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A IMUNIDADE EM ANIMAIS1

O sistema imunológico dos animais não está completamente


desenvolvido no nascimento e necessita de tempo antes de se tornar
plenamente funcional. Após o nascimento, o animal sofre o seu primeiro
desafio ao sair do ambiente estéril do útero e ser exposto a um ambiente
hostil e pleno de microorganismos patogênicos que estão presentes no meio
ambiente. Animais jovens são extremamente suscetíveis a infecções,
especialmente na primeira semana de vida, quando a proteção imunológica é
fornecida via do colostro, isto é, via mãe, que transfere anticorpos pelo leite.
Óbitos já após o nascimento podem ocorrer devido a infecções ou
comprometimento de todo o sistema de defesa do organismo; desta forma, o
desenvolvimento de um sistema imunológico altamente eficiente no inicio de
vida é de suma importância. Após as primeiras mamadas, com a ingestão do
colostro pelos animais jovens, caberá ao leite assegurar o fornecimento dos
nutrientes que irão consolidar o sistema imunológico. No decorrer da vida do
filhote, a transição da dieta liquida (leite) para uma dieta sólida (ração) passa
a ser o principal fator desencadeante da entrada de agressores no organismo
animal, que necessitará de uma proteção imunológica efetiva e constante.
Estudos de KLASSING et al. (1999) demonstram que as alterações na dieta e
as deficiências protéico-calóricas, e de certas vitaminas e minerais, podem
influenciar marcadamente as respostas do sistema imune, favorecendo o
desenvolvimento de uma imunossupressão e conseqüente susceptibilidade a
processos inflamatórios exacerbados. Animais que apresentam um estado
nutricional precário já no desmame têm um sistema imune deficiente e podem

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Dr. José Sidney Flemming – Professor-Titular UFPR.

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estar constantemente infectados, apresentando baixo ganho de peso,
diminuição do crescimento e predisposição a falhas reprodutivas e distúrbios
comportamentais. Portanto, o conhecimento das complexas interações entre
nutrição e imunidade é de grande importância para a obtenção de máxima
eficiência produtiva e para a promoção do bem-estar animal
(ASCHEKENASY, 1975; CONHEN, 1999; MAGGS et al., 2003).

O SISTEMA IMUNE

O sistema imunológico é responsável por detectar a presença de uma


substância química ou de um ser estranho ao organismo (bactérias, vírus,
proteínas, etc., que funcionam como antígenos) e transmitir a informação ao
resto do corpo, para que este possa responder com alterações metabólicas e
comportamentais que afetem o desempenho e a exigência em nutrientes. O
sistema imune, após identificar os invasores, tenta neutralizar os efeitos
prejudiciais das moléculas isoladas e destruir os microorganismos. Essa
capacidade é determinada pelos linfócitos, população leucocitária mais
importante da resposta imune.
Os linfócitos são agrupados em duas populações principais: linfócitos
B, responsáveis pela produção de anticorpos (imunidade humoral), e
linfócitos T, responsáveis pela resposta imune mediada por células
(imunidade celular).

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Figura 1. Reação imunológica a um antígeno.

DESHMUKH, 2005.

A medula óssea e o timo representam os órgãos linfóides primários,


nos quais ocorre a produção e a maturação dos linfócitos B e T,
respectivamente. Existem também os órgãos linfáticos secundários (gânglios
linfáticos, baço e tecidos linfóides associados às mucosas), nos quais ocorre
o estímulo das células linfóides pelos antígenos, ou seja, o contato entre o
agressor primário (antígeno) e as populações celulares linfóides, que dão o
início à resposta imune. Os anticorpos são a base do processo de imunidade

