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O que resta de Auschwitz – A Testemunha

Giorgio Agamben

Ana Paula Pimenta, Márcia Lima e Silvana Seabra

Giorgio Agamben: Italiano, nascido em Roma (1942), com atividades mais intensas também na
França, na Inglaterra e Alemanha. Filosofia e direito.

Influências : Martin Heidegger, Walter Benjamin e Michel Foucault, mas também as de Kafka e do
Guy Debord (situacionista).

Obra – filosofia à estética, passando pela linguagem e teologia.

Aproximações filosóficas e políticas -Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Jean-François Lyotard, Pierre
Klossowski, e no cinema, admirador de Pier Paolo Pasolini

Literatura: Elsa Morante, Ingeborg Bachmann, Italo Calvino.

Homo Sacer – O Poder Soberano e a Vida Nua “A literatura e a poesia foram sempre muito
importantes para mim. Não acredito que possam ser separadas da filosofia. Não são campos
incomunicáveis. Eu diria que são duas intensidades que atravessam o campo da linguagem
humana”, (entrevista em 2016 a o EL PAÍS)

Homo Sacer: expressão latina cuja tradução significa 'homem sagrado' ou 'homem a ser julgado
pelos deuses'.
Direito Romano arcaico: se refere à condição de quem cometia um delito contra a divindade,
colocando em risco a pax deorum, que é a amizade da sociedade com seus deuses (paz e
prosperidade da ). Também significa como consequência ameaça ao próprio Estado.
Homo sacer era "consagrado" à divindade, deixado à mercê da vingança dos deuses. Expulso do
grupo social, e excluído de todos os direitos civis, a sua vida passava a ser considerada "sagrada"
em sentido negativo.
O indivíduo podia também ser morto por qualquer um - mas não em rituais religiosos.
Referência mítica: A tragédia Eumênides (Ésquilo) - nascimento mítico do Tribunal. Descreve ao
longo da narrativa, o uso da memória e do testemunho (cena jurídica)
Tragédia do julgamento de Orestes: Orestes vingou seu pai- Agamênon, que foi assassinando por
sua mãe Clitemnestra, e o amante. Trata-se de uma vingança, portanto.
Apolo incentiva a vingança em Orestes e o ajuda a fugir. Essa fuga é, sobretudo realizada em
função da perseguição feita pelas Eríneas (, deusas vingadoras dos crimes de sangue entre
familiares).
No templo de Atena ( deusa da sabedoria e da guerra justa), Orestes encontra o lugar de seu
julgamento. Atena convoca os melhores da cidade para que na forma de um Conselho (Areópago),
participem do julgamento e, para tanto, ordena o modo como as partes envolvidas (jurados)
deveriam dispor do espaço e do tempo daquela sessão.
No julgamento, Atena permiti que não só as partes e as testemunhas manifestem-se, bem como
também que Apolo possa intervir a favor de seu protegido.
Essas manifestações são narrativas acerca do que teria ocorrido (versões), bem como dos motivos
das ações adotadas. Os votos do julgamento empatam e Atena decide a favor de Orestes. Nesse
momento, Orestes se torna livre e reintegrado a sua terra pátria.

Atena e as Eríneas continuam num jogo para que estas últimas aceitem o veredito e não
amaldiçoem a cidade.

Esse jogo ocorrerá na forma de um convite para que elas permaneçam junto à deusa e não se
sintam derrotadas pelo resultado. Ao final, as Eríneas, que por serem deusas vingadoras, também
possuem a longa memória.

A tragédia mostra a estreita relação da cena judicial, com testemunho e também com o o resultado
, que é a re-integração, dos personagens à sociedade. Criação também do
instituto (criado por Atena), que se instaura o tempo entre a ação e seu julgamento- intervalo no
qual o passado é recomposto na forma de testemunhos.
Antes, a vingança das Eríneas era o signo de uma memória imóvel, resistente ao tempo, sem
questionamentos, retornando para sempre.
A tragédia apresenta a instauração do dispositivo judicial, que permite a integração dos situados à
parte do ordenamento simbólico da cidade.
Orestes, colocado à parte, não pode retornar a sua terra e ao governo apenas com as purificações
realizadas por Apolo. Também as Eríneas, que representavam forças que se opunham até aos
deuses olímpicos, se colocam, ao final, subordinadas a um novo novo regime de leis.

