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UFRJ - Curso de História

LIPHIS - Identidades, Relações Raciais


e Ensino de História da América
Professor Juliana Beatriz
Aluna Luciana Lourenço Gomes

Uma discussão sobre o ensino de história, em nossa opinião, deve conter, mesmo que
brevemente, uma explanação sobre o que chamamos de história. Adotamos a perspectiva de Bloch
de que a história é a ciência que estuda os homens no tempo1. O passado, seja próximo ou
longínquo, é inacessível de forma direta. Os historiadores, portanto, exploram os mais diversos
vestígios deixados pelos homens do passado, não para reconstruir tempos idos, mas para buscar
respostas às perguntas que o presente faz. Para que este tipo de análise seja completo e eficiente é
necessário que haja certo grau de abstração e uma das principais ferramentas da elaboração do
conhecimento histórico é o conceito. Não apreendemos diretamente os acontecimentos conforme
se deram, mas os apreendemos por meio de conceitos2, que são, grosso modo, resumos prontos de
trama3, ou seja, ao usar termos como guerra, por exemplo, evocamos uma série de ideias: sabe-se
que houve um conflito, provavelmente armado, que havia pelo menos dois lados na disputa, entre
outras coisas. É necessário apontar que o uso de conceitos requer uma série de cuidados e sutilezas,
que não detalharemos aqui por fugir ao escopo deste trabalho.
A proposta deste trabalho é discutir como o domínio do uso de conceitos – em geral,
mas mais especificamente daqueles que tangem as questões de identidade, raça, etnia etc. –
influencia o ensino da história da América. O primeiro ponto, acreditamos, é a própria formação
do profissional de ensino de história, já que, “o domínio dos conhecimentos históricos a ensinar
pelo professor não é condição suficiente para garantir a aprendizagem dos alunos, embora dele não
se possa prescindir, absolutamente”4. É preciso deixar claro que partimos de nossa experiência
pessoal com o curso de história da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), avaliado como
um dos melhores do Brasil, e não de um estudo sistematizado, quando dizemos que os estudantes
universitários de história não sabem, em sua maioria, trabalhar com conceitos, principalmente
porque não são ensinados a fazê-lo. O resultado disso é que noções advindas do senso comum, das
palavras por elas mesmas em seu significado estrito, permeiam o entendimento de tais estudantes.

1
BLOCH, Marc. Apologia da História ou o Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 55.
2
MARROU, Henri-Irenée. O uso do conceito. In:___________. Sobre o conhecimento histórico. Tradução: Roberto
Cortes de Lacerda. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978, p. 119. (pp. 118-134)
3
VEYNE, Paul. Teorias, tipos e conceitos. In:________. Como se escreve a História. Brasília: EDUNB, 1982, p. 100.
(pp. 97-115)
4
CAIMI, Flávia Eloísa. Por que os alunos (não) aprendem História? Reflexões sobre ensino, aprendizagem e formação
de professores de História. Revista Tempo, Ed. UFF, nº 21, vol. II, pp. 17-32, 2006. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/tem/v11n21/v11n21a03>. Acesso em: 14 dez 2018.

