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África África

Palavra Cantada Palavra Cantada


Quem não sabe onde é o Sudão Quem não sabe onde é o Sudão
saberá saberá
A Nigéria o Gabão A Nigéria o Gabão
Ruanda Ruanda
Quem não sabe onde fica o Senegal, Quem não sabe onde fica o Senegal,
A Tanzânia e a Namíbia, A Tanzânia e a Namíbia,
Guiné Bissau? Guiné Bissau?
Todo o povo do Japão Todo o povo do Japão
Saberá Saberá

De onde veio o De onde veio o


Leão de Judá Leão de Judá
Alemanha e Canadá Alemanha e Canadá
Saberão Saberão
Toda a gente da Bahia Toda a gente da Bahia
sabe já sabe já
De onde vem a melodia De onde vem a melodia
Do ijexá Do ijexá
o sol nasce todo dia o sol nasce todo dia
Vem de lá Vem de lá

Entre o Oriente e ocidente Entre o Oriente e ocidente


Onde fica? Onde fica?
Qual a origem da gente? Qual a origem da gente?
Onde fica? Onde fica?
África fica no meio do mapa do mundo do África fica no meio do mapa do mundo do
atlas da vida atlas da vida
Áfricas ficam na África que fica lá e aqui Áfricas ficam na África que fica lá e aqui
África ficará África ficará

Basta atravessar o mar Basta atravessar o mar


pra chegar pra chegar
Onde cresce o Baobá Onde cresce o Baobá
pra saber pra saber
Da floresta de Oxalá Da floresta de Oxalá
E malê E malê
Do deserto de alah Do deserto de alah
Do ilê Do ilê
Banto mulçumanamagô Banto mulçumanamagô
Yorubá Yorubá
Atividade:
Localize no mapa abaixo os países Africanos citados na música África em seguida pinte:

1- O Senegal de verde.
2- A Nigéria de amarelo.
3- O Gabão de alaranjado.
4- O Sudão do Sul de cinza.
5- A Tanzânia de vermelho.
6- A Namíbia de rosa.
7- A Guiné-Bissau de marrom.
A África está em nós

Texto 1

[...] a história mais legal sobre a África é sobre os seus contadores de histórias, que não escrevem nenhuma delas:
guardam todas na memória e depois recontam essa arte desde pequenos, com mestres, e acompanham os feitos das
famílias, dos reis , aumentando e enriquecendo a história de todos os seus antepassados. Uma história que as pessoas
aprendem a conhecer assim: ouvindo historias.

Imagine só o tamanho da memória dos contadores! (Quantos megas deve ter?) Por isso a palavra tem uma dimensão
sagrada: é através da fala que o mundo continua a existir no presente.

[...] griot é como os franceses chamaram os diélis, que é o nome bambara para estes contadores de histórias. Os diélis
são poetas e músicos. Conhecem as muitas línguas da região e viajam pelas aldeias, escutando relatos e recontando a
história das famílias como um conhecimento vivo. Diéli quer dizer sangue, e a circulação do sangue é a própria vida. A
força vital. LIMA, Heloísa Pires. História da Preta. São Paulo: Companhias das Letrinhas, 1998 .p23 e 26

Texto 2

O griot era o individuo encarregado de preservar e transmitir as histórias, lendas e canções de seu povo. O cargo de
griot passava de pai para filho. Existiam vários tipos de griots: os músicos, que cantavam e tocavam vários instrumentos
e eram responsáveis pela preservação de canções importantes para o grupo; os contadores de histórias, capazes de
contar com detalhes histórias que ouviram quando crianças; havia também os que guardavam feitos de grandes
guerreiros, batalhas e acontecimentos considerados marcantes para repetir em ocasiões especiais; os griots
comediantes, que contavam casos engraçados para divertir o público nas aldeias, que visitavam regularmente.

Os griots eram procurados por muitos reis africanos para professores particulares de seus filhos. Eles ensinavam arte,
conhecimento de plantas, tradições, histórias e davam conselhos aos jovens príncipes. Uma das frases mais divulgadas
pelos griots professores que chegou aos nossos dias é : “ Cada dia se aprende algo novo; basta saber ouvir.”

BOULOS Junior, Alfredo. História: sociedade & cidadania.1.ed.São Paulo:FTD, 2006.p.

