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daí de baixo, fazendo parte da composição.

Ia servir para le-


var duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do ser-
Disciplina: Curso Extensivo de Redação tão passava às 12h45min.
Responsável: Prof. Adriano Tarra Betassa Tovani Cardeal As muitas pessoas já estavam de ajuntamento, em
beira do carro, para esperar. As pessoas não queriam poder
AULA 02 | Quadripartição da tipologia textual. ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no
falar com sensatez, como sabendo mais do que outros a prá-
TEXTO TEORÉTICO VII tica do acontecer das coisas. Sempre chegava mais povo –
o movimento. Aquilo quase no fim da esplanada, do lado do
Tipos textuais curral de embarque de bois, antes da guarita do guarda-cha-
ves, perto dos empilhados de lenha. Sorôco ia trazer as duas,
1. Narração conforme. A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de
uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo.
A narração é, talvez, o mais antigo dos tipos textuais. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum.
Era por meio de narrativas que nossos ancestrais, à noite, ao A hora era de muito sol – o povo caçava jeito de fica-
redor da fogueira, contavam as experiências por que tinham rem debaixo da sombra das árvores de cedro. O carro lem-
passado durante o dia, criando oportunidade para que todos brava um canoão no seco, navio. A gente olhava: nas relu-
pudessem aprender com a experiência alheia. Foi também zências do ar, parecia que ele estava torto, que nas pontas se
por meio de narrativas fantásticas que nossos ancestrais pro- empinava. O borco bojudo do telhadilho dele alumiava em
curaram dar um sentido ao mundo em que viviam, inventan- preto. Parecia coisa de invento de muita distância, sem pie-
do histórias de deuses e heróis. Existe a chamada “narrativa dade nenhuma, e que a gente não pudesse imaginar direito
plana”, que apenas relata eventos acontecidos, dentro de um nem se acostumar de ver, e não sendo de ninguém. Para on-
clima de normalidade. de ia, no levar as mulheres, era para um lugar chamado Bar-
bacena, longe. Para o pobre, os lugares são mais longe.
(ABREU, Antônio Suárez. Texto e Gramática: uma visão O Agente da estação apareceu, fardado de amarelo,
integrada e funcional para a leitura e a escrita. São Paulo: com o livro de capa preta e as bandeirinhas verde e vermelha
Melhoramentos, 2012, p. 72) debaixo do braço. “Vai ver se botaram água fresca no car-
ro...” – ele mandou. Depois, o guarda-freios andou mexendo
TEXTO EXEMPLAR I nas mangueiras de engate. Alguém deu aviso: “Eles vêm!
...”. Apontavam, da Rua de Baixo, onde morava Sorôco. Ele
Quando pela primeira vez desembarquei em Folkes- era um homenzão, brutalhudo de corpo, com a cara grande,
tone, entrando na Inglaterra, eu tinha passado meses em Pa- uma barba, fiosa, encardida em amarelo, e uns pés, com al-
ris, tinha atravessado a Itália, de Gênova e Nápoles, tinha percatas: as crianças tomavam medo dele; mais, da voz, que
parado longamente à margem do lago de Genebra, e não me era quase pouca, grossa, que em seguida se afinava. Vinham
podia esquecer da suave perspectiva, à beira do Tejo, de O- vindo, com o trazer de comitiva.
eiras e Belém, cuja tonalidade doce e risonha nunca outro Aí, paravam. A filha – a moça – tinha pegado a can-
horizonte me repetiu. Por toda parte, eu tinha passado como tar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem
viajante, demorando-me, às vezes, o tempo preciso para re- no tom nem no se-dizer das palavras – o nenhum. A moça
ceber a impressão dos lugares e dos monumentos, o molde punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados,
íntimo da paisagem e das obras de arte, mas desprendido de vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração.
tudo, na inconstância contínua da imaginação. Assim com panos e papéis, de diversas cores, uma carapuça
em cima dos espalhados cabelos, e enfunada em tantas rou-
(NABUCO, Joaquim. Minha Formação. São Paulo: 34, pas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas –
2012, 288 p.) virundangas: matéria de maluco. A velha só estava de preto,
com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docemen-
Há também a narrativa literária, que envolve situaçõ- tes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam.
es-problema e soluções que podem ser eufóricas (“final fe- Sorôco estava dando o braço a elas, uma de cada la-
liz”) ou disfóricas (“final infeliz”). Essas unidades narrati- do. Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório. Era
vas são conhecidas por plots e têm sempre três partes: situa- uma tristeza. Parecia enterro. Todos ficavam de parte, chus-
ção, complicação e solução. ma de gente não querendo afirmar as vistas, por causa da-
queles trasmodos e despropósitos, de fazer risos, e por conta
TEXTO EXEMPLAR II de Sorôco – para não parecer pouco caso. Ele hoje estava
calçado de botinas, e de paletó, com chapéu grande, botara
Sorôco, sua mãe, sua filha sua roupa melhor, os maltrapos. E estava reportado e atalha-
do, humildoso. Todos diziam a ele seus respeitos, de dó. Ele
Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a respondia: “Deus vos pague essa despesa...”.
véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no O que os outros diziam: que Sorôco tinha tido muita
desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um va- paciência. Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas
gão comum de passageiros, de primeira, só que mais visto- pobrezinhas, era até um alívio. Isso não tinha cura, elas não
so, todo novo. A gente reparando, notava as diferenças. As- iam voltar, nunca mais. De antes, Sorôco aguentara de re-
sim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo passar tantas desgraças, de morar com as duas, pelejava. Daí
de grades, feito as de cadeia, para os presos. A gente sabia
que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso

