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A REUOLUÇÃO RUSSA I[][] ANOS DEPDlS

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Projeto gráfico e Edição: Editora Zouk


Revisão: Tatiana Tanaka

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Vagner Rodolfo CRB-8/9410

C845t Cotrim, Ana

Todo poder aos sovietes! A Revolução Russa 100 anos depois / Ana
Cotrim, Vera Cotrim. - Porto Alegre, RS: Zouk, 2018.
336 p. ; 16cm x 23cm.

Inclui índice e bibliografia.


ISBN":978-85-8049-057-2

1. História. 2. Revolução Russa. 3. Sovietes. I. Cotrim, Vera. 11.Título.

2018-808 CDD 947.0841


CDU 94(47+57)

direitos reservados à
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90560-004 - Floresta - Porto Alegre - RS - Brasil
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Sumário

Apresentação
7

I. Narrativa de Abertura
Lenin em 1917: direção em disputa e liderança reconhecida
Iná Camargo Costa
13

lI. Ensaio: Política e Liberdade


Estado e transição ao socialismo no pensamento de Lenin
Lívia Cotrim
51

11I. Leituras e Debates: Lenin, Trotsky, Mandei, Lukács


O jovem Lukács e a Revolução Russa
Antonino lnfranca
105

Enunciados sobre a URSS por Ernest Mandel e Gyõrgy Lukács


lvan Cotrim
121

Entre o ideal revolucionário e o factível: Lenin e o problema da


formação dos fatores objetivos e subjetivos para a revolução
Ronaldo Vielmi Fortes
151

Realidade e lenda do bolchevismo


Oswaldo Coggiola
179
~----.:==....-.-=---.=----- - - -=- - --- ---

IV. Gênero e Liberdade


Emancipação feminina e dissolução da família
no ideário da Revolução Russa
Vera Cotrim
215

V. Arte, Cultura e Política


Movimentos artísticos e política cultural
Celso Prederico
267

Lukács e a problemática cultural da era stalinista


José Paulo Netto
281

Soljenitzin: um dia na vida de Ivan Denisovitch


Gyõrgy Lukács
(Tradução de Bernard Hess)
317
Entre o ideal reuolucionário e o factiuel:
Lenin e o problema da forma cão dos fatores .
objetiuos e suhíatíuus para a reuolução

Ronaldo Vielmi Fortes

cc ••• edifiquernos uma nova sociedade':


Lenin, 1973a,v. ll, p. 44.

"Mas é preciso descer da teoria pura para a realidade russa"


(Marx, Rascunhos da carta à Vera Sassulitch de 1881)

A esquerda comunista ainda não foi capaz de fazer o acerto de contas com
o seu passado. Muito já se escreveu sobre o decurso histórico do socialismo real,
sem, contudo, que se fosse capaz de efetivar uma posição clara sobre o verdadeiro
significado do "nascimento, vida e morte" do socialismo soviético ao longo do sé-
culo xx. A história do século passado, se se quer séria, não pode de modo algum
descurar o papel desempenhado pelo comunismo soviético no curso dos princi-
pais acontecimentos desse largo período histórico. Embora controverso, não há
como negar a sua importância e o seu significativo impacto na história mundial e,
em particular, para as prospectivas revolucionárias atuais. Para aqueles que defen-
dem o comunismo como alternativa histórica frente às contradições e aos impas-
ses postos pela sociabilidade do capital para a emancipação humana, retomar esse
debate, criticar as mazelas de certos rumos assumidos e enfatizar pontos positivos
decisivos do ocorrido são tarefas cujo fim ainda se encontra longe de ser alcan-
çado. Trata-se de tarefas árduas que devem lidar com a ambiguidade do próprio
processo que teve curso no século passado. Isso se justifica pela natureza peculiar
àrevolução soviética, como muito bem explicita Silvio Pons,

o comunismo foi muita coisa em conjunto: uma realidade e uma mitolo-


gia, um sistema estatal e um movimento de partidos, uma elite fechada e
uma política de massa, uma ideologia progressista e um domínio imperial,
um projeto de sociedade justa e um experimento sobre a humanidade, uma
retórica pacifista e uma estratégia de guerra civil, uma utopia liberadora e
um sistema concentrador, um polo antagônico da ordem mundial e uma
modernidade anticapitalista. O comunismo foi vítima de regimes ditatoriais
e artífice de estado de política. Protagonistas de lutas sociais e de liberações
nacionais, de campanhas de opinião e pelo direito de cidadania, fundaram

151
TODO PODER AOS SOUIETES!

invariavelmente regimes totalitários, opressivos e cerceadores da liberdade


(PONS, 2012, p. VII).

Sobre esses aspectos multifacetados, contraditórios e controversos do de-


curso concreto da dinâmica do socialismo real, muito ainda seria necessário es-
crever e debater.
Embora esse início faça menção ao conjunto hercúleo de tarefas e de afaze-
res analíticos ainda a serem realizados acerca do decurso histórico do socialismo
real, o texto que ora se apresenta não pretende de modo algum ser a tentativa de
dar uma resposta cabal e definitiva que sirva como chave para a resolução de gran-
de parte desses problemas e questões, nem mesmo intenciona traçar um panora-
ma geral dos rumos contraditórios assumidos pela revolução comunista soviética.
Sem abdicar de apresentar certos posicionamentos em torno do tema, o objetivo
é apenas trazer elementos para refletir sobre os instantes iniciais da Revolução de
Outubro, confrontando-os com os princípios mais fundamentais do pensamento
revolucionário de Lenin. Trata-se fundamentalmente de pensar o ideal revolucio-
nário frente às tarefas concretas do povo soviético ante os desafios de sua história
no período da instauração revolucionária. Essa parece ser uma boa maneira de
colocar a discussão acerca dos efetivos sentidos do processo revolucionário frente
às condições históricas que viabilizaram e por vezes dificultaram a derradeira ins-
tauração de uma dinâmica efetiva de transformação da sociabilidade.
A obra de Lenin nesse sentido é exemplar. É quase desnecessário justificar
o lugar privilegiado de seu pensamento para a discussão do tema, pois o volume
de sua produção teórica sobre os rumos e sentidos reais da revolução é por de-
mais considerável, assim como a riqueza dos debates, textos, discursos ete. em que
discute com argúcia e sagacidade as condições concretas da Rússia revolucionária.
Todo esse conjunto de reflexões coloca de maneira flagrante o impasse e as media-
ções necessárias entre o ideal revolucionário e as condições históricas concretas
para a sua realização.

LENIN E A VIA NÃO CLÁSSICA DA REVOLUÇÃO SOVIÉTICA

Um dos primeiros grandes temas a ser enfrentado, uma vez que aqui se
pergunta sobre a relação entre o ideal e as possibilidades históricas, é a discus-
são sobre as condições efetivas para a implementação da revolução na Rússia do
início do século xx. Não são poucas as considerações que condenam o processo
revolucionário bolchevique alegando a impossibilidade objetiva para sua defla-
gração, dadas as condições miseráveis e de penúria econômica e mesmo cultural
em que se encontrava o país na época da revolução.

152
ENTRE n IDEAL REUIlLUCIDNÁRIIl E n FACTiuEL

A mais famosa interpretação desse campo de compreensão é a teoria dou-


trinária de Karl Kautsky,

segundo a qual a Rússia, país economicamente atrasado, essencialmente


agrário, não estaria maduro para a revolução social nem para uma ditadura
do proletariado. Esta teoria, que só admite como possível na Rússia uma
revolução burguesa - concepção de que resulta igualmente a tática segundo
a qual os socialistas deveriam, na Rússia, aliar-se ao liberalismo burguês
- é também a da ala oportunista no movimento operário russo, os assim
chamados mencheviques, sob a experimentada direção de Axelrod e Dan
(LUXEMBURGO,1991, p. 62).

Nessa medida, as vias da sociabilidade burguesa aparecem como condição


necessária, irrevogável, para a realização da sociabilidade comunista. Essa condi-
ção inexorável foi afirmada por diversas vertentes críticas ao processo revolucio-
nário soviético.
O frequente recurso de certa tradição do marxismo ao texto marxiano da
Ideologia Alemã sugere que o processo soviético foi realizado às pressas, sem ob-
servar as condições mínimas necessárias para a instauração de um efetivo proces-
so revolucionário. O modo costumeiro como as considerações juvenis de Marx
são tomadas faz transparecer o jugo fatalista da história, propugnando os ditames
de uma necessidade absoluta por meio de determinações fortes o suficiente para
subjugar qualquer elemento da contingência e da possibilidade à lei histórica fixa
e rígida.
No entanto, muito provavelmente em função da ampla difusão dessa inter-
pretação do texto marxiano, as reconsiderações e os desdobramentos posteriores
das reflexões do filósofo alemão a propósito do tema e até mesmo as análises por
ele realizadas à luz de acontecin;entos importantes que ele pôde acompanhar e
analisar de perto - basta lembrar a comuna de Paris - são simplesmente esqueci-
dos, habilmente negligenciados, para não dizer desconhecidos por muitos desses
críticos.
Os rascunhos escritos por Marx em resposta a uma questão posta pela re-
volucionária russa Vera Sassulitch, em 1881, são bastante instrutivos quanto ao
problema das condições necessárias para a revolução, na medida em que discute
o problema da passagem de formas pretéritas à produção capitalista para a forma-
ção socialista. A esse respeito, Marx se pronuncia:

E a situação histórica da "cornuna rural" russa é uma situação ímpar! É a


única na Europa que se manteve, não como restos esparsos, à semelhança
de raras e curiosas miniaturas em estado de tipo arcaico que se encontra-
vam até bem pouco tempo em alguma parte no ocidente, mas como forma

153
TODO PODER AOS SOUIETES!

quase predominante da vida popular e espalhada por um imenso império.


