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RESUMO A primeira vista, tentar estabelecer uma proximi- dade entre Cesério Verde ¢ Augusto dos Anjos pa- rece descabido, pois trata-se de dois poetas cujos estilos e ideologias se enuncram como bastante he- terogéneos. Entretanto, pretendemos aqui demons- trar que, ndo obstante isso, hd neles acentuadas semelhangas. ABSTRACT At first sight, trying to establish resemblance bet- ween Cesdrio Verde and Augusto dos Anjos seems fruitless considering they are poets whose styles and ideologies are uttered in very heterogeneou- sly. However, the intention of this paper is to demonstrate, in spite of this, that they share stres- sed similarities. A POESIA DE CESARIO VERDE E DE AUGUSTO DOS ANJOS: SEMELHANGAS E DESSEMELHANCAS Francisco Antonio Ferreira Tito Damazo* Buscar estabelecer uma comparagao entre os poetas Augusto dos Anjos e Cesdrio Verde, como pretendemos fa- zer, pode parecer algo complicado, se nao inviével. Afinal, se se considerar 0 que deles a critica em geral tem difimdi- do, sao poetas bem opostos, pois enquanto a lirica de Au- gusto dos Anjos essencialmente esta voltada para a precarie- dade, para a nulidade da natureza humana, logo um olhar tornado para o ser-materia, a Ifrica de Gesdario Verde, por sua vez, debruga-se sobre a condigao humana. Isto é, o olhar lirico de Cesario Verde est a perscrutar 0 homem no seu dia-a-dia de ser, enquanto individuo social. Nao obstante, no Ambito mesmo dessas dessemelhangas, entendemos que nalguns pontos de sua poesia observam-se pro- ximidades, A comecar por alguns aspectos de natureza pessoal, coincidentes que sejam, mas que de algum modo, e na devida medida, exercem influéncia na tessitura literaria. Afinal, trata- se de dois “tisicos”. Ambos acabam sucumbidos pela doenga em idade muito pr6xima - em torno dos trinta anos. Tal fato, ou melhor seria dizer talvez, tal fatalidade, isto é, a condigao de tisicos certamente contribuiu para o ensimesmamento em que ambos se confinaram, conforme se pode observar no transcur- so da vida pessoal e literaria de cada um. Asolidao tubércula, ou a turberculose solitaria, nado im- porta, tera contribuido por certo, de algum modo, para a for- macio dessas personalidades poéticas. Ainda que isso seja um. dado pouco relevante na aferigao da estética em si mesma eo * Professor, mestre, doutorando em Literatura Brasileira pela UNESP - S. J. do Rio Preto - SE, ‘poeta, cronista do Jornal Folha da Regio de Aragatuba e membro da Academia Aragatubense de Letras 159 UNICiéncias, v.4, 2000 seja, por certo, mais relevante na sua génese, entendemos con- veniente aponté-lo. Fator de distingao: tanto um quanto outro estiveram & parte, para dizer de modo mais rigoroso, dos movimentos literarios de seu tempo. Cesdrio Verde foi um poeta mais que realista-naturalista-parnasiano. Augusto dos Anjos, mais que simbolista e pré-modernista. Impossivel nao considerar também que por detras des- tas duas poéticas hé a forte presenga das ideologias deter- minantes da época cultural em que ambos, cada qual por seu turno, viveram. Evolucionismo, Determinismo, Positi- vismo, Decadentismo foram inevitavelmente substratos des- sas géneses poéticas. Centram-se af, ou daf decorrem, cer- tamente, tragos de angustia, de pessimismo ¢ a arguta per- quiricdo da vida do homem por um e do ser humano por outro. Certo é que nao se pode deixar de considerar, como o fez a critica, que ai também, e certamente de maneira fun- dante, se encontra em ambos a presenga de algumas vozes determinantes, como, para citar a mais evidente e marcan- te, a baudelaireana. Ha que se dizer também, desde logo, que o estilo de cada um lida de maneira diversa com esses elementos no seu fazer poético. Diga-se desde j4 que o humor ¢ a ironia tracejadores da estética verdeana podem ser observados na de Augusto dos Anjos de forma muito diversa e bem peculiar, dada a natureza mesma desta, vincada por forte acirramen- to dos caracteres angistia ¢ pessimismo. A pessoalidade, porém, é um aspecto comum aos dois poetas. O eu poe- matico na sua poesia vai arquitetando toda uma estrutura poética que o situa como ponto central, a partir do qual tudo € observado. Autores, ambos, de um s6 livro. “O livro de Cesario Verde” e “Eu e outros poemas”, Gnica obra de cada um, foram produzidos num andamento formal tam- bém muito semelhante, rimas classicas tecidas por decass!- labos predominantemente. ‘Talvez, o ponto mais distinto entre essas duas poéticas UNIGisncias, v4, 2000, esteja mesmo na linguagem. Os recursos expressivos de cada um sao distintos essencialmente quando, sobremaneira, se ob- serva 0 uso do léxico e os extratos morfo-semanticos. Afinal, ‘Augusto dos Anjos empreende uma visao poética de carater analitico-cientifico e filoséfico do ser enquanto matéria orga- nica estabelecida proviséria e precariamente em um estado formal. Seja esse vegetal, animal ou o humano, do qual faz parte, € com o qual se ocupa fundamentalmente. Outros, substancialmente diferentes, sao os de Cesa- rio Verde, pois, como ja se disse, sua poesia trata da vida social quotidiana do homem e notadamente do homem portugués da cidade e do campo. Logo, neste, o analitico- “sociolégico”, quase que se impde como um recurso estilis- tico basilar para a concepgao de sua poética. Como se nota, ha um conjunto de aspectos literarios dig- nos de ser abordado num trabalho comparativo entre esses dois poetas bastante peculiares e dispares entre si, mas préximos em alguns pontos néo menos dignos de serem considerados. No que se refere a tematica, hé nada que os aproxima, praticamente. Contudo, a tematica amorosa, como nao po- dia deixar de ser, trabalhada pelos dois apresenta também um fato muito interessante quanto a questo aqui posta, ou seja, o da semelhanga e dessemelhanga. Isto posto, pretende-se, entao, desenvolver esse tra- balho tomando como eixo organizacional alguns dos carac- teres supramencionados, se nao a maioria, os quais, na pers- pectiva da semelhanga/dessemelhanga, serao analisados, buscando-se, sempre, obviamente, na medida necessaria, 0 cotejamento de poemas dos dois. Antes, um pouco da leitura da critica Pelo que se péde observar, a fortuna critica dedicada a Augusto do Anjos é mais substanciosa que a dedicada a Cesi- rio Verde. O “Eu e outras poesias”, em que pese o estranha- 161 UNICiéncias, v4, 2000 mento, o impacto causado por sua linguagem, ou, provavel- mente por isso mesmo, tem sido mais investigado e mais