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Um percurso epistemológico para a

pesquisa empírica de comunicação

M a r i a I mm a c o l a t a V a s s a l l o de Lopes1

AO MODO DE UMA APRESENTAÇÃO

D esenvolvo aqui um texto autorreflexivo, ao modo de uma auto-


biografia intelectual, que reconstrói momentos-chave da vida da
autora a fim de esclarecer a sua inserção no campo de estudos da
Comunicação. Costuro aqueles em que produzi trabalhos mais de corte
epistemológico/metodológico que visaram tanto à construção de uma
teoria da pesquisa empírica em comunicação quanto uma reflexão meto-
dológica lato sensu sobre a prática da pesquisa comunicacional (lembrando
com Saussure que “o ponto de vista cria o objeto”). Os objetos empíricos
que escolhi2 envolveram fenômenos de comunicação populares como pro-
gramas radiofônicos e telenovelas. Trago comigo a condição de imigrante
italiana que, fixando-se em São Paulo nos anos 1950, teve com o rádio e a
televisão as primeiras e marcantes experiências com o que Martín-Barbero
(1987), mais tarde, chamaria de “popular massivo”.
Desde este início, expresso um esforço deliberado de reflexividade,
uma tentativa de autoanálise tentando relacionar vida e empreendimento
intelectual e de firmar os princípios que nortearam certa coerência no
pensamento e na ação, um pulso sobre o afeto e a razão. Busco aplicar na

1.  É professora titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.


Temas de interesse: campo da comunicação, recepção da comunicação, ficção televisiva,
metodologia da comunicação. Coordena o Centro de Estudos de Telenovela da USP e o
Centro de Estudos do Campo da Comunicação da USP. Criadora e coordenadora da rede
de pesquisa OBITEL (Observatório Ibero-Americano da Ficção Televisiva) e da rede de
pesquisa OBITEL BRASIL. Presidente de IBERCOM – Associação Ibero-Americana de
Comunicação. Diretora de MATRIZes, Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências
da Comunicação da USP. É pesquisadora 1A do CNPq.
2.  A escolha dos temas de pesquisa dificilmente é responsabilidade exclusiva do
pesquisador, antes, ela deve ser creditada a fatores subjetivos e objetivos, tanto micro
como macrossociais.

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Epistemologia da Comunicação no Brasil: trajetórias autorreflexivas

desconstrução e reconstrução dessa trajetória o próprio método que fui


lapidando ao longo de meu trabalho acadêmico. E afirmo ter escolhido
como meu programa forte de estudo dois objetos da Comunicação – meto-
dologia e telenovela – combinação que parece tão esdrúxula, à primeira
vista, mas que, em verdade, dão completa organicidade a esse programa.
Explico: meus trabalhos metodológicos me fazem compreender melhor
a complexidade da telenovela e como o trabalho com a telenovela coloca
desafios metodológicos e epistemológicos à pesquisa de Comunicação.
Também posso afirmar que são as duas entre as minhas realizações que
mais tiveram repercussão na área.
Para fins de exposição, porém, vou aqui dividir esses dois objetos de
estudo.

1. A BUSCA DA PESQUISA COMO EMPREENDIMENTO


INTELECTUAL DE VIDA, OU O LONGO PERCURSO
PARA A PESQUISA DE COMUNICAÇÃO
A pesquisa constituiu-se em objeto de meus estudos a partir da gra-
duação, realizada no curso de Ciências Sociais da USP. Tive a sorte de
estudar nesse curso em um momento em que ele se configurava como a
ponta de lança da crítica intelectual e pública ao regime militar (1964-1985)
e como celeiro de nomes marcantes que formavam a chamada “escola pau-
lista de Sociologia” em torno da figura de Florestan Fernandes. Acredito
que devo à formação que ali tive a disposição que desenvolvi ao diálogo
permanente, ainda que tenso e conflituoso, entre as diferentes linhagens
paradigmáticas e teóricas que marcam as Ciências Humanas e Sociais.
Ali iniciei a construção de minha identidade teórica e política, em meio
às batalhas da Rua Maria Antônia contra a ditadura militar e às batalhas
ideológicas dentro do próprio curso de Ciências Sociais. A orientação
básica do curso era marxista, mas um marxismo como paradigma teórico
que era o avesso da ortodoxia, em permanente diálogo, por mais complexo
que fosse, com autores de outras orientações teóricas. Esta configuração
do curso não se dava só em termos da bibliografia adotada, mas também
entre os próprios professores. Havia as famosas linhas das “cadeiras”.
A da Sociologia I era de Florestan Fernandes e seus assistentes, a qual
era totalmente distinta da Sociologia II, liderada por Rui Coelho, ou da
cadeira de Antropologia, então dirigida por Egon Schaden. A primeira
era de nítido corte marxista e dirigida para os estudos que hoje seriam

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Um percurso epistemológico para a pesquisa || Maria Immacolata Vassallo de Lopes

