
ramente contra isso, ao declarar a inconstituciona-
em garantir a atenção, a defesa e a proteção a ado-
lidade da permissão do uso de armas por agentes
lescentes em cumprimento de medidas socioedu-
socioeducativos em Santa Catarina, reafirmando
cativas, para assegurar seus direitos, abordando-os,
o princípio de que, nas palavras do relator Edson
sensibilizando-os e identificando suas necessida-
Fachin, “as medidas socioeducativas possuem cará-
ter pedagógico, voltado à preparação e reabilitação des e demandas, além de conduzir os adolescen-
para a vida em comunidade, formando, portanto, tes para o desenvolvimento de atividades cultu-
cidadãos. Permitir o porte de armas para os agen- rais, esportivas, escolares, laborativas, recreativas e
tes nestes casos significa, assim, reforçar a errônea ressocializadoras. São, portanto, agentes voltados à
ideia do caráter punitivo de tal rede de proteção. A proteção e à segurança de adolescentes em cum-
medida socioeducativa não tem por escopo punir, primento de medida socioeducativa, e não à garan-
mas prevenir e educar”. tia da segurança pública.

ODS
ODS 10
• Meta 10.3 – Garantir a igualdade de oportunidades e reduzir as desigualdades de resultados,
inclusive por meio da eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias e da promoção
de legislação, políticas e ações adequadas a este respeito.
ODS 16
• Meta 16.6 – Ampliar a transparência, a accountability e a efetividade das instituições, em
todos os níveis.

98
56 ADOLESCENTES A QUEM SE ATRIBUI ATO INFRACIONAL
Garantir apoio e acesso a políticas públicas para a reintegração social de adolescentes e jovens
após medida socioeducativa de restrição ou privação de liberdade.

AÇÕES METAS
• Elaborar, com participação social e do Conanda, 1. Modelo e estrutura de serviço de acompanha-
modelo e estrutura de serviço de acompanha- mento de adolescentes e jovens, por adesão vo-
mento de adolescentes e jovens, por adesão vo- luntária, após o cumprimento da medida socio-
luntária, após o cumprimento da medida socio- educativa de restrição ou privação de liberdade
educativa de restrição ou privação de liberdade. elaborado, com participação social e do Conan-
da, até 2024.
• Criar programa de apoio e cofinanciamento para
os estados na implantação de programas esta- 2. Programa de apoio e cofinanciamento para os
duais de acompanhamento de adolescentes e estados na implantação de programas estaduais
jovens após o cumprimento da medida socioe- de acompanhamento de adolescentes e jovens
ducativa de restrição ou privação de liberdade. após o cumprimento da medida socioeducativa
de restrição ou privação de liberdade implanta-
do em 2025.

RAZÕES
Assegurar a existência de programas e de acompa- O Sistema Socioeducativo no Brasil é marcado por
nhamento para adolescentes e jovens após o cum- problemas estruturais graves e pela ausência de
primento de medida socioeducativa é uma estraté- iniciativas sistemáticas e articuladas que impactem
gia central para a diminuição das vulnerabilidades positivamente as vidas de adolescentes e jovens
sociais a que estão submetidos(as) em suas trajetó- em cumprimento de medidas socioeducativas. Em
rias de vida e durante o cumprimento das medidas. 2019, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou
dados extraídos do Cadastro Nacional de Adoles-
A experiência de privação de liberdade tem um
centes em Conflito com a Lei, que contabilizaram
impacto na vida familiar, social e na saúde mental
dos(as) adolescentes e jovens. Isso traz a necessida- que, entre janeiro de 2015 e junho de 2019, 23,9%
de do apoio e de políticas públicas de atendimen- dos(as) adolescentes retornaram ao menos uma
to nessa transição, de modo a articular vivências vez ao Sistema Socioeducativo. Conforme publica-
e oportunidades no momento de seu reencontro ção do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pode-se
com a sociedade, sem perder de vista os fatores de inferir que, no seu retorno ao convívio social, ado-
risco e proteção necessários. lescentes e jovens são novamente expostos ao ci-
clo de vulnerabilidades, sendo este um dos fatores
O atendimento socioeducativo após o cumpri- para o seu reingresso à seara infracional.
mento da medida se justifica pela necessidade de
compensar os impactos da ausência de políticas Programas de apoio e acompanhamento para ado-
públicas e o abandono do Estado sobre suas vidas lescentes pós-cumprimento de medida socioedu-
antes do ingresso em searas infracionais, auxilian- cativa são obrigações legais de entidades que exe-
do-os(as) no processo de construção de relações cutam medidas de internação, nos termos do Artigo
diferentes, com o acesso a direitos, com a família e 94, inciso XVIII, do Estatuto da Criança e do Adoles-
a comunidade, além de fortalecer a sua autonomia cente (ECA). Tais programas, que ainda hoje são ra-
e o seu protagonismo, com especial atenção aos ei- ros, podem ser centrais para a garantia de direitos de
xos de classe, gênero, idade, raça/etnia. adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

ODS
ODS 8
• Meta 8.6 – Alcançar uma redução de 3 pontos percentuais até 2020 e de 10 pontos percentuais até 2030
na proporção de jovens que não estejam ocupados, nem estudando ou em formação profissional.
ODS 10
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, de
forma a reduzir as desigualdades, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, na-
cionalidade, religião, condição econômica ou outra.
ODS 16
• Meta 16.3 – Fortalecer o Estado de Direito e garantir acesso à justiça a todos, especialmente aos que
se encontram em situação de vulnerabilidade.
• Meta 16.6 – Ampliar a transparência, a accountability e a efetividade das instituições, em todos os níveis.

99
57 ADOLESCENTES A QUEM SE ATRIBUI ATO INFRACIONAL
Garantir a efetividade das medidas socioeducativas em meio aberto.

AÇÕES METAS
• Realizar um diagnóstico nacional das condições 1. Diagnóstico nacional das condições de funcio-
de funcionamento e dos resultados dos progra- namento e resultados dos programas de atendi-
mas de atendimento em medidas socioeducati- mento em MSEMA realizado até 2024.
vas em meio aberto (MSEMA). 2. Diretrizes, normas e modelos de atendimento
• Elaborar diretrizes, normas e modelos de atendi- intersetorial para os programas de atendimento
mento intersetorial para os programas de aten- em MSEMA nos municípios definidos até 2025.
dimento em MSEMA, com ampla participação 3. Programa nacional de apoio técnico e financeiro
social e do Conanda. para municípios na reestruturação e adequação
• Instituir programa nacional de apoio técnico e finan- dos programas de atendimento em MSEMA im-
ceiro para municípios na reestruturação e adequa- plantado em 2025.
ção dos programas de atendimento em MSEMA.

RAZÕES
A medida socioeducativa mais grave para adolescentes Muitas vezes, elas se resumem a um atendimento
envolvidos com ato infracional é a internação. Por isso, quinzenal ou mensal com psicólogo ou assistente so-
a lei determina que ela esteja submetida aos princípios cial e/ou atividades voltadas exclusivamente para os
da excepcionalidade e da brevidade e só seja aplica- adolescentes em cumprimento de medida (esportivas,
da em casos específicos (grave ameaça ou violência a culturais ou artesanais).
pessoa, por reiteração no cometimento de outras in-
É muito frequente também que as escolas resistam a
frações graves ou por descumprimento reiterado e in-
esses adolescentes – até porque os estabelecimen-
justificável da medida anteriormente imposta), em que
tos de ensino não têm apoio técnico e capacitação
fique demonstrado que nenhuma outra medida, sem
para atuar na orientação, integração e inclusão desses
privação ou restrição de liberdade, é adequada.
adolescentes. Nas unidades de saúde, não há fluxo de
As medidas socioeducativas em meio aberto (MSEMA) atendimento específico ou prioritário para adolescen-
(prestação de serviços à comunidade e liberdade as- tes em cumprimento de medida, apesar das determi-
sistida) são, por isso, aplicadas na maioria dos casos de nações específicas contidas na Portaria nº 1.082/2014
adolescentes comprovadamente envolvidos com ato do Ministério da Saúde, que instituiu a Política Nacional
infracional. Na estrutura atual, os programas de aten- de Atenção Integral à Saúde de Adolescentes em Con-
dimento de medidas socioeducativas em meio aberto flito com a Lei (PNAISARI).
são tipificados como um serviço socioassistencial de
reponsabilidade da Assistência Social (AS). É necessário fortalecer, do ponto de vista metodológi-
co e financeiro, os programas de MSEMA. Isso significa
Com orçamento reduzido e equipes incompletas, a compreender que, embora haja o serviço socioassis-
AS enfrenta muitas limitações para realizar adequa- tencial de MSEMA, ele é apenas parte da atenção inte-
damente o serviço. Além disso, é extremamente defi- gral desses casos, que devem ser atendidos por meio
ciente a esperada articulação com os demais serviços de um programa multissetorial. A AS não é e nem deve
e políticas públicas, desde os serviços da própria AS, ser o responsável único por tais atendimentos. Espe-
até os relacionados às áreas de Educação, Saúde e de cialmente as áreas de Educação e Saúde não podem
inclusão produtiva. se eximir de sua responsabilidade no atendimento de
Com esse cenário, as MSEMA estão muito longe de medidas socioeducativas, inclusive do ponto de vista
cumprir os objetivos previstos no ECA, no Sinase e da elaboração de planos de atendimento, acompa-
na Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais. nhamento, apoio e responsabilidade técnica.

ODS
ODS 10
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, de forma
a reduzir as desigualdades, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, nacionalida-
de, religião, condição econômica ou outra.
ODS 16
• Meta 16.3 – Fortalecer o Estado de Direito e garantir acesso à justiça a todos, especialmente aos que se
encontram em situação de vulnerabilidade.
• Meta 16.6 – Ampliar a transparência, a accountability e a efetividade das instituições, em todos os níveis.

100
58 ADOLESCENTES A QUEM SE ATRIBUI ATO INFRACIONAL
Aumentar os recursos destinados ao Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase),
utilizando as diversas fontes previstas na legislação.

AÇÕES METAS
• Elevar a destinação de recursos orça- 1. Orçamento da União destinado ao Sinase recomposto ao
mentários da União para o Sinase, in- nível de 2019 em termos reais, para compensar a perda de
cluindo todas as fontes previstas em lei. 70% dos recursos, priorizando as dimensões da pedagogia
educacional, formação de servidores e melhoria das condi-
• Regulamentar e fiscalizar a destinação
ções de vida dentro das unidades, em 2024.
de recursos dos estados e dos muni-
cípios para o Sinase, incluindo todas as 2. Regulamentação da obrigatoriedade do uso de recursos
fontes previstas em lei. oriundos da Educação e da Saúde, além da Assistência So-
cial, no financiamento e custeio do Sinase nos orçamentos
• Definir destinação específica para o Si-
estaduais e municipais, instituída em 2024.
nase nas transferências fundo a fundo
das áreas da Educação, Saúde e Assis- 3. Destinação específica para o Sinase de recursos transferi-
tência Social. dos fundo a fundo instituída em 2024.

RAZÕES
Garantir o cofinanciamento de recursos para o políticas públicas distintas, além do FNCA: o Fundo
adequado funcionamento do Sistema Nacional de Nacional Antidrogas (FUNAD), o Fundo de Amparo
Atendimento Socioeducativo (Sinase) é de extrema ao Trabalhador (FAT) e o Fundo Nacional do Desen-
importância, tendo em vista que, por meio dele, volvimento da Educação (FNDE).
podem ser garantidos os direitos de adolescentes
Além da União, o financiamento do Sinase prevê a
em atendimento socioeducativo e a melhoria na
participação de estados e municípios, nos quais se
condição de trabalho, no acesso à saúde e à educa-
verifica, em geral, um padrão semelhante ao da União,
ção, na infraestrutura, dentre outros.
com a utilização limitada de fontes de recursos.
Entre 2019 e 2021, houve uma queda expressiva de
70% nos recursos do orçamento federal destinados O artigo 90 do Estatuto da Criança e do Adolescen-
ao Sinase, conforme revela um estudo do Instituto te determina que os recursos destinados à imple-
de Estudos Socioeconômicos (Inesc). Segundo da- mentação e manutenção dos programas socioedu-
dos do levantamento, a maior parte dos recursos cativos serão previstos nas dotações orçamentárias
da União é voltada para a construção e as reformas dos órgãos públicos encarregados das áreas de
de unidades, deixando as dimensões da pedagogia Educação, Saúde e Assistência Social, dentre outros,
educacional, da formação de servidores, da melho- observando-se o princípio da prioridade absoluta à
ria das condições de vida dentro das unidades (se- criança e ao adolescente. Isso se aplica igualmente
jam elas de privação de liberdade ou meio aberto) à União, aos estados e aos municípios.
sem o financiamento adequado. O que se verifica, no entanto, no caso dos muni-
Os recursos que a União hoje destina diretamente cípios, que são responsáveis pela maior parte dos
ao Sinase são provenientes do Fundo Nacional da atendimentos socioeducativos (as medidas em
Criança e do Adolescente (FNCA), vinculado ao Mi- meio aberto), é o uso exclusivo de recursos da área
nistério da Mulher, da Família e dos Direitos Huma- de Assistência Social, que em geral possui uma das
nos (MMFDH). Com isso, ignora-se a exigência legal menores dotações orçamentárias dentre todas as
de utilizar múltiplas fontes para essa finalidade. secretarias municipais.
O artigo 30 da Lei nº 12.594/2012 estabelece que o É necessário, portanto, estabelecer o cumprimento
SINASE deve ser cofinanciado com recursos do or- integral das determinações legais para o financia-
çamento fiscal (arrecadação de tributos) e da segu- mento do Sinase em todas as esferas de governo,
ridade social, além de outras fontes. São definidas garantindo a multiplicidade de fontes de recursos e
ainda receitas provenientes de fundos especiais de o aumento dos valores destinados.

ODS
ODS 10
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, de for-
ma a reduzir as desigualdades, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, naciona-
lidade, religião, condição econômica ou outra.
ODS 16
• Meta 16.3 – Fortalecer o Estado de Direito e garantir acesso à justiça a todos, especialmente aos que
se encontram em situação de vulnerabilidade.

101
59 ORFANDADE E DIREITOS
Reconhecer legalmente as particularidades e necessidades específicas de crianças e
adolescentes em situação de orfandade na garantia do direito à convivência familiar e à proteção
integral no âmbito do Sistema de Garantia de Direitos.

AÇÕES METAS
• Incluir no Estatuto da Criança e do 1. Artigo definindo crianças e adolescentes em situação de
Adolescente artigo que torne explí- orfandade como grupo específico, com particularidades e
cita a proteção social específica a necessidades próprias na garantia do direito à convivência
crianças e adolescentes em situação familiar e à proteção integral, inserido no Estatuto da Crian-
de orfandade. ças e do Adolescente até 2024.

RAZÕES
A convivência familiar e comunitária é um direi- do com a Associação Nacional dos Registradores
to, reservado a toda criança e adolescente, de ser de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), pouco mais de
criado e educado no seio de sua família original e 12 mil crianças entre zero e 6 anos de idade são
excepcionalmente, se necessário, em família subs- classificadas como órfãs. “Uma criança que perde
tituta, conforme dispõe o Artigo 19 do Estatuto da os pais vai ter esse buraco para o resto da vida”,
Criança e do Adolescente (ECA). No entanto, não es- comenta Elaine Alves, ao ressaltar que a perda
tão previstas medidas específicas para situações de dos pais durante a adolescência também deixa
orfandade geradas pela morte de um ou dos dois um grande vazio, já que é nessa idade que se dá a
cuidadores responsáveis legais. construção da identidade social.
O direito à convivência familiar e comunitária im- De acordo com a análise de Dayse César Franco Ber-
plica um conjunto de direitos civilizatórios, como nardi, pesquisadora e conselheira na Associação de
parte de uma política estabelecida na preservação, Pesquisadores e Formadores da Área da Criança e do
na segurança e no respeito à dignidade de todos os Adolescente (Neca), além de órfãs dos pais, tais crian-
cidadãos (SPOSATI, 2009, p. 19-22). A inscrição das ças e adolescentes também ficam órfãos do Estado,
situações de orfandade como risco social e pesso- “porque ele não tem uma política de atendimento
al influenciará, por exemplo, a oferta de condições para manter essas crianças na sua própria comunida-
à família estendida para cuidar dessas crianças em de ou na sua família estendida”, avalia. Ela também
ambiente familiar e comunitário. chama a atenção para a importância do fortaleci-
Elaine Gomes dos Reis Alves, do Laboratório de mento do Sistema Único de Assistência Social (SUAS).
Estudos da Morte, do Instituto de Psicologia da A ausência dos responsáveis e a consequente deses-
Universidade de São Paulo (USP), explica que é truturação familiar podem implicar efeitos materiais
necessário um cuidado com as crianças, princi- e emocionais devastadores para a vida de crianças e
palmente com o retorno às escolas. “Cada idade adolescentes, como evasão escolar, trabalho infantil,
tem uma necessidade diferente”, explica. De acor- depressão, abuso sexual, entre outros.

ODS
ODS 1
• Meta 1.3 – Assegurar para todos, em nível nacional, até 2030, o acesso ao sistema de proteção
social, garantindo a cobertura integral dos pobres e das pessoas em situação de vulnerabilidade.
ODS 10
• Meta 10.4 – Reduzir desigualdades através da adoção de políticas fiscal, tributária, salarial e
de proteção social.

102
60 ORFANDADE E DIREITOS
Garantir confiabilidade e rastreabilidade às ações do Sistema de Garantia de Direitos
direcionadas às crianças, aos adolescentes e aos jovens que perderam seus genitores,
avós, tutores e/ou demais cuidadores.

AÇÕES METAS
• Incorporar ao Sistema de Informação para a Infância 1. Categorias específicas sobre crianças e adoles-
e Adolescência (SIPIA) categorias específicas sobre centes em situação de orfandade, considerando
crianças e adolescentes em situação de orfandade, informações vitais básicas, censitárias, cartorárias
considerando informações vitais básicas, censitárias, e sobre medidas de proteção incluídas no SIPIA
cartorárias e sobre medidas de proteção. até 2024.

RAZÕES
O Sistema de Informação para a Infância e Adoles- proteções necessárias para tais casos, nem formas
cência (SIPIA) é um sistema de registro e tratamen- de articulação intersetorial (como escola, a unidade
to de informação com abrangência nacional, criado básica de saúde, CRAS) para identificação, atendi-
para subsidiar a adoção de decisões governamen- mento e acompanhamento.
tais nas políticas para crianças e adolescentes, ga-
Os cartórios de registro civil, onde são depositadas as
rantindo-lhes acesso à cidadania.
certidões de óbitos, são outra fonte potencial de infor-
O SIPIA é formado por módulos, a saber: i) Direitos mações sobre orfandade, pois registram, para fins tes-
fundamentais definidos pelo Estatuto da Criança e tamentários, os filhos deixados no falecimento. Infeliz-
do Adolescente, de acordo com as ocorrências aten- mente essas informações têm sido pouco utilizadas no
didas no município; ii) Adolescente em conflito com Brasil. Há dificuldades para ter acesso a essas informa-
a lei e as decorrentes medidas socioeducativas a ele ções, em virtude do controle do Poder Judiciário e da
aplicadas; iii) SIPIA Plus – Estabelecimentos onde os dispersão dos cartórios. Contudo, elas podem ser supe-
adolescentes cumprem as medidas socioeducativas; radas, desde que haja o envolvimento destes atores.
e iv) SIPIA – Colocação familiar, na forma de adoção,
Estudo do Imperial College of London, publicado em
seja por pretendente nacional ou estrangeiro.
julho de 2021, estimou que 1,5 milhão de crianças e
Não há, neste sistema, campo específico para o adolescentes teriam sofrido no mundo a orfandade
acompanhamento das situações de orfandade pela covid-19. Pelo mesmo estudo, o Brasil, em julho
como uma das ocorrências passíveis de proteção, de 2021, teria por volta de 130 mil crianças e ado-
uma vez que estas não se correlacionam, necessa- lescentes cuja orfandade seria atribuída à covid-19 e
riamente, com a colocação em famílias substitutas. alcançaria mais de 200 mil crianças e adolescentes
Além disso, não existem definições específicas das ao final do mesmo ano.

ODS
ODS 17
• Meta 17.18 – Reforçar o apoio à desagregação de dados, a integração, disponibilização e com-
partilhamento de registros administrativos e de bases de dados estatísticos e geocientíficos
relevantes ao cumprimento das metas e mensuração dos indicadores do desenvolvimento
sustentável, respeitando a legislação quanto à segurança da informação.

103
61 ORFANDADE E DIREITOS
Garantir que políticas públicas intersetoriais e municipalizadas alcancem crianças, adolescentes
e jovens que perderam seus genitores, avós, tutores e/ou demais cuidadores, tanto pela covid-19
quanto por outras causas.

AÇÕES METAS
• Contemplar o tema da Orfandade como uma linha 1. Tema da Orfandade inserido como linha de ação do
de ação do Plano Nacional de Promoção, Proteção Plano Nacional de Convivência Familiar e Comuni-
e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à tária, por meio dos processos participativos próprios
Convivência Familiar e Comunitária. durante a revisão do plano.

RAZÕES
Os instrumentos que normatizam as diretrizes de países com maior parcela de óbitos pela doença no
garantia à convivência familiar e comunitária no mundo, conforme publicação do pesquisador Pe-
Brasil não abarcam a especificidade da experiência dro Hallal na revista The Lancet, em janeiro de 2021.
de meninas e meninos órfãos e por isso precisam O crescimento no número de crianças que perde-
ter suas linhas de ação ampliadas. ram pais, mães, avôs, avós ou cuidadores por oca-
Primeiramente é preciso chamar atenção ao fato de sião da pandemia coloca o tema da orfandade no
que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), centro do debate nacional sobre a proteção integral
ao tratar da convivência familiar e comunitária, não infantil. O direito à convivência familiar e comunitá-
classifica a desproteção proveniente da orfandade ria é fundamental para a garantia do bem estar so-
enquanto fenômeno que coloca em risco o acesso cial destas crianças e por isso é urgente que o Plano
àquele direito. Isto significa que o Estatuto acaba por Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Di-
não encarar a orfandade como necessariamente uma reito de Crianças e Adolescentes à Convivência Fa-
situação de desproteção em se tratando do convívio miliar e Comunitária considere a especificidade do
afetivo familiar. Mais do que isso, o Plano Nacional impacto da pandemia nos arranjos familiares e si-
de Convivência Familiar e Comunitária, importante nalize as diretrizes necessárias para o acompanha-
instrumento para a mobilização nacional e a estru- mento sistemático de crianças órfãs e suas famílias.
turação de diretrizes de políticas de proteção social, Esta proposta se distancia de modelos que enfati-
também negligencia a singularidade da experiência zam exclusivamente o acolhimento institucional.
de crianças órfãs. A orfandade é um fenômeno com Neste sentido, não se deseja reproduzir uma lógi-
singularidade própria e necessita de uma intervenção ca de enfrentamento que classifique as famílias de
do Estado brasileiro, para que se atente às caracterís- crianças órfãs como hipossuficientes e priorize a
ticas específicas que definem o fenômeno. A omis- adoção enquanto meio de resolução das necessida-
são do Estado em fazê-lo, ao não considerar em suas des básicas de meninos e meninas. É preciso forta-
diretrizes de atuação o perfil próprio desse público, lecer a rede de proteção social à criança a partir de
acaba por gerar desequilíbrios sobre as possibilidades ações de apoio à família extensa e pelo oferecimen-
de que as famílias sejam espaços de convivência pro- to de acompanhamento sistemático. Só assim a fa-
tegida para meninos e meninas. mília será capaz de garantir a proteção da criança. Ao
A emergência sanitária, econômica e social provo- fazê-lo, estaremos assegurando que as políticas de
cada pela pandemia de covid-19 impôs desafios renda, educação e saúde serão acionadas em con-
ainda maiores para a construção de uma rede de formidade com as necessidades imediatas da crian-
proteção social efetiva para crianças e adolescentes ça órfã no seio familiar. A presença desses princípios
órfãos. As ações erráticas do Governo Federal fren- no Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa
te à disseminação e à letalidade do vírus promo- do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivên-
veram o crescimento generalizado no número de cia Familiar e Comunitária é condição fundamental
mortos, colocando o Brasil na condição de um dos para a garantia desses direitos.

ODS
ODS 1
• Meta 1.2 – Até 2030, reduzir à metade a proporção de homens, mulheres e crianças, de todas as
idades, que vivem na pobreza monetária e não monetária, de acordo com as definições nacionais.
• Meta 1.3 – Assegurar para todos, em nível nacional, até 2030, o acesso ao sistema de proteção
social, garantindo a cobertura integral dos pobres e das pessoas em situação de vulnerabilidade.
ODS 16
• Meta 16.7 – Garantir a tomada de decisão responsiva, inclusiva, participativa e representativa
em todos os níveis.

104
62 ORFANDADE E DIREITOS
Garantir atendimento e atenção específicos para crianças e adolescentes que perderam seus
genitores, avós, tutores e/ou demais cuidadores, com prioridade e urgência para aqueles em
situação de orfandade devido à covid-19.

AÇÕES METAS
• Criar um Comitê Interministerial de Políticas Públicas para 1. Comitê Interministerial de Políticas
crianças e adolescentes em situação de orfandade, com o Públicas para crianças e adolescentes
objetivo de promover a atuação articulada entre as áreas em situação de orfandade criado em
da Assistência Social, da Educação e da Saúde. 2023.

RAZÕES
O Brasil é marcado pela fragmentação de dados e na revista The Lancet, o excesso de mortes se con-
informações sobre crianças e adolescentes órfãos, verteu no aumento de casos de crianças órfãs, seja
acompanhads da ausência de um fluxo interseto- por perda de pais, avós ou cuidadores. A delicada
rial que permita a concretização de protocolos na- rede de proteção orientada a esse público não foi
cionais e regionais capazes de garantir a proteção capaz de sustentar o aumento da demanda por be-
integral a esse público. nefícios capazes de proteger tais crianças, ao passo
que é deficitário o fluxo de informações articulado
Um dos maiores desafios à proteção de direitos de
entre os braços da seguridade social brasileira.
crianças e adolescentes órfãos no Brasil é o fato de
que uma parte dos dados relativos a esse público A intervenção de promotores e tribunais de justiça
encontra-se concentrada nas bases de dados do Ins- dos estados deu visibilidade a como a orfandade
tituto Nacional do Seguro Social (INSS), sem articula- se aprofundou enquanto problema social a partir
ção com outras instituições do sistema de proteção da pandemia de covid-19. As experiências do Ma-
social. Mais especificamente, embora o INSS possua ranhão e de Campinas (SP) são exemplos de tenta-
dados relativos às pensões por morte, que ajudam tivas de solução do problema a partir da mediação
na identificação de casos de orfandade infantil, tais do Ministério Público que formalizou protocolos
informações não dialogam com instrumentos como com a solicitação aos cartórios para a comunicação
o CadÚnico ou com banco de dados de outras ins- de casos de orfandade ao gestor do SUAS em sua
tituições da política de assistência social, impedindo respectiva cidade. Atividades desse tipo permitiram
o fluxo pelos mecanismos da administração pública que o PAIF, serviço de proteção e atendimento, pre-
que poderiam estabelecer o acompanhamento da sente nos CRAS, pudesse dar atenção protetiva às
situação da criança uma vez que os benefícios de crianças em questão. Essas iniciativas fizeram notar
pensão são concedidos. Consequentemente, a or- que houve considerável aumento no número de
fandade acaba sendo encarada pelo Estado brasilei- crianças órfãs em situação de desproteção e que
ro apenas como um fenômeno relativo ao direito à não estavam sendo acompanhadas por nenhum
herança e não como um problema social que gera tipo de política, seja no campo da assistência, da
demanda por proteção integral. saúde ou de outras áreas da política social. Tais ca-
sos são a expressão concreta da fragmentação de
Os efeitos negativos da desarticulação e da frag-
dados e da fragilidade no fluxo de informações so-
mentação de dados de crianças órfãs se aprofun-
bre crianças e adolescentes órfãos no Brasil e o que
daram nos últimos anos em virtude da emergência
impede a proteção dos direitos do referido público.
sanitária, econômica e social provocada pela pan-
demia de covid-19. A omissão do Poder Executi- A proposta de criar um Comitê Interministerial de
vo na promoção de políticas capazes de mitigar a Políticas Públicas para crianças e adolescentes em
disseminação da doença, em paralelo com a má situação de orfandade incide diretamente sobre o
gestão do sistema de saúde público, provocou um problema ao permitir que se retire a questão da or-
crescimento no número de mortes acima da média fandade infantil da esfera do direito puramente fa-
global ou mesmo dos parâmetros de países de per- miliar e privado, encaminhando o enfrentamento da
fil demográfico semelhante. Por consequência, as- questão por meio de uma ação conjunta e interseto-
sim como apresentado em estimativas publicadas rial entre eixos diferentes da ação pública.

ODS
ODS 16
• Meta 16.3 – Fortalecer o Estado de Direito e garantir acesso à justiça a todos, especialmente
aos que se encontram em situação de vulnerabilidade.
• Meta 16.7 – Garantir a tomada de decisão responsiva, inclusiva, participativa e representativa
em todos os níveis.

105
63 ORFANDADE E DIREITOS
Garantir as condições materiais mínimas de sobrevivência para crianças e adolescentes em
situação de orfandade em decorrência da covid-19, oferecendo-lhes reparação pelas ações e
pelas omissões do Estado brasileiro, durante a pandemia.

AÇÕES METAS
• Criar benefício mensal para crianças e adolescen- 1. Benefício mensal para crianças e adolescentes
tes em situação de orfandade em decorrência da em situação de orfandade em decorrência da
covid-19. covid-19 criado até 2024.

RAZÕES
O Estado brasileiro, durante a pandemia de co- O aprofundamento da desproteção a meninos e meni-
vid-19, foi omisso em ações de mitigação das con- nas órfãs nos últimos anos faz com que cada vez mais
sequências sanitárias, econômicas e sociais da as crianças e adolescentes impedidas de possuir con-
doença, falhando em apresentar iniciativas que vi- vívio afetivo familiar e provisão econômica acabassem
sassem a proteção social de crianças órfãs. relegadas às mais diversas vulnerabilidades e riscos. En-
tre elas podemos citar a ausência de amparo na primei-
A conduta do Poder Executivo brasileiro duran-
ra infância e transição para juventude; a experiência de
te a eclosão da covid-19 gerou forte repercussão
pobreza, miséria, fome e insegurança alimentar; a des-
nacional e internacional por conta da clara omis-
truição de meios para a convivência familiar e comuni-
são em combater a disseminação da doença. A
tária; a maior vulnerabilidade ao abandono e à solidão;
negligência e má administração pública tornou o
a precarização da saúde física e mental; a experiência
Executivo alvo de investigação por meio de uma
de violência física, emocional e sexual; e as dificuldades
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). O uso de
na garantia dos direitos ao acesso à educação, desen-
discurso negacionista sobre a gravidade da doen-
volvimento escolar, sobretudo na educação básica.
ça por parte do chefe do Executivo e membros de
seus ministérios, a disseminação de tratamentos Os argumentos aqui citados tornam urgente a ne-
comprovadamente ineficazes para a doença, o cessidade de criar um benefício mensal perma-
desestímulo ao distanciamento social e o uso de nente, até completarem 18 anos, para crianças e
máscaras, além dos sucessivos atrasos na compra adolescentes em situação de orfandade em decor-
de vacinas, são exemplos das ações erráticas por rência da covid-19. Este instrumento será um pas-
parte do Governo Federal identificadas no relató- so inicial, mas extremamente importante, na insti-
rio da CPI, publicado em outubro de 2021. Estas tuição de uma política de reparação pelas ações e
ações e omissões contribuíram diretamente para omissões do Estado Brasileiro durante a pandemia,
que o Estado brasileiro não cumprisse com seus e garantia de apoio material de longo prazo como
compromissos constitucionais de proteção dos elemento fundamental de promoção de desenvol-
direitos das crianças e adolescentes órfãos. vimento integral de crianças e adolescentes.

ODS
ODS 1
• Meta 1.2 – Até 2030, reduzir à metade a proporção de homens, mulheres e crianças, de todas
as idades, que vivem na pobreza monetária e não monetária, de acordo com as definições
nacionais.
ODS 10
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de to-
dos, de forma a reduzir as desigualdades, independentemente da idade, gênero, deficiência,
raça, etnia, nacionalidade, religião, condição econômica ou outra.
• Meta 10.3 – Garantir a igualdade de oportunidades e reduzir as desigualdades de resultados,
inclusive por meio da eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias e da promoção
de legislação, políticas e ações adequadas a este respeito.
• Meta 10.4 – Reduzir desigualdades através da adoção de políticas fiscal, tributária, salarial e
de proteção social.

106
64 IGUALDADE RACIAL
Formulação de uma proposta de política pública voltada para a redução dos homicídios e das
demais formas de violência contra crianças, adolescentes e jovens negros, pois ocupam as mais
altas taxas de mortes por homicídios.

AÇÕES
• Capacitação de profissionais que trabalham com crianças e adolescentes com atuação baseada nos princí-
pios constitucionais e na presunção da inocência, independentemente do pertencimento racial.
• Articulação de tais ações para que sejam direcionadas aos integrantes das forças de segurança pública, bus-
cando a educação das relações étnico-raciais, a proteção de crianças e adolescentes negros, a prevenção a
situações de riscos ou violências, a garantia de direitos e a integridade de moradores de periferias e favelas
durante as incursões policiais nesses territórios.

