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Vencer Limites
Pessoas com Deficiência

Meu primeiro aparelho auditivo


Minha capacidade de reconhecer todos os sons com clareza diminuiu gradativamente nos últimos anos, mas
demorei para compreender o impacto dessa mudança. Somente após colocar um dispositivo no ouvido, e
voltar a escutar os pequenos barulhos do mundo, entendi a importância dessa recuperação para meu bem
estar e de todos em minha volta.

Luiz Alexandre Souza Ventura


13 Julho 2016 | 14h59

Aparelho de audição retroarticular digital Rexton, modelo Accord 2c, pilha


312. Foto: #blogVencerLimites

Em um quarto da enfermaria da Santa Casa de Santos (litoral de SP), no horário de visita, muitas pessoas
conversavam ao mesmo tempo. A construção é antiga, com o tal ‘pé direito’ bem elevado, e o local, na ala
masculina, não tem paredes ou cortinas entre os quatro leitos, o que provoca um eco, uma reverberação,
misturando os sons, tornando-os impossíveis de ser entendidos, pelo menos para mim naquele momento.

Fomos ao hospital, eu e minha esposa, visitar um parente e, quando chegamos lá, o quarto estava cheio. Contei no
mímino 15 pessoas, inclusive os pacientes, todos falando ao mesmo tempo. Fiquei incomodado com aquela
confusão de sons, não conseguia escutar o que diziam. Comecei a ficar zonzo e queria sair daquele cômodo o mais
rápido possível. Foi essa a primeira vez na qual percebi que minha perda auditiva realmente começava a me
prejudicar e me isolar do ambiente ao redor.

Essa dificuldade já havia sido destacada em 2006, quando fiz minha primeira audiometria, especificamente para
o exame admissional da Rádio CBN, onde trabalhei por quase cinco anos. O teste é obrigatório e periódico. A
fonoaudióloga me avisou que eu tinha uma leve redução. E explicou que o ser humano consegue ouvir sons a
partir de 20 ou 25 decibéis. Eu só escutava os tons médios e agudos a partir de 35 decibéis.

Sempre que fazíamos o exame, a turma da redação brincava comigo, dizendo que eu havia pago propina para ser
aprovado. Eu não percebia, mas aquela piada era uma sinal de que minha perda auditiva gerava algo nas outras
pessoas que precisavam repetir o que diziam para que eu entendesse Não era uma arrogância de minha parte ou
pessoas, que precisavam repetir o que diziam para que eu entendesse. Não era uma arrogância de minha parte ou
qualquer dificuldade em aceitar aquela condição. Eu apenas não percebia minha dificuldade.

Minha audiometria constatou perda auditiva neurossensorial leve a


moderada bilateral. Foto: #blogVencerLimites

No convívio familiar, começaram a surgir comentários. Minha mãe e minha esposa debatiam a questão na minha
presença constantemente. “Ele não escuta o que falamos”. Um amigo próximo, meu compadre, me disse que já
havia percebido minha ‘surdez’ em nossas conversas ao telefone.

Na última sexta-feira, 8, fui ao consultório da fonoaudióloga Greice Rodrigues Lopes Tauro, do Centro Auditivo
UP, em São Vicente. Ela insistia faz tempo na minha necessidade de um aparelho e estava no quarto da Santa
Casa de Santos quando percebi minha deficiência. Na carona que eu e minha esposa pegamos com ela na volta
para casa, perguntei. “Greice, vamos marcar a audiometria?”.

O exame constatou perda, de intensidade leve a moderada, nos dois ouvidos, novamente para os tons médicos e
agudos, mas dessa vez com minha capacidade de ouvir somente a partir de 55 decibéis.

Saí da clínica com o aparelho no ouvido esquerdo, maravilhado com o mundo dos barulhos. Tudo estava muito
mais nítido, desde as chaves que traseuntes carregavam penduradas nos bolsos, os chinelos e sandalhas rasteiras
raspando na calçada, até a conversa de esquina (juro que não prestei atenção no conteúdo). Dentro do carro, cada
som era uma novidade.

Quando cheguei em casa, ouvi de longe os passarinhos que ‘moram’ na cozinha, o miado baixinho da nossa
gatinha Vida (que é quase muda) e o ronronar de nossa outra gatinha, Lua.

Comecei a usar o aparelho auditivo, no ouvido esquerdo, no dia 8 de julho de


2016. Foto: #blogVencerLimites

Aguardo a chegada do aparelho para o ouvido direito, mas já posso afirmar que minha decisão de, finalmente,
usar os dispositivos foi totalmente feliz. Estou plenamente adaptado a essa maquininha pendurada em minha
orelha. Como uso óculos, precisei fazer uma modificação na hastes, deixando as pontas mais retas, que agora
repousam sobre o dispositivo, formando um mecanismo uniforme. Coisa rápida resolvida em uma ótica.