chamados “duros”: sociologia industrial, do trabalho, do desenvolvimen-


to, do planejamento, enquanto as outras seguiam tendencialmente uma
orientação estruturo-funcionalista. Todas, porém, eram mais perfiladas à
escola europeia do que à norte-americana. Curiosamente, foi na cadeira do
Professor Florestan que tive o maior contato com os clássicos do funcio-
nalismo norte-americano (Parsons, Merton, Park, Linton, White e outros).
A discussão maior que se travava, e que me interessava particularmente,
era o que hoje definiria como “transgressão teórica”: numa pesquisa se
podia usar indistintamente autores marxistas e funcionalistas? Florestan
respondia a isso de uma maneira extremamente contemporânea ao dizer
que dependendo do objeto, autores de outra matriz teórica que não fosse
aquela de base do autor podiam ser assimilados, desde que houvesse um
trabalho de apropriação dialética. Dialetizar, ou confrontar criticamente
os autores sem cair num ecletismo teórico ingênuo. Isso afirmado em
plena década de 1970, quando hoje, os mais incautos (“pós-modernos”?)
acreditam que a problemática da diversidade de paradigmas teóricos é
da última hora.
A questão da diversidade (vetor de dispersão) e da integração (vetor
de convergência) teórica e metodológica das Ciências Sociais marcou-me
profundamente e foi responsável por treinar-me um certo olhar interno,
próprio da crítica epistemológica sobre as teorias em geral.
Outro ponto marcante foi o interesse por certos temas. Inclinar-me para
temas materiais ou de economia política já encontrava seu contraponto em
um nascente interesse pela sociologia da comunicação e da cultura. No
fenômeno da comunicação de massa já me chamava a atenção não tanto a
massificação, mas a preferência manifestada por públicos diversos pelos
mesmos programas. O que o povo mais gostava de ver e de ouvir? Por
quê? Queria aliar meu interesse pelo estudo da ideologia dominante a uma
tendência inata pelo popular. Pretendia fazer um trabalho sobre Sílvio
Santos desde que eu cursava a graduação. Outro tema que me sensibilizava
era o das migrações. Meu interesse pela sociologia do planejamento incidia
exatamente sobre a questão da modernização em países subdesenvolvidos,
onde coexistiam temporalidades e espaços vividos profundamente
diferentes. Além do que o tema das migrações também me atraía pela
minha própria condição de ser uma imigrante. O “homem marginal” de
Robert Park sempre me atraíra. Acabei por ingressar na pós-graduação
da ECA e por trabalhar na conjunção desses dois interesses, o do massivo

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com o popular e o tema da marginalização social, do que resultou minha


dissertação de mestrado, publicada como O Rádio dos Pobres. Comunicação
de massa, ideologia e marginalidade social (1988).
O objeto dessa dissertação situava-se no trânsito interdisciplinar entre
comunicação, sociologia e semiologia. Tinha por foco três programas
populares de rádio e seu público de baixa renda. Tentei trabalhar com a
dimensão sociológica do público, a dimensão semiológica do discurso
radiofônico e a dimensão comunicacional entre as duas. Apresentava uma
abordagem de base marxista, operando combinações teóricas e metodoló-
gicas diversas. Hoje, esse trabalho é tido como um precursor dos estudos
de recepção. Estão lá a pesquisa de campo e a interpretação teórica dos
dados empíricos; ainda, a dimensão da microestrutura do cotidiano e dos
programas de rádio e a macroestrutura da sociedade brasileira a legitimar
a marginalidade social e os meios de comunicação que exerciam a hege-
monia cultural junto às camadas populares. A repercussão dessa pesquisa
de mestrado não se deu de imediato, porém é um trabalho que vem sendo
recuperado ou descoberto ainda hoje, o que me dá muita satisfação.
Depois do mestrado começo outra fase da minha trajetória de estudos.
Ela tem a ver com a decisão de fazer um doutorado sobre a pesquisa de
Comunicação, ou seja, uma pesquisa sobre a pesquisa, uma tese meto-
dológica, que é afinal, uma pesquisa epistemológica. O projeto inicial
era analisar o estado da arte da pesquisa de Comunicação no Brasil, sua
constituição como campo de estudos interdisciplinares, suas áreas e linhas
de pesquisa. Depois, ao longo do processo, o projeto foi ganhando um
perfil nitidamente sobre a prática metodológica ao dirigi-lo para a análise
interna de dissertações e teses sobre comunicação popular. Novamente,
refaço as ligações com minhas raízes. Volto-me para a releitura da obra
teórica de Florestan Fernandes. O modelo metodológico para a pesquisa
de Comunicação que acabo propondo na tese de doutorado tem tudo a ver
com ela. Persegue o rigor metodológico sem deixar de lado a “imagina-
ção metodológica” do ofício de pesquisador. Propõe elaborar a pesquisa
atendendo às demandas metodológicas expressas em níveis e fases que
se articulam formando um modelo em rede. Reafirmo o princípio de que
toda pesquisa é uma construção do investigador, ao mesmo tempo em que
ela determina a prática desse investigador. Liberdade e determinismo – é
a eterna batalha que se manifesta ao longo de todo processo de pesquisa.

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2. UM MODELO METODOLÓGICO DE PESQUISA EMPÍRICA


DE COMUNICAÇÃO
Após a defesa do doutorado, firmei duas linhas de interesse e de pesqui-
sa na Pós-Graduação da ECA: Metodologia da Pesquisa em Comunicação
e Comunicação e Cultura Popular. Nelas moldei o habitus que imprimiria à
pesquisa e à docência: o trabalho transversal às disciplinas estabelecidas,
a vigilância epistemológica do pensamento teórico e metodológico e o
prazer pela pesquisa empírica.
O modelo metodológico para a pesquisa de Comunicação que acabei
propondo na tese de doutorado foi publicado com o título de Pesquisa em
Comunicação. Formulação de um modelo metodológico (1990) e tem tudo a ver
com esse meu habitus. Persegue o rigor metodológico sem deixar de lado a
“imaginação metodológica” do ofício do pesquisador. Esse modelo meto-
dológico é uma de minhas duas realizações que mais tiveram repercussão
na área. A outra é a telenovela de que falarei adiante.
As observações que se seguem derivam desse modelo e dos trabalhos
que desenvolvi aprofundando-o e ajustando-o3. É um modelo metodoló-
gico para a pesquisa empírica de Comunicação e ele se tornou referência
central em meus trabalhos sobre a epistemologia, a teoria e as práticas da
pesquisa. Ele propõe planejar e realizar a pesquisa atendendo a deman-
das de operações metodológicas que se expressam em níveis e fases que
se articulam formando um modelo em rede. Defino a metodologia da
pesquisa como um processo de tomada de decisões e opções que estru-
turam a investigação em níveis e em fases que se realizam num espaço
determinado que é o espaço epistêmico. Minhas referências básicas nesse
modelo são: Bachelard, Bourdieu, Piaget, Florestan Fernandes, Wallerstein,
Vattimo, Morin e Martín-Barbero.
Seu enfoque é metodológico lato sensu, isto é, interno ao fazer cientí-
fico e onde ele se confunde com a reflexão epistemológica. Dois pontos
destacam-se nesse enfoque. O primeiro é que a epistemologia é tratada ao
nível histórico e operatório, na tradição de Bachelard (1949, 1972, 1974), isto
é, como sendo um nível da prática metodológica, entendendo-se, portanto,
que a reflexão epistemológica opera internamente à prática da pesqui-
sa. A reflexão epistemológica é a operação metodológica de entrada e se

3.  Numa linha do tempo dos trabalhos sobre metodologia da pesquisa de Comunicação,
seleciono os seguintes: Lopes (1990, 1993, 1994, 1997, 1999, 2000a, 2000b 2003a, 2005, 2006a,
2006b, 2009a, 2010, 2011a, 2011b, 2015a).

