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Joaquim Eduardo Oliveira

ALBERTO
CAEIRO,
REVISITED
(1990)

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Joaquim Eduardo Oliveira

ALBERTO
CAEIRO,
REVISITED
(1990)

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I.
Dissipam-se-me as dúvidas. O meu lugar é ainda aqui.
O meu lugar físico, diga-se. Porque, quanto ao resto,
ainda não sei se aqui pertence. Porque me olho e
estou, de facto, neste lugar. Aqui. Sou nos sítios onde
me sento, no chão que piso, nos toques nas pedras a
que procedo. Sou, e não me engano. Sou, e não me
iludo de que este é o meu lugar.
A minha estratégia é respirar. Encher-me de chão, de
paisagens, mundanidades. O meu caminho é aceitar
que vivo, e participar. A minha fábula é o que, aos
meus olhos, acontece. Essas histórias são a minha
história. Oiço a sua música e respiro com ela. Porque
os acordes todos estão dentro de mim, e eu neles.
Porque há horizontes que construo fora de mim. Fora
de mim porque são meus. Tudo. Tudo é meu enquanto
vivo. Mas só enquanto isso acontecer. Porque depois...
depois não sei mais. Vou emprestar o meu corpo à
terra, e dela, talvez, fazer nascer um fruto da minha
casta. Igual a tantos outros. Mas isso, só quando
estiver cansado. Ainda bebo água com sofreguidão
quando há calor. E, se isso acontece, é porque ainda
não valeu a pena morrer. O corpo o dirá, um dia.

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II.
Ainda ontem, abri a janela e reparei no mundo. Quão
belo é o mundo. Tem árvores. E floresta, quando as
árvores são muitas. Tem ondas. E mar, quando as
ondas são muitas. Tem vento. E tempestades, quando
é muito o vento. Tudo isto é o mundo, todas as pedras!
Tantas pedras, incontáveis, num espaço tão pequeno
(aos olhos do Sol). O Sol é muito maior. Mas não tem
pedras. Nem, tampouco, vento. Mas não interessa. O
que importa é que é Sol, e que está vivo, e que tem
uma luz radiante e quasiterna – quase eterna, leia-se.
Amo o Sol como amo as coisas da terra. Digo as
coisas, e não as pessoas. Que fique bem claro. Amo as
coisas e pronto, não se fala mais nisso. Mas há coisas
de que não gosto. O pôr do Sol. Porque não é dia todos
os dias? Esta é a coisa de que não gosto. Também
gosto só um poucochinho do frio. Porque as mãos não
podem andar cá fora, em liberdade. Ficam frias e
depois não consigo escrever.
Agora não está frio e por isso as minhas mãos
escrevem mais depressa enquanto o Sol não se vai
embora por hoje. Não queria que o Sol se fosse
embora. Eu também não me vou embora dele.

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III.
Apetece-me ler um pouco. Ler é bom. Porque há lá,
dentro dos livros, mundos novos e sóis que nunca se
põem. Podemos ler de noite e ver o Sol. Isso é muito
bom. Aquece-nos a cara quando ficamos com sono. É.
Eu não queria dizer mais nada. Mas as palavras
nascem de uma vontade que não conheço e que talvez
me domine, sem que o saiba. Não conheço essa
vontade e não a domino, da mesma forma que o
mundo não domina o vento e o calor. Senão conhecia-
se a si próprio.
Ainda me apetece ler um bocadinho. Mas penso
naquelas pessoas a quem vai apetecer ler aquilo que
agora escrevo – o que eu escrevo – um dia. Penso nelas
e só nelas. Porque não sou egoísta. E porque gosto de
escrever, assim como gosto das coisas e gosto só um
poucochinho do pôr do Sol. O pôr do Sol é vadio.
Nunca tem casa. Não se aninha numa montanha
porquê? Também deve ter frio, como as minhas mãos.
Talvez por ser muito grande. Tudo o que é grande
deveria sentir frio, porque o vento bate mais e a chuva
molha em maior quantidade. Eu não quero ser grande.
Não gosto muito do frio. As minhas mãos não falam,
mas eu sei que têm mais frio do que eu. Às vezes
gostava de ser as minhas mãos e andar lá, por cima
dos braços esticados, e mergulhar nas arcas velhas

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quando se anda à procura de um cobertor mais macio
que nos tape à noite. Elas conhecem um mundo
diferente do meu. Elas, as minhas mãos, sentem a
textura das coisas quando tocam só de leve, quase
sem sentir. Conhecem outras mãos de outros corpos
quando há um aperto de mão. Ah. Elas conhecem
tanta coisa. Que eu nem imagino. Imaginar é bom. Por
isso eu gosto das minhas mãos. Se não fosse por isso
eu gostava delas na mesma.

