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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA

Departamento de Letras e Artes – DLET


Curso de Licenciatura em Letras com a Língua Inglesa
Literatura Brasileira II
Professor Adeítalo Pinho

JOÃO BOSCO DA SILVA


(prof.bosco.uefs@gmail.com)

O ROMANTISMO ALEMÃO E OCIDENTAL – ARNOLD


HAUSER
História social da arte e da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1998

Feira de Santana
2008
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O ROMANTISMO ALEMÃO E OCIDENTAL

1 Identificação do romantismo:

Na Alemanha o romantismo foi comparado com a Restauração e a reação pelo


liberalismo do século XIX.

1.1 Romantismo alemão e o ocidental

O romantismo Alemão derivou de uma postura revolucionária para uma tendência


reacionária, e o Ocidental, que era monárquico-conservador para tendências
progressistas. Essas visões possibilitaram que o romantismo alcançou uma via
estranha, irracional e não-dialética, sendo que o seu entusiasmo revolucionário era
ignorante sobre a realidade do mundo e pela revolução do pensamento além do
sentimento ingênuo por Fichte e pelo Wilbelm Meister de Goethe, além da devoção à
Igreja e à Coroa, à cavalaria e ao feudalismo.

1.2 Romantização da revolução, contra-revolução e restauração

Tantos foram os revolucionários como os Dantons, Robespierres, Chateaubriand etc.


Outro exemplo é Metternich (Príncipe austríaco), que nada tinham de romântico,
utilizaram-se da romantização para fazer revolução, contra-revolução e a
restauração, deixando para os escritores a tarefa de consolidar os mitos do
historicismo, legitimismo e clericalismo.

2 Realista, Dialético e o Romântico

2.1 Realista: é quem luta pelos seus próprios interesses e faz concessões a
interesses dos outros.

2.2 Dialético: entende que a situação histórica é um complexo de diferentes motivos


e de tarefas infindáveis.

2.3 Romântico: entende seu tempo de forma não-histórica e não-dialética, sem


perceber onde se encontra nesse tempo, num conflito interminável entre os
elementos estáticos e os dinâmicos.

3. Definição do romantismo por Goethe

É uma doença que adquire um novo significado sempre que é submetida a uma
moderna psicologia, pois o romantismo vê apenas um lado de um todo, impregnado
de tensão e conflito. Existe a tendência de se exagerar e distorcer situações quando
alguém se sente perturbado ou amedrontado.

4. Romantismo e sua história

O romantismo teve sua importância histórica e estava consciente disso.


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Desde a época do gótico não existia um movimento que desse tanta importância ao
sentimento, atingindo fortemente o Racionalismo (que não gostava do avanço
constante desde a Renascença) e o Iluminismo (que colocava o racionalismo como
dominador do mundo civilizado).

4.1 O romantismo não era só um movimento europeu de caráter universal,


subsistindo de forma duradoura como fator de desenvolvimento da arte,
empreendido pelo impulso emocional da sutileza e sensibilidade do homem moderno
e foi determinante no Século XIX, mas foi iniciado no século XVIII. O sentimento
romântico do renascer não era novo e já existia desde a Renascença e Idade Média,
com as idéias de renovação e ressurreição.
Os românticos ficam todo tempo buscando a sua fonte de inspiração nos ideais do
passado na história, podendo sacudir e questionar até a fé alimentada na religião.
Somente com a consciência do romantismo se pode entender a revolução histórica
do espírito humano.

5 Fatores importantes na cultura humana

5.1 Os princípios da ordem natural e sobrenatural do mundo


5.2 As leis de moralidade e lógica,
5.3 Os ideais de verdade e justiça,
5.4 O destino do homem
5.5 A finalidade das instituições sociais.

Todos tinham sido considerados sem equívocos e imutáveis em sua significação,


enteléquias (segundo Aristóteles, o resultado ou a plenitude ou a perfeição de uma
transformação ou de uma criação, em oposição ao processo de que resulta tal
criação ou transformação. A forma ou a razão que determinam a transformação ou a
criação de um ser), sempiternas (que não teve princípio nem há de ter fim; eterno),
ou com idéias inatas.
Toda mudança parecia tocar somente na parte da superfície dos elementos e
somente a partir da Revolução e do Romantismo a natureza do homem e da
sociedade começa a se mostrar dinâmica, confirmando a noção de que a nossa vida
intelectual é de caráter transitório, oferecendo uma importante contribuição para a
atual filosofia.

