Você está na página 1de 10

496 496

Entrevistas Devolutivas
em Pesquisa em Avaliação
Psicológica
Feedback Interviews In Research On
Psychological Assesment

Entrevistas Devolutivas En
Investigación En Evaluación Psicológica

Maiana Farias
Oliveira Nunes
Faculdade Avantis

Ana Paula
Porto Noronha &
Rodolfo Augusto
Matteo Ambiel
Universidade São Francisco
Experiência

PSICOLOGIA:
PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2012,
2010, 32
30 (2),
(1), 496-505
200-211
497
PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO, Maiana Farias Oliveira Nunes, Ana Paula Porto Noronha & Rodolfo Augusto Matteo Ambiel
2012, 32 (2), 496-505

Resumo: Apesar de ser um direito dos participantes, não é comum se observar ações de devolução dos
resultados de pesquisas em Psicologia com seres humanos. O presente trabalho consiste em um relato de
experiência que tem como objetivo apresentar um processo de devolutiva de dados coletados para um
projeto de doutorado, com foco na construção de um instrumento para uso em orientação profissional.
Os participantes da pesquisa foram 747 estudantes dos ensinos médio e técnico, de escolas públicas e
particulares, que responderam instrumentos de avaliação de autoeficácia para atividades ocupacionais,
interesses profissionais e traços de personalidade. As entrevistas devolutivas foram realizadas de forma
coletiva para alunos de primeiro e segundo anos e de forma individual para aqueles de terceiro ano. As
entrevistas, semiestruturadas, foram conduzidas por psicólogos mestrandos e doutorandos em Psicologia,
acompanhados por observadores, estudantes de graduação em Psicologia. Em geral, os participantes relataram
que os resultados foram positivos, à medida que muitos deles comentaram que essa ação foi importante
para refletir sobre a escolha profissional e o autoconhecimento.
Palavras-chave: Avaliação psicológica. Entrevista. Orientação profissional. Medidas

Abstract: Actions regarding the feedback to research participants, even tough it’s their right to get this
information, are not very common in psychology research. This paper is a experience report that aims at
describing the process of feedback on the results of a research conducted in a doctoral thesis, which focused
the construction of a test that could be used in the vocational guidance context. 747 people from high
school and technical education from public and private schools took part in the study. They answered tests
focusing on self-efficacy to occupational activities, vocational interests and personality traits. The interviews
to provide feedback for the test results were given collectively for students who were in the first and second
grades, and in technical education, and were conducted individually for the students who were in the third
grade. Psychologists, who were students of master and doctoral programs, conducted the semi-structured
interviews, and psychology students, who observed the whole process as part of their training, accompanied
them. In general, the participants said that the results of the interviews were positive, once they were able
to think about the vocational choice process and to improve their self-knowledge.
Keywords: Psychological assessment. Interview. Vocational guidance. Measurement

Resumen: A pesar de ser un derecho de los participantes, no es común la observación de acciones de


devolución de los resultados de investigaciones en Psicología con seres humanos. El presente trabajo
consiste en un relato de experiencia que tiene como objetivo presentar un proceso de devolutiva de datos
recolectados para un proyecto de doctorado, con enfoque en la construcción de un instrumento para el uso
en orientación profesional. Los participantes de la investigación han sido 747 estudiantes de las enseñanzas
secundaria y técnica, de escuelas públicas y privadas, que han respondido instrumentos de evaluación de
autoeficacia para actividades ocupacionales, intereses profesionales y características de personalidad. Las
entrevistas devolutivas han sido llevadas a cabo de forma colectiva para los alumnos de primero y segundo
grados, y de forma individual para aquellos del tercer grado. Las entrevistas, semiestructuradas, han sido
conducidas por psicólogos que estudian maestría y doctorado en Psicología, acompañados por observadores,
estudiantes de graduación en Psicología. En general, los participantes han relatado que los resultados han
sido positivos, a medida que muchos de ellos han comentado que esa acción ha sido importante para
reflejar sobre la elección profesional y el autoconocimiento.
Palabras clave: Evaluación psicológica. Entrevista. Orientación profesional. Medidas.