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desenvolve através de ações de permanente vigilância e de autocontrole


sobre a prática da pesquisa e dela resulta a autonomia relativa da pesquisa.
Em outros termos, a crítica epistemológica rege os critérios de validação
interna do discurso científico. O segundo ponto a destacar é que a reflexão
epistemológica é necessária, mas não é suficiente se não for combinada
aos critérios de validação externa apoiados na crítica feita pela sociologia
do conhecimento. Como recurso de crítica epistemológica da pesquisa
de Comunicação retomo algumas concepções da sociologia da ciência. E
aqui, encontro correspondências com o conceito de sociedade da comuni-
cação generalizada, de Vattimo (1992) e de agenda de nação na pesquisa, de
Martín-Barbero (2009).
Segundo Bourdieu (1975: 99), “é na sociologia do conhecimento que se
encontram os instrumentos para dar força e forma à crítica epistemológica,
revelando os supostos inconscientes e as petições de princípio de uma
tradição teórica”. Desta forma, minhas considerações epistemológicas não
são feitas no âmbito do discurso científico genérico e abstrato, antes, ao
contrário, elas concebem a pesquisa como prática sobredeterminada por
condições sociais de produção do conhecimento e igualmente como prática
que possui uma autonomia relativa. Aqui, essa prática é o próprio processo
de produção do conhecimento dotado de uma lógica interna própria e de
mecanismos de autocontrole, o que impede que a pesquisa se converta
numa mera caixa de ressonância das condições externas de sua produção
e, portanto, num discurso totalmente ideológico. Deste modo, concebemos
a pesquisa como um campo epistêmico submetido a determinados fluxos
e exigências internas e externas.

As condições de produção da pesquisa no modelo metodológico


De acordo com a sociologia da ciência, a ciência é vista como um
sistema empírico de atividade social que se define por um certo tipo
de discurso decorrente de condições concretas de elaboração, difusão e
desenvolvimento. São as condições de produção que definem o horizonte
dentro do qual se movem as decisões que permitem falar de uma certa
maneira sobre um certo objeto. Em outro texto (Lopes, 1997), indiquei que
as condições de produção de uma ciência podem ser resumidas em três
grandes contextos. O primeiro é o contexto discursivo, no qual podem ser
identificados paradigmas, modelos, instrumentos, temáticas que circulam
em determinado campo científico. Trata-se propriamente da história de

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um campo científico, os percursos pelos quais ele vem se constituindo,


firmando suas tradições e tendências de investigação. O segundo é o
contexto institucional, constituído por mecanismos de mediação entre as
variáveis sociológicas globais e o discurso científico e que se realizam
como dispositivos organizativos de distribuição de recursos e de poder
dentro de uma comunidade científica. Corresponde ao que Bourdieu (1983)
chama de campo científico. E o terceiro fator que é o contexto histórico-social,
onde residem as variáveis sociológicas que incidem sobre a produção
científica, com particular interesse pelos modos de inserção da ciência e
da comunidade científica dentro de um país ou no âmbito internacional.
Segue-se que o conhecimento científico é sempre o resultado desses
múltiplos fatores, de ordem científica, institucional e social, os quais cons-
tituem as condições concretas de produção de uma ciência. Esse discurso
científico tem suas condições próprias de circulação e de recepção, através
das quais é socializada e aplicada visando à intervenção e à mudança
sociais. É o que pode ser visualizado no gráfico 1.

Gráfico 1

O processo de produção da pesquisa no modelo metodológico


Falar de metodologia implica sempre um “falar pedagógico”, pois
parte-se, de todo modo, de uma determinada concepção de pesquisa, ou
mais propriamente, de uma determinada teoria da pesquisa que é concre-
tizada na prática da pesquisa. O efeito desse falar remete invariavelmente a

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um “como fazer pesquisa”. Assim, sublinho que as presentes ponderações


derivam de minha prática com o ensino de metodologia, com a avalia-
ção institucional de projetos de pesquisa de Comunicação, além, é claro,
de minhas próprias experiências de investigação. Isso tem me dado, no
mínimo, a possibilidade de basear minhas concepções na crítica à prática
concreta da pesquisa, basicamente a brasileira.
São dois princípios básicos que regem esse modelo: 1) a reflexão metodo-
lógica não se faz de modo abstrato porque o saber de uma disciplina não
é destacável de sua implementação na investigação. Portanto, o método
não é suscetível de ser estudado separadamente das investigações em
que é empregado; 2) a reflexão metodológica não só é importante como
necessária para criar uma atitude consciente e crítica por parte do inves-
tigador quanto às operações que realiza ao longo da investigação. Deste
modo, torna-se possível internalizar um sistema de hábitos intelectuais,
que é o objetivo essencial da metodologia.
Apoio-me em ensinamentos da linguística para abordar a ciência
como linguagem e, como tal, constituída por dois mecanismos básicos,
de seleção e de combinação de signos, aquele operando no eixo vertical,
paradigmático, ou da língua, e este no eixo horizontal, sintagmático ou
da fala. As decisões e opções na ciência, que são do eixo do paradigma,
são feitas dentro do conjunto das possibilidades teóricas, metodológicas
e técnicas que constituem o “reservatório disponível” de uma ciência
num dado momento de seu desenvolvimento num determinado ambiente
social. Essas opções são atualizadas através de uma cadeia de movimen-
tos de combinação, que são do eixo do sintagma e que resultam na prática
da pesquisa. Assim, o campo da pesquisa é, ao mesmo tempo, estrutura
enquanto se organiza como discurso científico e é processo enquanto se
realiza como prática científica.
Quero ressaltar que um ponto central dessa concepção de pesquisa é
a noção de modelo que ela acarreta. Seu postulado é a autonomia relati-
va da metodologia, isto é, um domínio específico de saber e de fazer e o
decorrente trabalho metodológico reflexivo e criativo.
Mas, por que construir um modelo metodológico para a pesquisa de
Comunicação? Como lembra Granger (1960), a tarefa da ciência é a cons-
trução de modelos que objetivam a experiência, mesmo que sua realização
seja sempre aproximativa, uma vez que o trabalho científico assenta sobre
uma inadequação, uma tensão sempre presente entre o pensamento formal

