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JOHN STOTT

P a r a muitos, é uma grande surpresa descobrir que os


seguidores de Jesus Cristo são chamados de: “cristãos” apenas
três vezes na Bíblia. Claro, sabemos que tanto as palavras
‘cristão’ como ‘discípulo5 implicarrurelacionamento com Jesus.
Mas, por que “discípulo radical”?
Para Joh n Stott, a resposta e óbvia. “Existem diferentes
níveis de corpprometimento na comunidade cristã. O próprio
Jesu s ilustra isso ao explicar o que aconteceu com as sementes
na Parábola do Semeador (Mt 13.3-23). A diferença está no
tipo de solo que as recebeu. A semente semeada em solo
roch oso ‘não tinha raiz’”.
Evitam os o discipulado radical sendo seletivos: escolh emos
as áreas nas quais o compromisso nos convém e ficamos
distantes daquelas nas quais n osso envolvimento nos. custará
muito. No entanto, como discípulos não temos esse direito.

O Discípulo Radical apresenta oito características do


discipulado cristão que são comumente esquecidas, mas ainda
precisam ser levadas a sério: inconformismo, semelhança com
Cristo, maturidade, cuidado com a criação, simplicidade,
equilíbrio, dependência e morte. Com um texto
profundamente bíblico, tocante e de fácil leitura, Joh n Stott
mostra a essência do que significa ser-um discípulo radical.

A * MISTO
/ \ Pro venient e de
V fontes resp onsáveis

F SC -FSC® c i 00558
vwíw.fso.org

I SBN 9 7 8 - 8 5 - 7 7 7 9 - 0 4 4 - 9

ultimato 9b
JOHN STOTT

Traduzido por
M EIRE PORTES SANTOS

ultimato
VIÇO SA IM G
O DISCÍPULO RADICAL
Cat eg o r ia: Vid a cristõ / Esp ir it ualid ad e / Liderança

Cop y r igh t © J. R. W. Stot t 2010

P u blicad o origin alm en te p or In ter-Varsity Press,


N ot t in gh am , Rein o Un id o

Prim eira edição: M ar ço de 2011


Coorden ação editorial: Bern adete Ribeiro
Tradução: Meire Portes San tos
Revisão: Paula M azzin i M en des
Diagram ação: Ed it or a U ltim ato
Cap a: An a Cláu d ia Nu n es

Fich a catalográfica p reparad a pela Seção de Catalogação e


Classificação d a Bib lioteca Cen tral d a U FV

S8 8 8 d Stott, Joh n W . R., 1921-


20H O discípu lo radical / Jo h n W. R. St o t t ; traduzido p or Meire Portes
San tos. — Viçosa, M G : U ltim at o, 2011.
120p .; 21cm .

Tít u lo origin al: Th e Rad ical D iscip le

I SBN 978- 85- 7779- 044- 9

1. V id a cristã. I. Títu lo.


C D D 22. ed. 248.4

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fabr icação d o p ap el d este livro p r ov é m d e florestas q u e
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SUMÁRIO

Prefácio: Discípulos ou cristãos? 9

1. Inconformismo 13

2. Sem elhança com Cristo 23

3. Mat urid ade 33

4. Cuidado com a criação 43

5. Sim plicidade 53

6. Equilíbrio 71

7. Dependência 85

8. Mort e 95

Conclusão 113

Posfácio: Adeus! 115

Notas 117
Todos os direitos autorais deste livro foram cedidos de form a
irrevocável à Lan gh am Literature (an tiga Evangelical Literature Trust).
A Lan gh am Literature é um program a da Lan gh am Partnersh ip
In tern ation al (LPI), fu n d ada por Joh n Stott. Ch r is W righ t é o diretor
in tern acion al.
A Lan gh am Literature distribui livros evangélicos para pastores,
estudan tes de teologia e bibliotecas de sem in ários em quase todo o
m u n do, e patrocin a a escrita e a publicação de literatura cristã em
m uitas lín guas region ais.
Para m aiores in form ações sobre a Lan gh am Literature e outros
program as da LPI, visite w w w .lan gh am partn ersh ip.org.
N os Estados Un idos, o m em bro n acion al da Lan gh am Partn ersh ip
In tern ation al é o Joh n Stott Min istries.
Visite o site do JSM : w w w .joh n stott.org.
AGRADECIMENTOS

C o m o a p r o d u ç ã o d e st e liv r o t eve in íc io , c o n t in u id a d e
e t é r m in o so b o t e t o h o sp it a le ir o d a U n iv e r sid a d e d e
Sa i n t Bar n ab as, o p r im eir o agr ad ecim en t o é p ar a o co r p o
de fu n cio n ár io s, p ar a o dir et or, H ow ar d Su ch , e su a esp osa,
Lyn n e Su ch , p ar a os r esid en t es e pacien t es, e p ar a a eq u ip e
d e en fer m agem , c u id ad o s, ad m in ist r ação , alim e n t ação e
lim p eza, p o is ju n t o s cr iar am u m a r ica co m u n id ad e cr ist ã de
cu lt o e co m u n h ão — u m con t ext o ad e q u ad o à r eflexão e à
escr it a. Q u a n d o p o r vezes p r eocu pei- m e com t ais at ivid ad es,
d evo ter p ar ecid o u m a cr iat u r a an t issocial; m as eles com pre-
en d er am e m e p er d o ar am .
O u t r a co m u n id ad e à q u al so u d eved or é a Igreja St . Jo h n ,
Felb r id ge; ao m in ist r o St e p h e n Bow en , su a esp osa, M an dy,
e ao s ad m in ist r ad o r e s d a igreja, A n n e Bu t le r e M alcolm
Fr an cis. Q u a n d o m e sen t ia for te o su ficien t e, eles p r ovid en ­
ciavam u m a m an eir a de m e t r an sp o r t ar p ar a lá e m e trazer de
volt a, aos d o m in go s. Eles sab iam qu e u m livro est ava sen d o
p r e p ar ad o e m e in cen t ivar am d u r an t e o p r ocesso.
A p r e cio a h ab ilid ad e ed it or ial d e D avid St o n e, assist id o
p o r Ele an o r Trotter, ap esar d e ou t r as p essoas ter em con t r i­
b u íd o com o t exto, com o Jo h n W yatt e Sh e ila M oor e, qu e
8 [ 0 DISCÍPULO RADICAL

en r iq u e cer am o cap ít u lo 7 com su as exper iên cias p essoais.


Peter H ar r is e C h r is W r igh t m e au xiliar am com o cap ít u lo 4,
e G r ace Lam m e d eu in for m ações vitais sobr e o m in ist ér io
d e seu falecid o m ar id o (cap ít u lo 5).
Receb er a visit a q u in zen al d e m in h as so b r in h as C ar o lin e
e Sar ah e a fr eq ü en t e visit a d e m eu am igo P h illip H er b er t
tem sid o u m en co r ajam en t o regu lar. O u t r o s t r ab alh ar am
n os b ast id o r es, com o Jo h n Sm it h , p o r exem plo, qu e t em
p acien t em en t e feito p esq u isas n a in t er n et p ar a m im .
Por ú ltim o, m as n ão m en os im portan te, Fran cês W h iteh ead
t em co n segu id o fazer visit as sem an ais e lid ar com a en or m e
q u an t id ad e d e e-m ails, qu e ela ad m in ist r a com u m a h ab ili'
d ad e ext r aor d in ár ia, ju n t am e n t e com este m an u scr it o.

Jo h n S t o t t

Páscoa de 2 0 0 9
PREFÁCIO
DISCÍPULOS OU CRISTÃOS?

U e ixe - m e explicar e ju st ificar o t ítu lo d este livro, O Discípulo


Radical.
Em p r im eir o lu gar, p or q u e “d iscíp u lo ”?
Para m u it os, d esco b r ir qu e, n o N ovo T est am en t o , os se­
gu id or es d e Je su s C r ist o são ch am ad os d e “cr ist ão s” ap e n as
três vezes, é u m a gr an d e su r p r esa.
A oco r r ên cia m ais sign ificat iva é o com en t ár io d e Lu cas
e xp lican d o q u e foi em A n t io q u ia d a Sír ia qu e os d iscíp u los
d e Je su s fo r am ch am ad o s d e “cr ist ão s” p e la p r im e ir a vez
.(A t 11.26). A n t io q u ia er a con h ecid a com o u m a co m u n id ad e
in t er n acion al. C o n se q u e n t e m e n t e , a igreja t am b ém er a u m a
co m u n id ad e in t e r n acion al e seu s m em b r os er am ad e q u ad a­
m en t e ch am ad o s d e “cr ist ãos” p ar a in d icar qu e as difer en ças
ét n icas er am su p er ad as p o r su a leald ad e com u m a C r ist o.
A s ou t r as d u as ocorr ên cias d a palavra “cr ist ão” eviden ciam
q u e seu u so estava fican d o m ais com u m . A ssim , q u an d o P au­
lo, qu e est ava se n d o ju lgad o d ian t e d o rei A gr ip a, o d esafio u
d ir et am en t e, A gr ip a clam ou : “Por p o u co m e p e r su ad e s a m e
fazer cr ist ão ” (At 26.28).
D ep ois, o ap ó st o lo P edro, cu ja p r im eir a car t a foi escr it a
em u m con t ext o d e p er segu ição crescen te, ach ou n ecessár io
0 DISCÍPULO RADICAL

fazer d istin ção en tre aqu eles qu e sofr iam “com o cr im in o sos” e
aq u eles q u e sofr iam “com o cr ist ãos” (lP e 4.15-16), isto é, p or
p er t en cer em a Cr ist o. A m b as as palavr as (cr istão e d iscíp u lo)
im p licam r e lacio n am e n t o com Je su s. P orém , “d isc íp u lo ”
talvez seja m ais forte, p ois in evitavelm en t e im p lica relacio-
n am en t o en tr e alu n o e p r ofessor . D u r an t e os três an os de
m in ist ér io p ú b lico, os doze for am d iscíp u los an tes d e ser em
ap ó st o lo s e, co m o d iscíp u los, est avam sob a in st r u ção de seu
M est re e Sen h or .
Talvez, d e algu m a for m a, d ever íam os ter co n t in u ad o a
u sar a p alavr a “d iscíp u lo ” n os sécu los segu in t es, p ar a qu e os
cristãos fossem d iscíp u los de Jesu s d e m an eir a con scien te e le­
vassem a sér io a r esp on sabilid acie de est ar “sob d iscip lin a”.
M eu in ter esse com este livro é qu e n ós, qu e afir m am os
ser d iscíp u lo s d o Se n h o r Je su s, n ão o p r ovoq u em os a dizer:
“Por qu e m e ch am ais Se n h or , Sen h or , e n ão fazeis o qu e vos
m an d o ?” (Lc 6.46). O d iscip u lad o ge n u ín o é u m d iscip u lad o
sin cer o — e é d aí q u e su r ge a p r óxim a palavra.
Em segu n d o lugar, p or qu e “r ad ical”? Se n d o esse o adjetivo
u sad o p ar a descrever n osso d iscip u lad o, é im p or t an t e in dicar
o sen t id o n o q u al o u tilizo.
A palavr a “r ad ical” é d er ivad a d o latim radix, raiz. O r igi­
n alm en t e, par ece ter sid o u t ilizad a com o r ót u lo polít ico p ar a
p esso as co m o W illiam Cob et t , p olít ico d o sécu lo 19, e seu s
p o n t o s d e vist a ext r em os, liber ais e r efor m ist as. A ssim , vem
d aí o u so ger al p ar a se referir àqu eles cu jas op in iõ e s vão às
raízes e q u e são ext r em os em seu com p r om isso.
A go r a est am os p r on t os p ar a u n ir o su bst an t ivo e o adjetivo
e fazer a ter ceira p er gu n t a: p or qu e “d iscíp u lo r ad ical”? A res­
p o st a é óbvia. Exist em diferen tes n íveis de com p r om et im en t o
n a co m u n id ad e cristã. O p r óp r io Jesu s ilu str a isso ao explicar
PREFÁCIO

o q u e acon t eceu com as sem en t es q u e descreve n a P ar áb ola


d o Se m e ad o r .1A d ifer en ça en tr e as sem en t es est á n o t ip o de
so lo qu e as r eceb eu . A r esp eit o d a sem en t e se m e ad a em solo
r och oso, Je su s diz: “N ã o t in h a r aiz”.
G er alm en t e evit am os o d iscip u lad o r adical sen d o seletivos:
esco lh e m os as áreas n as q u ais o com p r o m isso n o s con vém
e ficam o s d ist an t es d aq u elas n as q u ais n osso en volvim en t o
n os cu st ar á m u it o. P orém , p o r Je su s ser Se n h or , n ão t em os
o d ir eit o d e escolh er as áreas n as q u ais n os su b m e t e m os à
su a au t o r id ad e.

Jesus é dign o de receber


H on ra e poder divin o
E bên çãos mais que n ão podem os dar
Sejam , Sen h or, para sem pre tu as.2

Assim , m eu p r op ósit o n este livro é con sid er ar oit o caracte­


ríst icas d o d iscip u lad o cr ist ão qu e, ap e sar d e ser em fr eq u en ­
t em en t e n egligen ciad as, m er ecem ser levadas a sér io.
Capít ulo 1

INCONFORMISMO

A p r im e ir a car act er íst ica q u e q u e r o c o n sid e r ar so b r e o


d iscíp u lo r ad ical é o “in co n fo r m ism o ”. Deixe-m e explicar.
A igreja t em u m a d u p la r esp o n sab ilid ad e em r elação ao
m u n d o ao seu r ed or . Por u m lad o, d evem os viver, ser vir
e t est em u n h ar n o m u n d o . Por ou t r o, d evem os evit ar n os
co n t am in ar p o r ele. A ssim , n ão d evem os p r eser var n o ssa
san t id ad e fu gin d o d o m u n d o , n em sacrificá-la n os con for ­
m an d o a ele.
Tan t o o escap ism o q u an t o o con fo r m ism o são p r o ib id o s
p ar a n ós. Esse é u m d o s t em as p r in cip ais d a Bíb lia, ou seja,
D eu s est á con vo can d o u m povo p ar a si e o d e safian d o a ser
d ifer en t e d e t o d o s. “Se jam san t o s”, diz ele r ep et id am en t e ao
seu povo, “p o r q u e eu so u sa n t o ” (Lv 11.45; lP e 1.15-16).

N ão devemos preservar n ossa san tidade


fugindo do m undo, nem sacrificá-la nos
conform ando a ele
0 DISCÍPULO RADICAL

Esse t em a fu n d am e n t al se r epet e n as q u at r o p r in cip ais


seções d a Bíb lia: a lei, os p r ofet as, o e n sin o d e Je su s e o
e n sin o d o s ap ó st olos. D ar e i u m exem plo d e cad a. P rim eiro,
a lei. D eu s diz ao seu povo p o r m eio d e M oisés:

N ão fareis segu n do as obr as d a terra do Egito, em que


habitastes, nem fareis segun do as obras da terra de Can aã,
para a qual eu vos levo, n em an dareis n os seus estatutos. Fa­
reis segun do os meus juízos e os meus estatutos guardareis,
para an dardes neles. Eu sou o Sen h or, vosso Deus.
Levíticos 18.3-4

Sem elh an t em en t e, a crítica de D eu s ao seu povo por m eio


d o p r ofet a Ezequ iel é qu e “n ão an d ast es n os m eu s est at u tos,
n em execu tastes os m eu s ju ízos; an tes, fizestes segu n d o os
ju ízos d as n ações q u e est ão em r ed or de v ó s” (Ez 11.12).
O m esm o acon t ece n o N ovo T est am en t o. N o Se r m ão
d o M on t e, Je su s fala d o s h ip ócr it as e p agãos e acr escen t a:
“N ã o vos assem elh eis, p ois, a eles” (M t 6.8). Fin alm en t e, o
ap ó st o lo P au lo escreve aos r om an os: “N ão vos con for m eis
co m este sécu lo, m as tran sform ai-vos p ela r en ovação d a vossa
m en t e ” (R m 12.2).
A q u i est á o ch am ad o d e D eu s p ar a u m d iscip u lad o r ad i­
cal, p ar a u m in co n for m ism o r ad ical à cu lt u r a cir cu n d an t e.
O con vite p ar a d esen volver u m a con t r acu lt u r a cristã, p ar a
u m en gajar-se sem com prom eter-se.
A ssim , q u ais as t en d ên cias con t e m p or ân eas qu e am ea­
çam n os tragar, às q u ais d evem os resistir? C o n sid e r ar e m o s
q u at r o . A p r im eir a d elas é o d esafio d o pluralism o. O p lu r a­
lism o afir m a qu e t o d o “ism o ” t em seu valor e m er ece n osso
r esp eito. P or t an to, ele r ejeit a as alegações crist ãs de p er feição
e sin gu lar id ad e, e en t e n d e a t en t at iva de con ver t er q u alq u er
IN CON FORM ISM O

p e sso a (qu e d ir á t od as) ao qu e ju lga ser sim p lesm en t e “n ossa


o p in iã o ”, o u seja, u m a at it u d e d e ar r ogân cia tot al.
C o m o en t ão d ever íam os r e sp o n d e r ao esp ír it o d e p lu ­
r alism o? C o m m u it a h u m ild ad e e sem q u alq u e r in d ício de
su p e r io r id ad e p essoal. P orém , d evem os co n t in u ar a afir m ar
a im p ar id ad e e p er feição d e Je su s C r ist o . Pois ele é sin gu lar
em su a en car n ação (o ú n ico D eu s h om em ); sin gu lar em su a
exp iação (so m en t e ele m or r eu p elos p e cad os d o m u n d o ); e
sin gu lar em su a r essu r r eição (som en t e ele ven ceu a m or t e).
E se n d o q u e em n e n h u m a ou t r a p essoa, a n ão ser em Je su s
d e N azaré, D eu s se t o r n o u h u m an o (em seu n ascim en t o),
car r e go u o s n o sso s p e c ad o s (em su a m or t e), e t r iu n fo u
sob r e a m o r t e (em su a r essu r r eição), ele é sin gu lar m e n t e
com p et en t e p ar a salvar os p ecad or es. N in gu é m m ais t em
su as q u alificaçõ es. A ssim , p o d e m o s falar sob r e A lexan d r e,
o gr an d e, Ch ar les, o gr an d e, N ap o le ão , o gr an d e, m as n ão
Je su s, o gr an d e. Ele n ão é o gr an d e — ele é o Ú n ic o . N ão
existe n in gu é m co m o ele. Ele n ão t em rival n em su cessor .
A se gu n d a t e n d ên cia secu lar m u it o d ifu n d id a e a q u al
os d iscíp u lo s cr ist ãos devem r esist ir é o m aterialism o. O ma-
t er ialism o n ão é sim p lesm en t e u m a aceit ação d a r ealid ad e
d o m u n d o m at er ial. Se assim fosse, t o d o s os cr ist ãos ser iam
m at er ialist as, p o is acr ed it am o s qu e D eu s cr iou o m u n d o
m at er ial e d isp o n ib ilizou su as b ê n ção s a n ós. D eu s d eclar ou
a or d em m at er ial t am b ém p o r m eio d a en car n ação e r essu r ­
r eição d o seu Filh o, n a águ a d o b at ism o e n o p ão e v in h o d a
Sa n t a C o m u n h ão . N ã o é d e se ad m ir ar qu e W illiam Tem ple
t en h a d escr it o o cr ist ian ism o com o a religião m ais m at er ial
de t od as. P orém , ela n ão é m at er ialist a.
Pois m at er ialism o é u m a p r eo cu p ação com coisas m at e­
r iais, q u e p o d e m ab afar a n o ssa vid a esp ir it u al. N o en t an t o,
0 D ISCÍPULO RADICAL

Je su s n o s diz p ar a n ão ar m azen ar t esou r os n a t er r a e n os


ad ver t e con t r a a avareza. O m e sm o faz o ap ó st olo P au lo, n os
im p e lin d o a d esen volver u m est ilo d e vid a d e sim p licid ad e,
ge n e r o sid ad e e con t e n t am en t o , ext r ain d o tal p ad r ão d e su a
p r ó p r ia exp er iên cia d e ter ap r e n d id o a est ar con t en t e em
q u aisq u e r cir cu n st ân cias (Fp 4.11).
P au lo acr escen t a q u e “gr an d e fon t e de lu cr o é a p ie d ad e
co m o co n t e n t am e n t o ” (l T m 6.6) e con t in u a, exp lican d o
q u e “n ad a t em os t razido p ar a o m u n d o , n em coisa algu m a
p o d e m o s levar d ele”. Talvez, d e for m a con scien te, ele estivesse
r ep et in d o o q u e diz Jó : “N u saí d o ven tr e d e m in h a m ãe e
n u vo lt ar ei” (Jó 1.21). Em ou t r as palavr as, a vid a n a t erra
é u m a breve p er egr in ação en tr e d o is m om e n t os d e n u d ez.
A ssim , se r iam o s sáb io s se v iajásse m o s com p o u c a car ga.
N a d a levar em os co n o sco . (D ir ei m ais sob r e m at er ialism o
n o cap ít u lo 5.)
A t er ceir a t e n d ê n cia co n t e m p o r ân e a q u e n os am e aça
e à q u al n ão d evem os n os r en d er é o esp ír it o p é r fid o d o
relativism o ético.
Todos os padrões m orais que n os cercam estão se desfazen do.
Isso é ver d ad e esp ecialm en t e n o O cid en t e. A s p e ssoas se
co n fu n d e m d ian t e d a exist ên cia de q u aisq u er ab solu t os. O
r elat ivism o p er m eo u a cu lt u r a e tem se in filt r ad o n a igreja.
Em n e n h u m a esfer a esse r elat ivism o é m ais ób vio d o qu e
n a d a ética sexu al e n a r evolu ção sexu al viven ciad a d esd e os
an o s 60. Pelo m en o s on d e a ét ica ju d aico- cr ist ã er a levada
a sér io, o casam en t o er a u n iver salm en t e aceit o com o u m a
u n ião m o n o gâm ica, h e t e r ossexu al, am o r o sa e vit alícia, e
co m o o ú n ico con t ext o d ad o p o r D eu s p ar a a in t im id ad e
sexu al. A t u alm en t e, p or ém , m esm o em algu m as igrejas, a
r elação sexu al for a d o casam en t o é lar gam en t e p r at icad a,
IN CON FORM ISM O

d isp e n san d o o co m p r o m isso essen cial com u m casam en t o


a u t ê n t ic o . A lé m d isso , r e la c io n a m e n t o s e n t r e p e sso a s
d o m esm o sexo são vist os co m o alt er n at ivas legít im as ao
casam en t o h et er ossexu al.
P ara co m b at er t ais t en d ên cias, Je su s C r ist o ch am a seu s
d iscíp u los à ob ed iên cia e a se con for m ar em aos seu s p ad r ões.
A lgu n s d izem q u e Je su s n ão falou a r esp eit o d isso. M as ele
o fez. C it o u G ê n e sis 1.27 (“h o m e m e m u lh er os cr io u ”) e
G ê n e sis 2.2 4 (“d eixa o h o m e m p ai e m ãe e se u n e à su a m u ­
lh er, t or n an d o- se os d o is u m a só car n e ”), d an d o a d efin ição
b íb lica de casam en t o. E d ep ois d e cit ar esses ver sícu los, Je su s
deu -lh es seu p r ó p r io e n d o sso p essoal, d izen d o: “o qu e D eu s
aju n t o u n ão o sep ar e o h o m e m ” (M t 19.4-6).
Esse p o n t o d e vist a foi avaliad o cr it icam en t e p elo d ist in t o
filó so fo m or al e social, o am er ican o A b r ah am Ed e l (1 9 0 8 -
2007), cu jo p r in cip al livro ch am a-se Eth ical Judgm en t.1
“A m o r alid ad e é b asicam e n t e a r b it r ár ia”, escr eve ele,
co m p le m e n t an d o em ver sos livres:

Tu do depen de de on de você está,


Tu do depen de de quem você é,
Tu do depen de do que você sente,
Tu do depen de de com o você se sente.

Tu do depen de de com o você foi educado,


Tudo depen de do que é adm irado,
O que é correto h oje será errado am an h ã,
Alegria n a Fran ça, lamen to n a Inglaterra.

Tu do depen de do seu pon to de vista,


Austrália ou Tombuctu,
Em Rom a faça com o os rom an os.
Se os gostos acabam coin cidin do
En tão você tem m oralidade.
8 0 DISCÍPULO RADICAL

Mas on de existem ten dên cias con flitan tes,


Tu d o depen de, tudo depen de...

O s d iscíp u lo s cr ist ãos r ad icais d evem d isco r d ar d isso.


C e r t am e n t e n ão d evem os ser t ot alm e n t e in flexíveis em n os­
sas d ecisões éticas, m as devem os pr ocu r ar , com sen sib ilid ad e,
ap licar p r in cíp io s b íb licos em cad a sit u ação. O sen h o r io de
Je su s C r ist o é fu n d am e n t al p ar a o co m p o r t am e n t o cristão.
“Je su s é Se n h o r ” co n t in u a se n d o a b ase d a n ossa vida.
A ssim , a p er gu n t a fu n d am e n t al p ar a a igreja é: Q u e m é
Sen h or ? Ser á qu e a igreja exerce o sen h or io sobr e Jesu s Cr ist o,
t or n an d o- se livre p ar a alter ar e m an ip u lar ao aceit ar o qu e
go st a e r ejeit ar o q u e n ão gost a? O u Je su s C r ist o é o n osso
M est r e e Se n h or , d e m an eir a qu e cr em os n ele e ob ed ecem os
ao seu en sin am en t o?
Ele n os diz t am b ém : “Por qu e m e ch am ais Sen h or , Sen h or,
e n ão fazeis o q u e vos m an d o ?” (Lc 6.46). C o n fe ssar Jesu s
co m o Se n h or , m as n ão ob ed ecer a ele, é com o con st r u ir a
vid a sob r e a areia. N ovam en t e: “A q u e le qu e t em os m eu s
m an d am e n t o s e os gu ar d a, esse é o qu e m e a m a”, d isse ele
n o C e n ácu lo (Jo 14.21).
A q u i est ão d u as cu lt u r as e d o is sist em as d e valor es; d ois
p ad r õ e s e d o is est ilos d e vid a. Por u m lad o, h á o estilo d o
m u n d o ao n o sso red or; p o r ou t r o, a vo n t ad e revelada, b o a e
agrad ável de D eu s. D iscíp u los r ad icais t êm p o u ca d ificu ld ad e
d e fazer su as escolh as.
C h e gam o s agor a à q u ar t a t en d ên cia, qu e é o d esafio d o
n arcisísm o.
N ar ciso, n a m it ologia grega, foi u m jovem qu e viu seu
r eflexo em u m lago, apaixon ou - se p o r su a p r ó p r ia im agem ,
caiu d en t r o d ’águ a e se afogou . A ssim , “n ar cisism o” é u m
am o r excessivo, u m a ad m ir ação d e sm e d id a p o r si m esm o.
IN CON FORM ISM O 1

N o s an o s 70, o n ar cisism o se exp r e sso u p o r m e io d o


M ovim en to Poten cial H u m an o, qu e en fatizava a n ecessidade
d a au t o r r e alização . N o s an o s 8 0 e 90, o M o v im e n t o d a
N ov a Er a im it o u o M ovim en t o P oten cial H u m an o . Sh ir ley
M acLain e p o d e ser co n sid e r ad a sím b o lo d o m ov im en t o ,
p o is er a cega d e p aixão p o r si m esm a. D e acor d o com ela, a
b o a n ot ícia é essa:

Sei que existo; portan to, eu sou.


Sei que a força divin a existe; portan to, ela é.
Já que sou parte dessa força, sou o que sou.

Parece u m a p ar ó d ia d elib er ad a d a revelação q u e D eu s faz


d e si m esm o a M oisé s: “Eu so u o qu e so u ” (Ex 3.14).
A ssim , o M ovim en t o d a N ova Er a n os con vid a a olh ar par a
d en t r o d e n ós m esm o s e n os explor ar , p o is a so lu ção p ar a os
n osso s p r ob lem as está em n osso in terior. N ão p r ecisam os qu e
u m salvad or su r ja em algu m lu gar e ven h a até n ós; p o d e m o s
ser o n o sso p r ó p r io salvad or .
In felizm en te, u m a par t e d esse en sin am en t o t em p er m ead o
a igreja e h á crist ãos r ecom en d an d o qu e devem os n ão so m en ­
te am ar a D eu s e ao p r óxim o, m as t am b ém a n ós m esm os.
N o en t an t o , isso é u m erro p o r três r azões. Em p r im eir o
lu gar, Je su s falo u d o “p r im eir o e gr an d e m an d am e n t o ” e d o
“se gu n d o ”, m as n ão m e n cio n o u u m terceiro. Em segu n d o
lu gar, am o r p r ó p r io é u m d o s sin ais d os ú lt im os t em p os
(2 T m 3.2). Em t er ceiro lu gar, o sign ificad o d o am o r ágape
é o sacr ifício p r ó p r io em b en e fício d e ou t r os. Sacrificar-se
a ser viço d e si m e sm o é, n it id am e n t e , u m co n t r asse n so .
En t ão , q u al deve ser a at it u d e p ar a con osco? U m m ist o de
au t o afir m ação e au t on egação — afir m ar t u d o em n ós qu e
20 O DISCÍPULO RADICAL

vem d a n o ssa cr iação e r ed en ção, e n egar t u d o qu e p o d e ser


ligad o à q u ed a.
É aliviad or se livrar d e u m a p r eo cu p ação d o e n t ia con sigo
m esm o e voltar-se p ar a os sau d áveis m an d am e n t o s de D eu s
(in co r p o r ad o s e r efo r çad os p o r Je su s): am ar a D eu s d e t o d o
o cor ação e ao n o sso p r óxim o com o a n ós m esm os. Pois a
in t en ção d e D eu s p ar a a su a igreja é q u e ela seja u m a com u ­
n id ad e d e am or , d e ad o r ação e d e serviço.
T o d o s sab em q u e o am o r é a m aior vir t u d e d o m u n d o, e
os cr ist ãos sab em o m ot ivo: é p o r q u e D eu s é am or.
O cor t esão esp an h ol d o sécu lo 13, R aim u n d o Lú lio (m is­
sio n ár io en tr e os m u çu lm an o s n o N o r t e d a Áfr ica), escreveu
q u e “aq u ele q u e n ão am a, n ão vive”. Pois viver é am ar, e sem
am o r a p e r so n alid ad e h u m an a se d esin t egr a. É p o r isso qu e
t o d o s p r o cu r am au t ên t icos r elacio n am e n t os d e am or.
A t é ago r a, co n sid e r am o s q u at r o t e n d ê n cias secu lar es
q u e am eaçam su b ju gar a co m u n id ad e cristã. Em face d essas
t en d ên cias, so m o s ch am ad os a u m in co n for m ism o r ad ical,
n ão a u m co n fo r m ism o m ed íocr e. D ian t e d o d esafio d o
pluralism o, d evem os ser u m a co m u n id ad e de verd ade, d ecla­
r an d o a sin gu lar id ad e d e Je su s C r ist o. D ian t e d o d esafio d o
m aterialism o, devem os ser u m a co m u n id ad e d e sim p licid ad e,
co n sid e r an d o q u e so m o s p er egr in os aqu i. D ian t e d o d esafio
d o relatívism o, d evem os ser u m a co m u n id ad e de ob ed iên cia.
D ian t e d o d esafio d o narcisism o, d evem os ser u m a com u n i­
d ad e d e am or.
N ã o d ev em o s ser co m o can iço s agit ad o s p e lo ve n t o,
d o b r an d o - n o s d ian t e d as r ajad as d a o p in ião p ú b lica; m as t ão
in ab aláveis q u an t o p ed r as em u m a corren teza. N ã o d evem os
ser co m o peixes q u e flu t u am n a cor r en t e d o r io (com o diz
M alcolm M u gger id ge, “som en t e peixes m or t os n ad am com
INCON FORM ISM O

a cor r en t e”); d evem os n ad ar co n t r a ela, con t r a a t en d ên cia


cu lt u r al. N ã o d evem os ser co m o cam aleões, qu e m u d am de
cor d e aco r d o com o am b ien t e; d evem os n os o p o r d e fo r m a
visível ao am b ien t e em q u e e st am os.