As pesquisas em avaliação psicológica das associações científicas e pelos congressos


abrangem diferentes áreas de atuação do especializados na temática, dentre outros
psicólogo, entre elas a clínica, a educacional, indicadores não menos relevantes (Hutz &
a orientação profissional e outras, e analisam Bandeira, 2003; Joly et al.., 2007; Noronha
dados de pessoas de diferentes faixas etárias, & Nunes, 2008; Suehiro & Rueda, 2009).
em contextos variados, desde a infância até Apesar desse crescimento, pouco tem sido
a velhice (Joly, Silva, Nunes, & Souza, 2007). discutido sobre como fornecer os resultados
Em geral, a pesquisa da área no Brasil tem das investigações para os participantes, etapa
apresentado crescimento, o que pode ser importante na condução de pesquisas em
observado pela maior produção de artigos Psicologia, uma vez que os participantes
em periódicos especializados, pela criação de possuem o direito de obter seu resultado após
laboratórios de pesquisa, ou ainda, pela ação a conclusão do estudo, se o desejarem, de

Entrevistas Devolutivas em Pesquisa em Avaliação Psicológica


498
PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO, Maiana Farias Oliveira Nunes, Ana Paula Porto Noronha & Rodolfo Augusto Matteo Ambiel
2012, 32 (2), 496-505

acordo com o Código de Ética Profissional do trabalho, embora haja diferenças entre
do Psicólogo (Conselho Federal de Psicologia o peso atribuído a ela de acordo com o
– CFP, 2005). modelo proposto (Oliveira & Holanda, 2000).
Dentre os objetivos da OP, quais sejam,
Em busca realizada em bases de dados autoconhecimento, conhecimento do mundo
brasileiras, mais especificamente por meio ocupacional e aprendizado de como refletir
do site BVS-PSI, o único relato que abordou sobre a escolha profissional, já discutidos
essa temática com o uso de pesquisa por outros autores, como, por exemplo,
quantitativa foi a de Cassep-Borges (2009). Lassance (1999) e Pássera e Olaz (2005), o
O autor relatou um processo de devolução primeiro objetivo tem sido desenvolvido pelo
de dados que envolvia a avaliação do amor e uso de técnicas individuais e grupais e de
do relacionamento familiar em universitários. instrumentos de medida.
Nesse caso, ele indicou ter utilizado o correio
eletrônico como forma de entregar os A entrevista, tal como já informado, pode
resultados aos participantes, relatando bons ser utilizada em vários momentos da OP.
resultados dessa prática. Ela tem sido compreendida como uma
conversa na qual o entrevistador objetiva
De forma semelhante, este trabalho tem obter informações psicológicas sobre o outro,
como objetivo relatar uma experiência na havendo usos com fins diversos, uma vez que
qual foram realizadas entrevistas devolutivas algumas abordagens consideram que essa é
em uma pesquisa de doutorado (Nunes, a ferramenta mais poderosa em OP. Entre
2009). Mais especificamente, o artigo busca eles, pode-se citar a obtenção de dados do
apresentar os procedimentos de coleta de cliente, a realização de um pré-diagnóstico,
dados e a posterior realização de entrevistas a apresentação e a discussão de resultados de
devolutivas com os participantes. O objetivo testes, o diagnóstico realizado conjuntamente
da tese, que se insere no campo da orientação entre psicólogo e cliente e a construção de
profissional (OP), era construir uma escala de prognósticos, entre outros (Mello, 2002;
autoeficácia para atividades ocupacionais Savickas, 2005). A técnica, quando aplicada no
destinada à avaliação de adolescentes e início do processo, dedica-se ao levantamento
buscar evidências de validade para ela. de aspectos culturais e familiares, bem como
daqueles relacionados ao autoconhecimento
Este relato difere de outros usos da entrevista, (Pássera & Olaz, 2005). Ainda, a entrevista é
pois aqui ela não foi usada como estratégia comumente utilizada ao final do processo.
para coleta de dados, e sim, para fornecer Nesse momento, o intuito é de retomada
os resultados da pesquisa aos participantes. do que ocorreu ao longo do trabalho, assim
Desse modo, além de reafirmar que se trata como de escuta do que ficou registrado para o
de importante ferramenta de avaliação jovem e de amenização das eventuais dúvidas
psicológica (Tavares, 2000; Leitão & Ramos, que lhe ocorrem. Além disso, a entrevista no
2004), busca-se enfatizar que a técnica fim do processo tende a ser um momento
também pode ser usada como um recurso importante de integração dos dados coletados
para relatar os resultados de pesquisas na a partir de diferentes fontes ao longo dos
área. encontros, facilitando o processo de tomada
de decisão (Urbina, 2007).
Mais especialmente, no que se refere
à avaliação realizada no processo de No presente relato de experiência, a entrevista
orientação profissional, convém destacar foi usada como um recurso para fornecer
que essa tem constituído etapa importante os resultados oriundos de uma pesquisa em