Postado por historialinne.blogspot.com às 10:41

Duas visões da África

1- “[ A África ] não tem interesse histórico próprio, senão o de que os homens vivem ali na barbárie e na selvageria, sem
fornecer nenhum elemento à civilização.”

HEGEL. Filosofia da história universal. Citado em HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula: visita à história
contemporânea. São Paulo: Selo Negro, 2005.p.20.

2- “Para compreendermos a cultura material das sociedades africanas, a primeira questão que se impõe que é a imagem
que até hoje pendura da África, como se até sua ‘descoberta’ fosse esse continente perdido na obscuridade dos
primórdios da civilização, em plena barbárie, numa luta entre homem e natureza. De fato, a história dos povos africanos
é a mesma de toda humanidade: a da sobrevivência material, mas também espiritual, intelectual e artística, o que ficou à
margem da compreensão nas bases do pensamento ocidental, como se a reflexão entre homem e cultura fosse seu
atributo exclusivo, e como se natureza e cultura fossem fatores antagônicos.”

SALUM, Marta Heloisa Leuba. África: culturas e sociedades – guia temático para professores. São Paulo: MAE/ USP,
1999.

Extraído: Projeto Araribá: história/ organizadora Editora Moderna: obra coletiva concebida, desenvolvida e produzida pela
Editora Moderna; editora responsável Maria Raquel Apolinário. – 2.ed. São Paulo: Moderna, 2007.

ATIVIDADES:

Estes textos apresentam duas opiniões, uma positiva outra negativa, sobre a importância histórica do continente
africano. Após leitura, levantar as seguintes questões:
1- Qual a ideia central dos dois textos?

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2- Qual a opinião de Hegel sobre os povos africanos? E qual a opinião de Salum?

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3- Qual o modelo de civilização em que Hegel se baseia para ter esse pensamento?

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Culturas em choque, culturas em trânsito - Parte I

Texto 1

África e africanos: mosaico de culturas[1]

Depois de estudarmos a formação do feudalismo na Europa Ocidental do século V até o século X, nos perguntamos: o
que ocorria na Ásia, na África e na América neste mesmo período? Havia ligação entre essas regiões do globo? Se
houve algum contato, sob que circunstância teria ocorrido: respeito, tolerância, competição e/ ou hostilidade? Que
impactos o contato entre culturas tão diferentes traria ao chamado “mundo medieval”? Responderemos estas e outras
perguntas iniciando pela história do continente africano.

Já é senso comum imaginar a África apenas como um conglomerado de países cobertos por vastas áreas abrigando
animais selvagens, populações que sofrem com a miséria, economias falidas e governos corruptos. De fato, isso tudo
ainda existe por lá, mas não pode representar o retrato de um continente tão grande e variado. De acordo com o que já
estudamos na 5 série, achados e pesquisas comprovam que os primeiros ancestrais dos seres humanos teriam vivido no
Vale do Rift, na África, entre 3 e 4 milhões de anos atrás. Sendo assim a África, constitui-se continente berço do
conhecimento e da humanidade, possuí hoje uma população de 850 milhões de habitantes, 53 países e são faladas
2019 línguas.

Antes de os europeus escravizarem os africanos, a partir do século XV, e colonizarem a África, no século XIX, diversas
sociedades autônomas já existiam nesse continente. Cada uma contava com sua própria organização econômica,
política e cultural. Portanto, a história da África não pode ser pensada a partir do contato com o mundo ocidental. Antes
da chegada dos europeus, as sociedades africanas já tinham a sua própria história. A fase da história africana anterior à
chegada dos europeus e depois marcada pelas relações entre eles os africanos foi convencionalmente chamada de
África pré-colonial e durou aproximadamente do século IX ao XIX.

1 No ano 1000, havia na África povos nômades e povos sedentários. Alguns deles possuíam governos centralizados;
outros estavam organizados em aldeias, formadas por conjuntos de famílias que viviam sob o comando de conselhos de
anciãos e de chefes de clãs:

“[...] várias formas de Estado existiram na África. O clã ou linhagem é a forma rudimentar do Estado; seus membros
reconhecem um ancestral comum e vivem sob a autoridade de um chefe eleito ou de um patriarca, cuja função essencial
é zelar por uma divisão equitativa dos ganhos do grupo[...].O reino congregava vários clãs, sendo o rei, freqüentemente,
um chefe de clã que impôs sua autoridade a outros clãs [...]”.[2]

Algumas sociedades africanas pré-coloniais, sob o comando de chefes poderosos, ampliaram suas áreas de influência e
dominaram outros povos, transformando-se, assim, em impérios. Entre eles, destacou-se o Egito, o Mali, Songai, Ifé,
Benin, Gana, Congo, Zimbabué. Outras eram agrupamentos muito pequenos de pessoas que caçavam e coletavam o
que a natureza oferecia ou plantavam o suficiente para o sustento da família e do grupo. Das mais simples às mais
complexas, se organizavam a partir da fidelidade ao chefe e das relações de parentesco.