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IV.
Alguém me fala do tempo. E eu pergunto: «O que é o
tempo?». O tempo deve ser algo de bom, porque toda a
gente fala dele. E deve ter qualquer coisa por dentro
para poder funcionar. O tempo funciona? Talvez
quando faz Sol ao meio-dia seja tempo de o tempo ser
alguma coisa. Não sei. Não sei muitas coisas e, por
isso, pergunto. E as pessoas, às vezes, chateiam-se e
dizem que eu sou muito ingénuo e que não digo coisa
com coisa. Se eu não dissesse nada, o que diriam elas
de mim? Chamar-me-iam «pedra». Sim. Porque as
pedras não dizem nada. São apenas pedras. E isso já é
muito. E eu, sou apenas eu.
Não compreendo os homens. Andam como loucos
(porque é assim que os loucos andam, como os
homens), sempre a olhar para uma máquina que
trazem no pulso. E, quando olham, dizem «estou
atrasado», «já é tarde», «já não tenho tempo». Mas o que
é ter tempo? Há alguém que tenha o tempo? Se
houver, tenho que lhe falar e dizer que isto assim não
pode ser; que as pessoas não andam de boa saúde,
porque não têm tempo; ou então digo-lhe que o
distribua melhor por todas elas. Assim ninguém se
queixará de ter falta de tempo. Sim, assim seria
melhor. E as pessoas já poderiam olhar à sua volta

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sem ter tempo a perder. As pessoas seriam mais
pessoas.
Digam-me se esse alguém existe e eu vou lá falar com
ele. Urgentemente.

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V.
Como um pão. E é como se toda a seiva da terra
entrasse por mim adentro. A minha saliva é a água da
chuva convertida em espuma. Os meus dentes são
arados que sulcam a terra e lhe põem o húmus à flor
da pele. O meu adubo é o apetite que tenho e faz
crescer, na vontade, a fome de outro pão na mesma
boca.

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VI.
De que me servem as teorias senão para pensar um
pouco e esquecer depois? De que me serve o
sofrimento senão para sofrer um pouco e, depois,
esquecer que sofri? De que me serve tudo se de tudo
me esqueço? Para que existo? Não sei. E não me
lembro.

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VII.
O céu é tão grande, visto aqui de baixo. E é maior se
nos deitarmos na relva e olharmos assim para ele.
Aquele azul todo quase nos cai em cima... Mas se
fecharmos os olhos o mundo que vemos é maior.
Abarca tudo. Tudo o que se não vê está lá, dentro dos
olhos. Vê-se o que se vê e vê-se o que não se pode ver.
Se abrirmos os nossos olhos é diferente. Vemos o céu e
as árvores que estão à nossa frente, mas não se vê
mais nada. Os olhos não vêem para lá daquela
montanha ou dentro daquele rio. Por tudo isso, fecho
os olhos e vejo tudo o que quero. Sou o comandante do
mundo, o mágico que faz nascer das mãos tudo o que
deseja. Ser mágico é desejar. Quem deseja é mágico,
porque imagina e tem, nesse momento, o fruto das
coisas nas suas mãos. Até Deus se pode ter entre os
dedos se se desejar. Mas é difícil. Porque talvez ele não
queira ser perturbado do seu sono eterno. Deus gosta,
afinal, de estar sozinho. Mas não consegue porque está
em todo o lado e, por isso, tem sempre companhia.
Nem que seja a da luz ou a do silêncio ou a do escuro.
Nunca está só, o seu corpo santo. Talvez por isso ele
seja assim, triste. E talvez por isso ele se zangue com o
vento ou com a chuva que não o deixam descansar em
silêncio. E pune os homens. Os homens têm culpa de
tudo. São eles que o irritam quando escarnecem dele e

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dizem que não existe. Quando não têm fé mas têm
medo. Deus não os compreende. Eu também não os
compreendo: se dizem que não há Deus, então porque
têm medo? Não percebo os homens mesmo nada. São
criaturas muito estranhas. E recolhidas. Não voam,
como as aves, por si. Se o tentam, caem. E isso dói às
vezes. Deus não cai porque é ave. Deus não tem medo.
Medo de quê e de quem, se ele é tudo e todos? Deus
voa. Os homens também deveriam voar, porque são
Deus. Mas, porque não voam, têm, às vezes, alguma
inveja dele, e, por isso, escarnecem e dizem palavras
menos próprias e agem como crianças pequenas:
sujam as mãos e depois não limpam a lama que lhes
fica entranhada na pele. Os homens pecam e depois
sentem-se mal. Mas continuam a pecar. Não percebo.
Não percebo mesmo nada.

