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CONSTRUIR UMA CASA DE TRONCOS

Cabana construída por Richard Proenneke em Lake Clark National Park , Alaska. (Foto Wikipédia)
Sempre gostei daquelas casinhas de troncos que os colonos construíam nas florestas e pradarias do Oeste
Americano. Sonhei fazer uma para mim, mas apenas consegui fazer uma pequena barraca para arrumações, que
entretanto já ruiu porque, na verdade, foi muito mal concebida. Foi feita com os toros na vertical, apoiados na terra e,
inevitavelmente, a parte em contacto com a humidade do terreno apodreceu e a estrutura acabou toda por ruir
durante uma tempestade.
Estava feita com toros de eucalipto e vale a pena lembrar que esse tipo de madeira é muito resistente e durável, mas
para isso convém que esteja sempre seca, porque em contacto com humidade e, nomeadamente exposta à chuva,
apodrece facilmente e se estiver com casca ainda é pior, pois esta absorve a água e é também um “albergue” eficaz
para o bicho da madeira.

Interior de uma cabana de madeira recriada em Conner Prairie museu de história viva em Fishers ,
Indiana.

No entanto, para construir uma casa, ou melhor uma cabana de troncos, se ela for feita nas devidas condições, o
eucalipto é capaz de ser, em termos de preço/qualidade, uma boa opção (falando em termos de floresta portuguesa)
tendo no entanto o inconveniente de ser uma madeira muito dura e de rachar quando ocorre a secagem. Há também
os toros de pinho tratado que são muito duráveis, mesmo à chuva, a avaliar pela quantidade de cercas que são
construídas com essa madeira, incluindo as vedações com rede existentes ao longo das novas estradas e até os
postes das linhas telefónicas que se mantêm de pé ao longo dos anos. Esse material seria o mais indicado, se não
tivesse o inconveniente de ficar muito dispendioso e, talvez por isso, não se vejam muitas casas construídas com
troncos desses. Aliás, Portugal não tem tradição em construções deste tipo, não existindo ou sendo muito poucas as
casas construídas com troncos de qualquer espécie. Para além do eucalipto e do pinho há também outras árvores
que existem em abundância e poderiam servir, como os cedros ou talvez os choupos que são, estes últimos, uma
madeira muito macia e leve, mas em termos de durabilidade não serão tão aconselháveis.

Mas uma pequenina casa de campo ou mesmo uma cabana numa propriedade rural, ainda que seja só para servir de
arrecadação, para quem tenha um propriedade com eucaliptos ou mesmo para quem tenha de os comprar, pode ser
uma boa opção em termos ecológicos, com uma aparência rústica e agradável, e também em termos de
durabilidade. De salientar que os toros de eucalipto se trabalham bem em verde e se forem descascados logo a
seguir ao corte ficam com uma óptima aparência lisa e o descasque realiza-se mais facilmente.

Acabei de encontrar um livro com indicações sobre a forma de construir uma casa de troncos, que passo a
descrever:

Não existem segredos para se construir uma casa de troncos. É preciso apenas que você tenha boas condições
físicas, paciência e alguma habilidade.

Se você pretende construir a sua própria casa de troncos, a primeira coisa que terá de fazer é escolher um terreno
adequado, de preferência plano. Saiba ainda que uma casa deste tipo necessita de um alicerce melhor e maior do
que o necessário para uma casa convencional, porque uma parede de troncos, normalmente, tem um peso quatro
vezes superior a uma parede de tijolos. O alicerce para uma casa de troncos, segundo as especificações técnicas,
tem de estar pelo menos a 70 cm de profundidade. Para isto escave uma vala no chão com uma largura de 30 cm, e
comprimento de sete metros por lado, formando assim a base quadrada da casa desejada. A seguir, coloque nas
laterais da vala pranchas de madeira de modo que fiquem 30 cm acima do nível do chão (fig. 1). Não se esqueça de
deixar a abertura onde se colocará a porta. Para a correta fixação das pranchas, faça um apoio bem firme a elas para
que quando for enchê-las de concreto não caiam com a pressão que o concreto exercerá. O apoio poderá ser feito
com os próprios troncos que você utilizará na construção da casa. As pranchas só poderão ser retiradas após três
dias de concretagem. Para começar a montar os troncos espere no mínimo uma semana, até que o concreto esteja
totalmente seco. A lage servirá de apoio aos troncos e também evitará a humidade que o solo naturalmente possui.

Depois da laje seca faça o piso de cimento e areia (na proporção de um para três) e aplique o Vedacit em todo ele,
para não subir a humidade.

