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Natação Soares, S. (2000). Natação. In: Educação Física no 1º Ciclo, 154 a173, Ed. CMP e FCDEF-UP.

Susana Soares
FCDEF-UP

Introdução

A natação é, dentro da expressão e educação físico-motora, uma das modalidades de mais difícil
abordagem na escola, o que se deve, principalmente, à ausência de espaços próprios para o seu ensino.
Dotar os alunos de competências natatórias significa, na maioria dos casos, deslocações até piscinas
municipais ou privadas, situadas em espaços geográficos de acessibilidade nem sempre fácil. Estas
dificuldades conduziram, tradicionalmente, a um abandono, não só da natação, como das modalidades afins
(polo aquático, natação sincronizada,…). Apesar de, actualmente, ser ainda difícil a deslocação dos alunos,
as novas políticas autárquicas de construção de vários tanques, equitativamente distribuídos pelos espaços
urbanos e vocacionados para o ensino da natação, abre a porta ao estabelecimento de protocolos de
prestação de serviços entre as autarquias e as escolas, destacando-se as do primeiro ciclo.
Assim, a maioria dos professores que há muito se haviam esquecido desta modalidade vêm-se agora
confrontados com a necessidade de ensinar os seus alunos a nadar.
E que natação?
Uma natação moderna, cujos padrões técnicos, regulamento técnico e metodologias de ensino sofreram
algumas alterações importantes, as quais é necessário dominar para promover um ensino de sucesso. A
todos os professores do primeiro ciclo, há muito formados ou ainda em formação, coloca-se o desafio desta
actividade nova e foi a pensar neles que nasceu este documento.
O trabalho aqui apresentado pretende ser uma proposta metodológica para o ensino da natação,
considerando que o aluno parte da inadaptação total à água e vai adquirindo um conjunto de competências
que o levam ao domínio das quatro técnicas de nado, respectivas partidas e viragens. Pretende-se, ainda,
que professor seja capaz de identificar o nível de evolução de cada um dos seus alunos, resolver possíveis
inadaptações respeitantes a fases do ensino anteriores e desenvolver um trabalho variado e criativo,
seguindo o fio condutor que aqui se apresenta.

1. Adaptação ao Meio Aquático

Ao primeiro grupo de adaptações motoras básicas, no âmbito da natação, chamamos adaptação ao meio
aquático (AMA) e nela englobamos todos os sujeitos que apresentam um grau de inadaptação tal que não
conseguem sustentar-se dentro de água.
O objectivo será, pois, dotar os alunos de um conjunto de competências que lhes permitam deslocar-se
autonomamente no meio aquático, mas sem que para isso necessitem, ainda, de usar um padrão de nado
estilizado (crol, costas, bruços ou mariposa).

Nesta fase, a água, face ao comportamento humano, é um elemento hostil, criando diversas dificuldades
(Mota, 1990), as quais podem ser agrupadas em três grandes domínios: a respiração, o equilíbrio e a
propulsão (deslocar-se dentro de água). Partindo do pressuposto que o aluno tem uma inadaptação total à
água, algo similar a uma ausência total de contacto com este meio, há uma progressão de objectivos destes
três domínios a cumprir, antes de passar ao ensino das técnicas propriamente ditas. No quadro 1
apresentamos a proposta metodológica de abordagem desta primeira etapa da aprendizagem da natação.

Quadro 1. Proposta metodológica para adaptação ao meio aquático


Conteúd Objectivos Exercícios
os
Equilíbrio Adoptar e manter a posição vertical, realizando
deslocamentos no espaço aquático, sem perder o
equilíbrio.

Respiraç Aceitar o contacto da água com os olhos, o nariz


ão e a boca, abrindo os olhos debaixo de água e
controlando a respiração em imersão (dentro de
água) e emersão (fora de água).

Equilíbrio Realizar imersões em posição vertical, mantendo


a apneia inspiratória*.

*Realizar uma inspiração forçada e manter o ar dentro


do peito.

Adoptar a posição de medusa (igual à posição


fetal), deixando-se manipular sem perder o
equilíbrio.

Realizar a passagem autónoma da posição


vertical à horizontal, primeiro ventral e,
posteriormente, à dorsal.

Deslizar*, quer em posição ventral, quer dorsal,


mantendo os segmentos corporais alinhados.