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também a acompanhar aquele canto sem razão. E com as
vozes tão altas! Todos caminhando, com ele, Sorôco, e can-
com os anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve ta que cantando, atrás dele, os mais de detrás quase que cor-
de chamar ajuda, que foi preciso. Tiveram que olhar em so- riam, ninguém deixasse de cantar. Foi o de não sair mais da
corro dele, determinar de dar providências, de mercê. Quem memória. Foi um caso sem comparação.
pagava tudo era o Governo, que tinha mandado o carro. Por A gente estava levando agora o Sorôco para a casa
forma que, por força disso, agora iam remir com as duas, dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aque-
em hospícios. O se seguir. la cantiga.
De repente, a velha se desapareceu do braço de Sorô-
co, foi se sentar no degrau da escadinha do carro. “Ela não (ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janei-
faz nada, seo Agente...” – a voz de Sorôco estava muito ro: Nova Fronteira, 2001, p. 62-66)
branda: “Ela não acode, quando a gente chama...”. A moça,
aí, tornou a cantar, virada para o povo, o ao ar, a cara dela 1.1. Ponto de vista de primeira pessoa
era um repouso estatelado, não queria dar-se em espetáculo,
mas representava de outroras grandezas, impossíveis. Mas Ponto de vista de primeira pessoa é aquele em que o
a gente viu a velha olhar para ela, com encanto de pressenti- protagonista narra sua própria história. Pode narrá-la para
mento muito antigo – um amor extremoso. E, principiando um leitor, para um psicanalista, para Deus ou para qualquer
baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, outra pessoa real ou imaginária. É o caso do livro Minha
também, tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que Formação, de Joaquim Nabuco, do qual vimos há pouco um
ninguém não entendia. Agora elas cantavam junto, não pa- trecho. É também o caso do romance Dom Casmurro, de
ravam de cantar. Machado de Assis, em que o personagem Bentinho narra
Aí que já estava chegando a horinha do trem, tinham sua história ao leitor. Algumas vezes, a narração é feita por
de dar fim aos aprestes, fazer as duas entrar para o carro de um personagem secundário, como nos livros de Arthur Co-
janelas enxequetadas de grades. Assim num consumiço sem nan Doyle sobre o famoso detetive britânico Sherlock Hol-
despedida nenhuma, que elas nem haviam de poder enten- mes. Quem narra as histórias do detetive é seu amigo, o mé-
der. Nessa diligência, os que iam com elas por bem-fazer na dico Dr. Watson. Daí vem a famosa frase de Holmes ao con-
viagem comprida, eram o Nenêgo, despachado e animoso, seguir resolver um crime: “– Elementar, meu caro Watson”.
e o José Abençoado, pessoa de muita cautela, estes serviam A narrativa em primeira pessoa, embora permita uma
para ter mão nelas, em toda juntura. E subiam também no intimidade maior do narrador com o leitor, tem o “defeito”
carro uns rapazinhos, carregando as trouxas e malas, e as de apresentar os fatos apenas a partir do olhar de um perso-
coisas de comer, muitas, que não iam fazer míngua, os em- nagem, o que pode torná-los menos confiáveis. Um dos ar-