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VIII.
Nunca pedi uma resposta. Nem mesmo para as
perguntas que dizem ser mais complicadas. Porque é
difícil responder a qualquer pergunta. É difícil dizer o
que quer que seja, assim como é difícil respirar. Sim, é
árduo respirar quando a questão que nos colocam
range no nosso corpo e trememos com medo de errar a
solução.
Respirar custa-me os olhos da cara, porque me esforço
por respirar bem. E os olhos choram quando soluço.
Gosto de beber água quando tenho sede. A água dá
resposta à minha secura. Por isso, beber água é bom,
como é bom responder bem às perguntas que nos
fazem. A água cumpre o seu destino e a sede morre.
Porque será que se mata a sede?

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IX.
Estou mergulhado no ruído. Há pessoas à minha volta
que me falam muito, alto. E fico confuso porque elas
não se entendem. Argumentam com palavras rápidas e
depois ficam desiludidas se não são compreendidas.
Eu não me importo se as pessoas não me
compreendem. Compreendo-me. E isso chega. Fico
claro comigo quando as minhas palavras são claras e
me dizem coisas que eu já esperava. É muito mais
difícil falar com os outros. As minhas palavras não são
as mesmas que as deles. Não há eco. Não há nada. E
as pessoas ficam chateadas e tristes (ou zangadas).
Mas não as percebo, porque deveriam ficar alegres
com as palavras que a si se dirigem. Às vezes falo
sozinho. Isso é bom porque não há discussões. Penso
uma coisa e isso basta-me. Pronto. Fico bem mesmo
sem as palavras dos outros.

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X.
Faço pequenas pausas nos meus milagres.
Sou ainda jovem e procuro, sem fugir, todas as coisas
que não conheço e penso escuras; todas as pequenas
formas. Os movimentos da mão. Enfim, tudo por que
uma adolescência tardia se admira.

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XI.
A simplicidade das coisas é o que elas são. Uma coisa
é uma coisa. Se alguém houver que diga que ela é
muitas coisas, então, é porque essa coisa já não é ela
própria. Porque é outras.

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XII.
A montanha é alta, porque eu estou cá, na planície
nua, a olhar para ela, lá em cima. Mas se eu subir até
ao cimo da montanha alta, então, sou eu a quem a
montanha alta diz: «Tu és alto porque eu estou a olhar
para ti, aí em cima».
Mas, como lá em cima está frio e eu não posso
escrever porque fico com as mãos engadanhadas,
prefiro ser baixo e sentar-me na planície nua e olhar a
montanha, que não tem frio, lá no alto. E fechar os
olhos, pensando estar lá em cima mesmo não estando.
E ser pedra com veios de sangue verde e ter pêlos de
musgo voltados para o sul a ver o Sol nascer e
esquecer que vai ficar noite depois do pôr do Sol. E
sentir a música do vento soprando nos meus pequenos
cristais de quartzo.
Afago as pernas e os braços e penso ser montanha cá
em baixo. Pequena. Mas montanha. Sem tentar
explicar como é que isso acontece. Mas acho que isso
não será necessário porque me basta estar aqui, e ser
montanha. Nada mais: a montanha em mim e eu nela.
Se Deus não me fez montanha a culpa é dele. Também
erram, afinal, os entes divinos. Mas eu não me
importo, porque se quiser ser montanha sê-lo-ei
mesmo que chova. Ou que faça Sol.

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XIII.
O meu sono é igual ao das flores que baixam a corola e
ficam à espera do dia de amanhã. O meu sono é
quando os meus olhos ganham um peso estranho e eu
não consigo ver nada. O meu sono acontece a
qualquer hora. Porque eu não sei ler o relógio. Dizem
que há tempo naquela máquina mínima. Digo mínima
porque uma árvore é grande e uma montanha é mais
pequena que o céu durante o dia.
O meu sono é esfregar a cara e bocejar dizendo:
«Tenho sono». E mais nada.
Mas invejo as árvores que, quando dormem, não se
deitam nem tampouco se tapam de cobertores. A sua
cama é a terra, os seus lençóis são as nuvens e, por
almofada, têm o resto da paisagem. Prefiro o sono das
árvores. Por isso durmo ao relento. Para que o meu
corpo crie raízes na terra, nem que sejam só umas
ervas marcando o lugar do meu repouso.
O meu sono. O meu sono é acordar e ver que o mundo
está na mesma, depois de dormir. Cada vez mais na
mesma. Porque o Inverno ainda acontece em Janeiro e
a água ainda corre nos ribeiros. E, porque, quando
tenho sede, bebo água da mesma fonte onde bebi
ontem e todos os dias.
Os olhos pesam-me. É o tempo do sono.