* Acção de empurrar a parede com os pés e deixar o


corpo avançar na água, até começar a perder
velocidade.
Rodar em torno dos eixos longitudinal (parafuso)
e transversal (cambalhota), mantendo os
segmentos corporais alinhados.

Propulsã Bater as pernas em posição ventral e dorsal, sem


o perder o alinhamento horizontal (manter o corpo
paralelo ao fundo da piscina). Numa primeira fase
trabalhar com placa e, posteriormente, sem apoio.

Respiraç Coordenar a respiração com o batimento das


ão pernas. Numa primeira fase trabalhar com placa
e, posteriormente, sem apoio.
Propulsã Realizar, em posição ventral, movimentos
o alternados ou simultâneos com os membros
superiores, com recuperação aérea ou
subaquática, mantendo o alinhamento horizontal.
Respiraç Realizar a respiração associada aos movimentos
ão dos membros superiores, coordenando os ciclos
inspiratórios e expiratórios.
Propulsã Coordenar os movimentos dos membros
o inferiores e superiores entre si e com a
respiração, sem perder o alinhamento horizontal
(por exemplo, nado à cão).

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Saltar para a água em pé, partindo do bordo da
piscina, mantendo os segmentos corporais
alinhados.

Entrar para a água por mergulho de cabeça,


partindo da posição sentado no bordo da piscina,
mantendo a cabeça alinhada sob os membros
superiores.

Design: Paulo Ferreira

Um dos principais erros no trabalho de adaptação ao meio aquático está na ânsia que o professor tem de
ver os seus alunos a propulsionarem-se na água (bater pernas com e sem placa, nadar crol...), esquecendo
as adaptações respiratórias (abrir os olhos, suster a respiração nas imersões, ...) e de equilíbrio (deslizar,
...) anteriores. De acordo com a progressão que apresentamos, isto equivaleria a começar pelo penúltimo
objectivo do domínio da respiração, esquecendo todos os objectivos anteriores. É importante ter paciência,
não ter pressa (não queimar etapas de aprendizagem), deixando objectivos importantes por cumprir. Por
exemplo, um aluno que não consegue imergir a cara na água nunca vai conseguir adoptar uma posição
horizontal suficientemente estável para adquirir um padrão de batimento correcto das pernas, isto porque
vai ter a cabeça muito elevada, para a água não chegar à boca e aos olhos. A posição alta da cabeça, com
o pescoço muito esticado, vai ter como consequência o afundamento das pernas. O corpo fica oblíquo, em
relação ao fundo da piscina, e, nesta posição, o nado torna-se penoso, obrigando o aluno a fazer grandes
esforços.

Dois aspectos importantes que costumam ser relegados para segundo plano, durante a fase de adaptação
ao meio aquático, são o ensino da posição hidrodinâmica (fig. 1), quando se abordam os deslizes, e o
ensino da forma correcta de pega da placa (ver 3.1).
A posição hidrodinâmica é a posição corporal de maior alinhamento segmentar, revestindo-se de extrema
importância na fase de deslize subsequente à realização das partidas e viragens. É muito importante que os
alunos se habituem a adoptá-la logo nos primeiros deslizes. É mais fácil o aluno adquirir este
comportamento durante a fase de adaptação ao meio do que, mais tarde, durante o ensino das técnicas de
partida e viragem.

Posição hidrodinâmica
Alinhamento total dos segmentos corporais. O corpo está
completamente esticado, as mãos sobrepostas e a cabeça sob os
braços.

Design: Paulo
Ferreira

Figura 1 - Posição hidrodinâmica.

2. Técnicas de nado

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Depois das questões essenciais da adaptação ao meio aquático estarem totalmente resolvidas, os alunos
estão prontos a iniciar a aprendizagem das quatro técnicas de nado. Sugerimos que se inicie este processo
pelo ensino simultâneo das técnicas de crol e de costas, passando, seguidamente, ao bruços e, por fim, à
mariposa.

2.1. Técnicas de crol e costas

No quadro 2 encontra-se uma proposta metodológica para o ensino das técnicas de crol e de costas.

Quadro 2. Proposta metodológica para o ensino das técnicas de crol e de costas.

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Conteúdo Objectivos Exercícios
s
Pernada Realizar a pernada de crol, com e sem placa,
de crol após saída da parede em deslize.