Para uma cabana pequena são necessários 75 troncos, cada qual com oito metros de comprimento. Se quiser utilize
o Pinus elliottii, uma madeira resistente e oleosa, que evita rachaduras. Corte os troncos na época da seca, quando
eles absorvem menos líquido, e na lua minguante. Na construção você poderá usar árvores descascadas ou não. Isto
ficará a seu critério. Caso resolva descascá-las, bata nos troncos com uma marreta ou pedaço de pau e depois puxe
a casca.

A primeira etapa da construção da cabana em si é a colocação dos troncos. Para o início da colocação, os dois
primeiros deverão ser cortados ao meio, para que a base tenha uma altura uniforme. Os demais serão inteiros, como
mostra a figura 2. As duas primeiras rodadas serão colocadas manualmente, mas considerando-se que estes troncos
pesam mais de 200 quilos cada um, o trabalho manual a cada rodada vai-se tornado mais difícil. Então você pode
colocar o restante dos troncos com a ajuda de um guindaste.
Mas para que você tenha chegado à etapa da construção em si, teve de antes preparar os troncos. O melhor método
de trabalho é o conhecido como full scribe e, para utilizá-lo, é preciso ter um bom stock de troncos. Perceba que
alguns dos troncos têm o diâmetro maior numa extremidade do que na outra. Isto significa que existe um vão entre
uma ponta e outra. Você pode perfeitamente usar troncos deste tipo desde que se preencham as falhas entre eles
com reboco (misture serragem fina com cola branca e um pouco de cimento). Mas não faça isso se a construção for
bem encaixada no estilo escandinavo, onde os troncos se encaixam perfeitamente uns sobre os outros. O ideal é que
os troncos não diminuam mais do que alguns centímetros de ponta a ponta. Mas se você não dispuser de troncos
suficientemente bons não desanime e meta mãos à obra.

Com os troncos à disposição vamos cortar a madeira para o procedimento full scribe. Em primeiro lugar você
necessita de um nivelador, que consiste num aparelho com níveis de bolha para o perfeito alinhamento. Para
começar centralize o tronco que você cortará de forma que ele fique acima e paralelo ao tronco no qual ele deverá
encaixar-se. Depois descubra a diferença máxima entre os dois troncos e marque este intervalo. Agora, segundo o
instrumento com a bolha de nível horizontal, trace o comprimento em todo o tronco. Faça então uma cavidade em
cada extremidade do tronco, seguindo a figura três. Em seguida você terá de cortar duas reentrâncias circulares,
perpendiculares ao tronco (para acomodar os troncos perpendiculares a ele) e também um rebaixo nos troncos para
que um se acomode ao outro, de maneira que eles tenham o apoio um do outro (fig. 4). Para formar as reentrâncias
circulares use uma serra com alta velocidade. Serre primeiro no sentido vertical até ao ponto mais baixo da
reentrância e depois corte em direção a este ponto cada um dos lados. Isto será suficiente para que você consiga
eliminar a maior parte da madeira.

Agora, faça uma série de cortes verticais, cada um deles com apenas a largura da serra, trabalhando do centro em
direcção às laterais. Use a ponta da barra e deixe ele funcionar um pouco para conseguir que a curva fique com o
formato de uma tigela. Quando terminar você deve ser capaz de colocar uma extremidade lisa sobre a reentrância e
ainda enfiar os dedos debaixo dela.

Finalmente você pode alisar melhor os lados, aplicando a serra de um lado para o outro a 90 graus em relação à
curva, até que o corte fique tão liso como se tivesse sido feito com um formão. Você certamente levará mais ou
menos uma hora para conseguir a sua primeira reentrância, mas depois de ter um pouco de prática, será capaz de
fazer isto em minutos.

Com este método de construção, você não terá de esperar para mudar. Você pode mudar-se imediatamente, mas
terá de calcular 10 cm por pé (altura) no sentido vertical para a acomodação da madeira. Isso significa que você terá
de deixar abertura sobre todas as portas e janelas para compensar o facto de que tudo irá acomodar um pouco. Faça
molduras em volta das aberturas de janelas ou portas. Essas molduras podem ter uma espessura de até 4 cm, e a
mesma largura dos troncos. Faça o tamanho das folhas de janelas ou portas de modo a passarem internamente
pelas molduras. Instale internamente as dobradiças, entre as folhas e as molduras, escolhendo o lado em que as
folhas deverão abrir. Com as folhas acomodadas, isto é, fechadas na posição em que irão ficar, calcule a medida
onde se deve colocar os batentes. Esses batentes serão o ponto onde as janelas ou portas encostarão para estarem
fechadas. Para as janelas use sarrafos (2x2 cm). Nas molduras das portas utilize pranchas (2x5cm). Utilize três
dobradiças nas portas e não esqueça de colocar a fechadura ou trinco. Você pode dar um acabamento em todas as
molduras fixando ripas 1X10cm) no limite dos troncos.