N ão devemos ser como caniços agitados pelo


vento, dobrando-nos dian te das rajad as da
opin ião pública, m as tão in abaláv eis quan to
pedras em um a correnteza

En t ão , a q u e os cr ist ãos d evem se assem elh ar , se n ão de-


vem os ser co m o can iços, p eixes m or t os ou cam aleões? Se r á
q u e a P alavra d e D eu s é t ot alm e n t e n egativa, n o s d izen d o
sim p lesm en t e p ar a n ão ser m os m o ld ad o s à fo r m a d aq u eles
q u e est ão n o m u n d o ao n o sso redor? N ão . Ela é posit iva. D e ­
vem os ser co m o C r ist o , “con fo r m es à im agem d e seu Filh o ”
(R m 8.29). E isso n os leva ao se gu n d o cap ít u lo.
Capít ulo 2

SEMELHANÇA COM CRISTO

l i m ab r il d e 2007, co m em o r ei m eu 86" an iver sár io e u sei a


o p o r t u n id ad e p ar a an u n ciar m in h a ap o se n t ad o r ia d o m ín is-
tér io p ú b lico ativo. A p esar de r ecu sar t od o s os com p r om issos
su b seq u en t es, já t in h a em m in h a agen d a u m con vit e p ar a
falar n a C o n fe r ên cia d e Kesw ick,1em ju lh o d aqu ele an o. Este
cap ít u lo é b ase ad o n o texto d aq u ele ú lt im o ser m ão.
Lem bro-m e clar am en te d a p er gu n t a qu e m ais in com od ava
m eu s am igos e eu q u an d o ér am o s joven s: q u al é o p r o p ó sit o
d e D eu s p ar a o seu povo? O qu e vem d ep ois d e n os con ver­
t er m os?
É clar o q u e co n h ecíam os a fam o sa d eclar ação d o Breve
C a t e c ism o d e W est m in st er , d e q u e o “fim p r in cip al d o
h o m e m é glor ificar a D eu s e gozá-lo p ar a sem p r e”. E n os
e n t r et ín h am o s com u m a d eclar ação ain d a m ais breve: “A m e
a D eu s, am e o seu p r ó xim o ”.
P orém , n en h u m a d elas par ecia ser t ot alm en t e sat isfat ór ia.
Assim , gost ar ia d e com p ar t ilh ar o qu e tem feito m in h a m en te
d e scan sar ao m e ap r oxim ar d o fim cie m in h a per egr in ação
p ela ter ra. É o segu in t e: D eu s qu er qu e o seu povo se t or n e
co m o C r ist o , p o is sem e lh an ça com C r ist o é a von t ad e de
D eu s p ar a o p ovo d e D eu s.
0 DISCÍPULO RADICAL

In icialm en t e, ap r esen t ar ei u m fu n d am e n t o b íb lico p ar a


o con vit e à se m e lh an ça com C r ist o ; d ep ois, d ar ei algu n s
exem p los d o N ovo T e st am e n t o ; e fin alm en t e, p ar t ilh ar ei
algu m as con clu sões pr át icas.

Base bíblica

A b ase b íb lica n ão é u m sim ples texto, p ois ela é m ais substan -


ciai d o q u e p o d e m o s r esu m ir em u m texto. C o n sist e de três
ver sícu los q u e ser á b o m m an t e r m os r elacio n ad os: R o m an o s
8.2 9 , 2 C o r ín t io s 3.18 e 1 Jo ã o 3.2.
O pr im eir o texto é R om an o s 8.29: D eu s “pr ed est in ou [seu
povo] p ar a ser em con for m es ã im agem de seu Filh o”. Q u an d o
A d ão caiu , p er d e u m u it o (ap esar d e n ão t u d o) d a im agem
d ivin a n a q u al ele h avia sid o cr iad o. P orém , D eu s a r est au r ou
em C r ist o . C o n fo r m id ad e à im agem de D eu s sign ifica ser
co m o Je su s, e a se m e lh an ça com C r ist o é o p r o p ó sit o et er n o
p ar a o q u al D e u s n o s p r ed e st in o u .
O se gu n d o texto é 2 C o r ín t io s 3.18: “E t o d o s n ós, com
o r ost o d esven d ad o, con t e m p lan d o [ou r eflet in d o], com o
p o r esp elh o, a glór ia d o Se n h or , so m o s t r an sfor m ad o s [ou
m u d ad os], d e glór ia em glór ia, n a su a p r óp r ia im agem , com o
p elo Se n h or , o E sp ír it o ”.
A p er sp ect iva m u d o u — d o p assad o p ar a o p r esen t e; d a
p r ed e st in ação et er n a d e D eu s p ar a a t r an sfor m ação qu e ele
realiza em n ós n o p r esen t e p o r m eio d o seu Esp ír it o San t o ;
d o p r o p ó sit o et er n o de D eu s d e n os fazer com o C r ist o, p ar a
a o b r a h ist ór ica d e n o s t r an sfor m ar à im agem d e C r ist o m e­
d ian t e o seu Esp ír it o.
O ter ceiro texto é 1 Jo ã o 3.2: “A m ad o s, agor a, so m os
filh os de D eu s, e ain d a n ão se m an ifest ou o qu e h aver em os
SEM ELHAN ÇA COM CRISTO

d e ser. Sa b e m o s q u e, q u a n d o ele se m an ifest ar , se r e m o s


sem elh an t es a ele, p o r q u e h aver em os d e vê-lo co m o ele é ”.
E se D eu s est á t r ab alh an d o com essa fin alid ad e, n ão é su r ­
p r esa q u e ele n o s ch am e p ar a co o p e r ar com ele. “Siga- m e”,
diz ele, “im ite-m e”.
M u itos já ou vir am falar d o livro Im itação de Cristo, escrito
n o in ício d o sécu lo 15 p or Th o m as à Kem pis. Tan tas edições e
tradu ções for am pu b licadas qu e, d ep ois d a Bíblia, ele é prova­
velm en te o best-seller m u n d ial. N a verdade ele n ão fala sobre
im itar a Cr ist o, p ois seu con teú d o é b em m ais diverso. Porém , o
títu lo se or igin ou d as prim eiras palavras d o livro, e su a en or m e
p op u lar id ad e é u m a in dicação d a im por tân cia d o assu n to.
A ssim , r e t o r n an d o a 1 Jo ã o 3.2; n ós sab em o s e n ão sab e­
m os; n ão sab em o s com d et alh es o qu e ser em os, m as sab em os
qu e ser em os co m o C r ist o. E, n a ver d ad e, n ão h á n ece ssid ad e
d e sab er m o s m ais n ad a. Est am o s con t en t es com a glor io sa
ver d ad e d e q u e est ar em os com C r ist o e ser em os co m o ele.
A q u i, en t ão, est ão três p er sp ect ivas (p assad o , p r esen t e
e fu t u r o) e t o d as ap o n t am p ar a a m esm a d ir eção: o eterno
p r o p ó sit o d e D eu s (n ós fo m os p r e d e st in ad os); o p r o p ó sit o
histórico d e D eu s (est am os se n d o m u d ad o s, t r an sfor m ad o s
p elo Esp ír it o San t o ); e o p r o p ó sit o escatológico de D eu s (sere­
m o s co m o ele). T u d o isso con t r ib u i p ar a a m esm a fin alid ad e
d e sem e lh an ça com C r ist o, p o is esse é o p r o p ó sit o d e D eu s
p ar a o seu povo.

Se afirm am os ser cristãos, devemos ser como Cristo


o d i s c Ip u l o r a d ic a l

T e n d o est ab elecid o a b ase b íb lica, ou seja, a sem elh an ça


co m C r ist o é o p r o p ó sit o d e D e u s p ar a o p ovo d e D eu s,
q u er o p r o sse gu ir ilu st r an d o essa v e r d ad e com vár ios exe m ­
p lo s d o N o v o T e st am e n t o . A n t es, u m a d e clar ação ger al de
1 Jo ã o 2.6: “A q u ele q u e diz qu e p er m an ece n ele, esse deve
t am b ém an d ar assim com o ele a n d o u ”. Se afir m am os ser
cr ist ãos, d evem os ser com o Cr ist o.

Ex em plos do Novo Test am ent o


Devem os ser com o Cristo em sua encarnação

A lgu n s p o d e m r ecu ar h or r or izad os an te a t al ideia. “Ser á


q u e a en car n ação foi u m even to t ot alm en t e ú n ico e im pos-
sível d e ser im it ad o ?”
A r e sp o st a é sim e n ão . Sim , p o r q u e o Filh o d e D e u s
assu m iu n o ssa h u m a n id a d e p ar a si m e sm o em Je su s d e
N azar é , u m a vez p o r t o d a s e se m n e ce ssid a d e d e r e p e t i­
ção. N ã o , p o r q u e t o d o s n ó s so m o s c h a m a d o s a se gu ir
o e xe m p lo d e su a h u m ild a d e . A ssim , P au lo escr eve em
Filip e n se s 2.5-8:
Ten de em vós o m esm o sen tim en to que houve tam bém em
Cristo Jesus, pois ele, subsistin do em forma de Deus, n ão
julgou com o usurpação o ser igual a Deus; antes, a si m esmo
se esvaziou, assum in do a form a de servo, tornando-se em
sem elh an ça de h om en s; e, recon h ecido em figura h um an a,
a si m esm o se h um ilh ou, tornando-se obedien te até à morte
e m orte de cruz.

Devem os ser com o Crist o em seu serviço

P assar em os agor a d a en car n ação p ar a a vid a d e ser viço.


A ssim , vam os p ar a o C e n ácu lo , on d e Je su s p asso u a ú lt im a
n oit e com os d iscíp u los. D u r an t e a ceia, ele t ir ou a vest im en t a
SEM ELHAN ÇA COM CRISTO

d e cim a, cin giu - se co m u m a t o a lh a , c o lo c o u á g u a n u m a


b a c ia e lav o u o s p é s d o s d isc íp u lo s. Q u a n d o t e r m in o u ,
ele r e t o m o u se u lu gar à m e sa e d isse : “O r a , se e u , sen -
d o o Se n h o r e o M e st r e , v o s lavei o s p é s, t a m b é m v ó s
d e v e is lav ar o s p é s u n s d o s o u t r o s. P o r q u e eu v o s d e i o
e xe m p lo , p a r a q u e , c o m o eu v o s fiz, fa çais v ó s t a m b é m ”
(Jo 13.14-15).
A lgu n s cr ist ãos acat am a o r d em d e Je su s lit er alm en t e e
m u it as vezes fazem a cer im ôn ia d o lava-pés p o r ocasião d a
C e ia d o Sen h or . E talvez eles est ejam cer tos. Porém , a m aior ia
aplica a o r d em cu lt u r alm en t e. Isto é, assim co m o Je su s fez
o q u e, em su a cu lt u r a, er a o t r ab alh o d e u m escravo, n ós,
em n o ssa cu lt u r a, n ão d evem os co n sid e r ar n e n h u m a t ar efa
sim p les ou h u m ilh an t e d em ais.

Devem os ser com o Crist o em seu am or

C o m o escreve P au lo: “E an d ai em am or, co m o t am b ém


C r ist o n os am o u e se en t r egou a si m esm o p o r n ós, com o
ofer t a e sacr ifício a D eu s, em ar om a su ave” (E f 5.2). “A n d ar
em am o r ” é u m a or d em p ar a qu e t o d o o n osso co m p o r t a­
m e n t o se ja car act er izad o p e lo am or . Já “en tr egar - se” p o r
n ós, é u m a r efer ên cia clar a á cruz. A ssim , P au lo est á n os
in cen t iv an d o a ser com o C r ist o em su a m or t e; a am ar com
o am o r d o Calv ár io.
Percebe o qu e est á acon t ecen d o? P au lo n os est á im p elin d o
a ser co m o o C r ist o d a en car n ação, o C r ist o d o lava-pés e o
C r ist o d a cruz.
Tais even t os in d icam clar am en t e o qu e sign ifica, n a p r át i­
ca, ser sem elh an t e a Cr ist o. Por exem plo, n o m esm o capít u lo,
P au lo est im u la os m ar id o s a am ar em as esp osas com o C r ist o
am o u a igreja e se d eu p o r ela (E f 5.25).
0 DISCÍPULO RADICAL

Devem os ser com o Cristo em sua longanim idade

A q u i co n sid e r am o s o e n sin o d e P edro e n ão d e P au lo.


T o d o s os cap ít u lo s d a p r im e ir a car t a d e P ed ro falam d o
so fr im en t o d e C r ist o , p o is o con t ext o d a car t a é o com eço
d a p er segu ição.
N o cap ít u lo 2, em especial, P edro in cen t iva os escravos
cr ist ãos (se p u n id o s in ju st am en t e) a su p o r t ar o so fr im en t o
sem p agar o m al com o m al (lP e 2.18). So m o s ch am ad o s a
agir assim p o r q u e C r ist o t am b ém sofr eu , d eixan d o- n os o
exem p lo p ar a q u e sigam os seu s p asso s (lP e 2.21).
Tal ch am ad o à sem e lh an ça com C r ist o n o so fr im en t o
in ju st o p o d e se t or n ar cad a vez m ais sign ifican t e em m u it as
cu lt u r as n as q u ais a p er segu ição t em crescid o.

Devem os ser com o Crist o em sua m issão

T en d o o b se r v ad o o e n sin o d e P au lo e d e Pedro, ob ser var e­


m o s o e n sin o d e Je su s r egist r ad o p o r Jo ão (Jo 17.18; 20.21).
Em or ação, Jesu s diz ao Pai: “A ssim com o tu m e en viaste ao
m u n d o , t am b ém eu os en viei ao m u n d o ”; e, ao com ission á-
los, ele diz: “A ssim com o o Pai m e en viou , eu t am b ém vos
en vio”. Essas palavr as t êm u m sign ificad o p r o fu n d o .
N ã o se t r a t a ap e n as d a v e r são d a G r a n d e C o m issã o
r e gist r ad a n o Ev an ge lh o d e Jo ã o ; é t am b é m u m a in st r u ­
ção p ar a q u e a m issão d o s d isc íp u lo s se a sse m e lh asse à
d e C r ist o . Em q u e se n t id o ? A s palavr as- ch ave são “en viei
ao m u n d o ” . Ist o é, c o m o C r ist o t eve d e e n t r ar em n o sso
m u n d o , n ó s t a m b é m p r e c isa m o s e n t r ar n o m u n d o d e
o u t r as p e sso as.
Isso foi exp licad o com eloq ü ên cia pelo ar ceb isp o M ich ael
Ram say, q u e d isse: “N ó s d eclar am os e r ecom en d am o s a fé à
m ed id a q u e saím o s e p en et r am os n as d ú vid as d os d u vid osos,
SEM ELHAN ÇA COM CRISTO

n as p er gu n t as d o s q u e st io n ad o r e s e n a so lid ão d aq u eles qu e
p er d er am o r u m o ”.2
Essa en t r ad a n o m u n d o d e ou t r as p essoas é exat am en t e
o q u e q u er em os dizer p o r m issão en car n acion al — e t od a
m issão au t ên t ica é en car n acion al.
A q u i est ão , talvez, as cin co p r in cip ais m an e ir as p elas
q u ais d evem os n os assem elh ar a C r ist o : em su a en car n ação,
em seu ser viço, em seu am or, em su a lo n gan im id ad e e em
su a m issão.

Três conseqüências práticas

C o n clu ir e m o s agor a co m três co n se q ü ê n cias p r át icas d as


b ases e exem p los d e se m e lh an ça com C r ist o qu e acab am os
d e con sid er ar .

Sem elhança com Cristo e o m ist ério do sofrim ent o

O so fr im en t o é u m assu n t o vast o e os cr ist ãos t en t am


en ten dê-lo d e m u it as for m as. P orém , a qu e se d est aca é a qu e
diz q u e o so fr im en t o é p ar t e d o p r ocesso de D eu s p ar a n os
fazer co m o C r ist o . Se ja u m d e sap o n t am e n t o ou u m a fr u st r a­
ção, p r ecisam o s t en t ar vê-lo à luz d e R o m an o s 8.28 e 29.
D e acor d o com R o m an o s 8.2 8 , D eu s est á sem p r e t r ab a­
lh an d o p ar a o b em d e seu povo, e d e acor d o com R o m an o s
8.29, esse b o m p r o p ó sit o é n os fazer co m o Cr ist o.

Sem elhança com Cristo e o d esaf io do evangelism o

Por qu e n osso s esfor ços evan gelísticos são fr equ en tem en t e


d esast r osos? H á vár ias razões, e n ão p o sso sim plificar , m as
u m a d as p r in cip ais é q u e n ão p ar ecem os com o C r ist o qu e
p r o clam am o s.
0 DISCÍPULO RADICAL

“Se vocês, cristãos, vivessem como Jesus Cristo,


a ín dia estaria aos seus pés am an h ã”

Jo h n P ou lt on escr eveu so b r e d isso em seu breve, m as


per cep t ivo livro A Today Sort of Evangelism :

A pregação mais eficaz provém daqueles que vivem con for­


me aquilo que dizem. Eles próprios são a m en sagem . O s
cristãos têm de ser sem elh an tes àquilo que falam. A com u­
n icação acon tece fun dam en talm en te a partir da pessoa, não
de palavras ou ideias. E no m ais ín tim o das pessoas que a
auten ticidade se faz entender; o que agora se transm ite com
eficácia é, basicam en te, a auten ticidade pessoal.3

Sem elh an t em en t e, u m p r ofessor h in d u , id en t ifican d o u m


d o s alu n os co m o cr ist ão, d isse: “Se vocês, cr ist ãos, vivessem
co m o Je su s C r ist o , a ín d ia est ar ia aos seu s p és am an h ã”.
O u t r o exem plo é o d o r everen do Isk an d ar Jad eed , u m
ex-m u çu lm an o ár abe, qu e disse: “Se t od os os cristãos fossem
cristãos, h oje n ão h averia m ais islam ism o”. N ão con h eço pesso­
alm en t e os au tores desses dizeres, m as creio ser em gen u ín os.

Sem elhança com Cristo e a habitação do Espírito

Já falei b ast an t e sob r e sem e lh an ça com C r ist o, m as com o


ela é p ossível p ar a n ós? C lar am e n t e n ão é p ela n o ssa p r ó p r ia
for ça, já q u e D eu s n o s d eu o seu Esp ír it o San t o p ar a n os
cap acit ar a cu m p r ir seu p r op ósit o .
SEM ELHAN ÇA COM CRISTO

W illia m T e m p le c o st u m a v a ilu st r a r isso a p a r t ir d e


Sh ak esp ear e:

Não adian ta me dar um a peça com o Hamlet ou Rei Lear e me


dizer para escrever algo assim. Sh akespeare podia fazer isso,
eu n ão posso. E n ão adian ta me m ostrar um a vida com o a
de Jesus e me dizer para viver com o ele. Jesus era capaz, eu
n ão. Porém, se o gên io de Sh akespeare pudesse vir m orar
em mim , en tão eu poderia escrever peças com o as dele. E
se o Espírito de Jesus pudesse vir m orar em mim, en tão eu
viveria um a vida com o a dele.

O p r o p ó sit o d e D eu s é n o s fazer co m o C r ist o . E a for ­


m a co m o ele faz isso é n os en ch e n d o com o seu Esp ír it o
San t o .
Capítulo 3

MATURIDADE

N a d é cad a d e 90, q u an d o viajava em n om e d a Lan gh am


P ar t n er sh ip In t e r n at ion al, sem p r e per gu n t ava aos qu e m e
ou v iam co m o eles d efin ir iam o cen ár io cr ist ão n o m u n d o
at u al. E r eceb ia u m a var ied ad e d e r esp ost as. Q u a n d o con ­
v id ad o a d ar m in h a o p in ião , eu a r esu m ia em ap e n as três
palavr as: “cr escim en t o sem p r o fu n d id ad e ”.
N in gu é m d u v id a d o cr escim en t o fe n o m en al d a igreja em
vár ias p ar t es d o m u n d o . A s est at íst icas são su r p r een d en t es.
N ão é exagero d escrever esse cr escim en t o com o “e xp lo são ”.
Por exem plo, a igreja n a C h in a cresceu p elo m en os cem vezes
d esd e a m et ad e d o sécu lo 20. H oje, m ais cr ist ãos ad o r am a
D eu s t od o s os d o m in gos n a C h in a d o qu e em t od as as igrejas
d a Eu r o p a O cid e n t al ju n t as.
A o m esm o t em p o , n ão d evem os ced er ao t r iu n falism o,
p o is n a m aio r ia d o s casos trata-se d e cr escim en t o sem p r o­
fu n d id ad e.
A su p e r ficialid ad e n o d iscip u lad o existe em t o d o lu gar, e
os líd er es eclesiást icos lam e n t am essa sit u ação. U m líd er d o
su l d a Á sia disse-m e r ecen t em en t e qu e, ap esar de a igreja em
seu p aís est ar cr escen d o n u m er icam en t e, “existe u m en or m e
0 DISCÍPULO RADICAL

p r o b le m a de falt a de con sagr ação e in t egr id ad e”. D e m od o


sem elh an t e, u m líd er afr ican o disse-m e qu e, ap esar d e est ar
con scien t e d o r áp id o cr escim en t o d a igreja afr ican a, “ele é,
em gr an d e par t e, n u m ér ico [...]. A igreja est á sem u m a b ase
b íb lica e t eológica for te qu e pr oven h a d ela m e sm a”.
M ais im p r ession an t e é a declar ação feita em abril de 2006,
em Los An geles, p o r C a o Sh en gjie, n a ép oca p r esid en t e d o
C o n se lh o C r ist ão C h in ê s:
Algu n s dizem qu e a igreja está in do bem qu an d o h á
crescimen to n um érico [...] e querem os ver pessoas sen do
acrescidas à igreja todos os dias. Porém, n ão estam os bus­
can do apen as n úm eros, m as que o aum en to n os n úm eros
correspon da à con firm ação de fé da igreja.

Essas três citações de líderes de países em d esen volvim en to


são su ficien t es p ar a m ost r ar qu e “cr escim en t o sem p r o fu n ­
d id ad e ”, ou cr escim en t o est at íst ico sem o d esen volvim en t o
d e u m d iscip u lad o , n ão é u m a con clu são im p o st a p elo resto
d o m u n d o — é a visão d o s p r ó p r io s líderes.
A lé m d isso , a sit u ação é sér ia p o r q u e d e sagr ad a a D eu s.
O u sa m o s d izer isso p o r q u e os ap ó st o lo s cu jas car t as en ­
co n t r am o s n o N o v o T e st am e n t o ce n su r ar am seu s leit or es
p ela im at u r id ad e d eles e os im p e lir am a se t o r n ar e m ad u l­
t os. C o n sid e r e , p o r exem p lo, a cr ít ica d e P au lo à igr eja de
C o r in t o :
Eu, porém , irmãos, n ão vos pude falar com o a espirituais,
e sim com o a carnais, com o a crianças em Cristo. Leite
vos dei a beber, n ão vos dei alim en to sólido; porque ain da
n ão podíeis suportá-lo. Nem ain da agora podeis, porque
ain da sois carnais. Porquan to, h aven do entre vós ciúm es e
con ten das, n ão é assim que sois carnais e an dais segun do
0 homem?
1 Corín tios 3.1-3
MATURIDADE

P o r é m , h á o u t r a p a ssa ge m e sc r it a p o r P au lo so b r e
m at u r id ad e, e são esses ver sícu los qu e q u er o d est acar n este
cap ít u lo:

An u n ciam os [CristoJ, advertin do a todo h om em e en si­


n an do a todo h om em em toda a sabedoria, a fim de que
apresen tem os todo h om em perfeito (teleios) em Cristo; para
isso é que eu tam bém me afadigo, esforçando-me o mais
possível, segun do a sua eficácia que opera eficientem en te
em mim.
Colossen ses 1.28-29

O ad jetivo gr ego teleios ocor r e dezen ove vezes n o N ovo


T est am en t o e p o d e ser t r ad u zid o p o r “p e r fe it o ” o u p o r “m a­
d u r o ”, d e p e n d e n d o d o con t ext o. R ar am en t e sign ifica “per ­
fe it o ” n u m se n t id o ab solu t o. Em vez d isso, o teleios (pessoa)
con t r ast a com a crian ça ou b eb ê (p or exem plo, I C o 13.10-11).
A ssim , é m elh or e n t e n d e r m o s teleios com o “m ad u r o ”.
Para en t e n d e r o sign ificad o d e u m t exto, n or m alm e n t e é
b o m fazer com ele u m a espécie d e in terr ogat ór io e im portu n á-
lo com p er gu n t as in vestigativas. É o qu e p r o p o n h o fazer com
C o lo sse n se s 1.28-29.
A p r im eir a e m ais b ásica p er gu n t a é sobr e a essên cia d a
m at u r id ad e. O q u e é m at u r id ad e cristã? O fat o é qu e ela é
algo d ifícil d e ser ob t id o . A m aio r ia d e n ós sofr e de im atu-
r id ad es p r o lo n gad as. M esm o n o ad u lt o, a p e q u e n a cr ian ça
ain d a se esco n d e em algu m lugar.
A lém d isso, existem difer en tes t ip os de m at u r id ad e. Existe
a física (ter u m cor p o sau d ável e b em desen volvid o), a in telec­
t u al (ter u m a m en te d iscip lin ad a e u m a cosm ovisão coeren te),
a m or al (aqu eles q u e “t êm as su as facu ld ad es exer citadas p ar a
d iscer n ir n ão so m en t e o bem , m as t am b ém o m al”, H b 5.14),
a e m o cio n al (ter u m a p e r so n alid ad e eq u ilib r ad a, capaz de
36 0 DISCÍPULO RADICAL

est ab elecer r elacio n am e n t os e assu m ir r esp on sab ilid ad es).


P orém , acim a de t u d o , existe a m at u r id ad e esp ir it u al. E isso
é o q u e o ap ó st o lo ch am a d e m at u r id ad e “em C r ist o ”, isto
é, ter u m r elacio n am e n t o m ad u r o com Cr ist o.
A fo r m a m ais c o m u m u sa d a p o r P au lo p ar a d e fin ir
cr ist ão s é d izer q u e eles são h o m e n s e m u lh er es “em Cr is-
t o ”— n ão d e n t r o d e C r ist o , co m o r o u p as em u m ar m ár io
o u fe r r am e n t as em u m a caixa, m as com o os r am o s qu e
e st ão n a v id eir a e co m o os m em b r os qu e e st ão no co r p o ,
o u seja, u n id o s em C r ist o . A ssim , est ar “em C r ist o ” é est ar
r e lacio n ad o a ele d e fo r m a p e sso al, vit al e o r gân ica. N esse
se n t id o , ser m ad u r o é ter u m r e lacio n am e n t o m ad u r o com
C r ist o , n o q u al o ad o r am o s, co n fiam o s n ele, o am am o s e
lh e o b e d e ce m o s.
A p r ó xim a p e r gu n t a a fazer é co m o os cr ist ãos se t o r n am
m ad u r o s. O t ext o n o s fo r n e ce u m a r e sp o st a clar a. C o n ­
sid e r e a b ase d o v e r sícu lo 28: “N ó s a n u n c ia m o s [Cr ist o ]
[...] a fim d e q u e a p r e se n t e m o s t o d o h o m e m p e r fe it o em
C r ist o ” .