Entrevistas Devolutivas em Pesquisa em Avaliação Psicológica


499
PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO, Maiana Farias Oliveira Nunes, Ana Paula Porto Noronha & Rodolfo Augusto Matteo Ambiel
2012, 32 (2), 496-505

Psicologia, com foco em avaliação psicológica precisão adequadas para o uso do psicólogo.
e OP. Desse modo, busca-se descrever o Os instrumentos utilizados serão brevemente
processo de exposição dos resultados aos descritos.
participantes da pesquisa e as vantagens
observadas com tal estratégia. Inicialmente, A Escala de Autoeficácia para Atividades
será descrita a pesquisa realizada, a partir da Ocupacionais avalia seis tipos de autoeficácia
qual a experiência relatada neste trabalho se relacionados às ocupações, quais sejam,
desenvolveu. autoeficácia realista, investigativa, artística,
social, empreendedora e convencional.
Desenvolvimento da pesquisa A autoeficácia refere-se à confiança na
capacidade pessoal para organizar e
Participantes executar ações em domínios específicos. Os
resultados dessa escala não foram usados na
Participaram da pesquisa 747 pessoas, entrevista devolutiva, pois esse era o foco
residentes em cidades do interior do Estado principal da pesquisa de doutorado, e a
de São Paulo. As idades variaram entre 14 análise da sua dimensionalidade ainda não
e 35 anos (M=16,0; DP=1,59), sendo a havia sido conduzida à época das entrevistas
maioria composta por mulheres (57,2%) e devolutivas.
estudantes de escolas públicas (66,3%). Os
estudantes eram oriundos de seis escolas O SDS-CE é um instrumento de avaliação
diferentes, sendo que 349 estavam no dos interesses profissionais que permite
primeiro ano do ensino médio (46,7%); a análise do interesse por seis tipos,
245 (32,8%), no segundo; 138 (18,5%), no denominados realista, investigativo, artístico,
terceiro, e 15 (2%), em um curso técnico de social, empreendedor e convencional. Seu
administração. resultado é fornecido por meio dos dois
escores com as maiores pontuações entre os
Instrumentos seis tipos, de modo a ilustrar as áreas de maior
interesse da pessoa. Já a EAP avalia sete áreas
Durante a coleta de dados, foram de interesse, quais sejam, ciências exatas,
utilizados quatro instrumentos de avaliação artes/comunicação, ciências biológicas e
psicológica, buscando avaliar a autoeficácia da saúde, ciências agrárias e ambientais,
ocupacional e suas fontes (Escala de atividades burocráticas, ciências humanas e
Autoeficácia para Atividades Ocupacionais sociais aplicadas e entretenimento. O manual
– EAAOc, Nunes & Noronha, no prelo), os do teste sugere uma análise comparativa
interesses profissionais (Self-Directed Search entre as médias das pessoas nas sete áreas,
– SDS-CE e Escala de Aconselhamento de modo a verificar a maior aproximação
Profissional – EAP, respectivamente, Primi, com profissões específicas, que foram
Mansão, Muniz, & Nunes, 2010; Noronha, alvo das pesquisas de validação da escala.
Sisto, & Santos, 2007) e as características Por fim, a BFP analisa a personalidade por
de personalidade (Bateria Fatorial de meio do modelo dos cinco grandes fatores,
Personalidade – BFP, Nunes, Hutz, & denominados neuroticismo, extroversão,
Nunes, 2010). Com exceção da EAAOc, socialização, realização e abertura. Os
cuja construção e busca por evidências resultados no teste podem ser fornecidos
de validade eram objetivos da pesquisa, pelo percentil ou escore z, em que se relata
os demais instrumentos possuem parecer qual a aproximação ou o distanciamento do
favorável do Conselho Federal de Psicologia, padrão de respostas em comparação com a
já que apresentam evidências de validade e média da amostra normativa. Foi adotado o