Pernada Realizar a pernada de crol, com e sem placa,


de crol e após saída da parede em deslize, rodando a
respiração cabeça lateralmente para respirar.
Pernada Realizar a pernada de costas, com e sem placa,
de costas após saída da parede em deslize.

Pernada Nadar crol, só com o braço direito ou esquerdo,


de crol e não parando a pernada durante a realização
braçada só das braçadas.
com um
membro
superior
Pernada Nadar costas, só com o braço direito ou
de costas e esquerdo, não parando a pernada durante a
braçada só realização das braçadas.
com um
membro
superior
Pernada Nadar crol, apenas com um dos membros
de crol, superiores, virando a cabeça lateralmente para
braçada só respirar.
com um
membro
superior e
respiração
Técnica de Nadar crol, coordenando as acções dos
crol membros superiores, inferiores e respiração,
completa num percurso de 25 metros.
Viragem Realizar a viragem frontal ou aberta*, após nado
frontal ou de crol, respirando apenas durante a rotação do
aberta corpo.

* Tocar a parede com as duas mãos e puxar os


joelhos ao peito para apoiar os pés na parede. De
seguida, rodar para a posição ventral e esticar os
braços à frente, levando um por fora e outro por
dentro de água. Empurrar a parede e realizar o
deslize em posição hidrodinâmica.
Técnica de Nadar costas, coordenando as acções dos
costas membros superiores e inferiores, num percurso
completa de 25 metros.

Partida de Mergulhar de cabeça, a partir da posição de


crol sentado no primeiro degrau das escadas de
(partida acesso à piscina, mantendo o corpo em posição
engrupada) engrupada (igual à posição fetal).
Mergulhar de cabeça, a partir da posição de
sentado no bordo da piscina, mantendo o corpo
em posição engrupada.

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Mergulhar de cabeça, a partir da posição de
cócoras, mantendo o corpo em posição
engrupada.

Mergulhar de cabeça, a partir da posição de pé


no bordo da piscina, esticando o corpo durante
o salto.

Realizar a partida de crol, a partir do bloco,


esticando o corpo durante o salto e realizando o
deslize em posição hidrodinâmica após a
entrada na água.

Partida de Realizar a partida de costas*, a partir do bloco,


costas esticando o corpo e realizando o deslize em
posição hidrodinâmica após a entrada na água.

*Agarrar o bloco em posição engrupada e realizar a


partida de costas atirando a cabeça, o tronco e os
membros superiores para trás, levando o corpo a
descrever uma trajectória aérea em posição
arqueada.
Viragem de Realizar um rolamento ventral (cambalhota), a
crol cerca de 1 metro da parede, e impulsioná-la
(cambalhot com os pés, por forma a sair em posição dorsal
a) (corpo em posição hidrodinâmica).

Realizar um rolamento ventral a cerca de 1


metro da parede, e impulsioná-la com os pés,
rodando, simultaneamente, para a posição
ventral, por forma a executar o deslize em
posição hidrodinâmica.
Realizar a viragem, após nado de crol, sem
levantar a cabeça para respirar antes de iniciar
o rolamento ventral.

Viragem de Nadar costas e, ao chegar a cerca de 1 m da


costas parede, rodar para a posição ventral*, deixando-
(cambalhot se deslizar até lhe tocar.
a)
* A rotação realiza-se durante a última braçada.
Realizar a viragem*, após nado de costas.

* Rodar para a posição ventral na última braçada de


costas, dar uma cambalhota sem tocar com as mãos
na parede e empurrá-la com os pés, deslizando em
posição dorsal hidrodinâmica.
Design: Paulo Ferreira

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2.2. Técnica de bruços

No quadro 3 encontra-se uma proposta metodológica para o ensino da técnica de bruços.

Quadro 3. Proposta metodológica para o ensino da técnica de bruços.