lido, tanto que REIS (1977), em excelente estudo feito sobre a pro- dugao poética de Augusto dos Anjos, aponta trinta e uma edi- Ges para essa obra até 1971. A mesma sorte nao teve “O Livro de Cesario Verde”, quc nao passou de algumas poucas edi¢des, nao, evidente- mente, por se tratar de falta de qualidade, mas provavel- mente porque este s6 ganhou estatus de grande poesia de- pois de acurados estudos, pois, ao contrario da “chocante” poesia de Augusto dos Anjos, numa leitura rapida e superfi- cial, certamente, nada de muito novo e dissonante conse- guiam perceber ali. ‘Tanto um quanto o outro passaram sua fugaz existéncia publicando esparsamente, em jornais, os seus poemas e somente Augusto dos Anjos os viu publicados em livro, pouco antes de morrer. Cesario Verde, um ano depois de sua morte, teve os poemas coligidos, organizados em livro, e publicados por seu amigo Silva Pinto, sob o titulo que até hoje ostenta. Como uma espécie de epigrafe a esta parte, decidimos transcrever a “seyao” do poema “O sim contra o sim” de Joao Cabral de Melo Neto, em que argutamente o poeta-critico tece consideragées sobre esses dois outros: Cestirio Verde usawa a tinta de forma singular: néo para colorir, apesar da cor que nele ha. Talver que nem usasse tinta, somente dgua clara, agquela dgua de vidro que se vé percorrer a Arcédia. Certo, ndo escrevia com ela, ou escrevia lavando: 162 UNIGiencias, v.A, 2000 relavava, enxaguava seu mundo em sdbado de banho. Assim chegow aos tons opostos das magés que contou: rubras dentro da cesta de quem no rosto as tem sem cor. Augusto dos Anjos ndo tinha dessa tinta dgua clara. Se dgua, do Paraiba nordestino, que ignora a Fabula. This dguas ndo sdo lavadeiras deixam tudo encardido: o vermelho das chitas ou o reluzente dos estilos. E quando usadas como tinta escrevem negro tudo: déo um mundo velado por véus de lama, véus de luto. Donde decerto o timbre fiinebre, dureza da pisada, geometria de enterro de sua poesia enfileivada. Esta dicotomia entre-as 4guas de vidro de banho de sdbado e as Aguas no lavadeiras, que “Quando usadas como tinta/ escrevem negro tudo” essencializa, respectivamente 0 es- tilo poético de cada um desse poetas. E mais ou menos as- sim a critica os apresentou em sua perquiricao. Em suas “Considerac6es introdutorias a vida e a obra de Cesrio Verde”, publicadas no corpo de “O livro de Cesério Verde” (1989), Anténio Capio, um dos estudiosos dessa obra, 163 a a ‘UNICiéncias, v4, 2000 diz que os motivos e inspiragdes de Cesdrio Verde advieram- Ihe “da escola da vida e do dia a dia; entraram-the na alma através de todos os sentidas ¢ a expresso saiu mais de seu intelecto do queda subordinagio as exigéncias do coragao.” Em relagao aos temas desenvolvidos por Cesario Ver- de, vé-os sob trés pontos bAsicos: 1) quanto a questo social; 2) quanto a vida citadina; 3) quanto a vida no campo. Quanto a questao social, a poesia de Cesario Verde, diz Anténio Capao, contrasta a situacdo dos pobres e humildes com a dos ricos burgueses. Exemplo desse contraste podemos obser- var no poema “Humilhagées”, do qual tomamos as duas pri- meiras ¢ as duas tiltimas estrofes para evidenciar esse aspecto: Esta aborvece quem é pobre. Eu, quase Job, Aceito os seus desdéns, seus édios idolatro-os; E espero-a nos saldes dos principais teatros, Todas as noites ignorado e sé. Lé cansa-me o ranger da seda, a orquestra, 0 gas; As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos, E enquanto vao passando as cortesds ¢ os brilhos, Eu analiso as pecas no cartaz. () Sat; mas ao sair senti-me atropelar. Era um municipal sobre um cavalo. A guarda Espanca o povo. Irei-me; ¢ eu, que detesto a faurda Cresci com raiva contra o militar, De stibito, fanhosa, infecta, rota, md, Pos-se na minha frente uma velhinha suja, E disse-me, piscando os olhos de coruja: Meu bom senhor! Dé-me um cigarro? Dé Esses dois trechos do poema demonstram o problema ticos/burgueses por um lado e pobres/humildes por outro, num grau de complexidade muito maior do que a clichezada dico- tomia estabelecida faz saber. Basta observar que 0 eu poemati- co se coloca pobre/humildade ante as cortesas. E j4 nao o € 164 UNICiéncias, v4, 2000 ante velhinha suja que Ihe pede um cigarro. £ interessante 0 fato de que, de maneira surpreendente, disférica, nao deixa de dizer que aquela velhinha, conquanto pobre, seja infecta, rota, e, mais surpreendente ainda, ma. Este, parece-nos, € um traco marcante da poética de Cesério Verde. Mesmo quando, aparentemente, apresente- se condoido ao se deparar com situacio semelhante, o eu Ppoematico apenas constata e analisa o fato. Como salientou Anténio Capao, a expressao sai mais de seu intelecto do que das exigéncias do coragao. E 0 que se percebe no poe- ma “Contrariedades”. Aqui, o seu “sofrimento” passageiro, em decorréncia de uma coutrariedade, que Ihe provoca um mau-humor, a vista da nao publicacao de um seu poema pela imprensa, é correlacionado com o de uma tisica, cuja existéncia o acaso de uma janela aberta Ihe lembra. Passado o mau-humor, jé nao sofre. Contudo o da tisica, duradouro, sem remédio, permanece. Daf ela ser um. pobre diabo: Eu hoje estou cruel, frenético, exigente Nem posso tolerar os livros mais bizarros. Incrével! Jé fumei trés magos de cigarros Consecutivamente () Sentei-me di secretérria. Ali defionte mora Uma infeliz, sem peito, os dois pulmies doentes; Softe de faltas d’ar; morreram-lhe os parentes Eengoma para fora. () E estou melhor; passou-me a célera. Ea vizinha? A pobre engomadeira ir-se-d deitar sem ceia? Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabatha. E feia... Que mundo! Coitadinha! Capo, certamente, quando se refere a vida citadina, 0 165 UNICiéncias, v.4, 2000 faz atendo-se num dos pontos nucleares da poesia de Cesdrio Verde: a minuciosa e percuciente observacao do quotidiano da cidade, onde a vida humana se desenrola de forma bastan- te contraditéria. Gritantes contrastes perfilnam em todaa sua ambi€ncia. E se expdem numa convivéncia aberta, concomi- tante e aparentemente, pelo menos, natural. Diz ele, quanto a essa linha tematica: .observagio de quadros da cidade, em que as pessoas se agitam. quatidianamente nas tavefas prementes e neces rigs d preservacdo da sua existéncia e dos seus. Na fixa- ¢ao dos elementos de cada quadro, além dos humanos, impiem-se os objectos ¢ as coisas com uma forga integra- dora de tal modo evidente que o movimento febril, a cor viva e os sons familiares se tornam fundamentais na tagdio e na objectivagdo do real. (VERDE, 1989, p. 18) E, sem diivida, o melhor exemplo disso provém do mais notavel do seus poemas. Trata-se de “O Sentimento Dum Oci- dental”. Qualquer estrofe de qualquer parte desse primor de obra poética que se tome serviré muito bem para que se exem- plifique esse aspecto. Contudo, j4 que se pretende consignar um exempla, arriscamos tomé-lo da sua terceira parte, “Ao gis”. Sao trés estrofes que entendemas de certo modo sintetizar a Ppanordmica, mas também minuciosa visio da cidade sob a noi- te, desde seu inicio até o seu término. E-saio. A noite pesa, esmaga. Nos Passeios de lajedo arrastam-se as impuras. O moles hospitais! Sai das embocaduras Um sopro que arrepia os ombros quase nus. () As burguezinhas do Catolicismo Resvalam pelo chito minado pelos canos; E lembram-me, ao chorar doente dos pianos, As fieiras que 0s jejuns matavam de histerismo. UNIGiéncias, v4, 2000 Num cuteleiro, de avental, ao torno, Un forjador maneja um malho, rubramente; Ede uma padaria exala-se, inda quente, Um cheiro salutar ¢ honesto a pao do forno. (sea) Longas descidas! Néo poder pintar Com versos magistrais, salubres e sinceros, A esguia difustio dos vossos reverberos, E.a vossa palidez roméntica e lunar! Por fim, o terceiro aspect temAtico apontado por An- tonio Capao, a vida no campo é também por ele tecida pelo mesmo fio de estilo. A arguta observacao-critica vai desenhan- do uma simples, rude, grosseira mesmo, vida no campo, mas incomparavelmente mais saudavel que a da cidade, vo nos dizendo os poemas nos quais 0 eu poemiatico se deixa trans- parecer inteiramente simpatizante dessa causa. E ainda Ca- pao quem nos diz que: Ainda sem fugir & realidade, o autor (Ceséirio Verde) pro- cura dar-nos também, por oposigdo & vida citadina, um conjunto de quadros da vida rural que reputamos de eleva- dissimo valor. Néo se trata de meras fotografias de turista que passa e tenta fixar actos, factos e paisagens selecciona- dos para lembranga e recreagées futuras. Cescrio prova que, mais do que isso, conhece o campo, as pessoas ¢ 0s seus comportamentos exteriores com toda a sua simplicidade nistica mas atraente, eos trabalhos duros mas sadios que as ocupam incessaniemenie. (VERDE, 1989, p. 19) E se “Sentimento dum Ocidental” tem os olhos do eu poemiatico circunscritos a cidade, “Nés”, esse outro primor da poética verdeana os tem voltados para o campo. E sem- pre € oportuno lembrar que a poesia de Gesdrio Verde é essencialmente uma arguta descrigao critica. A observagao, a andlise, como queria a ciéncia do seu tempo, mas também 167 5. Vel, 2000 a critica Acida respaldada pelos universais valores humanos. Isto pode muito bem ser observado tanto num quanto nou- tro poema. Como de resto, em toda a sua obra. ‘Tomemos, entao, também ao acaso, como exemplo dessa incursao critica pelo campo, algumas estrofes de “Nos”. Importa ressaltar que o poema, o mais extenso do livro, representa uma longa recordacao do campo no tempo em que nele vivera 0 eu poematico e o compara com o tem- po de seu presente que, a seu ver, esta completamente des- valorizado. Que de frugalidades nés criamos! Que torrdo espontéineo que nés somos! Pela outonal maturagéio dos pomos, Com a carga, no chao pousam os ramos, () A impressdo doutros tempos, sempre viva, Dé estremegoes no meu passado morto, E inda viajo, muita vez, absorto, Pelas vdrzeas da minha retentiva. Entéo recordo a paz familiar, Todo um painel pacifico d’.enganos! Ea distancia fatal duns poucos @’anos E uma lente convexa, d’aumentar. SARAIVA e LOPES (1975) dizem que o poeta Ces4rio Verde € a expressio pottica superior da pequena burguesia irreligiosa ¢ republicana lisboeta do seu tempo. E também uma reagao a “insinceridade piegas”, valendo-se de proce- dimento literario semelhante ao de Joao Penha: “autonegacéio de uma poesia sentimental por um desfecho burlesco.” Ter encon- trado o tom natural A poesia foi seu mérito principal, vencen- do uma alternativa poética ultra-romantica entre 0 piegas ¢ 0 grotesco. E Cesdrio Verde, arrematam os autores, 0 tinico do 168 UNIGiéncias, vid, 2000 grupo realista que supera de fato a heranca romantica. Tam- bém eles entendem que essa poesia est voltada para os ele- mentos compositores da vida lisboeta: a miséria, a opuléncia, as minudéncias dos afazeres, a cor local com detalhes de im- pressGes pessoais sAo os verdadeiros motivos dos poemas de Cesario Verde. Entendem que, como os demais criticos, 0 vo- cabulério e o tom da linguagem coloquial urbana num ritmo fluente, embalante, sao poeticamente valorizados. Trilhando por caminhos aproximados aos dos dois criti- cos comentados vao as consideragdes de MOISES (1984). Aponta a decisiva influéncia de Baudelaire em Cesdrio Ver- de, sobretudo ao assimilar a postura Ifrica daquele em face da realidade. Consigna a poesia deste, caracteres estilisticos que serao marcantes em perfodos literarios posteriores, con- quanto mantenha-se uma poesia ainda comprometida com © Realismo portugués. Afirma também que o modo esque- mAtico com que a realidade € percebida pela poesia dos seus contemporaneos é quebrado pela poesia de Cesario Verde, principalmente pela imposi¢ao de notas tidas como estranhas € quase delirantes. Considera que esse realismo s6 aparente- mente é fotografico, vez que € profunda e exclusivamente in- terior ao identificar-se com a consciéncia e a sensibilidade. Por- tanto, objetividade e subjetividade fundem-se numa sé enti- dade, diz ele, tocando, sem explicitar claramente, num dos tracos fundamentais dessa poesia verdeana: a dualidade. COELHO (1987), a0 estudar Cesario Verde, vai pela estei- ra dos demais criticos aqui citados, quando afirma ser uma poe- sia de alta plasticidade, inspirada pelo concreto, revelando com precisao as circunstancias da vida portuguesa. Cita, como exem- plo, o que dissera Cesario Verde ao seu amigo Silva Pinto, quanto a isso: “A mim o que me rodeia é 0 que me preacupa.” E conchui: A sua poesia é a de wm artista pléstico enamorado do concreto, que deamibula pela cidade ow pelo campo e des- creve de modo vivo, exacto, as suas experiéncias. Esta objectividade antilivica da sua obra poética no impede to- 169 — UNICiéncias, v4, 2000 davia aexpressiio, embora discreta, de idéias e sentimentos que definem 0 homem situado: 0 amor da actividade itil, saudéuvel; o respeito pela ciéncia positiva do seu tempo; a confianga no progresso; a solidariedade com os humildes, vitimas das injusticas sociais, (COELHO, 1987, p. 