Entrevistas Devolutivas em Pesquisa em Avaliação Psicológica


500
PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO, Maiana Farias Oliveira Nunes, Ana Paula Porto Noronha & Rodolfo Augusto Matteo Ambiel
2012, 32 (2), 496-505

escore z para essa pesquisa, com os cálculos com a escola, envio dos TCLE, aplicação dos
feitos separadamente para os escores de instrumentos, digitação do material, geração
homens e mulheres. dos resultados e entrevistas devolutivas, durou
cerca de 6 meses.
Procedimentos de coleta de dados
A experiência de realização das
Após a aprovação do projeto pelo Comitê entrevistas devolutivas
de Ética em Pesquisa, foi feito o contato
com as instituições de ensino, requisitando As entrevistas devolutivas referentes aos
autorização para aplicar os instrumentos. instrumentos de avaliação de interesses
O contato inicial foi feito pessoalmente profissionais foram oferecidas para a
com a diretora ou coordenadora da escola coordenação e para os alunos. Previamente,
em questão, para apresentar a pesquisa e como já foi informado, as diretoras ou
convidar os alunos a participar. Após obter coordenadoras das escolas receberam uma
essa autorização, os Termos de Consentimento entrevista devolutiva geral sobre os alunos (ou
Livre e Esclarecido (TCLE) foram enviados seja, sem expor os resultados de indivíduos
para os responsáveis pelos adolescentes ou em específico), com sua devida anuência,
para os próprios participantes, no caso de considerados por série e sexo. Nessa entrevista
serem maiores de idade. Aproximadamente devolutiva, foi apresentado e discutido um
uma semana depois da entrega dos TCLE, os relatório impresso com os resultados gerais.
responsáveis pela aplicação voltaram à escola Aliado a isso, foram dadas sugestões sobre
para recolhê-los e para realizar a aplicação possíveis ações de intervenção com os alunos,
dos instrumentos. Só participaram aqueles no sentido de estimular os interesses profissionais
que haviam devolvido o TCLE assinado até de maneira equilibrada entre as diversas áreas
a data da coleta. No momento do convite à de atuação, tais como convidar profissionais
participação na pesquisa, já foi mencionado para dar palestras nas escolas, realizar visitas
que seria realizada uma entrevista devolutiva a universidades e locais de trabalho e realizar
com os participantes e com a escola. pesquisas na internet para caracterizar profissões
de interesse, dentre outras. As sugestões de
A coleta de dados foi feita pela autora da intervenção foram fornecidas e discutidas
tese (primeira autora do presente artigo), considerando os recursos físicos e financeiros
com a colaboração de alunos de Iniciação e o tempo das escolas e dos professores,
Científica (IC) e do mestrado em Psicologia. de modo a torná-las passíveis de execução.
O processo de coleta de dados foi feito em Acredita-se que essa estratégia de entrevista
grupos, em sala de aula, na seguinte ordem: devolutiva seja útil para as escolas, embora
questionário, EAAOc, BFP e um instrumento não seja possível garantir que efetivamente as
de avaliação dos interesses (EAP ou SDS-CE). sugestões ou reflexões tenham gerado ações
Optou-se por utilizar apenas um teste de práticas que beneficiaram os alunos, tanto por
interesse por pessoa para evitar a fadiga e não se saber se haveria verbas nas escolas que
a perda de motivação. O tempo médio de pudessem ser destinadas a esse objetivo como
coleta de dados foi de 1 hora e 15 minutos por não se saber se os outros membros da escola
por grupo, e a aplicação foi conduzida, em (professores e pais de alunos, por exemplo)
cada sala, por, no mínimo, um psicólogo e teriam interesse em desenvolver projetos sobre
um auxiliar de aplicação. Em alguns casos, a escolha da profissão.
para turmas com mais de 35 alunos, havia
até quatro aplicadores. Todo o processo de Para os alunos de 1o e 2º anos do ensino
coleta de dados, desde o primeiro contato médio (EM) e do ensino técnico, foi oferecida

Entrevistas Devolutivas em Pesquisa em Avaliação Psicológica


501
PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO, Maiana Farias Oliveira Nunes, Ana Paula Porto Noronha & Rodolfo Augusto Matteo Ambiel
2012, 32 (2), 496-505