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e representam um dos mecanismos mais eficientes de defesa do organismo
animal, frente a um determinado antígeno.
Em geral, o sistema imune reage aos antígenos liberando citocinas
que ativam os componentes celulares (fagócitos) e humorais (anticorpos),
tendo como conseqüência a queda no consumo de alimentos, a elevação da
temperatura corporal e a produção de calor. Essa ativação do sistema
imunológico leva à modificação na repartição dos nutrientes, principalmente
energia e proteína, pelo aumento da taxa metabólica basal, com maior
utilização de carboidratos. Dessa maneira, parte da glicose conseguida por
meio dos alimentos segue seu curso normal para os tecidos periféricos, ao
passo que a outra parte é utilizada para ativação do sistema imunológico.
Assim, a necessidade de energia fica aumentada.
Outra conseqüência prejudicial da ativação do sistema imunológico é a
redução da síntese protéica, associada a maior taxa de degradação. A
necessidade de nitrogênio aumenta também para a síntese de proteínas de
fase aguda e de outros produtos imunológicos. De acordo com SHURSON &
JOHNSTON (1998) ocorrem, ainda, maior desaminação de aminoácidos e
maior excreção de nitrogênio urinário.

IMPORTÂNCIA DO TRATO GASTRINTESTINAL (TGI)

O intestino é o maior órgão imunológico do corpo animal, com pelo


menos 25% da mucosa intestinal composta por tecido linfóide. Estima-se que
70% do sistema imunológico do corpo se localizam no intestino (JOHNSON,
1987).
O termo “tecido linfóide”, associado ao intestino (GALT), é empregado,
de modo geral para definir todo o tecido linfóide, nódulos, placas de Peyer e

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linfócitos individuais encontrados nas paredes intestinais. A importância do
GALT, a nível intestinal, reside no fato dos intestinos constituírem a via mais
importante de entrada de antígenos no corpo. No grupo desses antígenos
podemos incluir proteínas alimentares, bactérias e outros organismos e
proteínas estranhas (SMEETERS PEETERS, et al., 1988).

Figura 2. Representação da estimulação do tecido linfóide associado ao intestino por bactérias e outros
antígenos na síntese de anticorpos e reações secundárias em outras mucosas do corpo.

LAFLAMME, 2005.

As Placas de Peyer contém todos os componentes necessários para


iniciar uma reação imunológica: células T, células B e células dendríticas. As

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células B são precursoras das células do plasma, que produzem anticorpos
(imunoglobulinas) e funcionam, ainda, como células apresentadoras de
antígenos, como as células dendríticas. Os antígenos são recolhidos por
essas células, processados e levados às células T. Reações mediadas pelas
células T são mais eficazes contra patógenos intracelulares, enquanto
reações mediadas por células B são mais eficazes contra patógenos
extracelulares (TIZARD, 2000).
Células B ativadas (células do plasma) produzem imunoglobulinas (Ig),
também chamadas de anticorpos. A letra associada (IgA, IgM, IgF, IgE, IgG)
refere-se a um componente estrutural específico do anticorpo. O que difere
entre as diferentes classes de IgG é o anticorpo predominante que circula no
sangue dos cães, enquanto a IgA e IgE são encontradas,
predominantemente, no trato respiratório e intestinal (BENGMARK, 2002).
Cerca de 70 a 80% das células produtoras de imunoglobulinas estão
localizadas no trato gastrintestinal (TGI), e mais de 60% da produção diária
total de imunoglobulinas são de IgA intestinal. (SALMINEM, 1998;
BENGMARK, 2002; BRANDTZAEG, 1989). A IgA intestinal ou IgA secretória
é produzida por células do plasma dentro da mucosa intestinal, e tem
importância fundamental no intestino contra bactérias e vírus. O principal
modo de ação da IgA é evitar a aderência de bactérias às superfícies
mucosas, determinando a sua simples passagem pela luz intestinal.