Acredito que essa experiência reafirma meu entendimento sobre a necessidade de aceitarmos nossas deficiências
e, a partir dessa constatação, tocarmos a vida. O corpo envelhece e pede cuidados, algo que devemos acompanhar.
E, quando necessário, buscar mecanismos que nos garantam acesso a tudo, inclusive às conversas entre amigos,
aos cantos dos passarinhos e ao ronronar das gatinhas.

SERVIÇO:

UP Centro Auditivo
Dra. Greice Rodrigues Lopes Tauro
Fonoaudióloga
(13) 3466-6404
E-mail: upcentroauditivo@hotmail.com

Exame feito em 08/07/2016 no audiômetro Amplivox 260, calibrado em 29/06/2016

Aparelho de audição retroarticular digital Rexton, modelo Accord 2c, pilha 312

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Enfermeira que tem autismo é demitida


após denunciar boicote no Hospital do
Servidor Público de SP
Andrea Batista tem síndrome de Asperger e estava na unidade há menos de três meses, mas não recebeu
apoio especializado para aprender rotinas e procedimentos. Hospital desqualificou a profissional,
destacando suas deficiências técnicas, e afirmou que a interação social "não é fator relevante" no caso. "É
como dizer ao cego que seu ponto negativo é não enxergar", desabafa a enfermeira, que relata discriminação
de colegas e superiores. Para a neuropsicóloga que tratou Andrea, o HSPE tem a obrigação de oferecer
suporte adicional a funcionários com deficiência.

Luiz Alexandre Souza Ventura


10 Agosto 2018 | 10h47

IMAGEM 01: Andrea Batista tem síndrome de Asperger e estava na unidade há menos de três meses, mas não recebeu
apoio especializado para aprender rotinas e procedimentos. Questionado pelo blogVencerLimites, hospital desqualificou a
profissional, destacando suas deficiências técnicas, e afirmou que a interação social “não é fator relevante” no caso. “É como
dizer ao cego que seu ponto negativo é não enxergar”, desabafa a enfermeira, que relatou discriminação de colegas e
superiores. Para a neuropsicóloga que tratou Andrea, o HSPE tem a obrigação de oferecer suporte adicional a funcionários
i
com deficiência. Descrição #pracegover: Andrea aparece sorrindo junto com quatro colegas em uma ala infantil hospitalar.
Crédito da foto: Arquivo pessoal / Andrea Batista da Silva

Atualizado às 18h35 – A enfermeira Andrea Batista da Silva, de 44 anos, recém-admitida na ala infantil do
Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) de São Paulo, foi demitida nesta sexta-feira, 10, após denunciar
discriminação e boicote de colegas de trabalho, inclusive superiores. Ela tem o Transtorno do Espectro Autista
(TEA), mas não recebeu orientação especializada para aprender os procedimentos da unidade e, por isso, foi
avaliada de maneira correta e equivalente.

Andrea obteve diagnóstico de síndrome de Asperger somente aos 41 anos, após conviver por toda a vida com
dificuldades de interação social. Prestou concurso para o HSPE em 2017 e ficou na quarta colocação da lista de
pessoas com deficiência. “Desde o primeiro dia de treinamento, em junho, expliquei que tenho Asperger, mas
ninguém pareceu entender o que isso significa e, muito menos, conseguiram lidar com essa condição”, comenta a
enfermeira.

“Os argumentos para a demissão foram os mesmos das avaliações” disse Andrea ao blog Vencer Limites depois de
ser dispensada. “A gerente de enfermagem ainda foi irônica e disse ‘Você é esclarecida, né? Sabe procurar seus
direitos’, porque eu denunciei a situação”, contou a enfermeira.

Questionado, o Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe), que administra o HSPE,
confirma que não ofereceu qualquer suporte adicional à funcionária e ainda desqualificou a
colaboradora, destacando suas deficiências técnicas e ressaltando que a interação social “não é fator
relevante” nas avaliações da enfermeira.

“Essa é justamente a minha maior dificuldade, que demorei 41 anos para entender. É como dizer ao cego que seu
ponto negativo é não enxergar, e ainda não oferecer acessibilidade”, desabafa a Andrea.