uma entrevista devolutiva coletiva sobre expressos e também sobre o que estavam
os resultados dos testes de interesses fazendo para explorar as possibilidades de
profissionais, atividade que teve foco na futuro profissional. Os alunos relataram que
reflexão sobre a escolha profissional. Para a atividade de entrevista devolutiva permitiu
tanto, foram agendados dias e horários que percebessem que boa parte dos colegas
específicos com a escola, de modo a não possuía dúvidas semelhantes sobre a escolha
atrapalhar as atividades curriculares dos profissional, o que os fez se sentirem menos
alunos. Havia cerca de 80% de alunos de cada isolados nessa etapa de vida. Outro motivo
classe presentes nesse momento. relatado para a entrevista devolutiva ter
sido avaliada favoravelmente pelos jovens
Ainda sobre a entrevista devolutiva foi o fato de não haver programas formais
coletiva, em um mesmo dia, muitas turmas nas escolas para abordar a temática, o que
participaram em horários diferentes. Nessa gerava uma carência quanto a esse tema
ocasião, receberam, em sala de aula, um na vida dos jovens, que, de algum modo,
papel com seu nome e com os dois escores começou a ser considerado com mais
de interesse mais elevados. Cada jovem profundidade nas entrevistas devolutivas.
tinha acesso apenas ao próprio resultado,
mas podia compartilhar o seu resultado Apenas para os alunos do 3º ano do EM,
com colegas, caso desejasse, uma vez que o foi oferecida uma entrevista devolutiva
resultado individual era entregue em mãos. individual (Anexo 1) sobre os resultados
Depois disso, foi feita uma apresentação, dos interesses profissionais, personalidade
em data show ou retroprojetor, sobre os e do questionário sociodemográfico. O
aspectos que influenciam o momento de procedimento foi realizado apenas pela
escolha profissional, seguida pela explicação autora da tese ou por alunos de mestrado
dos tipos do SDS-CE ou das áreas de em Psicologia, todos psicólogos, contando
interesse da EAP. Após a apresentação, foram também com a participação de alunos de
esclarecidas dúvidas sobre as interpretações IC como observadores. Do mesmo modo
dos resultados dos interesses profissionais e que nas entrevistas coletivas, foi feito
fornecidas sugestões sobre como conhecer agendamento prévio com a escola, e a
mais detalhadamente as profissões e se participação nas entrevistas devolutivas foi
preparar para o momento de escolha voluntária, sendo que só as recebeu quem
profissional. Essas atividades duraram cerca compareceu no horário agendado. Houve a
de 45 minutos por turma, sendo conduzidas presença de cerca de 70% dos participantes.
pela autora da tese, com auxílio de alunos
de Iniciação Científica (IC) e de mestrado Cada entrevista individual levou cerca
em Psicologia, como já informado. de 30 minutos, com foco na escolha da
profissão e em tarefas que a pessoa poderia
Com relação ao trabalho das entrevistas realizar posteriormente para aumentar o
devolutivas em grupo, oferecidas para autoconhecimento e o nível de informação
os alunos do 1º e 2º ano do EM e do sobre a ocupação e o mercado de
ensino técnico, o trabalho foi avaliado trabalho. Foi esclarecido que os dados da
positivamente pelos jovens. Foram entrevista não consistiam em uma avaliação
expostas várias dúvidas em relação às psicológica, mas sim, em um trabalho de
áreas profissionais e a como obter mais pesquisa, cujos resultados deveriam ser
informações sobre as profissões, de modo analisados com cautela pelo fato de não
que essa foi uma estratégia que os auxiliou haver informações adicionais sobre os
a refletir sobre seus interesses profissionais participantes. As informações eram dadas

Entrevistas Devolutivas em Pesquisa em Avaliação Psicológica


502
PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO, Maiana Farias Oliveira Nunes, Ana Paula Porto Noronha & Rodolfo Augusto Matteo Ambiel
2012, 32 (2), 496-505

apenas verbalmente, e nenhum relatório por necessariamente tem sido acompanhada de