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XIV.
Estou sentado a uma mesa. Qualquer. Há livros de
economia que alguém escreveu com o propósito de
dizer que a economia existe. Encontro nestes livros a
utilidade do que é inútil. Porque tudo existe e se
manifesta e é, sendo, existindo.
Se eu quiser contactar com a economia, não a encontro
nos livros, encontro-a no tempo que as árvores levam a
crescer, no tempo em que há sede e nos momentos em
que prefiro olhar a paisagem e consumi-la em vez de a
pensar por palavras. Esta é a minha economia, a
minha ciência dos olhos, o porquê do meu respirar
mais apressado quando me admiro com as coisas do
Mundo.
Pudera eu ser todas as coisas e fazer-me reflectir no
espaço por meio delas; renascer o meu corpo e florir
sob todos os orvalhos de todas as primaveras.
Se as minhas palavras fossem verdes, eu seria o
mundo. Todo da minha cor. O verde das palavras. O
Mundo verde das frases e dos gestos.
Mas a minha posse é não ter nada. O que tenho é o
que sou e o que quero ser. Eu e mais ninguém. E esta
cor ninguém a quer e ninguém a dá. Por isso, por tudo
isso, prefiro as palavras sem cor, que ninguém as
conheça, sequer o nome. Nem o corpo, as formas ou a
tonalidade do cabelo. Prefiro, sem mais, que o espaço

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ocupado das coisas tenha a cor que eu quiser delas e,
querendo-as assim, e aceitando-as, que eu seja o que
elas desejarem de mim. Sem mais.

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XV.
Quando o silêncio é verdadeiro, o Mundo vibra. O
silêncio faz rodar o Mundo. Estremecer. Fá-lo girar,
vezes que ninguém conta, à volta dos astros e de si
próprio. O Universo está cheio de silêncio. A
pigmentação escura do astro sulcado de estrelas é a
verdadeira cor desse silêncio, visceral destino das
nuvens no outro lado do dia, história fantástica na
órbita rente dos planetas em volta de todos os sóis que
se não vêem, mas que estão lá, aqui, neste Universo
que também é o das trevas, do mar e dos homens.
O silêncio veste-se do dia. Por isso não se vê quando é
olhado.
O espaço sem som é o mundo despido de frente para a
Lua, nua também, e sem pudor. Tem vergonha quem
ouve os ruídos e sente neles música transparente
revelando o seu corpo desprotegido frente ao espaço,
cara a cara com as coisas simples.
Respirar o silêncio é estar calado, é ver crescer uma
árvore ou uma manhã e acompanhar o movimento dos
ramos e da névoa sem respirar nem fechar os olhos.
Ver as coisas crescer é ser as coisas que crescem, é ser
como elas, silenciar o corpo e evoluir.
Levantar-se é crescer em silêncio. É respirar sem suor
nem esforço. Levantar-se é ser simples como o Sol: dar

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luz e ser feliz com isso. Sim. Ser feliz. Ser feliz em
silêncio, sem vento nem palavras.
E estar parado?
Estar parado também é ser Sol, e dar luz por isso.
Porque ser-se Sol é não se mexer. É ser uma pedra no
campo à espera da chuva do inverno, e ser uma pedra
no campo à espera do calor de Julho ou de uma mão
que nos lance até mais além, para dentro da água
daquele ribeiro, ali ao fundo. Ser parado é ser pedra
submersa neste ribeiro ou naquele mar que os livros
me ensinam. É ser a geografia toda, sendo pedra, é ser
todas as palavras, sendo letra.
O silêncio é isto: uma mão que se fecha esperando os
dedos dormentes, para se abrir, de novo, projectando
os dígitos todos à luz do dia em que isso aconteceu.

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XVI.
Se conhecer fosse acreditar eu não creria em nada.
O simples olhar as coisas, o ver, não me basta para
conhecer. Devo tocar, cheirar, e tudo o resto, com a
intenção única de chegar mais perto. É preciso
contactar as células dos objectos e dos factos para os
possuir verdadeiramente. E suar ao fazer isso,
retirando de nós o que está a mais e recebendo o que
emana dessas coisas.
Conhecer é ler as verrugas na cara. Misturar os
sabores, os tons, as texturas plurais do mundo,
interiorizar as fobias e a calmaquieta da paisagem – o
vento forte e o silêncio da noite.
Há naquela pedra mundos que nunca saberei. Fico
triste por isso. Mas revigoro porque conheço outras
pedras, que já vi, que já cheirei, que já invadi com os
meus sentidos todos, com tudo o que é eu neste corpo.
E corrijo-me se a pedra me ensina que me devo corrigir
porque é preciso. E revolto-me se a pedra me diz que
me revolte.
É bom aprender das coisas o que elas têm para
ensinar. É ser-se coisa também. É ser-se ensinado
sem regras de homens – leis – incompletos e falíveis.
Uma pedra não falha nem se engana. Porque o seu
corpo de quartzo é a lição pura que nos fala dos dias e
das noites, das chuvas e dos estios, das aves e das

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marés. Uma pedra é um pequeno mundo onde a areia
mais pequena corresponde à mais alta montanha do
universo. Se essa pedra é o Universo todo, eu serei pó,
do pó desfeito dela.