Ser m aduro é ter um relacionam ento m aduro


com Cristo, no qual o adoram os, confiam os
nele, o am am os e lhe obedecemos

E lógico qu e, se m at u r id ad e crist ã é m at u r id ad e em n o sso


r elacio n am en t o com Cr ist o, n o q u al o ad o r am os, con fiam o s
n ele e lh e o b ed ecem os, en t ão, q u an t o m ais clar a for a n ossa
MATURIDADE

visão de C r ist o , m ais con ven cid os n os t o r n am o s d e qu e ele


é d ign o d e n o ssa d ed icação.
N a in t r o d u ção d o livro O Conhecim ento de Deu s,1 J. I.
Packer escreve q u e so m o s “cr ist ãos p igm eu s p o r q u e t em os
u m D eu s p igm e u ”. P od em os dizer, igu alm en t e, qu e so m o s
cr ist ãos p igm eu s p o r q u e t em os u m Cristo p igm eu . A ver d ad e
é qu e existem m u it os “C r ist o s” sen d o ofer ecidos n as religiões
com er ciais d o m u n d o , e m u it os d eles são falso s C r ist o s,
C r ist o s d ist o r cid os, car icat u r as cio Je su s au t ên t ico.
A t u alm en t e, p o r exem plo, en con t r am os o Je su s capit alist a
com p e t in d o com o Jesu s socialist a. H á t am b ém o Je su s ascet a
se o p o n d o ao Je su s glu t ão. Se m falar n os fam o so s m u sicais
— Godspell, co m o Je su s p alh aço , e Jesus Cristo Superstar.
Exist ir am m u it o s ou t r os. P orém , t o d o s er am d ist o r cid os e
n e n h u m d eles m erece n o ssa ad o r ação e cu lt o. C a d a u m é o
qu e P au lo ch am a de “ou t r o Je su s”, d ifer en t e d o Je su s q u e os
ap ó st o lo s p r oclam ar am .
A ssim , se q u e r e m o s d ese n v o lv e r u m a m a t u r id a d e ver ­
d ad e ir a m e n t e cr ist ã, p r e c isam o s, acim a d e t u d o , d e u m a
v isão r e n o v a d a e v e r d ad e ir a d e Je su s C r ist o — p r in c ip a l­
m e n t e d e su a su p r e m ac ia a b so lu t a , cia q u al P au lo fala em
C o lo sse n se s 1.15-20. E u m a d as p assage n s cr ist o ló gic as
m ais su b lim e s d e t o d o o N o v o T e st am e n t o . Eis u m a sim ­
p le s p ar áfr ase :

Jesus é a im agem visível do Deus invisível (v. 15); assim,


quem o vir, terá visto o Pai. Ele é tam bém “o prim ogên ito
sobre toda a criação”. N ão que ele próprio ten h a sido
criado, mas ele tem os direitos de um prim ogên ito, e por
isso é o “Sen h or e cabeça” da criação (v. 16). Por m eio dele
o universo foi criado. Todas as coisas foram criadas por
meio dele com o agente e para ele com o cabeça. A un idade
e a coerên cia das coisas são en con tradas nele. Além disso,
0 DISCÍPULO RADICAL

(v. 18) ele é a cabeça do corpo, a igreja. Ele é o prin cípio


e o prim ogên ito de entre os m ortos, de tal m an eira que
em todas as coisas ele possa ter a preem in ên cia. Pois Deus
se agradou (v. 19-20) ao fazer h abitar toda a sua plen itude
em Cristo e tam bém ao recon ciliar todas as coisas con sigo
m edian te Cristo, alcan çan do a paz por m eio do san gue de
sua cruz.

Fo i d e ssa fo r m a q u e P au lo p r o c la m o u C r ist o co m o
Se n h o r — c o m o Se n h o r d a cr iação (aq u e le p o r m e io d e
q u e m t o d as as co isas fo r am feit as) e com o Se n h o r d a igr eja
(aq u e le p o r m e io d e q u e m t o d a s as co isas fo r am r e c o n ­
c iliad as). P or cau sa d e q u e m ele é (a im age m e p le n it u d e
d e D e u s) e p o r c au sa d o q u e ele fez (aq u e le q u e cr io u e
r e c o n c ilio u ), Je su s C r ist o t em u m a d u p la su p r e m a c ia .
Ele é o c ab e ça d o u n iv e r so e d a igr eja. Ele é o Se n h o r d e
am b as as cr iaçõ e s.
Essa é a d escr ição exat a q u e o ap óst olo faz d e Je su s Cr ist o.
O n d e d ever íam os est ar sen ão com os r ost os em t erra d ian t e
dele? A fast e m o s d e n ó s o Je su s in sign ifican t e, fr aco, pigm eu .
A fast e m o s d e n ós o Je su s p alh aço e p o p star. A fast e m o s t am ­
b ém o M essias p olít ico e r evolu cion ár io. Eles são car icatu r as.
Se é assim q u e o en xer gam os, n ão su r p r een d e a p er sist ên cia
de n o ssa im at u r id ad e.
O n d e , en t ão, e n co n t r ar em os o Je su s au t ên t ico? Ele deve
ser e n con t r ad o n a Bíb lia — o livro qu e p od e ser d escr it o com o
o r et rato q u e o Pai fez d o Filh o, color id o p elo Esp ír it o San t o.
A Bíb lia é r ep let a d e C r ist o . C o m o ele p r ó p r io diz, as Escr i­
t u ras “t est ificam d e m im ” (Jo 5.39). Je r ô n im o , o an t igo Pai
d a Igreja, escreve q u e “ign or ân cia d a Escr it u r a é ign or ân cia
de C r ist o ”. D a m esm a for m a, p o d e m o s dizer qu e con h ecer
a Escr it u r a é con h ecer a C r ist o.
MATURIDADE

N ad a é m ais im portante p ara um discipulado


cristão m aduro do que um a visão renovada,
clara e verdadeira do Jesus autên tico

Se a v e n d a fosse r et ir ad a d o s n o sso s olh os, se p u d é sse m o s


ver Je su s n a p len it u d e de q u em ele é e d o qu e ele t em feito,
cer tam en t e ver íam os o q u an t o ele é d ign o d a n o ssa d ed icação
ap aixo n ad a. A fé, o am o r e a o b e d iê n cia b r o t ar iam d e n ós e
cr escer íam os em m at u r id ad e. N a d a é m ais im p o r t an t e p ar a
u m d iscip u lad o cr ist ão m ad u r o d o q u e u m a visão r en ovad a,
clar a e ver d ad eir a d o Je su s au t ên t ico.
A go r a q u e já d e fin im o s o q u e é m at u r id ad e cr ist ã e
vim os co m o os d iscíp u los se t or n am m ad u r os, ch egam os à
ter ceira p er gu n t a: p ar a q u em esse ch am ad o à m at u r id ad e é
d ir ecion ad o? E n otável qu e n esse texto P au lo r epet e a palavr a
“t o d o ”: “o q u al n ós an u n ciam os, ad ver t in d o a todo h o m em e
e n sin an d o a todo h o m e m em t o d a a sab ed or ia, a fim d e qu e
ap r ese n t em o s todo h o m e m p er feit o em C r ist o ” (C l 1.28). O
con t ext o d essa t r ip la r ep et ição p r ovavelm en te é a ch am ad a
“h er esia colo sse n se”. O s est u d iosos ain d a d eb at em su a for m a
exata, m as é q u ase cer to qu e foi u m gn ost icism o em b r ion ár io
q u e ch egou ao au ge n a m et ad e d o sécu lo 2.
Esses p r im eir o s gn óst icos p ar ecem ter e n sin ad o qu e h avia
d u as classes o u cat egor ias de cr ist ãos. Por u m lad o, h avia os
hoi polloí, o r eb an h o com u m , q u e er a u n id o p ela pistis, a fé.
40 O DISCÍPULO RADICAL

Por ou t r o, h avia os hoi teleioi, a elite, qu e h avia sid o in iciad a


pela gnosis, o con h ecim en t o especial. P au lo ficou h orrorizado
com esse elitism o cr ist ão e se o p ô s fir m em en t e a ele. A o pro-
clam ar a C r ist o , ele t o m o u a palavr a d os gn óst icos, teleios, e
aplicou -a a t od os. Ele aler t ou e e n sin ou a t od o s, r ogou par a
qu e p u d e sse ap r esen t ar t o d o s m ad u r os (teleios) em Cr ist o.
A m at u r id ad e em C r ist o est á en fat icam en t e d ispon ível n ão
som en t e a u m seleto gr u po d e p essoas; m as a t od os. N in gu ém
pr ecisa fr acassar em obtê-la.
E in t e r e ssan t e p e r gu n t a r se n a in t e r p r e t aç ão (ao e st u ­
d ar m o s u m t ext o b íb lic o ) n o s id e n t ific a m o s co m o au t o r
ou co m o s le it o r e s. A lgu m a s vezes (co m o em n o sso caso)
é r azo áv e l fazer a m b o s. E a p r o p r ia d o n o s c o lo c a r m o s
n o lu gar d o s cr ist ão s c o lo sse n se s q u a n d o r e ce b iam essa
m e n sage m d e P au lo e d e ixa r q u e ele fale t am b é m a n ó s.
A ssim , o u v ir e m o s o a p ó st o lo co m at e n ção , r e ce b e r e m os
su a ad m o e st ação so b r e cr escer em m at u r id ad e , t o m ar em o s
a d e cisão d e levar a le it u r a b íb lic a ain d a m ais a sé r io e,
ao le r m o s a E scr it u r a, o lh ar e m o s p ar a C r ist o d e m o d o
a am á- lo, c o n fia r n ele e ob ed ecer - lh e . P ois o p r in cíp io
d o d isc ip u la d o é clar o: q u a n t o m ais p o b r e fo r o n o sso
co n ce it o d e C r ist o , m ais p o b r e ser á n o sso d isc ip u la d o .
E q u a n t o m ais r ica for a n o ssa v isão d e C r ist o , m ais r ico
se r á n o sso d isc ip u la d o .
P orém , é legít im o t am b é m n o s colocar m os ao lad o d o
ap ó st o lo P au lo e n q u an t o fala aos crist ãos colossen ses, es­
p ecialm en t e se est iver m os em p o sição de lid er an ça cristã. E
ver d ad e qu e, d ifer en te d e n ós, ele foi u m ap ó st olo. A ssim ,
n ão t em os su a au t o r id ad e. N o en t an t o, t em os r e sp o n sab i­
lid ad es p ast o r ais com p ar áveis às dele, q u er se jam o s líder es
or d e n ad o s o u leigos.
MATURIDADE

A ssim , p r e c isam o s o b se r v ar o alvo p a st o r a l d e P au lo .


P o p u lar m en t e, ele é vist o co m o u m evan gelista, u m mis-
sio n ár io p io n e ir o e p lan t ad o r d e igrejas cu jo ob jet ivo era
con ver t er p essoas, est ab elecer u m a igreja e segu ir em fr en te.
N o en t an t o, essa é ap e n as u m a d e su as d escr ições. Ele se d es­
creve t am b ém com o u m p ast o r e m est r e. Se u gr an d e d esejo,
escreve ele, é t r an sp o r o evan gelism o, ch egar ao d iscip u lad o
e ap r ese n t ar t o d o s m ad u r os em C r ist o . E com o esse é o alvo
n o q u al ele gast a su as en er gias, n ós d evem os fazer o m esm o.
“Para isso é qu e eu t am b ém m e afadigo, esforçan do-m e o m ais
possível, segu n d o a su a eficácia qu e op er a eficien t em en t e em
m im ” (C l 1.29). Em grego, t an t o o ver b o “afad igar ” q u an t o o
verb o “esforçar-se” exp r essam m et áfor as qu e im plicam em p e­
n h o físico. O p r im eir o é u sad o p ar a o t r ab alh ad o r r u r al e o
segu n d o p ar a o com p et id or n os jogos gregos. A m b o s evocam
a im agem d e m ú scu los en r ijecid os e su or escor r en d o.
E clar o q u e P au lo p o d e r ia lu t ar co n t an d o so m en t e com
a for ça d e C r ist o . M esm o assim , ele ain d a p r ecisou lab u t ar e
se e m p e n h ar em or ação e est u d o. N ã o p o d e h aver alvo m ais
alto n o m in ist ér io. Q u e lem a m ar avilh oso p ar a q u alq u e r
u m ch am ad o p ar a a lid er an ça — d esejar ap r ese n t ar t o d o s
aqu eles p o r q u em , de algu m a for m a, so m o s r espon sáveis,
com o m ad u r o s em C r ist o.
V im o s en t ão u m a r e sp o n sab ilid ad e d u p la: a m at u r id ad e
em C r ist o é o alvo t an t o p ar a n ós q u an t o p ar a o n o sso m i­
n ist ér io.
Q u e D eu s p o ssa n os d ar u m a visão com p let a e clar a de
Je su s C r ist o , p r im eir o p ar a qu e p o ssam o s crescer em m at u ­
r id ad e, e se gu n d o p ar a qu e, p ela n o ssa p r oclam ação fiel de
C r ist o em su a p len it u d e, ou t r as p e sso as t am b ém p o ssam se
ap r ese n t ar m ad u r as.
Capít ulo 4

CUIDADO COM A CRIAÇÃO

Ao id e n t ificar os asp ect os q u e co n sid e r o n egligen ciad o s


em u m d iscip u lad o r ad ical, n ão d evem os su p o r qu e eles se
lim it am às esferas p essoais e in d ivid u ais. D evem os con sid er ar
t am b ém a p er sp ect iva m ais am p la, qu e é a d os n osso s deveres
p ar a com D eu s e n o sso p r óxim o . Est e cap ít u lo t r at a d e u m
d eles: o cu id ad o com o m eio am b ien t e.
A Bíb lia n os diz qu e, n a cr iação, D eu s est ab eleceu três
t ip o s fu n d am e n t ais d e r elacio n am e n t o: p r im eir o com ele
m esm o , p o is ele fez o h o m e m à su a p r ó p r ia im agem ; segu n ­
d o en tr e si, p o is a r aça h u m an a é p lu r al d esd e o p r in cíp io;
e t er ceiro p ar a com a b o a t er ra e as cr iat u r as sob r e as q u ais
ele os est ab eleceu .
N o e n t an t o , os t rês r e lacio n am e n t o s fo r am d ist o r cid o s
p e la q u e d a. A d ã o e Eva fo r am b a n id o s d a p r e se n ça d o
Se n h o r D e u s n o jar d im , eles cu lp ar am u m ao ou t r o p elo
q u e aco n t e ce u e a b o a t er r a foi am ald iç o ad a d ev id o à d e ­
so b e d iê n cia.
E plau sível, p o r t an t o , qu e o p lan o de D eu s de r est au r ação
in clu a n ão ap e n as a n o ssa r econ ciliação com D eu s e com o
j 0 DISCÍPULO RADICAL

p r ó x im o , m as t a m b é m , d e algu m a m a n e ir a , a lib e r t a ç ã o
d a c r iaçã o q u e ge m e . P o d e m o s a fir m a r q u e u m d ia h a-
v e r á n ovo céu e n o v a t e r r a (2P e 3 .1 3 ; A p 21.1), p o is e ssa
é u m a p a r t e e sse n c ia l d a e sp e r a n ç a d e fu t u r o p e r fe it o
q u e n o s agu a r d a n o fin a l cios t e m p o s. P o r ém , e n q u a n t o
isso , t o d a a c r iaçã o e st á ge m e n d o , p a ssa n d o p e la s d o r e s
d e p a r t o d a n o v a c r ia ç ã o (R m 8.18- 23). O q u e a in d a
d isc u t im o s é o q u a n t o d o d e st in o fin a l d a t e r r a p o d e ser
v iv e n ciad o ago r a. N o e n t a n t o , p o d e m o s d izer co m cer teza
q u e , a ssim c o m o a n o ssa c o m p r e e n sã o d o d e st in o fin a l
d e n o sso c o r p o r e ssu r r e t o in flu e n c ia o q u e p e n sa m o s
so b r e o c o r p o q u e t e m o s n o p r e se n t e e a fo r m a c o m o o
t r a t a m o s, n o ssa c o m p r e e n sã o d o n ovo céu e n ova t e r r a
d eve in flu e n c ia r e a u m e n t a r a c o n sid e r a ç ã o q u e t e m o s
p e la t e r r a ago r a.
Q u a l, e n t ão , d ev er ia ser a n o ssa at it u d e p ar a co m a
ela? A Bíb lia a p o n t a o c am in h o ao fazer d u as afir m açõ e s
fu n d am e n t ais: “A o Se n h o r p e r t e n ce a t e r r a” (SI 24.1), e “a
t er r a, d eu - a ele ao s filh o s d o s h o m e n s” (SI 115.16).
Em m aio d e 1999, tive o p r iv ilé gio d e p a r t ic ip a r d e
u m a c o n fe r ê n cia d e u m d ia em N a ir o b i so b r e “cr ist ão s
e o m e io a m b ie n t e ”. C o m p a r t ilh a n d o o p ú lp it o co m igo
e st av am C alv in D e W it t , d o A u Sa b le In st it u t e , em Mi-
ch igan , e P et er H ar r is, d e A R o ch a I n t e r n ac io n al. En t r e
o s p a r t ic ip a n t e s e st av am líd e r e s d o go ve r n o q u e n ia n o ,
r e p r e se n t a n t e s d e igr e jas, o r ga n iz a ç õ e s m issio n á r ia s e
O N G s. O e n c o n t r o fo i a m p la m e n t e d iv u lga d o . F ic o u
ev id e n t e q u e o c u id a d o co m a cr iação n ão é u m in t e r e sse
e go íst a d o O c id e n t e d e se n v o lv id o , n e m u m a sin ge la p a i­
xão c ar act e r íst ica d o s o r n it ó lo go s ou b o t ân ico s, m as u m a
p r e o c u p a ç ã o cr ist ã cr e scen t e.
CUIDADO COM A CRIAÇÃO

As afirm ações de que “ao Senhor pertence a terra”


e “a terra deu-a ele aos filhos dos hom ens” se
com plem entam , n ão se contradizem

Logo ap ó s a p u b licação d a D eclar ação Evan gélica sob r e o


C u id a d o com a C r iação (1999), su r giu , n o an o segu in t e, u m
im p o r t an t e co m en t ár io or gan izad o p o r R. J. Ber r y e in titu la-
d o The Care of Creation (o cu id ad o com a cr iação).1
A s afir m açõ es d e q u e “ao Se n h o r p er t en ce a t er r a” e “a
t er r a deu -a ele aos filh os d os h o m e n s” se com p lem en t am ,
n ão se con t r ad izem . Pois a t er r a p er t en ce a D eu s p o r cau sa
d a cr iação e a n ós p o r cau sa d a d elegação. N ão sign ifica qu e,
ao delegá-la a n ós, ele ab d ico u d e seu s d ir eit os sob r e ela.
D eu s n os d e u a r e sp o n sab ilid ad e d e p r eser var e d esen volver
a t er r a em seu favor.
C o m o en t ão d evem os n os r elacion ar com a terra? Se lem ­
b r ar m o s q u e ela foi cr iad a p o r D eu s e d elegad a a n ós, evit a­
r em os d o is ext r em os o p o st o s e d esen volver em os u m t erceiro
p o sicio n am e n t o e u m a m elh or r elação com a n atu r eza.
P r im eir o, d evem os evitar a deificação da n atureza. Esse é o
erro d o s p an t eíst as, q u e u n ificam o C r iad o r e a cr iação, d os
an im ist as, q u e p o vo am o m u n d o n at u r al com esp ír it os, e d o
m ov im en t o G aia d a N o v a Er a, q u e at r ib u i os p r ocessos de
ad ap t ação , o r d e m e p e r p e t u ação d a n at u r eza a ela p r ó p r ia.
P orém , t o d a s essas c o n fu sõ e s são in su lt o s ao C r iad o r . A
0 DISCÍPULO RADICAL

com p r een são crist ã d e qu e a n atu r eza é cr iação e n ão cr iad o­


r a foi u m p r elú d io in d isp en sável a t od a in iciat iva cien tífica
e h o je é essen cial p ar a o d esen volvim en t o d os r ecu r sos d a
terra. N ó s respeitam os a n atu r eza p o r q u e D e u s a fez; n ão a
reverenciamos com o se ela fosse D eu s.
Segu n d o, d evem os evitar o extrem o op ost o, qu e é a explora­
ção exaustiva da natureza. N ão sign ifica tratá-la com ven eração,
com o se ela fosse D eu s, n em tratá-la com arrogân cia, com o se
n ós fossem os D eu s. A cu lpa p ela ir r espon sabilidad e am bien tal
tem sid o in ju stam en te p ost a em G ên esis 1. E verdade qu e D eu s
com ission ou a raça h u m an a p ar a “d o m in ar ” sobr e a terra e
“su jeitá-la” (G n 1.26-28), e qu e esses d ois verbos h ebr aicos são
en fáticos. Porém , ser ia u m ab su r d o im agin ar qu e aqu ele qu e
criou a terra en tregou-a a n ós par a qu e fosse destruída. N ão, o
d o m ín io qu e D eu s n os d eu deve ser visto com o u m a mordomia
responsável, n ão com o u m d o m ín io destru tivo.
O terceiro r elacion am en t o cor r eto en tre os seres h u m an os
e a n atu r eza é o d e cooperação com Deus. N ó s m esm os fazem os
p ar t e d a criação e so m os t ão d ep en d en t es d o C r iad o r q u an t o
t od as as criatu r as. P orém , ao m esm o t em po, ele se h u m ilh o u
d elib er ad am en t e p ar a fazer a p ar cer ia d ivin o- h u m an a n e­
cessár ia. Ele cr iou a terra, m as disse-n os p ar a su jeitá-la. Ele
p lan t o u o jar d im , m as colocou A d ão n ele “p ar a o cu lt ivar e
o gu ar d ar ” (G n 2.15). Isso é n or m alm en t e ch am ad o m an d a­
to cu lt u r al. Pois o q u e D eu s n os deu foi a natureza, e o qu e
fazem os com ela é cultura. N ão d evem os ap e n as con ser var
o am b ien t e, m as t am b ém desen volver seu s r ecu r sos p ar a o
b em com u m .
E u m ch am ad o n ob r e p ar a coo p er ar com D eu s n o cu m ­
p r im e n t o d e seu s p r o p ó sit o s, p ar a t r an sfo r m ar a o r d e m
cr iad a de fo r m a qu e agr ad e e b en eficie a t od os. A ssim , n osso
CUIDADO COM A CRIAÇÃO

t r ab alh o é ser u m a exp r essão d e ad o r ação, já q u e o cu id ad o


com a cr iação r eflet ir á o am o r p elo C r iad o r .
P orém , é p ossível exager ar ao en fat izar o t r ab alh o h u m a-
n o d e c o n se r v aç ão e t r a n sfo r m a ç ã o d o am b ie n t e . E m su a
excelen t e e x p o siç ão so b r e o s t r ês p r im e ir o s c a p ít u lo s d e
G ê n e sis (In The Begin n in g),2 H e n r i Blo ch e r ar gu m e n t a q u e
o clím ax d e G ê n e sis 1 n ão é a cr iação d o s ser es h u m a n o s
co m o t r a b alh ad o r e s, m as a in st it u iç ã o d o sá b a d o p a r a os
ser es h u m a n o s c o m o a d o r a d o r e s. O o b je t iv o fin a l n ão é
n o sso t r a b a lh o (su je it ar a t er r a), m as d e ixa r o t r a b a lh o d e
la d o n o sá b a d o . P ois o sá b a d o co lo ca a im p o r t â n c ia d o
t r ab alh o n a p e r sp e ct iv a cor r et a. Ele n o s p r ot ege d e im er gir
c o m p le t am e n t e n o t r a b alh o , c o m o se ele fo sse o o b je t iv o
fin al d a n o ssa exist ê n cia. N ã o é. N ó s, ser es h u m a n o s, e n ­
c o n t r a m o s n o ssa h u m a n id a d e n ã o so m e n t e em r e laç ão à
t er r a, q u e d e v e m o s t r an sfo r m ar , m as t am b é m em r e lação
a D e u s, a q u e m d e v e m o s ad o r ar ; n ã o ap e n as em r e lação
à cr iação , m as t am b é m , e e sp e cialm e n t e , em r e lação ao
C r ia d o r . D e u s cieseja q u e n o sso t r a b a lh o se ja u m a e xp r e s­
são d e a d o r a ç ã o , e q u e o c u id a d o co m a cr iação r e flit a
o am o r p e lo C r ia d o r . So m e n t e assim se r e m o s cap azes d e
fazer q u a lq u e r co isa, em p alav r a o u em o b r a, p ar a a gló r ia
d e D e u s ( I C o 10.31).
Esses e o u t r o s t em as b íb lico s são ab o r d a d o s t an t o n a
Declaração q u an t o em seu com en t ár io. Eles m er ecem n osso
est u d o c u id a d o so .3

A crise ecológica

E p o r cau sa d a con t r ad ição com esse e n sin o b íb lico ir r epr e­


en sível q u e at u alm en t e p r ecisam os n os o p o r à crise ecológica
0 DISCÍPULO RADICAL

at u al. Ela t em sid o e xp lo r ad a d e várias for m as, m as t od a


an álise pr ovavelm en te con t e r á os qu at r o asp ect os a seguir.
P r im eir o, o crescimento populacion al acelerado do m undo. D e
acor d o com a su b d iv isão p o p u lacio n al d a O N U , os cálcu los
com eçar am em 1804, q u an d o a p o p u lação m u n d ial ch egou
a 1 b ilh ão .4 N o com eço d o sécu lo 21, ela já h avia ch egad o a
6,8 b ilh ões, e estim a-se qu e, em m ead os d o m esm o sécu lo,
terá alcan çad o a in crível m ar ca d e 9,5 b ilh ões.
C o m o é d ifícil n os lem b r ar de est at íst icas, u m sim ples
m n e m ô n ico p o d e aju d ar :

P assad o 1804 1 b ilh ão


P r esen t e 2000 6,8 b ilh ões
Fu t u r o 2050 9,5 b ilh ões

C o m o ser á possível alim en t ar t an t as pessoas, esp ecialm en ­


te q u an d o cerca d e u m q u in t o d elas n ão p o ssu i con d ições
b ásicas d e sobr evivên cia?
Se gu n d o , a depleção dos recursos da terra. Fo i E. F. Sch u -
m ach e r q u e m , em se u c o n h e c id o livr o O N egócio é Ser
Pequen o , 5 ch am o u a at e n ção d o m u n d o p ar a a d ife r e n ça
en t r e p a t r im ô n io e r e n d a. P or exe m p lo, c o m b u st ív e is fó s­
seis são p a t r im ô n io — u m a vez c o n su m id o s, n ã o p o d e m
ser r e p o st o s. O s ap av o r an t e s p r o ce sso s d e d e sflo r e st a m e n ­
t o e d e se r t ific a ç ã o são e xe m p lo s d o m e sm o p r in c íp io .
E t a m b é m a d e gr a d a ç ã o o u p o lu iç ã o d o p lâ n c t o n d o s
o c e a n o s, d a su p e r fíc ie ver d e d a t er r a, d as e sp é cie s vivas
e d o s h a b it at s d o s q u ais e las d e p e n d e m p a r a t er em ar e
águ a p u r o s.
Terceiro, o descarte do lixo. U m a p op u lação em crescim en to
traz con sigo u m p r o b le m a em cr escim en t o q u an d o se t r ata
CUIDADO COM A CRIAÇÃO

d e d escar t ar d e fo r m a segu r a os su b p r o d u t o s d a fab r icação,


d o em p aco t am e n t o e d o con su m o.
N o R ein o U n id o , a cad a três m eses, u m a p e sso a com u m
p r od u z o eq u ivalen t e ao seu p r ó p r io p eso em lixo. Em 1994,
u m r e lat ó r io in t it u la d o Su st ain able Developm ent: the U K
strategy (d esen volvim en t o su st en tável: a est r at égia d o R ein o
U n id o ) r ecom en d av a u m a “h ier ar q u ia d e ge r e n ciam en t o d o
lixo” d ivid id a em qu at r o et apas, n u m esfor ço p ar a con ter esse
p r o b le m a q u e se t o r n a cad a vez m aior .
Q u ar t o , a m udan ça clim ática. D e t od as as am eaças glob ais
qu e o n o sso p lan et a en fr en t a, essa é a m ais séria.
A r ad iação u lt r aviolet a n a at m osfer a n os pr ot ege, e se o
ozôn io for d et er io r ad o, so m o s exp ost os ao cân cer d e pele e
a d ist ú r b io s em n o sso sist em a im u n o ló gico . A ssim , q u an d o
em 1983 u m en or m e b u r aco n a cam ad a de ozôn io ap ar eceu
sobr e a região A n t ár t ica e os países vizin h os, h ou ve u m gr an d e
alar m e p ú b lico.
P ou cos an o s m ais t arde, u m b u r aco sem elh an t e ap ar eceu
sob r e o h em isfé r io N o r t e. N a é p o ca recon h eceu -se qu e a d e­
t er ior ação d o ozôn io era cau sad a p elos clo r o flu o r car b on os
(C FC s), os co m p o st o s q u ím ico s u t ilizad os em ap ar elh os de
ar - con d icion ad o, r efr iger ad or es e p r op u lsor es. O P r ot ocolo
d e M on t r eal con vocou as n açõ es a r edu zirem p ela m e t ad e a
em issão d e C F C s até 1997.
A m u d an ça clim át ica n ão é u m p r o b le m a iso lad o . O
calor d a su p er fície d a t er ra (essen cial p ar a a sobr evivên cia
d o p lan et a) é m an t id o p o r u m a com b in ação d a r ad iação d o
so l e d a r ad iação in fr aver m elh a q u e ele em it e n o esp aço. É o
ch am ad o “efeit o est u fa”. A p o lu ição d a at m osfer a p o r “gases
d a est u fa” (esp ecialm en t e d ió xid o d e car b on o) redu z as em is­
sões in fr aver m elh as e au m e n t a a t em p er at u r a d a su p er fície
50 O DISCÍPULO RADICAL

d a terra. Esse é o fan t asm a d o aq u ecim en t o glob al, qu e p o d e


ter con seq ü ên cias d esast r osas n a con figu r ação geogr áfica d o
m u n d o e n os p ad r õ e s d o clim a.6
R e fle t in d o sob r e esses q u at r o r iscos am b ien t ais, é im p os­
sível n ão p er ceb er q u e t o d o o n o sso p lan et a est á am eaçad o.
N ão é exagero falar m os em “cr ise”. M as o q u e d ever íam os
fazer? Para com eçar, p o d e m o s ser gratos, p ois, fin alm en t e, em
1992, a C o n fe r ên cia cias N ações U n id as sobr e M eio A m b ien ­
te e D esen volvim en t o (Eco 92) acon t eceu n o R io de Jan eir o
e r esu lt ou em u m co m p r o m isso p ar a u m “d esen volvim en t o
glob al su st en t áv el”. O u t r as con fer ên cias t êm afir m ad o qu e
as q u est ões am b ien t ais m er ecem a at en ção con st an t e d as
p r in cip ais n ações d o m u n d o.
E lad o a lad o com essas con fer ên cias oficiais, várias O N G s
t êm su r gid o. M en cion ar ei ap en as as d u as or gan izações cristãs
exp licit am en t e m ais p r oe m in en t es, a T e ar fu n d e A Roch a,
q u e r e ce n t e m e n t e ce le b r ar am an iv e r sár io s sign ificat iv o s
(40 e 25 an os, r esp ect ivam en t e).
A Tear fu n d , fu n d ad a p or G eor ge H offm an , é com pr om eti­
d a com o d esen volvim en t o n o sen t id o m ais am p lo e t r ab alh a
em coo p er ação com “só cios” n os países em desen volvim en t o.
A m ar avilh o sa h ist ór ia d a T e ar fu n d é r e lat ad a p o r M ik e
H ollow em seu livro A Future an d a Hope,7
A R o ch a é d ifer en t e e m u it o m en or . Foi fu n d ad a em
1983 p o r Peter H ar r is, q u e d o cu m e n t o u seu cr escim en t o
em d o is livros: A Rocha: um a com unidade evangélica lutando
pela conservação do meio am biente (r elat an d o os dez p r im eir os
an os) e Kingfish er’s fire (at u alizan d o a h ist ór ia).8Se u con t ín u o
d esen volvim en t o é n ot ável, e at u alm en t e ela t r ab alh a em
d ezoit o p aíses, est ab elece n d o cen t r os d e est u d o d e cam p o
em t o d o s os con t in en t es.
CUIDADO COM A CRIAÇÃO

É m u it o b o m d ar su p o r t e a O N G s am b ien t ais cristãs, m as


q u ais são as n o ssas r e sp o n sab ilid ad e s in d ivid u ais? O qu e o
d iscíp u lo r ad ical p o d e fazer p ar a cu id ar d a criação? D eixar ei
qu e C h r is W r igh t r esp o n d a. Ele so n h a com u m a m u lt id ão
de cr ist ãos q u e se im p o r t am com a cr iação e levam a su a
r e sp o n sab ilid ad e am b ien t al a sér io:

Eles escolh em form as susten táveis de en ergia qu an do é


viável. Desligam aparelh os em desuso. Sem pre que possível,
com pram alim en tos, m ercadorias e serviços de empresas
que ten h am diretrizes am bien tais eticam en te saudáveis.
Eles se aliam a grupos de con servaçao. Evitam o con sum o
dem asiado e o desperdício desn ecessário e reciclam o má­
xim o possível.9

O que o discípulo radical pode fazer para


cuidar da criação1

C h r is d eseja t am b ém ver u m n ú m er o crescen t e d e cris­


t ãos in clu in d o o cu iciado d a cr iação em seu e n t e n d im en t o
b íb lico d e m issão:

No passado, os cristãos eram in stin tivam en te in teressados


n as gran des e urgen tes questões de cada geração [...]. Isso
in clui os m ales cau sados por doen ças, ign orân cia, escravi­
dão e m u itas ou tras form as de bru talidade e exploração.
O s cristãos têm defen dido a causa das viúvas, dos órfãos,
dos refu giados, dos prision eiros, dos doen tes m en tais,
dos fam in tos — e, m ais recen tem en te, têm au m en tado o
n úm ero daqu eles com prom etidos em “fazer da pobreza
p assad o”.
0 DISCÍPULO RADICAL

D esejo ecoar a elo q ü en t e con clu são d e C h r is W righ t:


É totalm en te in explicável ouvir alguns cristãos afirmarem
que am am e adoram a Deus, que são discípulos de Jesus,
mas, m esm o assim, n ão se preocupam com a terra, que
carrega seu selo de propriedade. Eles n ão se im portam
com o abuso que a terra sofre e, realmente, con sideran do
seus estilos de vida esban jadores e por dem ais con sum istas,
con spiram con tra isso. Deus deseja [...] que n osso cuidado
com a criação reflita n osso am or pelo Criador.10

“Eis q u e os céu s e os céu s d os céu s são d o Sen h or , teu


D eu s, a t er r a e t u d o o q u e n ela h á ” (D t 10.14).
Capít ulo 5

SIMPLICIDADE

A qu in t a característica de u m discípu lo radical é a sim plicidade


— esp ecialm en t e em q u est ões q u e en volvem b en s e din h eiro.
M en cion am os algo sobre m aterialism o n o capítu lo 1.
Em m ar ço d e 1980, n a In glat er r a, h ou ve a C o n su lt a
In t e r n acio n al So b r e Est ilo d e V id a Sim p les. Se u im p act o
foi p e q u e n o e o assu n t o n ão r eceb eu a d evid a at en ção n a
ép o ca o u d e sd e en t ão. A ssim , q u er o ap r ese n t ar algu ém qu e
p ar t icip o u d a co n su lt a e cu ja vid a foi in flu e n ciad a p o r ela.