Se ela possui na forma da propriedade comum do solo, a base "natural" da
apropriação coletiva, seu contexto histórico, a contemporaneidade da pro-
dução capitalista, lhe propicia, já totalmente prontas, as condições materiais
de trabalho coletivo em uma vasta escala. Ela está então em condições de
incorporar os ganhos positivos produzidos pelo sistema capitalista sem ter
que passar pelo jugo caudino. Ela pode gradualmente suplantar a agricultu-
ra parcelizada pela grande agricultura com a ajuda de máquinas, para o que
a configuração física da terra na Rússia representa um convite. Ela pode,
portanto, tornar-se o ponto de partida direto do sistema econômico, ao qual
tende hoje a sociedade moderna e lhe dar nova roupagem, sem ter que co-
meter suicídio. Seria preciso, ao contrário, começar por colocá-Ia em seu
estado normal (MARX, 2005, p. 114).

Como variação da mesma passagem, o texto alternativo escrito linhas abai-


xo no mesmo rascunho ressalta de maneira ainda mais enfática a não necessidade
da passagem pela via da produção agrícola capitalista.

Teoricamente falando, a "cornuna rural" russa pode, portanto, conservar


seu solo - e desenvolver a sua base, a propriedade comum da terra, e eli-
minar o princípio da propriedade privada, o que ela também já pressupõe;
ela pode tornar-se um ponto de partida imediato do sistema econômico ao
qual tende a sociedade moderna; ela pode dar uma roupagem nova, sem ter
que cometer suicídio; ela pode se apropriar dos frutos, dos quais a produ-
ção capitalista abasteceu fartamente a humanidade, sem ter que passar pelo
regime capitalista, regime que, considerado do ponto de vista unicamen-
te de sua duração possível, conta apenas em termos da vida da sociedade
(MARX, 2005, p. 114).

Obviamente não se quer afirmar aqui que as mesmas condições da Rússia


analisada por Marx estavam presentes na época de Lenin. Pelo contrário, o con-
junto de medidas governamentais adotadas desde os tempos dos czares, já em
curso nos tempos em que Marx escreve a Sassulitch, minava de maneira incisiva a
"cornuna rural", de forma que, no início do século, não mais eram as formas preva-
lentes da agricultura do país, estavam já "contaminadas" e iniciavam seu processo
de destituição com o intuito de implementar as formas típicas da sociabilidade
do capital. 1 Nosso argumento ao retomar as considerações de Marx intenciona ir

1 A esse propósito nosso autor diz: "Não se pode dissimular que, de um lado, a "com una rural"
está reduzida quase à beira da decadência, e do outro, uma conspiração poderosa lhe espera, a fim
de lhe dar o golpe de misericórdia. Para salvar a comuna russa, é preciso uma Revolução Russa. De
resto, os detentores da força política e social estão dando o melhor de si para preparar as massas
para semelhante catástrofe. Ao mesmo tempo que sangram e torturam a comuna, que esterilizam e

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ENTRE D IDEAL REUDLUCIDNÁRID E D FACTÍUEL

contra a ideia de uma suposta "teoria da história" em sua obra, coloca-se contra a
ideia de leis rígidas do evolver histórico como veios necessários que ditam rotas
intransponíveis a serem seguidas pela dinâmica social. Desse modo, tal como o
pensador alemão escreve, não há um caminho rígido, intransponível que impõe
a passagem necessária pela forma capitalista de produção para a realização do
trânsito para o comunismo. No caso específico comentado, Marx vê a possiblida-
de de a propriedade comunal russa apropriar-se da tecnologia desenvolvida pela
sociabilidade do capital, porém não admite nenhuma necessidade de essa ter que
passar pela lógica da propriedade privada para, somente depois, rum ar em dire-
ção à transição para o comunismo. Abre-se desse modo a possibilidade de pôr em
discussão a questão da "via não clássica" da revolução.
Significativo também para o argumento ora desenvolvido é o conjunto de
artigos nos quais Marx analisa a situação social e econômica da Irlanda na se-
gunda metade do século XIX, em que fica patente a importância dos chamados
países periféricos para dinâmica revolucionária, colocando em xeque a tese da
relevância unilateral dos países centrais na deflagração do processo da revolução.
O estudo das condições econômicas da Irlanda, sua relação de dependência com
a economia central inglesa - e vice-versa -, leva Marx a reformular posições que
nutria anteriormente sobre o tema, segundo as quais a revolução teria de maneira
necessária sua origem nos países centrais e na sequência migraria para os países
periféricos, dependentes. Os resultados a que chega, na virada de 1869 para 1870,
são elucidativos a respeito dos fatores contingenciais e das possibilidades conjun-
turais concretas como elementos-chave do processo revolucionário.
Na carta dirigida a Engels, em 1869, Marx deixa clara sua nova considera-
ção a respeito do tema:

Durante muito tempo acreditei que era possível derrubar o regime irlandês
mediante o English Working Class ascendancy [ascensão da classe trabalha-
dora inglesa]. Sempre sustentei este ponto de vista na New York Tribune.
Um estudo mais profundo me convenceu do contrário. A working class
[classe trabalhadora] não conseguirá nada before it has got rid of lreland
[enquanto não tiver se livrado da Irlanda]. Há de se colocar a ênfase na
Irlanda. Por isso a question [questão] irlandesa é tão importante para o mo-
vimento social em geral (MARX, 1974, p. 414-5).

pauperizam suas terras, os lacaios literários dos "novos pilares da sociedade" apontam ironicamente
para as feridas que lhe foram infringi das como os tais sintomas de sua decrepitude espontânea e
incontestável, e declaram que ela está morrendo de uma morte natural, e que fariam um bem em
abreviar sua agonia" (MARX, 2005, p. 116).

155
TODO PODER AOS SOUIETES!

A Irlanda, um país dependente, periférico, assume a primazia para o "mo-


vimento social em geral", mesmo frente ao papel a ser desempenhado pela classe
trabalhadora inglesa. Tal posição é referendada e explicitada com aspectos ainda
mais relevantes, meses depois, por ocasião de uma carta dirigida a Sigfrid Meyer
e August Vogt em abril de 1870:

Após haver me ocupado durante anos da questão irlandesa, cheguei à con-


clusão de que o golpe decisivo contra as classes dominantes da Inglaterra
(que é decisivo para o movimento dos trabalhadores all over the world [em
todo o mundo j), apenas pode dar-se na Irlanda e não na Inglaterra (MARX,
1974, p. 665).

Explicando os motivos para tanto, Marx complementa:

A Irlanda é o bulwark [baluarte 1 da aristocracia fundiária inglesa. A expro-


priação desse país não apenas é a fonte principal de sua riqueza material.
É sua maior força moral. Esses representam in fact o domínio da Inglaterra
sobre a Irlanda. Por isso a Irlanda é o grand moyen [grande meio] com
o qual a aristocracia inglesa mantém seu domínio na própria Inglaterra
(MARX, 1974, p. 665-6).

Desse modo,

a condição prévia para a libertação da classe operária inglesa é a transforma-


ção da união coercitiva que existe atualmente, ou seja, do subjugamento da
Irlanda, em uma aliança que se assente na igualdade e na liberdade, se isto
for possível, ou na separação total, se for necessário (MARX, 1979, p. 199).

o sentido da estratégia revolucionária muda de orientação, sem, no en-


tanto, deixar de considerar a nação cujo desenvolvimento apresenta as condições
mais viáveis para a transição para sociabilidade comunista:

A Inglaterra como metrópole do capital, como potência que domina até


agora o mercado mundial, é no momento o país mais importante para a re-
volução dos trabalhadores e, ademais, o único país em que as condições ma-
teriais para esta revolução se desenvolveram até alcançar certo grau de ma-
turidade. Portanto, a tarefa da mais importante da Associação Internacional
dos Trabalhadores é acelerar a revolução social na Inglaterra. O único
meio para acelerá-Ia é tornar independente a Irlanda. Portanto é tarefa da
"Internacional", levar em primeiro plano todas as partes do conflito entre
Inglaterra e Irlanda, tomar partido abertamente em prol da Irlanda em to-
das as partes. A tarefa especial do conselho central em Londres é despertar
na classe trabalhadora inglesa a consciência de que a emancipação nacional
da Irlanda não é para ela urna questíon of abstract justíce or humanitarian

156
ENTRE li IDEAL REUIILUI:IIINRRIIl E li FAI:TÍUEL

sentiment [questão de justiça abstrata ou de sentimento humanitário] senão


the first condition of their own social emancipation [a primeira condição de
sua própria emancipação social] (MARX, 1974, p. 669).