RELAÇÃO DA FLORA DO TGI E O SISTEMA IMUNOLÓGICO

A microflora do TGI tem papel fundamental no desenvolvimento da


imunidade intestinal dos animais, fornecendo um estímulo primário para o
desenvolvimento e maturação de células linfóides nas placas de Peyer e

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todos os componentes necessários para iniciar uma reação imunológica –
células T, células B (precursoras das células do plasma que produzem
anticorpos ou imunoglobulinas), bem como para os linfócitos que produzem a
IgA. A flora intestinal pode estimular a expressão dos glico-conjugados
epiteliais específicos em superfícies luminais, os quais vão servir de
receptores para a aderência de bactérias (SALMINEM,1998; DEPLANCKE,
2001).

Figura 3. Placas de Peyer , desenvolvimento e maturação das células linfóides.

DESHMUKH, 2005.

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Os microorganismos probióticos, como as leveduras do
gênero Saccharomyces cerevisae, e os prebióticos, como os
mananoligossacarídeos (MOS) e os frutoligossacarídeos (FOS), podem

induzir a um aumento na secreção de mucopolissacarídeos e inibem a

aderência de microorganismos patogênicos que emitem fímbria

(BUDDINGTON, 2003; ISOLAURI, 2001). As bactérias probióticas,

juntamente com os prebióticos, têm a capacidade de modulação de respostas

imunes sistêmicas, facilitando a nutrição dos enterócitos (células da mucosa

intestinal) que recobrem todo o trato digestivo, reduzindo a produção de

amônia e aminas biogênicas e proporcionando equilíbrio e saúde intestinal

aos animais. (MARTIN, 1994). Esta condição favorece o aumento do número

e da atividade de células fagocitárias do hospedeiro. Os microorganismos do

trato gastrintestinal (TGI) são favorecidos pela ação dos prebióticos, que têm

a capacidade de se ligar à fímbria de bactérias patogênicas, conduzindo-as

junto com o bolo fecal (figura 3). A essa ação soma-se a dos probióticos.

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Figura 3. Efeito dos mananoligossacarídeos (MO S) na aderência das bactérias à mucosa intestinal.

GIBSON e ROBERFROID (1995); MARTIN (1994) citam a utilização


de carboidratos não-digestíveis, como parede celular de plantas e leveduras,

classificados como complexos de glicomananoproteínas e, em particular, os

mananoligossacarídeos (MOS), os quais são capazes de se ligar à fímbria

das bactérias e inibir a colonização do trato gastrintestinal por

microorganismos patógenos. OYOFO et al. (1989), em estudo com diferentes

prebióticos, constataram efeitos significativos, com redução da aderência e

inibição de cepas de Salmonella thiphimurium a células epiteliais do trato

gastrintestinal.

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Figura 4. Ação dos mananoligossacarídeos (MOS) sobre a atividade de macrófagos (fagocitose de
Staphylococcus spp).

OS NUTRIENTES E O SISTEMA IMUNOLÓGICO

A nutrição tem um papel fundamental no fortalecimento do sistema


imunológico. Nutrientes como proteínas e aminoácidos, ácidos graxos
essenciais, nutrientes antioxidantes (vitamina E e C, betacaroteno e selênio),
microminerais e vitaminas do complexo B são elementos fundamentais de
apoio ao sistema protetor do organismo.

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Aminoácidos
As proteínas da dieta constituem a matriz dos aminoácidos que tomarão
parte na construção de imunoglobulinas, com importante ação na reação
imunológica adaptativa. Dietas com proteínas de má qualidade, associadas a
problemas digestivos, podem resultar em sinais de deficiência, com redução
de imunoglobulinas no soro, redução na função do timo, e redução na
formação de complemento, com comprometimento na formação de
anticorpos.

Ácidos graxos essenciais


A presença de ácidos graxos pertencentes ao grupo ômega, principalmente
ômega 3 e ômega 6, são fundamentais para assegurar o funcionamento do
sistema imune. Animais que consomem fontes ricas nesses ácidos graxos
apresentam uma incidência muito baixa de distúrbios inflamatórios ou auto-
imunológicos, com redução da toxicidade mediada por macrófagos.