brulhos de pão. Por derradeiro, o Nenêgo ainda se apareceu gumentos favoritos daqueles que acham que Capitu não tra-
na plataforma, para os gestos de que tudo ia em ordem. Elas iu Bentinho, em Dom Casmurro, é que Bentinho é narrador
não haviam de dar trabalhos. em primeira pessoa, portanto, eu-lírico comprometido com
Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçoo do seus sentimentos de ciúme e sua imaginação sem limites.
canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: quer era um
constado de enormes diversidades desta vida, que podiam 1.2. Ponto de vista de terceira pessoa onisciente
doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, ne-
nhum, mas pelo antes, pelo depois. Nesse ponto de vista, o autor do texto é uma espécie
Sorôco. de Deus que tudo vê e tudo sabe. Ao narrar os feitos de seus
Tomara aquilo se acabasse. O trem chegando, a má- personagens, penetra em suas mentes e é capaz de detectar
quina sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou e passou, intenções. Pode também interpretar e julgar ações, tirando
se foi, o de sempre. conclusões.
Sorôco não esperou tudo se sumir. Nem olhou. Só fi- Uma vantagem importante desse ponto de vista é que
cou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, surdo – o o autor pode penetrar no pensamento de personagens de in-
que nele mais espantava. O triste do homem, lá, decretado, teligência limitada e descrevê-lo de uma maneira clara. Fa-
embargando-se de poder falar algumas suas palavras. Ao zer isso em primeira pessoa ficaria bastante artificial.
sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do Utilizando o ponto de vista onisciente, o autor duma
peso, sem queixa, exemploso. E lhe falaram: “O mundo está narrativa tem também o poder de criar suspense, passando
dessa forma...”. Todos no arregalado respeito tinham as vis- ao leitor informações que não são de conhecimento das per-
tas neblinadas. De repente, todos gostavam demais de Sorô- sonagens. Truman Capote faz isso em seu famoso romance
co. Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido, A Sangue Frio. Quando descreve, no início do romance, os
e virou, pra ir-s’embora. Estava voltando para casa, como membros da próspera família Clutter, moradores da peque-
se estivesse indo para longe, fora de conta. Mas, parou. Em na cidade de Holcomb, situada no oeste do estado do Kan-
tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de si, parar sas, o autor acrescenta informações sobre eles, obviamente
de ser. Assim num excesso de espírito, fora de sentido. E foi desconhecidas deles próprios.
o que não se podia prevenir: quem ia fazer siso naquilo?
Num rompido – ele começou a cantar, alteado, forte, mas 2. Descrição
sozinho para si – e era a cantiga, mesma, de desatino, que
as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando. Toda descrição é artificial, pois apresenta, por meio
A gente se esfriou, se afundou – um instantâneo. A da linguagem, que existe na dimensão do tempo, imagens,
gente... E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que que existem na dimensão do espaço.
se fizesse: todos, de uma vez, de dó do Sorôco, principiaram