IMAGEM 02: Andrea foi aprovada para trabalhar no HSPE em concurso de 2017 e ficou na quarta colocação da lista de
pessoas com deficiência. Crédito da foto: Arquivo pessoal / Andrea Batista da Silva

Funcionária há 22 anos do Hospital Guilherme Álvaro, em Santos (SP), Andrea recebeu pontuação máxima na
avaliação mais recente, referente ao período entre abril e junho, com destaque para seu alto nível de qualidade,
interesse excepecional e confiança total em seus trabalhos.

“Pretendia manter os dois empregos, trabalhando 12 horas em cada um, intercalando os dias”, explica a
enfermeira, que mora em São Vicente, também no litoral paulista.

Andrea atua na área desde 1992, quando fez curso de auxiliar de enfermagem e começou a trabalhar no Hospital
Irmã Dulce, em Praia Grande. Em Santos, integrou as equipes da Santa Casa, do Hospital Ana Costa, da Casa de
Saúde e da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Infantil do Gonzaga
Saúde e da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Infantil do Gonzaga.

Em 2008, formou-se em enfermagem na Universidade Paulista (UNIP) de Santos. Atualmente, tenta concluir
uma pós-graduação em UTI pediátrica e neonatal, que precisou interromper porque não conseguia bancar a
mensalidade.

IMAGEM 03: Laudo de neuropsicóloga confirma a síndrome de Asperger, “sem comprometimento intelectual e de
linguagem, mas com déficits na comunicação e interação social em múltiplos contextos”. Crédito da foto: Arquivo pessoal /
Andrea Batista da Silva

Toda a bagagem profissional de Andrea, no entanto, parece ser irrelevante no HPSE. “Eu preciso de um tempo
para conhecer a rotina do hospital, saber como funcionam os sistemas no computador, e pergunto bastante, mas
as colegas designadas para minha orientação me boicotaram desde o primeiro dia e colocaram nas avaliações que
eu não socializo com o grupo”, diz Andrea.

“Fiquei na UTI pediátrica, que é minha principal especialidade, durante o primeiro mês (junho). Então, fui
transferida, sem explicação, para a endoscopia infantil, com essa avaliação sobre a falta de interação”, conta.

“Após cinco dias na endoscopia (julho), a avaliadora repetiu o relatório sobre a interação, e ainda escreveu que eu
não aprendia a operar todos os sistemas. Como eu poderia saber tudo em cinco dias? Quem aprende a rotina de
um novo emprego nesse período?”, pergunta Andrea, que foi novamente transferida, dessa vez para o pronto-
socorro infantil, onde também afirma ser alvo de preconceitos. “Uma das colegas me disse que eu deveria
esconder que tenho Asperger para me preservar”, comenta.

A enfermeira diz ter procurado a coordenação do HSPE para relatar todos os problemas que enfrentou no
hospital, mas a situação não mudou. “Disseram que tudo seria revisto e que descartariam as avaliações anteriores
sobre a interação, mas as mesmas informações foram incluídas na terceira avaliação”, ressalta Andrea.

“Socializar é a minha maior dificuldade,



que demorei 41 anos para entender”
q p

DIAGNÓSTICO – A neuropsicóloga Sandra Dias Batochio da Silva confirmou, três anos atrás, que a enfermeira
Andrea tem a síndrome de Asperger, “sem comprometimento intelectual e de linguagem, mas com déficits na
comunicação e interação social em múltiplos contextos”, diz o laudo emitido pela especialista.

“Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) têm direitos previstos em leis, porém se vê um processo
desestruturado, para cumprir a lei de cotas. Para mudar esse quadro é preciso criar uma cultura de inclusão
eficiente e conscientizar todos os agentes: empresa, sociedade e governo”, afirma a neuropsicóloga.

“Andrea cresceu, amadureceu e desenvolveu estratégias compensatórias para alguns desafios sociais, mas
enfrenta dificuldades em situações novas ou sem apoio, sofrendo com esforço e ansiedade para calcular o que é
socialmente correto para a maioria das pessoas. O prejuízo pode ser relativamente sutil em contatos superficiais,
mas perceptível na interação dia a dia, no campo laboral e social”, explica a especialista.

Na opinião da neuropsicóloga, Andrea precisa de acompanhamento na fase probatória para ser avaliada com
equivalência. “A inclusão preconiza uma série de ações que, na prática, não ocorrem. Neste caso, conscientização
e informação sobre os sintomas característicos fariam uma grande diferença“, defende Sandra Dias Batochio da
Silva.

“A inclusão preconiza uma série de



ações que, na prática, não ocorrem”.