O chefe de família, cercado de seus dependentes e agregados, era o núcleo básico de organização na África. Quanto
mais poderoso um chefe mais mulheres ele tinha. Maior seriam seus laços de solidariedade e fidelidade, pois os
casamentos garantiam alianças entre os grupos. Sendo assim, quanto maior a descendência maior o prestígio, pois o
poder era medido pela quantidade de pessoas subordinadas a um chefe.

2 Nas sociedades africanas a orientação de tudo na vida era dada pelo contato sobrenatural. O mundo natural é o
concreto, que tocamos, sentimos, no qual vivemos. O mundo social é o resultado da nossa vida em grupo e em
determinado meio ambiente. O mundo sobrenatural é o das religiões, da magia, ao quais os homens só têm acesso
parcial, por meio de determinados ritos e cerimônias.

Todo conhecimento dos homens vinha dos mais velhos e dos ancestrais que mesmo depois de mortos continuavam
influenciando a vida.

A religião estava presente no exercício do poder, na aplicação das normas de convivência do grupo, na garantia da
harmonia e do bem- estar da comunidade. O mundo era decifrado e controlado pela religião, que nessas sociedades
tinha um papel equivalente ao que a ciência e a tecnologia têm para a nossa sociedade.

3 Parte das sociedades africanas praticava a agricultura para subsistência, mas muitas delas se dedicavam ao comércio
e às trocas de produtos artesanais e agrícolas ou à exploração de jazidas de ouro e de pedras preciosas, como o
diamante.

O comércio era uma forma importante das sociedades se relacionarem, trocando não só mercadorias como idéias e
comportamentos. Ou seja, o comércio é atividade das mais presentes na história de várias regiões da África, e por meio
dele as sociedades mantinham contato uma com as outras. Os produtos eram negociados por pessoas vindas de longe,
com costumes e crenças diferentes que algumas vezes eram incorporados, misturando-se às tradições locais. A
vitalidade do comércio dentro do continente africano, de curta, média e longa distância, põe por terra a idéia de
sociedades isoladas umas das outras, vivendo voltadas apenas para si mesmas.

4 Outra questão a ser levantada é o fato de comumente ouvirmos falar que já existia escravidão na África antes da
chegada dos europeus.

E, de fato, isso é verdade. Escravizavam-se os criminosos, os que não pagavam dívidas e também prisioneiros de
guerra. Mas os cativos podiam trabalhar para seus senhores por certo tempo, geralmente de dois a quatro anos, e
recebiam um pedaço de terra para seu sustento. Também podiam se casar e desempenhar funções administrativas e
militares. A condição dos escravos na África era, no entanto, muito diferente da dos africanos que mais tarde foram
escravizados no Brasil. E é importante destacar que as sociedades africanas não foram escravocratas, isto é, a
escravidão não era a única nem a principal instituição social.

Ao longo desta unidade e nos próximos textos estudaremos a diversidade de organizações econômicas, sociais e
políticas existentes entre povos africanos que se destacaram e formaram grandes reinos. Além do contato dos africanos
com árabes e europeus e suas influências culturais no Brasil. Por estas e outras conhecer a história da África nos faz
conhecer melhor nossa própria história do Brasil Africano.

Referências Bibliográficas:

BOULOS Júnior, Alfredo. História: sociedade e cidadania, 7.ano. São Paulo: FTD, 2009.(Coleção História: Sociedade &
Cidadania)

PROJETO ARARIBÁ: história/organizadora Editora Moderna; obra coletiva concebida, desenvolvida e produzida pela
Editora Moderna; editora responsável Maria Raquel Apolinário. 2.ed. São Paulo: Moderna, 2007.

SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil Africano. 2ed.São Paulo: Ática,2007.


Sujeitos sociais e interesses envolvidos no processo de abolição da escravidão no Brasil - século XIX

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA NO CASO DE UTILIZAÇÃO DESTE TEXTO:

TURINI, Leide Alvarenga. Sujeitos sociais e interesses envolvidos no processo de abolição da escravidão no Brasil - século
XIX. ESEBA/UFU, Uberlândia, 2007.

Entre os séculos XVI e XIX, cerca de 3,6 milhões de negros africanos foram traficados para o Brasil, para servir de mão-
de-obra à exploração dos produtos primários produzidos pela antiga colônia de Portugal, bem como para atividades
domésticas braçais de todo o tipo. A escravidão no Brasil foi tão extensa que, em meados do XIX, o Rio de Janeiro
possuía a maior concentração urbana de escravos do mundo ocidental desde o fim do Império Romano: 110 mil, de um
total de 226 mil habitantes. (Sérgio Gardenghi Suiama, 2006)

O Brasil foi o último país do continente americano a abolir legalmente a escravidão e isto aconteceu com a aprovação da
Lei Áurea em 13 de maio de 1888. De acordo com a interpretação oficial, a abolição foi o resultado de uma ação
humanitária e heróica da Princesa Isabel, responsável por assinar a lei quando ocupava o governo brasileiro em
substituição ao seu pai, D. Pedro II, em 1888.

Entretanto, conforme afirma o historiador Sidney Chalhoub (1989), o 13 de maio como uma data que simboliza a
concessão da liberdade aos escravos por um ato humanitário de uma princesa está cada vez mais desmoralizado. Muitos
historiadores, na atualidade, constroem outras interpretações menos simplistas que essa, enfatizando as pressões e os
interesses envolvidos no processo que culminou na extinção legal da escravidão no Brasil. Algumas dessas
interpretações menos simplistas acentuam as ações dos líderes abolicionistas no processo de abolição da escravidão. As
interpretações que enfatizam o movimento abolicionista se cruzam, por vezes, com outras interpretações que
apresentam também os interesses dos cafeicultores do Oeste de São Paulo, os quais pressionavam o governo
monárquico em defesa da substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre e assalariado; ou ainda as pressões da
Inglaterra que, desde as primeiras décadas do século XIX, procurava limitar o tráfico de escravos africanos para o Brasil,
passando a pressionar o governo brasileiro, após a independência, pela extinção definitiva do trabalho escravo no país.

Com relação ao movimento abolicionista, é inegável a importância da atuação de líderes como Joaquim Nabuco, José do
Patrocínio, André Rebouças, Rui Barbosa, Luis Gama, entre outros. A intensa campanha por eles promovida contra a
manutenção do trabalho escravo no Brasil, por meio de jornais, agremiações, livros, reuniões públicas, panfletos, entre
outros, principalmente a partir de 1880, evidenciam a relevância do movimento. Entretanto, muitos historiadores
questionam a interpretação que considera os participantes do movimento abolicionista como aqueles que melhor
representaram os interesses dos escravos e, portanto, como os principais sujeitos sociais do processo de abolição da
escravidão. Para a historiadora Célia Maria de Azevedo, não se pode deixar de refletir também sobre os interesses e a
visão reformista e legalista de muitos abolicionistas, para os quais não interessava que a abolição saísse da legalidade
institucional. Dito de outra maneira: se a abolição, na segunda metade do século XIX, era praticamente inevitável, muitos
abolicionistas preferiam que ela acontecesse sob o controle da classe política e não sob o controle dos próprios escravos.

De acordo com Célia Azevedo, preocupados com a possibilidade de que a abolição escapasse dos quadros estritamente
parlamentares, os abolicionistas procuravam manter o controle institucional sobre o movimento das ruas com o objetivo
de reordenar o social a partir das próprias condições sociais vigentes, sem nunca enveredar por utopias revolucionárias.
Entenda-se por utopias revolucionárias os projetos que visavam uma transformação profunda na estrutura social e
econômica do país, a qual possibilitasse a inclusão dos escravos e dos pobres e livres. Isto significa, que o abolicionismo,
tal com o pretendido pelos abolicionistas, deveria por um lado lutar pela libertação dos escravos e a sua integração
social, mas, por outro, precisaria reunir todos os esforços para manter o poder da grande propriedade, ou mais
precisamente, o poder do capital[1].