escrito foi fornecido para os alunos. Buscou- ações que promovam benefícios mais diretos
se esgotar todas as dúvidas dos participantes para os participantes. Apesar de considerar
sobre os resultados dos instrumentos, tendo os que, ao responder os testes, essa já pode ser
alunos avaliado positivamente as entrevistas uma situação de ganhos para o respondente
devolutivas individuais e comentado que por ampliar seu autoconhecimento ou por
elas os ajudaram a refletir sobre a escolha treiná-lo em alguma habilidade específica
da profissão e também a perceber que, em (Krumboltz, & Jackson, 1993; Duarte, 2008),
alguns casos, era necessário ajuda externa geralmente não se tem o hábito de oferecer
para se preparar para a escolha. Houve entrevistas devolutivas sobre os resultados
jovens que se mobilizaram emocionalmente dos participantes, seja de forma mais geral
com a entrevista e que informaram estar em (por exemplo, o resultado de uma turma
grande sofrimento em relação à escolha da em comparação com as demais turmas da
profissão. Nesses casos, foi recomendado escola), seja individualizada. Acredita-se que
que procurassem um psicólogo para realizar essa prática possa ser muito proveitosa para
um trabalho de orientação profissional mais os participantes de pesquisas, que podem sair
extenso. da posição de apenas oferecer suas respostas
para também receber algo em troca da sua
Por fim, um fato interessante a ser colaboração.
Apesar de considerar
que, ao responder mencionado é que tanto as escolas públicas
os testes, essa já como as particulares parecem valorizar Em outros países, como nos Estados Unidos, é
pode ser uma pouco o estímulo à maturidade dos jovens comum que as pessoas recebam contribuições
situação de ganhos
para o respondente para a escolha da profissão, uma vez que esse financeiras para participar das pesquisas
por ampliar seu público não possuía nenhuma assistência ou que as escolas, por exemplo, recebam
autoconhecimento sistemática relacionada ao tema oferecida material destinado a melhorar as condições de
ou por treiná-lo em
alguma habilidade pelas escolas. Observa-se a limitada atuação ensino para os alunos, como computadores,
específica (Krumboltz, do psicólogo nesse âmbito nas instituições livros e outros (McGrew, 2009). No Brasil,
& Jackson, 1993; consultadas, que só foram mencionadas contudo, as agências de fomento à pesquisa
Duarte, 2008),
como auxílios particulares oferecidos a não possuem o costume de estimular esse
alunos específicos, considerados casos mais tipo de contribuição para a participação
graves de indecisão profissional. Assim, a em pesquisa, porém isso não deve significar
perspectiva de estímulo longitudinal ao que outros esforços não possam ser feitos no
desenvolvimento integral dos alunos parece sentido de prover entrevistas devolutivas úteis
voltar-se muito mais para o aprendizado aos participantes.
de conteúdos específicos relacionados
ao vestibular, enquanto a maturidade Este artigo buscou relatar uma experiência de
emocional para fazer a transição para o oferecer entrevistas devolutivas individuais e
mundo do trabalho parece ser deixada em coletivas fruto de uma pesquisa em avaliação
segundo plano. psicológica. Os construtos avaliados foram
interesses profissionais e personalidade, que
Considerações finais tradicionalmente são abordados em programas
de orientação profissional (Savickas, 1995,
As pesquisas em avaliação psicológica 1999). O trabalho de realizar entrevistas
tem aumentado consideravelmente no sobre os resultados em testes de interesses
Brasil (Hutz & Bandeira, 2003; Joly et al., profissionais e personalidade fornece uma
2007; Noronha & Nunes, 2008; Suehiro ferramenta interessante para a comparação
& Rueda, 2009), porém essa expansão não com áreas profissionais e para uma reflexão

Entrevistas Devolutivas em Pesquisa em Avaliação Psicológica


503
PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO, Maiana Farias Oliveira Nunes, Ana Paula Porto Noronha & Rodolfo Augusto Matteo Ambiel
2012, 32 (2), 496-505

mais ampla sobre as preferências em termos de ambiente de trabalho, estilo de vida associado, tipo
de relacionamento preferido com dados ou pessoas, entre outros. Desse modo, essa integração
poderá permitir que se reflita sobre os aspectos relacionados à escolha profissional, com base
em um autoconhecimento ampliado por meio dessa estratégia. A busca por essa integração não
é uma tarefa simples, dada a complexidade dos construtos em questão e das relações existentes
entre eles, porém as tentativas nessa direção tem cada vez mais apresentado respaldo teórico e
empírico (Savickas, 1995, 1999; Nunes & Noronha, 2009a; Nunes & Noronha, 2009b).

Entre as limitações desta experiência, deve-se citar o controle mais sistemático sobre as impressões
dos jovens relativas à utilidade da intervenção e sugestões sobre como aprimorar essas ações,
assim como sobre a coerência entre o autoconhecimento que a pessoa já possuía e os aspectos
destacados nos resultados dos testes. Contudo, considerando as limitações de tempo e de equipe
disponível para participar dessa ação, acredita-se que houve bons resultados e que futuras
pesquisas poderão se beneficiar de estratégias semelhantes que certamente trarão mais benefícios
ao público pesquisado.

Anexo 1
Nome: Série: Idade:
l O que pretende fazer depois de terminar o
ensino médio
(exemplo: fazer cursinho, ingressar na universidade
imediatamente, trabalhar, etc)?
l O que pensa sobre o mundo do trabalho? (incluir
perguntas sobre as consequências da escolha – estilo de vida,
pessoas com quem conviverá, etc)

Sobre a escolha profissional:


l Quando começou a pensar?
l Acha que já escolheu uma profissão? Qual? Como a descreve?
O que já buscou de informação sobre a profissão desejada (cursos,
especificidades da profissão, conversas com pessoas da área)?
l Sabe como se preparar para a escolha? O que já foi feito?
l Tem enfrentado alguma dificuldade para escolha? Qual?
l Qual a influência de outros sobre a escolha (familiares, amigos, etc)?