1140) Como se disse, Augusto do Anjos, certamente, dada essa sua singularidade: uma espécie de primado do feio so- bre 0 belo, o bonito, num periodo em que ainda a domi- nante era justamente uma poética da plasticidade, do belo, nao obstante o Simbolismo ja figurasse como uma poesia significativamente dissonante, tornou-se um poeta incomo- dativo, logo, menosprezado, por isso visto como um caso aberrante da poesia a ser considerado marginalmente. E 0 que se pode depreender dos estudos feitos sobre o poeta, conquanto essa critica seja unanime em 0 ter na conta de um poeta extraordindrio. JA dissemos que em relag4o a Augusto dos Anjos a fortuna critica € mais vasta. Logo, seria despropositado, sobretudo dada a natureza deste trabalho, empreender exaustiva incursdo por ela. Assim, deliberamos ater-nos em trés estudiosos contemporaneos e indiscutivelmente reconhecidos. Comecemos por BOSI (1973). Para ele, o esteticismo da poesia de Augusto dos Anjos se centra fundamentalmen- te em dois aspectos: na dimensio césmica ¢ na angiistia moral. Quanto a primeira, diz que: Augusto dos Anjos centrava, de modo obsedante, no ser hramamo, todas as energias do universo que se teriam, por- tanto, encaminhado para a construgdo desse mistério, que 40 ‘av. O materialismo evolucionista de Haeckel parece encontrar sua transcrigéo pottica em versos como estes: “Bu, filho do carbono e da amontaco” (Psicologia de um Vencido) 170 UNICiéncias, v.4, 2000 “De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incgnitas ertptas misteriosas Como as estalactites de uma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta De feixe de moléculas nervosas, Que, em desintegragées maravilhosas, Delibera, e, depois, quer e executa!” (A Idéia) Quanto a expressao e a forma, o que se depreende em Bosi, além de atirmar que “wm inventdrio minucioso aponiaria as miltiplas formas forjadas pelo poeta para criar efeitos de paradoxo e de paroxismo, pois o conéraste e a hipérbole séo os pilares de sua expres- so convulsa” (p.50), (0 itdlico € nosso), é que a uma poesia em que as dimensées césmica e moral enformam as idéias, necessa- Tio e justo € que a linguagem as espelhe. Assim é que sua angtistia obsedante se traduza, de forma dramatica e elogiente, em pala- vras cientificas ¢ termos técnicos; em versos decassflabos e em estrofes formais, com o predominio do soneto, afinal o agrilhoa- mento a que se vé condenado o ser: alma presa a0 corpo, corpo, presa da putrefacio e do nada, fica assim esteticamente bem con- figurado. Mas o critico entende que, no obstante essa condicio meio que fatalista do Evolucionismo na concep¢ao poética de Augusto dos Anjos, a obsedante angistia letal, ante a fatalidade que conduz irreversivelmente o scr para a decom- posigao, para o nada, jé € menos uma acio do pensamento de Haeckel e Spencer que a presenca influente de uma visio exis- tencial do “alto pessimismo roméintico de Arthur Schopenhaewr, que identifica na vontade de viver a raiz de todas as dares e de todos os males.". “Funde-se a visto césmica com o desespero radical, produ. zindo esta poesia violenta e nowa em nossa lingua:” (p.45) Para o poeta do Bu, as forgas da matéria, que pulsam em todos os seres ¢ em particular no homem, conduzem 171 UNICiéncias, v.4, 2000 a0 Mal e ao Nada, através de uma destruigdo implacd- vel; e ele é 0 espectador em agonia desse processo dege- nerescente cujo simbolo é 0 verme: ‘Jé 0 verme — este operdrio das rutnas ~ Que 0 sangue podre das carnij Come, e a vida em geral declara guerra, Anda a espreitar meus olhos para roé-los, E hd de deixar-me apenas os cabelos, Na frialdade orgénica da terra!” (Psicologia de um Vencido) ‘Almoca a-podridao das drupas agras, Janta hidr6picos, r6i visceras magras E dos defuntos novos incha.a mao... Ah! Para ele é que a carne podre fica, Eno inventario da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porgéio!” (O Deus-Verme) (BOSI, 1973, p. 46-7) Ivan Cavalcanti Proenca, em um ensaio para uma an- tologia poética de Augusto dos Anjos, organizada e publica- da pela Folha de S, Paulo (ANJOS, 1997), inicia dizendo que, embora elaborasse uma poesia praticamente confeccionada em decassilabos, o poeta nao tinha maiores preocupacées com a forma, ja que sua obsessao centrava-se na angustiante idéia do ser que é nada, que nunca chega a realizar-se, pois que est condenado A fatalidade do nada, que é a morte. Nessa perspectiva, entende ele que reiteracio dessa idéia perpassa toda a obra mscrita por algumas palavras ¢ expressoes Cujos semas remetem ou associam-nas a verme, morte e decompo- sig&o, signos que talvez melhor contenham e resumam a angus- tiante constatacao do eu poematico diante da existéncia, Uma outra importante constatacao feita por Proenga diz 172 UNIGiéncias, v.4, 2000 respeito 4 metapoesia praticada por Augusto dos Anjos. Se- gundo ele, o poeta cré na sobrevivéncia de sua poesia e, mais, a tem comouma espécie de consciéncia dos homens perante as dores que lhes provoca a existéncia: No entanto, nesta alma e em sua poesia, veremos que nao importa a ele o corpo destruido, nem o verme que 0 espera, a putrefagao ou a mosca alegre. Nada. O que lhe importa é a pr6- pria poesia que considera eterna. Assim, quando diz: Tome, doutor, esta tesoura, e...corte Minha singularéssima pessoa Que importa a mim que a bicharia roa Tado 0 meu coracéo, depois da morte?! Mas 0 agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do tiltimo verso que eu fizer no mundo! (Budismo moderno) De fato, ele cré na swa poesia. Cré curiosa e angustiosa- mente na sobrevivencia da alma. [...] Os versos si jus- tamente as grades que contém uma idéia aprisionada. [oo] O poeta considera-se wm intérprete do mundo, das dores—de tudo que é necessério chorar nessa anguistia do préprio mundo. Quando admite: “Homem... tudo s6 tens um direito: —o de chorar!” “Esse homem é ele proprio, e porque é ele prépria, recebe a ressondncia de todas as do- res. Também sente-se 0 arco do universo, aquele que deve transformar em mensagem 0 sofrimento do mundo. E arremata: “Uma vontade absurda de ser Cristo,/ Para sacrificar-me pelos homens.” (ANJOS, 1997, p. 86-38) Vale salientar ainda, em relagao aos estudos de Cavalcanti Proenga, a afirmativa de quea poesia de Augusto dos Anjos delibe- radamente transgride a estética literaria de seu tempo com sua linguagem insélita, “grotesca” e de “mau-gosto”, criando imagens 173 rer UNIGiéncias, v.4, 2000 e cromatismos em nada parnasianos, ou mesmo simbolistas: Pacifico, que Augusto rompeu com sua época, distante que ficou dos moldes parnusiunos ou simbolistas. Ao ni- vel da forma desprezou caminhos do rigor formal, tal sua “displicéncia”, suaindiferenca e “desleixo” em presenga daquele culto 4 forma. Em campo conteudistico, derru- bou ou violentow conceitos estratificados, desestruturan- do-os inclusive quanto ao “bom gosto” de temas e idedrio ‘potticos. At estava ja, um esboco da (de wma) profisséo~ de-fé Modernista. (ANJOS, 1997, p. 47) Agregue-se af a arguta percepcao do critico ao obser- var que 0 poeta do Eu, solitario, pode muito bem ser visto como o poeta do Nés € solidario. Retomando o fato de que © poeta coloca-se como uma espécie de arauto do universo, porta-voz dos homens, ~.favorecendo aquela purificagéio, aquela catarse que, se- gundo Lukdcs, seriaum espécie de misao da Literatura como provocadora de reflexaes e tensdes, em torno do (en- tre) cotidiano e ‘clima’ da obra, sem cair, porém, em “socio logismos” de encomenda ou de momento. O eu do poeta, ou 0 pocia do eu passa a ser o nds do poeta, ow poeta do nés, Uma vontade absurda de ser Cristo para sacrificar- se pelos homens (Solidariedade que se estende aos carnei- 1705: “Misericondiosissimo carneiro/Esquartejado, amal- digdo de Pio/Décimo caia em teu algoz sombrio/E em todo aquele que for seu herdeirol//Maldito seja 0 mercador vadio/Que te vender as camnes por dinheira,//Pois, tua la aquece o mundo inteiro/E guarda as carnes dos que esto com frio!”). Dar-se-d.o grito de quem, de repente descobre que 0s cévceras devem ser rompidos, cabendo a nés 0 racio- cinio em presenca do grito e do Infinito do poeta: “Stibito, arrebentando a horrenda calma 174 UNIGiencias, v.4, 2000 Grito, e se gnito é para que meu grito Sejaaa revelagao deste Infinito Que eu trago encarcerado na minha alma.” Oegrito de quem carrega a dor da propria humanidade: “Continua o martirio das criaturas: ~ O homicidio nas vielas mais escuras — O ferido que a hostil gleba atra escrava, — 0 tiltimo soliléquio dos suicidas — Eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anénima de larva!” Endo importoua ele nema certeza de que ficow sozinho: grito que n&o encontrow ressondncias: “Bu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto.!” Por fim, vejamos as argutas observagées que ROSEN- FELD (1969) desenvolve com vigor e rigor em seu sintético e denso ensaio “A Costela de Prata de A dos Anjos”. Ja as consi- deragoes iniciais do criticu subre essa poesia, sao bastante ori- ginais e inquietantes: Ao ler-se os poemas de Augusto dos Aryos, o que de imedia- tochama aatengéo é naturalmente a sedugéio dir-se-ia er6- tica que sobre ele exercem os termos cientificos. Termos de certa forma exéticos (ainda que néo se trate, no contexto da. lingua portugnesn, propriamente de estrangeirismos), de modo que se pode falar; usando uma expresso de Theo- dor Wiesengrund Adorno, de uma espécie de “exogamia lingiiistica”. (ROSENFELD, 1969, p. 259) Aexemplo de Bosi e Proenca, Rosenfeld detectar4 a marca baudelaireana na articulagao do “feio”, do “horroroso” nas. 175, imagens hauridas da podridao, do vere, do necrotério, do gro- tesco, tanto na exética constAncia da rima esdrixula, quanto no presumivel impacto de rimas paradoxais. Haja vista, como um simples exemplo dessa construcdo, a rima entre as palavras apostema e Iracema apontada pelo proprio Rosenfeld. Assim que, segundo o critico, unem-se € se op6em nessa poesia o im- pulso lirico ¢ 0 cientifico. Também aponta as influéncias de Scho- penhauer como mais marcantes que as de Haeckel e Spencer. ‘Também Rosenfeld, de maneira muito peculiar ¢ argu- ta, aponta a transgressao poética como uma manifesta oposi- Ao 4 literatura em vigor: Essa poesia sadomasoquista langa.o desafio do radicalmente _feio d face do pacato burgués, desmascarando, pela defor- ‘maga hedionda, a superficie harménica e agucarada de tum mundo intimamente podre. Nao s6 ser humano, tam- bém a palavra e a metéfora tradicionais desintegram-se ante oimpacto dessa poesia. Surge, ao lado da montagem do termo técnico no contexto da lingua tradicional — a dissociagéo pelo lingiiisticamente heterogéneo — wma, me- tafbrica grotesca, “marinista”, que opera com o incoerente, No munilo de Augusto dos Anjos, mundo em que o verme 40 operdirio das ruinas e em que o proprio ar se desagrega. 0 luar jé. nao é dos namorados, visto ser “da cor de um doente de ictericia”. a lua, “paraleleptpedo quebrado”, & cercada de astros que veduzem “os céus... a'uma epiderme de saram#o”. (ROSENFELD, 1969, p. 261) Rosenfeld, em seu ensaio, estabelece uma proximidade entre a poesia de Augusto dos Anjos e a dos poetas alemaes Gottfried Benn, Georg Heym e Trakl, os quais, de linha ex- pressionista, produziram uma poesia numa perspectiva € concepgao bastante afinadas com a do nosso poeta. E en- tende ele que A dos Anjos certamente nao chegara a conhe- cer o Expressionismo, mas que elaborou uma poética como que norteada por aquele. 176 UNICiéncias, v.4, 2000 Semelhancas/dessemelhangas A vista do que af fica posto como sintese do que disse a critica sobre esses dois poetas, ¢ a partir de um cotejamento de Jeitura feita de “O Livro de Cesdrio Verde” e de “Eu e Outras Poesias”, intentamos delinear uma permeacio entre essas duas poéticas, sem nenhuma pretensao de analisar a exaustio cada uma dessas obras, o que nao € 0 propésito desse nosso trabalho, mas sim demonstrar que ha significativas proximidades entre duas poéticas, de pronto tidas como bem diferentes. Cesario Verde forma-se em meio a um clima e uma am- bientacao cultural e literéria edificados pela denominada Gera- ao de 70. Esta busca na Europa, desenvolvia modelos de mo- dernidade. Logo, a critica, o deboche ao tradicionalismo misti- co, metafisico, anticientifico, valendo-se da ironia, do sarcasmo, de postulados combativos, vao configurar um estilo literdrio. A seu modo, Cesario Verde é um poeta que se alinha a esse proce- dimento literario, ou seja, vale-se desses recursos, destoando, contudo, num ponto canénico, aos parnasianos de seu tempo: a denominada isenco do eu poemitico no texto. Objetivamen- te, o poema deveria eximir-se das marcas daquele. Cesario Ver- de, ao contrério, consigna sua pessoalidade. No entanto, di- ferentemente do que pressupunham os parnasianos pudesse acontecer, ele 0 faz vinculando a subjetividade do eu poematico a tensao vivenciada pelo outro. Portanto, o sujeito poético esta constantemente a problematizar um universo social do