6. Friedrich Schlegel e Novalis

São os primeiros a reconhecer que as relações históricas não têm lógica e que “ a
filosofia é fundamentalmente anti-histórica”. Somos o que somos pelo destino,
porque recordamos uma história passada de forma particular.
A idéia de que a natureza do espírito humano, as instituições políticas, as leis,
linguagem, religião e arte só pode ser reconhecida com base na sua história, seria
impensável antes do romantismo. Portanto, “o homem não tem natureza, o que ele
tem é história”.

7 A arte Hermenêutica do romantismo

O modo de pensar que os fenômenos históricos nada mais são do que funções,
manifestações e encarnação de princípios independentes, recebeu o nome de
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“lógica emanatista”, tendo sua atenção na história e na metafísica (segundo


Aristóteles, é o estudo do ser enquanto ser e especulação em torno dos primeiros
princípios e das causas primeiras do ser). A história apresenta-se como um
elemento dominado por poderes anônimos, como um substrato de idéias elevadas,
expressa de forma incompleta nos fenômenos individuais.

8 Pensamento de Riegl (Viena – Áustria)

Considera que os grandes estilos históricos são dinâmicos e independentes,


imutáveis e incompatíveis, sempre favorecendo o aparecimento de um novo, em
detrimento do anterior.

8.1 A “Intenção artística” é uma teoria que se hipóstase (ficção ou abstração


falsamente considerada como real) como dominante, num desenvolvimento
incoerente e heterogêneo.
A história da arte, portanto, se transforma num processo do próprio princípio interior,
sem tolerar personalidades artísticas independentes. O materialismo histórico, por
sua vez, mostra que as estruturas culturais expressam apenas a qualidade dos
meios efetivos de produção e que a economia governa a história de forma absoluta,
quer seja primitiva ou organizada.

9 Romantismo e a ideologia

O romantismo passou a ser a forma de expressão de uma geração que deixou de


acreditar em valores absolutos, devendo pensar também em sua relatividade e
limitações históricas. As classes conservadoras se utilizaram dos argumentos
românticos para justificar seus privilégios, mas não era essa a realidade que se
esperava pelos românticos.

10 O Iluminismo e a revolução

Tinham dado coragem ao indivíduo para alimentar as suas esperanças exorbitantes,


como se prometesse um reinado soberano da Razão e da autoridade absoluta dos
escritores, já que no século XVIII eles eram líderes intelectuais do ocidente. Era o
elemento dinâmico impulsionando o movimento reformista que direcionava as
classes progressistas.

10.1 O final da Revolução mudou esse quadro, pois os escritores passaram a ser
responsabilizados por ter feito uma Revolução que extrapolou os ideais ou por ter
feito muito pouco para que se tivesse as transformações necessárias, perdendo
assim o seu prestígio.
Refugiaram-se então no passado, numa época em que todos os seus anseios e
desejos eram realizados, sem tensões ou realidade.

11 O Romantismo alemão

Disse um crítico liberal que o romantismo estava radicado no tormento do mundo e


quanto mais romântico um povo, mais infeliz será. Provavelmente o povo alemão era
o mais infeliz da Europa, e após a revolução nenhuma nação sentia-se segura, pois
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o sentimento de desamparo e solidão tomou conta da nova geração e influenciou a


sua visão de mundo.
Procurando soluções, encontrou expressar as possibilidades em várias formas de
evasão, como por exemplo, o retorno ao passado em busca da utopia, dos contos
de fadas, o inconsciente e o fantástico, o sobrenatural e o misterioso, a infância e a
natureza. Um sentimento de irresponsabilidade e de uma vida livre de sofrimentos e
frustração.

12 O Classicismo dos séculos XVII e XVIII e o Romântico

Os adeptos do classicismo tinham lutado entre atitudes desde o temor e a cólera até
a graciosidade e o espírito, sentindo-se senhores da realidade, acreditando que a
vida devia ser governada.
O romântico não aceitava qualquer vínculo externo de controle sobre a pessoa, pois
era incapaz de se comprometer, sentindo-se indefeso, submetido a uma pressão da
realidade poderosa, vendo-a com desdém e ao mesmo tempo como uma coisa
grandiosa. Ou se entregava a ela ou se rebelava, mas nunca se sentia capaz de
enfrentá-la com igualdade de forças.