Em termos claros, a revolução no país central, único em que as condições


mais adequadas para efetuar o trânsito para uma sociedade pós-capitalista estão
dadas, tem como elemento facilitador ou mesmo decisivo suas relações econômi-
cas com o país dependente. Esse último é a condição prévia para a fragilização dos
alicerces que mantêm firmes as bases do capitalismo na Inglaterra. A mudança
de sentido aqui, da periferia para a metrópole, é fruto da análise das situações
históricas concretas; desse modo, é a realidade que impõe suas determinações ao
pensamento, ela é o verdadeiro veio indutor das novas considerações presentes
em Marx. Portanto, insistir na inadequação de usar uma suposta teoria da histó-
ria - fundamentada na ideia da necessidade absoluta de determinadas leis - na
obra do pensador alemão como forma de tomar a Revolução Russa como um erro
seria no mínimo desconhecer a complexidade das reflexões do autor a respeito da
questão revolucionária. Esses elementos nos permitem ao menos colocar dúvidas,
a partir do próprio Marx, contra uma refutação fácil e simples dos processos ocor-
ridos na Rússia do século passado.
Essa rápida digressão sobre o problema em Marx não tem obviamente a
intenção de apresentar de maneira mais detida e minuciosa o curso das conside-
rações e transformações das reflexões do filósofo alemão a respeito do tema, vale
apenas para demonstrar a natureza mais complexa da questão no interior de seu
pensamento. O ponto a ser ressaltado é a importância da análise da realidade, da
conjuntura social e econômica, verdadeira fonte das discussões efetivas sobre as
possibilidades de transformação da sociabilidade.
Obviamente Lenin, pela sua estatm:a e agudeza analítica, não negligenciou
a natureza complexa desse problema. Sabia perfeitamente que estavam assumindo
naquele momento a alternativa da consecução da via revolucionária não clássica.
Quem nos oferece uma chave interessante para pensar esse problema de
maneira distinta é o filósofo húngaro Gy6rgy Lukács, em sua obra derradeira
Democracia hoje e amanhã, em cujas páginas sugere não ter ocorrido uma pre-
cipitação por parte dos bolcheviques, mas que a revolução comunista na Rússia
pós-czarista punha-se na verdade como a alternativa possível para a resolução de
problemas reais postos pela situação política e econômica em que o país se via
nas décadas iniciais do século passado. A esse propósito, Lukács retoma a teoria
leniniana do "próximo elo da corrente", demonstrando a agudeza das percepções
do pensador bolchevique acerca das situações concretas da classe trabalhadora e
da classe camponesa de seu tempo.

157
TIlDIl PIlDER RIlS SIlUIETES!

Lenin não tinha nenhuma dúvida de que condições objetivas para uma
revolução socialista estavam dadas com a derrocada do czarismo em fe-
vereiro. Ele inclusive sempre proclamou essa sua convicção, mas não teria
podido realizá-Ia nem com a melhor propaganda a favor dessa perspectiva
se não tivesse identificado o "elo da corrente" da etapa dada do desenvol-
vimento no anseio por paz entre todos os trabalhadores e no desejo de ter
terra entre os agricultores. As duas palavras de ordem "terra e paz" podiam
ser tidas como realizáveis - se consideradas apenas segundo o seu teor puro
e simples - também na sociedade burguesa. A genialidade política de Lenin,
diante disso, consistiu em ter reconhecido o antagonismo de que elas, por
um lado, constituíram o anseio insaciável e ardente das grandes massas,
mas, por outro, eram praticamente inaceitáveis para a burguesia russa e,
sob as circunstâncias dadas, tampouco receberiam apoio ou seriam passi-
vamente toleradas nem mesmo pelos partidos pequeno-burgueses. Assim,
as finalidades políticas estipuladas, que em si nem precisariam revolucionar
a sociedade burguesa, se transformaram em material explosivo, em veículo
para provocar uma situação em que a revolução socialista pudesse ser reali-
zada exitosamente (LUKACS, 2013, p. 505).

"Paz e terra", ou como variação do mesmo slogan político "paz, pão e terra"
implicam a leitura precisa da realidade, na qual são identificados os anseios mais
imediatos dos protagonistas sociais do momento histórico: de um lado os traba-
lhadores, de outro os camponeses. Somente o comunismo poderia atender a esses
anseios, uma vez que a lógica imperialista da classe capitalista dificilmente a leva-
ria a abandonar a guerra, assim como para essa classe seria inaceitável a divisão
de terras. As Teses de abril, escritas por Lenin às vésperas da grande Revolução
de 1917, ao estabelecerem as diferenças com os outros campos dos partidos em
choque frente às alternativas do momento, ilustram a clareza com que o pensa-
dor russo compreendeu a situação mais imediata do momento. As três grandes
prerrogativas da tarefa revolucionária são claramente descritas: "a paz aos povos':
"terra para os que trabalham", "a luta contra a fome e a ruína" (LENIN, 1973, v. 7,
p. 103-4). A paz tão almejada pelos trabalhadores somente poderia ser alcançada
pela ruptura com a lógica imperialista do capitalismo; nessa medida, a transição
para o comunismo se apresentava como alternativa concreta para os anseios pela
paz da classe trabalhadora russa. Por outro lado, o clamor do campesinato pela
terra somente poderia ser conduzido e realizado por iniciativas que apontavam
de modo claro para os elementos fundamentais da propositura comunista, qual
seja, a de uma reforma agrária. Não se trata, portanto, de uma utopia universa-
lista da revolução, de um ideal abstrato que tenta se impor à realidade em curso,
mas da alternativa real e possível frente às condições histórico-sociais da Rússia
pós-czarista,

158
ENTRE O IDEAL REUOLUCIDNÁRID E O FRCTiuEL

É O mesmo Lukács que em outra obra insiste de maneira definitiva na tese


da revolução comunista como alternativa concreta posta pelo contexto histórico
da Rússia pós-czar.

A admissão deste estado de coisas não leva necessariamente a considerar


um "erro" a derrubada violenta do regime capitalista nas grandes jornadas
de outubro de 1917, como desde o início tentou demonstrar a teoria social-
-democrata. As grandes decisões históricas, as deliberações revolucionárias,
não são jamais formuladas em termos de "teoria pura", na escrivaninha dos
intelectuais. Ao contrário, elas são respostas a alternativas que um povo que
se pôs em movimento impõe na realidade aos partidos e a seus dirigentes,
partindo do terreno da vida cotidiana até chegar às máximas deliberações
políticas (LUKÁCS, 2008, p. 108-9).

De fato, no bojo das reflexões de Lenin, tais considerações não são de modo
algum um passo a ermo, uma aventura desmedida e imprópria de tentar realizar
as bases do comunismo em um país atrasado e ainda em forte medida marca-
do pelos traços do feudalismo, mas as prerrogativas do comunismo conciliavam
perfeitamente com os principais anseios da classe trabalhadora e da classe cam-
ponesa. Nesse sentido, os princípios do comunismo, pelo menos alguns centrais,
conciliavam perfeitamente com o próximo elo da corrente a ser posto em curso, a
fim de sanar deficiências e severos conflitos existentes na sociedade russa naquele
contexto histórico.
Para Lenin, o compasso das medidas revolucionárias não poderia de modo
algum prescindir da leitura realista das condições efetivas impostas pelas condi-
ções sociais e econômicas; e, tudo isso, frente à situação internacional de grande
convulsão. Conforme ele mesmo diz, tratava-se de

Uma situação extraordinariamente dura, difícil e perigosa no aspecto in-


ternacional; necessidade de manobrar e de recuar; um período de espera
de novas explosões da revolução, que amadurecem com penosa lentidão
no Ocidente; dentro do país um período de construção lenta e de "apertar"
implacavelmente. de luta prolongada e tenaz da severa disciplina proletária
contra os elementos ameaçadores do desleixo e da anarquia pequeno-bur-
guesa - tais são, em poucas palavras, os traços distintivos da fase particular
da revolução socialista que atravessamos. Tal é o elo da corrente histórica
dos acontecimentos a que temos de nos agarrar agora com todas as forças
para nos mostrarmos à altura da tarefa até o momento de passarmos ao elo
seguinte, que nos atrai pelo seu particular esplendor, pelo esplendor das
vitórias da revolução proletária internacional (LENIN, 1973).

159
TOD[] PODER AOS SOUIETES!

A lucidez com que o líder revolucionário encara as tarefas do porvir do


proletariado demarca com clareza extrema a necessidade pungente de construir
as bases objetivas e subjetivas para os desdobramentos do processo transformador
em curso. Do ponto de vista objetivo, as condições deploráveis em que se encon-
tra a Rússia, seja em função dos últimos anos do czarismo, seja pelo agravamento
das condições em função da guerra - ou ainda, aquelas provocadas pelo acordo
de "paz humilhante'? a qual se viu forçada -, impunham a adoção de um conjunto
de medidas prévias, que não necessariamente podiam ser direta e exclusivamente
vinculadas às proposições do ideário comunista. Subjetivamente, a tarefa de reali-
zar a revolução implica a transformação dos próprios indivíduos, que no interior
do processo revolucionário transformam a si mesmos, criando as bases para a
fundação de uma nova sociedade - voltaremos a essa questão mais à frente.
Da citação anterior, resta ainda a tarefa de enfatizar de maneira clara o
cerne da visão política de Lenin, tão consagrada como a teoria do "próximo elo
da corrente': A política não se reduz, segundo tal perspectiva, às reflexões gerais
sobre o Estado, sobre os ideais sociais e econômicos, mas é sobretudo a análise
diretamente voltada à realidade com vistas a identificar as possibilidades concre-
tas presentes no curso histórico-conjuntural. Diferentemente do tão propugnado
"o político", elemento-chave da discussão da filosofia política de nossos dias (en-
quanto dimensão autônoma dos processos sociais), em Lenin tal elemento condiz
com a leitura precisa das condições reais do momento histórico, tanto em seus
aspectos objetivos, quanto subjetivos. Em suma, é a identificação das possibilida-
des concretas de pôr em curso e realizar um movimento que leva à transição de
dada situação social a outra, sendo que essa última significa a superação das con-
tradições e conflitos inerentes à formação social anterior. Em termos claros, con-
dizentes com a perspectiva de Lenin: partindo da identificação das contradições
fundamentais da sociabilidade do capital (nacionais e internacionais), passando
pelo período de transição do socialismo, até chegar à realização social comunista,
efetiva-se a formação que suplanta as contradições da forma anterior. "Paz e terra"
representavam exatamente a identificação dos elementos que naquele momento
conduziriam à resolução das principais contradições conjunturais que afligiam