Dados informados durante a coleta de dados:


Profissão desejada: __________________
Grau de certeza quanto à escolha da profissão: ___________________

Fatores que se relacionam à escolha:

Aspecto Média ponderada


Buscar atender as expectativas de familiares e amigos
Perceber suporte emocional e financeiro para a escolha
Buscar independência financeira
Buscar valorização e reconhecimento social por meio do trabalho

Entrevistas Devolutivas em Pesquisa em Avaliação Psicológica


504
PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO, Maiana Farias Oliveira Nunes, Ana Paula Porto Noronha & Rodolfo Augusto Matteo Ambiel
2012, 32 (2), 496-505

Buscar a felicidade e o desenvolvimento pessoal


Escores mais elevados nos tipos do SDS: _________________ e ____________________Escores
mais elevados nos tipos do SDS: _________________ e ____________________

Escores nas diferentes áreas de interesse da Escala de Aconselhamento Profissional:

Área Média ponderada


Ciências exatas
Artes/comunicação
Ciências biológicas e da saúde
Ciências agrárias e ambientais
Atividades burocráticas
Ciências humanas e sociais aplicadas
Entretenimento

Escore nos fatores da bateria fatorial de personalidade:


Fator Escore z
Neuroticismo
Extroversão
Socialização
Realização
Abertura

l Como acha que suas características psicológicas se integram com o que sabe/pensa sobre a
profissão desejada?

l Os resultados dos testes são coerentes com o que já havia refletido sobre suas características
pessoais? Detalhe as impressões.
Quais serão seus próximos passos no processo de escolha profissional?

Maiana Farias Oliveira Nunes


Doutorado em Psicologia pela Universidade São Francisco. Professora do curso de Psicologia da Faculdade
Avantis, Balneário Camboriú, Santa Catarina, SC – Brasil.
Email: maiananunes@mac.com

Ana Paula Porto Noronha


Doutorado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Professora associada da
Universidade São Francisco, Itatiba – São Paulo, SP – Brasil.
Email: ana.noronha@saofrancisco.edu.br

Rodolfo Augusto Matteo Ambiel


Mestre em Psicologia pela Universidade São Francisco. Professor do curso de Psicologia da Universidade São
Francisco, São Paulo, Itatiba – São Paulo, SP – Brasil.
Email: ambielram@gmail.com

Endereço para envio de correspondência:


Av. Marginal Leste, n 3600, Km 132. Bairro dos Estados. Balneário Camboriu, Santa Catarina – SC – Brasil.
CEP 88339-125

Recebido 23/6/2010, 1ª Reformulação 14/11/2011, Aprovado 10/1/2012.

Entrevistas Devolutivas em Pesquisa em Avaliação Psicológica


505
PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO, Maiana Farias Oliveira Nunes, Ana Paula Porto Noronha & Rodolfo Augusto Matteo Ambiel
2012, 32 (2), 496-505