RESPOSTA – Questionado pelo blog Vencer Limites sobre a situação da enfermeira Andrea Batista da Silva, o
Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe) enviou nota por e-mail na qual esclarece
que, atualmente, trabalham no Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) 20 servidores com algum tipo de
deficiência, todos devidamente efetivados, além de mais 28 na área administrativa.

“O Iamspe não pactua com quaisquer tipos de discriminação ou preconceito contra seus profissionais.

No caso da servidora Andrea Batista da Silva, durante o primeiro ciclo de avaliação (45 dias) foram
identificados problemas técnicos na execução do trabalho pela profissional, entre elas dificuldade em priorizar
atendimento de urgência, necessidade de aprimorar seus conhecimentos para atender a pacientes em consultas
de enfermagem, dificuldade na conferência diária de medicamentos psicotrópicos, grande dificuldade no
cumprimento da escala diária, dificuldade na compreensão e desenvolvimento de seu papel como líder de
equipe, deficiência no uso do sistema informatizado do hospital para solicitação de insumos e remédios e nas
ações rotineiras de um enfermeiro, entre outros.

Em sua entrevista admissional, ela relatou que se identificava com a área de terapia intensiva neonatal e
pediátrica e, por isso, foi alocada na UTI pediátrica. Diante das limitações técnicas apresentadas, o hospital
propôs que ela mudasse de setor. A servidora referiu que, no Hospital Guilherme Álvaro, onde exerce cargo de
auxiliar de enfermagem (nível técnico) e não de enfermeira (nível superior), atua no setor de endoscopia. A
gerência de enfermagem propôs, então, que ela continuasse seu período probatório no setor de endoscopia do
HSPE, a fim de se sentir mais à vontade com o ambiente e com as rotinas assistenciais.

Porém, a servidora apresentou dificuldades semelhantes às já apontadas. Com o objetivo de adaptar as


características da profissional às atividades assistenciais, e procurando evitar o desligamento da funcionária
características da profissional às atividades assistenciais, e procurando evitar o desligamento da funcionária
antes do término do contrato de experiência, a gerência de enfermagem propôs que ela trabalhasse no
ambulatório da pediatria, onde o ritmo de trabalho é mais tranquilo do que em outros setores, o arcabouço de
conhecimento técnico requerido do profissional enfermeiro é menor e onde o horário de trabalho é mais
salubre, de seis horas por dia, em vez das 12h desempenhados pela servidora.

No entanto, ela não concordou com a proposta e solicitou sua alocação no pronto-socorro infantil, no que foi
prontamente atendida, pois o hospital ainda apostava na adaptação da funcionária, o que, infelizmente, não
ocorreu.

Durante todo o período probatório a profissional foi avaliada por três chefias diferentes, e todas foram
unânimes em apontar problemas de ordem técnica para o desempenho na atividade de enfermagem, que
poderiam causar prejuízo na assistência aos pacientes do hospital.

Por esses motivos, o Iamspe entende que a interação social não é fator relevante para possível continuidade ou
não do contrato de trabalho, e sim as questões de ordem estritamente técnica elencadas nos processos de
avaliação.

O Iamspe e a direção do HSPE estão à inteira disposição da profissional para quaisquer esclarecimentos”,
conclui a nota.

“A área de recursos humanos deveria



oferecer suporte adicional”

SUPORTE ADICIONAL – “Usaram questões de ordem estritamente técnica para dispensá-la’, diz a neuropsicóloga
Sandra Dias Batochio da Silva. “Deveria haver sensibilização de todos os atores, visto que, no caso do autismo,
pessoas que tiveram diagnósticos tardios desenvolveram estratégias para se adaptarem”, explica.

“A área de recursos humanos deveria oferecer suporte adicional, com profissionais capacitados e, por meio de
atividades e programas que auxiliariam na desconstrução de barreiras à inclusão, o suporte vocacional também
seria um facilitador neste processo de inclusão, pois os autistas poderiam aprimorar suas competências e
aprenderiam a lidar com suas próprias expectativas”, esclarece.

EMPREGO APOIADO – O blogVencerLimites questionou o Iamspe sobre a estrutura de emprego apoiado que a
enfermeira, por ser uma pessoa com deficiência, deveria receber para que sua avaliação fosse elaborada com
equivalência.

Em nota, a unidade confirma que não ofereceu qualquer suporte adicional à funcionária. “A enfermeira foi
acompanhada pela própria equipe de enfermagem e pela chefia, inclusive consta em relatório que a profissional
diz formalmente que foi muito bem recebida pela coordenadora, sempre orientando tudo que foi perguntado por
ela. O período probatório ainda estava em curso”, conclui o Instituto.
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