Um a vida sim ples

D an Lam n asceu e cresceu em u m lar crist ão em H o n g Kon g.


Se u p ai m or r eu q u an d o ele er a m e n in o e su a m ãe cr iou a
fam ília so zin h a. Ela er a u m a m u lh er b o a e p ie d o sa. A o s
d o m in go s, ap e sar d e ser em p ob r es, ela d ava algu m d in h e ir o
a cad a u m d o s filh o s p ar a eles d ar e m d e ofer t a. N o en t an t o,
D an p egava su a p ar t e, saia sor r at eir am en t e d a igreja, alu gava
u m a b iciclet a e an d ava p ela cid ad e in teir a. Q u a n d o o cu lt o
t er m in ava, ele ap ar ecia e volt ava p ar a casa com a fam ília. D e
acor d o com u m de seu s ex-colegas d e classe, ele er a “u m a
cr ian ça m u it o d ifícil”.
54 0 DISCÍPULO RADICAL

N a ad olescên cia, ele ficou t ão d o en t e qu e q u ase m or r eu .


Fo i en t ão qu e en t e n d e u qu e D eu s qu er ia o seu “b em , n ão
o seu m al”, e su b m et eu a vid a ao Se n h o r Je su s C r ist o . Ele
n u n ca olh o u p ar a trás. Foi u m a m u d an ça r ad ical em su a
vid a, p ar a a su r p r esa e o alívio d a fam ília.
Q u a n d o ch egou a h o r a d e t rabalh ar , ele foi em p r egad o
p ela C o r p o r açã o Bech tel, u m a m u lt in acio n al d e d icad a à
en gen h ar ia p esad a. Em m o m e n t o s d ifer en tes, eles se en vol­
ver am n a con st r u ção d e aer o p or t os e p o r t o s, n o su p o r t e às
vít im as d e fu r acões, n a con st r u ção d o “C h u n n e l” (o Euro-
t ú n el q u e liga a In glat er r a à Fr an ça) e n o BART, o sistem a
d e t r ân sit o q u e cob r e a b aía d e Sã o Fr an cisco. D an n ão se
en volveu p essoalm en t e com t od os esses p r ojetos, m as ch egou
a ser r esp on sável p o r cen t en as d e em p r egad os.
Em 1976, a co m p an h ia o t r an sfer iu com a fam ília p ar a
a A r áb ia Sa u d it a e, em 1978, p ar a Lo n d r e s. Foi q u an d o
m e en co n t r ei co m ele e su a e sp o sa, G r ace , p e la p r im eir a
vez, p o is se filiar am à Igr eja A li So u ls, Lan gh am P lace, d a
q u al eu er a r eit or . E é r am o s m em b r os d o m e sm o gr u p o de
c o m u n h ão .
D an t in h a m u it a p r eo cu p ação com os p o b r es e n ecessi­
t ad o s e er a gen er oso com a fam ília e com a igreja, ap esar de
seu est ilo de vid a m od e r ad o . P orém , ele estava com eçan d o
a sen t ir a p r essão d o s n egócios. Foi n essa ép oca qu e acon t e­
ceu a C o n su lt a So b r e Est ilo de V id a Sim p les. E os d esafios
su r gir am . A p e sar d e sem p r e en tr egar o d ízim o d o salár io,
D an en t e n d e u q u e dever ia sim p lificar ain d a m ais seu estilo
d e vid a. Em visit a à ín d ia, ele viu a ver d ad eir a pobr eza e
ob se r v ou q u e u m a p o r cen t agem m u it o elevad a d o s fu n d os
d a m issão er a gast a com d esp esas gerais. Ele r esolveu n ão
acu m u lar r iqu eza, m as ofertá-la.
SIM PLICIDADE

Em 1981, p ed iu d e m issão d a Bech tel. N ã o qu e se sen t isse


in capaz d e ser vir a D eu s em u m a co r p o r ação m u lt in acion al,
p ois Je su s C r ist o er a o Se n h o r d e t o d a a vid a. A q u e st ão é
qu e ele se sen t ia esp ecificam en t e ch am ad o p ar a os p aíses
d o su d est e d a Á sia, à q u al ele p r ó p r io p er t en cia: Tailân d ia,
Lao s e C am b o ja, ju n t am e n t e com M ian m ar e M on gólia. Ele
com p r een d eu e ap licou os p r in cíp ios n ativos n a m issão. Ele
cria fir m em en t e n o en sin o e n o t r e in am e n t o d e asiát icos
p ar a gan h ar asiát icos e pr epar á-los p ar a m issões. Ele ficou
m ot ivad o ao sab er qu e a m aior ia d a p op u lação d o m u n d o vive
n a Á sia. A lé m d o m ais, é m u it o m ais e con ôm ico e eficien t e
p ar a os n acio n ais asiát icos gan h ar e m asiát icos, já q u e eles
n ão têm p r ob lem as com a cu lt u r a, o id iom a, a alim en t ação
e as r est r ições d e viagen s.
D an co m eço u a p r im eir a Escola Bíb lica d a M on gólia; e
a Esco la Bíb lica em P h n om P en h (C am b o ja) foi r egist r ad a
em seu n o m e, ap esar de at u alm en t e se ch am ar P h n o m P en h
Bib le Sch o o l. A s expect at ivas em t or n o d esse cr escim en t o
sign ificat ivo er am altas. P orém , elas n ão d u r ar iam m u it o.
D an foi su b it am en t e t ir ad o d a lid er an ça. Em 22 d e m ar ço
d e 1994, en volveu-se em u m acid en t e aér eo fatal. Ele estava
v o an d o em u m A ir b u s r u sso (A er oflot , voo 593 d e M oscou
p ar a H o n g Kon g) q u e b at e u em u m a m o n t an h a. O s 75
p assage ir o s e a t r ip u lação m or r er am . O acid en t e acon t eceu
p o r q u e o filh o de u m d os p ilot os estava n a cab in e b r in can d o
com os con t r oles.
G r ace , viú v a d e D an , e os d o is filh o s p e q u e n o s (W ei
W ei e Ju st in ) ficar am d evast ad os. P orém , a o b r a d o Se n h o r
co n t in u o u .
P r ovid en cialm en t e, a ir m ã m ais velh a de D an , W in n ie,
e o m ar id o , Jo se p h , est avam em con d içõe s d e assu m ir . Eles
0 DISCÍPULO RADICAL

h av iam v ia ja d o p a r a os cam p o s d a m issão n a q u a l D a n


trabalh ava e con h eciam p essoalm en t e os líderes asiáticos com
os qu ais ele cooper ava. E D an h avia est ab elecid o d u as b ases —
u m a p r ivad a, q u e ele com eçou com fu n d os p r óp r io s, e u m a
en t id ad e p ú b lica de car id ad e ch am ad a C o u n t r y Netw or k.
Por m eio d essas fu n d açõe s, o t r ab alh o sin gu lar d o q u al ele
h avia sid o p io n e ir o p ô d e con t in u ar .
E o legad o d e D an co n t in u ar á n a Á sia p o r m eio d os
cr ist ãos q u e ele in flu en ciou , e t u d o p o r cau sa d o est ilo de
v id a sim p les a d o t ad o p o r ele. “O se m in ár io so b r e est ilo
de vid a sim p les”, disse-m e G r ace em u m a car ta, “m u d o u a
t o d o s n ó s”.
A ssim , deixe-m e ap r ese n t ar a C o n su lt a So b r e Est ilo de
V id a Sim p les e o co m p r o m isso evan gélico com u m est ilo de
vid a sim p les qu e t an t o in flu e n cio u D an .

Com prom isso evangélico com um estilo de


vida sim ples

Introdução

“V id a ” e “est ilo d e v id a ” são e xp r essõ es q u e ob v iam en t e


se p er t en cem , n ão p o d e n d o , p o r t an t o , separar-se u m a d a
o u t r a. T o d o s os cr ist ãos d izem t er r eceb id o de Je su s C r ist o
u m a n ova vid a. M as q u al o est ilo de vid a cer to? Se a vid a
é n ova, o est ilo d e v id a p r ecisa ser n ovo t am b é m . M as qu e
car act er íst icas ele p r ecisa ter? C o m o distin gu i-lo em p ar t icu ­
lar d o est ilo d e v id a d o s q u e n ão p r o fe ssam o cr ist ian ism o?
E d e q u e m an e ir a ele deve r eflet ir os d e safio s d o m u n d o
c o n t e m p o r ân e o : su a alie n ação t an t o em r e lação a D e u s
co m o em r elação aos r e cu r so s d a Ter ra, q u e ele cr iou p ar a
gozo d e t od os?
SIM PLICIDADE

Todos os cristãos dizem ter recebido de


Jesus Cristo um a nova v ida. M as qu al o
estilo de v ida certo?

Fo r am q u est ões co m o essas qu e levar am os p ar t icip an t e s


d o C o n gr e sso d e Lau san n e sob r e Evan gelização M u n d ial
(1974) a in clu ir n o p ar ágr afo 9 d o seu P act o o segu in t e
texto:

Todos n ós estam os ch ocados com a pobreza de m ilh ões de


pessoas e abalados pelas in justiças que a provocam. Nós,
que vivem os em sociedades aflu en tes, aceitam os com o
obrigação desenvolver um estilo de vida simples a fim de
con tribuirm os mais gen erosam en te tan to para a assistência
social com o para a evangelização.

Essas palavr as têm sid o m u it o d eb at id as, e tor n ou -se claro


qu e su as im p licações car ecem d e exam e cu id ad o so .
D e m an eir a q u e o G r u p o d e T r ab alh o sobr e Teologia e
Ed u cação d a C o m issão d e Lau san n e p ar a a Evan gelização
M u n ciial e o G r u p o d e Est u d o s sob r e Ét ica e So cie d ad e d a
C o m issão T eológica d a A lian ça Evan gélica M u n d ial con cor ­
d ar am em p at r o cin ar u m p r ogr am a d e est u d os d e d ois an os,
c u lm in an d o n u m e n co n t r o in t e r n acio n al. G r u p o s locais
r eu n ir am -se em qu in ze países. C o n gr e sso s r egion ais for am
r ealizad os n a ín d ia, n a Ir lan d a e n os Est ad o s U n id o s. En t ão,
d e 17 a 21 d e m ar ço de 1980, n o C e n t r o de C on fe r ên cias
58 O DISCÍPULO RADICAL

d e H igh Leigh (cerca de 25 q u ilôm et r os ao n or t e d e Lon -


dr es, In glater r a), realizou-se a C o n su lt a In t e r n acion al So b r e
Est ilo d e V id a Sim p les, t en d o a ela com p ar ecid o 85 líder es
evan gélicos de 27 p aíses.
N o sso p r o p ó sit o er a est u d ar o viver sim p les em r elação
à evan gelização, à assist ên cia e à ju st iça, co n sid e r an d o qu e
t o d o s esses iten s co n st am n a d eclar ação de Lau san n e sobr e
estilo d e vid a sim p les. N o ssa per spect iva, p o r u m lad o, era o
e n sin o d a Bíb lia; p o r ou t r o, o m u n d o sofr ed or , ou seja, os
b ilh õ es d e p essoas, h o m en s, m u lh er es e cr ian ças qu e, em b o­
r a cr iad o s ã im agem de D e u s e p o r ele am ad os, ou n ão são
evan gelizad os, ou são o p r im id os, o u am b as as coisas ju n t as,
se n d o p o is d est it u íd o s d o evan gelh o d a salvação, b em com o
d as n ecessid ad es b ásicas d a vid a h u m an a.
D u r an t e os q u at r o d ias d e d u r ação d a C o n su lt a, vivem os,
lo u vam os e or am o s ju n t o s; est u d am o s as Escr it u r as ju n t os;
o u v im os a leitu r a d e vár ios t r ab alh os (a ser em r eu n id os em
livr o) e algu n s t e st e m u n h o s com o ve n t e s; esfor çam o- n os
p o r in ter - r elacion ar as q u e st õ e s t eológicas e e con ôm icas,
d eb at en d o- as t an t o n as sessões p len ár ias co m o em p eq u e­
n os gr u p o s; r im os, ch or am os, ar r ep en d em o- n os e t om am o s
r esolu ções. Em b o r a n o in ício sen t íssem os cer t a t en são en tre
r ep r esen t an t es d o P r im eir o e Terceiro M u n d o s, n o fin al o
Esp ír it o San t o , q u e cria a u n id ad e , en cam in h ou - n os a u m a
n ova so lid ar ied ad e d e r esp eit o e am o r m ú t u os.
Acim a de tu do, em pen h am o-n os em n os expor com h on es­
tid ad e aos desafios tan t o d a Palavra de D eu s com o d o m u n d o
n ecessitado, a fim de discern ir a von tade de D eu s e procu rar su a
graça par a cumpri-la. A o lon go desse processo n ossas m en tes se
desdobraram , n ossa con sciên cia tornou-se m ais aguda, agitaram-
se n ossos corações e n ossa von t ad e saiu fortalecida.
SIMPLICIDADE

R eco n h e ce m o s qu e ou t r os já vêm d iscu t in d o esse assu n ­


to h á vár ios an o s e, con st r an gid os, n os colocam os ao lad o
deles. Por isso n ão d esejam os sobr evalor izar n o ssa C o n su lt a
e n o sso co m p r o m isso . N e m t em os razão p ar a n o s v an glo­
riar. Tod avia, aq u ela foi p ar a n ós u m a sem an a h ist ór ica e
t r an sfo r m ad o r a. D e m an eir a qu e, ao colocar m os este livreto
em cir cu lação, n o in t u it o d e com ele au xiliar m os o est u d o
d e in d iv íd u os, gr u p o s e igrejas, fazêm o-lo com o r ação e n a
m ais fir m e e sp er an ça de qu e n u m e r o so s cr ist ãos se sin t am
m ovid os, assim co m o n ós t am b é m o fom os, a u m a d ecisão
qu e leva ao co m p r o m isso e à ação.

Jo h n S t o t t

Presidente do Grupo de Trabalh o sobre Teologia e Educação da


Com issão de Lau san n e para a Ev an geliz ação M un dial

R o NALD ). SlDER
Presidente do Grupo de Estudos sobre Ética e Sociedade da
Com issão Teológica da A lian ça Evan gélica M un dial

O u t u b r o d e 1980

Prefácio

D u r an t e os q u at r o d ias em q u e est ivem os r e u n id os, 85


cr ist ãos d e 27 p aíses, r eflet im os sob r e a d ecisão exp r essa n o
Pacto de Lau san n e d e “d esen volver u m estilo d e vid a sim ­
p le s”. P r ocu r am os ou vir a voz d e D eu s através d as p ágin as
d a Bíb lia, d o s gr it os d os p o b r es fam in t os, e através u n s d os
ou t r os. E cr em os q u e D eu s falo u con osco.
A gr ad e ce m o s a D eu s p o r su a salvação através d e Jesu s
Cr ist o , p o r su a revelação n a Escr it u r a, qu e é a luz d e n osso
cam in h o, e p elo p o d e r d o Esp ír it o San t o qu e n os faz test e­
m u n h as e ser vos n o m u n d o.
60 O DISCÍPULO RADICAL

Est am os p er t u r b ad os com a in ju stiça qu e existe n o m u n d o,


p r eo cu p ad os p o r su as vítim as, e ar r epen d id os p or n ossa cu m ­
plicid ad e n isso t u d o. Tam b ém fom os m ovidos a t om ar n ovas
decisões, cu jo con t eú d o expr essam os n este Com p r o m isso .

1. Criação

A d o r am o s a D eu s com o o C r iad o r d e t od as as coisas e


celeb r am os a b o n d ad e de su a cr iação. Em su a gen er osid ad e,
ele n o s t em d ad o t u d o p ar a d esfr u t ar m os, e r eceb em os t u d o
d e su as m ão s com h u m ild ad e e ação de gr aças (l T m 4.4). A
cr iação d e D eu s é car act er izad a p ela d iver sid ad e e r ica ab u n ­
d ân cia. Ele q u er q u e seu s r ecu r sos sejam b em ad m in ist r ad o s
e r ep ar t id o s p ar a o b en efício d e t od os.
P or t an t o, d e n u n ciam o s a d est r u ição am b ien t al, o d esper ­
d ício e a acu m u lação. D e p lo r am o s a m isér ia d os p ob r es qu e
sofr em em con seq ü ên cia d esses m ales. T am b ém d iscor d am os
d a vid a in síp id a d o ascet a. Pois t u d o isso n ega a b o n d ad e d o
C r iad o r e r eflet e a t r agéd ia d a q u ed a. R econ h e ce m o s n osso
en volvim en t o n est es m ales e n os ar r ep en d em os.

2. Mordom ia

Q u an d o D eu s fez o h om em , m ach o e fêm ea, à su a pr óp r ia


im agem , lh e d eu o d o m ín io sobr e a Terra (G n 1.26-28). Ele os
fez m or d om os de seu s recursos, e eles se t or n ar am respon sáveis
per an t e ele com o Cr iad or , d ian t e d a Terra qu e lh es cabia de­
sen volver, e d ian t e de seu s sem elh an t es, com q u em h averiam
de partilh ar su as riquezas. Essas verdades são tão fu n d am en t ais
qu e a verd ad eira au tor r ealização h u m an a d ep en d e de u m a
relação ju st a com D eu s, com o pr óxim o e com a terra e t od os
os seu s r ecursos. A h u m an id ad e das pessoas é redu zida q u an d o
elas n ão p ar t icip am desses r ecu r sos n a ju st a m ed id a.
SIM PLICIDADE

Se fo r m o s m o r d o m o s in fiéis, d e ixan d o d e con ser var os


r ecu r sos fin it os d a Terra, d e desen volvê-los ou d e distribu í-los
com ju st iça, t an t o d esob ed e ce m o s a D eu s com o alien am os as
p essoas de seu p r o p ó sit o p ar a com elas. P or t an to, r esolvem os
h o n r ar a D eu s co m o d o n o d e t od as as coisas; le m b r ar qu e
so m o s m o r d o m o s e n ão p r op r ie t ár io s d e q u alq u e r t er ra ou
p r o p r ie d ad e q u e p o ssu ím o s, e q u er em os usá-las a ser viço de
ou t r os; e r esolvem os t r ab alh ar p ar a qu e h aja ju st iça p ar a os
p ob r es, q u e são e xp lo r ad o s e im p o ssib ilit ad o s d e se d efen ­
der em .
Esp e r am o s a r est au r ação d e t od as as coisas n a volt a de
C r ist o (At 3.21). N e ssa o casião n o ssa h u m an id ad e ser á ple­
n am en t e r est au r ad a, de m o d o q u e p r ecisam os p r om over a
d ign id ad e h u m an a h oje.

3. Pobreza e riqueza

A fir m am o s q u e a p ob r eza in volu n t ár ia é u m a ofe n sa con ­


t ra a b o n d ad e d e D eu s. N a Bíb lia, a pobr eza apar ece associad a
à im p ot ên cia, p ois os p ob r es n ão t êm m eios de se proteger. O
ap elo d e D eu s às au t o r id ad es é n o sen t id o de qu e u sem su a
for ça p ar a d efen d er os p ob r es, n ão p ar a explorá-los. A igreja
p r ecisa ficar ao lad o de D eu s e d o s p o b r es con t r a a in ju st iça,
sofr er com eles e ap elar às au t o r id ad e s p ar a qu e cu m p r am o
p ap e l q u e lh es foi d e t e r m in ad o p o r D eu s.
M u it o n o s esfor çam os p ar a ab r ir n ossas m en t es e n osso s
cor ações às palavr as in cô m o d as de Je su s acer ca d a r iqu eza.
D isse ele: “T en d e cu id ad o e gu ardai-vos de t o d a e q u alq u er
avareza; p o r q u e a vid a cie u m h o m e m n ão con sist e n a ab u n ­
d ân cia d o s b en s q u e ele p o ssu i” (Lc 12.15). O u v im o s su a
ad ver t ên cia acer ca d o s p er igos d a r iqu eza. Pois a r iqu eza traz
t r ib u lação, vaid ad e e falsa segu r an ça, a op r e ssão d os p ob r es
62 | 0 DISCÍPULO RADICAL

e a in d ifer en ça p ar a com o so fr im e n t o d o s n ece ssit ad o s.


D e m a n e ir a q u e é fá c il u m r ic o e n t r a r n o r e in o d o
c é u (M t 19.23), e d e lá ser á exclu íd o o avar en to. O r ein o é
u m a d ád iva ofer ecid a a t od o s, m as o qu e ele é, d e m an eir a
esp ecial, são b o as n ovas p ar a os pob r es, d ad o qu e são eles
qu e r eceb em m ais b en efícios em con seq ü ên cia d as m u d an ças
im p lan t ad as p elo rein o.
C r e m o s qu e Je su s ch am a algu m as p essoas (talvez até m es­
m o n ós) p ar a segui-lo n u m estilo d e vid a qu e in clu i a pobreza
t ot al e volu n tária. Ele ch am a t od os os seu s segu idores a b u scar
u m a liber d ad e in terior em face d a sed u ção d as riqu ezas (pois é
im possível servir a D eu s e ao din h eir o) e a cultivar u m a gen ero­
sid ad e sacrificial (“sejam ricos de b oas obras, gen er osos em d ar
e p r on t os a r ep ar t ir ”, 1 T im ót eo 6.18). D e fato, a m ot ivação e
m o d elo d a ge n er o sid ad e cr ist ã é n ad a m en os qu e o exem plo
d o p r ó p r io Je su s C r ist o , qu e, em b or a r ico, se t o r n o u p ob r e
p ar a qu e, através de su a pobr eza, p u d é sse m o s n os t or n ar
r icos (2 C o 8.9). Fo i esse u m gr an d e sacr ifício in t en cion al.
N o sso p r o p ó sit o é b u scar su a gr aça p ar a segui-lo. Resolvem os
con h ecer p esso alm en t e p essoas p ob r es e op r im id as, e ou vir
o q u e elas p o d e m n os dizer sob r e in ju st iças esp ecíficas, p ar a
d ep o is p r ocu r ar aliviar seu so fr im en t o e in cluí-las regu lar­
m en t e em n ossas or ações.

4. A nova com unidade

Regozijam o- n os p o r ser a igreja a n ova co m u n id ad e d a


n ova era, cu jos m em b r os gozam d e vid a n ova e d e n ovo estilo
de vid a. A igreja crist ã pr im it iva, con st it u íd a em Je r u salém
n o d ia d e P en tecostes, caracterizava-se p o r u m t ip o d e vid a
co m u n it ár ia até en t ão d esco n h ecid a. A q u eles cren t es ch eios
d o Esp ír it o am avam u n s aos ou t r os a p o n t o d e ven d er em e
SIM PLICIDADE

r ep ar t ir em seu s b en s. Em b o r a o fizessem vo lu n t ar iam en t e,


e algu m as p r o p r ie d ad e s p r ivad as fo ssem r et id as (At 5.4), isso
foi feito em su b ser viên cia às n ece ssid ad es d a co m u n id ad e .
“N e n h u m d eles dizia ser seu o q u e p o ssu ía” (At 4.32 ). Ist o é,
er am livres d a afir m ação egoíst a d o s d ir eit os d e p r op r ie d ad e .
E com o r esu lt ad o de su as r elações econ ôm icas t r an sfor m ad as,
“n ão h avia u m n ece ssit ad o seq u e r en tr e eles” (At 4.34).
Esse p r in cíp io de d ivisão gen er osa e d esp ojad a, exp r essad o
n o at o de n os colocar m os a n ós e aos n osso s b en s d isp on íveis
aos n ece ssit ad o s, é u m a in d isp en sável car act er íst ica d e t od a
igreja ch eia d o Esp ír it o. D e m an eir a qu e n ós, qu e t em os t u d o
qu e p r ecisam o s em ab u n d ân cia, seja q u al for n osso p aís de
or igem , r esolvem os fazer m ais p ar a aliviar as n ecessid ad es cios
cren t es m e n o s p r ivilegiad os. D o con t r ár io, ser em os com o
aq u eles r icos cr ist ãos em C o r in t o q u e co m iam e b e b iam
d em ais e n q u an t o seu s p ob r es ir m ãos e ir m ãs p assavam fom e,
e en t ão m er ecer em os a fir m e r epr ovação com q u e P au lo os
ad m o e st o u , p o r d esp r ezar em a igreja d e D eu s e p r ofan ar e m
o C o r p o d e C r ist o ( I C o 11.20-24). A o in vés d isso , r e so l­
v e m o s im it á- los n u m e st ágio p o st e r io r , q u a n d o P au lo os
in st igo u a p a r t ilh a r su a a b u n d â n c ia d e r e c u r so s c o m os
c r ist ã o s e m p o b r e c id o s d a Ju d e ia , “p ar a q u e h a ja igu a l­
d a d e ” (2 C o 8.10-15). Foi u m a b ela d em on st r ação d e am o r e
com p aixão, e d e soliciariedade gen tílico-ju daica em Cr ist o.
N o m esm o esp ír it o, d evem os p r ocu r ar m eios d e t ocar a
vid a co m u n it ár ia d a igreja com o m ín im o d e gast os em iten s
co m o viagen s, alim en t ação e acom o d ação . C o n clam am o s as
igrejas e as agên cias p ar aeclesiást icas p ar a qu e, em seu s p la­
n ejam en t o s, se con scien t izem d a n ecessiciade d e se m an t er
a in t e gr id ad e t an t o n o est ilo d e vid a d a co m u n id ad e q u an t o
n o t est em u n h o.
0 DISCÍPULO RADICAL

C r ist o ped e qu e sejam os sal e luz d o m u n d o, a fim de impe-


d ir m o s su a d ecad ên cia social e ilu m in ar m os su as trevas. M as
n o ssa luz p r ecisa b r ilh ar e n o sso sal p r ecisa reter seu sabor.
Só q u an d o a n ova co m u n id ad e se m ost r a m ais clar am en t e
d ist in t a d o m u n d o em seu s valor es, p ad r õ es e estilo de vida,
é q u e ela ap r esen t a ao m u n d o u m a alter n at iva r ad icalm en t e
at r aen t e, e assim exerce su a m aio r in flu ê n cia p o r C r ist o.
Com p r om et em o- n os a or ar e t r ab alh ar p ela r en ovação de
n o ssas igrejas.