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4. Injunção

TEXTO ICONOGRÁFICO I É o tipo textual que tem o caráter normativo de fazer


ou pedir. Orações religiosas, constituições, artigos do códi-
go civil ou penal, receitas culinárias, normas e instruções fa-
zem parte desse gênero. Vejamos o seguinte texto, extraído
da Constituição da República Federativa do Brasil:

TEXTO EXEMPLAR III

Art. 1º. A República Federativa do Brasil, formada


pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e
do Distrito Federal, constitui-se em Estado democrá-
tico de direito e tem como fundamentos:

I. a soberania;
II. a cidadania;
III. a dignidade da pessoa humana;
IV. os valores sociais do trabalho e da livre ini-
ciativa;
V. o pluralismo político.

Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que


o exerce por meio de representantes eleitos, ou dire-
tamente, nos termos desta Constituição.

VERMEER, Johannes (1632-1675). Moça com brinco de Veja que o texto está escrito no presente do indicati-
pérola. Óleo sobre tela. Museu Casa de Maurício, Haia, vo. Em textos de natureza bíblica, é comum o uso do futuro
Holanda. do indicativo:

Imagine, agora, que vamos descrever esse quadro. TEXTO EXEMPLAR IV


Podemos começar dizendo: “há uma moça em primeiro pla-
no, com o corpo em perfil, mas com o rosto voltado à es- “1. Então, falou Deus todas estas palavras, dizendo:
querda, fitando o observador”. 2. Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do
Sem a visão da imagem, até esse momento, o leitor Egito, da casa da servidão. 3. Não terás outros deuses
não sabe nada além do que lhe foi dito. Não sabe que roupa diante de mim. 4. Não farás para ti imagem de escul-
a moça veste, ou que expressão possui. Continuemos: “veste tura, nem alguma semelhança do que há em cima,
uma roupa marrom, com gola branca, e seus cabelos estão nos céus, nem em baixo, na terra, nem nas águas de
cobertos por uma larga faixa azul e um pano que lhe cai pe- baixo da terra. 5. Não te encurvarás a elas nem as ser-
las costas”. Aqui, o leitor acrescenta, com seu pensamento, virás: porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zelo-
a roupa e a maneira como os cabelos da moça estão arranja- so, que visito a maldade dos pais nos filhos até a ter-
dos. Mas não sabe, ainda, que ela tem a boca semiaberta e ceira e quarta geração daqueles que me aborrecem.
apresenta, na orelha esquerda, uma grande pérola. Isso terá 6. E faço misericórdia em milhares aos que me amam
de vir depois. Para diminuir essa distância, autores moder- e guardam os meus mandamentos. 7. Não tomarás o
nos procuram abreviar as descrições, economizando no uso nome do Senhor teu Deus em vão: porque o Senhor
de verbos. Ademais, nas descrições, tanto podem ser empre- não terá por inocente o que tomar o seu nome em
gados o tempo presente quanto os tempos do passado. vão. 8. Lembra-te do dia do sábado para santificá-lo.
9. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra, 10.
3. Argumentação Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não
farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua
O texto argumentativo visa convencer o ouvinte ou filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu a-
leitor (normalmente, chamados de “auditório”) a concordar nimal, nem o teu estrangeiro, que está dento das tuas
com seu autor a respeito de uma determinada tese. Usual- portas. 11. Porque em seis dias fez o Senhor os céus
mente, nos textos argumentativos, é empregado o tempo e a terra, o mar e tudo que neles há, e, ao sétimo dia,
presente, embora, algumas vezes, haja também o emprego descansou: portanto, abençoou o Senhor o dia do sá-
de tempos de passado para obter um efeito de atenuação. bado e o santificou. 12. Honra a teu pai e a tua mãe,
Devido à importância atribuída à argumentação pe- para que se prolonguem os teus dias na terra que o
los Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e pelo Exame Senhor teu Deus te dá. 13. Não matarás. 14. Não a-
Nacional do Ensino Médio (ENEM), a argumentação será dulterarás. 15. Não furtarás. 16. Não dirás falso teste-
desenvolvida, com mais pormenores, em aulas vindouras, a munho contra o teu próximo. 17. Não cobiçarás a ca-
partir do conhecimento de seus fundamentos provenientes sa do teu próximo, não cobiçarás a mulher de teu pró-
da Retórica Clássica greco-latina. ximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu

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é que o uso do Spotify e do YouTube, em geral, está focado
no lazer, no entretenimento, ou seja, se não temos paciência
boi, nem o seu jumento nem coisa alguma do teu pró- para ficar mais de 90 segundos focado em uma atividade
ximo”. que nos dá prazer, o que acontece com o resto das coisas?
Você ficou sabendo da entrada do ator Selton Mello
(“Êxodo, 20, 1-17”. In: BÍBLIA SAGRADA. Tradução de no seriado Game of Thrones? Saiu em vários grandes por-
João Ferreira Annes de Almeida. São Paulo: Geográfica, tais brasileiros e a galera na internet compartilhou louca-
2008, p. 95-96) mente a notícia. Tudo muito bacana, não fosse a notícia um
hoax, boato inventado por um empresário brasileiro apenas
Em alguns textos jurídicos, como sentenças judici- pra zoar e ver até onde a história poderia chegar. Bem, ela
ais, é comum o emprego do imperativo associado à voz pas- foi longe: mais de 500 “tuítes” com o link, mais de 3 mil
siva pronominal, como: “publique-se e cumpra-se”, ou “lan- compartilhamentos no Facebook, mais de 13 mil curtidas,
ce-se o nome do réu no rol dos culpados”. matéria em vários sites.
Nos textos injuntivos normativos ou de instrução, os Quem não tem paciência de ouvir cinco segundos
verbos são, costumeiramente, empregados na forma impera- de uma música, tem menos paciência ainda para ler uma
tiva, no infinitivo ou na voz passiva pronominal, como em notícia inteira. Pesquisas já mostraram que a maioria das
uma receita culinária. pessoas compartilha reportagens sem ler. Viramos a “gera-
Esses diferentes tipos textuais podem fazer parte de ção ‘só a cabecinha’”, um amontoado de pessoas que vive
qualquer gênero. Dependendo do gênero, pode haver o pre- com pressa, ansiosas demais para se aprofundar nas coisas.
domínio de um deles. Num romance, há o predomínio da Somos a geração que lê o título, comenta, compartilha, mas
narração; num editorial, da argumentação; num catálogo não vai ao fim do texto. Não precisa, porque ninguém lê!
de leilão de arte, da descrição; e, em constituições, estatutos Nunca achei que a internet alienasse as pessoas ou
e regimentos, da injunção. nos deixasse mais burros, pois sei que a web é o que faze-
mos dela. Ela é sempre um reflexo do nosso eu, para o bem
(ABREU, Antônio Suárez. Texto e Gramática: uma visão e para o mal. Mas é verdade que as redes sociais causaram,
integrada e funcional para a leitura e a escrita. São Paulo: sim, um efeito esquisito nas pessoas. A timeline corre 24
Melhoramentos, 2012, p. 74-85) horas por dia, 7 dias da semana, e é veloz. Daí que muita
gente acaba reagindo aos conteúdos com a mesma rapidez
LEITURA COMPLEMENTAR IV com que eles chegam. Nas redes sociais, um link dura, em
média, três horas. Esse é o tempo entre ser divulgado, espa-
Geração “só a cabecinha” lhar-se e morrer completamente. Se for uma notícia, o ciclo
de vida será ainda menor: 5 minutos. Cinco minutos! Não
Beatriz Granja podemos nos dar o luxo de ficar de fora do assunto do mo-
mento, certo? Então, é melhor emitir logo qualquer opinião
ou dar aquele compartilhar maroto só para mostrar que es-
tamos por dentro. Não precisa aprofundar; daqui a pouco,
virá outro assunto mesmo.
Por outro lado... quem lê tanta notícia? Se Caetano
Veloso já achava que tinha muita notícia nos anos 1960, o
que dizer de hoje? Ao mesmo tempo em que essa atitude é
condenável, também é compreensível. Todo mundo é cria-
dor de conteúdo; queremos acompanhar tudo, mas não con-
seguimos. Resta-nos apenas respirar fundo, tentar manter a
calma e assimilar a maior quantidade de informações que
pudermos sem clicar em nada. Será que conseguiremos?

(Revista Galileu, 16.07.2014)

PROPOSTA DE PRODUÇÃO REDACIONAL II

Superpopulação carcerária

Dráuzio Varella

Fábricas de ladrões e de traficantes jogam mais pro-


fissionais no mercado do que sonha nossa vã pretensão de
aprisioná-los. Pesquisa feita pela Folha de S. Paulo, com
base em censos realizados nas 150 penitenciárias e nas 171
Outro dia, vi um estudo que diz que 25% das músi- cadeias públicas e delegacias de polícia, mostra que o esta-
cas do Spotify são puladas após 5 segundos, e que metade do de São Paulo precisaria construir, imediatamente, mais
dos usuários avança a música antes do seu final. Enquanto 93 penitenciárias somente para reduzir a superpopulação a-
isso, no YouTube, a média de tempo assistindo a vídeos não tual e retirar os presos detidos em delegacias e cadeias im-
passa dos 90 segundos. O mais chocante desses dois dados próprias a funcionar como presídios. Para Lourival Gomes,

