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PRÁTICAS ALIMENTARES DOS FREQUENTADORES DO RESTAURANTE

“FINA FLOR” NO CENTRO DE FORTALEZA-CE

Arita Xavier da Silva*

Ellen de Fátima Ferreira Belém**

Maria Daniele Siqueira***

RESUMO

O presente trabalho busca analisar os hábitos alimentares dos transeuntes do


centro comercial da cidade de Fortaleza. O restaurante self-service “Fina Flor”,
situado ao lado de dois locais de intensa circulação diária, o Passeio Público e a
Santa Casa de Misericórdia, chama a atenção devido a sua variedade de pratos
e do seu público, à primeira vista, majoritariamente feminino. Com uma
metodologia quantitativa e qualitativa, através de uma observação participante,
da aplicação de questionários com questões fechadas e abertas, e de conversas
informais com os frequentadores e trabalhadores do restaurante, busca-se traçar
o perfil sócio econômico do público do local, além de identificar as motivações
desse público na hora da escolha do restaurante e dos alimentos a serem
consumidos.

Palavras-chave: Práticas alimentares. Universo hospitalar. Centro de Fortaleza.

*
Graduanda do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará. E-mail:
aritaxavier@hotmail.com
**
Graduanda do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará. E-mail:
ellenbelemcs@gmail.com
***
Graduanda do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará. E-mail:
danielessr@hotmail.com
1. INTRODUÇÃO

A alimentação além de ser uma necessidade básica para o


desenvolvimento do ser humano e das sociedades traz consigo questões de
caráter cultural, religioso, político, econômico, social entre outras. Assim, a
escolha do alimento que se ingere diz muito da cultura, dos hábitos, dos
costumes, da época e da própria condição social de cada indivíduo ou grupo de
pessoas. A comida é uma expressão cultural cujos aspectos envolvem relações
e interações sociais.

O ato de comer é um processo de ambiguidade entre a natureza e a


cultura. Fischler (1995) citado por Santos (2008) em O corpo, o comer e a
comida, dirá que nós nos tornamos o que comemos. Esse para o autor é um
processo de incorporação, um ato que funda em sua experiência a identidade
individual e coletiva, o pertencimento a uma cultura ou grupo seja por suas
especificidades alimentares ou diferença em relação aos outros. Neste sentido,
Poulain (2003) diz que as práticas alimentares adquirem não apenas o sentido
de forma de expressão ou afirmação de identidades sociais, mas parte do
processo de construção da identidade. Assim também podemos associar o ato
de comer com a morte, a destruição do que comemos fazendo parte do eu e
também relacionada ao poder.

Cada indivíduo estabelece seus próprios critérios sobre alimentação. Na


esfera individual as decisões sobre o que comer, onde e com quem, recaem
sobre o indivíduo estabelecendo uma construção de identidade. A identidade
alimentar não está fora do indivíduo, mas no próprio indivíduo. As várias práticas
estão relacionadas ao estilo de vida que o mesmo adotar. Assim também como
essas serão caracterizadas pela classe social correspondente ao próprio. O
gosto e a liberdade são distintos em relação às necessidades. Pierre Bourdieu
(1979) em A distinção, fala sobre as diferenças entre os alimentos nas classes
sociais. A classe popular vai costumar se alimentar de alimentos mais “pesados”,
gordurosos e baratos, diferente das classes mais elevadas. Quanto maior a
hierarquia social, maior a possibilidade das refeições serem “leves”, ligeiras, sem
gorduras e fáceis de digerir. A necessidade procura alimentos que garantam a
reprodução da força de trabalho com menor custo. Não há uma liberdade em si,
pois não há outra opção do que o gosto pela necessidade, forçado pelas
condições de existência.

É importante destacar que a alimentação faz parte do corpo, uma


temática relevante no campo das ciências sociais. Santos (2008), em seu livro O
corpo, o comer e a comida, no capítulo 1, salienta que apesar do corpo ser um
estudo recorrente dentro das ciências sociais, as práticas alimentares não têm
tido muita relevância. A ênfase alimentar acontece em estudos sobre o culto ao
corpo, principalmente nas discussões sobre fenômenos como anorexia e
bulimia. Contudo ainda são estudos não aprofundados em suas especialidades.
Vale ressaltar também que em alguns países esses estudos se fazem mais
presentes. Na França a temática a partir da década de 70 foi objeto central dos
estudos de alguns autores, como por exemplo, Annie Hubert, Jean-Pierre
Poulain, Igor de Garine, entre outros. As questões centrais de estudo desses
autores são as transformações e permanências das práticas alimentares no
mundo contemporâneo, assim como também a interiorização das normas e
regras alimentares. Para esses autores a relação entre seres humanos e o
alimento é complexa e vai além do biológico. No contexto brasileiro, como lembra
Santos (2008), as ciências sociais e a alimentação não possuem um vínculo
recente, mas autores nos meados do século XX como Gilberto Freyre, José de
Castro e Luís da Câmara Cascudo já produziam sobre o tema. Temáticas como
representações sociais, modificações dos hábitos alimentares e tabus
alimentares, fizeram parte do contexto científico, principalmente no estudo de
comunidades, apesar de serem estudos periféricos.