1
É importante não só explicitar o que entendemos de dado conceito quando o
mobilizamos e onde queremos chegar quando o aplicamos quando estamos escrevendo um texto,
mas também, ao máximo possível, entender como o autor percorreu esses mesmos passos em
textos que lemos. Em outras palavras, qual a perspectiva está por trás das escolhas presentes no
texto e, até mesmo, eventuais omissões, deixando claro que não se trata de impor um juízo de valor
ao texto, mas sim uma interpretação mais completa do ponto de vista historiográfico, até porque
conceitos são polissêmicos e não-unívocos.
Dito isso, existem alguns conceitos-chave que não podem deixar de ser considerados
quando refletimos sobre a história da América, tendo em vista tanto os processos históricos
vivenciados quanto o próprio presente. É sabido que quando os europeus aportaram nas Américas
encontraram uma série de nativos, que se organizavam em sociedades de tipos diversos e que, a
partir do século XVI, foram introduzidos escravos negros em números que variaram, tanto em
relação ao momento quanto em relação ao lugar, de sorte que as sociedades americanas são
mestiças, não só biologicamente, mas também culturalmente, já que o contato entre as pessoas
dessas três origens não foi nem unilateral, imposição absoluta de padrões europeus, nem
homogêneo.
A própria noção de mestiçagem não existiria sem uma ideia prévia de raça. O conceito
5
de raça começou a ser utilizado na zoologia e na botânica para indicar uma classificação das
espécies de plantas e animais. Na Idade Média passou a designar uma linhagem familiar, pessoas
que compartilham um ancestral comum. Somente a partir do século XVII que passou a ser usado
de forma próxima ao uso moderno, ou seja, “para classificar a diversidade humana em grupos
fisicamente contrastados”6 e, pouco tempo depois, dar legitimidade às relações de dominação entre
classes sociais. O conceito de raça e a consequente classificação da diversidade humana em
categorias teria, talvez, ajudado a operacionalizar o pensamento, porém acabou por levar à
hierarquização e ao racismo, sobre o qual falaremos melhor adiante.
Qualquer tipo de classificação demanda o estabelecimento de critérios objetivos de
diferença e semelhança, no século XVIII a cor da pele passou a ser considerada como um critério
basilar na divisão entre as raças e a partir de então ficou estabelecida a divisão, presente até hoje
no imaginário coletivo e na produção científica, entre a raça branca, a raça negra e a raça
amarela. Desde então a biologia já comprovou que a raça não é uma realidade científica, se
tratando de um conceito cientificamente inoperante utilizado apenas para explicar a diversidade
humana, assim como separá-la em categorias estanque; reiteramos: cientificamente, as raças não
existem. Essas características pseudobiológicas foram extrapoladas para a geração de uma lista de
traços – psicológicos, morais, intelectuais etc. –, alguns desejáveis e outros não, atribuídos a cada
raça.

5
A maior parte das definições apresentadas aqui foram baseadas no texto: MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem
conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. In: BRANDÃO, André Augusto P. (Org.), Cadernos Penesb
5. Niterói: EdUFF, 2004. Para evitar citações em excesso somente será indicado quando se tratar de outro autor ou
citação direta.
6
Ibidem.

2
A partir daí podemos começar a definir o racismo, que é uma ideologia – pois oculta
dentro da ideia de raças as relações de poder intrínsecas nela, além de apresentar como categoria
biológica uma categoria que é, na verdade, etnosemântica7 – que propõe uma divisão da
humanidade em grupos denominados raças, com base em características físicas hereditárias,
principalmente a cor da pele, mas também outros elementos, tais como fenótipos, sendo estas, por
sua vez, suporte para a presunção de uma série de atributos psicológicos, morais, intelectuais,
culturais e estéticos que se situam numa escala de valores desiguais. Para simplificar, é a crença
na existência de raças que estariam “naturalmente” hierarquizadas pela relação inerente entre o
físico e o moral; o que estabelece um determinismo biológico e a divisão em raça superior, a
branca, e raças inferiores.
A noção de racismo estritamente baseada em elementos biológicos se transforma, por
ausência de comprovação científica, conforme já mencionado; a essencialização somático-
biológica é substituída por uma histórico-cultural, dando espaço para uma classificação baseada
na etnia. A etnia é um grupo de pessoas que, com base na realidade histórica ou em mitos e lendas,
compartilham um ancestral comum e, também, com variações, uma língua em comum, uma mesma
religião, uma mesma cultura e moram no mesmo espaço geográfico. A etnicidade é “uma forma
de organização social, baseada na atribuição categorial que classifica as pessoas em função de sua
origem suposta, que se acha validada na interação social pela ativação de signos culturais
socialmente diferenciadores”8. Esses conceitos carregam consigo uma série de novos problemas,
já que a etnia não é estática. Os pesquisadores que estudam relações raciais ou interétnicas ainda
recorrem mais ao conceito de raça, não como realidade biológica, mas para explicar o racismo, já
que este ainda se baseia na crença da existência de raças “naturalmente” hierarquizadas.
O racismo segue sendo praticado na América, nosso interesse precípuo, assim como
em outras partes, sem necessidade do uso direto de raça, mas baseado em etnia, diferença cultural
ou identidade cultural. As vítimas continuam sendo as mesmas. Os termos mudaram, mas o
esquema ideológico de dominação segue perene. Tanto o conceito de raça quanto o de etnia são
hoje ideologicamente manipulados.
Apesar dos negros terem sido trazidos para o Novo Mundo como escravos, ou seja,
tendo sido considerados como propriedade, eles eram seres humanos e agiam de forma senciente
e articulada e havia uma imensa variedade de contatos entre senhores e escravos, até mesmo para
a execução das tarefas designadas pelos primeiros aos últimos, algumas das quais exigiam pouco
contato, enquanto outras demandavam contato social frequente. Mesmo que o poder estivesse nas
mãos dos senhores, ele não podia ser empregado sem levar em conta a reação que poderia gerar
numa sociedade formada por uma maioria escrava e negra e uma minoria livre e branca. O açoite