JUSTIFICATIVA
Todas as crianças e adolescente têm o direito à prote- não está garantido a crianças e adolescentes negros e
ção integral, mas o racismo não permite que esse prin- suas famílias, e que a naturalização da violência letal
cípio esteja garantido a crianças e adolescentes negros/ e da desigualdade social precisa ser enfrentadas por
as. A participação de crianças e adolescentes negros meio de política públicas, que assegurem que crian-
nos dados de vitimização por homicídios explicitam a ças e adolescentes negros não serão atingidos por
urgência de ações por parte do Estado, com foco em qualquer forma de negligência ou violência.
ações intersetoriais, para que se cumpra para eles o di-
DIAGNÓSTICO
reito pleno à cidadania, em particular ao direito à vida.
No ano de 2010 o Unicef lançou o estudo: “O Im- A pandemia de covid-19 ampliou a vulnerabilidade de
pacto do Racismo na Infância”1, no qual informa que, crianças e adolescentes negros. O “Dossiê Infâncias e
apesar dos avanços na redução de diversos indica- Covid”3 dentre os diversos impactos socioeconômi-
dores socioeconômicos, eles não contemplavam cos, destaca que crianças e adolescentes negros fo-
igualmente todas as crianças e suas famílias, com o ram profundamente afetados em diversos âmbitos de
destaque para o fato de que as negras e indígenas suas vidas, pois as famílias negras apresentaram maior
não se beneficiavam igualmente dos progressos al- participação nas taxas de desemprego e também nos
cançados. Destacava, ainda, que tais crianças viven- índices de queda dos rendimentos. A adoção de ações
ciavam situações de racismo nas escolas, nas ruas, intersetoriais nas políticas públicas, com foco em famí-
nos hospitais, além da desvalorização ou da nega- lias negras, é imprescindível para que se realize a pro-
ção de suas tradições, identidade e costumes, com teção de suas crianças e seus adolescentes se realize.
discriminações que comprometem a igualdade de Além disso, independentemente da pandemia, vi-
direitos e oportunidades na nossa sociedade. venciamos o crescimento da participação de crian-
Os estudos do Unicef e de parceiros avançaram tam- ças e adolescentes negros nos dados de vitimização
bém para as mortes violentas de crianças e adoles- por homicídios: crianças e adolescentes negras/os
centes2, cobrindo a situação em diferentes estados a de até 14 anos morrem 3,6 vezes mais por armas de
partir de 2013, destacando os impactos da violência fogo (SOU DA PAZ, 2021). Um estudo realizado pelo
armada nas vidas de crianças e adolescentes, que, Unicef (2021) revelou que, entre 2016 e 2020, nos
em sua maioria são negros. Tais análises indicam a 18 estados analisados, o número anual de mortes
urgência na elaboração de uma agenda pública de violentas de crianças com idade entre 0 e 4 anos
proteção à vida de crianças e adolescentes, e que seja aumentou 27%, cuja maioria é negra. Já faixa entre
intersetorial. São estudos que representam um con- 15 e 19 anos, os meninos negros são quatro em cada
junto de evidências sobre a ação do racismo em nos- cinco vítimas. Eles também são os que mais mor-
sa sociedade, prática que viola o direito à igualdade rem em decorrência de ações das polícias.
e que legitima a discriminação racial entre cidadãos, Os dados indicam a urgência de ações de Estado
que se expressa na melhor participação da popula- que garantam o direito à vida de crianças, adoles-
ção branca nos indicadores sociais, e na maior partici- centes e jovens negros, com foco em ações interse-
pação da população negra nos dados de homicídios. toriais, para que se cumpra para eles o direito pleno
Explicitam, ainda que o princípio da proteção integral à cidadania (e em particular, o direito à vida).

1 https://www.unicef.org/brazil/media/1731/file/O_impacto_do_racismo_na_infancia.pdf
2 https://www.unicef.org/brazil/homicidios-de-criancas-e-adolescentes
3 https://alana.org.br/wp-content/uploads/2022/03/DOSSIE-INFANCIAS-E-COVID-19.pdf

107
IGUALDADE RACIAL
ODS
ODS 10. Redução das desigualdades: Reduzir a de- • Meta 10.4 – Reduzir desigualdades através da
sigualdade dentro dos países e entre eles adoção de políticas fiscal, tributária, salarial e de
• Meta 10.1 – Até 2030, progressivamente alcançar proteção social.
e sustentar o crescimento da renda dos 40% da ODS16. Paz, justiça e instituições eficazes: Promover
população mais pobre a uma taxa maior que a sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvi-
renda média dos 10% mais ricos. mento sustentável, proporcionar o acesso à justiça
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a para todos e construir instituições eficazes, respon-
inclusão social, econômica e política de todos, sáveis e inclusivas em todos os níveis.
de forma a reduzir as desigualdades, indepen-
• Meta 16.1 – Reduzir significativamente todas as
dentemente da idade, gênero, deficiência, raça,
formas de violência e as taxas de mortalidade
etnia, nacionalidade, religião, condição econô-
relacionadas, em todos os lugares, inclusive com
mica ou outra.
a redução de 1/3 das taxas de feminicídio e de
• Meta 10.3 – Garantir a igualdade de oportunida-
homicídios de crianças, adolescentes, jovens, ne-
des e reduzir as desigualdades de resultados, in-
gros, indígenas, mulheres e LGBT.
clusive por meio da eliminação de leis, políticas e
• Meta 16.2 – Proteger todas as crianças e adoles-
práticas discriminatórias e da promoção de legis-
centes do abuso, exploração, tráfico, tortura e to-
lação, políticas e ações adequadas a este respeito.
das as outras formas de violência.

65
Formular uma política pública de enfrentamento da violência de gênero contra crianças e
adolescentes negras, com o objetivo de reforçar as estratégias de combate ao racismo e ao sexismo
pelos órgãos do sistema de Justiça e de garantia de direitos, além de ampliar a garantia à dignidade
das meninas negras e de reduzir a violência de gênero contra crianças e adolescentes negras.

AÇÕES
• Formulação de uma política pública voltada para a redução da violência contra crianças, adolescentes e
jovens negras, pois são as principais vítimas da violência doméstica, sexual e das mortes violentas, uma vez
que vivenciam um cotidiano de preconceitos e estereótipos que as acompanham até a vida adulta. Elas
integram famílias que vivenciam dificuldades para o acesso à água potável, aos alimentos e à alimentação
saudável e habitam territórios com altos índices de mortes violentas. Além disso, muitas vivem em moradias
sem saneamento básico e possuem dificuldades para o acesso ao sistema de saúde e para a permanência
na escola ou a conclusão do percurso escolar na idade adequada.
• Proposição de programas e ações específicas que possibilitem uma vida com dignidade para as meninas
negras, assim como para as suas famílias.

JUSTIFICATIVA
A violência de gênero se expressa nas condições pedagógicos, quando comparadas com demais
adversas que marcam a vida de crianças, adoles- estudantes; (III) as meninas negras também foram
centes e jovens negras: o pertencimento racial tem as que menos conseguiram realizar as tarefas es-
se constituído como elemento que possibilita ou colares; maioria dos(as) docentes consideram que
nega o acesso aos bens sociais, resultando em vio- estruturalmente, em relação às meninas brancas,
lações no acesso aos diferentes serviços. Uma pes- as meninas negras estão em desvantagem.
quisa realizada pelo Geledés - Instituto da Mulher
Negra4, sobre os impactos da covid-19 no direito à Com relação à gravidez, uma análise da empresa so-
educação das meninas negras, revelou que: (I) res- cial Gênero e Número5 a partir de dados do Sistema
ponsáveis das famílias negras estavam trabalhando de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc/Data-
presencialmente desde o início da pandemia e as sus), mostrou que, de 2018 a 2020, houve uma dimi-
meninas negras passaram a assumir mais respon- nuição de 10% nos casos de gravidez entre meninas
sabilidades domésticas; (II) as meninas negras fo- brancas de 10 a 17 anos. Já entre as meninas negras,
ram as que tiveram menor acesso aos materiais a redução foi de apenas 3,55% nos maiores estados

4 https://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2021/04/A-educacao-de-meninas-negras-em-tempo-de-pandemia.pdf
5 https://www.generonumero.media/meninas-negras-gravidez-adolescencia/

108
IGUALDADE RACIAL
das cinco regiões do país: São Paulo (Sudeste), Rio 86% do sexo masculino e negros representam 78%
Grande do Sul (Sul), Bahia (Nordeste), Pará (Norte) e das vítimas, situação que também reflete uma ques-
Goiás (Centro-Oeste). No ano de 2020, 62,74% das tão de gênero a ser enfrentada pelo poder público.
gestações de mães adolescentes eram de jovens
Um estudo do Instituto Sou da Paz destaca que, em
negras, diante de 36,52% de gestações de jovens
2019, as mulheres negras somaram 4% das vítimas
brancas, 0,38% de amarelas e 0,36% de indígenas.
de agressão com arma de fogo, contra 2% de mu-
O estudo demonstrou ainda que das adolescentes lheres não negras. Já adolescentes e jovens (de 15 a
de 14 a 17 anos que se apresentaram como as “che- 29 anos) somaram 61% entre as vítimas negras, en-
fes da família”, 75,7% eram negras e 24,3%, brancas. quanto esse grupo respondeu por 51% dos óbitos
Além disso, as meninas negras gastaram 72% do seu na população não negra7.
tempo em cuidados com outras pessoas e as bran-
cas usaram 27,5% do seu tempo. Outros indicadores
importantes sobre os impactos diferenciados do gê-
nero a partir da cor são os dados sobre a violência ra- ODS
cial: ela atinge de forma violenta também as crianças
e adolescentes negras, razão pela qual são necessá- ODS 1. Erradicação da pobreza: acabar com a po-
rias políticas de Estado que promovam os direitos breza em todas as suas formas, em todos os lugares
humanos das meninas em particular, assim como de • Meta 1.1 – Até 2030, erradicar a pobreza extre-
crianças, adolescentes e familiares negros/as. ma para todas as pessoas em todos os lugares,
As crianças, adolescentes e jovens negras sofrem medida como pessoas vivendo com menos de
múltiplas discriminações e preconceitos, que limi- PPC$3,20 per capita por dia.
tam sua participação na educação, e impactam sua • Meta 1.2 – Até 2030, reduzir à metade a proporção
saúde física e mental. De igual modo, elas estão ex- de homens, mulheres e crianças, de todas as ida-
postas a diversas violências, bem como a situações des, que vivem na pobreza monetária e não mo-
que comprometem o seu desenvolvimento integral.  netária, de acordo com as definições nacionais.
• Meta 1.a – Garantir recursos para implementar
programas e políticas para erradicar a pobreza
extrema e combater a pobreza.
DIAGNÓSTICO
ODS 5. Igualdade de Gênero: Alcançar a igualdade de
Um estudo do Unicef (2021), que reúne dados da gênero e empoderar todas as mulheres e meninas
violência letal e sexual contra crianças e adolescen-
• Meta 5.1 – Eliminar todas as formas de discrimi-
tes, no período entre 2016 e 2020, identificou 34.918
nação de gênero, nas suas intersecções com raça,
mortes violentas intencionais de crianças e adoles-
etnia, idade, deficiência, orientação sexual, iden-
centes. As características das mortes são diferentes
tidade de gênero, territorialidade, cultura, religião
entre as faixas etárias; porém entre as crianças de
e nacionalidade, em especial para as meninas e
até 9 anos, 33% das vítimas eram meninas; 44%
mulheres do campo, da floresta, das águas e das
eram brancas. Já no período entre 2017 e 2020 fo-
periferias urbanas.
ram registrados 179.277 casos de estupro ou estu-
pro de vulnerável com vítimas de até 19 anos (crian- • Meta 5.2 – Eliminar todas as formas de violência
ças de até 10 anos representam 62 mil das vítimas de gênero nas esferas pública e privada, desta-
nesse período), cuja grande maioria das vítimas de cando a violência sexual, o tráfico de pessoas e os
violência sexual é composta por meninas, o que re- homicídios, nas suas intersecções com raça, etnia,
presenta um número muito alto dos casos que en- idade, deficiência, orientação sexual, identidade
volvem vítimas entre 10 e 14 anos de idade, sendo de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacio-
que 13 anos constitui a idade mais frequente6. nalidade, em especial para as mulheres do campo,
da floresta, das águas e das periferias urbanas.
O estudo “Violência contra crianças e adolescentes
• Meta 5.3 – Eliminar todas as práticas nocivas,
2019-2021”, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segu-
como os casamentos e uniões precoces, força-
rança Pública demonstra uma participação significa-
dos e de crianças e jovens, nas suas intersecções
tiva de meninas em crimes cometidos contra vítimas
com raça, etnia, idade, deficiência, orientação se-
de 0 a 17 anos, menos nos casos de mortes violentas:
xual, identidade de gênero, territorialidade, cultu-
lesão corporal (violência doméstica) - 51,9% brancas e
ra, religião e nacionalidade, em especial para as
47,45% negras; maus-tratos – 58,8% brancas e 40,7%
mulheres do campo, da floresta, das águas e das
negras; estupro – 48% brancas e 52,6% negras; explo-
periferias urbanas.
ração sexual – 56,3% brancas e 42,7% negras. Com re-
lação às mortes violentas intencionais, o maior núme-
ro de vítimas está na faixa de 15 a 17 anos, sendo que

6 https://www.unicef.org/brazil/media/16421/file/panorama-violencia-letal-sexual-contra-criancas-adolescentes-no-brasil.pdf
7 https://soudapaz.org/noticias/criancas-e-adolescentes-negras-de-ate-14-anos-morrem-36-vezes-mais-por-armas-de-
-fogo-do-que-criancas-brancas-revela-estudo-do-instituto-sou-da-paz/

109
66 IGUALDADE RACIAL
Desenvolver programas e ações para a prevenção e o enfrentamento do trabalho infantil e do
trabalho doméstico infantil, articulados com ações de combate à fome, com o objetivo de reduzir
o número de crianças e adolescentes negros e negras no trabalho infantil e em situação de
vulnerabilidade alimentar. A proposta deve considerar a oferta de atividades socioeducativas para
crianças e adolescentes retirados da prática do trabalho infantil, por meio: (I) do reconhecimento
e da valorização de suas identidades étnico-raciais; (II) da formulação de programas de prevenção
e combate ao trabalho doméstico infantil, considerando as questões de equidade, raça e gênero
e a maior vulnerabilidade conferida a meninas e adolescentes negras, quilombolas e indígenas; e
(III) de ações de fortalecimento do Ministério Público do Trabalho nas funções de enfrentamento e
erradicação do trabalho infantil de crianças e adolescentes negros e negras.

AÇÕES
• Elaboração de uma política de enfrentamento ao racismo para a garantia da prevenção e a erradicação do
trabalho infantil, uma vez que a maioria dos afetados e alvos desta problemática é constituída por crianças
e adolescentes negras e negros (uma vez que quase duas de cada três crianças em situação de trabalho in-
fantil no território nacional são negras).
• Medidas de erradicação da participação de famílias em situação de insegurança alimentar, que se torna
ainda mais agravada com a pandemia, pois estudos revelam uma redução no consumo de alimentos im-
portantes para a dieta regular, como carnes e frutas. A participação de crianças e adolescentes no trabalho
infantil é uma realidade em todas as regiões do País. Estudos demonstram que, no ano de 2019, havia 1,8
milhão de crianças e adolescentes entre 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil (PNAD-C), o que repre-
senta 4,6% da população (38,3 milhões) nesta faixa etária.
• Ações específicas para a erradicação de todas as formas de trabalho infantil articuladas com o combate à
fome, com ações que alcancem todas as crianças e os territórios, com especial atenção para crianças e ado-
lescentes negros e negras e para os territórios quilombolas.

JUSTIFICATIVA DIAGNÓSTICO
Há uma certa naturalização da sociedade com a ex- Levantamentos produzidos pelo Fórum Nacional
ploração econômica de crianças, também justificada de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil
como trabalho infantil, em particular quando ele é (FNPETI) revelam que o número de crianças e ado-
realizado por crianças e adolescentes negros. É vista lescentes negros em situação de trabalho é maior
com indiferença a presença de crianças negras como do que o de não negros.
ajudantes em serviços gerais, no serviço doméstico,
Os pretos ou pardos representam 66,1% das vítimas do
limpando vidros ou pedindo trocados nas ruas. Elas
trabalho infantil no país, de acordo com os dados da
também estão em serviços cujas práticas são análo-
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contí-
gas à escravidão: na venda, no tráfico e na prostitui-
nua (PNAD-C), sobre o trabalho de crianças e adoles-
ção de crianças, na sujeição por dívida e servidão, no
centes em 2019. Segundo tais dados, havia 1,768 milhão
trabalho forçado ou compulsório, entre outros.
de crianças e adolescentes de cinco a 17 anos em si-
Para modificar as concepções sobre o direito à digni- tuação de trabalho infantil, o que representa 4,5% da
dade de crianças e adolescentes negros, são urgen- população (40,1 milhões) nesta faixa etária, sendo que
tes programas e ações para a prevenção e o enfren- a maior concentração de trabalho infantil está na faixa
tamento do trabalho infantil, e além da efetivação etária entre 14 e 17 anos, o que constitui 78,7% do total.
de trabalho digno para adolescentes trabalhadores.
Além disso, vale reafirmar os preceitos da Constitui- Já a faixa de cinco a 13 anos representa 21,3% das
ção Federal, que reconhece crianças e adolescentes crianças exploradas pelo trabalho infantil. O FNPE-
como sujeitos de direitos, bem como o Estatuto da TI também destaca que 1.768 milhão de crianças e
Criança e do Adolescente, que garante a proteção adolescentes entre 5 e 17 anos trabalham no Brasil:
integral de crianças e dos adolescentes e tem seus 60,1% são negros e, no caso do trabalho infantil do-
direitos considerados como prioridade absoluta. méstico, as meninas negras representam 73,5%8.

8 https://livredetrabalhoinfantil.org.br/educacao-antirracista/dados

110
IGUALDADE RACIAL

ODS
ODS 1. Erradicação da pobreza: Acabar com a po- • Meta 2.1 – Até 2030, erradicar a fome e garantir o
breza em todas as suas formas, em todos os lugares acesso de todas as pessoas, em particular os po-
• Meta 1.1 – Até 2030, erradicar a pobreza extre- bres e pessoas em situações vulneráveis, incluindo
ma para todas as pessoas em todos os lugares, crianças e idosos, a alimentos seguros, cultural-
medida como pessoas vivendo com menos de mente adequados, saudáveis e suficientes durante
PPC$3,20 per capita por dia. todo o ano.
• Meta 1.2 – Até 2030, reduzir à metade a proporção ODS 8. Trabalho decente e crescimento econômico:
de homens, mulheres e crianças, de todas as ida- Promover o crescimento econômico sustentado, in-
des, que vivem na pobreza monetária e não mo- clusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo, e
netária, de acordo com as definições nacionais. trabalho decente para todos
ODS 2. Fome zero e agricultura sustentável: Acabar • Meta 8.7 – Até 2025 erradicar o trabalho em condições
com a fome, alcançar a segurança alimentar e melho- análogas às de escravo, o tráfico de pessoas e o tra-
ria da nutrição e promover a agricultura sustentável. balho infantil, principalmente nas suas piores formas.

67 Implementar uma política educacional articulada entre os diversos atores para o


enfrentamento do racismo e a valorização das diversidades étnico-raciais com o objetivo de
reduzir as desigualdades raciais na educação brasileira e combater as formas de naturalização
da participação de crianças e adolescentes negros nos piores índices educacionais. Enfrentar a
evasão escolar, a distorção série-idade, a reprovação e o analfabetismo.

AÇÕES
• Ações elaboradas pelo Ministério da Educação, de forma a contemplar a formação continuada de profis-
sionais desde a educação básica, além de articuladas com os diferentes setores das políticas públicas, em
particular com o Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente, com o objetivo de promover
relações raciais igualitárias no ambiente escolar e nos demais serviços públicos.
• Qualificar a política para que ela contemple ações que enfrentem o racismo institucional, de forma a pos-
sibilitar a formulação e a implementação de mecanismos efetivos para a prevenção, o monitoramento, a
avaliação e a superação da discriminação racial na educação e em todas as políticas públicas, de forma a
equalizar o acesso aos seus benefícios.
• Fortalecer a articulação entre os atores que elaboram, implementam e executam as políticas públicas, de
modo a combater as situações de racismo, que não se restringem ao espaço escolar e são experimentadas
por crianças e adolescentes negros em diferentes instituições públicas.

JUSTIFICATIVA
A Lei nº 10639/2003 alterou os artigos 26-A e 79-B inferiorizam a história e a cultura de matriz africa-
da Lei nº 9.394/1996 - Lei de Diretrizes e Bases da na e afro-brasileira.
Educação Nacional (LDB), determinando a inclu-
A Constituição Federal determina, no Art. 215, que
são do estudo da história da África e dos africa- o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos di-
nos, da luta dos negros no Brasil, da cultura negra reitos culturais e o acesso às fontes da cultura na-
brasileira e do negro na formação da socieda- cional e apoiará e incentivará a valorização e a difu-
de nacional, resgatando a contribuição do povo são das manifestações culturais. O parágrafo 1º do
negro para as áreas social, econômica e política mesmo artigo determina que o Estado protegerá as
pertinentes à História do Brasil. A implementação manifestações das culturas populares, indígenas e
da legislação se fez necessária pela permanência afro-brasileiras, e as manifestações de outros gru-
das relações hierárquicas, em que a subalternida- pos participantes do processo civilizatório nacional.
de negra é reafirmada por meio de concepções e Já o parágrafo 2º estabelece que a lei irá dispor so-
práticas pedagógicas que desvalorizam a partici- bre a fixação de datas comemorativas de alta signi-
pação negra na constituição da nação brasileira, e ficação para os diferentes grupos étnicos nacionais.

111
IGUALDADE RACIAL
DIAGNÓSTICO
A Constituição Federal assegura a igualdade de todos
os cidadãos perante a lei, o direito a uma educação
ODS
que promova o pleno desenvolvimento da pessoa ODS 4. Educação de qualidade: Assegurar a edu-
e o exercício da cidadania, além dos direitos sociais cação inclusiva e equitativa e de qualidade, e
por meio das políticas públicas. A intersetorialidade promover oportunidades de aprendizagem ao
pressupõe ações integradas entre as diferentes áreas longo da vida para todos.
sociais, visando ao atendimento integral das necessi-
• Meta 4.1 – Até 2030, garantir que todas as me-
dades da população. Contudo, o acesso e a qualidade
ninas e meninos completem o ensino funda-
dos serviços públicos são distintos a partir do perten-
mental e médio, equitativo e de qualidade, na
cimento racial, o que acarreta que a população negra,
idade adequada, assegurando a oferta gratuita
o grupo racial mais dependente das políticas públi-
na rede pública e que conduza a resultados de
cas, tenha menor acesso a direitos e a serviços que
aprendizagem satisfatórios e relevantes.
deveriam ser garantidos igualitariamente, conforme
pode ser percebido nos dados educacionais a seguir. • Meta 4.2 – Até 2030, assegurar a todas as me-
ninas e meninos o desenvolvimento integral na
Segundo dados do Unicef, em 2019, havia quase 1,1 primeira infância, acesso a cuidados e à edu-
milhão de crianças e adolescentes em idade escolar cação infantil de qualidade, de modo que es-
obrigatória fora da escola no Brasil. A maioria deles é tejam preparados para o ensino fundamental.
composta por crianças de 4 e 5 anos e adolescentes
• Meta 4.5 – Até 2030, eliminar as desigualda-
de 15 a 17 anos. A exclusão afeta principalmente as
des de gênero e raça na educação e garantir a
camadas mais vulneráveis da população, já privadas
equidade de acesso, permanência e êxito em
de outros direitos, situação que atinge, em sua maio-
todos os níveis, etapas e modalidades de en-
ria, pessoas negras. Os dados sobre a participação de
sino para os grupos em situação de vulnerabi-
estudantes negros no ensino superior reafirmam as
lidade, sobretudo as pessoas com deficiência,
violações na educação básica: dados da PNAD 2019
populações do campo, populações itinerantes,
demonstram que na faixa etária entre 18 e 24 anos,
comunidades indígenas e tradicionais, adoles-
pessoas brancas têm duas vezes mais chances de
centes e jovens em cumprimento de medidas
estarem na universidade ou de já ter concluído o
socioeducativas e população em situação de
ensino superior do que pessoas negras. O estudo
rua ou em privação de liberdade.
demonstra também que a diferença salarial entre
brancos e negros é de 45% e que há maior concen- • Meta 4.7 – Até 2030, garantir que todos os alu-
tração de negros em atividades que exigem menos nos adquiram conhecimentos e habilidades
instrução escolar, como construção (65,2%), serviços necessárias para promover o desenvolvimento
domésticos (66,6%) e agropecuária (62,7%). sustentável, inclusive, entre outros, por meio da
educação para o desenvolvimento sustentável
Além disso, a educação pública é utilizada pela maioria e estilos de vida sustentáveis, direitos huma-
da população negra, que vem sendo alvo de diferentes nos, igualdade de gênero, promoção de uma
ações de desvalorização. Segundo um estudo9 reali- cultura de paz e não violência, cidadania global
zado em 2021 pelo Instituto de Estudos Socioeconô- e valorização da diversidade cultural e da con-
micos (Inesc), sobre a destinação de recursos públicos tribuição da cultura para o desenvolvimento
para a educação, foi aferido que, entre 2019 e 2021, caiu sustentável.
R$ 8 bilhões, em termos reais: o valor autorizado para
• Meta 4.a – Ofertar infraestrutura física escolar
2021 foi cerca de R$ 3 bilhões a mais do que em 2020;
adequada às necessidades da criança, acessí-
no entanto, a execução financeira foi menor.
vel às pessoas com deficiências e sensível ao
A educação quilombola, que abrange um universo gênero, que garanta a existência de ambientes
de mais de 275 mil estudantes, 51.252 professores e de aprendizagem seguros, não violentos, inclu-
2.526 escolas no Brasil, também está sofrendo com o sivos e eficazes para todos.
desmonte da educação pública. Segundo o relatório • Meta 4.c – Até 2030, assegurar que todos os
“Análise sobre a Educação Quilombola e o Censo Es- professores da educação básica tenham for-
colar” (2021), coordenado pela docente Givânia Ma- mação específica na área de conhecimento em
ria da Silva, da Universidade de Brasília (UnB), apenas que atuam, promovendo a oferta de formação
15% das escolas quilombolas têm internet para ensi- continuada, em regime de colaboração entre
no e aprendizagem, sendo que somente 21% dessas União, estados e municípios, inclusive por meio
escolas possuem biblioteca ou sala de leitura. Quan- de cooperação internacional.
do é comparada a situação das escolas quilombolas
com as das demais escolas, tais equipamentos estão
presentes em 81,4% das escolas públicas estaduais e
em 100% das escolas federais.

9 Disponível em: <https://www.inesc.org.br/balanco-do-orcamento-2019-2021-revela-desmonte-generalizado-de-politicas-sociais-diz-inesc/>

112
68 IGUALDADE RACIAL
Fortalecer e apoiar as instâncias que compõem o Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do
Adolescente, incluindo as de participação social, com o objetivo de garantir os meios de implementação de
parcerias para o desenvolvimento de políticas focadas na sustentabilidade e na equidade racial e de gênero.

AÇÕES
• As ações devem englobar o desenvolvimento de campanhas de conscientização, em parceria com os órgãos
que compõem o Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente, sobre como o racismo é
uma forma de maus-tratos na infância e precisa ser combatido.
• Criação de uma Comissão Interministerial de Promoção da Equidade Racial, com foco na garantia dos direi-
tos das crianças e dos adolescentes, de modo a reunir representantes do Estado e da sociedade civil.
• Ampliar a divulgação e estimular a elaboração de propostas para a sua efetivação, assim como compromis-
sos das candidaturas com a equidade racial e de gênero de crianças e adolescentes negros.

JUSTIFICATIVA
Destacamos um trecho das justificativas da Organi- cendentes (2015-2024), que incentiva que os Estados
zação das Nações Unidas (ONU) para a promulgação adotem medidas que promovam os direitos humanos
da Década Internacional de Afrodescendentes (2015- da população afrodescendente, com base nos princí-
2024)10: “o racismo e discriminação racial contra a po- pios de reconhecimento, justiça e desenvolvimento.
pulação afrodescendente têm suas raízes nos abomi- Tal agenda deve contemplar também ações voltadas
náveis regimes de escravidão, no tráfico de escravos para crianças e adolescentes negros, enquanto popu-
e no colonialismo. Hoje em dia, essas heranças são lação em situação de vulnerabilidade e que deve ser
reforçadas pela discriminação interpessoal, institu- contemplada nas ações relativas aos compromissos
cional e estrutural e manifestam-se na desigualdade internacionais assumidos pelo Estado brasileiro.
e marginalização em nível mundial.” Trata-se de uma
situação que é verificada em diferentes pesquisas e
estudos que demonstram que a população negra DIAGNÓSTICO
está entre o grupo mais pobre, o que determina que De acordo com o Unicef (2010), “o racismo causa
crianças e adolescentes negros estão sujeitos aos impactos danosos do ponto de vista psicológico e
efeitos da reprodução da vulnerabilidade geracional. social na vida de toda e qualquer criança ou adoles-
Tal situação se reflete em dados apresentados em cente. A criança pode aprender a discriminar ape-
análise sobre a situação das crianças negras, realizada nas por ver os adultos discriminando. Nesses mo-
pelo Instituto PENSI11,, que destacou os pontos a seguir: mentos, ela se torna vítima do racismo. A prática do
• A criança negra tem 25% mais chances de mor- racismo e da discriminação racial é uma violação de
rer antes de completar um ano do que uma direitos, condenável em todos os países”.
criança branca. Um estudo realizado pelo Núcleo Ciência pela In-
• O risco de uma criança negra morrer antes dos fância (NCPI) intitulado “Racismo, educação infan-
5 anos por causas infecciosas e parasitárias é til e desenvolvimento na primeira infância” (2021),
60% maior do que o de uma criança branca. destaca que “a experiência de ser criança negra no
• O risco de morte por desnutrição é 90% maior en- Brasil ocorre na adversidade do racismo brasileiro
tre crianças pretas e pardas do que entre brancas. e algumas crianças podem enfrentar maior exposi-
• Mulheres negras grávidas morrem mais de ção ao estresse tóxico por traumas devido ao racis-
causas maternas (como a hipertensão própria mo sistêmico ou aos impactos da pobreza multige-
da gravidez) do que as brancas. racional por causa de oportunidades educacionais
e econômicas limitadas” (p.37).
• As crianças negras morrem mais por doenças
infecciosas e por desnutrição. Por isso, são fundamentais ações indutoras de prá-
ticas antirracistas em todos os serviços públicos,
No Brasil, as crianças e os adolescentes negros es-
em particular naqueles voltados para a proteção
tão sujeitos a diversas condições de vida desfavorá-
e o cuidado de crianças e adolescentes, com ên-
veis, razão pela qual torna-se urgente a criação de
fase em campanhas de conscientização, em par-
políticas públicas com recorte de cor/raça e gênero
ceria com os órgãos que compõem o Sistema de
para reverter a situação.
Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente,
No que diz respeito ao fortalecimento de parcerias, es- de modo a enfatizar que o racismo é uma forma de
tamos na vigência da Década Internacional de Afrodes- maus tratos na infância, precisa ser combatido.

10 Disponível em: <https://decada-afro-onu.org/en/events/africandescentdecade/pdf/A.RES.69.16_IDPAD.pdf>


11 Disponível em: <https://institutopensi.org.br/a-saude-das-criancas-negras/>

113
IGUALDADE RACIAL

ODS
ODS 1. Erradicação da pobreza: acabar com a pobre- com raça, etnia, idade, deficiência, orientação se-
za em todas as suas formas, em todos os lugares. xual, identidade de gênero, territorialidade, cultu-
ra, religião e nacionalidade, em especial para as
• Meta 1.1 – Até 2030, erradicar a pobreza extre-
mulheres do campo, da floresta, das águas e das
ma para todas as pessoas em todos os lugares,
periferias urbanas.
medida como pessoas vivendo com menos de
PPC$3,20 per capita por dia. ODS 8. Trabalho decente e crescimento econômi-
• Meta 1.2 – Até 2030, reduzir à metade a proporção co: Promover o crescimento econômico sustenta-
de homens, mulheres e crianças, de todas as ida- do, inclusivo e sustentável, emprego pleno e pro-
des, que vivem na pobreza monetária e não mo- dutivo, e trabalho decente para todos.
netária, de acordo com as definições nacionais.
• Meta 8.7 – Até 2025 erradicar o trabalho em con-
• Meta 1.a – Garantir recursos para implementar dições análogas às de escravo, o tráfico de pesso-
programas e políticas para erradicar a pobreza as e o trabalho infantil, principalmente nas suas
extrema e combater a pobreza. piores formas.
ODS 4. Educação de qualidade: Assegurar a educa- ODS 10. Redução das desigualdades: Reduzir a de-
ção inclusiva e equitativa e de qualidade, e promo- sigualdade dentro dos países e entre eles.
ver oportunidades de aprendizagem ao longo da
vida para todos. • Meta 10.1 – Até 2030, progressivamente alcançar
e sustentar o crescimento da renda dos 40% da
• Meta 4.7 – Até 2030, garantir que todos os alunos população mais pobre a uma taxa maior que a
adquiram conhecimentos e habilidades necessá- renda média dos 10% mais ricos.
rias para promover o desenvolvimento sustentá-
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a
vel, inclusive, entre outros, por meio da educação
inclusão social, econômica e política de todos, de
para o desenvolvimento sustentável e estilos de
forma a reduzir as desigualdades, independente-
vida sustentáveis, direitos humanos, igualdade de
mente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, na-
gênero, promoção de uma cultura de paz e não
cionalidade, religião, condição econômica ou outra.
violência, cidadania global e valorização da diver-
sidade cultural e da contribuição da cultura para • Meta 10.3 – Garantir a igualdade de oportunida-
o desenvolvimento sustentável. des e reduzir as desigualdades de resultados, in-
clusive por meio da eliminação de leis, políticas e
ODS 5. Igualdade de Gênero: Alcançar a igualdade de práticas discriminatórias e da promoção de legis-
gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. lação, políticas e ações adequadas a este respeito.
• Meta 5.1 – Eliminar todas as formas de discrimi- • Meta 10.4 – Reduzir desigualdades através da
nação de gênero, nas suas intersecções com raça, adoção de políticas fiscal, tributária, salarial e de
etnia, idade, deficiência, orientação sexual, iden- proteção social.
tidade de gênero, territorialidade, cultura, religião
ODS 16: Paz, justiça e instituições eficazes: Promo-
e nacionalidade, em especial para as meninas e
ver sociedades pacíficas e inclusivas para o desen-
mulheres do campo, da floresta, das águas e das
volvimento sustentável, proporcionar o acesso à
periferias urbanas.
justiça para todos e construir instituições eficazes,
• Meta 5.2 – Eliminar todas as formas de violência responsáveis e inclusivas em todos os níveis.
de gênero nas esferas pública e privada, desta-
cando a violência sexual, o tráfico de pessoas e os • Meta 16.1 – Reduzir significativamente todas as
homicídios, nas suas intersecções com raça, etnia, formas de violência e as taxas de mortalidade
idade, deficiência, orientação sexual, identidade relacionadas, em todos os lugares, inclusive com
de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacio- a redução de 1/3 das taxas de feminicídio e de
nalidade, em especial para as mulheres do campo, homicídios de crianças, adolescentes, jovens, ne-
da floresta, das águas e das periferias urbanas. gros, indígenas, mulheres e LGBT.
• Meta 5.3 – Eliminar todas as práticas nocivas, • Meta 16.2 – Proteger todas as crianças e adoles-
como os casamentos e uniões precoces, força- centes do abuso, exploração, tráfico, tortura e to-
dos e de crianças e jovens, nas suas intersecções das as outras formas de violência.

114
69
POVOS INDÍGENAS E RIBEIRINHOS, POVOS ROMANI, POVOS
DE COMUNIDADES TRADICIONAIS E MIGRANTES
Garantir alimentação escolar culturalmente adequada, proveniente da agricultura familiar
local, para crianças e adolescentes de escolas em territórios de Povos Originários e Povos
e Comunidades Tradicionais.

AÇÕES METAS
• Regulamentar a compra obrigatória de alimenta- 1. Compra obrigatória de alimentação escolar direta-
ção escolar diretamente dos produtores da comu- mente dos produtores da comunidade local em es-
nidade local em escolas em territórios de Povos colas em territórios de Povos Originários e Povos e
Originários e Povos e Comunidades Tradicionais. Comunidades Tradicionais regulamentada em 2023.