Você ainda terá de tomar cuidado com os encanamentos. Na verdade não instale qualquer tipo de encanamento
pelas suas paredes de troncos, porque as paredes se movimentam, mas os canos não fazem isso. Além disso se
você colocar canos dentro destas paredes e alguma rebentar um dia, como é que você vai fazer para consertar o
estrago? Sendo assim, os encanamentos têm de ser presos por ganchos e não amarrados aos troncos (fig. 6).

O próximo passo é a colocação do teto. Para se ter o perfeito caimento das telhas Eternit, centralize o quadro da
casa e levante dois sarrafos finos, de 30 cm de altura, em cada lado da casa. A seguir coloque outro sarrafo entre
eles que servirá de apoio ao teto. Coloque então dois sarrafos no final do caimento para que as telhas tenham um
bom caimento. As telhas serão colocadas fixadas por pregos inoxidáveis próprios.

Os fios elétricos devem ser conduzidos não por dentro das toras mas por condutores plásticos, desses que se usam
nas construções convencionais e, assim como os encanamentos, devem ser presos por ganchos.
As fendas deixadas entre um tronco e outro devem ser vedadas com uma mistura de serragem fina com cola branca
e mais um pouco de cimento. Faça uma inspeção e, se em alguns lugares a vedação das fendas está afrouxando,
você tem de aplicar uma segunda camada desta mistura para reparar as falhas.

Por fim, aplique um conservante para madeira, de nome Prema, vendido comercialmente. A seguir misture água mais
sais de Ulma e aplique com uma brocha em toda a casa, também para a conservação. Depois de bem seco, aplique
verniz de acetato de ponivinila. Se você conseguir evitar a ação dos insetos, do sol e da água, a sua casa irá durar
para sempre.

Referência bibliográfica:
ALZUGARAY, Domingo; ALZUGARAY, Cátia. Copyright Editora Três Ltda. São Paulo, Brasil. VIDA, Um Guia de Auto-
Suficiência.

O artigo aponta para a construção de uma casa quadrada com cerca de 49 m2. Fala em troncos com 8 m de
comprimento, mas não especifica o diâmetro embora adiante que serão necessários cerca de 75 troncos, o que
significa que esse diâmetro será de, aproximadamente 20cm. Também diz que uma parede de troncos terá um peso
superior em 4 vezes ao peso de uma parede de tijolos e que para isso o alicerce terá de ser maior do que para as
paredes de alvenaria.

Não duvidando dessa teoria parece-me, porém um pouco exagerados esses cálculos entre a relação de peso parede
de troncos/parede de tijolos, até porque o peso da parede de troncos vai depender muito do diâmetro dos toros que
se vai utilizar e também do tipo de árvore que os vai fornecer. De qualquer maneira, qualquer alicerce que se
construa será sempre melhor que peque por demasia do que por defeito.

Como se trata de um artigo de um livro brasileiro, os materiais indicados para a construção, como os troncos, as
telhas ou os produtos para conservação, provavelmente não existirão em Portugal com aquela designação, mas
existem outros equivalentes que poderão ser usados.

O autor menciona também que os troncos poderão ou não ser descascados, ficando isso ao critério de cada um. Eu,
neste caso, optaria por descascar os troncos, não só porque a casa ficará com melhor aspeto, como depois a
aplicação dos produtos conservantes será mais fácil de efetuar, ficando estes com maior eficácia uma vez que mais
facilmente penetrarão nos troncos.

Numa construção deste tipo e, mesmo não tendo eu experiência neste tipo de trabalho, parece-me lógico pensar que
a preparação dos troncos deverá ser um trabalho cuidadoso e de paciência, para que estes fiquem bem encaixados
entre si, de modo a que depois não fiquem espaços muito grandes para vedar e para que a construção fique o mais
perfeita possível, pois, como é evidente, uma coisa é olhar para as gravuras onde os toros estão desenhados na
perfeição, outra bem diferente é a realidade, e essa realidade diz-nos que será difícil conseguir que todos os toros
sejam direitos e com um diâmetro totalmente igual e perfeito, para além de que algumas madeiras têm tendência
para entortar com a secagem.