13 A poesia romântica de Novalis

“É a arte de parecer estranho de um modo atraente, a arte de tornar remoto um


assunto e, no entanto familiar e agradável”. Tudo se torna romântico e poético se
ficarem a certa distância, dando aparência misteriosa ao vulgar, a dignidade do
desconhecido ao que seria familiar, e uma significação infinita ao que seria finito.

13.1 Os românticos queriam dominar o desconhecido e torná-lo inofensivo, e se o


tornasse superior ao homem, poderia ser suicídio intelectual e autodestruição, dando
essa receita de “romantização”.

13.2 O romântico não se contenta em ser apenas romântico e faz do movimento um


ideal e uma política para toda a sua vida.
Toda obra de arte é uma representação da realidade, substituindo a vida real por
uma utopia, mas mesmo assim no romantismo a utopia é tratada com maior pureza
do que em qualquer outro movimento,

13.3 “Ironia romântica” é a compreensão intuitiva de que a arte é a auto-sugestão e


ilusão, estando o homem consciente de suas representações. Já a definição de arte
como “auto-ilusão deliberada” é de origem romântica, apoiada nas idéias da
“suspensão voluntária da descrença” de Coleridge.

14 O romantismo e o Classicismo

O classicismo também desejava despertar sentimentos e ilusões dos leitores, mas


os exemplos era sempre de caráter instrutivo, analogia ou símbolo cheio de
implicações. O público não reagia com lágrimas, mas com reflexões, procurando
uma explicação mais profunda do homem e seu destino. O período pós-revolução foi
de frustração total. Os intelectuais se isolavam cada vez mais da sociedade. Daí
surgir os conceitos e “filisteu” e “burguês”, em contraste com o “cidadão”, tendo os
artistas e escritores se revoltado e passaram a desprezar a sua própria classe, pois
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o movimento romancista era puramente burguês, pois foram eles que aboliram as
convenções do Classicismo.
O romantismo levou os eu individualismo ao extremo, para combater o materialismo
e a hostilidade que os burgueses e filisteus tinham em relação ao espírito. Os
românticos entendiam a vida de acordo com os critérios da arte, para gerar uma
nova aristocracia superior ao homem comum, ao tempo em que dava vazão ao
contexto de que se apresentava no relacionamento do mundo com a arte.

15 Wackenroder (primeiro filósofo alemão (1773-1798).

“A arte é um sedutor fruto proibido, e todo aquele que tenha provado o seu mais
recôndito e dulcíssimo suco, está irremediavelmente perdido para o mundo ativo,
palpitante de vida. Acerca-se cada vez mais do seu próprio e pequeno recanto de
prazer”. O veneno da arte é que o artista se converte num ator, que encarna a vida
inteira como um papel.

16 Conflitos da vida

A vida moral transcorreu sob vários conflitos entre o ego e o mundo, entre o instinto
e a razão, o passado e o presente, o que no romantismo se converte numa forma
básica de consciência. Passa-se, então, a se apresentar como possibilidades de se
realizar simultaneamente a vida e espírito, a natureza e cultura, a história e
eternidade, a solidão e sociedade e a revolução e a tradição.
Idealismo, espiritualismo, irracionalismo e individualismo não sobrevivem sem uma
oposição de tendência igualmente forte, como o naturalismo e o coletivismo. As
atitudes filosóficas deixam de existir, passando o homem a ter atitudes mais
reflexivas e críticas, em busca de realizações.

16.1 O espírito humano deixou de ser mais espontâneo, como o século XVIII havia
lhe oferecido, sendo substituído por outra forte sensibilidade do coração e da alma,
deixando as lágrimas e a emoção para as camadas culturais mais baixas.

17 Poesia de hospital (Goethe)

Se compararmos o romantismo como “poesia de hospital” – como o fez Goethe,


cometeríamos uma injustiça, apesar de reveladora, que vai distinguir o homem das
plantas, pois a enfermidade romântica é apenas uma fuga dos problemas da vida
racional, afastando-se das obrigações do cotidiano, representando a negação da
ordem normal, contendo o dualismo de vida e morte.
Desde a revolução, o homem perdeu os seus apoios externos, ficando dependente
de si mesmo, tornando para si, um objeto de extrema importância e interesse.