5. Estilo de vida pessoal

je su s n o sso Se n h o r n os con voca a ab r açar a san t id ad e, a


h u m ild ad e , a sim p licid ad e e o con t e n t am en t o . Ele t am b ém
n o s p r om et e seu d escan so. C o n fe ssam o s, en t r et an t o, qu e às
vezes p er m it im o s q u e d esejos im p u r os p er t u r b em n ossa paz
in terior . D e m an eir a qu e, se m a r en ovação con st an t e d a paz
de C r ist o em n o sso s cor ações, n o ssa ên fase n o viver sim ples
ser á d eseq u ilib r ad a.
N o ssa o b ed iên cia crist ã exige u m estilo d e vid a sim ples,
m esm o sem levar em con sid e r ação as n ece ssid ad es d os ou-
tros. En t r et an t o , o fat o d e 8 0 0 m ilh ões d e p essoas est ar em
n a p ob r eza m ais ab so lu t a e 10 m il m or r er em d e fom e t od o
dia, t or n a in viável q u alq u e r ou t r o estilo d e vida.
En q u an t o só algu n s d e n ó s fo m os ch am ad os a viver en tre
os p o b r es, e ou t r os a ab r ir seu s lares aos n ece ssit ad o s, t od os
est ão d et er m in ad o s a desen volver u m estilo de vid a sim ples.
T e n cio n am o s r eexam in ar n o ssa r en d a e n o sso s gast os, e fim
de gast ar m en os, p ar a qu e p o ssam o s d o ar m ais. N ã o b aixa­
m os n o r m as n em r egu lam en t os, qu er seja p ar a n ós m esm os,
q u er seja p ar a ou t r os. C o n t u d o , r esolvem os r en u n ciar ao
d esp er d ício, e op or m o- n os à ext ravagân cia em n o ssa vid a
SIM PLICIDADE

p essoal, em m at ér ia d e r o u p as e d e m or ad ia, d e viagen s e de


t em p los. T am b é m aceit am o s a d ist in ção en tr e n ece ssid ad es
e lu xo, “h o b b ie s” cr iat ivos e sím b o lo s d e st at u s vazios, m o ­
d ést ia e vaid ad e, celeb r ações ocasio n ais e o n o sso dia-a-dia, e
en tr e o ser viço d e D eu s e a escr avid ão à m od a. O n d e t r açar
o d ivisor d e águ as — eis o qu e r eq u er m ais r eflexão e m ais
d ecisão d e n o ssa p ar t e, ju n t am e n t e com n o sso s fam iliar es.
A q u eles d en t r e n ó s q u e p er t en cem ao O cid e n t e n ece ssit am
d a aju d a d e n o sso s ir m ãos d o Ter ceir o M u n d o a fim de
avaliar em seu s gast os. N ó s qu e vivem os n o Ter ceir o M u n d o
r e co n h e ce m o s q u e t am b é m e st am o s exp o st o s à t e n t ação
d a avareza. D e m an eir a qu e p r ecisam o s d a com p r een são ,
e st ím u lo e o r açõ es u n s d o s ou t r os.

6. Desenvolvim ent o int ernacional

Eco am o s as p alavr as d o P acto d e Lau san n e : “Est am o s


ch ocad os com a pobr eza d e m ilh ões, e p er t u r b ad os com as in ­
ju st iças q u e a p r o d u zem ”. U m q u ar t o d a p o p u lação m u n d ial
goza d e p r o sp e r id ad e sem p ar alelo, e n q u an t o ou t r o q u ar t o
p ad ece d a m ais op r essiva pobr eza. Essa b r u t al d isp ar id ad e é
u m a in ju st iça; r ecu sam o- n os a n os con fo r m ar m o s com ela.
O ap elo p o r u m a N ova O r d e m Eco n ô m ica In t e r n acion al
exp r essa a ju st ificad a fr u st r ação d o Ter ceiro M u n d o .
Ch e gam o s a u m en t en d im en t o m ais claro d a ligação en tre
recu rsos, r en d a e con su m o: as p essoas com fr equ ên cia m or r em
de fom e p or q u e n ão p o d em com p r ar com id a, p or qu e n ão têm
r en d im en t o, n ão têm op or t u n id ad e p ar a produzir, e p or qu e
n ão têm acesso ao poder. P ort an to, ap lau d im os a crescen te
ên fase d as agên cias cristãs n o desen volvim en to, de preferên cia
à aju d a sim plesm en te. Pois a t ran sferên cia de p essoal e tecn olo­
gia ap r o p r iad a p od e capacit ar as p essoas a fazerem b o m u so de
0 DISCÍPULO RADICAL

seu s p r óp r ios recursos, en qu an t o ao m esm o tem po r espeita su a


dign id ad e. Resolvem os con tr ibu ir m ais gen erosam en te p ar a os
pr ojetos de desen volvim en to h u m an o. O n d e vidas h u m an as
estão em jogo, n u n ca deveria h aver car ên cia de fu n d os.
M as a ação gover n am en tal é essen cial. A q u eles d en t r e n ós
qu e vivem n os p aíses m ais r icos sen tem -se con st r an gid os p elo
fato de qu e a m aior ia cie seu s govern os fr acassou n o p r op ósit o
d e at in gir seu s alvos n o t ocan t e à assist ên cia oficial ao d esen ­
volvim en to, ã m an u t en ção d e víveres est ocad os p ar a casos de
em er gên cia ou à lib er alização d e su a p olít ica com er cial.
C h e gam o s à con clu são d e qu e em m u it os casos as m u l­
t in acio n ais r ed u zem a in iciat iva local n os p aíses o n d e op e­
r am , e t en d em a opor-se a q u alq u e r m u d an ça fu n d am e n t al
n o gover n o. E st am o s con v e n cid o s de qu e elas d ever iam
su bm eter-se m ais ao con t r ole e ser em m ais r esp on sáveis p elo
q u e fazem .

7. Ju st iça e política

T am b é m est am o s con ven cid os d e qu e a p r esen t e sit u ação


d e in ju st iça social é t ão r epu lsiva a D eu s, qu e u m a m u d an ça
b em am p la é n ecessár ia. N ã o qu e cr eiam os em u t op ias ter­
restres. M as t am p o u co so m o s p essim ist as. A m u d an ça p o d e
vir, em b o r a n ão sim p lesm en t e através d o com p r o m isso com
u m estilo de vid a sim p les ou através de p r ojet os d e d esen vol­
vim en t o h u m an o.
Pobreza e r iqu eza excessiva, m ilit ar ism o e in d ú st r ia ar-
m am en t ist a, e a d ist r ib u ição in ju st a de capit al, de t er ra e de
r ecu r sos con st it u em p r ob le m as qu e têm a ver d ir et am en t e
com p o d e r e im p ot ên cia. Se m u m a m u d an ça d e p o d e r atr a­
vés d e m u d an ças est r u t u r ais, esses p r ob lem as n ão p o d er ão
ser r esolvid os.
SIM PLICIDADE

A igr eja, ju n t a m e n t e co m o r est o d a so cie d ad e , e st á


in evitavelm en t e en volvida n a p olít ica, q u e é “a ar te d e viver
em c o m u n id ad e ”. O s ser vos d e C r ist o p r ecisam exp r essar o
sen h o r io dele em seu s co m p r o m isso s p olít icos, eco n ô m ico s
e sociais, e em seu am o r p or seu p r óxim o, p ar t icip an d o d o
p r ocesso p o lít ico. C o m o , en t ão, p o d e m o s con t r ib u ir p ar a a
m u d an ça?
Em p r im eir o lu gar, or ar em os pela paz e p ela ju st iça, com o
D e u s o r d en a. Em se gu n d o lu gar, p r ocu r ar em os e d u car o
povo cr ist ão n as q u est ões m or ais e p olít icas en volvidas, es­
clar ecen d o assim su a visão e le van t an d o su as exp ect at ivas.
Em t er ceiro lu gar, agir em os. A lgu n s cr ist ãos são ch am ad os
a exercer t ar efas im p o r t an t e s ju n t o ao gover n o, n o set or
e co n ô m ico ou em assu n t os d e d esen volvim en t o. T o d o s os
cr ist ãos d evem p ar t icip ar at ivam en t e d o esfor ço p ela cr iação
d e u m a so cied ad e ju st a e r espon sável. Em algu m as sit u ações,
a o b e d iê n cia a D eu s exige r esist ên cia a u m sist em a in ju st o.
Em q u ar t o lu gar, p r ecisam os est ar p r ep ar ad os p ar a sofrer.
C o m o segu id o r es d e Je su s, o Ser vo Sofr ed or , sab e m o s qu e
o ser viço sem p r e en volve sofr im en t o.
O co m p r o m isso p essoal em t er m os d e m u d an ça de est ilo
d e v id a n ão ser á eficaz se n ão h ou ver ação p olít ica, visan d o
à m u d an ça d o s sist em as in ju st os. M as a ação p olít ica sem
co m p r o m isso p e sso al é in ad e q u ad a e in com p let a.

8. Evangelização

Est am o s p r o fu n d am e n t e p r e o cu p ad o s com os m u it os m i­
lh ões d e p e sso as n ão evan gelizadas esp alh ad as p elo m u n d o .
N ad a d o q u e foi d it o sobr e est ilo d e vid a ou ju st iça d im in u i
a u r gên cia d o d esen volvim en t o d e est r at égias evan gelíst ícas
ap r o p r iad as ao s d ifer en t es m eio s cu lt u r ais. N ã o d evem os
0 DISCÍPULO RADICAL

d e ixar d e p r o clam ar C r ist o co m o Sa lv a d o r e Se n h o r d e


t o d o o m u n d o . A igr eja ain d a n ão est á le van d o a sér io su a
m issão d e agir co m o t e st e m u n h a d ele “at é os co n fin s d a
t e r r a” (At 1.8).

Q uan do os cristãos se im portam uns com os


outros, e com os pobres, Jesus Cristo se torna
m ais visivelm ente atraente

D e m an eir a qu e o ap elo p o r u m estilo de vid a r espon sável


n ão deve est ar d ivor ciad o d o ap elo p or u m t est em u n h o res­
p on sável. Pois a cr ed ib ilid ad e d e n ossa m en sagem d im in u i
ser iam en t e sem p r e qu e a con t r ad izem os com n ossas vid as. E
im p ossível pr oclam ar , com in t egr id ad e, a salvação d e Cr ist o,
se ele, evid en t em en t e, n ão n os salvou d a cob iça, ou p r ocla­
m ar seu sen h o r io se n ão so m o s b o n s m o r d o m o s d e n ossas
p o sses; ou p r oclam ar seu am o r se fech ar m os n osso s cor ações
p ar a os n ecessit ad o s. Q u a n d o os cr ist ãos se im p o r t am u n s
com os ou t r os, e com os p ob r es, Je su s C r ist o se t or n a m ais
visivelm en te atr aen t e.
C o n t r ast an d o com isso, o estilo d e v id a aflu en t e d e algu n s
evan gelistas ocid en t ais, q u an d o em visita ao Terceiro M u n d o,
é com p r een sivelm en t e ofen sivo a m u it a gen te.
A cr e d it am o s qu e o viver sim p les d a p ar t e d o s cr ist ãos em
geral lib er ar ia con sid er áveis r ecu r sos fin an ce ir os e p essoais
t an t o p ar a a evan gelização com o p ar a at ivid ad es desen vol-
v im en t ist as. D e m an eir a qu e, através d o com p r o m isso com
SIM PLICIDADE

u m est ilo d e vid a sim p les, r eassu m im o s n ovam en t e, d e t od o


o cor ação, a evan gelização m u n d ial.

9. 0 retorno do Senhor

O s p r o fe t as d o V elh o T e st am e n t o d e n u n c iar am a id o ­
lat r ia e as in ju st iças d o povo d e D e u s, e ad v er t ir am p ar a a
v in d a d o ju ízo . D e n ú n cias e ad v er t ên cias se m e lh an t e s são
e n co n t r ad as n o N o v o T e st am e n t o . O Se n h o r Je su s vir á
em breve ju lgar , salvar e r ein ar . Se u ju ízo cair á so b r e os
c o b iço so s (q u e são id ó lat r as) e so b r e t o d o s os o p r e sso r e s.
P ois, n esse d ia, o R ei se n t ar á em seu t r o n o e se p ar a r á os
salvos d o s p e r d id o s. A q u e le s q u e se r v ir am a ele, se r v in d o
aos m ais p e q u e n in o s d e se u s ir m ão s car en t es, se r ão salvos,
p o is a r e alid ad e d a fé qu e salva é visível n o am o r ser viçal.
M as os q u e se m an t ê m p e r sist e n t e m e n t e in d ife r e n t e s à
sit u ação d o s n e ce ssit ad o s, e assim a C r ist o n eles, esses es­
t ar ão ir r ever sivelm en t e p e r d id o s (M t 25.31-46). T o d o s n ós
p r e cisam o s ou v ir d e n ovo essa so le n e ad v er t ên cia d e Je su s,
e r esolver d e n ovo ser vir a ele n a p e sso a d o n e ce ssit ad o .
P o r t an t o , co n clam am o s n o sso s ir m ão s em C r ist o , em t o d a
p ar t e, a fazer o m esm o .

Nossa resolução

T e n d o , p o is, sid o lib e r t a d o s p e lo sacr ifício d e n o sso


Se n h o r Je su s C r ist o , em ob e d iê n cia a seu ch am ad o, e em
sin cer a co m p aixão p elos p ob r es, p r e o cu p ad os com a evan ­
gelização, co m o d esen v olvim e n t o e com a ju st iça, e em
solen e an t e cip ação d o D ia d o Ju ízo, n ós, h u m ild em en t e,
n os co m p r o m e t e m o s a desen volver u m estilo d e vid a ju st o
e sim p les, a ap o iar u n s aos o u t r os n ele e a est im u lar ou t r as
p esso as a se u n ir em a n ós n esse com p r om isso.
O DISCÍPULO RADICAL

Sab e m o s q u e p r ecisar em os de t em p o p ar a levar a cab o


su as im p licações, e qu e a t ar efa n ão ser á fácil. Q u e o D eu s
Tod o- P od er oso n o s co n ce d a su a gr aça p ar a p er m an ecer m os
fiéis! A m ém .
* * *

O Com prom isso evangélico com um estilo de v ida sim ples é u m


d o cu m e n t o lon go. A ssim , deixe-m e d est acar su as ên fases:
1. A nova com unidade: A legr am o- n os p o r q u e a igreja é d es­
t in ad a a ser a n ova co m u n id ad e d e D eu s, a qu al d em on st r a
n ovos valor es, n ovos p ad r õ e s e u m n ovo est ilo d e vida.
2. Estilo de vida pessoal: n ão est ab elecem os regr as ou r egu ­
lam en t os. P orém , com o cerca de 10 m il p essoas m or r em de
fom e t o d o s os d ias, n os d et er m in am os a sim p lificar n osso
estilo de vid a.
3. Desenvolvimento internacional: est am os ch ocad os com a
pob r eza d e m ilh ões e d ecid im os con t r ib u ir m ais gen er osa­
m en t e com p r ojet os d e d esen volvim en t o h u m an o . P orém , a
ação go ver n am en t al é essen cial.
4. Ju stiça e política: acr ed it am os qu e a sit u ação at u al de
in ju stiça social é detestável p ar a D eu s e qu e m u d an ças p od em
e d evem acon t ecer.
5. Evangelism o: est am os p r ofu n d am e n t e p r eo cu p ad os com
os m ilh ões d e p essoas n ão evan gelizadas. O d esafio d e u m
est ilo d e vid a sim p les n ão deve est ar sep ar ad o d o d esafio de
u m t est em u n h o r esp on sável.
6. O retorno do Senhor: acr ed it am o s qu e, q u an d o Je su s
ret or n ar, aqu eles q u e o ser vir am p o r m eio d o ser viço aos
p e q u e n in o s ser ão salvos, p ois a r ealid ad e d a fé salvad or a é
d e m o n st r ad a n o am o r servil.
Capít ul o 6

EQUILÍBRIO

an t igo D u q u e de W in d so r , qu e p o r u m cu r t o p e r ío d o
de t em p o foi o Rei Ed u ar d o 8, m or r eu em Paris em m aio
d e 1972. N aq u e la n oit e, u m in t er essan t e d o cu m e n t ár io foi
ap r esen t ad o n a t elevisão b r it ân ica. In clu ía p ar t es ext raíd as de
film es q u e m ost r av am Ed u ar d o 8 se n d o q u e st io n ad o a r es­
p eito d e su a ed u cação, seu breve r ein ad o e su a ab d icação .
Lem b r an d o - se d e seu p assad o , ele d isse: “M e u p ai [o
rei G e o r ge 5] foi u m r ígid o d iscip lin ad or . Q u a n d o eu fazia
algo er r ad o, ele às vezes m e ad ver t ia d izen d o: ‘M eu q u er id o
m en in o , você deve sem p r e se lem b r ar de q u em é ”’. Se ele
ap e n as se lem b r asse cie q u e er a u m p r ín cip e real d e st in ad o
ao t r on o, n ão se co m p o r t ar ia d e fo r m a in ad eq u ad a.
A p er gu n t a é: q u em so m o s n ós? E n ão h á n o N ovo Tes­
t am e n t o u m texto q u e ap r esen t e u m r egistro m ais var iad o
e e q u ilib r a d o d o q u e sig n ific a se r u m d isc íp u lo d o q u e
1 P edro 2.1-17:

Despojan do-vos, portan to, de toda m aldade e dolo, de hi­


pocrisias e invejas e de toda sorte de maledicên cias, desejai
arden tem en te, com o crianças recém-nascidas, o gen uín o
leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento
0 DISCÍPULO RADICAL

para salvaçao, se é que já tendes a experiência de que o


Sen h or é bon doso.

Ch egan do-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pe­
los h om en s, mas para com Deus eleita e preciosa, tam bém
vós m esm os, com o pedras que vivem, sois edificados casa
espiritual para serdes sacerdócio san to, a fim de oferecerdes
sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por in term édio de
Jesu s Cristo. Pois isso está n a Escritura:

Eis que pon h o em Sião um a pedra angular, eleita e preciosa;


e quem nela crer n ão será, de m odo algum, en vergon h ado.
Para vós outros, portan to, os que credes, é a preciosidade;
mas, para os descren tes, A pedra que os con strutores rejei­
taram, essa veio a ser a prin cipal pedra, an gular e: Pedra de
tropeço e roch a de ofensa.

São estes os que tropeçam n a palavra, sen do desobedien tes,


para o que tam bém foram postos. Vós, porém , sois raça
eleita, sacerdócio real, n ação san ta, povo de propriedade
exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtucies daquele
que vos ch am ou das trevas para a sua maravilh osa luz; vós,
sim, que, antes, n ão éreis povo, mas, agora, sois povo de
Deus, que n ão tín h eis alcan çado misericórdia, mas, agora,
alcan çastes m isericórdia.

Am ados, exorto-vos, com o peregrinos e forasteiros que sois,


avos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra con tra
a alma, m an ten do exemplar o vosso procedim en to no m eio
dos gen tios, para que, n aquilo que falam con tra vós outros
com o de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras,
glorifiquem a Deus n o dia da visitação.
Sujeitai-vos a toda in stituição h um an a por causa do Sen h or,
quer seja ao rei, com o soberan o, quer às autoridades, com o
en viadas por ele, tan to para castigo dos malfeitores com o
para louvor dos que praticam o bem. Porque assim é a von ­
tade de Deus, que, pela prática do bem, façais em udecer a
EQUILÍBRIO

ignorância dos in sen satos; com o livres que sois, n ão usan do,
todavia, a liberdade por pretexto cia m alícia, m as viven do
com o servos de Deus. Tratai todos com h on ra, am ai os
irmãos, temei a Deus, h on rai o rei.

Em u m a sér ie d e m et áfor as var iad as, o ap ó st o lo ilu st r a


q u e m so m o s n ó s. C a d a u m a d e las car r ega co n sigo u m a
ob r igação cor r esp o n d en t e. Ju n t a s elas p o d e m ser ch am ad as
cristianism o, de acor d o com P edro.

Bebês

P ed ro com p ar a seu s leitor es a b eb ês r ecém -n ascidos p o r q u e


eles n ascer am de n ovo (lP e 1.23). M as o qu e é o n ovo n asci­
m en to? D izer qu e é o qu e acon t ece q u an d o so m o s b at izad os
co m o m em b r os d a igreja é u m er r o. D e fato, o b at ism o é o
sacr am en t o d o n ovo n ascim en t o. Ist o é, ele é u m a d r am a­
tização ext er n a e visível d o n ovo n ascim en t o. P orém , n ão
d evem os co n fu n d ir o sím b olo com a r ealid ad e, ou a p laca
com o q u e é r ep r esen t ad o.
O n ovo n ascim en t o é u m a m u d an ça p r o fu n d a, in t er ior e
r ad ical, r ealizad a p elo Esp ír it o San t o em n ossa p er so n alid ad e
h u m an a, q u e n os con ced e u m n ovo cor ação e u m a n ova vid a
e n os faz u m a n ova criatu r a. A lé m d o m ais, com o Je su s afir­
m o u em su a con ver sa com N ico d e m o s, ele é in d isp en sável.
“Im port a-vos n ascer de n ovo” Qo 3.7), d isse ele.
O p r o b le m a é qu e n ão em er gim os d o n ovo n ascim en t o
co m o e n t e n d im e n t o e o car át er d e u m cr ist ão m ad u r o ,
n em co m asas an gelicais t ot alm e n t e d esen volvid as (!), m as,
em vez d isso , “co m o c r ian ças r e cé m - n ascid as” — fr acas,
im at u r as, vu ln er áveis e, acim a de t u d o, p r ecisan d o crescer.
E p o r isso q u e o N ovo T est am en t o fala d a n ece ssid ad e de
0 DISCÍPULO RADICAL

crescer em con h ecim en t o, san t id ad e , fé, am o r e esp er an ça.


A ssim , P ed ro escreve qu e seu s leitor es devem “cr escer ” em
su a salvação (v. 2). Isso q u er dizer qu e eles d evem se desfazer
d e “t o d a m ald ad e e d olo, de h ip ocr isias e in vejas e d e t od a
sor t e de m ale d icên cias” (v. 1), p ois (dedu z ele) essas coisas
são in fan tis. En t ão devem os deixá-las e crescer n a sem elh an ça
com Cr ist o.
P orém , com o d evem os crescer? T en d o em m en te a figu r a
d e u m b eb ê r ecém - n ascid o, o b se r v am o s n o ver sícu lo 2 a
r efer ên cia d e Pedro ao “ge n u ín o leite esp ir it u al”: “D esejai
ar cien t em en t e, co m o cr ian ças r ecém - n ascid as, o ge n u ín o
leite esp ir it u al, p ar a qu e, p o r ele, vos seja d ad o cr escim en t o
p a t a salvação” .
Em o u t r as p alavr as, assim com o , p ar a u m a cr ian ça, o
segr ed o d o cr escim en t o sau d ável é a r egu lar id ad e d e u m a
d ieta correta, a alim en t ação d iár ia e d iscip lin ad a é a p r in cip al
co n d ição p ar a o cr escim en t o esp ir itu al.
En t ão q u e leite d evem os con su m ir p ar a crescer em m a­
t u r id ad e cristã? D e acor d o com a Bíb lia A lm e id a Revist a e
A t u alizad a, é o “ge n u ín o leite esp ir it u al”. O adjetivo grego é
logikos. Essa palavr a p o d e ter o sign ificad o liter al d e “m et afísi­
c o ”, o p o st o ao leite d a vaca, ou “r acio n al”, qu e q u er dizer ali­
m en t o p ar a a m en t e e p ar a o cor p o, ou “ a palavr a d e D e u s”,
com o em 1 Pedro 1.23. A P alavra de D eu s cer t am en t e é t ão
in d isp en sável p ar a o n o sso cr escim en t o esp ir it u al q u an t o o
leite m at er n o p ar a o cr escim en t o d o bebê. “D eseje-o ar d en ­
t em en t e”, in cen t iva P edro, “se é qu e já t en d es a exp er iên cia
d e q u e o Se n h o r é b o n d o so ” (lP e 2.3). O t eólogo Edw ar d
G o r d o n Selw yn , em seu co m e n t ár io ,1 su gere q u e P edro t em
em m en te “o ar d o r d e u m a cr ian ça am am e n t ad a”. P edro
p ar ece dizer: “Vocês já p r ovar am , agor a saciem -se”.
EQUILÍBRIO

N a vida cristã a disciplin a diária é u m a pr ofu n d a n ecessidade.


W illiam Tem ple, ar ceb ispo de Can t e r b u r y d u r an t e a Se gu n d a
G u e r r a M u n d ial, d isse p ar a u m a m u lt id ão de joven s:

A lealdade dos jovens cristãos deve ser prim eira e prin ci­
palm en te ao próprio Cristo. Nada pode tom ar o lugar do
tem po diário de com un h ão ín tim a com o Sen h or [...]. De
algum a forma, en contre tem po para isso e assegure-se de
que é u m a experiên cia verdadeira.

Pedras

A se gu n d a m et áfo r a q u e P edro ap r ese n t a é a d e pedras vivas


(lP e 2.4-8). Ele sai d o m u n d o d a b io lo gia (n ascim e n t o e
cr escim en t o) e vai p ar a o m u n d o d a ar q u it et u r a (p e d r as e
con st r u ções). Est ivem os n a en fer m ar ia de u m a m at e r n id ad e
ob se r v an d o u m r ecém -n ascido ter sed e d e leite; agor a, vam os
ob ser v ar u m p r éd io em con st r u ção. Ele é feito d e p e d r as e
n ão t em os d ificu ld ad e d e r econ h ecer qu e é u m a igreja. N ã o
o t ip o d e p r éd io ao q u al d am o s o n om e d e igreja h oje, m as
a Igreja d o D eu s viven te, o povo d e D eu s. C o m o as p ed r as
n a c o n st r u ção são p e sso as, P ed r o as ch am a “p e d r a s q u e
vivem ”.
É im p o r t an t e n os alegr ar m os ao p er ceb er q u e D e u s est á
co n st r u in d o a su a igreja ao r e d o r d o m u n d o. P od e ser q u e
algu m as r eligiõ es (an t igas e m o d e r n as) viven ciem u m r e­
n ascim en t o , p o d e ser qu e o secu lar ism o in vad a a igreja d o
O cid en t e, e p o d e ser q u e gr u p o s e gover n os h ost is p er sigam
a igreja e ela seja fo r çad a a se escon d er . N o e n t an t o, a igreja
co n t in u a cr escen d o.
N a ver d ad e, n acia p o d e d est r u ir a igreja de D e u s. Je su s
p r om et eu q u e as “p o r t as d o in fer n o n ão p r evalecer ão con t r a
0 DISCÍPULO RADICAL

ela” (M t 16.18). Ist o é, a igreja t em u m d est in o et er n o. Ela


é in d est r u tível. O p r éd io cresce p e d r a p or ped r a, até q u e
u m d ia a cu m eeir a é colocad a n o lu gar e a con st r u ção est á
com p let a.
C o m o , en t ão, n o s u n im o s à igreja? In gr essam o s à ex­
p r essão visível, ext er n a d a igreja p elo b at ism o. M as co m o
n o s t o r n am o s p ar t e d o povo d e D eu s? O b ser ve 1 P edro 2.4:
“Ch egan d o- vos p ar a ele”, p ar a a P edra Viva, isto é, Jesu s C r is­
to, r ejeit ad o p elos h o m en s, m as p r ecioso p ar a D eu s, e se n d o
ed ificad o s co m o casa esp ir it u al. N o s ver sícu los 6-8, P edro
r eú n e u m a série d e textos d o A n t igo Test am en t o (de Jer em ias
e d os Salm os) sobr e p ed r as e roch as. Sign ificat ivam en t e, ele as
ap lica a C r ist o , n ão a si p r óp r io . Pois Pedro n ão é a r och a n a
q u al ed ificam o s n o ssa vid a: C r ist o é a Pedra Viva, r ejeit ad o
p o r Israel, m as esco lh id o p o r D eu s e p r ecioso p ar a ele.
A im p licação d isso é qu e cer t am en t e so m o s m em b r os
u n s d o s ou t r os. Se os b eb ês p r ecisam de leite p ar a crescer,
as p ed r as p r ecisam d e ar gam assa p ar a se ligar em m u t u am e n ­
te. Im agin e u m p r éd io. C a d a p e d r a é cim en t ad a às ou t r as
e assim se t or n a p ar t e d a con st r u ção. N e n h u m a d elas fica
su sp e n sa n o ar. T od as p er t en cem ao p r éd io e n ão p o d e m
ser r et ir ad as dele.
R e fle t in d o sob r e isso, ap liq u e m o s o e n sin o d e P ed r o a
n ós m esm o s. O q u e Je su s C r ist o sign ifica p ar a n ós? Ele é
u m a p e d r a d e t r op eço n a q u al esfolam os a can ela e caím os?
O u é a p e d r a fu n d am e n t al sob r e a q u al est am os co n st r u in d o
a vida?
A lgu n s an o s atr ás tive a o p o r t u n id ad e de m e en co n t r ar
e co n v er sar com H o b a r t M ow r er ,2 p r o fe sso r e m é r it o d e
p siq u iat r ia d a U n iv er sid ad e d e Illin ois e n a é p o ca algu ém
m u it o con h ecid o. Ele n ão er a cr ist ão e m e d isse t er t id o u m a
EQUILÍBRIO

b r iga com a igreja. Se gu n d o M ow rer, a igreja h avia falh ad o


co m ele em su a ju ven t u d e e con t in u av a falh an d o com seu s
pacien t es. E acr escen t ou : “A igreja n u n ca ap r en d eu o segr ed o
d a c o m u n id ad e ”. Essa é u m a d as crít icas m ais co n d e n at ó r ias
à igreja q u e já ou vi. Pois a igreja é co m u n id ad e , p ed r as vivas
n o p r éd io d e D eu s.
P r ecisam os r esgat ar a visão co m u n it ár ia d a igreja, d as p e­
d r as q u e vivem n o p r éd io d e D eu s. A lé m d o m ais, é p r eciso
u m a ar gam assa d a m elh or q u alid ad e.