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e a experiência humana que pretende conceituar. Talvez seja na presença


mesma dessa tensão entre o discurso científico e o real que se assenta o
ideal de compreensão da ciência.
O modelo metodológico que apresento articula o campo da pesquisa
em níveis e fases metodológicas, que se interpenetram dialeticamente, do
que resulta uma concepção, simultaneamente, topológica e cronológica de
pesquisa. A visão é a de um modelo metodológico que opera em rede. O
eixo paradigmático ou vertical é constituído por quatro níveis ou instân-
cias: epistemológica, teórica, metódica e técnica; o eixo sintagmático ou
horizontal é organizado em quatro fases: definição do objeto, observação,
descrição e interpretação. Cada fase é atravessada por cada um dos níveis
e cada nível opera em função de cada uma das fases. Além disso, os níveis
mantêm relações entre si e as fases também se remetem mutuamente, em
movimentos verticais, de subida e descida (indução/dedução, graus de
abstração/concreção) e de movimentos horizontais, de vai-e-vem, de pro-
gressão e de volta (construir o objeto, observá-lo, analisá-lo, retomando-o
de diferentes maneiras). É o que se visualiza no Gráfico 2.

Gráfico 2

Esse modelo metodológico pretende ser crítico e operativo ao mesmo


tempo. Em ciência, todo modelo é uma representação ou um simula-
cro construído que permite representar um conjunto de fenômenos e
que é capaz de servir de objeto de orientação (Greimas e Courtés, s/d).

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No nosso caso, ele é construído conscientemente com fins de descrição,


de explicação e de aplicação concreta. Esta aplicação vem sendo testada
concretamente em projetos de pesquisa de Comunicação nos cursos de
graduação, porém, sua aplicação tem se dado fundamentalmente nos
de pós-graduação. Devido ao lugar “estratégico” que venho ocupando,
tenho tido a oportunidade especial de analisar parte desses projetos de
pesquisa e de acompanhar os usos do modelo nas pesquisas acadêmicas
de Comunicação.
Como modelo de prática metodológica ou de construção metodológica
de pesquisa, o modelo incide não na superfície do discurso, mas no nível
de sua estrutura onde se dão as operações de construção do discurso cien-
tífico. E a pedra de toque é que esse discurso é feito de opções e decisões
que implicam a responsabilidade intransferível do autor pela montagem
de uma estratégia metodológica de sua pesquisa, o que impõe que as
opções sejam tomadas com consciência e explicitadas enquanto tal: uma
opção específica para uma particular pesquisa em ato.
Construir metodologicamente uma pesquisa implica, então, em adotar
uma teoria da pesquisa que constrói sua estrutura em níveis e fases e em
operar, praticar as operações metodológicas através das quais cada nível
e cada fase se realizam.
Não cabe aqui fazer uma exposição do modelo, feita em outro lugar
(Lopes, 1990). Antes, gostaria de apresentar algumas questões críticas
relativas à pesquisa de Comunicação reveladas pelo uso desse modelo.
Elas estão resumidas abaixo.

PRINCIPAIS OBSTÁCULOS METODOLÓGICOS


NAS PESQUISAS DE COMUNICAÇÃO
Ausência de reflexão epistemológica
– história do campo
– campo interdisciplinar: concepção objeto-método
– reflexividade e crítica das operações de pesquisa

Fraqueza teórica
– insuficiente domínio de teorias
– imprecisão conceitual
– problemática teórica / problema empírico

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Falta de visão metodológica integrada


– níveis / fases
– nível epistemológico / teórico / metódico / nível técnico
– objeto / observação / análise

Deficiente combinação métodos / técnicas


– estratégia multimetodológica é rara

Predomínio da pesquisa descritiva

Persistente dicotomia da pesquisa quantitativa x pesquisa qualitativa

Considero que o trabalho com o modelo metodológico levou-me natu-


ralmente a pesquisar tópicos de “estudos do campo” em que o apliquei.
Cito, por exemplo, um projeto de pesquisa nacional sobre os egressos dos
cursos de graduação de Comunicação, de base quantitativa, cuja estratégia
metodológica apresentei na minha tese de livre-docência (Lopes, 1998).
Também aí coloco meu interesse pelos estudos bibliométricos4, em que
a combinação da metodologia de banco de dados com a metodologia
visual da teoria dos grafos me permitem entender certos aspectos do
funcionamento do campo.
Também credito a esse modelo metodológico minhas incursões no
processo de institucionalização do campo da Comunicação no Brasil.
Refiro-me à organização da Pós-Graduação em Comunicação no país,
retomando meu original projeto de pesquisa de doutorado sobre o esta-
do da arte da pesquisa de Comunicação. Em verdade, são três os tópicos
que me interessam nos processos de institucionalização do campo da
Comunicação no Brasil: 1) o desenvolvimento da pós-graduação onde se
fixa a pesquisa acadêmica e 2) os debates organizados pelas sociedades
científicas da área; 3) a difusão do conhecimento da área.5
4.  Ver, por exemplo, Lopes; Romancini (2006, 2009).
5.  Com referência ao primeiro tópico, estive envolvida em trabalhos que remetem à
coordenação do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da USP; aos
processos de avaliação da CAPES e à organização da pós-graduação na área através da
COMPÓS. Quanto ao segundo, minha atuação tem sido no sentido de estimular os debates
sobre a pesquisa em associações científicas no país, como a INTERCOM e no exterior
(entre outras, está a ASSIBERCOM – Associação Ibero-Americana de Comunicação – que
presido atualmente. E no que tange ao terceiro, está meu trabalho frente a MATRIZes,
revista do PPGCOM-USP, desde que foi fundada, em 2007.