qual nao se imiscui, € tampouco elege-se ponto centripeto do mesmo. Acrescente-se que esses aspectos cvidenciam-se ainda mais pela constancia do paradoxo como outro imprescindivel recurso es- tilfstico seu, Vejamos de “Flores Venenosas”, segunda parte ou secio do livro assim denominada, um exemplo desses pontos: (.) Como ela marcha! Lembra um magnetizador. Rocavam no veludo as guarnigies das rendas; E, muito embora tu, burgués me néio entendas, 177 UNICiéncias, Fiquei batendo os dentes de terrm: 6.) Saf; mas ao sair senti-me atropelar Era um municipal sobre um cavalo. A guarda Espanca o povo. Irei-me; e eu, que delesto a Jarda Cresci com raiva contra o militar. De stibito, fanhosa, infecta, rota, md Pos-se na minha frente uma velhinha suja, E disse-me, piscando os olhos de coruja: — Meu bom senhor! Dé-me um cigarro? Dé (Humithagées) Em Augusto dos Anjos, como se pode ver através da criti- «a, a formacdo consubstanciada pelo Evolucionismo e pela filo- sofia do negativismo, do pessimismo schopenhaueriana radica seu pensamento, suas idéias. Toda a poesia dele é edificada por essa concep¢ao de mundo e de vida. Daf que, assim considera- da, tém razao alguns criticos em consideré-la uma poesia de linhagem filos6fico-cicntificista, vez que é sob uma profundae radical formacao schopenhaueriana, haecheliana, spenceriana que se embasa sua poética. Entio, como também jase disse, essa “extravagancia”, “maluquez” aos olhos da tradicional e conservadora literatura de seu tempo seria ja suficiente parao destacar como um transgressor da mesma. Contudo, vé-se que as transgressées da poesia de Au- gusto do Anjos dao-se sob muitas formas. Dentre elas as apontadas a Cesdrio Verde acima. A comecar pelo que, tal- vez, mais os aproxima, o paradoxo. Gertamente aplicado em grau elevadissimo por Augusto do Anjos, mais intenso que naquele, verdadeiros oximoros, jé disseram, Entretanto, nao é menos o tratamento dado A pessoali- dade, ao subjetivismo. Af tem com Cesério muita afinidade. Seu “eu” esta com os outros, é 0 dos outros. Endo se diga que, afinal, falta-lhe, poeta obsecado coma putretacio da matéria, a critica social e o mordaz da ironia. Pois entendemos que nem 178 a UNIGiéncias, v.4, 2000 mesmo isso lhe falta: O paradoxo: Ge) Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova, Quando 0 prazer barbaramente a ataca. Somente a Arte, esculpindo a humana mdgoa, “Abranda as rochas rigidas, torna dgua Todo o fogo telitrico profundo lo odiento Que a mais alta expresso da dor estética Consiste essencial na alegria. (...) (Monélogo de uma Sombra) Asolidariedade: (.) Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro, Pois, tua la aquece 0 mundo inteiro E guarda as carnes dos que estao com frio! (...) (Aum Carneiro Morto) Sofro aceleradissimas pancadas No coragdo. Ataca-me a existéncia ‘A mortificadora coalescéncia Das desgracas humanas congregadas! (-) Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! (O Poeta do Hediondo) 179. A questio social: A minha ama-de-leite Guilhermina Purtava as moedas que 0 Doutor me dava. Sinhd-Mocinka, minha Mae, rathava... Via naquilo a minha propria ruina! ) Furtaste a moeda s6, mas eu, minha ama, Eu furtei mais, porque furtei 0 peito Que dava leite para tua filha!” (Ricordanza della mia Gioventa) Assutilironia. Entendemos que, por incrivel que possa Parecer, a ironia mordaz em relagéo a miserével condigéo hu- mana e dos seres em geral, aqui e acolé insurge-se mesmo como um escape do rigor do radicalismo de profunda reflexao filo- s6fico-evolucionista que conduz a miserabilidade, a dor e ao sofrimento. No terceiro soneto dos dedicados a agonia e mor- te do pai, no qual constata a presenca da morte, o eu poemati- Co, num jogo verbal irénico em relacio ao hdbito ea conven. s4o social em momentos desses, em vez de meu pobre pai diz, no verso inicial, “Podre meu Pai! A Morte 0 olhar the vidra”. A nosso ver, a ironia pode ser ainda vislumbrada em: Ah! Para ele é que a carne podre fica, Eno inventério da matéria rica Cabe aus seus filhos a maior porgdo! (O DeusVerme) Mais um exemplo nesse passo de um poema de Versos de Circunsténcia, muito posteriormente a toda a obra até entao publicada, dada a public, O poeta ainda assina com pseudénimo. Esse leva o autégrafo de Petronius: Erm sua obesidade soberana De gordalhufo senador do Império Héuma concentragao de Buda sério 180 Meditando, alta noite, no Nirvana. Se a pernosticidade atual se dana Ele, como Caligula e Tibério, Tem vontade de pir no cemitério Todos os monstros da sandice humana. (..) (M. Hip.) Poetas a seu talante, transgredindo ou ignorando o seu meio literério, mergulharam em seu fazer poético e por ele se conduziram, Se, em verdade, algum ponto comum houve entre eles eo estilo de época de seu tempo, certamente o foi porque cram homens e poetas daquele tempo e espaco histéricos. O prosaismo, predominante nos versos de ambos, da- Ihes o andamento mais adéquado para a expressao do que empreendem dizer. E diga-se, no tracejo do contrastante que Ihes € préprio, versos prosaicos, conquanto formais. © que os prende de certo modo a mentalidade parnasia- no-simbolista, mas também os projeta numa pré-enuncia- cao modernista que vir. Por um lado, em Cesario Verde, versos soltos, fluidos, tratando da vida quotidiana, contraditoria, prazerosa, sofrida dos homens ricos, pobres ¢ miseraveis. Os burgueses e bur- guesas, operarios, artistas, varinas, costureiras, floristas, sol- dados, camponeses. Tudo descrito pormenorizada e minucio- samente, situado num espago citadino e campesino devida- mente demarcados e igualmente descritos. Versos em que pu- lulam cores, odores, emogées. Versos que retratam 0 vigo, 0 vigor da vida e da labuta pela mesma. Por outro, versos assim-também, mas tratando da impos- sibilidade de plenitude da vida. Tudo é dor, sofrimento, apo- drecimento, decomposigao. Em Augusto do Anjos, inversamente ao que se da com Cesario Verde, o que viceja é a morte. E mais, ao contrario do tom ameno, complacente numa modulacio de pacificidade predominante, uma ou outra vez quebrada por pas- sageira irritagao, que por sua vez é dispersa pela ironia: 181 UNICiéncias, v.4, 2000 Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; Nem posso tolerar os livros mais bizarros. Inorivell Jé fumes trés magos de cigarros Consecutivamente (4) Porfeitamente, vou findar sem azadume, Quem sabe se depois, ew rico e noutros climas, Conseguirei reler essas antigas rimas, Impressas em volume? (Contrariedades) Em