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A Constituição de 1946 e o fim do Estado Novo

As revoluções de 1930 e 1932 preparam o terreno para a promulgação da Carta


Magna de 1934, que foi redigida para organizar um regime democrático, que
assegure à Nação, a unidade, a liberdade, a justiça e o bem-estar social e
econômico, segundo o próprio preâmbulo. Ela foi importante por institucionalizar
a reforma da organização político-social brasileira, não com a exclusão das
oligarquias rurais, mas com a inclusão dos militares, classe média urbana e
industriais no jogo de poder. Vale ressaltar que ela foi a que menos durou em
toda a história brasileira: durante apenas três anos, mas vigorou oficialmente
apenas um ano porque depois Getúlio Vargas encarregaria seu ministro
Francisco Campos de preparar-lhe uma nova constituição, à época em plena
sintonia com o autoritarismo do tipo polonês.
O desgaste político do Estado Novo já transparecia evidente mesmo bem antes
do fim da segunda guerra mundial, uma nova era se aproximava a passos largos
coincidentemente com a queda do totalitarismo nazifascista na Europa. Aos 29
de outubro de 1945, ocorreu a renúncia pública e formal de Vargas perante as
Forças Armadas. Aos 31 de janeiro de 1946 seria finalmente empossado o
vencedor do pleito realizado no ano anterior, o marechal Eurico Gaspar Dutra, o
militar assumia a presidência com a promessa de redemocratização do país.
E em seu governo é promulgada a constituição de 1946, a quinta de nossa
história, que se convergia no reconhecimento da necessidade de se fortalecer o
vínculo nacional e na manutenção de um compromisso maior com o
desenvolvimento estratégico, especialmente nas regiões do território nacional
assoladas pela seca. Nesta época criou-se uma expectativa enorme no sentido
de que a nova Carta Magna, logo nos seus primeiros anos de vigência pudesse
viabilizar pelo Brasil afora alguma espécie de reforma agraria, mesmo que ainda
de forma incipiente.
Vargas permaneceu afastado da Presidência da República por meia década,
mas nesse mesmo tempo fortaleceu-se do ponto de vista político, e
posteriormente contou com o apoio de Luís Carlos Prestes. E em 1950 Vargas
é eleito democraticamente, porém, seu mandato encontraria serias resistências,
seu governo foi marcado pelo favorecimento às classes operarias e ao
nacionalismo do tipo estatizante, e sua maior bandeira era a defesa do petróleo.
Todavia, em 24 de agosto de 1954 o país é tomado de grande comoção com a
notícia de seu suicídio com um tiro no coração, em seu quarto, no Palácio do
Catete, na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, com toda certeza a
morte de Vargas anunciava o fim de uma longa Era.
A ditadura militar, os atos institucionais e a Constituição de 1967

Em meio a um mundo bi polarizado pelas duas grandes potencias, os Estados


Unidos e a União Soviética, as nações latino-americanas como o Brasil eram
naturalmente catalisadas a assumir uma posição estratégica, ou seja, alianças
com alguma dessas duas hegemonias. Os militares serviram-se dessa
conjuntura política que lhes era favorável para se perpetuarem indefinidamente
no poder e angariarem apoio externo.
O fracasso das medidas econômicas adotadas por Jango acirrava os ânimos
nacionais e abria o caminho para uma iniciativa por parte de seus opositores, e
o estopim para o desfecho dos eventos que se seguiriam iria se resumir na
destituição do Ministro da Marinha da sua função, por ter sido ordenada a prisão
do Cabo José Anselmo dos Santos, com isto iniciava-se um novo período na
história do Brasil caracterizados pelas imposições da ditadura militar o que se
veria logo após a tomada do poder por parte dos militares se configuraria na
edição de uma série de “Atos Inconstitucionais”, cujo seu maior proposito era o
de apresentar à nação uma versão jurídica dos acontecimentos ocorridos
naqueles tumultuados dias, além de, obviamente, preparar o terreno para a
eliminação da ação de quaisquer opositores e críticos do regime.
A constituição de 1946 continuou formalmente em vigor no país, mas, apesar
disso, tornou-se inócua diante das novas regras interpostas pelo regime. Sendo
assim não se consignou no documento a preocupação em revogar
imediatamente a Carta de 1946 pelo simples fato de que, como se sabe, esta
seria muito breve substituída por uma outra que melhor atenderia aos intentos
das Forças Armadas. Com isso a Carta Magna tornou-se praticamente letra
morta diante das regras editadas pelo oficialato, pois o presidente agora teria
plenos poderes para determinar a seu juízo o recesso parlamentar além é claro
da dissolução das Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais.
A partir da edição do 4º Ato Inconstitucional em 7 de dezembro de 1966, editado
por Castelo Branco que convocou ao Congresso Nacional o estabelecimento de
uma nova carta constitucional (a constituição de 1967) que acabaria revogando
de forma definitiva a Constituição de 1946. As razões erguidas no preâmbulo do
texto eram que a Carta de 1946 havia “recebido numerosas emendas” e que está
“já não atende às exigências nacionais”.
O principal objetivo dos militares centrava-se em dotar os membros do Poder
Executivo de poderes quase que absolutos, para que estes não se resignassem
mais ao reconhecimento das atribuições e competências próprias do Legislativo
ou do Judiciaria e pudessem assim, ancorar melhor suas futuras investidas,
tendo por escusa a letra fria da lei. Entrou em vigor aos 15 de março de 1967
aquela que seria a sexta Constituição brasileira, marcada por essa exacerbação
orquestrada pela política ditatorial da época.
Devido ao grande clima de profunda instabilidade no país e tendo como principal
objetivo garantir à ditadura a governabilidade em 17 de dezembro de 1969 foi
editada a Emenda Constitucional Nº1, sabe-se que foram tamanhas as
alterações promovidas ao texto da Constituição de 1967 por esta normativa com
o fim de autorizar a adoção de medidas de exceção que alguns juristas
consideram-na ter não propriamente a natureza de uma “emenda”, mas sim de
uma “nova Carta Magna”.

