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Do Rural ao Global – Uma análise sobre o CEAGESP

Entreposto Terminal São Paulo (ETSP)

Carolina Correa da Silva

Introdução

A Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São


Paulo (CEAGESP) é o maior entreposto de alimentos da América
Latina, com fluxo financeiro em 2014 de R$322.314.000,00
conforme o último balanço (CEAGESP). O CEAGESP age
como um mediador entre os produtores e cooperativas e os
compradores atacadistas ou varejistas de frutas, legumes,
verduras, flores pescados, entre outros.

Este trabalho irá fazer uma análise dessa mediação, onde


o CEAGESP atua como facilitador da comercialização,
distribuição e armazenamento de produtos hortifrutigranjeiros.
Considerando que o território é desigual e a distribuição dos
alimentos sobre o mesmo traz luz diariamente a estas
desigualdades socioespaciais.

Para além, o trabalho visa questionar a distribuição dos


alimentos no território, saindo do meio rural chegando às casas
de consumidores.

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O rural a segurança alimentar e a distribuição de alimentos

No Brasil, destaca-se a produção de alimentos, sendo ela


majoritariamente vinda de latifúndios, assunto esse explanado por
Caio Prado Jr. em seu livro A questão agrária no Brasil, de
cooperativas que vem crescendo e se destacando
economicamente na atualidade, e os pequenos produtores que
tentam sobreviver à essa lógica perversa do capital, e as
intempéries do tempo que os deixam a mercê dos preços
impostos pelo mercado.

Vivemos em uma sociedade capitalista, e isso sempre põe


em risco a segurança alimentar das pessoas , pois:

Nas economias mercantis, em geral, e


particularmente na economia brasileira, o
acesso diário aos alimentos depende,
essencialmente, de a pessoa ter poder
aquisitivo, isto é, dispor de renda para
comprar os alimentos. Uma parcela
substancial da população brasileira tem
rendimentos tão baixos que a coloca,
obviamente, em uma situação de
insegurança alimentar. (HOFFMAN,
1994. p.01)
Ou seja, para além das dificuldades que o produtor rural
enfrenta por não se juntar a uma cooperativa ou vender sua terra
para um grande latifundiário, e o alto custo de produção, ele fica

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exposto também as suas próprias necessidades, pois para além de
produtor, este é também um consumidor de alimentos. Caso não
produza todo o alimento que por ele será consumido, deverá
investir boa parte de sua verba na compra dos mesmos.

As terras cultivadas nem sempre são de propriedade do


cultivador, à terra é cedida a ele e este ganha uma porcentagem
dos lucros obtidos com a venda. Atualmente alguns desses
trabalhadores não recebem uma porcentagem do lucro das
vendas, mas sim um salário fixo, e isso influência ainda mais em
seu poder de compra, o assalariamento do trabalhador ao invés
do serviço de troca, de acordo com Caio Prado Jr (1979). essa
regularização do serviço do trabalhador tem um apelo feudal:

É muito importante a caracterização


precisa da verdadeira natureza das relações
de trabalho na agropecuária brasileira,
como vimos tentando fazer, sobretudo
porque em muitos casos o aspecto formal
de que se revestem leva ou pode levar a
confusões que na prática se revelam da
maior inconveniência. É assim a
qualificação que frequentemente se faz
dessas relações como sendo de natureza
“feudal” ou “semifeudal”. (PRADO,
1979, p. 65)

Ou seja, a insegurança alimentar deste trabalhador aumenta, pois


agora seu limite é um salário fixo, que carregam encargos físicos
e emocionais vindos do tipo de trabalho que ele(a) realiza, a
possibilidade de não conseguir manter a sua família, seja o

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agricultor ou a agricultora, pois mesmo que a produção seja
maior, seu salário não aumentará.

A distribuição dos alimentos se dá de maneira desigual,


de acordo com Instituto Internacional de Investigação sobre
Políticas Alimentares cerca de 1 bilhão de pessoas não tem acesso
à comida ou sofre com desnutrição e falta de alimento adequado,
e só no Brasil segundo o World Resources Institute (2016) são
desperdiçadas cerca de 41 mil toneladas de alimentos, estando
assim entre os dez países que mais desperdiçam por ano.

Observamos este desperdício de alimento em diversas


escalas, e mesmo ganhando prémios referentes a eficiência na
redução da perda e desperdício de alimentos no mercado, o
CEAGESP ainda descarta uma grande quantidade de alimentos
diariamente, alimentos que são descartados por serem
considerados inaptos para a venda. Atualmente o CEAGESP
conta com programas de distribuição de comidas, entre elas está
o Banco de Alimentos que beneficia mais de 60 mil pessoas em
média por mês. Essa dita inaptidão de alimentos para a venda
contribui para a desigualdade na distribuição de alimentos.