Augusto dos Anjos a tensao radica-se na dramatici- dade. Tudo em sua poesia tem o trago do tragico. Sua expresso ampara-se constantemente na hipérbole com a qual da a tudo aquela dimensao. E tudo é tao desconcertante e extraordinario que pouco consegue afigurar-se numa referencialidade do pla- no fisico. O universo ideal, e real, é 0 metafisico, que se projeta imaginativamente, ou através de sonhos, devaneios ou desvarios. Como observamos, toda a obra radicalmente se estrutura dessa forma. No entanto, tomamos um excmplo, procurando cvitar poemas consagrados e ontolégicos: Estou sozinho! A estrada se desdobra Como wma imensa e rutilante cobra De epiderme fintssima de areia... E por essa finissima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que, ao sol, em plena podriddo, passeia! (-) Ea treva ocupa toda a estrada longa... O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Léctea existe. E coma agora a lua cheia britha! Tha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! (Allha de Cipango) 182 UNI Nao obstante estas acentuadas dessemelhangas, em que se evidenciam caracteres fundamentais da poesia de cada um, buscamos apontar ainda algumas outras semelhangas nessas duas poéticas. Prosseguimos, para dar seqliéncia ao que nos referimos acima, a tratar da questo formal e expressiva. Como dissemos, o tom discursivo observavel nos versos dos dois poe- {as presta-se, para cada um, ao estabelecimento das suas signifi- cagoes. Contudo ndo se desprendem de alguns formalismos. Ficou também consignado na introducao que ha em ambos um predominio do decassilabo. Acrescentemos que esse verso em Augusto dos Anjos é praticamente uma exclusividade. J4 em Cesario, talvez mais marcado pelo Parnasianismo do que aque- le, a freqiiéncia do dodecassflabo também é marcante. Quanto a rima, ambos valem-se dos esquemas cldssicos tradicionais, sendo que, vezo parnasiano ou niio, nao desgos- tam do preciosismo ¢ do ravo. Cesariv Verde, por exemplo, em “Humilhacées”, utiliza na primeira estrofe a rima a-b-b-a, que se realiza em Job/idolatro-os/teatros/s6; na terceira estrofe rima Feuille com coupé. No poema “Flores Velhas”, em esquema rimico a-b-a-b, na primeira estrofe rima beijow com v00 (sic); na nona estrofe, /uar com toucar; na décima nona, trouxe com doce; na vigésima primeira, roxas com frouxas. Estes tltimos exemplos servem inclusive para atestar ainda mais 0 prosajs- mo de seus versos Em Augusto dos Anjos. No poema “As Cismas do Des- tino”, na oitava estrofe, o poeta rima escalpelos com vitellus; na vigésima terceira, infelizes com hemoptisis; na vigésima nona estrofe, rima Vinci com lince; na trigésima nona, distingo-a com lingua; na quadragésima terceira, cinge-as/carolingias, vence-O/ siléncio; na septuagésima oitava, fresca com rembrandtesca; na seguinte, Osiris com arco-inis; na nonagésima, Spenceriana com Jumana; na centésima primeira, endecha com queixa. O precio- sismo da rima leva Augusto do Anjos no célebre poema “Mo- nélogo de uma Sombra”, na décima quarta estrofe, a efetuar esta rima: “toma conta do corpo que apudreve.../ No cadaver mal- sdo, fazendo um s.” Isto parece-nos suficiente para demonstrar 183 UNICiéncias, v4, 2000 esse gosto pelo preciosismo da rima também em Augusto dos Anjos. Saliente-se ainda como outro elemento exemplificador desse fato a constancia das rimas esdréxulas, Alguns dos exem- los de rima acima explicitados também contribuem para de- monstrar aquele prosafsmo dos versos do poeta. Dois pontos mais julgamos interessantes ainda aqui expli- citar como procedimentos poéticos em que se assemelham. O primeiro diz respeito ao metapoema. Ambos referiram-se a sua expresso poética. Cesério Verde, sempre considerando-a limi- ‘ada para difundir a plenitude do que lhe gerae lhe provoca a tensdo estética, ou as voltas com as dificuldades da difusao de seus poemas, em “Ao Gas”, subtitulo a terceira parte do poema “O Sentimento dum Ocidental”, dizna quinta estrofe: E-eu que medito um livro que exacerbe, Quisera que o real ea andlise mo dessem; E naestrofe seguinte do mesmo poema lé-se: Longas descidas! Nao poder pintar Com verso magistrais, salubres e sinceros, A esguia difusaio dos vossos reverberos, Ea vossa palidex romantica e lunar! No longuissimo ¢ extraordinario “Nés’ , €m que, a pretex- to de exaltar a vida campesina, enquanto lamenta a perda da irmi tisica, praticamente todos os problemas da existéncia do homem sao tocados, também a referéncia & Poesia tem lugar. Nesses versos, como se observa em outros, sua disidia com os “donos das letras, da cultura” de novo se inscreve: Para alguns séo prosaicos, sao banais Estes versos da fibra suculenta; Como se a polpa que nos dessedenta Nem ao menos valesse uns madrigais! No poema “Flores Velhas”, Ié- UNIGiéncias, v.4, 2000, Eu por ndo ter sabido amar os movimentos Daestrofe mais ideal das harmonias mudas, Eu sinto as decepyies e os grandes desalentos E tenhw um riso mau como 0 sorrir de judas. Lé-se ainda em “Num Bairro Moderno”: Subitamente, — que visto de artista! — Se eu transformasse os simples vegetais, A luz do sol, 0 intenso colorista, Num ser humano que se mova.e exista Cheio de belas proporgoes carnais?! No poema “Contrariedades”, para p6r fim a essa jé lon- ga exemplificacdo, mal-humorado, o eu poemiatico, as voltas com os obstaculos interpostos & difusio de seus poemas diz: (.) O obstéculo estimula, torna-nos perversos; Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, Por causa dum jornal me rejeitar, ha dias, Um folhetim de versos. Eu nunca dediquei poemas as fortunas, Mas sim, por deferéncia, a amigos ow a artistas. Independente! Sé por isso os jornalistas Me negam as colunas, (..) A adulagao refugna aos sentimentos finos; Eu raramente falo aos nossas literatos, E apuro-me em langar originais e exactos, Os meus alexandrinos... Vejamos agora como Augusto dos Anjos lidou cou a metapoesia. O que nos parece indiscutivel € que, para ele, a poesia, uma manifestagio artistica, tinha mesmo aquela fun- 185 ee UNICiéncias, v.4, 2000 ao preconizada por Schopenhauer. Para este a dor € 0 estado natural do homem e o fim da natureza. Para livrar-se disso, dispunha o homem de trés possibilidades. Uma delas seria a arte. Através desta, o artista, ao expressar a beleza, desprende- se dos desejos martirizantes da vida. Entretanto, deve-se con- signar que também neste poeta é perceptivel a angistia de perceber 0 verso incapaz de traduzir a emogao estética que o pensamento quer instaurar. Vamos