Em pequenas propriedades rurais é comum verem-se pequenas casas em tijolo ou em blocos de cimento, que
servem apenas como abrigo e apoio ao trabalho lá efetuado e também para guardar ferramentas ou até alguns
produtos agrícolas. Esses edifícios destoam do ambiente que os envolve e uma cabana de troncos bem construída
poderia fundir-se melhor na paisagem e até ser de construção mais económica.

Encontrei um site inglês que ensina também a construir uma casa de troncos. A forma e o método
são basicamente os mesmos que já foram descritos, mas contém algumas ilustrações que podem ser de grande
ajuda:
Ilustrações de Harry Schaare. Popular Mechanics December 1983.

http://history.howstuffworks.com/american-history/history-of-the-log-cabin.htm
A construção de cabanas de troncos (Log Cabins) teve a sua origem na Escandinávia e Europa Oriental. As
estruturas de toros foram primeiro, provavelmente, construídas no norte da Europa, na Idade do Bronze (cerca
de 3.500 aC). Quando os europeus se começaram a estabelecer na América do Norte levaram consigo a tradição de
usar os troncos para construir casas, celeiros e outras dependências que usavam nos países escandinavos.

As cabanas de madeira têm sido um símbolo da origem humilde de muitos políticos americanos, desde o início do
século XIX. Sete presidentes dos Estados Unidos, entre os quais Abraham Lincoln, Andrew Jackson e James
Buchanan, nasceram em cabanas de madeira. A sua origem humilde não foi obstáculo ao sucesso e mais tarde
outros candidatos, em campanhas eleitorais, usaram a Log Cabin como símbolo para mostrarem aos americanos que
também eles eram homens do povo.

Atualização em 12 de Outubro de 2014

Entretanto, já construí a minha própria cabana de troncos. Uma mini-cabana sobre a qual já escrevi alguns artigos
neste blog. Deixo três pequenos filmes sobre o trabalho que, espero, possam contribuir também para ajudar quem
decidir aventurar-se numa construção do género e o link para o artigo sobre a descrição textual do
trabalho: construção passo a passo de uma cabana de troncos. Devo realçar que todas as fotos e também os vídeos
foram captados em modo de"selfie", tendo utilizado um tripé improvisado, para o efeito.
CONSTRUÇÃO PASSO A PASSO DE UMA CABANA DE TRONCOS

Para a boa construção de uma casa de troncos, ou mesmo para uma pequena cabana como é o caso tratado neste artigo, é essencial ter um stock de toros
de boa qualidade, ou pelo menos que sejam todos de tamanho aproximado e direitos, sendo de toda a conveniência que o seu diâmetro não seja inferior
a 15 cm. Não foi o caso desta construção, pois as árvores utilizadas, na sua maioria, eram muito tortas e os troncos tinham diâmetros que variavam entre os
dez e os vinte e cinco centímetros. Isto obrigou a um acréscimo de trabalho no assentamento e preparação dos troncos, porque estes têm obrigatoriamente
de ficar com duas faces direitas para que não fiquem com espaços muito grandes entre eles para tapar. Mais tarde, durante o assentamento, cheguei a
pensar ter sido um erro optar por aquele tipo de construção sem ter troncos em quantidade e qualidades suficientes. As dificuldades acabaram por ser
superadas, mas a cabana teve de ficar mais pequena do que inicialmente previra.
1 - Corte, transporte e descasque dos troncos