2 Forma comum pela qual Lenin se referia ao Tratado de Brest-Litovsk assinado entre o
governo Bolchevique e as chamadas potências centrais (Império Alemão, Império Austro-
Húngaro, Bulgária e Império Otomano), em 3 de março de 1918. Dentre as cláusulas negociadas
de maiores repercussões para o processo revolucionário, encontrava-se a imposição de evacuar de
diversos países sobre os quais exercia influência, dentre eles, a Finlândia e as ilhas de Analândia
(fato que levou ao sacrifício da revolução comunista finlandesa). Além disso, foi forçada a abrir mão
de territórios importantes do ponto de vista econômico: os distritos turcos de Ardaham e Kars, e o
distrito georgiano de Batumi. Tais territórios abrigavam um terço da população da Rússia, 50% de
sua indústria e 90% de suas minas de carvão.

160
ENTRE Il IIlEAL REUIlLUCIIlNÁRIIl E Il FACTiuEL

o pOVOda Rússia. Essa era a tese de Lenin e foi ela que teve curso em sua prática
revolucionária.

o SENTIDO REAL DA REPÚBLICA DOS CONSELHOS

Esses traços da perspectiva teórica e prática de Lenin podem ser vislumbra-


dos em dois importantes textos, ambos escritos meses antes da revolução de ou-
tubro. Em O Estado e a Revolução, de agosto de 1917, encontramos a construção
de reflexões mais gerais, assentada sobre o cunho prevalente da análise e explici-
tação dos princípios fundamentais da revolução; logo depois, mais precisamente
em setembro de 1917, em A catástrofe que nos ameaça e como combatê-Ia (LENIN,
1973, v. 7, p. 72), os problemas concretos da revolução ganham acentuação bem
nítida, momento em que as vias reais e possíveis da construção do socialismo
são discutidas à luz das principais contradições postas pela conjuntura social e
econômica. Os ideais não são nunca abandonados, figuram sempre como metas a
serem alcançadas. No entanto, é na reflexão sobre as possibilidades efetivas para a
sua realização que são pensados e encaminhados por meios práticos. O próximo
elo da corrente tem, portanto, a dimensão do ideal e da necessária consideração
sobre os trâmites e as mediações necessários, postos pelos nexos concretos da rea-
lidade na qual se encontra inserido. Exemplar a esse respeito é o famoso aforismo
de Lenin, segundo o qual a revolução se faz com os sovietes e com a eletrifica-
ção. Para usar suas próprias palavras, por meio de termos bem próximos a esses:
"o único socialismo que podemos imaginar é aquele baseado em todas as lições
aprendidas através da cultura capitalista em larga escala. Socialismo sem serviços
postais e telegráficos, sem máquina, é uma frase vazia" (LENIN, 1976).
O centro dos problemas mais urgentes, dadas as condições do país, assume
o caráter da discussão sobre a "economia da transição" O termo proposto por
Lenin, "República Socialista", para designar a Rússia revolucionária indica de ma-
neira clara a definição do papel do Estado como elemento específico do processo
de transição. O intuito é demarcar de maneira precisa a natureza transitória da or-
ganização estatal implementada, diferenciando-a em termos claros dos objetivos
últimos a serem atingidos. Conforme esclarece Lenin,

Denominamos comunismo a um regime em que os homens se acostuma-


ram a cumprir obrigações sociais sem aparatos coercitivos especiais, em
que o trabalho gratuito em proveito de todos se converte em um fenômeno
generalizado. Se compreende por si que o conceito de "comunismo" está
demasiado longe deste ponto de vista daqueles que dão os primeiros passos
para a vitória completa sobre o capitalismo (Lenin, 1973, v. 10, p. 151-2).

161
TODO PODER RDS SOUIETES!

Essa definição clara e concisa ajuda a diferenciar o ideal a ser alcançado das
formas transitórias do Estado, cujo papel é viabilizar o advento do comunismo.
Em linhas gerais, a partir de 1920, o autor considerava que a forma provisória era
a do "capitalismo de Estado",' Lenin descreve de modo claro o percurso a ser cum-
prido pelo Estado nessa fase de transição para o comunismo. Não se trata de um
Estado que se erga sobre os mesmos pilares do Estado burguês. Alguns traços são
gerais a todo Estado, porém a constituição distinta da forma estatal a ser erguida
como tarefa do processo de transição coloca funções e tarefas distintas ao Estado
no socialismo. Acerca disso, Lenin tece as seguintes reflexões:

o estado é uma máquina de coerção. Deve coagir aos exploradores, mas


isso não se pode fazer com a polícia; somente pode fazê-lo as próprias
massas e a máquina deve estar vinculada a elas, deve representa-Ias como
soviets. Estes se acham muito mais próximos das massas, permitem estar
mais próximo delas, contemplam maiores possibilidades para educá-Ias.
Sabemos perfeitamente que o campesinato russo precisa aprender, mas
queremos que aprenda a partir de sua própria experiência, e não de livros.
O poder soviético é uma máquina, uma máquina destinada a fazer com
que as massas comecem imediatamente a administrar o Estado e a orga-
nizar a produção de escala de todo o país. Esta tarefa oferece dificuldades
gigantescas (Lenin, 1973, v. 11, p. 18).

A "ditatura do proletariado" não se confunde com a ditatura tout courtí


como o exercício despótico do líder sobre seus subordinados. Pelo menos essa
não era a intenção primeira do processo revolucionário soviético. A República
dos conselhos tem como ponto fulcral a organização dos trabalhadores nos "so-
vieres" mecanismo fundamental para a fundação de uma nova forma do Estado
de transição, além de desempenhar a função de elemento constitutivo dos fatores
subjetivos para a realização plena do procesoo. Nesse sentido, tanto o fator ob-
jetivo como subjetivo transparecem na mecânica da estrutural social e política
nos primórdios do processo revolucionário. Pelo menos em seu início os sovietes
tinham esse papel estratégico decisivo.
Vale insistir nesse ponto, pois é decisivo para as reflexões aqui em cur-
so: o período de transição tem, para Lenin, a dupla tarefa de criar as condições

3 Não há corno entrar aqui nas mudanças propostas por Lenin no curso da Revolução Russa,
porém essa fórmula coincide diretamente com a implementação da NEP, alternativa necessária aos
problemas que os bolcheviques enfrentavam naquela conjuntura. Para esse problema ver "Sobre o
imposto em espécie" (Lenin, 1973, v. 12, p. 29-44) e o informe ''A nova política econômica e as tare-
fas dos comitês de instrução política" (Lenin, 1973, v. 12, p. 72-79).
4 A esse propósito, cf. Lenin, "Contribuição à história do problema da ditadura", 1973, v. 11,
p.96-105.

162
ENTRE D IDEAL REUDLUCIDNÍlRlD E D FACTluEL

objetivas e subjetivas para a transformação efetiva da sociedade. A esse respeito,


como bem observa Gyõrgy Lukács,

o primeiro grande ato da passagem ao socialismo, a socialização dos meios


de produção, sua concentração nas mãos dos trabalhadores, tem como con-
sequência necessária que os elos sociais referidos à totalidade da economia
devam se tornar também eles conscientes. Precisamente por isso, os tra-
balhadores deixam de ser servidores para se tornarem senhores do desen-
volvimento social do homem. A estrutura social e suas transformações, no
contexto de uma economia assim governada, devem surgir de modo so-
cialmente consciente; é essa a função do socialismo enquanto etapa prepa-
ratória do comunismo, ou seja, a de criar as bases deste último no ser e na
consciência (LUKÂCS,2008, p. 111).

o ato da construção da subjetividade, aquela necessária para o engendra-


mento e desenvolvimento do "novo homem" e dos novos laços sociais, encontra-se
diretamente relacionado com a produção dos meios de vida. Não de modo ime-
diatista, como se bastasse a estatização dos meios de produção junto à tomada do
Estado por parte da classe trabalhadora para criar de maneira direta novas formas
e novas possibilidades para a realização das individualidades. O processo requer
que os indivíduos em sua própria prática, ao agirem de modo consciente sobre o
processo da produção material da vida, aprendam, desenvolvam e criem por si
mesmos as formas efetivas da transformação das bases da sociedade. Em termos
mais simples, ao participarem dos "sovietes', dos "conselhos" de fábrica e tantos
outros que compõem o quadro estrutural do estado socialista, tem curso o pro-
cesso de formação dos indivíduos. Estes aprendem no exercício de suas relações
conjuntas a compreender o papel social por eles desempenhado e a agir de forma
consciente na sociedade. Os "elos sociais" são nesse caso refundados e postos pe-
los próprios indivíduos, esses devem se tornar conscientes de suas relações, assim
como das implicações sociais de suas decisões. Na prática cotidiana os elementos
das transformações da subjetividade são forjados e postos em movimento. Pelo
fato de o mercado não ser mais a figura central do processo econômico, torna-se
viável tal edificação sobre os pilares de uma nova sociedade a ser construída.
O plano da realização prática, as estratégias e as ações presentes no co-
tidiano são orientados pelos princípios fundamentais das transformações a se-
rem postas em curso, orientados pelos ideais revolucionários últimos. Ao final,
mediante as novas condições construí das pela sociabilidade em seu processo de
transformação radical das bases anteriores, chega-se a uma forma de organização
que suprime inclusive a própria necessidade do Estado, já que os indivíduos são
outros, pois cumprirão suas "obrigações sociais" sem a necessidade de "aparados
coercitivos especiais':