aos exemplos, Em “Budismo Moderno” lé-se: Dissolva-se, portanto, minha vida Igualmente auma célula caida Na aberragito de um 6vulo infecundo; Mas oagregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do tiltimo verso que eu fizer no mundo! “O Martirio do Artista” € um soneto que todo ele trata dessa questao. Mas transcrevamos somente a primeira e al- tima estrofes: Arte ingrata! E conquanto, em desalento, A 6rbita elipsoidal dos olhos Ihe arda, Busca exteriorizar 0 pensamento Que em suas frontais células guarda! () Febre de em vdo falar, com os dedos brutos Para falar; puxa.e repuxa a lingua, E nao the vem a boca uma palavra! Em “Gemidos de Arte” se pode ler na peniiltima estrofe: Stibito, arrebentando a horrenda calma, Grito, ¢ se grito é para que meu grito Seja a revelacéio deste Infinite Que eu trago encarcerado na mink ‘alma! 186 UNICiéncias, v.4, 2000 Por fim, em “O Poeta do Hediondo”: (od Em alucinatérias cavalgadas, Eussinto, entdo, sondando-me a consciéncia, Aultra-inquisitorial clarividéncia De todas a neuronas acordadas! (0) Eu sow aquele que ficow sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! Oaspecto pelo qual , por tiltimo, pretendemos estabele- cer uma proximidade entre os dois poetas é a tematica amoro- sa. Também eles, como todo poeta, ndo se eximiram de falar de amor. Quanto a esse ponto, poderiamos dizer que a ascese filos6fico-poética de Augusto dos Anjos ao amor sensual, car- nal, devota todo o esconjuro possivel. A concupiscéncia € j4 uma decomposic4o corpérea. Em “Versos de Amor”, lé-se: Porque 0 amor, tal como eu o estou amando, E espirito, é éter, é substancia fluida, E assim como 0 ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, no o estar pegando. E a transubstanciagéo de instintos rufes, Imponderabilissima e impalpdvel, Que anda acima da carne miserével Como anda a garca acima dos agudes! Portanto, a relacao amorosa corpé6rea é vista schopenhaue- rianamente pelo eu poematico como uma degradacao da maté- ria. Com isso, na verdade, o que se tem é uma negacao das possibilidades de realizagio do amor, que apenas subsistiria num plano, improvavel, da transubstanciagao do ser. Eomodelo desta degradagéo amorosa é a hetafra, a me- retriz. Ali4s, Augusto dos Anjos talvez tenha escrito o maior 187 UNICiéncias, v4, 2000 poema em lingua portuguesa em que toda a ira e imprecagao dessa formacao moral contra o meretricio esteja formulada. ‘Trata-se justamente de “Meretriz”. Vejamos alguns versos: 6) Ea meretriz que, de cabelos ruivos, Bramando, ébria e lasciva, hérridos uivos Na mesma esteira priblica, recebe, Entre farraparias e esplendores, O eretismo das classes superiores Eo orgasmo bastardissimo da plebe! Ha um Cesario Verde que, indiretamente, sem assumir postulados semelhantes aos de Augusto dos Anjos, em varios poemas recalga essa repulsa ao amor carnal e desdenha, de certa maneira, alguma forma de amor nesse sentido, Sobretu- do quando se trata do “amor” das prostitutas. Isso, muito su- tilmente, quase despercebido: E saio. A noite pesa, esmaga, Nos Passeios de lajedo arrastam-se as impuras. (O Sentimento dum Ocidental: II, Ao Gas) “Por cima, as imorais, nos seus roupées ligeiros, Tossem, fumando, sobre a pedra das sacadas,” (O Sentimento dum Ocidental: IV, Horas Mortas) Ainda que corramos 0 risco do excessivo, julgamos im- portante transcrever integralmente 0 poema “O Aridas Mes- salinas” de uma das coletaneas do livro denominada “Ecos do Realismo”: O dridas Messalinas néo entreis no santudrio 188 UNIGiéncias, v.4, 2000 transformareis em ruinas 0 meu imenso sacréirio! Oh! A deusa das docuras, amulher! Eu a contemplo! Vos tendes almas impruras, ndio me profaneis o templo! A mulher é ser sublime, éconjunto de carinhos, ela nao propaga o crime, em sentimentos mesquinhs. Vos sois umas vis afrontas, que nos dao falsos prazeres nao sei se sois mds se tontas, mas sei que ndo sois mulheres! \ Como dissemos, ha, nesse ponto, uma semelhanga de tratamento a questio amorosa entre os dois poetas. Fora daf, Ges4rio Verde desenvolve tematica tanto considerando a mu- Ther como um “ser sublime/conjunto de carinhos” e que, por- tanto, o seu eu poemiatico contempla, quanto a considera a explosiva sensualidade de desejos irrefredveis: WV Hei-d'esperar, talvez, que v seu amor me acoite, Mas nunca a fitarei duma maneira franca; Trax o esplendor do Dia e a palidez da Noite, E, como 0 Sol, dourada, e, como a Lua, branca! x O sew vagar oculta uma elasticidade Que deve dar um gosto amargo e deleitoso, Easua glacial impassibilidade Exalta 0 meu desejo ¢ ataca 0 meu nervoso. (Humorismo de Amor: Frigida) 189 UNICiéncias, v4, 2000 Conclusao ‘Tornemos a afirmar; para concluir: estamos diante de dois poetas cujas concepcées poéticas, na esséncia, so diferentes. CesArio Verde, de uma poética radicada na vida humana. Os elementares e complexos problemas do homem, desde os mais profundos aos mais simples da existéncia social s40 minuciosa- iucute obsei vados, descritos, analisados ¢ avaliados, muitas ve- zes com ironia, por uma linguagem poética, tecnicamente for- mal mas simples, solta, prosaica e, paradoxalmente, erudita. Eru- dic&o constantemente confirmada nao sé pelo léxico, como tam- bém pelas citag6es: Spencer, Feuillet, Taine, Zaccone, Camdes etc. Deste, alids, ha ressonancias claras, como se pode observar, por exemplo, na estrofe seguinte, extrafda de “Nés”: Ai daqueles que nascem nestes casos, E, sendo fracos, sejam generosos! As doengas assaltam os bondosos E — custa crer — deixam viver os maus! Cabe dizer também que ha tens6es mais duradouras e mesmo referéncias 4 decomposi¢ao ultima das coisas e do homem na poesia de Cesdrio Verde. Surgem de passagem, é certo, mas deixam entrever uma incutida concepcao spence- riana de mundo: “E onde, talver, se faga ainda o jazigo/Em que eu irei apodrecer primeira!” Outra, sem divida, éa poética de Augusto do Anjos. Aqui, também ja dissemos, hd a radicalizagao de uma poética da nuli- dade do ser e das coisas, da atavica forca da morte que reduz a vida a pé, em projeto impossivel de realizacdo. Daf 0 obsessivo transtorno, a obsessiva angiistia do eu poematico ante sua inca- pacidade de transformar tudo isso, experimentando a cada passo acerteza da tenacidade do império irreversivel da morte. A tini- ca transformagao possivel a vida é mumificar-se, putrefazer-se reintegrar-se ao p6 césmico que efetivamente é. O que sobre- vém disso é essa poesia extraordinaria, ins6lita, (mica ainda hoje. 190