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XVII.
Sou o definidor das substâncias que desconheço, e de
todas as outras. Digo: «Isto é assim». E «assim» é, para
mim, tudo o que digo assim ser. Se assim não fosse
como me definiria?
Não posso fingir o que me digo. Ou me invento as
definições e, então, a ficção é real, ou tomo verdadeira
consciência da verdade daquilo que me digo.
Crio, invento, ideologias verosímeis para mim. Onde as
vou buscar? Encontro-as no único local possível: nos
impulsos desta Mãe Natureza que me envolve. A mim e
a ti. Aqui não há a transcendência das coisas. O que é
é-o simplesmente, sem argumentos nem falsas
estruturas. Uma flor é uma flor, e essa é a ideologia
que emana. Um riacho não deixa de ser ele próprio se
o idealizarmos como um grande rio. A coisa ideal que
ele poderia ser existiria somente se nos iludíssemos. E,
ao fazê-lo, pensaríamos uma coisa que está na nossa
cabeça e em mais lugar nenhum.
Idealizar é pôr tudo dentro da cabeça e transformar,
dentro de nós, o mundo verdadeiro em ficção. Idealizar
é mentir à Natureza. É quase pecar. É pensar que – de
um mundo já de si perfeito – há um mundo ou mais
mundos melhores. É estar insatisfeito com o que se
tem, com o muito que se tem, mesmo que esse muito
seja apenas uma fome de mundos novos.

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XVIII.
Persisto em tentar encontrar a palavra que justifique o
destino dos homens e das coisas. Porque me inquieta o
facto de as árvores não andarem ou de os cães não
terem outra linguagem que não o latido ou os homens
não terem outro remédio senão esquecer ou lembrar
ou rir ou chorar ou ter frio e medo ao mesmo tempo.
Persisto, talvez, porque sou homem e sofro de medos
vários, de sede, de calor ou de frio, de cansaço e
pasmo. De saudade de ver tudo o que não vejo neste
momento.
Em resposta à minha inquietude tenho a porta
fechada de uma mente que é humana e, por isso,
limitada. É a porta das dúvidas contínuas que se não
abre nunca. A porta dos mistérios insolúveis,
guardados em segredo nas arcas de deus, nunca e
sempre misericordioso.
A insaciável vontade de respostas faz nascer em nós a
fé nelas. Se não fosse por isso, muito difícil seria a
minha existência.
Pergunto-me: «Saber uma árvore não será sabê-las
todas? Quem olha para ela não vê tronco, ramos folhas
e pássaros nelas? Haverá, assim sendo, sempre, um
tronco em cada árvore, ramos, folhas e pássaros que
nelas fazem ninho». Com isto fico satisfeito. Mas, o que

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mais me perturba é a vinda da noite. Quando ela cai
sobre os meus olhos ela confunde não só as árvores
com as árvores mas as árvores com a montanha, com
as flores, as pedras, os caminhos, os ribeiros. Então,
quando é noite, tudo é árvores, tudo é flores e riacho
ao mesmo tempo. Não posso olhar o escuro e dizer: «Ali
está a árvore com folhas, tronco, pássaros». Não posso.
Porque não vejo.
O melhor que faço é deitar-me e viver a luz nos meus
sonhos. Que são sempre de dia. Aí vejo tudo, e fico
satisfeito com o mundo e com as coisas.

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XIX.
Notavelmente mais velho. Notavelmente outro. Eis a
face pronunciadora de um tempo que passou. As
rugas sob os olhos, na testa leve, no maxilar quebrado
pela fala e o sorriso.
O cabelo solto e branco, penteado par trás como à
procura de um passado sem nome, sem espaço.
Ah, estas rugas. Todo este tempo. Tanto. Tanto o
tempo que há. Nem sei quanto. Ninguém jamais
saberá.
Cansam-se os olhos e morrem as saudades da
saudade. O tempo sobre mim, a chuva, os anos, as
memórias. Todos os invernos. Tanto frio que passei e
passo ainda. Ainda sinto, ao menos, o frio e o calor.
Ou será a minha pele que se contrai sem que eu dê
por isso?
Verte-se o silêncio sobre os olhos com o peso dos anos
e dos dias. Serei ainda eu quem fala aqui?