Sacerdot es

At é aq u i, P ed ro n o s co m p ar o u a r ecém - n ascid os cu jo d ever é


crescer e a p ed r as vivas cu jo dever é am ar e apoiar-se m u t u a­
m en te. A go r a ele ch ega à t er ceira m et áfor a e n os co m p ar a a
sacerdotes san tos cu jo dever é ad o r ar a D eu s.
P ar a m u it o s cr ist ãos, t al m e t áfo r a cau sa su r p r e sa e até
m e sm o c h o q u e . A p e sa r d isso , n ã o p o d e m o s ign o r á- la.
P ed ro escreve q u e D e u s n o s fez t an t o “sace r d ó cio sa n t o ”
(v. 5) co m o “sace r d ó cio r e al” (v. 9). O q u e o ap ó st o lo q u er
dizer?
N a é p o ca d o A n t igo T est am en t o , os sacer d ot es isr aelit as
p o ssu íam d o is p r ivilégios. P r im eir o, eles d e sfr u t av am d o
acesso a D eu s. O Tem p lo d e H er od es er a r o d e ad o p elo át r io
d o s sacer d ot es, d e o n d e o povo er a r igor osam en t e exclu íd o.
A p e n as os sacer d ot es t in h am p er m issão p ar a en t r ar n o t em ­
plo, e so m en t e o su m o sacer d ot e p o d ia en t r a n o san t o d os
san t os ou san t u ár io in ter n o —e ap en as n o d ia d a p r op iciação.
P ara salien t ar , a lei p r escr evia a p en a d e m or t e p ar a t o d o s os
in t r u so s. Isso sign ificava qu e o acesso a D eu s er a r est r ito ao
sacer d ó cio e n egad o ao povo.
78 0 DISCÍPULO RADICAL

O se gu n d o p r ivilégio er a o ofer ecim en t o d e sacr ifícios


a D eu s. O povo trazia os sacr ifícios e im p u n h a as m ãos so­
bre a cab eça d as vít im as, t an t o p ar a se id en t ificar com elas
q u an t o p ar a tran sferir, sim b olicam en t e, a cu lp a. P orém , só
os sacer d ot es t in h am p er m issão p ar a m at ar os an im ais p ar a
o sacr ifício, cu m p r ir o r it u al e asp er gir o san gu e.
N a ép o ca cio A n t igo T est am en t o, o acesso e o sacr ifício
er am os d o is pr ivilégios r eser vad os est r it am en t e ao sacer d ó­
cio.
P orém , at u alm en t e, e p or m eio de Je su s C r ist o , essa d is­
t in ção en tr e sacer d ot e e povo foi ab olid a. O s pr ivilégios qu e
an tes er am lim it ad o s aos sacer d ot es, agor a são com p ar t ilh a­
d o s p o r t od o s, p o is t o d o s são sacerciotes. T od a a igreja é u m
sacer d ó cio. Por in t er m éd io d e C r ist o , t od os n ós gozam os d o
acesso a D eu s (t em os o u sad ia p ar a en tr ar n a san t a p r esen ça
d e D eu s, H eb r eu s 10.19-22). Por m eio d e C r ist o, t od o s n ós
ofer ecem os a D eu s os sacr ifícios esp ir it u ais d a n o ssa ad o ­
r ação. Esse é o “sacer d ócio u n iver sal d os cr ist ão s” qu e os
r efo r m ad or es r ecu p er ar am n a Refor m a.
C lar o qu e algu n s cr ist ãos ain d a são ch am ad os p ar a ser
p astor es, e n a Igreja A n glican a algu n s pastor es são ch am ad os
“sacer d o t e s”. M as n ão p o r q u e n os esq u ecem os d a h er an ça
r efo r m ad a e d efen d em o s u m p ap e l sacer d ot al n egad o aos
leigos. É ap en as p o r q u e a palavr a priest (sacer dot e) é u m a
co n t r ação de presbyter (pr esb ít er o, an cião) e n ão t em co n o ­
t ação sacer d ot al. Essa é a razão p ela qu al os an glican os d o
sécu lo 17 m an t iver am a p alavr a sacerdote n o Livro C o m u m
d e O r ação . N o en t an t o, isso p o d e ser con fu so e ad m ir o a
sab ecioria d o s líd er es d a igreja d o Su l d a ín d ia e d a Igreja d o
P aq u ist ão p o r n o m ear em as três or d en s m in ist er iais com o
“b isp o s, p r esb ít er os e d iá co n o s”.
EQUILÍBRIO

P or q u e, e n t a o , o s d isc íp u lo s c r ist ão s são c h a m a d o s


“sacer d ó cio san t o ”? P edro n os diz n o ver sícu lo 5:

Sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio san to,


a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus
por in term édio de Jesus Cristo.

A ssim , so m o s sacer d ot es san t o s ch am ad o s p ar a cu lt u ar a


D eu s. M as isso é t u d o? Se r á qu e a igreja deve ser u m a esp écie
de gu et o esp iritu al? D evem os ficar ab so r t o s em n o ssa vid a
in terior? Se r á q u e n o sso s ú n ico s dever es são o cr escim en t o
esp ir it u al (com o b eb ês), a co m u n h ão (com o p ed r as em u m
précJio) e o cu lt o (ofer ecen d o a D eu s os sacr ifícios esp ir it u ais
d o n o sso lou vor)? E o m u n d o p e r d id o e solit ár io? N ã o n os
im p o r t am o s com ele?

Povo de Deus

Tais p er gu n t as n o s levam aos ver sícu los 9 e 10, n os q u ais


P edro desen volve u m a q u ar t a m et áfor a: “V ó s, p o r é m , sois
r aça eleita, sacer d ócio real, n ação san t a, povo d e p r op r ie d ad e
exclu siva d e D e u s”.
A q u i o ap ó st o lo co m p ar a a igreja a u m a n ação ou povo;
de fato, a propriedade exclusiva de Deus. O fascin an t e n essas
exp r essões é a or igem d elas. P edro n ão as in ven t ou , m as
en con t r ou - as em Exod o 19.5-6, q u an d o D eu s diz ao povo de
Isr ael, q u e t in h a acab ad o de ser r e d im id o d o Egito, qu e se
eles m an t ivessem seu pact o, o b e d e ce n d o aos m an d am en t o s,
ser iam su a p r op r ied ad e m ais rica (sègullâ), su a n ação escolh id a
de en tr e t o d as as n ações d a t er ra, u m a n ação san t a.
Em su a car ta, e com u m a o u sad ia con ce d id a p elo Esp ír it o
San t o , P ed ro p ega as palavr as d e Exod o , qu e h aviam sid o
ap licad as a Isr ael, e as ap lica à co m u n id ad e cristã. “Vocês,
0 DISCÍPULO RADICAL

segu id o r es d e Je su s”, diz ele a n ós h oje, “são o qu e Israel


er a — u m a n ação san t a, ap esar de agor a ser em u m a n ação
in t e r n acio n al”.
M as p o r qu e D eu s escolh eu Israel? E p o r q u e ele n os esco­
lh eu ? N ã o foi p o r favor it ism o, m as com o objet ivo d e ser m os
su as testem unhas; n ão p ar a d esfr u t ar m o s d e u m m o n o p ó lio
d o evan gelh o, m as p ar a qu e p o ssam o s d eclar ar “os lou vor es
(ou excelên cias, ou p o d er osos feitos) d aqu ele qu e n os ch am ou
d as trevas p ar a a su a m ar avilh osa lu z”.
Pois d e u m a vez p o r t od as, con t in u a P edro, fazen d o refe­
r ên cia ao livro d e O seias:
Não éreis povo, m as, agora, sois povo de Deus, que n ão
tín h eis alcan çado m isericórdia, m as, agora, alcan çastes
misericórdia. Vocês estavam em trevas, mas agora estão em
sua m aravilh osa luz.

A go r a, p o r t an t o , n ão p o d e m o s gu ar d ar essas b ê n ção s só
p ar a n ós.

Estrangeiros

A t é aq u i P edro n os com p ar a a:
- Beb ês r ecém -n ascidos, com o dever d e crescer
- P edras vivas, com o dever d a com u n h ão
- Sacer d o t es san t o s, com o dever de cu lt u ar
- Povo d o p r ó p r io D eu s, com o dever d e t est em u n h ar
P ed ro t em m ais d u as m et áfor as, e com o ver sícu lo 11 ele
ap r ese n t a a q u in t a: “A m ad o s, exorto-vos, com o peregrinos e
forasteiros que sois, a vos ab st er d es d as p aixões car n ais, qu e
fazem gu er r a con t r a a alm a”. As palavr as gregas são in teres­
san t es. “Fo r ast eir o” é aq u ele qu e n ão t em d ir eit os n o lu gar
o n d e vive; “p er egr in o” é aq u ele q u e n ão t em lar.
EQUILÍBRIO

Por q u e P ed ro d escr eve seu s leit or es assim ? Em p ar t e,


p o r q u e é o q u e eles er am , lit er alm en t e. Eles p e r t e n ciam ao
q u e era co n h e cid o p o r “d iá sp o r a ” (lP e 1.1) e est avam espa-
lh ad o s p o r t o d o o Im p ér io R o m an o , em esp ecial p elas cin co
pr ovín cias d e P on to, G alácia, C ap ad ó cia, Á sia e Bit ín ia (at u al
T u r q u ia). M as t am b ém p o r q u e essas p alavr as sim b olizavam a
co n d ição esp ir it u al deles. A go r a q u e eles h aviam n ascid o de
n ovo n o r ein o d e D eu s, h aviam se t o r n ad o , d e cer t a for m a,
“p er egr in o s e for ast eir os n a t er r a” . P or t an t o, eles agor a er am
cid ad ão s d e d o is p aíses. E p o r su a cid ad an ia or igin al ser o
céu , eles er am ch am ad os à san t id ad e .
Esse con ceit o d e u m a “c id ad an ia” san t a e celestial é u m a
verd ad e per igosa, pois p od e ser facilm en t e distor cid a. D e fato,
ela tem sid o fr eq u en t em en t e m al u t ilizad a e tem se t o r n ad o
u m a d escu lp a p ar a n ão d esem p en h ar m os n ossas r espon sabili­
d ad es t er ren as. Kar l M ar x n ão est á t ot alm en t e eq u ivocad o ao
afir m ar q u e a r eligião é “o ó p io d o p o v o ” — en t or p ecen d o- o
p ar a co n d e sce n d e r às in ju st iças d o status quo, ao m esm o
t em p o em q u e p r om et e ju st iça n o m u n d o p o r vir.
P orém , P ed ro é cu id ad o so em evitar essa d ist o r ção . Ele
p ar t e d a r efer ên cia à n o ssa co n d ição de p er egr in os e vai d i­
r et o p ar a os n o sso s deveres d e cid ad an ia n a terra. Em breve
d iscu t ir em os m ais a esse r espeito.

Servos

N a sext a ilu st r ação, P edro descreve os d iscíp u los com o servos


conscientes de Deus (lP e 2.12-17). Ele in cen t iva os leitor es a
viver de tal fo r m a en tre os p agãos qu e eles p o ssam ver su as
b o as ob r as, a su bm eter-se às au t o r id ad e s secu lar es, a fazer o
b em e assim calar a voz ign or an t e d os t olos, a viver com o
0 DISCÍPULO RADICAL

povo livre, sem fazer m au u so d a lib er d ad e, m as viven d o


com o ser vos d e D eu s, e a m ost r ar r espeit o p ar a com t od os:
os ir m ãos n a fé, D eu s e as au t or id ad es.
N o en t an t o, ap esar de t od as essas t ar efas t er r en as com o
cid ad ão s con scien t es,
su bm eter-se às au t or id ad es,
silen ciar as críticas,
fazer o b em ,
r esp eit ar a t od os,

- A in d a p er t en cem os ao céu!
- So m o s est r an geir os e exilad os n a terra.
- So m o s p er egr in os v o lt an d o p ar a o lar, p ar a D eu s.

Esse fato (n ossa cid ad an ia celestial) d esafia p r ofu n d am e n ­


te n o ssas at it u d es p ar a com o d in h eir o e os b en s (p ois vem os
a vicia co m o u m a p er egr in ação en tr e d o is m o m e n t o s de
n u d ez), p ar a com as t r agéd ias e o sofr im en t o (p ois os vem os
sob a p er sp ect iva d a et er n id ad e), e esp ecialm en t e p ar a com
a t en t ação e o p ecad o.
O versícu lo 11 m ost r a u m con tr aste en tre “paixões car n ais”
e “alm a”. N o ssa alm a está a cam in h o de u m en con t r o com
D eu s. Assim , devem os n os abster de t u d o qu e p o ssa se t or n ar
u m ob st ácu lo ao seu pr ogr esso, e devem os viver vidas san t as
em pr ep ar ação p ar a a san t a pr esen ça de D eu s n o céu.

Equilíbrio

A lgu n s cievem se p er gu n t ar p or qu e in t it u lei este cap ít u lo


“Eq u ilíb r io ”. A razão deve ficar clar a agor a. Se gu im o s P edro
n as seis ilu st r ações q u e se com p let am p ar a descr ever o qu e é
u m d iscíp u lo. A q u i est ão elas n ovam en t e:
EQUILÍBRIO

- C o m o cr ian ças r e cé m - n ascid as, so m o s c h a m a d o s a


crescer;
- C o m o p ed r as vivas, so m o s ch am ad os à co m u n h ão ;
- C o m o sacer d ot es san t os, so m o s ch am ad os à ad o r ação;
- C o m o povo d e p r o p r ie d ad e d e D eu s, so m o s ch am ad os
ao t est em u n h o;
- C o m o e st r an geir os e p er egr in o s, so m o s ch am ad o s à
san t id ad e;
- C o m o ser vos de D eu s, so m o s ch am ad os à cid ad an ia.

Essa é u m a d escr ição m ar avilh o sam e n t e ab r an ge n t e e


equ ilib r ad a. Essas seis r esp on sab ilid ad es par ecem se organ izar
em três p ar es, cad a u m ap r e se n t an d o u m equ ilíb r io.

Somos ch am ados tan to p ara o discipulado


in div idual quan to p ara a com un h ão
corporativ a [...]. A doração e trabalho [...],
peregrinação e cidadan ia

Em p r im eir o lu gar, so m o s ch am ad os t an t o p ar a o d is­


cip u lad o in d iv id u al q u an t o p ar a a co m u n h ão cor p or at iva.
Beb ês, ap esar d e n ascer em n u m a fam ília, t êm su a id en t id ad e
p r óp r ia. A t é os gêm eos n ascem se p ar ad os! P orém , a fu n ção
fu n d am e n t al d as p ed r as u sad as em con st r u ção é ser p ar t e de
algu m a coisa. Elas ced er am su a in d iv id u alid ad e ao p r éd io.
Su a im p o r t ân cia n ão est á n elas m esm as, m as n o co n ju n t o.
En t ão, p r ecisam os en fatizar t an t o as n ossas r esp on sab ilid ad es
in d iv id u ais q u an t o as cor p or at ivas.
0 DISCÍPULO RADICAL

Em segu n d o lu gar, so m o s ch am ad os t an t o p ar a ad or ar
q u an t o p ar a t r ab alh ar . C o m o sacer d ócio, n ós ad o r am o s a
D eu s. C o m o p ovo de p r o p r ie d ad e de D eu s, t est em u n h a'
m os ao m u n d o . A igreja é u m a co m u n id ad e d e ad o r ação e
t est em u n h o.
Em t erceiro lu gar, so m o s ch am ad os t an t o p ar a a per egr i­
n ação q u an t o p ar a a cid ad an ia.
Em cad a par, so m os ch am ad os ao equ ilíb r io e n ão à ên fase
de u m em d et r im en t o d o ou t r o. A ssim , so m os t an t o d iscíp u ­
los in d iv id u ais q u an t o m em b r os d a igreja, t an t o ad o r ad o r e s
q u an t o t est em u n h as, t an t o per egr in os q u an t o cid ad ãos.
A r azão d e q u ase t od as as n ossas falh as é a facilid ad e
qu e t em os de esq u ecer n o ssa id e n t id ad e com o d iscíp u los.
N o sso Pai Cele st ial est á con st an t em en t e n os d izen d o o qu e
o Rei G eo r ge 5 sem p r e dizia ao P r ín cipe d e G ales: “M eu
filh o q u er id o , você deve sem p r e se lem b r ar d e q u em você é,
p o is se você se lem b r ar d e su a id en t id ad e, se co m p o r t ar á de
acor d o com ela”.
Capít ul o 7

DEPENDÊNCIA

O s ch am ad os “t eólogos secu lares” d a d écad a de 60 d efen d iam


au d acio sam e n t e q u e a h u m an id ad e h avia at in gid o a m aio-
r id ad e e qu e, n essas cir cu n st ân cias, p o d e r íam o s d isp e n sar
D eu s. Tod avia, essa ch ocan t e d eclar ação d u r ou p o u co , p ois
a ver d ad e é q u e so m os p ecad or es; so m o s d ep en d en t es de
D eu s, de su a m iser icór d ia e d e su a co n t ín u a gr aça. Ten t ar
viver sem ele é ju st am en t e o qu e sign ifica p ecad o. A lém d isso,
t am b ém p r ecisam o s u n s d os ou t r os.
C o m p ar t ilh ar e i u m a d e m in h as r ecen t es exp er iên cias
q u e d e m o n st r am m in h a fr agilid ad e e d e p e n d ê n c ia. Er a
u m a m an h ã d e d o m in go, 20 d e agost o d e 2006, e eu deve-
r ia p r egar n a Igreja A li So u ls em Lan gh am Place, Lon d r es.
Est ava se p ar an d o a r o u p a su ja q u an d o t r opecei n o p é de
u m a cad eir a gir at ó r ia e caí en tr e m in h a cam a e a est an t e de
livros. C o m o n ão p o d ia m e m over, m u it o m en os levan tar-m e
sozin h o, per ceb i n aq u ele m o m e n t o qu e h avia q u e b r ad o ou
d eslo cad o o q u ad r il. En t r et an t o, con segu i ap e r t ar o b ot ão
de em er gên cia e algu n s am igos vier am im ed iat am en t e em
m eu socor r o.
j 0 DISCÍPULO RADICAL

H u gh P alm er, r eit or d a Igreja A li Sou ls, en co n t r ou m eu s


esb o ço s e de algu m m o d o con segu iu pr egar m eu ser m ão.
So m e n t e m ais t ar d e n ot ei com o ele é ap r o p r iad o , p o is h avia
p r ep ar ad o u m a exp o sição d o P ai-N osso,1 fo r m ad a p o r seis
pet ições: três exp r essan d o n o ssa p aixão pela glór ia d e D eu s
(seu n om e, r ein o e von t ad e), segu id as p o r três qu e expr essam
n ossa d ep en d ên cia d e su a gr aça (pelo p ão de cad a dia, percião
d o s n o sso s p ecad os e livr am en t o d o m al). H á m u it o t em p o
com ecei a n o t ar q u e a segu n d a m et ad e d a or ação d o Se n h o r
é u m r esu m o d o n o sso d iscip u lad o — n ossa con sciên cia d a
glór ia d e D eu s e n o ssa d e p e n d ê n cia d e su a m iser icór d ia.
D e p e n d ê n cia é u m a at it u d e fu n d am e n t al qu e t em os d e ter
sem p r e q u e o r ar m o s o P ai-Nosso.
A o m esm o t em p o em qu e o ser m ão sobr e d ep en d ên cia
estava se n d o p r egad o, ele estava, n o m ín im o, se n d o p ar cial­
m en t e ilu st r ad o. Em p o u co t em p o, fu i im ob ilizad o e t r an s­
fer id o d o ch ão p ar a a m aca, d a m aca p ar a a am b u lân cia, d a
am b u lân cia p ar a a cam a d o h o sp it al, d a cam a d o h o sp it al
p ar a a sala d e op er ação. A cor d ei e m e vi gr at am en t e au xiliad o
p o r u m a p r ót ese de q u ad r il e, n o t em p o ap r o p r iad o , estava
r ecu p er ad o.
A ssim , n o d e c o r r e r d o c a p ít u lo , p o r fav o r , n ã o se
e sq u e ç a d a m in h a e xp e r iê n cia m at u t in a, “e sp a r r a m a d o ”
n o ch ão , c o m p le t am e n t e d e p e n d e n t e d e o u t r o s. P ois este
é o lu gar o n d e , d e vez em q u a n d o , o d isc íp u lo r ad ic al
p r e cisa est ar . D e u s p o d e u sar a d e p e n d ê n c ia ge r a d a p o r
e ssas e xp e r iê n cias p a r a c au sar em n ó s u m p r o fu n d o a m a ­
d u r e c im e n t o .
H á o u t r o asp ect o d a d e p e n d ê n cia qu e viven ciei, m as qu e
er a n ovo p r a m im . Fu i t e n t ad o a evitar falar dele, m as m eu s
am igos d e con fian ça in sist ir am p ar a qu e eu n ão m e calasse.
D EPEN D ÊN CIA

É a in st ab ilid ad e em o cion al qu e algu m as vezes a en fer m id ad e


física traz à t o n a e q u e se m an ifest a p elo ch or o.
N ão sou u m a p e sso a qu e ch or a com n at u r alid ad e e, em
geral, con sid er am - m e for te. Fu i e d u cad o n a Ru gb y Sch oo l,
u m a d aq u elas fam o sas escolas “p ú b licas” em qu e se ap r en d e
a filo so fia d a casca gr ossa, isto é, n ão se deve d e m o n st r ar
q u alq u e r em o ção .
P orém , li os evan gelh os e d esco b r i n eles o r egistr o d e qu e
Je su s, n osso Se n h or , ch or ou em p ú b lico d u as vezes: u m a p o r
cau sa d a falt a d e ar r ep en d im en t o d a cid ad e d e Je r u salé m
(Lc 19.41) e o u t r a p o r cau sa d o se p u lt a m e n t o d e Lázar o
(Jo 11.35).
D est e m o d o , se Je su s ch or ou , seu s d iscíp u los pr esu m ivel­
m en te p o d e r iam fazê-lo.
M as p o r q u e eu d ever ia d e r r am ar lágr im as? N ã o estava
d ian t e d a falt a d e ar r ep en d im en t o n em d a m or t e. Est ar ia eu
afu n d ad o n a au t ocom iser ação, sob a per spect iva de u m a len t a
r ecu p er ação? Est ar ia lam e n t an d o m in h a q u e d a e fr at u r a?
Est ar ia v islu m b r an d o ali o fim d o m eu m in ist ér io? N ão , n a
ver d ad e eu n ão tive t em p o de colocar m eu s p en sam e n t os
em or d em .
Tive u m a exp er iên cia sem elh an t e d e lam e n t o com m eu
am igo Jo h n W yatt, qu e é p r ofessor de ética e per in at ologia n o
h osp it al- escola d a U n iv er sid ad e d e Lon d r es, e q u e se t or n o u
fam o so p o r d efen d er a in violab ilid ad e d a vid a h u m an a em
d eb at es p ú b lico s sob r e ab or t o e eu t an ásia. Q u a n d o ele m e
visit ou n o h o sp it al, co m p ar t ilh am os n ossas exp er iên cias de
fr agilid ad e e d ep en d ên cia e am b os ch egam os às lágr im as. Eis
a fo r m a co m o ele d escr eveu essa sit u ação:

Nos prim eiros dias depois da cirurgia, Joh n Stott foi aco­
m etido por episódios de desorien tação e por distin tas e
0 DISCÍPULO RADICAL

alarmantes alucin ações visuais. Além disso, havia a inevitável


h u m ilh ação de receber os cu idados da en ferm agem , e
a preocu pação com o fu tu ro. En qu an t o estávam os no
h ospital, con versan do e com partilh an do, lembrei-me da
m in h a própria experiên cia de doen ça e caos, algun s an os
an tes. Lembro-me que estávam os em lágrimas, dom in ados
por um poderoso sen tim en to com um de vuln erabilidade
e debilidade h u m an a. Foi um a experiên cia dolorosa, mas
libertadora.

A segu ir a segu n d a e sem elh an t e exper iên cia, d essa vez


com a con t r ib u ição d e Sh eila M oor e, m in h a fisiot er ap e u t a
e am iga:

Foi logo após o retorn o para casa, depois de sua conva­


lescença. Joh n havia acabado de voltar para descan sar em
um a cadeira, quan do, de repente, estremeceu e suspirou
profun dam en te. Fui ver se ele se sen tia m al e percebi que
as lágrimas fluíam livremente. Ele estava viven ciando um a
arrebatadora liberação de toda a carga em ocion al e dos
desafios dos eventos recentes, que ele havia pacien tem en te
su portado sen do “um pacien te”. Não há palavras a serem
ditas duran te um a experiên cia tão profun da — som en te
um a em patia e um a con fortan te m ão firme em seu om bro.
Pouco a pouco, en quan to a em oção cedia, assegurei a ele
que n ão se tratava de um a experiên cia in com um em tais
circun stân cias, e que as lágrimas são um alívio e um a forma
de cura muito valiosa.
Essa experiên cia com pletam en te “in u sit ad a” acon teceu
repen tin am en te; foi u m a su rpresa que cau sou certo ch o­
que e d or em ocion al. Racion alizar tais exper iên cias tal­
vez seja difícil, especialm en te para h om en s, que ten dem
a vê-las com o u m a h u m ilh ação. Porém , se en carad as
com h on est id ad e, pod em ser u m alívio m aravilh oso.
D EPEN D ÊN CIA

É m u ito valioso en carar aqu eles m om en t os com o u m a


p r ep ar ação d ad a p or Deu s p ar a as m u d an ças qu e se
en con t r ar iam à fren te, e com o u m pr esen t e especial
da par t e dele.

Deixe-m e con t ar ou t r a ilu str ação. Q u e m m e levou a Cr ist o


d u r an t e o s ú lt im o s an o s n a R u gb y Sc h o o l foi o r e v e r e n d o
E. J. H . N ash , con h ecid o p o r t o d o s os seu s am igos com o
“Ba sh ”. Ele er a u m h o m e m d e n ot ável com p r o m e t im en t o
cr ist ão e t in h a u m a clar a visão d e com o gan h ar p ar a C r is­
to os gar ot os d as m elh or es escolas p ú b licas. Por m eio de
acam p am en t o s o u festas d om iciliar es, ele er a n ot avelm en t e
b em - su ced id o. A p e sar d o su cesso n esse m in ist ér io, ele n ão
m ost r ava sin ais d e ar r ogân cia. Pelo con t r ár io, t o d o s q u e o
en con t r avam , com en t avam sob r e su a h u m ild ad e e m u it os
de n ós, q u e ér am o s seu s am igos, est ávam os cu r io so s p ar a
d esco b r ir seu segr ed o. Em b o r a m u it o r eser vad o p r a falar a
r esp eit o, ele o revelou a m im .
U m d ia , B a sh e eu e st á v a m o s v ia ja n d o ju n t o s d e
t r e m q u a n d o ele m e c o n t o u so b r e su a ju v e n t u d e . A o s
v in t e e p o u c o s a n o s, ele fo i a c o m e t id o p o r u m a sé r ia
d o e n ç a . N o au ge d a e n fe r m id a d e , p e n so u q u e e st av a
em se u le it o d e m o r t e . F ic o u t ã o fr a c o q u e m al p o d ia
se m exer . Ele se q u e r p o d ia alim e n t ar - se co m as p r ó p r ia s
m ã o s e t in h a d e se r a lim e n t a d o c o m u m a c o lh e r . F o i
u m a e x p e r iê n c ia d e t o t a l d e p e n d ê n c ia e h u m ilh a ç ã o .
D e fa t o , se g u n d o ele, a h u m ilh a ç ã o e r a o c a m in h o p a r a
a h u m ild a d e . D e p o is d e a d e n t r a r as p r o fu n d e z a s d a
im p o t ê n c ia a b so lu t a , se r ia im p o ssív e l ch e gar ao c u m e
d a a u t o c o n fia n ç a .
A lgu n s an o s d e p o is, essa ve r d ad e foi c o n fir m ad a p o r
M ich ael Ram sey, ar ceb isp o d e Can t er b u r y.
0 DISCÍPULO RADICAL

A h um ilh ação era o cam inho para a


hum ildade. Depois de aden trar as profundezas
da im potência absoluta, seria impossível chegar
ao cum e da autocon fian ça

D iscu r san d o p ar a u m gr u p o d e p essoas n a vésp er a d a


o r d en ação delas, ele escolh eu a h u m ild ad e com o t em a p ar a
a ocasião e seu d iscu r so in clu ía os segu in t es con selh os:
1. A gradeça a Deus, com fr equ ên cia e sem pre [...]. A gr ad eça
a D eu s, com at en ção e ad m ir ação p o r seu s pr ivilégios sem
fim [...]. G r at id ão é u m so lo n o q u al o or gu lh o n ão cresce
facilm en t e.
2. In teresse-se p o r confessar seus pecados. Cer t ifiqu e- se de
ju lgar a si m esm o n a p r esen ça d e D eu s: isso é o seu auto-
exam e. Coloq u e- se sob o ju lgam e n t o d ivin o: isso é a su a
co n fissão [...].
3. Est e ja p r o n t o p ar a aceit ar hum ilhações. Elas p o d e m
d o er terrivelm en t e, m as te aju d am a ser h u m ild e. P ode ser
q u e sejam h u m ilh ações in sign ifican t es. Aceite-as. P ode ser
q u e sejam h u m ilh açõ es m aior es [...]. T u d o isso p o d e ser u m a
o p o r t u n id ad e p ar a est ar u m p o u co m ais p r óxim o d o n osso
cr u cificad o e h u m ild e Sen h or .
4. N ã o se p r eo cu p e com status [...]. Só existe u m st at u s
co m o q u al n o sso Se n h o r n os or d e n a a est ar p r eo cu p ad os:
o st at u s d e p r oxim id ad e d ele m esm o.
D EPEND ÊNCIA