RAZÕES
A aquisição dos produtos para a alimentação esco- nagem doméstica de produtos de origem agro-
lar se dá de forma centralizada, no estado ou no pecuária para consumo familiar), o que dispensa
município, para toda a sua rede de escolas. Com a inspeção sanitária. Posteriormente, o ICMBio, por
isso, as escolas que atendem Povos Originários e meio da Nota Técnica 06/2019, expandiu esse enten-
Povos e Comunidades Tradicionais oferecem, na dimento para as Comunidades Tradicionais.
alimentação escolar, um cardápio que não inclui os Com isso, foram estabelecidas bases técnicas e
hábitos e a cultura local. Esse fato põe a escola em fundamentação jurídica para a aquisição legal da
um universo cultural diferente de seus alunos, além produção familiar e comunitária de Povos Origi-
de desvalorizar os saberes tradicionais da comuni- nários e Povos e Comunidades Tradicionais. Para
dade e seus hábitos, contrariando o direito dessas isso, os gestores estaduais e municipais precisam
crianças e adolescentes de manter a própria cultu- lançar as Chamadas Públicas para aquisição direta
ra, submetendo-os muitas vezes ao consumo de da alimentação escolar, voltadas especificamente
alimentos industrializados e ultraprocessados. para as escolas em territórios de Povos Originários
O principal entrave à inclusão da alimentação local, e Povos e Comunidades Tradicionais. Ao mesmo
culturalmente adequada, está nas exigências legais tempo, as comunidades precisam receber orienta-
relativas a processos de aquisição, que exigem a ins- ção e apoio para poder atender, do ponto de vista
peção sanitária e o registro dos alimentos destina- formal e burocrático, as exigências de participação
dos às escolas, o que impossibilitaria a aquisição da em compras públicas.
produção da comunidade. Essas barreiras, no entan- Como os recursos para aquisição da alimentação es-
to, podem - e devem - ser legalmente superadas. colar vêm do Fundo Nacional de Desenvolvimento da
Tratando do caso específico de comunidades indíge- Educação (FNDE), via Programa Nacional de Alimen-
nas da região do Rio Negro, a Funai emitiu a Nota Téc- tação Escolar (PNAE), este órgão deve regulamentar
nica 3/2017 em que, em conformidade com discus- nacionalmente a questão e garantir que os gestores
sões técnicas junto, inclusive, ao Ministério Público, locais adotem essa prática de respeito à cultura, aos
propôs que a alimentação escolar fosse nesses casos saberes locais e às tradições de Povos Originários e
equiparada à categoria de “autoconsumo” (produção Povos e Comunidades Tradicionais, de acordo com os
rural para a preparação, a manipulação ou a armaze- direitos estabelecidos na Constituição.

ODS
ODS 2
• Meta 2.1 – Até 2030, erradicar as formas de má-nutrição relacionadas à desnutrição, reduzir
as formas de má-nutrição relacionadas ao sobrepeso ou à obesidade, prevendo o alcance
até 2025 das metas acordadas internacionalmente sobre desnutrição crônica e desnutrição
aguda em crianças menores de cinco anos de idade, e garantir a segurança alimentar e nu-
tricional de meninas adolescentes, mulheres grávidas e lactantes, pessoas idosas e povos e
comunidades tradicionais.
• Meta 2.3 – Até 2030, aumentar a produtividade agrícola e a renda dos pequenos produtores
de alimentos, particularmente de mulheres, agricultores familiares, povos e comunidades
tradicionais, visando tanto à produção de autoconsumo e garantia da reprodução social des-
sas populações quanto ao seu desenvolvimento socioeconômico, por meio do acesso segu-
ro e equitativo: i) à terra e aos territórios tradicionalmente ocupados; ii) à assistência técnica
e extensão rural, respeitando-se as práticas e saberes culturalmente transmitidos; iii) a linhas
de crédito específicas; iv) aos mercados locais e institucionais, inclusive políticas de compra
pública; v) ao estímulo ao associativismo e cooperativismo; e vi) a oportunidades de agrega-
ção de valor e emprego não-agrícola.

115
70
POVOS INDÍGENAS E RIBEIRINHOS, POVOS ROMANI, POVOS
DE COMUNIDADES TRADICIONAIS E MIGRANTES
Universalizar o acesso e a cobertura do sinal de internet com qualidade nas escolas em
comunidades ribeirinhas, terras indígenas, quilombos e unidades de conservação na
Amazônia Legal.

AÇÕES METAS
• Ampliar a cobertura dos serviços de banda larga 1. Escolas em comunidades ribeirinhas, terras indí-
de internet nas escolas em comunidades ribeiri- genas, quilombos e unidades de conservação na
nhas, terras indígenas, quilombos e unidades de Amazônia Legal com 100% de cobertura de inter-
conservação na Amazônia Legal. net com banda larga até 2026.

RAZÕES
As dificuldades de acesso à internet têm prejudicado Sem internet, compreendida como um direito da
a formação escolar de crianças, adolescentes e jo- criança e do adolescente, a qualidade do ensino
vens em comunidades ribeirinhas, terras indígenas, e das condições de trabalho dos professores do
quilombos e unidades de conservação na Amazônia ensino fundamental é precarizada, perpetuando
Legal, provocando a defasagem e a evasão escolar. resultados medíocres. Portanto, é necessário am-
pliar o acesso à internet para 100% das escolas
É notório o quanto a cultura digital contribui à
nas regiões do interior do País.
formação escolar, fato amplamente notado no
período da pandemia, quando as medidas de dis- A desigualdade de acesso à internet mostra-se
tanciamento social levaram todas as instituições uma ameaça ao crescimento dos indivíduos e ao
educacionais a adotar metodologias de atendi- crescimento do País, já que as metas educacio-
mento no formato remoto, total ou parcial. Con- nais podem ser comprometidas, de forma irrepa-
tudo, nas cidades brasileiras, mesmo nas grandes rável, caso não seja implementada a universaliza-
capitais, a sociedade foi tomada de assalto com a ção da conectividade com qualidade.
revelação do nível alarmante de exclusão digital Cabe à União, em conjunto com as agências regula-
nas periferias e pequenas cidades. doras, definir as estratégias e soluções para que as an-
Na região amazônica (especialmente nas áreas ru- tenas e estruturas de conectividade em banda larga
rais, no interior de regiões de rios, em aldeias, em sejam instaladas de forma a permitir que as comu-
áreas de reserva florestal, nos quilombos, nas uni- nidades ribeirinhas, as terras indígenas, os quilombos
dades de conservação e nas áreas de projetos da e as unidades de conservação na Amazônia Legal
reforma agrária), esse quadro é ainda mais gritan- tenham acesso livre à internet. Por isso, é necessário
te, razão pela qual é forçoso reconhecer que a ex- que projetos destinados a essas populações sejam
clusão digital teve como consequência a exclusão públicos e gratuitos e contemplem fontes de energia
escolar para a grande maioria dos estudantes resi- elétrica de fontes sustentáveis, para o pleno aprovei-
dentes nessas localidades. tamento do que oferece a sociedade da informação.

ODS
ODS 4
• Meta 4.5 – Até 2030, eliminar as desigualdades de gênero e raça na educação e garantir a
equidade de acesso, permanência e êxito em todos os níveis, etapas e modalidades de en-
sino para os grupos em situação de vulnerabilidade, sobretudo as pessoas com deficiência,
populações do campo, populações itinerantes, comunidades indígenas e tradicionais, ado-
lescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas e população em situação
de rua ou em privação de liberdade.
• Meta 4.a – Ofertar infraestrutura física escolar adequada às necessidades da criança, acessí-
vel às pessoas com deficiências e sensível ao gênero, que garanta a existência de ambientes
de aprendizagem seguros, não violentos, inclusivos e eficazes para todos.
ODS 9
• Meta 9.C – Aumentar significativamente o acesso às tecnologias de informação e comunica-
ção e empenhar-se para oferecer acesso universal e a preços acessíveis à internet, até 2020,
buscando garantir a qualidade, a privacidade, a proteção de dados e a segurança cibernética.

116
71
POVOS INDÍGENAS E RIBEIRINHOS, POVOS ROMANI, POVOS
DE COMUNIDADES TRADICIONAIS E MIGRANTES
Garantir o direito à leitura para crianças e adolescentes das comunidades do campo, indígenas,
ribeirinhas, quilombolas, migrantes, minorias e PCTs, valorizando o movimento literário protagonizado
por autores indígenas e negros, que ganhou projeção com a aprovação da Lei 11.645/2008.

AÇÕES METAS
• Fomentar a criação de acervos literários em geral e 1. Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE),
especialmente de expressão amazônica, de autoria incluindo foco específico na criação de acervos
indígena e negra, em bibliotecas comunitárias e em literários em geral e especialmente de expressão
todas as escolas do campo, indígenas, ribeirinhas e amazônica, de autoria indígena e negra, em biblio-
quilombolas. tecas comunitárias e em todas as escolas do cam-
po, indígenas, ribeirinhas e quilombolas, fortaleci-
• Fortalecer o Programa Nacional Biblioteca da Escola
do a partir de 2023.
(PNBE).
2. Políticas de formação continuada de docentes
• Oferecer a formação continuada de docentes para
para o trabalho pedagógico com literatura infanto-
o trabalho pedagógico com literatura infantojuvenil.
-juvenil retomadas em 2023.

RAZÕES
A partir da Lei nº 11.645/2008, que incluiu no currí- É impossível pensar uma educação escolar de qua-
culo escolar as histórias e as culturas afro-brasileira lidade sem bibliotecas com bons acervos e profis-
e indígena, ganhou projeção um grande movimento sionais capacitados. Torna-se igualmente impossível
literário que já vinha sendo protagonizado por auto- pensar as especificidades das escolas rurais, espe-
res indígenas e negros, o que consolidou, no mercado cialmente as indígenas, ribeirinhas e de povos ci-
editorial, intelectuais como Daniel Munduruku, Con- ganos/romani, sem acervos representativos de sua
ceição Evaristo, Sueli Carneiro, Ailton Krenak, entre história e cultura.
outros(as). Faz-se necessária a formação de acervos li- Segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL), de
terários em geral e de expressão amazônica, indígena, 2000 a 2014, cerca de 230 milhões de exempla-
quilombola, afro-brasileira, com sua circulação em bi- res, a um custo médio de R$ 3,80 a unidade, fo-
bliotecas comunitárias e escolas indígenas, ribeirinhas ram distribuídos pelo Programa Nacional Bibliote-
e áreas de reservas extrativistas. ca da Escola (PNBE), que investiu R$ 891 milhões
Porém, os desafios de levar a ler, principalmente a lu- em compras. O montante significou, em média,
gares distantes da Amazônia, esbarram em obstáculos R$ 68,5 milhões por ano na renovação dos acervos
firmados pela injusta sistemática econômica, social e para estudantes de todos os anos do ensino bási-
política, dificultando e, não raro, interditando o acesso co (infantil, fundamental e médio). Porém, desde
ao exercício do direito de ler literatura, quanto mais a 2014, foi interrompida a política de compras e dis-
literatura produzida por autores e intelectuais indígenas tribuição do programa.
e negros, restrita a circular nos grandes centros urbanos. Com isso, os livros predominantes nas escolas pú-
Contraditoriamente, sabe-se da baixa circulação blicas brasileiras passaram a ser os didáticos (livros
desses acervos literários no interior, uma vez que ra- de exercícios e tarefas), em detrimento dos literá-
ramente retornam ao seio das comunidades e dos rios, o que empobrece as experiências de leitura li-
grupos representados por esses e outros autores. Da terária na educação básica. No caso da Região Nor-
mesma forma, as bibliotecas escolares e comunitárias te, os impactos do não investimento em literatura
do interior (isso quando há) permanecem com acer- são muito maiores, pois, diante da frágil situação
vos fragilizados e parca estrutura. Até 2018, dados no da economia editorial, é pelo PNBE que editoras,
INEP apontavam que 55% das escolas brasileiras ain- autores, ilustradores, escolas e alunos da Amazônia
da não possuíam biblioteca ou sala de leitura. são beneficiados.

ODS
ODS 4
• Meta 4.5 – Até 2030, eliminar as desigualdades de gênero e raça na educação e garantir a
equidade de acesso, permanência e êxito em todos os níveis, etapas e modalidades de en-
sino para os grupos em situação de vulnerabilidade, sobretudo as pessoas com deficiência,
populações do campo, populações itinerantes, comunidades indígenas e tradicionais, ado-
lescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas e população em situação
de rua ou em privação de liberdade.
• Meta 4.6 – Até 2030, garantir que todos os jovens e adultos estejam alfabetizados, tendo
adquirido os conhecimentos básicos em leitura, escrita e matemática.

117
72
POVOS INDÍGENAS E RIBEIRINHOS, POVOS ROMANI, POVOS
DE COMUNIDADES TRADICIONAIS E MIGRANTES
Garantir a educação intercultural bilíngue indígena, considerando as diferentes etnias.

AÇÕES METAS
• Produzir e disponibilizar materiais didáticos em 1. Material didático bilíngue indígena-português,
língua indígena-português, respeitando as dife- contemplando as línguas das diferentes etnias, dis-
rentes etnias. ponível em 100% das escolas indígenas até 2026.
• Promover a formação e a qualificação de profes- 2. Programa de formação continuada professores
sores indígenas. indígenas implantado até 2025.

RAZÕES
Atualmente, cerca de 50% das escolas indígenas a efetiva integração dos povos originários ao siste-
não contam com material didático específico. Faz- ma de educação formal. Tal cenário contraria o Art.
-se necessária a criação de materiais adequados e 78 da Lei nº 9.394/1996 (que determina a “oferta de
diferenciados para 100% das escolas indígenas. Em educação escolar bilíngue e intercultural aos povos
acompanhamento a tal demanda, também não indígenas”) e a Resolução CNE/CEB nº 1, de 3 de abril
devem ser negligenciadas a formação e a contra- de 2002 (que discorre sobre a valorização da diver-
tação de professores indígenas para a condução sidade cultural das escolas do campo e a especifi-
pedagógica dos referidos materiais e investimen- cidade desses estabelecimentos de ensino frente à
tos em infraestrutura escolar adequada. exigência de materiais didáticos adequados, confor-
me estabelecem o Art. 13, inciso II, e o Art. 15, inciso II).
A Constituição Federal de 1988 é chamada de “Cons-
tituição Cidadã”, mas quando o direito à educação é Por isso, faz-se necessário, em caráter de urgên-
negado aos povos originários, a cidadania e o direi- cia, reformular a política escolar voltada aos povos
to de participar da sociedade também lhes são ne- indígenas, exigindo dignidade e respeito aos seus
gados. É imperioso que o Estado brasileiro passe a conhecimentos, que devem se fazer presentes em
tratar a educação escolar indígena como prioridade, recursos didáticos de qualidade, referenciados nas
mediante as demandas e reivindicações dos povos. línguas indígenas de cada povo, de acordo com os
saberes pluriétnicos.
A educação escolar indígena é um acontecimento
novo na história da educação brasileira. Além disso, Sem material didático específico e sem a contrata-
é um direito e um interesse dos povos originários. ção de professores indígenas capacitados, o êxito
Entretanto, o material didático, imprescindível para pedagógico é comprometido. Também há equívo-
a formação, reflete o descompasso da política edu- cos quando os materiais didáticos são produzidos
cacional brasileira, ao desconsiderar as línguas indí- a partir de uma etnia e distribuídos para grupos di-
genas como conteúdos e veículos de saberes. ferentes, sintoma de uma escola uniformista e ex-
cludente, que desconsidera a cidadania de 817.963
A ausência de material didático bilíngue contribui indígenas e a diversidade cultural de 374 etnias e
para a exclusão e o fracasso escolar, sem alcançar 274 línguas no País.

ODS
ODS 4
• Meta 4.5 – Até 2030, eliminar as desigualdades de gênero e raça na educação e garantir a equidade
de acesso, permanência e êxito em todos os níveis, etapas e modalidades de ensino para os grupos
em situação de vulnerabilidade, sobretudo as pessoas com deficiência, populações do campo, popu-
lações itinerantes, comunidades indígenas e tradicionais, adolescentes e jovens em cumprimento de
medidas socioeducativas e população em situação de rua ou em privação de liberdade.
• Meta 4.6 – Até 2030, garantir que todos os jovens e adultos estejam alfabetizados, tendo adquirido os
conhecimentos básicos em leitura, escrita e matemática.
• Meta 4.7 – Até 2030, garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades necessárias
para promover o desenvolvimento sustentável, inclusive, entre outros, por meio da educação para o
desenvolvimento sustentável e estilos de vida sustentáveis, direitos humanos, igualdade de gênero,
promoção de uma cultura de paz e não violência, cidadania global e valorização da diversidade cul-
tural e da contribuição da cultura para o desenvolvimento sustentável.
• Meta 4.a – Ofertar infraestrutura física escolar adequada às necessidades da criança, acessível às pes-
soas com deficiências e sensível ao gênero, que garanta a existência de ambientes de aprendizagem
seguros, não violentos, inclusivos e eficazes para todos.

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73
POVOS INDÍGENAS E RIBEIRINHOS, POVOS ROMANI, POVOS
DE COMUNIDADES TRADICIONAIS E MIGRANTES
Combater a pobreza menstrual e seus desdobramentos na Amazônia.

AÇÕES METAS
• Implementar o Programa de Proteção e 1. 100% das meninas e mulheres brasileiras/amazônidas, es-
Promoção da Saúde Menstrual, em caráter pecialmente as pertencentes a minorias étnicas, migrantes
emergencial na Amazônia e com respeito e de PCTs, que necessitem de atendimento pelo Programa
às especificidades dos Povos Originários e de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual, com acesso
Povos e Comunidades Tradicionais, Migran- gratuito e contínuo a absorventes higiênicos femininos e
tes e outras Minorias. outros cuidados básicos de saúde menstrual, em 2023.

RAZÕES
Na Amazônia, a falta de condições mínimas de digni- e indígenas, correspondentes aos grupos sociais mais
dade menstrual atinge 50% das mulheres em idade vulneráveis à pobreza menstrual. Portanto, tais deman-
de frequentar a escola, o que constitui a estatística das e carências da saúde feminina atingem diretamen-
mais crítica do País, segundo um relatório do Unicef te a maior parcela da população. Por isso, cuidar desse
(2021). É necessário efetivar as determinações da Lei aspecto significa reconhecer a primazia da cidadania
nº 14.214/2021, que instituiu o Programa de Proteção feminina e a necessidade do direito de que as mulhe-
e Promoção da Saúde Menstrual, para assegurar a res recebam maior enfoque das políticas públicas.
oferta gratuita de absorventes higiênicos femininos A Amazônia é um território de riquezas: biodiver-
e outros cuidados básicos de saúde menstrual. sidade, água mineral, florestas, seres, paisagens,
O tema só muito recentemente tem ganhado es- mas também de riquezas culturais, pois abriga
paço no debate público brasileiro: “Em enquete etnias, reservas extrativistas, comunidades ribeiri-
realizada pelo Unicef com pessoas que menstru- nhas e quilombolas, bem como macroatividades
am, 62% afirmaram que já deixaram de ir à escola econômicas, nas exportações de minérios, bovi-
ou a algum outro lugar de que gostam por causa nos, piscicultura, grãos, oleaginosas e de tantas
da menstruação e 73% sentiram constrangimento outras, de modo que se torna difícil pensar que
nesses ambientes. Tais condições afastam as ado- tal região ostente a pior estatística nacional de po-
lescentes da escola, prejudicando a formação e in- breza menstrual.
correndo a sérios riscos à saúde social”. É como se, apesar do desenvolvimento técnico,
Na pandemia, o impacto sobre a saúde menstrual científico e econômico que obtivemos, o quadro da
acarretou dificuldades para a aquisição de absorven- dignidade social feminina tivesse recuado para mui-
tes e produtos de higiene e o acesso ao saneamento to aquém do mito das guerreiras Icamiabas, capazes
básico, tornando a dignidade menstrual um privilégio de conduzir seus destinos de forma independente.
econômico. A pobreza menstrual é uma chaga da so- As Icamiabas do nosso tempo são lideranças sociais
ciedade brasileira, fortalecida pela desigualdade social e das governanças políticas que, diariamente, lutam
– um de seus principais indicadores –, de maneira que contra a discriminação, a violência, o assédio e a falta
priva as mulheres, especialmente da Amazônia, do di- de sensibilidade para a dignidade menstrual, sinto-
reito à dignidade menstrual, “que significa ter acesso a ma de que a política brasileira ainda se pauta pelos
produtos e condições de higiene adequados”, confor- interesses de uma elite machista e descomprome-
me sinalizado pelos parâmetros do Unicef. tida com a igualdade de gênero e a cidadania femi-
Vale ressaltar que 51% da população brasileira é femi- nina, asseguradas pela Constituição Federal de 1988.
nina, com 53,5% formada por mulheres pardas, negras

ODS
ODS 3
• Meta 3.7 – Até 2030, assegurar o acesso universal aos serviços e insumos de saúde sexual e reprodutiva,
incluindo o planejamento reprodutivo, à informação e educação, bem como a integração da saúde repro-
dutiva em estratégias e programas nacionais.
• Meta 3.8 – Assegurar, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), a cobertura universal de saúde, o acesso a
serviços essenciais de saúde de qualidade em todos os níveis de atenção e o acesso a medicamentos e vacinas
essenciais seguros, eficazes e de qualidade que estejam incorporados ao rol de produtos oferecidos pelo SUS.
ODS 5
• Meta 5.6 – Promover, proteger e garantir a saúde sexual e reprodutiva, os direitos sexuais e direitos repro-
dutivos, em consonância com o Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desen-
volvimento e com a Plataforma de Ação de Pequim e os documentos resultantes de suas conferências de
revisão, considerando as intersecções de gênero com raça, etnia, idade, deficiência, orientação sexual, iden-
tidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em especial para as mulheres do campo,
da floresta, das águas e das periferias urbanas.

119
74
POVOS INDÍGENAS E RIBEIRINHOS, POVOS ROMANI, POVOS
DE COMUNIDADES TRADICIONAIS E MIGRANTES
Promover a produção e a circulação de atividades culturais na Região Amazônica, tornando-as
acessíveis às comunidades ribeirinhas, aldeias e reservas extrativistas.

AÇÕES METAS
• Garantir o financiamento de produ- 1. Editais federais específicos para a Amazônia Legal para finan-
ção, circulação e interiorização da ciamento de formação, produção e circulação de atividades
cultura na Amazônia Legal. culturais lançados a partir de 2023.
• Valorizar as manifestações culturais 2. Recursos específicos dos editais federais de cultura e desti-
locais e tradicionais da Região Ama- nação de recursos de outras fontes para produção e circula-
zônica, com a previsão de recursos ção de manifestações culturais locais e tradicionais da Re-
específicos para essa finalidade. gião Amazônica definidos em 2023.

RAZÕES
A cultura brasileira é um patrimônio coletivo, formado Tal quadro mostra que o direito à vida cultural digna
pelas contribuições de povos originários, da diáspora pressupõe a ampliação do orçamento da cultura e a
africana, de europeus, dentre outros imigrantes, que edição de editais específicos para as regiões brasi-
vêm somando importantes contribuições. Por outro leiras, em especial para a Região Amazônica e suas
lado, conforme bem cantado por Aldir Blanc, “O Brazil comunidades ribeirinhas e aldeias.
não conhece o Brasil/O Brasil nunca foi ao Brazil (...)”. A Constituição Federal (CF) de 1988 estabelece, em
Isso ocorre em função da ausência de políticas públi- seu Art. 215, que o “Estado garantirá a todos o pleno
cas que construam corredores interculturais entre as exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da
regiões do País, ao invés do atual modelo, que concen- cultura nacional e apoiará e incentivará a valorização
tra as produções em algumas cidades-polo. e a difusão das manifestações culturais”. Para isso,
faz-se necessário que as políticas de lazer cultural
A Amazônia é penalizada com o frágil alcance das polí-
se tornem descentralizadas das grandes capitais e
ticas federais. Um caso exemplar: Belém (PA) sedia um
cidades-polo e sigam ao encontro das populações
dos maiores festivais de ópera da América Latina; con-
do interior, especialmente das aldeias, das comuni-
tudo, tais espetáculos não circulam no interior. A última
dades de rios e das reservas.
apresentação de uma peça de ópera recebida por uma
cidade de médio porte, como Santarém (PA), ocorreu Do mesmo modo, é preciso possibilitar a projeção dos
em 2008. Da mesma forma, os artistas do interior têm artistas do interior nas grandes cidades, promovendo e
dificuldades de acesso a oportunidades de projeção fomentando a criação, a formação, a circulação e a in-
para além do local. É como se a cultura nacional esti- teriorização de atividades e projetos culturais na Ama-
vesse confinada em ilhas e ilhotas isoladas. zônia Legal, objetivando o alcance de comunidades
ribeirinhas, aldeias e reservas extrativistas.
Em 2018, a pesquisa Cultura nas Cidades revelou os há-
bitos de 12 capitais. O resultado destacou as discrepân- Isso significa que é necessário destinar recursos para
cias regionais e socioeconômicas: em Belém (PA), ape- o fomento, a criação, a formação e a valorização de
nas 16% da população frequentou concertos de música. manifestações culturais locais e tradicionais (como
Em saraus, circos, teatros, museus, danças, feiras, festas, folguedos, danças, autos, mestres e personalidades
bibliotecas e shows, a frequência foi inferior a 50%. So- da cultura tradicional) e, ao mesmo tempo, garantir a
mente 8% da população frequentou apenas atividades circulação de atividades culturais no interior de regiões
pagas, ao passo que 45% dependeram da gratuidade. de rios, comunidades e reservas extrativistas.

ODS
ODS 10
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, de forma a
reduzir as desigualdades, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, nacionalidade, reli-
gião, condição econômica ou outra.
• Meta 10.3 – Garantir a igualdade de oportunidades e reduzir as desigualdades de resultados, inclusive por
meio da eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias e da promoção de legislação, políticas e
ações adequadas a este respeito.
ODS 12
• Meta 12.b – Desenvolver e implementar ferramentas para monitorar os impactos do desenvolvimento sus-
tentável para o turismo, acessível a todos, que gera emprego e trabalho digno, melhora a distribuição de
renda e promove a cultura e os produtos locais.

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75
POVOS INDÍGENAS E RIBEIRINHOS, POVOS ROMANI, POVOS
DE COMUNIDADES TRADICIONAIS E MIGRANTES
Formar uma agenda de políticas setoriais e intersetoriais permanentemente voltadas à proteção
e à promoção dos direitos de crianças e adolescentes pertencentes aos Povos Originários e Povos
e Comunidades Tradicionais, Migrantes e outras Minorias.

AÇÕES METAS
• Realizar diagnóstico específico so- 1. Diagnóstico específico sobre a situação das crianças e adolescentes
bre a situação das crianças e ado- pertencentes aos Povos Originários e Povos e Comunidades Tra-
lescentes pertencentes aos Povos dicionais, Migrantes e outras Minorias realizado até dezembro de
Originários e Povos e Comunida- 2024.
des Tradicionais, Migrantes e ou-
2. Plano intersetorial e intergovernamental de prioridade ao atendi-
tras Minorias.
mento de crianças e adolescentes pertencentes aos Povos Originá-
• Estabelecer como prioridade e ar- rios e Povos e Comunidades Tradicionais, Migrantes e outras Mino-
ticular ações específicas das polí- rias elaborado com a participação de todas as esferas envolvidas,
ticas públicas, nos planos setorial incluindo o Sistema de Garantia de Direitos e representantes dos
e intersetorial, para a proteção e PCTs, Migrantes e outras Minorias, elaborado até dezembro de 2025.
promoção dos direitos de crianças
3. Plano intersetorial e intergovernamental de prioridade ao atendi-
e adolescentes pertencentes aos
mento de crianças e adolescentes pertencentes aos Povos Originá-
Povos Originários e Povos e Co-
rios e Povos e Comunidades Tradicionais, Migrantes e outras Mino-
munidades Tradicionais, Migrantes
rias implantado a partir de 2026.
e outras Minorias.

RAZÕES
O Brasil precisa assumir uma agenda de política zes na forma de refugiados, os dados detalhados
permanente de proteção, promoção e defesa dos também são escassos.
direitos das infâncias, das crianças e dos adoles-
O primeiro passo para uma articulação – de políti-
centes pertencentes a povos e comunidades tradi-
cas públicas que levem em conta as peculiaridades
cionais, migrantes e minorias, com a definição de
de cada povo e comunidade e dos migrantes de
medidas e ações específicas que contemplem esse
diversas nacionalidades de origem – é a realização
público nas três esferas de governo.
de um diagnóstico focado nesses grupos, em suas
Oficialmente, são reconhecidos 28 povos e comu- identidades próprias e situações específicas.
nidade tradicionais, com diferentes dimensões,
A partir desse diagnóstico, será possível desenvol-
culturas, línguas, hábitos e histórias (entre eles, para
ver um processo de planejamento intersetorial, a
exemplificar a grande diversidade, estão indígenas,
partir das realidades identificadas, para a constru-
quilombolas, ribeirinhos, ciganos, seringueiros, cai-
ção de políticas capazes de garantir efetivamente
çaras, pantaneiros, extrativistas e pescadores arte-
os direitos e proteger o desenvolvimento de crian-
sanais, dentre outros), sendo que 25% do território
ças e adolescentes desses grupos. As vulnerabilida-
brasileiro pertence a eles.
des que os povos e as comunidades tradicionais, os
No entanto, não existem dados precisos e informa- migrantes e as minorias enfrentam recaem com maior
ções detalhadas sobre a situação de vida, a garantia potencial de dano sobre crianças e adolescentes. Isso
de direitos e o acesso dessa população às políticas exige a imediata adoção de prioridades e de articula-
públicas. No caso dos migrantes, cujo fluxo para o ção governamental, nas três esferas de governo, para a
Brasil tem aumentado nos últimos anos, muitas ve- sua proteção e o seu atendimento.

ODS
ODS 10
• Meta 10.3 – Garantir a igualdade de oportunidades e reduzir as desigualdades de resultados,
inclusive por meio da eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias e da promoção
de legislação, políticas e ações adequadas a este respeito.
ODS 16
• Meta 16.b – Promover e fazer cumprir leis e políticas não discriminatórias e afirmativas.

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POVOS INDÍGENAS E RIBEIRINHOS, POVOS ROMANI, POVOS
DE COMUNIDADES TRADICIONAIS E MIGRANTES
Garantir a crianças e adolescentes de Povos Originários e Povos e Comunidades Tradicionais,
Migrantes e outras Minorias acesso a instâncias públicas e mecanismos jurídicos de proteção legal
dos direitos humanos, com respeito e atenção a suas particularidades e necessidades específicas.

AÇÕES METAS
• Definir (com participação de crianças e adoles- 1. Protocolos culturalmente adequados para o aten-
centes, sociedade civil e Conanda) protocolos dimento de crianças e adolescentes de Povos Ori-
culturalmente adequados para o atendimento ginários e Povos e Comunidades Tradicionais, Mi-
de crianças e adolescentes de Povos Originários grantes e outras Minorias no acesso a instâncias
e Povos e Comunidades Tradicionais, Migrantes públicas e mecanismos jurídicos de proteção legal
e outras Minorias no acesso a instâncias públicas dos direitos humanos definidos até 2024.
e mecanismos jurídicos de proteção legal dos
2. Núcleos no Ministério Público e na Defensoria Pú-
direitos humanos.
blica em todo o País para o atendimento de crian-
• Criar núcleos específicos no Ministério Público ças e adolescentes de Povos Originários e Povos e
e na Defensoria Pública em todo o País para o Comunidades Tradicionais, Migrantes e outras Mi-
atendimento de crianças e adolescentes de Po- norias instalados a partir de 2024.
vos Originários e Povos e Comunidades Tradicio-
3. Equipes especializadas, com conhecimento lin-
nais, Migrantes e outras Minorias.
guísticos e culturais, para os casos de escuta espe-
• Formar equipes especializadas, com conhecimento cializada ou depoimento protegido de crianças e
linguísticos e culturais, para os casos de escuta es- adolescentes de Povos Originários e Povos e Co-
pecializada ou depoimento protegido de crianças e munidades Tradicionais, Migrantes e outras Mino-
adolescentes de Povos Originários e Povos e Comu- rias implantadas até 2024.
nidades Tradicionais, Migrantes e outras Minorias.
4. Programas de educação continuada para agentes
• Capacitar agentes do Sistema de Garantia de Di- do Sistema de Garantia de Direitos para o atendi-
reitos para o atendimento específico de crianças e mento específico de crianças e adolescentes de Po-
adolescentes de Povos Originários e Povos e Comu- vos Originários e Povos e Comunidades Tradicionais,
nidades Tradicionais, Migrantes e outras Minorias. Migrantes e outras Minorias iniciados em 2024.

RAZÕES
As instâncias públicas e mecanismos jurídicos de podem enfrentar barreiras linguísticas e culturais
proteção legal dos direitos humanos fazem parte que resultam potencialmente em revitimização
do Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do ou insegurança de que seus direitos serão plena-
Adolescente (SGD). Incluem, no atendimento dire- mente garantidos.
to, varas judiciais, ministério público, defensoria pú-
blica, polícia civil, polícia militar, ouvidorias e conse- Por essa razão, é preciso estabelecer fluxos e proto-
lhos tutelares. Crianças e adolescentes têm contato colos culturalmente e linguisticamente adequados
ou atendimento por esses órgãos em situações em a essas crianças e adolescentes, para garantir seu
que foram vítimas ou testemunhas de violações de acesso real à justiça e o reconhecimento jurídico,
direitos, quando se atribui a elas algum ato infra- institucional, social e ético.
cional e em outras situações críticas ou opressivas. Os diferentes órgãos e serviços envolvidos devem,
Para crianças e adolescentes de Povos Originários além disso, criar núcleos específicos de atendimen-
e Povos e Comunidades Tradicionais, Migrantes e to, capacitar os profissionais que atendam esses
outras Minorias, esses contatos ou atendimentos grupos e formar equipes especializadas.

ODS
ODS 16
• Meta 16.1 – Reduzir significativamente todas as formas de violência e as taxas de mortalidade relacionadas,
em todos os lugares, inclusive com a redução de 1/3 das taxas de feminicídio e de homicídios de crianças,
adolescentes, jovens, negros, indígenas, mulheres e LGBT.
• Meta 16.2 – Proteger todas as crianças e adolescentes do abuso, exploração, tráfico, tortura e todas as outras
formas de violência.
• Meta 16.3 – Fortalecer o Estado de Direito e garantir acesso à justiça a todos, especialmente aos que se en-
contram em situação de vulnerabilidade.
• Meta 16.7 – Garantir a tomada de decisão responsiva, inclusiva, participativa e representativa em todos os níveis.
• Meta 16.b – Promover e fazer cumprir leis e políticas não discriminatórias e afirmativas.

122
77
POVOS INDÍGENAS E RIBEIRINHOS, POVOS ROMANI, POVOS
DE COMUNIDADES TRADICIONAIS E MIGRANTES
Garantir os direitos territoriais dos Povos Originários e Povos e Comunidades Tradicionais,
Migrantes e outras Minorias.