Conteúd Objectivos Exercícios


os
Pernada Realizar a pernada de bruços, após saída da parede
de bruços em deslize. No momento em que as pernas dobram,
os pés devem estar mais afastados que os joelhos.
Pernada Realizar a pernada de bruços, elevando a cabeça
coordena para respirar no momento em que as pernas
da com a dobram.
respiraçã
o
Pernada Realizar a pernada de bruços coordenada com a
coordena respiração, iniciando o afastamento do braço direito
da com ou esquerdo, após a flexão dos membros inferiores.
braçada
só com
um
membro
superior
e
respiraçã
o.
Pernada Realizar a pernada de bruços coordenada com a
coordena respiração, iniciando o afastamento dos braços, após
da com a a flexão dos membros inferiores.
braçada
e a
respiraçã
o.
Técnica Realizar a técnica completa de bruços, iniciando a
de bruços braçada e elevando a cabeça para respirar, no
completa momento em que os pés se juntam.
Partida Após empurrar a parede com os pés e deslizar em
de bruços posição hidrodinâmica, realizar uma braçada
submarina*, fazendo passar as mãos pela frente do
tronco. O movimento termina quando as mãos
chegam à anca.

* Estando os membros superiores em extensão ao nível


da cabeça, puxar as mãos pela frente do tronco, até ao
nível das coxas.
Realizar a partida (salto) do bloco, deslize e braçada
submarina, elevando a cabeça para respirar na
braçada seguinte.

Viragem Realizar a viragem frontal ou aberta, após nado de


de bruços bruços, efectuando a braçada submarina.

Design: Paulo Ferreira

No ensino do bruços, o aspecto mais importante a considerar está relacionado com a evolução do padrão
técnico do movimento da pernada.
Tradicionalmente, a pernada de bruços era ensinada tendo como imagem o movimento das patas da rã, o
que originava um movimento de flexão das pernas com grande afastamento dos joelhos. Actualmente, esta

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pernada já não tem qualquer expressão, uma vez que vários estudos científicos provaram que aquele
afastamento exagerado dos joelhos era pouco eficaz. Assim, hoje, devemos ensinar a pernada pedindo aos
alunos para, no momento da flexão das pernas, manterem os pés mais afastados que os joelhos. Uma boa
maneira de ensinar esta acção é colocar os alunos de costas para a parede, agarrados ao bordo da piscina,
e realizar impulsões (empurrar a parede com os pés) partindo exactamente da posição de joelhos quase
juntos e pés afastados (posição da avózinha a fazer tricot).

2.3. Técnica de mariposa

No quadro 4 encontra-se uma proposta metodológica para o ensino da técnica de mariposa.

Quadro 4. Proposta metodológica para o ensino da técnica de mariposa.

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Conteúd Objectivos Exercícios
os
Moviment Realizar saltos de golfinho*, partindo da
o posição de pé, colocando o acento tónico do
ondulatório movimento na acção da cabeça.

* Partindo da posição de pé, saltar, arquear o corpo


no ar e mergulhar, sendo a cabeça a primeira parte
do corpo a entrar na água.
Pernada Realizar a pernada de mariposa, após saída
de da parede em deslize, acentuando a acção
mariposa descendente dos membros inferiores (bater
forte para baixo).
Pernada Realizar ciclos contínuos de 4 pernadas de
coordenad mariposa, elevando a cabeça para respirar à
a com a quarta pernada e mergulhando-a à primeira.
respiração
Pernada Realizar a pernada de mariposa coordenada
coordenad com a acção do braço direito ou esquerdo,
a com efectuando uma pernada durante a entrada do
braçada só braço água e outra durante a saída.
com um
membro
superior
Pernada Realizar a pernada de mariposa coordenada
coordenad com a acção do braço direito ou esquerdo,
a com elevando a cabeça para respirar durante a
braçada só quarta pernada e mergulhando-a na primeira
com um pernada (respirar uma vez em cada duas
membro braçadas).
superior e
respiração
Técnica Realizar a técnica completa de mariposa,
completa respirando uma vez em cada duas braçadas.

Partida Após saída da parede em deslize, realizar


de várias pernadas de mariposa, mantendo o
mariposa corpo em posição hidrodinâmica.

Realizar a partida do bloco seguida de


pernadas subaquáticas, tirando os membros
superiores da água e elevando a cabeça para
respirar durante a última pernada.

Viragem Realizar a viragem frontal ou aberta, após


de nado de mariposa, efectuando pernadas
mariposa subaquáticas numa distância máxima de 15
metros.

Design: Paulo Ferreira

Vejamos alguns aspectos importantes a considerar no ensino da mariposa.