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XX.
Reparo que tudo aqui é quieto. Mas esta quietude, este
estar parado das coisas, é vivo e crescente.
O cheiro da terra, o seu húmus quebrado pelo arado, é
a transpiração verde do mundo que vemos ao sair à
rua.
Os montes, as colinas, tudo sua uma felicidade calma.
Eu respiro também, na companhia dos bichos que me
olham.
A minha mão está submersa no bolso do casaco e não
vê as maravilhas que eu vejo. E sinto pena. Porque
andar vestido é cegar o resto do meu corpo. É ocultar o
mundo à minha pele... Só a minha cara é nua, e os
meus pés. São eles quem melhor conhece as cores e a
textura das pedras sobre a terra sulcada. São eles os
comandantes do corpo sobre o mundo. O meu rumo é
o deles.
A minha mão envergonha-se das unhas e lava-se em
águas de torneiras. Quando toca, foge. E fico
envergonhado do mundo porque ele não foge de mim,
embora às vezes esteja longe do lugar onde eu queria
estar.

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XXI.
Oiço o sino dos homens a esta hora do dia. É o Sol que
chama ou são os homens que se envergonham de
acordar com o Sol a pino?
Porque ainda é cedo, talvez, o sino toca pouco e
desiste. Cada badalada é uma membrana do tempo já
vivido e por viver. E o seu eco na montanha são as
horas diferentes, são as horas das colinas.
A que horas se levantam as pedras?

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XXII.
Agora que o calor está do outro lado do mundo já
posso acender uma fogueira. Já faz sentido. Se não
tivesse sentido acendia-a na mesma. Porque não é
preciso ser razoável e acender uma fogueira só porque
o acto de a acender tem sentido. O sentido que há nas
coisas é aquele que nós quisermos que haja. Se eu
abrir uma janela sem ter razão para isso, é-me igual.
Para que eu abra a janela basta-me abri-la. Depois
entra o vento, o calor, o frio, a neve, a luz, o que seja,
sem que isso seja consequência de uma razão
qualquer. se o vento entrar por esta janela aberta e eu
sentir frio, não o posso fazer reconsiderar, porque era
assim que tinha de acontecer.
Que culpa tem o vento do frio que eu sinta quando
abro a janela? Se eu tenho frio é porque assim tinha
de ser. E o vento não tem culpa de eu ficar constipado
por isso.

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XXIII.
O que é a totalidade? O ser-se todo, sem falhas nem
ranhuras? O que é a metafísica, para além de ser
aquilo que se desconhece?
A totalidade é um rio, com largo caudal depois das
chuvas, que vai unir-se, num só corpo, com o mar
inacabável. A água doce profanando a água salina do
oceano, grande, perturbado, não por isso,, com ondas
largas dançando infinitamente.
O sexo das águas é a totalidade?
Totalidade de quê?
Ah! Esqueci-me que as palavras foram inventadas
pelos homens...

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XXIV.
Há música em todas as coisas suficiente para tornar
inútil a música dos homens.
É preferível escutar o vento, a chuva esbatendo-se
contra o solo já húmido, formando poças; pingos de
chuva, plurais e únicos. O som da água volante,
volátil. O som todo.
Para quê guitarras e bandolins? Para quê o fado, se o
fado é o «destino» orgânico dos seres?, Para quê o
ritmo – os tambores – se o tempo existe fora deles?, se
todo o compasso é natural?
Compasso binário!...
Para quê a divisão do tempo, como dividi-lo, se é
indivisível? – porque sem princípio, porque sem fim.
A música dos homens é a imperfeição pura. E tudo o
que é imperfeitamente puro não tem remédio... é
perfeito na sua incompletude.
À Natureza deve pertencer a tarefa única e sublime da
junção inteira e perfeita dos sons.

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XXV.
Pudera eu o mar nas minhas mãos. Quisera eu, ao
menos, sonhá-lo. Todo. Invejo-o porque não cabe em
mim, ao contrário do meu corpo que cabe todo nele.
Submerso e submisso. Húmido humilde, este corpo.
O oceano-mar é muita água para os meus olhos. É
muito espaço. Demasiado, para que eu nele me
aventure.
Desmaio, de tanta água. Perco o fôlego e o rumo. A
minha caravela deambula saboreada por ondas de
todas as marés. As suas velas afagam esta atmosfera
marítima e azul onde me perco. Os meus olhos
afundam-se na noite do mar como as mãos se
afundam nos bolsos do casaco marinheiro.
A minha hora é uma âncora recortando as águas,
assente num fundo de areia e conchas. O Sol aqui não
borbulha, apenas remete as sombras para mais fundo,
em baixo, ondulantes e intocáveis.
O corpo dos homens é na terra barrenta, assente,
sedenta, arada e parturiente das árvores e das flores.
Afago a cara e acordo. Do meu sonho uma lembrança:
peixes nadando em «terra» de ninguém.