Na imagem 1 fotografada durante o trabalho de campo,


um senhor descarta todos os produtos inaptos para
comercialização.

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Imagem 1

Fonte: Foto tirada por Carolina Correa da Silva - 21/11/2016

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A globalização e o CEAGESP - Entreposto Terminal São
Paulo (ETSP)

Segundo Milton Santos, a globalização pode ter 3 faces,


a como fabula, como perversidade e uma outra globalização.
Nesta parte, explanarei a globalização como perversidade que é
uma fábrica de desigualdades como fome, falta de acesso à terra
à moradia, mortalidade infantil, alta de desemprego, perda de
qualidade de vida, entre outros, de acordo com Santos (2000). A
comercialização e o descarte de alimentos considerados inaptos
para venda ocorrem porque vivemos em um mundo onde a
globalização como perversidade tem se fortalecido, e onde o
capitalismo se fortalece com a perversidade da mesma.

A distribuição espacial dos alimentos ocorre de maneira


desigual como já mencionado, em uma sociedade que se diz
global, mas impõe fronteiras a mais básica das necessidades, o
alimento.

Como ligar isso ao CEAGESP – ETSP? Atualmente


como já mencionado, são descartadas 41 mil toneladas de
alimentos no Brasil, e aí se encontra a globalização como

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perversidade, onde a compartimentação do território favorece
determinada regiões, determinados lugares e despreza outros.

A não qualificação de alimentos como aptos a vender, e


o descarte desses em um país que ainda existem pessoas abaixo
da linha da pobreza, mostra uma globalização perversa como dito
por Milton Santos.

Mesmo com projetos que doam alimentos a ONG’s e a


entidades diversas, percebe-se mais uma globalização como
fabula a qual de acordo com Santos (2000) seria aquela imposta
pelos meios de comunicação, que busca enfatizar que o planeta
em que vivemos é um amplo espaço, livre para consumo,
igualitário, meritocrático, do que uma outra globalização, que
realmente visa a construção de um outro mundo.

No entanto, observamos os problemas causados pela


perversidade do mesmo, apoia-se primariamente os interesses do
grande capital e vê seus espaços de locação como shoppings, não
enxerga os interesses sociais, e a exploração da mão de obra e
consequentemente não se importa de fato com a má distribuição
dos alimentos.

Conclusão

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A participação do Estado como regulador e locador de espaço
para a distribuição de alimentos é importante na sociedade, este
consegue por meio de programas governamentais, diminuir o
número de pessoas que estão abaixo da linha de pobreza, porém,
essas medidas são provisórias, podem alterar conforme a
mudança de governante, no Brasil houve uma queda no número
de pobres nos últimos anos, devido a políticas implementadas
para diminuir esses números, números esses que já voltaram a
crescer com a aprovação de políticas de cortes de gastos
direcionados a população mais pobre. É necessário se pensar em
um território mais igual e menos segregador para evoluirmos
como sociedade, enquanto isso não ocorre ficaremos as
intempéries dos interesses dos latifúndios, das grandes indústrias
alimentícias e das variações abruptas do mercado.

Referencia

CEAGESP . CEAGESP fica em 3º lugar em concurso


internacional Visto em:
<http://www.ceagesp.gov.br/comunicacao/noticias/ceagesp-
fica-em-3o-lugar-em-concurso-internacional/> Acesso: 30 nov.

8
CEAGESP. CEAGESP é o terceiro maior entreposto de
alimentos do mundo. Visto em: <
http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,ceagesp-e-o-
terceiro-maior-entreposto-de-alimentos-do-mundo,179663e>
Acesso: 30 nov.

CEAGESP. Banco CEAGESP de Alimentos beneficia mais de


60 mil pessoas em abril. Visto em:
<http://www.ceagesp.gov.br/comunicacao/noticias/banco-
ceagesp-de-alimentos-beneficia-mais-de-60-mil-pessoas-em-
abril/> Acesso: 18 nov.

CRUZ. L. P., Brasil desperdiça 41 mil toneladas de alimento por


ano, diz entidade. Visto em:
<http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2016-
06/brasil-desperdica-40-mil-toneladas-de-alimento-por-dia-diz-
entidade> Acesso em: 29 nov.

HOFFMANN, Rodolfo. Pobreza, insegurança alimentar e


desnutrição no Brasil. Estudos avançados, v. 9, n. 24, p. 159-
172, 1995. Visto em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-
40141995000200007&script=sci_arttext&tlng=es> Acesso: 29
nov.

PRADO, Caio. A questão agrária no Brasil. Brasiliense, 1979.

9
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de janeiro:
Record, v. 174, p. 25, 2000.

SANTOS, M.; SILVEIRA, M. L. Globalização e Geografia: a


compartimentação do espaço. Caderno Prudentino de geografia,
n. 18, p. 5-17, 1996.

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