AÇÕES METAS
• Garantir o direito e a proteção de territó- 1. Direito e proteção de territórios já demarcados para
rios dos Povos Originários e Povos e Co- usufruto exclusivo de Povos Originários e Povos e Co-
munidades Tradicionais já demarcados. munidades Tradicionais garantido, com ações de prote-
ção e fiscalização do poder público, a partir de 2023.
• Demarcar para usufruto exclusivo os terri-
tórios reivindicados por Povos Originários 2. Demarcação para usufruto exclusivo dos territórios rei-
e Povos e Comunidades Tradicionais ainda vindicados por Povos Originários e Povos e Comunidades
não reconhecidos. Tradicionais ainda não reconhecidos efetivada até 2026.

RAZÕES
Efetivar o direito ao território – seja ele composto Nesse processo, é necessário ter ênfase no reco-
por reservas territoriais, rios, mares, mangues e ou- nhecimento, no fortalecimento e na garantia dos
tros – é respeitar o direito primário a vida: o direito direitos territoriais, sociais, ambientais, econômicos
humano de existir. O Decreto nº 6.040/2007, que e culturais, além de respeito à valorização da identi-
instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento dade de tais populações e povos, em especial para
Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais crianças e adolescentes, bem como às suas formas
(PNPCT), tem por objetivo reconhecer formalmente de organização, de ser e de estar.
a existência e as especificidades desses segmen- O reconhecimento das conquistas territoriais pro-
tos populacionais, garantindo os seus direitos ter- tegidas legalmente é urgente e também o pri-
ritoriais, socioeconômicos, ambientais e culturais, meiro passo para garantir a vida das crianças e
sempre respeitando e valorizando suas identidades adolescentes de Povos Originários e Povos e Co-
e instituições. Faz-se necessário efetivar os direitos munidades Tradicionais, Migrantes e Minorias, res-
dos territórios já demarcados, bem como a demar- peitando e garantindo a sua identidade cultural,
cação de terras para usufruto exclusivo dos povos e social, étnica e plural, como sujeitos de direito de
das comunidades tradicionais. suas próprias existências.

ODS
ODS 2
• Meta 2.3 – Até 2030, aumentar a produtividade agrícola e a renda dos pequenos produtores
de alimentos, particularmente de mulheres, agricultores familiares, povos e comunidades
tradicionais, visando tanto à produção de autoconsumo e garantia da reprodução social des-
sas populações quanto ao seu desenvolvimento socioeconômico, por meio do acesso segu-
ro e equitativo: i) à terra e aos territórios tradicionalmente ocupados; ii) à assistência técnica
e extensão rural, respeitando-se as práticas e saberes culturalmente transmitidos; iii) a linhas
de crédito específicas; iv) aos mercados locais e institucionais, inclusive políticas de compra
pública; v) ao estímulo ao associativismo e cooperativismo; e vi) a oportunidades de agrega-
ção de valor e emprego não-agrícola.
ODS 10
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de to-
dos, de forma a reduzir as desigualdades, independentemente da idade, gênero, deficiência,
raça, etnia, nacionalidade, religião, condição econômica ou outra.
• Meta 10.3 – Garantir a igualdade de oportunidades e reduzir as desigualdades de resultados,
inclusive por meio da eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias e da promoção
de legislação, políticas e ações adequadas a este respeito.
ODS 16
• Meta 16.3 – Fortalecer o Estado de Direito e garantir acesso à justiça a todos, especialmente
aos que se encontram em situação de vulnerabilidade.
• Meta 16.b – Promover e fazer cumprir leis e políticas não discriminatórias e afirmativas.

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POVOS INDÍGENAS E RIBEIRINHOS, POVOS ROMANI, POVOS
DE COMUNIDADES TRADICIONAIS E MIGRANTES
Reconhecer e garantir os direitos linguísticos, culturais e sociais no atendimento de crianças
e adolescentes de Povos Originários e Povos e Comunidades Tradicionais, Migrantes e outras
Minorias nos serviços de educação e saúde.

AÇÕES METAS
• Elaborar e implementar orientações técnicas com 1. Protocolos culturalmente adequados para o
base em protocolos culturalmente adequados atendimento de crianças e adolescentes de Po-
para o atendimento de crianças e adolescentes vos Originários e Povos e Comunidades Tradicio-
de Povos Originários e Povos e Comunidades Tra- nais, Migrantes e outras Minorias nos serviços de
dicionais, Migrantes e outras Minorias nos servi- educação e saúde implantados até 2024.
ços de educação e saúde.

RAZÕES
A Convenção sobre os Direitos da Criança, promulga- prática protocolos culturalmente adequados que ga-
da no Brasil pelo Decreto nº 99.710, de 21 de novem- rantam o acesso pleno e sem barreiras dos membros
bro de 1990, articula todos os direitos civis, políticos, de Povos Originários e Povos e Comunidades Tradi-
culturais, sociais e econômicos das crianças: liberda- cionais, Migrantes e outras Minorias, reconhecendo
de de expressão, de pensamento, de consciência e de seus direitos linguísticos, culturais e sociais.
crença, além do direito à educação e à saúde física e
Neste sentido, faz-se mister a garantia de uma
mental. No seu Art. 30, estabelece: “onde existam mi-
educação pautada no pensamento decolonial que
norias étnicas, religiosas ou linguísticas ou pessoas de
busca superar as tradicionais bases epistemoló-
origem indígena, não será negado a uma criança que
gicas eurocêntricas como via de justiça social aos
pertença a tais minorias ou que seja indígena o direito
segmentos que tiveram (e ainda têm) seus saberes
de, em comunidade com os demais membros de seu
negados, invisibilizados, violentados e apagados.
grupo, ter sua própria cultura, professar e praticar sua
Cabe ao Estado mostrar-se comprometido tam-
própria religião ou utilizar seu próprio idioma”.
bém com a democracia epistemológica e a luta an-
Para cumprir esse compromisso fundamental, o País tirracista ao reconhecer a legitimidade dos saberes
precisa criar as condições práticas ao exercício desses que formam o patrimônio de Povos Originários e
direitos dentro das políticas públicas, principalmen- Povos e Comunidades Tradicionais, Migrantes e ou-
te educação e saúde. Os sistemas públicos (da União, tras Minorias e que também dão base à cidadania e
estados e municípios) precisam elaborar e efetivar na à formação cultural cidadã de seus praticantes.

ODS
ODS 3
• Meta 3.8 – Assegurar, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), a cobertura universal de saúde, o acesso
a serviços essenciais de saúde de qualidade em todos os níveis de atenção e o acesso a medicamentos e
vacinas essenciais seguros, eficazes e de qualidade que estejam incorporados ao rol de produtos oferecidos
pelo SUS.
ODS 4
• Meta 4.3 – Até 2030, assegurar a equidade (gênero, raça, renda, território e outros) de acesso e permanência
à educação profissional e à educação superior de qualidade, de forma gratuita ou a preços acessíveis.
• Meta 4.5 – Até 2030, eliminar as desigualdades de gênero e raça na educação e garantir a equidade de aces-
so, permanência e êxito em todos os níveis, etapas e modalidades de ensino para os grupos em situação
de vulnerabilidade, sobretudo as pessoas com deficiência, populações do campo, populações itinerantes,
comunidades indígenas e tradicionais, adolescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas
e população em situação de rua ou em privação de liberdade.
• Meta 4.7 – Até 2030, garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades necessárias para pro-
mover o desenvolvimento sustentável, inclusive, entre outros, por meio da educação para o desenvolvimento
sustentável e estilos de vida sustentáveis, direitos humanos, igualdade de gênero, promoção de uma cultura de
paz e não violência, cidadania global e valorização da diversidade cultural e da contribuição da cultura para o
desenvolvimento sustentável.
ODS 10
• Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, de forma a
reduzir as desigualdades, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, nacionalidade, reli-
gião, condição econômica ou outra.

124
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POVOS INDÍGENAS E RIBEIRINHOS, POVOS ROMANI, POVOS
DE COMUNIDADES TRADICIONAIS E MIGRANTES
Assegurar o acesso dos Povos Originários e Povos e Comunidades Tradicionais, Migrantes e outras
Minorias ao conhecimento e participação no planejamento, gestão e controle de políticas públicas.

AÇÕES METAS
• Garantir o direito à participação e ao controle social 1. Representatividade de Povos Originários e
dos Povos Originários e Povos e Comunidades Tra- Povos e Comunidades Tradicionais, Migran-
dicionais, Migrantes e outras Minorias nos órgãos de tes e outras Minorias em conselhos setoriais
planejamento, gestão e controle das políticas públicas, e de direitos, nas três esferas de governo, ga-
especialmente nos conselhos setoriais e no conselho rantida até 2024.
de direitos, nas três esferas de governo (federal, esta-
2. Campanhas continuadas de informação e
dual e municipal).
formação junto a Povos Originários e Povos
• Realizar campanhas de informação e comunicação e Comunidades Tradicionais, Migrantes e ou-
junto a Povos Originários e Povos e Comunidades Tra- tras Minorias para fortalecer os conhecimen-
dicionais, Migrantes e outras Minorias para fortalecer tos sobre os serviços e os direitos de crianças
os conhecimentos sobre os serviços e os direitos de e adolescentes em linguagem culturalmente
crianças e adolescentes em linguagem culturalmente acessível e, preferencialmente, nas línguas
acessível e, preferencialmente, nas línguas étnicas. étnicas, iniciadas em 2024.

RAZÕES
Propõe-se a implementação de políticas públicas serviços oferecidos, nos níveis Federal, Estadual,
que visem o efetivo fortalecimento das redes de Distrital e Municipal.
proteção à infância e à adolescência nas diversas Faz-se necessário desenvolver processos de infor-
comunidades, promovendo a participação de lide- mação e formação continuada nos territórios de
ranças, organizações, comunidades, famílias, crian- Povos Originários e Povos e Comunidades Tradicio-
ças e adolescentes de Povos Originários e Povos nais para fortalecer seus conhecimentos sobre os
e Comunidades Tradicionais, Migrantes e Minorias serviços e os direitos de crianças e adolescentes em
nos diferentes espaços de planejamento, nos pro- linguagem culturalmente acessível e, preferencial-
cessos de tomada de decisões e na fiscalização dos mente, nas línguas étnicas.

ODS
ODS 5
• Meta 5.5 – Garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunida-
des para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na esfera pública, em suas di-
mensões política e econômica, considerando as intersecções com raça, etnia, idade, deficiên-
cia, orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade,
em especial para as mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.
ODS 16
• Meta 16.7 – Garantir a tomada de decisão responsiva, inclusiva, participativa e representativa
em todos os níveis.

125
80 IGUALDADE DE GÊNERO
Prevenir as violências baseadas em gênero contra meninas e mulheres.

AÇÕES ODS
• Desenvolver, no âmbito das políticas ODS 4
educacionais, programas que incluam • Meta 4.5 – Até 2030, eliminar as desigualdades de gênero
formação de educadores, currículos e o e raça na educação e garantir a equidade de acesso, per-
planejamento pedagógico voltados para manência e êxito em todos os níveis, etapas e modalida-
a formação em equidade de gênero e des de ensino para os grupos em situação de vulnerabili-
educação integral em sexualidade. dade, sobretudo as pessoas com deficiência, populações
do campo, populações itinerantes, comunidades indíge-
• Implementar uma política educacional
nas e tradicionais, adolescentes e jovens em cumprimen-
instituída em nível nacional, participativa,
to de medidas socioeducativas e população em situação
inclusiva com enfoque interseccional para
de rua ou em privação de liberdade.
promover a equidade de gênero e a edu-
cação integral em sexualidade, com orça- ODS 5
mento destinado para a sua realização. • Meta 5.2 – Eliminar todas as formas de violência de gêne-
ro nas esferas pública e privada, destacando a violência
sexual, o tráfico de pessoas e os homicídios, nas suas in-
tersecções com raça, etnia, idade, deficiência, orientação
METAS sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, re-
ligião e nacionalidade, em especial para as mulheres do
1. Programa nacional intersetorial de edu- campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.
cação em equidade de gênero e a edu-
cação integral em sexualidade elabora- • Meta 5.c – Adotar e fortalecer políticas públicas e legisla-
do, com participação social, do Consed, ção que visem à promoção da igualdade de gênero e ao
da Undime e outras entidades represen- empoderamento de todas as mulheres e meninas, bem
tativas, elaborado até 2024. como promover mecanismos para sua efetivação – em
todos os níveis federativos – nas suas intersecções com
2. Programa nacional intersetorial de edu- raça, etnia, idade, deficiência, orientação sexual, identida-
cação em equidade de gênero e a edu- de de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionali-
cação integral em sexualidade implan- dade, em especial para as mulheres do campo, da flores-
tado a partir de 2025. ta, das águas e das periferias urbanas.

RAZÕES
A educação possui enorme potencial de transforma- selho Nacional de Secretários de Educação (Consed)
ção. Por meio dela podemos modificar práticas so- e a União Nacional dos Dirigentes Municipais de
ciais desiguais, sistemas de crenças e formas de dis- Educação (Undime).
criminação de todos os tipos, inclusive de gênero. Por Quando falamos em construção da expressão de
exemplo, papéis e estereótipos de gênero são apren- gênero e raça, entendemos que ela atravessa as re-
didos ainda em casa, de modo que são perpetuados ferências familiares, escolares, comunitárias e sociais
em todo o sistema educacional, no processo de en- de crianças, não apenas por um processo de assimi-
sino e aprendizagem, no tratamento de meninas e lação, mas por representações, gestos e falas contí-
meninos pelos profissionais e nos materiais didáticos. nuas e não lineares no dia a dia desses indivíduos.
Contudo, a escola poderá apoiar uma mudança sus- Assim, entende-se que o currículo escolar, por meio
tentável, não apenas no ambiente escolar, mas na co- das práticas dos/as profissionais que o aplicam,
munidade em seu entorno, se for combinada a ações tem papel importante na construção de noções
participativas direcionadas à igualdade de gênero e sobre gênero e raça. Portanto, precisamos modi-
à manutenção de meninas nas escolas, por meio da ficar os currículos atuais, que ainda se utilizam de
garantia de um espaço seguro para elas e mediante práticas discriminatórias e desiguais, respeitando as
a implementação de projetos político-pedagógicos – diferenças presentes nas instituições de ensino.
inserção de um currículo que contemple a educação
integral em sexualidade, expansão da presença de Com uma educação integral em sexualidade (EIS),
mulheres em papéis de liderança em livros e mate- por exemplo, crianças e adolescentes aprenderão,
riais, além de medidas de resgate e manutenção da segundo sua idade e estágio de desenvolvimento,
presença das meninas nas escolas (Unesco, 2019). questões como: valores, direitos, cultura e sexua-
lidade; gênero; violência e segurança; habilidades
Para que a política possa avançar, o Ministério da para a saúde e o bem-estar. Assim, a EIS propiciará
Educação deve ser o principal responsável por sua aumento do nível de atenção e denúncias de violên-
execução, garantindo também a mobilização e res- cia, desenvolvimento de relacionamentos saudáveis,
ponsabilização das demais lideranças educacionais cuidado com a saúde íntima, prevenção de gravidez
do sistema federativo de ensino, envolvendo o Con- indesejada e prevenção de violência doméstica.

126
81 IGUALDADE DE GÊNERO
Coibir a violência institucional e evitar a revitimização de meninas e mulheres já expostas a
graves violações de direitos.

AÇÕES METAS
• Criar comitês intersetoriais, em todas as esfe- 1. Comitês intersetoriais de articulação entre as redes e
ras de governo, de articulação entre as redes e ações de políticas públicas para a prevenção e enfren-
ações de políticas públicas para a prevenção e tamento à violência de gênero na União, estados e mu-
o enfrentamento da violência de gênero. nicípios implantados até 2024.
• Formular e implementar um programa interse- 2. Programa intersetorial e humanizado de atendimento
torial e humanizado de atendimento a meni- a meninas e mulheres vítimas de violência de gênero
nas e mulheres vítimas de violência de gênero. implantado até 2024.
• Capacitar profissionais que atendem meninas 3. Fluxos de atendimento e encaminhamento de meninas e
e mulheres vítimas de violência de gênero. mulheres vítimas de violência de gênero definidos até 2024.
• Criar fluxos de atendimento e encaminha- 4. Programa nacional permanente de capacitação de pro-
mento de meninas e mulheres vítimas de vio- fissionais que atendem meninas e mulheres vítimas de
lência de gênero. violência de gênero, em parceira com estados e municí-
pios, iniciado em 2025.

RAZÕES
“Violência de gênero” é a expressão utilizada para Destarte, para que os serviços se qualifiquem e rea-
caracterizar o fenômeno criminal que subjuga meni- lizem atendimentos humanizados, a fim de mitigar a
nas e mulheres apenas pelo fato de serem do gêne- violência institucional ainda presente nos atendimen-
ro feminino. É um fenômeno que possui elementos tos para meninas e mulheres em situação de violên-
culturais estruturais que naturalizam essa prática, o cia, é necessária a implementação de uma política
que dificulta a sua identificação e erradicação. Isso intersetorial em âmbito nacional, com previsão de
é potencializado pelo fato de que a violência de gê- recursos que promovam a formação continuada das
nero não é apenas física, mas também moral, psico- equipes e fomentem ações articuladas nos territórios.
lógica e patrimonial, quando não praticadas juntas. Mais de 100 mil meninas sofreram violência sexual so-
Assim, entender a violência contra meninas e mulhe- mente entre março/2020 e dezembro/2021, confor-
res requer, para além da responsabilização do agres- me levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança
sor, uma atuação coletiva de diversos órgãos gover- Pública. O mesmo estudo indica que em 2021 foi re-
namentais e intergovernamentais que, de alguma gistrado 1 estupro a cada 10 minutos e 1 feminicídio a
maneira, estão envolvidos nessa dinâmica multiface- cada 7 horas. Esses dados sustentam o Brasil como um
tada. Isto é, são necessárias articulações entre redes dos países mais violentos para meninas e mulheres.
institucionais e ações intersetoriais para a prevenção É certo que o ciclo de desigualdade e violência ex-
e enfrentamento da violência de gênero. perimentado por meninas e mulheres se sustenta
Para além disso, importante mencionar que a prá- também a partir da desconexão das políticas e dos
tica da intersetorialidade está prevista nas Leis nº serviços públicos essenciais, que não são capazes
11.340/2006, em seu artigo 8º, e na Lei nº13.431/2017, de oferecer medidas de prevenção, educação e en-
em seu artigo 14º. Tal prática promove estratégias frentamento da violência de maneira articulada e
e fluxos de atendimento que preveem a não revi- intersetorial. Abordar a violência de gênero de ma-
timização de meninas e mulheres vítimas de vio- neira intersetorial permitirá a integração dos ser-
lência, também prevista nas Leis nº 13.431/2017 e viços e o enfrentamento da violência de maneira
nº14.321/2022. articulada, efetiva e integral.

ODS
ODS 5
• Meta 5.1 – Eliminar todas as formas de discriminação de gênero, nas suas intersecções com raça, etnia,
idade, deficiência, orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionali-
dade, em especial para as meninas e mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.
• Meta 5.2 – Eliminar todas as formas de violência de gênero nas esferas pública e privada, destacando
a violência sexual, o tráfico de pessoas e os homicídios, nas suas intersecções com raça, etnia, idade,
deficiência, orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade,
em especial para as mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.

127
82 IGUALDADE DE GÊNERO
Promover o uso seguro das redes e a proteção contra as violências, a igualdade de gênero e o
respeito aos direitos humanos a partir do mundo virtual.

AÇÕES METAS
• Instituir programa para o letramento digi- 1. Programa nacional para o letramento digital de crian-
tal de crianças e adolescentes com espe- ças e adolescentes, com participação da política de
cial olhar para a diversidade de gênero e Educação, da sociedade civil e de empresas, com es-
raça e proteção contra as violências. pecial olhar pela diversidade de gênero e raça e prote-
• Implementar ações de formação de edu- ção contra as violências, implantado até 2024.
cadores e para as famílias, com foco no 2. Ações de formação de educadores e para as famílias,
uso seguro das redes. com foco no uso seguro das redes, implantadas até 2024.

RAZÕES
O ambiente on-line é uma realidade na vida de crian- Essa ação deve ser coordenada entre as diversas
ças e adolescentes, com aspectos positivos, mas que pastas governamentais, especialmente o Ministério
afeta suas vidas, especialmente de meninas, com di- da Educação, o Ministério da Ciência, Tecnologia e
versas formas de violência (sexual, bullying, sexting, Inovações e o Ministério da Mulher, da Família e dos
assédio) e também notícias falsas. Por essa razão, é Direitos Humanos, além do envolvimento da socie-
importante que, junto com a ampliação do acesso dade civil, das empresas e das próprias crianças,
à internet de qualidade para crianças, adolescentes dos adolescentes e dos jovens.
e suas famílias, seja instituída uma política para o A pesquisa “Verdades e Mentiras”, publicada em 2021,
bem-estar de crianças e adolescentes no uso da in- pela Plan International, nos mostra que: (I) meninas
ternet e das tecnologias da informação. e jovens mulheres são bombardeadas com mentiras
Esse programa deverá educar para o uso da inter- e estereótipos sobre seus corpos e suas identidades
net e das tecnologias da informação de forma se- e como devem se comportar; (II) imagens e vídeos
gura, promovendo a cidadania digital e a proteção delas são manipulados para objetificá-las e enver-
contra as violências e a desinformação. Para isso, é gonhá-las; (III) boatos são espalhados como forma
importante que educadoras e educadores sejam de abuso; (IV) as meninas têm um medo real de que
capacitados, para que possam abordar essas te- eventos e perfis falsos possam atraí-las e enganá-las,
máticas de forma assertiva e adequada, tendo em levando-as a situações perigosas no mundo físico.
conta os contextos sociais, a diversidade e as ques- A disseminação de informações falsas na internet
tões de gênero e equidade. tem consequências reais, afeta a saúde mental e
O eixo principal dessa estratégia é o letramento di- impede o pleno desenvolvimento. O risco de danos
gital, isto é, o desenvolvimento da capacidade de vem crescendo e aumentou com a pandemia de
compreender o contexto no qual as informações covid-19. As meninas e jovens mulheres se preocu-
dispersas da rede são apresentadas, distinguir as pam com o assunto e querem medidas concretas
informações confiáveis e as falsas, desenvolver a de solução. As meninas não sabem no que acredi-
capacidade crítica e a postura assertiva e autode- tar, em quem confiar e onde encontrar a verdade.
fensiva contra violências, abusos, preconceitos e Pessoas adultas não conversam com elas sobre
discriminações de qualquer ordem. isso. Elas precisam se virar sozinhas.

ODS
ODS 5
• Meta 5.2 – Eliminar todas as formas de violência de gênero nas esferas pública e privada,
destacando a violência sexual, o tráfico de pessoas e os homicídios, nas suas intersecções
com raça, etnia, idade, deficiência, orientação sexual, identidade de gênero, territorialida-
de, cultura, religião e nacionalidade, em especial para as mulheres do campo, da floresta,
das águas e das periferias urbanas.
• Meta 5.c – Adotar e fortalecer políticas públicas e legislação que visem à promoção da
igualdade de gênero e ao empoderamento de todas as mulheres e meninas, bem como
promover mecanismos para sua efetivação – em todos os níveis federativos – nas suas
intersecções com raça, etnia, idade, deficiência, orientação sexual, identidade de gênero,
territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em especial para as mulheres do cam-
po, da floresta, das águas e das periferias urbanas.

128
83 IGUALDADE DE GÊNERO
Reduzir os índices de gravidez precoce e casamento infantil no Brasil e melhorar o atendimento
das meninas já expostas a essas violações.

AÇÕES METAS
• Implementar programas e ações intersetoriais de prevenção à 1. Programa intersetorial de pre-
gravidez precoce, com acompanhamento especializado e inte- venção à gravidez precoce im-
grado das áreas de saúde, educação, assistência social e trabalho. plantado até 2024.
• Implementar programas e ações intersetoriais de prevenção ao 2. Programa intersetorial de pre-
casamento infantil, com acompanhamento especializado e inte- venção ao casamento infantil
grado das áreas de saúde, educação, assistência social e trabalho. implantado até 2024.

RAZÕES
A gravidez na adolescência e o casamento infantil rança da comunidade como um todo) diminuem,
são fenômenos intrinsecamente relacionados que enquanto a vulnerabilidade à pobreza, a doença,
ocorrem em todas as classes e raças. Entretanto, a exploração e a violência aumentam. Entretan-
afetam em sua grande maioria meninas negras e to, quando damos apoio para essas meninas para
indígenas, em situação de vulnerabilidade, sem que elas se mantenham na escola, sua educação
acesso à educação e residentes em zonas rurais e fortalece a economia, reduz a desigualdade e
remotas (UNFPA, 2017; Plan International, 2019). cria mais oportunidades de sucesso para todos
(Unesco, 2020).
Também trazem consequências que impactam
profundamente a vida e o futuro dessas meninas. Em 2020, no mundo todo, a cada mil meninas en-
Entre as principais delas estão o maior risco de eva- tre 15 e 19 anos, 41 se tornaram mães. No Brasil esse
são escolar, de situação de vulnerabilidade socioe- número era de 53 adolescentes grávidas a cada mil
conômica e de violência por parceiro íntimo, além (UNFPA, 2020). Grande parte dessas meninas estão
do risco de exclusão social, aumentando ainda mais em situação de vulnerabilidade, sem condições ade-
o isolamento de redes de apoio e proteção. quadas de saúde, higiene, alimentação e habitação.
(UNFPA, 2017; UNFPA, 2020). Ainda, segundo o IBGE,
Entretanto, quando meninas se casam e/ou engra- 7 em cada 10 meninas grávidas ou com filhos são
vidam precocemente, os impactos disso não são meninas negras, bem como 6 em cada 10 meninas
sentidos apenas por elas, mas também por suas fa- grávidas ou com filhos não trabalham (UNFPA, 2017).
mílias, suas comunidades e suas próximas gerações
(Global Partnership & Banco Mundial, 2018). Em relação ao casamento infantil, o Brasil é o 4º
país do mundo em números de casamentos. Na
Segundo a Unesco, quando meninas abandonam América Latina e no Caribe, nosso país ocupa a 3ª
a escola, principalmente por gravidez na adoles- posição (Plan International, 2019; Unicef, 2016). Se-
cência ou casamento infantil, as perspectivas (de gundo dados do IBGE, em 2019, 21.193 meninas en-
saúde, educação, sociais, econômicas e de lide- tre 0 e 17 anos se casaram no Brasil.

ODS
ODS 3
• Meta 3.7 – Até 2030, assegurar o acesso universal aos serviços e insumos de saúde sexual e reproduti-
va, incluindo o planejamento reprodutivo, à informação e educação, bem como a integração da saúde
reprodutiva em estratégias e programas nacionais.
ODS 5
• Meta 5.3 – Eliminar todas as práticas nocivas, como os casamentos e uniões precoces, forçados e de
crianças e jovens, nas suas intersecções com raça, etnia, idade, deficiência, orientação sexual, iden-
tidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em especial para as mulheres do
campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.
• Meta 5.6 – Promover, proteger e garantir a saúde sexual e reprodutiva, os direitos sexuais e direitos
reprodutivos, em consonância com o Programa de Ação da Conferência Internacional sobre Popula-
ção e Desenvolvimento e com a Plataforma de Ação de Pequim e os documentos resultantes de suas
conferências de revisão, considerando as intersecções de gênero com raça, etnia, idade, deficiência,
orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em espe-
cial para as mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.

129
84 AGENDA LGBTQIA+
Tornar a escola um ambiente seguro e acolhedor para crianças e adolescentes LGBTQI+ e
promover a formação de crianças e adolescentes para o pleno exercício da cidadania dentro do
princípio constitucional da não discriminação.

AÇÕES METAS
• Incluir a diversidade de gênero e sexualidade 1. Diversidade de gênero e sexualidade incluídas
como parte dos conteúdos curriculares de direi- nos conteúdos curriculares da educação básica,
tos humanos, inserindo o tema no § 9º do artigo com inserção do tema na LDB, até 2024.
26 da Lei nº 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases 2. Formação em direitos humanos e inclusão social
da Educação Nacional - LDB). da diversidade de gênero e sexualidade incluída
• Oferecer a formação em direitos humanos e a como tema obrigatório nos currículos universitá-
inclusão social da diversidade de gênero e sexu- rios de licenciatura em todas as áreas e na forma-
alidade para todos(as) os(as) profissionais da edu- ção secundária de magistério até 2024.
cação básica, disponibilizando materiais e meto- 3. Programa de formação continuada de educado-
dologia para os estados e municípios. res e profissionais da educação em direitos hu-
• Inserir os direitos humanos e realizar a inclusão manos e inclusão social da diversidade de gênero
social da diversidade de gênero e sexualidade na e sexualidade, com metodologia e materiais for-
formação universitária e técnica de educadores. mativos, elaborado e disponibilizados para esta-
dos e municípios até 2024.

RAZÕES
O público infanto-juvenil LGBTQI+ sofre graves e sis- Travestis, e Transexuais e Intersexos (ABGLT), em
temáticas violências nas escolas de educação básica conjunto com outras organizações, mostrou que: (I)
e, em grande parte dos casos, são cometidas por pro- 48% de estudantes adolescentes que frequentavam
fissionais que deveriam acolher, proteger e promover o ensino fundamental II e o ensino médio ouviam,
sua aprendizagem e cidadania. A violência sofrida na com frequência, comentários LGBTfóbicos, (II) 73%
escola provoca o que na comunidade LGBTI+ deno- foram agredidos/(as) verbalmente, (III) 27%, fisica-
mina-se como expulsão escolar, consequência da mente, devido à sua orientação sexual, (IV) 68% so-
inexistência de legislação educacional, políticas públi- freram agressões verbais; e (V) 25%, agressões físicas,
cas e de qualificação profissional dos agentes públi- em razão de sua identidade ou expressão de gênero,
por isso, tinham duas vezes mais probabilidade de
cos educacionais, o que torna a escola um ambiente
terem faltado à escola e uma vez e meia mais pro-
perigoso para o público em questão.
babilidade de desenvolverem depressão.
Os direitos humanos e a desconstrução de preconcei-
Pesquisa realizada pela Coordenação Nacional da
tos próprios do senso comum, marcados por imagi-
Área de Proteção e Acolhimento a Crianças, Adoles-
nários sociais e coletivos de exclusão, devem orientar
centes e Famílias LGBTQI+ com apoio da Unersco e
a formação das/os profissionais e da gestão escolar,
UNAIDS, entre outras entidades, e publicado em 2021
bem como embasar os documentos curriculares, o
mostrou entre as pessoas entrevistadas, 77,5% infor-
Projeto Político Pedagógico, a Organização do Trabalho
maram que seus filhos, crianças e adolescentes, entre
Pedagógico e os regimentos internos das instituições
5 e 17 anos, já foram vítimas de bullying transfóbico
escolares. Assim, a escola da educação básica pode se no ambiente escolar. A pesquisa mostra, ainda, que
constituir de fato em um polo social de acolhimento e 24% das famílias mudaram crianças e adolescentes
garantia de direitos da infância e adolescência LGBTQI+. trans de escola em decorrência de bullying transfóbi-
O relatório da Pesquisa Nacional sobre o Ambien- co e que 98% dos pais, das mães ou dos responsáveis
te Educacional, publicado no Brasil, em 2016, pela não consideram o ambiente escolar brasileiro seguro
Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, para suas crianças e seus adolescentes trans.

ODS
ODS 4
• Meta 4.5 – Até 2030, eliminar as desigualdades de gênero e raça na educação e garantir a equidade de aces-
so, permanência e êxito em todos os níveis, etapas e modalidades de ensino para os grupos em situação de
vulnerabilidade, sobretudo as pessoas com deficiência, populações do campo, populações itinerantes, co-
munidades indígenas e tradicionais, adolescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas e
população em situação de rua ou em privação de liberdade.
ODS 5
• Meta 5.1 – Eliminar todas as formas de discriminação de gênero, nas suas intersecções com raça, etnia, idade,
deficiência, orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em
especial para as meninas e mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.

130
85 AGENDA LGBTQIA+
Garantir o cuidado integral e a redução de agravos em saúde física e mental de
adolescentes LGBTQI+.

AÇÕES METAS
• Criar uma Rede de Atenção à Saúde de Adoles- 1. Rede de Atenção à Saúde de Adolescentes LGB-
centes LGBTQI+. TQI+, incluindo redes regionais integradas nos ní-
• Disponibilizar e facilitar o acesso de adolescentes veis primário, secundário e terciário de atenção à
à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) para a prevenção saúde, instituída no SUS até 2024.
do HIV e a oferta de insumos para a proteção con- 2. Estratégia de ampliação de acesso de adoles-
tra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). centes à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) para pre-
• Criar campanhas de educação em saúde sexual venção do HIV e a insumos para proteção de ISTs
que considerem as especificidades da diversida- estabelecida até 2023.
de sexual e de gênero, incluindo o momento da 3. Campanhas periódicas de educação em saúde
revelação da orientação sexual para terceiros e sexual que consideram as especificidades da di-
estratégias de sensibilização de profissionais de versidade sexual e de gênero iniciadas em 2023.
saúde, professores e famílias.

RAZÕES
A população LGBTQI+ apresenta piores indicadores sexuais propõe ações para promover a equidade no
de saúde do que os da população em geral, em es- SUS e ampliar o atendimento à saúde da população
pecial de saúde mental, risco de HIV/IST e autoa- LGBTI+ em todo o ciclo de vida, visando reduzir ris-
gressão. Entre adolescentes, violência intrafamiliar cos em saúde e combater o preconceito.
LGBTIfóbica, o bullying e sofrimento mental são Tais ações precisam ser organizadas e sistematiza-
problemas frequentes que podem ser detectados das na forma de uma rede de atenção específica.
precocemente e abordados no sistema de saúde. No SUS, as redes de atenção constituem arranjos
Além disso, ações de promoção à saúde, articula- organizativos de ações e serviços de saúde, que
das com outros equipamentos sociais, como esco- incluem atenção primária, atenção especializada,
las, podem reduzir as situações de violência, pro- apoio diagnóstico, dentre outros - integradas por
mover a equidade e diminuir a vulnerabilidade. sistemas de apoio técnico, logístico e de gestão,
O documento “Diretrizes Nacionais para a Atenção buscando garantir a integralidade do cuidado.
Integral à Saúde de Adolescentes e Jovens na Pro- Mesmo antes da constituição formal da rede, é pre-
moção, Proteção e Recuperação da Saúde”, do Mi- ciso adotar medidas imediatas para garantir o acesso
nistério da Saúde elenca ações de saúde prioritárias de adolescentes à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) para
voltadas aos adolescentes, destacando: a promo- a prevenção do HIV e a oferta de insumos para a pro-
ção da participação juvenil, da equidade de gêne- teção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
ros, dos direitos sexuais e direitos reprodutivos, dis-
cussões sobre projetos de vida, cultura de paz, ética O esforço de atenção integral requer ainda campa-
e cidadania e igualdade racial e étnica. nhas que abordem as especificidades da diversida-
de sexual e de gênero, voltadas para os profissio-
Da mesma forma, a Política Nacional de Saúde In- nais de saúde e educação, para as famílias e para os
tegral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Tran- próprios adolescentes.