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XXVI.
Porque não fingir um outro espaço?, um outro riso?,
um outro ar que se respire? Porque não um
alheamento do mundo objectivo que se vive todos os
dias?
Um estado transitório no corpo, uma outra alma e um
outro céu.
Os organismos fáceis revigoram na amálgama de
dúvidas. Os outros..., os outros surpreendem-se com a
luz e morrem sob um sol qualquer que descobriram.
Reescrevo uma esperança perdida. E nela me encontro
deficientemente renovado. Perco a minha alma, pois
não sinto fluir já o vento que senti quando era minha.
O corpo sem a alma é como os olhos sem a luz ou os
pés sem o caminho. Anda à deriva e perde o norte das
estrelas. Ganha outro, enganoso, que lhe faz mal à
calma do espírito.
É assim o meu corpo nesta hora: destinado à deriva
eterna, caso a alma não lhe flua aos olhos.
Fico impaciente com a demora e, enquanto espero,
faço das palavras o meu caminho bussolado. Os meus
sentidos lêem na folha branca as frases escritas ainda
não decalcadas. Mas é mais dos olhos que me queixo,
é mais desta paisagem em falta que me lembro, destas
ervas e destes passos de areia quando a terra é quase
mar, de tudo o que não vejo e sinto que me falta.

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Quando dou por mim com as mãos escorrendo as
faces, e me lembro daquilo já perdido, revogo o desejo
de uma sede perdida e morta. Porque a sede que matei
não é a mesma fome de água que tive ontem. Foi sede
passageira que esqueci e, agora submersa num
organismo sem alma, de nada lhe vale o prazer que fez
sentir a quem dela se saciou.

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XXVII.
Há horas em que a minha consciência não me
pertence. Não sou seu dono. Sou, sim, seu comandado
obediente e subjugado. Quando assim é não sou eu
quem por mim age, que por mim se movimenta. Entro
num transe seduzido e sem retorno.
É quando a noite se faz ao mundo e se ouvem uivos de
lobos mansos ao longe, ecoando na gândara sob o
corpo da lua.
Estar vivo, nesses momentos, é não sentir que se vive,
é respirar sem consciência disso, é estar sentado
diante de uma parede e imaginar o mundo em
movimento nela. Estar vivo, então, é ter os olhos
fechados e ver perfeitamente. Perfeitamente. Assim
como quem olha e vê.
Estar vivo é ser constante como as pedras, móvel como
as águas, seguro como as árvores ou as montanhas, e
despejar a mente de tudo o resto, em equilíbrio.

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XXVIII.
Amargamente me apercebo da hora tardia em que
acordei. Até então vivi em sonhos. No paraíso de uma
consciência liberta. Prazeres agora findos.
Já não há lugar para vícios inoportunos e excessivos.
Revejo a minha cara no espelho verdadeiro do mundo:
este sou eu!, o ilusiondado, o visionário acordado fora
de tempo, o sonhador-poeta enovelado nas palavras
mansas e arredias de tudo o que é vil e humanamente
insustentável.
Não mereço nada do que tenho. Sanguessuga desde
que nasci, até agora. Os meus olhos, agora (tarde) bem
abertos, nada enxergam. A cor que vêem nas coisas é
só sua, ficção ocular e frágil, mesmo assim.
Desfaleço. Ninguém me acode.
Há muito que não estava só.

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XXIX.
Porque se inventou o oriente? e as estações e o norte?
Não nos basta, não basta aos homens, ver o Sol nascer
e orientarmos os passos por onde elevai. É sempre
preciso inventar coisas humanas!
Prefiro nada saber dos números a saber alguma coisa
deles. Não preciso deles e eles não precisam de quem
eu sou.
Os meus números e letras são a quantidade de pétalas
que vejo nesta flor ou as muitas ervas admiro
espalhadas por este outeiro abaixo.
Onde vivo não há número de porta. Não há morada.
Porque a haveria de ter? Moro aqui, e quem me
conhece sabe onde vivo sem precisar conhecer uma
morada. É inútil, como quase tudo.
Moro onde me deito: nos descampados, nos vales,
sobre a relva rasteira. A minha morada é onde eu
estou, onde sei que existo e preciso estar.
Sou deste e d’outros mundos.
Quem me quiser escrever mande uma carta para
aquela estrela. Estarei lá, como estarei em todas as
outras ao mesmo tempo.
Aquela casita branca é simplesmente o lugar onde me
deito mais. É onde acordo dos meus sonhos. Estar
nela é estar no mundo. Porque aquela casita branca é
o mundo, pintado e com janelas.

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XXX.
Esqueço-me, por vezes, que as palavras não dizem
tudo o que queria delas e acredito, sem querer, naquilo
que dizem.
Preferia ser árvore e não saber para que serve a
linguagem, e ser só árvore simples.
Tudo na Natureza (que não é dos homens) sobrevive no
silêncio. As palavras são o artifício que tornou os
homens hipócritas e estúpidos. Se uma flor vive sem
palavras, sendo só flor e mais nada, também o homem
deveria viver em silêncio e escutar por ele todas as
mensagens paridas da Natureza.