5. U se seu senso de humor. R ir d as coisas, rir d o s ab su r d os


d a vid a, rir d e si m esm o e d e seu s p r ó p r io s ab su r d os. N ó s
so m o s, t o d o s n ós, cr iat u r as in fin it am e n t e p eq u e n as e b u r ­
lescas d en t r o d o u n iver so de D eu s. Você t em d e ser sér io,
m as n u n ca ser cer im o n ioso, p o r q u e se você for cer im on ioso
sob r e q u alq u e r coisa, existe o r isco d e torn ar-se ce r im o n io so
com você m e sm o .2
A r ecu sa em ser d ep en d en t e d o s ou t r os n ão é u m sin al
d e m at u r id ad e, m as d e im at u r id ad e . U m b o m exem plo é o
film e Conduzindo M iss Daisy, b asead o n a peça teatral de Alfr ed
U h r y, ven ced o r d o p r êm io Pulitzer.
A p esar d e ser p r op en so a en fatizar a t en são racial, o en redo
cen t r al é o r elacio n am e n t o p sicológico e pr ogr essivo en tr e os
d o is p er so n agen s p r in cip ais, M iss Daisy, a in flexível viú va de
72 an os, e H ok e, seu m ot o r ist a afr oam er ican o.
O film e com eça q u an d o a sen h or it a D aisy b at e o carro p o r
colocar o pé n o aceler ad or e n ão n o fr eio. Se u filh o, Bo olie,
diz a ela q u e n e n h u m a co m p an h ia d e segu r os a aceit ar á e
p o r isso ela deve co n t r at ar u m ch ofer. Ela se r ecu sa, m as ele
in sist e até e n co n t r ar H ok e, qu e t in h a sid o m ot o r ist a d e u m
ju iz local até a m or t e deste.
N o in ício ela n ão se r elacion a com H ok e. C e r t a ocasião,
ela d eixa escapar: “Eu n ão pr eciso d e você, eu n ão qu er o você,
eu n ão go st o d e você!”. P orém , gr ad at ivam en t e, con for m e
M iss Daisy e H ok e p assam t em po ju n t os, n asce u m a crescen te
apr eciação m ú t u a até qu e, an os m ais tarde, ela diz a ele: “Você
é m eu m elh o r am igo. D e v e r d ad e ”, e p ega su a m ão.
O film e t er m in a em u m d ia d e A ção d e G r aças n a casa
de r e p o u so o n d e M iss D aisy p asso u a viver. Bo o lie e H ok e a
visit am , m as ela in sist e em m o n op olizar H ok e. Ele ob ser va
qu e ela n ão com eu su a t or t a d e ab ób o r a, e e n q u an t o ela
0 DISCÍPULO RADICAL

t en t a p egar o gar fo, ele gen t ilm en t e p ega o p r at o e o garfo


d ela. “D e ixa eu aju d á o cê ”, ele diz. H ok e cor t a a t or t a em
p e q u e n o s p ed aço s e d á a ela. M iss D aisy se d elicia. O sab or
é b o m . Ele d á a ela o u t r o p ed aço. E ou t r o.
O film e m o st r a a t r an sfor m ação n o r elacion am en t o deles
d esd e o in ício, q u an d o ela se r ecu sou a ser d ep en d en t e dele
p ar a q u alq u e r coisa, até o fim , q u an d o ela é d ep en d en t e de
ou t r o s p ar a q u ase t u d o.
O en velh ecim en t o é o p r ocesso q u e m u d o u o relacion a-
m en t o en tr e M iss D aisy e H ok e. N o fin al d o film e, H ok e
t in h a 85 an o s d e id ad e e M iss Daisy, 97.
A in d a h oje n o sso s r elacio n am e n t os est ão su jeit os a m u ­
d an ça. O falecid o P au l T ou r n ier (1 8 9 8 - 1 9 8 6 ), con h ecid o
m éd ico e p sico t e r ap eu t a su íço, t orn ou -se fam o so com seu
livro The M ean in g of Persons,3 e ap licou su as id eias em ou t r o
livro, Learn ín g to Grow Old:
Som os ch am ados a n os torn ar mais pessoais, a n os torn ar
pessoas, a en carar a velh ice com todos os n ossos recursos
pessoais.
Tem os dado prioridade às coisas e n ão às pessoas; temos
con struído um a civilização mais baseada em coisas do que
em pessoas. O s idosos são m en osprezados porque são pura
e sim plesm en te pessoas, cujo ún ico valor está em ser pessoa
e n ão mais n o que produz.
Q u an do som os velh os [...], tem os o tempo e as h abilidades
n ecessárias para um verdadeiro m in istério de relacion a­
m en tos pessoais.4

P orém , n ão d evem os im agin ar qu e a d e p en d ên cia é a ú n i­


ca at it u d e ap r o p r iad a a ser ad o t ad a p o r u m d iscíp u lo r ad ical.
Exist em m o m e n t o s em qu e so m o s ch am ad os ao op ost o , ist o
é, a ser m o s in d ep e n d e n t es. D e fato, M yra Ch ave-Jon es, qu e
DEPEND ÊNCIA

n a d é c a d a d e 6 0 fo i em gr a n d e p a r t e r e sp o n sá v e l p e la
fu n d ação d a C ar e an d C o u n se l, u m ser viço d e acon se lh a­
m en t o cr ist ão em Lon d r es, escreveu q u e o co n flit o en tr e d e­
p en d ên cia e in d ep e n d ê n cia “é u m a d as cu r vas m ais ab r u p t as
d e ap r en d izagem n o cam in h o d a v id a ”.
O p r ó p r io Je su s e n sin o u q u e a d e p e n d ê n c ia cr esce à
m e d id a q u e cr escem os. D e p o is d e su a r essu r r eição, ele d isse
a Pedro:

Quan do eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por


onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos,
e outro te cingirá e te levará para onde não queres.
João 21.18

João n os diz que as palavras de Jesu s se referiam especificamen te


a P ed ro e su a m or t e; p or ém , elas agr egam u m im p o r t an t e
p r in cíp io r elacio n ad o ao en velh ecim en t o.
Em b o r a a in d e p e n d ê n cia seja ap r o p r iad a em algu m as
cir cu n st ân cias, in sist o n a d e p e n d ê n cia com o a p o st u r a m ais
car act er íst ica d e u m d iscíp u lo r ad ical. C it o n ovam en t e Jo h n
W yat t e su a eloq ü en t e d eclar ação sob r e a p r io r id ad e d a d e­
p en d ên cia: “O p lan o d e D e u s p ar a n o ssa vid a é q u e sejam os
d e p e n d e n t e s”.
V ie m o s a este m u n d o t ot alm e n t e d ep en d en t es d o am or,
d o cu id ad o e d a p r ot eção d e ou t r os. P assam os p o r u m a fase
n a vid a em q u e ou t r as p e sso as d e p e n d e m de n ós. E a m aior
p ar t e d e n ó s irá d eixar á este m u n d o d e p e n d e n d o t ot alm en t e
d o am o r e d o cu id ad o d e ou t r os. E isso n ão é n e n h u m m al
ou r ealid ad e d est r u t iva. E p ar t e d o p lan o , d a n at u r eza física
qu e n os foi d ad a p o r D eu s.
A s vezes o u ço p essoas id o sas — in clu in d o cr ist ãos, qu e
dever iam ter m ais en t e n d im e n t o —, dizerem : “N ã o q u er o
94 0 DISCÍPULO RADICAL

ser u m p eso p r a n in gu ém . Est ou feliz em con t in u ar viven d o


e n q u an t o p u d e r cu id ar de m im , m as se eu vier a m e t or n ar
u m peso, pr efiro m or r er ”. Isso está er r ado. T od os n ós est am os
d e st in ad o s a ser u m p e so p ar a ou t r os. Você est á d est in ad o
a ser u m p eso p ar a m im e eu est ou d est in ad o a ser u m p eso
p ar a você. E a vid a fam iliar , in clu in d o a vid a d a fam ilia d a
igreja local, dever ia ser d e “r esp o n sab ilid ad e m ú t u a”. “Levai
as car gas u n s d o s ou t r os e, assim , cu m p r ir eis a lei de C r ist o ”
(G1 6.2).
O p r ó p r io C r ist o pr ovou d a d ign id ad e d a d ep en d ên cia.
Ele n asceu co m o u m b eb ê, t ot alm en t e d ep en d en t e d o cuida-
d o d a m ãe. P r ecisou ser alim en t ad o, t r ocad o e ap o iad o p ar a
n ão cair. M esm o assim , ele n u n ca per d eu a d ign id ad e divin a.
E n o fin al, n a cruz, ele m ais u m a vez tor n ou -se t ot alm en t e
d ep en d en t e, com os m em b r os p e r fu r ad o s e est icad os e in ­
capaz d e se m over. A ssim , n a p e sso a d e C r ist o, ap r en d em o s
q u e a d e p e n d ê n cia n ão é, n ão p o d e , d est it u ir u m a p e sso a d e
su a d ign id ad e , d e seu valor su p r em o. E se a d e p e n d ê n cia foi
ad e q u ad a p ar a o D eu s d o U n iver so, cer t am en t e é ap r op r iad a
p ar a n ós.
Capít ul o 8

MORTE

A oit ava e ú lt im a car act er íst ica d o d iscíp u lo r ad ical é a


m or t e. Deixe-m e explicar. O cr ist ian ism o oferece v id a —vid a
et er n a, vid a em ab u n d ân cia. P orém , ele d eixa clar o qu e a
est r ad a p ar a a v id a é a m or t e. E en fat iza essa afir m ação em ,
p e lo m en os, seis ár eas, com o m ost r ar ei n est e cap ít u lo. V id a
p o r m eio d a m or t e é u m d os m ais p r o fu n d o s p ar ad o xos d a
fé e d a vid a cristãs.
A vid a e a m or t e sem p r e fascin ar am as p essoas. N ã o h á
d ú v id a de q u e est am o s vivos e de qu e m or r er em os. São d ois
fat o s in egociáveis com os q u ais t em os de con cor d ar . N o en ­
t an t o, eles são t am b ém m ist er iosos e d ifíceis d e d efin ir .
D ar e i u m exem p lo a p ar t ir d e u m a ár ea d o m eu in teresse,
a or n it olo gia.

V ida por meio da m orte é um dos m ais


profundos paradoxos da fé e da v ida cristãs
0 DISCÍPULO RADICAL

Ro ger Tor y P eterson , qu e m or r eu em 1997, foi o d ecan o


d ip lo m át ico d o s o r n it ólo go s am er ican os d o sécu lo 20 e u m
ar t ist a cu jo t em a er a p ássar os. P et er son cost u m ava con t ar
sobr e seu in gr esso n a área. N u m a cam in h ad a p elo cam po, aos
on ze an os, ele vislu m b r ou u m a esp écie de pica-pau. P arecia
ser ap en as u m a b o la d e p en as m ar r on s, agar r ad a ao t r on co
d e u m car valh o.
Com cuidado, eu o toquei n as costas. In stan tan eam en te,
a coisa in erte virou a cabeça, olh ou para m im com olh os
espan tados, explodiu em um lam pejo de asas douradas e
voou para a floresta. Foi com o um a ressurreição — o que
parecia estar m orto, estava m uito vivo. Desde en tão, as aves
têm sido, para mim, as expressões mais n ítidas de vida [...].
Aves são um a declaração de vida.1

Em ou t r o lugar, P eterson descreve isso com o “o m om e n t o


cr u cial d a m in h a v id a”. “Eu fiqu ei d e sar m ad o ”, co n t in u ou
ele, “p elo con tr ast e en tre algo qu e r ep en t in am en t e estava tão
ch eio d e v id a e algo qu e eu h avia co n sid e r ad o m o r t o ”.2
C o n t u d o , m eu in ter esse n est e cap ít u lo n ão é a vid a e
a m or t e n a n atu reza, m as a vid a e a m or t e em Cr ist o. A
p er sp ect iva d o d iscíp u lo r ad ical é ver a m or t e n ão com o o
t ér m in o d a vid a, m as com o a en t r ad a p ar a ela.
P o is o q u e a E sc r it u r a faz é c o lo c a r d ia n t e d e n ó s
as d e se já v e is gló r ia s d a v id a e d e p o is e n fa t iz a r q u e a
c o n d iç ã o in d isp e n sá v e l p a r a e xp e r im e n t á- las é a m o r t e .
R e su m in d o , a Bíb lia p r o m e t e v id a por m eio d a m o r t e , e
d e n e n h u m a o u t r a m an e ir a. A ssim , o a p ó st o lo P au lo d e s­
creve o p o vo c r ist ão c o m o “r e ssu r r e t o s d e n t r e o s m o r t o s”
(R m 6 .1 3 ). E ssa p e r sp e c t iv a é t ão d ife r e n t e d as su p o si­
çõ e s d a m e n t e se cu lar , t ão a t u a l e t ão r e v o lu c io n á r ia em
su a s im p lic a ç õ e s, q u e p r e c isa m o s vê-la a p lic a d a em se is
M ORTE

sit u a ç õ e s d ife r e n t e s n a s q u a is e la o p e r a , d e a c o r d o co m
o N o v o T e st a m e n t o .

Salvação

A n t es de t u d o , vem os m or t e e vid a em r elação à n o ssa sal-


vação, p o is fr eq u en t em en t e a salvação é r e p r e se n t ad a em
t er m os d e vid a. P au lo escreve q u e o d o m d e D e u s é a vid a
et er n a (R m 6 .2 3 ) e Jo ã o explica q u e aq u ele qu e t em o Filh o,
t em vid a ( l jo 5.12). Fica clar o t am b é m qu e a car act er íst ica
d ist in t iva d est a vid a n ão é a et er n id ad e, m as su a q u alid ad e
co m o vid a d o n ovo m u n d o. A vid a et er n a é u m a vid a vivid a
em co m u n h ão com D eu s (Jo 17.3).
P orém , a m o r t e é a ú n ica fo r m a d e en t r ar n essa vid a e a
razão p ar a isso é clara: a b ar r eir a p ar a a co m u n h ão com D eu s
é o p ecad o , e “o salár io d o p e cad o é a m o r t e ” (R m 6.23). Em
t od a a Bíblia, o p ecad o e a m or t e são igu alm en te con sid er ad os
u m a ofen sa q u e m er ece u m a p u n ição.
P orém , se t ivéssem os d e m or r er p o r n o sso s p ecad os, ser ia
o fim . N ã o p o d e r ia h aver vid a d e ssa for m a.
A ssim , D e u s veio a n ós em Je su s C r ist o . Ele t o m o u n o sso
lu gar, se ap o sso u d o n o sso p e cad o e m or r eu a n ossa m or t e.
N ó s h avíam os p ecad o . N ó s m er ecíam os m or r er . P orém , ele
m or r eu em n o sso lu gar. A sim p les d eclar ação “C r ist o m or ­
reu p elo s p e c ad o s” é su ficien t e. Ele n ão p o ssu ía p e cad o s
p r ó p r io s p elo s q u ais p r ecisasse m or r er ; ele m or r eu p elos
nossos p ecad os.
P orém , su a m or t e n ão p o d e n os trazer n e n h u m b em a
m e n o s q u e r eiv in d iq u e m os seu s b en efícios. E p ela fé, in te­
r ior m en t e, e p elo b at ism o, ext er ior m en te, qu e n os t o r n am os
u n id o s a C r ist o em su a m or t e e r essu r r eição. N ó s m or r em os
0 DISCÍPULO RADICAL

e r e ssu scit am os com ele. P or t an t o, agor a “con siderai-vos [ou


avaliai-vos] m o r t o s p ar a o p e cad o ” (R m 6.11) — n ão fin gin d o
q u e est am o s im u n es ao p ecad o q u an d o sab em os qu e n ão
est am o s, m as e n t e n d e n d o e le m b r an d o qu e, se n d o u m com
C r ist o , os b en e fícios de su a m or t e se t or n ar am n osso s. Est a­
m os “vivos p ar a D e u s”, vivos p o r in t er m éd io d e su a m or t e.

Discipulado

A ssim com o n a salvação, o m esm o pr in cípio de vid a p or m eio


d a m or t e o p er a n o d iscip u lad o . O p r ó p r io Jesu s u t ilizou esse
en fát ico sim b o lism o :

En tão, con vocan do a m ultidão e jun tam en te os seus discí­


pulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si m esm o
se negue, tome a sua cruz e siga-me. Q uem quiser, pois,
salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa
de mim e do evangelh o salvá-la-á.
Marcos 8.34-35

Se t ivéssem os vivid o sob a ocu p ação r om an a n a P alestin a,


e se t ivéssem os visto u m h o m e m car r egan d o u m a cruz, ou
p elo m en o s o patibulum , n ão p r ecisar íam os p er gu n t ar o qu e
ele estava fazen d o. Im ed iat am en t e o t er íam os r econ h ecid o
com o u m cr im in oso con d en ad o a cam in h o d a execu ção, p ois
os r o m an o s ob r igavam os sen t en ciad os a car regar a cruz até
o local d a cr u cificação.
Essa, e n t ão , foi a im agem d r am át ica qu e Je su s u so u p ar a
r e p r e se n t ar a au t o n e gação . P ois, se e st am o s se gu in d o a Je ­
su s, existe ap e n as u m lu gar p ar a o q u al p o d e m o s est ar in d o:
o lu gar d a m o r t e. C o m o D ie t r ich Bo n h o e ffe r escr eve em O
Custo do Discipu lado,5 “Q u a n d o C r ist o ch am a u m h o m e m ,
ele o con v id a a vir e m o r r e r ”. A lé m d isso , d e aco r d o com
M ORTE 99

Lu cas, d ev em o s t o m ar n o ssa cru z t o d o s os d ias (Lc 9 .2 3 )


e, se n ão o fizer m os, n ão p o d e r e m o s ser seu s d iscíp u lo s
(Lc 14.27).
Tal e n sin am e n t o en t r a em ch o q u e com o M ov im en t o
d o P oten cial H u m an o e com o M ovim en t o d a N ov a Er a,
qu e o t em im it ad o . C ar l Roger s e n sin a qu e as p e sso as n ão
são car act er izad as p ela p at o logia (com o en sin a Fr eu d ), m as
p elo p ot en cial, e A b r ah am M aslow en fat iza a n ece ssid ad e d a
au t or r ealização. As palavr as “salvar ” e “p e r d e r ” n o ssa “v id a”,
u tilizadas p o r Jesu s, p o d e m ser ap licad as ao m ar t ír io, m as n ão
são, n ecessar iam en t e, r est r itas a ele. Pois a n o ssa “v id a” é a
n o ssa psychô, n o sso eu ; e em algu m as versões d essa p assage m
a fo r m a r eflexiva é u sad a, esp ecialm en t e “a si m e sm o ”.
A ssim , p o d e m o s p ar afr asear o ver sícu lo 35 d a segu in t e
for m a: “Q u e m estiver d et er m in ad o a se ap egar a si p r ó p r io
e a viver p o r si p r ó p r io , p er d e r á a si p r óp r io . P orém , q u em
estiver d isp o st o a m or r er , a perder-se, a se en t r egar à ob r a
d e C r ist o e ao evan gelh o, se en co n t r ar á (n o m o m e n t o d o
com plet o ab an d on o) e d escob r ir á su a verd adeira id e n t id ad e”.
A ssim , Je su s p r om et e a ver d ad eir a au t od e scob er t a p elo pr eço
d a au t on egação , a ver d ad eir a vid a p elo p r eço d a m or t e.
O ap ó st o lo P au lo foi cu id ad o so ao t r ab alh ar esse en sin o
d e Je su s. Em G álat as, ele d eclar a qu e h avia sid o cr u cificad o
com C r ist o (2.20), e q u e t od o s q u e p er t en cem a C r ist o cr u ­
cificar am su as n atu r ezas caíd as com t od as as su as p aixões e
d esejos (5.24). Isso é “m o r t ificação ”, o u seja, sen t en ciar à
m or t e o u r ep u d iar a n o ssa n atu r eza caíd a e au t op er m issiva.
A d eclar ação m ais clar a d e P au lo a esse r esp eit o est á em R o ­
m an o s 8.13: “P orqu e, se viverdes segu n d o a car n e, cam in h ais
p ar a a m or t e; m as, se, p elo Esp ír it o, m or t ificar d es os feitos
d o co r p o , cer t am en t e, vivereis”.
100 O DISCÍPULO RADICAL

Eis u m ver sícu lo qu e d efin e o eviden t e con t r ast e en tre


vid a e m or t e. Ele afir m a q u e existe u m t ip o d e vid a qu e, n a
ver d ad e, con d u z à m or t e, e qu e existe t ip o d e m or t e qu e, n a
ver d ad e, leva à vid a. A ssim , se q u er em os viver u m a vid a de
ver d ad eir a r ealização, d evem os sen t en ciar (r ejeit ar radical-
m en te) t o d o o m al à m or t e. C o m o escreve M ar t yn Lloyd-
Jo n e s: “Est ou cad a vez m ais con ven cid o de qu e a m aior ia d as
p essoas vive u m a vid a cr ist ã p r ob lem át ica p o r a u e m im am a
si m esm as e sp ir it u alm en t e”.4
P or o u t r o lad o, se r ejeit ar m os o m al, viverem os. A ú n ica
m an eir a d e viven ciar m os a p len it u d e d a vid a é m or r en d o,
o u m elh or , sen t en cian d o à m or t e, cr u cifican d o, ou seja, re-
n u n cian d o com p let am en t e a n o ssa n atu r eza au t op er m issiva
e t o d o s os seu s d esejos.
O p u r it an o Jo h n O w en en fat iza essa ver d ad e em seu livro
A M ortificação do Pecado (1656): “O ó d io ao p ecad o com o
p ecad o , n ão so m en t e com o algo ir r it an t e ou d escon for t ável
[...], est á p r esen t e n a b ase d e t o d a m or t ificação esp ir it u al”
(cap ít u lo 8). D e ssa for m a, é essen cial lu t ar con t r a o d o m í­
n io d o p e cad o e n ão con co r d ar com ele. D evem os evitar o
“gr an d e m al d e p r egar u m a paz ilu sór ia p ar a n ós m e sm o s”
(cap ít u lo 13). A lém d o m ais, u m a m or t ificação t ão r ad ical
só é p ossível p o r m eio d o Esp ír it o San t o . “E m ais fácil u m
h o m e m con segu ir ver sem olh os, ou falar sem lín gu a, d o
qu e ve r d ad eir am en t e m or t ificar u m p e cad o sem o Esp ír it o ”
(cap ít u lo 7).

Missão

A ter ceira ár ea n a q u al o p r in cíp io d a vid a m ed ian t e a m or t e


op er a é a d e m issões. A p e sar d e o so fr im en t o ser u m asp ect o
M ORTE

in d isp en sável n a m issão, ele é fr eq u en t e m en t e su b e st im ad o .


P or t an t o, p r ecisam o s com p r een d er su a b ase b íb lica an t es d e
co n sid e r ar algu n s exem p los n ot áveis.
O b ser v e o ad m ir ável p er fil d o ser vo d o Se n h o r n o s ca­
p ít u lo s 4 2 a 53 d e Isaías. Se u ch am ad o é p ar a trazer a luz
d a salvação às n ações; p or ém , em p r im eir o lu gar, ele deve
su p o r t ar o escár n io e a p er segu ição. A n t es d e p o d e r “cau sar
ad m ir ação às n açõ e s”, ele ser á d esp r ezad o e r e je it ad o p o r
ou t r o s e ofer ecer á a su a vid a à m or t e.
D o u glas W ebster, n o livro Yes to M ission, ab o r d a o t em a
d e fo r m a con vin cen t e:
Mais cedo ou mais tarde, a missão leva à paixão. Nos padrões
bíblicos [...] o servo deve sofrer [...] e isso faz a m issão ser
efetiva [...]. Toda form a de m issão leva a algum a form a de
cruz. O próprio form ato de m issão é cruciforme. Só pode­
m os en ten der m issão n os term os da cruz.5

Je su s t in h a con vicção d e qu e er a aq u ele qu e cu m p r ir ia as


p r ofecias d o Se r v o So fr e d o r e falo u d a n ece ssid ad e d o sofr i­
m en t o em m issões. Q u a n d o algu n s gr egos for am até Filip e
q u er en d o ver Je su s, o M est re r esp o n d eu :

E ch egada a h ora de ser glorificado o Filh o do H om em . Em


verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, cain do na
terra, n ão morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito
fruto. Q uem am a a sua vida perde-a; mas aquele que odeia
a sua vida n este m un do preservá-la-á para a vida eterna.
João 12.23-25.

A q u i, n ovam en t e, ap esar d e n ão ser n o con t ext o d e m is­


são, m as n o d e d iscip u lad o , Je su s u sa a lin gu agem d e vid a e
m or t e, e en fat iza q u e a m or t e é o cam in h o p ar a a vid a. So ­
m en te p o r m eio de su a m or t e o evan gelh o ser ia e xp an d id o ao
m u n d o gen t ílico. A m or t e é o cam in h o p ar a a fr u t ificação. A
102 O DISCÍPULO RADICAL

m en o s q u e m or r a, a sem en t e p er m an ece sozin h a. P orém , se


m or r er , ela se m u lt ip lica. Foi assim com o M essias e com su a
co m u n id ad e : aq u ele qu e “m e serve, siga-m e” (Jo 12.26).
N o ssa b ase b íb lica p ar a o so fr im en t o m ission ár io ser ia
in co m p let a sem o ap ó st o lo P au lo. C o n sid e r e essa ext raor ­
d in ár ia d eclar ação: “D e m o d o qu e, em n ós, op er a a m or t e,
m as, em vós, a v id a” (2 C o 4.12).
A q u i o ap óst olo ou sa d eclarar qu e, p o r m eio de su a m orte,
ou t r os viverão. Ele est á lou co? É isso qu e ele qu er dizer? Sim !
E ób vio qu e seu s p r óp r ios sofr im en t os e su a m or t e n ão t rarão
salvação, co m o o so fr im en t o e a m or t e de Je su s C r ist o. Em
vez d isso, as p essoas r eceb em vid a p o r m eio d o evan gelh o, e
os q u e p r egam o evan gelh o fielm en t e sofr em p o r ele. P au lo
sab ia d o q u e estava falan d o. A b o a n ova qu e ele p r oclam ava
é q u e a salvação estava d isp on ível p ar a ju d eu s e gen t ios d a
m esm a fo r m a — so m en t e p ela fé. Isso ger ou a o p o sição fan á­
t ica d o s ju d e u s — p o r isso n ão é exager o dizer qu e os gen t ios
d eviam su a salvação à d isp osição qu e P au lo t in h a de pregá-la
fielm en t e e d e sofr er p o r ela. Ele est ava p r on t o p ar a m or r er
p ar a qu e eles p u d essem viver.
A h ist ór ia d a igreja crist ã t em sid o co m p o st a p o r m issio­
n ár ios o u sad o s qu e ar r iscar am a vid a p o r am or ao evan gelh o
e qu e, co m o r esu lt ad o, vir am a igreja crescer. M en cion ar ei
d o is exem p los — u m r elacio n ad o a u m a p essoa e ou t r o a u m
p aís in teiro.
O p r im eir o é A d o n ir am Ju d so n , d e M ian m ar (an t iga Bir ­
m ân ia). A o p ed ir su a e sp o sa A n n em casam en t o, ele d isse a
ela: “M e dê su a m ão p ar a ir com igo p ar a as selvas d a A sia e
m or r er com igo p ela cau sa d e C r ist o ”. Eles ch egar am a Ran -
gu n em 1813 e im er gir am n a lín gu a e cu lt u r a b ir m an esas.
So m e n t e d ep o is de seis an os A d o n ir am sen tiu -se capaz de
M ORTE 103

pr egar o p r im eir o ser m ão, e so m en t e d ep ois de sete r egistr a­


r am o p r im eir o con ver t id o. Ele p r ecisou de vin t e an os p ar a
trad u zir a Bíb lia t o d a p ar a o b ir m an ês. T am b é m escreveu
folh et os, u m cat ecism o, u m a gr am át ica e u m d ic io n á r io
in glês-b ir m an ês, q u e ain d a est á em u so.
Se u s so fr im en t o s for am in t en sos. Ele ficou viú vo d u as
vezes e p er d eu seis filh os d u r an t e a vid a. Ele e a fam ília er am
con st an t em en t e assolad os p o r en fer m id ad es. D u r an t e a gu er­
r a an glo- b ir m an esa, su sp e it ar am q u e A d o n ir am fosse esp ião
e ele fico u q u ase d o is an os pr eso, su p o r t an d o as am ar r as, o
calor e as co n d içõ e s p r ecár ias. Em 37 an os de ser viço m is­
sio n ár io , ele volt ou ao seu lar, n o s Est ad o s U n id o s, ap e n as
u m a vez.
A p esar d isso, com o r esu lt ad o de su a m or t e e sep u lt am en t o
em solo b ir m an ês, ele fr u t ificou m u it o. N o pr im eir o d om in go
ap ó s su a ch egacia a M ian m ar , em 1813, ele e A n n fizer am
a C e ia d o Se n h o r ju n t o s p o r q u e n ão h avia ou t r os cr ist ãos
p ar a con vid ar à m esa.
En t r et an t o , q u an d o ele m or r eu , 37 an os m ais t ar d e, em
1850, d eixou m ais de 7 m il b ir m an eses e k ar en s b at izad os em
63 igrejas. A go r a, calcula-se qu e exist am m ais d e 3 m ilh ões
d e cr ist ãos em M ian m ar .
O se gu n d o exem p lo r elacion a-se ao vast o p aís d a C h in a.
Q u a n d o os co m u n ist as assu m ir am o p o d e r e t o d o s os m is­
sio n ár io s est r an geir os t iveram d e sair, acredita-se qu e h avia
ap r o xim ad am en t e 1 m ilh ão d e cr ist ãos p r ot est an t es. H oje,
estim a-se q u e exist am cerca de 70 m ilh õe s.6 C o m o isso é
possível? Ton y Lam b er t escreve:
A razão para o crescimento da igreja n a Ch in a e para o
su r gim en t o de um avivam en to espiritu al gen u ín o em
m uitas áreas tem ligação total com a teologia cia cruz [...].
104 O DISCÍPULO RADICAL

A m en sagem integral da igreja ch in esa é de que Deus usa


o sofrim en to e a pregação do Cristo crucificado para gerar
avivamento e edificar a igreja. Será que nós, do Ociden te,
ain da estam os dispostos a ouvir? [...] A igreja chinesa [...] tem
an dado n o cam in h o da cruz. A vida e morte dos mártires
dos an os 50 e 60 produziram ricos frutos.7

A “m o r t e ” q u e so m o s ch am ad os a m or r er com o con d ição


p ar a a fr u t ificação talvez seja m e n os d r am át ica d o qu e o
m ar t ír io. N o en t an t o, é u m a m or t e real, esp ecialm en t e p ar a
os m issio n ár io s t r an scu lt u r ais. Para eles, p o d e ser a m or t e
d o con fo r t o e d a co m o d id ad e , d a sep ar ação d o lar e d os
p ar en t es; o u a m or t e d a am b ição p essoal ao r en u n ciar em à
t en t ação d e ascen d er em p r ofission alm en t e e se con t en t ar em
em p er m an ecer n u m m in ist ér io ser vil e h u m ild e; ou a m or t e
d o im p e r ialism o cu lt u r al, q u an d o se r ecu sam a exalt ar su a
cu lt u r a h e r d ad a (ap esar d e isso fazer p ar t e d e su a id en t id ad e)
e se id en t ificam com a cu lt u r a qu e ad ot ar am . D essa e de
ou t r as for m as, so m o s ch am ad os a “m or r er ” p ar a qu e h aja
u m a vid a d e fr u t ificação.