163
TODO PODER AOS SOUIETES!

É somente na sociedade comunista, quando a resistência dos capitalistas


estiver definitivamente quebrada, os capitalistas tiverem desaparecido e já
não houver classes (isto é, já não houver distinções entre os membros da
sociedade quanto às suas relações com os meios sociais de produção), é
somente então que o "estado deixa de existir e que se torna possível falar
de liberdade': Então somente se tornará possível e será aplicada uma
democracia verdadeiramente completa, sem nenhuma exceção. Então
somente a democracia começará a extinguir-se pela simples razão de
que, libertos da escravatura capitalista, dos horrores das selvagerias, dos
absurdos, das ignomínias sem nome da exploração capitalista, os homens
habituar-se-ão gradualmente a respeitar as regras elementares da vida em
sociedade conhecidas há séculos, reincorporadas durante milênios em to-
das as prescrições morais, a respeitá-Ias sem violência, sem coerção, sem
submissão, sem esse aparelho especial de coerção que se chama: Estado
(LENIN, 1970, p. 101-2).

Não poderíamos deixar de associar às palavras de Lenin proferidas nesse


contexto as considerações de Lukács sobre o sentido efetivo da democracia em
uma sociedade comunista.

[Lenin] negou que a democracia no socialismo seja "uma pura e simples


ampliação da democracia" (entendida como a democracia burguesa). Ao
contrário, aquela é o oposto desta última. Antes de mais nada porque esta
deve ser não a superestrutura idealista do materialismo espontâneo da so-
ciedade civil, mas um fator material que movimenta o próprio mundo so-
cial; um fator não mais baseado, porém, nas muitas barreiras naturais, como
era o caso na pólis, mas baseado precisamente no ser ontologicamente so-
cial que está sendo constituído. Por isso, a tarefa da democracia socialista
é penetrar realmente na inteira vida material de todos os homens, desde a
cotidianidade até as questões decisivas da sociedade; é dar expressão à sua
sociabilidade enquanto produto da atividade pessoal de todos os homens
(LUKÃCS, 2008, p. 117).

o sentido da democracia socialista difere profundamente daquele típico


existente na sociedade do capital, onde, conforme analisa com precisão Marx,
tem lugar a divisão entre o homem privado e o cidadão (cf. MARX, 2010).
Diferentemente, a democracia comunista não figura diante dos indivíduos como
garantias de direitos abstratos, ou como simples jogo formal de uma igualdade
abstrata frente ao Estado, aspecto que a torna na realidade uma forma mantene-
dora das desigualdades reais. O comunismo é precisamente a expressão da di-
mensão democrática como componente necessário da própria vida. O elemento
da democracia nesse caso torna-se elemento essencial da cotidianidade, na me-
dida em que expressa a interação autêntica e direta dos indivíduos na sociedade.

164
ENTRE li IDEAL REUIILUCIIlNÁRIIl E li FACTiuEL

Em suma: a democracia socialista deve firmar-se na vida cotidiana dos homens,


de maneira direta, sem a intermediação do Estado e, é claro, do mercado.
No conjunto das reflexões de Lenin acima citadas devemos atentar para o
uso do termo habituar-se (grifado pelo próprio autor), que de modo algum figura
no contexto de seus dizeres como meramente ocasional. Pode-se observar a im-
portância do termo na sequência do texto de Lenin, em que o autor o retoma para
enfatizar que:

Apenas o hábito pode produzir tal efeito e ele o produzirá com certeza,
porque verificamos milhares de vezes à nossa volta a facilidade com que os
homens se habituam a observar as regras necessárias à vida em sociedade
quanto existe exploração, quando nada existe que excite a indignação, que
suscite os protestos e a revolta, que necessite de repressão (LENIN, 1970,
p. 101-2).

A mesma linha de raciocínio encontra-se presente em seus últimos textos,


em particular nos escritos de 1923. No artigo "Do primeiro sábado comunista na
linha férrea Moscol-Kazán ao sábado comunista de primeiro de maio em toda
Rússia', o líder soviético deixa clara a necessidade de "orientar todos os esfor-
ços para a formação da consciência comunista, estabelecer novos vínculos sociais
entre os indivíduos e inculcar uma atitude nova frente ao trabalho e uma nova
disciplina" (LENIN, 1973, v. l l , p. 2). Eis suas palavras a respeito:

Não nos assustarão as dificuldades gigantescas nem os erros inevitáveis ao


começo de uma obra dificílima, pois a transformação de todos os hábitos
de trabalho e dos costumes é uma empreitada que requer decênios. E nós
nos comprometemos uns com os outros, firme e solenemente, que estamos
dispostos a fazer todos os sacrifícios necessários, que resistiremos e triun-
faremos nesta luta, a mais difícil de todas - na luta contra a força do cos-
tume - que trabalharemos sem descanso anos e décadas. Trabalharemos
com objetivo de desarraigar essa regra maldita de "cada um por si e deus
por todos': para desterrar o costume de ver o trabalho somente como uma
carga e considerar justo unicamente o trabalho retribuído de acordo com
certas normas. Trabalharemos para inculcar na consciência, nos hábitos e
nos costumes cotidianos das massas a regra de "todos por um e um por
todos': a regra "de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo
suas necessidades"; para ir implantando de maneira paulatina, mas tenaz,
a disciplina comunista e o trabalho comunista (LENIN, 1973, v. l l , p. 44).

Muito embora as palavras de Lenin figurem muito mais como prevalente-


mente exortativas, são evidentes os elementos referentes à formação das consciên-
cias propensas à fundação da sociedade comunista, dos princípios necessários da

165
TODll POOER AOS SOUIETES!

construção de novos indivíduos com base na fundação de novos hábitos intro-


duzidos na cotidianidade pelos próprios membros da sociedade. Assim como a
existência dos produtores independentes característica da sociabilidade do capital
criou formas específicas de tradições, de princípios de orientação da própria vida
e das relações entre os homens, que foram fixadas pelo hábito, do mesmo modo
sua aniquilação e a introdução de novas bases das relações também devem ser
formadas e fixadas pelo hábito. Para tanto, não bastam os elementos da vontade,
da simples exortação da necessidade da mudança; as condições objetivas, medidas
práticas efetivas, são os componentes viabilizadores das mudanças reais. O hábi-
to não surge aqui, portanto, como mera posição da subjetividade, como simples
repetição cotidiana que induz a determinados comportamentos e convicções. As
condições objetivas para sua fixação são as componentes decisivas, porém sozi-
nhas não bastam para realizar de modo definitivo o processo. Essas condições, na
compreensão de Lenin, seriam aquelas a serem forjadas pelos sovietes; com eles,
as condições objetivas conjuntamente com as possibilidades abertas às individua-
lidades seriam formadas.
Nessa medida, para Lenin, o processo efetivo se inicia ao ter

movido de seu lugar uma montanha de proporções insólitas: a montanha da


rotina, da ignorância e da obstinação na defesa dos hábitos da "liberdade do
comércio" e da "liberdade" de compra e venda da força de trabalho humana,
igual a qualquer outra mercadoria. Começamos a vaticinar e destruir os
preconceitos mais arraigados dos costumes mais firmes, rotineiros e secula-
res (LENIN, 1973, v. 11, p. 44-5).

Esse é o problema posto no centro de sua reflexão sobre a inter-relação en-


tre os fatores objetivos e subjetivos dos processos de transformação social. Assim
como a sociabilidade hegemônica do capitalismo engendra pelo hábito que invade
a cotidianidade dos homens as formas adequadas à sua formação, os meios para
a transformação das subjetividades requerem mecanismos indutores da transfor-
mação de igual ordem. Mudar as condições objetivas significa viabilizar a posição
crítica frente à condição a ser refutada e gerar no próprio dia a dia dos indivíduos
condições para que suas relações, os processos de interação social se ponham sob
outras bases, gerando assim elementos para forjar indivíduos cujos princípios éti-
cos e de vida realizem-se de modo distinto. Nesse caso, visa-se a emancipação dos
indivíduos, a constituição de formas mais humanitárias das interações entre as
individualidades.
Em se tratando de um estudioso das obras marxianas, a teoria de Lenin
carrega elementos adicionais imprescindíveis, merecedores de nossa considera-
ção, pois se aproximam de modo significativo de um conjunto importante de teses

166
ENTRE [] IDEAL REUOLUCIIlNÁRID E O FACTÍUEL

de Marx. Valeria, pois, nesse contexto, lembrarmos de algumas das posições de


Marx, referindo por exemplo às famosas teses Ad Feuerbach."
Convém iniciar essa consideração pela advertência fundamental do proces-
so de formação dos próprios indivíduos tal como exposta por Marx, que combate
a ideia de uma transformação nos moldes de uma educação abstrata, mero ins-
trumento pedagógico de conscientização dos homens, como o elemento indutor
primordial da transformação. Na terceira tese ad Feuerbach, encontramos a se-
guinte determinação:

A doutrina materialista de que os homens são produto das circunstâncias e


da educação, de que homens modificados são, portanto, produto de outras
circunstâncias e de uma educação modificada, esquece que as circunstân-
cias são modificadas precisamente pelos homens e que o próprio educador
tem de ser educado (MARX; ENGELS, 2007, p. 537-8).