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XXXI.
Se tudo o que existe estivesse à frente dos meus olhos
então eu conheceria o mundo todo. Mas, como tal não
acontece, e eu só vejo as poucas coisas que vejo,
então, prefiro imaginá-las. Posso olhar este pequeno
riacho e pensar todos os pequenos riachos do mundo.
E, com isto, todas as outras coisas.
Por isso posso dizer que tudo está à frente dos meus
olhos, porque tudo é em mim nesse momento. Sou
todas as coisas. Mas não sou Deus. Ser Deus é não
pensar em nada, porque já se pensou tudo.
Eu sou o oposto ao divino. Tudo o que vejo é novo aos
meus olhos. Cada sopro de ar é um novo vento, cada
gota de água caída das nuvens é chuva nova que
nunca conheci. Por isso espero as chuvas de Inverno e
quero reconhecer nelas a novidade: porque é outra
chuva e eu sou outro que ontem não fui e que no
próximo Inverno não serei.

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XXXII.
Viver é estar acordado e sentir que o Sol se mexe por
cima da minha cabeça. Sentir que a chuva molha de
maneira diferente a terra, chão que piso.
Viver é pensar que se tem fome ou sede e sentir a fome
e a sede como um relógio orgânico dentro do corpo.
Viver é saber que se está acordado mesmo quando
fecharmos os olhos e dormimos sentindo a macieza de
uma almofada amparando a cabeça.
Estar vivo é a forma mais fácil de viver. Mesmo em
sonhos.

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XXXIII.
Penso a imensidade toda. Penso o silêncio. Oiço o calar
de tudo o que é calado. Encontro-me com a totalidade,
com um universo que não fala comigo, com a
imensidão calada das coisas. E fico só. Nesse momento
encontro a minha face outra, o meu eu que não
conheço e não desvendo, porque calado, também ele.
Fico ainda mais só. Todo. Eu. Só, eu todo. E
adormeço. E finjo ser então calado também no meu
sono. Finjo-me enquanto não sei quem sou ou o que
desvendo.
A imensidão toda que pensei perde-se nesse pecado de
fingir, nessa fronteira entre um bem e um mal que não
conheço, mas que sinto, paredes meias com a minha
consciência do que é bem para mim e do que é mal
para comigo.
Transfiguro-me no sonho e sinto um cheiro inválido e
perene de nevoeiros oníricos que me fazem submisso
de si. Perco-me, também, por isso. Porque não sei o
caminho de volta. Porque não sei se é labirinto ou
terra plana e limpa esta que piso. Porque já não sei
qual o momento de acordar.

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XXXIV.
Sinto cansados os olhos. Reparo que me transportam
para outros lugares, para outros escuros. Uma ligeira
névoa. Cansaço. Um comprimido. Brota de mim esta
insónia vigilante que não me larga. Que me fere,
deixando-me vivo pela noite adentro. Olhos abertos,
mente fechada, procuro num livro qualquer e embalo
do sono, um seu engano, uma rasteira.
Sento-me sobre a indiferença dos móveis. Apoio mãos
e braços sobre coisas que não sei profundamente.
Tacteio o espaço em volta sem respostas. Só o silêncio
me acompanha, perturbado de vento e ruídos vários
vindos da fundura de movimentos de mim
desconhecidos. Sim. Desconhecidos de mim. E outras
coisas.
Levanto-me e vagueio pelo quarto procurando uma
brisa que saia de mim. Nada encontro. Não sou o mar
nem as árvores, reconheço. Mas sei que o mar e as
árvores e tudo o que se move e faz ruído estão em
mim. Porque sou eles, sendo eu. E porque eles são eu,
enquanto eles.
Confundo-me a cada passo e a cada gesto que profiro.
Os meus olhos vagueiam por um sono elástico que não
cede, que não verga à força de cansaço. Estão contra
mim estes meus olhos. E reconheço já uma cegueira
futura que invadirá os meus dias de senilidade. E

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tenho medo. Horas estranhas para pensar no futuro.
Amanhã, talvez fosse melhor.

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XXXV.
A água onde lavo as mãos está fria. Um arrepio todo
me percorre, e estremeço pensando nas aves que
dormem ao relento. E que se lavam nas águas das
ribeiras e que não se arrepiam por isso. Furioso, levo
as mãos à cara e todo me encharco. Quase desfaleço
com tremores. Sinto inveja dos pássaros e resigno-me
à condição de homem com que nasci.
Oiço uma orquestra de flautas e o arrepio volta. O
sopro, o vento, a água fria que escorre dos beiços de
quem sopra. E o arrepio.

Joaquim Eduardo Oliveira


Covilhã

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