Em primeiro lugar, logo nas fases inicias do ensino da mariposa, os alunos têm de perceber, muito bem,
que quem produz o movimento ondulatório do corpo, tão característico da técnica de mariposa, são os
membros inferiores. Para que este movimento ondulatório seja eficaz, a anca também não pode estar
rígida.
A coordenação correcta das acções respiração/pernada/braçada é algo que deve ser trabalhado, com
muita acuidade, logo desde o início. Os alunos devem realizar, sempre, duas pernadas por cada ciclo de
braçada (uma pernada à entrada dos membros superiores da água e outra à saída). Nunca os devemos

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deixar respirar quando dá jeito, mesmo nas fases iniciais do ensino. O ciclo respiratório correcto é: emersão
(saída) da cabeça para respirar durante a quarta pernada e imersão (entrada) da cabeça, para expiração
subaquática, na primeira pernada (sai à quatro e entra à um!). Na figura 2 tentamos expôr, de forma mais
clara, a mecânica desta técnica.
Uma última referência importante é a de que a mariposa é das técnicas mais fáceis de ensinar e é muito
fácil de nadar, desde que os professores consigam perceber e transmitir, muito bem, aos seus alunos o
padrão de coordenação respiração/pernada/braçada correcto.

Entrada dos braços 1ª pernada cabeça dentro de


água
Saída dos braços 2ª pernada cabeça dentro de
água
2 ciclos de braços
Entrada dos braços 1ª pernada cabeça dentro de
água
Saída dos braços 2ª pernada saída da cabeça
para inspirar

Entrada dos braços 1ª pernada entrada da


cabeça para expirar
Saída dos braços 2ª pernada cabeça dentro de
água
2 ciclos de braços
Entrada dos braços 1ª pernada cabeça dentro de
água
Saída dos braços 2ª pernada saída da cabeça
para inspirar

Entrada dos braços 1ª pernada entrada da


cabeça para expirar Saída dos braços 2ª pernada
cabeça dentro de água
2 ciclos de braços
Entrada dos braços 1ª pernada cabeça dentro de
água
Saída dos braços 2ª pernada saída da cabeça
para inspirar
… … … …
O que dizer aos alunos:
1) duas pernadas por cada ciclo de braços, uma à entrada, outra à saída
2) uma respiração por cada 4 pernadas, a cabeça sai à 4ª e entra à 1ª.

Figura 2. Coordenação das acções de respiração, braçada e pernada na técnica de mariposa.

2.4. Nado de estilos

Depois do ensino das quatro técnicas de nado, o aluno está apto a aprender a articular os quatro estilos
entre si, nadando percursos individuais (100 metros estilos) ou estafetas (4x25 metros estilos). No primeiro
caso, a ordem dos estilos é mariposa, costas, bruços, crol. Nas estafetas, o primeiro aluno nada costas,
realizando a partida dentro de água, e os alunos seguintes nadam bruços, mariposa e crol, por esta ordem,
realizando a partida do bloco.
Nesta fase, o que há a aprender de novo são as viragens de estilos: mariposa/costas, costas/bruços e
bruços/crol (quadro 5).

Quadro 5. Viragens de estilos.

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Conteúdos Objectivos Exercícios
Viragem de Após nado de mariposa, realizar
mariposa/cost a viragem de mariposa para
as costas*.

* Tocar com as duas mãos


simultaneamente na parede, puxar os
pés para a parede e atirar o tronco e
membros superiores para trás,
deslizando e batendo pernas em
posição hidrodinâmica.
Viragem de Após nado de costas, realizar a
costas/bruços viragem de costas para bruços*.

* Realizar uma cambalhota para


trás, após apoiar uma das mãos na
parede, seguida de deslize em
posição hidrodinâmica e braçada
submarina.
Viragem de Após nado de bruços, tocar a
bruços/crol parede com as duas mãos em
simultâneo e realizar a viragem
frontal ou aberta, seguida de
deslize em posição
hidrodinâmica.
Design: Paulo Ferreira

3. Outros aspectos didáctico metodológicos

3.1. Pega da placa

A forma como o aluno pega na placa está, logicamente relacionada com o objectivo do exercício que o
professor propõe. Não deve, pois, ser deixada ao livre arbítrio do aluno. No quadro 6 encontra-se uma
análise de vários tipos de pega da placa, em função de diferentes tipos de exercícios, tadicionalmente
aplicados no ensino da natação.

Quadro 6. Diferentes tipos de pega de placa.

Tipo de pega Pretende-se… Figura


Nado ventral
Com a placa no sentido longitudinal, AMA: flutuabilidade máxima do
colocar as mãos afastadas no bordo tronco e membros superiores
anterior, mantendo os antebraços
apoiados.