No que diz respeito aos cafeicultores do Oeste Paulista, os seus interesses na abolição eram explícitos. Não defendiam
propriamente a “causa abolicionista”, mas a possibilidade de introduzir o trabalho livre e assalariado nas suas lavouras e
em outras atividades a elas vinculadas. Desde as primeiras décadas do século XIX o café tornara-se o principal produto
de exportação do Brasil. Em sua primeira fase (1830-1860) a produção cafeeira concentrou-se no Vale do Paraíba (entre
as províncias do Rio de Janeiro e São Paulo) e na Zona da Mata Mineira, alicerçando-se no trabalho escravo. O
escoamento da produção para o mercado externo ocorria principalmente por meio do Porto do Rio de Janeiro. Os
“barões do café” tornaram-se o grupo social de maior poder econômico e político do Império. A partir de 1870, a
produção cafeeira expandiu-se e chegou às terras férteis do chamado Oeste Paulista. O Porto de Santos tornou-se o
principal ponto de escoamento da produção. Entretanto, nesta região, já não era possível a utilização da mão-de-obra
escrava tal como nas regiões tradicionais. As pressões feitas pelos trabalhadores escravos e pelo movimento
abolicionista, aliadas à extinção do tráfico negreiro em 1850 e ao fato de que, naquele contexto, a oferta de mão-de-
obra escrava era cada vez menor, fizeram com que os cafeicultores da nova região do café buscassem uma alternativa
que garantisse os seus interesses. Passaram, então, a pressionar o governo brasileiro para que acabasse legalmente com
a escravidão e estimulasse a entrada de trabalhadores europeus no Brasil. Portanto, a abolição da escravidão e a
introdução do trabalho livre e assalariado significavam alternativas para a continuidade da expansão da economia
cafeeira para os cafeicultores do oeste paulista.
Com relação às pressões inglesas pelo fim da escravidão no Brasil, entre as principais razões que as justificam podemos
destacar duas: a primeira, relacionada ao fato de que o processo de industrialização na Inglaterra, iniciado desde a
segunda metade do século XVIII, aumentou a produção e ensejava, portanto, a expansão do mercado consumidor. Tal
expansão pressupunha mercados onde a mão-de-obra fosse constituída principalmente por trabalhadores livres e
assalariados (leia-se consumidores). Havia também a perspectiva de que o dinheiro gasto com a compra de escravos
fosse investido em negócios relacionados à compra de produtos industrializados ingleses; a segunda razão diz respeito
ao fato de que os colonizadores ingleses estabelecidos na África não viam com bons olhos o tráfico de escravos, o qual
colocava em risco a disponibilidade de mão-de-obra para o trabalho na agricultura e na mineração, atividades que
desenvolviam no próprio continente africano. Desta forma, desde o século XVIII, a Inglaterra pressionava os governos de
outros países pelo fim do trabalho escravo.

Essas considerações reforçam a afirmação feita na introdução de que a abolição foi um processo que resultou das
pressões e dos interesses envolvidos. Entretanto, muitas vezes, essas interpretações desconsideram ou colocam em
segundo plano as ações dos próprios trabalhadores escravos no processo, caracterizando-os como vítimas passivas,
incapazes de qualquer ação autônoma. Se os interesses e as pressões exercidas por abolicionistas, cafeicultores paulistas
e ingleses foram importantes para o processo de abolição legal da escravidão no Brasil, é imprescindível reconhecer
também a pressão exercida por aqueles que, além da liberdade jurídica, lutavam por uma mudança mais profunda nas
suas condições de vida e de trabalho: os próprios trabalhadores escravos.

O reconhecimento das formas de luta e estratégias de sobrevivência cotidiana empreendidas por homens e mulheres
escravizados no Brasil é fundamental para o questionamento de uma interpretação que os caracteriza como seres
passivos e alienados. Desde o século XVI, inúmeras formas de luta e resistência marcaram a trajetória de vida e trabalho
dos escravos africanos e seus descendentes no Brasil. Não apenas por meio de ações explícitas como rebeliões nas
fazendas, fugas, formação de quilombos, assassinatos de feitores e proprietários, suicídios, entre outros, mas também
por estratégias adotadas no cotidiano, as quais implicavam, muitas vezes, na negociação e no alargamento de suas
alternativas de sobrevivência no cativeiro. Por exemplo, quando eram vendidos por um proprietário a outro, muitos
escravos buscavam diferentes alternativas para que o negócio não se concretizasse:

Manifestavam desagrado pelo novo senhor, sendo então trocados por outros escravos na negociação; procuravam
padrinhos que os protegessem ou mesmo que os comprassem; fugiam quando a venda estivesse acertada; ou
praticavam ações mais violentas que os levassem às malhas da justiça, tornando assim o negócio impraticável (...) outros
tantos tornavam-se “imprestáveis” depois de vendidos. Assim depreciavam seus próprios valores de mercado e davam
origem a longas disputas senhoriais entre comprador e vendedor a respeito da boa fé na transação e da qualidade do
escravo negociado. (LARA, 1989, p. 9)

Outras vezes, os escravos procuravam ampliar as suas possibilidades de sobrevivência no cativeiro por vias mais
institucionalizadas na sociedade escravista do século XIX. Challoub cita o caso da Lei do Ventre Livre assinada em 1871, a
qual tornava livre todos os filhos de escravos nascidos a partir daquela data. Embora frágil e insuficiente, uma vez que o
“liberto” ficava sob a tutela do proprietário até os 8 ou 21 anos[2], a lei reconhecia o direito dos escravos ao pecúlio que
conseguiam acumular e colocava a possibilidade de que comprassem a sua alforria mediante indenização. O autor
argumenta:

A chamada ‘Lei do Ventre Livre’ foi na verdade muito mais do que aquilo que normalmente se afirma nos livros didáticos
– sejam eles de ‘direita’ ou de ‘esquerda’. Em algumas de suas disposições mais importantes, como aquelas que dizem
respeito ao pecúlio dos escravos e ao direito à alforria por indenização de preços, a ‘Lei do Ventre Livre’ representou
tanto o reconhecimento legal de uma série de direitos que os cativos vinham adquirindo pelo costume, quanto a
capitulação das classes proprietárias diante de alguns objetivos das lutas dos negros. (CHALHOUB, 1989, p. 40)
Portanto, a legislação abolicionista do século XIX no Brasil, embora frágil, insuficiente e algumas vezes inócua para os
trabalhadores escravos, trouxe evidências dos conflitos, tensões e disputas que a questão da abolição suscitava entre as
elites nacionais, estrangeiras e os trabalhadores escravos. Em retrospectiva cronológica a legislação abolicionista inclui a
Lei Eusébio de Queirós que extinguiu o tráfico de escravos (1850), a Lei do Ventre Livre (1871), a Lei dos Sexagenários
(1885) e a Lei Áurea (1888). Não se pode deixar de mencionar, neste contexto, a Lei Bill Aberdeen (1845), lei inglesa que
autorizava a sua marinha a prender qualquer navio negreiro que atravessasse o Atlântico, a partir daquela data.

Assim, na reflexão acerca do trabalho escravo no Brasil e de sua extinção legal no século XIX é preciso considerar que os
escravos, como sujeitos sociais do processo, “estabeleceram intrincadas relações com seus companheiros de cativeiro,
com seus senhores e alheios, com ex-escravos e com homens e mulheres livres e pobres. Construíram laços familiares,
alianças e solidariedades econômicas, culturais e sociais que acabaram por construir uma cultura e um saber escravo –
base de muitas estratégias de sobrevivência e de muitos projetos de liberdade”[3].

Por outro lado, é preciso também considerar que a abolição da escravidão não representou o estabelecimento de um
novo tempo com relações de trabalho mais justas e harmoniosas no Brasil. No período pós-abolição, as mesmas
continuaram marcadas pela exploração e violência, como discutiremos em nossos estudos posteriores e, mesmo nos
dias atuais, perduram formas de trabalho escravo ou semi-escravo no Brasil[4].

Referências bibliográficas:

AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco. O negro no imaginário das elites - século XIX. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1987.

CHALHOUB, Sidney. Os mitos da abolição. In: TRABALHADORES – escravos. Campinas, Secretaria Municipal de Cultura,
Esportes e Turismo, 1989, p.36-40.

LARA, Silvia Hunold. Campos da Violência. Escravos e Senhores na capitania do Rio de Janeiro - 1750-1808. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1988.