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3. AS PESQUISAS SOBRE TELENOVELA E O PROJETO OBITEL


Retomo o que afirmei no princípio sobre a segunda de minhas rea-
lizações que obteve repercussão na área. Como disse, a consciência do
papel do intelectual crítico num país periférico e a necessidade de eleger
objetos importantes de pesquisa levaram-me aos estudos do popular em
comunicação. A filiação gramsciana, combinada aos estudos culturais
e à tradição dos estudos de comunicação latino-americanos de recep-
ção, estão na base de dois estudos de recepção, de rádio e de telenovela,
ambos com forte preocupação metodológica. O primeiro, que já reportei
acima, dos anos 1980, combinava metodologia quantitativa e qualitativa
na recepção do discurso radiofônico e o segundo, dos anos 1990, teve por
objetivo principal traduzir metodologicamente a teoria das mediações de
Martín-Barbero numa pesquisa de recepção de telenovela.
Aqui eu reencontro meus temas de interesse permanente: a explora-
ção metodológica e a vertente do popular, agora atualizados através do
paradigma das mediações que, para mim, constitui um marco na perspec-
tiva comunicacional porque se situa no nível epistemológico do objeto da
comunicação por combinar múltiplas interfaces disciplinares. Em outras
palavras, o paradigma das mediações comunicativas expressa cabalmente
o estatuto transdisciplinar do campo da comunicação.
O protocolo metodológico da pesquisa de recepção de telenovela, a que
chamei de protocolo multimetodológico, pois devia dar conta de múltiplas
mediações, combinava métodos qualitativos como a etnografia, a história
de vida, o depoimento, e quantitativos como o questionário e a escala, além
da análise da narrativa ficcional televisiva. Realiza-se aí, uma combinação
específica de métodos e técnicas “disciplinares” orientada pela perspectiva
transdisciplinar da Comunicação. A estratégia metodológica visava dar
conta da assistência conjunta com quatro famílias de condições sociais
distintas de uma mesma telenovela que naquele momento estava no ar – A
Indomada (Globo, 1997). O grupo familiar foi a unidade de pesquisa e os
resultados foram de várias ordens: teórica, por ter permitido criar conceitos
como “repertório comum”, “contrato de recepção” e “palimpsesto do recep-
tor”; metodológica, por ter explorado a metodologia das mediações em um
projeto de pesquisa; e empírica, por ter demonstrado que cada família se
apropriava diferentemente dos significados da telenovela no seu cotidiano
e “escrevia” sua própria telenovela, o que chamamos de “palimpsesto do
receptor”. Esse trabalho foi realizado por uma equipe interdisciplinar e

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Um percurso epistemológico para a pesquisa || Maria Immacolata Vassallo de Lopes

publicado com o título de Vivendo com a telenovela. Mediações, recepção e


teleficcionalidades (Lopes; Borelli; Resende, 2002).
A ressonância desse trabalho foi grande nos estudos de recepção e tam-
bém como proposta teórica e metodológica que extrapolava esses estudos.
Foi este último aspecto o que me provocou um crescente interesse pelo
estudo da ficção televisiva e, curiosamente, despertou-me a vontade de
extrapolar também os estudos de caso em que a telenovela estava então
circunscrita. Levou-me a aderir à “palavra de ordem” de Roger Silverstone
de que era preciso “sair da casa e ir para a rua”, a fim de dar nova dimensão
aos estudos culturais de televisão. Foi o que me fez procurar e encontrar
em um estágio de pós-doutorado6 uma “metodologia de observatório”
como uma resposta para renovar teórica e metodologicamente os estudos
de telenovela.
Por isso, não tenho dúvidas de que nesse pós-doutorado aconteceu um
novo ponto de fusão de elementos afetivos e intelectuais, de elementos
nativos e migrantes, de minha identidade híbrida, como híbrido era o meu
objeto de pesquisa – a telenovela – um objeto popular e acadêmico. Uma
pesquisadora brasileira na Itália ou uma pesquisadora “ítalo-brasiliana”,
como lá me chamaram e gostei de ser chamada. Descobri que esse hífen
parece marcar toda a minha trajetória intelectual, e também de vida.
Hífen que representa ponte, travessia, hibridação, duas coisas ao mesmo
tempo, a não exclusão, a contiguidade de opostos e de ambivalências, a
complexidade, a conexão, enfim, a comunicação. Na Itália fui viver a minha
dupla/múltipla nacionalidade, italiana, brasileira, latino-americana, fui
trabalhar com um objeto acadêmico-popular – a telenovela –, estudar
como essa narrativa viaja por entre muitas fronteiras e se afirma como
narrativa brasileira, como gênero da televisão latino-americana. Espelho
de minha própria condição de vida?
Os trabalhos que se seguiram desde então permitiram-me desenvolver
conceitos como o de telenovela como narrativa da nação (Lopes, 2003b) e o
de telenovela como recurso comunicativo (Lopes, 2009) dentro da experiência
do projeto OBITEL.
O Observatório Ibero-Americano da Ficção Televisiva (OBITEL)
constituiu-se, desde sua criação em 2005, em um projeto internacional de
pesquisa cujo objeto era o monitoramento anual da produção, circulação,
6.  Fiz esse estágio em 2001, na Universidade de Florença, Itália, junto ao Osservatorio
della Fiction Italiana (OFI), coordenado por Milly Buonanno.

