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GEOGRAFIA, MEIO AMBIENTE E CERTIFICAÇÃO AMBIENTAL

Henrique Elias Pessoa Gutierres

Nas últimas décadas, o mundo tem testemunhado o desenvolvimento da consciência ambiental em diferentes setores da sociedade, resultante da realização de Conferências das Nações Unidas (Estocolmo-72 e Rio-92). Dentre os vários setores, o setor empresarial passou a incorporar a gestão ambiental ao seu cotidiano, no momento em que a questão ambiental crescentemente interfere na atividade produtiva desses atores. Em nível empresarial, a gestão ambiental objetiva não só apenas atender aquilo que preconizam as leis e as normas, mas visa uma valorização da mesma perante o mercado. Ou seja, aspectos como desempenho ambiental, passivos ambientais e histórico ambiental são considerados no seu cotidiano (valor das ações, negociações de fusão e aquisição de empresas, ganho de mercados, etc.). O setor empresarial, entendido como de origem privada, pública ou mista (capital público e privado), era considerado um reduto impenetrável no que se refere a preocupação sobre práticas coerentes em relação ao meio ambiente. No Brasil, as empresas passam a se submeter àquilo que preconiza a Lei da Política Nacional de Meio Ambiente (nº 6.938/81), a Constituição Federal de 1988 e os efeitos negativos do seu desempenho ambiental na esfera administrativa, civil e criminal. A Lei da Política Nacional de Meio Ambiente foi um marco para que a gestão ambiental adentrasse as empresas instaladas no país. A partir da incorporação e aperfeiçoamento de normas estaduais já vigentes, possibilitou a aplicação de normas baseadas em experiências da área econômica para outras áreas que futuramente viriam a se desenvolver. A lei também criou o SISNAMA (Sistema Nacional de Meio Ambiente), que apesar das suas deficiências e problemas de integração, busca atribuir aos diferentes entes da federação responsabilidade com a questão ambiental. Para D’ISEP (2009), o natural é que a PNMA entre na empresa na forma de gestão ambiental, e que isso ocorra de modo a adaptar-se à sua realidade que não é outra senão o exercício da atividade econômica, logo com a finalidade de lucro. As influências externas são fundamentais para a mudança de postura da empresa. Donaire (1995) considera que as influências externas viriam dos meios de comunicação e que no Brasil a mais importante influência provém do governo. Para May et al. (2003), quatro fatores de pressão seriam primordiais para a adoção de práticas ambientais pelas empresas: Consumidores, Stakeholders, Investidores e Fatores Institucionais. Enquanto isso, Barbieri (2007) chama atenção para a pressão exercida por Investidores, Sistema de Seguros e Consumidores. Por outro lado, Seiffert (2008) considera os clientes de fato e potenciais, como grandes fatores de pressão para a busca e consolidação da postura ambiental pelas mesmas. Associa tal nível de consciência à rapidez do acesso a informação (televisão, rádio, internet, jornais e revistas) de problemas ambientais verificados nas empresas. Cerqueira (2010) lista os acionistas, clientes, empregados, empresas seguradoras, organizações governamentais (reguladoras, fiscalizadoras e regulamentadoras), mídia e o público em geral como exemplos de partes interessadas que pressionam as empresas na área ambiental e social. E Dias (2011) identifica Estado (regulação formal), comunidade local, mercado e fornecedores. Portanto, independente de qualquer circunstância, é fato que os determinantes ambientais existem e devem ser uma preocupação estratégica das empresas (SEIFFERT, 2008). Diversos são os atores externos a se somar a esses citados, sendo necessário também destacar as ONGs (Organizações Não-Governamentais). Portanto, percebe-se que a adoção da preocupação ambiental pelas empresas reflete a ação de aspectos diferenciados, agentes internos e externos em seu ambiente.

Essa mudança de postura é fundamental na busca pelo desenvolvimento sustentável. Com isso vem se observando que a implantação de Sistemas de Gestão Ambiental cresce a cada dia entre as empresas brasileiras e estrangeiras, tendo a Norma ISO 14001 como a mais disseminada. A sua presença no ambiente empresarial resulta normalmente em melhoria quanto às práticas ambientais, bem como na relação com os agentes externos, que passam a estabelecer um relacionamento mais harmonioso.