A partir dos anos de 1990, a temática de segurança alimentar se torna


de grande relevância principalmente em decorrência do crescimento da
obesidade e sobrepeso em todas as classes sociais no Brasil. Vale ressaltar que
esses trabalhos chamam atenção principalmente pela inserção dos mesmos em
pesquisas qualitativas, abrindo espaço para outras abordagens sobre o ato de
comer. Assim a questão alimentar surge como um problema científico no país,
levantando questões relacionadas às pluralidades dos padrões corporais e
étnico-raciais no contexto brasileiro, suas interações com fenômenos modernos
de culto ao corpo e populações ainda afetadas pela privação de alimentos.

Partindo de uma observação participante no Centro de Fortaleza, com o


intuito de verificar as práticas alimentares dos que frequentam o mesmo,
identifica-se um restaurante self-service e de lanches chamado "Fina Flor",
situado na rua Dr. João Moreira, no Centro da cidade de Fortaleza. O restaurante
é bem próximo de um dos pontos turísticos mais famosos da cidade: a Praça dos
Mártires, popularmente conhecida como Passeio Público. Ao seu lado fica o
prédio da Santa Casa da Misericórdia, o primeiro hospital fundado na cidade e
que hoje faz parte do patrimônio histórico-cultural de Fortaleza. No entorno do
restaurante, também é notável a presença de clínicas de saúde a preços
populares com atendimento que vai de procedimentos simples como exames de
sangue até cirurgias. Os frequentadores desse universo hospitalar se alimentam
nos restaurantes do entorno, principalmente no nosso objeto de estudo, o
restaurante “Fina Flor”.

Através de conversas informais percebemos que grande parte desses


frequentadores vinham do interior cearense e estavam realizando exames nas
clínicas ou em algum tipo de tratamento na Santa Casa de Misericórdia. Desta
forma, o interesse por esse tema justifica-se pela necessidade do
aprofundamento em questões relacionadas às práticas alimentares, bem como
a classe, as preferências e restrições alimentares com base na saúde dos
frequentadores do restaurante citado. Compreender as particularidades que
envolvem esses frequentadores é também compreender os que vivem
mudanças sociais por conta da saúde e do bem-estar social.

2. DESENVOLVIMENTO

O restaurante “Fina Flor”, escolhido como objeto dessa pesquisa, tem várias
especificidades. O ambiente dispõe de um pequeno espaço com mesas e
cadeiras, com capacidade para até 30 clientes. O cardápio é variado, constituído
de sopas, caldos, salgados fritos e assados, salada de frutas, bolos, vitaminas,
refrigerantes, além do buffet com peixes, carnes, verduras, cereais e legumes,
que fica disponível a partir das dez horas da manhã e vai até às 14h, para aqueles
que preferem fazer uma refeição mais completa.
O buffet faz parte da oferta principal do restaurante: o self-service sem peso.
Ao contrário dos outros restaurantes do entorno, que cobram geralmente R$3,50
a cada 100 gramas no self-service por quilo, o restaurante “Fina Flor” cobra o
valor de R$10,00 pelo acesso ao buffet, onde o cliente pode colocar toda a
comida disponível à vontade, com restrição apenas das carnes e peixes, que um
funcionário serve ao cliente, que pode escolher até duas opções. Para evitar
desperdício, o restaurante cobra uma taxa no valor de R$3,00 aos clientes que
deixarem muita comida no prato.
Num primeiro momento de observação do restaurante, é fácil perceber que o
público do local é majoritariamente feminino. Percebe-se também uma grande
presença de pessoas com máscaras hospitalares e idade mais avançada. Uma
de nossas hipóteses iniciais sobre o público do restaurante, era a de que
trabalhadores formais e informais do centro da cidade – principalmente os
trabalhadores da área da saúde - seriam possivelmente a maioria dos clientes
assíduos do restaurante, devido ao preço acessível e variedade de opções.
Porém, através da aplicação dos questionários, pudemos comprovar que a
maioria do público é feminino (Tabela 1), e que grande parte dos clientes ali
presentes frequentam o restaurante por se encontrarem no centro para
tratamento na Santa Casa, atendimento nas clínicas populares ou
acompanhamento de pacientes (Tabela 2).

Tabela 1 – Sexo dos clientes do restaurante “Fina Flor”


Tabela 2 – Público do universo hospitalar

((idade, pessoas do interior))

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOURDIEU, P. Poder simbólico. Rio de Janeiro: Difel, Bertrand Brasil; 1989.

SANTOS, L.A.S. In: O corpo, o comer e a comida: um estudo sobre as práticas


corporais e alimentares no mundo contemporânea [online]. Salvador: EDUFBA,
2008, pp. 321- 329. ISBN 978-85-232-1170-7. Avaible from SciELO Books <
http://books.scielo.org