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Epistemologia da Comunicação no Brasil: trajetórias autorreflexivas

audiência e repercussão sociocultural da ficção televisiva na América


Latina e Península Ibérica (Lopes, 2006).
Desde então, o OBITEL vem produzindo análises de natureza quan-
titativa e qualitativa com o objetivo principal de identificar, por meio
do método comparativo, as semelhanças, especificidades, adaptações,
apropriações entre as diversas narrativas de ficção produzidas e exibidas
pelas televisões dos países da região ibero-americana. Iniciou-se como um
projeto intercultural que tinha por objetivos principais: identificar e inter-
pretar as representações que os diversos países fazem de si e dos outros
por meio das produções ficcionais de televisão; criar indicadores culturais
por meio dos quais tais países constroem e reconstroem cotidianamente
elementos de sua identidade cultural; acompanhar os modos como se
produzem, circulam e se consomem as ficções televisivas. Esses objetivos
têm possibilitado ao Observatório construir, ao mesmo tempo, uma visão
mais aprofundada e de conjunto sobre a força cultural e econômica que
a ficção adquire através das televisões desses países.7
O destaque à especificidade de uma sociedade que se exprime nas
tendências de uma produção televisiva remete ao conceito de gênero como
categoria étnica (Appadurai, 1996), e de matriz cultural (Martín-Barbero,
2001). Significa conjugar dois aspectos do problema dos gêneros: o pri-
meiro, clássico, que situa o gênero como conjunto de regras de produção
discursiva, de acordo com o qual o melodrama segue os movimentos
próprios das sociedades e dos campos culturais específicos de cada país.
O segundo aspecto refere-se ao fato de que o gênero é igualmente definido
pela maneira pela qual um conjunto de regras se institucionalizam, se
codificam, se tornam reconhecíveis e organizam a competência comuni-
cacional dos produtores e consumidores, dos emissores e destinatários.
Hoje fala-se, mais do que nunca, que as “culturas viajam”, enfatizando
a grande mobilidade, as práticas de deslocamento tanto de pessoas como
de ideias. E isso remete à dinâmica da importação-exportação intercul-
tural que afeta profundamente a construção e reconstrução das culturas
no cenário atual da globalização.
As narrativas televisivas ocupam um papel central nesse processo.
Cada vez mais aumentam os fluxos de importação-exportação de ficção

7.  Atualmente, o OBITEL é formado por 12 grupos nacionais de pesquisa de: Argentina,
Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, Estados Unidos (produção hispânica), México,
Peru, Portugal, Uruguai e Venezuela.

198
Um percurso epistemológico para a pesquisa || Maria Immacolata Vassallo de Lopes

televisiva doméstica de um país a outro. Verificamos principalmente o


crescente aumento das coproduções concebidas sobre um sentido multi
ou transnacional porque destinadas ao consumo de diferentes audiências
nacionais.
A ficção é importante para a economia da televisão pela relevância
das suas funções e seus significados culturais, embora não haja ainda a
esse respeito uma suficiente consciência nos estudos de Comunicação.
De outro lado, porém, as modernas epistemologias sociológicas reve-
lam como a realidade se cria e se experimenta dentro e através das suas
representações. Daí, dizemos que o real é imaginário, nos termos de um
realismo emocional (Ang, 1985), que não restitui uma imagem especular e fiel
da realidade, mas alarga o horizonte das experiências para esferas imagi-
nárias, de elaboração, identificação, projeção, que são partes constitutivas
da vida cotidiana e, por isso mesmo, pedaços significativos e ativadores de
efeitos de realidade. É muito menos por ser uma fuga que uma dilatação
simbólica do mundo social que temos que nos ocupar da ficção.
Por isso, a tese que sustenta o trabalho do OBITEL é que a comunicação
intercultural tem na teleficção seu gênero por excelência.
Definir o gênero como categoria étnica é avançar na percepção do vín-
culo social cuja existência é reafirmada pela televisão e que lhe permite
funcionar como dispositivo de amplificação em uma comunidade de sig-
nificações, a comunidade imaginada e narrada.
O processo de globalização, ao mesmo tempo em que confunde o
campo de competência dos territórios-nações, introduz um elemento de
fragilidade nas marcas de identidade cultural que neles se configuraram
historicamente. A diferença cultural, enquanto corresponde a uma iden-
tidade histórica e geograficamente constituída, é submetida à tensão pela
norma da competitividade introduzida no mercado de bens culturais e
pela forte tendência da conquista de um público externo. A transgressão
de fronteiras nacionais é também a transgressão de universos simbólicos.
Por isso, a ficção televisiva é hoje um enclave estratégico para a produ-
ção audiovisual ibero-americana, tanto por seu peso no mercado televisivo
como pelo papel que ela joga na produção e reprodução das imagens que
esses povos fazem de si mesmos, e através das quais se reconhecem. Só
este fato pareceu-me suficiente o bastante para tornar indispensável um
projeto sistemático de análise sobre os diferentes sentidos da teleficção
no plano nacional, regional e internacional.

199
Epistemologia da Comunicação no Brasil: trajetórias autorreflexivas

Estruturada no Brasil, e também na América Latina, nos anos 1960 e


1970, a telenovela foi um fator determinante na criação de uma capacidade
televisiva nacional que se projetou não só numa extensiva produção como
também numa particular apropriação do gênero, isto é, sua nacionalização.
Entretanto, isso vai além de modelar o caráter nacional da telenovela.
Duas dinâmicas diferentes, mas intimamente conectadas estão envolvidas:
uma delas empurra para a integração do espaço latino-americano e outro
mobiliza o mercado mundial. Dentro da América Latina, a telenovela
conta com a vantagem de um longo processo de identificação massiva e
popular, colocada em movimento desde os anos 1940 e 1950, resultando
no que poderíamos chamar de um processo de integração sentimental dos
países latino-americanos – um padrão de modos de sentir e de expressar,
de gestos e sons, ritmos de dança e de cadências narrativas – tornada
possível pelas indústrias culturais do rádio e do cinema. Isto quer dizer
que, enquanto marco nesta dinâmica de integração – os países em sua
pluralidade nacional e diversidade cultural – a telenovela é também o
lugar em que intervém a dinâmica da globalização do mercado mundial.
A internacionalização da telenovela responde ao movimento de ativação
e reconhecimento do que é especificamente latino-americano num gênero
televisivo que, de longa data, exporta sucessos nacionais.
Contraditoriamente, sua internacionalização também responde ao
movimento de progressiva neutralização das características de uma lati-
no-americanidade de um gênero que a lógica do mercado mundial pretende
converter em transnacional no momento de sua produção.
Nesse sentido, o fato mais recente são as crescentes coproduções entre
os países latino-americanos e ibéricos com grandes produtoras internacio-
nais como HBO, Fox e Netflix. A entrada das telenovelas latino-americanas
no mercado audiovisual mundial certamente mostrou o nível de desen-
volvimento atingido pela indústria da televisão nesses países e também
significou, em alguma medida, o rompimento da linha demarcatória entre
o norte e sul, entre países destinados a ser produtores e países destinados
a ser exclusivamente consumidores.
São desafios que se colocam no mercado televisivo cada vez mais hege-
monizado, mas também mais fragmentado e segmentado em sua produção
e consumo, além de progressivamente complexificado pelo aparecimento
de novos atores sociais e novas identidades coletivas. Esse é o cenário con-
temporâneo da ficção televisiva, fruto da crescente mobilidade de ideias,