As árvores que tinha disponíveis não eram muitas e estavam num terreno de difícil acesso, que estava invadido por silvas. Devido a isso foi muito difícil a
sua extração e transporte para o local da construção. Para o transporte foi essencial a minha moto-enxada que tem sido, aliás, um equipamento
imprescindível na execução dos meus projetos caseiros.
O baixo custo da construção que incluía, como é lógico, fazer todo o trabalho com as próprias mãos, era um meta imprescindível e por isso não podia
adquirir outras árvores ou troncos, mas quem pensar em fazer uma construção idêntica será melhor precaver-se com um stock de troncos grande em
quantidade e qualidade.
A maior parte dos troncos que utilizei são de pinho, mas a cabana também tem à mistura eucaliptos, tábuas provenientes de um castanheiro e algumas
carvalhas, estas últimas muito pouco indicadas para o trabalho devido à irregularidade dos troncos. Pela experiência adquirida fiquei com a noção de que os
troncos de eucalipto são os melhores para este tipo de trabalho, pois descascam-se facilmente sem ficarem com resíduos de casca e são muito fáceis de
trabalhar em verde, para além de se encontrarem eucaliptos de troncos bem direitos. Para além disso o eucalipto, ao enxuto, é muito durável e até poderá
dispensar qualquer tipo de produto para conservação. O único inconveniente parece-me ser o facto de racharem com alguma facilidade, mas creio que isso
pode ser evitado, em parte, se as árvores forem cortadas na altura certa e não estiverem expostas ao sol durante a secagem.
Depois de já ter reunido um número de troncos que julgava suficiente para a construção da cabana, dei início ao seu descasque. Os pinheiros não são muito
fáceis de descascar e ficam sempre alguns restos de pele agarrados ao tronco e daí aquelas manchas acastanhadas com que eles ficaram. Na minha
opinião é impensável executar um projeto destes sem descascar os toros pois a casca irá servir de alojamento aos parasitas da madeira e impedir a
aplicação de um produto conservante o que irá, inevitavelmente, abreviar o seu apodrecimento.
2 - Serragem das tábuas para a porta
A porta da minha cabana de troncos irá, com toda a certeza, durar muito para além das paredes. O que garante isso é o facto de ter sido feita com madeira
de castanheiro e de ficar abrigada pelo telhado da pequena varanda. O castanho é das madeiras mais duráveis que existem, o que não se pode dizer do
pinho com que foram feitas as paredes.
O meu terreno tinha um castanheiro cujo diâmetro, na base do tronco, ultrapassava os 30 cm. Como não dava castanhas, ou estas eram de muito má
qualidade, achei que seria muito mais útil transformado em tábuas. Como precisava da madeira para a porta e também de uma mesa resolvi cortá-lo para o
transformar em tábuas. Estavamos no início do mês de Julho e essa não era a melhor altura cortar árvores. Na serração disseram-me que os troncos não
podiam ser serrados já porque a madeira iria estalar toda e que teriam de ficar a secar à sombra durante vários meses.
Perante isto, resolvi arriscar e serrar eu próprio o castanheiro, utilizando a motosserra. Nunca tinha feito um trabalho desse tipo e as tábuas do primeiro
tronco que serrei ficaram muito irregulares, mas com a prática melhorei e acabei por obter 12 tábuas com 4 cm de espessura. Eram um bocado grossas,
mas estava com receio de que elas viessem a rachar e por esse motivo resolvi mergulhá-las em água, dentro de um tanque, porque tinha ouvido dizer que
isso seria bom para a madeira e que depois secariam rapidamente. As tábuas estiveram na água durante duas semanas e esta ficou toda negra com a tinta
que saiu do castanheiro, tendo depois sido empilhadas para secarem, num local onde o sol não chegava. O certo é que as tábuas não racharam durante a
secagem, mas quando as retirei para fazer a porta e a mesa ainda não estavam completamente secas. De qualquer modo, este processo todo foi muito
rápido, não chegando a demorar dois meses.
Devido à irregularidade das tábuas tive de utilizar a plaina para que a porta e a mesa ficassem com uma apresentação razoável, mas mesmo assim valeu a
pena esta operação de serragem pouco convencional.
3 - Alicerces e base da cabana

Os alicerces e o murete onde assentam os troncos das paredes da cabana foram a primeira etapa da construção e também a mais fácil de executar. Os
alicerces ficaram apenas com cerca de 30 cm de profundidade e creio que isso foi mais do que suficiente. Foram cheios com pedra e betão e depois ergui
um pequeno murete com 30 cm de altura e 20 cm de largo, em cima do qual comecei a assentar os troncos. É certo que poderia colocar os troncos logo em
cima da fundação, mas isso não seria boa ideia porque estariam em contato direto com a humidade do solo e apodreceriam mais depressa. Mesmo assim é
de toda a conveniência colocar troncos mais grossos e de melhor qualidade no fundo, pois estes estarão sempre mais expostos à chuva.
O murete foi construído também com pedra e betão, não tendo utilizado ferro, por uma questão de economia e também porque achei que não seria
necessário.
No chão do interior da cabana e também da pequena varanda coloquei cacos de telhas e tijolos e depois uma primeira camada de betão, já nivelada, que
iria servir de base para mais tarde fazer o acabamento deste trabalho.
4- Assentamento dos troncos