O que resta de Auschwitz- capt 1. “A testemunha”, capt 4. “ O arquivo e o testemunho”


27 de Janeiro- Dia Internacional da Memória do Holocausto ou Shoah. Dia (1945) em que o campo
de campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau (Polónia) foi libertado pelo Exército Vermelho
soviético.

Primeiros estudos- Holocausto (perpetradores), entre 1940 a 60- Julgamentos internacionais


Nuremberg 1946, Einsatzgruppen 1958, Eichmann/Jerusalém196
demonização e psicopatologização dos envolvidos.
Segunda fase- a partir de 1961, com Hannah Arendt (1906-1975). Interpretação- grupo de
perpetradores enquanto burocratas, “o mal radical” ( “banal”)- homens vulgares”
Terceira fase- Holocausto como crime em massa “mecanizado” por um “aparelho industrializado
de genocídio”.

Agamben- Movimentos teóricos e conceituais sobre o Holocausto (terceira fase).


1.1 “No campo, uma das razões que podem impelir um deportado a sobreviver consiste em
tornar-se uma testemunha”
Auschwitz - fábrica invertida da morte, não apenas as vítimas (“zona branca”) e os carrascos
(“zona negra”), mas uma enorme “zona cinzenta” composta por uma “classe híbrida de
prisioneiros-funcionários”.
Exemplo notável é Primo Levi: “É isto um homem?” Relato sobre os oito meses que passou como
prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz com a morte de um de seus companheiros de
enfermaria, Sómogyi, e a chegada dos russos.
“A Trégua” : narrativa de história menos conhecida sobre a Segunda Guerra Mundial, que
é o difícil retorno dos prisioneiros dos campos de concentração para casa. Levi e mais
alguns companheiros de Campo seguem numa viagem para a Cracóvia, e depois de trem
pelo leste europeu para Odessa até chegar à Rússia Branca.

“Os Que Sucumbem e os Que se Salvam” Relato sobre as estruturas hierárquicas do


sistema autoritário, dos campos e das técnicas para aniquilar a personalidade dos
indivíduos. Temas como a relação entre opressores e oprimidos, e sobre a chamada (Levi)
zona cinzenta da colaboração.

Trechos de “A trégua”
“Hurbinek era um nada, um filho da morte, um filho de Auschwitz. Aparentava três anos
aproximadamente, ninguém sabia nada a seu respeito, não sabia falar e não tinha nome: aquele
curioso nome, Hurbinek, fora-lhe atribuído por nós, talvez por uma das mulheres, que interpretara
com aquelas sílabas uma das vozes inarticuladas que o pequeno emitia, de quando em quando.
Estava paralisado dos rins para baixo, e tinha as pernas atrofiadas, tão adelgaçadas como gravetos;
mas os seus olhos, perdidos no rosto pálido e triangular, dardejavam terrivelmente vivos, cheios
de busca de asserção, de vontade de libertar-se, de romper a tumba do mutismo
[...] Ninguém, salvo Henek: era meu vizinho de cama, um robusto e vigoroso rapaz húngaro de
quinze anos. Henek passava metade de seus dias junto do catre de Hurbinek.[...] Após uma
semana, Henek anunciou com seriedade, mas sem sombra de presunção, que Hurbinek “dizia uma
palavra”. Que palavra? Não sabia, uma palavra difícil, não húngara: alguma coisa como mass-klo,
matisklo. De noite ficávamos de ouvidos bem abertos: era verdade, do canto de Hurbinek vinha de
quando em quando um som, uma palavra. Não sempre exatamente a mesma, para dizer a
verdade, mas era certamente uma palavra articulada; ou melhor, palavras articuladas
ligeiramente diversas, variações experimentais sobre um tema, uma raiz, sobre um nome talvez.
Hurbinek continuou, enquanto viveu, as suas experiências obstinadas. Nos dias seguintes, todos
nós o ouvíamos em silêncio, ansiosos por entendê-lo, e havia entre nós falantes de todas as línguas
da Europa: mas a palavra de Hurbinek permaneceu secreta.
[...] Hurbinek, que tinha três anos e que nascera talvez em Auschwitz e que não vira jamais uma
árvore; Hurbinek, que combatera como um homem, até o último suspiro, para conquistar a
entrada no mundo dos homens, do qual uma força bestial o teria impedido; Hurbinek, o que não
tinha nome, cujo minúsculo antebraço fora marcado mesmo assim pela tatuagem de Auschwitz;
Hurbinek morreu nos primeiros dias de março de 1945, liberto mas não redimido. Nada resta dele:
seu testemunho se dá por meio de minhas palavras.