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não é mera questão de direitos humanos; é perigo que ame-
aça todos nós. Um dia, eles voltarão para as ruas.
secretário da Administração Penitenciária cuja carreira eu
acompanho desde tempos do Carandiru, profissional a que (Folha de S. Paulo, “Ilustrada”, 25.02.2012)
não faltam credenciais técnicas e a experiência que os anos
trazem, esse problema da falta de vagas não será resolvido Falta alternativa à prisão, dizem especialistas
com a construção de prisões. Tem razão, é guerra perdida:
no mês passado, o sistema prisional paulista recebeu média Há certo consenso entre governo paulista, Defenso-
diária de 121 novos detentos enquanto foram libertados so- ria Pública do Estado e o professor Ignácio Cano, que atua
mente 100. Ficaram encarcerados 21 a mais todos os dias. no Laboratório de Análise da Violência da UERJ: é preci-
Como os presídios novos têm capacidade de albergar 768 so investir em penas alternativas, mas não há como deixar
detentos, seria necessário construir mais um a cada 36 di-as, de construir presídios. “É preciso haver alternativas, senão,
ou seja, 10 por ano. Esse cálculo não leva em conta o a- todos os presídios que forem construídos serão enchidos”,
primoramento técnico da polícia. Segundo mesmo levanta- diz Cano. Para a defensora pública geral do estado Daniela
mento, a taxa de encarceramento que, há oito meses, era de Cembranelli, novas prisões são necessárias porque é preci-
413 pessoas para cada 100 mil habitantes, ampliou para 444. so zelar pelas condições de encarceramento do preso. Tan-
Se Polícia Militar e Polícia Civil conseguissem pren-der to ela quanto Cano acham que a solução precisa combinar
marginais com eficiência de policiais americanos (743 para melhor assistência do Estado à defesa do preso e oferta de
cada 100 mil habitantes), seria preciso construir uma medidas alternativas a crimes de menor potencial. Segundo
penitenciária a cada 21 dias. Agora, analisemos as despe- Cembranelli, há certo conservadorismo do Judiciário pau-
sas. A construção de uma cadeia consome R$37 milhões, o lista na aplicação de medidas que não a prisão. “Vai levar
que dá perto de R$48 mil por vaga. Para criar uma única tempo para aplicar com mais rigor penas alternativas”. Isso
vaga, gastamos mais da metade do valor duma casa popu- poderia ser facilitado, diz, se o preso tivesse defesa efetiva
lar com sala, cozinha, banheiro e dois quartos, por meio da desde a prisão, o que não ocorre. Ela diz que há 160 defen-
qual é possível tirar uma família da favela. Esse custo, no sores públicos na área criminal e 46 em execuções penais, o
entanto, é irrisório comparado ao de manutenção. Quantos que dá quase um profissional para cada mil presos hoje.
funcionários públicos há que se contratar para cumprir três “São Paulo tem mais de 300 comarcas, e estamos presentes
turnos diários? Quanto sai por mês fornecer três refeições em somente 21”, afirma, lembrando que o defensor poderi-
por dia? E contas de luz, água, material de limpeza, trans- a, na fase de preso provisório, pedir liberdade dele, apontar
porte, assistência médica, jurídica, e gastos envolvidos na as falhas na prisão ou sugerir punição alternativa. Segundo
administração? Não sejamos ridículos, caro leitor. Se nos- Cano, é preciso reduzir o número de presos provisórios e