200
Um percurso epistemológico para a pesquisa || Maria Immacolata Vassallo de Lopes

bens e pessoas. São desafios em que convivem processos ambivalentes


como a tendência a dissolver as diferenças culturais e à indiferenciação
das audiências, por um lado, e por outro, a tendência à migração e à
afirmação em outros territórios de um gênero regional, como a telenovela
latino-americana.
Por isso, em função da importância econômica e cultural que assume
esse gênero, é que propusemos o projeto de um observatório permanente
da ficção televisiva ibero-americana, destinado a organizar coletivamente
estudos até agora muito fragmentados e a trabalhar com um enfoque
integral da produção, produto e recepção desse gênero.

O protocolo metodológico OBITEL


A metodologia do OBITEL está na construção e o aprimoramento,
ao longo de seus dez anos de existência, de um protocolo metodológico
comum, adotado por todas as equipes do OBITEL, que reúne técnicas
e métodos de análise quantitativas e qualitativas, o que possibilita uma
visão tanto sincrônica quanto diacrônica das transformações pelas quais
vêm passando as indústrias televisivas no âmbito ibero-americano. A
visão sincrônica é possibilitada pelo monitoramento anual da produção
do país de que resulta um retrato informado, e a visão diacrônica é dada
pela série histórica construída ao longo dos anos, o que permite verificar
permanências e mudanças, inovações e tendências da ficção televisiva
na região.
O protocolo metodológico prevê um conjunto de atividades que podem
ser assim resumidas:
1) seguimento sistemático dos programas de ficção que são transmi-
tidos pelos canais abertos dos 12 países que participam da rede;
2) geração de dados quantitativos comparáveis entre esses países:
horários, programas de estreia, número de capítulos, índices, perfil de
audiência, temas centrais da ficção;
3) identificação de fluxos plurais e bilaterais de gêneros e formatos de
ficção, o que se traduz nos dez títulos de ficção mais vistos, seus temas
centrais, índice de audiência e share;
4) análise das tendências na narrativa e nos conteúdos temáticos de
cada país (dados de consumo de outras mídias, como internet, e de outros
gêneros de programa, investimentos em publicidade, acontecimentos
legais e políticos sobressalentes do ano), assim como tudo aquilo que

201
Epistemologia da Comunicação no Brasil: trajetórias autorreflexivas

cada equipe de pesquisa nacional considerar como “o mais destacado do


ano”, especialmente no que se refere às mudanças havidas na produção,
nas narrativas e nos conteúdos temáticos preferenciais.
5) análise da recepção transmídia e das interações das audiências
com a ficção em cada país; a seleção do caso a analisar é devida a um
comportamento peculiar na internet ou nas redes sociais. O fenômeno da
participação dos usuários nas redes levou-nos a explorar uma metodolo-
gia para captar essa participação através dos conteúdos gerados (Lopes,
2011b) e também a nos interessar pela metodologia de monitoramento
on-line (Lopes, 2015b).
6) Publicação dos resultados do monitoramento sistemático na forma
de Anuário, com atenção especial a um tema particular, chamado “ tema do
ano”. Esse tema é o que dá título a cada anuário e já tivemos, por exemplo,
a recepção transmídia, a internacionalização da ficção; a memória social;
as relações de gênero, entre outros.
Além disso, trabalhamos, também, com os dados gerados no interior
das equipes de pesquisa a partir de outras fontes, como notas de imprensa,
informação da internet, material de áudio e vídeo, assim como aquelas
derivadas de contatos diretos com agências e atores do meio audiovisual
de cada país.
São três as linhas de pesquisa que confluem no Protocolo Metodológico:
• Uma linha quantitativa-descritiva, com o fim de situar os dados da
pesquisa na produção e recepção real da ficção televisiva de cada
país.
• Uma linha de análise da produção e recepção, de caráter qualita-
tiva/interpretativa, com o fim de dar conta dos aspectos sociais e
culturais inerentes aos conteúdos veiculados na ficção televisiva de
cada país.
• Uma linha de análise comparativa, a fim de sintetizar as caracterís-
ticas e tendências da ficção televisiva ibero-americana, representada
pelos 12 países participantes.

O produto deste sistemático trabalho de monitoramento e de análise,


no qual convergem metodologias quantitativas e qualitativas, constitui a
matéria de elaboração de um Anuário da Ficção Televisiva Ibero-americana
que apresenta uma estrutura que se articula em duas partes. A primeira
é constituída por um capítulo de análise comparativa entre os 12 países