Quem educa os educadores e cria as bases para a transformação dos ho-


mens são os processos reais de vida, é na prática que os homens estabelecem for-
mas inusitadas, distintas de se inter-relacionarem, as novas formas das relações
formam os esteios práticos da própria cotidianidade dos indivíduos. Voltando a
Lenin, podemos dizer que as mudanças advindas dos processos inusitados trans-
formadores da realidade social se iniciam sempre de maneira prática, com a trans-
formação da própria vida e, pelo hábito, se fixam, tornando-se princípios quase
espontâneos e imediatos nas ações interativas entre os indivíduos.
O mesmo espírito das considerações de Marx está presente em diversas
observações de Lenin a respeito da formação dos novos indivíduos, aptos a revo-
lucionar a sociabilidade. Uma em particular merece destaque, na medida em que
deixa claro que não se trata meramente da inculcação da ideologia comunista na
consciência dos jovens, mas da tarefa prática de mudar a estrutura da própria vida
para permitir a transformação das próprias subjetividades.

Naturalmente, o primeiro pensamento que chega a nossa mente é que


aprender comunismo significa assimilar a soma de conhecimento que está
contida nos manuais comunistas, panfletos e livros. Mas tal definição de
comunismo é por demais grosseira e inadequada (LENIN, 1975, p. 284).

De maneira evidente, essas palavras vão de encontro às ideias da revolu-


ção e do comunismo como doutrinação, como mera conscientizaçào das massas.

5 É certo que Lenin desconhecia o teor de tais manuscritos de Marx e Engels - saíram da
obscuridade em 1921, no entanto vieram ao conhecimento público tão somente em 1926 -, porém
a proximidade dos veios condutores das proposições é de extrema significação.

167
TODO PODER AOS SIIUIETES!

Contra tal perspectiva Lenin insiste em demarcar a necessidade de conciliação


dos conhecimentos e das novas formações sociais com a própria prática dos in-
divíduos na sociedade. Sem tal vínculo, os slogans comunistas são meras pala-
vras doutrinárias, sem utilidade. Na realidade, a efetiva transformação se dá na
mudança das condições objetivas da própria vida, das formas de sua interação
com os outros homens na sociedade, que por sua vez permitem modos distintos,
nesse caso mais humanizados, de subjetivação das personalidades. As bases da
inter-relação social, tornando-se outras, não mais orientadas e comandadas pelo
mercado, impõem a necessidade de os próprios sujeitos produzirem formas mais
autênticas e diretas de sua relação. Com os sovietes, por mais que nos momentos
primeiros se tenham relações ainda incipientes e precárias, tem início a constru-
ção de processos que criam as bases para que os indivíduos possam produzir e
desenvolver os veios mais decisivos de formas distintas da interação social, pois
ali tem origem uma reflexão sobre a própria vida sem perder a dimensão da tota-
lidade na qual se encontram inseridos.
Em tais formulações não é difícil vislumbrar a forte proximidade com a
compreensão que o próprio Marx tem do processo da formação das individuali-
dades. Conforme afirma Marx na 6a Tese, çc••• a essência humana não é uma abs-
tração intrínseca ao indivíduo isolado. Em sua realidade, ela é o conjunto das re-
lações sociais" (MARX; ENGELS, 2007, p. 538). Se é o conjunto de suas relações,
são nessas relações que são forjadas as personalidades, são criados os hábitos e
estabelecidas as bases concretas que moldam os princípios orientadores das re-
lações entre os homens. Valeria lembrar ainda, extraindo das teses marxianas as
consequências para o problema aqui em tela, a 8a Tese, onde lemos: "a vida social
é essencialmente prática" (MARX; ENGELS, 2007, p. 539). Na prática são produ-
zidas as condições reais para as mudanças, as grandes transformações sociais são
fundadas nas condições concretas.
Há grande proximidade entre o curso a ser posto em movimento por meio
dos sovietes e a compreensão de Marx sobre temas afins. Em A ideologia alemã,
Marx diz:

é claro que a efetiva riqueza espiritual do indivíduo depende inteiramente da


riqueza de suas relações reais. Somente assim os indivíduos singulares são
libertados das diversas limitações nacionais e locais, são postos em contato
prático com a produção (incluindo a produção espiritual) do mundo inteiro
e em condições de adquirir a capacidade de fruição dessa multifacetada
produção de toda a terra (criações dos homens). A dependência multifa-
cetada, essa forma natural da cooperação histórico-mundial dos indivíduos,
é transformada, por obra dessa revolução comunista, no controle e do-
mínio consciente desses poderes, que, criados pela atuação recíproca dos

168
ENTRE n IIlEAI. REUIlI.UCIIlNÃRIIl E n FACTiUEI.

homens, a eles se impuseram como poderes completamente estranhos e os


dominaram (MARX; ENGELS, 2007, p. 41).

OS IDEAIS REVOLUCIONÁRIOS DIANTE DA CONJUNTURA CATASTRÓFICA

o debate acerca do ideal revolucionário frente às duras condições da reali-


dade não se esgota com as considerações até aqui feitas. Considerando os aspectos
aqui ressaltados e os objetivos centrais da reflexão proposta neste artigo, não se
pode desconsiderar a complexidade das relações reais, das condições efetivas que
se impuseram na execução dos afazeres necessários à continuidade do processo
revolucionário.
Após o término da guerra civil na Rússia em 1918, os desafios que se apre-
sentavam diante de Lenin o levam a propugnar de modo incisivo a necessidade da
modernização da economia, a adequação e o aprimoramento da máquina estatal
como forma de atender de maneira mais efetiva as urgências impostas pelas con-
dições do período. As considerações do líder soviético sobre a natureza do Estado
no período de transição elucidam de forma clara os caminhos que devem ser
trilhados para a efetiva realização do comunismo. As dificuldades impostas pela
situação mundial no período, assim como as deficiências inerentes à própria so-
ciedade Russa, fizeram Lenin - e o partido bolchevique - recuar, dois anos após a
revolução, na ideia da implementação direta do socialismo (a primeira reforma da
sociedade russa caracterizada como "comunismo de guerra"), levando-o a mudar
a figura social a ser efetivada, designando-a como "capitalismo de estado". O con-
junto de discussões que ele realiza em torno da NEP expressa o caráter realista de
suas reflexões. A forma do Estado Soviético transparece agora como capitalismo
de Estado, cuja prerrogativa primeira é permitir o desenvolvimento da economia
por meio de medidas que vigorem traços da economia capitalista, ainda que sob a
forma prioritária do controle estatal sobre todo o processo econômico.
Algumas palavras são necessárias para revelar as condições dificílimas que
a república soviética atravessava naquele contexto, no intuito de compreender
a urgência das medidas assumidas pela NEP. O tratado de paz assinado com a
Alemanha e seus aliados - referida diversas vezes por Lenin como a paz humi-
lhante -, no qual a Rússia se viu forçada a entregar vários territórios estratégicos
para sua economia, impôs a redução de sua reserva de carvão, passando a dispor
apenas de 8% desse recurso em comparação ao que se encontrava disponível ante-
riormente. Reduziu também a disponibilidade de minerais ferrosos para 24%. ''A
produção total de manufaturados, em 1920, representava 12,9% da de 19l3. Em
1919, as fábricas recebiam 1/10 do combustível que habitualmente recebiam antes
da guerra" (RODRIGUES, 1987, p. 90). Quanto à infraestrutura de transportes,

169
T nnn PDDER ADS SDUIETES!

vale destacar que "mais de 60% de suas locomotivas estavam fora de uso" e a
disponibilidade de mão de obra, em particular de trabalhadores da indústria, que
em 1917 era de 3.024.000, viu-se reduzida para 1.243.000 em 1922. Quanto às
condições desses trabalhadores, seus meios de vida, cabe lembrar que

A ração de pão, distribuída pelo governo aos trabalhadores mais benefi-


ciados, era de 200 gramas para dois dias (havia quatro categorias de tra-
balhadores nessa época, a quarta recebia apenas 50 gramas). Os operários
mais favorecidos recebiam rações cujo valor energético variava entre 1.200
e 1.900 calorias. Alguns trabalhadores eram obrigados a se contentar com
rações entre 700 e 1.000 calorias. [...] no inverno, as pessoas congelavam,
adoeciam e morriam por falta de combustível para o aquecimento: o sis-
tema de transporte estava arruinado. Entre 1917 e 1922, calcula -se que 22
milhões de pessoas haviam contraído tifo. Em 1918 e 1919, um milhão e
meio de pessoas haviam morrido dessa doença. Entre 1918 e 1920, as epide-
mias, a fome e o frio mataram 7.500.000 russos, enquanto a guerra com os
alemães havia matado outros 4.000.000. Em 1922, os salários dos operários
eram apenas 30% do que tinham sido em 1913 (RODRIGUES, 1987, p. 91).