Com a placa no sentido longitudinal, Crol, bruços e Mariposa: manter


colocar as mãos sobrepostas no o corpo numa posição tão
bordo anterior, mantendo os horizontal quanto possível,
antebraços apoiados. durante a realização de pernadas,
sem respiração.
Com a placa no sentido longitudinal, Crol e Mariposa: realização de
colocar uma mão no bordo posterior. pernada de crol com respiração
lateral ou braçadas de crol e
mariposa só com um braço.

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Com a placa no sentido longitudinal, Bruços e Mariposa: realização
colocar ambas as mãos no bordo de pernada com respiração.
posterior.

Nado dorsal
Com a placa no sentido longitudinal, Realização de pernadas com a
colocar as mãos, com o dorso voltado bacia elevada.
para o fundo da piscina, no bordo
posterior.
Com a placa no sentido transversal, Realização de pernadas,
colocada sob a cabeça, colocar as privilegiando a posição elevada
mãos com o dorso voltado para o da bacia e a colocação correcta
fundo da piscina, nos bordos laterais. da cabeça.
Com a placa no sentido transversal, Realização de pernadas.
posicionada ao nível da cintura,
*
colocar as mãos no bordo posterior. Este tipo de pegas requer
algum cuidado, uma vez que a
Agarrar a placa, no sentido bacia tem tendência a afundar,
longitudinal, com as mãos cruzadas, perdendo-se a horizontalidade
ao nível do peito. corporal desejada na técnica de
costas.
Design: Paulo Ferreira

3.2. Fases subaquáticas das braçadas das técnicas de crol, costas e mariposa

A execução técnica correcta e apurada das fases subaquáticas (parte da braçada que se realiza dentro de
água) das braçadas das técnicas de crol, costas e mariposa é uma preocupação que só pode surgir depois
do aluno mostrar uma técnica global bem coordenada, um nado harmonioso e sem grandes defeitos.
Inicialmente, deixamos que os alunos realizem, dentro de água movimentos circulares ou rectilíneos e
focalizamos a nossa atenção nos batimentos dos membros inferiores, na horizontalidade (corpo paralelo ao
fundo da piscina) , na linearidade corporal (segmentos alinhados) e na coordenação entre as braçadas,
pernadas e respiração. Contudo, apesar de permitirmos que os alunos realizem braçadas circulares ou
rectilíneas, quando mostramos um determinado gesto técnico devemos fazê-lo sempre de forma correcta,
para que eles se vão apercebendo que os movimentos dentro de água também obedecem a um
determinado padrão, também têm uma técnica própria de execução.

3.3. Material didáctico

A utilização de material didáctico no ensino da natação tem de ser devidamente ponderada. Os materiais
de uso mais comum nas nossas piscinas são as placas (ver 3.1.), os pull-buoys, as braçadeiras e os cintos
flutuadores.
Os pull-buoys são flutuadores próprios para colocar entre as coxas. Bloqueiam a acção dos membros
inferiores por forma a isolar a acção dos membros superiores. Uma vez que durante o ensino das técnicas
de nado devemos começar sempre pela pernada e ir acrescentando, progressivamente, a respiração e as
braçadas, este material não parece ser de grande utilidade. Pode parecer interessante e proveitoso colocar
um pull-buoy nos membros inferiores, para o aluno perceber melhor o movimento dos membros superiores,
mas não podemos esquecer que, ao fazê-lo, tiramos-lhe capacidade de propulsão (capacidade de se
deslocar) e, principalmente, de equilíbrio (sem bater as pernas a bacia afunda e o corpo fica oblíquo em
relação ao fundo da piscina), o que vai ter consequências negativas do ponto de vista do alinhamento
corporal (arqueamento do corpo). Sem um bom alinhamento é impossível realizar braçadas correctas e
eficazes.
O uso das braçadeiras e dos flutuadores na fase de AMA induz falsas adaptações, dado que só com eles
é que os alunos se conseguem sustentar no meio aquático, sem eles afundam!. Com este tipo de materiais
os alunos não consegue aprender a equilibrar-se, não conseguem sentir a força de impulsão da água.
Ganham, também, uma falsa autonomia. É frequente ouvir histórias de crianças que foram para férias com
os pais e saltaram, com confiança, para piscinas de águas profundas (piscinas sem pé), descobrindo, da
pior forma, que, sem as braçadeiras ou os cintos flutuadores, não conseguem manter-se à superfície. É

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mais vantajoso, perder um pouco mais de tempo a ensinar os alunos a equilibrarem-se (perceber que
conseguem flutuar) sem materiais auxiliares, do que deixá-los ganhar uma autonomia dependente e depois
ter de voltar atrás e repetir o trabalho todo de novo.