202
Um percurso epistemológico para a pesquisa || Maria Immacolata Vassallo de Lopes

ressaltando semelhanças e diferenças, tendências e inovações. A segunda


parte apresenta os capítulos das análises de cada país.8
Em nossa experiência no OBITEL, a atenção que damos às questões
epistemológicas, teóricas e metodológicas permite que elas sejam renova-
das e criadas no estudo de novos objetos comunicacionais, como acontece
atualmente com a ficção televisiva nas redes sociais, as narrativas ficcionais
transmídia, as métricas comunicacionais na internet e os novos receptores
on-line como virtual fandoms. Todos esses objetos têm nos levado tanto à
pesquisa de comunicação on-line como à pesquisa sobre a comunicação
on-line.
Os estudos de temática epistemológica-metodológica sobre a pesquisa
on-line propõem uma reflexão crítica focada sobre as próprias ferramen-
tas utilizadas na construção da Análise de Redes Sociais (ARS). São elas
que permitem observar conteúdos on-line que passam a ser vistos como
“trabalho de texto” dos usuários ou fãs, no nosso caso, da ficção televisiva,
além de utilizar bancos de dados, sites, links e plataformas. Aí, temos nos
interessado pela metodologia da visualização, geralmente enfeixada na
chamada teoria dos grafos, através da qual a descoberta de dados e temas
publicados nas redes sociais permite realizar um mapeamento de temas
e usuários ou “nós” e, portanto, observar o que a rede fala sobre deter-
minado assunto e como se expressa.
As visualizações expressam um trabalho epistemológico, ou seja, de
construção de conhecimento através da representação de relações e valora-
ções sociais. Funcionam como a fotografia de um momento de objetos em
constante atualização. As ferramentas que permitem a construção dessas
visualizações vão desde softwares gratuitos disponibilizados em versão
beta para testes até sistemas desenvolvidos especialmente para corpora-
ções e agências de publicidade de acordo com a demanda dos clientes.
A maioria dessas ferramentas são construídas com base em algoritmos
matemáticos e desenvolvidas para buscar palavras-chave ou categorias
de marcas ou produtos. Oferecem variedade de layout por rede social
apresentando análises quantitativas do volume de conteúdo gerado pelos

8.  O conjunto desse trabalho permanente do Observatório já resultou na publicação de


nove Anuários Obitel e nesses dez anos de sua existência também consolidou parcerias
exitosas entre o campo acadêmico, na figura das universidades ibero-americanas que
apoiam os grupos de pesquisa OBITEL, e o campo profissional – Globo Universidade
do Grupo Globo e os diversos institutos de medição de audiências, notadamente Kantar
IBOPE e Nielsen. O conjunto das publicações do OBITEL está listado ao final do texto.

203
Epistemologia da Comunicação no Brasil: trajetórias autorreflexivas

usuários nas redes, conteúdos e usuários mais citados e análises qualita-


tivas sobre a modelização de conteúdos produzidos por eles.
Em estudos anteriores, o foco principal esteve nos conteúdos gerados
pelos usuários (CGU) que culminaram em produtivas reflexões sobre méto-
dos e técnicas automatizadas de coleta de dados, o que possibilitou a
aplicação de métricas e a obtenção de índices de alcance e de engajamen-
to daqueles conteúdos. Ademais, permitiram esclarecer algumas carac-
terísticas das atividades desenvolvidas pela audiência.9 A partir dessa
perspectiva, é possível afirmar que talvez nunca tenhamos observado,
como no momento atual, tão intenso fluxo de conteúdos produzidos pelos
usuários e fãs que atravessam diferentes mídias e que são reinventados a
partir de cada uma delas, integrando assim o que passou a ser largamente
chamada de narrativa transmídia ou transmedia storytelling.
No momento sentimos necessidade de aprofundar os estudos de
abordagem qualitativa que têm o potencial de iluminar a existência do
fã onde ele melhor pode ser entendido, em comunidade de pares, isto
é, no chamado fandom. O desafio é dar um passo além dos estudos dos
conteúdos e trazer à luz os processos estruturantes desse conteúdo, como
cultura de fãs, cultura participativa, comunidade de fãs, trabalho de fãs
(colaborativo, voluntário, remunerado). Foi isso que quisemos apontar
no título do último livro publicado Por uma teoria de fãs da ficção televisiva
brasileira (Lopes org., 2015c).10
Essa é a nossa atual temática de estudo – os fãs on-line –, que considera-
mos herdeira dos estudos latino-americanos de recepção, e que está sendo
abordada através de práticas e comportamentos e como audiência ativa e
produtora de conteúdos nas diversas redes digitais. Essa abordagem incide
principalmente na figura do fã coletivo, isto é, nas comunidades de fãs nas
redes sociais. O estudo é teórico com base empírica e, no limite, ambiciona
demonstrar que os estudos de fãs na internet são herdeiros da tradição
latino-americana dos estudos de recepção e a renovam combinando a
permanência e o novo. Desse modo, estamos no OBITEL pesquisando a
produção de fãs sobre a ficção televisiva dentro da grande área dos Internet
Studies e descobrindo as novas dimensões e os novos sentidos dados por
essa produção às nossas teses sobre a telenovela como narrativa da nação

9.  Lembrando que a “recepção transmídia” é analisada nos anuários OBITEL desde 2010.
10.  Último livro do OBITEL BRASIL, rede nacional do OBITEL, constituído por grupos
de pesquisa brasileiros da temática da ficção televisiva.

204
Um percurso epistemológico para a pesquisa || Maria Immacolata Vassallo de Lopes

e como recurso comunicativo. Em outros termos, estamos trabalhando os


novos sentidos das mediações comunicativas na cultura participativa e
compartilhada da era digital.

AO MODO DE UMA CONCLUSÃO


Minha história de vida intelectual, a que tentei dar sentido no que
escrevi acima, colocou-me na posição de sujeito e objeto de mim mesma.
De um sujeito que se volta sobre seu passado e que deve fazê-lo com as
lentes do que é hoje. Por isso, este ensaio de autorreflexão mistura, como
não podia deixar de ser, subjetivismo e memória seletiva com a objetiva-
ção da produção acadêmica que desenvolvi no campo da Comunicação. E
que está resumida no título mesmo deste texto, o interesse pela pesquisa
empírica em Comunicação, desde a de recepção até a de fãs na internet e
pela história e epistemologia desse campo. Com todos os desafios, lutas,
perplexidades e prazeres que a produção de conhecimento implica. Enfim,
o que este texto demonstra é que reflexão e vivência são indissociáveis.
Creio que as palavras de Pierre Bourdieu, autor destacado nas minhas
referências, cabem bem para uma síntese conclusiva de meu percurso
intelectual: “existem muitos intelectuais que interrogam o mundo, mas
há poucos intelectuais que interrogam o mundo intelectual”. A vida me
deu a oportunidade de escolher e de trabalhar com esses últimos.

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