Referências Cassep-Borges, V. (2009). Devolução de dados por correio Nunes, C. H. S. S., Hutz, C. S., & Nunes, M. F. O. (2010). Bateria
eletrônico: uma alternativa para pesquisas quantitativas. fatorial de personalidade (BFP) – Manual técnico. São Paulo:
Avaliação Psicológica, 8(1), 149-152. Casa do Psicólogo.
Conselho Federal de Psicologia – CFP. (2005). Código de Ética Nunes, M. F. O. (2009). Estudos psicométricos da escala de
Profissional do Psicólogo. Recuperado em 20 de novembro auto-eficácia para atividades ocupacionais. Tese de doutorado.
de 2009 de www.pol.org.br Programa de Pós-Graduação em Avaliação Psicológica,
Universidade São Francisco, Itatiba,SP.
Duarte, M. E. (2008). A avaliação psicológica na intervenção
vocacional: princípios, técnicas e instrumentos. In M. C. Nunes, M. F. O., & Noronha, A. P. P. (2009a). Interesses e
Taveira & J. T. Silva (Eds.), Psicologia vocacional: perspectivas personalidade: um estudo com adolescentes em orientação
para a intervenção (pp. 139-158). Coimbra, Protugal: profissional. Revista Galego-Portuguesa de Psicoloxía e
Imprensa da Universidade de Coimbra. Educación, 17(1,2), 115-129.
Hutz, C. S., & Bandeira, D. R. (2003). Avaliação psicológica Nunes, M. F. O., & Noronha, A. P. P. (2009b). Relações entre
no Brasil: situação atual e desafios para o futuro. In O. H. interesses, personalidade e habilidades cognitivas: um estudo
Yamamoto & V. V. Gouveia (Eds.), Construindo a psicologia com adolescentes. Psico-USF, 14(1), 131-141.
brasileira: desafios da ciência e prática psicológica (pp. 621-
277). São Paulo: Casa do Psicólogo. Nunes, M. F. O., & Noronha, A. P. P. (no prelo). Escala de
autoeficácia para atividades ocupacionais – EAAOc – manual
Joly, M. C. A. J., Silva, M. C. R., Nunes, M. F. O., & Souza, M. técnico em preparação. São Paulo: Casa do Psicólogo.
S. (2007). Análise da produção científica em painéis dos
congressos brasileiros de avaliação psicológica. Avaliação Oliveira, I. D., & Holanda, L. (2000). Os fatores que
Psicológica, 6(2), 239-252. sobredeterminam a escolha profissional: Relato de uma
pesquisa junto a alunos de escolas públicas e particulares
Krumboltz, J. D., & Jackson, M. A. (1993). Career assessment as do Recife. In I. D. Oliveira (Org.), Construindo caminhos:
a learning tool. Journal of Career Assessment, 1(4), 393-409. Experiências e técnicas em orientação profissional (pp.87-109).
Recife, PE: EdUFPE.
Lassance, M. C. P. (1999). O trabalho do SOP/UFRGS – uma
abordagem integrada. In M. C. P. Lassance (Ed.), Técnicas Pássera, J., & Olaz, F. (2005). La entrevista. In E. Pérez, J.
para o trabalho de orientação profissional em grupo (pp. Pássera, F. Olaz, & M. Osuna (Eds.), Orientación, información
11-47). Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do y educación para la elección de carrera (pp. 73-88). Buenos
Rio Grande do Sul. Aires: Pidós.
Leitão, L. M., & Ramos, L. (2004). A entrevista em orientação Primi, R., Mansão, C. S. M., Muniz, M., & Nunes, M. F. O. (2010).
escolar e profissional. In L. M. Leitão (Ed.), Avaliação SDS – Questionário de busca auto-dirigida – Manual Técnico
psicológica em orientação escolar e profissional (pp. 45-78). da Versão Brasileira. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Coimbra, Portugal: Editora Quarteto.
Savickas, M. L. (1995). Examining the personal meaning
Mello, F. A. F. (2002). O desafio da escolha profissional. Campinas, of inventoried interests during career counseling .
SP: Papirus Editora. Journal of Career Assessment, 3(2), 188-201. doi:
10.1177/106907279500300206
McGrew, K. S. (2009). Evolution of CHC theory of intelligence and
assessment. Trabalho apresentado no IV Congresso Brasileiro Savickas, M. L. (1999). The psychology of interests. In M. L.
de Avaliação Psicológica, XIV Conferência Internacional de Savickas & A. R. Spokane (Eds.), Vocational interests: Meaning,
Avaliação Psicológica, V Congresso Brasileiro de Rorschach measurement and counseling use (pp. 19-56). Palo Alto, CA:
e outros métodos projetivos, Campinas, SP. Davies-Black.
Noronha, A. P. P., & Nunes, M. F. O. (2008). Produções no Suehiro, A. C. B., & Rueda, F. J. M. (2009). Revista Avaliação
Congresso de Avaliação Psicológica no Brasil: caminhos Psicológica: um estudo da produção científica de 2002 a
traçados e novos desafios. In A. P. P. Noronha, C. Machado, L. 2007. Avaliação Psicológica, 8(1), 131-139.
Almeida, M. Gonçalves, S. Martins & V. Ramalho (Eds.), Actas
da XIII Conferência Internacional de Avaliação Psicológica: Tavares, M. (2000). A entrevista clínica. In J. A. Cunha (Ed.),
formas e contextos (pp. 1-14). Braga, Portugal: Psiquilíbrios. Psicodiagnóstico V. (5a. ed. revisada e ampliada, pp. 45-56).
Porto Alegre: Artmed.
Noronha, A. P., Sisto, F., & Santos, A. A. A. (2007). Escala de
aconselhamento profissional – EAP– Manual Técnico. Itatiba, Urbina, S. (2007). Fundamentos da testagem psicológica. Porto
SP: Vetor Editora. Alegre: Artmed.

Entrevistas Devolutivas em Pesquisa em Avaliação Psicológica