3.4. A brincadeira e o jogo orientado para a tarefa

Durante uma aula de natação não podemos saturar os alunos com exercícios técnicos muito formais, que
solicitem muita atenção e elevado nível de concentração, uma vez que esta vai diminuindo à medida que o
cansaço se instala, levando o aluno ao desinteresse e ao aborrecimento. Isto é tanto mais verdadeiro
quanto mais longo for o tempo de aula. O professor tem, então, que ser capaz de introduzir alguns
momentos de lazer na aula, podendo fazê-lo de duas formas: deixar que os alunos explorem o meio
livremente (momentos para brincar na água), ou usar jogos em que os alunos se divertem e, sem se
aperceberem, também realizam movimentos conducentes à concretização do objectivo da aula. A segunda
estratégia é, sem dúvida, mais adequada, nomeadamente em aulas de curta duração.
É muito importante que o professor saiba distinguir, muito bem, estes dois tipos de exercitação, porque só
a actividade orientada leva à aprendizagem do aluno. Apesar de não podermos esquecer que brincar
livremente motiva os alunos e aumenta o seu empenhamento nas aulas, temos de estar conscientes de que
essa brincadeira não é sinónimo de aprendizagem.
Um bom exemplo de actividades que, apesar de saírem do âmbito da natação, propriamente dita,
permitem a aplicação dos conteúdos nela aprendidos, são a natação sincronizada e o polo aquático,
aplicadas formalmente (respeitando integralmente o seu regulamento técnico) ou de forma adaptada.

3.5. Competições, regulamento técnico e festivais de natação

A partir do momento em que os alunos têm um domínio básico das diferentes técnicas de nado é possível
realizar algumas competições formais, à imagem da natação de competição federada. Utilizando o
regulamento técnico da natação de forma flexível, é possível organizar competições interescolas, com
provas de 25 a 50 metros de nado e estafetas de 4x25 ou 4x50 metros. Estas competições são fonte de
alegria e grande excitação, motivando as crianças, levando-as a querer aprender sempre mais.
Outro tipo de encontros que podem ser promovidos são os festivais de natação, os quais podem, ou não,
conter provas formais. Nestes festivais, o lugar de destaque está nos jogos que os professores criam e que
podem ir de uma simples gincana à realização de jogos tradicionais na água, jogos pais e filhos, jogos
interclasses, etc.

Esperamos, com este documento, ter conseguido solucionar algumas das dificuldades mais importantes
relacionadas com o ensino da natação. Se subsistirem dúvidas, nomeadamente no que respeita à mecânica
gestual de cada uma das técnicas de nado, aconselhamos, a título de exemplo, a leitura das obras de
Navarro (1990), Schmitt (1997), Pelayo et al. (s.d.) e Chollet (1997).

Bibliografia

Chollet, D. (1997). Natation Sportive. Approche scientifique. Vigot, Paris.

Costill, D. L.; Maglischo, E. W. e Richardson, A. B. (1992). Swimming. Blackwell Scientific Publications,


London.

Counsilman, J. E. (1980). A Natação. Ciência e Técnica para a Preparação de Campeões. Livro Ibero-
Americano, Ltda, Rio de Janeiro.

Navarro, F. (1990). Hacia el Dominio de la Natation. Éditions Vigot.

Pelayo, P.; Maillard, D.; Rozier, D. e Chollrt, D. (s.d.). Natation au Collège et au Lycée. De L’École…aux
Associations. Éditions Revue EPS, Paris.

Schmitt, P. (1997). Nager, de la Découverte à la Performance. Vogot, Paris.

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Thomas, D. G. (1990). Advanced Swimming. Steps to Success. Leisure Press, Champaign, Illinois.

Design: Paulo Ferreira, aluno do 4º ano da Licenciatura em Desporto e Educação Física da Faculdade de
Ciências do Desporto e de Educação Física da Universidade do Porto.

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