sa polícia fosse bem paga, treinada e aparelhada de modo a que a Justiça apoie o Estado para reduzir a população car-
mandar para trás das grades todos os bandidos que nos in- cerária. “O governo tem de se sentar com o Judiciário”. É
fernizam nas ruas, estaríamos em maus lençóis. O dinheiro isso que o Estado tem feito, afirma Lourival Gomes – se-
para mantê-los viria do aumento dos impostos? Dos cortes cretário da Administração Penitenciária. De acordo com
nos orçamentos da educação e da saúde? Então, que fazer? Gomes, ele e Alckmin discutiram com o presidente do Tri-
É preciso agir em duas frentes: a primeira é tornar a Justiça bunal de Justiça, Ivan Sartori, e o corregedor-geral do TJ,
mais ágil, de modo a aplicar penas alternativas e facilitar a José Renato Nalini, agilização de ações penais, o que ren-
progressão para o regime semiaberto, no caso dos que não deu a soltura de 670 presos em Franco da Rocha e outras
oferecem perigo à sociedade, e pôr em liberdade os que já 342 detentas na penitenciária de Butantã. “Não vamos sol-
pagaram seus crimes, mas que não têm recursos para con- tar presos indiscriminadamente.”
tratar advogado; e a segunda, mais trabalhosa, envolve pre-
venção. Sem diminuir as “fábricas de bandidos” jamais ha- (Folha de S. Paulo, “Cotidiano”, 20.05.2012)
verá paz nas ruas. Nas periferias das nossas cidades, os mi-
lhões de crianças e adolescentes vivem em condições de Código Penal Brasileiro
risco para a violência. São tantas que é de estranhar o par- Parte Geral
co número que se envereda pelo crime. Nossa única saída é Título I
oferecer-lhes qualificação profissional e trabalho decen-te, Da Aplicação da Lei Penal
antes que sejam cooptados por marginais para trabalhar em
regime de semiescravidão. Existem iniciativas bem-su- Anterioridade da Lei: Art. 1º. Não há crime sem lei ante-
cedidas nessa área, mas o número é tímido diante das pro- rior que o defina. Não há pena sem prévia cominação le-
porções da tragédia social. É preciso grande esforço nacio- gal. Lei penal no tempo: Art. 2º. Ninguém pode ser puni-
nal que envolva diversas esferas governamentais e mobili- do por um fato que lei posterior deixe de considerar crime,
ze a sociedade inteira. Como parte da mobilização, é fun- cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da
damental levar planejamento familiar aos estratos sociais sentença condenatória. Parágrafo único: a lei posterior que,
mais desfavorecidos. Negar-lhes acesso à lei federal a qual de qualquer modo, favorecer o agente, aplica-se a fatos an-
lhes dá direito ao controle da fertilidade é a violência mais teriores, ainda que decididos por sentença condenatória
torpe que a sociedade brasileira comete contra uma mulher transitada em julgado. Lei excepcional ou temporária:
pobre. O lema “lugar de bandido é na cadeia” é vazio, de- Art. 3º. Lei excepcional, ou temporária, embora decorrido o
magógico. Não temos nem teremos prisões suficientes. Re- período de sua duração, ou cessadas circunstâncias que a
duzir a população carcerária é imperativo urgente. Não ca- determinaram, aplica-se ao fato praticado durante a sua vi-
be discutir se estamos a favor ou contra, não existe alterna- gência. Tempo do crime: Art. 4º. Considera-se praticado o
tiva. Empilhar homens em espaços cada vez mais exíguos crime o momento da ação ou omissão ainda que outro seja