ODS
ODS 3
• Meta 3.3 – Até 2030 acabar, como problema de saúde pública, com as epidemias de AIDS, tuberculose, ma-
lária, hepatites virais, doenças negligenciadas, doenças transmitidas pela água, arboviroses transmitidas pelo
aedes aegypti e outras doenças transmissíveis.
• Meta 3.7 – Até 2030, assegurar o acesso universal aos serviços e insumos de saúde sexual e reprodutiva,
incluindo o planejamento reprodutivo, à informação e educação, bem como a integração da saúde repro-
dutiva em estratégias e programas nacionais.
ODS 5
• Meta 5.6 – Promover, proteger e garantir a saúde sexual e reprodutiva, os direitos sexuais e direitos repro-
dutivos, em consonância com o Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desen-
volvimento e com a Plataforma de Ação de Pequim e os documentos resultantes de suas conferências de
revisão, considerando as intersecções de gênero com raça, etnia, idade, deficiência, orientação sexual, iden-
tidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em especial para as mulheres do campo,
da floresta, das águas e das periferias urbanas.

131
86 AGENDA LGBTQIA+
Criminalizar de forma especial as condutas discriminatórias e preconceituosas contra crianças
e adolescentes LGBTQI+, garantindo efetiva proteção contra toda forma de discriminação,
violência, crueldade e opressão.

AÇÕES METAS
• Tornar crime qualificado as condutas dis- 1. Qualificação dos crimes de motivação homotransfóbica
criminatórias e preconceituosas pratica- praticados contra crianças menores de 12 anos inserida na
das contra crianças LGBTQI+ menores de legislação até 2024.
12 anos, com agravamento nos casos em
2. Agravamento adicional de penas dos crimes de motiva-
que os autores forem ascendentes, pa-
ção homotransfóbica contra crianças menores de 12 anos
drasto, madrasta, tutor, curador, preceptor
quando praticados por ascendente, padrasto, madrasta, tu-
ou quem, de alguma forma, tenha autori-
tor, curador, preceptor ou quem, de alguma forma, tenha
dade sobre a vítima.
autoridade sobre a vítima inserido na legislação até 2024.

RAZÕES
As condutas discriminatórias e preconceituosas de Informação de Agravos de Notificação (SINAN),
contra crianças LGBTQI+ menores de 12 anos, com apontaram que do total de notificações de violência
motivação homotransfóbica, devem ser considera- analisadas contra pessoas LGBTQI+, 24,4% envolviam
das crimes qualificados. Atualmente, por decisão do vítimas adolescentes, sendo que, especificamente no
Supremo Tribunal Federal, que considerou a homo- caso de violência contra lésbicas, 33,5% das vítimas
transfobia uma espécie do gênero racismo, é aplicada tinham idade entre 10 e 14 anos e 31,9% entre 15 e 19
nesses casos a Lei 7.716/1989 (Lei do Racismo). Essa lei, anos de idade, além do fato de que 54,6% das agres-
no entanto, não traz nenhum dispositivo que qualifi- sões (sejam violências físicas, psicológicas ou sexuais)
que o crime (ou seja, o considere mais grave, preven- contra adolescentes aconteceram em casa.
do penas maiores) quando as vítimas são crianças. O homicídio de que foi vítima o adolescente ho-
Além da qualificação do crime, é necessário ainda mossexual Alexandre Ivo motivou a iniciativa de um
prever causa de aumento de pena quando os au- projeto de lei da Câmara dos Deputados para a cri-
tores forem ascendentes, padrasto, madrasta, tutor, minalização da homofobia, que acabou arquivado no
Senado Federal oito anos depois. Também se encon-
curador, preceptor ou quem, de alguma forma, te-
tra sem trâmite legislativo o projeto de lei do Senado
nha autoridade sobre a vítima.
que institui o Estatuto da Diversidade Sexual e de Gê-
O objetivo é garantir efetiva proteção contra toda nero, e prevê expressamente o “crime de homofobia”.
forma de discriminação, violência, crueldade e
Com isso, o Brasil continua descumprindo o com-
opressão (artigo 227 da Constituição Federal). A qua-
promisso assumido na ONU de “rejeitar leis dis-
lificação de tais crimes e os agravamentos de pena
criminatórias, aperfeiçoar respostas à violência
são medidas de extrema importância, ao lado de
motivada pelo ódio, e assegurar proteção jurídica
ações preventivas que também devem ser adotadas.
adequada e apropriada da discriminação em razão
O Brasil tem sido, há anos, o primeiro do ranking nos da orientação sexual e identidade de gênero”. Des-
índices mundiais de mortes violentas de pessoas taca-se, ainda, a desobediência até o momento do
trans (com o equivalente a 33% do total em 2021). Em- comando constitucional de edição de lei que puna
bora haja notória subnotificação, pesquisas realizadas qualquer discriminação atentatória dos direitos e
entre 2015 e 2017, com dados extraídos do Sistema das liberdades fundamentais.

ODS
ODS 5
• Meta 5.1 – Eliminar todas as formas de discriminação de gênero, nas suas intersecções com raça,
etnia, idade, deficiência, orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e
nacionalidade, em especial para as meninas e mulheres do campo, da floresta, das águas e das peri-
ferias urbanas.
• Meta 5.2 – Eliminar todas as formas de violência de gênero nas esferas pública e privada, destacando
a violência sexual, o tráfico de pessoas e os homicídios, nas suas intersecções com raça, etnia, idade,
deficiência, orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade,
em especial para as mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.
ODS 16
• Meta 16.1 – Reduzir significativamente todas as formas de violência e as taxas de mortalidade relacio-
nadas, em todos os lugares, inclusive com a redução de 1/3 das taxas de feminicídio e de homicídios
de crianças, adolescentes, jovens, negros, indígenas, mulheres e LGBT.

132
87 AGENDA LGBTQIA+
Garantir o cuidado integral e a redução de agravos em saúde física e mental de Crianças e
Adolescentes Intersexo, Trans e Travestis.

AÇÕES METAS
• Criar uma Rede de Atenção à Saúde de Crianças e 1. Rede de Atenção à Saúde de Crianças e Ado-
Adolescentes Intersexo, Trans e Travestis, garantin- lescentes Intersexo, Trans e Travestis, incluindo
do a oferta de atendimentos e acompanhamentos redes regionais integradas nos níveis primário,
médicos e psicossociais multidisciplinares ade- secundário e terciário de atenção à saúde, ins-
quados, qualificados e articulados. tituída no SUS até 2024.
• Criar uma regulamentação de abordagens tecni- 2. Regulamentação de abordagens tecnicamente
camente adequadas, com a garantia de respeito adequadas, com garantia de respeito e dignida-
e dignidade para atendimentos em saúde dessas de para atendimentos em saúde dessas crian-
crianças e adolescentes. ças e adotada em 2023.
• Realizar campanhas de conscientização das equi- 3. Campanhas de conscientização das equipes de
pes de saúde e famílias relacionadas ao acolhi- saúde e famílias relacionadas ao acolhimento e
mento e às necessidades específicas dessas crian- necessidades específicas dessas crianças e ado-
ças e adolescentes. lescentes iniciadas em 2023.
• Definir normas para prevenção de procedimentos 4. Normas federais para prevenção de procedi-
inadequados em recém-nascidos ou bebês com ati- mentos inadequados em recém-nascidos ou
pia genital nas unidades do SUS e conveniadas. bebês com atipia genital adotadas em 2023.

RAZÕES
No Brasil, existem apenas cinco serviços voltados ao A estratégia para enfrentar essa situação é a criação
atendimento e acompanhamento de crianças e adoles- de uma Rede de Atenção Integral à Saúde da Crian-
centes trans. A maioria deles está localizada em grandes ça e do Adolescente Trans e Intersexo, estruturada
centros urbanos e hospitais terciários, o que dificulta o no SUS em cada região do Brasil, que define qual o
acesso das famílias mais pobres e periféricas a cuidados papel das Unidades Básicas de Saúde, dos serviços
apropriados. São poucas as equipes de atenção primária especializados e hospitais, e dos serviços de apoio
e especializada, nos serviços públicos e privados, prepa- diagnóstico no cuidado à saúde desses grupos. Isso
radas para abordar questões de diversidade de gênero envolve a criação de protocolos de referência e con-
na puericultura, o que pode levar à reprodução da violên- trarreferência, a oferta de insumos e equipamentos
cia institucional, como o julgamento moral de crianças e apropriados (hormônios, por exemplo), e o treina-
adolescentes trans e intersexo, a exposição a procedi- mento das equipes de saúde.
mentos médicos desnecessários (no caso de crianças in-
Crianças e adolescentes Intersexo, Trans e Travestis
tersexo), a negligência e o atraso de cuidados (no caso de
são as mais vulnerabilizadas e com os piores desfe-
crianças e adolescentes com variabilidade de gênero) e
chos em saúde física e mental. Mas aquelas que são
a abordagem inadequada das famílias e dos cuidadores.
acompanhadas por serviços de saúde adequados de-
No caso de crianças com diversidade do desenvolvimen- monstram melhores condições de saúde e qualidade
to do sexo/intersexo, alguns serviços ainda se baseiam de vida. Adolescentes trans que tenham sua diversi-
em uma abordagem biomédica na qual se realizam ci- dade respeitada e acesso a modificações corporais,
rurgias genitais precoces, embora recomendações inter- quando desejada, têm menores chances de se expor
nacionais postulem que essas deveriam ser evitadas. a situações de risco e menor chances de suicídio.

ODS
ODS 3
• Meta 3.7 – Até 2030, assegurar o acesso universal aos serviços e insumos de saúde sexual e reprodutiva,
incluindo o planejamento reprodutivo, à informação e educação, bem como a integração da saúde repro-
dutiva em estratégias e programas nacionais.
ODS 5
• Meta 5.6 – Promover, proteger e garantir a saúde sexual e reprodutiva, os direitos sexuais e direitos repro-
dutivos, em consonância com o Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desen-
volvimento e com a Plataforma de Ação de Pequim e os documentos resultantes de suas conferências de
revisão, considerando as intersecções de gênero com raça, etnia, idade, deficiência, orientação sexual, iden-
tidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em especial para as mulheres do campo,
da floresta, das águas e das periferias urbanas.

133
88 AGENDA LGBTQIA+
Garantir o atendimento qualificado a crianças e adolescentes LGBTQI+ nos
serviços e nas políticas públicas.

AÇÕES METAS
• Instituir programa de educação permanente para a 1. Programa de educação permanente para atenção
atenção de crianças e adolescentes LGBTQI+ voltado de crianças e adolescentes LGBTI+ voltado a pro-
a profissionais e trabalhadores(as) das redes de saú- fissionais e trabalhadores/as das redes de saúde,
de, educação, assistência social, segurança pública, educação, assistência social, segurança pública, jus-
justiça e direitos humanos. tiça e direitos humanos realizado a partir de 2024.

RAZÕES
Gestores, professores, profissionais de saúde e da Os membros do Sistema de Garantia de Direitos, em
segurança, membros dos conselhos tutelares, pro- especial, são estratégicos para a transformação das
motores de justiça, defensores públicos, juízes de práticas e da organização dos serviços públicos e pre-
Direito, equipes do setor administrativo e de apoio, cisam estar preparados para isso. Os conselheiros tu-
dentre outros, devem estar preparados para aco- telares, por exemplo, devem estar aptos a identificar
lher crianças e adolescentes LGBTQI+, garantindo- situações de LGBTIfobia no ambiente familiar (como
-lhes o respeito à sua orientação sexual, de gênero negligência, violência física e psicológica), bem como
e de corpo. A formação desses agentes deve objeti- reconhecer os casos de violação dos direitos desse
var o combate à LGBTIfobia institucional e permitir grupo nos diferentes serviços públicos (de educação,
que se tornem recursos de informação confiável e saúde, cultura, lazer, assistência social, entre outros) e
realizem uma prática fundamentada nos direitos garantir a proteção para o seu adequado desenvolvi-
humanos e sexuais. mento na infância e na adolescência.
Há recorrentes situações de atendimento a crianças Os profissionais dos diferentes serviços e atendi-
e adolescentes LGBTQI+ em que os direitos relacio- mentos públicos, por sua vez, precisam de formação
nados à diversidade de gênero e sexual são viola- para desenvolver práticas inclusivas e acolhedoras
dos por agentes públicos ou servidores e, quando que considerem a diversidade, a promoção da paz, o
são acionadas instituições que deveriam garan- conhecimento do corpo e a construção de uma so-
ti-los (como o Conselho Tutelar, a Polícia Militar, a ciedade que respeite os direitos sexuais e humanos.
Polícia Civil, a Guarda Civil, a Defensoria Pública, o Uma pesquisa realizada pela Coordenação Nacional
Ministério Público e o Poder Judiciário, bem como da Área de Proteção e Acolhimento a Crianças, Ado-
seus serviços auxiliares), ocorrem novas vitimiza- lescentes e Famílias LGBTQI+, com o apoio da Unesco
ções, com prejuízo à sua proteção integral. e da UNAIDS embora focada exclusivamente na edu-
O ECA prevê, como uma das diretrizes da Políti- cação, dá a dimensão da necessidade de mudanças
ca de Atendimento dos Direitos da Criança e do de práticas e procedimentos. A pesquisa mostrou que
Adolescente, a “especialização e a formação conti- 77,5% das crianças e dos adolescentes entre 5 e 17 anos
nuada de profissionais que trabalham nas diferen- já foram vítimas de bullying transfóbico no ambiente
tes áreas de atenção”, determinando que o poder escolar. Entre os adultos autores das violências, 65%
público promova “a formação continuada e a ca- eram profissionais das instituições de ensino, sendo
pacitação dos profissionais de saúde, educação e 56% professores(as). Outro dado indica que 98% dos
assistência social e dos demais agentes que atuam pais, das mães ou dos responsáveis não consideram o
na promoção, proteção e defesa dos direitos da ambiente escolar brasileiro seguro para suas crianças e
criança e do adolescente”. seus adolescentes trans.

ODS
ODS 3
• Meta 3.c – Aumentar substancialmente o financiamento da saúde e o recrutamento, desenvolvimento,
formação e retenção do pessoal de saúde, especialmente nos territórios mais vulneráveis.
ODS 4
• Meta 4.c – Até 2030, assegurar que todos os professores da educação básica tenham formação específica
na área de conhecimento em que atuam, promovendo a oferta de formação continuada, em regime de
colaboração entre União, estados e municípios, inclusive por meio de cooperação internacional.
ODS 5
• Meta 5.c – Adotar e fortalecer políticas públicas e legislação que visem à promoção da igualdade de gê-
nero e ao empoderamento de todas as mulheres e meninas, bem como promover mecanismos para sua
efetivação – em todos os níveis federativos – nas suas intersecções com raça, etnia, idade, deficiência,
orientação sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em especial
para as mulheres do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.
134
89 AGENDA LGBTQIA+
Universalizar o acesso ao direito ao nome social a todos os (as) estudantes da educação básica
que o reivindicarem.

AÇÕES METAS
• Instalar equipe multidisciplinar no MEC para coor- 1. Equipe multidisciplinar para coordenar a
denar a implantação da garantia ao direito de uso do implementação da Portaria 33 e apoiar Es-
nome social nas escolas brasileiras. tados e municípios criada e instalada pelo
MEC em 2023.
• Mapear a população estudantil da educação básica
que requer o uso do nome social e fazer monito- 2. Pesquisa de diagnóstico e mapeamento
ramento permanente, com inclusão de campo no das requisições, situação e dificuldades
Censo Escolar que indique o uso do nome social. para a implementação da Portaria 33 rea-
lizada em 2023.
• Diagnosticar as principais dificuldades locais para o
cumprimento da Portaria nº 33 do MEC, que garante 3. Mecanismos de orientação e divulgação
o uso do nome social. (campanhas, seminários, orientações téc-
nicas, entre outros) implantados em 2024.
• Realizar ações de divulgação e orientação para es-
colas, dirigentes educacionais e educadores sobre o 4. Canais de denúncia e orientação a respeito
direito de uso do nome social. do uso do nome social nas escolas implan-
tados em 2024.
• Ampliar e divulgar ouvidorias e mecanismos de de-
núncia de violação e de orientação sobre o direito ao 5. Campo indicando uso do nome social no
uso do nome social. Censo Escolar incluído em 2024.

RAZÕES
Conforme Portaria n° 33/2018 do MEC, o/a/e es- vem) que passou a ser perseguida só por reivindicar
tudante pode requisitar a inclusão do nome social o cumprimento da lei.
em seus registros escolares, desde que seja maior
Para que a efetividade da legislação alcance todas
de 18 anos, ou menor de 18 anos com autorização
as crianças e adolescentes travestigêneres que soli-
dos pais, das mães ou dos responsáveis legais. Infe-
lizmente, essa legislação não vem sendo cumprida citarem o nome social, necessário se faz que o MEC
efetivamente para toda a população estudantil tra- adote medidas concretas para o conhecimento do
vestigênere que o reivindica, pois em várias escolas problema e sua solução. Para isso, o MEC deve cons-
públicas e particulares tais crianças e jovens, mes- tituir uma equipe multidisciplinar de profissionais
mo com a anuência dos pais, estão tendo esse di- dotados/as/es de competência técnica e científica
reito negado e ainda sofrem perseguição por edu- para acompanhar e apoiar a aplicação da portaria
cadoras (es) dentro da escola. nos estados e municípios e conduzir uma pesquisa
nacional para mapear a quantidade de pedidos e as
Um caso, emblemático da não aplicação do direito principais dificuldades enfrentadas para o cumpri-
ao nome social ganhou a mídia brasileira nos meses mento da Portaria nº 33.
de maio e junho de 2022, a partir do caso ocorrido
no município de Poções (BA) onde um adolescente A partir dos dados coletados, devem ser adotadas
transgênere de 12 anos de idade, junto a sua mãe e medidas de esclarecimento e difusão do conheci-
responsável reivindicou a inclusão de seu nome so- mento a respeito do direito ao nome social (campa-
cial nos registros escolares e teve o pedido negado nhas, seminários, orientações técnicas, entre outros).
pela escola. O discurso transfóbico de um vereador Junto com isso, é necessário criar ou fortalecer canais
na assembleia legislativa local incitou que popula- específicos para denúncias de descumprimento do
res jogassem pedras na casa da família (mães e jo- direito ao uso do nome social e fornecer orientações.

ODS
ODS 4
• Meta 4.5 – Até 2030, eliminar as desigualdades de gênero e raça na educação e garantir a equidade de aces-
so, permanência e êxito em todos os níveis, etapas e modalidades de ensino para os grupos em situação
de vulnerabilidade, sobretudo as pessoas com deficiência, populações do campo, populações itinerantes,
comunidades indígenas e tradicionais, adolescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas
e população em situação de rua ou em privação de liberdade.
ODS 5
• Meta 5.c – Adotar e fortalecer políticas públicas e legislação que visem à promoção da igualdade de gênero
e ao empoderamento de todas as mulheres e meninas, bem como promover mecanismos para sua efetiva-
ção – em todos os níveis federativos – nas suas intersecções com raça, etnia, idade, deficiência, orientação
sexual, identidade de gênero, territorialidade, cultura, religião e nacionalidade, em especial para as mulheres
do campo, da floresta, das águas e das periferias urbanas.

135
90 PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
Matricular 100% de estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento/
transtornos do espectro do autismo, superdotação/altas habilidades nas escolas e classes
comuns, combatendo a cultura da segregação escolar, abandono e exclusão desses estudantes.

AÇÕES METAS
• Seguir implementando e fortalecendo a Política 1. Matricular 100% dos estudantes com deficiência,
Nacional de Educação Especial na Perspectiva da transtornos globais do desenvolvimento/ trans-
Educação Inclusiva (PNEEPEI/2007) e revogar o tornos do espectro do autismo e superdotação/
Decreto que institui política de educação segre- altas habilidades nas escolas e classes comuns
gada (Decreto 10.502/2020). até 2026.
• Desenvolver plano de busca ativa escolar para es- 2. Revogar em 2023 o Decreto 10.502/2020.
tudantes público-alvo da educação especial que
3. Instituir a Política Nacional de Busca Ativa Escolar
estejam em condição de exclusão ou abandono
com o objetivo de encontrar e matricular os es-
escolar, ensino segregado ou domiciliar.
tudantes público-alvo da Educação Especial que
• Reduzir progressivamente os repasses de recur- estejam em situação de exclusão ou abandono
sos do Fundeb para escolarização em instituições escolar, ensino segregado ou domiciliar até 2024.
privadas, comunitárias, confessionais ou filantró-
4. Incluir na Pesquisa Nacional por Amostra de Do-
picas de educação especial segregada, especial-
micílios Contínua (PNAD-C) a variável deficiência
mente no que diz respeito à primeira matrícula.
no perfil de respondentes até 2025.
• Incluir na Pesquisa Nacional por Amostra de Do-
5. Zerar repasses do Fundeb para escolarização
micílios Contínua (PNAD-C) a variável deficiência
(primeira matrícula) a instituições privadas, co-
no perfil do respondente.
munitárias, confessionais ou filantrópicas de
educação especial segregada até 2026.

RAZÕES
Os dados de matrículas dos estudantes público-al- exclusão escolar. Ademais, a pandemia de covid-19
vo da Educação Especial indicam um avanço pro- os afetou de maneira significativa e desproporcional,
gressivo em relação à inclusão dos estudantes nas gerando perda de aprendizagem e a significativa pio-
classes comuns. Segundo os dados do Censo Esco- ra do cenário de exclusão. Porém, há pouquíssimas
lar (MEC/INEP, 2021), 92% estão nas classes comuns. pesquisas e dados para amparar medidas eficientes
Porém, no ano de 2021, houve pela primeira vez em de políticas públicas baseadas em evidências.
muitos anos aumento também das matrículas em
A futura gestão deverá desempenhar maiores es-
instituições especializadas segregadas.
forços para investir recursos públicos nas escolas
Além dos dados relacionados ao número de matrí- públicas comuns e criar políticas públicas interse-
culas, esse público apresenta altas taxas de evasão e toriais na área.

ODS
ODS 4
• Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de
aprendizagem ao longo da vida para todos.
ODS 10
• Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles.

136
91 PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
Implementar o modelo unificado de avaliação biopsicossocial da deficiência, com base no Índice
de Funcionalidade Brasileiro (IFBr-M), aprovado pelo Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa
com Deficiência (Conade), para que desde a primeiríssima infância se assegure acesso a políticas
públicas e a direitos em igualdade de condições.

AÇÕES METAS
• Reabrir o diálogo com organizações representa- 1. Assegurar o direito de participar da regulamenta-
tivas das pessoas com deficiência, assegurando- ção, implementação e monitoramento do artigo
-lhes o direito de participar dos debates sobre a 2º, §1º da LBI, que trata da avaliação biopsicosso-
regulamentação do artigo 2º, §1º da LBI, que trata cial da deficiência.
da avaliação biopsicossocial da deficiência. 2. Editar, até dezembro de 2023, ato normativo que
• Definir parâmetros equânimes para determina- considere o Índice de Funcionalidade Brasileiro
ção da deficiência como marcador social que via- (IFBr-M) como instrumento adequado de avalia-
bilize o acesso a políticas afirmativas e à efetiva- ção da deficiência, a ser utilizado pelo governo, em
ção de direitos humanos para bebês, crianças e consonância com o art. 2º, §1º da LBI e com a CDPD.
adolescentes com deficiência.
• Cumprir a Resolução nº 1/2020, do Conade, que
aprovou o IFBr-M como instrumento adequado de ODS
avaliação da deficiência a ser utilizado pelo governo.
ODS 10
• Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles.
RAZÕES ODS 16
As avaliações para reconhecimento da condição de • Meta 16.3 – Fortalecer o Estado de Direito e garantir
deficiência no País ainda são, em sua maioria, base- acesso à justiça a todos, especialmente aos que se
adas exclusivamente em diagnósticos de doenças, encontram em situação de vulnerabilidade.
agravos e sequelas de acordo com a Classificação • Meta 16.6 – Ampliar a transparência, a accountability
Internacional de Doenças (CID) da Organização e a efetividade das instituições, em todos os níveis.
Mundial de Saúde (OMS). • Meta 16.10 – Assegurar o acesso público à infor-
mação e proteger as liberdades fundamentais, em
Os processos de avaliação para acesso às diferentes
conformidade com a legislação nacional e os acor-
políticas, serviços e benefícios são heterogêneos, com
dos internacionais.
parâmetros distintos para cada órgão ou serviço. Com
• Meta 16.a – Fortalecer as instituições relevantes, in-
isso, o reconhecimento da deficiência não é uniformi-
clusive por meio da cooperação internacional, para
zado no território nacional, o que gera ambiguidades
a construção de capacidades em todos os níveis,
e pode motivar ações judiciais indevidas.
em particular nos países em desenvolvimento, para
A título ilustrativo, dados da Pesquisa Nacional de a prevenção da violência, do crime e da violação dos
Saúde (PNS/2019) estimam que haja 17,3 milhões de direitos humanos.
pessoas com dois anos ou mais de idade (8,4% dessa
população) com alguma deficiência, dos quais 6,9%
(6,7 milhões) são homens e 9,9% (10,5 milhões) mu-
lheres. Dentre esta população com 2 anos ou mais
de idade, 3,4% (ou 6,9 milhões) têm deficiência visual; da, têm que se deslocar entre diferentes equipamen-
1,1% (ou 2,3 milhões) têm deficiência auditiva; 1,2% (ou tos públicos, em diversas esferas governamentais
2,5 milhões) têm deficiência intelectual; cerca de 3,8% (federal, estadual, distrital e municipal) para que te-
(7,8 milhões) têm deficiência física nos membros in- nham reconhecida a condição de deficiência. A atu-
feriores e 2,7% (5,5 milhões) nos membros superiores. al forma de avaliação e certificação da condição de
deficiência é pouco eficiente, gera exclusão, perda de
A PNS/2019 ainda aponta que cerca de 67,6% das
direitos além de retrabalho e desperdício de recursos
pessoas com deficiência não têm instrução ou têm
de toda ordem. As rotinas e procedimentos que lhe
ensino fundamental incompleto, percentual este
são inerentes se mostram heterogêneos e pouco efi-
que é de 30,9% para pessoas sem nenhuma das
cazes, sendo ainda ultrapassados e não condizentes
deficiências investigadas. A depender dos critérios
com a legislação atual. Ter um Sistema Unificado de
utilizados na avaliação da condição da deficiência,
Avaliação da Deficiência, que tenha como parâmetro
referidos números podem sofrer variações, impac-
o conceito de deficiência trazido pela Convenção da
tando, portanto, no público potencialmente bene-
ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência,
ficiário de políticas públicas inclusivas desde a pri-
permitirá que pessoas com deficiência possam se
meira infância.
valer de políticas públicas e usufruir de seus direitos,
Hoje, pessoas com deficiência, muitas delas com di- sem o ônus que hoje carregam para comprovar coti-
ficuldades de locomoção ou com mobilidade reduzi- diana e reiteradamente sua condição.

137
92 PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
Fortalecer e ampliar o Programa BPC na Escola, garantindo acesso e permanência de bebês,
crianças e adolescentes com deficiência até 18 anos na escola inclusiva, por meio de ações
intersetoriais com a participação da União, estados, municípios e do Distrito Federal.

AÇÕES ODS
• Reunir representantes dos diversos ministérios para ODS 1
ampliação do diálogo e definição das políticas e • Meta 1.1 – Até 2030, erradicar a pobreza extre-
ações intersetoriais necessárias, envolvendo a União, ma para todas as pessoas em todos os lugares,
estados, municípios e o Distrito Federal, para o forta- medida como pessoas vivendo com menos de
lecimento do Programa BPC na Escola. PPC$3,20 per capita por dia.
• Fomentar a criação de mecanismos de monitora- • Meta 1.3 – Assegurar para todos, em nível nacio-
mento do acesso de bebês, crianças e adolescen- nal, até 2030, o acesso ao sistema de proteção so-
tes com deficiência à educação. cial, garantindo a cobertura integral dos pobres e
das pessoas em situação de vulnerabilidade.
• Ampliar o acesso de famílias que tenham pessoas • Meta 1.a – Garantir recursos para implementar
com deficiência e idosas ao Benefício de Prestação programas e políticas para erradicar a pobreza
Continuada (BPC), a partir do restabelecimento de extrema e combater a pobreza.
renda familiar per capita de até ½ salário-mínimo
ODS 3
como critério para a concessão do benefício.
• Meta 3.1 – Até 2030, reduzir a razão de mortali-
• Garantir que o BPC se mantenha vinculado ao sa- dade materna para no máximo 30 mortes por
lário-mínimo. 100.000 nascidos vivos.
• Meta 3.2 – Até 2030, enfrentar as mortes evitáveis
• Fomentar o monitoramento e a criação de me-
de recém-nascidos e crianças menores de 5 anos,
canismos de melhoria do acesso à educação de
objetivando reduzir a mortalidade neonatal para
bebês, crianças e adolescentes com deficiência
no máximo 5 por mil nascidos vivos e a mortali-
para beneficiários do BPC.
dade de crianças menores de 5 anos para no má-
ximo 8 por mil nascidos vivos.
ODS 10
METAS • Meta 10.2 – Até 2030, empoderar e promover a
inclusão social, econômica e política de todos, de
1. Critério de concessão do BPC elevado para renda forma a reduzir as desigualdades, independente-
familiar per capita de ½ salário mínimo em 2023. mente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, na-
cionalidade, religião, condição econômica ou outra.

RAZÕES
O Programa BPC na Escola busca assegurar o aces- No caso específico de pessoas com deficiência, a
so e a permanência na escola de crianças e adoles- baixa renda é agravada pelo capacitismo e pelas
centes até 18 anos com deficiência, que recebem o barreiras que impedem sua participação social
Benefício de Prestação Continuada (BPC). Trata-se, de modo pleno, em igualdade de condições com
portanto, de programa de transferência de renda de as demais pessoas. O atual teto para a concessão
natureza intersetorial, já que tem como objetivo pri- do benefício exclui, por exemplo, famílias com três
mordial assegurar o acesso à educação a crianças e pessoas em que apenas uma trabalhe e seja re-
adolescentes em situação de maior vulnerabilidade munerada pelo salário mínimo, já que neste caso a
social. Fortalecer esse programa contribuirá para a renda familiar per capita seria de R$ 404 (um terço
ampliação do número de bebês, crianças e adoles- do salário mínimo), ou seja, fora dos limites da con-
centes com deficiência ao acesso à educação. cessão do BPC.
Por outro lado, o Benefício da Prestação Conti- Houve tentativas do Congresso Nacional de ampliar o
nuada (BPC), prestação de natureza assistencial, limite de renda familiar para acesso ao BPC para até
assegura à pessoa idosa ou com deficiência reco- 1/2 salário mínimo (R$ 606) per capita, que foram ob-
nhecida como incapaz para prover seu sustento, o jeto de veto presidencial ou acabaram judicializadas.
direito de receber um salário mínimo por mês. Pelo
critério atual, o BPC só é concedido quando a renda Entre decisões do STF e vetos presidenciais, foram
familiar per capita é inferior a ¼ do salário mínimo maiores os prejuízos aos direitos das pessoas com
(R$ 303,00). Ocorre que esse critério tem causado deficiência e pessoas idosas: até 2020, o limite de
a exclusão de milhares de pessoas que necessitam renda era igual ou inferior a ¼ do salário mínimo.
do benefício para sobreviver, e estão com suas con- Atualmente, o critério adotado tem sido exclusiva-
dições de vida ameaçadas. mente o valor inferior ao limite.

138
93 PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
Financiar a criação e implementação de planos de comunicação acessível e inclusiva nas
escolas das redes públicas, nos espaços coletivos de cultura e lazer, e em todas as instituições
públicas que integram a rede de proteção da infância e adolescência, com o propósito de
garantir a acessibilidade arquitetônica, comunicacional e tecnológica, conforme a Lei Brasileira
de Inclusão (Lei 13.146/2015).

AÇÕES
• Criar e monitorar planos de comunicação aces- demandas para redimensionar e fortalecer as
sível e inclusiva em 100% das escolas de redes políticas públicas inclusivas até 2026.
públicas de ensino, dos espaços coletivos de
• Instituir e monitorar políticas públicas que re-
cultura e lazer, e em todas as instituições pú-
gulamentem a obrigatoriedade de criação de
blicas que integram a rede de proteção da in-
Planos Municipais, Estaduais e Federal Inclu-
fância e adolescência, ampliando o acesso, a
sivos da Primeira Infância, com a definição de
participação, a convivência e a permanência,
indicadores de acessibilidade física, comuni-
com equiparação de oportunidades de bebês,
cacional e tecnológica, desde 2023.
crianças e adolescentes, com e sem deficiên-
cia, e suas famílias em qualquer espaço comu- • Incluir no Plano Nacional de Tecnologia Assistiva
nitário e social, seguindo os princípios da LBI estratégias que viabilizem a plena e diversifica-
e da Convenção sobre os Direitos das Pessoas da oferta de recursos de acessibilidade comu-
com Deficiência da ONU. nicacional para bebês, crianças e adolescentes
com deficiência, seguindo os princípios da Lei
• Inserir na PNAD-C e no Censo Populacional
Brasileira de Inclusão (LBI) e da Convenção so-
Demográfico (IBGE) a coleta de informações
bre os Direitos das Pessoas com Deficiência da
sobre a oferta e a necessidade de recursos de
ONU, em 2023.
acessibilidade comunicacional, tecnológica e
arquitetônica para bebês, crianças e adoles- • Adotar o princípio de que toda política pública
centes com deficiência, considerando as variá- para a infância e a adolescência deve ser inclu-
veis de renda, raça, gênero e territórios vulne- siva e, portanto, contemplar necessariamente
rabilizados até 2024. a relação entre pobreza, deficiência, raça e de-
mais marcadores sociais da diferença, assegu-
• Garantir a prioridade absoluta nas políticas
rando orçamento adequado para prover toda
e orçamentos públicos, de bebês, crianças e
a acessibilidade necessária na garantia de di-
adolescentes com deficiência e suas famílias, a
reitos humanos e fundamentais, desde 2023.
partir dos resultados da PNAD-C, identificando

RAZÕES
A infância e a adolescência com deficiência ainda se acessibilidade não há vida digna e, portanto, não há
constituem entre os principais alvos da violação de participação e futuro para quaisquer bebês, crian-
direitos humanos e fundamentais, uma vez que aten- ças, adolescentes e suas famílias, segundo prevê a
der às suas necessidades específicas e urgentes de Convenção sobre os Direitos das Pessoas com De-
comunicação, mobilidade e participação no mundo ficiência da ONU, ratificada com valor de Constitui-
presencial e virtual ainda é considerado um custo op- ção no Brasil, e a Lei Brasileira de Inclusão.
cional e adiável, e não um investimento indispensável Nessa direção, o Relatório Global sobre Tecnologia
para a sustentabilidade das sociedades democráticas. Assistiva da OMS, publicado em 16 de maio de 2022,
Pessoas com deficiência compõem a maior minoria solicita ao mundo urgência na oferta de acessibili-
do planeta. Trata-se de um contingente de aproxi- dade por meio de recursos de tecnologia assistiva
madamente 240 milhões de crianças, diz a OMS, a - que abrem as portas da educação, do desenvol-
maioria vivendo na pobreza - ou empobrecendo vimento pleno e da proteção integral para crianças
- nos países em desenvolvimento, como o Brasil, com deficiência.
complementa a ONU. Sendo assim, é inequívoca É nessa direção que a Agenda 227 atua, defenden-
a relação entre pobreza, deficiência, raça e demais do a criação de políticas públicas acessíveis e inclu-
marcadores sociais da diferença no Brasil - que co- sivas, elaboradas, orçadas e implementadas a partir
meça antes do nascimento, com a dificuldade de das diferenças e da busca de soluções sistêmicas
acesso a serviços públicos de pré-natal. para combater as desigualdades.
A ampla e diversificada oferta cotidiana de acessibi- Não se sabe ao certo quantos são os bebês, crian-
lidades física, comunicacional e tecnológica consti- ças e adolescentes com deficiência no Brasil. Mas
tui premissa para garantia dos demais direitos. Sem é certo que, em sua maioria, moram em regiões

139
periféricas urbanas e rurais sem acesso a recursos cência que vivem com qualquer deficiência, mo-
de tecnologia assistiva para se movimentar e se ali- bilidade reduzida e transtornos globais do desen-
mentar com autonomia e independência, nem se volvimento e transtornos do espectro do autismo.
expressar com liberdade e segurança. Em função Para isso, é preciso investir em pesquisa, inovação e
da baixa renda, suas casas têm baixa conectividade ampliação, nos ambientes presenciais e digitais, da
e a família não possui celulares de tecnologia mais oferta de recursos de acessibilidade, por meio de
avançada ou com acessibilidade que lhes permi- recursos de tecnologia assistiva nas áreas da comu-
tam obter informações sobre o acesso a serviços nicação e da mobilidade e manter, de forma conco-
de saúde, à comunicação, à educação, ao lazer, à mitante, o constante aprimoramento do Plano Na-
proteção contra violências domésticas e sexuais. cional de Tecnologia Assistiva, principalmente no
Assim, crianças ou adolescentes com deficiência, e que se refere à autonomia de expressão e acesso à
suas famílias, perdem o direito de denunciar suas informação.
dores publicamente.
Não existe sustentabilidade sem inclusão. Não exis-
A Constituição prevê que as políticas públicas se- te inclusão sem acessibilidade. Não existe susten-
jam inclusivas e amparadas por orçamentos públi- tabilidade sem acessibilidade. Sem acessibilidade
cos igualmente inclusivos, capazes de atender às as pessoas morrem e quem sobrevive o faz numa
necessidades específicas da infância e da adoles- sociedade mais pobre, estigmatizante e violenta.