Certificação Ambiental: ISO 14000

De uma forma geral, as empresas podem desfrutar e adotar uma série de instrumentos de cunho ambiental (licenciamento ambiental, auditoria ambiental, perícia ambiental, zoneamento ambiental, estudos ambientais). Contudo, deve-se reconhecer a crescente adesão e popularização da certificação ambiental. Essa temática vem sendo tratada de forma indireta e direta em várias obras técnicas e científicas. Maimon (1996) conceitua as certificações ambientais como aquelas que estabelecem normas, na temática ambiental, objetivando homogeneizar conceitos, ordenar atividades e criar padrões e procedimentos do setor produtivo. A certificação ambiental surge, a partir das inúmeras discussões nos fóruns mundiais, e se consolida como mais um instrumento de gestão ambiental. A ISO – International Organization for Standardization (Organização Internacional para Normalização) fundada em 23 de Fevereiro de 1947, sediada na cidade de Genebra na Suíça, é uma federação internacional de normalização. Para isso passou a elaborar normas em diferentes áreas de interesse das atividades produtivas (qualidade, meio ambiente, segurança alimentar, responsabilidade social, etc.). O conjunto de normas ISO 14000 tem como um dos objetivos a busca pela uniformização das normas nacionais e regionais em nível internacional na área ambiental, facilitando e dando maior eficiência as transações do mercado globalizado. Atualmente, uma exigência de mercado, especialmente nas exportações direcionadas aos países desenvolvidos de produtos de elevado impacto ao meio ambiente. Além do mais, são normas voluntárias e não estabelecem índices nem valores mínimos, como níveis de desempenho e poluição. Entre as normas que compõem a série ISO 14000, destaca-se a ISO 14001 (Sistemas de Gestão Ambiental – Especificações com Guia para Uso), que foi a primeira da série a ser lançada, em 1996 e estabelece as especificações e os critérios de como se implementar um SGA (Sistema de Gestão Ambiental). D’avignon (1996) define um SGA como um conjunto de procedimentos para gerir ou administrar uma empresa, de forma a obter o melhor relacionamento com o meio ambiente. Já May et al. (2003) conceituam como uma estrutura organizacional que permite à empresa avaliar e controlar os impactos ambientais de suas atividades, produtos ou serviços. A ABNT (2004) diz que o SGA é a parte de um sistema da gestão de uma organização, utilizada para desenvolver e implementar sua política ambiental e para gerenciar seus aspectos ambientais. Dessa forma, a norma estabelece um modelo de Sistema de Gestão Ambiental, especificando os componentes básicos para a implementação de um SGA nas diversas organizações, a partir de uma política ambiental e seus objetivos. Com milhares de certificados concedidos em todo o mundo, a ISO realizou a primeira revisão da norma em 2004, sob a designação de ISO 14001:2004, na qual depois de um período de dezoito meses para adequação, as organizações que já eram certificadas ou estavam prestes a ser, passaram a obedecer a esta nova versão a partir de maio de 2006.

O reconhecimento internacional da certificação é obtido através de uma terceira parte (uma instituição normalizadora nacional). No Brasil, o INMETRO ou outra por ela delegada. Assim, a empresa para obter a certificação ambiental, deve atender a três exigências constantes na norma ISO 14001: ter implantado um Sistema de Gestão Ambiental (SGA); cumprir a legislação ambiental aplicável ao local da instalação; e assumir um compromisso com a melhoria contínua de seu desempenho ambiental. De acordo com a própria (ABNT NBR ISO 14001:2004), a ISO 14001 é baseada na metodologia Plan-Do-Check-Act (PDCA): Planejar-Executar-Verificar-Agir, associando às suas diversas etapas (Política Ambiental, Planejamento, Implementação, Verificação/Ações Corretivas e Análise Crítica Gerencial). O Modelo de Gestão da Norma ISO 14001 é estruturado da seguinte maneira:

O reconhecimento internacional da certificação é obtido através de uma terceira parte (uma instituição normalizadora nacional).

Modelo de Sistema da Gestão Ambiental para Norma ISO 14001 (Fonte: NBR

ABNT ISO 14001:2004).