O assentamento dos troncos foi a etapa mais difícil e demorada de toda a construção. A minha intenção era ir colocando argamassa em cima dos troncos,
ficando estes assim com as juntas já fechadas, mas depressa verifiquei que isso não era viável, por diversas razões, entre as quais se contava as inúmeras
manobras que tinha de fazer com os troncos até conseguir que eles se ajustassem minimamente, porque como já disse, infelizmente a maioria dos toros
eram mesmo bastante tortos.
No entanto consegui assentar os primeiros troncos em cima de uma camada de cimento e o trabalho começou muito bem. Tratei de escolher os paus mais
grossos e pesados para o fundo, porque sabia que as dificuldades iriam aumentar na mesma proporção em que subiam as paredes.
A minha intenção era construir uma cabana rústica, de pequenas dimensões, mas de configuração idêntica às que os colonos construíam nas pradarias do
Oeste Americano, introduzindo-lhe no entanto algumas inovações como a colocação de isolamento e forro na cobertura. A colocação horizontal dos troncos,
entrelaçados nas pontas, que é uma característica deste tipo de construções, é uma garantia de segurança e praticamente não é preciso utilizar pregos, no
entanto é muito trabalhoso fazer os encaixes para os troncos e, no caso desta cabana, devido à irregularidade da madeira ainda se tornava mais
complicado. Por isso, com o trabalho que tinha a aparelhar os troncos e fazer os encaixes, demorava quase um dia para assentar quatro toros.
Os troncos na horizontal, com os topos saindo para fora das paredes cerca de 20 cm, obriga a diminuir o espaço interior e por isso é necessário ter em
conta esse facto na hora de traçar as árvores, porque, para além dos 20 a 30 cm que ficam de fora, também é preciso contar com a espessura das paredes,
ou seja com o diâmetro dos troncos, medida que não vai contar para a área interior.
Na abertura da porta e da janela optei por colocar, a servir de ombreiras, as duas metades de um tronco que serrei ao meio com a motosserra. Isso facilitou
o assentamento dos troncos nesses locais, pois estes eram encostados de topo à parte serrada dos meios troncos das ombreiras. Mais tarde, aquando da
colocação da porta, fui obrigado a serrar a outra parte do tronco, verificando ter sido um erro não ter colocado os troncos das ombreiras com duas faces
serradas. Como é sobejamente conhecido, as portas para funcionarem bem têm de estar aplicadas a aros bem direitos, por isso estas ombreiras, antes de
se começar a encostar-lhe os troncos devem ser devidamente aprumadas.
Quanto às padieiras, estas foram formadas por um tronco inteiro que foi serrado nas partes em que assenta nas duas aberturas, tendo a parte superior da
porta e da janela ficado ao mesmo nível, como é normal na maioria das habitações. Foi a partir deste tronco que começou a empena, mas reconheço que
seria bom assentar mais uma ou duas fiadas de troncos a toda a volta da cabana, mas eu não tinha mais madeira e o trabalho era cada vez mais difícil, pelo
que decidi que já ficava bem assim; afinal era apenas uma cabana…
5 - Corte das empenas e colocação das traves

As empenas foram marcadas de modo a que o telhado ficasse com uma boa inclinação. Na altura ainda não sabia bem que tipo de cobertura ia colocar na
cabana, mas o desenho que idealizara para o projeto assim o exigia e é sempre bom existir um escoamento eficaz, mesmo tratando-se de um telhado muito
pequeno.
Os troncos das empenas foram colocados normalmente, sendo cada vez mais curtos conforme as paredes iam subindo e a ideia era cortar a empenas no
final, pensando que assim seria mais fácil e que o corte ficaria mais certo, mas a verdade é que verifiquei que não era bem assim e que o melhor teria sido
colocá-los no lugar já devidamente cortados. A dificuldade do corte das empenas era em parte devido à má qualidade da corrente do motossera, não que
fosse problema do afiamento da lâmina, mas simplesmente porque ela não prestava, conforme referi no artigo “Falsificações nas motosserras”.
De qualquer modo lá consegui cortar as empenas, mas aqui existia um problema, é que estas paredes como não estavam travadas nos topos, abanavam
um pouco. Resolvi esse problema colocando duas escoras, na diagonal, por debaixo da trave do cume e fixas ao últimos troncos, antes do nascimento das
empenas.
Para além da trave central coloquei mais duas em cada água, todas elas com comprimento suficiente para cobrir a varanda. Estas traves são de eucalipto e
o seu diâmetro é de cerca de 12 cm, grossura suficiente dadas as reduzidas dimensões da cabana.
6 - Colocação do forro, isolamento e telhado