ODS
ODS 4
• Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de apren-
dizagem ao longo da vida para todos
ODS 10
• Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles

94
Proporcionar a convivência e a interação entre bebês, crianças e adolescentes com e sem
deficiência em diferentes grupos de idade, garantindo o direito ao brincar, à cultura e ao lazer

AÇÕES
• Garantir que bebês, crianças e adolescentes com defi- todos os bebês, crianças e adolescentes e o seu de-
ciência sejam público prioritário em todas as políticas, senvolvimento integral.
programas e projetos que tratem do direito ao brincar,
• Incluir nas compras públicas dos diferentes níveis e
à cultura e ao lazer, de forma transversal, priorizando a esferas de governo a obrigatoriedade de aquisição
intersetorialidade e interseccionalidade. de brinquedos, materiais, livros, jogos e equipamen-
• Desenvolver e implementar uma política de in- tos diversificados e acessíveis em múltiplos formatos.
centivo aos estados e municípios para a criação e • Criar campanhas de comunicação e conscientização
manutenção de parques, praças e outros espaços acessíveis sobre a importância do direito ao brincar,
e dispositivos públicos acessíveis do ponto de vista à cultura e ao lazer para os bebês, crianças e adoles-
físico, tecnológico e comunicacional, que possibili- centes com deficiência, que explicitem e valorizem
tem o desenvolvimento e aprendizagens diversifi- as diferentes formas de habitar o mundo.
cadas e significativas.
• Estabelecer diretrizes para inserção e monitoramento,
• Fomentar, incentivar e destinar orçamento para nas grades curriculares de cursos de graduação, espe-
pesquisas, estudos, criação e desenvolvimento de cialização, na pesquisa e na formação continuada de
parques, equipamentos, brinquedos, jogos, livros e profissionais de áreas conexas com a proposta, da te-
materiais em múltiplos formatos, acessíveis e inclu- mática da importância do direito ao brincar, à cultura
sivos, para garantir a convivência e interação entre e ao lazer, em uma perspectiva acessível e inclusiva.

140
PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

METAS
1. Instituir programa de incentivo e apoio a es- 3. Realizar campanhas nacionais periódicas e
tados e municípios para a criação e manu- acessíveis sobre a importância do direito ao
tenção de parques, praças e outros espaços brincar para os bebês, crianças e adolescentes
e dispositivos públicos acessíveis do ponto com deficiência, TEA/TGD e altas habilidades/
de vista físico, tecnológico e comunicacional, superdotação, em uma perspectiva inclusiva,
que possibilitem o efetivo desenvolvimento iniciadas em 2023.
e aprendizagens diversificadas e significativas,
4. Criar diretrizes para a inserção das pautas
até 2024.
do direito ao brincar, à cultura e ao lazer, em
2. Implementar exigência para que as compras perspectiva inclusiva, para bebês, crianças e
públicas (em todos os níveis de governo e adolescentes com deficiência, TEA/TGD e al-
setores), tenham no mínimo 20% de brin- tas habilidades/superdotação nos currículos
quedos, materiais, livros, jogos e equipa- de graduação, pós-graduação, pesquisa e for-
mentos acessíveis em múltiplos formatos, mação continuada em educação, artes e hu-
até 2023. manidades estabelecidas até 2025.

RAZÕES
O brincar é a linguagem e a expressão por meio das interações, à imaginação, ao simbólico, e outras
quais as infâncias se constituem. Através das dife- questões pertinentes à integralidade da existên-
rentes formas de brincar e jogar, bebês, crianças e cia em cada etapa da vida.
adolescentes se relacionam consigo, com seus pa-
Ainda é muito corrente compreender os bebês,
res e com outros sujeitos, com o contexto em que
crianças e adolescentes com deficiência como se-
estão inseridos e com o mundo.
res frágeis, colocando o foco da atenção, das políti-
Este direito fundamental, muitas vezes, é simbó- cas e dos programas em suas incapacidades e limi-
lica e objetivamente, negado aos bebês, crianças tações, impedindo e dificultando, desta maneira, o
e adolescentes com deficiência, TGD/TEA e al- seu pleno desenvolvimento. No entanto, é inegável
tas habilidades/superdotação. Suas vidas e seus que todos os bebês, crianças e adolescentes, com e
corpos são sistematicamente analisados sob as sem deficiência, aprendem nas e com as diferentes
perspectivas biomédicas, de habilitação, rea- situações da vida e nas interações. Portanto, é fun-
bilitação, terapias, entre outras; aspectos que, damental garantir o acesso e a promoção do direito
embora fundamentais, não deveriam sobrepor, ao brincar, aos jogos e à brincadeira, por meio das
substituir ou suprimir os direitos ao brincar, à diferentes linguagens, que favoreçam o acolhimen-
cultura, ao lazer, à ludicidade, à sociabilidade, às to, a convivência e a interação.

ODS
ODS 4
• Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de
aprendizagem ao longo da vida para todos.
ODS 8
• Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e
produtivo, e trabalho decente para todos.
ODS 10
• Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles.
ODS 11
• Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.
ODS 16
• Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcio-
nar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas
em todos os níveis.

141
95 POBREZA, FOME E DESIGUALDADES
Promover a segurança alimentar e nutricional de crianças e adolescentes, garantir a elas o Direito
Humano à Alimentação Adequada e reduzir o impacto da fome nas famílias mais empobrecidas,
com atenção especial às desigualdades regionais e por cor ou raça.

AÇÕES METAS
• Declarar em janeiro de 2023 o combate 1. Fome erradicada até 2026.
à fome como prioridade nacional, im-
2. Combate à fome declarado como prioridade nacional em ja-
plementando medidas de emergência
neiro de 2023, com medidas de emergência que envolvam to-
que envolvam todos os ministérios.
dos os ministérios implementadas.
• Criar sala de situação no Palácio do Pla-
3. Sisan e seus órgãos federais (Consea e Caisan) reestabeleci-
nalto para monitorar a implementação
dos em janeiro de 2023.
das medidas.
4. 6ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricio-
• Reestabelecer, com status de secretaria
nal convocada em 2023.
nacional, a área de segurança alimentar
e nutricional no Ministério da Cidadania 5. Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional para o
ou em órgão equivalente. período 2023-2026 elaborada e implementada.
• Restabelecer e fortalecer o Sistema Nacio-
nal de Segurança Alimentar e Nutricional
ODS
(Sisan), contemplando toda a estrutura pre-
vista na Lei Orgânica de Segurança Alimen- ODS 2
tar e Nutricional (Losan), Lei nº 11.346/2006 • Meta 2.1 – Até 2030, erradicar a fome e garantir o acesso de todas
• Garantir a representatividade de par- as pessoas, em particular os pobres e pessoas em situações vul-
ticipação de 2/3 de representantes de neráveis, incluindo crianças e idosos, a alimentos seguros, cultu-
sociedade civil no Consea, com a parti- ralmente adequados, saudáveis e suficientes durante todo o ano.
cipação de populações quilombolas, ri- • Meta 2.2 – Até 2030, erradicar as formas de má-nutrição rela-
beirinhas e indígenas. cionadas à desnutrição, reduzir as formas de má-nutrição rela-
cionadas ao sobrepeso ou à obesidade, prevendo o alcance até
• Convocar a 6ª Conferência Nacional de
2025 das metas acordadas internacionalmente sobre desnutri-
Segurança Alimentar e Nutricional.
ção crônica e desnutrição aguda em crianças menores de cinco
• Elaborar e implementar a Política Nacio- anos de idade, e garantir a segurança alimentar e nutricional de
nal de Segurança Alimentar e Nutricional meninas adolescentes, mulheres grávidas e lactantes, pessoas
2023-2026. idosas e povos e comunidades tradicionais.

RAZÕES
Houve intensa aceleração da fome no Brasil entre 2018 Uma causa relevante do significativo aumento da
a 2022, segundo pesquisa da Rede Penssan: em qua- fome no Brasil está fortemente relacionada ao
tro anos, o número de pessoas em situação de fome desmonte da institucionalidade federal da segu-
(insegurança alimentar grave) mais do que triplicou, de rança alimentar e nutricional operado pelas ges-
10,3 milhões para 33,1 milhões. Somadas as situações tões de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL),
leve e moderada, quase 60% da população vivem com associado a uma política fiscal contracionista im-
algum grau de insegurança. plementada desde 2016 por meio, especialmente,
do teto de gastos.
Segundo o documento, a fome “está presente em
43,0% das famílias com renda per capita de até 1/4 O abandono de uma atuação intersetorial e sistê-
do salário mínimo, e atinge mais as famílias que mica, assim como a extinção das instâncias de par-
têm mulheres como responsáveis e/ou aquelas em ticipação social, impediu a identificação dos prin-
que a pessoa de referência (chefe) se denomina de cipais problemas alimentares e das demandas da
cor preta ou parda”. A situação é mais crítica quando sociedade. De igual modo, enfraquecimento dos
envolve crianças e adolescentes: 25,7% das famílias mecanismos de regulação do mercado dificultou o
com três ou mais pessoas abaixo de 18 anos estão controle da inflação, particularmente a alta de pre-
em situação de fome, índice que cai para 13,5% em ços dos alimentos. Além disso, desarticulação das
famílias apenas com adultos. estratégias de fortalecimento da agricultura fami-
liar, principal responsável pela alimentação básica
As causas que explicam a deterioração do quadro da população brasileira, contribuiu para a inflação
alimentar e nutricional no Brasil são muitas. Temos dos preços dos alimentos e para a carestia. Por fim,
um modelo agroalimentar que, infelizmente, pou- os programas de aquisição e de distribuição de ali-
co valoriza a agricultura familiar, principal responsá- mentos, como o Programa das Cisternas, o Progra-
vel por nossa alimentação básica. As energias estão ma de Alimentação Escolar e o Programa Nacional
direcionadas para a agropecuária de grande porte, de Aquisição de Alimentos foram enfraquecidos,
voltada à exportação. portanto, pouco mitigaram o problema da fome.

142
96 POBREZA, FOME E DESIGUALDADES
Combater a fome e a pobreza e reduzir as desigualdades, principalmente raciais e de gênero, na
infância e na adolescência.

AÇÕES METAS
• Implementar um programa de transferência de renda 1. Programa de transferência de renda não con-
que tome o Cadastro Único como base de referência e dicionada que beneficie todas as famílias po-
tenha como horizonte a implementação da Renda Bási- bres do Brasil implantado em 2023.
ca de Cidadania, conforme dispõe a Lei nº 10.835/2004.
2. Adicional de 20% para mães negras pobres
• Implementar em 2023 um programa de transferên- em família monoparental nos programas de
cia de renda não condicionada que beneficie todas transferência de renda implantado em 2023.
as famílias pobres do Brasil, incluindo benefícios
3. Renda Básica de Cidadania implementada até
para crianças e adolescentes.
2026.
• Outorgar benefício 20% maior para mães negras po-
bres em família monoparental.
ODS
RAZÕES ODS 1
É necessário reconhecer e fortalecer o sistema de pro- • Meta 1.3 – Assegurar para todos, em nível nacio-
teção social construído desde o processo constituin- nal, até 2030, o acesso ao sistema de proteção so-
te de 1988. Sistemas e políticas públicas foram cria- cial, garantindo a cobertura integral dos pobres e
dos, e mesmo com limites, possibilitaram avanços na das pessoas em situação de vulnerabilidade.
construção de uma sociedade mais igualitária e justa. • Meta 1.a – Garantir recursos para implementar
Citamos o SUS, SUAS, universalização da educação, programas e políticas para erradicar a pobreza
políticas de fortalecimento da agricultura familiar, da extrema e combater a pobreza.
segurança alimentar e nutricional e de enfrentamento ODS 2
à fome, além do próprio Programa Bolsa Família. • Meta 2.1 – Até 2030, erradicar a fome e garan-
Não é aceitável que a Renda Básica de Cidadania seja tir o acesso de todas as pessoas, em particular
implementada em detrimento de direitos já con- os pobres e pessoas em situações vulneráveis,
quistados pela sociedade brasileira. Essa renda é um incluindo crianças e idosos, a alimentos segu-
instrumento que não apenas tem o potencial de re- ros, culturalmente adequados, saudáveis e su-
duzir as desigualdades e garantir direitos básicos, mas ficientes durante todo o ano.
também possibilitar, por seus meios de financiamen-
to, uma mudança no desequilíbrio histórico da carga
tributária no Brasil, onde proporcionalmente os mais
balho infantil, vivência de rua, violência, exploração
pobres pagam mais tributos do que os mais ricos.
e abuso. No Brasil a incidência da pobreza é signi-
Neste sentido, é necessário pensá-la como instru-
ficativamente mais alta entre crianças em compa-
mento, também, de desenvolvimento e democratiza-
ração aos outros grupos populacionais. Conforme
ção econômica, possibilitando o seu pagamento por
apontam os dados da PNAD de 2019 e 2020, consi-
meio de mecanismos das finanças solidárias, como
derando a pobreza monetária, a proporção de po-
bancos comunitários que utilizam a moeda social.
bres entre os menores até 14 anos em 2020 era de
A elaboração e a implementação de qualquer políti- 38,6%. Em termos absolutos, em 2020, 8 milhões de
ca no Brasil precisa considerar as estruturas respon- crianças e adolescentes de até 14 anos se encontra-
sáveis pelas desigualdades e violências existentes, vam em situação de pobreza extrema, e 17 milhões
como o racismo e o patriarcado. Por isso, é de suma em situação de pobreza. E a situação se agrava entre
importância a meta de que o valor da transferência crianças indígenas e negras: quase o dobro.
de renda seja maior para as mulheres negras que se-
Das poucas ações que ainda significavam investimen-
jam mães solo, para gerar equidade na nossa socie-
tos de assistência a crianças e adolescentes em 2021
dade, que tem na base da sua pirâmide uma maioria
redução de mais de 30 ações em 2012 para apenas 3
de mulheres negras, que, injustamente, são aquelas
em 2021, as que restam são 28,1% menores do que as
que pagam mais impostos proporcionalmente.
de 2019. Dos R$ 382,2 milhões executados, R$ 363,4
O CadÚnico, do Governo Federal, que traz um con- milhões (o que corresponde a 95%) são referentes ao
junto de informações socioeconômicas sobre as programa Criança Feliz que, mesmo sendo o programa
famílias brasileiras em situação de pobreza, mos- de referência para o governo, teve perda de recursos
trava, já em 2017, que - do total de 70 milhões de de mais de R$ 43 milhões de 2020 para 2021. Mesmo
pessoas cadastradas - cerca de 40% eram crianças e com todos os problemas que caracterizam o Criança
adolescentes. A pobreza aumenta a vulnerabilidade Feliz, a diminuição de seu orçamento demonstra o
de crianças ao ampliar sua exposição a situações de descaso do Governo Federal em relação à proteção de
risco, como: restrição alimentar, evasão escolar, tra- crianças e adolescentes empobrecidos no Brasil.

143
97 POBREZA, FOME E DESIGUALDADES
Reduzir a pobreza e as desigualdades entre crianças e adolescentes por meio da qualificação
profissional e da empregabilidade de seus responsáveis legais.

AÇÕES METAS
• Fortalecer e implementar políticas de 1. Programa de Qualificação Profissional e Empregabilidade
inclusão social e produtiva com foco para mulheres chefes de família monoparental em situação
prioritário nas famílias pobres, chefia- de vulnerabilidade ou exclusão implantado em 2024.
das por mulheres, negras, periféricas, 2. Programa de oferecimento de vagas de creche em territó-
quilombolas, ribeirinhas, indígenas e rios de vulnerabilidade, em parceria com estados e municí-
com deficiência. pios, implantado em 2024.
• Criar e implementar um programa 3. Programa de apoio a criação e formalização de pequenos ne-
de qualificação profissional e de gócios coletivos de base comunitária implantado em 2025.
empregabilidade, que promova a in-
serção profissional dessas mulheres
de forma decente, digna e protegida
ODS
até 2023.
• Ampliar e fortalecer as creches e es- ODS 04
colas de educação infantil, próximas • Meta 4.3 – Até 2030, assegurar a equidade (gênero, raça, ren-
ao local de residência ou do trabalho da, território e outros) de acesso e permanência à educação
dessas mulheres. profissional e à educação superior de qualidade, de forma
gratuita ou a preços acessíveis.
• Garantir o acesso à Educação de Jo-
vens e Adultos adequada à realidade • Meta 4.4 – Até 2030, aumentar substancialmente o número
dessas mulheres. de jovens e adultos que tenham as competências necessárias,
sobretudo técnicas e profissionais, para o emprego, trabalho
• Promover treinamento específico
decente e empreendedorismo.
para a abertura e a sustentabilidade
de pequenos empreendimentos. ODS 08
• Promover a inclusão digital e o forta- • Meta 8.3 – Promover o desenvolvimento com a geração de tra-
lecimento do acesso às tecnologias. balho digno; a formalização; o crescimento das micro, peque-
nas e médias empresas; o empreendedorismo e a inovação.

RAZÕES
Nos últimos dois anos, com a pandemia da co- De acordo com estudo do IPEA (2022), consideran-
vid-19, um cenário de desigualdade econômica e do os dados da PNAD Contínua, ao final de 2019,
social que já era caótico, se potencializou. O Brasil 70,6% das mulheres brasileiras entre 18 e 59 anos,
voltou ao mapa da fome, a renda média per capita moradoras de áreas urbanas, estavam na força de
desabou e os índices de desemprego aumentaram. trabalho; para os homens, essa taxa era de 87,3%.
Com a crise advinda da pandemia de covid-19, a
E as famílias mais impactadas são as com crianças e
taxa de participação da população feminina na for-
adolescentes. Promover políticas de inclusão social ça de trabalho caiu para 62,4%, no segundo trimes-
e produtiva para famílias chefiadas por mulheres, tre de 2020, contra 80,8% para homens na mesma
principalmente aquelas em maior nível de vulne- faixa etária. Quando se trata de mulheres com fi-
rabilização, significa proteger milhões de crianças e lhos menores de 14 anos, as chances de participa-
adolescentes da fome e da pobreza e possibilitar ção na força de trabalho se reduzem pela metade,
condições para seu desenvolvimento integral. em comparação com mulheres sem filhos. Por ou-
tro lado, a chance aumenta quando se trata de ho-
Um eixo importante da política de inclusão social e mens com filhos.
produtiva de mulheres mães se refere ao acesso à
creche. De acordo com o Censo Escolar de 2019 (INEP), Este contexto desigual se perpetua pelos papéis
a cobertura de creche de crianças de zero a três anos atribuídos socialmente a homens e mulheres,
cuja designação prioritária incumbe aos homens
era de apenas 35,6% em todo o Brasil, longe dos 50%
a esfera produtiva e às mulheres a esfera repro-
previstos pelo Plano Nacional de Educação para 2024.
dutiva. Desse modo, mulheres com filhos pe-
O dado encobre as desigualdades, principalmente quenos têm maiores chances de saírem do mer-
em relação à renda domiciliar per capita. Enquanto os cado de trabalho para assumir o cuidado com
20% mais pobres alcançaram 26,2% de cobertura em as crianças, ao passo que homens nas mesmas
2018, os 20% mais ricos chegaram a 51%. Isso significa condições têm maiores chances de entrarem e
que as famílias já vulnerabilizadas têm mais dificul- também de permanecerem no mercado de tra-
dade de acessar emprego ou qualificação profissional balho, uma vez que assumem o papel social de
por não terem a garantia de creches para seus filhos. “provedores”.

144
98 POBREZA, FOME E DESIGUALDADES
Promover a segurança alimentar e nutricional de crianças e adolescentes e diminuir o impacto da
fome nas famílias mais empobrecidas.

AÇÕES METAS
• Aumentar os valores per capita do Programa Na- 1. No mínimo 30% de alimentos adquiridos no PNAE
cional de Alimentação Escolar (PNAE). em 2023 oriundos da agricultura familiar local, com
aumento progressivo da meta de até 50% até 2030.
• Garantir a compra de alimentos oriundos da agri-
cultura familiar local. 2. R$ 7,9 bilhões garantidos no orçamento federal em
2024 para o PNAE (considerando o reajuste inflacio-
• Implementar correção permanente pelo IPCA de
nário pelo IPCA Alimentos e Bebidas de 2009 a 2020).
Alimentos e Bebidas dos valores de aquisição no
Programa Nacional de Alimentação Escolar. 3. Valor per capita do PNAE reajustado em 63% em 2023.
• Aumentar os valores per capita do Programa Na- 4. IPCA de Alimentos e Bebidas adotado como índice
cional de Alimentação Escolar (PNAE). de correção dos valores destinados ao PNAE no or-
çamento federal.
• Garantir nas LOAs futuras a correção dos valores ten-
do como referência o IPCA de Alimentos e Bebidas.

RAZÕES
O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) é a pobreza monetária e a pobreza monetária extrema
o maior programa do mundo de distribuição gratuita impactam, proporcionalmente, o dobro de crianças e
de alimentos para escolares. Atualmente são atendi- adolescentes, em comparação com os adultos.
dos mais de 40 milhões de alunos. Contudo, há muitos Até o início de 2020, 40% das crianças e dos adoles-
anos os valores do programa são os mesmos e 2022 foi centes brasileiros viviam em pobreza monetária, ver-
o ano com menor aporte de recursos desde 2018 em sus cerca de 20% dos adultos. Para a pobreza monetá-
termos correntes. Em termos reais, a diferença de 2021 ria extrema, eram cerca de 12% e 6%, respectivamente.
para 2022 foi de 85,4% (Siga Brasil - IPCA de abril de Além disso, o racismo é estruturante da construção da
2022), o que tem impactado na quantidade e qualida- pobreza. Metade das crianças não brancas estavam
de dos alimentos ofertados. Faz-se necessário, portan- abaixo da linha superior no primeiro semestre de 2021,
to, aumentar os valores per capita para cada categoria em comparação com 20% das crianças brancas.
de matrícula, o que inclui um número diferenciado
Importante ressaltar que o PNAE não tem como ob-
para escolas quilombolas e indígenas, por exemplo.
jetivo a redução da pobreza e das desigualdades di-
No que diz respeito a assegurar a compra de 30% retamente, mas em um País com tamanho nível de
de produtos da agricultura familiar, é uma propos- empobrecimento, o programa se faz ainda mais indis-
ta já prevista no artigo 14 da Lei nº 11.947/2009 que pensável para enfrentar de imediato o problema da
dispõe sobre a alimentação escolar. E é de suma fome. A longo prazo, a alimentação adequada e saudá-
importância assegurar que a alimentação ofertada vel possibilita um melhor rendimento nos estudos, o
nas escolas seja adequada, saudável e, de fato, res- que pode ser essencial para uma boa trajetória escolar,
peite a cultura, os hábitos e tradições alimentares de forma que proporcione para a criança e o adoles-
das crianças beneficiadas. cente e suas famílias a saída do nível de pobreza e di-
De acordo com a Fundação Abrinq, na faixa de 0 a 14 minuindo as desigualdades.
anos, há no País 9,1 milhões de crianças e adolescentes Quanto ao orçamento destinado ao PNAE, em valores
que vivem em situação domiciliar de extrema pobreza correntes, os recursos autorizados e executados têm
(renda per capita mensal inferior ou igual a um quarto diminuído desde 2020. A diferença de 2020 para 2022,
de salário-mínimo) e 9,7 milhões em situação de po- de valores autorizados, foi de 9%, uma perda de R$ 386
breza (renda per capita mensal de mais de um quarto milhões. E quando analisado em termos reais, perce-
até meio salário-mínimo). Dados do relatório “Pobreza be-se que a perda foi ainda maior, de 21,2% no mesmo
Infantil Monetária no Brasil”, do Unicef, mostram que período, ou seja, mais de um bilhão de reais.

ODS
ODS 2
• Meta 2.1 – Até 2030, erradicar a fome e garantir o acesso de todas as pessoas, em particular os
pobres e pessoas em situações vulneráveis, incluindo crianças e idosos, a alimentos seguros, cultu-
ralmente adequados, saudáveis e suficientes durante todo o ano.
• Meta 2.2 – Até 2030, erradicar as formas de má-nutrição relacionadas à desnutrição, reduzir as for-
mas de má-nutrição relacionadas ao sobrepeso ou à obesidade, prevendo o alcance até 2025 das
metas acordadas internacionalmente sobre desnutrição crônica e desnutrição aguda em crianças
menores de cinco anos de idade, e garantir a segurança alimentar e nutricional de meninas adoles-
centes, mulheres grávidas e lactantes, pessoas idosas e povos e comunidades tradicionais.

145
99 POBREZA, FOME E DESIGUALDADES
Universalizar a água para o consumo humano e a produção de alimentos no semiárido.

AÇÕES ODS
• Retomar e ampliar o Programa de Cis- ODS 2
ternas do Semiárido dando prioridade • Meta 2.4 – Até 2030, garantir sistemas sustentáveis de pro-
às famílias com crianças e adolescentes. dução de alimentos, por meio de políticas de pesquisa, de
assistência técnica e extensão rural, entre outras, visando
implementar práticas agrícolas resilientes que aumentem a
produção e a produtividade e, ao mesmo tempo, ajudem a
proteger, recuperar e conservar os serviços ecossistêmicos,
METAS fortalecendo a capacidade de adaptação às mudanças do
clima, às condições meteorológicas extremas, secas, inun-
1. 400.000 cisternas de placas para dações e outros desastres, melhorando progressivamente a
consumo humano construídas, em qualidade da terra, do solo, da água e do ar.
parceria com as organizações da so-
ODS 6
ciedade civil, até o final de 2023
• Meta 6.1 – Até 2030, alcançar o acesso universal e equitativo
2. 200.000 cisternas de produção cons- à água para consumo humano, segura e acessível para to-
truídas, em parceria com as organiza- das e todos.
ções da sociedade civil, até o final de • Meta 6.4 – Até 2030, aumentar substancialmente a eficiência
2026. do uso da água em todos os setores, assegurando retiradas sus-
tentáveis e o abastecimento de água doce para reduzir subs-
tancialmente o número de pessoas que sofrem com a escassez.

RAZÕES
O acesso à água é um direito ao qual um grande Com a experiência acumulada na implementa-
contingente de famílias pobres rurais ainda não tem ção das cisternas de 16 mil litros ou das cisternas
acesso. Por um longo período, a água no semiárido de consumo humano ou, ainda, das cisternas de 1ª
foi moeda de troca política. Para garantir que famí- água, foram desenvolvidas novas tecnologias so-
lias rurais pobres dessa região, atingidas pela seca ou ciais para a captação e o armazenamento de água,
pela falta regular de água, não precisassem negociar porém para a produção de alimentos e a desseden-
seu voto e pudessem ter água próxima às suas resi- tação animal, também conhecidas como cisternas
dências, foi desenvolvida uma tecnologia social de de produção ou de 2ª água, que são de grande im-
captação e armazenamento de água da chuva, com portância para a garantia da segurança alimentar
capacidade para guardar 16 mil litros de água para uso daquelas populações, bem como para oportunida-
da família, especialmente para cozinhar, lavar as mãos des de inclusão produtiva rural.
e escovar os dentes. Isso quebrou o paradigma de O Programa Cisternas, do Governo Federal, acumu-
que o acesso à água na região dependeria de grandes la uma experiência de 20 anos e implementou mais
obras, deixando de lado a ideia do combate à seca e de 1 milhão de cisternas no semiárido, sempre em
passando a focar na convivência com o semiárido. parceria com entidades da sociedade civil, espe-
As cisternas são tecnologias simples e de baixo custo cialmente da Rede ASA. Porém, nos últimos anos,
para a captação e o armazenamento de água em áreas vem definhando a ponto de quase desaparecer e
rurais do semiárido, especialmente em áreas isoladas, houve uma desmobilização dos executores da po-
com dificuldade para o acesso à água de outra forma. lítica. Parte da desmobilização se deve à restrição
fiscal, que impõe uma ausência de recursos orça-
Além do equipamento em si, a tecnologia social en-
mentários, e parte é fruto de projeto do governo
volve a participação da comunidade e dos benefi-
para retirar a participação social e o protagonismo
ciários, que podem ser capacitados como pedreiros
de atores sociais relevantes nesse processo, espe-
para trabalhar na construção das tecnologias, bem
cialmente a Rede ASA.
como para apoiar em parte do processo construtivo.
Ademais, as famílias são capacitadas para a gestão Portanto, é importante retomar o orçamento públi-
da água e da cisterna. A tecnologia social envolve, co para a ação, mas também a participação social e
ainda, a dinamização da economia local, com a con- o modo de execução da tecnologia social em par-
tratação de mão de obra das comunidades ou dos ceria com a sociedade civil, não apenas para a ins-
municípios próximos, além de materiais comprados talação de equipamentos físicos para a captação e
localmente para a construção das cisternas. o armazenamento de água.

146
100 SANEAMENTO BÁSICO, RECURSOS HÍDRICOS E ACESSO À ENERGIA
Garantir o acesso ao abastecimento de água potável, à coleta e ao tratamento de esgoto, assim
como a oferta de banheiros acessíveis em todas as escolas públicas.

AÇÕES METAS
• Criar um plano nacional para promover 1. Plano nacional para garantia de água potável, coleta e tra-
o acesso ao saneamento básico, com tamento de esgoto e oferta de banheiros acessíveis em
banheiros acessíveis, em todas as es- todas as escolas públicas, com apoio técnico e financeiro
colas públicas brasileiras e em todas as paraestados e municípios, elaborado e em vigor em 2024.
etapas da educação básica.
2. Escolas rurais com infraestrutura sanitária mínima (ba-
nheiros e água potável) até 2026.

RAZÕES
Dados do Censo Escolar da Educação Básica, do Há maior vulnerabilidade das crianças negras em re-
MEC indicam que, em 2019, 3,5 mil escolas públi- lação às crianças brancas: faltam itens de saneamento
cas não tinham banheiros (2,4% do total). Já em básico para 27% das crianças negras nas creches e 34%
2020 esse número aumentou para 4,3 mil esco- delas na pré-escola. Entre as crianças brancas esses
las (3,2% do total). Em relação à coleta de esgotos, percentuais caem para 15% e 17%, respectivamente.
o percentual é ainda maior, sendo que 36,6 mil Para além dos evidentes efeitos da falta desses ser-
(27,1%) não possuíam coleta em 2019 e, em 2020, viços para a qualidade ambiental e de vida da po-
35,8 mil escolas (26,6%) permaneciam sem a co- pulação, a recorrência de infecções pode prejudicar
leta. Já o Censo Escolar de 2018 denota que 49% o desempenho escolar de crianças e adolescentes,
das escolas de educação básica não têm acesso o que acarreta, por sua vez, baixo rendimento, atra-
aos serviços de esgoto via rede pública, e 26% não so e abandono escolar. Estima-se que a universali-
dispõem de água tratada. zação dos serviços de saneamento básico reduziria
Em relação a alunos matriculados, cerca de 28% o atraso escolar em cerca de 6%.
das crianças brasileiras na pré-escola não têm O acesso aos serviços de água e esgotamento sa-
acesso à água e ao esgoto tratados. Recortes re- nitário impactam diversas áreas da sociedade, sen-
gionais mostram sensíveis diferenças: na região do uma dessas, o âmbito da educação. De acordo
Nordeste esse índice chega a 42% e na região com dados presentes no Painel Saneamento Brasil
Norte do País a incríveis 75% das crianças na pré- (plataforma gerenciada pelo Instituto Trata Brasil), o
-escola e 71% em creches (dados disponíveis no acesso ao saneamento impacta até mesmo a nota
Observa - Observatório do Marco Legal da Pri- do ENEM, prova de admissão em instituições de en-
meira Infância). sino superior. Segundo o INEP 2020, a nota média de
Diferenças também estão presentes entre os meios pessoas com banheiro é de 546,45 enquanto a nota
urbano e rural: nacionalmente, 80% das creches em média de pessoas sem banheiro é de 491,95. Em ou-
áreas urbanas contam com todos os itens de sane- tro dado sobre a prova, a nota na redação do ENEM
amento, mas, em áreas rurais, esse percentual é de de estudantes com acesso a banheiro é de 574,04;
somente 55%. Entre as pré-escolas, essas porcenta- em contrapartida a nota da redação de estudantes
gens são 76% e 47%, respectivamente. que não têm banheiro nas residências é de 480,36.