Não por acaso, o líder sociético fala abertamente das condições catastrófi-
cas e da necessidade urgente de sanar dos principais problemas sociais:

Não podemos esperar. O país está tão terrivelmente arruinado, calamidades


- fome, frio e uma carência generalizada - nos atingiram a tal ponto que
não podemos continuar dessa maneira por mais tempo. Nenhuma devoção,
nenhum autossacrifício pode nos salvar se não mantivermos os operários
vivos, se não os provermos com pão, se não conseguirmos obter grandes
quantidades de sal, de modo a recompensar os camponeses através de uma
troca adequada e não através de pedaços de papel colorido que não nos
permitirá sobreviver muito tempo. A verdadeira existência do poder dos
trabalhadores e dos campesinos. a verdadeira existência da Rússia Soviética
está ameaçada. Com a gerência nas mãos de pessoas incompetentes, com
o combustível não chegando a tempo, com as locomotivas, máquinas a va-
por e barcos permanecendo estragados, a verdadeira existência da Rússia
Soviética está ameaçada (LENIN, 1965, p. 428-9).

Toda essa situação redundou em enorme descontentamento por parte dos


trabalhadores e do campesinato, alimentando movimentos grevistas e revoltas no
campo, levando inclusive ao levante de parte da população em uma revolta direta
contra os bolcheviques. A mais significativa delas foi a rebelião dos marinhei-
ros de Kronstadt. Em linhas gerais, a decepção de diversas parcelas da popula-
ção e mesmo de vários trabalhadores comunistas com os rumos incertos assu-
midos pelo governo bolchevique, sua incapacidade de dar curso à resolução dos

170
ENTRE li IDEAL REUIILUCIIINÁRIII E li FACTÍUEL

problemas mais urgentes do contexto, levou-os a reivindicar o fim do monopólio


dos bolcheviques no poder, reivindicação na qual se viu fortemente acentuada a
denúncia da ineficiência e apatia dos órgãos burocráticos do poder.
Respostas a essas conturbadas situações eram urgentes. Contudo, como o
próprio Lenin reconhece em suas considerações, os problemas não se restringiam
apenas à esfera das condições gerais da economia. O líder soviético precisou en-
frentar, além das dificuldades materiais - crise da economia, desorganização seve-
ra da grande indústria, esfacelamento do proletariado, recrudescimento da buro-
cracia ete. - e políticas - levantes populares contra os bolcheviques -, problemas
relativos à formação cultural do povo russo e mesmo dos militantes comunistas,
agora inseridos nas atividades administrativas do Estado. O fator humano apa-
recia igualmente como um obstáculo de suma importância. Em várias anotações
sobre a construção das condições para a efetivação do desenvolvimento econô-
mico soviético, em diversas considerações sobre a estrutura necessária do Estado,
Lenin confronta a inabilidade e incapacidade da classe trabalhadora de pôr em
movimento as engrenagens do Estado de maneira eficaz. A burocracia dos diri-
gentes russos torna-se um percalço significativo para sanar a situação catastrófica
do momento.
Não convém, portanto, fazer "vistas grossas" ao problema real que se co-
locava no presente da época, entre eles a inabilidade e o despreparo da classe
trabalhadora e campesina. Esses fatores antagonizavam de modo direto os ideais
socialistas, mas não apenas: de forma ainda mais grave também erguiam barreiras
preocupantes para a resolução dos problemas mais imediatos da sociedade russa.
Em instantes de claro desabafo frente aos percalços da situação lastimável
imposta pela classe dirigente, a rusticidade e mediocridade dos responsáveis pela
organização, quer do Estado, quer dos processos econômicos, Lenin os repreende,
por meio de palavras duras:

Serão capazes de compreender os comunistas da RSFSR6e do PC da Rússia


que ocupam cargos de responsabilidade que não sabem dirigir, que eles,que
imaginam ser os que conduzem, são, na verdade, os conduzidos? Pois bem,
se podem compreender isto, então que aprendam, como é natural, porque
se pode aprender; mas para isso é necessário estudar, e aqui não estudam.
Lançam à direita e à esquerda ordens e decretos, e não se consegue em ab-
soluto o que se quer (Lenin, 1973[1922], v. 12, p. 126-7).

6 República Socialista Federativa Soviética da Rússia.

171
TDDD PDDER RDS SDUIETES!

Linhas antes, de uma forma igualmente ríspida, observa:

Se o povo conquistador é mais culto que o povo conquistado, impõe a esse


sua cultura; mas se é o contrário, acontece que o vencido impõe sua cultura
ao vencedor. Não se passou algo semelhante na Capital da RSFSR,e não
resultou aqui que 4.700 comunistas (quase uma divisão completa, e todos
os melhores) se veem dominados por uma cultura alheia? Aqui se poderia
ter, por certo, a impressão de que os vencidos têm uma cultura elevada.
Nada disso. Sua cultura é miserável, insignificante, mas, entretanto, supe-
rior à nossa. Por deplorável e mísera que seja, é maior que a de nossos mili-
tantes comunistas que ocupam cargos de responsabilidade, porque eles não
possuem a suficiente capacitação para dirigir (LENIN, 1973,v. 12,p. 126).

A superioridade da cultura anterior é aqui a capacidade técnica da classe


de servidores públicos e funcionários da indústria que comandavam os processos
estatais e de produção na formação social anterior à revolução. Não se trata de
um elevado nível de excelência social e humana - é isso que diz Lenin -, porém o
conhecimento que eles detêm é muito superior à quase completa ignorância dos
militantes e membros do partido em gestar a "coisa pública': seja a máquina do
Estado, seja a economia de grande escala.
Ao identificar e denunciar tais deficiências e limites, Lenin declara aber-
tamente que o momento histórico que sua nação atravessa exige a obediência
incondicional aos técnicos, esses tomados como componentes essenciais para a
retomada da organização e do crescimento econômico tão necessário ao país. Em
termos bem realistas, Lenin conclama, como alternativa para o momento:

devemos, a todo custo, chegar a uma situação na qual os técnicos - como


um estrato social particular que continuará a existir até que atinjamos o
mais alto estágio do desenvolvimento da sociedade comunista - possam
gozar de melhores condições de vida sob o socialismo do que sob o ca-
pitalismo, tanto no que concerne à sua situação material e legal, na rela-
ção de camaradagem com os operários e camponeses, como também no
plano mental, isto é, encontrando satisfação no trabalho, compreendendo
que ele é socialmente útil e independente dos sórdidos interesses da classe
capitalista (Lenin, 1966[1922],p. 194).

Convém advertir: toda a crítica à falta de condições subjetivas dos trabalha-


dores para gestar os diversificados âmbitos da economia não incorre na proposi-
tura da criação de uma sociedade tecnocrática. Não deve, portanto, ser entendida
como a criação de uma tecnocracia que subjuga os projetos futuros da revolução
ao mando unilateral e autoritário de uma classe de especialistas privilegiados. Pelo
contrário, deixando o desabafo justificável de lado, Lenin em outros contextos de

172
ENTRE O IDEII1. REUDI.UCIDNÁRID E O FACTIUEI.

suas reflexões insiste no caráter transitório da situação, deixando claro que medi-
das efetivas devem ser tomadas para que a própria classe trabalhadora seja capaz
de se apropriar desses saberes, como prerrogativa imprescindível para o sucesso
da revolução. As exigências do tempo histórico apontavam para essas medidas
provisórias, como forma de sanar as necessidades mais prementes da sociedade
soviética. Entretanto, por mais ásperas que sejam as considerações de momento
feitas por Lenin, ele adverte constantemente para a tarefa de educar e formar os
trabalhadores, como modo de engendrar novos indivíduos para a construção da
sociedade efetivamente comunista.
No contexto dessas novas reflexões postas pelas necessidades conjunturais,
Lenin enfatiza a prerrogativa da realização da "revolução cultural': Não se tra-
ta de algo minimamente próximo ao sentido que os chineses conferiram a tal
expressão. Diferentemente, o termo salienta basicamente a elevação do nível de
educação, enfatiza a importância do desenvolvimento da instrução geral, de um
processo no qual se vejam conciliados a ação prática com o cabedal de conheci-
mentos já fixados pelas sociedades anteriores, mais significativamente pela so-
ciedade capitalista. A revolução cultural proposta consistia, portanto, em grande
esforço educacional, compreendendo a assimilação de conhecimentos técnicos e
científicos, como forma de difundir entre toda a população os traços mais eleva-
dos e proveitosos existentes na cultura criada pela sociedade burguesa.
A advertência insistentemente propugnada por Lenin salienta a urgência
do momento, deixando clara a necessidade de uma posição menos política e mais
técnica diante dos desafios:

[...] tratem a questão da administração como homens práticos ... Aprendam


de sua experiência prática, aprendam também da burguesia. O poder só
poderá ser mantido adotando toda a experiência do capitalismo culto, tec-
e
nicamente avançado, progressista, pela utilização dos serviços dessa gente
(os técnicos burgueses) ... A experiência ensina que qualquer um que te-
nha uma cultura burguesa, uma ciência burguesa e uma tecnologia bur-
guesa, deve ser valorizado. Sem ele nós não seremos capazes de construir o
comunismo (LENIN, 1966[1922], p. 195-6).