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sem alterar a ordem, não decretando para os delitos de pri-
meiro grau penas do último. Se existisse uma escala exata e
o momento do resultado. Territorialidade: Art. 5º. Apli-ca- universal de penas e delitos, teríamos uma medida prová-
se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e vel e comum dos graus de tirania e liberdade, do fundo de
regras de direito internacional, ao crime cometido no ter- humanidade ou de maldade das diversas nações.
ritório nacional. § 1º. Para efeitos penais, consideram-se,
como extensão do território nacional, embarcações e aero- (BECCARIA, Cesare. Dos delitos e das penas. Traduções
naves brasileiras, de natureza pública ou a serviço do gover- de Lucia Guidicini; Alessandro Berti Contessa. São Paulo:
no brasileiro onde quer que se encontrem, bem como as ae- Martins Fontes, 2005, p. 50-51)
ronaves e embarcações brasileiras, mercantes ou de proprie-
dade privada, que se achem, respectivamente, no espaço aé- Apesar de todo o aparato punitivo em que se ampa-
reo correspondente ou alto-mar. § 2º. É também aplicável a ra a legislação brasileira para fazer que criminosos rece-bam
lei brasileira a crimes praticados a bordo de aeronaves ou “justas recompensas” por seus crimes, estamos côns-cios de
embarcações estrangeiras de propriedade privada achando- que, contrariamente ao que se suporia – perante tão
-se aquelas em pouso no território nacional, ou em voo no “sofisticado” aparelho jurídico de que dispomos –, a crimi-
espaço aéreo correspondente, e estas em porto ou mar terri- nalidade, em solo brasílico, só tem, desde há séculos, au-
torial do Brasil. mentado. Nas incontáveis discussões que, seja oficial, seja
oficiosamente, se fazem, dessa questão, em nosso quotidia-
(“Código Penal”. In: Vade mecum acadêmico de Direito. no, parecem elas às voltas, majoritariamente, com preocu-
São Paulo: Rideel, 2009, p. 331) pação de cuidar das consequências criminais, e não de suas
causas. Já no âmbito da Criminologia, consideram-se dois
Proporção entre os delitos e as penas aspectos fundamentais para o entendimento da causa dum
crime: os “instrumentos de controle social”, que se subdi-
Não só é de interesse comum que não sejam come- videm em “formal” e “informal”, em que, nos do primeiro
tidos delitos mas também que sejam tanto mais raros quan- tipo, estão polícias, Exército, Poder Judiciário, ergástulos
to maior o mal que causem à sociedade. Logo, devem ser etc.; e, nos do segundo, contam-se famílias, escolas, religi-
mais fortes os obstáculos que afastam os homens dos deli- ões etc., de maneira que os instrumentos de controle social
tos na medida em que são contrários ao bem comum e na formal só têm a sua existência justificada porque os instru-
medida dos impulsos que levam aqueles a delinquir. É im- mentos de controle social informal falham em sua tentativa
possível prevenir todas as desordens no embate universal de educar e socializar indivíduos dalguma nação. Destarte,
das paixões humanas. Crescem aquelas na razão geométri- com base nas problematizações expostas na coletânea, faça
ca da população e do entrelaçamento dos interesses parti- uma dissertação argumentativa, de entre 25 e 30 linhas,
culares, que não é possível direcionar geometricamente à na qual se discorra sobre o tema infradenominado:
utilidade pública. Na aritmética política, deve-se substituir
a exatidão matemática pelo cálculo das probabilidades. Se CAUSAS SOCIAIS DOS CRIMES NO BRASIL
lançarmos um olhar para a História, veremos crescer de-
sordens com extensão dos impérios e arrefecer o sentimen- ESPAÇO PARA RASCUNHO REDACIONAL
to nacional na mesma proporção. Portanto, a tendência aos _______________________________________________
delitos cresce na razão do interesse que cada um tem nas _______________________________________________
desordens mesmas: por esse motivo a necessidade de agra- _______________________________________________
var as penas vai, a cada vez mais, aumentando. Essa força, _______________________________________________
semelhante à gravidade, que nos impele ao bem-estar, só _______________________________________________
pode ser contida na medida dos obstáculos que se lhe opõ- _______________________________________________
em. Os efeitos dessa força são série confusa das ações hu- _______________________________________________
manas: se elas se entrechocam e se ferem, as penas, a que _______________________________________________
eu chamaria de “obstáculos políticos”, impedem seu efeito _______________________________________________
nocivo sem destruir a causa propulsora, que é própria sen- _______________________________________________
sibilidade inseparável do homem; e o legislador age como o _______________________________________________
hábil arquiteto cujo ofício é opor-se às diretrizes destru- _______________________________________________
tivas da gravidade e fazer colaborar aquelas que contribu- _______________________________________________
em para a solidez do edifício. Dada necessidade de os ho- _______________________________________________
mens unirem-se, dados os pactos que, necessariamente, re- _______________________________________________
sultam da oposição de interesses privados, forma-se escala _______________________________________________
de desordens cujo primeiro grau consiste naquelas que des- _______________________________________________
troem, imediatamente, a sociedade, e, o último, na mínima _______________________________________________
injustiça possível feita a um de seus membros privados. _______________________________________________
Entre esses extremos, encontram-se todas as ações opostas _______________________________________________
ao bem comum, que se chamam “delitos”, e decrescem por _______________________________________________
graus imperceptíveis, do mais grave ao mais insignificante. _______________________________________________
Fosse possível adaptar a geometria às combinações infin- _______________________________________________
dáveis e obscuras das ações humanas, deveria existir uma _______________________________________________
escala correspondente de penas da mais forte à mais fraca: _______________________________________________
mas bastará o sábio legislador marcar os pontos principais, ______________________________________________.

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