ODS
ODS 1
• Meta 1.4 – Até 2030, garantir que todos os homens e mulheres, particularmente os pobres e as pessoas em situação
de vulnerabilidade, tenham acesso a serviços sociais, infraestrutura básica, novas tecnologias e meios para produ-
ção, tecnologias de informação e comunicação, serviços financeiros e segurança no acesso equitativo à terra e aos
recursos naturais.
ODS 6
• Meta 6.1 – Até 2030, alcançar o acesso universal e equitativo à água para consumo humano, segura e acessível para
todas e todos.
• Meta 6.2 – Até 2030, alcançar o acesso a saneamento e higiene adequados e equitativos para todos, e acabar com
a defecação a céu aberto, com especial atenção para as necessidades das mulheres e meninas e daqueles em
situação de vulnerabilidade.
ODS 11
• Meta 11.6 – Até 2030, reduzir o impacto ambiental negativo per capita das cidades, melhorando os índices de quali-
dade do ar e a gestão de resíduos sólidos; e garantir que todas as cidades com acima de 500 mil habitantes tenham
implementado sistemas de monitoramento de qualidade do ar e planos de gerenciamento de resíduos sólidos.

147
101 SANEAMENTO BÁSICO, RECURSOS HÍDRICOS E ACESSO À ENERGIA
Garantir a crianças e adolescentes o acesso a informações e conhecimentos adequados sobre
saneamento básico.

AÇÕES METAS
• Inserir a educação ambiental como tema transver- 1. Educação ambiental inserida como tema trans-
sal nos currículos de escolas públicas e privadas. versal nos currículos de escolas públicas e priva-
das em 2023.
• Produzir materiais didáticos e de educomunica-
ção para a educação ambiental, em consonância 2. Materiais didáticos e de educomunicação para
com o Programa Nacional de Educação Ambien- educação ambiental produzidos e distribuídos
tal (ProNEA). para escolas públicas a partir de 2024 por meio
do Programa Nacional do Livro Didático.

RAZÕES
A educação ambiental é contemplada no Artigo 225 A educação ambiental é parte também da Base Na-
da Constituição Federal, regulamentada pela Políti- cional Comum Curricular (BNCC), como um tema
ca Nacional de Educação Ambiental (PNEA) (Lei nº que afeta a vida humana em diferentes escalas de
9.795/1999) e orientada pelo Programa Nacional de abrangência, desde a local até a global. Contudo, a
Educação Ambiental (ProNEA), que tem como ór- nova BNCC, aprovada em dezembro de 2017, não
gão gestor o Ministério do Meio Ambiente. trata a educação ambiental como elemento fun-
damental para a formação integral na Educação
As linhas de ação do ProNEA contemplam: (I) a ges-
Básica, pois, ao apresentá-la como “temas integra-
tão e o planejamento da educação ambiental no
dores”, revela uma abordagem reducionista e frag-
País; (II) a formação de educadores e educadoras
mentada, proveniente de uma educação ambiental
ambientais; (III) a comunicação para a educação
conservadora, naturalista e continuísta.
ambiental; (IV) a inclusão da educação ambiental
nas instituições de ensino; e (V) o monitoramento É vital recuperar o status da educação ambien-
e a avaliação de políticas, programas e projetos de tal como tema transversal na educação, de forma
educação ambiental. Contemplar o tema do sane- que a inserção do saneamento básico na BNCC,
amento básico nessas linhas de ação é de funda- pelo viés da educação ambiental, ou seja, de forma
mental importância para o sucesso das iniciativas transversal e interdisciplinar, representa uma for-
de educação ambiental nos sistemas educacionais ma de resistência e defesa da perspectiva crítica na
e na sociedade brasileira como um todo, dada a sua educação e dos avanços obtidos a partir da luta dos
relevância para a qualidade de vida e ambiental. movimentos ecológicos e sociais.

ODS
ODS 4
• Meta 4.c – Até 2030, assegurar que todos os professores da educação básica tenham formação es-
pecífica na área de conhecimento em que atuam, promovendo a oferta de formação continuada,
em regime de colaboração entre União, estados e municípios, inclusive por meio de cooperação
internacional.
• Meta 4.7 – Até 2030, garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades necessá-
rias para promover o desenvolvimento sustentável, inclusive, entre outros, por meio da educação
para o desenvolvimento sustentável e estilos de vida sustentáveis, direitos humanos, igualdade de
gênero, promoção de uma cultura de paz e não violência, cidadania global e valorização da diversi-
dade cultural e da contribuição da cultura para o desenvolvimento sustentável.

148
102 SANEAMENTO BÁSICO, RECURSOS HÍDRICOS E ACESSO À ENERGIA
Promover a implementação dos Planos Municipais de Saneamento e fortalecer as políticas
públicas municipais.

AÇÕES METAS
• Implantar e implementar o Programa Nacional 1. Programa Nacional de Capacitação de Gestores
de Capacitação de Gestores Municipais sobre Municipais da área de saneamento implantado a
Saneamento Básico, para subsidiar a elaboração, partir de 2024.
a aprovação e a implementação dos Planos Mu- 2. 90% dos municípios brasileiros com Planos Mu-
nicipais de Saneamento e fortalecer as políticas nicipais de Saneamento aprovados até 2026.
públicas municipais nessa agenda.

RAZÕES
A política pública e o plano municipal de saneamen- suíam Política Municipal de Saneamento e apenas
to básico (PMSB) são instrumentos centrais para a 28,7% dos municípios (1.599) contavam com PMSB,
gestão dos serviços nos territórios. A política define o fato este associado, de maneira geral, ao baixo in-
modelo jurídico-institucional e as funções de gestão vestimento no setor e, dentre outros fatores, à capa-
e fixa os direitos e deveres dos usuários. O plano, por cidade técnica limitada dos gestores nos territórios.
sua vez, estabelece as condições para a prestação No que se refere aos indicadores nacionais e conside-
dos serviços de saneamento, definindo os objetivos rando-se dados do SNIS por meio do Painel Sanea-
e as metas para a universalização e as ações, os pro- mento Brasil, o País possui desafios importantes para
gramas e os projetos necessários para alcançá-la. a universalização dos serviços, principalmente dos as-
Segundo o disposto no § 11, Art. 50 da Lei nº sociados à água e ao esgotamento sanitário: 15,9% da
14.026/2020, a União poderá criar cursos de capaci- população (33,1 milhões de pessoas) não tem acesso à
tação técnica dos gestores públicos municipais, em água por meio da rede de abastecimento e 45% da po-
consórcio ou não com os estados, para a elaboração e pulação (93,9 milhões de pessoas) sem coleta de esgoto.
a implementação dos planos de saneamento básico. As disparidades na cobertura da prestação de ser-
Nesse sentido, cabe destacar, que o fortalecimento viços nas regiões Norte e Nordeste demonstram a
de estratégias e ações de gestão nos territórios, ob- importância do fortalecimento da governança, es-
jetivando a implementação e o fortalecimento dos pecialmente nesses territórios. Na Região Norte são
serviços de saneamento, possui relação direta com 41% de pessoas sem abastecimento de água por
os cuidados com a infância, tendo em vista a garan- meio da rede de distribuição e no Nordeste, 25%,
tia do direito humano de acesso à água potável e ao contra índices entre 8% e 9% nas demais regiões.
esgotamento sanitário, considerando os diversos No caso da falta de cobertura relacionada ao esgota-
impactos à saúde e ao bem-estar social de crianças mento sanitário, os índices alcançam 86,9% e 69,7%
e adolescentes associados à falta ou à precariedade da população, respectivamente, no Norte e no Nor-
na prestação destes serviços. deste, enquanto as Regiões Sul e Centro-Oeste, com
De acordo com um relatório de avaliação anual do 52,6% e 40,5%, estão em posição um pouco melhor,
Plansab (2018), 38,2% dos municípios (2.126) pos- mas todos distantes dos 19,5% do Sudeste.

ODS
ODS 6
• Meta 6.1 – Até 2030, alcançar o acesso universal e equitativo à água para consumo humano, segura
e acessível para todas e todos.
• Meta 6.2 – Até 2030, alcançar o acesso a saneamento e higiene adequados e equitativos para to-
dos, e acabar com a defecação a céu aberto, com especial atenção para as necessidades das mu-
lheres e meninas e daqueles em situação de vulnerabilidade.
• Meta 6.3 – Até 2030, melhorar a qualidade da água nos corpos hídricos, reduzindo a poluição, eli-
minando despejos e minimizando o lançamento de materiais e substâncias perigosas, reduzindo
pela metade a proporção do lançamento de efluentes não tratados e aumentando substancial-
mente o reciclo e reuso seguro localmente.
ODS 11
• Meta 11.3 – Até 2030, aumentar a urbanização inclusiva e sustentável, aprimorar as capacidades
para o planejamento, para o controle social e para a gestão participativa, integrada e sustentável
dos assentamentos humanos, em todas as Unidades da Federação.

149
103 SANEAMENTO BÁSICO, RECURSOS HÍDRICOS E ACESSO À ENERGIA
Assegurar o acesso à energia elétrica para a população em maior condição de vulnerabilidade.

AÇÕES METAS
• Aprovar a Tarifa Progressiva 1. Tarifa Progressiva de energia elétrica implantada até 2024.
de energia elétrica.
2. Energia elétrica reconhecida como direito social na Constituição até 2024.
• Reconhecer a energia elétrica
3. Alternativas para levar energia elétrica para a Região Norte, com fon-
como direito social.
tes renováveis, implantadas até 2026.

RAZÕES
O sistema elétrico brasileiro é quase todo universa- tar a tarifa progressiva, de modo que o custo por
lizado, à exceção de pequenos bolsões, principal- kWh seja menor para as famílias que consomem
mente na Região Norte do País, que não são cobertos menos energia, sendo elevado progressivamente
pela distribuição. Entretanto, apesar dessa cobertura de acordo com a faixa de consumo. Isso garantiria
física, há um quadro social de exclusão do direito à o acesso das famílias mais pobres, com preços so-
energia, devido ao seu alto custo de produção. Ex- cialmente justos, ao uso da energia elétrica. Nas fa-
clusão que é estrutural e está refletida no baixo con- mílias com renda média de até um salário mínimo,
sumo médio de eletricidade no Brasil, de 1.300 kWh/ 39% do consumo total de eletricidade é voltado
unidade consumidora/ano, o que equivale à metade para a conservação dos alimentos, o que torna fun-
do consumo médio verificado em outros países si- damental para a segurança alimentar, sobretudo de
milares ao Brasil em renda per capita. crianças e adolescentes, o acesso à energia propi-
ciado às populações incluídas nessa faixa de renda.
Embora o último resultado divulgado para o indi-
cador 7.1.1 da ODS 7 apresente uma porcentagem A atual política de energia elétrica faz parte de um
de 99,8% de domicílios brasileiros com acesso à quadro de reprodução permanente da pobreza e
energia elétrica para o ano de 2019, sabe-se que da falta de acesso a oportunidades que, no mundo
parte desse percentual se refere a acessos precá- contemporâneo, conta com a eletricidade como in-
rios. Além disso, a crise da covid-19, combinada à sumo essencial à vida, ao lado do saneamento, da
crise hidroenergética, vem gerando um ônus no or- saúde e da educação; e, se relacionarmos a renda
çamento das famílias de baixa renda, o que coloca à raça, podemos dizer que a atual política de ener-
em risco o seu acesso à energia elétrica. gia brasileira é racista. É prioritário, por isso, que a
A exclusão no acesso à energia se dá, primeiro, por Constituição brasileira reconheça a energia elétrica
uma distribuição injusta dos custos da eletricida- como direito social, como consta na Proposta de
de pela baixa diferenciação das tarifas entre os que Emenda à Constituição (PEC) nº 44/2017, em trami-
consomem pouco (até 150 kWh/mês) e os que con- tação no Congresso. O Executivo precisa mobilizar
somem mais de 1.000 kWh/mês. É necessário ado- sua base de apoio para a aprovação da referida PEC.

ODS
ODS 1
• Meta 1.4 – Até 2030, garantir que todos os homens e mulheres, particularmente os pobres e
as pessoas em situação de vulnerabilidade, tenham acesso a serviços sociais, infraestrutura
básica, novas tecnologias e meios para produção, tecnologias de informação e comunicação,
serviços financeiros e segurança no acesso equitativo à terra e aos recursos naturais.
ODS 7
• Meta 7.1 – Até 2030, assegurar o acesso universal, confiável, moderno e a preços acessíveis a
serviços de energia.
ODS 10
• Meta 10.3 – Garantir a igualdade de oportunidades e reduzir as desigualdades de resultados,
inclusive por meio da eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias e da promoção
de legislação, políticas e ações adequadas a este respeito.
ODS 11
• Meta 11.1 – Até 2030, garantir o acesso de todos a moradia digna, adequada e a preço aces-
sível; aos serviços básicos e urbanizar os assentamentos precários de acordo com as metas
assumidas no Plano Nacional de Habitação, com especial atenção para grupos em situação
de vulnerabilidade.

150
104 SANEAMENTO BÁSICO, RECURSOS HÍDRICOS E ACESSO À ENERGIA
Garantir a transição justa e popular do setor de energia.

AÇÕES METAS
• Reformular as diretrizes e as políticas, com base 1. Novas diretrizes e políticas com base nas leituras dos
nos indicadores de bem-estar energético que es- indicadores de bem estar energético, em desenvol-
tão sendo desenvolvidos pela Empresa de Pes- vimento pela EPE, implementadas a partir de 2024.
quisa Energética (EPE).
2. CDE inserida no Orçamento da União em 2024.
• Usar os recursos da Conta de Desenvolvimento
3. Aplicação da CDE exclusivamente na transição
Energético (CDE) para o enfrentamento das fontes
energética justa e popular e no combate às desi-
poluentes de energia e para a garantia do acesso
gualdades, sem nenhuma destinação para gera-
à energia elétrica pela população vulnerabilizada.
ção de energia de fonte fóssil, garantida até 2026.
• Inserir a Conta de Desenvolvimento Energético
4. Parcela significativa, a ser estipulada pelo Mi-
(CDE) no Orçamento da União.
nistério de Minas e Energia e respaldada por
• Aplicar prioritariamente os recursos de pesquisa consulta pública, dos recursos de pesquisa e
e desenvolvimento (P&D) e eficiência energéti- desenvolvimento (P&D) e eficiência energética
ca (EE) no diagnóstico e no monitoramento das (EE) aplicados no monitoramento das áreas com
áreas com projetos energéticos, especialmente projetos energéticos, especialmente aquelas de
daquelas de comunidades tradicionais e popula- comunidades tradicionais e populações em situ-
ções em situação de vulnerabilidade. ação de vulnerabilidade, até 2026.

RAZÕES
A transição energética é a passagem para um modelo ção: o início da reestruturação das políticas energéti-
de geração de energia, produção e consumo que não cas e a destinação prioritária de recursos dessa área
cause a emissão de gases geradores de mudanças cli- para a superação das desigualdades, com o fortale-
máticas e que não esgote os recursos naturais do pla- cimento da transparência e da participação social.
neta. É o modelo da energia limpa, da neutralidade de Estruturalmente, a política energética precisa ser
carbono, da sustentabilidade. Essa transição necessa- reformulada com base no conceito de bem-estar
riamente tem de ser socialmente inclusiva e democra- energético, que leva em conta a justiça e a equidade
tizadora do acesso à energia, aos bens e aos serviços. no acesso, o combate à pobreza e à exclusão ener-
Nos países desenvolvidos, a discussão sobre a tran- gética e um modelo de desenvolvimento sustentá-
sição energética aborda temas (como a perda dos vel. Esse conceito é detalhado, com a construção de
empregos e da arrecadação fiscal) hoje ligados à in- indicadores para diagnósticos e planejamento, pela
dústria fóssil, aos avanços tecnológicos e à digitaliza- Empresa de Pesquisa Energética (EPE), empresa pú-
ção. No Brasil, embora esses temas também devam blica vinculada ao Ministério de Minas e Energia.
compor a agenda da transição, há questões anterio- Do ponto de vista dos recursos, a Conta de Desen-
res que devem ser enfrentadas: a pobreza energética volvimento Energético (CDE) arrecadada anualmen-
(falta de acesso à eletricidade e ao gás, por exemplo, te pelas distribuidoras de energia e hoje gerenciada
o que leva ao uso de fogões a lenha e à impossi- pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica
bilidade de conservação de alimentos) e o racismo precisa passar a compor o Orçamento da União e
ambiental (pois, no cruzamento entre pobreza ener- ser aplicada prioritariamente no enfrentamento das
gética, áreas de risco e raça, fica evidente a maioria fontes poluentes de energia e na garantia de acesso
negra que se encontra em situação vulnerável). à energia elétrica pelas populações vulnerabilizada.
O Brasil precisa adotar ações que levem em conta a Em 2022, a CDE soma R$ 32 bilhões. Os recursos de
necessidade da transição e ao mesmo tempo a in- pesquisa e desenvolvimento e de eficiência energé-
clusão social, em um paradigma popular e justo. Ao tica, por sua vez, devem ser direcionados ao diag-
lado de um planejamento de longo prazo, há inicia- nóstico e ao monitoramento socioambiental de área
tivas imediatas que podem ser adotadas nessa dire- onde são instalados projetos energéticos.

ODS
ODS 1
• Meta 1.4 – Até 2030, garantir que todos os homens e mulheres, particularmente os pobres e as pessoas em
situação de vulnerabilidade, tenham acesso a serviços sociais, infraestrutura básica, novas tecnologias e
meios para produção, tecnologias de informação e comunicação, serviços financeiros e segurança no acesso
equitativo à terra e aos recursos naturais.
ODS 7
• Meta 7.1 – Até 2030, assegurar o acesso universal, confiável, moderno e a preços acessíveis a serviços de energia.

151
105 SANEAMENTO BÁSICO, RECURSOS HÍDRICOS E ACESSO À ENERGIA
Proteger, gerenciar e restaurar os ecossistemas naturais ou modificados de forma eficaz e segura
e garantir a segurança hídrica para enfrentar os eventos extremos de seca e cheia.

AÇÕES METAS
• Implantar e implementar políticas de revitalização das bacias hi- 1. 30 Comitês de Bacias Hidrográ-
drográficas, com a adoção de Soluções baseadas na Natureza (SbN). ficas situados em regiões metro-
politanas com ações de soluções
• Incorporar Soluções baseadas na Natureza (SbN) à governança e à ges-
baseadas na natureza adotadas
tão dos recursos hídricos, por meio dos Planos de Bacias Hidrográficas.
em seus planos de bacias.

RAZÕES
As Soluções Baseadas na Natureza (SBN) contribuem palavras, as SbN operam de forma extensiva e difusa
na melhoria da gestão da água, na produção de ali- sobre a pressão de mudança de uso e cobertura da
mentos e na conservação da biodiversidade. Cons- terra, buscando direcioná-la de forma a resultar em
tituem ações para proteger, gerenciar de forma sus- impactos positivos sobre os sistemas hídricos. As SbN
tentável, eficaz e adaptativa e restaurar ecossistemas maximizam o uso da “água verde”, ou seja, a água di-
naturais ou modificados, proporcionando simultane- retamente absorvida pelas plantas (UN-Water, 2018),
amente benefícios ambientais, sociais e econômicos, lançando mão de práticas de manejo que melhoram
além de ajudar a construir resiliência, cujas medidas a capacidade de infiltração dos solos, como o plantio
são inspiradas, apoiadas ou copiadas da natureza. direto, o cultivo de plantas adaptadas ao regime local
As SbN podem envolver tanto medidas não estru- de precipitação e técnicas estruturais, a exemplo da
turais, como a conservação de ecossistemas natu- construção de terraços e valas de infiltração e da cole-
rais, quanto ações estruturais, na forma de criação ta de água em pequenos açudes (Wocat, 2007).
ou melhoria de processos naturais em ambientes As últimas crises hídricas vividas nas bacias hidrográ-
construídos como, por exemplo, em plantações ou ficas justificam um investimento em estratégias alter-
em cidades. Tais soluções contrastam com soluções nativas, ao invés, apenas da construção de mais reser-
convencionais que, em geral, são estruturais, cen- vatórios ou obras de captação em mananciais cada
tralizadas e de uso intensivo de energia e materiais, vez mais distantes da população. O investimento na
tais como a construção de grandes reservatórios e recuperação de áreas degradadas é também uma es-
a transposição de água entre bacias hidrográficas. tratégia de SbN e proporciona benefícios em diver-
As SbN ganharam destaque a partir da União Inter- sos setores. Para as chuvas que inundam as nossas
nacional para a Conservação da Natureza 2012 (IUCN), cidades, a criação de parques lineares, a construção
com sua definição delimitada por critérios de susten- de áreas alagáveis e a expansão de áreas verdes em
tabilidade ambiental, social e econômica. Assim, as torno dos cursos d´água são medidas simples, porém
SbN surgem como um conceito novo e amplo que eficazes para o enfrentamento de inundações.
integra os já estabelecidos conceitos de engenharia Em relação aos municípios que ainda não dispõem de
ecológica, de infraestrutura verde e de abordagens de cobertura total de tratamento de esgoto e convivem
gestão ambiental. Em razão disso, alega-se que as SbN com o despejo de esgoto em cursos d’água, sistemas
são capazes de atender simultaneamente aos objeti- de drenagem naturais, como os jardins filtrantes, po-
vos da gestão da água, da produção de alimentos e da deriam amenizar o cenário, sem comprometer inves-
conservação da biodiversidade, gerando assim cobe- timentos para a necessária construção de estações de
nefícios que atravessam os setores (UN-Water, 2018). tratamento. A perda de 15,7% da superfície de água no
As SbN voltadas à gestão da água atuam pelo lado da Brasil, segundo dados do MapBiomas, representa um
oferta, tanto explorando a capacidade de armazena- diagnóstico que demonstra a necessidade da adoção
mento da água quanto melhorando os fluxos entre os de soluções baseadas na natureza, inclusive porque
compartimentos naturais dos sistemas hídricos, tais isso tem relação direta com o mau uso do solo seja
como o solo, o subsolo e as áreas úmidas. Em outras na área urbana, seja na área rural.

ODS
ODS 1
• Meta 1.5 – Até 2030, construir a resiliência dos pobres e daqueles em situação de vulnerabilidade, e reduzir a expo-
sição e vulnerabilidade destes a eventos extremos relacionados com o clima e outros choques e desastres econô-
micos, sociais e ambientais.
ODS 6
• Meta 6.5 – Até 2030, implementar a gestão integrada dos recursos hídricos em todos os níveis de governo, inclusive
via cooperação transfronteiriça.
• Meta 6.6 – Até 2020, proteger e restaurar ecossistemas relacionados com a água, incluindo montanhas, florestas,
zonas úmidas, rios, aquíferos e lagos, reduzindo os impactos da ação humana.

152
106 CIDADES E ASSENTAMENTOS SUSTENTÁVEIS
Assegurar prioridade a crianças, adolescentes e suas famílias no acesso a moradias seguras e saudáveis.

METAS
AÇÕES
1. Prioridade a mulheres grávidas, mães solteiras e
• Dar prioridade a mulheres grávidas, mães soltei- famílias chefiadas por mulheres com crianças de
ras e famílias chefiadas por mulheres com crian- até 12 anos nos programas habitacionais, de ur-
ças de até 12 anos nos programas habitacionais banização e de locações de imóveis subsidiados
(tanto entrega de novas unidades como a regula- pelo Poder Público, com a garantia de 60% das
rização e a melhoria de habitações já ocupadas), unidades disponíveis, adotada até 2024.
de urbanização e de locações de imóveis subsi-
diados pelo Poder Público. 2. Plano emergencial de diagnóstico para a pro-
teção ou a retirada de populações identificadas
• Estabelecer plano emergencial de diagnóstico e como em extremo risco implantado em 2023.
posterior plano de ação para proteção ou retirada
de populações identificadas como em extremo 3. Plano emergencial de ação para a proteção ou
risco, seja por exposição à violência ou provocado a retirada de populações identificadas como em
por eventos climáticos. extremo risco implantado em 2024.

RAZÕES
Grande proporção de territórios das cidades bra- mantes, esse número tende a superar os 10 milhões
sileiras apresenta diversas formas de precariedade, e, com a intensificação e a maior ocorrência de even-
urbanização incompleta ou inexistente, com índi- tos climáticos extremos, o número de pessoas que
ces majoritários de baixas condições de qualidade vivem em situação de risco pode ser muito maior.
de vida, cujos potenciais criativos e de liderança
Mulheres e crianças são mais afetadas por essas
são soterrados pela pobreza, pela falta de recursos
condições adversas (encontradas principalmente
e pela ausência de oportunidades.
nas regiões informais e precarizadas das grandes
Esses territórios precários caracterizam-se por sua cidades latino-americanas em rápido crescimen-
maior suscetibilidade à ocorrência de falhas téc- to) não apenas pelo fato de que são a maioria nos
nicas e de infraestrutura, desastres naturais (como territórios precários, mas também porque possuem
ventanias, tempestades e enchentes, incêndios) ou condições rebaixadas de resiliência (ou seja: preven-
de inadequação da ocupação, como deslizamen- ção, resistência e recuperação após perdas e danos).
tos e cheias causados, por exemplo, pelo desma-
A baixa resiliência desses grupos decorre funda-
tamento de encostas e assoreamento de rios. Por
mentalmente da condição de pobreza à qual as
outro lado, a insalubridade, a falta de saneamento
mulheres estão mais sujeitas, em grande medida
e de condições mínima de habitabilidade dos es-
por não serem detentoras de seus direitos repro-
paços de moradia têm efeitos graves à saúde e am-
dutivos e por serem as principais responsáveis pe-
pliam a insegurança e a ocorrência de violência.
los cuidados de crianças e adolescentes, fatores
Segundo o IBGE, em 2010, 8,2 milhões de pessoas que, quando combinados, representam significati-
viviam em áreas de risco. Após 22 anos e uma pan- vos obstáculos à formação profissional, ao acesso
demia, além de taxas de urbanização informal alar- ao trabalho e à renda e a condições dignas de vida.

ODS
ODS 11
• Meta 11.1 – Até 2030, garantir o acesso de todos à moradia digna, adequada e a preço aces-
sível; aos serviços básicos e urbanizar os assentamentos precários de acordo com as metas
assumidas no Plano Nacional de Habitação, com especial atenção para grupos em situação
de vulnerabilidade.
• Meta 11.3 – Até 2030, aumentar a urbanização inclusiva e sustentável, aprimorar as capaci-
dades para o planejamento, para o controle social e para a gestão participativa, integrada e
sustentável dos assentamentos humanos, em todas as Unidades da Federação.
• Meta 11.5 – Até 2030, reduzir significativamente o número de mortes e o número de pessoas
afetadas por desastres naturais de origem hidrometeorológica e climatológica, bem como
diminuir substancialmente o número de pessoas residentes em áreas de risco e as perdas
econômicas diretas causadas por esses desastres em relação ao produto interno bruto, com
especial atenção na proteção de pessoas de baixa renda e em situação de vulnerabilidade.
• Meta 11.b – Até 2030, aumentar significativamente o número de cidades que possuem polí-
ticas e planos desenvolvidos e implementados para mitigação, adaptação e resiliência a mu-
danças climáticas e gestão integrada de riscos de desastres de acordo com o Marco de SENDAI.

153
107 CIDADES E ASSENTAMENTOS SUSTENTÁVEIS
Minimizar eventuais impactos negativos de obras de infraestrutura e fomentar a construção de
espaços seguros e adequados às necessidades de crianças e adolescentes.

AÇÕES METAS
• Definir, com ampla participação social, parâme- 1. Parâmetros e normas específicas obrigatórias de
tros e normas específicas obrigatórias de prio- priorização dos direitos de crianças e adolescen-
rização dos direitos de crianças e adolescentes tes nos projetos, nas obras e nas demais ações
nos projetos, nas obras e nas compras públicas, de impacto social e ambiental, incluindo sua es-
bem como processos licitatórios, contrapartidas, cuta e participação, estabelecidos com amplo
termos de ajuste de conduta (TACs) e recursos de processo participativo até 2024.
compensação e mitigação.
2. Estudo de impacto sobre crianças e adolescen-
• Exigir estudos e relatórios de impacto sobre a vida tes com a adoção de respostas, ações e ajustes
de crianças e adolescentes, e respostas, ações e em projetos, obras e demais ações de impacto
ajustes que abordam diretamente os problemas social e ambiental tornado obrigatório até 2024.
e desafios eventualmente constatados como im-
pacto de projetos e obras.
• Garantir a escuta de crianças e a participação
social, promovendo atividades educativas e de ODS
apropriação pela comunidade do objeto de con- ODS 9
trato a ser executado.
• Meta 9.a – Facilitar o desenvolvimento de infra-
• Na elaboração de plano de trabalho e nas etapas de estrutura sustentável e resiliente em países em
implementação de projetos, obras e compras, con- desenvolvimento, por meio de maior apoio finan-
templar os saberes das comunidades tradicionais ceiro, tecnológico e técnico aos países africanos,
existentes no território que seja objeto da interven- aos países de menor desenvolvimento relativo,
ção ou da obra. aos países em desenvolvimento sem litoral e aos
pequenos Estados insulares em desenvolvimento.
ODS 11
RAZÕES • Meta 11.3 – Até 2030, aumentar a urbanização inclusi-
Grandes empreendimentos e grandes eventos têm va e sustentável, aprimorar as capacidades para o pla-
impactos transformadores nos territórios, não ape- nejamento, para o controle social e para a gestão par-
nas positivos, mas também negativos. Por tal motivo, ticipativa, integrada e sustentável dos assentamentos
quando da realização dessas obras, é necessário co- humanos, em todas as Unidades da Federação.
locar como priotidade a vida de crianças, adolescen- • Meta 11.4 – Fortalecer as iniciativas para proteger e
tes e de suas famílias, tanto no objeto da transfor- salvaguardar o patrimônio natural e cultural do Bra-
mação, levando em conta como irão viver naquele sil, incluindo seu patrimônio material e imaterial.
espaço transformado, quanto no processo de cons- • Meta 11.c – Apoiar os países menos desenvolvi-
trução, definindo como suas necessidades serão dos, inclusive por meio de assistência técnica e
atendidas nesses períodos, uma vez que crianças e financeira, para construções sustentáveis e ro-
adolescentes são ainda mais vulneráveis aos impac- bustas, priorizando recursos locais.
tos gerados.
Por isso, as necessidades e os direitos específicos de
crianças e adolescentes precisam estar formalmente e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFR-
no centro da preocupação do planejamento e dos GS), destaca-se que 97,2% dos trabalhadores afirmam
estudos de impacto de cada projeto ou obra. Quan- haver prostituição nas obras em que atuam.
do estão envolvidos povos originários e comunida-
des tradicionais, é indispensável ainda garantir que Segundo pesquisa realizada pela Childhood Brasil
os modos de vida, os saberes e as tradições desses e pela Escola de Direito de São Paulo da Fundação
grupos estejam presentes como elementos estru- Getúlio Vargas (FGV) - “Avaliação de Impacto em Di-
turais, para que eles continuem reconhecendo-se reitos Humanos - O que as Empresas Devem Fazer
como parte daquele território transformado. para Respeitar os Direitos de Crianças e Adolescen-
tes” -, outros impactos negativos podem ser recor-
Em geral, grandes empreendimentos implicam a rentemente gerados por grandes empreendimentos,
migração massiva de trabalhadores para a região, de como sobrecarga dos serviços públicos locais, au-
modo que são colocados em estruturas de alojamen- mento do trabalho infantil e da presença de crianças
tos com pouco (ou nenhum) acesso ao convívio fami- e adolescentes em espaços de lazer considerados de
liar, o que pode se refletir na ocorrência de exploração risco (como bares, boates e casas de espetáculo) além
sexual de crianças e adolescentes. Dentre alguns da- do aumento da quantidade de casos de consumo e
dos alarmantes levantados pela Childhood Brasil em tráfico de drogas, em especial entre os trabalhadores,
parceria com a Universidade Federal de Sergipe (UFS) nas escolas e nas áreas de reassentamento.

154
108 CIDADES E ASSENTAMENTOS SUSTENTÁVEIS
Garantir o acesso a espaços públicos seguros, com boa qualidade ambiental e adequados
à promoção da saúde e do bem-estar de crianças e adolescentes, com prioridade para os
territórios mais vulneráveis e as áreas periféricas das cidades.

AÇÕES METAS
• Elaborar programa de financiamento para a cons- 1. Programa de financiamento de espaços públicos
trução e manutenção de espaços públicos de de encontro e brincadeira nas cidades instituído
encontro e brincadeira em diversos territórios, em 2024.
incluindo espaços de áreas verdes e parques eco-
2. Exigência de aplicação de 10% dos orçamentos
lógicos nas cidades e seus entornos.
em questões direcionados à prioridade de crian-
• Estabelecer porcentagem de reserva de 10% de ças e adolescentes em obras e ações de inter-
recursos para ações e intervenções urbanas rela- venção urbana instituída em 2024.
cionadas à prioridade de crianças e adolescentes.
3. Exigência de que projetos voltados para cidades
• Criar instrumentos de incentivo, apoio e inves- e assentamentos sustentáveis contenham obri-
timento para coletivos, organizações populares, gatoriamente ações de apoio e investimento na
comunitárias e organizações da sociedade civil organização das comunidades (coletivos, organi-
em projetos específicos voltados a cidades e as- zações populares, comunitárias e organizações
sentamentos sustentáveis. da sociedade civil) instituída até 2024.

RAZÕES
Crianças e adolescentes passam cada vez mais tem- mantidas. É fundamental que as cidades proporcio-
po entre quatro paredes, na frente de aparelhos nem um conjunto de vivências e experiências para
eletrônicos ou em atividades dirigidas. A realidade todas as crianças, que contribuam para seu pleno
é que já viviam em confinamento, antes mesmo da desenvolvimento físico, cognitivo, psíquico, emocio-
chegada da pandemia de covid-19. Isso tem produ- nal e social. A obrigatoriedade de destinação especí-
zido índices elevados de sedentarismo infantil, com fica para ações voltadas aos interesses das crianças
uma epidemia de obesidade (47% das crianças bra- e adolescentes nas ações e intervenções urbanas é
sileiras estão com excesso de peso ou são conside- uma ferramenta para alcançar esse objetivo, com a
radas obesas), baixa motricidade, alta medicalização participação das próprias crianças e adolescentes na
(o Brasil é o segundo maior consumidor de Ritali- definição dessa destinação.
na, remédio utilizado em casos de hiperatividade e Áreas verdes e parques ecológicos, por sua vez, per-
TDAH) e inúmeros casos de miopia precoce, entre mitem que crianças e adolescentes tenham contato
outros problemas físicos e mentais. direto com a natureza (terra, água, ar, plantas e ou-
Um amplo conjunto de pesquisas comprova que tros seres vivos) assegurando seu bem-estar físico,
o contato cotidiano com a natureza traz benefícios emocional, social para além dos confinamentos.
para a saúde física, mental e para a qualidade de Além disso, levam ao aprendizado de respeitar a na-
vida. Contar com áreas verdes bem mantidas e se- tureza para preservá-la e restaurar a compreensão
guras a distância caminhável para brincar livremen- de que somos parte de um todo, da mãe terra, re-
te, movimentar-se e conviver com outras crianças, vertendo os processos insustentáveis de degradação
de modo cotidiano, é uma estratégia simples e ba- socioambiental.
rata que ajuda a prevenir problemas como estresse, Políticas públicas que promovam cidades acessíveis,
ansiedade e ainda doenças como diabetes, falta de mais verdes, brincantes e livres de publicidade infantil
vitamina D, miopia e enfermidades cardiovasculares, devem contemplar as necessidades das crianças ob-
entre outras. jetivando sua maior autonomia, o acesso e a circula-
Deve-se implementar, portanto, uma malha de es- ção nos espaços públicos e áreas verdes dos municí-
paços públicos conectados e articulados, que inclua pios. Portanto, faz-se necessário organizar instâncias
calçadas largas e bem arborizadas, mais áreas verdes federais que mitiguem e financiem o desenvolvimen-
equitativamente distribuídas pelos territórios e bem to de cidades mais verdes e amigáveis às crianças.