18 A importância do romantismo com a revolução

Na Alemanha foi possível a entrada do romantismo, em harmonia com o


desenvolvimento francês, porque o romantismo tinha um relacionamento estreito
com a revolução. Naquele país o classicismo já tinha simpatia pelas idéias da
Revolução Francesa, tornando o romantismo alemão mais ativo, no qual Haym e
Dilthey já observavam que não se tratava de movimento apolítico. Quando Napoleão
invadiu a Alemanha, as forças conservadoras ficaram inseguras e com receio do
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liberalismo ser instalado, lutaram bravamente contra o exército francês. Os poetas


entendiam a revolução como uma grande discussão filosófica, mas para os
detentores do poder não seria possível ser aceita.
Quando o movimento romântico tomou conta do ocidente, na Alemanha todos os
românticos passaram a ser conservadores e monarquistas.

19 As correntes literárias na França

Os românticos eram legitimistas e clericalistas no início, e a tradição clássica na


literatura continuava representada pelos liberais. Nem todos os classicistas são
liberais, mas todos os liberais são classicistas. Nenhum entendimento era possível
entre os liberais classicistas e os românticos, mas entre os legitimistas existe um
grupo de adeptos da arte classicista. Na época de Luiz XIV os classicistas liberais e
os conservadores estão de pleno acordo contra o romantismo, mas a Academia
rejeita Lamartine, apesar do seu conservador, mesmo tendo a Academia um público
bem heterogêneo e uma boa parcela que apoia o romantismo com muito
entusiasmo.
O livro “O gênio do cristianismo”, de Chateaubriand (que foi o mais notável
representante da “literatura emigre), foi recebido com tão grande entusiasmo quanto
foi a obra “Meditações” de Lamartine. Começa então uma onda de efervescência
literária em obras de grandes sucessos.

20 Os cenáculos na França

Por volta do ano de 1824 ocorrem os primeiros sinais de mudança políticas. Criado o
circulo em torno de Charles Nodier no “Arsenal”, nasceu os cenáculos românticos.
Nesse espaço a sociedade se reunia para discutir moda literária, em amistosas
reuniões artísticas, em que o social pé tratado como elemento de segundo plano.
Poderia participar todo e qualquer escritor, artista, crítico dispostos a aderir o
movimento, bem como o público em geral simpatizante. Na França o movimento
tinha mais um caráter de escola literária do que na Alemanha, onde o ideal era
clássico.

21 O Romantismo e a boemia

Desde o início não houve a conotação de boemia ao romantismo, pois o movimento


era representado basicamente por Aristocratas, que depois de 1824 deixaram de dar
apoio unânime à monarquia e à Igreja, mantendo-se em certa medida, ainda
aristocrata e clerical.

22 Os Românicos e o controle do Teatro

A luta dos românticos para controlar o teatro em favor do “Hernani” de Victor Hugo,
foi uma guerra travada na rua Doyenné, os boêmios e a juventude, e mesmo com a
vitória, a oposição não descansou, até que renunciasse muito tempo depois, do
controle dos principais teatros de Paris.

23 O música e o romantismo
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A música na segunda metade do século XVIII torna-se propriedade da burguesia,


com as orquestras nos salões, banquetes, castelos e palácios, além da música de
câmara. A população pede música mais leve e menos complicada, o que leva um
bom tempo.

23.1 A geração posterior a Bach e Haendel já produzia música diferente entre a que
seria para divertimento próprio e para o público. Nas obras de Chubert e Shumann já
é e percebida esse dicotomia. Chopin e Liszt são menos influenciados pelo público,
e em Berlioz e Wagner existe um nítido cortejo para atingir a esse público. Quem
executa a música tem um duplo objetivo: de atender o ouvinte especialista e de iludir
o leigo.
A música permaneceu romântica até o século XIX, muito mais do que as outras
artes. Thomas Mann afirmou que foi a música de Wagner que lhe revelou pela
primeira vez o sentido da arte.

24 Conclusão

O romantismo é uma embriaguez que serve para explicar o sentimento, a emoção e


a razão de muitas lutas pela liberdade. As investidas contra o romantismo no século
XIX não foram decisivas, o que só vai ocorrer pela primeira vez no século XX.
Mas isso é uma outra história a ser contada....

REFERÊNCIA:

HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. São Paulo : Martins Fontes,
1998. (p 661 – 726)