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Nelson Rodrigues

O ANTI-BRASIL
Na confissão de sábado, chamava eu a atenção
dos leitores para o salário profético do Chacrinha.
O formidável animador ganha, por mês, 80 mi-
lhões; e pior: — no fim de um ano de contrato, pas-
sará a ganhar 100 milhões. Se um brasileiro conse-
gue ganhar 80 ou 100 milhões por mês, este simples
fato nada tem de simples ou de intranscendente.
Na Índia, há milhões de sujeitos que nunca
moraram, nunca tiveram um teto, uma mesa, uma
cama. Nascem na rua, vivem na rua, amam na rua e
morrem na rua. Sim, agonizam rente ao meio-fio,
com a cara enfiada no ralo. Isso na Índia. Mas não
precisa ir tão longe. O Nordeste de d. Hélder. Há,
por lá, populações inteiras que, do berço ao túmulo,
não ganham tanto.
Falei em d. Hélder e sinto nas minhas palavras
o tom do nosso arcebispo. Não, não e Deus me li-
vre. Juro que não estou aqui pregando o ódio social.
Pelo contrário: — o Chacrinha é nosso irmão, o ir-
mão da miséria, o irmão das necessidades. No pas-
sado, sua fatia de pão nem tinha manteiga para lhe
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barrar por cima. Por trás de sua abundância pre-
sente, ainda gemem velhas humilhações e fomes ja-
mais esquecidas.
Chacrinha é a gigantesca vitória do pé-rapado,
é a flamejante ascensão do pobre-diabo. Portanto,
tratemos de abençoá-lo e que os seus 80 ou os seus
100 milhões se reproduzam por longos e dilatados
anos. E volto ao que dizia. Escrevi que tal salário
profetizava um novo Brasil.
E já não sei se será “um” novo Brasil ou se con-
vém pluralizar. Vejam as redações, as escolas, as fa-
mílias, as festas, as esquinas e os botecos. Por tudo
que se diz, e ouve, e lê, percebemos que há vários
projetos do novo Brasil. Qual deles há de vingar, fi-
nalmente? Qual deles terá bastante vitalidade histó-
rica?
Há muita gente disposta a matar e a morrer
pelo Brasil do ódio. Pode parecer que eu esteja exa-
gerando. Mas os sintomas estão à nossa vista com
apavorante nitidez. Nunca me esqueço de um con-
curso de romances que a revista Leitura promoveu.
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Na época, eu ainda acreditava em prêmios e ainda
os desejava. Fui, correndo, ler as condições. (E já
me via tirando o primeiro lugar, recebendo o di-
nheiro, sob os delirantes aplausos da assistência.)
Os concorrentes podiam escrever sobre tudo, me-
nos sobre amor.
Sobre amor, não e nunca. Era uma revista de
cultura que vinha dizer, de fronte alta e voz cava: —
“Tudo, menos amor!”. Foi um dos espantos mais
cruéis de toda a minha vida literária. Graças a Deus,
alguém protestou: — o romancista Lúcio Cardoso.
Escreveu ele, se não me engano na Manhã, um ma-
ravilhoso artigo. Eis o título — “Os romances do
ódio”.
Se aparecesse lá uma Ana Karenina, seria ex-
pulsa a pontapés pela comissão julgadora. Ou um
Romeu e Julieta e quantas e quantas obras-primas?
Li o artigo de Lúcio Cardoso e passei-lhe o mais ve-
emente telegrama da minha gratidão. Mas o con-
curso era um sintoma — começava aqui o ódio ao
amor.
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Não seria apenas no Brasil, evidentemente.
Anos depois, Sartre andou por aqui e deu uma en-
trevista. Declarou o seguinte: — “Eu não escreveria
um romance de amor”. Disse isso ao lado de Si-
mone de Beauvoir. Olhando a santa senhora, cochi-
chou um brasileiro a outro brasileiro: — “Está expli-
cado por que ele não gosta do amor”. Mas que Sar-
tre fizesse a greve do amor, ótimo, ótimo. O que me
apavorava era um Brasil sem amor, um Brasil árido,
árido como três desertos.
Este povo está vivendo uma época de pouquís-
simo amor. O ódio é mais promovido do que marca
de refrigerante. No ano passado, fui testemunha au-
ditiva e ocular de duas rixas familiares. Em ambas
as ocasiões, um filho berrou para o pai: — “Te parto
a cara! Te parto a cara!”. E só não se engalfinharam,
à vista da mãe, das tias, dos cunhados, dos outros
filhos e das visitas, porque nas duas vezes o velho
capitulou. “Ficou por isso mesmo?”, perguntará o
leitor. Não, não ficou por isso mesmo. Num dos