________________Trabalhadores Escravos. In: TRABALHADORES – escravos. Campinas, Secretaria Municipal de Cultura,


Esportes e Turismo, 1989, p.4-19.

MARQUES, Adhemar. Pelos Caminhos da História. Curitiba: Positivo, 2006.

Roteiro de Atividades:

Introdução
1- Na sua opinião, o que o historiador Sidney Chalhoub quis dizer com a afirmativa:

“(...) o treze de maio como uma data que simboliza a concessão da liberdade aos escravos por um ato humanitário de
uma princesa está cada vez mais desmoralizado.”

2- O texto menciona duas interpretações diferentes a respeito do que levou à abolição (término, extinção legal) da
escravidão no Brasil, no dia 13 de maio de 1888.

A- De acordo com a interpretação oficial:

B- De acordo com a interpretação não oficial:

Os interesses e pressões do movimento abolicionista pelo fim da escravidão

3- Alguns historiadores, ao discutirem as ações dos abolicionistas (advogados, políticos, médicos etc) para acabar com a
escravidão, passam a idéia de que a maior motivação dessas pessoas era assegurar os interesses dos escravos e,
portanto, a inclusão dos mesmos na sociedade, como cidadãos com plenos direitos. Entretanto, a historiadora Célia M.
Azevedo afirma que esta visão não pode ser generalizada, uma vez que muitos abolicionistas eram reformistas e
legalistas e não tinham interesse em que a abolição saísse da legalidade institucional.

Explique o que você entendeu sobre esta questão.

Os interesses e pressões dos cafeicultores do Oeste Paulista pelo fim da escravidão

4- De acordo com o texto, por que os cafeicultores do Oeste paulista, ao contrário dos cafeicultores de outras regiões e
ao contrário de outros proprietários de terras do Brasil, eram favoráveis ao fim da escravidão? A partir do texto, explique
com as suas palavras.

Os interesses e pressões dos ingleses pelo fim da escravidão

5- De acordo com o texto, os ingleses também tinham interesse na abolição da escravidão no Brasil. Explique, com as
suas palavras, as principais razões deste posicionamento:

A- Queriam expandir o mercado consumidor dos seus produtos industrializados:

B- Queriam estimular o investimento em negócios de produtos industrializados ingleses:

C- Colonizadores ingleses instalados na África não queriam o tráfico de escravos:

Os interesses e pressões dos próprios trabalhadores escravos pelo fim da ecsravidão


6- Os líderes abolicionistas, os cafeicultores do Oeste paulista, os ingleses e os trabalhadores escravos tinham interesse
pelo fim da escravidão no Brasil e pressionaram o governo brasileiro para que isso acontecesse. Entretanto, os interesses
dos trabalhadores escravos eram bem diferentes dos demais sujeitos sociais, principalmente em um aspecto
fundamental. Cite-o e comente-o.

7- Durante todo o período de vigência do sistema escravista no Brasil (século XVI a XIX), inúmeras formas de luta e
estratégias de sobrevivência foram adotadas pelos trabalhadores escravos para resistirem à escravidão. Cite-as.

Notas:

[1] AZEVEDO, Célia Maria Marinho. Onda negra, medo branco. O medo no imaginário das elites do século XIX. 1987,
p.89.

[2] A lei determinava que o filhos de escravas nascidos após a promulgação da mesma deveriam ficar com a mãe até os 8
anos de idade. Então, se o proprietário optasse por libertá-lo receberia uma indenização do Estado brasileiro; caso
contrário, o proprietário utilizaria os seus serviços até os 21 anos de idade.

[3] LARA, Silvia Hunold. Trabalhadores Escravos. In: TRABALHADORES – escravos. Campinas, Secretaria Municipal de
Cultura, Esportes e Turismo, 1989, p.18-19.

[4] Segundo o jornalista Leonardo Sakamoto, a escravidão no Brasil de hoje “não se resume à terra de ninguém que é a
região de expansão agrícola amazônica, mas está presente nas carvoarias do cerrado, nos laranjais e canaviais do interior
paulista, em fazendas de frutas e algodão do Nordeste, nas pequenas tecelagens do Brás e Bom Retiro da cidade de São
Paulo”, entre outros. AGÊNCIA CARTA MAIOR. Dossiê Trabalho Escravo. Trabalho Escravo no Brasil de hoje. 09/12/2003.

Postado por Leide Alvarenga Turini às 07:29