Cheguei a pensar em colocar um telhado verde na cabana, mas desisti com receio de que a coisa corresse mal e acabasse por ter mais tarde de aplicar
telhas, o que seria uma sobrecarga de trabalho. A minha ideia era colocar, por cima das traves, um forro composto por velhas persians de PVC e por cima
as placas de isolamento. Em cima das placas uma tela em plástico e depois uma camada de terra onde apareceria alguma vegetação. Queria um telhado
semelhante ao da cabana de Dick Proennek, mas pensei que a cobertura ficaria demasiado pesada, que a terra não se seguraria, dada a inclinação do
telhado e ainda que no verão o verde desapareceria se não fosse regado.
Desisti do telhado verde, mas não desisti das persianas, pois achei que dariam um ótimo forro e ajudariam ao isolamento do telhado. Entretanto hesitava no
tipo de telhas que deveria usar, achando que uma cobertura com telhas de barro vermelho não ficariam a condizer com a rusticidade da cabana. Foi então
que descobri que num telhado da vizinhança andavam a retirar as telhas de cimento, de que era composto, para as substituírem por telhas de barro. Dirigi-
me à obra perguntando se me poderiam vender algumas dessas telhas, e qual não foi a minha surpresa quando me disseram que podia levar gratuitamente
as poucas que ainda restavam, pois estavam a destrui-las para irem depositar os bocados num aterro.
As telhas de cimento foram muito utilizadas nos anos 80, mas não tiveram grande sucesso. Essas telhas são pesadas e podem causar problemas em
telhados com madeiramento fraco ou com pouca inclinação, mas em termos de duração não serão inferiores às telhas de barro. Achei que eram indicadas
para a cabana e sempre era uma reciclagem que fazia, para além, claro está da poupança que realizava.
7 - Vedação das frestas entre os troncos
Numa construção deste tipo o ideal seria encaixar os troncos na perfeição, de modo a dispensar o trabalho de tapar as frestas que ficam nas juntas dos
troncos. Para isso seria necessário trabalhar os troncos de modo a obter encaixes tipo macho e fêmea em todos eles. Mesmo que depois ocorressem
dilatações na madeira não haveria grande problema. Não digo que fazer isso era impossível, mas seria certamente muito difícil, ainda para mais com
troncos tortos. Nas casas modernas que são construídas deste modo, muito provavelmente os troncos serão preparados com máquinas, em grandes
carpintarias, mas a minha cabana de troncos, que eu pretendo que seja uma réplica das cabanas rústicas que eram construídas nas terras do Tio Sam, não
fazia sentido tanta perfeição, pois por lá tapavam as frestas com barro.
Por acaso, as paredes da minha cabana até ficaram com os troncos bem unidos, mas sempre havia uma fresta ou outra. Depois de algum tempo a ponderar
sobre o tipo de massa que deveria empregar para tapar essas frestas pensei em utilizar barro, pois essa seria a solução mais económica, mas acabei por
optar pela utilização de cimento e areia, pela facilidade da aplicação e também porque o trabalho sempre ficaria mais limpo, porque a cabana é para ficar
com aspeto rústico, mas sem exageros. Sei que o trabalho ficaria bem se utilizasse uma massa composta de serradura e cola branca para madeira, o que
era o mais indicado, mas isso custaria uma pequena fortuna e por isso essa opção nunca esteve nos meus planos.
O que esteve nos meus planos foi assentar os troncos, depois de devidamente preparados, em cima de uma camada de cimento, tal como se faz com os
tijolos, porque assim evitava qualquer fresta e a junta de cimento ficava mais sólida. Só consegui assentar os primeiros quatro troncos em cima da massa,
precisamente os que ficaram em cima do murete de betão, porque a partir daí esse trabalho era quase impossível de fazer por vários motivos, mas
principalmente porque era preciso fazer grandes manobras com os paus, pregar alguns pregos e também dar pancadas nos troncos, o que iria rebentar
com as juntas.
8 - Arranjo do chão e colocação de pedras na varanda e no murete de concreto

Esta etapa da construção foi, a par com a dos alicerces e da base da cabana, das mais fáceis de executar. Trata-se de um género de trabalho que estava
habituado a fazer, devido à prática adquirida durante o meu percurso profissional na construção civil. Mesmo assim, este trabalho não se resumiu apenas a
cimentar o chão e colocar as pedras, pois como a economia era uma regra constante, ainda gastei quase um dia a juntar as pedras numa serra e a
transportá-las para a obra, tendo usado pedras de xisto, para ficar a condizer com outras construções da chácara.
9 - Construção e colocação da porta e janela