Perseguição

A q u ar t a ár ea n a q u al a m or t e é con sid e r ad a o cam in h o p ar a


a vid a é a p er segu ição física.
O ap ó st o lo P au lo n ovam en t e é u m exem p lo d e d e st a­
q u e. P ou cos cr ist ão s já so fr e r am co m o ele — fo r am açoit es,
ap e d r e jam e n t o s, ap r isio n am e n t o s, lin ch am e n t o s e n au fr á­
gios. N a ve r d ad e, o t r at am e n t o q u e r eceb eu foi t ão b r u t al
q u e algu m as vezes ele d escr eveu essas sit u ações com o u m
t ip o d e “m o r t e ” e o livr am en t o co m o u m t ip o d e “r essu r ­
r e iç ão ”. “D ia ap ó s d ia, m o r r o ”, escreve ele em seu e xt en so
M ORTE 105

cap ít u lo so b r e r e ssu r r e ição ( I C o 15.31), q u e r e n d o dizer


q u e co n t in u am en t e estava exp o st o a p er igos d e m or t e. Eis a
d eclar ação com p let a:

Porque n ão querem os, irmãos, que ignoreis a natureza da


tribulação que n os sobreveio n a Ásia, porquan to foi acim a
das n ossas forças, a pon to de desesperarm os até da própria
vida. Con tu do, já em n ós m esm os, tivemos a sen ten ça de
morte, para que n ão con fiem os em n ós, e sim n o Deus
que ressuscita os m ortos; o qual n os livrou e livrará de tão
gran de morte; em quem tem os esperado que ain da con ti­
n uará a livrar-nos.
2 Corín tios 1.8-10

N e m t o d o s os cr ist ãos q u e são asse d iad o s p e la m o r t e


são r ep et id am en t e r esgat ad os co m o P au lo foi. N ã o exist em
p r o m e ssas d e im u n id ad e n em d e lib er t ação. Em vez d isso,
m esm o em m eio a sit u ações d e m or t e, p o d e m o s exp er im en ­
t ar vid a.

Levan do sem pre n o corpo o m orrer de Jesus, para que tam ­


bém a sua vida se man ifeste em n osso corpo. Porque n ós,
que vivemos, som os sempre entregues à m orte por causa
de Jesus, para que tam bém a vida de Jesus se man ifeste em
n ossa carne m ortal.
2 Corín tios 4.10-11

Se gu n d o essa ext r aor d in ár ia afir m ação, p o d e m o s expe­


r im e n t ar a m or t e e a vid a d e Je su s sim u lt an eam en t e. O b ­
ser ve q u e o su b st an t iv o “c o r p o ” e o ad vér b io “sem p r e” são
r ep et id os n o s ver sícu los 10 e 11. Se m p r e com p ar t ilh am os,
em n o sso co r p o , a vid a e a m or t e de Je su s. M esm o q u an d o
est am o s sen d o afligid os fisicam en t e, e sen d o con scien tizad os
d e n o ssa m o r t alid ad e , p o d e m o s co n t ar co m o vigor e sp i­
r it u al d e Je su s. M e sm o an t es d e a r essu r r eição acon t ecer ,
106 O DISCÍPULO RADICAL

p o d e m o s exp er im en t ar a vid a r essu r r et a de Je su s. A ssim ,


“com o se estivéssem os m or r en d o, e, con tu d o, eis qu e vivem os”
(2 C o 6.9).
Se ja q u al for o e sp in h o n a car n e d e P au lo (algu n s ach am
q u e er a en fer m id ad e, ou t r os, per segu ição), cer t am en t e era
algu m t ip o d e p r o b le m a físico. E ap e sar de ter clam ad o p or
lib er t ação, P au lo r ecebeu , em vez d isso, o p o d er d e C r ist o
em su a fr aqu eza. Realm en t e, a ver d ad e cen t r al d as car t as d e
P au lo à igreja em C o r in t o é o p o d e r p o r m eio d a fr aqu eza, a
glór ia p o r m eio d o so fr im en t o e a vid a p o r m eio d a m or t e.
N o fin al, P au lo n ão foi lib er t o, m as execu t ad o. Ele selou
seu t est em u n h o com o p r ó p r io san gu e. E n o ú lt im o livro d a
Bíb lia, o povo de D eu s é ad ver t id o a r esp eit o de p er segu ição
e d o m ar t ír io. Je su s diz à igreja em Esm ir n a: “N ã o t em as as
coisas qu e t en s d e sofr er [...]. Sê fiel até à m or t e, e dar-te-ei a
cor oa d a v id a” (Ap 2.10).
P au l M ar sh all, d o In st it u t e o f C h r ist ia n St u d ie s, em
Tor on t o, escreve em Their Blood Cries O ut sobr e a “t r agéd ia
m u n d ial d e cr ist ãos m od e r n o s qu e est ão m or r en d o p o r su a
fé”. Ele calcu la q u e n o m u n d o 200 m ilh ões d e crist ãos vivem
so b r ep r essão gover n am en t al e com t em or d iár io d a p olícia
secr et a. Em m ais d e sessen t a países, cr ist ãos são assed iad os,
ab u sad o s, p r esos, t o r t u r ad os e execu t ad os sim p lesm en t e p or
cau sa de su a fé. Porém , “apesar d a per segu ição, o crist ian ism o
está cr escen d o r ap id am en t e n o m u n d o ”.8

Martírio

E p ossível ob ser var qu e, em m in h a m an eir a d e t r at ar o t em a


“vid a p o r m eio d a m o r t e ”, est ou se p ar an d o m ar t ír io de p e r ­
segu ição. N ã o p o r q u e deixei d e n ot ar qu e os d ois assu n t os
M ORTE

se so b r ep õem , m as p o r q u e, d e aco r d o com a Escr it u r a, u m a


h o n r a esp ecial ser á co n ce d id a aos m ár t ir es n o n ovo m u n d o
(ver A p o calip se 20.4).
A ssim , q u er o ap r esen t ar Jo sifT o n , u m segu id o r de Je su s
C r ist o qu e t em m o st r ad o com su a vid a e seu e n sin o q u e o
so fr im en t o — e até a m or t e — é u m in gr ed ien t e in d isp en sável
d o d iscip u lad o crist ão. Jo sifT o n é u m líd er cr ist ão r om en o,
n ascid o em 1934, q u e se t o r n o u p ast o r d a Igreja Bat ist a em
O r ad ea, h oje u m con h ecid o C en t r o Batista. D ep ois de qu at ro
an o s d e p ast o r ad o fiel, as au t o r id ad e s ficar am d e sco n fiad as
e ele foi p r eso e in t er r ogad o. Foi d ad a a ele, en t ão, a o p o r t u ­
n id ad e de cieixar o p aís e se est ab elecer n os Est ad o s U n id o s,
on d e se d ed ico u aos e st u d os e r eceb eu o t ít u lo d e d o u t o r
p ela Evan gelical Facu lty o f Belgiu m . Su a p esq u isa, qu e m ais
t ar d e se t o r n o u u m livro, foi sob r e “so fr im en t o , m ar t ír io e
r eco m p en sas n o céu ”.
D u r an t e o r egim e o p r e ssiv o d e N ic o lae C e au çe scu , Jo sif
T o n , em u m d e se u s se r m õ e s p ú b lic o s, c o n t o u c o m o as
a u t o r id a d e s h av iam am e a ç a d o m at á- lo. Ele r e sp o n d e u :
“Se n h o r , su a m aio r ar m a é m at ar . M in h a m a io r ar m a é
m orr er ”.
“F ie l at é a m o r t e ” fo i D ie t r ic h Bo n h o e ffe r . Ele foi
a p r isio n a d o n o cam p o d e c o n ce n t r açã o F lo sse n b u r g. N o
d o m in go d e 8 d e ab r il d e 1945, ele d ir igiu u m p e q u e n o
c u lt o d e a d o r a ç ã o . Ele h av ia a c a b a d o d e fin a liz a r su a
ú lt im a o r aç ão q u a n d o a p o r t a se ab r iu e d o is h o m e n s à
p aisan a d isse r am : “P r isio n e ir o Bo n h o e ffe r , apr on t e- se p ar a
vir c o n o sc o ”. A s p alav r as “vir c o n o sc o ” h av iam ch e gad o
a t o d o s o s p r isio n e ir o s co m u m ú n ic o sign ific a d o — o
c ad afalso . “E sse é o fim ”, d isse ele, “p ar a m im , o co m e ço
d a v id a ”.g
10 8 0 DISCÍPULO RADICAL

Mort alidade

A t é a q u i c o n sid e r a m o s c in c o ár e as n as q u a is a m o r t e é
a v e r e d a p a r a a v id a. N a salv aç ão (C r ist o m o r r e u p a r a
q u e t e n h a m o s v id a), n o d isc ip u la d o (se se n t e n c ia r m o s à
m o r t e as m ás aç õ e s d o c o r p o , v iv e r e m o s), em m issõ e s (a
se m e n t e d eve m o r r e r p a r a se m u lt ip lica r ), n a p e r se gu iç ão
(m o r r e n d o p a r a viver ) e n o m a r t ír io . A go r a c o n sid e r a ­
r e m o s a m o r t a lid a d e e a m o r t e d o n o sso c o r p o físico .
T e n d o ch e gad o , p e la gr aça d e D e u s, ao s 88 an o s n a é p o ca
em q u e est e liv r o fo i e sc r it o , o s le it o r e s c o m p r e e n d e r ã o
q u e t e n h o r e fle t id o b a st a n t e so b r e isso . O fim e st á à
v ist a . T e n h o sid o e n c o r a ja d o p e lo p a r a d o x o d a v id a
m e d ia n t e a m o r t e .

A m orte inspira terror em m uitas pessoas [...].


Porém, para os cristãos, a m orte n ão é horrível

A m o r t e in sp ir a t er r or em m u it as p essoas. O in t e n so
co n flit o in t er n o d e W ood y A llen com a m or t e é b em con h e­
cid o. Ele a vê com o u m a an iq u ilação d o ser e a con sid e r a
“ab so lu t am en t e e sp an t ad o r a em seu t er r or ” . “N ã o qu e eu
t en h a m e d o de m or r er ”, gr aceja ele, “ap e n as n ão q u er o est ar
lá q u an d o acon t ecer ”.10
O u t r o e x e m p lo é d a d o p e lo a m e r ic a n o R o n a ld
D w o r k in , o filó so fo d e d ir e it o q u e t em o c u p a d o cad e ir as
n as u n iv e r sid ad e s d e Lo n d r e s, O xfo r d e N o v a York. Ele
escr eveu :
M ORTE 109

O m ais h orrível n a m orte é o esquecim en to — a terrível e


absoluta m orte da luz [...]. A m orte dom in a porque n ão é
apen as o com eço do n ada, m as o fim de tu do.11

P orém , p ar a os cr ist ãos, a m or t e n ão é h orrível. É ver d ad e


qu e o p r ocesso d a m or t e p o d e ser con fu so e h u m ilh an t e,
e a d e cad ê n cia p r o ce d e n t e n ão é agr ad ável. N a ve r d ad e,
a p r ó p r ia Bíb lia r econ h ece isso ao ch am ar a m or t e d e “o
ú lt im o in im igo a se r d e st r u í d o ” ( I C o 1 5 .2 6 ). A o m e sm o
t e m p o , a fir m a m o s q u e “C r i st o Je su s [...] d e st r u iu a
m o r t e ” (2T m 1.10). Ele a co n q u ist o u p essoalm en t e p o r su a
r essu r r eição, d e t al fo r m a qu e ela n ão t em m ais au t o r id ad e
sob r e n ós. C o n se q u e n t e m e n t e , p o d e m o s gritar, em d esafio :
“O n d e está, ó m or t e, a t u a vitór ia? O n d e está, ó m or t e, o
teu agu ilh ão?” ( I C o 15.55).
A d er r ot a d a m or t e é u m a coisa; o d o m d a vid a é ou tr a.
C o n t u d o , p o r cau sa d a d ificu ld ad e em se d e fin ir a vid a
eter n a, os escr it or es d o N ovo T est am en t o t en d em a u tilizar o
r ecu r so d a figu r a d e lin gu agem . O ap ó st o lo Jo ão , p o r exem ­
plo, descreve o povo d e D eu s t e n d o seu s n om e s in scr it os n o
livro d a vid a (Ap 3.5; 21.27), gozan d o d e acesso con t ín u o à
ár vor e d a v id a (Ap 2.7; 22.2), e b e b e n d o livr em en te d a águ a
d a vid a (Ap 7.17; 21.6; 22.1, 17).
“M as algu ém dirá: C o m o r essu scit am os m or t os? E em qu e
cor p o vêm ?” ( I C o 15.35). A m esm a p er gu n t a (u m a p er gu n t a
tola, d e aco r d o com P au lo) é fr eq u en t em en t e feita h oje. N ó s
a r e sp o n d e m o s p r e st an d o at en ção n o r e lacio n am e n t o en tr e
u m a sem en t e e su a flor . H á u m a ligação b ásica en tr e as d u as
(p or exem p lo, as sem en t es d a m ost ar d a p r od u zem ap en as
u m a p lan t a d e m ost ar d a). M as a d e sco n t in u id ad e é m u it o
m ais im p r ession an t e. A sem en t e é sim ples e feia, m as su a flor
é co lo r id a e b ela. A ssim ser á com n o sso cor p o r essu r r et o. Ele
110 O DISCÍPULO RADICAL

pr eservar á cer t a sem elh an ça com n osso cor p o atual, m as terá


p o d er es n ovos e n u n ca so n h ad o s (I C o 15.35-44).
A lé m d o m ais, d e c e r t a fo r m a, o q u e é v e r d ad e ir o a
r e sp e it o d o c o r p o r e ssu r r e t o se a p lic a ao n ovo céu e à
n o v a t e r r a. Je su s c h a m o u isso d e “r e ge n e r a ç ã o ” (p alin -
gen esia, M t 19.28). Pois se o co r p o deve ser r essu scit ad o, o
m u n d o deve ser regen eracio. E com o deve h aver u m a m ist u r a
d e ligação e d e sco n t in u id ad e en tr e os d ois cor p os, t am b ém
h aver á en tr e os d o is m u n d o s. T od a a cr iação ser á lib er t a d a
escr avid ão d a d ecad ên cia (Rm 8.18-25). Essas expect at ivas
são p ar t e d a vid a et er n a qu e a m or t e n os trará. E isso é p r o ­
clam ad o em m u it os cem it ér ios e láp id es: Mors jan u a vitae — a
m or t e é o p o r t ão p ar a a vida.
A o r eflet ir sob r e a m or t e e b u scar m e p r ep ar ar p ar a ela,
t en h o r e t o r n ad o co n st an t e m e n t e ao qu e pode-se ch am ar
filo so fia d e P au lo sob r e vid a e m or t e:
Porquan to, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro.
En tretan to, se o viver na carne traz fruto para o meu traba­
lh o, já n ão sei o que hei de escolh er. Ora, de um e outro
lado, estou con stran gido, ten do o desejo de partir e estar
com Cristo, o que é incom paravelm en te melhor.
Filipen ses 1.21-23

N u m a só palavr a, vid a, p ar a P au lo, sign ificava C r ist o . Er a


im possível im agin ar a vid a sem ele. A ssim , er a r ealm en t e
lógico q u e ele q u isesse m or r er , p o r q u e a m or t e t r ar ia lu cr o,
ou seja, m ais d e C r ist o . N o en t an t o, ele sab ia qu e p e r m a­
n ecer ia u m p o u co m ais, p ois h avia m ais t r ab alh o p ar a ele
fazer n a terra.
G e r alm en t e é p er igoso levan tar ar gu m en t os a p ar t ir de
u m a an alogia. P orém , P au lo par ece n os d ar p e r m issão p ar a
fazer isso. O p r in cíp io é claro. Se p ar a n ós a vid a sign ifica
M ORTE

C r ist o , en t ão a m or t e tr ar á gan h o. D e fato, a vid a fu t u r a ser á


m u it o m elh or d o q u e a vid a n a terra.
A ssim :
- Se ad o r ar com o povo de D e u s n a terra já é p r ofu n d a-
m en t e sat isfat ó r io (o q u e é ver d ad e), en t ão a ad o r ação com
t od o s n o céu ser á ain d a m ais e m o cion an t e.
- Se n o sso cor ação já q u e im a sem p r e qu e as Escr it u r as
são r evelad as a n ós, a revelação d e t o d a a ver d ad e ser á ain d a
m ais com oven t e.
- Se a glória de u m pór-do-sol já n os im pression a, com o será
qu an d o estiverm os dian te d a beleza d o n ovo céu e n ova terra?
- Se a co m u n h ão t r an scu lt u r al já n os toca, ficar em o s ju ­
b ilo so s qu an cio fin alm en t e n os ju n t ar m o s às m u lt id õ e s d e
t od as as n ações, t r ib os e lín gu as.
- Se algu m as vezes já e xp er im en t am os o qu e é “n os alegr ar
com u m gozo in dizível, e ch eio de glór ia”, p o d e m o s ter a
certeza de q u e isso acon t ecer á com m ais fr equ ên cia, n o lu gar
o n d e n ão h aver á tristeza n em lágr im as.

Esses são ap e n as exem plos d a exp er iên cia h u m an a. Em


cad a caso é ad e q u ad o u sar u m com p ar at ivo, ou seja, “m u it o
m e lh o r ”. N a ver d ad e, q u an d o r eflet im os sob r e a vid a fu t u r a,
o com p ar at ivo é r ealm en t e in ad e q u ad o ; o m ais ap r o p r iad o é
u sar m o s o su p er lativo. E p o r isso qu e, sem p r e qu e r eflet im os
sob r e o fu t u r o q u e n o s agu ar d a, p o d e m o s dizer: “O m elh or
ain d a está p o r vir ”.
R e cap it u lan d o , n est e cap ít u lo ob se r v am os seis ár eas em
qu e e n co n t r am o s p r in cíp ios p ar ad o xais d a vid a p o r m eio d a
m or t e: salvação, d iscip u lad o , m issão, p er segu ição, m ar t ír io
e m o r t alid ad e . Em cad a caso d evem os con sid e r ar essas d u as
car act er íst icas: a m or t e e a vida.
112 0 DISCÍPULO RADICAL

P or u m lad o, n ão d evem os su b est im ar a glór ia d a vid a


q u e n o s é ofer ecid a n o evan gelh o — a vid a et er n a q u e é
n o ssa p ela fé em C r ist o, a vid a ab u n d an t e qu e é n o ssa se
sen t en ciar m o s à m or t e os d esejos d a n ossa n atu r eza caíd a,
o vigor in t er ior com o q u al co n t am o s em m eio à fr aq u eza
física e à m o r t alid ad e , os fr u t os p r om e t id os aos qu e são fiéis
em su a m issão, o co n fo r t o qu e n os é ofer ecid o em m e io à
p er segu ição ou am eaça d e m ar t ír io e — p r in cip alm en t e — a
r essu r r eição fin al n a n ova cr iação. D e t od as essas m an eir as,
D eu s t em p r o m e t id o qu e aq u eles qu e m or r em , viver ão.
Por ou t r o lad o, n ão d evem os at en u ar o cu sto d a m or t e qu e
leva à vid a — a m or t e d o p e cad o p o r m eio d a id e n t ificação
com C r ist o , a m or t e d e si m esm o ao segu ir m os a C r ist o , a
m or t e d a am b ição n a m issão t r an scu lt u r al, a m or t e d a segu-
r an ça ao en fr en tar per segu ição ou m ar t ír io e a m or t e p ar a este
m u n d o ao n o s p r ep ar ar m os p ar a o n o sso d est in o fin al.
A m o r t e é co n t r ár ia às leis d a n atu r eza e é d esagr ad ável.
D e cer t a for m a, ela n os ap r ese n t a u m a fin alid ad e terrível.
M or t e é o fim . M esm o assim , em t od as as sit u ações, a m or t e
é o cam in h o p ar a a vid a. A ssim , se q u er em os viver, d evem os
m or r er . E est ar em os d isp ost o s a m or r er som en t e q u an d o
vir m os as glór ias d a vid a à q u al a m or t e leva. Essa é a p er s­
pect iva crist ã r ad ical e p ar ad o xal. P essoas ver d ad eir am en t e
crist ãs são d escr it as com exat id ão com o “aqu eles qu e est ão
vivos d e en tr e os m o r t o s”.
CONCLUSÃO

L>o n sid e r am o s o it o car act er íst icas d aq u e le s q u e d e se jam


segu ir a Je su s, e q u e ju n t as d escr evem o d iscíp u lo r ad ical.
Fu i seletivo e m in h a escolh a foi, d e cer t a for m a, ar b it r á­
ria. A p e sar d isso, exist em asp ect os d o d iscip u lad o qu e eu
go st ar ia d e ver em t o d o d iscíp u lo d e Je su s, e p r in cip alm en t e
em m im m esm o.
Você, sem d ú vid a, d esejar á com p ilar su a p r ó p r ia lista.
Esp e r o q u e ela seja clar am en t e b íblica, e ain d a assim r eflit a
a su a p r ó p r ia cu lt u r a e exper iên cia. E qu e você ob t en h a êxito
ao fazê-la.
N ã o h á m e lh o r fo r m a d e co n clu ir d o qu e o u v in d o e
gu ar d an d o as p alavr as d e Je su s n o C e n ácu lo :

Vós me ch am ais o Mestre e o Sen h or e dizeis bem; porque


eu o sou.
João 13.13

O fu n d am e n t al em t od o d iscip u lad o é a d ecisão d e n ão


so m en t e t r at ar Je su s com t ít u los h o n r o sos, m as segu ir seu
en sin o e ob ed ecer aos seu s m an d am e n t o s.
PÓS- ESCRITO: ADEUS!

A o b aixar m in h a can e t a p ela ú lt im a vez (lit er alm en t e, p ois


co n f e sso n ão u sar com p u t ad or), ao s 8 8 an os, av en t u ro-m e
a en viar essa m en sagem d e d e sp e d id a aos m eu s leit or es.
So u gr at o p elo e n co r ajam e n t o , p o is m u it os d e vocês m e
escreveram .
E claro qu e, ao olh ar p ar a fren te, n en h u m d e n ós sabe
qu al será o fu t u r o d as im pr essões e pu b licações. Porém , est ou
con fian t e de q u e o fu t u r o d os livros está assegu r ad o e d e qu e,
apesar de serem com p lem en tad os, eles n u n ca serão totalm en te
su bstitu íd os. Pois h á algo sin gu lar a respeito deles. N ossos livros
favoritos se t or n am p r eciosos p ar a n ós e até desen volvem os
com eles u m r elacion am en t o q u ase in ten so e afetu oso. N ão é
est r an h o o fato de m an u sear m os, r iscar m os e até ch eirar m os
os livros com o sím b olo de n ossa est im a e afeição? N ão m e
refiro ap en as ao sen t im en t o d e u m au t or p elo qu e escreveu,
m as t am b ém a t od o s os leitores e su as b ibliotecas. D et er m in ei
qu e n ão cit aria u m livro a m en os qu e o t en h a m an u sead o an ­
t er ior m en te. A ssim , deixe-m e en corajá-lo a con t in u ar len d o e
a in cen tivar seu s par en t es e am igos a fazer o m esm o. Pois esse
é u m m eio de graça m u it o n egligen ciado.
6 0 DISCÍPULO RADICAL

Exist em m ilh ões d e ir m ãs e ir m ãos em C r ist o ao r ed o r d o


m u n d o q u e am ar iam t er livros p ar a ler a fim d e aju dá-los a
crescer em seu d iscip u lad o . A in d a assim , eles q u ase n ão os
têm ; e n q u an t o n ós, n o O cid en t e, t em os m ais d o qu e p o d e ­
m os ler. Essa é a razão p ela q u al ced i os d ir eitos au t or ais de
t o d o s os livros d e m in h a au t or ia ao t r ab alh o d a Lan gh am
Lit er at u r e: p ar a p er m it ir qu e m ais crist ãos e seu s past or es
n as p ar t es m ais p o b r e s d o m u n d o ob t e n h am b o n s livros
cr ist ãos t an t o em in glês q u an t o em su as p r óp r ias lín gu as, e
assim se for t aleçam em su a fé e p r egação. Q u e m sab e eu o
e n cor aje a co n sid e r ar esse e ou t r os m in ist ér ios d a Lan gh am
P ar t n er sh ip , os q u ais são p r eciosos p ar a m im , e d ign o s de
seu in ter esse e su p or t e.
O s leitor es talvez q u eir am sab er qu e in d iq u ei em m eu
t e st am e n t o u m gr u p o d e agen t es lit er ár ios lid e r ad o s p o r
Fr an k En t w ist le, q u e est á at en ciosam en t e d isp o st o a lid ar
com q u aisq u e r q u est ões qu e p o ssam su r gir em r elação aos
m eu s livros. U m exem plar d e cad a livro, ju n t am en t e com u m
exem p lar d e con t r ib u ições a ou t r os livros e t od o s os m eu s ar­
t igos, ser ão m an t id o s sob os cu id ad o s d a Bib liot eca Lam b et h
P alace, co m o gen er oso con sen t im e n t o d e R ich ar d P alm er,
b ib lio t e cár io e ar qu ivista, qu e cor d ialm en t e se ofer eceu p ar a
deixá-los d isp on íveis a p esq u isad o r es. O en d er eço d o m eu
escr it ór io co n t in u ar á a ser 12 W eym ou th Str eet, Lon d r e s
W 1 W 5BY e ser á su p e r v isio n ad o p o r Fran cês W h it eh ead ,
a in im it ável e in can sável.
M ais u m a vez, ad eu s!
NOTAS

Prefácio
1. Mat eus 1 3.3- 23; Marcos 4.3- 20; Lucas 8.4- 1 5.
2. “Com e, let us jo in o u r ch eerfu l songs”, Isaac Wat ts (1674-
1 748).

Capít ulo 1
I. Transact ion Pubfishers, T955, p. 16.

Capít ulo 2
1. O relato m ais recente e rico sobre a Con f erên cia de
Keswick é este: RANDALL, lan M., PRICE, Charles.
Tran sfo rm in g Kesw ick ; The Keswick Convention, past,
present and f ut ure. Pat ernost er Press, 2000.
2. RAMSAY, Michael. Im ages old an d new. SPCK, 1 963. p. 14.
3. Lut terworth Press, 1972.

Capít ulo 3
1. Mundo Cristão, 2005.
11 8 0 DISCÍPULO RADICAL

Capít ulo 4
1. IVP, 2000.
2. IVP, 1984.
3. Ad ap t ad o do meu pref ácio em The care o f creation . Dois
livros úteis e recentes sobre o assunt o são: BERRY, R. J.,
ed. When enough is enough; a christian f ram ework for
envir onm ental sust ain ab ilit y (Apollos, 2007) e BOOKLESS,
Dave. Planetwise', dare to care f or Go d ’s world (IVP, 2008).
4. No Reino Unido “ 1 bilhão” é usado para representar 1 milhão
de milhões. Atualm ente é quase uma cifra universal para mil
milhões.
5. Zahar Edit ores, 1983.
6. Para m ais detalhes, veja o capít ulo 5 (Cuidando da cr iação)
de STOTT, Joh n. M en talid ad e Cr ist ã; o posicionam ent o do
crist ão num a sociedade não- cristã. Vinde, 1994.
7. Monarch Books, 2008.
8. HARRIS, Peter. A Ro ch a; um a com unid ad e evangélica
lutando pela conservação do am biente. ABU, 2001.
Kin g fish er ’s fire. Monarch, 2008.
9. Essa e as próx im as cit ações f oram retiradas de WRIGHT,
Chris. The m ission o f Cod. IVP, 2008.
10. Cit ado pot Joh n Stott no pref ácio de The Care o f
Creation.

Capít ulo 6
1. The f ir st ep istle o f St Peter. Macm illan, 1 961. 2. ed.
2. Orval Hobart Mowrer, 1 907- 1 982.

Capít ulo 7
1. Mat eus 6.9- 1 3; Lucas 11.2- 4.
2. The ch rist ian p r iest today. SPCK, 1 972. Edição revisada,
1 985. Capít ulo 11: “ Divine h um ilit y”, p. 79- 91.
3. Harp erCoIlins, 1 957 (edição de bolso).
4. Tr ad uz id o do f rancês por Edwin Hudson (SCM Press Ltd,
1972). p. 11, 40, 43.
NOTAS | 1 19

Capít ulo 8
1. MACE, Alice E., ed. The b ird s aro u n d us. Ortho Books,
1 986. Do capít ulo int rod ut ório escrit o por Roger Tory
Peterson, in tit ulado “The j o y of bir ds” . p. 19- 20.
2. ZINSSER, William . A field guide to Roger To ry Peterson.
Audubon, v. 94, n. 6, p. 93.
3. Publicado pela prim eir a vez em inglês em 1 948 (SCM,
1966).
4. LLOYD- JONES, D. M. Rom ans 6\ the new m an. Banner of
Truth, 1 992. Com ent ário sobre o versículo 1 9, p. 264.
5. WEBSTER, Douglas. Yes to Mission. SCM, 1 966. p. 1 01- 1 02.
6. O Op eration World est im a que ex istam 69,2 m ilhões de
m em bros de igrejas crist ãs na China, m as acr escent a
que não há est atíst icas m ais ex atas disponíveis. Vej a
JOHNSTONE, Patrick, MANDRYK, Jaso n . Op eration world.
Paternost er, 2001. p. 160.
7. LAMBERT, Tony. The resu rrect io n o f t h e chinese church.
Hodder, 1991. p. 174, 267.
8. MARSHALL, Paul, GILBERT, Leia. Th eir blood cries out. W.
Publishing Group, Thom as Nelson, 1997. p. 8.
9. BONHOEFFER, Dietrich. Do pref ácio de Resistên cia e
sub m issão; cartas e anotações escrit as na prisão. Sinodal,
2003.
1 0. De um art ig o em Esq uire, 1 977. E em MCCANN, Craham .
Woody Allen , new york er. Polity Press, 1990. p. 43 e 83.
11. DWORKIN, Ronald. Lif e’s dom inion. HarperCoIlins, 1993.
p. 199.