7
Etnosemântica, grosso modo, é o sistema de classificação ou taxonomia, ou seja, classificação sistemática de
diferentes coisas em categorias, empregado por dada sociedade.
8
POUTIGNAT, Philippe e STREIFF-FENART, Jocelyne. O domínio da etnicidade: as questões chave. In: -
__________. Teorias da etnicidade. Seguido de Grupos Étnicos e suas Fronteiras de Fredrik Barth. Tradução de Élcio
Fernandes. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998, p. 141. (pp. 141-172.)

3
e tudo que ele implica foi, indubitavelmente, a forma mais eficiente de manutenção do poder, mas
não a única.9
Esses encontros também geraram relações de natureza sexual, em geral entre homens
brancos e livres e mulheres negras escravas e marcadas pela violência e pelo estupro, embora, nos
dois casos, nem sempre. Essas relações acabaram por gerar filhos mestiços que, mesmo quando
nascidos escravos, acabaram por formar uma ponte entre esses dois mundos, um branco, europeu
e livre e outro negro, africano e escravizado, uma ponte entre mundos profundamente desiguais.
Inclusive, a forma como essas pessoas eram tratadas variava muito de lugar para lugar de acordo
com necessidades e projetos locais, características demográficas entre outras razões, em alguns
pontos da América sequer chegou a se formar um grupo caracterizado como mestiço e os frutos
desse tipo de união eram considerados como negros10.
A mestiçagem, de forma análoga à raça, é uma racionalização e uma justificação de
desigualdades e fronteiras sociais entre grupos humanos. Ela está também relacionada a um ideal
de pureza, que deve ser mantida pelo grupo social hegemônico, logo se alicerça nas relações de
poder e não na biologia. Tanto que, amiúde, só são denominados mestiços aqueles nascidos da
união entre branco e negro, ou entre branco e indígena: entre europeus e seus “outros”. Dentro da
mestiçagem vem embutido o desejo ou o projeto do embranquecimento, ou seja, da diluição
progressiva do número de negros.11
Gostaríamos de comentar, por fim, que o ensino de história das Américas, seja em
nível escolar, seja em nível universitário, guardadas as devidas proporções, não deve se furtar de
propor esse tipo de discussão. O panorama que apresentamos brevemente foi historicamente
construído e todos os partícipes tiveram possibilidade de algum grau de agência. Ademais,
sofremos ainda hoje os resultados negativos da disseminação das ideias apresentadas. Essas ideias
geram, até hoje, frutos nocivos à construção de sociedades igualitárias e abertas às diferenças.

9
MINTZ, Sidney W., PRICE, Richard. Contato e fluxo socioculturais nas sociedades escravocratas. In:
___________. O nascimento da cultura afro-americana: uma perspectiva antropológica. Rio de Janeiro:
Pallas/Universidade Candido Mendes, 2003, pp. 45-48. (43-58)
10
DAFLON, Verônica Tostes. Mestiçagem, cores e “raças”. In: ___________. Tão longe, tão perto: Identidades,
discriminação e estereótipos de pretos e pardos no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad X, 2017, pp. 25, 26.
11
Ibidem, p. 27 e 33.