O modelo de SGA da Norma ISO 14001 estabelece cinco elementos estruturais, que se sucedem e mantêm relação entre si, objetivando estabelecer, implementar, manter e continuamente melhorar o sistema de gestão ambiental na organização. Assim, a política ambiental antecede o planejamento e a respectiva implantação, devendo ser bem estruturada para evitar resultados indesejados. Estando definida, deverá se apresentar clara e ser divulgada para todos os segmentos sociais envolvidos e interessados (acionistas, empregados, fornecedores, clientes e comunidade em geral). A organização deverá realizar uma avaliação ou diagnóstico inicial para identificar e avaliar os efeitos ambientais da atividade, analisar a legislação (federal, estadual e municipal), verificando como estão sendo cumpridas e estabelecer os meios para se alcançar a realização das metas e objetivos (MAIMON, 1996). Portanto, a Política Ambiental da organização é uma declaração dos compromissos que serão assumidos, determinando suas intenções e princípios com relação a seu desempenho ambiental e que possam ser utilizados por todas as partes da organização no desenvolvimento de suas próprias metas em relação à política.

O Geógrafo e a Certificação Ambiental

Como qualquer profissional afeto a área ambiental, o Geógrafo tem seu papel na implementação de Sistemas de Gestão Ambiental no ambiente empresarial (MIGUEZ et

al., 2003: GUTIERRES, 2011). Na sua formação básica, normalmente, o futuro bacharel em geografia adquire conhecimentos diversos (físicos, bióticos e humanos), como também uma abordagem sobre os processos de interação entre os mesmos na dimensão espaço-temporal. Portanto, ampla formação com elementos técnico- científicos que servem de embasamento para realização de análise ambiental e proposta de sistemas de gerenciamento ambiental. A contribuição do geógrafo durante o processo de planejamento e implementação dos Sistemas de Gestão Ambiental baseados na norma ISO 14001, estaria tanto na análise detalhada do meio ambiente impactado e o uso de instrumental cartográfico, como também na familiaridade de conceitos e métodos das áreas de conhecimento social e geociências. Além disso, necessita adquirir os requisitos técnicos específicos da área de SGA para tal função. Destaca-se, portanto, a oportunidade deste profissional em conquistar seu espaço neste mercado, seja na iniciativa privada ou pública. Dessa forma, permite afirmar que a presença de um SGA no ambiente empresarial conscientiza a empresa de que sua operacionalização e conseqüente êxito tornam-se um requisito fundamental na sua sobrevivência, enquanto instituição que almeja a conquista de novos mercados e conseqüente sustentabilidade econômica. Essa nova visão é acompanhada da influência exercida por fatores internos e externos, agindo de modo diferenciado entre os lugares, o que conseqüentemente se reflete em uma distribuição desigual das certificações 14001 no espaço geográfico mundial.

Referências

ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR ISO 14001 - Sistema de gestão ambiental: especificação e diretrizes para uso. Rio de Janeiro: ABNT, 2004.

BARBIERI, José Carlos. Gestão Ambiental empresarial: conceitos, modelos e instrumentos. São Paulo: Saraiva, 2007.

CERQUEIRA, Jorge Pedreira de. Sistemas de Gestão Integrados: ISO 9001, ISO 14001, OHSAS 18001, SA 8000 e NBR 16001: Conceitos e Aplicações. Rio de Janeiro:

Qualiymark, 2010.

D´AVIGNON, Alexandre. Normas ISO 14000: como podem influenciar sua empresa. Rio de Janeiro: CNI, DAMPI, 1996.

D’ISEP, Clarissa F. M. Direito ambiental econômico e a ISO 14000. Sao Paulo:

Revista dos Tribunais, 2010.

DIAS, Reinaldo. Gestão Ambiental: Responsabilidade Social e Sustentabilidade. São Paulo: Atlas, 2011.

DONAIRE, Denis. Gestão Ambiental na Empresa. São Paulo: Atlas, 1995.

GUTIERRES, Henrique Elias Pessoa. A Efetividade da Gestão Ambiental nas Empresas de Mineração com ISO 14001 no estado da Paraíba na ótica das Comunidades. Dissertação (Mestrado em Geografia). UFPB, João Pessoa, 2011.

MAIMON, Dalia. Passaporte Verde: Gerência Ambiental e Competitividade. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1996.

MAY, Peter H.; LUSTOSA, Marília C.; VINHA, Valéria da. (Org.). Economia do Meio Ambiente - teoria e prática. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.

MIGUEZ, Vivianne B.C.; RIBEIRO, Marta F. A contribuição da Geografia na implantação de sistemas de gestão ambiental no Brasil. In: X Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada, 2003, Rio de Janeiro. Anais do X Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada, 2003.

SEIFFERT, Maria Elizabete Bernardini. ISO 14001 Sistemas de Gestão Ambiental:

implantação objetiva e econômica. São Paulo: Atlas, 2008.