Vitamina E e Se
A vitamina E tem importante ação antioxidante; atua na eliminação de
radicais livres da fração solúvel em gordura das células,, estabilizando as
membranas celulares. O selênio faz parte de uma enzima, a glutation-
peroxidase, que praticamente complementa a ação da vitamina E. Esta
enzima destrói os lipoperóxidos formados pelos radicais livres. A deficiência
de vitamina E/Se pode determinar redução da reação do linfócito T e redução
na função fagocitária, com conseqüente redução na reação imunológica.

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Vitamina C
A vitamina C atua na nutrição dos capilares, tem importante ação
antioxidante e está ligada à fração hidrossolúvel dos componentes celulares.
A deficiência de vitamina C reduz o poder de eliminação de leucócitos, bem
como as funções fagocitárias e a atividade do linfócito T.

Betacaroteno
Carotenóide com importante ação pró-vitamínica A, está relacionado com as
atividades da vitamina A e a proteção de epitélios. A utilização de níveis
ideais de betacaroteno aumenta o número de células T, a proliferação de
linfócitos e o aumento plasmático de IgG.

Zinco
O zinco tem importante participação em metalo-enzimas; na sua deficiência
ocorre redução humoral, bem como redução nas funções das células do
grupo B, funções fagocitárias, e redução na estrutura e função do timo. Deve-
se tomar cuidado com níveis excessivos de zinco, por prejudicarem a reação
imunológica orgânica.

Ferro
O ferro, como importante constituinte de células sangüineas, tem destacada
participação no sistema imunológico. A sua deficiência determina redução
nas funções das células B, na formação de imunoglobulinas, e redução na
atividade do timo.

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Vitaminas do complexo B
A deficiência de vitaminas do complexo B, notadamente as vitaminas
participantes dos processos de formação protéica e hematopoiese (B6, ácido
fólico e B12), levam à diminuição de imunidade, com diminuição da replicação
celular, diminuição da atividade do timo e redução na formação de anticorpos.
Desta forma, o bom funcionamento do sistema imunológico do animal
depende da integridade dos órgãos primários e centrais do sistema
imunológico, como medula óssea, timo e tecidos linfóides. Estas estruturas
encarregadas da proteção do organismo, por sua vez, são dependentes da
correta nutrição e higidez do trato gastrintestinal, da absorção das frações
dos alimentos e da disponibilidade dos nutrientes essenciais à formação de
leucócitos, anticorpos e imunoglobulinas.

ATIVIDADE FÍSICA, ESTRESSE E IMUNIDADE

A interação entre a atividade física normal de animais confinados e as


funções imunológicas, tem recebido uma atenção maior nos últimos anos.
Esta interação parece deprimir a ação citotóxica da atividade das células
chamadas “células killer“ (células NK). As NK são células linfóides granulares
grandes, não possuem receptores específicos de antígenos e eliminam
algumas células tumorais e as infectadas por vírus. Estas células aumentam
de modo acentuado com a realização de exercícios.
Animais exercitados regularmente têm estimuladas as funções dos
neutrófilos. A suplementação com produtos que contenham elementos
estimulantes à imunidade, como leveduras, oligossacarídeos (MOS) e
vitaminas, principalmente aquelas com atividades antioxidantes, resulta na

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redução de alguns dos efeitos do exercício extenuante na resposta
imunológica.

ENVELHECIMENTO E IMUNIDADE

O componente imunológico mediado por células, principalmente as células T,


é o mais afetado com o avançar da idade. Este fator é sugerido como a causa
de muitas doenças degenerativas crônicas em animais idosos, incluindo
problemas articulares e aparecimento de tumores. Uma das possíveis causas
seria o acúmulo de radicais livres, com diminuição da atividade metabólica
dos animais, causando danos a células responsáveis pela ação imunológica.
A suplementação por meio de vitaminas antioxidantes (vit E, C e A) tem
mostrado alguns efeitos positivos na prevenção deste efeito.

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