Nesse aspecto, Lenin é claro quanto às tarefas futuras a serem realizadas


pela revolução:

A instrução, o treinamento e a educação dos jovens devem proceder a partir


do material que foi deixado para nós pela velha sociedade. Nós podemos
construir o comunismo somente sobre a base da totalidade do conheci-
mento, organizações e instituições, somente usando o estoque de forças
e recursos humanos que nos foi deixado pela velha sociedade. Somente

173
T DOII PDDER ADS SDUIETES!

remodelando a instrução, a organização e o preparo dos jovens estaremos


aptos a assegurar que os esforços da geração jovem poderão resultar na cria-
ção de uma sociedade diferente da velha sociedade, isto é, na criação da
sociedade comunista (LENIN, 1975, p. 284).

Ou ainda,

a cultura proletária deve ser o desenvolvimento da história do conhecimen-


to construído que foi acumulado sob o jugo do capitalismo, da propriedade
agrária e da sociedade burocrática. Todos esses ramos devem ser apren-
didos e continuar a ser desenvolvidos na cultura proletária, assim como a
política econômica, resgatada por Marx, nos mostra aonde a sociedade hu-
mana deve chegar, nos mostra a passagem da luta de classes para o começo
da revolução proletária (LENIN, 1975, p. 287).

O comunismo não implica, portanto, a rejeição de todos os traços de apri-


moramento e desenvolvimentos ocorridos nas formações societárias anteriores à
revolução; pelo contrário, trata-se de erguer novas formas da sociabilidade absor-
vendo de maneira crítica os processos emancipatórios outrora produzidos pela
humanidade ao longo de todo o seu decurso histórico. Significativos a esse pro-
pósito são sem dúvida os excertos escritos por Lenin, em que constrói o esboço de
uma resolução sobre o tema da Cultura Proletária, publicado em 1926 na revista
Kraásnaya Nov, mas originariamente escrito em 8 de outubro de 1920, no qual
esclarece o verdadeiro sentido dos ensinamentos de Marx:

o marxismo conquistou sua significação histórica universal como ideolo-


gia do proletariado revolucionário porque não rechaçou de modo algum as
mais valiosas conquistas da época burguesa, senão, pelo contrário, assimi-
lou e reelaborou tudo o que houve de,mais valioso em mais de dois mil anos
de desenvolvimento do pensamento e da cultura humanos. Somente pode
ser considerado desenvolvimento da cultura verdadeiramente proletária o
trabalho ulterior sobre essa base e nessa mesma direção, inspirado pela ex-
periência prática da ditadura do proletariado como luta final deste contra
toda exploração (LENIN, 1966a, p. 308).

Não se trata, portanto, como defendem seus contemporâneos da Proletkult,


da "tentativa de inventar uma cultura especial própria, de encerrar-se em suas
próprias organizações, apartadas, de delimitar as esferas de ação do Comissariado
do Povo de Instrução e do Proletkult dentro das instituições do Comissariado do
Povo de Instrução, etc" (LENIN, 1966a, p. 308). Não é o caso da instauração de
algo radicalmente novo em clara controvérsia e rejeição da cultura precedente,
mas de um processo que implica a descontinuidade na continuidade, implica de

174
ENTRE D IDEAL REUDLUCIDNÁRID E D FACTiuEL

fato a assimilação do que há de melhor produzido no decurso da história humana,


incluindo a alta produção do pensamento e da cultura burguesa, reelaborando e
redirecionando toda essa formação histórica humana à luz das novas possibili-
dades abertas pelo processo revolucionário - pela crítica marxista, para ser mais
exato, com vistas à emancipação do homem.
Os ideais revolucionários nunca foram abandonados por Lenin, nem mes-
mo nos momentos mais difíceis das tarefas urgentes impostas pelo contexto na-
cional e internacional da Rússia recém-revolucionária. Ainda que grande parte de
suas intervenções e escritos ao final da vida advirta para as mazelas, descaminhos,
percalços de enorme dificuldade de transposição, o horizonte da criação das con-
dições subjetivas para a produção das condições necessárias do curso do processo
revolucionário nunca fora negligenciado pelo pensador russo. Por isso mesmo,
conforme já foi salientado, as remissões ao problema dos "sábados comunistas"
em suas derradeiras obras não são meros apontamentos fortuitos, mas indicações
importantes que advertem para o problema da relação entre o curso concreto da
realidade e o ideal a ser atingido como finalidade última do processo revolucio-
nário. Nesse sentido, as medidas urgentes impostas pela conjuntura são apenas
um aspecto específico das tarefas a serem executadas, as quais não podem se so-
brepor de maneira absoluta à necessidade de produzir as condições favoráveis
para a construção de uma sociedade sobre novas matrizes, distintas daquelas que
vigoram na sociabilidade do capital.
Em seu tempo, poder-se-ia dizer assim, o que aparece como traços do co-
munismo autêntico são apenas alguns vestígios que começam a despontar no co-
tidiano do povo soviético.

o "comunista" começa unicamente quando aparecem os sábados comunis-


tas, ou seja, o trabalho gratuito de indivíduos não sujeitos a normas pos-
tas por qualquer poder, por qualquer Estado, em proveito da sociedade em
grande escala. Não se trata da ajuda ao vizinho, que sempre existiu no cam-
po, mas de um trabalho que produz para satisfazer as necessidades de todo
o Estado, de um trabalho organizado em grande escala e gratuito. Por isso,
seria mais correto aplicar a palavra "comunista" não somente ao nome de
nosso partido, senão também e exclusivamente aos fenômenos econômicos
de nossa vida que realizam o comunismo. Se o regime atual da Rússia tem
algo de comunista, são unicamente os sábados comunistas: os demais não
são outra coisa que a luta contra o capitalismo para afiançar o socialismo, da
qual deverá nascer, depois de sua vitória completa, esse mesmo comunismo
que vemos hoje nos sábados comunistas, não por meio dos livros, mas na
realidade viva (LENIN, 1973, v. io, p. 152).

175
TODO PODER ROS SOUIETES!

Em meio à amargura e aos descontentamentos facilmente identificáveis em


seus últimos escritos, o autor ainda vislumbra as perspectivas existentes na difícil
conjuntura social e econômica de seus dias. O mais decisivo consiste na insistên-
cia em demarcar que não apenas os fatores objetivos são as componentes-chave
do processo revolucionário, mas consentaneamente as formas de individuação
precisam ser outras. O fator subjetivo aparece em igual medida como momento
imprescindível para a transformação social. Ambos devem operar na criação das
condições concretas da transição para o comunismo. "Trabalho em grande escala
e gratuito" como prática efetiva que cria as condições objetivas para o advento
do trabalho social. Essa atividade de forma direta já impõe uma nova atitude dos
trabalhadores em face das tarefas práticas, criando desse modo o hábito de uma
interação social ergui da sobre outras bases, distintas daquelas prevalentes formas
da vida comuns à sociedade capitalista. Para retomar o já dito a partir de Lenin,
em vez da "regra maldita de 'cada um por si e deus por todos", condição própria
dos trabalhadores independentes colocados sob os critérios da organização pelo
mercado, trata-se de "inculcar na consciência, nos hábitos e nos costumes coti-
dianos das massas a regra de 'todos por um e um por todos', a regra 'de cada qual,
segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades'" (LENIN, 1973,
v. n, p. 44).
A morte prematura do líder soviético, no entanto, força-nos a considerar
não apenas as intenções últimas do ideal revolucionário, mas aquilo que adveio
logo após a sua ausência. Decerto os rumos foram bem diferentes do seu ideário.
Ainda que aqui se corra o risco de uma afirmação taxativa, sem os devidos argu-
mentos explicativos, pode-se dizer, o que houve efetivamente na URSS pouco tem
a ver com os seus ideais e as suas proposituras. Parte dessas diretrizes conturba-
das, dos descaminhos que prevaleceram logo após a sua morte, já se apresentava
diante de seus olhos, nos últimos anos de sua vida. Com tenaz sagacidade, Lenin
procurou combatê-los. Grande parte dos seus textos voltados contra as tendências
à burocratização do Estado soviético demarca sua insatisfação com os rumos que
estavam se desenhando no momento, assim como a preocupação com o próprio
futuro da revolução.
Os descaminhos da URSS, habitualmente atribuídos ao perfil ditatorial de
Stalin, puseram de lado os elementos e princípios mais exortativos e transfor-
madores da teoria da revolução de Lenin. Nesse sentido, não convém fechar os
olhos para a facticidade histórica. Conforme sugerimos no início desse artigo, o
saudosismo imediatista da Revolução Russa, ou a exortação acrítica do comunis-
mo soviético tomado de uma maneira generalizada, aparece muito mais como
um desserviço à retomada do problema do que propriamente como elemento

176
ENTRE n IIlEAL REUIlLUCIIlNÁRIIl E n FACTiuEL

decisivo de recolocação do tema da revolução. Reler Lenin, retomar o exame de


todo o esforço analítico por ele desenvolvido sobre a conjuntura na qual se deu a
Revolução de 1917, é um trabalho necessário para recolocar o problema dos pro-
jetos futuros da humanidade, voltar a pensar no problema de que mundo quere-
mos e das formas reais de edificar condições que efetivamente levem à construção
de uma sociedade que permita o desenvolvimento da humanidade, de uma nova
fundação da sociedade em vista à autêntica emancipação humana, nos moldes já
pensados e defendidos por Marx.

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