O código de Nelson Hungria de 1969 e a reforma penal de 1984

Nelson Humberto já havia prestado uma extensa colaboração ao aprimoramento


do Direito Criminal pátrio por ocasião de seu ativo papel junto à Comissão
Revisora do Código Penal de 1940 na qual integrou. Durante décadas a fio ele
foi o mais influente criminalista brasileiro, uma referência segura e festejada pela
doutrina pátria. Foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal no ano de
1951, pelo então Presidente Getúlio Vargas. Em 1963 apresentou o projeto para
um novo código e em 1984 realizou uma extensa reforma na parte geral do
código penal brasileiro de 1940, mas, sem que a legislação criminal à época
fosse definitivamente substituída por alguma outra em sintonia com a dinâmica
impressa pelos novos tempos, justamente como outrora tão bem idealizou.

Da notável influência de Liebman ao código de processo civil de


1973
Poucos doutrinadores estrangeiros exerceram tamanha projeção entre nós como
Enrico Tullio Liebman que deixou por aqui uma multidão de fiéis discípulos
mesmo após seu regresso à sua terra natal, que o veneraram por décadas, seu
legado foi a atualização do Direito Judiciário nacional. Este jurista italiano aportou
ao Brasil logo no início da segunda guerra mundial buscando refúgio. Graças as
suas lições proferidas entre os seguidores de Liebman, foi criada uma “Escola
de Direito Processual Brasileira” em São Paulo. No início de 1964 caberia a um
dos seguidores de Liebman, o mestre Alfredo Buzaid que na época era ministro
da justiça, a apresentar um novo anteprojeto de código de processo civil, que em
11 de janeiro de 1973 viria a lume.
A constituição de 1988 e a instauração do estado democrático
de direito

No ano de 1978, a revogação do Ato Institucional nº 5 e a adoção de


iniciativas voltadas a amenizar o regime de exceção não constituíam
medidas suficientemente capazes de serenar os ânimos da
população. Mais conhecida como “emenda Dante de Oliveira”,
cumpriu com um importante papel histórico ao reivindicar eleições
diretas, apesar de não ter logrado o sucesso que se esperava na
votação realizada posteriormente na câmara dos deputados e em
apoio a proposta, logo a partir dos primeiros meses do ano de 1983,
aconteceu o movimento “Diretas Já” que seria de fundamental
importância para o processo de redemocratização que começava a
raiar em nosso horizonte.
A inspiração inicial do que seria a constituição de 1988 foi extraída
dos estudos desenvolvidos pela “Comissão Provisória de Estudos
Constitucionais”, grupo surgido a partir de um antigo anseio
acalentado pelo próprio Tancredo Neves.
E finalmente em 5 de outubro de 1988, promulgava-se sob muita
comemoração a esperada Constituição da República Federativa do
Brasil com seus 330 artigos que logo receberia com os devidos
méritos a corrente alcunha de “A cidadã” por estar irrestritamente
calcada e comprometida com a defesa e proteção da pessoa
humana. Instaurando assim o Estado de Democrático de Direito tão
reclamado por milhares de brasileiros durante os sombrios “anos de
chumbo”. Por certo nenhum sistema de regras é capaz de solucionar
todas as mazelas que imperam na sociedade, porém este significava
um recomeço e marco inicial para mais uma nova etapa a ser
vivenciada pelo Direito pátrio, abria-se a possibilidade para a
concretização de sonhos ainda maiores de uma nação localizada no
coração da América do Sul.