ODS
ODS 11
• Meta 11.7 – Até 2030, proporcionar o acesso universal a espaços públicos seguros, inclusivos,
acessíveis e verdes, em particular para as mulheres, crianças e adolescentes, pessoas idosas
e pessoas com deficiência, e demais grupos em situação de vulnerabilidade.

155
109 CIDADES E ASSENTAMENTOS SUSTENTÁVEIS
Garantir o acesso universal e de qualidade ao sistema de transporte público e à mobilidade ativa,
segura e especialmente adequada a mulheres, crianças e adolescentes.

AÇÕES METAS
• Formular diretrizes que orientem a realização de 1. Prioridade a gestantes, crianças pequenas e seus
melhorias nas condições de mobilidade urbana cuidadores, com diretrizes e ações específicas,
a partir de um modelo centrado nas pessoas, em inserida na Política Nacional de Mobilidade Ur-
especial em gestantes, crianças pequenas e seus bana até 2024.
cuidadores, contemplando:
2. Programa de apoio e incentivo aos estados e
ȿ a criação de boas condições de mobilidade para municípios no atendimento à prioridade a ges-
pedestres e ciclistas, com calçadas amplas e ar- tantes, crianças pequenas e seus cuidadores na
borizadas, travessias e sinalizações adequadas; mobilidade urbana implantado até 2025.
ȿ a implantação de ciclovias, ciclofaixas e demais
estratégias de desenho urbano para acalma-
mento de tráfego;
ODS
ȿ a mobilidade segura e sustentável, tendo como
meta a não-ocorrência de sinistros e fatalidades ODS 3
no trânsito, em especial na primeira infância; • Meta 3.6 – Até 2030, reduzir pela metade as mor-
ȿ o início de intervenções e melhorias de mobi- tes e lesões por acidentes no trânsito.
lidade urbana segura pelos entornos escolares, ODS 9
tendo as unidades de ensino como centralida- • Meta 9.1 – Aprimorar o sistema viário do País, com
des dos territórios. foco em sustentabilidade e segurança no trânsi-
to e transporte, equalizando as desigualdades
regionais, promovendo a integração regional e
RAZÕES transfronteiriça, na busca de menor custo, para o
transporte de passageiros e de cargas, evitando
As cidades brasileiras não atendem às necessida- perdas, com maior participação dos modos de
des específicas de crianças e adolescentes, tendo alta capacidade como ferroviário, aquaviário e
o deslocamento por automóvel como centro dos dutoviário, tornando-o acessível e proporcionan-
projetos e das transformações urbanas. Crianças do bem-estar a todos.
e adolescentes se deslocam majoritariamente por ODS 11
modos ativos (a pé ou de bicicleta), tendo cotidia-
• Meta 11.2 – Até 2030, melhorar a segurança viá-
namente como principal destino a escola.
ria e o acesso à cidade por meio de sistemas de
Por tal motivo, é necessário que as cidades, em espe- mobilidade urbana mais sustentáveis, inclusivos,
cial os entornos escolares e as áreas de acesso a servi- eficientes e justos, priorizando o transporte pú-
ços prioritários, atendam às suas necessidades espe- blico de massa e o transporte ativo, com especial
cíficas (como tempos de deslocamento) e forneçam atenção para as necessidades das pessoas em
estruturas seguras para seus trajeto (como calçadas situação de vulnerabilidade, como aquelas com
largas e arborizadas). Ao mesmo tempo, ambientes deficiência e com mobilidade reduzida, mulhe-
que favorecem modos ativos e sustentáveis de trans- res, crianças e pessoas idosas.
porte beneficiam diretamente as crianças, uma vez
que estas são mais suscetíveis às poluições do ar e so-
nora, pois têm suas funções pulmonares e auditivas como a partir do transporte individual motorizado.
ainda em desenvolvimento. A insegurança e a falta de conforto e de estímulos
O trânsito é a principal causa de morte por moti- positivos são reforçadas pela ausência de espaços
vos acidentais de crianças e adolescentes de cinco de brincar onde mães e cuidadores não precisem
a 14 anos no Brasil. Em 2015, segundo dados do Mi- se preocupar com a presença de carros e o risco
nistério da Saúde, 3.886 crianças de zero a 14 anos de atropelamentos.
morreram por algum tipo de acidente no País. Des- O relatório sobre lesões de trânsito apresentado pela
se total, 1.389 óbitos foram devido a acidentes de Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019, apon-
trânsito, o que representa 36% do total de mortes tou progressos alcançados em relação a elas. A taxa de
por acidentes registrados no País naquele ano (fon- mortalidade por essa causa se estabilizou nos últimos
te: ONG Criança Segura). anos, mas não foi suficiente para compensar uma rá-
O elevado número de sinistros de trânsito, (cuja pida e crescente motorização em várias partes do
maioria é de atropelamentos) torna o trajeto de mundo. Além disso, as lesões de trânsito constituem a
crianças motivo de preocupação por parte dos principal causa de morte de crianças e adultos jovens
cuidadores, que acabam deixando as crianças em de 5 a 29 anos, o que sinaliza a importância desta gra-
casa, ou procuram outras formas de deslocá-las, ve e complexa questão de saúde pública.

156
110 CIDADES E ASSENTAMENTOS SUSTENTÁVEIS
Garantir que as ações voltadas para as cidades sejam realizadas de forma intersetorial articulada
e com ampla participação social, com prioridade absoluta para crianças e adolescentes.

AÇÕES METAS
• Estabelecer um modelo metodológico par- 1. Ministério das Cidades restabelecido como pasta
ticipativo e intersetorial para todas as etapas autônoma em 2023.
das ações voltadas para as cidades, com a
2. Modelo metodológico participativo e intersetorial
garantia expressa de participação de crian-
para todas as etapas das ações voltadas para as ci-
ças e adolescentes.
dades, com garantia expressa de participação de
• Restabelecer o Ministério das Cidades como crianças e adolescentes, estabelecido até 2024.
pasta autônoma, fortalecendo sua coordena-
3. Indicadores urbanos e territoriais sobre infâncias e
ção de governança, criando uma pauta trans-
juventudes definidos e implantados até 2024.
versal específica para temas diretamente liga-
dos às infâncias e juventudes.
• Elaborar e implementar indicadores urba- ODS
nos e territoriais sobre infâncias e juventu-
des de modo que sejam totalmente aces- ODS 11
síveis e amigáveis em suas bases de dados. • Meta 11.3 – Até 2030, aumentar a urbanização inclusi-
• Incluir nas políticas públicas urbanas es- va e sustentável, aprimorar as capacidades para o pla-
tratégias baseadas em saberes ancestrais nejamento, para o controle social e para a gestão par-
latino-americanos, andinos, tropicais e ticipativa, integrada e sustentável dos assentamentos
amazônidas, resilientes e adaptativos, de humanos, em todas as Unidades da Federação.
comunidades tradicionais, sobretudo de • Meta 11.a – Apoiar a integração econômica, social
defensores da vida como um todo (Nature- e ambiental em áreas metropolitanas e entre áre-
za, Pacha, Bem Viver, todos os seres), para o as urbanas, peri urbanas, rurais e cidades gêmeas,
fortalecimento de comunidades e das rela- considerando territórios de povos e comunidades
ções com o ecossistema em que vivem. tradicionais, por meio da cooperação interfederati-
va, reforçando o planejamento nacional, regional e
local de desenvolvimento.

RAZÕES
O planejamento participativo é condição necessária Nesse processo, é necessário considerar a prioridade
para uma urbanização sustentável. A legislação fe- absoluta a crianças e adolescentes, dando a eles es-
deral brasileira já reconhece a relevância da partici- paço de participação e decisão, por meio de meca-
pação social no planejamento e na gestão das áreas nismos metodologicamente adequados a cada ida-
urbanas, embora ainda seja um desafio para muitas de e fase de desenvolvimento.
cidades o fortalecimento de sua governança urbana
Outro desafio está no planejamento integrado in-
com forte componente de participação social.
tersetorial, envolvendo diferentes áreas de governo
Políticas públicas relacionadas a territórios urbanos, para gerar sinergia, por exemplo, entre políticas am-
bem como todo o planejamento, as ações e as obras bientais, de uso do solo, habitação, transporte, edu-
envolvidos, são investimentos de grande risco de ina- cação etc. A lógica governamental, estruturada por
dequação e insucesso, quando definidos, elaborados visões setoriais em cada secretaria e permeada por
e desenvolvidos sem uma participação social efeti- questões políticas e partidárias, dificulta o planeja-
va e sem mecanismos de governança participativa. mento e a ação integrados.
Definir prioridades sem que sejam contempladas no
diagnóstico e na decisão as perspectivas e as expe- A definição de um modelo metodológico participa-
riências das populações afetadas pelos problemas tivo e intersetorial de discussão, planejamento, exe-
dos territórios urbanos se mostra inefetivo, levando cução das ações e de controle social poderá dar aos
ao desperdício de recursos públicos. municípios as condições técnicas necessárias para
todas as fases das ações voltadas para o desenvolvi-
A ação integrada e transversal de cinco instâncias de mento urbano sustentável.
agentes de mudança é necessária como estratégia de
um trabalho de impacto positivo direto e imediato, cres- Esse modelo só terá a ganhar, ainda, se desenvolver
cente e perene, a saber: sociedade civil (pessoas físicas e técnicas para a incorporação dos saberes construti-
organizações da sociedade civil), comunidade (pessoas vos e das relações socioambientais dos povos origi-
físicas, associações, colegiados, coletivos pertencentes nários e das comunidades tradicionais, como relação
aos territórios), iniciativa privada (empresas, indústrias, com o meio externo, necessidade de espaços arbori-
organizações da sociedade civil com fins econômicos), zados ou ajardinados, relações de vizinhança, fortale-
universidade (pesquisa, ensino, extensão e ação) e po- cimento comunitário e alternativas de processos de
der público (executivo, legislativo e judiciário). restauração ecossistêmica.

157
111 MUDANÇAS CLIMÁTICAS E ECOSSISTEMAS TERRESTRES E MARINHOS
Definir metas ambientais; entre elas, a redução da emissão de carbono e do desmatamento, com base em
critérios tecnicamente adequados, com ampla participação e controle da sociedade civil e de especialistas.

AÇÕES
ODS
• Elaborar e implementar o Plano Nacional so-
bre Mudança do Clima, integrado pelos Planos ODS 9
de Ação para a Prevenção e o Controle do Des- • Meta 9.4 – Até 2030, modernizar a infraestrutura e
matamento nos Biomas, pelo Plano Nacional reabilitar as atividades econômicas, para torná-las
de Energia e pelos Planos Setoriais de Mitiga- sustentáveis, com foco no uso de recursos reno-
ção e de Adaptação às Mudanças Climáticas. váveis e maior adoção de tecnologias e processos
industriais limpos e ambientalmente adequados.
• Recompor as metas de redução de emissão
ODS 13
de gases de efeito estufa, calculadas a partir
• Meta 13.2 – Integrar a Política Nacional sobre Mu-
de 2005, descartando as alterações da base de
dança do Clima (PNMC) às políticas, às estratégias
cálculo (quantidade total emitida em 2005).
e aos planejamentos nacionais.
ODS 15
METAS • Meta 15.2 – Até 2030, zerar o desmatamento ile-
gal em todos os biomas brasileiros, ampliar a área
1. Plano Nacional sobre Mudança do Clima, de florestas sob manejo ambiental sustentável e
com todos os seus componentes, elaborado recuperar 12 milhões de hectares de florestas e as
com ampla participação social em 2023. demais formas de vegetação nativa degradadas,
em todos os biomas e preferencialmente em Áre-
2. Plano Nacional sobre Mudança do Clima,
as de Preservação Permanente (APP) e Reservas
com todos os seus componentes, imple-
Legais (RL) e, em áreas de uso alternativo do solo,
mentado a partir de 2024.
ampliar em 1,4 milhão de hectares a área de flores-
3. Metas de redução de emissão de gases de tas plantadas.
efeito estufa recompostas com critérios tec-
nicamente adequados em 2023.

RAZÕES
O cumprimento do Acordo de Paris, para a redução As metas de redução de emissão de GEE, por sua
da emissão de gases de efeito estufa (GEE), requer vez, foram alvo de uma “pedalada climática”: o Go-
que o Brasil tenha metas claras e tecnicamente verno Federal mudou a base de cálculo a partir da
adequadas de redução e um planejamento nacio- qual se estabelecem os percentuais de queda de
nal para orientar os setores econômicos e as políti- emissões. Com isso, mesmo adotando percentuais
cas públicas. As duas coisas faltam hoje ao País. maiores de redução, o valor real da redução é menor.
O Plano Nacional sobre Mudança do Clima, instru- O primeiro compromisso brasileiro, em 2015, era
mento normatizador e orientador criado pelo De- chegar a 2030 com uma redução de 43% das emis-
creto nº 9.578/18, composto por um subconjunto de sões feitas em 2005, considerando que estas foram
planos específicos, até hoje não foi elaborado. De de 2.133 MtCO2e (milhões de toneladas de gás car-
acordo com o decreto, ele deve conter, com estraté- bônico equivalente). Assim, a meta para 2030 era a
gias e ações específicas: (I) o Plano de Ação para Pre- de emissão máxima de 1.208 MtCO2e.
venção e Controle do Desmatamento na Amazônia
Legal (PPCDAm); (II) o Plano de Ação para Prevenção Já em 2022, o governo anunciou um aumento da
e Controle do Desmatamento e das Queimadas no meta de 43% para 50% de redução de emissões, até
Cerrado (PPCerrado); (III) o Plano Setorial de Mitiga- 2030. Seria um avanço, mas como o governo ado-
ção e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a tou um cálculo diferente para as emissões de 2005
Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão (2.562 MtCO2e), mesmo com essa meta aparente-
de Carbono na Agricultura (Plano ABC); (IV) o Plano mente mais ousada em termos percentuais, na ver-
Setorial de Redução de Emissões da Siderurgia; e (V) dade, em 2030, poderão ser emitidos, em termos
o Plano Decenal de Expansão de Energia. reais, 1.281 MtCO2e – o que equivale a um volume
superior ao que estava estabelecido no compro-
Esse planejamento conjunto e integrado é um misso original.
pressuposto para que o País possa controlar e cum-
prir o Acordo de Paris, com ações efetivas para a É urgente, portanto, que o novo governo desfaça
redução de gases de feito estufa. Será fundamen- a “pedalada climática”, adotando cálculos tecni-
tal, para isso, que a elaboração dos planos seja feita camente adequados e sem truques matemáticos
com ampla participação e controle da sociedade para garantir a redução real e progressiva das emis-
civil e de especialistas. sões de GEE no Brasil.

158
112 MUDANÇAS CLIMÁTICAS E ECOSSISTEMAS TERRESTRES E MARINHOS
Reduzir os índices de desmatamento em todos os biomas.

AÇÕES METAS
• Retomar as ações intensivas de fiscalização dos 1. Equipes de fiscalização, com apoio da Polícia Fe-
desmatamentos, sob coordenação dos órgãos do deral, das forças policiais estaduais e de outros
Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama). órgãos, mobilizadas em número suficiente para a
demanda de casos, em operação em 2023.
• Realizar uma auditoria nos dados do Cadastro Am-
biental Rural (CAR), identificando e eliminando so- 2. Auditoria dos dados do Cadastro Ambiental Ru-
breposições com áreas públicas não destinadas e ral (CAR) para identificar casos de sobreposição
áreas protegidas. com terras públicas não destinadas e sobreposi-
ção com áreas protegidas realizada em 2023.
• Implementar um programa de apoio para a valida-
ção do CAR pelos estados, com o uso de tecnologia. 3. Programa de apoio à validação do CAR pelos Esta-
dos, com uso de tecnologia, implantado em 2024.
• Ampliar os recursos financeiros e humanos dos ór-
gãos federais do Sisnama, incluindo o órgão cen- 4. Orçamento e equipes dos órgãos que compõem
tral (Ministério do Meio Ambiente) e os executores o Sisnama recompostos e aumentados a partir
(Ibama e ICMBio). de 2023.

RAZÕES
Considerando-se a área desmatada em 2020, 70,9% pelo desmatamento: 68,3% das detecções valida-
encontra-se em propriedades privadas, sendo que das têm sobreposição total ou parcial com áreas
99,8% dela contém indícios de ilegalidade e apenas inscritas no Cadastro Ambiental Rural (CAR). De
4,8% tinham Autorização de Supressão da Vegeta- acordo com o Relatório Anual do Desmatamento
ção (ASV) emitida pelos órgãos estaduais de meio no Brasil 2020, do Projeto MapBiomas, o desma-
ambiente (Oema) ou pelo Ibama. Por outro lado, tamento cresceu 13,6% em 2020, atingindo 13.853
menos de 1% das áreas desmatadas são multadas, km2. Os biomas Amazônia e Cerrado foram os
embargadas ou sofrem alguma ação por parte do mais afetados.
Estado. Quando se consideram os alertas gerados
A Lei da Proteção da Vegetação Nativa, o Novo
pelo MapBiomas, que são baseados em dados ofi-
Código Florestal, instituiu o CAR. No entanto, por
ciais, apenas 2% dos alertas ou 5% das áreas des-
ser autodeclaratório, há um aumento expressivo
matadas sofreram multas ou embargos pelo Ibama.
de registros do CAR em sobreposição com terras
Na Amazônia, dos 52 municípios considerados críti-
públicas não destinadas e sobreposição com áre-
cos pelas políticas do Ministério do Meio Ambiente,
as protegidas. Do total de alertas registrados pelo
apenas 2% dos alertas e 9,3% da área desmatada
MapBiomas, 39% apresentaram sobreposição com
tiveram ações de punição.
áreas de reserva legal, áreas de preservação perma-
O processo de ilegalidade contrasta com a grande nente ou áreas de nascente declaradas no cadastro.
transparência de dados em nosso País, promovida Além disso, dos 6,5 milhões de registros do CAR,
por sistemas de detecção do desmatamento, em menos de 30 mil estão validados, depois de uma
tempo real, por satélite. Os dados do MapBiomas década da nova Lei Florestal. O Governo Federal
Alerta mostram que, em pelo menos dois terços deve implementar um forte programa de apoio a
dos alertas, é possível identificar os responsáveis essa validação, com o uso de tecnologia.

ODS
ODS 15
• Meta 15.1.1 – Até 2020, serão conservadas, por meio de sistemas de unidades de conservação previstas na Lei
do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) e outras categorias de áreas oficialmente protegidas,
como Áreas de Preservação Permanente (APP), Reservas Legais (RL) e terras indígenas com vegetação nativa,
pelo menos 30% da Amazônia, 17% de cada um dos demais biomas terrestres e 10% de áreas marinhas e cos-
teiras, principalmente áreas de especial importância para a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos, sendo
asseguradas e respeitadas a demarcação, a regularização e a gestão efetiva e equitativa, objetivando garantir a
interligação, a integração e a representação ecológica em paisagens terrestres e marinhas mais amplas.
• Meta 15.2 – Até 2030, zerar o desmatamento ilegal em todos os biomas brasileiros, ampliar a área de florestas
sob manejo ambiental sustentável e recuperar 12 milhões de hectares de florestas e as demais formas de ve-
getação nativa degradadas, em todos os biomas e preferencialmente em Áreas de Preservação Permanente
(APP) e Reservas Legais (RL) e, em áreas de uso alternativo do solo, ampliar em 1,4 milhão de hectares a área
de florestas plantadas.

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113 MUDANÇAS CLIMÁTICAS E ECOSSISTEMAS TERRESTRES E MARINHOS
Promover a autodeterminação dos povos, a afirmação da diversidade de identidades e culturas
tradicionais, a soberania e a segurança alimentar, a proteção ambiental e a democratização do
uso da terra.

AÇÕES METAS
• Criar novos instrumentos econômicos de 1. Instrumentos econômicos de apoio para comunida-
apoio para as comunidades indígenas, da des indígenas, da agricultura familiar, da agricultura
agricultura familiar, da agricultura orgânica e orgânica e do agroextrativismo implantados em 2024.
do agroextrativismo.
2. Assistência técnica para comunidades indígenas, da
• Ofertar assistência técnica para as comuni- agricultura familiar, da agricultura orgânica e do agro-
dades indígenas, da agricultura familiar, da extrativismo oferecida a partir de 2024.
agricultura orgânica e do agroextrativismo.
3. Programas e ações que apoiem iniciativas protagoni-
• Criar programas e ações que apoiem inicia- zadas por comunidades indígenas, da agricultura fa-
tivas protagonizadas pelas comunidades in- miliar, da agricultura orgânica e do agroextrativismo
dígenas, da agricultura familiar, da agricultu- no manejo sustentável da biodiversidade instituídos
ra orgânica e do agroextrativismo no manejo em 2024.
sustentável da biodiversidade.

RAZÕES
Indígenas, agricultores(as) familiares, povos e comu- No Brasil, são mais de 305 povos indígenas, com-
nidades tradicionais têm desempenhado um papel postos por 896.917 pessoas (IBGE, 2010), além de
fundamental para a conservação e o manejo sus- mais de 1.800 comunidades quilombolas certifi-
tentável da biodiversidade, aliados à geração de be- cadas (Fundação Cultural Palmares, 2021), que se
nefícios para o conjunto da sociedade, ao produzir somam a outras 24 variedades de comunidades
e fornecer alimentos saudáveis com a recuperação tradicionais oficialmente reconhecidas, totalizando
e a conservação das fontes de água, com o manejo mais de 4 milhões de pessoas, além de outros 4
sustentável dos biomas, a democratização do uso milhões de agricultores familiares. As populações
da terra, a geração de trabalho digno e renda e a tradicionais são as maiores protetoras das florestas,
afirmação da diversidade de identidades e culturas. dos rios, dos lagos e das áreas marinhas, em um
A agricultura agroecológica não só não destrói o processo continuado de territorialização e luta por
meio ambiente, mas, sobretudo, contribui para au- acesso e uso dos recursos naturais.
mentar a biodiversidade, o armazenamento de água
nos lençóis freáticos e a conservação do solo. Com Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e
um variado e ancestral conhecimento de agricul- Abastecimento (Mapa), a agricultura familiar é a
turas e técnicas de manejo do território, promove principal responsável pela produção de alimentos
maior cuidado e resiliência socioecológica frente às para os brasileiros. Mesmo assim, em janeiro deste
mudanças do clima, aos riscos naturais e à ameaça ano, o governo congelou diversas modalidades de
de queda brusca da produção e da produtividade. financiamento ao pequeno agricultor que vinham
Por muitos anos, tais comunidades desenvolveram sendo implementadas desde meados dos anos de
estratégias agroalimentares que geraram sistemas 1990 até 2015. Modalidades estas que, em grande
agrícolas complexos. Contudo, o desmatamento e a parte, eram responsáveis pelo êxito de fazer o Bra-
violência no campo vêm comprometendo a repro- sil sair do Mapa da Fome (2013/2014) e atingir as
dução dos modos de vida e das próprias populações. Metas do Milênio (ONU).

ODS
ODS 2
• Meta 2.3 – Até 2030, aumentar a produtividade agrícola e a renda dos pequenos produtores
de alimentos, particularmente de mulheres, agricultores familiares, povos e comunidades
tradicionais, visando tanto à produção de autoconsumo e à garantia da reprodução social
dessas populações quanto ao seu desenvolvimento socioeconômico, por meio do acesso
seguro e equitativo: i) à terra e aos territórios tradicionalmente ocupados; ii) à assistência téc-
nica e à extensão rural, respeitando-se as práticas e os saberes culturalmente transmitidos;
iii) a linhas de crédito específicas; iv) aos mercados locais e institucionais, inclusive às políticas
de compra pública; v) ao estímulo ao associativismo e ao cooperativismo.

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114 MUDANÇAS CLIMÁTICAS E ECOSSISTEMAS TERRESTRES E MARINHOS
Retirar os invasores e recuperar as terras indígenas e os territórios quilombolas e de outros
povos e comunidades tradicionais.

AÇÕES METAS
• Definir e implementar estratégias emer- 1. Estratégias emergenciais de remoção de invasores de
genciais de remoção de invasores de ter- terras indígenas, territórios quilombolas e de outros po-
ras indígenas, territórios quilombolas e de vos e comunidades tradicionais adotadas em 2023.
outros povos e comunidades tradicionais.
2. Projetos de restauração dos ecossistemas em unidades de
• Definir e implementar projetos de res- conservação, inclusive marinhas, e de recuperação de áreas
tauração dos ecossistemas em unidades degradadas elaborados, com participação da sociedade civil,
de conservação (inclusive marinhas) e de das comunidades envolvidas e de especialistas, até 2024.
recuperação de áreas degradadas, com a
3. Projetos de restauração dos ecossistemas em unidades
participação da sociedade civil, das comu-
de conservação (inclusive marinhas) e de recuperação de
nidades envolvidas e de especialistas.
áreas degradadas implantados a partir de 2024.

RAZÕES
As áreas protegidas, que, no Brasil, incluem as severas ameaças: pesca insustentável, expansão de
Unidades de Conservação (UC) e os Territórios de áreas urbanas, turismo predatório, poluição, redu-
Ocupação Tradicional (Terras Indígenas e Territórios ção dos recursos hídricos, corte de madeira e mu-
Remanescentes de Quilombo), são importantes danças do clima.
barreiras contra a destruição dos ecossistemas e o Portanto, além de estancar esse processo de de-
avanço da fronteira agrícola. Conformam corredo- generação socioambiental, é necessário atuar na
res ecológicos e mosaicos de proteção, com reper- regeneração dos meios físico e biótico, com repo-
cussões no fluxo genético, no transporte da umida- voamento de espécies e reestruturação dos am-
de (rios voadores) e na regulação do clima, dentre bientes, para que ganhem nova capacidade de
tantos outros benefícios. voltar a um estado de equilíbrio (resiliência). A am-
Contudo, há forte tendência de aumento do des- pliação das áreas protegidas na Amazônia Legal
florestamento no interior das áreas protegidas, Brasileira (de 105.873 km² em 1988 para 314.178,9
principalmente ao longo das principais rodovias km² em 1991, um aumento de 196,5%) foi impor-
amazônicas, associado ao mercado ilegal de terras tante para a redução do desmatamento. Ocupam
e madeira e à omissão do Estado em conter e reti- 44% do total do território, mas respondem por
rar invasores (geralmente, madeireiros, garimpeiros, apenas 3% do desmatamento.
fazendeiros, grileiros, narcotraficantes e pescadores Por outro lado, segundo o Instituto Socioambiental,
ilegais). É um ambiente de incertezas fundiárias, entre agosto de 2017 e julho de 2018, o desmata-
com graves impactos, como desmatamento, quei- mento total nas terras indígenas aumentou 124%,
madas, caça e pesca ilegais, contaminação dos rios frente ao período anterior. Em 2020, foram 263
e da terra, risco à saúde e violência contra popula- casos de invasões, exploração ilegal de recursos e
ções tradicionais. Outro fator a considerar é a coop- danos ao patrimônio indígena (CIMI, 2021). No Pará,
tação de lideranças indígenas pelos invasores. a elevação do preço do ouro levou à retomada de
A Zona Costeira brasileira, enquanto região de tran- garimpos na terra indígena Mundurucu, agora com
sição ecológica, é importante para o desenvolvi- máquinas pesadas. Estima-se que, somente nas
mento e a reprodução de espécies e trocas gené- terras dos Yanomamis (RR), haja a presença ilegal
ticas entre os ecossistemas, mas encontra-se sob de 20 mil garimpeiros.

ODS
ODS 15
• Meta 15.1.1– Até 2020, serão conservadas, por meio de sistemas de unidades de conservação
previstas na Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) e outras categorias
de áreas oficialmente protegidas, como Áreas de Preservação Permanente (APP), Reservas
Legais (RL) e terras indígenas com vegetação nativa, pelo menos 30% da Amazônia, 17% de
cada um dos demais biomas terrestres e 10% de áreas marinhas e costeiras, principalmente
áreas de especial importância para a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos, sendo
asseguradas e respeitadas a demarcação, a regularização e a gestão efetiva e equitativa, ob-
jetivando garantir a interligação, a integração e a representação ecológica em paisagens ter-
restres e marinhas mais amplas.

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115 MUDANÇAS CLIMÁTICAS E ECOSSISTEMAS TERRESTRES E MARINHOS
Ampliar a inserção das energias renováveis na matriz energética nacional.

AÇÕES METAS
• Criar um programa de instalação de geração 1. Programa de instalação de geração domiciliar de ener-
domiciliar de energia solar para as unidades gia solar para as unidades familiares de baixa renda e
familiares de baixa renda e de comunidades de comunidades isoladas implantado em 2024.
isoladas.
2. Geração de energia eólica respondendo por 20% da
• Ampliar a geração eólica de energia elétrica. matriz elétrica nacional até 2026.

RAZÕES
A dependência histórica que o Brasil tem das ma- sentido, o baixo custo de geração da energia eólica
trizes hidrelétrica e termoelétrica reclama por di- e a instalação de sistemas de geração de energia
versificação das fontes energéticas, de maneira a solar fotovoltaica, por meio de programas sociais
se tornar menos suscetível a crises e com menor para residências de consumidores de baixa renda,
impacto ambiental, se aliando à luta contra a mu- que pagam a tarifa social de energia, podem resul-
dança do clima, conforme o proposto pelo Progra- tar em uma economia de R$ 817 milhões para tais
ma de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia consumidores ao longo de 25 anos.
Elétrica (Proinfa). A energia eólica representa cerca de 11% da energia
Embora considerável, a expansão das fontes de gerada nacionalmente, com 20,1 GW e mais de 9 mil
energia limpa ainda é incipiente, frente à alta capa- aerogeradores instalados em 777 parques eólicos, dis-
cidade potencial de geração e à crescente deman- tribuídos por 12 estados, o que é suficiente para abas-
da elétrica no País (de acordo com a previsão de tecer quase 30 milhões de residências, atendendo
aumento de 41% no próximo decênio). cerca de 86 milhões de pessoas; porém, é algo ainda
muito distante do potencial nacional de 140 GW.
Desde a década de 2000, o Brasil passou a empre-
gar elevadas tarifas de energia elétrica, como resul- Na geração de energia solar, o Brasil é o 14° país em
tado da elevação dos custos setoriais e dos cres- capacidade instalada (são mais de 228 mil sistemas
centes impostos e encargos sobre as tarifas. Mais fotovoltaicos distribuídos por mais de 80% dos mu-
recentemente, a pandemia de covid-19 e a crise nicípios brasileiros). Trata-se de uma modalidade
elétrica de 2021 causaram uma explosão dos gastos que pode proporcionar uma economia de até 95%
de eletricidade (aumento de 51% entre 2018 e 2021, no valor total da conta de luz, o que possibilita reaver
segundo o IBGE) e devem pressionar as tarifas nos os custos de instalação em até 5 anos, muito antes
próximos anos. A elevação das tarifas onera princi- da vida útil do sistema, que é de mais de 25 anos.
palmente as famílias mais pobres, que dedicam 5% A instalação de painéis solares em domicílios de
dos seus orçamentos para pagar a conta de eletri- baixa renda é viável e proporciona ganhos para a
cidade (frente a 1,7% das famílias de maior renda). sociedade, ao evitar os subsídios para a tarifa so-
O uso de painéis solares no Brasil não beneficiou cial, além de estar prevista no novo Marco Legal da
as famílias mais carentes, mas sim domicílios de Geração Distribuída no Brasil (Lei nº 14.300/2022),
maior poder aquisitivo, devido aos custos ainda que implementou o Programa de Energia Renová-
inacessíveis para a maioria da população. Nesse vel Social (PERS).

ODS
ODS 7
• Meta 7.1 – Até 2030, assegurar o acesso universal, confiável, moderno e a preços acessíveis a
serviços de energia.
• Meta 7.2 – Até 2030, manter elevada a participação de energias renováveis na matriz ener-
gética nacional.
• Meta 7.b – Até 2030, expandir a infraestrutura e aprimorar a tecnologia para o fornecimento
de serviços de energia modernos e sustentáveis para todos.

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116 MUDANÇAS CLIMÁTICAS E ECOSSISTEMAS TERRESTRES E MARINHOS
Buscar a neutralidade de carbono nos diferentes setores da economia.

AÇÕES METAS
• Promover políticas públicas que priorizem a 1. Políticas emergenciais de combate às mudanças do
baixa emissão de gases de efeito estufa (GEE) uso do solo, especialmente desmatamentos, implan-
e sistemas de inovação tecnológica. tadas em 2023.
• Priorizar o combate às mudanças de uso do 2. Percentual de aplicação do Plano Safra em Agricul-
solo (especialmente, o desmatamento), que tura de Baixo Carbono elevado progressivamente a
respondem por 46% das emissões de gases partir de 2024.
de efeito estufa.
3. Programa de apoio técnico e estímulo à rotação de
• Aumentar a participação da agricultura de pastagens e recuperação de pastagens degradadas
baixo carbono no Plano Safra. instituído em 2024.
• Implantar um programa de apoio técnico e o 4. Restauração florestal de 14 milhões de hectares em
estímulo à rotação de pastagem na pecuária. áreas de reserva legal e áreas de preservação perma-
nente realizada entre 2023 e 2030.
• Garantir a restauração florestal.

RAZÕES
No Brasil, as emissões de gases de efeito estufa cres- mento da fiscalização e dos órgãos ambientais, bem
ceram 9,5% em 2020, segundo o Sistema de Estima- como a revisão de regulamentações e leis que abrem
tivas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito brechas para a atuação de desmatadores, garimpei-
Estufa (SEEG), atingindo o maior montante desde ros ilegais e invasores de áreas protegidas e reservas.
2006, enquanto no mundo inteiro elas despencaram
Na agricultura, o Plano ABC (de agricultura de bai-
em quase 7%, devido à pandemia de covid-19.
xo carbono) recebe hoje apenas cerca de 2% dos R$
Dados mostram a ocorrência de 73% de atividades 340,88 bilhões do Plano Safra (recursos federais des-
de uso do solo no Brasil: 46% devido principalmente tinados ao custeio e a investimentos na agropecuá-
ao desmatamento (dentre outras formas de altera- ria). Trata-se de um percentual que precisa ser signi-
ção do uso do solo) e 27% por causa da agropecuária ficativamente ampliado nos próximos anos.
(com grande peso para a emissão de metano na pe-
Na pecuária do boi, a utilização da técnica de rotação
cuária bovina). Ações imediatas de combate ao des-