Já falei da serragem da madeira com a qual fiz a porta da cabana e também duas mesas e dois pequenos bancos. Essa parte da serragem é que foi mais
complicada, porque fazer uma porta de estilo rústico como esta, não tem qualquer dificuldade. Para galgar as tábuas utilizei uma serra de disco elétrica e
para corrigir um pouco as irregularidades da madeira uma pequena plaina. Preguei três travessas na porta, duas dobradiças fortes e uma fechadura, tendo
ficado com a certeza que esta porta é um dos componentes mais fortes da cabana, atendendo a que é de castanho e tem quatro centímetros de espessura.
Com a mesma madeira de castanho fiz também um aro para a porta e outro para a janela, de modo a que, quando fechada, exista uma vedação em toda a
estrutura que impeça a entrada de pequenos bichos, como roedores ou répteis.
A janela foi aproveitada de uma lixeira. Tinha um vidro partido, mas a madeira ainda está em boas condições e depois de colocar um vidro novo e de uma
pintura esta janela ficou como nova. Atendendo a que já tinha a janela antes de começar a construir a cabana tive o cuidado de deixar a abertura de acordo
com as medidas da janela e, devido a isso, não tive problemas na sua colocação; foi só colocar-lhe duas dobradiças e dois ferrolhos e pronto…
10 - Tratamento para conservação da madeira

Andei à procura de um produto para tratar a madeira que fosse de preço acessível, mas o mais barato que encontrei custava cerca de 5 euros o litro. Como
precisava de pelo menos uns dez ou doze litros de produto, no mínimo, achei que era uma despesa elevada e que o produto, por ser o mais barato, talvez
não oferecesse garantias de qualidade. Pensei em utilizar óleo de motores usado, mas isso iria dar um tom muito escuro à madeira e desisti dessa ideia.
Alguém me disse para usar gasóleo, que também servia, pois os produtos para tratar a madeira são todos derivados do petróleo, mas não fiquei convencido.
Foi então que me lembrei que tinha alguns garrafões com óleo alimentar usado, que é, aliás, o óleo que utilizo para a lubrificação da corrente da motosserra.
Para já, foi esse óleo que utilizei e mesmo sabendo de antemão que não foi a melhor solução, o certo é que esse produto apagou as manchas de cimento
deixadas devido à vedação das juntas, melhorando o aspeto da madeira. Como era um produto que já tinha cumprido a sua missão inicial, o seu destino era
o reaproveitamento ou reciclagem e creio que, deste modo, o seu destino se cumpriu. Considerando que estava a usar um produto a custo zero, não estive
com poupanças e dei duas boas demãos no exterior e uma no interior, dando assim por concluída a construção da minha cabana de troncos.

Casa com resíduos de madeira

Um trabalho coordenado pelo pesquisador Basílio Vianez, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), resultou
na construção de uma casa de roletes, produto que se baseia na utilização de resíduos madeireiros da Amazônia.
A construção da casa é uma das atividades do projeto “Estudos Tecnológicos de Alternativas de Uso de Resíduos Florestais na
Amazônia Central”.
A tecnologia utiliza o rolo-resto ou rolete, uma espécie de resíduo madeireiro que sobra após o processo de torneamento das toras
na confecção das lâminas de madeiras usadas na produção do compensado e pode representar até 30% do volume da madeira
que entra nas fábricas de compensado do Brasil.
O material popularmente conhecido como compensado é feito de lâminas de madeira, que são retiradas desenrolando toras em
um torno, ou seja, como se fosse um grande apontador de lápis, sendo que a faca que tira essa lâmina é paralela ao eixo da tora,
possibilitando o desenrolar de uma tora até que a mesma fique fina e não haja mais condições de continuar o processo de retirada
da lâmina.
O material que resta desse processo é um cilindro do centro da tora, o rolete, com um diâmetro que varia de 15 a 25 cm, material
que foi utilizado na edificação.
Segundo Vianez, tentar viabilizar uma melhor utilização desses resíduos foi o principal fator que motivou a realização do projeto.
"Na região há um preconceito para com a madeira, que está sempre associada à pobreza, à baixa qualidade, ao desconforto, etc.
Mostramos neste projeto que a madeira, ao contrário do mito que foi criado, é um dos materiais mais versáteis existentes no
planeta. Por isso é utilizada nos chalés dos Alpes suíços, é insubstituível em muitas aplicações como estruturas e pisos de
ginásios esportivos”, enfatiza