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episódios, o pai chamou o filho e deu-lhe um Gala-
xie.
Eu citaria outros exemplos, e outros, e outros.
Falta-me, porém, espaço. Mas não concluirei sem
falar do “poder jovem” Pergunto: — quem é o ver-
dadeiro autor do “poder jovem?”. Será o próprio
jovem? Eu não teria nada a objetar se o próprio jo-
vem apanhasse no chão, a mãos ambas, o Poder.
Mas aqui começa o divertidíssimo equívoco: — o au-
tor ou autores do “poder jovem” são os velhos, os
mais velhos.
O jovem propriamente não moveu uma palha
para tornar-se poderoso. Foram os pais, as tias e,
numa palavra, a família; foram os professores, os so-
ciólogos, os sacerdotes, os jornalistas, os políticos.
De repente, os velhos resolveram conferir ao jovem,
e de graça, méritos e potencialidades jamais suspei-
tadas.
Quando me iniciei no jornalismo, um velho
profissional me dizia: — “Rapaz, das duas uma: — ou
o jovem é um Rimbaud ou uma besta”. Pois bem.
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Hoje, o jovem sofre a promoção obsessiva de um
sabonete. Cada artigo do dr. Alceu parece investir
“o jovem” de uma liderança absurda, utópica, deli-
rante, que nunca houve. Por vezes, dá-me vontade
de telefonar para o dr. Alceu e pedir-lhe: “O senhor
podia me apontar um líder de 17, 18, 19 ou, vá lá,
de 20 anos?”. Mas convencionou-se que “o jovem”
tem o gênio de Rimbaud. E se duvidarem, os velhos
estarão dispostos a admitir os vícios de Rimbaud.
Justificado, absolvido, adulado pelos velhos,
que faz o jovem? Nunca odiou tanto. Agora mesmo
estou lendo numa primeira página de jornal esta
chamada: — “Queima de poemas na Cinelândia”.
No primeiro momento, imaginei que se tratasse de
uma reportagem evocativa da alucinação nazista. Na
Alemanha de Hitler houve algo parecido, algo, sim,
que estarreceu o mundo: — a queima de livros. Mas
não, especificamente, poemas, sonetos etc. etc.
Lendo o texto, localizei a coisa no tempo e no es-
paço: — o fogaréu ocorrerá amanhã, ou hoje, ou já
ocorreu ontem. A data exata, não sei. E os Neros
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são estudantes brasileiros, da Escola Nacional de
Belas Artes.
O local escolhido: a doce, a lírica, a carioquís-
sima Cinelândia. Vejam vocês: — na Cinelândia há
pombos. E os estudantes, em vez de lhes dar milho,
vão queimar poemas. Nem se pense que é uma crí-
tica literária exercida com archotes. Nada disso, não
é ódio aos versos, mas ao sentimento. Eles querem
e vão queimar versos de amor e porque são de
amor.
Isso é a negação do Brasil, o anti-Brasil, o anti-
brasileiro. Alguém dirá que já começou a nossa de-
sumanização. Leio a notícia e não sei o que pensar,
e o que dizer de uma geração que se vinga do amor
e crava o ódio no próprio coração.

[O GLOBO, 29/1/1968]

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